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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:20:05 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: July 22, 2008 [EBook #26103] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ANNOS DE PROSA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + +ANNOS DE PROSA + +Romance + +por + +CAMILLO CASTELLO-BRANCO + + +A GRATIDÃO + +Romance + + +O ARREPENDIMENTO + +Romance + + + + +PORTO. +Editor, Antonio José da Silva Teixeira. +Rua da Cancella Velha, 62 +1863 + + + + +Typographia de Antonio José da Silva Teixeira, +Cancella Velha, 62 +1863 + + + + + + +ANNOS DE PROSA. + + + + + + +ANNOS DE PROSA. + + +DISCURSO PROEMIAL. + +Altissima é a missão do escriptor, e a do romancista principalmente. O +mestre Ignacio da cartilha velha, amoldurada ás necessidades do seculo, +é o romancista. Mal hajam os sacerdotes das letras derrancadas que +vendem peçonha em lindos crystaes, e desfloram as almas em luxuriante +florescencia da sua primavera. O mau romance tem afistulado as entranhas +d'este paiz. Não ha fibra direita no coração da mulher que bebeu a +morte, e--peior que a morte--algumas dezenas de gallicismos no que por +ahi se escreve e copia. O anjo da innocencia foge de certos livros, como +os editores de certos authores. A candura virginal de uma menina de +quinze annos é a cousa mais equivoca d'este mundo, se a menina leu cousa +em que os pedagogos do coração a ensinaram a conhecer-se, antes que a +experiencia a doutrinasse. + +Para cumulo de infortunio, Portugal é um paiz onde se está lendo muito. + +Acontece aos estomagos famintos, quando se lhes depara alimento bom ou +mau, assimilarem-n'o com tamanha sofreguidão, que o encruamento do bôlo, +e o marasmo são inevitaveis. Assim e por igual theor, quando os Lucullos +e Apicios das letras expõem á voracidade publica as suas iguarias +estragadas, a fome de aprender a vida nos romances locupleta-se com +tamanha intemperança, que o resultado e as dispepsías espirituaes, +tormento de angustias vomitivas, que fazem descer o coração ao lugar do +estomago, e subir o estomago ao lugar do coração. + +Eu tenho assistido a esta deslocação de visceras com lagrimas nos olhos, +enxutos para tudo o mais. Muitas vezes tenho perguntado ás velhas se +isto assim era no tempo d'ellas. Faz dó vêr a consternação com que +algumas expedem um gemido, unisono com o assobio da pitada! Compunge vêr +rolar a lagrima preguiçosa do olho desvidrado d'outra, que se recorda da +honestidade com que foi amada pelo seu quinto amante! + +Ha cincoenta annos que as senhoras não liam romances, por uma razão cujo +descobrimento me custou longas vigilias:--não sabiam lêr. Algumas, +rebeldes á vontade paternal, conseguiam soletrar e escrever á tia uma +carta em dia de annos, copiada do _Secretario portuguez_ de Candido +Lusitano. Os paes aceitavam com repugnancia aquelle abuso de +intelligencia, e castigavam a filha, forçando-a a um trabalho litterario +semanal: escrever em cada segunda feira o rol da roupa. Este systema +penal tinha só a vantagem de tirar ao vicio os enfeites da +intelligencia, reduzindo-o á essencia bruta de sua nudez primitiva. Já +não era pouco para exemplo e edificação das almas. O melhor moralista +será aquelle que despir o delicto do coração das galas que lhe veste o +desejo, e o cobrir de farrapos repulsivos. + +Por esses tempos, e nos dez annos sequentes, os propagandistas da +corrupção tentaram exercitar o seu maleficio, vertendo para pessima +linguagem portugueza novellas francezas, que transpozeram as fronteiras +no couce da bagagem do Junot. + +Em 1814, a immoralidade, até esse anno sopeada pela impertinente virtude +das novellas, taes como _A virtude recompensada_ e o _Escravo das +paixões_, quebrou as ferropeas, e despejou do regaço dissoluto a versão +de _Tom Jones_, o _Sophá_, o _Candido_, e quejandas faúlas incendiarias, +que pegariam nos corações, se a manteiga e o paio das tendas não +esfriassem a força comburente d'essa droga, que acirrava os paladares +anthropóphagos d'aquelle festim de 1793. + +Bemdita e louvada seja a ignorancia! Os romances francezes, até 1830, +encontraram as almas portuguezas hermeticamente calafetadas. Ate esse +anno infausto, a mulher era o anjo caseiro, a alma da despensa, a +providencia da piuga, e sobre tudo, a femea do homem, qual Jehovah a +fizera d'uma costella do mesmo. + +O salão era um como trintario cerrado, onde, a espaços, uma gosmenta +matrona espirrava, e a sociedade, a cabecear de somno, surgia +estremunhada, dizendo: _Dominus tecum_. A menina casadeira não se erguia +de ao pé da mãi. O noivo mirava-a de longe em fellina beatitude; e, no +auge da sua casquilha audacia, piscava-lhe a furto o olho, onde +reslumbrava a paixão. + +Não havia então d'estes homens mulherengos, que alambicam a parlenda +assucarada, coando por ouvidos incautos o veneno do estilo, que é o mais +corrosivo de quantos ha na toxicologia do amor. A mulher actual é quasi +sempre victima da rhetorica requentada do romance, que esteril +peralvilho lhe encampa como cousa de sua alma. Algumas conheço eu que +resvalaram ao abysmo da perdição pela rampa de um adverbio +euphonicamente intruso n'um periodo arredondado. Este sortilegio da +linguagem, que enfeitiça e dá quebranto ás mulheres, é apanhado no +romance. O coração de certos individuos acha-se, muitas vezes, a paginas +tantas de tal novella. Sem figurinos e romances, não haveria corpos +apresentaveis nem espiritos insinuantes. + +Muita gente se espanta das gloriosas aventuras de alguns sujeitos +pyramidalmente tolos. Eu não. Tal ha que se vos afigura mazorro d'alma, +e, não obstante, ao lado de mulheres, dispara descargas de phrases +amorudas que é um pasmar. Asneira, dita em nome do coração, não ha uma +só que não seja laureada. Cada Petrarcha lorpa tem, a final, o seu +capitolio. + +A mulher, por via de regra, é de seu natural tão boa, sensivel e +generosa, que chega a recompensar a pertinacia do homem que, primeiro, a +nauseou: o segredo d'este paradoxo está na influencia contagiosa da +tolice. A mulher que fez chorar o tolo, e viu rebentar lagrimas de uma +cabeça de granito, cuida que fez o milagre de Moysés na rocha de Horeb. +Alliciada pela serpente da vaidade, succumbe como Eva. + +Que mudanças! + +D'antes o caixeiro principiava sempre a carta de namoro por: _Meu amado +bem!_ Agora já diz: _Anjo!_ ou _Seraphim!_ Era d'antes a phrase +sacramental do exordio: _Vêr-te e amar-te foi obra de um momento._ Agora +não é raro encontrar d'estes arrojos: _Amar e morrer é meu destino!_ + +E, depois, o maleficio do romance não está sómente no plagiato +irrisorio; o peior é quando as imaginações frivolas ou compassivas se +entalham os lances da vida phantasiosa da novella, e crêem que a norma +geral do viver é essa. + +Em quanto a mulher estuda sómente a phrase que applica, bem ou mal, +quando a enlouquece a vaidade de parecer o que não é, bem vai. Dá-se um +exemplo: A apaixonada de um amigo meu, ao recebêl-o, pela primeira vez, +em sua casa, no patamar da escada, antes de deixar-se beijar a mão, +estendeu o braço direito em magestosa attitude, deu á frente a regia +altivez de uma Phedra de aguas-furtadas, e disse em tom cavo e solemne: +_Juraes levar-me ás aras?_ O meu amigo, que balbuciava um prefacio de +longo estudo, soltou um frouxo de insolente riso, e desceu as escadas, +por não poder com o espectaculo da dama corrida do insulto. Eis-aqui uma +que os romances de Arlincourt salvaram; quantas, porém, perdidas por +guardarem as phrases ridiculas para o final?... + +Grande mal é o identificar-se o espirito ás visualidades do romance. +Quando a leitora se ri das crendices da sua infancia e dos absurdos +principios que lhe apoucaram o imaginar e o voar do espirito, vem-lhe os +enfados, o escutar as mentiras do coração que se emancipa, o crêr que a +vida passada foi apenas um vegetar do vulgo, e que o viver da alma +assim, será como o do arbusto bravio que dá flôres sem aroma, e fructos +sem sabor. + +Seja, outra vez, bemdita e louvada a ignorancia de nossas mães, e nossas +irmãs, e nossas esposas! + +A vida caseira, esta deliciosa monotonia, que a poucos é já saborosa no +viver intimo, requer muita estupidez, muito somno a toda a hora, um +estomago exigente e forte, muita digestão soporosa de substancias +pesadas. + +Esta bemaventurança ha-de restaural-a a ignorancia supina, não hão-de +ser as palavrosas theorias de Michelet ácerca do _amor_ e da _mulher_. +Comecem os paes de familias por circumvalarem suas casas de um cordão +sanitario contra a peste do romance, que não se abonar com a promettida +pudicicia d'este, e de outros com que o author, coração aberto a todas +as chimeras, e de entranhas lavadas, tem querido enxertar no tronco +carcomido da humanidade toda a casta de virtude. + +Vou lembrar um alvitre, cuja adopção poderia ser momentosa na +regeneração dos costumes. + +As reliquias das velhas virtudes portuguezas, se as ha, acham-se nos +velhos, que beberam ainda as escorralhas dos seios puros do seculo +passado. O Porto, de preferencia, graças á força refractaria da sua +organisação, encerra boas quatro duzias de archontes dignos da Grecia +antiga. Fôra facil eleger de entre estes--(abstenho-me de os nomear, +porque a modestia n'elles dóe de insoffrida como ulcera em lombo de +muar, e não é raro responderem ao elogio com o couce)--eleger d'entre +estes, digo, uma corporação censoria, encarregada de examinar os livros, +que giram no mercado, e referendar os que a juventude feminil podesse +lêr sem deterioramento da innocencia. D'esta arte, os anciãos não +restringiriam a sua egoista virtude á missão balda de condemnarem o +vicio da mocidade inexperiente. O exemplo dão-no optimo; a doutrina é a +que nós sabemos; mas não os devemos desquitar de se constituirem +entulhos contra a torrente do vicio, desviando-a de levar ao regaço das +futuras esposas e mães o romance peçonhoso. + +Pelo que, d'aqui já sotoponho este livro á censura, e assim dou publico +e voluntario testemunho de quanto venero as cãs e as virtudes. Fadario +triste! A minha sina capricha, até hoje, em fazer-me malvisto d'esses +que eu mais quizera bemquistar, ainda á custa de um panegyrico á +corrupção senil dos raros que desgarram da trilha austera por onde a +virtude os vai guiando ao céo, no qual os proprios anjos se espantam das +colonias que vão d'aqui. + +Porto--1858. + + + + +PRIMEIRA PARTE. + + +I. + +«Em quanto ao fogo d'aquelle meu phantasiar de genio, fadado para +desgraças, encendrei as imagens das formosas apparições da terra, as +creações do meu espirito eram magnificas e brilhantes como as myriadas +do céo estrellado. + +«Eu tinha horas de tão dôce scismar! O ideal de Fausto, a melancolia do +poeta d'Elvira, os coriscos de Byron, as satyras mordentes do +Diabo-Mundo, as facecias elegantes de Fielding, e as vaporosas +subtilesas de Senancourt! Ai! havia de todas essas feições do genio um +traço de cada uma, no meu espirito. + +«Mas, n'aquelle dia, á entrada do meu caminho, n'aquella noite calmosa, +quando o sangue estuava nas arterias, quando as azas do coração, como as +da aguia ferida, baixavam á terra, aquella mulher... + +«A mulher fatidica! O despertar do sonho de dezoito annos. A Beatriz, a +Laura, a Leonor, vingando-se na essencia d'uma, porque eu ousára crêr e +dizer que mentira Tasso, e mentira Petrarcha, e mentira Dante. + +«Que mulher! Bella? Ai! não, não é essa a palavra. Bella como a filha do +anjo rebelde, a quem Deus vingativo dera o dom de crear a formosura que +mata, o olhar das chammas magneticas do crime, a fascinação do abysmo +onde o cahir é perder-se o homem para si, para a humanidade, e para +Deus. + +«Eu era poeta. + +«Com que enthusiasmo eu pedia o meu quinhão na herança das celebradas +agonias de tantas victimas de si, mansissimos cordeiros immolados no +calvario do talento! + +«Este augusto titulo, mercê do céo, rubricado por sello divino no +coração do homem, tornou-se epitheto ridiculo ou injurioso. + +«Gela-se-me o sangue, quando a ignorancia petulante faz um tregeito de +menospreço ao talento, e diz: _poeta!_ + +«Mal sabeis que brutal atrevimento, ha ahi no tom de escarneo com que as +bestas-feras insultam a intelligencia! + +«Um bando de collarejas abrias, atirando-me em injurias a lama que lhes +extravasa da alma, seria para mim harmonioso cantico das graças, +comparado ao sorriso affrontoso do nescio que me diz: _poeta!_ + +«Ha ahi um rir do vulgacho, que dá em terra com a alma. Oh! o rir da +gentalha maltrapida é menos fulminante que o escarneo da plebe +engravatada, de todas as escorias sociaes a mais alvar e incorrigivel!» + +Parou de escrever o meu amigo, quando eu entrava no seu gabinete de +trabalho. + +Este nosso amigo... Consinta o leitor a apresentação, e de amigo logo, +porque eu sei que elle o é de conhecidos e desconhecidos, tirante os +estupidos maus. + +Este nosso amigo é uma afflicção permanente, um como pelicano que se +está continuo espicaçando o peito para alimentar do sangue proprio seus +filhos insaciaveis, suas imaginações escandecidas. + +Entrou na vida pela porta do inferno. Os olhos da alma abriu-lh'os uma +paixão das que alumiam a carreira do crime até á morte moral. A +consciencia de sua individualidade, desunida das mil formosas +existencias que se identificára, deu-lh'a o ser mais poetico da terra, a +soberana da creação--a mulher! + +Aos dezoito annos expulso do paraiso pelo anjo a quem dobrára o joelho! + +Até então, Jorge Coelho amou sua mãi e irmãos, flôres, estrellas, fontes +murmurosas, os pinhaes rumorejantes, o céo azul e as nuvens abertas em +coriscos, os repiques festivos do campanario da sua aldêa e o dobre de +finados, a cantilena da pastora e o gemer convulsivo da viuva e da +orphã. + +Tudo lhe era n'este mundo poesia, desde a grinalda de flôres da esposada +até á baeta negra do esquife. + +Não sou crendeiro em horoscopos de epiderme; todavia, tres rugas que lhe +avincavam a testa entre as bossas frontaes, impressionaram-me. Um poeta, +da alteza d'elle, diria que semelhantes vincos eram vestigios da vara +com que a mão de um genio funesto o ferira, no berço. Moço de dezoito +annos, que sobe ao empinado das serras, e circumvaga os olhos lagrimosos +pelos confins dos horisontes, e me diz:--«a minha alma não cabe aqui» +esse tal é de crêr que se fine na flôr dos annos, depois de haver +experimentado as dôres todas de longa vida. + +«A minha alma não cabe aqui»--disse-me elle, sentado no tôpo de um +fragoedo, com a arma caçadeira encostada ao peito, e afagando com a mão +o focinho do galgo que a lambia.--«Nasci hontem, e já me cança a vida. +Sou um como hospede, que se sente ebrio antes de assentar-se á mesa do +festim. Meus irmãos estão contentes ao pé de minha mãi. De manhã são +abençoados e beijados; á noite vão restituir-lhe o beijo com a face +alumiada de santa alegria; recebem a segunda benção da virtuosa, e vão +dormir serenas horas, em quanto eu, fechado com os meus livros, tento +debalde entreter o espirito nos deleites da poesia, ou subjugal-o ás +paginas graves da philosophia que me disputa á fé, e da fé que me +arranca aos tedios indigestos da philosophia.» + +--Nunca sahiste d'aqui?--interrompi, suspeitando da candura de Jorge +n'este tecido de palavras presumidas. + +--Nunca sahi d'aqui. Fui litterariamente educado por um tio frade, que, +ha um anno, me entregou ao ensino de minha mãi, dizendo que a semente da +sciencia não podia germinar em terreno, onde faltava o amanho da boa +educação religiosa. + +Minha mãi não me entendeu melhor que o frade. Fallou-me do temor de Deus +como principio da sabedoria humana. Eu tenho um Deus que não temo, +porque o amo e adoro com espontanea devoção, porque o vejo luminoso em +todas as minhas creações impalpaveis, porque o respiro e converto em +seiva da minha alma, que tanto mais se amplia quanto mais se engolfa na +immensidade divina. + +Minha mãi é uma virtuosa senhora que só acha digna de Deus a linguagem +dos psalmos penitenciaes, e os actos contrictos de peccados imaginarios. +O circulo, que ella traça ás minhas aspirações, é estreitissimo. Para +ella, o futuro é a successão dos dias travados uns nos outros, iguaes e +serenos, como os viveram meus avós, e como ella pretende herdal-os a +seus filhos. O futuro para mim é o grandioso imprevisto, é a vida com os +seus desertos e oasis, é o oceano com as suas calmarias e borrascas, é a +peregrinação do israelita, agora perseguido nas aguas do mar vermelho, +logo alumiado pela columna de fogo. + +Que sinto eu aqui?--proseguiu elle, pondo a mão na testa, cujos vincos +se afundavam--Será o pensamento confuso do girondino á vista da +guilhotina? Será o abutre gerado n'um sangue que, cedo ou tarde, tem de +trazer-me a congestão ao cerebro?... Não sei... + +--Porque não será a alma que geme solitaria como a rôla, que, além, no +ramo secco d'aquelle azevinho, está chamando o companheiro que ha-de +vir?--disse eu em phrase lyrica para não destoar da linguagem levantada +de Jorge Coelho. + +--Não creio--acudiu logo o meu amigo.--Eu tenho lido o amor dos livros, +o amor dos romances, o amor da historia, o amor da poesia. Não me +inquieto, nem me acho n'esse sentir. O que não entendia aos quatorze +annos, não o entendo hoje melhor. As impressões que então recebi, +recebo-as agora semelhantes. Os quadros de Dido e Eneas, de Helena e +Páris, são duas telas borrifadas de sangue. O amor não póde ser aquillo. +Paulo e Virginia, Julieta e Romeu são duas catastrophes que apertam a +alma entre a admiração e o dó. A felicidade não está n'esses amores tão +celebrados. Werther e Carlota, Chatterton e Kit-Bell, com o anjo +inexoravel da virtude entre si, ao despenharem-se um apoz outro no +abysmo da morte, para se salvarem do abysmo da perdição, são dous entes +desamparados do anjo bom que nem sequer já serve para galardoar heroicos +martyrios. Pois não irão mais longe os meus anhelos de gloria? + +A região da felicidade estará delimitada pelas raias do amor, que o +romance, e a historia, e a epopea me pintam, glorificado por lagrimas e +sangue? + +--Mas ha um amor--redargui--que não é o amor da historia, do romance, e +da epopea. É amor reflectido de mais alto amor, que as almas adivinham e +não entendem. É amor, preludio da bemaventurança, e prelibação da +ambrosia celestial. + +--É o amor do romance, esse, creio eu...--interrompeu Jorge Coelho +sorrindo. + +--Não é, meu amigo; e, se me contradizes n'essa idade, inculcas baixeza +de affectos, que eu não posso acreditar, por honra da especie humana. O +que te authorisa a desmentir um homem de trinta annos, que por sua honra +te jura que esse amor existe? Queres achar Vestigios dos trabalhos e +calamidades que me custou a descobril-o? + +Repara nos meus cabellos brancos. + +Colombo achou curtas as fadigas, que lhe deram o novo mundo, e a +perpetuidade do nome d'elle, mais valioso que o novo mundo. +Experimentaria Colombo as vertigens de prazer, que me endoudeciam, +quando encontrei a mulher mais perfeita que os primores da minha +phantasia? + +Não te allucines, porém--prosegui, vendo nos olhos de Jorge a lucidez do +enthusiasmo, accusando o proposito de se abrasar no primeiro amor, que +lhe deparasse o acaso.--Não te allucines em presença de qualquer mulher +com sorrisos de Virginia, que tanto servem de elogio ao pudor como de +epitaphio da innocencia. Não respires com sofreguidão o aroma das +primeiras flôres, que encontrares. Lirios e mandragoras são bellas +flôres, que matam, se as não lançares de ti, aspirados os primeiros +effluvios. Ha mulheres como as flôres venenosas: se te detiveres com +ellas mais tempo que o necessario para lisongeares a sensação, e +regalares a phantasia, sentir-te-has tomado de um marasmo de espirito, +em que serão delidas as tuas mais nobres faculdades, e, a mais válida de +todas, o mais nobre apoio da tua dignidade de homem--a liberdade. Esta +doença, no começo da vida, deixa achaque para sempre; é como a bala +recebida em pleno peito e lá encerrada: o ferido vive; mas, a revezes, a +dôr lhe está lembrando que a bala pesa sobre o derradeiro fio da vida. +Mulheres, que matem corações generosos, ha muitas para cada homem. +Mulher, que salve, ha uma só. + +A minha vida é uma elegia continuada desde o berço até esta ante-camara +do tribunal da morte, onde estou esperando que me chamem: não tem +romance: são desastres concatenados, sem intermedios d'esse +contentamento vulgar, que os fortunosos denominam amargura. Todavia, se +tivesses mais doze annos, Jorge, seria eu o teu conductor pelos infernos +d'este mundo, que Dante não cantou de preferencia aos do outro, porque a +civilisação da idade media não tinha em si os supplicios d'esta +sociedade em que vaes entrar. + +E que lucrarias tu, ouvindo a minha historia? Vêr-me-ias longo tempo +enredado na torpeza, na irrisão, e na brutalidade dos differentes +algozes, que me suppliciaram a alma. Se quizesses que te iniciassem no +segredo de sondar a perversidade dos corações, não poderia eu, porque a +aspide, que te mede o salto do seio da mulher, só vibra a farpa mortal +depois que varas em terra embriagado de aspirar o aroma do ramilhete, +que a esconde. + +A sombra da mancenilha é grata como a de todas as arvores; suave é a +viração que lhe estremece a coma; o sol nem sequer mosqueia o chão em +que refazes os membros lassos; mas agonia mortal será o teu despertar se +a formosa folhagem distillou sobre o teu corpo um sumo corrosivo que te +faz morrer em acerba palpitação de todas as fibras. Conheces tu a +mancenilha n'este deserto, que vaes palmilhar, encalmado das ardencias +do coração? Saberás tu, aos dezoito annos, distinguir a mulher, que +mata, da mulher, que salva? Os trinta abysmos, d'onde me eu levantei, +com as faces a escorrerem sangue, estarão cobertos de flôres para ti? Eu +creio que o poeta é um condemnado, a sua patria primitiva um outro +mundo, este, em que nos encontramos, amigo, o purgatorio. Que montam os +suffragios do padecente experimentado para te remir? Nada. Cumpre a +sentença, porque é intransitivo o calix... + +.......................................................................... + +Decorrido um anno, encontrei Jorge Coelho, não vos direi aonde, porque +ha repugnancia em deslocar uma scena, quando a verdade não póde, por +motivos sagrados, ser dita á curiosidade malevola. + +Encontrei-o escrevendo os periodos iniciaes d'este capitulo. Outros de +igual azedume, assignados por elle, me haviam denunciado a residencia +d'esse moço, na terra, em que eu, de passagem, assentára a minha barraca +de bohemio. + +Reconhecendo-me, ergueu-se, abraçou-me com expansiva vehemencia, e +proferiu aquellas ultimas palavras do estirado discurso do anno +anterior: + +_Cumpre a sentença porque é intransitivo o calix._ + +--E muito amargo? perguntei eu. + +--Amargo, e nauseabundo. Fel e lama. O insulto e o aviltamento. Adormeci +debaixo da mancenilha, meu amigo; e acordei nos paroxismos de que não +posso morrer. Achei uma das mulheres, que perdem. A sociedade +applaudiu-a, quando eu cuidava que a indignação do mundo me vingaria. +Ajuntei á minha dôr o que devia ser pejo, deshonra, e remorso n'ella. +Quiz desafiar a piedade do mundo com o paciente silencio da minha +desgraça. O mundo viu-me passar de olhos baixos para esconder as +lagrimas, e fez da palavra «poeta» um synonymo chocarreiro de insensato. + + +II. + +Contou-me Jorge Coelho a sua historia. Foi assim: + +Sahira, pela primeira vez, da sua aldêa para cursar a universidade. A +mãi, abençoando-o, ungira-o de lagrimas, e lançara-lhe ao pescoço um +crucifixo. + +O tio egresso, vencido na resistencia que fizera á sahida de Jorge, +mostrara-se a final condescendente, e introduzira nas malas do sobrinho +alguns livros de moral religiosa, que ambos sabiam de cór, um á força de +repetil-os, outro de ouvil-os em discursos hebdomadarios, que +principiavam sempre com a epigraphe: + +_Initium sapientia est timor Domini_--O temor de Deus é a base do saber +humano. + +Jorge deu de si boa conta no primeiro, anno, cursando as aulas +preparatorias para a faculdade de jurisprudencia. Contou elle que, +durante esses oito mezes, apenas sentira o coração na dôr da saudade de +sua mãi, de seus irmãos, do tio padre, das suas montanhas, e das sombras +dos seus arvoredos. Consolava-o o prazer de uma carta de casa, todas as +semanas, em que a expressão maternal pintava o anceio com que lá se +contavam os dias, na esperança d'aquelle em que seus irmãos iriam buscar +ao caminho o mano doutor, como elles já o denominavam. + +O anjo da poesia dos dezenove annos povoava-lhe então a phantasia de +ridentissimas imagens. Mezes antes, abafava no extenso horisonte, que +descobria do topo das serras onde trepava para dar á sua imaginação +sedenta a vaga imagem da immensidade. Agora, parecia-lhe que á +sofreguidão da alma lhe bastaria a soledade, o silencio, a tristeza dôce +dos saudosos ermos da aldêa, que conheciam o seu poeta desde os onze +annos. + +Anteviu os tres mezes de ferias como quadra de contentamentos novos. +Tudo eram promessas de infantil ledice aos seus arrobos de saudade. +Imaginava-se sosinho ao pé da arvore conhecida, em cujo tronco uma vez +entalhára a ante-data de seis annos, com uma interrogação ao lado, e +como se perguntasse o segredo do seu destino á sibylla dos seus queridos +bosques. + +O anno assignalado era esse em que estava. A resposta aos vagos +presentimentos dos quinze annos ia dal-a agora, mais anhelante e +auspiciosa de venturas certas do que elle a previra ao deixar o encargo +de responder a mal-agourados futuros. + +«Quão longe eu estava da verdadeira felicidade, minha querida +mãi!--escrevia elle na primavera de 1855, quando as margens do Mondego +reverdecidas lhe festejavam as saudades e as esperanças maviosas. A +imaginação enganou-me. Cuidava eu que o coração de minha mãi faria o +milagre de communicar uma faisca do seu amor ao seio de cada pessoa que +eu encontrasse fóra da nossa aldêa! Pensei que a imaginada formosura da +natureza começava áquem dos horisontes, que eu descobria do alto das +montanhas. As impressões novas antecipavam-se-me cheias de espiritual +deleite, e abundantes da vida que me lá faltava ao pé de pessoas vistas +a todo o instante, com o sorrir da amisade, e ao pé das arvores, vistas +em cada primavera, com as mesmas grinaldas, e em cada inverno com a +mesma nudez funerea, que me confrangia o espirito. + +«Castigou-me o desengano, quando dobrei a ultima collina, d'onde via o +cume da serra em que tantas vezes me assentára, ideando ao longe o +caminho da minha imprevista felicidade. Era tudo estranho para o meu +coração. O vento do outono despia as arvores da sua folhagem; mas a +poesia melancolica e contemplativa d'essa transfiguração, qual a eu +sentia na minha aldêa, convertera-se agora em profundo aborrecer-me, em +cerração d'espirito, em arrependimento doloroso. + +«A duas leguas de nossa casa, minha boa mãi, quiz retroceder: reteve-me +a vergonha. Depois de ter passado uma noite--primeira de minha +vida--fóra do meu quarto, n'uma estalagem, ergui-me com proposito de +vencer o pejo, e ir lançar-me chorando em seus braços. Conteve-me ainda +o receio do _ridiculo_, palavra e sentimento terrivel, que, ha dez +mezes, me foi entalhado no coração por um homem, onze annos mais velho +que eu, propheta do meu destino, tão verdadeiro como terrivel propheta, +que me vaticinou a sensibilidade immensa do poeta, e as lagrimas +inexhauriveis do incessante desengano. + +«Já verti as primeiras; essas, porém, são talvez uma puerilidade que o +mundo escarneceria, por que, bem averiguada a causa da minha tristeza de +seis mezes, encontra-se um bom coração de filho e irmão, a nubelosa +saudade dos dezenove annos, e o pesar de haver com tanto afan rebatido o +parecer de meu tio, que me quiz demover da tenção de estudar em Coimbra. + +«Eu prometti-lhe, minha mãi querida, a noticia exacta das minhas +impressões.--Descreve-me ao menos a bellesa dos abysmos como ella se +afigurar á tua imaginação--foram as suas palavras. Não posso +descrever-lhe nem, se quer, as formosas miragens do meu deserto. Se +deponho com fastio os livros, que só abro por obrigação, interrogo de +novo o meu espirito, tento sondar a indole mysteriosa da minha vontade +oscillante, e encontro sempre enigma. Quer-me, ás vezes, parecer que +estou em vesperas de uma grande transfiguração no meu modo de ser e +pensar; escuto o surdo rumor das idéas, que ameaçam rebellar-se contra a +moderada esperança em que minha alma se acalenta; sinto-me impellido á +vereda de angustias desconhecidas, ao passo que as suspiradas alegrias +da vida serena no seio de minha familia se me varrem da imaginação como +as copas de flôres desmaiadas, que o nordeste sacudiu e dispersou. + +«Deverei occultar-lhe alguma das minhas visões, querida mãi? Não posso. +A confidencia é a respiração das almas; é, mais ainda, é a supplica do +conselho e do remedio para as tribulações, ou de estimulo e fé para crer +na felicidade sonhada, se ella um dia me vier provar que não eram +mentira os meus delirios dos dezoito annos. + +«Ha entre mim e o indecifravel do meu futuro uma imagem como elle +indelineavel. Não sei a qual hora da vida acharei a sombra real d'esta +idealidade, que se fez corpo e alma, impressão e sentimento para a minha +phantasia. Tenho querido collocal-a ao pé de minha mãi, como reflexo do +seu amor. Quando assim consigo aproximadas, tambem consigo explicar a +influencia, que ha-de ter na minha vida essa imagem, descerrada a nuvem +que m'a envolve pela mão luminosa da Providencia. Será a realisação do +infinito amor, porque entre Deus e minha mãi falta um élo. Creio que não +usurpo a minha mãi o vago affecto dedicado a essa alma estranha, que me +visita nas horas de intimo recolhimento e scismadoras saudades de não +sei quê, como se do céo perdido nos ficassem saudades para +reconquistal-o á custa de lagrimas. Isto que sinto não póde ser, como me +dizem os livros sentimentaes, os alvoroços precursores das primeiras +devoções, o subir para o altar dos cultos fervorosos e apaixonados. É +mais. + +«Entrevejo na escuridade do porvir uma scintilla, que me banha de +festiva luz o espirito, aspiro o aroma de celestial flôr, que me delicia +e adormece em dôces lethargias, tenho um despertar alegre e sereno, como +o do homem incapaz de ir abraçar-se á realisação de seus ambiciosos +sonhos pelos caminhos travessios da improbidade e do mal-fazer. + +«Assim pois, minha mãi, contente-se a sua boa alma de se vêr assim +reflectida na do filho, que d'ahi sahiu agourado por tão maus prophetas. +Não abordei esses abysmos seductores, que o meu bom tio excommungava de +lá, e contra os quaes me premuniu com cabedal de philosophia christã, +bastante para defender das tentações todas as nações da Biblia, +exterminadas por causa do peccado. + +«D'aqui a tres mezes, deporei no regaço de minha mãi o coração +inexperiente com que de lá sahi. Dar-lh'o-hei mais rico de +contentamentos puros, e desejos de ser bom filho; e, se assim não fosse, +iria agora fortalecel-o em seu seio das virtudes, que ainda me faltam.» + +Três mezes depois, Jorge Coelho, convidado por um seu condiscipulo das +visinhanças do Porto, passou no Porto, quando recolhia a ferias, e alli +se deteve, para assistir ao ultimo baile annual da _Assembléa +Portuense_. + +Jorge nunca vira um baile, nem ante-gostára pela imaginação o prazer de +encontrar duzentas damas reunidas á competencia de formosura e pompas. + +Dizia-lhe o condiscipulo, já gasto para as commoções dos bailes (tinha +vinte e dous annos, e passára desapercebido em todos os bailes) +dizia-lhe o condiscipulo que o coração nascia de improviso no primeiro +baile, e muitas vezes lá morria. Contava-lhe, em testemunho de verdade, +a sua historia, que era uma historia negra, passada ao clarão de +centenares de lumes, nas salas da _Assembléa Portuense_, no baile +carnavalesco do anno anterior. Com quanto nos seja sempre ingrato +violentar as glandulas lacrimaes dos leitores, e sacudir-lhes com +patheticas descargas electricas os nervos engelhados, não nos abstemos +de contar em poucas linhas a historia negra do snr. Pires, condiscipulo +de Jorge, em geographia e historia. + +Parece que o snr. Pires chegára de Coimbra a ferias de entrudo, e +conseguira ser convidado para o baile. Alugou um dominó de seda, entrou +nos salões, e remoinhou longo tempo por entre centenares de pessoas +desconhecidas. Dizia-lhe a consciencia que era um tolo, por não buscar +ao acaso uma particula da felicidade, que brincava nas physionomias de +toda a gente, ao passo que das d'elle apenas escorria o suor debaixo da +mascara suffocante. + +Deliberado a demonstrar a si proprio que não era absolutamente nescio, +dirigiu-se a uma dama de aspeito melancolico, e disse-lhe «que os anjos +do céo, quando cahiam cá em baixo na morada dos homens, ficavam tristes +como ella.» + +Ora, um maganão, tambem mascarado, que por alli gravitava em redor do +mesmo astro, disse ao estudante, radioso da feliz amabilidade, «que não +só aos anjos do céo acontecia ficarem tristes e atordoados quando cahiam +cá em baixo, mas tambem acontecia o mesmo aos gatos, quando cahiam de um +terceiro andar á rua.» + +Ficou fulo de raiva Pires. A melancolica dama levou o leque ao rosto +para esconder o riso. + +O estudante, voltando-se para o entremettido, replicou-lhe que era de +pessimo gosto a chufa, e o gosto da senhora não era de melhor quilate +festejando com riso complacente tão deslavada semsaboria. Redarguiu o +incognito mascarado, perguntando-lhe se tinha duvida em sahir fóra das +salas para lhe estender uma orelha de modo que por ella o conhecessem +todos, visto que elle tivera a habilidade de a esconder no capuz do +dominó. Trocaram-se algumas finezas mais d'este tomo, até que um homem +de porte grave travou do braço ao snr. Pires, e, levando-o ao salão +menos frequentado, perguntou-lhe que motivos se haviam dado para +desavença tão impropria de cavalheiros. Pires, querendo dar ao successo, +uma causa digna de transmissão, contou que merecêra lisongeiro +acolhimento da senhora com quem estava trocando as phrases previas de +uma paixão, que rebentára subita e reciprocamente, quando o indiscreto e +villão interventor lhe dirigira palavras descomedidas, que denotavam o +ciume d'elle. + +--Pois aquella senhora, a quem o dominó allude, trocava com v. s.ª as +phrases previas de uma paixão?--perguntou o interlocutor do estudante +com sorriso de affectada serenidade. + +--Sim, senhor, respondeu o outro emproando-se. + +--Antes de dizer-lhe que mente, preciso vêr-lhe a cara. + +Dito isto, o sujeito, que era o marido da dama, arrancou a mascara ao +snr. Pires; e, vendo um rosto imberbe, e acerejado, chamou o escudeiro, +que passava com bandeja de dôces, e disse-lhe: «Dê a este menino dous +bolinhos, e mande-o embora.» + +Eis aqui a historia negregada do snr. Pires, a qual, contada por elle, +era muito mais dramatica e engraçada, visto que terminava por dous +duellos mallogrados, um com o rival, outro com o marido, e por tres +desmaios da dama, um no salão, outro na carruagem, e o ultimo em casa, +na presença do marido, que, pelos modos, a quizera enforcar. + +E, como as lagrimas d'este acerbo conflicto cahiram todas no coração do +snr. Pires, o resultado foi afogarem-se lá os embriões da sua +felicidade, e ficar aquella viscera árida e resequida como enxundia +secca de gallinha. + +Ouvira Jorge Coelho estas calamidades com a respiração suffocada, e teve +instantes em que duvidou do bom siso do seu amigo;--tão descozido lhe +parecêra o conto, e tão ineptas as consequencias. + + +III. + +Entrou Jorge Coelho nos salões da «assembléa,» e julgou-se em regiões de +houris. Durou-lhe alguns minutos o atordoamento da primeira impressão. +Não o enleava esta ou aquella physionomia; eram todas. N'aquella +harmonia do bello, até as senhoras feias--se ha senhoras feias, vistas á +luz do coração--recebiam homenagem do extatico moço. No espasmo +delicioso do academico, se algum amor influia, era de certo o amor da +especie, porque seus olhos não haviam ainda estremado o individuo, que +os olhos d'alma entreviam no todo. + +Do cisco lucido, que volita no ar, faz douradas palhetas o raio do sol +coado pela fresta. Na dourada lucidez que Jorge via por magico prisma, +não haveria muito cisco, muito atomo de poeira humana, que sómente +refulge aos reverberos dos lustres, consoante o variegado das côres? +Decidam os que lá andam. + +Aquietado dos alvorotos da surpreza, o estudante sentiu o vacuo, porque +se viu sosinho alli. O apresentante doudejava no redemoinho das danças, +e raros intervallos perdia, perguntando ao condiscipulo se estava +contente. + +Jorge não sabia dançar, porque não tivera tempo de aprender esse +appendiculo grutesco da boa educação. Muitas vezes lhe dissera o tio +padre, authorisado pelo oratoriano Manoel Bernardes, que danças eram +ansas do demonio armadas á alma. + +Não se glorie, porém, o crendeiro egresso de ter instillado no animo do +sobrinho o horror das mazurcas. Jorge não dançava porque não sabia se +quer a nomenclatura d'essa galharda tolice de que por vezes impende o +accesso ás almas, e o passar-se uma noite menos tediosa n'um salão em +que o espirito se retouça em piruetas, mais ou menos ridiculas e +parvoinhas, da materia. + +Á meia noite, Jorge procurou o seu condiscipulo para dizer-lhe que se +retirava. Atravessando uma sala, quasi despovoada, viu duas senhoras +reclinadas n'uma ottomana, em postura de fatigadas ou aborrecidas. A +mais velha não excederia vinte e cinco annos; a outra, que teria +dezoito, foi a primeira que prendeu o exclusivo reparo de Jorge, senão +antes uma contemplação absorta em que ellas mesmas repararam. + +O academico devia captivar a attenção das duas senhoras, melancolicas +por indole ou artificio. Tinha elle um semblante de si tão meigo e +affectuoso, que as pessoas tristes sentiam-se melhorar em suas magoas, +pensando que outras acaso maiores e mais carecidas de lenitivo denotava +o brando olhar do moço. Estava, por ventura, este condão sympathico na +magresa do rosto, cujo pallor mais era signal de compleição mimosa, que +effeito de vigilias e desperdicios de vida com que muitos conhecidos +nossos se recommendam ás senhoras idealistas, affectando langores e +martyrios de alma, dos quaes a victima principal é, em verdade, o corpo. + +--Sympathica physionomia!--disse a mais velha das duas senhoras. + +--Conheces?!--perguntou a outra sem fugir os olhares de Jorge, o qual, +por mero disfarce, encarava objectos, que realmente não via. + +--Não o conheço, nem me lembra de o ter visto em parte alguma. + +--Tinha curiosidade em conhecer... Não achas n'aquelle rosto um não sei +que de distincção? + +--Tem alguma cousa não vulgar... + +--Uma tristeza insinuante, achas? + +--E não sei que de magoa supplicante... + +--É verdade... e as supplicadas somos de certo nós... + +--És tu, Silvina... és tu a examinada com um ar de espanto ou ternura +que compromette. Olha um grupo de homens, que nos observam e mais a +elle... + +--Não olhemos mais. Elle já sabe que o vimos e discutimos. Achamol-o +sympathicamente triste, e bem póde ser que seja um tolo com bastante +coragem para nos dizer que o é... Mas quem será?! + +A curiosidade das duas damas é menos racional que a dos leitores que +desejam conhecel-as. + +A mais velha é a snr.ª D. Francisca da Cunha, creatura galante, com +quanto morena, grandes olhos pretos, sobrancelhas travadas e negras, +opulentos cabellos, e espirito de improviso bastante a fingir +illustração. Pertence a uma familia heraldica da provincia de +Traz-os-Montes, e veiu ao Porto com seu pai, fidalgo arruinado pela +politica e pelas proprias dissipações, com o fim de acirrar a cobiça de +um noivo conveniente, cujos paes almejam por enxertal-o no nobilissimo +tronco dos Cunhas. Tem esta menina genio exquisito e romanesco. Por +muitas vezes tem mallogrado os esforços casamenteiros do pai, mofando da +figura e palavriado, um pouco para rir, do noivo. Á força de ser má, +conseguiu fazer-se anjo no conceito do mal-fadado que espera em ancias +ser marido d'ella. Maravilhada do poder que tem na alma do capitalista, +com desdens e despresos, espanta-se do presumido dominio, que poderá ter +sobre o homem a quem der os sentimentos embrionarios no seu coração. +Para experimentar, sem risco da sua nomeada, recebe cartas de varios +oppositores á sua alma, e responde regularmente a umas com idéas +respigadas nas outras. Nos grupos, que se vão formando na sala, em que +está com Silvina, sua prima carnal, avultam quatro dos seus +correspondentes activos, e dous, que obtiveram promessa de resposta, e +alguns, que esperam aso de solicitarem aquella gloria, no entender de +cada um negada a todos, chegando a fazerem-se a mutua justiça de +julgarem-se parvos uns aos outros. + +D. Silvina de Mello, prima de D. Francisca, é tambem provinciana, e veiu +de uma aldêa do Minho a banhos do mar, convidada por sua prima, de quem +é hospeda. O que ella aprendeu em quatro mezes de convivencia é possivel +que o não acreditasse quem lhe visse o rosto de anjo, olhares de +innocente acanhamento, sorrisos de escrupulosa timidez, palavras +desanimadas e preguiçosas, e, no todo, uma despresumpção de maneiras, +que fazia suppôr grande limpeza d'alma e de... de intelligencia! + +Fôra D. Silvina da sua aldêa para o Porto com uma paixão por um morgado, +que a não seguira por fortissimos impedimentos. O pai do morgado tinha +feito extraordinarias despezas na construcção de uma eira, na +reedificação da capella solarenga, no muramento de algumas cortinhas, +que comprara, não fallando já nas desastradas mortes de um macho, que +tinha trinta annos de bom serviço na casa, e duas juntas de bois +atacadas de epizootia. O moço pedira debalde soccorros, fingira-se mesmo +epileptico para que o cirurgião da terra lhe receitasse banhos salgados; +o velho, porém, passaro bisnau, e avesso á inclinação do filho, deu +grandemente louvores a Deus por propiciar-lhe ensejo de acabar-se um +namoro inconveniente, attenta a mediocre legitima de Silvina. Facil foi +a D. Francisca obliterar no coração da prima a imagem do seu primeiro +amor, zombeteando-a á proporção que a ingenua provinciana lhe ia +mostrando as cartas do saudoso morgado. + +Não podémos averiguar porque traças o morgado de Santa Eufemia arranjou +dinheiro com que foi ao Porto, tres mezes depois que Silvina cessára de +responder-lhe ás cartas, tanto mais irrisorias quanto a paixão as +dictava em estilo talhado para matar paixões. O certo é que o allucinado +homem chegou ao Porto na vespera do baile da assembléa, e alcançou +cartão de convite. A sua idéa era encontrar Silvina. + +Todo sorvido na ancia de vêl-a e fulminal-a com olhadura terrivel de +accusações, o morgado de Santa Eufemia não cuidou, com tempo, de mandar +fazer casaca. A que trazia na mala era dos figurinos de Guimarães, e, +posto que em bom uso, era anachronica na gola, nas lapelas, na largura e +comprimento das abas, na pequenez dos botões, e rebordo dos punhos. +Consultou a pessoa, que lhe alcançára o convite, ácerca da casaca; mas, +desgraçadamente, a pessoa consultada era um d'aquelles individuos de +juizo, que não tiram o monge pelo habito, e reprovam que seja +sacrificada aos caprichos da moda uma casaca de bom pano, farta e +commoda, sómente porque alguns casquilhos perdularios, ou alfaiates +especuladores, inventam feitios novos. + +Concordou o morgado, e foi ao baile com a casaca velha. Melhor lhe fôra +ter morrido da epizootia! A sua entrada na primeira sala foi um +acontecimento. As petulantes lunetas saudaram-n'o, e seguiram-n'o com +insultuosa curiosidade até ao salão da dança. As senhoras, em regra, +pouco curiosas do trajar dos homens, não repararam na casaca, mas não +podiam deixar de vêr o collete e a gravata. Era esta descommunal na +altura, atravessada por um laço, cujas pontas, como orelhas de lebre +morta, cahiam caprichosamente sobre os hombros. A côr verde da gravata +contrastava com o encarnado-ginja do collete de uma abotoadura e +colchetes apertados até ao pescoço, e acairelado na abotoadura e bolsos +com vivos roixos. Sobre isto cahiam as lapelas enxovalhadas da +casaca, com as quebras e vincos dos apertos que soffrera na mala em que +viera, para irrisão e descredito de Freixieiro, cujo elegante era. + +Desconfiou o morgado de Santa Eufemia de alguns indiscretos que o +seguiram, desde o vestibulo da assembléa. Viu, depois, que as damas se +trocavam olhares suspeitos, que o não impediam de procurar Silvina com +aspecto entre o furioso e o comico. A obstinação, porém, dos +chasqueadores era inexoravel, e o morgado teve um intervallo de lucidez, +em que olhou em si, e se viu ridiculo. Do fundo de sua alma deu, então, +graças á Providencia, se Silvina o não tinha visto; mas o derradeiro +olhar, que lançou aos descaridosos mofadores, era provocador. + +Resolveu, pois, retirar-se, maldizendo o velho amigo de sua familia, que +o demovera do proposito de fazer roupa nova. Quando ia sahindo, +atravessou por engano a sala em que se achavam D. Francisca, D. Silvina, +e Jorge Coelho. Os grupos de homens, que por alli estanciavam, deram com +elle de cara, seguido d'um cortejo de folgazãos, que tinham passado da +zombaria cautelosa á risada descomposta. + +Silvina corou até ás orelhas, quando Francisca exclamou: + +--Oh! que original! Repara, prima, tu não vês aquelle homem?! + +A este tempo o morgado estava em meio da sala, e fazia machinalmente uma +cortezia ás damas. + +--Aquillo será comnosco?!--dizia, com desdenhosa zanga, D. +Francisca.--Conheces aquelle phenomeno?! Olha que elle está esperando +que o comprimentemos... Conheces, Silvina? + +--Conheço...--balbuciou Silvina, acaso tão afflicta como o desastroso +morgado, que estava alli chumbado ao pavimento. + +--Quem é? é da tua terra?--tornou Francisca já envergonhada de que +julgassem ser ella a causa da attentiva paragem de semelhante entrudo. + +Silvina ergueu-se, tomou o braço da prima, e disse: + +--Vem, que eu te contarei tudo. + +Sahiram. + +Jorge Coelho foi o unico dos circumstantes que examinou com seriedade o +morgado. Achava estranho o personagem; mas dizia-lhe a boa alma que o +insulto era improprio de pessoas bem educadas como deviam presumir-se +aquellas, que estavam alli representando a melhor sociedade. + +O fidalgo de Freixieiro sahiu com os olhos a marejarem lagrimas. Foi +ainda Jorge quem unicamente viu este signal de afflicção; e, sem saber o +porquê, sympathisou com a dôr do homem, que levava de poz si o escarneo +de tanta gente, e na alma a certesa de que viera dar-se em espectaculo +aos olhos da mulher, que nunca lhe perdoaria o ser ridiculo. Pobre +criança! como vivias enganado pelas maximas dos teus romances francezes! +Não sabias tu que ridicula, sem rehabilitação, é só a pobresa. + +D'ahi a uma hora, Francisca e Silvina desciam do toucador para o salão +do baile. A primeira compunha o semblante ainda descomposto das +gargalhadas com que recebera a revelação da prima. Esta, mortificada +pelo amor proprio, se não antes vexada pela indecorosa eleição d'um +amante chulo, captivava lastimas com a tristesa que devêra acarear +despreso. Despreso! Talvez piedade, que a situação era digna d'ella, por +que é a mulher, quem mais a si se mortifica, se a consciencia a accusa +d'uma escolha, que não só lhe não disputam, se não que, peior ainda, lhe +injuriam com motejos. O morgado de Santa Eufemia, até á noite infausta +do baile, era uma recordação, se não saudosa, ao menos magoada. D'ahi em +diante, pelo menos n'aquella hora, causava-lhe tedio, e forçava-a a +participar da zombaria. + + +IV. + +Estava Jorge, outra vez, defronte das duas senhoras. Sentia-se outro. Já +tinha interiormente um mundo, uma imagem reflexa do mundo exterior a +remuneral-o vantajosamente da insulação em que se via no meio de tantos +indifferentes á sua tristesa. A todo homem esta mutação tem acontecido, +uma vez na vida. O baile é triste para quem leva da soledade do seu +quarto o coração de lucto; porém, áquelle mesmo conforta, ás vezes, uma +chimera, lá onde menos a esperança lh'a promettia. Chimeras são que +desbotam, como as flôres dos enfeites, ao repontar da manhã; mas Deus +sabe quantas almas se retemperam nas illusões de um baile, e que horas +de abençoado engano lá divertem as tristesas dos mais desenganados! + +Não era assim que Jorge Coelho scismava comsigo--que a aurora do seu +breve dia de fé e amor principiava alli--quando o amigo Pires, +lançando-lhe o braço em redor do pescoço, lhe disse: + +--Que fazes aqui parado? Contemplas aquellas duas Evas, mal assombradas +de gesto, como se tivessem comido a fatal maçã? + +--Contemplo uma, e acho-a celestialmente formosa. + +--A côr de cêra? + +--Sim. + +--Eu gosto mais da morena. _Nigra sum sed formosa._ Aquillo sim que é +mulher para incommodar a fleuma d'um sceptico!... Queres ser +apresentado? + +--Pois tu conheces? + +--Não, nem preciso. Vou tiral-a para a primeira quadrilha, apresento-me, +e depois tenho a honra de ser o teu apresentante. O estilo, cá na boa +roda, é este. + +--Mas a quem me has-de tu apresentar? é necessario, a meu vêr, que ella +te diga quem é. + +--Pois não lh'o pergunto eu?! Essa reflexão é piegas. Se queres ouvir o +que eu digo, colloca-te ao pé de nós, e escuta-me nos intervallos das +marcas. + +O snr. Pires não reconsiderava uma tolice, nem tolerava replicas. + +D. Silvina, vendo um sujeito conversar com Jorge, olhou-o curiosamente, +para, se acaso visse pessoa de suas relações com elle, podesse, de +conhecido em conhecido, chegar a colher alguma informação do seu +mysterioso observador. Mais propicia do que ella ambicionava, lhe foi ao +encontro a fortuna protectora de sua innocente curiosidade. Pires, com +elegante desembaraço, solicitou de Silvina uma contradança: esta, com +adoravel aprazimento, aceitou logo o braço do cavalheiro porque se +estavam alinhando os pares. + +Aqui, porém, falhou uma vez a felicidade a um tolo. Esquecera-se Pires +de procurar _vis-á-vis_, e era já fóra de tempo o procural-o. A dama deu +primeiro pela falta, e o academico fez-se da côr do rabano. Silvina +relanceou os olhos supplicantes a D. Francisca, e esta, chamando o +primeiro cavalheiro conhecido, deu-lhe o braço, e entrou no lugar +fronteiro á prima. + +--Esta falta, disse Pires, retesando no pulso a luva até a rasgar, +deve-se ao enthusiasmo com que eu pedia a v. exc.ª esta contradança. + +--Enthusiasmo?! Ora!... parece-me que queria dizer _distracção_, +respondeu Silvina ao adiantar-se para executar a primeira figura. + +Chegado o grande intervallo, Jorge Coelho quizera ir postar-se perto de +Silvina; mas um burguez intolerante, zangado da pertinacia do moço, que +envidava os recursos todos da delicadesa e do encontrão para romper a +barra compacta dos olheiros de espadoas nuas, chegou a dizer-lhe, +franzindo a testa:«O senhor não cabe? se quer passar espere que acabe a +_polka_!» O bom do burguez não sabia ao certo se era contradança ou +polka o que se estava dançando. + +No entanto, o nosso amigo Pires, com quanto pesaroso de que Jorge alli +não estivesse, para maravilhar-se dos recursos da eloquencia afeita ás +difficuldades do salão, conversava assim com a senhora attenciosa: + +--Quando tive a honra de impetrar de v. exc.ª a graça d'uma +contradança... (Silvina poz o leque diante dos labios) acabava eu de +dizer a um amigo meu que o olhar contemplativo, _la réverie_, com que +elle fitava v. exc.ª, era merecida, justificada, e... + +--Muito agradecida;--atalhou Silvina, tregeitando com o leque e a cabeça +uma evolução de movimentos indescriptiveis--mas eu não reparei bem no +amigo de v. s.ª, que me distinguia de modo tão lisongeiro. + +--Se v. exc.ª tem a bondade de olhar em frente, ha-de encontral-o +extasiado... + +--Extasiado?! Ora isto parece-me que vai passando da lisonja á galhofa! + +--Oh! minha senhora... Isso offende-me e punge-me, acudiu Pires com o +mais comico azedume. + +Silvina relanceára a vista como quem não via, e voltando-se para o +cavalheiro, disse: + +--É do Porto aquelle senhor? + +--É da provincia, minha senhora, estudante de Coimbra, meu condiscipulo, +chama-se Jorge Coelho, pertence a nobilissima familia, e assevero a v. +exc.ª que é um coração virginal, intacto, fervoroso, sentindo hoje pela +primeira vez os impetos juvenis do amor. + +--Não admiro, porque é muito novo. + +--Muito novo! oh! minha senhora! Quantos velhos n'aquella idade! Aqui +estou eu, de pouca mais idade que elle, e me considero já +_desillusioné_, decrepito. + +--Realmente?!... Perdoe-me a curiosidade--disse Silvina, com muita graça +de fina ironia, sustentada com imperturbavel seriedade.--Queira dizer-me +em que romance poderei encontrar o seu caracter, já que não devo esperar +uma revelação das tempestades que o fizeram tão cedo naufragar! + +--O meu caracter ainda não está escripto!--respondeu Pires, avincando a +testa, e fitando-a de esguelha. + +N'este comenos entraram os pares latentes em movimento, e a phrase ficou +engasgada até ao proximo intervallo. Enganou-se, porém, o sceptico. +Silvina, como esquecida da suspensão da lugubre narrativa, perguntou ao +cavalheiro: + +--O seu amigo demora-se no Porto? + +--Não são essas as intenções d'elle, minha senhora; mas é de presumir +que um aceno de v. exc.ª o faça esquecer a familia carinhosa que o está +esperando. + +--V. s.ª depois que envelheceu--replicou Silvina cortando as palavras +com frouxos de estudado riso--julgou salutar cousa o distrahir-se da sua +gotta moral zombando das pessoas que ainda crêem e esperam alguma cousa +d'esta vida?! + +Acudiu Pires: + +--Eu que digo isto é porque sei o que v. exc.ª é para Jorge. Respondo +gravemente ás suas facecias adoraveis. Sei que as virtudes de v. +exc.ª... + +--V. s.ª conhece-me? perguntou Silvina de golpe, e formalisada. + +--Não tenho essa honra, minha senhora. + +--Quem lhe disse que ha em mim virtudes? + +--Rosto angelico e véo translucido: homem experimentado adivinha o +coração do anjo. + +Pires ia dizer mais quatro aforismos do seu uso, quando terminou a +contradança. Conduziu a dama á sua cadeira, e disse-lhe: + +--Eu queria ter a felicidade de apresentar a v. exc.ª o meu amigo Jorge +Coelho; porém, rogo-lhe me diga se devo procurar alguem que me apresente +a v. exc.ª + +--Não tenha esse incommodo. Fico sabendo que v. s.ª é um cavalheiro da +boa sociedade, e tanto basta. Sei tambem que é academico, e sympathiso +com essa qualidade porque tenho em Coimbra dous irmãos no seminario, e +não sei que analogias me fazem presar os estudantes. + +--Direi mais, acrescentou o academico, enclavinhando os dedos para +ajustar as luvas, e tirando pelas lapelas da casaca a puxões de gentil +effeito--direi mais a v. exc.ª que me chamo Leonardo de Sousa Pires e +Albuquerque, a minha casa é na Maya, e costumo passar as ferias no +Porto, porque sou avesso á vida pastoril, e não tenho senão mediocres +tendencias para admirar a natureza bruta... + +--Não é poeta?--interrompeu Silvina, ageitando o lindo rosto a um ar de +zombeteira admiração. + + +V. + +--Se sou poeta!...--disse Pires, enviezando para o estuque do firmamento +olhos de lastima.--A poesia é flôr muito delicada, que o primeiro +vendaval do coração desfolha. Desfolhada a primeira flôr, o vaso que +fica não tem seiva para outra: é como a terra ferida de maldição. + +--Isso é triste--acudiu Silvina, tregeitando com a cabeça e olhos umas +gaifonas piedosas. + +--Tristissimo, minha senhora! + +Agora eram de victima os ares do Fausto da Maya, e a dama já pedia a +Deus que não viesse para junto d'ella a prima, com medo de espirrar uma +d'aquellas casquinadas de riso, que a mais sisuda prudencia não refreia. + +Jorge Coelho, no entanto, sem bem saber o que o impacientava, não podia +tolerar a detença do amigo. «Se eu soubesse dançar--dizia de si para si +o academico--teria feito o que fez Pires... Será de mim que elles estão +fallando? É natural, porque a vejo fitar-me com attenção... Se me eu +avisinhasse, daria melhor occasião a Pires de me apresentar...» + +E, obedecendo á hypothese, deu alguns passos; mas tão a medo o fazia, +que antes parecia querer que o não vissem. N'isto, já o amigo o andava +procurando, e Silvina, vendo a direcção errada de Pires, acenou-lhe de +longe, indicando com disfarce onde estava Jorge. + +O pobre moço tremia quando viu que era procurado. A sua primeira idéa +foi fugir da sala, e não duvidamos crêr que fugiria, se Pires lhe não +trava do braço, dizendo: + +--Olha lá como lhe fallas: a mulher tem espirito, e é um genio. + +Isto foi peior. + +--O meu amigo Jorge Coelho que eu tenho a honra de apresentar á exc.ma +snr.ª Dona... + +Pires estacou. Silvina sorriu-se. Jorge corou, baixando os olhos. + +--Não sabe o meu nome? isso não importa disse a dama.--Eu me apresento. +O meu nome é Silvina. Tenho a gloria de ser tambem aldeã. Nenhum dos +tres póde rir dos outros. Então o snr. Jorge não dança? + +--Não, minha senhora, eu não sei dançar--disse Jorge com infantil +ingenuidade. + +--Não sabe, porque não ama a dança, não é assim? + +--Em minha casa ninguem aprendeu a dançar. Minha mãi foi educada n'um +convento, e de lá sahiu para ser esposa, e governar sua casa n'uma terra +onde nunca se deram bailes. Eu sahi da minha aldéa ha menos d'um anno, e +tenho consumido todo o meu tempo no estudo... + +Estava Silvina gosando sem motejal-a a simplicidade de Jorge, ao passo +que Pires lamentava as pueris historias do seu acanhado amigo. Como +quizesse salval-o, o imaginoso academico interrompeu-o com não sabemos +que espirituosa semsaboria, que Silvina atalhou logo: + +--Deixe fallar o seu amigo que me está encantando com a singelesa do que +diz... + +--Eu retiro-me, minha senhora--disse Pires, arqueando-se--porque estou +compromettido para a seguinte polka. + +--Tambem eu...--disse Silvina, já quando o par se avisinhava, ao qual +pediu desculpa, de não dançar, por causa de uma forte dôr de cabeça. E +voltando-se para Jorge, que não soubera avaliar a fineza do fingido +incommodo: + +--Tem aqui esta cadeira... Sente-se, e conversemos da sua familia, +porque talvez precise desafogar saudades d'ella em coração que o +comprehenda. + +Jorge cobrára alento com este ar de familiaridade. Fez-se para elle +profundo silencio em todo aquelle borborinho da sala. + +Era a primeira vez que se via em face de uma mulher, que lhe não chamava +irmão ou filho; e, todavia, tanta ingenuidade fraterna respirava o rosto +de Silvina, que, por encanto, o timido moço, sem forcejar contra o +enleio da alma, tirou de lá expressões de sorte affectuosas que nem os +mais destros comicos de sala as diriam assim. + +--Tem muitas saudades dos seus, snr. Jorge?--disse Silvina com brando +mimo.--Está ancioso por chegar aos braços de sua mãi? + +--Quizera que v. exc.ª a conhecesse--disse Jorge maviosamente.--Havia de +amal-a... que minha mãi está tão longe d'este mundo brilhante, vive d'um +modo tão differente do das pessoas educadas como ella foi, que me faz dó +o que era e tem sido ha vinte annos, contando hoje apenas trinta e seis, +n'uma aldêa, sem outra convivencia senão a de seus filhos, e sempre +magoada das saudades de meu pai... Ha duas horas que penso em v. exc.ª e +n'ella... + +--Em mim?--atalhou Silvina, com sorriso de bondade--lisongeia-me +infinitamente a companhia que me deu no seu pensamento; mas poderá +dizer-me que analogia de imagens achou entre mim e sua mãi? + +--Immensa, e não sei dizel-a. Se eu podesse bem interpretar este +sentimento mysterioso, diria, d'outro modo, que hoje, pela primeira vez, +se espelharam em minha alma duas imagens de mulher. Até ha pouco, havia +lá a de minha mãi sómente, e os traços informes, a sombra, o indefinido +do ser que vaga entre o céo e a imaginação do poeta. Agora... + +--Essa segunda--interrompeu Silvina com uma gravidade impropria de sua +idade e modos usuaes--não poderá jámais deslumbrar a de sua mãi, porque +os entes de imaginação, visualidades passageiras, nunca usurpam a posse +aos entes que a natureza nos está dando todos os dias em realidade de +amor e carinhos. E depois, snr. Jorge, verá que é inutil esperar aquelle +puro original da cópia que a sua phantasia vai debuxando, em quanto o +coração novo e enganado lhe empresta as côres do céo. Affirmo-lhe, senão +authorisada pela experiencia, amestrada pelo exemplo e confissões +sinceras das minhas amigas, affirmo-lhe que o seu indefinido de poeta +nunca lhe ha-de avultar em corpo e alma, se os olhos descerem do céo a +procural-o na terra. Guarde, pois, com extremosa avareza a imagem de sua +mãi, e não consinta que outra lhe dispute o exclusivo amor que lhe dá. + +Disse. + +O academico ouvia, pela primeira vez, a expressão floreada, a linguagem +musical, o periodo arredondado, como de folhetim ambicioso, na bocca de +mulher. Achava elle certa incongruencia entre as feições menineiras da +provinciana e o tom sentencioso do discurso. Relanceou-lhe subito na +memoria o meu nome, segundo me elle contou depois. Lembrou-se d'aquelle +meu estirado discurso, na sua aldêa, dezoito mezes antes. Tropeçou na +hypothese de que o singelo exterior da palavrosa menina mascarava um +coração desbaratado por desenganos, e engenhoso de armadilhas a corações +noviços. Alguem diria que o silencio de Jorge, seguido á ultima +expressão de Silvina, era acanhamento. Já não: era a duvida. + +--Ficou tão pensativo, snr. Jorge--tornou Silvina.--Está pesando no seu +juizo a verdade das minhas palavras? Impressionaram-no tanto!... + +--É verdade, minha senhora; estava pesando as palavras de v. exc.ª com +outras que me disse um homem de trinta annos. + +--Contrarias ás minhas? + +--Semelhantes na intenção; mas muito mais desconsoladoras na fórma. +Disse-me elle que ha muitas mulheres que matam, e uma só que salva. + +--Mas affirmou-lhe haver uma que salva? + +--Sim, minha senhora. + +--E quantas vezes lhe disse elle que podia ser victima de sua devoção e +generosidade a mulher que sente em si o coração salvador?... Creio que +me não fiz comprehender... + +--Comprehendi, minha senhora. Pergunta v. exc.ª se a mulher capaz de +erguer a alma despenhada de sua grandesa, não se despenhará ella mesma +n'essa generosa tentativa; + +--Entendeu. + +--Não sei responder, snr.ª D. Silvina. Eu não sei nada do mundo. Ignoro +os precipicios em que póde cahir o homem, e não sei tambem a que alturas +póde levantal-o o amor. Já imaginei o mundo mais agradavel: começo a dar +cem illusões por cada realidade. Não cuide v. exc.ª que eu fiz pé atraz +á vista da verdade despoetisada, e feia como dizem os pessimistas que +ella é, vista á luz da razão pura; vejo, porém, que se vão fenecendo as +flôres da minha imaginação á maneira que escuto e pondero, com religiosa +crença, as palavras que v. exc.ª me diz, e as que me disse o bom ou +funesto despertador da minha razão, que dormia acalentada nos braços da +poesia. De que serve o desengano antes que a fatal experiencia no'l-o +dê?! Para que me diria v. exc.ª, com ar de tanta verdade e segurança, +que eu nunca encontrarei o puro original da cópia que a minha phantasia +entrevê?! + +--Diz bem! atalhou Silvina meigamente triste, ou adoravelmente +dramatica--diz bem! Arrependo-me da injustiça que fiz ás mulheres, e +mesmo da crueldade com que me tratei a mim propria. Fallei pela bocca da +sociedade, snr. Jorge Coelho. Tenho ouvido, e lido nos romances as +palavras geladas e desanimadoras que lhe disse, com o immodesto animo de +distinguir-me a seus olhos. Menti-lhe, e menti ao meu coração. Não se +desalente ao entrar na vida, e nunca de mim se lembre como de fada má, +que lhe fadou a desventura. Espere, creia, e obedeça aos impulsos do +coração, em quanto a peçonha da mentira o não contaminar. No mundo deve +existir a imagem da mulher digna de senhorear-lhe a alma com a de sua +mãi, cuja face eu beijaria, hoje, se podesse, com respeito e ternura de +filha. Quando estiver nos braços d'ella, diga-lhe que encontrou no +Porto, e n'um baile--onde raro sentimento grave entretem por momentos o +espirito--diga-lhe que encontrou uma mulher que lhe manda n'esta rosa um +beijo de sympathia e veneração. + +E, dizendo, tirou do decote espeitorado do vestido a rosa, chegou-a aos +labios, e deu-a com gracioso ademane a Jorge, que lh'a recebeu com mão +tremente. + +--Cumpre o meu pedido? tornou ella. + +--Pergunta-me se cumpro? É este um encargo doce que v. exc.ª faz ao meu +coração. Farei que minha mãi receba nos labios o beijo que vai n'esta +flôr. Depois, pedir-lhe-hei que m'a ceda, que eu possa chamar-lhe minha, +enthesoural-a como se ella para mim cahisse da grinalda d'um anjo... Se +ha no coração poesia mais sublime que a da saudade... + +--Ha, sim... a da esperança... + +--A da esperança!... balbuciou Jorge, levando machinalmente a rosa aos +labios, e córando da irreflectida acção que se lhe afigurou menos +respeitosa. + +(Oh santa innocencia! não sei se és mais tola que santa!) + +Desculpem o parenthesis que desfeia um pouco o bello e harmonioso da +fórma dialogal. Guarde-me Deus de motejar com insulsas facecias a +candura, o rubor, a timidez encantadora dos vinte annos de Jorge. +Invejo-lhe o que já não posso haver nem sequer com grande esforço +d'arte; mas rio-me d'elle e de mim, quando as galhofeiras memorias do +que fui, ha hoje quinze annos, sahem d'entre as flôres mirradas da minha +primavera, e vem cá a este glacial dezembro da vida fazer-me assuada e +zombaria, para que eu me dôa e corra das criancices de então. Pois +rio-me com effeito, que é para isso a cousa, e riam-se, á vontade, os +que de mim souberem que muitas vezes todo eu me incendiava em carmim e +rosa, quando o olhar logrativo da mulher me alvoroçava o pudor a ponto +de afeminar-me, e fazer de mim uma menina que... Quasi me escorregava +agora dos bicos da penna uma necedade das que se não desculpam á propria +santa innocencia que, repito, não sei se é mais santa que tola. + +Vamos á historia com ajuda da providencia dos romancistas, a qual +providencia, muitas vezes, abre mão d'elles, e deixa-os para ahi +parvoejar que é mesmo cousa de peccado. + +Silvina deu fé do rubor de Jorge, e...--querem saber a verdade +inteira?--não gostou. É um segredo da essencia mulheril o dissabor que a +molesta, a seu pesar... (vá, diga-se a _seu pesar_) quando o homem se +amulherenga ao pé d'ella, e lhe não deixa o exclusivo de mulher. Receios +de desmerecer em graças quando lhe é força ser mulheril? Consciencia +ingrata d'uma superioridade que a desenfeita? Recursos que perde de +captivar pelo mimo, com a brandura caridosa, por estremecimento do +pudor, toques do pejo virginal, que ora lhe transluzem nas faces, ora +lhe cerram os labios? Não sei se é tudo, ou alguma cousa, ou nada +d'isso. A verdade é que a mulher não gosta de homens que coram, de +homens que choram, de homens que... não são homens, está dito tudo, e +n'isso ficaremos, se acham que está discutida a materia. _Materia_... +que aleivosia! Isto é espirito o mais espiritual que póde ser. Espirito +transcendental, d'aquelle que devia andar na mente de muito casquilho, +paralta, janota, ou como é que se chama a tal alimaria, que se +desentranha em lufadas de cynismo nos botequins, e vai ao pé das +costureiras tartamudear jaculatorias de ternura. + +Fica, pois, justificado o desgosto de Silvina, quando viu Jorge córar, +por ter beijado a flôr, onde os labios da peregrina minhôta haviam +imprimido o beijo de encommenda para a provincia. + +--Agora, disse ella; são dous os beijos que leva a sua mãi, em uma só +flôr. Queira Deus que o halito dos labios do filho não tirasse o perfume +ao dos labios da amiga. + +--Creio que sim--disse Jorge corando outra vez--creio que sim... + +--Porque?!--atalhou Silvina com despeito mal comprimido. + +--Porque sinto no coração o perfume do seu beijo. + +Sahiu-se melhor do que eu pensava. É aquella uma das respostas que +costumam ir de casa gizadas; mas creio no improviso. E assim, explicado +o segundo accesso de escarlate, desvaneceu-se o desaire em que estava +Jorge na opinião caprichosa da dama, que replicou muito requebrada: + +--Pois não esperdice o perfume, porque nunca sentirá no coração outro +mais puro, mais digno de incensar o seu amor reflectido do céo. + +--Amor!--interrompeu Jorge com exaltado impeto de criança--Olhe que essa +palavra póde ser-me veneno para toda a vida, se v. exc.ª consentir que +eu a guarde... + +--No mais intimo de sua alma... Guarde... que nunca a proferi com tão +pouco conhecimento de quem a dou, e tão pouca esperança de a vêr florir +em venturas. + +Jorge Coelho ia naturalmente córar terceira vez, quando Francisquinha da +Cunha chegou, com ar de zanga, e disse: + +--Vamos, prima, que o pai quer sahir... e é tão cedo... que raiva! +estava agora ouvindo uma enfiada de tolices tão peregrinas... + +--De quem? + +--Eu sei cá de quem? d'um homem que se chama Pires, e que este senhor +conhece... Não lh'o diga, não? Eu fui indiscreta... + +--Não diz nada--acudiu Silvina--pois não, snr. Jorge? + +--Eu, minha senhora!... + +--Asseverou-me--continuou Francisca gesticulando vertiginosamente com +cabeça e braços--que se eu o não amasse, havia de espirrar á minha +fronte de algoz o seu sangue de Larra, de Werter, de... Ai que homem, +que homem aquelle! O que se produz na Maya! Ó filha, eu não posso perder +aquillo!... Pires é meu... + +Ai! o pai... Vamos, Silvina. + +Silvina estendeu a mão a Jorge, e disse a meia voz: + +--Vá vêr-me ámanhã ao jardim de S. Lazaro. + +Jorge balbuciou alguma cousa que não vinha do coração. N'este momento, +um receio doloroso o affligia com esta pergunta: «Esta mulher irá +escarnecer-te, como viste escarnecido o teu amigo?» + + +VI. + +As occorrencias do jardim de S. Lazaro, no dia immediato, não merecem +chronica. O que póde, porém, succeder a um moço, que passeia o coração +amante, no jardim do Porto, é bom de dizer-se, e folga a moral de +ouvil-o. + +Se o leitor está no Porto, e vai apaixonado ao jardim de S. Lazaro, e +conhece a familia da menina casadoura, por quem anda em brasa, faz a sua +primeira cortezia, e foge de encontral-a segunda vez, porque repetir a +cortezia é, além de provincianismo puro minhoto, cousa que cheira a +inconveniencia, e póde ser até escandalo. Resta-lhe o expediente commum, +e salva assim a honra das familias: é amoutar-se como fauno por entre as +murtas e bosques de acacias, lobrigando aqui, e além, a caça estranha. + +No jardim de S. Lazaro os dous sexos dão ao passeio o que as sovinas +municipalidades não tem querido dar-lhe; isto é, uma luxuosa +superabundancia de estatuas, as quaes, tirante a alma, nem sempre se +avantajam ás do marmore nacional. Sentam-se as meninas, mui bem +compostas e ageitadas de mãos e cabeça, e alli se estão deleitando na +vista do repuxo, em quanto o papá rufa com tres dedos na tampa da caixa +do tabaco o compasso da modinha conhecida de Verdi ou Donizetti, que as +trombetas bastardas estão executando... _executando_, sim, é a palavra. + +Ao relance artistico dos olhos não é feio aquillo. Cuida enxergar o +myope em cada renque de cadeiras uma fileira de _madonas de la sedia_; +mas a illusão d'um myope não vale os desconsolos de tanta gente que tem +a sua vista escorreita, e pensa que a estatua deve ter um _quantum +satis_ de espiritualidade. + +Ha pontos na casca do globo em que a virtude custa pouco. Não sei se a +bemaventurança é accessivel por igual de todas as terras; mas, +convencido da rectidão que assiste aos negocios dos outros mundos, +quer-me parecer que quatro virgens a um tempo, sahidas em espirito, uma +de Pekin, outra de Constantinopla, outra de Paris, e a quarta do Porto, +devem de ter differente recebimento e quartel nas regiões da gloria, +onde ha premios para a virtude. + +Na razão directa da tentação, nos esforços em rebatel-a, é que deve ser +aferida cada alma victoriosa que, apesar dos demonios succubos e +incubos, se alista nas legiões do céo. Não se dogmatisa, entendam: +quer-se escassamente enunciar idéa nova, resaibada de heresia, a vêr se +algum hypocrita illustra o livro, com as injurias da sua caridade +apostolica. Não ha no romance outro merito que o inculque, nem +perspectiva melhor agourada para o editor. + +As adoraveis virtudes das senhoras do Porto não são de todo um +merecimento: orçam mais por uma necessidade. O homem d'alli sente um +terço, ou ainda menos das precisões espirituaes que, n'outras partes, +incommodam o coração humano. Esta feliz frugalidade procede do geito +d'aquella sociedade, geito antigo que degenerou em aleijão, rachitismo +moral, corcunda hereditaria, e de mais a mais pegadiça, por quanto, se +não é do Porto, e por lá apégar alguns mezes, leitor, apalpe as costas, +e topará uma protuberancia a crescer, a crescer, até se formar corcunda, +que irá comsigo a stoda a parte. + +Aquelle aleijão, de barreiras do Porto a dentro, não fica mal a ninguem. +Os liliputianos, conta Swift, chanceavam o viajante europeu, que tinha a +ridicula felicidade de ser um homem bem apessoado e perfeito. As +bellezas do Congo recuam de puro nojo diante de um formoso nariz branco +sem pingentes. No Porto ha o escarneo e o tedio que explicam o paradoxo +do selvagem. + +A juventude masculina da cidade heroica está em contacto com a +civilisação d'este seculo pelo alfaiate. Não poderam os velhos trancar +as portas do burgo de Moninho Viegas á invasão dos figurinos. Calção e +rabicho foram banidos; o tamanco e o chinelo d'ourélo cederam, +constrangidos, o joanête indigena ao verniz, e ao couro da Russia; o +difficil, porém, era pentear, vestir e calçar o espirito de gaito e arte +que a gente, fitando em rosto o filho da civilisação portuense, não +tivesse de descer os olhos a buscar-lhe nos pés o tamanco. É o sestro +das transfigurações de golpe e abruptas. + +Um joven bem estrellado de minas e camapheus, chama-se no Porto um +janota. A menina ingenua diz á visinha: «conhece aquelle janota?» ou +«fulaninha namora um janota louro.» Não se cuide, porém, que este +epitheto implica mofa ou menospreso como em Maçãs de D. Maria, ou Lamas +d'Orelhão. O janota portuense é uma cousa séria, que póde ser vereador, +e irmão da ordem terceira. + +Por via de regra, o janota é uma creatura que nasce, cresce, abre-se em +florescencia variegada de frakes, e colletes, e pantalonas; toma posse +do balcão paterno aos trinta annos, corta o bigode para que lhe +descontem as letras, põe oculos se teve o infortunio de estragar a vista +com a luneta que lhe servia de não vêr nada, fructifica em crianças +gordas que entrajam á escoceza, e escôa-se de vida através de quarenta +annos de lerda pachorra de espirito, legando á prole um nome limpo, com +pequenas farruscas que se ensaboam na barreia de um necrologio, e dous +legados de cincoenta mil reis ás entrevadas da Cordoaria, e alguma cousa +ao hospital do Terço. + +D'este viver assim resultam duas cousas que explicam muitas outras: +primeira, que o elegante portuense dispende os annos perigosos da +adolescencia vestindo-se de manhã para sahir de tarde; segunda, que as +meninas, ao despegar da costura, ageitam os laçarotes do toucado, +entufam os punhos das manguinhas, encostam o cotovello ao peitoril da +janella, seguem o olhar de esguelha que lhe vai revirando o terceiro ou +quarto janota predilecto, e fecha a janella quando a passagem do quinto +é duvidosa. + +D'est'arte, as paixões são innocentes e ao mesmo tempo substanciaes como +um caldo de gallinha. As relações epistolares não derrancam a pureza das +olhaduras. A carta, em regra, é declaração escripta que tolhe a poesia +da declaração muda. Palestras, quer de sala, quer a horas mortas, da rua +para a janella, que piedosa criada deixou aberta, são, se a patrulha o +tolera, a morte de ambas as declarações, porque o janota que falla é +muito menos soffrivel e grammatical que o janota que escreve. Ainda +assim, o casamento remata isto que se chama o _namoro_. E o mais é que +ella e elle, nas suas horas de recolhimento, cada qual a só por só com a +sua consciencia, contempla saudoso o passado e diz: «Que bella mocidade +eu tive! muito me diverti!» + +Ponderam alguns authores que a morigeração dos costumes portuenses é o +necessario effeito do atraso da civilisação e policia da classe media, +em que as outras no Porto se embaralham e perdem. Esta palavra +«civilisação» anda mal trazida para tudo. Se o refinamento das +industrias, se a arte de crear capitaes, no minimo do tempo e com +diminuto trabalho, constitue a maxima civilisação material, o Porto +ganha a aposta aos mais ambiciosos prospectos de riqueza aventados pelos +economistas. E assim é que alli enxameam os Midas no ouro e nas orelhas; +porém, menos castigados que o fabulado Midas da theologia grega, logram +digerir o boi e o toucinho na succulenta substancia que a natureza lhes +deu. + +Os que negam ao Porto a vanguarda do progresso industrial, que é a mesma +civilisação, irmã gemea da intellectiva, e fonte da sã moral, derruem +desde os alicerces a sciencia moderna, confessando assim a utopia do +systema vulgarisado nas escolas, nas gazetas, e nas fórmas de governar +das nações mais cultas. No Porto, dão-se as mãos a riqueza e os costumes +edificativos, para se justificarem estes por aquella, e a primeira pelos +segundos. A industria é a de hoje: os costumes são os de ha um seculo. O +chefe de familia poderá ser moedeiro falso, negreiro aposentado com +exercicio na casa real, alliciador de escravos brancos, contrabandista +tolerado; mas a filha d'esse homem da época vive intemerata como a filha +de Virginio; cuida que seu pai, recolhendo a casa encalmado e suado, vem +de servir a patria como Cincinnato; e, chegada a occasião de exercitar +as virtudes antigas, não duvidará ser Lucrecia, e Lucrecia menos +equivoca que a de Colatino. + +Sobre este assumpto, mediocre seria o engenho que não produzisse um +volume. Em louvor do Porto, escreveu o socio da academia real das +sciencias Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos dous folhetins de +nervo e polpa, com muito sal attico á mistura. O abundoso escriptor +escreveria in-folios, se lhe aprouvesse, porque já um dos sete sabios da +Grécia, Pittacus, parece que era, escreveu um volume dos louvores da mó +d'uma atafona; e, para encarecimento do rábano, deixou Marciano um +tractado muito de vêr-se. O talento é uma cousa temivel. + +Ora não vão já d'aqui os malsins de intenções maliciarem essas +inoffensivas palavras, que não desprimoram, nem arguem deshonra ao +paladium das liberdades patrias, como usam dizer os artigueiros da terra +a proposito de qualquer empeço que lhes assombre o seu municipio, se +acontece o governo ir de encontro a alguma postura sobre a carne de +porco, ou cousa assim em que valha a pena lembrar ao mundo que o Porto é +o paladium das liberdades patrias. + +N'isto pensava eu no jardim de S. Lazaro, n'aquelle dia em que Jorge +Coelho, mais imprudente que atrevido, se avisinhára de Silvina, que, +passados minutos de conversação, lhe disse: + +--Não se demore mais tempo, porque toda a gente nos observa com ar +espantadiço. Eu cuido que estamos dando grande escandalo. + +Jorge Coelho retirou, e deu o braço ao amigo Pires, que fremia de raiva +resultante d'uma desfeita que recebera de D. Francisca. + +--Desfeita!--disse Jorge--pois uma senhora faz desfeitas!?... + +--O requinte hediondo da insolencia!--vociferou o fidalgo da Maya +tascando com phrenesi a ponta do charuto. + +--Que te fez? + +--Ouviu-me hontem na «Assembléa » uma declaração, acolheu-a com doudo +enthusiasmo, disse-me que eu era um homem tão admiravel como perigoso; +tremeu de pavor quando eu lhe fiz sentir o desfastio com que me +arrancaria as entranhas, se me ella não aceitasse a vida como +complemento da sua. Tudo isto me authorisava a offerecer-lhe hoje uma +carta, com a certeza de me ser aceita. Offereço-lh'a, e ella responde-me +que não sabia lêr se não letra redonda! Leonardo de Sousa Pires e +Albuquerque sabe vingar-se. Vou ámanhã á Maya; depois... ai d'ella e de +mim! + + +VII. + +Christovão Pacheco de Valladares, morgado de Santa Eufemia, esteve sete +dias e sete noites emparedado no seu quarto da hospedaria da «Aguia +d'Ouro» depois d'aquelle desastre da «Assembléa.» Alguns hospedes +repararam na reclusão, e averiguaram dos criados que exquisito homem era +aquelle. D'estes hospedes, o mais grado era o morgado de Matto-grosso, +solarengo de «Entre-ambos-os-rios» homem de grandes brios e musculos. +Apenas informado, foi bater á porta de Christovão Pacheco, dizendo pela +fechadura que abrisse que era parente e amigo. A identidade do +parentesco foi de facil prova. + +--O primo Pacheco não póde duvidar--disse o morgado de Matto-grosso--que +um irmão de meu setimo avô, que havia nome Heitor Moniz de Valladares +foi casar á casa de Santa Eufemia com D. Urbana Pacheco, filha de Lopo +Pacheco, governador de Cochim... + +--A fallar-lhe a verdade--disse o de Santa Eufemia--eu não sei nada de +linhagens; mas tenho ouvido fallar a meu pai n'esse governador de +Chacim. + +--Cochim, primo Christovão, Cochim. + +--Ou Cochim, ou lá o que é... + +--E saiba que da sua prosapia sahiram os mais illustres sangues das +familias do Minho. Talvez v. exc.ª, primo, não saiba que a nossa +linhagem está mui de perto aparentada com Porto-Carreiros! + +--Não sabia, nem sei de que sirva isso. + +--De que sirva isso!--acudiu Egas de Villas-boas Cão e Aboim +Encerra-bodes, que assim se chamava o morgado de Matto-grosso. Não diga +tal, primo Christovão Pacheco. Pois ignora que do solar dos +Porto-Carreiros, fidalgos mais velhos que a monarchia trezentos annos, +sahiu ha cinco seculos um infanção, que casou em Castella, e foi tronco +da descendencia que vem illustrar-se na pessoa da actual imperatriz de +França?[1] + +--Não sabia, palavra de honra, e isso que faz?--tomou o de Freixieiro. + +--Faz que somos parentes da imperatriz, e que podemos dizel-o á bocca +cheia a esses de sangue azul da capital, que nos chamam a nós fidalgos +de meia tigella, esquecidos de que os mais nobres barões da côrte de +Affonso edificaram os seus solares entre Douro e Minho, e d'aqui, por si +ou seus filhos, acompanharam os reis da primeira dynastia ás conquistas +do restante da Lusitania, e d'além-mar. + +--A fallar-lhe a verdade, primo, quando entro a pensar n'essas cousas +com que meu pai me quebra a cabeça, parece-me que trocava toda a minha +fidalguia por algumas libras. + +--Oh! que blasphemia!--Exclamou Egas n'um impeto de sincera +indignação.--Troca-se por libras um neto de Heitor Moniz de Valladares!? + +--Não é trocar-me por libras;--acudiu desabridamente o de Santa +Eufemia--é que eu estou de vinte e oito annos, e ainda não pude sahir de +casa senão duas vezes com esta; e não tenho remedio senão ir-me embora +para Freixieiro, por que meu pai escreve-me hoje essa carta que o primo +póde lêr, e depois me dirá se me não era melhor ser antes um caseiro das +minhas fazendas, que me não servem de nada, n'esta idade em que eu +preciso de dinheiro. + +--Vejamos isto--disse o de Matto-grosso, abrindo a carta, e lendo o +seguinte: + + «Meu estimado filho. + +Já te disse que venhas para casa, que não ha dinheiro para andar em +folganças. Os tempos estão muito bicudos, e o bicho já pegou nas +videiras. Os bezerros do caseiro da Portela lá estão com a molestia, e a +cheia levou a parede do lameiro do Quinchoso. Tudo são despezas. O +abbade pegou-me pela palavra, e quer que eu mande pôr a porca no sino da +igreja. O milho ainda não chegou á conta; os quatro carros que se +venderam não chegaram para pagar as decimas. O garrano está de todo +espravonado; pozes-te-o bom com a tua ida ao Porto. Tudo são desgraças. +Em quanto á roupa nova, deixa-te disso; a casaca que levaste está muito +boa, e o melhor é fazel-a em Guimarães, que são mais em conta os +alfaiates. Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou ordem ao +meu amigo brasileiro para te dar para a jornada cinco pintos; olha se +ajustas a cavalgadura sem gorgeta. Dou-te a minha benção, e sou teu pai +carinhoso, + + «_Vasco._» + +--Que me diz a isso?--exclamou Christovão. + +--Eu sempre ouvi dizer--respondeu o primo Egas--que meu tio Vasco era um +tanto fona; comprehendo que na idade do primo Christovão custa muito não +brilhar na sociedade, a que o nosso nascimento nos dá direito; não +obstante, seu pai está accumulando para o seu filho unico uma grande +casa, e é preciso perdoar-lhe a intenção que é boa. Vamos ao mais +importante: o primo quer dinheiro? quer os meus cavallos? quer os meus +lacaios? tem tudo ás suas ordens; o que eu não consinto é que diga que +trocava os seus brazões por algumas libras. Vamos, franqueza, precisa de +fato? Chama-se já aqui o alfaiate: hoje mesmo póde sahir de ponto em +branco. Tenho cá dous cavallos, o _corisco_ e o _phaetonte_: o primo +monta qual quizer. Diga-me agora a que veiu ao Porto. + +O morgado de Santa Eufemia, entre jubiloso e magoado, contou ao primo a +historia do _seu amor de raiz_, como elle dizia. Mostrou as cartas de +Silvina, que elle tinha atadas com um barbante n'uma bolsa interior da +mala. Passou á ingenuidade da galhofa que lhe fizeram na «Assembléa» +narrando as miudezas da casaca, e expoz o collete ginja e a gravata das +orelhas fabulosas. E terminou em tom de lastima, accusando a perfidia da +mulher a quem elle quizera dar o seu nome. + +Egas de Encerra-bodes, depois de provar que na linhagem de Silvina havia +um reles sargento-mór e um capitão de milicias, afóra duas bastardias e +um filho sacrilego no seculo XVI, entrou a fuzilar colera dos olhos, +tocando no ponto mais grave dos queixumes do neto do governador de +Cochim. + +--Eu, dizia elle batendo no peito com a mão aberta, eu, primo +Christovão, na sua posição teria açoutado os perros que o escarneceram +na «Assembléa.» Esses que riram de Christovão Pacheco é a villanagem, +cujos paes vieram para o Porto de rabona de cotim, chapéo braguez, e o +tamanco herdado. Os nossos caseiros, quando a liberalidade de nossos +paes, lhes concedia poderem enroupar de cotim os filhos, mandavam-os +para aqui. Os filhos d'esses que para aqui vieram, primo, são os +insultadores da risada boçal, os miseraveis que através da casaca, da +pelle da luva, e do verniz das botas, estão accusando o costado proprio +do fardo, o pé que reclama o tamanco, e a mão que suspira pelo cabo da +enxada. Tenho visto esse gentio nos botequins, e por sobre o hombro +observo os risos de grosseira mofa com que recebem o despreso dos que +elles denominam _parvalheiras_. Parvalheiras, a nós, primo, que temos em +nossas casas a educação que elles tem entre as balanças, e timbramos em +honrar os appellidos de nossos avós, descendo até elles para que elles +não subam até nós. Se quer vêr quanto é villã a basofia d'estes +tendeiros, que trocam por titulos ceiras de figos e costaes de bacalhau, +tenha o primo a longanimidade de os admittir á sua convivencia, e verá +como se elles desfazem em lorpas cortezias, e citam a cada instante o +seu nome, como um dos seus amigos d'elles... Vamos ao ponto essencial. +Christovão Pacheco foi ultrajado. Um primo de Egas de Matto-grosso não é +ultrajado impunemente. + +Tem um rival, primo? + +--É de crer que sim. + +--Fidalgo? + +--Isso não sei. + +--Cumpre sabêl-o. + +Uma hora depois entraram fardos de fato feito no quarto do morgado de +Santa Eufemia, e logo botas do sapateiro francez, e chapéos da melhor +fabrica. Vestiu-se Christovão Pacheco, e era de vêr em que gentil moço +se transfigurou, e que nova alma entrou n'aquelle corpo. Se elle tivesse +lido frei Luiz de Sousa, aquelle esbelto cortezão que se sepultára no +frade, recordaria estas palavras escriptas com tanta sciencia do absurdo +coração do homem: «É nossa natureza muito amiga de si, e experiencia nos +ensina que não ha nenhuma tão mortificada que deixe de mostrar algum +alvoroço para uma peça de vestido novo. Alegra e estima-se, ou seja pela +novidade, ou pela honra e gasalhado que recebe o corpo: até os +pensamentos e as esperanças renova um vestido novo.»[2] + +Assim foi o morgado de Santa Eufemia. Quando se viu, desconheceu-se. +Outro corpo e outra alma. Olhava para o polimento das botas, e o vidrado +d'ellas reverberava-lhe na alma em lampejos de alegria. Não se cançava +de correr a mão pela macia seda do chapéo, e remirava-se ao espelhinho +que o imaginoso chapelleiro enquadrára no centro da copa. Com o que elle +se ia zangando foi com as luvas de nove pontos e meio, que gemiam pelas +costuras, com a pressão do dedo polegar que queria á força entrar com os +outros de uma assentada. O do Matto-grosso explicou ao primo os +mysterios da luva, com muito mais siso que um certo folhetinista do +Porto inventor dos mysterios da dança. No Porto ha gente para inventar +tudo quanto ha. + +Os dous morgados sahiram da «Aguia d'Ouro» no domingo posterior áquelle +em que Silvina fallára um momento com Jorge, no jardim. Para o jardim +foram tambem elles, seguindo Silvina e Francisca, que saturam da missa +dos Congregados. Quando subiam a rua de Santo Antonio, um grupo de +elegantes, para quem a physionomia do morgado ficára indelevel, desde o +baile, pararam maravilhados da reforma, fixando-o com impertinente +reparo. + +O morgado de Matto-grosso estacou em frente do grupo, e disse: + +--Ora vamos: andem, ou desandem! + +Os elegantes abriram alas, encarando-se mutuamente com um ar de pasmados +da propria docilidade. + +--Bravo! exclamou Leonardo Pires, que seguia de perto os morgados. + +Egas de Encerra-bodes voltou-se rapido para o da Maya, e disse mal +assombrado: + +--Que é lá isso? + +--Disse _bravo_!--replicou Pires com serena jovialidade, porque gostei +immenso de vêr aquelles bigorrilhas ladearem á esquerda e direita, e +comprehendi a razão porque elles pararam contemplando este cavalheiro +que eu vi, _mutatis mutandis_, no baile da Assembléa Portuense. Eu +honro-me tambem de ser parvalheira, e como tal me apresento, pedindo-lhe +que me recebam no numero dos seus conhecidos em quanto me não conhecerem +digno da sua amisade. Sou da Maya, da familia dos Pires e Albuquerques, +e primeir'annista da faculdade de direito. Tenciono formar-me porque não +tenho que fazer, e não me conformo á vida de meus antepassados, que +viviam dos galgos e dos cavallos. Abomino cordialmente o Porto; mas ha +aqui uma mulher que me tem preso a esta terra pela fibra vingativa d'um +coração nobre. Aqui estou esperando a hora de provar-lhe que senão +brinca com um homem que tem esculpidas no seio as maximas herdadas de +avós. + +Pires foi fallando n'este estilo até ao jardim. O morgado de +Matto-grosso, scismando com o que seria no _livro dos costados_ a +familia de Pires e Albuquerques da Maya, escassamente ouviu o enfatuado +palavrorio do mettidiço. Christovão ia um pouco desconfiado da +bacharelice de Pires, que já o tratava por «vossê» quando entrou no +jardim. + +Lá estava Silvina. Rodeavam-na alguns cavalheiros do Minho, +censurando-lhe a crueldade com que abandonara o morgado de Santa +Eufemia. D. Francisca da Cunha chanceava com remoques os patronos da +victima do collete-ginja. A fidalga de Freixieiro, esporeada pela prima, +fazia tambem riso do morgado, calando os rumores da consciencia que a +não louvava. Era, pois, certo que o coração d'esta menina, degenerado +acaso do seu bom natural, em poucos mezes de pratica de outra sociedade, +se estava doendo de ter desconfessado, no baile, o amor de um homem, +cuja mão tres mezes antes apertára com fervoroso amor e esperança de ser +d'elle. + +Jorge Coelho presenciava de longe, e cioso, a attenção que Silvina dava +aos cavalheiros minhotos. Não os conhecia, para afoutar-se a entrar na +roda, e interrogar com uma palavra vaga o coração de Silvina. Esta, +porém, repellindo com desdenhosa philosophia os pesares que secretamente +a remordiam, ergueu a fronte desanuviada, poz os olhos nos de Jorge, e +fez uma ligeira cortezia, que todos julgaram ser um aceno para chamal-o. + +A este tempo chegavam, perto de Silvina, Egas de Encerra-bodes, +Christovão de Valladares, e Leonardo Pires. O do Matto-grosso +comprimentou alguns primos que estavam na roda; e o de Santa Eufemia, +voltando as costas para as senhoras, respondia, sem saber o que, a +algumas perguntas d'um cavalheiro. O inquieto Pires, furando por entre +todos, foi apertar a mão a Silvina, e dizer-lhe que estava o ideal da +quinta essencia das fadas, com o que D. Francisca se riu, e riso fôra +aquelle que abrira na testa de Pires um vinco dos que promettem +cataclismos. + +--Dá-me novas de Jorge?--disse Pires a D. Silvina.--Eu cheguei hontem da +Maya, e não pude ainda encontral-o no hotel. O amor reduzil-o-ia a +Sylpho, minha senhora?--proseguiu o estabalhoado, mordendo o charuto ao +canto esquerdo dos beiços, e arqueando os braços na cintura. + +--O seu amigo, disse Silvina, em voz alta, para desaffrontar-se da +grosseira postura do morgado--está defronte de mim. + +Pires fez uma pirueta sobre o calcanhar direito, fitou a luneta no +condiscipulo, contemplou-o da altura da sua critica, volveu de novo o +rosto risonho para a dama, e disse: + + _Sobre a pyra fumegante,_ + _Ardem ternos corações._ + +D. Francisca deu largas a uma risada estridula. Silvina sorriu +prasenteiramente á tolice. Alguns morgados receberam o dito como cousa +de espirito. Pires, contente do seu auditorio, ia retirar-se quando o +morgado de Santa Eufemia, voltando a cara jubilosamente soez para o +grupo, soltou uma cascalhada secca e desafinada que assanhou cruelmente +os nervos de Silvina. + +Todos estes movimentos foram seguidos de outro mais significativo. Os +olhares convergiram todos sobre Jorge, que ficou encarnado até ás +orelhas. Alguns dos cavalheiros murmuraram o quer que fosse, e +nomeadamente Egas de Encerra-bodes fitou-o insolentemente, e disse a +meia voz: + +--É aquelle?! + +--Pelos modos!--respondeu o primo. + +--Pobre criança! é preciso dizer ao pai que o mande buscar. + + +VIII. + +Tinha Leonardo Pires, á volta com muita pequice, assomos de brios +capazes de enganar a gente. Não levou em paciencia que os morgados +rissem do seu amigo. Encarou com ferocidade o de Matto-grosso, e disse, +estendendo o braço em attitude esculptural para o lado onde Jorge +estava: + +--Aquella criança, que alli está, tem um dedo de homem, que faz recuar +perfeitamente o gatilho de uma pistola. + +Os circumstantes algum tempo não tugiram. Se não fosse o melodramatico +da postura, a cousa não era para rir; mas a lentidão, com que Pires +desceu o braço, fez espirrar uma cascalhada universal, salvo Silvina que +arquejava em ancias de raiva. + +Jorge conheceu que o escarneciam. Ergueu-se, veiu direito ao grupo, +accendeu o charuto no de Egas de Encerra-bodes, murmurou seccamente um +_obrigadissimo_, e foi saudar Silvina e Francisca com a desenvoltura +desacostumada que lhe dava agora o ciume e a ira. + +Silvina, contente da façanha, deu-lhe lugar immediato no seu banco. +Porém, o pai de D. Francisca da Cunha, adivinhando tempestade nos +olhares coriscantes de Christovão Pacheco, ergueu-se, puxou para baixo +as pantalonas que tinham marinhado até meia-canella, e disse: + +--Vamos, meninas, são horas de jantar; vamos ás sopas. + +Levantou-se Jorge, sem ter dito palavra; mas Silvina, estendendo-lhe a +mão, de sorte lh'a apertára e sacudira, que fez evidente a intenção de +tornar bem reparado o feitio, muito de notar-se em menina de sua idade e +educação aldeã. + +Mal as damas voltaram costas, o morgado de Santa Eufemia foi bruscamente +a Jorge Coelho, e disse-lhe: + +--O senhor é um petisco! Não se me ande a fazer fino, quando não... + +Jorge respondeu assim á brutal arremettida: + +--A phrase é de carreiro; e, se não é carreiro quem me insulta, deve de +ser um embriagado. + +Leonardo Pires dá um passo á frente de Jorge, põe a mão no peito, e +exclama nem facundo nem irado: + +--Eu sou insultado na pessoa do meu amigo: exijo uma satisfação. + +O fidalgo de Traz-os-Montes, fazendo signal de retirada á filha e +sobrinha, entremetteu-se no grupo que se ia cerrando, abriu os braços, e +tirou do peito estas memoraveis palavras: + +--Os senhores estão aqui desacreditando a provincia. Se querem ser o que +lá no matto são os homens de figados, peguem em dous carvalhos +cerquinhos, e deem até tocar a quebrado; mas não queiram que os botem ás +gazetas ámanhã. A minha opinião é esta. O menino vá para um lado--disse +a Jorge, empurrando-o com brandura--e o senhor morgado para outro. Em +quanto á rapariga, minha sobrinha, ámanhã eu a porei em casa do pai. + +Jorge, tirado pelo braço de Pires, sahiu do jardim, e pôde ainda vêr nos +olhos de Silvina, um movimento de radioso orgulho da bravura d'elle. + +Na tarde d'esse dia recebeu Jorge a primeira carta de Silvina que resava +assim: «_É bello ser amada por um homem de coração e esforço. É bello +poder testemunhar a desaffronta do homem que se ama; mas é triste não +poder, na presença de Deus e dos homens, dizer-lhe:_--TUA POR TODA A +VIDA!» + +O academico da Maya ouvira lêr a carta, e disse, com quanta vehemencia +lhe permittiu a posição horisontal n'um canapé, e as pernas sobre as +costas d'uma cadeira: + +--Essa mulher tem espirito, palavra de honra! Amor e estilo, amigo +Jorge, são o alpha e omega d'esta humanidade perfeita em que tivemos a +dita de cahir das nuvens. De que diabo serve a rhetorica com que +estragamos a memoria em Coimbra, não me dirás?! Se o padre Cardoso, que +fez um compendio da arte de fallar, escrever uma carta como essa, diz tu +que eu sou um parvo e que me não hei-de vingar da Francisca da Cunha! +Diante d'estes talentos brutos, sem mão d'obra, como é o da tua Silvina, +os Quintilianos e os Longinos ficam no tremedal da sua protervia +explicando a _enallage_ e o _hyperbaton_. Oh! o estilo é muito mais a +mulher que o homem! Eu dispensava bem tres partes do coração na mulher +que me soubesse acepilhar e lapidar um periodo! Ha lá nada mais lindo? A +formosura fenece como as flôres; o estilo fica. Silvina, a eloquente +Silvina, quando de pura velhice não tiver aquelles dentes de marfim e +esmalte, ficará com a bocca cheia de phrases melodiosas, como o canto do +cysne. Tu és feliz, Jorge, mas a mesada deve estar nas vascas da morte. +Estás sem vintém? + +--Não; meu tio padre mandou-me cincoenta mil réis para lhe eu comprar +dez volumes da Encyclopedia Catholica, e eu... + +--Já devoraste cinco volumes em _rost beef_, e luvas brancas e charutos, +não é verdade? + +--E minha mãi encommendou-me duas peças de durante, e não sei que mais, +que está esperando ha oito dias... Hontem recebi d'ella uma carta, que +me fez pena e saudade... + +--Tem estilo?