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+The Project Gutenberg EBook of Annos de Prosa; A Gratido;
+O Arrependimento; by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: July 22, 2008 [EBook #26103]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ANNOS DE PROSA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+ANNOS DE PROSA
+
+Romance
+
+por
+
+CAMILLO CASTELLO-BRANCO
+
+
+A GRATIDÃO
+
+Romance
+
+
+O ARREPENDIMENTO
+
+Romance
+
+
+
+
+PORTO.
+Editor, Antonio José da Silva Teixeira.
+Rua da Cancella Velha, 62
+1863
+
+
+
+
+Typographia de Antonio José da Silva Teixeira,
+Cancella Velha, 62
+1863
+
+
+
+
+
+
+ANNOS DE PROSA.
+
+
+
+
+
+
+ANNOS DE PROSA.
+
+
+DISCURSO PROEMIAL.
+
+Altissima é a missão do escriptor, e a do romancista principalmente. O
+mestre Ignacio da cartilha velha, amoldurada ás necessidades do seculo,
+é o romancista. Mal hajam os sacerdotes das letras derrancadas que
+vendem peçonha em lindos crystaes, e desfloram as almas em luxuriante
+florescencia da sua primavera. O mau romance tem afistulado as entranhas
+d'este paiz. Não ha fibra direita no coração da mulher que bebeu a
+morte, e--peior que a morte--algumas dezenas de gallicismos no que por
+ahi se escreve e copia. O anjo da innocencia foge de certos livros, como
+os editores de certos authores. A candura virginal de uma menina de
+quinze annos é a cousa mais equivoca d'este mundo, se a menina leu cousa
+em que os pedagogos do coração a ensinaram a conhecer-se, antes que a
+experiencia a doutrinasse.
+
+Para cumulo de infortunio, Portugal é um paiz onde se está lendo muito.
+
+Acontece aos estomagos famintos, quando se lhes depara alimento bom ou
+mau, assimilarem-n'o com tamanha sofreguidão, que o encruamento do bôlo,
+e o marasmo são inevitaveis. Assim e por igual theor, quando os Lucullos
+e Apicios das letras expõem á voracidade publica as suas iguarias
+estragadas, a fome de aprender a vida nos romances locupleta-se com
+tamanha intemperança, que o resultado e as dispepsías espirituaes,
+tormento de angustias vomitivas, que fazem descer o coração ao lugar do
+estomago, e subir o estomago ao lugar do coração.
+
+Eu tenho assistido a esta deslocação de visceras com lagrimas nos olhos,
+enxutos para tudo o mais. Muitas vezes tenho perguntado ás velhas se
+isto assim era no tempo d'ellas. Faz dó vêr a consternação com que
+algumas expedem um gemido, unisono com o assobio da pitada! Compunge vêr
+rolar a lagrima preguiçosa do olho desvidrado d'outra, que se recorda da
+honestidade com que foi amada pelo seu quinto amante!
+
+Ha cincoenta annos que as senhoras não liam romances, por uma razão cujo
+descobrimento me custou longas vigilias:--não sabiam lêr. Algumas,
+rebeldes á vontade paternal, conseguiam soletrar e escrever á tia uma
+carta em dia de annos, copiada do _Secretario portuguez_ de Candido
+Lusitano. Os paes aceitavam com repugnancia aquelle abuso de
+intelligencia, e castigavam a filha, forçando-a a um trabalho litterario
+semanal: escrever em cada segunda feira o rol da roupa. Este systema
+penal tinha só a vantagem de tirar ao vicio os enfeites da
+intelligencia, reduzindo-o á essencia bruta de sua nudez primitiva. Já
+não era pouco para exemplo e edificação das almas. O melhor moralista
+será aquelle que despir o delicto do coração das galas que lhe veste o
+desejo, e o cobrir de farrapos repulsivos.
+
+Por esses tempos, e nos dez annos sequentes, os propagandistas da
+corrupção tentaram exercitar o seu maleficio, vertendo para pessima
+linguagem portugueza novellas francezas, que transpozeram as fronteiras
+no couce da bagagem do Junot.
+
+Em 1814, a immoralidade, até esse anno sopeada pela impertinente virtude
+das novellas, taes como _A virtude recompensada_ e o _Escravo das
+paixões_, quebrou as ferropeas, e despejou do regaço dissoluto a versão
+de _Tom Jones_, o _Sophá_, o _Candido_, e quejandas faúlas incendiarias,
+que pegariam nos corações, se a manteiga e o paio das tendas não
+esfriassem a força comburente d'essa droga, que acirrava os paladares
+anthropóphagos d'aquelle festim de 1793.
+
+Bemdita e louvada seja a ignorancia! Os romances francezes, até 1830,
+encontraram as almas portuguezas hermeticamente calafetadas. Ate esse
+anno infausto, a mulher era o anjo caseiro, a alma da despensa, a
+providencia da piuga, e sobre tudo, a femea do homem, qual Jehovah a
+fizera d'uma costella do mesmo.
+
+O salão era um como trintario cerrado, onde, a espaços, uma gosmenta
+matrona espirrava, e a sociedade, a cabecear de somno, surgia
+estremunhada, dizendo: _Dominus tecum_. A menina casadeira não se erguia
+de ao pé da mãi. O noivo mirava-a de longe em fellina beatitude; e, no
+auge da sua casquilha audacia, piscava-lhe a furto o olho, onde
+reslumbrava a paixão.
+
+Não havia então d'estes homens mulherengos, que alambicam a parlenda
+assucarada, coando por ouvidos incautos o veneno do estilo, que é o mais
+corrosivo de quantos ha na toxicologia do amor. A mulher actual é quasi
+sempre victima da rhetorica requentada do romance, que esteril
+peralvilho lhe encampa como cousa de sua alma. Algumas conheço eu que
+resvalaram ao abysmo da perdição pela rampa de um adverbio
+euphonicamente intruso n'um periodo arredondado. Este sortilegio da
+linguagem, que enfeitiça e dá quebranto ás mulheres, é apanhado no
+romance. O coração de certos individuos acha-se, muitas vezes, a paginas
+tantas de tal novella. Sem figurinos e romances, não haveria corpos
+apresentaveis nem espiritos insinuantes.
+
+Muita gente se espanta das gloriosas aventuras de alguns sujeitos
+pyramidalmente tolos. Eu não. Tal ha que se vos afigura mazorro d'alma,
+e, não obstante, ao lado de mulheres, dispara descargas de phrases
+amorudas que é um pasmar. Asneira, dita em nome do coração, não ha uma
+só que não seja laureada. Cada Petrarcha lorpa tem, a final, o seu
+capitolio.
+
+A mulher, por via de regra, é de seu natural tão boa, sensivel e
+generosa, que chega a recompensar a pertinacia do homem que, primeiro, a
+nauseou: o segredo d'este paradoxo está na influencia contagiosa da
+tolice. A mulher que fez chorar o tolo, e viu rebentar lagrimas de uma
+cabeça de granito, cuida que fez o milagre de Moysés na rocha de Horeb.
+Alliciada pela serpente da vaidade, succumbe como Eva.
+
+Que mudanças!
+
+D'antes o caixeiro principiava sempre a carta de namoro por: _Meu amado
+bem!_ Agora já diz: _Anjo!_ ou _Seraphim!_ Era d'antes a phrase
+sacramental do exordio: _Vêr-te e amar-te foi obra de um momento._ Agora
+não é raro encontrar d'estes arrojos: _Amar e morrer é meu destino!_
+
+E, depois, o maleficio do romance não está sómente no plagiato
+irrisorio; o peior é quando as imaginações frivolas ou compassivas se
+entalham os lances da vida phantasiosa da novella, e crêem que a norma
+geral do viver é essa.
+
+Em quanto a mulher estuda sómente a phrase que applica, bem ou mal,
+quando a enlouquece a vaidade de parecer o que não é, bem vai. Dá-se um
+exemplo: A apaixonada de um amigo meu, ao recebêl-o, pela primeira vez,
+em sua casa, no patamar da escada, antes de deixar-se beijar a mão,
+estendeu o braço direito em magestosa attitude, deu á frente a regia
+altivez de uma Phedra de aguas-furtadas, e disse em tom cavo e solemne:
+_Juraes levar-me ás aras?_ O meu amigo, que balbuciava um prefacio de
+longo estudo, soltou um frouxo de insolente riso, e desceu as escadas,
+por não poder com o espectaculo da dama corrida do insulto. Eis-aqui uma
+que os romances de Arlincourt salvaram; quantas, porém, perdidas por
+guardarem as phrases ridiculas para o final?...
+
+Grande mal é o identificar-se o espirito ás visualidades do romance.
+Quando a leitora se ri das crendices da sua infancia e dos absurdos
+principios que lhe apoucaram o imaginar e o voar do espirito, vem-lhe os
+enfados, o escutar as mentiras do coração que se emancipa, o crêr que a
+vida passada foi apenas um vegetar do vulgo, e que o viver da alma
+assim, será como o do arbusto bravio que dá flôres sem aroma, e fructos
+sem sabor.
+
+Seja, outra vez, bemdita e louvada a ignorancia de nossas mães, e nossas
+irmãs, e nossas esposas!
+
+A vida caseira, esta deliciosa monotonia, que a poucos é já saborosa no
+viver intimo, requer muita estupidez, muito somno a toda a hora, um
+estomago exigente e forte, muita digestão soporosa de substancias
+pesadas.
+
+Esta bemaventurança ha-de restaural-a a ignorancia supina, não hão-de
+ser as palavrosas theorias de Michelet ácerca do _amor_ e da _mulher_.
+Comecem os paes de familias por circumvalarem suas casas de um cordão
+sanitario contra a peste do romance, que não se abonar com a promettida
+pudicicia d'este, e de outros com que o author, coração aberto a todas
+as chimeras, e de entranhas lavadas, tem querido enxertar no tronco
+carcomido da humanidade toda a casta de virtude.
+
+Vou lembrar um alvitre, cuja adopção poderia ser momentosa na
+regeneração dos costumes.
+
+As reliquias das velhas virtudes portuguezas, se as ha, acham-se nos
+velhos, que beberam ainda as escorralhas dos seios puros do seculo
+passado. O Porto, de preferencia, graças á força refractaria da sua
+organisação, encerra boas quatro duzias de archontes dignos da Grecia
+antiga. Fôra facil eleger de entre estes--(abstenho-me de os nomear,
+porque a modestia n'elles dóe de insoffrida como ulcera em lombo de
+muar, e não é raro responderem ao elogio com o couce)--eleger d'entre
+estes, digo, uma corporação censoria, encarregada de examinar os livros,
+que giram no mercado, e referendar os que a juventude feminil podesse
+lêr sem deterioramento da innocencia. D'esta arte, os anciãos não
+restringiriam a sua egoista virtude á missão balda de condemnarem o
+vicio da mocidade inexperiente. O exemplo dão-no optimo; a doutrina é a
+que nós sabemos; mas não os devemos desquitar de se constituirem
+entulhos contra a torrente do vicio, desviando-a de levar ao regaço das
+futuras esposas e mães o romance peçonhoso.
+
+Pelo que, d'aqui já sotoponho este livro á censura, e assim dou publico
+e voluntario testemunho de quanto venero as cãs e as virtudes. Fadario
+triste! A minha sina capricha, até hoje, em fazer-me malvisto d'esses
+que eu mais quizera bemquistar, ainda á custa de um panegyrico á
+corrupção senil dos raros que desgarram da trilha austera por onde a
+virtude os vai guiando ao céo, no qual os proprios anjos se espantam das
+colonias que vão d'aqui.
+
+Porto--1858.
+
+
+
+
+PRIMEIRA PARTE.
+
+
+I.
+
+«Em quanto ao fogo d'aquelle meu phantasiar de genio, fadado para
+desgraças, encendrei as imagens das formosas apparições da terra, as
+creações do meu espirito eram magnificas e brilhantes como as myriadas
+do céo estrellado.
+
+«Eu tinha horas de tão dôce scismar! O ideal de Fausto, a melancolia do
+poeta d'Elvira, os coriscos de Byron, as satyras mordentes do
+Diabo-Mundo, as facecias elegantes de Fielding, e as vaporosas
+subtilesas de Senancourt! Ai! havia de todas essas feições do genio um
+traço de cada uma, no meu espirito.
+
+«Mas, n'aquelle dia, á entrada do meu caminho, n'aquella noite calmosa,
+quando o sangue estuava nas arterias, quando as azas do coração, como as
+da aguia ferida, baixavam á terra, aquella mulher...
+
+«A mulher fatidica! O despertar do sonho de dezoito annos. A Beatriz, a
+Laura, a Leonor, vingando-se na essencia d'uma, porque eu ousára crêr e
+dizer que mentira Tasso, e mentira Petrarcha, e mentira Dante.
+
+«Que mulher! Bella? Ai! não, não é essa a palavra. Bella como a filha do
+anjo rebelde, a quem Deus vingativo dera o dom de crear a formosura que
+mata, o olhar das chammas magneticas do crime, a fascinação do abysmo
+onde o cahir é perder-se o homem para si, para a humanidade, e para
+Deus.
+
+«Eu era poeta.
+
+«Com que enthusiasmo eu pedia o meu quinhão na herança das celebradas
+agonias de tantas victimas de si, mansissimos cordeiros immolados no
+calvario do talento!
+
+«Este augusto titulo, mercê do céo, rubricado por sello divino no
+coração do homem, tornou-se epitheto ridiculo ou injurioso.
+
+«Gela-se-me o sangue, quando a ignorancia petulante faz um tregeito de
+menospreço ao talento, e diz: _poeta!_
+
+«Mal sabeis que brutal atrevimento, ha ahi no tom de escarneo com que as
+bestas-feras insultam a intelligencia!
+
+«Um bando de collarejas abrias, atirando-me em injurias a lama que lhes
+extravasa da alma, seria para mim harmonioso cantico das graças,
+comparado ao sorriso affrontoso do nescio que me diz: _poeta!_
+
+«Ha ahi um rir do vulgacho, que dá em terra com a alma. Oh! o rir da
+gentalha maltrapida é menos fulminante que o escarneo da plebe
+engravatada, de todas as escorias sociaes a mais alvar e incorrigivel!»
+
+Parou de escrever o meu amigo, quando eu entrava no seu gabinete de
+trabalho.
+
+Este nosso amigo... Consinta o leitor a apresentação, e de amigo logo,
+porque eu sei que elle o é de conhecidos e desconhecidos, tirante os
+estupidos maus.
+
+Este nosso amigo é uma afflicção permanente, um como pelicano que se
+está continuo espicaçando o peito para alimentar do sangue proprio seus
+filhos insaciaveis, suas imaginações escandecidas.
+
+Entrou na vida pela porta do inferno. Os olhos da alma abriu-lh'os uma
+paixão das que alumiam a carreira do crime até á morte moral. A
+consciencia de sua individualidade, desunida das mil formosas
+existencias que se identificára, deu-lh'a o ser mais poetico da terra, a
+soberana da creação--a mulher!
+
+Aos dezoito annos expulso do paraiso pelo anjo a quem dobrára o joelho!
+
+Até então, Jorge Coelho amou sua mãi e irmãos, flôres, estrellas, fontes
+murmurosas, os pinhaes rumorejantes, o céo azul e as nuvens abertas em
+coriscos, os repiques festivos do campanario da sua aldêa e o dobre de
+finados, a cantilena da pastora e o gemer convulsivo da viuva e da
+orphã.
+
+Tudo lhe era n'este mundo poesia, desde a grinalda de flôres da esposada
+até á baeta negra do esquife.
+
+Não sou crendeiro em horoscopos de epiderme; todavia, tres rugas que lhe
+avincavam a testa entre as bossas frontaes, impressionaram-me. Um poeta,
+da alteza d'elle, diria que semelhantes vincos eram vestigios da vara
+com que a mão de um genio funesto o ferira, no berço. Moço de dezoito
+annos, que sobe ao empinado das serras, e circumvaga os olhos lagrimosos
+pelos confins dos horisontes, e me diz:--«a minha alma não cabe aqui»
+esse tal é de crêr que se fine na flôr dos annos, depois de haver
+experimentado as dôres todas de longa vida.
+
+«A minha alma não cabe aqui»--disse-me elle, sentado no tôpo de um
+fragoedo, com a arma caçadeira encostada ao peito, e afagando com a mão
+o focinho do galgo que a lambia.--«Nasci hontem, e já me cança a vida.
+Sou um como hospede, que se sente ebrio antes de assentar-se á mesa do
+festim. Meus irmãos estão contentes ao pé de minha mãi. De manhã são
+abençoados e beijados; á noite vão restituir-lhe o beijo com a face
+alumiada de santa alegria; recebem a segunda benção da virtuosa, e vão
+dormir serenas horas, em quanto eu, fechado com os meus livros, tento
+debalde entreter o espirito nos deleites da poesia, ou subjugal-o ás
+paginas graves da philosophia que me disputa á fé, e da fé que me
+arranca aos tedios indigestos da philosophia.»
+
+--Nunca sahiste d'aqui?--interrompi, suspeitando da candura de Jorge
+n'este tecido de palavras presumidas.
+
+--Nunca sahi d'aqui. Fui litterariamente educado por um tio frade, que,
+ha um anno, me entregou ao ensino de minha mãi, dizendo que a semente da
+sciencia não podia germinar em terreno, onde faltava o amanho da boa
+educação religiosa.
+
+Minha mãi não me entendeu melhor que o frade. Fallou-me do temor de Deus
+como principio da sabedoria humana. Eu tenho um Deus que não temo,
+porque o amo e adoro com espontanea devoção, porque o vejo luminoso em
+todas as minhas creações impalpaveis, porque o respiro e converto em
+seiva da minha alma, que tanto mais se amplia quanto mais se engolfa na
+immensidade divina.
+
+Minha mãi é uma virtuosa senhora que só acha digna de Deus a linguagem
+dos psalmos penitenciaes, e os actos contrictos de peccados imaginarios.
+O circulo, que ella traça ás minhas aspirações, é estreitissimo. Para
+ella, o futuro é a successão dos dias travados uns nos outros, iguaes e
+serenos, como os viveram meus avós, e como ella pretende herdal-os a
+seus filhos. O futuro para mim é o grandioso imprevisto, é a vida com os
+seus desertos e oasis, é o oceano com as suas calmarias e borrascas, é a
+peregrinação do israelita, agora perseguido nas aguas do mar vermelho,
+logo alumiado pela columna de fogo.
+
+Que sinto eu aqui?--proseguiu elle, pondo a mão na testa, cujos vincos
+se afundavam--Será o pensamento confuso do girondino á vista da
+guilhotina? Será o abutre gerado n'um sangue que, cedo ou tarde, tem de
+trazer-me a congestão ao cerebro?... Não sei...
+
+--Porque não será a alma que geme solitaria como a rôla, que, além, no
+ramo secco d'aquelle azevinho, está chamando o companheiro que ha-de
+vir?--disse eu em phrase lyrica para não destoar da linguagem levantada
+de Jorge Coelho.
+
+--Não creio--acudiu logo o meu amigo.--Eu tenho lido o amor dos livros,
+o amor dos romances, o amor da historia, o amor da poesia. Não me
+inquieto, nem me acho n'esse sentir. O que não entendia aos quatorze
+annos, não o entendo hoje melhor. As impressões que então recebi,
+recebo-as agora semelhantes. Os quadros de Dido e Eneas, de Helena e
+Páris, são duas telas borrifadas de sangue. O amor não póde ser aquillo.
+Paulo e Virginia, Julieta e Romeu são duas catastrophes que apertam a
+alma entre a admiração e o dó. A felicidade não está n'esses amores tão
+celebrados. Werther e Carlota, Chatterton e Kit-Bell, com o anjo
+inexoravel da virtude entre si, ao despenharem-se um apoz outro no
+abysmo da morte, para se salvarem do abysmo da perdição, são dous entes
+desamparados do anjo bom que nem sequer já serve para galardoar heroicos
+martyrios. Pois não irão mais longe os meus anhelos de gloria?
+
+A região da felicidade estará delimitada pelas raias do amor, que o
+romance, e a historia, e a epopea me pintam, glorificado por lagrimas e
+sangue?
+
+--Mas ha um amor--redargui--que não é o amor da historia, do romance, e
+da epopea. É amor reflectido de mais alto amor, que as almas adivinham e
+não entendem. É amor, preludio da bemaventurança, e prelibação da
+ambrosia celestial.
+
+--É o amor do romance, esse, creio eu...--interrompeu Jorge Coelho
+sorrindo.
+
+--Não é, meu amigo; e, se me contradizes n'essa idade, inculcas baixeza
+de affectos, que eu não posso acreditar, por honra da especie humana. O
+que te authorisa a desmentir um homem de trinta annos, que por sua honra
+te jura que esse amor existe? Queres achar Vestigios dos trabalhos e
+calamidades que me custou a descobril-o?
+
+Repara nos meus cabellos brancos.
+
+Colombo achou curtas as fadigas, que lhe deram o novo mundo, e a
+perpetuidade do nome d'elle, mais valioso que o novo mundo.
+Experimentaria Colombo as vertigens de prazer, que me endoudeciam,
+quando encontrei a mulher mais perfeita que os primores da minha
+phantasia?
+
+Não te allucines, porém--prosegui, vendo nos olhos de Jorge a lucidez do
+enthusiasmo, accusando o proposito de se abrasar no primeiro amor, que
+lhe deparasse o acaso.--Não te allucines em presença de qualquer mulher
+com sorrisos de Virginia, que tanto servem de elogio ao pudor como de
+epitaphio da innocencia. Não respires com sofreguidão o aroma das
+primeiras flôres, que encontrares. Lirios e mandragoras são bellas
+flôres, que matam, se as não lançares de ti, aspirados os primeiros
+effluvios. Ha mulheres como as flôres venenosas: se te detiveres com
+ellas mais tempo que o necessario para lisongeares a sensação, e
+regalares a phantasia, sentir-te-has tomado de um marasmo de espirito,
+em que serão delidas as tuas mais nobres faculdades, e, a mais válida de
+todas, o mais nobre apoio da tua dignidade de homem--a liberdade. Esta
+doença, no começo da vida, deixa achaque para sempre; é como a bala
+recebida em pleno peito e lá encerrada: o ferido vive; mas, a revezes, a
+dôr lhe está lembrando que a bala pesa sobre o derradeiro fio da vida.
+Mulheres, que matem corações generosos, ha muitas para cada homem.
+Mulher, que salve, ha uma só.
+
+A minha vida é uma elegia continuada desde o berço até esta ante-camara
+do tribunal da morte, onde estou esperando que me chamem: não tem
+romance: são desastres concatenados, sem intermedios d'esse
+contentamento vulgar, que os fortunosos denominam amargura. Todavia, se
+tivesses mais doze annos, Jorge, seria eu o teu conductor pelos infernos
+d'este mundo, que Dante não cantou de preferencia aos do outro, porque a
+civilisação da idade media não tinha em si os supplicios d'esta
+sociedade em que vaes entrar.
+
+E que lucrarias tu, ouvindo a minha historia? Vêr-me-ias longo tempo
+enredado na torpeza, na irrisão, e na brutalidade dos differentes
+algozes, que me suppliciaram a alma. Se quizesses que te iniciassem no
+segredo de sondar a perversidade dos corações, não poderia eu, porque a
+aspide, que te mede o salto do seio da mulher, só vibra a farpa mortal
+depois que varas em terra embriagado de aspirar o aroma do ramilhete,
+que a esconde.
+
+A sombra da mancenilha é grata como a de todas as arvores; suave é a
+viração que lhe estremece a coma; o sol nem sequer mosqueia o chão em
+que refazes os membros lassos; mas agonia mortal será o teu despertar se
+a formosa folhagem distillou sobre o teu corpo um sumo corrosivo que te
+faz morrer em acerba palpitação de todas as fibras. Conheces tu a
+mancenilha n'este deserto, que vaes palmilhar, encalmado das ardencias
+do coração? Saberás tu, aos dezoito annos, distinguir a mulher, que
+mata, da mulher, que salva? Os trinta abysmos, d'onde me eu levantei,
+com as faces a escorrerem sangue, estarão cobertos de flôres para ti? Eu
+creio que o poeta é um condemnado, a sua patria primitiva um outro
+mundo, este, em que nos encontramos, amigo, o purgatorio. Que montam os
+suffragios do padecente experimentado para te remir? Nada. Cumpre a
+sentença, porque é intransitivo o calix...
+
+..........................................................................
+
+Decorrido um anno, encontrei Jorge Coelho, não vos direi aonde, porque
+ha repugnancia em deslocar uma scena, quando a verdade não póde, por
+motivos sagrados, ser dita á curiosidade malevola.
+
+Encontrei-o escrevendo os periodos iniciaes d'este capitulo. Outros de
+igual azedume, assignados por elle, me haviam denunciado a residencia
+d'esse moço, na terra, em que eu, de passagem, assentára a minha barraca
+de bohemio.
+
+Reconhecendo-me, ergueu-se, abraçou-me com expansiva vehemencia, e
+proferiu aquellas ultimas palavras do estirado discurso do anno
+anterior:
+
+_Cumpre a sentença porque é intransitivo o calix._
+
+--E muito amargo? perguntei eu.
+
+--Amargo, e nauseabundo. Fel e lama. O insulto e o aviltamento. Adormeci
+debaixo da mancenilha, meu amigo; e acordei nos paroxismos de que não
+posso morrer. Achei uma das mulheres, que perdem. A sociedade
+applaudiu-a, quando eu cuidava que a indignação do mundo me vingaria.
+Ajuntei á minha dôr o que devia ser pejo, deshonra, e remorso n'ella.
+Quiz desafiar a piedade do mundo com o paciente silencio da minha
+desgraça. O mundo viu-me passar de olhos baixos para esconder as
+lagrimas, e fez da palavra «poeta» um synonymo chocarreiro de insensato.
+
+
+II.
+
+Contou-me Jorge Coelho a sua historia. Foi assim:
+
+Sahira, pela primeira vez, da sua aldêa para cursar a universidade. A
+mãi, abençoando-o, ungira-o de lagrimas, e lançara-lhe ao pescoço um
+crucifixo.
+
+O tio egresso, vencido na resistencia que fizera á sahida de Jorge,
+mostrara-se a final condescendente, e introduzira nas malas do sobrinho
+alguns livros de moral religiosa, que ambos sabiam de cór, um á força de
+repetil-os, outro de ouvil-os em discursos hebdomadarios, que
+principiavam sempre com a epigraphe:
+
+_Initium sapientia est timor Domini_--O temor de Deus é a base do saber
+humano.
+
+Jorge deu de si boa conta no primeiro, anno, cursando as aulas
+preparatorias para a faculdade de jurisprudencia. Contou elle que,
+durante esses oito mezes, apenas sentira o coração na dôr da saudade de
+sua mãi, de seus irmãos, do tio padre, das suas montanhas, e das sombras
+dos seus arvoredos. Consolava-o o prazer de uma carta de casa, todas as
+semanas, em que a expressão maternal pintava o anceio com que lá se
+contavam os dias, na esperança d'aquelle em que seus irmãos iriam buscar
+ao caminho o mano doutor, como elles já o denominavam.
+
+O anjo da poesia dos dezenove annos povoava-lhe então a phantasia de
+ridentissimas imagens. Mezes antes, abafava no extenso horisonte, que
+descobria do topo das serras onde trepava para dar á sua imaginação
+sedenta a vaga imagem da immensidade. Agora, parecia-lhe que á
+sofreguidão da alma lhe bastaria a soledade, o silencio, a tristeza dôce
+dos saudosos ermos da aldêa, que conheciam o seu poeta desde os onze
+annos.
+
+Anteviu os tres mezes de ferias como quadra de contentamentos novos.
+Tudo eram promessas de infantil ledice aos seus arrobos de saudade.
+Imaginava-se sosinho ao pé da arvore conhecida, em cujo tronco uma vez
+entalhára a ante-data de seis annos, com uma interrogação ao lado, e
+como se perguntasse o segredo do seu destino á sibylla dos seus queridos
+bosques.
+
+O anno assignalado era esse em que estava. A resposta aos vagos
+presentimentos dos quinze annos ia dal-a agora, mais anhelante e
+auspiciosa de venturas certas do que elle a previra ao deixar o encargo
+de responder a mal-agourados futuros.
+
+«Quão longe eu estava da verdadeira felicidade, minha querida
+mãi!--escrevia elle na primavera de 1855, quando as margens do Mondego
+reverdecidas lhe festejavam as saudades e as esperanças maviosas. A
+imaginação enganou-me. Cuidava eu que o coração de minha mãi faria o
+milagre de communicar uma faisca do seu amor ao seio de cada pessoa que
+eu encontrasse fóra da nossa aldêa! Pensei que a imaginada formosura da
+natureza começava áquem dos horisontes, que eu descobria do alto das
+montanhas. As impressões novas antecipavam-se-me cheias de espiritual
+deleite, e abundantes da vida que me lá faltava ao pé de pessoas vistas
+a todo o instante, com o sorrir da amisade, e ao pé das arvores, vistas
+em cada primavera, com as mesmas grinaldas, e em cada inverno com a
+mesma nudez funerea, que me confrangia o espirito.
+
+«Castigou-me o desengano, quando dobrei a ultima collina, d'onde via o
+cume da serra em que tantas vezes me assentára, ideando ao longe o
+caminho da minha imprevista felicidade. Era tudo estranho para o meu
+coração. O vento do outono despia as arvores da sua folhagem; mas a
+poesia melancolica e contemplativa d'essa transfiguração, qual a eu
+sentia na minha aldêa, convertera-se agora em profundo aborrecer-me, em
+cerração d'espirito, em arrependimento doloroso.
+
+«A duas leguas de nossa casa, minha boa mãi, quiz retroceder: reteve-me
+a vergonha. Depois de ter passado uma noite--primeira de minha
+vida--fóra do meu quarto, n'uma estalagem, ergui-me com proposito de
+vencer o pejo, e ir lançar-me chorando em seus braços. Conteve-me ainda
+o receio do _ridiculo_, palavra e sentimento terrivel, que, ha dez
+mezes, me foi entalhado no coração por um homem, onze annos mais velho
+que eu, propheta do meu destino, tão verdadeiro como terrivel propheta,
+que me vaticinou a sensibilidade immensa do poeta, e as lagrimas
+inexhauriveis do incessante desengano.
+
+«Já verti as primeiras; essas, porém, são talvez uma puerilidade que o
+mundo escarneceria, por que, bem averiguada a causa da minha tristeza de
+seis mezes, encontra-se um bom coração de filho e irmão, a nubelosa
+saudade dos dezenove annos, e o pesar de haver com tanto afan rebatido o
+parecer de meu tio, que me quiz demover da tenção de estudar em Coimbra.
+
+«Eu prometti-lhe, minha mãi querida, a noticia exacta das minhas
+impressões.--Descreve-me ao menos a bellesa dos abysmos como ella se
+afigurar á tua imaginação--foram as suas palavras. Não posso
+descrever-lhe nem, se quer, as formosas miragens do meu deserto. Se
+deponho com fastio os livros, que só abro por obrigação, interrogo de
+novo o meu espirito, tento sondar a indole mysteriosa da minha vontade
+oscillante, e encontro sempre enigma. Quer-me, ás vezes, parecer que
+estou em vesperas de uma grande transfiguração no meu modo de ser e
+pensar; escuto o surdo rumor das idéas, que ameaçam rebellar-se contra a
+moderada esperança em que minha alma se acalenta; sinto-me impellido á
+vereda de angustias desconhecidas, ao passo que as suspiradas alegrias
+da vida serena no seio de minha familia se me varrem da imaginação como
+as copas de flôres desmaiadas, que o nordeste sacudiu e dispersou.
+
+«Deverei occultar-lhe alguma das minhas visões, querida mãi? Não posso.
+A confidencia é a respiração das almas; é, mais ainda, é a supplica do
+conselho e do remedio para as tribulações, ou de estimulo e fé para crer
+na felicidade sonhada, se ella um dia me vier provar que não eram
+mentira os meus delirios dos dezoito annos.
+
+«Ha entre mim e o indecifravel do meu futuro uma imagem como elle
+indelineavel. Não sei a qual hora da vida acharei a sombra real d'esta
+idealidade, que se fez corpo e alma, impressão e sentimento para a minha
+phantasia. Tenho querido collocal-a ao pé de minha mãi, como reflexo do
+seu amor. Quando assim consigo aproximadas, tambem consigo explicar a
+influencia, que ha-de ter na minha vida essa imagem, descerrada a nuvem
+que m'a envolve pela mão luminosa da Providencia. Será a realisação do
+infinito amor, porque entre Deus e minha mãi falta um élo. Creio que não
+usurpo a minha mãi o vago affecto dedicado a essa alma estranha, que me
+visita nas horas de intimo recolhimento e scismadoras saudades de não
+sei quê, como se do céo perdido nos ficassem saudades para
+reconquistal-o á custa de lagrimas. Isto que sinto não póde ser, como me
+dizem os livros sentimentaes, os alvoroços precursores das primeiras
+devoções, o subir para o altar dos cultos fervorosos e apaixonados. É
+mais.
+
+«Entrevejo na escuridade do porvir uma scintilla, que me banha de
+festiva luz o espirito, aspiro o aroma de celestial flôr, que me delicia
+e adormece em dôces lethargias, tenho um despertar alegre e sereno, como
+o do homem incapaz de ir abraçar-se á realisação de seus ambiciosos
+sonhos pelos caminhos travessios da improbidade e do mal-fazer.
+
+«Assim pois, minha mãi, contente-se a sua boa alma de se vêr assim
+reflectida na do filho, que d'ahi sahiu agourado por tão maus prophetas.
+Não abordei esses abysmos seductores, que o meu bom tio excommungava de
+lá, e contra os quaes me premuniu com cabedal de philosophia christã,
+bastante para defender das tentações todas as nações da Biblia,
+exterminadas por causa do peccado.
+
+«D'aqui a tres mezes, deporei no regaço de minha mãi o coração
+inexperiente com que de lá sahi. Dar-lh'o-hei mais rico de
+contentamentos puros, e desejos de ser bom filho; e, se assim não fosse,
+iria agora fortalecel-o em seu seio das virtudes, que ainda me faltam.»
+
+Três mezes depois, Jorge Coelho, convidado por um seu condiscipulo das
+visinhanças do Porto, passou no Porto, quando recolhia a ferias, e alli
+se deteve, para assistir ao ultimo baile annual da _Assembléa
+Portuense_.
+
+Jorge nunca vira um baile, nem ante-gostára pela imaginação o prazer de
+encontrar duzentas damas reunidas á competencia de formosura e pompas.
+
+Dizia-lhe o condiscipulo, já gasto para as commoções dos bailes (tinha
+vinte e dous annos, e passára desapercebido em todos os bailes)
+dizia-lhe o condiscipulo que o coração nascia de improviso no primeiro
+baile, e muitas vezes lá morria. Contava-lhe, em testemunho de verdade,
+a sua historia, que era uma historia negra, passada ao clarão de
+centenares de lumes, nas salas da _Assembléa Portuense_, no baile
+carnavalesco do anno anterior. Com quanto nos seja sempre ingrato
+violentar as glandulas lacrimaes dos leitores, e sacudir-lhes com
+patheticas descargas electricas os nervos engelhados, não nos abstemos
+de contar em poucas linhas a historia negra do snr. Pires, condiscipulo
+de Jorge, em geographia e historia.
+
+Parece que o snr. Pires chegára de Coimbra a ferias de entrudo, e
+conseguira ser convidado para o baile. Alugou um dominó de seda, entrou
+nos salões, e remoinhou longo tempo por entre centenares de pessoas
+desconhecidas. Dizia-lhe a consciencia que era um tolo, por não buscar
+ao acaso uma particula da felicidade, que brincava nas physionomias de
+toda a gente, ao passo que das d'elle apenas escorria o suor debaixo da
+mascara suffocante.
+
+Deliberado a demonstrar a si proprio que não era absolutamente nescio,
+dirigiu-se a uma dama de aspeito melancolico, e disse-lhe «que os anjos
+do céo, quando cahiam cá em baixo na morada dos homens, ficavam tristes
+como ella.»
+
+Ora, um maganão, tambem mascarado, que por alli gravitava em redor do
+mesmo astro, disse ao estudante, radioso da feliz amabilidade, «que não
+só aos anjos do céo acontecia ficarem tristes e atordoados quando cahiam
+cá em baixo, mas tambem acontecia o mesmo aos gatos, quando cahiam de um
+terceiro andar á rua.»
+
+Ficou fulo de raiva Pires. A melancolica dama levou o leque ao rosto
+para esconder o riso.
+
+O estudante, voltando-se para o entremettido, replicou-lhe que era de
+pessimo gosto a chufa, e o gosto da senhora não era de melhor quilate
+festejando com riso complacente tão deslavada semsaboria. Redarguiu o
+incognito mascarado, perguntando-lhe se tinha duvida em sahir fóra das
+salas para lhe estender uma orelha de modo que por ella o conhecessem
+todos, visto que elle tivera a habilidade de a esconder no capuz do
+dominó. Trocaram-se algumas finezas mais d'este tomo, até que um homem
+de porte grave travou do braço ao snr. Pires, e, levando-o ao salão
+menos frequentado, perguntou-lhe que motivos se haviam dado para
+desavença tão impropria de cavalheiros. Pires, querendo dar ao successo,
+uma causa digna de transmissão, contou que merecêra lisongeiro
+acolhimento da senhora com quem estava trocando as phrases previas de
+uma paixão, que rebentára subita e reciprocamente, quando o indiscreto e
+villão interventor lhe dirigira palavras descomedidas, que denotavam o
+ciume d'elle.
+
+--Pois aquella senhora, a quem o dominó allude, trocava com v. s.ª as
+phrases previas de uma paixão?--perguntou o interlocutor do estudante
+com sorriso de affectada serenidade.
+
+--Sim, senhor, respondeu o outro emproando-se.
+
+--Antes de dizer-lhe que mente, preciso vêr-lhe a cara.
+
+Dito isto, o sujeito, que era o marido da dama, arrancou a mascara ao
+snr. Pires; e, vendo um rosto imberbe, e acerejado, chamou o escudeiro,
+que passava com bandeja de dôces, e disse-lhe: «Dê a este menino dous
+bolinhos, e mande-o embora.»
+
+Eis aqui a historia negregada do snr. Pires, a qual, contada por elle,
+era muito mais dramatica e engraçada, visto que terminava por dous
+duellos mallogrados, um com o rival, outro com o marido, e por tres
+desmaios da dama, um no salão, outro na carruagem, e o ultimo em casa,
+na presença do marido, que, pelos modos, a quizera enforcar.
+
+E, como as lagrimas d'este acerbo conflicto cahiram todas no coração do
+snr. Pires, o resultado foi afogarem-se lá os embriões da sua
+felicidade, e ficar aquella viscera árida e resequida como enxundia
+secca de gallinha.
+
+Ouvira Jorge Coelho estas calamidades com a respiração suffocada, e teve
+instantes em que duvidou do bom siso do seu amigo;--tão descozido lhe
+parecêra o conto, e tão ineptas as consequencias.
+
+
+III.
+
+Entrou Jorge Coelho nos salões da «assembléa,» e julgou-se em regiões de
+houris. Durou-lhe alguns minutos o atordoamento da primeira impressão.
+Não o enleava esta ou aquella physionomia; eram todas. N'aquella
+harmonia do bello, até as senhoras feias--se ha senhoras feias, vistas á
+luz do coração--recebiam homenagem do extatico moço. No espasmo
+delicioso do academico, se algum amor influia, era de certo o amor da
+especie, porque seus olhos não haviam ainda estremado o individuo, que
+os olhos d'alma entreviam no todo.
+
+Do cisco lucido, que volita no ar, faz douradas palhetas o raio do sol
+coado pela fresta. Na dourada lucidez que Jorge via por magico prisma,
+não haveria muito cisco, muito atomo de poeira humana, que sómente
+refulge aos reverberos dos lustres, consoante o variegado das côres?
+Decidam os que lá andam.
+
+Aquietado dos alvorotos da surpreza, o estudante sentiu o vacuo, porque
+se viu sosinho alli. O apresentante doudejava no redemoinho das danças,
+e raros intervallos perdia, perguntando ao condiscipulo se estava
+contente.
+
+Jorge não sabia dançar, porque não tivera tempo de aprender esse
+appendiculo grutesco da boa educação. Muitas vezes lhe dissera o tio
+padre, authorisado pelo oratoriano Manoel Bernardes, que danças eram
+ansas do demonio armadas á alma.
+
+Não se glorie, porém, o crendeiro egresso de ter instillado no animo do
+sobrinho o horror das mazurcas. Jorge não dançava porque não sabia se
+quer a nomenclatura d'essa galharda tolice de que por vezes impende o
+accesso ás almas, e o passar-se uma noite menos tediosa n'um salão em
+que o espirito se retouça em piruetas, mais ou menos ridiculas e
+parvoinhas, da materia.
+
+Á meia noite, Jorge procurou o seu condiscipulo para dizer-lhe que se
+retirava. Atravessando uma sala, quasi despovoada, viu duas senhoras
+reclinadas n'uma ottomana, em postura de fatigadas ou aborrecidas. A
+mais velha não excederia vinte e cinco annos; a outra, que teria
+dezoito, foi a primeira que prendeu o exclusivo reparo de Jorge, senão
+antes uma contemplação absorta em que ellas mesmas repararam.
+
+O academico devia captivar a attenção das duas senhoras, melancolicas
+por indole ou artificio. Tinha elle um semblante de si tão meigo e
+affectuoso, que as pessoas tristes sentiam-se melhorar em suas magoas,
+pensando que outras acaso maiores e mais carecidas de lenitivo denotava
+o brando olhar do moço. Estava, por ventura, este condão sympathico na
+magresa do rosto, cujo pallor mais era signal de compleição mimosa, que
+effeito de vigilias e desperdicios de vida com que muitos conhecidos
+nossos se recommendam ás senhoras idealistas, affectando langores e
+martyrios de alma, dos quaes a victima principal é, em verdade, o corpo.
+
+--Sympathica physionomia!--disse a mais velha das duas senhoras.
+
+--Conheces?!--perguntou a outra sem fugir os olhares de Jorge, o qual,
+por mero disfarce, encarava objectos, que realmente não via.
+
+--Não o conheço, nem me lembra de o ter visto em parte alguma.
+
+--Tinha curiosidade em conhecer... Não achas n'aquelle rosto um não sei
+que de distincção?
+
+--Tem alguma cousa não vulgar...
+
+--Uma tristeza insinuante, achas?
+
+--E não sei que de magoa supplicante...
+
+--É verdade... e as supplicadas somos de certo nós...
+
+--És tu, Silvina... és tu a examinada com um ar de espanto ou ternura
+que compromette. Olha um grupo de homens, que nos observam e mais a
+elle...
+
+--Não olhemos mais. Elle já sabe que o vimos e discutimos. Achamol-o
+sympathicamente triste, e bem póde ser que seja um tolo com bastante
+coragem para nos dizer que o é... Mas quem será?!
+
+A curiosidade das duas damas é menos racional que a dos leitores que
+desejam conhecel-as.
+
+A mais velha é a snr.ª D. Francisca da Cunha, creatura galante, com
+quanto morena, grandes olhos pretos, sobrancelhas travadas e negras,
+opulentos cabellos, e espirito de improviso bastante a fingir
+illustração. Pertence a uma familia heraldica da provincia de
+Traz-os-Montes, e veiu ao Porto com seu pai, fidalgo arruinado pela
+politica e pelas proprias dissipações, com o fim de acirrar a cobiça de
+um noivo conveniente, cujos paes almejam por enxertal-o no nobilissimo
+tronco dos Cunhas. Tem esta menina genio exquisito e romanesco. Por
+muitas vezes tem mallogrado os esforços casamenteiros do pai, mofando da
+figura e palavriado, um pouco para rir, do noivo. Á força de ser má,
+conseguiu fazer-se anjo no conceito do mal-fadado que espera em ancias
+ser marido d'ella. Maravilhada do poder que tem na alma do capitalista,
+com desdens e despresos, espanta-se do presumido dominio, que poderá ter
+sobre o homem a quem der os sentimentos embrionarios no seu coração.
+Para experimentar, sem risco da sua nomeada, recebe cartas de varios
+oppositores á sua alma, e responde regularmente a umas com idéas
+respigadas nas outras. Nos grupos, que se vão formando na sala, em que
+está com Silvina, sua prima carnal, avultam quatro dos seus
+correspondentes activos, e dous, que obtiveram promessa de resposta, e
+alguns, que esperam aso de solicitarem aquella gloria, no entender de
+cada um negada a todos, chegando a fazerem-se a mutua justiça de
+julgarem-se parvos uns aos outros.
+
+D. Silvina de Mello, prima de D. Francisca, é tambem provinciana, e veiu
+de uma aldêa do Minho a banhos do mar, convidada por sua prima, de quem
+é hospeda. O que ella aprendeu em quatro mezes de convivencia é possivel
+que o não acreditasse quem lhe visse o rosto de anjo, olhares de
+innocente acanhamento, sorrisos de escrupulosa timidez, palavras
+desanimadas e preguiçosas, e, no todo, uma despresumpção de maneiras,
+que fazia suppôr grande limpeza d'alma e de... de intelligencia!
+
+Fôra D. Silvina da sua aldêa para o Porto com uma paixão por um morgado,
+que a não seguira por fortissimos impedimentos. O pai do morgado tinha
+feito extraordinarias despezas na construcção de uma eira, na
+reedificação da capella solarenga, no muramento de algumas cortinhas,
+que comprara, não fallando já nas desastradas mortes de um macho, que
+tinha trinta annos de bom serviço na casa, e duas juntas de bois
+atacadas de epizootia. O moço pedira debalde soccorros, fingira-se mesmo
+epileptico para que o cirurgião da terra lhe receitasse banhos salgados;
+o velho, porém, passaro bisnau, e avesso á inclinação do filho, deu
+grandemente louvores a Deus por propiciar-lhe ensejo de acabar-se um
+namoro inconveniente, attenta a mediocre legitima de Silvina. Facil foi
+a D. Francisca obliterar no coração da prima a imagem do seu primeiro
+amor, zombeteando-a á proporção que a ingenua provinciana lhe ia
+mostrando as cartas do saudoso morgado.
+
+Não podémos averiguar porque traças o morgado de Santa Eufemia arranjou
+dinheiro com que foi ao Porto, tres mezes depois que Silvina cessára de
+responder-lhe ás cartas, tanto mais irrisorias quanto a paixão as
+dictava em estilo talhado para matar paixões. O certo é que o allucinado
+homem chegou ao Porto na vespera do baile da assembléa, e alcançou
+cartão de convite. A sua idéa era encontrar Silvina.
+
+Todo sorvido na ancia de vêl-a e fulminal-a com olhadura terrivel de
+accusações, o morgado de Santa Eufemia não cuidou, com tempo, de mandar
+fazer casaca. A que trazia na mala era dos figurinos de Guimarães, e,
+posto que em bom uso, era anachronica na gola, nas lapelas, na largura e
+comprimento das abas, na pequenez dos botões, e rebordo dos punhos.
+Consultou a pessoa, que lhe alcançára o convite, ácerca da casaca; mas,
+desgraçadamente, a pessoa consultada era um d'aquelles individuos de
+juizo, que não tiram o monge pelo habito, e reprovam que seja
+sacrificada aos caprichos da moda uma casaca de bom pano, farta e
+commoda, sómente porque alguns casquilhos perdularios, ou alfaiates
+especuladores, inventam feitios novos.
+
+Concordou o morgado, e foi ao baile com a casaca velha. Melhor lhe fôra
+ter morrido da epizootia! A sua entrada na primeira sala foi um
+acontecimento. As petulantes lunetas saudaram-n'o, e seguiram-n'o com
+insultuosa curiosidade até ao salão da dança. As senhoras, em regra,
+pouco curiosas do trajar dos homens, não repararam na casaca, mas não
+podiam deixar de vêr o collete e a gravata. Era esta descommunal na
+altura, atravessada por um laço, cujas pontas, como orelhas de lebre
+morta, cahiam caprichosamente sobre os hombros. A côr verde da gravata
+contrastava com o encarnado-ginja do collete de uma abotoadura e
+colchetes apertados até ao pescoço, e acairelado na abotoadura e bolsos
+com vivos roixos. Sobre isto cahiam as lapelas enxovalhadas da
+casaca, com as quebras e vincos dos apertos que soffrera na mala em que
+viera, para irrisão e descredito de Freixieiro, cujo elegante era.
+
+Desconfiou o morgado de Santa Eufemia de alguns indiscretos que o
+seguiram, desde o vestibulo da assembléa. Viu, depois, que as damas se
+trocavam olhares suspeitos, que o não impediam de procurar Silvina com
+aspecto entre o furioso e o comico. A obstinação, porém, dos
+chasqueadores era inexoravel, e o morgado teve um intervallo de lucidez,
+em que olhou em si, e se viu ridiculo. Do fundo de sua alma deu, então,
+graças á Providencia, se Silvina o não tinha visto; mas o derradeiro
+olhar, que lançou aos descaridosos mofadores, era provocador.
+
+Resolveu, pois, retirar-se, maldizendo o velho amigo de sua familia, que
+o demovera do proposito de fazer roupa nova. Quando ia sahindo,
+atravessou por engano a sala em que se achavam D. Francisca, D. Silvina,
+e Jorge Coelho. Os grupos de homens, que por alli estanciavam, deram com
+elle de cara, seguido d'um cortejo de folgazãos, que tinham passado da
+zombaria cautelosa á risada descomposta.
+
+Silvina corou até ás orelhas, quando Francisca exclamou:
+
+--Oh! que original! Repara, prima, tu não vês aquelle homem?!
+
+A este tempo o morgado estava em meio da sala, e fazia machinalmente uma
+cortezia ás damas.
+
+--Aquillo será comnosco?!--dizia, com desdenhosa zanga, D.
+Francisca.--Conheces aquelle phenomeno?! Olha que elle está esperando
+que o comprimentemos... Conheces, Silvina?
+
+--Conheço...--balbuciou Silvina, acaso tão afflicta como o desastroso
+morgado, que estava alli chumbado ao pavimento.
+
+--Quem é? é da tua terra?--tornou Francisca já envergonhada de que
+julgassem ser ella a causa da attentiva paragem de semelhante entrudo.
+
+Silvina ergueu-se, tomou o braço da prima, e disse:
+
+--Vem, que eu te contarei tudo.
+
+Sahiram.
+
+Jorge Coelho foi o unico dos circumstantes que examinou com seriedade o
+morgado. Achava estranho o personagem; mas dizia-lhe a boa alma que o
+insulto era improprio de pessoas bem educadas como deviam presumir-se
+aquellas, que estavam alli representando a melhor sociedade.
+
+O fidalgo de Freixieiro sahiu com os olhos a marejarem lagrimas. Foi
+ainda Jorge quem unicamente viu este signal de afflicção; e, sem saber o
+porquê, sympathisou com a dôr do homem, que levava de poz si o escarneo
+de tanta gente, e na alma a certesa de que viera dar-se em espectaculo
+aos olhos da mulher, que nunca lhe perdoaria o ser ridiculo. Pobre
+criança! como vivias enganado pelas maximas dos teus romances francezes!
+Não sabias tu que ridicula, sem rehabilitação, é só a pobresa.
+
+D'ahi a uma hora, Francisca e Silvina desciam do toucador para o salão
+do baile. A primeira compunha o semblante ainda descomposto das
+gargalhadas com que recebera a revelação da prima. Esta, mortificada
+pelo amor proprio, se não antes vexada pela indecorosa eleição d'um
+amante chulo, captivava lastimas com a tristesa que devêra acarear
+despreso. Despreso! Talvez piedade, que a situação era digna d'ella, por
+que é a mulher, quem mais a si se mortifica, se a consciencia a accusa
+d'uma escolha, que não só lhe não disputam, se não que, peior ainda, lhe
+injuriam com motejos. O morgado de Santa Eufemia, até á noite infausta
+do baile, era uma recordação, se não saudosa, ao menos magoada. D'ahi em
+diante, pelo menos n'aquella hora, causava-lhe tedio, e forçava-a a
+participar da zombaria.
+
+
+IV.
+
+Estava Jorge, outra vez, defronte das duas senhoras. Sentia-se outro. Já
+tinha interiormente um mundo, uma imagem reflexa do mundo exterior a
+remuneral-o vantajosamente da insulação em que se via no meio de tantos
+indifferentes á sua tristesa. A todo homem esta mutação tem acontecido,
+uma vez na vida. O baile é triste para quem leva da soledade do seu
+quarto o coração de lucto; porém, áquelle mesmo conforta, ás vezes, uma
+chimera, lá onde menos a esperança lh'a promettia. Chimeras são que
+desbotam, como as flôres dos enfeites, ao repontar da manhã; mas Deus
+sabe quantas almas se retemperam nas illusões de um baile, e que horas
+de abençoado engano lá divertem as tristesas dos mais desenganados!
+
+Não era assim que Jorge Coelho scismava comsigo--que a aurora do seu
+breve dia de fé e amor principiava alli--quando o amigo Pires,
+lançando-lhe o braço em redor do pescoço, lhe disse:
+
+--Que fazes aqui parado? Contemplas aquellas duas Evas, mal assombradas
+de gesto, como se tivessem comido a fatal maçã?
+
+--Contemplo uma, e acho-a celestialmente formosa.
+
+--A côr de cêra?
+
+--Sim.
+
+--Eu gosto mais da morena. _Nigra sum sed formosa._ Aquillo sim que é
+mulher para incommodar a fleuma d'um sceptico!... Queres ser
+apresentado?
+
+--Pois tu conheces?
+
+--Não, nem preciso. Vou tiral-a para a primeira quadrilha, apresento-me,
+e depois tenho a honra de ser o teu apresentante. O estilo, cá na boa
+roda, é este.
+
+--Mas a quem me has-de tu apresentar? é necessario, a meu vêr, que ella
+te diga quem é.
+
+--Pois não lh'o pergunto eu?! Essa reflexão é piegas. Se queres ouvir o
+que eu digo, colloca-te ao pé de nós, e escuta-me nos intervallos das
+marcas.
+
+O snr. Pires não reconsiderava uma tolice, nem tolerava replicas.
+
+D. Silvina, vendo um sujeito conversar com Jorge, olhou-o curiosamente,
+para, se acaso visse pessoa de suas relações com elle, podesse, de
+conhecido em conhecido, chegar a colher alguma informação do seu
+mysterioso observador. Mais propicia do que ella ambicionava, lhe foi ao
+encontro a fortuna protectora de sua innocente curiosidade. Pires, com
+elegante desembaraço, solicitou de Silvina uma contradança: esta, com
+adoravel aprazimento, aceitou logo o braço do cavalheiro porque se
+estavam alinhando os pares.
+
+Aqui, porém, falhou uma vez a felicidade a um tolo. Esquecera-se Pires
+de procurar _vis-á-vis_, e era já fóra de tempo o procural-o. A dama deu
+primeiro pela falta, e o academico fez-se da côr do rabano. Silvina
+relanceou os olhos supplicantes a D. Francisca, e esta, chamando o
+primeiro cavalheiro conhecido, deu-lhe o braço, e entrou no lugar
+fronteiro á prima.
+
+--Esta falta, disse Pires, retesando no pulso a luva até a rasgar,
+deve-se ao enthusiasmo com que eu pedia a v. exc.ª esta contradança.
+
+--Enthusiasmo?! Ora!... parece-me que queria dizer _distracção_,
+respondeu Silvina ao adiantar-se para executar a primeira figura.
+
+Chegado o grande intervallo, Jorge Coelho quizera ir postar-se perto de
+Silvina; mas um burguez intolerante, zangado da pertinacia do moço, que
+envidava os recursos todos da delicadesa e do encontrão para romper a
+barra compacta dos olheiros de espadoas nuas, chegou a dizer-lhe,
+franzindo a testa:«O senhor não cabe? se quer passar espere que acabe a
+_polka_!» O bom do burguez não sabia ao certo se era contradança ou
+polka o que se estava dançando.
+
+No entanto, o nosso amigo Pires, com quanto pesaroso de que Jorge alli
+não estivesse, para maravilhar-se dos recursos da eloquencia afeita ás
+difficuldades do salão, conversava assim com a senhora attenciosa:
+
+--Quando tive a honra de impetrar de v. exc.ª a graça d'uma
+contradança... (Silvina poz o leque diante dos labios) acabava eu de
+dizer a um amigo meu que o olhar contemplativo, _la réverie_, com que
+elle fitava v. exc.ª, era merecida, justificada, e...
+
+--Muito agradecida;--atalhou Silvina, tregeitando com o leque e a cabeça
+uma evolução de movimentos indescriptiveis--mas eu não reparei bem no
+amigo de v. s.ª, que me distinguia de modo tão lisongeiro.
+
+--Se v. exc.ª tem a bondade de olhar em frente, ha-de encontral-o
+extasiado...
+
+--Extasiado?! Ora isto parece-me que vai passando da lisonja á galhofa!
+
+--Oh! minha senhora... Isso offende-me e punge-me, acudiu Pires com o
+mais comico azedume.
+
+Silvina relanceára a vista como quem não via, e voltando-se para o
+cavalheiro, disse:
+
+--É do Porto aquelle senhor?
+
+--É da provincia, minha senhora, estudante de Coimbra, meu condiscipulo,
+chama-se Jorge Coelho, pertence a nobilissima familia, e assevero a v.
+exc.ª que é um coração virginal, intacto, fervoroso, sentindo hoje pela
+primeira vez os impetos juvenis do amor.
+
+--Não admiro, porque é muito novo.
+
+--Muito novo! oh! minha senhora! Quantos velhos n'aquella idade! Aqui
+estou eu, de pouca mais idade que elle, e me considero já
+_desillusioné_, decrepito.
+
+--Realmente?!... Perdoe-me a curiosidade--disse Silvina, com muita graça
+de fina ironia, sustentada com imperturbavel seriedade.--Queira dizer-me
+em que romance poderei encontrar o seu caracter, já que não devo esperar
+uma revelação das tempestades que o fizeram tão cedo naufragar!
+
+--O meu caracter ainda não está escripto!--respondeu Pires, avincando a
+testa, e fitando-a de esguelha.
+
+N'este comenos entraram os pares latentes em movimento, e a phrase ficou
+engasgada até ao proximo intervallo. Enganou-se, porém, o sceptico.
+Silvina, como esquecida da suspensão da lugubre narrativa, perguntou ao
+cavalheiro:
+
+--O seu amigo demora-se no Porto?
+
+--Não são essas as intenções d'elle, minha senhora; mas é de presumir
+que um aceno de v. exc.ª o faça esquecer a familia carinhosa que o está
+esperando.
+
+--V. s.ª depois que envelheceu--replicou Silvina cortando as palavras
+com frouxos de estudado riso--julgou salutar cousa o distrahir-se da sua
+gotta moral zombando das pessoas que ainda crêem e esperam alguma cousa
+d'esta vida?!
+
+Acudiu Pires:
+
+--Eu que digo isto é porque sei o que v. exc.ª é para Jorge. Respondo
+gravemente ás suas facecias adoraveis. Sei que as virtudes de v.
+exc.ª...
+
+--V. s.ª conhece-me? perguntou Silvina de golpe, e formalisada.
+
+--Não tenho essa honra, minha senhora.
+
+--Quem lhe disse que ha em mim virtudes?
+
+--Rosto angelico e véo translucido: homem experimentado adivinha o
+coração do anjo.
+
+Pires ia dizer mais quatro aforismos do seu uso, quando terminou a
+contradança. Conduziu a dama á sua cadeira, e disse-lhe:
+
+--Eu queria ter a felicidade de apresentar a v. exc.ª o meu amigo Jorge
+Coelho; porém, rogo-lhe me diga se devo procurar alguem que me apresente
+a v. exc.ª
+
+--Não tenha esse incommodo. Fico sabendo que v. s.ª é um cavalheiro da
+boa sociedade, e tanto basta. Sei tambem que é academico, e sympathiso
+com essa qualidade porque tenho em Coimbra dous irmãos no seminario, e
+não sei que analogias me fazem presar os estudantes.
+
+--Direi mais, acrescentou o academico, enclavinhando os dedos para
+ajustar as luvas, e tirando pelas lapelas da casaca a puxões de gentil
+effeito--direi mais a v. exc.ª que me chamo Leonardo de Sousa Pires e
+Albuquerque, a minha casa é na Maya, e costumo passar as ferias no
+Porto, porque sou avesso á vida pastoril, e não tenho senão mediocres
+tendencias para admirar a natureza bruta...
+
+--Não é poeta?--interrompeu Silvina, ageitando o lindo rosto a um ar de
+zombeteira admiração.
+
+
+V.
+
+--Se sou poeta!...--disse Pires, enviezando para o estuque do firmamento
+olhos de lastima.--A poesia é flôr muito delicada, que o primeiro
+vendaval do coração desfolha. Desfolhada a primeira flôr, o vaso que
+fica não tem seiva para outra: é como a terra ferida de maldição.
+
+--Isso é triste--acudiu Silvina, tregeitando com a cabeça e olhos umas
+gaifonas piedosas.
+
+--Tristissimo, minha senhora!
+
+Agora eram de victima os ares do Fausto da Maya, e a dama já pedia a
+Deus que não viesse para junto d'ella a prima, com medo de espirrar uma
+d'aquellas casquinadas de riso, que a mais sisuda prudencia não refreia.
+
+Jorge Coelho, no entanto, sem bem saber o que o impacientava, não podia
+tolerar a detença do amigo. «Se eu soubesse dançar--dizia de si para si
+o academico--teria feito o que fez Pires... Será de mim que elles estão
+fallando? É natural, porque a vejo fitar-me com attenção... Se me eu
+avisinhasse, daria melhor occasião a Pires de me apresentar...»
+
+E, obedecendo á hypothese, deu alguns passos; mas tão a medo o fazia,
+que antes parecia querer que o não vissem. N'isto, já o amigo o andava
+procurando, e Silvina, vendo a direcção errada de Pires, acenou-lhe de
+longe, indicando com disfarce onde estava Jorge.
+
+O pobre moço tremia quando viu que era procurado. A sua primeira idéa
+foi fugir da sala, e não duvidamos crêr que fugiria, se Pires lhe não
+trava do braço, dizendo:
+
+--Olha lá como lhe fallas: a mulher tem espirito, e é um genio.
+
+Isto foi peior.
+
+--O meu amigo Jorge Coelho que eu tenho a honra de apresentar á exc.ma
+snr.ª Dona...
+
+Pires estacou. Silvina sorriu-se. Jorge corou, baixando os olhos.
+
+--Não sabe o meu nome? isso não importa disse a dama.--Eu me apresento.
+O meu nome é Silvina. Tenho a gloria de ser tambem aldeã. Nenhum dos
+tres póde rir dos outros. Então o snr. Jorge não dança?
+
+--Não, minha senhora, eu não sei dançar--disse Jorge com infantil
+ingenuidade.
+
+--Não sabe, porque não ama a dança, não é assim?
+
+--Em minha casa ninguem aprendeu a dançar. Minha mãi foi educada n'um
+convento, e de lá sahiu para ser esposa, e governar sua casa n'uma terra
+onde nunca se deram bailes. Eu sahi da minha aldéa ha menos d'um anno, e
+tenho consumido todo o meu tempo no estudo...
+
+Estava Silvina gosando sem motejal-a a simplicidade de Jorge, ao passo
+que Pires lamentava as pueris historias do seu acanhado amigo. Como
+quizesse salval-o, o imaginoso academico interrompeu-o com não sabemos
+que espirituosa semsaboria, que Silvina atalhou logo:
+
+--Deixe fallar o seu amigo que me está encantando com a singelesa do que
+diz...
+
+--Eu retiro-me, minha senhora--disse Pires, arqueando-se--porque estou
+compromettido para a seguinte polka.
+
+--Tambem eu...--disse Silvina, já quando o par se avisinhava, ao qual
+pediu desculpa, de não dançar, por causa de uma forte dôr de cabeça. E
+voltando-se para Jorge, que não soubera avaliar a fineza do fingido
+incommodo:
+
+--Tem aqui esta cadeira... Sente-se, e conversemos da sua familia,
+porque talvez precise desafogar saudades d'ella em coração que o
+comprehenda.
+
+Jorge cobrára alento com este ar de familiaridade. Fez-se para elle
+profundo silencio em todo aquelle borborinho da sala.
+
+Era a primeira vez que se via em face de uma mulher, que lhe não chamava
+irmão ou filho; e, todavia, tanta ingenuidade fraterna respirava o rosto
+de Silvina, que, por encanto, o timido moço, sem forcejar contra o
+enleio da alma, tirou de lá expressões de sorte affectuosas que nem os
+mais destros comicos de sala as diriam assim.
+
+--Tem muitas saudades dos seus, snr. Jorge?--disse Silvina com brando
+mimo.--Está ancioso por chegar aos braços de sua mãi?
+
+--Quizera que v. exc.ª a conhecesse--disse Jorge maviosamente.--Havia de
+amal-a... que minha mãi está tão longe d'este mundo brilhante, vive d'um
+modo tão differente do das pessoas educadas como ella foi, que me faz dó
+o que era e tem sido ha vinte annos, contando hoje apenas trinta e seis,
+n'uma aldêa, sem outra convivencia senão a de seus filhos, e sempre
+magoada das saudades de meu pai... Ha duas horas que penso em v. exc.ª e
+n'ella...
+
+--Em mim?--atalhou Silvina, com sorriso de bondade--lisongeia-me
+infinitamente a companhia que me deu no seu pensamento; mas poderá
+dizer-me que analogia de imagens achou entre mim e sua mãi?
+
+--Immensa, e não sei dizel-a. Se eu podesse bem interpretar este
+sentimento mysterioso, diria, d'outro modo, que hoje, pela primeira vez,
+se espelharam em minha alma duas imagens de mulher. Até ha pouco, havia
+lá a de minha mãi sómente, e os traços informes, a sombra, o indefinido
+do ser que vaga entre o céo e a imaginação do poeta. Agora...
+
+--Essa segunda--interrompeu Silvina com uma gravidade impropria de sua
+idade e modos usuaes--não poderá jámais deslumbrar a de sua mãi, porque
+os entes de imaginação, visualidades passageiras, nunca usurpam a posse
+aos entes que a natureza nos está dando todos os dias em realidade de
+amor e carinhos. E depois, snr. Jorge, verá que é inutil esperar aquelle
+puro original da cópia que a sua phantasia vai debuxando, em quanto o
+coração novo e enganado lhe empresta as côres do céo. Affirmo-lhe, senão
+authorisada pela experiencia, amestrada pelo exemplo e confissões
+sinceras das minhas amigas, affirmo-lhe que o seu indefinido de poeta
+nunca lhe ha-de avultar em corpo e alma, se os olhos descerem do céo a
+procural-o na terra. Guarde, pois, com extremosa avareza a imagem de sua
+mãi, e não consinta que outra lhe dispute o exclusivo amor que lhe dá.
+
+Disse.
+
+O academico ouvia, pela primeira vez, a expressão floreada, a linguagem
+musical, o periodo arredondado, como de folhetim ambicioso, na bocca de
+mulher. Achava elle certa incongruencia entre as feições menineiras da
+provinciana e o tom sentencioso do discurso. Relanceou-lhe subito na
+memoria o meu nome, segundo me elle contou depois. Lembrou-se d'aquelle
+meu estirado discurso, na sua aldêa, dezoito mezes antes. Tropeçou na
+hypothese de que o singelo exterior da palavrosa menina mascarava um
+coração desbaratado por desenganos, e engenhoso de armadilhas a corações
+noviços. Alguem diria que o silencio de Jorge, seguido á ultima
+expressão de Silvina, era acanhamento. Já não: era a duvida.
+
+--Ficou tão pensativo, snr. Jorge--tornou Silvina.--Está pesando no seu
+juizo a verdade das minhas palavras? Impressionaram-no tanto!...
+
+--É verdade, minha senhora; estava pesando as palavras de v. exc.ª com
+outras que me disse um homem de trinta annos.
+
+--Contrarias ás minhas?
+
+--Semelhantes na intenção; mas muito mais desconsoladoras na fórma.
+Disse-me elle que ha muitas mulheres que matam, e uma só que salva.
+
+--Mas affirmou-lhe haver uma que salva?
+
+--Sim, minha senhora.
+
+--E quantas vezes lhe disse elle que podia ser victima de sua devoção e
+generosidade a mulher que sente em si o coração salvador?... Creio que
+me não fiz comprehender...
+
+--Comprehendi, minha senhora. Pergunta v. exc.ª se a mulher capaz de
+erguer a alma despenhada de sua grandesa, não se despenhará ella mesma
+n'essa generosa tentativa;
+
+--Entendeu.
+
+--Não sei responder, snr.ª D. Silvina. Eu não sei nada do mundo. Ignoro
+os precipicios em que póde cahir o homem, e não sei tambem a que alturas
+póde levantal-o o amor. Já imaginei o mundo mais agradavel: começo a dar
+cem illusões por cada realidade. Não cuide v. exc.ª que eu fiz pé atraz
+á vista da verdade despoetisada, e feia como dizem os pessimistas que
+ella é, vista á luz da razão pura; vejo, porém, que se vão fenecendo as
+flôres da minha imaginação á maneira que escuto e pondero, com religiosa
+crença, as palavras que v. exc.ª me diz, e as que me disse o bom ou
+funesto despertador da minha razão, que dormia acalentada nos braços da
+poesia. De que serve o desengano antes que a fatal experiencia no'l-o
+dê?! Para que me diria v. exc.ª, com ar de tanta verdade e segurança,
+que eu nunca encontrarei o puro original da cópia que a minha phantasia
+entrevê?!
+
+--Diz bem! atalhou Silvina meigamente triste, ou adoravelmente
+dramatica--diz bem! Arrependo-me da injustiça que fiz ás mulheres, e
+mesmo da crueldade com que me tratei a mim propria. Fallei pela bocca da
+sociedade, snr. Jorge Coelho. Tenho ouvido, e lido nos romances as
+palavras geladas e desanimadoras que lhe disse, com o immodesto animo de
+distinguir-me a seus olhos. Menti-lhe, e menti ao meu coração. Não se
+desalente ao entrar na vida, e nunca de mim se lembre como de fada má,
+que lhe fadou a desventura. Espere, creia, e obedeça aos impulsos do
+coração, em quanto a peçonha da mentira o não contaminar. No mundo deve
+existir a imagem da mulher digna de senhorear-lhe a alma com a de sua
+mãi, cuja face eu beijaria, hoje, se podesse, com respeito e ternura de
+filha. Quando estiver nos braços d'ella, diga-lhe que encontrou no
+Porto, e n'um baile--onde raro sentimento grave entretem por momentos o
+espirito--diga-lhe que encontrou uma mulher que lhe manda n'esta rosa um
+beijo de sympathia e veneração.
+
+E, dizendo, tirou do decote espeitorado do vestido a rosa, chegou-a aos
+labios, e deu-a com gracioso ademane a Jorge, que lh'a recebeu com mão
+tremente.
+
+--Cumpre o meu pedido? tornou ella.
+
+--Pergunta-me se cumpro? É este um encargo doce que v. exc.ª faz ao meu
+coração. Farei que minha mãi receba nos labios o beijo que vai n'esta
+flôr. Depois, pedir-lhe-hei que m'a ceda, que eu possa chamar-lhe minha,
+enthesoural-a como se ella para mim cahisse da grinalda d'um anjo... Se
+ha no coração poesia mais sublime que a da saudade...
+
+--Ha, sim... a da esperança...
+
+--A da esperança!... balbuciou Jorge, levando machinalmente a rosa aos
+labios, e córando da irreflectida acção que se lhe afigurou menos
+respeitosa.
+
+(Oh santa innocencia! não sei se és mais tola que santa!)
+
+Desculpem o parenthesis que desfeia um pouco o bello e harmonioso da
+fórma dialogal. Guarde-me Deus de motejar com insulsas facecias a
+candura, o rubor, a timidez encantadora dos vinte annos de Jorge.
+Invejo-lhe o que já não posso haver nem sequer com grande esforço
+d'arte; mas rio-me d'elle e de mim, quando as galhofeiras memorias do
+que fui, ha hoje quinze annos, sahem d'entre as flôres mirradas da minha
+primavera, e vem cá a este glacial dezembro da vida fazer-me assuada e
+zombaria, para que eu me dôa e corra das criancices de então. Pois
+rio-me com effeito, que é para isso a cousa, e riam-se, á vontade, os
+que de mim souberem que muitas vezes todo eu me incendiava em carmim e
+rosa, quando o olhar logrativo da mulher me alvoroçava o pudor a ponto
+de afeminar-me, e fazer de mim uma menina que... Quasi me escorregava
+agora dos bicos da penna uma necedade das que se não desculpam á propria
+santa innocencia que, repito, não sei se é mais santa que tola.
+
+Vamos á historia com ajuda da providencia dos romancistas, a qual
+providencia, muitas vezes, abre mão d'elles, e deixa-os para ahi
+parvoejar que é mesmo cousa de peccado.
+
+Silvina deu fé do rubor de Jorge, e...--querem saber a verdade
+inteira?--não gostou. É um segredo da essencia mulheril o dissabor que a
+molesta, a seu pesar... (vá, diga-se a _seu pesar_) quando o homem se
+amulherenga ao pé d'ella, e lhe não deixa o exclusivo de mulher. Receios
+de desmerecer em graças quando lhe é força ser mulheril? Consciencia
+ingrata d'uma superioridade que a desenfeita? Recursos que perde de
+captivar pelo mimo, com a brandura caridosa, por estremecimento do
+pudor, toques do pejo virginal, que ora lhe transluzem nas faces, ora
+lhe cerram os labios? Não sei se é tudo, ou alguma cousa, ou nada
+d'isso. A verdade é que a mulher não gosta de homens que coram, de
+homens que choram, de homens que... não são homens, está dito tudo, e
+n'isso ficaremos, se acham que está discutida a materia. _Materia_...
+que aleivosia! Isto é espirito o mais espiritual que póde ser. Espirito
+transcendental, d'aquelle que devia andar na mente de muito casquilho,
+paralta, janota, ou como é que se chama a tal alimaria, que se
+desentranha em lufadas de cynismo nos botequins, e vai ao pé das
+costureiras tartamudear jaculatorias de ternura.
+
+Fica, pois, justificado o desgosto de Silvina, quando viu Jorge córar,
+por ter beijado a flôr, onde os labios da peregrina minhôta haviam
+imprimido o beijo de encommenda para a provincia.
+
+--Agora, disse ella; são dous os beijos que leva a sua mãi, em uma só
+flôr. Queira Deus que o halito dos labios do filho não tirasse o perfume
+ao dos labios da amiga.
+
+--Creio que sim--disse Jorge corando outra vez--creio que sim...
+
+--Porque?!--atalhou Silvina com despeito mal comprimido.
+
+--Porque sinto no coração o perfume do seu beijo.
+
+Sahiu-se melhor do que eu pensava. É aquella uma das respostas que
+costumam ir de casa gizadas; mas creio no improviso. E assim, explicado
+o segundo accesso de escarlate, desvaneceu-se o desaire em que estava
+Jorge na opinião caprichosa da dama, que replicou muito requebrada:
+
+--Pois não esperdice o perfume, porque nunca sentirá no coração outro
+mais puro, mais digno de incensar o seu amor reflectido do céo.
+
+--Amor!--interrompeu Jorge com exaltado impeto de criança--Olhe que essa
+palavra póde ser-me veneno para toda a vida, se v. exc.ª consentir que
+eu a guarde...
+
+--No mais intimo de sua alma... Guarde... que nunca a proferi com tão
+pouco conhecimento de quem a dou, e tão pouca esperança de a vêr florir
+em venturas.
+
+Jorge Coelho ia naturalmente córar terceira vez, quando Francisquinha da
+Cunha chegou, com ar de zanga, e disse:
+
+--Vamos, prima, que o pai quer sahir... e é tão cedo... que raiva!
+estava agora ouvindo uma enfiada de tolices tão peregrinas...
+
+--De quem?
+
+--Eu sei cá de quem? d'um homem que se chama Pires, e que este senhor
+conhece... Não lh'o diga, não? Eu fui indiscreta...
+
+--Não diz nada--acudiu Silvina--pois não, snr. Jorge?
+
+--Eu, minha senhora!...
+
+--Asseverou-me--continuou Francisca gesticulando vertiginosamente com
+cabeça e braços--que se eu o não amasse, havia de espirrar á minha
+fronte de algoz o seu sangue de Larra, de Werter, de... Ai que homem,
+que homem aquelle! O que se produz na Maya! Ó filha, eu não posso perder
+aquillo!... Pires é meu...
+
+Ai! o pai... Vamos, Silvina.
+
+Silvina estendeu a mão a Jorge, e disse a meia voz:
+
+--Vá vêr-me ámanhã ao jardim de S. Lazaro.
+
+Jorge balbuciou alguma cousa que não vinha do coração. N'este momento,
+um receio doloroso o affligia com esta pergunta: «Esta mulher irá
+escarnecer-te, como viste escarnecido o teu amigo?»
+
+
+VI.
+
+As occorrencias do jardim de S. Lazaro, no dia immediato, não merecem
+chronica. O que póde, porém, succeder a um moço, que passeia o coração
+amante, no jardim do Porto, é bom de dizer-se, e folga a moral de
+ouvil-o.
+
+Se o leitor está no Porto, e vai apaixonado ao jardim de S. Lazaro, e
+conhece a familia da menina casadoura, por quem anda em brasa, faz a sua
+primeira cortezia, e foge de encontral-a segunda vez, porque repetir a
+cortezia é, além de provincianismo puro minhoto, cousa que cheira a
+inconveniencia, e póde ser até escandalo. Resta-lhe o expediente commum,
+e salva assim a honra das familias: é amoutar-se como fauno por entre as
+murtas e bosques de acacias, lobrigando aqui, e além, a caça estranha.
+
+No jardim de S. Lazaro os dous sexos dão ao passeio o que as sovinas
+municipalidades não tem querido dar-lhe; isto é, uma luxuosa
+superabundancia de estatuas, as quaes, tirante a alma, nem sempre se
+avantajam ás do marmore nacional. Sentam-se as meninas, mui bem
+compostas e ageitadas de mãos e cabeça, e alli se estão deleitando na
+vista do repuxo, em quanto o papá rufa com tres dedos na tampa da caixa
+do tabaco o compasso da modinha conhecida de Verdi ou Donizetti, que as
+trombetas bastardas estão executando... _executando_, sim, é a palavra.
+
+Ao relance artistico dos olhos não é feio aquillo. Cuida enxergar o
+myope em cada renque de cadeiras uma fileira de _madonas de la sedia_;
+mas a illusão d'um myope não vale os desconsolos de tanta gente que tem
+a sua vista escorreita, e pensa que a estatua deve ter um _quantum
+satis_ de espiritualidade.
+
+Ha pontos na casca do globo em que a virtude custa pouco. Não sei se a
+bemaventurança é accessivel por igual de todas as terras; mas,
+convencido da rectidão que assiste aos negocios dos outros mundos,
+quer-me parecer que quatro virgens a um tempo, sahidas em espirito, uma
+de Pekin, outra de Constantinopla, outra de Paris, e a quarta do Porto,
+devem de ter differente recebimento e quartel nas regiões da gloria,
+onde ha premios para a virtude.
+
+Na razão directa da tentação, nos esforços em rebatel-a, é que deve ser
+aferida cada alma victoriosa que, apesar dos demonios succubos e
+incubos, se alista nas legiões do céo. Não se dogmatisa, entendam:
+quer-se escassamente enunciar idéa nova, resaibada de heresia, a vêr se
+algum hypocrita illustra o livro, com as injurias da sua caridade
+apostolica. Não ha no romance outro merito que o inculque, nem
+perspectiva melhor agourada para o editor.
+
+As adoraveis virtudes das senhoras do Porto não são de todo um
+merecimento: orçam mais por uma necessidade. O homem d'alli sente um
+terço, ou ainda menos das precisões espirituaes que, n'outras partes,
+incommodam o coração humano. Esta feliz frugalidade procede do geito
+d'aquella sociedade, geito antigo que degenerou em aleijão, rachitismo
+moral, corcunda hereditaria, e de mais a mais pegadiça, por quanto, se
+não é do Porto, e por lá apégar alguns mezes, leitor, apalpe as costas,
+e topará uma protuberancia a crescer, a crescer, até se formar corcunda,
+que irá comsigo a stoda a parte.
+
+Aquelle aleijão, de barreiras do Porto a dentro, não fica mal a ninguem.
+Os liliputianos, conta Swift, chanceavam o viajante europeu, que tinha a
+ridicula felicidade de ser um homem bem apessoado e perfeito. As
+bellezas do Congo recuam de puro nojo diante de um formoso nariz branco
+sem pingentes. No Porto ha o escarneo e o tedio que explicam o paradoxo
+do selvagem.
+
+A juventude masculina da cidade heroica está em contacto com a
+civilisação d'este seculo pelo alfaiate. Não poderam os velhos trancar
+as portas do burgo de Moninho Viegas á invasão dos figurinos. Calção e
+rabicho foram banidos; o tamanco e o chinelo d'ourélo cederam,
+constrangidos, o joanête indigena ao verniz, e ao couro da Russia; o
+difficil, porém, era pentear, vestir e calçar o espirito de gaito e arte
+que a gente, fitando em rosto o filho da civilisação portuense, não
+tivesse de descer os olhos a buscar-lhe nos pés o tamanco. É o sestro
+das transfigurações de golpe e abruptas.
+
+Um joven bem estrellado de minas e camapheus, chama-se no Porto um
+janota. A menina ingenua diz á visinha: «conhece aquelle janota?» ou
+«fulaninha namora um janota louro.» Não se cuide, porém, que este
+epitheto implica mofa ou menospreso como em Maçãs de D. Maria, ou Lamas
+d'Orelhão. O janota portuense é uma cousa séria, que póde ser vereador,
+e irmão da ordem terceira.
+
+Por via de regra, o janota é uma creatura que nasce, cresce, abre-se em
+florescencia variegada de frakes, e colletes, e pantalonas; toma posse
+do balcão paterno aos trinta annos, corta o bigode para que lhe
+descontem as letras, põe oculos se teve o infortunio de estragar a vista
+com a luneta que lhe servia de não vêr nada, fructifica em crianças
+gordas que entrajam á escoceza, e escôa-se de vida através de quarenta
+annos de lerda pachorra de espirito, legando á prole um nome limpo, com
+pequenas farruscas que se ensaboam na barreia de um necrologio, e dous
+legados de cincoenta mil reis ás entrevadas da Cordoaria, e alguma cousa
+ao hospital do Terço.
+
+D'este viver assim resultam duas cousas que explicam muitas outras:
+primeira, que o elegante portuense dispende os annos perigosos da
+adolescencia vestindo-se de manhã para sahir de tarde; segunda, que as
+meninas, ao despegar da costura, ageitam os laçarotes do toucado,
+entufam os punhos das manguinhas, encostam o cotovello ao peitoril da
+janella, seguem o olhar de esguelha que lhe vai revirando o terceiro ou
+quarto janota predilecto, e fecha a janella quando a passagem do quinto
+é duvidosa.
+
+D'est'arte, as paixões são innocentes e ao mesmo tempo substanciaes como
+um caldo de gallinha. As relações epistolares não derrancam a pureza das
+olhaduras. A carta, em regra, é declaração escripta que tolhe a poesia
+da declaração muda. Palestras, quer de sala, quer a horas mortas, da rua
+para a janella, que piedosa criada deixou aberta, são, se a patrulha o
+tolera, a morte de ambas as declarações, porque o janota que falla é
+muito menos soffrivel e grammatical que o janota que escreve. Ainda
+assim, o casamento remata isto que se chama o _namoro_. E o mais é que
+ella e elle, nas suas horas de recolhimento, cada qual a só por só com a
+sua consciencia, contempla saudoso o passado e diz: «Que bella mocidade
+eu tive! muito me diverti!»
+
+Ponderam alguns authores que a morigeração dos costumes portuenses é o
+necessario effeito do atraso da civilisação e policia da classe media,
+em que as outras no Porto se embaralham e perdem. Esta palavra
+«civilisação» anda mal trazida para tudo. Se o refinamento das
+industrias, se a arte de crear capitaes, no minimo do tempo e com
+diminuto trabalho, constitue a maxima civilisação material, o Porto
+ganha a aposta aos mais ambiciosos prospectos de riqueza aventados pelos
+economistas. E assim é que alli enxameam os Midas no ouro e nas orelhas;
+porém, menos castigados que o fabulado Midas da theologia grega, logram
+digerir o boi e o toucinho na succulenta substancia que a natureza lhes
+deu.
+
+Os que negam ao Porto a vanguarda do progresso industrial, que é a mesma
+civilisação, irmã gemea da intellectiva, e fonte da sã moral, derruem
+desde os alicerces a sciencia moderna, confessando assim a utopia do
+systema vulgarisado nas escolas, nas gazetas, e nas fórmas de governar
+das nações mais cultas. No Porto, dão-se as mãos a riqueza e os costumes
+edificativos, para se justificarem estes por aquella, e a primeira pelos
+segundos. A industria é a de hoje: os costumes são os de ha um seculo. O
+chefe de familia poderá ser moedeiro falso, negreiro aposentado com
+exercicio na casa real, alliciador de escravos brancos, contrabandista
+tolerado; mas a filha d'esse homem da época vive intemerata como a filha
+de Virginio; cuida que seu pai, recolhendo a casa encalmado e suado, vem
+de servir a patria como Cincinnato; e, chegada a occasião de exercitar
+as virtudes antigas, não duvidará ser Lucrecia, e Lucrecia menos
+equivoca que a de Colatino.
+
+Sobre este assumpto, mediocre seria o engenho que não produzisse um
+volume. Em louvor do Porto, escreveu o socio da academia real das
+sciencias Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos dous folhetins de
+nervo e polpa, com muito sal attico á mistura. O abundoso escriptor
+escreveria in-folios, se lhe aprouvesse, porque já um dos sete sabios da
+Grécia, Pittacus, parece que era, escreveu um volume dos louvores da mó
+d'uma atafona; e, para encarecimento do rábano, deixou Marciano um
+tractado muito de vêr-se. O talento é uma cousa temivel.
+
+Ora não vão já d'aqui os malsins de intenções maliciarem essas
+inoffensivas palavras, que não desprimoram, nem arguem deshonra ao
+paladium das liberdades patrias, como usam dizer os artigueiros da terra
+a proposito de qualquer empeço que lhes assombre o seu municipio, se
+acontece o governo ir de encontro a alguma postura sobre a carne de
+porco, ou cousa assim em que valha a pena lembrar ao mundo que o Porto é
+o paladium das liberdades patrias.
+
+N'isto pensava eu no jardim de S. Lazaro, n'aquelle dia em que Jorge
+Coelho, mais imprudente que atrevido, se avisinhára de Silvina, que,
+passados minutos de conversação, lhe disse:
+
+--Não se demore mais tempo, porque toda a gente nos observa com ar
+espantadiço. Eu cuido que estamos dando grande escandalo.
+
+Jorge Coelho retirou, e deu o braço ao amigo Pires, que fremia de raiva
+resultante d'uma desfeita que recebera de D. Francisca.
+
+--Desfeita!--disse Jorge--pois uma senhora faz desfeitas!?...
+
+--O requinte hediondo da insolencia!--vociferou o fidalgo da Maya
+tascando com phrenesi a ponta do charuto.
+
+--Que te fez?
+
+--Ouviu-me hontem na «Assembléa » uma declaração, acolheu-a com doudo
+enthusiasmo, disse-me que eu era um homem tão admiravel como perigoso;
+tremeu de pavor quando eu lhe fiz sentir o desfastio com que me
+arrancaria as entranhas, se me ella não aceitasse a vida como
+complemento da sua. Tudo isto me authorisava a offerecer-lhe hoje uma
+carta, com a certeza de me ser aceita. Offereço-lh'a, e ella responde-me
+que não sabia lêr se não letra redonda! Leonardo de Sousa Pires e
+Albuquerque sabe vingar-se. Vou ámanhã á Maya; depois... ai d'ella e de
+mim!
+
+
+VII.
+
+Christovão Pacheco de Valladares, morgado de Santa Eufemia, esteve sete
+dias e sete noites emparedado no seu quarto da hospedaria da «Aguia
+d'Ouro» depois d'aquelle desastre da «Assembléa.» Alguns hospedes
+repararam na reclusão, e averiguaram dos criados que exquisito homem era
+aquelle. D'estes hospedes, o mais grado era o morgado de Matto-grosso,
+solarengo de «Entre-ambos-os-rios» homem de grandes brios e musculos.
+Apenas informado, foi bater á porta de Christovão Pacheco, dizendo pela
+fechadura que abrisse que era parente e amigo. A identidade do
+parentesco foi de facil prova.
+
+--O primo Pacheco não póde duvidar--disse o morgado de Matto-grosso--que
+um irmão de meu setimo avô, que havia nome Heitor Moniz de Valladares
+foi casar á casa de Santa Eufemia com D. Urbana Pacheco, filha de Lopo
+Pacheco, governador de Cochim...
+
+--A fallar-lhe a verdade--disse o de Santa Eufemia--eu não sei nada de
+linhagens; mas tenho ouvido fallar a meu pai n'esse governador de
+Chacim.
+
+--Cochim, primo Christovão, Cochim.
+
+--Ou Cochim, ou lá o que é...
+
+--E saiba que da sua prosapia sahiram os mais illustres sangues das
+familias do Minho. Talvez v. exc.ª, primo, não saiba que a nossa
+linhagem está mui de perto aparentada com Porto-Carreiros!
+
+--Não sabia, nem sei de que sirva isso.
+
+--De que sirva isso!--acudiu Egas de Villas-boas Cão e Aboim
+Encerra-bodes, que assim se chamava o morgado de Matto-grosso. Não diga
+tal, primo Christovão Pacheco. Pois ignora que do solar dos
+Porto-Carreiros, fidalgos mais velhos que a monarchia trezentos annos,
+sahiu ha cinco seculos um infanção, que casou em Castella, e foi tronco
+da descendencia que vem illustrar-se na pessoa da actual imperatriz de
+França?[1]
+
+--Não sabia, palavra de honra, e isso que faz?--tomou o de Freixieiro.
+
+--Faz que somos parentes da imperatriz, e que podemos dizel-o á bocca
+cheia a esses de sangue azul da capital, que nos chamam a nós fidalgos
+de meia tigella, esquecidos de que os mais nobres barões da côrte de
+Affonso edificaram os seus solares entre Douro e Minho, e d'aqui, por si
+ou seus filhos, acompanharam os reis da primeira dynastia ás conquistas
+do restante da Lusitania, e d'além-mar.
+
+--A fallar-lhe a verdade, primo, quando entro a pensar n'essas cousas
+com que meu pai me quebra a cabeça, parece-me que trocava toda a minha
+fidalguia por algumas libras.
+
+--Oh! que blasphemia!--Exclamou Egas n'um impeto de sincera
+indignação.--Troca-se por libras um neto de Heitor Moniz de Valladares!?
+
+--Não é trocar-me por libras;--acudiu desabridamente o de Santa
+Eufemia--é que eu estou de vinte e oito annos, e ainda não pude sahir de
+casa senão duas vezes com esta; e não tenho remedio senão ir-me embora
+para Freixieiro, por que meu pai escreve-me hoje essa carta que o primo
+póde lêr, e depois me dirá se me não era melhor ser antes um caseiro das
+minhas fazendas, que me não servem de nada, n'esta idade em que eu
+preciso de dinheiro.
+
+--Vejamos isto--disse o de Matto-grosso, abrindo a carta, e lendo o
+seguinte:
+
+ «Meu estimado filho.
+
+Já te disse que venhas para casa, que não ha dinheiro para andar em
+folganças. Os tempos estão muito bicudos, e o bicho já pegou nas
+videiras. Os bezerros do caseiro da Portela lá estão com a molestia, e a
+cheia levou a parede do lameiro do Quinchoso. Tudo são despezas. O
+abbade pegou-me pela palavra, e quer que eu mande pôr a porca no sino da
+igreja. O milho ainda não chegou á conta; os quatro carros que se
+venderam não chegaram para pagar as decimas. O garrano está de todo
+espravonado; pozes-te-o bom com a tua ida ao Porto. Tudo são desgraças.
+Em quanto á roupa nova, deixa-te disso; a casaca que levaste está muito
+boa, e o melhor é fazel-a em Guimarães, que são mais em conta os
+alfaiates. Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou ordem ao
+meu amigo brasileiro para te dar para a jornada cinco pintos; olha se
+ajustas a cavalgadura sem gorgeta. Dou-te a minha benção, e sou teu pai
+carinhoso,
+
+ «_Vasco._»
+
+--Que me diz a isso?--exclamou Christovão.
+
+--Eu sempre ouvi dizer--respondeu o primo Egas--que meu tio Vasco era um
+tanto fona; comprehendo que na idade do primo Christovão custa muito não
+brilhar na sociedade, a que o nosso nascimento nos dá direito; não
+obstante, seu pai está accumulando para o seu filho unico uma grande
+casa, e é preciso perdoar-lhe a intenção que é boa. Vamos ao mais
+importante: o primo quer dinheiro? quer os meus cavallos? quer os meus
+lacaios? tem tudo ás suas ordens; o que eu não consinto é que diga que
+trocava os seus brazões por algumas libras. Vamos, franqueza, precisa de
+fato? Chama-se já aqui o alfaiate: hoje mesmo póde sahir de ponto em
+branco. Tenho cá dous cavallos, o _corisco_ e o _phaetonte_: o primo
+monta qual quizer. Diga-me agora a que veiu ao Porto.
+
+O morgado de Santa Eufemia, entre jubiloso e magoado, contou ao primo a
+historia do _seu amor de raiz_, como elle dizia. Mostrou as cartas de
+Silvina, que elle tinha atadas com um barbante n'uma bolsa interior da
+mala. Passou á ingenuidade da galhofa que lhe fizeram na «Assembléa»
+narrando as miudezas da casaca, e expoz o collete ginja e a gravata das
+orelhas fabulosas. E terminou em tom de lastima, accusando a perfidia da
+mulher a quem elle quizera dar o seu nome.
+
+Egas de Encerra-bodes, depois de provar que na linhagem de Silvina havia
+um reles sargento-mór e um capitão de milicias, afóra duas bastardias e
+um filho sacrilego no seculo XVI, entrou a fuzilar colera dos olhos,
+tocando no ponto mais grave dos queixumes do neto do governador de
+Cochim.
+
+--Eu, dizia elle batendo no peito com a mão aberta, eu, primo
+Christovão, na sua posição teria açoutado os perros que o escarneceram
+na «Assembléa.» Esses que riram de Christovão Pacheco é a villanagem,
+cujos paes vieram para o Porto de rabona de cotim, chapéo braguez, e o
+tamanco herdado. Os nossos caseiros, quando a liberalidade de nossos
+paes, lhes concedia poderem enroupar de cotim os filhos, mandavam-os
+para aqui. Os filhos d'esses que para aqui vieram, primo, são os
+insultadores da risada boçal, os miseraveis que através da casaca, da
+pelle da luva, e do verniz das botas, estão accusando o costado proprio
+do fardo, o pé que reclama o tamanco, e a mão que suspira pelo cabo da
+enxada. Tenho visto esse gentio nos botequins, e por sobre o hombro
+observo os risos de grosseira mofa com que recebem o despreso dos que
+elles denominam _parvalheiras_. Parvalheiras, a nós, primo, que temos em
+nossas casas a educação que elles tem entre as balanças, e timbramos em
+honrar os appellidos de nossos avós, descendo até elles para que elles
+não subam até nós. Se quer vêr quanto é villã a basofia d'estes
+tendeiros, que trocam por titulos ceiras de figos e costaes de bacalhau,
+tenha o primo a longanimidade de os admittir á sua convivencia, e verá
+como se elles desfazem em lorpas cortezias, e citam a cada instante o
+seu nome, como um dos seus amigos d'elles... Vamos ao ponto essencial.
+Christovão Pacheco foi ultrajado. Um primo de Egas de Matto-grosso não é
+ultrajado impunemente.
+
+Tem um rival, primo?
+
+--É de crer que sim.
+
+--Fidalgo?
+
+--Isso não sei.
+
+--Cumpre sabêl-o.
+
+Uma hora depois entraram fardos de fato feito no quarto do morgado de
+Santa Eufemia, e logo botas do sapateiro francez, e chapéos da melhor
+fabrica. Vestiu-se Christovão Pacheco, e era de vêr em que gentil moço
+se transfigurou, e que nova alma entrou n'aquelle corpo. Se elle tivesse
+lido frei Luiz de Sousa, aquelle esbelto cortezão que se sepultára no
+frade, recordaria estas palavras escriptas com tanta sciencia do absurdo
+coração do homem: «É nossa natureza muito amiga de si, e experiencia nos
+ensina que não ha nenhuma tão mortificada que deixe de mostrar algum
+alvoroço para uma peça de vestido novo. Alegra e estima-se, ou seja pela
+novidade, ou pela honra e gasalhado que recebe o corpo: até os
+pensamentos e as esperanças renova um vestido novo.»[2]
+
+Assim foi o morgado de Santa Eufemia. Quando se viu, desconheceu-se.
+Outro corpo e outra alma. Olhava para o polimento das botas, e o vidrado
+d'ellas reverberava-lhe na alma em lampejos de alegria. Não se cançava
+de correr a mão pela macia seda do chapéo, e remirava-se ao espelhinho
+que o imaginoso chapelleiro enquadrára no centro da copa. Com o que elle
+se ia zangando foi com as luvas de nove pontos e meio, que gemiam pelas
+costuras, com a pressão do dedo polegar que queria á força entrar com os
+outros de uma assentada. O do Matto-grosso explicou ao primo os
+mysterios da luva, com muito mais siso que um certo folhetinista do
+Porto inventor dos mysterios da dança. No Porto ha gente para inventar
+tudo quanto ha.
+
+Os dous morgados sahiram da «Aguia d'Ouro» no domingo posterior áquelle
+em que Silvina fallára um momento com Jorge, no jardim. Para o jardim
+foram tambem elles, seguindo Silvina e Francisca, que saturam da missa
+dos Congregados. Quando subiam a rua de Santo Antonio, um grupo de
+elegantes, para quem a physionomia do morgado ficára indelevel, desde o
+baile, pararam maravilhados da reforma, fixando-o com impertinente
+reparo.
+
+O morgado de Matto-grosso estacou em frente do grupo, e disse:
+
+--Ora vamos: andem, ou desandem!
+
+Os elegantes abriram alas, encarando-se mutuamente com um ar de pasmados
+da propria docilidade.
+
+--Bravo! exclamou Leonardo Pires, que seguia de perto os morgados.
+
+Egas de Encerra-bodes voltou-se rapido para o da Maya, e disse mal
+assombrado:
+
+--Que é lá isso?
+
+--Disse _bravo_!--replicou Pires com serena jovialidade, porque gostei
+immenso de vêr aquelles bigorrilhas ladearem á esquerda e direita, e
+comprehendi a razão porque elles pararam contemplando este cavalheiro
+que eu vi, _mutatis mutandis_, no baile da Assembléa Portuense. Eu
+honro-me tambem de ser parvalheira, e como tal me apresento, pedindo-lhe
+que me recebam no numero dos seus conhecidos em quanto me não conhecerem
+digno da sua amisade. Sou da Maya, da familia dos Pires e Albuquerques,
+e primeir'annista da faculdade de direito. Tenciono formar-me porque não
+tenho que fazer, e não me conformo á vida de meus antepassados, que
+viviam dos galgos e dos cavallos. Abomino cordialmente o Porto; mas ha
+aqui uma mulher que me tem preso a esta terra pela fibra vingativa d'um
+coração nobre. Aqui estou esperando a hora de provar-lhe que senão
+brinca com um homem que tem esculpidas no seio as maximas herdadas de
+avós.
+
+Pires foi fallando n'este estilo até ao jardim. O morgado de
+Matto-grosso, scismando com o que seria no _livro dos costados_ a
+familia de Pires e Albuquerques da Maya, escassamente ouviu o enfatuado
+palavrorio do mettidiço. Christovão ia um pouco desconfiado da
+bacharelice de Pires, que já o tratava por «vossê» quando entrou no
+jardim.
+
+Lá estava Silvina. Rodeavam-na alguns cavalheiros do Minho,
+censurando-lhe a crueldade com que abandonara o morgado de Santa
+Eufemia. D. Francisca da Cunha chanceava com remoques os patronos da
+victima do collete-ginja. A fidalga de Freixieiro, esporeada pela prima,
+fazia tambem riso do morgado, calando os rumores da consciencia que a
+não louvava. Era, pois, certo que o coração d'esta menina, degenerado
+acaso do seu bom natural, em poucos mezes de pratica de outra sociedade,
+se estava doendo de ter desconfessado, no baile, o amor de um homem,
+cuja mão tres mezes antes apertára com fervoroso amor e esperança de ser
+d'elle.
+
+Jorge Coelho presenciava de longe, e cioso, a attenção que Silvina dava
+aos cavalheiros minhotos. Não os conhecia, para afoutar-se a entrar na
+roda, e interrogar com uma palavra vaga o coração de Silvina. Esta,
+porém, repellindo com desdenhosa philosophia os pesares que secretamente
+a remordiam, ergueu a fronte desanuviada, poz os olhos nos de Jorge, e
+fez uma ligeira cortezia, que todos julgaram ser um aceno para chamal-o.
+
+A este tempo chegavam, perto de Silvina, Egas de Encerra-bodes,
+Christovão de Valladares, e Leonardo Pires. O do Matto-grosso
+comprimentou alguns primos que estavam na roda; e o de Santa Eufemia,
+voltando as costas para as senhoras, respondia, sem saber o que, a
+algumas perguntas d'um cavalheiro. O inquieto Pires, furando por entre
+todos, foi apertar a mão a Silvina, e dizer-lhe que estava o ideal da
+quinta essencia das fadas, com o que D. Francisca se riu, e riso fôra
+aquelle que abrira na testa de Pires um vinco dos que promettem
+cataclismos.
+
+--Dá-me novas de Jorge?--disse Pires a D. Silvina.--Eu cheguei hontem da
+Maya, e não pude ainda encontral-o no hotel. O amor reduzil-o-ia a
+Sylpho, minha senhora?--proseguiu o estabalhoado, mordendo o charuto ao
+canto esquerdo dos beiços, e arqueando os braços na cintura.
+
+--O seu amigo, disse Silvina, em voz alta, para desaffrontar-se da
+grosseira postura do morgado--está defronte de mim.
+
+Pires fez uma pirueta sobre o calcanhar direito, fitou a luneta no
+condiscipulo, contemplou-o da altura da sua critica, volveu de novo o
+rosto risonho para a dama, e disse:
+
+ _Sobre a pyra fumegante,_
+ _Ardem ternos corações._
+
+D. Francisca deu largas a uma risada estridula. Silvina sorriu
+prasenteiramente á tolice. Alguns morgados receberam o dito como cousa
+de espirito. Pires, contente do seu auditorio, ia retirar-se quando o
+morgado de Santa Eufemia, voltando a cara jubilosamente soez para o
+grupo, soltou uma cascalhada secca e desafinada que assanhou cruelmente
+os nervos de Silvina.
+
+Todos estes movimentos foram seguidos de outro mais significativo. Os
+olhares convergiram todos sobre Jorge, que ficou encarnado até ás
+orelhas. Alguns dos cavalheiros murmuraram o quer que fosse, e
+nomeadamente Egas de Encerra-bodes fitou-o insolentemente, e disse a
+meia voz:
+
+--É aquelle?!
+
+--Pelos modos!--respondeu o primo.
+
+--Pobre criança! é preciso dizer ao pai que o mande buscar.
+
+
+VIII.
+
+Tinha Leonardo Pires, á volta com muita pequice, assomos de brios
+capazes de enganar a gente. Não levou em paciencia que os morgados
+rissem do seu amigo. Encarou com ferocidade o de Matto-grosso, e disse,
+estendendo o braço em attitude esculptural para o lado onde Jorge
+estava:
+
+--Aquella criança, que alli está, tem um dedo de homem, que faz recuar
+perfeitamente o gatilho de uma pistola.
+
+Os circumstantes algum tempo não tugiram. Se não fosse o melodramatico
+da postura, a cousa não era para rir; mas a lentidão, com que Pires
+desceu o braço, fez espirrar uma cascalhada universal, salvo Silvina que
+arquejava em ancias de raiva.
+
+Jorge conheceu que o escarneciam. Ergueu-se, veiu direito ao grupo,
+accendeu o charuto no de Egas de Encerra-bodes, murmurou seccamente um
+_obrigadissimo_, e foi saudar Silvina e Francisca com a desenvoltura
+desacostumada que lhe dava agora o ciume e a ira.
+
+Silvina, contente da façanha, deu-lhe lugar immediato no seu banco.
+Porém, o pai de D. Francisca da Cunha, adivinhando tempestade nos
+olhares coriscantes de Christovão Pacheco, ergueu-se, puxou para baixo
+as pantalonas que tinham marinhado até meia-canella, e disse:
+
+--Vamos, meninas, são horas de jantar; vamos ás sopas.
+
+Levantou-se Jorge, sem ter dito palavra; mas Silvina, estendendo-lhe a
+mão, de sorte lh'a apertára e sacudira, que fez evidente a intenção de
+tornar bem reparado o feitio, muito de notar-se em menina de sua idade e
+educação aldeã.
+
+Mal as damas voltaram costas, o morgado de Santa Eufemia foi bruscamente
+a Jorge Coelho, e disse-lhe:
+
+--O senhor é um petisco! Não se me ande a fazer fino, quando não...
+
+Jorge respondeu assim á brutal arremettida:
+
+--A phrase é de carreiro; e, se não é carreiro quem me insulta, deve de
+ser um embriagado.
+
+Leonardo Pires dá um passo á frente de Jorge, põe a mão no peito, e
+exclama nem facundo nem irado:
+
+--Eu sou insultado na pessoa do meu amigo: exijo uma satisfação.
+
+O fidalgo de Traz-os-Montes, fazendo signal de retirada á filha e
+sobrinha, entremetteu-se no grupo que se ia cerrando, abriu os braços, e
+tirou do peito estas memoraveis palavras:
+
+--Os senhores estão aqui desacreditando a provincia. Se querem ser o que
+lá no matto são os homens de figados, peguem em dous carvalhos
+cerquinhos, e deem até tocar a quebrado; mas não queiram que os botem ás
+gazetas ámanhã. A minha opinião é esta. O menino vá para um lado--disse
+a Jorge, empurrando-o com brandura--e o senhor morgado para outro. Em
+quanto á rapariga, minha sobrinha, ámanhã eu a porei em casa do pai.
+
+Jorge, tirado pelo braço de Pires, sahiu do jardim, e pôde ainda vêr nos
+olhos de Silvina, um movimento de radioso orgulho da bravura d'elle.
+
+Na tarde d'esse dia recebeu Jorge a primeira carta de Silvina que resava
+assim: «_É bello ser amada por um homem de coração e esforço. É bello
+poder testemunhar a desaffronta do homem que se ama; mas é triste não
+poder, na presença de Deus e dos homens, dizer-lhe:_--TUA POR TODA A
+VIDA!»
+
+O academico da Maya ouvira lêr a carta, e disse, com quanta vehemencia
+lhe permittiu a posição horisontal n'um canapé, e as pernas sobre as
+costas d'uma cadeira:
+
+--Essa mulher tem espirito, palavra de honra! Amor e estilo, amigo
+Jorge, são o alpha e omega d'esta humanidade perfeita em que tivemos a
+dita de cahir das nuvens. De que diabo serve a rhetorica com que
+estragamos a memoria em Coimbra, não me dirás?! Se o padre Cardoso, que
+fez um compendio da arte de fallar, escrever uma carta como essa, diz tu
+que eu sou um parvo e que me não hei-de vingar da Francisca da Cunha!
+Diante d'estes talentos brutos, sem mão d'obra, como é o da tua Silvina,
+os Quintilianos e os Longinos ficam no tremedal da sua protervia
+explicando a _enallage_ e o _hyperbaton_. Oh! o estilo é muito mais a
+mulher que o homem! Eu dispensava bem tres partes do coração na mulher
+que me soubesse acepilhar e lapidar um periodo! Ha lá nada mais lindo? A
+formosura fenece como as flôres; o estilo fica. Silvina, a eloquente
+Silvina, quando de pura velhice não tiver aquelles dentes de marfim e
+esmalte, ficará com a bocca cheia de phrases melodiosas, como o canto do
+cysne. Tu és feliz, Jorge, mas a mesada deve estar nas vascas da morte.
+Estás sem vintém?
+
+--Não; meu tio padre mandou-me cincoenta mil réis para lhe eu comprar
+dez volumes da Encyclopedia Catholica, e eu...
+
+--Já devoraste cinco volumes em _rost beef_, e luvas brancas e charutos,
+não é verdade?
+
+--E minha mãi encommendou-me duas peças de durante, e não sei que mais,
+que está esperando ha oito dias... Hontem recebi d'ella uma carta, que
+me fez pena e saudade...
+
+--Tem estilo?--interrompeu Pires, sentando-se estabalhoadamente.
+
+--Não brinques com cousas sagradas: minha mãi não tem estilo, e n'esta
+carta o que me diz é copiado do seu livro de orações.
+
+--Ora essa!... Isso é original! Deixas-me vêr a carta-jaculatoria de tua
+mãi?
+
+--Deixo... Aqui a tens... eu leio.
+
+Jorge Coelho, commovido, leu o seguinte:
+
+«Abro o meu livro de orações e copio estas palavras para que meu Jorge
+as leia:--A infeliz mãi, cujo filho começa a frequentar as sociedades
+põe toda a sua esperança na protecção de Maria. Começa o joven mancebo
+por alguns desmanchos que fazem conceber grandes receios ácerca do
+restante da sua idade. A mãi assim lh'o diz, e dá os mais ternos
+conselhos; elle, porém, rebella-se contra aquelle tão puro affecto,
+contra aquella dolorosa previsão de mãi, e assomando-se lhe pergunta
+porque duvida de sua honra e prudencia, e acrescenta: Parece-vos o meu
+comportamento reprehensivel, porque não frequentaes a sociedade: eu faço
+o que fazem todos.--Infeliz!--a mãi exclama--que te deitas a perder por
+isso que fazes o que todos fazem.--Ri o insensato dos temores maternos,
+e adianta-se ás cegas n'um caminho semeado de escolhos. Tudo está posto
+em aventura: a honra n'este mundo, e a salvação no outro. Não sabe a mãi
+o que faça para salvar o objecto de tantas lagrimas e crueis angustias.
+Vê perdido o filho, e perdido para sempre. Maria, porém, consoladora dos
+afllictos se lhe mostra como dôce visão... E a mãi afflicta, de joelhos,
+com as mãos postas, exclama: «Ó Maria, auxilio dos christãos, salvai meu
+filho, rogai por elle!»--Jorge, eu orei com estas palavras: a Mãi de
+Jesus ha-de ouvir-me, e fallar-te commigo ao coração. Vem, vem para nós:
+teus irmãos chamam-te com saudade, e eu com lagrimas.»
+
+Leonardo Pires respeitou a commoção de seu amigo, e principiava um
+discurso de molde segundo o caso pedia, quando o morgado de
+Matto-grosso, e outro dos cavalheiros que entrava na roda do jardim,
+assomaram na porta.
+
+--Temos duello--disse a meia voz, Pires, entalando no olho direito o aro
+circular da luneta e esguelhando a bocca.--Queiram entrar--proseguiu
+elle, adiantando-se para a porta--se é que entende com o meu amigo Jorge
+a honra da visita dos cavalheiros.
+
+Egas de Encerra-bodes entrou e disse:
+
+--Vem aqui commigo o snr. Theotonio Tinoco Pitta de Lucena, da casa da
+Trofa, fidalgo tão antigo como o solar dos Lucenas. O snr. Jorge não me
+conhece. Eu sou primo do morgado de Santa Eufemia: tenho dito de sobra
+para justificar o meu nascimento.
+
+--Ha-de perdoar-me--disse Pires,--não precisava v. exc.ª dizer tanto
+para justificar o seu nascimento...--E atalhou logo a ironia vendo que o
+vulto do morgado se anuviava de mau agouro:--o senhor morgado é tido e
+havido na conta de muito bom sangue da provincia...
+
+--E do melhor de Portugal--cortou logo Egas--Vamos ao ponto da nossa
+missão. Christovão Pacheco de Valladares manda perguntar ao snr. Jorge
+Coelho se algum de seus avós lhe transmittiu o fôro que torna iguaes no
+campo da honra, nobre com nobre, as pelejas do pundonor aggravado.
+
+Jorge ficou atalhado com o espavento da pergunta, e ia pedir explicação
+da linguagem que lhe fez lembrar o tedioso Clarimundo, quando Pires,
+sacudindo as borlas do seu rob-de-chambre respondeu:
+
+--Jorge Coelho herdou de seus avós a honra, é quanto basta. Na sala do
+palacio de Cintra não está lá o escudo dos Coelhos, porque o cobre a
+mortalha da
+
+ «_..............misera e mesquinha_
+ _Que depois de ser morta foi rainha._»
+
+Jorge por sua mãi, é Sepulveda, appellido que traz á memoria o caso
+miserando, aquelle naufragio de que por ventura das letras patrias
+nasceu um poema!...
+
+--Deixemo-nos de lerias!--interrompeu Theotonio Tinoco.
+
+--Lérias! o snr. Pitta de Lucena chama a isto lerias!--acudiu
+Pires--Então que quer o senhor?
+
+--Queremos que esse amigo dê uma satisfação ao outro a quem elle chamou
+bebado hoje.
+
+--Mas, primo Tinoco--disse o do Matto-grosso--bem sabes que o primo
+Christovão não propõe, nem aceitaria desafio, a quem não tiver
+nascimento.
+
+--Ficamos agora sabendo que este cavalheiro é de familia de bom
+sangue...
+
+--Eu não sei de que sangue é a minha familia--atalhou Jorge
+serenamente.--O meu amigo Pires não o sabe melhor que eu, e vv. exc.as
+hão-de ter a bondade de dizer ao snr. morgado de Santa Eufemia que a côr
+do nosso sangue lá a veremos no campo, quando elle quizer.
+
+--Nomeie os seus padrinhos, para nos entendermos com elles--disse Egas.
+
+--Um serei eu, se derem licença--disse a voz de um homem, que entrou de
+subito no quarto.
+
+--Meu tio!--exclamou Jorge, beijando-lhe a mão.
+
+Era, com effeito, o padre João Coelho.
+
+Leonardo Pires e os outros olharam com veneração para a figura sublime
+do velho, que trajava rigorosamente as vestes de sacerdote. Jorge
+baixara os olhos, em quanto o padre, com as palpebras humidas, e as mãos
+convulsas, fitava e comprimia ao seio o sobrinho. Passados instantes,
+disse compassadamente:
+
+--Tantos annos e trabalho para te aproveitar, Jorge, e tu em tão pouco
+tempo te perdeste! Ha menos de nove mezes que sahiste dos braços de tua
+mãi, e venho-te encontrar na vespera de expôr o corpo e a alma com menos
+desculpa que o salteador que traz o peito á bala e o coração damnado
+pela perversidade!
+
+E voltando-se para os tres cavalheiros, disse com uns assomos de nobre
+authoridade e sorriso ironico:
+
+--Quem são estes folgados rebentos de illustrissimas prosapias que vem
+aqui desenfastiar-se dos tedios da sua inercia, estragando a alma de uma
+criança? Ouvi aqui nomear appellidos estrondosos que representam varões
+de grandes serviços á religião e á patria: é lastima que os netos dos
+Tinocos e dos Pachecos andem pregoando o desafio, o derramamento de
+sangue, como prova de honradas consciencias e altos espiritos. Melhor
+lhes fôra que as suas consciencias fossem mais christãs que honradas.
+Não se illustram memorias de avós derramando doutrinas impias. Se o
+seculo as aceita, senhores, então reneguem vv. exc.as das virtudes de
+seus avós, que outros seculos laurearam. Se os costumes barbaros d'esta
+civilisação, que por escarneo se chama assim, se conformam com os seus
+animos, não andem hypocritamente chorando saudades de Sião, os que se
+atascam nas immundicies de Babilonia. Jorge, eu fui aqui mandado por tua
+mãi: não quererá Deus que tu desobedeças á voz que te chama. Eu só quero
+exercitar sobre ti a authoridade do conselho; tua mãi chama-te: deves
+hoje mesmo sahir do Porto commigo. A vv. exc.as rogo eu mui humildemente
+que se não afflijam da perda de um noviço na confraria dos heroes do
+tempo. Costumavam nossos avós, antes de entrarem na cavallaria, velarem
+as armas no templo do Deus vivo; meu sobrinho vai armar-se cavalleiro,
+que não é ainda, e depois voltará á arena. Riem-se os nobres senhores?
+Velar as armas é sacramento de tanto ponto, que nem o fidalgo da Mancha
+se deu por bem posto na sua missão, antes de armar-se cavalleiro no
+curral d'uma bodega, e o mesmo foi dar sova brava nos arrieiros. Tens tu
+já Dulcinea, meu sobrinho? Claro é que sim. Ora, pois, aguarda melhores
+dias para as tuas façanhas, e diz aos teus padrinhos que te deixem ser
+mais algum tempo bom filho, bom irmão, e bom christão.
+
+Egas de Encerra-bodes já não estava muito de bons humores com o padre.
+Tinoco Pitta não o tinha entendido, e abria a bocca pela terceira vez.
+Leonardo Pires não se atrevia a despregar da lingua aquellas espontaneas
+e por vezes graciosas parvoiçadas que lhe vinham á flux da abundancia do
+coração. Jorge Coelho tinha tão de negro cerrado o espirito que não
+balbuciou palavra. Era impossivel a desobediencia; mas deixar Silvina,
+sem levar comsigo a certeza de que a distancia não mataria n'ella a
+paixão nascente, isso era uma dôr que o pobre moço desafogou em pranto
+desfeito, passando ao quarto immediato que era o de Leonardo Pires.
+
+O morgado de Matto-grosso, para evadir-se á posição embaraçosa em que se
+via, despediu-se com estas palavras:
+
+--Muito bem: eu vou dizer ao cavalheiro offendido por seu sobrinho, que
+o offensor não tem imputação, attendendo á sua criancice, e mais ainda
+ao facto de a mãi o mandar chamar para o seu regaço, como criança que é
+desmamada de fresco.
+
+--Não, senhor, atalhou o padre com seraphica brandura, diga ao senhor
+morgado de Santa Eufemia, creio que assim se chama o seu amigo, diga-lhe
+que seja generoso no perdão das injurias; que não desdoure os seus
+antepassados barateando o sangue honrado que elles lhes transmittiram;
+diga-lhe sobre tudo v. exc.ª que seja christão. Lembre-lhe que o desafio
+é uma ferocidade que nem se quer prova coragem, porque a verdadeira
+coragem é aquella admiravel abnegação dos louvores do mundo aos impetos
+da raiva, e valoroso louvavel aos olhos do Senhor é só aquelle que tem
+mão de suas iras, e desarma com humildade sem baixeza os féros e
+acommettidas do inimigo.
+
+--Teu tio é grandemente lido nos classicos!--disse Pires, no quarto
+immediato, a Jorge Coelho, que enxugava as lagrimas teimosas.
+
+
+IX.
+
+Pobre coração! Tão puras lagrimas não has-de choral-as mais. D'essa
+grande afflicção de que tu appellas para a morte, has-de lembrar-te
+sempre com saudade, meu amigo. Na tua angustia ha os prantos do anjo,
+saudoso do céo. Na mulher que deixas, cuidas que te fica a santa
+companheira do Eden que a tua candura via na terra, aberto ao amor sem
+mancha, convidativo de santos gosos. De dez em dez annos pararás, no
+caminho da vida, peregrino da sepultura; voltarás o rosto para aquelle
+teu dia dos dezenove annos, e verás em flôres, fenecidas mas ainda
+graciosas, os espinhos por onde a pedaços te fica, meu pobre Jorge, o
+coração. Saberás então o que é a saudade; pedirás á desgraça dôres
+semelhantes ás da tua mocidade para abençoal-as; atirarás com o peito ás
+sarças das paixões vertiginosas para espertares os pungitivos desgostos
+do amor contrariado. Não já lagrimas, se não fel derramará o coração,
+que devêras ter dado a Deus, desde que o mundo t'o desbaratou a
+repellões e injurias. Chora, filho da sina maldita dos poetas, chora no
+seio de tua mãi; bem póde ser que ainda lá te espere o anjo da tua
+guarda.
+
+Jorge Coelho não proferira uma palavra desobediente ao tio padre.
+Apenas, quando enfardava a roupa nas malas, enxugando as lagrimas antes
+de erguer o rosto disse:--Meu tio entende que me é honroso sahir do
+Porto sem responder ao desafio?...--Padre João, que abria o seu enorme
+lenço escarlate para se assoar, ficou algum tempo com os braços
+suspensos, e o lenço pendurado, e assim esteve, como estupefacto
+cravados os olhos no sobrinho, que esperava a resposta. O nariz, porém,
+urgia: padre João Coelho levou o trombetear da limpeza até á hyperbole,
+dobrou o lenço em quadro, depois enrolou-o, deu com elle mais alguns
+torcegões ao nariz, armou-se de pitada, e disse:
+
+--Não é Deus que os perde; é o demónio que ensandece aquelles que quer
+aproveitar. Que é honra, Jorge? O evangelho que te diz das injurias, do
+odio, das affrontas, das injustiças? O filho de Deus dictou e rubricou
+com o seu sangue a lei, a regra, os deveres da humanidade; não importa
+ser o evangelho obra de Deus; não importa que alli venham prescriptas as
+maximas da boa e honrada vida: o evangelho é já inefficaz por que a
+humanidade inventou uma honra que se prova e sustenta com o duello: a
+vossa honra, cegos miseraveis dignos de lagrimas, lava-se no sangue,
+justifica-se pelo homicidio, ao qual a legislação decreta a forca, e a
+convenção social o galardão da bravura. Jorge, quem te disse que o
+assassino era honrado?
+
+O academico apenas respondeu:
+
+--Meu tio, vamos; eu estou prompto.
+
+Leonardo Pires já estava no largo da Batalha, chamando a attenção dos
+numerosos transeuntes que paravam em magotes para verem o cavalleiro com
+as esporas cravadas nos ilhaes de uma égua de fina raça que se empinava,
+e corcovava, e atirava ora couces, ora galões medonhos. É que Leonardo
+Pires vira D. Francisca da Cunha n'uma janella do palacio do snr. Manoel
+Guedes, e de si para si entendeu que lhe ia bem dar-se n'aquelle
+espectaculo hyppico, mesmo com perigo de quebrar a cabeça, como de facto
+quebrou, e tão desgraciosamente o fez, que Francisca da Cunha, anciada
+de riso, dizem que cahira extenuada n'uma othomana.
+
+Andava o infeliz Pires atraz da egua espavorida, com ajuda dos gallegos
+do chafariz, quando Jorge e o tio desceram da hospedaria da Estrella do
+Norte para a praça.
+
+Apanhada a cavalgadura, indiscreta e desasada para heroismos de amor,
+Pires montou de salto, e acompanhou até Vallongo o condiscipulo, com
+evidente desagrado do padre. No caminho, em quanto o egresso ficára
+atraz compondo os loros do macho fleumatico, o amador infausto de
+Francisca da Cunha disse a Jorge:
+
+--Que queres que eu diga a Silvina, se o tio a não mandar para a aldêa?
+
+--Diz-lhe, respondeu Jorge commovido, com os olhos marejados de
+lagrimas--diz-lhe que eu não posso contar com a minha vida para lh'a
+offerecer. Diz-lhe que eu não fugi de cobarde; por quem és, Pires, não
+consintas que me ella ultraje, duvidando da minha coragem. Falla-lhe de
+minha mãi, que eu sei que ella me amará ainda mais, vendo que eu
+respeito tanto as lagrimas da que me formou o coração que eu lhe dei, e
+ella achou digno de si. As minhas cartas mando-t'as a ti para lh'as
+entregares... Silencio, que ahi está meu tio.
+
+--Snr. padre João Coelho, disse alegremente Leonardo, pique o bucephalo
+cá para a frente.
+
+--Alexandre Magno não montava machos, senhor estudante, respondeu o
+padre. Andaria mais acertado com a historia se me honrasse antes com as
+tradições de Sancho Pança. O machinho sabe que leva em cima um engenho
+velho, que se acerta de inclinar na carga cahe cada peça para o seu
+lado.
+
+--Mas leva uma grande alma, replicou Pires.
+
+--O macho? perguntou o padre, sorrindo.
+
+--Sim, senhor.
+
+--Lá em Coimbra estuda-se essa psycologia de veterinaria? As grandes
+almas passaram, pelos modos, dos Aristides e Catões para estes
+quadrupedes! Se assim é, que nos fica para nós, senhor academico?
+
+--Eu queria dizer ao meu nobre amigo que o macho leva um cavalleiro com
+grande alma.
+
+--Muito obrigado ao seu favor, snr. Pires. Eu tambem o entendi; mas
+metti-me a engraçado a vêr se desafiava o riso, do meu pobre Jorge, que
+vai ahi melancolico, como nunca foi filho algum para os braços de sua
+mãi e irmãos.
+
+--É que Jorge Coelho, tornou o estouvado infanção da Maya, está como a
+avesinha a pairar emplumada, que salta para o rebordo do ninho, e
+vacilla entre ir para a mãi que a está dentro chamando com o cibo, ou
+voejar para a arvore em flôr que a está enamorando de longe.
+
+--É uma bucolica bonita que o senhor vai poetisando--tornou o padre,
+fechando o olho direito e sorvendo uma canora pitada pela venta
+correspondente.--A avesinha (se dá licença, eu componho em linguagem
+chan e fradesca uma estrophe do idyllio) a avesinha deixou piar a
+carinhosa mãi, e desferiu as tenras azas na pontaria da arvore florida;
+e, como quer que as forças lhe cançassem do desusado vôo, não teve a
+avesinha remedio senão abater-se ao chão para pousar. E vai n'isto,
+andava por alli á caça de ninhos um gato ou uma gata brava, seja gato ou
+gata; o essencial é que apenas o triste passarinho apegou, o animal
+damninho fez-lhe o salto d'entre umas balças, e o filho da pobre mãi,
+que se morria de paixão no ninho, lá foi empolgado pelo gato ou pela
+gata... Lafontaine não inventou este conto, e merecia a pena; não
+importa: compuzem'ol-o nós, snr. Pires, _ad usum delphini_, e seja
+delfim o nosso Jorge.
+
+A allusão desgraciosa da gata foi tão clara quanto desagradavel a Jorge.
+Era uma injuria á mulher querida, á sombra lagrimosa que o ia
+acompanhando, e instigando a reagir contra o dominio de parentes, e
+exhortando a emancipar o coração d'uma tutela que lhe deixava da vida as
+regalias que bastavam á criança, mas não ao homem.
+
+Azedado, pois, pelo motejo da bucolica do padre João, Jorge disse com
+vehemencia:
+
+--Meu tio offereça a moralidade dos contos a quem lhe pedir lições.
+
+Padre João, depois de breve pausa, respondeu brandamente e com magoada
+tristeza:
+
+--Não te envergonhes de pedir-me lições, filho, que as não pedes sómente
+a um velho; dá-t'as um amigo, que foi homem antes de ser frade, e
+estudou os homens, depois que o mandaram sahir da sua cella, como cousa
+inutil á sociedade. Se me não quizeres as lições, de que sirvo eu,
+Jorge? Já agora irei prégando sempre, quer me ouçam, quer me repulsem,
+como manda o apostolo.. Desagradou-te a allegoria do conto, e
+convidas-me assim a ser mais natural. Jorge, repara bem no que te diz
+este velho que, no teu modo pouco respeitoso de fallar a uma mãi, «te
+premuniu com cabedal de philosophia christã, bastante para defender das
+tentações todas as nações da biblia exterminadas por causa do peccado.»