--interrompeu Pires, sentando-se estabalhoadamente. + +--Não brinques com cousas sagradas: minha mãi não tem estilo, e n'esta +carta o que me diz é copiado do seu livro de orações. + +--Ora essa!... Isso é original! Deixas-me vêr a carta-jaculatoria de tua +mãi? + +--Deixo... Aqui a tens... eu leio. + +Jorge Coelho, commovido, leu o seguinte: + +«Abro o meu livro de orações e copio estas palavras para que meu Jorge +as leia:--A infeliz mãi, cujo filho começa a frequentar as sociedades +põe toda a sua esperança na protecção de Maria. Começa o joven mancebo +por alguns desmanchos que fazem conceber grandes receios ácerca do +restante da sua idade. A mãi assim lh'o diz, e dá os mais ternos +conselhos; elle, porém, rebella-se contra aquelle tão puro affecto, +contra aquella dolorosa previsão de mãi, e assomando-se lhe pergunta +porque duvida de sua honra e prudencia, e acrescenta: Parece-vos o meu +comportamento reprehensivel, porque não frequentaes a sociedade: eu faço +o que fazem todos.--Infeliz!--a mãi exclama--que te deitas a perder por +isso que fazes o que todos fazem.--Ri o insensato dos temores maternos, +e adianta-se ás cegas n'um caminho semeado de escolhos. Tudo está posto +em aventura: a honra n'este mundo, e a salvação no outro. Não sabe a mãi +o que faça para salvar o objecto de tantas lagrimas e crueis angustias. +Vê perdido o filho, e perdido para sempre. Maria, porém, consoladora dos +afllictos se lhe mostra como dôce visão... E a mãi afflicta, de joelhos, +com as mãos postas, exclama: «Ó Maria, auxilio dos christãos, salvai meu +filho, rogai por elle!»--Jorge, eu orei com estas palavras: a Mãi de +Jesus ha-de ouvir-me, e fallar-te commigo ao coração. Vem, vem para nós: +teus irmãos chamam-te com saudade, e eu com lagrimas.» + +Leonardo Pires respeitou a commoção de seu amigo, e principiava um +discurso de molde segundo o caso pedia, quando o morgado de +Matto-grosso, e outro dos cavalheiros que entrava na roda do jardim, +assomaram na porta. + +--Temos duello--disse a meia voz, Pires, entalando no olho direito o aro +circular da luneta e esguelhando a bocca.--Queiram entrar--proseguiu +elle, adiantando-se para a porta--se é que entende com o meu amigo Jorge +a honra da visita dos cavalheiros. + +Egas de Encerra-bodes entrou e disse: + +--Vem aqui commigo o snr. Theotonio Tinoco Pitta de Lucena, da casa da +Trofa, fidalgo tão antigo como o solar dos Lucenas. O snr. Jorge não me +conhece. Eu sou primo do morgado de Santa Eufemia: tenho dito de sobra +para justificar o meu nascimento. + +--Ha-de perdoar-me--disse Pires,--não precisava v. exc.ª dizer tanto +para justificar o seu nascimento...--E atalhou logo a ironia vendo que o +vulto do morgado se anuviava de mau agouro:--o senhor morgado é tido e +havido na conta de muito bom sangue da provincia... + +--E do melhor de Portugal--cortou logo Egas--Vamos ao ponto da nossa +missão. Christovão Pacheco de Valladares manda perguntar ao snr. Jorge +Coelho se algum de seus avós lhe transmittiu o fôro que torna iguaes no +campo da honra, nobre com nobre, as pelejas do pundonor aggravado. + +Jorge ficou atalhado com o espavento da pergunta, e ia pedir explicação +da linguagem que lhe fez lembrar o tedioso Clarimundo, quando Pires, +sacudindo as borlas do seu rob-de-chambre respondeu: + +--Jorge Coelho herdou de seus avós a honra, é quanto basta. Na sala do +palacio de Cintra não está lá o escudo dos Coelhos, porque o cobre a +mortalha da + + «_..............misera e mesquinha_ + _Que depois de ser morta foi rainha._» + +Jorge por sua mãi, é Sepulveda, appellido que traz á memoria o caso +miserando, aquelle naufragio de que por ventura das letras patrias +nasceu um poema!... + +--Deixemo-nos de lerias!--interrompeu Theotonio Tinoco. + +--Lérias! o snr. Pitta de Lucena chama a isto lerias!--acudiu +Pires--Então que quer o senhor? + +--Queremos que esse amigo dê uma satisfação ao outro a quem elle chamou +bebado hoje. + +--Mas, primo Tinoco--disse o do Matto-grosso--bem sabes que o primo +Christovão não propõe, nem aceitaria desafio, a quem não tiver +nascimento. + +--Ficamos agora sabendo que este cavalheiro é de familia de bom +sangue... + +--Eu não sei de que sangue é a minha familia--atalhou Jorge +serenamente.--O meu amigo Pires não o sabe melhor que eu, e vv. exc.as +hão-de ter a bondade de dizer ao snr. morgado de Santa Eufemia que a côr +do nosso sangue lá a veremos no campo, quando elle quizer. + +--Nomeie os seus padrinhos, para nos entendermos com elles--disse Egas. + +--Um serei eu, se derem licença--disse a voz de um homem, que entrou de +subito no quarto. + +--Meu tio!--exclamou Jorge, beijando-lhe a mão. + +Era, com effeito, o padre João Coelho. + +Leonardo Pires e os outros olharam com veneração para a figura sublime +do velho, que trajava rigorosamente as vestes de sacerdote. Jorge +baixara os olhos, em quanto o padre, com as palpebras humidas, e as mãos +convulsas, fitava e comprimia ao seio o sobrinho. Passados instantes, +disse compassadamente: + +--Tantos annos e trabalho para te aproveitar, Jorge, e tu em tão pouco +tempo te perdeste! Ha menos de nove mezes que sahiste dos braços de tua +mãi, e venho-te encontrar na vespera de expôr o corpo e a alma com menos +desculpa que o salteador que traz o peito á bala e o coração damnado +pela perversidade! + +E voltando-se para os tres cavalheiros, disse com uns assomos de nobre +authoridade e sorriso ironico: + +--Quem são estes folgados rebentos de illustrissimas prosapias que vem +aqui desenfastiar-se dos tedios da sua inercia, estragando a alma de uma +criança? Ouvi aqui nomear appellidos estrondosos que representam varões +de grandes serviços á religião e á patria: é lastima que os netos dos +Tinocos e dos Pachecos andem pregoando o desafio, o derramamento de +sangue, como prova de honradas consciencias e altos espiritos. Melhor +lhes fôra que as suas consciencias fossem mais christãs que honradas. +Não se illustram memorias de avós derramando doutrinas impias. Se o +seculo as aceita, senhores, então reneguem vv. exc.as das virtudes de +seus avós, que outros seculos laurearam. Se os costumes barbaros d'esta +civilisação, que por escarneo se chama assim, se conformam com os seus +animos, não andem hypocritamente chorando saudades de Sião, os que se +atascam nas immundicies de Babilonia. Jorge, eu fui aqui mandado por tua +mãi: não quererá Deus que tu desobedeças á voz que te chama. Eu só quero +exercitar sobre ti a authoridade do conselho; tua mãi chama-te: deves +hoje mesmo sahir do Porto commigo. A vv. exc.as rogo eu mui humildemente +que se não afflijam da perda de um noviço na confraria dos heroes do +tempo. Costumavam nossos avós, antes de entrarem na cavallaria, velarem +as armas no templo do Deus vivo; meu sobrinho vai armar-se cavalleiro, +que não é ainda, e depois voltará á arena. Riem-se os nobres senhores? +Velar as armas é sacramento de tanto ponto, que nem o fidalgo da Mancha +se deu por bem posto na sua missão, antes de armar-se cavalleiro no +curral d'uma bodega, e o mesmo foi dar sova brava nos arrieiros. Tens tu +já Dulcinea, meu sobrinho? Claro é que sim. Ora, pois, aguarda melhores +dias para as tuas façanhas, e diz aos teus padrinhos que te deixem ser +mais algum tempo bom filho, bom irmão, e bom christão. + +Egas de Encerra-bodes já não estava muito de bons humores com o padre. +Tinoco Pitta não o tinha entendido, e abria a bocca pela terceira vez. +Leonardo Pires não se atrevia a despregar da lingua aquellas espontaneas +e por vezes graciosas parvoiçadas que lhe vinham á flux da abundancia do +coração. Jorge Coelho tinha tão de negro cerrado o espirito que não +balbuciou palavra. Era impossivel a desobediencia; mas deixar Silvina, +sem levar comsigo a certeza de que a distancia não mataria n'ella a +paixão nascente, isso era uma dôr que o pobre moço desafogou em pranto +desfeito, passando ao quarto immediato que era o de Leonardo Pires. + +O morgado de Matto-grosso, para evadir-se á posição embaraçosa em que se +via, despediu-se com estas palavras: + +--Muito bem: eu vou dizer ao cavalheiro offendido por seu sobrinho, que +o offensor não tem imputação, attendendo á sua criancice, e mais ainda +ao facto de a mãi o mandar chamar para o seu regaço, como criança que é +desmamada de fresco. + +--Não, senhor, atalhou o padre com seraphica brandura, diga ao senhor +morgado de Santa Eufemia, creio que assim se chama o seu amigo, diga-lhe +que seja generoso no perdão das injurias; que não desdoure os seus +antepassados barateando o sangue honrado que elles lhes transmittiram; +diga-lhe sobre tudo v. exc.ª que seja christão. Lembre-lhe que o desafio +é uma ferocidade que nem se quer prova coragem, porque a verdadeira +coragem é aquella admiravel abnegação dos louvores do mundo aos impetos +da raiva, e valoroso louvavel aos olhos do Senhor é só aquelle que tem +mão de suas iras, e desarma com humildade sem baixeza os féros e +acommettidas do inimigo. + +--Teu tio é grandemente lido nos classicos!--disse Pires, no quarto +immediato, a Jorge Coelho, que enxugava as lagrimas teimosas. + + +IX. + +Pobre coração! Tão puras lagrimas não has-de choral-as mais. D'essa +grande afflicção de que tu appellas para a morte, has-de lembrar-te +sempre com saudade, meu amigo. Na tua angustia ha os prantos do anjo, +saudoso do céo. Na mulher que deixas, cuidas que te fica a santa +companheira do Eden que a tua candura via na terra, aberto ao amor sem +mancha, convidativo de santos gosos. De dez em dez annos pararás, no +caminho da vida, peregrino da sepultura; voltarás o rosto para aquelle +teu dia dos dezenove annos, e verás em flôres, fenecidas mas ainda +graciosas, os espinhos por onde a pedaços te fica, meu pobre Jorge, o +coração. Saberás então o que é a saudade; pedirás á desgraça dôres +semelhantes ás da tua mocidade para abençoal-as; atirarás com o peito ás +sarças das paixões vertiginosas para espertares os pungitivos desgostos +do amor contrariado. Não já lagrimas, se não fel derramará o coração, +que devêras ter dado a Deus, desde que o mundo t'o desbaratou a +repellões e injurias. Chora, filho da sina maldita dos poetas, chora no +seio de tua mãi; bem póde ser que ainda lá te espere o anjo da tua +guarda. + +Jorge Coelho não proferira uma palavra desobediente ao tio padre. +Apenas, quando enfardava a roupa nas malas, enxugando as lagrimas antes +de erguer o rosto disse:--Meu tio entende que me é honroso sahir do +Porto sem responder ao desafio?...--Padre João, que abria o seu enorme +lenço escarlate para se assoar, ficou algum tempo com os braços +suspensos, e o lenço pendurado, e assim esteve, como estupefacto +cravados os olhos no sobrinho, que esperava a resposta. O nariz, porém, +urgia: padre João Coelho levou o trombetear da limpeza até á hyperbole, +dobrou o lenço em quadro, depois enrolou-o, deu com elle mais alguns +torcegões ao nariz, armou-se de pitada, e disse: + +--Não é Deus que os perde; é o demónio que ensandece aquelles que quer +aproveitar. Que é honra, Jorge? O evangelho que te diz das injurias, do +odio, das affrontas, das injustiças? O filho de Deus dictou e rubricou +com o seu sangue a lei, a regra, os deveres da humanidade; não importa +ser o evangelho obra de Deus; não importa que alli venham prescriptas as +maximas da boa e honrada vida: o evangelho é já inefficaz por que a +humanidade inventou uma honra que se prova e sustenta com o duello: a +vossa honra, cegos miseraveis dignos de lagrimas, lava-se no sangue, +justifica-se pelo homicidio, ao qual a legislação decreta a forca, e a +convenção social o galardão da bravura. Jorge, quem te disse que o +assassino era honrado? + +O academico apenas respondeu: + +--Meu tio, vamos; eu estou prompto. + +Leonardo Pires já estava no largo da Batalha, chamando a attenção dos +numerosos transeuntes que paravam em magotes para verem o cavalleiro com +as esporas cravadas nos ilhaes de uma égua de fina raça que se empinava, +e corcovava, e atirava ora couces, ora galões medonhos. É que Leonardo +Pires vira D. Francisca da Cunha n'uma janella do palacio do snr. Manoel +Guedes, e de si para si entendeu que lhe ia bem dar-se n'aquelle +espectaculo hyppico, mesmo com perigo de quebrar a cabeça, como de facto +quebrou, e tão desgraciosamente o fez, que Francisca da Cunha, anciada +de riso, dizem que cahira extenuada n'uma othomana. + +Andava o infeliz Pires atraz da egua espavorida, com ajuda dos gallegos +do chafariz, quando Jorge e o tio desceram da hospedaria da Estrella do +Norte para a praça. + +Apanhada a cavalgadura, indiscreta e desasada para heroismos de amor, +Pires montou de salto, e acompanhou até Vallongo o condiscipulo, com +evidente desagrado do padre. No caminho, em quanto o egresso ficára +atraz compondo os loros do macho fleumatico, o amador infausto de +Francisca da Cunha disse a Jorge: + +--Que queres que eu diga a Silvina, se o tio a não mandar para a aldêa? + +--Diz-lhe, respondeu Jorge commovido, com os olhos marejados de +lagrimas--diz-lhe que eu não posso contar com a minha vida para lh'a +offerecer. Diz-lhe que eu não fugi de cobarde; por quem és, Pires, não +consintas que me ella ultraje, duvidando da minha coragem. Falla-lhe de +minha mãi, que eu sei que ella me amará ainda mais, vendo que eu +respeito tanto as lagrimas da que me formou o coração que eu lhe dei, e +ella achou digno de si. As minhas cartas mando-t'as a ti para lh'as +entregares... Silencio, que ahi está meu tio. + +--Snr. padre João Coelho, disse alegremente Leonardo, pique o bucephalo +cá para a frente. + +--Alexandre Magno não montava machos, senhor estudante, respondeu o +padre. Andaria mais acertado com a historia se me honrasse antes com as +tradições de Sancho Pança. O machinho sabe que leva em cima um engenho +velho, que se acerta de inclinar na carga cahe cada peça para o seu +lado. + +--Mas leva uma grande alma, replicou Pires. + +--O macho? perguntou o padre, sorrindo. + +--Sim, senhor. + +--Lá em Coimbra estuda-se essa psycologia de veterinaria? As grandes +almas passaram, pelos modos, dos Aristides e Catões para estes +quadrupedes! Se assim é, que nos fica para nós, senhor academico? + +--Eu queria dizer ao meu nobre amigo que o macho leva um cavalleiro com +grande alma. + +--Muito obrigado ao seu favor, snr. Pires. Eu tambem o entendi; mas +metti-me a engraçado a vêr se desafiava o riso, do meu pobre Jorge, que +vai ahi melancolico, como nunca foi filho algum para os braços de sua +mãi e irmãos. + +--É que Jorge Coelho, tornou o estouvado infanção da Maya, está como a +avesinha a pairar emplumada, que salta para o rebordo do ninho, e +vacilla entre ir para a mãi que a está dentro chamando com o cibo, ou +voejar para a arvore em flôr que a está enamorando de longe. + +--É uma bucolica bonita que o senhor vai poetisando--tornou o padre, +fechando o olho direito e sorvendo uma canora pitada pela venta +correspondente.--A avesinha (se dá licença, eu componho em linguagem +chan e fradesca uma estrophe do idyllio) a avesinha deixou piar a +carinhosa mãi, e desferiu as tenras azas na pontaria da arvore florida; +e, como quer que as forças lhe cançassem do desusado vôo, não teve a +avesinha remedio senão abater-se ao chão para pousar. E vai n'isto, +andava por alli á caça de ninhos um gato ou uma gata brava, seja gato ou +gata; o essencial é que apenas o triste passarinho apegou, o animal +damninho fez-lhe o salto d'entre umas balças, e o filho da pobre mãi, +que se morria de paixão no ninho, lá foi empolgado pelo gato ou pela +gata... Lafontaine não inventou este conto, e merecia a pena; não +importa: compuzem'ol-o nós, snr. Pires, _ad usum delphini_, e seja +delfim o nosso Jorge. + +A allusão desgraciosa da gata foi tão clara quanto desagradavel a Jorge. +Era uma injuria á mulher querida, á sombra lagrimosa que o ia +acompanhando, e instigando a reagir contra o dominio de parentes, e +exhortando a emancipar o coração d'uma tutela que lhe deixava da vida as +regalias que bastavam á criança, mas não ao homem. + +Azedado, pois, pelo motejo da bucolica do padre João, Jorge disse com +vehemencia: + +--Meu tio offereça a moralidade dos contos a quem lhe pedir lições. + +Padre João, depois de breve pausa, respondeu brandamente e com magoada +tristeza: + +--Não te envergonhes de pedir-me lições, filho, que as não pedes sómente +a um velho; dá-t'as um amigo, que foi homem antes de ser frade, e +estudou os homens, depois que o mandaram sahir da sua cella, como cousa +inutil á sociedade. Se me não quizeres as lições, de que sirvo eu, +Jorge? Já agora irei prégando sempre, quer me ouçam, quer me repulsem, +como manda o apostolo.. Desagradou-te a allegoria do conto, e +convidas-me assim a ser mais natural. Jorge, repara bem no que te diz +este velho que, no teu modo pouco respeitoso de fallar a uma mãi, «te +premuniu com cabedal de philosophia christã, bastante para defender das +tentações todas as nações da biblia exterminadas por causa do peccado.» +Sei de cór as tuas palavras, porque m'as entalhou na alma o espinho da +ingratidão. Deves-me bons desejos de te fazer bom e honrado: não me +sejas ingrato. Agora, escuta, filho. Vinte e quatro horas antes de te +apparecer, procurei-te, porque do Porto fui avisado dos teus desvios: +como te não encontrei, fui colher mais informações; voltei á noite á +hospedaria tres vezes, e ás duas horas não tinhas ainda recolhido. No +dia seguinte, que foi hoje, procurei-te ás nove horas da manha: tinhas +já sahido. Déste-me tempo de sobra para eu me instruir das miudezas da +tua historia de tres semanas. Sei quem é a creatura que te ourou a +cabeça. É uma feia alma n'um formoso estojo; é uma aventureira... + +--Meu tio, isso é crueldade e calumnia--interrompeu Jorge allucinado. + +--Bate, mas escuta, dizia o philosopho: é uma aventureira de maridos, +que engodou o morgado de Santa Eufemia, em quanto julgou desnecessario o +consentimento do velho fidalgo para a realisação do casamento que a +fazia rica. Desvanecidas as esperanças do morgado, cuja rudeza lhe não +desdizia com o espirito arteiro, voltou-se para um rico brazileiro de +Cabeceiras de Basto; mas o brazileiro não lhe entendeu os pespontes da +eloquencia, e disse que queria mulher com quem elle se entendesse. +Chamada por uma prima, professora em armadilhas ao casamento... + +--Francisca da Cunha?--exclamou Pires, erguendo-se nos estribos. + +--Justamente, Francisca da Cunha, menina matreira que... + +--Olhe que eu amo essa mulher, snr. padre Coelho!--interrompeu +solemnemente Leonardo. + +--Pois faz v. s.ª muito bem: o amor do proximo é preceito divino: sou de +parecer que a ame; mas não lhe dou os parabens... Vinha eu dizendo que a +tal Silvina já no Porto, de mãos dadas com a prima, não duvidou visitar +uma estalajadeira de Margaride que viera a banhos de mar, porque esta +estalajadeira tinha um filho que viera do Brazil, com alguns centos de +contos, negociados na escravatura. E como o filho da estalajadeira não +andava acostumado a comprar senão negras possantes e trabalhadoras, +recusou comprar a compleição melindrosa da fidalga de Margaride. D'ahi +veio o saber-se, pelo dizer a snr.ª D. Silvina, que o poderoso +brazileiro é filho d'uma taverneira, e que fôra para o Brazil com umas +soletas e chapéo de Braga que lhe dera de esmola o pai da fidalga. Eis +aqui o que eu pude averiguar da pessoa por quem meu sobrinho troca os +carinhos de sua mãi, a dôce amisade de seus irmãos, e as lições +amoraveis de seu velho tio. + +Jorge Coelho ficou enleado, e não replicou; Leonardo Pires, porém, que +nunca em sua vida pensára o que dizia, senão meia hora depois de o +dizer, exclamou: + +--Mas ha-de confessar, snr. padre João, que ellas são boas mulheres! + +--Boas!...--murmurou o padre, que não entendeu o sentido do +adjectivo--boas... quer-me parecer que não são muito! + +--Ora essa! pois não as acha bonitas e elegantes? + +--Eu não as conheço; mas creio que são bonitas e elegantes: e d'ahi? + +--E d'ahi! _Amor omnia vincit!_ o amor tudo vence. + +--Agradeço a traducção--disse, sorrindo, o padre, que, a fallar a +verdade, tinha uns sorrisos que muito justificavam o dito de ter sido +«homem» antes de ser frade.--O snr. Leonardo Pires não tem +mãi?--acrescentou o padre, após um curto intervallo, com summa +seriedade. + +--Tenho, sim senhor; mas não tenciono namorar minha mãi--disse +precipitadamente Leonardo. + +O padre fitou-o com tristeza e admiração, um momento, e depois disse-lhe +com bons modos: + +--Praza a Deus que o coração esteja menos derrançado que a linguagem... +snr. Leonardo Pires, eu tenho setenta annos; deprava-se um rapaz; mas +respeita-se um velho. + +D'esta vez, o imperturbavel Pires não teve que responder. + +Tinham chegado a Vallongo. Jorge estendeu a mão ao seu amigo, e +disse-lhe suffocado: + +--Adeus! não sei se te verei mais... Sinto a morte no coração! + +O padre fez um frio comprimento ao amigo de seu sobrinho, dizendo-lhe: + +--Deus o tenha de sua mão. + +Leonardo partiu; e o egresso, com os olhos embaciados de lagrimas, +murmurou: + +--Jorge! quem te abriu as portas da desgraça foi aquelle homem. + + +X. + +Não esqueceram de certo ao leitor attento estas linhas da carta que o +morgado de Santa Eufemia recebeu do pai:--_Anda-te embora, logo que esta +recebas, que eu dou ordem ao meu amigo brazileiro para te dar para a +jornada cinco pintos._ + +O brazileiro amigo do fidalgo de Freixieiro era o snr. José Francisco +Andraens, natural de Cozelhas, desde 1844 estabelecido no Porto, onde +viera tratar do baço, do pancreas, e d'outras entranhas importantes do +snr. José Francisco Andraens. Na mente do illustre enfermo estava +retirar-se para a provincia de Piauhy, onde tinha a sua feira de pretos, +logo que restaurasse o estomago e as mais partes circumjacentes da sua +alma. Porém, como quer que um seu amigo velho, e companheiro de viagem +para o Brazil, em rapazes, estivesse no Porto com o titulo de visconde +dos Lagares, e este o fizesse conhecido por meio das gazetas por uma +esmola de cincoenta mil réis ao hospital da Santissima Trindade, o snr. +José Francisco viu-se tão festejado, tão requestado, tão necessario ao +Porto, que mandou vender os pretos em ser, e liquidar os creditos. + +Tentemos um debuxo de José Francisco. Deve estar entre cincoenta a +cincoenta e cinco annos, estatura menos de mean, com tres barrigas, das +quaes a primeira, começando pela parte mais nobre do sujeito, principia +onde o vulgar da gente tem os joelhos, e, depois d'uma arremettida +adiposa, retrahe-se na linha imaginaria da cintura, e estreita-se em +fórma de cabeça. A segunda barriga pega da primeira, ondeia com tres +ordens de refegos por sobre as falsas costellas, ladêa tumida e retesada +como os flancos d'um ôdre posto de través, e vai perder-se nos sovacos, +mandando para as costas uma corcunda da sua mesma natureza. A terceira +barriga pendura-se da face interna do queixo inferior, amplia-se flacida +e lustrosa como um buxo mal cheio de vitella, e assenta sobre a segunda, +no ponto hypothetico do esterno. A parte anatomica d'este bosquejo toda +ella se libra em conjecturas. O author não assevera senão a existencia +das barrigas. + +Isto tudo tem uma base caprichosa: são cousas que a linguagem do +paradoxo denomina pés. Vacilla a critica no confrontal-os com objecto +dos tres reinos: uma tartaruga envolta em bezerro dá-nos uns longes da +realidade; mas falta-nos o simile para os declivios, gargantas e +barrocaes dos joanetes. Os pés de José Francisco são a desesperação dos +Gavarni. O marrão do alvanel poderia arrancal-os d'um golpe d'uma +pedreira por acaso; mas Apelles mais depressa pintaria uvas que +enganassem o bico sequioso da passarinhada. + +No tocante á cara o snr. Andraens é homem, apesar d'outros animaes que +lhe não disputam os fóros da humanidade, porque não teem um curso de +historia natural. O rubor do tomate desmaia ao pé das papeiras faciaes +do brazileiro. O nariz enfronha-se de envergonhado entre as trouxas de +tecidos, que lhe debruam os olhos de oppilações carnosas, sebaceas e +luzidias. A menina do olho é rutilante e azougada, posto que as +secreções visinhas lhe bezuntem a raiz das pestanas. + +O snr. Andraens é commendador da ordem de Christo, desde que o seu amigo +visconde dos Lagares foi nomeado trinchante da casa real. Afóra isto, o +brazileiro de Cozelhas, na qualidade de accionista do Banco Commercial +do Porto, é orador vitalicio d'aquella assembléa, em que não são raros +os talentos de maior porte. Tal era o amigo do velho fidalgo de +Freixieiro. + +José Francisco esperava que o filho de Vasco procurasse os cinco pintos, +segundo a ordem que recebera. Decorridos alguns dias, escreveu ao seu +amigo, a dizer-lhe que o fidalgo novo não apparecera para receber o +dinheiro. Tornou o velho a escrever ao brazileiro, encarregando-o de +procurar o filho, aconselhal-o que fosse para casa, e pagar a despeza +que elle tivesse feito na estalagem. + +Foi o snr. Andraens á _Aguia d'Ouro_, e como não encontrasse Christovão, +deixou dito ao criado do quarto quem era e a precisão que tinha de +fallar com o morgado. Já vinha descendo as escadas, e voltou acima a +chamar o criado. + +--Olhe lá, disse elle, o fidalgo deve muito cá na casa? + +--Não, senhor: o fidalgo paga todas as semanas. + +--Está bom, está bom, vossê não diga que eu perguntei isto, e pegue lá +para matar o bicho ámanhã.--Dizendo, abriu uma bolsa de retroz coalhada +de missanga, e tirou trinta réis que deu ao criado com a mão direita +fechada, para que a esquerda se não escandalisasse da prodigalidade. + +Na manhã do dia seguinte, foi o morgado de Santa Eufemia a casa do +brazileiro, e conduziram-o ao seu quarto de dormir, porque José +Francisco estava ainda recolhido com a barriga n.º 2 envolta de papas de +linhaça. + +--Estou aqui emplasmado, senhor morgado--disse José Francisco, arqueando +os braços por sobre a esphera abdominal. + +--Então o snr. José que tem? + +--Mande-se sentar, meu fidalgo. Eu estou aqui com uns calores cá de +dentro, que dão que fazer á botica; mas isto, se Deus quizer, não é +nada. Pois, meu senhor e amigo, seu pai escreveu-me, como ha-de saber, +para eu lhe dar um dinheirito, e depois tornou a escrever-me para eu ir +ter aonde a v. s.ª e dizer-lhe que o melhor é ir-se para casa, quanto +antes, porque o velho, pelos modos, está lá arrenegado por si. Então, +vai ou não vai? + +--Por estes dias, irei; mas já já não se me arranja cá a minha vida, +snr. José. + +--Então o senhor, ainda que eu seja confiado, que tem cá que fazer? Ahi, +por mais que me digam, anda derriço... Eu hei-de saber o que é quando +fallar com a fidalga de Margaride que o conhece muito bem ao senhor +morgado... + +--Então o senhor conhece a D. Silvina de Mello? + +--Conheço-a como os meus dedos...--respondeu o snr. Andraens, com um +sorriso intencional, que passou desapercebido ao morgado.--É bem boa +estampa, ó senhor morgado, não é? ora diga a verdade! + +--É muito bonita, isso é. + +--Rapariga d'uma vez! e bem-fallada!? isso então quando calha de fallar, +aquillo não despega nem á mão de Deus-padre! Falla em tudo quanto ha! +Até em Sebastopool, senhor morgado! Um d'estes dias tinha eu lá ido a +troco cá de certa pendencia, e veiu á collecção a guerra da Russia, e +ella começou alli a manobrar as batalhas, e se fôr como ella diz o snr. +D. Miguel (Deus o traga) não tarda cá. Eu não tenho partidos, e até a +fallar a verdade, sou commendador por esta gente, mas em fim, quero-me +cá com os velhos, e gente como era a antiga já se não topa. Pois é +verdade... eu... + +--E a fidalga--atalhou o morgado--nunca lhe fallou em mim, snr. José? + +--Fallou, pois então? disse-me até que o senhor queria casar com ella... +é assim ou não é? + +--Isso é verdade. Paixão de raiz como a que eu tenho por ella não a +torno a ter pela mais pintada. + +--Ah! que me diz?--acudiu o brazileiro com espanto--pois a cousa é isso? +Quer apostar que o senhor está aqui pr'a-mor d'ella? + +--Em fim, o coração não mente... Á conta d'ella é que eu aqui estou. +Passaram-se uns poucos de mezes sem eu ter carta, desde que ella veiu +para o Porto. Arranjei como pude licença do pai, e vim encontral-a cá a +namorar outro, um trampolineirito a quem eu queria dar uma escovadela, +mas antes de hontem fugiu lá para cascos de rolha. + +--Conte-me isso, conte-me isso--exclamou José Francisco com vehemente +interesse. + +--É como lhe digo, snr. José. Agora preciso demorar-me alguns dias a ver +o que ella faz. + +--Com que então diz-me o senhor morgado--disse meditabundo e detidamente +o brazileiro--que ella andava já com o miolo ás voltas por outro +sujeito!... As mulheres são o diabo!... Quer o senhor saber?! Mas isto é +pedra que cahe em poço, ouviu o senhor? + +--Eu não digo nada; póde fallar snr. José. + +--Pois então, vou desembuchar... Eu tenho emprestado algum dinheiro ao +Pedro de Mello, pai da Silvina, para elle mandar aos rapazes que andam a +estudar p'ra doutores em Coimbra. A casa do Mello é boa, mas está +empenhada até aqui.--(O snr. José Francisco poz um dedo na barriga n.º +3, que deu de si como um balão de borracha). Ha-de haver tres mezes que +eu fui levar á filha umas libras que o pai lhe mandou dar para +vestimentas. Eu andava com o olho em cima de uma quintarola bem boa +d'elle, que parte com os meus terrões da Lixa, e não se me dava de lhe +ir dando aos poucos algum dinheiro até lhe apanhar a propriedade que me +faz muita conta. E vai se não quando, meu amiguinho e senhor morgado, +veiu a fidalga á sala assignar o recibo, e p'ra'qui p'racolá, palavra +puxa palavra, eu deixei-me estar ao cavaco com ella e com a prima, e +jantei lá n'esse dia, e fiquei p'ra a noite. A fallar-lhe a verdade nua +e crua, como o outro que diz, eu não sei o que sentia cá no interior! +Que diabo é isto que eu sinto? disse eu cá c'os meus botões. Eu andei +por lá por esses mundos de Christo, vi muita mulata e branca de encher o +olho, tive as minhas rapaziadas, porque em fim, a gente é de carne e +osso; mas nunca me buliu cá por dentro mulher nenhuma como esta! Se o +senhor morgado ouvisse o palavriado d'ella! Deixe vêr se me lembro... +Não encarreiro... Ora deixe estar o senhor.. Eu tenho alli uma carta +d'ella... + +--Uma carta d'ella!--interrompeu o morgado a fumegar. + +--Pois então? uma carta d'ella, umas poucas; mas ha lá uma em que ella +escreve o mesmo que tinha dito de bocca. Faz o senhor favor de me ir +áquella gavetinha do meio da commoda, e dar-me de lá um caixotinho de +vidro, que tem uns bordados de papel dourado na cobertoira?... + +Christovão Pacheco abriu com a mão convulsa a gaveta, e levou á cama do +snr. Andraens a caixinha indicada. O brazileiro tirou um feixe de +cartas, cintadas com uma fita de nastro, abriu algumas, regougando +palavras soltas de cada uma d'ellas, e por fim acertou com a carta que +procurava, e exclamou:--Cá está ella! tal e qual. Ora faz favor de lêr, +que eu não estou hoje muito escorreito dos olhos. + +O morgado de Santa Eufemia, entalado, enfiado, tremulo e escarlate até á +raiz dos cabellos, leu o seguinte: + +«Meu bom e muito querido amigo. Tanto eu como minha prima Francisca, +ella por amisade reconhecida, e eu do coração affectuoso lhe agradecemos +o valioso mimo com que se dignou brindar-nos a sua generosidade...» + +--Isso foi, interrompeu o brazileiro, a respeito de umas pulseiras de +ouro que eu mandei ás duas, que me custaram dezesete libras e mais uns +pósinhos, não fallando na caixota em que foram os estojos que me tinha +custado em Paris quarenta e oito francos. Empreguei bem o meu dinheiro, +não tem duvida! Ora faz favor de continuar com essa trapalhice: + +O morgado proseguiu na leitura acerba, limpando as camarinhas de suor +que lhe transpiravam da testa: + +«Apreciamos a dadiva já pelo que ella vale, já pelos sentimentos +delicados que ella representa...» + +--Isso é bem dito, não é, ó senhor morgado?--interrompeu o snr. José +Francisco.--Lá que ella tem uma cabecinha como não ha outra, isso pau +pau, pedra pedra, a verdade ha-de dizer-se. O que lhe falta é miôlo... +Ora ande lá... vá lendo: + +«Nunca eu aceitaria--continuava a carta de Silvina--uma prenda de homem, +que não tivesse uma explicação honrosa. Esta, que eu tenho no meu pulso, +não me faz estremecer a mão de pejo. Os meus sentimentos a respeito de +v. s.ª tenho-lh'os dito tantas vezes, que repetil-os seria abusar da sua +attenção, e descer um pouco da minha senhoril, dignidade. V. s.ª sabe +como eu aprecio as paixões proprias dos meus annos...» + +José Francisco Andraens deu dous galões no leito, e clamou: + +--É ahi, é ahi onde está a cousa! + +Christovão continuou, já deletreando, porque a raiva lhe nublava os +olhos: + +«Não creio na duração do amor impetuoso. A violencia da vibração fatiga +as cordas da alma...» + +--Olhe lá--atalhou o brazileiro--isso que vem a dizer? esse bocado não o +percebi bem... _A violencia da vibração fatiga as cordas_... que +diabo!... + +--Quer dizer, respondeu o morgado com anciado esforço, quer dizer que... +sim... eu acho que isto vem a dizer... que as paixões fortes adoentam a +gente... + +--Ah! sim, senhor, ha-de ser isso... eu cá sinto os estragos no +interior... Ora faz favor de vêr o resto. + +O morgado leu: + +«A minha ambição é encontrar um amigo verdadeiro, um coração sereno, um +homem para quem o mundo não tenha abysmos, dos que tem no fundo a +desgraça da esposa trahida, e esquecida. Receba no coração estas +palavras da sua dedicada e constante amiga, _Silvina_.» + +--Que me diz o senhor a isso?--interpellou José Francisco, dando uma +palmada no hombro do entorpecido morgado. + +--O que eu lhe digo, snr. José!...--tornou o morgado, atirando a carta +para sobre o leito.--O que eu lhe digo é que esta mulher... + +--É uma mulher de pouco mais ou menos--concluiu o brazileiro, atando as +cartas com o nastro--Ora ahi tem... Agora, á vista d'isto, deixe-se +andar por cá atraz d'ella... + +--E o senhor continua o namoro?--perguntou o morgado com os olhos +vidrados de lagrimas. + +--Qual namoro, nem qual diabo! O que eu queria era melhorar da barriga! + + +XI. + +José Francisco Andraens, mentiste á tua consciencia! Supposto que as +tuas barrigas te mereçam quantos desvelos cabem na alçada do oleo +d'amendoa dôce e da linhaça, o coração em ti é um musculo cheio de bom e +sadio sangue, sangue cruorico que por vezes te borbulha nas arterias, e +reçuma á cara em brazumes de ternura lubrica. Mentiste, José Francisco, +quando respondeste áquelle pobre morgado, que o que tu querias era +melhorar da barriga. Musculo enorme! tu amavas abrasado no lume da +faisca electrica em que se estremece cada uma de tuas fibras, rijas de +vida, saturadas do boi copioso que assimilas, e das tortas de frango com +que pejas diariamente as algibeiras do sobretudo, e das planganas de +farinha de pau e araruta que emborcas todas as manhãs. Commendador da +ordem de Christo! se o incognito da Providencia, chamado _acaso_, te +houvesse dado a faculdade de desafogar em vociferações contra a +fementida Silvina, dirias, no auge da tua angustia, blasphemias contra +as mulheres, injurias insultadoras contra a fidalga de Margaride, e +juramentos, por tua honra, de despresal-a e diffamal-a onde quer que +fosse a tua lingua peçonhenta e a dos teus amigos famintos de detracção +e escandalo. Os que assim procedem, fariam de ti riso, se te ouvissem o +dialogo com o teu amigo de Freixieiro; tu, porém, José Francisco +Andraens, que não sabes os quatro epithetos triviaes com que se vingam +amantes abandonados, ergueste os alçapões da tua alma, e deixaste romper +a torrente represada, com estas palavras: «Qual namoro, nem qual diabo! +o que eu queria era melhorar da barriga!» + +Ai! se elle a amava! + +Não houve ahi cancro de amor que afistulasse, tão no intimo, coração de +homem. Aquella propria dôr de estomago, rebelde á linhaça, nos está +dizendo finezas do amor de José Francisco, procedida, como é, do uso do +chá a que o forçavam successivas noites que passou em casa do tio de +Silvina. No principio, o hospede cauteloso recusou a chavena; mas a +fidalga teve a impiedade de dizer-lhe que não era extremamente do bom +tom rejeitar o chá, a pretexto de ser bebida nociva ao estomago. O +brazileiro, no dia seguinte, em vez d'uma, tomou tres chavenas, e em sua +casa, _para affazer a tripa_ como elle dizia, mandava cozinhar grandes +chocolateiras de chá, que a moça inexperta chamava o cozimento, e +carregava de folha até sahir negro na fervura. José Francisco conhecia o +veneno, punha a mão no buxo, e, se não dizia como o papa Ganganelli: +«hei-de morrer d'isto...» gritava pela cataplasma de linhaça, mitigava a +inflammação, e de puro amor continuava a immolar o estomago, como fino +amante que não tem mais que dar. + +Ha ahi amadores, José Francisco, que cubiçam a pedraria oriental para +construirem um nicho para a mulher amada; pedem a Deus estrellas para +lhe marchetarem a alcatifa das botinhas; queriam a lua e as duas ursas +para o pavilhão do leito nupcial; os coriscos para lhe brincarem aos +pés; os jardins de Semiramis, recendentes de nardo e cardamomo, para lhe +deliciarem o olfacto; o sceptro do globo para a mão soberana, e o +diadema do universo para a fronte inspirada. Farelorio. Homem de +Cozelhas! o teu estomago estragado pelo chá, sobreleva em dolorosa +realidade a tudo quanto inventaram poetas, invejosos dos bens de Deus, +em quanto tu deixas em paz a lua e as estrellas, e compras dezesete +libras de pulseiras, ás quaes a propria Diana caçadora te estenderia os +seus divinos braços. + +Ai! se elle a amava! + +Por uma tarde de Agosto, na alamêda da Lapa, se andava José Francisco +passeando com o seu amigo visconde dos Lagares. A espaços, o amador de +Silvina desprendia uns como gemidos desentranhados com estridor de +arroto, e o açafroado das belfas, ora se enrubecia mais intenso, ora +desmaiava n'um pardacento, que deu nos olhos solicitos do visconde: + +--Que tem vossê, sôr Andraens?!--perguntou o trinchante da casa real, +afervorando o zelo da pergunta com um suave empurrão. + +--Que hei-de eu ter, amigo visconde? Vossê bem sabe que eu ando mettido +n'uma camisa de onze varas. A minha sina, que me lêram quando eu era +rapaz, dá-me que eu hei-de passar por um grande desgosto. Até ao +presente, em boa hora o digamos, a cousa não me tem ido mal; d'aqui por +diante como o outro que diz, um bomem deve estar tem-te não caias. + +--Mas então vossê que medo tem?--tornou o visconde, variando a mimica +com uma palmada na espadua boleada de José Francisco. + +--Homem, vossê casou quando era moço, e deu-se bem com a mulher, e tem +vivido sem sustos; mas eu já cá estão os cincoenta, não sou dos rapazes +da moda, e tenho ás vezes umas lembranças que me derrancam o coração. + +--Ora, deixe-se d'isso, sôr Andraens! Pelos modos a senhora, com quem +vossê vai casar, é menina bem comportadinha, e vossê, quando casar, +deixe-se de ir muitas vezes ás assembleas, e pouco de visitas, e de +theatros; metta-se em sua casa a mais a mulher; trate da sua labutação, +e não a deixe pôr pé em ramo verde, sem ir com ella. + +--Pois não pozeste!--acudiu José Francisco soltando uma risada aspera de +sacões, que valia bem um programma.--Vossê ainda está n'essa? + +A minha mulher, quando eu a tiver, é cá para o amanho da minha casa. +Comer e beber, e vestidos, e enfeites d'ouro, não lhe ha-de cançar; mas +ir a bailes e a comedias... isso, snr. visconde... olhe cá se me vê +algum _T_ na testa! É verdade que a minha futura noiva é toda pronostica +e está avezada ao palavriado dos pantomineiros que não tem senão aquillo +e a sua miça; mas eu logo que case hei-de pôl-a na lei em que ha-de +viver. + +A mulher é do seu homem, e casou para tratar-lhe das doenças, e do +arranjo da familia. Quem quer andar á tuna nas comedias e nos balancés +deixa-se estar solteira; não é assim, amigo visconde? + +--Assim é; mas não será bom apertal-a muito, amigo Andraens... Isto de +mulheres, olhe que nem o diabo as quiz guardar, e quando ellas entram a +desatremar, adeus, minha vida! + +--A desatremar!--clamou José Francisco com iracundia.--Então um homem +não é senhor de fechar as suas portas, e viver como quizer com a mulher +com quem reparte do que tem? do seu dinheiro? do que lhe não custou a +ella a ganhar? do seu dinheiro? + +--Vossê diz bem, sôr José; mas é que ella a isso póde dizer que estava +melhor solteira. + +--Homem, vossê nem parece visconde n'isso que diz!--atalhou com ironia +pungente José Francisco.--Eu vou já embuchal-o com uma pergunta:--Quanto +vale a tal madama? + +--Pelos modos, disse o visconde, acho que pouco tem. + +--Por tudo que ella tem não dou eu seiscentos mil réis. A casa é do +morgado, e os bens livres, repartidos por seis irmãos, nem p'ra pagarem +a minha divida chegam. E quanto acha vossê que eu tenho, ó amigo +visconde? + +--Vossê, cá segundo os meus calculos, ha-de ter o melhor de cem +contos... p'ra cima que não p'ra baixo. + +--Aqui que ninguem nos ouve, snr. visconde, disse José Francisco muito á +puridade, se não fosse aquella tapona que eu levei na costa d'Africa, +podia ter os meus quatrocentos contos; agora, mais cem, menos cem mil +réis a minha fortuna ha-de andar ahi por duzentos contos, e se as cousas +correrem regularmente, cá nos engajados, escuso de bulir no que tenho +apurado. Ora ahi tem vossê. Faz favor de me dizer se a rapariga, que não +tem nada, casar commigo, não fica a ser rica e respeitada no mundo! +Responda a isto, amigo, se é capaz! + +--Sôr José Francisco, tornou o visconde com sisuda gravidade, olhe que +eu tenho andado muito mundo, e visto muita cousa. A rapariga, se casa +comsigo, é por que quer figurar. Vossê já não é muito moço, e não sei +como ha-de estar em casa mettido a entreter a mulher. Sabe que mais? se +está na teima de a não deixar ter alguma folga, o melhor é deixar-se +estar solteiro até lhe apparecer moça mais azada p'ro seu modo de vida. +Deixe cá o arranjo ao meu cuidado, que eu conheço muito negociante aqui +no Porto que tem raparigaças como castellos, e vossê não tem senão +escolher. + +--Cale-se lá, homem!--interrompeu com azedume e paixão o de Cozelhas--Eu +gosto de Silvina d'uma vez! E, se quer que lhe diga a verdade, já fiz +alguma despeza com ella. Vossê inda a não enxergou? + +--Ainda não á minha vontade; mas na semana que vem vou dar um baile só +para a vêr a preceito; já a lobriguei de longe, e alvidou-se-me que ella +era bem tirada das canellas, e que tinha a cinta muito delgada. + +--Isso então!--exclamou o snr. Andraens, com os olhos rutilantes de +jubilo, e um sorriso de satyro, que lhe fazia recuar os refegos das +bochechas até ás orelhas, como dobras de cortinas apanhadas.--Bem feita +até alli! O pescoço é branco como a cal da parede; os braços parecem de +leite, e aquillo hão-de ser macios que nem veludo; os olhos, continuou +José Francisco, com precipitada torrente de imagens orientaes, parece +que entram no interior da gente, e andam sempre a bulir nos buracos como +dous grillos; os dentes são da côr d'essa camisa, e tão iguaesinhos que +parece mesmo cousa de fazer crescer a agua na bocca; quando ella anda +pela casa, aquillo é um gosto vêl-a! parece que está a casa cheia! E +ouvil-a fallar?! Vossê não faz uma pequena idéa! Até falla de +Sebastopool! (Vê-se que esta feição do talento de D. Silvina foi a que +mais deu no gôto do snr. José Francisco Andraens.) Em fim, amigo +visconde, mulher como ella não espero topal-a. Tenho-lhe sympathia cá de +dentro; sonho com ella todas as noites; dia em que a não veja, ando como +a cobra que perdeu a peçonha; se adrega d'ella ir visitar alguem, e eu +não a vejo, vou zangado p'ra casa, e já me tem acontecido não ceiar! As +cartas d'ella tenho-as na cabeça, e já comprei um livro muito grande, +chamado... chamado elle... assim uma cousa a modo... de... vossê hade +saber? Aquillo que ensina a escrever direitas as palavras!... + +--Uma pauta, ha-de ser pauta... + +--Qual pauta, nem qual diabo! é um livro, que ensina a escrever com as +letras todas... Já me lembra: um breviario. + +--Ha-de ser isso, ha-de ser isso...--disse o visconde, que apreciou o +ensejo de saber que o breviario ensinava a escrever com as letras +todas--mas, a fallar verdade--continuou ingenuamente o brazileiro--não +me ageito com o tal livreco, e vou-lhe escrevendo como sei. Aqui trago +eu na carteira uma carta, respondendo á d'ella de hontem, a vêr se lh'a +entrego esta noite. Quer vossê vêr, amigo visconde? Eu p'ra si não tenho +aquellas. Ora escute lá; mas o mais acertado é lêrmos primeiro a que +ella me escreveu. Vossê vai ficar pasmado; ora ouça. + +José Francisco sentou-se n'um dos bancos de pedra da alamêda da Lapa, e +leu correntemente o seguinte: + + «Meu caro amigo. + +«Soube que hontem me procurou. Quiz o meu infortunio que eu não +estivesse em casa. O tio anda a pagar visitas, e ordenou que eu o +acompanhasse. Passei uma noite insipida, lembrando-me que podia passal-a +no remanso duma dôce paz e contentamento d'alma ao lado do homem cujas +tão amantes como paternaes palavras me embalam o somno para os sonhos +d'um delicioso futuro...» + +Aqui José Francisco sacudiu na mão o papel, e exclamou radioso: + +--Olhe isto, amigo visconde! _os sonhos d'um delicioso futuro_!... Pelos +modos, quer dizer que o que ella quer é uma vida socegada para, em vez +d'andar em visitas, dormir na sua cama á sua vontade. Não é isto? + +--Pois elle que ha-de ser senão isso?--disse o visconde gostoso da +modestia consultiva do seu amigo, e ia continuar reflexões a proposito, +quando José Francisco, menos jubiloso, continuou, lendo: + +«Estará ainda longe o dia suspirado, meu amigo? Não tem já do meu +caracter um profundo conhecimento? Não se demore a confirmar o destino +que minha alma anceia, porque desgraçadamente a minha vontade não é de +todo livre, e bem póde ser que meu pai, antes da resolução de v. s.ª, +tome outra, contraria aos nossos intentos. Sua do coração, _S._» + +--Á troca d'estas linhas do fim--disse o brazileiro um pouco recolhido e +melancolico--é que eu hoje tenho andado azoado, e a suspirar cá de +dentro. Ora escute lá a resposta: + +«Meus amores!!! (Na pontuação guardamos a fidelidade que descuramos na +orthographia, cuja liberdade concedemos a José Francisco e pedimos +alternativamente para nós). As vossas letras recebidas ao fazer d'esta +até ao meio consolaram o meu coração saudoso!!... mas as que vem no cabo +da vossa carta penetraram qual duro ferro no meu coração saudoso!! Se +vosso pai não levar a bem o nosso casamento, ó céos!!! tanto faz querer +como não querer o arranjo ha se de fazer, ainda que eu vá ás do cabo; +estai descançada, joven Silvina amada!! Logo que eu tenha a nossa casa +da Lixa arranjada (que andam lá os estucadores e os pintores) estamos +casados e arruma-se d'aqui o pensamento!!! D'este vosso idolatrado até á +morte, J. F. Andraens, vosso futuro esposo.» + +--Que tal?--murmurou com certo ar de pudica modestia o erotico +compositor de cartas incendiarias. + +--Onde diabo aprendeu vossê tanto, ó sôr José?--disse o visconde com +sincero espanto. + +--Isto que aqui vê fil-o de fio a pavio, sem ir ao breviario, amigo +visconde. Ponto é ter cá dentro o amor a puxar pelas memorias. + +José Francisco ergueu-se triumphante com miraculosa agilidade; deu +alguns passeios floreando a bengala, e rindo a revezes do espasmo do +visconde, que, em sua consciencia, suspeitava de que fosse a carta +apocripha; mas, por delicadeza, calou as duvidas. + +José Francisco tinha desafogado. O arroto já não vinha acompanhado do +suspiro. As tres barrigas funccionavam em toda a sua plenitude +phisiologica. O jubilo doudo da sua esperança sorria aos arreboes que +cintavam o horisonte do oceano; a viração da tarde, brincando na +folhagem dos alamos e acacias, rumorejava um soido mellico aos ouvidos +d'alma d'aquelle amante feliz. + +Ai! se elle a amava! + +Este expansivo dialogo fôra anterior quarenta e oito horas áquell'outro +que ouvimos entre o brazileiro, e Christovão Pacheco de Valladares. + +Quem te ha-de crêr agora, José Francisco Andraens! Que se te dá a ti da +barriga, se tu amas tanto a mulher predestinada?! Descança, anjo do +amor, no teu céo de duzentos contos, que as filhas dos homens lá irão +buscar-te! + + +XII. + +Ai! como elle a amava! + +Quantos Paulos, e Romeos, e Othellos mettidos n'aquella côdea grossa de +José Francisco Andraens! Que requebros de namorado, e que furias de +cioso! Aquella é verdadeira paixão que ora se refrigera com orvalhos do +céo, ora se calcina nas labaredas do inferno. A paixão de José Francisco +era assim. Ha pouco vimos aquella alma a derramar-se em blandicias de +Petrarcha; agora arripia o vêl-a a espirrar coriscos da cratera que lá +referve dentro. + +Mal Christovão Pacheco sahira, galgando atordoado as escadas quatro a +quatro, José Francisco arrancou de si a cataplasma d'um impeto que faria +lembrar Catão arrancando o proprio redenho. Saltou para o chão, calçou +as mouras escarlates que lhe serviam á farta de tapete, lançou sobre as +espaduas um capote de camelão de quatro cabeções, enfiou as mangas do +mesmo, e sentou-se á escrivaninha, resfolegando vaporadas pelas ventas, +que nem javali monteado por lebreus. A criada entrava n'esta occasião +com a terceira camada de linhaça, e fez pé atraz, enfiada de puro +horror. + +--Que queres tu, moça?,--mugiu José Francisco. + +--São as papas...--balbuciou a espavorida criada. + +--Não quero mais papas. Vai chamar o meu compadre Amaro, e que venha já +de marcha para ir com uma carta a Margaride. + +O brazileiro escreveu na pojadura da veia. O traslado da carta, com a +authenticidade do de todas as outras, não pude havel-o, apesar de suadas +canceiras que este paiz tão sovinamente remunera aos indefessos obreiros +das suas glorias. O que pude tirar a limpo foi ser a carta dirigida a +Pedro de Mello, pai de D. Silvina. José Francisco lembrava ao fidalgo a +sua divida de um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta réis que +lhe emprestára sobre hypotheca da quinta da Lixa. Dizia mais que não +podia continuar a remetter as mezadas para os academicos da +universidade. Instava pelo prompto pagamento do seu credito, ou +trespasse da quinta hypothecada. Ameaçava-o com o poder judiciario, e +terminava com estas quatro linhas, unicas authenticas: + +_Pr'ámor da sua filha é que é tudo isto. Se ella andasse direita comigo +outro gallo lh'avia de cantar. Assim o quiz, assim o tenha. Comigo não +se manga, e está arrumada a pendencia._ + +Ai! se elle a amava! + +A carta partiu, e José Francisco, aplacado o maior afôgo da convulsão, +chamou a moça, pediu uma tigela de tapioca, e comeu á tripa fôrra. + +Cotejemos agora com os do negreiro os ciumes do morgado de Santa +Eufemia. Egas de Encerra-bodes esperava o primo no hotel, curioso de +saber o fim a que o chamára o brazileiro. Christovão contou lealmente o +acontecido, já barafustando furioso, já enternecendo-se a lagrimas. O de +Matto-grosso descompunha-se em gargalhadas, e nem os prantos do primo +lhe embargavam as guinadas de riso. Começava a desconfiar o de Santa +Eufemia, quando Egas, composto o gesto e a postura, fallou assim: + +«Um Pacheco Valladares a correr parelhas com um José Francisco na +conquista d'uma mulher! Um neto do governador de Cochim a disputar meças +de merecimento com um chatim de negros! um moço no mais florido dos +annos, gentil de sua pessoa, sacrificado á mazorral caricatura, que ahi +está symbolisando uma fortuna tão besta quanto assignalada das vergoadas +do látego com que o infame de Deus e dos homens fazia espirrar sangue +das costas dos escravos!... Primo Christovão, torne sobre si, peje-se +d'essas lagrimas que ahi derramou, e que eu escarneci para não tomar +ignominioso quinhão da sua dôr aviltante para evos e para vindouros! Que +mulher é essa, a neta do sargento-mór d'Amarante, que anda ahi a +chafurdar nos chiqueiros da sua cubiça um appellido que usurpou? +_Mello!_ Quem lhe deu a ella _Mello_?! Seu visavô era Antonio Gonçalves; +seu avô era Francisco Antunes Gonçalves; quem enxertou no pai esse +pomposo appellido? Silvina Antunes é como ella se chama, essa farrapona +que mendiga para uma carruagem e seis vestidos o preço dos ultimos doze +pretos que José Andraens mandou acorrentados ao mercado. Primo +Valladares, neto de Heitor Valladares, bisneto de D. Mafalda Pacheco e +Alvim, açafata illustre da côrte do snr. D. Pedro 2.º, descendente dos +Alvins de Braga, onde casou o condestavel D. Nuno Alvares Pereira! +primo, lembre-se de quem é, e esmague debaixo das solas das suas botas o +coração, se sente que uma gotta de seu nobre sangue se ha degenerado no +vilipendioso affecto que prodigalisou á esposa promettida de José +Francisco!» + +Este aranzel fez bem ao coração do morgado. Entrou em si, coçou-se com +ambas as mãos algumas vezes, estirou os braços convulsivos com os punhos +cerrados, e exclamou de golpe: + +--Que a leve o diabo! + +Egas estreitou o primo ao coração com vehemencia, levantou-o tres vezes +em peso, e bradou por fim: + +--Reconheço o meu sangue! + +Sem embargo d'isto, o morgado de Santa Eufemia precisava de ar, abriu a +janella, sorveu tres grandes haustos, e repetiu a phrase que provára ao +de Matto-grosso a identidade da sua estirpe: + +--Que a leve o diabo! + +N'este comenos, vinha atravessando o largo da Batalha Leonardo Pires. + +--Lá vem aquelle!--exclamou Egas--Vou chamal-o para lhe dar a noticia +que ha-de ser muito agradavel ao seu amigo Jorge. Olé! snr. Albuquerque! +_Psio_. + +Pires fez uma continencia militar com o chicote. + +--Suba cá--tornou o fidalgo de Entre-ambos-os-rios--temos que +contar-lhe. + +--Viram aqui passar a Francisca da Cunha?--perguntou Pires. + +--Não. + +--Ando-lhe na pista, como galgo que perdeu a lebre, que eu desconfio bem +que seja gata, que a minha paixão me dá por lebre. + +--É muito possivel...--redarguiu a rir o de Matto-grosso--Suba, e verá +que não está longe da verdade. + +O da Maya circumvagou com a luneta em torno da praça duas vezes, e +subiu. + +--Então que temos?! Dou-lhe parte que o meu amigo Jorge Coelho não tarda +ahi, e que o duello, se os cavalheiros insistirem, ha-de consummar-se. + +--Quem falla aqui em duello?--acudiu Egas--Escreva ao seu amigo, e +diga-lhe que se deixe estar com a mãi e com o padre lá na sua aldêa, se +não quizer vêr Silvina, o anjo de candura, de braço dado com as fronhas +carnosas de José Francisco Andraens... + +--Quem é José Francisco Andraens?--interrompeu Leonardo. + +Egas de Encerra-bodes compelliu o primo a contar a historia, que, d'esta +feita, não sahiu com intermittentes de lagrimas. Era de vêr com que +graça soez o amante ultrajado ia já apimentando os sarcasmos detraidores +de Silvina, e os projectos de cynica desforra que elle offerecia ao +parecer dos seus amigos, projectos que, realisados, collocariam José +Francisco n'uma situação tão irrisoria como bemquista do siso commum, o +qual é uma cousa muito ao envez do que por ahi nos grandes alcouces da +opinião publica se denomina senso-commum. + +O programma do morgado de Santa Eufemia foi applaudido com razões pouco +para se estamparem. Leonardo Pires disse que não avisava o seu amigo +para não perder occasião de o ter no Porto alguns dias, e cural-o mais +facilmente com a vista do espectaculo hediondo. N'isto, como estivessem +os tres á janella, viram assomar no topo da rua de Santo Antonio +Silvina, e Francisca da Cunha, seguidas de um criado de farda. + +--Ellas ahi vem!--disse Pires, e sahiu a encontrar-se com ellas. O +morgado de Santa Eufemia, a rasoavel distancia, quando as damas vinham +com os olhos postos n'elle, fez recuar o primo, e fechou-lhes a janella +na cara. Silvina ria tanto como a prima, quando Pires, com o chicotinho +em arco, e quasi aos pulinhos como funambulo que vai fazer a sorte, se +lhe atravessou no caminho, dizendo: + +--Criado de vv. exc.as + +--O snr. Pires!--disse Francisca toda graça e affabilidade +ironica--Faziamol-o no seu _chateau_... Que é feito de si? + +--Agoniso, minha senhora, agoniso. + +--Ai! que funebre vem!--disse Silvina--póde-se agonisar com esse rosto +tão de vida, e rubicundo? + +--Póde-se padecer muito, minha senhora, com o rosto rubicundo--replicou +Pires--Eu sei de creaturas, metaphoricamente chamadas humanas que +soffrem muito, sem impedimento das massas de toucinho que as envolvem. +Darei a v. exc.ª um exemplo. Conheço uma metaphora chamada José +Francisco Andraens... (Silvina córou e franziu a testa) monstro cevado +em sangue humano, que elle distilla em banha e asneiras, o qual +monstro,--ninguem o ha-de crêr, minha senhora--neutralisa o combustivel +da paixão com o refrigerante das cataplasmas de linhaça. Ahi tem v. +exc.ª um exemplo que justifica de sobra a minha agonia. + +--Vamos, prima, que são horas--disse Francisca da Cunha, condoida do +enleio desacostumado de Silvina. + +--Pois sim, vamos--disse esta, corrida de modo, que incutiria compaixão +em homem que não fosse Pires. + +--Dão-me as suas ordens, minhas senhoras?--disse elle, +ladeando--Ah!--continuou Pires de sobresalto--esquecia-me dizer á snr.ª +D. Silvina que o nosso Jorge vem ahi... + +--Ah! vem?--disse machinalmente Silvina. + +--Vem, sim, minha senhora, a requerimento meu, por que lhe conheço +grande curiosidade de naturalista, e desejo mostrar-lhe José Francisco +Andraens, a hyperbole de enxundia, monstro, de quem eu tive a honra de +fallar a vv. exc.as, e que até ouso recommendar-lhes, para que vv. +exc.as admirem não só o bruto, mas o effeito prodigioso da linhaça. + +O enleio de Silvina redundou em colera. + +--O senhor, disse ella, está-me insultando por que eu e minha prima, +confiadas na cortezania da sociedade em que vivemos, sahimos sem um +homem, cujo desforço nos desafronte com honra. + +--Dizes bem, prima--acudiu Francisca, tambem colerica por +contagio--Deixemos o villão. + +Pires, quando lhe voltaram as costas, deu dous passos em seguimento +d'ellas, e tomou-lhes o passo. + +--Continua a petulancia?--disse Silvina irada--olhe que eu trago um +criado! + +--Com libré emprestada, minhas senhoras?--disse o imprudente fidalgo da +Maya, que trazia os ouvidos cheios das diffamações geanologicas d'Egas +de Encerra-bodes.--Snr.ª D. Silvina, eu fui quem lhe apresentou a nobre +alma de Jorge Coelho, que v. exc.ª quiz estragar. Empeçonhou-lh'a, mas +não ha-de enlameal-a. Quem vinga Jorge sou eu, Leonardo Pires de +Albuquerque. Saiba v. exc.ª que José Francisco Andraens é meu. Aquelle +problema de carne hei-de desatal-o eu com o escarneo, e v. exc.ª ha-de +ficar submersa nas avalanchas d'aquella montanha de cebo. Agora nós, +snr.ª D. Francisca da Cunha. V. exc.ª, que só sabe lêr as cartas do +linheiro das Hortas, e que tem tido o indiscreto recreio de me andar +ridicularisando _no boudoir_ das suas dignas amigas, ou se encastella +com o linheiro das Hortas lá no seu burgo de Traz-os-Montes, ou tem de +esconder-se nas rimas de estopa em que seu futuro esposo lê de pernas ao +ar as suas epistolas. Sem mais. + +Pires, vibrando no ar estalinhos com o chicote, entalou a luneta no olho +esquerdo, e foi expandir o jubilo em folgada palestra com os morgados, +que o espreitavam. + +Silvina, quando entrou n'uma casa nobre de Traz da Sé, soffreu um +insulto nervoso que desabafou em gritos. Queria Francisca da Cunha +consolal-a; mas estava esperando de instante a instante ser assaltada +tambem do mesmo insulto. As senhoras da casa á competencia desfaziam-se +em desvelos; mas Silvina respondia apenas: «hei-de vingar-me!» + +Desiderio Erasmo, como sabem, escreveu a «Apologia da tontice.» Eu não +me afouto a encarecer a de Leonardo Pires; porém, assim como os +regedores das republicas nobilitam com mercês e titulos não só a +estupidez--isso é o menos--mas a infamia soberba d'uma opulencia cevada +e medrada em cruezas e deshumanidades, que muito se aventurarmos um voto +de louvor a alguns selvagens da civilisação, doudos providenciaes que +atiram a vaza do insulto a caras já de si tão sujas, que não ha medo de +enferretal-as? + +Alguns homens, como Pires, seriam muito proveitosos n'uma sociedade como +esta. Houve-os sempre com differentes nomes e appellidos. Na +antiguidade, chamaram-se Aristophanes, Diogenes, Marcial e Plauto; na +meia idade eram os prophetas, os padres da igreja, e, com menos caução +de suas prerogativas censorias, os histriões palacianos. Na correnteza +d'esta geração por excellencia policiada, mas de todas a mais gafa do +que ahi se chama «ridiculo» e do que mais é para chamar-se lastima, ha +muito quem tire a campo de zombaria os «ridiculos» do mundo; mas ninguem +se vê copiado n'elles, e os copistas de modo o fazem que fique salvo o +orgulho de cada azêmola que fita a orelha ao ornejar da copia, mas não +responde. A isto é o que ahi dizem «guardar as conveniencias»: á mesma +cousa, chamavam d'antes «guardar as costas.» + +Seja o que fôr, a satyra assim não vinga fructo de servir á geração que +está nem á porvindoura. + +Satyra prestadia, se alguma houve, é a de Leonardo Pires. Eis ahi um +doudo, que tolos e sisudos lançarão de suas casas com horror; e todavia +qual de nós não sente um Pires, na consciencia, a travar-se de razões e +murros com a nossa soberba? Seis Leonardos activos no Porto purificavam +o ar pestilencial que para alli veiu das terras de Santa Cruz. Na idade +media, os tabardilhos, as pestes fulminantes; no seculo 16.º o verme +roedor que desmedula os ossos através de vinte gerações que hão-de +lembrar-se sempre de Colombo pelo mimo; no seculo dezenove, mais que +nunca, a peste do Brazil, de que adoecem espiritos empinados em seu +orgulho como o de Silvina e Francisca da Cunha. + +D'um lado Leonardo Pires; de outro lado José Francisco Andraens, e o +linheiro das Hortas. Quem levará a melhor? É tola a pergunta. Ha-de ser +o linheiro das Hortas, e José Francisco. + + +XIII. + +O apostolico e dicasissimo padre João Coelho, desde Vallongo até +Amarante, excedeu-se a si proprio prégando ao sobrinho o melhor e a +maior parte do que disseram philosophos, santos padres, moralistas e +casuistas ácerca do amor mundanal e da mulher. Jorge não replicava, por +que o não escutava. O egresso, tomando o silencio como victoria, tirava +dos corollarios theses novas, que ia defendendo com tamanha profusão de +tiradas latinas que, a ser verdade o que elle disse abordoado a Seneca, +Santo Agostinho, Euzebio cezariense, e Bredembachio, o amor mundanal e a +mulher são cousas muito peores do que pensa o vulgar da gente. Padre +João não era erudito que sómente fizesse praça dos exemplos que +authorisa a historia. O pulso rijo da engenhosa memoria d'elle entrou +nas idades fabulosas e trouxe pelas orelhas certos heroes que os poemas +orphicos e os homeridas nos encamparam como sujeitos apresentaveis na +boa sociedade. Marte, segundo o padre, era um adultero; Apollo um +valdevinos que se andava lamuriando na piugada de Daphne; Hercules um +maricas que fiava de cocoras na roca de Omphale; as heroinas da odissea, +da iliada, e das tragedias de Eschylo um femeaço impudico e deslavado. +Do Olympo desceu padre João aos antigos imperios, e poz pelas ruas da +amargura Xerxes, Ciro, Dario, Holophernes, Absalão, Sichem, Salomão, +Herodes, Marco Antonio, e muitos outros que pelos modos não deram boa +conta de si, ou as mulheres não deram boa conta d'elles. + +O leitor de certo se convertia ouvindo o egresso; mas Jorge Coelho ia +tão dentro em si, tão lacerado pelo abutre da paixão sem esperança, que +as palavras do douto velho lhe eram como esponja de fel e vinagre +espremida nas chagas. Pernoitaram na Amarante, onde chegaram ao fim da +tarde do segundo dia de jornada. Em quanto o egresso entrou no velho +templo a fazer oração a S. Gonçalo e visitar os cubiculos onde viveram +santos varões da sua creação, Jorge foi sentar-se á beira do Tamega, e +ahi rompeu em pranto desfeito, com os olhos postos nas ondulações das +serranias para além das quaes lhe ficava o Porto. O padre sahiu +indignado do mosteiro praguejando, menos evangelicamente que de seu +costume, contra o governo que permittia á municipalidade amarantina que +as vivandeiras do destacamento aquartellado nos dormitorios do mosteiro +dançassem ebrias e meio nuas a canna verde e a sirandinha no refeitorio +e na claustra. É de crer que as mulheres recebessem com galhofa o +egresso venerando, cujas botas de borla e chapéo tricorne deviam de +parecer cousa de entrudo ás bacchantes que a onda da civilisação +revessou no remanso dos monges, em quanto outra engolfou os monges no +porto suspirado da sepultura. + +Ahi me vou eu sahindo com o impertinente vêzo de lastimar os frades! +D'esta vez hei-de represar a piedade com que n'outros livros tenho +desdourado, no conceito de muita gente, os meus altos espiritos de +operario que trabalha á candeia do seculo XIX. Que me importa a mim que +nos cubiculos do mosteiro de S. Gonçalo se alojem as vivandeiras do +destacamento, e que na claustra sobre as cinzas dos frades vão ellas, +repletas de vinho e despejo, dançar a sirandinha e a canna verde? Se eu +disser que no tempo dos frades não se viam semelhantes desacatos, hei +grande medo que me ponderem que outros desacatos mais attentatorios da +religião de Jesus ahi se viram no tempo em que os frades comiam no +refeitorio, e medravam nas cellas, onde agora coze o seu vinho o +mulherio da tropa. Se o padre João Coelho quizesse, esse é que podia +responder a preceito; mas, para bem do leitor, ninguem n'aquella hora se +lhe atravessou com argumentos, estando elle na estalagem da Amarante, +sentado no escabello, a dizer cousas de sorte magoadas, a respeito da +profanação do convento, que todo o auditorio chorava, sendo tres das +carpideiras as mais lubricas bailarinas da claustra. + +Entretanto, Jorge escrevia a Leonardo Pires, dizendo-lhe que resolvera +não escrever a Silvina, em quanto lhe durasse a impressão amarga que +recebera das revelações do tio, impressão immorredoura, dizia elle. +Recommendava-lhe que se informasse da verdade d'aquellas revelações, e +sem piedade lhe transmitisse o excesso de peçonha que havia de matal-o. +Ajuntava elle que já não amava Silvina; mas que não podia despresal-a; e +que entre o amor e o despreso estava o odio, serpente insaciavel que se +lhe enroscara no coração. + +Esta serpente de que se queixa Jorge Coelho é uma alimaria a que os +poetas de animo socegado chamam cupido, deus de Gnido, de Paphos, e Amor +em estilo chão. Permitte a rhetorica aos amadores enraivados denominar +serpente a cousa que d'um dia para outro se transforma em rola gemedora. +Não é raro encontrar sujeito que tem aninhado no seio um viveiro d'estas +serpentes, as quaes, depois de cuspirem a peçonha, n'uma carta arrufada, +em meia duzia de adjectivos azedos como malagueta, metamorphoseam-se em +pombal de candidissimas pombinhas que se catam e beijam umas ás outras +com langorosos requebros. Da metamorphose o que fica é a peçonha +instillada e derramada na circulação sanguinea. Na correnteza do tempo, +vem esta peçonha a consolidar-se no coração, e d'ahi procedem as +postemas, que degeneram em aleijões, commummente denominados +scepticismo, cynismo, devassidão, libertinagem, impudencia, e outras +molestias pegadiças. As rolas e as pombas, desde que o coração +inficionado as afugenta, passam para o dominio do estilo, e concorrem +para que no banquete d'um amor revelho, gotoso e glutão hajam sempre +aves. + +Vem a pêllo fallar da gorda gallinha que padre João trinchou na +estalagem da Amarante, em quanto Jorge Coelho, recolhido ao seu quarto, +se atirava vestido sobre o leito abafando contra o travesseiro os +soluços da afflicção, que o egresso, tão de boa fé como crente na +efficacia da historia, julgára minorada com a quarta dissertação que +fizera ácerca do amor, segundo a carne, e nomeadamente do amor em Roma +na época dos Cezares. + +Citou versos de Marcial e Juvenal, como prova de que o amor era mau em +toda a parte; e, sem elle querer, tambem provou que nas livrarias dos +mosteiros entravam livros de moralidade muito equivoca. A ultima these +de padre João Coelho assentava n'esta proposição de S. Paulo: «Quem não +ama está na morte;» mas tão engenhosamente o erudito frade torceu o bico +ao prego que as conclusões eram todas contra o baixo amor terreal, e +pregoeiras do amor divino, que elle orador por sua parte cumpria á +risca, sem embargo de se pascer em delicias na choruda gallinha, em +quanto o sobrinho abafava de dôr no quarto. Esta é a grande vantagem dos +que andam empinados em amores do céo, que nunca deixam de comer ás suas +horas, e de digerirem em regalados somnos a materia bruta que lhes não +pesa na consciencia. Não ha pois duvidar de Montesquieu (parece que foi) +que disse--que a religião christã, depois de nos felicitar n'este mundo, +nos segurava a felicidade do outro. + +Padre João dormiu nos coxins macios da sua limpa consciencia; Jorge, +apenas o tio se fechou com o breviario, e adormeceu ao quarto psalmo +penitenciario (um egresso repleto de gallinha cozida a resar um psalmo +penitenciario! parece um paradoxo! Tomára eu saber se David compoz +aquellas lastimas antes que as caricias de Bethsabé o enfastiassem!)... +Estas incisões intermittentes hão-de perdoar-m'as os leitores que +souberem o que é escrever um romance n'um carcere, onde já não ha +carrasco, mas existe o espirito do carrasco identificado a uma cousa que +nós cá os assassinos e os salteadores denominamos as _authoridades_, que +medram no cêvo do erario, uns chamando-se procuradores do rei, outros +carcereiros, outros chaveiros, outros guardas, a mesma familia +representando o rei de theor e modo que fazem odiosa a palavra do +symbolo que lhes legitíma a crueza, a barbaridade que lhes tem +ladrilhado o coração, e muitas vezes a infamia que se abona com a +justiça, essa divina irmã dos anjos, que os cafres trazem tão nusinha e +pustolosa por sobre os esterquilinios d'elles. + +Agora é que me eu perdi de todo... Perdido devéras andava aquelle pobre +Jorge Coelho, pelas ruas da Amarante em quanto o padre dormia o somno do +justo. Chegou á celebrada ponte, curvou-se no parapeito, e teve tentação +de precipitar-se. Foi instantaneo o accesso de loucura. Jorge viu a +imagem de sua mãi no scintillante reverbero da lua que se espelhava no +Tamega, Levantou os olhos para o céo, e disse: + +«Ó Providencia Divina! leva esta dôr ao coração de minha mãi, para que +ella, a santa, peça por mim!» + +Eram onze horas d'aquella formosa noite de Setembro. Soava apertada nos +rochedos a torrente, que scintillava em escamas de prata. De longe vinha +a toada soidosa d'uma flauta que tocava a chacara popular dos «Dous +renegados.» Jorge amava desde os doze annos os versos maviosos e +truculentos d'aquella canção de amor que chora como anjo e obsecra como +demonio. Proferiu a letra cadenciando-a com a flauta, e rematou +chorando, já não em ancias, mas suavissimamente, como se o espirito de +sua mãi lhe alcançasse do céo a mercê das lagrimas que desopprimem. + +Um vulto entrou na extremidade direita da ponte: era uma das mulheres +que padre João vira com santa indignação, a tripudiarem sobre as ossadas +dos monges na claustra. Veiu direita a elle, e pediu-lhe uma esmola. +Jorge deu-lhe tudo quanto tinha. A mulher viu bastantes moedas de prata, +e, estupefacta ou douda de jubilo, nem se retirava nem agradecia. + +--Vá-se agora, embora, mulher--disse Jorge, sem enfado, mas desejoso da +solidão que tão suave lhe estava sendo. + +--O senhor dá-me este dinheiro todo?!--disse a mulher, que os homens +chamam perdida, e que não o estava, nem o podia estar aos olhos do seu +Creador. + +--Dou, sim. + +--Bem haja, meu senhor!--tornou ella, com lagrimas na voz--já tenho com +que ir para a minha familia. Eu sou uma desgraçada, que vim do Algarve, +ha tres annos, fugida a meus paes, com um rapaz meu parente, para +casarmos onde podesse ser. Elle requereu ao commandante; mas não teve +licença para casar commigo; eu depois fui lançar-me aos pés da senhora +do commandante, e consegui licença. Quando estavamos muito contentes, +mandei buscar a minha certidão e mais papeis á terra; mas disseram-me de +lá que nós eramos primos, e não podiamos casar sem dispensa. Não +tinhamos dinheiro para ella, e fomos vivendo até vêr se Deus dava +remedio. N'este entrementes, o meu primo namorou-se de outra, e +deixou-me a morrer á fome. Agora com este dinheirinho vou já amanhã para +o Porto, e de lá vou n'um hiate para Tavira, e vou botar-me de joelhos +aos pés de minha mãi. + +--Pois vá, não mude de resolução, e faça por ser boa filha--disse Jorge +com maviosa caridade. + +--O senhor será um anjo do céo?--disse a feliz creatura lavada em +lagrimas. + +--Não sou anjo do céo, não... Vá com Deus. + +A mulher retrocedeu, e foi ajoelhar diante de um antiquissimo retabulo +de granito em que na fachada do templo de S. Gonçalo sobresahem os +grosseiros relevos de uma Senhora com Jesus morto no regaço. Jorge viu, +ao clarão sereno da lampada que pende sobre a imagem, a mulher +ajoelhada. Banhou-se-lhe o espirito de um contentamento, que não poderia +existir na terra, se acima d'este tremedal, não velasse um Deus as +acções do homem que póde erguer-se do seu rasto até hombrear com os +anjos. + +Entre Jorge e aquella peccadora que resava, avultou ainda a imagem da +mulher pura, a mãi, a santa, onde chegára talvez a revelação das penas +do filho. Silvina, n'esse momento, nada era na vida de Jorge. Nem a +poesia da paixão pôde disputar o espirito do mancebo á poesia da +caridade. + +Entretanto, o varão justo, o padre João Coelho, acordava com a digestão +consummada, voltou-se para o outro lado, e reatou a nota quebrada de um +beatifico ronco. + + +XIV. + +As prelecções de historia antiga que padre João fizera, desde o Porto +até casa, não tocaram o juizo nem o coração de Jorge; mas as singelas +palavras da indulgente mãi, e as caricias dos irmãos, acalmaram algum +tanto a febril paixão do academico. D. Antonia, de proposito, passou com +o filho no adro da igreja rural, quando, ao fim da tarde, se celebrava +dentro um baptisado. Entraram na modesta igrejinha, e foram ajoelhar no +arco. A viuva, depois que orou, foi sentar-se n'um banco tosco da +capella-mór, e chamou para junto de si o filho. + +--Senta-te aqui, Jorge;--disse ella--quero fallar com o meu filho ao pé +da sepultura de seu pai. Não a esqueceste ainda, pois não? + +Jorge desceu a vista sobre uma das lages que formavam o estreito +pavimento da capella-mór. D. Antonia continuou: + +--Tenho fé em que o meu coração n'este lugar, onde ha cinco annos venho +chorar todos os dias, te saberá dizer o que teu bom pai te diria, filho. +Se Deus me não fizer o milagre de ajuntar ao teu espirito mais dez +annos, serão perdidas as minhas consolações, e tu as tomarás como +conselhos importunos... + +--Não, minha mãi...--atalhou Jorge, commovido pelo terror santo do +local, e pela imagem de seu pai, em cuja fronte morta elle dera um beijo +cinco annos antes--os seus conselhos... + +--São conselhos de mulher, conselhos de mãi, que quer desterrar da tua +alma lembranças d'outra mulher que me rouba o coração de meu filho. Deus +levou-me teu pai, Jorge; e Deus não me podia enganar quando d'aquella +tribuna, estando eu ajoelhada sobre esta lousa, me dizia que a +compensação da boa alma que chamou para si, eras tu. Lembras-te d'uns +beijos fervorosos que eu te dava, quando erguias as mãos ao pé de mim +n'este mesmo sitio? Não te deixava eu a face molhada de minhas lagrimas, +Jorge? Lembras-te? + +--Lembro-me, minha mãi... E porque está chorando agora?--disse +compadecido o moço. + +--Parece-me que é saudade das dôres de então, filho... As de hoje são +inconsolaveis... Nunca tive orgulho peccaminoso, Deus sabe que não; mas +orgulho do meu dominio no teu animo, Jorge, tinha-o muito grande; e +agora vejo que pequeno valor tem o dominio de mãi, logo que um acaso +infeliz depara aos dezoito annos de uma criança os affectos verdadeiros +ou simulados da mulher que nunca se viu, nem conheceu nos brinquedos da +infancia. Isto é triste! A natureza poderá justificar este vulgar +infortunio; mas a piedade e o dever choram-se, e não ha razão que +convença uma mãi a conformar-se com a desvalia em que tu tiveste os meus +rogos durante tres mezes. + +--Eu não desvaliei os seus mandados, minha mãi--disse Jorge em tom de +carinhosa submissão--Havia uma corrente invencivel que me prendia á +desgraça... + +--E partiu-se essa corrente, filho?... O teu silencio diz-me que não... +Olha, Jorge... se essa mulher fosse digna de ti, eu dizia-te que me +trouxesses para casa mais uma filha; se ella fosse virtuosa e pobre, +seria um thesouro, na nossa casa onde sobra o necessario; se fosse rica +e creada nas regalias da sociedade, aconselhava-te que a não +sacrificasses á nossa solidão e pobreza comparativa; mas, filho, essa +menina, que te enganou o coração, não tem virtudes que suppram a +riqueza, nem a riqueza que possa compensar o coração estragado e sem +escrupulos do homem, que não és tu, mercê do Senhor! Antes de teu tio ir +ao Porto, já eu sabia, meu filho, quem era Silvina. Nada disse ao padre +do que sabia, quando lhe pedi que fosse em meu nome pedir-te que viesses +para nós, que te choravamos. Tu sabes que eu tive uma companheira no +convento de Braga, menina de muitas virtudes, que mereceu a Deus casar +com um negociante do Porto. Foi a ella que eu escrevi pedindo-lhe +informações da tua vida, e não se demoraram. O marido d'esta senhora +procurou-te varias vezes, e nunca pôde encontrar-te. Andavas perdido na +tua cegueira, meu pobre filho! Abre os olhos da tua alma, e attenta nas +lagrimas da pobre mãi que não póde contar com o amparo de tres meninas, +nem ellas contam com outro amparo senão o teu. Não achas tanta gente boa +a pedir-te amor, filho? Tudo nos queres tirar a nós para o atirar aos +pés de uma mulher que d'aqui a um anno será na tua memoria apenas um +remorso, senão fôr antes uma vergonha? + +--Uma vergonha!... atalhou Jorge, mais ferido na vaidade que +surprehendido da qualificação. + +--Pois qual é o nome que dá o mundo ás paixões que humilham os que as +soffrem, e mortificam uma familia que não espera d'ellas senão +amarguras, desgraças, e abysmos?! Jorge, meu querido filho, faz um +esforço de vontade! Vence-te, que podes. Ajuda a efficacia das minhas +orações. Em nome d'estas cinzas queridas, peço-te em nome de teu pai, +que tantas vezes me disse, quando te via triste, aos quatorze annos; +«não tires da tua vista este menino, que ha-de perder-se, se entrar no +mundo, d'onde me eu salvei com o teu amor»; é teu pai que te pede pela +minha bocca, Jorge, esquece essa mulher; não lhe escrevas, os teus +amigos que te não fallem d'ella; absorve-te no meu amor; folga com a +innocencia de tuas irmãs: volta a Coimbra quando o desejo do estudo +renascer no teu animo socegado; entrega-te de novo aos teus prazeres da +caça; restaura a tua saude, que trazes tão quebrantada; eu pedirei aos +amigos da nossa casa que a frequentem mais a miudo; teu tio ha-de saber +conversar com o teu espirito instruido; compra os livros que quizeres; +satisfaz todos os caprichos que te não arruinem a saude nem a alma; tens +a duas leguas d'aqui uma villa onde ha sociedade, e familias que te +estimam. Lucta, filho, deixa triumphar tua mãi do prestigio d'essa +mulher, que nunca te deu uma lagrima, nem sabe o travor das que tu me +tens feito chorar... + +--Basta, minha mãi--murmurou Jorge, levando aos labios a mão tremula da +magoada senhora--Luctarei, e... morrerei, se não vencer. + +--Vences, filho, vences! exclamou D. Antonia com a vehemencia da sua fé +e da sua razão.--Vences, porque Deus não dá ás más paixões o poder de +matarem uma creatura, que póde desafogal-as nos braços de sua mãi.--E +erguendo as mãos para o altar, disse com a voz convulsiva--Graças, meu +Redemptor! + +Anoitecera. Padre João, que era o vigario da freguezia, andava +discretamente passeando no adro, e entretendo os sobrinhos para não +interromperem a pratica, cujo assumpto elle adivinhara. D. Antonia +ergueu-se, tomou a mão do filho, e sahiu da igreja. No adro, estavam +brincando as tres irmãs de Jorge, a mais velha das quaes tinha nove +annos, e o irmão mais novo que nascera depois da morte de seu pai. +Saltaram os mais novos aos abraços á mãi, e as duas meninas ao pescoço +de Jorge, com grande alarido. Sentou-se elle nos degraus do cruzeiro do +adro, e tomou para sobre os joelhos as duas meninas, que á fina força +queriam ennastrar-lhe nos cabellos as suas rozas brancas. D. Antonia +contemplava o grupo com o semblante banhado de alegria. O egresso, +debruçado sobre a parede baixa que contornava o adro, fallava com o +mordomo da festa de S. Sebastião ácerca do numero de padres e do +prégador que devia chamar. Os meninos mais novos já tinham largado a mãi +para apedrejarem as andorinhas que chilreavam em redor do campanario, +cuja sineta unica era movida debaixo por um cordel, que os pequenos a +muito custo respeitavam por alli estar o tio padre. + +Resolvido o negocio da festividade do orago, padre João tirou pela +corda, e tocou as nove badaladas das Ave-Marias. Todos ergueram as mãos, +e resaram em voz alta. «Ora, Deus nos dê boas noites.»--Disse o padre. +Rodearam-no os meninos a beijar-lhe a mão, e Jorge tambem depois que sua +mãi lhe deu a fronte. + +Terminado este lance, cuja poesia santa não ha pedil-a a corações que +deram com ella no pégo da lama brilhante onde dizem que a poesia está, +Jorge Coelho fitou os olhos no occidente, e reconheceu o anoitecer dos +seus dias passados; viu o boleado pardacento das serranias longiquas que +lhe estavam redizendo os pensamentos da sua infancia; ouvia ainda as +vibrações do sino que repicava no baptisado de seus irmãosinhos, e +dobrára na morte de seu pai, reconcentrou-se; sentiu uma secreta +amargura que não era angustia de saudade, nem pavor de previsões +afflictivas... Que era, pois, esse vulto lá muito ao longe, ao pé +d'aquella myriada de estrellas que repontava na cumieira da montanha? +Era a imagem de Silvina ainda perto do céo, porque de lá vinha cahindo, +bella como os anjos que lá nasceram; e, rebeldes á piedade, á virtude, á +suprema graça, aqui se despenham, e despenhados vencem ainda disputando +ao Senhor as almas immaculadas. Era Silvina, toda de festa e risos, +reptando-o á lucta com um sorriso affrontoso, e esgares de escarneo ao +protesto santo jurado sobre a sepultura d'um pai, e assellado com +lagrimas de mulher sem macula. Era a visão maldita, a fada inexoravel +dos que vem a esta hecatomba, predestinadas victimas, que o mundo +sacrifica e cospe. + +Era Silvina, sempre Silvina, a dizer-lhe: + +«Que mulher viste mais linda que eu!? Quem te deu philtros de mais +saborosa peçonha!? Vê se te sorriem uns labios com mais dôces favos de +phrases que assignalaram a mais bella hora da tua vida!» + +Meu pobre Jorge Coelho! Tua mãi não te salva d'esse captiveiro. Teu pai, +esse resgatava-te, se te désse um lugar no seu leito!... _É intransitivo +o calix!_ + + +XV. + +A primeira carta de Leonardo Pires ao condiscipulo dizia que Silvina ia +todos os dias á Foz de carroção, e almoçava bifes e fiambre no hotel +inglez. Ajuntava a isto o picaresco informador que a menina usava de +anquinhas no vestido de banho, e fazia de nereida saracoteando-se na +agua, requebrando-se em risos e ditos galanteadores aos tritões de baêta +azul que a rodeavam, e sahindo dos braços de Neptuno mui peneirada aos +saltinhos pela praia, que eram umas delicias vêl-a. Dizia mais, que +Francisca da Cunha, ao sahir do banho, era uma cousa desazada como perua +que saltasse de um tanque a escorrer agua. Este era sempre o estilo do +fidalgo da Maya. Rematava dizendo que o morgado de Santa Eufemia fazia +todos os dias a Silvina o sacrificio de se lavar no oceano, dando +grandes urros, e devorando bois assados no hotel da Boa-vista. + +Jorge Coelho tragou este veneno, e odiou o amigo que sem piedade lh'o +vasava no coração. O innocente esperava que Leonardo lhe enviasse, senão +uma carta, ao menos palavras consolativas de Silvina, incentivos +apaixonados á esperança, lagrimas de saudade e protestos de firmeza +eterna. + +Na segunda carta dizia Leonardo Pires que tendo elle azo de encontrar-se +com Silvina na calçada dos Clerigos, na loja do snr. Antonio das +Alminhas, lhe fallara de Jorge, contando-lhe o motivo da sua repentina +partida para a provincia, com o que a boa da menina se rira grandemente, +dizendo que seria muito de receiar que o tio padre trouxesse uma +palmatoria debaixo da sotaina. A isto respondera Leonardo--e não +duvidamos acredital-o--que Jorge devéras merecia meia duzia de +palmatoadas, quando sahiu do baile da assemblea, apaixonado por um anjo +que fizera presente das suas azas á gravata do morgado de Santa Eufemia. +E como quer que Silvina redarguisse com voltar-lhe as costas, Leonardo +fôra fallar a Francisca da Cunha que estava á porta do snr. Antonio das +Alminhas, conversando amores com um linheiro das Hortas, o qual linheiro +lhe estava dizendo que o dia estava muito bonito. + +Jorge Coelho respondia a estas cartas sem fallar de Silvina, e dizendo +pouco de si. Divagava por assumptos tristes, dissabores da vida que em +seu começo tropeça na desgraça; rebates de saudade d'um tempo que mais +não voltaria; os encantos perdidos do céo, das arvores e das montanhas +que elle amara tanto; a magia do viver em familia despoetisada; o +coração desaffeito das caricias maternaes e já insensivel ao sabor +d'ellas; longos dias, sem um sorriso, encadeados a noites desveladas +sobre livros em que elle, como Hamlet, não via senão _palavras_, +_palavras_, _palavras_. + +Na terceira carta dizia Jorge ao seu amigo que talvez não fosse a +Coimbra, porque a saude lhe minguava com a vontade, e a perspectiva da +morte era a visão mais risonha que o visitava ao cahir da folhagem dos +seus bosques, onde elle passava os dias com um anjo de nove annos, a sua +irmã Angela. + +D. Antonia não entendia o filho. Via-o triste; mas triste o vira sempre +desde criança. Espreitava-o de noite no seu quarto, e achava-o sempre +com os cotovêlos na mesa de estudo, o rosto entre as mãos, e um livro +aberto. Se o interrogava ácerca da sua saude, Jorge respondia sempre que +não soffria senão o mal-estar da sua doentia imaginação. A mãi, fiada em +suas orações, esperava o melhor, e agradecia já a Deus a cura completa +de seu filho. + +Padre João, porém, via mais de perto o fio ás cousas. + +--O rapaz come muito pouco!...--dizia o sagacissimo egresso á +cunhada--Não nos fiemos n'aquelle exterior pacifico, mana. Alli ha +amargura secreta enfronhada n'uns ares de serenidade, que não é +d'aquelles annos. Jorge está magro, macilento, e não dorme. Debaixo da +janella d'elle encontro a miudo muito papel rasgado. Já pude concertar +uns pedacinhos, e lá encontrei o nome da fada má, que nos ha-de perder +Jorge. + +--Perder!... não diga tal, mano João!--exclamou a viuva, estorcendo os +dedos, e já com as lagrimas, a fio. + +--Perder, sim!... Mana Antonia, eu já tive vinte annos, e entrei no +mosteiro aos trinta e dous... Vou aconselhal-a. Quer resgatar o seu +filho das ciladas da sereia?... Olhe que só Ulysses venceu uma vez +sereias. Que me conste; desde Ulysses até nós, as vencedoras são ellas +sempre, quando as victimas as não podem examinar de perto, e vêr que +ellas escondem na agua a metade monstruosa do corpo. (A erudição +mythologica do padre nem D. Antonia poupava!) + +--Então que conselho me dá, mano?--atalhou a senhora. + +--Quando Jorge der signaes de doença grave, quando uma ponta de febre +lhe accender as faces, mande-o para o Porto. + +--Para o Porto?! Que desproposito é esse!? + +--Deixe-o ir examinar de perto o monstro. Deixe-o cahir na conta da sua +indigna paixão. Deixe-o ir ouvir o descredito da tal mulher. Ha mulheres +como a lança de Pélias: curam a ferida que fazem. Eu já me arrependi de +obedecer aos rogos da mana. Jorge devia deixar o Porto espontaneamente. +Logo que eu sube que mulher era a tal Silvina, devia abandonal-o a elle +á miseria da sua illusão. A esta hora estava elle talvez desenganado. +Sabe porque? Aqui tenho uma carta do negociante Ferreira, casado com a +sua amiga do convento. Diz-me que Silvina arranjara a final um +brazileiro millionario, tão monstruoso em corpo como ella é monstruosa +na alma. Se Jorge estivesse a esta hora no Porto, cercado de homens que +fazem zombaria das affeições serias e das ridiculas, curava-se. Aqui, se +lhe eu annunciar as baixezas da Circea que o bestificou, não me +acredita; e, se me acreditar, não temos balsamo que lhe feche a chaga; +verá que elle a rasga mais com as suas proprias unhas, Mana Antonia, o +meu parecer é este. Não me argumente, que não sabe, nem póde. Se a sua +vontade fôr outra, lavo d'ahi as minhas mãos... + +D. Antonia foi direita ao quarto do filho, e entrou de sobresalto. +Surprehendeu-o a escrever. Jorge fez um gesto machinal para entremetter +n'outros papeis a folha em que escrevia. + +--Escondes de mim o que escreves, filho?--disse D. Antonia, com magoada +brandura. + +--Não, minha mãi, não escondo... + +--Pois eu não vi?!--tornou ella, sorrindo tristemente. + +--São cartas para os meus condiscipulos. + +--Deixas vêr-m'as, Jorge? Que poderás tu dizer aos teus amigos, que não +dissesses a tua mãi?! Fallas das tuas amarguras? Conta-m'as tambem a +mim. + +--Eu não fallo de amarguras, minha mãi--disse Jorge, erguendo-se, para +afastar a mãi da banca.--Communico a um amigo os meus estudos, as minhas +impressões de leitura, cousas que não podem recrear uma senhora... + +--Assim será, Jorge... Tu nunca me mentiste, nem mentirás, pois não? + +Jorge guardou escrupuloso silencio, respondendo com um tregeito, que +valia tanto como a supplica de perdão. + +N'este momento, apeava no pateo um cavalheiro da villa proxima, que +vinha visitar o academico. Jorge foi logo á sala, a mãi acompanhou-o até +fóra do quarto; e retrocedeu a examinar os papeis, logo que o viu +entretido. Foi fácil estremal-o dos outros pela frescura da tinta. No +alto da folha, leu estas palavras: «AO ANOITECER DA VIDA.» Depois seguia +assim: + +«Vou d'este mundo, quando custa morrer aos que se estorcem entre uma +saudade e uma esperança. Saudade! de que hei-de eu tel-a?! E que posso +esperar? Quem me dera já as trevas! Esta luz, que me alumia, é ainda a +d'aquelle clarão infernal do baile. Queria fugir de mim proprio, como de +um inimigo. Não me has-de tu matar, paixão! Morro porque não podia +viver. Se não fosse aquella mulher, era outra. Eu vejo e palpo a morte +ha muitos annos. A fugir da morte, refugiei-me no coração de Silvina. +Porque me disse ella: «no mundo deve existir a imagem da mulher digna de +senhorear-lhe a alma com a de sua mãi, cuja face eu beijaria com +respeito e ternura de filha?» E como Deus pôde crear no coração humano +para zombaria pensamentos assim! Á mulher infame devia morrer a memoria +das palavras com que se exprime a virtude... Sinto-me tranquillo... A +compensação dos affrontados é esta. No mal e no bem te reconheço, +Providencia Divina!... Mas o mal para que é? Se é necessaria na ordem do +mundo a ignominia, a crueza, a infamia, a desgraça, fôra digno da +perfeição divina deixar ás almas inculpadas o galardão de não sentirem a +absurda justiça do Creador. + +«Que és tu, bem? que és tu, virtude?... que és tu...» + +Aqui fôra interrompido Jorge pela subita entrada da mãi. + +D. Antonia quasi não entendera o escripto; mas algumas palavras, as do +titulo só, bastaram a compenetral-a de consternação e terror. Ouviu os +passos de padre João, chamou-o anciada, e mostrou-lhe o papel. O egresso +leu, e respondeu risonho: + +--Não tem de que se lastimar por em quanto, minha irmã. Isto é um +accesso de febre; mas não me assusta; o que eu receio é a outra que não +interroga a Providencia, e obriga o enfermo a inclinar a face para o +seio, e esperar resignadamente a morte. Vá á sala, que o hospede quer +comprimental-a. + +D. Antonia sahiu, e padre João escreveu o seguinte no papel que lêra: + +«O pucaro pergunta ao obreiro porque o fez quebradiço. O oleiro +responde: porque eras barro antes de seres pucaro.» + +«Virtude é o diamante em que se pulverisam os raios da desgraça. Aquelle +é virtuoso que olha em torno de si, e vê prostradas as calamidades.» + +«O reino de Deus não está em palavras sonoras; mas em virtudes. (S. +Paulo--aos impacientes de Corintho).» + +«Coração apoucado, sossobra, se não podes com a tua miseria; mas não +abandones a tua memoria a uma piedade vã, que é quasi uma zombaria.» + + +XVI. + +Traslado fiel de uma carta de Leonardo Pires a Jorge Coelho: + +«São 6 horas da manhã. Venho do baile do visconde dos Lagares. Tenho o +coração a trasbordar de amargura! Deixal-o trasbordar, que é uma gotta +de absintho n'um oceano de champagne. Um bago de uva matou Anacreonte. +Eu sinto-me triplicar de existencia na uva. _Evohé!_ Como a vida é +linda! que vergeis de flôres recendem á tona d'este lamaçal! Vem cá, +Fortuna! Schakspeare chamou-te prostituta. Linda, vem cá, que eu bem te +vi no baile, como o poeta inglez te via nos paços e nas tavernas! +Senta-te aqui nos meus joelhos, impudica! Solta d'essa larynge recozida +de alcool um dithyrambo! Ri-te commigo, e não me venhas dizer que és +filha da Providencia, infame blasphema!... + +Cançou-me o folego, Jorge! O meu vinho nunca foi para grandes +apostrophes. O descriptivo é o meu forte. + +Fui ao baile. Pude lograr a causa da moral publica. Deves presumir que +estou desacreditado no Porto, e em vesperas de um duello. Sou o varão +justo a braços com a adversidade: _vir fortis cum mala fortuna +compositus_--a maravilha que punha Seneca em extasis! O champagne do +visconde é litterario como as aguas da Aganippe. Que abundancia de +pegasos eu vi beber na sala da ceia, e apparecerem Homeros na sala do +baile! + +Pedi a quatro conhecidos que me arranjassem convite. Era impossivel. O +visconde respondia que eu era um _bolas_, que descompozera no largo da +Batalha uma menina, noiva de um seu amigo. Eis que encontro o João da +Thereza da Cancella! Este João é meu caseiro ha cincoenta annos. Vê-me, +corre a abraçar-me, e exclama: «Fidalgo, o meu Francisco chegou!»--«Quem +é o teu Francisco, amigo João?»--«O meu Francisco--tornou elle--que +estava no Maranhão! pois não sabe?»--«Não sabia... Vem rico?»--«Rico +como um burro!»--«Está bom; estimo; é barão de...?»--«Não, senhor; barão +ainda não é; mas está aquartelado em casa do snr. visconde dos +Lagares.»--«Sim?!»--«É como digo, fidalgo, e, pelos modos casa-lhe com a +filha; é arranjo tratado já lá do Brazil.»--«Fazes-me um favor, +João?»--«É pedir por bocca.»--«Teu filho será capaz de me arranjar que +eu seja convidado para um baile que vai dar o visconde amanhã?»--«Que +remedio tem elle, senão arranjar?! Quem foi que lhe pagou a passagem +para o Rio senão o paisinho do fidalgo?!»--«Vai depressa, e volta aqui +com a resposta.» + +Meia hora depois, voltou João da Thereza da Cancella, com a carta, e +disse-me: «Olhe que o homem não queria dar o officio; foi preciso eu +dizer que dava duas libras por elle, sendo preciso; o meu Francisco +chamou-me bruto, e depois lá se mexeram como poderam, e aqui tem.» + +Dei um abraço democrata no meu caseiro; procurei os meus quatro +conhecidos, mostrei-lhes o cartão, e fiz o elogio do seu valimento +d'elles. + +Apenas entrei no baile, fui comprimentar a viscondessa, que fallava com +Silvina. Esta, quando me viu, resfolegava como se eu fosse uma grande +botija destapada de vinagre de sete ladrões. Retirei-me a rir, e, na +reviravolta impetuosa, bati n'uma grande esponja: era José Francisco +Andraens.--Perdão!--disse-lhe eu. José Francisco grunhiu, e enviezou-me +um olhar sanhudo--Perdão!--tornei eu. O cerdo poz as mãos na linha +hemispherica do seu globo, constituiu-se vaso etrusco, e regougou: «O +senhor anda a embarrar pela gente?!»--Foi uma _embarração_ inopinada, +snr. Andraens!--repliquei eu--Se lhe offendi os tecidos, +desculpe-me.--«Estes meliantes...» disse o brazileiro, e foi-se embora. + +Adiante encontrei os morgados de Santa Eufemia, e de Matto-grosso. + +--Que ha de novo?--perguntei eu. + +--O casamento de Silvina com o brasileiro está definitivamente +tratado--disse-me Egas de Encerra-bodes. + +--Com o brazileiro? + +--Com o brazileiro. Veiu ahi o pai d'ella; expoz á filha as vantagens do +casamento, e ella poz os olhos no céo, e disse:--cumpra-se a vontade do +Senhor,... e a de meu pai! + +--E cá o amigo Christováo Pacheco que diz a isso?--perguntei eu, +voltando-me para o de Santa Eufemia, em quanto Egas ria estrondosamente. + +--Eu digo--respondeu elle--que já cá botei as minhas contas, e que +hei-de tourear o tal José Francisco!... Estou civilisado;--cá o primo +tosqueou-me o pello. + +--Vi-te n'aquelle momento, meu caro Jorge. Vi a tua candida alma, n'esse +ermo, a penar, em quanto a vil, que te mentira o apunhalara, se andava +alli glorificando de que a indigitassem como futura quinhoeira dos +duzentos contos do negreiro. Fervia-me o sangue em borbotões de raiva. +Jurei tirar alli uma vingança em teu nome, a vêr se me assim despenava +da culpa de te apresentar, de te immolar aos rasos instinctos d'aquella +mulher. Busquei ensejo de fallar-lhe; mas ella evadia-se, não largando +nunca o braço de um ou outro homem. O millionario, filho do João da +Thereza, levou-me á casa da ceia, e serviu-me tres copos de um vinho que +tinha um nome barbaro. Abrazou-me as arterias; mas a minha raiva medrava +nas chammas como a salamandra. Tornei ás salas, encontrei Francisca da +Cunha pelo braço do linheiro das Hortas; parei diante d'elles, e disse, +com a solemnidade do estilo:--Boccacio e Fiammentta! Bettina e Goethe! +Fornarina e Rafael de Urbino! + +O linheiro, voltou-se para Francisca e murmurou:--Não conheço este +sujeito. + +Eu continuei: Beatriz e Bernardim! + +--O senhor está enganado comnosco--disse o linheiro na sua boa fé de +linheiro. Francisca, tirou-lhe pelo braço com força, e afastaram-se. Não +sei o que lhe ella segredou. O homem, pouco depois sahiu-me de cara, e +disse-me: + +--V. s.ª parece que, ha bocado, me quiz insultar. + +--Eu não o quiz insultar ha bocado, senhor... como é a sua graça? + +--Eu chamo-me Antonio José Guimarães. + +--Pois senhor Antonio José Guimarães, como passou? + +O linheiro açafroou-se, mediu-me tres vezes perpendicularmente, e disse: + +--O senhor ha-de dar-me uma satisfação. + +--N'esse caso, satisfaça-se, e, quando estiver satisfeito, avise-me, +snr. Antonio. + +--Na rua nos encontraremos. + +--Pois sim, repliquei eu, na rua nos encontraremos. O snr. Antonio quer +duello a todo o trance e sem misericordia? Eu não me bato com armas +brancas nem pretas. O snr. Antonio, como tem a materia prima de casa, +leve uma corda, que o hei-de enforcar. + +O linheiro ficou chumbado ao tapete, e suava como uma abobora porqueira +em manhã de orvalho. + +Tocou á ceia. Entrei na sala. O champagne estalava. Os crystaes +retiniam. Os talheres tilintavam. Eu tinha no craneo a musica das +espheras. José Francisco Andraens ia atamancando um empadão de pombos, +cujos arcabouços lhe pendiam das belfas em fragmentos. Silvina +defrontava com elle, e comia a duodecima Sandwich. Estavam tres perús, +ou seis, ou não sei quantos perús intactos na mesa. Fui collocar-me +atraz de José Francisco Andraens, e chamei um servo agaloado de prata. O +snr. commendador Andraens--disse-lhe eu a meia voz--quer que vossê leve +um d'estes perús de mando d'elle áquella senhora que tem uma grinalda de +flôres brancas. Disse e fui collocar-me a pouca distancia de Silvina. + +Chegou o criado com a travessa, e disse:--Minha senhora, o snr. +commendador Andraens manda isto a v. exc.ª + +--Isto a mim!--tartamudeou ella entre admirada e vexada. + +--Sim, minha senhora, a v. exc.ª--teimou o criado. + +Silvina pregou os olhos abrasoados em José Francisco, que lhe abria um +sorriso apaixonado por entre o costado d'um pombo. Ao sorriso respondeu +ella com um tregeito de colera. Cheguei ao ouvido de Silvina, e +segredei-lhe: + +«Minha senhora, José Francisco envia-lhe um suspiro d'alma; e como a +alma de José Francisco é uma ucharia, os suspiros de José Francisco são +perús.» + +Quando Silvina volvia os olhos fuzilantes, tinha eu desapparecido. Fui +ao ouvido de José Francisco, e disse-lhe á puridade: + +--A sua noiva está indignada de o vêr comer assim! Sacrifique a Cupido o +oitavo pombo, amigo José. + +O que decorreu depois d'isto, não sei dizer-te meu caro Jorge. A minha +cabeça não podia já com encargo da chronica até final: sahi. O ar fresco +da madrugada, que aspirei até ás cinco horas, restituiu-me á bestial +vida commum. Não posso mais. + +--Resta-me dizer-te que, se choraste uma lagrima por Silvina, +envergonha-te de chorar segunda. + +Adeus. Teu + + L. PIRES.» + + +XVII. + +Verificaram-se os presagios do padre João. Jorge, depois da ultima carta +d'aquelle singular e diabolico Pires, quiz reanimar-se, e já não pôde. +Debil de compleição, quebrantado de insomnias, sorvido incessantemente +na funesta scisma de que não havia ahi na terra voz humana que o +chamasse ao amor da vida, nem no céo misericordia que o remisse da +immerecida pena, Jorge, sem um queixume, sem uma lagrima, sem dar de si +incentivo á piedade dos seus, desculpou-se com um ligeiro incommodo, e +ficou um dia no leito. A pobre mãi alvoroçou-se, e com ella toda a +familia, que via chorar. Veiu logo a sciencia que trata magistralmente +dos achaques do estomago, e d'outras visceras nobres, e declarou que a +molestia do doente era cousa moral, paixão, hypocondria, ou romance. O +facultativo capitulou assim a enfermidade com um sorriso supicaz, e +disse á viuva que não era nada aquillo, e ao padre, piscando o olho, +acrescentou que era aquella uma das feridas que se curam com o pello do +mesmo cão. Chiste de cirurgião de aldêa. + +D. Antonia recobrou-se do seu desmaio; mas o egresso entrou em maiores +cuidados.--Para o Porto, e sem demora, o rapaz--disse o padre á cunhada. + +--Mas o cirurgião não receia, nem Jorge se queixa...--acudiu D. Antonia, +temerosa da separação. + +--Deixe fallar o cirurgião, senhora. Seu filho morre sem se queixar. + +--Não me diga isso!...--exclamou a mãi consternada.--Pois as suas +palavras tão persuasivas, mano, e a religião não hão-de poder nada? + +--A religião póde muito: se elle fizer uma confissão contricta, e morrer +com sincera dôr dos seus peccados, a religião encaminha-o para Deus; mas +o que nós queremos é que elle viva. Que me responde a isto, mana +Antonia? + +--Eu antes o queria com Deus, que perdido no mundo--disse ella suffocada +pelos gemidos. + +--Respondeu acertadamente; mas a supposição de que Jorge se perde no +mundo, acho-a exagerada. Deixe-o ir onde elle se envergonhe de padecer, +que eu lh'o dou por salvo. Torno a repetir-lhe, mana, que eu fui homem +antes de ser frade, e a senhora foi sempre o que é--uma alma cheia de +innocencia, de bondade, e de ignorancia. + +--Pois bem, meu amigo, faça o que entender, mas salvem-me o meu filho. + +--Aceito o encargo com uma condição: a mana não chora mais uma só +lagrima na presença de seu filho; finge acreditar que elle precisa de +banhos do mar; exige que vá já para o Porto, e de lá para Coimbra, se +fôr vontade d'elle ir a Coimbra este anno. Conforma-se com isto? + +--Com tudo que de mim quizerem--murmurou ella enxugando as lagrimas. + +--Agora cuide da bagagem de Jorge, que eu vou fallar-lhe. + +Jorge Coelho estava sentado na cama, lendo a _Nova Heloisa_ de J. J. +Rousseau. O egresso foi de mansinho ao pé do leito, tirou pausadamente +os oculos d'um enorme estojo escarlate, montou-os na ponta do nariz, +abriu e arredondou os beiços, pendido o queixo, e examinando o livro, +disse: + +--Era um grande homem esse Saint-Preux, ó Jorge!... + +--Pois o tio conhece Saint-Preux?! + +--Relacionei-me com esse cavalheiro e com outros da sua estofa ha bons +quarenta annos. Nunca t'o apresentei, quando praticavamos litteratura, +por que sempre entendi que o ias encontrar a Coimbra, de parçaria com os +muitos filhos que elle gerou para amparo de muitas Heloisas novissimas, +de que está inçado o mundo, graças ás novellas, e ao descredito a que +baixou a roca e o fuso. Que carta lés? + +O egresso levantou o nariz com os oculos á linha horisontal dos olhos, e +leu algumas linhas da pagina. + +--Ah!--continuou elle--trata do suicidio... Está mui atiladamente +debatida a questão por uma e outra parte. O Rousseau era mestre em +paradoxos; e sabia bastante de musica; mas os paradoxos dava-os de mimo +á humanidade, e para elle guardava a vida com todas as suas paixões +villãs, mal resguardadas por uma côdea de soberba e orgulho. Ensinava o +mundo a educar os filhos, e mandava os d'elle para a roda. Atassalhava a +impudicicia do seu confrade Voltaire, e escrevia as suas _Confissões_, +com esqualido recheio de desvergonhamentos, para prova de que até o +impudor tem a sua soberba. E depois, meu sobrinho, o philosopho, a +luminaria do seculo, vendo que a ulcera, aberta no coração da sociedade +pelas más doutrinas, ia lavrando, defendeu de concerto com os seus +tresvalios, uma these apologetica da ignorancia... Vou-me alongando, e +já receio de ter dito de mais. Isto são reminiscencias das minhas +leituras de ha quarenta annos. Quando orçares pelos sessenta, Jorge, +has-de abrir a tua _Nova Heloisa_ n'essa pagina, e has-de rir da +impressão, que te magoava, quando a lêste, aos vinte annos. + +--Não me sinto magoado por impressão alguma, meu tio--disse Jorge, +sorrindo, e depondo o livro. + +--Não mintas, meu sobrinho--tornou o padre com branda severidade--Faz +quanto em ti couber por salvar dos teus temporaes desfeitos do coração, +o melhor thesouro d'elle, a _verdade_, filho. Sofres, e soffres muito, +Jorge. Pensas em morrer, e dás de bom grado a tua vida a Deus, se é que +a Divina Providencia transluz nas tuas imaginações negras. Não te culpo, +rapaz de vinte annos. O mesmo seria culpar-te e reprehender o naufragado +que não soube salvar-se. Nem de fraco te accuso. Se eu quizer que uma +tenra vergontea, dobrada pelas minhas mãos, se levante commigo, não +hei-de molestar-me se me chamarem insensato. No mais verde dos annos, +não responde o mancebo de suas fraquezas: a sociedade que responda por +elle, e o temperamento tambem. Isto do _temperamento_, digo-to aqui +muito á puridade, que nós cá, os theologos, não queremos ceder nada aos +temperamentos. Ora vamos, Jorge, a pé d'essa cama! + +--A pé!--disse Jorge--e poderei eu?! + +--Pódes porque queres. Hoje e ámanhã de convalescença; depois de ámanhã +para banhos do mar. + +--De que me servem banhos de mar, meu tio? + +--A resposta é do fôro da medicina. Vaes para o Porto. Hospedas-te em +casa de D. Marianna Ferreira, a amiga da creação de tua mãi. Vaes do +Porto á Foz tomar o teu banho. Se, no fim do mez, quizeres ir frequentar +o primeiro anno juridico, vai; se não quizeres, fica o inverno no Porto, +e vem para casa em Maio, caso tenhas saudades nossas e da primavera dos +teus arvoredos. + +--Peço licença--disse Jorge com amargura sincera--para contrariar a +vontade de meu tio. + +--Teu tio não concede a licença pedida. + +O moço fitou os olhos nas mãos cruzadas sobre o seio, e não respondeu. O +egresso lançou-lhe sobre o leito o fato, e sahiu, dizendo: + +--Vou mandar pôr o teu talher na mesa. + +Jorge disse entre si:--Morrer aqui ou lá... que importa? + +Na passagem do seu quarto para a casa de jantar, Jorge recebeu de um +criado duas cartas. Uma era de Leonardo Pires; o sobrescripto da outra +fez-lhe uma convulsão: era de Silvina. Abriu, e leu o seguinte: + +«Não sei que mal fiz a v. exc.ª para merecer-lhe uma vingança tão baixa! +Collocou ao meu lado um insultador petulante que me vexa em toda a +parte. Que fiz eu ao snr. Jorge Coelho? + +«Aceitei os seus galanteios com amor, e aceitei o seu abandono com +paciencia. Que queria que eu fizesse para não ser insultada pelo seu +amigo? Diga-me se é necessario pedir-lhe perdão de ter sido abandonada. +Não hesitarei em fazel-o com tanto que v. exc.ª me garanta a certeza de +que não serei injuriada nas praças e nos bailes. De v. exc.ª--eu muito +respeitadora, _Silvina de Mello_.» + +Jorge cahiu extenuado n'uma cadeira: a orla roixa das palpebras fez-se +negra; apanharam-se-lhe as faces, como se a doença, em poucos minutos, +progredisse mezes. D. Antonia vinha chamal-o, e encontrou-o assim, com a +carta na mão tremula. + +--Que tens, meu filho?--clamou ella ajoelhando diante d'elle, e +abraçando-o. + +--Nada, minha mãi, é fraqueza... Não chore, por piedade, não chore, que +eu estou bem. + +E, erguendo-se com vacillante esforço, foi para a mesa. Forcejou por +comer; mas as lagrimas cahiam-lhe das faces no prato, e a violencia não +conseguia desentalar-lhe a garganta. + +--Que é isto?--disse o egresso. + +--Foi uma carta...--respondeu D. Antonia. + +--Não é nada, meu tio. Recebi uma carta que me fez mal. A impressão +gasta-se, e eu d'aqui a pouco estou bom. Agora pedia licença para me +erguer da mesa, e dar um passeio no jardim. + +--Vai--disse o padre. + +--Eu vou comtigo, meu filho--acudiu a mãi levantando-se. + +--Não vai, mana; deixe-o ir sosinho. + +Eram imperiosas as palavras do padre: D. Antonia sentou-se. Jorge desceu +ao jardim, e foi sentar-se n'um banco de cortiça encostado a um maciço. +Abriu a carta de Pires, que resava assim: + +«A Providencia não é uma mentira. José Francisco Andraens apanhou uma +indigestão de pombos, salame e salmão no baile do visconde, e está em +risco de rebentar. Eu estou de atalaia a vêr quantos Jonas sahem +d'aquelle bojo! O morgado de Santa Eufemia veiu dar-me a noticia, +jubiloso, como quem espera empalmar Silvina, extincto o bruto. O qual +bruto já se confessou, a vêr se a gente se persuade que existe uma alma +n'aquellas cavernas de sebo! + +Parte o correio. + + Teu do intimo + + _L. Pires._» + + +«_P. S._ O linheiro das Hortas ainda não appareceu com a corda.» + + +Se a carta de Silvina fosse uma dorida invocação ao amor de Jorge, +simulando razões e desculpas, ou accusando o silencio do desleal amante, +que a despresara sem motivar o menospreso immerecido, é de presumir que +o brioso moço nem respondesse á carta, nem se doesse dos hypocritas +queixumes de uma caprichosa estouvada. Porém, o estilo, assim magoado +como arrogante d'aquella carta, turvou de tal sorte a cabeça e o coração +do academico, que já elle a si mesmo se accusava de indiscreto, de +ingrato e de extremamente facil em acreditar o tio. E--o que é mais +é--sentiu rancor áquelle leal amigo da Maya, que, por conta d'elle, se +andava expondo no Porto a ser expulso de todas as casas! + +Quantas idéas lhe occorreram todas advogavam a innocencia de Silvina. +Absolvida e amada eram a mesma cousa. Agora já a esperança de ir vêl-a +ao Porto lhe era um desafogo, e não sei mesmo se contentamento. O pobre +moço, como nem sabia se quer contrafazer-se, denunciou nos exteriores de +inquieto regosijo quanto a resolução do tio lhe era grata. A mãi, +compondo a roupa no bahu, chorava sempre; os irmãos choravam ao pé +d'elle, e elle fugia de todos para que o não vissem alegre. + + +XVIII. + +O leitor é uma pessoa de juizo limado e occupações serias. Estou que não +lê romances de ninguem, e muito menos os meus, que são escriptos em +lingua portugueza e modelados em cousas de Portugal, onde é sabido que +não ha imaginação que invente a novella, nem modos de vida que saiam bem +no romance. D'onde vem que o romance portuguez, se não é copia do +estrangeiro, e aborrecida inverosemelhança, orça por cousa peor, que é a +semsaboria. + +Eu tenho escripto alguns volumes de semsaborias: creio que são vinte e +tantos. Entre estes, mergulharam de cachapuz no rio + + _do negro esquecimento e eterno somno_ + +tres livros denominados: ONDE ESTÁ A FELICIDADE--UM HOMEM DE BRIOS--e a +VINGANÇA. + +N'estes tres romances figura um homem, ao qual eu nunca puz nome. Umas +vezes chamei-lhe poeta, outras jornalista, outras litterato, e assim fui +aguentando com embaraços da composição, mas venci a minha. Custava-me a +falsificar o nome d'um homem que copiei com esmeros de rigorosa +fidelidade; figurava-se-me irreverencia o que em si não era senão +escrupulo banal. Ainda agora me deixo levar da criancice, e não acabo +commigo dar um nome qualquer ao homem. Quer-me parecer que ha uns longes +de poesia n'este segredo. Diga o leitor que é tolice, e saldemos assim +as contas amigavelmente: eu dou-lhe a troco da injuria esta revelação da +minha crendice, e guardo as chimeras como o homem de boa fé guarda o +tôco de cera benta para se alumiar á hora da morte. + +Pois é verdade. Aquelle poeta era o amigo de Guilherme do Amaral e de +Augusta. + +Espectros sombrios, memorias queridas e amargas da minha alma em +infancia de illusões, passai um instante luminosos na escuridade d'esta +recamara da sepultura, onde até a lampada da esperança se vai +extinguindo na mão do anjo do conforto! Vinde a mim, corações amigos, +cujas lagrimas eu vi, e contei uma a uma, quando apenas tinha a +intuscepção da alma, predestinada ao vosso fel, para lhes avaliar o +travo. Na vossa mortalha foi o melhor da minha vida, o crêr nas +promessas do coração, nos levantados desejos do espirito que não caiam á +terra sem se infamarem; foi comvosco a fé na religião da poesia, que era +a minha fé unica, porque não havia crêr nem sentir em mim em que não +estivesse Deus, que eu convidava, sem temor sacrilego, a gosar-se das +delicias que eram d'elle, creações suas, umas sujas, outras empestadas +pelas mãos dos homens! Comvosco foi o meu ultimo dia de oração, a minha +ultima acção de graças, a palavra final da profissão de fé, que devia, a +meu vêr, remontar-me ao céo, e que, ao revez das mais espirituaes +theorias de Platão, de Socrates, de Jesus, e de todos os Messias da +redempção das almas, deu commigo em baixo n'um golfão de lama, onde ha o +ranger de dentes d'estas bestas feras, que até na lama sustentam o +egoismo da sua propriedade! + +Ó visões immorredouras, que me ensinastes o amor e o sentimento, e +levastes comvosco o segredo de morrer antes do longo paroxismo do tedio +da vida, vós bem vistes com que saudosa unção eu vos offertei dous +livros e um ramo de perpetuas, que valiam mais que os livros, e menos +que esta pagina em que bem vedes com que fervor me atrevo á prosa +d'estes annos, á mofa d'estes industriaes, que me estão perguntando se a +apostrophe ha-de ser muito comprida, para tomarem fôlego, e accenderem o +seu charuto. + +Pois accendam o seu charuto, e retirem-se as almas evocadas, e mais os +romances, que não tem que vêr com elles o leitor, que tanto conheceu as +almas, como se lhe dá dos romances. + +Veiu isto a ponto de estar aqui já comnosco o amigo de Guilherme do +Amaral e d'aquella Augusta por quem choram as flôres do Candal, e as +almas desamparadas d'aquelles que... Lá ia já sahindo outra tirada de +sentimento. É enguiço, que me ha-de retirar a protecção de muita gente +boa, que não precisa de lêr um folhetim para convencer-se do seu direito +de espriguiçar-se, e voltar a gazeta de costas, e calcular +perspicuamente as relações economicas que podem dar-se entre a alta do +cravo dito girofe e a baixa do cacau. + +Ora ahi vai agora o conto direito. O antigo jornalista, amigo da +defuncta baroneza de Amares, estava no Porto de visita em casa de +Bernardo Joaquim Ferreira, ahi nos ultimos dias de Outubro de 1855. + +D. Marianna, esposa do snr. Ferreira, e suas quatro filhas, e dous +meninos, e varias outras pessoas, estão sentadas em roda de uma grande +mesa jogando o quino. O jornalista está sentado n'um sophá, conversando +com o dono da casa, sobre cousas do Brazil, d'onde o primeiro tinha +vindo depois de cinco annos de ausencia. A conversação foi interrompida +pela entrada de uma filha do snr. Ferreira, que a mãi e irmãos receberam +com muitas vozes de alegria, ás quaes ella respondeu dando um beijo na +fronte da mãi, e outro nos labios das irmãs. Com a bem vinda entrou +tambem o marido. O litterato, já de pé, deu dous passos, e disse á dama +que entrára: + +--Quero vêr se me conhece ainda, minha senhora. + +--Se o conheço!--exclamou Rachel.--O mesmo que foi para o Brazil; o +mesmo que era ha cinco annos... Não se admire da nenhuma surpreza com +que lhe fallo porque eu já sabia que o vinha encontrar. A mãi, quando o +senhor chegou, mandou-m'o dizer para a quinta, e deu-me sempre noticias +suas. Agora pertence-me a mim perguntar-lhe se me acha muito mudada. + +--Quando, ha cinco annos, me despedi de v. exc.ª--disse o poeta--se bem +me recordo, tive a honra e o prazer de ser propheta, dizendo-lhe que a +viria encontrar cinco, dez, ou vinte annos depois, bella como a deixava, +minha senhora. Noto-lhe apenas uma differença sensivel. + +--Qual?--perguntou D. Marianna com solicitude de mãi. + +--Acho-a mais bella--respondeu o poeta. + +Por entre os dizeres usuaes que vem sempre depois de um dito feliz como +aquelle, ouviu-se a voz aspera do snr. Manoel Pereira, marido de Rachel, +dizendo: + +--Então, vamos a isto?--E escolhia cartões do quino. + +Queria dizer na sua o snr. Manoel Pereira que bastava já de +comprimentos, em que a formosura de sua mulher era encarecida por um +homem da antipathia d'elle. + +As senhoras sentaram-se, e Rachel, obrigada, pela indicação do marido, +ficou com as costas voltadas para o jornalista. + +--Não vem jogar?--disse Rachel ao hospede. + +--Vou, sim, minha senhora. + +As damas deram-lhe lugar immediato a Rachel. Manoel Pereira estorcegou +machinalmente um cartão entre os dedos convulsos, e fez-se escarlate, +cravando os olhos no rosto descuidado de sua mulher. + +O jornalista viu tudo isto, e riu-se para dentro. + +Agora descreve-se Rachel; depois Manoel Pereira; por fim alguns traços +geraes d'esta familia, e fechará o capitulo. + +Rachel tem vinte e quatro annos. É encorpada, mas a robustez não desdiz +da gentileza. Não tem attitude alguma de estudo, e parece esculptural em +todas ellas. Nos mais communs movimentos ostenta graça, e garbo que vem +de seu natural, e ninguem o dirá se a não tiver visto em toda a sua +desaffectada singeleza no recesso das suas occupações caseiras. Quando +Rachel está n'um baile... N'um baile foi que eu a vi a primeira vez. Era +ella solteira, e teria quinze annos. Isto já lá vai ha quinze. Se eu me +não lembrar do que ella era então, melhor me será despedir de mim esta +bruta alma que nem para a saudade já serve. As minhas reminiscencias +dão-me Rachel vestida de branco. Não lhe hei-de aqui chamar anjo, porque +não foi essa a impressão. Era tudo magestade, tudo estatuario n'aquella +criança; não a vi a descer do céo, onde os poetas teimam em ir buscar +tudo que é excellente, como se o céo não fosse um puro congresso de +espiritos que valem de certo lá muito mais do que pesam, mas que +passariam desapercebidos nos nossos bailes, se não tivessem a esperteza +de entrarem em corpos como o de Rachel. Eu quando a vi lembrou-me a +Grecia, as artes, em requinte de pompas, a numerosa familia das Venus, +todos esses marmores eternos, que hão-de sobreviver á mythologia dos +anjos, dos archanjos e dos seraphins. Os olhos de Rachel... estou-os +vendo; nem as franjas sedosas e longas das palpebras m'os escondem; +poderiam as arcadas espessas e travadas do sobr'olho quebrar a luz +d'aquelles olhos; mas nem assim! Como tu olhas, Rachel! Diz a +antiguidade que na Scythia havia umas mulheres que matavam olhando se o +rancor lhes fuzilava nas pupillas; porém tu que paixão tiravas da alma +toda amor, para a lançares de ti como um incendio que te abrasaria, se +eu, se todos, que te viam, não tomassem de joelhos um quinhão d'esse +fogo! Que haverá alli de mysterios n'aquelles olhos, se o fluido +electrico não basta a dizer o que é que vem de lá como corpo estranho +que vos entra no seio, e vos não cabe na alma, e quer fugir ás ancias do +coração que o aperta, e vos leva do amor ao transporte, do extasis ao +phrenesi, do rir ébrio da felicidade ás lagrimas incessantes de noites +desveladas! E, depois, porque não eram só os olhos o condão d'esta +mulher? Diante de Deus todos somos iguaes! Na alma se quizerem, e o +Creador, lá se avenha com os que o injuriam assim; mas que desigualdade +diante do divino artista! Lembra-me que a um lado de Rachel estava uma +menina de olhos vesgos; do outro lado uma senhora com um nariz impio; +mais longe outra menina em torturas para esconder quatro dentes +enclavinhados; além aquell'outra franzindo os labios, e exercitando uma +laboriosa mechanica do sorriso para corrigir a natureza que lhe dera uma +bocca limitrophe das orelhas. E ella, Rachel, toda primores, a +estremecida creatura, com uma luz serena de céo n'aquella face em que se +espelhava o seu Creador, o Deus que nos fez para a adorarmos, a rever-se +n'ella! Abençoada sejas tu de todas as venturas, que tão perfeita és, +tão cheia de tua belleza, tão digna dos thronos da terra, já que o +Creador, o teu Pygmaleão, te não arrebatou para si! Onde está, ó Senhor +Deus das maravilhas, o homem digno d'aquella obra tua, aqui posta entre +nós que apenas temos thronos, imperios, talentos, epopeas, as riquezas +da Asia, e o sangue das nossas veias para lhe offerecer! De que barro, ó +mão divina, fizeste o homem que ha-de primeiro embriagar-se nos aromas +que recende aquella virgem? Onde está o homem que... + +O homem elle aqui está. É o snr. Manoel Pereira. Já quinou tres vezes. +Feliz no jogo, infeliz no amor; é certo o proverbio... até com elle! + +Manoel Pereira tem cincoenta e cinco annos! estatura mean, cabeça +quadrilatera, e plana como um queijo do Além-Tejo desde o occipicio até +á cisura do coronal. As arcadas zygomaticas (vejam um compendio de +anatomia comparada) entestam com o rebordo esponjoso dos olhos +arrastando cada uma para o seu lado a venta correspondente que termina +em fórma de fava. O nariz não tem canas; parece que é formado de +parafusos. Começa do centro da testa por uma verruga, transforma-se em +lobinho, ladea em pequenos abscessos escarlates, e pega no beiço +superior, repuxando por elle de modo que o dono não póde exercitar as +funcções olfactorias sem enviezar o beiço. Este nariz ha-de ser +lithographado e distribuido aos assignantes, concluido o romance. O +nariz é o homem. Quem o vir organisa o complexo de Manoel Pereira, como +Cuvier recompunha o reptil iguanodo, e o megaterio. + +Temos á roda da mesa a snr.ª D. Marianna e quatro filhas. É de notar em +Rachel o typo perfeito d'aquella familia. A mãi, senhora de quarenta +annos, é bonita ainda. Se a perfeição das raças é admissivel, nunca mais +sensivel foi a gradação do aperfeiçoamento como entre D. Marianna e +Rachel. Das outras filhas, uma é formosa, se bem que já ferida da +tisica, que d'ahi a mezes a levara para o lado de uma sua irmã que a +mesma enfermidade matou, quando lhe sorriam duas primaveras, a das +flôres, e a dos prazeres da vida. Outra é uma linda criança de doze +annos, com os olhos de Rachel. A que porfia em belleza desvantajosamente +com a mais bella é já casada, e tem vinte annos. Ha uma outra de aspecto +vulgar, posto que o não pareça entre outras que não sejam suas irmãs. + +Bernardo Joaquim Ferreira, o pai d'estas lindas meninas, tem uma +agradavel physionomia de homem de cincoenta annos, e maneiras polidas, +sem embargo do trafego commercial em que labuta desde rapaz. Revela a +esperteza ordinaria na sua classe, temperada pelo uso da boa sociedade +em que desbravou as rudezas congeniaes, e as adquiridas nos seus +primeiros annos. + +Ácerca d'esta familia, outras miudezas seriam intempestivas agora. + +Saudemos com lagrimas a entrada de Rachel n'esta historia, que principia +desde hoje a tomar as proporções d'um escandalo monumental. + + +XIX. + +--Não sabes quem hoje me escreveu?--disse D. Marianna a Rachel, +terminada a partida do quino? + +--A minha Antoninha do convento. + +--Sim? que novas lhe dá ella do filho? A mãi disse-me que a pobre +senhora vivia muito consternada com a paixão do rapaz pela tal Silvina. + +--Segundo me ella diz, continuou D. Marianna, o pobre Jorge está +enfeitiçado, e cuida ella que a maneira de o desenguiçar é mandal-o para +aqui, a fim de elle, á vista do comportamento de Silvina, se desenganar. +Acho esquisito o remedio. + +--O remedio é eficacissimo, snr.ª D. Marianna--disse o litterato.--O que +a mim me espanta é ser uma senhora quem o receita. O fim da sua amiga é +fazer com que o filho se sinta aviltado por amor de uma mulher ridicula. +O amor rompe todos os tropeços, transige com muitos defeitos e mesmo +vicios da pessoa ou... cousa amada; mas da mulher escarnecida é que não +ha cegueira que o aproxime. + +--Conhece a tal Silvina de Mello?--disse Rachel. + +--Já a encontrei em algumas partidas na Foz, minha senhora. + +--Que idéa fez d'ella? A sua apreciação deve chegar-se muito á verdade. + +--Pareceu-me, respondeu o poeta, que era galante, e até mesmo esperta. +Ouvi-a declamar acrimoniosamente contra uns folhetins que denomina +_Felizardas_ as senhoras provincianas, e pasmei da imprudencia com que +desprimorou as damas portuenses, chacoteando-as por um lado que é +justamente, a meu vêr, o mais vulneravel da fidalga do Minho... + +--Qual é?--interrompeu Rachel com vivacidade. O jornalista, reconhecendo +a inconveniencia da resposta ajustada, fez, como por disfarce, esta +pergunta: + +--Não é certo estar tractado o casamento da tal senhora com um +commendador fulano de tal Andraens? + +--Assim dizem--respondeu D. Marianna--pelo menos cuido que... + +--Parece-me que não é anno de fortuna para ella... atalhou o snr. Manoel +Pereira, coçando a verruga media da aza esquerda do seu nariz. + +--Por que?--disse Rachel olhando de través o marido. + +--Por que o meu amigo commendador, desde que foi o baile do visconde dos +Lagares, nunca mais se levantou, e vai cada vez a peor. O homem já +soffria molestia interior, e comeu tanto á ceia, que esteve a +rebentar-lhe a tripa... Ainda ha quem queira bailes!... Se elle +estivesse em sua casa... + +Rachel, prevendo que seu marido aproveitava o ensejo para uma enfadosa e +desconchavada diatribe contra os bailes, cortou-lhe logo o fôlego +comprido das tolices com esta fina ironia: + +--Nem toda a gente leva aos bailes as tripas dos teus amigos... Com que +então--continuou ella, voltando-se para o jornalista--o amor não será +capaz de vencer a indigestão do noivo? + +--Segundo ouço ao snr. Manoel Pereira--respondeu o litterato em tom +lastimoso--a gentil menina está em risco de vêr o coração, que tão caro +lhe era, romper-se, batido pelas explosões do estomago que rebenta, +deixando a seu dono a gloria de morrer como Tito. + +Rachel e uma das irmãs sorriam; Manoel Pereira desconfiou do riso da +mulher, e disse mal encarado, com o nariz já roixo: + +--Se elle quizesse mulher tão bonita e mais rica que ella, não lhe +faltavam por ahi ás duzias. + +--Ninguem contesta o dito de v. s.ª--redarguiu o escriptor. + +--Mas o senhor parece que estava caçoando com o meu amigo...--tornou +Manoel Pereira. + +--É injusto o cavalheiro. Eu se tivesse quatro irmãs dar-me-ia por +ditoso se o seu amigo quizesse casar com todas quatro, e lamento não +saber o segredo de um tal Lucius que Plinio viu transformar-se em +mulher; por que se me eu podesse felizmente mudar em mulher, havia de +galantear o amigo de v. s.ª, e morrer de amores por elle se uma +indigestão rival m'o arrebatasse. + +Rachel soltou uma risada contagiosa: riram todos, salvo Manoel Pereira, +cujo nariz reluzia ao reflexo da luz, em differentes côres desde o +açafrão até ao talo da couve lombarda. + +O jornalista continuou, fallando para D. Marianna: + +--Tive tambem occasião de conhecer no hotel da Aguia d'Ouro o filho da +amiga de v. exc.ª Fallei com elle, e fez-me bem o perfume d'aquelle +coração em flôr. Que candura, que adoravel innocencia a dos vinte annos +de Jorge... creio que se chama Jorge! E, ao mesmo tempo, que +singularissimo typo de rapaz eu conheci com elle, e todos os dias +encontro por ahi atraz de uma prima de Silvina, e de um tal Guimarães, +linheiro, ou pregueiro, ou cousa que o valha... Que homem se fará +d'alli, se o céo o não leva d'este mundo e d'esta sociedade que tanto +precisa de um cenaculo d'aquelles apostolos!... V. exc.as de certo não +conhecem Leonardo Pires de Albuquerque, fidalgo da Maya, descendente de +D. Martim Pires da Maya, que gerou D. Pedro Pires, que gerou D. frei +Martim Martins, mestre da ordem do Templo no seculo XIII? De certo não +conhecem... + +--Nem é preciso conhecerem--exclamou Manoel Pereira--É um patife, que +concorreu muito para a doença do meu amigo Andraens! + +--Eu não pensava--replicou o poeta--que Leonardo Pires era um alimento +indigesto!... Se bem me recordo, v. s.ª disse ahi que a enfermidade do +snr. Andraens era uma indigestão! + +--Como de facto; mas, pelos modos, o tal brejeiro insultou-o no baile, o +homem atrigou-se, e sahiu cá para fóra afflicto, e nunca mais foi bom. + +--Não sabia isso; apenas me disseram que elle recommendára ao snr. +Andraens que não comesse tanto; e quer-me parecer que este conselho, +longe de ser insultuoso, tendia a prevenir a indigestão fatal que se +deu. + +--Deixemo-nos de contos...--instou o marido de Rachel. + +O sorriso d'esta era já forçado por vêr que o jornalista não tinha a +cortez caridade de conter as ironias que Manoel Pereira não percebia. + +--E D. Antonia que diz, mãi?--interrompeu Rachel. + +--Diz que Jorge Coelho vem para esta casa. + +--Para esta casa?!--acudiu Manoel Pereira abrindo a bocca, e arregaçando +o nariz até á testa. + +--Não tenho n'isso duvida nenhuma--respondeu Bernardo Joaquim Ferreira, +que tinha sahido e voltára momentos antes.--E dou-te parte, Marianna, +que Jorge já está na hospedaria, e não sei se será dever meu ir já +buscal-o esta noite. Aqui tenho um bilhete d'elle, pedindo-me que o +desculpe de não vir directamente aqui. + +--Como ainda é cedo, disse D. Marianna, podes ir buscal-o. O quarto está +preparado. A mãi descrevendo n'um estado tal de amargura que eu tenho +pena de o deixar sosinho na hospedaria. + +--Mas ha um inconveniente--redarguiu o snr. Bernardo.--Tenho gente no +escriptorio á minha espera para liquidar umas contas, e não posso +deixal-as para ámanhã, que os negociantes são da provincia, e partem de +madrugada. Se o snr. Pereira tivesse a bondade de ir á Aguia d'Ouro... + +--Homem, eu a fallar-lhe a verdade--disse Manoel Pereira--tenho aqui +n'este pé direito uns callos que me não deixam dar passada; se não da +melhor vontade; mas, sempre lhe direi o que penso respeito á vinda +d'elle para aqui. Eu não sei o que me parece metter n'uma casa onde ha +meninas novas um peralvilho que não gosa dos melhores creditos, e que de +mais a mais é amigo do tal Pires, que ha-de cá vir onde a elle, e o +mundo pega logo a fallar pr'aqui, pr'acolá, e ás duas por tres... Em +fim, meu sogro lá sabe o que faz... + +D. Marianna replicou com vehemencia: + +--O snr. Pereira não ouviu dizer aqui a este senhor que o filho da minha +amiga era um moço muito digno?! + +--Todos elles são muito bons, mas em minha casa é que elles não põem o +pé.--Disse Manoel Pereira, e fez menção de procurar o chapéo. + +Rachel relanceou sobre o marido um olhar severo. O escriptor fazia +figuras geometricas com as marcas do quino. As meninas olhavam-se entre +si com sorrisos rebeldes á prudencia. O bom Ferreira, apesar da sua +superioridade relativa de sisudeza e bom senso, não deixou de vacillar +ao choque das reflexões do genro. D. Marianna, porém, voltando-se com +energia para o jornalista, disse-lhe: + +--O senhor faz-me um favor dos que se pedem sem embaraço a um amigo +antigo? + +--Faça-me a honra de mandar-me, minha senhora. + +--Tem a bondade de ir á hospedaria, e acompanhar o filho da minha amiga, +o filho d'uma senhora a quem eu devi na minha mocidade o que não posso +pagar-lhe d'outro modo? + +O jornalista ergueu-se, e disse, tomando o chapéo: + +--Se elle estiver doente, ou na cama fatigado, mandarei um bilhete para +que o não esperem. Até já, ou muito boas noites, minhas senhoras. + +Sahira o jornalista, e D. Marianna enxugando lagrimas que não tinham na +apparencia muito cabimento alli, fallou assim: + +--Eu nunca disse a minhas filhas os favores que devo á mãi do meu +hospede; escutem-me, e depois dirão se o filho de tal anjo não será +digno de ser recebido como seu irmão. Eu fiquei orphã e pobre aos onze +annos. Entrei nas ursulinas de Braga, entregue á caridade da prelada, +que me achou com habilitações para ser uma simples criada grave de +convento. D. Antonia de Sepulveda tinha tambem entrado, n'essa occasião, +e era rica. Tratei-a com respeito, e ella a mim com familiaridade, para +chegar ao fim de me offerecer metade da sua mesada, e habilitar-me a ser +senhora entre as outras, que me olhavam com desestima, e com a falsa +piedade das ricaças do convento. Aceitei os favores da minha amiga, e +tão suave era o dever-lh'os, que nunca me julguei devedora, se não +depois que vim a esta sociedade conhecer o valor dos beneficios que +recebi de Antonia. Vivi cinco annos á sombra da generosidade d'ella: +prendei-me á sua custa, instrui-me com ella d'essa apoucada educação que +nos davam no convento; e já depois que a minha amiga sahiu para casar +obedecendo ás ordens de seus paes, continuei a receber as mezadas e os +presentes que ella recebia. Casei tambem passado um anno, fui feliz, +enriqueci, presenteei-a, mas a cada lembrança de amiga que lhe eu +mandava, respondia ella com mais valiosos mimos da sua casa. Penso ha +vinte e quatro annos no modo de ser util á minha querida Antonia; a +Providencia depara-me agora occasião de velar as commodidades do filho +d'ella. Haja ahi uma pessoa de boa fé a dizer-me que devia ser outro o +meu procedimento... + +--Ninguem se atreve a tanto.--disse Rachel com enfado.--Eu, se minha +mãi, por desgraça nossa, não existisse, levaria para minha casa o filho +da nossa amiga, da protectora de nossa mãi. Se eu tivesse um marido que +me quizesse roubar o prazer da gratidão em tão pequeno serviço, +amaldiçoaria a hora em que meus paes me subjugaram a tal homem... + +--Não te irrites assim, Rachel...--disse Bernardo Ferreira, ferido pelas +palavras da filha, que lhe apontavam direitas á consciencia, onde as +fibras do remorso doiam sempre. + +Entretanto, Manoel Pereira, franzindo o nariz, dilatava as ventas +hediondas, por onde vaporava a zanga. + +O incidente, passados minutos, foi cortado por um bilhete do escriptor, +dizendo que Jorge Coelho pedia desculpa, agradecia extremamente a +delicadeza, e convalescia da fadiga para no dia seguinte cumprir as +ordens de sua mãi. + + +XX. + +O jornalista encontrou Jorge Coelho na cama, e Leonardo Pires sentado á +banca. No semblante de ambos eram visiveis os signaes da altercação, que +fôra interrompida pela chegada do terceiro. O filho de D. Antonia estava +escarlate de febre, e anciado; o da Maya, se bem que de má catadura, +esboçava distrahidamente, a lapis, uns perfis de narizes caprichosos. +Jorge conheceu o litterato, e maravilhou-se da visita; Leonardo Pires, +mais familiarisado com o sujeito, ergueu-se, abraçou-o, e exclamou: + +--Aqui está o teu medico, Jorge! o teu Christo, Lazaro! + +--Temos _ecce homo_?! Dar-se-ha caso que o snr. Pires--disse o +jornalista sorrindo--me prepare algum calvario?... Como está o snr. +Jorge Coelho? O aspecto denota inquietação... + +--Não é inquietação;--atalhou Pires--é a sina maldita d'este desgraçado +que nos tortura a ambos... + +--Todos temos o nosso demonio familliar, snr. Pires--tornou o +escriptor--Socrates queixava-se do seu, e eram nada menos de dous os +demonios do divino philosopho, sendo o peor dos dous uma tal Xantippa... +Querem vêr que o snr. Jorge é energumeno d'alguma Xantippa ideal, que... +(O jornalista escreveu, e entregou a um criado o bilhete que foi +recebido em casa de D. Marianna). Jorge entretanto, sorrindo +contrafeito, respondia: + +--Não, senhor. Eu sou apenas victima das loucuras do meu condiscipulo. + +--Ó cavalheiro--clamou Pires irritado--diga ahi a esse ingrato quem é +Silvina de Mello. Não se trata aqui de desfolhar lindas chimeras, e +matar illusões queridas. A paixão de Jorge é uma nodoa que eu quiz +delir-lhe do coração, á custa mesmo do meu descredito e abominação +n'esta sociedade devassa. Tenha vossê a franqueza de dizer a esta +criança o que eu tenho sido, já que eu tive a boa sorte de lhe referir +ao senhor as minhas acções e palavras. + +O romancista achou de riso a gravidade da appellação de Pires para o seu +testemunho; mas perseverou-a na seriedade que o proposito pedia, e +disse: + +--O snr. Leonardo Pires tem dado provas exuberantes de amisade ao snr. +Coelho, verberando com prosperos sarcasmos uma menina em tudo +respeitavel, menos na sua virtude. + +--É de mais!--atalhou Jorge--Póde ser que Silvina mereça censura como +inconstante, sem com isso... + +--Deixar de ser virtuosa?...--interrompeu o poeta... + +--Justamente. + +--Não julga bem, snr. Coelho. A deshonestidade não póde ser virtude. A +mulher que enfeira o coração, e o põe á concurrencia, mirando ás +vantagens do pedido, poderá ser uma sagaz professora de economia +politica applicada ás mercadorias do coração, mas virtuosa é que ella de +certo não é. Para mim tenho que a virtude póde coexistir com a miseria +da mulher perdida que não tem a hypocrisia de expor o coração á venda; +porém, quero eu que não prostituamos a palavra, que é santa, cedendo-a á +que cuida cobrir as suas ulceras com o amicto de virgem. A snr.ª D. +Silvina de Mello, que eu vim, depois de cinco annos de ausencia, +encontrar occupando a vagatura d'outras aventureiras que eu cá deixei, é +uma senhora aleijada. + +--Ainda mais essa!--atalhou Pires--Eu nunca dei pelo aleijão de Silvina! + +--Aleijada de espirito, quero eu dizer, snr. Albuquerque. Que outro nome +se ha-de dar á lamentavel enfermidade moral d'uma menina que desperta +das suas illusões de infancia, esfrega os olhos, e começa a procurar em +redor de si um homem com alguns saccos de dinheiro? Ha ahi nada mais +torpe, mais nauseabundo na face da terra! A mulher que assim faz tem +alluido a sua virtude pela base, que é a vergonha. D'ahi ávante o pudor +é uma mentira, as côres que sahem ao rosto são irrupções de sangue como +as empigens, é um mechanismo da materia que o observador encontra mesmo +nos prostibulos. Que é o que bate no peito d'essa mulher, desde que a +ancia do dinheiro fez d'ella um estimulo de sensações? Quando ella +fallar nos affectos da sua alma, qual é de nós o que voluntariamente se +immolará ao escarneo de sua propria consciencia, respondendo ás Silvinas +com expressões de candura e boa fé? O snr. Jorge Coelho tem a +sinceridade de me dizer se me entende? + +--Entendo; mas não creio que Silvina seja a mulher que o senhor +qualifica. + +--Eu não a qualifiquei ainda: o que eu quiz foi a certeza de que o meu +joven amigo me entendeu a theoria: agora pertence á pratica o qualificar +Silvina. Está o snr. Jorge Coelho no Porto. Fez bem em vir. Isto é uma +questão de tempo. Faça as suas experiencias desde ámanhã em diante; mas +tenha a condescendencia de me ir communicando os seus descobrimentos. +Entretanto, restitua ao snr. Leonardo Pires o bom conceito em que o +tinha, que estes amigos são raros. Outro objecto. A minha commissão não +era vir discutir Silvina: Eu fui aqui enviado pela snr.ª D. Marianna +Ferreira e seu marido a fim de conduzir o snr. Jorge a casa d'elles, +onde foi recebida uma carta de sua mãi. + +--Oh! bravo!--exclamou Pires.--Temos homem! + +--Não atino com o seu enthusiasmo, snr. Albuquerque!--disse o escriptor. + +--Que mulheres, que mulheres tu vaes vêr, ó Jorge!--continuou bracejando +o da Maya.--As Ferreiras! a nata, a quinta essencia das mulheres bellas +do Porto! E a Rachel! ai! aquella Rachel, casada com o nariz mais +indecente que fez o acaso estupido, a quem o Creador entregou a +repartição dos narizes! A Rachel! a mulher dos olhos de antilopa! as +mais bellas carnes que ainda vestiram uma alma, se é que uma mulher +d'aquellas precisa de ter alma para ser perfeita! Ó Jorge, tu estás +curado! Quando vires Rachel, sentirás um coração novo, um coração +caldeado nas fragoas dos olhos d'ella! Eu vi-a uma vez, e creio que se a +visse segunda... + +--Iria á missa dos Clerigos vêl-a terceira, não é assim?--interrompeu o +poeta, rindo, com Jorge, dos transportes sinceros de Pires.--Rachel é +uma bella senhora, e uma nobilissima alma--continuou o escriptor +gravemente. + +--Mas, segundo a sua theoria--atalhou de golpe Jorge Coelho--essa Rachel +é uma das muitas aleijadas que por ahi ha. Não a conheço; mas sei que +ella casou com um brazileiro hediondo e rico. + +--Aquelle nariz!--disse Pires.--Tambem me quer parecer que a mulher +pouco vale na alma, quando contemplo o nariz de Manoel Pereira! + +--E eu creio que a sociedade--tornou Jorge--não desconsidera Rachel +porque ella escolheu um homem rico, podendo ter aceitado a +desinteressada pobresa e o coração opulento de muitos rapazes que a +cortejavam. Já se vê que a opulencia d'um sordido não desluz aos olhos +da sociedade a virtude d'uma senhora que se deu por ella. + +--São contos largos...--disse o romancista.--Custa-me que o cavalheiro +confunda Rachel com Silvina. Creia que offende uma martyr, snr. Coelho, +Rachel supporta o supplicio de Mezencio, com a resignação que santifica +a baixeza, se ella tivesse existido, e as culpas futuras, se ellas podem +existir. Não levo em paciencia o aggravo feito á pobre menina. Vou +contar-lhe em quinze minutos a historia do casamento de Rachel. Bernardo +Joaquim Ferreira conhece o valor do dinheiro, e duvida da existencia +d'umas paixões, que podem vingar e prosperar sem dinheiro. + +Ás filhas chama-lhe suas, e não exclue d'esta propriedade o coração. O +seu pensamento fixo d'elle é casar ricas as filhas. Rachel era querida +de alguns amigos meus, espiritos dignos d'ella, que lhe teriam dado a +ventura, se os encontros predestinados dos espiritos não fossem o +mentiroso poetar de infelizes que nunca se encontram. Um d'esses amigos, +fui procural-o ao hospital de alienados, quando desembarquei ha cinco +mezes em Lisboa. Conheceu-me ainda, e as primeiras palavras que me disse +foram: «Morreu Rachel! A minha alma foi com ella.» Pobre moço! bem +sentia elle que já não tinha alma! Depois de dous annos de loucura, por +ignorados motivos, esquecido de tudo que fôra, tinha uma só +reminiscencia, como se todo o seu passado se concentrasse n'ella... +Vamos ao ponto, e desculpem-me d'estas intercadencias melancolicas. Os +senhores não sabem ainda o que é olhar para o passado aos trinta e cinco +annos, e vêr uma longa fila de espectros uns gotejando sangue, e outros +lagrimas... + +O poeta dissera isto tão do intimo amargurado, que nem Leonardo Pires +deixou de o escutar com magoa. Jorge, já dorido de suas tristezas, não +era para espantar que desse em lagrimas uma prova de sympathia á dôr +alheia. + +Proseguiu o romancista: + +Ha seis annos eram dous os homens indicados para maridos de Rachel. Quem +os indicava, e negociava com ardis, e negaças ignobis, sobre serem +immoraes, era o pai. Rachel detestava-os ambos. Manoel Pereira era um; o +outro era brazileiro tambem, menos repulsivo, melhor alma talvez, e +amigo do primeiro. Desde que se toparam a amar a mesma mulher, +odiaram-se, intrigaram-se e depreciaram mutuamente os seus haveres, +porque bem sabiam que Ferreira tinha a filha em almoeda. O primeiro que +a pediu foi Manoel Pereira, abonando-se com cem contos. O segundo não +dizia o seu valor. Foi o primeiro preferido, sem ser consultada a +victima. + +N'este tempo, Manoel Pereira entra em transacções com o governo, e perde +cincoenta contos. Ferreira, sabedor da perda, acolhe de novo o outro +concurrente, e cede-lhe a filha. Este carecia de ir liquidar o seu +negocio ao Rio de Janeiro. Mas, como a liquidação se detivesse mais d'um +anno, Manoel Pereira aventura-se em especulações mercantis, estas +prosperam-lhe, restaura-se das perdas, e rehabilita-se para esposar +Rachel. O negociante, que sabia o anexim do passaro na mão, receia que o +outro não volte, e quebra pela terceira vez o contracto. Rachel ignorava +estas asquerosas mercadorias. Annuncia-lhe o pai que ella é esposa +promettida de Manoel Pereira. A pobre menina quer defender-se primeiro +com razões, depois com lagrimas. Tudo lhe é rebatido com indifferença, +ou com palavras violentas de soberania paternal. Desde o dia em que se +fizera definitivamente a operação commercial dos quinze annos d'um anjo +formoso, como a esperança d'uma alma pura, com o homem de cincoenta +annos, sem o desconto de alguma feição boa do corpo ou da alma, Rachel +era perseguida pelo seu porco demonio de todas as horas. Se acontecia +Manoel Pereira estar na sala, e a lagrimosa criança se demorava no seu +quarto para encurtar as horas do supplicio, ia lá o pai buscal-a; e se +as grosserias a não compelliam a aligeirar o passo, não era raro +ameaçal-a de pancadas, e mesmo fazer executiva a paternal justiça. +Quantas vezes Rachel entrou na sala, com as faces escarlates das +bofetadas que o pai lhe dava como incentivo para saber aproveitar-se da +fortuna caprichosa! Era esta a lastimosa situação de Rachel quando eu +fui para o Brazil. Recordo todas as palavras que a formosa criança +me disse a ultima vez que fallamos.--Tenha animo para a +obediencia--disse-lhe eu--Bem póde ser que Deus a remunere d'essa +virtude com imprevistas felicidades. + +--Eu dou por terminada a minha vida--respondeu-me Rachel com os olhos +enxutos--Tenho quinze annos, e ha tres mezes que olho para a minha +existencia, como se ella fosse já longa de trabalhos. Os paroxismos +hão-de ser rapidos. Sei que nem eu nem alguma de minhas irmãs podemos +sobreviver á mocidade. Estamos todas feridas da mesma morte. D'aqui a +pouco lançarei o coração em golfadas de sangue, e meu pai não terá +remorsos de ter cooperado para a minha morte, por que elle já viu dous +irmãos meus cahirem no verdor dos annos na sepultura onde cahiremos +todos. Vá, que não me torna a vêr... + +Eu sahi de ao pé de Rachel, com o coração opprimido, mas contente de mim +porque chorava as primeiras lagrimas, depois d'outras que eu julguei +serem as ultimas... Rachel casou. Não morreu. Mentiu-lhe o anjo que +fallava áquella sua innocentissima alma. Vive. É uma agonia sem nome... +O quarto de hora já lá vai. Agora, meus amigos, não venha mais o nome de +Silvina como um escarro á face de Rachel. Até ámanhã, snr. Jorge. Depois +d'estas reminiscencias, eu tenho um singular coração que se brutifica, e +uma alma que detesta a sociedade. Boas noites. + + +XXI. + +Cuidava o leitor que estava livre do sujo José Francisco Andraens; do +estouvado Leonardo Pires; do nariz de Manoel Pereira; da erudição +mythologica de fr. Antonio; do mettediço jornalista; da fidalga de +Margaride, adeleira fraudulenta do seu roto coração; da Francisquinha da +Cunha, promettida esposa do linheiro das Hortas; do morgado de Santa +Eufemia, rival do Andraens; do Egas de Encerra-bodes, illustrissimo +sangue neogothico; de Jorge Coelho, alma pura e candida e apaixonada até +enfastiar o bom siso de quem nos atura, a elle e a mim; e, finalmente, +de Rachel. + +Ai! não me digam que estavam enfastiados de Rachel!... As lindas +mulheres só enfastiam os seus maridos, e desagradam ás mulheres feias. +Parece que a propria moral, severa como a directora d'um collegio, se +compraz ás vezes de as vêr louquinhas, se o ellas são. A belleza é o +poder moderador dos delictos do coração. Uns lindos olhos são a mais +commovente rhetorica em defeza das culpas que a intolerancia lhes +assaca. Um braço gentil, que descuidosamente se denuncia nu, abala o +animo do juiz austero com mais vehemencia que a mimica de Hortencio e +Mirabeau. O sorriso discreto, se não é bem despreso nem expressão de +orgulho da culpa, abranda e enternece mais o peito abroquelado de +indifferença, que a lacrimosa peroração dos que vingam apertar com os +cilicios da piedade o coração de um jury. + +Mas a que proposito cahe esta especie de defeza de Rachel?! Peccou ella, +por ventura? Não, minhas senhoras. Rachel tem um só peccado de fraqueza; +foi optar pelo marido, entre o marido e o suicidio. Desceu ao plebeismo +das outras, que lhe haviam dado o exemplo da renuncia de si proprias, +podendo afidalgar-se e ser unica pelo heroismo de se entregar á justiça +de Deus, fugindo ás injustiças do mundo. A morte moral, que a sociedade +inflige ás malfadadas, que a cupidez d'um pai acorrentou a um marido +abominavel, se o coração, em phrenesis rompeu o grilhão, é, mais +dolorosa que o suicidio tantas vezes, quantos são os repellões que a +sociedade lhes dá até as engolfar no abysmo sem sahida. + +Querem dizer-me que Rachel, se tivesse aceitado o beijo da morte, e +fugisse ao beijo marital de Manoel Pereira..., (um beijo de Manoel +Pereira, com aquelle nariz na vanguarda... santo Deus!) ninguem se +lembraria do seu heroismo a estas horas? Dizem mais que o desdem da +gente séria, e a censura da gente religiosa, e a irrisão da gente +parvoa, e o contentamento de outra que Manoel Pereira iria escolher, +entre mil, n'esta grande feira, fariam do suicidio de Rachel assumpto de +reprovação e de affronta á sua exquisitice? Tambem o penso assim. Estou +que ninguem já hoje se lembraria do pobre anjo que fôra queixar-se a +Deus de o terem querido despir de suas pompas, de suas flôres, de sua +aureola, de sua virginal pureza, para o prostituirem aos regalos d'um +satyro revelho, que perdeu alma e coração no grangeio da riqueza, com a +qual vem mercar um recreio para a sensação do corpo, abrazeado na vida +ociosa! Ninguem se lembraria da nobre alma, que preferira deixar as +graças do corpo aos vermes, para o não dar ao cêvo de uma besta-fera. +Assim é; porém, se uma vez Rachel voltar o rosto de enojada do cadaver a +que a prenderam; se a força, que o coração lhe fizer, tiver comsigo a +força do exemplo bem succedido e quisto da sociedade; se o seu fragil +batel de virtude, forçada e violenta, se desconjuntar e abrir, rebatido +pela tempestade das paixões; se em fim, aquella honra, a +constrangimento, e não de vontade aceite, se fôr a pique, a sociedade +que dirá? + +A sociedade--replica o leitor que a conhece e se conhece--a sociedade +faz-se desentendida por cortezania; por conveniencia; porque sabe a +historia do olho com trave, que se abria espantado de vêr uma aresta no +olho alheio. A sociedade fez uma convenção tacita, de que é fiadora a +civilisação. Em substancia, este contracto social dá os seguintes +resultados: + +1.º Respeitar a liberdade do coração humano, sem prejuizo do soalheiro +das salas, em que é preciso entreter o tempo, e fingir a gente que não +conhece senão as pessoas que estão fóra das salas. + +2.º Fingir, outro sim, a gente que está convencido da tolice dos outros, +para que os outros nos tenham em conta de boçaes de boa fé, e não de +espertos sem pudor. Dá-se um exemplo em hypothese: tal marido sabe que o +mundo o lastima ou moteja; mas como a lastima e a irrisão cauterisam, +sem curar, a chaga do vilipendio, o lazaro finge-se de optima saude, e +aproveita occasião de gemer pela molestia do seu amigo, gafado da mesma +lepra. Estes dous homens, se se topam, e fallam da corrupção social, +voltam as costas a rir um do outro, e vão cada qual por seu lado, +espalhando a risada contagiosa. + +3.º Não perdoar o que se chama «escandalo». Escandalo é não ter a +sagacidade da hypocrisia, e o despejo de injuriar o senso publico, +tratando-o de nescio. Escandalo é tomar a serio as brincadeiras do +coração, e vir dar alguem á sociedade uma prova de que despresa o +contracto social. Escandalo é cahir da prostituição legal á honra do +coração, que cuida ennobrecer-se e regenerar-se; victimando o nome, o +estado, e o que a inveja chama fortuna, ao goso de conhecer a liberdade +na miseria. Escandalo, a final, o escandalo maximo e abominavel e +imperdoavel é a mesma miseria. + +A sociedade sabe que o crime é um dos elementos da ordem das cousas, e +julga-o um mal necessario, sem o qual não haveria bem-aventurança nem +inferno, nem anjos, nem demonios, e Deus seria inutil por não ter que +fazer, visto que os theologos lhe não attribuem occupação que não seja +julgar, premiar, condemnar, e perdoar, segundo lhe pedem, ou conforme a +sua espontanea misericordia quer. Ora, sem o crime, este complicadissimo +funccionalismo, cujo presidente é o Creador do céo e da terra, do mar e +do sol, da avesinha que regorgeia nas moitas, e do leão que atrôa os +desertos, do homem como Alexandre e Napoleão e do homem como José +Francisco Andraens, e Manoel Pereira... dizia eu... eu! eu não dizia +nada: quem dizia que o crime é necessario era o jornalista, amigo de +Guilherme do Amaral, conversando na «Aguia d'Ouro» com Jorge Coelho, +alguns dias depois do encontro em que os vimos no capitulo ultimo da +primeira parte d'estas biographias. + +Vamos agora á historia. + +Achou Jorge em casa de D. Marianna Ferreira o seu quarto e sala +adornados com muito aceio e selecção. Melhor que isto, era o gosto de se +vêr acolhido sem estranhesa nem demasias de ceremonia. Os filhos e +filhas de D. Marianna, logo ao segundo dia, o tinham como pessoa da +familia, e porfiavam em divertil-o d'aquelle geito de tristeza, que era +natural, e das abstracções penosas, que tinham a sua razão de ser na dôr +do coração. + +D. Marianna, senhora algum tanto despreoccupada do artificio, que tão +preciso é, chamado delicadeza, logo que Jorge lhe deu uma aberta, fallou +na paixão, que o seu hospede tinha por Silvina, e nos desgostos, +nascidos d'esse louco amor, para a sua querida Antonia. + +D. Marianna, em termos desabridos, disse de Silvina o que era notorio, e +talvez lhe exagerasse os defeitos. + +Jorge escutou-a respeitosamente, e ao mesmo tempo admirou-se de ouvil-a +assim fallar na presença de suas filhas, que todas estavam presentes, +salvo Rachel, a quem elle não tinha ainda visto. + +Lembrado está o leitor de ter sahido Manoel Pereira zangado de casa de +sua sogra, por que a maioria lhe rejeitára o parecer de não ser recebido +Jorge em casa d'aquella. Como Rachel sahisse então da sua paciente +annuencia aos votos irracionaes do marido, este, mal afeito a ser +contradictado, protestou convencer a mulher e a sogra de que não queria +relações com tal sujeito. + +No dia seguinte, ao abrir da manhã, mandou preparar alguns bahus, entrou +n'uma carruagem com Rachel, e foi conduzil-a a uma quinta, seis leguas +distante do Porto, nas immediações de Barcellos. Quizera a submissa +senhora despedir-se de sua familia; mas Manoel Pereira, franzindo as +verrugas do nariz, e enviezando o beiço na sua ordinaria expressão de +zanga, atalhou as intenções da saudosa Rachel, dizendo que a mulher +casada não tinha familia senão seu marido. E Rachel, fitando os olhos +coruscantes de raiva no nariz do esposo, disse com o fel do coração nos +labios, que sorriam sardonicamente: + +--Deus te livre que eu alguma hora me esqueça de que tenho uma familia, +que não é meu marido... Se lhe eu perder o respeito a ella, se os +estimulos de minha exemplar mãi me faltarem, tu verás então que eu não +tenho outra familia. + +O marido, arregaçando os musculos businadores, e as azas nasaes com +elles, regougou: + +--Põe lá essas doutorices em miudos, que eu não te entendo. + +--Se me tu entendesses--redarguiu Rachel--nunca me forçarias a fallar +assim á tua ignorancia. + +Manoel Pereira cascalhou uma risada de velhaco, e coçou-se atraz da +orelha esquerda. + +Não se trocaram palavra no decurso de seis leguas. Rachel ia linda pelo +escarlate da sua colera; e Manoel Pereira bufava, quando não cabeceava +de somno jogando contra o hombro de sua mulher. + +A gentil senhora, a espaços, encarava no marido, e dizia entre si: «Que +destino o meu! Este é o homem, que me deram para a vida! Querem que seja +d'este homem o meu coração! Ter uma só existencia, e curta como hade ser +a minha, e hei-de sacrifical-a toda a esta cousa que vale duzentos +contos de réis! + +«Que aproveitou meu pai d'este monstruoso enlace? Que lucrou este homem +em se aviltar para me chamar sua, se elle mesmo conhece que lhe obedeço +abominando-o? Mas eu não devia soffrer, porque Deus bem sabe que fui +levada de rastos, e que me perdi por ser boa filha, e me tenho +atormentado para ser uma victima obediente dos calculos de minha +familia! Calculos! quaes, e de que serviram? Quem foi feliz com +elles?!...» + +Estes mentaes soliloquios eram cortados por algum ronco pavoroso, ou +espertar estremunhado do negociante de couros, quando não era uma +pancada da mão esponjosa que algum sonho sacudia ao peito de Rachel. + +Chegaram ao seu destino, e pouco depois as cargas da bagagem, e as +criadas de Rachel. Manoel Pereira passou na quinta aquelle dia e o +seguinte; ao outro, voltou para o Porto a fim de fazer uma carregação de +couros, e activar uma leva de escravos brancos para o Rio de Janeiro. + +Rachel, á hora crepuscular da noite d'esse dia, foi sósinha sentar-se +nas escadas do cruzeiro, que defrontava com o portal da quinta, e então +chorou as lagrimas represadas em tres dias de exasperada angustia. + +Como tu serias linda alli de uma formosura do céo, Rachel! Qual +Magdalena mais linda inventou o buril aos pés da cruz misericordiosa! E +se anjo tu eras de purissima alma; se as mesmas lagrimas te depuravam de +intenções culposas, que alegria não seria a do teu Creador, vendo-te +assim incontaminada, com menos ventura que muitas que não tinham no +coração uma fibra incorrupta! + +Se a essa cruz voltares, n'outra tarde, a pedir perdão da queda, hão-de +os anjos chorar-te, ó Rachel; mas pedirão a Deus que te leve para si e +para elles, como se houvesses cumprido immaculada o teu desterro do céo. + + +XXII. + +José Francisco Andraens venceu a morte, que lhe entrára no buxo, +disfarçada nos dez pombos, que elle ceiou, em casa do visconde dos +Lagares. + +Das recahidas é que ia sendo impossivel salvar-se. Quando a medicina lhe +empunha um caldo simples com meia onça de pão esfarelado, José Francisco +desfazia meia gallinha na tigela. A inflammação gastrica +reaccendia-se-lhe nas cavernas, e a morte voltava de novo a espremer-lhe +os succos das tres barrigas até descorçoar rebatida pela brutal +compleição. A final nem a medicina pôde acabal-o! + +Ergueu-se José Francisco algum tanto abatido, um pouco pallido, quebrado +de vista, e mal seguro das suas pernas zambras. Deu um passeio de +carroção até á Foz, e almoçou com appetite. Voltou no dia seguinte, e +almoçou duas vezes. Cubiçou pescada, por que a viu sahir das redes, e +mandou cozer uma com cebolas e batatas. Depois de jantar, dormiu um +somno de justo, com a barriga repleta, (cousa que não succede muitas +vezes aos justos)--e sahiu de tarde a tomar a fresca em Carreiros, onde +a fortuna lhe deparou uma vendedeira de manjares brancos e pasteis de +Santa Clara, que lh'os vendeu todos a olho, e elle comeu, empinado sobre +um penedo sobranceiro ao mar. + +Tomada a refeição, José Francisco limpou o suor da papeira, e lambeu os +beiços pulverisados do assucar dos pasteis. Depois descobriu a cabeça á +bafagem fria do oceano, cruzou os braços em postura de quem medita, e +pensou assim: + +--Como isto é tamanho! Como se faria o mar? Por que será que o mar +cresce e minga? Quantas pescadas haverá no mar? A gente sempre a comer +peixe, e nunca se acaba! + +Entrava José Francisco na solução d'estes problemas, quando a linha do +seu horisonte foi cortada por um barco a vapor. Topetaram então com o +sublime do engenho humano as suas meditações: + +--E o vapor!?--dizia elle--Sempre os homens tem idéas! Pelos modos o que +faz girar as rodas é o fumo do carvão! Uma cousa assim! E como a gente +come boa carne a bordo d'um vapor inglez! Bons tempos eram aquelles em +que eu viajava, e comia tanto, sem me sentir enfartado como agora que +qualquer cousa me trabalha cá no interior!... + +Estas considerações entristeceram José Francisco, e o espectaculo do +oceano enfastiou-o. Ergueu-se, desceu do seu throno de caranguejos e +algas, e foi dar alguns passeios na lingueta de pedra, onde então +passeavam muitas familias. + +Entre estas estava Francisca da Cunha conversando com Antonio José +Guimarães, o linheiro; e Silvina de Mello procurando conchinhas na +praia. + +O linheiro foi comprimentar o commendador, e D. Francisca chamou a +attenção da prima. + +José Francisco, logo que viu Silvina, perdeu a cabeça. + +É preciso explicar o que o leitor já devia saber, se esta historia fosse +contada com mais arte. + +Quando Andraens cahiu doente, Silvina mandou saber do seu estado, e teve +quem lhe assegurasse que o illustre enfermo succumbiria ao typho, +resultante da gastrite. Ao mesmo tempo, disse-lhe alguem que José +Francisco fizera testamento, sendo uma das verbas testadas aos seus +parentes de Cozelhas a quantia de um conto oitocentos e vinte e cinco +mil e setenta reis, de que lhe era devedor Pedro de Mello, declarando a +quinta hypothecada ao pagamento da quantia, e juros da lei. + +Silvina não mandou saber do homem; e Pedro de Mello, que viera ao Porto +para apressar o casamento, tão indignado ficou da avareza do moribundo, +que deu louvores a Deus de matar a tempo o villão, para que sua filha se +não conspurcasse na lama de tal javardo. Era o sangue escandecido do +sargento-mór d'Amarante que refervia nas veias do neto. E, ao mesmo +tempo, como o morgado de Santa Eufemia andasse ahi nas ruas do Porto, +exhibindo um rosto de amargura e uma gravata verde-gaio com alfinete de +cabeça d'ouro rendilhada, Pedro de Mello disse á filha que seria +prudente não dar de mão ao morgado, porque lhe constava que o pai tinha +soffrido um insulto apopletico, e não poderia viver longo tempo. + +Silvina, anjo de submissão, accedeu á vontade paternal, e trocou algumas +palavras com Christovão Pacheco, quando ambos immergiam no mar, e +recebiam a unção conciliadora da mesma onda. Succedeu assim o caso em +que pegou o desamuarem-se: + +O morgado, ao aproximar-se a onda, dava urros, e mettia-lhe a cabeça com +furioso impeto, perneando fóra d'agua. Como Silvina estivesse perto +d'elle, viu que o sapato d'ourêlo n'um d'esses pinotes de arlequim +maritimo, lhe saltára de um dos... dous pés--digamos dous pés por +deferencia á historia natural.--E, quando o sapato, entumecido de agua, +ia ao fundo, Silvina disse á banheira que apanhasse o sapato do +cavalheiro. A tempo foi isto que o morgado o andava procurando á tona +d'agua; e, como ouvisse a magica voz da dama, e visse o sapato na mão da +banheira, que lh'o atirava a elle, Christovão, bem assombrado, disse a +Silvina: + +--Obrigado á sua attenção, minha senhora! + +--Não tem de quê--respondeu Silvina, sorrindo.--Porque não toma o senhor +o seu banho mais quieto? + +--Gosto d'isto assim;--respondeu o morgado. + +--Eu cuidei que era o nervoso que o obrigava a dar cambalhotas na agua. + +--Nada, não é, minha senhora; é que eu gosto de brincar com o mar; com o +amor é que eu já não brinco. + +--Nem deve brincar, porque o amor gosta de ser tratado seriamente; e o +senhor zomba com as victimas d'elle... + +--Eu é que zombo, minha senhora!... Não perca esta onda, que é boa. + +O de Santa Eufemia arremetteu com a onda, e fez proezas de natação, +deixando-se ir de costas no dorso da vaga, que o levou á praia. + +Como Silvina sahisse do mar, o morgado sahiu tambem, vestiu-se, e +esperou, disfarçadamente, a sua mulher fatal. Sahiu Silvina da barraca, +e deu de rosto com Christovão Pacheco. Sorriu-se, e respondeu á cortezia +do fidalgo de Freixieiro. Deu alguns passos, procurando Francisca da +Cunha; e, como a visse entre duas barracas protectoras conversando com o +linheiro, sentou-se a um recanto, sosinha, e meditativa. O morgado +sentia caimbras nas pernas e saltos do coração. Girava em roda d'ella, +puxado por magnetismo irresistivel. A final fez ao seu acanhamento o que +fazia ás vagas: metteu a cabeça, e foi. + +Silvina recebeu-o agradavelmente, e conversou com elle um quarto de +hora. D'esta conversação resultou ficarem convencionados para tomarem o +banho juntos no dia seguinte, e assim nos oito dias que decorreram. + +José Francisco Andraens convalescia da ultima recahida, quando teve +noticia da deslealdade de Silvina. Desafogou no seio do visconde dos +Lagares, e deu procuração para ser demandado Pedro de Mello por um conto +oitocentos e vinte e cinco mil e setenta reis, e juros da lei. Com estes +acontecimentos coincidiu a ida do commendador á Foz, e o seu encontro +com Silvina em Carreiros. Agora está dada a razão de ter perdido José +Francisco o tino, quando a viu á cata de conchinhas. + +--Ó prima Silvina--disse Francisca--olha que está aqui o senhor +commendador Andraens. + +--Bem se lhe dá ella que eu esteja aqui ou em casa do diabo--disse com +ira e amargura José Francisco. + +Silvina avisinhou-se do grupo, e disse serena e em tom severo: + +--Folgo muito em vêr restabelecido o credor de meu pai. Ser-me-ia +dolorosa a sua morte, por muitas razões, sendo a primeira o receio de +vêr meu pai soffrer alguma penhora a requerimento dos herdeiros do +senhor commendador. + +José Francisco respondeu com promptidão sem mudar de côr: + +--Quem deve, paga. É como é. A senhora esperava ser minha herdeira? + +--Não, senhor; esperava merecer-lhe a consideração de mulher que +estivera para ser sua esposa. Esperava que o senhor não andasse jogando +entre mim e meu pai com um punhado de ouro, que não vale para mim este +punhado de conchas. Esperava, finalmente, que o snr. José Francisco +Andraens não viesse por si mesmo certificar a conta, em que é tido, de +possuir uma riqueza que é o seu flagello, e o das pessoas a quem +empresta uma migalha das suas sobras. O senhor, logo que se viu em +perigo de morte, esqueceu-se de que eu me tinha desembaraçado de todos +os obstaculos para ser sua mulher, e testou a insignificante divida de +meu pai, para morrer sem deixar saudades a alguem n'este mundo. Desde +que v. s.ª praticou semelhante baixeza em que conceito queria que o eu +tivesse? + +José Francisco tartamudeou esta resposta: + +--Eu não estava escorreito do miolo quando fiz o testamento. Lá foi o +meu amigo visconde que arranjou tudo, e eu assignei sem dar tino de mim. +Se offendi o senhor seu pai, queira perdoar. + +Não ha que vêr: Silvina era a mulher fatal de tres corações, que por +ella andavam perdidos. Andraens, como a visse e ouvisse, perdia a +consciencia da sua dignidade, e--o que mais é para assombro--a +consciencia de credor. Quanto mais arrogante Silvina lhe castigava a +natural grosseria, mais escravo se humildava José Francisco. Fulminava-o +a electricidade dos olhos d'ella, e tinha a sua voz um encanto, que +faria lembrar o da magica da Colchida, se elle não fosse pôrco, antes de +ouvil-a. Pasmava elle do feminil predominio d'aquella mimosa mulher que +o sopesava; mas este espanto era submisso, e a submissão amor, que os +romancistas chamam o fatidico, o predestinado, o invencivel. + +Antonio José Guimarães, avesso á reconciliação de Silvina com o morgado, +e desejoso de a vêr ligada ao seu amigo Andraens, esforçou-se em +desamual-os, dando explicações a favor d'um e d'outro, de modo que ambos +já as escutavam silenciosos. José Francisco acompanhou Silvina e +Francisca, promettendo vir jantar com ellas no dia seguinte, e +authorisou o linheiro a dizer de sua parte á menina que por causa d'elle +não se havia de desarranjar o que estava tratado. Mandou immediatamente +sustar a começada execução sobre Pedro de Mello; presenteou com +alfinetes e pulseiras as duas fidalgas; tomou casa na Foz; deu a Pedro +de Mello as satisfações que o pundonor do fidalgo exigia, e deixou ao +arbitrio d'este as condições da escriptura nupcial. + +E o morgado de Santa Eufemia? Esse continuava a dar cabriolas nas ondas. + + +XXIII. + +Em fins de Setembro, foi Jorge Coelho, na companhia de Leonardo Pires, á +Foz. D. Marianna contrariára-lhe o desejo, até áquelle dia, por saber +que a ventoinha de Margaride lá estava, desafiando, com as suas +evoluções amorosas, a irrisão da gente frivola e a indignação das +pessoas sérias. O jornalista, porém; que era oraculo em casa do +negociante Ferreira, aconselhára a excellente amiga de D. Antonia a não +impedir que Jorge visse o espectaculo irrisorio ou repugnante em que +Silvina se exhibia. + +Estava ella sentada nas ribas fragosas, que marginam o «caneiro» onde os +grupos se banhavam. Francisca da Cunha estava, ao lado da prima, +conversando com o linheiro. O morgado de Santa Eufemia, n'outra +eminencia do fragoêdo, abarcava as pernas com os braços, e apoiava o +queixo entre os joelhos. Na especie de ilha que fórma a outra riba do +caneiro, andava aos pulos Egas de Encerra-bodes, ensinando um cão da +Terra-Nova a saltar ás ondas. E era aquelle o vulto mais pitoresco da +praia, envolto no seu cobrijão escarlate, franjado de borlas verdes, e +cahido a um lado com a natural graça, que usam dar-lhe os provincianos, +vesados áquella elegancia de feiras. + +Jorge de Sepulveda avistou de longe Silvina, e disse a Pires: + +--Lá está ella... Não passemos d'aqui. + +--E que quer dizer não passarmos d'aqui?--acudiu o da Maya, accendendo o +charuto no cachimbo denegrido d'um banheiro--Queres tu, amigo Jorge, +fingir o que não és? Apraz-te passar por tolo no conceito d'aquella +mulher?! + +--Julgue-me ella como quizer...--replicou elle--concedo que seja tolice +isto, mas... é cedo ainda para ser... homem. Eu amei seriamente Silvina. +O amor e o remorso são espinhos, que não desencrava do coração quem +quer. Para que te hei-de eu mentir, se me não posso enganar a mim? Não a +esqueço, nem se quer a despreso áquella mulher. Minha mãi ajoelhou +commigo sobre a sepultura de meu pai, e pediu-me, pela memoria d'elle, +que me vencesse e levantasse da minha miseria. Quiz, e não pude, meu +amigo! Como queres tu que eu possa dissimular á penetração de Silvina o +que por ella sinto?! Melhor é que me ella não veja. Vai tu, se queres: +eu espero-te aqui, e voltaremos logo para o Porto. + +Jorge sentou-se n'uma fraga a distancia; e Leonardo Pires, vibrando o +chicote, foi postar-se a pouca distancia de Silvina, conversando com o +morgado de Santa Eufemia. + +--Então quem namora agora a menina?--disse o da Maya--O meu amigo de +certo não, que o vejo aqui amuado. Jorge Coelho tambem não, que está +acolá conversando com a natureza, e lendo o seu destino no vôo das +gaivotas, como Catão d'Utica. + +--Que é?!--disse Christovão, receioso de que o nome do romano fosse +algum chasco á sua ignorancia. + +--Catão d'Utica, disse eu, meu caro senhor; não conhece este personagem? + +--Nada, não conheço--replicou o morgado, voltando o rosto para o lado de +Silvina, que o remirava com disfarce por entre o franjado da sombrinha. + +--Mas ha-de conhecer aquelle outro personagem que lá vem--retorquiu o da +Maya. + +Christovão olhou na direcção indicada, e viu José Francisco Andraens, +que descia lentamente a calçada que conduz á praia. Não teve mão da sua +raiva, de mais a mais aguilhoada pela facecia de Pires: fitou Silvina +com um sorriso de ironia bruta, e disse-lhe em alta voz: + +--Lá vem o nosso homem! + +E soltou uma casquinada de riso, dando upas sobre a pedra, com as pernas +apertadas entre os braços. + +Silvina virou-se de lado com repellão, e Leonardo Pires exclamou: + +--Estão bonitos! isto sim, que daria idéas a um Gavarni cançado! Ó +humanidade tu és a caricatura dos monstros que a imaginação cria nos +seus delirios de cognac e absyntho! + +Dito isto, com pasmo d'algumas familias de Traz-os-Montes, que por alli +se agrupavam, Leonardo desceu do fragoedo para a praia, ao mesmo tempo +que José Francisco se aproximava de Silvina. + +--Ora viva!--disse o commendador á fidalga de Margaride--Como passou? + +--Excellentemente, e o snr. Andraens? + +--Está feito; não me dei muito bem com a ceia. Appeteceu-me uma lagosta, +e trabalhou-me cá dentro toda a noite. Agora, estou mais desempachado, e +acho que vamos ao banho. + +--Quando quizer. + +--Sempre me sento um bocado a arrefecer--tornou José Francisco, +apalpando as pedras, e ajustando, o melhor que pôde, com as asperezas +d'ellas as roscas de carne cuja flexibilidade se moldava ao anfractuoso +da rocha. Depois, bramiu um urro de satisfação, e cruzou as mãos sobre a +barriga n.º 2. + +--Com que sim--continuou elle--Em que estava a senhora a malucar? + +--A malucar?!--disse Silvina, franzindo a testa. + +--Sim, dizia eu, se estava a cogitar n'esta vista do mar... + +--Ah! sim... estava... + +--A fallar a verdade,--tornou elle, recolhendo-se--isto é uma obra que +faz pasmar a gente! O que me dá no goto é isto de crescer e mingar o +mar!... A senhora sabe a razão? + +--Dizem que é effeito da attracção da lua. + +--Da lua!--atalhou com espanto José Francisco. + +--Sim, senhor, da lua; é o que dizem os entendedores; mas como se faz o +fluxo e refluxo do mar é que eu não sei, nem mesmo me importa saber... + +--Da lua!--tornou o commendador, olhando para a abobada celeste, e +gesticulando mudamente com os braços, como quem se esforçava por +entender a acção da lua sobre a agua, com um imaginario artificio de +alcatruzes.--Da lua não póde ser!--disse elle por fim, com a energia e +aprumo de Galileu, á sahida do carcere. + +--Pois então não seja!--disse Silvina com enfado. + +--Porque a lua--tornou José Francisco, com os olhos no céo, e os dedos +das mãos afastados entre si--a lua está lá em cima, e... + +--E o mar está cá em baixo...--atalhou a menina, espirrando um frouxo de +riso. + +--Ora ahi está! E a senhora ri-se!? Eu queria que os doutores me +explicassem como é que a lua empurra o mar e puxa depois por elle... Ó +snr. Guimarães! olhe aqui que vai já. + +O snr. Guimarães era o linheiro, que estava a pouca distancia com +Francisca da Cunha. Vieram ambos ao chamamento de José Francisco, e ella +principalmente attrahida por um tregeito da prima. + +--Diga-me cá: vossê sabe como é que a lua faz isto de crescer e mingar o +mar? + +--Eu não estudei nada d'isso--respondeu o linheiro--mas, em quanto a +mim, a maré cresce quando o vento é de mar, e minga quando o vento é de +terra. + +--Ah! pr'ahi, pr'ahi! diga-me d'isso!--acudiu radioso o +commendador.--Mas da lua!... É que estava cá a minha Silvininha a dizer +que era a lua. Quem lhe metteu isso na cabeça, menina? + +--Foi alguem que estava a zombar de mim!--disse Silvina gargalhando +francamente com Francisca da Cunha. + +--Isso entendo eu... Agora--tornou José Francisco--se querem ir lá +conversar sosinhos, vão, que eu tenho que dizer aqui a esta menina uns +arranjos cá da nossa vida de noivos. + +Francisca e o homem da rua das Hortas afastaram-se para irem occupar as +cadeiras, que deixaram junto d'uma barraca; mas encontraram-nas tomadas +por Leonardo Pires e Egas de Encerra-bodes. + +Ergueu-se Egas, e Francisca sentou-se, cuidando que Leonardo cederia a +sua cadeira a Antonio José Guimarães; mas Leonardo não se moveu, e o +linheiro estacou diante d'ambos, com os olhos fuzilantes sobre o da +Maya, que assobiava apparentemente distrahido a canção popular, cuja +letra é: _Muito bem seja apparecido n'esta funcção_... + +Francisca ergueu-se, e deu alguns passos em retirada. O linheiro, porém, +bamboando a cabeça, resmuneou estas palavras, mal ouvidas de Pires: + +--O que vossê merecia, sei eu. + +--Que regouga?--disse-lhe o da Maya. + +--O senhor...--replicou Antonio José--ainda ha-de topar quem lhe dê uma +boa lição. + +--Vá-se embora--redarguiu Pires--Se não, atiro-lhe areia aos olhos. + +--A mim?!--disse com um sorriso azedo o linheiro. + +--E enterro-o n'esta praia, como quem enterra um safio pôdre. Vá-se +embora, homem, e diga lá á fidalga que não ame parvos, se não quer +receber d'estas affrontas. + +O linheiro fez um arremesso com a bengala, e Leonardo Pires tomou do +chão dous punhados de areia, dizendo com semblante de quem brinca: + +--Olhe que vossemecê leva! + +Egas de Encerra-bodes, que estivera, a um lado, rindo debaixo de uma +dobra do cobrijão, deu dous passos para a retaguarda do linheiro, e fez +um gesto ao «terra-nova». O cão começou a tirar com os dentes pelas abas +do paletó de Antonio José, e este a sacudir-se, e a florear a bengala, +que infelizmente embarrou no focinho do animal. O remate d'este episodio +foi cousa triste de contar-se. O linheiro, se não tem botas de cano +alto, sahiria com as canellas estrincadas; e póde ser que os dentes do +«terra-nova» procurassem afiar-se em porção das pernas, não abroqueladas +das botas, se Egas lhe não fallasse de modo que elle, de cauda cahida, +veio rastejar-lhe aos pés. + +Terminou isto por ir o misero queixar-se ao regedor que alli estava +perto, homem de bom siso, que se dirigiu a Egas, pedindo-lhe que fizesse +saber ao seu cão que nem todos os cidadãos traziam botas de cano alto. + +Francisca da Cunha, fugindo para perto de Silvina, podéra forrar-se á +vergonha de semelhante conflicto; apenas dissera ao commendador que um +doudo furioso a perseguia em toda a parte; e, citando o nome do doudo, +viu, com grande pasmo de Silvina e d'ella, erguer-se o commendador, e +descer agilmente as fragas resvaladiças, para se entremetter na +desordem, que encontrou no periodo final do cão arremettendo ás pernas +do seu amigo. + +Aplacado o incidente, entraram Silvina e José Francisco, cada qual em +sua barraca, para se vestirem. + +Leonardo Pires dirigiu-se a um banheiro, e pediu sem demora um fato de +banho alugado. Vestiu-se, e sahiu da sua barraca a tempo que o +commendador, a par de Silvina, entravam no mar. Seguiu-os, e passou-lhes +adiante, indo postar-se n'um ponto em que as ondas batiam mais fortes, e +onde só os nadadores ousavam esperal-as. Quando a onda vinha, Leonardo +mergulhava, e vinha com ella, até marrar nas pernas de José Francisco. +Erguia-se, sacudia a grenha, pedia perdão e tornava para o seu posto. +José Francisco retirava-se a um lado; mas, na volta de outra onda, a +marrada era infallivel. Á terceira vez, o brazileiro ladeou, quando viu +mergulhar o monstro da Maya; este, porém, nadando com os olhos abertos, +lá foi abalroar com o homem, e pedir perdão pela terceira vez. + +José Francisco esbofava no mar como tubarão ferido. Sahiu á praia +atordoado, em quanto Silvina, estranha ao successo porque ficára longe +do noivo, se deixava contemplar pelos olhos lagrimosos de Jorge, que a +via, resguardando-se de ser visto. + +Leonardo Pires, no perpassar por ella, disse-lhe a meia voz: + +--Jorge de Sepulveda está acolá, minha senhora! Anda aquelle seu bom +anjo a quer salval-a de um eterno ridiculo, e v. exc.ª a cahir, a cahir, +a cahir, n'um dos tres abysmos das tres barrigas de José Francisco +Andraens!... + + +CONCLUSÃO. + +Muita gente honesta, lendo, quinze dias depois, nos jornaes do Porto, a +noticia do casamento de José Francisco Andraens com D. Silvina de Mello, +observou que esta menina tinha muito mais juizo do que mostrava. As mães +de familia citaram-na como exemplo ás suas filhas; e estas, bem que +exteriormente se rissem d'ella, invejaram-na. + +Ás suas amigas particulares dizia Silvina que o seu casamento fôra um +sacrificio do coração á dignidade propria; por quanto, dous implacaveis +homens, o morgado de Santa Eufemia e um tal Jorge Sepulveda, calcando +aos pés quantos deveres a civilidade impõe a sujeitos, que não podem ser +amados, lhe andavam sempre dando desgostos, vergonhas, e descredito. +Estes dizeres, comprovados por umas lagrimas que ella arranjava com +prodigioso artificio, apiedaram as proprias amigas, que diziam d'ella +mil maravilhas. + +José Francisco Andraens arrijou de suas frequentes dyspepsias, quando o +mundo e a medicina menos o esperavam. Muitos rapazes indiscretos paravam +a contemplal-o á porta dos snrs. Pintos Leites, na calçada dos Clerigos, +nos primeiros quinze dias depois do seu matrimoniamento. José Francisco +estava um todonada melado de rosto; mas não lhe iam mal aquelles ares de +noivo: tudo tem n'este mundo a sua hora e côr de poesia. + +O morgado de Santa Eufemia recebeu ao mesmo tempo o golpe da morte e o +balsamo da vida: morrêra-lhe o pai na vespera do dia em que Silvina +casára. + +D. Francisca da Cunha casou com o linheiro das Hortas. As duas meninas +com os respectivos maridos foram para o Bom Jesus do Monte, local +sagrado que dá luas de poesia a quantos parvos ha ahi que vão celebrar +n'aquelle sanctuario uma festa, irrisoria, se não tôrpe, na essencia. + +Jorge de Sepulveda, quando viu a local da gazeta agoureira de muitas +prosperidades a José Francisco e Silvina, estremeceu, empedrou, e +invocou do anjo da piedade o desafôgo do pranto. + +Ora, o amigo de Guilherme do Amaral, se não era o anjo da piedade, tinha +em si um santo e mysterioso condão de espremer entre os dedos +inexoraveis da sua philosophia algum tanto cynica, toda a peçonha dos +corações, cancerados pelo amor. + +Alguma vez verá o leitor que boleus deu toda esta gente com as +costumadas voltas do mundo. + +O livro complementar d'estas biographias ha-de denominar-se: REACÇÃO DA +POESIA. + +É o natural seguimento dos Annos de prosa. + +FIM. + + [1] Não vá entender alguem que o romancista está phantasiando. + Quando Napoleão III casou com a condessa de Montijo, duas familias + ventilaram em Portugal e porfiadamente, a origem dos Porto-Carreiros + que levára a Castella os embriões da imperatriz. As familias + litigantes eram os Porto-Carreiros da casa da Bandeirinha no Porto, + e outros de igual appellido de Abragão, ahi para as cercanias de + Penafiel. O pleito heraldico andou nas gazetas, e nomeadamente no + _Portugal_, jornal realista do Porto. A critica oscillou longo tempo + indecisa entre as duas familias, até que um dia, cançada de + oscilações, cahia a rir deixando ás duas familias nobilissimas o + direito salvo de enxertarem o imperio francez lá em casa. + + [2] _V. do Arcebispo._ + + + * * * * * + + + + +O ARREPENDIMENTO. + + + + + + +O ARREPENDIMENTO. + + +ROMANCE. + + +Em tempos da minha mocidade costumava visitar a miudo uma boa velha, +minha visinha, que me honrava com a sua estima e amisade. Humildemente +confesso que não ha sociedade mais deleitosa e agradavel, do que a de +uma mulher que soube envelhecer. A sua conversação instructiva e +divertida, é um inesgotavel thesouro de lembranças, anecdotas, +observações chistosas e reflexões circumspectas, é finalmente uma +revista do passado. + +D. Mafalda, deixem-me assim chamar-lhe, juntava á amenidade da conversa, +a do caracter, que era brando e indulgente. + +Quando tinha occasião de ir passar uma noite com ella, parecia-me que as +horas voavam ligeiras e que corriam mais rapidas, do que quando as +gastava a distribuir finezas e galanteios ás mais formosas rainhas dos +mais brilhantes salões. Era sempre com vivo pesar que a via apontar para +o relogio, indicando-me que a hora de me retirar tinha chegado, e +voltava a minha casa com o espirito mais rico, e o coração satisfeito e +melhor. + +A historia que vou contar-vos, minhas caras leitoras, foi-me dita por D. +Mafalda n'um d'estes serãos em que vos fallei. + +Era n'uma bella noite de Junho; fui encontral-a sentada na sua cadeira á +Voltaire, tendo a seus pés, deitado em um cochim, o seu cãosinho +querido; os olhos tinha-os semi-abertos, um sorriso nos labios, e +parecia respirar com prazer a aragem, que, embalsamada pelas flôres do +jardim, se coava pela janella meia aberta. Quando cheguei junto d'ella +vinha indignado por que um de meus parentes tinha sido victima d'um +abuso de confiança; contei-lhe o succedido, e no calor da narração não +poupei ao culpado as maiores imprecações, nem deixei de lhe dizer que +desejava fazer-lhe todo o mal possivel. + +--Devagar, meu querido amigo--me disse ella--não o julgava tão +irrascivel, nem que tivesse tão pouca caridade para com o proximo. Sabe +lá, se, com a vida, não tiraria ao culpado o merito de para o futuro se +poder rehabilitar pelo arrependimento, e se o momento em que lhe +infringisse o castigo não seria o destinado por Deus para esse +arrependimento? + +--Eis-ahi, minha cara visinha, uma doutrina, permitta-me a expressão, um +pouco subversiva da ordem social. + +--Deus me defenda--me replicou--de querer que o culpado não seja +castigado, e que a sociedade fique indefeza dos crimes que um seu membro +praticou contra ella; quiz dizer sómente que devia deixar ás leis o +cuidado de castigar o delinquente, e que o meu querido amigo, não devia, +como individuo, fechar assim desapiedadamente o coração a todo o +sentimento de commiseração por um desgraçado e infeliz, no coração do +qual talvez ainda bruxelei algum clarão de virtude, que uma occasião +favoravel e propicia, que se apresente, ainda póde despertar, e fazer +com que esse membro da sociedade, que julga inutil, se torne bom e +aproveitavel. + +Como eu respondesse a isto, fazendo um d'estes movimentos de cabeça, que +são um protesto mudo e respeitoso, ella acrescentou: + +--Está com paciencia para me aturar ouvindo uma historia, pois que ainda +temos algumas horas? + +Não recusei: uma historia era uma fortuna para combater a exaltação +d'espirito em que estava. + +D. Mafalda principiou assim: + +--Emilio da Cunha era o mais velho de tres irmãos, dos quaes, o mais +novo, vivia ha muitos annos no Rio de Janeiro, onde tinha alcançado +fortuna. O segundo nunca deixou o Porto, sendo sempre infeliz nos seus +commettimentos e especulações. Emilio da Cunha, á custa de muito +trabalho e economias, pôde alcançar uma fortunasinha, que lhe permittia +esperar com socego, o momento de descançar da vida laboriosa em que +tinha vivido. + +Uma quarta pessoa completava esta familia, que era uma irmã, que tendo +seguido seu marido á India, para onde elle tinha sido despachado, e não +vindo nenhum d'elles a figurar n'esta minha historia, não lh'os +recordarei mais. + +Aconteceu que o irmão de Emilio da Cunha, que residia no Porto, por uma +d'estas catastrophes que occasionam os jogos de bolsa, falliu. Teve tal +sentimento por este facto, que falleceu tres dias depois, atacado d'uma +febre cerebral. A herança, que deixou, foram dividas e um filho. + +Emilio da Cunha, que tinha um coração bondoso, e um caracter +pundonoroso, para que a memoria de seu irmão não ficasse deshonrada, +comprometteu-se a pagar as dividas e recolheu em sua casa o filho para +lhe substituir o pai, que tinha perdido; procedimento louvavel, e digno +de se admirar, sabendo-se que elle tinha uma filha, para quem, passados +quatro ou cinco annos tinha a procurar um casamento vantajoso. + +Roberto, se chamava o sobrinho de Emilio da Cunha, tinha já 15 annos +d'idade, mas o pai, inteiramente entregue ás especulações, e aos +cuidados, que ellas trazem comsigo, descuidou completamente a sua +educação, por isso o seu retrato moral, n'esta occasião, nada tinha de +vantajoso; o espirito tinha-o completamente inculto; as noções que +possuia do justo e do injusto eram as mais erroneas e disparatadas; o +respeito aos direitos d'outrem era para elle uma invenção estupida dos +homens, condemnada pela natureza, e a verdadeira liberdade consistia em +fazer o mal impunemente. Se algum bom instincto, ou algum vislumbre de +virtude, existia no coração de Roberto, ainda estava em embryão, por que +se não tinha demonstrado. Quantas e quantas vezes, em quanto que o pai, +cego pelas especulações, concentrava todas as suas faculdades +intellectuaes na realisação d'um impossivel, não deixou Roberto de ir ao +collegio, fazendo o que em termo escolar, se chama _gazear_, e gastava +as horas d'estudo em andar a vagabundear pelos campos e praças. D'ahi +proveio o tomar relações com meia duzia de garotos, ou vadios, +permitta-me a phrase, para quem nada era sagrado nem nas acções, nem nas +palavras. D'ahi nasceu a falta de respeito pela propriedade alheia, +roubando os pomares; e o endurecimento de coração, castigando +barbaramente animaes inoffensivos. + +Emilio da Cunha reconheceu logo os maus instinctos de que seu sobrinho +era dotado, e a desmoralisação, que já se tinha infiltrado no seu +coração, mas concebeu a esperança de o regenerar com desvelos, +paciencia, e sobre tudo bons exemplos. Sua filha, a que chamarei +Valentina, de 14 annos d'idade, contribuiu poderosamente para a +realisação d'este seu empenho, tão justo e louvavel. Era uma menina para +quem a natureza tinha sido prodiga em encantos de rosto, d'espirito e +coração, a ponto de qualquer que a via a admirar, e de quem a ouvia +amal-a immediatamente. Tinha uma tal influencia, ou magia sobre os que +se acercavam d'ella, que aos bons tornava-os melhores, e aos maus +fazia-lhe retirar envergonhados para o fundo do coração os maus +instinctos. Esta magia não teve menos poder sobre Roberto, do que sobre +os outros, de sorte que a regeneração que elle soffreu, nos seus +costumes e acções, foi tão sensivel, que o bondoso Emilio da Cunha +revia-se alegre e contente na sua obra, e congratulava-se dos resultados +que tinha colhido. + +Deu-se porém uma circumstancia feliz, mas que ao mesmo tempo foi +desgraçada, que deteve Roberto repentinamente na boa estrada em que se +tinha embrenhado, e na qual parecia caminhar resolutamente. Por uma +carta chegada n'um dos paquetes inglezes do Brazil, soube Emilio da +Cunha, que seu irmão mais novo tinha fallecido, deixando-o, por elle ser +o seu mais proximo parente, herdeiro d'uma fortuna consideravel. Bens +rusticos, e estabelecimentos industriaes é no que consistia a fortuna, +dos quaes se poderia colher bons lucros, sendo bem geridos, conforme o +tinha praticado o seu defunto proprietario; mas Emilio da Cunha, além de +se não julgar com conhecimentos e forças para bem gerir a industria com +que seu irmão tinha feito fortuna, não tinha desejo, nem queria +expatriar-se. Foi até com immensa repugnancia que se resolveu a ir ao +Brazil tomar posse e liquidar a herança; parecia que um secreto +presentimento o avisava do que tinha de acontecer, levando-o a +considerar como uma desgraça esta viagem, a que os sagrados direitos de +sua predilecta filha Valentina, o obrigavam a emprehender. + +Partiu finalmente, depois de ter tomado todas as precauções para a +tranquillidade de seu espirito. Valentina entrou em um dos collegios de +educação mais acreditados do Porto, e Roberto ficou n'uma casa +particular, onde lhe deviam prestar todos os cuidados, que exigiam a sua +idade, pois que já então tinha 17 annos, e a sua completa ignorancia, de +que até uma criança de 8 annos poderia zombar. + +Emilio da Cunha aportou a salvamento ás terras de Santa Cruz, e logo que +saltou em terra, desenvolveu a maior actividade, e procurou por todos os +meios possiveis abreviar rapidamente os seus negocios, mas infelizmente +os resultados não correspondiam aos seus esforços e desejos, porque de +todos os lados, e a todos os momentos estavam sempre a surgir empecilhos +e embaraços não prevenidos nem esperados. Havia já um anno que Emilio da +Cunha tinha chegado ao Brazil, e ainda os seus negocios não estavam mais +adiantados, que no primeiro dia. + +Cançado, desanimado e affectado de melancolia, ou _spleen_, como lhe +chamaria um nosso fiel alliado britannico, mortificado por um +desassosego de que não podia explicar a causa, deliberou entregar os +seus negocios e a liquidação e arrecadação da heranca a um procurador, e +embarcar-se no primeiro paquete, que seguisse viagem para Portugal. + +Que se tinha porém passado no Porto, durante este tempo? + +É o que lhe vou contar, meu visinho, se ainda tiver paciencia para me +ouvir, me disse D. Mafalda, e o que vou fazer ás minhas leitoras, se +ellas quizerem ter a mesma paciencia de me lêr. + +Roberto, separado de sua prima, aborrecido e dominado pela priguiça, +fugiu um bello dia da casa onde se achava hospedado, foi procurar, e +infelizmente encontrou, os seus antigos companheiros da vadiagem, que +tinham quasi todos seguido a estrada do vicio e do crime. Arrastaram +portanto comsigo o desventurado Roberto para esse despenhadeiro, na +baixa do qual se encontra a escoria da sociedade. Roberto tinha por +companheiros habituaes homens criminosos, de cara sinistra, maneiras +brutaes, linguagem grosseira e vestidos esfarrapados, n'uma palavra +mendigos, ou ladrões. Adoptou-lhe portanto os costumes as maneiras e as +maximas, e quem o visse emmagrecido pela devassidão, com os vestidos em +desalinho, os cabellos eriçados, tomal-o-ia por um bandido de trinta +annos, quando elle não tinha mais que dezenove incompletos. Valentina, +pelo contrario, tinha crescido em corpo, belleza, espirito, talento e +virtudes. + +Conduzi-o do Porto ao Rio de Janeiro, e do Rio de Janeiro ao Porto, +agora, querendo-me seguir, leval-o-hei a Lisboa, onde se passa um +pequeno episodio d'esta muito veridica historia. + +De bordo d'um paquete inglez, chegado dos portos do Brazil, tinha +desembarcado um passageiro, que se dirigiu a um hotel para descançar, e +ahi passar até ao dia seguinte, em que devia seguir viagem para o Porto, +na mala-posta, a fim de se vir unir a seus filhos, que estava ancioso +por abraçar e apertar contra o coração. Julgo desnecessario o dizer-lhe, +pois me parece já o adivinhou, que este viajante era Emilio da Cunha, +que se considerava feliz por pisar o solo da sua patria, que tanto +amava, e onde estava tudo o que elle mais presava n'este mundo. Logo que +no hotel lhe prepararam o quarto e tomou uma pequena refeição, deitou-se +e adormeceu, embalado por sonhos felizes. + +No dia seguinte ainda o sol mal tinha despontado, já subia pela escada +do hotel e entrava no corredor commum, sobre o qual deitavam uma duzia +de portas de quartos, um homem de má catadura. Era um d'estes +_cavalheiros d'industria_, a qual consiste em entrar, sob qualquer +pretexto, de manhã cedo nos hoteis, e aproveitar-se do primeiro quarto +que encontram aberto para empalmarem destramente um relogio, ou uma +mala, se o acordar do hospede ou locatario do quarto, os não obriga a +retirar-se de mãos vazias, desculpando-se de que se tinham enganado na +porta. + +No andar, vacillante, e como desconfiado, do _cavalheiro d'industria_ se +reconhecia facilmente, que era um noviço, que ia tentar os seus +primeiros ensaios, ou que ia fazer a sua _primeira escamoteação_. + +Depois de ter estado por bastante tempo em lucta com a sua consciencia, +e irresoluto se devia ou não penetrar no quarto de que a porta se achava +meia cerrada, metteu primeiro a cabeça, depois uma perna, e por ultimo +todo o corpo; mas fazendo algum ruido com este ultimo movimento, o +hospede, que estava deitado, acordou, e virando rapidamente a cabeça, +Roberto, por que o _cavalheiro d'industria_ era elle, encarou com seu +tio Emilio da Cunha, ficou estupefacto e como fulminado por um raio. + +N'esse mesmo dia de tarde Emilio da Cunha tomou lugar no caminho de +ferro até ao Carregado, e ahi na mala-posta até ao Porto, onde trinta e +seis horas depois se achava nos braços de sua querida filha Valentina, +que immediatamente tinha ido procurar ao collegio. + +--Tu sahes já, já do collegio, minha filha--lhe diz Emilio da +Cunha--para retomares, e nunca mais deixares, o teu lugar a meu lado. + +--Que felicidade--exclamou Valentina toda alegre e folgazã--que vida +socegada e feliz não vamos passar todos tres, não é assim meu querido +pai, por que Roberto tambem vai para a nossa companhia? + +--Roberto, morreu--respondeu Emilio da Cunha com rosto severo, e voz +soturna.