+Sei de cór as tuas palavras, porque m'as entalhou na alma o espinho da
+ingratidão. Deves-me bons desejos de te fazer bom e honrado: não me
+sejas ingrato. Agora, escuta, filho. Vinte e quatro horas antes de te
+apparecer, procurei-te, porque do Porto fui avisado dos teus desvios:
+como te não encontrei, fui colher mais informações; voltei á noite á
+hospedaria tres vezes, e ás duas horas não tinhas ainda recolhido. No
+dia seguinte, que foi hoje, procurei-te ás nove horas da manha: tinhas
+já sahido. Déste-me tempo de sobra para eu me instruir das miudezas da
+tua historia de tres semanas. Sei quem é a creatura que te ourou a
+cabeça. É uma feia alma n'um formoso estojo; é uma aventureira...
+
+--Meu tio, isso é crueldade e calumnia--interrompeu Jorge allucinado.
+
+--Bate, mas escuta, dizia o philosopho: é uma aventureira de maridos,
+que engodou o morgado de Santa Eufemia, em quanto julgou desnecessario o
+consentimento do velho fidalgo para a realisação do casamento que a
+fazia rica. Desvanecidas as esperanças do morgado, cuja rudeza lhe não
+desdizia com o espirito arteiro, voltou-se para um rico brazileiro de
+Cabeceiras de Basto; mas o brazileiro não lhe entendeu os pespontes da
+eloquencia, e disse que queria mulher com quem elle se entendesse.
+Chamada por uma prima, professora em armadilhas ao casamento...
+
+--Francisca da Cunha?--exclamou Pires, erguendo-se nos estribos.
+
+--Justamente, Francisca da Cunha, menina matreira que...
+
+--Olhe que eu amo essa mulher, snr. padre Coelho!--interrompeu
+solemnemente Leonardo.
+
+--Pois faz v. s.ª muito bem: o amor do proximo é preceito divino: sou de
+parecer que a ame; mas não lhe dou os parabens... Vinha eu dizendo que a
+tal Silvina já no Porto, de mãos dadas com a prima, não duvidou visitar
+uma estalajadeira de Margaride que viera a banhos de mar, porque esta
+estalajadeira tinha um filho que viera do Brazil, com alguns centos de
+contos, negociados na escravatura. E como o filho da estalajadeira não
+andava acostumado a comprar senão negras possantes e trabalhadoras,
+recusou comprar a compleição melindrosa da fidalga de Margaride. D'ahi
+veio o saber-se, pelo dizer a snr.ª D. Silvina, que o poderoso
+brazileiro é filho d'uma taverneira, e que fôra para o Brazil com umas
+soletas e chapéo de Braga que lhe dera de esmola o pai da fidalga. Eis
+aqui o que eu pude averiguar da pessoa por quem meu sobrinho troca os
+carinhos de sua mãi, a dôce amisade de seus irmãos, e as lições
+amoraveis de seu velho tio.
+
+Jorge Coelho ficou enleado, e não replicou; Leonardo Pires, porém, que
+nunca em sua vida pensára o que dizia, senão meia hora depois de o
+dizer, exclamou:
+
+--Mas ha-de confessar, snr. padre João, que ellas são boas mulheres!
+
+--Boas!...--murmurou o padre, que não entendeu o sentido do
+adjectivo--boas... quer-me parecer que não são muito!
+
+--Ora essa! pois não as acha bonitas e elegantes?
+
+--Eu não as conheço; mas creio que são bonitas e elegantes: e d'ahi?
+
+--E d'ahi! _Amor omnia vincit!_ o amor tudo vence.
+
+--Agradeço a traducção--disse, sorrindo, o padre, que, a fallar a
+verdade, tinha uns sorrisos que muito justificavam o dito de ter sido
+«homem» antes de ser frade.--O snr. Leonardo Pires não tem
+mãi?--acrescentou o padre, após um curto intervallo, com summa
+seriedade.
+
+--Tenho, sim senhor; mas não tenciono namorar minha mãi--disse
+precipitadamente Leonardo.
+
+O padre fitou-o com tristeza e admiração, um momento, e depois disse-lhe
+com bons modos:
+
+--Praza a Deus que o coração esteja menos derrançado que a linguagem...
+snr. Leonardo Pires, eu tenho setenta annos; deprava-se um rapaz; mas
+respeita-se um velho.
+
+D'esta vez, o imperturbavel Pires não teve que responder.
+
+Tinham chegado a Vallongo. Jorge estendeu a mão ao seu amigo, e
+disse-lhe suffocado:
+
+--Adeus! não sei se te verei mais... Sinto a morte no coração!
+
+O padre fez um frio comprimento ao amigo de seu sobrinho, dizendo-lhe:
+
+--Deus o tenha de sua mão.
+
+Leonardo partiu; e o egresso, com os olhos embaciados de lagrimas,
+murmurou:
+
+--Jorge! quem te abriu as portas da desgraça foi aquelle homem.
+
+
+X.
+
+Não esqueceram de certo ao leitor attento estas linhas da carta que o
+morgado de Santa Eufemia recebeu do pai:--_Anda-te embora, logo que esta
+recebas, que eu dou ordem ao meu amigo brazileiro para te dar para a
+jornada cinco pintos._
+
+O brazileiro amigo do fidalgo de Freixieiro era o snr. José Francisco
+Andraens, natural de Cozelhas, desde 1844 estabelecido no Porto, onde
+viera tratar do baço, do pancreas, e d'outras entranhas importantes do
+snr. José Francisco Andraens. Na mente do illustre enfermo estava
+retirar-se para a provincia de Piauhy, onde tinha a sua feira de pretos,
+logo que restaurasse o estomago e as mais partes circumjacentes da sua
+alma. Porém, como quer que um seu amigo velho, e companheiro de viagem
+para o Brazil, em rapazes, estivesse no Porto com o titulo de visconde
+dos Lagares, e este o fizesse conhecido por meio das gazetas por uma
+esmola de cincoenta mil réis ao hospital da Santissima Trindade, o snr.
+José Francisco viu-se tão festejado, tão requestado, tão necessario ao
+Porto, que mandou vender os pretos em ser, e liquidar os creditos.
+
+Tentemos um debuxo de José Francisco. Deve estar entre cincoenta a
+cincoenta e cinco annos, estatura menos de mean, com tres barrigas, das
+quaes a primeira, começando pela parte mais nobre do sujeito, principia
+onde o vulgar da gente tem os joelhos, e, depois d'uma arremettida
+adiposa, retrahe-se na linha imaginaria da cintura, e estreita-se em
+fórma de cabeça. A segunda barriga pega da primeira, ondeia com tres
+ordens de refegos por sobre as falsas costellas, ladêa tumida e retesada
+como os flancos d'um ôdre posto de través, e vai perder-se nos sovacos,
+mandando para as costas uma corcunda da sua mesma natureza. A terceira
+barriga pendura-se da face interna do queixo inferior, amplia-se flacida
+e lustrosa como um buxo mal cheio de vitella, e assenta sobre a segunda,
+no ponto hypothetico do esterno. A parte anatomica d'este bosquejo toda
+ella se libra em conjecturas. O author não assevera senão a existencia
+das barrigas.
+
+Isto tudo tem uma base caprichosa: são cousas que a linguagem do
+paradoxo denomina pés. Vacilla a critica no confrontal-os com objecto
+dos tres reinos: uma tartaruga envolta em bezerro dá-nos uns longes da
+realidade; mas falta-nos o simile para os declivios, gargantas e
+barrocaes dos joanetes. Os pés de José Francisco são a desesperação dos
+Gavarni. O marrão do alvanel poderia arrancal-os d'um golpe d'uma
+pedreira por acaso; mas Apelles mais depressa pintaria uvas que
+enganassem o bico sequioso da passarinhada.
+
+No tocante á cara o snr. Andraens é homem, apesar d'outros animaes que
+lhe não disputam os fóros da humanidade, porque não teem um curso de
+historia natural. O rubor do tomate desmaia ao pé das papeiras faciaes
+do brazileiro. O nariz enfronha-se de envergonhado entre as trouxas de
+tecidos, que lhe debruam os olhos de oppilações carnosas, sebaceas e
+luzidias. A menina do olho é rutilante e azougada, posto que as
+secreções visinhas lhe bezuntem a raiz das pestanas.
+
+O snr. Andraens é commendador da ordem de Christo, desde que o seu amigo
+visconde dos Lagares foi nomeado trinchante da casa real. Afóra isto, o
+brazileiro de Cozelhas, na qualidade de accionista do Banco Commercial
+do Porto, é orador vitalicio d'aquella assembléa, em que não são raros
+os talentos de maior porte. Tal era o amigo do velho fidalgo de
+Freixieiro.
+
+José Francisco esperava que o filho de Vasco procurasse os cinco pintos,
+segundo a ordem que recebera. Decorridos alguns dias, escreveu ao seu
+amigo, a dizer-lhe que o fidalgo novo não apparecera para receber o
+dinheiro. Tornou o velho a escrever ao brazileiro, encarregando-o de
+procurar o filho, aconselhal-o que fosse para casa, e pagar a despeza
+que elle tivesse feito na estalagem.
+
+Foi o snr. Andraens á _Aguia d'Ouro_, e como não encontrasse Christovão,
+deixou dito ao criado do quarto quem era e a precisão que tinha de
+fallar com o morgado. Já vinha descendo as escadas, e voltou acima a
+chamar o criado.
+
+--Olhe lá, disse elle, o fidalgo deve muito cá na casa?
+
+--Não, senhor: o fidalgo paga todas as semanas.
+
+--Está bom, está bom, vossê não diga que eu perguntei isto, e pegue lá
+para matar o bicho ámanhã.--Dizendo, abriu uma bolsa de retroz coalhada
+de missanga, e tirou trinta réis que deu ao criado com a mão direita
+fechada, para que a esquerda se não escandalisasse da prodigalidade.
+
+Na manhã do dia seguinte, foi o morgado de Santa Eufemia a casa do
+brazileiro, e conduziram-o ao seu quarto de dormir, porque José
+Francisco estava ainda recolhido com a barriga n.º 2 envolta de papas de
+linhaça.
+
+--Estou aqui emplasmado, senhor morgado--disse José Francisco, arqueando
+os braços por sobre a esphera abdominal.
+
+--Então o snr. José que tem?
+
+--Mande-se sentar, meu fidalgo. Eu estou aqui com uns calores cá de
+dentro, que dão que fazer á botica; mas isto, se Deus quizer, não é
+nada. Pois, meu senhor e amigo, seu pai escreveu-me, como ha-de saber,
+para eu lhe dar um dinheirito, e depois tornou a escrever-me para eu ir
+ter aonde a v. s.ª e dizer-lhe que o melhor é ir-se para casa, quanto
+antes, porque o velho, pelos modos, está lá arrenegado por si. Então,
+vai ou não vai?
+
+--Por estes dias, irei; mas já já não se me arranja cá a minha vida,
+snr. José.
+
+--Então o senhor, ainda que eu seja confiado, que tem cá que fazer? Ahi,
+por mais que me digam, anda derriço... Eu hei-de saber o que é quando
+fallar com a fidalga de Margaride que o conhece muito bem ao senhor
+morgado...
+
+--Então o senhor conhece a D. Silvina de Mello?
+
+--Conheço-a como os meus dedos...--respondeu o snr. Andraens, com um
+sorriso intencional, que passou desapercebido ao morgado.--É bem boa
+estampa, ó senhor morgado, não é? ora diga a verdade!
+
+--É muito bonita, isso é.
+
+--Rapariga d'uma vez! e bem-fallada!? isso então quando calha de fallar,
+aquillo não despega nem á mão de Deus-padre! Falla em tudo quanto ha!
+Até em Sebastopool, senhor morgado! Um d'estes dias tinha eu lá ido a
+troco cá de certa pendencia, e veiu á collecção a guerra da Russia, e
+ella começou alli a manobrar as batalhas, e se fôr como ella diz o snr.
+D. Miguel (Deus o traga) não tarda cá. Eu não tenho partidos, e até a
+fallar a verdade, sou commendador por esta gente, mas em fim, quero-me
+cá com os velhos, e gente como era a antiga já se não topa. Pois é
+verdade... eu...
+
+--E a fidalga--atalhou o morgado--nunca lhe fallou em mim, snr. José?
+
+--Fallou, pois então? disse-me até que o senhor queria casar com ella...
+é assim ou não é?
+
+--Isso é verdade. Paixão de raiz como a que eu tenho por ella não a
+torno a ter pela mais pintada.
+
+--Ah! que me diz?--acudiu o brazileiro com espanto--pois a cousa é isso?
+Quer apostar que o senhor está aqui pr'a-mor d'ella?
+
+--Em fim, o coração não mente... Á conta d'ella é que eu aqui estou.
+Passaram-se uns poucos de mezes sem eu ter carta, desde que ella veiu
+para o Porto. Arranjei como pude licença do pai, e vim encontral-a cá a
+namorar outro, um trampolineirito a quem eu queria dar uma escovadela,
+mas antes de hontem fugiu lá para cascos de rolha.
+
+--Conte-me isso, conte-me isso--exclamou José Francisco com vehemente
+interesse.
+
+--É como lhe digo, snr. José. Agora preciso demorar-me alguns dias a ver
+o que ella faz.
+
+--Com que então diz-me o senhor morgado--disse meditabundo e detidamente
+o brazileiro--que ella andava já com o miolo ás voltas por outro
+sujeito!... As mulheres são o diabo!... Quer o senhor saber?! Mas isto é
+pedra que cahe em poço, ouviu o senhor?
+
+--Eu não digo nada; póde fallar snr. José.
+
+--Pois então, vou desembuchar... Eu tenho emprestado algum dinheiro ao
+Pedro de Mello, pai da Silvina, para elle mandar aos rapazes que andam a
+estudar p'ra doutores em Coimbra. A casa do Mello é boa, mas está
+empenhada até aqui.--(O snr. José Francisco poz um dedo na barriga n.º
+3, que deu de si como um balão de borracha). Ha-de haver tres mezes que
+eu fui levar á filha umas libras que o pai lhe mandou dar para
+vestimentas. Eu andava com o olho em cima de uma quintarola bem boa
+d'elle, que parte com os meus terrões da Lixa, e não se me dava de lhe
+ir dando aos poucos algum dinheiro até lhe apanhar a propriedade que me
+faz muita conta. E vai se não quando, meu amiguinho e senhor morgado,
+veiu a fidalga á sala assignar o recibo, e p'ra'qui p'racolá, palavra
+puxa palavra, eu deixei-me estar ao cavaco com ella e com a prima, e
+jantei lá n'esse dia, e fiquei p'ra a noite. A fallar-lhe a verdade nua
+e crua, como o outro que diz, eu não sei o que sentia cá no interior!
+Que diabo é isto que eu sinto? disse eu cá c'os meus botões. Eu andei
+por lá por esses mundos de Christo, vi muita mulata e branca de encher o
+olho, tive as minhas rapaziadas, porque em fim, a gente é de carne e
+osso; mas nunca me buliu cá por dentro mulher nenhuma como esta! Se o
+senhor morgado ouvisse o palavriado d'ella! Deixe vêr se me lembro...
+Não encarreiro... Ora deixe estar o senhor.. Eu tenho alli uma carta
+d'ella...
+
+--Uma carta d'ella!--interrompeu o morgado a fumegar.
+
+--Pois então? uma carta d'ella, umas poucas; mas ha lá uma em que ella
+escreve o mesmo que tinha dito de bocca. Faz o senhor favor de me ir
+áquella gavetinha do meio da commoda, e dar-me de lá um caixotinho de
+vidro, que tem uns bordados de papel dourado na cobertoira?...
+
+Christovão Pacheco abriu com a mão convulsa a gaveta, e levou á cama do
+snr. Andraens a caixinha indicada. O brazileiro tirou um feixe de
+cartas, cintadas com uma fita de nastro, abriu algumas, regougando
+palavras soltas de cada uma d'ellas, e por fim acertou com a carta que
+procurava, e exclamou:--Cá está ella! tal e qual. Ora faz favor de lêr,
+que eu não estou hoje muito escorreito dos olhos.
+
+O morgado de Santa Eufemia, entalado, enfiado, tremulo e escarlate até á
+raiz dos cabellos, leu o seguinte:
+
+«Meu bom e muito querido amigo. Tanto eu como minha prima Francisca,
+ella por amisade reconhecida, e eu do coração affectuoso lhe agradecemos
+o valioso mimo com que se dignou brindar-nos a sua generosidade...»
+
+--Isso foi, interrompeu o brazileiro, a respeito de umas pulseiras de
+ouro que eu mandei ás duas, que me custaram dezesete libras e mais uns
+pósinhos, não fallando na caixota em que foram os estojos que me tinha
+custado em Paris quarenta e oito francos. Empreguei bem o meu dinheiro,
+não tem duvida! Ora faz favor de continuar com essa trapalhice:
+
+O morgado proseguiu na leitura acerba, limpando as camarinhas de suor
+que lhe transpiravam da testa:
+
+«Apreciamos a dadiva já pelo que ella vale, já pelos sentimentos
+delicados que ella representa...»
+
+--Isso é bem dito, não é, ó senhor morgado?--interrompeu o snr. José
+Francisco.--Lá que ella tem uma cabecinha como não ha outra, isso pau
+pau, pedra pedra, a verdade ha-de dizer-se. O que lhe falta é miôlo...
+Ora ande lá... vá lendo:
+
+«Nunca eu aceitaria--continuava a carta de Silvina--uma prenda de homem,
+que não tivesse uma explicação honrosa. Esta, que eu tenho no meu pulso,
+não me faz estremecer a mão de pejo. Os meus sentimentos a respeito de
+v. s.ª tenho-lh'os dito tantas vezes, que repetil-os seria abusar da sua
+attenção, e descer um pouco da minha senhoril, dignidade. V. s.ª sabe
+como eu aprecio as paixões proprias dos meus annos...»
+
+José Francisco Andraens deu dous galões no leito, e clamou:
+
+--É ahi, é ahi onde está a cousa!
+
+Christovão continuou, já deletreando, porque a raiva lhe nublava os
+olhos:
+
+«Não creio na duração do amor impetuoso. A violencia da vibração fatiga
+as cordas da alma...»
+
+--Olhe lá--atalhou o brazileiro--isso que vem a dizer? esse bocado não o
+percebi bem... _A violencia da vibração fatiga as cordas_... que
+diabo!...
+
+--Quer dizer, respondeu o morgado com anciado esforço, quer dizer que...
+sim... eu acho que isto vem a dizer... que as paixões fortes adoentam a
+gente...
+
+--Ah! sim, senhor, ha-de ser isso... eu cá sinto os estragos no
+interior... Ora faz favor de vêr o resto.
+
+O morgado leu:
+
+«A minha ambição é encontrar um amigo verdadeiro, um coração sereno, um
+homem para quem o mundo não tenha abysmos, dos que tem no fundo a
+desgraça da esposa trahida, e esquecida. Receba no coração estas
+palavras da sua dedicada e constante amiga, _Silvina_.»
+
+--Que me diz o senhor a isso?--interpellou José Francisco, dando uma
+palmada no hombro do entorpecido morgado.
+
+--O que eu lhe digo, snr. José!...--tornou o morgado, atirando a carta
+para sobre o leito.--O que eu lhe digo é que esta mulher...
+
+--É uma mulher de pouco mais ou menos--concluiu o brazileiro, atando as
+cartas com o nastro--Ora ahi tem... Agora, á vista d'isto, deixe-se
+andar por cá atraz d'ella...
+
+--E o senhor continua o namoro?--perguntou o morgado com os olhos
+vidrados de lagrimas.
+
+--Qual namoro, nem qual diabo! O que eu queria era melhorar da barriga!
+
+
+XI.
+
+José Francisco Andraens, mentiste á tua consciencia! Supposto que as
+tuas barrigas te mereçam quantos desvelos cabem na alçada do oleo
+d'amendoa dôce e da linhaça, o coração em ti é um musculo cheio de bom e
+sadio sangue, sangue cruorico que por vezes te borbulha nas arterias, e
+reçuma á cara em brazumes de ternura lubrica. Mentiste, José Francisco,
+quando respondeste áquelle pobre morgado, que o que tu querias era
+melhorar da barriga. Musculo enorme! tu amavas abrasado no lume da
+faisca electrica em que se estremece cada uma de tuas fibras, rijas de
+vida, saturadas do boi copioso que assimilas, e das tortas de frango com
+que pejas diariamente as algibeiras do sobretudo, e das planganas de
+farinha de pau e araruta que emborcas todas as manhãs. Commendador da
+ordem de Christo! se o incognito da Providencia, chamado _acaso_, te
+houvesse dado a faculdade de desafogar em vociferações contra a
+fementida Silvina, dirias, no auge da tua angustia, blasphemias contra
+as mulheres, injurias insultadoras contra a fidalga de Margaride, e
+juramentos, por tua honra, de despresal-a e diffamal-a onde quer que
+fosse a tua lingua peçonhenta e a dos teus amigos famintos de detracção
+e escandalo. Os que assim procedem, fariam de ti riso, se te ouvissem o
+dialogo com o teu amigo de Freixieiro; tu, porém, José Francisco
+Andraens, que não sabes os quatro epithetos triviaes com que se vingam
+amantes abandonados, ergueste os alçapões da tua alma, e deixaste romper
+a torrente represada, com estas palavras: «Qual namoro, nem qual diabo!
+o que eu queria era melhorar da barriga!»
+
+Ai! se elle a amava!
+
+Não houve ahi cancro de amor que afistulasse, tão no intimo, coração de
+homem. Aquella propria dôr de estomago, rebelde á linhaça, nos está
+dizendo finezas do amor de José Francisco, procedida, como é, do uso do
+chá a que o forçavam successivas noites que passou em casa do tio de
+Silvina. No principio, o hospede cauteloso recusou a chavena; mas a
+fidalga teve a impiedade de dizer-lhe que não era extremamente do bom
+tom rejeitar o chá, a pretexto de ser bebida nociva ao estomago. O
+brazileiro, no dia seguinte, em vez d'uma, tomou tres chavenas, e em sua
+casa, _para affazer a tripa_ como elle dizia, mandava cozinhar grandes
+chocolateiras de chá, que a moça inexperta chamava o cozimento, e
+carregava de folha até sahir negro na fervura. José Francisco conhecia o
+veneno, punha a mão no buxo, e, se não dizia como o papa Ganganelli:
+«hei-de morrer d'isto...» gritava pela cataplasma de linhaça, mitigava a
+inflammação, e de puro amor continuava a immolar o estomago, como fino
+amante que não tem mais que dar.
+
+Ha ahi amadores, José Francisco, que cubiçam a pedraria oriental para
+construirem um nicho para a mulher amada; pedem a Deus estrellas para
+lhe marchetarem a alcatifa das botinhas; queriam a lua e as duas ursas
+para o pavilhão do leito nupcial; os coriscos para lhe brincarem aos
+pés; os jardins de Semiramis, recendentes de nardo e cardamomo, para lhe
+deliciarem o olfacto; o sceptro do globo para a mão soberana, e o
+diadema do universo para a fronte inspirada. Farelorio. Homem de
+Cozelhas! o teu estomago estragado pelo chá, sobreleva em dolorosa
+realidade a tudo quanto inventaram poetas, invejosos dos bens de Deus,
+em quanto tu deixas em paz a lua e as estrellas, e compras dezesete
+libras de pulseiras, ás quaes a propria Diana caçadora te estenderia os
+seus divinos braços.
+
+Ai! se elle a amava!
+
+Por uma tarde de Agosto, na alamêda da Lapa, se andava José Francisco
+passeando com o seu amigo visconde dos Lagares. A espaços, o amador de
+Silvina desprendia uns como gemidos desentranhados com estridor de
+arroto, e o açafroado das belfas, ora se enrubecia mais intenso, ora
+desmaiava n'um pardacento, que deu nos olhos solicitos do visconde:
+
+--Que tem vossê, sôr Andraens?!--perguntou o trinchante da casa real,
+afervorando o zelo da pergunta com um suave empurrão.
+
+--Que hei-de eu ter, amigo visconde? Vossê bem sabe que eu ando mettido
+n'uma camisa de onze varas. A minha sina, que me lêram quando eu era
+rapaz, dá-me que eu hei-de passar por um grande desgosto. Até ao
+presente, em boa hora o digamos, a cousa não me tem ido mal; d'aqui por
+diante como o outro que diz, um bomem deve estar tem-te não caias.
+
+--Mas então vossê que medo tem?--tornou o visconde, variando a mimica
+com uma palmada na espadua boleada de José Francisco.
+
+--Homem, vossê casou quando era moço, e deu-se bem com a mulher, e tem
+vivido sem sustos; mas eu já cá estão os cincoenta, não sou dos rapazes
+da moda, e tenho ás vezes umas lembranças que me derrancam o coração.
+
+--Ora, deixe-se d'isso, sôr Andraens! Pelos modos a senhora, com quem
+vossê vai casar, é menina bem comportadinha, e vossê, quando casar,
+deixe-se de ir muitas vezes ás assembleas, e pouco de visitas, e de
+theatros; metta-se em sua casa a mais a mulher; trate da sua labutação,
+e não a deixe pôr pé em ramo verde, sem ir com ella.
+
+--Pois não pozeste!--acudiu José Francisco soltando uma risada aspera de
+sacões, que valia bem um programma.--Vossê ainda está n'essa?
+
+A minha mulher, quando eu a tiver, é cá para o amanho da minha casa.
+Comer e beber, e vestidos, e enfeites d'ouro, não lhe ha-de cançar; mas
+ir a bailes e a comedias... isso, snr. visconde... olhe cá se me vê
+algum _T_ na testa! É verdade que a minha futura noiva é toda pronostica
+e está avezada ao palavriado dos pantomineiros que não tem senão aquillo
+e a sua miça; mas eu logo que case hei-de pôl-a na lei em que ha-de
+viver.
+
+A mulher é do seu homem, e casou para tratar-lhe das doenças, e do
+arranjo da familia. Quem quer andar á tuna nas comedias e nos balancés
+deixa-se estar solteira; não é assim, amigo visconde?
+
+--Assim é; mas não será bom apertal-a muito, amigo Andraens... Isto de
+mulheres, olhe que nem o diabo as quiz guardar, e quando ellas entram a
+desatremar, adeus, minha vida!
+
+--A desatremar!--clamou José Francisco com iracundia.--Então um homem
+não é senhor de fechar as suas portas, e viver como quizer com a mulher
+com quem reparte do que tem? do seu dinheiro? do que lhe não custou a
+ella a ganhar? do seu dinheiro?
+
+--Vossê diz bem, sôr José; mas é que ella a isso póde dizer que estava
+melhor solteira.
+
+--Homem, vossê nem parece visconde n'isso que diz!--atalhou com ironia
+pungente José Francisco.--Eu vou já embuchal-o com uma pergunta:--Quanto
+vale a tal madama?
+
+--Pelos modos, disse o visconde, acho que pouco tem.
+
+--Por tudo que ella tem não dou eu seiscentos mil réis. A casa é do
+morgado, e os bens livres, repartidos por seis irmãos, nem p'ra pagarem
+a minha divida chegam. E quanto acha vossê que eu tenho, ó amigo
+visconde?
+
+--Vossê, cá segundo os meus calculos, ha-de ter o melhor de cem
+contos... p'ra cima que não p'ra baixo.
+
+--Aqui que ninguem nos ouve, snr. visconde, disse José Francisco muito á
+puridade, se não fosse aquella tapona que eu levei na costa d'Africa,
+podia ter os meus quatrocentos contos; agora, mais cem, menos cem mil
+réis a minha fortuna ha-de andar ahi por duzentos contos, e se as cousas
+correrem regularmente, cá nos engajados, escuso de bulir no que tenho
+apurado. Ora ahi tem vossê. Faz favor de me dizer se a rapariga, que não
+tem nada, casar commigo, não fica a ser rica e respeitada no mundo!
+Responda a isto, amigo, se é capaz!
+
+--Sôr José Francisco, tornou o visconde com sisuda gravidade, olhe que
+eu tenho andado muito mundo, e visto muita cousa. A rapariga, se casa
+comsigo, é por que quer figurar. Vossê já não é muito moço, e não sei
+como ha-de estar em casa mettido a entreter a mulher. Sabe que mais? se
+está na teima de a não deixar ter alguma folga, o melhor é deixar-se
+estar solteiro até lhe apparecer moça mais azada p'ro seu modo de vida.
+Deixe cá o arranjo ao meu cuidado, que eu conheço muito negociante aqui
+no Porto que tem raparigaças como castellos, e vossê não tem senão
+escolher.
+
+--Cale-se lá, homem!--interrompeu com azedume e paixão o de Cozelhas--Eu
+gosto de Silvina d'uma vez! E, se quer que lhe diga a verdade, já fiz
+alguma despeza com ella. Vossê inda a não enxergou?
+
+--Ainda não á minha vontade; mas na semana que vem vou dar um baile só
+para a vêr a preceito; já a lobriguei de longe, e alvidou-se-me que ella
+era bem tirada das canellas, e que tinha a cinta muito delgada.
+
+--Isso então!--exclamou o snr. Andraens, com os olhos rutilantes de
+jubilo, e um sorriso de satyro, que lhe fazia recuar os refegos das
+bochechas até ás orelhas, como dobras de cortinas apanhadas.--Bem feita
+até alli! O pescoço é branco como a cal da parede; os braços parecem de
+leite, e aquillo hão-de ser macios que nem veludo; os olhos, continuou
+José Francisco, com precipitada torrente de imagens orientaes, parece
+que entram no interior da gente, e andam sempre a bulir nos buracos como
+dous grillos; os dentes são da côr d'essa camisa, e tão iguaesinhos que
+parece mesmo cousa de fazer crescer a agua na bocca; quando ella anda
+pela casa, aquillo é um gosto vêl-a! parece que está a casa cheia! E
+ouvil-a fallar?! Vossê não faz uma pequena idéa! Até falla de
+Sebastopool! (Vê-se que esta feição do talento de D. Silvina foi a que
+mais deu no gôto do snr. José Francisco Andraens.) Em fim, amigo
+visconde, mulher como ella não espero topal-a. Tenho-lhe sympathia cá de
+dentro; sonho com ella todas as noites; dia em que a não veja, ando como
+a cobra que perdeu a peçonha; se adrega d'ella ir visitar alguem, e eu
+não a vejo, vou zangado p'ra casa, e já me tem acontecido não ceiar! As
+cartas d'ella tenho-as na cabeça, e já comprei um livro muito grande,
+chamado... chamado elle... assim uma cousa a modo... de... vossê hade
+saber? Aquillo que ensina a escrever direitas as palavras!...
+
+--Uma pauta, ha-de ser pauta...
+
+--Qual pauta, nem qual diabo! é um livro, que ensina a escrever com as
+letras todas... Já me lembra: um breviario.
+
+--Ha-de ser isso, ha-de ser isso...--disse o visconde, que apreciou o
+ensejo de saber que o breviario ensinava a escrever com as letras
+todas--mas, a fallar verdade--continuou ingenuamente o brazileiro--não
+me ageito com o tal livreco, e vou-lhe escrevendo como sei. Aqui trago
+eu na carteira uma carta, respondendo á d'ella de hontem, a vêr se lh'a
+entrego esta noite. Quer vossê vêr, amigo visconde? Eu p'ra si não tenho
+aquellas. Ora escute lá; mas o mais acertado é lêrmos primeiro a que
+ella me escreveu. Vossê vai ficar pasmado; ora ouça.
+
+José Francisco sentou-se n'um dos bancos de pedra da alamêda da Lapa, e
+leu correntemente o seguinte:
+
+ «Meu caro amigo.
+
+«Soube que hontem me procurou. Quiz o meu infortunio que eu não
+estivesse em casa. O tio anda a pagar visitas, e ordenou que eu o
+acompanhasse. Passei uma noite insipida, lembrando-me que podia passal-a
+no remanso duma dôce paz e contentamento d'alma ao lado do homem cujas
+tão amantes como paternaes palavras me embalam o somno para os sonhos
+d'um delicioso futuro...»
+
+Aqui José Francisco sacudiu na mão o papel, e exclamou radioso:
+
+--Olhe isto, amigo visconde! _os sonhos d'um delicioso futuro_!... Pelos
+modos, quer dizer que o que ella quer é uma vida socegada para, em vez
+d'andar em visitas, dormir na sua cama á sua vontade. Não é isto?
+
+--Pois elle que ha-de ser senão isso?--disse o visconde gostoso da
+modestia consultiva do seu amigo, e ia continuar reflexões a proposito,
+quando José Francisco, menos jubiloso, continuou, lendo:
+
+«Estará ainda longe o dia suspirado, meu amigo? Não tem já do meu
+caracter um profundo conhecimento? Não se demore a confirmar o destino
+que minha alma anceia, porque desgraçadamente a minha vontade não é de
+todo livre, e bem póde ser que meu pai, antes da resolução de v. s.ª,
+tome outra, contraria aos nossos intentos. Sua do coração, _S._»
+
+--Á troca d'estas linhas do fim--disse o brazileiro um pouco recolhido e
+melancolico--é que eu hoje tenho andado azoado, e a suspirar cá de
+dentro. Ora escute lá a resposta:
+
+«Meus amores!!! (Na pontuação guardamos a fidelidade que descuramos na
+orthographia, cuja liberdade concedemos a José Francisco e pedimos
+alternativamente para nós). As vossas letras recebidas ao fazer d'esta
+até ao meio consolaram o meu coração saudoso!!... mas as que vem no cabo
+da vossa carta penetraram qual duro ferro no meu coração saudoso!! Se
+vosso pai não levar a bem o nosso casamento, ó céos!!! tanto faz querer
+como não querer o arranjo ha se de fazer, ainda que eu vá ás do cabo;
+estai descançada, joven Silvina amada!! Logo que eu tenha a nossa casa
+da Lixa arranjada (que andam lá os estucadores e os pintores) estamos
+casados e arruma-se d'aqui o pensamento!!! D'este vosso idolatrado até á
+morte, J. F. Andraens, vosso futuro esposo.»
+
+--Que tal?--murmurou com certo ar de pudica modestia o erotico
+compositor de cartas incendiarias.
+
+--Onde diabo aprendeu vossê tanto, ó sôr José?--disse o visconde com
+sincero espanto.
+
+--Isto que aqui vê fil-o de fio a pavio, sem ir ao breviario, amigo
+visconde. Ponto é ter cá dentro o amor a puxar pelas memorias.
+
+José Francisco ergueu-se triumphante com miraculosa agilidade; deu
+alguns passeios floreando a bengala, e rindo a revezes do espasmo do
+visconde, que, em sua consciencia, suspeitava de que fosse a carta
+apocripha; mas, por delicadeza, calou as duvidas.
+
+José Francisco tinha desafogado. O arroto já não vinha acompanhado do
+suspiro. As tres barrigas funccionavam em toda a sua plenitude
+phisiologica. O jubilo doudo da sua esperança sorria aos arreboes que
+cintavam o horisonte do oceano; a viração da tarde, brincando na
+folhagem dos alamos e acacias, rumorejava um soido mellico aos ouvidos
+d'alma d'aquelle amante feliz.
+
+Ai! se elle a amava!
+
+Este expansivo dialogo fôra anterior quarenta e oito horas áquell'outro
+que ouvimos entre o brazileiro, e Christovão Pacheco de Valladares.
+
+Quem te ha-de crêr agora, José Francisco Andraens! Que se te dá a ti da
+barriga, se tu amas tanto a mulher predestinada?! Descança, anjo do
+amor, no teu céo de duzentos contos, que as filhas dos homens lá irão
+buscar-te!
+
+
+XII.
+
+Ai! como elle a amava!
+
+Quantos Paulos, e Romeos, e Othellos mettidos n'aquella côdea grossa de
+José Francisco Andraens! Que requebros de namorado, e que furias de
+cioso! Aquella é verdadeira paixão que ora se refrigera com orvalhos do
+céo, ora se calcina nas labaredas do inferno. A paixão de José Francisco
+era assim. Ha pouco vimos aquella alma a derramar-se em blandicias de
+Petrarcha; agora arripia o vêl-a a espirrar coriscos da cratera que lá
+referve dentro.
+
+Mal Christovão Pacheco sahira, galgando atordoado as escadas quatro a
+quatro, José Francisco arrancou de si a cataplasma d'um impeto que faria
+lembrar Catão arrancando o proprio redenho. Saltou para o chão, calçou
+as mouras escarlates que lhe serviam á farta de tapete, lançou sobre as
+espaduas um capote de camelão de quatro cabeções, enfiou as mangas do
+mesmo, e sentou-se á escrivaninha, resfolegando vaporadas pelas ventas,
+que nem javali monteado por lebreus. A criada entrava n'esta occasião
+com a terceira camada de linhaça, e fez pé atraz, enfiada de puro
+horror.
+
+--Que queres tu, moça?,--mugiu José Francisco.
+
+--São as papas...--balbuciou a espavorida criada.
+
+--Não quero mais papas. Vai chamar o meu compadre Amaro, e que venha já
+de marcha para ir com uma carta a Margaride.
+
+O brazileiro escreveu na pojadura da veia. O traslado da carta, com a
+authenticidade do de todas as outras, não pude havel-o, apesar de suadas
+canceiras que este paiz tão sovinamente remunera aos indefessos obreiros
+das suas glorias. O que pude tirar a limpo foi ser a carta dirigida a
+Pedro de Mello, pai de D. Silvina. José Francisco lembrava ao fidalgo a
+sua divida de um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta réis que
+lhe emprestára sobre hypotheca da quinta da Lixa. Dizia mais que não
+podia continuar a remetter as mezadas para os academicos da
+universidade. Instava pelo prompto pagamento do seu credito, ou
+trespasse da quinta hypothecada. Ameaçava-o com o poder judiciario, e
+terminava com estas quatro linhas, unicas authenticas:
+
+_Pr'ámor da sua filha é que é tudo isto. Se ella andasse direita comigo
+outro gallo lh'avia de cantar. Assim o quiz, assim o tenha. Comigo não
+se manga, e está arrumada a pendencia._
+
+Ai! se elle a amava!
+
+A carta partiu, e José Francisco, aplacado o maior afôgo da convulsão,
+chamou a moça, pediu uma tigela de tapioca, e comeu á tripa fôrra.
+
+Cotejemos agora com os do negreiro os ciumes do morgado de Santa
+Eufemia. Egas de Encerra-bodes esperava o primo no hotel, curioso de
+saber o fim a que o chamára o brazileiro. Christovão contou lealmente o
+acontecido, já barafustando furioso, já enternecendo-se a lagrimas. O de
+Matto-grosso descompunha-se em gargalhadas, e nem os prantos do primo
+lhe embargavam as guinadas de riso. Começava a desconfiar o de Santa
+Eufemia, quando Egas, composto o gesto e a postura, fallou assim:
+
+«Um Pacheco Valladares a correr parelhas com um José Francisco na
+conquista d'uma mulher! Um neto do governador de Cochim a disputar meças
+de merecimento com um chatim de negros! um moço no mais florido dos
+annos, gentil de sua pessoa, sacrificado á mazorral caricatura, que ahi
+está symbolisando uma fortuna tão besta quanto assignalada das vergoadas
+do látego com que o infame de Deus e dos homens fazia espirrar sangue
+das costas dos escravos!... Primo Christovão, torne sobre si, peje-se
+d'essas lagrimas que ahi derramou, e que eu escarneci para não tomar
+ignominioso quinhão da sua dôr aviltante para evos e para vindouros! Que
+mulher é essa, a neta do sargento-mór d'Amarante, que anda ahi a
+chafurdar nos chiqueiros da sua cubiça um appellido que usurpou?
+_Mello!_ Quem lhe deu a ella _Mello_?! Seu visavô era Antonio Gonçalves;
+seu avô era Francisco Antunes Gonçalves; quem enxertou no pai esse
+pomposo appellido? Silvina Antunes é como ella se chama, essa farrapona
+que mendiga para uma carruagem e seis vestidos o preço dos ultimos doze
+pretos que José Andraens mandou acorrentados ao mercado. Primo
+Valladares, neto de Heitor Valladares, bisneto de D. Mafalda Pacheco e
+Alvim, açafata illustre da côrte do snr. D. Pedro 2.º, descendente dos
+Alvins de Braga, onde casou o condestavel D. Nuno Alvares Pereira!
+primo, lembre-se de quem é, e esmague debaixo das solas das suas botas o
+coração, se sente que uma gotta de seu nobre sangue se ha degenerado no
+vilipendioso affecto que prodigalisou á esposa promettida de José
+Francisco!»
+
+Este aranzel fez bem ao coração do morgado. Entrou em si, coçou-se com
+ambas as mãos algumas vezes, estirou os braços convulsivos com os punhos
+cerrados, e exclamou de golpe:
+
+--Que a leve o diabo!
+
+Egas estreitou o primo ao coração com vehemencia, levantou-o tres vezes
+em peso, e bradou por fim:
+
+--Reconheço o meu sangue!
+
+Sem embargo d'isto, o morgado de Santa Eufemia precisava de ar, abriu a
+janella, sorveu tres grandes haustos, e repetiu a phrase que provára ao
+de Matto-grosso a identidade da sua estirpe:
+
+--Que a leve o diabo!
+
+N'este comenos, vinha atravessando o largo da Batalha Leonardo Pires.
+
+--Lá vem aquelle!--exclamou Egas--Vou chamal-o para lhe dar a noticia
+que ha-de ser muito agradavel ao seu amigo Jorge. Olé! snr. Albuquerque!
+_Psio_.
+
+Pires fez uma continencia militar com o chicote.
+
+--Suba cá--tornou o fidalgo de Entre-ambos-os-rios--temos que
+contar-lhe.
+
+--Viram aqui passar a Francisca da Cunha?--perguntou Pires.
+
+--Não.
+
+--Ando-lhe na pista, como galgo que perdeu a lebre, que eu desconfio bem
+que seja gata, que a minha paixão me dá por lebre.
+
+--É muito possivel...--redarguiu a rir o de Matto-grosso--Suba, e verá
+que não está longe da verdade.
+
+O da Maya circumvagou com a luneta em torno da praça duas vezes, e
+subiu.
+
+--Então que temos?! Dou-lhe parte que o meu amigo Jorge Coelho não tarda
+ahi, e que o duello, se os cavalheiros insistirem, ha-de consummar-se.
+
+--Quem falla aqui em duello?--acudiu Egas--Escreva ao seu amigo, e
+diga-lhe que se deixe estar com a mãi e com o padre lá na sua aldêa, se
+não quizer vêr Silvina, o anjo de candura, de braço dado com as fronhas
+carnosas de José Francisco Andraens...
+
+--Quem é José Francisco Andraens?--interrompeu Leonardo.
+
+Egas de Encerra-bodes compelliu o primo a contar a historia, que, d'esta
+feita, não sahiu com intermittentes de lagrimas. Era de vêr com que
+graça soez o amante ultrajado ia já apimentando os sarcasmos detraidores
+de Silvina, e os projectos de cynica desforra que elle offerecia ao
+parecer dos seus amigos, projectos que, realisados, collocariam José
+Francisco n'uma situação tão irrisoria como bemquista do siso commum, o
+qual é uma cousa muito ao envez do que por ahi nos grandes alcouces da
+opinião publica se denomina senso-commum.
+
+O programma do morgado de Santa Eufemia foi applaudido com razões pouco
+para se estamparem. Leonardo Pires disse que não avisava o seu amigo
+para não perder occasião de o ter no Porto alguns dias, e cural-o mais
+facilmente com a vista do espectaculo hediondo. N'isto, como estivessem
+os tres á janella, viram assomar no topo da rua de Santo Antonio
+Silvina, e Francisca da Cunha, seguidas de um criado de farda.
+
+--Ellas ahi vem!--disse Pires, e sahiu a encontrar-se com ellas. O
+morgado de Santa Eufemia, a rasoavel distancia, quando as damas vinham
+com os olhos postos n'elle, fez recuar o primo, e fechou-lhes a janella
+na cara. Silvina ria tanto como a prima, quando Pires, com o chicotinho
+em arco, e quasi aos pulinhos como funambulo que vai fazer a sorte, se
+lhe atravessou no caminho, dizendo:
+
+--Criado de vv. exc.as
+
+--O snr. Pires!--disse Francisca toda graça e affabilidade
+ironica--Faziamol-o no seu _chateau_... Que é feito de si?
+
+--Agoniso, minha senhora, agoniso.
+
+--Ai! que funebre vem!--disse Silvina--póde-se agonisar com esse rosto
+tão de vida, e rubicundo?
+
+--Póde-se padecer muito, minha senhora, com o rosto rubicundo--replicou
+Pires--Eu sei de creaturas, metaphoricamente chamadas humanas que
+soffrem muito, sem impedimento das massas de toucinho que as envolvem.
+Darei a v. exc.ª um exemplo. Conheço uma metaphora chamada José
+Francisco Andraens... (Silvina córou e franziu a testa) monstro cevado
+em sangue humano, que elle distilla em banha e asneiras, o qual
+monstro,--ninguem o ha-de crêr, minha senhora--neutralisa o combustivel
+da paixão com o refrigerante das cataplasmas de linhaça. Ahi tem v.
+exc.ª um exemplo que justifica de sobra a minha agonia.
+
+--Vamos, prima, que são horas--disse Francisca da Cunha, condoida do
+enleio desacostumado de Silvina.
+
+--Pois sim, vamos--disse esta, corrida de modo, que incutiria compaixão
+em homem que não fosse Pires.
+
+--Dão-me as suas ordens, minhas senhoras?--disse elle,
+ladeando--Ah!--continuou Pires de sobresalto--esquecia-me dizer á snr.ª
+D. Silvina que o nosso Jorge vem ahi...
+
+--Ah! vem?--disse machinalmente Silvina.
+
+--Vem, sim, minha senhora, a requerimento meu, por que lhe conheço
+grande curiosidade de naturalista, e desejo mostrar-lhe José Francisco
+Andraens, a hyperbole de enxundia, monstro, de quem eu tive a honra de
+fallar a vv. exc.as, e que até ouso recommendar-lhes, para que vv.
+exc.as admirem não só o bruto, mas o effeito prodigioso da linhaça.
+
+O enleio de Silvina redundou em colera.
+
+--O senhor, disse ella, está-me insultando por que eu e minha prima,
+confiadas na cortezania da sociedade em que vivemos, sahimos sem um
+homem, cujo desforço nos desafronte com honra.
+
+--Dizes bem, prima--acudiu Francisca, tambem colerica por
+contagio--Deixemos o villão.
+
+Pires, quando lhe voltaram as costas, deu dous passos em seguimento
+d'ellas, e tomou-lhes o passo.
+
+--Continua a petulancia?--disse Silvina irada--olhe que eu trago um
+criado!
+
+--Com libré emprestada, minhas senhoras?--disse o imprudente fidalgo da
+Maya, que trazia os ouvidos cheios das diffamações geanologicas d'Egas
+de Encerra-bodes.--Snr.ª D. Silvina, eu fui quem lhe apresentou a nobre
+alma de Jorge Coelho, que v. exc.ª quiz estragar. Empeçonhou-lh'a, mas
+não ha-de enlameal-a. Quem vinga Jorge sou eu, Leonardo Pires de
+Albuquerque. Saiba v. exc.ª que José Francisco Andraens é meu. Aquelle
+problema de carne hei-de desatal-o eu com o escarneo, e v. exc.ª ha-de
+ficar submersa nas avalanchas d'aquella montanha de cebo. Agora nós,
+snr.ª D. Francisca da Cunha. V. exc.ª, que só sabe lêr as cartas do
+linheiro das Hortas, e que tem tido o indiscreto recreio de me andar
+ridicularisando _no boudoir_ das suas dignas amigas, ou se encastella
+com o linheiro das Hortas lá no seu burgo de Traz-os-Montes, ou tem de
+esconder-se nas rimas de estopa em que seu futuro esposo lê de pernas ao
+ar as suas epistolas. Sem mais.
+
+Pires, vibrando no ar estalinhos com o chicote, entalou a luneta no olho
+esquerdo, e foi expandir o jubilo em folgada palestra com os morgados,
+que o espreitavam.
+
+Silvina, quando entrou n'uma casa nobre de Traz da Sé, soffreu um
+insulto nervoso que desabafou em gritos. Queria Francisca da Cunha
+consolal-a; mas estava esperando de instante a instante ser assaltada
+tambem do mesmo insulto. As senhoras da casa á competencia desfaziam-se
+em desvelos; mas Silvina respondia apenas: «hei-de vingar-me!»
+
+Desiderio Erasmo, como sabem, escreveu a «Apologia da tontice.» Eu não
+me afouto a encarecer a de Leonardo Pires; porém, assim como os
+regedores das republicas nobilitam com mercês e titulos não só a
+estupidez--isso é o menos--mas a infamia soberba d'uma opulencia cevada
+e medrada em cruezas e deshumanidades, que muito se aventurarmos um voto
+de louvor a alguns selvagens da civilisação, doudos providenciaes que
+atiram a vaza do insulto a caras já de si tão sujas, que não ha medo de
+enferretal-as?
+
+Alguns homens, como Pires, seriam muito proveitosos n'uma sociedade como
+esta. Houve-os sempre com differentes nomes e appellidos. Na
+antiguidade, chamaram-se Aristophanes, Diogenes, Marcial e Plauto; na
+meia idade eram os prophetas, os padres da igreja, e, com menos caução
+de suas prerogativas censorias, os histriões palacianos. Na correnteza
+d'esta geração por excellencia policiada, mas de todas a mais gafa do
+que ahi se chama «ridiculo» e do que mais é para chamar-se lastima, ha
+muito quem tire a campo de zombaria os «ridiculos» do mundo; mas ninguem
+se vê copiado n'elles, e os copistas de modo o fazem que fique salvo o
+orgulho de cada azêmola que fita a orelha ao ornejar da copia, mas não
+responde. A isto é o que ahi dizem «guardar as conveniencias»: á mesma
+cousa, chamavam d'antes «guardar as costas.»
+
+Seja o que fôr, a satyra assim não vinga fructo de servir á geração que
+está nem á porvindoura.
+
+Satyra prestadia, se alguma houve, é a de Leonardo Pires. Eis ahi um
+doudo, que tolos e sisudos lançarão de suas casas com horror; e todavia
+qual de nós não sente um Pires, na consciencia, a travar-se de razões e
+murros com a nossa soberba? Seis Leonardos activos no Porto purificavam
+o ar pestilencial que para alli veiu das terras de Santa Cruz. Na idade
+media, os tabardilhos, as pestes fulminantes; no seculo 16.º o verme
+roedor que desmedula os ossos através de vinte gerações que hão-de
+lembrar-se sempre de Colombo pelo mimo; no seculo dezenove, mais que
+nunca, a peste do Brazil, de que adoecem espiritos empinados em seu
+orgulho como o de Silvina e Francisca da Cunha.
+
+D'um lado Leonardo Pires; de outro lado José Francisco Andraens, e o
+linheiro das Hortas. Quem levará a melhor? É tola a pergunta. Ha-de ser
+o linheiro das Hortas, e José Francisco.
+
+
+XIII.
+
+O apostolico e dicasissimo padre João Coelho, desde Vallongo até
+Amarante, excedeu-se a si proprio prégando ao sobrinho o melhor e a
+maior parte do que disseram philosophos, santos padres, moralistas e
+casuistas ácerca do amor mundanal e da mulher. Jorge não replicava, por
+que o não escutava. O egresso, tomando o silencio como victoria, tirava
+dos corollarios theses novas, que ia defendendo com tamanha profusão de
+tiradas latinas que, a ser verdade o que elle disse abordoado a Seneca,
+Santo Agostinho, Euzebio cezariense, e Bredembachio, o amor mundanal e a
+mulher são cousas muito peores do que pensa o vulgar da gente. Padre
+João não era erudito que sómente fizesse praça dos exemplos que
+authorisa a historia. O pulso rijo da engenhosa memoria d'elle entrou
+nas idades fabulosas e trouxe pelas orelhas certos heroes que os poemas
+orphicos e os homeridas nos encamparam como sujeitos apresentaveis na
+boa sociedade. Marte, segundo o padre, era um adultero; Apollo um
+valdevinos que se andava lamuriando na piugada de Daphne; Hercules um
+maricas que fiava de cocoras na roca de Omphale; as heroinas da odissea,
+da iliada, e das tragedias de Eschylo um femeaço impudico e deslavado.
+Do Olympo desceu padre João aos antigos imperios, e poz pelas ruas da
+amargura Xerxes, Ciro, Dario, Holophernes, Absalão, Sichem, Salomão,
+Herodes, Marco Antonio, e muitos outros que pelos modos não deram boa
+conta de si, ou as mulheres não deram boa conta d'elles.
+
+O leitor de certo se convertia ouvindo o egresso; mas Jorge Coelho ia
+tão dentro em si, tão lacerado pelo abutre da paixão sem esperança, que
+as palavras do douto velho lhe eram como esponja de fel e vinagre
+espremida nas chagas. Pernoitaram na Amarante, onde chegaram ao fim da
+tarde do segundo dia de jornada. Em quanto o egresso entrou no velho
+templo a fazer oração a S. Gonçalo e visitar os cubiculos onde viveram
+santos varões da sua creação, Jorge foi sentar-se á beira do Tamega, e
+ahi rompeu em pranto desfeito, com os olhos postos nas ondulações das
+serranias para além das quaes lhe ficava o Porto. O padre sahiu
+indignado do mosteiro praguejando, menos evangelicamente que de seu
+costume, contra o governo que permittia á municipalidade amarantina que
+as vivandeiras do destacamento aquartellado nos dormitorios do mosteiro
+dançassem ebrias e meio nuas a canna verde e a sirandinha no refeitorio
+e na claustra. É de crer que as mulheres recebessem com galhofa o
+egresso venerando, cujas botas de borla e chapéo tricorne deviam de
+parecer cousa de entrudo ás bacchantes que a onda da civilisação
+revessou no remanso dos monges, em quanto outra engolfou os monges no
+porto suspirado da sepultura.
+
+Ahi me vou eu sahindo com o impertinente vêzo de lastimar os frades!
+D'esta vez hei-de represar a piedade com que n'outros livros tenho
+desdourado, no conceito de muita gente, os meus altos espiritos de
+operario que trabalha á candeia do seculo XIX. Que me importa a mim que
+nos cubiculos do mosteiro de S. Gonçalo se alojem as vivandeiras do
+destacamento, e que na claustra sobre as cinzas dos frades vão ellas,
+repletas de vinho e despejo, dançar a sirandinha e a canna verde? Se eu
+disser que no tempo dos frades não se viam semelhantes desacatos, hei
+grande medo que me ponderem que outros desacatos mais attentatorios da
+religião de Jesus ahi se viram no tempo em que os frades comiam no
+refeitorio, e medravam nas cellas, onde agora coze o seu vinho o
+mulherio da tropa. Se o padre João Coelho quizesse, esse é que podia
+responder a preceito; mas, para bem do leitor, ninguem n'aquella hora se
+lhe atravessou com argumentos, estando elle na estalagem da Amarante,
+sentado no escabello, a dizer cousas de sorte magoadas, a respeito da
+profanação do convento, que todo o auditorio chorava, sendo tres das
+carpideiras as mais lubricas bailarinas da claustra.
+
+Entretanto, Jorge escrevia a Leonardo Pires, dizendo-lhe que resolvera
+não escrever a Silvina, em quanto lhe durasse a impressão amarga que
+recebera das revelações do tio, impressão immorredoura, dizia elle.
+Recommendava-lhe que se informasse da verdade d'aquellas revelações, e
+sem piedade lhe transmitisse o excesso de peçonha que havia de matal-o.
+Ajuntava elle que já não amava Silvina; mas que não podia despresal-a; e
+que entre o amor e o despreso estava o odio, serpente insaciavel que se
+lhe enroscara no coração.
+
+Esta serpente de que se queixa Jorge Coelho é uma alimaria a que os
+poetas de animo socegado chamam cupido, deus de Gnido, de Paphos, e Amor
+em estilo chão. Permitte a rhetorica aos amadores enraivados denominar
+serpente a cousa que d'um dia para outro se transforma em rola gemedora.
+Não é raro encontrar sujeito que tem aninhado no seio um viveiro d'estas
+serpentes, as quaes, depois de cuspirem a peçonha, n'uma carta arrufada,
+em meia duzia de adjectivos azedos como malagueta, metamorphoseam-se em
+pombal de candidissimas pombinhas que se catam e beijam umas ás outras
+com langorosos requebros. Da metamorphose o que fica é a peçonha
+instillada e derramada na circulação sanguinea. Na correnteza do tempo,
+vem esta peçonha a consolidar-se no coração, e d'ahi procedem as
+postemas, que degeneram em aleijões, commummente denominados
+scepticismo, cynismo, devassidão, libertinagem, impudencia, e outras
+molestias pegadiças. As rolas e as pombas, desde que o coração
+inficionado as afugenta, passam para o dominio do estilo, e concorrem
+para que no banquete d'um amor revelho, gotoso e glutão hajam sempre
+aves.
+
+Vem a pêllo fallar da gorda gallinha que padre João trinchou na
+estalagem da Amarante, em quanto Jorge Coelho, recolhido ao seu quarto,
+se atirava vestido sobre o leito abafando contra o travesseiro os
+soluços da afflicção, que o egresso, tão de boa fé como crente na
+efficacia da historia, julgára minorada com a quarta dissertação que
+fizera ácerca do amor, segundo a carne, e nomeadamente do amor em Roma
+na época dos Cezares.
+
+Citou versos de Marcial e Juvenal, como prova de que o amor era mau em
+toda a parte; e, sem elle querer, tambem provou que nas livrarias dos
+mosteiros entravam livros de moralidade muito equivoca. A ultima these
+de padre João Coelho assentava n'esta proposição de S. Paulo: «Quem não
+ama está na morte;» mas tão engenhosamente o erudito frade torceu o bico
+ao prego que as conclusões eram todas contra o baixo amor terreal, e
+pregoeiras do amor divino, que elle orador por sua parte cumpria á
+risca, sem embargo de se pascer em delicias na choruda gallinha, em
+quanto o sobrinho abafava de dôr no quarto. Esta é a grande vantagem dos
+que andam empinados em amores do céo, que nunca deixam de comer ás suas
+horas, e de digerirem em regalados somnos a materia bruta que lhes não
+pesa na consciencia. Não ha pois duvidar de Montesquieu (parece que foi)
+que disse--que a religião christã, depois de nos felicitar n'este mundo,
+nos segurava a felicidade do outro.
+
+Padre João dormiu nos coxins macios da sua limpa consciencia; Jorge,
+apenas o tio se fechou com o breviario, e adormeceu ao quarto psalmo
+penitenciario (um egresso repleto de gallinha cozida a resar um psalmo
+penitenciario! parece um paradoxo! Tomára eu saber se David compoz
+aquellas lastimas antes que as caricias de Bethsabé o enfastiassem!)...
+Estas incisões intermittentes hão-de perdoar-m'as os leitores que
+souberem o que é escrever um romance n'um carcere, onde já não ha
+carrasco, mas existe o espirito do carrasco identificado a uma cousa que
+nós cá os assassinos e os salteadores denominamos as _authoridades_, que
+medram no cêvo do erario, uns chamando-se procuradores do rei, outros
+carcereiros, outros chaveiros, outros guardas, a mesma familia
+representando o rei de theor e modo que fazem odiosa a palavra do
+symbolo que lhes legitíma a crueza, a barbaridade que lhes tem
+ladrilhado o coração, e muitas vezes a infamia que se abona com a
+justiça, essa divina irmã dos anjos, que os cafres trazem tão nusinha e
+pustolosa por sobre os esterquilinios d'elles.
+
+Agora é que me eu perdi de todo... Perdido devéras andava aquelle pobre
+Jorge Coelho, pelas ruas da Amarante em quanto o padre dormia o somno do
+justo. Chegou á celebrada ponte, curvou-se no parapeito, e teve tentação
+de precipitar-se. Foi instantaneo o accesso de loucura. Jorge viu a
+imagem de sua mãi no scintillante reverbero da lua que se espelhava no
+Tamega, Levantou os olhos para o céo, e disse:
+
+«Ó Providencia Divina! leva esta dôr ao coração de minha mãi, para que
+ella, a santa, peça por mim!»
+
+Eram onze horas d'aquella formosa noite de Setembro. Soava apertada nos
+rochedos a torrente, que scintillava em escamas de prata. De longe vinha
+a toada soidosa d'uma flauta que tocava a chacara popular dos «Dous
+renegados.» Jorge amava desde os doze annos os versos maviosos e
+truculentos d'aquella canção de amor que chora como anjo e obsecra como
+demonio. Proferiu a letra cadenciando-a com a flauta, e rematou
+chorando, já não em ancias, mas suavissimamente, como se o espirito de
+sua mãi lhe alcançasse do céo a mercê das lagrimas que desopprimem.
+
+Um vulto entrou na extremidade direita da ponte: era uma das mulheres
+que padre João vira com santa indignação, a tripudiarem sobre as ossadas
+dos monges na claustra. Veiu direita a elle, e pediu-lhe uma esmola.
+Jorge deu-lhe tudo quanto tinha. A mulher viu bastantes moedas de prata,
+e, estupefacta ou douda de jubilo, nem se retirava nem agradecia.
+
+--Vá-se agora, embora, mulher--disse Jorge, sem enfado, mas desejoso da
+solidão que tão suave lhe estava sendo.
+
+--O senhor dá-me este dinheiro todo?!--disse a mulher, que os homens
+chamam perdida, e que não o estava, nem o podia estar aos olhos do seu
+Creador.
+
+--Dou, sim.
+
+--Bem haja, meu senhor!--tornou ella, com lagrimas na voz--já tenho com
+que ir para a minha familia. Eu sou uma desgraçada, que vim do Algarve,
+ha tres annos, fugida a meus paes, com um rapaz meu parente, para
+casarmos onde podesse ser. Elle requereu ao commandante; mas não teve
+licença para casar commigo; eu depois fui lançar-me aos pés da senhora
+do commandante, e consegui licença. Quando estavamos muito contentes,
+mandei buscar a minha certidão e mais papeis á terra; mas disseram-me de
+lá que nós eramos primos, e não podiamos casar sem dispensa. Não
+tinhamos dinheiro para ella, e fomos vivendo até vêr se Deus dava
+remedio. N'este entrementes, o meu primo namorou-se de outra, e
+deixou-me a morrer á fome. Agora com este dinheirinho vou já amanhã para
+o Porto, e de lá vou n'um hiate para Tavira, e vou botar-me de joelhos
+aos pés de minha mãi.
+
+--Pois vá, não mude de resolução, e faça por ser boa filha--disse Jorge
+com maviosa caridade.
+
+--O senhor será um anjo do céo?--disse a feliz creatura lavada em
+lagrimas.
+
+--Não sou anjo do céo, não... Vá com Deus.
+
+A mulher retrocedeu, e foi ajoelhar diante de um antiquissimo retabulo
+de granito em que na fachada do templo de S. Gonçalo sobresahem os
+grosseiros relevos de uma Senhora com Jesus morto no regaço. Jorge viu,
+ao clarão sereno da lampada que pende sobre a imagem, a mulher
+ajoelhada. Banhou-se-lhe o espirito de um contentamento, que não poderia
+existir na terra, se acima d'este tremedal, não velasse um Deus as
+acções do homem que póde erguer-se do seu rasto até hombrear com os
+anjos.
+
+Entre Jorge e aquella peccadora que resava, avultou ainda a imagem da
+mulher pura, a mãi, a santa, onde chegára talvez a revelação das penas
+do filho. Silvina, n'esse momento, nada era na vida de Jorge. Nem a
+poesia da paixão pôde disputar o espirito do mancebo á poesia da
+caridade.
+
+Entretanto, o varão justo, o padre João Coelho, acordava com a digestão
+consummada, voltou-se para o outro lado, e reatou a nota quebrada de um
+beatifico ronco.
+
+
+XIV.
+
+As prelecções de historia antiga que padre João fizera, desde o Porto
+até casa, não tocaram o juizo nem o coração de Jorge; mas as singelas
+palavras da indulgente mãi, e as caricias dos irmãos, acalmaram algum
+tanto a febril paixão do academico. D. Antonia, de proposito, passou com
+o filho no adro da igreja rural, quando, ao fim da tarde, se celebrava
+dentro um baptisado. Entraram na modesta igrejinha, e foram ajoelhar no
+arco. A viuva, depois que orou, foi sentar-se n'um banco tosco da
+capella-mór, e chamou para junto de si o filho.
+
+--Senta-te aqui, Jorge;--disse ella--quero fallar com o meu filho ao pé
+da sepultura de seu pai. Não a esqueceste ainda, pois não?
+
+Jorge desceu a vista sobre uma das lages que formavam o estreito
+pavimento da capella-mór. D. Antonia continuou:
+
+--Tenho fé em que o meu coração n'este lugar, onde ha cinco annos venho
+chorar todos os dias, te saberá dizer o que teu bom pai te diria, filho.
+Se Deus me não fizer o milagre de ajuntar ao teu espirito mais dez
+annos, serão perdidas as minhas consolações, e tu as tomarás como
+conselhos importunos...
+
+--Não, minha mãi...--atalhou Jorge, commovido pelo terror santo do
+local, e pela imagem de seu pai, em cuja fronte morta elle dera um beijo
+cinco annos antes--os seus conselhos...
+
+--São conselhos de mulher, conselhos de mãi, que quer desterrar da tua
+alma lembranças d'outra mulher que me rouba o coração de meu filho. Deus
+levou-me teu pai, Jorge; e Deus não me podia enganar quando d'aquella
+tribuna, estando eu ajoelhada sobre esta lousa, me dizia que a
+compensação da boa alma que chamou para si, eras tu. Lembras-te d'uns
+beijos fervorosos que eu te dava, quando erguias as mãos ao pé de mim
+n'este mesmo sitio? Não te deixava eu a face molhada de minhas lagrimas,
+Jorge? Lembras-te?
+
+--Lembro-me, minha mãi... E porque está chorando agora?--disse
+compadecido o moço.
+
+--Parece-me que é saudade das dôres de então, filho... As de hoje são
+inconsolaveis... Nunca tive orgulho peccaminoso, Deus sabe que não; mas
+orgulho do meu dominio no teu animo, Jorge, tinha-o muito grande; e
+agora vejo que pequeno valor tem o dominio de mãi, logo que um acaso
+infeliz depara aos dezoito annos de uma criança os affectos verdadeiros
+ou simulados da mulher que nunca se viu, nem conheceu nos brinquedos da
+infancia. Isto é triste! A natureza poderá justificar este vulgar
+infortunio; mas a piedade e o dever choram-se, e não ha razão que
+convença uma mãi a conformar-se com a desvalia em que tu tiveste os meus
+rogos durante tres mezes.
+
+--Eu não desvaliei os seus mandados, minha mãi--disse Jorge em tom de
+carinhosa submissão--Havia uma corrente invencivel que me prendia á
+desgraça...
+
+--E partiu-se essa corrente, filho?... O teu silencio diz-me que não...
+Olha, Jorge... se essa mulher fosse digna de ti, eu dizia-te que me
+trouxesses para casa mais uma filha; se ella fosse virtuosa e pobre,
+seria um thesouro, na nossa casa onde sobra o necessario; se fosse rica
+e creada nas regalias da sociedade, aconselhava-te que a não
+sacrificasses á nossa solidão e pobreza comparativa; mas, filho, essa
+menina, que te enganou o coração, não tem virtudes que suppram a
+riqueza, nem a riqueza que possa compensar o coração estragado e sem
+escrupulos do homem, que não és tu, mercê do Senhor! Antes de teu tio ir
+ao Porto, já eu sabia, meu filho, quem era Silvina. Nada disse ao padre
+do que sabia, quando lhe pedi que fosse em meu nome pedir-te que viesses
+para nós, que te choravamos. Tu sabes que eu tive uma companheira no
+convento de Braga, menina de muitas virtudes, que mereceu a Deus casar
+com um negociante do Porto. Foi a ella que eu escrevi pedindo-lhe
+informações da tua vida, e não se demoraram. O marido d'esta senhora
+procurou-te varias vezes, e nunca pôde encontrar-te. Andavas perdido na
+tua cegueira, meu pobre filho! Abre os olhos da tua alma, e attenta nas
+lagrimas da pobre mãi que não póde contar com o amparo de tres meninas,
+nem ellas contam com outro amparo senão o teu. Não achas tanta gente boa
+a pedir-te amor, filho? Tudo nos queres tirar a nós para o atirar aos
+pés de uma mulher que d'aqui a um anno será na tua memoria apenas um
+remorso, senão fôr antes uma vergonha?
+
+--Uma vergonha!... atalhou Jorge, mais ferido na vaidade que
+surprehendido da qualificação.
+
+--Pois qual é o nome que dá o mundo ás paixões que humilham os que as
+soffrem, e mortificam uma familia que não espera d'ellas senão
+amarguras, desgraças, e abysmos?! Jorge, meu querido filho, faz um
+esforço de vontade! Vence-te, que podes. Ajuda a efficacia das minhas
+orações. Em nome d'estas cinzas queridas, peço-te em nome de teu pai,
+que tantas vezes me disse, quando te via triste, aos quatorze annos;
+«não tires da tua vista este menino, que ha-de perder-se, se entrar no
+mundo, d'onde me eu salvei com o teu amor»; é teu pai que te pede pela
+minha bocca, Jorge, esquece essa mulher; não lhe escrevas, os teus
+amigos que te não fallem d'ella; absorve-te no meu amor; folga com a
+innocencia de tuas irmãs: volta a Coimbra quando o desejo do estudo
+renascer no teu animo socegado; entrega-te de novo aos teus prazeres da
+caça; restaura a tua saude, que trazes tão quebrantada; eu pedirei aos
+amigos da nossa casa que a frequentem mais a miudo; teu tio ha-de saber
+conversar com o teu espirito instruido; compra os livros que quizeres;
+satisfaz todos os caprichos que te não arruinem a saude nem a alma; tens
+a duas leguas d'aqui uma villa onde ha sociedade, e familias que te
+estimam. Lucta, filho, deixa triumphar tua mãi do prestigio d'essa
+mulher, que nunca te deu uma lagrima, nem sabe o travor das que tu me
+tens feito chorar...
+
+--Basta, minha mãi--murmurou Jorge, levando aos labios a mão tremula da
+magoada senhora--Luctarei, e... morrerei, se não vencer.
+
+--Vences, filho, vences! exclamou D. Antonia com a vehemencia da sua fé
+e da sua razão.--Vences, porque Deus não dá ás más paixões o poder de
+matarem uma creatura, que póde desafogal-as nos braços de sua mãi.--E
+erguendo as mãos para o altar, disse com a voz convulsiva--Graças, meu
+Redemptor!
+
+Anoitecera. Padre João, que era o vigario da freguezia, andava
+discretamente passeando no adro, e entretendo os sobrinhos para não
+interromperem a pratica, cujo assumpto elle adivinhara. D. Antonia
+ergueu-se, tomou a mão do filho, e sahiu da igreja. No adro, estavam
+brincando as tres irmãs de Jorge, a mais velha das quaes tinha nove
+annos, e o irmão mais novo que nascera depois da morte de seu pai.
+Saltaram os mais novos aos abraços á mãi, e as duas meninas ao pescoço
+de Jorge, com grande alarido. Sentou-se elle nos degraus do cruzeiro do
+adro, e tomou para sobre os joelhos as duas meninas, que á fina força
+queriam ennastrar-lhe nos cabellos as suas rozas brancas. D. Antonia
+contemplava o grupo com o semblante banhado de alegria. O egresso,
+debruçado sobre a parede baixa que contornava o adro, fallava com o
+mordomo da festa de S. Sebastião ácerca do numero de padres e do
+prégador que devia chamar. Os meninos mais novos já tinham largado a mãi
+para apedrejarem as andorinhas que chilreavam em redor do campanario,
+cuja sineta unica era movida debaixo por um cordel, que os pequenos a
+muito custo respeitavam por alli estar o tio padre.
+
+Resolvido o negocio da festividade do orago, padre João tirou pela
+corda, e tocou as nove badaladas das Ave-Marias. Todos ergueram as mãos,
+e resaram em voz alta. «Ora, Deus nos dê boas noites.»--Disse o padre.
+Rodearam-no os meninos a beijar-lhe a mão, e Jorge tambem depois que sua
+mãi lhe deu a fronte.
+
+Terminado este lance, cuja poesia santa não ha pedil-a a corações que
+deram com ella no pégo da lama brilhante onde dizem que a poesia está,
+Jorge Coelho fitou os olhos no occidente, e reconheceu o anoitecer dos
+seus dias passados; viu o boleado pardacento das serranias longiquas que
+lhe estavam redizendo os pensamentos da sua infancia; ouvia ainda as
+vibrações do sino que repicava no baptisado de seus irmãosinhos, e
+dobrára na morte de seu pai, reconcentrou-se; sentiu uma secreta
+amargura que não era angustia de saudade, nem pavor de previsões
+afflictivas... Que era, pois, esse vulto lá muito ao longe, ao pé
+d'aquella myriada de estrellas que repontava na cumieira da montanha?
+Era a imagem de Silvina ainda perto do céo, porque de lá vinha cahindo,
+bella como os anjos que lá nasceram; e, rebeldes á piedade, á virtude, á
+suprema graça, aqui se despenham, e despenhados vencem ainda disputando
+ao Senhor as almas immaculadas. Era Silvina, toda de festa e risos,
+reptando-o á lucta com um sorriso affrontoso, e esgares de escarneo ao
+protesto santo jurado sobre a sepultura d'um pai, e assellado com
+lagrimas de mulher sem macula. Era a visão maldita, a fada inexoravel
+dos que vem a esta hecatomba, predestinadas victimas, que o mundo
+sacrifica e cospe.
+
+Era Silvina, sempre Silvina, a dizer-lhe:
+
+«Que mulher viste mais linda que eu!? Quem te deu philtros de mais
+saborosa peçonha!? Vê se te sorriem uns labios com mais dôces favos de
+phrases que assignalaram a mais bella hora da tua vida!»
+
+Meu pobre Jorge Coelho! Tua mãi não te salva d'esse captiveiro. Teu pai,
+esse resgatava-te, se te désse um lugar no seu leito!... _É intransitivo
+o calix!_
+
+
+XV.
+
+A primeira carta de Leonardo Pires ao condiscipulo dizia que Silvina ia
+todos os dias á Foz de carroção, e almoçava bifes e fiambre no hotel
+inglez. Ajuntava a isto o picaresco informador que a menina usava de
+anquinhas no vestido de banho, e fazia de nereida saracoteando-se na
+agua, requebrando-se em risos e ditos galanteadores aos tritões de baêta
+azul que a rodeavam, e sahindo dos braços de Neptuno mui peneirada aos
+saltinhos pela praia, que eram umas delicias vêl-a. Dizia mais, que
+Francisca da Cunha, ao sahir do banho, era uma cousa desazada como perua
+que saltasse de um tanque a escorrer agua. Este era sempre o estilo do
+fidalgo da Maya. Rematava dizendo que o morgado de Santa Eufemia fazia
+todos os dias a Silvina o sacrificio de se lavar no oceano, dando
+grandes urros, e devorando bois assados no hotel da Boa-vista.
+
+Jorge Coelho tragou este veneno, e odiou o amigo que sem piedade lh'o
+vasava no coração. O innocente esperava que Leonardo lhe enviasse, senão
+uma carta, ao menos palavras consolativas de Silvina, incentivos
+apaixonados á esperança, lagrimas de saudade e protestos de firmeza
+eterna.
+
+Na segunda carta dizia Leonardo Pires que tendo elle azo de encontrar-se
+com Silvina na calçada dos Clerigos, na loja do snr. Antonio das
+Alminhas, lhe fallara de Jorge, contando-lhe o motivo da sua repentina
+partida para a provincia, com o que a boa da menina se rira grandemente,
+dizendo que seria muito de receiar que o tio padre trouxesse uma
+palmatoria debaixo da sotaina. A isto respondera Leonardo--e não
+duvidamos acredital-o--que Jorge devéras merecia meia duzia de
+palmatoadas, quando sahiu do baile da assemblea, apaixonado por um anjo
+que fizera presente das suas azas á gravata do morgado de Santa Eufemia.
+E como quer que Silvina redarguisse com voltar-lhe as costas, Leonardo
+fôra fallar a Francisca da Cunha que estava á porta do snr. Antonio das
+Alminhas, conversando amores com um linheiro das Hortas, o qual linheiro
+lhe estava dizendo que o dia estava muito bonito.
+
+Jorge Coelho respondia a estas cartas sem fallar de Silvina, e dizendo
+pouco de si. Divagava por assumptos tristes, dissabores da vida que em
+seu começo tropeça na desgraça; rebates de saudade d'um tempo que mais
+não voltaria; os encantos perdidos do céo, das arvores e das montanhas
+que elle amara tanto; a magia do viver em familia despoetisada; o
+coração desaffeito das caricias maternaes e já insensivel ao sabor
+d'ellas; longos dias, sem um sorriso, encadeados a noites desveladas
+sobre livros em que elle, como Hamlet, não via senão _palavras_,
+_palavras_, _palavras_.
+
+Na terceira carta dizia Jorge ao seu amigo que talvez não fosse a
+Coimbra, porque a saude lhe minguava com a vontade, e a perspectiva da
+morte era a visão mais risonha que o visitava ao cahir da folhagem dos
+seus bosques, onde elle passava os dias com um anjo de nove annos, a sua
+irmã Angela.
+
+D. Antonia não entendia o filho. Via-o triste; mas triste o vira sempre
+desde criança. Espreitava-o de noite no seu quarto, e achava-o sempre
+com os cotovêlos na mesa de estudo, o rosto entre as mãos, e um livro
+aberto. Se o interrogava ácerca da sua saude, Jorge respondia sempre que
+não soffria senão o mal-estar da sua doentia imaginação. A mãi, fiada em
+suas orações, esperava o melhor, e agradecia já a Deus a cura completa
+de seu filho.
+
+Padre João, porém, via mais de perto o fio ás cousas.
+
+--O rapaz come muito pouco!...--dizia o sagacissimo egresso á
+cunhada--Não nos fiemos n'aquelle exterior pacifico, mana. Alli ha
+amargura secreta enfronhada n'uns ares de serenidade, que não é
+d'aquelles annos. Jorge está magro, macilento, e não dorme. Debaixo da
+janella d'elle encontro a miudo muito papel rasgado. Já pude concertar
+uns pedacinhos, e lá encontrei o nome da fada má, que nos ha-de perder
+Jorge.
+
+--Perder!... não diga tal, mano João!--exclamou a viuva, estorcendo os
+dedos, e já com as lagrimas, a fio.
+
+--Perder, sim!... Mana Antonia, eu já tive vinte annos, e entrei no
+mosteiro aos trinta e dous... Vou aconselhal-a. Quer resgatar o seu
+filho das ciladas da sereia?... Olhe que só Ulysses venceu uma vez
+sereias. Que me conste; desde Ulysses até nós, as vencedoras são ellas
+sempre, quando as victimas as não podem examinar de perto, e vêr que
+ellas escondem na agua a metade monstruosa do corpo. (A erudição
+mythologica do padre nem D. Antonia poupava!)
+
+--Então que conselho me dá, mano?--atalhou a senhora.
+
+--Quando Jorge der signaes de doença grave, quando uma ponta de febre
+lhe accender as faces, mande-o para o Porto.
+
+--Para o Porto?! Que desproposito é esse!?
+
+--Deixe-o ir examinar de perto o monstro. Deixe-o cahir na conta da sua
+indigna paixão. Deixe-o ir ouvir o descredito da tal mulher. Ha mulheres
+como a lança de Pélias: curam a ferida que fazem. Eu já me arrependi de
+obedecer aos rogos da mana. Jorge devia deixar o Porto espontaneamente.
+Logo que eu sube que mulher era a tal Silvina, devia abandonal-o a elle
+á miseria da sua illusão. A esta hora estava elle talvez desenganado.
+Sabe porque? Aqui tenho uma carta do negociante Ferreira, casado com a
+sua amiga do convento. Diz-me que Silvina arranjara a final um
+brazileiro millionario, tão monstruoso em corpo como ella é monstruosa
+na alma. Se Jorge estivesse a esta hora no Porto, cercado de homens que
+fazem zombaria das affeições serias e das ridiculas, curava-se. Aqui, se
+lhe eu annunciar as baixezas da Circea que o bestificou, não me
+acredita; e, se me acreditar, não temos balsamo que lhe feche a chaga;
+verá que elle a rasga mais com as suas proprias unhas, Mana Antonia, o
+meu parecer é este. Não me argumente, que não sabe, nem póde. Se a sua
+vontade fôr outra, lavo d'ahi as minhas mãos...
+
+D. Antonia foi direita ao quarto do filho, e entrou de sobresalto.
+Surprehendeu-o a escrever. Jorge fez um gesto machinal para entremetter
+n'outros papeis a folha em que escrevia.
+
+--Escondes de mim o que escreves, filho?--disse D. Antonia, com magoada
+brandura.
+
+--Não, minha mãi, não escondo...
+
+--Pois eu não vi?!--tornou ella, sorrindo tristemente.
+
+--São cartas para os meus condiscipulos.
+
+--Deixas vêr-m'as, Jorge? Que poderás tu dizer aos teus amigos, que não
+dissesses a tua mãi?! Fallas das tuas amarguras? Conta-m'as tambem a
+mim.
+
+--Eu não fallo de amarguras, minha mãi--disse Jorge, erguendo-se, para
+afastar a mãi da banca.--Communico a um amigo os meus estudos, as minhas
+impressões de leitura, cousas que não podem recrear uma senhora...
+
+--Assim será, Jorge... Tu nunca me mentiste, nem mentirás, pois não?
+
+Jorge guardou escrupuloso silencio, respondendo com um tregeito, que
+valia tanto como a supplica de perdão.
+
+N'este momento, apeava no pateo um cavalheiro da villa proxima, que
+vinha visitar o academico. Jorge foi logo á sala, a mãi acompanhou-o até
+fóra do quarto; e retrocedeu a examinar os papeis, logo que o viu
+entretido. Foi fácil estremal-o dos outros pela frescura da tinta. No
+alto da folha, leu estas palavras: «AO ANOITECER DA VIDA.» Depois seguia
+assim:
+
+«Vou d'este mundo, quando custa morrer aos que se estorcem entre uma
+saudade e uma esperança. Saudade! de que hei-de eu tel-a?! E que posso
+esperar? Quem me dera já as trevas! Esta luz, que me alumia, é ainda a
+d'aquelle clarão infernal do baile. Queria fugir de mim proprio, como de
+um inimigo. Não me has-de tu matar, paixão! Morro porque não podia
+viver. Se não fosse aquella mulher, era outra. Eu vejo e palpo a morte
+ha muitos annos. A fugir da morte, refugiei-me no coração de Silvina.
+Porque me disse ella: «no mundo deve existir a imagem da mulher digna de
+senhorear-lhe a alma com a de sua mãi, cuja face eu beijaria com
+respeito e ternura de filha?» E como Deus pôde crear no coração humano
+para zombaria pensamentos assim! Á mulher infame devia morrer a memoria
+das palavras com que se exprime a virtude... Sinto-me tranquillo... A
+compensação dos affrontados é esta. No mal e no bem te reconheço,
+Providencia Divina!... Mas o mal para que é? Se é necessaria na ordem do
+mundo a ignominia, a crueza, a infamia, a desgraça, fôra digno da
+perfeição divina deixar ás almas inculpadas o galardão de não sentirem a
+absurda justiça do Creador.
+
+«Que és tu, bem? que és tu, virtude?... que és tu...»
+
+Aqui fôra interrompido Jorge pela subita entrada da mãi.
+
+D. Antonia quasi não entendera o escripto; mas algumas palavras, as do
+titulo só, bastaram a compenetral-a de consternação e terror. Ouviu os
+passos de padre João, chamou-o anciada, e mostrou-lhe o papel. O egresso
+leu, e respondeu risonho:
+
+--Não tem de que se lastimar por em quanto, minha irmã. Isto é um
+accesso de febre; mas não me assusta; o que eu receio é a outra que não
+interroga a Providencia, e obriga o enfermo a inclinar a face para o
+seio, e esperar resignadamente a morte. Vá á sala, que o hospede quer
+comprimental-a.
+
+D. Antonia sahiu, e padre João escreveu o seguinte no papel que lêra:
+
+«O pucaro pergunta ao obreiro porque o fez quebradiço. O oleiro
+responde: porque eras barro antes de seres pucaro.»
+
+«Virtude é o diamante em que se pulverisam os raios da desgraça. Aquelle
+é virtuoso que olha em torno de si, e vê prostradas as calamidades.»
+
+«O reino de Deus não está em palavras sonoras; mas em virtudes. (S.
+Paulo--aos impacientes de Corintho).»
+
+«Coração apoucado, sossobra, se não podes com a tua miseria; mas não
+abandones a tua memoria a uma piedade vã, que é quasi uma zombaria.»
+
+
+XVI.
+
+Traslado fiel de uma carta de Leonardo Pires a Jorge Coelho:
+
+«São 6 horas da manhã. Venho do baile do visconde dos Lagares. Tenho o
+coração a trasbordar de amargura! Deixal-o trasbordar, que é uma gotta
+de absintho n'um oceano de champagne. Um bago de uva matou Anacreonte.
+Eu sinto-me triplicar de existencia na uva. _Evohé!_ Como a vida é
+linda! que vergeis de flôres recendem á tona d'este lamaçal! Vem cá,
+Fortuna! Schakspeare chamou-te prostituta. Linda, vem cá, que eu bem te
+vi no baile, como o poeta inglez te via nos paços e nas tavernas!
+Senta-te aqui nos meus joelhos, impudica! Solta d'essa larynge recozida
+de alcool um dithyrambo! Ri-te commigo, e não me venhas dizer que és
+filha da Providencia, infame blasphema!...
+
+Cançou-me o folego, Jorge! O meu vinho nunca foi para grandes
+apostrophes. O descriptivo é o meu forte.
+
+Fui ao baile. Pude lograr a causa da moral publica. Deves presumir que
+estou desacreditado no Porto, e em vesperas de um duello. Sou o varão
+justo a braços com a adversidade: _vir fortis cum mala fortuna
+compositus_--a maravilha que punha Seneca em extasis! O champagne do
+visconde é litterario como as aguas da Aganippe. Que abundancia de
+pegasos eu vi beber na sala da ceia, e apparecerem Homeros na sala do
+baile!
+
+Pedi a quatro conhecidos que me arranjassem convite. Era impossivel. O
+visconde respondia que eu era um _bolas_, que descompozera no largo da
+Batalha uma menina, noiva de um seu amigo. Eis que encontro o João da
+Thereza da Cancella! Este João é meu caseiro ha cincoenta annos. Vê-me,
+corre a abraçar-me, e exclama: «Fidalgo, o meu Francisco chegou!»--«Quem
+é o teu Francisco, amigo João?»--«O meu Francisco--tornou elle--que
+estava no Maranhão! pois não sabe?»--«Não sabia... Vem rico?»--«Rico
+como um burro!»--«Está bom; estimo; é barão de...?»--«Não, senhor; barão
+ainda não é; mas está aquartelado em casa do snr. visconde dos
+Lagares.»--«Sim?!»--«É como digo, fidalgo, e, pelos modos casa-lhe com a
+filha; é arranjo tratado já lá do Brazil.»--«Fazes-me um favor,
+João?»--«É pedir por bocca.»--«Teu filho será capaz de me arranjar que
+eu seja convidado para um baile que vai dar o visconde amanhã?»--«Que
+remedio tem elle, senão arranjar?! Quem foi que lhe pagou a passagem
+para o Rio senão o paisinho do fidalgo?!»--«Vai depressa, e volta aqui
+com a resposta.»
+
+Meia hora depois, voltou João da Thereza da Cancella, com a carta, e
+disse-me: «Olhe que o homem não queria dar o officio; foi preciso eu
+dizer que dava duas libras por elle, sendo preciso; o meu Francisco
+chamou-me bruto, e depois lá se mexeram como poderam, e aqui tem.»
+
+Dei um abraço democrata no meu caseiro; procurei os meus quatro
+conhecidos, mostrei-lhes o cartão, e fiz o elogio do seu valimento
+d'elles.
+
+Apenas entrei no baile, fui comprimentar a viscondessa, que fallava com
+Silvina. Esta, quando me viu, resfolegava como se eu fosse uma grande
+botija destapada de vinagre de sete ladrões. Retirei-me a rir, e, na
+reviravolta impetuosa, bati n'uma grande esponja: era José Francisco
+Andraens.--Perdão!--disse-lhe eu. José Francisco grunhiu, e enviezou-me
+um olhar sanhudo--Perdão!--tornei eu. O cerdo poz as mãos na linha
+hemispherica do seu globo, constituiu-se vaso etrusco, e regougou: «O
+senhor anda a embarrar pela gente?!»--Foi uma _embarração_ inopinada,
+snr. Andraens!--repliquei eu--Se lhe offendi os tecidos,
+desculpe-me.--«Estes meliantes...» disse o brazileiro, e foi-se embora.
+
+Adiante encontrei os morgados de Santa Eufemia, e de Matto-grosso.
+
+--Que ha de novo?--perguntei eu.
+
+--O casamento de Silvina com o brasileiro está definitivamente
+tratado--disse-me Egas de Encerra-bodes.
+
+--Com o brazileiro?
+
+--Com o brazileiro. Veiu ahi o pai d'ella; expoz á filha as vantagens do
+casamento, e ella poz os olhos no céo, e disse:--cumpra-se a vontade do
+Senhor,... e a de meu pai!
+
+--E cá o amigo Christováo Pacheco que diz a isso?--perguntei eu,
+voltando-me para o de Santa Eufemia, em quanto Egas ria estrondosamente.
+
+--Eu digo--respondeu elle--que já cá botei as minhas contas, e que
+hei-de tourear o tal José Francisco!... Estou civilisado;--cá o primo
+tosqueou-me o pello.
+
+--Vi-te n'aquelle momento, meu caro Jorge. Vi a tua candida alma, n'esse
+ermo, a penar, em quanto a vil, que te mentira o apunhalara, se andava
+alli glorificando de que a indigitassem como futura quinhoeira dos
+duzentos contos do negreiro. Fervia-me o sangue em borbotões de raiva.
+Jurei tirar alli uma vingança em teu nome, a vêr se me assim despenava
+da culpa de te apresentar, de te immolar aos rasos instinctos d'aquella
+mulher. Busquei ensejo de fallar-lhe; mas ella evadia-se, não largando
+nunca o braço de um ou outro homem. O millionario, filho do João da
+Thereza, levou-me á casa da ceia, e serviu-me tres copos de um vinho que
+tinha um nome barbaro. Abrazou-me as arterias; mas a minha raiva medrava
+nas chammas como a salamandra. Tornei ás salas, encontrei Francisca da
+Cunha pelo braço do linheiro das Hortas; parei diante d'elles, e disse,
+com a solemnidade do estilo:--Boccacio e Fiammentta! Bettina e Goethe!
+Fornarina e Rafael de Urbino!
+
+O linheiro, voltou-se para Francisca e murmurou:--Não conheço este
+sujeito.
+
+Eu continuei: Beatriz e Bernardim!
+
+--O senhor está enganado comnosco--disse o linheiro na sua boa fé de
+linheiro. Francisca, tirou-lhe pelo braço com força, e afastaram-se. Não
+sei o que lhe ella segredou. O homem, pouco depois sahiu-me de cara, e
+disse-me:
+
+--V. s.ª parece que, ha bocado, me quiz insultar.
+
+--Eu não o quiz insultar ha bocado, senhor... como é a sua graça?
+
+--Eu chamo-me Antonio José Guimarães.
+
+--Pois senhor Antonio José Guimarães, como passou?
+
+O linheiro açafroou-se, mediu-me tres vezes perpendicularmente, e disse:
+
+--O senhor ha-de dar-me uma satisfação.
+
+--N'esse caso, satisfaça-se, e, quando estiver satisfeito, avise-me,
+snr. Antonio.
+
+--Na rua nos encontraremos.
+
+--Pois sim, repliquei eu, na rua nos encontraremos. O snr. Antonio quer
+duello a todo o trance e sem misericordia? Eu não me bato com armas
+brancas nem pretas. O snr. Antonio, como tem a materia prima de casa,
+leve uma corda, que o hei-de enforcar.
+
+O linheiro ficou chumbado ao tapete, e suava como uma abobora porqueira
+em manhã de orvalho.
+
+Tocou á ceia. Entrei na sala. O champagne estalava. Os crystaes
+retiniam. Os talheres tilintavam. Eu tinha no craneo a musica das
+espheras. José Francisco Andraens ia atamancando um empadão de pombos,
+cujos arcabouços lhe pendiam das belfas em fragmentos. Silvina
+defrontava com elle, e comia a duodecima Sandwich. Estavam tres perús,
+ou seis, ou não sei quantos perús intactos na mesa. Fui collocar-me
+atraz de José Francisco Andraens, e chamei um servo agaloado de prata. O
+snr. commendador Andraens--disse-lhe eu a meia voz--quer que vossê leve
+um d'estes perús de mando d'elle áquella senhora que tem uma grinalda de
+flôres brancas. Disse e fui collocar-me a pouca distancia de Silvina.
+
+Chegou o criado com a travessa, e disse:--Minha senhora, o snr.
+commendador Andraens manda isto a v. exc.ª
+
+--Isto a mim!--tartamudeou ella entre admirada e vexada.
+
+--Sim, minha senhora, a v. exc.ª--teimou o criado.
+
+Silvina pregou os olhos abrasoados em José Francisco, que lhe abria um
+sorriso apaixonado por entre o costado d'um pombo. Ao sorriso respondeu
+ella com um tregeito de colera. Cheguei ao ouvido de Silvina, e
+segredei-lhe:
+
+«Minha senhora, José Francisco envia-lhe um suspiro d'alma; e como a
+alma de José Francisco é uma ucharia, os suspiros de José Francisco são
+perús.»
+
+Quando Silvina volvia os olhos fuzilantes, tinha eu desapparecido. Fui
+ao ouvido de José Francisco, e disse-lhe á puridade:
+
+--A sua noiva está indignada de o vêr comer assim! Sacrifique a Cupido o
+oitavo pombo, amigo José.
+
+O que decorreu depois d'isto, não sei dizer-te meu caro Jorge. A minha
+cabeça não podia já com encargo da chronica até final: sahi. O ar fresco
+da madrugada, que aspirei até ás cinco horas, restituiu-me á bestial
+vida commum. Não posso mais.
+
+--Resta-me dizer-te que, se choraste uma lagrima por Silvina,
+envergonha-te de chorar segunda.
+
+Adeus. Teu
+
+ L. PIRES.»
+
+
+XVII.
+
+Verificaram-se os presagios do padre João. Jorge, depois da ultima carta
+d'aquelle singular e diabolico Pires, quiz reanimar-se, e já não pôde.
+Debil de compleição, quebrantado de insomnias, sorvido incessantemente
+na funesta scisma de que não havia ahi na terra voz humana que o
+chamasse ao amor da vida, nem no céo misericordia que o remisse da
+immerecida pena, Jorge, sem um queixume, sem uma lagrima, sem dar de si
+incentivo á piedade dos seus, desculpou-se com um ligeiro incommodo, e
+ficou um dia no leito. A pobre mãi alvoroçou-se, e com ella toda a
+familia, que via chorar. Veiu logo a sciencia que trata magistralmente
+dos achaques do estomago, e d'outras visceras nobres, e declarou que a
+molestia do doente era cousa moral, paixão, hypocondria, ou romance. O
+facultativo capitulou assim a enfermidade com um sorriso supicaz, e
+disse á viuva que não era nada aquillo, e ao padre, piscando o olho,
+acrescentou que era aquella uma das feridas que se curam com o pello do
+mesmo cão. Chiste de cirurgião de aldêa.
+
+D. Antonia recobrou-se do seu desmaio; mas o egresso entrou em maiores
+cuidados.--Para o Porto, e sem demora, o rapaz--disse o padre á cunhada.
+
+--Mas o cirurgião não receia, nem Jorge se queixa...--acudiu D. Antonia,
+temerosa da separação.
+
+--Deixe fallar o cirurgião, senhora. Seu filho morre sem se queixar.
+
+--Não me diga isso!...--exclamou a mãi consternada.--Pois as suas
+palavras tão persuasivas, mano, e a religião não hão-de poder nada?
+
+--A religião póde muito: se elle fizer uma confissão contricta, e morrer
+com sincera dôr dos seus peccados, a religião encaminha-o para Deus; mas
+o que nós queremos é que elle viva. Que me responde a isto, mana
+Antonia?
+
+--Eu antes o queria com Deus, que perdido no mundo--disse ella suffocada
+pelos gemidos.
+
+--Respondeu acertadamente; mas a supposição de que Jorge se perde no
+mundo, acho-a exagerada. Deixe-o ir onde elle se envergonhe de padecer,
+que eu lh'o dou por salvo. Torno a repetir-lhe, mana, que eu fui homem
+antes de ser frade, e a senhora foi sempre o que é--uma alma cheia de
+innocencia, de bondade, e de ignorancia.
+
+--Pois bem, meu amigo, faça o que entender, mas salvem-me o meu filho.
+
+--Aceito o encargo com uma condição: a mana não chora mais uma só
+lagrima na presença de seu filho; finge acreditar que elle precisa de
+banhos do mar; exige que vá já para o Porto, e de lá para Coimbra, se
+fôr vontade d'elle ir a Coimbra este anno. Conforma-se com isto?
+
+--Com tudo que de mim quizerem--murmurou ella enxugando as lagrimas.
+
+--Agora cuide da bagagem de Jorge, que eu vou fallar-lhe.
+
+Jorge Coelho estava sentado na cama, lendo a _Nova Heloisa_ de J. J.
+Rousseau. O egresso foi de mansinho ao pé do leito, tirou pausadamente
+os oculos d'um enorme estojo escarlate, montou-os na ponta do nariz,
+abriu e arredondou os beiços, pendido o queixo, e examinando o livro,
+disse:
+
+--Era um grande homem esse Saint-Preux, ó Jorge!...
+
+--Pois o tio conhece Saint-Preux?!
+
+--Relacionei-me com esse cavalheiro e com outros da sua estofa ha bons
+quarenta annos. Nunca t'o apresentei, quando praticavamos litteratura,
+por que sempre entendi que o ias encontrar a Coimbra, de parçaria com os
+muitos filhos que elle gerou para amparo de muitas Heloisas novissimas,
+de que está inçado o mundo, graças ás novellas, e ao descredito a que
+baixou a roca e o fuso. Que carta lés?
+
+O egresso levantou o nariz com os oculos á linha horisontal dos olhos, e
+leu algumas linhas da pagina.
+
+--Ah!--continuou elle--trata do suicidio... Está mui atiladamente
+debatida a questão por uma e outra parte. O Rousseau era mestre em
+paradoxos; e sabia bastante de musica; mas os paradoxos dava-os de mimo
+á humanidade, e para elle guardava a vida com todas as suas paixões
+villãs, mal resguardadas por uma côdea de soberba e orgulho. Ensinava o
+mundo a educar os filhos, e mandava os d'elle para a roda. Atassalhava a
+impudicicia do seu confrade Voltaire, e escrevia as suas _Confissões_,
+com esqualido recheio de desvergonhamentos, para prova de que até o
+impudor tem a sua soberba. E depois, meu sobrinho, o philosopho, a
+luminaria do seculo, vendo que a ulcera, aberta no coração da sociedade
+pelas más doutrinas, ia lavrando, defendeu de concerto com os seus
+tresvalios, uma these apologetica da ignorancia... Vou-me alongando, e
+já receio de ter dito de mais. Isto são reminiscencias das minhas
+leituras de ha quarenta annos. Quando orçares pelos sessenta, Jorge,
+has-de abrir a tua _Nova Heloisa_ n'essa pagina, e has-de rir da
+impressão, que te magoava, quando a lêste, aos vinte annos.
+
+--Não me sinto magoado por impressão alguma, meu tio--disse Jorge,
+sorrindo, e depondo o livro.
+
+--Não mintas, meu sobrinho--tornou o padre com branda severidade--Faz
+quanto em ti couber por salvar dos teus temporaes desfeitos do coração,
+o melhor thesouro d'elle, a _verdade_, filho. Sofres, e soffres muito,
+Jorge. Pensas em morrer, e dás de bom grado a tua vida a Deus, se é que
+a Divina Providencia transluz nas tuas imaginações negras. Não te culpo,
+rapaz de vinte annos. O mesmo seria culpar-te e reprehender o naufragado
+que não soube salvar-se. Nem de fraco te accuso. Se eu quizer que uma
+tenra vergontea, dobrada pelas minhas mãos, se levante commigo, não
+hei-de molestar-me se me chamarem insensato. No mais verde dos annos,
+não responde o mancebo de suas fraquezas: a sociedade que responda por
+elle, e o temperamento tambem. Isto do _temperamento_, digo-to aqui
+muito á puridade, que nós cá, os theologos, não queremos ceder nada aos
+temperamentos. Ora vamos, Jorge, a pé d'essa cama!
+
+--A pé!--disse Jorge--e poderei eu?!
+
+--Pódes porque queres. Hoje e ámanhã de convalescença; depois de ámanhã
+para banhos do mar.
+
+--De que me servem banhos de mar, meu tio?
+
+--A resposta é do fôro da medicina. Vaes para o Porto. Hospedas-te em
+casa de D. Marianna Ferreira, a amiga da creação de tua mãi. Vaes do
+Porto á Foz tomar o teu banho. Se, no fim do mez, quizeres ir frequentar
+o primeiro anno juridico, vai; se não quizeres, fica o inverno no Porto,
+e vem para casa em Maio, caso tenhas saudades nossas e da primavera dos
+teus arvoredos.
+
+--Peço licença--disse Jorge com amargura sincera--para contrariar a
+vontade de meu tio.
+
+--Teu tio não concede a licença pedida.
+
+O moço fitou os olhos nas mãos cruzadas sobre o seio, e não respondeu. O
+egresso lançou-lhe sobre o leito o fato, e sahiu, dizendo:
+
+--Vou mandar pôr o teu talher na mesa.
+
+Jorge disse entre si:--Morrer aqui ou lá... que importa?
+
+Na passagem do seu quarto para a casa de jantar, Jorge recebeu de um
+criado duas cartas. Uma era de Leonardo Pires; o sobrescripto da outra
+fez-lhe uma convulsão: era de Silvina. Abriu, e leu o seguinte:
+
+«Não sei que mal fiz a v. exc.ª para merecer-lhe uma vingança tão baixa!
+Collocou ao meu lado um insultador petulante que me vexa em toda a
+parte. Que fiz eu ao snr. Jorge Coelho?
+
+«Aceitei os seus galanteios com amor, e aceitei o seu abandono com
+paciencia. Que queria que eu fizesse para não ser insultada pelo seu
+amigo? Diga-me se é necessario pedir-lhe perdão de ter sido abandonada.
+Não hesitarei em fazel-o com tanto que v. exc.ª me garanta a certeza de
+que não serei injuriada nas praças e nos bailes. De v. exc.ª--eu muito
+respeitadora, _Silvina de Mello_.»
+
+Jorge cahiu extenuado n'uma cadeira: a orla roixa das palpebras fez-se
+negra; apanharam-se-lhe as faces, como se a doença, em poucos minutos,
+progredisse mezes. D. Antonia vinha chamal-o, e encontrou-o assim, com a
+carta na mão tremula.
+
+--Que tens, meu filho?--clamou ella ajoelhando diante d'elle, e
+abraçando-o.
+
+--Nada, minha mãi, é fraqueza... Não chore, por piedade, não chore, que
+eu estou bem.
+
+E, erguendo-se com vacillante esforço, foi para a mesa. Forcejou por
+comer; mas as lagrimas cahiam-lhe das faces no prato, e a violencia não
+conseguia desentalar-lhe a garganta.
+
+--Que é isto?--disse o egresso.
+
+--Foi uma carta...--respondeu D. Antonia.
+
+--Não é nada, meu tio. Recebi uma carta que me fez mal. A impressão
+gasta-se, e eu d'aqui a pouco estou bom. Agora pedia licença para me
+erguer da mesa, e dar um passeio no jardim.
+
+--Vai--disse o padre.
+
+--Eu vou comtigo, meu filho--acudiu a mãi levantando-se.
+
+--Não vai, mana; deixe-o ir sosinho.
+
+Eram imperiosas as palavras do padre: D. Antonia sentou-se. Jorge desceu
+ao jardim, e foi sentar-se n'um banco de cortiça encostado a um maciço.
+Abriu a carta de Pires, que resava assim:
+
+«A Providencia não é uma mentira. José Francisco Andraens apanhou uma
+indigestão de pombos, salame e salmão no baile do visconde, e está em
+risco de rebentar. Eu estou de atalaia a vêr quantos Jonas sahem
+d'aquelle bojo! O morgado de Santa Eufemia veiu dar-me a noticia,
+jubiloso, como quem espera empalmar Silvina, extincto o bruto. O qual
+bruto já se confessou, a vêr se a gente se persuade que existe uma alma
+n'aquellas cavernas de sebo!
+
+Parte o correio.
+
+ Teu do intimo
+
+ _L. Pires._»
+
+
+«_P. S._ O linheiro das Hortas ainda não appareceu com a corda.»
+
+
+Se a carta de Silvina fosse uma dorida invocação ao amor de Jorge,
+simulando razões e desculpas, ou accusando o silencio do desleal amante,
+que a despresara sem motivar o menospreso immerecido, é de presumir que
+o brioso moço nem respondesse á carta, nem se doesse dos hypocritas
+queixumes de uma caprichosa estouvada. Porém, o estilo, assim magoado
+como arrogante d'aquella carta, turvou de tal sorte a cabeça e o coração
+do academico, que já elle a si mesmo se accusava de indiscreto, de
+ingrato e de extremamente facil em acreditar o tio. E--o que é mais
+é--sentiu rancor áquelle leal amigo da Maya, que, por conta d'elle, se
+andava expondo no Porto a ser expulso de todas as casas!
+
+Quantas idéas lhe occorreram todas advogavam a innocencia de Silvina.
+Absolvida e amada eram a mesma cousa. Agora já a esperança de ir vêl-a
+ao Porto lhe era um desafogo, e não sei mesmo se contentamento. O pobre
+moço, como nem sabia se quer contrafazer-se, denunciou nos exteriores de
+inquieto regosijo quanto a resolução do tio lhe era grata. A mãi,
+compondo a roupa no bahu, chorava sempre; os irmãos choravam ao pé
+d'elle, e elle fugia de todos para que o não vissem alegre.
+
+
+XVIII.
+
+O leitor é uma pessoa de juizo limado e occupações serias. Estou que não
+lê romances de ninguem, e muito menos os meus, que são escriptos em
+lingua portugueza e modelados em cousas de Portugal, onde é sabido que
+não ha imaginação que invente a novella, nem modos de vida que saiam bem
+no romance. D'onde vem que o romance portuguez, se não é copia do
+estrangeiro, e aborrecida inverosemelhança, orça por cousa peor, que é a
+semsaboria.
+
+Eu tenho escripto alguns volumes de semsaborias: creio que são vinte e
+tantos. Entre estes, mergulharam de cachapuz no rio
+
+ _do negro esquecimento e eterno somno_
+
+tres livros denominados: ONDE ESTÁ A FELICIDADE--UM HOMEM DE BRIOS--e a
+VINGANÇA.
+
+N'estes tres romances figura um homem, ao qual eu nunca puz nome. Umas
+vezes chamei-lhe poeta, outras jornalista, outras litterato, e assim fui
+aguentando com embaraços da composição, mas venci a minha. Custava-me a
+falsificar o nome d'um homem que copiei com esmeros de rigorosa
+fidelidade; figurava-se-me irreverencia o que em si não era senão
+escrupulo banal. Ainda agora me deixo levar da criancice, e não acabo
+commigo dar um nome qualquer ao homem. Quer-me parecer que ha uns longes
+de poesia n'este segredo. Diga o leitor que é tolice, e saldemos assim
+as contas amigavelmente: eu dou-lhe a troco da injuria esta revelação da
+minha crendice, e guardo as chimeras como o homem de boa fé guarda o
+tôco de cera benta para se alumiar á hora da morte.
+
+Pois é verdade. Aquelle poeta era o amigo de Guilherme do Amaral e de
+Augusta.
+
+Espectros sombrios, memorias queridas e amargas da minha alma em
+infancia de illusões, passai um instante luminosos na escuridade d'esta
+recamara da sepultura, onde até a lampada da esperança se vai
+extinguindo na mão do anjo do conforto! Vinde a mim, corações amigos,
+cujas lagrimas eu vi, e contei uma a uma, quando apenas tinha a
+intuscepção da alma, predestinada ao vosso fel, para lhes avaliar o
+travo. Na vossa mortalha foi o melhor da minha vida, o crêr nas
+promessas do coração, nos levantados desejos do espirito que não caiam á
+terra sem se infamarem; foi comvosco a fé na religião da poesia, que era
+a minha fé unica, porque não havia crêr nem sentir em mim em que não
+estivesse Deus, que eu convidava, sem temor sacrilego, a gosar-se das
+delicias que eram d'elle, creações suas, umas sujas, outras empestadas
+pelas mãos dos homens! Comvosco foi o meu ultimo dia de oração, a minha
+ultima acção de graças, a palavra final da profissão de fé, que devia, a
+meu vêr, remontar-me ao céo, e que, ao revez das mais espirituaes
+theorias de Platão, de Socrates, de Jesus, e de todos os Messias da
+redempção das almas, deu commigo em baixo n'um golfão de lama, onde ha o
+ranger de dentes d'estas bestas feras, que até na lama sustentam o
+egoismo da sua propriedade!
+
+Ó visões immorredouras, que me ensinastes o amor e o sentimento, e
+levastes comvosco o segredo de morrer antes do longo paroxismo do tedio
+da vida, vós bem vistes com que saudosa unção eu vos offertei dous
+livros e um ramo de perpetuas, que valiam mais que os livros, e menos
+que esta pagina em que bem vedes com que fervor me atrevo á prosa
+d'estes annos, á mofa d'estes industriaes, que me estão perguntando se a
+apostrophe ha-de ser muito comprida, para tomarem fôlego, e accenderem o
+seu charuto.
+
+Pois accendam o seu charuto, e retirem-se as almas evocadas, e mais os
+romances, que não tem que vêr com elles o leitor, que tanto conheceu as
+almas, como se lhe dá dos romances.
+
+Veiu isto a ponto de estar aqui já comnosco o amigo de Guilherme do
+Amaral e d'aquella Augusta por quem choram as flôres do Candal, e as
+almas desamparadas d'aquelles que... Lá ia já sahindo outra tirada de
+sentimento. É enguiço, que me ha-de retirar a protecção de muita gente
+boa, que não precisa de lêr um folhetim para convencer-se do seu direito
+de espriguiçar-se, e voltar a gazeta de costas, e calcular
+perspicuamente as relações economicas que podem dar-se entre a alta do
+cravo dito girofe e a baixa do cacau.
+
+Ora ahi vai agora o conto direito. O antigo jornalista, amigo da
+defuncta baroneza de Amares, estava no Porto de visita em casa de
+Bernardo Joaquim Ferreira, ahi nos ultimos dias de Outubro de 1855.
+
+D. Marianna, esposa do snr. Ferreira, e suas quatro filhas, e dous
+meninos, e varias outras pessoas, estão sentadas em roda de uma grande
+mesa jogando o quino. O jornalista está sentado n'um sophá, conversando
+com o dono da casa, sobre cousas do Brazil, d'onde o primeiro tinha
+vindo depois de cinco annos de ausencia. A conversação foi interrompida
+pela entrada de uma filha do snr. Ferreira, que a mãi e irmãos receberam
+com muitas vozes de alegria, ás quaes ella respondeu dando um beijo na
+fronte da mãi, e outro nos labios das irmãs. Com a bem vinda entrou
+tambem o marido. O litterato, já de pé, deu dous passos, e disse á dama
+que entrára:
+
+--Quero vêr se me conhece ainda, minha senhora.
+
+--Se o conheço!--exclamou Rachel.--O mesmo que foi para o Brazil; o
+mesmo que era ha cinco annos... Não se admire da nenhuma surpreza com
+que lhe fallo porque eu já sabia que o vinha encontrar. A mãi, quando o
+senhor chegou, mandou-m'o dizer para a quinta, e deu-me sempre noticias
+suas. Agora pertence-me a mim perguntar-lhe se me acha muito mudada.
+
+--Quando, ha cinco annos, me despedi de v. exc.ª--disse o poeta--se bem
+me recordo, tive a honra e o prazer de ser propheta, dizendo-lhe que a
+viria encontrar cinco, dez, ou vinte annos depois, bella como a deixava,
+minha senhora. Noto-lhe apenas uma differença sensivel.
+
+--Qual?--perguntou D. Marianna com solicitude de mãi.
+
+--Acho-a mais bella--respondeu o poeta.
+
+Por entre os dizeres usuaes que vem sempre depois de um dito feliz como
+aquelle, ouviu-se a voz aspera do snr. Manoel Pereira, marido de Rachel,
+dizendo:
+
+--Então, vamos a isto?--E escolhia cartões do quino.
+
+Queria dizer na sua o snr. Manoel Pereira que bastava já de
+comprimentos, em que a formosura de sua mulher era encarecida por um
+homem da antipathia d'elle.
+
+As senhoras sentaram-se, e Rachel, obrigada, pela indicação do marido,
+ficou com as costas voltadas para o jornalista.
+
+--Não vem jogar?--disse Rachel ao hospede.
+
+--Vou, sim, minha senhora.
+
+As damas deram-lhe lugar immediato a Rachel. Manoel Pereira estorcegou
+machinalmente um cartão entre os dedos convulsos, e fez-se escarlate,
+cravando os olhos no rosto descuidado de sua mulher.
+
+O jornalista viu tudo isto, e riu-se para dentro.
+
+Agora descreve-se Rachel; depois Manoel Pereira; por fim alguns traços
+geraes d'esta familia, e fechará o capitulo.
+
+Rachel tem vinte e quatro annos. É encorpada, mas a robustez não desdiz
+da gentileza. Não tem attitude alguma de estudo, e parece esculptural em
+todas ellas. Nos mais communs movimentos ostenta graça, e garbo que vem
+de seu natural, e ninguem o dirá se a não tiver visto em toda a sua
+desaffectada singeleza no recesso das suas occupações caseiras. Quando
+Rachel está n'um baile... N'um baile foi que eu a vi a primeira vez. Era
+ella solteira, e teria quinze annos. Isto já lá vai ha quinze. Se eu me
+não lembrar do que ella era então, melhor me será despedir de mim esta
+bruta alma que nem para a saudade já serve. As minhas reminiscencias
+dão-me Rachel vestida de branco. Não lhe hei-de aqui chamar anjo, porque
+não foi essa a impressão. Era tudo magestade, tudo estatuario n'aquella
+criança; não a vi a descer do céo, onde os poetas teimam em ir buscar
+tudo que é excellente, como se o céo não fosse um puro congresso de
+espiritos que valem de certo lá muito mais do que pesam, mas que
+passariam desapercebidos nos nossos bailes, se não tivessem a esperteza
+de entrarem em corpos como o de Rachel. Eu quando a vi lembrou-me a
+Grecia, as artes, em requinte de pompas, a numerosa familia das Venus,
+todos esses marmores eternos, que hão-de sobreviver á mythologia dos
+anjos, dos archanjos e dos seraphins. Os olhos de Rachel... estou-os
+vendo; nem as franjas sedosas e longas das palpebras m'os escondem;
+poderiam as arcadas espessas e travadas do sobr'olho quebrar a luz
+d'aquelles olhos; mas nem assim! Como tu olhas, Rachel! Diz a
+antiguidade que na Scythia havia umas mulheres que matavam olhando se o
+rancor lhes fuzilava nas pupillas; porém tu que paixão tiravas da alma
+toda amor, para a lançares de ti como um incendio que te abrasaria, se
+eu, se todos, que te viam, não tomassem de joelhos um quinhão d'esse
+fogo! Que haverá alli de mysterios n'aquelles olhos, se o fluido
+electrico não basta a dizer o que é que vem de lá como corpo estranho
+que vos entra no seio, e vos não cabe na alma, e quer fugir ás ancias do
+coração que o aperta, e vos leva do amor ao transporte, do extasis ao
+phrenesi, do rir ébrio da felicidade ás lagrimas incessantes de noites
+desveladas! E, depois, porque não eram só os olhos o condão d'esta
+mulher? Diante de Deus todos somos iguaes! Na alma se quizerem, e o
+Creador, lá se avenha com os que o injuriam assim; mas que desigualdade
+diante do divino artista! Lembra-me que a um lado de Rachel estava uma
+menina de olhos vesgos; do outro lado uma senhora com um nariz impio;
+mais longe outra menina em torturas para esconder quatro dentes
+enclavinhados; além aquell'outra franzindo os labios, e exercitando uma
+laboriosa mechanica do sorriso para corrigir a natureza que lhe dera uma
+bocca limitrophe das orelhas. E ella, Rachel, toda primores, a
+estremecida creatura, com uma luz serena de céo n'aquella face em que se
+espelhava o seu Creador, o Deus que nos fez para a adorarmos, a rever-se
+n'ella! Abençoada sejas tu de todas as venturas, que tão perfeita és,
+tão cheia de tua belleza, tão digna dos thronos da terra, já que o
+Creador, o teu Pygmaleão, te não arrebatou para si! Onde está, ó Senhor
+Deus das maravilhas, o homem digno d'aquella obra tua, aqui posta entre
+nós que apenas temos thronos, imperios, talentos, epopeas, as riquezas
+da Asia, e o sangue das nossas veias para lhe offerecer! De que barro, ó
+mão divina, fizeste o homem que ha-de primeiro embriagar-se nos aromas
+que recende aquella virgem? Onde está o homem que...
+
+O homem elle aqui está. É o snr. Manoel Pereira. Já quinou tres vezes.
+Feliz no jogo, infeliz no amor; é certo o proverbio... até com elle!
+
+Manoel Pereira tem cincoenta e cinco annos! estatura mean, cabeça
+quadrilatera, e plana como um queijo do Além-Tejo desde o occipicio até
+á cisura do coronal. As arcadas zygomaticas (vejam um compendio de
+anatomia comparada) entestam com o rebordo esponjoso dos olhos
+arrastando cada uma para o seu lado a venta correspondente que termina
+em fórma de fava. O nariz não tem canas; parece que é formado de
+parafusos. Começa do centro da testa por uma verruga, transforma-se em
+lobinho, ladea em pequenos abscessos escarlates, e pega no beiço
+superior, repuxando por elle de modo que o dono não póde exercitar as
+funcções olfactorias sem enviezar o beiço. Este nariz ha-de ser
+lithographado e distribuido aos assignantes, concluido o romance. O
+nariz é o homem. Quem o vir organisa o complexo de Manoel Pereira, como
+Cuvier recompunha o reptil iguanodo, e o megaterio.
+
+Temos á roda da mesa a snr.ª D. Marianna e quatro filhas. É de notar em
+Rachel o typo perfeito d'aquella familia. A mãi, senhora de quarenta
+annos, é bonita ainda. Se a perfeição das raças é admissivel, nunca mais
+sensivel foi a gradação do aperfeiçoamento como entre D. Marianna e
+Rachel. Das outras filhas, uma é formosa, se bem que já ferida da
+tisica, que d'ahi a mezes a levara para o lado de uma sua irmã que a
+mesma enfermidade matou, quando lhe sorriam duas primaveras, a das
+flôres, e a dos prazeres da vida. Outra é uma linda criança de doze
+annos, com os olhos de Rachel. A que porfia em belleza desvantajosamente
+com a mais bella é já casada, e tem vinte annos. Ha uma outra de aspecto
+vulgar, posto que o não pareça entre outras que não sejam suas irmãs.
+
+Bernardo Joaquim Ferreira, o pai d'estas lindas meninas, tem uma
+agradavel physionomia de homem de cincoenta annos, e maneiras polidas,
+sem embargo do trafego commercial em que labuta desde rapaz. Revela a
+esperteza ordinaria na sua classe, temperada pelo uso da boa sociedade
+em que desbravou as rudezas congeniaes, e as adquiridas nos seus
+primeiros annos.
+
+Ácerca d'esta familia, outras miudezas seriam intempestivas agora.
+
+Saudemos com lagrimas a entrada de Rachel n'esta historia, que principia
+desde hoje a tomar as proporções d'um escandalo monumental.
+
+
+XIX.
+
+--Não sabes quem hoje me escreveu?--disse D. Marianna a Rachel,
+terminada a partida do quino?
+
+--A minha Antoninha do convento.
+
+--Sim? que novas lhe dá ella do filho? A mãi disse-me que a pobre
+senhora vivia muito consternada com a paixão do rapaz pela tal Silvina.
+
+--Segundo me ella diz, continuou D. Marianna, o pobre Jorge está
+enfeitiçado, e cuida ella que a maneira de o desenguiçar é mandal-o para
+aqui, a fim de elle, á vista do comportamento de Silvina, se desenganar.
+Acho esquisito o remedio.
+
+--O remedio é eficacissimo, snr.ª D. Marianna--disse o litterato.--O que
+a mim me espanta é ser uma senhora quem o receita. O fim da sua amiga é
+fazer com que o filho se sinta aviltado por amor de uma mulher ridicula.
+O amor rompe todos os tropeços, transige com muitos defeitos e mesmo
+vicios da pessoa ou... cousa amada; mas da mulher escarnecida é que não
+ha cegueira que o aproxime.
+
+--Conhece a tal Silvina de Mello?--disse Rachel.
+
+--Já a encontrei em algumas partidas na Foz, minha senhora.
+
+--Que idéa fez d'ella? A sua apreciação deve chegar-se muito á verdade.
+
+--Pareceu-me, respondeu o poeta, que era galante, e até mesmo esperta.
+Ouvi-a declamar acrimoniosamente contra uns folhetins que denomina
+_Felizardas_ as senhoras provincianas, e pasmei da imprudencia com que
+desprimorou as damas portuenses, chacoteando-as por um lado que é
+justamente, a meu vêr, o mais vulneravel da fidalga do Minho...
+
+--Qual é?--interrompeu Rachel com vivacidade. O jornalista, reconhecendo
+a inconveniencia da resposta ajustada, fez, como por disfarce, esta
+pergunta:
+
+--Não é certo estar tractado o casamento da tal senhora com um
+commendador fulano de tal Andraens?
+
+--Assim dizem--respondeu D. Marianna--pelo menos cuido que...
+
+--Parece-me que não é anno de fortuna para ella... atalhou o snr. Manoel
+Pereira, coçando a verruga media da aza esquerda do seu nariz.
+
+--Por que?--disse Rachel olhando de través o marido.
+
+--Por que o meu amigo commendador, desde que foi o baile do visconde dos
+Lagares, nunca mais se levantou, e vai cada vez a peor. O homem já
+soffria molestia interior, e comeu tanto á ceia, que esteve a
+rebentar-lhe a tripa... Ainda ha quem queira bailes!... Se elle
+estivesse em sua casa...
+
+Rachel, prevendo que seu marido aproveitava o ensejo para uma enfadosa e
+desconchavada diatribe contra os bailes, cortou-lhe logo o fôlego
+comprido das tolices com esta fina ironia:
+
+--Nem toda a gente leva aos bailes as tripas dos teus amigos... Com que
+então--continuou ella, voltando-se para o jornalista--o amor não será
+capaz de vencer a indigestão do noivo?
+
+--Segundo ouço ao snr. Manoel Pereira--respondeu o litterato em tom
+lastimoso--a gentil menina está em risco de vêr o coração, que tão caro
+lhe era, romper-se, batido pelas explosões do estomago que rebenta,
+deixando a seu dono a gloria de morrer como Tito.
+
+Rachel e uma das irmãs sorriam; Manoel Pereira desconfiou do riso da
+mulher, e disse mal encarado, com o nariz já roixo:
+
+--Se elle quizesse mulher tão bonita e mais rica que ella, não lhe
+faltavam por ahi ás duzias.
+
+--Ninguem contesta o dito de v. s.ª--redarguiu o escriptor.
+
+--Mas o senhor parece que estava caçoando com o meu amigo...--tornou
+Manoel Pereira.
+
+--É injusto o cavalheiro. Eu se tivesse quatro irmãs dar-me-ia por
+ditoso se o seu amigo quizesse casar com todas quatro, e lamento não
+saber o segredo de um tal Lucius que Plinio viu transformar-se em
+mulher; por que se me eu podesse felizmente mudar em mulher, havia de
+galantear o amigo de v. s.ª, e morrer de amores por elle se uma
+indigestão rival m'o arrebatasse.
+
+Rachel soltou uma risada contagiosa: riram todos, salvo Manoel Pereira,
+cujo nariz reluzia ao reflexo da luz, em differentes côres desde o
+açafrão até ao talo da couve lombarda.
+
+O jornalista continuou, fallando para D. Marianna:
+
+--Tive tambem occasião de conhecer no hotel da Aguia d'Ouro o filho da
+amiga de v. exc.ª Fallei com elle, e fez-me bem o perfume d'aquelle
+coração em flôr. Que candura, que adoravel innocencia a dos vinte annos
+de Jorge... creio que se chama Jorge! E, ao mesmo tempo, que
+singularissimo typo de rapaz eu conheci com elle, e todos os dias
+encontro por ahi atraz de uma prima de Silvina, e de um tal Guimarães,
+linheiro, ou pregueiro, ou cousa que o valha... Que homem se fará
+d'alli, se o céo o não leva d'este mundo e d'esta sociedade que tanto
+precisa de um cenaculo d'aquelles apostolos!... V. exc.as de certo não
+conhecem Leonardo Pires de Albuquerque, fidalgo da Maya, descendente de
+D. Martim Pires da Maya, que gerou D. Pedro Pires, que gerou D. frei
+Martim Martins, mestre da ordem do Templo no seculo XIII? De certo não
+conhecem...
+
+--Nem é preciso conhecerem--exclamou Manoel Pereira--É um patife, que
+concorreu muito para a doença do meu amigo Andraens!
+
+--Eu não pensava--replicou o poeta--que Leonardo Pires era um alimento
+indigesto!... Se bem me recordo, v. s.ª disse ahi que a enfermidade do
+snr. Andraens era uma indigestão!
+
+--Como de facto; mas, pelos modos, o tal brejeiro insultou-o no baile, o
+homem atrigou-se, e sahiu cá para fóra afflicto, e nunca mais foi bom.
+
+--Não sabia isso; apenas me disseram que elle recommendára ao snr.
+Andraens que não comesse tanto; e quer-me parecer que este conselho,
+longe de ser insultuoso, tendia a prevenir a indigestão fatal que se
+deu.
+
+--Deixemo-nos de contos...--instou o marido de Rachel.
+
+O sorriso d'esta era já forçado por vêr que o jornalista não tinha a
+cortez caridade de conter as ironias que Manoel Pereira não percebia.
+
+--E D. Antonia que diz, mãi?--interrompeu Rachel.
+
+--Diz que Jorge Coelho vem para esta casa.
+
+--Para esta casa?!--acudiu Manoel Pereira abrindo a bocca, e arregaçando
+o nariz até á testa.
+
+--Não tenho n'isso duvida nenhuma--respondeu Bernardo Joaquim Ferreira,
+que tinha sahido e voltára momentos antes.--E dou-te parte, Marianna,
+que Jorge já está na hospedaria, e não sei se será dever meu ir já
+buscal-o esta noite. Aqui tenho um bilhete d'elle, pedindo-me que o
+desculpe de não vir directamente aqui.