--Não quero que me falles mais n'elle, entendes Valentina? + +Valentina admirada da resposta, ainda fez diversas perguntas a seu pai, +mas a todas ellas não obteve outra resposta, senão a completa prohibição +de nunca mais lhe fallar em Roberto. + +Ainda porém não tinha Emilio da Cunha soffrido todas as provações, que +Deus lhe destinára. Haviam decorrido seis mezes desde que tinha chegado +do Rio de Janeiro, quando recebeu a participação de que o procurador, +que ficára encarregado da liquidação e arrecadação da herança, tinha +cumprido a sua missão, mas que, depois de ter arrecadado a somma +importante, que produzira a mesma herança, tinha desapparecido, sem que +as pesquizas feitas para se descobrir o lugar de seu refugio, tivessem +dado o desejado resultado. + +Emilio da Cunha ficou completamente arruinado por este facto, porque, +impaciente por satisfazer os credores de seu irmão, pai de Roberto, +tinha vendido tudo o que possuia em Portugal. + +O golpe foi forte, mas ainda assim não o foi bastante para poder +subjugar a coragem do bom e respeitavel velho, mostrando-se Valentina +n'esta conjunctura, digna filha d'um tal pai. + +Renunciando heroicamente ás commodidades da vida, em que até então +tinham vivido, foram habitar, em um bairro mais afastado da cidade, uma +pequena casa, na qual soffreram privações diarias e penosas, tratando +sempre d'obter alguns recursos para a sua subsistencia, mesmo em +trabalhos mal retribuidos. + +Valentina, que Deus tinha dotado de bom gosto, e bastante habilidade, +principiou a trabalhar para uma modista, a qual satisfeita com os seus +primeiros trabalhos, lh'os deu em seguida mais delicados e por isso +melhor retribuidos, o que foi para elles uma grande felicidade, e que +assim lhes proporcionou meios licitos de pagarem regularmente o seu +aluguel, e de já não receiarem tanto nem o frio, nem a fome. + +Valentina ia entregar a sua obra á modista, a qual satisfeita com ella +lhe dava sempre mais, e muitas vezes mais do que a que ella podia fazer. +A uma crise terrivel tinha-se seguido uma abastança mediocre, que era +por isso uma felicidade mais agradavel e estimada. + +Decorreram assim dous annos. + +Um dia, em que Valentina estava só, lhe entregou o carteiro uma carta, e +qual não foi a sua surpreza quando reconheceu a letra de seu primo. + +Roberto contava n'esta carta tudo o que tinha passado, desde o momento +em que o vimos no hotel em Lisboa preparando-se para _escamotear_ seu +tio. Fulminado pela vista d'Emilio da Cunha tinha recobrado os sentidos +para na fuga se salvar ás imprecações d'indignação do velho. Chegou +offegante ao Terreiro do Paço, onde se sentou, ou melhor se deixou cahir +n'um dos assentos de pedra, que alli se acham, e assim esteve por muito +tempo, com a cabeça escondida entre as mãos, mergulhado em acerbas e +crueis reflexões. + +Experimentou ou sentiu dentro em si uma completa revolução; o seu +procedimento indigno e infame se lhe apresentou em toda a sua nudez e +hediondez; teve horror de si mesmo e por um instante pensou em +suicidar-se; mas com o arrependimento entraram-lhe no coração +sentimentos mais generosos. Lembrou-se que, tendo d'ora avante uma +conducta honrosa e illibada, ainda poderia chegar a fazer esquecer os +seus erros passados, e reanimado por esta feliz lembrança, que o seu +anjo bom lhe tinha suggerido, levantou-se resoluto a trabalhar para a +sua rehabilitação, e a não descançar sem a ter chegado a alcançar. + +A occasião favoravel não se fez esperar muito, por que um capitão d'um +navio mercante, que estava apparelhando para a California, lhe concedeu +passagem gratuita, mediante os seus serviços e o seu trabalho na viagem. + +Aportou Roberto á California e sorrindo-lhe a fortuna, em lugar de se +embrenhar no jogo, arriscando assim as suas economias, fundou um +estabelecimento, que ia prosperando, faltando unicamente para a sua +felicidade se tornar completa, o obter o perdão de seu tio, e a +esperança de poder tornar a vêr sua prima, cuja imagem tinha +constantemente na idéa, e o sustentava e animava n'esta nova estrada de +trabalho e ordem, de que não pensava mais em se desviar. + +Eis aqui em resumo o que continha a carta que Roberto dirigiu a sua +prima. + +Valentina muito commovida, mas gostosa e alegre por ter de dar tão grata +noticia a seu querido pai, esperava anciosa a sua volta. + +Mal lhe deu tempo de sentar-se, ia logo a contar-lhe o succedido, mas, +Emilio da Cunha a deteve, apenas tinha pronunciado a primeira palavra. +Valentina insistiu, mas o velho levantou-se com a maldição nos labios; +ella lançou-se-lhe de joelhos aos pés, chorou, supplicou, mas elle a +tudo ficou impassivel e inflexivel. + +Valentina consternada respondeu á carta de seu primo descrevendo-lhe o +succedido, e a inutilidade de seus esforços; mas para o não desanimar +promettia-lhe de os renovar, e que os repetiria até que chegasse a mover +seu pai á commiseração e piedade, de que não desesperava. A carta +continha tambem a descripção de todos os successos, que se tinham dado +desde que Roberto tinha desapparecido; a decadencia de Emilio da Cunha, +a pobresa em que tinham vivido em quanto que o seu trabalho mal +retribuido lhe dava parcos meios de subsistencia, e o melhoramento de +sua posição, finalmente continha tambem algumas palavras d'exhortação e +amisade. + +A situação de Emilio da Cunha e sua filha soffreu, passado algum tempo, +uma modificação muito mais inesperada, do que a que se havia seguido ao +aniquilamento da sua fortuna. + +Emilio da Cunha foi chamado a casa d'um capitalista, aonde lhe +entregaram 20 contos de reis de que um anonymo lhe mandava dar posse a +titulo de restituição. D'onde tinha vindo este dinheiro? + +Emilio da Cunha pensou muito naturalmente, que o procurador que o tinha +roubado, mortificado pelo remorso, e querendo socegar um pouco a sua +consciencia, lhe tinha mandado entregar aquella quantia, como uma parte +da restituição, que lhe tinha a fazer. Valentina estava muito longe de +concordar com a opinião de seu pai, mas nem por isso teve a franqueza de +lh'o declarar, nem lhe dar a entender qual era a sua. + +Qual das duas opiniões era a verdadeira, é o que nos não importa saber, +o que se sabe é que a abastança ou decencia tinha reentrado em casa +d'Emilio da Cunha, e as idéas do digno e honrado velho, foram-se +tornando mais brandas sob a influencia do bem-estar. + +Foi elle proprio que em um dia fallou primeiro a Valentina em seu primo +Roberto, e ella não perdendo esta occasião tão propicia, que se lhe +offerecia, advogou por muito tempo, com calor e eloquencia, a causa de +seu primo. Emilio da Cunha deixou-a fallar como e todo o tempo que ella +quiz, sem lhe dar a mais pequena resposta, nem lhe replicar a cousa +alguma. + +Estaria ou não convencido? + +A pergunta não tinha muito facil resposta, mas pelo menos tinha ouvido +sem colera e com socego as allegações a favor de seu sobrinho, o que já +era um bom indicio da mudança que n'elle se havia operado. + +Valentina, contente e satisfeita com o resultado do seu primeiro +commettimento, escreveu immediatamente a seu primo informando-o do que +havia, e a esta carta seguiram-se outras muitas, noticiando-lhe sempre +algum novo passo dado na estrada da reconciliação. + +Aconteceu um dia que Emilio da Cunha, no meio d'uma conversa, que tinha +seguido n'um objecto mui diverso, parasse precipitadamente para dizer a +sua filha: + +--Tu acreditas sinceramente no arrependimento de teu primo? + +--Oh! sim, meu pai--se apressou em responder Valentina. + +--Queira Deus que te não enganes. + +Um outro dia acordou d'uma pequena sesta, que se tinha seguido ao +jantar, gritando, como se continuasse uma conversa começada: + +--Ah! se Roberto estivesse arrependido realmente, como tu o suppões, com +que prazer e alegria........ + +Não terminou a phrase, mas a expressão benevola da physionomia de Emilio +da Cunha indicou a Valentina o complemento da idéa. + +Isto foi objecto para uma ultima carta a Roberto, a que elle respondeu, +e fechou-se a correspondencia. + +Uma manhã Emilio da Cunha achava-se com Valentina em uma pequena, mas +elegante sala, que deitava sobre o jardim--por que elles tinham deixado +a sua pobre morada, trocando-a por outra mais decente--Emilio da Cunha +sentado junto d'uma mesa, sobre a qual se achava uma magnifica jarra de +flôres, olhava sorrindo para Valentina, que, de pé, junto d'um açafate +em que estavam dous pombinhos, reprehendia, acariciando-o, um d'elles: + +--Eis-te aqui, meu bello fugitivo--lhe dizia ella--pensavas que era só +voltar para te ser concedido o perdão, depois de me teres feito soffrer +com a tua ausencia e ingratidão? Muito bem; visto que o teu regresso +prova um arrependimento sincero, perdôo com prazer; não é assim, +paisinho--acrescentou ella com voz meiga e levantando os lindos olhos +com uma expressão de candura para Emilio da Cunha--que se devem receber +os filhos prodigos, que regressam arrependidos e contrictos? + +Emilio da Cunha não deu uma palavra, mas rolou-lhe uma lagrima sobre a +face. + +N'este momento surprehendeu elle um olhar d'intelligencia, que Valentina +dirigia a alguem, que estava pelo lado detraz da cadeira em que estava +sentado. Voltou-se rapidamente, e soltando um grito, ouviu-se o nome de +Roberto. + +Era Roberto realmente. A scena que se seguiu o meu caro visinho melhor a +poderá imaginar, do que eu pintar-lh'a, ou descrever-lh'a. + +Roberto voltava honrado e rico. Julgo que já comprehendeu que, para +soccorrer seu tio, elle concebeu e executou o plano da restituição. + +D. Mafalda calou-se. Parecia esperar, que eu, convencido pela sua +historia, sanccionasse com o meu voto a doutrina, que ella tinha +expendido antes de começar. + +--Ah!--lhe disse eu com admiração sincera--v. exc.ª podia facilmente +escrever um romance. + +--Isso quer dizer que me faz a honra de julgar esta minha historia como +producção da minha imaginação e phantasia? + +Limitei-me a inclinar-me respeitosamenie, e aqui terminou a nossa +discussão. + +No dia seguinte D. Mafalda offereceu-se para me apresentar a um seu +sobrinho, proprietario d'um estabelecimento industrial importante nos +suburbios do Porto. Aceitei gostosa e promptamente. Fui recebido com +extrema bondade e franqueza. O sobrinho de D. Mafalda gosava uma +felicidade digna de ser invejada; era casado com uma mulher, que era um +anjo de belleza e bondade, e tinha um filho o mais lindo e traquinas que +se póde imaginar; o seu estabelecimento florescia e prosperava; o seu +nome figurava entre os principaes e os mais honrados do mundo commercial +e industrial, n'uma palavra nada faltava á sua gloria, fortuna, e +felicidade domestica. + +--Que pensa de meu sobrinho?--me perguntou D. Mafalda, quando nos +retiramos. + +--Ah! minha senhora, nada mais ambiciono do que poder imital-o. + +--Pois aquelle que viu é o Roberto da minha historia. + +Recolhi-me a casa fazendo para mim as seguintes reflexões: Que a +regeneração do homem pelo arrependimento não é utopia, e que a sociedade +e a sua organisação é que são as causas principaes, que occasionam que +muitos de seus membros não se regenerem, por lhe embargarem ou matarem +logo algumas centelhas de virtude, que ainda tinham no coração. + +Pensem, e verão o corollario que tiram. + +FIM. + + + * * * * * + + + + +A GRATIDÃO. + + + + + + +A GRATIDÃO. + + +ROMANCE. + + +I. + +Estavamos nos ultimos dias de Dezembro de 1846. Uma camada mui espessa +de neve cobria o sólo. O ar, sombrio e carregado, indicava que mais neve +não tardava a cahir. Os ramos nús das arvores dos montes tremiam +soprados pelo vento norte gelado. Estava tudo n'um perfeito socego, e +tristeza; nem o mais leve murmurio se ouvia. + +Uma velha, e uma criancinha, apesar do rigor do frio, seguiam com +difficuldade o caminho, que da serra de Vallongo conduz a S. Cosme. A +criança, d'espaço a espaço, soprava ás mãosinhas inteiriçadas pelo frio, +e não se podendo sustentar sobre os pés, que tinha inchados pelas +frieiras, caminhava vacillante; mas vencendo todos os obstaculos, com +uma energia superior á sua idade, tomava galhardamente o seu lugar ao +lado da velha. Esta parecia ter sessenta annos. Estava corcovada mais +pela miseria, do que pela idade, e tinha no rosto profundas rugas. Pelo +modo como andava, e tateava o caminho com a mulêta, via-se que era cega. + +--Aonde vamos nós, Rosa?--perguntou a velha á rapariguinha. + +--Em meio caminho, minha avó. + +--Jesus Senhor, valei-me,--disse a cega,--pois que as minhas pobres +pernas já estão cançadas, e parece-me que não chego ao fim da jornada. + +--Encoste-se ao meu hombro, avósinha, que eu não estou cançada. + +--Não, não. Tudo está acabado. Eu morro aqui, Rosinha. Tenho muita fome, +e muito frio para vencer o caminho até S. Cosme. Ai meu Pai do céo, que +me sinto desfallecer... + +Fez um gesto de desespero, e a cega cahiu sobre o caminho. + +--Avósinha, avósinha,--gritava Rosa assustada,--volte a si, que lh'o +peço eu; mais um pequeno esforço e chegaremos a S. Cosme. + +A cega não deu accordo de si. + +--Avósinha,--continuou Rosa chorando, e cobrindo-a de beijos,--se me +abandona, que hei-de fazer? Quer que eu morra de paixão? + +--Morrer, tu, minha Rosinha,--disse a cega levantando-se.--Oh! meu Deus, +não permittaes tal. + +--Então levante-se que lh'o peço eu; se fica aqui mais tempo o frio +matal-a-ia. Em S. Cosme nos aqueceremos. + +--Ai de mim,--disse a cega, levantando-se ajudada de Rosa,--e a snr.ª D. +Thereza receber-nos-ha? + +--Ha-de receber sim, minha avósinha, eu lh'o afianço. Não creio que a +boa snr.ª D. Thereza nos despeça. Quando eu lhe ia vender flôres +silvestres, que apanhava no monte, abraçava-me, e dizia-me muitas vezes, +que desejava que eu fosse sua filha. + +--Não duvido que ella te receba, porque és muito linda e agradavel; +agora o que eu não creio é que me receba a mim, que sou uma velha e +cega, que para nada sirvo. + +--Se assim acontecer, voltaremos á nossa aldêa, e os bons lavradores, +que conheceram meus paes, terão piedade de nós, soccorrer-nos-hão, e eu +trabalharei para lhes pagar, o que elles vos derem. + +A avó, muito commovida, apertou ao coração a pequena, e murmurou +palavras de ternura e gratidão; e reanimada por esta felicidade, que +Rosa lhe tinha feito experimentar, retomou com passo mais firme o +caminho de S. Cosme. + +O vento soprava já com mais força; o ar tinha escurecido mais, e +pequenos flocos de neve se viam voltejar no ar. Rosa, tiritando com +frio, fazia esforços sobrehumanos para poder andar, e cada passo, que a +pobre cega dava, era acompanhado d'um suspiro surdo. O vento augmentou, +e os flocos de neve, que ao principio eram raros, cahiam em maior +abundancia. + +--Rosinha,--disse a cega,--bem queria andar, mas não posso; deixa-me +ficar. + +--Avósinha, eu já avisto a torre da igreja de S. Cosme. + +--Estás bem certa d'isso? + +--Eu não queria mentir... + +--Vamos andando. Permitta Deus que eu possa vencer o caminho. + +--Não tenha receio de me cançar, minha avó; sou forte, e não estou +fatigada. Encoste-se ao meu hombro. + +--Meu querido anjinho, que Deus te pague tudo o que me fazes. + +Chegaram finalmente a S. Cosme, á quinta de D. Thereza de Sousa, depois +de mil esforços, que cançaram completamente avó e neta. + +Era tempo; mais um instante e teriam cahido ambas no chão. Entrando na +cozinha da casa, o calor produziu-lhes uma reacção tão violenta, que +desfalleceram. + + +II. + +D. Thereza de Sousa, e mais algumas visinhas, que se tinham reunido para +serandar, acercaram-se das duas infelizes. Depois de lhe ter ministrado +todos os cuidados necessarios para as reanimar, como o seu principal mal +era a fome, mandou-lhe dar um bom caldo, e acommodal-as a um dos cantos +do lar, em que ardia uma grande fogueira. + +--Agora, Rosinha,--disse D. Thereza, ameigando-a,--conta-nos, como a +esta hora, e com este tempo vieste até aqui com esta boa mulher. + +--Desculpai, minha boa senhora,--disse a cega,--Rosinha é minha neta. + +--Sim, snr.ª D. Thereza, é minha avó, de quem tantas vezes tenho fallado +a v. exc.ª e... + +--Então porque não continuas?--lhe replicou D. Thereza. + +A pequena levantou para D. Thereza os seus lindos olhos azues, com uma +tal expressão de supplica, que a commoveu. + +--Falla, falla, minha menina. Não tenhas receio. Queres pedir-me alguma +cousa, não é assim? + +--Vêde, minha boa senhora,--disse Rosa, contendo as lagrimas a +custo,--eu e minha avó, somos muito desgraçadas. Meu pai, que era +rachador de lenha, feriu-se pelo S. João em uma perna com o machado. +Minha mãi mandou-me chamar a toda a pressa o snr. Pereira, que é um +homem muito entendido. Fui, o mais depressa que pude, e quando cheguei a +casa do snr. Pereira estava elle para sahir, e não queria vir commigo +para não torcer o seu caminho; mas eu tanto lhe pedi, que sempre me +acompanhou. Quando viu a perna a meu pai, logo disse, que estava muito +mal, e que não promettia cural-o. Duas semanas depois veio á ferida uma +molestia, de que me não lembra agora o nome, e meu pai morreu. + +Rosa calou-se chorando, e a cega tambem soluçava. D. Thereza abraçou a +rapariguinha, apertou a mão á pobre velha, e disse: + +--Para hoje já é de mais, ámanhã... + +--Perdôe-me, snr.ª D. Thereza,--replicou Rosa,--mas é melhor que eu +termine hoje,--e continuou: + +--Havia um mez que meu pai tinha morrido, quando minha mãi cahiu de +cama; a febre não a deixava. Eu ia aos campos apanhar as hervas, que +minha avó me ensinava, para lhe fazer remedios, mas nada sarava minha +mãi. Um dia abraçou-me e disse-me: + +«Minha pobre Rosinha, eu vou unir-me com teu pai, mas que será de ti? + +Trabalharei, lhe respondi. + +És muito nova para isso; mas entretanto rogarei muito a Deus para que te +receba sob a sua santa guarda, e te não abandone. Nunca desampares tua +avó, sê-lhe obediente e carinhosa..., ainda queria fallar, mas não pôde, +abraçou-me e á avósinha, e expirou.» + +Desde então alguns rachadores, amigos de meu pai, nos recolheram e +soccorreram; mas como não são ricos, e precisam de mudar de terra por +não terem aqui que fazer, lembrei-me de vir pedir agasalho á senhora, +pois que, sendo tão boa, não deixaria de nos recolher, que somos tão +desgraçadas. Sou fraquinha, mas posso trabalhar. Sei fiar, e começo a +lavar. Guardarei os bois, e os carneiros e tratarei do gallinheiro. +Minha avó tambem fia muito bem e estou muito certa, que a ha-de +satisfazer com o seu trabalho. Oh! senhora--disse Rosa ajoelhando-se aos +pés de D. Thereza--não nos abandoneis; satisfazemos-nos com pouco, e +faremos todo o possivel para vos agradar, e rogaremos continuamente a +Deus pela vossa vida e felicidade. + +D. Thereza commoveu-se tanto, com a singeleza e candura d'esta supplica, +que duas lagrimas lhe brilharam nos olhos. + +--Levanta-te, Rosinha, ámanhã fallaremos n'isso. Tu e tua avó ide-vos +deitar. Sempre te direi, que és muito linda e corajosa, para que se não +tenha piedade de ti. + +Rosa beijou com reconhecimento as mãos de D. Thereza, e a cega encheu-a +de bençãos. D. Thereza mandou-as conduzir a um pequeno quarto, limpo e +quente, em que um somno reparador lhe reanimou as forças. + + +III. + +Ainda mal a aurora tinha raiado, já Rosa estava a pé. Fatigada, como +estava, da jornada do dia antecedente, custou-lhe muito a levantar-se +cedo, mas fez um esforço para mostrar os seus desejos a D. Thereza. + +Arranjou-se, o melhor que pôde, com os seus velhos vestidos, e, depois +de ter dirigido mentalmente a Deus uma oração fervente, desceu ao andar +terreo. + +--Já a pé,--lhe disse alegremente D. Thereza. + +--Estava tão cançada do caminho d'hontem, que receei, já fosse tarde; +mas graças aos vossos beneficios, minha senhora, já estou prompta, para +o que me determinardes. + +--E tua avó? + +--Ainda dorme. É tão velhinha e tão doente, que vos peço tenhaes piedade +d'ella. + +Rosa ergueu as mãos, e esperou tremula a resposta da dona da quinta. + +D. Thereza de Sousa era, o que vulgarmente se chama, uma mulher de casa. +Tendo viuvado ha doze annos, geria com tanto acerto e economia as suas +propriedades, que a sua fortuna tinha augmentado consideravelmente. + +Os visinhos do lugar diziam que, pela avareza e mesquinharia, é que +tinha alcançado a fortuna, que possuia, pois que em qualquer cousa +sempre tinha que diminuir, e acrescentavam ironicamente, que, dando +_tantas_ esmolas, o dinheiro nunca lhe havia de faltar. + +Fosse como fosse, o que sei é, que D. Thereza sensibilisou-se tanto com +a historia de Rosinha, que, quando ella ergueu as mãos, e a viu com os +olhos arrasados de lagrimas, esperando a resposta, disse para si; que a +uma supplica tão humilde e cheia de tanto amor filial, era impossivel +resistir. + +N'este momento quem accusasse de avarenta D. Thereza de Sousa, seria +injusto com ella, por que, recolhendo a avó e neta, tomava um encargo +bastante pesado. Rosa era ainda muito pequena, e de mais a mais muito +fraquinha, para poder ter utilidade real! A pobre criança estava a fazer +dez annos, mas era muito franzina e delicada. O seu rosto, cercado de +compridos caracóes louros, e animado com uns grandes olhos azues +escuros, inspirava sympathia. Tinha as maneiras delicadas, e a linguagem +menos rude, que a dos camponezes dos arredores. Esta distincção n'uma +criança, ainda tão tenra como Rosa, nascia da sua intelligencia mui +desenvolvida. + +A mãi, logo que ella teve tino para se não perder nos caminhos, +mandava-a apanhar flôres silvestres, que ia vender ás familias mais +abastadas das aldéas visinhas. Como Rosa era muito linda as senhoras das +casas acolhiam-na muito bem, divertiam-se com ella, ouvindo-a tagarelar, +e demoravam-na muitas vezes a brincar com as suas filhas. + +Sendo muito viva tomou facilmente as maneiras, e modo de fallar, das +pessoas com quem tratava, de modo que os rachadores denominavam-na a +fidalguinha. + +Se tinha adquirido maneiras delicadas, não havia perdido as boas +qualidades, de que era dotada; humilde e carinhosa para todos, quem a +conhecia adorava-a. + +O que a mim, minhas caras leitoras, me levou tanto tempo a dizer, passou +n'um instante pela idéa a D. Thereza de Sousa, e fixou-lhe a resolução +de recolher a avó e a neta. + +--Vou-te mandar vestir uma roupinha melhor, Rosinha,--lhe disse D. +Thereza, animando-a com uma brandura, que lhe não era habitual,--porque +espero has-de ser uma boa criada, serviçal e trabalhadeira. + +--Então fico em casa de v. exc.ª?--disse Rosa, não podendo crer em tanta +ventura. + +--Ficas, sim, e parece-me que nunca me darás motivo para me arrepender +do que hoje faço. + +--Oh! minha senhora, estai certa que me esforçarei o mais possivel, para +vos agradar e satisfazer os vossos desejos. + +--Assim o espero. Anda vestir-te. + +--Desculpe-me, senhora. Mas minha avó...--e Rosa parou corando. + +D. Thereza, querendo experimentar a sua protegida, disse: + +--Que queres a tua avó? + +--Ella tambem fica? + +--Não. Tua avó é cega e velha, para nada serve, e eu não sou rica +bastante, para me encarregar da sustentação de duas pessoas. + +--Então, senhora, agradeço os vossos beneficios, e todo o bem que me +querieis fazer, mas não posso abandonar a minha avósinha, que morreria +de paixão. + +Vou ajudal-a a levantar-se, e regressaremos à nossa aldêa. + +--E que has-de fazer na tua aldêa? + +--Irei humildemente pedir a um mestre tamanqueiro um pequeno cantinho da +sua casa, que estou certa me não negará. Não sou robusta, mas tenho +coragem, por isso trabalharei nos socos durante o inverno. Quando vier o +verão irei vender flôres e fructos, como os demais annos, e como eu, e a +pobre cega, de pouco precisamos para viver, parece-me que ganharei para +ambas. Logo que chegue a primavera não seremos pesadas a ninguem... + +D. Thereza apertou Rosa nos braços, e chegou-a ao coração. + +--Basta, Rosinha, tu és um anjo do céo, que Deus enviou a minha casa +para me trazer a felicidade. Vai-te vestir, e depois irás participar a +tua avó, que ambas ficaes para sempre em minha casa. + +Descrever a alegria da avó, quando soube a decisão de D. Thereza, é-me +impossivel fazel-o, minhas caras leitoras; vós, que deveis ser dotadas +de bom e piedoso coração, melhor a podereis imaginar. Abraçava Rosa, +agradecia a D. Thereza com um reconhecimento mui sincero, promettendo +fazer todo possivel para ser menos pesada á sua bemfeitora. Rosa nada +dizia, mas a eloquencia de seu olhar provava a D. Thereza a sua +gratidão. + + +IV. + +Rosa, ainda que novinha e de fraca organisação, tornou-se util em casa. +Incansavel no trabalho, de manhã cedo tratava da capoeira e do pombal; +depois ia guardar os bois e os carneiros, e, em quanto que os vigiava, +fiava na sua roca. + +Ao jantar, quando recolhia a casa, tinha sempre que fazer. Era um gosto +vêr esta criança tão tenrinha arrumar, limpar e lustrar os moveis, como +o faria a melhor mulher de casa. + +D. Thereza cada vez mais estimava a sua protegida, e felicitava-se pela +ter recolhido. A avó tambem não era inutil. A cegueira não a +impossibilitava de fiar desde pela manhã até á noite, e o seu trabalho +era perfeito. Tudo corria bem, e todos andavam contentes e satisfeitos. + +Chegou a primavera. Começaram a desabrochar com o tepido sôpro d'esta +estação, e mostraram as suas galas, a bella pervinca azul, o narciso de +corôa d'ouro, o lyrio de campanas odoriferas, e a bella violeta de +calices perfumados. + +Rosa, quando ia á serra, era para ella um dia d'alegria. Procurava os +caminhos tapetados de musgo, os regatos, que tantas vezes tinha passado, +as fontes escondidas pelas çarças, e as arvores, sob as quaes tinha +encontrado as mais lindas flôres. Rosa sentia-se mais livre e mais feliz +na serra, do que nos campos da quinta; a todo o momento parava extasiada +diante das bellezas da natureza, e cada sitio novo, que achava, era como +se fosse um amigo. Quando o socego voltava, depois d'esta alegria e +animação, esta poetica criança fazia cestinhos de vimes e juncos, que +guarnecia com musgo e flôres silvestres, mas com um gosto e belleza +exquisito, os quaes D. Thereza mandava vender, dando sempre bom preço. + +Ganharam renome os cestos de Rosa. + +Em todas as quintas e casas ricas dos arredores não queriam outros, e +até muitas familias da cidade, que iam passar o verão áquelles sitios, +compravam e procuravam com avidez os cestos d'esta gentil ramalheteira. + +D. Thereza, como mulher que comprehendia os seus interesses, entendeu +que lhe era de mais proveito o empregar Rosa, durante a primavera, a +fazer cestos e ramos, do que na quinta, por isso assim o determinou. +Quando Rosa o soube, saltou d'alegria, por que se dava melhor á sombra +dos pinheiros e carvalhos, do que em casa. + +Passou-se assim o verão, e D. Thereza não teve que se arrepender da sua +resolução. Um certo numero de meias corôas de prata provou o bom +resultado do negocio de cestos e flôres. + +O inverno pareceu triste e monotono a Rosa. Tinha-se habituado de tal +maneira a ir todas as manhãs para a serra, que chegava muitas vezes a +esquecer-se do trabalho, e ir insensivelmente até á baixa d'ella. +Voltava então muito apressada á quinta e redobrava d'actividade, para +fazer esquecer as suas faltas involuntarias. + +Occupou-se a fiar quasi todo o inverno, e o producto do seu trabalho foi +augmentar o pequeno thesouro principiado com a venda dos cestos e +flôres. + +D. Thereza considerava Rosa como sua filha, não podendo estar sem ella +um unico instante, e nos dias de feiras e romarias tinha gosto em que +Rosa apparecesse entre as mais lindas e mais ornadas lavradeiras do +lugar. + +A amisade, que tinha a Rosa, reflectia-se na avó; tratava-a com tal +respeito e affabilidade, que a poderiam tomar por mãi de D. Thereza, +tanto ella a cercava de cuidados e desvelos. + +A felicidade da pobre cega, e bem assim o futuro de Rosa poder-se-iam +julgar seguros; mas como nada n'este mundo é immutavel, o momento, em +que a adversidade ia estender o seu braço de ferro sobre as duas +infelizes, não estava longe. + + +V. + +Voltou a primavera e com ella as encantadoras occupações de Rosa. Foi +com enthusiasmo, que a candida e poetica criança encontrou as flôres, +suas amigas, com que preparou os primeiros ramos, que appareceram no +mercado. + +Os cestinhos e ramos de Rosa obtiveram uma grande extracção, como no +anno anterior. Ia entregal-os pessoalmente nas casas ricas, e muitas +vezes as senhoras morgadas, se julgavam felizes por ter em sua companhia +esta linda criança por algum tempo. + +Rosa, vestida á lavradeira, era muito galante e modesta; o seu metal de +voz era agradavel, e as maneiras tão delicadas, que quasi sempre as +freguezas, ao preço do ramo, juntavam um presentinho para a vendedeira; +mas quando perguntavam a Rosa o que era que mais estimava, respondia +sempre, que o seu maior desejo era possuir um livro para se instruir. + +Rosinha tinha uma paixão ardente pelo estudo; quasi sem mestre tinha +aprendido a lêr correntemente, e a sua maior alegria consistia em obter +um livro para se entregar á leitura. + +D. Thereza pela sua parte tambem não obstava aos desejos de Rosa, tanto +que se lhe não dava que ella faltasse ás suas obrigações; mas devemos +fazer-lhe justiça dizendo que sabia alliar a satisfação dos seus +desejos, com o cumprimento dos seus deveres, por isso só depois de ter +terminado os seus affazeres é que se dava ao estudo. + +Estava Rosinha uma occasião sentada á borda d'um ribeiro, entretida a +colher juncos para fazer um cesto, quando, sem ella o presentir, se lhe +aproximou uma senhora ainda joven. + +--Para que estaes escolhendo esses juncos, minha menina?--lhe disse a +joven senhora com modo affavel. + +Rosa levantou a cabeça, e vendo a desconhecida, saudou-a e respondeu: + +--Faço cestinhos com flôres para vender. + +--Quero então já avaliar a vossa habilidade. Amo muito as flôres, por +isso queria que me fizesses um cestinho já, e se eu ficar contente +has-de-me fazer um todos os dias. Aceitaes? + +--Aceito, sim, minha senhora, e ainda que tenho muitas encommendas a +satisfazer, vou já preparar o vosso. + +--Assento-me aqui ao pé de ti e vamos conversando. Como te chamas? + +--Rosa de Jesus, uma sua criada, minha senhora. + +--Assim, Rosa, o teu trabalho é fazer cestos de flôres para depois os +ires vender? + +--Sim, minha senhora. + +--E teus paes em que se occupam? + +--Já não tenho paes; só me resta minha avó, que é cega. + +--És orphã, e onde moras? + +--Estou em casa da snr.ª D. Thereza de Sousa, proprietaria em S. Cosme, +tão boa, como rica. + +Ha um anno, que eu e minha avó não sabiamos aonde nos haviamos de +recolher; estavamos em Dezembro, e havia dous dias que não tinhamos +comido, quando de repente me lembrei da snr.ª D. Thereza. Eu e minha +avó, que então moravamos na serra de Vallongo, pozemos-nos a caminho +para S. Cosme. O caminho é muito mau, por isso mais d'uma occasião +julguei que minha avó ficava na estrada, porque já não podia andar; mas +o Senhor teve misericordia de nós, e felizmente terminamos a jornada. A +snr.ª D. Thereza tratou-nos com muita bondade, e recolheu-nos em sua +casa, apesar de sermos um encargo muito pesado. + +--Amas então muito a snr.ª D. Thereza? + +--Se a amo. Não queria mais nada, senão poder reconhecer todo o bem, que +nos faz. Não desejo senão crescer e robustecer para lhe poder servir +d'utilidade. + +--Estou muito contente, minha pequena, por te ouvir fallar assim. Quando +te vi senti-me attrahida para ti, e ficaria muito desgostosa se te não +encontrasse com sentimentos dignos da estima que te consagro. + +Parece-me que o meu cesto está acabado? + +--Ainda lhe falta uma cercadura de _não me deixes_. Permitti, senhora, +que eu vá ao proximo ribeiro colher estas flôres, porque alli as ha mais +frescas, e em mais abundancia. + +--Ide, que aqui te espero. + +Rosa partiu correndo. + +D. Julia d'Andrade, que tanto interesse mostrava pela protegida de D. +Thereza, tinha vinte annos. + +O cabello preto muito comprido, e naturalmente encaracolado, fazia-lhe +sobresahir ainda mais a pallidez do rosto. Os olhos castanhos tinham um +brilho de febre. A physionomia demonstrava um padecimento interno, n'uma +palavra, estava affectada d'uma tisica pulmonar. + +Sua mãi, a viscondessa do Candal, receiando pela vida de D. Julia, tinha +consultado os mais acreditados medicos de Lisboa e Porto, e todos tinham +aconselhado os ares do campo, e o não constrangimento, como os meios +mais proficuos para debellar a molestia. A viscondessa tinha portanto +deixado o Porto e ido habitar com suas filhas D. Julia e D. Bertha uma +quinta proximo da serra de Vallongo. + +D. Julia parecia que revivia no meio da luxuosa natureza, que a cercava. +Todos os dias dava grandes passeios, e distrahia-se ou sentando-se á +sombra dos carvalhos e sobreiros, ou embrenhando-se entre as çarças. Ao +principio a viscondessa receiou que estes passeios tão longos +prejudicassem a saude de sua filha, mas vendo-a mais alegre e mais +vigorosa, e que se a pallidez não tinha desapparecido, a expressão +soffredôra do rosto era menos pronunciada, ficou mais socegada e esperou +obter o triumpho sobre a molestia. + +D. Julia era tão boa, e ao mesmo tempo tão prudente, que sua mãi não +temia deixal-a em plena liberdade, e gosar da vida segundo as suas +phantasias. + +A viscondessa queria que D. Bertha acompanhasse sua irmã nos seus +passeios; mas D. Bertha, que era uma joven de 16 annos d'idade, +orgulhosa do seu nascimento e belleza, recusou obstinadamente acompanhar +sua irmã, dando como razão, que lhe repugnava o juntar-se como ella com +esses _estupidos_ e _rudes_ aldeãos, que habitam os campos, e a quem +ella acariciava, e que além d'isso estragava os seus vestidos seguindo +D. Julia pelos caminhos estreitos e escabrosos dos campos e da serra. As +mil vozes da natureza eram mudas para D. Bertha; no seu coração só +imperava o egoismo. + +Num d'estes passeios é que D. Julia encontrou Rosinha, e que ficou +encantada com a sua innocencia. + +Havia muito que D. Julia esperava Rosa, e já receava que ella não +voltasse, quando a viu vir correndo. + +--Perdoai-me, senhora, o ter-vos feito esperar tanto tempo, mas eu fui +muito longe colher as violetas e os _não me deixes_, porque queria que o +meu cestinho vos agradasse.--Assim fallando Rosa apresentou a D. Julia +um cestinho, que era um primor d'arte no gosto, e esperou toda confusa, +a sua apreciação. + +Uma alegre exclamação de D. Julia lhe fez vir o sorriso aos labios. + +--Quero abraçar-te, minha querida menina; ha muito tempo que não vi nada +tão lindo, e como me causaste um grande prazer, quero recompensar-te; +mas deixa-me ainda admirar o teu bello trabalho. + +Este cestinho podia vêr-se. No centro tinha raminhos de violetas com as +folhas verdes, ainda humidas; uma corôa de lirios cercava as violetas, e +em volta uma grinalda de musgo, semeada de raminhos de rosas amarellas e +geranios. Dous ramos de madre-silva serpenteavam por entre os juncos +formando as azas. + +--Não quero--disse D. Julia, depois d'alguns instantes de silencio--que +uma obra tão bella tenha um viver ephemero; vou já bordar um quadro, +cópia d'este cestinho, que ha-de ficar muito rico. Mas, Rosinha, quanto +queres por este trabalho? + +--Dar-me-ha o que quizer, minha senhora, como costumam fazer as outras +minhas freguezas. + +--Mas quanto é que custam ordinariamente? + +--Tres ou quatro vintens. + +--Quatro vintens!--disse D. Julia admirada. + +--Acha caro, minha senhora?--disse Rosa com acanhamento. + +--Caro, não, minha pequena. Quando estava no Porto pagava, por muito +maior preço, ramos que tinham muito menos valor, que o teu cestinho. +Toma, Rosinha, não tenho aqui senão esta meia corôa, mas amanha a esta +hora apparece aqui, e fallaremos... + +--Não posso aceitar o que me dáes, minha senhora, porque é muito. + +--Queres fazer-me zangar? + +--Não, senhora. É a primeira vez que a vejo, mas já a estimo muito. Eu +não preciso de nada; a snr.ª D. Thereza é muito minha amiga e... + +--Não é uma esmola que te dou--replicou D. Julia, mettendo a moeda de +prata na mão de Rosinha--não te esqueças da recommendação, que te fiz, +de estares ámanhã aqui a esta mesma hora. + +E antes que Rosa tivesse tempo de recusar, já D. Julia tinha +desapparecido, levando na mão o cestinho. + +Rosa ficou um instante sem saber o que havia de fazer, mas recomeçou +ligeiramente o trabalho. Quando ao jantar voltou a casa, contou a D. +Thereza o seu encontro de pela manhã, o que lhe tinha acontecido e +perguntou-lhe se devia ou não guardar os cinco tostões. + +--Não te authoriso a pedir, Rosa, mas isso não é uma esmola, é um +presente, que te fazem, podes portanto arrecadar esse dinheiro. Ris-te. +Já sei. Esse dinheiro vem a proposito para augmentares o teu mealheiro, +com o qual te hei-de comprar um rico jaqué para o S. Miguel. + +--Não, senhora--replicou Rosa com a alegria nos olhos--não é esse o meu +pensamento, e que me causa tanta alegria. + +--Que é então? + +--Rogo-vos que me não façaes perguntas; depois o sabereis. + +--Guarda o teu segredo, porque sei que não és desgovernada, e que o não +has-de gastar mal gasto. + +Rosa abraçou ternamente D. Thereza, e foi entregar as suas encommendas +de flôres e cestos. + + +VI. + +D. Julia recolheu-se para casa muito tempo depois da hora, que tinha +determinado. + +A viscondessa, impaciente e sobresaltada com a demora, sahiu, no +caminho, ao encontro de sua filha. + +--Estiveste incommodada, minha filha?--lhe disse ella. + +--Não, minha senhora. Este cestinho, que aqui trago, é que foi a causa +da minha demora. + +E D. Julia mostrava a sua mãi o cestinho, que Rosa tinha feito. + +--Como é lindo--respondeu a viscondessa--Não sabia Julia, que tinhas a +prenda de fazer cestos de juncos entrançados. + +--Não fui eu que fiz este cestinho, minha mãi. + +--Então quem foi? + +--Foi uma lavradeirinha, que encontrei no meu passeio. + +--Uma lavradeira?! + +--Sim, minha senhora. E acreditareis, minha mãi, que por todo este +trabalho me pediu a grande quantia de quatro vintens? + +--Não te pergunto quanto lhe déste, por que conheço a bondade do teu +coração, e tenho a firme convicção de que não abusaste da sua +simplicidade. + +--Dei-lhe só meia corôa, por que não tinha mais na minha bolsinha. Não +queria recebel-a, ajuizando que lh'a dava como uma esmola; mas tanto fiz +que a aceitou, e convencionei com Rosa, (pois a minha ramalheteira assim +se chama) para nos encontrarmos ámanhã, no mesmo sitio, á mesma hora; e +se ella, como penso, fôr digna da sympathia, que me inspirou, e do +interesse que já me causa, consentir-me-heis, minha boa mãi, que a tome +sob a minha protecção? + +--Consinto em tudo, minha filha, que te dê prazer, e distracção. Se a +tua protegida fôr digna dos nossos beneficios, unir-me-hei comtigo, e +accordaremos no que devemos fazer para seu bem. + +D. Julia abraçou com ternura a viscondessa, e agradeceu-lhe a sua +bondade. + +N'este comenos, a viscondessa e sua filha, chegaram a casa. + +D. Julia collocou com muito cuidado sobre uma mesa da sala o cestinho, e +correu com presteza ao seu quarto a preparar um cavallete, pinceis e +tintas para dar principio ao quadro projectado, e, tendo tudo disposto, +desceu á sala a buscal-o. + +D. Bertha estava examinando o cestinho com attençào e minuciosidade. + +--Não estão tão bem dispostas e combinadas essas flôres, Bertha?--disse +D. Julia. + +--Assim, assim. Não gosto d'estas violetas, que formam o centro do ramo. +Podias ter tido melhor gosto e fazer cousa melhor. + +--Não concordo com a tua opinião. Estou convencida de que Rosa não podia +ter melhor gosto. + +--Rosa? + +--Sim, Rosa. Ah! é verdade; ainda te não contei o encontro, que tive +esta manhã. Ora ouve. + +D. Julia contou a sua irmã minuciosamente toda a conversa, que tivera +com Rosa. + +Quando ella acabou, D. Bertha fez um gesto de desdem. + +--E, sem duvida, Julia, já te affeiçoas-te a essa pequena; não é +assim?--disse D. Bertha. + +--Rosa,--respondeu unicamente D. Julia--tem merecimento bastante, que a +torna digna da protecção, que se lhe dispensar. + +--O que mais me admira e me espanta, Julia, é a rapidez com que +sympathisas com qualquer, e como instantaneamente conheces e decides, +que essa pessoa é digna da tua affeição e amisade... Não quero tomar-te +o tempo; julgo que vinhas buscar o teu lindo cestinho, não é assim? + +--Vinha, sim, para o ir copiar em um quadro, pintando-o. + +--Pintal-o?!--disse D. Bertha, dando uma grande gargalhada.--Que +liguemos alguma attenção ás flôres dos nossos parques e jardins, +concedo; mas que empreguemos o tempo e o talento com as silvestres, que +só tem os perfumes para si, parece-me uma singularidade esquisita. + +--A minha opinião, Bertha, é exactamente o contrario. Mas isso não +admira, por que nós raras vezes estamos accordes sobre qualquer materia. +Ponhamos isso de parte; queres tu vir ámanhã, commigo e com a nossa boa +mãi, vêr Rosa? + +--Não posso. Combinei com a Francisquinha e Ritinha Meirelles virem +amanhã aqui passar o dia. Além d'isso, fallar-te-hei francamente, não ha +nada para mim mais antipathico do que todas essas lavradeiras; e andar +uma legua para me ir achar face a face com um monstrosinho, parece-me um +tanto aborrecivel. + +--Rosa é muito linda e interessante. + +--Para ti, Julia, todas as lavradeiras são lindas e interessantes. Para +mim todas são feias, e broncas. O calor principia a incommodar-me--disse +D. Bertha, sentando-se indolentemente sobre um sophá.--Vai, Julia, vai +pintar o teu lindo cestinho, que eu vou sonhar com o meu Porto, para +onde espero ir muito breve. + +Estas ultimas palavras já mal se perceberam, porque foram acompanhadas +com um bocejo, e D. Bertha cerrou os olhos. + +D. Julia lançou sobre sua irmã um olhar de compaixão e sahiu. + +Alguns instantes depois deu principio ao quadro. + + +VII. + +No dia seguinte Rosa sahiu para a serra, muito cêdo, para adiantar o seu +trabalho, e poder assim dedicar mais tempo á joven senhora, que tão +amavel e generosa tinha sido com ella. + +Trabalhou com tal desembaraço, que, muito antes da hora marcada por D. +Julia, tinha terminado o seu serviço. + +Aproveitou portanto o tempo entregando-se á leitura d'algumas paginas +d'um livro, de que lhe tinham feito presente no dia anterior. Lia com +attenção, e, quando encontrava algum trecho rico e bello, parava, para +exprimir a sua alegria e enthusiasmo. + +Estava Rosa de tal sorte entregue á leitura, que não presentiu a chegada +da viscondessa e de sua filha D. Julia. + +--Que livro estás lendo, com tanta attenção, minha menina--lhe disse a +viscondessa. + +Rosa saudou-a, apresentou-lhe o livro e respondeu: + +--São as _Meditações religiosas_ de Rodrigues de Bastos. + +--E encontras grande prazer na sua leitura? + +--Se encontro, minha senhora. Quando estou sentada á borda d'um regato, +ou debaixo d'um carvalho annoso, lendo n'este livro, parece que a minha +alma se despe de todos os seus envolucros terrenos e mundanos, e se põe +em contacto com Deus, author de todas estas maravilhas da natureza, que +nos cercam, e a quem no fundo do meu coração adoro e venero. + +A viscondessa e sua filha, admiradas do que ouviam a uma pequena do +campo, trocaram entre si um olhar d'intelligencia. + +--E que mais costumas lêr?--perguntou D. Julia. + +--Não tenho muitos livros. Além d'este possuo um cathecismo, uma vida de +santos, de que leio uma pagina cada domingo, e mais uns livrinhos +d'historias bonitas. Esquecia-me dizer-vos, que tambem tenho um livro de +geographia, que me deu o mestre escóla da minha freguezia, mas que não +leio, por que tem muitas palavras, que não entendo. + +--Pelo que me dizes conheço que tens desejos de te instruires. Se te +proporcionassem os meios de o fazeres, serias feliz? + +--Seria, sim, minha senhora; mas infelizmente isso é impossivel, porque, +para ir todos os dias á mestra, é preciso ser muito rica. + +--Mas se te mandassem á mestra?--insistiu D. Julia. + +--Seria muito feliz, mas nem quero pensar n'isso. + +--Pelo contrario; eu e minha mãi, viemos procurar-te para que nos +conduzisses a casa da snr.ª D. Thereza, e, se a tua protectora estiver +satisfeita comtigo, pedir-lhe-hemos para te deixar ir todos os dias á +mestra. Então não respondes? + +--Perdoai-me, senhora. Estou muito contente e alegre, e queria +agradecer-vos, mas não posso. Que fiz eu para merecer tantos beneficios? + +--Mostraste-te reconhecida aos beneficios da snr.ª D. Thereza, e isso +indica um bom coração; és trabalhadeira e tens desejos de te instruires; +mereces portanto que nos interessemos por ti--lhe disse a +viscondessa.--Vamos, ensina-nos o caminho para a quinta da snr.ª D. +Thereza. + +Rosa, commovida, dirigiu-se para a quinta com a viscondessa e sua filha. +Pelo caminho respondeu modestamente, e com graça, a todas as perguntas, +que lhe fizeram, e cada uma das respostas confirmou mais, as duas +senhoras, no bom conceito, que tinham formado de Rosa. + +Quando chegaram á quinta, D. Thereza não estava em casa, mas não devia +tardar muito, por isso esperaram. Rosa apresentou ás duas senhoras +cadeiras para se sentarem e offereceu-lhes um copinho de leite fresco e +morno. + +D. Julia, a quem o caminho tinha fatigado, aceitou o offerecimento. + +Rosa trouxe então uma toalha de linho, alvo como neve, que estendeu +sobre uma mesa, na qual collocou o melhor pão, que havia em casa, +manteiga e um copo de leite. + +D. Julia, com uma alegria infantil, aceitou este _lunch_ frugal, e, +reanimadas com elle as suas forças, pediu para visitar a quinta. + +A avó de Rosa estava sentada no jardim, debaixo d'um caramanchel de +clematites, fiando, e cantando com voz tremula o estribilho d'um romance +antigo. N'esta boa velha, bem vestida e de boa presença, ninguem seria +capaz de reconhecer a pobre cega, que dezoito mezes antes, quasi +morrendo de fome e frio, e podendo apenas suster-se em pé, encontramos +seguindo o caminho da serra de Vallongo para S. Cosme. + +A viscondessa do Candal e sua filha saudaram a pobre cega, e esta, +prevenida pela netinha, correspondeu-lhe respeitosamente. + +--Não vos incommodeis, boa mulher---lhe disse a +viscondessa--permitti-nos sómente que conversemos por um instante +convosco. + +--É muita honra para mim, minha querida senhora;--respondeu a +cega--estou portanto ás vossas ordens. + +--Visto isso não vos recusareis a dizer-me se estaes satisfeita com a +vossa neta? + +--Se estou contente com a minha Rosinha?!--exclamou a cega---com ella, +que é a minha benção sobre a terra. Quando o meu genro morreu, por causa +d'uma ferida, que fez em uma perna com o seu machado, porque elle era +rachador de lenha na serra, e a quem minha filha, mãi de Rosa, seguiu +passado pouco tempo, quasi que enlouqueci, porque não sabia o que havia +de fazer. Rosa, disse-me com a sua voz meiga e humilde: avósinha, eu +conheço uma senhora muito caritativa; vamos a sua casa, que estou certa +nos ha-de recolher. E foi verdade. + +A snr.ª D. Thereza, essa boa e caritativa senhora, para quem peço a Deus +todos os beneficios e bençãos, teve a caridade de recolher em sua casa +uma velha enferma e inutil como eu. Mas isto devo-o a Rosinha, porque +ella sabe dizer as cousas de tal maneira, que, penetrando até o coração, +commovem e decidem á compaixão. Vai em dezoito mezes que aqui nos +achamos. Fio um pouco para não estar em descanço; mas Rosinha, senhora, +Rosinha, cantando sempre, trabalha desde pela manhã até á noite. Em +quanto que dura o verão, occupa-se a colher flôres na serra e no campo, +e a fazer cestinhos com ellas; mas isto não obsta a que, quando se +recolhe, lave a roupa, limpe os moveis, e ajude a cozinhar, e se +quizesse dizer-vos tudo o que ella faz, ou sabe fazer, levar-me-ia muito +tempo. + +Assim, amo muito a minha querida Rosinha. Mas onde estás tu, que te não +chegas a mim para te dar um abraço? + +Rosa, com o pretexto de ir colher um ramo para D. Julia, tinha-se +retirado, quando a avó começára a elogial-a. + +A viscondessa e sua filha ouviram com prazer o panegyrico de Rosa, feito +pela avó, e iam fazer novas perguntas, quando D. Thereza chegou. + +Depois de terminados os comprimentos preliminares, a viscondessa expoz a +D. Thereza como sua filha sympathisára com Rosa, e estava resolvida a +tomal-a sob a sua protecção, se D. Thereza a isso se não oppozesse. + +--Primeiro que tudo--respondeu D. Thereza--desejo a felicidade e +venturas de Rosinha, ainda que me ha-de custar muito a separar-me +d'ella: porém, se fôr sua vontade, não me opponho, por que julgo lhe +procuraes a sua felicidade; mas ponho por condição, que lhe não +prohibireis vir algumas vezes visitar-me. + +--Isso, senhora, é um dever sagrado, que Rosa tem a cumprir. Vamos porém +interrogal-a, por que ella nada sabe do que acabamos de fallar. + +D. Thereza chamou a pequena, que veio correndo, e disse-lhe: + +--Rosinha, queres ir viver com esta senhora e sua filha? + +--Pois vós, senhora--respondeu Rosa tremula e timida--quereis mandar-me +embora? + +--Não. Pergunto sómente se me queres deixar, para te tornares uma menina +da cidade, instruida e de maneiras polidas? + +--Não, minha senhora. Nunca--disse Rosa chorando, lançando-se nos braços +da sua bemfeitora--nunca vos deixarei. Tenho muitos e muitos desejos de +me instruir e de aprender, mas, se para isso é necessario o deixar-vos, +antes quero ficar ignorante toda a minha vida. Recolheste-nos, senhora, +quando eu e a minha querida avósinha, estavamos quasi a morrer de fome, +e havia de ser tão ingrata, que, quando principio a servir d'alguma +utilidade, vos abandonasse? Não, senhora, nunca, nunca vos deixarei. + +--Ouvistel-a, minhas senhoras--disse D. Thereza enxugando os olhos, +razos de lagrimas. + +--Pelo que vejo, Rosa, estás bem decidida a não vir comnosco?--lhe disse +a viscondessa. + +--Seria feliz e muito feliz, minha senhora, se podesse ir viver na sua +companhia, e de sua estimavel filha; mas antes de vós, está a snr.ª D. +Thereza, que salvou a minha pobre avósinha d'estender a mão á caridade +publica e que sempre tão minha amiga tem sido. Perdoai-me, senhora, se +assim fallo... + +--Dá-me um abraço, minha menina--lhe disse a viscondessa +interrompendo-a--dá-me um abraço, porque te mostraste tal, como eu +desejava, boa, humilde e reconhecida aos beneficios, que te fazem. + +Não tenhas receio, que te separemos da snr.ª D. Thereza. Pediremos +sómente á tua bemfeitora, que nos deixe entrar com metade nos +beneficios, que te prodigalisa. + +--E eu, Rosa--acrescentou D. Julia--quero ser a tua preceptora. Quando o +tempo estiver bom, dar-te-hei as lições na serra, á sombra d'um +sobreiro, ou d'um pinheiro, ou á borda d'um regato; e quando estiver +mau, dar-tas-hei em minha casa, porque ouso esperar, que a snr.ª D. +Thereza me não negará este favor, e prazer. + +--Oh não, minha senhora, esteja certa d'isso. Logo que termine o seu +serviço dos cestinhos fica livre para vos ir procurar. + +--É objecto convencionado--disse a viscondessa--por isso a snr.ª D. +Thereza ha-de-me permittir licença de offerecer a Rosa, para si e sua +avó, o que contém esta pequena bolsa. É para comprar em nosso nome um +vestido novo. + +E como D. Thereza, Rosa e a avó lhe fizessem muitos agradecimentos, a +viscondessa impoz-lhes com brandura silencio, e retirou-se, promettendo +voltar muito breve á quinta. + +D. Julia abraçou a sua pequena discipula, e retirou-se dizendo-lhe «até +ámanhã». + +Nas proximidades de casa a viscondessa e sua filha encontraram D. +Bertha, que estava esperando pelas meninas Meirelles. + +--Meu Deus, como estou aborrecida--lhes disse ella. + +--Pois eu, minha irmã--respondeu D. Julia--venho muito alegre; o +espectaculo, que acabo de gosar, dar-me-ha felicidade não só para hoje, +mas tambem para muito tempo, porque será contado no numero das minhas +mais gratas e queridas recordações. + + +VIII. + +D. Julia, na fórma convencionada, principiou no seguinte dia o curso, +que queria fazer seguir a Rosa. Tomou com ardor a obrigação, que se +tinha imposto desempenhar, mas o seu zelo não excedia, o que mostrava a +sua alumna. Intelligente, e anciosa por aprender, Rosa era incansavel, e +muitas vezes foi preciso que D. Julia moderasse a sua applicação; as +lições tinham lugar umas vezes na serra, outras vezes em casa da +viscondessa. + +Decorreram assim tres mezes. No fim d'este tempo, os progressos, que +Rosa tinha feito, eram espantosos, e como tanto a professora, como a +discipula não afrouxavam no seu zelo, era d'esperar que, no fim dos dous +mezes que D. Julia ainda tinha a passar no campo, Rosa estivesse +bastante desenvolvida para continuar, sem nada esquecer, a estudar +sósinha, durante o inverno. + +Mas, quando menos se esperava, a terrivel molestia, que parecia ter +deixado D. Julia, reappareceu com uma intensidade violenta. + +A pobre menina não teve forças para resistir a este ataque, e não podia +sahir do quarto. + +Rosa, que no auge da sua desesperação, com risco da propria vida, +quereria dar algumas forças á amiga do seu coração, podia a custo conter +as lagrimas, contemplando-a, pallida e cadaverica, recostada n'uma +cadeira de braços, forcejando por se levantar sem auxilio, para não +aterrar a sua querida mãi e a sua discipula predilecta. + +N'este momento Rosa tinha um unico pensamento; o de sacrificar-se por +aquella, que tanto a amava e lhe queria. Os mais pequenos desejos, e os +mais vagos caprichos eram adivinhados de Rosa, e executados antes mesmo +que D. Julia os tivesse enunciado. Se queria descer ao jardim, o braço +de Rosa é que a amparava; se queria ouvir alguma passagem dos seus +livros favoritos, Rosa lia-lh'a immediatamente. + +D. Julia, muito sensibilisada por tanta dedicação, affligia-se com a +lembrança, de que o progresso da sua discipula estava parado. D. Bertha +podia substituil-a, mas essa nunca consentiria em ser a preceptôra d'uma +lavradeira. A viscondessa resolveu-se a dar as lições a Rosa, para +socegar a inquietação de D. Julia. + +Havia já tres semanas que D. Julia estava doente, e cada dia ia a peor; +sua mãi já não tinha esperanças algumas. Tres medicos, que do Porto +haviam sido chamados, não deram esperanças da doente melhorar. + +A viscondessa, porém, não podendo convencer-se de que sua filha estava +irremediavelmente perdida, cria que os medicos se tinham enganado, e +resolveu recolher ao Porto, para lhe fazer uma nova junta. + +D. Bertha, contristada ao principio com a molestia de sua irmã, +consolava-se com a idéa de voltar ao seio da sociedade, que ella tanto +amava. + +Só á força de muitas instancias e esforços é que D. Julia consentiu em +deixar o campo; mas, ainda assim, com a expressa condição de para lá +voltar se peorasse. + +Quando Rosa soube que a viscondessa se ia retirar do campo, não pôde +conter a sua desesperação. Queria acompanhar D. Julia, e não a +desamparar um só instante. D. Julia procurava socegal-a, mas tudo era +baldado, por que Rosa estava inconsolavel. + +Na vespera da partida Rosa veio despedir-se de D. Julia; lançou-se-lhe +aos pés, chorando, e pediu-lhe que lhe escrevesse muitas e muitas vezes. +A doente assim lh'o prometteu, e, tirando debaixo do travesseiro uma +bolsinha de sêda, apresentou-a a Rosa. + +--Aceita, minha menina--lhe disse ella--esta bolsa; contem cem mil reis, +que são as minhas economias do verão; põe a juros este dinheiro, para +que se augmente este capitalsinho. + +É um presente muito pequeno; mas se nos não tornarmos a vêr, minha boa +mãi, dar-te-ha, em meu nome, mais alguma cousa. + +Rosa beijou as mãos de D. Julia, e queria recusar a bolsa. + +--Não recuses, Rosa--tornou D. Julia--senão fôr para ti, é para tua avó. +Sabes lá o que tem para vos acontecer, e se esta pequena somma ainda vos +será util? Adeus, Rosinha; ama-me sempre muito, e reza muito ao Senhor, +para que me dê saude. + +Rosa quiz responder, mas as lagrimas e soluços embargaram-lhe a voz. A +viscondessa, testemunha d'esta scena tão tocante, temendo as funestas +consequencias, que sua filha soffreria com tão grande commoção, levantou +Rosa, e pediu-lhe com instancia e por favor que se retirasse. A pobre +menina cedeu a custo, mas antes de se retirar ainda pôde vêr D. Julia, +que, com um olhar maternal, a abençoava. + + +IX. + +Já tinha decorrido mais d'um mez, desde que D. Julia recolhera ao Porto, +e Rosa ainda não tinha recebido carta da sua amiga. A pobre criança +affligia-se, julgando, que este silencio, para com ella, não tinha outra +causa, senão o estado cada vez mais perigoso de D. Julia. D. Thereza, +que partilhava do pesar de sua filha adoptiva, procurava por todos os +meios consolal-a, e fazer-lhe conceber esperanças. Uma carta de D. Julia +veio confirmar as prevenções de D. Thereza. + +D. Julia, com mão tremula, escreveu á sua querida discipula. +Participava-lhe que a sua doença parecia estar um pouco mais debellada, +e que os medicos davam algumas esperanças de a poder subjugar, e +embargar-lhe o seu progresso. + +Terminava a carta aconselhando Rosa a que não descurasse os seus +estudos, e pedindo-lhe que lhe escrevesse. + +Rosa cobriu de mil beijos esta carta, e no mesmo dia respondeu a D. +Julia, assegurando-lhe que não despresaria os seus conselhos, e que +tinha esperanças, de, para a primavera, renovar as suas lições sob as +arvores da serra; que nas suas orações rogava todos os dias a Deus, com +fervor, que lhe restituisse a saude, e que esperava as suas supplicas +fossem attendidas. + +Rosa, cumprido este dever sagrado, lançou mão do seu trabalho com mais +vigor. + +Estava proximo o dia natalicio de D. Thereza. Rosa preparava em segredo +um lindo presente para offerecer n'aquelle dia á sua bemfeitora, e para +isso tinha reunido todo o dinheiro, que lhe tinham dado de mimo, e +julgava-se bastante rica para poder apresentar a D. Thereza um brinde, +de que ella admirasse o valor e o gosto. + +Faltavam só quatro dias para que, esse dia tão anciosamente esperado, +chegasse, e Rosa ainda queria poder supprimir o tempo, tão longo lhe +parecia. + +Na vespera de manhã D. Thereza queixou-se d'uma dôr de cabeça, mas +julgou que um passeio lh'a dissiparia. Sahiu pois; mas passado uma hora +voltou ainda mais indisposta, do que tinha sahido. + +Despresando o seu estado, ainda presidiu, na fórma costumada, ao jantar +dos criados da quinta; mas, no meio d'elle, cahiu sem sentidos. + +Os criados, assustados, cercaram D. Thereza. Recolheram-na á cama, e +partiu immediatamente um criado a chamar, a toda a pressa, um cirurgião. + +Chegou este, e, mal viu a doente, não deu esperanças de a salvar. + +--Foi uma apoplexia fulminante--disse elle--é já tarde para se lhe dar +remedio. + +O desespero e a consternação espalharam-se na quinta. + +Os criados em geral estimavam muito D. Thereza, por que, apesar de ser +muito vigilante, era boa e justa. + +Os menores movimentos do cirurgião eram seguidos com anciedade por todos +os criados, mas entre elles tornava-se saliente Rosa pelo zelo e +actividade, que desenvolvia em executar as prescripções do cirurgião, +ainda bem não estavam dadas. + +Rosa não podia crêr que Deus lhe quizesse roubar a sua bemfeitora, e +esperava ainda que uma crise feliz a restituiria á vida. + +A avó de Rosa estava consternadissima, e o seu maior pesar consistia em +não poder fazer cousa alguma. + +De joelhos; junto do leito de D. Thereza, rezava com fervor e devoção. + +Entre as alternativas da esperança e desconforto se passou o dia. Á +noite o cirurgião declarou que já lhe não restava esperança alguma; que +D. Thereza ainda podia viver mais um dia ou dous, mas que não proferiria +mais uma palavra, nem faria um unico movimento. + +Descrever a afflicção de Rosa e de sua avó é-me impossivel; bastará +dizer que a dôr as tinha quasi enlouquecido. + +D. Thereza não tinha filhos, por isso foram avisar do succedido a D. +Euzebia, sua irmã, rica proprietaria em Rio Tinto. + +D. Euzebia, por causa do seu genio forte, e caracter duro, não estava em +intimas relações com D. Thereza. Assim que teve noticia da doença de sua +irmã poz-se logo a caminho, não por amisade que tivesse á moribunda, mas +sim para vigiar que lhe não roubassem a mais pequena parte da sua +herança. + +Logo que D. Euzebia chegou a S. Cosme, tomou o governo da casa, e deu +ordens como se já estivesse senhora da herança. Rosa e sua avó +inspiraram-lhe antipathia, e não podia comprehender como sua irmã +voluntariamente tinha tomado ao seu cuidado aquellas duas pessoas. + +D. Thereza ainda viveu dous dias, conforme o cirurgião dissera, mas sem +falla, e sem movimento, porque a apoplexia tinha-lhe paralysado todas as +faculdades. Só os olhos é que conservavam ainda alguns signaes de vida e +intelligencia, os quaes fixava sobre Rosa, fazendo esforços para fallar, +naturalmente para fazer o seu testamento; mas este ultimo consolo dos +moribundos não lhe foi permittido. + +O abbade da freguezia, que veio administrar os ultimos sacramentos á +moribunda, tentou mitigar a dôr de Rosa, mas a joven menina estava muito +consternada para poder ser consolada. Recusou obstinadamente retirar-se +de junto do leito, em que jazia D. Thereza, conservando-lhe a mão gelada +apertada nas suas. + +--O meu lugar é este,--dizia ella entre soluços,--só deixarei minha +segunda mãe no tumulo. + +Finalmente chegou o terrivel momento da morte. Uma convulsão, alguns +murmurios sufocados........ e D. Thereza tinha deixado d'existir entre +os vivos, e sua alma, desprendendo-se das ligações terrenas, voára ao +céo a receber da mão de Deus o premio das suas virtudes. + +Ao principio não se ouviam mais que os chóros de todos os criados da +quinta, mas em seguida uma voz forte e imperiosa se fez escutar. Era a +de D. Euzebia. Collocou uma pessoa junto do cadaver de sua irmã, deu as +ordens para os funeraes, e passou a inspeccionar as caixas e commodas, +que fechava com cuidado, guardando as chaves. + + +X + +Apenas D. Euzebia fechou as commodas e caixas, compareceu o juiz eleito +da freguezia para sellar e tomar conta de tudo o que pertencia a D. +Thereza. + +--Aqui estão as chaves, senhor juiz eleito--disse D. Euzebia,--mas é +inutil esse trabalho, por que eu sou a unica herdeira de minha irmã, e +ella não podia desherdar-me. + +--É verdade, minha senhora,--respondeu o juiz--mas cumpro o meu dever, +por que a lei protege os direitos de todos. + +--Só eu é que tenho direito á fortuna de minha irmã, pois ella não tem +filhos. + +--Sim, minha senhora, mas esta orphãsinha, a quem ella deu asylo? + +--Minha irmã--replicou com colera D. Euzebia--seria por ventura capaz de +me desherdar, testando os seus bens a favor d'estas duas mendigas, que +ella teve a phantasia de recolher em sua casa? + +--Não o affirmo, minha senhora--respondeu com brandura o juiz;--mas sua +irmã póde ter feito testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua +estima e amisade. + +--Não julgaria sufficiente o sustental-a e mais á avó,--disse D. Euzebia +com voz forte--ainda lhe havia de deixar algum legado? Ah! minhas +velhacas, virieis vós roubar o que de direito me pertence? Snr. juiz +eleito, queira tambem sellar a porta do quarto d'ella, pois quem sabe +lá, o que ella tem roubado. Minha irmã era tão pouco cautellosa... + +--Oh! senhora--respondeu Rosa com muita tristeza a esta supposição +offensiva--acreditaes que pagasse com o roubo os beneficios, que eu e +minha avó recebemos da snr.ª D. Thereza? + +O juiz eleito ordenou com brandura a Rosa que se calasse, para que D. +Euzebia não continuasse, diante d'um leito de morte, com uma discussão +tão vergonhosa, e feia. + +Logo que o juiz se retirou, Rosa viu-se de novo a braços com as +suspeitas da ambiciosa herdeira. Chegaram a tal ponto as cousas, que +Rosa não pôde refrear a sua indignação. + +--Não me injurieis, senhora,--disse Rosa com energia e dignidade--não me +injurieis diante do corpo de vossa irmã, de quem só a vista bastaria +para me proteger. Dizei-me, senhora, sahi eu por ventura um só instante +de junto da cama da minha bemfeitora, desde que ella foi atacada pela +apoplexia? Não, senhora. Então como podia eu subtrahir cousa alguma? +Examinai, e examinai bem, senhora, que achareis tudo intacto, porque eu +e minha avó preferiamos antes morrer de fome, do que tocar na cousa mais +insignificante, que nos não pertencesse. Louvado seja o Senhor, sou +forte; posso e quero trabalhar, por isso não serei pesada a ninguem. +Deixai-nos, senhora, chorar em paz a perda da nossa bemfeitora, que, +logo que o seu corpo saia d'esta casa, não vos pediremos asylo. + +Esta linguagem, firme e digna, impoz silencio a D. Euzebia, que ficou +corrida de vergonha. + +Rosa esperou com socego o dia seguinte, em que se devia fazer o enterro +a D. Thereza. + +A pobre criança, com a avó pelo braço, seguiu chorando o prestito. +Depois de terminado o officio, Rosa e sua avó, ajoelharam-se junto da +campa, em que D. Thereza foi sepultada: era já noite cerrada, e ainda as +duas desgraçadas não cuidavam em se retirar. + +O frio, que fez dar um gemido á avó, advertiu Rosa de que se devia +recolher; só então é que pensou para onde havia de ir. + +--Vamos, minha avósinha--disse Rosa--a casa da snr.ª Maria da Gandra, +que estou certa, sendo tão nossa amiga, nos não ha-de deixar na estrada. + +A snr.ª Maria da Gandra era uma boa e caridosa mulher, que, como todos +os moradores de S. Cosme, e seus arredores, estimava muito a protegida +de D. Thereza, e censurára o procedimento de D. Euzebia. + +--Oh! Rosinha, foi Deus que te dirigiu para minha casa--lhe disse ella +logo que a avistou.--Que prazer me não causa teres procurado a minha +casa para te recolheres. Tinham-me dito, que ias para casa da Joanna da +Quintella, por isso é que te não offereci para vires para aqui com tua +avó. + +--Agradeço-vos, senhora--disse Rosa--a vossa bondade, e a caridade com +que vos offereceis para nos recolherdes; mas não venho pedir-vos casa e +sustento de graça, porque tenho duas inscripções de cem mil reis cada +uma; o que vos rogo é que me aboneis tudo o que eu precisar e minha avó, +que vos satisfarei logo que termine a liquidação da herança da snr.ª D. +Thereza, e receba as minhas inscripções. + +--Sim, sim, minha menina,--lhe respondeu a snr.ª Maria da Gandra--Não +preciso do teu dinheiro para te sustentar e a tua avó. Mas diz-me, como +obtiveste essas inscripções? + +--A snr.ª D. Julia, antes de partir para o Porto, deu-me cem mil reis, +com os quaes a snr.ª D. Thereza, em cumprimento do seu desejo, comprou +duas inscripções em meu nome. + +--Foste feliz, Rosinha, em que fossem compradas em teu nome, porque +d'outra maneira D. Euzebia tomaria posse d'ellas. Tem resignação, assim +como vós, minha boa velhinha; vinde cear, que eu depois vou-vos conduzir +ao vosso quarto. + +Rosa e sua avó ficaram portanto habitando na Gandra. + +A pequena não estava ociosa, antes pelo contrario era tão zelosa e +trabalhadeira, que a snr.ª Maria, muito satisfeita, propoz-lhe que ella +e a avó, ficassem para sempre em sua casa. Rosa aceitou promptamente, e +com reconhecimento, pois n'aquella occasião era a maior felicidade, que +lhe podia apparecer. + +No dia em que se deviam tirar os sellos em casa da defunta D. Thereza, +Rosa alli compareceu por convite do juiz eleito. + +Quando Rosa atravessou, como estranha, a soleira da porta da casa, que +tinha sido para ella tão hospitaleira, o coração comprimiu-se-lhe e não +pôde reter as lagrimas. + +Tudo se passou sem novidade; só de quando em quando D. Euzebia mostrava +por gestos e exclamações o seu desapontamento por encontrar menos +dinheiro, do que imaginava. + +Quando se abriu a caixa, que pertencia a Rosa, não foi uma exclamação de +surpreza, que D. Euzebia soltou, mas sim de raiva, na qual se divisava +um accento de triumpho. + +--Bem certa estava eu,--disse ella--que esta velhaca havia de ter +_empalmado_ alguma cousa. Ah! se eu não viesse logo... o que teria +acontecido. Examinai, senhor escrivão, o que é que ahi existe. + +O escrivão tirou da caixa um magnifico vestido, que, a julgar pelo +tamanho, não pertencia de certo a Rosa. + +--Dize velhaca,--tornou D. Euzebia--como é que este vestido veio aqui +parar?--Não preciso perguntal-o, porque a culpada está-se denunciando +pelo rubôr, que lhe cobre as faces. + +--Senhora D. Euzebia--disse o juiz--o seu proceder para com esta criança +é digno de censura. Ainda, até agora, não encontramos cousa alguma, que +fizesse, nem ao menos, suspeitar de sua probidade. Deixai-a portanto +dar-me as explicações, que tiver a fazer. + +Responde Rosinha,--disse o juiz com modo affavel--como é que este +vestido se acha na tua caixa? + +Rosa fez-se muito corada e respondeu: + +--Este vestido, senhor, foi comprado com as minhas economias. + +--Que é; que é?--interrompeu D. Euzebia. + +--Senhora--disse severamente o juiz--ordeno que vos caleis. + +--É bem publico e sabido, que eu, durante o verão, fazia cestinhos de +flôres, que ia vender ás casas abastadas dos arredores. + +Quasi sempre me davam, como presente, mais do que o custo dos cestos: +entregava-me a snr.ª D. Thereza, para guardar no meu mealheiro, estas +pequenas quantias, que reservei com muito cuidado para poder brindar a +snr.ª D. Thereza no seu dia natalicio. + +Estava muito indecisa, por não saber o que lhe devia offerecer, e foi a +minha avó, que me suggeriu a idéa de lhe comprar um vestido. Para levar +a effeito este meu desejo combinei em segredo, com a costureira da snr.ª +D. Thereza, para o fazer, e estou muito certa de que a minha bemfeitora +não despresaria a minha offerta, se tivesse a felicidade de lh'a +apresentar. + +Esta explicação, simples e clara, que demonstrava um coração sincero e +grato, fez borbulhar as lagrimas nos olhos de todos os circumstantes. +Devemos comtudo excluir d'este numero D. Euzebia, que presistia em negar +a verdade. + +Quando se encontraram as duas inscripções, D. Euzebia chegou ao auge do +desespero e da colera, e de boa vontade as inutilisaria, se lhe fosse +possivel obtel-as á mão; mas, felizmente para Rosinha, não pôde +conseguil-o. + +Finalmente, pelos cuidados e protecção do juiz eleito, Rosa e sua avó, +apesar de todos os obstaculos e vontade de D. Euzebia, receberam tudo o +que lhes pertencia, e deixaram sem maior desgosto a casa, de que a mais +cruel e mais requintada avareza as expulsava. + + +XI. + +Estamos no anno seguinte. + +Rosa escreveu á viscondessa do Candal e a sua filha uma carta tão +affectuosa e consoladora, que fez despertar em D. Julia um vehemente +desejo de tornar a vêr a sua querida discipula e protegida. + +Os dias, que faltavam para Rosa poder abraçar a sua amiga, pareciam-lhe +seculos. Esperava com uma impaciencia impossivel de descrever, a chegada +da primavera, porque então é que devia, e podia estreitar ao coração a +sua querida amiga e preceptora. + +Raiou finalmente o dia tão anciosamente almejado. A primeira pessoa que +D. Julia avistou foi Rosa, que, louca d'alegria, viera esperar a sua +amiga querida, para lhe apresentar um cestinho, igual ao que tinha +estabelecido e sido causa das relações e intima união, que existia entre +ellas. + +D. Julia ao vêl-a deu um grito, e quiz immediatamente descer do coupé; +mas não pôde fazel-o, por que estava tão magra, fraca e desfigurada que, +quem a via, só a um milagre podia attribuir a sua existencia. Era na +verdade um milagre, devido ao amor maternal, e continuos cuidados e +desvelos, de que a cercava a viscondessa. + +Rosa passou todo o dia na companhia da sua querida amiga e protectora. +D. Julia tinha muito que lhe perguntar, por que queria saber +minuciosamente tudo o que tinha acontecido, desde que ella se tinha +retirado para o Porto. + +Apenas teve conhecimento da morte de D. Thereza, D. Julia pediu +immediatamente a sua mãi, que recebesse em sua casa Rosa e sua avó. + +A viscondessa, que desejava e queria satisfazer o mais pequeno desejo, +ou pedido de sua filha predilecta, accedeu sem demora. + +Rosa e sua avó vieram portanto morar para casa da viscondessa do Candal, +que foi pessoalmente dar parte d'esta sua resolução á snr.ª Maria da +Gandra. + +--Estou satisfeitissima, minha senhora--disse a snr.ª Maria da +Gandra--pela felicidade de Rosa; mas ao mesmo tempo sinto um grande +pesar, e é com difficuldade que me separo d'ella. Nunca mais encontrarei +uma pequena, que seja tão humilde e trabalhadeira. + +A viscondessa em seguida quiz satisfazer á snr.ª Maria da Gandra toda a +despeza, que Rosa e sua avó tinham feito em sua casa; mas a honrada e +digna aldeã não quiz aceitar a mais pequena e insignificante recompensa, +e respondeu--Que Rosa havia ganho o que ella e sua avó tinham +despendido. + +A despedida de Rosa e da snr.ª Maria da Gandra foi pathetica, e só a +muito custo se desprenderam, chorando, dos braços uma da outra, +promettendo Rosa vir visital-a a miudo, por que o carinho, com que a +snr.ª Maria a tinha tratado havia sido tal, que seria uma ingrata se lhe +não tributasse um profundo reconhecimento. + +A alegria, que se apoderou da pobre cega, quando lhe disseram que ia +viver em casa da viscondessa do Candal, foi tal, que só acreditou depois +de muito lh'o asseverarem, por que lhe parecia impossivel que semelhante +ventura lhe succedesse. + +--Que a minha Rosinha--disse ella--algum dia se havia de tornar senhora +da cidade, sempre eu o julguei, por que era muito gentil e linda para +ser camponeza; mas que eu partilhasse tal ventura, nunca o imaginei. + +Rosa e sua avó foram alojadas, em casa da viscondessa, em dous quartos, +muito perto d'aquelle em que habitava D. Julia; que assim o tinha +exigido para ter a sua protegida junto d'ella, o que se executou com +muita censura e reparo de D. Bertha. + +--Era só o que faltava--dizia um dia, a orgulhosa D. Bertha, a D. +Francisca de Meirelles, sua amiga--trazer para nossa casa estas duas +mendigas. Podes tu, minha querida, explicar-me como é que Julia pôde +affeiçoar-se tanto a estas duas creaturas? + +--Tua irmã, Bertha, tem o coração muito sensivel; basta que lhe façam +uma choradeira, ou que lhe contem uma historia triste para acreditar em +tudo, e logo se affeiçoar a qualquer, e lhe dedicar carinho é protecção. + +--Mas na verdade, esta sociedade não é tão agradavel e +attrahente?--disse D. Bertha com um sorriso ironico.--Se a cega e a neta +contam commigo para lhes fazer companhia, affirmo-te que lhes hei-de +deixar muito tempo para se aborrecerem. + +Conforme com estas _bellas_ resoluções D. Bertha evitava o mais possivel +dirigir a palavra a Rosa e sua avó, e, quando por necessidade o fazia, +era com um modo tão sobranceiro, imperial e chocarreiro, que as duas +infelizes ficavam confusas e envergonhadas. + +D. Julia tentou por diversas vezes fazer nascer no coração de D. Bertha +sentimentos mais nobres e mais christãos, mas infructuosamente, por que, +procurar commover e sensibilisar o coração empedernido e orgulhoso de D. +Bertha, era um trabalho improbo e esteril. + +D. Julia, feliz por ter em sua companhia a querida de seu coração, a sua +discipula, recuperou algum vigor, e ainda pôde recomeçar as lições. A +fadiga, que d'este trabalho lhe podia provir, era attenuada pela +attenção e estudo, que Rosa prestava ás prelecções. + +D. Julia ainda quiz ensinar desenho a Rosa. + +--Queres dar a Rosa--disse uma occasião a viscondessa a sua filha--uma +educação e instrucção superiores á sua posição na sociedade, e não +receias que isso para o futuro lhe cause embaraços e dissabores? + +--Como resposta a essa pergunta tenha, minha querida mãi, a bondade de +ouvir o que a minha protegida me dizia outro dia: + +«O meu maior desejo, minha boa amiga e mestra, é alcançar bastante +instrucção e saber, para um dia ser professora. Como me julgaria feliz +podendo dizer ás minhas discipulas: era uma aldeã muito ignorante e +rustica; uma boa menina, a snr.ª D. Julia, filha da snr.ª viscondessa do +Candal, teve a bondade de me tomar sob a sua protecção e de me ensinar. +É a ella, meninas, a quem devo o que sei e o que vos ensino. Se me +amaes, deveis igualmente amar a snr.ª D. Julia, minha bemfeitora; e +então ellas vos renderão graças, assim como eu vol-as rendo agora.» + +--Não te torno a dizer mais nada--disse a viscondessa--Continua, minha +filha, pois Rosa é digna dos teus cuidados e desvelos, e para que elles +se tornem mais proficuos ajudar-te-hei a leccional-a. + +A viscondessa cumpriu a sua promessa e, alternadamente com D. Julia, +dava as lições a Rosa. + +Estes estudos não fizeram pôr de parte a preparação de Rosa para receber +dignamente a primeira communhão. Foi com uma piedade exemplar que ella +cumpriu este solemne acto, e o futuro provou não ter sido esteril para o +seu coração. + +D. Julia passou o verão entre as alternativas de melhoras e recahidas +nos seus padecimentos, que tinham uma successão quasi regular e +periodica. Umas vezes nem levantar-se da cama, ou d'uma cadeira de +braços, para onde a levavam, lhe era possivel; outras vezes chegava a +poder dar uns pequenos passeios pelos campos das visinhanças. Aos +proprios medicos custava a comprehender como ella vivia. + +D. Julia, porém, não se illudia sobre o seu estado de saude. Quando sua +mãi a entretinha fazendo projectos, ou, como ordinariamente se diz, +_castellos no ar_, para o futuro, ella sorria-se e respondia: que ainda +faltava muito tempo para a sua realisação, e que não chegava a vêl-os +confirmar. + +A sós com Rosa D. Julia fallava livremente sobre a proxima terminação da +sua existencia, e então ella supplicava-lhe com instancia, que +repellisse da sua imaginação tão sinistras idéas. + +--Não posso crêr,--dizia ella--que Deus nosso Senhor me queira tirar +d'este mundo todos os meus protectores: não sei que crime tenha +commettido, que mereça semelhante castigo. + +--Resta-te ainda minha mãi, minha Rosinha--respondia D. Julia--que estou +certa nunca te ha-de desamparar. + +Rosa terminava esta penosa conversação abraçando D. Julia e procurando +distrahil-a por todos os meios possiveis. + +O que a dedicação mais sincera e real póde suggerir de mais bello, tudo +Rosa executava, recebendo, por galardão, ou recompensa a mais grata, um +terno sorriso de D. Julia, ou um agradecimento da viscondessa, e para os +merecer faria o impossivel se necessario fosse. + + +XII. + +D. Julia apparentava exteriormente um socego d'espirito, que +interiormente não sentia, por que receiava muito a chegada do outono, +época, que os medicos tinham marcado, a mais longa a que poderia chegar. +A anciedade, pois, que todos soffriam pela aproximação d'esse termo +fatal, era geral. + +Chegou o outono. Por um d'estes phenomenos, que a tisica muitas vezes +apresenta, a molestia não offereceu n'esta estação alteração alguma. + +A esperança, de que D. Julia ainda poderia vencer a fatal doença, +começou a penetrar em todos os corações, e até no da propria enferma. +Rosa chegou a dizer á viscondessa, que tinha uma convicção firme de que +D. Julia não morreria, por que Deus Nosso Senhor era bom e não a havia +de privar da sua protectora. + +A viscondessa, que até ahi estava convencidissima, de que sua filha não +passaria além do termo marcado pelos medicos, vendo-o passar sem que a +sua fatal predicção se realisasse, começou a crêr que se tinham +enganado, e que D. Julia ainda lograria saude. + +Houve portanto grande alegria em casa da viscondessa. Todos os criados, +que não amavam só, mas que veneravam D. Julia, por que era sempre boa e +affectuosa para elles, crendo que a sua joven ama, não tendo morrido na +época marcada, estava salva, pediram unanimemente para a felicitarem; +tal foi a alegria e contentamento, de que se apoderaram com esta +esperança e crença. + +Estas demonstrações respeitosas de sympathia e amisade, que os criados +lhe deram, penhoraram e commoveram muito D. Julia. A todos agradeceu com +reconhecimento esta nova prova d'affecto. + +Porém, de todas as felicitações, a da sua discipula e de sua avó, foi a +que mais a impressionou. + +Quando Rosa, conduzindo sua cega avó, se ajoelhou com ella junto da cama +de D. Julia, e lhe exprimiu, com candura e ingenuidade, a alegria e +prazer, que sentiam pelas suas melhoras, e os votos, que faziam a Deus, +para que o seu restabelecimento fosse real e breve, não pôde soffrear a +sua commoção, e as lagrimas correram-lhe em fio pelas faces, agradecendo +a Deus o prazer que tinha gosado com a felicitação que acabava de lhe +ser dirigida. + +Passou-se o inverno, sem que o estado de saude de D. Julia soffresse +alteração sensivel. + +Com a chegada da primavera D. Julia recomeçou os seus passeios pelos +campos e pinheiraes visinhos, na companhia da sua inseparavel Rosa, a +que algumas vezes se aggregava tambem a viscondessa. + +Na quaresma seguinte Rosa recebeu pela segunda vez o sacramento da +communhão, e pouco tempo depois, D. Julia, querendo que a sua protegida +progredisse nos seus estudos, pediu a sua mãi que lhe escolhesse uma +professora. + +A viscondessa annuiu immediatamente ao pedido de sua filha. + +Pouco tempo depois entrou para casa da viscondessa, sob recommendação e +abono do abbade de S. Cosme, uma joven senhora, a quem ha pouco acabava +de ser concedido o titulo de capacidade. + +Rosa esforçava-se por todos os meios possiveis para corresponder +dignamente aos beneficios, que, D. Julia e sua mãi, lhe estavam +constantemente prodigalisando; procurando sempre não dar o mais leve +desgosto ás suas protectoras; comtudo, é preciso dizer que Rosa não era +perfeita. A sua vivacidade natural levava-a muitas vezes a +impacientar-se, e o seu ainda pouco peso ou juizo a commetter algumas +faltas nos seus deveres; mas reconhecia com tanta facilidade os seus +erros, e mostrava-se tão arrependida e desejosa de os emendar, com tanto +afinco e perseverança, que era impossivel tratal-a com rigor por muito +tempo. + +Rosa dava as suas lições, umas vezes no quarto de D. Julia, quando o seu +estado de saude o permittia; outras vezes no da viscondessa, que sentia +um verdadeiro e sincero prazer em observar os progressos da predilecta e +querida de sua filha. + +D. Maria d'Almeida, assim se chamava a professora, correspondeu +dignamente á confiança, que a viscondessa n'ella tinha depositado, +confiando-lhe a instrucção da sua pupilla. + +O progresso e desenvolvimento, que Rosa sob a sua direcção experimentou, +foi grande, dando já signaes de que em breve a discipula se tornaria uma +excellente professora. + +Rosa, assim que as suas obrigações e deveres estavam terminados, +dedicava-se exclusivamente a D. Julia, e sua avó. Esta, desde que viera +viver para casa da viscondessa do Candal, andava alegre e folgazã, e +ainda julgava estar sonhando, tal era a placidez e amenidade do seu +viver. + +Tinha já decorrido parte do anno; o outono estava quasi findo, e o +estado de saude de D. Julia não denunciava signal algum de peoramento; a +molestia, porém, que até então estivera encubada, reappareceu com grande +violencia, e em oito dias as crises succederam-se tão proximas umas das +outras, que pozeram a enferma em estado de se não conceber esperança +alguma de a salvar. + +A illusão, que até ahi existira em todos, desappareceu completamente: já +não esperavam senão o golpe final... Rosa, nem um só momento desamparava +a sua querida protectora, e juntamente com a viscondessa, cuidava e +tratava de D. Julia; não consentiam que mais ninguem lhe prestasse o +mais insignificante serviço, chegando até a ter zelos uma da outra. + +Tanta dedicação e amisade teriam feito com que Deus revogasse a fatal +sentença dada a D. Julia, se o Creador, na sua alta sabedoria, não +tivesse resolvido chamar á sua presença, a receber o premio das suas +virtudes, aquelle anjo de bondade e resignação. + +D. Julia, já moribunda e quasi expirante, pediu a sua mãi, como ultima +graça que lhe fazia, que não abandonasse Rosinha, a sua querida +discipula e amiga; que se não affligisse, nem desanimasse, porque em +Rosa lhe deixava, estava certa d'isso, uma filha obediente e dedicada, +que havia de substituir no seu coração o lugar que ella deixava vasio, e +a Rosa recommendou-lhe que amasse sempre muito sua mãi, por que n'ella +encontraria um sincero apoio, e uma terna e carinhosa amiga. + +Apenas D. Julia proferiu estas palavras, a hora fatal tinha soado; +abraçou sua mãi, e Rosinha e, pronunciando os nomes de Rosa... e minha +mãi... expirou, voando a sua candida alma á presença de Deus a receber a +glorificação de suas virtudes. + +Assim terminou D. Julia a sua existencia, que, se tinha sido breve para +o mundo, fôra longa pelas boas obras, que sempre praticára, e pela +pureza em que sempre vivera. + + +XIII. + +Já decorreram seis annos depois das scenas descriptas no capitulo +antecedente. + +Não deixaremos, porém, a nossa muito conhecida casa, perto de S. Cosme, +pertencente á viscondessa do Candal, por que é no caminho, que a ella +conduz, que tem lugar o que passamos a contar. + +Uma senhora ainda joven, e outra já de mais idade caminham em silencio, +e commovidas. + +A mais idosa é a nossa muito conhecida viscondessa do Candal. + +O pesar da morte da sua querida filha Julia desfigurou-a muito. O rosto +tem-no emmagrecido, e sulcado de profundas rugas, e os cabellos +embranquecidos antes do tempo. + +A sua companheira é uma joven que figura ter dezesete para dezoito +annos, d'apparencia ingenua e modesta; é a nossa Rosa, a pequena dos +ramos e cestinhos. + +A viscondessa caminha apoiada no braço da sua companheira. Depois +d'alguma hesitação Rosa decidiu-se a dirigir-lhe a palavra. + +--Receio, minha querida senhora--disse Rosa respeitosamente--que esta +visita vos cause uma grande commoção e vos prejudique a saude. Por que a +não deixaes para quando estiverdes mais restabelecida? + +--Não, Rosa, não. Ha oito dias, que não vim visitar a campa onde jaz a +minha Julia, e oito dias já é um espaço muito longo. Sinto-me hoje +melhor, não despresarei portanto esta occasião que se me offerece, por +que, quem sabe se recahirei? + +--Não penseis em tal, senhora viscondessa. Creio que ainda haveis de ter +muitos annos de vida; tenho fé, que Deus vos não roubará á minha ternura +e reconhecimento. + +--Se as orações d'um anjo, Rosa, podessem deter a morte, conheço que as +tuas me preservariam d'ella. Mas, ai de mim, a morte da minha sempre +lembrada Julia despedaçou-me o coração. Não estou eu só n'este mundo? +Bertha não me abandonou logo que casou? Que faço então aqui n'este ermo, +a que chamam mundo? + +--Ah! senhora, esqueceis então a pobre Rosa, que vos estima e ama, e que +vos é tão dedicada como se fôra vossa filha? + +Estas palavras, pronunciadas com um accento de submissão, penetraram até +o imo do coração da viscondessa: sensibilisaram-na tanto, que abrindo os +braços recebeu n'elles Rosa banhada em lagrimas. + +--Sou uma ingrata, Rosa, bem o reconheço,--disse a viscondessa cingindo +Rosa ao coração. Recebo com indifferentismo os teus cuidados e carinhos, +e a tua inexcedivel dedicação. Perdôa-me, minha filha, minha querida +filha. Conheceste Julia, e melhor que outra qualquer sabes quanto era +merecedora da minha ternura e amisade, e quanto é digna de ser +pranteada. Mas Julia, antes de morrer, deixou-te na minha companhia, +para me servires de consolação e allivio na minha dôr. Abraça-me Rosa, +minha filha querida. + +Rosa, por unica resposta, abraçou com ternura a sua bemfeitora. + +As lagrimas, que lhe cobriam as faces, diziam bem alto e eloquentemente, +o que a commoção lhe embargava nos labios. + +Ainda caminharam por mais algum tempo e chegaram ao cemiterio. + +A viscondessa do Candal, como tributo á memoria de sua filha, +mandára-lhe levantar um lindo e rico mausoléo de marmore branco, no qual +ella tambem queria ser encerrada á sua morte. Em volta das grades +viam-se alegretes em que haviam violetas, geranios e rosas amarellas, +que Rosa cultivava e cuidava com muito esmero, como recordação das +flôres com que enfeitára o cestinho, que fôra causa da intima união, que +se estabelecera entre ella e D. Julia. + +A viscondessa e sua filha adoptiva oraram por muito tempo sobre a campa +d'aquella, que tanto tinham estremecido em vida, e que tanto choravam na +morte. + +Rosa, depois de ter examinado e regado todos os alegretes e pés de +flôres, um por um, para que os insectos, ou a seccura os não +estiolassem, dirigiu-se á viscondessa. + +--Deixo-vos, senhora--lhe disse ella--por um instante. Vou rezar junto +da campa de minha avó. + +--Tambem quero acompanhar-te--replicou a viscondessa. + +Não muito distante do mausoléo de D. Julia se elevava uma cruz simples. +Era ahi que jazia, havia dous annos, a pobre cega. Terminára os seus +dias socegadamente, bemdizendo a ternura de sua neta, e a caridade +affectuosa da sua bemfeitora. + +Devido ainda ao zelo de Rosa a campa da pobre cega, adornada com +diversas flôres, semelhava um jardimsinho. + +Rosa ajoelhou-se, e depois de ter rezado com fervor e devoção por algum +tempo, levantou-se, e dando o braço á viscondessa retiraram-se, fazendo +ainda uma ultima visita ao tumulo de D. Julia. + +Quando se recolheram, Rosa encontrou uma carta da sua antiga professora +D. Maria d'Almeida, na qual lhe participava, que d'ahi por dous mezes se +havia de proceder aos exames d'habilitação para os titulos de +capacidade, por isso, se ainda estava decidida a propôr-se a exame, que +enviasse os documentos necessarios ao commissario dos estudos. + +Rosa apresentou esta carta á viscondessa. + +--Sempre estás decidida a propôr-te a exame?--lhe disse ella. + +--Sim, minha senhora. É o meu mais fervente e afanoso desejo. Quero, +senhora, que a instrucção e saber, que vos devo, e a vossa querida e +chorada filha, aproveite ás crianças, que a pobresa retem na ignorancia +e na rudeza. Se eu poder ser util, ainda que seja a uma só d'entre +ellas, como, senhora, me reputarei feliz e bem paga do meu trabalho! + +--Tinha a esperança de te conservar sempre na minha companhia---replicou +a viscondessa.--Occuparias para sempre o lugar do anjo, que Deus me +levou, da minha Julia. Não queres, Rosa, ser minha filha? + +--Ah! senhora, quero sim, ser vossa filha; isso ainda vai além da minha +ambição. Mas recordo-me que era uma pobre rustica, e que só aos vossos +beneficios devo a minha instrucção, e a cultura da minha intelligencia. +Quero, senhora, dar de barato, e ter a vangloria de dizer que os vossos +cuidados não foram perdidos, mas com isso não me devo tornar vaidosa, +por que faltaria assim aos meus deveres. Serei sempre para vós uma filha +adoptiva, carinhosa, humilde e terna, e que achareis sempre ao vosso +lado, esforçando-se por pagar a sua divida de gratidão e reconhecimento: +Recebendo e aceitando a vossa affeição e amisade, para mim preciosa e +apreciavel, não me devo esquecer da classe onde nasci. O meu lugar é +mais humilde; mas como elle parece bello e grandioso ao meu coração, +quando me recordo do bem, que posso fazer a essas infelizes crianças, +que vivem na bruteza, ensinando-lhe o que sei e que é obra vossa! Ha +muito que concebi este meu projecto, e que o declarei a vossa filha: «Ás +pobres rapariguinhas das aldéas--lhe disse eu--farei o mesmo que a snr.ª +D. Julia me fez. Ensinar-lhes-hei a serem felizes com a sorte, que Deus +lhes destinou n'este mundo; cultivarei o seu coração e o seu espirito, e +por unica recompensa não quererei mais do que ouvil-as bem dizer os +nomes da exc.ma viscondessa do Candal e de sua filha.» + +--Rosa, minha querida Rosa--disse a viscondessa abraçando-a, e com os +olhos rasos de lagrimas,--que Deus te pague a felicidade, e prazer, que +me fazes nascer no coração com as tuas palavras. + +........................................................................ +........................................................................ +........................................................................ + +Dous mezes depois, a nossa, hoje, D. Rosa de Jesus e Sousa comparecia +perante o jury nomeado para proceder ao exame das concorrentes ao +professorado. O titulo de capacidade, em grau superior, foi-lhe +concedido por unanimidade e com distincção. + + +XIV. + +Dous annos se passaram já, depois que foi conferido a D. Rosa de Jesus e +Sousa o seu titulo de capacidade. + +Estamos em fins d'Outubro, n'uma casa caiada de branco, que se encontra +ao entrar na freguezia de S. Cosme, do lado de S. Pedro da Cova. Na +frente ha um pateo largo e espaçoso. Sobre o muro pendem os ramos +verdejantes de dous chorões. Nas trazeiras da casa ha um pequeno jardim, +muito bem tratado, com as ruas areadas com saibro, e que termina por um +caramanchãosinho, que, pelo bem cerrado que está, indica que no verão +deve alli haver uma frescura agradavel, auxiliada pela corrente d'uma +levada, que corre proximo. Na sala que fica ao nivel do jardim ouve-se +um murmurio confuso. Entremos, para examinar a que elle é devido. Que +vemos? Grupos de lavradeirinhas, ao todo umas trinta, pouco mais ou +menos, vestidas de branco, e tendo todas na mão um raminho de flôres do +campo, com um laço de fita. Ao fundo da sala vê-se uma rica imagem de +Nossa Senhora da Conceição, collocada sobre um altar, bem adornado com +castiçaes de prata, velas de cera e jarras com flôres. + +N'um dos lados da sala ha quatro cadeiras de braços; n'uma d'ellas está +sentada a viscondessa do Candal, a quem D. Rosa, de pé, junto d'ella, +está dizendo os nomes das suas discipulas. + +A viscondessa passeia a vista por todas ellas, e conhece-se-lhe na +expressão do rosto, que aquelle espectaculo a regosija e encanta. + +O modo, porque todas dirigem as vistas para a porta e pelas janellas, +indica que se espera alguem. + +O abbade da freguezia e o administrador do concelho entram n'este +momento pelo portão. + +Um sorriso alegre se vê deslisar em todos os rostos. Eram as pessoas por +quem se esperava. + +A viscondessa e a sua pupilla vieram recebel-os á porta, e +conduziram-nos ás cadeiras que lhe estavam destinadas. + +As crianças tomaram os seus lugares, e restabelecido o silencio, o +abbade da freguezia tomou a palavra, e fez o seguinte discurso: + +«Sinto, minhas meninas, um prazer immenso por vos vêr aqui reunidas para +a celebração do primeiro anniversario da installação d'esta escóla, +devida á muita philantropia e caridade christã da exc.ma viscondessa do +Candal, e á dedicação exemplar da vossa digna professora a snr.ª D. Rosa +de Jesus e Sousa. Julgo desnecessario o rememorar-vos, que um tal +sacrificio merece um eterno reconhecimento, por que entendo que entre +vós, minhas filhas, não ha ingratas. Vós respeitaes e veneraes a exc.ma +viscondessa, e amaes com um verdadeiro amor a vossa professora, não é +assim? É, assim o creio. Mas ha ainda uma pessoa, para quem deveis ter +uma saudosa recordação, e que tambem deveis encommendar a Deus nas +vossas orações. Prestai-me attenção, que vos vou dizer quem é essa +pessoa, cuja recordação vos deve ser grata. Ha pouco mais ou menos doze +annos, que uma pobre lavradeirinha ganhava a sua vida fazendo cestinhos +de juncos, e ramos de flôres silvestres. Uma joven e nobre senhora, que +reconheceu n'ella amabilidade, modestia e humildade, sympathisou com +ella, e encarregou-se de a educar e instruir. Como a sua bemfeitora a +achou sempre digna dos seus beneficios, encarregou-se tambem da sua +posição futura. Essa joven senhora, de que vos fallo, é a exc.ma snr.ª +D. Julia, filha da exc.ma viscondessa do Candal, e essa lavradeirinha, a +quem ella dispensou os seus carinhos e a sua affeição, é a vossa douta +professora. Ha já alguns annos, que a alma da exc.ma snr.ª D. Julia voou +á presença do Deus eterno a receber o premio das suas virtudes e das +boas obras, que praticára n'este mundo; uma das quaes ainda existe, que +foi o deixar-vos a vossa professora e amiga. + +«Mostrai-vos, meninas, sempre merecedoras dos beneficios, que vos fazem, +porque isso é o unico desejo das vossas bemfeitoras e a unica +recompensa, que recebem da sua dedicação, que estou muito convencido +sempre fareis por merecer. + +«Não quero, porém, retardar por mais tempo o momento de receberem o +premio e galardão, que merecem pela sua applicação ao estudo e amor ao +trabalho, áquellas que d'isso se tornaram dignas; e ás que d'esta vez +não são galardoadas resta-lhes a esperança e o meio de, pela imitação +das suas condiscipulas, se tornarem dignas de o merecerem para o anno +futuro. + +«Vamos por tanto proceder á distribuição dos premios.» + +Um sussurro d'alegria acolheu as ultimas palavras do digno sacerdote. + +A conferencia dos premios foi esplendida. + +Os premios consistiam em livros religiosos e d'instrucção, que tinham +sido cuidadosamente escolhidos pela viscondessa, e sua filha adoptiva, +todos ricamente encadernados. Era interessante e bello vêr a alegria, +que se deslisava no rosto das que tinham sido contempladas na +distribuição. + +Terminada a conferencia dos premios teve lugar debaixo do caramanchão um +bem servido _lunch_. + +--Como é magnifico o espectaculo, que apresentam estas crianças, alegres +e satisfeitas--disse a viscondessa--Recordar-me-hei sempre d'este dia, +como o mais grato e feliz da minha vida. Tu, minha querida Rosa, +attrahes as bençãos do céo sobre nós, e sobre a memoria da minha +querida, e chorada Julia. + +--Ah! senhora,--disse Rosa com os olhos rasos de lagrimas--que a vossa +prophecia se realise, e a minha mais cara aspiração ficará satisfeita. + +.......................................................................... +.......................................................................... + +O desejo de Rosa realisou-se. A escóla está cada vez mais florescente, e +a freguezia ufana-se pela possuir. Todos os moradores do lugar ainda +hoje bemdizem os nomes da viscondessa do Candal, de sua filha e de D. +Rosa, modêlo raro d'um coração verdadeiramente grato e reconhecido aos +beneficios que recebera. + +FIM. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Annos de Prosa; A Gratido; +O Arrependimento by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ANNOS DE PROSA *** + +***** This file should be named 26103-8.txt or 26103-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/6/1/0/26103/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/26103-8.zip b/26103-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..881cca0 --- /dev/null +++ b/26103-8.zip diff --git a/26103-h.zip b/26103-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..e2b2f70 --- /dev/null +++ b/26103-h.zip diff --git a/26103-h/26103-h.htm b/26103-h/26103-h.htm new file mode 100644 index 0000000..7355d0d --- /dev/null +++ b/26103-h/26103-h.htm @@ -0,0 +1,10346 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" +"http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> + +<html lang="pt"> + +<head> +<meta name="generator" content= +"HTML Tidy for Linux/x86 (vers 1 September 2005), see www.w3.org"> +<title>Annos de Prosa, por Camilo Castelo Branco</title> +<meta name="AUTHOR" content="Camilo Castelo Branco"> +<meta http-equiv="Content-Type" content= +"text/html; charset=us-ascii"> +<style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + @media handheld { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pagenum { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + .pagenum a {color: silver;} + .corpo p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1 { text-align: center; margin-top: 3em;margin-bottom: 3em;} + h2 { text-align: center;margin-top: 2em;} + a {text-decoration: none; color: #000000;} + sup {font-size: 0.8em;} + .small-caps { font-variant: small-caps;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;} + .centrado {text-align: center;} + hr {border: 0px; border-bottom: solid 1px #000000;} + + .corpo .centrado {text-align: center; text-indent: 0em;} + .corpo .direita {text-align: right; text-indent: 0em;} + .corpo h1 {text-indent: 0em;} + .corpo h2 {text-indent: 0em;} + +</style> +</head> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento, +by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: July 22, 2008 [EBook #26103] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ASCII + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ANNOS DE PROSA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<div class="capa"> + +<p style="font-size: 2.5em"><a href="#pag_7">ANNOS DE PROSA</a></p> + +<p style="font-size: 1em">ROMANCE</p> + +<p style="font-size: 0.8em">POR</p> + +<p style="font-size: 1.5em">CAMILLO CASTELLO-BRANCO</p> + +<hr style="width: 25%;"> + +<p style="font-size: 2em"><a href="#pag_219">A +GRATIDÃO</a></p> + +<p style="font-size: 0.8em">ROMANCE</p> + +<hr style="width: 25%;"> + +<p style="font-size: 2em"><a href="#pag_201">O +ARREPENDIMENTO</a></p> + +<p style="font-size: 0.8em">ROMANCE</p> +<br> +<br> +<br> +<br> + +<hr style="width: 50%;"> +<br> +<br> +<br> +<br> + +<p style="font-size: 0.8em">PORTO.<br> +EDITOR, ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA.<br> +Rua da Cancella Velha, 62<br> +1863</p> +</div> +<div class="centrado"><br> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> + +<p style="font-size: 0.8em">TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA +SILVA TEIXEIRA,<br> +Cancella Velha, 62<br> +1863</p> +</div> + +<hr> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> + +<h1>ANNOS DE PROSA.</h1> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> + +<hr> +<div class="corpo"><span class="pagenum"><a name="pag_7" id= +"pag_7">[7]</a></span> + +<h1>ANNOS DE PROSA.</h1> + +<h2>DISCURSO PROEMIAL.</h2> + +<p>Altissima é a missão do escriptor, e a do +romancista principalmente. O mestre Ignacio da cartilha velha, +amoldurada ás necessidades do seculo, é o romancista. +Mal hajam os sacerdotes das letras derrancadas que vendem +peçonha em lindos crystaes, e desfloram as almas em +luxuriante florescencia da sua primavera. O mau romance tem +afistulado as entranhas d'este paiz. Não ha fibra direita no +coração da mulher que bebeu a morte, e—peior +que a morte—algumas dezenas de gallicismos no que por ahi se +escreve e copia. O anjo da innocencia foge de certos livros, como +os editores de certos authores. A candura virginal de uma menina de +quinze annos é a cousa mais equivoca d'este mundo, se a +menina leu cousa em que os pedagogos do coração a +ensinaram a conhecer-se, antes que a experiencia a doutrinasse.</p> + +<p>Para cumulo de infortunio, Portugal é um paiz onde se +está lendo muito.</p> + +<p>Acontece aos estomagos famintos, quando se lhes depara +<span class="pagenum"><a name="pag_8" id="pag_8">[8]</a></span> +alimento bom ou mau, assimilarem-n'o com tamanha +sofreguidão, que o encruamento do bôlo, e o marasmo +são inevitaveis. Assim e por igual theor, quando os Lucullos +e Apicios das letras expõem á voracidade publica as +suas iguarias estragadas, a fome de aprender a vida nos romances +locupleta-se com tamanha intemperança, que o resultado e as +dispepsías espirituaes, tormento de angustias vomitivas, que +fazem descer o coração ao lugar do estomago, e subir +o estomago ao lugar do coração.</p> + +<p>Eu tenho assistido a esta deslocação de visceras +com lagrimas nos olhos, enxutos para tudo o mais. Muitas vezes +tenho perguntado ás velhas se isto assim era no tempo +d'ellas. Faz dó vêr a consternação com +que algumas expedem um gemido, unisono com o assobio da pitada! +Compunge vêr rolar a lagrima preguiçosa do olho +desvidrado d'outra, que se recorda da honestidade com que foi amada +pelo seu quinto amante!</p> + +<p>Ha cincoenta annos que as senhoras não liam romances, por +uma razão cujo descobrimento me custou longas +vigilias:—não sabiam lêr. Algumas, rebeldes +á vontade paternal, conseguiam soletrar e escrever á +tia uma carta em dia de annos, copiada do <i>Secretario +portuguez</i> de Candido Lusitano. Os paes aceitavam com +repugnancia aquelle abuso de intelligencia, e castigavam a filha, +forçando-a a um trabalho litterario semanal: escrever em +cada segunda feira o rol da roupa. Este systema penal tinha +só a vantagem de tirar ao vicio os enfeites da +intelligencia, reduzindo-o á essencia bruta de sua nudez +primitiva. Já não era pouco para exemplo e +edificação das almas. O melhor moralista será +aquelle que despir o delicto do coração das galas que +lhe veste o desejo, e o cobrir de farrapos repulsivos.</p> + +<p>Por esses tempos, e nos dez annos sequentes, os propagandistas +da corrupção tentaram exercitar o seu maleficio, +vertendo para pessima linguagem portugueza <span class= +"pagenum"><a name="pag_9" id="pag_9">[9]</a></span> novellas +francezas, que transpozeram as fronteiras no couce da bagagem do +Junot.</p> + +<p>Em 1814, a immoralidade, até esse anno sopeada pela +impertinente virtude das novellas, taes como <i>A virtude +recompensada</i> e o <i>Escravo das paixões</i>, quebrou as +ferropeas, e despejou do regaço dissoluto a versão de +<i>Tom Jones</i>, o <i>Sophá</i>, o <i>Candido</i>, e +quejandas faúlas incendiarias, que pegariam nos +corações, se a manteiga e o paio das tendas +não esfriassem a força comburente d'essa droga, que +acirrava os paladares anthropóphagos d'aquelle festim de +1793.</p> + +<p>Bemdita e louvada seja a ignorancia! Os romances francezes, +até 1830, encontraram as almas portuguezas hermeticamente +calafetadas. Ate esse anno infausto, a mulher era o anjo caseiro, a +alma da despensa, a providencia da piuga, e sobre tudo, a femea do +homem, qual Jehovah a fizera d'uma costella do mesmo.</p> + +<p>O salão era um como trintario cerrado, onde, a +espaços, uma gosmenta matrona espirrava, e a sociedade, a +cabecear de somno, surgia estremunhada, dizendo: <i>Dominus +tecum</i>. A menina casadeira não se erguia de ao pé +da mãi. O noivo mirava-a de longe em fellina beatitude; e, +no auge da sua casquilha audacia, piscava-lhe a furto o olho, onde +reslumbrava a paixão.</p> + +<p>Não havia então d'estes homens mulherengos, que +alambicam a parlenda assucarada, coando por ouvidos incautos o +veneno do estilo, que é o mais corrosivo de quantos ha na +toxicologia do amor. A mulher actual é quasi sempre victima +da rhetorica requentada do romance, que esteril peralvilho lhe +encampa como cousa de sua alma. Algumas conheço eu que +resvalaram ao abysmo da perdição pela rampa de um +adverbio euphonicamente intruso n'um periodo arredondado. Este +sortilegio da linguagem, que enfeitiça e dá quebranto +ás mulheres, é apanhado no romance. O +coração de certos individuos acha-se, muitas vezes, a +paginas tantas de tal novella. <span class="pagenum"><a name= +"pag_10" id="pag_10">[10]</a></span>Sem figurinos e romances, +não haveria corpos apresentaveis nem espiritos +insinuantes.</p> + +<p>Muita gente se espanta das gloriosas aventuras de alguns +sujeitos pyramidalmente tolos. Eu não. Tal ha que se vos +afigura mazorro d'alma, e, não obstante, ao lado de +mulheres, dispara descargas de phrases amorudas que é um +pasmar. Asneira, dita em nome do coração, não +ha uma só que não seja laureada. Cada Petrarcha lorpa +tem, a final, o seu capitolio.</p> + +<p>A mulher, por via de regra, é de seu natural tão +boa, sensivel e generosa, que chega a recompensar a pertinacia do +homem que, primeiro, a nauseou: o segredo d'este paradoxo +está na influencia contagiosa da tolice. A mulher que fez +chorar o tolo, e viu rebentar lagrimas de uma cabeça de +granito, cuida que fez o milagre de Moysés na rocha de +Horeb. Alliciada pela serpente da vaidade, succumbe como Eva.</p> + +<p>Que mudanças!</p> + +<p>D'antes o caixeiro principiava sempre a carta de namoro por: +<i>Meu amado bem!</i> Agora já diz: <i>Anjo!</i> ou +<i>Seraphim!</i> Era d'antes a phrase sacramental do exordio: +<i>Vêr-te e amar-te foi obra de um momento.</i> Agora +não é raro encontrar d'estes arrojos: <i>Amar e +morrer é meu destino!</i></p> + +<p>E, depois, o maleficio do romance não está +sómente no plagiato irrisorio; o peior é quando as +imaginações frivolas ou compassivas se entalham os +lances da vida phantasiosa da novella, e crêem que a norma +geral do viver é essa.</p> + +<p>Em quanto a mulher estuda sómente a phrase que applica, +bem ou mal, quando a enlouquece a vaidade de parecer o que +não é, bem vai. Dá-se um exemplo: A apaixonada +de um amigo meu, ao recebêl-o, pela primeira vez, em sua +casa, no patamar da escada, antes de deixar-se beijar a mão, +estendeu o braço direito em magestosa attitude, deu á +frente a regia altivez de uma <span class="pagenum"><a name= +"pag_11" id="pag_11">[11]</a></span> Phedra de aguas-furtadas, e +disse em tom cavo e solemne: <i>Juraes levar-me ás aras?</i> +O meu amigo, que balbuciava um prefacio de longo estudo, soltou um +frouxo de insolente riso, e desceu as escadas, por não poder +com o espectaculo da dama corrida do insulto. Eis-aqui uma que os +romances de Arlincourt salvaram; quantas, porém, perdidas +por guardarem as phrases ridiculas para o final?...</p> + +<p>Grande mal é o identificar-se o espirito ás +visualidades do romance. Quando a leitora se ri das crendices da +sua infancia e dos absurdos principios que lhe apoucaram o imaginar +e o voar do espirito, vem-lhe os enfados, o escutar as mentiras do +coração que se emancipa, o crêr que a vida +passada foi apenas um vegetar do vulgo, e que o viver da alma +assim, será como o do arbusto bravio que dá +flôres sem aroma, e fructos sem sabor.</p> + +<p>Seja, outra vez, bemdita e louvada a ignorancia de nossas +mães, e nossas irmãs, e nossas esposas!</p> + +<p>A vida caseira, esta deliciosa monotonia, que a poucos é +já saborosa no viver intimo, requer muita estupidez, muito +somno a toda a hora, um estomago exigente e forte, muita +digestão soporosa de substancias pesadas.</p> + +<p>Esta bemaventurança ha-de restaural-a a ignorancia +supina, não hão-de ser as palavrosas theorias de +Michelet ácerca do <i>amor</i> e da <i>mulher</i>. Comecem +os paes de familias por circumvalarem suas casas de um +cordão sanitario contra a peste do romance, que não +se abonar com a promettida pudicicia d'este, e de outros com que o +author, coração aberto a todas as chimeras, e de +entranhas lavadas, tem querido enxertar no tronco carcomido da +humanidade toda a casta de virtude.</p> + +<p>Vou lembrar um alvitre, cuja adopção poderia ser +momentosa na regeneração dos costumes.</p> + +<p>As reliquias das velhas virtudes portuguezas, se as ha, acham-se +nos velhos, que beberam ainda as escorralhas <span class= +"pagenum"><a name="pag_12" id="pag_12">[12]</a></span> dos seios +puros do seculo passado. O Porto, de preferencia, graças +á força refractaria da sua organisação, +encerra boas quatro duzias de archontes dignos da Grecia antiga. +Fôra facil eleger de entre estes—(abstenho-me de os +nomear, porque a modestia n'elles dóe de insoffrida como +ulcera em lombo de muar, e não é raro responderem ao +elogio com o couce)—eleger d'entre estes, digo, uma +corporação censoria, encarregada de examinar os +livros, que giram no mercado, e referendar os que a juventude +feminil podesse lêr sem deterioramento da innocencia. D'esta +arte, os anciãos não restringiriam a sua egoista +virtude á missão balda de condemnarem o vicio da +mocidade inexperiente. O exemplo dão-no optimo; a doutrina +é a que nós sabemos; mas não os devemos +desquitar de se constituirem entulhos contra a torrente do vicio, +desviando-a de levar ao regaço das futuras esposas e +mães o romance peçonhoso.</p> + +<p>Pelo que, d'aqui já sotoponho este livro á +censura, e assim dou publico e voluntario testemunho de quanto +venero as cãs e as virtudes. Fadario triste! A minha sina +capricha, até hoje, em fazer-me malvisto d'esses que eu mais +quizera bemquistar, ainda á custa de um panegyrico á +corrupção senil dos raros que desgarram da trilha +austera por onde a virtude os vai guiando ao céo, no qual os +proprios anjos se espantam das colonias que vão d'aqui.</p> +<br> + +<p>Porto—1858.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_13" id= +"pag_13">[13]</a></span></p> + +<h2>PRIMEIRA PARTE.<br> +I.</h2> + +<p>«Em quanto ao fogo d'aquelle meu phantasiar de genio, +fadado para desgraças, encendrei as imagens das formosas +apparições da terra, as creações do meu +espirito eram magnificas e brilhantes como as myriadas do +céo estrellado.</p> + +<p>«Eu tinha horas de tão dôce scismar! O ideal +de Fausto, a melancolia do poeta d'Elvira, os coriscos de Byron, as +satyras mordentes do Diabo-Mundo, as facecias elegantes de +Fielding, e as vaporosas subtilesas de Senancourt! Ai! havia de +todas essas feições do genio um traço de cada +uma, no meu espirito.</p> + +<p>«Mas, n'aquelle dia, á entrada do meu caminho, +n'aquella noite calmosa, quando o sangue estuava nas arterias, +<span class="pagenum"><a name="pag_14" id= +"pag_14">[14]</a></span>quando as azas do coração, +como as da aguia ferida, baixavam á terra, aquella +mulher...</p> + +<p>«A mulher fatidica! O despertar do sonho de dezoito annos. +A Beatriz, a Laura, a Leonor, vingando-se na essencia d'uma, porque +eu ousára crêr e dizer que mentira Tasso, e mentira +Petrarcha, e mentira Dante.</p> + +<p>«Que mulher! Bella? Ai! não, não é +essa a palavra. Bella como a filha do anjo rebelde, a quem Deus +vingativo dera o dom de crear a formosura que mata, o olhar das +chammas magneticas do crime, a fascinação do abysmo +onde o cahir é perder-se o homem para si, para a humanidade, +e para Deus.</p> + +<p>«Eu era poeta.</p> + +<p>«Com que enthusiasmo eu pedia o meu quinhão na +herança das celebradas agonias de tantas victimas de si, +mansissimos cordeiros immolados no calvario do talento!</p> + +<p>«Este augusto titulo, mercê do céo, rubricado +por sello divino no coração do homem, tornou-se +epitheto ridiculo ou injurioso.</p> + +<p>«Gela-se-me o sangue, quando a ignorancia petulante faz um +tregeito de menospreço ao talento, e diz: <i>poeta!</i></p> + +<p>«Mal sabeis que brutal atrevimento, ha ahi no tom de +escarneo com que as bestas-feras insultam a intelligencia!</p> + +<p>«Um bando de collarejas abrias, atirando-me em injurias a +lama que lhes extravasa da alma, seria para mim harmonioso cantico +das graças, comparado ao sorriso affrontoso do nescio que me +diz: <i>poeta!</i></p> + +<p>«Ha ahi um rir do vulgacho, que dá em terra com a +alma. Oh! o rir da gentalha maltrapida é menos fulminante +que o escarneo da plebe engravatada, de todas as escorias sociaes a +mais alvar e incorrigivel!»</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_15" id= +"pag_15">[15]</a></span>Parou de escrever o meu amigo, quando eu +entrava no seu gabinete de trabalho.</p> + +<p>Este nosso amigo... Consinta o leitor a +apresentação, e de amigo logo, porque eu sei que elle +o é de conhecidos e desconhecidos, tirante os estupidos +maus.</p> + +<p>Este nosso amigo é uma afflicção +permanente, um como pelicano que se está continuo +espicaçando o peito para alimentar do sangue proprio seus +filhos insaciaveis, suas imaginações +escandecidas.</p> + +<p>Entrou na vida pela porta do inferno. Os olhos da alma +abriu-lh'os uma paixão das que alumiam a carreira do crime +até á morte moral. A consciencia de sua +individualidade, desunida das mil formosas existencias que se +identificára, deu-lh'a o ser mais poetico da terra, a +soberana da creação—a mulher!</p> + +<p>Aos dezoito annos expulso do paraiso pelo anjo a quem +dobrára o joelho!</p> + +<p>Até então, Jorge Coelho amou sua mãi e +irmãos, flôres, estrellas, fontes murmurosas, os +pinhaes rumorejantes, o céo azul e as nuvens abertas em +coriscos, os repiques festivos do campanario da sua aldêa e o +dobre de finados, a cantilena da pastora e o gemer convulsivo da +viuva e da orphã.</p> + +<p>Tudo lhe era n'este mundo poesia, desde a grinalda de +flôres da esposada até á baeta negra do +esquife.</p> + +<p>Não sou crendeiro em horoscopos de epiderme; todavia, +tres rugas que lhe avincavam a testa entre as bossas frontaes, +impressionaram-me. Um poeta, da alteza d'elle, diria que +semelhantes vincos eram vestigios da vara com que a mão de +um genio funesto o ferira, no berço. Moço de dezoito +annos, que sobe ao empinado das serras, e circumvaga os olhos +lagrimosos pelos confins dos horisontes, e me diz:—«a +minha alma não cabe aqui» esse tal é de +crêr que se fine na flôr dos annos, depois de haver +experimentado as dôres todas de longa vida.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_16" id= +"pag_16">[16]</a></span>«A minha alma não cabe +aqui»—disse-me elle, sentado no tôpo de um +fragoedo, com a arma caçadeira encostada ao peito, e +afagando com a mão o focinho do galgo que a +lambia.—«Nasci hontem, e já me cança a +vida. Sou um como hospede, que se sente ebrio antes de assentar-se +á mesa do festim. Meus irmãos estão contentes +ao pé de minha mãi. De manhã são +abençoados e beijados; á noite vão +restituir-lhe o beijo com a face alumiada de santa alegria; recebem +a segunda benção da virtuosa, e vão dormir +serenas horas, em quanto eu, fechado com os meus livros, tento +debalde entreter o espirito nos deleites da poesia, ou subjugal-o +ás paginas graves da philosophia que me disputa á +fé, e da fé que me arranca aos tedios indigestos da +philosophia.»</p> + +<p>—Nunca sahiste d'aqui?—interrompi, suspeitando da +candura de Jorge n'este tecido de palavras presumidas.</p> + +<p>—Nunca sahi d'aqui. Fui litterariamente educado por um tio +frade, que, ha um anno, me entregou ao ensino de minha mãi, +dizendo que a semente da sciencia não podia germinar em +terreno, onde faltava o amanho da boa educação +religiosa.</p> + +<p>Minha mãi não me entendeu melhor que o frade. +Fallou-me do temor de Deus como principio da sabedoria humana. Eu +tenho um Deus que não temo, porque o amo e adoro com +espontanea devoção, porque o vejo luminoso em todas +as minhas creações impalpaveis, porque o respiro e +converto em seiva da minha alma, que tanto mais se amplia quanto +mais se engolfa na immensidade divina.</p> + +<p>Minha mãi é uma virtuosa senhora que só +acha digna de Deus a linguagem dos psalmos penitenciaes, e os actos +contrictos de peccados imaginarios. O circulo, que ella +traça ás minhas aspirações, é +estreitissimo. Para ella, o futuro é a successão dos +dias travados uns nos outros, iguaes e serenos, como os viveram +meus avós, <span class="pagenum"><a name="pag_17" id= +"pag_17">[17]</a></span>e como ella pretende herdal-os a seus +filhos. O futuro para mim é o grandioso imprevisto, é +a vida com os seus desertos e oasis, é o oceano com as suas +calmarias e borrascas, é a peregrinação do +israelita, agora perseguido nas aguas do mar vermelho, logo +alumiado pela columna de fogo.</p> + +<p>Que sinto eu aqui?—proseguiu elle, pondo a mão na +testa, cujos vincos se afundavam—Será o pensamento +confuso do girondino á vista da guilhotina? Será o +abutre gerado n'um sangue que, cedo ou tarde, tem de trazer-me a +congestão ao cerebro?... Não sei...</p> + +<p>—Porque não será a alma que geme solitaria +como a rôla, que, além, no ramo secco d'aquelle +azevinho, está chamando o companheiro que ha-de +vir?—disse eu em phrase lyrica para não destoar da +linguagem levantada de Jorge Coelho.</p> + +<p>—Não creio—acudiu logo o meu amigo.—Eu +tenho lido o amor dos livros, o amor dos romances, o amor da +historia, o amor da poesia. Não me inquieto, nem me acho +n'esse sentir. O que não entendia aos quatorze annos, +não o entendo hoje melhor. As impressões que +então recebi, recebo-as agora semelhantes. Os quadros de +Dido e Eneas, de Helena e Páris, são duas telas +borrifadas de sangue. O amor não póde ser aquillo. +Paulo e Virginia, Julieta e Romeu são duas catastrophes que +apertam a alma entre a admiração e o dó. A +felicidade não está n'esses amores tão +celebrados. Werther e Carlota, Chatterton e Kit-Bell, com o anjo +inexoravel da virtude entre si, ao despenharem-se um apoz outro no +abysmo da morte, para se salvarem do abysmo da +perdição, são dous entes desamparados do anjo +bom que nem sequer já serve para galardoar heroicos +martyrios. Pois não irão mais longe os meus anhelos +de gloria?</p> + +<p>A região da felicidade estará delimitada pelas +raias do amor, que o romance, e a historia, e a epopea me pintam, +glorificado por lagrimas e sangue?</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_18" id= +"pag_18">[18]</a></span>—Mas ha um +amor—redargui—que não é o amor da +historia, do romance, e da epopea. É amor reflectido de mais +alto amor, que as almas adivinham e não entendem. É +amor, preludio da bemaventurança, e prelibação +da ambrosia celestial.</p> + +<p>—É o amor do romance, esse, creio +eu...—interrompeu Jorge Coelho sorrindo.</p> + +<p>—Não é, meu amigo; e, se me contradizes +n'essa idade, inculcas baixeza de affectos, que eu não posso +acreditar, por honra da especie humana. O que te authorisa a +desmentir um homem de trinta annos, que por sua honra te jura que +esse amor existe? Queres achar Vestigios dos trabalhos e +calamidades que me custou a descobril-o?</p> + +<p>Repara nos meus cabellos brancos.</p> + +<p>Colombo achou curtas as fadigas, que lhe deram o novo mundo, e a +perpetuidade do nome d'elle, mais valioso que o novo mundo. +Experimentaria Colombo as vertigens de prazer, que me endoudeciam, +quando encontrei a mulher mais perfeita que os primores da minha +phantasia?</p> + +<p>Não te allucines, porém—prosegui, vendo nos +olhos de Jorge a lucidez do enthusiasmo, accusando o proposito de +se abrasar no primeiro amor, que lhe deparasse o +acaso.—Não te allucines em presença de qualquer +mulher com sorrisos de Virginia, que tanto servem de elogio ao +pudor como de epitaphio da innocencia. Não respires com +sofreguidão o aroma das primeiras flôres, que +encontrares. Lirios e mandragoras são bellas flôres, +que matam, se as não lançares de ti, aspirados os +primeiros effluvios. Ha mulheres como as flôres venenosas: se +te detiveres com ellas mais tempo que o necessario para lisongeares +a sensação, e regalares a phantasia, sentir-te-has +tomado de um marasmo de espirito, em que serão delidas as +tuas mais nobres faculdades, e, a mais válida de todas, o +mais nobre apoio da tua dignidade <span class="pagenum"><a name= +"pag_19" id="pag_19">[19]</a></span>de homem—a liberdade. +Esta doença, no começo da vida, deixa achaque para +sempre; é como a bala recebida em pleno peito e lá +encerrada: o ferido vive; mas, a revezes, a dôr lhe +está lembrando que a bala pesa sobre o derradeiro fio da +vida. Mulheres, que matem corações generosos, ha +muitas para cada homem. Mulher, que salve, ha uma só.</p> + +<p>A minha vida é uma elegia continuada desde o berço +até esta ante-camara do tribunal da morte, onde estou +esperando que me chamem: não tem romance: são +desastres concatenados, sem intermedios d'esse contentamento +vulgar, que os fortunosos denominam amargura. Todavia, se tivesses +mais doze annos, Jorge, seria eu o teu conductor pelos infernos +d'este mundo, que Dante não cantou de preferencia aos do +outro, porque a civilisação da idade media não +tinha em si os supplicios d'esta sociedade em que vaes entrar.</p> + +<p>E que lucrarias tu, ouvindo a minha historia? Vêr-me-ias +longo tempo enredado na torpeza, na irrisão, e na +brutalidade dos differentes algozes, que me suppliciaram a alma. Se +quizesses que te iniciassem no segredo de sondar a perversidade dos +corações, não poderia eu, porque a aspide, que +te mede o salto do seio da mulher, só vibra a farpa mortal +depois que varas em terra embriagado de aspirar o aroma do +ramilhete, que a esconde.</p> + +<p>A sombra da mancenilha é grata como a de todas as +arvores; suave é a viração que lhe estremece a +coma; o sol nem sequer mosqueia o chão em que refazes os +membros lassos; mas agonia mortal será o teu despertar se a +formosa folhagem distillou sobre o teu corpo um sumo corrosivo que +te faz morrer em acerba palpitação de todas as +fibras. Conheces tu a mancenilha n'este deserto, que vaes +palmilhar, encalmado das ardencias do coração? +Saberás tu, aos dezoito annos, distinguir a mulher, que +mata, da mulher, que salva? Os trinta <span class= +"pagenum"><a name="pag_20" id="pag_20">[20]</a></span>abysmos, +d'onde me eu levantei, com as faces a escorrerem sangue, +estarão cobertos de flôres para ti? Eu creio que o +poeta é um condemnado, a sua patria primitiva um outro +mundo, este, em que nos encontramos, amigo, o purgatorio. Que +montam os suffragios do padecente experimentado para te remir? +Nada. Cumpre a sentença, porque é intransitivo o +calix...</p> + +<hr style="border: dotted 1px #000000"> + +<p>Decorrido um anno, encontrei Jorge Coelho, não vos direi +aonde, porque ha repugnancia em deslocar uma scena, quando a +verdade não póde, por motivos sagrados, ser dita +á curiosidade malevola.</p> + +<p>Encontrei-o escrevendo os periodos iniciaes d'este capitulo. +Outros de igual azedume, assignados por elle, me haviam denunciado +a residencia d'esse moço, na terra, em que eu, de passagem, +assentára a minha barraca de bohemio.</p> + +<p>Reconhecendo-me, ergueu-se, abraçou-me com expansiva +vehemencia, e proferiu aquellas ultimas palavras do estirado +discurso do anno anterior:</p> + +<p><i>Cumpre a sentença porque é intransitivo o +calix.</i></p> + +<p>—E muito amargo? perguntei eu.</p> + +<p>—Amargo, e nauseabundo. Fel e lama. O insulto e o +aviltamento. Adormeci debaixo da mancenilha, meu amigo; e acordei +nos paroxismos de que não posso morrer. Achei uma das +mulheres, que perdem. A sociedade applaudiu-a, quando eu cuidava +que a indignação do mundo me vingaria. Ajuntei +á minha dôr o que devia ser pejo, deshonra, e remorso +n'ella. Quiz desafiar a piedade do mundo com o paciente silencio da +minha desgraça. O mundo viu-me passar de olhos baixos para +esconder as lagrimas, e fez da palavra «poeta» um +synonymo chocarreiro de insensato.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_21" id= +"pag_21">[21]</a></span></p> + +<h2>II.</h2> + +<p>Contou-me Jorge Coelho a sua historia. Foi assim:</p> + +<p>Sahira, pela primeira vez, da sua aldêa para cursar a +universidade. A mãi, abençoando-o, ungira-o de +lagrimas, e lançara-lhe ao pescoço um crucifixo.</p> + +<p>O tio egresso, vencido na resistencia que fizera á sahida +de Jorge, mostrara-se a final condescendente, e introduzira nas +malas do sobrinho alguns livros de moral religiosa, que ambos +sabiam de cór, um á força de repetil-os, outro +de ouvil-os em discursos hebdomadarios, que principiavam sempre com +a epigraphe:</p> + +<p><i>Initium sapientia est timor Domini</i>—O temor de Deus +é a base do saber humano.</p> + +<p>Jorge deu de si boa conta no primeiro, anno, cursando as aulas +preparatorias para a faculdade de jurisprudencia. <span class= +"pagenum"><a name="pag_22" id="pag_22">[22]</a></span>Contou elle +que, durante esses oito mezes, apenas sentira o +coração na dôr da saudade de sua mãi, de +seus irmãos, do tio padre, das suas montanhas, e das sombras +dos seus arvoredos. Consolava-o o prazer de uma carta de casa, +todas as semanas, em que a expressão maternal pintava o +anceio com que lá se contavam os dias, na esperança +d'aquelle em que seus irmãos iriam buscar ao caminho o mano +doutor, como elles já o denominavam.</p> + +<p>O anjo da poesia dos dezenove annos povoava-lhe então a +phantasia de ridentissimas imagens. Mezes antes, abafava no extenso +horisonte, que descobria do topo das serras onde trepava para dar +á sua imaginação sedenta a vaga imagem da +immensidade. Agora, parecia-lhe que á sofreguidão da +alma lhe bastaria a soledade, o silencio, a tristeza dôce dos +saudosos ermos da aldêa, que conheciam o seu poeta desde os +onze annos.</p> + +<p>Anteviu os tres mezes de ferias como quadra de contentamentos +novos. Tudo eram promessas de infantil ledice aos seus arrobos de +saudade. Imaginava-se sosinho ao pé da arvore conhecida, em +cujo tronco uma vez entalhára a ante-data de seis annos, com +uma interrogação ao lado, e como se perguntasse o +segredo do seu destino á sibylla dos seus queridos +bosques.</p> + +<p>O anno assignalado era esse em que estava. A resposta aos vagos +presentimentos dos quinze annos ia dal-a agora, mais anhelante e +auspiciosa de venturas certas do que elle a previra ao deixar o +encargo de responder a mal-agourados futuros.</p> + +<p>«Quão longe eu estava da verdadeira felicidade, +minha querida mãi!—escrevia elle na primavera de 1855, +quando as margens do Mondego reverdecidas lhe festejavam as +saudades e as esperanças maviosas. A +imaginação enganou-me. Cuidava eu que o +coração de minha mãi faria o milagre de +communicar uma faisca do seu amor ao seio de cada pessoa que eu +encontrasse fóra da <span class="pagenum"><a name="pag_23" +id="pag_23">[23]</a></span>nossa aldêa! Pensei que a +imaginada formosura da natureza começava áquem dos +horisontes, que eu descobria do alto das montanhas. As +impressões novas antecipavam-se-me cheias de espiritual +deleite, e abundantes da vida que me lá faltava ao pé +de pessoas vistas a todo o instante, com o sorrir da amisade, e ao +pé das arvores, vistas em cada primavera, com as mesmas +grinaldas, e em cada inverno com a mesma nudez funerea, que me +confrangia o espirito.</p> + +<p>«Castigou-me o desengano, quando dobrei a ultima collina, +d'onde via o cume da serra em que tantas vezes me assentára, +ideando ao longe o caminho da minha imprevista felicidade. Era tudo +estranho para o meu coração. O vento do outono despia +as arvores da sua folhagem; mas a poesia melancolica e +contemplativa d'essa transfiguração, qual a eu sentia +na minha aldêa, convertera-se agora em profundo aborrecer-me, +em cerração d'espirito, em arrependimento +doloroso.</p> + +<p>«A duas leguas de nossa casa, minha boa mãi, quiz +retroceder: reteve-me a vergonha. Depois de ter passado uma +noite—primeira de minha vida—fóra do meu quarto, +n'uma estalagem, ergui-me com proposito de vencer o pejo, e ir +lançar-me chorando em seus braços. Conteve-me ainda o +receio do <i>ridiculo</i>, palavra e sentimento terrivel, que, ha +dez mezes, me foi entalhado no coração por um homem, +onze annos mais velho que eu, propheta do meu destino, tão +verdadeiro como terrivel propheta, que me vaticinou a sensibilidade +immensa do poeta, e as lagrimas inexhauriveis do incessante +desengano.</p> + +<p>«Já verti as primeiras; essas, porém, +são talvez uma puerilidade que o mundo escarneceria, por +que, bem averiguada a causa da minha tristeza de seis mezes, +encontra-se um bom coração de filho e irmão, a +nubelosa saudade dos dezenove annos, e o pesar de haver +<span class="pagenum"><a name="pag_24" id= +"pag_24">[24]</a></span>com tanto afan rebatido o parecer de meu +tio, que me quiz demover da tenção de estudar em +Coimbra.</p> + +<p>«Eu prometti-lhe, minha mãi querida, a noticia +exacta das minhas impressões.—Descreve-me ao menos a +bellesa dos abysmos como ella se afigurar á tua +imaginação—foram as suas palavras. Não +posso descrever-lhe nem, se quer, as formosas miragens do meu +deserto. Se deponho com fastio os livros, que só abro por +obrigação, interrogo de novo o meu espirito, tento +sondar a indole mysteriosa da minha vontade oscillante, e encontro +sempre enigma. Quer-me, ás vezes, parecer que estou em +vesperas de uma grande transfiguração no meu modo de +ser e pensar; escuto o surdo rumor das idéas, que +ameaçam rebellar-se contra a moderada esperança em +que minha alma se acalenta; sinto-me impellido á vereda de +angustias desconhecidas, ao passo que as suspiradas alegrias da +vida serena no seio de minha familia se me varrem da +imaginação como as copas de flôres desmaiadas, +que o nordeste sacudiu e dispersou.</p> + +<p>«Deverei occultar-lhe alguma das minhas visões, +querida mãi? Não posso. A confidencia é a +respiração das almas; é, mais ainda, é +a supplica do conselho e do remedio para as +tribulações, ou de estimulo e fé para crer na +felicidade sonhada, se ella um dia me vier provar que não +eram mentira os meus delirios dos dezoito annos.</p> + +<p>«Ha entre mim e o indecifravel do meu futuro uma imagem +como elle indelineavel. Não sei a qual hora da vida acharei +a sombra real d'esta idealidade, que se fez corpo e alma, +impressão e sentimento para a minha phantasia. Tenho querido +collocal-a ao pé de minha mãi, como reflexo do seu +amor. Quando assim consigo aproximadas, tambem consigo explicar a +influencia, que ha-de ter na minha vida essa imagem, descerrada a +nuvem que m'a envolve pela mão luminosa da Providencia. +Será a realisação do infinito amor, porque +entre Deus e minha <span class="pagenum"><a name="pag_25" id= +"pag_25">[25]</a></span> mãi falta um élo. Creio que +não usurpo a minha mãi o vago affecto dedicado a essa +alma estranha, que me visita nas horas de intimo recolhimento e +scismadoras saudades de não sei quê, como se do +céo perdido nos ficassem saudades para reconquistal-o +á custa de lagrimas. Isto que sinto não póde +ser, como me dizem os livros sentimentaes, os alvoroços +precursores das primeiras devoções, o subir para o +altar dos cultos fervorosos e apaixonados. É mais.</p> + +<p>«Entrevejo na escuridade do porvir uma scintilla, que me +banha de festiva luz o espirito, aspiro o aroma de celestial +flôr, que me delicia e adormece em dôces lethargias, +tenho um despertar alegre e sereno, como o do homem incapaz de ir +abraçar-se á realisação de seus +ambiciosos sonhos pelos caminhos travessios da improbidade e do +mal-fazer.</p> + +<p>«Assim pois, minha mãi, contente-se a sua boa alma +de se vêr assim reflectida na do filho, que d'ahi sahiu +agourado por tão maus prophetas. Não abordei esses +abysmos seductores, que o meu bom tio excommungava de lá, e +contra os quaes me premuniu com cabedal de philosophia +christã, bastante para defender das tentações +todas as nações da Biblia, exterminadas por causa do +peccado.</p> + +<p>«D'aqui a tres mezes, deporei no regaço de minha +mãi o coração inexperiente com que de +lá sahi. Dar-lh'o-hei mais rico de contentamentos puros, e +desejos de ser bom filho; e, se assim não fosse, iria agora +fortalecel-o em seu seio das virtudes, que ainda me +faltam.»</p> + +<p>Três mezes depois, Jorge Coelho, convidado por um seu +condiscipulo das visinhanças do Porto, passou no Porto, +quando recolhia a ferias, e alli se deteve, para assistir ao ultimo +baile annual da <i>Assembléa Portuense</i>.</p> + +<p>Jorge nunca vira um baile, nem ante-gostára pela +imaginação o prazer de encontrar duzentas damas +reunidas á competencia de formosura e pompas.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_26" id= +"pag_26">[26]</a></span>Dizia-lhe o condiscipulo, já gasto +para as commoções dos bailes (tinha vinte e dous +annos, e passára desapercebido em todos os bailes) dizia-lhe +o condiscipulo que o coração nascia de improviso no +primeiro baile, e muitas vezes lá morria. Contava-lhe, em +testemunho de verdade, a sua historia, que era uma historia negra, +passada ao clarão de centenares de lumes, nas salas da +<i>Assembléa Portuense</i>, no baile carnavalesco do anno +anterior. Com quanto nos seja sempre ingrato violentar as glandulas +lacrimaes dos leitores, e sacudir-lhes com patheticas descargas +electricas os nervos engelhados, não nos abstemos de contar +em poucas linhas a historia negra do snr. Pires, condiscipulo de +Jorge, em geographia e historia.</p> + +<p>Parece que o snr. Pires chegára de Coimbra a ferias de +entrudo, e conseguira ser convidado para o baile. Alugou um +dominó de seda, entrou nos salões, e remoinhou longo +tempo por entre centenares de pessoas desconhecidas. Dizia-lhe a +consciencia que era um tolo, por não buscar ao acaso uma +particula da felicidade, que brincava nas physionomias de toda a +gente, ao passo que das d'elle apenas escorria o suor debaixo da +mascara suffocante.</p> + +<p>Deliberado a demonstrar a si proprio que não era +absolutamente nescio, dirigiu-se a uma dama de aspeito melancolico, +e disse-lhe «que os anjos do céo, quando cahiam +cá em baixo na morada dos homens, ficavam tristes como +ella.»</p> + +<p>Ora, um maganão, tambem mascarado, que por alli gravitava +em redor do mesmo astro, disse ao estudante, radioso da feliz +amabilidade, «que não só aos anjos do +céo acontecia ficarem tristes e atordoados quando cahiam +cá em baixo, mas tambem acontecia o mesmo aos gatos, quando +cahiam de um terceiro andar á rua.»</p> + +<p>Ficou fulo de raiva Pires. A melancolica dama levou o leque ao +rosto para esconder o riso.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_27" id= +"pag_27">[27]</a></span>O estudante, voltando-se para o +entremettido, replicou-lhe que era de pessimo gosto a chufa, e o +gosto da senhora não era de melhor quilate festejando com +riso complacente tão deslavada semsaboria. Redarguiu o +incognito mascarado, perguntando-lhe se tinha duvida em sahir +fóra das salas para lhe estender uma orelha de modo que por +ella o conhecessem todos, visto que elle tivera a habilidade de a +esconder no capuz do dominó. Trocaram-se algumas finezas +mais d'este tomo, até que um homem de porte grave travou do +braço ao snr. Pires, e, levando-o ao salão menos +frequentado, perguntou-lhe que motivos se haviam dado para +desavença tão impropria de cavalheiros. Pires, +querendo dar ao successo, uma causa digna de transmissão, +contou que merecêra lisongeiro acolhimento da senhora com +quem estava trocando as phrases previas de uma paixão, que +rebentára subita e reciprocamente, quando o indiscreto e +villão interventor lhe dirigira palavras descomedidas, que +denotavam o ciume d'elle.</p> + +<p>—Pois aquella senhora, a quem o dominó allude, +trocava com v. s.ª as phrases previas de uma +paixão?—perguntou o interlocutor do estudante com +sorriso de affectada serenidade.</p> + +<p>—Sim, senhor, respondeu o outro emproando-se.</p> + +<p>—Antes de dizer-lhe que mente, preciso vêr-lhe a +cara.</p> + +<p>Dito isto, o sujeito, que era o marido da dama, arrancou a +mascara ao snr. Pires; e, vendo um rosto imberbe, e acerejado, +chamou o escudeiro, que passava com bandeja de dôces, e +disse-lhe: «Dê a este menino dous bolinhos, e mande-o +embora.»</p> + +<p>Eis aqui a historia negregada do snr. Pires, a qual, contada por +elle, era muito mais dramatica e engraçada, visto que +terminava por dous duellos mallogrados, um com o rival, outro com o +marido, e por tres desmaios da dama, um no salão, outro na +carruagem, e o ultimo <span class="pagenum"><a name="pag_28" id= +"pag_28">[28]</a></span>em casa, na presença do marido, que, +pelos modos, a quizera enforcar.</p> + +<p>E, como as lagrimas d'este acerbo conflicto cahiram todas no +coração do snr. Pires, o resultado foi afogarem-se +lá os embriões da sua felicidade, e ficar aquella +viscera árida e resequida como enxundia secca de +gallinha.</p> + +<p>Ouvira Jorge Coelho estas calamidades com a +respiração suffocada, e teve instantes em que duvidou +do bom siso do seu amigo;—tão descozido lhe +parecêra o conto, e tão ineptas as consequencias.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_29" id= +"pag_29">[29]</a></span></p> + +<h2>III.</h2> + +<p>Entrou Jorge Coelho nos salões da +«assembléa,» e julgou-se em regiões de +houris. Durou-lhe alguns minutos o atordoamento da primeira +impressão. Não o enleava esta ou aquella physionomia; +eram todas. N'aquella harmonia do bello, até as senhoras +feias—se ha senhoras feias, vistas á luz do +coração—recebiam homenagem do extatico +moço. No espasmo delicioso do academico, se algum amor +influia, era de certo o amor da especie, porque seus olhos +não haviam ainda estremado o individuo, que os olhos d'alma +entreviam no todo.</p> + +<p>Do cisco lucido, que volita no ar, faz douradas palhetas o raio +do sol coado pela fresta. Na dourada lucidez que Jorge via por +magico prisma, não haveria muito cisco, muito atomo de +poeira humana, que sómente <span class="pagenum"><a name= +"pag_30" id="pag_30">[30]</a></span>refulge aos reverberos dos +lustres, consoante o variegado das côres? Decidam os que +lá andam.</p> + +<p>Aquietado dos alvorotos da surpreza, o estudante sentiu o vacuo, +porque se viu sosinho alli. O apresentante doudejava no redemoinho +das danças, e raros intervallos perdia, perguntando ao +condiscipulo se estava contente.</p> + +<p>Jorge não sabia dançar, porque não tivera +tempo de aprender esse appendiculo grutesco da boa +educação. Muitas vezes lhe dissera o tio padre, +authorisado pelo oratoriano Manoel Bernardes, que danças +eram ansas do demonio armadas á alma.</p> + +<p>Não se glorie, porém, o crendeiro egresso de ter +instillado no animo do sobrinho o horror das mazurcas. Jorge +não dançava porque não sabia se quer a +nomenclatura d'essa galharda tolice de que por vezes impende o +accesso ás almas, e o passar-se uma noite menos tediosa n'um +salão em que o espirito se retouça em piruetas, mais +ou menos ridiculas e parvoinhas, da materia.</p> + +<p>Á meia noite, Jorge procurou o seu condiscipulo para +dizer-lhe que se retirava. Atravessando uma sala, quasi despovoada, +viu duas senhoras reclinadas n'uma ottomana, em postura de +fatigadas ou aborrecidas. A mais velha não excederia vinte e +cinco annos; a outra, que teria dezoito, foi a primeira que prendeu +o exclusivo reparo de Jorge, senão antes uma +contemplação absorta em que ellas mesmas +repararam.</p> + +<p>O academico devia captivar a attenção das duas +senhoras, melancolicas por indole ou artificio. Tinha elle um +semblante de si tão meigo e affectuoso, que as pessoas +tristes sentiam-se melhorar em suas magoas, pensando que outras +acaso maiores e mais carecidas de lenitivo denotava o brando olhar +do moço. Estava, por ventura, este condão sympathico +na magresa do rosto, cujo pallor mais era signal de +compleição mimosa, que effeito de vigilias e +desperdicios de vida com que muitos <span class="pagenum"><a name= +"pag_31" id="pag_31">[31]</a></span>conhecidos nossos se +recommendam ás senhoras idealistas, affectando langores e +martyrios de alma, dos quaes a victima principal é, em +verdade, o corpo.</p> + +<p>—Sympathica physionomia!—disse a mais velha das duas +senhoras.</p> + +<p>—Conheces?!—perguntou a outra sem fugir os olhares +de Jorge, o qual, por mero disfarce, encarava objectos, que +realmente não via.</p> + +<p>—Não o conheço, nem me lembra de o ter visto +em parte alguma.</p> + +<p>—Tinha curiosidade em conhecer... Não achas +n'aquelle rosto um não sei que de +distincção?</p> + +<p>—Tem alguma cousa não vulgar...</p> + +<p>—Uma tristeza insinuante, achas?</p> + +<p>—E não sei que de magoa supplicante...</p> + +<p>—É verdade... e as supplicadas somos de certo +nós...</p> + +<p>—És tu, Silvina... és tu a examinada com um +ar de espanto ou ternura que compromette. Olha um grupo de homens, +que nos observam e mais a elle...</p> + +<p>—Não olhemos mais. Elle já sabe que o vimos +e discutimos. Achamol-o sympathicamente triste, e bem póde +ser que seja um tolo com bastante coragem para nos dizer que o +é... Mas quem será?!</p> + +<p>A curiosidade das duas damas é menos racional que a dos +leitores que desejam conhecel-as.</p> + +<p>A mais velha é a snr.ª D. Francisca da Cunha, +creatura galante, com quanto morena, grandes olhos pretos, +sobrancelhas travadas e negras, opulentos cabellos, e espirito de +improviso bastante a fingir illustração. Pertence a +uma familia heraldica da provincia de Traz-os-Montes, e veiu ao +Porto com seu pai, fidalgo arruinado pela politica e pelas proprias +dissipações, com o fim de acirrar a cobiça de +um noivo conveniente, cujos paes almejam por enxertal-o no +nobilissimo tronco dos Cunhas. Tem esta menina genio exquisito e +romanesco. Por muitas <span class="pagenum"><a name="pag_32" id= +"pag_32">[32]</a></span>vezes tem mallogrado os esforços +casamenteiros do pai, mofando da figura e palavriado, um pouco para +rir, do noivo. Á força de ser má, conseguiu +fazer-se anjo no conceito do mal-fadado que espera em ancias ser +marido d'ella. Maravilhada do poder que tem na alma do capitalista, +com desdens e despresos, espanta-se do presumido dominio, que +poderá ter sobre o homem a quem der os sentimentos +embrionarios no seu coração. Para experimentar, sem +risco da sua nomeada, recebe cartas de varios oppositores á +sua alma, e responde regularmente a umas com idéas +respigadas nas outras. Nos grupos, que se vão formando na +sala, em que está com Silvina, sua prima carnal, avultam +quatro dos seus correspondentes activos, e dous, que obtiveram +promessa de resposta, e alguns, que esperam aso de solicitarem +aquella gloria, no entender de cada um negada a todos, chegando a +fazerem-se a mutua justiça de julgarem-se parvos uns aos +outros.</p> + +<p>D. Silvina de Mello, prima de D. Francisca, é tambem +provinciana, e veiu de uma aldêa do Minho a banhos do mar, +convidada por sua prima, de quem é hospeda. O que ella +aprendeu em quatro mezes de convivencia é possivel que o +não acreditasse quem lhe visse o rosto de anjo, olhares de +innocente acanhamento, sorrisos de escrupulosa timidez, palavras +desanimadas e preguiçosas, e, no todo, uma +despresumpção de maneiras, que fazia suppôr +grande limpeza d'alma e de... de intelligencia!</p> + +<p>Fôra D. Silvina da sua aldêa para o Porto com uma +paixão por um morgado, que a não seguira por +fortissimos impedimentos. O pai do morgado tinha feito +extraordinarias despezas na construcção de uma eira, +na reedificação da capella solarenga, no muramento de +algumas cortinhas, que comprara, não fallando já nas +desastradas mortes de um macho, que tinha trinta annos de bom +serviço na casa, e duas juntas de bois atacadas de +epizootia. <span class="pagenum"><a name="pag_33" id= +"pag_33">[33]</a></span>O moço pedira debalde soccorros, +fingira-se mesmo epileptico para que o cirurgião da terra +lhe receitasse banhos salgados; o velho, porém, passaro +bisnau, e avesso á inclinação do filho, deu +grandemente louvores a Deus por propiciar-lhe ensejo de acabar-se +um namoro inconveniente, attenta a mediocre legitima de Silvina. +Facil foi a D. Francisca obliterar no coração da +prima a imagem do seu primeiro amor, zombeteando-a á +proporção que a ingenua provinciana lhe ia mostrando +as cartas do saudoso morgado.</p> + +<p>Não podémos averiguar porque traças o +morgado de Santa Eufemia arranjou dinheiro com que foi ao Porto, +tres mezes depois que Silvina cessára de responder-lhe +ás cartas, tanto mais irrisorias quanto a paixão as +dictava em estilo talhado para matar paixões. O certo +é que o allucinado homem chegou ao Porto na vespera do baile +da assembléa, e alcançou cartão de convite. A +sua idéa era encontrar Silvina.</p> + +<p>Todo sorvido na ancia de vêl-a e fulminal-a com olhadura +terrivel de accusações, o morgado de Santa Eufemia +não cuidou, com tempo, de mandar fazer casaca. A que trazia +na mala era dos figurinos de Guimarães, e, posto que em bom +uso, era anachronica na gola, nas lapelas, na largura e comprimento +das abas, na pequenez dos botões, e rebordo dos punhos. +Consultou a pessoa, que lhe alcançára o convite, +ácerca da casaca; mas, desgraçadamente, a pessoa +consultada era um d'aquelles individuos de juizo, que não +tiram o monge pelo habito, e reprovam que seja sacrificada aos +caprichos da moda uma casaca de bom pano, farta e commoda, +sómente porque alguns casquilhos perdularios, ou alfaiates +especuladores, inventam feitios novos.</p> + +<p>Concordou o morgado, e foi ao baile com a casaca velha. Melhor +lhe fôra ter morrido da epizootia! A sua entrada na primeira +sala foi um acontecimento. As petulantes lunetas saudaram-n'o, e +seguiram-n'o com insultuosa <span class="pagenum"><a name="pag_34" +id="pag_34">[34]</a></span>curiosidade até ao salão +da dança. As senhoras, em regra, pouco curiosas do trajar +dos homens, não repararam na casaca, mas não podiam +deixar de vêr o collete e a gravata. Era esta descommunal na +altura, atravessada por um laço, cujas pontas, como orelhas +de lebre morta, cahiam caprichosamente sobre os hombros. A +côr verde da gravata contrastava com o encarnado-ginja do +collete de uma abotoadura e colchetes apertados até ao +pescoço, e acairelado na abotoadura e bolsos com vivos +roixos. Sobre isto cahiam as lapelas enxovalhadas da casaca, com as +quebras e vincos dos apertos que soffrera na mala em que viera, +para irrisão e descredito de Freixieiro, cujo elegante +era.</p> + +<p>Desconfiou o morgado de Santa Eufemia de alguns indiscretos que +o seguiram, desde o vestibulo da assembléa. Viu, depois, que +as damas se trocavam olhares suspeitos, que o não impediam +de procurar Silvina com aspecto entre o furioso e o comico. A +obstinação, porém, dos chasqueadores era +inexoravel, e o morgado teve um intervallo de lucidez, em que olhou +em si, e se viu ridiculo. Do fundo de sua alma deu, então, +graças á Providencia, se Silvina o não tinha +visto; mas o derradeiro olhar, que lançou aos descaridosos +mofadores, era provocador.</p> + +<p>Resolveu, pois, retirar-se, maldizendo o velho amigo de sua +familia, que o demovera do proposito de fazer roupa nova. Quando ia +sahindo, atravessou por engano a sala em que se achavam D. +Francisca, D. Silvina, e Jorge Coelho. Os grupos de homens, que por +alli estanciavam, deram com elle de cara, seguido d'um cortejo de +folgazãos, que tinham passado da zombaria cautelosa á +risada descomposta.</p> + +<p>Silvina corou até ás orelhas, quando Francisca +exclamou:</p> + +<p>—Oh! que original! Repara, prima, tu não vês +aquelle homem?!</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_35" id= +"pag_35">[35]</a></span>A este tempo o morgado estava em meio da +sala, e fazia machinalmente uma cortezia ás damas.</p> + +<p>—Aquillo será comnosco?!—dizia, com +desdenhosa zanga, D. Francisca.—Conheces aquelle phenomeno?! +Olha que elle está esperando que o comprimentemos... +Conheces, Silvina?</p> + +<p>—Conheço...—balbuciou Silvina, acaso +tão afflicta como o desastroso morgado, que estava alli +chumbado ao pavimento.</p> + +<p>—Quem é? é da tua terra?—tornou +Francisca já envergonhada de que julgassem ser ella a causa +da attentiva paragem de semelhante entrudo.</p> + +<p>Silvina ergueu-se, tomou o braço da prima, e disse:</p> + +<p>—Vem, que eu te contarei tudo.</p> + +<p>Sahiram.</p> + +<p>Jorge Coelho foi o unico dos circumstantes que examinou com +seriedade o morgado. Achava estranho o personagem; mas dizia-lhe a +boa alma que o insulto era improprio de pessoas bem educadas como +deviam presumir-se aquellas, que estavam alli representando a +melhor sociedade.</p> + +<p>O fidalgo de Freixieiro sahiu com os olhos a marejarem lagrimas. +Foi ainda Jorge quem unicamente viu este signal de +afflicção; e, sem saber o porquê, sympathisou +com a dôr do homem, que levava de poz si o escarneo de tanta +gente, e na alma a certesa de que viera dar-se em espectaculo aos +olhos da mulher, que nunca lhe perdoaria o ser ridiculo. Pobre +criança! como vivias enganado pelas maximas dos teus +romances francezes! Não sabias tu que ridicula, sem +rehabilitação, é só a pobresa.</p> + +<p>D'ahi a uma hora, Francisca e Silvina desciam do toucador para o +salão do baile. A primeira compunha o semblante ainda +descomposto das gargalhadas com que recebera a +revelação da prima. Esta, mortificada pelo amor +proprio, se não antes vexada pela indecorosa +eleição <span class="pagenum"><a name="pag_36" id= +"pag_36">[36]</a></span>d'um amante chulo, captivava lastimas com a +tristesa que devêra acarear despreso. Despreso! Talvez +piedade, que a situação era digna d'ella, por que +é a mulher, quem mais a si se mortifica, se a consciencia a +accusa d'uma escolha, que não só lhe não +disputam, se não que, peior ainda, lhe injuriam com motejos. +O morgado de Santa Eufemia, até á noite infausta do +baile, era uma recordação, se não saudosa, ao +menos magoada. D'ahi em diante, pelo menos n'aquella hora, +causava-lhe tedio, e forçava-a a participar da zombaria.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_37" id= +"pag_37">[37]</a></span></p> + +<h2>IV.</h2> + +<p>Estava Jorge, outra vez, defronte das duas senhoras. Sentia-se +outro. Já tinha interiormente um mundo, uma imagem reflexa +do mundo exterior a remuneral-o vantajosamente da +insulação em que se via no meio de tantos +indifferentes á sua tristesa. A todo homem esta +mutação tem acontecido, uma vez na vida. O baile +é triste para quem leva da soledade do seu quarto o +coração de lucto; porém, áquelle mesmo +conforta, ás vezes, uma chimera, lá onde menos a +esperança lh'a promettia. Chimeras são que desbotam, +como as flôres dos enfeites, ao repontar da manhã; mas +Deus sabe quantas almas se retemperam nas illusões de um +baile, e que horas de abençoado engano lá divertem as +tristesas dos mais desenganados!</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_38" id= +"pag_38">[38]</a></span>Não era assim que Jorge Coelho +scismava comsigo—que a aurora do seu breve dia de fé e +amor principiava alli—quando o amigo Pires, +lançando-lhe o braço em redor do pescoço, lhe +disse:</p> + +<p>—Que fazes aqui parado? Contemplas aquellas duas Evas, mal +assombradas de gesto, como se tivessem comido a fatal +maçã?</p> + +<p>—Contemplo uma, e acho-a celestialmente formosa.</p> + +<p>—A côr de cêra?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Eu gosto mais da morena. <i>Nigra sum sed formosa.</i> +Aquillo sim que é mulher para incommodar a fleuma d'um +sceptico!... Queres ser apresentado?</p> + +<p>—Pois tu conheces?</p> + +<p>—Não, nem preciso. Vou tiral-a para a primeira +quadrilha, apresento-me, e depois tenho a honra de ser o teu +apresentante. O estilo, cá na boa roda, é este.</p> + +<p>—Mas a quem me has-de tu apresentar? é necessario, +a meu vêr, que ella te diga quem é.</p> + +<p>—Pois não lh'o pergunto eu?! Essa reflexão +é piegas. Se queres ouvir o que eu digo, colloca-te ao +pé de nós, e escuta-me nos intervallos das +marcas.</p> + +<p>O snr. Pires não reconsiderava uma tolice, nem tolerava +replicas.</p> + +<p>D. Silvina, vendo um sujeito conversar com Jorge, olhou-o +curiosamente, para, se acaso visse pessoa de suas +relações com elle, podesse, de conhecido em +conhecido, chegar a colher alguma informação do seu +mysterioso observador. Mais propicia do que ella ambicionava, lhe +foi ao encontro a fortuna protectora de sua innocente curiosidade. +Pires, com elegante desembaraço, solicitou de Silvina uma +contradança: esta, com adoravel aprazimento, aceitou logo o +braço do cavalheiro porque se estavam alinhando os +pares.</p> + +<p>Aqui, porém, falhou uma vez a felicidade a um tolo. +Esquecera-se Pires de procurar <i>vis-á-vis</i>, e era +já <span class="pagenum"><a name="pag_39" id= +"pag_39">[39]</a></span>fóra de tempo o procural-o. A dama +deu primeiro pela falta, e o academico fez-se da côr do +rabano. Silvina relanceou os olhos supplicantes a D. Francisca, e +esta, chamando o primeiro cavalheiro conhecido, deu-lhe o +braço, e entrou no lugar fronteiro á prima.</p> + +<p>—Esta falta, disse Pires, retesando no pulso a luva +até a rasgar, deve-se ao enthusiasmo com que eu pedia a v. +exc.ª esta contradança.</p> + +<p>—Enthusiasmo?! Ora!... parece-me que queria dizer +<i>distracção</i>, respondeu Silvina ao adiantar-se +para executar a primeira figura.</p> + +<p>Chegado o grande intervallo, Jorge Coelho quizera ir postar-se +perto de Silvina; mas um burguez intolerante, zangado da pertinacia +do moço, que envidava os recursos todos da delicadesa e do +encontrão para romper a barra compacta dos olheiros de +espadoas nuas, chegou a dizer-lhe, franzindo a testa:«O +senhor não cabe? se quer passar espere que acabe a +<i>polka</i>!» O bom do burguez não sabia ao certo se +era contradança ou polka o que se estava +dançando.</p> + +<p>No entanto, o nosso amigo Pires, com quanto pesaroso de que +Jorge alli não estivesse, para maravilhar-se dos recursos da +eloquencia afeita ás difficuldades do salão, +conversava assim com a senhora attenciosa:</p> + +<p>—Quando tive a honra de impetrar de v. exc.ª a +graça d'uma contradança... (Silvina poz o leque +diante dos labios) acabava eu de dizer a um amigo meu que o olhar +contemplativo, <i>la réverie</i>, com que elle fitava v. +exc.ª, era merecida, justificada, e...</p> + +<p>—Muito agradecida;—atalhou Silvina, tregeitando com +o leque e a cabeça uma evolução de movimentos +indescriptiveis—mas eu não reparei bem no amigo de v. +s.ª, que me distinguia de modo tão lisongeiro.</p> + +<p>—Se v. exc.ª tem a bondade de olhar em frente, ha-de +encontral-o extasiado...</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_40" id= +"pag_40">[40]</a></span>—Extasiado?! Ora isto parece-me que +vai passando da lisonja á galhofa!</p> + +<p>—Oh! minha senhora... Isso offende-me e punge-me, acudiu +Pires com o mais comico azedume.</p> + +<p>Silvina relanceára a vista como quem não via, e +voltando-se para o cavalheiro, disse:</p> + +<p>—É do Porto aquelle senhor?</p> + +<p>—É da provincia, minha senhora, estudante de +Coimbra, meu condiscipulo, chama-se Jorge Coelho, pertence a +nobilissima familia, e assevero a v. exc.ª que é um +coração virginal, intacto, fervoroso, sentindo hoje +pela primeira vez os impetos juvenis do amor.</p> + +<p>—Não admiro, porque é muito novo.</p> + +<p>—Muito novo! oh! minha senhora! Quantos velhos n'aquella +idade! Aqui estou eu, de pouca mais idade que elle, e me considero +já <i>desillusioné</i>, decrepito.</p> + +<p>—Realmente?!... Perdoe-me a curiosidade—disse +Silvina, com muita graça de fina ironia, sustentada com +imperturbavel seriedade.—Queira dizer-me em que romance +poderei encontrar o seu caracter, já que não devo +esperar uma revelação das tempestades que o fizeram +tão cedo naufragar!</p> + +<p>—O meu caracter ainda não está +escripto!—respondeu Pires, avincando a testa, e fitando-a de +esguelha.</p> + +<p>N'este comenos entraram os pares latentes em movimento, e a +phrase ficou engasgada até ao proximo intervallo. +Enganou-se, porém, o sceptico. Silvina, como esquecida da +suspensão da lugubre narrativa, perguntou ao cavalheiro:</p> + +<p>—O seu amigo demora-se no Porto?</p> + +<p>—Não são essas as intenções +d'elle, minha senhora; mas é de presumir que um aceno de v. +exc.ª o faça esquecer a familia carinhosa que o +está esperando.</p> + +<p>—V. s.ª depois que envelheceu—replicou Silvina +cortando as palavras com frouxos de estudado riso—julgou +<span class="pagenum"><a name="pag_41" id= +"pag_41">[41]</a></span>salutar cousa o distrahir-se da sua gotta +moral zombando das pessoas que ainda crêem e esperam alguma +cousa d'esta vida?!</p> + +<p>Acudiu Pires:</p> + +<p>—Eu que digo isto é porque sei o que v. exc.ª +é para Jorge. Respondo gravemente ás suas facecias +adoraveis. Sei que as virtudes de v. exc.ª...</p> + +<p>—V. s.ª conhece-me? perguntou Silvina de golpe, e +formalisada.</p> + +<p>—Não tenho essa honra, minha senhora.</p> + +<p>—Quem lhe disse que ha em mim virtudes?</p> + +<p>—Rosto angelico e véo translucido: homem +experimentado adivinha o coração do anjo.</p> + +<p>Pires ia dizer mais quatro aforismos do seu uso, quando terminou +a contradança. Conduziu a dama á sua cadeira, e +disse-lhe:</p> + +<p>—Eu queria ter a felicidade de apresentar a v. exc.ª +o meu amigo Jorge Coelho; porém, rogo-lhe me diga se devo +procurar alguem que me apresente a v. exc.ª</p> + +<p>—Não tenha esse incommodo. Fico sabendo que v. +s.ª é um cavalheiro da boa sociedade, e tanto basta. +Sei tambem que é academico, e sympathiso com essa qualidade +porque tenho em Coimbra dous irmãos no seminario, e +não sei que analogias me fazem presar os estudantes.</p> + +<p>—Direi mais, acrescentou o academico, enclavinhando os +dedos para ajustar as luvas, e tirando pelas lapelas da casaca a +puxões de gentil effeito—direi mais a v. exc.ª +que me chamo Leonardo de Sousa Pires e Albuquerque, a minha casa +é na Maya, e costumo passar as ferias no Porto, porque sou +avesso á vida pastoril, e não tenho senão +mediocres tendencias para admirar a natureza bruta...</p> + +<p>—Não é poeta?—interrompeu Silvina, +ageitando o lindo rosto a um ar de zombeteira +admiração.<span class="pagenum"><a name="pag_42" id= +"pag_42">[42]</a></span></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_43" id= +"pag_43">[43]</a></span></p> + +<h2>V.</h2> + +<p>—Se sou poeta!...—disse Pires, enviezando para o +estuque do firmamento olhos de lastima.—A poesia é +flôr muito delicada, que o primeiro vendaval do +coração desfolha. Desfolhada a primeira flôr, o +vaso que fica não tem seiva para outra: é como a +terra ferida de maldição.</p> + +<p>—Isso é triste—acudiu Silvina, tregeitando +com a cabeça e olhos umas gaifonas piedosas.</p> + +<p>—Tristissimo, minha senhora!</p> + +<p>Agora eram de victima os ares do Fausto da Maya, e a dama +já pedia a Deus que não viesse para junto d'ella a +prima, com medo de espirrar uma d'aquellas casquinadas de riso, que +a mais sisuda prudencia não refreia.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_44" id= +"pag_44">[44]</a></span>Jorge Coelho, no entanto, sem bem saber o +que o impacientava, não podia tolerar a detença do +amigo. «Se eu soubesse dançar—dizia de si para +si o academico—teria feito o que fez Pires... Será de +mim que elles estão fallando? É natural, porque a +vejo fitar-me com attenção... Se me eu avisinhasse, +daria melhor occasião a Pires de me apresentar...»</p> + +<p>E, obedecendo á hypothese, deu alguns passos; mas +tão a medo o fazia, que antes parecia querer que o +não vissem. N'isto, já o amigo o andava procurando, e +Silvina, vendo a direcção errada de Pires, acenou-lhe +de longe, indicando com disfarce onde estava Jorge.</p> + +<p>O pobre moço tremia quando viu que era procurado. A sua +primeira idéa foi fugir da sala, e não duvidamos +crêr que fugiria, se Pires lhe não trava do +braço, dizendo:</p> + +<p>—Olha lá como lhe fallas: a mulher tem espirito, e +é um genio.</p> + +<p>Isto foi peior.</p> + +<p>—O meu amigo Jorge Coelho que eu tenho a honra de +apresentar á exc.<sup>ma</sup> snr.ª Dona...</p> + +<p>Pires estacou. Silvina sorriu-se. Jorge corou, baixando os +olhos.</p> + +<p>—Não sabe o meu nome? isso não importa disse +a dama.—Eu me apresento. O meu nome é Silvina. Tenho a +gloria de ser tambem aldeã. Nenhum dos tres póde rir +dos outros. Então o snr. Jorge não dança?</p> + +<p>—Não, minha senhora, eu não sei +dançar—disse Jorge com infantil ingenuidade.</p> + +<p>—Não sabe, porque não ama a dança, +não é assim?</p> + +<p>—Em minha casa ninguem aprendeu a dançar. Minha +mãi foi educada n'um convento, e de lá sahiu para ser +esposa, e governar sua casa n'uma terra onde nunca se deram bailes. +Eu sahi da minha aldéa ha menos d'um anno, e tenho consumido +todo o meu tempo no estudo...</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_45" id= +"pag_45">[45]</a></span>Estava Silvina gosando sem motejal-a a +simplicidade de Jorge, ao passo que Pires lamentava as pueris +historias do seu acanhado amigo. Como quizesse salval-o, o +imaginoso academico interrompeu-o com não sabemos que +espirituosa semsaboria, que Silvina atalhou logo:</p> + +<p>—Deixe fallar o seu amigo que me está encantando +com a singelesa do que diz...</p> + +<p>—Eu retiro-me, minha senhora—disse Pires, +arqueando-se—porque estou compromettido para a seguinte +polka.</p> + +<p>—Tambem eu...—disse Silvina, já quando o par +se avisinhava, ao qual pediu desculpa, de não dançar, +por causa de uma forte dôr de cabeça. E voltando-se +para Jorge, que não soubera avaliar a fineza do fingido +incommodo:</p> + +<p>—Tem aqui esta cadeira... Sente-se, e conversemos da sua +familia, porque talvez precise desafogar saudades d'ella em +coração que o comprehenda.</p> + +<p>Jorge cobrára alento com este ar de familiaridade. Fez-se +para elle profundo silencio em todo aquelle borborinho da sala.</p> + +<p>Era a primeira vez que se via em face de uma mulher, que lhe +não chamava irmão ou filho; e, todavia, tanta +ingenuidade fraterna respirava o rosto de Silvina, que, por +encanto, o timido moço, sem forcejar contra o enleio da +alma, tirou de lá expressões de sorte affectuosas que +nem os mais destros comicos de sala as diriam assim.</p> + +<p>—Tem muitas saudades dos seus, snr. Jorge?—disse +Silvina com brando mimo.—Está ancioso por chegar aos +braços de sua mãi?</p> + +<p>—Quizera que v. exc.ª a conhecesse—disse Jorge +maviosamente.—Havia de amal-a... que minha mãi +está tão longe d'este mundo brilhante, vive d'um modo +tão differente do das pessoas educadas como ella foi, que me +faz dó o que era e tem sido ha vinte annos, <span class= +"pagenum"><a name="pag_46" id="pag_46">[46]</a></span> contando +hoje apenas trinta e seis, n'uma aldêa, sem outra convivencia +senão a de seus filhos, e sempre magoada das saudades de meu +pai... Ha duas horas que penso em v. exc.ª e n'ella...</p> + +<p>—Em mim?—atalhou Silvina, com sorriso de +bondade—lisongeia-me infinitamente a companhia que me deu no +seu pensamento; mas poderá dizer-me que analogia de imagens +achou entre mim e sua mãi?</p> + +<p>—Immensa, e não sei dizel-a. Se eu podesse bem +interpretar este sentimento mysterioso, diria, d'outro modo, que +hoje, pela primeira vez, se espelharam em minha alma duas imagens +de mulher. Até ha pouco, havia lá a de minha +mãi sómente, e os traços informes, a sombra, o +indefinido do ser que vaga entre o céo e a +imaginação do poeta. Agora...</p> + +<p>—Essa segunda—interrompeu Silvina com uma gravidade +impropria de sua idade e modos usuaes—não +poderá jámais deslumbrar a de sua mãi, porque +os entes de imaginação, visualidades passageiras, +nunca usurpam a posse aos entes que a natureza nos está +dando todos os dias em realidade de amor e carinhos. E depois, snr. +Jorge, verá que é inutil esperar aquelle puro +original da cópia que a sua phantasia vai debuxando, em +quanto o coração novo e enganado lhe empresta as +côres do céo. Affirmo-lhe, senão authorisada +pela experiencia, amestrada pelo exemplo e confissões +sinceras das minhas amigas, affirmo-lhe que o seu indefinido de +poeta nunca lhe ha-de avultar em corpo e alma, se os olhos descerem +do céo a procural-o na terra. Guarde, pois, com extremosa +avareza a imagem de sua mãi, e não consinta que outra +lhe dispute o exclusivo amor que lhe dá.</p> + +<p>Disse.</p> + +<p>O academico ouvia, pela primeira vez, a expressão +floreada, a linguagem musical, o periodo arredondado, como de +folhetim ambicioso, na bocca de mulher. Achava elle certa +incongruencia entre as feições menineiras +<span class="pagenum"><a name="pag_47" id="pag_47">[47]</a></span> +da provinciana e o tom sentencioso do discurso. Relanceou-lhe +subito na memoria o meu nome, segundo me elle contou depois. +Lembrou-se d'aquelle meu estirado discurso, na sua aldêa, +dezoito mezes antes. Tropeçou na hypothese de que o singelo +exterior da palavrosa menina mascarava um coração +desbaratado por desenganos, e engenhoso de armadilhas a +corações noviços. Alguem diria que o silencio +de Jorge, seguido á ultima expressão de Silvina, era +acanhamento. Já não: era a duvida.</p> + +<p>—Ficou tão pensativo, snr. Jorge—tornou +Silvina.—Está pesando no seu juizo a verdade das +minhas palavras? Impressionaram-no tanto!...</p> + +<p>—É verdade, minha senhora; estava pesando as +palavras de v. exc.ª com outras que me disse um homem de +trinta annos.</p> + +<p>—Contrarias ás minhas?</p> + +<p>—Semelhantes na intenção; mas muito mais +desconsoladoras na fórma. Disse-me elle que ha muitas +mulheres que matam, e uma só que salva.</p> + +<p>—Mas affirmou-lhe haver uma que salva?</p> + +<p>—Sim, minha senhora.</p> + +<p>—E quantas vezes lhe disse elle que podia ser victima de +sua devoção e generosidade a mulher que sente em si o +coração salvador?... Creio que me não fiz +comprehender...</p> + +<p>—Comprehendi, minha senhora. Pergunta v. exc.ª se a +mulher capaz de erguer a alma despenhada de sua grandesa, +não se despenhará ella mesma n'essa generosa +tentativa;</p> + +<p>—Entendeu.</p> + +<p>—Não sei responder, snr.ª D. Silvina. Eu +não sei nada do mundo. Ignoro os precipicios em que +póde cahir o homem, e não sei tambem a que alturas +póde levantal-o o amor. Já imaginei o mundo mais +agradavel: começo a dar cem illusões por cada +realidade. Não cuide v. exc.ª que eu fiz pé +atraz á vista da verdade despoetisada, <span class= +"pagenum"><a name="pag_48" id="pag_48">[48]</a></span> e feia como +dizem os pessimistas que ella é, vista á luz da +razão pura; vejo, porém, que se vão fenecendo +as flôres da minha imaginação á maneira +que escuto e pondero, com religiosa crença, as palavras que +v. exc.ª me diz, e as que me disse o bom ou funesto +despertador da minha razão, que dormia acalentada nos +braços da poesia. De que serve o desengano antes que a fatal +experiencia no'l-o dê?! Para que me diria v. exc.ª, com +ar de tanta verdade e segurança, que eu nunca encontrarei o +puro original da cópia que a minha phantasia +entrevê?!</p> + +<p>—Diz bem! atalhou Silvina meigamente triste, ou +adoravelmente dramatica—diz bem! Arrependo-me da +injustiça que fiz ás mulheres, e mesmo da crueldade +com que me tratei a mim propria. Fallei pela bocca da sociedade, +snr. Jorge Coelho. Tenho ouvido, e lido nos romances as palavras +geladas e desanimadoras que lhe disse, com o immodesto animo de +distinguir-me a seus olhos. Menti-lhe, e menti ao meu +coração. Não se desalente ao entrar na vida, e +nunca de mim se lembre como de fada má, que lhe fadou a +desventura. Espere, creia, e obedeça aos impulsos do +coração, em quanto a peçonha da mentira o +não contaminar. No mundo deve existir a imagem da mulher +digna de senhorear-lhe a alma com a de sua mãi, cuja face eu +beijaria, hoje, se podesse, com respeito e ternura de filha. Quando +estiver nos braços d'ella, diga-lhe que encontrou no Porto, +e n'um baile—onde raro sentimento grave entretem por momentos +o espirito—diga-lhe que encontrou uma mulher que lhe manda +n'esta rosa um beijo de sympathia e veneração.</p> + +<p>E, dizendo, tirou do decote espeitorado do vestido a rosa, +chegou-a aos labios, e deu-a com gracioso ademane a Jorge, que lh'a +recebeu com mão tremente.</p> + +<p>—Cumpre o meu pedido? tornou ella.</p> + +<p>—Pergunta-me se cumpro? É este um encargo doce +<span class="pagenum"><a name="pag_49" id="pag_49">[49]</a></span> +que v. exc.ª faz ao meu coração. Farei que minha +mãi receba nos labios o beijo que vai n'esta flôr. +Depois, pedir-lhe-hei que m'a ceda, que eu possa chamar-lhe minha, +enthesoural-a como se ella para mim cahisse da grinalda d'um +anjo... Se ha no coração poesia mais sublime que a da +saudade...</p> + +<p>—Ha, sim... a da esperança...</p> + +<p>—A da esperança!... balbuciou Jorge, levando +machinalmente a rosa aos labios, e córando da irreflectida +acção que se lhe afigurou menos respeitosa.</p> + +<p>(Oh santa innocencia! não sei se és mais tola que +santa!)</p> + +<p>Desculpem o parenthesis que desfeia um pouco o bello e +harmonioso da fórma dialogal. Guarde-me Deus de motejar com +insulsas facecias a candura, o rubor, a timidez encantadora dos +vinte annos de Jorge. Invejo-lhe o que já não posso +haver nem sequer com grande esforço d'arte; mas rio-me +d'elle e de mim, quando as galhofeiras memorias do que fui, ha hoje +quinze annos, sahem d'entre as flôres mirradas da minha +primavera, e vem cá a este glacial dezembro da vida fazer-me +assuada e zombaria, para que eu me dôa e corra das criancices +de então. Pois rio-me com effeito, que é para isso a +cousa, e riam-se, á vontade, os que de mim souberem que +muitas vezes todo eu me incendiava em carmim e rosa, quando o olhar +logrativo da mulher me alvoroçava o pudor a ponto de +afeminar-me, e fazer de mim uma menina que... Quasi me escorregava +agora dos bicos da penna uma necedade das que se não +desculpam á propria santa innocencia que, repito, não +sei se é mais santa que tola.</p> + +<p>Vamos á historia com ajuda da providencia dos +romancistas, a qual providencia, muitas vezes, abre mão +d'elles, e deixa-os para ahi parvoejar que é mesmo cousa de +peccado.</p> + +<p>Silvina deu fé do rubor de Jorge, e...—querem +<span class="pagenum"><a name="pag_50" id="pag_50">[50]</a></span> +saber a verdade inteira?—não gostou. É um +segredo da essencia mulheril o dissabor que a molesta, a seu +pesar... (vá, diga-se a <i>seu pesar</i>) quando o homem se +amulherenga ao pé d'ella, e lhe não deixa o exclusivo +de mulher. Receios de desmerecer em graças quando lhe +é força ser mulheril? Consciencia ingrata d'uma +superioridade que a desenfeita? Recursos que perde de captivar pelo +mimo, com a brandura caridosa, por estremecimento do pudor, toques +do pejo virginal, que ora lhe transluzem nas faces, ora lhe cerram +os labios? Não sei se é tudo, ou alguma cousa, ou +nada d'isso. A verdade é que a mulher não gosta de +homens que coram, de homens que choram, de homens que... não +são homens, está dito tudo, e n'isso ficaremos, se +acham que está discutida a materia. <i>Materia</i>... que +aleivosia! Isto é espirito o mais espiritual que póde +ser. Espirito transcendental, d'aquelle que devia andar na mente de +muito casquilho, paralta, janota, ou como é que se chama a +tal alimaria, que se desentranha em lufadas de cynismo nos +botequins, e vai ao pé das costureiras tartamudear +jaculatorias de ternura.</p> + +<p>Fica, pois, justificado o desgosto de Silvina, quando viu Jorge +córar, por ter beijado a flôr, onde os labios da +peregrina minhôta haviam imprimido o beijo de encommenda para +a provincia.</p> + +<p>—Agora, disse ella; são dous os beijos que leva a +sua mãi, em uma só flôr. Queira Deus que o +halito dos labios do filho não tirasse o perfume ao dos +labios da amiga.</p> + +<p>—Creio que sim—disse Jorge corando outra +vez—creio que sim...</p> + +<p>—Porque?!—atalhou Silvina com despeito mal +comprimido.</p> + +<p>—Porque sinto no coração o perfume do seu +beijo.</p> + +<p>Sahiu-se melhor do que eu pensava. É aquella uma das +respostas que costumam ir de casa gizadas; mas <span class= +"pagenum"><a name="pag_51" id="pag_51">[51]</a></span> creio no +improviso. E assim, explicado o segundo accesso de escarlate, +desvaneceu-se o desaire em que estava Jorge na opinião +caprichosa da dama, que replicou muito requebrada:</p> + +<p>—Pois não esperdice o perfume, porque nunca +sentirá no coração outro mais puro, mais digno +de incensar o seu amor reflectido do céo.</p> + +<p>—Amor!—interrompeu Jorge com exaltado impeto de +criança—Olhe que essa palavra póde ser-me +veneno para toda a vida, se v. exc.ª consentir que eu a +guarde...</p> + +<p>—No mais intimo de sua alma... Guarde... que nunca a +proferi com tão pouco conhecimento de quem a dou, e +tão pouca esperança de a vêr florir em +venturas.</p> + +<p>Jorge Coelho ia naturalmente córar terceira vez, quando +Francisquinha da Cunha chegou, com ar de zanga, e disse:</p> + +<p>—Vamos, prima, que o pai quer sahir... e é +tão cedo... que raiva! estava agora ouvindo uma enfiada de +tolices tão peregrinas...</p> + +<p>—De quem?</p> + +<p>—Eu sei cá de quem? d'um homem que se chama Pires, +e que este senhor conhece... Não lh'o diga, não? Eu +fui indiscreta...</p> + +<p>—Não diz nada—acudiu Silvina—pois +não, snr. Jorge?</p> + +<p>—Eu, minha senhora!...</p> + +<p>—Asseverou-me—continuou Francisca gesticulando +vertiginosamente com cabeça e braços—que se eu +o não amasse, havia de espirrar á minha fronte de +algoz o seu sangue de Larra, de Werter, de... Ai que homem, que +homem aquelle! O que se produz na Maya! Ó filha, eu +não posso perder aquillo!... Pires é meu...</p> + +<p>Ai! o pai... Vamos, Silvina.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_52" id= +"pag_52">[52]</a></span>Silvina estendeu a mão a Jorge, e +disse a meia voz:</p> + +<p>—Vá vêr-me ámanhã ao jardim de +S. Lazaro.</p> + +<p>Jorge balbuciou alguma cousa que não vinha do +coração. N'este momento, um receio doloroso o +affligia com esta pergunta: «Esta mulher irá +escarnecer-te, como viste escarnecido o teu amigo?»</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_53" id= +"pag_53">[53]</a></span></p> + +<h2>VI.</h2> + +<p>As occorrencias do jardim de S. Lazaro, no dia immediato, +não merecem chronica. O que póde, porém, +succeder a um moço, que passeia o coração +amante, no jardim do Porto, é bom de dizer-se, e folga a +moral de ouvil-o.</p> + +<p>Se o leitor está no Porto, e vai apaixonado ao jardim de +S. Lazaro, e conhece a familia da menina casadoura, por quem anda +em brasa, faz a sua primeira cortezia, e foge de encontral-a +segunda vez, porque repetir a cortezia é, além de +provincianismo puro minhoto, cousa que cheira a inconveniencia, e +póde ser até escandalo. Resta-lhe o expediente +commum, e salva assim a honra das familias: é amoutar-se +como fauno por entre <span class="pagenum"><a name="pag_54" id= +"pag_54">[54]</a></span>as murtas e bosques de acacias, lobrigando +aqui, e além, a caça estranha.</p> + +<p>No jardim de S. Lazaro os dous sexos dão ao passeio o que +as sovinas municipalidades não tem querido dar-lhe; isto +é, uma luxuosa superabundancia de estatuas, as quaes, +tirante a alma, nem sempre se avantajam ás do marmore +nacional. Sentam-se as meninas, mui bem compostas e ageitadas de +mãos e cabeça, e alli se estão deleitando na +vista do repuxo, em quanto o papá rufa com tres dedos na +tampa da caixa do tabaco o compasso da modinha conhecida de Verdi +ou Donizetti, que as trombetas bastardas estão executando... +<i>executando</i>, sim, é a palavra.</p> + +<p>Ao relance artistico dos olhos não é feio aquillo. +Cuida enxergar o myope em cada renque de cadeiras uma fileira de +<i>madonas de la sedia</i>; mas a illusão d'um myope +não vale os desconsolos de tanta gente que tem a sua vista +escorreita, e pensa que a estatua deve ter um <i>quantum satis</i> +de espiritualidade.</p> + +<p>Ha pontos na casca do globo em que a virtude custa pouco. +Não sei se a bemaventurança é accessivel por +igual de todas as terras; mas, convencido da rectidão que +assiste aos negocios dos outros mundos, quer-me parecer que quatro +virgens a um tempo, sahidas em espirito, uma de Pekin, outra de +Constantinopla, outra de Paris, e a quarta do Porto, devem de ter +differente recebimento e quartel nas regiões da gloria, onde +ha premios para a virtude.</p> + +<p>Na razão directa da tentação, nos +esforços em rebatel-a, é que deve ser aferida cada +alma victoriosa que, apesar dos demonios succubos e incubos, se +alista nas legiões do céo. Não se dogmatisa, +entendam: quer-se escassamente enunciar idéa nova, resaibada +de heresia, a vêr se algum hypocrita illustra o livro, com as +injurias da sua caridade apostolica. Não ha no romance outro +<span class="pagenum"><a name="pag_55" id= +"pag_55">[55]</a></span>merito que o inculque, nem perspectiva +melhor agourada para o editor.</p> + +<p>As adoraveis virtudes das senhoras do Porto não +são de todo um merecimento: orçam mais por uma +necessidade. O homem d'alli sente um terço, ou ainda menos +das precisões espirituaes que, n'outras partes, incommodam o +coração humano. Esta feliz frugalidade procede do +geito d'aquella sociedade, geito antigo que degenerou em +aleijão, rachitismo moral, corcunda hereditaria, e de mais a +mais pegadiça, por quanto, se não é do Porto, +e por lá apégar alguns mezes, leitor, apalpe as +costas, e topará uma protuberancia a crescer, a crescer, +até se formar corcunda, que irá comsigo a stoda a +parte.</p> + +<p>Aquelle aleijão, de barreiras do Porto a dentro, +não fica mal a ninguem. Os liliputianos, conta Swift, +chanceavam o viajante europeu, que tinha a ridicula felicidade de +ser um homem bem apessoado e perfeito. As bellezas do Congo recuam +de puro nojo diante de um formoso nariz branco sem pingentes. No +Porto ha o escarneo e o tedio que explicam o paradoxo do +selvagem.</p> + +<p>A juventude masculina da cidade heroica está em contacto +com a civilisação d'este seculo pelo alfaiate. +Não poderam os velhos trancar as portas do burgo de Moninho +Viegas á invasão dos figurinos. Calção +e rabicho foram banidos; o tamanco e o chinelo d'ourélo +cederam, constrangidos, o joanête indigena ao verniz, e ao +couro da Russia; o difficil, porém, era pentear, vestir e +calçar o espirito de gaito e arte que a gente, fitando em +rosto o filho da civilisação portuense, não +tivesse de descer os olhos a buscar-lhe nos pés o tamanco. +É o sestro das transfigurações de golpe e +abruptas.</p> + +<p>Um joven bem estrellado de minas e camapheus, chama-se no Porto +um janota. A menina ingenua diz á visinha: «conhece +aquelle janota?» ou «fulaninha namora <span class= +"pagenum"><a name="pag_56" id="pag_56">[56]</a></span>um janota +louro.» Não se cuide, porém, que este epitheto +implica mofa ou menospreso como em Maçãs de D. Maria, +ou Lamas d'Orelhão. O janota portuense é uma cousa +séria, que póde ser vereador, e irmão da ordem +terceira.</p> + +<p>Por via de regra, o janota é uma creatura que nasce, +cresce, abre-se em florescencia variegada de frakes, e colletes, e +pantalonas; toma posse do balcão paterno aos trinta annos, +corta o bigode para que lhe descontem as letras, põe oculos +se teve o infortunio de estragar a vista com a luneta que lhe +servia de não vêr nada, fructifica em crianças +gordas que entrajam á escoceza, e escôa-se de vida +através de quarenta annos de lerda pachorra de espirito, +legando á prole um nome limpo, com pequenas farruscas que se +ensaboam na barreia de um necrologio, e dous legados de cincoenta +mil reis ás entrevadas da Cordoaria, e alguma cousa ao +hospital do Terço.</p> + +<p>D'este viver assim resultam duas cousas que explicam muitas +outras: primeira, que o elegante portuense dispende os annos +perigosos da adolescencia vestindo-se de manhã para sahir de +tarde; segunda, que as meninas, ao despegar da costura, ageitam os +laçarotes do toucado, entufam os punhos das manguinhas, +encostam o cotovello ao peitoril da janella, seguem o olhar de +esguelha que lhe vai revirando o terceiro ou quarto janota +predilecto, e fecha a janella quando a passagem do quinto é +duvidosa.</p> + +<p>D'est'arte, as paixões são innocentes e ao mesmo +tempo substanciaes como um caldo de gallinha. As +relações epistolares não derrancam a pureza +das olhaduras. A carta, em regra, é declaração +escripta que tolhe a poesia da declaração muda. +Palestras, quer de sala, quer a horas mortas, da rua para a +janella, que piedosa criada deixou aberta, são, se a +patrulha o tolera, a morte de ambas as declarações, +porque o janota que falla é <span class="pagenum"><a name= +"pag_57" id="pag_57">[57]</a></span>muito menos soffrivel e +grammatical que o janota que escreve. Ainda assim, o casamento +remata isto que se chama o <i>namoro</i>. E o mais é que +ella e elle, nas suas horas de recolhimento, cada qual a só +por só com a sua consciencia, contempla saudoso o passado e +diz: «Que bella mocidade eu tive! muito me +diverti!»</p> + +<p>Ponderam alguns authores que a morigeração dos +costumes portuenses é o necessario effeito do atraso da +civilisação e policia da classe media, em que as +outras no Porto se embaralham e perdem. Esta palavra +«civilisação» anda mal trazida para tudo. +Se o refinamento das industrias, se a arte de crear capitaes, no +minimo do tempo e com diminuto trabalho, constitue a maxima +civilisação material, o Porto ganha a aposta aos mais +ambiciosos prospectos de riqueza aventados pelos economistas. E +assim é que alli enxameam os Midas no ouro e nas orelhas; +porém, menos castigados que o fabulado Midas da theologia +grega, logram digerir o boi e o toucinho na succulenta substancia +que a natureza lhes deu.</p> + +<p>Os que negam ao Porto a vanguarda do progresso industrial, que +é a mesma civilisação, irmã gemea da +intellectiva, e fonte da sã moral, derruem desde os +alicerces a sciencia moderna, confessando assim a utopia do systema +vulgarisado nas escolas, nas gazetas, e nas fórmas de +governar das nações mais cultas. No Porto, +dão-se as mãos a riqueza e os costumes edificativos, +para se justificarem estes por aquella, e a primeira pelos +segundos. A industria é a de hoje: os costumes são os +de ha um seculo. O chefe de familia poderá ser moedeiro +falso, negreiro aposentado com exercicio na casa real, alliciador +de escravos brancos, contrabandista tolerado; mas a filha d'esse +homem da época vive intemerata como a filha de Virginio; +cuida que seu pai, recolhendo a casa encalmado e suado, vem de +servir a patria como Cincinnato; e, chegada a occasião de +exercitar as <span class="pagenum"><a name="pag_58" id= +"pag_58">[58]</a></span>virtudes antigas, não +duvidará ser Lucrecia, e Lucrecia menos equivoca que a de +Colatino.</p> + +<p>Sobre este assumpto, mediocre seria o engenho que não +produzisse um volume. Em louvor do Porto, escreveu o socio da +academia real das sciencias Antonio Augusto Teixeira de +Vasconcellos dous folhetins de nervo e polpa, com muito sal attico +á mistura. O abundoso escriptor escreveria in-folios, se lhe +aprouvesse, porque já um dos sete sabios da Grécia, +Pittacus, parece que era, escreveu um volume dos louvores da +mó d'uma atafona; e, para encarecimento do rábano, +deixou Marciano um tractado muito de vêr-se. O talento +é uma cousa temivel.</p> + +<p>Ora não vão já d'aqui os malsins de +intenções maliciarem essas inoffensivas palavras, que +não desprimoram, nem arguem deshonra ao paladium das +liberdades patrias, como usam dizer os artigueiros da terra a +proposito de qualquer empeço que lhes assombre o seu +municipio, se acontece o governo ir de encontro a alguma postura +sobre a carne de porco, ou cousa assim em que valha a pena lembrar +ao mundo que o Porto é o paladium das liberdades +patrias.</p> + +<p>N'isto pensava eu no jardim de S. Lazaro, n'aquelle dia em que +Jorge Coelho, mais imprudente que atrevido, se avisinhára de +Silvina, que, passados minutos de conversação, lhe +disse:</p> + +<p>—Não se demore mais tempo, porque toda a gente nos +observa com ar espantadiço. Eu cuido que estamos dando +grande escandalo.</p> + +<p>Jorge Coelho retirou, e deu o braço ao amigo Pires, que +fremia de raiva resultante d'uma desfeita que recebera de D. +Francisca.</p> + +<p>—Desfeita!—disse Jorge—pois uma senhora faz +desfeitas!?...</p> + +<p>—O requinte hediondo da insolencia!—vociferou o +fidalgo da Maya tascando com phrenesi a ponta do charuto.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_59" id= +"pag_59">[59]</a></span>—Que te fez?</p> + +<p>—Ouviu-me hontem na «Assembléa » uma +declaração, acolheu-a com doudo enthusiasmo, disse-me +que eu era um homem tão admiravel como perigoso; tremeu de +pavor quando eu lhe fiz sentir o desfastio com que me arrancaria as +entranhas, se me ella não aceitasse a vida como complemento +da sua. Tudo isto me authorisava a offerecer-lhe hoje uma carta, +com a certeza de me ser aceita. Offereço-lh'a, e ella +responde-me que não sabia lêr se não letra +redonda! Leonardo de Sousa Pires e Albuquerque sabe vingar-se. Vou +ámanhã á Maya; depois... ai d'ella e de +mim!<span class="pagenum"><a name="pag_60" id= +"pag_60">[60]</a></span></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_61" id= +"pag_61">[61]</a></span></p> + +<h2>VII.</h2> + +<p>Christovão Pacheco de Valladares, morgado de Santa +Eufemia, esteve sete dias e sete noites emparedado no seu quarto da +hospedaria da «Aguia d'Ouro» depois d'aquelle desastre +da «Assembléa.» Alguns hospedes repararam na +reclusão, e averiguaram dos criados que exquisito homem era +aquelle. D'estes hospedes, o mais grado era o morgado de +Matto-grosso, solarengo de «Entre-ambos-os-rios» homem +de grandes brios e musculos. Apenas informado, foi bater á +porta de Christovão Pacheco, dizendo pela fechadura que +abrisse que era parente e amigo. A identidade do parentesco foi de +facil prova.</p> + +<p>—O primo Pacheco não póde +duvidar—disse o morgado de Matto-grosso—que um +irmão de meu setimo <span class="pagenum"><a name="pag_62" +id="pag_62">[62]</a></span>avô, que havia nome Heitor Moniz +de Valladares foi casar á casa de Santa Eufemia com D. +Urbana Pacheco, filha de Lopo Pacheco, governador de Cochim...</p> + +<p>—A fallar-lhe a verdade—disse o de Santa +Eufemia—eu não sei nada de linhagens; mas tenho ouvido +fallar a meu pai n'esse governador de Chacim.</p> + +<p>—Cochim, primo Christovão, Cochim.</p> + +<p>—Ou Cochim, ou lá o que é...</p> + +<p>—E saiba que da sua prosapia sahiram os mais illustres +sangues das familias do Minho. Talvez v. exc.ª, primo, +não saiba que a nossa linhagem está mui de perto +aparentada com Porto-Carreiros!</p> + +<p>—Não sabia, nem sei de que sirva isso.</p> + +<p>—De que sirva isso!—acudiu Egas de Villas-boas +Cão e Aboim Encerra-bodes, que assim se chamava o morgado de +Matto-grosso. Não diga tal, primo Christovão Pacheco. +Pois ignora que do solar dos Porto-Carreiros, fidalgos mais velhos +que a monarchia trezentos annos, sahiu ha cinco seculos um +infanção, que casou em Castella, e foi tronco da +descendencia que vem illustrar-se na pessoa da actual imperatriz de +França?<a name="tex2html1" href="#foot395" id= +"tex2html1"><sup>1</sup></a></p> + +<p>—Não sabia, palavra de honra, e isso que +faz?—tomou o de Freixieiro.</p> + +<p>—Faz que somos parentes da imperatriz, e que podemos +dizel-o á bocca cheia a esses de sangue azul da capital, que +nos chamam a nós fidalgos de meia tigella, esquecidos de que +os mais nobres barões da côrte de <span class= +"pagenum"><a name="pag_63" id="pag_63">[63]</a></span>Affonso +edificaram os seus solares entre Douro e Minho, e d'aqui, por si ou +seus filhos, acompanharam os reis da primeira dynastia ás +conquistas do restante da Lusitania, e d'além-mar.</p> + +<p>—A fallar-lhe a verdade, primo, quando entro a pensar +n'essas cousas com que meu pai me quebra a cabeça, parece-me +que trocava toda a minha fidalguia por algumas libras.</p> + +<p>—Oh! que blasphemia!—Exclamou Egas n'um impeto de +sincera indignação.—Troca-se por libras um neto +de Heitor Moniz de Valladares!?</p> + +<p>—Não é trocar-me por libras;—acudiu +desabridamente o de Santa Eufemia—é que eu estou de +vinte e oito annos, e ainda não pude sahir de casa +senão duas vezes com esta; e não tenho remedio +senão ir-me embora para Freixieiro, por que meu pai +escreve-me hoje essa carta que o primo póde lêr, e +depois me dirá se me não era melhor ser antes um +caseiro das minhas fazendas, que me não servem de nada, +n'esta idade em que eu preciso de dinheiro.</p> + +<p>—Vejamos isto—disse o de Matto-grosso, abrindo a +carta, e lendo o seguinte:</p> + +<p class="direita">«Meu estimado filho.</p> + +<p>Já te disse que venhas para casa, que não ha +dinheiro para andar em folganças. Os tempos estão +muito bicudos, e o bicho já pegou nas videiras. Os bezerros +do caseiro da Portela lá estão com a molestia, e a +cheia levou a parede do lameiro do Quinchoso. Tudo são +despezas. O abbade pegou-me pela palavra, e quer que eu mande +pôr a porca no sino da igreja. O milho ainda não +chegou á conta; os quatro carros que se venderam não +chegaram para pagar as decimas. O garrano está de todo +espravonado; pozes-te-o bom com a tua ida ao Porto. Tudo são +desgraças. <span class="pagenum"><a name="pag_64" id= +"pag_64">[64]</a></span>Em quanto á roupa nova, deixa-te +disso; a casaca que levaste está muito boa, e o melhor +é fazel-a em Guimarães, que são mais em conta +os alfaiates. Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou +ordem ao meu amigo brasileiro para te dar para a jornada cinco +pintos; olha se ajustas a cavalgadura sem gorgeta. Dou-te a minha +benção, e sou teu pai carinhoso,</p> + +<p class="direita">«<i>Vasco.</i>»</p> + +<p>—Que me diz a isso?—exclamou Christovão.</p> + +<p>—Eu sempre ouvi dizer—respondeu o primo +Egas—que meu tio Vasco era um tanto fona; comprehendo que na +idade do primo Christovão custa muito não brilhar na +sociedade, a que o nosso nascimento nos dá direito; +não obstante, seu pai está accumulando para o seu +filho unico uma grande casa, e é preciso perdoar-lhe a +intenção que é boa. Vamos ao mais importante: +o primo quer dinheiro? quer os meus cavallos? quer os meus lacaios? +tem tudo ás suas ordens; o que eu não consinto +é que diga que trocava os seus brazões por algumas +libras. Vamos, franqueza, precisa de fato? Chama-se já aqui +o alfaiate: hoje mesmo póde sahir de ponto em branco. Tenho +cá dous cavallos, o <i>corisco</i> e o <i>phaetonte</i>: o +primo monta qual quizer. Diga-me agora a que veiu ao Porto.</p> + +<p>O morgado de Santa Eufemia, entre jubiloso e magoado, contou ao +primo a historia do <i>seu amor de raiz</i>, como elle dizia. +Mostrou as cartas de Silvina, que elle tinha atadas com um barbante +n'uma bolsa interior da mala. Passou á ingenuidade da +galhofa que lhe fizeram na «Assembléa» narrando +as miudezas da casaca, e expoz o collete ginja e a gravata das +orelhas fabulosas. E terminou em tom de lastima, accusando a +perfidia da mulher a quem elle quizera dar o seu nome.</p> + +<p>Egas de Encerra-bodes, depois de provar que na <span class= +"pagenum"><a name="pag_65" id="pag_65">[65]</a></span>linhagem de +Silvina havia um reles sargento-mór e um capitão de +milicias, afóra duas bastardias e um filho sacrilego no +seculo XVI, entrou a fuzilar colera dos olhos, tocando no ponto +mais grave dos queixumes do neto do governador de Cochim.</p> + +<p>—Eu, dizia elle batendo no peito com a mão aberta, +eu, primo Christovão, na sua posição teria +açoutado os perros que o escarneceram na +«Assembléa.» Esses que riram de +Christovão Pacheco é a villanagem, cujos paes vieram +para o Porto de rabona de cotim, chapéo braguez, e o tamanco +herdado. Os nossos caseiros, quando a liberalidade de nossos paes, +lhes concedia poderem enroupar de cotim os filhos, mandavam-os para +aqui. Os filhos d'esses que para aqui vieram, primo, são os +insultadores da risada boçal, os miseraveis que +através da casaca, da pelle da luva, e do verniz das botas, +estão accusando o costado proprio do fardo, o pé que +reclama o tamanco, e a mão que suspira pelo cabo da enxada. +Tenho visto esse gentio nos botequins, e por sobre o hombro observo +os risos de grosseira mofa com que recebem o despreso dos que elles +denominam <i>parvalheiras</i>. Parvalheiras, a nós, primo, +que temos em nossas casas a educação que elles tem +entre as balanças, e timbramos em honrar os appellidos de +nossos avós, descendo até elles para que elles +não subam até nós. Se quer vêr quanto +é villã a basofia d'estes tendeiros, que trocam por +titulos ceiras de figos e costaes de bacalhau, tenha o primo a +longanimidade de os admittir á sua convivencia, e +verá como se elles desfazem em lorpas cortezias, e citam a +cada instante o seu nome, como um dos seus amigos d'elles... Vamos +ao ponto essencial. Christovão Pacheco foi ultrajado. Um +primo de Egas de Matto-grosso não é ultrajado +impunemente.</p> + +<p>Tem um rival, primo?</p> + +<p>—É de crer que sim.</p> + +<p>—Fidalgo?</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_66" id= +"pag_66">[66]</a></span>—Isso não sei.</p> + +<p>—Cumpre sabêl-o.</p> + +<p>Uma hora depois entraram fardos de fato feito no quarto do +morgado de Santa Eufemia, e logo botas do sapateiro francez, e +chapéos da melhor fabrica. Vestiu-se Christovão +Pacheco, e era de vêr em que gentil moço se +transfigurou, e que nova alma entrou n'aquelle corpo. Se elle +tivesse lido frei Luiz de Sousa, aquelle esbelto cortezão +que se sepultára no frade, recordaria estas palavras +escriptas com tanta sciencia do absurdo coração do +homem: «É nossa natureza muito amiga de si, e +experiencia nos ensina que não ha nenhuma tão +mortificada que deixe de mostrar algum alvoroço para uma +peça de vestido novo. Alegra e estima-se, ou seja pela +novidade, ou pela honra e gasalhado que recebe o corpo: até +os pensamentos e as esperanças renova um vestido +novo.»<a name="tex2html2" href="#foot396" id= +"tex2html2"><sup>2</sup></a></p> + +<p>Assim foi o morgado de Santa Eufemia. Quando se viu, +desconheceu-se. Outro corpo e outra alma. Olhava para o polimento +das botas, e o vidrado d'ellas reverberava-lhe na alma em lampejos +de alegria. Não se cançava de correr a mão +pela macia seda do chapéo, e remirava-se ao espelhinho que o +imaginoso chapelleiro enquadrára no centro da copa. Com o +que elle se ia zangando foi com as luvas de nove pontos e meio, que +gemiam pelas costuras, com a pressão do dedo polegar que +queria á força entrar com os outros de uma assentada. +O do Matto-grosso explicou ao primo os mysterios da luva, com muito +mais siso que um certo folhetinista do Porto inventor dos mysterios +da dança. No Porto ha gente para inventar tudo quanto +ha.</p> + +<p>Os dous morgados sahiram da «Aguia d'Ouro» no +domingo posterior áquelle em que Silvina fallára um +momento com Jorge, no jardim. Para o jardim foram <span class= +"pagenum"><a name="pag_67" id="pag_67">[67]</a></span>tambem elles, +seguindo Silvina e Francisca, que saturam da missa dos Congregados. +Quando subiam a rua de Santo Antonio, um grupo de elegantes, para +quem a physionomia do morgado ficára indelevel, desde o +baile, pararam maravilhados da reforma, fixando-o com impertinente +reparo.</p> + +<p>O morgado de Matto-grosso estacou em frente do grupo, e +disse:</p> + +<p>—Ora vamos: andem, ou desandem!</p> + +<p>Os elegantes abriram alas, encarando-se mutuamente com um ar de +pasmados da propria docilidade.</p> + +<p>—Bravo! exclamou Leonardo Pires, que seguia de perto os +morgados.</p> + +<p>Egas de Encerra-bodes voltou-se rapido para o da Maya, e disse +mal assombrado:</p> + +<p>—Que é lá isso?</p> + +<p>—Disse <i>bravo</i>!—replicou Pires com serena +jovialidade, porque gostei immenso de vêr aquelles +bigorrilhas ladearem á esquerda e direita, e comprehendi a +razão porque elles pararam contemplando este cavalheiro que +eu vi, <i>mutatis mutandis</i>, no baile da Assembléa +Portuense. Eu honro-me tambem de ser parvalheira, e como tal me +apresento, pedindo-lhe que me recebam no numero dos seus conhecidos +em quanto me não conhecerem digno da sua amisade. Sou da +Maya, da familia dos Pires e Albuquerques, e primeir'annista da +faculdade de direito. Tenciono formar-me porque não tenho +que fazer, e não me conformo á vida de meus +antepassados, que viviam dos galgos e dos cavallos. Abomino +cordialmente o Porto; mas ha aqui uma mulher que me tem preso a +esta terra pela fibra vingativa d'um coração nobre. +Aqui estou esperando a hora de provar-lhe que senão brinca +com um homem que tem esculpidas no seio as maximas herdadas de +avós.</p> + +<p>Pires foi fallando n'este estilo até ao jardim. O morgado +de Matto-grosso, scismando com o que seria no <i>livro dos +costados</i> <span class="pagenum"><a name="pag_68" id= +"pag_68">[68]</a></span>a familia de Pires e Albuquerques da Maya, +escassamente ouviu o enfatuado palavrorio do mettidiço. +Christovão ia um pouco desconfiado da bacharelice de Pires, +que já o tratava por «vossê» quando entrou +no jardim.</p> + +<p>Lá estava Silvina. Rodeavam-na alguns cavalheiros do +Minho, censurando-lhe a crueldade com que abandonara o morgado de +Santa Eufemia. D. Francisca da Cunha chanceava com remoques os +patronos da victima do collete-ginja. A fidalga de Freixieiro, +esporeada pela prima, fazia tambem riso do morgado, calando os +rumores da consciencia que a não louvava. Era, pois, certo +que o coração d'esta menina, degenerado acaso do seu +bom natural, em poucos mezes de pratica de outra sociedade, se +estava doendo de ter desconfessado, no baile, o amor de um homem, +cuja mão tres mezes antes apertára com fervoroso amor +e esperança de ser d'elle.</p> + +<p>Jorge Coelho presenciava de longe, e cioso, a +attenção que Silvina dava aos cavalheiros minhotos. +Não os conhecia, para afoutar-se a entrar na roda, e +interrogar com uma palavra vaga o coração de Silvina. +Esta, porém, repellindo com desdenhosa philosophia os +pesares que secretamente a remordiam, ergueu a fronte desanuviada, +poz os olhos nos de Jorge, e fez uma ligeira cortezia, que todos +julgaram ser um aceno para chamal-o.</p> + +<p>A este tempo chegavam, perto de Silvina, Egas de Encerra-bodes, +Christovão de Valladares, e Leonardo Pires. O do +Matto-grosso comprimentou alguns primos que estavam na roda; e o de +Santa Eufemia, voltando as costas para as senhoras, respondia, sem +saber o que, a algumas perguntas d'um cavalheiro. O inquieto Pires, +furando por entre todos, foi apertar a mão a Silvina, e +dizer-lhe que estava o ideal da quinta essencia das fadas, com o +que D. Francisca se riu, e riso fôra aquelle que <span class= +"pagenum"><a name="pag_69" id="pag_69">[69]</a></span>abrira na +testa de Pires um vinco dos que promettem cataclismos.</p> + +<p>—Dá-me novas de Jorge?—disse Pires a D. +Silvina.—Eu cheguei hontem da Maya, e não pude ainda +encontral-o no hotel. O amor reduzil-o-ia a Sylpho, minha +senhora?—proseguiu o estabalhoado, mordendo o charuto ao +canto esquerdo dos beiços, e arqueando os braços na +cintura.</p> + +<p>—O seu amigo, disse Silvina, em voz alta, para +desaffrontar-se da grosseira postura do morgado—está +defronte de mim.</p> + +<p>Pires fez uma pirueta sobre o calcanhar direito, fitou a luneta +no condiscipulo, contemplou-o da altura da sua critica, volveu de +novo o rosto risonho para a dama, e disse:</p> +<blockquote><i>Sobre a pyra fumegante,</i><br> +<i>Ardem ternos corações.</i></blockquote> +D. Francisca deu largas a uma risada estridula. Silvina sorriu +prasenteiramente á tolice. Alguns morgados receberam o dito +como cousa de espirito. Pires, contente do seu auditorio, ia +retirar-se quando o morgado de Santa Eufemia, voltando a cara +jubilosamente soez para o grupo, soltou uma cascalhada secca e +desafinada que assanhou cruelmente os nervos de Silvina. + +<p>Todos estes movimentos foram seguidos de outro mais +significativo. Os olhares convergiram todos sobre Jorge, que ficou +encarnado até ás orelhas. Alguns dos cavalheiros +murmuraram o quer que fosse, e nomeadamente Egas de Encerra-bodes +fitou-o insolentemente, e disse a meia voz:</p> + +<p>—É aquelle?!</p> + +<p>—Pelos modos!—respondeu o primo.</p> + +<p>—Pobre criança! é preciso dizer ao pai que o +mande buscar.<span class="pagenum"><a name="pag_70" id= +"pag_70">[70]</a></span></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_71" id= +"pag_71">[71]</a></span></p> + +<h2>VIII.</h2> + +<p>Tinha Leonardo Pires, á volta com muita pequice, assomos +de brios capazes de enganar a gente. Não levou em paciencia +que os morgados rissem do seu amigo. Encarou com ferocidade o de +Matto-grosso, e disse, estendendo o braço em attitude +esculptural para o lado onde Jorge estava:</p> + +<p>—Aquella criança, que alli está, tem um dedo +de homem, que faz recuar perfeitamente o gatilho de uma +pistola.</p> + +<p>Os circumstantes algum tempo não tugiram. Se não +fosse o melodramatico da postura, a cousa não era para rir; +mas a lentidão, com que Pires desceu o braço, fez +espirrar uma cascalhada universal, salvo Silvina que arquejava em +ancias de raiva.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_72" id= +"pag_72">[72]</a></span>Jorge conheceu que o escarneciam. +Ergueu-se, veiu direito ao grupo, accendeu o charuto no de Egas de +Encerra-bodes, murmurou seccamente um <i>obrigadissimo</i>, e foi +saudar Silvina e Francisca com a desenvoltura desacostumada que lhe +dava agora o ciume e a ira.</p> + +<p>Silvina, contente da façanha, deu-lhe lugar immediato no +seu banco. Porém, o pai de D. Francisca da Cunha, +adivinhando tempestade nos olhares coriscantes de Christovão +Pacheco, ergueu-se, puxou para baixo as pantalonas que tinham +marinhado até meia-canella, e disse:</p> + +<p>—Vamos, meninas, são horas de jantar; vamos +ás sopas.</p> + +<p>Levantou-se Jorge, sem ter dito palavra; mas Silvina, +estendendo-lhe a mão, de sorte lh'a apertára e +sacudira, que fez evidente a intenção de tornar bem +reparado o feitio, muito de notar-se em menina de sua idade e +educação aldeã.</p> + +<p>Mal as damas voltaram costas, o morgado de Santa Eufemia foi +bruscamente a Jorge Coelho, e disse-lhe:</p> + +<p>—O senhor é um petisco! Não se me ande a +fazer fino, quando não...</p> + +<p>Jorge respondeu assim á brutal arremettida:</p> + +<p>—A phrase é de carreiro; e, se não é +carreiro quem me insulta, deve de ser um embriagado.</p> + +<p>Leonardo Pires dá um passo á frente de Jorge, +põe a mão no peito, e exclama nem facundo nem +irado:</p> + +<p>—Eu sou insultado na pessoa do meu amigo: exijo uma +satisfação.</p> + +<p>O fidalgo de Traz-os-Montes, fazendo signal de retirada á +filha e sobrinha, entremetteu-se no grupo que se ia cerrando, abriu +os braços, e tirou do peito estas memoraveis palavras:</p> + +<p>—Os senhores estão aqui desacreditando a provincia. +Se querem ser o que lá no matto são os homens de +figados, peguem em dous carvalhos cerquinhos, e <span class= +"pagenum"><a name="pag_73" id="pag_73">[73]</a></span>deem +até tocar a quebrado; mas não queiram que os botem +ás gazetas ámanhã. A minha opinião +é esta. O menino vá para um lado—disse a Jorge, +empurrando-o com brandura—e o senhor morgado para outro. Em +quanto á rapariga, minha sobrinha, ámanhã eu a +porei em casa do pai.</p> + +<p>Jorge, tirado pelo braço de Pires, sahiu do jardim, e +pôde ainda vêr nos olhos de Silvina, um movimento de +radioso orgulho da bravura d'elle.</p> + +<p>Na tarde d'esse dia recebeu Jorge a primeira carta de Silvina +que resava assim: «<i>É bello ser amada por um homem +de coração e esforço. É bello poder +testemunhar a desaffronta do homem que se ama; mas é triste +não poder, na presença de Deus e dos homens, +dizer-lhe:</i>—<small>TUA POR TODA A VIDA</small>!»</p> + +<p>O academico da Maya ouvira lêr a carta, e disse, com +quanta vehemencia lhe permittiu a posição horisontal +n'um canapé, e as pernas sobre as costas d'uma cadeira:</p> + +<p>—Essa mulher tem espirito, palavra de honra! Amor e +estilo, amigo Jorge, são o alpha e omega d'esta humanidade +perfeita em que tivemos a dita de cahir das nuvens. De que diabo +serve a rhetorica com que estragamos a memoria em Coimbra, +não me dirás?! Se o padre Cardoso, que fez um +compendio da arte de fallar, escrever uma carta como essa, diz tu +que eu sou um parvo e que me não hei-de vingar da Francisca +da Cunha! Diante d'estes talentos brutos, sem mão d'obra, +como é o da tua Silvina, os Quintilianos e os Longinos ficam +no tremedal da sua protervia explicando a <i>enallage</i> e o +<i>hyperbaton</i>. Oh! o estilo é muito mais a mulher que o +homem! Eu dispensava bem tres partes do coração na +mulher que me soubesse acepilhar e lapidar um periodo! Ha lá +nada mais lindo? A formosura fenece como as flôres; o estilo +fica. Silvina, a eloquente Silvina, quando de pura velhice +não tiver aquelles dentes <span class="pagenum"><a name= +"pag_74" id="pag_74">[74]</a></span>de marfim e esmalte, +ficará com a bocca cheia de phrases melodiosas, como o canto +do cysne. Tu és feliz, Jorge, mas a mesada deve estar nas +vascas da morte. Estás sem vintém?</p> + +<p>—Não; meu tio padre mandou-me cincoenta mil +réis para lhe eu comprar dez volumes da Encyclopedia +Catholica, e eu...</p> + +<p>—Já devoraste cinco volumes em <i>rost beef</i>, e +luvas brancas e charutos, não é verdade?</p> + +<p>—E minha mãi encommendou-me duas peças de +durante, e não sei que mais, que está esperando ha +oito dias... Hontem recebi d'ella uma carta, que me fez pena e +saudade...</p> + +<p>—Tem estilo?—interrompeu Pires, sentando-se +estabalhoadamente.</p> + +<p>—Não brinques com cousas sagradas: minha mãi +não tem estilo, e n'esta carta o que me diz é copiado +do seu livro de orações.</p> + +<p>—Ora essa!... Isso é original! Deixas-me vêr +a carta-jaculatoria de tua mãi?</p> + +<p>—Deixo... Aqui a tens... eu leio.</p> + +<p>Jorge Coelho, commovido, leu o seguinte:</p> + +<p>«Abro o meu livro de orações e copio estas +palavras para que meu Jorge as leia:—A infeliz mãi, +cujo filho começa a frequentar as sociedades põe toda +a sua esperança na protecção de Maria. +Começa o joven mancebo por alguns desmanchos que fazem +conceber grandes receios ácerca do restante da sua idade. A +mãi assim lh'o diz, e dá os mais ternos conselhos; +elle, porém, rebella-se contra aquelle tão puro +affecto, contra aquella dolorosa previsão de mãi, e +assomando-se lhe pergunta porque duvida de sua honra e prudencia, e +acrescenta: Parece-vos o meu comportamento reprehensivel, porque +não frequentaes a sociedade: eu faço o que fazem +todos.—Infeliz!—a mãi exclama—que te +deitas a perder por isso que fazes o que todos fazem.—Ri o +<span class="pagenum"><a name="pag_75" id= +"pag_75">[75]</a></span>insensato dos temores maternos, e +adianta-se ás cegas n'um caminho semeado de escolhos. Tudo +está posto em aventura: a honra n'este mundo, e a +salvação no outro. Não sabe a mãi o que +faça para salvar o objecto de tantas lagrimas e crueis +angustias. Vê perdido o filho, e perdido para sempre. Maria, +porém, consoladora dos afllictos se lhe mostra como +dôce visão... E a mãi afflicta, de joelhos, com +as mãos postas, exclama: «Ó Maria, auxilio dos +christãos, salvai meu filho, rogai por +elle!»—Jorge, eu orei com estas palavras: a Mãi +de Jesus ha-de ouvir-me, e fallar-te commigo ao +coração. Vem, vem para nós: teus irmãos +chamam-te com saudade, e eu com lagrimas.»</p> + +<p>Leonardo Pires respeitou a commoção de seu amigo, +e principiava um discurso de molde segundo o caso pedia, quando o +morgado de Matto-grosso, e outro dos cavalheiros que entrava na +roda do jardim, assomaram na porta.</p> + +<p>—Temos duello—disse a meia voz, Pires, entalando no +olho direito o aro circular da luneta e esguelhando a +bocca.—Queiram entrar—proseguiu elle, adiantando-se +para a porta—se é que entende com o meu amigo Jorge a +honra da visita dos cavalheiros.</p> + +<p>Egas de Encerra-bodes entrou e disse:</p> + +<p>—Vem aqui commigo o snr. Theotonio Tinoco Pitta de Lucena, +da casa da Trofa, fidalgo tão antigo como o solar dos +Lucenas. O snr. Jorge não me conhece. Eu sou primo do +morgado de Santa Eufemia: tenho dito de sobra para justificar o meu +nascimento.</p> + +<p>—Ha-de perdoar-me—disse Pires,—não +precisava v. exc.ª dizer tanto para justificar o seu +nascimento...—E atalhou logo a ironia vendo que o vulto do +morgado se anuviava de mau agouro:—o senhor morgado é +tido e havido na conta de muito bom sangue da provincia...</p> + +<p>—E do melhor de Portugal—cortou logo +Egas—Vamos <span class="pagenum"><a name="pag_76" id= +"pag_76">[76]</a></span>ao ponto da nossa missão. +Christovão Pacheco de Valladares manda perguntar ao snr. +Jorge Coelho se algum de seus avós lhe transmittiu o +fôro que torna iguaes no campo da honra, nobre com nobre, as +pelejas do pundonor aggravado.</p> + +<p>Jorge ficou atalhado com o espavento da pergunta, e ia pedir +explicação da linguagem que lhe fez lembrar o tedioso +Clarimundo, quando Pires, sacudindo as borlas do seu rob-de-chambre +respondeu:</p> + +<p>—Jorge Coelho herdou de seus avós a honra, é +quanto basta. Na sala do palacio de Cintra não está +lá o escudo dos Coelhos, porque o cobre a mortalha da</p> +<blockquote>«<i>..............misera e mesquinha</i><br> +<i>Que depois de ser morta foi rainha.</i>»</blockquote> +Jorge por sua mãi, é Sepulveda, appellido que traz +á memoria o caso miserando, aquelle naufragio de que por +ventura das letras patrias nasceu um poema!... + +<p>—Deixemo-nos de lerias!—interrompeu Theotonio +Tinoco.</p> + +<p>—Lérias! o snr. Pitta de Lucena chama a isto +lerias!—acudiu Pires—Então que quer o +senhor?</p> + +<p>—Queremos que esse amigo dê uma +satisfação ao outro a quem elle chamou bebado +hoje.</p> + +<p>—Mas, primo Tinoco—disse o do Matto-grosso—bem +sabes que o primo Christovão não propõe, nem +aceitaria desafio, a quem não tiver nascimento.</p> + +<p>—Ficamos agora sabendo que este cavalheiro é de +familia de bom sangue...</p> + +<p>—Eu não sei de que sangue é a minha +familia—atalhou Jorge serenamente.—O meu amigo Pires +não o sabe melhor que eu, e vv. exc.<sup>as</sup> +hão-de ter a bondade de dizer ao snr. morgado de Santa +Eufemia que a côr do nosso sangue lá a veremos no +campo, quando elle quizer.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_77" id= +"pag_77">[77]</a></span>—Nomeie os seus padrinhos, para nos +entendermos com elles—disse Egas.</p> + +<p>—Um serei eu, se derem licença—disse a voz de +um homem, que entrou de subito no quarto.</p> + +<p>—Meu tio!—exclamou Jorge, beijando-lhe a +mão.</p> + +<p>Era, com effeito, o padre João Coelho.</p> + +<p>Leonardo Pires e os outros olharam com veneração +para a figura sublime do velho, que trajava rigorosamente as vestes +de sacerdote. Jorge baixara os olhos, em quanto o padre, com as +palpebras humidas, e as mãos convulsas, fitava e comprimia +ao seio o sobrinho. Passados instantes, disse compassadamente:</p> + +<p>—Tantos annos e trabalho para te aproveitar, Jorge, e tu +em tão pouco tempo te perdeste! Ha menos de nove mezes que +sahiste dos braços de tua mãi, e venho-te encontrar +na vespera de expôr o corpo e a alma com menos desculpa que o +salteador que traz o peito á bala e o coração +damnado pela perversidade!</p> + +<p>E voltando-se para os tres cavalheiros, disse com uns assomos de +nobre authoridade e sorriso ironico:</p> + +<p>—Quem são estes folgados rebentos de illustrissimas +prosapias que vem aqui desenfastiar-se dos tedios da sua inercia, +estragando a alma de uma criança? Ouvi aqui nomear +appellidos estrondosos que representam varões de grandes +serviços á religião e á patria: +é lastima que os netos dos Tinocos e dos Pachecos andem +pregoando o desafio, o derramamento de sangue, como prova de +honradas consciencias e altos espiritos. Melhor lhes fôra que +as suas consciencias fossem mais christãs que honradas. +Não se illustram memorias de avós derramando +doutrinas impias. Se o seculo as aceita, senhores, então +reneguem vv. exc.<sup>as</sup> das virtudes de seus avós, +que outros seculos laurearam. Se os costumes barbaros d'esta +civilisação, que por escarneo se chama assim, se +conformam com os seus animos, não andem hypocritamente +chorando saudades de Sião, os que se <span class= +"pagenum"><a name="pag_78" id="pag_78">[78]</a></span>atascam nas +immundicies de Babilonia. Jorge, eu fui aqui mandado por tua +mãi: não quererá Deus que tu +desobedeças á voz que te chama. Eu só quero +exercitar sobre ti a authoridade do conselho; tua mãi +chama-te: deves hoje mesmo sahir do Porto commigo. A vv. +exc.<sup>as</sup> rogo eu mui humildemente que se não +afflijam da perda de um noviço na confraria dos heroes do +tempo. Costumavam nossos avós, antes de entrarem na +cavallaria, velarem as armas no templo do Deus vivo; meu sobrinho +vai armar-se cavalleiro, que não é ainda, e depois +voltará á arena. Riem-se os nobres senhores? Velar as +armas é sacramento de tanto ponto, que nem o fidalgo da +Mancha se deu por bem posto na sua missão, antes de armar-se +cavalleiro no curral d'uma bodega, e o mesmo foi dar sova brava nos +arrieiros. Tens tu já Dulcinea, meu sobrinho? Claro é +que sim. Ora, pois, aguarda melhores dias para as tuas +façanhas, e diz aos teus padrinhos que te deixem ser mais +algum tempo bom filho, bom irmão, e bom christão.</p> + +<p>Egas de Encerra-bodes já não estava muito de bons +humores com o padre. Tinoco Pitta não o tinha entendido, e +abria a bocca pela terceira vez. Leonardo Pires não se +atrevia a despregar da lingua aquellas espontaneas e por vezes +graciosas parvoiçadas que lhe vinham á flux da +abundancia do coração. Jorge Coelho tinha tão +de negro cerrado o espirito que não balbuciou palavra. Era +impossivel a desobediencia; mas deixar Silvina, sem levar comsigo a +certeza de que a distancia não mataria n'ella a +paixão nascente, isso era uma dôr que o pobre +moço desafogou em pranto desfeito, passando ao quarto +immediato que era o de Leonardo Pires.</p> + +<p>O morgado de Matto-grosso, para evadir-se á +posição embaraçosa em que se via, despediu-se +com estas palavras:</p> + +<p>—Muito bem: eu vou dizer ao cavalheiro offendido por seu +sobrinho, que o offensor não tem imputação, +<span class="pagenum"><a name="pag_79" id= +"pag_79">[79]</a></span>attendendo á sua criancice, e mais +ainda ao facto de a mãi o mandar chamar para o seu +regaço, como criança que é desmamada de +fresco.</p> + +<p>—Não, senhor, atalhou o padre com seraphica +brandura, diga ao senhor morgado de Santa Eufemia, creio que assim +se chama o seu amigo, diga-lhe que seja generoso no perdão +das injurias; que não desdoure os seus antepassados +barateando o sangue honrado que elles lhes transmittiram; diga-lhe +sobre tudo v. exc.ª que seja christão. Lembre-lhe que o +desafio é uma ferocidade que nem se quer prova coragem, +porque a verdadeira coragem é aquella admiravel +abnegação dos louvores do mundo aos impetos da raiva, +e valoroso louvavel aos olhos do Senhor é só aquelle +que tem mão de suas iras, e desarma com humildade sem +baixeza os féros e acommettidas do inimigo.</p> + +<p>—Teu tio é grandemente lido nos +classicos!—disse Pires, no quarto immediato, a Jorge Coelho, +que enxugava as lagrimas teimosas.<span class="pagenum"><a name= +"pag_80" id="pag_80">[80]</a></span></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_81" id= +"pag_81">[81]</a></span></p> + +<h2>IX.</h2> + +<p>Pobre coração! Tão puras lagrimas +não has-de choral-as mais. D'essa grande +afflicção de que tu appellas para a morte, has-de +lembrar-te sempre com saudade, meu amigo. Na tua angustia ha os +prantos do anjo, saudoso do céo. Na mulher que deixas, +cuidas que te fica a santa companheira do Eden que a tua candura +via na terra, aberto ao amor sem mancha, convidativo de santos +gosos. De dez em dez annos pararás, no caminho da vida, +peregrino da sepultura; voltarás o rosto para aquelle teu +dia dos dezenove annos, e verás em flôres, fenecidas +mas ainda graciosas, os espinhos por onde a pedaços te fica, +meu pobre Jorge, o coração. Saberás +então o que é a saudade; pedirás á +desgraça dôres semelhantes ás da tua mocidade +para abençoal-as; atirarás <span class= +"pagenum"><a name="pag_82" id="pag_82">[82]</a></span>com o peito +ás sarças das paixões vertiginosas para +espertares os pungitivos desgostos do amor contrariado. Não +já lagrimas, se não fel derramará o +coração, que devêras ter dado a Deus, desde que +o mundo t'o desbaratou a repellões e injurias. Chora, filho +da sina maldita dos poetas, chora no seio de tua mãi; bem +póde ser que ainda lá te espere o anjo da tua +guarda.</p> + +<p>Jorge Coelho não proferira uma palavra desobediente ao +tio padre. Apenas, quando enfardava a roupa nas malas, enxugando as +lagrimas antes de erguer o rosto disse:—Meu tio entende que +me é honroso sahir do Porto sem responder ao +desafio?...—Padre João, que abria o seu enorme +lenço escarlate para se assoar, ficou algum tempo com os +braços suspensos, e o lenço pendurado, e assim +esteve, como estupefacto cravados os olhos no sobrinho, que +esperava a resposta. O nariz, porém, urgia: padre +João Coelho levou o trombetear da limpeza até +á hyperbole, dobrou o lenço em quadro, depois +enrolou-o, deu com elle mais alguns torcegões ao nariz, +armou-se de pitada, e disse:</p> + +<p>—Não é Deus que os perde; é o +demónio que ensandece aquelles que quer aproveitar. Que +é honra, Jorge? O evangelho que te diz das injurias, do +odio, das affrontas, das injustiças? O filho de Deus dictou +e rubricou com o seu sangue a lei, a regra, os deveres da +humanidade; não importa ser o evangelho obra de Deus; +não importa que alli venham prescriptas as maximas da boa e +honrada vida: o evangelho é já inefficaz por que a +humanidade inventou uma honra que se prova e sustenta com o duello: +a vossa honra, cegos miseraveis dignos de lagrimas, lava-se no +sangue, justifica-se pelo homicidio, ao qual a +legislação decreta a forca, e a +convenção social o galardão da bravura. Jorge, +quem te disse que o assassino era honrado?</p> + +<p>O academico apenas respondeu:</p> + +<p>—Meu tio, vamos; eu estou prompto.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_83" id= +"pag_83">[83]</a></span>Leonardo Pires já estava no largo da +Batalha, chamando a attenção dos numerosos +transeuntes que paravam em magotes para verem o cavalleiro com as +esporas cravadas nos ilhaes de uma égua de fina raça +que se empinava, e corcovava, e atirava ora couces, ora +galões medonhos. É que Leonardo Pires vira D. +Francisca da Cunha n'uma janella do palacio do snr. Manoel Guedes, +e de si para si entendeu que lhe ia bem dar-se n'aquelle +espectaculo hyppico, mesmo com perigo de quebrar a cabeça, +como de facto quebrou, e tão desgraciosamente o fez, que +Francisca da Cunha, anciada de riso, dizem que cahira extenuada +n'uma othomana.</p> + +<p>Andava o infeliz Pires atraz da egua espavorida, com ajuda dos +gallegos do chafariz, quando Jorge e o tio desceram da hospedaria +da Estrella do Norte para a praça.</p> + +<p>Apanhada a cavalgadura, indiscreta e desasada para heroismos de +amor, Pires montou de salto, e acompanhou até Vallongo o +condiscipulo, com evidente desagrado do padre. No caminho, em +quanto o egresso ficára atraz compondo os loros do macho +fleumatico, o amador infausto de Francisca da Cunha disse a +Jorge:</p> + +<p>—Que queres que eu diga a Silvina, se o tio a não +mandar para a aldêa?</p> + +<p>—Diz-lhe, respondeu Jorge commovido, com os olhos +marejados de lagrimas—diz-lhe que eu não posso contar +com a minha vida para lh'a offerecer. Diz-lhe que eu não +fugi de cobarde; por quem és, Pires, não consintas +que me ella ultraje, duvidando da minha coragem. Falla-lhe de minha +mãi, que eu sei que ella me amará ainda mais, vendo +que eu respeito tanto as lagrimas da que me formou o +coração que eu lhe dei, e ella achou digno de si. As +minhas cartas mando-t'as a ti para lh'as entregares... Silencio, +que ahi está meu tio.</p> + +<p>—Snr. padre João Coelho, disse alegremente +Leonardo, pique o bucephalo cá para a frente.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_84" id= +"pag_84">[84]</a></span>—Alexandre Magno não montava +machos, senhor estudante, respondeu o padre. Andaria mais acertado +com a historia se me honrasse antes com as tradições +de Sancho Pança. O machinho sabe que leva em cima um engenho +velho, que se acerta de inclinar na carga cahe cada peça +para o seu lado.</p> + +<p>—Mas leva uma grande alma, replicou Pires.</p> + +<p>—O macho? perguntou o padre, sorrindo.</p> + +<p>—Sim, senhor.</p> + +<p>—Lá em Coimbra estuda-se essa psycologia de +veterinaria? As grandes almas passaram, pelos modos, dos Aristides +e Catões para estes quadrupedes! Se assim é, que nos +fica para nós, senhor academico?</p> + +<p>—Eu queria dizer ao meu nobre amigo que o macho leva um +cavalleiro com grande alma.</p> + +<p>—Muito obrigado ao seu favor, snr. Pires. Eu tambem o +entendi; mas metti-me a engraçado a vêr se desafiava o +riso, do meu pobre Jorge, que vai ahi melancolico, como nunca foi +filho algum para os braços de sua mãi e +irmãos.</p> + +<p>—É que Jorge Coelho, tornou o estouvado +infanção da Maya, está como a avesinha a +pairar emplumada, que salta para o rebordo do ninho, e vacilla +entre ir para a mãi que a está dentro chamando com o +cibo, ou voejar para a arvore em flôr que a está +enamorando de longe.</p> + +<p>—É uma bucolica bonita que o senhor vai +poetisando—tornou o padre, fechando o olho direito e sorvendo +uma canora pitada pela venta correspondente.—A avesinha (se +dá licença, eu componho em linguagem chan e fradesca +uma estrophe do idyllio) a avesinha deixou piar a carinhosa +mãi, e desferiu as tenras azas na pontaria da arvore +florida; e, como quer que as forças lhe cançassem do +desusado vôo, não teve a avesinha remedio senão +abater-se ao chão para pousar. E vai n'isto, andava por alli +á caça de ninhos um gato ou uma gata brava, seja gato +ou gata; o essencial é que apenas o <span class= +"pagenum"><a name="pag_85" id="pag_85">[85]</a></span>triste +passarinho apegou, o animal damninho fez-lhe o salto d'entre umas +balças, e o filho da pobre mãi, que se morria de +paixão no ninho, lá foi empolgado pelo gato ou pela +gata... Lafontaine não inventou este conto, e merecia a +pena; não importa: compuzem'ol-o nós, snr. Pires, +<i>ad usum delphini</i>, e seja delfim o nosso Jorge.</p> + +<p>A allusão desgraciosa da gata foi tão clara quanto +desagradavel a Jorge. Era uma injuria á mulher querida, +á sombra lagrimosa que o ia acompanhando, e instigando a +reagir contra o dominio de parentes, e exhortando a emancipar o +coração d'uma tutela que lhe deixava da vida as +regalias que bastavam á criança, mas não ao +homem.</p> + +<p>Azedado, pois, pelo motejo da bucolica do padre João, +Jorge disse com vehemencia:</p> + +<p>—Meu tio offereça a moralidade dos contos a quem +lhe pedir lições.</p> + +<p>Padre João, depois de breve pausa, respondeu brandamente +e com magoada tristeza:</p> + +<p>—Não te envergonhes de pedir-me +lições, filho, que as não pedes sómente +a um velho; dá-t'as um amigo, que foi homem antes de ser +frade, e estudou os homens, depois que o mandaram sahir da sua +cella, como cousa inutil á sociedade. Se me não +quizeres as lições, de que sirvo eu, Jorge? Já +agora irei prégando sempre, quer me ouçam, quer me +repulsem, como manda o apostolo.. Desagradou-te a allegoria do +conto, e convidas-me assim a ser mais natural. Jorge, repara bem no +que te diz este velho que, no teu modo pouco respeitoso de fallar a +uma mãi, «te premuniu com cabedal de philosophia +christã, bastante para defender das tentações +todas as nações da biblia exterminadas por causa do +peccado.» Sei de cór as tuas palavras, porque m'as +entalhou na alma o espinho da ingratidão. Deves-me bons +desejos de te fazer bom e honrado: não me sejas ingrato. +Agora, escuta, filho. Vinte e quatro horas antes de <span class= +"pagenum"><a name="pag_86" id="pag_86">[86]</a></span>te apparecer, +procurei-te, porque do Porto fui avisado dos teus desvios: como te +não encontrei, fui colher mais informações; +voltei á noite á hospedaria tres vezes, e ás +duas horas não tinhas ainda recolhido. No dia seguinte, que +foi hoje, procurei-te ás nove horas da manha: tinhas +já sahido. Déste-me tempo de sobra para eu me +instruir das miudezas da tua historia de tres semanas. Sei quem +é a creatura que te ourou a cabeça. É uma feia +alma n'um formoso estojo; é uma aventureira...</p> + +<p>—Meu tio, isso é crueldade e +calumnia—interrompeu Jorge allucinado.</p> + +<p>—Bate, mas escuta, dizia o philosopho: é uma +aventureira de maridos, que engodou o morgado de Santa Eufemia, em +quanto julgou desnecessario o consentimento do velho fidalgo para a +realisação do casamento que a fazia rica. +Desvanecidas as esperanças do morgado, cuja rudeza lhe +não desdizia com o espirito arteiro, voltou-se para um rico +brazileiro de Cabeceiras de Basto; mas o brazileiro não lhe +entendeu os pespontes da eloquencia, e disse que queria mulher com +quem elle se entendesse. Chamada por uma prima, professora em +armadilhas ao casamento...</p> + +<p>—Francisca da Cunha?—exclamou Pires, erguendo-se nos +estribos.</p> + +<p>—Justamente, Francisca da Cunha, menina matreira +que...</p> + +<p>—Olhe que eu amo essa mulher, snr. padre +Coelho!—interrompeu solemnemente Leonardo.</p> + +<p>—Pois faz v. s.ª muito bem: o amor do proximo +é preceito divino: sou de parecer que a ame; mas não +lhe dou os parabens... Vinha eu dizendo que a tal Silvina já +no Porto, de mãos dadas com a prima, não duvidou +visitar uma estalajadeira de Margaride que viera a banhos de mar, +porque esta estalajadeira tinha um filho que viera do Brazil, com +alguns centos de contos, negociados na escravatura. E como o filho +da estalajadeira <span class="pagenum"><a name="pag_87" id= +"pag_87">[87]</a></span>não andava acostumado a comprar +senão negras possantes e trabalhadoras, recusou comprar a +compleição melindrosa da fidalga de Margaride. D'ahi +veio o saber-se, pelo dizer a snr.ª D. Silvina, que o poderoso +brazileiro é filho d'uma taverneira, e que fôra para o +Brazil com umas soletas e chapéo de Braga que lhe dera de +esmola o pai da fidalga. Eis aqui o que eu pude averiguar da pessoa +por quem meu sobrinho troca os carinhos de sua mãi, a +dôce amisade de seus irmãos, e as lições +amoraveis de seu velho tio.</p> + +<p>Jorge Coelho ficou enleado, e não replicou; Leonardo +Pires, porém, que nunca em sua vida pensára o que +dizia, senão meia hora depois de o dizer, exclamou:</p> + +<p>—Mas ha-de confessar, snr. padre João, que ellas +são boas mulheres!</p> + +<p>—Boas!...—murmurou o padre, que não entendeu +o sentido do adjectivo—boas... quer-me parecer que não +são muito!</p> + +<p>—Ora essa! pois não as acha bonitas e +elegantes?</p> + +<p>—Eu não as conheço; mas creio que são +bonitas e elegantes: e d'ahi?</p> + +<p>—E d'ahi! <i>Amor omnia vincit!</i> o amor tudo vence.</p> + +<p>—Agradeço a traducção—disse, +sorrindo, o padre, que, a fallar a verdade, tinha uns sorrisos que +muito justificavam o dito de ter sido «homem» antes de +ser frade.—O snr. Leonardo Pires não tem +mãi?—acrescentou o padre, após um curto +intervallo, com summa seriedade.</p> + +<p>—Tenho, sim senhor; mas não tenciono namorar minha +mãi—disse precipitadamente Leonardo.</p> + +<p>O padre fitou-o com tristeza e admiração, um +momento, e depois disse-lhe com bons modos:</p> + +<p>—Praza a Deus que o coração esteja menos +derrançado que a linguagem... snr. Leonardo Pires, eu tenho +setenta annos; deprava-se um rapaz; mas respeita-se um velho.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_88" id= +"pag_88">[88]</a></span>D'esta vez, o imperturbavel Pires +não teve que responder.</p> + +<p>Tinham chegado a Vallongo. Jorge estendeu a mão ao seu +amigo, e disse-lhe suffocado:</p> + +<p>—Adeus! não sei se te verei mais... Sinto a morte +no coração!</p> + +<p>O padre fez um frio comprimento ao amigo de seu sobrinho, +dizendo-lhe:</p> + +<p>—Deus o tenha de sua mão.</p> + +<p>Leonardo partiu; e o egresso, com os olhos embaciados de +lagrimas, murmurou:</p> + +<p>—Jorge! quem te abriu as portas da desgraça foi +aquelle homem.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_89" id= +"pag_89">[89]</a></span></p> + +<h2>X.</h2> + +<p>Não esqueceram de certo ao leitor attento estas linhas da +carta que o morgado de Santa Eufemia recebeu do +pai:—<i>Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou +ordem ao meu amigo brazileiro para te dar para a jornada cinco +pintos.</i></p> + +<p>O brazileiro amigo do fidalgo de Freixieiro era o snr. +José Francisco Andraens, natural de Cozelhas, desde 1844 +estabelecido no Porto, onde viera tratar do baço, do +pancreas, e d'outras entranhas importantes do snr. José +Francisco Andraens. Na mente do illustre enfermo estava retirar-se +para a provincia de Piauhy, onde tinha a sua feira de pretos, logo +que restaurasse o estomago e as mais partes circumjacentes da sua +alma. Porém, como quer que um seu amigo velho, e companheiro +<span class="pagenum"><a name="pag_90" id= +"pag_90">[90]</a></span>de viagem para o Brazil, em rapazes, +estivesse no Porto com o titulo de visconde dos Lagares, e este o +fizesse conhecido por meio das gazetas por uma esmola de cincoenta +mil réis ao hospital da Santissima Trindade, o snr. +José Francisco viu-se tão festejado, tão +requestado, tão necessario ao Porto, que mandou vender os +pretos em ser, e liquidar os creditos.</p> + +<p>Tentemos um debuxo de José Francisco. Deve estar entre +cincoenta a cincoenta e cinco annos, estatura menos de mean, com +tres barrigas, das quaes a primeira, começando pela parte +mais nobre do sujeito, principia onde o vulgar da gente tem os +joelhos, e, depois d'uma arremettida adiposa, retrahe-se na linha +imaginaria da cintura, e estreita-se em fórma de +cabeça. A segunda barriga pega da primeira, ondeia com tres +ordens de refegos por sobre as falsas costellas, ladêa tumida +e retesada como os flancos d'um ôdre posto de través, +e vai perder-se nos sovacos, mandando para as costas uma corcunda +da sua mesma natureza. A terceira barriga pendura-se da face +interna do queixo inferior, amplia-se flacida e lustrosa como um +buxo mal cheio de vitella, e assenta sobre a segunda, no ponto +hypothetico do esterno. A parte anatomica d'este bosquejo toda ella +se libra em conjecturas. O author não assevera senão +a existencia das barrigas.</p> + +<p>Isto tudo tem uma base caprichosa: são cousas que a +linguagem do paradoxo denomina pés. Vacilla a critica no +confrontal-os com objecto dos tres reinos: uma tartaruga envolta em +bezerro dá-nos uns longes da realidade; mas falta-nos o +simile para os declivios, gargantas e barrocaes dos joanetes. Os +pés de José Francisco são a +desesperação dos Gavarni. O marrão do alvanel +poderia arrancal-os d'um golpe d'uma pedreira por acaso; mas +Apelles mais depressa pintaria uvas que enganassem o bico sequioso +da passarinhada.</p> + +<p>No tocante á cara o snr. Andraens é homem, apesar +<span class="pagenum"><a name="pag_91" id= +"pag_91">[91]</a></span>d'outros animaes que lhe não +disputam os fóros da humanidade, porque não teem um +curso de historia natural. O rubor do tomate desmaia ao pé +das papeiras faciaes do brazileiro. O nariz enfronha-se de +envergonhado entre as trouxas de tecidos, que lhe debruam os olhos +de oppilações carnosas, sebaceas e luzidias. A menina +do olho é rutilante e azougada, posto que as +secreções visinhas lhe bezuntem a raiz das +pestanas.</p> + +<p>O snr. Andraens é commendador da ordem de Christo, desde +que o seu amigo visconde dos Lagares foi nomeado trinchante da casa +real. Afóra isto, o brazileiro de Cozelhas, na qualidade de +accionista do Banco Commercial do Porto, é orador vitalicio +d'aquella assembléa, em que não são raros os +talentos de maior porte. Tal era o amigo do velho fidalgo de +Freixieiro.</p> + +<p>José Francisco esperava que o filho de Vasco procurasse +os cinco pintos, segundo a ordem que recebera. Decorridos alguns +dias, escreveu ao seu amigo, a dizer-lhe que o fidalgo novo +não apparecera para receber o dinheiro. Tornou o velho a +escrever ao brazileiro, encarregando-o de procurar o filho, +aconselhal-o que fosse para casa, e pagar a despeza que elle +tivesse feito na estalagem.</p> + +<p>Foi o snr. Andraens á <i>Aguia d'Ouro</i>, e como +não encontrasse Christovão, deixou dito ao criado do +quarto quem era e a precisão que tinha de fallar com o +morgado. Já vinha descendo as escadas, e voltou acima a +chamar o criado.</p> + +<p>—Olhe lá, disse elle, o fidalgo deve muito +cá na casa?</p> + +<p>—Não, senhor: o fidalgo paga todas as semanas.</p> + +<p>—Está bom, está bom, vossê não +diga que eu perguntei isto, e pegue lá para matar o bicho +ámanhã.—Dizendo, abriu uma bolsa de retroz +coalhada de missanga, e tirou trinta réis que deu ao criado +com a mão direita <span class="pagenum"><a name="pag_92" id= +"pag_92">[92]</a></span>fechada, para que a esquerda se não +escandalisasse da prodigalidade.</p> + +<p>Na manhã do dia seguinte, foi o morgado de Santa Eufemia +a casa do brazileiro, e conduziram-o ao seu quarto de dormir, +porque José Francisco estava ainda recolhido com a barriga +n.º 2 envolta de papas de linhaça.</p> + +<p>—Estou aqui emplasmado, senhor morgado—disse +José Francisco, arqueando os braços por sobre a +esphera abdominal.</p> + +<p>—Então o snr. José que tem?</p> + +<p>—Mande-se sentar, meu fidalgo. Eu estou aqui com uns +calores cá de dentro, que dão que fazer á +botica; mas isto, se Deus quizer, não é nada. Pois, +meu senhor e amigo, seu pai escreveu-me, como ha-de saber, para eu +lhe dar um dinheirito, e depois tornou a escrever-me para eu ir ter +aonde a v. s.ª e dizer-lhe que o melhor é ir-se para +casa, quanto antes, porque o velho, pelos modos, está +lá arrenegado por si. Então, vai ou não +vai?</p> + +<p>—Por estes dias, irei; mas já já não +se me arranja cá a minha vida, snr. José.</p> + +<p>—Então o senhor, ainda que eu seja confiado, que +tem cá que fazer? Ahi, por mais que me digam, anda +derriço... Eu hei-de saber o que é quando fallar com +a fidalga de Margaride que o conhece muito bem ao senhor +morgado...</p> + +<p>—Então o senhor conhece a D. Silvina de Mello?</p> + +<p>—Conheço-a como os meus dedos...—respondeu o +snr. Andraens, com um sorriso intencional, que passou desapercebido +ao morgado.—É bem boa estampa, ó senhor +morgado, não é? ora diga a verdade!</p> + +<p>—É muito bonita, isso é.</p> + +<p>—Rapariga d'uma vez! e bem-fallada!? isso então +quando calha de fallar, aquillo não despega nem á +mão de Deus-padre! Falla em tudo quanto ha! Até em +Sebastopool, <span class="pagenum"><a name="pag_93" id= +"pag_93">[93]</a></span>senhor morgado! Um d'estes dias tinha eu +lá ido a troco cá de certa pendencia, e veiu á +collecção a guerra da Russia, e ella começou +alli a manobrar as batalhas, e se fôr como ella diz o snr. D. +Miguel (Deus o traga) não tarda cá. Eu não +tenho partidos, e até a fallar a verdade, sou commendador +por esta gente, mas em fim, quero-me cá com os velhos, e +gente como era a antiga já se não topa. Pois é +verdade... eu...</p> + +<p>—E a fidalga—atalhou o morgado—nunca lhe +fallou em mim, snr. José?</p> + +<p>—Fallou, pois então? disse-me até que o +senhor queria casar com ella... é assim ou não +é?</p> + +<p>—Isso é verdade. Paixão de raiz como a que +eu tenho por ella não a torno a ter pela mais pintada.</p> + +<p>—Ah! que me diz?—acudiu o brazileiro com +espanto—pois a cousa é isso? Quer apostar que o senhor +está aqui pr'a-mor d'ella?</p> + +<p>—Em fim, o coração não mente... +Á conta d'ella é que eu aqui estou. Passaram-se uns +poucos de mezes sem eu ter carta, desde que ella veiu para o Porto. +Arranjei como pude licença do pai, e vim encontral-a +cá a namorar outro, um trampolineirito a quem eu queria dar +uma escovadela, mas antes de hontem fugiu lá para cascos de +rolha.</p> + +<p>—Conte-me isso, conte-me isso—exclamou José +Francisco com vehemente interesse.</p> + +<p>—É como lhe digo, snr. José. Agora preciso +demorar-me alguns dias a ver o que ella faz.</p> + +<p>—Com que então diz-me o senhor morgado—disse +meditabundo e detidamente o brazileiro—que ella andava +já com o miolo ás voltas por outro sujeito!... As +mulheres são o diabo!... Quer o senhor saber?! Mas isto +é pedra que cahe em poço, ouviu o senhor?</p> + +<p>—Eu não digo nada; póde fallar snr. +José.</p> + +<p>—Pois então, vou desembuchar... Eu tenho emprestado +algum dinheiro ao Pedro de Mello, pai da Silvina, <span class= +"pagenum"><a name="pag_94" id="pag_94">[94]</a></span>para elle +mandar aos rapazes que andam a estudar p'ra doutores em Coimbra. A +casa do Mello é boa, mas está empenhada até +aqui.—(O snr. José Francisco poz um dedo na barriga +n.º 3, que deu de si como um balão de borracha). Ha-de +haver tres mezes que eu fui levar á filha umas libras que o +pai lhe mandou dar para vestimentas. Eu andava com o olho em cima +de uma quintarola bem boa d'elle, que parte com os meus +terrões da Lixa, e não se me dava de lhe ir dando aos +poucos algum dinheiro até lhe apanhar a propriedade que me +faz muita conta. E vai se não quando, meu amiguinho e senhor +morgado, veiu a fidalga á sala assignar o recibo, e p'ra'qui +p'racolá, palavra puxa palavra, eu deixei-me estar ao cavaco +com ella e com a prima, e jantei lá n'esse dia, e fiquei +p'ra a noite. A fallar-lhe a verdade nua e crua, como o outro que +diz, eu não sei o que sentia cá no interior! Que +diabo é isto que eu sinto? disse eu cá c'os meus +botões. Eu andei por lá por esses mundos de Christo, +vi muita mulata e branca de encher o olho, tive as minhas +rapaziadas, porque em fim, a gente é de carne e osso; mas +nunca me buliu cá por dentro mulher nenhuma como esta! Se o +senhor morgado ouvisse o palavriado d'ella! Deixe vêr se me +lembro... Não encarreiro... Ora deixe estar o senhor.. Eu +tenho alli uma carta d'ella...</p> + +<p>—Uma carta d'ella!—interrompeu o morgado a +fumegar.</p> + +<p>—Pois então? uma carta d'ella, umas poucas; mas ha +lá uma em que ella escreve o mesmo que tinha dito de bocca. +Faz o senhor favor de me ir áquella gavetinha do meio da +commoda, e dar-me de lá um caixotinho de vidro, que tem uns +bordados de papel dourado na cobertoira?...</p> + +<p>Christovão Pacheco abriu com a mão convulsa a +gaveta, e levou á cama do snr. Andraens a caixinha indicada. +O brazileiro tirou um feixe de cartas, cintadas com <span class= +"pagenum"><a name="pag_95" id="pag_95">[95]</a></span>uma fita de +nastro, abriu algumas, regougando palavras soltas de cada uma +d'ellas, e por fim acertou com a carta que procurava, e +exclamou:—Cá está ella! tal e qual. Ora faz +favor de lêr, que eu não estou hoje muito escorreito +dos olhos.</p> + +<p>O morgado de Santa Eufemia, entalado, enfiado, tremulo e +escarlate até á raiz dos cabellos, leu o +seguinte:</p> + +<p>«Meu bom e muito querido amigo. Tanto eu como minha prima +Francisca, ella por amisade reconhecida, e eu do +coração affectuoso lhe agradecemos o valioso mimo com +que se dignou brindar-nos a sua generosidade...»</p> + +<p>—Isso foi, interrompeu o brazileiro, a respeito de umas +pulseiras de ouro que eu mandei ás duas, que me custaram +dezesete libras e mais uns pósinhos, não fallando na +caixota em que foram os estojos que me tinha custado em Paris +quarenta e oito francos. Empreguei bem o meu dinheiro, não +tem duvida! Ora faz favor de continuar com essa trapalhice:</p> + +<p>O morgado proseguiu na leitura acerba, limpando as camarinhas de +suor que lhe transpiravam da testa:</p> + +<p>«Apreciamos a dadiva já pelo que ella vale, +já pelos sentimentos delicados que ella +representa...»</p> + +<p>—Isso é bem dito, não é, ó +senhor morgado?—interrompeu o snr. José +Francisco.—Lá que ella tem uma cabecinha como +não ha outra, isso pau pau, pedra pedra, a verdade ha-de +dizer-se. O que lhe falta é miôlo... Ora ande +lá... vá lendo:</p> + +<p>«Nunca eu aceitaria—continuava a carta de +Silvina—uma prenda de homem, que não tivesse uma +explicação honrosa. Esta, que eu tenho no meu pulso, +não me faz estremecer a mão de pejo. Os meus +sentimentos a respeito de v. s.ª tenho-lh'os dito tantas +vezes, que repetil-os seria abusar da sua attenção, e +descer um pouco da minha senhoril, dignidade. V. s.ª sabe como +eu aprecio as paixões proprias dos meus annos...»</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_96" id= +"pag_96">[96]</a></span>José Francisco Andraens deu dous +galões no leito, e clamou:</p> + +<p>—É ahi, é ahi onde está a cousa!</p> + +<p>Christovão continuou, já deletreando, porque a +raiva lhe nublava os olhos:</p> + +<p>«Não creio na duração do amor +impetuoso. A violencia da vibração fatiga as cordas +da alma...»</p> + +<p>—Olhe lá—atalhou o brazileiro—isso que +vem a dizer? esse bocado não o percebi bem... <i>A violencia +da vibração fatiga as cordas</i>... que diabo!...</p> + +<p>—Quer dizer, respondeu o morgado com anciado +esforço, quer dizer que... sim... eu acho que isto vem a +dizer... que as paixões fortes adoentam a gente...</p> + +<p>—Ah! sim, senhor, ha-de ser isso... eu cá sinto os +estragos no interior... Ora faz favor de vêr o resto.</p> + +<p>O morgado leu:</p> + +<p>«A minha ambição é encontrar um amigo +verdadeiro, um coração sereno, um homem para quem o +mundo não tenha abysmos, dos que tem no fundo a +desgraça da esposa trahida, e esquecida. Receba no +coração estas palavras da sua dedicada e constante +amiga, <i>Silvina</i>.»</p> + +<p>—Que me diz o senhor a isso?—interpellou José +Francisco, dando uma palmada no hombro do entorpecido morgado.</p> + +<p>—O que eu lhe digo, snr. José!...—tornou o +morgado, atirando a carta para sobre o leito.—O que eu lhe +digo é que esta mulher...</p> + +<p>—É uma mulher de pouco mais ou menos—concluiu +o brazileiro, atando as cartas com o nastro—Ora ahi tem... +Agora, á vista d'isto, deixe-se andar por cá atraz +d'ella...</p> + +<p>—E o senhor continua o namoro?—perguntou o morgado +com os olhos vidrados de lagrimas.</p> + +<p>—Qual namoro, nem qual diabo! O que eu queria era melhorar +da barriga!</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_97" id= +"pag_97">[97]</a></span></p> + +<h2>XI.</h2> + +<p>José Francisco Andraens, mentiste á tua +consciencia! Supposto que as tuas barrigas te mereçam +quantos desvelos cabem na alçada do oleo d'amendoa +dôce e da linhaça, o coração em ti +é um musculo cheio de bom e sadio sangue, sangue cruorico +que por vezes te borbulha nas arterias, e reçuma á +cara em brazumes de ternura lubrica. Mentiste, José +Francisco, quando respondeste áquelle pobre morgado, que o +que tu querias era melhorar da barriga. Musculo enorme! tu amavas +abrasado no lume da faisca electrica em que se estremece cada uma +de tuas fibras, rijas de vida, saturadas do boi copioso que +assimilas, e das tortas de frango com que pejas diariamente as +algibeiras do sobretudo, e das planganas de farinha de pau e +araruta que emborcas todas <span class="pagenum"><a name="pag_98" +id="pag_98">[98]</a></span>as manhãs. Commendador da ordem +de Christo! se o incognito da Providencia, chamado <i>acaso</i>, te +houvesse dado a faculdade de desafogar em +vociferações contra a fementida Silvina, dirias, no +auge da tua angustia, blasphemias contra as mulheres, injurias +insultadoras contra a fidalga de Margaride, e juramentos, por tua +honra, de despresal-a e diffamal-a onde quer que fosse a tua lingua +peçonhenta e a dos teus amigos famintos de +detracção e escandalo. Os que assim procedem, fariam +de ti riso, se te ouvissem o dialogo com o teu amigo de Freixieiro; +tu, porém, José Francisco Andraens, que não +sabes os quatro epithetos triviaes com que se vingam amantes +abandonados, ergueste os alçapões da tua alma, e +deixaste romper a torrente represada, com estas palavras: +«Qual namoro, nem qual diabo! o que eu queria era melhorar da +barriga!»</p> + +<p>Ai! se elle a amava!</p> + +<p>Não houve ahi cancro de amor que afistulasse, tão +no intimo, coração de homem. Aquella propria +dôr de estomago, rebelde á linhaça, nos +está dizendo finezas do amor de José Francisco, +procedida, como é, do uso do chá a que o +forçavam successivas noites que passou em casa do tio de +Silvina. No principio, o hospede cauteloso recusou a chavena; mas a +fidalga teve a impiedade de dizer-lhe que não era +extremamente do bom tom rejeitar o chá, a pretexto de ser +bebida nociva ao estomago. O brazileiro, no dia seguinte, em vez +d'uma, tomou tres chavenas, e em sua casa, <i>para affazer a +tripa</i> como elle dizia, mandava cozinhar grandes chocolateiras +de chá, que a moça inexperta chamava o cozimento, e +carregava de folha até sahir negro na fervura. José +Francisco conhecia o veneno, punha a mão no buxo, e, se +não dizia como o papa Ganganelli: «hei-de morrer +d'isto...» gritava pela cataplasma de linhaça, +mitigava a inflammação, e de puro amor continuava +<span class="pagenum"><a name="pag_99" id="pag_99">[99]</a></span>a +immolar o estomago, como fino amante que não tem mais que +dar.</p> + +<p>Ha ahi amadores, José Francisco, que cubiçam a +pedraria oriental para construirem um nicho para a mulher amada; +pedem a Deus estrellas para lhe marchetarem a alcatifa das +botinhas; queriam a lua e as duas ursas para o pavilhão do +leito nupcial; os coriscos para lhe brincarem aos pés; os +jardins de Semiramis, recendentes de nardo e cardamomo, para lhe +deliciarem o olfacto; o sceptro do globo para a mão +soberana, e o diadema do universo para a fronte inspirada. +Farelorio. Homem de Cozelhas! o teu estomago estragado pelo +chá, sobreleva em dolorosa realidade a tudo quanto +inventaram poetas, invejosos dos bens de Deus, em quanto tu deixas +em paz a lua e as estrellas, e compras dezesete libras de +pulseiras, ás quaes a propria Diana caçadora te +estenderia os seus divinos braços.</p> + +<p>Ai! se elle a amava!</p> + +<p>Por uma tarde de Agosto, na alamêda da Lapa, se andava +José Francisco passeando com o seu amigo visconde dos +Lagares. A espaços, o amador de Silvina desprendia uns como +gemidos desentranhados com estridor de arroto, e o açafroado +das belfas, ora se enrubecia mais intenso, ora desmaiava n'um +pardacento, que deu nos olhos solicitos do visconde:</p> + +<p>—Que tem vossê, sôr Andraens?!—perguntou +o trinchante da casa real, afervorando o zelo da pergunta com um +suave empurrão.</p> + +<p>—Que hei-de eu ter, amigo visconde? Vossê bem sabe +que eu ando mettido n'uma camisa de onze varas. A minha sina, que +me lêram quando eu era rapaz, dá-me que eu hei-de +passar por um grande desgosto. Até ao presente, em boa hora +o digamos, a cousa não me tem ido mal; d'aqui por diante +como o outro que diz, um bomem deve estar tem-te não +caias.</p> + +<p>—Mas então vossê que medo tem?—tornou o +visconde, <span class="pagenum"><a name="pag_100" id= +"pag_100">[100]</a></span>variando a mimica com uma palmada na +espadua boleada de José Francisco.</p> + +<p>—Homem, vossê casou quando era moço, e deu-se +bem com a mulher, e tem vivido sem sustos; mas eu já +cá estão os cincoenta, não sou dos rapazes da +moda, e tenho ás vezes umas lembranças que me +derrancam o coração.</p> + +<p>—Ora, deixe-se d'isso, sôr Andraens! Pelos modos a +senhora, com quem vossê vai casar, é menina bem +comportadinha, e vossê, quando casar, deixe-se de ir muitas +vezes ás assembleas, e pouco de visitas, e de theatros; +metta-se em sua casa a mais a mulher; trate da sua +labutação, e não a deixe pôr pé +em ramo verde, sem ir com ella.</p> + +<p>—Pois não pozeste!—acudiu José +Francisco soltando uma risada aspera de sacões, que valia +bem um programma.—Vossê ainda está n'essa?</p> + +<p>A minha mulher, quando eu a tiver, é cá para o +amanho da minha casa. Comer e beber, e vestidos, e enfeites d'ouro, +não lhe ha-de cançar; mas ir a bailes e a comedias... +isso, snr. visconde... olhe cá se me vê algum <i>T</i> +na testa! É verdade que a minha futura noiva é toda +pronostica e está avezada ao palavriado dos pantomineiros +que não tem senão aquillo e a sua miça; mas eu +logo que case hei-de pôl-a na lei em que ha-de viver.</p> + +<p>A mulher é do seu homem, e casou para tratar-lhe das +doenças, e do arranjo da familia. Quem quer andar á +tuna nas comedias e nos balancés deixa-se estar solteira; +não é assim, amigo visconde?</p> + +<p>—Assim é; mas não será bom apertal-a +muito, amigo Andraens... Isto de mulheres, olhe que nem o diabo as +quiz guardar, e quando ellas entram a desatremar, adeus, minha +vida!</p> + +<p>—A desatremar!—clamou José Francisco com +iracundia.—Então um homem não é senhor +de fechar as suas portas, e viver como quizer com a mulher com +<span class="pagenum"><a name="pag_101" id= +"pag_101">[101]</a></span>quem reparte do que tem? do seu dinheiro? +do que lhe não custou a ella a ganhar? do seu dinheiro?</p> + +<p>—Vossê diz bem, sôr José; mas é +que ella a isso póde dizer que estava melhor solteira.</p> + +<p>—Homem, vossê nem parece visconde n'isso que +diz!—atalhou com ironia pungente José +Francisco.—Eu vou já embuchal-o com uma +pergunta:—Quanto vale a tal madama?</p> + +<p>—Pelos modos, disse o visconde, acho que pouco tem.</p> + +<p>—Por tudo que ella tem não dou eu seiscentos mil +réis. A casa é do morgado, e os bens livres, +repartidos por seis irmãos, nem p'ra pagarem a minha divida +chegam. E quanto acha vossê que eu tenho, ó amigo +visconde?</p> + +<p>—Vossê, cá segundo os meus calculos, ha-de +ter o melhor de cem contos... p'ra cima que não p'ra +baixo.</p> + +<p>—Aqui que ninguem nos ouve, snr. visconde, disse +José Francisco muito á puridade, se não fosse +aquella tapona que eu levei na costa d'Africa, podia ter os meus +quatrocentos contos; agora, mais cem, menos cem mil réis a +minha fortuna ha-de andar ahi por duzentos contos, e se as cousas +correrem regularmente, cá nos engajados, escuso de bulir no +que tenho apurado. Ora ahi tem vossê. Faz favor de me dizer +se a rapariga, que não tem nada, casar commigo, não +fica a ser rica e respeitada no mundo! Responda a isto, amigo, se +é capaz!</p> + +<p>—Sôr José Francisco, tornou o visconde com +sisuda gravidade, olhe que eu tenho andado muito mundo, e visto +muita cousa. A rapariga, se casa comsigo, é por que quer +figurar. Vossê já não é muito +moço, e não sei como ha-de estar em casa mettido a +entreter a mulher. Sabe que mais? se está na teima de a +não deixar ter alguma folga, o melhor é deixar-se +estar solteiro até lhe apparecer moça mais azada p'ro +seu modo <span class="pagenum"><a name="pag_102" id= +"pag_102">[102]</a></span>de vida. Deixe cá o arranjo ao meu +cuidado, que eu conheço muito negociante aqui no Porto que +tem raparigaças como castellos, e vossê não tem +senão escolher.</p> + +<p>—Cale-se lá, homem!—interrompeu com azedume e +paixão o de Cozelhas—Eu gosto de Silvina d'uma vez! E, +se quer que lhe diga a verdade, já fiz alguma despeza com +ella. Vossê inda a não enxergou?</p> + +<p>—Ainda não á minha vontade; mas na semana +que vem vou dar um baile só para a vêr a preceito; +já a lobriguei de longe, e alvidou-se-me que ella era bem +tirada das canellas, e que tinha a cinta muito delgada.</p> + +<p>—Isso então!—exclamou o snr. Andraens, com os +olhos rutilantes de jubilo, e um sorriso de satyro, que lhe fazia +recuar os refegos das bochechas até ás orelhas, como +dobras de cortinas apanhadas.—Bem feita até alli! O +pescoço é branco como a cal da parede; os +braços parecem de leite, e aquillo hão-de ser macios +que nem veludo; os olhos, continuou José Francisco, com +precipitada torrente de imagens orientaes, parece que entram no +interior da gente, e andam sempre a bulir nos buracos como dous +grillos; os dentes são da côr d'essa camisa, e +tão iguaesinhos que parece mesmo cousa de fazer crescer a +agua na bocca; quando ella anda pela casa, aquillo é um +gosto vêl-a! parece que está a casa cheia! E ouvil-a +fallar?! Vossê não faz uma pequena idéa! +Até falla de Sebastopool! (Vê-se que esta +feição do talento de D. Silvina foi a que mais deu no +gôto do snr. José Francisco Andraens.) Em fim, amigo +visconde, mulher como ella não espero topal-a. Tenho-lhe +sympathia cá de dentro; sonho com ella todas as noites; dia +em que a não veja, ando como a cobra que perdeu a +peçonha; se adrega d'ella ir visitar alguem, e eu não +a vejo, vou zangado p'ra casa, e já me tem acontecido +não ceiar! As cartas d'ella tenho-as na cabeça, e +já comprei um livro muito grande, chamado... chamado elle... +assim uma cousa a modo... de... vossê hade <span class= +"pagenum"><a name="pag_103" id="pag_103">[103]</a></span>saber? +Aquillo que ensina a escrever direitas as palavras!...</p> + +<p>—Uma pauta, ha-de ser pauta...</p> + +<p>—Qual pauta, nem qual diabo! é um livro, que ensina +a escrever com as letras todas... Já me lembra: um +breviario.</p> + +<p>—Ha-de ser isso, ha-de ser isso...—disse o visconde, +que apreciou o ensejo de saber que o breviario ensinava a escrever +com as letras todas—mas, a fallar verdade—continuou +ingenuamente o brazileiro—não me ageito com o tal +livreco, e vou-lhe escrevendo como sei. Aqui trago eu na carteira +uma carta, respondendo á d'ella de hontem, a vêr se +lh'a entrego esta noite. Quer vossê vêr, amigo +visconde? Eu p'ra si não tenho aquellas. Ora escute +lá; mas o mais acertado é lêrmos primeiro a que +ella me escreveu. Vossê vai ficar pasmado; ora +ouça.</p> + +<p>José Francisco sentou-se n'um dos bancos de pedra da +alamêda da Lapa, e leu correntemente o seguinte:</p> + +<p class="direita">«Meu caro amigo.</p> + +<p>«Soube que hontem me procurou. Quiz o meu infortunio que +eu não estivesse em casa. O tio anda a pagar visitas, e +ordenou que eu o acompanhasse. Passei uma noite insipida, +lembrando-me que podia passal-a no remanso duma dôce paz e +contentamento d'alma ao lado do homem cujas tão amantes como +paternaes palavras me embalam o somno para os sonhos d'um delicioso +futuro...»</p> + +<p>Aqui José Francisco sacudiu na mão o papel, e +exclamou radioso:</p> + +<p>—Olhe isto, amigo visconde! <i>os sonhos d'um delicioso +futuro</i>!... Pelos modos, quer dizer que o que ella quer é +uma vida socegada para, em vez d'andar em visitas, dormir na sua +cama á sua vontade. Não é isto?</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_104" id= +"pag_104">[104]</a></span>—Pois elle que ha-de ser +senão isso?—disse o visconde gostoso da modestia +consultiva do seu amigo, e ia continuar reflexões a +proposito, quando José Francisco, menos jubiloso, continuou, +lendo:</p> + +<p>«Estará ainda longe o dia suspirado, meu amigo? +Não tem já do meu caracter um profundo conhecimento? +Não se demore a confirmar o destino que minha alma anceia, +porque desgraçadamente a minha vontade não é +de todo livre, e bem póde ser que meu pai, antes da +resolução de v. s.ª, tome outra, contraria aos +nossos intentos. Sua do coração, <i>S.</i>»</p> + +<p>—Á troca d'estas linhas do fim—disse o +brazileiro um pouco recolhido e melancolico—é que eu +hoje tenho andado azoado, e a suspirar cá de dentro. Ora +escute lá a resposta:</p> + +<p>«Meus amores!!! (Na pontuação guardamos a +fidelidade que descuramos na orthographia, cuja liberdade +concedemos a José Francisco e pedimos alternativamente para +nós). As vossas letras recebidas ao fazer d'esta até +ao meio consolaram o meu coração saudoso!!... mas as +que vem no cabo da vossa carta penetraram qual duro ferro no meu +coração saudoso!! Se vosso pai não levar a bem +o nosso casamento, ó céos!!! tanto faz querer como +não querer o arranjo ha se de fazer, ainda que eu vá +ás do cabo; estai descançada, joven Silvina amada!! +Logo que eu tenha a nossa casa da Lixa arranjada (que andam +lá os estucadores e os pintores) estamos casados e arruma-se +d'aqui o pensamento!!! D'este vosso idolatrado até á +morte, J. F. Andraens, vosso futuro esposo.»</p> + +<p>—Que tal?—murmurou com certo ar de pudica modestia o +erotico compositor de cartas incendiarias.</p> + +<p>—Onde diabo aprendeu vossê tanto, ó sôr +José?—disse o visconde com sincero espanto.</p> + +<p>—Isto que aqui vê fil-o de fio a pavio, sem ir ao +<span class="pagenum"><a name="pag_105" id= +"pag_105">[105]</a></span>breviario, amigo visconde. Ponto é +ter cá dentro o amor a puxar pelas memorias.</p> + +<p>José Francisco ergueu-se triumphante com miraculosa +agilidade; deu alguns passeios floreando a bengala, e rindo a +revezes do espasmo do visconde, que, em sua consciencia, suspeitava +de que fosse a carta apocripha; mas, por delicadeza, calou as +duvidas.</p> + +<p>José Francisco tinha desafogado. O arroto já +não vinha acompanhado do suspiro. As tres barrigas +funccionavam em toda a sua plenitude phisiologica. O jubilo doudo +da sua esperança sorria aos arreboes que cintavam o +horisonte do oceano; a viração da tarde, brincando na +folhagem dos alamos e acacias, rumorejava um soido mellico aos +ouvidos d'alma d'aquelle amante feliz.</p> + +<p>Ai! se elle a amava!</p> + +<p>Este expansivo dialogo fôra anterior quarenta e oito horas +áquell'outro que ouvimos entre o brazileiro, e +Christovão Pacheco de Valladares.</p> + +<p>Quem te ha-de crêr agora, José Francisco Andraens! +Que se te dá a ti da barriga, se tu amas tanto a mulher +predestinada?! Descança, anjo do amor, no teu céo de +duzentos contos, que as filhas dos homens lá irão +buscar-te!<span class="pagenum"><a name="pag_106" id= +"pag_106">[106]</a></span></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_107" id= +"pag_107">[107]</a></span></p> + +<h2>XII.</h2> + +<p>Ai! como elle a amava!</p> + +<p>Quantos Paulos, e Romeos, e Othellos mettidos n'aquella +côdea grossa de José Francisco Andraens! Que requebros +de namorado, e que furias de cioso! Aquella é verdadeira +paixão que ora se refrigera com orvalhos do céo, ora +se calcina nas labaredas do inferno. A paixão de José +Francisco era assim. Ha pouco vimos aquella alma a derramar-se em +blandicias de Petrarcha; agora arripia o vêl-a a espirrar +coriscos da cratera que lá referve dentro.</p> + +<p>Mal Christovão Pacheco sahira, galgando atordoado as +escadas quatro a quatro, José Francisco arrancou de si a +cataplasma d'um impeto que faria lembrar Catão arrancando o +proprio redenho. Saltou para o chão, calçou +<span class="pagenum"><a name="pag_108" id= +"pag_108">[108]</a></span>as mouras escarlates que lhe serviam +á farta de tapete, lançou sobre as espaduas um capote +de camelão de quatro cabeções, enfiou as +mangas do mesmo, e sentou-se á escrivaninha, resfolegando +vaporadas pelas ventas, que nem javali monteado por lebreus. A +criada entrava n'esta occasião com a terceira camada de +linhaça, e fez pé atraz, enfiada de puro horror.</p> + +<p>—Que queres tu, moça?,—mugiu José +Francisco.</p> + +<p>—São as papas...—balbuciou a espavorida +criada.</p> + +<p>—Não quero mais papas. Vai chamar o meu compadre +Amaro, e que venha já de marcha para ir com uma carta a +Margaride.</p> + +<p>O brazileiro escreveu na pojadura da veia. O traslado da carta, +com a authenticidade do de todas as outras, não pude +havel-o, apesar de suadas canceiras que este paiz tão +sovinamente remunera aos indefessos obreiros das suas glorias. O +que pude tirar a limpo foi ser a carta dirigida a Pedro de Mello, +pai de D. Silvina. José Francisco lembrava ao fidalgo a sua +divida de um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta +réis que lhe emprestára sobre hypotheca da quinta da +Lixa. Dizia mais que não podia continuar a remetter as +mezadas para os academicos da universidade. Instava pelo prompto +pagamento do seu credito, ou trespasse da quinta hypothecada. +Ameaçava-o com o poder judiciario, e terminava com estas +quatro linhas, unicas authenticas:</p> + +<p><i>Pr'ámor da sua filha é que é tudo isto. +Se ella andasse direita comigo outro gallo lh'avia de cantar. Assim +o quiz, assim o tenha. Comigo não se manga, e está +arrumada a pendencia.</i></p> + +<p>Ai! se elle a amava!</p> + +<p>A carta partiu, e José Francisco, aplacado o maior +afôgo da convulsão, chamou a moça, pediu uma +tigela de tapioca, e comeu á tripa fôrra.</p> + +<p>Cotejemos agora com os do negreiro os ciumes do morgado de Santa +Eufemia. Egas de Encerra-bodes esperava <span class= +"pagenum"><a name="pag_109" id="pag_109">[109]</a></span>o primo no +hotel, curioso de saber o fim a que o chamára o brazileiro. +Christovão contou lealmente o acontecido, já +barafustando furioso, já enternecendo-se a lagrimas. O de +Matto-grosso descompunha-se em gargalhadas, e nem os prantos do +primo lhe embargavam as guinadas de riso. Começava a +desconfiar o de Santa Eufemia, quando Egas, composto o gesto e a +postura, fallou assim:</p> + +<p>«Um Pacheco Valladares a correr parelhas com um +José Francisco na conquista d'uma mulher! Um neto do +governador de Cochim a disputar meças de merecimento com um +chatim de negros! um moço no mais florido dos annos, gentil +de sua pessoa, sacrificado á mazorral caricatura, que ahi +está symbolisando uma fortuna tão besta quanto +assignalada das vergoadas do látego com que o infame de Deus +e dos homens fazia espirrar sangue das costas dos escravos!... +Primo Christovão, torne sobre si, peje-se d'essas lagrimas +que ahi derramou, e que eu escarneci para não tomar +ignominioso quinhão da sua dôr aviltante para evos e +para vindouros! Que mulher é essa, a neta do +sargento-mór d'Amarante, que anda ahi a chafurdar nos +chiqueiros da sua cubiça um appellido que usurpou? +<i>Mello!</i> Quem lhe deu a ella <i>Mello</i>?! Seu visavô +era Antonio Gonçalves; seu avô era Francisco Antunes +Gonçalves; quem enxertou no pai esse pomposo appellido? +Silvina Antunes é como ella se chama, essa farrapona que +mendiga para uma carruagem e seis vestidos o preço dos +ultimos doze pretos que José Andraens mandou acorrentados ao +mercado. Primo Valladares, neto de Heitor Valladares, bisneto de D. +Mafalda Pacheco e Alvim, açafata illustre da côrte do +snr. D. Pedro 2.º, descendente dos Alvins de Braga, onde casou +o condestavel D. Nuno Alvares Pereira! primo, lembre-se de quem +é, e esmague debaixo das solas das suas botas o +coração, se sente que uma gotta de seu nobre sangue +se ha degenerado no vilipendioso affecto <span class= +"pagenum"><a name="pag_110" id="pag_110">[110]</a></span>que +prodigalisou á esposa promettida de José +Francisco!»</p> + +<p>Este aranzel fez bem ao coração do morgado. Entrou +em si, coçou-se com ambas as mãos algumas vezes, +estirou os braços convulsivos com os punhos cerrados, e +exclamou de golpe:</p> + +<p>—Que a leve o diabo!</p> + +<p>Egas estreitou o primo ao coração com vehemencia, +levantou-o tres vezes em peso, e bradou por fim:</p> + +<p>—Reconheço o meu sangue!</p> + +<p>Sem embargo d'isto, o morgado de Santa Eufemia precisava de ar, +abriu a janella, sorveu tres grandes haustos, e repetiu a phrase +que provára ao de Matto-grosso a identidade da sua +estirpe:</p> + +<p>—Que a leve o diabo!</p> + +<p>N'este comenos, vinha atravessando o largo da Batalha Leonardo +Pires.</p> + +<p>—Lá vem aquelle!—exclamou Egas—Vou +chamal-o para lhe dar a noticia que ha-de ser muito agradavel ao +seu amigo Jorge. Olé! snr. Albuquerque! <i>Psio</i>.</p> + +<p>Pires fez uma continencia militar com o chicote.</p> + +<p>—Suba cá—tornou o fidalgo de +Entre-ambos-os-rios—temos que contar-lhe.</p> + +<p>—Viram aqui passar a Francisca da Cunha?—perguntou +Pires.</p> + +<p>—Não.</p> + +<p>—Ando-lhe na pista, como galgo que perdeu a lebre, que eu +desconfio bem que seja gata, que a minha paixão me dá +por lebre.</p> + +<p>—É muito possivel...—redarguiu a rir o de +Matto-grosso—Suba, e verá que não está +longe da verdade.</p> + +<p>O da Maya circumvagou com a luneta em torno da praça duas +vezes, e subiu.</p> + +<p>—Então que temos?! Dou-lhe parte que o meu +<span class="pagenum"><a name="pag_111" id= +"pag_111">[111]</a></span>amigo Jorge Coelho não tarda ahi, +e que o duello, se os cavalheiros insistirem, ha-de +consummar-se.</p> + +<p>—Quem falla aqui em duello?—acudiu +Egas—Escreva ao seu amigo, e diga-lhe que se deixe estar com +a mãi e com o padre lá na sua aldêa, se +não quizer vêr Silvina, o anjo de candura, de +braço dado com as fronhas carnosas de José Francisco +Andraens...</p> + +<p>—Quem é José Francisco +Andraens?—interrompeu Leonardo.</p> + +<p>Egas de Encerra-bodes compelliu o primo a contar a historia, +que, d'esta feita, não sahiu com intermittentes de lagrimas. +Era de vêr com que graça soez o amante ultrajado ia +já apimentando os sarcasmos detraidores de Silvina, e os +projectos de cynica desforra que elle offerecia ao parecer dos seus +amigos, projectos que, realisados, collocariam José +Francisco n'uma situação tão irrisoria como +bemquista do siso commum, o qual é uma cousa muito ao envez +do que por ahi nos grandes alcouces da opinião publica se +denomina senso-commum.</p> + +<p>O programma do morgado de Santa Eufemia foi applaudido com +razões pouco para se estamparem. Leonardo Pires disse que +não avisava o seu amigo para não perder +occasião de o ter no Porto alguns dias, e cural-o mais +facilmente com a vista do espectaculo hediondo. N'isto, como +estivessem os tres á janella, viram assomar no topo da rua +de Santo Antonio Silvina, e Francisca da Cunha, seguidas de um +criado de farda.</p> + +<p>—Ellas ahi vem!—disse Pires, e sahiu a encontrar-se +com ellas. O morgado de Santa Eufemia, a rasoavel distancia, quando +as damas vinham com os olhos postos n'elle, fez recuar o primo, e +fechou-lhes a janella na cara. Silvina ria tanto como a prima, +quando Pires, com o chicotinho em arco, e quasi aos pulinhos como +funambulo que vai fazer a sorte, se lhe atravessou no caminho, +dizendo:</p> + +<p>—Criado de vv. exc.<sup>as</sup></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_112" id= +"pag_112">[112]</a></span>—O snr. Pires!—disse +Francisca toda graça e affabilidade ironica—Faziamol-o +no seu <i>chateau</i>... Que é feito de si?</p> + +<p>—Agoniso, minha senhora, agoniso.</p> + +<p>—Ai! que funebre vem!—disse +Silvina—póde-se agonisar com esse rosto tão de +vida, e rubicundo?</p> + +<p>—Póde-se padecer muito, minha senhora, com o rosto +rubicundo—replicou Pires—Eu sei de creaturas, +metaphoricamente chamadas humanas que soffrem muito, sem +impedimento das massas de toucinho que as envolvem. Darei a v. +exc.ª um exemplo. Conheço uma metaphora chamada +José Francisco Andraens... (Silvina córou e franziu a +testa) monstro cevado em sangue humano, que elle distilla em banha +e asneiras, o qual monstro,—ninguem o ha-de crêr, minha +senhora—neutralisa o combustivel da paixão com o +refrigerante das cataplasmas de linhaça. Ahi tem v. +exc.ª um exemplo que justifica de sobra a minha agonia.</p> + +<p>—Vamos, prima, que são horas—disse Francisca +da Cunha, condoida do enleio desacostumado de Silvina.</p> + +<p>—Pois sim, vamos—disse esta, corrida de modo, que +incutiria compaixão em homem que não fosse Pires.</p> + +<p>—Dão-me as suas ordens, minhas +senhoras?—disse elle, ladeando—Ah!—continuou +Pires de sobresalto—esquecia-me dizer á snr.ª D. +Silvina que o nosso Jorge vem ahi...</p> + +<p>—Ah! vem?—disse machinalmente Silvina.</p> + +<p>—Vem, sim, minha senhora, a requerimento meu, por que lhe +conheço grande curiosidade de naturalista, e desejo +mostrar-lhe José Francisco Andraens, a hyperbole de +enxundia, monstro, de quem eu tive a honra de fallar a vv. +exc.<sup>as</sup>, e que até ouso recommendar-lhes, para que +vv. exc.<sup>as</sup> admirem não só o bruto, mas o +effeito prodigioso da linhaça.</p> + +<p>O enleio de Silvina redundou em colera.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_113" id= +"pag_113">[113]</a></span>—O senhor, disse ella, +está-me insultando por que eu e minha prima, confiadas na +cortezania da sociedade em que vivemos, sahimos sem um homem, cujo +desforço nos desafronte com honra.</p> + +<p>—Dizes bem, prima—acudiu Francisca, tambem colerica +por contagio—Deixemos o villão.</p> + +<p>Pires, quando lhe voltaram as costas, deu dous passos em +seguimento d'ellas, e tomou-lhes o passo.</p> + +<p>—Continua a petulancia?—disse Silvina +irada—olhe que eu trago um criado!</p> + +<p>—Com libré emprestada, minhas senhoras?—disse +o imprudente fidalgo da Maya, que trazia os ouvidos cheios das +diffamações geanologicas d'Egas de +Encerra-bodes.—Snr.ª D. Silvina, eu fui quem lhe +apresentou a nobre alma de Jorge Coelho, que v. exc.ª quiz +estragar. Empeçonhou-lh'a, mas não ha-de enlameal-a. +Quem vinga Jorge sou eu, Leonardo Pires de Albuquerque. Saiba v. +exc.ª que José Francisco Andraens é meu. Aquelle +problema de carne hei-de desatal-o eu com o escarneo, e v. +exc.ª ha-de ficar submersa nas avalanchas d'aquella montanha +de cebo. Agora nós, snr.ª D. Francisca da Cunha. V. +exc.ª, que só sabe lêr as cartas do linheiro das +Hortas, e que tem tido o indiscreto recreio de me andar +ridicularisando <i>no boudoir</i> das suas dignas amigas, ou se +encastella com o linheiro das Hortas lá no seu burgo de +Traz-os-Montes, ou tem de esconder-se nas rimas de estopa em que +seu futuro esposo lê de pernas ao ar as suas epistolas. Sem +mais.</p> + +<p>Pires, vibrando no ar estalinhos com o chicote, entalou a luneta +no olho esquerdo, e foi expandir o jubilo em folgada palestra com +os morgados, que o espreitavam.</p> + +<p>Silvina, quando entrou n'uma casa nobre de Traz da Sé, +soffreu um insulto nervoso que desabafou em gritos. Queria +Francisca da Cunha consolal-a; mas estava esperando de instante a +instante ser assaltada tambem <span class="pagenum"><a name= +"pag_114" id="pag_114">[114]</a></span>do mesmo insulto. As +senhoras da casa á competencia desfaziam-se em desvelos; mas +Silvina respondia apenas: «hei-de vingar-me!»</p> + +<p>Desiderio Erasmo, como sabem, escreveu a «Apologia da +tontice.» Eu não me afouto a encarecer a de Leonardo +Pires; porém, assim como os regedores das republicas +nobilitam com mercês e titulos não só a +estupidez—isso é o menos—mas a infamia soberba +d'uma opulencia cevada e medrada em cruezas e deshumanidades, que +muito se aventurarmos um voto de louvor a alguns selvagens da +civilisação, doudos providenciaes que atiram a vaza +do insulto a caras já de si tão sujas, que não +ha medo de enferretal-as?</p> + +<p>Alguns homens, como Pires, seriam muito proveitosos n'uma +sociedade como esta. Houve-os sempre com differentes nomes e +appellidos. Na antiguidade, chamaram-se Aristophanes, Diogenes, +Marcial e Plauto; na meia idade eram os prophetas, os padres da +igreja, e, com menos caução de suas prerogativas +censorias, os histriões palacianos. Na correnteza d'esta +geração por excellencia policiada, mas de todas a +mais gafa do que ahi se chama «ridiculo» e do que mais +é para chamar-se lastima, ha muito quem tire a campo de +zombaria os «ridiculos» do mundo; mas ninguem se +vê copiado n'elles, e os copistas de modo o fazem que fique +salvo o orgulho de cada azêmola que fita a orelha ao ornejar +da copia, mas não responde. A isto é o que ahi dizem +«guardar as conveniencias»: á mesma cousa, +chamavam d'antes «guardar as costas.»</p> + +<p>Seja o que fôr, a satyra assim não vinga fructo de +servir á geração que está nem á +porvindoura.</p> + +<p>Satyra prestadia, se alguma houve, é a de Leonardo Pires. +Eis ahi um doudo, que tolos e sisudos lançarão de +suas casas com horror; e todavia qual de nós não +sente um Pires, na consciencia, a travar-se de razões e +murros com a nossa soberba? Seis Leonardos <span class= +"pagenum"><a name="pag_115" id="pag_115">[115]</a></span>activos no +Porto purificavam o ar pestilencial que para alli veiu das terras +de Santa Cruz. Na idade media, os tabardilhos, as pestes +fulminantes; no seculo 16.º o verme roedor que desmedula os +ossos através de vinte gerações que +hão-de lembrar-se sempre de Colombo pelo mimo; no seculo +dezenove, mais que nunca, a peste do Brazil, de que adoecem +espiritos empinados em seu orgulho como o de Silvina e Francisca da +Cunha.</p> + +<p>D'um lado Leonardo Pires; de outro lado José Francisco +Andraens, e o linheiro das Hortas. Quem levará a melhor? +É tola a pergunta. Ha-de ser o linheiro das Hortas, e +José Francisco.<span class="pagenum"><a name="pag_116" id= +"pag_116">[116]</a></span></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_117" id= +"pag_117">[117]</a></span></p> + +<h2>XIII.</h2> + +<p>O apostolico e dicasissimo padre João Coelho, desde +Vallongo até Amarante, excedeu-se a si proprio +prégando ao sobrinho o melhor e a maior parte do que +disseram philosophos, santos padres, moralistas e casuistas +ácerca do amor mundanal e da mulher. Jorge não +replicava, por que o não escutava. O egresso, tomando o +silencio como victoria, tirava dos corollarios theses novas, que ia +defendendo com tamanha profusão de tiradas latinas que, a +ser verdade o que elle disse abordoado a Seneca, Santo Agostinho, +Euzebio cezariense, e Bredembachio, o amor mundanal e a mulher +são cousas muito peores do que pensa o vulgar da gente. +Padre João não era erudito que sómente fizesse +praça dos exemplos que authorisa a historia. O pulso rijo da +engenhosa <span class="pagenum"><a name="pag_118" id= +"pag_118">[118]</a></span>memoria d'elle entrou nas idades +fabulosas e trouxe pelas orelhas certos heroes que os poemas +orphicos e os homeridas nos encamparam como sujeitos apresentaveis +na boa sociedade. Marte, segundo o padre, era um adultero; Apollo +um valdevinos que se andava lamuriando na piugada de Daphne; +Hercules um maricas que fiava de cocoras na roca de Omphale; as +heroinas da odissea, da iliada, e das tragedias de Eschylo um +femeaço impudico e deslavado. Do Olympo desceu padre +João aos antigos imperios, e poz pelas ruas da amargura +Xerxes, Ciro, Dario, Holophernes, Absalão, Sichem, +Salomão, Herodes, Marco Antonio, e muitos outros que pelos +modos não deram boa conta de si, ou as mulheres não +deram boa conta d'elles.</p> + +<p>O leitor de certo se convertia ouvindo o egresso; mas Jorge +Coelho ia tão dentro em si, tão lacerado pelo abutre +da paixão sem esperança, que as palavras do douto +velho lhe eram como esponja de fel e vinagre espremida nas chagas. +Pernoitaram na Amarante, onde chegaram ao fim da tarde do segundo +dia de jornada. Em quanto o egresso entrou no velho templo a fazer +oração a S. Gonçalo e visitar os cubiculos +onde viveram santos varões da sua creação, +Jorge foi sentar-se á beira do Tamega, e ahi rompeu em +pranto desfeito, com os olhos postos nas ondulações +das serranias para além das quaes lhe ficava o Porto. O +padre sahiu indignado do mosteiro praguejando, menos +evangelicamente que de seu costume, contra o governo que permittia +á municipalidade amarantina que as vivandeiras do +destacamento aquartellado nos dormitorios do mosteiro +dançassem ebrias e meio nuas a canna verde e a sirandinha no +refeitorio e na claustra. É de crer que as mulheres +recebessem com galhofa o egresso venerando, cujas botas de borla e +chapéo tricorne deviam de parecer cousa de entrudo ás +bacchantes que a onda da civilisação revessou +<span class="pagenum"><a name="pag_119" id= +"pag_119">[119]</a></span> no remanso dos monges, em quanto outra +engolfou os monges no porto suspirado da sepultura.</p> + +<p>Ahi me vou eu sahindo com o impertinente vêzo de lastimar +os frades! D'esta vez hei-de represar a piedade com que n'outros +livros tenho desdourado, no conceito de muita gente, os meus altos +espiritos de operario que trabalha á candeia do seculo XIX. +Que me importa a mim que nos cubiculos do mosteiro de S. +Gonçalo se alojem as vivandeiras do destacamento, e que na +claustra sobre as cinzas dos frades vão ellas, repletas de +vinho e despejo, dançar a sirandinha e a canna verde? Se eu +disser que no tempo dos frades não se viam semelhantes +desacatos, hei grande medo que me ponderem que outros desacatos +mais attentatorios da religião de Jesus ahi se viram no +tempo em que os frades comiam no refeitorio, e medravam nas cellas, +onde agora coze o seu vinho o mulherio da tropa. Se o padre +João Coelho quizesse, esse é que podia responder a +preceito; mas, para bem do leitor, ninguem n'aquella hora se lhe +atravessou com argumentos, estando elle na estalagem da Amarante, +sentado no escabello, a dizer cousas de sorte magoadas, a respeito +da profanação do convento, que todo o auditorio +chorava, sendo tres das carpideiras as mais lubricas bailarinas da +claustra.</p> + +<p>Entretanto, Jorge escrevia a Leonardo Pires, dizendo-lhe que +resolvera não escrever a Silvina, em quanto lhe durasse a +impressão amarga que recebera das revelações +do tio, impressão immorredoura, dizia elle. Recommendava-lhe +que se informasse da verdade d'aquellas revelações, e +sem piedade lhe transmitisse o excesso de peçonha que havia +de matal-o. Ajuntava elle que já não amava Silvina; +mas que não podia despresal-a; e que entre o amor e o +despreso estava o odio, serpente insaciavel que se lhe enroscara no +coração.</p> + +<p>Esta serpente de que se queixa Jorge Coelho é uma +alimaria a que os poetas de animo socegado chamam <span class= +"pagenum"><a name="pag_120" id="pag_120">[120]</a></span> cupido, +deus de Gnido, de Paphos, e Amor em estilo chão. Permitte a +rhetorica aos amadores enraivados denominar serpente a cousa que +d'um dia para outro se transforma em rola gemedora. Não +é raro encontrar sujeito que tem aninhado no seio um viveiro +d'estas serpentes, as quaes, depois de cuspirem a peçonha, +n'uma carta arrufada, em meia duzia de adjectivos azedos como +malagueta, metamorphoseam-se em pombal de candidissimas pombinhas +que se catam e beijam umas ás outras com langorosos +requebros. Da metamorphose o que fica é a peçonha +instillada e derramada na circulação sanguinea. Na +correnteza do tempo, vem esta peçonha a consolidar-se no +coração, e d'ahi procedem as postemas, que degeneram +em aleijões, commummente denominados scepticismo, cynismo, +devassidão, libertinagem, impudencia, e outras molestias +pegadiças. As rolas e as pombas, desde que o +coração inficionado as afugenta, passam para o +dominio do estilo, e concorrem para que no banquete d'um amor +revelho, gotoso e glutão hajam sempre aves.</p> + +<p>Vem a pêllo fallar da gorda gallinha que padre João +trinchou na estalagem da Amarante, em quanto Jorge Coelho, +recolhido ao seu quarto, se atirava vestido sobre o leito abafando +contra o travesseiro os soluços da afflicção, +que o egresso, tão de boa fé como crente na efficacia +da historia, julgára minorada com a quarta +dissertação que fizera ácerca do amor, segundo +a carne, e nomeadamente do amor em Roma na época dos +Cezares.</p> + +<p>Citou versos de Marcial e Juvenal, como prova de que o amor era +mau em toda a parte; e, sem elle querer, tambem provou que nas +livrarias dos mosteiros entravam livros de moralidade muito +equivoca. A ultima these de padre João Coelho assentava +n'esta proposição de S. Paulo: «Quem não +ama está na morte;» mas tão engenhosamente o +erudito frade torceu o bico ao prego que as conclusões eram +todas contra o baixo amor <span class="pagenum"><a name="pag_121" +id="pag_121">[121]</a></span> terreal, e pregoeiras do amor divino, +que elle orador por sua parte cumpria á risca, sem embargo +de se pascer em delicias na choruda gallinha, em quanto o sobrinho +abafava de dôr no quarto. Esta é a grande vantagem dos +que andam empinados em amores do céo, que nunca deixam de +comer ás suas horas, e de digerirem em regalados somnos a +materia bruta que lhes não pesa na consciencia. Não +ha pois duvidar de Montesquieu (parece que foi) que disse—que +a religião christã, depois de nos felicitar n'este +mundo, nos segurava a felicidade do outro.</p> + +<p>Padre João dormiu nos coxins macios da sua limpa +consciencia; Jorge, apenas o tio se fechou com o breviario, e +adormeceu ao quarto psalmo penitenciario (um egresso repleto de +gallinha cozida a resar um psalmo penitenciario! parece um +paradoxo! Tomára eu saber se David compoz aquellas lastimas +antes que as caricias de Bethsabé o enfastiassem!)... Estas +incisões intermittentes hão-de perdoar-m'as os +leitores que souberem o que é escrever um romance n'um +carcere, onde já não ha carrasco, mas existe o +espirito do carrasco identificado a uma cousa que nós +cá os assassinos e os salteadores denominamos as +<i>authoridades</i>, que medram no cêvo do erario, uns +chamando-se procuradores do rei, outros carcereiros, outros +chaveiros, outros guardas, a mesma familia representando o rei de +theor e modo que fazem odiosa a palavra do symbolo que lhes +legitíma a crueza, a barbaridade que lhes tem ladrilhado o +coração, e muitas vezes a infamia que se abona com a +justiça, essa divina irmã dos anjos, que os cafres +trazem tão nusinha e pustolosa por sobre os esterquilinios +d'elles.</p> + +<p>Agora é que me eu perdi de todo... Perdido devéras +andava aquelle pobre Jorge Coelho, pelas ruas da Amarante em quanto +o padre dormia o somno do justo. Chegou á celebrada ponte, +curvou-se no parapeito, e teve tentação de +precipitar-se. Foi instantaneo o accesso <span class= +"pagenum"><a name="pag_122" id="pag_122">[122]</a></span>de +loucura. Jorge viu a imagem de sua mãi no scintillante +reverbero da lua que se espelhava no Tamega, Levantou os olhos para +o céo, e disse:</p> + +<p>«Ó Providencia Divina! leva esta dôr ao +coração de minha mãi, para que ella, a santa, +peça por mim!»</p> + +<p>Eram onze horas d'aquella formosa noite de Setembro. Soava +apertada nos rochedos a torrente, que scintillava em escamas de +prata. De longe vinha a toada soidosa d'uma flauta que tocava a +chacara popular dos «Dous renegados.» Jorge amava desde +os doze annos os versos maviosos e truculentos d'aquella +canção de amor que chora como anjo e obsecra como +demonio. Proferiu a letra cadenciando-a com a flauta, e rematou +chorando, já não em ancias, mas suavissimamente, como +se o espirito de sua mãi lhe alcançasse do céo +a mercê das lagrimas que desopprimem.</p> + +<p>Um vulto entrou na extremidade direita da ponte: era uma das +mulheres que padre João vira com santa +indignação, a tripudiarem sobre as ossadas dos monges +na claustra. Veiu direita a elle, e pediu-lhe uma esmola. Jorge +deu-lhe tudo quanto tinha. A mulher viu bastantes moedas de prata, +e, estupefacta ou douda de jubilo, nem se retirava nem +agradecia.</p> + +<p>—Vá-se agora, embora, mulher—disse Jorge, sem +enfado, mas desejoso da solidão que tão suave lhe +estava sendo.</p> + +<p>—O senhor dá-me este dinheiro todo?!—disse a +mulher, que os homens chamam perdida, e que não o estava, +nem o podia estar aos olhos do seu Creador.</p> + +<p>—Dou, sim.</p> + +<p>—Bem haja, meu senhor!—tornou ella, com lagrimas na +voz—já tenho com que ir para a minha familia. Eu sou +uma desgraçada, que vim do Algarve, ha tres annos, fugida a +meus paes, com um rapaz meu parente, para casarmos onde podesse +ser. Elle requereu ao commandante; mas não teve +licença para casar commigo; <span class="pagenum"><a name= +"pag_123" id="pag_123">[123]</a></span> eu depois fui +lançar-me aos pés da senhora do commandante, e +consegui licença. Quando estavamos muito contentes, mandei +buscar a minha certidão e mais papeis á terra; mas +disseram-me de lá que nós eramos primos, e não +podiamos casar sem dispensa. Não tinhamos dinheiro para +ella, e fomos vivendo até vêr se Deus dava remedio. +N'este entrementes, o meu primo namorou-se de outra, e deixou-me a +morrer á fome. Agora com este dinheirinho vou já +amanhã para o Porto, e de lá vou n'um hiate para +Tavira, e vou botar-me de joelhos aos pés de minha +mãi.</p> + +<p>—Pois vá, não mude de +resolução, e faça por ser boa +filha—disse Jorge com maviosa caridade.</p> + +<p>—O senhor será um anjo do céo?—disse a +feliz creatura lavada em lagrimas.</p> + +<p>—Não sou anjo do céo, não... +Vá com Deus.</p> + +<p>A mulher retrocedeu, e foi ajoelhar diante de um antiquissimo +retabulo de granito em que na fachada do templo de S. +Gonçalo sobresahem os grosseiros relevos de uma Senhora com +Jesus morto no regaço. Jorge viu, ao clarão sereno da +lampada que pende sobre a imagem, a mulher ajoelhada. Banhou-se-lhe +o espirito de um contentamento, que não poderia existir na +terra, se acima d'este tremedal, não velasse um Deus as +acções do homem que póde erguer-se do seu +rasto até hombrear com os anjos.</p> + +<p>Entre Jorge e aquella peccadora que resava, avultou ainda a +imagem da mulher pura, a mãi, a santa, onde chegára +talvez a revelação das penas do filho. Silvina, +n'esse momento, nada era na vida de Jorge. Nem a poesia da +paixão pôde disputar o espirito do mancebo á +poesia da caridade.</p> + +<p>Entretanto, o varão justo, o padre João Coelho, +acordava com a digestão consummada, voltou-se para o outro +lado, e reatou a nota quebrada de um beatifico ronco.<span class= +"pagenum"><a name="pag_124" id="pag_124">[124]</a></span></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_125" id= +"pag_125">[125]</a></span></p> + +<h2>XIV.</h2> + +<p>As prelecções de historia antiga que padre +João fizera, desde o Porto até casa, não +tocaram o juizo nem o coração de Jorge; mas as +singelas palavras da indulgente mãi, e as caricias dos +irmãos, acalmaram algum tanto a febril paixão do +academico. D. Antonia, de proposito, passou com o filho no adro da +igreja rural, quando, ao fim da tarde, se celebrava dentro um +baptisado. Entraram na modesta igrejinha, e foram ajoelhar no arco. +A viuva, depois que orou, foi sentar-se n'um banco tosco da +capella-mór, e chamou para junto de si o filho.</p> + +<p>—Senta-te aqui, Jorge;—disse ella—quero fallar +com o meu filho ao pé da sepultura de seu pai. Não a +esqueceste ainda, pois não?</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_126" id= +"pag_126">[126]</a></span>Jorge desceu a vista sobre uma das lages +que formavam o estreito pavimento da capella-mór. D. Antonia +continuou:</p> + +<p>—Tenho fé em que o meu coração n'este +lugar, onde ha cinco annos venho chorar todos os dias, te +saberá dizer o que teu bom pai te diria, filho. Se Deus me +não fizer o milagre de ajuntar ao teu espirito mais dez +annos, serão perdidas as minhas consolações, e +tu as tomarás como conselhos importunos...</p> + +<p>—Não, minha mãi...—atalhou Jorge, +commovido pelo terror santo do local, e pela imagem de seu pai, em +cuja fronte morta elle dera um beijo cinco annos antes—os +seus conselhos...</p> + +<p>—São conselhos de mulher, conselhos de mãi, +que quer desterrar da tua alma lembranças d'outra mulher que +me rouba o coração de meu filho. Deus levou-me teu +pai, Jorge; e Deus não me podia enganar quando d'aquella +tribuna, estando eu ajoelhada sobre esta lousa, me dizia que a +compensação da boa alma que chamou para si, eras tu. +Lembras-te d'uns beijos fervorosos que eu te dava, quando erguias +as mãos ao pé de mim n'este mesmo sitio? Não +te deixava eu a face molhada de minhas lagrimas, Jorge? +Lembras-te?</p> + +<p>—Lembro-me, minha mãi... E porque está +chorando agora?—disse compadecido o moço.</p> + +<p>—Parece-me que é saudade das dôres de +então, filho... As de hoje são inconsolaveis... Nunca +tive orgulho peccaminoso, Deus sabe que não; mas orgulho do +meu dominio no teu animo, Jorge, tinha-o muito grande; e agora vejo +que pequeno valor tem o dominio de mãi, logo que um acaso +infeliz depara aos dezoito annos de uma criança os affectos +verdadeiros ou simulados da mulher que nunca se viu, nem conheceu +nos brinquedos da infancia. Isto é triste! A natureza +poderá justificar este vulgar infortunio; mas a piedade e o +dever choram-se, e não ha razão que convença +uma mãi <span class="pagenum"><a name="pag_127" id= +"pag_127">[127]</a></span> a conformar-se com a desvalia em que tu +tiveste os meus rogos durante tres mezes.</p> + +<p>—Eu não desvaliei os seus mandados, minha +mãi—disse Jorge em tom de carinhosa +submissão—Havia uma corrente invencivel que me prendia +á desgraça...</p> + +<p>—E partiu-se essa corrente, filho?... O teu silencio +diz-me que não... Olha, Jorge... se essa mulher fosse digna +de ti, eu dizia-te que me trouxesses para casa mais uma filha; se +ella fosse virtuosa e pobre, seria um thesouro, na nossa casa onde +sobra o necessario; se fosse rica e creada nas regalias da +sociedade, aconselhava-te que a não sacrificasses á +nossa solidão e pobreza comparativa; mas, filho, essa +menina, que te enganou o coração, não tem +virtudes que suppram a riqueza, nem a riqueza que possa compensar o +coração estragado e sem escrupulos do homem, que +não és tu, mercê do Senhor! Antes de teu tio ir +ao Porto, já eu sabia, meu filho, quem era Silvina. Nada +disse ao padre do que sabia, quando lhe pedi que fosse em meu nome +pedir-te que viesses para nós, que te choravamos. Tu sabes +que eu tive uma companheira no convento de Braga, menina de muitas +virtudes, que mereceu a Deus casar com um negociante do Porto. Foi +a ella que eu escrevi pedindo-lhe informações da tua +vida, e não se demoraram. O marido d'esta senhora +procurou-te varias vezes, e nunca pôde encontrar-te. Andavas +perdido na tua cegueira, meu pobre filho! Abre os olhos da tua +alma, e attenta nas lagrimas da pobre mãi que não +póde contar com o amparo de tres meninas, nem ellas contam +com outro amparo senão o teu. Não achas tanta gente +boa a pedir-te amor, filho? Tudo nos queres tirar a nós para +o atirar aos pés de uma mulher que d'aqui a um anno +será na tua memoria apenas um remorso, senão +fôr antes uma vergonha?</p> + +<p>—Uma vergonha!... atalhou Jorge, mais ferido na vaidade +que surprehendido da qualificação.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_128" id= +"pag_128">[128]</a></span>—Pois qual é o nome que +dá o mundo ás paixões que humilham os que as +soffrem, e mortificam uma familia que não espera d'ellas +senão amarguras, desgraças, e abysmos?! Jorge, meu +querido filho, faz um esforço de vontade! Vence-te, que +podes. Ajuda a efficacia das minhas orações. Em nome +d'estas cinzas queridas, peço-te em nome de teu pai, que +tantas vezes me disse, quando te via triste, aos quatorze annos; +«não tires da tua vista este menino, que ha-de +perder-se, se entrar no mundo, d'onde me eu salvei com o teu +amor»; é teu pai que te pede pela minha bocca, Jorge, +esquece essa mulher; não lhe escrevas, os teus amigos que te +não fallem d'ella; absorve-te no meu amor; folga com a +innocencia de tuas irmãs: volta a Coimbra quando o desejo do +estudo renascer no teu animo socegado; entrega-te de novo aos teus +prazeres da caça; restaura a tua saude, que trazes +tão quebrantada; eu pedirei aos amigos da nossa casa que a +frequentem mais a miudo; teu tio ha-de saber conversar com o teu +espirito instruido; compra os livros que quizeres; satisfaz todos +os caprichos que te não arruinem a saude nem a alma; tens a +duas leguas d'aqui uma villa onde ha sociedade, e familias que te +estimam. Lucta, filho, deixa triumphar tua mãi do prestigio +d'essa mulher, que nunca te deu uma lagrima, nem sabe o travor das +que tu me tens feito chorar...</p> + +<p>—Basta, minha mãi—murmurou Jorge, levando aos +labios a mão tremula da magoada senhora—Luctarei, e... +morrerei, se não vencer.</p> + +<p>—Vences, filho, vences! exclamou D. Antonia com a +vehemencia da sua fé e da sua razão.—Vences, +porque Deus não dá ás más +paixões o poder de matarem uma creatura, que póde +desafogal-as nos braços de sua mãi.—E erguendo +as mãos para o altar, disse com a voz +convulsiva—Graças, meu Redemptor!</p> + +<p>Anoitecera. Padre João, que era o vigario da freguezia, +<span class="pagenum"><a name="pag_129" id= +"pag_129">[129]</a></span>andava discretamente passeando no adro, e +entretendo os sobrinhos para não interromperem a pratica, +cujo assumpto elle adivinhara. D. Antonia ergueu-se, tomou a +mão do filho, e sahiu da igreja. No adro, estavam brincando +as tres irmãs de Jorge, a mais velha das quaes tinha nove +annos, e o irmão mais novo que nascera depois da morte de +seu pai. Saltaram os mais novos aos abraços á +mãi, e as duas meninas ao pescoço de Jorge, com +grande alarido. Sentou-se elle nos degraus do cruzeiro do adro, e +tomou para sobre os joelhos as duas meninas, que á fina +força queriam ennastrar-lhe nos cabellos as suas rozas +brancas. D. Antonia contemplava o grupo com o semblante banhado de +alegria. O egresso, debruçado sobre a parede baixa que +contornava o adro, fallava com o mordomo da festa de S. +Sebastião ácerca do numero de padres e do +prégador que devia chamar. Os meninos mais novos já +tinham largado a mãi para apedrejarem as andorinhas que +chilreavam em redor do campanario, cuja sineta unica era movida +debaixo por um cordel, que os pequenos a muito custo respeitavam +por alli estar o tio padre.