+
+--Como ainda é cedo, disse D. Marianna, podes ir buscal-o. O quarto está
+preparado. A mãi descrevendo n'um estado tal de amargura que eu tenho
+pena de o deixar sosinho na hospedaria.
+
+--Mas ha um inconveniente--redarguiu o snr. Bernardo.--Tenho gente no
+escriptorio á minha espera para liquidar umas contas, e não posso
+deixal-as para ámanhã, que os negociantes são da provincia, e partem de
+madrugada. Se o snr. Pereira tivesse a bondade de ir á Aguia d'Ouro...
+
+--Homem, eu a fallar-lhe a verdade--disse Manoel Pereira--tenho aqui
+n'este pé direito uns callos que me não deixam dar passada; se não da
+melhor vontade; mas, sempre lhe direi o que penso respeito á vinda
+d'elle para aqui. Eu não sei o que me parece metter n'uma casa onde ha
+meninas novas um peralvilho que não gosa dos melhores creditos, e que de
+mais a mais é amigo do tal Pires, que ha-de cá vir onde a elle, e o
+mundo pega logo a fallar pr'aqui, pr'acolá, e ás duas por tres... Em
+fim, meu sogro lá sabe o que faz...
+
+D. Marianna replicou com vehemencia:
+
+--O snr. Pereira não ouviu dizer aqui a este senhor que o filho da minha
+amiga era um moço muito digno?!
+
+--Todos elles são muito bons, mas em minha casa é que elles não põem o
+pé.--Disse Manoel Pereira, e fez menção de procurar o chapéo.
+
+Rachel relanceou sobre o marido um olhar severo. O escriptor fazia
+figuras geometricas com as marcas do quino. As meninas olhavam-se entre
+si com sorrisos rebeldes á prudencia. O bom Ferreira, apesar da sua
+superioridade relativa de sisudeza e bom senso, não deixou de vacillar
+ao choque das reflexões do genro. D. Marianna, porém, voltando-se com
+energia para o jornalista, disse-lhe:
+
+--O senhor faz-me um favor dos que se pedem sem embaraço a um amigo
+antigo?
+
+--Faça-me a honra de mandar-me, minha senhora.
+
+--Tem a bondade de ir á hospedaria, e acompanhar o filho da minha amiga,
+o filho d'uma senhora a quem eu devi na minha mocidade o que não posso
+pagar-lhe d'outro modo?
+
+O jornalista ergueu-se, e disse, tomando o chapéo:
+
+--Se elle estiver doente, ou na cama fatigado, mandarei um bilhete para
+que o não esperem. Até já, ou muito boas noites, minhas senhoras.
+
+Sahira o jornalista, e D. Marianna enxugando lagrimas que não tinham na
+apparencia muito cabimento alli, fallou assim:
+
+--Eu nunca disse a minhas filhas os favores que devo á mãi do meu
+hospede; escutem-me, e depois dirão se o filho de tal anjo não será
+digno de ser recebido como seu irmão. Eu fiquei orphã e pobre aos onze
+annos. Entrei nas ursulinas de Braga, entregue á caridade da prelada,
+que me achou com habilitações para ser uma simples criada grave de
+convento. D. Antonia de Sepulveda tinha tambem entrado, n'essa occasião,
+e era rica. Tratei-a com respeito, e ella a mim com familiaridade, para
+chegar ao fim de me offerecer metade da sua mesada, e habilitar-me a ser
+senhora entre as outras, que me olhavam com desestima, e com a falsa
+piedade das ricaças do convento. Aceitei os favores da minha amiga, e
+tão suave era o dever-lh'os, que nunca me julguei devedora, se não
+depois que vim a esta sociedade conhecer o valor dos beneficios que
+recebi de Antonia. Vivi cinco annos á sombra da generosidade d'ella:
+prendei-me á sua custa, instrui-me com ella d'essa apoucada educação que
+nos davam no convento; e já depois que a minha amiga sahiu para casar
+obedecendo ás ordens de seus paes, continuei a receber as mezadas e os
+presentes que ella recebia. Casei tambem passado um anno, fui feliz,
+enriqueci, presenteei-a, mas a cada lembrança de amiga que lhe eu
+mandava, respondia ella com mais valiosos mimos da sua casa. Penso ha
+vinte e quatro annos no modo de ser util á minha querida Antonia; a
+Providencia depara-me agora occasião de velar as commodidades do filho
+d'ella. Haja ahi uma pessoa de boa fé a dizer-me que devia ser outro o
+meu procedimento...
+
+--Ninguem se atreve a tanto.--disse Rachel com enfado.--Eu, se minha
+mãi, por desgraça nossa, não existisse, levaria para minha casa o filho
+da nossa amiga, da protectora de nossa mãi. Se eu tivesse um marido que
+me quizesse roubar o prazer da gratidão em tão pequeno serviço,
+amaldiçoaria a hora em que meus paes me subjugaram a tal homem...
+
+--Não te irrites assim, Rachel...--disse Bernardo Ferreira, ferido pelas
+palavras da filha, que lhe apontavam direitas á consciencia, onde as
+fibras do remorso doiam sempre.
+
+Entretanto, Manoel Pereira, franzindo o nariz, dilatava as ventas
+hediondas, por onde vaporava a zanga.
+
+O incidente, passados minutos, foi cortado por um bilhete do escriptor,
+dizendo que Jorge Coelho pedia desculpa, agradecia extremamente a
+delicadeza, e convalescia da fadiga para no dia seguinte cumprir as
+ordens de sua mãi.
+
+
+XX.
+
+O jornalista encontrou Jorge Coelho na cama, e Leonardo Pires sentado á
+banca. No semblante de ambos eram visiveis os signaes da altercação, que
+fôra interrompida pela chegada do terceiro. O filho de D. Antonia estava
+escarlate de febre, e anciado; o da Maya, se bem que de má catadura,
+esboçava distrahidamente, a lapis, uns perfis de narizes caprichosos.
+Jorge conheceu o litterato, e maravilhou-se da visita; Leonardo Pires,
+mais familiarisado com o sujeito, ergueu-se, abraçou-o, e exclamou:
+
+--Aqui está o teu medico, Jorge! o teu Christo, Lazaro!
+
+--Temos _ecce homo_?! Dar-se-ha caso que o snr. Pires--disse o
+jornalista sorrindo--me prepare algum calvario?... Como está o snr.
+Jorge Coelho? O aspecto denota inquietação...
+
+--Não é inquietação;--atalhou Pires--é a sina maldita d'este desgraçado
+que nos tortura a ambos...
+
+--Todos temos o nosso demonio familliar, snr. Pires--tornou o
+escriptor--Socrates queixava-se do seu, e eram nada menos de dous os
+demonios do divino philosopho, sendo o peor dos dous uma tal Xantippa...
+Querem vêr que o snr. Jorge é energumeno d'alguma Xantippa ideal, que...
+(O jornalista escreveu, e entregou a um criado o bilhete que foi
+recebido em casa de D. Marianna). Jorge entretanto, sorrindo
+contrafeito, respondia:
+
+--Não, senhor. Eu sou apenas victima das loucuras do meu condiscipulo.
+
+--Ó cavalheiro--clamou Pires irritado--diga ahi a esse ingrato quem é
+Silvina de Mello. Não se trata aqui de desfolhar lindas chimeras, e
+matar illusões queridas. A paixão de Jorge é uma nodoa que eu quiz
+delir-lhe do coração, á custa mesmo do meu descredito e abominação
+n'esta sociedade devassa. Tenha vossê a franqueza de dizer a esta
+criança o que eu tenho sido, já que eu tive a boa sorte de lhe referir
+ao senhor as minhas acções e palavras.
+
+O romancista achou de riso a gravidade da appellação de Pires para o seu
+testemunho; mas perseverou-a na seriedade que o proposito pedia, e
+disse:
+
+--O snr. Leonardo Pires tem dado provas exuberantes de amisade ao snr.
+Coelho, verberando com prosperos sarcasmos uma menina em tudo
+respeitavel, menos na sua virtude.
+
+--É de mais!--atalhou Jorge--Póde ser que Silvina mereça censura como
+inconstante, sem com isso...
+
+--Deixar de ser virtuosa?...--interrompeu o poeta...
+
+--Justamente.
+
+--Não julga bem, snr. Coelho. A deshonestidade não póde ser virtude. A
+mulher que enfeira o coração, e o põe á concurrencia, mirando ás
+vantagens do pedido, poderá ser uma sagaz professora de economia
+politica applicada ás mercadorias do coração, mas virtuosa é que ella de
+certo não é. Para mim tenho que a virtude póde coexistir com a miseria
+da mulher perdida que não tem a hypocrisia de expor o coração á venda;
+porém, quero eu que não prostituamos a palavra, que é santa, cedendo-a á
+que cuida cobrir as suas ulceras com o amicto de virgem. A snr.ª D.
+Silvina de Mello, que eu vim, depois de cinco annos de ausencia,
+encontrar occupando a vagatura d'outras aventureiras que eu cá deixei, é
+uma senhora aleijada.
+
+--Ainda mais essa!--atalhou Pires--Eu nunca dei pelo aleijão de Silvina!
+
+--Aleijada de espirito, quero eu dizer, snr. Albuquerque. Que outro nome
+se ha-de dar á lamentavel enfermidade moral d'uma menina que desperta
+das suas illusões de infancia, esfrega os olhos, e começa a procurar em
+redor de si um homem com alguns saccos de dinheiro? Ha ahi nada mais
+torpe, mais nauseabundo na face da terra! A mulher que assim faz tem
+alluido a sua virtude pela base, que é a vergonha. D'ahi ávante o pudor
+é uma mentira, as côres que sahem ao rosto são irrupções de sangue como
+as empigens, é um mechanismo da materia que o observador encontra mesmo
+nos prostibulos. Que é o que bate no peito d'essa mulher, desde que a
+ancia do dinheiro fez d'ella um estimulo de sensações? Quando ella
+fallar nos affectos da sua alma, qual é de nós o que voluntariamente se
+immolará ao escarneo de sua propria consciencia, respondendo ás Silvinas
+com expressões de candura e boa fé? O snr. Jorge Coelho tem a
+sinceridade de me dizer se me entende?
+
+--Entendo; mas não creio que Silvina seja a mulher que o senhor
+qualifica.
+
+--Eu não a qualifiquei ainda: o que eu quiz foi a certeza de que o meu
+joven amigo me entendeu a theoria: agora pertence á pratica o qualificar
+Silvina. Está o snr. Jorge Coelho no Porto. Fez bem em vir. Isto é uma
+questão de tempo. Faça as suas experiencias desde ámanhã em diante; mas
+tenha a condescendencia de me ir communicando os seus descobrimentos.
+Entretanto, restitua ao snr. Leonardo Pires o bom conceito em que o
+tinha, que estes amigos são raros. Outro objecto. A minha commissão não
+era vir discutir Silvina: Eu fui aqui enviado pela snr.ª D. Marianna
+Ferreira e seu marido a fim de conduzir o snr. Jorge a casa d'elles,
+onde foi recebida uma carta de sua mãi.
+
+--Oh! bravo!--exclamou Pires.--Temos homem!
+
+--Não atino com o seu enthusiasmo, snr. Albuquerque!--disse o escriptor.
+
+--Que mulheres, que mulheres tu vaes vêr, ó Jorge!--continuou bracejando
+o da Maya.--As Ferreiras! a nata, a quinta essencia das mulheres bellas
+do Porto! E a Rachel! ai! aquella Rachel, casada com o nariz mais
+indecente que fez o acaso estupido, a quem o Creador entregou a
+repartição dos narizes! A Rachel! a mulher dos olhos de antilopa! as
+mais bellas carnes que ainda vestiram uma alma, se é que uma mulher
+d'aquellas precisa de ter alma para ser perfeita! Ó Jorge, tu estás
+curado! Quando vires Rachel, sentirás um coração novo, um coração
+caldeado nas fragoas dos olhos d'ella! Eu vi-a uma vez, e creio que se a
+visse segunda...
+
+--Iria á missa dos Clerigos vêl-a terceira, não é assim?--interrompeu o
+poeta, rindo, com Jorge, dos transportes sinceros de Pires.--Rachel é
+uma bella senhora, e uma nobilissima alma--continuou o escriptor
+gravemente.
+
+--Mas, segundo a sua theoria--atalhou de golpe Jorge Coelho--essa Rachel
+é uma das muitas aleijadas que por ahi ha. Não a conheço; mas sei que
+ella casou com um brazileiro hediondo e rico.
+
+--Aquelle nariz!--disse Pires.--Tambem me quer parecer que a mulher
+pouco vale na alma, quando contemplo o nariz de Manoel Pereira!
+
+--E eu creio que a sociedade--tornou Jorge--não desconsidera Rachel
+porque ella escolheu um homem rico, podendo ter aceitado a
+desinteressada pobresa e o coração opulento de muitos rapazes que a
+cortejavam. Já se vê que a opulencia d'um sordido não desluz aos olhos
+da sociedade a virtude d'uma senhora que se deu por ella.
+
+--São contos largos...--disse o romancista.--Custa-me que o cavalheiro
+confunda Rachel com Silvina. Creia que offende uma martyr, snr. Coelho,
+Rachel supporta o supplicio de Mezencio, com a resignação que santifica
+a baixeza, se ella tivesse existido, e as culpas futuras, se ellas podem
+existir. Não levo em paciencia o aggravo feito á pobre menina. Vou
+contar-lhe em quinze minutos a historia do casamento de Rachel. Bernardo
+Joaquim Ferreira conhece o valor do dinheiro, e duvida da existencia
+d'umas paixões, que podem vingar e prosperar sem dinheiro.
+
+Ás filhas chama-lhe suas, e não exclue d'esta propriedade o coração. O
+seu pensamento fixo d'elle é casar ricas as filhas. Rachel era querida
+de alguns amigos meus, espiritos dignos d'ella, que lhe teriam dado a
+ventura, se os encontros predestinados dos espiritos não fossem o
+mentiroso poetar de infelizes que nunca se encontram. Um d'esses amigos,
+fui procural-o ao hospital de alienados, quando desembarquei ha cinco
+mezes em Lisboa. Conheceu-me ainda, e as primeiras palavras que me disse
+foram: «Morreu Rachel! A minha alma foi com ella.» Pobre moço! bem
+sentia elle que já não tinha alma! Depois de dous annos de loucura, por
+ignorados motivos, esquecido de tudo que fôra, tinha uma só
+reminiscencia, como se todo o seu passado se concentrasse n'ella...
+Vamos ao ponto, e desculpem-me d'estas intercadencias melancolicas. Os
+senhores não sabem ainda o que é olhar para o passado aos trinta e cinco
+annos, e vêr uma longa fila de espectros uns gotejando sangue, e outros
+lagrimas...
+
+O poeta dissera isto tão do intimo amargurado, que nem Leonardo Pires
+deixou de o escutar com magoa. Jorge, já dorido de suas tristezas, não
+era para espantar que desse em lagrimas uma prova de sympathia á dôr
+alheia.
+
+Proseguiu o romancista:
+
+Ha seis annos eram dous os homens indicados para maridos de Rachel. Quem
+os indicava, e negociava com ardis, e negaças ignobis, sobre serem
+immoraes, era o pai. Rachel detestava-os ambos. Manoel Pereira era um; o
+outro era brazileiro tambem, menos repulsivo, melhor alma talvez, e
+amigo do primeiro. Desde que se toparam a amar a mesma mulher,
+odiaram-se, intrigaram-se e depreciaram mutuamente os seus haveres,
+porque bem sabiam que Ferreira tinha a filha em almoeda. O primeiro que
+a pediu foi Manoel Pereira, abonando-se com cem contos. O segundo não
+dizia o seu valor. Foi o primeiro preferido, sem ser consultada a
+victima.
+
+N'este tempo, Manoel Pereira entra em transacções com o governo, e perde
+cincoenta contos. Ferreira, sabedor da perda, acolhe de novo o outro
+concurrente, e cede-lhe a filha. Este carecia de ir liquidar o seu
+negocio ao Rio de Janeiro. Mas, como a liquidação se detivesse mais d'um
+anno, Manoel Pereira aventura-se em especulações mercantis, estas
+prosperam-lhe, restaura-se das perdas, e rehabilita-se para esposar
+Rachel. O negociante, que sabia o anexim do passaro na mão, receia que o
+outro não volte, e quebra pela terceira vez o contracto. Rachel ignorava
+estas asquerosas mercadorias. Annuncia-lhe o pai que ella é esposa
+promettida de Manoel Pereira. A pobre menina quer defender-se primeiro
+com razões, depois com lagrimas. Tudo lhe é rebatido com indifferença,
+ou com palavras violentas de soberania paternal. Desde o dia em que se
+fizera definitivamente a operação commercial dos quinze annos d'um anjo
+formoso, como a esperança d'uma alma pura, com o homem de cincoenta
+annos, sem o desconto de alguma feição boa do corpo ou da alma, Rachel
+era perseguida pelo seu porco demonio de todas as horas. Se acontecia
+Manoel Pereira estar na sala, e a lagrimosa criança se demorava no seu
+quarto para encurtar as horas do supplicio, ia lá o pai buscal-a; e se
+as grosserias a não compelliam a aligeirar o passo, não era raro
+ameaçal-a de pancadas, e mesmo fazer executiva a paternal justiça.
+Quantas vezes Rachel entrou na sala, com as faces escarlates das
+bofetadas que o pai lhe dava como incentivo para saber aproveitar-se da
+fortuna caprichosa! Era esta a lastimosa situação de Rachel quando eu
+fui para o Brazil. Recordo todas as palavras que a formosa criança
+me disse a ultima vez que fallamos.--Tenha animo para a
+obediencia--disse-lhe eu--Bem póde ser que Deus a remunere d'essa
+virtude com imprevistas felicidades.
+
+--Eu dou por terminada a minha vida--respondeu-me Rachel com os olhos
+enxutos--Tenho quinze annos, e ha tres mezes que olho para a minha
+existencia, como se ella fosse já longa de trabalhos. Os paroxismos
+hão-de ser rapidos. Sei que nem eu nem alguma de minhas irmãs podemos
+sobreviver á mocidade. Estamos todas feridas da mesma morte. D'aqui a
+pouco lançarei o coração em golfadas de sangue, e meu pai não terá
+remorsos de ter cooperado para a minha morte, por que elle já viu dous
+irmãos meus cahirem no verdor dos annos na sepultura onde cahiremos
+todos. Vá, que não me torna a vêr...
+
+Eu sahi de ao pé de Rachel, com o coração opprimido, mas contente de mim
+porque chorava as primeiras lagrimas, depois d'outras que eu julguei
+serem as ultimas... Rachel casou. Não morreu. Mentiu-lhe o anjo que
+fallava áquella sua innocentissima alma. Vive. É uma agonia sem nome...
+O quarto de hora já lá vai. Agora, meus amigos, não venha mais o nome de
+Silvina como um escarro á face de Rachel. Até ámanhã, snr. Jorge. Depois
+d'estas reminiscencias, eu tenho um singular coração que se brutifica, e
+uma alma que detesta a sociedade. Boas noites.
+
+
+XXI.
+
+Cuidava o leitor que estava livre do sujo José Francisco Andraens; do
+estouvado Leonardo Pires; do nariz de Manoel Pereira; da erudição
+mythologica de fr. Antonio; do mettediço jornalista; da fidalga de
+Margaride, adeleira fraudulenta do seu roto coração; da Francisquinha da
+Cunha, promettida esposa do linheiro das Hortas; do morgado de Santa
+Eufemia, rival do Andraens; do Egas de Encerra-bodes, illustrissimo
+sangue neogothico; de Jorge Coelho, alma pura e candida e apaixonada até
+enfastiar o bom siso de quem nos atura, a elle e a mim; e, finalmente,
+de Rachel.
+
+Ai! não me digam que estavam enfastiados de Rachel!... As lindas
+mulheres só enfastiam os seus maridos, e desagradam ás mulheres feias.
+Parece que a propria moral, severa como a directora d'um collegio, se
+compraz ás vezes de as vêr louquinhas, se o ellas são. A belleza é o
+poder moderador dos delictos do coração. Uns lindos olhos são a mais
+commovente rhetorica em defeza das culpas que a intolerancia lhes
+assaca. Um braço gentil, que descuidosamente se denuncia nu, abala o
+animo do juiz austero com mais vehemencia que a mimica de Hortencio e
+Mirabeau. O sorriso discreto, se não é bem despreso nem expressão de
+orgulho da culpa, abranda e enternece mais o peito abroquelado de
+indifferença, que a lacrimosa peroração dos que vingam apertar com os
+cilicios da piedade o coração de um jury.
+
+Mas a que proposito cahe esta especie de defeza de Rachel?! Peccou ella,
+por ventura? Não, minhas senhoras. Rachel tem um só peccado de fraqueza;
+foi optar pelo marido, entre o marido e o suicidio. Desceu ao plebeismo
+das outras, que lhe haviam dado o exemplo da renuncia de si proprias,
+podendo afidalgar-se e ser unica pelo heroismo de se entregar á justiça
+de Deus, fugindo ás injustiças do mundo. A morte moral, que a sociedade
+inflige ás malfadadas, que a cupidez d'um pai acorrentou a um marido
+abominavel, se o coração, em phrenesis rompeu o grilhão, é, mais
+dolorosa que o suicidio tantas vezes, quantos são os repellões que a
+sociedade lhes dá até as engolfar no abysmo sem sahida.
+
+Querem dizer-me que Rachel, se tivesse aceitado o beijo da morte, e
+fugisse ao beijo marital de Manoel Pereira..., (um beijo de Manoel
+Pereira, com aquelle nariz na vanguarda... santo Deus!) ninguem se
+lembraria do seu heroismo a estas horas? Dizem mais que o desdem da
+gente séria, e a censura da gente religiosa, e a irrisão da gente
+parvoa, e o contentamento de outra que Manoel Pereira iria escolher,
+entre mil, n'esta grande feira, fariam do suicidio de Rachel assumpto de
+reprovação e de affronta á sua exquisitice? Tambem o penso assim. Estou
+que ninguem já hoje se lembraria do pobre anjo que fôra queixar-se a
+Deus de o terem querido despir de suas pompas, de suas flôres, de sua
+aureola, de sua virginal pureza, para o prostituirem aos regalos d'um
+satyro revelho, que perdeu alma e coração no grangeio da riqueza, com a
+qual vem mercar um recreio para a sensação do corpo, abrazeado na vida
+ociosa! Ninguem se lembraria da nobre alma, que preferira deixar as
+graças do corpo aos vermes, para o não dar ao cêvo de uma besta-fera.
+Assim é; porém, se uma vez Rachel voltar o rosto de enojada do cadaver a
+que a prenderam; se a força, que o coração lhe fizer, tiver comsigo a
+força do exemplo bem succedido e quisto da sociedade; se o seu fragil
+batel de virtude, forçada e violenta, se desconjuntar e abrir, rebatido
+pela tempestade das paixões; se em fim, aquella honra, a
+constrangimento, e não de vontade aceite, se fôr a pique, a sociedade
+que dirá?
+
+A sociedade--replica o leitor que a conhece e se conhece--a sociedade
+faz-se desentendida por cortezania; por conveniencia; porque sabe a
+historia do olho com trave, que se abria espantado de vêr uma aresta no
+olho alheio. A sociedade fez uma convenção tacita, de que é fiadora a
+civilisação. Em substancia, este contracto social dá os seguintes
+resultados:
+
+1.º Respeitar a liberdade do coração humano, sem prejuizo do soalheiro
+das salas, em que é preciso entreter o tempo, e fingir a gente que não
+conhece senão as pessoas que estão fóra das salas.
+
+2.º Fingir, outro sim, a gente que está convencido da tolice dos outros,
+para que os outros nos tenham em conta de boçaes de boa fé, e não de
+espertos sem pudor. Dá-se um exemplo em hypothese: tal marido sabe que o
+mundo o lastima ou moteja; mas como a lastima e a irrisão cauterisam,
+sem curar, a chaga do vilipendio, o lazaro finge-se de optima saude, e
+aproveita occasião de gemer pela molestia do seu amigo, gafado da mesma
+lepra. Estes dous homens, se se topam, e fallam da corrupção social,
+voltam as costas a rir um do outro, e vão cada qual por seu lado,
+espalhando a risada contagiosa.
+
+3.º Não perdoar o que se chama «escandalo». Escandalo é não ter a
+sagacidade da hypocrisia, e o despejo de injuriar o senso publico,
+tratando-o de nescio. Escandalo é tomar a serio as brincadeiras do
+coração, e vir dar alguem á sociedade uma prova de que despresa o
+contracto social. Escandalo é cahir da prostituição legal á honra do
+coração, que cuida ennobrecer-se e regenerar-se; victimando o nome, o
+estado, e o que a inveja chama fortuna, ao goso de conhecer a liberdade
+na miseria. Escandalo, a final, o escandalo maximo e abominavel e
+imperdoavel é a mesma miseria.
+
+A sociedade sabe que o crime é um dos elementos da ordem das cousas, e
+julga-o um mal necessario, sem o qual não haveria bem-aventurança nem
+inferno, nem anjos, nem demonios, e Deus seria inutil por não ter que
+fazer, visto que os theologos lhe não attribuem occupação que não seja
+julgar, premiar, condemnar, e perdoar, segundo lhe pedem, ou conforme a
+sua espontanea misericordia quer. Ora, sem o crime, este complicadissimo
+funccionalismo, cujo presidente é o Creador do céo e da terra, do mar e
+do sol, da avesinha que regorgeia nas moitas, e do leão que atrôa os
+desertos, do homem como Alexandre e Napoleão e do homem como José
+Francisco Andraens, e Manoel Pereira... dizia eu... eu! eu não dizia
+nada: quem dizia que o crime é necessario era o jornalista, amigo de
+Guilherme do Amaral, conversando na «Aguia d'Ouro» com Jorge Coelho,
+alguns dias depois do encontro em que os vimos no capitulo ultimo da
+primeira parte d'estas biographias.
+
+Vamos agora á historia.
+
+Achou Jorge em casa de D. Marianna Ferreira o seu quarto e sala
+adornados com muito aceio e selecção. Melhor que isto, era o gosto de se
+vêr acolhido sem estranhesa nem demasias de ceremonia. Os filhos e
+filhas de D. Marianna, logo ao segundo dia, o tinham como pessoa da
+familia, e porfiavam em divertil-o d'aquelle geito de tristeza, que era
+natural, e das abstracções penosas, que tinham a sua razão de ser na dôr
+do coração.
+
+D. Marianna, senhora algum tanto despreoccupada do artificio, que tão
+preciso é, chamado delicadeza, logo que Jorge lhe deu uma aberta, fallou
+na paixão, que o seu hospede tinha por Silvina, e nos desgostos,
+nascidos d'esse louco amor, para a sua querida Antonia.
+
+D. Marianna, em termos desabridos, disse de Silvina o que era notorio, e
+talvez lhe exagerasse os defeitos.
+
+Jorge escutou-a respeitosamente, e ao mesmo tempo admirou-se de ouvil-a
+assim fallar na presença de suas filhas, que todas estavam presentes,
+salvo Rachel, a quem elle não tinha ainda visto.
+
+Lembrado está o leitor de ter sahido Manoel Pereira zangado de casa de
+sua sogra, por que a maioria lhe rejeitára o parecer de não ser recebido
+Jorge em casa d'aquella. Como Rachel sahisse então da sua paciente
+annuencia aos votos irracionaes do marido, este, mal afeito a ser
+contradictado, protestou convencer a mulher e a sogra de que não queria
+relações com tal sujeito.
+
+No dia seguinte, ao abrir da manhã, mandou preparar alguns bahus, entrou
+n'uma carruagem com Rachel, e foi conduzil-a a uma quinta, seis leguas
+distante do Porto, nas immediações de Barcellos. Quizera a submissa
+senhora despedir-se de sua familia; mas Manoel Pereira, franzindo as
+verrugas do nariz, e enviezando o beiço na sua ordinaria expressão de
+zanga, atalhou as intenções da saudosa Rachel, dizendo que a mulher
+casada não tinha familia senão seu marido. E Rachel, fitando os olhos
+coruscantes de raiva no nariz do esposo, disse com o fel do coração nos
+labios, que sorriam sardonicamente:
+
+--Deus te livre que eu alguma hora me esqueça de que tenho uma familia,
+que não é meu marido... Se lhe eu perder o respeito a ella, se os
+estimulos de minha exemplar mãi me faltarem, tu verás então que eu não
+tenho outra familia.
+
+O marido, arregaçando os musculos businadores, e as azas nasaes com
+elles, regougou:
+
+--Põe lá essas doutorices em miudos, que eu não te entendo.
+
+--Se me tu entendesses--redarguiu Rachel--nunca me forçarias a fallar
+assim á tua ignorancia.
+
+Manoel Pereira cascalhou uma risada de velhaco, e coçou-se atraz da
+orelha esquerda.
+
+Não se trocaram palavra no decurso de seis leguas. Rachel ia linda pelo
+escarlate da sua colera; e Manoel Pereira bufava, quando não cabeceava
+de somno jogando contra o hombro de sua mulher.
+
+A gentil senhora, a espaços, encarava no marido, e dizia entre si: «Que
+destino o meu! Este é o homem, que me deram para a vida! Querem que seja
+d'este homem o meu coração! Ter uma só existencia, e curta como hade ser
+a minha, e hei-de sacrifical-a toda a esta cousa que vale duzentos
+contos de réis!
+
+«Que aproveitou meu pai d'este monstruoso enlace? Que lucrou este homem
+em se aviltar para me chamar sua, se elle mesmo conhece que lhe obedeço
+abominando-o? Mas eu não devia soffrer, porque Deus bem sabe que fui
+levada de rastos, e que me perdi por ser boa filha, e me tenho
+atormentado para ser uma victima obediente dos calculos de minha
+familia! Calculos! quaes, e de que serviram? Quem foi feliz com
+elles?!...»
+
+Estes mentaes soliloquios eram cortados por algum ronco pavoroso, ou
+espertar estremunhado do negociante de couros, quando não era uma
+pancada da mão esponjosa que algum sonho sacudia ao peito de Rachel.
+
+Chegaram ao seu destino, e pouco depois as cargas da bagagem, e as
+criadas de Rachel. Manoel Pereira passou na quinta aquelle dia e o
+seguinte; ao outro, voltou para o Porto a fim de fazer uma carregação de
+couros, e activar uma leva de escravos brancos para o Rio de Janeiro.
+
+Rachel, á hora crepuscular da noite d'esse dia, foi sósinha sentar-se
+nas escadas do cruzeiro, que defrontava com o portal da quinta, e então
+chorou as lagrimas represadas em tres dias de exasperada angustia.
+
+Como tu serias linda alli de uma formosura do céo, Rachel! Qual
+Magdalena mais linda inventou o buril aos pés da cruz misericordiosa! E
+se anjo tu eras de purissima alma; se as mesmas lagrimas te depuravam de
+intenções culposas, que alegria não seria a do teu Creador, vendo-te
+assim incontaminada, com menos ventura que muitas que não tinham no
+coração uma fibra incorrupta!
+
+Se a essa cruz voltares, n'outra tarde, a pedir perdão da queda, hão-de
+os anjos chorar-te, ó Rachel; mas pedirão a Deus que te leve para si e
+para elles, como se houvesses cumprido immaculada o teu desterro do céo.
+
+
+XXII.
+
+José Francisco Andraens venceu a morte, que lhe entrára no buxo,
+disfarçada nos dez pombos, que elle ceiou, em casa do visconde dos
+Lagares.
+
+Das recahidas é que ia sendo impossivel salvar-se. Quando a medicina lhe
+empunha um caldo simples com meia onça de pão esfarelado, José Francisco
+desfazia meia gallinha na tigela. A inflammação gastrica
+reaccendia-se-lhe nas cavernas, e a morte voltava de novo a espremer-lhe
+os succos das tres barrigas até descorçoar rebatida pela brutal
+compleição. A final nem a medicina pôde acabal-o!
+
+Ergueu-se José Francisco algum tanto abatido, um pouco pallido, quebrado
+de vista, e mal seguro das suas pernas zambras. Deu um passeio de
+carroção até á Foz, e almoçou com appetite. Voltou no dia seguinte, e
+almoçou duas vezes. Cubiçou pescada, por que a viu sahir das redes, e
+mandou cozer uma com cebolas e batatas. Depois de jantar, dormiu um
+somno de justo, com a barriga repleta, (cousa que não succede muitas
+vezes aos justos)--e sahiu de tarde a tomar a fresca em Carreiros, onde
+a fortuna lhe deparou uma vendedeira de manjares brancos e pasteis de
+Santa Clara, que lh'os vendeu todos a olho, e elle comeu, empinado sobre
+um penedo sobranceiro ao mar.
+
+Tomada a refeição, José Francisco limpou o suor da papeira, e lambeu os
+beiços pulverisados do assucar dos pasteis. Depois descobriu a cabeça á
+bafagem fria do oceano, cruzou os braços em postura de quem medita, e
+pensou assim:
+
+--Como isto é tamanho! Como se faria o mar? Por que será que o mar
+cresce e minga? Quantas pescadas haverá no mar? A gente sempre a comer
+peixe, e nunca se acaba!
+
+Entrava José Francisco na solução d'estes problemas, quando a linha do
+seu horisonte foi cortada por um barco a vapor. Topetaram então com o
+sublime do engenho humano as suas meditações:
+
+--E o vapor!?--dizia elle--Sempre os homens tem idéas! Pelos modos o que
+faz girar as rodas é o fumo do carvão! Uma cousa assim! E como a gente
+come boa carne a bordo d'um vapor inglez! Bons tempos eram aquelles em
+que eu viajava, e comia tanto, sem me sentir enfartado como agora que
+qualquer cousa me trabalha cá no interior!...
+
+Estas considerações entristeceram José Francisco, e o espectaculo do
+oceano enfastiou-o. Ergueu-se, desceu do seu throno de caranguejos e
+algas, e foi dar alguns passeios na lingueta de pedra, onde então
+passeavam muitas familias.
+
+Entre estas estava Francisca da Cunha conversando com Antonio José
+Guimarães, o linheiro; e Silvina de Mello procurando conchinhas na
+praia.
+
+O linheiro foi comprimentar o commendador, e D. Francisca chamou a
+attenção da prima.
+
+José Francisco, logo que viu Silvina, perdeu a cabeça.
+
+É preciso explicar o que o leitor já devia saber, se esta historia fosse
+contada com mais arte.
+
+Quando Andraens cahiu doente, Silvina mandou saber do seu estado, e teve
+quem lhe assegurasse que o illustre enfermo succumbiria ao typho,
+resultante da gastrite. Ao mesmo tempo, disse-lhe alguem que José
+Francisco fizera testamento, sendo uma das verbas testadas aos seus
+parentes de Cozelhas a quantia de um conto oitocentos e vinte e cinco
+mil e setenta reis, de que lhe era devedor Pedro de Mello, declarando a
+quinta hypothecada ao pagamento da quantia, e juros da lei.
+
+Silvina não mandou saber do homem; e Pedro de Mello, que viera ao Porto
+para apressar o casamento, tão indignado ficou da avareza do moribundo,
+que deu louvores a Deus de matar a tempo o villão, para que sua filha se
+não conspurcasse na lama de tal javardo. Era o sangue escandecido do
+sargento-mór d'Amarante que refervia nas veias do neto. E, ao mesmo
+tempo, como o morgado de Santa Eufemia andasse ahi nas ruas do Porto,
+exhibindo um rosto de amargura e uma gravata verde-gaio com alfinete de
+cabeça d'ouro rendilhada, Pedro de Mello disse á filha que seria
+prudente não dar de mão ao morgado, porque lhe constava que o pai tinha
+soffrido um insulto apopletico, e não poderia viver longo tempo.
+
+Silvina, anjo de submissão, accedeu á vontade paternal, e trocou algumas
+palavras com Christovão Pacheco, quando ambos immergiam no mar, e
+recebiam a unção conciliadora da mesma onda. Succedeu assim o caso em
+que pegou o desamuarem-se:
+
+O morgado, ao aproximar-se a onda, dava urros, e mettia-lhe a cabeça com
+furioso impeto, perneando fóra d'agua. Como Silvina estivesse perto
+d'elle, viu que o sapato d'ourêlo n'um d'esses pinotes de arlequim
+maritimo, lhe saltára de um dos... dous pés--digamos dous pés por
+deferencia á historia natural.--E, quando o sapato, entumecido de agua,
+ia ao fundo, Silvina disse á banheira que apanhasse o sapato do
+cavalheiro. A tempo foi isto que o morgado o andava procurando á tona
+d'agua; e, como ouvisse a magica voz da dama, e visse o sapato na mão da
+banheira, que lh'o atirava a elle, Christovão, bem assombrado, disse a
+Silvina:
+
+--Obrigado á sua attenção, minha senhora!
+
+--Não tem de quê--respondeu Silvina, sorrindo.--Porque não toma o senhor
+o seu banho mais quieto?
+
+--Gosto d'isto assim;--respondeu o morgado.
+
+--Eu cuidei que era o nervoso que o obrigava a dar cambalhotas na agua.
+
+--Nada, não é, minha senhora; é que eu gosto de brincar com o mar; com o
+amor é que eu já não brinco.
+
+--Nem deve brincar, porque o amor gosta de ser tratado seriamente; e o
+senhor zomba com as victimas d'elle...
+
+--Eu é que zombo, minha senhora!... Não perca esta onda, que é boa.
+
+O de Santa Eufemia arremetteu com a onda, e fez proezas de natação,
+deixando-se ir de costas no dorso da vaga, que o levou á praia.
+
+Como Silvina sahisse do mar, o morgado sahiu tambem, vestiu-se, e
+esperou, disfarçadamente, a sua mulher fatal. Sahiu Silvina da barraca,
+e deu de rosto com Christovão Pacheco. Sorriu-se, e respondeu á cortezia
+do fidalgo de Freixieiro. Deu alguns passos, procurando Francisca da
+Cunha; e, como a visse entre duas barracas protectoras conversando com o
+linheiro, sentou-se a um recanto, sosinha, e meditativa. O morgado
+sentia caimbras nas pernas e saltos do coração. Girava em roda d'ella,
+puxado por magnetismo irresistivel. A final fez ao seu acanhamento o que
+fazia ás vagas: metteu a cabeça, e foi.
+
+Silvina recebeu-o agradavelmente, e conversou com elle um quarto de
+hora. D'esta conversação resultou ficarem convencionados para tomarem o
+banho juntos no dia seguinte, e assim nos oito dias que decorreram.
+
+José Francisco Andraens convalescia da ultima recahida, quando teve
+noticia da deslealdade de Silvina. Desafogou no seio do visconde dos
+Lagares, e deu procuração para ser demandado Pedro de Mello por um conto
+oitocentos e vinte e cinco mil e setenta reis, e juros da lei. Com estes
+acontecimentos coincidiu a ida do commendador á Foz, e o seu encontro
+com Silvina em Carreiros. Agora está dada a razão de ter perdido José
+Francisco o tino, quando a viu á cata de conchinhas.
+
+--Ó prima Silvina--disse Francisca--olha que está aqui o senhor
+commendador Andraens.
+
+--Bem se lhe dá ella que eu esteja aqui ou em casa do diabo--disse com
+ira e amargura José Francisco.
+
+Silvina avisinhou-se do grupo, e disse serena e em tom severo:
+
+--Folgo muito em vêr restabelecido o credor de meu pai. Ser-me-ia
+dolorosa a sua morte, por muitas razões, sendo a primeira o receio de
+vêr meu pai soffrer alguma penhora a requerimento dos herdeiros do
+senhor commendador.
+
+José Francisco respondeu com promptidão sem mudar de côr:
+
+--Quem deve, paga. É como é. A senhora esperava ser minha herdeira?
+
+--Não, senhor; esperava merecer-lhe a consideração de mulher que
+estivera para ser sua esposa. Esperava que o senhor não andasse jogando
+entre mim e meu pai com um punhado de ouro, que não vale para mim este
+punhado de conchas. Esperava, finalmente, que o snr. José Francisco
+Andraens não viesse por si mesmo certificar a conta, em que é tido, de
+possuir uma riqueza que é o seu flagello, e o das pessoas a quem
+empresta uma migalha das suas sobras. O senhor, logo que se viu em
+perigo de morte, esqueceu-se de que eu me tinha desembaraçado de todos
+os obstaculos para ser sua mulher, e testou a insignificante divida de
+meu pai, para morrer sem deixar saudades a alguem n'este mundo. Desde
+que v. s.ª praticou semelhante baixeza em que conceito queria que o eu
+tivesse?
+
+José Francisco tartamudeou esta resposta:
+
+--Eu não estava escorreito do miolo quando fiz o testamento. Lá foi o
+meu amigo visconde que arranjou tudo, e eu assignei sem dar tino de mim.
+Se offendi o senhor seu pai, queira perdoar.
+
+Não ha que vêr: Silvina era a mulher fatal de tres corações, que por
+ella andavam perdidos. Andraens, como a visse e ouvisse, perdia a
+consciencia da sua dignidade, e--o que mais é para assombro--a
+consciencia de credor. Quanto mais arrogante Silvina lhe castigava a
+natural grosseria, mais escravo se humildava José Francisco. Fulminava-o
+a electricidade dos olhos d'ella, e tinha a sua voz um encanto, que
+faria lembrar o da magica da Colchida, se elle não fosse pôrco, antes de
+ouvil-a. Pasmava elle do feminil predominio d'aquella mimosa mulher que
+o sopesava; mas este espanto era submisso, e a submissão amor, que os
+romancistas chamam o fatidico, o predestinado, o invencivel.
+
+Antonio José Guimarães, avesso á reconciliação de Silvina com o morgado,
+e desejoso de a vêr ligada ao seu amigo Andraens, esforçou-se em
+desamual-os, dando explicações a favor d'um e d'outro, de modo que ambos
+já as escutavam silenciosos. José Francisco acompanhou Silvina e
+Francisca, promettendo vir jantar com ellas no dia seguinte, e
+authorisou o linheiro a dizer de sua parte á menina que por causa d'elle
+não se havia de desarranjar o que estava tratado. Mandou immediatamente
+sustar a começada execução sobre Pedro de Mello; presenteou com
+alfinetes e pulseiras as duas fidalgas; tomou casa na Foz; deu a Pedro
+de Mello as satisfações que o pundonor do fidalgo exigia, e deixou ao
+arbitrio d'este as condições da escriptura nupcial.
+
+E o morgado de Santa Eufemia? Esse continuava a dar cabriolas nas ondas.
+
+
+XXIII.
+
+Em fins de Setembro, foi Jorge Coelho, na companhia de Leonardo Pires, á
+Foz. D. Marianna contrariára-lhe o desejo, até áquelle dia, por saber
+que a ventoinha de Margaride lá estava, desafiando, com as suas
+evoluções amorosas, a irrisão da gente frivola e a indignação das
+pessoas sérias. O jornalista, porém; que era oraculo em casa do
+negociante Ferreira, aconselhára a excellente amiga de D. Antonia a não
+impedir que Jorge visse o espectaculo irrisorio ou repugnante em que
+Silvina se exhibia.
+
+Estava ella sentada nas ribas fragosas, que marginam o «caneiro» onde os
+grupos se banhavam. Francisca da Cunha estava, ao lado da prima,
+conversando com o linheiro. O morgado de Santa Eufemia, n'outra
+eminencia do fragoêdo, abarcava as pernas com os braços, e apoiava o
+queixo entre os joelhos. Na especie de ilha que fórma a outra riba do
+caneiro, andava aos pulos Egas de Encerra-bodes, ensinando um cão da
+Terra-Nova a saltar ás ondas. E era aquelle o vulto mais pitoresco da
+praia, envolto no seu cobrijão escarlate, franjado de borlas verdes, e
+cahido a um lado com a natural graça, que usam dar-lhe os provincianos,
+vesados áquella elegancia de feiras.
+
+Jorge de Sepulveda avistou de longe Silvina, e disse a Pires:
+
+--Lá está ella... Não passemos d'aqui.
+
+--E que quer dizer não passarmos d'aqui?--acudiu o da Maya, accendendo o
+charuto no cachimbo denegrido d'um banheiro--Queres tu, amigo Jorge,
+fingir o que não és? Apraz-te passar por tolo no conceito d'aquella
+mulher?!
+
+--Julgue-me ella como quizer...--replicou elle--concedo que seja tolice
+isto, mas... é cedo ainda para ser... homem. Eu amei seriamente Silvina.
+O amor e o remorso são espinhos, que não desencrava do coração quem
+quer. Para que te hei-de eu mentir, se me não posso enganar a mim? Não a
+esqueço, nem se quer a despreso áquella mulher. Minha mãi ajoelhou
+commigo sobre a sepultura de meu pai, e pediu-me, pela memoria d'elle,
+que me vencesse e levantasse da minha miseria. Quiz, e não pude, meu
+amigo! Como queres tu que eu possa dissimular á penetração de Silvina o
+que por ella sinto?! Melhor é que me ella não veja. Vai tu, se queres:
+eu espero-te aqui, e voltaremos logo para o Porto.
+
+Jorge sentou-se n'uma fraga a distancia; e Leonardo Pires, vibrando o
+chicote, foi postar-se a pouca distancia de Silvina, conversando com o
+morgado de Santa Eufemia.
+
+--Então quem namora agora a menina?--disse o da Maya--O meu amigo de
+certo não, que o vejo aqui amuado. Jorge Coelho tambem não, que está
+acolá conversando com a natureza, e lendo o seu destino no vôo das
+gaivotas, como Catão d'Utica.
+
+--Que é?!--disse Christovão, receioso de que o nome do romano fosse
+algum chasco á sua ignorancia.
+
+--Catão d'Utica, disse eu, meu caro senhor; não conhece este personagem?
+
+--Nada, não conheço--replicou o morgado, voltando o rosto para o lado de
+Silvina, que o remirava com disfarce por entre o franjado da sombrinha.
+
+--Mas ha-de conhecer aquelle outro personagem que lá vem--retorquiu o da
+Maya.
+
+Christovão olhou na direcção indicada, e viu José Francisco Andraens,
+que descia lentamente a calçada que conduz á praia. Não teve mão da sua
+raiva, de mais a mais aguilhoada pela facecia de Pires: fitou Silvina
+com um sorriso de ironia bruta, e disse-lhe em alta voz:
+
+--Lá vem o nosso homem!
+
+E soltou uma casquinada de riso, dando upas sobre a pedra, com as pernas
+apertadas entre os braços.
+
+Silvina virou-se de lado com repellão, e Leonardo Pires exclamou:
+
+--Estão bonitos! isto sim, que daria idéas a um Gavarni cançado! Ó
+humanidade tu és a caricatura dos monstros que a imaginação cria nos
+seus delirios de cognac e absyntho!
+
+Dito isto, com pasmo d'algumas familias de Traz-os-Montes, que por alli
+se agrupavam, Leonardo desceu do fragoedo para a praia, ao mesmo tempo
+que José Francisco se aproximava de Silvina.
+
+--Ora viva!--disse o commendador á fidalga de Margaride--Como passou?
+
+--Excellentemente, e o snr. Andraens?
+
+--Está feito; não me dei muito bem com a ceia. Appeteceu-me uma lagosta,
+e trabalhou-me cá dentro toda a noite. Agora, estou mais desempachado, e
+acho que vamos ao banho.
+
+--Quando quizer.
+
+--Sempre me sento um bocado a arrefecer--tornou José Francisco,
+apalpando as pedras, e ajustando, o melhor que pôde, com as asperezas
+d'ellas as roscas de carne cuja flexibilidade se moldava ao anfractuoso
+da rocha. Depois, bramiu um urro de satisfação, e cruzou as mãos sobre a
+barriga n.º 2.
+
+--Com que sim--continuou elle--Em que estava a senhora a malucar?
+
+--A malucar?!--disse Silvina, franzindo a testa.
+
+--Sim, dizia eu, se estava a cogitar n'esta vista do mar...
+
+--Ah! sim... estava...
+
+--A fallar a verdade,--tornou elle, recolhendo-se--isto é uma obra que
+faz pasmar a gente! O que me dá no goto é isto de crescer e mingar o
+mar!... A senhora sabe a razão?
+
+--Dizem que é effeito da attracção da lua.
+
+--Da lua!--atalhou com espanto José Francisco.
+
+--Sim, senhor, da lua; é o que dizem os entendedores; mas como se faz o
+fluxo e refluxo do mar é que eu não sei, nem mesmo me importa saber...
+
+--Da lua!--tornou o commendador, olhando para a abobada celeste, e
+gesticulando mudamente com os braços, como quem se esforçava por
+entender a acção da lua sobre a agua, com um imaginario artificio de
+alcatruzes.--Da lua não póde ser!--disse elle por fim, com a energia e
+aprumo de Galileu, á sahida do carcere.
+
+--Pois então não seja!--disse Silvina com enfado.
+
+--Porque a lua--tornou José Francisco, com os olhos no céo, e os dedos
+das mãos afastados entre si--a lua está lá em cima, e...
+
+--E o mar está cá em baixo...--atalhou a menina, espirrando um frouxo de
+riso.
+
+--Ora ahi está! E a senhora ri-se!? Eu queria que os doutores me
+explicassem como é que a lua empurra o mar e puxa depois por elle... Ó
+snr. Guimarães! olhe aqui que vai já.
+
+O snr. Guimarães era o linheiro, que estava a pouca distancia com
+Francisca da Cunha. Vieram ambos ao chamamento de José Francisco, e ella
+principalmente attrahida por um tregeito da prima.
+
+--Diga-me cá: vossê sabe como é que a lua faz isto de crescer e mingar o
+mar?
+
+--Eu não estudei nada d'isso--respondeu o linheiro--mas, em quanto a
+mim, a maré cresce quando o vento é de mar, e minga quando o vento é de
+terra.
+
+--Ah! pr'ahi, pr'ahi! diga-me d'isso!--acudiu radioso o
+commendador.--Mas da lua!... É que estava cá a minha Silvininha a dizer
+que era a lua. Quem lhe metteu isso na cabeça, menina?
+
+--Foi alguem que estava a zombar de mim!--disse Silvina gargalhando
+francamente com Francisca da Cunha.
+
+--Isso entendo eu... Agora--tornou José Francisco--se querem ir lá
+conversar sosinhos, vão, que eu tenho que dizer aqui a esta menina uns
+arranjos cá da nossa vida de noivos.
+
+Francisca e o homem da rua das Hortas afastaram-se para irem occupar as
+cadeiras, que deixaram junto d'uma barraca; mas encontraram-nas tomadas
+por Leonardo Pires e Egas de Encerra-bodes.
+
+Ergueu-se Egas, e Francisca sentou-se, cuidando que Leonardo cederia a
+sua cadeira a Antonio José Guimarães; mas Leonardo não se moveu, e o
+linheiro estacou diante d'ambos, com os olhos fuzilantes sobre o da
+Maya, que assobiava apparentemente distrahido a canção popular, cuja
+letra é: _Muito bem seja apparecido n'esta funcção_...
+
+Francisca ergueu-se, e deu alguns passos em retirada. O linheiro, porém,
+bamboando a cabeça, resmuneou estas palavras, mal ouvidas de Pires:
+
+--O que vossê merecia, sei eu.
+
+--Que regouga?--disse-lhe o da Maya.
+
+--O senhor...--replicou Antonio José--ainda ha-de topar quem lhe dê uma
+boa lição.
+
+--Vá-se embora--redarguiu Pires--Se não, atiro-lhe areia aos olhos.
+
+--A mim?!--disse com um sorriso azedo o linheiro.
+
+--E enterro-o n'esta praia, como quem enterra um safio pôdre. Vá-se
+embora, homem, e diga lá á fidalga que não ame parvos, se não quer
+receber d'estas affrontas.
+
+O linheiro fez um arremesso com a bengala, e Leonardo Pires tomou do
+chão dous punhados de areia, dizendo com semblante de quem brinca:
+
+--Olhe que vossemecê leva!
+
+Egas de Encerra-bodes, que estivera, a um lado, rindo debaixo de uma
+dobra do cobrijão, deu dous passos para a retaguarda do linheiro, e fez
+um gesto ao «terra-nova». O cão começou a tirar com os dentes pelas abas
+do paletó de Antonio José, e este a sacudir-se, e a florear a bengala,
+que infelizmente embarrou no focinho do animal. O remate d'este episodio
+foi cousa triste de contar-se. O linheiro, se não tem botas de cano
+alto, sahiria com as canellas estrincadas; e póde ser que os dentes do
+«terra-nova» procurassem afiar-se em porção das pernas, não abroqueladas
+das botas, se Egas lhe não fallasse de modo que elle, de cauda cahida,
+veio rastejar-lhe aos pés.
+
+Terminou isto por ir o misero queixar-se ao regedor que alli estava
+perto, homem de bom siso, que se dirigiu a Egas, pedindo-lhe que fizesse
+saber ao seu cão que nem todos os cidadãos traziam botas de cano alto.
+
+Francisca da Cunha, fugindo para perto de Silvina, podéra forrar-se á
+vergonha de semelhante conflicto; apenas dissera ao commendador que um
+doudo furioso a perseguia em toda a parte; e, citando o nome do doudo,
+viu, com grande pasmo de Silvina e d'ella, erguer-se o commendador, e
+descer agilmente as fragas resvaladiças, para se entremetter na
+desordem, que encontrou no periodo final do cão arremettendo ás pernas
+do seu amigo.
+
+Aplacado o incidente, entraram Silvina e José Francisco, cada qual em
+sua barraca, para se vestirem.
+
+Leonardo Pires dirigiu-se a um banheiro, e pediu sem demora um fato de
+banho alugado. Vestiu-se, e sahiu da sua barraca a tempo que o
+commendador, a par de Silvina, entravam no mar. Seguiu-os, e passou-lhes
+adiante, indo postar-se n'um ponto em que as ondas batiam mais fortes, e
+onde só os nadadores ousavam esperal-as. Quando a onda vinha, Leonardo
+mergulhava, e vinha com ella, até marrar nas pernas de José Francisco.
+Erguia-se, sacudia a grenha, pedia perdão e tornava para o seu posto.
+José Francisco retirava-se a um lado; mas, na volta de outra onda, a
+marrada era infallivel. Á terceira vez, o brazileiro ladeou, quando viu
+mergulhar o monstro da Maya; este, porém, nadando com os olhos abertos,
+lá foi abalroar com o homem, e pedir perdão pela terceira vez.
+
+José Francisco esbofava no mar como tubarão ferido. Sahiu á praia
+atordoado, em quanto Silvina, estranha ao successo porque ficára longe
+do noivo, se deixava contemplar pelos olhos lagrimosos de Jorge, que a
+via, resguardando-se de ser visto.
+
+Leonardo Pires, no perpassar por ella, disse-lhe a meia voz:
+
+--Jorge de Sepulveda está acolá, minha senhora! Anda aquelle seu bom
+anjo a quer salval-a de um eterno ridiculo, e v. exc.ª a cahir, a cahir,
+a cahir, n'um dos tres abysmos das tres barrigas de José Francisco
+Andraens!...
+
+
+CONCLUSÃO.
+
+Muita gente honesta, lendo, quinze dias depois, nos jornaes do Porto, a
+noticia do casamento de José Francisco Andraens com D. Silvina de Mello,
+observou que esta menina tinha muito mais juizo do que mostrava. As mães
+de familia citaram-na como exemplo ás suas filhas; e estas, bem que
+exteriormente se rissem d'ella, invejaram-na.
+
+Ás suas amigas particulares dizia Silvina que o seu casamento fôra um
+sacrificio do coração á dignidade propria; por quanto, dous implacaveis
+homens, o morgado de Santa Eufemia e um tal Jorge Sepulveda, calcando
+aos pés quantos deveres a civilidade impõe a sujeitos, que não podem ser
+amados, lhe andavam sempre dando desgostos, vergonhas, e descredito.
+Estes dizeres, comprovados por umas lagrimas que ella arranjava com
+prodigioso artificio, apiedaram as proprias amigas, que diziam d'ella
+mil maravilhas.
+
+José Francisco Andraens arrijou de suas frequentes dyspepsias, quando o
+mundo e a medicina menos o esperavam. Muitos rapazes indiscretos paravam
+a contemplal-o á porta dos snrs. Pintos Leites, na calçada dos Clerigos,
+nos primeiros quinze dias depois do seu matrimoniamento. José Francisco
+estava um todonada melado de rosto; mas não lhe iam mal aquelles ares de
+noivo: tudo tem n'este mundo a sua hora e côr de poesia.
+
+O morgado de Santa Eufemia recebeu ao mesmo tempo o golpe da morte e o
+balsamo da vida: morrêra-lhe o pai na vespera do dia em que Silvina
+casára.
+
+D. Francisca da Cunha casou com o linheiro das Hortas. As duas meninas
+com os respectivos maridos foram para o Bom Jesus do Monte, local
+sagrado que dá luas de poesia a quantos parvos ha ahi que vão celebrar
+n'aquelle sanctuario uma festa, irrisoria, se não tôrpe, na essencia.
+
+Jorge de Sepulveda, quando viu a local da gazeta agoureira de muitas
+prosperidades a José Francisco e Silvina, estremeceu, empedrou, e
+invocou do anjo da piedade o desafôgo do pranto.
+
+Ora, o amigo de Guilherme do Amaral, se não era o anjo da piedade, tinha
+em si um santo e mysterioso condão de espremer entre os dedos
+inexoraveis da sua philosophia algum tanto cynica, toda a peçonha dos
+corações, cancerados pelo amor.
+
+Alguma vez verá o leitor que boleus deu toda esta gente com as
+costumadas voltas do mundo.
+
+O livro complementar d'estas biographias ha-de denominar-se: REACÇÃO DA
+POESIA.
+
+É o natural seguimento dos Annos de prosa.
+
+FIM.
+
+ [1] Não vá entender alguem que o romancista está phantasiando.
+ Quando Napoleão III casou com a condessa de Montijo, duas familias
+ ventilaram em Portugal e porfiadamente, a origem dos Porto-Carreiros
+ que levára a Castella os embriões da imperatriz. As familias
+ litigantes eram os Porto-Carreiros da casa da Bandeirinha no Porto,
+ e outros de igual appellido de Abragão, ahi para as cercanias de
+ Penafiel. O pleito heraldico andou nas gazetas, e nomeadamente no
+ _Portugal_, jornal realista do Porto. A critica oscillou longo tempo
+ indecisa entre as duas familias, até que um dia, cançada de
+ oscilações, cahia a rir deixando ás duas familias nobilissimas o
+ direito salvo de enxertarem o imperio francez lá em casa.
+
+ [2] _V. do Arcebispo._
+
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+O ARREPENDIMENTO.
+
+
+
+
+
+
+O ARREPENDIMENTO.
+
+
+ROMANCE.
+
+
+Em tempos da minha mocidade costumava visitar a miudo uma boa velha,
+minha visinha, que me honrava com a sua estima e amisade. Humildemente
+confesso que não ha sociedade mais deleitosa e agradavel, do que a de
+uma mulher que soube envelhecer. A sua conversação instructiva e
+divertida, é um inesgotavel thesouro de lembranças, anecdotas,
+observações chistosas e reflexões circumspectas, é finalmente uma
+revista do passado.
+
+D. Mafalda, deixem-me assim chamar-lhe, juntava á amenidade da conversa,
+a do caracter, que era brando e indulgente.
+
+Quando tinha occasião de ir passar uma noite com ella, parecia-me que as
+horas voavam ligeiras e que corriam mais rapidas, do que quando as
+gastava a distribuir finezas e galanteios ás mais formosas rainhas dos
+mais brilhantes salões. Era sempre com vivo pesar que a via apontar para
+o relogio, indicando-me que a hora de me retirar tinha chegado, e
+voltava a minha casa com o espirito mais rico, e o coração satisfeito e
+melhor.
+
+A historia que vou contar-vos, minhas caras leitoras, foi-me dita por D.
+Mafalda n'um d'estes serãos em que vos fallei.
+
+Era n'uma bella noite de Junho; fui encontral-a sentada na sua cadeira á
+Voltaire, tendo a seus pés, deitado em um cochim, o seu cãosinho
+querido; os olhos tinha-os semi-abertos, um sorriso nos labios, e
+parecia respirar com prazer a aragem, que, embalsamada pelas flôres do
+jardim, se coava pela janella meia aberta. Quando cheguei junto d'ella
+vinha indignado por que um de meus parentes tinha sido victima d'um
+abuso de confiança; contei-lhe o succedido, e no calor da narração não
+poupei ao culpado as maiores imprecações, nem deixei de lhe dizer que
+desejava fazer-lhe todo o mal possivel.
+
+--Devagar, meu querido amigo--me disse ella--não o julgava tão
+irrascivel, nem que tivesse tão pouca caridade para com o proximo. Sabe
+lá, se, com a vida, não tiraria ao culpado o merito de para o futuro se
+poder rehabilitar pelo arrependimento, e se o momento em que lhe
+infringisse o castigo não seria o destinado por Deus para esse
+arrependimento?
+
+--Eis-ahi, minha cara visinha, uma doutrina, permitta-me a expressão, um
+pouco subversiva da ordem social.
+
+--Deus me defenda--me replicou--de querer que o culpado não seja
+castigado, e que a sociedade fique indefeza dos crimes que um seu membro
+praticou contra ella; quiz dizer sómente que devia deixar ás leis o
+cuidado de castigar o delinquente, e que o meu querido amigo, não devia,
+como individuo, fechar assim desapiedadamente o coração a todo o
+sentimento de commiseração por um desgraçado e infeliz, no coração do
+qual talvez ainda bruxelei algum clarão de virtude, que uma occasião
+favoravel e propicia, que se apresente, ainda póde despertar, e fazer
+com que esse membro da sociedade, que julga inutil, se torne bom e
+aproveitavel.
+
+Como eu respondesse a isto, fazendo um d'estes movimentos de cabeça, que
+são um protesto mudo e respeitoso, ella acrescentou:
+
+--Está com paciencia para me aturar ouvindo uma historia, pois que ainda
+temos algumas horas?
+
+Não recusei: uma historia era uma fortuna para combater a exaltação
+d'espirito em que estava.
+
+D. Mafalda principiou assim:
+
+--Emilio da Cunha era o mais velho de tres irmãos, dos quaes, o mais
+novo, vivia ha muitos annos no Rio de Janeiro, onde tinha alcançado
+fortuna. O segundo nunca deixou o Porto, sendo sempre infeliz nos seus
+commettimentos e especulações. Emilio da Cunha, á custa de muito
+trabalho e economias, pôde alcançar uma fortunasinha, que lhe permittia
+esperar com socego, o momento de descançar da vida laboriosa em que
+tinha vivido.
+
+Uma quarta pessoa completava esta familia, que era uma irmã, que tendo
+seguido seu marido á India, para onde elle tinha sido despachado, e não
+vindo nenhum d'elles a figurar n'esta minha historia, não lh'os
+recordarei mais.
+
+Aconteceu que o irmão de Emilio da Cunha, que residia no Porto, por uma
+d'estas catastrophes que occasionam os jogos de bolsa, falliu. Teve tal
+sentimento por este facto, que falleceu tres dias depois, atacado d'uma
+febre cerebral. A herança, que deixou, foram dividas e um filho.
+
+Emilio da Cunha, que tinha um coração bondoso, e um caracter
+pundonoroso, para que a memoria de seu irmão não ficasse deshonrada,
+comprometteu-se a pagar as dividas e recolheu em sua casa o filho para
+lhe substituir o pai, que tinha perdido; procedimento louvavel, e digno
+de se admirar, sabendo-se que elle tinha uma filha, para quem, passados
+quatro ou cinco annos tinha a procurar um casamento vantajoso.
+
+Roberto, se chamava o sobrinho de Emilio da Cunha, tinha já 15 annos
+d'idade, mas o pai, inteiramente entregue ás especulações, e aos
+cuidados, que ellas trazem comsigo, descuidou completamente a sua
+educação, por isso o seu retrato moral, n'esta occasião, nada tinha de
+vantajoso; o espirito tinha-o completamente inculto; as noções que
+possuia do justo e do injusto eram as mais erroneas e disparatadas; o
+respeito aos direitos d'outrem era para elle uma invenção estupida dos
+homens, condemnada pela natureza, e a verdadeira liberdade consistia em
+fazer o mal impunemente. Se algum bom instincto, ou algum vislumbre de
+virtude, existia no coração de Roberto, ainda estava em embryão, por que
+se não tinha demonstrado. Quantas e quantas vezes, em quanto que o pai,
+cego pelas especulações, concentrava todas as suas faculdades
+intellectuaes na realisação d'um impossivel, não deixou Roberto de ir ao
+collegio, fazendo o que em termo escolar, se chama _gazear_, e gastava
+as horas d'estudo em andar a vagabundear pelos campos e praças. D'ahi
+proveio o tomar relações com meia duzia de garotos, ou vadios,
+permitta-me a phrase, para quem nada era sagrado nem nas acções, nem nas
+palavras. D'ahi nasceu a falta de respeito pela propriedade alheia,
+roubando os pomares; e o endurecimento de coração, castigando
+barbaramente animaes inoffensivos.
+
+Emilio da Cunha reconheceu logo os maus instinctos de que seu sobrinho
+era dotado, e a desmoralisação, que já se tinha infiltrado no seu
+coração, mas concebeu a esperança de o regenerar com desvelos,
+paciencia, e sobre tudo bons exemplos. Sua filha, a que chamarei
+Valentina, de 14 annos d'idade, contribuiu poderosamente para a
+realisação d'este seu empenho, tão justo e louvavel. Era uma menina para
+quem a natureza tinha sido prodiga em encantos de rosto, d'espirito e
+coração, a ponto de qualquer que a via a admirar, e de quem a ouvia
+amal-a immediatamente. Tinha uma tal influencia, ou magia sobre os que
+se acercavam d'ella, que aos bons tornava-os melhores, e aos maus
+fazia-lhe retirar envergonhados para o fundo do coração os maus
+instinctos. Esta magia não teve menos poder sobre Roberto, do que sobre
+os outros, de sorte que a regeneração que elle soffreu, nos seus
+costumes e acções, foi tão sensivel, que o bondoso Emilio da Cunha
+revia-se alegre e contente na sua obra, e congratulava-se dos resultados
+que tinha colhido.
+
+Deu-se porém uma circumstancia feliz, mas que ao mesmo tempo foi
+desgraçada, que deteve Roberto repentinamente na boa estrada em que se
+tinha embrenhado, e na qual parecia caminhar resolutamente. Por uma
+carta chegada n'um dos paquetes inglezes do Brazil, soube Emilio da
+Cunha, que seu irmão mais novo tinha fallecido, deixando-o, por elle ser
+o seu mais proximo parente, herdeiro d'uma fortuna consideravel. Bens
+rusticos, e estabelecimentos industriaes é no que consistia a fortuna,
+dos quaes se poderia colher bons lucros, sendo bem geridos, conforme o
+tinha praticado o seu defunto proprietario; mas Emilio da Cunha, além de
+se não julgar com conhecimentos e forças para bem gerir a industria com
+que seu irmão tinha feito fortuna, não tinha desejo, nem queria
+expatriar-se. Foi até com immensa repugnancia que se resolveu a ir ao
+Brazil tomar posse e liquidar a herança; parecia que um secreto
+presentimento o avisava do que tinha de acontecer, levando-o a
+considerar como uma desgraça esta viagem, a que os sagrados direitos de
+sua predilecta filha Valentina, o obrigavam a emprehender.
+
+Partiu finalmente, depois de ter tomado todas as precauções para a
+tranquillidade de seu espirito. Valentina entrou em um dos collegios de
+educação mais acreditados do Porto, e Roberto ficou n'uma casa
+particular, onde lhe deviam prestar todos os cuidados, que exigiam a sua
+idade, pois que já então tinha 17 annos, e a sua completa ignorancia, de
+que até uma criança de 8 annos poderia zombar.
+
+Emilio da Cunha aportou a salvamento ás terras de Santa Cruz, e logo que
+saltou em terra, desenvolveu a maior actividade, e procurou por todos os
+meios possiveis abreviar rapidamente os seus negocios, mas infelizmente
+os resultados não correspondiam aos seus esforços e desejos, porque de
+todos os lados, e a todos os momentos estavam sempre a surgir empecilhos
+e embaraços não prevenidos nem esperados. Havia já um anno que Emilio da
+Cunha tinha chegado ao Brazil, e ainda os seus negocios não estavam mais
+adiantados, que no primeiro dia.
+
+Cançado, desanimado e affectado de melancolia, ou _spleen_, como lhe
+chamaria um nosso fiel alliado britannico, mortificado por um
+desassosego de que não podia explicar a causa, deliberou entregar os
+seus negocios e a liquidação e arrecadação da heranca a um procurador, e
+embarcar-se no primeiro paquete, que seguisse viagem para Portugal.
+
+Que se tinha porém passado no Porto, durante este tempo?
+
+É o que lhe vou contar, meu visinho, se ainda tiver paciencia para me
+ouvir, me disse D. Mafalda, e o que vou fazer ás minhas leitoras, se
+ellas quizerem ter a mesma paciencia de me lêr.
+
+Roberto, separado de sua prima, aborrecido e dominado pela priguiça,
+fugiu um bello dia da casa onde se achava hospedado, foi procurar, e
+infelizmente encontrou, os seus antigos companheiros da vadiagem, que
+tinham quasi todos seguido a estrada do vicio e do crime. Arrastaram
+portanto comsigo o desventurado Roberto para esse despenhadeiro, na
+baixa do qual se encontra a escoria da sociedade. Roberto tinha por
+companheiros habituaes homens criminosos, de cara sinistra, maneiras
+brutaes, linguagem grosseira e vestidos esfarrapados, n'uma palavra
+mendigos, ou ladrões. Adoptou-lhe portanto os costumes as maneiras e as
+maximas, e quem o visse emmagrecido pela devassidão, com os vestidos em
+desalinho, os cabellos eriçados, tomal-o-ia por um bandido de trinta
+annos, quando elle não tinha mais que dezenove incompletos. Valentina,
+pelo contrario, tinha crescido em corpo, belleza, espirito, talento e
+virtudes.
+
+Conduzi-o do Porto ao Rio de Janeiro, e do Rio de Janeiro ao Porto,
+agora, querendo-me seguir, leval-o-hei a Lisboa, onde se passa um
+pequeno episodio d'esta muito veridica historia.
+
+De bordo d'um paquete inglez, chegado dos portos do Brazil, tinha
+desembarcado um passageiro, que se dirigiu a um hotel para descançar, e
+ahi passar até ao dia seguinte, em que devia seguir viagem para o Porto,
+na mala-posta, a fim de se vir unir a seus filhos, que estava ancioso
+por abraçar e apertar contra o coração. Julgo desnecessario o dizer-lhe,
+pois me parece já o adivinhou, que este viajante era Emilio da Cunha,
+que se considerava feliz por pisar o solo da sua patria, que tanto
+amava, e onde estava tudo o que elle mais presava n'este mundo. Logo que
+no hotel lhe prepararam o quarto e tomou uma pequena refeição, deitou-se
+e adormeceu, embalado por sonhos felizes.
+
+No dia seguinte ainda o sol mal tinha despontado, já subia pela escada
+do hotel e entrava no corredor commum, sobre o qual deitavam uma duzia
+de portas de quartos, um homem de má catadura. Era um d'estes
+_cavalheiros d'industria_, a qual consiste em entrar, sob qualquer
+pretexto, de manhã cedo nos hoteis, e aproveitar-se do primeiro quarto
+que encontram aberto para empalmarem destramente um relogio, ou uma
+mala, se o acordar do hospede ou locatario do quarto, os não obriga a
+retirar-se de mãos vazias, desculpando-se de que se tinham enganado na
+porta.
+
+No andar, vacillante, e como desconfiado, do _cavalheiro d'industria_ se
+reconhecia facilmente, que era um noviço, que ia tentar os seus
+primeiros ensaios, ou que ia fazer a sua _primeira escamoteação_.
+
+Depois de ter estado por bastante tempo em lucta com a sua consciencia,
+e irresoluto se devia ou não penetrar no quarto de que a porta se achava
+meia cerrada, metteu primeiro a cabeça, depois uma perna, e por ultimo
+todo o corpo; mas fazendo algum ruido com este ultimo movimento, o
+hospede, que estava deitado, acordou, e virando rapidamente a cabeça,
+Roberto, por que o _cavalheiro d'industria_ era elle, encarou com seu
+tio Emilio da Cunha, ficou estupefacto e como fulminado por um raio.
+
+N'esse mesmo dia de tarde Emilio da Cunha tomou lugar no caminho de
+ferro até ao Carregado, e ahi na mala-posta até ao Porto, onde trinta e
+seis horas depois se achava nos braços de sua querida filha Valentina,
+que immediatamente tinha ido procurar ao collegio.
+
+--Tu sahes já, já do collegio, minha filha--lhe diz Emilio da
+Cunha--para retomares, e nunca mais deixares, o teu lugar a meu lado.
+
+--Que felicidade--exclamou Valentina toda alegre e folgazã--que vida
+socegada e feliz não vamos passar todos tres, não é assim meu querido
+pai, por que Roberto tambem vai para a nossa companhia?
+
+--Roberto, morreu--respondeu Emilio da Cunha com rosto severo, e voz
+soturna.--Não quero que me falles mais n'elle, entendes Valentina?
+
+Valentina admirada da resposta, ainda fez diversas perguntas a seu pai,
+mas a todas ellas não obteve outra resposta, senão a completa prohibição
+de nunca mais lhe fallar em Roberto.
+
+Ainda porém não tinha Emilio da Cunha soffrido todas as provações, que
+Deus lhe destinára. Haviam decorrido seis mezes desde que tinha chegado
+do Rio de Janeiro, quando recebeu a participação de que o procurador,
+que ficára encarregado da liquidação e arrecadação da herança, tinha
+cumprido a sua missão, mas que, depois de ter arrecadado a somma
+importante, que produzira a mesma herança, tinha desapparecido, sem que
+as pesquizas feitas para se descobrir o lugar de seu refugio, tivessem
+dado o desejado resultado.
+
+Emilio da Cunha ficou completamente arruinado por este facto, porque,
+impaciente por satisfazer os credores de seu irmão, pai de Roberto,
+tinha vendido tudo o que possuia em Portugal.
+
+O golpe foi forte, mas ainda assim não o foi bastante para poder
+subjugar a coragem do bom e respeitavel velho, mostrando-se Valentina
+n'esta conjunctura, digna filha d'um tal pai.
+
+Renunciando heroicamente ás commodidades da vida, em que até então
+tinham vivido, foram habitar, em um bairro mais afastado da cidade, uma
+pequena casa, na qual soffreram privações diarias e penosas, tratando
+sempre d'obter alguns recursos para a sua subsistencia, mesmo em
+trabalhos mal retribuidos.
+
+Valentina, que Deus tinha dotado de bom gosto, e bastante habilidade,
+principiou a trabalhar para uma modista, a qual satisfeita com os seus
+primeiros trabalhos, lh'os deu em seguida mais delicados e por isso
+melhor retribuidos, o que foi para elles uma grande felicidade, e que
+assim lhes proporcionou meios licitos de pagarem regularmente o seu
+aluguel, e de já não receiarem tanto nem o frio, nem a fome.
+
+Valentina ia entregar a sua obra á modista, a qual satisfeita com ella
+lhe dava sempre mais, e muitas vezes mais do que a que ella podia fazer.
+A uma crise terrivel tinha-se seguido uma abastança mediocre, que era
+por isso uma felicidade mais agradavel e estimada.
+
+Decorreram assim dous annos.
+
+Um dia, em que Valentina estava só, lhe entregou o carteiro uma carta, e
+qual não foi a sua surpreza quando reconheceu a letra de seu primo.
+
+Roberto contava n'esta carta tudo o que tinha passado, desde o momento
+em que o vimos no hotel em Lisboa preparando-se para _escamotear_ seu
+tio. Fulminado pela vista d'Emilio da Cunha tinha recobrado os sentidos
+para na fuga se salvar ás imprecações d'indignação do velho. Chegou
+offegante ao Terreiro do Paço, onde se sentou, ou melhor se deixou cahir
+n'um dos assentos de pedra, que alli se acham, e assim esteve por muito
+tempo, com a cabeça escondida entre as mãos, mergulhado em acerbas e
+crueis reflexões.
+
+Experimentou ou sentiu dentro em si uma completa revolução; o seu
+procedimento indigno e infame se lhe apresentou em toda a sua nudez e
+hediondez; teve horror de si mesmo e por um instante pensou em
+suicidar-se; mas com o arrependimento entraram-lhe no coração
+sentimentos mais generosos. Lembrou-se que, tendo d'ora avante uma
+conducta honrosa e illibada, ainda poderia chegar a fazer esquecer os
+seus erros passados, e reanimado por esta feliz lembrança, que o seu
+anjo bom lhe tinha suggerido, levantou-se resoluto a trabalhar para a
+sua rehabilitação, e a não descançar sem a ter chegado a alcançar.
+
+A occasião favoravel não se fez esperar muito, por que um capitão d'um
+navio mercante, que estava apparelhando para a California, lhe concedeu
+passagem gratuita, mediante os seus serviços e o seu trabalho na viagem.
+
+Aportou Roberto á California e sorrindo-lhe a fortuna, em lugar de se
+embrenhar no jogo, arriscando assim as suas economias, fundou um
+estabelecimento, que ia prosperando, faltando unicamente para a sua
+felicidade se tornar completa, o obter o perdão de seu tio, e a
+esperança de poder tornar a vêr sua prima, cuja imagem tinha
+constantemente na idéa, e o sustentava e animava n'esta nova estrada de
+trabalho e ordem, de que não pensava mais em se desviar.
+
+Eis aqui em resumo o que continha a carta que Roberto dirigiu a sua
+prima.
+
+Valentina muito commovida, mas gostosa e alegre por ter de dar tão grata
+noticia a seu querido pai, esperava anciosa a sua volta.
+
+Mal lhe deu tempo de sentar-se, ia logo a contar-lhe o succedido, mas,
+Emilio da Cunha a deteve, apenas tinha pronunciado a primeira palavra.
+Valentina insistiu, mas o velho levantou-se com a maldição nos labios;
+ella lançou-se-lhe de joelhos aos pés, chorou, supplicou, mas elle a
+tudo ficou impassivel e inflexivel.
+
+Valentina consternada respondeu á carta de seu primo descrevendo-lhe o
+succedido, e a inutilidade de seus esforços; mas para o não desanimar
+promettia-lhe de os renovar, e que os repetiria até que chegasse a mover
+seu pai á commiseração e piedade, de que não desesperava. A carta
+continha tambem a descripção de todos os successos, que se tinham dado
+desde que Roberto tinha desapparecido; a decadencia de Emilio da Cunha,
+a pobresa em que tinham vivido em quanto que o seu trabalho mal
+retribuido lhe dava parcos meios de subsistencia, e o melhoramento de
+sua posição, finalmente continha tambem algumas palavras d'exhortação e
+amisade.
+
+A situação de Emilio da Cunha e sua filha soffreu, passado algum tempo,
+uma modificação muito mais inesperada, do que a que se havia seguido ao
+aniquilamento da sua fortuna.
+
+Emilio da Cunha foi chamado a casa d'um capitalista, aonde lhe
+entregaram 20 contos de reis de que um anonymo lhe mandava dar posse a
+titulo de restituição. D'onde tinha vindo este dinheiro?
+
+Emilio da Cunha pensou muito naturalmente, que o procurador que o tinha
+roubado, mortificado pelo remorso, e querendo socegar um pouco a sua
+consciencia, lhe tinha mandado entregar aquella quantia, como uma parte
+da restituição, que lhe tinha a fazer. Valentina estava muito longe de
+concordar com a opinião de seu pai, mas nem por isso teve a franqueza de
+lh'o declarar, nem lhe dar a entender qual era a sua.
+
+Qual das duas opiniões era a verdadeira, é o que nos não importa saber,
+o que se sabe é que a abastança ou decencia tinha reentrado em casa
+d'Emilio da Cunha, e as idéas do digno e honrado velho, foram-se
+tornando mais brandas sob a influencia do bem-estar.
+
+Foi elle proprio que em um dia fallou primeiro a Valentina em seu primo
+Roberto, e ella não perdendo esta occasião tão propicia, que se lhe
+offerecia, advogou por muito tempo, com calor e eloquencia, a causa de
+seu primo. Emilio da Cunha deixou-a fallar como e todo o tempo que ella
+quiz, sem lhe dar a mais pequena resposta, nem lhe replicar a cousa
+alguma.
+
+Estaria ou não convencido?
+
+A pergunta não tinha muito facil resposta, mas pelo menos tinha ouvido
+sem colera e com socego as allegações a favor de seu sobrinho, o que já
+era um bom indicio da mudança que n'elle se havia operado.
+
+Valentina, contente e satisfeita com o resultado do seu primeiro
+commettimento, escreveu immediatamente a seu primo informando-o do que
+havia, e a esta carta seguiram-se outras muitas, noticiando-lhe sempre
+algum novo passo dado na estrada da reconciliação.
+
+Aconteceu um dia que Emilio da Cunha, no meio d'uma conversa, que tinha
+seguido n'um objecto mui diverso, parasse precipitadamente para dizer a
+sua filha:
+
+--Tu acreditas sinceramente no arrependimento de teu primo?
+
+--Oh! sim, meu pai--se apressou em responder Valentina.
+
+--Queira Deus que te não enganes.
+
+Um outro dia acordou d'uma pequena sesta, que se tinha seguido ao
+jantar, gritando, como se continuasse uma conversa começada:
+
+--Ah! se Roberto estivesse arrependido realmente, como tu o suppões, com
+que prazer e alegria........
+
+Não terminou a phrase, mas a expressão benevola da physionomia de Emilio
+da Cunha indicou a Valentina o complemento da idéa.
+
+Isto foi objecto para uma ultima carta a Roberto, a que elle respondeu,
+e fechou-se a correspondencia.
+
+Uma manhã Emilio da Cunha achava-se com Valentina em uma pequena, mas
+elegante sala, que deitava sobre o jardim--por que elles tinham deixado
+a sua pobre morada, trocando-a por outra mais decente--Emilio da Cunha
+sentado junto d'uma mesa, sobre a qual se achava uma magnifica jarra de
+flôres, olhava sorrindo para Valentina, que, de pé, junto d'um açafate
+em que estavam dous pombinhos, reprehendia, acariciando-o, um d'elles:
+
+--Eis-te aqui, meu bello fugitivo--lhe dizia ella--pensavas que era só
+voltar para te ser concedido o perdão, depois de me teres feito soffrer
+com a tua ausencia e ingratidão? Muito bem; visto que o teu regresso
+prova um arrependimento sincero, perdôo com prazer; não é assim,
+paisinho--acrescentou ella com voz meiga e levantando os lindos olhos
+com uma expressão de candura para Emilio da Cunha--que se devem receber
+os filhos prodigos, que regressam arrependidos e contrictos?
+
+Emilio da Cunha não deu uma palavra, mas rolou-lhe uma lagrima sobre a
+face.
+
+N'este momento surprehendeu elle um olhar d'intelligencia, que Valentina
+dirigia a alguem, que estava pelo lado detraz da cadeira em que estava
+sentado. Voltou-se rapidamente, e soltando um grito, ouviu-se o nome de
+Roberto.
+
+Era Roberto realmente. A scena que se seguiu o meu caro visinho melhor a
+poderá imaginar, do que eu pintar-lh'a, ou descrever-lh'a.
+
+Roberto voltava honrado e rico. Julgo que já comprehendeu que, para
+soccorrer seu tio, elle concebeu e executou o plano da restituição.
+
+D. Mafalda calou-se. Parecia esperar, que eu, convencido pela sua
+historia, sanccionasse com o meu voto a doutrina, que ella tinha
+expendido antes de começar.
+
+--Ah!--lhe disse eu com admiração sincera--v. exc.ª podia facilmente
+escrever um romance.
+
+--Isso quer dizer que me faz a honra de julgar esta minha historia como
+producção da minha imaginação e phantasia?
+
+Limitei-me a inclinar-me respeitosamenie, e aqui terminou a nossa
+discussão.
+
+No dia seguinte D. Mafalda offereceu-se para me apresentar a um seu
+sobrinho, proprietario d'um estabelecimento industrial importante nos
+suburbios do Porto. Aceitei gostosa e promptamente. Fui recebido com
+extrema bondade e franqueza. O sobrinho de D. Mafalda gosava uma
+felicidade digna de ser invejada; era casado com uma mulher, que era um
+anjo de belleza e bondade, e tinha um filho o mais lindo e traquinas que
+se póde imaginar; o seu estabelecimento florescia e prosperava; o seu
+nome figurava entre os principaes e os mais honrados do mundo commercial
+e industrial, n'uma palavra nada faltava á sua gloria, fortuna, e
+felicidade domestica.
+
+--Que pensa de meu sobrinho?--me perguntou D. Mafalda, quando nos
+retiramos.
+
+--Ah! minha senhora, nada mais ambiciono do que poder imital-o.
+
+--Pois aquelle que viu é o Roberto da minha historia.
+
+Recolhi-me a casa fazendo para mim as seguintes reflexões: Que a
+regeneração do homem pelo arrependimento não é utopia, e que a sociedade
+e a sua organisação é que são as causas principaes, que occasionam que
+muitos de seus membros não se regenerem, por lhe embargarem ou matarem
+logo algumas centelhas de virtude, que ainda tinham no coração.
+
+Pensem, e verão o corollario que tiram.
+
+FIM.
+
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A GRATIDÃO.
+
+
+
+
+
+
+A GRATIDÃO.
+
+
+ROMANCE.
+
+
+I.
+
+Estavamos nos ultimos dias de Dezembro de 1846. Uma camada mui espessa
+de neve cobria o sólo. O ar, sombrio e carregado, indicava que mais neve
+não tardava a cahir. Os ramos nús das arvores dos montes tremiam
+soprados pelo vento norte gelado. Estava tudo n'um perfeito socego, e
+tristeza; nem o mais leve murmurio se ouvia.
+
+Uma velha, e uma criancinha, apesar do rigor do frio, seguiam com
+difficuldade o caminho, que da serra de Vallongo conduz a S. Cosme. A
+criança, d'espaço a espaço, soprava ás mãosinhas inteiriçadas pelo frio,
+e não se podendo sustentar sobre os pés, que tinha inchados pelas
+frieiras, caminhava vacillante; mas vencendo todos os obstaculos, com
+uma energia superior á sua idade, tomava galhardamente o seu lugar ao
+lado da velha. Esta parecia ter sessenta annos. Estava corcovada mais
+pela miseria, do que pela idade, e tinha no rosto profundas rugas. Pelo
+modo como andava, e tateava o caminho com a mulêta, via-se que era cega.
+
+--Aonde vamos nós, Rosa?--perguntou a velha á rapariguinha.
+
+--Em meio caminho, minha avó.
+
+--Jesus Senhor, valei-me,--disse a cega,--pois que as minhas pobres
+pernas já estão cançadas, e parece-me que não chego ao fim da jornada.
+
+--Encoste-se ao meu hombro, avósinha, que eu não estou cançada.
+
+--Não, não. Tudo está acabado. Eu morro aqui, Rosinha. Tenho muita fome,
+e muito frio para vencer o caminho até S. Cosme. Ai meu Pai do céo, que
+me sinto desfallecer...
+
+Fez um gesto de desespero, e a cega cahiu sobre o caminho.
+
+--Avósinha, avósinha,--gritava Rosa assustada,--volte a si, que lh'o
+peço eu; mais um pequeno esforço e chegaremos a S. Cosme.
+
+A cega não deu accordo de si.
+
+--Avósinha,--continuou Rosa chorando, e cobrindo-a de beijos,--se me
+abandona, que hei-de fazer? Quer que eu morra de paixão?
+
+--Morrer, tu, minha Rosinha,--disse a cega levantando-se.--Oh! meu Deus,
+não permittaes tal.
+
+--Então levante-se que lh'o peço eu; se fica aqui mais tempo o frio
+matal-a-ia. Em S. Cosme nos aqueceremos.
+
+--Ai de mim,--disse a cega, levantando-se ajudada de Rosa,--e a snr.ª D.
+Thereza receber-nos-ha?
+
+--Ha-de receber sim, minha avósinha, eu lh'o afianço. Não creio que a
+boa snr.ª D. Thereza nos despeça. Quando eu lhe ia vender flôres
+silvestres, que apanhava no monte, abraçava-me, e dizia-me muitas vezes,
+que desejava que eu fosse sua filha.
+
+--Não duvido que ella te receba, porque és muito linda e agradavel;
+agora o que eu não creio é que me receba a mim, que sou uma velha e
+cega, que para nada sirvo.
+
+--Se assim acontecer, voltaremos á nossa aldêa, e os bons lavradores,
+que conheceram meus paes, terão piedade de nós, soccorrer-nos-hão, e eu
+trabalharei para lhes pagar, o que elles vos derem.
+
+A avó, muito commovida, apertou ao coração a pequena, e murmurou
+palavras de ternura e gratidão; e reanimada por esta felicidade, que
+Rosa lhe tinha feito experimentar, retomou com passo mais firme o
+caminho de S. Cosme.
+
+O vento soprava já com mais força; o ar tinha escurecido mais, e
+pequenos flocos de neve se viam voltejar no ar. Rosa, tiritando com
+frio, fazia esforços sobrehumanos para poder andar, e cada passo, que a
+pobre cega dava, era acompanhado d'um suspiro surdo. O vento augmentou,
+e os flocos de neve, que ao principio eram raros, cahiam em maior
+abundancia.
+
+--Rosinha,--disse a cega,--bem queria andar, mas não posso; deixa-me
+ficar.
+
+--Avósinha, eu já avisto a torre da igreja de S. Cosme.
+
+--Estás bem certa d'isso?
+
+--Eu não queria mentir...
+
+--Vamos andando. Permitta Deus que eu possa vencer o caminho.
+
+--Não tenha receio de me cançar, minha avó; sou forte, e não estou
+fatigada. Encoste-se ao meu hombro.
+
+--Meu querido anjinho, que Deus te pague tudo o que me fazes.
+
+Chegaram finalmente a S. Cosme, á quinta de D. Thereza de Sousa, depois
+de mil esforços, que cançaram completamente avó e neta.
+
+Era tempo; mais um instante e teriam cahido ambas no chão. Entrando na
+cozinha da casa, o calor produziu-lhes uma reacção tão violenta, que
+desfalleceram.
+
+
+II.
+
+D. Thereza de Sousa, e mais algumas visinhas, que se tinham reunido para
+serandar, acercaram-se das duas infelizes. Depois de lhe ter ministrado
+todos os cuidados necessarios para as reanimar, como o seu principal mal
+era a fome, mandou-lhe dar um bom caldo, e acommodal-as a um dos cantos
+do lar, em que ardia uma grande fogueira.
+
+--Agora, Rosinha,--disse D. Thereza, ameigando-a,--conta-nos, como a
+esta hora, e com este tempo vieste até aqui com esta boa mulher.
+
+--Desculpai, minha boa senhora,--disse a cega,--Rosinha é minha neta.
+
+--Sim, snr.ª D. Thereza, é minha avó, de quem tantas vezes tenho fallado
+a v. exc.ª e...
+
+--Então porque não continuas?--lhe replicou D. Thereza.
+
+A pequena levantou para D. Thereza os seus lindos olhos azues, com uma
+tal expressão de supplica, que a commoveu.
+
+--Falla, falla, minha menina. Não tenhas receio. Queres pedir-me alguma
+cousa, não é assim?
+
+--Vêde, minha boa senhora,--disse Rosa, contendo as lagrimas a
+custo,--eu e minha avó, somos muito desgraçadas. Meu pai, que era
+rachador de lenha, feriu-se pelo S. João em uma perna com o machado.
+Minha mãi mandou-me chamar a toda a pressa o snr. Pereira, que é um
+homem muito entendido. Fui, o mais depressa que pude, e quando cheguei a
+casa do snr. Pereira estava elle para sahir, e não queria vir commigo
+para não torcer o seu caminho; mas eu tanto lhe pedi, que sempre me
+acompanhou. Quando viu a perna a meu pai, logo disse, que estava muito
+mal, e que não promettia cural-o. Duas semanas depois veio á ferida uma
+molestia, de que me não lembra agora o nome, e meu pai morreu.
+
+Rosa calou-se chorando, e a cega tambem soluçava. D. Thereza abraçou a
+rapariguinha, apertou a mão á pobre velha, e disse:
+
+--Para hoje já é de mais, ámanhã...
+
+--Perdôe-me, snr.ª D. Thereza,--replicou Rosa,--mas é melhor que eu
+termine hoje,--e continuou:
+
+--Havia um mez que meu pai tinha morrido, quando minha mãi cahiu de
+cama; a febre não a deixava. Eu ia aos campos apanhar as hervas, que
+minha avó me ensinava, para lhe fazer remedios, mas nada sarava minha
+mãi. Um dia abraçou-me e disse-me:
+
+«Minha pobre Rosinha, eu vou unir-me com teu pai, mas que será de ti?
+
+Trabalharei, lhe respondi.
+
+És muito nova para isso; mas entretanto rogarei muito a Deus para que te
+receba sob a sua santa guarda, e te não abandone. Nunca desampares tua
+avó, sê-lhe obediente e carinhosa..., ainda queria fallar, mas não pôde,
+abraçou-me e á avósinha, e expirou.»
+
+Desde então alguns rachadores, amigos de meu pai, nos recolheram e
+soccorreram; mas como não são ricos, e precisam de mudar de terra por
+não terem aqui que fazer, lembrei-me de vir pedir agasalho á senhora,
+pois que, sendo tão boa, não deixaria de nos recolher, que somos tão
+desgraçadas. Sou fraquinha, mas posso trabalhar. Sei fiar, e começo a
+lavar. Guardarei os bois, e os carneiros e tratarei do gallinheiro.
+Minha avó tambem fia muito bem e estou muito certa, que a ha-de
+satisfazer com o seu trabalho. Oh! senhora--disse Rosa ajoelhando-se aos
+pés de D. Thereza--não nos abandoneis; satisfazemos-nos com pouco, e
+faremos todo o possivel para vos agradar, e rogaremos continuamente a
+Deus pela vossa vida e felicidade.
+
+D. Thereza commoveu-se tanto, com a singeleza e candura d'esta supplica,
+que duas lagrimas lhe brilharam nos olhos.
+
+--Levanta-te, Rosinha, ámanhã fallaremos n'isso. Tu e tua avó ide-vos
+deitar. Sempre te direi, que és muito linda e corajosa, para que se não
+tenha piedade de ti.
+
+Rosa beijou com reconhecimento as mãos de D. Thereza, e a cega encheu-a
+de bençãos. D. Thereza mandou-as conduzir a um pequeno quarto, limpo e
+quente, em que um somno reparador lhe reanimou as forças.
+
+
+III.
+
+Ainda mal a aurora tinha raiado, já Rosa estava a pé. Fatigada, como
+estava, da jornada do dia antecedente, custou-lhe muito a levantar-se
+cedo, mas fez um esforço para mostrar os seus desejos a D. Thereza.
+
+Arranjou-se, o melhor que pôde, com os seus velhos vestidos, e, depois
+de ter dirigido mentalmente a Deus uma oração fervente, desceu ao andar
+terreo.
+
+--Já a pé,--lhe disse alegremente D. Thereza.
+
+--Estava tão cançada do caminho d'hontem, que receei, já fosse tarde;
+mas graças aos vossos beneficios, minha senhora, já estou prompta, para
+o que me determinardes.
+
+--E tua avó?
+
+--Ainda dorme. É tão velhinha e tão doente, que vos peço tenhaes piedade
+d'ella.
+
+Rosa ergueu as mãos, e esperou tremula a resposta da dona da quinta.
+
+D. Thereza de Sousa era, o que vulgarmente se chama, uma mulher de casa.
+Tendo viuvado ha doze annos, geria com tanto acerto e economia as suas
+propriedades, que a sua fortuna tinha augmentado consideravelmente.
+
+Os visinhos do lugar diziam que, pela avareza e mesquinharia, é que
+tinha alcançado a fortuna, que possuia, pois que em qualquer cousa
+sempre tinha que diminuir, e acrescentavam ironicamente, que, dando
+_tantas_ esmolas, o dinheiro nunca lhe havia de faltar.
+
+Fosse como fosse, o que sei é, que D. Thereza sensibilisou-se tanto com
+a historia de Rosinha, que, quando ella ergueu as mãos, e a viu com os
+olhos arrasados de lagrimas, esperando a resposta, disse para si; que a
+uma supplica tão humilde e cheia de tanto amor filial, era impossivel
+resistir.
+
+N'este momento quem accusasse de avarenta D. Thereza de Sousa, seria
+injusto com ella, por que, recolhendo a avó e neta, tomava um encargo
+bastante pesado. Rosa era ainda muito pequena, e de mais a mais muito
+fraquinha, para poder ter utilidade real! A pobre criança estava a fazer
+dez annos, mas era muito franzina e delicada. O seu rosto, cercado de
+compridos caracóes louros, e animado com uns grandes olhos azues
+escuros, inspirava sympathia. Tinha as maneiras delicadas, e a linguagem
+menos rude, que a dos camponezes dos arredores. Esta distincção n'uma
+criança, ainda tão tenra como Rosa, nascia da sua intelligencia mui
+desenvolvida.
+
+A mãi, logo que ella teve tino para se não perder nos caminhos,
+mandava-a apanhar flôres silvestres, que ia vender ás familias mais
+abastadas das aldéas visinhas. Como Rosa era muito linda as senhoras das
+casas acolhiam-na muito bem, divertiam-se com ella, ouvindo-a tagarelar,
+e demoravam-na muitas vezes a brincar com as suas filhas.
+
+Sendo muito viva tomou facilmente as maneiras, e modo de fallar, das
+pessoas com quem tratava, de modo que os rachadores denominavam-na a
+fidalguinha.
+
+Se tinha adquirido maneiras delicadas, não havia perdido as boas
+qualidades, de que era dotada; humilde e carinhosa para todos, quem a
+conhecia adorava-a.
+
+O que a mim, minhas caras leitoras, me levou tanto tempo a dizer, passou
+n'um instante pela idéa a D. Thereza de Sousa, e fixou-lhe a resolução
+de recolher a avó e a neta.
+
+--Vou-te mandar vestir uma roupinha melhor, Rosinha,--lhe disse D.
+Thereza, animando-a com uma brandura, que lhe não era habitual,--porque
+espero has-de ser uma boa criada, serviçal e trabalhadeira.
+
+--Então fico em casa de v. exc.ª?--disse Rosa, não podendo crer em tanta
+ventura.
+
+--Ficas, sim, e parece-me que nunca me darás motivo para me arrepender
+do que hoje faço.
+
+--Oh! minha senhora, estai certa que me esforçarei o mais possivel, para
+vos agradar e satisfazer os vossos desejos.
+
+--Assim o espero. Anda vestir-te.
+
+--Desculpe-me, senhora. Mas minha avó...--e Rosa parou corando.
+
+D. Thereza, querendo experimentar a sua protegida, disse:
+
+--Que queres a tua avó?
+
+--Ella tambem fica?
+
+--Não. Tua avó é cega e velha, para nada serve, e eu não sou rica
+bastante, para me encarregar da sustentação de duas pessoas.
+
+--Então, senhora, agradeço os vossos beneficios, e todo o bem que me
+querieis fazer, mas não posso abandonar a minha avósinha, que morreria
+de paixão.
+
+Vou ajudal-a a levantar-se, e regressaremos à nossa aldêa.
+
+--E que has-de fazer na tua aldêa?
+
+--Irei humildemente pedir a um mestre tamanqueiro um pequeno cantinho da
+sua casa, que estou certa me não negará. Não sou robusta, mas tenho
+coragem, por isso trabalharei nos socos durante o inverno. Quando vier o
+verão irei vender flôres e fructos, como os demais annos, e como eu, e a
+pobre cega, de pouco precisamos para viver, parece-me que ganharei para
+ambas. Logo que chegue a primavera não seremos pesadas a ninguem...
+
+D. Thereza apertou Rosa nos braços, e chegou-a ao coração.
+
+--Basta, Rosinha, tu és um anjo do céo, que Deus enviou a minha casa
+para me trazer a felicidade. Vai-te vestir, e depois irás participar a
+tua avó, que ambas ficaes para sempre em minha casa.
+
+Descrever a alegria da avó, quando soube a decisão de D. Thereza, é-me
+impossivel fazel-o, minhas caras leitoras; vós, que deveis ser dotadas
+de bom e piedoso coração, melhor a podereis imaginar. Abraçava Rosa,
+agradecia a D. Thereza com um reconhecimento mui sincero, promettendo
+fazer todo possivel para ser menos pesada á sua bemfeitora. Rosa nada
+dizia, mas a eloquencia de seu olhar provava a D. Thereza a sua
+gratidão.
+
+
+IV.
+
+Rosa, ainda que novinha e de fraca organisação, tornou-se util em casa.
+Incansavel no trabalho, de manhã cedo tratava da capoeira e do pombal;
+depois ia guardar os bois e os carneiros, e, em quanto que os vigiava,
+fiava na sua roca.
+
+Ao jantar, quando recolhia a casa, tinha sempre que fazer. Era um gosto
+vêr esta criança tão tenrinha arrumar, limpar e lustrar os moveis, como
+o faria a melhor mulher de casa.
+
+D. Thereza cada vez mais estimava a sua protegida, e felicitava-se pela
+ter recolhido. A avó tambem não era inutil. A cegueira não a
+impossibilitava de fiar desde pela manhã até á noite, e o seu trabalho
+era perfeito. Tudo corria bem, e todos andavam contentes e satisfeitos.
+
+Chegou a primavera. Começaram a desabrochar com o tepido sôpro d'esta
+estação, e mostraram as suas galas, a bella pervinca azul, o narciso de
+corôa d'ouro, o lyrio de campanas odoriferas, e a bella violeta de
+calices perfumados.
+
+Rosa, quando ia á serra, era para ella um dia d'alegria. Procurava os
+caminhos tapetados de musgo, os regatos, que tantas vezes tinha passado,
+as fontes escondidas pelas çarças, e as arvores, sob as quaes tinha
+encontrado as mais lindas flôres. Rosa sentia-se mais livre e mais feliz
+na serra, do que nos campos da quinta; a todo o momento parava extasiada
+diante das bellezas da natureza, e cada sitio novo, que achava, era como
+se fosse um amigo. Quando o socego voltava, depois d'esta alegria e
+animação, esta poetica criança fazia cestinhos de vimes e juncos, que
+guarnecia com musgo e flôres silvestres, mas com um gosto e belleza
+exquisito, os quaes D. Thereza mandava vender, dando sempre bom preço.
+
+Ganharam renome os cestos de Rosa.
+
+Em todas as quintas e casas ricas dos arredores não queriam outros, e
+até muitas familias da cidade, que iam passar o verão áquelles sitios,
+compravam e procuravam com avidez os cestos d'esta gentil ramalheteira.
+
+D. Thereza, como mulher que comprehendia os seus interesses, entendeu
+que lhe era de mais proveito o empregar Rosa, durante a primavera, a
+fazer cestos e ramos, do que na quinta, por isso assim o determinou.
+Quando Rosa o soube, saltou d'alegria, por que se dava melhor á sombra
+dos pinheiros e carvalhos, do que em casa.
+
+Passou-se assim o verão, e D. Thereza não teve que se arrepender da sua
+resolução. Um certo numero de meias corôas de prata provou o bom
+resultado do negocio de cestos e flôres.
+
+O inverno pareceu triste e monotono a Rosa. Tinha-se habituado de tal
+maneira a ir todas as manhãs para a serra, que chegava muitas vezes a
+esquecer-se do trabalho, e ir insensivelmente até á baixa d'ella.
+Voltava então muito apressada á quinta e redobrava d'actividade, para
+fazer esquecer as suas faltas involuntarias.
+
+Occupou-se a fiar quasi todo o inverno, e o producto do seu trabalho foi
+augmentar o pequeno thesouro principiado com a venda dos cestos e
+flôres.
+
+D. Thereza considerava Rosa como sua filha, não podendo estar sem ella
+um unico instante, e nos dias de feiras e romarias tinha gosto em que
+Rosa apparecesse entre as mais lindas e mais ornadas lavradeiras do
+lugar.
+
+A amisade, que tinha a Rosa, reflectia-se na avó; tratava-a com tal
+respeito e affabilidade, que a poderiam tomar por mãi de D. Thereza,
+tanto ella a cercava de cuidados e desvelos.
+
+A felicidade da pobre cega, e bem assim o futuro de Rosa poder-se-iam
+julgar seguros; mas como nada n'este mundo é immutavel, o momento, em
+que a adversidade ia estender o seu braço de ferro sobre as duas
+infelizes, não estava longe.
+
+
+V.
+
+Voltou a primavera e com ella as encantadoras occupações de Rosa. Foi
+com enthusiasmo, que a candida e poetica criança encontrou as flôres,
+suas amigas, com que preparou os primeiros ramos, que appareceram no
+mercado.
+
+Os cestinhos e ramos de Rosa obtiveram uma grande extracção, como no
+anno anterior. Ia entregal-os pessoalmente nas casas ricas, e muitas
+vezes as senhoras morgadas, se julgavam felizes por ter em sua companhia
+esta linda criança por algum tempo.
+
+Rosa, vestida á lavradeira, era muito galante e modesta; o seu metal de
+voz era agradavel, e as maneiras tão delicadas, que quasi sempre as
+freguezas, ao preço do ramo, juntavam um presentinho para a vendedeira;
+mas quando perguntavam a Rosa o que era que mais estimava, respondia
+sempre, que o seu maior desejo era possuir um livro para se instruir.
+
+Rosinha tinha uma paixão ardente pelo estudo; quasi sem mestre tinha
+aprendido a lêr correntemente, e a sua maior alegria consistia em obter
+um livro para se entregar á leitura.
+
+D. Thereza pela sua parte tambem não obstava aos desejos de Rosa, tanto
+que se lhe não dava que ella faltasse ás suas obrigações; mas devemos
+fazer-lhe justiça dizendo que sabia alliar a satisfação dos seus
+desejos, com o cumprimento dos seus deveres, por isso só depois de ter
+terminado os seus affazeres é que se dava ao estudo.
+
+Estava Rosinha uma occasião sentada á borda d'um ribeiro, entretida a
+colher juncos para fazer um cesto, quando, sem ella o presentir, se lhe
+aproximou uma senhora ainda joven.
+
+--Para que estaes escolhendo esses juncos, minha menina?--lhe disse a
+joven senhora com modo affavel.
+
+Rosa levantou a cabeça, e vendo a desconhecida, saudou-a e respondeu:
+
+--Faço cestinhos com flôres para vender.
+
+--Quero então já avaliar a vossa habilidade. Amo muito as flôres, por
+isso queria que me fizesses um cestinho já, e se eu ficar contente
+has-de-me fazer um todos os dias. Aceitaes?
+
+--Aceito, sim, minha senhora, e ainda que tenho muitas encommendas a
+satisfazer, vou já preparar o vosso.
+
+--Assento-me aqui ao pé de ti e vamos conversando. Como te chamas?
+
+--Rosa de Jesus, uma sua criada, minha senhora.
+
+--Assim, Rosa, o teu trabalho é fazer cestos de flôres para depois os
+ires vender?
+
+--Sim, minha senhora.
+
+--E teus paes em que se occupam?
+
+--Já não tenho paes; só me resta minha avó, que é cega.
+
+--És orphã, e onde moras?
+
+--Estou em casa da snr.ª D. Thereza de Sousa, proprietaria em S. Cosme,
+tão boa, como rica.
+
+Ha um anno, que eu e minha avó não sabiamos aonde nos haviamos de
+recolher; estavamos em Dezembro, e havia dous dias que não tinhamos
+comido, quando de repente me lembrei da snr.ª D. Thereza. Eu e minha
+avó, que então moravamos na serra de Vallongo, pozemos-nos a caminho
+para S. Cosme. O caminho é muito mau, por isso mais d'uma occasião
+julguei que minha avó ficava na estrada, porque já não podia andar; mas
+o Senhor teve misericordia de nós, e felizmente terminamos a jornada. A
+snr.ª D. Thereza tratou-nos com muita bondade, e recolheu-nos em sua
+casa, apesar de sermos um encargo muito pesado.
+
+--Amas então muito a snr.ª D. Thereza?
+
+--Se a amo. Não queria mais nada, senão poder reconhecer todo o bem, que
+nos faz. Não desejo senão crescer e robustecer para lhe poder servir
+d'utilidade.
+
+--Estou muito contente, minha pequena, por te ouvir fallar assim. Quando
+te vi senti-me attrahida para ti, e ficaria muito desgostosa se te não
+encontrasse com sentimentos dignos da estima que te consagro.
+
+Parece-me que o meu cesto está acabado?
+
+--Ainda lhe falta uma cercadura de _não me deixes_. Permitti, senhora,
+que eu vá ao proximo ribeiro colher estas flôres, porque alli as ha mais
+frescas, e em mais abundancia.
+
+--Ide, que aqui te espero.
+
+Rosa partiu correndo.
+
+D. Julia d'Andrade, que tanto interesse mostrava pela protegida de D.
+Thereza, tinha vinte annos.
+
+O cabello preto muito comprido, e naturalmente encaracolado, fazia-lhe
+sobresahir ainda mais a pallidez do rosto. Os olhos castanhos tinham um
+brilho de febre. A physionomia demonstrava um padecimento interno, n'uma
+palavra, estava affectada d'uma tisica pulmonar.
+
+Sua mãi, a viscondessa do Candal, receiando pela vida de D. Julia, tinha
+consultado os mais acreditados medicos de Lisboa e Porto, e todos tinham
+aconselhado os ares do campo, e o não constrangimento, como os meios
+mais proficuos para debellar a molestia. A viscondessa tinha portanto
+deixado o Porto e ido habitar com suas filhas D. Julia e D. Bertha uma
+quinta proximo da serra de Vallongo.
+
+D. Julia parecia que revivia no meio da luxuosa natureza, que a cercava.
+Todos os dias dava grandes passeios, e distrahia-se ou sentando-se á
+sombra dos carvalhos e sobreiros, ou embrenhando-se entre as çarças. Ao
+principio a viscondessa receiou que estes passeios tão longos
+prejudicassem a saude de sua filha, mas vendo-a mais alegre e mais
+vigorosa, e que se a pallidez não tinha desapparecido, a expressão
+soffredôra do rosto era menos pronunciada, ficou mais socegada e esperou
+obter o triumpho sobre a molestia.
+
+D. Julia era tão boa, e ao mesmo tempo tão prudente, que sua mãi não
+temia deixal-a em plena liberdade, e gosar da vida segundo as suas
+phantasias.
+
+A viscondessa queria que D. Bertha acompanhasse sua irmã nos seus
+passeios; mas D. Bertha, que era uma joven de 16 annos d'idade,
+orgulhosa do seu nascimento e belleza, recusou obstinadamente acompanhar
+sua irmã, dando como razão, que lhe repugnava o juntar-se como ella com
+esses _estupidos_ e _rudes_ aldeãos, que habitam os campos, e a quem
+ella acariciava, e que além d'isso estragava os seus vestidos seguindo
+D. Julia pelos caminhos estreitos e escabrosos dos campos e da serra. As
+mil vozes da natureza eram mudas para D. Bertha; no seu coração só
+imperava o egoismo.
+
+Num d'estes passeios é que D. Julia encontrou Rosinha, e que ficou
+encantada com a sua innocencia.
+
+Havia muito que D. Julia esperava Rosa, e já receava que ella não
+voltasse, quando a viu vir correndo.
+
+--Perdoai-me, senhora, o ter-vos feito esperar tanto tempo, mas eu fui
+muito longe colher as violetas e os _não me deixes_, porque queria que o
+meu cestinho vos agradasse.--Assim fallando Rosa apresentou a D. Julia
+um cestinho, que era um primor d'arte no gosto, e esperou toda confusa,
+a sua apreciação.
+
+Uma alegre exclamação de D. Julia lhe fez vir o sorriso aos labios.
+
+--Quero abraçar-te, minha querida menina; ha muito tempo que não vi nada
+tão lindo, e como me causaste um grande prazer, quero recompensar-te;
+mas deixa-me ainda admirar o teu bello trabalho.
+
+Este cestinho podia vêr-se. No centro tinha raminhos de violetas com as
+folhas verdes, ainda humidas; uma corôa de lirios cercava as violetas, e
+em volta uma grinalda de musgo, semeada de raminhos de rosas amarellas e
+geranios. Dous ramos de madre-silva serpenteavam por entre os juncos
+formando as azas.
+
+--Não quero--disse D. Julia, depois d'alguns instantes de silencio--que
+uma obra tão bella tenha um viver ephemero; vou já bordar um quadro,
+cópia d'este cestinho, que ha-de ficar muito rico. Mas, Rosinha, quanto
+queres por este trabalho?
+
+--Dar-me-ha o que quizer, minha senhora, como costumam fazer as outras
+minhas freguezas.
+
+--Mas quanto é que custam ordinariamente?
+
+--Tres ou quatro vintens.
+
+--Quatro vintens!--disse D. Julia admirada.
+
+--Acha caro, minha senhora?--disse Rosa com acanhamento.
+
+--Caro, não, minha pequena. Quando estava no Porto pagava, por muito
+maior preço, ramos que tinham muito menos valor, que o teu cestinho.
+Toma, Rosinha, não tenho aqui senão esta meia corôa, mas amanha a esta
+hora apparece aqui, e fallaremos...
+
+--Não posso aceitar o que me dáes, minha senhora, porque é muito.
+
+--Queres fazer-me zangar?
+
+--Não, senhora. É a primeira vez que a vejo, mas já a estimo muito. Eu
+não preciso de nada; a snr.ª D. Thereza é muito minha amiga e...
+
+--Não é uma esmola que te dou--replicou D. Julia, mettendo a moeda de
+prata na mão de Rosinha--não te esqueças da recommendação, que te fiz,
+de estares ámanhã aqui a esta mesma hora.
+
+E antes que Rosa tivesse tempo de recusar, já D. Julia tinha
+desapparecido, levando na mão o cestinho.
+
+Rosa ficou um instante sem saber o que havia de fazer, mas recomeçou
+ligeiramente o trabalho. Quando ao jantar voltou a casa, contou a D.
+Thereza o seu encontro de pela manhã, o que lhe tinha acontecido e
+perguntou-lhe se devia ou não guardar os cinco tostões.
+
+--Não te authoriso a pedir, Rosa, mas isso não é uma esmola, é um
+presente, que te fazem, podes portanto arrecadar esse dinheiro. Ris-te.
+Já sei. Esse dinheiro vem a proposito para augmentares o teu mealheiro,
+com o qual te hei-de comprar um rico jaqué para o S. Miguel.
+
+--Não, senhora--replicou Rosa com a alegria nos olhos--não é esse o meu
+pensamento, e que me causa tanta alegria.
+
+--Que é então?
+
+--Rogo-vos que me não façaes perguntas; depois o sabereis.
+
+--Guarda o teu segredo, porque sei que não és desgovernada, e que o não
+has-de gastar mal gasto.
+
+Rosa abraçou ternamente D. Thereza, e foi entregar as suas encommendas
+de flôres e cestos.
+
+
+VI.
+
+D. Julia recolheu-se para casa muito tempo depois da hora, que tinha
+determinado.
+
+A viscondessa, impaciente e sobresaltada com a demora, sahiu, no
+caminho, ao encontro de sua filha.
+
+--Estiveste incommodada, minha filha?--lhe disse ella.
+
+--Não, minha senhora. Este cestinho, que aqui trago, é que foi a causa
+da minha demora.
+
+E D. Julia mostrava a sua mãi o cestinho, que Rosa tinha feito.
+
+--Como é lindo--respondeu a viscondessa--Não sabia Julia, que tinhas a
+prenda de fazer cestos de juncos entrançados.
+
+--Não fui eu que fiz este cestinho, minha mãi.
+
+--Então quem foi?
+
+--Foi uma lavradeirinha, que encontrei no meu passeio.
+
+--Uma lavradeira?!
+
+--Sim, minha senhora. E acreditareis, minha mãi, que por todo este
+trabalho me pediu a grande quantia de quatro vintens?
+
+--Não te pergunto quanto lhe déste, por que conheço a bondade do teu
+coração, e tenho a firme convicção de que não abusaste da sua
+simplicidade.
+
+--Dei-lhe só meia corôa, por que não tinha mais na minha bolsinha. Não
+queria recebel-a, ajuizando que lh'a dava como uma esmola; mas tanto fiz
+que a aceitou, e convencionei com Rosa, (pois a minha ramalheteira assim
+se chama) para nos encontrarmos ámanhã, no mesmo sitio, á mesma hora; e
+se ella, como penso, fôr digna da sympathia, que me inspirou, e do
+interesse que já me causa, consentir-me-heis, minha boa mãi, que a tome
+sob a minha protecção?
+
+--Consinto em tudo, minha filha, que te dê prazer, e distracção. Se a
+tua protegida fôr digna dos nossos beneficios, unir-me-hei comtigo, e
+accordaremos no que devemos fazer para seu bem.
+
+D. Julia abraçou com ternura a viscondessa, e agradeceu-lhe a sua
+bondade.
+
+N'este comenos, a viscondessa e sua filha, chegaram a casa.
+
+D. Julia collocou com muito cuidado sobre uma mesa da sala o cestinho, e
+correu com presteza ao seu quarto a preparar um cavallete, pinceis e
+tintas para dar principio ao quadro projectado, e, tendo tudo disposto,
+desceu á sala a buscal-o.
+
+D. Bertha estava examinando o cestinho com attençào e minuciosidade.
+
+--Não estão tão bem dispostas e combinadas essas flôres, Bertha?--disse
+D. Julia.
+
+--Assim, assim. Não gosto d'estas violetas, que formam o centro do ramo.
+Podias ter tido melhor gosto e fazer cousa melhor.
+
+--Não concordo com a tua opinião. Estou convencida de que Rosa não podia
+ter melhor gosto.
+
+--Rosa?
+
+--Sim, Rosa. Ah! é verdade; ainda te não contei o encontro, que tive
+esta manhã. Ora ouve.
+
+D. Julia contou a sua irmã minuciosamente toda a conversa, que tivera
+com Rosa.
+
+Quando ella acabou, D. Bertha fez um gesto de desdem.
+
+--E, sem duvida, Julia, já te affeiçoas-te a essa pequena; não é
+assim?--disse D. Bertha.
+
+--Rosa,--respondeu unicamente D. Julia--tem merecimento bastante, que a
+torna digna da protecção, que se lhe dispensar.
+
+--O que mais me admira e me espanta, Julia, é a rapidez com que
+sympathisas com qualquer, e como instantaneamente conheces e decides,
+que essa pessoa é digna da tua affeição e amisade... Não quero tomar-te
+o tempo; julgo que vinhas buscar o teu lindo cestinho, não é assim?
+
+--Vinha, sim, para o ir copiar em um quadro, pintando-o.
+
+--Pintal-o?!--disse D. Bertha, dando uma grande gargalhada.--Que
+liguemos alguma attenção ás flôres dos nossos parques e jardins,
+concedo; mas que empreguemos o tempo e o talento com as silvestres, que
+só tem os perfumes para si, parece-me uma singularidade esquisita.
+
+--A minha opinião, Bertha, é exactamente o contrario. Mas isso não
+admira, por que nós raras vezes estamos accordes sobre qualquer materia.
+Ponhamos isso de parte; queres tu vir ámanhã, commigo e com a nossa boa
+mãi, vêr Rosa?
+
+--Não posso. Combinei com a Francisquinha e Ritinha Meirelles virem
+amanhã aqui passar o dia. Além d'isso, fallar-te-hei francamente, não ha
+nada para mim mais antipathico do que todas essas lavradeiras; e andar
+uma legua para me ir achar face a face com um monstrosinho, parece-me um
+tanto aborrecivel.
+
+--Rosa é muito linda e interessante.
+
+--Para ti, Julia, todas as lavradeiras são lindas e interessantes. Para
+mim todas são feias, e broncas. O calor principia a incommodar-me--disse
+D. Bertha, sentando-se indolentemente sobre um sophá.--Vai, Julia, vai
+pintar o teu lindo cestinho, que eu vou sonhar com o meu Porto, para
+onde espero ir muito breve.
+
+Estas ultimas palavras já mal se perceberam, porque foram acompanhadas
+com um bocejo, e D. Bertha cerrou os olhos.
+
+D. Julia lançou sobre sua irmã um olhar de compaixão e sahiu.
+
+Alguns instantes depois deu principio ao quadro.
+
+
+VII.
+
+No dia seguinte Rosa sahiu para a serra, muito cêdo, para adiantar o seu
+trabalho, e poder assim dedicar mais tempo á joven senhora, que tão
+amavel e generosa tinha sido com ella.
+
+Trabalhou com tal desembaraço, que, muito antes da hora marcada por D.
+Julia, tinha terminado o seu serviço.
+
+Aproveitou portanto o tempo entregando-se á leitura d'algumas paginas
+d'um livro, de que lhe tinham feito presente no dia anterior. Lia com
+attenção, e, quando encontrava algum trecho rico e bello, parava, para
+exprimir a sua alegria e enthusiasmo.
+
+Estava Rosa de tal sorte entregue á leitura, que não presentiu a chegada
+da viscondessa e de sua filha D. Julia.
+
+--Que livro estás lendo, com tanta attenção, minha menina--lhe disse a
+viscondessa.
+
+Rosa saudou-a, apresentou-lhe o livro e respondeu:
+
+--São as _Meditações religiosas_ de Rodrigues de Bastos.
+
+--E encontras grande prazer na sua leitura?
+
+--Se encontro, minha senhora. Quando estou sentada á borda d'um regato,
+ou debaixo d'um carvalho annoso, lendo n'este livro, parece que a minha
+alma se despe de todos os seus envolucros terrenos e mundanos, e se põe
+em contacto com Deus, author de todas estas maravilhas da natureza, que
+nos cercam, e a quem no fundo do meu coração adoro e venero.
+
+A viscondessa e sua filha, admiradas do que ouviam a uma pequena do
+campo, trocaram entre si um olhar d'intelligencia.
+
+--E que mais costumas lêr?--perguntou D. Julia.
+
+--Não tenho muitos livros. Além d'este possuo um cathecismo, uma vida de
+santos, de que leio uma pagina cada domingo, e mais uns livrinhos
+d'historias bonitas. Esquecia-me dizer-vos, que tambem tenho um livro de
+geographia, que me deu o mestre escóla da minha freguezia, mas que não
+leio, por que tem muitas palavras, que não entendo.
+
+--Pelo que me dizes conheço que tens desejos de te instruires. Se te
+proporcionassem os meios de o fazeres, serias feliz?
+
+--Seria, sim, minha senhora; mas infelizmente isso é impossivel, porque,
+para ir todos os dias á mestra, é preciso ser muito rica.
+
+--Mas se te mandassem á mestra?--insistiu D. Julia.
+
+--Seria muito feliz, mas nem quero pensar n'isso.
+
+--Pelo contrario; eu e minha mãi, viemos procurar-te para que nos
+conduzisses a casa da snr.ª D. Thereza, e, se a tua protectora estiver
+satisfeita comtigo, pedir-lhe-hemos para te deixar ir todos os dias á
+mestra. Então não respondes?
+
+--Perdoai-me, senhora. Estou muito contente e alegre, e queria
+agradecer-vos, mas não posso. Que fiz eu para merecer tantos beneficios?
+
+--Mostraste-te reconhecida aos beneficios da snr.ª D. Thereza, e isso
+indica um bom coração; és trabalhadeira e tens desejos de te instruires;
+mereces portanto que nos interessemos por ti--lhe disse a
+viscondessa.--Vamos, ensina-nos o caminho para a quinta da snr.ª D.
+Thereza.
+
+Rosa, commovida, dirigiu-se para a quinta com a viscondessa e sua filha.
+Pelo caminho respondeu modestamente, e com graça, a todas as perguntas,
+que lhe fizeram, e cada uma das respostas confirmou mais, as duas
+senhoras, no bom conceito, que tinham formado de Rosa.
+
+Quando chegaram á quinta, D. Thereza não estava em casa, mas não devia
+tardar muito, por isso esperaram. Rosa apresentou ás duas senhoras
+cadeiras para se sentarem e offereceu-lhes um copinho de leite fresco e
+morno.
+
+D. Julia, a quem o caminho tinha fatigado, aceitou o offerecimento.
+
+Rosa trouxe então uma toalha de linho, alvo como neve, que estendeu
+sobre uma mesa, na qual collocou o melhor pão, que havia em casa,
+manteiga e um copo de leite.
+
+D. Julia, com uma alegria infantil, aceitou este _lunch_ frugal, e,
+reanimadas com elle as suas forças, pediu para visitar a quinta.
+
+A avó de Rosa estava sentada no jardim, debaixo d'um caramanchel de
+clematites, fiando, e cantando com voz tremula o estribilho d'um romance
+antigo. N'esta boa velha, bem vestida e de boa presença, ninguem seria
+capaz de reconhecer a pobre cega, que dezoito mezes antes, quasi
+morrendo de fome e frio, e podendo apenas suster-se em pé, encontramos
+seguindo o caminho da serra de Vallongo para S. Cosme.
+
+A viscondessa do Candal e sua filha saudaram a pobre cega, e esta,
+prevenida pela netinha, correspondeu-lhe respeitosamente.
+
+--Não vos incommodeis, boa mulher---lhe disse a
+viscondessa--permitti-nos sómente que conversemos por um instante
+convosco.
+
+--É muita honra para mim, minha querida senhora;--respondeu a
+cega--estou portanto ás vossas ordens.
+
+--Visto isso não vos recusareis a dizer-me se estaes satisfeita com a
+vossa neta?
+
+--Se estou contente com a minha Rosinha?!--exclamou a cega---com ella,
+que é a minha benção sobre a terra. Quando o meu genro morreu, por causa
+d'uma ferida, que fez em uma perna com o seu machado, porque elle era
+rachador de lenha na serra, e a quem minha filha, mãi de Rosa, seguiu
+passado pouco tempo, quasi que enlouqueci, porque não sabia o que havia
+de fazer. Rosa, disse-me com a sua voz meiga e humilde: avósinha, eu
+conheço uma senhora muito caritativa; vamos a sua casa, que estou certa
+nos ha-de recolher. E foi verdade.
+
+A snr.ª D. Thereza, essa boa e caritativa senhora, para quem peço a Deus
+todos os beneficios e bençãos, teve a caridade de recolher em sua casa
+uma velha enferma e inutil como eu. Mas isto devo-o a Rosinha, porque
+ella sabe dizer as cousas de tal maneira, que, penetrando até o coração,
+commovem e decidem á compaixão. Vai em dezoito mezes que aqui nos
+achamos. Fio um pouco para não estar em descanço; mas Rosinha, senhora,
+Rosinha, cantando sempre, trabalha desde pela manhã até á noite. Em
+quanto que dura o verão, occupa-se a colher flôres na serra e no campo,
+e a fazer cestinhos com ellas; mas isto não obsta a que, quando se
+recolhe, lave a roupa, limpe os moveis, e ajude a cozinhar, e se
+quizesse dizer-vos tudo o que ella faz, ou sabe fazer, levar-me-ia muito
+tempo.
+
+Assim, amo muito a minha querida Rosinha. Mas onde estás tu, que te não
+chegas a mim para te dar um abraço?
+
+Rosa, com o pretexto de ir colher um ramo para D. Julia, tinha-se
+retirado, quando a avó começára a elogial-a.
+
+A viscondessa e sua filha ouviram com prazer o panegyrico de Rosa, feito
+pela avó, e iam fazer novas perguntas, quando D. Thereza chegou.
+
+Depois de terminados os comprimentos preliminares, a viscondessa expoz a
+D. Thereza como sua filha sympathisára com Rosa, e estava resolvida a
+tomal-a sob a sua protecção, se D. Thereza a isso se não oppozesse.