</p> + +<p>Resolvido o negocio da festividade do orago, padre João +tirou pela corda, e tocou as nove badaladas das Ave-Marias. Todos +ergueram as mãos, e resaram em voz alta. «Ora, Deus +nos dê boas noites.»—Disse o padre. Rodearam-no +os meninos a beijar-lhe a mão, e Jorge tambem depois que sua +mãi lhe deu a fronte.</p> + +<p>Terminado este lance, cuja poesia santa não ha pedil-a a +corações que deram com ella no pégo da lama +brilhante onde dizem que a poesia está, Jorge Coelho fitou +os olhos no occidente, e reconheceu o anoitecer dos seus dias +passados; viu o boleado pardacento das serranias longiquas que lhe +estavam redizendo os pensamentos da sua infancia; ouvia ainda as +vibrações do sino que repicava no baptisado de seus +irmãosinhos, e dobrára na morte de seu pai, +reconcentrou-se; sentiu <span class="pagenum"><a name="pag_130" id= +"pag_130">[130]</a></span>uma secreta amargura que não era +angustia de saudade, nem pavor de previsões afflictivas... +Que era, pois, esse vulto lá muito ao longe, ao pé +d'aquella myriada de estrellas que repontava na cumieira da +montanha? Era a imagem de Silvina ainda perto do céo, porque +de lá vinha cahindo, bella como os anjos que lá +nasceram; e, rebeldes á piedade, á virtude, á +suprema graça, aqui se despenham, e despenhados vencem ainda +disputando ao Senhor as almas immaculadas. Era Silvina, toda de +festa e risos, reptando-o á lucta com um sorriso affrontoso, +e esgares de escarneo ao protesto santo jurado sobre a sepultura +d'um pai, e assellado com lagrimas de mulher sem macula. Era a +visão maldita, a fada inexoravel dos que vem a esta +hecatomba, predestinadas victimas, que o mundo sacrifica e +cospe.</p> + +<p>Era Silvina, sempre Silvina, a dizer-lhe:</p> + +<p>«Que mulher viste mais linda que eu!? Quem te deu philtros +de mais saborosa peçonha!? Vê se te sorriem uns labios +com mais dôces favos de phrases que assignalaram a mais bella +hora da tua vida!»</p> + +<p>Meu pobre Jorge Coelho! Tua mãi não te salva +d'esse captiveiro. Teu pai, esse resgatava-te, se te désse +um lugar no seu leito!... <i>É intransitivo o calix!</i></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_131" id= +"pag_131">[131]</a></span></p> + +<h2>XV.</h2> + +<p>A primeira carta de Leonardo Pires ao condiscipulo dizia que +Silvina ia todos os dias á Foz de carroção, e +almoçava bifes e fiambre no hotel inglez. Ajuntava a isto o +picaresco informador que a menina usava de anquinhas no vestido de +banho, e fazia de nereida saracoteando-se na agua, requebrando-se +em risos e ditos galanteadores aos tritões de baêta +azul que a rodeavam, e sahindo dos braços de Neptuno mui +peneirada aos saltinhos pela praia, que eram umas delicias +vêl-a. Dizia mais, que Francisca da Cunha, ao sahir do banho, +era uma cousa desazada como perua que saltasse de um tanque a +escorrer agua. Este era sempre o estilo do fidalgo da Maya. +Rematava dizendo que o morgado de Santa Eufemia fazia todos os dias +a Silvina o sacrificio de se <span class="pagenum"><a name= +"pag_132" id="pag_132">[132]</a></span> lavar no oceano, dando +grandes urros, e devorando bois assados no hotel da Boa-vista.</p> + +<p>Jorge Coelho tragou este veneno, e odiou o amigo que sem piedade +lh'o vasava no coração. O innocente esperava que +Leonardo lhe enviasse, senão uma carta, ao menos palavras +consolativas de Silvina, incentivos apaixonados á +esperança, lagrimas de saudade e protestos de firmeza +eterna.</p> + +<p>Na segunda carta dizia Leonardo Pires que tendo elle azo de +encontrar-se com Silvina na calçada dos Clerigos, na loja do +snr. Antonio das Alminhas, lhe fallara de Jorge, contando-lhe o +motivo da sua repentina partida para a provincia, com o que a boa +da menina se rira grandemente, dizendo que seria muito de receiar +que o tio padre trouxesse uma palmatoria debaixo da sotaina. A isto +respondera Leonardo—e não duvidamos +acredital-o—que Jorge devéras merecia meia duzia de +palmatoadas, quando sahiu do baile da assemblea, apaixonado por um +anjo que fizera presente das suas azas á gravata do morgado +de Santa Eufemia. E como quer que Silvina redarguisse com +voltar-lhe as costas, Leonardo fôra fallar a Francisca da +Cunha que estava á porta do snr. Antonio das Alminhas, +conversando amores com um linheiro das Hortas, o qual linheiro lhe +estava dizendo que o dia estava muito bonito.</p> + +<p>Jorge Coelho respondia a estas cartas sem fallar de Silvina, e +dizendo pouco de si. Divagava por assumptos tristes, dissabores da +vida que em seu começo tropeça na desgraça; +rebates de saudade d'um tempo que mais não voltaria; os +encantos perdidos do céo, das arvores e das montanhas que +elle amara tanto; a magia do viver em familia despoetisada; o +coração desaffeito das caricias maternaes e já +insensivel ao sabor d'ellas; longos dias, sem um sorriso, +encadeados a noites desveladas sobre livros em que elle, como +Hamlet, não via senão <i>palavras</i>, +<i>palavras</i>, <i>palavras</i>.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_133" id= +"pag_133">[133]</a></span>Na terceira carta dizia Jorge ao seu +amigo que talvez não fosse a Coimbra, porque a saude lhe +minguava com a vontade, e a perspectiva da morte era a visão +mais risonha que o visitava ao cahir da folhagem dos seus bosques, +onde elle passava os dias com um anjo de nove annos, a sua +irmã Angela.</p> + +<p>D. Antonia não entendia o filho. Via-o triste; mas triste +o vira sempre desde criança. Espreitava-o de noite no seu +quarto, e achava-o sempre com os cotovêlos na mesa de estudo, +o rosto entre as mãos, e um livro aberto. Se o interrogava +ácerca da sua saude, Jorge respondia sempre que não +soffria senão o mal-estar da sua doentia +imaginação. A mãi, fiada em suas +orações, esperava o melhor, e agradecia já a +Deus a cura completa de seu filho.</p> + +<p>Padre João, porém, via mais de perto o fio +ás cousas.</p> + +<p>—O rapaz come muito pouco!...—dizia o sagacissimo +egresso á cunhada—Não nos fiemos n'aquelle +exterior pacifico, mana. Alli ha amargura secreta enfronhada n'uns +ares de serenidade, que não é d'aquelles annos. Jorge +está magro, macilento, e não dorme. Debaixo da +janella d'elle encontro a miudo muito papel rasgado. Já pude +concertar uns pedacinhos, e lá encontrei o nome da fada +má, que nos ha-de perder Jorge.</p> + +<p>—Perder!... não diga tal, mano +João!—exclamou a viuva, estorcendo os dedos, e +já com as lagrimas, a fio.</p> + +<p>—Perder, sim!... Mana Antonia, eu já tive vinte +annos, e entrei no mosteiro aos trinta e dous... Vou aconselhal-a. +Quer resgatar o seu filho das ciladas da sereia?... Olhe que +só Ulysses venceu uma vez sereias. Que me conste; desde +Ulysses até nós, as vencedoras são ellas +sempre, quando as victimas as não podem examinar de perto, e +vêr que ellas escondem na <span class="pagenum"><a name= +"pag_134" id="pag_134">[134]</a></span> agua a metade monstruosa do +corpo. (A erudição mythologica do padre nem D. +Antonia poupava!)</p> + +<p>—Então que conselho me dá, +mano?—atalhou a senhora.</p> + +<p>—Quando Jorge der signaes de doença grave, quando +uma ponta de febre lhe accender as faces, mande-o para o Porto.</p> + +<p>—Para o Porto?! Que desproposito é esse!?</p> + +<p>—Deixe-o ir examinar de perto o monstro. Deixe-o cahir na +conta da sua indigna paixão. Deixe-o ir ouvir o descredito +da tal mulher. Ha mulheres como a lança de Pélias: +curam a ferida que fazem. Eu já me arrependi de obedecer aos +rogos da mana. Jorge devia deixar o Porto espontaneamente. Logo que +eu sube que mulher era a tal Silvina, devia abandonal-o a elle +á miseria da sua illusão. A esta hora estava elle +talvez desenganado. Sabe porque? Aqui tenho uma carta do negociante +Ferreira, casado com a sua amiga do convento. Diz-me que Silvina +arranjara a final um brazileiro millionario, tão monstruoso +em corpo como ella é monstruosa na alma. Se Jorge estivesse +a esta hora no Porto, cercado de homens que fazem zombaria das +affeições serias e das ridiculas, curava-se. Aqui, se +lhe eu annunciar as baixezas da Circea que o bestificou, não +me acredita; e, se me acreditar, não temos balsamo que lhe +feche a chaga; verá que elle a rasga mais com as suas +proprias unhas, Mana Antonia, o meu parecer é este. +Não me argumente, que não sabe, nem póde. Se a +sua vontade fôr outra, lavo d'ahi as minhas +mãos...</p> + +<p>D. Antonia foi direita ao quarto do filho, e entrou de +sobresalto. Surprehendeu-o a escrever. Jorge fez um gesto machinal +para entremetter n'outros papeis a folha em que escrevia.</p> + +<p>—Escondes de mim o que escreves, filho?—disse D. +Antonia, com magoada brandura.</p> + +<p>—Não, minha mãi, não escondo...</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_135" id= +"pag_135">[135]</a></span>—Pois eu não +vi?!—tornou ella, sorrindo tristemente.</p> + +<p>—São cartas para os meus condiscipulos.</p> + +<p>—Deixas vêr-m'as, Jorge? Que poderás tu dizer +aos teus amigos, que não dissesses a tua mãi?! Fallas +das tuas amarguras? Conta-m'as tambem a mim.</p> + +<p>—Eu não fallo de amarguras, minha +mãi—disse Jorge, erguendo-se, para afastar a +mãi da banca.—Communico a um amigo os meus estudos, as +minhas impressões de leitura, cousas que não podem +recrear uma senhora...</p> + +<p>—Assim será, Jorge... Tu nunca me mentiste, nem +mentirás, pois não?</p> + +<p>Jorge guardou escrupuloso silencio, respondendo com um tregeito, +que valia tanto como a supplica de perdão.</p> + +<p>N'este momento, apeava no pateo um cavalheiro da villa proxima, +que vinha visitar o academico. Jorge foi logo á sala, a +mãi acompanhou-o até fóra do quarto; e +retrocedeu a examinar os papeis, logo que o viu entretido. Foi +fácil estremal-o dos outros pela frescura da tinta. No alto +da folha, leu estas palavras: «A<small>O ANOITECER DA +VIDA.</small>» Depois seguia assim:</p> + +<p>«Vou d'este mundo, quando custa morrer aos que se estorcem +entre uma saudade e uma esperança. Saudade! de que hei-de eu +tel-a?! E que posso esperar? Quem me dera já as trevas! Esta +luz, que me alumia, é ainda a d'aquelle clarão +infernal do baile. Queria fugir de mim proprio, como de um inimigo. +Não me has-de tu matar, paixão! Morro porque +não podia viver. Se não fosse aquella mulher, era +outra. Eu vejo e palpo a morte ha muitos annos. A fugir da morte, +refugiei-me no coração de Silvina. Porque me disse +ella: «no mundo deve existir a imagem da mulher digna de +senhorear-lhe a alma com a de sua mãi, cuja face eu beijaria +com respeito e ternura de filha?» E como Deus pôde +crear no coração humano para zombaria pensamentos +<span class="pagenum"><a name="pag_136" id= +"pag_136">[136]</a></span> assim! Á mulher infame devia +morrer a memoria das palavras com que se exprime a virtude... +Sinto-me tranquillo... A compensação dos affrontados +é esta. No mal e no bem te reconheço, Providencia +Divina!... Mas o mal para que é? Se é necessaria na +ordem do mundo a ignominia, a crueza, a infamia, a desgraça, +fôra digno da perfeição divina deixar ás +almas inculpadas o galardão de não sentirem a absurda +justiça do Creador.</p> + +<p>«Que és tu, bem? que és tu, virtude?... que +és tu...»</p> + +<p>Aqui fôra interrompido Jorge pela subita entrada da +mãi.</p> + +<p>D. Antonia quasi não entendera o escripto; mas algumas +palavras, as do titulo só, bastaram a compenetral-a de +consternação e terror. Ouviu os passos de padre +João, chamou-o anciada, e mostrou-lhe o papel. O egresso +leu, e respondeu risonho:</p> + +<p>—Não tem de que se lastimar por em quanto, minha +irmã. Isto é um accesso de febre; mas não me +assusta; o que eu receio é a outra que não interroga +a Providencia, e obriga o enfermo a inclinar a face para o seio, e +esperar resignadamente a morte. Vá á sala, que o +hospede quer comprimental-a.</p> + +<p>D. Antonia sahiu, e padre João escreveu o seguinte no +papel que lêra:</p> + +<p>«O pucaro pergunta ao obreiro porque o fez +quebradiço. O oleiro responde: porque eras barro antes de +seres pucaro.»</p> + +<p>«Virtude é o diamante em que se pulverisam os raios +da desgraça. Aquelle é virtuoso que olha em torno de +si, e vê prostradas as calamidades.»</p> + +<p>«O reino de Deus não está em palavras +sonoras; mas em virtudes. (S. Paulo—aos impacientes de +Corintho).»</p> + +<p>«Coração apoucado, sossobra, se não +podes com a tua miseria; mas não abandones a tua memoria a +uma piedade vã, que é quasi uma zombaria.»</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_137" id= +"pag_137">[137]</a></span></p> + +<h2>XVI.</h2> + +<p>Traslado fiel de uma carta de Leonardo Pires a Jorge Coelho:</p> + +<p>«São 6 horas da manhã. Venho do baile do +visconde dos Lagares. Tenho o coração a trasbordar de +amargura! Deixal-o trasbordar, que é uma gotta de absintho +n'um oceano de champagne. Um bago de uva matou Anacreonte. Eu +sinto-me triplicar de existencia na uva. <i>Evohé!</i> Como +a vida é linda! que vergeis de flôres recendem +á tona d'este lamaçal! Vem cá, Fortuna! +Schakspeare chamou-te prostituta. Linda, vem cá, que eu bem +te vi no baile, como o poeta inglez te via nos paços e nas +tavernas! Senta-te aqui nos meus joelhos, impudica! Solta d'essa +larynge recozida de alcool um dithyrambo! Ri-te commigo, e +não me venhas dizer que és filha da Providencia, +infame blasphema!...</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_138" id= +"pag_138">[138]</a></span>Cançou-me o folego, Jorge! O meu +vinho nunca foi para grandes apostrophes. O descriptivo é o +meu forte.</p> + +<p>Fui ao baile. Pude lograr a causa da moral publica. Deves +presumir que estou desacreditado no Porto, e em vesperas de um +duello. Sou o varão justo a braços com a adversidade: +<i>vir fortis cum mala fortuna compositus</i>—a maravilha que +punha Seneca em extasis! O champagne do visconde é +litterario como as aguas da Aganippe. Que abundancia de pegasos eu +vi beber na sala da ceia, e apparecerem Homeros na sala do +baile!</p> + +<p>Pedi a quatro conhecidos que me arranjassem convite. Era +impossivel. O visconde respondia que eu era um <i>bolas</i>, que +descompozera no largo da Batalha uma menina, noiva de um seu amigo. +Eis que encontro o João da Thereza da Cancella! Este +João é meu caseiro ha cincoenta annos. Vê-me, +corre a abraçar-me, e exclama: «Fidalgo, o meu +Francisco chegou!»—«Quem é o teu +Francisco, amigo João?»—«O meu +Francisco—tornou elle—que estava no Maranhão! +pois não sabe?»—«Não sabia... Vem +rico?»—«Rico como um +burro!»—«Está bom; estimo; é +barão de...?»—«Não, senhor; +barão ainda não é; mas está aquartelado +em casa do snr. visconde dos +Lagares.»—«Sim?!»—«É +como digo, fidalgo, e, pelos modos casa-lhe com a filha; é +arranjo tratado já lá do +Brazil.»—«Fazes-me um favor, +João?»—«É pedir por +bocca.»—«Teu filho será capaz de me +arranjar que eu seja convidado para um baile que vai dar o visconde +amanhã?»—«Que remedio tem elle, +senão arranjar?! Quem foi que lhe pagou a passagem para o +Rio senão o paisinho do fidalgo?!»—«Vai +depressa, e volta aqui com a resposta.»</p> + +<p>Meia hora depois, voltou João da Thereza da Cancella, com +a carta, e disse-me: «Olhe que o homem não queria dar +o officio; foi preciso eu dizer que dava duas libras por elle, +sendo preciso; o meu Francisco chamou-me<span class= +"pagenum"><a name="pag_139" id="pag_139">[139]</a></span> bruto, e +depois lá se mexeram como poderam, e aqui tem.»</p> + +<p>Dei um abraço democrata no meu caseiro; procurei os meus +quatro conhecidos, mostrei-lhes o cartão, e fiz o elogio do +seu valimento d'elles.</p> + +<p>Apenas entrei no baile, fui comprimentar a viscondessa, que +fallava com Silvina. Esta, quando me viu, resfolegava como se eu +fosse uma grande botija destapada de vinagre de sete +ladrões. Retirei-me a rir, e, na reviravolta impetuosa, bati +n'uma grande esponja: era José Francisco +Andraens.—Perdão!—disse-lhe eu. José +Francisco grunhiu, e enviezou-me um olhar +sanhudo—Perdão!—tornei eu. O cerdo poz as +mãos na linha hemispherica do seu globo, constituiu-se vaso +etrusco, e regougou: «O senhor anda a embarrar pela +gente?!»—Foi uma <i>embarração</i> +inopinada, snr. Andraens!—repliquei eu—Se lhe offendi +os tecidos, desculpe-me.—«Estes meliantes...» +disse o brazileiro, e foi-se embora.</p> + +<p>Adiante encontrei os morgados de Santa Eufemia, e de +Matto-grosso.</p> + +<p>—Que ha de novo?—perguntei eu.</p> + +<p>—O casamento de Silvina com o brasileiro está +definitivamente tratado—disse-me Egas de +Encerra-bodes.</p> + +<p>—Com o brazileiro?</p> + +<p>—Com o brazileiro. Veiu ahi o pai d'ella; expoz á +filha as vantagens do casamento, e ella poz os olhos no céo, +e disse:—cumpra-se a vontade do Senhor,... e a de meu +pai!</p> + +<p>—E cá o amigo Christováo Pacheco que diz a +isso?—perguntei eu, voltando-me para o de Santa Eufemia, em +quanto Egas ria estrondosamente.</p> + +<p>—Eu digo—respondeu elle—que já +cá botei as minhas contas, e que hei-de tourear o tal +José Francisco!... Estou civilisado;—cá o primo +tosqueou-me o pello.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_140" id= +"pag_140">[140]</a></span>—Vi-te n'aquelle momento, meu caro +Jorge. Vi a tua candida alma, n'esse ermo, a penar, em quanto a +vil, que te mentira o apunhalara, se andava alli glorificando de +que a indigitassem como futura quinhoeira dos duzentos contos do +negreiro. Fervia-me o sangue em borbotões de raiva. Jurei +tirar alli uma vingança em teu nome, a vêr se me assim +despenava da culpa de te apresentar, de te immolar aos rasos +instinctos d'aquella mulher. Busquei ensejo de fallar-lhe; mas ella +evadia-se, não largando nunca o braço de um ou outro +homem. O millionario, filho do João da Thereza, levou-me +á casa da ceia, e serviu-me tres copos de um vinho que tinha +um nome barbaro. Abrazou-me as arterias; mas a minha raiva medrava +nas chammas como a salamandra. Tornei ás salas, encontrei +Francisca da Cunha pelo braço do linheiro das Hortas; parei +diante d'elles, e disse, com a solemnidade do +estilo:—Boccacio e Fiammentta! Bettina e Goethe! Fornarina e +Rafael de Urbino!</p> + +<p>O linheiro, voltou-se para Francisca e +murmurou:—Não conheço este sujeito.</p> + +<p>Eu continuei: Beatriz e Bernardim!</p> + +<p>—O senhor está enganado comnosco—disse o +linheiro na sua boa fé de linheiro. Francisca, tirou-lhe +pelo braço com força, e afastaram-se. Não sei +o que lhe ella segredou. O homem, pouco depois sahiu-me de cara, e +disse-me:</p> + +<p>—V. s.ª parece que, ha bocado, me quiz insultar.</p> + +<p>—Eu não o quiz insultar ha bocado, senhor... como +é a sua graça?</p> + +<p>—Eu chamo-me Antonio José Guimarães.</p> + +<p>—Pois senhor Antonio José Guimarães, como +passou?</p> + +<p>O linheiro açafroou-se, mediu-me tres vezes +perpendicularmente, e disse:</p> + +<p>—O senhor ha-de dar-me uma satisfação.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_141" id= +"pag_141">[141]</a></span>—N'esse caso, satisfaça-se, +e, quando estiver satisfeito, avise-me, snr. Antonio.</p> + +<p>—Na rua nos encontraremos.</p> + +<p>—Pois sim, repliquei eu, na rua nos encontraremos. O snr. +Antonio quer duello a todo o trance e sem misericordia? Eu +não me bato com armas brancas nem pretas. O snr. Antonio, +como tem a materia prima de casa, leve uma corda, que o hei-de +enforcar.</p> + +<p>O linheiro ficou chumbado ao tapete, e suava como uma abobora +porqueira em manhã de orvalho.</p> + +<p>Tocou á ceia. Entrei na sala. O champagne estalava. Os +crystaes retiniam. Os talheres tilintavam. Eu tinha no craneo a +musica das espheras. José Francisco Andraens ia atamancando +um empadão de pombos, cujos arcabouços lhe pendiam +das belfas em fragmentos. Silvina defrontava com elle, e comia a +duodecima Sandwich. Estavam tres perús, ou seis, ou +não sei quantos perús intactos na mesa. Fui +collocar-me atraz de José Francisco Andraens, e chamei um +servo agaloado de prata. O snr. commendador +Andraens—disse-lhe eu a meia voz—quer que vossê +leve um d'estes perús de mando d'elle áquella senhora +que tem uma grinalda de flôres brancas. Disse e fui +collocar-me a pouca distancia de Silvina.</p> + +<p>Chegou o criado com a travessa, e disse:—Minha senhora, o +snr. commendador Andraens manda isto a v. exc.ª</p> + +<p>—Isto a mim!—tartamudeou ella entre admirada e +vexada.</p> + +<p>—Sim, minha senhora, a v. exc.ª—teimou o +criado.</p> + +<p>Silvina pregou os olhos abrasoados em José Francisco, que +lhe abria um sorriso apaixonado por entre o costado d'um pombo. Ao +sorriso respondeu ella com um tregeito de colera. Cheguei ao ouvido +de Silvina, e segredei-lhe:</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_142" id= +"pag_142">[142]</a></span>«Minha senhora, José +Francisco envia-lhe um suspiro d'alma; e como a alma de José +Francisco é uma ucharia, os suspiros de José +Francisco são perús.»</p> + +<p>Quando Silvina volvia os olhos fuzilantes, tinha eu +desapparecido. Fui ao ouvido de José Francisco, e disse-lhe +á puridade:</p> + +<p>—A sua noiva está indignada de o vêr comer +assim! Sacrifique a Cupido o oitavo pombo, amigo José.</p> + +<p>O que decorreu depois d'isto, não sei dizer-te meu caro +Jorge. A minha cabeça não podia já com encargo +da chronica até final: sahi. O ar fresco da madrugada, que +aspirei até ás cinco horas, restituiu-me á +bestial vida commum. Não posso mais.</p> + +<p>—Resta-me dizer-te que, se choraste uma lagrima por +Silvina, envergonha-te de chorar segunda.</p> + +<p>Adeus. Teu</p> + +<p class="direita">L. P<small>IRES.</small>»</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_143" id= +"pag_143">[143]</a></span></p> + +<h2>XVII.</h2> + +<p>Verificaram-se os presagios do padre João. Jorge, depois +da ultima carta d'aquelle singular e diabolico Pires, quiz +reanimar-se, e já não pôde. Debil de +compleição, quebrantado de insomnias, sorvido +incessantemente na funesta scisma de que não havia ahi na +terra voz humana que o chamasse ao amor da vida, nem no céo +misericordia que o remisse da immerecida pena, Jorge, sem um +queixume, sem uma lagrima, sem dar de si incentivo á piedade +dos seus, desculpou-se com um ligeiro incommodo, e ficou um dia no +leito. A pobre mãi alvoroçou-se, e com ella toda a +familia, que via chorar. Veiu logo a sciencia que trata +magistralmente dos achaques do estomago, e d'outras visceras +nobres, e declarou que a molestia do doente era cousa moral, +paixão, hypocondria, <span class="pagenum"><a name="pag_144" +id="pag_144">[144]</a></span>ou romance. O facultativo capitulou +assim a enfermidade com um sorriso supicaz, e disse á viuva +que não era nada aquillo, e ao padre, piscando o olho, +acrescentou que era aquella uma das feridas que se curam com o +pello do mesmo cão. Chiste de cirurgião de +aldêa.</p> + +<p>D. Antonia recobrou-se do seu desmaio; mas o egresso entrou em +maiores cuidados.—Para o Porto, e sem demora, o +rapaz—disse o padre á cunhada.</p> + +<p>—Mas o cirurgião não receia, nem Jorge se +queixa...—acudiu D. Antonia, temerosa da +separação.</p> + +<p>—Deixe fallar o cirurgião, senhora. Seu filho morre +sem se queixar.</p> + +<p>—Não me diga isso!...—exclamou a mãi +consternada.—Pois as suas palavras tão persuasivas, +mano, e a religião não hão-de poder nada?</p> + +<p>—A religião póde muito: se elle fizer uma +confissão contricta, e morrer com sincera dôr dos seus +peccados, a religião encaminha-o para Deus; mas o que +nós queremos é que elle viva. Que me responde a isto, +mana Antonia?</p> + +<p>—Eu antes o queria com Deus, que perdido no +mundo—disse ella suffocada pelos gemidos.</p> + +<p>—Respondeu acertadamente; mas a supposição +de que Jorge se perde no mundo, acho-a exagerada. Deixe-o ir onde +elle se envergonhe de padecer, que eu lh'o dou por salvo. Torno a +repetir-lhe, mana, que eu fui homem antes de ser frade, e a senhora +foi sempre o que é—uma alma cheia de innocencia, de +bondade, e de ignorancia.</p> + +<p>—Pois bem, meu amigo, faça o que entender, mas +salvem-me o meu filho.</p> + +<p>—Aceito o encargo com uma condição: a mana +não chora mais uma só lagrima na presença de +seu filho; finge acreditar que elle precisa de banhos do mar; exige +que vá já para o Porto, e de lá para Coimbra, +se <span class="pagenum"><a name="pag_145" id= +"pag_145">[145]</a></span>fôr vontade d'elle ir a Coimbra +este anno. Conforma-se com isto?</p> + +<p>—Com tudo que de mim quizerem—murmurou ella +enxugando as lagrimas.</p> + +<p>—Agora cuide da bagagem de Jorge, que eu vou +fallar-lhe.</p> + +<p>Jorge Coelho estava sentado na cama, lendo a <i>Nova Heloisa</i> +de J. J. Rousseau. O egresso foi de mansinho ao pé do leito, +tirou pausadamente os oculos d'um enorme estojo escarlate, +montou-os na ponta do nariz, abriu e arredondou os beiços, +pendido o queixo, e examinando o livro, disse:</p> + +<p>—Era um grande homem esse Saint-Preux, ó +Jorge!...</p> + +<p>—Pois o tio conhece Saint-Preux?!</p> + +<p>—Relacionei-me com esse cavalheiro e com outros da sua +estofa ha bons quarenta annos. Nunca t'o apresentei, quando +praticavamos litteratura, por que sempre entendi que o ias +encontrar a Coimbra, de parçaria com os muitos filhos que +elle gerou para amparo de muitas Heloisas novissimas, de que +está inçado o mundo, graças ás +novellas, e ao descredito a que baixou a roca e o fuso. Que carta +lés?</p> + +<p>O egresso levantou o nariz com os oculos á linha +horisontal dos olhos, e leu algumas linhas da pagina.</p> + +<p>—Ah!—continuou elle—trata do suicidio... +Está mui atiladamente debatida a questão por uma e +outra parte. O Rousseau era mestre em paradoxos; e sabia bastante +de musica; mas os paradoxos dava-os de mimo á humanidade, e +para elle guardava a vida com todas as suas paixões +villãs, mal resguardadas por uma côdea de soberba e +orgulho. Ensinava o mundo a educar os filhos, e mandava os d'elle +para a roda. Atassalhava a impudicicia do seu confrade Voltaire, e +escrevia as suas <i>Confissões</i>, com esqualido recheio de +desvergonhamentos, para prova de que até o impudor tem a sua +<span class="pagenum"><a name="pag_146" id= +"pag_146">[146]</a></span>soberba. E depois, meu sobrinho, o +philosopho, a luminaria do seculo, vendo que a ulcera, aberta no +coração da sociedade pelas más doutrinas, ia +lavrando, defendeu de concerto com os seus tresvalios, uma these +apologetica da ignorancia... Vou-me alongando, e já receio +de ter dito de mais. Isto são reminiscencias das minhas +leituras de ha quarenta annos. Quando orçares pelos +sessenta, Jorge, has-de abrir a tua <i>Nova Heloisa</i> n'essa +pagina, e has-de rir da impressão, que te magoava, quando a +lêste, aos vinte annos.</p> + +<p>—Não me sinto magoado por impressão alguma, +meu tio—disse Jorge, sorrindo, e depondo o livro.</p> + +<p>—Não mintas, meu sobrinho—tornou o padre com +branda severidade—Faz quanto em ti couber por salvar dos teus +temporaes desfeitos do coração, o melhor thesouro +d'elle, a <i>verdade</i>, filho. Sofres, e soffres muito, Jorge. +Pensas em morrer, e dás de bom grado a tua vida a Deus, se +é que a Divina Providencia transluz nas tuas +imaginações negras. Não te culpo, rapaz de +vinte annos. O mesmo seria culpar-te e reprehender o naufragado que +não soube salvar-se. Nem de fraco te accuso. Se eu quizer +que uma tenra vergontea, dobrada pelas minhas mãos, se +levante commigo, não hei-de molestar-me se me chamarem +insensato. No mais verde dos annos, não responde o mancebo +de suas fraquezas: a sociedade que responda por elle, e o +temperamento tambem. Isto do <i>temperamento</i>, digo-to aqui +muito á puridade, que nós cá, os theologos, +não queremos ceder nada aos temperamentos. Ora vamos, Jorge, +a pé d'essa cama!</p> + +<p>—A pé!—disse Jorge—e poderei eu?!</p> + +<p>—Pódes porque queres. Hoje e ámanhã +de convalescença; depois de ámanhã para banhos +do mar.</p> + +<p>—De que me servem banhos de mar, meu tio?</p> + +<p>—A resposta é do fôro da medicina. Vaes para +o Porto. Hospedas-te em casa de D. Marianna Ferreira, a +<span class="pagenum"><a name="pag_147" id= +"pag_147">[147]</a></span>amiga da creação de tua +mãi. Vaes do Porto á Foz tomar o teu banho. Se, no +fim do mez, quizeres ir frequentar o primeiro anno juridico, vai; +se não quizeres, fica o inverno no Porto, e vem para casa em +Maio, caso tenhas saudades nossas e da primavera dos teus +arvoredos.</p> + +<p>—Peço licença—disse Jorge com amargura +sincera—para contrariar a vontade de meu tio.</p> + +<p>—Teu tio não concede a licença pedida.</p> + +<p>O moço fitou os olhos nas mãos cruzadas sobre o +seio, e não respondeu. O egresso lançou-lhe sobre o +leito o fato, e sahiu, dizendo:</p> + +<p>—Vou mandar pôr o teu talher na mesa.</p> + +<p>Jorge disse entre si:—Morrer aqui ou lá... que +importa?</p> + +<p>Na passagem do seu quarto para a casa de jantar, Jorge recebeu +de um criado duas cartas. Uma era de Leonardo Pires; o sobrescripto +da outra fez-lhe uma convulsão: era de Silvina. Abriu, e leu +o seguinte:</p> + +<p>«Não sei que mal fiz a v. exc.ª para +merecer-lhe uma vingança tão baixa! Collocou ao meu +lado um insultador petulante que me vexa em toda a parte. Que fiz +eu ao snr. Jorge Coelho?</p> + +<p>«Aceitei os seus galanteios com amor, e aceitei o seu +abandono com paciencia. Que queria que eu fizesse para não +ser insultada pelo seu amigo? Diga-me se é necessario +pedir-lhe perdão de ter sido abandonada. Não +hesitarei em fazel-o com tanto que v. exc.ª me garanta a +certeza de que não serei injuriada nas praças e nos +bailes. De v. exc.ª—eu muito respeitadora, <i>Silvina de +Mello</i>.»</p> + +<p>Jorge cahiu extenuado n'uma cadeira: a orla roixa das palpebras +fez-se negra; apanharam-se-lhe as faces, como se a doença, +em poucos minutos, progredisse mezes. D. Antonia vinha chamal-o, e +encontrou-o assim, com a carta na mão tremula.</p> + +<p>—Que tens, meu filho?—clamou ella ajoelhando diante +d'elle, e abraçando-o.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_148" id= +"pag_148">[148]</a></span>—Nada, minha mãi, é +fraqueza... Não chore, por piedade, não chore, que eu +estou bem.</p> + +<p>E, erguendo-se com vacillante esforço, foi para a mesa. +Forcejou por comer; mas as lagrimas cahiam-lhe das faces no prato, +e a violencia não conseguia desentalar-lhe a garganta.</p> + +<p>—Que é isto?—disse o egresso.</p> + +<p>—Foi uma carta...—respondeu D. Antonia.</p> + +<p>—Não é nada, meu tio. Recebi uma carta que +me fez mal. A impressão gasta-se, e eu d'aqui a pouco estou +bom. Agora pedia licença para me erguer da mesa, e dar um +passeio no jardim.</p> + +<p>—Vai—disse o padre.</p> + +<p>—Eu vou comtigo, meu filho—acudiu a mãi +levantando-se.</p> + +<p>—Não vai, mana; deixe-o ir sosinho.</p> + +<p>Eram imperiosas as palavras do padre: D. Antonia sentou-se. +Jorge desceu ao jardim, e foi sentar-se n'um banco de +cortiça encostado a um maciço. Abriu a carta de +Pires, que resava assim:</p> + +<p>«A Providencia não é uma mentira. +José Francisco Andraens apanhou uma indigestão de +pombos, salame e salmão no baile do visconde, e está +em risco de rebentar. Eu estou de atalaia a vêr quantos Jonas +sahem d'aquelle bojo! O morgado de Santa Eufemia veiu dar-me a +noticia, jubiloso, como quem espera empalmar Silvina, extincto o +bruto. O qual bruto já se confessou, a vêr se a gente +se persuade que existe uma alma n'aquellas cavernas de sebo!</p> + +<p>Parte o correio.</p> + +<p class="direita">Teu do intimo</p> +<br> + +<p class="direita"><i>L. Pires.</i>»</p> +<br> + +<p>«<i>P. S.</i> O linheiro das Hortas ainda não +appareceu com a corda.»</p> +<br> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_149" id= +"pag_149">[149]</a></span>Se a carta de Silvina fosse uma dorida +invocação ao amor de Jorge, simulando razões e +desculpas, ou accusando o silencio do desleal amante, que a +despresara sem motivar o menospreso immerecido, é de +presumir que o brioso moço nem respondesse á carta, +nem se doesse dos hypocritas queixumes de uma caprichosa estouvada. +Porém, o estilo, assim magoado como arrogante d'aquella +carta, turvou de tal sorte a cabeça e o +coração do academico, que já elle a si mesmo +se accusava de indiscreto, de ingrato e de extremamente facil em +acreditar o tio. E—o que é mais é—sentiu +rancor áquelle leal amigo da Maya, que, por conta d'elle, se +andava expondo no Porto a ser expulso de todas as casas!</p> + +<p>Quantas idéas lhe occorreram todas advogavam a innocencia +de Silvina. Absolvida e amada eram a mesma cousa. Agora já a +esperança de ir vêl-a ao Porto lhe era um desafogo, e +não sei mesmo se contentamento. O pobre moço, como +nem sabia se quer contrafazer-se, denunciou nos exteriores de +inquieto regosijo quanto a resolução do tio lhe era +grata. A mãi, compondo a roupa no bahu, chorava sempre; os +irmãos choravam ao pé d'elle, e elle fugia de todos +para que o não vissem alegre.<span class="pagenum"><a name= +"pag_150" id="pag_150">[150]</a></span></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_151" id= +"pag_151">[151]</a></span></p> + +<h2>XVIII.</h2> + +<p>O leitor é uma pessoa de juizo limado e +occupações serias. Estou que não lê +romances de ninguem, e muito menos os meus, que são +escriptos em lingua portugueza e modelados em cousas de Portugal, +onde é sabido que não ha imaginação que +invente a novella, nem modos de vida que saiam bem no romance. +D'onde vem que o romance portuguez, se não é copia do +estrangeiro, e aborrecida inverosemelhança, orça por +cousa peor, que é a semsaboria.</p> + +<p>Eu tenho escripto alguns volumes de semsaborias: creio que +são vinte e tantos. Entre estes, mergulharam de cachapuz no +rio</p> +<br> + +<p class="centrado"><i>do negro esquecimento e eterno somno</i></p> +<br> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_152" id= +"pag_152">[152]</a></span>tres livros denominados: O<small>NDE +ESTÁ A FELICIDADE</small>—U<small>M HOMEM DE +BRIOS</small>—e a V<small>INGANÇA</small>.</p> + +<p>N'estes tres romances figura um homem, ao qual eu nunca puz +nome. Umas vezes chamei-lhe poeta, outras jornalista, outras +litterato, e assim fui aguentando com embaraços da +composição, mas venci a minha. Custava-me a +falsificar o nome d'um homem que copiei com esmeros de rigorosa +fidelidade; figurava-se-me irreverencia o que em si não era +senão escrupulo banal. Ainda agora me deixo levar da +criancice, e não acabo commigo dar um nome qualquer ao +homem. Quer-me parecer que ha uns longes de poesia n'este segredo. +Diga o leitor que é tolice, e saldemos assim as contas +amigavelmente: eu dou-lhe a troco da injuria esta +revelação da minha crendice, e guardo as chimeras +como o homem de boa fé guarda o tôco de cera benta +para se alumiar á hora da morte.</p> + +<p>Pois é verdade. Aquelle poeta era o amigo de Guilherme do +Amaral e de Augusta.</p> + +<p>Espectros sombrios, memorias queridas e amargas da minha alma em +infancia de illusões, passai um instante luminosos na +escuridade d'esta recamara da sepultura, onde até a lampada +da esperança se vai extinguindo na mão do anjo do +conforto! Vinde a mim, corações amigos, cujas +lagrimas eu vi, e contei uma a uma, quando apenas tinha a +intuscepção da alma, predestinada ao vosso fel, para +lhes avaliar o travo. Na vossa mortalha foi o melhor da minha vida, +o crêr nas promessas do coração, nos levantados +desejos do espirito que não caiam á terra sem se +infamarem; foi comvosco a fé na religião da poesia, +que era a minha fé unica, porque não havia crêr +nem sentir em mim em que não estivesse Deus, que eu +convidava, sem temor sacrilego, a gosar-se das delicias que eram +d'elle, creações suas, umas sujas, outras empestadas +pelas mãos dos homens! Comvosco foi o meu ultimo dia de +oração, a minha ultima acção de +<span class="pagenum"><a name="pag_153" id= +"pag_153">[153]</a></span>graças, a palavra final da +profissão de fé, que devia, a meu vêr, +remontar-me ao céo, e que, ao revez das mais espirituaes +theorias de Platão, de Socrates, de Jesus, e de todos os +Messias da redempção das almas, deu commigo em baixo +n'um golfão de lama, onde ha o ranger de dentes d'estas +bestas feras, que até na lama sustentam o egoismo da sua +propriedade!</p> + +<p>Ó visões immorredouras, que me ensinastes o amor e +o sentimento, e levastes comvosco o segredo de morrer antes do +longo paroxismo do tedio da vida, vós bem vistes com que +saudosa unção eu vos offertei dous livros e um ramo +de perpetuas, que valiam mais que os livros, e menos que esta +pagina em que bem vedes com que fervor me atrevo á prosa +d'estes annos, á mofa d'estes industriaes, que me +estão perguntando se a apostrophe ha-de ser muito comprida, +para tomarem fôlego, e accenderem o seu charuto.</p> + +<p>Pois accendam o seu charuto, e retirem-se as almas evocadas, e +mais os romances, que não tem que vêr com elles o +leitor, que tanto conheceu as almas, como se lhe dá dos +romances.</p> + +<p>Veiu isto a ponto de estar aqui já comnosco o amigo de +Guilherme do Amaral e d'aquella Augusta por quem choram as +flôres do Candal, e as almas desamparadas d'aquelles que... +Lá ia já sahindo outra tirada de sentimento. É +enguiço, que me ha-de retirar a protecção de +muita gente boa, que não precisa de lêr um folhetim +para convencer-se do seu direito de espriguiçar-se, e voltar +a gazeta de costas, e calcular perspicuamente as +relações economicas que podem dar-se entre a alta do +cravo dito girofe e a baixa do cacau.</p> + +<p>Ora ahi vai agora o conto direito. O antigo jornalista, amigo da +defuncta baroneza de Amares, estava no Porto de visita em casa de +Bernardo Joaquim Ferreira, ahi nos ultimos dias de Outubro de +1855.</p> + +<p>D. Marianna, esposa do snr. Ferreira, e suas quatro <span class= +"pagenum"><a name="pag_154" id="pag_154">[154]</a></span>filhas, e +dous meninos, e varias outras pessoas, estão sentadas em +roda de uma grande mesa jogando o quino. O jornalista está +sentado n'um sophá, conversando com o dono da casa, sobre +cousas do Brazil, d'onde o primeiro tinha vindo depois de cinco +annos de ausencia. A conversação foi interrompida +pela entrada de uma filha do snr. Ferreira, que a mãi e +irmãos receberam com muitas vozes de alegria, ás +quaes ella respondeu dando um beijo na fronte da mãi, e +outro nos labios das irmãs. Com a bem vinda entrou tambem o +marido. O litterato, já de pé, deu dous passos, e +disse á dama que entrára:</p> + +<p>—Quero vêr se me conhece ainda, minha senhora.</p> + +<p>—Se o conheço!—exclamou Rachel.—O mesmo +que foi para o Brazil; o mesmo que era ha cinco annos... Não +se admire da nenhuma surpreza com que lhe fallo porque eu já +sabia que o vinha encontrar. A mãi, quando o senhor chegou, +mandou-m'o dizer para a quinta, e deu-me sempre noticias suas. +Agora pertence-me a mim perguntar-lhe se me acha muito mudada.</p> + +<p>—Quando, ha cinco annos, me despedi de v. +exc.ª—disse o poeta—se bem me recordo, tive a +honra e o prazer de ser propheta, dizendo-lhe que a viria encontrar +cinco, dez, ou vinte annos depois, bella como a deixava, minha +senhora. Noto-lhe apenas uma differença sensivel.</p> + +<p>—Qual?—perguntou D. Marianna com solicitude de +mãi.</p> + +<p>—Acho-a mais bella—respondeu o poeta.</p> + +<p>Por entre os dizeres usuaes que vem sempre depois de um dito +feliz como aquelle, ouviu-se a voz aspera do snr. Manoel Pereira, +marido de Rachel, dizendo:</p> + +<p>—Então, vamos a isto?—E escolhia +cartões do quino.</p> + +<p>Queria dizer na sua o snr. Manoel Pereira que bastava já +de comprimentos, em que a formosura de sua <span class= +"pagenum"><a name="pag_155" id="pag_155">[155]</a></span>mulher era +encarecida por um homem da antipathia d'elle.</p> + +<p>As senhoras sentaram-se, e Rachel, obrigada, pela +indicação do marido, ficou com as costas voltadas +para o jornalista.</p> + +<p>—Não vem jogar?—disse Rachel ao hospede.</p> + +<p>—Vou, sim, minha senhora.</p> + +<p>As damas deram-lhe lugar immediato a Rachel. Manoel Pereira +estorcegou machinalmente um cartão entre os dedos convulsos, +e fez-se escarlate, cravando os olhos no rosto descuidado de sua +mulher.</p> + +<p>O jornalista viu tudo isto, e riu-se para dentro.</p> + +<p>Agora descreve-se Rachel; depois Manoel Pereira; por fim alguns +traços geraes d'esta familia, e fechará o +capitulo.</p> + +<p>Rachel tem vinte e quatro annos. É encorpada, mas a +robustez não desdiz da gentileza. Não tem attitude +alguma de estudo, e parece esculptural em todas ellas. Nos mais +communs movimentos ostenta graça, e garbo que vem de seu +natural, e ninguem o dirá se a não tiver visto em +toda a sua desaffectada singeleza no recesso das suas +occupações caseiras. Quando Rachel está n'um +baile... N'um baile foi que eu a vi a primeira vez. Era ella +solteira, e teria quinze annos. Isto já lá vai ha +quinze. Se eu me não lembrar do que ella era então, +melhor me será despedir de mim esta bruta alma que nem para +a saudade já serve. As minhas reminiscencias dão-me +Rachel vestida de branco. Não lhe hei-de aqui chamar anjo, +porque não foi essa a impressão. Era tudo magestade, +tudo estatuario n'aquella criança; não a vi a descer +do céo, onde os poetas teimam em ir buscar tudo que é +excellente, como se o céo não fosse um puro congresso +de espiritos que valem de certo lá muito mais do que pesam, +mas que passariam desapercebidos nos nossos bailes, se não +tivessem a esperteza de entrarem em corpos como o de Rachel. Eu +quando a vi lembrou-me <span class="pagenum"><a name="pag_156" id= +"pag_156">[156]</a></span>a Grecia, as artes, em requinte de +pompas, a numerosa familia das Venus, todos esses marmores eternos, +que hão-de sobreviver á mythologia dos anjos, dos +archanjos e dos seraphins. Os olhos de Rachel... estou-os vendo; +nem as franjas sedosas e longas das palpebras m'os escondem; +poderiam as arcadas espessas e travadas do sobr'olho quebrar a luz +d'aquelles olhos; mas nem assim! Como tu olhas, Rachel! Diz a +antiguidade que na Scythia havia umas mulheres que matavam olhando +se o rancor lhes fuzilava nas pupillas; porém tu que +paixão tiravas da alma toda amor, para a lançares de +ti como um incendio que te abrasaria, se eu, se todos, que te viam, +não tomassem de joelhos um quinhão d'esse fogo! Que +haverá alli de mysterios n'aquelles olhos, se o fluido +electrico não basta a dizer o que é que vem de +lá como corpo estranho que vos entra no seio, e vos +não cabe na alma, e quer fugir ás ancias do +coração que o aperta, e vos leva do amor ao +transporte, do extasis ao phrenesi, do rir ébrio da +felicidade ás lagrimas incessantes de noites desveladas! E, +depois, porque não eram só os olhos o condão +d'esta mulher? Diante de Deus todos somos iguaes! Na alma se +quizerem, e o Creador, lá se avenha com os que o injuriam +assim; mas que desigualdade diante do divino artista! Lembra-me que +a um lado de Rachel estava uma menina de olhos vesgos; do outro +lado uma senhora com um nariz impio; mais longe outra menina em +torturas para esconder quatro dentes enclavinhados; além +aquell'outra franzindo os labios, e exercitando uma laboriosa +mechanica do sorriso para corrigir a natureza que lhe dera uma +bocca limitrophe das orelhas. E ella, Rachel, toda primores, a +estremecida creatura, com uma luz serena de céo n'aquella +face em que se espelhava o seu Creador, o Deus que nos fez para a +adorarmos, a rever-se n'ella! Abençoada sejas tu de todas as +venturas, que tão perfeita és, tão cheia de +tua belleza, <span class="pagenum"><a name="pag_157" id= +"pag_157">[157]</a></span>tão digna dos thronos da terra, +já que o Creador, o teu Pygmaleão, te não +arrebatou para si! Onde está, ó Senhor Deus das +maravilhas, o homem digno d'aquella obra tua, aqui posta entre +nós que apenas temos thronos, imperios, talentos, epopeas, +as riquezas da Asia, e o sangue das nossas veias para lhe +offerecer! De que barro, ó mão divina, fizeste o +homem que ha-de primeiro embriagar-se nos aromas que recende +aquella virgem? Onde está o homem que...</p> + +<p>O homem elle aqui está. É o snr. Manoel Pereira. +Já quinou tres vezes. Feliz no jogo, infeliz no amor; +é certo o proverbio... até com elle!</p> + +<p>Manoel Pereira tem cincoenta e cinco annos! estatura mean, +cabeça quadrilatera, e plana como um queijo do +Além-Tejo desde o occipicio até á cisura do +coronal. As arcadas zygomaticas (vejam um compendio de anatomia +comparada) entestam com o rebordo esponjoso dos olhos arrastando +cada uma para o seu lado a venta correspondente que termina em +fórma de fava. O nariz não tem canas; parece que +é formado de parafusos. Começa do centro da testa por +uma verruga, transforma-se em lobinho, ladea em pequenos abscessos +escarlates, e pega no beiço superior, repuxando por elle de +modo que o dono não póde exercitar as +funcções olfactorias sem enviezar o beiço. +Este nariz ha-de ser lithographado e distribuido aos assignantes, +concluido o romance. O nariz é o homem. Quem o vir organisa +o complexo de Manoel Pereira, como Cuvier recompunha o reptil +iguanodo, e o megaterio.</p> + +<p>Temos á roda da mesa a snr.ª D. Marianna e quatro +filhas. É de notar em Rachel o typo perfeito d'aquella +familia. A mãi, senhora de quarenta annos, é bonita +ainda. Se a perfeição das raças é +admissivel, nunca mais sensivel foi a gradação do +aperfeiçoamento como entre D. Marianna e Rachel. Das outras +filhas, uma é formosa, se bem que já ferida da +tisica, que d'ahi a mezes <span class="pagenum"><a name="pag_158" +id="pag_158">[158]</a></span>a levara para o lado de uma sua +irmã que a mesma enfermidade matou, quando lhe sorriam duas +primaveras, a das flôres, e a dos prazeres da vida. Outra +é uma linda criança de doze annos, com os olhos de +Rachel. A que porfia em belleza desvantajosamente com a mais bella +é já casada, e tem vinte annos. Ha uma outra de +aspecto vulgar, posto que o não pareça entre outras +que não sejam suas irmãs.</p> + +<p>Bernardo Joaquim Ferreira, o pai d'estas lindas meninas, tem uma +agradavel physionomia de homem de cincoenta annos, e maneiras +polidas, sem embargo do trafego commercial em que labuta desde +rapaz. Revela a esperteza ordinaria na sua classe, temperada pelo +uso da boa sociedade em que desbravou as rudezas congeniaes, e as +adquiridas nos seus primeiros annos.</p> + +<p>Ácerca d'esta familia, outras miudezas seriam +intempestivas agora.</p> + +<p>Saudemos com lagrimas a entrada de Rachel n'esta historia, que +principia desde hoje a tomar as proporções d'um +escandalo monumental.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_159" id= +"pag_159">[159]</a></span></p> + +<h2>XIX.</h2> + +<p>—Não sabes quem hoje me escreveu?—disse D. +Marianna a Rachel, terminada a partida do quino?</p> + +<p>—A minha Antoninha do convento.</p> + +<p>—Sim? que novas lhe dá ella do filho? A mãi +disse-me que a pobre senhora vivia muito consternada com a +paixão do rapaz pela tal Silvina.</p> + +<p>—Segundo me ella diz, continuou D. Marianna, o pobre Jorge +está enfeitiçado, e cuida ella que a maneira de o +desenguiçar é mandal-o para aqui, a fim de elle, +á vista do comportamento de Silvina, se desenganar. Acho +esquisito o remedio.</p> + +<p>—O remedio é eficacissimo, snr.ª D. +Marianna—disse o litterato.—O que a mim me espanta +é ser uma senhora quem o receita. O fim da sua amiga +é fazer <span class="pagenum"><a name="pag_160" id= +"pag_160">[160]</a></span>com que o filho se sinta aviltado por +amor de uma mulher ridicula. O amor rompe todos os tropeços, +transige com muitos defeitos e mesmo vicios da pessoa ou... cousa +amada; mas da mulher escarnecida é que não ha +cegueira que o aproxime.</p> + +<p>—Conhece a tal Silvina de Mello?—disse Rachel.</p> + +<p>—Já a encontrei em algumas partidas na Foz, minha +senhora.</p> + +<p>—Que idéa fez d'ella? A sua +apreciação deve chegar-se muito á verdade.</p> + +<p>—Pareceu-me, respondeu o poeta, que era galante, e +até mesmo esperta. Ouvi-a declamar acrimoniosamente contra +uns folhetins que denomina <i>Felizardas</i> as senhoras +provincianas, e pasmei da imprudencia com que desprimorou as damas +portuenses, chacoteando-as por um lado que é justamente, a +meu vêr, o mais vulneravel da fidalga do Minho...</p> + +<p>—Qual é?—interrompeu Rachel com vivacidade. O +jornalista, reconhecendo a inconveniencia da resposta ajustada, +fez, como por disfarce, esta pergunta:</p> + +<p>—Não é certo estar tractado o casamento da +tal senhora com um commendador fulano de tal Andraens?</p> + +<p>—Assim dizem—respondeu D. Marianna—pelo menos +cuido que...</p> + +<p>—Parece-me que não é anno de fortuna para +ella... atalhou o snr. Manoel Pereira, coçando a verruga +media da aza esquerda do seu nariz.</p> + +<p>—Por que?—disse Rachel olhando de través o +marido.</p> + +<p>—Por que o meu amigo commendador, desde que foi o baile do +visconde dos Lagares, nunca mais se levantou, e vai cada vez a +peor. O homem já soffria molestia interior, e comeu tanto +á ceia, que esteve a rebentar-lhe a tripa... Ainda ha quem +queira bailes!... Se elle estivesse em sua casa...</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_161" id= +"pag_161">[161]</a></span>Rachel, prevendo que seu marido +aproveitava o ensejo para uma enfadosa e desconchavada diatribe +contra os bailes, cortou-lhe logo o fôlego comprido das +tolices com esta fina ironia:</p> + +<p>—Nem toda a gente leva aos bailes as tripas dos teus +amigos... Com que então—continuou ella, voltando-se +para o jornalista—o amor não será capaz de +vencer a indigestão do noivo?</p> + +<p>—Segundo ouço ao snr. Manoel +Pereira—respondeu o litterato em tom lastimoso—a gentil +menina está em risco de vêr o coração, +que tão caro lhe era, romper-se, batido pelas +explosões do estomago que rebenta, deixando a seu dono a +gloria de morrer como Tito.</p> + +<p>Rachel e uma das irmãs sorriam; Manoel Pereira desconfiou +do riso da mulher, e disse mal encarado, com o nariz já +roixo:</p> + +<p>—Se elle quizesse mulher tão bonita e mais rica que +ella, não lhe faltavam por ahi ás duzias.</p> + +<p>—Ninguem contesta o dito de v. s.ª—redarguiu o +escriptor.</p> + +<p>—Mas o senhor parece que estava caçoando com o meu +amigo...—tornou Manoel Pereira.</p> + +<p>—É injusto o cavalheiro. Eu se tivesse quatro +irmãs dar-me-ia por ditoso se o seu amigo quizesse casar com +todas quatro, e lamento não saber o segredo de um tal Lucius +que Plinio viu transformar-se em mulher; por que se me eu podesse +felizmente mudar em mulher, havia de galantear o amigo de v. +s.ª, e morrer de amores por elle se uma indigestão +rival m'o arrebatasse.</p> + +<p>Rachel soltou uma risada contagiosa: riram todos, salvo Manoel +Pereira, cujo nariz reluzia ao reflexo da luz, em differentes +côres desde o açafrão até ao talo da +couve lombarda.</p> + +<p>O jornalista continuou, fallando para D. Marianna:</p> + +<p>—Tive tambem occasião de conhecer no hotel da +<span class="pagenum"><a name="pag_162" id= +"pag_162">[162]</a></span>Aguia d'Ouro o filho da amiga de v. +exc.ª Fallei com elle, e fez-me bem o perfume d'aquelle +coração em flôr. Que candura, que adoravel +innocencia a dos vinte annos de Jorge... creio que se chama Jorge! +E, ao mesmo tempo, que singularissimo typo de rapaz eu conheci com +elle, e todos os dias encontro por ahi atraz de uma prima de +Silvina, e de um tal Guimarães, linheiro, ou pregueiro, ou +cousa que o valha... Que homem se fará d'alli, se o +céo o não leva d'este mundo e d'esta sociedade que +tanto precisa de um cenaculo d'aquelles apostolos!... V. +exc.<sup>as</sup> de certo não conhecem Leonardo Pires de +Albuquerque, fidalgo da Maya, descendente de D. Martim Pires da +Maya, que gerou D. Pedro Pires, que gerou D. frei Martim Martins, +mestre da ordem do Templo no seculo XIII? De certo não +conhecem...</p> + +<p>—Nem é preciso conhecerem—exclamou Manoel +Pereira—É um patife, que concorreu muito para a +doença do meu amigo Andraens!</p> + +<p>—Eu não pensava—replicou o poeta—que +Leonardo Pires era um alimento indigesto!... Se bem me recordo, v. +s.ª disse ahi que a enfermidade do snr. Andraens era uma +indigestão!</p> + +<p>—Como de facto; mas, pelos modos, o tal brejeiro +insultou-o no baile, o homem atrigou-se, e sahiu cá para +fóra afflicto, e nunca mais foi bom.</p> + +<p>—Não sabia isso; apenas me disseram que elle +recommendára ao snr. Andraens que não comesse tanto; +e quer-me parecer que este conselho, longe de ser insultuoso, +tendia a prevenir a indigestão fatal que se deu.</p> + +<p>—Deixemo-nos de contos...—instou o marido de +Rachel.</p> + +<p>O sorriso d'esta era já forçado por vêr que +o jornalista não tinha a cortez caridade de conter as +ironias que Manoel Pereira não percebia.</p> + +<p>—E D. Antonia que diz, mãi?—interrompeu +Rachel.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_163" id= +"pag_163">[163]</a></span>—Diz que Jorge Coelho vem para esta +casa.</p> + +<p>—Para esta casa?!—acudiu Manoel Pereira abrindo a +bocca, e arregaçando o nariz até á testa.</p> + +<p>—Não tenho n'isso duvida nenhuma—respondeu +Bernardo Joaquim Ferreira, que tinha sahido e voltára +momentos antes.—E dou-te parte, Marianna, que Jorge já +está na hospedaria, e não sei se será dever +meu ir já buscal-o esta noite. Aqui tenho um bilhete d'elle, +pedindo-me que o desculpe de não vir directamente aqui.</p> + +<p>—Como ainda é cedo, disse D. Marianna, podes ir +buscal-o. O quarto está preparado. A mãi descrevendo +n'um estado tal de amargura que eu tenho pena de o deixar sosinho +na hospedaria.</p> + +<p>—Mas ha um inconveniente—redarguiu o snr. +Bernardo.—Tenho gente no escriptorio á minha espera +para liquidar umas contas, e não posso deixal-as para +ámanhã, que os negociantes são da provincia, e +partem de madrugada. Se o snr. Pereira tivesse a bondade de ir +á Aguia d'Ouro...</p> + +<p>—Homem, eu a fallar-lhe a verdade—disse Manoel +Pereira—tenho aqui n'este pé direito uns callos que me +não deixam dar passada; se não da melhor vontade; +mas, sempre lhe direi o que penso respeito á vinda d'elle +para aqui. Eu não sei o que me parece metter n'uma casa onde +ha meninas novas um peralvilho que não gosa dos melhores +creditos, e que de mais a mais é amigo do tal Pires, que +ha-de cá vir onde a elle, e o mundo pega logo a fallar +pr'aqui, pr'acolá, e ás duas por tres... Em fim, meu +sogro lá sabe o que faz...</p> + +<p>D. Marianna replicou com vehemencia:</p> + +<p>—O snr. Pereira não ouviu dizer aqui a este senhor +que o filho da minha amiga era um moço muito digno?!</p> + +<p>—Todos elles são muito bons, mas em minha casa +<span class="pagenum"><a name="pag_164" id= +"pag_164">[164]</a></span>é que elles não põem +o pé.—Disse Manoel Pereira, e fez menção +de procurar o chapéo.</p> + +<p>Rachel relanceou sobre o marido um olhar severo. O escriptor +fazia figuras geometricas com as marcas do quino. As meninas +olhavam-se entre si com sorrisos rebeldes á prudencia. O bom +Ferreira, apesar da sua superioridade relativa de sisudeza e bom +senso, não deixou de vacillar ao choque das reflexões +do genro. D. Marianna, porém, voltando-se com energia para o +jornalista, disse-lhe:</p> + +<p>—O senhor faz-me um favor dos que se pedem sem +embaraço a um amigo antigo?</p> + +<p>—Faça-me a honra de mandar-me, minha senhora.</p> + +<p>—Tem a bondade de ir á hospedaria, e acompanhar o +filho da minha amiga, o filho d'uma senhora a quem eu devi na minha +mocidade o que não posso pagar-lhe d'outro modo?</p> + +<p>O jornalista ergueu-se, e disse, tomando o chapéo:</p> + +<p>—Se elle estiver doente, ou na cama fatigado, mandarei um +bilhete para que o não esperem. Até já, ou +muito boas noites, minhas senhoras.</p> + +<p>Sahira o jornalista, e D. Marianna enxugando lagrimas que +não tinham na apparencia muito cabimento alli, fallou +assim:</p> + +<p>—Eu nunca disse a minhas filhas os favores que devo +á mãi do meu hospede; escutem-me, e depois +dirão se o filho de tal anjo não será digno de +ser recebido como seu irmão. Eu fiquei orphã e pobre +aos onze annos. Entrei nas ursulinas de Braga, entregue á +caridade da prelada, que me achou com habilitações +para ser uma simples criada grave de convento. D. Antonia de +Sepulveda tinha tambem entrado, n'essa occasião, e era rica. +Tratei-a com respeito, e ella a mim com familiaridade, para chegar +ao fim de me offerecer metade da sua mesada, e habilitar-me a ser +senhora entre as outras, que me olhavam com desestima, e com a +falsa piedade das <span class="pagenum"><a name="pag_165" id= +"pag_165">[165]</a></span>ricaças do convento. Aceitei os +favores da minha amiga, e tão suave era o dever-lh'os, que +nunca me julguei devedora, se não depois que vim a esta +sociedade conhecer o valor dos beneficios que recebi de Antonia. +Vivi cinco annos á sombra da generosidade d'ella: prendei-me +á sua custa, instrui-me com ella d'essa apoucada +educação que nos davam no convento; e já +depois que a minha amiga sahiu para casar obedecendo ás +ordens de seus paes, continuei a receber as mezadas e os presentes +que ella recebia. Casei tambem passado um anno, fui feliz, +enriqueci, presenteei-a, mas a cada lembrança de amiga que +lhe eu mandava, respondia ella com mais valiosos mimos da sua casa. +Penso ha vinte e quatro annos no modo de ser util á minha +querida Antonia; a Providencia depara-me agora occasião de +velar as commodidades do filho d'ella. Haja ahi uma pessoa de boa +fé a dizer-me que devia ser outro o meu procedimento...</p> + +<p>—Ninguem se atreve a tanto.—disse Rachel com +enfado.—Eu, se minha mãi, por desgraça nossa, +não existisse, levaria para minha casa o filho da nossa +amiga, da protectora de nossa mãi. Se eu tivesse um marido +que me quizesse roubar o prazer da gratidão em tão +pequeno serviço, amaldiçoaria a hora em que meus paes +me subjugaram a tal homem...</p> + +<p>—Não te irrites assim, Rachel...—disse +Bernardo Ferreira, ferido pelas palavras da filha, que lhe +apontavam direitas á consciencia, onde as fibras do remorso +doiam sempre.</p> + +<p>Entretanto, Manoel Pereira, franzindo o nariz, dilatava as +ventas hediondas, por onde vaporava a zanga.</p> + +<p>O incidente, passados minutos, foi cortado por um bilhete do +escriptor, dizendo que Jorge Coelho pedia desculpa, agradecia +extremamente a delicadeza, e convalescia da fadiga para no dia +seguinte cumprir as ordens de sua mãi.<span class= +"pagenum"><a name="pag_166" id="pag_166">[166]</a></span></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_167" id= +"pag_167">[167]</a></span></p> + +<h2>XX.</h2> + +<p>O jornalista encontrou Jorge Coelho na cama, e Leonardo Pires +sentado á banca. No semblante de ambos eram visiveis os +signaes da altercação, que fôra interrompida +pela chegada do terceiro. O filho de D. Antonia estava escarlate de +febre, e anciado; o da Maya, se bem que de má catadura, +esboçava distrahidamente, a lapis, uns perfis de narizes +caprichosos. Jorge conheceu o litterato, e maravilhou-se da visita; +Leonardo Pires, mais familiarisado com o sujeito, ergueu-se, +abraçou-o, e exclamou:</p> + +<p>—Aqui está o teu medico, Jorge! o teu Christo, +Lazaro!</p> + +<p>—Temos <i>ecce homo</i>?! Dar-se-ha caso que o snr. +Pires—disse o jornalista sorrindo—me prepare algum +<span class="pagenum"><a name="pag_168" id= +"pag_168">[168]</a></span>calvario?... Como está o snr. +Jorge Coelho? O aspecto denota inquietação...</p> + +<p>—Não é +inquietação;—atalhou Pires—é a +sina maldita d'este desgraçado que nos tortura a +ambos...</p> + +<p>—Todos temos o nosso demonio familliar, snr. +Pires—tornou o escriptor—Socrates queixava-se do seu, e +eram nada menos de dous os demonios do divino philosopho, sendo o +peor dos dous uma tal Xantippa... Querem vêr que o snr. Jorge +é energumeno d'alguma Xantippa ideal, que... (O jornalista +escreveu, e entregou a um criado o bilhete que foi recebido em casa +de D. Marianna). Jorge entretanto, sorrindo contrafeito, +respondia:</p> + +<p>—Não, senhor. Eu sou apenas victima das loucuras do +meu condiscipulo.</p> + +<p>—Ó cavalheiro—clamou Pires +irritado—diga ahi a esse ingrato quem é Silvina de +Mello. Não se trata aqui de desfolhar lindas chimeras, e +matar illusões queridas. A paixão de Jorge é +uma nodoa que eu quiz delir-lhe do coração, á +custa mesmo do meu descredito e abominação n'esta +sociedade devassa. Tenha vossê a franqueza de dizer a esta +criança o que eu tenho sido, já que eu tive a boa +sorte de lhe referir ao senhor as minhas acções e +palavras.</p> + +<p>O romancista achou de riso a gravidade da +appellação de Pires para o seu testemunho; mas +perseverou-a na seriedade que o proposito pedia, e disse:</p> + +<p>—O snr. Leonardo Pires tem dado provas exuberantes de +amisade ao snr. Coelho, verberando com prosperos sarcasmos uma +menina em tudo respeitavel, menos na sua virtude.</p> + +<p>—É de mais!—atalhou Jorge—Póde +ser que Silvina mereça censura como inconstante, sem com +isso...</p> + +<p>—Deixar de ser virtuosa?...—interrompeu o +poeta...</p> + +<p>—Justamente.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_169" id= +"pag_169">[169]</a></span>—Não julga bem, snr. Coelho. +A deshonestidade não póde ser virtude. A mulher que +enfeira o coração, e o põe á +concurrencia, mirando ás vantagens do pedido, poderá +ser uma sagaz professora de economia politica applicada ás +mercadorias do coração, mas virtuosa é que +ella de certo não é. Para mim tenho que a virtude +póde coexistir com a miseria da mulher perdida que +não tem a hypocrisia de expor o coração +á venda; porém, quero eu que não prostituamos +a palavra, que é santa, cedendo-a á que cuida cobrir +as suas ulceras com o amicto de virgem. A snr.ª D. Silvina de +Mello, que eu vim, depois de cinco annos de ausencia, encontrar +occupando a vagatura d'outras aventureiras que eu cá deixei, +é uma senhora aleijada.</p> + +<p>—Ainda mais essa!—atalhou Pires—Eu nunca dei +pelo aleijão de Silvina!</p> + +<p>—Aleijada de espirito, quero eu dizer, snr. Albuquerque. +Que outro nome se ha-de dar á lamentavel enfermidade moral +d'uma menina que desperta das suas illusões de infancia, +esfrega os olhos, e começa a procurar em redor de si um +homem com alguns saccos de dinheiro? Ha ahi nada mais torpe, mais +nauseabundo na face da terra! A mulher que assim faz tem alluido a +sua virtude pela base, que é a vergonha. D'ahi ávante +o pudor é uma mentira, as côres que sahem ao rosto +são irrupções de sangue como as empigens, +é um mechanismo da materia que o observador encontra mesmo +nos prostibulos. Que é o que bate no peito d'essa mulher, +desde que a ancia do dinheiro fez d'ella um estimulo de +sensações? Quando ella fallar nos affectos da sua +alma, qual é de nós o que voluntariamente se +immolará ao escarneo de sua propria consciencia, respondendo +ás Silvinas com expressões de candura e boa +fé? O snr. Jorge Coelho tem a sinceridade de me dizer se me +entende?</p> + +<p>—Entendo; mas não creio que Silvina seja a mulher +que o senhor qualifica.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_170" id= +"pag_170">[170]</a></span>—Eu não a qualifiquei ainda: +o que eu quiz foi a certeza de que o meu joven amigo me entendeu a +theoria: agora pertence á pratica o qualificar Silvina. +Está o snr. Jorge Coelho no Porto. Fez bem em vir. Isto +é uma questão de tempo. Faça as suas +experiencias desde ámanhã em diante; mas tenha a +condescendencia de me ir communicando os seus descobrimentos. +Entretanto, restitua ao snr. Leonardo Pires o bom conceito em que o +tinha, que estes amigos são raros. Outro objecto. A minha +commissão não era vir discutir Silvina: Eu fui aqui +enviado pela snr.ª D. Marianna Ferreira e seu marido a fim de +conduzir o snr. Jorge a casa d'elles, onde foi recebida uma carta +de sua mãi.</p> + +<p>—Oh! bravo!—exclamou Pires.—Temos homem!</p> + +<p>—Não atino com o seu enthusiasmo, snr. +Albuquerque!—disse o escriptor.</p> + +<p>—Que mulheres, que mulheres tu vaes vêr, ó +Jorge!—continuou bracejando o da Maya.—As Ferreiras! a +nata, a quinta essencia das mulheres bellas do Porto! E a Rachel! +ai! aquella Rachel, casada com o nariz mais indecente que fez o +acaso estupido, a quem o Creador entregou a +repartição dos narizes! A Rachel! a mulher dos olhos +de antilopa! as mais bellas carnes que ainda vestiram uma alma, se +é que uma mulher d'aquellas precisa de ter alma para ser +perfeita! Ó Jorge, tu estás curado! Quando vires +Rachel, sentirás um coração novo, um +coração caldeado nas fragoas dos olhos d'ella! Eu +vi-a uma vez, e creio que se a visse segunda...</p> + +<p>—Iria á missa dos Clerigos vêl-a terceira, +não é assim?—interrompeu o poeta, rindo, com +Jorge, dos transportes sinceros de Pires.—Rachel é uma +bella senhora, e uma nobilissima alma—continuou o escriptor +gravemente.</p> + +<p>—Mas, segundo a sua theoria—atalhou de golpe Jorge +Coelho—essa Rachel é uma das muitas aleijadas +<span class="pagenum"><a name="pag_171" id= +"pag_171">[171]</a></span>que por ahi ha. Não a +conheço; mas sei que ella casou com um brazileiro hediondo e +rico.</p> + +<p>—Aquelle nariz!—disse Pires.—Tambem me quer +parecer que a mulher pouco vale na alma, quando contemplo o nariz +de Manoel Pereira!</p> + +<p>—E eu creio que a sociedade—tornou +Jorge—não desconsidera Rachel porque ella escolheu um +homem rico, podendo ter aceitado a desinteressada pobresa e o +coração opulento de muitos rapazes que a cortejavam. +Já se vê que a opulencia d'um sordido não +desluz aos olhos da sociedade a virtude d'uma senhora que se deu +por ella.</p> + +<p>—São contos largos...—disse o +romancista.—Custa-me que o cavalheiro confunda Rachel com +Silvina. Creia que offende uma martyr, snr. Coelho, Rachel supporta +o supplicio de Mezencio, com a resignação que +santifica a baixeza, se ella tivesse existido, e as culpas futuras, +se ellas podem existir. Não levo em paciencia o aggravo +feito á pobre menina. Vou contar-lhe em quinze minutos a +historia do casamento de Rachel. Bernardo Joaquim Ferreira conhece +o valor do dinheiro, e duvida da existencia d'umas paixões, +que podem vingar e prosperar sem dinheiro.</p> + +<p>Ás filhas chama-lhe suas, e não exclue d'esta +propriedade o coração. O seu pensamento fixo d'elle +é casar ricas as filhas. Rachel era querida de alguns amigos +meus, espiritos dignos d'ella, que lhe teriam dado a ventura, se os +encontros predestinados dos espiritos não fossem o mentiroso +poetar de infelizes que nunca se encontram. Um d'esses amigos, fui +procural-o ao hospital de alienados, quando desembarquei ha cinco +mezes em Lisboa. Conheceu-me ainda, e as primeiras palavras que me +disse foram: «Morreu Rachel! A minha alma foi com +ella.» Pobre moço! bem sentia elle que já +não tinha alma! Depois de dous annos de loucura, por +ignorados motivos, esquecido de tudo que fôra, tinha uma +<span class="pagenum"><a name="pag_172" id= +"pag_172">[172]</a></span>só reminiscencia, como se todo o +seu passado se concentrasse n'ella... Vamos ao ponto, e +desculpem-me d'estas intercadencias melancolicas. Os senhores +não sabem ainda o que é olhar para o passado aos +trinta e cinco annos, e vêr uma longa fila de espectros uns +gotejando sangue, e outros lagrimas...</p> + +<p>O poeta dissera isto tão do intimo amargurado, que nem +Leonardo Pires deixou de o escutar com magoa. Jorge, já +dorido de suas tristezas, não era para espantar que desse em +lagrimas uma prova de sympathia á dôr alheia.</p> + +<p>Proseguiu o romancista:</p> + +<p>Ha seis annos eram dous os homens indicados para maridos de +Rachel. Quem os indicava, e negociava com ardis, e negaças +ignobis, sobre serem immoraes, era o pai. Rachel detestava-os +ambos. Manoel Pereira era um; o outro era brazileiro tambem, menos +repulsivo, melhor alma talvez, e amigo do primeiro. Desde que se +toparam a amar a mesma mulher, odiaram-se, intrigaram-se e +depreciaram mutuamente os seus haveres, porque bem sabiam que +Ferreira tinha a filha em almoeda. O primeiro que a pediu foi +Manoel Pereira, abonando-se com cem contos. O segundo não +dizia o seu valor. Foi o primeiro preferido, sem ser consultada a +victima.</p> + +<p>N'este tempo, Manoel Pereira entra em transacções +com o governo, e perde cincoenta contos. Ferreira, sabedor da +perda, acolhe de novo o outro concurrente, e cede-lhe a filha. Este +carecia de ir liquidar o seu negocio ao Rio de Janeiro. Mas, como a +liquidação se detivesse mais d'um anno, Manoel +Pereira aventura-se em especulações mercantis, estas +prosperam-lhe, restaura-se das perdas, e rehabilita-se para esposar +Rachel. O negociante, que sabia o anexim do passaro na mão, +receia que o outro não volte, e quebra pela terceira vez o +contracto. Rachel ignorava estas asquerosas mercadorias. +<span class="pagenum"><a name="pag_173" id= +"pag_173">[173]</a></span>Annuncia-lhe o pai que ella é +esposa promettida de Manoel Pereira. A pobre menina quer +defender-se primeiro com razões, depois com lagrimas. Tudo +lhe é rebatido com indifferença, ou com palavras +violentas de soberania paternal. Desde o dia em que se fizera +definitivamente a operação commercial dos quinze +annos d'um anjo formoso, como a esperança d'uma alma pura, +com o homem de cincoenta annos, sem o desconto de alguma +feição boa do corpo ou da alma, Rachel era perseguida +pelo seu porco demonio de todas as horas. Se acontecia Manoel +Pereira estar na sala, e a lagrimosa criança se demorava no +seu quarto para encurtar as horas do supplicio, ia lá o pai +buscal-a; e se as grosserias a não compelliam a aligeirar o +passo, não era raro ameaçal-a de pancadas, e mesmo +fazer executiva a paternal justiça. Quantas vezes Rachel +entrou na sala, com as faces escarlates das bofetadas que o pai lhe +dava como incentivo para saber aproveitar-se da fortuna caprichosa! +Era esta a lastimosa situação de Rachel quando eu fui +para o Brazil. Recordo todas as palavras que a formosa +criança me disse a ultima vez que fallamos.—Tenha +animo para a obediencia—disse-lhe eu—Bem póde +ser que Deus a remunere d'essa virtude com imprevistas +felicidades.</p> + +<p>—Eu dou por terminada a minha vida—respondeu-me +Rachel com os olhos enxutos—Tenho quinze annos, e ha tres +mezes que olho para a minha existencia, como se ella fosse +já longa de trabalhos. Os paroxismos hão-de ser +rapidos. Sei que nem eu nem alguma de minhas irmãs podemos +sobreviver á mocidade. Estamos todas feridas da mesma morte. +D'aqui a pouco lançarei o coração em golfadas +de sangue, e meu pai não terá remorsos de ter +cooperado para a minha morte, por que elle já viu dous +irmãos meus cahirem no verdor dos annos na sepultura onde +cahiremos todos. Vá, que não me torna a +vêr...</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_174" id= +"pag_174">[174]</a></span>Eu sahi de ao pé de Rachel, com o +coração opprimido, mas contente de mim porque chorava +as primeiras lagrimas, depois d'outras que eu julguei serem as +ultimas... Rachel casou. Não morreu. Mentiu-lhe o anjo que +fallava áquella sua innocentissima alma. Vive. É uma +agonia sem nome... O quarto de hora já lá vai. Agora, +meus amigos, não venha mais o nome de Silvina como um +escarro á face de Rachel. Até ámanhã, +snr. Jorge. Depois d'estas reminiscencias, eu tenho um singular +coração que se brutifica, e uma alma que detesta a +sociedade. Boas noites.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_175" id= +"pag_175">[175]</a></span></p> + +<h2>XXI.</h2> + +<p>Cuidava o leitor que estava livre do sujo José Francisco +Andraens; do estouvado Leonardo Pires; do nariz de Manoel Pereira; +da erudição mythologica de fr. Antonio; do +mettediço jornalista; da fidalga de Margaride, adeleira +fraudulenta do seu roto coração; da Francisquinha da +Cunha, promettida esposa do linheiro das Hortas; do morgado de +Santa Eufemia, rival do Andraens; do Egas de Encerra-bodes, +illustrissimo sangue neogothico; de Jorge Coelho, alma pura e +candida e apaixonada até enfastiar o bom siso de quem nos +atura, a elle e a mim; e, finalmente, de Rachel.</p> + +<p>Ai! não me digam que estavam enfastiados de Rachel!... As +lindas mulheres só enfastiam os seus maridos, e desagradam +ás mulheres feias. Parece que a propria <span class= +"pagenum"><a name="pag_176" id="pag_176">[176]</a></span>moral, +severa como a directora d'um collegio, se compraz ás vezes +de as vêr louquinhas, se o ellas são. A belleza +é o poder moderador dos delictos do coração. +Uns lindos olhos são a mais commovente rhetorica em defeza +das culpas que a intolerancia lhes assaca. Um braço gentil, +que descuidosamente se denuncia nu, abala o animo do juiz austero +com mais vehemencia que a mimica de Hortencio e Mirabeau. O sorriso +discreto, se não é bem despreso nem expressão +de orgulho da culpa, abranda e enternece mais o peito abroquelado +de indifferença, que a lacrimosa peroração dos +que vingam apertar com os cilicios da piedade o +coração de um jury.</p> + +<p>Mas a que proposito cahe esta especie de defeza de Rachel?! +Peccou ella, por ventura? Não, minhas senhoras. Rachel tem +um só peccado de fraqueza; foi optar pelo marido, entre o +marido e o suicidio. Desceu ao plebeismo das outras, que lhe haviam +dado o exemplo da renuncia de si proprias, podendo afidalgar-se e +ser unica pelo heroismo de se entregar á justiça de +Deus, fugindo ás injustiças do mundo. A morte moral, +que a sociedade inflige ás malfadadas, que a cupidez d'um +pai acorrentou a um marido abominavel, se o coração, +em phrenesis rompeu o grilhão, é, mais dolorosa que o +suicidio tantas vezes, quantos são os repellões que a +sociedade lhes dá até as engolfar no abysmo sem +sahida.</p> + +<p>Querem dizer-me que Rachel, se tivesse aceitado o beijo da +morte, e fugisse ao beijo marital de Manoel Pereira..., (um beijo +de Manoel Pereira, com aquelle nariz na vanguarda... santo Deus!) +ninguem se lembraria do seu heroismo a estas horas? Dizem mais que +o desdem da gente séria, e a censura da gente religiosa, e a +irrisão da gente parvoa, e o contentamento de outra que +Manoel Pereira iria escolher, entre mil, n'esta grande feira, +fariam do suicidio de Rachel assumpto de reprovação e +de affronta á sua exquisitice? Tambem o <span class= +"pagenum"><a name="pag_177" id="pag_177">[177]</a></span>penso +assim. Estou que ninguem já hoje se lembraria do pobre anjo +que fôra queixar-se a Deus de o terem querido despir de suas +pompas, de suas flôres, de sua aureola, de sua virginal +pureza, para o prostituirem aos regalos d'um satyro revelho, que +perdeu alma e coração no grangeio da riqueza, com a +qual vem mercar um recreio para a sensação do corpo, +abrazeado na vida ociosa! Ninguem se lembraria da nobre alma, que +preferira deixar as graças do corpo aos vermes, para o +não dar ao cêvo de uma besta-fera. Assim é; +porém, se uma vez Rachel voltar o rosto de enojada do +cadaver a que a prenderam; se a força, que o +coração lhe fizer, tiver comsigo a força do +exemplo bem succedido e quisto da sociedade; se o seu fragil batel +de virtude, forçada e violenta, se desconjuntar e abrir, +rebatido pela tempestade das paixões; se em fim, aquella +honra, a constrangimento, e não de vontade aceite, se +fôr a pique, a sociedade que dirá?</p> + +<p>A sociedade—replica o leitor que a conhece e se +conhece—a sociedade faz-se desentendida por cortezania; por +conveniencia; porque sabe a historia do olho com trave, que se +abria espantado de vêr uma aresta no olho alheio. A sociedade +fez uma convenção tacita, de que é fiadora a +civilisação. Em substancia, este contracto social +dá os seguintes resultados:</p> + +<p>1.º Respeitar a liberdade do coração humano, +sem prejuizo do soalheiro das salas, em que é preciso +entreter o tempo, e fingir a gente que não conhece +senão as pessoas que estão fóra das salas.</p> + +<p>2.º Fingir, outro sim, a gente que está convencido +da tolice dos outros, para que os outros nos tenham em conta de +boçaes de boa fé, e não de espertos sem pudor. +Dá-se um exemplo em hypothese: tal marido sabe que o mundo o +lastima ou moteja; mas como a lastima e a irrisão +cauterisam, sem curar, a chaga do vilipendio, o lazaro finge-se de +optima saude, e aproveita occasião <span class= +"pagenum"><a name="pag_178" id="pag_178">[178]</a></span>de gemer +pela molestia do seu amigo, gafado da mesma lepra. Estes dous +homens, se se topam, e fallam da corrupção social, +voltam as costas a rir um do outro, e vão cada qual por seu +lado, espalhando a risada contagiosa.</p> + +<p>3.º Não perdoar o que se chama +«escandalo». Escandalo é não ter a +sagacidade da hypocrisia, e o despejo de injuriar o senso publico, +tratando-o de nescio. Escandalo é tomar a serio as +brincadeiras do coração, e vir dar alguem á +sociedade uma prova de que despresa o contracto social. Escandalo +é cahir da prostituição legal á honra +do coração, que cuida ennobrecer-se e regenerar-se; +victimando o nome, o estado, e o que a inveja chama fortuna, ao +goso de conhecer a liberdade na miseria. Escandalo, a final, o +escandalo maximo e abominavel e imperdoavel é a mesma +miseria.</p> + +<p>A sociedade sabe que o crime é um dos elementos da ordem +das cousas, e julga-o um mal necessario, sem o qual não +haveria bem-aventurança nem inferno, nem anjos, nem +demonios, e Deus seria inutil por não ter que fazer, visto +que os theologos lhe não attribuem occupação +que não seja julgar, premiar, condemnar, e perdoar, segundo +lhe pedem, ou conforme a sua espontanea misericordia quer. Ora, sem +o crime, este complicadissimo funccionalismo, cujo presidente +é o Creador do céo e da terra, do mar e do sol, da +avesinha que regorgeia nas moitas, e do leão que atrôa +os desertos, do homem como Alexandre e Napoleão e do homem +como José Francisco Andraens, e Manoel Pereira... dizia +eu... eu! eu não dizia nada: quem dizia que o crime é +necessario era o jornalista, amigo de Guilherme do Amaral, +conversando na «Aguia d'Ouro» com Jorge Coelho, alguns +dias depois do encontro em que os vimos no capitulo ultimo da +primeira parte d'estas biographias.</p> + +<p>Vamos agora á historia.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_179" id= +"pag_179">[179]</a></span>Achou Jorge em casa de D. Marianna +Ferreira o seu quarto e sala adornados com muito aceio e +selecção. Melhor que isto, era o gosto de se +vêr acolhido sem estranhesa nem demasias de ceremonia. Os +filhos e filhas de D. Marianna, logo ao segundo dia, o tinham como +pessoa da familia, e porfiavam em divertil-o d'aquelle geito de +tristeza, que era natural, e das abstracções penosas, +que tinham a sua razão de ser na dôr do +coração.</p> + +<p>D. Marianna, senhora algum tanto despreoccupada do artificio, +que tão preciso é, chamado delicadeza, logo que Jorge +lhe deu uma aberta, fallou na paixão, que o seu hospede +tinha por Silvina, e nos desgostos, nascidos d'esse louco amor, +para a sua querida Antonia.</p> + +<p>D. Marianna, em termos desabridos, disse de Silvina o que era +notorio, e talvez lhe exagerasse os defeitos.</p> + +<p>Jorge escutou-a respeitosamente, e ao mesmo tempo admirou-se de +ouvil-a assim fallar na presença de suas filhas, que todas +estavam presentes, salvo Rachel, a quem elle não tinha ainda +visto.</p> + +<p>Lembrado está o leitor de ter sahido Manoel Pereira +zangado de casa de sua sogra, por que a maioria lhe +rejeitára o parecer de não ser recebido Jorge em casa +d'aquella. Como Rachel sahisse então da sua paciente +annuencia aos votos irracionaes do marido, este, mal afeito a ser +contradictado, protestou convencer a mulher e a sogra de que +não queria relações com tal sujeito.</p> + +<p>No dia seguinte, ao abrir da manhã, mandou preparar +alguns bahus, entrou n'uma carruagem com Rachel, e foi conduzil-a a +uma quinta, seis leguas distante do Porto, nas +immediações de Barcellos. Quizera a submissa senhora +despedir-se de sua familia; mas Manoel Pereira, franzindo as +verrugas do nariz, e enviezando o beiço na sua ordinaria +expressão de zanga, atalhou as intenções da +saudosa Rachel, dizendo que a mulher casada <span class= +"pagenum"><a name="pag_180" id="pag_180">[180]</a></span>não +tinha familia senão seu marido. E Rachel, fitando os olhos +coruscantes de raiva no nariz do esposo, disse com o fel do +coração nos labios, que sorriam sardonicamente:</p> + +<p>—Deus te livre que eu alguma hora me esqueça de que +tenho uma familia, que não é meu marido... Se lhe eu +perder o respeito a ella, se os estimulos de minha exemplar +mãi me faltarem, tu verás então que eu +não tenho outra familia.</p> + +<p>O marido, arregaçando os musculos businadores, e as azas +nasaes com elles, regougou:</p> + +<p>—Põe lá essas doutorices em miudos, que eu +não te entendo.</p> + +<p>—Se me tu entendesses—redarguiu Rachel—nunca +me forçarias a fallar assim á tua ignorancia.</p> + +<p>Manoel Pereira cascalhou uma risada de velhaco, e +coçou-se atraz da orelha esquerda.</p> + +<p>Não se trocaram palavra no decurso de seis leguas. Rachel +ia linda pelo escarlate da sua colera; e Manoel Pereira bufava, +quando não cabeceava de somno jogando contra o hombro de sua +mulher.</p> + +<p>A gentil senhora, a espaços, encarava no marido, e dizia +entre si: «Que destino o meu! Este é o homem, que me +deram para a vida! Querem que seja d'este homem o meu +coração! Ter uma só existencia, e curta como +hade ser a minha, e hei-de sacrifical-a toda a esta cousa que vale +duzentos contos de réis!</p> + +<p>«Que aproveitou meu pai d'este monstruoso enlace? Que +lucrou este homem em se aviltar para me chamar sua, se elle mesmo +conhece que lhe obedeço abominando-o? Mas eu não +devia soffrer, porque Deus bem sabe que fui levada de rastos, e que +me perdi por ser boa filha, e me tenho atormentado para ser uma +victima obediente dos calculos de minha familia! Calculos! quaes, e +de que serviram? Quem foi feliz com elles?!...»</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_181" id= +"pag_181">[181]</a></span>Estes mentaes soliloquios eram cortados +por algum ronco pavoroso, ou espertar estremunhado do negociante de +couros, quando não era uma pancada da mão esponjosa +que algum sonho sacudia ao peito de Rachel.</p> + +<p>Chegaram ao seu destino, e pouco depois as cargas da bagagem, e +as criadas de Rachel. Manoel Pereira passou na quinta aquelle dia e +o seguinte; ao outro, voltou para o Porto a fim de fazer uma +carregação de couros, e activar uma leva de escravos +brancos para o Rio de Janeiro.</p> + +<p>Rachel, á hora crepuscular da noite d'esse dia, foi +sósinha sentar-se nas escadas do cruzeiro, que defrontava +com o portal da quinta, e então chorou as lagrimas +represadas em tres dias de exasperada angustia.</p> + +<p>Como tu serias linda alli de uma formosura do céo, +Rachel! Qual Magdalena mais linda inventou o buril aos pés +da cruz misericordiosa! E se anjo tu eras de purissima alma; se as +mesmas lagrimas te depuravam de intenções culposas, +que alegria não seria a do teu Creador, vendo-te assim +incontaminada, com menos ventura que muitas que não tinham +no coração uma fibra incorrupta!</p> + +<p>Se a essa cruz voltares, n'outra tarde, a pedir perdão da +queda, hão-de os anjos chorar-te, ó Rachel; mas +pedirão a Deus que te leve para si e para elles, como se +houvesses cumprido immaculada o teu desterro do +céo.<span class="pagenum"><a name="pag_182" id= +"pag_182">[182]</a></span></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_183" id= +"pag_183">[183]</a></span></p> + +<h2>XXII.</h2> + +<p>José Francisco Andraens venceu a morte, que lhe +entrára no buxo, disfarçada nos dez pombos, que elle +ceiou, em casa do visconde dos Lagares.</p> + +<p>Das recahidas é que ia sendo impossivel salvar-se. Quando +a medicina lhe empunha um caldo simples com meia onça de +pão esfarelado, José Francisco desfazia meia gallinha +na tigela. A inflammação gastrica reaccendia-se-lhe +nas cavernas, e a morte voltava de novo a espremer-lhe os succos +das tres barrigas até descorçoar rebatida pela brutal +compleição. A final nem a medicina pôde +acabal-o!</p> + +<p>Ergueu-se José Francisco algum tanto abatido, um pouco +pallido, quebrado de vista, e mal seguro das suas pernas zambras. +Deu um passeio de carroção até á Foz, +<span class="pagenum"><a name="pag_184" id= +"pag_184">[184]</a></span> e almoçou com appetite. Voltou no +dia seguinte, e almoçou duas vezes. Cubiçou pescada, +por que a viu sahir das redes, e mandou cozer uma com cebolas e +batatas. Depois de jantar, dormiu um somno de justo, com a barriga +repleta, (cousa que não succede muitas vezes aos +justos)—e sahiu de tarde a tomar a fresca em Carreiros, onde +a fortuna lhe deparou uma vendedeira de manjares brancos e pasteis +de Santa Clara, que lh'os vendeu todos a olho, e elle comeu, +empinado sobre um penedo sobranceiro ao mar.</p> + +<p>Tomada a refeição, José Francisco limpou o +suor da papeira, e lambeu os beiços pulverisados do assucar +dos pasteis. Depois descobriu a cabeça á bafagem fria +do oceano, cruzou os braços em postura de quem medita, e +pensou assim:</p> + +<p>—Como isto é tamanho! Como se faria o mar? Por que +será que o mar cresce e minga? Quantas pescadas +haverá no mar? A gente sempre a comer peixe, e nunca se +acaba!</p> + +<p>Entrava José Francisco na solução d'estes +problemas, quando a linha do seu horisonte foi cortada por um barco +a vapor. Topetaram então com o sublime do engenho humano as +suas meditações:</p> + +<p>—E o vapor!?—dizia elle—Sempre os homens tem +idéas! Pelos modos o que faz girar as rodas é o fumo +do carvão! Uma cousa assim! E como a gente come boa carne a +bordo d'um vapor inglez! Bons tempos eram aquelles em que eu +viajava, e comia tanto, sem me sentir enfartado como agora que +qualquer cousa me trabalha cá no interior!...</p> + +<p>Estas considerações entristeceram José +Francisco, e o espectaculo do oceano enfastiou-o. Ergueu-se, desceu +do seu throno de caranguejos e algas, e foi dar alguns passeios na +lingueta de pedra, onde então passeavam muitas familias.</p> + +<p>Entre estas estava Francisca da Cunha conversando <span class= +"pagenum"><a name="pag_185" id="pag_185">[185]</a></span>com +Antonio José Guimarães, o linheiro; e Silvina de +Mello procurando conchinhas na praia.</p> + +<p>O linheiro foi comprimentar o commendador, e D. Francisca chamou +a attenção da prima.</p> + +<p>José Francisco, logo que viu Silvina, perdeu a +cabeça.</p> + +<p>É preciso explicar o que o leitor já devia saber, +se esta historia fosse contada com mais arte.</p> + +<p>Quando Andraens cahiu doente, Silvina mandou saber do seu +estado, e teve quem lhe assegurasse que o illustre enfermo +succumbiria ao typho, resultante da gastrite. Ao mesmo tempo, +disse-lhe alguem que José Francisco fizera testamento, sendo +uma das verbas testadas aos seus parentes de Cozelhas a quantia de +um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta reis, de que lhe +era devedor Pedro de Mello, declarando a quinta hypothecada ao +pagamento da quantia, e juros da lei.</p> + +<p>Silvina não mandou saber do homem; e Pedro de Mello, que +viera ao Porto para apressar o casamento, tão indignado +ficou da avareza do moribundo, que deu louvores a Deus de matar a +tempo o villão, para que sua filha se não +conspurcasse na lama de tal javardo. Era o sangue escandecido do +sargento-mór d'Amarante que refervia nas veias do neto. E, +ao mesmo tempo, como o morgado de Santa Eufemia andasse ahi nas +ruas do Porto, exhibindo um rosto de amargura e uma gravata +verde-gaio com alfinete de cabeça d'ouro rendilhada, Pedro +de Mello disse á filha que seria prudente não dar de +mão ao morgado, porque lhe constava que o pai tinha soffrido +um insulto apopletico, e não poderia viver longo tempo.</p> + +<p>Silvina, anjo de submissão, accedeu á vontade +paternal, e trocou algumas palavras com Christovão Pacheco, +quando ambos immergiam no mar, e recebiam a unção +conciliadora da mesma onda. Succedeu assim o caso em que pegou o +desamuarem-se:</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_186" id= +"pag_186">[186]</a></span>O morgado, ao aproximar-se a onda, dava +urros, e mettia-lhe a cabeça com furioso impeto, perneando +fóra d'agua. Como Silvina estivesse perto d'elle, viu que o +sapato d'ourêlo n'um d'esses pinotes de arlequim maritimo, +lhe saltára de um dos... dous pés—digamos dous +pés por deferencia á historia natural.—E, +quando o sapato, entumecido de agua, ia ao fundo, Silvina disse +á banheira que apanhasse o sapato do cavalheiro. A tempo foi +isto que o morgado o andava procurando á tona d'agua; e, +como ouvisse a magica voz da dama, e visse o sapato na mão +da banheira, que lh'o atirava a elle, Christovão, bem +assombrado, disse a Silvina:</p> + +<p>—Obrigado á sua attenção, minha +senhora!</p> + +<p>—Não tem de quê—respondeu Silvina, +sorrindo.—Porque não toma o senhor o seu banho mais +quieto?</p> + +<p>—Gosto d'isto assim;—respondeu o morgado.</p> + +<p>—Eu cuidei que era o nervoso que o obrigava a dar +cambalhotas na agua.</p> + +<p>—Nada, não é, minha senhora; é que eu +gosto de brincar com o mar; com o amor é que eu já +não brinco.</p> + +<p>—Nem deve brincar, porque o amor gosta de ser tratado +seriamente; e o senhor zomba com as victimas d'elle...</p> + +<p>—Eu é que zombo, minha senhora!... Não perca +esta onda, que é boa.</p> + +<p>O de Santa Eufemia arremetteu com a onda, e fez proezas de +natação, deixando-se ir de costas no dorso da vaga, +que o levou á praia.</p> + +<p>Como Silvina sahisse do mar, o morgado sahiu tambem, vestiu-se, +e esperou, disfarçadamente, a sua mulher fatal. Sahiu +Silvina da barraca, e deu de rosto com Christovão Pacheco. +Sorriu-se, e respondeu á cortezia do fidalgo de Freixieiro. +Deu alguns passos, procurando Francisca da Cunha; e, como a visse +entre duas barracas protectoras conversando com o linheiro, +sentou-se a um recanto, sosinha, e meditativa. O morgado sentia +<span class="pagenum"><a name="pag_187" id= +"pag_187">[187]</a></span>caimbras nas pernas e saltos do +coração. Girava em roda d'ella, puxado por magnetismo +irresistivel. A final fez ao seu acanhamento o que fazia ás +vagas: metteu a cabeça, e foi.</p> + +<p>Silvina recebeu-o agradavelmente, e conversou com elle um quarto +de hora. D'esta conversação resultou ficarem +convencionados para tomarem o banho juntos no dia seguinte, e assim +nos oito dias que decorreram.</p> + +<p>José Francisco Andraens convalescia da ultima recahida, +quando teve noticia da deslealdade de Silvina. Desafogou no seio do +visconde dos Lagares, e deu procuração para ser +demandado Pedro de Mello por um conto oitocentos e vinte e cinco +mil e setenta reis, e juros da lei. Com estes acontecimentos +coincidiu a ida do commendador á Foz, e o seu encontro com +Silvina em Carreiros. Agora está dada a razão de ter +perdido José Francisco o tino, quando a viu á cata de +conchinhas.</p> + +<p>—Ó prima Silvina—disse Francisca—olha +que está aqui o senhor commendador Andraens.</p> + +<p>—Bem se lhe dá ella que eu esteja aqui ou em casa +do diabo—disse com ira e amargura José Francisco.</p> + +<p>Silvina avisinhou-se do grupo, e disse serena e em tom +severo:</p> + +<p>—Folgo muito em vêr restabelecido o credor de meu +pai. Ser-me-ia dolorosa a sua morte, por muitas razões, +sendo a primeira o receio de vêr meu pai soffrer alguma +penhora a requerimento dos herdeiros do senhor commendador.</p> + +<p>José Francisco respondeu com promptidão sem mudar +de côr:</p> + +<p>—Quem deve, paga. É como é. A senhora +esperava ser minha herdeira?</p> + +<p>—Não, senhor; esperava merecer-lhe a +consideração de mulher que estivera para ser sua +esposa. Esperava que o senhor não andasse jogando entre mim +e meu pai com um punhado de ouro, que não vale para +<span class="pagenum"><a name="pag_188" id= +"pag_188">[188]</a></span>mim este punhado de conchas. Esperava, +finalmente, que o snr. José Francisco Andraens não +viesse por si mesmo certificar a conta, em que é tido, de +possuir uma riqueza que é o seu flagello, e o das pessoas a +quem empresta uma migalha das suas sobras. O senhor, logo que se +viu em perigo de morte, esqueceu-se de que eu me tinha +desembaraçado de todos os obstaculos para ser sua mulher, e +testou a insignificante divida de meu pai, para morrer sem deixar +saudades a alguem n'este mundo. Desde que v. s.ª praticou +semelhante baixeza em que conceito queria que o eu tivesse?</p> + +<p>José Francisco tartamudeou esta resposta:</p> + +<p>—Eu não estava escorreito do miolo quando fiz o +testamento. Lá foi o meu amigo visconde que arranjou tudo, e +eu assignei sem dar tino de mim. Se offendi o senhor seu pai, +queira perdoar.</p> + +<p>Não ha que vêr: Silvina era a mulher fatal de tres +corações, que por ella andavam perdidos. Andraens, +como a visse e ouvisse, perdia a consciencia da sua dignidade, +e—o que mais é para assombro—a consciencia de +credor. Quanto mais arrogante Silvina lhe castigava a natural +grosseria, mais escravo se humildava José Francisco. +Fulminava-o a electricidade dos olhos d'ella, e tinha a sua voz um +encanto, que faria lembrar o da magica da Colchida, se elle +não fosse pôrco, antes de ouvil-a. Pasmava elle do +feminil predominio d'aquella mimosa mulher que o sopesava; mas este +espanto era submisso, e a submissão amor, que os romancistas +chamam o fatidico, o predestinado, o invencivel.</p> + +<p>Antonio José Guimarães, avesso á +reconciliação de Silvina com o morgado, e desejoso de +a vêr ligada ao seu amigo Andraens, esforçou-se em +desamual-os, dando explicações a favor d'um e +d'outro, de modo que ambos já as escutavam silenciosos. +José Francisco acompanhou Silvina e Francisca, promettendo +vir jantar com ellas no dia seguinte, e authorisou o linheiro a +dizer de <span class="pagenum"><a name="pag_189" id= +"pag_189">[189]</a></span>sua parte á menina que por causa +d'elle não se havia de desarranjar o que estava tratado. +Mandou immediatamente sustar a começada +execução sobre Pedro de Mello; presenteou com +alfinetes e pulseiras as duas fidalgas; tomou casa na Foz; deu a +Pedro de Mello as satisfações que o pundonor do +fidalgo exigia, e deixou ao arbitrio d'este as +condições da escriptura nupcial.</p> + +<p>E o morgado de Santa Eufemia? Esse continuava a dar cabriolas +nas ondas.<span class="pagenum"><a name="pag_190" id= +"pag_190">[190]</a></span></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_191" id= +"pag_191">[191]</a></span></p> + +<h2>XXIII.</h2> + +<p>Em fins de Setembro, foi Jorge Coelho, na companhia de Leonardo +Pires, á Foz. D. Marianna contrariára-lhe o desejo, +até áquelle dia, por saber que a ventoinha de +Margaride lá estava, desafiando, com as suas +evoluções amorosas, a irrisão da gente frivola +e a indignação das pessoas sérias. O +jornalista, porém; que era oraculo em casa do negociante +Ferreira, aconselhára a excellente amiga de D. Antonia a +não impedir que Jorge visse o espectaculo irrisorio ou +repugnante em que Silvina se exhibia.</p> + +<p>Estava ella sentada nas ribas fragosas, que marginam o +«caneiro» onde os grupos se banhavam. Francisca da +Cunha estava, ao lado da prima, conversando com o linheiro. O +morgado de Santa Eufemia, n'outra <span class="pagenum"><a name= +"pag_192" id="pag_192">[192]</a></span>eminencia do fragoêdo, +abarcava as pernas com os braços, e apoiava o queixo entre +os joelhos. Na especie de ilha que fórma a outra riba do +caneiro, andava aos pulos Egas de Encerra-bodes, ensinando um +cão da Terra-Nova a saltar ás ondas. E era aquelle o +vulto mais pitoresco da praia, envolto no seu cobrijão +escarlate, franjado de borlas verdes, e cahido a um lado com a +natural graça, que usam dar-lhe os provincianos, vesados +áquella elegancia de feiras.</p> + +<p>Jorge de Sepulveda avistou de longe Silvina, e disse a +Pires:</p> + +<p>—Lá está ella... Não passemos +d'aqui.</p> + +<p>—E que quer dizer não passarmos +d'aqui?—acudiu o da Maya, accendendo o charuto no cachimbo +denegrido d'um banheiro—Queres tu, amigo Jorge, fingir o que +não és? Apraz-te passar por tolo no conceito +d'aquella mulher?!</p> + +<p>—Julgue-me ella como quizer...—replicou +elle—concedo que seja tolice isto, mas... é cedo ainda +para ser... homem. Eu amei seriamente Silvina. O amor e o remorso +são espinhos, que não desencrava do +coração quem quer. Para que te hei-de eu mentir, se +me não posso enganar a mim? Não a esqueço, nem +se quer a despreso áquella mulher. Minha mãi ajoelhou +commigo sobre a sepultura de meu pai, e pediu-me, pela memoria +d'elle, que me vencesse e levantasse da minha miseria. Quiz, e +não pude, meu amigo! Como queres tu que eu possa dissimular +á penetração de Silvina o que por ella sinto?! +Melhor é que me ella não veja. Vai tu, se queres: eu +espero-te aqui, e voltaremos logo para o Porto.</p> + +<p>Jorge sentou-se n'uma fraga a distancia; e Leonardo Pires, +vibrando o chicote, foi postar-se a pouca distancia de Silvina, +conversando com o morgado de Santa Eufemia.</p> + +<p>—Então quem namora agora a menina?—disse o da +Maya—O meu amigo de certo não, que o vejo aqui +<span class="pagenum"><a name="pag_193" id= +"pag_193">[193]</a></span>amuado. Jorge Coelho tambem não, +que está acolá conversando com a natureza, e lendo o +seu destino no vôo das gaivotas, como Catão +d'Utica.</p> + +<p>—Que é?!—disse Christovão, receioso de +que o nome do romano fosse algum chasco á sua +ignorancia.</p> + +<p>—Catão d'Utica, disse eu, meu caro senhor; +não conhece este personagem?</p> + +<p>—Nada, não conheço—replicou o morgado, +voltando o rosto para o lado de Silvina, que o remirava com +disfarce por entre o franjado da sombrinha.</p> + +<p>—Mas ha-de conhecer aquelle outro personagem que lá +vem—retorquiu o da Maya.</p> + +<p>Christovão olhou na direcção indicada, e +viu José Francisco Andraens, que descia lentamente a +calçada que conduz á praia. Não teve +mão da sua raiva, de mais a mais aguilhoada pela facecia de +Pires: fitou Silvina com um sorriso de ironia bruta, e disse-lhe em +alta voz:</p> + +<p>—Lá vem o nosso homem!</p> + +<p>E soltou uma casquinada de riso, dando upas sobre a pedra, com +as pernas apertadas entre os braços.</p> + +<p>Silvina virou-se de lado com repellão, e Leonardo Pires +exclamou:</p> + +<p>—Estão bonitos! isto sim, que daria idéas a +um Gavarni cançado! Ó humanidade tu és a +caricatura dos monstros que a imaginação cria nos +seus delirios de cognac e absyntho!