+
+--Primeiro que tudo--respondeu D. Thereza--desejo a felicidade e
+venturas de Rosinha, ainda que me ha-de custar muito a separar-me
+d'ella: porém, se fôr sua vontade, não me opponho, por que julgo lhe
+procuraes a sua felicidade; mas ponho por condição, que lhe não
+prohibireis vir algumas vezes visitar-me.
+
+--Isso, senhora, é um dever sagrado, que Rosa tem a cumprir. Vamos porém
+interrogal-a, por que ella nada sabe do que acabamos de fallar.
+
+D. Thereza chamou a pequena, que veio correndo, e disse-lhe:
+
+--Rosinha, queres ir viver com esta senhora e sua filha?
+
+--Pois vós, senhora--respondeu Rosa tremula e timida--quereis mandar-me
+embora?
+
+--Não. Pergunto sómente se me queres deixar, para te tornares uma menina
+da cidade, instruida e de maneiras polidas?
+
+--Não, minha senhora. Nunca--disse Rosa chorando, lançando-se nos braços
+da sua bemfeitora--nunca vos deixarei. Tenho muitos e muitos desejos de
+me instruir e de aprender, mas, se para isso é necessario o deixar-vos,
+antes quero ficar ignorante toda a minha vida. Recolheste-nos, senhora,
+quando eu e a minha querida avósinha, estavamos quasi a morrer de fome,
+e havia de ser tão ingrata, que, quando principio a servir d'alguma
+utilidade, vos abandonasse? Não, senhora, nunca, nunca vos deixarei.
+
+--Ouvistel-a, minhas senhoras--disse D. Thereza enxugando os olhos,
+razos de lagrimas.
+
+--Pelo que vejo, Rosa, estás bem decidida a não vir comnosco?--lhe disse
+a viscondessa.
+
+--Seria feliz e muito feliz, minha senhora, se podesse ir viver na sua
+companhia, e de sua estimavel filha; mas antes de vós, está a snr.ª D.
+Thereza, que salvou a minha pobre avósinha d'estender a mão á caridade
+publica e que sempre tão minha amiga tem sido. Perdoai-me, senhora, se
+assim fallo...
+
+--Dá-me um abraço, minha menina--lhe disse a viscondessa
+interrompendo-a--dá-me um abraço, porque te mostraste tal, como eu
+desejava, boa, humilde e reconhecida aos beneficios, que te fazem.
+
+Não tenhas receio, que te separemos da snr.ª D. Thereza. Pediremos
+sómente á tua bemfeitora, que nos deixe entrar com metade nos
+beneficios, que te prodigalisa.
+
+--E eu, Rosa--acrescentou D. Julia--quero ser a tua preceptora. Quando o
+tempo estiver bom, dar-te-hei as lições na serra, á sombra d'um
+sobreiro, ou d'um pinheiro, ou á borda d'um regato; e quando estiver
+mau, dar-tas-hei em minha casa, porque ouso esperar, que a snr.ª D.
+Thereza me não negará este favor, e prazer.
+
+--Oh não, minha senhora, esteja certa d'isso. Logo que termine o seu
+serviço dos cestinhos fica livre para vos ir procurar.
+
+--É objecto convencionado--disse a viscondessa--por isso a snr.ª D.
+Thereza ha-de-me permittir licença de offerecer a Rosa, para si e sua
+avó, o que contém esta pequena bolsa. É para comprar em nosso nome um
+vestido novo.
+
+E como D. Thereza, Rosa e a avó lhe fizessem muitos agradecimentos, a
+viscondessa impoz-lhes com brandura silencio, e retirou-se, promettendo
+voltar muito breve á quinta.
+
+D. Julia abraçou a sua pequena discipula, e retirou-se dizendo-lhe «até
+ámanhã».
+
+Nas proximidades de casa a viscondessa e sua filha encontraram D.
+Bertha, que estava esperando pelas meninas Meirelles.
+
+--Meu Deus, como estou aborrecida--lhes disse ella.
+
+--Pois eu, minha irmã--respondeu D. Julia--venho muito alegre; o
+espectaculo, que acabo de gosar, dar-me-ha felicidade não só para hoje,
+mas tambem para muito tempo, porque será contado no numero das minhas
+mais gratas e queridas recordações.
+
+
+VIII.
+
+D. Julia, na fórma convencionada, principiou no seguinte dia o curso,
+que queria fazer seguir a Rosa. Tomou com ardor a obrigação, que se
+tinha imposto desempenhar, mas o seu zelo não excedia, o que mostrava a
+sua alumna. Intelligente, e anciosa por aprender, Rosa era incansavel, e
+muitas vezes foi preciso que D. Julia moderasse a sua applicação; as
+lições tinham lugar umas vezes na serra, outras vezes em casa da
+viscondessa.
+
+Decorreram assim tres mezes. No fim d'este tempo, os progressos, que
+Rosa tinha feito, eram espantosos, e como tanto a professora, como a
+discipula não afrouxavam no seu zelo, era d'esperar que, no fim dos dous
+mezes que D. Julia ainda tinha a passar no campo, Rosa estivesse
+bastante desenvolvida para continuar, sem nada esquecer, a estudar
+sósinha, durante o inverno.
+
+Mas, quando menos se esperava, a terrivel molestia, que parecia ter
+deixado D. Julia, reappareceu com uma intensidade violenta.
+
+A pobre menina não teve forças para resistir a este ataque, e não podia
+sahir do quarto.
+
+Rosa, que no auge da sua desesperação, com risco da propria vida,
+quereria dar algumas forças á amiga do seu coração, podia a custo conter
+as lagrimas, contemplando-a, pallida e cadaverica, recostada n'uma
+cadeira de braços, forcejando por se levantar sem auxilio, para não
+aterrar a sua querida mãi e a sua discipula predilecta.
+
+N'este momento Rosa tinha um unico pensamento; o de sacrificar-se por
+aquella, que tanto a amava e lhe queria. Os mais pequenos desejos, e os
+mais vagos caprichos eram adivinhados de Rosa, e executados antes mesmo
+que D. Julia os tivesse enunciado. Se queria descer ao jardim, o braço
+de Rosa é que a amparava; se queria ouvir alguma passagem dos seus
+livros favoritos, Rosa lia-lh'a immediatamente.
+
+D. Julia, muito sensibilisada por tanta dedicação, affligia-se com a
+lembrança, de que o progresso da sua discipula estava parado. D. Bertha
+podia substituil-a, mas essa nunca consentiria em ser a preceptôra d'uma
+lavradeira. A viscondessa resolveu-se a dar as lições a Rosa, para
+socegar a inquietação de D. Julia.
+
+Havia já tres semanas que D. Julia estava doente, e cada dia ia a peor;
+sua mãi já não tinha esperanças algumas. Tres medicos, que do Porto
+haviam sido chamados, não deram esperanças da doente melhorar.
+
+A viscondessa, porém, não podendo convencer-se de que sua filha estava
+irremediavelmente perdida, cria que os medicos se tinham enganado, e
+resolveu recolher ao Porto, para lhe fazer uma nova junta.
+
+D. Bertha, contristada ao principio com a molestia de sua irmã,
+consolava-se com a idéa de voltar ao seio da sociedade, que ella tanto
+amava.
+
+Só á força de muitas instancias e esforços é que D. Julia consentiu em
+deixar o campo; mas, ainda assim, com a expressa condição de para lá
+voltar se peorasse.
+
+Quando Rosa soube que a viscondessa se ia retirar do campo, não pôde
+conter a sua desesperação. Queria acompanhar D. Julia, e não a
+desamparar um só instante. D. Julia procurava socegal-a, mas tudo era
+baldado, por que Rosa estava inconsolavel.
+
+Na vespera da partida Rosa veio despedir-se de D. Julia; lançou-se-lhe
+aos pés, chorando, e pediu-lhe que lhe escrevesse muitas e muitas vezes.
+A doente assim lh'o prometteu, e, tirando debaixo do travesseiro uma
+bolsinha de sêda, apresentou-a a Rosa.
+
+--Aceita, minha menina--lhe disse ella--esta bolsa; contem cem mil reis,
+que são as minhas economias do verão; põe a juros este dinheiro, para
+que se augmente este capitalsinho.
+
+É um presente muito pequeno; mas se nos não tornarmos a vêr, minha boa
+mãi, dar-te-ha, em meu nome, mais alguma cousa.
+
+Rosa beijou as mãos de D. Julia, e queria recusar a bolsa.
+
+--Não recuses, Rosa--tornou D. Julia--senão fôr para ti, é para tua avó.
+Sabes lá o que tem para vos acontecer, e se esta pequena somma ainda vos
+será util? Adeus, Rosinha; ama-me sempre muito, e reza muito ao Senhor,
+para que me dê saude.
+
+Rosa quiz responder, mas as lagrimas e soluços embargaram-lhe a voz. A
+viscondessa, testemunha d'esta scena tão tocante, temendo as funestas
+consequencias, que sua filha soffreria com tão grande commoção, levantou
+Rosa, e pediu-lhe com instancia e por favor que se retirasse. A pobre
+menina cedeu a custo, mas antes de se retirar ainda pôde vêr D. Julia,
+que, com um olhar maternal, a abençoava.
+
+
+IX.
+
+Já tinha decorrido mais d'um mez, desde que D. Julia recolhera ao Porto,
+e Rosa ainda não tinha recebido carta da sua amiga. A pobre criança
+affligia-se, julgando, que este silencio, para com ella, não tinha outra
+causa, senão o estado cada vez mais perigoso de D. Julia. D. Thereza,
+que partilhava do pesar de sua filha adoptiva, procurava por todos os
+meios consolal-a, e fazer-lhe conceber esperanças. Uma carta de D. Julia
+veio confirmar as prevenções de D. Thereza.
+
+D. Julia, com mão tremula, escreveu á sua querida discipula.
+Participava-lhe que a sua doença parecia estar um pouco mais debellada,
+e que os medicos davam algumas esperanças de a poder subjugar, e
+embargar-lhe o seu progresso.
+
+Terminava a carta aconselhando Rosa a que não descurasse os seus
+estudos, e pedindo-lhe que lhe escrevesse.
+
+Rosa cobriu de mil beijos esta carta, e no mesmo dia respondeu a D.
+Julia, assegurando-lhe que não despresaria os seus conselhos, e que
+tinha esperanças, de, para a primavera, renovar as suas lições sob as
+arvores da serra; que nas suas orações rogava todos os dias a Deus, com
+fervor, que lhe restituisse a saude, e que esperava as suas supplicas
+fossem attendidas.
+
+Rosa, cumprido este dever sagrado, lançou mão do seu trabalho com mais
+vigor.
+
+Estava proximo o dia natalicio de D. Thereza. Rosa preparava em segredo
+um lindo presente para offerecer n'aquelle dia á sua bemfeitora, e para
+isso tinha reunido todo o dinheiro, que lhe tinham dado de mimo, e
+julgava-se bastante rica para poder apresentar a D. Thereza um brinde,
+de que ella admirasse o valor e o gosto.
+
+Faltavam só quatro dias para que, esse dia tão anciosamente esperado,
+chegasse, e Rosa ainda queria poder supprimir o tempo, tão longo lhe
+parecia.
+
+Na vespera de manhã D. Thereza queixou-se d'uma dôr de cabeça, mas
+julgou que um passeio lh'a dissiparia. Sahiu pois; mas passado uma hora
+voltou ainda mais indisposta, do que tinha sahido.
+
+Despresando o seu estado, ainda presidiu, na fórma costumada, ao jantar
+dos criados da quinta; mas, no meio d'elle, cahiu sem sentidos.
+
+Os criados, assustados, cercaram D. Thereza. Recolheram-na á cama, e
+partiu immediatamente um criado a chamar, a toda a pressa, um cirurgião.
+
+Chegou este, e, mal viu a doente, não deu esperanças de a salvar.
+
+--Foi uma apoplexia fulminante--disse elle--é já tarde para se lhe dar
+remedio.
+
+O desespero e a consternação espalharam-se na quinta.
+
+Os criados em geral estimavam muito D. Thereza, por que, apesar de ser
+muito vigilante, era boa e justa.
+
+Os menores movimentos do cirurgião eram seguidos com anciedade por todos
+os criados, mas entre elles tornava-se saliente Rosa pelo zelo e
+actividade, que desenvolvia em executar as prescripções do cirurgião,
+ainda bem não estavam dadas.
+
+Rosa não podia crêr que Deus lhe quizesse roubar a sua bemfeitora, e
+esperava ainda que uma crise feliz a restituiria á vida.
+
+A avó de Rosa estava consternadissima, e o seu maior pesar consistia em
+não poder fazer cousa alguma.
+
+De joelhos; junto do leito de D. Thereza, rezava com fervor e devoção.
+
+Entre as alternativas da esperança e desconforto se passou o dia. Á
+noite o cirurgião declarou que já lhe não restava esperança alguma; que
+D. Thereza ainda podia viver mais um dia ou dous, mas que não proferiria
+mais uma palavra, nem faria um unico movimento.
+
+Descrever a afflicção de Rosa e de sua avó é-me impossivel; bastará
+dizer que a dôr as tinha quasi enlouquecido.
+
+D. Thereza não tinha filhos, por isso foram avisar do succedido a D.
+Euzebia, sua irmã, rica proprietaria em Rio Tinto.
+
+D. Euzebia, por causa do seu genio forte, e caracter duro, não estava em
+intimas relações com D. Thereza. Assim que teve noticia da doença de sua
+irmã poz-se logo a caminho, não por amisade que tivesse á moribunda, mas
+sim para vigiar que lhe não roubassem a mais pequena parte da sua
+herança.
+
+Logo que D. Euzebia chegou a S. Cosme, tomou o governo da casa, e deu
+ordens como se já estivesse senhora da herança. Rosa e sua avó
+inspiraram-lhe antipathia, e não podia comprehender como sua irmã
+voluntariamente tinha tomado ao seu cuidado aquellas duas pessoas.
+
+D. Thereza ainda viveu dous dias, conforme o cirurgião dissera, mas sem
+falla, e sem movimento, porque a apoplexia tinha-lhe paralysado todas as
+faculdades. Só os olhos é que conservavam ainda alguns signaes de vida e
+intelligencia, os quaes fixava sobre Rosa, fazendo esforços para fallar,
+naturalmente para fazer o seu testamento; mas este ultimo consolo dos
+moribundos não lhe foi permittido.
+
+O abbade da freguezia, que veio administrar os ultimos sacramentos á
+moribunda, tentou mitigar a dôr de Rosa, mas a joven menina estava muito
+consternada para poder ser consolada. Recusou obstinadamente retirar-se
+de junto do leito, em que jazia D. Thereza, conservando-lhe a mão gelada
+apertada nas suas.
+
+--O meu lugar é este,--dizia ella entre soluços,--só deixarei minha
+segunda mãe no tumulo.
+
+Finalmente chegou o terrivel momento da morte. Uma convulsão, alguns
+murmurios sufocados........ e D. Thereza tinha deixado d'existir entre
+os vivos, e sua alma, desprendendo-se das ligações terrenas, voára ao
+céo a receber da mão de Deus o premio das suas virtudes.
+
+Ao principio não se ouviam mais que os chóros de todos os criados da
+quinta, mas em seguida uma voz forte e imperiosa se fez escutar. Era a
+de D. Euzebia. Collocou uma pessoa junto do cadaver de sua irmã, deu as
+ordens para os funeraes, e passou a inspeccionar as caixas e commodas,
+que fechava com cuidado, guardando as chaves.
+
+
+X
+
+Apenas D. Euzebia fechou as commodas e caixas, compareceu o juiz eleito
+da freguezia para sellar e tomar conta de tudo o que pertencia a D.
+Thereza.
+
+--Aqui estão as chaves, senhor juiz eleito--disse D. Euzebia,--mas é
+inutil esse trabalho, por que eu sou a unica herdeira de minha irmã, e
+ella não podia desherdar-me.
+
+--É verdade, minha senhora,--respondeu o juiz--mas cumpro o meu dever,
+por que a lei protege os direitos de todos.
+
+--Só eu é que tenho direito á fortuna de minha irmã, pois ella não tem
+filhos.
+
+--Sim, minha senhora, mas esta orphãsinha, a quem ella deu asylo?
+
+--Minha irmã--replicou com colera D. Euzebia--seria por ventura capaz de
+me desherdar, testando os seus bens a favor d'estas duas mendigas, que
+ella teve a phantasia de recolher em sua casa?
+
+--Não o affirmo, minha senhora--respondeu com brandura o juiz;--mas sua
+irmã póde ter feito testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua
+estima e amisade.
+
+--Não julgaria sufficiente o sustental-a e mais á avó,--disse D. Euzebia
+com voz forte--ainda lhe havia de deixar algum legado? Ah! minhas
+velhacas, virieis vós roubar o que de direito me pertence? Snr. juiz
+eleito, queira tambem sellar a porta do quarto d'ella, pois quem sabe
+lá, o que ella tem roubado. Minha irmã era tão pouco cautellosa...
+
+--Oh! senhora--respondeu Rosa com muita tristeza a esta supposição
+offensiva--acreditaes que pagasse com o roubo os beneficios, que eu e
+minha avó recebemos da snr.ª D. Thereza?
+
+O juiz eleito ordenou com brandura a Rosa que se calasse, para que D.
+Euzebia não continuasse, diante d'um leito de morte, com uma discussão
+tão vergonhosa, e feia.
+
+Logo que o juiz se retirou, Rosa viu-se de novo a braços com as
+suspeitas da ambiciosa herdeira. Chegaram a tal ponto as cousas, que
+Rosa não pôde refrear a sua indignação.
+
+--Não me injurieis, senhora,--disse Rosa com energia e dignidade--não me
+injurieis diante do corpo de vossa irmã, de quem só a vista bastaria
+para me proteger. Dizei-me, senhora, sahi eu por ventura um só instante
+de junto da cama da minha bemfeitora, desde que ella foi atacada pela
+apoplexia? Não, senhora. Então como podia eu subtrahir cousa alguma?
+Examinai, e examinai bem, senhora, que achareis tudo intacto, porque eu
+e minha avó preferiamos antes morrer de fome, do que tocar na cousa mais
+insignificante, que nos não pertencesse. Louvado seja o Senhor, sou
+forte; posso e quero trabalhar, por isso não serei pesada a ninguem.
+Deixai-nos, senhora, chorar em paz a perda da nossa bemfeitora, que,
+logo que o seu corpo saia d'esta casa, não vos pediremos asylo.
+
+Esta linguagem, firme e digna, impoz silencio a D. Euzebia, que ficou
+corrida de vergonha.
+
+Rosa esperou com socego o dia seguinte, em que se devia fazer o enterro
+a D. Thereza.
+
+A pobre criança, com a avó pelo braço, seguiu chorando o prestito.
+Depois de terminado o officio, Rosa e sua avó, ajoelharam-se junto da
+campa, em que D. Thereza foi sepultada: era já noite cerrada, e ainda as
+duas desgraçadas não cuidavam em se retirar.
+
+O frio, que fez dar um gemido á avó, advertiu Rosa de que se devia
+recolher; só então é que pensou para onde havia de ir.
+
+--Vamos, minha avósinha--disse Rosa--a casa da snr.ª Maria da Gandra,
+que estou certa, sendo tão nossa amiga, nos não ha-de deixar na estrada.
+
+A snr.ª Maria da Gandra era uma boa e caridosa mulher, que, como todos
+os moradores de S. Cosme, e seus arredores, estimava muito a protegida
+de D. Thereza, e censurára o procedimento de D. Euzebia.
+
+--Oh! Rosinha, foi Deus que te dirigiu para minha casa--lhe disse ella
+logo que a avistou.--Que prazer me não causa teres procurado a minha
+casa para te recolheres. Tinham-me dito, que ias para casa da Joanna da
+Quintella, por isso é que te não offereci para vires para aqui com tua
+avó.
+
+--Agradeço-vos, senhora--disse Rosa--a vossa bondade, e a caridade com
+que vos offereceis para nos recolherdes; mas não venho pedir-vos casa e
+sustento de graça, porque tenho duas inscripções de cem mil reis cada
+uma; o que vos rogo é que me aboneis tudo o que eu precisar e minha avó,
+que vos satisfarei logo que termine a liquidação da herança da snr.ª D.
+Thereza, e receba as minhas inscripções.
+
+--Sim, sim, minha menina,--lhe respondeu a snr.ª Maria da Gandra--Não
+preciso do teu dinheiro para te sustentar e a tua avó. Mas diz-me, como
+obtiveste essas inscripções?
+
+--A snr.ª D. Julia, antes de partir para o Porto, deu-me cem mil reis,
+com os quaes a snr.ª D. Thereza, em cumprimento do seu desejo, comprou
+duas inscripções em meu nome.
+
+--Foste feliz, Rosinha, em que fossem compradas em teu nome, porque
+d'outra maneira D. Euzebia tomaria posse d'ellas. Tem resignação, assim
+como vós, minha boa velhinha; vinde cear, que eu depois vou-vos conduzir
+ao vosso quarto.
+
+Rosa e sua avó ficaram portanto habitando na Gandra.
+
+A pequena não estava ociosa, antes pelo contrario era tão zelosa e
+trabalhadeira, que a snr.ª Maria, muito satisfeita, propoz-lhe que ella
+e a avó, ficassem para sempre em sua casa. Rosa aceitou promptamente, e
+com reconhecimento, pois n'aquella occasião era a maior felicidade, que
+lhe podia apparecer.
+
+No dia em que se deviam tirar os sellos em casa da defunta D. Thereza,
+Rosa alli compareceu por convite do juiz eleito.
+
+Quando Rosa atravessou, como estranha, a soleira da porta da casa, que
+tinha sido para ella tão hospitaleira, o coração comprimiu-se-lhe e não
+pôde reter as lagrimas.
+
+Tudo se passou sem novidade; só de quando em quando D. Euzebia mostrava
+por gestos e exclamações o seu desapontamento por encontrar menos
+dinheiro, do que imaginava.
+
+Quando se abriu a caixa, que pertencia a Rosa, não foi uma exclamação de
+surpreza, que D. Euzebia soltou, mas sim de raiva, na qual se divisava
+um accento de triumpho.
+
+--Bem certa estava eu,--disse ella--que esta velhaca havia de ter
+_empalmado_ alguma cousa. Ah! se eu não viesse logo... o que teria
+acontecido. Examinai, senhor escrivão, o que é que ahi existe.
+
+O escrivão tirou da caixa um magnifico vestido, que, a julgar pelo
+tamanho, não pertencia de certo a Rosa.
+
+--Dize velhaca,--tornou D. Euzebia--como é que este vestido veio aqui
+parar?--Não preciso perguntal-o, porque a culpada está-se denunciando
+pelo rubôr, que lhe cobre as faces.
+
+--Senhora D. Euzebia--disse o juiz--o seu proceder para com esta criança
+é digno de censura. Ainda, até agora, não encontramos cousa alguma, que
+fizesse, nem ao menos, suspeitar de sua probidade. Deixai-a portanto
+dar-me as explicações, que tiver a fazer.
+
+Responde Rosinha,--disse o juiz com modo affavel--como é que este
+vestido se acha na tua caixa?
+
+Rosa fez-se muito corada e respondeu:
+
+--Este vestido, senhor, foi comprado com as minhas economias.
+
+--Que é; que é?--interrompeu D. Euzebia.
+
+--Senhora--disse severamente o juiz--ordeno que vos caleis.
+
+--É bem publico e sabido, que eu, durante o verão, fazia cestinhos de
+flôres, que ia vender ás casas abastadas dos arredores.
+
+Quasi sempre me davam, como presente, mais do que o custo dos cestos:
+entregava-me a snr.ª D. Thereza, para guardar no meu mealheiro, estas
+pequenas quantias, que reservei com muito cuidado para poder brindar a
+snr.ª D. Thereza no seu dia natalicio.
+
+Estava muito indecisa, por não saber o que lhe devia offerecer, e foi a
+minha avó, que me suggeriu a idéa de lhe comprar um vestido. Para levar
+a effeito este meu desejo combinei em segredo, com a costureira da snr.ª
+D. Thereza, para o fazer, e estou muito certa de que a minha bemfeitora
+não despresaria a minha offerta, se tivesse a felicidade de lh'a
+apresentar.
+
+Esta explicação, simples e clara, que demonstrava um coração sincero e
+grato, fez borbulhar as lagrimas nos olhos de todos os circumstantes.
+Devemos comtudo excluir d'este numero D. Euzebia, que presistia em negar
+a verdade.
+
+Quando se encontraram as duas inscripções, D. Euzebia chegou ao auge do
+desespero e da colera, e de boa vontade as inutilisaria, se lhe fosse
+possivel obtel-as á mão; mas, felizmente para Rosinha, não pôde
+conseguil-o.
+
+Finalmente, pelos cuidados e protecção do juiz eleito, Rosa e sua avó,
+apesar de todos os obstaculos e vontade de D. Euzebia, receberam tudo o
+que lhes pertencia, e deixaram sem maior desgosto a casa, de que a mais
+cruel e mais requintada avareza as expulsava.
+
+
+XI.
+
+Estamos no anno seguinte.
+
+Rosa escreveu á viscondessa do Candal e a sua filha uma carta tão
+affectuosa e consoladora, que fez despertar em D. Julia um vehemente
+desejo de tornar a vêr a sua querida discipula e protegida.
+
+Os dias, que faltavam para Rosa poder abraçar a sua amiga, pareciam-lhe
+seculos. Esperava com uma impaciencia impossivel de descrever, a chegada
+da primavera, porque então é que devia, e podia estreitar ao coração a
+sua querida amiga e preceptora.
+
+Raiou finalmente o dia tão anciosamente almejado. A primeira pessoa que
+D. Julia avistou foi Rosa, que, louca d'alegria, viera esperar a sua
+amiga querida, para lhe apresentar um cestinho, igual ao que tinha
+estabelecido e sido causa das relações e intima união, que existia entre
+ellas.
+
+D. Julia ao vêl-a deu um grito, e quiz immediatamente descer do coupé;
+mas não pôde fazel-o, por que estava tão magra, fraca e desfigurada que,
+quem a via, só a um milagre podia attribuir a sua existencia. Era na
+verdade um milagre, devido ao amor maternal, e continuos cuidados e
+desvelos, de que a cercava a viscondessa.
+
+Rosa passou todo o dia na companhia da sua querida amiga e protectora.
+D. Julia tinha muito que lhe perguntar, por que queria saber
+minuciosamente tudo o que tinha acontecido, desde que ella se tinha
+retirado para o Porto.
+
+Apenas teve conhecimento da morte de D. Thereza, D. Julia pediu
+immediatamente a sua mãi, que recebesse em sua casa Rosa e sua avó.
+
+A viscondessa, que desejava e queria satisfazer o mais pequeno desejo,
+ou pedido de sua filha predilecta, accedeu sem demora.
+
+Rosa e sua avó vieram portanto morar para casa da viscondessa do Candal,
+que foi pessoalmente dar parte d'esta sua resolução á snr.ª Maria da
+Gandra.
+
+--Estou satisfeitissima, minha senhora--disse a snr.ª Maria da
+Gandra--pela felicidade de Rosa; mas ao mesmo tempo sinto um grande
+pesar, e é com difficuldade que me separo d'ella. Nunca mais encontrarei
+uma pequena, que seja tão humilde e trabalhadeira.
+
+A viscondessa em seguida quiz satisfazer á snr.ª Maria da Gandra toda a
+despeza, que Rosa e sua avó tinham feito em sua casa; mas a honrada e
+digna aldeã não quiz aceitar a mais pequena e insignificante recompensa,
+e respondeu--Que Rosa havia ganho o que ella e sua avó tinham
+despendido.
+
+A despedida de Rosa e da snr.ª Maria da Gandra foi pathetica, e só a
+muito custo se desprenderam, chorando, dos braços uma da outra,
+promettendo Rosa vir visital-a a miudo, por que o carinho, com que a
+snr.ª Maria a tinha tratado havia sido tal, que seria uma ingrata se lhe
+não tributasse um profundo reconhecimento.
+
+A alegria, que se apoderou da pobre cega, quando lhe disseram que ia
+viver em casa da viscondessa do Candal, foi tal, que só acreditou depois
+de muito lh'o asseverarem, por que lhe parecia impossivel que semelhante
+ventura lhe succedesse.
+
+--Que a minha Rosinha--disse ella--algum dia se havia de tornar senhora
+da cidade, sempre eu o julguei, por que era muito gentil e linda para
+ser camponeza; mas que eu partilhasse tal ventura, nunca o imaginei.
+
+Rosa e sua avó foram alojadas, em casa da viscondessa, em dous quartos,
+muito perto d'aquelle em que habitava D. Julia; que assim o tinha
+exigido para ter a sua protegida junto d'ella, o que se executou com
+muita censura e reparo de D. Bertha.
+
+--Era só o que faltava--dizia um dia, a orgulhosa D. Bertha, a D.
+Francisca de Meirelles, sua amiga--trazer para nossa casa estas duas
+mendigas. Podes tu, minha querida, explicar-me como é que Julia pôde
+affeiçoar-se tanto a estas duas creaturas?
+
+--Tua irmã, Bertha, tem o coração muito sensivel; basta que lhe façam
+uma choradeira, ou que lhe contem uma historia triste para acreditar em
+tudo, e logo se affeiçoar a qualquer, e lhe dedicar carinho é protecção.
+
+--Mas na verdade, esta sociedade não é tão agradavel e
+attrahente?--disse D. Bertha com um sorriso ironico.--Se a cega e a neta
+contam commigo para lhes fazer companhia, affirmo-te que lhes hei-de
+deixar muito tempo para se aborrecerem.
+
+Conforme com estas _bellas_ resoluções D. Bertha evitava o mais possivel
+dirigir a palavra a Rosa e sua avó, e, quando por necessidade o fazia,
+era com um modo tão sobranceiro, imperial e chocarreiro, que as duas
+infelizes ficavam confusas e envergonhadas.
+
+D. Julia tentou por diversas vezes fazer nascer no coração de D. Bertha
+sentimentos mais nobres e mais christãos, mas infructuosamente, por que,
+procurar commover e sensibilisar o coração empedernido e orgulhoso de D.
+Bertha, era um trabalho improbo e esteril.
+
+D. Julia, feliz por ter em sua companhia a querida de seu coração, a sua
+discipula, recuperou algum vigor, e ainda pôde recomeçar as lições. A
+fadiga, que d'este trabalho lhe podia provir, era attenuada pela
+attenção e estudo, que Rosa prestava ás prelecções.
+
+D. Julia ainda quiz ensinar desenho a Rosa.
+
+--Queres dar a Rosa--disse uma occasião a viscondessa a sua filha--uma
+educação e instrucção superiores á sua posição na sociedade, e não
+receias que isso para o futuro lhe cause embaraços e dissabores?
+
+--Como resposta a essa pergunta tenha, minha querida mãi, a bondade de
+ouvir o que a minha protegida me dizia outro dia:
+
+«O meu maior desejo, minha boa amiga e mestra, é alcançar bastante
+instrucção e saber, para um dia ser professora. Como me julgaria feliz
+podendo dizer ás minhas discipulas: era uma aldeã muito ignorante e
+rustica; uma boa menina, a snr.ª D. Julia, filha da snr.ª viscondessa do
+Candal, teve a bondade de me tomar sob a sua protecção e de me ensinar.
+É a ella, meninas, a quem devo o que sei e o que vos ensino. Se me
+amaes, deveis igualmente amar a snr.ª D. Julia, minha bemfeitora; e
+então ellas vos renderão graças, assim como eu vol-as rendo agora.»
+
+--Não te torno a dizer mais nada--disse a viscondessa--Continua, minha
+filha, pois Rosa é digna dos teus cuidados e desvelos, e para que elles
+se tornem mais proficuos ajudar-te-hei a leccional-a.
+
+A viscondessa cumpriu a sua promessa e, alternadamente com D. Julia,
+dava as lições a Rosa.
+
+Estes estudos não fizeram pôr de parte a preparação de Rosa para receber
+dignamente a primeira communhão. Foi com uma piedade exemplar que ella
+cumpriu este solemne acto, e o futuro provou não ter sido esteril para o
+seu coração.
+
+D. Julia passou o verão entre as alternativas de melhoras e recahidas
+nos seus padecimentos, que tinham uma successão quasi regular e
+periodica. Umas vezes nem levantar-se da cama, ou d'uma cadeira de
+braços, para onde a levavam, lhe era possivel; outras vezes chegava a
+poder dar uns pequenos passeios pelos campos das visinhanças. Aos
+proprios medicos custava a comprehender como ella vivia.
+
+D. Julia, porém, não se illudia sobre o seu estado de saude. Quando sua
+mãi a entretinha fazendo projectos, ou, como ordinariamente se diz,
+_castellos no ar_, para o futuro, ella sorria-se e respondia: que ainda
+faltava muito tempo para a sua realisação, e que não chegava a vêl-os
+confirmar.
+
+A sós com Rosa D. Julia fallava livremente sobre a proxima terminação da
+sua existencia, e então ella supplicava-lhe com instancia, que
+repellisse da sua imaginação tão sinistras idéas.
+
+--Não posso crêr,--dizia ella--que Deus nosso Senhor me queira tirar
+d'este mundo todos os meus protectores: não sei que crime tenha
+commettido, que mereça semelhante castigo.
+
+--Resta-te ainda minha mãi, minha Rosinha--respondia D. Julia--que estou
+certa nunca te ha-de desamparar.
+
+Rosa terminava esta penosa conversação abraçando D. Julia e procurando
+distrahil-a por todos os meios possiveis.
+
+O que a dedicação mais sincera e real póde suggerir de mais bello, tudo
+Rosa executava, recebendo, por galardão, ou recompensa a mais grata, um
+terno sorriso de D. Julia, ou um agradecimento da viscondessa, e para os
+merecer faria o impossivel se necessario fosse.
+
+
+XII.
+
+D. Julia apparentava exteriormente um socego d'espirito, que
+interiormente não sentia, por que receiava muito a chegada do outono,
+época, que os medicos tinham marcado, a mais longa a que poderia chegar.
+A anciedade, pois, que todos soffriam pela aproximação d'esse termo
+fatal, era geral.
+
+Chegou o outono. Por um d'estes phenomenos, que a tisica muitas vezes
+apresenta, a molestia não offereceu n'esta estação alteração alguma.
+
+A esperança, de que D. Julia ainda poderia vencer a fatal doença,
+começou a penetrar em todos os corações, e até no da propria enferma.
+Rosa chegou a dizer á viscondessa, que tinha uma convicção firme de que
+D. Julia não morreria, por que Deus Nosso Senhor era bom e não a havia
+de privar da sua protectora.
+
+A viscondessa, que até ahi estava convencidissima, de que sua filha não
+passaria além do termo marcado pelos medicos, vendo-o passar sem que a
+sua fatal predicção se realisasse, começou a crêr que se tinham
+enganado, e que D. Julia ainda lograria saude.
+
+Houve portanto grande alegria em casa da viscondessa. Todos os criados,
+que não amavam só, mas que veneravam D. Julia, por que era sempre boa e
+affectuosa para elles, crendo que a sua joven ama, não tendo morrido na
+época marcada, estava salva, pediram unanimemente para a felicitarem;
+tal foi a alegria e contentamento, de que se apoderaram com esta
+esperança e crença.
+
+Estas demonstrações respeitosas de sympathia e amisade, que os criados
+lhe deram, penhoraram e commoveram muito D. Julia. A todos agradeceu com
+reconhecimento esta nova prova d'affecto.
+
+Porém, de todas as felicitações, a da sua discipula e de sua avó, foi a
+que mais a impressionou.
+
+Quando Rosa, conduzindo sua cega avó, se ajoelhou com ella junto da cama
+de D. Julia, e lhe exprimiu, com candura e ingenuidade, a alegria e
+prazer, que sentiam pelas suas melhoras, e os votos, que faziam a Deus,
+para que o seu restabelecimento fosse real e breve, não pôde soffrear a
+sua commoção, e as lagrimas correram-lhe em fio pelas faces, agradecendo
+a Deus o prazer que tinha gosado com a felicitação que acabava de lhe
+ser dirigida.
+
+Passou-se o inverno, sem que o estado de saude de D. Julia soffresse
+alteração sensivel.
+
+Com a chegada da primavera D. Julia recomeçou os seus passeios pelos
+campos e pinheiraes visinhos, na companhia da sua inseparavel Rosa, a
+que algumas vezes se aggregava tambem a viscondessa.
+
+Na quaresma seguinte Rosa recebeu pela segunda vez o sacramento da
+communhão, e pouco tempo depois, D. Julia, querendo que a sua protegida
+progredisse nos seus estudos, pediu a sua mãi que lhe escolhesse uma
+professora.
+
+A viscondessa annuiu immediatamente ao pedido de sua filha.
+
+Pouco tempo depois entrou para casa da viscondessa, sob recommendação e
+abono do abbade de S. Cosme, uma joven senhora, a quem ha pouco acabava
+de ser concedido o titulo de capacidade.
+
+Rosa esforçava-se por todos os meios possiveis para corresponder
+dignamente aos beneficios, que, D. Julia e sua mãi, lhe estavam
+constantemente prodigalisando; procurando sempre não dar o mais leve
+desgosto ás suas protectoras; comtudo, é preciso dizer que Rosa não era
+perfeita. A sua vivacidade natural levava-a muitas vezes a
+impacientar-se, e o seu ainda pouco peso ou juizo a commetter algumas
+faltas nos seus deveres; mas reconhecia com tanta facilidade os seus
+erros, e mostrava-se tão arrependida e desejosa de os emendar, com tanto
+afinco e perseverança, que era impossivel tratal-a com rigor por muito
+tempo.
+
+Rosa dava as suas lições, umas vezes no quarto de D. Julia, quando o seu
+estado de saude o permittia; outras vezes no da viscondessa, que sentia
+um verdadeiro e sincero prazer em observar os progressos da predilecta e
+querida de sua filha.
+
+D. Maria d'Almeida, assim se chamava a professora, correspondeu
+dignamente á confiança, que a viscondessa n'ella tinha depositado,
+confiando-lhe a instrucção da sua pupilla.
+
+O progresso e desenvolvimento, que Rosa sob a sua direcção experimentou,
+foi grande, dando já signaes de que em breve a discipula se tornaria uma
+excellente professora.
+
+Rosa, assim que as suas obrigações e deveres estavam terminados,
+dedicava-se exclusivamente a D. Julia, e sua avó. Esta, desde que viera
+viver para casa da viscondessa do Candal, andava alegre e folgazã, e
+ainda julgava estar sonhando, tal era a placidez e amenidade do seu
+viver.
+
+Tinha já decorrido parte do anno; o outono estava quasi findo, e o
+estado de saude de D. Julia não denunciava signal algum de peoramento; a
+molestia, porém, que até então estivera encubada, reappareceu com grande
+violencia, e em oito dias as crises succederam-se tão proximas umas das
+outras, que pozeram a enferma em estado de se não conceber esperança
+alguma de a salvar.
+
+A illusão, que até ahi existira em todos, desappareceu completamente: já
+não esperavam senão o golpe final... Rosa, nem um só momento desamparava
+a sua querida protectora, e juntamente com a viscondessa, cuidava e
+tratava de D. Julia; não consentiam que mais ninguem lhe prestasse o
+mais insignificante serviço, chegando até a ter zelos uma da outra.
+
+Tanta dedicação e amisade teriam feito com que Deus revogasse a fatal
+sentença dada a D. Julia, se o Creador, na sua alta sabedoria, não
+tivesse resolvido chamar á sua presença, a receber o premio das suas
+virtudes, aquelle anjo de bondade e resignação.
+
+D. Julia, já moribunda e quasi expirante, pediu a sua mãi, como ultima
+graça que lhe fazia, que não abandonasse Rosinha, a sua querida
+discipula e amiga; que se não affligisse, nem desanimasse, porque em
+Rosa lhe deixava, estava certa d'isso, uma filha obediente e dedicada,
+que havia de substituir no seu coração o lugar que ella deixava vasio, e
+a Rosa recommendou-lhe que amasse sempre muito sua mãi, por que n'ella
+encontraria um sincero apoio, e uma terna e carinhosa amiga.
+
+Apenas D. Julia proferiu estas palavras, a hora fatal tinha soado;
+abraçou sua mãi, e Rosinha e, pronunciando os nomes de Rosa... e minha
+mãi... expirou, voando a sua candida alma á presença de Deus a receber a
+glorificação de suas virtudes.
+
+Assim terminou D. Julia a sua existencia, que, se tinha sido breve para
+o mundo, fôra longa pelas boas obras, que sempre praticára, e pela
+pureza em que sempre vivera.
+
+
+XIII.
+
+Já decorreram seis annos depois das scenas descriptas no capitulo
+antecedente.
+
+Não deixaremos, porém, a nossa muito conhecida casa, perto de S. Cosme,
+pertencente á viscondessa do Candal, por que é no caminho, que a ella
+conduz, que tem lugar o que passamos a contar.
+
+Uma senhora ainda joven, e outra já de mais idade caminham em silencio,
+e commovidas.
+
+A mais idosa é a nossa muito conhecida viscondessa do Candal.
+
+O pesar da morte da sua querida filha Julia desfigurou-a muito. O rosto
+tem-no emmagrecido, e sulcado de profundas rugas, e os cabellos
+embranquecidos antes do tempo.
+
+A sua companheira é uma joven que figura ter dezesete para dezoito
+annos, d'apparencia ingenua e modesta; é a nossa Rosa, a pequena dos
+ramos e cestinhos.
+
+A viscondessa caminha apoiada no braço da sua companheira. Depois
+d'alguma hesitação Rosa decidiu-se a dirigir-lhe a palavra.
+
+--Receio, minha querida senhora--disse Rosa respeitosamente--que esta
+visita vos cause uma grande commoção e vos prejudique a saude. Por que a
+não deixaes para quando estiverdes mais restabelecida?
+
+--Não, Rosa, não. Ha oito dias, que não vim visitar a campa onde jaz a
+minha Julia, e oito dias já é um espaço muito longo. Sinto-me hoje
+melhor, não despresarei portanto esta occasião que se me offerece, por
+que, quem sabe se recahirei?
+
+--Não penseis em tal, senhora viscondessa. Creio que ainda haveis de ter
+muitos annos de vida; tenho fé, que Deus vos não roubará á minha ternura
+e reconhecimento.
+
+--Se as orações d'um anjo, Rosa, podessem deter a morte, conheço que as
+tuas me preservariam d'ella. Mas, ai de mim, a morte da minha sempre
+lembrada Julia despedaçou-me o coração. Não estou eu só n'este mundo?
+Bertha não me abandonou logo que casou? Que faço então aqui n'este ermo,
+a que chamam mundo?
+
+--Ah! senhora, esqueceis então a pobre Rosa, que vos estima e ama, e que
+vos é tão dedicada como se fôra vossa filha?
+
+Estas palavras, pronunciadas com um accento de submissão, penetraram até
+o imo do coração da viscondessa: sensibilisaram-na tanto, que abrindo os
+braços recebeu n'elles Rosa banhada em lagrimas.
+
+--Sou uma ingrata, Rosa, bem o reconheço,--disse a viscondessa cingindo
+Rosa ao coração. Recebo com indifferentismo os teus cuidados e carinhos,
+e a tua inexcedivel dedicação. Perdôa-me, minha filha, minha querida
+filha. Conheceste Julia, e melhor que outra qualquer sabes quanto era
+merecedora da minha ternura e amisade, e quanto é digna de ser
+pranteada. Mas Julia, antes de morrer, deixou-te na minha companhia,
+para me servires de consolação e allivio na minha dôr. Abraça-me Rosa,
+minha filha querida.
+
+Rosa, por unica resposta, abraçou com ternura a sua bemfeitora.
+
+As lagrimas, que lhe cobriam as faces, diziam bem alto e eloquentemente,
+o que a commoção lhe embargava nos labios.
+
+Ainda caminharam por mais algum tempo e chegaram ao cemiterio.
+
+A viscondessa do Candal, como tributo á memoria de sua filha,
+mandára-lhe levantar um lindo e rico mausoléo de marmore branco, no qual
+ella tambem queria ser encerrada á sua morte. Em volta das grades
+viam-se alegretes em que haviam violetas, geranios e rosas amarellas,
+que Rosa cultivava e cuidava com muito esmero, como recordação das
+flôres com que enfeitára o cestinho, que fôra causa da intima união, que
+se estabelecera entre ella e D. Julia.
+
+A viscondessa e sua filha adoptiva oraram por muito tempo sobre a campa
+d'aquella, que tanto tinham estremecido em vida, e que tanto choravam na
+morte.
+
+Rosa, depois de ter examinado e regado todos os alegretes e pés de
+flôres, um por um, para que os insectos, ou a seccura os não
+estiolassem, dirigiu-se á viscondessa.
+
+--Deixo-vos, senhora--lhe disse ella--por um instante. Vou rezar junto
+da campa de minha avó.
+
+--Tambem quero acompanhar-te--replicou a viscondessa.
+
+Não muito distante do mausoléo de D. Julia se elevava uma cruz simples.
+Era ahi que jazia, havia dous annos, a pobre cega. Terminára os seus
+dias socegadamente, bemdizendo a ternura de sua neta, e a caridade
+affectuosa da sua bemfeitora.
+
+Devido ainda ao zelo de Rosa a campa da pobre cega, adornada com
+diversas flôres, semelhava um jardimsinho.
+
+Rosa ajoelhou-se, e depois de ter rezado com fervor e devoção por algum
+tempo, levantou-se, e dando o braço á viscondessa retiraram-se, fazendo
+ainda uma ultima visita ao tumulo de D. Julia.
+
+Quando se recolheram, Rosa encontrou uma carta da sua antiga professora
+D. Maria d'Almeida, na qual lhe participava, que d'ahi por dous mezes se
+havia de proceder aos exames d'habilitação para os titulos de
+capacidade, por isso, se ainda estava decidida a propôr-se a exame, que
+enviasse os documentos necessarios ao commissario dos estudos.
+
+Rosa apresentou esta carta á viscondessa.
+
+--Sempre estás decidida a propôr-te a exame?--lhe disse ella.
+
+--Sim, minha senhora. É o meu mais fervente e afanoso desejo. Quero,
+senhora, que a instrucção e saber, que vos devo, e a vossa querida e
+chorada filha, aproveite ás crianças, que a pobresa retem na ignorancia
+e na rudeza. Se eu poder ser util, ainda que seja a uma só d'entre
+ellas, como, senhora, me reputarei feliz e bem paga do meu trabalho!
+
+--Tinha a esperança de te conservar sempre na minha companhia---replicou
+a viscondessa.--Occuparias para sempre o lugar do anjo, que Deus me
+levou, da minha Julia. Não queres, Rosa, ser minha filha?
+
+--Ah! senhora, quero sim, ser vossa filha; isso ainda vai além da minha
+ambição. Mas recordo-me que era uma pobre rustica, e que só aos vossos
+beneficios devo a minha instrucção, e a cultura da minha intelligencia.
+Quero, senhora, dar de barato, e ter a vangloria de dizer que os vossos
+cuidados não foram perdidos, mas com isso não me devo tornar vaidosa,
+por que faltaria assim aos meus deveres. Serei sempre para vós uma filha
+adoptiva, carinhosa, humilde e terna, e que achareis sempre ao vosso
+lado, esforçando-se por pagar a sua divida de gratidão e reconhecimento:
+Recebendo e aceitando a vossa affeição e amisade, para mim preciosa e
+apreciavel, não me devo esquecer da classe onde nasci. O meu lugar é
+mais humilde; mas como elle parece bello e grandioso ao meu coração,
+quando me recordo do bem, que posso fazer a essas infelizes crianças,
+que vivem na bruteza, ensinando-lhe o que sei e que é obra vossa! Ha
+muito que concebi este meu projecto, e que o declarei a vossa filha: «Ás
+pobres rapariguinhas das aldéas--lhe disse eu--farei o mesmo que a snr.ª
+D. Julia me fez. Ensinar-lhes-hei a serem felizes com a sorte, que Deus
+lhes destinou n'este mundo; cultivarei o seu coração e o seu espirito, e
+por unica recompensa não quererei mais do que ouvil-as bem dizer os
+nomes da exc.ma viscondessa do Candal e de sua filha.»
+
+--Rosa, minha querida Rosa--disse a viscondessa abraçando-a, e com os
+olhos rasos de lagrimas,--que Deus te pague a felicidade, e prazer, que
+me fazes nascer no coração com as tuas palavras.
+
+........................................................................
+........................................................................
+........................................................................
+
+Dous mezes depois, a nossa, hoje, D. Rosa de Jesus e Sousa comparecia
+perante o jury nomeado para proceder ao exame das concorrentes ao
+professorado. O titulo de capacidade, em grau superior, foi-lhe
+concedido por unanimidade e com distincção.
+
+
+XIV.
+
+Dous annos se passaram já, depois que foi conferido a D. Rosa de Jesus e
+Sousa o seu titulo de capacidade.
+
+Estamos em fins d'Outubro, n'uma casa caiada de branco, que se encontra
+ao entrar na freguezia de S. Cosme, do lado de S. Pedro da Cova. Na
+frente ha um pateo largo e espaçoso. Sobre o muro pendem os ramos
+verdejantes de dous chorões. Nas trazeiras da casa ha um pequeno jardim,
+muito bem tratado, com as ruas areadas com saibro, e que termina por um
+caramanchãosinho, que, pelo bem cerrado que está, indica que no verão
+deve alli haver uma frescura agradavel, auxiliada pela corrente d'uma
+levada, que corre proximo. Na sala que fica ao nivel do jardim ouve-se
+um murmurio confuso. Entremos, para examinar a que elle é devido. Que
+vemos? Grupos de lavradeirinhas, ao todo umas trinta, pouco mais ou
+menos, vestidas de branco, e tendo todas na mão um raminho de flôres do
+campo, com um laço de fita. Ao fundo da sala vê-se uma rica imagem de
+Nossa Senhora da Conceição, collocada sobre um altar, bem adornado com
+castiçaes de prata, velas de cera e jarras com flôres.
+
+N'um dos lados da sala ha quatro cadeiras de braços; n'uma d'ellas está
+sentada a viscondessa do Candal, a quem D. Rosa, de pé, junto d'ella,
+está dizendo os nomes das suas discipulas.
+
+A viscondessa passeia a vista por todas ellas, e conhece-se-lhe na
+expressão do rosto, que aquelle espectaculo a regosija e encanta.
+
+O modo, porque todas dirigem as vistas para a porta e pelas janellas,
+indica que se espera alguem.
+
+O abbade da freguezia e o administrador do concelho entram n'este
+momento pelo portão.
+
+Um sorriso alegre se vê deslisar em todos os rostos. Eram as pessoas por
+quem se esperava.
+
+A viscondessa e a sua pupilla vieram recebel-os á porta, e
+conduziram-nos ás cadeiras que lhe estavam destinadas.
+
+As crianças tomaram os seus lugares, e restabelecido o silencio, o
+abbade da freguezia tomou a palavra, e fez o seguinte discurso:
+
+«Sinto, minhas meninas, um prazer immenso por vos vêr aqui reunidas para
+a celebração do primeiro anniversario da installação d'esta escóla,
+devida á muita philantropia e caridade christã da exc.ma viscondessa do
+Candal, e á dedicação exemplar da vossa digna professora a snr.ª D. Rosa
+de Jesus e Sousa. Julgo desnecessario o rememorar-vos, que um tal
+sacrificio merece um eterno reconhecimento, por que entendo que entre
+vós, minhas filhas, não ha ingratas. Vós respeitaes e veneraes a exc.ma
+viscondessa, e amaes com um verdadeiro amor a vossa professora, não é
+assim? É, assim o creio. Mas ha ainda uma pessoa, para quem deveis ter
+uma saudosa recordação, e que tambem deveis encommendar a Deus nas
+vossas orações. Prestai-me attenção, que vos vou dizer quem é essa
+pessoa, cuja recordação vos deve ser grata. Ha pouco mais ou menos doze
+annos, que uma pobre lavradeirinha ganhava a sua vida fazendo cestinhos
+de juncos, e ramos de flôres silvestres. Uma joven e nobre senhora, que
+reconheceu n'ella amabilidade, modestia e humildade, sympathisou com
+ella, e encarregou-se de a educar e instruir. Como a sua bemfeitora a
+achou sempre digna dos seus beneficios, encarregou-se tambem da sua
+posição futura. Essa joven senhora, de que vos fallo, é a exc.ma snr.ª
+D. Julia, filha da exc.ma viscondessa do Candal, e essa lavradeirinha, a
+quem ella dispensou os seus carinhos e a sua affeição, é a vossa douta
+professora. Ha já alguns annos, que a alma da exc.ma snr.ª D. Julia voou
+á presença do Deus eterno a receber o premio das suas virtudes e das
+boas obras, que praticára n'este mundo; uma das quaes ainda existe, que
+foi o deixar-vos a vossa professora e amiga.
+
+«Mostrai-vos, meninas, sempre merecedoras dos beneficios, que vos fazem,
+porque isso é o unico desejo das vossas bemfeitoras e a unica
+recompensa, que recebem da sua dedicação, que estou muito convencido
+sempre fareis por merecer.
+
+«Não quero, porém, retardar por mais tempo o momento de receberem o
+premio e galardão, que merecem pela sua applicação ao estudo e amor ao
+trabalho, áquellas que d'isso se tornaram dignas; e ás que d'esta vez
+não são galardoadas resta-lhes a esperança e o meio de, pela imitação
+das suas condiscipulas, se tornarem dignas de o merecerem para o anno
+futuro.
+
+«Vamos por tanto proceder á distribuição dos premios.»
+
+Um sussurro d'alegria acolheu as ultimas palavras do digno sacerdote.
+
+A conferencia dos premios foi esplendida.
+
+Os premios consistiam em livros religiosos e d'instrucção, que tinham
+sido cuidadosamente escolhidos pela viscondessa, e sua filha adoptiva,
+todos ricamente encadernados. Era interessante e bello vêr a alegria,
+que se deslisava no rosto das que tinham sido contempladas na
+distribuição.
+
+Terminada a conferencia dos premios teve lugar debaixo do caramanchão um
+bem servido _lunch_.
+
+--Como é magnifico o espectaculo, que apresentam estas crianças, alegres
+e satisfeitas--disse a viscondessa--Recordar-me-hei sempre d'este dia,
+como o mais grato e feliz da minha vida. Tu, minha querida Rosa,
+attrahes as bençãos do céo sobre nós, e sobre a memoria da minha
+querida, e chorada Julia.
+
+--Ah! senhora,--disse Rosa com os olhos rasos de lagrimas--que a vossa
+prophecia se realise, e a minha mais cara aspiração ficará satisfeita.
+
+..........................................................................
+..........................................................................
+
+O desejo de Rosa realisou-se. A escóla está cada vez mais florescente, e
+a freguezia ufana-se pela possuir. Todos os moradores do lugar ainda
+hoje bemdizem os nomes da viscondessa do Candal, de sua filha e de D.
+Rosa, modêlo raro d'um coração verdadeiramente grato e reconhecido aos
+beneficios que recebera.
+
+FIM.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Annos de Prosa; A Gratido;
+O Arrependimento by Camilo Castelo Branco
+
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+
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
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+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+where we have not received written confirmation of compliance. To
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+particular state visit http://pglaf.org
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
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+
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+works.
+
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+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
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+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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Binary files differ
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@@ -0,0 +1,10346 @@
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+"http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd">
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+"HTML Tidy for Linux/x86 (vers 1 September 2005), see www.w3.org">
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+The Project Gutenberg EBook of Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento,
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: July 22, 2008 [EBook #26103]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ASCII
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ANNOS DE PROSA ***
+
+
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
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+
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+
+<div class="capa">
+
+<p style="font-size: 2.5em"><a href="#pag_7">ANNOS DE PROSA</a></p>
+
+<p style="font-size: 1em">ROMANCE</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em">CAMILLO CASTELLO-BRANCO</p>
+
+<hr style="width: 25%;">
+
+<p style="font-size: 2em"><a href="#pag_219">A
+GRATID&Atilde;O</a></p>
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+<p style="font-size: 0.8em">ROMANCE</p>
+
+<hr style="width: 25%;">
+
+<p style="font-size: 2em"><a href="#pag_201">O
+ARREPENDIMENTO</a></p>
+
+<p style="font-size: 0.8em">ROMANCE</p>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<hr style="width: 50%;">
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<p style="font-size: 0.8em">PORTO.<br>
+EDITOR, ANTONIO JOS&Eacute; DA SILVA TEIXEIRA.<br>
+Rua da Cancella Velha, 62<br>
+1863</p>
+</div>
+<div class="centrado"><br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<p style="font-size: 0.8em">TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOS&Eacute; DA
+SILVA TEIXEIRA,<br>
+Cancella Velha, 62<br>
+1863</p>
+</div>
+
+<hr>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<h1>ANNOS DE PROSA.</h1>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<hr>
+<div class="corpo"><span class="pagenum"><a name="pag_7" id=
+"pag_7">[7]</a></span>
+
+<h1>ANNOS DE PROSA.</h1>
+
+<h2>DISCURSO PROEMIAL.</h2>
+
+<p>Altissima &eacute; a miss&atilde;o do escriptor, e a do
+romancista principalmente. O mestre Ignacio da cartilha velha,
+amoldurada &aacute;s necessidades do seculo, &eacute; o romancista.
+Mal hajam os sacerdotes das letras derrancadas que vendem
+pe&ccedil;onha em lindos crystaes, e desfloram as almas em
+luxuriante florescencia da sua primavera. O mau romance tem
+afistulado as entranhas d'este paiz. N&atilde;o ha fibra direita no
+cora&ccedil;&atilde;o da mulher que bebeu a morte, e&mdash;peior
+que a morte&mdash;algumas dezenas de gallicismos no que por ahi se
+escreve e copia. O anjo da innocencia foge de certos livros, como
+os editores de certos authores. A candura virginal de uma menina de
+quinze annos &eacute; a cousa mais equivoca d'este mundo, se a
+menina leu cousa em que os pedagogos do cora&ccedil;&atilde;o a
+ensinaram a conhecer-se, antes que a experiencia a doutrinasse.</p>
+
+<p>Para cumulo de infortunio, Portugal &eacute; um paiz onde se
+est&aacute; lendo muito.</p>
+
+<p>Acontece aos estomagos famintos, quando se lhes depara
+<span class="pagenum"><a name="pag_8" id="pag_8">[8]</a></span>
+alimento bom ou mau, assimilarem-n'o com tamanha
+sofreguid&atilde;o, que o encruamento do b&ocirc;lo, e o marasmo
+s&atilde;o inevitaveis. Assim e por igual theor, quando os Lucullos
+e Apicios das letras exp&otilde;em &aacute; voracidade publica as
+suas iguarias estragadas, a fome de aprender a vida nos romances
+locupleta-se com tamanha intemperan&ccedil;a, que o resultado e as
+dispeps&iacute;as espirituaes, tormento de angustias vomitivas, que
+fazem descer o cora&ccedil;&atilde;o ao lugar do estomago, e subir
+o estomago ao lugar do cora&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Eu tenho assistido a esta desloca&ccedil;&atilde;o de visceras
+com lagrimas nos olhos, enxutos para tudo o mais. Muitas vezes
+tenho perguntado &aacute;s velhas se isto assim era no tempo
+d'ellas. Faz d&oacute; v&ecirc;r a consterna&ccedil;&atilde;o com
+que algumas expedem um gemido, unisono com o assobio da pitada!
+Compunge v&ecirc;r rolar a lagrima pregui&ccedil;osa do olho
+desvidrado d'outra, que se recorda da honestidade com que foi amada
+pelo seu quinto amante!</p>
+
+<p>Ha cincoenta annos que as senhoras n&atilde;o liam romances, por
+uma raz&atilde;o cujo descobrimento me custou longas
+vigilias:&mdash;n&atilde;o sabiam l&ecirc;r. Algumas, rebeldes
+&aacute; vontade paternal, conseguiam soletrar e escrever &aacute;
+tia uma carta em dia de annos, copiada do <i>Secretario
+portuguez</i> de Candido Lusitano. Os paes aceitavam com
+repugnancia aquelle abuso de intelligencia, e castigavam a filha,
+for&ccedil;ando-a a um trabalho litterario semanal: escrever em
+cada segunda feira o rol da roupa. Este systema penal tinha
+s&oacute; a vantagem de tirar ao vicio os enfeites da
+intelligencia, reduzindo-o &aacute; essencia bruta de sua nudez
+primitiva. J&aacute; n&atilde;o era pouco para exemplo e
+edifica&ccedil;&atilde;o das almas. O melhor moralista ser&aacute;
+aquelle que despir o delicto do cora&ccedil;&atilde;o das galas que
+lhe veste o desejo, e o cobrir de farrapos repulsivos.</p>
+
+<p>Por esses tempos, e nos dez annos sequentes, os propagandistas
+da corrup&ccedil;&atilde;o tentaram exercitar o seu maleficio,
+vertendo para pessima linguagem portugueza <span class=
+"pagenum"><a name="pag_9" id="pag_9">[9]</a></span> novellas
+francezas, que transpozeram as fronteiras no couce da bagagem do
+Junot.</p>
+
+<p>Em 1814, a immoralidade, at&eacute; esse anno sopeada pela
+impertinente virtude das novellas, taes como <i>A virtude
+recompensada</i> e o <i>Escravo das paix&otilde;es</i>, quebrou as
+ferropeas, e despejou do rega&ccedil;o dissoluto a vers&atilde;o de
+<i>Tom Jones</i>, o <i>Soph&aacute;</i>, o <i>Candido</i>, e
+quejandas fa&uacute;las incendiarias, que pegariam nos
+cora&ccedil;&otilde;es, se a manteiga e o paio das tendas
+n&atilde;o esfriassem a for&ccedil;a comburente d'essa droga, que
+acirrava os paladares anthrop&oacute;phagos d'aquelle festim de
+1793.</p>
+
+<p>Bemdita e louvada seja a ignorancia! Os romances francezes,
+at&eacute; 1830, encontraram as almas portuguezas hermeticamente
+calafetadas. Ate esse anno infausto, a mulher era o anjo caseiro, a
+alma da despensa, a providencia da piuga, e sobre tudo, a femea do
+homem, qual Jehovah a fizera d'uma costella do mesmo.</p>
+
+<p>O sal&atilde;o era um como trintario cerrado, onde, a
+espa&ccedil;os, uma gosmenta matrona espirrava, e a sociedade, a
+cabecear de somno, surgia estremunhada, dizendo: <i>Dominus
+tecum</i>. A menina casadeira n&atilde;o se erguia de ao p&eacute;
+da m&atilde;i. O noivo mirava-a de longe em fellina beatitude; e,
+no auge da sua casquilha audacia, piscava-lhe a furto o olho, onde
+reslumbrava a paix&atilde;o.</p>
+
+<p>N&atilde;o havia ent&atilde;o d'estes homens mulherengos, que
+alambicam a parlenda assucarada, coando por ouvidos incautos o
+veneno do estilo, que &eacute; o mais corrosivo de quantos ha na
+toxicologia do amor. A mulher actual &eacute; quasi sempre victima
+da rhetorica requentada do romance, que esteril peralvilho lhe
+encampa como cousa de sua alma. Algumas conhe&ccedil;o eu que
+resvalaram ao abysmo da perdi&ccedil;&atilde;o pela rampa de um
+adverbio euphonicamente intruso n'um periodo arredondado. Este
+sortilegio da linguagem, que enfeiti&ccedil;a e d&aacute; quebranto
+&aacute;s mulheres, &eacute; apanhado no romance. O
+cora&ccedil;&atilde;o de certos individuos acha-se, muitas vezes, a
+paginas tantas de tal novella. <span class="pagenum"><a name=
+"pag_10" id="pag_10">[10]</a></span>Sem figurinos e romances,
+n&atilde;o haveria corpos apresentaveis nem espiritos
+insinuantes.</p>
+
+<p>Muita gente se espanta das gloriosas aventuras de alguns
+sujeitos pyramidalmente tolos. Eu n&atilde;o. Tal ha que se vos
+afigura mazorro d'alma, e, n&atilde;o obstante, ao lado de
+mulheres, dispara descargas de phrases amorudas que &eacute; um
+pasmar. Asneira, dita em nome do cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o
+ha uma s&oacute; que n&atilde;o seja laureada. Cada Petrarcha lorpa
+tem, a final, o seu capitolio.</p>
+
+<p>A mulher, por via de regra, &eacute; de seu natural t&atilde;o
+boa, sensivel e generosa, que chega a recompensar a pertinacia do
+homem que, primeiro, a nauseou: o segredo d'este paradoxo
+est&aacute; na influencia contagiosa da tolice. A mulher que fez
+chorar o tolo, e viu rebentar lagrimas de uma cabe&ccedil;a de
+granito, cuida que fez o milagre de Moys&eacute;s na rocha de
+Horeb. Alliciada pela serpente da vaidade, succumbe como Eva.</p>
+
+<p>Que mudan&ccedil;as!</p>
+
+<p>D'antes o caixeiro principiava sempre a carta de namoro por:
+<i>Meu amado bem!</i> Agora j&aacute; diz: <i>Anjo!</i> ou
+<i>Seraphim!</i> Era d'antes a phrase sacramental do exordio:
+<i>V&ecirc;r-te e amar-te foi obra de um momento.</i> Agora
+n&atilde;o &eacute; raro encontrar d'estes arrojos: <i>Amar e
+morrer &eacute; meu destino!</i></p>
+
+<p>E, depois, o maleficio do romance n&atilde;o est&aacute;
+s&oacute;mente no plagiato irrisorio; o peior &eacute; quando as
+imagina&ccedil;&otilde;es frivolas ou compassivas se entalham os
+lances da vida phantasiosa da novella, e cr&ecirc;em que a norma
+geral do viver &eacute; essa.</p>
+
+<p>Em quanto a mulher estuda s&oacute;mente a phrase que applica,
+bem ou mal, quando a enlouquece a vaidade de parecer o que
+n&atilde;o &eacute;, bem vai. D&aacute;-se um exemplo: A apaixonada
+de um amigo meu, ao receb&ecirc;l-o, pela primeira vez, em sua
+casa, no patamar da escada, antes de deixar-se beijar a m&atilde;o,
+estendeu o bra&ccedil;o direito em magestosa attitude, deu &aacute;
+frente a regia altivez de uma <span class="pagenum"><a name=
+"pag_11" id="pag_11">[11]</a></span> Phedra de aguas-furtadas, e
+disse em tom cavo e solemne: <i>Juraes levar-me &aacute;s aras?</i>
+O meu amigo, que balbuciava um prefacio de longo estudo, soltou um
+frouxo de insolente riso, e desceu as escadas, por n&atilde;o poder
+com o espectaculo da dama corrida do insulto. Eis-aqui uma que os
+romances de Arlincourt salvaram; quantas, por&eacute;m, perdidas
+por guardarem as phrases ridiculas para o final?...</p>
+
+<p>Grande mal &eacute; o identificar-se o espirito &aacute;s
+visualidades do romance. Quando a leitora se ri das crendices da
+sua infancia e dos absurdos principios que lhe apoucaram o imaginar
+e o voar do espirito, vem-lhe os enfados, o escutar as mentiras do
+cora&ccedil;&atilde;o que se emancipa, o cr&ecirc;r que a vida
+passada foi apenas um vegetar do vulgo, e que o viver da alma
+assim, ser&aacute; como o do arbusto bravio que d&aacute;
+fl&ocirc;res sem aroma, e fructos sem sabor.</p>
+
+<p>Seja, outra vez, bemdita e louvada a ignorancia de nossas
+m&atilde;es, e nossas irm&atilde;s, e nossas esposas!</p>
+
+<p>A vida caseira, esta deliciosa monotonia, que a poucos &eacute;
+j&aacute; saborosa no viver intimo, requer muita estupidez, muito
+somno a toda a hora, um estomago exigente e forte, muita
+digest&atilde;o soporosa de substancias pesadas.</p>
+
+<p>Esta bemaventuran&ccedil;a ha-de restaural-a a ignorancia
+supina, n&atilde;o h&atilde;o-de ser as palavrosas theorias de
+Michelet &aacute;cerca do <i>amor</i> e da <i>mulher</i>. Comecem
+os paes de familias por circumvalarem suas casas de um
+cord&atilde;o sanitario contra a peste do romance, que n&atilde;o
+se abonar com a promettida pudicicia d'este, e de outros com que o
+author, cora&ccedil;&atilde;o aberto a todas as chimeras, e de
+entranhas lavadas, tem querido enxertar no tronco carcomido da
+humanidade toda a casta de virtude.</p>
+
+<p>Vou lembrar um alvitre, cuja adop&ccedil;&atilde;o poderia ser
+momentosa na regenera&ccedil;&atilde;o dos costumes.</p>
+
+<p>As reliquias das velhas virtudes portuguezas, se as ha, acham-se
+nos velhos, que beberam ainda as escorralhas <span class=
+"pagenum"><a name="pag_12" id="pag_12">[12]</a></span> dos seios
+puros do seculo passado. O Porto, de preferencia, gra&ccedil;as
+&aacute; for&ccedil;a refractaria da sua organisa&ccedil;&atilde;o,
+encerra boas quatro duzias de archontes dignos da Grecia antiga.
+F&ocirc;ra facil eleger de entre estes&mdash;(abstenho-me de os
+nomear, porque a modestia n'elles d&oacute;e de insoffrida como
+ulcera em lombo de muar, e n&atilde;o &eacute; raro responderem ao
+elogio com o couce)&mdash;eleger d'entre estes, digo, uma
+corpora&ccedil;&atilde;o censoria, encarregada de examinar os
+livros, que giram no mercado, e referendar os que a juventude
+feminil podesse l&ecirc;r sem deterioramento da innocencia. D'esta
+arte, os anci&atilde;os n&atilde;o restringiriam a sua egoista
+virtude &aacute; miss&atilde;o balda de condemnarem o vicio da
+mocidade inexperiente. O exemplo d&atilde;o-no optimo; a doutrina
+&eacute; a que n&oacute;s sabemos; mas n&atilde;o os devemos
+desquitar de se constituirem entulhos contra a torrente do vicio,
+desviando-a de levar ao rega&ccedil;o das futuras esposas e
+m&atilde;es o romance pe&ccedil;onhoso.</p>
+
+<p>Pelo que, d'aqui j&aacute; sotoponho este livro &aacute;
+censura, e assim dou publico e voluntario testemunho de quanto
+venero as c&atilde;s e as virtudes. Fadario triste! A minha sina
+capricha, at&eacute; hoje, em fazer-me malvisto d'esses que eu mais
+quizera bemquistar, ainda &aacute; custa de um panegyrico &aacute;
+corrup&ccedil;&atilde;o senil dos raros que desgarram da trilha
+austera por onde a virtude os vai guiando ao c&eacute;o, no qual os
+proprios anjos se espantam das colonias que v&atilde;o d'aqui.</p>
+<br>
+
+<p>Porto&mdash;1858.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_13" id=
+"pag_13">[13]</a></span></p>
+
+<h2>PRIMEIRA PARTE.<br>
+I.</h2>
+
+<p>&laquo;Em quanto ao fogo d'aquelle meu phantasiar de genio,
+fadado para desgra&ccedil;as, encendrei as imagens das formosas
+appari&ccedil;&otilde;es da terra, as crea&ccedil;&otilde;es do meu
+espirito eram magnificas e brilhantes como as myriadas do
+c&eacute;o estrellado.</p>
+
+<p>&laquo;Eu tinha horas de t&atilde;o d&ocirc;ce scismar! O ideal
+de Fausto, a melancolia do poeta d'Elvira, os coriscos de Byron, as
+satyras mordentes do Diabo-Mundo, as facecias elegantes de
+Fielding, e as vaporosas subtilesas de Senancourt! Ai! havia de
+todas essas fei&ccedil;&otilde;es do genio um tra&ccedil;o de cada
+uma, no meu espirito.</p>
+
+<p>&laquo;Mas, n'aquelle dia, &aacute; entrada do meu caminho,
+n'aquella noite calmosa, quando o sangue estuava nas arterias,
+<span class="pagenum"><a name="pag_14" id=
+"pag_14">[14]</a></span>quando as azas do cora&ccedil;&atilde;o,
+como as da aguia ferida, baixavam &aacute; terra, aquella
+mulher...</p>
+
+<p>&laquo;A mulher fatidica! O despertar do sonho de dezoito annos.
+A Beatriz, a Laura, a Leonor, vingando-se na essencia d'uma, porque
+eu ous&aacute;ra cr&ecirc;r e dizer que mentira Tasso, e mentira
+Petrarcha, e mentira Dante.</p>
+
+<p>&laquo;Que mulher! Bella? Ai! n&atilde;o, n&atilde;o &eacute;
+essa a palavra. Bella como a filha do anjo rebelde, a quem Deus
+vingativo dera o dom de crear a formosura que mata, o olhar das
+chammas magneticas do crime, a fascina&ccedil;&atilde;o do abysmo
+onde o cahir &eacute; perder-se o homem para si, para a humanidade,
+e para Deus.</p>
+
+<p>&laquo;Eu era poeta.</p>
+
+<p>&laquo;Com que enthusiasmo eu pedia o meu quinh&atilde;o na
+heran&ccedil;a das celebradas agonias de tantas victimas de si,
+mansissimos cordeiros immolados no calvario do talento!</p>
+
+<p>&laquo;Este augusto titulo, merc&ecirc; do c&eacute;o, rubricado
+por sello divino no cora&ccedil;&atilde;o do homem, tornou-se
+epitheto ridiculo ou injurioso.</p>
+
+<p>&laquo;Gela-se-me o sangue, quando a ignorancia petulante faz um
+tregeito de menospre&ccedil;o ao talento, e diz: <i>poeta!</i></p>
+
+<p>&laquo;Mal sabeis que brutal atrevimento, ha ahi no tom de
+escarneo com que as bestas-feras insultam a intelligencia!</p>
+
+<p>&laquo;Um bando de collarejas abrias, atirando-me em injurias a
+lama que lhes extravasa da alma, seria para mim harmonioso cantico
+das gra&ccedil;as, comparado ao sorriso affrontoso do nescio que me
+diz: <i>poeta!</i></p>
+
+<p>&laquo;Ha ahi um rir do vulgacho, que d&aacute; em terra com a
+alma. Oh! o rir da gentalha maltrapida &eacute; menos fulminante
+que o escarneo da plebe engravatada, de todas as escorias sociaes a
+mais alvar e incorrigivel!&raquo;</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_15" id=
+"pag_15">[15]</a></span>Parou de escrever o meu amigo, quando eu
+entrava no seu gabinete de trabalho.</p>
+
+<p>Este nosso amigo... Consinta o leitor a
+apresenta&ccedil;&atilde;o, e de amigo logo, porque eu sei que elle
+o &eacute; de conhecidos e desconhecidos, tirante os estupidos
+maus.</p>
+
+<p>Este nosso amigo &eacute; uma afflic&ccedil;&atilde;o
+permanente, um como pelicano que se est&aacute; continuo
+espica&ccedil;ando o peito para alimentar do sangue proprio seus
+filhos insaciaveis, suas imagina&ccedil;&otilde;es
+escandecidas.</p>
+
+<p>Entrou na vida pela porta do inferno. Os olhos da alma
+abriu-lh'os uma paix&atilde;o das que alumiam a carreira do crime
+at&eacute; &aacute; morte moral. A consciencia de sua
+individualidade, desunida das mil formosas existencias que se
+identific&aacute;ra, deu-lh'a o ser mais poetico da terra, a
+soberana da crea&ccedil;&atilde;o&mdash;a mulher!</p>
+
+<p>Aos dezoito annos expulso do paraiso pelo anjo a quem
+dobr&aacute;ra o joelho!</p>
+
+<p>At&eacute; ent&atilde;o, Jorge Coelho amou sua m&atilde;i e
+irm&atilde;os, fl&ocirc;res, estrellas, fontes murmurosas, os
+pinhaes rumorejantes, o c&eacute;o azul e as nuvens abertas em
+coriscos, os repiques festivos do campanario da sua ald&ecirc;a e o
+dobre de finados, a cantilena da pastora e o gemer convulsivo da
+viuva e da orph&atilde;.</p>
+
+<p>Tudo lhe era n'este mundo poesia, desde a grinalda de
+fl&ocirc;res da esposada at&eacute; &aacute; baeta negra do
+esquife.</p>
+
+<p>N&atilde;o sou crendeiro em horoscopos de epiderme; todavia,
+tres rugas que lhe avincavam a testa entre as bossas frontaes,
+impressionaram-me. Um poeta, da alteza d'elle, diria que
+semelhantes vincos eram vestigios da vara com que a m&atilde;o de
+um genio funesto o ferira, no ber&ccedil;o. Mo&ccedil;o de dezoito
+annos, que sobe ao empinado das serras, e circumvaga os olhos
+lagrimosos pelos confins dos horisontes, e me diz:&mdash;&laquo;a
+minha alma n&atilde;o cabe aqui&raquo; esse tal &eacute; de
+cr&ecirc;r que se fine na fl&ocirc;r dos annos, depois de haver
+experimentado as d&ocirc;res todas de longa vida.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_16" id=
+"pag_16">[16]</a></span>&laquo;A minha alma n&atilde;o cabe
+aqui&raquo;&mdash;disse-me elle, sentado no t&ocirc;po de um
+fragoedo, com a arma ca&ccedil;adeira encostada ao peito, e
+afagando com a m&atilde;o o focinho do galgo que a
+lambia.&mdash;&laquo;Nasci hontem, e j&aacute; me can&ccedil;a a
+vida. Sou um como hospede, que se sente ebrio antes de assentar-se
+&aacute; mesa do festim. Meus irm&atilde;os est&atilde;o contentes
+ao p&eacute; de minha m&atilde;i. De manh&atilde; s&atilde;o
+aben&ccedil;oados e beijados; &aacute; noite v&atilde;o
+restituir-lhe o beijo com a face alumiada de santa alegria; recebem
+a segunda ben&ccedil;&atilde;o da virtuosa, e v&atilde;o dormir
+serenas horas, em quanto eu, fechado com os meus livros, tento
+debalde entreter o espirito nos deleites da poesia, ou subjugal-o
+&aacute;s paginas graves da philosophia que me disputa &aacute;
+f&eacute;, e da f&eacute; que me arranca aos tedios indigestos da
+philosophia.&raquo;</p>
+
+<p>&mdash;Nunca sahiste d'aqui?&mdash;interrompi, suspeitando da
+candura de Jorge n'este tecido de palavras presumidas.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca sahi d'aqui. Fui litterariamente educado por um tio
+frade, que, ha um anno, me entregou ao ensino de minha m&atilde;i,
+dizendo que a semente da sciencia n&atilde;o podia germinar em
+terreno, onde faltava o amanho da boa educa&ccedil;&atilde;o
+religiosa.</p>
+
+<p>Minha m&atilde;i n&atilde;o me entendeu melhor que o frade.
+Fallou-me do temor de Deus como principio da sabedoria humana. Eu
+tenho um Deus que n&atilde;o temo, porque o amo e adoro com
+espontanea devo&ccedil;&atilde;o, porque o vejo luminoso em todas
+as minhas crea&ccedil;&otilde;es impalpaveis, porque o respiro e
+converto em seiva da minha alma, que tanto mais se amplia quanto
+mais se engolfa na immensidade divina.</p>
+
+<p>Minha m&atilde;i &eacute; uma virtuosa senhora que s&oacute;
+acha digna de Deus a linguagem dos psalmos penitenciaes, e os actos
+contrictos de peccados imaginarios. O circulo, que ella
+tra&ccedil;a &aacute;s minhas aspira&ccedil;&otilde;es, &eacute;
+estreitissimo. Para ella, o futuro &eacute; a success&atilde;o dos
+dias travados uns nos outros, iguaes e serenos, como os viveram
+meus av&oacute;s, <span class="pagenum"><a name="pag_17" id=
+"pag_17">[17]</a></span>e como ella pretende herdal-os a seus
+filhos. O futuro para mim &eacute; o grandioso imprevisto, &eacute;
+a vida com os seus desertos e oasis, &eacute; o oceano com as suas
+calmarias e borrascas, &eacute; a peregrina&ccedil;&atilde;o do
+israelita, agora perseguido nas aguas do mar vermelho, logo
+alumiado pela columna de fogo.</p>
+
+<p>Que sinto eu aqui?&mdash;proseguiu elle, pondo a m&atilde;o na
+testa, cujos vincos se afundavam&mdash;Ser&aacute; o pensamento
+confuso do girondino &aacute; vista da guilhotina? Ser&aacute; o
+abutre gerado n'um sangue que, cedo ou tarde, tem de trazer-me a
+congest&atilde;o ao cerebro?... N&atilde;o sei...</p>
+
+<p>&mdash;Porque n&atilde;o ser&aacute; a alma que geme solitaria
+como a r&ocirc;la, que, al&eacute;m, no ramo secco d'aquelle
+azevinho, est&aacute; chamando o companheiro que ha-de
+vir?&mdash;disse eu em phrase lyrica para n&atilde;o destoar da
+linguagem levantada de Jorge Coelho.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o creio&mdash;acudiu logo o meu amigo.&mdash;Eu
+tenho lido o amor dos livros, o amor dos romances, o amor da
+historia, o amor da poesia. N&atilde;o me inquieto, nem me acho
+n'esse sentir. O que n&atilde;o entendia aos quatorze annos,
+n&atilde;o o entendo hoje melhor. As impress&otilde;es que
+ent&atilde;o recebi, recebo-as agora semelhantes. Os quadros de
+Dido e Eneas, de Helena e P&aacute;ris, s&atilde;o duas telas
+borrifadas de sangue. O amor n&atilde;o p&oacute;de ser aquillo.
+Paulo e Virginia, Julieta e Romeu s&atilde;o duas catastrophes que
+apertam a alma entre a admira&ccedil;&atilde;o e o d&oacute;. A
+felicidade n&atilde;o est&aacute; n'esses amores t&atilde;o
+celebrados. Werther e Carlota, Chatterton e Kit-Bell, com o anjo
+inexoravel da virtude entre si, ao despenharem-se um apoz outro no
+abysmo da morte, para se salvarem do abysmo da
+perdi&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o dous entes desamparados do anjo
+bom que nem sequer j&aacute; serve para galardoar heroicos
+martyrios. Pois n&atilde;o ir&atilde;o mais longe os meus anhelos
+de gloria?</p>
+
+<p>A regi&atilde;o da felicidade estar&aacute; delimitada pelas
+raias do amor, que o romance, e a historia, e a epopea me pintam,
+glorificado por lagrimas e sangue?</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_18" id=
+"pag_18">[18]</a></span>&mdash;Mas ha um
+amor&mdash;redargui&mdash;que n&atilde;o &eacute; o amor da
+historia, do romance, e da epopea. &Eacute; amor reflectido de mais
+alto amor, que as almas adivinham e n&atilde;o entendem. &Eacute;
+amor, preludio da bemaventuran&ccedil;a, e preliba&ccedil;&atilde;o
+da ambrosia celestial.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; o amor do romance, esse, creio
+eu...&mdash;interrompeu Jorge Coelho sorrindo.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o &eacute;, meu amigo; e, se me contradizes
+n'essa idade, inculcas baixeza de affectos, que eu n&atilde;o posso
+acreditar, por honra da especie humana. O que te authorisa a
+desmentir um homem de trinta annos, que por sua honra te jura que
+esse amor existe? Queres achar Vestigios dos trabalhos e
+calamidades que me custou a descobril-o?</p>
+
+<p>Repara nos meus cabellos brancos.</p>
+
+<p>Colombo achou curtas as fadigas, que lhe deram o novo mundo, e a
+perpetuidade do nome d'elle, mais valioso que o novo mundo.
+Experimentaria Colombo as vertigens de prazer, que me endoudeciam,
+quando encontrei a mulher mais perfeita que os primores da minha
+phantasia?</p>
+
+<p>N&atilde;o te allucines, por&eacute;m&mdash;prosegui, vendo nos
+olhos de Jorge a lucidez do enthusiasmo, accusando o proposito de
+se abrasar no primeiro amor, que lhe deparasse o
+acaso.&mdash;N&atilde;o te allucines em presen&ccedil;a de qualquer
+mulher com sorrisos de Virginia, que tanto servem de elogio ao
+pudor como de epitaphio da innocencia. N&atilde;o respires com
+sofreguid&atilde;o o aroma das primeiras fl&ocirc;res, que
+encontrares. Lirios e mandragoras s&atilde;o bellas fl&ocirc;res,
+que matam, se as n&atilde;o lan&ccedil;ares de ti, aspirados os
+primeiros effluvios. Ha mulheres como as fl&ocirc;res venenosas: se
+te detiveres com ellas mais tempo que o necessario para lisongeares
+a sensa&ccedil;&atilde;o, e regalares a phantasia, sentir-te-has
+tomado de um marasmo de espirito, em que ser&atilde;o delidas as
+tuas mais nobres faculdades, e, a mais v&aacute;lida de todas, o
+mais nobre apoio da tua dignidade <span class="pagenum"><a name=
+"pag_19" id="pag_19">[19]</a></span>de homem&mdash;a liberdade.
+Esta doen&ccedil;a, no come&ccedil;o da vida, deixa achaque para
+sempre; &eacute; como a bala recebida em pleno peito e l&aacute;
+encerrada: o ferido vive; mas, a revezes, a d&ocirc;r lhe
+est&aacute; lembrando que a bala pesa sobre o derradeiro fio da
+vida. Mulheres, que matem cora&ccedil;&otilde;es generosos, ha
+muitas para cada homem. Mulher, que salve, ha uma s&oacute;.</p>
+
+<p>A minha vida &eacute; uma elegia continuada desde o ber&ccedil;o
+at&eacute; esta ante-camara do tribunal da morte, onde estou
+esperando que me chamem: n&atilde;o tem romance: s&atilde;o
+desastres concatenados, sem intermedios d'esse contentamento
+vulgar, que os fortunosos denominam amargura. Todavia, se tivesses
+mais doze annos, Jorge, seria eu o teu conductor pelos infernos
+d'este mundo, que Dante n&atilde;o cantou de preferencia aos do
+outro, porque a civilisa&ccedil;&atilde;o da idade media n&atilde;o
+tinha em si os supplicios d'esta sociedade em que vaes entrar.</p>
+
+<p>E que lucrarias tu, ouvindo a minha historia? V&ecirc;r-me-ias
+longo tempo enredado na torpeza, na irris&atilde;o, e na
+brutalidade dos differentes algozes, que me suppliciaram a alma. Se
+quizesses que te iniciassem no segredo de sondar a perversidade dos
+cora&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o poderia eu, porque a aspide, que
+te mede o salto do seio da mulher, s&oacute; vibra a farpa mortal
+depois que varas em terra embriagado de aspirar o aroma do
+ramilhete, que a esconde.</p>
+
+<p>A sombra da mancenilha &eacute; grata como a de todas as
+arvores; suave &eacute; a vira&ccedil;&atilde;o que lhe estremece a
+coma; o sol nem sequer mosqueia o ch&atilde;o em que refazes os
+membros lassos; mas agonia mortal ser&aacute; o teu despertar se a
+formosa folhagem distillou sobre o teu corpo um sumo corrosivo que
+te faz morrer em acerba palpita&ccedil;&atilde;o de todas as
+fibras. Conheces tu a mancenilha n'este deserto, que vaes
+palmilhar, encalmado das ardencias do cora&ccedil;&atilde;o?
+Saber&aacute;s tu, aos dezoito annos, distinguir a mulher, que
+mata, da mulher, que salva? Os trinta <span class=
+"pagenum"><a name="pag_20" id="pag_20">[20]</a></span>abysmos,
+d'onde me eu levantei, com as faces a escorrerem sangue,
+estar&atilde;o cobertos de fl&ocirc;res para ti? Eu creio que o
+poeta &eacute; um condemnado, a sua patria primitiva um outro
+mundo, este, em que nos encontramos, amigo, o purgatorio. Que
+montam os suffragios do padecente experimentado para te remir?
+Nada. Cumpre a senten&ccedil;a, porque &eacute; intransitivo o
+calix...</p>
+
+<hr style="border: dotted 1px #000000">
+
+<p>Decorrido um anno, encontrei Jorge Coelho, n&atilde;o vos direi
+aonde, porque ha repugnancia em deslocar uma scena, quando a
+verdade n&atilde;o p&oacute;de, por motivos sagrados, ser dita
+&aacute; curiosidade malevola.</p>
+
+<p>Encontrei-o escrevendo os periodos iniciaes d'este capitulo.
+Outros de igual azedume, assignados por elle, me haviam denunciado
+a residencia d'esse mo&ccedil;o, na terra, em que eu, de passagem,
+assent&aacute;ra a minha barraca de bohemio.</p>
+
+<p>Reconhecendo-me, ergueu-se, abra&ccedil;ou-me com expansiva
+vehemencia, e proferiu aquellas ultimas palavras do estirado
+discurso do anno anterior:</p>
+
+<p><i>Cumpre a senten&ccedil;a porque &eacute; intransitivo o
+calix.</i></p>
+
+<p>&mdash;E muito amargo? perguntei eu.</p>
+
+<p>&mdash;Amargo, e nauseabundo. Fel e lama. O insulto e o
+aviltamento. Adormeci debaixo da mancenilha, meu amigo; e acordei
+nos paroxismos de que n&atilde;o posso morrer. Achei uma das
+mulheres, que perdem. A sociedade applaudiu-a, quando eu cuidava
+que a indigna&ccedil;&atilde;o do mundo me vingaria. Ajuntei
+&aacute; minha d&ocirc;r o que devia ser pejo, deshonra, e remorso
+n'ella. Quiz desafiar a piedade do mundo com o paciente silencio da
+minha desgra&ccedil;a. O mundo viu-me passar de olhos baixos para
+esconder as lagrimas, e fez da palavra &laquo;poeta&raquo; um
+synonymo chocarreiro de insensato.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_21" id=
+"pag_21">[21]</a></span></p>
+
+<h2>II.</h2>
+
+<p>Contou-me Jorge Coelho a sua historia. Foi assim:</p>
+
+<p>Sahira, pela primeira vez, da sua ald&ecirc;a para cursar a
+universidade. A m&atilde;i, aben&ccedil;oando-o, ungira-o de
+lagrimas, e lan&ccedil;ara-lhe ao pesco&ccedil;o um crucifixo.</p>
+
+<p>O tio egresso, vencido na resistencia que fizera &aacute; sahida
+de Jorge, mostrara-se a final condescendente, e introduzira nas
+malas do sobrinho alguns livros de moral religiosa, que ambos
+sabiam de c&oacute;r, um &aacute; for&ccedil;a de repetil-os, outro
+de ouvil-os em discursos hebdomadarios, que principiavam sempre com
+a epigraphe:</p>
+
+<p><i>Initium sapientia est timor Domini</i>&mdash;O temor de Deus
+&eacute; a base do saber humano.</p>
+
+<p>Jorge deu de si boa conta no primeiro, anno, cursando as aulas
+preparatorias para a faculdade de jurisprudencia. <span class=
+"pagenum"><a name="pag_22" id="pag_22">[22]</a></span>Contou elle
+que, durante esses oito mezes, apenas sentira o
+cora&ccedil;&atilde;o na d&ocirc;r da saudade de sua m&atilde;i, de
+seus irm&atilde;os, do tio padre, das suas montanhas, e das sombras
+dos seus arvoredos. Consolava-o o prazer de uma carta de casa,
+todas as semanas, em que a express&atilde;o maternal pintava o
+anceio com que l&aacute; se contavam os dias, na esperan&ccedil;a
+d'aquelle em que seus irm&atilde;os iriam buscar ao caminho o mano
+doutor, como elles j&aacute; o denominavam.</p>
+
+<p>O anjo da poesia dos dezenove annos povoava-lhe ent&atilde;o a
+phantasia de ridentissimas imagens. Mezes antes, abafava no extenso
+horisonte, que descobria do topo das serras onde trepava para dar
+&aacute; sua imagina&ccedil;&atilde;o sedenta a vaga imagem da
+immensidade. Agora, parecia-lhe que &aacute; sofreguid&atilde;o da
+alma lhe bastaria a soledade, o silencio, a tristeza d&ocirc;ce dos
+saudosos ermos da ald&ecirc;a, que conheciam o seu poeta desde os
+onze annos.</p>
+
+<p>Anteviu os tres mezes de ferias como quadra de contentamentos
+novos. Tudo eram promessas de infantil ledice aos seus arrobos de
+saudade. Imaginava-se sosinho ao p&eacute; da arvore conhecida, em
+cujo tronco uma vez entalh&aacute;ra a ante-data de seis annos, com
+uma interroga&ccedil;&atilde;o ao lado, e como se perguntasse o
+segredo do seu destino &aacute; sibylla dos seus queridos
+bosques.</p>
+
+<p>O anno assignalado era esse em que estava. A resposta aos vagos
+presentimentos dos quinze annos ia dal-a agora, mais anhelante e
+auspiciosa de venturas certas do que elle a previra ao deixar o
+encargo de responder a mal-agourados futuros.</p>
+
+<p>&laquo;Qu&atilde;o longe eu estava da verdadeira felicidade,
+minha querida m&atilde;i!&mdash;escrevia elle na primavera de 1855,
+quando as margens do Mondego reverdecidas lhe festejavam as
+saudades e as esperan&ccedil;as maviosas. A
+imagina&ccedil;&atilde;o enganou-me. Cuidava eu que o
+cora&ccedil;&atilde;o de minha m&atilde;i faria o milagre de
+communicar uma faisca do seu amor ao seio de cada pessoa que eu
+encontrasse f&oacute;ra da <span class="pagenum"><a name="pag_23"
+id="pag_23">[23]</a></span>nossa ald&ecirc;a! Pensei que a
+imaginada formosura da natureza come&ccedil;ava &aacute;quem dos
+horisontes, que eu descobria do alto das montanhas. As
+impress&otilde;es novas antecipavam-se-me cheias de espiritual
+deleite, e abundantes da vida que me l&aacute; faltava ao p&eacute;
+de pessoas vistas a todo o instante, com o sorrir da amisade, e ao
+p&eacute; das arvores, vistas em cada primavera, com as mesmas
+grinaldas, e em cada inverno com a mesma nudez funerea, que me
+confrangia o espirito.</p>
+
+<p>&laquo;Castigou-me o desengano, quando dobrei a ultima collina,
+d'onde via o cume da serra em que tantas vezes me assent&aacute;ra,
+ideando ao longe o caminho da minha imprevista felicidade. Era tudo
+estranho para o meu cora&ccedil;&atilde;o. O vento do outono despia
+as arvores da sua folhagem; mas a poesia melancolica e
+contemplativa d'essa transfigura&ccedil;&atilde;o, qual a eu sentia
+na minha ald&ecirc;a, convertera-se agora em profundo aborrecer-me,
+em cerra&ccedil;&atilde;o d'espirito, em arrependimento
+doloroso.</p>
+
+<p>&laquo;A duas leguas de nossa casa, minha boa m&atilde;i, quiz
+retroceder: reteve-me a vergonha. Depois de ter passado uma
+noite&mdash;primeira de minha vida&mdash;f&oacute;ra do meu quarto,
+n'uma estalagem, ergui-me com proposito de vencer o pejo, e ir
+lan&ccedil;ar-me chorando em seus bra&ccedil;os. Conteve-me ainda o
+receio do <i>ridiculo</i>, palavra e sentimento terrivel, que, ha
+dez mezes, me foi entalhado no cora&ccedil;&atilde;o por um homem,
+onze annos mais velho que eu, propheta do meu destino, t&atilde;o
+verdadeiro como terrivel propheta, que me vaticinou a sensibilidade
+immensa do poeta, e as lagrimas inexhauriveis do incessante
+desengano.</p>
+
+<p>&laquo;J&aacute; verti as primeiras; essas, por&eacute;m,
+s&atilde;o talvez uma puerilidade que o mundo escarneceria, por
+que, bem averiguada a causa da minha tristeza de seis mezes,
+encontra-se um bom cora&ccedil;&atilde;o de filho e irm&atilde;o, a
+nubelosa saudade dos dezenove annos, e o pesar de haver
+<span class="pagenum"><a name="pag_24" id=
+"pag_24">[24]</a></span>com tanto afan rebatido o parecer de meu
+tio, que me quiz demover da ten&ccedil;&atilde;o de estudar em
+Coimbra.</p>
+
+<p>&laquo;Eu prometti-lhe, minha m&atilde;i querida, a noticia
+exacta das minhas impress&otilde;es.&mdash;Descreve-me ao menos a
+bellesa dos abysmos como ella se afigurar &aacute; tua
+imagina&ccedil;&atilde;o&mdash;foram as suas palavras. N&atilde;o
+posso descrever-lhe nem, se quer, as formosas miragens do meu
+deserto. Se deponho com fastio os livros, que s&oacute; abro por
+obriga&ccedil;&atilde;o, interrogo de novo o meu espirito, tento
+sondar a indole mysteriosa da minha vontade oscillante, e encontro
+sempre enigma. Quer-me, &aacute;s vezes, parecer que estou em
+vesperas de uma grande transfigura&ccedil;&atilde;o no meu modo de
+ser e pensar; escuto o surdo rumor das id&eacute;as, que
+amea&ccedil;am rebellar-se contra a moderada esperan&ccedil;a em
+que minha alma se acalenta; sinto-me impellido &aacute; vereda de
+angustias desconhecidas, ao passo que as suspiradas alegrias da
+vida serena no seio de minha familia se me varrem da
+imagina&ccedil;&atilde;o como as copas de fl&ocirc;res desmaiadas,
+que o nordeste sacudiu e dispersou.</p>
+
+<p>&laquo;Deverei occultar-lhe alguma das minhas vis&otilde;es,
+querida m&atilde;i? N&atilde;o posso. A confidencia &eacute; a
+respira&ccedil;&atilde;o das almas; &eacute;, mais ainda, &eacute;
+a supplica do conselho e do remedio para as
+tribula&ccedil;&otilde;es, ou de estimulo e f&eacute; para crer na
+felicidade sonhada, se ella um dia me vier provar que n&atilde;o
+eram mentira os meus delirios dos dezoito annos.</p>
+
+<p>&laquo;Ha entre mim e o indecifravel do meu futuro uma imagem
+como elle indelineavel. N&atilde;o sei a qual hora da vida acharei
+a sombra real d'esta idealidade, que se fez corpo e alma,
+impress&atilde;o e sentimento para a minha phantasia. Tenho querido
+collocal-a ao p&eacute; de minha m&atilde;i, como reflexo do seu
+amor. Quando assim consigo aproximadas, tambem consigo explicar a
+influencia, que ha-de ter na minha vida essa imagem, descerrada a
+nuvem que m'a envolve pela m&atilde;o luminosa da Providencia.
+Ser&aacute; a realisa&ccedil;&atilde;o do infinito amor, porque
+entre Deus e minha <span class="pagenum"><a name="pag_25" id=
+"pag_25">[25]</a></span> m&atilde;i falta um &eacute;lo. Creio que
+n&atilde;o usurpo a minha m&atilde;i o vago affecto dedicado a essa
+alma estranha, que me visita nas horas de intimo recolhimento e
+scismadoras saudades de n&atilde;o sei qu&ecirc;, como se do
+c&eacute;o perdido nos ficassem saudades para reconquistal-o
+&aacute; custa de lagrimas. Isto que sinto n&atilde;o p&oacute;de
+ser, como me dizem os livros sentimentaes, os alvoro&ccedil;os
+precursores das primeiras devo&ccedil;&otilde;es, o subir para o
+altar dos cultos fervorosos e apaixonados. &Eacute; mais.</p>
+
+<p>&laquo;Entrevejo na escuridade do porvir uma scintilla, que me
+banha de festiva luz o espirito, aspiro o aroma de celestial
+fl&ocirc;r, que me delicia e adormece em d&ocirc;ces lethargias,
+tenho um despertar alegre e sereno, como o do homem incapaz de ir
+abra&ccedil;ar-se &aacute; realisa&ccedil;&atilde;o de seus
+ambiciosos sonhos pelos caminhos travessios da improbidade e do
+mal-fazer.</p>
+
+<p>&laquo;Assim pois, minha m&atilde;i, contente-se a sua boa alma
+de se v&ecirc;r assim reflectida na do filho, que d'ahi sahiu
+agourado por t&atilde;o maus prophetas. N&atilde;o abordei esses
+abysmos seductores, que o meu bom tio excommungava de l&aacute;, e
+contra os quaes me premuniu com cabedal de philosophia
+christ&atilde;, bastante para defender das tenta&ccedil;&otilde;es
+todas as na&ccedil;&otilde;es da Biblia, exterminadas por causa do
+peccado.</p>
+
+<p>&laquo;D'aqui a tres mezes, deporei no rega&ccedil;o de minha
+m&atilde;i o cora&ccedil;&atilde;o inexperiente com que de
+l&aacute; sahi. Dar-lh'o-hei mais rico de contentamentos puros, e
+desejos de ser bom filho; e, se assim n&atilde;o fosse, iria agora
+fortalecel-o em seu seio das virtudes, que ainda me
+faltam.&raquo;</p>
+
+<p>Tr&ecirc;s mezes depois, Jorge Coelho, convidado por um seu
+condiscipulo das visinhan&ccedil;as do Porto, passou no Porto,
+quando recolhia a ferias, e alli se deteve, para assistir ao ultimo
+baile annual da <i>Assembl&eacute;a Portuense</i>.</p>
+
+<p>Jorge nunca vira um baile, nem ante-gost&aacute;ra pela
+imagina&ccedil;&atilde;o o prazer de encontrar duzentas damas
+reunidas &aacute; competencia de formosura e pompas.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_26" id=
+"pag_26">[26]</a></span>Dizia-lhe o condiscipulo, j&aacute; gasto
+para as commo&ccedil;&otilde;es dos bailes (tinha vinte e dous
+annos, e pass&aacute;ra desapercebido em todos os bailes) dizia-lhe
+o condiscipulo que o cora&ccedil;&atilde;o nascia de improviso no
+primeiro baile, e muitas vezes l&aacute; morria. Contava-lhe, em
+testemunho de verdade, a sua historia, que era uma historia negra,
+passada ao clar&atilde;o de centenares de lumes, nas salas da
+<i>Assembl&eacute;a Portuense</i>, no baile carnavalesco do anno
+anterior. Com quanto nos seja sempre ingrato violentar as glandulas
+lacrimaes dos leitores, e sacudir-lhes com patheticas descargas
+electricas os nervos engelhados, n&atilde;o nos abstemos de contar
+em poucas linhas a historia negra do snr. Pires, condiscipulo de
+Jorge, em geographia e historia.</p>
+
+<p>Parece que o snr. Pires cheg&aacute;ra de Coimbra a ferias de
+entrudo, e conseguira ser convidado para o baile. Alugou um
+domin&oacute; de seda, entrou nos sal&otilde;es, e remoinhou longo
+tempo por entre centenares de pessoas desconhecidas. Dizia-lhe a
+consciencia que era um tolo, por n&atilde;o buscar ao acaso uma
+particula da felicidade, que brincava nas physionomias de toda a
+gente, ao passo que das d'elle apenas escorria o suor debaixo da
+mascara suffocante.</p>
+
+<p>Deliberado a demonstrar a si proprio que n&atilde;o era
+absolutamente nescio, dirigiu-se a uma dama de aspeito melancolico,
+e disse-lhe &laquo;que os anjos do c&eacute;o, quando cahiam
+c&aacute; em baixo na morada dos homens, ficavam tristes como
+ella.&raquo;</p>
+
+<p>Ora, um magan&atilde;o, tambem mascarado, que por alli gravitava
+em redor do mesmo astro, disse ao estudante, radioso da feliz
+amabilidade, &laquo;que n&atilde;o s&oacute; aos anjos do
+c&eacute;o acontecia ficarem tristes e atordoados quando cahiam
+c&aacute; em baixo, mas tambem acontecia o mesmo aos gatos, quando
+cahiam de um terceiro andar &aacute; rua.&raquo;</p>
+
+<p>Ficou fulo de raiva Pires. A melancolica dama levou o leque ao
+rosto para esconder o riso.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_27" id=
+"pag_27">[27]</a></span>O estudante, voltando-se para o
+entremettido, replicou-lhe que era de pessimo gosto a chufa, e o
+gosto da senhora n&atilde;o era de melhor quilate festejando com
+riso complacente t&atilde;o deslavada semsaboria. Redarguiu o
+incognito mascarado, perguntando-lhe se tinha duvida em sahir
+f&oacute;ra das salas para lhe estender uma orelha de modo que por
+ella o conhecessem todos, visto que elle tivera a habilidade de a
+esconder no capuz do domin&oacute;. Trocaram-se algumas finezas
+mais d'este tomo, at&eacute; que um homem de porte grave travou do
+bra&ccedil;o ao snr. Pires, e, levando-o ao sal&atilde;o menos
+frequentado, perguntou-lhe que motivos se haviam dado para
+desaven&ccedil;a t&atilde;o impropria de cavalheiros. Pires,
+querendo dar ao successo, uma causa digna de transmiss&atilde;o,
+contou que merec&ecirc;ra lisongeiro acolhimento da senhora com
+quem estava trocando as phrases previas de uma paix&atilde;o, que
+rebent&aacute;ra subita e reciprocamente, quando o indiscreto e
+vill&atilde;o interventor lhe dirigira palavras descomedidas, que
+denotavam o ciume d'elle.</p>
+
+<p>&mdash;Pois aquella senhora, a quem o domin&oacute; allude,
+trocava com v. s.&ordf; as phrases previas de uma
+paix&atilde;o?&mdash;perguntou o interlocutor do estudante com
+sorriso de affectada serenidade.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor, respondeu o outro emproando-se.</p>
+
+<p>&mdash;Antes de dizer-lhe que mente, preciso v&ecirc;r-lhe a
+cara.</p>
+
+<p>Dito isto, o sujeito, que era o marido da dama, arrancou a
+mascara ao snr. Pires; e, vendo um rosto imberbe, e acerejado,
+chamou o escudeiro, que passava com bandeja de d&ocirc;ces, e
+disse-lhe: &laquo;D&ecirc; a este menino dous bolinhos, e mande-o
+embora.&raquo;</p>
+
+<p>Eis aqui a historia negregada do snr. Pires, a qual, contada por
+elle, era muito mais dramatica e engra&ccedil;ada, visto que
+terminava por dous duellos mallogrados, um com o rival, outro com o
+marido, e por tres desmaios da dama, um no sal&atilde;o, outro na
+carruagem, e o ultimo <span class="pagenum"><a name="pag_28" id=
+"pag_28">[28]</a></span>em casa, na presen&ccedil;a do marido, que,
+pelos modos, a quizera enforcar.</p>
+
+<p>E, como as lagrimas d'este acerbo conflicto cahiram todas no
+cora&ccedil;&atilde;o do snr. Pires, o resultado foi afogarem-se
+l&aacute; os embri&otilde;es da sua felicidade, e ficar aquella
+viscera &aacute;rida e resequida como enxundia secca de
+gallinha.</p>
+
+<p>Ouvira Jorge Coelho estas calamidades com a
+respira&ccedil;&atilde;o suffocada, e teve instantes em que duvidou
+do bom siso do seu amigo;&mdash;t&atilde;o descozido lhe
+parec&ecirc;ra o conto, e t&atilde;o ineptas as consequencias.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_29" id=
+"pag_29">[29]</a></span></p>
+
+<h2>III.</h2>
+
+<p>Entrou Jorge Coelho nos sal&otilde;es da
+&laquo;assembl&eacute;a,&raquo; e julgou-se em regi&otilde;es de
+houris. Durou-lhe alguns minutos o atordoamento da primeira
+impress&atilde;o. N&atilde;o o enleava esta ou aquella physionomia;
+eram todas. N'aquella harmonia do bello, at&eacute; as senhoras
+feias&mdash;se ha senhoras feias, vistas &aacute; luz do
+cora&ccedil;&atilde;o&mdash;recebiam homenagem do extatico
+mo&ccedil;o. No espasmo delicioso do academico, se algum amor
+influia, era de certo o amor da especie, porque seus olhos
+n&atilde;o haviam ainda estremado o individuo, que os olhos d'alma
+entreviam no todo.</p>
+
+<p>Do cisco lucido, que volita no ar, faz douradas palhetas o raio
+do sol coado pela fresta. Na dourada lucidez que Jorge via por
+magico prisma, n&atilde;o haveria muito cisco, muito atomo de
+poeira humana, que s&oacute;mente <span class="pagenum"><a name=
+"pag_30" id="pag_30">[30]</a></span>refulge aos reverberos dos
+lustres, consoante o variegado das c&ocirc;res? Decidam os que
+l&aacute; andam.</p>
+
+<p>Aquietado dos alvorotos da surpreza, o estudante sentiu o vacuo,
+porque se viu sosinho alli. O apresentante doudejava no redemoinho
+das dan&ccedil;as, e raros intervallos perdia, perguntando ao
+condiscipulo se estava contente.</p>
+
+<p>Jorge n&atilde;o sabia dan&ccedil;ar, porque n&atilde;o tivera
+tempo de aprender esse appendiculo grutesco da boa
+educa&ccedil;&atilde;o. Muitas vezes lhe dissera o tio padre,
+authorisado pelo oratoriano Manoel Bernardes, que dan&ccedil;as
+eram ansas do demonio armadas &aacute; alma.</p>
+
+<p>N&atilde;o se glorie, por&eacute;m, o crendeiro egresso de ter
+instillado no animo do sobrinho o horror das mazurcas. Jorge
+n&atilde;o dan&ccedil;ava porque n&atilde;o sabia se quer a
+nomenclatura d'essa galharda tolice de que por vezes impende o
+accesso &aacute;s almas, e o passar-se uma noite menos tediosa n'um
+sal&atilde;o em que o espirito se retou&ccedil;a em piruetas, mais
+ou menos ridiculas e parvoinhas, da materia.</p>
+
+<p>&Aacute; meia noite, Jorge procurou o seu condiscipulo para
+dizer-lhe que se retirava. Atravessando uma sala, quasi despovoada,
+viu duas senhoras reclinadas n'uma ottomana, em postura de
+fatigadas ou aborrecidas. A mais velha n&atilde;o excederia vinte e
+cinco annos; a outra, que teria dezoito, foi a primeira que prendeu
+o exclusivo reparo de Jorge, sen&atilde;o antes uma
+contempla&ccedil;&atilde;o absorta em que ellas mesmas
+repararam.</p>
+
+<p>O academico devia captivar a atten&ccedil;&atilde;o das duas
+senhoras, melancolicas por indole ou artificio. Tinha elle um
+semblante de si t&atilde;o meigo e affectuoso, que as pessoas
+tristes sentiam-se melhorar em suas magoas, pensando que outras
+acaso maiores e mais carecidas de lenitivo denotava o brando olhar
+do mo&ccedil;o. Estava, por ventura, este cond&atilde;o sympathico
+na magresa do rosto, cujo pallor mais era signal de
+complei&ccedil;&atilde;o mimosa, que effeito de vigilias e
+desperdicios de vida com que muitos <span class="pagenum"><a name=
+"pag_31" id="pag_31">[31]</a></span>conhecidos nossos se
+recommendam &aacute;s senhoras idealistas, affectando langores e
+martyrios de alma, dos quaes a victima principal &eacute;, em
+verdade, o corpo.</p>
+
+<p>&mdash;Sympathica physionomia!&mdash;disse a mais velha das duas
+senhoras.</p>
+
+<p>&mdash;Conheces?!&mdash;perguntou a outra sem fugir os olhares
+de Jorge, o qual, por mero disfarce, encarava objectos, que
+realmente n&atilde;o via.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o o conhe&ccedil;o, nem me lembra de o ter visto
+em parte alguma.</p>
+
+<p>&mdash;Tinha curiosidade em conhecer... N&atilde;o achas
+n'aquelle rosto um n&atilde;o sei que de
+distinc&ccedil;&atilde;o?</p>
+
+<p>&mdash;Tem alguma cousa n&atilde;o vulgar...</p>
+
+<p>&mdash;Uma tristeza insinuante, achas?</p>
+
+<p>&mdash;E n&atilde;o sei que de magoa supplicante...</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; verdade... e as supplicadas somos de certo
+n&oacute;s...</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute;s tu, Silvina... &eacute;s tu a examinada com um
+ar de espanto ou ternura que compromette. Olha um grupo de homens,
+que nos observam e mais a elle...</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o olhemos mais. Elle j&aacute; sabe que o vimos
+e discutimos. Achamol-o sympathicamente triste, e bem p&oacute;de
+ser que seja um tolo com bastante coragem para nos dizer que o
+&eacute;... Mas quem ser&aacute;?!</p>
+
+<p>A curiosidade das duas damas &eacute; menos racional que a dos
+leitores que desejam conhecel-as.</p>
+
+<p>A mais velha &eacute; a snr.&ordf; D. Francisca da Cunha,
+creatura galante, com quanto morena, grandes olhos pretos,
+sobrancelhas travadas e negras, opulentos cabellos, e espirito de
+improviso bastante a fingir illustra&ccedil;&atilde;o. Pertence a
+uma familia heraldica da provincia de Traz-os-Montes, e veiu ao
+Porto com seu pai, fidalgo arruinado pela politica e pelas proprias
+dissipa&ccedil;&otilde;es, com o fim de acirrar a cobi&ccedil;a de
+um noivo conveniente, cujos paes almejam por enxertal-o no
+nobilissimo tronco dos Cunhas. Tem esta menina genio exquisito e
+romanesco. Por muitas <span class="pagenum"><a name="pag_32" id=
+"pag_32">[32]</a></span>vezes tem mallogrado os esfor&ccedil;os
+casamenteiros do pai, mofando da figura e palavriado, um pouco para
+rir, do noivo. &Aacute; for&ccedil;a de ser m&aacute;, conseguiu
+fazer-se anjo no conceito do mal-fadado que espera em ancias ser
+marido d'ella. Maravilhada do poder que tem na alma do capitalista,
+com desdens e despresos, espanta-se do presumido dominio, que
+poder&aacute; ter sobre o homem a quem der os sentimentos
+embrionarios no seu cora&ccedil;&atilde;o. Para experimentar, sem
+risco da sua nomeada, recebe cartas de varios oppositores &aacute;
+sua alma, e responde regularmente a umas com id&eacute;as
+respigadas nas outras. Nos grupos, que se v&atilde;o formando na
+sala, em que est&aacute; com Silvina, sua prima carnal, avultam
+quatro dos seus correspondentes activos, e dous, que obtiveram
+promessa de resposta, e alguns, que esperam aso de solicitarem
+aquella gloria, no entender de cada um negada a todos, chegando a
+fazerem-se a mutua justi&ccedil;a de julgarem-se parvos uns aos
+outros.</p>
+
+<p>D. Silvina de Mello, prima de D. Francisca, &eacute; tambem
+provinciana, e veiu de uma ald&ecirc;a do Minho a banhos do mar,
+convidada por sua prima, de quem &eacute; hospeda. O que ella
+aprendeu em quatro mezes de convivencia &eacute; possivel que o
+n&atilde;o acreditasse quem lhe visse o rosto de anjo, olhares de
+innocente acanhamento, sorrisos de escrupulosa timidez, palavras
+desanimadas e pregui&ccedil;osas, e, no todo, uma
+despresump&ccedil;&atilde;o de maneiras, que fazia supp&ocirc;r
+grande limpeza d'alma e de... de intelligencia!</p>
+
+<p>F&ocirc;ra D. Silvina da sua ald&ecirc;a para o Porto com uma
+paix&atilde;o por um morgado, que a n&atilde;o seguira por
+fortissimos impedimentos. O pai do morgado tinha feito
+extraordinarias despezas na construc&ccedil;&atilde;o de uma eira,
+na reedifica&ccedil;&atilde;o da capella solarenga, no muramento de
+algumas cortinhas, que comprara, n&atilde;o fallando j&aacute; nas
+desastradas mortes de um macho, que tinha trinta annos de bom
+servi&ccedil;o na casa, e duas juntas de bois atacadas de
+epizootia. <span class="pagenum"><a name="pag_33" id=
+"pag_33">[33]</a></span>O mo&ccedil;o pedira debalde soccorros,
+fingira-se mesmo epileptico para que o cirurgi&atilde;o da terra
+lhe receitasse banhos salgados; o velho, por&eacute;m, passaro
+bisnau, e avesso &aacute; inclina&ccedil;&atilde;o do filho, deu
+grandemente louvores a Deus por propiciar-lhe ensejo de acabar-se
+um namoro inconveniente, attenta a mediocre legitima de Silvina.
+Facil foi a D. Francisca obliterar no cora&ccedil;&atilde;o da
+prima a imagem do seu primeiro amor, zombeteando-a &aacute;
+propor&ccedil;&atilde;o que a ingenua provinciana lhe ia mostrando
+as cartas do saudoso morgado.</p>
+
+<p>N&atilde;o pod&eacute;mos averiguar porque tra&ccedil;as o
+morgado de Santa Eufemia arranjou dinheiro com que foi ao Porto,
+tres mezes depois que Silvina cess&aacute;ra de responder-lhe
+&aacute;s cartas, tanto mais irrisorias quanto a paix&atilde;o as
+dictava em estilo talhado para matar paix&otilde;es. O certo
+&eacute; que o allucinado homem chegou ao Porto na vespera do baile
+da assembl&eacute;a, e alcan&ccedil;ou cart&atilde;o de convite. A
+sua id&eacute;a era encontrar Silvina.</p>
+
+<p>Todo sorvido na ancia de v&ecirc;l-a e fulminal-a com olhadura
+terrivel de accusa&ccedil;&otilde;es, o morgado de Santa Eufemia
+n&atilde;o cuidou, com tempo, de mandar fazer casaca. A que trazia
+na mala era dos figurinos de Guimar&atilde;es, e, posto que em bom
+uso, era anachronica na gola, nas lapelas, na largura e comprimento
+das abas, na pequenez dos bot&otilde;es, e rebordo dos punhos.
+Consultou a pessoa, que lhe alcan&ccedil;&aacute;ra o convite,
+&aacute;cerca da casaca; mas, desgra&ccedil;adamente, a pessoa
+consultada era um d'aquelles individuos de juizo, que n&atilde;o
+tiram o monge pelo habito, e reprovam que seja sacrificada aos
+caprichos da moda uma casaca de bom pano, farta e commoda,
+s&oacute;mente porque alguns casquilhos perdularios, ou alfaiates
+especuladores, inventam feitios novos.</p>
+
+<p>Concordou o morgado, e foi ao baile com a casaca velha. Melhor
+lhe f&ocirc;ra ter morrido da epizootia! A sua entrada na primeira
+sala foi um acontecimento. As petulantes lunetas saudaram-n'o, e
+seguiram-n'o com insultuosa <span class="pagenum"><a name="pag_34"
+id="pag_34">[34]</a></span>curiosidade at&eacute; ao sal&atilde;o
+da dan&ccedil;a. As senhoras, em regra, pouco curiosas do trajar
+dos homens, n&atilde;o repararam na casaca, mas n&atilde;o podiam
+deixar de v&ecirc;r o collete e a gravata. Era esta descommunal na
+altura, atravessada por um la&ccedil;o, cujas pontas, como orelhas
+de lebre morta, cahiam caprichosamente sobre os hombros. A
+c&ocirc;r verde da gravata contrastava com o encarnado-ginja do
+collete de uma abotoadura e colchetes apertados at&eacute; ao
+pesco&ccedil;o, e acairelado na abotoadura e bolsos com vivos
+roixos. Sobre isto cahiam as lapelas enxovalhadas da casaca, com as
+quebras e vincos dos apertos que soffrera na mala em que viera,
+para irris&atilde;o e descredito de Freixieiro, cujo elegante
+era.</p>
+
+<p>Desconfiou o morgado de Santa Eufemia de alguns indiscretos que
+o seguiram, desde o vestibulo da assembl&eacute;a. Viu, depois, que
+as damas se trocavam olhares suspeitos, que o n&atilde;o impediam
+de procurar Silvina com aspecto entre o furioso e o comico. A
+obstina&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, dos chasqueadores era
+inexoravel, e o morgado teve um intervallo de lucidez, em que olhou
+em si, e se viu ridiculo. Do fundo de sua alma deu, ent&atilde;o,
+gra&ccedil;as &aacute; Providencia, se Silvina o n&atilde;o tinha
+visto; mas o derradeiro olhar, que lan&ccedil;ou aos descaridosos
+mofadores, era provocador.</p>
+
+<p>Resolveu, pois, retirar-se, maldizendo o velho amigo de sua
+familia, que o demovera do proposito de fazer roupa nova. Quando ia
+sahindo, atravessou por engano a sala em que se achavam D.
+Francisca, D. Silvina, e Jorge Coelho. Os grupos de homens, que por
+alli estanciavam, deram com elle de cara, seguido d'um cortejo de
+folgaz&atilde;os, que tinham passado da zombaria cautelosa &aacute;
+risada descomposta.</p>
+
+<p>Silvina corou at&eacute; &aacute;s orelhas, quando Francisca
+exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Oh! que original! Repara, prima, tu n&atilde;o v&ecirc;s
+aquelle homem?!</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_35" id=
+"pag_35">[35]</a></span>A este tempo o morgado estava em meio da
+sala, e fazia machinalmente uma cortezia &aacute;s damas.</p>
+
+<p>&mdash;Aquillo ser&aacute; comnosco?!&mdash;dizia, com
+desdenhosa zanga, D. Francisca.&mdash;Conheces aquelle phenomeno?!
+Olha que elle est&aacute; esperando que o comprimentemos...
+Conheces, Silvina?</p>
+
+<p>&mdash;Conhe&ccedil;o...&mdash;balbuciou Silvina, acaso
+t&atilde;o afflicta como o desastroso morgado, que estava alli
+chumbado ao pavimento.</p>
+
+<p>&mdash;Quem &eacute;? &eacute; da tua terra?&mdash;tornou
+Francisca j&aacute; envergonhada de que julgassem ser ella a causa
+da attentiva paragem de semelhante entrudo.</p>
+
+<p>Silvina ergueu-se, tomou o bra&ccedil;o da prima, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Vem, que eu te contarei tudo.</p>
+
+<p>Sahiram.</p>
+
+<p>Jorge Coelho foi o unico dos circumstantes que examinou com
+seriedade o morgado. Achava estranho o personagem; mas dizia-lhe a
+boa alma que o insulto era improprio de pessoas bem educadas como
+deviam presumir-se aquellas, que estavam alli representando a
+melhor sociedade.</p>
+
+<p>O fidalgo de Freixieiro sahiu com os olhos a marejarem lagrimas.
+Foi ainda Jorge quem unicamente viu este signal de
+afflic&ccedil;&atilde;o; e, sem saber o porqu&ecirc;, sympathisou
+com a d&ocirc;r do homem, que levava de poz si o escarneo de tanta
+gente, e na alma a certesa de que viera dar-se em espectaculo aos
+olhos da mulher, que nunca lhe perdoaria o ser ridiculo. Pobre
+crian&ccedil;a! como vivias enganado pelas maximas dos teus
+romances francezes! N&atilde;o sabias tu que ridicula, sem
+rehabilita&ccedil;&atilde;o, &eacute; s&oacute; a pobresa.</p>
+
+<p>D'ahi a uma hora, Francisca e Silvina desciam do toucador para o
+sal&atilde;o do baile. A primeira compunha o semblante ainda
+descomposto das gargalhadas com que recebera a
+revela&ccedil;&atilde;o da prima. Esta, mortificada pelo amor
+proprio, se n&atilde;o antes vexada pela indecorosa
+elei&ccedil;&atilde;o <span class="pagenum"><a name="pag_36" id=
+"pag_36">[36]</a></span>d'um amante chulo, captivava lastimas com a
+tristesa que dev&ecirc;ra acarear despreso. Despreso! Talvez
+piedade, que a situa&ccedil;&atilde;o era digna d'ella, por que
+&eacute; a mulher, quem mais a si se mortifica, se a consciencia a
+accusa d'uma escolha, que n&atilde;o s&oacute; lhe n&atilde;o
+disputam, se n&atilde;o que, peior ainda, lhe injuriam com motejos.
+O morgado de Santa Eufemia, at&eacute; &aacute; noite infausta do
+baile, era uma recorda&ccedil;&atilde;o, se n&atilde;o saudosa, ao
+menos magoada. D'ahi em diante, pelo menos n'aquella hora,
+causava-lhe tedio, e for&ccedil;ava-a a participar da zombaria.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_37" id=
+"pag_37">[37]</a></span></p>
+
+<h2>IV.</h2>
+
+<p>Estava Jorge, outra vez, defronte das duas senhoras. Sentia-se
+outro. J&aacute; tinha interiormente um mundo, uma imagem reflexa
+do mundo exterior a remuneral-o vantajosamente da
+insula&ccedil;&atilde;o em que se via no meio de tantos
+indifferentes &aacute; sua tristesa. A todo homem esta
+muta&ccedil;&atilde;o tem acontecido, uma vez na vida. O baile
+&eacute; triste para quem leva da soledade do seu quarto o
+cora&ccedil;&atilde;o de lucto; por&eacute;m, &aacute;quelle mesmo
+conforta, &aacute;s vezes, uma chimera, l&aacute; onde menos a
+esperan&ccedil;a lh'a promettia. Chimeras s&atilde;o que desbotam,
+como as fl&ocirc;res dos enfeites, ao repontar da manh&atilde;; mas
+Deus sabe quantas almas se retemperam nas illus&otilde;es de um
+baile, e que horas de aben&ccedil;oado engano l&aacute; divertem as
+tristesas dos mais desenganados!</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_38" id=
+"pag_38">[38]</a></span>N&atilde;o era assim que Jorge Coelho
+scismava comsigo&mdash;que a aurora do seu breve dia de f&eacute; e
+amor principiava alli&mdash;quando o amigo Pires,
+lan&ccedil;ando-lhe o bra&ccedil;o em redor do pesco&ccedil;o, lhe
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;Que fazes aqui parado? Contemplas aquellas duas Evas, mal
+assombradas de gesto, como se tivessem comido a fatal
+ma&ccedil;&atilde;?</p>
+
+<p>&mdash;Contemplo uma, e acho-a celestialmente formosa.</p>
+
+<p>&mdash;A c&ocirc;r de c&ecirc;ra?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Eu gosto mais da morena. <i>Nigra sum sed formosa.</i>
+Aquillo sim que &eacute; mulher para incommodar a fleuma d'um
+sceptico!... Queres ser apresentado?</p>
+
+<p>&mdash;Pois tu conheces?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, nem preciso. Vou tiral-a para a primeira
+quadrilha, apresento-me, e depois tenho a honra de ser o teu
+apresentante. O estilo, c&aacute; na boa roda, &eacute; este.</p>
+
+<p>&mdash;Mas a quem me has-de tu apresentar? &eacute; necessario,
+a meu v&ecirc;r, que ella te diga quem &eacute;.</p>
+
+<p>&mdash;Pois n&atilde;o lh'o pergunto eu?! Essa reflex&atilde;o
+&eacute; piegas. Se queres ouvir o que eu digo, colloca-te ao
+p&eacute; de n&oacute;s, e escuta-me nos intervallos das
+marcas.</p>
+
+<p>O snr. Pires n&atilde;o reconsiderava uma tolice, nem tolerava
+replicas.</p>
+
+<p>D. Silvina, vendo um sujeito conversar com Jorge, olhou-o
+curiosamente, para, se acaso visse pessoa de suas
+rela&ccedil;&otilde;es com elle, podesse, de conhecido em
+conhecido, chegar a colher alguma informa&ccedil;&atilde;o do seu
+mysterioso observador. Mais propicia do que ella ambicionava, lhe
+foi ao encontro a fortuna protectora de sua innocente curiosidade.
+Pires, com elegante desembara&ccedil;o, solicitou de Silvina uma
+contradan&ccedil;a: esta, com adoravel aprazimento, aceitou logo o
+bra&ccedil;o do cavalheiro porque se estavam alinhando os
+pares.</p>
+
+<p>Aqui, por&eacute;m, falhou uma vez a felicidade a um tolo.
+Esquecera-se Pires de procurar <i>vis-&aacute;-vis</i>, e era
+j&aacute; <span class="pagenum"><a name="pag_39" id=
+"pag_39">[39]</a></span>f&oacute;ra de tempo o procural-o. A dama
+deu primeiro pela falta, e o academico fez-se da c&ocirc;r do
+rabano. Silvina relanceou os olhos supplicantes a D. Francisca, e
+esta, chamando o primeiro cavalheiro conhecido, deu-lhe o
+bra&ccedil;o, e entrou no lugar fronteiro &aacute; prima.</p>
+
+<p>&mdash;Esta falta, disse Pires, retesando no pulso a luva
+at&eacute; a rasgar, deve-se ao enthusiasmo com que eu pedia a v.
+exc.&ordf; esta contradan&ccedil;a.</p>
+
+<p>&mdash;Enthusiasmo?! Ora!... parece-me que queria dizer
+<i>distrac&ccedil;&atilde;o</i>, respondeu Silvina ao adiantar-se
+para executar a primeira figura.</p>
+
+<p>Chegado o grande intervallo, Jorge Coelho quizera ir postar-se
+perto de Silvina; mas um burguez intolerante, zangado da pertinacia
+do mo&ccedil;o, que envidava os recursos todos da delicadesa e do
+encontr&atilde;o para romper a barra compacta dos olheiros de
+espadoas nuas, chegou a dizer-lhe, franzindo a testa:&laquo;O
+senhor n&atilde;o cabe? se quer passar espere que acabe a
+<i>polka</i>!&raquo; O bom do burguez n&atilde;o sabia ao certo se
+era contradan&ccedil;a ou polka o que se estava
+dan&ccedil;ando.</p>
+
+<p>No entanto, o nosso amigo Pires, com quanto pesaroso de que
+Jorge alli n&atilde;o estivesse, para maravilhar-se dos recursos da
+eloquencia afeita &aacute;s difficuldades do sal&atilde;o,
+conversava assim com a senhora attenciosa:</p>
+
+<p>&mdash;Quando tive a honra de impetrar de v. exc.&ordf; a
+gra&ccedil;a d'uma contradan&ccedil;a... (Silvina poz o leque
+diante dos labios) acabava eu de dizer a um amigo meu que o olhar
+contemplativo, <i>la r&eacute;verie</i>, com que elle fitava v.
+exc.&ordf;, era merecida, justificada, e...</p>
+
+<p>&mdash;Muito agradecida;&mdash;atalhou Silvina, tregeitando com
+o leque e a cabe&ccedil;a uma evolu&ccedil;&atilde;o de movimentos
+indescriptiveis&mdash;mas eu n&atilde;o reparei bem no amigo de v.
+s.&ordf;, que me distinguia de modo t&atilde;o lisongeiro.</p>
+
+<p>&mdash;Se v. exc.&ordf; tem a bondade de olhar em frente, ha-de
+encontral-o extasiado...</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_40" id=
+"pag_40">[40]</a></span>&mdash;Extasiado?! Ora isto parece-me que
+vai passando da lisonja &aacute; galhofa!</p>
+
+<p>&mdash;Oh! minha senhora... Isso offende-me e punge-me, acudiu
+Pires com o mais comico azedume.</p>
+
+<p>Silvina relance&aacute;ra a vista como quem n&atilde;o via, e
+voltando-se para o cavalheiro, disse:</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; do Porto aquelle senhor?</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; da provincia, minha senhora, estudante de
+Coimbra, meu condiscipulo, chama-se Jorge Coelho, pertence a
+nobilissima familia, e assevero a v. exc.&ordf; que &eacute; um
+cora&ccedil;&atilde;o virginal, intacto, fervoroso, sentindo hoje
+pela primeira vez os impetos juvenis do amor.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o admiro, porque &eacute; muito novo.</p>
+
+<p>&mdash;Muito novo! oh! minha senhora! Quantos velhos n'aquella
+idade! Aqui estou eu, de pouca mais idade que elle, e me considero
+j&aacute; <i>desillusion&eacute;</i>, decrepito.</p>
+
+<p>&mdash;Realmente?!... Perdoe-me a curiosidade&mdash;disse
+Silvina, com muita gra&ccedil;a de fina ironia, sustentada com
+imperturbavel seriedade.&mdash;Queira dizer-me em que romance
+poderei encontrar o seu caracter, j&aacute; que n&atilde;o devo
+esperar uma revela&ccedil;&atilde;o das tempestades que o fizeram
+t&atilde;o cedo naufragar!</p>
+
+<p>&mdash;O meu caracter ainda n&atilde;o est&aacute;
+escripto!&mdash;respondeu Pires, avincando a testa, e fitando-a de
+esguelha.</p>
+
+<p>N'este comenos entraram os pares latentes em movimento, e a
+phrase ficou engasgada at&eacute; ao proximo intervallo.
+Enganou-se, por&eacute;m, o sceptico. Silvina, como esquecida da
+suspens&atilde;o da lugubre narrativa, perguntou ao cavalheiro:</p>
+
+<p>&mdash;O seu amigo demora-se no Porto?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o s&atilde;o essas as inten&ccedil;&otilde;es
+d'elle, minha senhora; mas &eacute; de presumir que um aceno de v.
+exc.&ordf; o fa&ccedil;a esquecer a familia carinhosa que o
+est&aacute; esperando.</p>
+
+<p>&mdash;V. s.&ordf; depois que envelheceu&mdash;replicou Silvina
+cortando as palavras com frouxos de estudado riso&mdash;julgou
+<span class="pagenum"><a name="pag_41" id=
+"pag_41">[41]</a></span>salutar cousa o distrahir-se da sua gotta
+moral zombando das pessoas que ainda cr&ecirc;em e esperam alguma
+cousa d'esta vida?!</p>
+
+<p>Acudiu Pires:</p>
+
+<p>&mdash;Eu que digo isto &eacute; porque sei o que v. exc.&ordf;
+&eacute; para Jorge. Respondo gravemente &aacute;s suas facecias
+adoraveis. Sei que as virtudes de v. exc.&ordf;...</p>
+
+<p>&mdash;V. s.&ordf; conhece-me? perguntou Silvina de golpe, e
+formalisada.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o tenho essa honra, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Quem lhe disse que ha em mim virtudes?</p>
+
+<p>&mdash;Rosto angelico e v&eacute;o translucido: homem
+experimentado adivinha o cora&ccedil;&atilde;o do anjo.</p>
+
+<p>Pires ia dizer mais quatro aforismos do seu uso, quando terminou
+a contradan&ccedil;a. Conduziu a dama &aacute; sua cadeira, e
+disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Eu queria ter a felicidade de apresentar a v. exc.&ordf;
+o meu amigo Jorge Coelho; por&eacute;m, rogo-lhe me diga se devo
+procurar alguem que me apresente a v. exc.&ordf;</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o tenha esse incommodo. Fico sabendo que v.
+s.&ordf; &eacute; um cavalheiro da boa sociedade, e tanto basta.
+Sei tambem que &eacute; academico, e sympathiso com essa qualidade
+porque tenho em Coimbra dous irm&atilde;os no seminario, e
+n&atilde;o sei que analogias me fazem presar os estudantes.</p>
+
+<p>&mdash;Direi mais, acrescentou o academico, enclavinhando os
+dedos para ajustar as luvas, e tirando pelas lapelas da casaca a
+pux&otilde;es de gentil effeito&mdash;direi mais a v. exc.&ordf;
+que me chamo Leonardo de Sousa Pires e Albuquerque, a minha casa
+&eacute; na Maya, e costumo passar as ferias no Porto, porque sou
+avesso &aacute; vida pastoril, e n&atilde;o tenho sen&atilde;o
+mediocres tendencias para admirar a natureza bruta...</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o &eacute; poeta?&mdash;interrompeu Silvina,
+ageitando o lindo rosto a um ar de zombeteira
+admira&ccedil;&atilde;o.<span class="pagenum"><a name="pag_42" id=
+"pag_42">[42]</a></span></p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_43" id=
+"pag_43">[43]</a></span></p>
+
+<h2>V.</h2>
+
+<p>&mdash;Se sou poeta!...&mdash;disse Pires, enviezando para o
+estuque do firmamento olhos de lastima.&mdash;A poesia &eacute;
+fl&ocirc;r muito delicada, que o primeiro vendaval do
+cora&ccedil;&atilde;o desfolha. Desfolhada a primeira fl&ocirc;r, o
+vaso que fica n&atilde;o tem seiva para outra: &eacute; como a
+terra ferida de maldi&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Isso &eacute; triste&mdash;acudiu Silvina, tregeitando
+com a cabe&ccedil;a e olhos umas gaifonas piedosas.</p>
+
+<p>&mdash;Tristissimo, minha senhora!</p>
+
+<p>Agora eram de victima os ares do Fausto da Maya, e a dama
+j&aacute; pedia a Deus que n&atilde;o viesse para junto d'ella a
+prima, com medo de espirrar uma d'aquellas casquinadas de riso, que
+a mais sisuda prudencia n&atilde;o refreia.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_44" id=
+"pag_44">[44]</a></span>Jorge Coelho, no entanto, sem bem saber o
+que o impacientava, n&atilde;o podia tolerar a deten&ccedil;a do
+amigo. &laquo;Se eu soubesse dan&ccedil;ar&mdash;dizia de si para
+si o academico&mdash;teria feito o que fez Pires... Ser&aacute; de
+mim que elles est&atilde;o fallando? &Eacute; natural, porque a
+vejo fitar-me com atten&ccedil;&atilde;o... Se me eu avisinhasse,
+daria melhor occasi&atilde;o a Pires de me apresentar...&raquo;</p>
+
+<p>E, obedecendo &aacute; hypothese, deu alguns passos; mas
+t&atilde;o a medo o fazia, que antes parecia querer que o
+n&atilde;o vissem. N'isto, j&aacute; o amigo o andava procurando, e
+Silvina, vendo a direc&ccedil;&atilde;o errada de Pires, acenou-lhe
+de longe, indicando com disfarce onde estava Jorge.</p>
+
+<p>O pobre mo&ccedil;o tremia quando viu que era procurado. A sua
+primeira id&eacute;a foi fugir da sala, e n&atilde;o duvidamos
+cr&ecirc;r que fugiria, se Pires lhe n&atilde;o trava do
+bra&ccedil;o, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Olha l&aacute; como lhe fallas: a mulher tem espirito, e
+&eacute; um genio.</p>
+
+<p>Isto foi peior.</p>
+
+<p>&mdash;O meu amigo Jorge Coelho que eu tenho a honra de
+apresentar &aacute; exc.<sup>ma</sup> snr.&ordf; Dona...</p>
+
+<p>Pires estacou. Silvina sorriu-se. Jorge corou, baixando os
+olhos.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o sabe o meu nome? isso n&atilde;o importa disse
+a dama.&mdash;Eu me apresento. O meu nome &eacute; Silvina. Tenho a
+gloria de ser tambem alde&atilde;. Nenhum dos tres p&oacute;de rir
+dos outros. Ent&atilde;o o snr. Jorge n&atilde;o dan&ccedil;a?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, minha senhora, eu n&atilde;o sei
+dan&ccedil;ar&mdash;disse Jorge com infantil ingenuidade.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o sabe, porque n&atilde;o ama a dan&ccedil;a,
+n&atilde;o &eacute; assim?</p>
+
+<p>&mdash;Em minha casa ninguem aprendeu a dan&ccedil;ar. Minha
+m&atilde;i foi educada n'um convento, e de l&aacute; sahiu para ser
+esposa, e governar sua casa n'uma terra onde nunca se deram bailes.
+Eu sahi da minha ald&eacute;a ha menos d'um anno, e tenho consumido
+todo o meu tempo no estudo...</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_45" id=
+"pag_45">[45]</a></span>Estava Silvina gosando sem motejal-a a
+simplicidade de Jorge, ao passo que Pires lamentava as pueris
+historias do seu acanhado amigo. Como quizesse salval-o, o
+imaginoso academico interrompeu-o com n&atilde;o sabemos que
+espirituosa semsaboria, que Silvina atalhou logo:</p>
+
+<p>&mdash;Deixe fallar o seu amigo que me est&aacute; encantando
+com a singelesa do que diz...</p>
+
+<p>&mdash;Eu retiro-me, minha senhora&mdash;disse Pires,
+arqueando-se&mdash;porque estou compromettido para a seguinte
+polka.</p>
+
+<p>&mdash;Tambem eu...&mdash;disse Silvina, j&aacute; quando o par
+se avisinhava, ao qual pediu desculpa, de n&atilde;o dan&ccedil;ar,
+por causa de uma forte d&ocirc;r de cabe&ccedil;a. E voltando-se
+para Jorge, que n&atilde;o soubera avaliar a fineza do fingido
+incommodo:</p>
+
+<p>&mdash;Tem aqui esta cadeira... Sente-se, e conversemos da sua
+familia, porque talvez precise desafogar saudades d'ella em
+cora&ccedil;&atilde;o que o comprehenda.</p>
+
+<p>Jorge cobr&aacute;ra alento com este ar de familiaridade. Fez-se
+para elle profundo silencio em todo aquelle borborinho da sala.</p>
+
+<p>Era a primeira vez que se via em face de uma mulher, que lhe
+n&atilde;o chamava irm&atilde;o ou filho; e, todavia, tanta
+ingenuidade fraterna respirava o rosto de Silvina, que, por
+encanto, o timido mo&ccedil;o, sem forcejar contra o enleio da
+alma, tirou de l&aacute; express&otilde;es de sorte affectuosas que
+nem os mais destros comicos de sala as diriam assim.</p>
+
+<p>&mdash;Tem muitas saudades dos seus, snr. Jorge?&mdash;disse
+Silvina com brando mimo.&mdash;Est&aacute; ancioso por chegar aos
+bra&ccedil;os de sua m&atilde;i?</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que v. exc.&ordf; a conhecesse&mdash;disse Jorge
+maviosamente.&mdash;Havia de amal-a... que minha m&atilde;i
+est&aacute; t&atilde;o longe d'este mundo brilhante, vive d'um modo
+t&atilde;o differente do das pessoas educadas como ella foi, que me
+faz d&oacute; o que era e tem sido ha vinte annos, <span class=
+"pagenum"><a name="pag_46" id="pag_46">[46]</a></span> contando
+hoje apenas trinta e seis, n'uma ald&ecirc;a, sem outra convivencia
+sen&atilde;o a de seus filhos, e sempre magoada das saudades de meu
+pai... Ha duas horas que penso em v. exc.&ordf; e n'ella...</p>
+
+<p>&mdash;Em mim?&mdash;atalhou Silvina, com sorriso de
+bondade&mdash;lisongeia-me infinitamente a companhia que me deu no
+seu pensamento; mas poder&aacute; dizer-me que analogia de imagens
+achou entre mim e sua m&atilde;i?</p>
+
+<p>&mdash;Immensa, e n&atilde;o sei dizel-a. Se eu podesse bem
+interpretar este sentimento mysterioso, diria, d'outro modo, que
+hoje, pela primeira vez, se espelharam em minha alma duas imagens
+de mulher. At&eacute; ha pouco, havia l&aacute; a de minha
+m&atilde;i s&oacute;mente, e os tra&ccedil;os informes, a sombra, o
+indefinido do ser que vaga entre o c&eacute;o e a
+imagina&ccedil;&atilde;o do poeta. Agora...</p>
+
+<p>&mdash;Essa segunda&mdash;interrompeu Silvina com uma gravidade
+impropria de sua idade e modos usuaes&mdash;n&atilde;o
+poder&aacute; j&aacute;mais deslumbrar a de sua m&atilde;i, porque
+os entes de imagina&ccedil;&atilde;o, visualidades passageiras,
+nunca usurpam a posse aos entes que a natureza nos est&aacute;
+dando todos os dias em realidade de amor e carinhos. E depois, snr.
+Jorge, ver&aacute; que &eacute; inutil esperar aquelle puro
+original da c&oacute;pia que a sua phantasia vai debuxando, em
+quanto o cora&ccedil;&atilde;o novo e enganado lhe empresta as
+c&ocirc;res do c&eacute;o. Affirmo-lhe, sen&atilde;o authorisada
+pela experiencia, amestrada pelo exemplo e confiss&otilde;es
+sinceras das minhas amigas, affirmo-lhe que o seu indefinido de
+poeta nunca lhe ha-de avultar em corpo e alma, se os olhos descerem
+do c&eacute;o a procural-o na terra. Guarde, pois, com extremosa
+avareza a imagem de sua m&atilde;i, e n&atilde;o consinta que outra
+lhe dispute o exclusivo amor que lhe d&aacute;.</p>
+
+<p>Disse.</p>
+
+<p>O academico ouvia, pela primeira vez, a express&atilde;o
+floreada, a linguagem musical, o periodo arredondado, como de
+folhetim ambicioso, na bocca de mulher. Achava elle certa
+incongruencia entre as fei&ccedil;&otilde;es menineiras
+<span class="pagenum"><a name="pag_47" id="pag_47">[47]</a></span>
+da provinciana e o tom sentencioso do discurso. Relanceou-lhe
+subito na memoria o meu nome, segundo me elle contou depois.
+Lembrou-se d'aquelle meu estirado discurso, na sua ald&ecirc;a,
+dezoito mezes antes. Trope&ccedil;ou na hypothese de que o singelo
+exterior da palavrosa menina mascarava um cora&ccedil;&atilde;o
+desbaratado por desenganos, e engenhoso de armadilhas a
+cora&ccedil;&otilde;es novi&ccedil;os. Alguem diria que o silencio
+de Jorge, seguido &aacute; ultima express&atilde;o de Silvina, era
+acanhamento. J&aacute; n&atilde;o: era a duvida.</p>
+
+<p>&mdash;Ficou t&atilde;o pensativo, snr. Jorge&mdash;tornou
+Silvina.&mdash;Est&aacute; pesando no seu juizo a verdade das
+minhas palavras? Impressionaram-no tanto!...</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; verdade, minha senhora; estava pesando as
+palavras de v. exc.&ordf; com outras que me disse um homem de
+trinta annos.</p>
+
+<p>&mdash;Contrarias &aacute;s minhas?</p>
+
+<p>&mdash;Semelhantes na inten&ccedil;&atilde;o; mas muito mais
+desconsoladoras na f&oacute;rma. Disse-me elle que ha muitas
+mulheres que matam, e uma s&oacute; que salva.</p>
+
+<p>&mdash;Mas affirmou-lhe haver uma que salva?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;E quantas vezes lhe disse elle que podia ser victima de
+sua devo&ccedil;&atilde;o e generosidade a mulher que sente em si o
+cora&ccedil;&atilde;o salvador?... Creio que me n&atilde;o fiz
+comprehender...</p>
+
+<p>&mdash;Comprehendi, minha senhora. Pergunta v. exc.&ordf; se a
+mulher capaz de erguer a alma despenhada de sua grandesa,
+n&atilde;o se despenhar&aacute; ella mesma n'essa generosa
+tentativa;</p>
+
+<p>&mdash;Entendeu.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o sei responder, snr.&ordf; D. Silvina. Eu
+n&atilde;o sei nada do mundo. Ignoro os precipicios em que
+p&oacute;de cahir o homem, e n&atilde;o sei tambem a que alturas
+p&oacute;de levantal-o o amor. J&aacute; imaginei o mundo mais
+agradavel: come&ccedil;o a dar cem illus&otilde;es por cada
+realidade. N&atilde;o cuide v. exc.&ordf; que eu fiz p&eacute;
+atraz &aacute; vista da verdade despoetisada, <span class=
+"pagenum"><a name="pag_48" id="pag_48">[48]</a></span> e feia como
+dizem os pessimistas que ella &eacute;, vista &aacute; luz da
+raz&atilde;o pura; vejo, por&eacute;m, que se v&atilde;o fenecendo
+as fl&ocirc;res da minha imagina&ccedil;&atilde;o &aacute; maneira
+que escuto e pondero, com religiosa cren&ccedil;a, as palavras que
+v. exc.&ordf; me diz, e as que me disse o bom ou funesto
+despertador da minha raz&atilde;o, que dormia acalentada nos
+bra&ccedil;os da poesia. De que serve o desengano antes que a fatal
+experiencia no'l-o d&ecirc;?! Para que me diria v. exc.&ordf;, com
+ar de tanta verdade e seguran&ccedil;a, que eu nunca encontrarei o
+puro original da c&oacute;pia que a minha phantasia
+entrev&ecirc;?!</p>
+
+<p>&mdash;Diz bem! atalhou Silvina meigamente triste, ou
+adoravelmente dramatica&mdash;diz bem! Arrependo-me da
+injusti&ccedil;a que fiz &aacute;s mulheres, e mesmo da crueldade
+com que me tratei a mim propria. Fallei pela bocca da sociedade,
+snr. Jorge Coelho. Tenho ouvido, e lido nos romances as palavras
+geladas e desanimadoras que lhe disse, com o immodesto animo de
+distinguir-me a seus olhos. Menti-lhe, e menti ao meu
+cora&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se desalente ao entrar na vida, e
+nunca de mim se lembre como de fada m&aacute;, que lhe fadou a
+desventura. Espere, creia, e obede&ccedil;a aos impulsos do
+cora&ccedil;&atilde;o, em quanto a pe&ccedil;onha da mentira o
+n&atilde;o contaminar. No mundo deve existir a imagem da mulher
+digna de senhorear-lhe a alma com a de sua m&atilde;i, cuja face eu
+beijaria, hoje, se podesse, com respeito e ternura de filha. Quando
+estiver nos bra&ccedil;os d'ella, diga-lhe que encontrou no Porto,
+e n'um baile&mdash;onde raro sentimento grave entretem por momentos
+o espirito&mdash;diga-lhe que encontrou uma mulher que lhe manda
+n'esta rosa um beijo de sympathia e venera&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>E, dizendo, tirou do decote espeitorado do vestido a rosa,
+chegou-a aos labios, e deu-a com gracioso ademane a Jorge, que lh'a
+recebeu com m&atilde;o tremente.</p>
+
+<p>&mdash;Cumpre o meu pedido? tornou ella.</p>
+
+<p>&mdash;Pergunta-me se cumpro? &Eacute; este um encargo doce
+<span class="pagenum"><a name="pag_49" id="pag_49">[49]</a></span>
+que v. exc.&ordf; faz ao meu cora&ccedil;&atilde;o. Farei que minha
+m&atilde;i receba nos labios o beijo que vai n'esta fl&ocirc;r.
+Depois, pedir-lhe-hei que m'a ceda, que eu possa chamar-lhe minha,
+enthesoural-a como se ella para mim cahisse da grinalda d'um
+anjo... Se ha no cora&ccedil;&atilde;o poesia mais sublime que a da
+saudade...</p>
+
+<p>&mdash;Ha, sim... a da esperan&ccedil;a...</p>
+
+<p>&mdash;A da esperan&ccedil;a!... balbuciou Jorge, levando
+machinalmente a rosa aos labios, e c&oacute;rando da irreflectida
+ac&ccedil;&atilde;o que se lhe afigurou menos respeitosa.</p>
+
+<p>(Oh santa innocencia! n&atilde;o sei se &eacute;s mais tola que
+santa!)</p>
+
+<p>Desculpem o parenthesis que desfeia um pouco o bello e
+harmonioso da f&oacute;rma dialogal. Guarde-me Deus de motejar com
+insulsas facecias a candura, o rubor, a timidez encantadora dos
+vinte annos de Jorge. Invejo-lhe o que j&aacute; n&atilde;o posso
+haver nem sequer com grande esfor&ccedil;o d'arte; mas rio-me
+d'elle e de mim, quando as galhofeiras memorias do que fui, ha hoje
+quinze annos, sahem d'entre as fl&ocirc;res mirradas da minha
+primavera, e vem c&aacute; a este glacial dezembro da vida fazer-me
+assuada e zombaria, para que eu me d&ocirc;a e corra das criancices
+de ent&atilde;o. Pois rio-me com effeito, que &eacute; para isso a
+cousa, e riam-se, &aacute; vontade, os que de mim souberem que
+muitas vezes todo eu me incendiava em carmim e rosa, quando o olhar
+logrativo da mulher me alvoro&ccedil;ava o pudor a ponto de
+afeminar-me, e fazer de mim uma menina que... Quasi me escorregava
+agora dos bicos da penna uma necedade das que se n&atilde;o
+desculpam &aacute; propria santa innocencia que, repito, n&atilde;o
+sei se &eacute; mais santa que tola.</p>
+
+<p>Vamos &aacute; historia com ajuda da providencia dos
+romancistas, a qual providencia, muitas vezes, abre m&atilde;o
+d'elles, e deixa-os para ahi parvoejar que &eacute; mesmo cousa de
+peccado.</p>
+
+<p>Silvina deu f&eacute; do rubor de Jorge, e...&mdash;querem
+<span class="pagenum"><a name="pag_50" id="pag_50">[50]</a></span>
+saber a verdade inteira?&mdash;n&atilde;o gostou. &Eacute; um
+segredo da essencia mulheril o dissabor que a molesta, a seu
+pesar... (v&aacute;, diga-se a <i>seu pesar</i>) quando o homem se
+amulherenga ao p&eacute; d'ella, e lhe n&atilde;o deixa o exclusivo
+de mulher. Receios de desmerecer em gra&ccedil;as quando lhe
+&eacute; for&ccedil;a ser mulheril? Consciencia ingrata d'uma
+superioridade que a desenfeita? Recursos que perde de captivar pelo
+mimo, com a brandura caridosa, por estremecimento do pudor, toques
+do pejo virginal, que ora lhe transluzem nas faces, ora lhe cerram
+os labios? N&atilde;o sei se &eacute; tudo, ou alguma cousa, ou
+nada d'isso. A verdade &eacute; que a mulher n&atilde;o gosta de
+homens que coram, de homens que choram, de homens que... n&atilde;o
+s&atilde;o homens, est&aacute; dito tudo, e n'isso ficaremos, se
+acham que est&aacute; discutida a materia. <i>Materia</i>... que
+aleivosia! Isto &eacute; espirito o mais espiritual que p&oacute;de
+ser. Espirito transcendental, d'aquelle que devia andar na mente de
+muito casquilho, paralta, janota, ou como &eacute; que se chama a
+tal alimaria, que se desentranha em lufadas de cynismo nos
+botequins, e vai ao p&eacute; das costureiras tartamudear
+jaculatorias de ternura.</p>
+
+<p>Fica, pois, justificado o desgosto de Silvina, quando viu Jorge
+c&oacute;rar, por ter beijado a fl&ocirc;r, onde os labios da
+peregrina minh&ocirc;ta haviam imprimido o beijo de encommenda para
+a provincia.</p>
+
+<p>&mdash;Agora, disse ella; s&atilde;o dous os beijos que leva a
+sua m&atilde;i, em uma s&oacute; fl&ocirc;r. Queira Deus que o
+halito dos labios do filho n&atilde;o tirasse o perfume ao dos
+labios da amiga.</p>
+
+<p>&mdash;Creio que sim&mdash;disse Jorge corando outra
+vez&mdash;creio que sim...</p>
+
+<p>&mdash;Porque?!&mdash;atalhou Silvina com despeito mal
+comprimido.</p>
+
+<p>&mdash;Porque sinto no cora&ccedil;&atilde;o o perfume do seu
+beijo.</p>
+
+<p>Sahiu-se melhor do que eu pensava. &Eacute; aquella uma das
+respostas que costumam ir de casa gizadas; mas <span class=
+"pagenum"><a name="pag_51" id="pag_51">[51]</a></span> creio no
+improviso. E assim, explicado o segundo accesso de escarlate,
+desvaneceu-se o desaire em que estava Jorge na opini&atilde;o
+caprichosa da dama, que replicou muito requebrada:</p>
+
+<p>&mdash;Pois n&atilde;o esperdice o perfume, porque nunca
+sentir&aacute; no cora&ccedil;&atilde;o outro mais puro, mais digno
+de incensar o seu amor reflectido do c&eacute;o.</p>
+
+<p>&mdash;Amor!&mdash;interrompeu Jorge com exaltado impeto de
+crian&ccedil;a&mdash;Olhe que essa palavra p&oacute;de ser-me
+veneno para toda a vida, se v. exc.&ordf; consentir que eu a
+guarde...</p>
+
+<p>&mdash;No mais intimo de sua alma... Guarde... que nunca a
+proferi com t&atilde;o pouco conhecimento de quem a dou, e
+t&atilde;o pouca esperan&ccedil;a de a v&ecirc;r florir em
+venturas.</p>
+
+<p>Jorge Coelho ia naturalmente c&oacute;rar terceira vez, quando
+Francisquinha da Cunha chegou, com ar de zanga, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Vamos, prima, que o pai quer sahir... e &eacute;
+t&atilde;o cedo... que raiva! estava agora ouvindo uma enfiada de
+tolices t&atilde;o peregrinas...</p>
+
+<p>&mdash;De quem?</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei c&aacute; de quem? d'um homem que se chama Pires,
+e que este senhor conhece... N&atilde;o lh'o diga, n&atilde;o? Eu
+fui indiscreta...</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o diz nada&mdash;acudiu Silvina&mdash;pois
+n&atilde;o, snr. Jorge?</p>
+
+<p>&mdash;Eu, minha senhora!...</p>
+
+<p>&mdash;Asseverou-me&mdash;continuou Francisca gesticulando
+vertiginosamente com cabe&ccedil;a e bra&ccedil;os&mdash;que se eu
+o n&atilde;o amasse, havia de espirrar &aacute; minha fronte de
+algoz o seu sangue de Larra, de Werter, de... Ai que homem, que
+homem aquelle! O que se produz na Maya! &Oacute; filha, eu
+n&atilde;o posso perder aquillo!... Pires &eacute; meu...</p>
+
+<p>Ai! o pai... Vamos, Silvina.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_52" id=
+"pag_52">[52]</a></span>Silvina estendeu a m&atilde;o a Jorge, e
+disse a meia voz:</p>
+
+<p>&mdash;V&aacute; v&ecirc;r-me &aacute;manh&atilde; ao jardim de
+S. Lazaro.</p>
+
+<p>Jorge balbuciou alguma cousa que n&atilde;o vinha do
+cora&ccedil;&atilde;o. N'este momento, um receio doloroso o
+affligia com esta pergunta: &laquo;Esta mulher ir&aacute;
+escarnecer-te, como viste escarnecido o teu amigo?&raquo;</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_53" id=
+"pag_53">[53]</a></span></p>
+
+<h2>VI.</h2>
+
+<p>As occorrencias do jardim de S. Lazaro, no dia immediato,
+n&atilde;o merecem chronica. O que p&oacute;de, por&eacute;m,
+succeder a um mo&ccedil;o, que passeia o cora&ccedil;&atilde;o
+amante, no jardim do Porto, &eacute; bom de dizer-se, e folga a
+moral de ouvil-o.</p>
+
+<p>Se o leitor est&aacute; no Porto, e vai apaixonado ao jardim de
+S. Lazaro, e conhece a familia da menina casadoura, por quem anda
+em brasa, faz a sua primeira cortezia, e foge de encontral-a
+segunda vez, porque repetir a cortezia &eacute;, al&eacute;m de
+provincianismo puro minhoto, cousa que cheira a inconveniencia, e
+p&oacute;de ser at&eacute; escandalo. Resta-lhe o expediente
+commum, e salva assim a honra das familias: &eacute; amoutar-se
+como fauno por entre <span class="pagenum"><a name="pag_54" id=
+"pag_54">[54]</a></span>as murtas e bosques de acacias, lobrigando
+aqui, e al&eacute;m, a ca&ccedil;a estranha.</p>
+
+<p>No jardim de S. Lazaro os dous sexos d&atilde;o ao passeio o que
+as sovinas municipalidades n&atilde;o tem querido dar-lhe; isto
+&eacute;, uma luxuosa superabundancia de estatuas, as quaes,
+tirante a alma, nem sempre se avantajam &aacute;s do marmore
+nacional. Sentam-se as meninas, mui bem compostas e ageitadas de
+m&atilde;os e cabe&ccedil;a, e alli se est&atilde;o deleitando na
+vista do repuxo, em quanto o pap&aacute; rufa com tres dedos na
+tampa da caixa do tabaco o compasso da modinha conhecida de Verdi
+ou Donizetti, que as trombetas bastardas est&atilde;o executando...
+<i>executando</i>, sim, &eacute; a palavra.</p>
+
+<p>Ao relance artistico dos olhos n&atilde;o &eacute; feio aquillo.
+Cuida enxergar o myope em cada renque de cadeiras uma fileira de
+<i>madonas de la sedia</i>; mas a illus&atilde;o d'um myope
+n&atilde;o vale os desconsolos de tanta gente que tem a sua vista
+escorreita, e pensa que a estatua deve ter um <i>quantum satis</i>
+de espiritualidade.</p>
+
+<p>Ha pontos na casca do globo em que a virtude custa pouco.
+N&atilde;o sei se a bemaventuran&ccedil;a &eacute; accessivel por
+igual de todas as terras; mas, convencido da rectid&atilde;o que
+assiste aos negocios dos outros mundos, quer-me parecer que quatro
+virgens a um tempo, sahidas em espirito, uma de Pekin, outra de
+Constantinopla, outra de Paris, e a quarta do Porto, devem de ter
+differente recebimento e quartel nas regi&otilde;es da gloria, onde
+ha premios para a virtude.</p>
+
+<p>Na raz&atilde;o directa da tenta&ccedil;&atilde;o, nos
+esfor&ccedil;os em rebatel-a, &eacute; que deve ser aferida cada
+alma victoriosa que, apesar dos demonios succubos e incubos, se
+alista nas legi&otilde;es do c&eacute;o. N&atilde;o se dogmatisa,
+entendam: quer-se escassamente enunciar id&eacute;a nova, resaibada
+de heresia, a v&ecirc;r se algum hypocrita illustra o livro, com as
+injurias da sua caridade apostolica. N&atilde;o ha no romance outro
+<span class="pagenum"><a name="pag_55" id=
+"pag_55">[55]</a></span>merito que o inculque, nem perspectiva
+melhor agourada para o editor.</p>
+
+<p>As adoraveis virtudes das senhoras do Porto n&atilde;o
+s&atilde;o de todo um merecimento: or&ccedil;am mais por uma
+necessidade. O homem d'alli sente um ter&ccedil;o, ou ainda menos
+das precis&otilde;es espirituaes que, n'outras partes, incommodam o
+cora&ccedil;&atilde;o humano. Esta feliz frugalidade procede do
+geito d'aquella sociedade, geito antigo que degenerou em
+aleij&atilde;o, rachitismo moral, corcunda hereditaria, e de mais a
+mais pegadi&ccedil;a, por quanto, se n&atilde;o &eacute; do Porto,
+e por l&aacute; ap&eacute;gar alguns mezes, leitor, apalpe as
+costas, e topar&aacute; uma protuberancia a crescer, a crescer,
+at&eacute; se formar corcunda, que ir&aacute; comsigo a stoda a
+parte.</p>
+
+<p>Aquelle aleij&atilde;o, de barreiras do Porto a dentro,
+n&atilde;o fica mal a ninguem. Os liliputianos, conta Swift,
+chanceavam o viajante europeu, que tinha a ridicula felicidade de
+ser um homem bem apessoado e perfeito. As bellezas do Congo recuam
+de puro nojo diante de um formoso nariz branco sem pingentes. No
+Porto ha o escarneo e o tedio que explicam o paradoxo do
+selvagem.</p>
+
+<p>A juventude masculina da cidade heroica est&aacute; em contacto
+com a civilisa&ccedil;&atilde;o d'este seculo pelo alfaiate.
+N&atilde;o poderam os velhos trancar as portas do burgo de Moninho
+Viegas &aacute; invas&atilde;o dos figurinos. Cal&ccedil;&atilde;o
+e rabicho foram banidos; o tamanco e o chinelo d'our&eacute;lo
+cederam, constrangidos, o joan&ecirc;te indigena ao verniz, e ao
+couro da Russia; o difficil, por&eacute;m, era pentear, vestir e
+cal&ccedil;ar o espirito de gaito e arte que a gente, fitando em
+rosto o filho da civilisa&ccedil;&atilde;o portuense, n&atilde;o
+tivesse de descer os olhos a buscar-lhe nos p&eacute;s o tamanco.
+&Eacute; o sestro das transfigura&ccedil;&otilde;es de golpe e
+abruptas.</p>
+
+<p>Um joven bem estrellado de minas e camapheus, chama-se no Porto
+um janota. A menina ingenua diz &aacute; visinha: &laquo;conhece
+aquelle janota?&raquo; ou &laquo;fulaninha namora <span class=
+"pagenum"><a name="pag_56" id="pag_56">[56]</a></span>um janota
+louro.&raquo; N&atilde;o se cuide, por&eacute;m, que este epitheto
+implica mofa ou menospreso como em Ma&ccedil;&atilde;s de D. Maria,
+ou Lamas d'Orelh&atilde;o. O janota portuense &eacute; uma cousa
+s&eacute;ria, que p&oacute;de ser vereador, e irm&atilde;o da ordem
+terceira.</p>
+
+<p>Por via de regra, o janota &eacute; uma creatura que nasce,
+cresce, abre-se em florescencia variegada de frakes, e colletes, e
+pantalonas; toma posse do balc&atilde;o paterno aos trinta annos,
+corta o bigode para que lhe descontem as letras, p&otilde;e oculos
+se teve o infortunio de estragar a vista com a luneta que lhe
+servia de n&atilde;o v&ecirc;r nada, fructifica em crian&ccedil;as
+gordas que entrajam &aacute; escoceza, e esc&ocirc;a-se de vida
+atrav&eacute;s de quarenta annos de lerda pachorra de espirito,
+legando &aacute; prole um nome limpo, com pequenas farruscas que se
+ensaboam na barreia de um necrologio, e dous legados de cincoenta
+mil reis &aacute;s entrevadas da Cordoaria, e alguma cousa ao
+hospital do Ter&ccedil;o.</p>
+
+<p>D'este viver assim resultam duas cousas que explicam muitas
+outras: primeira, que o elegante portuense dispende os annos
+perigosos da adolescencia vestindo-se de manh&atilde; para sahir de
+tarde; segunda, que as meninas, ao despegar da costura, ageitam os
+la&ccedil;arotes do toucado, entufam os punhos das manguinhas,
+encostam o cotovello ao peitoril da janella, seguem o olhar de
+esguelha que lhe vai revirando o terceiro ou quarto janota
+predilecto, e fecha a janella quando a passagem do quinto &eacute;
+duvidosa.</p>
+
+<p>D'est'arte, as paix&otilde;es s&atilde;o innocentes e ao mesmo
+tempo substanciaes como um caldo de gallinha. As
+rela&ccedil;&otilde;es epistolares n&atilde;o derrancam a pureza
+das olhaduras. A carta, em regra, &eacute; declara&ccedil;&atilde;o
+escripta que tolhe a poesia da declara&ccedil;&atilde;o muda.
+Palestras, quer de sala, quer a horas mortas, da rua para a
+janella, que piedosa criada deixou aberta, s&atilde;o, se a
+patrulha o tolera, a morte de ambas as declara&ccedil;&otilde;es,
+porque o janota que falla &eacute; <span class="pagenum"><a name=
+"pag_57" id="pag_57">[57]</a></span>muito menos soffrivel e
+grammatical que o janota que escreve. Ainda assim, o casamento
+remata isto que se chama o <i>namoro</i>. E o mais &eacute; que
+ella e elle, nas suas horas de recolhimento, cada qual a s&oacute;
+por s&oacute; com a sua consciencia, contempla saudoso o passado e
+diz: &laquo;Que bella mocidade eu tive! muito me
+diverti!&raquo;</p>
+
+<p>Ponderam alguns authores que a morigera&ccedil;&atilde;o dos
+costumes portuenses &eacute; o necessario effeito do atraso da
+civilisa&ccedil;&atilde;o e policia da classe media, em que as
+outras no Porto se embaralham e perdem. Esta palavra
+&laquo;civilisa&ccedil;&atilde;o&raquo; anda mal trazida para tudo.
+Se o refinamento das industrias, se a arte de crear capitaes, no
+minimo do tempo e com diminuto trabalho, constitue a maxima
+civilisa&ccedil;&atilde;o material, o Porto ganha a aposta aos mais
+ambiciosos prospectos de riqueza aventados pelos economistas. E
+assim &eacute; que alli enxameam os Midas no ouro e nas orelhas;
+por&eacute;m, menos castigados que o fabulado Midas da theologia
+grega, logram digerir o boi e o toucinho na succulenta substancia
+que a natureza lhes deu.</p>
+
+<p>Os que negam ao Porto a vanguarda do progresso industrial, que
+&eacute; a mesma civilisa&ccedil;&atilde;o, irm&atilde; gemea da
+intellectiva, e fonte da s&atilde; moral, derruem desde os
+alicerces a sciencia moderna, confessando assim a utopia do systema
+vulgarisado nas escolas, nas gazetas, e nas f&oacute;rmas de
+governar das na&ccedil;&otilde;es mais cultas. No Porto,
+d&atilde;o-se as m&atilde;os a riqueza e os costumes edificativos,
+para se justificarem estes por aquella, e a primeira pelos
+segundos. A industria &eacute; a de hoje: os costumes s&atilde;o os
+de ha um seculo. O chefe de familia poder&aacute; ser moedeiro
+falso, negreiro aposentado com exercicio na casa real, alliciador
+de escravos brancos, contrabandista tolerado; mas a filha d'esse
+homem da &eacute;poca vive intemerata como a filha de Virginio;
+cuida que seu pai, recolhendo a casa encalmado e suado, vem de
+servir a patria como Cincinnato; e, chegada a occasi&atilde;o de
+exercitar as <span class="pagenum"><a name="pag_58" id=
+"pag_58">[58]</a></span>virtudes antigas, n&atilde;o
+duvidar&aacute; ser Lucrecia, e Lucrecia menos equivoca que a de
+Colatino.</p>
+
+<p>Sobre este assumpto, mediocre seria o engenho que n&atilde;o
+produzisse um volume. Em louvor do Porto, escreveu o socio da
+academia real das sciencias Antonio Augusto Teixeira de
+Vasconcellos dous folhetins de nervo e polpa, com muito sal attico
+&aacute; mistura. O abundoso escriptor escreveria in-folios, se lhe
+aprouvesse, porque j&aacute; um dos sete sabios da Gr&eacute;cia,
+Pittacus, parece que era, escreveu um volume dos louvores da
+m&oacute; d'uma atafona; e, para encarecimento do r&aacute;bano,
+deixou Marciano um tractado muito de v&ecirc;r-se. O talento
+&eacute; uma cousa temivel.</p>
+
+<p>Ora n&atilde;o v&atilde;o j&aacute; d'aqui os malsins de
+inten&ccedil;&otilde;es maliciarem essas inoffensivas palavras, que
+n&atilde;o desprimoram, nem arguem deshonra ao paladium das
+liberdades patrias, como usam dizer os artigueiros da terra a
+proposito de qualquer empe&ccedil;o que lhes assombre o seu
+municipio, se acontece o governo ir de encontro a alguma postura
+sobre a carne de porco, ou cousa assim em que valha a pena lembrar
+ao mundo que o Porto &eacute; o paladium das liberdades
+patrias.</p>
+
+<p>N'isto pensava eu no jardim de S. Lazaro, n'aquelle dia em que
+Jorge Coelho, mais imprudente que atrevido, se avisinh&aacute;ra de
+Silvina, que, passados minutos de conversa&ccedil;&atilde;o, lhe
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o se demore mais tempo, porque toda a gente nos
+observa com ar espantadi&ccedil;o. Eu cuido que estamos dando
+grande escandalo.</p>
+
+<p>Jorge Coelho retirou, e deu o bra&ccedil;o ao amigo Pires, que
+fremia de raiva resultante d'uma desfeita que recebera de D.
+Francisca.</p>
+
+<p>&mdash;Desfeita!&mdash;disse Jorge&mdash;pois uma senhora faz
+desfeitas!?...</p>
+
+<p>&mdash;O requinte hediondo da insolencia!&mdash;vociferou o
+fidalgo da Maya tascando com phrenesi a ponta do charuto.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_59" id=
+"pag_59">[59]</a></span>&mdash;Que te fez?</p>
+
+<p>&mdash;Ouviu-me hontem na &laquo;Assembl&eacute;a &raquo; uma
+declara&ccedil;&atilde;o, acolheu-a com doudo enthusiasmo, disse-me
+que eu era um homem t&atilde;o admiravel como perigoso; tremeu de
+pavor quando eu lhe fiz sentir o desfastio com que me arrancaria as
+entranhas, se me ella n&atilde;o aceitasse a vida como complemento
+da sua. Tudo isto me authorisava a offerecer-lhe hoje uma carta,
+com a certeza de me ser aceita. Offere&ccedil;o-lh'a, e ella
+responde-me que n&atilde;o sabia l&ecirc;r se n&atilde;o letra
+redonda! Leonardo de Sousa Pires e Albuquerque sabe vingar-se. Vou
+&aacute;manh&atilde; &aacute; Maya; depois... ai d'ella e de
+mim!<span class="pagenum"><a name="pag_60" id=
+"pag_60">[60]</a></span></p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_61" id=
+"pag_61">[61]</a></span></p>
+
+<h2>VII.</h2>
+
+<p>Christov&atilde;o Pacheco de Valladares, morgado de Santa
+Eufemia, esteve sete dias e sete noites emparedado no seu quarto da
+hospedaria da &laquo;Aguia d'Ouro&raquo; depois d'aquelle desastre
+da &laquo;Assembl&eacute;a.&raquo; Alguns hospedes repararam na
+reclus&atilde;o, e averiguaram dos criados que exquisito homem era
+aquelle. D'estes hospedes, o mais grado era o morgado de
+Matto-grosso, solarengo de &laquo;Entre-ambos-os-rios&raquo; homem
+de grandes brios e musculos. Apenas informado, foi bater &aacute;
+porta de Christov&atilde;o Pacheco, dizendo pela fechadura que
+abrisse que era parente e amigo. A identidade do parentesco foi de
+facil prova.</p>
+
+<p>&mdash;O primo Pacheco n&atilde;o p&oacute;de
+duvidar&mdash;disse o morgado de Matto-grosso&mdash;que um
+irm&atilde;o de meu setimo <span class="pagenum"><a name="pag_62"
+id="pag_62">[62]</a></span>av&ocirc;, que havia nome Heitor Moniz
+de Valladares foi casar &aacute; casa de Santa Eufemia com D.
+Urbana Pacheco, filha de Lopo Pacheco, governador de Cochim...</p>
+
+<p>&mdash;A fallar-lhe a verdade&mdash;disse o de Santa
+Eufemia&mdash;eu n&atilde;o sei nada de linhagens; mas tenho ouvido
+fallar a meu pai n'esse governador de Chacim.</p>
+
+<p>&mdash;Cochim, primo Christov&atilde;o, Cochim.</p>
+
+<p>&mdash;Ou Cochim, ou l&aacute; o que &eacute;...</p>
+
+<p>&mdash;E saiba que da sua prosapia sahiram os mais illustres
+sangues das familias do Minho. Talvez v. exc.&ordf;, primo,
+n&atilde;o saiba que a nossa linhagem est&aacute; mui de perto
+aparentada com Porto-Carreiros!</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o sabia, nem sei de que sirva isso.</p>
+
+<p>&mdash;De que sirva isso!&mdash;acudiu Egas de Villas-boas
+C&atilde;o e Aboim Encerra-bodes, que assim se chamava o morgado de
+Matto-grosso. N&atilde;o diga tal, primo Christov&atilde;o Pacheco.
+Pois ignora que do solar dos Porto-Carreiros, fidalgos mais velhos
+que a monarchia trezentos annos, sahiu ha cinco seculos um
+infan&ccedil;&atilde;o, que casou em Castella, e foi tronco da
+descendencia que vem illustrar-se na pessoa da actual imperatriz de
+Fran&ccedil;a?<a name="tex2html1" href="#foot395" id=
+"tex2html1"><sup>1</sup></a></p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o sabia, palavra de honra, e isso que
+faz?&mdash;tomou o de Freixieiro.</p>
+
+<p>&mdash;Faz que somos parentes da imperatriz, e que podemos
+dizel-o &aacute; bocca cheia a esses de sangue azul da capital, que
+nos chamam a n&oacute;s fidalgos de meia tigella, esquecidos de que
+os mais nobres bar&otilde;es da c&ocirc;rte de <span class=
+"pagenum"><a name="pag_63" id="pag_63">[63]</a></span>Affonso
+edificaram os seus solares entre Douro e Minho, e d'aqui, por si ou
+seus filhos, acompanharam os reis da primeira dynastia &aacute;s
+conquistas do restante da Lusitania, e d'al&eacute;m-mar.</p>
+
+<p>&mdash;A fallar-lhe a verdade, primo, quando entro a pensar
+n'essas cousas com que meu pai me quebra a cabe&ccedil;a, parece-me
+que trocava toda a minha fidalguia por algumas libras.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! que blasphemia!&mdash;Exclamou Egas n'um impeto de
+sincera indigna&ccedil;&atilde;o.&mdash;Troca-se por libras um neto
+de Heitor Moniz de Valladares!?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o &eacute; trocar-me por libras;&mdash;acudiu
+desabridamente o de Santa Eufemia&mdash;&eacute; que eu estou de
+vinte e oito annos, e ainda n&atilde;o pude sahir de casa
+sen&atilde;o duas vezes com esta; e n&atilde;o tenho remedio
+sen&atilde;o ir-me embora para Freixieiro, por que meu pai
+escreve-me hoje essa carta que o primo p&oacute;de l&ecirc;r, e
+depois me dir&aacute; se me n&atilde;o era melhor ser antes um
+caseiro das minhas fazendas, que me n&atilde;o servem de nada,
+n'esta idade em que eu preciso de dinheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Vejamos isto&mdash;disse o de Matto-grosso, abrindo a
+carta, e lendo o seguinte:</p>
+
+<p class="direita">&laquo;Meu estimado filho.</p>
+
+<p>J&aacute; te disse que venhas para casa, que n&atilde;o ha
+dinheiro para andar em folgan&ccedil;as. Os tempos est&atilde;o
+muito bicudos, e o bicho j&aacute; pegou nas videiras. Os bezerros
+do caseiro da Portela l&aacute; est&atilde;o com a molestia, e a
+cheia levou a parede do lameiro do Quinchoso. Tudo s&atilde;o
+despezas. O abbade pegou-me pela palavra, e quer que eu mande
+p&ocirc;r a porca no sino da igreja. O milho ainda n&atilde;o
+chegou &aacute; conta; os quatro carros que se venderam n&atilde;o
+chegaram para pagar as decimas. O garrano est&aacute; de todo
+espravonado; pozes-te-o bom com a tua ida ao Porto. Tudo s&atilde;o
+desgra&ccedil;as. <span class="pagenum"><a name="pag_64" id=
+"pag_64">[64]</a></span>Em quanto &aacute; roupa nova, deixa-te
+disso; a casaca que levaste est&aacute; muito boa, e o melhor
+&eacute; fazel-a em Guimar&atilde;es, que s&atilde;o mais em conta
+os alfaiates. Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou
+ordem ao meu amigo brasileiro para te dar para a jornada cinco
+pintos; olha se ajustas a cavalgadura sem gorgeta. Dou-te a minha
+ben&ccedil;&atilde;o, e sou teu pai carinhoso,</p>
+
+<p class="direita">&laquo;<i>Vasco.</i>&raquo;</p>
+
+<p>&mdash;Que me diz a isso?&mdash;exclamou Christov&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Eu sempre ouvi dizer&mdash;respondeu o primo
+Egas&mdash;que meu tio Vasco era um tanto fona; comprehendo que na
+idade do primo Christov&atilde;o custa muito n&atilde;o brilhar na
+sociedade, a que o nosso nascimento nos d&aacute; direito;
+n&atilde;o obstante, seu pai est&aacute; accumulando para o seu
+filho unico uma grande casa, e &eacute; preciso perdoar-lhe a
+inten&ccedil;&atilde;o que &eacute; boa. Vamos ao mais importante:
+o primo quer dinheiro? quer os meus cavallos? quer os meus lacaios?
+tem tudo &aacute;s suas ordens; o que eu n&atilde;o consinto
+&eacute; que diga que trocava os seus braz&otilde;es por algumas
+libras. Vamos, franqueza, precisa de fato? Chama-se j&aacute; aqui
+o alfaiate: hoje mesmo p&oacute;de sahir de ponto em branco. Tenho
+c&aacute; dous cavallos, o <i>corisco</i> e o <i>phaetonte</i>: o
+primo monta qual quizer. Diga-me agora a que veiu ao Porto.</p>
+
+<p>O morgado de Santa Eufemia, entre jubiloso e magoado, contou ao
+primo a historia do <i>seu amor de raiz</i>, como elle dizia.
+Mostrou as cartas de Silvina, que elle tinha atadas com um barbante
+n'uma bolsa interior da mala. Passou &aacute; ingenuidade da
+galhofa que lhe fizeram na &laquo;Assembl&eacute;a&raquo; narrando
+as miudezas da casaca, e expoz o collete ginja e a gravata das
+orelhas fabulosas. E terminou em tom de lastima, accusando a
+perfidia da mulher a quem elle quizera dar o seu nome.</p>
+
+<p>Egas de Encerra-bodes, depois de provar que na <span class=
+"pagenum"><a name="pag_65" id="pag_65">[65]</a></span>linhagem de
+Silvina havia um reles sargento-m&oacute;r e um capit&atilde;o de
+milicias, af&oacute;ra duas bastardias e um filho sacrilego no
+seculo XVI, entrou a fuzilar colera dos olhos, tocando no ponto
+mais grave dos queixumes do neto do governador de Cochim.</p>
+
+<p>&mdash;Eu, dizia elle batendo no peito com a m&atilde;o aberta,
+eu, primo Christov&atilde;o, na sua posi&ccedil;&atilde;o teria
+a&ccedil;outado os perros que o escarneceram na
+&laquo;Assembl&eacute;a.&raquo; Esses que riram de
+Christov&atilde;o Pacheco &eacute; a villanagem, cujos paes vieram
+para o Porto de rabona de cotim, chap&eacute;o braguez, e o tamanco
+herdado. Os nossos caseiros, quando a liberalidade de nossos paes,
+lhes concedia poderem enroupar de cotim os filhos, mandavam-os para
+aqui. Os filhos d'esses que para aqui vieram, primo, s&atilde;o os
+insultadores da risada bo&ccedil;al, os miseraveis que
+atrav&eacute;s da casaca, da pelle da luva, e do verniz das botas,
+est&atilde;o accusando o costado proprio do fardo, o p&eacute; que
+reclama o tamanco, e a m&atilde;o que suspira pelo cabo da enxada.
+Tenho visto esse gentio nos botequins, e por sobre o hombro observo
+os risos de grosseira mofa com que recebem o despreso dos que elles
+denominam <i>parvalheiras</i>. Parvalheiras, a n&oacute;s, primo,
+que temos em nossas casas a educa&ccedil;&atilde;o que elles tem
+entre as balan&ccedil;as, e timbramos em honrar os appellidos de
+nossos av&oacute;s, descendo at&eacute; elles para que elles
+n&atilde;o subam at&eacute; n&oacute;s. Se quer v&ecirc;r quanto
+&eacute; vill&atilde; a basofia d'estes tendeiros, que trocam por
+titulos ceiras de figos e costaes de bacalhau, tenha o primo a
+longanimidade de os admittir &aacute; sua convivencia, e
+ver&aacute; como se elles desfazem em lorpas cortezias, e citam a
+cada instante o seu nome, como um dos seus amigos d'elles... Vamos
+ao ponto essencial. Christov&atilde;o Pacheco foi ultrajado. Um
+primo de Egas de Matto-grosso n&atilde;o &eacute; ultrajado
+impunemente.</p>
+
+<p>Tem um rival, primo?</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; de crer que sim.</p>
+
+<p>&mdash;Fidalgo?</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_66" id=
+"pag_66">[66]</a></span>&mdash;Isso n&atilde;o sei.</p>
+
+<p>&mdash;Cumpre sab&ecirc;l-o.</p>
+
+<p>Uma hora depois entraram fardos de fato feito no quarto do
+morgado de Santa Eufemia, e logo botas do sapateiro francez, e
+chap&eacute;os da melhor fabrica. Vestiu-se Christov&atilde;o
+Pacheco, e era de v&ecirc;r em que gentil mo&ccedil;o se
+transfigurou, e que nova alma entrou n'aquelle corpo. Se elle
+tivesse lido frei Luiz de Sousa, aquelle esbelto cortez&atilde;o
+que se sepult&aacute;ra no frade, recordaria estas palavras
+escriptas com tanta sciencia do absurdo cora&ccedil;&atilde;o do
+homem: &laquo;&Eacute; nossa natureza muito amiga de si, e
+experiencia nos ensina que n&atilde;o ha nenhuma t&atilde;o
+mortificada que deixe de mostrar algum alvoro&ccedil;o para uma
+pe&ccedil;a de vestido novo. Alegra e estima-se, ou seja pela
+novidade, ou pela honra e gasalhado que recebe o corpo: at&eacute;
+os pensamentos e as esperan&ccedil;as renova um vestido
+novo.&raquo;<a name="tex2html2" href="#foot396" id=
+"tex2html2"><sup>2</sup></a></p>
+
+<p>Assim foi o morgado de Santa Eufemia. Quando se viu,
+desconheceu-se. Outro corpo e outra alma. Olhava para o polimento
+das botas, e o vidrado d'ellas reverberava-lhe na alma em lampejos
+de alegria. N&atilde;o se can&ccedil;ava de correr a m&atilde;o
+pela macia seda do chap&eacute;o, e remirava-se ao espelhinho que o
+imaginoso chapelleiro enquadr&aacute;ra no centro da copa. Com o
+que elle se ia zangando foi com as luvas de nove pontos e meio, que
+gemiam pelas costuras, com a press&atilde;o do dedo polegar que
+queria &aacute; for&ccedil;a entrar com os outros de uma assentada.
+O do Matto-grosso explicou ao primo os mysterios da luva, com muito
+mais siso que um certo folhetinista do Porto inventor dos mysterios
+da dan&ccedil;a. No Porto ha gente para inventar tudo quanto
+ha.</p>
+
+<p>Os dous morgados sahiram da &laquo;Aguia d'Ouro&raquo; no
+domingo posterior &aacute;quelle em que Silvina fall&aacute;ra um
+momento com Jorge, no jardim. Para o jardim foram <span class=
+"pagenum"><a name="pag_67" id="pag_67">[67]</a></span>tambem elles,
+seguindo Silvina e Francisca, que saturam da missa dos Congregados.
+Quando subiam a rua de Santo Antonio, um grupo de elegantes, para
+quem a physionomia do morgado fic&aacute;ra indelevel, desde o
+baile, pararam maravilhados da reforma, fixando-o com impertinente
+reparo.</p>
+
+<p>O morgado de Matto-grosso estacou em frente do grupo, e
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;Ora vamos: andem, ou desandem!</p>
+
+<p>Os elegantes abriram alas, encarando-se mutuamente com um ar de
+pasmados da propria docilidade.</p>
+
+<p>&mdash;Bravo! exclamou Leonardo Pires, que seguia de perto os
+morgados.</p>
+
+<p>Egas de Encerra-bodes voltou-se rapido para o da Maya, e disse
+mal assombrado:</p>
+
+<p>&mdash;Que &eacute; l&aacute; isso?</p>
+
+<p>&mdash;Disse <i>bravo</i>!&mdash;replicou Pires com serena
+jovialidade, porque gostei immenso de v&ecirc;r aquelles
+bigorrilhas ladearem &aacute; esquerda e direita, e comprehendi a
+raz&atilde;o porque elles pararam contemplando este cavalheiro que
+eu vi, <i>mutatis mutandis</i>, no baile da Assembl&eacute;a
+Portuense. Eu honro-me tambem de ser parvalheira, e como tal me
+apresento, pedindo-lhe que me recebam no numero dos seus conhecidos
+em quanto me n&atilde;o conhecerem digno da sua amisade. Sou da
+Maya, da familia dos Pires e Albuquerques, e primeir'annista da
+faculdade de direito. Tenciono formar-me porque n&atilde;o tenho
+que fazer, e n&atilde;o me conformo &aacute; vida de meus
+antepassados, que viviam dos galgos e dos cavallos. Abomino
+cordialmente o Porto; mas ha aqui uma mulher que me tem preso a
+esta terra pela fibra vingativa d'um cora&ccedil;&atilde;o nobre.
+Aqui estou esperando a hora de provar-lhe que sen&atilde;o brinca
+com um homem que tem esculpidas no seio as maximas herdadas de
+av&oacute;s.</p>
+
+<p>Pires foi fallando n'este estilo at&eacute; ao jardim. O morgado
+de Matto-grosso, scismando com o que seria no <i>livro dos
+costados</i> <span class="pagenum"><a name="pag_68" id=
+"pag_68">[68]</a></span>a familia de Pires e Albuquerques da Maya,
+escassamente ouviu o enfatuado palavrorio do mettidi&ccedil;o.
+Christov&atilde;o ia um pouco desconfiado da bacharelice de Pires,
+que j&aacute; o tratava por &laquo;voss&ecirc;&raquo; quando entrou
+no jardim.</p>
+
+<p>L&aacute; estava Silvina. Rodeavam-na alguns cavalheiros do
+Minho, censurando-lhe a crueldade com que abandonara o morgado de
+Santa Eufemia. D. Francisca da Cunha chanceava com remoques os
+patronos da victima do collete-ginja. A fidalga de Freixieiro,
+esporeada pela prima, fazia tambem riso do morgado, calando os
+rumores da consciencia que a n&atilde;o louvava. Era, pois, certo
+que o cora&ccedil;&atilde;o d'esta menina, degenerado acaso do seu
+bom natural, em poucos mezes de pratica de outra sociedade, se
+estava doendo de ter desconfessado, no baile, o amor de um homem,
+cuja m&atilde;o tres mezes antes apert&aacute;ra com fervoroso amor
+e esperan&ccedil;a de ser d'elle.</p>
+
+<p>Jorge Coelho presenciava de longe, e cioso, a
+atten&ccedil;&atilde;o que Silvina dava aos cavalheiros minhotos.
+N&atilde;o os conhecia, para afoutar-se a entrar na roda, e
+interrogar com uma palavra vaga o cora&ccedil;&atilde;o de Silvina.
+Esta, por&eacute;m, repellindo com desdenhosa philosophia os
+pesares que secretamente a remordiam, ergueu a fronte desanuviada,
+poz os olhos nos de Jorge, e fez uma ligeira cortezia, que todos
+julgaram ser um aceno para chamal-o.</p>
+
+<p>A este tempo chegavam, perto de Silvina, Egas de Encerra-bodes,
+Christov&atilde;o de Valladares, e Leonardo Pires. O do
+Matto-grosso comprimentou alguns primos que estavam na roda; e o de
+Santa Eufemia, voltando as costas para as senhoras, respondia, sem
+saber o que, a algumas perguntas d'um cavalheiro. O inquieto Pires,
+furando por entre todos, foi apertar a m&atilde;o a Silvina, e
+dizer-lhe que estava o ideal da quinta essencia das fadas, com o
+que D. Francisca se riu, e riso f&ocirc;ra aquelle que <span class=
+"pagenum"><a name="pag_69" id="pag_69">[69]</a></span>abrira na
+testa de Pires um vinco dos que promettem cataclismos.</p>
+
+<p>&mdash;D&aacute;-me novas de Jorge?&mdash;disse Pires a D.
+Silvina.&mdash;Eu cheguei hontem da Maya, e n&atilde;o pude ainda
+encontral-o no hotel. O amor reduzil-o-ia a Sylpho, minha
+senhora?&mdash;proseguiu o estabalhoado, mordendo o charuto ao
+canto esquerdo dos bei&ccedil;os, e arqueando os bra&ccedil;os na
+cintura.</p>
+
+<p>&mdash;O seu amigo, disse Silvina, em voz alta, para
+desaffrontar-se da grosseira postura do morgado&mdash;est&aacute;
+defronte de mim.</p>
+
+<p>Pires fez uma pirueta sobre o calcanhar direito, fitou a luneta
+no condiscipulo, contemplou-o da altura da sua critica, volveu de
+novo o rosto risonho para a dama, e disse:</p>
+<blockquote><i>Sobre a pyra fumegante,</i><br>
+<i>Ardem ternos cora&ccedil;&otilde;es.</i></blockquote>
+D. Francisca deu largas a uma risada estridula. Silvina sorriu
+prasenteiramente &aacute; tolice. Alguns morgados receberam o dito
+como cousa de espirito. Pires, contente do seu auditorio, ia
+retirar-se quando o morgado de Santa Eufemia, voltando a cara
+jubilosamente soez para o grupo, soltou uma cascalhada secca e
+desafinada que assanhou cruelmente os nervos de Silvina.
+
+<p>Todos estes movimentos foram seguidos de outro mais
+significativo. Os olhares convergiram todos sobre Jorge, que ficou
+encarnado at&eacute; &aacute;s orelhas. Alguns dos cavalheiros
+murmuraram o quer que fosse, e nomeadamente Egas de Encerra-bodes
+fitou-o insolentemente, e disse a meia voz:</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; aquelle?!</p>
+
+<p>&mdash;Pelos modos!&mdash;respondeu o primo.</p>
+
+<p>&mdash;Pobre crian&ccedil;a! &eacute; preciso dizer ao pai que o
+mande buscar.<span class="pagenum"><a name="pag_70" id=
+"pag_70">[70]</a></span></p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_71" id=
+"pag_71">[71]</a></span></p>
+
+<h2>VIII.</h2>
+
+<p>Tinha Leonardo Pires, &aacute; volta com muita pequice, assomos
+de brios capazes de enganar a gente. N&atilde;o levou em paciencia
+que os morgados rissem do seu amigo. Encarou com ferocidade o de
+Matto-grosso, e disse, estendendo o bra&ccedil;o em attitude
+esculptural para o lado onde Jorge estava:</p>
+
+<p>&mdash;Aquella crian&ccedil;a, que alli est&aacute;, tem um dedo
+de homem, que faz recuar perfeitamente o gatilho de uma
+pistola.</p>
+
+<p>Os circumstantes algum tempo n&atilde;o tugiram. Se n&atilde;o
+fosse o melodramatico da postura, a cousa n&atilde;o era para rir;
+mas a lentid&atilde;o, com que Pires desceu o bra&ccedil;o, fez
+espirrar uma cascalhada universal, salvo Silvina que arquejava em
+ancias de raiva.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_72" id=
+"pag_72">[72]</a></span>Jorge conheceu que o escarneciam.
+Ergueu-se, veiu direito ao grupo, accendeu o charuto no de Egas de
+Encerra-bodes, murmurou seccamente um <i>obrigadissimo</i>, e foi
+saudar Silvina e Francisca com a desenvoltura desacostumada que lhe
+dava agora o ciume e a ira.</p>
+
+<p>Silvina, contente da fa&ccedil;anha, deu-lhe lugar immediato no
+seu banco. Por&eacute;m, o pai de D. Francisca da Cunha,
+adivinhando tempestade nos olhares coriscantes de Christov&atilde;o
+Pacheco, ergueu-se, puxou para baixo as pantalonas que tinham
+marinhado at&eacute; meia-canella, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Vamos, meninas, s&atilde;o horas de jantar; vamos
+&aacute;s sopas.</p>
+
+<p>Levantou-se Jorge, sem ter dito palavra; mas Silvina,
+estendendo-lhe a m&atilde;o, de sorte lh'a apert&aacute;ra e
+sacudira, que fez evidente a inten&ccedil;&atilde;o de tornar bem
+reparado o feitio, muito de notar-se em menina de sua idade e
+educa&ccedil;&atilde;o alde&atilde;.</p>
+
+<p>Mal as damas voltaram costas, o morgado de Santa Eufemia foi
+bruscamente a Jorge Coelho, e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;O senhor &eacute; um petisco! N&atilde;o se me ande a
+fazer fino, quando n&atilde;o...</p>
+
+<p>Jorge respondeu assim &aacute; brutal arremettida:</p>
+
+<p>&mdash;A phrase &eacute; de carreiro; e, se n&atilde;o &eacute;
+carreiro quem me insulta, deve de ser um embriagado.</p>
+
+<p>Leonardo Pires d&aacute; um passo &aacute; frente de Jorge,
+p&otilde;e a m&atilde;o no peito, e exclama nem facundo nem
+irado:</p>
+
+<p>&mdash;Eu sou insultado na pessoa do meu amigo: exijo uma
+satisfa&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>O fidalgo de Traz-os-Montes, fazendo signal de retirada &aacute;
+filha e sobrinha, entremetteu-se no grupo que se ia cerrando, abriu
+os bra&ccedil;os, e tirou do peito estas memoraveis palavras:</p>
+
+<p>&mdash;Os senhores est&atilde;o aqui desacreditando a provincia.
+Se querem ser o que l&aacute; no matto s&atilde;o os homens de
+figados, peguem em dous carvalhos cerquinhos, e <span class=
+"pagenum"><a name="pag_73" id="pag_73">[73]</a></span>deem
+at&eacute; tocar a quebrado; mas n&atilde;o queiram que os botem
+&aacute;s gazetas &aacute;manh&atilde;. A minha opini&atilde;o
+&eacute; esta. O menino v&aacute; para um lado&mdash;disse a Jorge,
+empurrando-o com brandura&mdash;e o senhor morgado para outro. Em
+quanto &aacute; rapariga, minha sobrinha, &aacute;manh&atilde; eu a
+porei em casa do pai.</p>
+
+<p>Jorge, tirado pelo bra&ccedil;o de Pires, sahiu do jardim, e
+p&ocirc;de ainda v&ecirc;r nos olhos de Silvina, um movimento de
+radioso orgulho da bravura d'elle.</p>
+
+<p>Na tarde d'esse dia recebeu Jorge a primeira carta de Silvina
+que resava assim: &laquo;<i>&Eacute; bello ser amada por um homem
+de cora&ccedil;&atilde;o e esfor&ccedil;o. &Eacute; bello poder
+testemunhar a desaffronta do homem que se ama; mas &eacute; triste
+n&atilde;o poder, na presen&ccedil;a de Deus e dos homens,
+dizer-lhe:</i>&mdash;<small>TUA POR TODA A VIDA</small>!&raquo;</p>
+
+<p>O academico da Maya ouvira l&ecirc;r a carta, e disse, com
+quanta vehemencia lhe permittiu a posi&ccedil;&atilde;o horisontal
+n'um canap&eacute;, e as pernas sobre as costas d'uma cadeira:</p>
+
+<p>&mdash;Essa mulher tem espirito, palavra de honra! Amor e
+estilo, amigo Jorge, s&atilde;o o alpha e omega d'esta humanidade
+perfeita em que tivemos a dita de cahir das nuvens. De que diabo
+serve a rhetorica com que estragamos a memoria em Coimbra,
+n&atilde;o me dir&aacute;s?! Se o padre Cardoso, que fez um
+compendio da arte de fallar, escrever uma carta como essa, diz tu
+que eu sou um parvo e que me n&atilde;o hei-de vingar da Francisca
+da Cunha! Diante d'estes talentos brutos, sem m&atilde;o d'obra,
+como &eacute; o da tua Silvina, os Quintilianos e os Longinos ficam
+no tremedal da sua protervia explicando a <i>enallage</i> e o
+<i>hyperbaton</i>. Oh! o estilo &eacute; muito mais a mulher que o
+homem! Eu dispensava bem tres partes do cora&ccedil;&atilde;o na
+mulher que me soubesse acepilhar e lapidar um periodo! Ha l&aacute;
+nada mais lindo? A formosura fenece como as fl&ocirc;res; o estilo
+fica. Silvina, a eloquente Silvina, quando de pura velhice
+n&atilde;o tiver aquelles dentes <span class="pagenum"><a name=
+"pag_74" id="pag_74">[74]</a></span>de marfim e esmalte,
+ficar&aacute; com a bocca cheia de phrases melodiosas, como o canto
+do cysne. Tu &eacute;s feliz, Jorge, mas a mesada deve estar nas
+vascas da morte. Est&aacute;s sem vint&eacute;m?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o; meu tio padre mandou-me cincoenta mil
+r&eacute;is para lhe eu comprar dez volumes da Encyclopedia
+Catholica, e eu...</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; devoraste cinco volumes em <i>rost beef</i>, e
+luvas brancas e charutos, n&atilde;o &eacute; verdade?</p>
+
+<p>&mdash;E minha m&atilde;i encommendou-me duas pe&ccedil;as de
+durante, e n&atilde;o sei que mais, que est&aacute; esperando ha
+oito dias... Hontem recebi d'ella uma carta, que me fez pena e
+saudade...</p>
+
+<p>&mdash;Tem estilo?&mdash;interrompeu Pires, sentando-se
+estabalhoadamente.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o brinques com cousas sagradas: minha m&atilde;i
+n&atilde;o tem estilo, e n'esta carta o que me diz &eacute; copiado
+do seu livro de ora&ccedil;&otilde;es.</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa!... Isso &eacute; original! Deixas-me v&ecirc;r
+a carta-jaculatoria de tua m&atilde;i?</p>
+
+<p>&mdash;Deixo... Aqui a tens... eu leio.</p>
+
+<p>Jorge Coelho, commovido, leu o seguinte:</p>
+
+<p>&laquo;Abro o meu livro de ora&ccedil;&otilde;es e copio estas
+palavras para que meu Jorge as leia:&mdash;A infeliz m&atilde;i,
+cujo filho come&ccedil;a a frequentar as sociedades p&otilde;e toda
+a sua esperan&ccedil;a na protec&ccedil;&atilde;o de Maria.
+Come&ccedil;a o joven mancebo por alguns desmanchos que fazem
+conceber grandes receios &aacute;cerca do restante da sua idade. A
+m&atilde;i assim lh'o diz, e d&aacute; os mais ternos conselhos;
+elle, por&eacute;m, rebella-se contra aquelle t&atilde;o puro
+affecto, contra aquella dolorosa previs&atilde;o de m&atilde;i, e
+assomando-se lhe pergunta porque duvida de sua honra e prudencia, e
+acrescenta: Parece-vos o meu comportamento reprehensivel, porque
+n&atilde;o frequentaes a sociedade: eu fa&ccedil;o o que fazem
+todos.&mdash;Infeliz!&mdash;a m&atilde;i exclama&mdash;que te
+deitas a perder por isso que fazes o que todos fazem.&mdash;Ri o
+<span class="pagenum"><a name="pag_75" id=
+"pag_75">[75]</a></span>insensato dos temores maternos, e
+adianta-se &aacute;s cegas n'um caminho semeado de escolhos. Tudo
+est&aacute; posto em aventura: a honra n'este mundo, e a
+salva&ccedil;&atilde;o no outro. N&atilde;o sabe a m&atilde;i o que
+fa&ccedil;a para salvar o objecto de tantas lagrimas e crueis
+angustias. V&ecirc; perdido o filho, e perdido para sempre. Maria,
+por&eacute;m, consoladora dos afllictos se lhe mostra como
+d&ocirc;ce vis&atilde;o... E a m&atilde;i afflicta, de joelhos, com
+as m&atilde;os postas, exclama: &laquo;&Oacute; Maria, auxilio dos
+christ&atilde;os, salvai meu filho, rogai por
+elle!&raquo;&mdash;Jorge, eu orei com estas palavras: a M&atilde;i
+de Jesus ha-de ouvir-me, e fallar-te commigo ao
+cora&ccedil;&atilde;o. Vem, vem para n&oacute;s: teus irm&atilde;os
+chamam-te com saudade, e eu com lagrimas.&raquo;</p>
+
+<p>Leonardo Pires respeitou a commo&ccedil;&atilde;o de seu amigo,
+e principiava um discurso de molde segundo o caso pedia, quando o
+morgado de Matto-grosso, e outro dos cavalheiros que entrava na
+roda do jardim, assomaram na porta.</p>
+
+<p>&mdash;Temos duello&mdash;disse a meia voz, Pires, entalando no
+olho direito o aro circular da luneta e esguelhando a
+bocca.&mdash;Queiram entrar&mdash;proseguiu elle, adiantando-se
+para a porta&mdash;se &eacute; que entende com o meu amigo Jorge a
+honra da visita dos cavalheiros.</p>
+
+<p>Egas de Encerra-bodes entrou e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Vem aqui commigo o snr. Theotonio Tinoco Pitta de Lucena,
+da casa da Trofa, fidalgo t&atilde;o antigo como o solar dos
+Lucenas. O snr. Jorge n&atilde;o me conhece. Eu sou primo do
+morgado de Santa Eufemia: tenho dito de sobra para justificar o meu
+nascimento.</p>
+
+<p>&mdash;Ha-de perdoar-me&mdash;disse Pires,&mdash;n&atilde;o
+precisava v. exc.&ordf; dizer tanto para justificar o seu
+nascimento...&mdash;E atalhou logo a ironia vendo que o vulto do
+morgado se anuviava de mau agouro:&mdash;o senhor morgado &eacute;
+tido e havido na conta de muito bom sangue da provincia...</p>
+
+<p>&mdash;E do melhor de Portugal&mdash;cortou logo
+Egas&mdash;Vamos <span class="pagenum"><a name="pag_76" id=
+"pag_76">[76]</a></span>ao ponto da nossa miss&atilde;o.
+Christov&atilde;o Pacheco de Valladares manda perguntar ao snr.
+Jorge Coelho se algum de seus av&oacute;s lhe transmittiu o
+f&ocirc;ro que torna iguaes no campo da honra, nobre com nobre, as
+pelejas do pundonor aggravado.</p>
+
+<p>Jorge ficou atalhado com o espavento da pergunta, e ia pedir
+explica&ccedil;&atilde;o da linguagem que lhe fez lembrar o tedioso
+Clarimundo, quando Pires, sacudindo as borlas do seu rob-de-chambre
+respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Jorge Coelho herdou de seus av&oacute;s a honra, &eacute;
+quanto basta. Na sala do palacio de Cintra n&atilde;o est&aacute;
+l&aacute; o escudo dos Coelhos, porque o cobre a mortalha da</p>
+<blockquote>&laquo;<i>..............misera e mesquinha</i><br>
+<i>Que depois de ser morta foi rainha.</i>&raquo;</blockquote>
+Jorge por sua m&atilde;i, &eacute; Sepulveda, appellido que traz
+&aacute; memoria o caso miserando, aquelle naufragio de que por
+ventura das letras patrias nasceu um poema!...
+
+<p>&mdash;Deixemo-nos de lerias!&mdash;interrompeu Theotonio
+Tinoco.</p>
+
+<p>&mdash;L&eacute;rias! o snr. Pitta de Lucena chama a isto
+lerias!&mdash;acudiu Pires&mdash;Ent&atilde;o que quer o
+senhor?</p>
+
+<p>&mdash;Queremos que esse amigo d&ecirc; uma
+satisfa&ccedil;&atilde;o ao outro a quem elle chamou bebado
+hoje.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, primo Tinoco&mdash;disse o do Matto-grosso&mdash;bem
+sabes que o primo Christov&atilde;o n&atilde;o prop&otilde;e, nem
+aceitaria desafio, a quem n&atilde;o tiver nascimento.</p>
+
+<p>&mdash;Ficamos agora sabendo que este cavalheiro &eacute; de
+familia de bom sangue...</p>
+
+<p>&mdash;Eu n&atilde;o sei de que sangue &eacute; a minha
+familia&mdash;atalhou Jorge serenamente.&mdash;O meu amigo Pires
+n&atilde;o o sabe melhor que eu, e vv. exc.<sup>as</sup>
+h&atilde;o-de ter a bondade de dizer ao snr. morgado de Santa
+Eufemia que a c&ocirc;r do nosso sangue l&aacute; a veremos no
+campo, quando elle quizer.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_77" id=
+"pag_77">[77]</a></span>&mdash;Nomeie os seus padrinhos, para nos
+entendermos com elles&mdash;disse Egas.</p>
+
+<p>&mdash;Um serei eu, se derem licen&ccedil;a&mdash;disse a voz de
+um homem, que entrou de subito no quarto.</p>
+
+<p>&mdash;Meu tio!&mdash;exclamou Jorge, beijando-lhe a
+m&atilde;o.</p>
+
+<p>Era, com effeito, o padre Jo&atilde;o Coelho.</p>
+
+<p>Leonardo Pires e os outros olharam com venera&ccedil;&atilde;o
+para a figura sublime do velho, que trajava rigorosamente as vestes
+de sacerdote. Jorge baixara os olhos, em quanto o padre, com as
+palpebras humidas, e as m&atilde;os convulsas, fitava e comprimia
+ao seio o sobrinho. Passados instantes, disse compassadamente:</p>
+
+<p>&mdash;Tantos annos e trabalho para te aproveitar, Jorge, e tu
+em t&atilde;o pouco tempo te perdeste! Ha menos de nove mezes que
+sahiste dos bra&ccedil;os de tua m&atilde;i, e venho-te encontrar
+na vespera de exp&ocirc;r o corpo e a alma com menos desculpa que o
+salteador que traz o peito &aacute; bala e o cora&ccedil;&atilde;o
+damnado pela perversidade!</p>
+
+<p>E voltando-se para os tres cavalheiros, disse com uns assomos de
+nobre authoridade e sorriso ironico:</p>
+
+<p>&mdash;Quem s&atilde;o estes folgados rebentos de illustrissimas
+prosapias que vem aqui desenfastiar-se dos tedios da sua inercia,
+estragando a alma de uma crian&ccedil;a? Ouvi aqui nomear
+appellidos estrondosos que representam var&otilde;es de grandes
+servi&ccedil;os &aacute; religi&atilde;o e &aacute; patria:
+&eacute; lastima que os netos dos Tinocos e dos Pachecos andem
+pregoando o desafio, o derramamento de sangue, como prova de
+honradas consciencias e altos espiritos. Melhor lhes f&ocirc;ra que
+as suas consciencias fossem mais christ&atilde;s que honradas.
+N&atilde;o se illustram memorias de av&oacute;s derramando
+doutrinas impias. Se o seculo as aceita, senhores, ent&atilde;o
+reneguem vv. exc.<sup>as</sup> das virtudes de seus av&oacute;s,
+que outros seculos laurearam. Se os costumes barbaros d'esta
+civilisa&ccedil;&atilde;o, que por escarneo se chama assim, se
+conformam com os seus animos, n&atilde;o andem hypocritamente
+chorando saudades de Si&atilde;o, os que se <span class=
+"pagenum"><a name="pag_78" id="pag_78">[78]</a></span>atascam nas
+immundicies de Babilonia. Jorge, eu fui aqui mandado por tua
+m&atilde;i: n&atilde;o querer&aacute; Deus que tu
+desobede&ccedil;as &aacute; voz que te chama. Eu s&oacute; quero
+exercitar sobre ti a authoridade do conselho; tua m&atilde;i
+chama-te: deves hoje mesmo sahir do Porto commigo. A vv.
+exc.<sup>as</sup> rogo eu mui humildemente que se n&atilde;o
+afflijam da perda de um novi&ccedil;o na confraria dos heroes do
+tempo. Costumavam nossos av&oacute;s, antes de entrarem na
+cavallaria, velarem as armas no templo do Deus vivo; meu sobrinho
+vai armar-se cavalleiro, que n&atilde;o &eacute; ainda, e depois
+voltar&aacute; &aacute; arena. Riem-se os nobres senhores? Velar as
+armas &eacute; sacramento de tanto ponto, que nem o fidalgo da
+Mancha se deu por bem posto na sua miss&atilde;o, antes de armar-se
+cavalleiro no curral d'uma bodega, e o mesmo foi dar sova brava nos
+arrieiros. Tens tu j&aacute; Dulcinea, meu sobrinho? Claro &eacute;
+que sim. Ora, pois, aguarda melhores dias para as tuas
+fa&ccedil;anhas, e diz aos teus padrinhos que te deixem ser mais
+algum tempo bom filho, bom irm&atilde;o, e bom christ&atilde;o.</p>
+
+<p>Egas de Encerra-bodes j&aacute; n&atilde;o estava muito de bons
+humores com o padre. Tinoco Pitta n&atilde;o o tinha entendido, e
+abria a bocca pela terceira vez. Leonardo Pires n&atilde;o se
+atrevia a despregar da lingua aquellas espontaneas e por vezes
+graciosas parvoi&ccedil;adas que lhe vinham &aacute; flux da
+abundancia do cora&ccedil;&atilde;o. Jorge Coelho tinha t&atilde;o
+de negro cerrado o espirito que n&atilde;o balbuciou palavra. Era
+impossivel a desobediencia; mas deixar Silvina, sem levar comsigo a
+certeza de que a distancia n&atilde;o mataria n'ella a
+paix&atilde;o nascente, isso era uma d&ocirc;r que o pobre
+mo&ccedil;o desafogou em pranto desfeito, passando ao quarto
+immediato que era o de Leonardo Pires.</p>
+
+<p>O morgado de Matto-grosso, para evadir-se &aacute;
+posi&ccedil;&atilde;o embara&ccedil;osa em que se via, despediu-se
+com estas palavras:</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem: eu vou dizer ao cavalheiro offendido por seu
+sobrinho, que o offensor n&atilde;o tem imputa&ccedil;&atilde;o,
+<span class="pagenum"><a name="pag_79" id=
+"pag_79">[79]</a></span>attendendo &aacute; sua criancice, e mais
+ainda ao facto de a m&atilde;i o mandar chamar para o seu
+rega&ccedil;o, como crian&ccedil;a que &eacute; desmamada de
+fresco.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, senhor, atalhou o padre com seraphica
+brandura, diga ao senhor morgado de Santa Eufemia, creio que assim
+se chama o seu amigo, diga-lhe que seja generoso no perd&atilde;o
+das injurias; que n&atilde;o desdoure os seus antepassados
+barateando o sangue honrado que elles lhes transmittiram; diga-lhe
+sobre tudo v. exc.&ordf; que seja christ&atilde;o. Lembre-lhe que o
+desafio &eacute; uma ferocidade que nem se quer prova coragem,
+porque a verdadeira coragem &eacute; aquella admiravel
+abnega&ccedil;&atilde;o dos louvores do mundo aos impetos da raiva,
+e valoroso louvavel aos olhos do Senhor &eacute; s&oacute; aquelle
+que tem m&atilde;o de suas iras, e desarma com humildade sem
+baixeza os f&eacute;ros e acommettidas do inimigo.</p>
+
+<p>&mdash;Teu tio &eacute; grandemente lido nos
+classicos!&mdash;disse Pires, no quarto immediato, a Jorge Coelho,
+que enxugava as lagrimas teimosas.<span class="pagenum"><a name=
+"pag_80" id="pag_80">[80]</a></span></p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_81" id=
+"pag_81">[81]</a></span></p>
+
+<h2>IX.</h2>
+
+<p>Pobre cora&ccedil;&atilde;o! T&atilde;o puras lagrimas
+n&atilde;o has-de choral-as mais. D'essa grande
+afflic&ccedil;&atilde;o de que tu appellas para a morte, has-de
+lembrar-te sempre com saudade, meu amigo. Na tua angustia ha os
+prantos do anjo, saudoso do c&eacute;o. Na mulher que deixas,
+cuidas que te fica a santa companheira do Eden que a tua candura
+via na terra, aberto ao amor sem mancha, convidativo de santos
+gosos. De dez em dez annos parar&aacute;s, no caminho da vida,
+peregrino da sepultura; voltar&aacute;s o rosto para aquelle teu
+dia dos dezenove annos, e ver&aacute;s em fl&ocirc;res, fenecidas
+mas ainda graciosas, os espinhos por onde a peda&ccedil;os te fica,
+meu pobre Jorge, o cora&ccedil;&atilde;o. Saber&aacute;s
+ent&atilde;o o que &eacute; a saudade; pedir&aacute;s &aacute;
+desgra&ccedil;a d&ocirc;res semelhantes &aacute;s da tua mocidade
+para aben&ccedil;oal-as; atirar&aacute;s <span class=
+"pagenum"><a name="pag_82" id="pag_82">[82]</a></span>com o peito
+&aacute;s sar&ccedil;as das paix&otilde;es vertiginosas para
+espertares os pungitivos desgostos do amor contrariado. N&atilde;o
+j&aacute; lagrimas, se n&atilde;o fel derramar&aacute; o
+cora&ccedil;&atilde;o, que dev&ecirc;ras ter dado a Deus, desde que
+o mundo t'o desbaratou a repell&otilde;es e injurias. Chora, filho
+da sina maldita dos poetas, chora no seio de tua m&atilde;i; bem
+p&oacute;de ser que ainda l&aacute; te espere o anjo da tua
+guarda.</p>
+
+<p>Jorge Coelho n&atilde;o proferira uma palavra desobediente ao
+tio padre. Apenas, quando enfardava a roupa nas malas, enxugando as
+lagrimas antes de erguer o rosto disse:&mdash;Meu tio entende que
+me &eacute; honroso sahir do Porto sem responder ao
+desafio?...&mdash;Padre Jo&atilde;o, que abria o seu enorme
+len&ccedil;o escarlate para se assoar, ficou algum tempo com os
+bra&ccedil;os suspensos, e o len&ccedil;o pendurado, e assim
+esteve, como estupefacto cravados os olhos no sobrinho, que
+esperava a resposta. O nariz, por&eacute;m, urgia: padre
+Jo&atilde;o Coelho levou o trombetear da limpeza at&eacute;
+&aacute; hyperbole, dobrou o len&ccedil;o em quadro, depois
+enrolou-o, deu com elle mais alguns torceg&otilde;es ao nariz,
+armou-se de pitada, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o &eacute; Deus que os perde; &eacute; o
+dem&oacute;nio que ensandece aquelles que quer aproveitar. Que
+&eacute; honra, Jorge? O evangelho que te diz das injurias, do
+odio, das affrontas, das injusti&ccedil;as? O filho de Deus dictou
+e rubricou com o seu sangue a lei, a regra, os deveres da
+humanidade; n&atilde;o importa ser o evangelho obra de Deus;
+n&atilde;o importa que alli venham prescriptas as maximas da boa e
+honrada vida: o evangelho &eacute; j&aacute; inefficaz por que a
+humanidade inventou uma honra que se prova e sustenta com o duello:
+a vossa honra, cegos miseraveis dignos de lagrimas, lava-se no
+sangue, justifica-se pelo homicidio, ao qual a
+legisla&ccedil;&atilde;o decreta a forca, e a
+conven&ccedil;&atilde;o social o galard&atilde;o da bravura. Jorge,
+quem te disse que o assassino era honrado?</p>
+
+<p>O academico apenas respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Meu tio, vamos; eu estou prompto.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_83" id=
+"pag_83">[83]</a></span>Leonardo Pires j&aacute; estava no largo da
+Batalha, chamando a atten&ccedil;&atilde;o dos numerosos
+transeuntes que paravam em magotes para verem o cavalleiro com as
+esporas cravadas nos ilhaes de uma &eacute;gua de fina ra&ccedil;a
+que se empinava, e corcovava, e atirava ora couces, ora
+gal&otilde;es medonhos. &Eacute; que Leonardo Pires vira D.
+Francisca da Cunha n'uma janella do palacio do snr. Manoel Guedes,
+e de si para si entendeu que lhe ia bem dar-se n'aquelle
+espectaculo hyppico, mesmo com perigo de quebrar a cabe&ccedil;a,
+como de facto quebrou, e t&atilde;o desgraciosamente o fez, que
+Francisca da Cunha, anciada de riso, dizem que cahira extenuada
+n'uma othomana.</p>
+
+<p>Andava o infeliz Pires atraz da egua espavorida, com ajuda dos
+gallegos do chafariz, quando Jorge e o tio desceram da hospedaria
+da Estrella do Norte para a pra&ccedil;a.</p>
+
+<p>Apanhada a cavalgadura, indiscreta e desasada para heroismos de
+amor, Pires montou de salto, e acompanhou at&eacute; Vallongo o
+condiscipulo, com evidente desagrado do padre. No caminho, em
+quanto o egresso fic&aacute;ra atraz compondo os loros do macho
+fleumatico, o amador infausto de Francisca da Cunha disse a
+Jorge:</p>
+
+<p>&mdash;Que queres que eu diga a Silvina, se o tio a n&atilde;o
+mandar para a ald&ecirc;a?</p>
+
+<p>&mdash;Diz-lhe, respondeu Jorge commovido, com os olhos
+marejados de lagrimas&mdash;diz-lhe que eu n&atilde;o posso contar
+com a minha vida para lh'a offerecer. Diz-lhe que eu n&atilde;o
+fugi de cobarde; por quem &eacute;s, Pires, n&atilde;o consintas
+que me ella ultraje, duvidando da minha coragem. Falla-lhe de minha
+m&atilde;i, que eu sei que ella me amar&aacute; ainda mais, vendo
+que eu respeito tanto as lagrimas da que me formou o
+cora&ccedil;&atilde;o que eu lhe dei, e ella achou digno de si. As
+minhas cartas mando-t'as a ti para lh'as entregares... Silencio,
+que ahi est&aacute; meu tio.</p>
+
+<p>&mdash;Snr. padre Jo&atilde;o Coelho, disse alegremente
+Leonardo, pique o bucephalo c&aacute; para a frente.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_84" id=
+"pag_84">[84]</a></span>&mdash;Alexandre Magno n&atilde;o montava
+machos, senhor estudante, respondeu o padre. Andaria mais acertado
+com a historia se me honrasse antes com as tradi&ccedil;&otilde;es
+de Sancho Pan&ccedil;a. O machinho sabe que leva em cima um engenho
+velho, que se acerta de inclinar na carga cahe cada pe&ccedil;a
+para o seu lado.</p>
+
+<p>&mdash;Mas leva uma grande alma, replicou Pires.</p>
+
+<p>&mdash;O macho? perguntou o padre, sorrindo.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;L&aacute; em Coimbra estuda-se essa psycologia de
+veterinaria? As grandes almas passaram, pelos modos, dos Aristides
+e Cat&otilde;es para estes quadrupedes! Se assim &eacute;, que nos
+fica para n&oacute;s, senhor academico?</p>
+
+<p>&mdash;Eu queria dizer ao meu nobre amigo que o macho leva um
+cavalleiro com grande alma.</p>
+
+<p>&mdash;Muito obrigado ao seu favor, snr. Pires. Eu tambem o
+entendi; mas metti-me a engra&ccedil;ado a v&ecirc;r se desafiava o
+riso, do meu pobre Jorge, que vai ahi melancolico, como nunca foi
+filho algum para os bra&ccedil;os de sua m&atilde;i e
+irm&atilde;os.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; que Jorge Coelho, tornou o estouvado
+infan&ccedil;&atilde;o da Maya, est&aacute; como a avesinha a
+pairar emplumada, que salta para o rebordo do ninho, e vacilla
+entre ir para a m&atilde;i que a est&aacute; dentro chamando com o
+cibo, ou voejar para a arvore em fl&ocirc;r que a est&aacute;
+enamorando de longe.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; uma bucolica bonita que o senhor vai
+poetisando&mdash;tornou o padre, fechando o olho direito e sorvendo
+uma canora pitada pela venta correspondente.&mdash;A avesinha (se
+d&aacute; licen&ccedil;a, eu componho em linguagem chan e fradesca
+uma estrophe do idyllio) a avesinha deixou piar a carinhosa
+m&atilde;i, e desferiu as tenras azas na pontaria da arvore
+florida; e, como quer que as for&ccedil;as lhe can&ccedil;assem do
+desusado v&ocirc;o, n&atilde;o teve a avesinha remedio sen&atilde;o
+abater-se ao ch&atilde;o para pousar. E vai n'isto, andava por alli
+&aacute; ca&ccedil;a de ninhos um gato ou uma gata brava, seja gato
+ou gata; o essencial &eacute; que apenas o <span class=
+"pagenum"><a name="pag_85" id="pag_85">[85]</a></span>triste
+passarinho apegou, o animal damninho fez-lhe o salto d'entre umas
+bal&ccedil;as, e o filho da pobre m&atilde;i, que se morria de
+paix&atilde;o no ninho, l&aacute; foi empolgado pelo gato ou pela
+gata... Lafontaine n&atilde;o inventou este conto, e merecia a
+pena; n&atilde;o importa: compuzem'ol-o n&oacute;s, snr. Pires,
+<i>ad usum delphini</i>, e seja delfim o nosso Jorge.</p>
+
+<p>A allus&atilde;o desgraciosa da gata foi t&atilde;o clara quanto
+desagradavel a Jorge. Era uma injuria &aacute; mulher querida,
+&aacute; sombra lagrimosa que o ia acompanhando, e instigando a
+reagir contra o dominio de parentes, e exhortando a emancipar o
+cora&ccedil;&atilde;o d'uma tutela que lhe deixava da vida as
+regalias que bastavam &aacute; crian&ccedil;a, mas n&atilde;o ao
+homem.</p>
+
+<p>Azedado, pois, pelo motejo da bucolica do padre Jo&atilde;o,
+Jorge disse com vehemencia:</p>
+
+<p>&mdash;Meu tio offere&ccedil;a a moralidade dos contos a quem
+lhe pedir li&ccedil;&otilde;es.</p>
+
+<p>Padre Jo&atilde;o, depois de breve pausa, respondeu brandamente
+e com magoada tristeza:</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o te envergonhes de pedir-me
+li&ccedil;&otilde;es, filho, que as n&atilde;o pedes s&oacute;mente
+a um velho; d&aacute;-t'as um amigo, que foi homem antes de ser
+frade, e estudou os homens, depois que o mandaram sahir da sua
+cella, como cousa inutil &aacute; sociedade. Se me n&atilde;o
+quizeres as li&ccedil;&otilde;es, de que sirvo eu, Jorge? J&aacute;
+agora irei pr&eacute;gando sempre, quer me ou&ccedil;am, quer me
+repulsem, como manda o apostolo.. Desagradou-te a allegoria do
+conto, e convidas-me assim a ser mais natural. Jorge, repara bem no
+que te diz este velho que, no teu modo pouco respeitoso de fallar a
+uma m&atilde;i, &laquo;te premuniu com cabedal de philosophia
+christ&atilde;, bastante para defender das tenta&ccedil;&otilde;es
+todas as na&ccedil;&otilde;es da biblia exterminadas por causa do
+peccado.&raquo; Sei de c&oacute;r as tuas palavras, porque m'as
+entalhou na alma o espinho da ingratid&atilde;o. Deves-me bons
+desejos de te fazer bom e honrado: n&atilde;o me sejas ingrato.
+Agora, escuta, filho. Vinte e quatro horas antes de <span class=
+"pagenum"><a name="pag_86" id="pag_86">[86]</a></span>te apparecer,
+procurei-te, porque do Porto fui avisado dos teus desvios: como te
+n&atilde;o encontrei, fui colher mais informa&ccedil;&otilde;es;
+voltei &aacute; noite &aacute; hospedaria tres vezes, e &aacute;s
+duas horas n&atilde;o tinhas ainda recolhido. No dia seguinte, que
+foi hoje, procurei-te &aacute;s nove horas da manha: tinhas
+j&aacute; sahido. D&eacute;ste-me tempo de sobra para eu me
+instruir das miudezas da tua historia de tres semanas. Sei quem
+&eacute; a creatura que te ourou a cabe&ccedil;a. &Eacute; uma feia
+alma n'um formoso estojo; &eacute; uma aventureira...</p>
+
+<p>&mdash;Meu tio, isso &eacute; crueldade e
+calumnia&mdash;interrompeu Jorge allucinado.</p>
+
+<p>&mdash;Bate, mas escuta, dizia o philosopho: &eacute; uma
+aventureira de maridos, que engodou o morgado de Santa Eufemia, em
+quanto julgou desnecessario o consentimento do velho fidalgo para a
+realisa&ccedil;&atilde;o do casamento que a fazia rica.
+Desvanecidas as esperan&ccedil;as do morgado, cuja rudeza lhe
+n&atilde;o desdizia com o espirito arteiro, voltou-se para um rico
+brazileiro de Cabeceiras de Basto; mas o brazileiro n&atilde;o lhe
+entendeu os pespontes da eloquencia, e disse que queria mulher com
+quem elle se entendesse. Chamada por uma prima, professora em
+armadilhas ao casamento...</p>
+
+<p>&mdash;Francisca da Cunha?&mdash;exclamou Pires, erguendo-se nos
+estribos.</p>
+
+<p>&mdash;Justamente, Francisca da Cunha, menina matreira
+que...</p>
+
+<p>&mdash;Olhe que eu amo essa mulher, snr. padre
+Coelho!&mdash;interrompeu solemnemente Leonardo.</p>
+
+<p>&mdash;Pois faz v. s.&ordf; muito bem: o amor do proximo
+&eacute; preceito divino: sou de parecer que a ame; mas n&atilde;o
+lhe dou os parabens... Vinha eu dizendo que a tal Silvina j&aacute;
+no Porto, de m&atilde;os dadas com a prima, n&atilde;o duvidou
+visitar uma estalajadeira de Margaride que viera a banhos de mar,
+porque esta estalajadeira tinha um filho que viera do Brazil, com
+alguns centos de contos, negociados na escravatura. E como o filho
+da estalajadeira <span class="pagenum"><a name="pag_87" id=
+"pag_87">[87]</a></span>n&atilde;o andava acostumado a comprar
+sen&atilde;o negras possantes e trabalhadoras, recusou comprar a
+complei&ccedil;&atilde;o melindrosa da fidalga de Margaride. D'ahi
+veio o saber-se, pelo dizer a snr.&ordf; D. Silvina, que o poderoso
+brazileiro &eacute; filho d'uma taverneira, e que f&ocirc;ra para o
+Brazil com umas soletas e chap&eacute;o de Braga que lhe dera de
+esmola o pai da fidalga. Eis aqui o que eu pude averiguar da pessoa
+por quem meu sobrinho troca os carinhos de sua m&atilde;i, a
+d&ocirc;ce amisade de seus irm&atilde;os, e as li&ccedil;&otilde;es
+amoraveis de seu velho tio.</p>
+
+<p>Jorge Coelho ficou enleado, e n&atilde;o replicou; Leonardo
+Pires, por&eacute;m, que nunca em sua vida pens&aacute;ra o que
+dizia, sen&atilde;o meia hora depois de o dizer, exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Mas ha-de confessar, snr. padre Jo&atilde;o, que ellas
+s&atilde;o boas mulheres!</p>
+
+<p>&mdash;Boas!...&mdash;murmurou o padre, que n&atilde;o entendeu
+o sentido do adjectivo&mdash;boas... quer-me parecer que n&atilde;o
+s&atilde;o muito!</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! pois n&atilde;o as acha bonitas e
+elegantes?</p>
+
+<p>&mdash;Eu n&atilde;o as conhe&ccedil;o; mas creio que s&atilde;o
+bonitas e elegantes: e d'ahi?</p>
+
+<p>&mdash;E d'ahi! <i>Amor omnia vincit!</i> o amor tudo vence.</p>
+
+<p>&mdash;Agrade&ccedil;o a traduc&ccedil;&atilde;o&mdash;disse,
+sorrindo, o padre, que, a fallar a verdade, tinha uns sorrisos que
+muito justificavam o dito de ter sido &laquo;homem&raquo; antes de
+ser frade.&mdash;O snr. Leonardo Pires n&atilde;o tem
+m&atilde;i?&mdash;acrescentou o padre, ap&oacute;s um curto
+intervallo, com summa seriedade.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho, sim senhor; mas n&atilde;o tenciono namorar minha
+m&atilde;i&mdash;disse precipitadamente Leonardo.</p>
+
+<p>O padre fitou-o com tristeza e admira&ccedil;&atilde;o, um
+momento, e depois disse-lhe com bons modos:</p>
+
+<p>&mdash;Praza a Deus que o cora&ccedil;&atilde;o esteja menos
+derran&ccedil;ado que a linguagem... snr. Leonardo Pires, eu tenho
+setenta annos; deprava-se um rapaz; mas respeita-se um velho.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_88" id=
+"pag_88">[88]</a></span>D'esta vez, o imperturbavel Pires
+n&atilde;o teve que responder.</p>
+
+<p>Tinham chegado a Vallongo. Jorge estendeu a m&atilde;o ao seu
+amigo, e disse-lhe suffocado:</p>
+
+<p>&mdash;Adeus! n&atilde;o sei se te verei mais... Sinto a morte
+no cora&ccedil;&atilde;o!</p>
+
+<p>O padre fez um frio comprimento ao amigo de seu sobrinho,
+dizendo-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Deus o tenha de sua m&atilde;o.</p>
+
+<p>Leonardo partiu; e o egresso, com os olhos embaciados de
+lagrimas, murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Jorge! quem te abriu as portas da desgra&ccedil;a foi
+aquelle homem.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_89" id=
+"pag_89">[89]</a></span></p>
+
+<h2>X.</h2>
+
+<p>N&atilde;o esqueceram de certo ao leitor attento estas linhas da
+carta que o morgado de Santa Eufemia recebeu do
+pai:&mdash;<i>Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou
+ordem ao meu amigo brazileiro para te dar para a jornada cinco
+pintos.</i></p>
+
+<p>O brazileiro amigo do fidalgo de Freixieiro era o snr.
+Jos&eacute; Francisco Andraens, natural de Cozelhas, desde 1844
+estabelecido no Porto, onde viera tratar do ba&ccedil;o, do
+pancreas, e d'outras entranhas importantes do snr. Jos&eacute;
+Francisco Andraens. Na mente do illustre enfermo estava retirar-se
+para a provincia de Piauhy, onde tinha a sua feira de pretos, logo
+que restaurasse o estomago e as mais partes circumjacentes da sua
+alma. Por&eacute;m, como quer que um seu amigo velho, e companheiro
+<span class="pagenum"><a name="pag_90" id=
+"pag_90">[90]</a></span>de viagem para o Brazil, em rapazes,
+estivesse no Porto com o titulo de visconde dos Lagares, e este o
+fizesse conhecido por meio das gazetas por uma esmola de cincoenta
+mil r&eacute;is ao hospital da Santissima Trindade, o snr.
+Jos&eacute; Francisco viu-se t&atilde;o festejado, t&atilde;o
+requestado, t&atilde;o necessario ao Porto, que mandou vender os
+pretos em ser, e liquidar os creditos.</p>
+
+<p>Tentemos um debuxo de Jos&eacute; Francisco. Deve estar entre
+cincoenta a cincoenta e cinco annos, estatura menos de mean, com
+tres barrigas, das quaes a primeira, come&ccedil;ando pela parte
+mais nobre do sujeito, principia onde o vulgar da gente tem os
+joelhos, e, depois d'uma arremettida adiposa, retrahe-se na linha
+imaginaria da cintura, e estreita-se em f&oacute;rma de
+cabe&ccedil;a. A segunda barriga pega da primeira, ondeia com tres
+ordens de refegos por sobre as falsas costellas, lad&ecirc;a tumida
+e retesada como os flancos d'um &ocirc;dre posto de trav&eacute;s,
+e vai perder-se nos sovacos, mandando para as costas uma corcunda
+da sua mesma natureza. A terceira barriga pendura-se da face
+interna do queixo inferior, amplia-se flacida e lustrosa como um
+buxo mal cheio de vitella, e assenta sobre a segunda, no ponto
+hypothetico do esterno. A parte anatomica d'este bosquejo toda ella
+se libra em conjecturas. O author n&atilde;o assevera sen&atilde;o
+a existencia das barrigas.</p>
+
+<p>Isto tudo tem uma base caprichosa: s&atilde;o cousas que a
+linguagem do paradoxo denomina p&eacute;s. Vacilla a critica no
+confrontal-os com objecto dos tres reinos: uma tartaruga envolta em
+bezerro d&aacute;-nos uns longes da realidade; mas falta-nos o
+simile para os declivios, gargantas e barrocaes dos joanetes. Os
+p&eacute;s de Jos&eacute; Francisco s&atilde;o a
+desespera&ccedil;&atilde;o dos Gavarni. O marr&atilde;o do alvanel
+poderia arrancal-os d'um golpe d'uma pedreira por acaso; mas
+Apelles mais depressa pintaria uvas que enganassem o bico sequioso
+da passarinhada.</p>
+
+<p>No tocante &aacute; cara o snr. Andraens &eacute; homem, apesar
+<span class="pagenum"><a name="pag_91" id=
+"pag_91">[91]</a></span>d'outros animaes que lhe n&atilde;o
+disputam os f&oacute;ros da humanidade, porque n&atilde;o teem um
+curso de historia natural. O rubor do tomate desmaia ao p&eacute;
+das papeiras faciaes do brazileiro. O nariz enfronha-se de
+envergonhado entre as trouxas de tecidos, que lhe debruam os olhos
+de oppila&ccedil;&otilde;es carnosas, sebaceas e luzidias. A menina
+do olho &eacute; rutilante e azougada, posto que as
+secre&ccedil;&otilde;es visinhas lhe bezuntem a raiz das
+pestanas.</p>
+
+<p>O snr. Andraens &eacute; commendador da ordem de Christo, desde
+que o seu amigo visconde dos Lagares foi nomeado trinchante da casa
+real. Af&oacute;ra isto, o brazileiro de Cozelhas, na qualidade de
+accionista do Banco Commercial do Porto, &eacute; orador vitalicio
+d'aquella assembl&eacute;a, em que n&atilde;o s&atilde;o raros os
+talentos de maior porte. Tal era o amigo do velho fidalgo de
+Freixieiro.</p>
+
+<p>Jos&eacute; Francisco esperava que o filho de Vasco procurasse
+os cinco pintos, segundo a ordem que recebera. Decorridos alguns
+dias, escreveu ao seu amigo, a dizer-lhe que o fidalgo novo
+n&atilde;o apparecera para receber o dinheiro. Tornou o velho a
+escrever ao brazileiro, encarregando-o de procurar o filho,
+aconselhal-o que fosse para casa, e pagar a despeza que elle
+tivesse feito na estalagem.</p>
+
+<p>Foi o snr. Andraens &aacute; <i>Aguia d'Ouro</i>, e como
+n&atilde;o encontrasse Christov&atilde;o, deixou dito ao criado do
+quarto quem era e a precis&atilde;o que tinha de fallar com o
+morgado. J&aacute; vinha descendo as escadas, e voltou acima a
+chamar o criado.</p>
+
+<p>&mdash;Olhe l&aacute;, disse elle, o fidalgo deve muito
+c&aacute; na casa?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, senhor: o fidalgo paga todas as semanas.</p>
+
+<p>&mdash;Est&aacute; bom, est&aacute; bom, voss&ecirc; n&atilde;o
+diga que eu perguntei isto, e pegue l&aacute; para matar o bicho
+&aacute;manh&atilde;.&mdash;Dizendo, abriu uma bolsa de retroz
+coalhada de missanga, e tirou trinta r&eacute;is que deu ao criado
+com a m&atilde;o direita <span class="pagenum"><a name="pag_92" id=
+"pag_92">[92]</a></span>fechada, para que a esquerda se n&atilde;o
+escandalisasse da prodigalidade.</p>
+
+<p>Na manh&atilde; do dia seguinte, foi o morgado de Santa Eufemia
+a casa do brazileiro, e conduziram-o ao seu quarto de dormir,
+porque Jos&eacute; Francisco estava ainda recolhido com a barriga
+n.&ordm; 2 envolta de papas de linha&ccedil;a.</p>
+
+<p>&mdash;Estou aqui emplasmado, senhor morgado&mdash;disse
+Jos&eacute; Francisco, arqueando os bra&ccedil;os por sobre a
+esphera abdominal.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o o snr. Jos&eacute; que tem?</p>
+
+<p>&mdash;Mande-se sentar, meu fidalgo. Eu estou aqui com uns
+calores c&aacute; de dentro, que d&atilde;o que fazer &aacute;
+botica; mas isto, se Deus quizer, n&atilde;o &eacute; nada. Pois,
+meu senhor e amigo, seu pai escreveu-me, como ha-de saber, para eu
+lhe dar um dinheirito, e depois tornou a escrever-me para eu ir ter
+aonde a v. s.&ordf; e dizer-lhe que o melhor &eacute; ir-se para
+casa, quanto antes, porque o velho, pelos modos, est&aacute;
+l&aacute; arrenegado por si. Ent&atilde;o, vai ou n&atilde;o
+vai?</p>
+
+<p>&mdash;Por estes dias, irei; mas j&aacute; j&aacute; n&atilde;o
+se me arranja c&aacute; a minha vida, snr. Jos&eacute;.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o o senhor, ainda que eu seja confiado, que
+tem c&aacute; que fazer? Ahi, por mais que me digam, anda
+derri&ccedil;o... Eu hei-de saber o que &eacute; quando fallar com
+a fidalga de Margaride que o conhece muito bem ao senhor
+morgado...</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o o senhor conhece a D. Silvina de Mello?</p>
+
+<p>&mdash;Conhe&ccedil;o-a como os meus dedos...&mdash;respondeu o
+snr. Andraens, com um sorriso intencional, que passou desapercebido
+ao morgado.&mdash;&Eacute; bem boa estampa, &oacute; senhor
+morgado, n&atilde;o &eacute;? ora diga a verdade!</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; muito bonita, isso &eacute;.</p>
+
+<p>&mdash;Rapariga d'uma vez! e bem-fallada!? isso ent&atilde;o
+quando calha de fallar, aquillo n&atilde;o despega nem &aacute;
+m&atilde;o de Deus-padre! Falla em tudo quanto ha! At&eacute; em
+Sebastopool, <span class="pagenum"><a name="pag_93" id=
+"pag_93">[93]</a></span>senhor morgado! Um d'estes dias tinha eu
+l&aacute; ido a troco c&aacute; de certa pendencia, e veiu &aacute;
+collec&ccedil;&atilde;o a guerra da Russia, e ella come&ccedil;ou
+alli a manobrar as batalhas, e se f&ocirc;r como ella diz o snr. D.
+Miguel (Deus o traga) n&atilde;o tarda c&aacute;. Eu n&atilde;o
+tenho partidos, e at&eacute; a fallar a verdade, sou commendador
+por esta gente, mas em fim, quero-me c&aacute; com os velhos, e
+gente como era a antiga j&aacute; se n&atilde;o topa. Pois &eacute;
+verdade... eu...</p>
+
+<p>&mdash;E a fidalga&mdash;atalhou o morgado&mdash;nunca lhe
+fallou em mim, snr. Jos&eacute;?</p>
+
+<p>&mdash;Fallou, pois ent&atilde;o? disse-me at&eacute; que o
+senhor queria casar com ella... &eacute; assim ou n&atilde;o
+&eacute;?</p>
+
+<p>&mdash;Isso &eacute; verdade. Paix&atilde;o de raiz como a que
+eu tenho por ella n&atilde;o a torno a ter pela mais pintada.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! que me diz?&mdash;acudiu o brazileiro com
+espanto&mdash;pois a cousa &eacute; isso? Quer apostar que o senhor
+est&aacute; aqui pr'a-mor d'ella?</p>
+
+<p>&mdash;Em fim, o cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o mente...
+&Aacute; conta d'ella &eacute; que eu aqui estou. Passaram-se uns
+poucos de mezes sem eu ter carta, desde que ella veiu para o Porto.
+Arranjei como pude licen&ccedil;a do pai, e vim encontral-a
+c&aacute; a namorar outro, um trampolineirito a quem eu queria dar
+uma escovadela, mas antes de hontem fugiu l&aacute; para cascos de
+rolha.</p>
+
+<p>&mdash;Conte-me isso, conte-me isso&mdash;exclamou Jos&eacute;
+Francisco com vehemente interesse.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; como lhe digo, snr. Jos&eacute;. Agora preciso
+demorar-me alguns dias a ver o que ella faz.</p>
+
+<p>&mdash;Com que ent&atilde;o diz-me o senhor morgado&mdash;disse
+meditabundo e detidamente o brazileiro&mdash;que ella andava
+j&aacute; com o miolo &aacute;s voltas por outro sujeito!... As
+mulheres s&atilde;o o diabo!... Quer o senhor saber?! Mas isto
+&eacute; pedra que cahe em po&ccedil;o, ouviu o senhor?</p>
+
+<p>&mdash;Eu n&atilde;o digo nada; p&oacute;de fallar snr.
+Jos&eacute;.</p>
+
+<p>&mdash;Pois ent&atilde;o, vou desembuchar... Eu tenho emprestado
+algum dinheiro ao Pedro de Mello, pai da Silvina, <span class=
+"pagenum"><a name="pag_94" id="pag_94">[94]</a></span>para elle
+mandar aos rapazes que andam a estudar p'ra doutores em Coimbra. A
+casa do Mello &eacute; boa, mas est&aacute; empenhada at&eacute;
+aqui.&mdash;(O snr. Jos&eacute; Francisco poz um dedo na barriga
+n.&ordm; 3, que deu de si como um bal&atilde;o de borracha). Ha-de
+haver tres mezes que eu fui levar &aacute; filha umas libras que o
+pai lhe mandou dar para vestimentas. Eu andava com o olho em cima
+de uma quintarola bem boa d'elle, que parte com os meus
+terr&otilde;es da Lixa, e n&atilde;o se me dava de lhe ir dando aos
+poucos algum dinheiro at&eacute; lhe apanhar a propriedade que me
+faz muita conta. E vai se n&atilde;o quando, meu amiguinho e senhor
+morgado, veiu a fidalga &aacute; sala assignar o recibo, e p'ra'qui
+p'racol&aacute;, palavra puxa palavra, eu deixei-me estar ao cavaco
+com ella e com a prima, e jantei l&aacute; n'esse dia, e fiquei
+p'ra a noite. A fallar-lhe a verdade nua e crua, como o outro que
+diz, eu n&atilde;o sei o que sentia c&aacute; no interior! Que
+diabo &eacute; isto que eu sinto? disse eu c&aacute; c'os meus
+bot&otilde;es. Eu andei por l&aacute; por esses mundos de Christo,
+vi muita mulata e branca de encher o olho, tive as minhas
+rapaziadas, porque em fim, a gente &eacute; de carne e osso; mas
+nunca me buliu c&aacute; por dentro mulher nenhuma como esta! Se o
+senhor morgado ouvisse o palavriado d'ella! Deixe v&ecirc;r se me
+lembro... N&atilde;o encarreiro... Ora deixe estar o senhor.. Eu
+tenho alli uma carta d'ella...</p>
+
+<p>&mdash;Uma carta d'ella!&mdash;interrompeu o morgado a
+fumegar.</p>
+
+<p>&mdash;Pois ent&atilde;o? uma carta d'ella, umas poucas; mas ha
+l&aacute; uma em que ella escreve o mesmo que tinha dito de bocca.
+Faz o senhor favor de me ir &aacute;quella gavetinha do meio da
+commoda, e dar-me de l&aacute; um caixotinho de vidro, que tem uns
+bordados de papel dourado na cobertoira?...</p>
+
+<p>Christov&atilde;o Pacheco abriu com a m&atilde;o convulsa a
+gaveta, e levou &aacute; cama do snr. Andraens a caixinha indicada.
+O brazileiro tirou um feixe de cartas, cintadas com <span class=
+"pagenum"><a name="pag_95" id="pag_95">[95]</a></span>uma fita de
+nastro, abriu algumas, regougando palavras soltas de cada uma
+d'ellas, e por fim acertou com a carta que procurava, e
+exclamou:&mdash;C&aacute; est&aacute; ella! tal e qual. Ora faz
+favor de l&ecirc;r, que eu n&atilde;o estou hoje muito escorreito
+dos olhos.</p>
+
+<p>O morgado de Santa Eufemia, entalado, enfiado, tremulo e
+escarlate at&eacute; &aacute; raiz dos cabellos, leu o
+seguinte:</p>
+
+<p>&laquo;Meu bom e muito querido amigo. Tanto eu como minha prima
+Francisca, ella por amisade reconhecida, e eu do
+cora&ccedil;&atilde;o affectuoso lhe agradecemos o valioso mimo com
+que se dignou brindar-nos a sua generosidade...&raquo;</p>
+
+<p>&mdash;Isso foi, interrompeu o brazileiro, a respeito de umas
+pulseiras de ouro que eu mandei &aacute;s duas, que me custaram
+dezesete libras e mais uns p&oacute;sinhos, n&atilde;o fallando na
+caixota em que foram os estojos que me tinha custado em Paris
+quarenta e oito francos. Empreguei bem o meu dinheiro, n&atilde;o
+tem duvida! Ora faz favor de continuar com essa trapalhice:</p>
+
+<p>O morgado proseguiu na leitura acerba, limpando as camarinhas de
+suor que lhe transpiravam da testa:</p>
+
+<p>&laquo;Apreciamos a dadiva j&aacute; pelo que ella vale,
+j&aacute; pelos sentimentos delicados que ella
+representa...&raquo;</p>
+
+<p>&mdash;Isso &eacute; bem dito, n&atilde;o &eacute;, &oacute;
+senhor morgado?&mdash;interrompeu o snr. Jos&eacute;
+Francisco.&mdash;L&aacute; que ella tem uma cabecinha como
+n&atilde;o ha outra, isso pau pau, pedra pedra, a verdade ha-de
+dizer-se. O que lhe falta &eacute; mi&ocirc;lo... Ora ande
+l&aacute;... v&aacute; lendo:</p>
+
+<p>&laquo;Nunca eu aceitaria&mdash;continuava a carta de
+Silvina&mdash;uma prenda de homem, que n&atilde;o tivesse uma
+explica&ccedil;&atilde;o honrosa. Esta, que eu tenho no meu pulso,
+n&atilde;o me faz estremecer a m&atilde;o de pejo. Os meus
+sentimentos a respeito de v. s.&ordf; tenho-lh'os dito tantas
+vezes, que repetil-os seria abusar da sua atten&ccedil;&atilde;o, e
+descer um pouco da minha senhoril, dignidade. V. s.&ordf; sabe como
+eu aprecio as paix&otilde;es proprias dos meus annos...&raquo;</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_96" id=
+"pag_96">[96]</a></span>Jos&eacute; Francisco Andraens deu dous
+gal&otilde;es no leito, e clamou:</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; ahi, &eacute; ahi onde est&aacute; a cousa!</p>
+
+<p>Christov&atilde;o continuou, j&aacute; deletreando, porque a
+raiva lhe nublava os olhos:</p>
+
+<p>&laquo;N&atilde;o creio na dura&ccedil;&atilde;o do amor
+impetuoso. A violencia da vibra&ccedil;&atilde;o fatiga as cordas
+da alma...&raquo;</p>
+
+<p>&mdash;Olhe l&aacute;&mdash;atalhou o brazileiro&mdash;isso que
+vem a dizer? esse bocado n&atilde;o o percebi bem... <i>A violencia
+da vibra&ccedil;&atilde;o fatiga as cordas</i>... que diabo!...</p>
+
+<p>&mdash;Quer dizer, respondeu o morgado com anciado
+esfor&ccedil;o, quer dizer que... sim... eu acho que isto vem a
+dizer... que as paix&otilde;es fortes adoentam a gente...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim, senhor, ha-de ser isso... eu c&aacute; sinto os
+estragos no interior... Ora faz favor de v&ecirc;r o resto.</p>
+
+<p>O morgado leu:</p>
+
+<p>&laquo;A minha ambi&ccedil;&atilde;o &eacute; encontrar um amigo
+verdadeiro, um cora&ccedil;&atilde;o sereno, um homem para quem o
+mundo n&atilde;o tenha abysmos, dos que tem no fundo a
+desgra&ccedil;a da esposa trahida, e esquecida. Receba no
+cora&ccedil;&atilde;o estas palavras da sua dedicada e constante
+amiga, <i>Silvina</i>.&raquo;</p>
+
+<p>&mdash;Que me diz o senhor a isso?&mdash;interpellou Jos&eacute;
+Francisco, dando uma palmada no hombro do entorpecido morgado.</p>
+
+<p>&mdash;O que eu lhe digo, snr. Jos&eacute;!...&mdash;tornou o
+morgado, atirando a carta para sobre o leito.&mdash;O que eu lhe
+digo &eacute; que esta mulher...</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; uma mulher de pouco mais ou menos&mdash;concluiu
+o brazileiro, atando as cartas com o nastro&mdash;Ora ahi tem...
+Agora, &aacute; vista d'isto, deixe-se andar por c&aacute; atraz
+d'ella...</p>
+
+<p>&mdash;E o senhor continua o namoro?&mdash;perguntou o morgado
+com os olhos vidrados de lagrimas.</p>
+
+<p>&mdash;Qual namoro, nem qual diabo! O que eu queria era melhorar
+da barriga!</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_97" id=
+"pag_97">[97]</a></span></p>
+
+<h2>XI.</h2>
+
+<p>Jos&eacute; Francisco Andraens, mentiste &aacute; tua
+consciencia! Supposto que as tuas barrigas te mere&ccedil;am
+quantos desvelos cabem na al&ccedil;ada do oleo d'amendoa
+d&ocirc;ce e da linha&ccedil;a, o cora&ccedil;&atilde;o em ti
+&eacute; um musculo cheio de bom e sadio sangue, sangue cruorico
+que por vezes te borbulha nas arterias, e re&ccedil;uma &aacute;
+cara em brazumes de ternura lubrica. Mentiste, Jos&eacute;
+Francisco, quando respondeste &aacute;quelle pobre morgado, que o
+que tu querias era melhorar da barriga. Musculo enorme! tu amavas
+abrasado no lume da faisca electrica em que se estremece cada uma
+de tuas fibras, rijas de vida, saturadas do boi copioso que
+assimilas, e das tortas de frango com que pejas diariamente as
+algibeiras do sobretudo, e das planganas de farinha de pau e
+araruta que emborcas todas <span class="pagenum"><a name="pag_98"
+id="pag_98">[98]</a></span>as manh&atilde;s. Commendador da ordem
+de Christo! se o incognito da Providencia, chamado <i>acaso</i>, te
+houvesse dado a faculdade de desafogar em
+vocifera&ccedil;&otilde;es contra a fementida Silvina, dirias, no
+auge da tua angustia, blasphemias contra as mulheres, injurias
+insultadoras contra a fidalga de Margaride, e juramentos, por tua
+honra, de despresal-a e diffamal-a onde quer que fosse a tua lingua
+pe&ccedil;onhenta e a dos teus amigos famintos de
+detrac&ccedil;&atilde;o e escandalo. Os que assim procedem, fariam
+de ti riso, se te ouvissem o dialogo com o teu amigo de Freixieiro;
+tu, por&eacute;m, Jos&eacute; Francisco Andraens, que n&atilde;o
+sabes os quatro epithetos triviaes com que se vingam amantes
+abandonados, ergueste os al&ccedil;ap&otilde;es da tua alma, e
+deixaste romper a torrente represada, com estas palavras:
+&laquo;Qual namoro, nem qual diabo! o que eu queria era melhorar da
+barriga!&raquo;</p>
+
+<p>Ai! se elle a amava!</p>
+
+<p>N&atilde;o houve ahi cancro de amor que afistulasse, t&atilde;o
+no intimo, cora&ccedil;&atilde;o de homem. Aquella propria
+d&ocirc;r de estomago, rebelde &aacute; linha&ccedil;a, nos
+est&aacute; dizendo finezas do amor de Jos&eacute; Francisco,
+procedida, como &eacute;, do uso do ch&aacute; a que o
+for&ccedil;avam successivas noites que passou em casa do tio de
+Silvina. No principio, o hospede cauteloso recusou a chavena; mas a
+fidalga teve a impiedade de dizer-lhe que n&atilde;o era
+extremamente do bom tom rejeitar o ch&aacute;, a pretexto de ser
+bebida nociva ao estomago. O brazileiro, no dia seguinte, em vez
+d'uma, tomou tres chavenas, e em sua casa, <i>para affazer a
+tripa</i> como elle dizia, mandava cozinhar grandes chocolateiras
+de ch&aacute;, que a mo&ccedil;a inexperta chamava o cozimento, e
+carregava de folha at&eacute; sahir negro na fervura. Jos&eacute;
+Francisco conhecia o veneno, punha a m&atilde;o no buxo, e, se
+n&atilde;o dizia como o papa Ganganelli: &laquo;hei-de morrer
+d'isto...&raquo; gritava pela cataplasma de linha&ccedil;a,
+mitigava a inflamma&ccedil;&atilde;o, e de puro amor continuava
+<span class="pagenum"><a name="pag_99" id="pag_99">[99]</a></span>a
+immolar o estomago, como fino amante que n&atilde;o tem mais que
+dar.</p>
+
+<p>Ha ahi amadores, Jos&eacute; Francisco, que cubi&ccedil;am a
+pedraria oriental para construirem um nicho para a mulher amada;
+pedem a Deus estrellas para lhe marchetarem a alcatifa das
+botinhas; queriam a lua e as duas ursas para o pavilh&atilde;o do
+leito nupcial; os coriscos para lhe brincarem aos p&eacute;s; os
+jardins de Semiramis, recendentes de nardo e cardamomo, para lhe
+deliciarem o olfacto; o sceptro do globo para a m&atilde;o
+soberana, e o diadema do universo para a fronte inspirada.
+Farelorio. Homem de Cozelhas! o teu estomago estragado pelo
+ch&aacute;, sobreleva em dolorosa realidade a tudo quanto
+inventaram poetas, invejosos dos bens de Deus, em quanto tu deixas
+em paz a lua e as estrellas, e compras dezesete libras de
+pulseiras, &aacute;s quaes a propria Diana ca&ccedil;adora te
+estenderia os seus divinos bra&ccedil;os.</p>
+
+<p>Ai! se elle a amava!</p>
+
+<p>Por uma tarde de Agosto, na alam&ecirc;da da Lapa, se andava
+Jos&eacute; Francisco passeando com o seu amigo visconde dos
+Lagares. A espa&ccedil;os, o amador de Silvina desprendia uns como
+gemidos desentranhados com estridor de arroto, e o a&ccedil;afroado
+das belfas, ora se enrubecia mais intenso, ora desmaiava n'um
+pardacento, que deu nos olhos solicitos do visconde:</p>
+
+<p>&mdash;Que tem voss&ecirc;, s&ocirc;r Andraens?!&mdash;perguntou
+o trinchante da casa real, afervorando o zelo da pergunta com um
+suave empurr&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Que hei-de eu ter, amigo visconde? Voss&ecirc; bem sabe
+que eu ando mettido n'uma camisa de onze varas. A minha sina, que
+me l&ecirc;ram quando eu era rapaz, d&aacute;-me que eu hei-de
+passar por um grande desgosto. At&eacute; ao presente, em boa hora
+o digamos, a cousa n&atilde;o me tem ido mal; d'aqui por diante
+como o outro que diz, um bomem deve estar tem-te n&atilde;o
+caias.</p>
+
+<p>&mdash;Mas ent&atilde;o voss&ecirc; que medo tem?&mdash;tornou o
+visconde, <span class="pagenum"><a name="pag_100" id=
+"pag_100">[100]</a></span>variando a mimica com uma palmada na
+espadua boleada de Jos&eacute; Francisco.</p>
+
+<p>&mdash;Homem, voss&ecirc; casou quando era mo&ccedil;o, e deu-se
+bem com a mulher, e tem vivido sem sustos; mas eu j&aacute;
+c&aacute; est&atilde;o os cincoenta, n&atilde;o sou dos rapazes da
+moda, e tenho &aacute;s vezes umas lembran&ccedil;as que me
+derrancam o cora&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Ora, deixe-se d'isso, s&ocirc;r Andraens! Pelos modos a
+senhora, com quem voss&ecirc; vai casar, &eacute; menina bem
+comportadinha, e voss&ecirc;, quando casar, deixe-se de ir muitas
+vezes &aacute;s assembleas, e pouco de visitas, e de theatros;
+metta-se em sua casa a mais a mulher; trate da sua
+labuta&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o a deixe p&ocirc;r p&eacute;
+em ramo verde, sem ir com ella.</p>
+
+<p>&mdash;Pois n&atilde;o pozeste!&mdash;acudiu Jos&eacute;
+Francisco soltando uma risada aspera de sac&otilde;es, que valia
+bem um programma.&mdash;Voss&ecirc; ainda est&aacute; n'essa?</p>
+
+<p>A minha mulher, quando eu a tiver, &eacute; c&aacute; para o
+amanho da minha casa. Comer e beber, e vestidos, e enfeites d'ouro,
+n&atilde;o lhe ha-de can&ccedil;ar; mas ir a bailes e a comedias...
+isso, snr. visconde... olhe c&aacute; se me v&ecirc; algum <i>T</i>
+na testa! &Eacute; verdade que a minha futura noiva &eacute; toda
+pronostica e est&aacute; avezada ao palavriado dos pantomineiros
+que n&atilde;o tem sen&atilde;o aquillo e a sua mi&ccedil;a; mas eu
+logo que case hei-de p&ocirc;l-a na lei em que ha-de viver.</p>
+
+<p>A mulher &eacute; do seu homem, e casou para tratar-lhe das
+doen&ccedil;as, e do arranjo da familia. Quem quer andar &aacute;
+tuna nas comedias e nos balanc&eacute;s deixa-se estar solteira;
+n&atilde;o &eacute; assim, amigo visconde?</p>
+
+<p>&mdash;Assim &eacute;; mas n&atilde;o ser&aacute; bom apertal-a
+muito, amigo Andraens... Isto de mulheres, olhe que nem o diabo as
+quiz guardar, e quando ellas entram a desatremar, adeus, minha
+vida!</p>
+
+<p>&mdash;A desatremar!&mdash;clamou Jos&eacute; Francisco com
+iracundia.&mdash;Ent&atilde;o um homem n&atilde;o &eacute; senhor
+de fechar as suas portas, e viver como quizer com a mulher com
+<span class="pagenum"><a name="pag_101" id=
+"pag_101">[101]</a></span>quem reparte do que tem? do seu dinheiro?
+do que lhe n&atilde;o custou a ella a ganhar? do seu dinheiro?</p>
+
+<p>&mdash;Voss&ecirc; diz bem, s&ocirc;r Jos&eacute;; mas &eacute;
+que ella a isso p&oacute;de dizer que estava melhor solteira.</p>
+
+<p>&mdash;Homem, voss&ecirc; nem parece visconde n'isso que
+diz!&mdash;atalhou com ironia pungente Jos&eacute;
+Francisco.&mdash;Eu vou j&aacute; embuchal-o com uma
+pergunta:&mdash;Quanto vale a tal madama?</p>
+
+<p>&mdash;Pelos modos, disse o visconde, acho que pouco tem.</p>
+
+<p>&mdash;Por tudo que ella tem n&atilde;o dou eu seiscentos mil
+r&eacute;is. A casa &eacute; do morgado, e os bens livres,
+repartidos por seis irm&atilde;os, nem p'ra pagarem a minha divida
+chegam. E quanto acha voss&ecirc; que eu tenho, &oacute; amigo
+visconde?</p>
+
+<p>&mdash;Voss&ecirc;, c&aacute; segundo os meus calculos, ha-de
+ter o melhor de cem contos... p'ra cima que n&atilde;o p'ra
+baixo.</p>
+
+<p>&mdash;Aqui que ninguem nos ouve, snr. visconde, disse
+Jos&eacute; Francisco muito &aacute; puridade, se n&atilde;o fosse
+aquella tapona que eu levei na costa d'Africa, podia ter os meus
+quatrocentos contos; agora, mais cem, menos cem mil r&eacute;is a
+minha fortuna ha-de andar ahi por duzentos contos, e se as cousas
+correrem regularmente, c&aacute; nos engajados, escuso de bulir no
+que tenho apurado. Ora ahi tem voss&ecirc;. Faz favor de me dizer
+se a rapariga, que n&atilde;o tem nada, casar commigo, n&atilde;o
+fica a ser rica e respeitada no mundo! Responda a isto, amigo, se
+&eacute; capaz!</p>
+
+<p>&mdash;S&ocirc;r Jos&eacute; Francisco, tornou o visconde com
+sisuda gravidade, olhe que eu tenho andado muito mundo, e visto
+muita cousa. A rapariga, se casa comsigo, &eacute; por que quer
+figurar. Voss&ecirc; j&aacute; n&atilde;o &eacute; muito
+mo&ccedil;o, e n&atilde;o sei como ha-de estar em casa mettido a
+entreter a mulher. Sabe que mais? se est&aacute; na teima de a
+n&atilde;o deixar ter alguma folga, o melhor &eacute; deixar-se
+estar solteiro at&eacute; lhe apparecer mo&ccedil;a mais azada p'ro
+seu modo <span class="pagenum"><a name="pag_102" id=
+"pag_102">[102]</a></span>de vida. Deixe c&aacute; o arranjo ao meu
+cuidado, que eu conhe&ccedil;o muito negociante aqui no Porto que
+tem rapariga&ccedil;as como castellos, e voss&ecirc; n&atilde;o tem
+sen&atilde;o escolher.</p>
+
+<p>&mdash;Cale-se l&aacute;, homem!&mdash;interrompeu com azedume e
+paix&atilde;o o de Cozelhas&mdash;Eu gosto de Silvina d'uma vez! E,
+se quer que lhe diga a verdade, j&aacute; fiz alguma despeza com
+ella. Voss&ecirc; inda a n&atilde;o enxergou?</p>
+
+<p>&mdash;Ainda n&atilde;o &aacute; minha vontade; mas na semana
+que vem vou dar um baile s&oacute; para a v&ecirc;r a preceito;
+j&aacute; a lobriguei de longe, e alvidou-se-me que ella era bem
+tirada das canellas, e que tinha a cinta muito delgada.</p>
+
+<p>&mdash;Isso ent&atilde;o!&mdash;exclamou o snr. Andraens, com os
+olhos rutilantes de jubilo, e um sorriso de satyro, que lhe fazia
+recuar os refegos das bochechas at&eacute; &aacute;s orelhas, como
+dobras de cortinas apanhadas.&mdash;Bem feita at&eacute; alli! O
+pesco&ccedil;o &eacute; branco como a cal da parede; os
+bra&ccedil;os parecem de leite, e aquillo h&atilde;o-de ser macios
+que nem veludo; os olhos, continuou Jos&eacute; Francisco, com
+precipitada torrente de imagens orientaes, parece que entram no
+interior da gente, e andam sempre a bulir nos buracos como dous
+grillos; os dentes s&atilde;o da c&ocirc;r d'essa camisa, e
+t&atilde;o iguaesinhos que parece mesmo cousa de fazer crescer a
+agua na bocca; quando ella anda pela casa, aquillo &eacute; um
+gosto v&ecirc;l-a! parece que est&aacute; a casa cheia! E ouvil-a
+fallar?! Voss&ecirc; n&atilde;o faz uma pequena id&eacute;a!
+At&eacute; falla de Sebastopool! (V&ecirc;-se que esta
+fei&ccedil;&atilde;o do talento de D. Silvina foi a que mais deu no
+g&ocirc;to do snr. Jos&eacute; Francisco Andraens.) Em fim, amigo
+visconde, mulher como ella n&atilde;o espero topal-a. Tenho-lhe
+sympathia c&aacute; de dentro; sonho com ella todas as noites; dia
+em que a n&atilde;o veja, ando como a cobra que perdeu a
+pe&ccedil;onha; se adrega d'ella ir visitar alguem, e eu n&atilde;o
+a vejo, vou zangado p'ra casa, e j&aacute; me tem acontecido
+n&atilde;o ceiar! As cartas d'ella tenho-as na cabe&ccedil;a, e
+j&aacute; comprei um livro muito grande, chamado... chamado elle...
+assim uma cousa a modo... de... voss&ecirc; hade <span class=
+"pagenum"><a name="pag_103" id="pag_103">[103]</a></span>saber?
+Aquillo que ensina a escrever direitas as palavras!...</p>
+
+<p>&mdash;Uma pauta, ha-de ser pauta...</p>
+
+<p>&mdash;Qual pauta, nem qual diabo! &eacute; um livro, que ensina
+a escrever com as letras todas... J&aacute; me lembra: um
+breviario.</p>
+
+<p>&mdash;Ha-de ser isso, ha-de ser isso...&mdash;disse o visconde,
+que apreciou o ensejo de saber que o breviario ensinava a escrever
+com as letras todas&mdash;mas, a fallar verdade&mdash;continuou
+ingenuamente o brazileiro&mdash;n&atilde;o me ageito com o tal
+livreco, e vou-lhe escrevendo como sei. Aqui trago eu na carteira
+uma carta, respondendo &aacute; d'ella de hontem, a v&ecirc;r se
+lh'a entrego esta noite. Quer voss&ecirc; v&ecirc;r, amigo
+visconde? Eu p'ra si n&atilde;o tenho aquellas. Ora escute
+l&aacute;; mas o mais acertado &eacute; l&ecirc;rmos primeiro a que
+ella me escreveu. Voss&ecirc; vai ficar pasmado; ora
+ou&ccedil;a.</p>
+
+<p>Jos&eacute; Francisco sentou-se n'um dos bancos de pedra da
+alam&ecirc;da da Lapa, e leu correntemente o seguinte:</p>
+
+<p class="direita">&laquo;Meu caro amigo.</p>
+
+<p>&laquo;Soube que hontem me procurou. Quiz o meu infortunio que
+eu n&atilde;o estivesse em casa. O tio anda a pagar visitas, e
+ordenou que eu o acompanhasse. Passei uma noite insipida,
+lembrando-me que podia passal-a no remanso duma d&ocirc;ce paz e
+contentamento d'alma ao lado do homem cujas t&atilde;o amantes como
+paternaes palavras me embalam o somno para os sonhos d'um delicioso
+futuro...&raquo;</p>
+
+<p>Aqui Jos&eacute; Francisco sacudiu na m&atilde;o o papel, e
+exclamou radioso:</p>
+
+<p>&mdash;Olhe isto, amigo visconde! <i>os sonhos d'um delicioso
+futuro</i>!... Pelos modos, quer dizer que o que ella quer &eacute;
+uma vida socegada para, em vez d'andar em visitas, dormir na sua
+cama &aacute; sua vontade. N&atilde;o &eacute; isto?</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_104" id=
+"pag_104">[104]</a></span>&mdash;Pois elle que ha-de ser
+sen&atilde;o isso?&mdash;disse o visconde gostoso da modestia
+consultiva do seu amigo, e ia continuar reflex&otilde;es a
+proposito, quando Jos&eacute; Francisco, menos jubiloso, continuou,
+lendo:</p>
+
+<p>&laquo;Estar&aacute; ainda longe o dia suspirado, meu amigo?
+N&atilde;o tem j&aacute; do meu caracter um profundo conhecimento?
+N&atilde;o se demore a confirmar o destino que minha alma anceia,
+porque desgra&ccedil;adamente a minha vontade n&atilde;o &eacute;
+de todo livre, e bem p&oacute;de ser que meu pai, antes da
+resolu&ccedil;&atilde;o de v. s.&ordf;, tome outra, contraria aos
+nossos intentos. Sua do cora&ccedil;&atilde;o, <i>S.</i>&raquo;</p>
+
+<p>&mdash;&Aacute; troca d'estas linhas do fim&mdash;disse o
+brazileiro um pouco recolhido e melancolico&mdash;&eacute; que eu
+hoje tenho andado azoado, e a suspirar c&aacute; de dentro. Ora
+escute l&aacute; a resposta:</p>
+
+<p>&laquo;Meus amores!!! (Na pontua&ccedil;&atilde;o guardamos a
+fidelidade que descuramos na orthographia, cuja liberdade
+concedemos a Jos&eacute; Francisco e pedimos alternativamente para
+n&oacute;s). As vossas letras recebidas ao fazer d'esta at&eacute;
+ao meio consolaram o meu cora&ccedil;&atilde;o saudoso!!... mas as
+que vem no cabo da vossa carta penetraram qual duro ferro no meu
+cora&ccedil;&atilde;o saudoso!! Se vosso pai n&atilde;o levar a bem
+o nosso casamento, &oacute; c&eacute;os!!! tanto faz querer como
+n&atilde;o querer o arranjo ha se de fazer, ainda que eu v&aacute;
+&aacute;s do cabo; estai descan&ccedil;ada, joven Silvina amada!!
+Logo que eu tenha a nossa casa da Lixa arranjada (que andam
+l&aacute; os estucadores e os pintores) estamos casados e arruma-se
+d'aqui o pensamento!!! D'este vosso idolatrado at&eacute; &aacute;
+morte, J. F. Andraens, vosso futuro esposo.&raquo;</p>
+
+<p>&mdash;Que tal?&mdash;murmurou com certo ar de pudica modestia o
+erotico compositor de cartas incendiarias.</p>
+
+<p>&mdash;Onde diabo aprendeu voss&ecirc; tanto, &oacute; s&ocirc;r
+Jos&eacute;?&mdash;disse o visconde com sincero espanto.</p>
+
+<p>&mdash;Isto que aqui v&ecirc; fil-o de fio a pavio, sem ir ao
+<span class="pagenum"><a name="pag_105" id=
+"pag_105">[105]</a></span>breviario, amigo visconde. Ponto &eacute;
+ter c&aacute; dentro o amor a puxar pelas memorias.</p>
+
+<p>Jos&eacute; Francisco ergueu-se triumphante com miraculosa
+agilidade; deu alguns passeios floreando a bengala, e rindo a
+revezes do espasmo do visconde, que, em sua consciencia, suspeitava
+de que fosse a carta apocripha; mas, por delicadeza, calou as
+duvidas.</p>
+
+<p>Jos&eacute; Francisco tinha desafogado. O arroto j&aacute;
+n&atilde;o vinha acompanhado do suspiro. As tres barrigas
+funccionavam em toda a sua plenitude phisiologica. O jubilo doudo
+da sua esperan&ccedil;a sorria aos arreboes que cintavam o
+horisonte do oceano; a vira&ccedil;&atilde;o da tarde, brincando na
+folhagem dos alamos e acacias, rumorejava um soido mellico aos
+ouvidos d'alma d'aquelle amante feliz.</p>
+
+<p>Ai! se elle a amava!</p>
+
+<p>Este expansivo dialogo f&ocirc;ra anterior quarenta e oito horas
+&aacute;quell'outro que ouvimos entre o brazileiro, e
+Christov&atilde;o Pacheco de Valladares.</p>
+
+<p>Quem te ha-de cr&ecirc;r agora, Jos&eacute; Francisco Andraens!
+Que se te d&aacute; a ti da barriga, se tu amas tanto a mulher
+predestinada?! Descan&ccedil;a, anjo do amor, no teu c&eacute;o de
+duzentos contos, que as filhas dos homens l&aacute; ir&atilde;o
+buscar-te!<span class="pagenum"><a name="pag_106" id=
+"pag_106">[106]</a></span></p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_107" id=
+"pag_107">[107]</a></span></p>
+
+<h2>XII.</h2>
+
+<p>Ai! como elle a amava!</p>
+
+<p>Quantos Paulos, e Romeos, e Othellos mettidos n'aquella
+c&ocirc;dea grossa de Jos&eacute; Francisco Andraens! Que requebros
+de namorado, e que furias de cioso! Aquella &eacute; verdadeira
+paix&atilde;o que ora se refrigera com orvalhos do c&eacute;o, ora
+se calcina nas labaredas do inferno. A paix&atilde;o de Jos&eacute;
+Francisco era assim. Ha pouco vimos aquella alma a derramar-se em
+blandicias de Petrarcha; agora arripia o v&ecirc;l-a a espirrar
+coriscos da cratera que l&aacute; referve dentro.</p>
+
+<p>Mal Christov&atilde;o Pacheco sahira, galgando atordoado as
+escadas quatro a quatro, Jos&eacute; Francisco arrancou de si a
+cataplasma d'um impeto que faria lembrar Cat&atilde;o arrancando o
+proprio redenho. Saltou para o ch&atilde;o, cal&ccedil;ou
+<span class="pagenum"><a name="pag_108" id=
+"pag_108">[108]</a></span>as mouras escarlates que lhe serviam
+&aacute; farta de tapete, lan&ccedil;ou sobre as espaduas um capote
+de camel&atilde;o de quatro cabe&ccedil;&otilde;es, enfiou as
+mangas do mesmo, e sentou-se &aacute; escrivaninha, resfolegando
+vaporadas pelas ventas, que nem javali monteado por lebreus. A
+criada entrava n'esta occasi&atilde;o com a terceira camada de
+linha&ccedil;a, e fez p&eacute; atraz, enfiada de puro horror.</p>
+
+<p>&mdash;Que queres tu, mo&ccedil;a?,&mdash;mugiu Jos&eacute;
+Francisco.</p>
+
+<p>&mdash;S&atilde;o as papas...&mdash;balbuciou a espavorida
+criada.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o quero mais papas. Vai chamar o meu compadre
+Amaro, e que venha j&aacute; de marcha para ir com uma carta a
+Margaride.</p>
+
+<p>O brazileiro escreveu na pojadura da veia. O traslado da carta,
+com a authenticidade do de todas as outras, n&atilde;o pude
+havel-o, apesar de suadas canceiras que este paiz t&atilde;o
+sovinamente remunera aos indefessos obreiros das suas glorias. O
+que pude tirar a limpo foi ser a carta dirigida a Pedro de Mello,
+pai de D. Silvina. Jos&eacute; Francisco lembrava ao fidalgo a sua
+divida de um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta
+r&eacute;is que lhe emprest&aacute;ra sobre hypotheca da quinta da
+Lixa. Dizia mais que n&atilde;o podia continuar a remetter as
+mezadas para os academicos da universidade. Instava pelo prompto
+pagamento do seu credito, ou trespasse da quinta hypothecada.
+Amea&ccedil;ava-o com o poder judiciario, e terminava com estas
+quatro linhas, unicas authenticas:</p>
+
+<p><i>Pr'&aacute;mor da sua filha &eacute; que &eacute; tudo isto.
+Se ella andasse direita comigo outro gallo lh'avia de cantar. Assim
+o quiz, assim o tenha. Comigo n&atilde;o se manga, e est&aacute;
+arrumada a pendencia.</i></p>
+
+<p>Ai! se elle a amava!</p>
+
+<p>A carta partiu, e Jos&eacute; Francisco, aplacado o maior
+af&ocirc;go da convuls&atilde;o, chamou a mo&ccedil;a, pediu uma
+tigela de tapioca, e comeu &aacute; tripa f&ocirc;rra.</p>
+
+<p>Cotejemos agora com os do negreiro os ciumes do morgado de Santa
+Eufemia. Egas de Encerra-bodes esperava <span class=
+"pagenum"><a name="pag_109" id="pag_109">[109]</a></span>o primo no
+hotel, curioso de saber o fim a que o cham&aacute;ra o brazileiro.
+Christov&atilde;o contou lealmente o acontecido, j&aacute;
+barafustando furioso, j&aacute; enternecendo-se a lagrimas. O de
+Matto-grosso descompunha-se em gargalhadas, e nem os prantos do
+primo lhe embargavam as guinadas de riso. Come&ccedil;ava a
+desconfiar o de Santa Eufemia, quando Egas, composto o gesto e a
+postura, fallou assim:</p>
+
+<p>&laquo;Um Pacheco Valladares a correr parelhas com um
+Jos&eacute; Francisco na conquista d'uma mulher! Um neto do
+governador de Cochim a disputar me&ccedil;as de merecimento com um
+chatim de negros! um mo&ccedil;o no mais florido dos annos, gentil
+de sua pessoa, sacrificado &aacute; mazorral caricatura, que ahi
+est&aacute; symbolisando uma fortuna t&atilde;o besta quanto
+assignalada das vergoadas do l&aacute;tego com que o infame de Deus
+e dos homens fazia espirrar sangue das costas dos escravos!...
+Primo Christov&atilde;o, torne sobre si, peje-se d'essas lagrimas
+que ahi derramou, e que eu escarneci para n&atilde;o tomar
+ignominioso quinh&atilde;o da sua d&ocirc;r aviltante para evos e
+para vindouros! Que mulher &eacute; essa, a neta do
+sargento-m&oacute;r d'Amarante, que anda ahi a chafurdar nos
+chiqueiros da sua cubi&ccedil;a um appellido que usurpou?
+<i>Mello!</i> Quem lhe deu a ella <i>Mello</i>?! Seu visav&ocirc;
+era Antonio Gon&ccedil;alves; seu av&ocirc; era Francisco Antunes
+Gon&ccedil;alves; quem enxertou no pai esse pomposo appellido?
+Silvina Antunes &eacute; como ella se chama, essa farrapona que
+mendiga para uma carruagem e seis vestidos o pre&ccedil;o dos
+ultimos doze pretos que Jos&eacute; Andraens mandou acorrentados ao
+mercado. Primo Valladares, neto de Heitor Valladares, bisneto de D.
+Mafalda Pacheco e Alvim, a&ccedil;afata illustre da c&ocirc;rte do
+snr. D. Pedro 2.&ordm;, descendente dos Alvins de Braga, onde casou
+o condestavel D. Nuno Alvares Pereira! primo, lembre-se de quem
+&eacute;, e esmague debaixo das solas das suas botas o
+cora&ccedil;&atilde;o, se sente que uma gotta de seu nobre sangue
+se ha degenerado no vilipendioso affecto <span class=
+"pagenum"><a name="pag_110" id="pag_110">[110]</a></span>que
+prodigalisou &aacute; esposa promettida de Jos&eacute;
+Francisco!&raquo;</p>
+
+<p>Este aranzel fez bem ao cora&ccedil;&atilde;o do morgado. Entrou
+em si, co&ccedil;ou-se com ambas as m&atilde;os algumas vezes,
+estirou os bra&ccedil;os convulsivos com os punhos cerrados, e
+exclamou de golpe:</p>
+
+<p>&mdash;Que a leve o diabo!</p>
+
+<p>Egas estreitou o primo ao cora&ccedil;&atilde;o com vehemencia,
+levantou-o tres vezes em peso, e bradou por fim:</p>
+
+<p>&mdash;Reconhe&ccedil;o o meu sangue!</p>
+
+<p>Sem embargo d'isto, o morgado de Santa Eufemia precisava de ar,
+abriu a janella, sorveu tres grandes haustos, e repetiu a phrase
+que prov&aacute;ra ao de Matto-grosso a identidade da sua
+estirpe:</p>
+
+<p>&mdash;Que a leve o diabo!</p>
+
+<p>N'este comenos, vinha atravessando o largo da Batalha Leonardo
+Pires.</p>
+
+<p>&mdash;L&aacute; vem aquelle!&mdash;exclamou Egas&mdash;Vou
+chamal-o para lhe dar a noticia que ha-de ser muito agradavel ao
+seu amigo Jorge. Ol&eacute;! snr. Albuquerque! <i>Psio</i>.</p>
+
+<p>Pires fez uma continencia militar com o chicote.</p>
+
+<p>&mdash;Suba c&aacute;&mdash;tornou o fidalgo de
+Entre-ambos-os-rios&mdash;temos que contar-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Viram aqui passar a Francisca da Cunha?&mdash;perguntou
+Pires.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Ando-lhe na pista, como galgo que perdeu a lebre, que eu
+desconfio bem que seja gata, que a minha paix&atilde;o me d&aacute;
+por lebre.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; muito possivel...&mdash;redarguiu a rir o de
+Matto-grosso&mdash;Suba, e ver&aacute; que n&atilde;o est&aacute;
+longe da verdade.</p>
+
+<p>O da Maya circumvagou com a luneta em torno da pra&ccedil;a duas
+vezes, e subiu.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o que temos?! Dou-lhe parte que o meu
+<span class="pagenum"><a name="pag_111" id=
+"pag_111">[111]</a></span>amigo Jorge Coelho n&atilde;o tarda ahi,
+e que o duello, se os cavalheiros insistirem, ha-de
+consummar-se.</p>
+
+<p>&mdash;Quem falla aqui em duello?&mdash;acudiu
+Egas&mdash;Escreva ao seu amigo, e diga-lhe que se deixe estar com
+a m&atilde;i e com o padre l&aacute; na sua ald&ecirc;a, se
+n&atilde;o quizer v&ecirc;r Silvina, o anjo de candura, de
+bra&ccedil;o dado com as fronhas carnosas de Jos&eacute; Francisco
+Andraens...</p>
+
+<p>&mdash;Quem &eacute; Jos&eacute; Francisco
+Andraens?&mdash;interrompeu Leonardo.</p>
+
+<p>Egas de Encerra-bodes compelliu o primo a contar a historia,
+que, d'esta feita, n&atilde;o sahiu com intermittentes de lagrimas.
+Era de v&ecirc;r com que gra&ccedil;a soez o amante ultrajado ia
+j&aacute; apimentando os sarcasmos detraidores de Silvina, e os
+projectos de cynica desforra que elle offerecia ao parecer dos seus
+amigos, projectos que, realisados, collocariam Jos&eacute;
+Francisco n'uma situa&ccedil;&atilde;o t&atilde;o irrisoria como
+bemquista do siso commum, o qual &eacute; uma cousa muito ao envez
+do que por ahi nos grandes alcouces da opini&atilde;o publica se
+denomina senso-commum.</p>
+
+<p>O programma do morgado de Santa Eufemia foi applaudido com
+raz&otilde;es pouco para se estamparem. Leonardo Pires disse que
+n&atilde;o avisava o seu amigo para n&atilde;o perder
+occasi&atilde;o de o ter no Porto alguns dias, e cural-o mais
+facilmente com a vista do espectaculo hediondo. N'isto, como
+estivessem os tres &aacute; janella, viram assomar no topo da rua
+de Santo Antonio Silvina, e Francisca da Cunha, seguidas de um
+criado de farda.</p>
+
+<p>&mdash;Ellas ahi vem!&mdash;disse Pires, e sahiu a encontrar-se
+com ellas. O morgado de Santa Eufemia, a rasoavel distancia, quando
+as damas vinham com os olhos postos n'elle, fez recuar o primo, e
+fechou-lhes a janella na cara. Silvina ria tanto como a prima,
+quando Pires, com o chicotinho em arco, e quasi aos pulinhos como
+funambulo que vai fazer a sorte, se lhe atravessou no caminho,
+dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Criado de vv. exc.<sup>as</sup></p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_112" id=
+"pag_112">[112]</a></span>&mdash;O snr. Pires!&mdash;disse
+Francisca toda gra&ccedil;a e affabilidade ironica&mdash;Faziamol-o
+no seu <i>chateau</i>... Que &eacute; feito de si?</p>
+
+<p>&mdash;Agoniso, minha senhora, agoniso.</p>
+
+<p>&mdash;Ai! que funebre vem!&mdash;disse
+Silvina&mdash;p&oacute;de-se agonisar com esse rosto t&atilde;o de
+vida, e rubicundo?</p>
+
+<p>&mdash;P&oacute;de-se padecer muito, minha senhora, com o rosto
+rubicundo&mdash;replicou Pires&mdash;Eu sei de creaturas,
+metaphoricamente chamadas humanas que soffrem muito, sem
+impedimento das massas de toucinho que as envolvem. Darei a v.
+exc.&ordf; um exemplo. Conhe&ccedil;o uma metaphora chamada
+Jos&eacute; Francisco Andraens... (Silvina c&oacute;rou e franziu a
+testa) monstro cevado em sangue humano, que elle distilla em banha
+e asneiras, o qual monstro,&mdash;ninguem o ha-de cr&ecirc;r, minha
+senhora&mdash;neutralisa o combustivel da paix&atilde;o com o
+refrigerante das cataplasmas de linha&ccedil;a. Ahi tem v.
+exc.&ordf; um exemplo que justifica de sobra a minha agonia.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos, prima, que s&atilde;o horas&mdash;disse Francisca
+da Cunha, condoida do enleio desacostumado de Silvina.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, vamos&mdash;disse esta, corrida de modo, que
+incutiria compaix&atilde;o em homem que n&atilde;o fosse Pires.</p>
+
+<p>&mdash;D&atilde;o-me as suas ordens, minhas
+senhoras?&mdash;disse elle, ladeando&mdash;Ah!&mdash;continuou
+Pires de sobresalto&mdash;esquecia-me dizer &aacute; snr.&ordf; D.
+Silvina que o nosso Jorge vem ahi...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! vem?&mdash;disse machinalmente Silvina.</p>
+
+<p>&mdash;Vem, sim, minha senhora, a requerimento meu, por que lhe
+conhe&ccedil;o grande curiosidade de naturalista, e desejo
+mostrar-lhe Jos&eacute; Francisco Andraens, a hyperbole de
+enxundia, monstro, de quem eu tive a honra de fallar a vv.
+exc.<sup>as</sup>, e que at&eacute; ouso recommendar-lhes, para que
+vv. exc.<sup>as</sup> admirem n&atilde;o s&oacute; o bruto, mas o
+effeito prodigioso da linha&ccedil;a.</p>
+
+<p>O enleio de Silvina redundou em colera.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_113" id=
+"pag_113">[113]</a></span>&mdash;O senhor, disse ella,
+est&aacute;-me insultando por que eu e minha prima, confiadas na
+cortezania da sociedade em que vivemos, sahimos sem um homem, cujo
+desfor&ccedil;o nos desafronte com honra.</p>
+
+<p>&mdash;Dizes bem, prima&mdash;acudiu Francisca, tambem colerica
+por contagio&mdash;Deixemos o vill&atilde;o.</p>
+
+<p>Pires, quando lhe voltaram as costas, deu dous passos em
+seguimento d'ellas, e tomou-lhes o passo.</p>
+
+<p>&mdash;Continua a petulancia?&mdash;disse Silvina
+irada&mdash;olhe que eu trago um criado!</p>
+
+<p>&mdash;Com libr&eacute; emprestada, minhas senhoras?&mdash;disse
+o imprudente fidalgo da Maya, que trazia os ouvidos cheios das
+diffama&ccedil;&otilde;es geanologicas d'Egas de
+Encerra-bodes.&mdash;Snr.&ordf; D. Silvina, eu fui quem lhe
+apresentou a nobre alma de Jorge Coelho, que v. exc.&ordf; quiz
+estragar. Empe&ccedil;onhou-lh'a, mas n&atilde;o ha-de enlameal-a.
+Quem vinga Jorge sou eu, Leonardo Pires de Albuquerque. Saiba v.
+exc.&ordf; que Jos&eacute; Francisco Andraens &eacute; meu. Aquelle
+problema de carne hei-de desatal-o eu com o escarneo, e v.
+exc.&ordf; ha-de ficar submersa nas avalanchas d'aquella montanha
+de cebo. Agora n&oacute;s, snr.&ordf; D. Francisca da Cunha. V.
+exc.&ordf;, que s&oacute; sabe l&ecirc;r as cartas do linheiro das
+Hortas, e que tem tido o indiscreto recreio de me andar
+ridicularisando <i>no boudoir</i> das suas dignas amigas, ou se
+encastella com o linheiro das Hortas l&aacute; no seu burgo de
+Traz-os-Montes, ou tem de esconder-se nas rimas de estopa em que
+seu futuro esposo l&ecirc; de pernas ao ar as suas epistolas. Sem
+mais.</p>
+
+<p>Pires, vibrando no ar estalinhos com o chicote, entalou a luneta
+no olho esquerdo, e foi expandir o jubilo em folgada palestra com
+os morgados, que o espreitavam.</p>
+
+<p>Silvina, quando entrou n'uma casa nobre de Traz da S&eacute;,
+soffreu um insulto nervoso que desabafou em gritos. Queria
+Francisca da Cunha consolal-a; mas estava esperando de instante a
+instante ser assaltada tambem <span class="pagenum"><a name=
+"pag_114" id="pag_114">[114]</a></span>do mesmo insulto. As
+senhoras da casa &aacute; competencia desfaziam-se em desvelos; mas
+Silvina respondia apenas: &laquo;hei-de vingar-me!&raquo;</p>
+
+<p>Desiderio Erasmo, como sabem, escreveu a &laquo;Apologia da
+tontice.&raquo; Eu n&atilde;o me afouto a encarecer a de Leonardo
+Pires; por&eacute;m, assim como os regedores das republicas
+nobilitam com merc&ecirc;s e titulos n&atilde;o s&oacute; a
+estupidez&mdash;isso &eacute; o menos&mdash;mas a infamia soberba
+d'uma opulencia cevada e medrada em cruezas e deshumanidades, que
+muito se aventurarmos um voto de louvor a alguns selvagens da
+civilisa&ccedil;&atilde;o, doudos providenciaes que atiram a vaza
+do insulto a caras j&aacute; de si t&atilde;o sujas, que n&atilde;o
+ha medo de enferretal-as?</p>
+
+<p>Alguns homens, como Pires, seriam muito proveitosos n'uma
+sociedade como esta. Houve-os sempre com differentes nomes e
+appellidos. Na antiguidade, chamaram-se Aristophanes, Diogenes,
+Marcial e Plauto; na meia idade eram os prophetas, os padres da
+igreja, e, com menos cau&ccedil;&atilde;o de suas prerogativas
+censorias, os histri&otilde;es palacianos. Na correnteza d'esta
+gera&ccedil;&atilde;o por excellencia policiada, mas de todas a
+mais gafa do que ahi se chama &laquo;ridiculo&raquo; e do que mais
+&eacute; para chamar-se lastima, ha muito quem tire a campo de
+zombaria os &laquo;ridiculos&raquo; do mundo; mas ninguem se
+v&ecirc; copiado n'elles, e os copistas de modo o fazem que fique
+salvo o orgulho de cada az&ecirc;mola que fita a orelha ao ornejar
+da copia, mas n&atilde;o responde. A isto &eacute; o que ahi dizem
+&laquo;guardar as conveniencias&raquo;: &aacute; mesma cousa,
+chamavam d'antes &laquo;guardar as costas.&raquo;</p>
+
+<p>Seja o que f&ocirc;r, a satyra assim n&atilde;o vinga fructo de
+servir &aacute; gera&ccedil;&atilde;o que est&aacute; nem &aacute;
+porvindoura.</p>
+
+<p>Satyra prestadia, se alguma houve, &eacute; a de Leonardo Pires.
+Eis ahi um doudo, que tolos e sisudos lan&ccedil;ar&atilde;o de
+suas casas com horror; e todavia qual de n&oacute;s n&atilde;o
+sente um Pires, na consciencia, a travar-se de raz&otilde;es e
+murros com a nossa soberba? Seis Leonardos <span class=
+"pagenum"><a name="pag_115" id="pag_115">[115]</a></span>activos no
+Porto purificavam o ar pestilencial que para alli veiu das terras
+de Santa Cruz. Na idade media, os tabardilhos, as pestes
+fulminantes; no seculo 16.&ordm; o verme roedor que desmedula os
+ossos atrav&eacute;s de vinte gera&ccedil;&otilde;es que
+h&atilde;o-de lembrar-se sempre de Colombo pelo mimo; no seculo
+dezenove, mais que nunca, a peste do Brazil, de que adoecem
+espiritos empinados em seu orgulho como o de Silvina e Francisca da
+Cunha.</p>
+
+<p>D'um lado Leonardo Pires; de outro lado Jos&eacute; Francisco
+Andraens, e o linheiro das Hortas. Quem levar&aacute; a melhor?
+&Eacute; tola a pergunta. Ha-de ser o linheiro das Hortas, e
+Jos&eacute; Francisco.<span class="pagenum"><a name="pag_116" id=
+"pag_116">[116]</a></span></p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_117" id=
+"pag_117">[117]</a></span></p>
+
+<h2>XIII.</h2>
+
+<p>O apostolico e dicasissimo padre Jo&atilde;o Coelho, desde
+Vallongo at&eacute; Amarante, excedeu-se a si proprio
+pr&eacute;gando ao sobrinho o melhor e a maior parte do que
+disseram philosophos, santos padres, moralistas e casuistas
+&aacute;cerca do amor mundanal e da mulher. Jorge n&atilde;o
+replicava, por que o n&atilde;o escutava. O egresso, tomando o
+silencio como victoria, tirava dos corollarios theses novas, que ia
+defendendo com tamanha profus&atilde;o de tiradas latinas que, a
+ser verdade o que elle disse abordoado a Seneca, Santo Agostinho,
+Euzebio cezariense, e Bredembachio, o amor mundanal e a mulher
+s&atilde;o cousas muito peores do que pensa o vulgar da gente.
+Padre Jo&atilde;o n&atilde;o era erudito que s&oacute;mente fizesse
+pra&ccedil;a dos exemplos que authorisa a historia. O pulso rijo da
+engenhosa <span class="pagenum"><a name="pag_118" id=
+"pag_118">[118]</a></span>memoria d'elle entrou nas idades
+fabulosas e trouxe pelas orelhas certos heroes que os poemas
+orphicos e os homeridas nos encamparam como sujeitos apresentaveis
+na boa sociedade. Marte, segundo o padre, era um adultero; Apollo
+um valdevinos que se andava lamuriando na piugada de Daphne;
+Hercules um maricas que fiava de cocoras na roca de Omphale; as
+heroinas da odissea, da iliada, e das tragedias de Eschylo um
+femea&ccedil;o impudico e deslavado. Do Olympo desceu padre
+Jo&atilde;o aos antigos imperios, e poz pelas ruas da amargura
+Xerxes, Ciro, Dario, Holophernes, Absal&atilde;o, Sichem,
+Salom&atilde;o, Herodes, Marco Antonio, e muitos outros que pelos
+modos n&atilde;o deram boa conta de si, ou as mulheres n&atilde;o
+deram boa conta d'elles.</p>
+
+<p>O leitor de certo se convertia ouvindo o egresso; mas Jorge
+Coelho ia t&atilde;o dentro em si, t&atilde;o lacerado pelo abutre
+da paix&atilde;o sem esperan&ccedil;a, que as palavras do douto
+velho lhe eram como esponja de fel e vinagre espremida nas chagas.
+Pernoitaram na Amarante, onde chegaram ao fim da tarde do segundo
+dia de jornada. Em quanto o egresso entrou no velho templo a fazer
+ora&ccedil;&atilde;o a S. Gon&ccedil;alo e visitar os cubiculos
+onde viveram santos var&otilde;es da sua crea&ccedil;&atilde;o,
+Jorge foi sentar-se &aacute; beira do Tamega, e ahi rompeu em
+pranto desfeito, com os olhos postos nas ondula&ccedil;&otilde;es
+das serranias para al&eacute;m das quaes lhe ficava o Porto. O
+padre sahiu indignado do mosteiro praguejando, menos
+evangelicamente que de seu costume, contra o governo que permittia
+&aacute; municipalidade amarantina que as vivandeiras do
+destacamento aquartellado nos dormitorios do mosteiro
+dan&ccedil;assem ebrias e meio nuas a canna verde e a sirandinha no
+refeitorio e na claustra. &Eacute; de crer que as mulheres
+recebessem com galhofa o egresso venerando, cujas botas de borla e
+chap&eacute;o tricorne deviam de parecer cousa de entrudo &aacute;s
+bacchantes que a onda da civilisa&ccedil;&atilde;o revessou
+<span class="pagenum"><a name="pag_119" id=
+"pag_119">[119]</a></span> no remanso dos monges, em quanto outra
+engolfou os monges no porto suspirado da sepultura.</p>
+
+<p>Ahi me vou eu sahindo com o impertinente v&ecirc;zo de lastimar
+os frades! D'esta vez hei-de represar a piedade com que n'outros
+livros tenho desdourado, no conceito de muita gente, os meus altos
+espiritos de operario que trabalha &aacute; candeia do seculo XIX.
+Que me importa a mim que nos cubiculos do mosteiro de S.
+Gon&ccedil;alo se alojem as vivandeiras do destacamento, e que na
+claustra sobre as cinzas dos frades v&atilde;o ellas, repletas de
+vinho e despejo, dan&ccedil;ar a sirandinha e a canna verde? Se eu
+disser que no tempo dos frades n&atilde;o se viam semelhantes
+desacatos, hei grande medo que me ponderem que outros desacatos
+mais attentatorios da religi&atilde;o de Jesus ahi se viram no
+tempo em que os frades comiam no refeitorio, e medravam nas cellas,
+onde agora coze o seu vinho o mulherio da tropa. Se o padre
+Jo&atilde;o Coelho quizesse, esse &eacute; que podia responder a
+preceito; mas, para bem do leitor, ninguem n'aquella hora se lhe
+atravessou com argumentos, estando elle na estalagem da Amarante,
+sentado no escabello, a dizer cousas de sorte magoadas, a respeito
+da profana&ccedil;&atilde;o do convento, que todo o auditorio
+chorava, sendo tres das carpideiras as mais lubricas bailarinas da
+claustra.</p>
+
+<p>Entretanto, Jorge escrevia a Leonardo Pires, dizendo-lhe que
+resolvera n&atilde;o escrever a Silvina, em quanto lhe durasse a
+impress&atilde;o amarga que recebera das revela&ccedil;&otilde;es
+do tio, impress&atilde;o immorredoura, dizia elle. Recommendava-lhe
+que se informasse da verdade d'aquellas revela&ccedil;&otilde;es, e
+sem piedade lhe transmitisse o excesso de pe&ccedil;onha que havia
+de matal-o. Ajuntava elle que j&aacute; n&atilde;o amava Silvina;
+mas que n&atilde;o podia despresal-a; e que entre o amor e o
+despreso estava o odio, serpente insaciavel que se lhe enroscara no
+cora&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Esta serpente de que se queixa Jorge Coelho &eacute; uma
+alimaria a que os poetas de animo socegado chamam <span class=
+"pagenum"><a name="pag_120" id="pag_120">[120]</a></span> cupido,
+deus de Gnido, de Paphos, e Amor em estilo ch&atilde;o. Permitte a
+rhetorica aos amadores enraivados denominar serpente a cousa que
+d'um dia para outro se transforma em rola gemedora. N&atilde;o
+&eacute; raro encontrar sujeito que tem aninhado no seio um viveiro
+d'estas serpentes, as quaes, depois de cuspirem a pe&ccedil;onha,
+n'uma carta arrufada, em meia duzia de adjectivos azedos como
+malagueta, metamorphoseam-se em pombal de candidissimas pombinhas
+que se catam e beijam umas &aacute;s outras com langorosos
+requebros. Da metamorphose o que fica &eacute; a pe&ccedil;onha
+instillada e derramada na circula&ccedil;&atilde;o sanguinea. Na
+correnteza do tempo, vem esta pe&ccedil;onha a consolidar-se no
+cora&ccedil;&atilde;o, e d'ahi procedem as postemas, que degeneram
+em aleij&otilde;es, commummente denominados scepticismo, cynismo,
+devassid&atilde;o, libertinagem, impudencia, e outras molestias
+pegadi&ccedil;as. As rolas e as pombas, desde que o
+cora&ccedil;&atilde;o inficionado as afugenta, passam para o
+dominio do estilo, e concorrem para que no banquete d'um amor
+revelho, gotoso e glut&atilde;o hajam sempre aves.</p>
+
+<p>Vem a p&ecirc;llo fallar da gorda gallinha que padre Jo&atilde;o
+trinchou na estalagem da Amarante, em quanto Jorge Coelho,
+recolhido ao seu quarto, se atirava vestido sobre o leito abafando
+contra o travesseiro os solu&ccedil;os da afflic&ccedil;&atilde;o,
+que o egresso, t&atilde;o de boa f&eacute; como crente na efficacia
+da historia, julg&aacute;ra minorada com a quarta
+disserta&ccedil;&atilde;o que fizera &aacute;cerca do amor, segundo
+a carne, e nomeadamente do amor em Roma na &eacute;poca dos
+Cezares.</p>
+
+<p>Citou versos de Marcial e Juvenal, como prova de que o amor era
+mau em toda a parte; e, sem elle querer, tambem provou que nas
+livrarias dos mosteiros entravam livros de moralidade muito
+equivoca. A ultima these de padre Jo&atilde;o Coelho assentava
+n'esta proposi&ccedil;&atilde;o de S. Paulo: &laquo;Quem n&atilde;o
+ama est&aacute; na morte;&raquo; mas t&atilde;o engenhosamente o
+erudito frade torceu o bico ao prego que as conclus&otilde;es eram
+todas contra o baixo amor <span class="pagenum"><a name="pag_121"
+id="pag_121">[121]</a></span> terreal, e pregoeiras do amor divino,
+que elle orador por sua parte cumpria &aacute; risca, sem embargo
+de se pascer em delicias na choruda gallinha, em quanto o sobrinho
+abafava de d&ocirc;r no quarto. Esta &eacute; a grande vantagem dos
+que andam empinados em amores do c&eacute;o, que nunca deixam de
+comer &aacute;s suas horas, e de digerirem em regalados somnos a
+materia bruta que lhes n&atilde;o pesa na consciencia. N&atilde;o
+ha pois duvidar de Montesquieu (parece que foi) que disse&mdash;que
+a religi&atilde;o christ&atilde;, depois de nos felicitar n'este
+mundo, nos segurava a felicidade do outro.</p>
+
+<p>Padre Jo&atilde;o dormiu nos coxins macios da sua limpa
+consciencia; Jorge, apenas o tio se fechou com o breviario, e
+adormeceu ao quarto psalmo penitenciario (um egresso repleto de
+gallinha cozida a resar um psalmo penitenciario! parece um
+paradoxo! Tom&aacute;ra eu saber se David compoz aquellas lastimas
+antes que as caricias de Bethsab&eacute; o enfastiassem!)... Estas
+incis&otilde;es intermittentes h&atilde;o-de perdoar-m'as os
+leitores que souberem o que &eacute; escrever um romance n'um
+carcere, onde j&aacute; n&atilde;o ha carrasco, mas existe o
+espirito do carrasco identificado a uma cousa que n&oacute;s
+c&aacute; os assassinos e os salteadores denominamos as
+<i>authoridades</i>, que medram no c&ecirc;vo do erario, uns
+chamando-se procuradores do rei, outros carcereiros, outros
+chaveiros, outros guardas, a mesma familia representando o rei de
+theor e modo que fazem odiosa a palavra do symbolo que lhes
+legit&iacute;ma a crueza, a barbaridade que lhes tem ladrilhado o
+cora&ccedil;&atilde;o, e muitas vezes a infamia que se abona com a
+justi&ccedil;a, essa divina irm&atilde; dos anjos, que os cafres
+trazem t&atilde;o nusinha e pustolosa por sobre os esterquilinios
+d'elles.</p>
+
+<p>Agora &eacute; que me eu perdi de todo... Perdido dev&eacute;ras
+andava aquelle pobre Jorge Coelho, pelas ruas da Amarante em quanto
+o padre dormia o somno do justo. Chegou &aacute; celebrada ponte,
+curvou-se no parapeito, e teve tenta&ccedil;&atilde;o de
+precipitar-se. Foi instantaneo o accesso <span class=
+"pagenum"><a name="pag_122" id="pag_122">[122]</a></span>de
+loucura. Jorge viu a imagem de sua m&atilde;i no scintillante
+reverbero da lua que se espelhava no Tamega, Levantou os olhos para
+o c&eacute;o, e disse:</p>
+
+<p>&laquo;&Oacute; Providencia Divina! leva esta d&ocirc;r ao
+cora&ccedil;&atilde;o de minha m&atilde;i, para que ella, a santa,
+pe&ccedil;a por mim!&raquo;</p>
+
+<p>Eram onze horas d'aquella formosa noite de Setembro. Soava
+apertada nos rochedos a torrente, que scintillava em escamas de
+prata. De longe vinha a toada soidosa d'uma flauta que tocava a
+chacara popular dos &laquo;Dous renegados.&raquo; Jorge amava desde
+os doze annos os versos maviosos e truculentos d'aquella
+can&ccedil;&atilde;o de amor que chora como anjo e obsecra como
+demonio. Proferiu a letra cadenciando-a com a flauta, e rematou
+chorando, j&aacute; n&atilde;o em ancias, mas suavissimamente, como
+se o espirito de sua m&atilde;i lhe alcan&ccedil;asse do c&eacute;o
+a merc&ecirc; das lagrimas que desopprimem.</p>
+
+<p>Um vulto entrou na extremidade direita da ponte: era uma das
+mulheres que padre Jo&atilde;o vira com santa
+indigna&ccedil;&atilde;o, a tripudiarem sobre as ossadas dos monges
+na claustra. Veiu direita a elle, e pediu-lhe uma esmola. Jorge
+deu-lhe tudo quanto tinha. A mulher viu bastantes moedas de prata,
+e, estupefacta ou douda de jubilo, nem se retirava nem
+agradecia.</p>
+
+<p>&mdash;V&aacute;-se agora, embora, mulher&mdash;disse Jorge, sem
+enfado, mas desejoso da solid&atilde;o que t&atilde;o suave lhe
+estava sendo.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor d&aacute;-me este dinheiro todo?!&mdash;disse a
+mulher, que os homens chamam perdida, e que n&atilde;o o estava,
+nem o podia estar aos olhos do seu Creador.</p>
+
+<p>&mdash;Dou, sim.</p>
+
+<p>&mdash;Bem haja, meu senhor!&mdash;tornou ella, com lagrimas na
+voz&mdash;j&aacute; tenho com que ir para a minha familia. Eu sou
+uma desgra&ccedil;ada, que vim do Algarve, ha tres annos, fugida a
+meus paes, com um rapaz meu parente, para casarmos onde podesse
+ser. Elle requereu ao commandante; mas n&atilde;o teve
+licen&ccedil;a para casar commigo; <span class="pagenum"><a name=
+"pag_123" id="pag_123">[123]</a></span> eu depois fui
+lan&ccedil;ar-me aos p&eacute;s da senhora do commandante, e
+consegui licen&ccedil;a. Quando estavamos muito contentes, mandei
+buscar a minha certid&atilde;o e mais papeis &aacute; terra; mas
+disseram-me de l&aacute; que n&oacute;s eramos primos, e n&atilde;o
+podiamos casar sem dispensa. N&atilde;o tinhamos dinheiro para
+ella, e fomos vivendo at&eacute; v&ecirc;r se Deus dava remedio.
+N'este entrementes, o meu primo namorou-se de outra, e deixou-me a
+morrer &aacute; fome. Agora com este dinheirinho vou j&aacute;
+amanh&atilde; para o Porto, e de l&aacute; vou n'um hiate para
+Tavira, e vou botar-me de joelhos aos p&eacute;s de minha
+m&atilde;i.</p>
+
+<p>&mdash;Pois v&aacute;, n&atilde;o mude de
+resolu&ccedil;&atilde;o, e fa&ccedil;a por ser boa
+filha&mdash;disse Jorge com maviosa caridade.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor ser&aacute; um anjo do c&eacute;o?&mdash;disse a
+feliz creatura lavada em lagrimas.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o sou anjo do c&eacute;o, n&atilde;o...
+V&aacute; com Deus.</p>
+
+<p>A mulher retrocedeu, e foi ajoelhar diante de um antiquissimo
+retabulo de granito em que na fachada do templo de S.
+Gon&ccedil;alo sobresahem os grosseiros relevos de uma Senhora com
+Jesus morto no rega&ccedil;o. Jorge viu, ao clar&atilde;o sereno da
+lampada que pende sobre a imagem, a mulher ajoelhada. Banhou-se-lhe
+o espirito de um contentamento, que n&atilde;o poderia existir na
+terra, se acima d'este tremedal, n&atilde;o velasse um Deus as
+ac&ccedil;&otilde;es do homem que p&oacute;de erguer-se do seu
+rasto at&eacute; hombrear com os anjos.</p>
+
+<p>Entre Jorge e aquella peccadora que resava, avultou ainda a
+imagem da mulher pura, a m&atilde;i, a santa, onde cheg&aacute;ra
+talvez a revela&ccedil;&atilde;o das penas do filho. Silvina,
+n'esse momento, nada era na vida de Jorge. Nem a poesia da
+paix&atilde;o p&ocirc;de disputar o espirito do mancebo &aacute;
+poesia da caridade.</p>
+
+<p>Entretanto, o var&atilde;o justo, o padre Jo&atilde;o Coelho,
+acordava com a digest&atilde;o consummada, voltou-se para o outro
+lado, e reatou a nota quebrada de um beatifico ronco.<span class=
+"pagenum"><a name="pag_124" id="pag_124">[124]</a></span></p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_125" id=
+"pag_125">[125]</a></span></p>
+
+<h2>XIV.</h2>
+
+<p>As prelec&ccedil;&otilde;es de historia antiga que padre
+Jo&atilde;o fizera, desde o Porto at&eacute; casa, n&atilde;o
+tocaram o juizo nem o cora&ccedil;&atilde;o de Jorge; mas as
+singelas palavras da indulgente m&atilde;i, e as caricias dos
+irm&atilde;os, acalmaram algum tanto a febril paix&atilde;o do
+academico. D. Antonia, de proposito, passou com o filho no adro da
+igreja rural, quando, ao fim da tarde, se celebrava dentro um
+baptisado. Entraram na modesta igrejinha, e foram ajoelhar no arco.
+A viuva, depois que orou, foi sentar-se n'um banco tosco da
+capella-m&oacute;r, e chamou para junto de si o filho.</p>
+
+<p>&mdash;Senta-te aqui, Jorge;&mdash;disse ella&mdash;quero fallar
+com o meu filho ao p&eacute; da sepultura de seu pai. N&atilde;o a
+esqueceste ainda, pois n&atilde;o?</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_126" id=
+"pag_126">[126]</a></span>Jorge desceu a vista sobre uma das lages
+que formavam o estreito pavimento da capella-m&oacute;r. D. Antonia
+continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Tenho f&eacute; em que o meu cora&ccedil;&atilde;o n'este
+lugar, onde ha cinco annos venho chorar todos os dias, te
+saber&aacute; dizer o que teu bom pai te diria, filho. Se Deus me
+n&atilde;o fizer o milagre de ajuntar ao teu espirito mais dez
+annos, ser&atilde;o perdidas as minhas consola&ccedil;&otilde;es, e
+tu as tomar&aacute;s como conselhos importunos...</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, minha m&atilde;i...&mdash;atalhou Jorge,
+commovido pelo terror santo do local, e pela imagem de seu pai, em
+cuja fronte morta elle dera um beijo cinco annos antes&mdash;os
+seus conselhos...</p>
+
+<p>&mdash;S&atilde;o conselhos de mulher, conselhos de m&atilde;i,
+que quer desterrar da tua alma lembran&ccedil;as d'outra mulher que
+me rouba o cora&ccedil;&atilde;o de meu filho. Deus levou-me teu
+pai, Jorge; e Deus n&atilde;o me podia enganar quando d'aquella
+tribuna, estando eu ajoelhada sobre esta lousa, me dizia que a
+compensa&ccedil;&atilde;o da boa alma que chamou para si, eras tu.
+Lembras-te d'uns beijos fervorosos que eu te dava, quando erguias
+as m&atilde;os ao p&eacute; de mim n'este mesmo sitio? N&atilde;o
+te deixava eu a face molhada de minhas lagrimas, Jorge?
+Lembras-te?</p>
+
+<p>&mdash;Lembro-me, minha m&atilde;i... E porque est&aacute;
+chorando agora?&mdash;disse compadecido o mo&ccedil;o.</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me que &eacute; saudade das d&ocirc;res de
+ent&atilde;o, filho... As de hoje s&atilde;o inconsolaveis... Nunca
+tive orgulho peccaminoso, Deus sabe que n&atilde;o; mas orgulho do
+meu dominio no teu animo, Jorge, tinha-o muito grande; e agora vejo
+que pequeno valor tem o dominio de m&atilde;i, logo que um acaso
+infeliz depara aos dezoito annos de uma crian&ccedil;a os affectos
+verdadeiros ou simulados da mulher que nunca se viu, nem conheceu
+nos brinquedos da infancia. Isto &eacute; triste! A natureza
+poder&aacute; justificar este vulgar infortunio; mas a piedade e o
+dever choram-se, e n&atilde;o ha raz&atilde;o que conven&ccedil;a
+uma m&atilde;i <span class="pagenum"><a name="pag_127" id=
+"pag_127">[127]</a></span> a conformar-se com a desvalia em que tu
+tiveste os meus rogos durante tres mezes.</p>
+
+<p>&mdash;Eu n&atilde;o desvaliei os seus mandados, minha
+m&atilde;i&mdash;disse Jorge em tom de carinhosa
+submiss&atilde;o&mdash;Havia uma corrente invencivel que me prendia
+&aacute; desgra&ccedil;a...</p>
+
+<p>&mdash;E partiu-se essa corrente, filho?... O teu silencio
+diz-me que n&atilde;o... Olha, Jorge... se essa mulher fosse digna
+de ti, eu dizia-te que me trouxesses para casa mais uma filha; se
+ella fosse virtuosa e pobre, seria um thesouro, na nossa casa onde
+sobra o necessario; se fosse rica e creada nas regalias da
+sociedade, aconselhava-te que a n&atilde;o sacrificasses &aacute;
+nossa solid&atilde;o e pobreza comparativa; mas, filho, essa
+menina, que te enganou o cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o tem
+virtudes que suppram a riqueza, nem a riqueza que possa compensar o
+cora&ccedil;&atilde;o estragado e sem escrupulos do homem, que
+n&atilde;o &eacute;s tu, merc&ecirc; do Senhor! Antes de teu tio ir
+ao Porto, j&aacute; eu sabia, meu filho, quem era Silvina. Nada
+disse ao padre do que sabia, quando lhe pedi que fosse em meu nome
+pedir-te que viesses para n&oacute;s, que te choravamos. Tu sabes
+que eu tive uma companheira no convento de Braga, menina de muitas
+virtudes, que mereceu a Deus casar com um negociante do Porto. Foi
+a ella que eu escrevi pedindo-lhe informa&ccedil;&otilde;es da tua
+vida, e n&atilde;o se demoraram. O marido d'esta senhora
+procurou-te varias vezes, e nunca p&ocirc;de encontrar-te. Andavas
+perdido na tua cegueira, meu pobre filho! Abre os olhos da tua
+alma, e attenta nas lagrimas da pobre m&atilde;i que n&atilde;o
+p&oacute;de contar com o amparo de tres meninas, nem ellas contam
+com outro amparo sen&atilde;o o teu. N&atilde;o achas tanta gente
+boa a pedir-te amor, filho? Tudo nos queres tirar a n&oacute;s para
+o atirar aos p&eacute;s de uma mulher que d'aqui a um anno
+ser&aacute; na tua memoria apenas um remorso, sen&atilde;o
+f&ocirc;r antes uma vergonha?</p>
+
+<p>&mdash;Uma vergonha!... atalhou Jorge, mais ferido na vaidade
+que surprehendido da qualifica&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_128" id=
+"pag_128">[128]</a></span>&mdash;Pois qual &eacute; o nome que
+d&aacute; o mundo &aacute;s paix&otilde;es que humilham os que as
+soffrem, e mortificam uma familia que n&atilde;o espera d'ellas
+sen&atilde;o amarguras, desgra&ccedil;as, e abysmos?! Jorge, meu
+querido filho, faz um esfor&ccedil;o de vontade! Vence-te, que
+podes. Ajuda a efficacia das minhas ora&ccedil;&otilde;es. Em nome
+d'estas cinzas queridas, pe&ccedil;o-te em nome de teu pai, que
+tantas vezes me disse, quando te via triste, aos quatorze annos;
+&laquo;n&atilde;o tires da tua vista este menino, que ha-de
+perder-se, se entrar no mundo, d'onde me eu salvei com o teu
+amor&raquo;; &eacute; teu pai que te pede pela minha bocca, Jorge,
+esquece essa mulher; n&atilde;o lhe escrevas, os teus amigos que te
+n&atilde;o fallem d'ella; absorve-te no meu amor; folga com a
+innocencia de tuas irm&atilde;s: volta a Coimbra quando o desejo do
+estudo renascer no teu animo socegado; entrega-te de novo aos teus
+prazeres da ca&ccedil;a; restaura a tua saude, que trazes
+t&atilde;o quebrantada; eu pedirei aos amigos da nossa casa que a
+frequentem mais a miudo; teu tio ha-de saber conversar com o teu
+espirito instruido; compra os livros que quizeres; satisfaz todos
+os caprichos que te n&atilde;o arruinem a saude nem a alma; tens a
+duas leguas d'aqui uma villa onde ha sociedade, e familias que te
+estimam. Lucta, filho, deixa triumphar tua m&atilde;i do prestigio
+d'essa mulher, que nunca te deu uma lagrima, nem sabe o travor das
+que tu me tens feito chorar...</p>
+
+<p>&mdash;Basta, minha m&atilde;i&mdash;murmurou Jorge, levando aos
+labios a m&atilde;o tremula da magoada senhora&mdash;Luctarei, e...
+morrerei, se n&atilde;o vencer.</p>
+
+<p>&mdash;Vences, filho, vences! exclamou D. Antonia com a
+vehemencia da sua f&eacute; e da sua raz&atilde;o.&mdash;Vences,
+porque Deus n&atilde;o d&aacute; &aacute;s m&aacute;s
+paix&otilde;es o poder de matarem uma creatura, que p&oacute;de
+desafogal-as nos bra&ccedil;os de sua m&atilde;i.&mdash;E erguendo
+as m&atilde;os para o altar, disse com a voz
+convulsiva&mdash;Gra&ccedil;as, meu Redemptor!</p>
+
+<p>Anoitecera. Padre Jo&atilde;o, que era o vigario da freguezia,
+<span class="pagenum"><a name="pag_129" id=
+"pag_129">[129]</a></span>andava discretamente passeando no adro, e
+entretendo os sobrinhos para n&atilde;o interromperem a pratica,
+cujo assumpto elle adivinhara. D. Antonia ergueu-se, tomou a
+m&atilde;o do filho, e sahiu da igreja. No adro, estavam brincando
+as tres irm&atilde;s de Jorge, a mais velha das quaes tinha nove
+annos, e o irm&atilde;o mais novo que nascera depois da morte de
+seu pai. Saltaram os mais novos aos abra&ccedil;os &aacute;
+m&atilde;i, e as duas meninas ao pesco&ccedil;o de Jorge, com
+grande alarido. Sentou-se elle nos degraus do cruzeiro do adro, e
+tomou para sobre os joelhos as duas meninas, que &aacute; fina
+for&ccedil;a queriam ennastrar-lhe nos cabellos as suas rozas
+brancas. D. Antonia contemplava o grupo com o semblante banhado de
+alegria. O egresso, debru&ccedil;ado sobre a parede baixa que
+contornava o adro, fallava com o mordomo da festa de S.
+Sebasti&atilde;o &aacute;cerca do numero de padres e do
+pr&eacute;gador que devia chamar. Os meninos mais novos j&aacute;
+tinham largado a m&atilde;i para apedrejarem as andorinhas que
+chilreavam em redor do campanario, cuja sineta unica era movida
+debaixo por um cordel, que os pequenos a muito custo respeitavam
+por alli estar o tio padre.</p>
+
+<p>Resolvido o negocio da festividade do orago, padre Jo&atilde;o
+tirou pela corda, e tocou as nove badaladas das Ave-Marias. Todos
+ergueram as m&atilde;os, e resaram em voz alta. &laquo;Ora, Deus
+nos d&ecirc; boas noites.&raquo;&mdash;Disse o padre. Rodearam-no
+os meninos a beijar-lhe a m&atilde;o, e Jorge tambem depois que sua
+m&atilde;i lhe deu a fronte.</p>
+
+<p>Terminado este lance, cuja poesia santa n&atilde;o ha pedil-a a
+cora&ccedil;&otilde;es que deram com ella no p&eacute;go da lama
+brilhante onde dizem que a poesia est&aacute;, Jorge Coelho fitou
+os olhos no occidente, e reconheceu o anoitecer dos seus dias
+passados; viu o boleado pardacento das serranias longiquas que lhe
+estavam redizendo os pensamentos da sua infancia; ouvia ainda as
+vibra&ccedil;&otilde;es do sino que repicava no baptisado de seus
+irm&atilde;osinhos, e dobr&aacute;ra na morte de seu pai,
+reconcentrou-se; sentiu <span class="pagenum"><a name="pag_130" id=
+"pag_130">[130]</a></span>uma secreta amargura que n&atilde;o era
+angustia de saudade, nem pavor de previs&otilde;es afflictivas...
+Que era, pois, esse vulto l&aacute; muito ao longe, ao p&eacute;
+d'aquella myriada de estrellas que repontava na cumieira da
+montanha? Era a imagem de Silvina ainda perto do c&eacute;o, porque
+de l&aacute; vinha cahindo, bella como os anjos que l&aacute;
+nasceram; e, rebeldes &aacute; piedade, &aacute; virtude, &aacute;
+suprema gra&ccedil;a, aqui se despenham, e despenhados vencem ainda
+disputando ao Senhor as almas immaculadas. Era Silvina, toda de
+festa e risos, reptando-o &aacute; lucta com um sorriso affrontoso,
+e esgares de escarneo ao protesto santo jurado sobre a sepultura
+d'um pai, e assellado com lagrimas de mulher sem macula. Era a
+vis&atilde;o maldita, a fada inexoravel dos que vem a esta
+hecatomba, predestinadas victimas, que o mundo sacrifica e
+cospe.</p>
+
+<p>Era Silvina, sempre Silvina, a dizer-lhe:</p>
+
+<p>&laquo;Que mulher viste mais linda que eu!? Quem te deu philtros
+de mais saborosa pe&ccedil;onha!? V&ecirc; se te sorriem uns labios
+com mais d&ocirc;ces favos de phrases que assignalaram a mais bella
+hora da tua vida!&raquo;</p>
+
+<p>Meu pobre Jorge Coelho! Tua m&atilde;i n&atilde;o te salva
+d'esse captiveiro. Teu pai, esse resgatava-te, se te d&eacute;sse
+um lugar no seu leito!... <i>&Eacute; intransitivo o calix!</i></p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_131" id=
+"pag_131">[131]</a></span></p>
+
+<h2>XV.</h2>
+
+<p>A primeira carta de Leonardo Pires ao condiscipulo dizia que
+Silvina ia todos os dias &aacute; Foz de carro&ccedil;&atilde;o, e
+almo&ccedil;ava bifes e fiambre no hotel inglez. Ajuntava a isto o
+picaresco informador que a menina usava de anquinhas no vestido de
+banho, e fazia de nereida saracoteando-se na agua, requebrando-se
+em risos e ditos galanteadores aos trit&otilde;es de ba&ecirc;ta
+azul que a rodeavam, e sahindo dos bra&ccedil;os de Neptuno mui
+peneirada aos saltinhos pela praia, que eram umas delicias
+v&ecirc;l-a. Dizia mais, que Francisca da Cunha, ao sahir do banho,
+era uma cousa desazada como perua que saltasse de um tanque a
+escorrer agua. Este era sempre o estilo do fidalgo da Maya.
+Rematava dizendo que o morgado de Santa Eufemia fazia todos os dias
+a Silvina o sacrificio de se <span class="pagenum"><a name=
+"pag_132" id="pag_132">[132]</a></span> lavar no oceano, dando
+grandes urros, e devorando bois assados no hotel da Boa-vista.</p>
+
+<p>Jorge Coelho tragou este veneno, e odiou o amigo que sem piedade
+lh'o vasava no cora&ccedil;&atilde;o. O innocente esperava que
+Leonardo lhe enviasse, sen&atilde;o uma carta, ao menos palavras
+consolativas de Silvina, incentivos apaixonados &aacute;
+esperan&ccedil;a, lagrimas de saudade e protestos de firmeza
+eterna.</p>
+
+<p>Na segunda carta dizia Leonardo Pires que tendo elle azo de
+encontrar-se com Silvina na cal&ccedil;ada dos Clerigos, na loja do
+snr. Antonio das Alminhas, lhe fallara de Jorge, contando-lhe o
+motivo da sua repentina partida para a provincia, com o que a boa
+da menina se rira grandemente, dizendo que seria muito de receiar
+que o tio padre trouxesse uma palmatoria debaixo da sotaina. A isto
+respondera Leonardo&mdash;e n&atilde;o duvidamos
+acredital-o&mdash;que Jorge dev&eacute;ras merecia meia duzia de
+palmatoadas, quando sahiu do baile da assemblea, apaixonado por um
+anjo que fizera presente das suas azas &aacute; gravata do morgado
+de Santa Eufemia. E como quer que Silvina redarguisse com
+voltar-lhe as costas, Leonardo f&ocirc;ra fallar a Francisca da
+Cunha que estava &aacute; porta do snr. Antonio das Alminhas,
+conversando amores com um linheiro das Hortas, o qual linheiro lhe
+estava dizendo que o dia estava muito bonito.</p>
+
+<p>Jorge Coelho respondia a estas cartas sem fallar de Silvina, e
+dizendo pouco de si. Divagava por assumptos tristes, dissabores da
+vida que em seu come&ccedil;o trope&ccedil;a na desgra&ccedil;a;
+rebates de saudade d'um tempo que mais n&atilde;o voltaria; os
+encantos perdidos do c&eacute;o, das arvores e das montanhas que
+elle amara tanto; a magia do viver em familia despoetisada; o
+cora&ccedil;&atilde;o desaffeito das caricias maternaes e j&aacute;
+insensivel ao sabor d'ellas; longos dias, sem um sorriso,
+encadeados a noites desveladas sobre livros em que elle, como
+Hamlet, n&atilde;o via sen&atilde;o <i>palavras</i>,
+<i>palavras</i>, <i>palavras</i>.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_133" id=
+"pag_133">[133]</a></span>Na terceira carta dizia Jorge ao seu
+amigo que talvez n&atilde;o fosse a Coimbra, porque a saude lhe
+minguava com a vontade, e a perspectiva da morte era a vis&atilde;o
+mais risonha que o visitava ao cahir da folhagem dos seus bosques,
+onde elle passava os dias com um anjo de nove annos, a sua
+irm&atilde; Angela.</p>
+
+<p>D. Antonia n&atilde;o entendia o filho. Via-o triste; mas triste
+o vira sempre desde crian&ccedil;a. Espreitava-o de noite no seu
+quarto, e achava-o sempre com os cotov&ecirc;los na mesa de estudo,
+o rosto entre as m&atilde;os, e um livro aberto. Se o interrogava
+&aacute;cerca da sua saude, Jorge respondia sempre que n&atilde;o
+soffria sen&atilde;o o mal-estar da sua doentia
+imagina&ccedil;&atilde;o. A m&atilde;i, fiada em suas
+ora&ccedil;&otilde;es, esperava o melhor, e agradecia j&aacute; a
+Deus a cura completa de seu filho.</p>
+
+<p>Padre Jo&atilde;o, por&eacute;m, via mais de perto o fio
+&aacute;s cousas.</p>
+
+<p>&mdash;O rapaz come muito pouco!...&mdash;dizia o sagacissimo
+egresso &aacute; cunhada&mdash;N&atilde;o nos fiemos n'aquelle
+exterior pacifico, mana. Alli ha amargura secreta enfronhada n'uns
+ares de serenidade, que n&atilde;o &eacute; d'aquelles annos. Jorge
+est&aacute; magro, macilento, e n&atilde;o dorme. Debaixo da
+janella d'elle encontro a miudo muito papel rasgado. J&aacute; pude
+concertar uns pedacinhos, e l&aacute; encontrei o nome da fada
+m&aacute;, que nos ha-de perder Jorge.</p>
+
+<p>&mdash;Perder!... n&atilde;o diga tal, mano
+Jo&atilde;o!&mdash;exclamou a viuva, estorcendo os dedos, e
+j&aacute; com as lagrimas, a fio.</p>
+
+<p>&mdash;Perder, sim!... Mana Antonia, eu j&aacute; tive vinte
+annos, e entrei no mosteiro aos trinta e dous... Vou aconselhal-a.
+Quer resgatar o seu filho das ciladas da sereia?... Olhe que
+s&oacute; Ulysses venceu uma vez sereias. Que me conste; desde
+Ulysses at&eacute; n&oacute;s, as vencedoras s&atilde;o ellas
+sempre, quando as victimas as n&atilde;o podem examinar de perto, e
+v&ecirc;r que ellas escondem na <span class="pagenum"><a name=
+"pag_134" id="pag_134">[134]</a></span> agua a metade monstruosa do
+corpo. (A erudi&ccedil;&atilde;o mythologica do padre nem D.
+Antonia poupava!)</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o que conselho me d&aacute;,
+mano?&mdash;atalhou a senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Quando Jorge der signaes de doen&ccedil;a grave, quando
+uma ponta de febre lhe accender as faces, mande-o para o Porto.</p>
+
+<p>&mdash;Para o Porto?! Que desproposito &eacute; esse!?</p>
+
+<p>&mdash;Deixe-o ir examinar de perto o monstro. Deixe-o cahir na
+conta da sua indigna paix&atilde;o. Deixe-o ir ouvir o descredito
+da tal mulher. Ha mulheres como a lan&ccedil;a de P&eacute;lias:
+curam a ferida que fazem. Eu j&aacute; me arrependi de obedecer aos
+rogos da mana. Jorge devia deixar o Porto espontaneamente. Logo que
+eu sube que mulher era a tal Silvina, devia abandonal-o a elle
+&aacute; miseria da sua illus&atilde;o. A esta hora estava elle
+talvez desenganado. Sabe porque? Aqui tenho uma carta do negociante
+Ferreira, casado com a sua amiga do convento. Diz-me que Silvina
+arranjara a final um brazileiro millionario, t&atilde;o monstruoso
+em corpo como ella &eacute; monstruosa na alma. Se Jorge estivesse
+a esta hora no Porto, cercado de homens que fazem zombaria das
+affei&ccedil;&otilde;es serias e das ridiculas, curava-se. Aqui, se
+lhe eu annunciar as baixezas da Circea que o bestificou, n&atilde;o
+me acredita; e, se me acreditar, n&atilde;o temos balsamo que lhe
+feche a chaga; ver&aacute; que elle a rasga mais com as suas
+proprias unhas, Mana Antonia, o meu parecer &eacute; este.
+N&atilde;o me argumente, que n&atilde;o sabe, nem p&oacute;de. Se a
+sua vontade f&ocirc;r outra, lavo d'ahi as minhas
+m&atilde;os...</p>
+
+<p>D. Antonia foi direita ao quarto do filho, e entrou de
+sobresalto. Surprehendeu-o a escrever. Jorge fez um gesto machinal
+para entremetter n'outros papeis a folha em que escrevia.</p>
+
+<p>&mdash;Escondes de mim o que escreves, filho?&mdash;disse D.
+Antonia, com magoada brandura.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, minha m&atilde;i, n&atilde;o escondo...</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_135" id=
+"pag_135">[135]</a></span>&mdash;Pois eu n&atilde;o
+vi?!&mdash;tornou ella, sorrindo tristemente.</p>
+
+<p>&mdash;S&atilde;o cartas para os meus condiscipulos.</p>
+
+<p>&mdash;Deixas v&ecirc;r-m'as, Jorge? Que poder&aacute;s tu dizer
+aos teus amigos, que n&atilde;o dissesses a tua m&atilde;i?! Fallas
+das tuas amarguras? Conta-m'as tambem a mim.</p>
+
+<p>&mdash;Eu n&atilde;o fallo de amarguras, minha
+m&atilde;i&mdash;disse Jorge, erguendo-se, para afastar a
+m&atilde;i da banca.&mdash;Communico a um amigo os meus estudos, as
+minhas impress&otilde;es de leitura, cousas que n&atilde;o podem
+recrear uma senhora...</p>
+
+<p>&mdash;Assim ser&aacute;, Jorge... Tu nunca me mentiste, nem
+mentir&aacute;s, pois n&atilde;o?</p>
+
+<p>Jorge guardou escrupuloso silencio, respondendo com um tregeito,
+que valia tanto como a supplica de perd&atilde;o.</p>
+
+<p>N'este momento, apeava no pateo um cavalheiro da villa proxima,
+que vinha visitar o academico. Jorge foi logo &aacute; sala, a
+m&atilde;i acompanhou-o at&eacute; f&oacute;ra do quarto; e
+retrocedeu a examinar os papeis, logo que o viu entretido. Foi
+f&aacute;cil estremal-o dos outros pela frescura da tinta. No alto
+da folha, leu estas palavras: &laquo;A<small>O ANOITECER DA
+VIDA.</small>&raquo; Depois seguia assim:</p>
+
+<p>&laquo;Vou d'este mundo, quando custa morrer aos que se estorcem
+entre uma saudade e uma esperan&ccedil;a. Saudade! de que hei-de eu
+tel-a?! E que posso esperar? Quem me dera j&aacute; as trevas! Esta
+luz, que me alumia, &eacute; ainda a d'aquelle clar&atilde;o
+infernal do baile. Queria fugir de mim proprio, como de um inimigo.
+N&atilde;o me has-de tu matar, paix&atilde;o! Morro porque
+n&atilde;o podia viver. Se n&atilde;o fosse aquella mulher, era
+outra. Eu vejo e palpo a morte ha muitos annos. A fugir da morte,
+refugiei-me no cora&ccedil;&atilde;o de Silvina. Porque me disse
+ella: &laquo;no mundo deve existir a imagem da mulher digna de
+senhorear-lhe a alma com a de sua m&atilde;i, cuja face eu beijaria
+com respeito e ternura de filha?&raquo; E como Deus p&ocirc;de
+crear no cora&ccedil;&atilde;o humano para zombaria pensamentos
+<span class="pagenum"><a name="pag_136" id=
+"pag_136">[136]</a></span> assim! &Aacute; mulher infame devia
+morrer a memoria das palavras com que se exprime a virtude...
+Sinto-me tranquillo... A compensa&ccedil;&atilde;o dos affrontados
+&eacute; esta. No mal e no bem te reconhe&ccedil;o, Providencia
+Divina!... Mas o mal para que &eacute;? Se &eacute; necessaria na
+ordem do mundo a ignominia, a crueza, a infamia, a desgra&ccedil;a,
+f&ocirc;ra digno da perfei&ccedil;&atilde;o divina deixar &aacute;s
+almas inculpadas o galard&atilde;o de n&atilde;o sentirem a absurda
+justi&ccedil;a do Creador.</p>
+
+<p>&laquo;Que &eacute;s tu, bem? que &eacute;s tu, virtude?... que
+&eacute;s tu...&raquo;</p>
+
+<p>Aqui f&ocirc;ra interrompido Jorge pela subita entrada da
+m&atilde;i.</p>
+
+<p>D. Antonia quasi n&atilde;o entendera o escripto; mas algumas
+palavras, as do titulo s&oacute;, bastaram a compenetral-a de
+consterna&ccedil;&atilde;o e terror. Ouviu os passos de padre
+Jo&atilde;o, chamou-o anciada, e mostrou-lhe o papel. O egresso
+leu, e respondeu risonho:</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o tem de que se lastimar por em quanto, minha
+irm&atilde;. Isto &eacute; um accesso de febre; mas n&atilde;o me
+assusta; o que eu receio &eacute; a outra que n&atilde;o interroga
+a Providencia, e obriga o enfermo a inclinar a face para o seio, e
+esperar resignadamente a morte. V&aacute; &aacute; sala, que o
+hospede quer comprimental-a.</p>
+
+<p>D. Antonia sahiu, e padre Jo&atilde;o escreveu o seguinte no
+papel que l&ecirc;ra:</p>
+
+<p>&laquo;O pucaro pergunta ao obreiro porque o fez
+quebradi&ccedil;o. O oleiro responde: porque eras barro antes de
+seres pucaro.&raquo;</p>
+
+<p>&laquo;Virtude &eacute; o diamante em que se pulverisam os raios
+da desgra&ccedil;a. Aquelle &eacute; virtuoso que olha em torno de
+si, e v&ecirc; prostradas as calamidades.&raquo;</p>
+
+<p>&laquo;O reino de Deus n&atilde;o est&aacute; em palavras
+sonoras; mas em virtudes. (S. Paulo&mdash;aos impacientes de
+Corintho).&raquo;</p>
+
+<p>&laquo;Cora&ccedil;&atilde;o apoucado, sossobra, se n&atilde;o
+podes com a tua miseria; mas n&atilde;o abandones a tua memoria a
+uma piedade v&atilde;, que &eacute; quasi uma zombaria.&raquo;</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_137" id=
+"pag_137">[137]</a></span></p>
+
+<h2>XVI.</h2>
+
+<p>Traslado fiel de uma carta de Leonardo Pires a Jorge Coelho:</p>
+
+<p>&laquo;S&atilde;o 6 horas da manh&atilde;. Venho do baile do
+visconde dos Lagares. Tenho o cora&ccedil;&atilde;o a trasbordar de
+amargura! Deixal-o trasbordar, que &eacute; uma gotta de absintho
+n'um oceano de champagne. Um bago de uva matou Anacreonte. Eu
+sinto-me triplicar de existencia na uva. <i>Evoh&eacute;!</i> Como
+a vida &eacute; linda! que vergeis de fl&ocirc;res recendem
+&aacute; tona d'este lama&ccedil;al! Vem c&aacute;, Fortuna!
+Schakspeare chamou-te prostituta. Linda, vem c&aacute;, que eu bem
+te vi no baile, como o poeta inglez te via nos pa&ccedil;os e nas
+tavernas! Senta-te aqui nos meus joelhos, impudica! Solta d'essa
+larynge recozida de alcool um dithyrambo! Ri-te commigo, e
+n&atilde;o me venhas dizer que &eacute;s filha da Providencia,
+infame blasphema!...</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_138" id=
+"pag_138">[138]</a></span>Can&ccedil;ou-me o folego, Jorge! O meu
+vinho nunca foi para grandes apostrophes. O descriptivo &eacute; o
+meu forte.</p>
+
+<p>Fui ao baile. Pude lograr a causa da moral publica. Deves
+presumir que estou desacreditado no Porto, e em vesperas de um
+duello. Sou o var&atilde;o justo a bra&ccedil;os com a adversidade:
+<i>vir fortis cum mala fortuna compositus</i>&mdash;a maravilha que
+punha Seneca em extasis! O champagne do visconde &eacute;
+litterario como as aguas da Aganippe. Que abundancia de pegasos eu
+vi beber na sala da ceia, e apparecerem Homeros na sala do
+baile!</p>
+
+<p>Pedi a quatro conhecidos que me arranjassem convite. Era
+impossivel. O visconde respondia que eu era um <i>bolas</i>, que
+descompozera no largo da Batalha uma menina, noiva de um seu amigo.
+Eis que encontro o Jo&atilde;o da Thereza da Cancella! Este
+Jo&atilde;o &eacute; meu caseiro ha cincoenta annos. V&ecirc;-me,
+corre a abra&ccedil;ar-me, e exclama: &laquo;Fidalgo, o meu
+Francisco chegou!&raquo;&mdash;&laquo;Quem &eacute; o teu
+Francisco, amigo Jo&atilde;o?&raquo;&mdash;&laquo;O meu
+Francisco&mdash;tornou elle&mdash;que estava no Maranh&atilde;o!
+pois n&atilde;o sabe?&raquo;&mdash;&laquo;N&atilde;o sabia... Vem
+rico?&raquo;&mdash;&laquo;Rico como um
+burro!&raquo;&mdash;&laquo;Est&aacute; bom; estimo; &eacute;
+bar&atilde;o de...?&raquo;&mdash;&laquo;N&atilde;o, senhor;
+bar&atilde;o ainda n&atilde;o &eacute;; mas est&aacute; aquartelado
+em casa do snr. visconde dos
+Lagares.&raquo;&mdash;&laquo;Sim?!&raquo;&mdash;&laquo;&Eacute;
+como digo, fidalgo, e, pelos modos casa-lhe com a filha; &eacute;
+arranjo tratado j&aacute; l&aacute; do
+Brazil.&raquo;&mdash;&laquo;Fazes-me um favor,
+Jo&atilde;o?&raquo;&mdash;&laquo;&Eacute; pedir por
+bocca.&raquo;&mdash;&laquo;Teu filho ser&aacute; capaz de me
+arranjar que eu seja convidado para um baile que vai dar o visconde
+amanh&atilde;?&raquo;&mdash;&laquo;Que remedio tem elle,
+sen&atilde;o arranjar?! Quem foi que lhe pagou a passagem para o
+Rio sen&atilde;o o paisinho do fidalgo?!&raquo;&mdash;&laquo;Vai
+depressa, e volta aqui com a resposta.&raquo;</p>
+
+<p>Meia hora depois, voltou Jo&atilde;o da Thereza da Cancella, com
+a carta, e disse-me: &laquo;Olhe que o homem n&atilde;o queria dar
+o officio; foi preciso eu dizer que dava duas libras por elle,
+sendo preciso; o meu Francisco chamou-me<span class=
+"pagenum"><a name="pag_139" id="pag_139">[139]</a></span> bruto, e
+depois l&aacute; se mexeram como poderam, e aqui tem.&raquo;</p>
+
+<p>Dei um abra&ccedil;o democrata no meu caseiro; procurei os meus
+quatro conhecidos, mostrei-lhes o cart&atilde;o, e fiz o elogio do
+seu valimento d'elles.</p>
+
+<p>Apenas entrei no baile, fui comprimentar a viscondessa, que
+fallava com Silvina. Esta, quando me viu, resfolegava como se eu
+fosse uma grande botija destapada de vinagre de sete
+ladr&otilde;es. Retirei-me a rir, e, na reviravolta impetuosa, bati
+n'uma grande esponja: era Jos&eacute; Francisco
+Andraens.&mdash;Perd&atilde;o!&mdash;disse-lhe eu. Jos&eacute;
+Francisco grunhiu, e enviezou-me um olhar
+sanhudo&mdash;Perd&atilde;o!&mdash;tornei eu. O cerdo poz as
+m&atilde;os na linha hemispherica do seu globo, constituiu-se vaso
+etrusco, e regougou: &laquo;O senhor anda a embarrar pela
+gente?!&raquo;&mdash;Foi uma <i>embarra&ccedil;&atilde;o</i>
+inopinada, snr. Andraens!&mdash;repliquei eu&mdash;Se lhe offendi
+os tecidos, desculpe-me.&mdash;&laquo;Estes meliantes...&raquo;
+disse o brazileiro, e foi-se embora.</p>
+
+<p>Adiante encontrei os morgados de Santa Eufemia, e de
+Matto-grosso.</p>
+
+<p>&mdash;Que ha de novo?&mdash;perguntei eu.</p>
+
+<p>&mdash;O casamento de Silvina com o brasileiro est&aacute;
+definitivamente tratado&mdash;disse-me Egas de
+Encerra-bodes.</p>
+
+<p>&mdash;Com o brazileiro?</p>
+
+<p>&mdash;Com o brazileiro. Veiu ahi o pai d'ella; expoz &aacute;
+filha as vantagens do casamento, e ella poz os olhos no c&eacute;o,
+e disse:&mdash;cumpra-se a vontade do Senhor,... e a de meu
+pai!</p>
+
+<p>&mdash;E c&aacute; o amigo Christov&aacute;o Pacheco que diz a
+isso?&mdash;perguntei eu, voltando-me para o de Santa Eufemia, em
+quanto Egas ria estrondosamente.</p>
+
+<p>&mdash;Eu digo&mdash;respondeu elle&mdash;que j&aacute;
+c&aacute; botei as minhas contas, e que hei-de tourear o tal
+Jos&eacute; Francisco!... Estou civilisado;&mdash;c&aacute; o primo
+tosqueou-me o pello.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_140" id=
+"pag_140">[140]</a></span>&mdash;Vi-te n'aquelle momento, meu caro
+Jorge. Vi a tua candida alma, n'esse ermo, a penar, em quanto a
+vil, que te mentira o apunhalara, se andava alli glorificando de
+que a indigitassem como futura quinhoeira dos duzentos contos do
+negreiro. Fervia-me o sangue em borbot&otilde;es de raiva. Jurei
+tirar alli uma vingan&ccedil;a em teu nome, a v&ecirc;r se me assim
+despenava da culpa de te apresentar, de te immolar aos rasos
+instinctos d'aquella mulher. Busquei ensejo de fallar-lhe; mas ella
+evadia-se, n&atilde;o largando nunca o bra&ccedil;o de um ou outro
+homem. O millionario, filho do Jo&atilde;o da Thereza, levou-me
+&aacute; casa da ceia, e serviu-me tres copos de um vinho que tinha
+um nome barbaro. Abrazou-me as arterias; mas a minha raiva medrava
+nas chammas como a salamandra. Tornei &aacute;s salas, encontrei
+Francisca da Cunha pelo bra&ccedil;o do linheiro das Hortas; parei
+diante d'elles, e disse, com a solemnidade do
+estilo:&mdash;Boccacio e Fiammentta! Bettina e Goethe! Fornarina e
+Rafael de Urbino!</p>
+
+<p>O linheiro, voltou-se para Francisca e
+murmurou:&mdash;N&atilde;o conhe&ccedil;o este sujeito.</p>
+
+<p>Eu continuei: Beatriz e Bernardim!</p>
+
+<p>&mdash;O senhor est&aacute; enganado comnosco&mdash;disse o
+linheiro na sua boa f&eacute; de linheiro. Francisca, tirou-lhe
+pelo bra&ccedil;o com for&ccedil;a, e afastaram-se. N&atilde;o sei
+o que lhe ella segredou. O homem, pouco depois sahiu-me de cara, e
+disse-me:</p>
+
+<p>&mdash;V. s.&ordf; parece que, ha bocado, me quiz insultar.</p>
+
+<p>&mdash;Eu n&atilde;o o quiz insultar ha bocado, senhor... como
+&eacute; a sua gra&ccedil;a?</p>
+
+<p>&mdash;Eu chamo-me Antonio Jos&eacute; Guimar&atilde;es.</p>
+
+<p>&mdash;Pois senhor Antonio Jos&eacute; Guimar&atilde;es, como
+passou?</p>
+
+<p>O linheiro a&ccedil;afroou-se, mediu-me tres vezes
+perpendicularmente, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;O senhor ha-de dar-me uma satisfa&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_141" id=
+"pag_141">[141]</a></span>&mdash;N'esse caso, satisfa&ccedil;a-se,
+e, quando estiver satisfeito, avise-me, snr. Antonio.</p>
+
+<p>&mdash;Na rua nos encontraremos.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, repliquei eu, na rua nos encontraremos. O snr.
+Antonio quer duello a todo o trance e sem misericordia? Eu
+n&atilde;o me bato com armas brancas nem pretas. O snr. Antonio,
+como tem a materia prima de casa, leve uma corda, que o hei-de
+enforcar.</p>
+
+<p>O linheiro ficou chumbado ao tapete, e suava como uma abobora
+porqueira em manh&atilde; de orvalho.</p>
+
+<p>Tocou &aacute; ceia. Entrei na sala. O champagne estalava. Os
+crystaes retiniam. Os talheres tilintavam. Eu tinha no craneo a
+musica das espheras. Jos&eacute; Francisco Andraens ia atamancando
+um empad&atilde;o de pombos, cujos arcabou&ccedil;os lhe pendiam
+das belfas em fragmentos. Silvina defrontava com elle, e comia a
+duodecima Sandwich. Estavam tres per&uacute;s, ou seis, ou
+n&atilde;o sei quantos per&uacute;s intactos na mesa. Fui
+collocar-me atraz de Jos&eacute; Francisco Andraens, e chamei um
+servo agaloado de prata. O snr. commendador
+Andraens&mdash;disse-lhe eu a meia voz&mdash;quer que voss&ecirc;
+leve um d'estes per&uacute;s de mando d'elle &aacute;quella senhora
+que tem uma grinalda de fl&ocirc;res brancas. Disse e fui
+collocar-me a pouca distancia de Silvina.</p>
+
+<p>Chegou o criado com a travessa, e disse:&mdash;Minha senhora, o
+snr. commendador Andraens manda isto a v. exc.&ordf;</p>
+
+<p>&mdash;Isto a mim!&mdash;tartamudeou ella entre admirada e
+vexada.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha senhora, a v. exc.&ordf;&mdash;teimou o
+criado.</p>
+
+<p>Silvina pregou os olhos abrasoados em Jos&eacute; Francisco, que
+lhe abria um sorriso apaixonado por entre o costado d'um pombo. Ao
+sorriso respondeu ella com um tregeito de colera. Cheguei ao ouvido
+de Silvina, e segredei-lhe:</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_142" id=
+"pag_142">[142]</a></span>&laquo;Minha senhora, Jos&eacute;
+Francisco envia-lhe um suspiro d'alma; e como a alma de Jos&eacute;
+Francisco &eacute; uma ucharia, os suspiros de Jos&eacute;
+Francisco s&atilde;o per&uacute;s.&raquo;</p>
+
+<p>Quando Silvina volvia os olhos fuzilantes, tinha eu
+desapparecido. Fui ao ouvido de Jos&eacute; Francisco, e disse-lhe
+&aacute; puridade:</p>
+
+<p>&mdash;A sua noiva est&aacute; indignada de o v&ecirc;r comer
+assim! Sacrifique a Cupido o oitavo pombo, amigo Jos&eacute;.</p>
+
+<p>O que decorreu depois d'isto, n&atilde;o sei dizer-te meu caro
+Jorge. A minha cabe&ccedil;a n&atilde;o podia j&aacute; com encargo
+da chronica at&eacute; final: sahi. O ar fresco da madrugada, que
+aspirei at&eacute; &aacute;s cinco horas, restituiu-me &aacute;
+bestial vida commum. N&atilde;o posso mais.</p>
+
+<p>&mdash;Resta-me dizer-te que, se choraste uma lagrima por
+Silvina, envergonha-te de chorar segunda.</p>
+
+<p>Adeus. Teu</p>
+
+<p class="direita">L. P<small>IRES.</small>&raquo;</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_143" id=
+"pag_143">[143]</a></span></p>
+
+<h2>XVII.</h2>
+
+<p>Verificaram-se os presagios do padre Jo&atilde;o. Jorge, depois
+da ultima carta d'aquelle singular e diabolico Pires, quiz
+reanimar-se, e j&aacute; n&atilde;o p&ocirc;de. Debil de
+complei&ccedil;&atilde;o, quebrantado de insomnias, sorvido
+incessantemente na funesta scisma de que n&atilde;o havia ahi na
+terra voz humana que o chamasse ao amor da vida, nem no c&eacute;o
+misericordia que o remisse da immerecida pena, Jorge, sem um
+queixume, sem uma lagrima, sem dar de si incentivo &aacute; piedade
+dos seus, desculpou-se com um ligeiro incommodo, e ficou um dia no
+leito. A pobre m&atilde;i alvoro&ccedil;ou-se, e com ella toda a
+familia, que via chorar. Veiu logo a sciencia que trata
+magistralmente dos achaques do estomago, e d'outras visceras
+nobres, e declarou que a molestia do doente era cousa moral,
+paix&atilde;o, hypocondria, <span class="pagenum"><a name="pag_144"
+id="pag_144">[144]</a></span>ou romance. O facultativo capitulou
+assim a enfermidade com um sorriso supicaz, e disse &aacute; viuva
+que n&atilde;o era nada aquillo, e ao padre, piscando o olho,
+acrescentou que era aquella uma das feridas que se curam com o
+pello do mesmo c&atilde;o. Chiste de cirurgi&atilde;o de
+ald&ecirc;a.</p>
+
+<p>D. Antonia recobrou-se do seu desmaio; mas o egresso entrou em
+maiores cuidados.&mdash;Para o Porto, e sem demora, o
+rapaz&mdash;disse o padre &aacute; cunhada.</p>
+
+<p>&mdash;Mas o cirurgi&atilde;o n&atilde;o receia, nem Jorge se
+queixa...&mdash;acudiu D. Antonia, temerosa da
+separa&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Deixe fallar o cirurgi&atilde;o, senhora. Seu filho morre
+sem se queixar.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o me diga isso!...&mdash;exclamou a m&atilde;i
+consternada.&mdash;Pois as suas palavras t&atilde;o persuasivas,
+mano, e a religi&atilde;o n&atilde;o h&atilde;o-de poder nada?</p>
+
+<p>&mdash;A religi&atilde;o p&oacute;de muito: se elle fizer uma
+confiss&atilde;o contricta, e morrer com sincera d&ocirc;r dos seus
+peccados, a religi&atilde;o encaminha-o para Deus; mas o que
+n&oacute;s queremos &eacute; que elle viva. Que me responde a isto,
+mana Antonia?</p>
+
+<p>&mdash;Eu antes o queria com Deus, que perdido no
+mundo&mdash;disse ella suffocada pelos gemidos.</p>
+
+<p>&mdash;Respondeu acertadamente; mas a supposi&ccedil;&atilde;o
+de que Jorge se perde no mundo, acho-a exagerada. Deixe-o ir onde
+elle se envergonhe de padecer, que eu lh'o dou por salvo. Torno a
+repetir-lhe, mana, que eu fui homem antes de ser frade, e a senhora
+foi sempre o que &eacute;&mdash;uma alma cheia de innocencia, de
+bondade, e de ignorancia.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, meu amigo, fa&ccedil;a o que entender, mas
+salvem-me o meu filho.</p>
+
+<p>&mdash;Aceito o encargo com uma condi&ccedil;&atilde;o: a mana
+n&atilde;o chora mais uma s&oacute; lagrima na presen&ccedil;a de
+seu filho; finge acreditar que elle precisa de banhos do mar; exige
+que v&aacute; j&aacute; para o Porto, e de l&aacute; para Coimbra,
+se <span class="pagenum"><a name="pag_145" id=
+"pag_145">[145]</a></span>f&ocirc;r vontade d'elle ir a Coimbra
+este anno. Conforma-se com isto?</p>
+
+<p>&mdash;Com tudo que de mim quizerem&mdash;murmurou ella
+enxugando as lagrimas.</p>
+
+<p>&mdash;Agora cuide da bagagem de Jorge, que eu vou
+fallar-lhe.</p>
+
+<p>Jorge Coelho estava sentado na cama, lendo a <i>Nova Heloisa</i>
+de J. J. Rousseau. O egresso foi de mansinho ao p&eacute; do leito,
+tirou pausadamente os oculos d'um enorme estojo escarlate,
+montou-os na ponta do nariz, abriu e arredondou os bei&ccedil;os,
+pendido o queixo, e examinando o livro, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Era um grande homem esse Saint-Preux, &oacute;
+Jorge!...</p>
+
+<p>&mdash;Pois o tio conhece Saint-Preux?!</p>
+
+<p>&mdash;Relacionei-me com esse cavalheiro e com outros da sua
+estofa ha bons quarenta annos. Nunca t'o apresentei, quando
+praticavamos litteratura, por que sempre entendi que o ias
+encontrar a Coimbra, de par&ccedil;aria com os muitos filhos que
+elle gerou para amparo de muitas Heloisas novissimas, de que
+est&aacute; in&ccedil;ado o mundo, gra&ccedil;as &aacute;s
+novellas, e ao descredito a que baixou a roca e o fuso. Que carta
+l&eacute;s?</p>
+
+<p>O egresso levantou o nariz com os oculos &aacute; linha
+horisontal dos olhos, e leu algumas linhas da pagina.</p>
+
+<p>&mdash;Ah!&mdash;continuou elle&mdash;trata do suicidio...
+Est&aacute; mui atiladamente debatida a quest&atilde;o por uma e
+outra parte. O Rousseau era mestre em paradoxos; e sabia bastante
+de musica; mas os paradoxos dava-os de mimo &aacute; humanidade, e
+para elle guardava a vida com todas as suas paix&otilde;es
+vill&atilde;s, mal resguardadas por uma c&ocirc;dea de soberba e
+orgulho. Ensinava o mundo a educar os filhos, e mandava os d'elle
+para a roda. Atassalhava a impudicicia do seu confrade Voltaire, e
+escrevia as suas <i>Confiss&otilde;es</i>, com esqualido recheio de
+desvergonhamentos, para prova de que at&eacute; o impudor tem a sua
+<span class="pagenum"><a name="pag_146" id=
+"pag_146">[146]</a></span>soberba. E depois, meu sobrinho, o
+philosopho, a luminaria do seculo, vendo que a ulcera, aberta no
+cora&ccedil;&atilde;o da sociedade pelas m&aacute;s doutrinas, ia
+lavrando, defendeu de concerto com os seus tresvalios, uma these
+apologetica da ignorancia... Vou-me alongando, e j&aacute; receio
+de ter dito de mais. Isto s&atilde;o reminiscencias das minhas
+leituras de ha quarenta annos. Quando or&ccedil;ares pelos
+sessenta, Jorge, has-de abrir a tua <i>Nova Heloisa</i> n'essa
+pagina, e has-de rir da impress&atilde;o, que te magoava, quando a
+l&ecirc;ste, aos vinte annos.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o me sinto magoado por impress&atilde;o alguma,
+meu tio&mdash;disse Jorge, sorrindo, e depondo o livro.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o mintas, meu sobrinho&mdash;tornou o padre com
+branda severidade&mdash;Faz quanto em ti couber por salvar dos teus
+temporaes desfeitos do cora&ccedil;&atilde;o, o melhor thesouro
+d'elle, a <i>verdade</i>, filho. Sofres, e soffres muito, Jorge.
+Pensas em morrer, e d&aacute;s de bom grado a tua vida a Deus, se
+&eacute; que a Divina Providencia transluz nas tuas
+imagina&ccedil;&otilde;es negras. N&atilde;o te culpo, rapaz de
+vinte annos. O mesmo seria culpar-te e reprehender o naufragado que
+n&atilde;o soube salvar-se. Nem de fraco te accuso. Se eu quizer
+que uma tenra vergontea, dobrada pelas minhas m&atilde;os, se
+levante commigo, n&atilde;o hei-de molestar-me se me chamarem
+insensato. No mais verde dos annos, n&atilde;o responde o mancebo
+de suas fraquezas: a sociedade que responda por elle, e o
+temperamento tambem. Isto do <i>temperamento</i>, digo-to aqui
+muito &aacute; puridade, que n&oacute;s c&aacute;, os theologos,
+n&atilde;o queremos ceder nada aos temperamentos. Ora vamos, Jorge,
+a p&eacute; d'essa cama!</p>
+
+<p>&mdash;A p&eacute;!&mdash;disse Jorge&mdash;e poderei eu?!</p>
+
+<p>&mdash;P&oacute;des porque queres. Hoje e &aacute;manh&atilde;
+de convalescen&ccedil;a; depois de &aacute;manh&atilde; para banhos
+do mar.</p>
+
+<p>&mdash;De que me servem banhos de mar, meu tio?</p>
+
+<p>&mdash;A resposta &eacute; do f&ocirc;ro da medicina. Vaes para
+o Porto. Hospedas-te em casa de D. Marianna Ferreira, a
+<span class="pagenum"><a name="pag_147" id=
+"pag_147">[147]</a></span>amiga da crea&ccedil;&atilde;o de tua
+m&atilde;i. Vaes do Porto &aacute; Foz tomar o teu banho. Se, no
+fim do mez, quizeres ir frequentar o primeiro anno juridico, vai;
+se n&atilde;o quizeres, fica o inverno no Porto, e vem para casa em
+Maio, caso tenhas saudades nossas e da primavera dos teus
+arvoredos.</p>
+
+<p>&mdash;Pe&ccedil;o licen&ccedil;a&mdash;disse Jorge com amargura
+sincera&mdash;para contrariar a vontade de meu tio.</p>
+
+<p>&mdash;Teu tio n&atilde;o concede a licen&ccedil;a pedida.</p>
+
+<p>O mo&ccedil;o fitou os olhos nas m&atilde;os cruzadas sobre o
+seio, e n&atilde;o respondeu. O egresso lan&ccedil;ou-lhe sobre o
+leito o fato, e sahiu, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Vou mandar p&ocirc;r o teu talher na mesa.</p>
+
+<p>Jorge disse entre si:&mdash;Morrer aqui ou l&aacute;... que
+importa?</p>
+
+<p>Na passagem do seu quarto para a casa de jantar, Jorge recebeu
+de um criado duas cartas. Uma era de Leonardo Pires; o sobrescripto
+da outra fez-lhe uma convuls&atilde;o: era de Silvina. Abriu, e leu
+o seguinte:</p>
+
+<p>&laquo;N&atilde;o sei que mal fiz a v. exc.&ordf; para
+merecer-lhe uma vingan&ccedil;a t&atilde;o baixa! Collocou ao meu
+lado um insultador petulante que me vexa em toda a parte. Que fiz
+eu ao snr. Jorge Coelho?</p>
+
+<p>&laquo;Aceitei os seus galanteios com amor, e aceitei o seu
+abandono com paciencia. Que queria que eu fizesse para n&atilde;o
+ser insultada pelo seu amigo? Diga-me se &eacute; necessario
+pedir-lhe perd&atilde;o de ter sido abandonada. N&atilde;o
+hesitarei em fazel-o com tanto que v. exc.&ordf; me garanta a
+certeza de que n&atilde;o serei injuriada nas pra&ccedil;as e nos
+bailes. De v. exc.&ordf;&mdash;eu muito respeitadora, <i>Silvina de
+Mello</i>.&raquo;</p>
+
+<p>Jorge cahiu extenuado n'uma cadeira: a orla roixa das palpebras
+fez-se negra; apanharam-se-lhe as faces, como se a doen&ccedil;a,
+em poucos minutos, progredisse mezes. D. Antonia vinha chamal-o, e
+encontrou-o assim, com a carta na m&atilde;o tremula.</p>
+
+<p>&mdash;Que tens, meu filho?&mdash;clamou ella ajoelhando diante
+d'elle, e abra&ccedil;ando-o.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_148" id=
+"pag_148">[148]</a></span>&mdash;Nada, minha m&atilde;i, &eacute;
+fraqueza... N&atilde;o chore, por piedade, n&atilde;o chore, que eu
+estou bem.</p>
+
+<p>E, erguendo-se com vacillante esfor&ccedil;o, foi para a mesa.
+Forcejou por comer; mas as lagrimas cahiam-lhe das faces no prato,
+e a violencia n&atilde;o conseguia desentalar-lhe a garganta.</p>
+
+<p>&mdash;Que &eacute; isto?&mdash;disse o egresso.</p>
+
+<p>&mdash;Foi uma carta...&mdash;respondeu D. Antonia.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o &eacute; nada, meu tio. Recebi uma carta que
+me fez mal. A impress&atilde;o gasta-se, e eu d'aqui a pouco estou
+bom. Agora pedia licen&ccedil;a para me erguer da mesa, e dar um
+passeio no jardim.</p>
+
+<p>&mdash;Vai&mdash;disse o padre.</p>
+
+<p>&mdash;Eu vou comtigo, meu filho&mdash;acudiu a m&atilde;i
+levantando-se.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o vai, mana; deixe-o ir sosinho.</p>
+
+<p>Eram imperiosas as palavras do padre: D. Antonia sentou-se.
+Jorge desceu ao jardim, e foi sentar-se n'um banco de
+corti&ccedil;a encostado a um maci&ccedil;o. Abriu a carta de
+Pires, que resava assim:</p>
+
+<p>&laquo;A Providencia n&atilde;o &eacute; uma mentira.
+Jos&eacute; Francisco Andraens apanhou uma indigest&atilde;o de
+pombos, salame e salm&atilde;o no baile do visconde, e est&aacute;
+em risco de rebentar. Eu estou de atalaia a v&ecirc;r quantos Jonas
+sahem d'aquelle bojo! O morgado de Santa Eufemia veiu dar-me a
+noticia, jubiloso, como quem espera empalmar Silvina, extincto o
+bruto. O qual bruto j&aacute; se confessou, a v&ecirc;r se a gente
+se persuade que existe uma alma n'aquellas cavernas de sebo!</p>
+
+<p>Parte o correio.</p>
+
+<p class="direita">Teu do intimo</p>
+<br>
+
+<p class="direita"><i>L. Pires.</i>&raquo;</p>
+<br>
+
+<p>&laquo;<i>P. S.</i> O linheiro das Hortas ainda n&atilde;o
+appareceu com a corda.&raquo;</p>
+<br>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_149" id=
+"pag_149">[149]</a></span>Se a carta de Silvina fosse uma dorida
+invoca&ccedil;&atilde;o ao amor de Jorge, simulando raz&otilde;es e
+desculpas, ou accusando o silencio do desleal amante, que a
+despresara sem motivar o menospreso immerecido, &eacute; de
+presumir que o brioso mo&ccedil;o nem respondesse &aacute; carta,
+nem se doesse dos hypocritas queixumes de uma caprichosa estouvada.
+Por&eacute;m, o estilo, assim magoado como arrogante d'aquella
+carta, turvou de tal sorte a cabe&ccedil;a e o
+cora&ccedil;&atilde;o do academico, que j&aacute; elle a si mesmo
+se accusava de indiscreto, de ingrato e de extremamente facil em
+acreditar o tio. E&mdash;o que &eacute; mais &eacute;&mdash;sentiu
+rancor &aacute;quelle leal amigo da Maya, que, por conta d'elle, se
+andava expondo no Porto a ser expulso de todas as casas!</p>
+
+<p>Quantas id&eacute;as lhe occorreram todas advogavam a innocencia
+de Silvina. Absolvida e amada eram a mesma cousa. Agora j&aacute; a
+esperan&ccedil;a de ir v&ecirc;l-a ao Porto lhe era um desafogo, e
+n&atilde;o sei mesmo se contentamento. O pobre mo&ccedil;o, como
+nem sabia se quer contrafazer-se, denunciou nos exteriores de
+inquieto regosijo quanto a resolu&ccedil;&atilde;o do tio lhe era
+grata. A m&atilde;i, compondo a roupa no bahu, chorava sempre; os
+irm&atilde;os choravam ao p&eacute; d'elle, e elle fugia de todos
+para que o n&atilde;o vissem alegre.<span class="pagenum"><a name=
+"pag_150" id="pag_150">[150]</a></span></p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_151" id=
+"pag_151">[151]</a></span></p>
+
+<h2>XVIII.</h2>
+
+<p>O leitor &eacute; uma pessoa de juizo limado e
+occupa&ccedil;&otilde;es serias. Estou que n&atilde;o l&ecirc;
+romances de ninguem, e muito menos os meus, que s&atilde;o
+escriptos em lingua portugueza e modelados em cousas de Portugal,
+onde &eacute; sabido que n&atilde;o ha imagina&ccedil;&atilde;o que
+invente a novella, nem modos de vida que saiam bem no romance.
+D'onde vem que o romance portuguez, se n&atilde;o &eacute; copia do
+estrangeiro, e aborrecida inverosemelhan&ccedil;a, or&ccedil;a por
+cousa peor, que &eacute; a semsaboria.</p>
+
+<p>Eu tenho escripto alguns volumes de semsaborias: creio que
+s&atilde;o vinte e tantos. Entre estes, mergulharam de cachapuz no
+rio</p>
+<br>
+
+<p class="centrado"><i>do negro esquecimento e eterno somno</i></p>
+<br>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_152" id=
+"pag_152">[152]</a></span>tres livros denominados: O<small>NDE
+EST&Aacute; A FELICIDADE</small>&mdash;U<small>M HOMEM DE
+BRIOS</small>&mdash;e a V<small>INGAN&Ccedil;A</small>.</p>
+
+<p>N'estes tres romances figura um homem, ao qual eu nunca puz
+nome. Umas vezes chamei-lhe poeta, outras jornalista, outras
+litterato, e assim fui aguentando com embara&ccedil;os da
+composi&ccedil;&atilde;o, mas venci a minha. Custava-me a
+falsificar o nome d'um homem que copiei com esmeros de rigorosa
+fidelidade; figurava-se-me irreverencia o que em si n&atilde;o era
+sen&atilde;o escrupulo banal. Ainda agora me deixo levar da
+criancice, e n&atilde;o acabo commigo dar um nome qualquer ao
+homem. Quer-me parecer que ha uns longes de poesia n'este segredo.
+Diga o leitor que &eacute; tolice, e saldemos assim as contas
+amigavelmente: eu dou-lhe a troco da injuria esta
+revela&ccedil;&atilde;o da minha crendice, e guardo as chimeras
+como o homem de boa f&eacute; guarda o t&ocirc;co de cera benta
+para se alumiar &aacute; hora da morte.</p>
+
+<p>Pois &eacute; verdade. Aquelle poeta era o amigo de Guilherme do
+Amaral e de Augusta.</p>
+
+<p>Espectros sombrios, memorias queridas e amargas da minha alma em
+infancia de illus&otilde;es, passai um instante luminosos na
+escuridade d'esta recamara da sepultura, onde at&eacute; a lampada
+da esperan&ccedil;a se vai extinguindo na m&atilde;o do anjo do
+conforto! Vinde a mim, cora&ccedil;&otilde;es amigos, cujas
+lagrimas eu vi, e contei uma a uma, quando apenas tinha a
+intuscep&ccedil;&atilde;o da alma, predestinada ao vosso fel, para
+lhes avaliar o travo. Na vossa mortalha foi o melhor da minha vida,
+o cr&ecirc;r nas promessas do cora&ccedil;&atilde;o, nos levantados
+desejos do espirito que n&atilde;o caiam &aacute; terra sem se
+infamarem; foi comvosco a f&eacute; na religi&atilde;o da poesia,
+que era a minha f&eacute; unica, porque n&atilde;o havia cr&ecirc;r
+nem sentir em mim em que n&atilde;o estivesse Deus, que eu
+convidava, sem temor sacrilego, a gosar-se das delicias que eram
+d'elle, crea&ccedil;&otilde;es suas, umas sujas, outras empestadas
+pelas m&atilde;os dos homens! Comvosco foi o meu ultimo dia de
+ora&ccedil;&atilde;o, a minha ultima ac&ccedil;&atilde;o de
+<span class="pagenum"><a name="pag_153" id=
+"pag_153">[153]</a></span>gra&ccedil;as, a palavra final da
+profiss&atilde;o de f&eacute;, que devia, a meu v&ecirc;r,
+remontar-me ao c&eacute;o, e que, ao revez das mais espirituaes
+theorias de Plat&atilde;o, de Socrates, de Jesus, e de todos os
+Messias da redemp&ccedil;&atilde;o das almas, deu commigo em baixo
+n'um golf&atilde;o de lama, onde ha o ranger de dentes d'estas
+bestas feras, que at&eacute; na lama sustentam o egoismo da sua
+propriedade!</p>
+
+<p>&Oacute; vis&otilde;es immorredouras, que me ensinastes o amor e
+o sentimento, e levastes comvosco o segredo de morrer antes do
+longo paroxismo do tedio da vida, v&oacute;s bem vistes com que
+saudosa un&ccedil;&atilde;o eu vos offertei dous livros e um ramo
+de perpetuas, que valiam mais que os livros, e menos que esta
+pagina em que bem vedes com que fervor me atrevo &aacute; prosa
+d'estes annos, &aacute; mofa d'estes industriaes, que me
+est&atilde;o perguntando se a apostrophe ha-de ser muito comprida,
+para tomarem f&ocirc;lego, e accenderem o seu charuto.</p>
+
+<p>Pois accendam o seu charuto, e retirem-se as almas evocadas, e
+mais os romances, que n&atilde;o tem que v&ecirc;r com elles o
+leitor, que tanto conheceu as almas, como se lhe d&aacute; dos
+romances.</p>
+
+<p>Veiu isto a ponto de estar aqui j&aacute; comnosco o amigo de
+Guilherme do Amaral e d'aquella Augusta por quem choram as
+fl&ocirc;res do Candal, e as almas desamparadas d'aquelles que...
+L&aacute; ia j&aacute; sahindo outra tirada de sentimento. &Eacute;
+engui&ccedil;o, que me ha-de retirar a protec&ccedil;&atilde;o de
+muita gente boa, que n&atilde;o precisa de l&ecirc;r um folhetim
+para convencer-se do seu direito de esprigui&ccedil;ar-se, e voltar
+a gazeta de costas, e calcular perspicuamente as
+rela&ccedil;&otilde;es economicas que podem dar-se entre a alta do
+cravo dito girofe e a baixa do cacau.</p>
+
+<p>Ora ahi vai agora o conto direito. O antigo jornalista, amigo da
+defuncta baroneza de Amares, estava no Porto de visita em casa de
+Bernardo Joaquim Ferreira, ahi nos ultimos dias de Outubro de
+1855.</p>
+
+<p>D. Marianna, esposa do snr. Ferreira, e suas quatro <span class=
+"pagenum"><a name="pag_154" id="pag_154">[154]</a></span>filhas, e
+dous meninos, e varias outras pessoas, est&atilde;o sentadas em
+roda de uma grande mesa jogando o quino. O jornalista est&aacute;
+sentado n'um soph&aacute;, conversando com o dono da casa, sobre
+cousas do Brazil, d'onde o primeiro tinha vindo depois de cinco
+annos de ausencia. A conversa&ccedil;&atilde;o foi interrompida
+pela entrada de uma filha do snr. Ferreira, que a m&atilde;i e
+irm&atilde;os receberam com muitas vozes de alegria, &aacute;s
+quaes ella respondeu dando um beijo na fronte da m&atilde;i, e
+outro nos labios das irm&atilde;s. Com a bem vinda entrou tambem o
+marido. O litterato, j&aacute; de p&eacute;, deu dous passos, e
+disse &aacute; dama que entr&aacute;ra:</p>
+
+<p>&mdash;Quero v&ecirc;r se me conhece ainda, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Se o conhe&ccedil;o!&mdash;exclamou Rachel.&mdash;O mesmo
+que foi para o Brazil; o mesmo que era ha cinco annos... N&atilde;o
+se admire da nenhuma surpreza com que lhe fallo porque eu j&aacute;
+sabia que o vinha encontrar. A m&atilde;i, quando o senhor chegou,
+mandou-m'o dizer para a quinta, e deu-me sempre noticias suas.
+Agora pertence-me a mim perguntar-lhe se me acha muito mudada.</p>
+
+<p>&mdash;Quando, ha cinco annos, me despedi de v.
+exc.&ordf;&mdash;disse o poeta&mdash;se bem me recordo, tive a
+honra e o prazer de ser propheta, dizendo-lhe que a viria encontrar
+cinco, dez, ou vinte annos depois, bella como a deixava, minha
+senhora. Noto-lhe apenas uma differen&ccedil;a sensivel.</p>
+
+<p>&mdash;Qual?&mdash;perguntou D. Marianna com solicitude de
+m&atilde;i.</p>
+
+<p>&mdash;Acho-a mais bella&mdash;respondeu o poeta.</p>
+
+<p>Por entre os dizeres usuaes que vem sempre depois de um dito
+feliz como aquelle, ouviu-se a voz aspera do snr. Manoel Pereira,
+marido de Rachel, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o, vamos a isto?&mdash;E escolhia
+cart&otilde;es do quino.</p>
+
+<p>Queria dizer na sua o snr. Manoel Pereira que bastava j&aacute;
+de comprimentos, em que a formosura de sua <span class=
+"pagenum"><a name="pag_155" id="pag_155">[155]</a></span>mulher era
+encarecida por um homem da antipathia d'elle.</p>
+
+<p>As senhoras sentaram-se, e Rachel, obrigada, pela
+indica&ccedil;&atilde;o do marido, ficou com as costas voltadas
+para o jornalista.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o vem jogar?&mdash;disse Rachel ao hospede.</p>
+
+<p>&mdash;Vou, sim, minha senhora.</p>
+
+<p>As damas deram-lhe lugar immediato a Rachel. Manoel Pereira
+estorcegou machinalmente um cart&atilde;o entre os dedos convulsos,
+e fez-se escarlate, cravando os olhos no rosto descuidado de sua
+mulher.</p>
+
+<p>O jornalista viu tudo isto, e riu-se para dentro.</p>
+
+<p>Agora descreve-se Rachel; depois Manoel Pereira; por fim alguns
+tra&ccedil;os geraes d'esta familia, e fechar&aacute; o
+capitulo.</p>
+
+<p>Rachel tem vinte e quatro annos. &Eacute; encorpada, mas a
+robustez n&atilde;o desdiz da gentileza. N&atilde;o tem attitude
+alguma de estudo, e parece esculptural em todas ellas. Nos mais
+communs movimentos ostenta gra&ccedil;a, e garbo que vem de seu
+natural, e ninguem o dir&aacute; se a n&atilde;o tiver visto em
+toda a sua desaffectada singeleza no recesso das suas
+occupa&ccedil;&otilde;es caseiras. Quando Rachel est&aacute; n'um
+baile... N'um baile foi que eu a vi a primeira vez. Era ella
+solteira, e teria quinze annos. Isto j&aacute; l&aacute; vai ha
+quinze. Se eu me n&atilde;o lembrar do que ella era ent&atilde;o,
+melhor me ser&aacute; despedir de mim esta bruta alma que nem para
+a saudade j&aacute; serve. As minhas reminiscencias d&atilde;o-me
+Rachel vestida de branco. N&atilde;o lhe hei-de aqui chamar anjo,
+porque n&atilde;o foi essa a impress&atilde;o. Era tudo magestade,
+tudo estatuario n'aquella crian&ccedil;a; n&atilde;o a vi a descer
+do c&eacute;o, onde os poetas teimam em ir buscar tudo que &eacute;
+excellente, como se o c&eacute;o n&atilde;o fosse um puro congresso
+de espiritos que valem de certo l&aacute; muito mais do que pesam,
+mas que passariam desapercebidos nos nossos bailes, se n&atilde;o
+tivessem a esperteza de entrarem em corpos como o de Rachel. Eu
+quando a vi lembrou-me <span class="pagenum"><a name="pag_156" id=
+"pag_156">[156]</a></span>a Grecia, as artes, em requinte de
+pompas, a numerosa familia das Venus, todos esses marmores eternos,
+que h&atilde;o-de sobreviver &aacute; mythologia dos anjos, dos
+archanjos e dos seraphins. Os olhos de Rachel... estou-os vendo;
+nem as franjas sedosas e longas das palpebras m'os escondem;
+poderiam as arcadas espessas e travadas do sobr'olho quebrar a luz
+d'aquelles olhos; mas nem assim! Como tu olhas, Rachel! Diz a
+antiguidade que na Scythia havia umas mulheres que matavam olhando
+se o rancor lhes fuzilava nas pupillas; por&eacute;m tu que
+paix&atilde;o tiravas da alma toda amor, para a lan&ccedil;ares de
+ti como um incendio que te abrasaria, se eu, se todos, que te viam,
+n&atilde;o tomassem de joelhos um quinh&atilde;o d'esse fogo! Que
+haver&aacute; alli de mysterios n'aquelles olhos, se o fluido
+electrico n&atilde;o basta a dizer o que &eacute; que vem de
+l&aacute; como corpo estranho que vos entra no seio, e vos
+n&atilde;o cabe na alma, e quer fugir &aacute;s ancias do
+cora&ccedil;&atilde;o que o aperta, e vos leva do amor ao
+transporte, do extasis ao phrenesi, do rir &eacute;brio da
+felicidade &aacute;s lagrimas incessantes de noites desveladas! E,
+depois, porque n&atilde;o eram s&oacute; os olhos o cond&atilde;o
+d'esta mulher? Diante de Deus todos somos iguaes! Na alma se
+quizerem, e o Creador, l&aacute; se avenha com os que o injuriam
+assim; mas que desigualdade diante do divino artista! Lembra-me que
+a um lado de Rachel estava uma menina de olhos vesgos; do outro
+lado uma senhora com um nariz impio; mais longe outra menina em
+torturas para esconder quatro dentes enclavinhados; al&eacute;m
+aquell'outra franzindo os labios, e exercitando uma laboriosa
+mechanica do sorriso para corrigir a natureza que lhe dera uma
+bocca limitrophe das orelhas. E ella, Rachel, toda primores, a
+estremecida creatura, com uma luz serena de c&eacute;o n'aquella
+face em que se espelhava o seu Creador, o Deus que nos fez para a
+adorarmos, a rever-se n'ella! Aben&ccedil;oada sejas tu de todas as
+venturas, que t&atilde;o perfeita &eacute;s, t&atilde;o cheia de
+tua belleza, <span class="pagenum"><a name="pag_157" id=
+"pag_157">[157]</a></span>t&atilde;o digna dos thronos da terra,
+j&aacute; que o Creador, o teu Pygmale&atilde;o, te n&atilde;o
+arrebatou para si! Onde est&aacute;, &oacute; Senhor Deus das
+maravilhas, o homem digno d'aquella obra tua, aqui posta entre
+n&oacute;s que apenas temos thronos, imperios, talentos, epopeas,
+as riquezas da Asia, e o sangue das nossas veias para lhe
+offerecer! De que barro, &oacute; m&atilde;o divina, fizeste o
+homem que ha-de primeiro embriagar-se nos aromas que recende
+aquella virgem? Onde est&aacute; o homem que...</p>
+
+<p>O homem elle aqui est&aacute;. &Eacute; o snr. Manoel Pereira.
+J&aacute; quinou tres vezes. Feliz no jogo, infeliz no amor;
+&eacute; certo o proverbio... at&eacute; com elle!</p>
+
+<p>Manoel Pereira tem cincoenta e cinco annos! estatura mean,
+cabe&ccedil;a quadrilatera, e plana como um queijo do
+Al&eacute;m-Tejo desde o occipicio at&eacute; &aacute; cisura do
+coronal. As arcadas zygomaticas (vejam um compendio de anatomia
+comparada) entestam com o rebordo esponjoso dos olhos arrastando
+cada uma para o seu lado a venta correspondente que termina em
+f&oacute;rma de fava. O nariz n&atilde;o tem canas; parece que
+&eacute; formado de parafusos. Come&ccedil;a do centro da testa por
+uma verruga, transforma-se em lobinho, ladea em pequenos abscessos
+escarlates, e pega no bei&ccedil;o superior, repuxando por elle de
+modo que o dono n&atilde;o p&oacute;de exercitar as
+func&ccedil;&otilde;es olfactorias sem enviezar o bei&ccedil;o.
+Este nariz ha-de ser lithographado e distribuido aos assignantes,
+concluido o romance. O nariz &eacute; o homem. Quem o vir organisa
+o complexo de Manoel Pereira, como Cuvier recompunha o reptil
+iguanodo, e o megaterio.</p>
+
+<p>Temos &aacute; roda da mesa a snr.&ordf; D. Marianna e quatro
+filhas. &Eacute; de notar em Rachel o typo perfeito d'aquella
+familia. A m&atilde;i, senhora de quarenta annos, &eacute; bonita
+ainda. Se a perfei&ccedil;&atilde;o das ra&ccedil;as &eacute;
+admissivel, nunca mais sensivel foi a grada&ccedil;&atilde;o do
+aperfei&ccedil;oamento como entre D. Marianna e Rachel. Das outras
+filhas, uma &eacute; formosa, se bem que j&aacute; ferida da
+tisica, que d'ahi a mezes <span class="pagenum"><a name="pag_158"
+id="pag_158">[158]</a></span>a levara para o lado de uma sua
+irm&atilde; que a mesma enfermidade matou, quando lhe sorriam duas
+primaveras, a das fl&ocirc;res, e a dos prazeres da vida. Outra
+&eacute; uma linda crian&ccedil;a de doze annos, com os olhos de
+Rachel. A que porfia em belleza desvantajosamente com a mais bella
+&eacute; j&aacute; casada, e tem vinte annos. Ha uma outra de
+aspecto vulgar, posto que o n&atilde;o pare&ccedil;a entre outras
+que n&atilde;o sejam suas irm&atilde;s.</p>
+
+<p>Bernardo Joaquim Ferreira, o pai d'estas lindas meninas, tem uma
+agradavel physionomia de homem de cincoenta annos, e maneiras
+polidas, sem embargo do trafego commercial em que labuta desde
+rapaz. Revela a esperteza ordinaria na sua classe, temperada pelo
+uso da boa sociedade em que desbravou as rudezas congeniaes, e as
+adquiridas nos seus primeiros annos.</p>
+
+<p>&Aacute;cerca d'esta familia, outras miudezas seriam
+intempestivas agora.</p>
+
+<p>Saudemos com lagrimas a entrada de Rachel n'esta historia, que
+principia desde hoje a tomar as propor&ccedil;&otilde;es d'um
+escandalo monumental.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_159" id=
+"pag_159">[159]</a></span></p>
+
+<h2>XIX.</h2>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o sabes quem hoje me escreveu?&mdash;disse D.
+Marianna a Rachel, terminada a partida do quino?</p>
+
+<p>&mdash;A minha Antoninha do convento.</p>
+
+<p>&mdash;Sim? que novas lhe d&aacute; ella do filho? A m&atilde;i
+disse-me que a pobre senhora vivia muito consternada com a
+paix&atilde;o do rapaz pela tal Silvina.</p>
+
+<p>&mdash;Segundo me ella diz, continuou D. Marianna, o pobre Jorge
+est&aacute; enfeiti&ccedil;ado, e cuida ella que a maneira de o
+desengui&ccedil;ar &eacute; mandal-o para aqui, a fim de elle,
+&aacute; vista do comportamento de Silvina, se desenganar. Acho
+esquisito o remedio.</p>
+
+<p>&mdash;O remedio &eacute; eficacissimo, snr.&ordf; D.
+Marianna&mdash;disse o litterato.&mdash;O que a mim me espanta
+&eacute; ser uma senhora quem o receita. O fim da sua amiga
+&eacute; fazer <span class="pagenum"><a name="pag_160" id=
+"pag_160">[160]</a></span>com que o filho se sinta aviltado por
+amor de uma mulher ridicula. O amor rompe todos os trope&ccedil;os,
+transige com muitos defeitos e mesmo vicios da pessoa ou... cousa
+amada; mas da mulher escarnecida &eacute; que n&atilde;o ha
+cegueira que o aproxime.</p>
+
+<p>&mdash;Conhece a tal Silvina de Mello?&mdash;disse Rachel.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; a encontrei em algumas partidas na Foz, minha
+senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Que id&eacute;a fez d'ella? A sua
+aprecia&ccedil;&atilde;o deve chegar-se muito &aacute; verdade.</p>
+
+<p>&mdash;Pareceu-me, respondeu o poeta, que era galante, e
+at&eacute; mesmo esperta. Ouvi-a declamar acrimoniosamente contra
+uns folhetins que denomina <i>Felizardas</i> as senhoras
+provincianas, e pasmei da imprudencia com que desprimorou as damas
+portuenses, chacoteando-as por um lado que &eacute; justamente, a
+meu v&ecirc;r, o mais vulneravel da fidalga do Minho...</p>
+
+<p>&mdash;Qual &eacute;?&mdash;interrompeu Rachel com vivacidade. O
+jornalista, reconhecendo a inconveniencia da resposta ajustada,
+fez, como por disfarce, esta pergunta:</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o &eacute; certo estar tractado o casamento da
+tal senhora com um commendador fulano de tal Andraens?</p>
+
+<p>&mdash;Assim dizem&mdash;respondeu D. Marianna&mdash;pelo menos
+cuido que...</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me que n&atilde;o &eacute; anno de fortuna para
+ella... atalhou o snr. Manoel Pereira, co&ccedil;ando a verruga
+media da aza esquerda do seu nariz.</p>
+
+<p>&mdash;Por que?&mdash;disse Rachel olhando de trav&eacute;s o
+marido.</p>
+
+<p>&mdash;Por que o meu amigo commendador, desde que foi o baile do
+visconde dos Lagares, nunca mais se levantou, e vai cada vez a
+peor. O homem j&aacute; soffria molestia interior, e comeu tanto
+&aacute; ceia, que esteve a rebentar-lhe a tripa... Ainda ha quem
+queira bailes!... Se elle estivesse em sua casa...</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_161" id=
+"pag_161">[161]</a></span>Rachel, prevendo que seu marido
+aproveitava o ensejo para uma enfadosa e desconchavada diatribe
+contra os bailes, cortou-lhe logo o f&ocirc;lego comprido das
+tolices com esta fina ironia:</p>
+
+<p>&mdash;Nem toda a gente leva aos bailes as tripas dos teus
+amigos... Com que ent&atilde;o&mdash;continuou ella, voltando-se
+para o jornalista&mdash;o amor n&atilde;o ser&aacute; capaz de
+vencer a indigest&atilde;o do noivo?</p>
+
+<p>&mdash;Segundo ou&ccedil;o ao snr. Manoel
+Pereira&mdash;respondeu o litterato em tom lastimoso&mdash;a gentil
+menina est&aacute; em risco de v&ecirc;r o cora&ccedil;&atilde;o,
+que t&atilde;o caro lhe era, romper-se, batido pelas
+explos&otilde;es do estomago que rebenta, deixando a seu dono a
+gloria de morrer como Tito.</p>
+
+<p>Rachel e uma das irm&atilde;s sorriam; Manoel Pereira desconfiou
+do riso da mulher, e disse mal encarado, com o nariz j&aacute;
+roixo:</p>
+
+<p>&mdash;Se elle quizesse mulher t&atilde;o bonita e mais rica que
+ella, n&atilde;o lhe faltavam por ahi &aacute;s duzias.</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem contesta o dito de v. s.&ordf;&mdash;redarguiu o
+escriptor.</p>
+
+<p>&mdash;Mas o senhor parece que estava ca&ccedil;oando com o meu
+amigo...&mdash;tornou Manoel Pereira.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; injusto o cavalheiro. Eu se tivesse quatro
+irm&atilde;s dar-me-ia por ditoso se o seu amigo quizesse casar com
+todas quatro, e lamento n&atilde;o saber o segredo de um tal Lucius
+que Plinio viu transformar-se em mulher; por que se me eu podesse
+felizmente mudar em mulher, havia de galantear o amigo de v.
+s.&ordf;, e morrer de amores por elle se uma indigest&atilde;o
+rival m'o arrebatasse.</p>
+
+<p>Rachel soltou uma risada contagiosa: riram todos, salvo Manoel
+Pereira, cujo nariz reluzia ao reflexo da luz, em differentes
+c&ocirc;res desde o a&ccedil;afr&atilde;o at&eacute; ao talo da
+couve lombarda.</p>
+
+<p>O jornalista continuou, fallando para D. Marianna:</p>
+
+<p>&mdash;Tive tambem occasi&atilde;o de conhecer no hotel da
+<span class="pagenum"><a name="pag_162" id=
+"pag_162">[162]</a></span>Aguia d'Ouro o filho da amiga de v.
+exc.&ordf; Fallei com elle, e fez-me bem o perfume d'aquelle
+cora&ccedil;&atilde;o em fl&ocirc;r. Que candura, que adoravel
+innocencia a dos vinte annos de Jorge... creio que se chama Jorge!
+E, ao mesmo tempo, que singularissimo typo de rapaz eu conheci com
+elle, e todos os dias encontro por ahi atraz de uma prima de
+Silvina, e de um tal Guimar&atilde;es, linheiro, ou pregueiro, ou
+cousa que o valha... Que homem se far&aacute; d'alli, se o
+c&eacute;o o n&atilde;o leva d'este mundo e d'esta sociedade que
+tanto precisa de um cenaculo d'aquelles apostolos!... V.
+exc.<sup>as</sup> de certo n&atilde;o conhecem Leonardo Pires de
+Albuquerque, fidalgo da Maya, descendente de D. Martim Pires da
+Maya, que gerou D. Pedro Pires, que gerou D. frei Martim Martins,
+mestre da ordem do Templo no seculo XIII? De certo n&atilde;o
+conhecem...</p>
+
+<p>&mdash;Nem &eacute; preciso conhecerem&mdash;exclamou Manoel
+Pereira&mdash;&Eacute; um patife, que concorreu muito para a
+doen&ccedil;a do meu amigo Andraens!</p>
+
+<p>&mdash;Eu n&atilde;o pensava&mdash;replicou o poeta&mdash;que
+Leonardo Pires era um alimento indigesto!... Se bem me recordo, v.
+s.&ordf; disse ahi que a enfermidade do snr. Andraens era uma
+indigest&atilde;o!</p>
+
+<p>&mdash;Como de facto; mas, pelos modos, o tal brejeiro
+insultou-o no baile, o homem atrigou-se, e sahiu c&aacute; para
+f&oacute;ra afflicto, e nunca mais foi bom.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o sabia isso; apenas me disseram que elle
+recommend&aacute;ra ao snr. Andraens que n&atilde;o comesse tanto;
+e quer-me parecer que este conselho, longe de ser insultuoso,
+tendia a prevenir a indigest&atilde;o fatal que se deu.</p>
+
+<p>&mdash;Deixemo-nos de contos...&mdash;instou o marido de
+Rachel.</p>
+
+<p>O sorriso d'esta era j&aacute; for&ccedil;ado por v&ecirc;r que
+o jornalista n&atilde;o tinha a cortez caridade de conter as
+ironias que Manoel Pereira n&atilde;o percebia.</p>
+
+<p>&mdash;E D. Antonia que diz, m&atilde;i?&mdash;interrompeu
+Rachel.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_163" id=
+"pag_163">[163]</a></span>&mdash;Diz que Jorge Coelho vem para esta
+casa.</p>
+
+<p>&mdash;Para esta casa?!&mdash;acudiu Manoel Pereira abrindo a
+bocca, e arrega&ccedil;ando o nariz at&eacute; &aacute; testa.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o tenho n'isso duvida nenhuma&mdash;respondeu
+Bernardo Joaquim Ferreira, que tinha sahido e volt&aacute;ra
+momentos antes.&mdash;E dou-te parte, Marianna, que Jorge j&aacute;
+est&aacute; na hospedaria, e n&atilde;o sei se ser&aacute; dever
+meu ir j&aacute; buscal-o esta noite. Aqui tenho um bilhete d'elle,
+pedindo-me que o desculpe de n&atilde;o vir directamente aqui.</p>
+
+<p>&mdash;Como ainda &eacute; cedo, disse D. Marianna, podes ir
+buscal-o. O quarto est&aacute; preparado. A m&atilde;i descrevendo
+n'um estado tal de amargura que eu tenho pena de o deixar sosinho
+na hospedaria.</p>
+
+<p>&mdash;Mas ha um inconveniente&mdash;redarguiu o snr.
+Bernardo.&mdash;Tenho gente no escriptorio &aacute; minha espera
+para liquidar umas contas, e n&atilde;o posso deixal-as para
+&aacute;manh&atilde;, que os negociantes s&atilde;o da provincia, e
+partem de madrugada. Se o snr. Pereira tivesse a bondade de ir
+&aacute; Aguia d'Ouro...</p>
+
+<p>&mdash;Homem, eu a fallar-lhe a verdade&mdash;disse Manoel
+Pereira&mdash;tenho aqui n'este p&eacute; direito uns callos que me
+n&atilde;o deixam dar passada; se n&atilde;o da melhor vontade;
+mas, sempre lhe direi o que penso respeito &aacute; vinda d'elle
+para aqui. Eu n&atilde;o sei o que me parece metter n'uma casa onde
+ha meninas novas um peralvilho que n&atilde;o gosa dos melhores
+creditos, e que de mais a mais &eacute; amigo do tal Pires, que
+ha-de c&aacute; vir onde a elle, e o mundo pega logo a fallar
+pr'aqui, pr'acol&aacute;, e &aacute;s duas por tres... Em fim, meu
+sogro l&aacute; sabe o que faz...</p>
+
+<p>D. Marianna replicou com vehemencia:</p>
+
+<p>&mdash;O snr. Pereira n&atilde;o ouviu dizer aqui a este senhor
+que o filho da minha amiga era um mo&ccedil;o muito digno?!</p>
+
+<p>&mdash;Todos elles s&atilde;o muito bons, mas em minha casa
+<span class="pagenum"><a name="pag_164" id=
+"pag_164">[164]</a></span>&eacute; que elles n&atilde;o p&otilde;em
+o p&eacute;.&mdash;Disse Manoel Pereira, e fez men&ccedil;&atilde;o
+de procurar o chap&eacute;o.</p>
+
+<p>Rachel relanceou sobre o marido um olhar severo. O escriptor
+fazia figuras geometricas com as marcas do quino. As meninas
+olhavam-se entre si com sorrisos rebeldes &aacute; prudencia. O bom
+Ferreira, apesar da sua superioridade relativa de sisudeza e bom
+senso, n&atilde;o deixou de vacillar ao choque das reflex&otilde;es
+do genro. D. Marianna, por&eacute;m, voltando-se com energia para o
+jornalista, disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;O senhor faz-me um favor dos que se pedem sem
+embara&ccedil;o a um amigo antigo?</p>
+
+<p>&mdash;Fa&ccedil;a-me a honra de mandar-me, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Tem a bondade de ir &aacute; hospedaria, e acompanhar o
+filho da minha amiga, o filho d'uma senhora a quem eu devi na minha
+mocidade o que n&atilde;o posso pagar-lhe d'outro modo?</p>
+
+<p>O jornalista ergueu-se, e disse, tomando o chap&eacute;o:</p>
+
+<p>&mdash;Se elle estiver doente, ou na cama fatigado, mandarei um
+bilhete para que o n&atilde;o esperem. At&eacute; j&aacute;, ou
+muito boas noites, minhas senhoras.</p>
+
+<p>Sahira o jornalista, e D. Marianna enxugando lagrimas que
+n&atilde;o tinham na apparencia muito cabimento alli, fallou
+assim:</p>
+
+<p>&mdash;Eu nunca disse a minhas filhas os favores que devo
+&aacute; m&atilde;i do meu hospede; escutem-me, e depois
+dir&atilde;o se o filho de tal anjo n&atilde;o ser&aacute; digno de
+ser recebido como seu irm&atilde;o. Eu fiquei orph&atilde; e pobre
+aos onze annos. Entrei nas ursulinas de Braga, entregue &aacute;
+caridade da prelada, que me achou com habilita&ccedil;&otilde;es
+para ser uma simples criada grave de convento. D. Antonia de
+Sepulveda tinha tambem entrado, n'essa occasi&atilde;o, e era rica.
+Tratei-a com respeito, e ella a mim com familiaridade, para chegar
+ao fim de me offerecer metade da sua mesada, e habilitar-me a ser
+senhora entre as outras, que me olhavam com desestima, e com a
+falsa piedade das <span class="pagenum"><a name="pag_165" id=
+"pag_165">[165]</a></span>rica&ccedil;as do convento. Aceitei os
+favores da minha amiga, e t&atilde;o suave era o dever-lh'os, que
+nunca me julguei devedora, se n&atilde;o depois que vim a esta
+sociedade conhecer o valor dos beneficios que recebi de Antonia.
+Vivi cinco annos &aacute; sombra da generosidade d'ella: prendei-me
+&aacute; sua custa, instrui-me com ella d'essa apoucada
+educa&ccedil;&atilde;o que nos davam no convento; e j&aacute;
+depois que a minha amiga sahiu para casar obedecendo &aacute;s
+ordens de seus paes, continuei a receber as mezadas e os presentes
+que ella recebia. Casei tambem passado um anno, fui feliz,
+enriqueci, presenteei-a, mas a cada lembran&ccedil;a de amiga que
+lhe eu mandava, respondia ella com mais valiosos mimos da sua casa.
+Penso ha vinte e quatro annos no modo de ser util &aacute; minha
+querida Antonia; a Providencia depara-me agora occasi&atilde;o de
+velar as commodidades do filho d'ella. Haja ahi uma pessoa de boa
+f&eacute; a dizer-me que devia ser outro o meu procedimento...</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem se atreve a tanto.&mdash;disse Rachel com
+enfado.&mdash;Eu, se minha m&atilde;i, por desgra&ccedil;a nossa,
+n&atilde;o existisse, levaria para minha casa o filho da nossa
+amiga, da protectora de nossa m&atilde;i. Se eu tivesse um marido
+que me quizesse roubar o prazer da gratid&atilde;o em t&atilde;o
+pequeno servi&ccedil;o, amaldi&ccedil;oaria a hora em que meus paes
+me subjugaram a tal homem...</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o te irrites assim, Rachel...&mdash;disse
+Bernardo Ferreira, ferido pelas palavras da filha, que lhe
+apontavam direitas &aacute; consciencia, onde as fibras do remorso
+doiam sempre.</p>
+
+<p>Entretanto, Manoel Pereira, franzindo o nariz, dilatava as
+ventas hediondas, por onde vaporava a zanga.</p>
+
+<p>O incidente, passados minutos, foi cortado por um bilhete do
+escriptor, dizendo que Jorge Coelho pedia desculpa, agradecia
+extremamente a delicadeza, e convalescia da fadiga para no dia
+seguinte cumprir as ordens de sua m&atilde;i.<span class=
+"pagenum"><a name="pag_166" id="pag_166">[166]</a></span></p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_167" id=
+"pag_167">[167]</a></span></p>
+
+<h2>XX.</h2>
+
+<p>O jornalista encontrou Jorge Coelho na cama, e Leonardo Pires
+sentado &aacute; banca. No semblante de ambos eram visiveis os
+signaes da alterca&ccedil;&atilde;o, que f&ocirc;ra interrompida
+pela chegada do terceiro. O filho de D. Antonia estava escarlate de
+febre, e anciado; o da Maya, se bem que de m&aacute; catadura,
+esbo&ccedil;ava distrahidamente, a lapis, uns perfis de narizes
+caprichosos. Jorge conheceu o litterato, e maravilhou-se da visita;
+Leonardo Pires, mais familiarisado com o sujeito, ergueu-se,
+abra&ccedil;ou-o, e exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Aqui est&aacute; o teu medico, Jorge! o teu Christo,
+Lazaro!</p>
+
+<p>&mdash;Temos <i>ecce homo</i>?! Dar-se-ha caso que o snr.
+Pires&mdash;disse o jornalista sorrindo&mdash;me prepare algum
+<span class="pagenum"><a name="pag_168" id=
+"pag_168">[168]</a></span>calvario?... Como est&aacute; o snr.
+Jorge Coelho? O aspecto denota inquieta&ccedil;&atilde;o...</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o &eacute;
+inquieta&ccedil;&atilde;o;&mdash;atalhou Pires&mdash;&eacute; a
+sina maldita d'este desgra&ccedil;ado que nos tortura a
+ambos...</p>
+
+<p>&mdash;Todos temos o nosso demonio familliar, snr.
+Pires&mdash;tornou o escriptor&mdash;Socrates queixava-se do seu, e
+eram nada menos de dous os demonios do divino philosopho, sendo o
+peor dos dous uma tal Xantippa... Querem v&ecirc;r que o snr. Jorge
+&eacute; energumeno d'alguma Xantippa ideal, que... (O jornalista
+escreveu, e entregou a um criado o bilhete que foi recebido em casa
+de D. Marianna). Jorge entretanto, sorrindo contrafeito,
+respondia:</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, senhor. Eu sou apenas victima das loucuras do
+meu condiscipulo.</p>
+
+<p>&mdash;&Oacute; cavalheiro&mdash;clamou Pires
+irritado&mdash;diga ahi a esse ingrato quem &eacute; Silvina de
+Mello. N&atilde;o se trata aqui de desfolhar lindas chimeras, e
+matar illus&otilde;es queridas. A paix&atilde;o de Jorge &eacute;
+uma nodoa que eu quiz delir-lhe do cora&ccedil;&atilde;o, &aacute;
+custa mesmo do meu descredito e abomina&ccedil;&atilde;o n'esta
+sociedade devassa. Tenha voss&ecirc; a franqueza de dizer a esta
+crian&ccedil;a o que eu tenho sido, j&aacute; que eu tive a boa
+sorte de lhe referir ao senhor as minhas ac&ccedil;&otilde;es e
+palavras.</p>
+
+<p>O romancista achou de riso a gravidade da
+appella&ccedil;&atilde;o de Pires para o seu testemunho; mas
+perseverou-a na seriedade que o proposito pedia, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;O snr. Leonardo Pires tem dado provas exuberantes de
+amisade ao snr. Coelho, verberando com prosperos sarcasmos uma
+menina em tudo respeitavel, menos na sua virtude.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; de mais!&mdash;atalhou Jorge&mdash;P&oacute;de
+ser que Silvina mere&ccedil;a censura como inconstante, sem com
+isso...</p>
+
+<p>&mdash;Deixar de ser virtuosa?...&mdash;interrompeu o
+poeta...</p>
+
+<p>&mdash;Justamente.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_169" id=
+"pag_169">[169]</a></span>&mdash;N&atilde;o julga bem, snr. Coelho.
+A deshonestidade n&atilde;o p&oacute;de ser virtude. A mulher que
+enfeira o cora&ccedil;&atilde;o, e o p&otilde;e &aacute;
+concurrencia, mirando &aacute;s vantagens do pedido, poder&aacute;
+ser uma sagaz professora de economia politica applicada &aacute;s
+mercadorias do cora&ccedil;&atilde;o, mas virtuosa &eacute; que
+ella de certo n&atilde;o &eacute;. Para mim tenho que a virtude
+p&oacute;de coexistir com a miseria da mulher perdida que
+n&atilde;o tem a hypocrisia de expor o cora&ccedil;&atilde;o
+&aacute; venda; por&eacute;m, quero eu que n&atilde;o prostituamos
+a palavra, que &eacute; santa, cedendo-a &aacute; que cuida cobrir
+as suas ulceras com o amicto de virgem. A snr.&ordf; D. Silvina de
+Mello, que eu vim, depois de cinco annos de ausencia, encontrar
+occupando a vagatura d'outras aventureiras que eu c&aacute; deixei,
+&eacute; uma senhora aleijada.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda mais essa!&mdash;atalhou Pires&mdash;Eu nunca dei
+pelo aleij&atilde;o de Silvina!</p>
+
+<p>&mdash;Aleijada de espirito, quero eu dizer, snr. Albuquerque.
+Que outro nome se ha-de dar &aacute; lamentavel enfermidade moral
+d'uma menina que desperta das suas illus&otilde;es de infancia,
+esfrega os olhos, e come&ccedil;a a procurar em redor de si um
+homem com alguns saccos de dinheiro? Ha ahi nada mais torpe, mais
+nauseabundo na face da terra! A mulher que assim faz tem alluido a
+sua virtude pela base, que &eacute; a vergonha. D'ahi &aacute;vante
+o pudor &eacute; uma mentira, as c&ocirc;res que sahem ao rosto
+s&atilde;o irrup&ccedil;&otilde;es de sangue como as empigens,
+&eacute; um mechanismo da materia que o observador encontra mesmo
+nos prostibulos. Que &eacute; o que bate no peito d'essa mulher,
+desde que a ancia do dinheiro fez d'ella um estimulo de
+sensa&ccedil;&otilde;es? Quando ella fallar nos affectos da sua
+alma, qual &eacute; de n&oacute;s o que voluntariamente se
+immolar&aacute; ao escarneo de sua propria consciencia, respondendo
+&aacute;s Silvinas com express&otilde;es de candura e boa
+f&eacute;? O snr. Jorge Coelho tem a sinceridade de me dizer se me
+entende?</p>
+
+<p>&mdash;Entendo; mas n&atilde;o creio que Silvina seja a mulher
+que o senhor qualifica.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_170" id=
+"pag_170">[170]</a></span>&mdash;Eu n&atilde;o a qualifiquei ainda:
+o que eu quiz foi a certeza de que o meu joven amigo me entendeu a
+theoria: agora pertence &aacute; pratica o qualificar Silvina.
+Est&aacute; o snr. Jorge Coelho no Porto. Fez bem em vir. Isto
+&eacute; uma quest&atilde;o de tempo. Fa&ccedil;a as suas
+experiencias desde &aacute;manh&atilde; em diante; mas tenha a
+condescendencia de me ir communicando os seus descobrimentos.
+Entretanto, restitua ao snr. Leonardo Pires o bom conceito em que o
+tinha, que estes amigos s&atilde;o raros. Outro objecto. A minha
+commiss&atilde;o n&atilde;o era vir discutir Silvina: Eu fui aqui
+enviado pela snr.&ordf; D. Marianna Ferreira e seu marido a fim de
+conduzir o snr. Jorge a casa d'elles, onde foi recebida uma carta
+de sua m&atilde;i.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! bravo!&mdash;exclamou Pires.&mdash;Temos homem!</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o atino com o seu enthusiasmo, snr.
+Albuquerque!&mdash;disse o escriptor.</p>
+
+<p>&mdash;Que mulheres, que mulheres tu vaes v&ecirc;r, &oacute;
+Jorge!&mdash;continuou bracejando o da Maya.&mdash;As Ferreiras! a
+nata, a quinta essencia das mulheres bellas do Porto! E a Rachel!
+ai! aquella Rachel, casada com o nariz mais indecente que fez o
+acaso estupido, a quem o Creador entregou a
+reparti&ccedil;&atilde;o dos narizes! A Rachel! a mulher dos olhos
+de antilopa! as mais bellas carnes que ainda vestiram uma alma, se
+&eacute; que uma mulher d'aquellas precisa de ter alma para ser
+perfeita! &Oacute; Jorge, tu est&aacute;s curado! Quando vires
+Rachel, sentir&aacute;s um cora&ccedil;&atilde;o novo, um
+cora&ccedil;&atilde;o caldeado nas fragoas dos olhos d'ella! Eu
+vi-a uma vez, e creio que se a visse segunda...</p>
+
+<p>&mdash;Iria &aacute; missa dos Clerigos v&ecirc;l-a terceira,
+n&atilde;o &eacute; assim?&mdash;interrompeu o poeta, rindo, com
+Jorge, dos transportes sinceros de Pires.&mdash;Rachel &eacute; uma
+bella senhora, e uma nobilissima alma&mdash;continuou o escriptor
+gravemente.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, segundo a sua theoria&mdash;atalhou de golpe Jorge
+Coelho&mdash;essa Rachel &eacute; uma das muitas aleijadas
+<span class="pagenum"><a name="pag_171" id=
+"pag_171">[171]</a></span>que por ahi ha. N&atilde;o a
+conhe&ccedil;o; mas sei que ella casou com um brazileiro hediondo e
+rico.</p>
+
+<p>&mdash;Aquelle nariz!&mdash;disse Pires.&mdash;Tambem me quer
+parecer que a mulher pouco vale na alma, quando contemplo o nariz
+de Manoel Pereira!</p>
+
+<p>&mdash;E eu creio que a sociedade&mdash;tornou
+Jorge&mdash;n&atilde;o desconsidera Rachel porque ella escolheu um
+homem rico, podendo ter aceitado a desinteressada pobresa e o
+cora&ccedil;&atilde;o opulento de muitos rapazes que a cortejavam.
+J&aacute; se v&ecirc; que a opulencia d'um sordido n&atilde;o
+desluz aos olhos da sociedade a virtude d'uma senhora que se deu
+por ella.</p>
+
+<p>&mdash;S&atilde;o contos largos...&mdash;disse o
+romancista.&mdash;Custa-me que o cavalheiro confunda Rachel com
+Silvina. Creia que offende uma martyr, snr. Coelho, Rachel supporta
+o supplicio de Mezencio, com a resigna&ccedil;&atilde;o que
+santifica a baixeza, se ella tivesse existido, e as culpas futuras,
+se ellas podem existir. N&atilde;o levo em paciencia o aggravo
+feito &aacute; pobre menina. Vou contar-lhe em quinze minutos a
+historia do casamento de Rachel. Bernardo Joaquim Ferreira conhece
+o valor do dinheiro, e duvida da existencia d'umas paix&otilde;es,
+que podem vingar e prosperar sem dinheiro.</p>
+
+<p>&Aacute;s filhas chama-lhe suas, e n&atilde;o exclue d'esta
+propriedade o cora&ccedil;&atilde;o. O seu pensamento fixo d'elle
+&eacute; casar ricas as filhas. Rachel era querida de alguns amigos
+meus, espiritos dignos d'ella, que lhe teriam dado a ventura, se os
+encontros predestinados dos espiritos n&atilde;o fossem o mentiroso
+poetar de infelizes que nunca se encontram. Um d'esses amigos, fui
+procural-o ao hospital de alienados, quando desembarquei ha cinco
+mezes em Lisboa. Conheceu-me ainda, e as primeiras palavras que me
+disse foram: &laquo;Morreu Rachel! A minha alma foi com
+ella.&raquo; Pobre mo&ccedil;o! bem sentia elle que j&aacute;
+n&atilde;o tinha alma! Depois de dous annos de loucura, por
+ignorados motivos, esquecido de tudo que f&ocirc;ra, tinha uma
+<span class="pagenum"><a name="pag_172" id=
+"pag_172">[172]</a></span>s&oacute; reminiscencia, como se todo o
+seu passado se concentrasse n'ella... Vamos ao ponto, e
+desculpem-me d'estas intercadencias melancolicas. Os senhores
+n&atilde;o sabem ainda o que &eacute; olhar para o passado aos
+trinta e cinco annos, e v&ecirc;r uma longa fila de espectros uns
+gotejando sangue, e outros lagrimas...</p>
+
+<p>O poeta dissera isto t&atilde;o do intimo amargurado, que nem
+Leonardo Pires deixou de o escutar com magoa. Jorge, j&aacute;
+dorido de suas tristezas, n&atilde;o era para espantar que desse em
+lagrimas uma prova de sympathia &aacute; d&ocirc;r alheia.</p>
+
+<p>Proseguiu o romancista:</p>
+
+<p>Ha seis annos eram dous os homens indicados para maridos de
+Rachel. Quem os indicava, e negociava com ardis, e nega&ccedil;as
+ignobis, sobre serem immoraes, era o pai. Rachel detestava-os
+ambos. Manoel Pereira era um; o outro era brazileiro tambem, menos
+repulsivo, melhor alma talvez, e amigo do primeiro. Desde que se
+toparam a amar a mesma mulher, odiaram-se, intrigaram-se e
+depreciaram mutuamente os seus haveres, porque bem sabiam que
+Ferreira tinha a filha em almoeda. O primeiro que a pediu foi
+Manoel Pereira, abonando-se com cem contos. O segundo n&atilde;o
+dizia o seu valor. Foi o primeiro preferido, sem ser consultada a
+victima.</p>
+
+<p>N'este tempo, Manoel Pereira entra em transac&ccedil;&otilde;es
+com o governo, e perde cincoenta contos. Ferreira, sabedor da
+perda, acolhe de novo o outro concurrente, e cede-lhe a filha. Este
+carecia de ir liquidar o seu negocio ao Rio de Janeiro. Mas, como a
+liquida&ccedil;&atilde;o se detivesse mais d'um anno, Manoel
+Pereira aventura-se em especula&ccedil;&otilde;es mercantis, estas
+prosperam-lhe, restaura-se das perdas, e rehabilita-se para esposar
+Rachel. O negociante, que sabia o anexim do passaro na m&atilde;o,
+receia que o outro n&atilde;o volte, e quebra pela terceira vez o
+contracto. Rachel ignorava estas asquerosas mercadorias.
+<span class="pagenum"><a name="pag_173" id=
+"pag_173">[173]</a></span>Annuncia-lhe o pai que ella &eacute;
+esposa promettida de Manoel Pereira. A pobre menina quer
+defender-se primeiro com raz&otilde;es, depois com lagrimas. Tudo
+lhe &eacute; rebatido com indifferen&ccedil;a, ou com palavras
+violentas de soberania paternal. Desde o dia em que se fizera
+definitivamente a opera&ccedil;&atilde;o commercial dos quinze
+annos d'um anjo formoso, como a esperan&ccedil;a d'uma alma pura,
+com o homem de cincoenta annos, sem o desconto de alguma
+fei&ccedil;&atilde;o boa do corpo ou da alma, Rachel era perseguida
+pelo seu porco demonio de todas as horas. Se acontecia Manoel
+Pereira estar na sala, e a lagrimosa crian&ccedil;a se demorava no
+seu quarto para encurtar as horas do supplicio, ia l&aacute; o pai
+buscal-a; e se as grosserias a n&atilde;o compelliam a aligeirar o
+passo, n&atilde;o era raro amea&ccedil;al-a de pancadas, e mesmo
+fazer executiva a paternal justi&ccedil;a. Quantas vezes Rachel
+entrou na sala, com as faces escarlates das bofetadas que o pai lhe
+dava como incentivo para saber aproveitar-se da fortuna caprichosa!
+Era esta a lastimosa situa&ccedil;&atilde;o de Rachel quando eu fui
+para o Brazil. Recordo todas as palavras que a formosa
+crian&ccedil;a me disse a ultima vez que fallamos.&mdash;Tenha
+animo para a obediencia&mdash;disse-lhe eu&mdash;Bem p&oacute;de
+ser que Deus a remunere d'essa virtude com imprevistas
+felicidades.</p>
+
+<p>&mdash;Eu dou por terminada a minha vida&mdash;respondeu-me
+Rachel com os olhos enxutos&mdash;Tenho quinze annos, e ha tres
+mezes que olho para a minha existencia, como se ella fosse
+j&aacute; longa de trabalhos. Os paroxismos h&atilde;o-de ser
+rapidos. Sei que nem eu nem alguma de minhas irm&atilde;s podemos
+sobreviver &aacute; mocidade. Estamos todas feridas da mesma morte.
+D'aqui a pouco lan&ccedil;arei o cora&ccedil;&atilde;o em golfadas
+de sangue, e meu pai n&atilde;o ter&aacute; remorsos de ter
+cooperado para a minha morte, por que elle j&aacute; viu dous
+irm&atilde;os meus cahirem no verdor dos annos na sepultura onde
+cahiremos todos. V&aacute;, que n&atilde;o me torna a
+v&ecirc;r...</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_174" id=
+"pag_174">[174]</a></span>Eu sahi de ao p&eacute; de Rachel, com o
+cora&ccedil;&atilde;o opprimido, mas contente de mim porque chorava
+as primeiras lagrimas, depois d'outras que eu julguei serem as
+ultimas... Rachel casou. N&atilde;o morreu. Mentiu-lhe o anjo que
+fallava &aacute;quella sua innocentissima alma. Vive. &Eacute; uma
+agonia sem nome... O quarto de hora j&aacute; l&aacute; vai. Agora,
+meus amigos, n&atilde;o venha mais o nome de Silvina como um
+escarro &aacute; face de Rachel. At&eacute; &aacute;manh&atilde;,
+snr. Jorge. Depois d'estas reminiscencias, eu tenho um singular
+cora&ccedil;&atilde;o que se brutifica, e uma alma que detesta a
+sociedade. Boas noites.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_175" id=
+"pag_175">[175]</a></span></p>
+
+<h2>XXI.</h2>
+
+<p>Cuidava o leitor que estava livre do sujo Jos&eacute; Francisco
+Andraens; do estouvado Leonardo Pires; do nariz de Manoel Pereira;
+da erudi&ccedil;&atilde;o mythologica de fr. Antonio; do
+mettedi&ccedil;o jornalista; da fidalga de Margaride, adeleira
+fraudulenta do seu roto cora&ccedil;&atilde;o; da Francisquinha da
+Cunha, promettida esposa do linheiro das Hortas; do morgado de
+Santa Eufemia, rival do Andraens; do Egas de Encerra-bodes,
+illustrissimo sangue neogothico; de Jorge Coelho, alma pura e
+candida e apaixonada at&eacute; enfastiar o bom siso de quem nos
+atura, a elle e a mim; e, finalmente, de Rachel.</p>
+
+<p>Ai! n&atilde;o me digam que estavam enfastiados de Rachel!... As
+lindas mulheres s&oacute; enfastiam os seus maridos, e desagradam
+&aacute;s mulheres feias. Parece que a propria <span class=
+"pagenum"><a name="pag_176" id="pag_176">[176]</a></span>moral,
+severa como a directora d'um collegio, se compraz &aacute;s vezes
+de as v&ecirc;r louquinhas, se o ellas s&atilde;o. A belleza
+&eacute; o poder moderador dos delictos do cora&ccedil;&atilde;o.
+Uns lindos olhos s&atilde;o a mais commovente rhetorica em defeza
+das culpas que a intolerancia lhes assaca. Um bra&ccedil;o gentil,
+que descuidosamente se denuncia nu, abala o animo do juiz austero
+com mais vehemencia que a mimica de Hortencio e Mirabeau. O sorriso
+discreto, se n&atilde;o &eacute; bem despreso nem express&atilde;o
+de orgulho da culpa, abranda e enternece mais o peito abroquelado
+de indifferen&ccedil;a, que a lacrimosa perora&ccedil;&atilde;o dos
+que vingam apertar com os cilicios da piedade o
+cora&ccedil;&atilde;o de um jury.</p>
+
+<p>Mas a que proposito cahe esta especie de defeza de Rachel?!
+Peccou ella, por ventura? N&atilde;o, minhas senhoras. Rachel tem
+um s&oacute; peccado de fraqueza; foi optar pelo marido, entre o
+marido e o suicidio. Desceu ao plebeismo das outras, que lhe haviam
+dado o exemplo da renuncia de si proprias, podendo afidalgar-se e
+ser unica pelo heroismo de se entregar &aacute; justi&ccedil;a de
+Deus, fugindo &aacute;s injusti&ccedil;as do mundo. A morte moral,
+que a sociedade inflige &aacute;s malfadadas, que a cupidez d'um
+pai acorrentou a um marido abominavel, se o cora&ccedil;&atilde;o,
+em phrenesis rompeu o grilh&atilde;o, &eacute;, mais dolorosa que o
+suicidio tantas vezes, quantos s&atilde;o os repell&otilde;es que a
+sociedade lhes d&aacute; at&eacute; as engolfar no abysmo sem
+sahida.</p>
+
+<p>Querem dizer-me que Rachel, se tivesse aceitado o beijo da
+morte, e fugisse ao beijo marital de Manoel Pereira..., (um beijo
+de Manoel Pereira, com aquelle nariz na vanguarda... santo Deus!)
+ninguem se lembraria do seu heroismo a estas horas? Dizem mais que
+o desdem da gente s&eacute;ria, e a censura da gente religiosa, e a
+irris&atilde;o da gente parvoa, e o contentamento de outra que
+Manoel Pereira iria escolher, entre mil, n'esta grande feira,
+fariam do suicidio de Rachel assumpto de reprova&ccedil;&atilde;o e
+de affronta &aacute; sua exquisitice? Tambem o <span class=
+"pagenum"><a name="pag_177" id="pag_177">[177]</a></span>penso
+assim. Estou que ninguem j&aacute; hoje se lembraria do pobre anjo
+que f&ocirc;ra queixar-se a Deus de o terem querido despir de suas
+pompas, de suas fl&ocirc;res, de sua aureola, de sua virginal
+pureza, para o prostituirem aos regalos d'um satyro revelho, que
+perdeu alma e cora&ccedil;&atilde;o no grangeio da riqueza, com a
+qual vem mercar um recreio para a sensa&ccedil;&atilde;o do corpo,
+abrazeado na vida ociosa! Ninguem se lembraria da nobre alma, que
+preferira deixar as gra&ccedil;as do corpo aos vermes, para o
+n&atilde;o dar ao c&ecirc;vo de uma besta-fera. Assim &eacute;;
+por&eacute;m, se uma vez Rachel voltar o rosto de enojada do
+cadaver a que a prenderam; se a for&ccedil;a, que o
+cora&ccedil;&atilde;o lhe fizer, tiver comsigo a for&ccedil;a do
+exemplo bem succedido e quisto da sociedade; se o seu fragil batel
+de virtude, for&ccedil;ada e violenta, se desconjuntar e abrir,
+rebatido pela tempestade das paix&otilde;es; se em fim, aquella
+honra, a constrangimento, e n&atilde;o de vontade aceite, se
+f&ocirc;r a pique, a sociedade que dir&aacute;?</p>
+
+<p>A sociedade&mdash;replica o leitor que a conhece e se
+conhece&mdash;a sociedade faz-se desentendida por cortezania; por
+conveniencia; porque sabe a historia do olho com trave, que se
+abria espantado de v&ecirc;r uma aresta no olho alheio. A sociedade
+fez uma conven&ccedil;&atilde;o tacita, de que &eacute; fiadora a
+civilisa&ccedil;&atilde;o. Em substancia, este contracto social
+d&aacute; os seguintes resultados:</p>
+
+<p>1.&ordm; Respeitar a liberdade do cora&ccedil;&atilde;o humano,
+sem prejuizo do soalheiro das salas, em que &eacute; preciso
+entreter o tempo, e fingir a gente que n&atilde;o conhece
+sen&atilde;o as pessoas que est&atilde;o f&oacute;ra das salas.</p>
+
+<p>2.&ordm; Fingir, outro sim, a gente que est&aacute; convencido
+da tolice dos outros, para que os outros nos tenham em conta de
+bo&ccedil;aes de boa f&eacute;, e n&atilde;o de espertos sem pudor.
+D&aacute;-se um exemplo em hypothese: tal marido sabe que o mundo o
+lastima ou moteja; mas como a lastima e a irris&atilde;o
+cauterisam, sem curar, a chaga do vilipendio, o lazaro finge-se de
+optima saude, e aproveita occasi&atilde;o <span class=
+"pagenum"><a name="pag_178" id="pag_178">[178]</a></span>de gemer
+pela molestia do seu amigo, gafado da mesma lepra. Estes dous
+homens, se se topam, e fallam da corrup&ccedil;&atilde;o social,
+voltam as costas a rir um do outro, e v&atilde;o cada qual por seu
+lado, espalhando a risada contagiosa.</p>
+
+<p>3.&ordm; N&atilde;o perdoar o que se chama
+&laquo;escandalo&raquo;. Escandalo &eacute; n&atilde;o ter a
+sagacidade da hypocrisia, e o despejo de injuriar o senso publico,
+tratando-o de nescio. Escandalo &eacute; tomar a serio as
+brincadeiras do cora&ccedil;&atilde;o, e vir dar alguem &aacute;
+sociedade uma prova de que despresa o contracto social. Escandalo
+&eacute; cahir da prostitui&ccedil;&atilde;o legal &aacute; honra
+do cora&ccedil;&atilde;o, que cuida ennobrecer-se e regenerar-se;
+victimando o nome, o estado, e o que a inveja chama fortuna, ao
+goso de conhecer a liberdade na miseria. Escandalo, a final, o
+escandalo maximo e abominavel e imperdoavel &eacute; a mesma
+miseria.</p>
+
+<p>A sociedade sabe que o crime &eacute; um dos elementos da ordem
+das cousas, e julga-o um mal necessario, sem o qual n&atilde;o
+haveria bem-aventuran&ccedil;a nem inferno, nem anjos, nem
+demonios, e Deus seria inutil por n&atilde;o ter que fazer, visto
+que os theologos lhe n&atilde;o attribuem occupa&ccedil;&atilde;o
+que n&atilde;o seja julgar, premiar, condemnar, e perdoar, segundo
+lhe pedem, ou conforme a sua espontanea misericordia quer. Ora, sem
+o crime, este complicadissimo funccionalismo, cujo presidente
+&eacute; o Creador do c&eacute;o e da terra, do mar e do sol, da
+avesinha que regorgeia nas moitas, e do le&atilde;o que atr&ocirc;a
+os desertos, do homem como Alexandre e Napole&atilde;o e do homem
+como Jos&eacute; Francisco Andraens, e Manoel Pereira... dizia
+eu... eu! eu n&atilde;o dizia nada: quem dizia que o crime &eacute;
+necessario era o jornalista, amigo de Guilherme do Amaral,
+conversando na &laquo;Aguia d'Ouro&raquo; com Jorge Coelho, alguns
+dias depois do encontro em que os vimos no capitulo ultimo da
+primeira parte d'estas biographias.</p>
+
+<p>Vamos agora &aacute; historia.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_179" id=
+"pag_179">[179]</a></span>Achou Jorge em casa de D. Marianna
+Ferreira o seu quarto e sala adornados com muito aceio e
+selec&ccedil;&atilde;o. Melhor que isto, era o gosto de se
+v&ecirc;r acolhido sem estranhesa nem demasias de ceremonia. Os
+filhos e filhas de D. Marianna, logo ao segundo dia, o tinham como
+pessoa da familia, e porfiavam em divertil-o d'aquelle geito de
+tristeza, que era natural, e das abstrac&ccedil;&otilde;es penosas,
+que tinham a sua raz&atilde;o de ser na d&ocirc;r do
+cora&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>D. Marianna, senhora algum tanto despreoccupada do artificio,
+que t&atilde;o preciso &eacute;, chamado delicadeza, logo que Jorge
+lhe deu uma aberta, fallou na paix&atilde;o, que o seu hospede
+tinha por Silvina, e nos desgostos, nascidos d'esse louco amor,
+para a sua querida Antonia.</p>
+
+<p>D. Marianna, em termos desabridos, disse de Silvina o que era
+notorio, e talvez lhe exagerasse os defeitos.</p>
+
+<p>Jorge escutou-a respeitosamente, e ao mesmo tempo admirou-se de
+ouvil-a assim fallar na presen&ccedil;a de suas filhas, que todas
+estavam presentes, salvo Rachel, a quem elle n&atilde;o tinha ainda
+visto.</p>
+
+<p>Lembrado est&aacute; o leitor de ter sahido Manoel Pereira
+zangado de casa de sua sogra, por que a maioria lhe
+rejeit&aacute;ra o parecer de n&atilde;o ser recebido Jorge em casa
+d'aquella. Como Rachel sahisse ent&atilde;o da sua paciente
+annuencia aos votos irracionaes do marido, este, mal afeito a ser
+contradictado, protestou convencer a mulher e a sogra de que
+n&atilde;o queria rela&ccedil;&otilde;es com tal sujeito.</p>
+
+<p>No dia seguinte, ao abrir da manh&atilde;, mandou preparar
+alguns bahus, entrou n'uma carruagem com Rachel, e foi conduzil-a a
+uma quinta, seis leguas distante do Porto, nas
+immedia&ccedil;&otilde;es de Barcellos. Quizera a submissa senhora
+despedir-se de sua familia; mas Manoel Pereira, franzindo as
+verrugas do nariz, e enviezando o bei&ccedil;o na sua ordinaria
+express&atilde;o de zanga, atalhou as inten&ccedil;&otilde;es da
+saudosa Rachel, dizendo que a mulher casada <span class=
+"pagenum"><a name="pag_180" id="pag_180">[180]</a></span>n&atilde;o
+tinha familia sen&atilde;o seu marido. E Rachel, fitando os olhos
+coruscantes de raiva no nariz do esposo, disse com o fel do
+cora&ccedil;&atilde;o nos labios, que sorriam sardonicamente:</p>
+
+<p>&mdash;Deus te livre que eu alguma hora me esque&ccedil;a de que
+tenho uma familia, que n&atilde;o &eacute; meu marido... Se lhe eu
+perder o respeito a ella, se os estimulos de minha exemplar
+m&atilde;i me faltarem, tu ver&aacute;s ent&atilde;o que eu
+n&atilde;o tenho outra familia.</p>
+
+<p>O marido, arrega&ccedil;ando os musculos businadores, e as azas
+nasaes com elles, regougou:</p>
+
+<p>&mdash;P&otilde;e l&aacute; essas doutorices em miudos, que eu
+n&atilde;o te entendo.</p>
+
+<p>&mdash;Se me tu entendesses&mdash;redarguiu Rachel&mdash;nunca
+me for&ccedil;arias a fallar assim &aacute; tua ignorancia.</p>
+
+<p>Manoel Pereira cascalhou uma risada de velhaco, e
+co&ccedil;ou-se atraz da orelha esquerda.</p>
+
+<p>N&atilde;o se trocaram palavra no decurso de seis leguas. Rachel
+ia linda pelo escarlate da sua colera; e Manoel Pereira bufava,
+quando n&atilde;o cabeceava de somno jogando contra o hombro de sua
+mulher.</p>
+
+<p>A gentil senhora, a espa&ccedil;os, encarava no marido, e dizia
+entre si: &laquo;Que destino o meu! Este &eacute; o homem, que me
+deram para a vida! Querem que seja d'este homem o meu
+cora&ccedil;&atilde;o! Ter uma s&oacute; existencia, e curta como
+hade ser a minha, e hei-de sacrifical-a toda a esta cousa que vale
+duzentos contos de r&eacute;is!</p>
+
+<p>&laquo;Que aproveitou meu pai d'este monstruoso enlace? Que
+lucrou este homem em se aviltar para me chamar sua, se elle mesmo
+conhece que lhe obede&ccedil;o abominando-o? Mas eu n&atilde;o
+devia soffrer, porque Deus bem sabe que fui levada de rastos, e que
+me perdi por ser boa filha, e me tenho atormentado para ser uma
+victima obediente dos calculos de minha familia! Calculos! quaes, e
+de que serviram? Quem foi feliz com elles?!...&raquo;</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_181" id=
+"pag_181">[181]</a></span>Estes mentaes soliloquios eram cortados
+por algum ronco pavoroso, ou espertar estremunhado do negociante de
+couros, quando n&atilde;o era uma pancada da m&atilde;o esponjosa
+que algum sonho sacudia ao peito de Rachel.</p>
+
+<p>Chegaram ao seu destino, e pouco depois as cargas da bagagem, e
+as criadas de Rachel. Manoel Pereira passou na quinta aquelle dia e
+o seguinte; ao outro, voltou para o Porto a fim de fazer uma
+carrega&ccedil;&atilde;o de couros, e activar uma leva de escravos
+brancos para o Rio de Janeiro.</p>
+
+<p>Rachel, &aacute; hora crepuscular da noite d'esse dia, foi
+s&oacute;sinha sentar-se nas escadas do cruzeiro, que defrontava
+com o portal da quinta, e ent&atilde;o chorou as lagrimas
+represadas em tres dias de exasperada angustia.</p>
+
+<p>Como tu serias linda alli de uma formosura do c&eacute;o,
+Rachel! Qual Magdalena mais linda inventou o buril aos p&eacute;s
+da cruz misericordiosa! E se anjo tu eras de purissima alma; se as
+mesmas lagrimas te depuravam de inten&ccedil;&otilde;es culposas,
+que alegria n&atilde;o seria a do teu Creador, vendo-te assim
+incontaminada, com menos ventura que muitas que n&atilde;o tinham
+no cora&ccedil;&atilde;o uma fibra incorrupta!</p>
+
+<p>Se a essa cruz voltares, n'outra tarde, a pedir perd&atilde;o da
+queda, h&atilde;o-de os anjos chorar-te, &oacute; Rachel; mas
+pedir&atilde;o a Deus que te leve para si e para elles, como se
+houvesses cumprido immaculada o teu desterro do
+c&eacute;o.<span class="pagenum"><a name="pag_182" id=
+"pag_182">[182]</a></span></p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_183" id=
+"pag_183">[183]</a></span></p>
+
+<h2>XXII.</h2>
+
+<p>Jos&eacute; Francisco Andraens venceu a morte, que lhe
+entr&aacute;ra no buxo, disfar&ccedil;ada nos dez pombos, que elle
+ceiou, em casa do visconde dos Lagares.</p>
+
+<p>Das recahidas &eacute; que ia sendo impossivel salvar-se. Quando
+a medicina lhe empunha um caldo simples com meia on&ccedil;a de
+p&atilde;o esfarelado, Jos&eacute; Francisco desfazia meia gallinha
+na tigela. A inflamma&ccedil;&atilde;o gastrica reaccendia-se-lhe
+nas cavernas, e a morte voltava de novo a espremer-lhe os succos
+das tres barrigas at&eacute; descor&ccedil;oar rebatida pela brutal
+complei&ccedil;&atilde;o. A final nem a medicina p&ocirc;de
+acabal-o!</p>
+
+<p>Ergueu-se Jos&eacute; Francisco algum tanto abatido, um pouco
+pallido, quebrado de vista, e mal seguro das suas pernas zambras.
+Deu um passeio de carro&ccedil;&atilde;o at&eacute; &aacute; Foz,
+<span class="pagenum"><a name="pag_184" id=
+"pag_184">[184]</a></span> e almo&ccedil;ou com appetite. Voltou no
+dia seguinte, e almo&ccedil;ou duas vezes. Cubi&ccedil;ou pescada,
+por que a viu sahir das redes, e mandou cozer uma com cebolas e
+batatas. Depois de jantar, dormiu um somno de justo, com a barriga
+repleta, (cousa que n&atilde;o succede muitas vezes aos
+justos)&mdash;e sahiu de tarde a tomar a fresca em Carreiros, onde
+a fortuna lhe deparou uma vendedeira de manjares brancos e pasteis
+de Santa Clara, que lh'os vendeu todos a olho, e elle comeu,
+empinado sobre um penedo sobranceiro ao mar.</p>
+
+<p>Tomada a refei&ccedil;&atilde;o, Jos&eacute; Francisco limpou o
+suor da papeira, e lambeu os bei&ccedil;os pulverisados do assucar
+dos pasteis. Depois descobriu a cabe&ccedil;a &aacute; bafagem fria
+do oceano, cruzou os bra&ccedil;os em postura de quem medita, e
+pensou assim:</p>
+
+<p>&mdash;Como isto &eacute; tamanho! Como se faria o mar? Por que
+ser&aacute; que o mar cresce e minga? Quantas pescadas
+haver&aacute; no mar? A gente sempre a comer peixe, e nunca se
+acaba!</p>
+
+<p>Entrava Jos&eacute; Francisco na solu&ccedil;&atilde;o d'estes
+problemas, quando a linha do seu horisonte foi cortada por um barco
+a vapor. Topetaram ent&atilde;o com o sublime do engenho humano as
+suas medita&ccedil;&otilde;es:</p>
+
+<p>&mdash;E o vapor!?&mdash;dizia elle&mdash;Sempre os homens tem
+id&eacute;as! Pelos modos o que faz girar as rodas &eacute; o fumo
+do carv&atilde;o! Uma cousa assim! E como a gente come boa carne a
+bordo d'um vapor inglez! Bons tempos eram aquelles em que eu
+viajava, e comia tanto, sem me sentir enfartado como agora que
+qualquer cousa me trabalha c&aacute; no interior!...</p>
+
+<p>Estas considera&ccedil;&otilde;es entristeceram Jos&eacute;
+Francisco, e o espectaculo do oceano enfastiou-o. Ergueu-se, desceu
+do seu throno de caranguejos e algas, e foi dar alguns passeios na
+lingueta de pedra, onde ent&atilde;o passeavam muitas familias.</p>
+
+<p>Entre estas estava Francisca da Cunha conversando <span class=
+"pagenum"><a name="pag_185" id="pag_185">[185]</a></span>com
+Antonio Jos&eacute; Guimar&atilde;es, o linheiro; e Silvina de
+Mello procurando conchinhas na praia.</p>
+
+<p>O linheiro foi comprimentar o commendador, e D. Francisca chamou
+a atten&ccedil;&atilde;o da prima.</p>
+
+<p>Jos&eacute; Francisco, logo que viu Silvina, perdeu a
+cabe&ccedil;a.</p>
+
+<p>&Eacute; preciso explicar o que o leitor j&aacute; devia saber,
+se esta historia fosse contada com mais arte.</p>
+
+<p>Quando Andraens cahiu doente, Silvina mandou saber do seu
+estado, e teve quem lhe assegurasse que o illustre enfermo
+succumbiria ao typho, resultante da gastrite. Ao mesmo tempo,
+disse-lhe alguem que Jos&eacute; Francisco fizera testamento, sendo
+uma das verbas testadas aos seus parentes de Cozelhas a quantia de
+um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta reis, de que lhe
+era devedor Pedro de Mello, declarando a quinta hypothecada ao
+pagamento da quantia, e juros da lei.</p>
+
+<p>Silvina n&atilde;o mandou saber do homem; e Pedro de Mello, que
+viera ao Porto para apressar o casamento, t&atilde;o indignado
+ficou da avareza do moribundo, que deu louvores a Deus de matar a
+tempo o vill&atilde;o, para que sua filha se n&atilde;o
+conspurcasse na lama de tal javardo. Era o sangue escandecido do
+sargento-m&oacute;r d'Amarante que refervia nas veias do neto. E,
+ao mesmo tempo, como o morgado de Santa Eufemia andasse ahi nas
+ruas do Porto, exhibindo um rosto de amargura e uma gravata
+verde-gaio com alfinete de cabe&ccedil;a d'ouro rendilhada, Pedro
+de Mello disse &aacute; filha que seria prudente n&atilde;o dar de
+m&atilde;o ao morgado, porque lhe constava que o pai tinha soffrido
+um insulto apopletico, e n&atilde;o poderia viver longo tempo.</p>
+
+<p>Silvina, anjo de submiss&atilde;o, accedeu &aacute; vontade
+paternal, e trocou algumas palavras com Christov&atilde;o Pacheco,
+quando ambos immergiam no mar, e recebiam a un&ccedil;&atilde;o
+conciliadora da mesma onda. Succedeu assim o caso em que pegou o
+desamuarem-se:</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_186" id=
+"pag_186">[186]</a></span>O morgado, ao aproximar-se a onda, dava
+urros, e mettia-lhe a cabe&ccedil;a com furioso impeto, perneando
+f&oacute;ra d'agua. Como Silvina estivesse perto d'elle, viu que o
+sapato d'our&ecirc;lo n'um d'esses pinotes de arlequim maritimo,
+lhe salt&aacute;ra de um dos... dous p&eacute;s&mdash;digamos dous
+p&eacute;s por deferencia &aacute; historia natural.&mdash;E,
+quando o sapato, entumecido de agua, ia ao fundo, Silvina disse
+&aacute; banheira que apanhasse o sapato do cavalheiro. A tempo foi
+isto que o morgado o andava procurando &aacute; tona d'agua; e,
+como ouvisse a magica voz da dama, e visse o sapato na m&atilde;o
+da banheira, que lh'o atirava a elle, Christov&atilde;o, bem
+assombrado, disse a Silvina:</p>
+
+<p>&mdash;Obrigado &aacute; sua atten&ccedil;&atilde;o, minha
+senhora!</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o tem de qu&ecirc;&mdash;respondeu Silvina,
+sorrindo.&mdash;Porque n&atilde;o toma o senhor o seu banho mais
+quieto?</p>
+
+<p>&mdash;Gosto d'isto assim;&mdash;respondeu o morgado.</p>
+
+<p>&mdash;Eu cuidei que era o nervoso que o obrigava a dar
+cambalhotas na agua.</p>
+
+<p>&mdash;Nada, n&atilde;o &eacute;, minha senhora; &eacute; que eu
+gosto de brincar com o mar; com o amor &eacute; que eu j&aacute;
+n&atilde;o brinco.</p>
+
+<p>&mdash;Nem deve brincar, porque o amor gosta de ser tratado
+seriamente; e o senhor zomba com as victimas d'elle...</p>
+
+<p>&mdash;Eu &eacute; que zombo, minha senhora!... N&atilde;o perca
+esta onda, que &eacute; boa.</p>
+
+<p>O de Santa Eufemia arremetteu com a onda, e fez proezas de
+nata&ccedil;&atilde;o, deixando-se ir de costas no dorso da vaga,
+que o levou &aacute; praia.</p>
+
+<p>Como Silvina sahisse do mar, o morgado sahiu tambem, vestiu-se,
+e esperou, disfar&ccedil;adamente, a sua mulher fatal. Sahiu
+Silvina da barraca, e deu de rosto com Christov&atilde;o Pacheco.
+Sorriu-se, e respondeu &aacute; cortezia do fidalgo de Freixieiro.
+Deu alguns passos, procurando Francisca da Cunha; e, como a visse
+entre duas barracas protectoras conversando com o linheiro,
+sentou-se a um recanto, sosinha, e meditativa. O morgado sentia
+<span class="pagenum"><a name="pag_187" id=
+"pag_187">[187]</a></span>caimbras nas pernas e saltos do
+cora&ccedil;&atilde;o. Girava em roda d'ella, puxado por magnetismo
+irresistivel. A final fez ao seu acanhamento o que fazia &aacute;s
+vagas: metteu a cabe&ccedil;a, e foi.</p>
+
+<p>Silvina recebeu-o agradavelmente, e conversou com elle um quarto
+de hora. D'esta conversa&ccedil;&atilde;o resultou ficarem
+convencionados para tomarem o banho juntos no dia seguinte, e assim
+nos oito dias que decorreram.</p>
+
+<p>Jos&eacute; Francisco Andraens convalescia da ultima recahida,
+quando teve noticia da deslealdade de Silvina. Desafogou no seio do
+visconde dos Lagares, e deu procura&ccedil;&atilde;o para ser
+demandado Pedro de Mello por um conto oitocentos e vinte e cinco
+mil e setenta reis, e juros da lei. Com estes acontecimentos
+coincidiu a ida do commendador &aacute; Foz, e o seu encontro com
+Silvina em Carreiros. Agora est&aacute; dada a raz&atilde;o de ter
+perdido Jos&eacute; Francisco o tino, quando a viu &aacute; cata de
+conchinhas.</p>
+
+<p>&mdash;&Oacute; prima Silvina&mdash;disse Francisca&mdash;olha
+que est&aacute; aqui o senhor commendador Andraens.</p>
+
+<p>&mdash;Bem se lhe d&aacute; ella que eu esteja aqui ou em casa
+do diabo&mdash;disse com ira e amargura Jos&eacute; Francisco.</p>
+
+<p>Silvina avisinhou-se do grupo, e disse serena e em tom
+severo:</p>
+
+<p>&mdash;Folgo muito em v&ecirc;r restabelecido o credor de meu
+pai. Ser-me-ia dolorosa a sua morte, por muitas raz&otilde;es,
+sendo a primeira o receio de v&ecirc;r meu pai soffrer alguma
+penhora a requerimento dos herdeiros do senhor commendador.</p>
+
+<p>Jos&eacute; Francisco respondeu com promptid&atilde;o sem mudar
+de c&ocirc;r:</p>
+
+<p>&mdash;Quem deve, paga. &Eacute; como &eacute;. A senhora
+esperava ser minha herdeira?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, senhor; esperava merecer-lhe a
+considera&ccedil;&atilde;o de mulher que estivera para ser sua
+esposa. Esperava que o senhor n&atilde;o andasse jogando entre mim
+e meu pai com um punhado de ouro, que n&atilde;o vale para
+<span class="pagenum"><a name="pag_188" id=
+"pag_188">[188]</a></span>mim este punhado de conchas. Esperava,
+finalmente, que o snr. Jos&eacute; Francisco Andraens n&atilde;o
+viesse por si mesmo certificar a conta, em que &eacute; tido, de
+possuir uma riqueza que &eacute; o seu flagello, e o das pessoas a
+quem empresta uma migalha das suas sobras. O senhor, logo que se
+viu em perigo de morte, esqueceu-se de que eu me tinha
+desembara&ccedil;ado de todos os obstaculos para ser sua mulher, e
+testou a insignificante divida de meu pai, para morrer sem deixar
+saudades a alguem n'este mundo. Desde que v. s.&ordf; praticou
+semelhante baixeza em que conceito queria que o eu tivesse?</p>
+
+<p>Jos&eacute; Francisco tartamudeou esta resposta:</p>
+
+<p>&mdash;Eu n&atilde;o estava escorreito do miolo quando fiz o
+testamento. L&aacute; foi o meu amigo visconde que arranjou tudo, e
+eu assignei sem dar tino de mim. Se offendi o senhor seu pai,
+queira perdoar.</p>
+
+<p>N&atilde;o ha que v&ecirc;r: Silvina era a mulher fatal de tres
+cora&ccedil;&otilde;es, que por ella andavam perdidos. Andraens,
+como a visse e ouvisse, perdia a consciencia da sua dignidade,
+e&mdash;o que mais &eacute; para assombro&mdash;a consciencia de
+credor. Quanto mais arrogante Silvina lhe castigava a natural
+grosseria, mais escravo se humildava Jos&eacute; Francisco.
+Fulminava-o a electricidade dos olhos d'ella, e tinha a sua voz um
+encanto, que faria lembrar o da magica da Colchida, se elle
+n&atilde;o fosse p&ocirc;rco, antes de ouvil-a. Pasmava elle do
+feminil predominio d'aquella mimosa mulher que o sopesava; mas este
+espanto era submisso, e a submiss&atilde;o amor, que os romancistas
+chamam o fatidico, o predestinado, o invencivel.</p>
+
+<p>Antonio Jos&eacute; Guimar&atilde;es, avesso &aacute;
+reconcilia&ccedil;&atilde;o de Silvina com o morgado, e desejoso de
+a v&ecirc;r ligada ao seu amigo Andraens, esfor&ccedil;ou-se em
+desamual-os, dando explica&ccedil;&otilde;es a favor d'um e
+d'outro, de modo que ambos j&aacute; as escutavam silenciosos.
+Jos&eacute; Francisco acompanhou Silvina e Francisca, promettendo
+vir jantar com ellas no dia seguinte, e authorisou o linheiro a
+dizer de <span class="pagenum"><a name="pag_189" id=
+"pag_189">[189]</a></span>sua parte &aacute; menina que por causa
+d'elle n&atilde;o se havia de desarranjar o que estava tratado.
+Mandou immediatamente sustar a come&ccedil;ada
+execu&ccedil;&atilde;o sobre Pedro de Mello; presenteou com
+alfinetes e pulseiras as duas fidalgas; tomou casa na Foz; deu a
+Pedro de Mello as satisfa&ccedil;&otilde;es que o pundonor do
+fidalgo exigia, e deixou ao arbitrio d'este as
+condi&ccedil;&otilde;es da escriptura nupcial.</p>
+
+<p>E o morgado de Santa Eufemia? Esse continuava a dar cabriolas
+nas ondas.<span class="pagenum"><a name="pag_190" id=
+"pag_190">[190]</a></span></p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_191" id=
+"pag_191">[191]</a></span></p>
+
+<h2>XXIII.</h2>
+
+<p>Em fins de Setembro, foi Jorge Coelho, na companhia de Leonardo
+Pires, &aacute; Foz. D. Marianna contrari&aacute;ra-lhe o desejo,
+at&eacute; &aacute;quelle dia, por saber que a ventoinha de
+Margaride l&aacute; estava, desafiando, com as suas
+evolu&ccedil;&otilde;es amorosas, a irris&atilde;o da gente frivola
+e a indigna&ccedil;&atilde;o das pessoas s&eacute;rias. O
+jornalista, por&eacute;m; que era oraculo em casa do negociante
+Ferreira, aconselh&aacute;ra a excellente amiga de D. Antonia a
+n&atilde;o impedir que Jorge visse o espectaculo irrisorio ou
+repugnante em que Silvina se exhibia.</p>
+
+<p>Estava ella sentada nas ribas fragosas, que marginam o
+&laquo;caneiro&raquo; onde os grupos se banhavam. Francisca da
+Cunha estava, ao lado da prima, conversando com o linheiro. O
+morgado de Santa Eufemia, n'outra <span class="pagenum"><a name=
+"pag_192" id="pag_192">[192]</a></span>eminencia do frago&ecirc;do,
+abarcava as pernas com os bra&ccedil;os, e apoiava o queixo entre
+os joelhos. Na especie de ilha que f&oacute;rma a outra riba do
+caneiro, andava aos pulos Egas de Encerra-bodes, ensinando um
+c&atilde;o da Terra-Nova a saltar &aacute;s ondas. E era aquelle o
+vulto mais pitoresco da praia, envolto no seu cobrij&atilde;o
+escarlate, franjado de borlas verdes, e cahido a um lado com a
+natural gra&ccedil;a, que usam dar-lhe os provincianos, vesados
+&aacute;quella elegancia de feiras.</p>
+
+<p>Jorge de Sepulveda avistou de longe Silvina, e disse a
+Pires:</p>
+
+<p>&mdash;L&aacute; est&aacute; ella... N&atilde;o passemos
+d'aqui.</p>
+
+<p>&mdash;E que quer dizer n&atilde;o passarmos
+d'aqui?&mdash;acudiu o da Maya, accendendo o charuto no cachimbo
+denegrido d'um banheiro&mdash;Queres tu, amigo Jorge, fingir o que
+n&atilde;o &eacute;s? Apraz-te passar por tolo no conceito
+d'aquella mulher?!</p>
+
+<p>&mdash;Julgue-me ella como quizer...&mdash;replicou
+elle&mdash;concedo que seja tolice isto, mas... &eacute; cedo ainda
+para ser... homem. Eu amei seriamente Silvina. O amor e o remorso
+s&atilde;o espinhos, que n&atilde;o desencrava do
+cora&ccedil;&atilde;o quem quer. Para que te hei-de eu mentir, se
+me n&atilde;o posso enganar a mim? N&atilde;o a esque&ccedil;o, nem
+se quer a despreso &aacute;quella mulher. Minha m&atilde;i ajoelhou
+commigo sobre a sepultura de meu pai, e pediu-me, pela memoria
+d'elle, que me vencesse e levantasse da minha miseria. Quiz, e
+n&atilde;o pude, meu amigo! Como queres tu que eu possa dissimular
+&aacute; penetra&ccedil;&atilde;o de Silvina o que por ella sinto?!
+Melhor &eacute; que me ella n&atilde;o veja. Vai tu, se queres: eu
+espero-te aqui, e voltaremos logo para o Porto.</p>
+
+<p>Jorge sentou-se n'uma fraga a distancia; e Leonardo Pires,
+vibrando o chicote, foi postar-se a pouca distancia de Silvina,
+conversando com o morgado de Santa Eufemia.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o quem namora agora a menina?&mdash;disse o da
+Maya&mdash;O meu amigo de certo n&atilde;o, que o vejo aqui
+<span class="pagenum"><a name="pag_193" id=
+"pag_193">[193]</a></span>amuado. Jorge Coelho tambem n&atilde;o,
+que est&aacute; acol&aacute; conversando com a natureza, e lendo o
+seu destino no v&ocirc;o das gaivotas, como Cat&atilde;o
+d'Utica.</p>
+
+<p>&mdash;Que &eacute;?!&mdash;disse Christov&atilde;o, receioso de
+que o nome do romano fosse algum chasco &aacute; sua
+ignorancia.</p>
+
+<p>&mdash;Cat&atilde;o d'Utica, disse eu, meu caro senhor;
+n&atilde;o conhece este personagem?</p>
+
+<p>&mdash;Nada, n&atilde;o conhe&ccedil;o&mdash;replicou o morgado,
+voltando o rosto para o lado de Silvina, que o remirava com
+disfarce por entre o franjado da sombrinha.</p>
+
+<p>&mdash;Mas ha-de conhecer aquelle outro personagem que l&aacute;
+vem&mdash;retorquiu o da Maya.</p>
+
+<p>Christov&atilde;o olhou na direc&ccedil;&atilde;o indicada, e
+viu Jos&eacute; Francisco Andraens, que descia lentamente a
+cal&ccedil;ada que conduz &aacute; praia. N&atilde;o teve
+m&atilde;o da sua raiva, de mais a mais aguilhoada pela facecia de
+Pires: fitou Silvina com um sorriso de ironia bruta, e disse-lhe em
+alta voz:</p>
+
+<p>&mdash;L&aacute; vem o nosso homem!</p>
+
+<p>E soltou uma casquinada de riso, dando upas sobre a pedra, com
+as pernas apertadas entre os bra&ccedil;os.</p>
+
+<p>Silvina virou-se de lado com repell&atilde;o, e Leonardo Pires
+exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Est&atilde;o bonitos! isto sim, que daria id&eacute;as a
+um Gavarni can&ccedil;ado! &Oacute; humanidade tu &eacute;s a
+caricatura dos monstros que a imagina&ccedil;&atilde;o cria nos
+seus delirios de cognac e absyntho!</p>
+
+<p>Dito isto, com pasmo d'algumas familias de Traz-os-Montes, que
+por alli se agrupavam, Leonardo desceu do fragoedo para a praia, ao
+mesmo tempo que Jos&eacute; Francisco se aproximava de Silvina.</p>
+
+<p>&mdash;Ora viva!&mdash;disse o commendador &aacute; fidalga de
+Margaride&mdash;Como passou?</p>
+
+<p>&mdash;Excellentemente, e o snr. Andraens?</p>
+
+<p>&mdash;Est&aacute; feito; n&atilde;o me dei muito bem com a
+ceia. Appeteceu-me uma lagosta, e trabalhou-me c&aacute; dentro
+toda <span class="pagenum"><a name="pag_194" id=
+"pag_194">[194]</a></span>a noite. Agora, estou mais desempachado,
+e acho que vamos ao banho.</p>
+
+<p>&mdash;Quando quizer.</p>
+
+<p>&mdash;Sempre me sento um bocado a arrefecer&mdash;tornou
+Jos&eacute; Francisco, apalpando as pedras, e ajustando, o melhor
+que p&ocirc;de, com as asperezas d'ellas as roscas de carne cuja
+flexibilidade se moldava ao anfractuoso da rocha. Depois, bramiu um
+urro de satisfa&ccedil;&atilde;o, e cruzou as m&atilde;os sobre a
+barriga n.&ordm; 2.</p>
+
+<p>&mdash;Com que sim&mdash;continuou elle&mdash;Em que estava a
+senhora a malucar?</p>
+
+<p>&mdash;A malucar?!&mdash;disse Silvina, franzindo a testa.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, dizia eu, se estava a cogitar n'esta vista do
+mar...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim... estava...</p>
+
+<p>&mdash;A fallar a verdade,&mdash;tornou elle,
+recolhendo-se&mdash;isto &eacute; uma obra que faz pasmar a gente!
+O que me d&aacute; no goto &eacute; isto de crescer e mingar o
+mar!... A senhora sabe a raz&atilde;o?</p>
+
+<p>&mdash;Dizem que &eacute; effeito da attrac&ccedil;&atilde;o da
+lua.</p>
+
+<p>&mdash;Da lua!&mdash;atalhou com espanto Jos&eacute;
+Francisco.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor, da lua; &eacute; o que dizem os
+entendedores; mas como se faz o fluxo e refluxo do mar &eacute; que
+eu n&atilde;o sei, nem mesmo me importa saber...</p>
+
+<p>&mdash;Da lua!&mdash;tornou o commendador, olhando para a
+abobada celeste, e gesticulando mudamente com os bra&ccedil;os,
+como quem se esfor&ccedil;ava por entender a ac&ccedil;&atilde;o da
+lua sobre a agua, com um imaginario artificio de
+alcatruzes.&mdash;Da lua n&atilde;o p&oacute;de ser!&mdash;disse
+elle por fim, com a energia e aprumo de Galileu, &aacute; sahida do
+carcere.</p>
+
+<p>&mdash;Pois ent&atilde;o n&atilde;o seja!&mdash;disse Silvina
+com enfado.</p>
+
+<p>&mdash;Porque a lua&mdash;tornou Jos&eacute; Francisco, com os
+olhos no c&eacute;o, e os dedos das m&atilde;os afastados entre
+si&mdash;a lua est&aacute; l&aacute; em cima, e...</p>
+
+<p>&mdash;E o mar est&aacute; c&aacute; em baixo...&mdash;atalhou a
+menina, espirrando um frouxo de riso.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_195" id=
+"pag_195">[195]</a></span>&mdash;Ora ahi est&aacute;! E a senhora
+ri-se!? Eu queria que os doutores me explicassem como &eacute; que
+a lua empurra o mar e puxa depois por elle... &Oacute; snr.
+Guimar&atilde;es! olhe aqui que vai j&aacute;.</p>
+
+<p>O snr. Guimar&atilde;es era o linheiro, que estava a pouca
+distancia com Francisca da Cunha. Vieram ambos ao chamamento de
+Jos&eacute; Francisco, e ella principalmente attrahida por um
+tregeito da prima.</p>
+
+<p>&mdash;Diga-me c&aacute;: voss&ecirc; sabe como &eacute; que a
+lua faz isto de crescer e mingar o mar?</p>
+
+<p>&mdash;Eu n&atilde;o estudei nada d'isso&mdash;respondeu o
+linheiro&mdash;mas, em quanto a mim, a mar&eacute; cresce quando o
+vento &eacute; de mar, e minga quando o vento &eacute; de
+terra.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! pr'ahi, pr'ahi! diga-me d'isso!&mdash;acudiu radioso
+o commendador.&mdash;Mas da lua!... &Eacute; que estava c&aacute; a
+minha Silvininha a dizer que era a lua. Quem lhe metteu isso na
+cabe&ccedil;a, menina?</p>
+
+<p>&mdash;Foi alguem que estava a zombar de mim!&mdash;disse
+Silvina gargalhando francamente com Francisca da Cunha.</p>
+
+<p>&mdash;Isso entendo eu... Agora&mdash;tornou Jos&eacute;
+Francisco&mdash;se querem ir l&aacute; conversar sosinhos,
+v&atilde;o, que eu tenho que dizer aqui a esta menina uns arranjos
+c&aacute; da nossa vida de noivos.</p>
+
+<p>Francisca e o homem da rua das Hortas afastaram-se para irem
+occupar as cadeiras, que deixaram junto d'uma barraca; mas
+encontraram-nas tomadas por Leonardo Pires e Egas de
+Encerra-bodes.</p>
+
+<p>Ergueu-se Egas, e Francisca sentou-se, cuidando que Leonardo
+cederia a sua cadeira a Antonio Jos&eacute; Guimar&atilde;es; mas
+Leonardo n&atilde;o se moveu, e o linheiro estacou diante d'ambos,
+com os olhos fuzilantes sobre o da Maya, que assobiava
+apparentemente distrahido a can&ccedil;&atilde;o popular, cuja
+letra &eacute;: <i>Muito bem seja apparecido n'esta
+func&ccedil;&atilde;o</i>...</p>
+
+<p>Francisca ergueu-se, e deu alguns passos em retirada.
+<span class="pagenum"><a name="pag_196" id=
+"pag_196">[196]</a></span>O linheiro, por&eacute;m, bamboando a
+cabe&ccedil;a, resmuneou estas palavras, mal ouvidas de Pires:</p>
+
+<p>&mdash;O que voss&ecirc; merecia, sei eu.</p>
+
+<p>&mdash;Que regouga?&mdash;disse-lhe o da Maya.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor...&mdash;replicou Antonio
+Jos&eacute;&mdash;ainda ha-de topar quem lhe d&ecirc; uma boa
+li&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;V&aacute;-se embora&mdash;redarguiu Pires&mdash;Se
+n&atilde;o, atiro-lhe areia aos olhos.</p>
+
+<p>&mdash;A mim?!&mdash;disse com um sorriso azedo o linheiro.</p>
+
+<p>&mdash;E enterro-o n'esta praia, como quem enterra um safio
+p&ocirc;dre. V&aacute;-se embora, homem, e diga l&aacute; &aacute;
+fidalga que n&atilde;o ame parvos, se n&atilde;o quer receber
+d'estas affrontas.</p>
+
+<p>O linheiro fez um arremesso com a bengala, e Leonardo Pires
+tomou do ch&atilde;o dous punhados de areia, dizendo com semblante
+de quem brinca:</p>
+
+<p>&mdash;Olhe que vossemec&ecirc; leva!</p>
+
+<p>Egas de Encerra-bodes, que estivera, a um lado, rindo debaixo de
+uma dobra do cobrij&atilde;o, deu dous passos para a retaguarda do
+linheiro, e fez um gesto ao &laquo;terra-nova&raquo;. O c&atilde;o
+come&ccedil;ou a tirar com os dentes pelas abas do palet&oacute; de
+Antonio Jos&eacute;, e este a sacudir-se, e a florear a bengala,
+que infelizmente embarrou no focinho do animal. O remate d'este
+episodio foi cousa triste de contar-se. O linheiro, se n&atilde;o
+tem botas de cano alto, sahiria com as canellas estrincadas; e
+p&oacute;de ser que os dentes do &laquo;terra-nova&raquo;
+procurassem afiar-se em por&ccedil;&atilde;o das pernas, n&atilde;o
+abroqueladas das botas, se Egas lhe n&atilde;o fallasse de modo que
+elle, de cauda cahida, veio rastejar-lhe aos p&eacute;s.</p>
+
+<p>Terminou isto por ir o misero queixar-se ao regedor que alli
+estava perto, homem de bom siso, que se dirigiu a Egas, pedindo-lhe
+que fizesse saber ao seu c&atilde;o que nem todos os
+cidad&atilde;os traziam botas de cano alto.</p>
+
+<p>Francisca da Cunha, fugindo para perto de Silvina, pod&eacute;ra
+forrar-se &aacute; vergonha de semelhante conflicto; apenas
+<span class="pagenum"><a name="pag_197" id=
+"pag_197">[197]</a></span>dissera ao commendador que um doudo
+furioso a perseguia em toda a parte; e, citando o nome do doudo,
+viu, com grande pasmo de Silvina e d'ella, erguer-se o commendador,
+e descer agilmente as fragas resvaladi&ccedil;as, para se
+entremetter na desordem, que encontrou no periodo final do
+c&atilde;o arremettendo &aacute;s pernas do seu amigo.</p>
+
+<p>Aplacado o incidente, entraram Silvina e Jos&eacute; Francisco,
+cada qual em sua barraca, para se vestirem.</p>
+
+<p>Leonardo Pires dirigiu-se a um banheiro, e pediu sem demora um
+fato de banho alugado. Vestiu-se, e sahiu da sua barraca a tempo
+que o commendador, a par de Silvina, entravam no mar. Seguiu-os, e
+passou-lhes adiante, indo postar-se n'um ponto em que as ondas
+batiam mais fortes, e onde s&oacute; os nadadores ousavam
+esperal-as. Quando a onda vinha, Leonardo mergulhava, e vinha com
+ella, at&eacute; marrar nas pernas de Jos&eacute; Francisco.
+Erguia-se, sacudia a grenha, pedia perd&atilde;o e tornava para o
+seu posto. Jos&eacute; Francisco retirava-se a um lado; mas, na
+volta de outra onda, a marrada era infallivel. &Aacute; terceira
+vez, o brazileiro ladeou, quando viu mergulhar o monstro da Maya;
+este, por&eacute;m, nadando com os olhos abertos, l&aacute; foi
+abalroar com o homem, e pedir perd&atilde;o pela terceira vez.</p>
+
+<p>Jos&eacute; Francisco esbofava no mar como tubar&atilde;o
+ferido. Sahiu &aacute; praia atordoado, em quanto Silvina, estranha
+ao successo porque fic&aacute;ra longe do noivo, se deixava
+contemplar pelos olhos lagrimosos de Jorge, que a via,
+resguardando-se de ser visto.</p>
+
+<p>Leonardo Pires, no perpassar por ella, disse-lhe a meia voz:</p>
+
+<p>&mdash;Jorge de Sepulveda est&aacute; acol&aacute;, minha
+senhora! Anda aquelle seu bom anjo a quer salval-a de um eterno
+ridiculo, e v. exc.&ordf; a cahir, a cahir, a cahir, n'um dos tres
+abysmos das tres barrigas de Jos&eacute; Francisco
+Andraens!...<span class="pagenum"><a name="pag_198" id=
+"pag_198">[198]</a></span></p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_199" id=
+"pag_199">[199]</a></span></p>
+
+<h2>CONCLUS&Atilde;O.</h2>
+
+<p>Muita gente honesta, lendo, quinze dias depois, nos jornaes do
+Porto, a noticia do casamento de Jos&eacute; Francisco Andraens com
+D. Silvina de Mello, observou que esta menina tinha muito mais
+juizo do que mostrava. As m&atilde;es de familia citaram-na como
+exemplo &aacute;s suas filhas; e estas, bem que exteriormente se
+rissem d'ella, invejaram-na.</p>
+
+<p>&Aacute;s suas amigas particulares dizia Silvina que o seu
+casamento f&ocirc;ra um sacrificio do cora&ccedil;&atilde;o
+&aacute; dignidade propria; por quanto, dous implacaveis homens, o
+morgado de Santa Eufemia e um tal Jorge Sepulveda, calcando aos
+p&eacute;s quantos deveres a civilidade imp&otilde;e a sujeitos,
+que n&atilde;o podem ser amados, lhe andavam sempre dando
+desgostos, vergonhas, e descredito. Estes dizeres, comprovados por
+umas lagrimas que ella arranjava com prodigioso artificio,
+apiedaram as proprias amigas, que diziam d'ella mil maravilhas.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_200" id=
+"pag_200">[200]</a></span>Jos&eacute; Francisco Andraens arrijou de
+suas frequentes dyspepsias, quando o mundo e a medicina menos o
+esperavam. Muitos rapazes indiscretos paravam a contemplal-o
+&aacute; porta dos snrs. Pintos Leites, na cal&ccedil;ada dos
+Clerigos, nos primeiros quinze dias depois do seu matrimoniamento.
+Jos&eacute; Francisco estava um todonada melado de rosto; mas
+n&atilde;o lhe iam mal aquelles ares de noivo: tudo tem n'este
+mundo a sua hora e c&ocirc;r de poesia.</p>
+
+<p>O morgado de Santa Eufemia recebeu ao mesmo tempo o golpe da
+morte e o balsamo da vida: morr&ecirc;ra-lhe o pai na vespera do
+dia em que Silvina cas&aacute;ra.</p>
+
+<p>D. Francisca da Cunha casou com o linheiro das Hortas. As duas
+meninas com os respectivos maridos foram para o Bom Jesus do Monte,
+local sagrado que d&aacute; luas de poesia a quantos parvos ha ahi
+que v&atilde;o celebrar n'aquelle sanctuario uma festa, irrisoria,
+se n&atilde;o t&ocirc;rpe, na essencia.</p>
+
+<p>Jorge de Sepulveda, quando viu a local da gazeta agoureira de
+muitas prosperidades a Jos&eacute; Francisco e Silvina, estremeceu,
+empedrou, e invocou do anjo da piedade o desaf&ocirc;go do
+pranto.</p>
+
+<p>Ora, o amigo de Guilherme do Amaral, se n&atilde;o era o anjo da
+piedade, tinha em si um santo e mysterioso cond&atilde;o de
+espremer entre os dedos inexoraveis da sua philosophia algum tanto
+cynica, toda a pe&ccedil;onha dos cora&ccedil;&otilde;es,
+cancerados pelo amor.</p>
+
+<p>Alguma vez ver&aacute; o leitor que boleus deu toda esta gente
+com as costumadas voltas do mundo.</p>
+
+<p>O livro complementar d'estas biographias ha-de denominar-se:
+R<small>EAC&Ccedil;&Atilde;O DA POESIA</small>.</p>
+
+<p>&Eacute; o natural seguimento dos Annos de prosa.</p>
+
+<p class="centrado">FIM.</p>
+</div>
+<div class="rodape">
+
+<p><a name="foot395" id="foot395"></a><a href=
+"#tex2html1"><sup>1</sup></a> N&atilde;o v&aacute; entender alguem
+que o romancista est&aacute; phantasiando. Quando Napole&atilde;o
+III casou com a condessa de Montijo, duas familias ventilaram em
+Portugal e porfiadamente, a origem dos Porto-Carreiros que
+lev&aacute;ra a Castella os embri&otilde;es da imperatriz. As
+familias litigantes eram os Porto-Carreiros da casa da Bandeirinha
+no Porto, e outros de igual appellido de Abrag&atilde;o, ahi para
+as cercanias de Penafiel. O pleito heraldico andou nas gazetas, e
+nomeadamente no <i>Portugal</i>, jornal realista do Porto. A
+critica oscillou longo tempo indecisa entre as duas familias,
+at&eacute; que um dia, can&ccedil;ada de oscila&ccedil;&otilde;es,
+cahia a rir deixando &aacute;s duas familias nobilissimas o direito
+salvo de enxertarem o imperio francez l&aacute; em casa.</p>
+
+<p><a name="foot396" id="foot396"></a><a href=
+"#tex2html2"><sup>2</sup></a> <i>V. do Arcebispo.</i></p>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag_201" id=
+"pag_201">[201]</a></span>
+
+<hr>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<h1>O ARREPENDIMENTO.</h1>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<hr>
+<span class="pagenum"><a name="pag_203" id=
+"pag_203">[203]</a></span>
+<div class="corpo">
+
+<h1>O ARREPENDIMENTO.</h1>
+
+<h2 style="font-size: 0.8em">ROMANCE.</h2>
+
+<p>Em tempos da minha mocidade costumava visitar a miudo uma boa
+velha, minha visinha, que me honrava com a sua estima e amisade.
+Humildemente confesso que n&atilde;o ha sociedade mais deleitosa e
+agradavel, do que a de uma mulher que soube envelhecer. A sua
+conversa&ccedil;&atilde;o instructiva e divertida, &eacute; um
+inesgotavel thesouro de lembran&ccedil;as, anecdotas,
+observa&ccedil;&otilde;es chistosas e reflex&otilde;es
+circumspectas, &eacute; finalmente uma revista do passado.</p>
+
+<p>D. Mafalda, deixem-me assim chamar-lhe, juntava &aacute;
+amenidade da conversa, a do caracter, que era brando e
+indulgente.</p>
+
+<p>Quando tinha occasi&atilde;o de ir passar uma noite com ella,
+parecia-me que as horas voavam ligeiras e que corriam mais rapidas,
+do que quando as gastava a distribuir <span class=
+"pagenum"><a name="pag_204" id="pag_204">[204]</a></span> finezas e
+galanteios &aacute;s mais formosas rainhas dos mais brilhantes
+sal&otilde;es. Era sempre com vivo pesar que a via apontar para o
+relogio, indicando-me que a hora de me retirar tinha chegado, e
+voltava a minha casa com o espirito mais rico, e o
+cora&ccedil;&atilde;o satisfeito e melhor.</p>
+
+<p>A historia que vou contar-vos, minhas caras leitoras, foi-me
+dita por D. Mafalda n'um d'estes ser&atilde;os em que vos
+fallei.</p>
+
+<p>Era n'uma bella noite de Junho; fui encontral-a sentada na sua
+cadeira &aacute; Voltaire, tendo a seus p&eacute;s, deitado em um
+cochim, o seu c&atilde;osinho querido; os olhos tinha-os
+semi-abertos, um sorriso nos labios, e parecia respirar com prazer
+a aragem, que, embalsamada pelas fl&ocirc;res do jardim, se coava
+pela janella meia aberta. Quando cheguei junto d'ella vinha
+indignado por que um de meus parentes tinha sido victima d'um abuso
+de confian&ccedil;a; contei-lhe o succedido, e no calor da
+narra&ccedil;&atilde;o n&atilde;o poupei ao culpado as maiores
+impreca&ccedil;&otilde;es, nem deixei de lhe dizer que desejava
+fazer-lhe todo o mal possivel.</p>
+
+<p>&mdash;Devagar, meu querido amigo&mdash;me disse
+ella&mdash;n&atilde;o o julgava t&atilde;o irrascivel, nem que
+tivesse t&atilde;o pouca caridade para com o proximo. Sabe
+l&aacute;, se, com a vida, n&atilde;o tiraria ao culpado o merito
+de para o futuro se poder rehabilitar pelo arrependimento, e se o
+momento em que lhe infringisse o castigo n&atilde;o seria o
+destinado por Deus para esse arrependimento?</p>
+
+<p>&mdash;Eis-ahi, minha cara visinha, uma doutrina, permitta-me a
+express&atilde;o, um pouco subversiva da ordem social.</p>
+
+<p>&mdash;Deus me defenda&mdash;me replicou&mdash;de querer que o
+culpado n&atilde;o seja castigado, e que a sociedade fique indefeza
+dos crimes que um seu membro praticou contra ella; quiz dizer
+s&oacute;mente que devia deixar &aacute;s leis o cuidado de
+castigar o delinquente, e que o meu querido <span class=
+"pagenum"><a name="pag_205" id="pag_205">[205]</a></span> amigo,
+n&atilde;o devia, como individuo, fechar assim desapiedadamente o
+cora&ccedil;&atilde;o a todo o sentimento de
+commisera&ccedil;&atilde;o por um desgra&ccedil;ado e infeliz, no
+cora&ccedil;&atilde;o do qual talvez ainda bruxelei algum
+clar&atilde;o de virtude, que uma occasi&atilde;o favoravel e
+propicia, que se apresente, ainda p&oacute;de despertar, e fazer
+com que esse membro da sociedade, que julga inutil, se torne bom e
+aproveitavel.</p>
+
+<p>Como eu respondesse a isto, fazendo um d'estes movimentos de
+cabe&ccedil;a, que s&atilde;o um protesto mudo e respeitoso, ella
+acrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Est&aacute; com paciencia para me aturar ouvindo uma
+historia, pois que ainda temos algumas horas?</p>
+
+<p>N&atilde;o recusei: uma historia era uma fortuna para combater a
+exalta&ccedil;&atilde;o d'espirito em que estava.</p>
+
+<p>D. Mafalda principiou assim:</p>
+
+<p>&mdash;Emilio da Cunha era o mais velho de tres irm&atilde;os,
+dos quaes, o mais novo, vivia ha muitos annos no Rio de Janeiro,
+onde tinha alcan&ccedil;ado fortuna. O segundo nunca deixou o
+Porto, sendo sempre infeliz nos seus commettimentos e
+especula&ccedil;&otilde;es. Emilio da Cunha, &aacute; custa de
+muito trabalho e economias, p&ocirc;de alcan&ccedil;ar uma
+fortunasinha, que lhe permittia esperar com socego, o momento de
+descan&ccedil;ar da vida laboriosa em que tinha vivido.</p>
+
+<p>Uma quarta pessoa completava esta familia, que era uma
+irm&atilde;, que tendo seguido seu marido &aacute; India, para onde
+elle tinha sido despachado, e n&atilde;o vindo nenhum d'elles a
+figurar n'esta minha historia, n&atilde;o lh'os recordarei
+mais.</p>
+
+<p>Aconteceu que o irm&atilde;o de Emilio da Cunha, que residia no
+Porto, por uma d'estas catastrophes que occasionam os jogos de
+bolsa, falliu. Teve tal sentimento por este facto, que falleceu
+tres dias depois, atacado d'uma febre cerebral. A heran&ccedil;a,
+que deixou, foram dividas e um filho.</p>
+
+<p>Emilio da Cunha, que tinha um cora&ccedil;&atilde;o bondoso, e
+<span class="pagenum"><a name="pag_206" id=
+"pag_206">[206]</a></span> um caracter pundonoroso, para que a
+memoria de seu irm&atilde;o n&atilde;o ficasse deshonrada,
+comprometteu-se a pagar as dividas e recolheu em sua casa o filho
+para lhe substituir o pai, que tinha perdido; procedimento
+louvavel, e digno de se admirar, sabendo-se que elle tinha uma
+filha, para quem, passados quatro ou cinco annos tinha a procurar
+um casamento vantajoso.</p>
+
+<p>Roberto, se chamava o sobrinho de Emilio da Cunha, tinha
+j&aacute; 15 annos d'idade, mas o pai, inteiramente entregue
+&aacute;s especula&ccedil;&otilde;es, e aos cuidados, que ellas
+trazem comsigo, descuidou completamente a sua
+educa&ccedil;&atilde;o, por isso o seu retrato moral, n'esta
+occasi&atilde;o, nada tinha de vantajoso; o espirito tinha-o
+completamente inculto; as no&ccedil;&otilde;es que possuia do justo
+e do injusto eram as mais erroneas e disparatadas; o respeito aos
+direitos d'outrem era para elle uma inven&ccedil;&atilde;o estupida
+dos homens, condemnada pela natureza, e a verdadeira liberdade
+consistia em fazer o mal impunemente. Se algum bom instincto, ou
+algum vislumbre de virtude, existia no cora&ccedil;&atilde;o de
+Roberto, ainda estava em embry&atilde;o, por que se n&atilde;o
+tinha demonstrado. Quantas e quantas vezes, em quanto que o pai,
+cego pelas especula&ccedil;&otilde;es, concentrava todas as suas
+faculdades intellectuaes na realisa&ccedil;&atilde;o d'um
+impossivel, n&atilde;o deixou Roberto de ir ao collegio, fazendo o
+que em termo escolar, se chama <i>gazear</i>, e gastava as horas
+d'estudo em andar a vagabundear pelos campos e pra&ccedil;as. D'ahi
+proveio o tomar rela&ccedil;&otilde;es com meia duzia de garotos,
+ou vadios, permitta-me a phrase, para quem nada era sagrado nem nas
+ac&ccedil;&otilde;es, nem nas palavras. D'ahi nasceu a falta de
+respeito pela propriedade alheia, roubando os pomares; e o
+endurecimento de cora&ccedil;&atilde;o, castigando barbaramente
+animaes inoffensivos.</p>
+
+<p>Emilio da Cunha reconheceu logo os maus instinctos de que seu
+sobrinho era dotado, e a desmoralisa&ccedil;&atilde;o, que
+j&aacute; se tinha infiltrado no seu cora&ccedil;&atilde;o, mas
+concebeu a esperan&ccedil;a de o regenerar com desvelos, paciencia,
+e <span class="pagenum"><a name="pag_207" id=
+"pag_207">[207]</a></span> sobre tudo bons exemplos. Sua filha, a
+que chamarei Valentina, de 14 annos d'idade, contribuiu
+poderosamente para a realisa&ccedil;&atilde;o d'este seu empenho,
+t&atilde;o justo e louvavel. Era uma menina para quem a natureza
+tinha sido prodiga em encantos de rosto, d'espirito e
+cora&ccedil;&atilde;o, a ponto de qualquer que a via a admirar, e
+de quem a ouvia amal-a immediatamente. Tinha uma tal influencia, ou
+magia sobre os que se acercavam d'ella, que aos bons tornava-os
+melhores, e aos maus fazia-lhe retirar envergonhados para o fundo
+do cora&ccedil;&atilde;o os maus instinctos. Esta magia n&atilde;o
+teve menos poder sobre Roberto, do que sobre os outros, de sorte
+que a regenera&ccedil;&atilde;o que elle soffreu, nos seus costumes
+e ac&ccedil;&otilde;es, foi t&atilde;o sensivel, que o bondoso
+Emilio da Cunha revia-se alegre e contente na sua obra, e
+congratulava-se dos resultados que tinha colhido.</p>
+
+<p>Deu-se por&eacute;m uma circumstancia feliz, mas que ao mesmo
+tempo foi desgra&ccedil;ada, que deteve Roberto repentinamente na
+boa estrada em que se tinha embrenhado, e na qual parecia caminhar
+resolutamente. Por uma carta chegada n'um dos paquetes inglezes do
+Brazil, soube Emilio da Cunha, que seu irm&atilde;o mais novo tinha
+fallecido, deixando-o, por elle ser o seu mais proximo parente,
+herdeiro d'uma fortuna consideravel. Bens rusticos, e
+estabelecimentos industriaes &eacute; no que consistia a fortuna,
+dos quaes se poderia colher bons lucros, sendo bem geridos,
+conforme o tinha praticado o seu defunto proprietario; mas Emilio
+da Cunha, al&eacute;m de se n&atilde;o julgar com conhecimentos e
+for&ccedil;as para bem gerir a industria com que seu irm&atilde;o
+tinha feito fortuna, n&atilde;o tinha desejo, nem queria
+expatriar-se. Foi at&eacute; com immensa repugnancia que se
+resolveu a ir ao Brazil tomar posse e liquidar a heran&ccedil;a;
+parecia que um secreto presentimento o avisava do que tinha de
+acontecer, levando-o a considerar como uma desgra&ccedil;a esta
+viagem, a que os sagrados direitos de sua predilecta filha
+Valentina, o obrigavam a emprehender.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_208" id=
+"pag_208">[208]</a></span>
+
+<p>Partiu finalmente, depois de ter tomado todas as
+precau&ccedil;&otilde;es para a tranquillidade de seu espirito.
+Valentina entrou em um dos collegios de educa&ccedil;&atilde;o mais
+acreditados do Porto, e Roberto ficou n'uma casa particular, onde
+lhe deviam prestar todos os cuidados, que exigiam a sua idade, pois
+que j&aacute; ent&atilde;o tinha 17 annos, e a sua completa
+ignorancia, de que at&eacute; uma crian&ccedil;a de 8 annos poderia
+zombar.</p>
+
+<p>Emilio da Cunha aportou a salvamento &aacute;s terras de Santa
+Cruz, e logo que saltou em terra, desenvolveu a maior actividade, e
+procurou por todos os meios possiveis abreviar rapidamente os seus
+negocios, mas infelizmente os resultados n&atilde;o correspondiam
+aos seus esfor&ccedil;os e desejos, porque de todos os lados, e a
+todos os momentos estavam sempre a surgir empecilhos e
+embara&ccedil;os n&atilde;o prevenidos nem esperados. Havia
+j&aacute; um anno que Emilio da Cunha tinha chegado ao Brazil, e
+ainda os seus negocios n&atilde;o estavam mais adiantados, que no
+primeiro dia.</p>
+
+<p>Can&ccedil;ado, desanimado e affectado de melancolia, ou
+<i>spleen</i>, como lhe chamaria um nosso fiel alliado britannico,
+mortificado por um desassosego de que n&atilde;o podia explicar a
+causa, deliberou entregar os seus negocios e a
+liquida&ccedil;&atilde;o e arrecada&ccedil;&atilde;o da heranca a
+um procurador, e embarcar-se no primeiro paquete, que seguisse
+viagem para Portugal.</p>
+
+<p>Que se tinha por&eacute;m passado no Porto, durante este
+tempo?</p>
+
+<p>&Eacute; o que lhe vou contar, meu visinho, se ainda tiver
+paciencia para me ouvir, me disse D. Mafalda, e o que vou fazer
+&aacute;s minhas leitoras, se ellas quizerem ter a mesma paciencia
+de me l&ecirc;r.</p>
+
+<p>Roberto, separado de sua prima, aborrecido e dominado pela
+prigui&ccedil;a, fugiu um bello dia da casa onde se achava
+hospedado, foi procurar, e infelizmente encontrou, os seus antigos
+companheiros da vadiagem, que tinham <span class="pagenum"><a name=
+"pag_209" id="pag_209">[209]</a></span> quasi todos seguido a
+estrada do vicio e do crime. Arrastaram portanto comsigo o
+desventurado Roberto para esse despenhadeiro, na baixa do qual se
+encontra a escoria da sociedade. Roberto tinha por companheiros
+habituaes homens criminosos, de cara sinistra, maneiras brutaes,
+linguagem grosseira e vestidos esfarrapados, n'uma palavra
+mendigos, ou ladr&otilde;es. Adoptou-lhe portanto os costumes as
+maneiras e as maximas, e quem o visse emmagrecido pela
+devassid&atilde;o, com os vestidos em desalinho, os cabellos
+eri&ccedil;ados, tomal-o-ia por um bandido de trinta annos, quando
+elle n&atilde;o tinha mais que dezenove incompletos. Valentina,
+pelo contrario, tinha crescido em corpo, belleza, espirito, talento
+e virtudes.</p>
+
+<p>Conduzi-o do Porto ao Rio de Janeiro, e do Rio de Janeiro ao
+Porto, agora, querendo-me seguir, leval-o-hei a Lisboa, onde se
+passa um pequeno episodio d'esta muito veridica historia.</p>
+
+<p>De bordo d'um paquete inglez, chegado dos portos do Brazil,
+tinha desembarcado um passageiro, que se dirigiu a um hotel para
+descan&ccedil;ar, e ahi passar at&eacute; ao dia seguinte, em que
+devia seguir viagem para o Porto, na mala-posta, a fim de se vir
+unir a seus filhos, que estava ancioso por abra&ccedil;ar e apertar
+contra o cora&ccedil;&atilde;o. Julgo desnecessario o dizer-lhe,
+pois me parece j&aacute; o adivinhou, que este viajante era Emilio
+da Cunha, que se considerava feliz por pisar o solo da sua patria,
+que tanto amava, e onde estava tudo o que elle mais presava n'este
+mundo. Logo que no hotel lhe prepararam o quarto e tomou uma
+pequena refei&ccedil;&atilde;o, deitou-se e adormeceu, embalado por
+sonhos felizes.</p>
+
+<p>No dia seguinte ainda o sol mal tinha despontado, j&aacute;
+subia pela escada do hotel e entrava no corredor commum, sobre o
+qual deitavam uma duzia de portas de quartos, um homem de m&aacute;
+catadura. Era um d'estes <i>cavalheiros d'industria</i>, a qual
+consiste em entrar, sob qualquer pretexto, de manh&atilde; cedo nos
+hoteis, e aproveitar-se <span class="pagenum"><a name="pag_210" id=
+"pag_210">[210]</a></span> do primeiro quarto que encontram aberto
+para empalmarem destramente um relogio, ou uma mala, se o acordar
+do hospede ou locatario do quarto, os n&atilde;o obriga a
+retirar-se de m&atilde;os vazias, desculpando-se de que se tinham
+enganado na porta.</p>
+
+<p>No andar, vacillante, e como desconfiado, do <i>cavalheiro
+d'industria</i> se reconhecia facilmente, que era um novi&ccedil;o,
+que ia tentar os seus primeiros ensaios, ou que ia fazer a sua
+<i>primeira escamotea&ccedil;&atilde;o</i>.</p>
+
+<p>Depois de ter estado por bastante tempo em lucta com a sua
+consciencia, e irresoluto se devia ou n&atilde;o penetrar no quarto
+de que a porta se achava meia cerrada, metteu primeiro a
+cabe&ccedil;a, depois uma perna, e por ultimo todo o corpo; mas
+fazendo algum ruido com este ultimo movimento, o hospede, que
+estava deitado, acordou, e virando rapidamente a cabe&ccedil;a,
+Roberto, por que o <i>cavalheiro d'industria</i> era elle, encarou
+com seu tio Emilio da Cunha, ficou estupefacto e como fulminado por
+um raio.</p>
+
+<p>N'esse mesmo dia de tarde Emilio da Cunha tomou lugar no caminho
+de ferro at&eacute; ao Carregado, e ahi na mala-posta at&eacute; ao
+Porto, onde trinta e seis horas depois se achava nos bra&ccedil;os
+de sua querida filha Valentina, que immediatamente tinha ido
+procurar ao collegio.</p>
+
+<p>&mdash;Tu sahes j&aacute;, j&aacute; do collegio, minha
+filha&mdash;lhe diz Emilio da Cunha&mdash;para retomares, e nunca
+mais deixares, o teu lugar a meu lado.</p>
+
+<p>&mdash;Que felicidade&mdash;exclamou Valentina toda alegre e
+folgaz&atilde;&mdash;que vida socegada e feliz n&atilde;o vamos
+passar todos tres, n&atilde;o &eacute; assim meu querido pai, por
+que Roberto tambem vai para a nossa companhia?</p>
+
+<p>&mdash;Roberto, morreu&mdash;respondeu Emilio da Cunha com rosto
+severo, e voz soturna.&mdash;N&atilde;o quero que me falles mais
+n'elle, entendes Valentina?</p>
+
+<p>Valentina admirada da resposta, ainda fez diversas perguntas a
+seu pai, mas a todas ellas n&atilde;o obteve outra <span class=
+"pagenum"><a name="pag_211" id="pag_211">[211]</a></span> resposta,
+sen&atilde;o a completa prohibi&ccedil;&atilde;o de nunca mais lhe
+fallar em Roberto.</p>
+
+<p>Ainda por&eacute;m n&atilde;o tinha Emilio da Cunha soffrido
+todas as prova&ccedil;&otilde;es, que Deus lhe destin&aacute;ra.
+Haviam decorrido seis mezes desde que tinha chegado do Rio de
+Janeiro, quando recebeu a participa&ccedil;&atilde;o de que o
+procurador, que fic&aacute;ra encarregado da
+liquida&ccedil;&atilde;o e arrecada&ccedil;&atilde;o da
+heran&ccedil;a, tinha cumprido a sua miss&atilde;o, mas que, depois
+de ter arrecadado a somma importante, que produzira a mesma
+heran&ccedil;a, tinha desapparecido, sem que as pesquizas feitas
+para se descobrir o lugar de seu refugio, tivessem dado o desejado
+resultado.</p>
+
+<p>Emilio da Cunha ficou completamente arruinado por este facto,
+porque, impaciente por satisfazer os credores de seu irm&atilde;o,
+pai de Roberto, tinha vendido tudo o que possuia em Portugal.</p>
+
+<p>O golpe foi forte, mas ainda assim n&atilde;o o foi bastante
+para poder subjugar a coragem do bom e respeitavel velho,
+mostrando-se Valentina n'esta conjunctura, digna filha d'um tal
+pai.</p>
+
+<p>Renunciando heroicamente &aacute;s commodidades da vida, em que
+at&eacute; ent&atilde;o tinham vivido, foram habitar, em um bairro
+mais afastado da cidade, uma pequena casa, na qual soffreram
+priva&ccedil;&otilde;es diarias e penosas, tratando sempre d'obter
+alguns recursos para a sua subsistencia, mesmo em trabalhos mal
+retribuidos.</p>
+
+<p>Valentina, que Deus tinha dotado de bom gosto, e bastante
+habilidade, principiou a trabalhar para uma modista, a qual
+satisfeita com os seus primeiros trabalhos, lh'os deu em seguida
+mais delicados e por isso melhor retribuidos, o que foi para elles
+uma grande felicidade, e que assim lhes proporcionou meios licitos
+de pagarem regularmente o seu aluguel, e de j&aacute; n&atilde;o
+receiarem tanto nem o frio, nem a fome.</p>
+
+<p>Valentina ia entregar a sua obra &aacute; modista, a qual
+satisfeita com ella lhe dava sempre mais, e muitas vezes
+<span class="pagenum"><a name="pag_212" id=
+"pag_212">[212]</a></span> mais do que a que ella podia fazer. A
+uma crise terrivel tinha-se seguido uma abastan&ccedil;a mediocre,
+que era por isso uma felicidade mais agradavel e estimada.</p>
+
+<p>Decorreram assim dous annos.</p>
+
+<p>Um dia, em que Valentina estava s&oacute;, lhe entregou o
+carteiro uma carta, e qual n&atilde;o foi a sua surpreza quando
+reconheceu a letra de seu primo.</p>
+
+<p>Roberto contava n'esta carta tudo o que tinha passado, desde o
+momento em que o vimos no hotel em Lisboa preparando-se para
+<i>escamotear</i> seu tio. Fulminado pela vista d'Emilio da Cunha
+tinha recobrado os sentidos para na fuga se salvar &aacute;s
+impreca&ccedil;&otilde;es d'indigna&ccedil;&atilde;o do velho.
+Chegou offegante ao Terreiro do Pa&ccedil;o, onde se sentou, ou
+melhor se deixou cahir n'um dos assentos de pedra, que alli se
+acham, e assim esteve por muito tempo, com a cabe&ccedil;a
+escondida entre as m&atilde;os, mergulhado em acerbas e crueis
+reflex&otilde;es.</p>
+
+<p>Experimentou ou sentiu dentro em si uma completa
+revolu&ccedil;&atilde;o; o seu procedimento indigno e infame se lhe
+apresentou em toda a sua nudez e hediondez; teve horror de si mesmo
+e por um instante pensou em suicidar-se; mas com o arrependimento
+entraram-lhe no cora&ccedil;&atilde;o sentimentos mais generosos.
+Lembrou-se que, tendo d'ora avante uma conducta honrosa e illibada,
+ainda poderia chegar a fazer esquecer os seus erros passados, e
+reanimado por esta feliz lembran&ccedil;a, que o seu anjo bom lhe
+tinha suggerido, levantou-se resoluto a trabalhar para a sua
+rehabilita&ccedil;&atilde;o, e a n&atilde;o descan&ccedil;ar sem a
+ter chegado a alcan&ccedil;ar.</p>
+
+<p>A occasi&atilde;o favoravel n&atilde;o se fez esperar muito, por
+que um capit&atilde;o d'um navio mercante, que estava apparelhando
+para a California, lhe concedeu passagem gratuita, mediante os seus
+servi&ccedil;os e o seu trabalho na viagem.</p>
+
+<p>Aportou Roberto &aacute; California e sorrindo-lhe a fortuna, em
+lugar de se embrenhar no jogo, arriscando assim <span class=
+"pagenum"><a name="pag_213" id="pag_213">[213]</a></span> as suas
+economias, fundou um estabelecimento, que ia prosperando, faltando
+unicamente para a sua felicidade se tornar completa, o obter o
+perd&atilde;o de seu tio, e a esperan&ccedil;a de poder tornar a
+v&ecirc;r sua prima, cuja imagem tinha constantemente na
+id&eacute;a, e o sustentava e animava n'esta nova estrada de
+trabalho e ordem, de que n&atilde;o pensava mais em se desviar.</p>
+
+<p>Eis aqui em resumo o que continha a carta que Roberto dirigiu a
+sua prima.</p>
+
+<p>Valentina muito commovida, mas gostosa e alegre por ter de dar
+t&atilde;o grata noticia a seu querido pai, esperava anciosa a sua
+volta.</p>
+
+<p>Mal lhe deu tempo de sentar-se, ia logo a contar-lhe o
+succedido, mas, Emilio da Cunha a deteve, apenas tinha pronunciado
+a primeira palavra. Valentina insistiu, mas o velho levantou-se com
+a maldi&ccedil;&atilde;o nos labios; ella lan&ccedil;ou-se-lhe de
+joelhos aos p&eacute;s, chorou, supplicou, mas elle a tudo ficou
+impassivel e inflexivel.</p>
+
+<p>Valentina consternada respondeu &aacute; carta de seu primo
+descrevendo-lhe o succedido, e a inutilidade de seus
+esfor&ccedil;os; mas para o n&atilde;o desanimar promettia-lhe de
+os renovar, e que os repetiria at&eacute; que chegasse a mover seu
+pai &aacute; commisera&ccedil;&atilde;o e piedade, de que
+n&atilde;o desesperava. A carta continha tambem a
+descrip&ccedil;&atilde;o de todos os successos, que se tinham dado
+desde que Roberto tinha desapparecido; a decadencia de Emilio da
+Cunha, a pobresa em que tinham vivido em quanto que o seu trabalho
+mal retribuido lhe dava parcos meios de subsistencia, e o
+melhoramento de sua posi&ccedil;&atilde;o, finalmente continha
+tambem algumas palavras d'exhorta&ccedil;&atilde;o e amisade.</p>
+
+<p>A situa&ccedil;&atilde;o de Emilio da Cunha e sua filha soffreu,
+passado algum tempo, uma modifica&ccedil;&atilde;o muito mais
+inesperada, do que a que se havia seguido ao aniquilamento da sua
+fortuna.</p>
+
+<p>Emilio da Cunha foi chamado a casa d'um capitalista, aonde lhe
+entregaram 20 contos de reis de que um anonymo <span class=
+"pagenum"><a name="pag_214" id="pag_214">[214]</a></span> lhe
+mandava dar posse a titulo de restitui&ccedil;&atilde;o. D'onde
+tinha vindo este dinheiro?</p>
+
+<p>Emilio da Cunha pensou muito naturalmente, que o procurador que
+o tinha roubado, mortificado pelo remorso, e querendo socegar um
+pouco a sua consciencia, lhe tinha mandado entregar aquella
+quantia, como uma parte da restitui&ccedil;&atilde;o, que lhe tinha
+a fazer. Valentina estava muito longe de concordar com a
+opini&atilde;o de seu pai, mas nem por isso teve a franqueza de
+lh'o declarar, nem lhe dar a entender qual era a sua.</p>
+
+<p>Qual das duas opini&otilde;es era a verdadeira, &eacute; o que
+nos n&atilde;o importa saber, o que se sabe &eacute; que a
+abastan&ccedil;a ou decencia tinha reentrado em casa d'Emilio da
+Cunha, e as id&eacute;as do digno e honrado velho, foram-se
+tornando mais brandas sob a influencia do bem-estar.</p>
+
+<p>Foi elle proprio que em um dia fallou primeiro a Valentina em
+seu primo Roberto, e ella n&atilde;o perdendo esta occasi&atilde;o
+t&atilde;o propicia, que se lhe offerecia, advogou por muito tempo,
+com calor e eloquencia, a causa de seu primo. Emilio da Cunha
+deixou-a fallar como e todo o tempo que ella quiz, sem lhe dar a
+mais pequena resposta, nem lhe replicar a cousa alguma.</p>
+
+<p>Estaria ou n&atilde;o convencido?</p>
+
+<p>A pergunta n&atilde;o tinha muito facil resposta, mas pelo menos
+tinha ouvido sem colera e com socego as allega&ccedil;&otilde;es a
+favor de seu sobrinho, o que j&aacute; era um bom indicio da
+mudan&ccedil;a que n'elle se havia operado.</p>
+
+<p>Valentina, contente e satisfeita com o resultado do seu primeiro
+commettimento, escreveu immediatamente a seu primo informando-o do
+que havia, e a esta carta seguiram-se outras muitas, noticiando-lhe
+sempre algum novo passo dado na estrada da
+reconcilia&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Aconteceu um dia que Emilio da Cunha, no meio d'uma conversa,
+que tinha seguido n'um objecto mui diverso, parasse
+precipitadamente para dizer a sua filha:</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_215" id=
+"pag_215">[215]</a></span>
+
+<p>&mdash;Tu acreditas sinceramente no arrependimento de teu
+primo?</p>
+
+<p>&mdash;Oh! sim, meu pai&mdash;se apressou em responder
+Valentina.</p>
+
+<p>&mdash;Queira Deus que te n&atilde;o enganes.</p>
+
+<p>Um outro dia acordou d'uma pequena sesta, que se tinha seguido
+ao jantar, gritando, como se continuasse uma conversa
+come&ccedil;ada:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! se Roberto estivesse arrependido realmente, como tu o
+supp&otilde;es, com que prazer e alegria........</p>
+
+<p>N&atilde;o terminou a phrase, mas a express&atilde;o benevola da
+physionomia de Emilio da Cunha indicou a Valentina o complemento da
+id&eacute;a.</p>
+
+<p>Isto foi objecto para uma ultima carta a Roberto, a que elle
+respondeu, e fechou-se a correspondencia.</p>
+
+<p>Uma manh&atilde; Emilio da Cunha achava-se com Valentina em uma
+pequena, mas elegante sala, que deitava sobre o jardim&mdash;por
+que elles tinham deixado a sua pobre morada, trocando-a por outra
+mais decente&mdash;Emilio da Cunha sentado junto d'uma mesa, sobre
+a qual se achava uma magnifica jarra de fl&ocirc;res, olhava
+sorrindo para Valentina, que, de p&eacute;, junto d'um
+a&ccedil;afate em que estavam dous pombinhos, reprehendia,
+acariciando-o, um d'elles:</p>
+
+<p>&mdash;Eis-te aqui, meu bello fugitivo&mdash;lhe dizia
+ella&mdash;pensavas que era s&oacute; voltar para te ser concedido
+o perd&atilde;o, depois de me teres feito soffrer com a tua
+ausencia e ingratid&atilde;o? Muito bem; visto que o teu regresso
+prova um arrependimento sincero, perd&ocirc;o com prazer;
+n&atilde;o &eacute; assim, paisinho&mdash;acrescentou ella com voz
+meiga e levantando os lindos olhos com uma express&atilde;o de
+candura para Emilio da Cunha&mdash;que se devem receber os filhos
+prodigos, que regressam arrependidos e contrictos?</p>
+
+<p>Emilio da Cunha n&atilde;o deu uma palavra, mas rolou-lhe uma
+lagrima sobre a face.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_216" id=
+"pag_216">[216]</a></span>
+
+<p>N'este momento surprehendeu elle um olhar d'intelligencia, que
+Valentina dirigia a alguem, que estava pelo lado detraz da cadeira
+em que estava sentado. Voltou-se rapidamente, e soltando um grito,
+ouviu-se o nome de Roberto.</p>
+
+<p>Era Roberto realmente. A scena que se seguiu o meu caro visinho
+melhor a poder&aacute; imaginar, do que eu pintar-lh'a, ou
+descrever-lh'a.</p>
+
+<p>Roberto voltava honrado e rico. Julgo que j&aacute; comprehendeu
+que, para soccorrer seu tio, elle concebeu e executou o plano da
+restitui&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>D. Mafalda calou-se. Parecia esperar, que eu, convencido pela
+sua historia, sanccionasse com o meu voto a doutrina, que ella
+tinha expendido antes de come&ccedil;ar.</p>
+
+<p>&mdash;Ah!&mdash;lhe disse eu com admira&ccedil;&atilde;o
+sincera&mdash;v. exc.&ordf; podia facilmente escrever um
+romance.</p>
+
+<p>&mdash;Isso quer dizer que me faz a honra de julgar esta minha
+historia como produc&ccedil;&atilde;o da minha
+imagina&ccedil;&atilde;o e phantasia?</p>
+
+<p>Limitei-me a inclinar-me respeitosamenie, e aqui terminou a
+nossa discuss&atilde;o.</p>
+
+<p>No dia seguinte D. Mafalda offereceu-se para me apresentar a um
+seu sobrinho, proprietario d'um estabelecimento industrial
+importante nos suburbios do Porto. Aceitei gostosa e promptamente.
+Fui recebido com extrema bondade e franqueza. O sobrinho de D.
+Mafalda gosava uma felicidade digna de ser invejada; era casado com
+uma mulher, que era um anjo de belleza e bondade, e tinha um filho
+o mais lindo e traquinas que se p&oacute;de imaginar; o seu
+estabelecimento florescia e prosperava; o seu nome figurava entre
+os principaes e os mais honrados do mundo commercial e industrial,
+n'uma palavra nada faltava &aacute; sua gloria, fortuna, e
+felicidade domestica.</p>
+
+<p>&mdash;Que pensa de meu sobrinho?&mdash;me perguntou D. Mafalda,
+quando nos retiramos.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_217" id=
+"pag_217">[217]</a></span>
+
+<p>&mdash;Ah! minha senhora, nada mais ambiciono do que poder
+imital-o.</p>
+
+<p>&mdash;Pois aquelle que viu &eacute; o Roberto da minha
+historia.</p>
+
+<p>Recolhi-me a casa fazendo para mim as seguintes
+reflex&otilde;es: Que a regenera&ccedil;&atilde;o do homem pelo
+arrependimento n&atilde;o &eacute; utopia, e que a sociedade e a
+sua organisa&ccedil;&atilde;o &eacute; que s&atilde;o as causas
+principaes, que occasionam que muitos de seus membros n&atilde;o se
+regenerem, por lhe embargarem ou matarem logo algumas centelhas de
+virtude, que ainda tinham no cora&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Pensem, e ver&atilde;o o corollario que tiram.</p>
+
+<p class="centrado">FIM.</p>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag_219" id=
+"pag_219">[219]</a></span>
+
+<hr>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<h1>A GRATID&Atilde;O.</h1>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<hr>
+<span class="pagenum"><a name="pag_221" id=
+"pag_221">[221]</a></span>
+<div class="corpo">
+
+<h1>A GRATID&Atilde;O.</h1>
+
+<h2 style="font-size: 0.8em">ROMANCE.</h2>
+
+<h2>I.</h2>
+
+<p>Estavamos nos ultimos dias de Dezembro de 1846. Uma camada mui
+espessa de neve cobria o s&oacute;lo. O ar, sombrio e carregado,
+indicava que mais neve n&atilde;o tardava a cahir. Os ramos
+n&uacute;s das arvores dos montes tremiam soprados pelo vento norte
+gelado. Estava tudo n'um perfeito socego, e tristeza; nem o mais
+leve murmurio se ouvia.</p>
+
+<p>Uma velha, e uma criancinha, apesar do rigor do frio, seguiam
+com difficuldade o caminho, que da serra de Vallongo conduz a S.
+Cosme. A crian&ccedil;a, d'espa&ccedil;o a espa&ccedil;o, soprava
+&aacute;s m&atilde;osinhas inteiri&ccedil;adas pelo frio, e
+n&atilde;o se podendo sustentar sobre os p&eacute;s, que tinha
+inchados pelas frieiras, caminhava vacillante; mas vencendo todos
+os obstaculos, com uma energia superior &aacute; sua idade,
+<span class="pagenum"><a name="pag_222" id=
+"pag_222">[222]</a></span> tomava galhardamente o seu lugar ao lado
+da velha. Esta parecia ter sessenta annos. Estava corcovada mais
+pela miseria, do que pela idade, e tinha no rosto profundas rugas.
+Pelo modo como andava, e tateava o caminho com a mul&ecirc;ta,
+via-se que era cega.</p>
+
+<p>&mdash;Aonde vamos n&oacute;s, Rosa?&mdash;perguntou a velha
+&aacute; rapariguinha.</p>
+
+<p>&mdash;Em meio caminho, minha av&oacute;.</p>
+
+<p>&mdash;Jesus Senhor, valei-me,&mdash;disse a cega,&mdash;pois
+que as minhas pobres pernas j&aacute; est&atilde;o can&ccedil;adas,
+e parece-me que n&atilde;o chego ao fim da jornada.</p>
+
+<p>&mdash;Encoste-se ao meu hombro, av&oacute;sinha, que eu
+n&atilde;o estou can&ccedil;ada.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, n&atilde;o. Tudo est&aacute; acabado. Eu
+morro aqui, Rosinha. Tenho muita fome, e muito frio para vencer o
+caminho at&eacute; S. Cosme. Ai meu Pai do c&eacute;o, que me sinto
+desfallecer...</p>
+
+<p>Fez um gesto de desespero, e a cega cahiu sobre o caminho.</p>
+
+<p>&mdash;Av&oacute;sinha, av&oacute;sinha,&mdash;gritava Rosa
+assustada,&mdash;volte a si, que lh'o pe&ccedil;o eu; mais um
+pequeno esfor&ccedil;o e chegaremos a S. Cosme.</p>
+
+<p>A cega n&atilde;o deu accordo de si.</p>
+
+<p>&mdash;Av&oacute;sinha,&mdash;continuou Rosa chorando, e
+cobrindo-a de beijos,&mdash;se me abandona, que hei-de fazer? Quer
+que eu morra de paix&atilde;o?</p>
+
+<p>&mdash;Morrer, tu, minha Rosinha,&mdash;disse a cega
+levantando-se.&mdash;Oh! meu Deus, n&atilde;o permittaes tal.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o levante-se que lh'o pe&ccedil;o eu; se fica
+aqui mais tempo o frio matal-a-ia. Em S. Cosme nos aqueceremos.</p>
+
+<p>&mdash;Ai de mim,&mdash;disse a cega, levantando-se ajudada de
+Rosa,&mdash;e a snr.&ordf; D. Thereza receber-nos-ha?</p>
+
+<p>&mdash;Ha-de receber sim, minha av&oacute;sinha, eu lh'o
+afian&ccedil;o. N&atilde;o creio que a boa snr.&ordf; D. Thereza
+nos despe&ccedil;a. Quando eu lhe ia vender fl&ocirc;res
+silvestres, que apanhava <span class="pagenum"><a name="pag_223"
+id="pag_223">[223]</a></span> no monte, abra&ccedil;ava-me, e
+dizia-me muitas vezes, que desejava que eu fosse sua filha.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o duvido que ella te receba, porque &eacute;s
+muito linda e agradavel; agora o que eu n&atilde;o creio &eacute;
+que me receba a mim, que sou uma velha e cega, que para nada
+sirvo.</p>
+
+<p>&mdash;Se assim acontecer, voltaremos &aacute; nossa
+ald&ecirc;a, e os bons lavradores, que conheceram meus paes,
+ter&atilde;o piedade de n&oacute;s, soccorrer-nos-h&atilde;o, e eu
+trabalharei para lhes pagar, o que elles vos derem.</p>
+
+<p>A av&oacute;, muito commovida, apertou ao cora&ccedil;&atilde;o
+a pequena, e murmurou palavras de ternura e gratid&atilde;o; e
+reanimada por esta felicidade, que Rosa lhe tinha feito
+experimentar, retomou com passo mais firme o caminho de S.
+Cosme.</p>
+
+<p>O vento soprava j&aacute; com mais for&ccedil;a; o ar tinha
+escurecido mais, e pequenos flocos de neve se viam voltejar no ar.
+Rosa, tiritando com frio, fazia esfor&ccedil;os sobrehumanos para
+poder andar, e cada passo, que a pobre cega dava, era acompanhado
+d'um suspiro surdo. O vento augmentou, e os flocos de neve, que ao
+principio eram raros, cahiam em maior abundancia.</p>
+
+<p>&mdash;Rosinha,&mdash;disse a cega,&mdash;bem queria andar, mas
+n&atilde;o posso; deixa-me ficar.</p>
+
+<p>&mdash;Av&oacute;sinha, eu j&aacute; avisto a torre da igreja de
+S. Cosme.</p>
+
+<p>&mdash;Est&aacute;s bem certa d'isso?</p>
+
+<p>&mdash;Eu n&atilde;o queria mentir...</p>
+
+<p>&mdash;Vamos andando. Permitta Deus que eu possa vencer o
+caminho.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o tenha receio de me can&ccedil;ar, minha
+av&oacute;; sou forte, e n&atilde;o estou fatigada. Encoste-se ao
+meu hombro.</p>
+
+<p>&mdash;Meu querido anjinho, que Deus te pague tudo o que me
+fazes.</p>
+
+<p>Chegaram finalmente a S. Cosme, &aacute; quinta de D.
+<span class="pagenum"><a name="pag_224" id=
+"pag_224">[224]</a></span> Thereza de Sousa, depois de mil
+esfor&ccedil;os, que can&ccedil;aram completamente av&oacute; e
+neta.</p>
+
+<p>Era tempo; mais um instante e teriam cahido ambas no
+ch&atilde;o. Entrando na cozinha da casa, o calor produziu-lhes uma
+reac&ccedil;&atilde;o t&atilde;o violenta, que desfalleceram.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_225" id=
+"pag_225">[225]</a></span>
+
+<h2>II.</h2>
+
+<p>D. Thereza de Sousa, e mais algumas visinhas, que se tinham
+reunido para serandar, acercaram-se das duas infelizes. Depois de
+lhe ter ministrado todos os cuidados necessarios para as reanimar,
+como o seu principal mal era a fome, mandou-lhe dar um bom caldo, e
+acommodal-as a um dos cantos do lar, em que ardia uma grande
+fogueira.</p>
+
+<p>&mdash;Agora, Rosinha,&mdash;disse D. Thereza,
+ameigando-a,&mdash;conta-nos, como a esta hora, e com este tempo
+vieste at&eacute; aqui com esta boa mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Desculpai, minha boa senhora,&mdash;disse a
+cega,&mdash;Rosinha &eacute; minha neta.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, snr.&ordf; D. Thereza, &eacute; minha av&oacute;, de
+quem tantas vezes tenho fallado a v. exc.&ordf; e...</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_226" id=
+"pag_226">[226]</a></span>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o porque n&atilde;o continuas?&mdash;lhe
+replicou D. Thereza.</p>
+
+<p>A pequena levantou para D. Thereza os seus lindos olhos azues,
+com uma tal express&atilde;o de supplica, que a commoveu.</p>
+
+<p>&mdash;Falla, falla, minha menina. N&atilde;o tenhas receio.
+Queres pedir-me alguma cousa, n&atilde;o &eacute; assim?</p>
+
+<p>&mdash;V&ecirc;de, minha boa senhora,&mdash;disse Rosa, contendo
+as lagrimas a custo,&mdash;eu e minha av&oacute;, somos muito
+desgra&ccedil;adas. Meu pai, que era rachador de lenha, feriu-se
+pelo S. Jo&atilde;o em uma perna com o machado. Minha m&atilde;i
+mandou-me chamar a toda a pressa o snr. Pereira, que &eacute; um
+homem muito entendido. Fui, o mais depressa que pude, e quando
+cheguei a casa do snr. Pereira estava elle para sahir, e n&atilde;o
+queria vir commigo para n&atilde;o torcer o seu caminho; mas eu
+tanto lhe pedi, que sempre me acompanhou. Quando viu a perna a meu
+pai, logo disse, que estava muito mal, e que n&atilde;o promettia
+cural-o. Duas semanas depois veio &aacute; ferida uma molestia, de
+que me n&atilde;o lembra agora o nome, e meu pai morreu.</p>
+
+<p>Rosa calou-se chorando, e a cega tambem solu&ccedil;ava. D.
+Thereza abra&ccedil;ou a rapariguinha, apertou a m&atilde;o
+&aacute; pobre velha, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Para hoje j&aacute; &eacute; de mais,
+&aacute;manh&atilde;...</p>
+
+<p>&mdash;Perd&ocirc;e-me, snr.&ordf; D. Thereza,&mdash;replicou
+Rosa,&mdash;mas &eacute; melhor que eu termine hoje,&mdash;e
+continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Havia um mez que meu pai tinha morrido, quando minha
+m&atilde;i cahiu de cama; a febre n&atilde;o a deixava. Eu ia aos
+campos apanhar as hervas, que minha av&oacute; me ensinava, para
+lhe fazer remedios, mas nada sarava minha m&atilde;i. Um dia
+abra&ccedil;ou-me e disse-me:</p>
+
+<p>&laquo;Minha pobre Rosinha, eu vou unir-me com teu pai, mas que
+ser&aacute; de ti?</p>
+
+<p>Trabalharei, lhe respondi.</p>
+
+<p>&Eacute;s muito nova para isso; mas entretanto rogarei muito a
+Deus para que te receba sob a sua santa guarda, <span class=
+"pagenum"><a name="pag_227" id="pag_227">[227]</a></span> e te
+n&atilde;o abandone. Nunca desampares tua av&oacute;, s&ecirc;-lhe
+obediente e carinhosa..., ainda queria fallar, mas n&atilde;o
+p&ocirc;de, abra&ccedil;ou-me e &aacute; av&oacute;sinha, e
+expirou.&raquo;</p>
+
+<p>Desde ent&atilde;o alguns rachadores, amigos de meu pai, nos
+recolheram e soccorreram; mas como n&atilde;o s&atilde;o ricos, e
+precisam de mudar de terra por n&atilde;o terem aqui que fazer,
+lembrei-me de vir pedir agasalho &aacute; senhora, pois que, sendo
+t&atilde;o boa, n&atilde;o deixaria de nos recolher, que somos
+t&atilde;o desgra&ccedil;adas. Sou fraquinha, mas posso trabalhar.
+Sei fiar, e come&ccedil;o a lavar. Guardarei os bois, e os
+carneiros e tratarei do gallinheiro. Minha av&oacute; tambem fia
+muito bem e estou muito certa, que a ha-de satisfazer com o seu
+trabalho. Oh! senhora&mdash;disse Rosa ajoelhando-se aos p&eacute;s
+de D. Thereza&mdash;n&atilde;o nos abandoneis; satisfazemos-nos com
+pouco, e faremos todo o possivel para vos agradar, e rogaremos
+continuamente a Deus pela vossa vida e felicidade.</p>
+
+<p>D. Thereza commoveu-se tanto, com a singeleza e candura d'esta
+supplica, que duas lagrimas lhe brilharam nos olhos.</p>
+
+<p>&mdash;Levanta-te, Rosinha, &aacute;manh&atilde; fallaremos
+n'isso. Tu e tua av&oacute; ide-vos deitar. Sempre te direi, que
+&eacute;s muito linda e corajosa, para que se n&atilde;o tenha
+piedade de ti.</p>
+
+<p>Rosa beijou com reconhecimento as m&atilde;os de D. Thereza, e a
+cega encheu-a de ben&ccedil;&atilde;os. D. Thereza mandou-as
+conduzir a um pequeno quarto, limpo e quente, em que um somno
+reparador lhe reanimou as for&ccedil;as.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_228" id=
+"pag_228">[228]</a></span>
+
+<h2>III.</h2>
+
+<p>Ainda mal a aurora tinha raiado, j&aacute; Rosa estava a
+p&eacute;. Fatigada, como estava, da jornada do dia antecedente,
+custou-lhe muito a levantar-se cedo, mas fez um esfor&ccedil;o para
+mostrar os seus desejos a D. Thereza.</p>
+
+<p>Arranjou-se, o melhor que p&ocirc;de, com os seus velhos
+vestidos, e, depois de ter dirigido mentalmente a Deus uma
+ora&ccedil;&atilde;o fervente, desceu ao andar terreo.</p>
+
+<p>&mdash;J&aacute; a p&eacute;,&mdash;lhe disse alegremente D.
+Thereza.</p>
+
+<p>&mdash;Estava t&atilde;o can&ccedil;ada do caminho d'hontem, que
+receei, j&aacute; fosse tarde; mas gra&ccedil;as aos vossos
+beneficios, minha senhora, j&aacute; estou prompta, para o que me
+determinardes.</p>
+
+<p>&mdash;E tua av&oacute;?</p>
+
+<p>&mdash;Ainda dorme. &Eacute; t&atilde;o velhinha e t&atilde;o
+doente, que vos pe&ccedil;o tenhaes piedade d'ella.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_229" id=
+"pag_229">[229]</a></span>
+
+<p>Rosa ergueu as m&atilde;os, e esperou tremula a resposta da dona
+da quinta.</p>
+
+<p>D. Thereza de Sousa era, o que vulgarmente se chama, uma mulher
+de casa. Tendo viuvado ha doze annos, geria com tanto acerto e
+economia as suas propriedades, que a sua fortuna tinha augmentado
+consideravelmente.</p>
+
+<p>Os visinhos do lugar diziam que, pela avareza e mesquinharia,
+&eacute; que tinha alcan&ccedil;ado a fortuna, que possuia, pois
+que em qualquer cousa sempre tinha que diminuir, e acrescentavam
+ironicamente, que, dando <i>tantas</i> esmolas, o dinheiro nunca
+lhe havia de faltar.</p>
+
+<p>Fosse como fosse, o que sei &eacute;, que D. Thereza
+sensibilisou-se tanto com a historia de Rosinha, que, quando ella
+ergueu as m&atilde;os, e a viu com os olhos arrasados de lagrimas,
+esperando a resposta, disse para si; que a uma supplica t&atilde;o
+humilde e cheia de tanto amor filial, era impossivel resistir.</p>
+
+<p>N'este momento quem accusasse de avarenta D. Thereza de Sousa,
+seria injusto com ella, por que, recolhendo a av&oacute; e neta,
+tomava um encargo bastante pesado. Rosa era ainda muito pequena, e
+de mais a mais muito fraquinha, para poder ter utilidade real! A
+pobre crian&ccedil;a estava a fazer dez annos, mas era muito
+franzina e delicada. O seu rosto, cercado de compridos
+carac&oacute;es louros, e animado com uns grandes olhos azues
+escuros, inspirava sympathia. Tinha as maneiras delicadas, e a
+linguagem menos rude, que a dos camponezes dos arredores. Esta
+distinc&ccedil;&atilde;o n'uma crian&ccedil;a, ainda t&atilde;o
+tenra como Rosa, nascia da sua intelligencia mui desenvolvida.</p>
+
+<p>A m&atilde;i, logo que ella teve tino para se n&atilde;o perder
+nos caminhos, mandava-a apanhar fl&ocirc;res silvestres, que ia
+vender &aacute;s familias mais abastadas das ald&eacute;as
+visinhas. Como Rosa era muito linda as senhoras das casas
+acolhiam-na muito bem, divertiam-se com ella, ouvindo-a
+<span class="pagenum"><a name="pag_230" id=
+"pag_230">[230]</a></span> tagarelar, e demoravam-na muitas vezes a
+brincar com as suas filhas.</p>
+
+<p>Sendo muito viva tomou facilmente as maneiras, e modo de fallar,
+das pessoas com quem tratava, de modo que os rachadores
+denominavam-na a fidalguinha.</p>
+
+<p>Se tinha adquirido maneiras delicadas, n&atilde;o havia perdido
+as boas qualidades, de que era dotada; humilde e carinhosa para
+todos, quem a conhecia adorava-a.</p>
+
+<p>O que a mim, minhas caras leitoras, me levou tanto tempo a
+dizer, passou n'um instante pela id&eacute;a a D. Thereza de Sousa,
+e fixou-lhe a resolu&ccedil;&atilde;o de recolher a av&oacute; e a
+neta.</p>
+
+<p>&mdash;Vou-te mandar vestir uma roupinha melhor,
+Rosinha,&mdash;lhe disse D. Thereza, animando-a com uma brandura,
+que lhe n&atilde;o era habitual,&mdash;porque espero has-de ser uma
+boa criada, servi&ccedil;al e trabalhadeira.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o fico em casa de v. exc.&ordf;?&mdash;disse
+Rosa, n&atilde;o podendo crer em tanta ventura.</p>
+
+<p>&mdash;Ficas, sim, e parece-me que nunca me dar&aacute;s motivo
+para me arrepender do que hoje fa&ccedil;o.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! minha senhora, estai certa que me esfor&ccedil;arei o
+mais possivel, para vos agradar e satisfazer os vossos desejos.</p>
+
+<p>&mdash;Assim o espero. Anda vestir-te.</p>
+
+<p>&mdash;Desculpe-me, senhora. Mas minha av&oacute;...&mdash;e
+Rosa parou corando.</p>
+
+<p>D. Thereza, querendo experimentar a sua protegida, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Que queres a tua av&oacute;?</p>
+
+<p>&mdash;Ella tambem fica?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o. Tua av&oacute; &eacute; cega e velha, para
+nada serve, e eu n&atilde;o sou rica bastante, para me encarregar
+da sustenta&ccedil;&atilde;o de duas pessoas.</p>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o, senhora, agrade&ccedil;o os vossos
+beneficios, e todo o bem que me querieis fazer, mas n&atilde;o
+posso abandonar a minha av&oacute;sinha, que morreria de
+paix&atilde;o.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_231" id=
+"pag_231">[231]</a></span>
+
+<p>Vou ajudal-a a levantar-se, e regressaremos &agrave; nossa
+ald&ecirc;a.</p>
+
+<p>&mdash;E que has-de fazer na tua ald&ecirc;a?</p>
+
+<p>&mdash;Irei humildemente pedir a um mestre tamanqueiro um
+pequeno cantinho da sua casa, que estou certa me n&atilde;o
+negar&aacute;. N&atilde;o sou robusta, mas tenho coragem, por isso
+trabalharei nos socos durante o inverno. Quando vier o ver&atilde;o
+irei vender fl&ocirc;res e fructos, como os demais annos, e como
+eu, e a pobre cega, de pouco precisamos para viver, parece-me que
+ganharei para ambas. Logo que chegue a primavera n&atilde;o seremos
+pesadas a ninguem...</p>
+
+<p>D. Thereza apertou Rosa nos bra&ccedil;os, e chegou-a ao
+cora&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Basta, Rosinha, tu &eacute;s um anjo do c&eacute;o, que
+Deus enviou a minha casa para me trazer a felicidade. Vai-te
+vestir, e depois ir&aacute;s participar a tua av&oacute;, que ambas
+ficaes para sempre em minha casa.</p>
+
+<p>Descrever a alegria da av&oacute;, quando soube a decis&atilde;o
+de D. Thereza, &eacute;-me impossivel fazel-o, minhas caras
+leitoras; v&oacute;s, que deveis ser dotadas de bom e piedoso
+cora&ccedil;&atilde;o, melhor a podereis imaginar. Abra&ccedil;ava
+Rosa, agradecia a D. Thereza com um reconhecimento mui sincero,
+promettendo fazer todo possivel para ser menos pesada &aacute; sua
+bemfeitora. Rosa nada dizia, mas a eloquencia de seu olhar provava
+a D. Thereza a sua gratid&atilde;o.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_232" id=
+"pag_232">[232]</a></span>
+
+<h2>IV.</h2>
+
+<p>Rosa, ainda que novinha e de fraca organisa&ccedil;&atilde;o,
+tornou-se util em casa. Incansavel no trabalho, de manh&atilde;
+cedo tratava da capoeira e do pombal; depois ia guardar os bois e
+os carneiros, e, em quanto que os vigiava, fiava na sua roca.</p>
+
+<p>Ao jantar, quando recolhia a casa, tinha sempre que fazer. Era
+um gosto v&ecirc;r esta crian&ccedil;a t&atilde;o tenrinha arrumar,
+limpar e lustrar os moveis, como o faria a melhor mulher de
+casa.</p>
+
+<p>D. Thereza cada vez mais estimava a sua protegida, e
+felicitava-se pela ter recolhido. A av&oacute; tambem n&atilde;o
+era inutil. A cegueira n&atilde;o a impossibilitava de fiar desde
+pela manh&atilde; at&eacute; &aacute; noite, e o seu trabalho era
+perfeito. Tudo corria bem, e todos andavam contentes e
+satisfeitos.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_233" id=
+"pag_233">[233]</a></span>
+
+<p>Chegou a primavera. Come&ccedil;aram a desabrochar com o tepido
+s&ocirc;pro d'esta esta&ccedil;&atilde;o, e mostraram as suas
+galas, a bella pervinca azul, o narciso de cor&ocirc;a d'ouro, o
+lyrio de campanas odoriferas, e a bella violeta de calices
+perfumados.</p>
+
+<p>Rosa, quando ia &aacute; serra, era para ella um dia d'alegria.
+Procurava os caminhos tapetados de musgo, os regatos, que tantas
+vezes tinha passado, as fontes escondidas pelas
+&ccedil;ar&ccedil;as, e as arvores, sob as quaes tinha encontrado
+as mais lindas fl&ocirc;res. Rosa sentia-se mais livre e mais feliz
+na serra, do que nos campos da quinta; a todo o momento parava
+extasiada diante das bellezas da natureza, e cada sitio novo, que
+achava, era como se fosse um amigo. Quando o socego voltava, depois
+d'esta alegria e anima&ccedil;&atilde;o, esta poetica
+crian&ccedil;a fazia cestinhos de vimes e juncos, que guarnecia com
+musgo e fl&ocirc;res silvestres, mas com um gosto e belleza
+exquisito, os quaes D. Thereza mandava vender, dando sempre bom
+pre&ccedil;o.</p>
+
+<p>Ganharam renome os cestos de Rosa.</p>
+
+<p>Em todas as quintas e casas ricas dos arredores n&atilde;o
+queriam outros, e at&eacute; muitas familias da cidade, que iam
+passar o ver&atilde;o &aacute;quelles sitios, compravam e
+procuravam com avidez os cestos d'esta gentil ramalheteira.</p>
+
+<p>D. Thereza, como mulher que comprehendia os seus interesses,
+entendeu que lhe era de mais proveito o empregar Rosa, durante a
+primavera, a fazer cestos e ramos, do que na quinta, por isso assim
+o determinou. Quando Rosa o soube, saltou d'alegria, por que se
+dava melhor &aacute; sombra dos pinheiros e carvalhos, do que em
+casa.</p>
+
+<p>Passou-se assim o ver&atilde;o, e D. Thereza n&atilde;o teve que
+se arrepender da sua resolu&ccedil;&atilde;o. Um certo numero de
+meias cor&ocirc;as de prata provou o bom resultado do negocio de
+cestos e fl&ocirc;res.</p>
+
+<p>O inverno pareceu triste e monotono a Rosa. Tinha-se
+<span class="pagenum"><a name="pag_234" id=
+"pag_234">[234]</a></span> habituado de tal maneira a ir todas as
+manh&atilde;s para a serra, que chegava muitas vezes a esquecer-se
+do trabalho, e ir insensivelmente at&eacute; &aacute; baixa d'ella.
+Voltava ent&atilde;o muito apressada &aacute; quinta e redobrava
+d'actividade, para fazer esquecer as suas faltas involuntarias.</p>
+
+<p>Occupou-se a fiar quasi todo o inverno, e o producto do seu
+trabalho foi augmentar o pequeno thesouro principiado com a venda
+dos cestos e fl&ocirc;res.</p>
+
+<p>D. Thereza considerava Rosa como sua filha, n&atilde;o podendo
+estar sem ella um unico instante, e nos dias de feiras e romarias
+tinha gosto em que Rosa apparecesse entre as mais lindas e mais
+ornadas lavradeiras do lugar.</p>
+
+<p>A amisade, que tinha a Rosa, reflectia-se na av&oacute;;
+tratava-a com tal respeito e affabilidade, que a poderiam tomar por
+m&atilde;i de D. Thereza, tanto ella a cercava de cuidados e
+desvelos.</p>
+
+<p>A felicidade da pobre cega, e bem assim o futuro de Rosa
+poder-se-iam julgar seguros; mas como nada n'este mundo &eacute;
+immutavel, o momento, em que a adversidade ia estender o seu
+bra&ccedil;o de ferro sobre as duas infelizes, n&atilde;o estava
+longe.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_235" id=
+"pag_235">[235]</a></span>
+
+<h2>V.</h2>
+
+<p>Voltou a primavera e com ella as encantadoras
+occupa&ccedil;&otilde;es de Rosa. Foi com enthusiasmo, que a
+candida e poetica crian&ccedil;a encontrou as fl&ocirc;res, suas
+amigas, com que preparou os primeiros ramos, que appareceram no
+mercado.</p>
+
+<p>Os cestinhos e ramos de Rosa obtiveram uma grande
+extrac&ccedil;&atilde;o, como no anno anterior. Ia entregal-os
+pessoalmente nas casas ricas, e muitas vezes as senhoras morgadas,
+se julgavam felizes por ter em sua companhia esta linda
+crian&ccedil;a por algum tempo.</p>
+
+<p>Rosa, vestida &aacute; lavradeira, era muito galante e modesta;
+o seu metal de voz era agradavel, e as maneiras t&atilde;o
+delicadas, que quasi sempre as freguezas, ao pre&ccedil;o do ramo,
+juntavam um presentinho para a vendedeira; <span class=
+"pagenum"><a name="pag_236" id="pag_236">[236]</a></span> mas
+quando perguntavam a Rosa o que era que mais estimava, respondia
+sempre, que o seu maior desejo era possuir um livro para se
+instruir.</p>
+
+<p>Rosinha tinha uma paix&atilde;o ardente pelo estudo; quasi sem
+mestre tinha aprendido a l&ecirc;r correntemente, e a sua maior
+alegria consistia em obter um livro para se entregar &aacute;
+leitura.</p>
+
+<p>D. Thereza pela sua parte tambem n&atilde;o obstava aos desejos
+de Rosa, tanto que se lhe n&atilde;o dava que ella faltasse
+&aacute;s suas obriga&ccedil;&otilde;es; mas devemos fazer-lhe
+justi&ccedil;a dizendo que sabia alliar a satisfa&ccedil;&atilde;o
+dos seus desejos, com o cumprimento dos seus deveres, por isso
+s&oacute; depois de ter terminado os seus affazeres &eacute; que se
+dava ao estudo.</p>
+
+<p>Estava Rosinha uma occasi&atilde;o sentada &aacute; borda d'um
+ribeiro, entretida a colher juncos para fazer um cesto, quando, sem
+ella o presentir, se lhe aproximou uma senhora ainda joven.</p>
+
+<p>&mdash;Para que estaes escolhendo esses juncos, minha
+menina?&mdash;lhe disse a joven senhora com modo affavel.</p>
+
+<p>Rosa levantou a cabe&ccedil;a, e vendo a desconhecida, saudou-a
+e respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Fa&ccedil;o cestinhos com fl&ocirc;res para vender.</p>
+
+<p>&mdash;Quero ent&atilde;o j&aacute; avaliar a vossa habilidade.
+Amo muito as fl&ocirc;res, por isso queria que me fizesses um
+cestinho j&aacute;, e se eu ficar contente has-de-me fazer um todos
+os dias. Aceitaes?</p>
+
+<p>&mdash;Aceito, sim, minha senhora, e ainda que tenho muitas
+encommendas a satisfazer, vou j&aacute; preparar o vosso.</p>
+
+<p>&mdash;Assento-me aqui ao p&eacute; de ti e vamos conversando.
+Como te chamas?</p>
+
+<p>&mdash;Rosa de Jesus, uma sua criada, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Assim, Rosa, o teu trabalho &eacute; fazer cestos de
+fl&ocirc;res para depois os ires vender?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;E teus paes em que se occupam?</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_237" id=
+"pag_237">[237]</a></span>
+
+<p>&mdash;J&aacute; n&atilde;o tenho paes; s&oacute; me resta minha
+av&oacute;, que &eacute; cega.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute;s orph&atilde;, e onde moras?</p>
+
+<p>&mdash;Estou em casa da snr.&ordf; D. Thereza de Sousa,
+proprietaria em S. Cosme, t&atilde;o boa, como rica.</p>
+
+<p>Ha um anno, que eu e minha av&oacute; n&atilde;o sabiamos aonde
+nos haviamos de recolher; estavamos em Dezembro, e havia dous dias
+que n&atilde;o tinhamos comido, quando de repente me lembrei da
+snr.&ordf; D. Thereza. Eu e minha av&oacute;, que ent&atilde;o
+moravamos na serra de Vallongo, pozemos-nos a caminho para S.
+Cosme. O caminho &eacute; muito mau, por isso mais d'uma
+occasi&atilde;o julguei que minha av&oacute; ficava na estrada,
+porque j&aacute; n&atilde;o podia andar; mas o Senhor teve
+misericordia de n&oacute;s, e felizmente terminamos a jornada. A
+snr.&ordf; D. Thereza tratou-nos com muita bondade, e recolheu-nos
+em sua casa, apesar de sermos um encargo muito pesado.</p>
+
+<p>&mdash;Amas ent&atilde;o muito a snr.&ordf; D. Thereza?</p>
+
+<p>&mdash;Se a amo. N&atilde;o queria mais nada, sen&atilde;o poder
+reconhecer todo o bem, que nos faz. N&atilde;o desejo sen&atilde;o
+crescer e robustecer para lhe poder servir d'utilidade.</p>
+
+<p>&mdash;Estou muito contente, minha pequena, por te ouvir fallar
+assim. Quando te vi senti-me attrahida para ti, e ficaria muito
+desgostosa se te n&atilde;o encontrasse com sentimentos dignos da
+estima que te consagro.</p>
+
+<p>Parece-me que o meu cesto est&aacute; acabado?</p>
+
+<p>&mdash;Ainda lhe falta uma cercadura de <i>n&atilde;o me
+deixes</i>. Permitti, senhora, que eu v&aacute; ao proximo ribeiro
+colher estas fl&ocirc;res, porque alli as ha mais frescas, e em
+mais abundancia.</p>
+
+<p>&mdash;Ide, que aqui te espero.</p>
+
+<p>Rosa partiu correndo.</p>
+
+<p>D. Julia d'Andrade, que tanto interesse mostrava pela protegida
+de D. Thereza, tinha vinte annos.</p>
+
+<p>O cabello preto muito comprido, e naturalmente encaracolado,
+fazia-lhe sobresahir ainda mais a pallidez <span class=
+"pagenum"><a name="pag_238" id="pag_238">[238]</a></span> do rosto.
+Os olhos castanhos tinham um brilho de febre. A physionomia
+demonstrava um padecimento interno, n'uma palavra, estava affectada
+d'uma tisica pulmonar.</p>
+
+<p>Sua m&atilde;i, a viscondessa do Candal, receiando pela vida de
+D. Julia, tinha consultado os mais acreditados medicos de Lisboa e
+Porto, e todos tinham aconselhado os ares do campo, e o n&atilde;o
+constrangimento, como os meios mais proficuos para debellar a
+molestia. A viscondessa tinha portanto deixado o Porto e ido
+habitar com suas filhas D. Julia e D. Bertha uma quinta proximo da
+serra de Vallongo.</p>
+
+<p>D. Julia parecia que revivia no meio da luxuosa natureza, que a
+cercava. Todos os dias dava grandes passeios, e distrahia-se ou
+sentando-se &aacute; sombra dos carvalhos e sobreiros, ou
+embrenhando-se entre as &ccedil;ar&ccedil;as. Ao principio a
+viscondessa receiou que estes passeios t&atilde;o longos
+prejudicassem a saude de sua filha, mas vendo-a mais alegre e mais
+vigorosa, e que se a pallidez n&atilde;o tinha desapparecido, a
+express&atilde;o soffred&ocirc;ra do rosto era menos pronunciada,
+ficou mais socegada e esperou obter o triumpho sobre a
+molestia.</p>
+
+<p>D. Julia era t&atilde;o boa, e ao mesmo tempo t&atilde;o
+prudente, que sua m&atilde;i n&atilde;o temia deixal-a em plena
+liberdade, e gosar da vida segundo as suas phantasias.</p>
+
+<p>A viscondessa queria que D. Bertha acompanhasse sua irm&atilde;
+nos seus passeios; mas D. Bertha, que era uma joven de 16 annos
+d'idade, orgulhosa do seu nascimento e belleza, recusou
+obstinadamente acompanhar sua irm&atilde;, dando como raz&atilde;o,
+que lhe repugnava o juntar-se como ella com esses <i>estupidos</i>
+e <i>rudes</i> alde&atilde;os, que habitam os campos, e a quem ella
+acariciava, e que al&eacute;m d'isso estragava os seus vestidos
+seguindo D. Julia pelos caminhos estreitos e escabrosos dos campos
+e da serra. As mil vozes da natureza eram mudas para D. Bertha; no
+seu cora&ccedil;&atilde;o s&oacute; imperava o egoismo.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_239" id=
+"pag_239">[239]</a></span>
+
+<p>Num d'estes passeios &eacute; que D. Julia encontrou Rosinha, e
+que ficou encantada com a sua innocencia.</p>
+
+<p>Havia muito que D. Julia esperava Rosa, e j&aacute; receava que
+ella n&atilde;o voltasse, quando a viu vir correndo.</p>
+
+<p>&mdash;Perdoai-me, senhora, o ter-vos feito esperar tanto tempo,
+mas eu fui muito longe colher as violetas e os <i>n&atilde;o me
+deixes</i>, porque queria que o meu cestinho vos
+agradasse.&mdash;Assim fallando Rosa apresentou a D. Julia um
+cestinho, que era um primor d'arte no gosto, e esperou toda
+confusa, a sua aprecia&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Uma alegre exclama&ccedil;&atilde;o de D. Julia lhe fez vir o
+sorriso aos labios.</p>
+
+<p>&mdash;Quero abra&ccedil;ar-te, minha querida menina; ha muito
+tempo que n&atilde;o vi nada t&atilde;o lindo, e como me causaste
+um grande prazer, quero recompensar-te; mas deixa-me ainda admirar
+o teu bello trabalho.</p>
+
+<p>Este cestinho podia v&ecirc;r-se. No centro tinha raminhos de
+violetas com as folhas verdes, ainda humidas; uma cor&ocirc;a de
+lirios cercava as violetas, e em volta uma grinalda de musgo,
+semeada de raminhos de rosas amarellas e geranios. Dous ramos de
+madre-silva serpenteavam por entre os juncos formando as azas.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o quero&mdash;disse D. Julia, depois d'alguns
+instantes de silencio&mdash;que uma obra t&atilde;o bella tenha um
+viver ephemero; vou j&aacute; bordar um quadro, c&oacute;pia d'este
+cestinho, que ha-de ficar muito rico. Mas, Rosinha, quanto queres
+por este trabalho?</p>
+
+<p>&mdash;Dar-me-ha o que quizer, minha senhora, como costumam
+fazer as outras minhas freguezas.</p>
+
+<p>&mdash;Mas quanto &eacute; que custam ordinariamente?</p>
+
+<p>&mdash;Tres ou quatro vintens.</p>
+
+<p>&mdash;Quatro vintens!&mdash;disse D. Julia admirada.</p>
+
+<p>&mdash;Acha caro, minha senhora?&mdash;disse Rosa com
+acanhamento.</p>
+
+<p>&mdash;Caro, n&atilde;o, minha pequena. Quando estava no Porto
+pagava, por muito maior pre&ccedil;o, ramos que tinham <span class=
+"pagenum"><a name="pag_240" id="pag_240">[240]</a></span> muito
+menos valor, que o teu cestinho. Toma, Rosinha, n&atilde;o tenho
+aqui sen&atilde;o esta meia cor&ocirc;a, mas amanha a esta hora
+apparece aqui, e fallaremos...</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o posso aceitar o que me d&aacute;es, minha
+senhora, porque &eacute; muito.</p>
+
+<p>&mdash;Queres fazer-me zangar?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, senhora. &Eacute; a primeira vez que a vejo,
+mas j&aacute; a estimo muito. Eu n&atilde;o preciso de nada; a
+snr.&ordf; D. Thereza &eacute; muito minha amiga e...</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o &eacute; uma esmola que te dou&mdash;replicou
+D. Julia, mettendo a moeda de prata na m&atilde;o de
+Rosinha&mdash;n&atilde;o te esque&ccedil;as da
+recommenda&ccedil;&atilde;o, que te fiz, de estares
+&aacute;manh&atilde; aqui a esta mesma hora.</p>
+
+<p>E antes que Rosa tivesse tempo de recusar, j&aacute; D. Julia
+tinha desapparecido, levando na m&atilde;o o cestinho.</p>
+
+<p>Rosa ficou um instante sem saber o que havia de fazer, mas
+recome&ccedil;ou ligeiramente o trabalho. Quando ao jantar voltou a
+casa, contou a D. Thereza o seu encontro de pela manh&atilde;, o
+que lhe tinha acontecido e perguntou-lhe se devia ou n&atilde;o
+guardar os cinco tost&otilde;es.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o te authoriso a pedir, Rosa, mas isso
+n&atilde;o &eacute; uma esmola, &eacute; um presente, que te fazem,
+podes portanto arrecadar esse dinheiro. Ris-te. J&aacute; sei. Esse
+dinheiro vem a proposito para augmentares o teu mealheiro, com o
+qual te hei-de comprar um rico jaqu&eacute; para o S. Miguel.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, senhora&mdash;replicou Rosa com a alegria nos
+olhos&mdash;n&atilde;o &eacute; esse o meu pensamento, e que me
+causa tanta alegria.</p>
+
+<p>&mdash;Que &eacute; ent&atilde;o?</p>
+
+<p>&mdash;Rogo-vos que me n&atilde;o fa&ccedil;aes perguntas;
+depois o sabereis.</p>
+
+<p>&mdash;Guarda o teu segredo, porque sei que n&atilde;o &eacute;s
+desgovernada, e que o n&atilde;o has-de gastar mal gasto.</p>
+
+<p>Rosa abra&ccedil;ou ternamente D. Thereza, e foi entregar as
+suas encommendas de fl&ocirc;res e cestos.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_241" id=
+"pag_241">[241]</a></span>
+
+<h2>VI.</h2>
+
+<p>D. Julia recolheu-se para casa muito tempo depois da hora, que
+tinha determinado.</p>
+
+<p>A viscondessa, impaciente e sobresaltada com a demora, sahiu, no
+caminho, ao encontro de sua filha.</p>
+
+<p>&mdash;Estiveste incommodada, minha filha?&mdash;lhe disse
+ella.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, minha senhora. Este cestinho, que aqui trago,
+&eacute; que foi a causa da minha demora.</p>
+
+<p>E D. Julia mostrava a sua m&atilde;i o cestinho, que Rosa tinha
+feito.</p>
+
+<p>&mdash;Como &eacute; lindo&mdash;respondeu a
+viscondessa&mdash;N&atilde;o sabia Julia, que tinhas a prenda de
+fazer cestos de juncos entran&ccedil;ados.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o fui eu que fiz este cestinho, minha
+m&atilde;i.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_242" id=
+"pag_242">[242]</a></span>
+
+<p>&mdash;Ent&atilde;o quem foi?</p>
+
+<p>&mdash;Foi uma lavradeirinha, que encontrei no meu passeio.</p>
+
+<p>&mdash;Uma lavradeira?!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha senhora. E acreditareis, minha m&atilde;i, que
+por todo este trabalho me pediu a grande quantia de quatro
+vintens?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o te pergunto quanto lhe d&eacute;ste, por que
+conhe&ccedil;o a bondade do teu cora&ccedil;&atilde;o, e tenho a
+firme convic&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o abusaste da sua
+simplicidade.</p>
+
+<p>&mdash;Dei-lhe s&oacute; meia cor&ocirc;a, por que n&atilde;o
+tinha mais na minha bolsinha. N&atilde;o queria recebel-a,
+ajuizando que lh'a dava como uma esmola; mas tanto fiz que a
+aceitou, e convencionei com Rosa, (pois a minha ramalheteira assim
+se chama) para nos encontrarmos &aacute;manh&atilde;, no mesmo
+sitio, &aacute; mesma hora; e se ella, como penso, f&ocirc;r digna
+da sympathia, que me inspirou, e do interesse que j&aacute; me
+causa, consentir-me-heis, minha boa m&atilde;i, que a tome sob a
+minha protec&ccedil;&atilde;o?</p>
+
+<p>&mdash;Consinto em tudo, minha filha, que te d&ecirc; prazer, e
+distrac&ccedil;&atilde;o. Se a tua protegida f&ocirc;r digna dos
+nossos beneficios, unir-me-hei comtigo, e accordaremos no que
+devemos fazer para seu bem.</p>
+
+<p>D. Julia abra&ccedil;ou com ternura a viscondessa, e
+agradeceu-lhe a sua bondade.</p>
+
+<p>N'este comenos, a viscondessa e sua filha, chegaram a casa.</p>
+
+<p>D. Julia collocou com muito cuidado sobre uma mesa da sala o
+cestinho, e correu com presteza ao seu quarto a preparar um
+cavallete, pinceis e tintas para dar principio ao quadro
+projectado, e, tendo tudo disposto, desceu &aacute; sala a
+buscal-o.</p>
+
+<p>D. Bertha estava examinando o cestinho com
+atten&ccedil;&agrave;o e minuciosidade.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o est&atilde;o t&atilde;o bem dispostas e
+combinadas essas fl&ocirc;res, Bertha?&mdash;disse D. Julia.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_243" id=
+"pag_243">[243]</a></span>
+
+<p>&mdash;Assim, assim. N&atilde;o gosto d'estas violetas, que
+formam o centro do ramo. Podias ter tido melhor gosto e fazer cousa
+melhor.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o concordo com a tua opini&atilde;o. Estou
+convencida de que Rosa n&atilde;o podia ter melhor gosto.</p>
+
+<p>&mdash;Rosa?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, Rosa. Ah! &eacute; verdade; ainda te n&atilde;o
+contei o encontro, que tive esta manh&atilde;. Ora ouve.</p>
+
+<p>D. Julia contou a sua irm&atilde; minuciosamente toda a
+conversa, que tivera com Rosa.</p>
+
+<p>Quando ella acabou, D. Bertha fez um gesto de desdem.</p>
+
+<p>&mdash;E, sem duvida, Julia, j&aacute; te affei&ccedil;oas-te a
+essa pequena; n&atilde;o &eacute; assim?&mdash;disse D. Bertha.</p>
+
+<p>&mdash;Rosa,&mdash;respondeu unicamente D. Julia&mdash;tem
+merecimento bastante, que a torna digna da protec&ccedil;&atilde;o,
+que se lhe dispensar.</p>
+
+<p>&mdash;O que mais me admira e me espanta, Julia, &eacute; a
+rapidez com que sympathisas com qualquer, e como instantaneamente
+conheces e decides, que essa pessoa &eacute; digna da tua
+affei&ccedil;&atilde;o e amisade... N&atilde;o quero tomar-te o
+tempo; julgo que vinhas buscar o teu lindo cestinho, n&atilde;o
+&eacute; assim?</p>
+
+<p>&mdash;Vinha, sim, para o ir copiar em um quadro,
+pintando-o.</p>
+
+<p>&mdash;Pintal-o?!&mdash;disse D. Bertha, dando uma grande
+gargalhada.&mdash;Que liguemos alguma atten&ccedil;&atilde;o
+&aacute;s fl&ocirc;res dos nossos parques e jardins, concedo; mas
+que empreguemos o tempo e o talento com as silvestres, que
+s&oacute; tem os perfumes para si, parece-me uma singularidade
+esquisita.</p>
+
+<p>&mdash;A minha opini&atilde;o, Bertha, &eacute; exactamente o
+contrario. Mas isso n&atilde;o admira, por que n&oacute;s raras
+vezes estamos accordes sobre qualquer materia. Ponhamos isso de
+parte; queres tu vir &aacute;manh&atilde;, commigo e com a nossa
+boa m&atilde;i, v&ecirc;r Rosa?</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_244" id=
+"pag_244">[244]</a></span>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o posso. Combinei com a Francisquinha e Ritinha
+Meirelles virem amanh&atilde; aqui passar o dia. Al&eacute;m
+d'isso, fallar-te-hei francamente, n&atilde;o ha nada para mim mais
+antipathico do que todas essas lavradeiras; e andar uma legua para
+me ir achar face a face com um monstrosinho, parece-me um tanto
+aborrecivel.</p>
+
+<p>&mdash;Rosa &eacute; muito linda e interessante.</p>
+
+<p>&mdash;Para ti, Julia, todas as lavradeiras s&atilde;o lindas e
+interessantes. Para mim todas s&atilde;o feias, e broncas. O calor
+principia a incommodar-me&mdash;disse D. Bertha, sentando-se
+indolentemente sobre um soph&aacute;.&mdash;Vai, Julia, vai pintar
+o teu lindo cestinho, que eu vou sonhar com o meu Porto, para onde
+espero ir muito breve.</p>
+
+<p>Estas ultimas palavras j&aacute; mal se perceberam, porque foram
+acompanhadas com um bocejo, e D. Bertha cerrou os olhos.</p>
+
+<p>D. Julia lan&ccedil;ou sobre sua irm&atilde; um olhar de
+compaix&atilde;o e sahiu.</p>
+
+<p>Alguns instantes depois deu principio ao quadro.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_245" id=
+"pag_245">[245]</a></span>
+
+<h2>VII.</h2>
+
+<p>No dia seguinte Rosa sahiu para a serra, muito c&ecirc;do, para
+adiantar o seu trabalho, e poder assim dedicar mais tempo &aacute;
+joven senhora, que t&atilde;o amavel e generosa tinha sido com
+ella.</p>
+
+<p>Trabalhou com tal desembara&ccedil;o, que, muito antes da hora
+marcada por D. Julia, tinha terminado o seu servi&ccedil;o.</p>
+
+<p>Aproveitou portanto o tempo entregando-se &aacute; leitura
+d'algumas paginas d'um livro, de que lhe tinham feito presente no
+dia anterior. Lia com atten&ccedil;&atilde;o, e, quando encontrava
+algum trecho rico e bello, parava, para exprimir a sua alegria e
+enthusiasmo.</p>
+
+<p>Estava Rosa de tal sorte entregue &aacute; leitura, que
+n&atilde;o presentiu a chegada da viscondessa e de sua filha D.
+Julia.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_246" id=
+"pag_246">[246]</a></span>
+
+<p>&mdash;Que livro est&aacute;s lendo, com tanta
+atten&ccedil;&atilde;o, minha menina&mdash;lhe disse a
+viscondessa.</p>
+
+<p>Rosa saudou-a, apresentou-lhe o livro e respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;S&atilde;o as <i>Medita&ccedil;&otilde;es religiosas</i>
+de Rodrigues de Bastos.</p>
+
+<p>&mdash;E encontras grande prazer na sua leitura?</p>
+
+<p>&mdash;Se encontro, minha senhora. Quando estou sentada &aacute;
+borda d'um regato, ou debaixo d'um carvalho annoso, lendo n'este
+livro, parece que a minha alma se despe de todos os seus envolucros
+terrenos e mundanos, e se p&otilde;e em contacto com Deus, author
+de todas estas maravilhas da natureza, que nos cercam, e a quem no
+fundo do meu cora&ccedil;&atilde;o adoro e venero.</p>
+
+<p>A viscondessa e sua filha, admiradas do que ouviam a uma pequena
+do campo, trocaram entre si um olhar d'intelligencia.</p>
+
+<p>&mdash;E que mais costumas l&ecirc;r?&mdash;perguntou D.
+Julia.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o tenho muitos livros. Al&eacute;m d'este possuo
+um cathecismo, uma vida de santos, de que leio uma pagina cada
+domingo, e mais uns livrinhos d'historias bonitas. Esquecia-me
+dizer-vos, que tambem tenho um livro de geographia, que me deu o
+mestre esc&oacute;la da minha freguezia, mas que n&atilde;o leio,
+por que tem muitas palavras, que n&atilde;o entendo.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo que me dizes conhe&ccedil;o que tens desejos de te
+instruires. Se te proporcionassem os meios de o fazeres, serias
+feliz?</p>
+
+<p>&mdash;Seria, sim, minha senhora; mas infelizmente isso &eacute;
+impossivel, porque, para ir todos os dias &aacute; mestra, &eacute;
+preciso ser muito rica.</p>
+
+<p>&mdash;Mas se te mandassem &aacute; mestra?&mdash;insistiu D.
+Julia.</p>
+
+<p>&mdash;Seria muito feliz, mas nem quero pensar n'isso.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo contrario; eu e minha m&atilde;i, viemos procurar-te
+para que nos conduzisses a casa da snr.&ordf; D. Thereza, e, se a
+tua protectora estiver satisfeita comtigo, pedir-lhe-hemos
+<span class="pagenum"><a name="pag_247" id=
+"pag_247">[247]</a></span> para te deixar ir todos os dias &aacute;
+mestra. Ent&atilde;o n&atilde;o respondes?</p>
+
+<p>&mdash;Perdoai-me, senhora. Estou muito contente e alegre, e
+queria agradecer-vos, mas n&atilde;o posso. Que fiz eu para merecer
+tantos beneficios?</p>
+
+<p>&mdash;Mostraste-te reconhecida aos beneficios da snr.&ordf; D.
+Thereza, e isso indica um bom cora&ccedil;&atilde;o; &eacute;s
+trabalhadeira e tens desejos de te instruires; mereces portanto que
+nos interessemos por ti&mdash;lhe disse a viscondessa.&mdash;Vamos,
+ensina-nos o caminho para a quinta da snr.&ordf; D. Thereza.</p>
+
+<p>Rosa, commovida, dirigiu-se para a quinta com a viscondessa e
+sua filha. Pelo caminho respondeu modestamente, e com gra&ccedil;a,
+a todas as perguntas, que lhe fizeram, e cada uma das respostas
+confirmou mais, as duas senhoras, no bom conceito, que tinham
+formado de Rosa.</p>
+
+<p>Quando chegaram &aacute; quinta, D. Thereza n&atilde;o estava em
+casa, mas n&atilde;o devia tardar muito, por isso esperaram. Rosa
+apresentou &aacute;s duas senhoras cadeiras para se sentarem e
+offereceu-lhes um copinho de leite fresco e morno.</p>
+
+<p>D. Julia, a quem o caminho tinha fatigado, aceitou o
+offerecimento.</p>
+
+<p>Rosa trouxe ent&atilde;o uma toalha de linho, alvo como neve,
+que estendeu sobre uma mesa, na qual collocou o melhor p&atilde;o,
+que havia em casa, manteiga e um copo de leite.</p>
+
+<p>D. Julia, com uma alegria infantil, aceitou este <i>lunch</i>
+frugal, e, reanimadas com elle as suas for&ccedil;as, pediu para
+visitar a quinta.</p>
+
+<p>A av&oacute; de Rosa estava sentada no jardim, debaixo d'um
+caramanchel de clematites, fiando, e cantando com voz tremula o
+estribilho d'um romance antigo. N'esta boa velha, bem vestida e de
+boa presen&ccedil;a, ninguem seria capaz de reconhecer a pobre
+cega, que dezoito mezes antes, quasi morrendo de fome e frio, e
+podendo apenas <span class="pagenum"><a name="pag_248" id=
+"pag_248">[248]</a></span> suster-se em p&eacute;, encontramos
+seguindo o caminho da serra de Vallongo para S. Cosme.</p>
+
+<p>A viscondessa do Candal e sua filha saudaram a pobre cega, e
+esta, prevenida pela netinha, correspondeu-lhe respeitosamente.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o vos incommodeis, boa mulher&mdash;-lhe disse a
+viscondessa&mdash;permitti-nos s&oacute;mente que conversemos por
+um instante convosco.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; muita honra para mim, minha querida
+senhora;&mdash;respondeu a cega&mdash;estou portanto &aacute;s
+vossas ordens.</p>
+
+<p>&mdash;Visto isso n&atilde;o vos recusareis a dizer-me se estaes
+satisfeita com a vossa neta?</p>
+
+<p>&mdash;Se estou contente com a minha Rosinha?!&mdash;exclamou a
+cega&mdash;-com ella, que &eacute; a minha ben&ccedil;&atilde;o
+sobre a terra. Quando o meu genro morreu, por causa d'uma ferida,
+que fez em uma perna com o seu machado, porque elle era rachador de
+lenha na serra, e a quem minha filha, m&atilde;i de Rosa, seguiu
+passado pouco tempo, quasi que enlouqueci, porque n&atilde;o sabia
+o que havia de fazer. Rosa, disse-me com a sua voz meiga e humilde:
+av&oacute;sinha, eu conhe&ccedil;o uma senhora muito caritativa;
+vamos a sua casa, que estou certa nos ha-de recolher. E foi
+verdade.</p>
+
+<p>A snr.&ordf; D. Thereza, essa boa e caritativa senhora, para
+quem pe&ccedil;o a Deus todos os beneficios e
+ben&ccedil;&atilde;os, teve a caridade de recolher em sua casa uma
+velha enferma e inutil como eu. Mas isto devo-o a Rosinha, porque
+ella sabe dizer as cousas de tal maneira, que, penetrando
+at&eacute; o cora&ccedil;&atilde;o, commovem e decidem &aacute;
+compaix&atilde;o. Vai em dezoito mezes que aqui nos achamos. Fio um
+pouco para n&atilde;o estar em descan&ccedil;o; mas Rosinha,
+senhora, Rosinha, cantando sempre, trabalha desde pela manh&atilde;
+at&eacute; &aacute; noite. Em quanto que dura o ver&atilde;o,
+occupa-se a colher fl&ocirc;res na serra e no campo, e a fazer
+cestinhos com ellas; mas isto n&atilde;o obsta a que, quando se
+recolhe, lave a roupa, limpe os moveis, e ajude a <span class=
+"pagenum"><a name="pag_249" id="pag_249">[249]</a></span> cozinhar,
+e se quizesse dizer-vos tudo o que ella faz, ou sabe fazer,
+levar-me-ia muito tempo.</p>
+
+<p>Assim, amo muito a minha querida Rosinha. Mas onde est&aacute;s
+tu, que te n&atilde;o chegas a mim para te dar um
+abra&ccedil;o?</p>
+
+<p>Rosa, com o pretexto de ir colher um ramo para D. Julia,
+tinha-se retirado, quando a av&oacute; come&ccedil;&aacute;ra a
+elogial-a.</p>
+
+<p>A viscondessa e sua filha ouviram com prazer o panegyrico de
+Rosa, feito pela av&oacute;, e iam fazer novas perguntas, quando D.
+Thereza chegou.</p>
+
+<p>Depois de terminados os comprimentos preliminares, a viscondessa
+expoz a D. Thereza como sua filha sympathis&aacute;ra com Rosa, e
+estava resolvida a tomal-a sob a sua protec&ccedil;&atilde;o, se D.
+Thereza a isso se n&atilde;o oppozesse.</p>
+
+<p>&mdash;Primeiro que tudo&mdash;respondeu D. Thereza&mdash;desejo
+a felicidade e venturas de Rosinha, ainda que me ha-de custar muito
+a separar-me d'ella: por&eacute;m, se f&ocirc;r sua vontade,
+n&atilde;o me opponho, por que julgo lhe procuraes a sua
+felicidade; mas ponho por condi&ccedil;&atilde;o, que lhe
+n&atilde;o prohibireis vir algumas vezes visitar-me.</p>
+
+<p>&mdash;Isso, senhora, &eacute; um dever sagrado, que Rosa tem a
+cumprir. Vamos por&eacute;m interrogal-a, por que ella nada sabe do
+que acabamos de fallar.</p>
+
+<p>D. Thereza chamou a pequena, que veio correndo, e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Rosinha, queres ir viver com esta senhora e sua
+filha?</p>
+
+<p>&mdash;Pois v&oacute;s, senhora&mdash;respondeu Rosa tremula e
+timida&mdash;quereis mandar-me embora?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o. Pergunto s&oacute;mente se me queres deixar,
+para te tornares uma menina da cidade, instruida e de maneiras
+polidas?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, minha senhora. Nunca&mdash;disse Rosa
+chorando, lan&ccedil;ando-se nos bra&ccedil;os da sua
+bemfeitora&mdash;nunca vos deixarei. Tenho muitos e muitos desejos
+de me instruir <span class="pagenum"><a name="pag_250" id=
+"pag_250">[250]</a></span> e de aprender, mas, se para isso
+&eacute; necessario o deixar-vos, antes quero ficar ignorante toda
+a minha vida. Recolheste-nos, senhora, quando eu e a minha querida
+av&oacute;sinha, estavamos quasi a morrer de fome, e havia de ser
+t&atilde;o ingrata, que, quando principio a servir d'alguma
+utilidade, vos abandonasse? N&atilde;o, senhora, nunca, nunca vos
+deixarei.</p>
+
+<p>&mdash;Ouvistel-a, minhas senhoras&mdash;disse D. Thereza
+enxugando os olhos, razos de lagrimas.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo que vejo, Rosa, est&aacute;s bem decidida a
+n&atilde;o vir comnosco?&mdash;lhe disse a viscondessa.</p>
+
+<p>&mdash;Seria feliz e muito feliz, minha senhora, se podesse ir
+viver na sua companhia, e de sua estimavel filha; mas antes de
+v&oacute;s, est&aacute; a snr.&ordf; D. Thereza, que salvou a minha
+pobre av&oacute;sinha d'estender a m&atilde;o &aacute; caridade
+publica e que sempre t&atilde;o minha amiga tem sido. Perdoai-me,
+senhora, se assim fallo...</p>
+
+<p>&mdash;D&aacute;-me um abra&ccedil;o, minha menina&mdash;lhe
+disse a viscondessa interrompendo-a&mdash;d&aacute;-me um
+abra&ccedil;o, porque te mostraste tal, como eu desejava, boa,
+humilde e reconhecida aos beneficios, que te fazem.</p>
+
+<p>N&atilde;o tenhas receio, que te separemos da snr.&ordf; D.
+Thereza. Pediremos s&oacute;mente &aacute; tua bemfeitora, que nos
+deixe entrar com metade nos beneficios, que te prodigalisa.</p>
+
+<p>&mdash;E eu, Rosa&mdash;acrescentou D. Julia&mdash;quero ser a
+tua preceptora. Quando o tempo estiver bom, dar-te-hei as
+li&ccedil;&otilde;es na serra, &aacute; sombra d'um sobreiro, ou
+d'um pinheiro, ou &aacute; borda d'um regato; e quando estiver mau,
+dar-tas-hei em minha casa, porque ouso esperar, que a snr.&ordf; D.
+Thereza me n&atilde;o negar&aacute; este favor, e prazer.</p>
+
+<p>&mdash;Oh n&atilde;o, minha senhora, esteja certa d'isso. Logo
+que termine o seu servi&ccedil;o dos cestinhos fica livre para vos
+ir procurar.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; objecto convencionado&mdash;disse a
+viscondessa&mdash;por isso a snr.&ordf; D. Thereza ha-de-me
+permittir licen&ccedil;a <span class="pagenum"><a name="pag_251"
+id="pag_251">[251]</a></span> de offerecer a Rosa, para si e sua
+av&oacute;, o que cont&eacute;m esta pequena bolsa. &Eacute; para
+comprar em nosso nome um vestido novo.</p>
+
+<p>E como D. Thereza, Rosa e a av&oacute; lhe fizessem muitos
+agradecimentos, a viscondessa impoz-lhes com brandura silencio, e
+retirou-se, promettendo voltar muito breve &aacute; quinta.</p>
+
+<p>D. Julia abra&ccedil;ou a sua pequena discipula, e retirou-se
+dizendo-lhe &laquo;at&eacute; &aacute;manh&atilde;&raquo;.</p>
+
+<p>Nas proximidades de casa a viscondessa e sua filha encontraram
+D. Bertha, que estava esperando pelas meninas Meirelles.</p>
+
+<p>&mdash;Meu Deus, como estou aborrecida&mdash;lhes disse
+ella.</p>
+
+<p>&mdash;Pois eu, minha irm&atilde;&mdash;respondeu D.
+Julia&mdash;venho muito alegre; o espectaculo, que acabo de gosar,
+dar-me-ha felicidade n&atilde;o s&oacute; para hoje, mas tambem
+para muito tempo, porque ser&aacute; contado no numero das minhas
+mais gratas e queridas recorda&ccedil;&otilde;es.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_252" id=
+"pag_252">[252]</a></span>
+
+<h2>VIII.</h2>
+
+<p>D. Julia, na f&oacute;rma convencionada, principiou no seguinte
+dia o curso, que queria fazer seguir a Rosa. Tomou com ardor a
+obriga&ccedil;&atilde;o, que se tinha imposto desempenhar, mas o
+seu zelo n&atilde;o excedia, o que mostrava a sua alumna.
+Intelligente, e anciosa por aprender, Rosa era incansavel, e muitas
+vezes foi preciso que D. Julia moderasse a sua
+applica&ccedil;&atilde;o; as li&ccedil;&otilde;es tinham lugar umas
+vezes na serra, outras vezes em casa da viscondessa.</p>
+
+<p>Decorreram assim tres mezes. No fim d'este tempo, os progressos,
+que Rosa tinha feito, eram espantosos, e como tanto a professora,
+como a discipula n&atilde;o afrouxavam no seu zelo, era d'esperar
+que, no fim dos dous mezes que D. Julia ainda tinha a passar no
+campo, Rosa estivesse bastante desenvolvida para continuar, sem
+nada esquecer, a estudar s&oacute;sinha, durante o inverno.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_253" id=
+"pag_253">[253]</a></span>
+
+<p>Mas, quando menos se esperava, a terrivel molestia, que parecia
+ter deixado D. Julia, reappareceu com uma intensidade violenta.</p>
+
+<p>A pobre menina n&atilde;o teve for&ccedil;as para resistir a
+este ataque, e n&atilde;o podia sahir do quarto.</p>
+
+<p>Rosa, que no auge da sua desespera&ccedil;&atilde;o, com risco
+da propria vida, quereria dar algumas for&ccedil;as &aacute; amiga
+do seu cora&ccedil;&atilde;o, podia a custo conter as lagrimas,
+contemplando-a, pallida e cadaverica, recostada n'uma cadeira de
+bra&ccedil;os, forcejando por se levantar sem auxilio, para
+n&atilde;o aterrar a sua querida m&atilde;i e a sua discipula
+predilecta.</p>
+
+<p>N'este momento Rosa tinha um unico pensamento; o de
+sacrificar-se por aquella, que tanto a amava e lhe queria. Os mais
+pequenos desejos, e os mais vagos caprichos eram adivinhados de
+Rosa, e executados antes mesmo que D. Julia os tivesse enunciado.
+Se queria descer ao jardim, o bra&ccedil;o de Rosa &eacute; que a
+amparava; se queria ouvir alguma passagem dos seus livros
+favoritos, Rosa lia-lh'a immediatamente.</p>
+
+<p>D. Julia, muito sensibilisada por tanta dedica&ccedil;&atilde;o,
+affligia-se com a lembran&ccedil;a, de que o progresso da sua
+discipula estava parado. D. Bertha podia substituil-a, mas essa
+nunca consentiria em ser a precept&ocirc;ra d'uma lavradeira. A
+viscondessa resolveu-se a dar as li&ccedil;&otilde;es a Rosa, para
+socegar a inquieta&ccedil;&atilde;o de D. Julia.</p>
+
+<p>Havia j&aacute; tres semanas que D. Julia estava doente, e cada
+dia ia a peor; sua m&atilde;i j&aacute; n&atilde;o tinha
+esperan&ccedil;as algumas. Tres medicos, que do Porto haviam sido
+chamados, n&atilde;o deram esperan&ccedil;as da doente
+melhorar.</p>
+
+<p>A viscondessa, por&eacute;m, n&atilde;o podendo convencer-se de
+que sua filha estava irremediavelmente perdida, cria que os medicos
+se tinham enganado, e resolveu recolher ao Porto, para lhe fazer
+uma nova junta.</p>
+
+<p>D. Bertha, contristada ao principio com a molestia de sua
+irm&atilde;, consolava-se com a id&eacute;a de voltar ao seio da
+sociedade, que ella tanto amava.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_254" id=
+"pag_254">[254]</a></span>
+
+<p>S&oacute; &aacute; for&ccedil;a de muitas instancias e
+esfor&ccedil;os &eacute; que D. Julia consentiu em deixar o campo;
+mas, ainda assim, com a expressa condi&ccedil;&atilde;o de para
+l&aacute; voltar se peorasse.</p>
+
+<p>Quando Rosa soube que a viscondessa se ia retirar do campo,
+n&atilde;o p&ocirc;de conter a sua desespera&ccedil;&atilde;o.
+Queria acompanhar D. Julia, e n&atilde;o a desamparar um s&oacute;
+instante. D. Julia procurava socegal-a, mas tudo era baldado, por
+que Rosa estava inconsolavel.</p>
+
+<p>Na vespera da partida Rosa veio despedir-se de D. Julia;
+lan&ccedil;ou-se-lhe aos p&eacute;s, chorando, e pediu-lhe que lhe
+escrevesse muitas e muitas vezes. A doente assim lh'o prometteu, e,
+tirando debaixo do travesseiro uma bolsinha de s&ecirc;da,
+apresentou-a a Rosa.</p>
+
+<p>&mdash;Aceita, minha menina&mdash;lhe disse ella&mdash;esta
+bolsa; contem cem mil reis, que s&atilde;o as minhas economias do
+ver&atilde;o; p&otilde;e a juros este dinheiro, para que se
+augmente este capitalsinho.</p>
+
+<p>&Eacute; um presente muito pequeno; mas se nos n&atilde;o
+tornarmos a v&ecirc;r, minha boa m&atilde;i, dar-te-ha, em meu
+nome, mais alguma cousa.</p>
+
+<p>Rosa beijou as m&atilde;os de D. Julia, e queria recusar a
+bolsa.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o recuses, Rosa&mdash;tornou D.
+Julia&mdash;sen&atilde;o f&ocirc;r para ti, &eacute; para tua
+av&oacute;. Sabes l&aacute; o que tem para vos acontecer, e se esta
+pequena somma ainda vos ser&aacute; util? Adeus, Rosinha; ama-me
+sempre muito, e reza muito ao Senhor, para que me d&ecirc;
+saude.</p>
+
+<p>Rosa quiz responder, mas as lagrimas e solu&ccedil;os
+embargaram-lhe a voz. A viscondessa, testemunha d'esta scena
+t&atilde;o tocante, temendo as funestas consequencias, que sua
+filha soffreria com t&atilde;o grande commo&ccedil;&atilde;o,
+levantou Rosa, e pediu-lhe com instancia e por favor que se
+retirasse. A pobre menina cedeu a custo, mas antes de se retirar
+ainda p&ocirc;de v&ecirc;r D. Julia, que, com um olhar maternal, a
+aben&ccedil;oava.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_255" id=
+"pag_255">[255]</a></span>
+
+<h2>IX.</h2>
+
+<p>J&aacute; tinha decorrido mais d'um mez, desde que D. Julia
+recolhera ao Porto, e Rosa ainda n&atilde;o tinha recebido carta da
+sua amiga. A pobre crian&ccedil;a affligia-se, julgando, que este
+silencio, para com ella, n&atilde;o tinha outra causa, sen&atilde;o
+o estado cada vez mais perigoso de D. Julia. D. Thereza, que
+partilhava do pesar de sua filha adoptiva, procurava por todos os
+meios consolal-a, e fazer-lhe conceber esperan&ccedil;as. Uma carta
+de D. Julia veio confirmar as preven&ccedil;&otilde;es de D.
+Thereza.</p>
+
+<p>D. Julia, com m&atilde;o tremula, escreveu &aacute; sua querida
+discipula. Participava-lhe que a sua doen&ccedil;a parecia estar um
+pouco mais debellada, e que os medicos davam algumas
+esperan&ccedil;as de a poder subjugar, e embargar-lhe o seu
+progresso.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_256" id=
+"pag_256">[256]</a></span>
+
+<p>Terminava a carta aconselhando Rosa a que n&atilde;o descurasse
+os seus estudos, e pedindo-lhe que lhe escrevesse.</p>
+
+<p>Rosa cobriu de mil beijos esta carta, e no mesmo dia respondeu a
+D. Julia, assegurando-lhe que n&atilde;o despresaria os seus
+conselhos, e que tinha esperan&ccedil;as, de, para a primavera,
+renovar as suas li&ccedil;&otilde;es sob as arvores da serra; que
+nas suas ora&ccedil;&otilde;es rogava todos os dias a Deus, com
+fervor, que lhe restituisse a saude, e que esperava as suas
+supplicas fossem attendidas.</p>
+
+<p>Rosa, cumprido este dever sagrado, lan&ccedil;ou m&atilde;o do
+seu trabalho com mais vigor.</p>
+
+<p>Estava proximo o dia natalicio de D. Thereza. Rosa preparava em
+segredo um lindo presente para offerecer n'aquelle dia &aacute; sua
+bemfeitora, e para isso tinha reunido todo o dinheiro, que lhe
+tinham dado de mimo, e julgava-se bastante rica para poder
+apresentar a D. Thereza um brinde, de que ella admirasse o valor e
+o gosto.</p>
+
+<p>Faltavam s&oacute; quatro dias para que, esse dia t&atilde;o
+anciosamente esperado, chegasse, e Rosa ainda queria poder
+supprimir o tempo, t&atilde;o longo lhe parecia.</p>
+
+<p>Na vespera de manh&atilde; D. Thereza queixou-se d'uma d&ocirc;r
+de cabe&ccedil;a, mas julgou que um passeio lh'a dissiparia. Sahiu
+pois; mas passado uma hora voltou ainda mais indisposta, do que
+tinha sahido.</p>
+
+<p>Despresando o seu estado, ainda presidiu, na f&oacute;rma
+costumada, ao jantar dos criados da quinta; mas, no meio d'elle,
+cahiu sem sentidos.</p>
+
+<p>Os criados, assustados, cercaram D. Thereza. Recolheram-na
+&aacute; cama, e partiu immediatamente um criado a chamar, a toda a
+pressa, um cirurgi&atilde;o.</p>
+
+<p>Chegou este, e, mal viu a doente, n&atilde;o deu
+esperan&ccedil;as de a salvar.</p>
+
+<p>&mdash;Foi uma apoplexia fulminante&mdash;disse
+elle&mdash;&eacute; j&aacute; tarde para se lhe dar remedio.</p>
+
+<p>O desespero e a consterna&ccedil;&atilde;o espalharam-se na
+quinta.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_257" id=
+"pag_257">[257]</a></span>
+
+<p>Os criados em geral estimavam muito D. Thereza, por que, apesar
+de ser muito vigilante, era boa e justa.</p>
+
+<p>Os menores movimentos do cirurgi&atilde;o eram seguidos com
+anciedade por todos os criados, mas entre elles tornava-se saliente
+Rosa pelo zelo e actividade, que desenvolvia em executar as
+prescrip&ccedil;&otilde;es do cirurgi&atilde;o, ainda bem
+n&atilde;o estavam dadas.</p>
+
+<p>Rosa n&atilde;o podia cr&ecirc;r que Deus lhe quizesse roubar a
+sua bemfeitora, e esperava ainda que uma crise feliz a restituiria
+&aacute; vida.</p>
+
+<p>A av&oacute; de Rosa estava consternadissima, e o seu maior
+pesar consistia em n&atilde;o poder fazer cousa alguma.</p>
+
+<p>De joelhos; junto do leito de D. Thereza, rezava com fervor e
+devo&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Entre as alternativas da esperan&ccedil;a e desconforto se
+passou o dia. &Aacute; noite o cirurgi&atilde;o declarou que
+j&aacute; lhe n&atilde;o restava esperan&ccedil;a alguma; que D.
+Thereza ainda podia viver mais um dia ou dous, mas que n&atilde;o
+proferiria mais uma palavra, nem faria um unico movimento.</p>
+
+<p>Descrever a afflic&ccedil;&atilde;o de Rosa e de sua av&oacute;
+&eacute;-me impossivel; bastar&aacute; dizer que a d&ocirc;r as
+tinha quasi enlouquecido.</p>
+
+<p>D. Thereza n&atilde;o tinha filhos, por isso foram avisar do
+succedido a D. Euzebia, sua irm&atilde;, rica proprietaria em Rio
+Tinto.</p>
+
+<p>D. Euzebia, por causa do seu genio forte, e caracter duro,
+n&atilde;o estava em intimas rela&ccedil;&otilde;es com D. Thereza.
+Assim que teve noticia da doen&ccedil;a de sua irm&atilde; poz-se
+logo a caminho, n&atilde;o por amisade que tivesse &aacute;
+moribunda, mas sim para vigiar que lhe n&atilde;o roubassem a mais
+pequena parte da sua heran&ccedil;a.</p>
+
+<p>Logo que D. Euzebia chegou a S. Cosme, tomou o governo da casa,
+e deu ordens como se j&aacute; estivesse senhora da heran&ccedil;a.
+Rosa e sua av&oacute; inspiraram-lhe antipathia, e n&atilde;o podia
+comprehender como sua irm&atilde; voluntariamente <span class=
+"pagenum"><a name="pag_258" id="pag_258">[258]</a></span> tinha
+tomado ao seu cuidado aquellas duas pessoas.</p>
+
+<p>D. Thereza ainda viveu dous dias, conforme o cirurgi&atilde;o
+dissera, mas sem falla, e sem movimento, porque a apoplexia
+tinha-lhe paralysado todas as faculdades. S&oacute; os olhos
+&eacute; que conservavam ainda alguns signaes de vida e
+intelligencia, os quaes fixava sobre Rosa, fazendo esfor&ccedil;os
+para fallar, naturalmente para fazer o seu testamento; mas este
+ultimo consolo dos moribundos n&atilde;o lhe foi permittido.</p>
+
+<p>O abbade da freguezia, que veio administrar os ultimos
+sacramentos &aacute; moribunda, tentou mitigar a d&ocirc;r de Rosa,
+mas a joven menina estava muito consternada para poder ser
+consolada. Recusou obstinadamente retirar-se de junto do leito, em
+que jazia D. Thereza, conservando-lhe a m&atilde;o gelada apertada
+nas suas.</p>
+
+<p>&mdash;O meu lugar &eacute; este,&mdash;dizia ella entre
+solu&ccedil;os,&mdash;s&oacute; deixarei minha segunda m&atilde;e
+no tumulo.</p>
+
+<p>Finalmente chegou o terrivel momento da morte. Uma
+convuls&atilde;o, alguns murmurios sufocados........ e D. Thereza
+tinha deixado d'existir entre os vivos, e sua alma, desprendendo-se
+das liga&ccedil;&otilde;es terrenas, vo&aacute;ra ao c&eacute;o a
+receber da m&atilde;o de Deus o premio das suas virtudes.</p>
+
+<p>Ao principio n&atilde;o se ouviam mais que os ch&oacute;ros de
+todos os criados da quinta, mas em seguida uma voz forte e
+imperiosa se fez escutar. Era a de D. Euzebia. Collocou uma pessoa
+junto do cadaver de sua irm&atilde;, deu as ordens para os
+funeraes, e passou a inspeccionar as caixas e commodas, que fechava
+com cuidado, guardando as chaves.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_259" id=
+"pag_259">[259]</a></span>
+
+<h2>X</h2>
+
+<p>Apenas D. Euzebia fechou as commodas e caixas, compareceu o juiz
+eleito da freguezia para sellar e tomar conta de tudo o que
+pertencia a D. Thereza.</p>
+
+<p>&mdash;Aqui est&atilde;o as chaves, senhor juiz
+eleito&mdash;disse D. Euzebia,&mdash;mas &eacute; inutil esse
+trabalho, por que eu sou a unica herdeira de minha irm&atilde;, e
+ella n&atilde;o podia desherdar-me.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; verdade, minha senhora,&mdash;respondeu o
+juiz&mdash;mas cumpro o meu dever, por que a lei protege os
+direitos de todos.</p>
+
+<p>&mdash;S&oacute; eu &eacute; que tenho direito &aacute; fortuna
+de minha irm&atilde;, pois ella n&atilde;o tem filhos.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha senhora, mas esta orph&atilde;sinha, a quem
+ella deu asylo?</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_260" id=
+"pag_260">[260]</a></span>
+
+<p>&mdash;Minha irm&atilde;&mdash;replicou com colera D.
+Euzebia&mdash;seria por ventura capaz de me desherdar, testando os
+seus bens a favor d'estas duas mendigas, que ella teve a phantasia
+de recolher em sua casa?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o o affirmo, minha senhora&mdash;respondeu com
+brandura o juiz;&mdash;mas sua irm&atilde; p&oacute;de ter feito
+testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua estima e
+amisade.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o julgaria sufficiente o sustental-a e mais
+&aacute; av&oacute;,&mdash;disse D. Euzebia com voz
+forte&mdash;ainda lhe havia de deixar algum legado? Ah! minhas
+velhacas, virieis v&oacute;s roubar o que de direito me pertence?
+Snr. juiz eleito, queira tambem sellar a porta do quarto d'ella,
+pois quem sabe l&aacute;, o que ella tem roubado. Minha irm&atilde;
+era t&atilde;o pouco cautellosa...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! senhora&mdash;respondeu Rosa com muita tristeza a
+esta supposi&ccedil;&atilde;o offensiva&mdash;acreditaes que
+pagasse com o roubo os beneficios, que eu e minha av&oacute;
+recebemos da snr.&ordf; D. Thereza?</p>
+
+<p>O juiz eleito ordenou com brandura a Rosa que se calasse, para
+que D. Euzebia n&atilde;o continuasse, diante d'um leito de morte,
+com uma discuss&atilde;o t&atilde;o vergonhosa, e feia.</p>
+
+<p>Logo que o juiz se retirou, Rosa viu-se de novo a bra&ccedil;os
+com as suspeitas da ambiciosa herdeira. Chegaram a tal ponto as
+cousas, que Rosa n&atilde;o p&ocirc;de refrear a sua
+indigna&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o me injurieis, senhora,&mdash;disse Rosa com
+energia e dignidade&mdash;n&atilde;o me injurieis diante do corpo
+de vossa irm&atilde;, de quem s&oacute; a vista bastaria para me
+proteger. Dizei-me, senhora, sahi eu por ventura um s&oacute;
+instante de junto da cama da minha bemfeitora, desde que ella foi
+atacada pela apoplexia? N&atilde;o, senhora. Ent&atilde;o como
+podia eu subtrahir cousa alguma? Examinai, e examinai bem, senhora,
+que achareis tudo intacto, porque eu e minha av&oacute; preferiamos
+antes morrer <span class="pagenum"><a name="pag_261" id=
+"pag_261">[261]</a></span> de fome, do que tocar na cousa mais
+insignificante, que nos n&atilde;o pertencesse. Louvado seja o
+Senhor, sou forte; posso e quero trabalhar, por isso n&atilde;o
+serei pesada a ninguem. Deixai-nos, senhora, chorar em paz a perda
+da nossa bemfeitora, que, logo que o seu corpo saia d'esta casa,
+n&atilde;o vos pediremos asylo.</p>
+
+<p>Esta linguagem, firme e digna, impoz silencio a D. Euzebia, que
+ficou corrida de vergonha.</p>
+
+<p>Rosa esperou com socego o dia seguinte, em que se devia fazer o
+enterro a D. Thereza.</p>
+
+<p>A pobre crian&ccedil;a, com a av&oacute; pelo bra&ccedil;o,
+seguiu chorando o prestito. Depois de terminado o officio, Rosa e
+sua av&oacute;, ajoelharam-se junto da campa, em que D. Thereza foi
+sepultada: era j&aacute; noite cerrada, e ainda as duas
+desgra&ccedil;adas n&atilde;o cuidavam em se retirar.</p>
+
+<p>O frio, que fez dar um gemido &aacute; av&oacute;, advertiu Rosa
+de que se devia recolher; s&oacute; ent&atilde;o &eacute; que
+pensou para onde havia de ir.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos, minha av&oacute;sinha&mdash;disse Rosa&mdash;a
+casa da snr.&ordf; Maria da Gandra, que estou certa, sendo
+t&atilde;o nossa amiga, nos n&atilde;o ha-de deixar na estrada.</p>
+
+<p>A snr.&ordf; Maria da Gandra era uma boa e caridosa mulher, que,
+como todos os moradores de S. Cosme, e seus arredores, estimava
+muito a protegida de D. Thereza, e censur&aacute;ra o procedimento
+de D. Euzebia.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! Rosinha, foi Deus que te dirigiu para minha
+casa&mdash;lhe disse ella logo que a avistou.&mdash;Que prazer me
+n&atilde;o causa teres procurado a minha casa para te recolheres.
+Tinham-me dito, que ias para casa da Joanna da Quintella, por isso
+&eacute; que te n&atilde;o offereci para vires para aqui com tua
+av&oacute;.</p>
+
+<p>&mdash;Agrade&ccedil;o-vos, senhora&mdash;disse Rosa&mdash;a
+vossa bondade, e a caridade com que vos offereceis para nos
+recolherdes; mas n&atilde;o venho pedir-vos casa e sustento de
+gra&ccedil;a, porque tenho duas inscrip&ccedil;&otilde;es de cem
+mil reis cada uma; o que vos rogo &eacute; que me aboneis tudo o
+<span class="pagenum"><a name="pag_262" id=
+"pag_262">[262]</a></span> que eu precisar e minha av&oacute;, que
+vos satisfarei logo que termine a liquida&ccedil;&atilde;o da
+heran&ccedil;a da snr.&ordf; D. Thereza, e receba as minhas
+inscrip&ccedil;&otilde;es.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim, minha menina,&mdash;lhe respondeu a snr.&ordf;
+Maria da Gandra&mdash;N&atilde;o preciso do teu dinheiro para te
+sustentar e a tua av&oacute;. Mas diz-me, como obtiveste essas
+inscrip&ccedil;&otilde;es?</p>
+
+<p>&mdash;A snr.&ordf; D. Julia, antes de partir para o Porto,
+deu-me cem mil reis, com os quaes a snr.&ordf; D. Thereza, em
+cumprimento do seu desejo, comprou duas inscrip&ccedil;&otilde;es
+em meu nome.</p>
+
+<p>&mdash;Foste feliz, Rosinha, em que fossem compradas em teu
+nome, porque d'outra maneira D. Euzebia tomaria posse d'ellas. Tem
+resigna&ccedil;&atilde;o, assim como v&oacute;s, minha boa
+velhinha; vinde cear, que eu depois vou-vos conduzir ao vosso
+quarto.</p>
+
+<p>Rosa e sua av&oacute; ficaram portanto habitando na Gandra.</p>
+
+<p>A pequena n&atilde;o estava ociosa, antes pelo contrario era
+t&atilde;o zelosa e trabalhadeira, que a snr.&ordf; Maria, muito
+satisfeita, propoz-lhe que ella e a av&oacute;, ficassem para
+sempre em sua casa. Rosa aceitou promptamente, e com
+reconhecimento, pois n'aquella occasi&atilde;o era a maior
+felicidade, que lhe podia apparecer.</p>
+
+<p>No dia em que se deviam tirar os sellos em casa da defunta D.
+Thereza, Rosa alli compareceu por convite do juiz eleito.</p>
+
+<p>Quando Rosa atravessou, como estranha, a soleira da porta da
+casa, que tinha sido para ella t&atilde;o hospitaleira, o
+cora&ccedil;&atilde;o comprimiu-se-lhe e n&atilde;o p&ocirc;de
+reter as lagrimas.</p>
+
+<p>Tudo se passou sem novidade; s&oacute; de quando em quando D.
+Euzebia mostrava por gestos e exclama&ccedil;&otilde;es o seu
+desapontamento por encontrar menos dinheiro, do que imaginava.</p>
+
+<p>Quando se abriu a caixa, que pertencia a Rosa, n&atilde;o
+<span class="pagenum"><a name="pag_263" id=
+"pag_263">[263]</a></span> foi uma exclama&ccedil;&atilde;o de
+surpreza, que D. Euzebia soltou, mas sim de raiva, na qual se
+divisava um accento de triumpho.</p>
+
+<p>&mdash;Bem certa estava eu,&mdash;disse ella&mdash;que esta
+velhaca havia de ter <i>empalmado</i> alguma cousa. Ah! se eu
+n&atilde;o viesse logo... o que teria acontecido. Examinai, senhor
+escriv&atilde;o, o que &eacute; que ahi existe.</p>
+
+<p>O escriv&atilde;o tirou da caixa um magnifico vestido, que, a
+julgar pelo tamanho, n&atilde;o pertencia de certo a Rosa.</p>
+
+<p>&mdash;Dize velhaca,&mdash;tornou D. Euzebia&mdash;como &eacute;
+que este vestido veio aqui parar?&mdash;N&atilde;o preciso
+perguntal-o, porque a culpada est&aacute;-se denunciando pelo
+rub&ocirc;r, que lhe cobre as faces.</p>
+
+<p>&mdash;Senhora D. Euzebia&mdash;disse o juiz&mdash;o seu
+proceder para com esta crian&ccedil;a &eacute; digno de censura.
+Ainda, at&eacute; agora, n&atilde;o encontramos cousa alguma, que
+fizesse, nem ao menos, suspeitar de sua probidade. Deixai-a
+portanto dar-me as explica&ccedil;&otilde;es, que tiver a
+fazer.</p>
+
+<p>Responde Rosinha,&mdash;disse o juiz com modo affavel&mdash;como
+&eacute; que este vestido se acha na tua caixa?</p>
+
+<p>Rosa fez-se muito corada e respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Este vestido, senhor, foi comprado com as minhas
+economias.</p>
+
+<p>&mdash;Que &eacute;; que &eacute;?&mdash;interrompeu D.
+Euzebia.</p>
+
+<p>&mdash;Senhora&mdash;disse severamente o juiz&mdash;ordeno que
+vos caleis.</p>
+
+<p>&mdash;&Eacute; bem publico e sabido, que eu, durante o
+ver&atilde;o, fazia cestinhos de fl&ocirc;res, que ia vender
+&aacute;s casas abastadas dos arredores.</p>
+
+<p>Quasi sempre me davam, como presente, mais do que o custo dos
+cestos: entregava-me a snr.&ordf; D. Thereza, para guardar no meu
+mealheiro, estas pequenas quantias, que reservei com muito cuidado
+para poder brindar a snr.&ordf; D. Thereza no seu dia
+natalicio.</p>
+
+<p>Estava muito indecisa, por n&atilde;o saber o que lhe devia
+offerecer, e foi a minha av&oacute;, que me suggeriu a <span class=
+"pagenum"><a name="pag_264" id="pag_264">[264]</a></span>
+id&eacute;a de lhe comprar um vestido. Para levar a effeito este
+meu desejo combinei em segredo, com a costureira da snr.&ordf; D.
+Thereza, para o fazer, e estou muito certa de que a minha
+bemfeitora n&atilde;o despresaria a minha offerta, se tivesse a
+felicidade de lh'a apresentar.</p>
+
+<p>Esta explica&ccedil;&atilde;o, simples e clara, que demonstrava
+um cora&ccedil;&atilde;o sincero e grato, fez borbulhar as lagrimas
+nos olhos de todos os circumstantes. Devemos comtudo excluir d'este
+numero D. Euzebia, que presistia em negar a verdade.</p>
+
+<p>Quando se encontraram as duas inscrip&ccedil;&otilde;es, D.
+Euzebia chegou ao auge do desespero e da colera, e de boa vontade
+as inutilisaria, se lhe fosse possivel obtel-as &aacute;
+m&atilde;o; mas, felizmente para Rosinha, n&atilde;o p&ocirc;de
+conseguil-o.</p>
+
+<p>Finalmente, pelos cuidados e protec&ccedil;&atilde;o do juiz
+eleito, Rosa e sua av&oacute;, apesar de todos os obstaculos e
+vontade de D. Euzebia, receberam tudo o que lhes pertencia, e
+deixaram sem maior desgosto a casa, de que a mais cruel e mais
+requintada avareza as expulsava.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_265" id=
+"pag_265">[265]</a></span>
+
+<h2>XI.</h2>
+
+<p>Estamos no anno seguinte.</p>
+
+<p>Rosa escreveu &aacute; viscondessa do Candal e a sua filha uma
+carta t&atilde;o affectuosa e consoladora, que fez despertar em D.
+Julia um vehemente desejo de tornar a v&ecirc;r a sua querida
+discipula e protegida.</p>
+
+<p>Os dias, que faltavam para Rosa poder abra&ccedil;ar a sua
+amiga, pareciam-lhe seculos. Esperava com uma impaciencia
+impossivel de descrever, a chegada da primavera, porque
+ent&atilde;o &eacute; que devia, e podia estreitar ao
+cora&ccedil;&atilde;o a sua querida amiga e preceptora.</p>
+
+<p>Raiou finalmente o dia t&atilde;o anciosamente almejado. A
+primeira pessoa que D. Julia avistou foi Rosa, que, louca
+d'alegria, viera esperar a sua amiga querida, para lhe apresentar
+um cestinho, igual ao que tinha estabelecido <span class=
+"pagenum"><a name="pag_266" id="pag_266">[266]</a></span> e sido
+causa das rela&ccedil;&otilde;es e intima uni&atilde;o, que existia
+entre ellas.</p>
+
+<p>D. Julia ao v&ecirc;l-a deu um grito, e quiz immediatamente
+descer do coup&eacute;; mas n&atilde;o p&ocirc;de fazel-o, por que
+estava t&atilde;o magra, fraca e desfigurada que, quem a via,
+s&oacute; a um milagre podia attribuir a sua existencia. Era na
+verdade um milagre, devido ao amor maternal, e continuos cuidados e
+desvelos, de que a cercava a viscondessa.</p>
+
+<p>Rosa passou todo o dia na companhia da sua querida amiga e
+protectora. D. Julia tinha muito que lhe perguntar, por que queria
+saber minuciosamente tudo o que tinha acontecido, desde que ella se
+tinha retirado para o Porto.</p>
+
+<p>Apenas teve conhecimento da morte de D. Thereza, D. Julia pediu
+immediatamente a sua m&atilde;i, que recebesse em sua casa Rosa e
+sua av&oacute;.</p>
+
+<p>A viscondessa, que desejava e queria satisfazer o mais pequeno
+desejo, ou pedido de sua filha predilecta, accedeu sem demora.</p>
+
+<p>Rosa e sua av&oacute; vieram portanto morar para casa da
+viscondessa do Candal, que foi pessoalmente dar parte d'esta sua
+resolu&ccedil;&atilde;o &aacute; snr.&ordf; Maria da Gandra.</p>
+
+<p>&mdash;Estou satisfeitissima, minha senhora&mdash;disse a
+snr.&ordf; Maria da Gandra&mdash;pela felicidade de Rosa; mas ao
+mesmo tempo sinto um grande pesar, e &eacute; com difficuldade que
+me separo d'ella. Nunca mais encontrarei uma pequena, que seja
+t&atilde;o humilde e trabalhadeira.</p>
+
+<p>A viscondessa em seguida quiz satisfazer &aacute; snr.&ordf;
+Maria da Gandra toda a despeza, que Rosa e sua av&oacute; tinham
+feito em sua casa; mas a honrada e digna alde&atilde; n&atilde;o
+quiz aceitar a mais pequena e insignificante recompensa, e
+respondeu&mdash;Que Rosa havia ganho o que ella e sua av&oacute;
+tinham despendido.</p>
+
+<p>A despedida de Rosa e da snr.&ordf; Maria da Gandra foi
+pathetica, e s&oacute; a muito custo se desprenderam, chorando,
+<span class="pagenum"><a name="pag_267" id=
+"pag_267">[267]</a></span> dos bra&ccedil;os uma da outra,
+promettendo Rosa vir visital-a a miudo, por que o carinho, com que
+a snr.&ordf; Maria a tinha tratado havia sido tal, que seria uma
+ingrata se lhe n&atilde;o tributasse um profundo
+reconhecimento.</p>
+
+<p>A alegria, que se apoderou da pobre cega, quando lhe disseram
+que ia viver em casa da viscondessa do Candal, foi tal, que
+s&oacute; acreditou depois de muito lh'o asseverarem, por que lhe
+parecia impossivel que semelhante ventura lhe succedesse.</p>
+
+<p>&mdash;Que a minha Rosinha&mdash;disse ella&mdash;algum dia se
+havia de tornar senhora da cidade, sempre eu o julguei, por que era
+muito gentil e linda para ser camponeza; mas que eu partilhasse tal
+ventura, nunca o imaginei.</p>
+
+<p>Rosa e sua av&oacute; foram alojadas, em casa da viscondessa, em
+dous quartos, muito perto d'aquelle em que habitava D. Julia; que
+assim o tinha exigido para ter a sua protegida junto d'ella, o que
+se executou com muita censura e reparo de D. Bertha.</p>
+
+<p>&mdash;Era s&oacute; o que faltava&mdash;dizia um dia, a
+orgulhosa D. Bertha, a D. Francisca de Meirelles, sua
+amiga&mdash;trazer para nossa casa estas duas mendigas. Podes tu,
+minha querida, explicar-me como &eacute; que Julia p&ocirc;de
+affei&ccedil;oar-se tanto a estas duas creaturas?</p>
+
+<p>&mdash;Tua irm&atilde;, Bertha, tem o cora&ccedil;&atilde;o
+muito sensivel; basta que lhe fa&ccedil;am uma choradeira, ou que
+lhe contem uma historia triste para acreditar em tudo, e logo se
+affei&ccedil;oar a qualquer, e lhe dedicar carinho &eacute;
+protec&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>&mdash;Mas na verdade, esta sociedade n&atilde;o &eacute;
+t&atilde;o agradavel e attrahente?&mdash;disse D. Bertha com um
+sorriso ironico.&mdash;Se a cega e a neta contam commigo para lhes
+fazer companhia, affirmo-te que lhes hei-de deixar muito tempo para
+se aborrecerem.</p>
+
+<p>Conforme com estas <i>bellas</i> resolu&ccedil;&otilde;es D.
+Bertha evitava <span class="pagenum"><a name="pag_268" id=
+"pag_268">[268]</a></span> o mais possivel dirigir a palavra a Rosa
+e sua av&oacute;, e, quando por necessidade o fazia, era com um
+modo t&atilde;o sobranceiro, imperial e chocarreiro, que as duas
+infelizes ficavam confusas e envergonhadas.</p>
+
+<p>D. Julia tentou por diversas vezes fazer nascer no
+cora&ccedil;&atilde;o de D. Bertha sentimentos mais nobres e mais
+christ&atilde;os, mas infructuosamente, por que, procurar commover
+e sensibilisar o cora&ccedil;&atilde;o empedernido e orgulhoso de
+D. Bertha, era um trabalho improbo e esteril.</p>
+
+<p>D. Julia, feliz por ter em sua companhia a querida de seu
+cora&ccedil;&atilde;o, a sua discipula, recuperou algum vigor, e
+ainda p&ocirc;de recome&ccedil;ar as li&ccedil;&otilde;es. A
+fadiga, que d'este trabalho lhe podia provir, era attenuada pela
+atten&ccedil;&atilde;o e estudo, que Rosa prestava &aacute;s
+prelec&ccedil;&otilde;es.</p>
+
+<p>D. Julia ainda quiz ensinar desenho a Rosa.</p>
+
+<p>&mdash;Queres dar a Rosa&mdash;disse uma occasi&atilde;o a
+viscondessa a sua filha&mdash;uma educa&ccedil;&atilde;o e
+instruc&ccedil;&atilde;o superiores &aacute; sua
+posi&ccedil;&atilde;o na sociedade, e n&atilde;o receias que isso
+para o futuro lhe cause embara&ccedil;os e dissabores?</p>
+
+<p>&mdash;Como resposta a essa pergunta tenha, minha querida
+m&atilde;i, a bondade de ouvir o que a minha protegida me dizia
+outro dia:</p>
+
+<p>&laquo;O meu maior desejo, minha boa amiga e mestra, &eacute;
+alcan&ccedil;ar bastante instruc&ccedil;&atilde;o e saber, para um
+dia ser professora. Como me julgaria feliz podendo dizer &aacute;s
+minhas discipulas: era uma alde&atilde; muito ignorante e rustica;
+uma boa menina, a snr.&ordf; D. Julia, filha da snr.&ordf;
+viscondessa do Candal, teve a bondade de me tomar sob a sua
+protec&ccedil;&atilde;o e de me ensinar. &Eacute; a ella, meninas,
+a quem devo o que sei e o que vos ensino. Se me amaes, deveis
+igualmente amar a snr.&ordf; D. Julia, minha bemfeitora; e
+ent&atilde;o ellas vos render&atilde;o gra&ccedil;as, assim como eu
+vol-as rendo agora.&raquo;</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o te torno a dizer mais nada&mdash;disse a
+viscondessa&mdash;Continua, minha filha, pois Rosa &eacute; digna
+dos <span class="pagenum"><a name="pag_269" id=
+"pag_269">[269]</a></span> teus cuidados e desvelos, e para que
+elles se tornem mais proficuos ajudar-te-hei a leccional-a.</p>
+
+<p>A viscondessa cumpriu a sua promessa e, alternadamente com D.
+Julia, dava as li&ccedil;&otilde;es a Rosa.</p>
+
+<p>Estes estudos n&atilde;o fizeram p&ocirc;r de parte a
+prepara&ccedil;&atilde;o de Rosa para receber dignamente a primeira
+communh&atilde;o. Foi com uma piedade exemplar que ella cumpriu
+este solemne acto, e o futuro provou n&atilde;o ter sido esteril
+para o seu cora&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>D. Julia passou o ver&atilde;o entre as alternativas de melhoras
+e recahidas nos seus padecimentos, que tinham uma success&atilde;o
+quasi regular e periodica. Umas vezes nem levantar-se da cama, ou
+d'uma cadeira de bra&ccedil;os, para onde a levavam, lhe era
+possivel; outras vezes chegava a poder dar uns pequenos passeios
+pelos campos das visinhan&ccedil;as. Aos proprios medicos custava a
+comprehender como ella vivia.</p>
+
+<p>D. Julia, por&eacute;m, n&atilde;o se illudia sobre o seu estado
+de saude. Quando sua m&atilde;i a entretinha fazendo projectos, ou,
+como ordinariamente se diz, <i>castellos no ar</i>, para o futuro,
+ella sorria-se e respondia: que ainda faltava muito tempo para a
+sua realisa&ccedil;&atilde;o, e que n&atilde;o chegava a
+v&ecirc;l-os confirmar.</p>
+
+<p>A s&oacute;s com Rosa D. Julia fallava livremente sobre a
+proxima termina&ccedil;&atilde;o da sua existencia, e ent&atilde;o
+ella supplicava-lhe com instancia, que repellisse da sua
+imagina&ccedil;&atilde;o t&atilde;o sinistras id&eacute;as.</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o posso cr&ecirc;r,&mdash;dizia ella&mdash;que
+Deus nosso Senhor me queira tirar d'este mundo todos os meus
+protectores: n&atilde;o sei que crime tenha commettido, que
+mere&ccedil;a semelhante castigo.</p>
+
+<p>&mdash;Resta-te ainda minha m&atilde;i, minha
+Rosinha&mdash;respondia D. Julia&mdash;que estou certa nunca te
+ha-de desamparar.</p>
+
+<p>Rosa terminava esta penosa conversa&ccedil;&atilde;o
+abra&ccedil;ando <span class="pagenum"><a name="pag_270" id=
+"pag_270">[270]</a></span> D. Julia e procurando distrahil-a por
+todos os meios possiveis.</p>
+
+<p>O que a dedica&ccedil;&atilde;o mais sincera e real p&oacute;de
+suggerir de mais bello, tudo Rosa executava, recebendo, por
+galard&atilde;o, ou recompensa a mais grata, um terno sorriso de D.
+Julia, ou um agradecimento da viscondessa, e para os merecer faria
+o impossivel se necessario fosse.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_271" id=
+"pag_271">[271]</a></span>
+
+<h2>XII.</h2>
+
+<p>D. Julia apparentava exteriormente um socego d'espirito, que
+interiormente n&atilde;o sentia, por que receiava muito a chegada
+do outono, &eacute;poca, que os medicos tinham marcado, a mais
+longa a que poderia chegar. A anciedade, pois, que todos soffriam
+pela aproxima&ccedil;&atilde;o d'esse termo fatal, era geral.</p>
+
+<p>Chegou o outono. Por um d'estes phenomenos, que a tisica muitas
+vezes apresenta, a molestia n&atilde;o offereceu n'esta
+esta&ccedil;&atilde;o altera&ccedil;&atilde;o alguma.</p>
+
+<p>A esperan&ccedil;a, de que D. Julia ainda poderia vencer a fatal
+doen&ccedil;a, come&ccedil;ou a penetrar em todos os
+cora&ccedil;&otilde;es, e at&eacute; no da propria enferma. Rosa
+chegou a dizer &aacute; viscondessa, que tinha uma
+convic&ccedil;&atilde;o firme de que D. Julia n&atilde;o morreria,
+por que Deus Nosso Senhor era bom e n&atilde;o a havia de privar da
+sua protectora.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_272" id=
+"pag_272">[272]</a></span>
+
+<p>A viscondessa, que at&eacute; ahi estava convencidissima, de que
+sua filha n&atilde;o passaria al&eacute;m do termo marcado pelos
+medicos, vendo-o passar sem que a sua fatal predic&ccedil;&atilde;o
+se realisasse, come&ccedil;ou a cr&ecirc;r que se tinham enganado,
+e que D. Julia ainda lograria saude.</p>
+
+<p>Houve portanto grande alegria em casa da viscondessa. Todos os
+criados, que n&atilde;o amavam s&oacute;, mas que veneravam D.
+Julia, por que era sempre boa e affectuosa para elles, crendo que a
+sua joven ama, n&atilde;o tendo morrido na &eacute;poca marcada,
+estava salva, pediram unanimemente para a felicitarem; tal foi a
+alegria e contentamento, de que se apoderaram com esta
+esperan&ccedil;a e cren&ccedil;a.</p>
+
+<p>Estas demonstra&ccedil;&otilde;es respeitosas de sympathia e
+amisade, que os criados lhe deram, penhoraram e commoveram muito D.
+Julia. A todos agradeceu com reconhecimento esta nova prova
+d'affecto.</p>
+
+<p>Por&eacute;m, de todas as felicita&ccedil;&otilde;es, a da sua
+discipula e de sua av&oacute;, foi a que mais a impressionou.</p>
+
+<p>Quando Rosa, conduzindo sua cega av&oacute;, se ajoelhou com
+ella junto da cama de D. Julia, e lhe exprimiu, com candura e
+ingenuidade, a alegria e prazer, que sentiam pelas suas melhoras, e
+os votos, que faziam a Deus, para que o seu restabelecimento fosse
+real e breve, n&atilde;o p&ocirc;de soffrear a sua
+commo&ccedil;&atilde;o, e as lagrimas correram-lhe em fio pelas
+faces, agradecendo a Deus o prazer que tinha gosado com a
+felicita&ccedil;&atilde;o que acabava de lhe ser dirigida.</p>
+
+<p>Passou-se o inverno, sem que o estado de saude de D. Julia
+soffresse altera&ccedil;&atilde;o sensivel.</p>
+
+<p>Com a chegada da primavera D. Julia recome&ccedil;ou os seus
+passeios pelos campos e pinheiraes visinhos, na companhia da sua
+inseparavel Rosa, a que algumas vezes se aggregava tambem a
+viscondessa.</p>
+
+<p>Na quaresma seguinte Rosa recebeu pela segunda vez o sacramento
+da communh&atilde;o, e pouco tempo depois, D. Julia, querendo que a
+sua protegida progredisse <span class="pagenum"><a name="pag_273"
+id="pag_273">[273]</a></span> nos seus estudos, pediu a sua
+m&atilde;i que lhe escolhesse uma professora.</p>
+
+<p>A viscondessa annuiu immediatamente ao pedido de sua filha.</p>
+
+<p>Pouco tempo depois entrou para casa da viscondessa, sob
+recommenda&ccedil;&atilde;o e abono do abbade de S. Cosme, uma
+joven senhora, a quem ha pouco acabava de ser concedido o titulo de
+capacidade.</p>
+
+<p>Rosa esfor&ccedil;ava-se por todos os meios possiveis para
+corresponder dignamente aos beneficios, que, D. Julia e sua
+m&atilde;i, lhe estavam constantemente prodigalisando; procurando
+sempre n&atilde;o dar o mais leve desgosto &aacute;s suas
+protectoras; comtudo, &eacute; preciso dizer que Rosa n&atilde;o
+era perfeita. A sua vivacidade natural levava-a muitas vezes a
+impacientar-se, e o seu ainda pouco peso ou juizo a commetter
+algumas faltas nos seus deveres; mas reconhecia com tanta
+facilidade os seus erros, e mostrava-se t&atilde;o arrependida e
+desejosa de os emendar, com tanto afinco e perseveran&ccedil;a, que
+era impossivel tratal-a com rigor por muito tempo.</p>
+
+<p>Rosa dava as suas li&ccedil;&otilde;es, umas vezes no quarto de
+D. Julia, quando o seu estado de saude o permittia; outras vezes no
+da viscondessa, que sentia um verdadeiro e sincero prazer em
+observar os progressos da predilecta e querida de sua filha.</p>
+
+<p>D. Maria d'Almeida, assim se chamava a professora, correspondeu
+dignamente &aacute; confian&ccedil;a, que a viscondessa n'ella
+tinha depositado, confiando-lhe a instruc&ccedil;&atilde;o da sua
+pupilla.</p>
+
+<p>O progresso e desenvolvimento, que Rosa sob a sua
+direc&ccedil;&atilde;o experimentou, foi grande, dando j&aacute;
+signaes de que em breve a discipula se tornaria uma excellente
+professora.</p>
+
+<p>Rosa, assim que as suas obriga&ccedil;&otilde;es e deveres
+estavam terminados, dedicava-se exclusivamente a D. Julia, e sua
+av&oacute;. Esta, desde que viera viver para casa da <span class=
+"pagenum"><a name="pag_274" id="pag_274">[274]</a></span>
+viscondessa do Candal, andava alegre e folgaz&atilde;, e ainda
+julgava estar sonhando, tal era a placidez e amenidade do seu
+viver.</p>
+
+<p>Tinha j&aacute; decorrido parte do anno; o outono estava quasi
+findo, e o estado de saude de D. Julia n&atilde;o denunciava signal
+algum de peoramento; a molestia, por&eacute;m, que at&eacute;
+ent&atilde;o estivera encubada, reappareceu com grande violencia, e
+em oito dias as crises succederam-se t&atilde;o proximas umas das
+outras, que pozeram a enferma em estado de se n&atilde;o conceber
+esperan&ccedil;a alguma de a salvar.</p>
+
+<p>A illus&atilde;o, que at&eacute; ahi existira em todos,
+desappareceu completamente: j&aacute; n&atilde;o esperavam
+sen&atilde;o o golpe final... Rosa, nem um s&oacute; momento
+desamparava a sua querida protectora, e juntamente com a
+viscondessa, cuidava e tratava de D. Julia; n&atilde;o consentiam
+que mais ninguem lhe prestasse o mais insignificante
+servi&ccedil;o, chegando at&eacute; a ter zelos uma da outra.</p>
+
+<p>Tanta dedica&ccedil;&atilde;o e amisade teriam feito com que
+Deus revogasse a fatal senten&ccedil;a dada a D. Julia, se o
+Creador, na sua alta sabedoria, n&atilde;o tivesse resolvido chamar
+&aacute; sua presen&ccedil;a, a receber o premio das suas virtudes,
+aquelle anjo de bondade e resigna&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>D. Julia, j&aacute; moribunda e quasi expirante, pediu a sua
+m&atilde;i, como ultima gra&ccedil;a que lhe fazia, que n&atilde;o
+abandonasse Rosinha, a sua querida discipula e amiga; que se
+n&atilde;o affligisse, nem desanimasse, porque em Rosa lhe deixava,
+estava certa d'isso, uma filha obediente e dedicada, que havia de
+substituir no seu cora&ccedil;&atilde;o o lugar que ella deixava
+vasio, e a Rosa recommendou-lhe que amasse sempre muito sua
+m&atilde;i, por que n'ella encontraria um sincero apoio, e uma
+terna e carinhosa amiga.</p>
+
+<p>Apenas D. Julia proferiu estas palavras, a hora fatal tinha
+soado; abra&ccedil;ou sua m&atilde;i, e Rosinha e, pronunciando os
+nomes de Rosa... e minha m&atilde;i... expirou, <span class=
+"pagenum"><a name="pag_275" id="pag_275">[275]</a></span> voando a
+sua candida alma &aacute; presen&ccedil;a de Deus a receber a
+glorifica&ccedil;&atilde;o de suas virtudes.</p>
+
+<p>Assim terminou D. Julia a sua existencia, que, se tinha sido
+breve para o mundo, f&ocirc;ra longa pelas boas obras, que sempre
+pratic&aacute;ra, e pela pureza em que sempre vivera.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_276" id=
+"pag_276">[276]</a></span>
+
+<h2>XIII.</h2>
+
+<p>J&aacute; decorreram seis annos depois das scenas descriptas no
+capitulo antecedente.</p>
+
+<p>N&atilde;o deixaremos, por&eacute;m, a nossa muito conhecida
+casa, perto de S. Cosme, pertencente &aacute; viscondessa do
+Candal, por que &eacute; no caminho, que a ella conduz, que tem
+lugar o que passamos a contar.</p>
+
+<p>Uma senhora ainda joven, e outra j&aacute; de mais idade
+caminham em silencio, e commovidas.</p>
+
+<p>A mais idosa &eacute; a nossa muito conhecida viscondessa do
+Candal.</p>
+
+<p>O pesar da morte da sua querida filha Julia desfigurou-a muito.
+O rosto tem-no emmagrecido, e sulcado de profundas rugas, e os
+cabellos embranquecidos antes do tempo.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_277" id=
+"pag_277">[277]</a></span>
+
+<p>A sua companheira &eacute; uma joven que figura ter dezesete
+para dezoito annos, d'apparencia ingenua e modesta; &eacute; a
+nossa Rosa, a pequena dos ramos e cestinhos.</p>
+
+<p>A viscondessa caminha apoiada no bra&ccedil;o da sua
+companheira. Depois d'alguma hesita&ccedil;&atilde;o Rosa
+decidiu-se a dirigir-lhe a palavra.</p>
+
+<p>&mdash;Receio, minha querida senhora&mdash;disse Rosa
+respeitosamente&mdash;que esta visita vos cause uma grande
+commo&ccedil;&atilde;o e vos prejudique a saude. Por que a
+n&atilde;o deixaes para quando estiverdes mais restabelecida?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o, Rosa, n&atilde;o. Ha oito dias, que
+n&atilde;o vim visitar a campa onde jaz a minha Julia, e oito dias
+j&aacute; &eacute; um espa&ccedil;o muito longo. Sinto-me hoje
+melhor, n&atilde;o despresarei portanto esta occasi&atilde;o que se
+me offerece, por que, quem sabe se recahirei?</p>
+
+<p>&mdash;N&atilde;o penseis em tal, senhora viscondessa. Creio que
+ainda haveis de ter muitos annos de vida; tenho f&eacute;, que Deus
+vos n&atilde;o roubar&aacute; &aacute; minha ternura e
+reconhecimento.</p>
+
+<p>&mdash;Se as ora&ccedil;&otilde;es d'um anjo, Rosa, podessem
+deter a morte, conhe&ccedil;o que as tuas me preservariam d'ella.
+Mas, ai de mim, a morte da minha sempre lembrada Julia
+despeda&ccedil;ou-me o cora&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o estou eu
+s&oacute; n'este mundo? Bertha n&atilde;o me abandonou logo que
+casou? Que fa&ccedil;o ent&atilde;o aqui n'este ermo, a que chamam
+mundo?</p>
+
+<p>&mdash;Ah! senhora, esqueceis ent&atilde;o a pobre Rosa, que vos
+estima e ama, e que vos &eacute; t&atilde;o dedicada como se
+f&ocirc;ra vossa filha?</p>
+
+<p>Estas palavras, pronunciadas com um accento de submiss&atilde;o,
+penetraram at&eacute; o imo do cora&ccedil;&atilde;o da
+viscondessa: sensibilisaram-na tanto, que abrindo os bra&ccedil;os
+recebeu n'elles Rosa banhada em lagrimas.</p>
+
+<p>&mdash;Sou uma ingrata, Rosa, bem o
+reconhe&ccedil;o,&mdash;disse a viscondessa cingindo Rosa ao
+cora&ccedil;&atilde;o. Recebo com indifferentismo os teus cuidados
+e carinhos, e a tua inexcedivel dedica&ccedil;&atilde;o.
+Perd&ocirc;a-me, minha filha, minha <span class="pagenum"><a name=
+"pag_278" id="pag_278">[278]</a></span> querida filha. Conheceste
+Julia, e melhor que outra qualquer sabes quanto era merecedora da
+minha ternura e amisade, e quanto &eacute; digna de ser pranteada.
+Mas Julia, antes de morrer, deixou-te na minha companhia, para me
+servires de consola&ccedil;&atilde;o e allivio na minha d&ocirc;r.
+Abra&ccedil;a-me Rosa, minha filha querida.</p>
+
+<p>Rosa, por unica resposta, abra&ccedil;ou com ternura a sua
+bemfeitora.</p>
+
+<p>As lagrimas, que lhe cobriam as faces, diziam bem alto e
+eloquentemente, o que a commo&ccedil;&atilde;o lhe embargava nos
+labios.</p>
+
+<p>Ainda caminharam por mais algum tempo e chegaram ao
+cemiterio.</p>
+
+<p>A viscondessa do Candal, como tributo &aacute; memoria de sua
+filha, mand&aacute;ra-lhe levantar um lindo e rico mausol&eacute;o
+de marmore branco, no qual ella tambem queria ser encerrada
+&aacute; sua morte. Em volta das grades viam-se alegretes em que
+haviam violetas, geranios e rosas amarellas, que Rosa cultivava e
+cuidava com muito esmero, como recorda&ccedil;&atilde;o das
+fl&ocirc;res com que enfeit&aacute;ra o cestinho, que f&ocirc;ra
+causa da intima uni&atilde;o, que se estabelecera entre ella e D.
+Julia.</p>
+
+<p>A viscondessa e sua filha adoptiva oraram por muito tempo sobre
+a campa d'aquella, que tanto tinham estremecido em vida, e que
+tanto choravam na morte.</p>
+
+<p>Rosa, depois de ter examinado e regado todos os alegretes e
+p&eacute;s de fl&ocirc;res, um por um, para que os insectos, ou a
+seccura os n&atilde;o estiolassem, dirigiu-se &aacute;
+viscondessa.</p>
+
+<p>&mdash;Deixo-vos, senhora&mdash;lhe disse ella&mdash;por um
+instante. Vou rezar junto da campa de minha av&oacute;.</p>
+
+<p>&mdash;Tambem quero acompanhar-te&mdash;replicou a
+viscondessa.</p>
+
+<p>N&atilde;o muito distante do mausol&eacute;o de D. Julia se
+elevava uma cruz simples. Era ahi que jazia, havia dous annos, a
+pobre cega. Termin&aacute;ra os seus dias socegadamente,
+<span class="pagenum"><a name="pag_279" id=
+"pag_279">[279]</a></span> bemdizendo a ternura de sua neta, e a
+caridade affectuosa da sua bemfeitora.</p>
+
+<p>Devido ainda ao zelo de Rosa a campa da pobre cega, adornada com
+diversas fl&ocirc;res, semelhava um jardimsinho.</p>
+
+<p>Rosa ajoelhou-se, e depois de ter rezado com fervor e
+devo&ccedil;&atilde;o por algum tempo, levantou-se, e dando o
+bra&ccedil;o &aacute; viscondessa retiraram-se, fazendo ainda uma
+ultima visita ao tumulo de D. Julia.</p>
+
+<p>Quando se recolheram, Rosa encontrou uma carta da sua antiga
+professora D. Maria d'Almeida, na qual lhe participava, que d'ahi
+por dous mezes se havia de proceder aos exames
+d'habilita&ccedil;&atilde;o para os titulos de capacidade, por
+isso, se ainda estava decidida a prop&ocirc;r-se a exame, que
+enviasse os documentos necessarios ao commissario dos estudos.</p>
+
+<p>Rosa apresentou esta carta &aacute; viscondessa.</p>
+
+<p>&mdash;Sempre est&aacute;s decidida a prop&ocirc;r-te a
+exame?&mdash;lhe disse ella.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha senhora. &Eacute; o meu mais fervente e
+afanoso desejo. Quero, senhora, que a instruc&ccedil;&atilde;o e
+saber, que vos devo, e a vossa querida e chorada filha, aproveite
+&aacute;s crian&ccedil;as, que a pobresa retem na ignorancia e na
+rudeza. Se eu poder ser util, ainda que seja a uma s&oacute;
+d'entre ellas, como, senhora, me reputarei feliz e bem paga do meu
+trabalho!</p>
+
+<p>&mdash;Tinha a esperan&ccedil;a de te conservar sempre na minha
+companhia&mdash;-replicou a viscondessa.&mdash;Occuparias para
+sempre o lugar do anjo, que Deus me levou, da minha Julia.
+N&atilde;o queres, Rosa, ser minha filha?</p>
+
+<p>&mdash;Ah! senhora, quero sim, ser vossa filha; isso ainda vai
+al&eacute;m da minha ambi&ccedil;&atilde;o. Mas recordo-me que era
+uma pobre rustica, e que s&oacute; aos vossos beneficios devo a
+minha instruc&ccedil;&atilde;o, e a cultura da minha intelligencia.
+Quero, senhora, dar de barato, e ter a vangloria de dizer que os
+vossos cuidados n&atilde;o foram perdidos, <span class=
+"pagenum"><a name="pag_280" id="pag_280">[280]</a></span> mas com
+isso n&atilde;o me devo tornar vaidosa, por que faltaria assim aos
+meus deveres. Serei sempre para v&oacute;s uma filha adoptiva,
+carinhosa, humilde e terna, e que achareis sempre ao vosso lado,
+esfor&ccedil;ando-se por pagar a sua divida de gratid&atilde;o e
+reconhecimento: Recebendo e aceitando a vossa
+affei&ccedil;&atilde;o e amisade, para mim preciosa e apreciavel,
+n&atilde;o me devo esquecer da classe onde nasci. O meu lugar
+&eacute; mais humilde; mas como elle parece bello e grandioso ao
+meu cora&ccedil;&atilde;o, quando me recordo do bem, que posso
+fazer a essas infelizes crian&ccedil;as, que vivem na bruteza,
+ensinando-lhe o que sei e que &eacute; obra vossa! Ha muito que
+concebi este meu projecto, e que o declarei a vossa filha:
+&laquo;&Aacute;s pobres rapariguinhas das ald&eacute;as&mdash;lhe
+disse eu&mdash;farei o mesmo que a snr.&ordf; D. Julia me fez.
+Ensinar-lhes-hei a serem felizes com a sorte, que Deus lhes
+destinou n'este mundo; cultivarei o seu cora&ccedil;&atilde;o e o
+seu espirito, e por unica recompensa n&atilde;o quererei mais do
+que ouvil-as bem dizer os nomes da exc.<sup>ma</sup> viscondessa do
+Candal e de sua filha.&raquo;</p>
+
+<p>&mdash;Rosa, minha querida Rosa&mdash;disse a viscondessa
+abra&ccedil;ando-a, e com os olhos rasos de lagrimas,&mdash;que
+Deus te pague a felicidade, e prazer, que me fazes nascer no
+cora&ccedil;&atilde;o com as tuas palavras.</p>
+
+<hr style="border-bottom: 2px dotted #000;">
+
+<hr style="border-bottom: 2px dotted #000; height: 1em;">
+
+<hr style="border-bottom: 2px dotted #000; height: 1em;">
+
+<p>Dous mezes depois, a nossa, hoje, D. Rosa de Jesus e Sousa
+comparecia perante o jury nomeado para proceder ao exame das
+concorrentes ao professorado. O titulo de capacidade, em grau
+superior, foi-lhe concedido por unanimidade e com
+distinc&ccedil;&atilde;o.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_281" id=
+"pag_281">[281]</a></span>
+
+<h2>XIV.</h2>
+
+<p>Dous annos se passaram j&aacute;, depois que foi conferido a D.
+Rosa de Jesus e Sousa o seu titulo de capacidade.</p>
+
+<p>Estamos em fins d'Outubro, n'uma casa caiada de branco, que se
+encontra ao entrar na freguezia de S. Cosme, do lado de S. Pedro da
+Cova. Na frente ha um pateo largo e espa&ccedil;oso. Sobre o muro
+pendem os ramos verdejantes de dous chor&otilde;es. Nas trazeiras
+da casa ha um pequeno jardim, muito bem tratado, com as ruas
+areadas com saibro, e que termina por um caramanch&atilde;osinho,
+que, pelo bem cerrado que est&aacute;, indica que no ver&atilde;o
+deve alli haver uma frescura agradavel, auxiliada pela corrente
+d'uma levada, que corre proximo. Na sala que fica ao nivel do
+jardim ouve-se um murmurio confuso. Entremos, para examinar a que
+elle &eacute; devido. <span class="pagenum"><a name="pag_282" id=
+"pag_282">[282]</a></span> Que vemos? Grupos de lavradeirinhas, ao
+todo umas trinta, pouco mais ou menos, vestidas de branco, e tendo
+todas na m&atilde;o um raminho de fl&ocirc;res do campo, com um
+la&ccedil;o de fita. Ao fundo da sala v&ecirc;-se uma rica imagem
+de Nossa Senhora da Concei&ccedil;&atilde;o, collocada sobre um
+altar, bem adornado com casti&ccedil;aes de prata, velas de cera e
+jarras com fl&ocirc;res.</p>
+
+<p>N'um dos lados da sala ha quatro cadeiras de bra&ccedil;os;
+n'uma d'ellas est&aacute; sentada a viscondessa do Candal, a quem
+D. Rosa, de p&eacute;, junto d'ella, est&aacute; dizendo os nomes
+das suas discipulas.</p>
+
+<p>A viscondessa passeia a vista por todas ellas, e conhece-se-lhe
+na express&atilde;o do rosto, que aquelle espectaculo a regosija e
+encanta.</p>
+
+<p>O modo, porque todas dirigem as vistas para a porta e pelas
+janellas, indica que se espera alguem.</p>
+
+<p>O abbade da freguezia e o administrador do concelho entram
+n'este momento pelo port&atilde;o.</p>
+
+<p>Um sorriso alegre se v&ecirc; deslisar em todos os rostos. Eram
+as pessoas por quem se esperava.</p>
+
+<p>A viscondessa e a sua pupilla vieram recebel-os &aacute; porta,
+e conduziram-nos &aacute;s cadeiras que lhe estavam destinadas.</p>
+
+<p>As crian&ccedil;as tomaram os seus lugares, e restabelecido o
+silencio, o abbade da freguezia tomou a palavra, e fez o seguinte
+discurso:</p>
+
+<p>&laquo;Sinto, minhas meninas, um prazer immenso por vos
+v&ecirc;r aqui reunidas para a celebra&ccedil;&atilde;o do primeiro
+anniversario da installa&ccedil;&atilde;o d'esta esc&oacute;la,
+devida &aacute; muita philantropia e caridade christ&atilde; da
+exc.<sup>ma</sup> viscondessa do Candal, e &aacute;
+dedica&ccedil;&atilde;o exemplar da vossa digna professora a
+snr.&ordf; D. Rosa de Jesus e Sousa. Julgo desnecessario o
+rememorar-vos, que um tal sacrificio merece um eterno
+reconhecimento, por que entendo que entre v&oacute;s, minhas
+filhas, n&atilde;o ha ingratas. V&oacute;s respeitaes e veneraes a
+exc.<sup>ma</sup> viscondessa, e amaes com um verdadeiro
+<span class="pagenum"><a name="pag_283" id=
+"pag_283">[283]</a></span> amor a vossa professora, n&atilde;o
+&eacute; assim? &Eacute;, assim o creio. Mas ha ainda uma pessoa,
+para quem deveis ter uma saudosa recorda&ccedil;&atilde;o, e que
+tambem deveis encommendar a Deus nas vossas ora&ccedil;&otilde;es.
+Prestai-me atten&ccedil;&atilde;o, que vos vou dizer quem &eacute;
+essa pessoa, cuja recorda&ccedil;&atilde;o vos deve ser grata. Ha
+pouco mais ou menos doze annos, que uma pobre lavradeirinha ganhava
+a sua vida fazendo cestinhos de juncos, e ramos de fl&ocirc;res
+silvestres. Uma joven e nobre senhora, que reconheceu n'ella
+amabilidade, modestia e humildade, sympathisou com ella, e
+encarregou-se de a educar e instruir. Como a sua bemfeitora a achou
+sempre digna dos seus beneficios, encarregou-se tambem da sua
+posi&ccedil;&atilde;o futura. Essa joven senhora, de que vos fallo,
+&eacute; a exc.<sup>ma</sup> snr.&ordf; D. Julia, filha da
+exc.<sup>ma</sup> viscondessa do Candal, e essa lavradeirinha, a
+quem ella dispensou os seus carinhos e a sua
+affei&ccedil;&atilde;o, &eacute; a vossa douta professora. Ha
+j&aacute; alguns annos, que a alma da exc.<sup>ma</sup> snr.&ordf;
+D. Julia voou &aacute; presen&ccedil;a do Deus eterno a receber o
+premio das suas virtudes e das boas obras, que pratic&aacute;ra
+n'este mundo; uma das quaes ainda existe, que foi o deixar-vos a
+vossa professora e amiga.</p>
+
+<p>&laquo;Mostrai-vos, meninas, sempre merecedoras dos beneficios,
+que vos fazem, porque isso &eacute; o unico desejo das vossas
+bemfeitoras e a unica recompensa, que recebem da sua
+dedica&ccedil;&atilde;o, que estou muito convencido sempre fareis
+por merecer.</p>
+
+<p>&laquo;N&atilde;o quero, por&eacute;m, retardar por mais tempo o
+momento de receberem o premio e galard&atilde;o, que merecem pela
+sua applica&ccedil;&atilde;o ao estudo e amor ao trabalho,
+&aacute;quellas que d'isso se tornaram dignas; e &aacute;s que
+d'esta vez n&atilde;o s&atilde;o galardoadas resta-lhes a
+esperan&ccedil;a e o meio de, pela imita&ccedil;&atilde;o das suas
+condiscipulas, se tornarem dignas de o merecerem para o anno
+futuro.</p>
+
+<p>&laquo;Vamos por tanto proceder &aacute;
+distribui&ccedil;&atilde;o dos premios.&raquo;</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag_284" id=
+"pag_284">[284]</a></span>
+
+<p>Um sussurro d'alegria acolheu as ultimas palavras do digno
+sacerdote.</p>
+
+<p>A conferencia dos premios foi esplendida.</p>
+
+<p>Os premios consistiam em livros religiosos e
+d'instruc&ccedil;&atilde;o, que tinham sido cuidadosamente
+escolhidos pela viscondessa, e sua filha adoptiva, todos ricamente
+encadernados. Era interessante e bello v&ecirc;r a alegria, que se
+deslisava no rosto das que tinham sido contempladas na
+distribui&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Terminada a conferencia dos premios teve lugar debaixo do
+caramanch&atilde;o um bem servido <i>lunch</i>.</p>
+
+<p>&mdash;Como &eacute; magnifico o espectaculo, que apresentam
+estas crian&ccedil;as, alegres e satisfeitas&mdash;disse a
+viscondessa&mdash;Recordar-me-hei sempre d'este dia, como o mais
+grato e feliz da minha vida. Tu, minha querida Rosa, attrahes as
+ben&ccedil;&atilde;os do c&eacute;o sobre n&oacute;s, e sobre a
+memoria da minha querida, e chorada Julia.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! senhora,&mdash;disse Rosa com os olhos rasos de
+lagrimas&mdash;que a vossa prophecia se realise, e a minha mais
+cara aspira&ccedil;&atilde;o ficar&aacute; satisfeita.</p>
+
+<hr style="border-bottom: 2px dotted #000;">
+
+<hr style="border-bottom: 2px dotted #000; height: 1em;">
+
+<p>O desejo de Rosa realisou-se. A esc&oacute;la est&aacute; cada
+vez mais florescente, e a freguezia ufana-se pela possuir. Todos os
+moradores do lugar ainda hoje bemdizem os nomes da viscondessa do
+Candal, de sua filha e de D. Rosa, mod&ecirc;lo raro d'um
+cora&ccedil;&atilde;o verdadeiramente grato e reconhecido aos
+beneficios que recebera.</p>
+
+<p class="centrado">FIM.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Annos de Prosa; A Gratido;
+O Arrependimento, by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ANNOS DE PROSA ***
+
+***** This file should be named 26103-h.htm or 26103-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
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+works. See paragraph 1.E below.
+
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
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+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #26103 (https://www.gutenberg.org/ebooks/26103)