</p> + +<p>Dito isto, com pasmo d'algumas familias de Traz-os-Montes, que +por alli se agrupavam, Leonardo desceu do fragoedo para a praia, ao +mesmo tempo que José Francisco se aproximava de Silvina.</p> + +<p>—Ora viva!—disse o commendador á fidalga de +Margaride—Como passou?</p> + +<p>—Excellentemente, e o snr. Andraens?</p> + +<p>—Está feito; não me dei muito bem com a +ceia. Appeteceu-me uma lagosta, e trabalhou-me cá dentro +toda <span class="pagenum"><a name="pag_194" id= +"pag_194">[194]</a></span>a noite. Agora, estou mais desempachado, +e acho que vamos ao banho.</p> + +<p>—Quando quizer.</p> + +<p>—Sempre me sento um bocado a arrefecer—tornou +José Francisco, apalpando as pedras, e ajustando, o melhor +que pôde, com as asperezas d'ellas as roscas de carne cuja +flexibilidade se moldava ao anfractuoso da rocha. Depois, bramiu um +urro de satisfação, e cruzou as mãos sobre a +barriga n.º 2.</p> + +<p>—Com que sim—continuou elle—Em que estava a +senhora a malucar?</p> + +<p>—A malucar?!—disse Silvina, franzindo a testa.</p> + +<p>—Sim, dizia eu, se estava a cogitar n'esta vista do +mar...</p> + +<p>—Ah! sim... estava...</p> + +<p>—A fallar a verdade,—tornou elle, +recolhendo-se—isto é uma obra que faz pasmar a gente! +O que me dá no goto é isto de crescer e mingar o +mar!... A senhora sabe a razão?</p> + +<p>—Dizem que é effeito da attracção da +lua.</p> + +<p>—Da lua!—atalhou com espanto José +Francisco.</p> + +<p>—Sim, senhor, da lua; é o que dizem os +entendedores; mas como se faz o fluxo e refluxo do mar é que +eu não sei, nem mesmo me importa saber...</p> + +<p>—Da lua!—tornou o commendador, olhando para a +abobada celeste, e gesticulando mudamente com os braços, +como quem se esforçava por entender a acção da +lua sobre a agua, com um imaginario artificio de +alcatruzes.—Da lua não póde ser!—disse +elle por fim, com a energia e aprumo de Galileu, á sahida do +carcere.</p> + +<p>—Pois então não seja!—disse Silvina +com enfado.</p> + +<p>—Porque a lua—tornou José Francisco, com os +olhos no céo, e os dedos das mãos afastados entre +si—a lua está lá em cima, e...</p> + +<p>—E o mar está cá em baixo...—atalhou a +menina, espirrando um frouxo de riso.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_195" id= +"pag_195">[195]</a></span>—Ora ahi está! E a senhora +ri-se!? Eu queria que os doutores me explicassem como é que +a lua empurra o mar e puxa depois por elle... Ó snr. +Guimarães! olhe aqui que vai já.</p> + +<p>O snr. Guimarães era o linheiro, que estava a pouca +distancia com Francisca da Cunha. Vieram ambos ao chamamento de +José Francisco, e ella principalmente attrahida por um +tregeito da prima.</p> + +<p>—Diga-me cá: vossê sabe como é que a +lua faz isto de crescer e mingar o mar?</p> + +<p>—Eu não estudei nada d'isso—respondeu o +linheiro—mas, em quanto a mim, a maré cresce quando o +vento é de mar, e minga quando o vento é de +terra.</p> + +<p>—Ah! pr'ahi, pr'ahi! diga-me d'isso!—acudiu radioso +o commendador.—Mas da lua!... É que estava cá a +minha Silvininha a dizer que era a lua. Quem lhe metteu isso na +cabeça, menina?</p> + +<p>—Foi alguem que estava a zombar de mim!—disse +Silvina gargalhando francamente com Francisca da Cunha.</p> + +<p>—Isso entendo eu... Agora—tornou José +Francisco—se querem ir lá conversar sosinhos, +vão, que eu tenho que dizer aqui a esta menina uns arranjos +cá da nossa vida de noivos.</p> + +<p>Francisca e o homem da rua das Hortas afastaram-se para irem +occupar as cadeiras, que deixaram junto d'uma barraca; mas +encontraram-nas tomadas por Leonardo Pires e Egas de +Encerra-bodes.</p> + +<p>Ergueu-se Egas, e Francisca sentou-se, cuidando que Leonardo +cederia a sua cadeira a Antonio José Guimarães; mas +Leonardo não se moveu, e o linheiro estacou diante d'ambos, +com os olhos fuzilantes sobre o da Maya, que assobiava +apparentemente distrahido a canção popular, cuja +letra é: <i>Muito bem seja apparecido n'esta +funcção</i>...</p> + +<p>Francisca ergueu-se, e deu alguns passos em retirada. +<span class="pagenum"><a name="pag_196" id= +"pag_196">[196]</a></span>O linheiro, porém, bamboando a +cabeça, resmuneou estas palavras, mal ouvidas de Pires:</p> + +<p>—O que vossê merecia, sei eu.</p> + +<p>—Que regouga?—disse-lhe o da Maya.</p> + +<p>—O senhor...—replicou Antonio +José—ainda ha-de topar quem lhe dê uma boa +lição.</p> + +<p>—Vá-se embora—redarguiu Pires—Se +não, atiro-lhe areia aos olhos.</p> + +<p>—A mim?!—disse com um sorriso azedo o linheiro.</p> + +<p>—E enterro-o n'esta praia, como quem enterra um safio +pôdre. Vá-se embora, homem, e diga lá á +fidalga que não ame parvos, se não quer receber +d'estas affrontas.</p> + +<p>O linheiro fez um arremesso com a bengala, e Leonardo Pires +tomou do chão dous punhados de areia, dizendo com semblante +de quem brinca:</p> + +<p>—Olhe que vossemecê leva!</p> + +<p>Egas de Encerra-bodes, que estivera, a um lado, rindo debaixo de +uma dobra do cobrijão, deu dous passos para a retaguarda do +linheiro, e fez um gesto ao «terra-nova». O cão +começou a tirar com os dentes pelas abas do paletó de +Antonio José, e este a sacudir-se, e a florear a bengala, +que infelizmente embarrou no focinho do animal. O remate d'este +episodio foi cousa triste de contar-se. O linheiro, se não +tem botas de cano alto, sahiria com as canellas estrincadas; e +póde ser que os dentes do «terra-nova» +procurassem afiar-se em porção das pernas, não +abroqueladas das botas, se Egas lhe não fallasse de modo que +elle, de cauda cahida, veio rastejar-lhe aos pés.</p> + +<p>Terminou isto por ir o misero queixar-se ao regedor que alli +estava perto, homem de bom siso, que se dirigiu a Egas, pedindo-lhe +que fizesse saber ao seu cão que nem todos os +cidadãos traziam botas de cano alto.</p> + +<p>Francisca da Cunha, fugindo para perto de Silvina, podéra +forrar-se á vergonha de semelhante conflicto; apenas +<span class="pagenum"><a name="pag_197" id= +"pag_197">[197]</a></span>dissera ao commendador que um doudo +furioso a perseguia em toda a parte; e, citando o nome do doudo, +viu, com grande pasmo de Silvina e d'ella, erguer-se o commendador, +e descer agilmente as fragas resvaladiças, para se +entremetter na desordem, que encontrou no periodo final do +cão arremettendo ás pernas do seu amigo.</p> + +<p>Aplacado o incidente, entraram Silvina e José Francisco, +cada qual em sua barraca, para se vestirem.</p> + +<p>Leonardo Pires dirigiu-se a um banheiro, e pediu sem demora um +fato de banho alugado. Vestiu-se, e sahiu da sua barraca a tempo +que o commendador, a par de Silvina, entravam no mar. Seguiu-os, e +passou-lhes adiante, indo postar-se n'um ponto em que as ondas +batiam mais fortes, e onde só os nadadores ousavam +esperal-as. Quando a onda vinha, Leonardo mergulhava, e vinha com +ella, até marrar nas pernas de José Francisco. +Erguia-se, sacudia a grenha, pedia perdão e tornava para o +seu posto. José Francisco retirava-se a um lado; mas, na +volta de outra onda, a marrada era infallivel. Á terceira +vez, o brazileiro ladeou, quando viu mergulhar o monstro da Maya; +este, porém, nadando com os olhos abertos, lá foi +abalroar com o homem, e pedir perdão pela terceira vez.</p> + +<p>José Francisco esbofava no mar como tubarão +ferido. Sahiu á praia atordoado, em quanto Silvina, estranha +ao successo porque ficára longe do noivo, se deixava +contemplar pelos olhos lagrimosos de Jorge, que a via, +resguardando-se de ser visto.</p> + +<p>Leonardo Pires, no perpassar por ella, disse-lhe a meia voz:</p> + +<p>—Jorge de Sepulveda está acolá, minha +senhora! Anda aquelle seu bom anjo a quer salval-a de um eterno +ridiculo, e v. exc.ª a cahir, a cahir, a cahir, n'um dos tres +abysmos das tres barrigas de José Francisco +Andraens!...<span class="pagenum"><a name="pag_198" id= +"pag_198">[198]</a></span></p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_199" id= +"pag_199">[199]</a></span></p> + +<h2>CONCLUSÃO.</h2> + +<p>Muita gente honesta, lendo, quinze dias depois, nos jornaes do +Porto, a noticia do casamento de José Francisco Andraens com +D. Silvina de Mello, observou que esta menina tinha muito mais +juizo do que mostrava. As mães de familia citaram-na como +exemplo ás suas filhas; e estas, bem que exteriormente se +rissem d'ella, invejaram-na.</p> + +<p>Ás suas amigas particulares dizia Silvina que o seu +casamento fôra um sacrificio do coração +á dignidade propria; por quanto, dous implacaveis homens, o +morgado de Santa Eufemia e um tal Jorge Sepulveda, calcando aos +pés quantos deveres a civilidade impõe a sujeitos, +que não podem ser amados, lhe andavam sempre dando +desgostos, vergonhas, e descredito. Estes dizeres, comprovados por +umas lagrimas que ella arranjava com prodigioso artificio, +apiedaram as proprias amigas, que diziam d'ella mil maravilhas.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag_200" id= +"pag_200">[200]</a></span>José Francisco Andraens arrijou de +suas frequentes dyspepsias, quando o mundo e a medicina menos o +esperavam. Muitos rapazes indiscretos paravam a contemplal-o +á porta dos snrs. Pintos Leites, na calçada dos +Clerigos, nos primeiros quinze dias depois do seu matrimoniamento. +José Francisco estava um todonada melado de rosto; mas +não lhe iam mal aquelles ares de noivo: tudo tem n'este +mundo a sua hora e côr de poesia.</p> + +<p>O morgado de Santa Eufemia recebeu ao mesmo tempo o golpe da +morte e o balsamo da vida: morrêra-lhe o pai na vespera do +dia em que Silvina casára.</p> + +<p>D. Francisca da Cunha casou com o linheiro das Hortas. As duas +meninas com os respectivos maridos foram para o Bom Jesus do Monte, +local sagrado que dá luas de poesia a quantos parvos ha ahi +que vão celebrar n'aquelle sanctuario uma festa, irrisoria, +se não tôrpe, na essencia.</p> + +<p>Jorge de Sepulveda, quando viu a local da gazeta agoureira de +muitas prosperidades a José Francisco e Silvina, estremeceu, +empedrou, e invocou do anjo da piedade o desafôgo do +pranto.</p> + +<p>Ora, o amigo de Guilherme do Amaral, se não era o anjo da +piedade, tinha em si um santo e mysterioso condão de +espremer entre os dedos inexoraveis da sua philosophia algum tanto +cynica, toda a peçonha dos corações, +cancerados pelo amor.</p> + +<p>Alguma vez verá o leitor que boleus deu toda esta gente +com as costumadas voltas do mundo.</p> + +<p>O livro complementar d'estas biographias ha-de denominar-se: +R<small>EACÇÃO DA POESIA</small>.</p> + +<p>É o natural seguimento dos Annos de prosa.</p> + +<p class="centrado">FIM.</p> +</div> +<div class="rodape"> + +<p><a name="foot395" id="foot395"></a><a href= +"#tex2html1"><sup>1</sup></a> Não vá entender alguem +que o romancista está phantasiando. Quando Napoleão +III casou com a condessa de Montijo, duas familias ventilaram em +Portugal e porfiadamente, a origem dos Porto-Carreiros que +levára a Castella os embriões da imperatriz. As +familias litigantes eram os Porto-Carreiros da casa da Bandeirinha +no Porto, e outros de igual appellido de Abragão, ahi para +as cercanias de Penafiel. O pleito heraldico andou nas gazetas, e +nomeadamente no <i>Portugal</i>, jornal realista do Porto. A +critica oscillou longo tempo indecisa entre as duas familias, +até que um dia, cançada de oscilações, +cahia a rir deixando ás duas familias nobilissimas o direito +salvo de enxertarem o imperio francez lá em casa.</p> + +<p><a name="foot396" id="foot396"></a><a href= +"#tex2html2"><sup>2</sup></a> <i>V. do Arcebispo.</i></p> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag_201" id= +"pag_201">[201]</a></span> + +<hr> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> + +<h1>O ARREPENDIMENTO.</h1> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> + +<hr> +<span class="pagenum"><a name="pag_203" id= +"pag_203">[203]</a></span> +<div class="corpo"> + +<h1>O ARREPENDIMENTO.</h1> + +<h2 style="font-size: 0.8em">ROMANCE.</h2> + +<p>Em tempos da minha mocidade costumava visitar a miudo uma boa +velha, minha visinha, que me honrava com a sua estima e amisade. +Humildemente confesso que não ha sociedade mais deleitosa e +agradavel, do que a de uma mulher que soube envelhecer. A sua +conversação instructiva e divertida, é um +inesgotavel thesouro de lembranças, anecdotas, +observações chistosas e reflexões +circumspectas, é finalmente uma revista do passado.</p> + +<p>D. Mafalda, deixem-me assim chamar-lhe, juntava á +amenidade da conversa, a do caracter, que era brando e +indulgente.</p> + +<p>Quando tinha occasião de ir passar uma noite com ella, +parecia-me que as horas voavam ligeiras e que corriam mais rapidas, +do que quando as gastava a distribuir <span class= +"pagenum"><a name="pag_204" id="pag_204">[204]</a></span> finezas e +galanteios ás mais formosas rainhas dos mais brilhantes +salões. Era sempre com vivo pesar que a via apontar para o +relogio, indicando-me que a hora de me retirar tinha chegado, e +voltava a minha casa com o espirito mais rico, e o +coração satisfeito e melhor.</p> + +<p>A historia que vou contar-vos, minhas caras leitoras, foi-me +dita por D. Mafalda n'um d'estes serãos em que vos +fallei.</p> + +<p>Era n'uma bella noite de Junho; fui encontral-a sentada na sua +cadeira á Voltaire, tendo a seus pés, deitado em um +cochim, o seu cãosinho querido; os olhos tinha-os +semi-abertos, um sorriso nos labios, e parecia respirar com prazer +a aragem, que, embalsamada pelas flôres do jardim, se coava +pela janella meia aberta. Quando cheguei junto d'ella vinha +indignado por que um de meus parentes tinha sido victima d'um abuso +de confiança; contei-lhe o succedido, e no calor da +narração não poupei ao culpado as maiores +imprecações, nem deixei de lhe dizer que desejava +fazer-lhe todo o mal possivel.</p> + +<p>—Devagar, meu querido amigo—me disse +ella—não o julgava tão irrascivel, nem que +tivesse tão pouca caridade para com o proximo. Sabe +lá, se, com a vida, não tiraria ao culpado o merito +de para o futuro se poder rehabilitar pelo arrependimento, e se o +momento em que lhe infringisse o castigo não seria o +destinado por Deus para esse arrependimento?</p> + +<p>—Eis-ahi, minha cara visinha, uma doutrina, permitta-me a +expressão, um pouco subversiva da ordem social.</p> + +<p>—Deus me defenda—me replicou—de querer que o +culpado não seja castigado, e que a sociedade fique indefeza +dos crimes que um seu membro praticou contra ella; quiz dizer +sómente que devia deixar ás leis o cuidado de +castigar o delinquente, e que o meu querido <span class= +"pagenum"><a name="pag_205" id="pag_205">[205]</a></span> amigo, +não devia, como individuo, fechar assim desapiedadamente o +coração a todo o sentimento de +commiseração por um desgraçado e infeliz, no +coração do qual talvez ainda bruxelei algum +clarão de virtude, que uma occasião favoravel e +propicia, que se apresente, ainda póde despertar, e fazer +com que esse membro da sociedade, que julga inutil, se torne bom e +aproveitavel.</p> + +<p>Como eu respondesse a isto, fazendo um d'estes movimentos de +cabeça, que são um protesto mudo e respeitoso, ella +acrescentou:</p> + +<p>—Está com paciencia para me aturar ouvindo uma +historia, pois que ainda temos algumas horas?</p> + +<p>Não recusei: uma historia era uma fortuna para combater a +exaltação d'espirito em que estava.</p> + +<p>D. Mafalda principiou assim:</p> + +<p>—Emilio da Cunha era o mais velho de tres irmãos, +dos quaes, o mais novo, vivia ha muitos annos no Rio de Janeiro, +onde tinha alcançado fortuna. O segundo nunca deixou o +Porto, sendo sempre infeliz nos seus commettimentos e +especulações. Emilio da Cunha, á custa de +muito trabalho e economias, pôde alcançar uma +fortunasinha, que lhe permittia esperar com socego, o momento de +descançar da vida laboriosa em que tinha vivido.</p> + +<p>Uma quarta pessoa completava esta familia, que era uma +irmã, que tendo seguido seu marido á India, para onde +elle tinha sido despachado, e não vindo nenhum d'elles a +figurar n'esta minha historia, não lh'os recordarei +mais.</p> + +<p>Aconteceu que o irmão de Emilio da Cunha, que residia no +Porto, por uma d'estas catastrophes que occasionam os jogos de +bolsa, falliu. Teve tal sentimento por este facto, que falleceu +tres dias depois, atacado d'uma febre cerebral. A herança, +que deixou, foram dividas e um filho.</p> + +<p>Emilio da Cunha, que tinha um coração bondoso, e +<span class="pagenum"><a name="pag_206" id= +"pag_206">[206]</a></span> um caracter pundonoroso, para que a +memoria de seu irmão não ficasse deshonrada, +comprometteu-se a pagar as dividas e recolheu em sua casa o filho +para lhe substituir o pai, que tinha perdido; procedimento +louvavel, e digno de se admirar, sabendo-se que elle tinha uma +filha, para quem, passados quatro ou cinco annos tinha a procurar +um casamento vantajoso.</p> + +<p>Roberto, se chamava o sobrinho de Emilio da Cunha, tinha +já 15 annos d'idade, mas o pai, inteiramente entregue +ás especulações, e aos cuidados, que ellas +trazem comsigo, descuidou completamente a sua +educação, por isso o seu retrato moral, n'esta +occasião, nada tinha de vantajoso; o espirito tinha-o +completamente inculto; as noções que possuia do justo +e do injusto eram as mais erroneas e disparatadas; o respeito aos +direitos d'outrem era para elle uma invenção estupida +dos homens, condemnada pela natureza, e a verdadeira liberdade +consistia em fazer o mal impunemente. Se algum bom instincto, ou +algum vislumbre de virtude, existia no coração de +Roberto, ainda estava em embryão, por que se não +tinha demonstrado. Quantas e quantas vezes, em quanto que o pai, +cego pelas especulações, concentrava todas as suas +faculdades intellectuaes na realisação d'um +impossivel, não deixou Roberto de ir ao collegio, fazendo o +que em termo escolar, se chama <i>gazear</i>, e gastava as horas +d'estudo em andar a vagabundear pelos campos e praças. D'ahi +proveio o tomar relações com meia duzia de garotos, +ou vadios, permitta-me a phrase, para quem nada era sagrado nem nas +acções, nem nas palavras. D'ahi nasceu a falta de +respeito pela propriedade alheia, roubando os pomares; e o +endurecimento de coração, castigando barbaramente +animaes inoffensivos.</p> + +<p>Emilio da Cunha reconheceu logo os maus instinctos de que seu +sobrinho era dotado, e a desmoralisação, que +já se tinha infiltrado no seu coração, mas +concebeu a esperança de o regenerar com desvelos, paciencia, +e <span class="pagenum"><a name="pag_207" id= +"pag_207">[207]</a></span> sobre tudo bons exemplos. Sua filha, a +que chamarei Valentina, de 14 annos d'idade, contribuiu +poderosamente para a realisação d'este seu empenho, +tão justo e louvavel. Era uma menina para quem a natureza +tinha sido prodiga em encantos de rosto, d'espirito e +coração, a ponto de qualquer que a via a admirar, e +de quem a ouvia amal-a immediatamente. Tinha uma tal influencia, ou +magia sobre os que se acercavam d'ella, que aos bons tornava-os +melhores, e aos maus fazia-lhe retirar envergonhados para o fundo +do coração os maus instinctos. Esta magia não +teve menos poder sobre Roberto, do que sobre os outros, de sorte +que a regeneração que elle soffreu, nos seus costumes +e acções, foi tão sensivel, que o bondoso +Emilio da Cunha revia-se alegre e contente na sua obra, e +congratulava-se dos resultados que tinha colhido.</p> + +<p>Deu-se porém uma circumstancia feliz, mas que ao mesmo +tempo foi desgraçada, que deteve Roberto repentinamente na +boa estrada em que se tinha embrenhado, e na qual parecia caminhar +resolutamente. Por uma carta chegada n'um dos paquetes inglezes do +Brazil, soube Emilio da Cunha, que seu irmão mais novo tinha +fallecido, deixando-o, por elle ser o seu mais proximo parente, +herdeiro d'uma fortuna consideravel. Bens rusticos, e +estabelecimentos industriaes é no que consistia a fortuna, +dos quaes se poderia colher bons lucros, sendo bem geridos, +conforme o tinha praticado o seu defunto proprietario; mas Emilio +da Cunha, além de se não julgar com conhecimentos e +forças para bem gerir a industria com que seu irmão +tinha feito fortuna, não tinha desejo, nem queria +expatriar-se. Foi até com immensa repugnancia que se +resolveu a ir ao Brazil tomar posse e liquidar a herança; +parecia que um secreto presentimento o avisava do que tinha de +acontecer, levando-o a considerar como uma desgraça esta +viagem, a que os sagrados direitos de sua predilecta filha +Valentina, o obrigavam a emprehender.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_208" id= +"pag_208">[208]</a></span> + +<p>Partiu finalmente, depois de ter tomado todas as +precauções para a tranquillidade de seu espirito. +Valentina entrou em um dos collegios de educação mais +acreditados do Porto, e Roberto ficou n'uma casa particular, onde +lhe deviam prestar todos os cuidados, que exigiam a sua idade, pois +que já então tinha 17 annos, e a sua completa +ignorancia, de que até uma criança de 8 annos poderia +zombar.</p> + +<p>Emilio da Cunha aportou a salvamento ás terras de Santa +Cruz, e logo que saltou em terra, desenvolveu a maior actividade, e +procurou por todos os meios possiveis abreviar rapidamente os seus +negocios, mas infelizmente os resultados não correspondiam +aos seus esforços e desejos, porque de todos os lados, e a +todos os momentos estavam sempre a surgir empecilhos e +embaraços não prevenidos nem esperados. Havia +já um anno que Emilio da Cunha tinha chegado ao Brazil, e +ainda os seus negocios não estavam mais adiantados, que no +primeiro dia.</p> + +<p>Cançado, desanimado e affectado de melancolia, ou +<i>spleen</i>, como lhe chamaria um nosso fiel alliado britannico, +mortificado por um desassosego de que não podia explicar a +causa, deliberou entregar os seus negocios e a +liquidação e arrecadação da heranca a +um procurador, e embarcar-se no primeiro paquete, que seguisse +viagem para Portugal.</p> + +<p>Que se tinha porém passado no Porto, durante este +tempo?</p> + +<p>É o que lhe vou contar, meu visinho, se ainda tiver +paciencia para me ouvir, me disse D. Mafalda, e o que vou fazer +ás minhas leitoras, se ellas quizerem ter a mesma paciencia +de me lêr.</p> + +<p>Roberto, separado de sua prima, aborrecido e dominado pela +priguiça, fugiu um bello dia da casa onde se achava +hospedado, foi procurar, e infelizmente encontrou, os seus antigos +companheiros da vadiagem, que tinham <span class="pagenum"><a name= +"pag_209" id="pag_209">[209]</a></span> quasi todos seguido a +estrada do vicio e do crime. Arrastaram portanto comsigo o +desventurado Roberto para esse despenhadeiro, na baixa do qual se +encontra a escoria da sociedade. Roberto tinha por companheiros +habituaes homens criminosos, de cara sinistra, maneiras brutaes, +linguagem grosseira e vestidos esfarrapados, n'uma palavra +mendigos, ou ladrões. Adoptou-lhe portanto os costumes as +maneiras e as maximas, e quem o visse emmagrecido pela +devassidão, com os vestidos em desalinho, os cabellos +eriçados, tomal-o-ia por um bandido de trinta annos, quando +elle não tinha mais que dezenove incompletos. Valentina, +pelo contrario, tinha crescido em corpo, belleza, espirito, talento +e virtudes.</p> + +<p>Conduzi-o do Porto ao Rio de Janeiro, e do Rio de Janeiro ao +Porto, agora, querendo-me seguir, leval-o-hei a Lisboa, onde se +passa um pequeno episodio d'esta muito veridica historia.</p> + +<p>De bordo d'um paquete inglez, chegado dos portos do Brazil, +tinha desembarcado um passageiro, que se dirigiu a um hotel para +descançar, e ahi passar até ao dia seguinte, em que +devia seguir viagem para o Porto, na mala-posta, a fim de se vir +unir a seus filhos, que estava ancioso por abraçar e apertar +contra o coração. Julgo desnecessario o dizer-lhe, +pois me parece já o adivinhou, que este viajante era Emilio +da Cunha, que se considerava feliz por pisar o solo da sua patria, +que tanto amava, e onde estava tudo o que elle mais presava n'este +mundo. Logo que no hotel lhe prepararam o quarto e tomou uma +pequena refeição, deitou-se e adormeceu, embalado por +sonhos felizes.</p> + +<p>No dia seguinte ainda o sol mal tinha despontado, já +subia pela escada do hotel e entrava no corredor commum, sobre o +qual deitavam uma duzia de portas de quartos, um homem de má +catadura. Era um d'estes <i>cavalheiros d'industria</i>, a qual +consiste em entrar, sob qualquer pretexto, de manhã cedo nos +hoteis, e aproveitar-se <span class="pagenum"><a name="pag_210" id= +"pag_210">[210]</a></span> do primeiro quarto que encontram aberto +para empalmarem destramente um relogio, ou uma mala, se o acordar +do hospede ou locatario do quarto, os não obriga a +retirar-se de mãos vazias, desculpando-se de que se tinham +enganado na porta.</p> + +<p>No andar, vacillante, e como desconfiado, do <i>cavalheiro +d'industria</i> se reconhecia facilmente, que era um noviço, +que ia tentar os seus primeiros ensaios, ou que ia fazer a sua +<i>primeira escamoteação</i>.</p> + +<p>Depois de ter estado por bastante tempo em lucta com a sua +consciencia, e irresoluto se devia ou não penetrar no quarto +de que a porta se achava meia cerrada, metteu primeiro a +cabeça, depois uma perna, e por ultimo todo o corpo; mas +fazendo algum ruido com este ultimo movimento, o hospede, que +estava deitado, acordou, e virando rapidamente a cabeça, +Roberto, por que o <i>cavalheiro d'industria</i> era elle, encarou +com seu tio Emilio da Cunha, ficou estupefacto e como fulminado por +um raio.</p> + +<p>N'esse mesmo dia de tarde Emilio da Cunha tomou lugar no caminho +de ferro até ao Carregado, e ahi na mala-posta até ao +Porto, onde trinta e seis horas depois se achava nos braços +de sua querida filha Valentina, que immediatamente tinha ido +procurar ao collegio.</p> + +<p>—Tu sahes já, já do collegio, minha +filha—lhe diz Emilio da Cunha—para retomares, e nunca +mais deixares, o teu lugar a meu lado.</p> + +<p>—Que felicidade—exclamou Valentina toda alegre e +folgazã—que vida socegada e feliz não vamos +passar todos tres, não é assim meu querido pai, por +que Roberto tambem vai para a nossa companhia?</p> + +<p>—Roberto, morreu—respondeu Emilio da Cunha com rosto +severo, e voz soturna.—Não quero que me falles mais +n'elle, entendes Valentina?</p> + +<p>Valentina admirada da resposta, ainda fez diversas perguntas a +seu pai, mas a todas ellas não obteve outra <span class= +"pagenum"><a name="pag_211" id="pag_211">[211]</a></span> resposta, +senão a completa prohibição de nunca mais lhe +fallar em Roberto.</p> + +<p>Ainda porém não tinha Emilio da Cunha soffrido +todas as provações, que Deus lhe destinára. +Haviam decorrido seis mezes desde que tinha chegado do Rio de +Janeiro, quando recebeu a participação de que o +procurador, que ficára encarregado da +liquidação e arrecadação da +herança, tinha cumprido a sua missão, mas que, depois +de ter arrecadado a somma importante, que produzira a mesma +herança, tinha desapparecido, sem que as pesquizas feitas +para se descobrir o lugar de seu refugio, tivessem dado o desejado +resultado.</p> + +<p>Emilio da Cunha ficou completamente arruinado por este facto, +porque, impaciente por satisfazer os credores de seu irmão, +pai de Roberto, tinha vendido tudo o que possuia em Portugal.</p> + +<p>O golpe foi forte, mas ainda assim não o foi bastante +para poder subjugar a coragem do bom e respeitavel velho, +mostrando-se Valentina n'esta conjunctura, digna filha d'um tal +pai.</p> + +<p>Renunciando heroicamente ás commodidades da vida, em que +até então tinham vivido, foram habitar, em um bairro +mais afastado da cidade, uma pequena casa, na qual soffreram +privações diarias e penosas, tratando sempre d'obter +alguns recursos para a sua subsistencia, mesmo em trabalhos mal +retribuidos.</p> + +<p>Valentina, que Deus tinha dotado de bom gosto, e bastante +habilidade, principiou a trabalhar para uma modista, a qual +satisfeita com os seus primeiros trabalhos, lh'os deu em seguida +mais delicados e por isso melhor retribuidos, o que foi para elles +uma grande felicidade, e que assim lhes proporcionou meios licitos +de pagarem regularmente o seu aluguel, e de já não +receiarem tanto nem o frio, nem a fome.</p> + +<p>Valentina ia entregar a sua obra á modista, a qual +satisfeita com ella lhe dava sempre mais, e muitas vezes +<span class="pagenum"><a name="pag_212" id= +"pag_212">[212]</a></span> mais do que a que ella podia fazer. A +uma crise terrivel tinha-se seguido uma abastança mediocre, +que era por isso uma felicidade mais agradavel e estimada.</p> + +<p>Decorreram assim dous annos.</p> + +<p>Um dia, em que Valentina estava só, lhe entregou o +carteiro uma carta, e qual não foi a sua surpreza quando +reconheceu a letra de seu primo.</p> + +<p>Roberto contava n'esta carta tudo o que tinha passado, desde o +momento em que o vimos no hotel em Lisboa preparando-se para +<i>escamotear</i> seu tio. Fulminado pela vista d'Emilio da Cunha +tinha recobrado os sentidos para na fuga se salvar ás +imprecações d'indignação do velho. +Chegou offegante ao Terreiro do Paço, onde se sentou, ou +melhor se deixou cahir n'um dos assentos de pedra, que alli se +acham, e assim esteve por muito tempo, com a cabeça +escondida entre as mãos, mergulhado em acerbas e crueis +reflexões.</p> + +<p>Experimentou ou sentiu dentro em si uma completa +revolução; o seu procedimento indigno e infame se lhe +apresentou em toda a sua nudez e hediondez; teve horror de si mesmo +e por um instante pensou em suicidar-se; mas com o arrependimento +entraram-lhe no coração sentimentos mais generosos. +Lembrou-se que, tendo d'ora avante uma conducta honrosa e illibada, +ainda poderia chegar a fazer esquecer os seus erros passados, e +reanimado por esta feliz lembrança, que o seu anjo bom lhe +tinha suggerido, levantou-se resoluto a trabalhar para a sua +rehabilitação, e a não descançar sem a +ter chegado a alcançar.</p> + +<p>A occasião favoravel não se fez esperar muito, por +que um capitão d'um navio mercante, que estava apparelhando +para a California, lhe concedeu passagem gratuita, mediante os seus +serviços e o seu trabalho na viagem.</p> + +<p>Aportou Roberto á California e sorrindo-lhe a fortuna, em +lugar de se embrenhar no jogo, arriscando assim <span class= +"pagenum"><a name="pag_213" id="pag_213">[213]</a></span> as suas +economias, fundou um estabelecimento, que ia prosperando, faltando +unicamente para a sua felicidade se tornar completa, o obter o +perdão de seu tio, e a esperança de poder tornar a +vêr sua prima, cuja imagem tinha constantemente na +idéa, e o sustentava e animava n'esta nova estrada de +trabalho e ordem, de que não pensava mais em se desviar.</p> + +<p>Eis aqui em resumo o que continha a carta que Roberto dirigiu a +sua prima.</p> + +<p>Valentina muito commovida, mas gostosa e alegre por ter de dar +tão grata noticia a seu querido pai, esperava anciosa a sua +volta.</p> + +<p>Mal lhe deu tempo de sentar-se, ia logo a contar-lhe o +succedido, mas, Emilio da Cunha a deteve, apenas tinha pronunciado +a primeira palavra. Valentina insistiu, mas o velho levantou-se com +a maldição nos labios; ella lançou-se-lhe de +joelhos aos pés, chorou, supplicou, mas elle a tudo ficou +impassivel e inflexivel.</p> + +<p>Valentina consternada respondeu á carta de seu primo +descrevendo-lhe o succedido, e a inutilidade de seus +esforços; mas para o não desanimar promettia-lhe de +os renovar, e que os repetiria até que chegasse a mover seu +pai á commiseração e piedade, de que +não desesperava. A carta continha tambem a +descripção de todos os successos, que se tinham dado +desde que Roberto tinha desapparecido; a decadencia de Emilio da +Cunha, a pobresa em que tinham vivido em quanto que o seu trabalho +mal retribuido lhe dava parcos meios de subsistencia, e o +melhoramento de sua posição, finalmente continha +tambem algumas palavras d'exhortação e amisade.</p> + +<p>A situação de Emilio da Cunha e sua filha soffreu, +passado algum tempo, uma modificação muito mais +inesperada, do que a que se havia seguido ao aniquilamento da sua +fortuna.</p> + +<p>Emilio da Cunha foi chamado a casa d'um capitalista, aonde lhe +entregaram 20 contos de reis de que um anonymo <span class= +"pagenum"><a name="pag_214" id="pag_214">[214]</a></span> lhe +mandava dar posse a titulo de restituição. D'onde +tinha vindo este dinheiro?</p> + +<p>Emilio da Cunha pensou muito naturalmente, que o procurador que +o tinha roubado, mortificado pelo remorso, e querendo socegar um +pouco a sua consciencia, lhe tinha mandado entregar aquella +quantia, como uma parte da restituição, que lhe tinha +a fazer. Valentina estava muito longe de concordar com a +opinião de seu pai, mas nem por isso teve a franqueza de +lh'o declarar, nem lhe dar a entender qual era a sua.</p> + +<p>Qual das duas opiniões era a verdadeira, é o que +nos não importa saber, o que se sabe é que a +abastança ou decencia tinha reentrado em casa d'Emilio da +Cunha, e as idéas do digno e honrado velho, foram-se +tornando mais brandas sob a influencia do bem-estar.</p> + +<p>Foi elle proprio que em um dia fallou primeiro a Valentina em +seu primo Roberto, e ella não perdendo esta occasião +tão propicia, que se lhe offerecia, advogou por muito tempo, +com calor e eloquencia, a causa de seu primo. Emilio da Cunha +deixou-a fallar como e todo o tempo que ella quiz, sem lhe dar a +mais pequena resposta, nem lhe replicar a cousa alguma.</p> + +<p>Estaria ou não convencido?</p> + +<p>A pergunta não tinha muito facil resposta, mas pelo menos +tinha ouvido sem colera e com socego as allegações a +favor de seu sobrinho, o que já era um bom indicio da +mudança que n'elle se havia operado.</p> + +<p>Valentina, contente e satisfeita com o resultado do seu primeiro +commettimento, escreveu immediatamente a seu primo informando-o do +que havia, e a esta carta seguiram-se outras muitas, noticiando-lhe +sempre algum novo passo dado na estrada da +reconciliação.</p> + +<p>Aconteceu um dia que Emilio da Cunha, no meio d'uma conversa, +que tinha seguido n'um objecto mui diverso, parasse +precipitadamente para dizer a sua filha:</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_215" id= +"pag_215">[215]</a></span> + +<p>—Tu acreditas sinceramente no arrependimento de teu +primo?</p> + +<p>—Oh! sim, meu pai—se apressou em responder +Valentina.</p> + +<p>—Queira Deus que te não enganes.</p> + +<p>Um outro dia acordou d'uma pequena sesta, que se tinha seguido +ao jantar, gritando, como se continuasse uma conversa +começada:</p> + +<p>—Ah! se Roberto estivesse arrependido realmente, como tu o +suppões, com que prazer e alegria........</p> + +<p>Não terminou a phrase, mas a expressão benevola da +physionomia de Emilio da Cunha indicou a Valentina o complemento da +idéa.</p> + +<p>Isto foi objecto para uma ultima carta a Roberto, a que elle +respondeu, e fechou-se a correspondencia.</p> + +<p>Uma manhã Emilio da Cunha achava-se com Valentina em uma +pequena, mas elegante sala, que deitava sobre o jardim—por +que elles tinham deixado a sua pobre morada, trocando-a por outra +mais decente—Emilio da Cunha sentado junto d'uma mesa, sobre +a qual se achava uma magnifica jarra de flôres, olhava +sorrindo para Valentina, que, de pé, junto d'um +açafate em que estavam dous pombinhos, reprehendia, +acariciando-o, um d'elles:</p> + +<p>—Eis-te aqui, meu bello fugitivo—lhe dizia +ella—pensavas que era só voltar para te ser concedido +o perdão, depois de me teres feito soffrer com a tua +ausencia e ingratidão? Muito bem; visto que o teu regresso +prova um arrependimento sincero, perdôo com prazer; +não é assim, paisinho—acrescentou ella com voz +meiga e levantando os lindos olhos com uma expressão de +candura para Emilio da Cunha—que se devem receber os filhos +prodigos, que regressam arrependidos e contrictos?</p> + +<p>Emilio da Cunha não deu uma palavra, mas rolou-lhe uma +lagrima sobre a face.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_216" id= +"pag_216">[216]</a></span> + +<p>N'este momento surprehendeu elle um olhar d'intelligencia, que +Valentina dirigia a alguem, que estava pelo lado detraz da cadeira +em que estava sentado. Voltou-se rapidamente, e soltando um grito, +ouviu-se o nome de Roberto.</p> + +<p>Era Roberto realmente. A scena que se seguiu o meu caro visinho +melhor a poderá imaginar, do que eu pintar-lh'a, ou +descrever-lh'a.</p> + +<p>Roberto voltava honrado e rico. Julgo que já comprehendeu +que, para soccorrer seu tio, elle concebeu e executou o plano da +restituição.</p> + +<p>D. Mafalda calou-se. Parecia esperar, que eu, convencido pela +sua historia, sanccionasse com o meu voto a doutrina, que ella +tinha expendido antes de começar.</p> + +<p>—Ah!—lhe disse eu com admiração +sincera—v. exc.ª podia facilmente escrever um +romance.</p> + +<p>—Isso quer dizer que me faz a honra de julgar esta minha +historia como producção da minha +imaginação e phantasia?</p> + +<p>Limitei-me a inclinar-me respeitosamenie, e aqui terminou a +nossa discussão.</p> + +<p>No dia seguinte D. Mafalda offereceu-se para me apresentar a um +seu sobrinho, proprietario d'um estabelecimento industrial +importante nos suburbios do Porto. Aceitei gostosa e promptamente. +Fui recebido com extrema bondade e franqueza. O sobrinho de D. +Mafalda gosava uma felicidade digna de ser invejada; era casado com +uma mulher, que era um anjo de belleza e bondade, e tinha um filho +o mais lindo e traquinas que se póde imaginar; o seu +estabelecimento florescia e prosperava; o seu nome figurava entre +os principaes e os mais honrados do mundo commercial e industrial, +n'uma palavra nada faltava á sua gloria, fortuna, e +felicidade domestica.</p> + +<p>—Que pensa de meu sobrinho?—me perguntou D. Mafalda, +quando nos retiramos.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_217" id= +"pag_217">[217]</a></span> + +<p>—Ah! minha senhora, nada mais ambiciono do que poder +imital-o.</p> + +<p>—Pois aquelle que viu é o Roberto da minha +historia.</p> + +<p>Recolhi-me a casa fazendo para mim as seguintes +reflexões: Que a regeneração do homem pelo +arrependimento não é utopia, e que a sociedade e a +sua organisação é que são as causas +principaes, que occasionam que muitos de seus membros não se +regenerem, por lhe embargarem ou matarem logo algumas centelhas de +virtude, que ainda tinham no coração.</p> + +<p>Pensem, e verão o corollario que tiram.</p> + +<p class="centrado">FIM.</p> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag_219" id= +"pag_219">[219]</a></span> + +<hr> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> + +<h1>A GRATIDÃO.</h1> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> +<br> + +<hr> +<span class="pagenum"><a name="pag_221" id= +"pag_221">[221]</a></span> +<div class="corpo"> + +<h1>A GRATIDÃO.</h1> + +<h2 style="font-size: 0.8em">ROMANCE.</h2> + +<h2>I.</h2> + +<p>Estavamos nos ultimos dias de Dezembro de 1846. Uma camada mui +espessa de neve cobria o sólo. O ar, sombrio e carregado, +indicava que mais neve não tardava a cahir. Os ramos +nús das arvores dos montes tremiam soprados pelo vento norte +gelado. Estava tudo n'um perfeito socego, e tristeza; nem o mais +leve murmurio se ouvia.</p> + +<p>Uma velha, e uma criancinha, apesar do rigor do frio, seguiam +com difficuldade o caminho, que da serra de Vallongo conduz a S. +Cosme. A criança, d'espaço a espaço, soprava +ás mãosinhas inteiriçadas pelo frio, e +não se podendo sustentar sobre os pés, que tinha +inchados pelas frieiras, caminhava vacillante; mas vencendo todos +os obstaculos, com uma energia superior á sua idade, +<span class="pagenum"><a name="pag_222" id= +"pag_222">[222]</a></span> tomava galhardamente o seu lugar ao lado +da velha. Esta parecia ter sessenta annos. Estava corcovada mais +pela miseria, do que pela idade, e tinha no rosto profundas rugas. +Pelo modo como andava, e tateava o caminho com a mulêta, +via-se que era cega.</p> + +<p>—Aonde vamos nós, Rosa?—perguntou a velha +á rapariguinha.</p> + +<p>—Em meio caminho, minha avó.</p> + +<p>—Jesus Senhor, valei-me,—disse a cega,—pois +que as minhas pobres pernas já estão cançadas, +e parece-me que não chego ao fim da jornada.</p> + +<p>—Encoste-se ao meu hombro, avósinha, que eu +não estou cançada.</p> + +<p>—Não, não. Tudo está acabado. Eu +morro aqui, Rosinha. Tenho muita fome, e muito frio para vencer o +caminho até S. Cosme. Ai meu Pai do céo, que me sinto +desfallecer...</p> + +<p>Fez um gesto de desespero, e a cega cahiu sobre o caminho.</p> + +<p>—Avósinha, avósinha,—gritava Rosa +assustada,—volte a si, que lh'o peço eu; mais um +pequeno esforço e chegaremos a S. Cosme.</p> + +<p>A cega não deu accordo de si.</p> + +<p>—Avósinha,—continuou Rosa chorando, e +cobrindo-a de beijos,—se me abandona, que hei-de fazer? Quer +que eu morra de paixão?</p> + +<p>—Morrer, tu, minha Rosinha,—disse a cega +levantando-se.—Oh! meu Deus, não permittaes tal.</p> + +<p>—Então levante-se que lh'o peço eu; se fica +aqui mais tempo o frio matal-a-ia. Em S. Cosme nos aqueceremos.</p> + +<p>—Ai de mim,—disse a cega, levantando-se ajudada de +Rosa,—e a snr.ª D. Thereza receber-nos-ha?</p> + +<p>—Ha-de receber sim, minha avósinha, eu lh'o +afianço. Não creio que a boa snr.ª D. Thereza +nos despeça. Quando eu lhe ia vender flôres +silvestres, que apanhava <span class="pagenum"><a name="pag_223" +id="pag_223">[223]</a></span> no monte, abraçava-me, e +dizia-me muitas vezes, que desejava que eu fosse sua filha.</p> + +<p>—Não duvido que ella te receba, porque és +muito linda e agradavel; agora o que eu não creio é +que me receba a mim, que sou uma velha e cega, que para nada +sirvo.</p> + +<p>—Se assim acontecer, voltaremos á nossa +aldêa, e os bons lavradores, que conheceram meus paes, +terão piedade de nós, soccorrer-nos-hão, e eu +trabalharei para lhes pagar, o que elles vos derem.</p> + +<p>A avó, muito commovida, apertou ao coração +a pequena, e murmurou palavras de ternura e gratidão; e +reanimada por esta felicidade, que Rosa lhe tinha feito +experimentar, retomou com passo mais firme o caminho de S. +Cosme.</p> + +<p>O vento soprava já com mais força; o ar tinha +escurecido mais, e pequenos flocos de neve se viam voltejar no ar. +Rosa, tiritando com frio, fazia esforços sobrehumanos para +poder andar, e cada passo, que a pobre cega dava, era acompanhado +d'um suspiro surdo. O vento augmentou, e os flocos de neve, que ao +principio eram raros, cahiam em maior abundancia.</p> + +<p>—Rosinha,—disse a cega,—bem queria andar, mas +não posso; deixa-me ficar.</p> + +<p>—Avósinha, eu já avisto a torre da igreja de +S. Cosme.</p> + +<p>—Estás bem certa d'isso?</p> + +<p>—Eu não queria mentir...</p> + +<p>—Vamos andando. Permitta Deus que eu possa vencer o +caminho.</p> + +<p>—Não tenha receio de me cançar, minha +avó; sou forte, e não estou fatigada. Encoste-se ao +meu hombro.</p> + +<p>—Meu querido anjinho, que Deus te pague tudo o que me +fazes.</p> + +<p>Chegaram finalmente a S. Cosme, á quinta de D. +<span class="pagenum"><a name="pag_224" id= +"pag_224">[224]</a></span> Thereza de Sousa, depois de mil +esforços, que cançaram completamente avó e +neta.</p> + +<p>Era tempo; mais um instante e teriam cahido ambas no +chão. Entrando na cozinha da casa, o calor produziu-lhes uma +reacção tão violenta, que desfalleceram.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_225" id= +"pag_225">[225]</a></span> + +<h2>II.</h2> + +<p>D. Thereza de Sousa, e mais algumas visinhas, que se tinham +reunido para serandar, acercaram-se das duas infelizes. Depois de +lhe ter ministrado todos os cuidados necessarios para as reanimar, +como o seu principal mal era a fome, mandou-lhe dar um bom caldo, e +acommodal-as a um dos cantos do lar, em que ardia uma grande +fogueira.</p> + +<p>—Agora, Rosinha,—disse D. Thereza, +ameigando-a,—conta-nos, como a esta hora, e com este tempo +vieste até aqui com esta boa mulher.</p> + +<p>—Desculpai, minha boa senhora,—disse a +cega,—Rosinha é minha neta.</p> + +<p>—Sim, snr.ª D. Thereza, é minha avó, de +quem tantas vezes tenho fallado a v. exc.ª e...</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_226" id= +"pag_226">[226]</a></span> + +<p>—Então porque não continuas?—lhe +replicou D. Thereza.</p> + +<p>A pequena levantou para D. Thereza os seus lindos olhos azues, +com uma tal expressão de supplica, que a commoveu.</p> + +<p>—Falla, falla, minha menina. Não tenhas receio. +Queres pedir-me alguma cousa, não é assim?</p> + +<p>—Vêde, minha boa senhora,—disse Rosa, contendo +as lagrimas a custo,—eu e minha avó, somos muito +desgraçadas. Meu pai, que era rachador de lenha, feriu-se +pelo S. João em uma perna com o machado. Minha mãi +mandou-me chamar a toda a pressa o snr. Pereira, que é um +homem muito entendido. Fui, o mais depressa que pude, e quando +cheguei a casa do snr. Pereira estava elle para sahir, e não +queria vir commigo para não torcer o seu caminho; mas eu +tanto lhe pedi, que sempre me acompanhou. Quando viu a perna a meu +pai, logo disse, que estava muito mal, e que não promettia +cural-o. Duas semanas depois veio á ferida uma molestia, de +que me não lembra agora o nome, e meu pai morreu.</p> + +<p>Rosa calou-se chorando, e a cega tambem soluçava. D. +Thereza abraçou a rapariguinha, apertou a mão +á pobre velha, e disse:</p> + +<p>—Para hoje já é de mais, +ámanhã...</p> + +<p>—Perdôe-me, snr.ª D. Thereza,—replicou +Rosa,—mas é melhor que eu termine hoje,—e +continuou:</p> + +<p>—Havia um mez que meu pai tinha morrido, quando minha +mãi cahiu de cama; a febre não a deixava. Eu ia aos +campos apanhar as hervas, que minha avó me ensinava, para +lhe fazer remedios, mas nada sarava minha mãi. Um dia +abraçou-me e disse-me:</p> + +<p>«Minha pobre Rosinha, eu vou unir-me com teu pai, mas que +será de ti?</p> + +<p>Trabalharei, lhe respondi.</p> + +<p>És muito nova para isso; mas entretanto rogarei muito a +Deus para que te receba sob a sua santa guarda, <span class= +"pagenum"><a name="pag_227" id="pag_227">[227]</a></span> e te +não abandone. Nunca desampares tua avó, sê-lhe +obediente e carinhosa..., ainda queria fallar, mas não +pôde, abraçou-me e á avósinha, e +expirou.»</p> + +<p>Desde então alguns rachadores, amigos de meu pai, nos +recolheram e soccorreram; mas como não são ricos, e +precisam de mudar de terra por não terem aqui que fazer, +lembrei-me de vir pedir agasalho á senhora, pois que, sendo +tão boa, não deixaria de nos recolher, que somos +tão desgraçadas. Sou fraquinha, mas posso trabalhar. +Sei fiar, e começo a lavar. Guardarei os bois, e os +carneiros e tratarei do gallinheiro. Minha avó tambem fia +muito bem e estou muito certa, que a ha-de satisfazer com o seu +trabalho. Oh! senhora—disse Rosa ajoelhando-se aos pés +de D. Thereza—não nos abandoneis; satisfazemos-nos com +pouco, e faremos todo o possivel para vos agradar, e rogaremos +continuamente a Deus pela vossa vida e felicidade.</p> + +<p>D. Thereza commoveu-se tanto, com a singeleza e candura d'esta +supplica, que duas lagrimas lhe brilharam nos olhos.</p> + +<p>—Levanta-te, Rosinha, ámanhã fallaremos +n'isso. Tu e tua avó ide-vos deitar. Sempre te direi, que +és muito linda e corajosa, para que se não tenha +piedade de ti.</p> + +<p>Rosa beijou com reconhecimento as mãos de D. Thereza, e a +cega encheu-a de bençãos. D. Thereza mandou-as +conduzir a um pequeno quarto, limpo e quente, em que um somno +reparador lhe reanimou as forças.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_228" id= +"pag_228">[228]</a></span> + +<h2>III.</h2> + +<p>Ainda mal a aurora tinha raiado, já Rosa estava a +pé. Fatigada, como estava, da jornada do dia antecedente, +custou-lhe muito a levantar-se cedo, mas fez um esforço para +mostrar os seus desejos a D. Thereza.</p> + +<p>Arranjou-se, o melhor que pôde, com os seus velhos +vestidos, e, depois de ter dirigido mentalmente a Deus uma +oração fervente, desceu ao andar terreo.</p> + +<p>—Já a pé,—lhe disse alegremente D. +Thereza.</p> + +<p>—Estava tão cançada do caminho d'hontem, que +receei, já fosse tarde; mas graças aos vossos +beneficios, minha senhora, já estou prompta, para o que me +determinardes.</p> + +<p>—E tua avó?</p> + +<p>—Ainda dorme. É tão velhinha e tão +doente, que vos peço tenhaes piedade d'ella.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_229" id= +"pag_229">[229]</a></span> + +<p>Rosa ergueu as mãos, e esperou tremula a resposta da dona +da quinta.</p> + +<p>D. Thereza de Sousa era, o que vulgarmente se chama, uma mulher +de casa. Tendo viuvado ha doze annos, geria com tanto acerto e +economia as suas propriedades, que a sua fortuna tinha augmentado +consideravelmente.</p> + +<p>Os visinhos do lugar diziam que, pela avareza e mesquinharia, +é que tinha alcançado a fortuna, que possuia, pois +que em qualquer cousa sempre tinha que diminuir, e acrescentavam +ironicamente, que, dando <i>tantas</i> esmolas, o dinheiro nunca +lhe havia de faltar.</p> + +<p>Fosse como fosse, o que sei é, que D. Thereza +sensibilisou-se tanto com a historia de Rosinha, que, quando ella +ergueu as mãos, e a viu com os olhos arrasados de lagrimas, +esperando a resposta, disse para si; que a uma supplica tão +humilde e cheia de tanto amor filial, era impossivel resistir.</p> + +<p>N'este momento quem accusasse de avarenta D. Thereza de Sousa, +seria injusto com ella, por que, recolhendo a avó e neta, +tomava um encargo bastante pesado. Rosa era ainda muito pequena, e +de mais a mais muito fraquinha, para poder ter utilidade real! A +pobre criança estava a fazer dez annos, mas era muito +franzina e delicada. O seu rosto, cercado de compridos +caracóes louros, e animado com uns grandes olhos azues +escuros, inspirava sympathia. Tinha as maneiras delicadas, e a +linguagem menos rude, que a dos camponezes dos arredores. Esta +distincção n'uma criança, ainda tão +tenra como Rosa, nascia da sua intelligencia mui desenvolvida.</p> + +<p>A mãi, logo que ella teve tino para se não perder +nos caminhos, mandava-a apanhar flôres silvestres, que ia +vender ás familias mais abastadas das aldéas +visinhas. Como Rosa era muito linda as senhoras das casas +acolhiam-na muito bem, divertiam-se com ella, ouvindo-a +<span class="pagenum"><a name="pag_230" id= +"pag_230">[230]</a></span> tagarelar, e demoravam-na muitas vezes a +brincar com as suas filhas.</p> + +<p>Sendo muito viva tomou facilmente as maneiras, e modo de fallar, +das pessoas com quem tratava, de modo que os rachadores +denominavam-na a fidalguinha.</p> + +<p>Se tinha adquirido maneiras delicadas, não havia perdido +as boas qualidades, de que era dotada; humilde e carinhosa para +todos, quem a conhecia adorava-a.</p> + +<p>O que a mim, minhas caras leitoras, me levou tanto tempo a +dizer, passou n'um instante pela idéa a D. Thereza de Sousa, +e fixou-lhe a resolução de recolher a avó e a +neta.</p> + +<p>—Vou-te mandar vestir uma roupinha melhor, +Rosinha,—lhe disse D. Thereza, animando-a com uma brandura, +que lhe não era habitual,—porque espero has-de ser uma +boa criada, serviçal e trabalhadeira.</p> + +<p>—Então fico em casa de v. exc.ª?—disse +Rosa, não podendo crer em tanta ventura.</p> + +<p>—Ficas, sim, e parece-me que nunca me darás motivo +para me arrepender do que hoje faço.</p> + +<p>—Oh! minha senhora, estai certa que me esforçarei o +mais possivel, para vos agradar e satisfazer os vossos desejos.</p> + +<p>—Assim o espero. Anda vestir-te.</p> + +<p>—Desculpe-me, senhora. Mas minha avó...—e +Rosa parou corando.</p> + +<p>D. Thereza, querendo experimentar a sua protegida, disse:</p> + +<p>—Que queres a tua avó?</p> + +<p>—Ella tambem fica?</p> + +<p>—Não. Tua avó é cega e velha, para +nada serve, e eu não sou rica bastante, para me encarregar +da sustentação de duas pessoas.</p> + +<p>—Então, senhora, agradeço os vossos +beneficios, e todo o bem que me querieis fazer, mas não +posso abandonar a minha avósinha, que morreria de +paixão.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_231" id= +"pag_231">[231]</a></span> + +<p>Vou ajudal-a a levantar-se, e regressaremos à nossa +aldêa.</p> + +<p>—E que has-de fazer na tua aldêa?</p> + +<p>—Irei humildemente pedir a um mestre tamanqueiro um +pequeno cantinho da sua casa, que estou certa me não +negará. Não sou robusta, mas tenho coragem, por isso +trabalharei nos socos durante o inverno. Quando vier o verão +irei vender flôres e fructos, como os demais annos, e como +eu, e a pobre cega, de pouco precisamos para viver, parece-me que +ganharei para ambas. Logo que chegue a primavera não seremos +pesadas a ninguem...</p> + +<p>D. Thereza apertou Rosa nos braços, e chegou-a ao +coração.</p> + +<p>—Basta, Rosinha, tu és um anjo do céo, que +Deus enviou a minha casa para me trazer a felicidade. Vai-te +vestir, e depois irás participar a tua avó, que ambas +ficaes para sempre em minha casa.</p> + +<p>Descrever a alegria da avó, quando soube a decisão +de D. Thereza, é-me impossivel fazel-o, minhas caras +leitoras; vós, que deveis ser dotadas de bom e piedoso +coração, melhor a podereis imaginar. Abraçava +Rosa, agradecia a D. Thereza com um reconhecimento mui sincero, +promettendo fazer todo possivel para ser menos pesada á sua +bemfeitora. Rosa nada dizia, mas a eloquencia de seu olhar provava +a D. Thereza a sua gratidão.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_232" id= +"pag_232">[232]</a></span> + +<h2>IV.</h2> + +<p>Rosa, ainda que novinha e de fraca organisação, +tornou-se util em casa. Incansavel no trabalho, de manhã +cedo tratava da capoeira e do pombal; depois ia guardar os bois e +os carneiros, e, em quanto que os vigiava, fiava na sua roca.</p> + +<p>Ao jantar, quando recolhia a casa, tinha sempre que fazer. Era +um gosto vêr esta criança tão tenrinha arrumar, +limpar e lustrar os moveis, como o faria a melhor mulher de +casa.</p> + +<p>D. Thereza cada vez mais estimava a sua protegida, e +felicitava-se pela ter recolhido. A avó tambem não +era inutil. A cegueira não a impossibilitava de fiar desde +pela manhã até á noite, e o seu trabalho era +perfeito. Tudo corria bem, e todos andavam contentes e +satisfeitos.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_233" id= +"pag_233">[233]</a></span> + +<p>Chegou a primavera. Começaram a desabrochar com o tepido +sôpro d'esta estação, e mostraram as suas +galas, a bella pervinca azul, o narciso de corôa d'ouro, o +lyrio de campanas odoriferas, e a bella violeta de calices +perfumados.</p> + +<p>Rosa, quando ia á serra, era para ella um dia d'alegria. +Procurava os caminhos tapetados de musgo, os regatos, que tantas +vezes tinha passado, as fontes escondidas pelas +çarças, e as arvores, sob as quaes tinha encontrado +as mais lindas flôres. Rosa sentia-se mais livre e mais feliz +na serra, do que nos campos da quinta; a todo o momento parava +extasiada diante das bellezas da natureza, e cada sitio novo, que +achava, era como se fosse um amigo. Quando o socego voltava, depois +d'esta alegria e animação, esta poetica +criança fazia cestinhos de vimes e juncos, que guarnecia com +musgo e flôres silvestres, mas com um gosto e belleza +exquisito, os quaes D. Thereza mandava vender, dando sempre bom +preço.</p> + +<p>Ganharam renome os cestos de Rosa.</p> + +<p>Em todas as quintas e casas ricas dos arredores não +queriam outros, e até muitas familias da cidade, que iam +passar o verão áquelles sitios, compravam e +procuravam com avidez os cestos d'esta gentil ramalheteira.</p> + +<p>D. Thereza, como mulher que comprehendia os seus interesses, +entendeu que lhe era de mais proveito o empregar Rosa, durante a +primavera, a fazer cestos e ramos, do que na quinta, por isso assim +o determinou. Quando Rosa o soube, saltou d'alegria, por que se +dava melhor á sombra dos pinheiros e carvalhos, do que em +casa.</p> + +<p>Passou-se assim o verão, e D. Thereza não teve que +se arrepender da sua resolução. Um certo numero de +meias corôas de prata provou o bom resultado do negocio de +cestos e flôres.</p> + +<p>O inverno pareceu triste e monotono a Rosa. Tinha-se +<span class="pagenum"><a name="pag_234" id= +"pag_234">[234]</a></span> habituado de tal maneira a ir todas as +manhãs para a serra, que chegava muitas vezes a esquecer-se +do trabalho, e ir insensivelmente até á baixa d'ella. +Voltava então muito apressada á quinta e redobrava +d'actividade, para fazer esquecer as suas faltas involuntarias.</p> + +<p>Occupou-se a fiar quasi todo o inverno, e o producto do seu +trabalho foi augmentar o pequeno thesouro principiado com a venda +dos cestos e flôres.</p> + +<p>D. Thereza considerava Rosa como sua filha, não podendo +estar sem ella um unico instante, e nos dias de feiras e romarias +tinha gosto em que Rosa apparecesse entre as mais lindas e mais +ornadas lavradeiras do lugar.</p> + +<p>A amisade, que tinha a Rosa, reflectia-se na avó; +tratava-a com tal respeito e affabilidade, que a poderiam tomar por +mãi de D. Thereza, tanto ella a cercava de cuidados e +desvelos.</p> + +<p>A felicidade da pobre cega, e bem assim o futuro de Rosa +poder-se-iam julgar seguros; mas como nada n'este mundo é +immutavel, o momento, em que a adversidade ia estender o seu +braço de ferro sobre as duas infelizes, não estava +longe.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_235" id= +"pag_235">[235]</a></span> + +<h2>V.</h2> + +<p>Voltou a primavera e com ella as encantadoras +occupações de Rosa. Foi com enthusiasmo, que a +candida e poetica criança encontrou as flôres, suas +amigas, com que preparou os primeiros ramos, que appareceram no +mercado.</p> + +<p>Os cestinhos e ramos de Rosa obtiveram uma grande +extracção, como no anno anterior. Ia entregal-os +pessoalmente nas casas ricas, e muitas vezes as senhoras morgadas, +se julgavam felizes por ter em sua companhia esta linda +criança por algum tempo.</p> + +<p>Rosa, vestida á lavradeira, era muito galante e modesta; +o seu metal de voz era agradavel, e as maneiras tão +delicadas, que quasi sempre as freguezas, ao preço do ramo, +juntavam um presentinho para a vendedeira; <span class= +"pagenum"><a name="pag_236" id="pag_236">[236]</a></span> mas +quando perguntavam a Rosa o que era que mais estimava, respondia +sempre, que o seu maior desejo era possuir um livro para se +instruir.</p> + +<p>Rosinha tinha uma paixão ardente pelo estudo; quasi sem +mestre tinha aprendido a lêr correntemente, e a sua maior +alegria consistia em obter um livro para se entregar á +leitura.</p> + +<p>D. Thereza pela sua parte tambem não obstava aos desejos +de Rosa, tanto que se lhe não dava que ella faltasse +ás suas obrigações; mas devemos fazer-lhe +justiça dizendo que sabia alliar a satisfação +dos seus desejos, com o cumprimento dos seus deveres, por isso +só depois de ter terminado os seus affazeres é que se +dava ao estudo.</p> + +<p>Estava Rosinha uma occasião sentada á borda d'um +ribeiro, entretida a colher juncos para fazer um cesto, quando, sem +ella o presentir, se lhe aproximou uma senhora ainda joven.</p> + +<p>—Para que estaes escolhendo esses juncos, minha +menina?—lhe disse a joven senhora com modo affavel.</p> + +<p>Rosa levantou a cabeça, e vendo a desconhecida, saudou-a +e respondeu:</p> + +<p>—Faço cestinhos com flôres para vender.</p> + +<p>—Quero então já avaliar a vossa habilidade. +Amo muito as flôres, por isso queria que me fizesses um +cestinho já, e se eu ficar contente has-de-me fazer um todos +os dias. Aceitaes?</p> + +<p>—Aceito, sim, minha senhora, e ainda que tenho muitas +encommendas a satisfazer, vou já preparar o vosso.</p> + +<p>—Assento-me aqui ao pé de ti e vamos conversando. +Como te chamas?</p> + +<p>—Rosa de Jesus, uma sua criada, minha senhora.</p> + +<p>—Assim, Rosa, o teu trabalho é fazer cestos de +flôres para depois os ires vender?</p> + +<p>—Sim, minha senhora.</p> + +<p>—E teus paes em que se occupam?</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_237" id= +"pag_237">[237]</a></span> + +<p>—Já não tenho paes; só me resta minha +avó, que é cega.</p> + +<p>—És orphã, e onde moras?</p> + +<p>—Estou em casa da snr.ª D. Thereza de Sousa, +proprietaria em S. Cosme, tão boa, como rica.</p> + +<p>Ha um anno, que eu e minha avó não sabiamos aonde +nos haviamos de recolher; estavamos em Dezembro, e havia dous dias +que não tinhamos comido, quando de repente me lembrei da +snr.ª D. Thereza. Eu e minha avó, que então +moravamos na serra de Vallongo, pozemos-nos a caminho para S. +Cosme. O caminho é muito mau, por isso mais d'uma +occasião julguei que minha avó ficava na estrada, +porque já não podia andar; mas o Senhor teve +misericordia de nós, e felizmente terminamos a jornada. A +snr.ª D. Thereza tratou-nos com muita bondade, e recolheu-nos +em sua casa, apesar de sermos um encargo muito pesado.</p> + +<p>—Amas então muito a snr.ª D. Thereza?</p> + +<p>—Se a amo. Não queria mais nada, senão poder +reconhecer todo o bem, que nos faz. Não desejo senão +crescer e robustecer para lhe poder servir d'utilidade.</p> + +<p>—Estou muito contente, minha pequena, por te ouvir fallar +assim. Quando te vi senti-me attrahida para ti, e ficaria muito +desgostosa se te não encontrasse com sentimentos dignos da +estima que te consagro.</p> + +<p>Parece-me que o meu cesto está acabado?</p> + +<p>—Ainda lhe falta uma cercadura de <i>não me +deixes</i>. Permitti, senhora, que eu vá ao proximo ribeiro +colher estas flôres, porque alli as ha mais frescas, e em +mais abundancia.</p> + +<p>—Ide, que aqui te espero.</p> + +<p>Rosa partiu correndo.</p> + +<p>D. Julia d'Andrade, que tanto interesse mostrava pela protegida +de D. Thereza, tinha vinte annos.</p> + +<p>O cabello preto muito comprido, e naturalmente encaracolado, +fazia-lhe sobresahir ainda mais a pallidez <span class= +"pagenum"><a name="pag_238" id="pag_238">[238]</a></span> do rosto. +Os olhos castanhos tinham um brilho de febre. A physionomia +demonstrava um padecimento interno, n'uma palavra, estava affectada +d'uma tisica pulmonar.</p> + +<p>Sua mãi, a viscondessa do Candal, receiando pela vida de +D. Julia, tinha consultado os mais acreditados medicos de Lisboa e +Porto, e todos tinham aconselhado os ares do campo, e o não +constrangimento, como os meios mais proficuos para debellar a +molestia. A viscondessa tinha portanto deixado o Porto e ido +habitar com suas filhas D. Julia e D. Bertha uma quinta proximo da +serra de Vallongo.</p> + +<p>D. Julia parecia que revivia no meio da luxuosa natureza, que a +cercava. Todos os dias dava grandes passeios, e distrahia-se ou +sentando-se á sombra dos carvalhos e sobreiros, ou +embrenhando-se entre as çarças. Ao principio a +viscondessa receiou que estes passeios tão longos +prejudicassem a saude de sua filha, mas vendo-a mais alegre e mais +vigorosa, e que se a pallidez não tinha desapparecido, a +expressão soffredôra do rosto era menos pronunciada, +ficou mais socegada e esperou obter o triumpho sobre a +molestia.</p> + +<p>D. Julia era tão boa, e ao mesmo tempo tão +prudente, que sua mãi não temia deixal-a em plena +liberdade, e gosar da vida segundo as suas phantasias.</p> + +<p>A viscondessa queria que D. Bertha acompanhasse sua irmã +nos seus passeios; mas D. Bertha, que era uma joven de 16 annos +d'idade, orgulhosa do seu nascimento e belleza, recusou +obstinadamente acompanhar sua irmã, dando como razão, +que lhe repugnava o juntar-se como ella com esses <i>estupidos</i> +e <i>rudes</i> aldeãos, que habitam os campos, e a quem ella +acariciava, e que além d'isso estragava os seus vestidos +seguindo D. Julia pelos caminhos estreitos e escabrosos dos campos +e da serra. As mil vozes da natureza eram mudas para D. Bertha; no +seu coração só imperava o egoismo.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_239" id= +"pag_239">[239]</a></span> + +<p>Num d'estes passeios é que D. Julia encontrou Rosinha, e +que ficou encantada com a sua innocencia.</p> + +<p>Havia muito que D. Julia esperava Rosa, e já receava que +ella não voltasse, quando a viu vir correndo.</p> + +<p>—Perdoai-me, senhora, o ter-vos feito esperar tanto tempo, +mas eu fui muito longe colher as violetas e os <i>não me +deixes</i>, porque queria que o meu cestinho vos +agradasse.—Assim fallando Rosa apresentou a D. Julia um +cestinho, que era um primor d'arte no gosto, e esperou toda +confusa, a sua apreciação.</p> + +<p>Uma alegre exclamação de D. Julia lhe fez vir o +sorriso aos labios.</p> + +<p>—Quero abraçar-te, minha querida menina; ha muito +tempo que não vi nada tão lindo, e como me causaste +um grande prazer, quero recompensar-te; mas deixa-me ainda admirar +o teu bello trabalho.</p> + +<p>Este cestinho podia vêr-se. No centro tinha raminhos de +violetas com as folhas verdes, ainda humidas; uma corôa de +lirios cercava as violetas, e em volta uma grinalda de musgo, +semeada de raminhos de rosas amarellas e geranios. Dous ramos de +madre-silva serpenteavam por entre os juncos formando as azas.</p> + +<p>—Não quero—disse D. Julia, depois d'alguns +instantes de silencio—que uma obra tão bella tenha um +viver ephemero; vou já bordar um quadro, cópia d'este +cestinho, que ha-de ficar muito rico. Mas, Rosinha, quanto queres +por este trabalho?</p> + +<p>—Dar-me-ha o que quizer, minha senhora, como costumam +fazer as outras minhas freguezas.</p> + +<p>—Mas quanto é que custam ordinariamente?</p> + +<p>—Tres ou quatro vintens.</p> + +<p>—Quatro vintens!—disse D. Julia admirada.</p> + +<p>—Acha caro, minha senhora?—disse Rosa com +acanhamento.</p> + +<p>—Caro, não, minha pequena. Quando estava no Porto +pagava, por muito maior preço, ramos que tinham <span class= +"pagenum"><a name="pag_240" id="pag_240">[240]</a></span> muito +menos valor, que o teu cestinho. Toma, Rosinha, não tenho +aqui senão esta meia corôa, mas amanha a esta hora +apparece aqui, e fallaremos...</p> + +<p>—Não posso aceitar o que me dáes, minha +senhora, porque é muito.</p> + +<p>—Queres fazer-me zangar?</p> + +<p>—Não, senhora. É a primeira vez que a vejo, +mas já a estimo muito. Eu não preciso de nada; a +snr.ª D. Thereza é muito minha amiga e...</p> + +<p>—Não é uma esmola que te dou—replicou +D. Julia, mettendo a moeda de prata na mão de +Rosinha—não te esqueças da +recommendação, que te fiz, de estares +ámanhã aqui a esta mesma hora.</p> + +<p>E antes que Rosa tivesse tempo de recusar, já D. Julia +tinha desapparecido, levando na mão o cestinho.</p> + +<p>Rosa ficou um instante sem saber o que havia de fazer, mas +recomeçou ligeiramente o trabalho. Quando ao jantar voltou a +casa, contou a D. Thereza o seu encontro de pela manhã, o +que lhe tinha acontecido e perguntou-lhe se devia ou não +guardar os cinco tostões.</p> + +<p>—Não te authoriso a pedir, Rosa, mas isso +não é uma esmola, é um presente, que te fazem, +podes portanto arrecadar esse dinheiro. Ris-te. Já sei. Esse +dinheiro vem a proposito para augmentares o teu mealheiro, com o +qual te hei-de comprar um rico jaqué para o S. Miguel.</p> + +<p>—Não, senhora—replicou Rosa com a alegria nos +olhos—não é esse o meu pensamento, e que me +causa tanta alegria.</p> + +<p>—Que é então?</p> + +<p>—Rogo-vos que me não façaes perguntas; +depois o sabereis.</p> + +<p>—Guarda o teu segredo, porque sei que não és +desgovernada, e que o não has-de gastar mal gasto.</p> + +<p>Rosa abraçou ternamente D. Thereza, e foi entregar as +suas encommendas de flôres e cestos.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_241" id= +"pag_241">[241]</a></span> + +<h2>VI.</h2> + +<p>D. Julia recolheu-se para casa muito tempo depois da hora, que +tinha determinado.</p> + +<p>A viscondessa, impaciente e sobresaltada com a demora, sahiu, no +caminho, ao encontro de sua filha.</p> + +<p>—Estiveste incommodada, minha filha?—lhe disse +ella.</p> + +<p>—Não, minha senhora. Este cestinho, que aqui trago, +é que foi a causa da minha demora.</p> + +<p>E D. Julia mostrava a sua mãi o cestinho, que Rosa tinha +feito.</p> + +<p>—Como é lindo—respondeu a +viscondessa—Não sabia Julia, que tinhas a prenda de +fazer cestos de juncos entrançados.</p> + +<p>—Não fui eu que fiz este cestinho, minha +mãi.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_242" id= +"pag_242">[242]</a></span> + +<p>—Então quem foi?</p> + +<p>—Foi uma lavradeirinha, que encontrei no meu passeio.</p> + +<p>—Uma lavradeira?!</p> + +<p>—Sim, minha senhora. E acreditareis, minha mãi, que +por todo este trabalho me pediu a grande quantia de quatro +vintens?</p> + +<p>—Não te pergunto quanto lhe déste, por que +conheço a bondade do teu coração, e tenho a +firme convicção de que não abusaste da sua +simplicidade.</p> + +<p>—Dei-lhe só meia corôa, por que não +tinha mais na minha bolsinha. Não queria recebel-a, +ajuizando que lh'a dava como uma esmola; mas tanto fiz que a +aceitou, e convencionei com Rosa, (pois a minha ramalheteira assim +se chama) para nos encontrarmos ámanhã, no mesmo +sitio, á mesma hora; e se ella, como penso, fôr digna +da sympathia, que me inspirou, e do interesse que já me +causa, consentir-me-heis, minha boa mãi, que a tome sob a +minha protecção?</p> + +<p>—Consinto em tudo, minha filha, que te dê prazer, e +distracção. Se a tua protegida fôr digna dos +nossos beneficios, unir-me-hei comtigo, e accordaremos no que +devemos fazer para seu bem.</p> + +<p>D. Julia abraçou com ternura a viscondessa, e +agradeceu-lhe a sua bondade.</p> + +<p>N'este comenos, a viscondessa e sua filha, chegaram a casa.</p> + +<p>D. Julia collocou com muito cuidado sobre uma mesa da sala o +cestinho, e correu com presteza ao seu quarto a preparar um +cavallete, pinceis e tintas para dar principio ao quadro +projectado, e, tendo tudo disposto, desceu á sala a +buscal-o.</p> + +<p>D. Bertha estava examinando o cestinho com +attençào e minuciosidade.</p> + +<p>—Não estão tão bem dispostas e +combinadas essas flôres, Bertha?—disse D. Julia.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_243" id= +"pag_243">[243]</a></span> + +<p>—Assim, assim. Não gosto d'estas violetas, que +formam o centro do ramo. Podias ter tido melhor gosto e fazer cousa +melhor.</p> + +<p>—Não concordo com a tua opinião. Estou +convencida de que Rosa não podia ter melhor gosto.</p> + +<p>—Rosa?</p> + +<p>—Sim, Rosa. Ah! é verdade; ainda te não +contei o encontro, que tive esta manhã. Ora ouve.</p> + +<p>D. Julia contou a sua irmã minuciosamente toda a +conversa, que tivera com Rosa.</p> + +<p>Quando ella acabou, D. Bertha fez um gesto de desdem.</p> + +<p>—E, sem duvida, Julia, já te affeiçoas-te a +essa pequena; não é assim?—disse D. Bertha.</p> + +<p>—Rosa,—respondeu unicamente D. Julia—tem +merecimento bastante, que a torna digna da protecção, +que se lhe dispensar.</p> + +<p>—O que mais me admira e me espanta, Julia, é a +rapidez com que sympathisas com qualquer, e como instantaneamente +conheces e decides, que essa pessoa é digna da tua +affeição e amisade... Não quero tomar-te o +tempo; julgo que vinhas buscar o teu lindo cestinho, não +é assim?</p> + +<p>—Vinha, sim, para o ir copiar em um quadro, +pintando-o.</p> + +<p>—Pintal-o?!—disse D. Bertha, dando uma grande +gargalhada.—Que liguemos alguma attenção +ás flôres dos nossos parques e jardins, concedo; mas +que empreguemos o tempo e o talento com as silvestres, que +só tem os perfumes para si, parece-me uma singularidade +esquisita.</p> + +<p>—A minha opinião, Bertha, é exactamente o +contrario. Mas isso não admira, por que nós raras +vezes estamos accordes sobre qualquer materia. Ponhamos isso de +parte; queres tu vir ámanhã, commigo e com a nossa +boa mãi, vêr Rosa?</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_244" id= +"pag_244">[244]</a></span> + +<p>—Não posso. Combinei com a Francisquinha e Ritinha +Meirelles virem amanhã aqui passar o dia. Além +d'isso, fallar-te-hei francamente, não ha nada para mim mais +antipathico do que todas essas lavradeiras; e andar uma legua para +me ir achar face a face com um monstrosinho, parece-me um tanto +aborrecivel.</p> + +<p>—Rosa é muito linda e interessante.</p> + +<p>—Para ti, Julia, todas as lavradeiras são lindas e +interessantes. Para mim todas são feias, e broncas. O calor +principia a incommodar-me—disse D. Bertha, sentando-se +indolentemente sobre um sophá.—Vai, Julia, vai pintar +o teu lindo cestinho, que eu vou sonhar com o meu Porto, para onde +espero ir muito breve.</p> + +<p>Estas ultimas palavras já mal se perceberam, porque foram +acompanhadas com um bocejo, e D. Bertha cerrou os olhos.</p> + +<p>D. Julia lançou sobre sua irmã um olhar de +compaixão e sahiu.</p> + +<p>Alguns instantes depois deu principio ao quadro.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_245" id= +"pag_245">[245]</a></span> + +<h2>VII.</h2> + +<p>No dia seguinte Rosa sahiu para a serra, muito cêdo, para +adiantar o seu trabalho, e poder assim dedicar mais tempo á +joven senhora, que tão amavel e generosa tinha sido com +ella.</p> + +<p>Trabalhou com tal desembaraço, que, muito antes da hora +marcada por D. Julia, tinha terminado o seu serviço.</p> + +<p>Aproveitou portanto o tempo entregando-se á leitura +d'algumas paginas d'um livro, de que lhe tinham feito presente no +dia anterior. Lia com attenção, e, quando encontrava +algum trecho rico e bello, parava, para exprimir a sua alegria e +enthusiasmo.</p> + +<p>Estava Rosa de tal sorte entregue á leitura, que +não presentiu a chegada da viscondessa e de sua filha D. +Julia.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_246" id= +"pag_246">[246]</a></span> + +<p>—Que livro estás lendo, com tanta +attenção, minha menina—lhe disse a +viscondessa.</p> + +<p>Rosa saudou-a, apresentou-lhe o livro e respondeu:</p> + +<p>—São as <i>Meditações religiosas</i> +de Rodrigues de Bastos.</p> + +<p>—E encontras grande prazer na sua leitura?</p> + +<p>—Se encontro, minha senhora. Quando estou sentada á +borda d'um regato, ou debaixo d'um carvalho annoso, lendo n'este +livro, parece que a minha alma se despe de todos os seus envolucros +terrenos e mundanos, e se põe em contacto com Deus, author +de todas estas maravilhas da natureza, que nos cercam, e a quem no +fundo do meu coração adoro e venero.</p> + +<p>A viscondessa e sua filha, admiradas do que ouviam a uma pequena +do campo, trocaram entre si um olhar d'intelligencia.</p> + +<p>—E que mais costumas lêr?—perguntou D. +Julia.</p> + +<p>—Não tenho muitos livros. Além d'este possuo +um cathecismo, uma vida de santos, de que leio uma pagina cada +domingo, e mais uns livrinhos d'historias bonitas. Esquecia-me +dizer-vos, que tambem tenho um livro de geographia, que me deu o +mestre escóla da minha freguezia, mas que não leio, +por que tem muitas palavras, que não entendo.</p> + +<p>—Pelo que me dizes conheço que tens desejos de te +instruires. Se te proporcionassem os meios de o fazeres, serias +feliz?</p> + +<p>—Seria, sim, minha senhora; mas infelizmente isso é +impossivel, porque, para ir todos os dias á mestra, é +preciso ser muito rica.</p> + +<p>—Mas se te mandassem á mestra?—insistiu D. +Julia.</p> + +<p>—Seria muito feliz, mas nem quero pensar n'isso.</p> + +<p>—Pelo contrario; eu e minha mãi, viemos procurar-te +para que nos conduzisses a casa da snr.ª D. Thereza, e, se a +tua protectora estiver satisfeita comtigo, pedir-lhe-hemos +<span class="pagenum"><a name="pag_247" id= +"pag_247">[247]</a></span> para te deixar ir todos os dias á +mestra. Então não respondes?</p> + +<p>—Perdoai-me, senhora. Estou muito contente e alegre, e +queria agradecer-vos, mas não posso. Que fiz eu para merecer +tantos beneficios?</p> + +<p>—Mostraste-te reconhecida aos beneficios da snr.ª D. +Thereza, e isso indica um bom coração; és +trabalhadeira e tens desejos de te instruires; mereces portanto que +nos interessemos por ti—lhe disse a viscondessa.—Vamos, +ensina-nos o caminho para a quinta da snr.ª D. Thereza.</p> + +<p>Rosa, commovida, dirigiu-se para a quinta com a viscondessa e +sua filha. Pelo caminho respondeu modestamente, e com graça, +a todas as perguntas, que lhe fizeram, e cada uma das respostas +confirmou mais, as duas senhoras, no bom conceito, que tinham +formado de Rosa.</p> + +<p>Quando chegaram á quinta, D. Thereza não estava em +casa, mas não devia tardar muito, por isso esperaram. Rosa +apresentou ás duas senhoras cadeiras para se sentarem e +offereceu-lhes um copinho de leite fresco e morno.</p> + +<p>D. Julia, a quem o caminho tinha fatigado, aceitou o +offerecimento.</p> + +<p>Rosa trouxe então uma toalha de linho, alvo como neve, +que estendeu sobre uma mesa, na qual collocou o melhor pão, +que havia em casa, manteiga e um copo de leite.</p> + +<p>D. Julia, com uma alegria infantil, aceitou este <i>lunch</i> +frugal, e, reanimadas com elle as suas forças, pediu para +visitar a quinta.</p> + +<p>A avó de Rosa estava sentada no jardim, debaixo d'um +caramanchel de clematites, fiando, e cantando com voz tremula o +estribilho d'um romance antigo. N'esta boa velha, bem vestida e de +boa presença, ninguem seria capaz de reconhecer a pobre +cega, que dezoito mezes antes, quasi morrendo de fome e frio, e +podendo apenas <span class="pagenum"><a name="pag_248" id= +"pag_248">[248]</a></span> suster-se em pé, encontramos +seguindo o caminho da serra de Vallongo para S. Cosme.</p> + +<p>A viscondessa do Candal e sua filha saudaram a pobre cega, e +esta, prevenida pela netinha, correspondeu-lhe respeitosamente.</p> + +<p>—Não vos incommodeis, boa mulher—-lhe disse a +viscondessa—permitti-nos sómente que conversemos por +um instante convosco.</p> + +<p>—É muita honra para mim, minha querida +senhora;—respondeu a cega—estou portanto ás +vossas ordens.</p> + +<p>—Visto isso não vos recusareis a dizer-me se estaes +satisfeita com a vossa neta?</p> + +<p>—Se estou contente com a minha Rosinha?!—exclamou a +cega—-com ella, que é a minha benção +sobre a terra. Quando o meu genro morreu, por causa d'uma ferida, +que fez em uma perna com o seu machado, porque elle era rachador de +lenha na serra, e a quem minha filha, mãi de Rosa, seguiu +passado pouco tempo, quasi que enlouqueci, porque não sabia +o que havia de fazer. Rosa, disse-me com a sua voz meiga e humilde: +avósinha, eu conheço uma senhora muito caritativa; +vamos a sua casa, que estou certa nos ha-de recolher. E foi +verdade.</p> + +<p>A snr.ª D. Thereza, essa boa e caritativa senhora, para +quem peço a Deus todos os beneficios e +bençãos, teve a caridade de recolher em sua casa uma +velha enferma e inutil como eu. Mas isto devo-o a Rosinha, porque +ella sabe dizer as cousas de tal maneira, que, penetrando +até o coração, commovem e decidem á +compaixão. Vai em dezoito mezes que aqui nos achamos. Fio um +pouco para não estar em descanço; mas Rosinha, +senhora, Rosinha, cantando sempre, trabalha desde pela manhã +até á noite. Em quanto que dura o verão, +occupa-se a colher flôres na serra e no campo, e a fazer +cestinhos com ellas; mas isto não obsta a que, quando se +recolhe, lave a roupa, limpe os moveis, e ajude a <span class= +"pagenum"><a name="pag_249" id="pag_249">[249]</a></span> cozinhar, +e se quizesse dizer-vos tudo o que ella faz, ou sabe fazer, +levar-me-ia muito tempo.</p> + +<p>Assim, amo muito a minha querida Rosinha. Mas onde estás +tu, que te não chegas a mim para te dar um +abraço?</p> + +<p>Rosa, com o pretexto de ir colher um ramo para D. Julia, +tinha-se retirado, quando a avó começára a +elogial-a.</p> + +<p>A viscondessa e sua filha ouviram com prazer o panegyrico de +Rosa, feito pela avó, e iam fazer novas perguntas, quando D. +Thereza chegou.</p> + +<p>Depois de terminados os comprimentos preliminares, a viscondessa +expoz a D. Thereza como sua filha sympathisára com Rosa, e +estava resolvida a tomal-a sob a sua protecção, se D. +Thereza a isso se não oppozesse.</p> + +<p>—Primeiro que tudo—respondeu D. Thereza—desejo +a felicidade e venturas de Rosinha, ainda que me ha-de custar muito +a separar-me d'ella: porém, se fôr sua vontade, +não me opponho, por que julgo lhe procuraes a sua +felicidade; mas ponho por condição, que lhe +não prohibireis vir algumas vezes visitar-me.</p> + +<p>—Isso, senhora, é um dever sagrado, que Rosa tem a +cumprir. Vamos porém interrogal-a, por que ella nada sabe do +que acabamos de fallar.</p> + +<p>D. Thereza chamou a pequena, que veio correndo, e disse-lhe:</p> + +<p>—Rosinha, queres ir viver com esta senhora e sua +filha?</p> + +<p>—Pois vós, senhora—respondeu Rosa tremula e +timida—quereis mandar-me embora?</p> + +<p>—Não. Pergunto sómente se me queres deixar, +para te tornares uma menina da cidade, instruida e de maneiras +polidas?</p> + +<p>—Não, minha senhora. Nunca—disse Rosa +chorando, lançando-se nos braços da sua +bemfeitora—nunca vos deixarei. Tenho muitos e muitos desejos +de me instruir <span class="pagenum"><a name="pag_250" id= +"pag_250">[250]</a></span> e de aprender, mas, se para isso +é necessario o deixar-vos, antes quero ficar ignorante toda +a minha vida. Recolheste-nos, senhora, quando eu e a minha querida +avósinha, estavamos quasi a morrer de fome, e havia de ser +tão ingrata, que, quando principio a servir d'alguma +utilidade, vos abandonasse? Não, senhora, nunca, nunca vos +deixarei.</p> + +<p>—Ouvistel-a, minhas senhoras—disse D. Thereza +enxugando os olhos, razos de lagrimas.</p> + +<p>—Pelo que vejo, Rosa, estás bem decidida a +não vir comnosco?—lhe disse a viscondessa.</p> + +<p>—Seria feliz e muito feliz, minha senhora, se podesse ir +viver na sua companhia, e de sua estimavel filha; mas antes de +vós, está a snr.ª D. Thereza, que salvou a minha +pobre avósinha d'estender a mão á caridade +publica e que sempre tão minha amiga tem sido. Perdoai-me, +senhora, se assim fallo...</p> + +<p>—Dá-me um abraço, minha menina—lhe +disse a viscondessa interrompendo-a—dá-me um +abraço, porque te mostraste tal, como eu desejava, boa, +humilde e reconhecida aos beneficios, que te fazem.</p> + +<p>Não tenhas receio, que te separemos da snr.ª D. +Thereza. Pediremos sómente á tua bemfeitora, que nos +deixe entrar com metade nos beneficios, que te prodigalisa.</p> + +<p>—E eu, Rosa—acrescentou D. Julia—quero ser a +tua preceptora. Quando o tempo estiver bom, dar-te-hei as +lições na serra, á sombra d'um sobreiro, ou +d'um pinheiro, ou á borda d'um regato; e quando estiver mau, +dar-tas-hei em minha casa, porque ouso esperar, que a snr.ª D. +Thereza me não negará este favor, e prazer.</p> + +<p>—Oh não, minha senhora, esteja certa d'isso. Logo +que termine o seu serviço dos cestinhos fica livre para vos +ir procurar.</p> + +<p>—É objecto convencionado—disse a +viscondessa—por isso a snr.ª D. Thereza ha-de-me +permittir licença <span class="pagenum"><a name="pag_251" +id="pag_251">[251]</a></span> de offerecer a Rosa, para si e sua +avó, o que contém esta pequena bolsa. É para +comprar em nosso nome um vestido novo.</p> + +<p>E como D. Thereza, Rosa e a avó lhe fizessem muitos +agradecimentos, a viscondessa impoz-lhes com brandura silencio, e +retirou-se, promettendo voltar muito breve á quinta.</p> + +<p>D. Julia abraçou a sua pequena discipula, e retirou-se +dizendo-lhe «até ámanhã».</p> + +<p>Nas proximidades de casa a viscondessa e sua filha encontraram +D. Bertha, que estava esperando pelas meninas Meirelles.</p> + +<p>—Meu Deus, como estou aborrecida—lhes disse +ella.</p> + +<p>—Pois eu, minha irmã—respondeu D. +Julia—venho muito alegre; o espectaculo, que acabo de gosar, +dar-me-ha felicidade não só para hoje, mas tambem +para muito tempo, porque será contado no numero das minhas +mais gratas e queridas recordações.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_252" id= +"pag_252">[252]</a></span> + +<h2>VIII.</h2> + +<p>D. Julia, na fórma convencionada, principiou no seguinte +dia o curso, que queria fazer seguir a Rosa. Tomou com ardor a +obrigação, que se tinha imposto desempenhar, mas o +seu zelo não excedia, o que mostrava a sua alumna. +Intelligente, e anciosa por aprender, Rosa era incansavel, e muitas +vezes foi preciso que D. Julia moderasse a sua +applicação; as lições tinham lugar umas +vezes na serra, outras vezes em casa da viscondessa.</p> + +<p>Decorreram assim tres mezes. No fim d'este tempo, os progressos, +que Rosa tinha feito, eram espantosos, e como tanto a professora, +como a discipula não afrouxavam no seu zelo, era d'esperar +que, no fim dos dous mezes que D. Julia ainda tinha a passar no +campo, Rosa estivesse bastante desenvolvida para continuar, sem +nada esquecer, a estudar sósinha, durante o inverno.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_253" id= +"pag_253">[253]</a></span> + +<p>Mas, quando menos se esperava, a terrivel molestia, que parecia +ter deixado D. Julia, reappareceu com uma intensidade violenta.</p> + +<p>A pobre menina não teve forças para resistir a +este ataque, e não podia sahir do quarto.</p> + +<p>Rosa, que no auge da sua desesperação, com risco +da propria vida, quereria dar algumas forças á amiga +do seu coração, podia a custo conter as lagrimas, +contemplando-a, pallida e cadaverica, recostada n'uma cadeira de +braços, forcejando por se levantar sem auxilio, para +não aterrar a sua querida mãi e a sua discipula +predilecta.</p> + +<p>N'este momento Rosa tinha um unico pensamento; o de +sacrificar-se por aquella, que tanto a amava e lhe queria. Os mais +pequenos desejos, e os mais vagos caprichos eram adivinhados de +Rosa, e executados antes mesmo que D. Julia os tivesse enunciado. +Se queria descer ao jardim, o braço de Rosa é que a +amparava; se queria ouvir alguma passagem dos seus livros +favoritos, Rosa lia-lh'a immediatamente.</p> + +<p>D. Julia, muito sensibilisada por tanta dedicação, +affligia-se com a lembrança, de que o progresso da sua +discipula estava parado. D. Bertha podia substituil-a, mas essa +nunca consentiria em ser a preceptôra d'uma lavradeira. A +viscondessa resolveu-se a dar as lições a Rosa, para +socegar a inquietação de D. Julia.</p> + +<p>Havia já tres semanas que D. Julia estava doente, e cada +dia ia a peor; sua mãi já não tinha +esperanças algumas. Tres medicos, que do Porto haviam sido +chamados, não deram esperanças da doente +melhorar.</p> + +<p>A viscondessa, porém, não podendo convencer-se de +que sua filha estava irremediavelmente perdida, cria que os medicos +se tinham enganado, e resolveu recolher ao Porto, para lhe fazer +uma nova junta.</p> + +<p>D. Bertha, contristada ao principio com a molestia de sua +irmã, consolava-se com a idéa de voltar ao seio da +sociedade, que ella tanto amava.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_254" id= +"pag_254">[254]</a></span> + +<p>Só á força de muitas instancias e +esforços é que D. Julia consentiu em deixar o campo; +mas, ainda assim, com a expressa condição de para +lá voltar se peorasse.</p> + +<p>Quando Rosa soube que a viscondessa se ia retirar do campo, +não pôde conter a sua desesperação. +Queria acompanhar D. Julia, e não a desamparar um só +instante. D. Julia procurava socegal-a, mas tudo era baldado, por +que Rosa estava inconsolavel.</p> + +<p>Na vespera da partida Rosa veio despedir-se de D. Julia; +lançou-se-lhe aos pés, chorando, e pediu-lhe que lhe +escrevesse muitas e muitas vezes. A doente assim lh'o prometteu, e, +tirando debaixo do travesseiro uma bolsinha de sêda, +apresentou-a a Rosa.</p> + +<p>—Aceita, minha menina—lhe disse ella—esta +bolsa; contem cem mil reis, que são as minhas economias do +verão; põe a juros este dinheiro, para que se +augmente este capitalsinho.</p> + +<p>É um presente muito pequeno; mas se nos não +tornarmos a vêr, minha boa mãi, dar-te-ha, em meu +nome, mais alguma cousa.</p> + +<p>Rosa beijou as mãos de D. Julia, e queria recusar a +bolsa.</p> + +<p>—Não recuses, Rosa—tornou D. +Julia—senão fôr para ti, é para tua +avó. Sabes lá o que tem para vos acontecer, e se esta +pequena somma ainda vos será util? Adeus, Rosinha; ama-me +sempre muito, e reza muito ao Senhor, para que me dê +saude.</p> + +<p>Rosa quiz responder, mas as lagrimas e soluços +embargaram-lhe a voz. A viscondessa, testemunha d'esta scena +tão tocante, temendo as funestas consequencias, que sua +filha soffreria com tão grande commoção, +levantou Rosa, e pediu-lhe com instancia e por favor que se +retirasse. A pobre menina cedeu a custo, mas antes de se retirar +ainda pôde vêr D. Julia, que, com um olhar maternal, a +abençoava.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_255" id= +"pag_255">[255]</a></span> + +<h2>IX.</h2> + +<p>Já tinha decorrido mais d'um mez, desde que D. Julia +recolhera ao Porto, e Rosa ainda não tinha recebido carta da +sua amiga. A pobre criança affligia-se, julgando, que este +silencio, para com ella, não tinha outra causa, senão +o estado cada vez mais perigoso de D. Julia. D. Thereza, que +partilhava do pesar de sua filha adoptiva, procurava por todos os +meios consolal-a, e fazer-lhe conceber esperanças. Uma carta +de D. Julia veio confirmar as prevenções de D. +Thereza.</p> + +<p>D. Julia, com mão tremula, escreveu á sua querida +discipula. Participava-lhe que a sua doença parecia estar um +pouco mais debellada, e que os medicos davam algumas +esperanças de a poder subjugar, e embargar-lhe o seu +progresso.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_256" id= +"pag_256">[256]</a></span> + +<p>Terminava a carta aconselhando Rosa a que não descurasse +os seus estudos, e pedindo-lhe que lhe escrevesse.</p> + +<p>Rosa cobriu de mil beijos esta carta, e no mesmo dia respondeu a +D. Julia, assegurando-lhe que não despresaria os seus +conselhos, e que tinha esperanças, de, para a primavera, +renovar as suas lições sob as arvores da serra; que +nas suas orações rogava todos os dias a Deus, com +fervor, que lhe restituisse a saude, e que esperava as suas +supplicas fossem attendidas.</p> + +<p>Rosa, cumprido este dever sagrado, lançou mão do +seu trabalho com mais vigor.</p> + +<p>Estava proximo o dia natalicio de D. Thereza. Rosa preparava em +segredo um lindo presente para offerecer n'aquelle dia á sua +bemfeitora, e para isso tinha reunido todo o dinheiro, que lhe +tinham dado de mimo, e julgava-se bastante rica para poder +apresentar a D. Thereza um brinde, de que ella admirasse o valor e +o gosto.</p> + +<p>Faltavam só quatro dias para que, esse dia tão +anciosamente esperado, chegasse, e Rosa ainda queria poder +supprimir o tempo, tão longo lhe parecia.</p> + +<p>Na vespera de manhã D. Thereza queixou-se d'uma dôr +de cabeça, mas julgou que um passeio lh'a dissiparia. Sahiu +pois; mas passado uma hora voltou ainda mais indisposta, do que +tinha sahido.</p> + +<p>Despresando o seu estado, ainda presidiu, na fórma +costumada, ao jantar dos criados da quinta; mas, no meio d'elle, +cahiu sem sentidos.</p> + +<p>Os criados, assustados, cercaram D. Thereza. Recolheram-na +á cama, e partiu immediatamente um criado a chamar, a toda a +pressa, um cirurgião.</p> + +<p>Chegou este, e, mal viu a doente, não deu +esperanças de a salvar.</p> + +<p>—Foi uma apoplexia fulminante—disse +elle—é já tarde para se lhe dar remedio.</p> + +<p>O desespero e a consternação espalharam-se na +quinta.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_257" id= +"pag_257">[257]</a></span> + +<p>Os criados em geral estimavam muito D. Thereza, por que, apesar +de ser muito vigilante, era boa e justa.</p> + +<p>Os menores movimentos do cirurgião eram seguidos com +anciedade por todos os criados, mas entre elles tornava-se saliente +Rosa pelo zelo e actividade, que desenvolvia em executar as +prescripções do cirurgião, ainda bem +não estavam dadas.</p> + +<p>Rosa não podia crêr que Deus lhe quizesse roubar a +sua bemfeitora, e esperava ainda que uma crise feliz a restituiria +á vida.</p> + +<p>A avó de Rosa estava consternadissima, e o seu maior +pesar consistia em não poder fazer cousa alguma.</p> + +<p>De joelhos; junto do leito de D. Thereza, rezava com fervor e +devoção.</p> + +<p>Entre as alternativas da esperança e desconforto se +passou o dia. Á noite o cirurgião declarou que +já lhe não restava esperança alguma; que D. +Thereza ainda podia viver mais um dia ou dous, mas que não +proferiria mais uma palavra, nem faria um unico movimento.</p> + +<p>Descrever a afflicção de Rosa e de sua avó +é-me impossivel; bastará dizer que a dôr as +tinha quasi enlouquecido.</p> + +<p>D. Thereza não tinha filhos, por isso foram avisar do +succedido a D. Euzebia, sua irmã, rica proprietaria em Rio +Tinto.</p> + +<p>D. Euzebia, por causa do seu genio forte, e caracter duro, +não estava em intimas relações com D. Thereza. +Assim que teve noticia da doença de sua irmã poz-se +logo a caminho, não por amisade que tivesse á +moribunda, mas sim para vigiar que lhe não roubassem a mais +pequena parte da sua herança.</p> + +<p>Logo que D. Euzebia chegou a S. Cosme, tomou o governo da casa, +e deu ordens como se já estivesse senhora da herança. +Rosa e sua avó inspiraram-lhe antipathia, e não podia +comprehender como sua irmã voluntariamente <span class= +"pagenum"><a name="pag_258" id="pag_258">[258]</a></span> tinha +tomado ao seu cuidado aquellas duas pessoas.</p> + +<p>D. Thereza ainda viveu dous dias, conforme o cirurgião +dissera, mas sem falla, e sem movimento, porque a apoplexia +tinha-lhe paralysado todas as faculdades. Só os olhos +é que conservavam ainda alguns signaes de vida e +intelligencia, os quaes fixava sobre Rosa, fazendo esforços +para fallar, naturalmente para fazer o seu testamento; mas este +ultimo consolo dos moribundos não lhe foi permittido.</p> + +<p>O abbade da freguezia, que veio administrar os ultimos +sacramentos á moribunda, tentou mitigar a dôr de Rosa, +mas a joven menina estava muito consternada para poder ser +consolada. Recusou obstinadamente retirar-se de junto do leito, em +que jazia D. Thereza, conservando-lhe a mão gelada apertada +nas suas.</p> + +<p>—O meu lugar é este,—dizia ella entre +soluços,—só deixarei minha segunda mãe +no tumulo.</p> + +<p>Finalmente chegou o terrivel momento da morte. Uma +convulsão, alguns murmurios sufocados........ e D. Thereza +tinha deixado d'existir entre os vivos, e sua alma, desprendendo-se +das ligações terrenas, voára ao céo a +receber da mão de Deus o premio das suas virtudes.</p> + +<p>Ao principio não se ouviam mais que os chóros de +todos os criados da quinta, mas em seguida uma voz forte e +imperiosa se fez escutar. Era a de D. Euzebia. Collocou uma pessoa +junto do cadaver de sua irmã, deu as ordens para os +funeraes, e passou a inspeccionar as caixas e commodas, que fechava +com cuidado, guardando as chaves.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_259" id= +"pag_259">[259]</a></span> + +<h2>X</h2> + +<p>Apenas D. Euzebia fechou as commodas e caixas, compareceu o juiz +eleito da freguezia para sellar e tomar conta de tudo o que +pertencia a D. Thereza.</p> + +<p>—Aqui estão as chaves, senhor juiz +eleito—disse D. Euzebia,—mas é inutil esse +trabalho, por que eu sou a unica herdeira de minha irmã, e +ella não podia desherdar-me.</p> + +<p>—É verdade, minha senhora,—respondeu o +juiz—mas cumpro o meu dever, por que a lei protege os +direitos de todos.</p> + +<p>—Só eu é que tenho direito á fortuna +de minha irmã, pois ella não tem filhos.</p> + +<p>—Sim, minha senhora, mas esta orphãsinha, a quem +ella deu asylo?</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_260" id= +"pag_260">[260]</a></span> + +<p>—Minha irmã—replicou com colera D. +Euzebia—seria por ventura capaz de me desherdar, testando os +seus bens a favor d'estas duas mendigas, que ella teve a phantasia +de recolher em sua casa?</p> + +<p>—Não o affirmo, minha senhora—respondeu com +brandura o juiz;—mas sua irmã póde ter feito +testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua estima e +amisade.</p> + +<p>—Não julgaria sufficiente o sustental-a e mais +á avó,—disse D. Euzebia com voz +forte—ainda lhe havia de deixar algum legado? Ah! minhas +velhacas, virieis vós roubar o que de direito me pertence? +Snr. juiz eleito, queira tambem sellar a porta do quarto d'ella, +pois quem sabe lá, o que ella tem roubado. Minha irmã +era tão pouco cautellosa...</p> + +<p>—Oh! senhora—respondeu Rosa com muita tristeza a +esta supposição offensiva—acreditaes que +pagasse com o roubo os beneficios, que eu e minha avó +recebemos da snr.ª D. Thereza?</p> + +<p>O juiz eleito ordenou com brandura a Rosa que se calasse, para +que D. Euzebia não continuasse, diante d'um leito de morte, +com uma discussão tão vergonhosa, e feia.</p> + +<p>Logo que o juiz se retirou, Rosa viu-se de novo a braços +com as suspeitas da ambiciosa herdeira. Chegaram a tal ponto as +cousas, que Rosa não pôde refrear a sua +indignação.</p> + +<p>—Não me injurieis, senhora,—disse Rosa com +energia e dignidade—não me injurieis diante do corpo +de vossa irmã, de quem só a vista bastaria para me +proteger. Dizei-me, senhora, sahi eu por ventura um só +instante de junto da cama da minha bemfeitora, desde que ella foi +atacada pela apoplexia? Não, senhora. Então como +podia eu subtrahir cousa alguma? Examinai, e examinai bem, senhora, +que achareis tudo intacto, porque eu e minha avó preferiamos +antes morrer <span class="pagenum"><a name="pag_261" id= +"pag_261">[261]</a></span> de fome, do que tocar na cousa mais +insignificante, que nos não pertencesse. Louvado seja o +Senhor, sou forte; posso e quero trabalhar, por isso não +serei pesada a ninguem. Deixai-nos, senhora, chorar em paz a perda +da nossa bemfeitora, que, logo que o seu corpo saia d'esta casa, +não vos pediremos asylo.</p> + +<p>Esta linguagem, firme e digna, impoz silencio a D. Euzebia, que +ficou corrida de vergonha.</p> + +<p>Rosa esperou com socego o dia seguinte, em que se devia fazer o +enterro a D. Thereza.</p> + +<p>A pobre criança, com a avó pelo braço, +seguiu chorando o prestito. Depois de terminado o officio, Rosa e +sua avó, ajoelharam-se junto da campa, em que D. Thereza foi +sepultada: era já noite cerrada, e ainda as duas +desgraçadas não cuidavam em se retirar.</p> + +<p>O frio, que fez dar um gemido á avó, advertiu Rosa +de que se devia recolher; só então é que +pensou para onde havia de ir.</p> + +<p>—Vamos, minha avósinha—disse Rosa—a +casa da snr.ª Maria da Gandra, que estou certa, sendo +tão nossa amiga, nos não ha-de deixar na estrada.</p> + +<p>A snr.ª Maria da Gandra era uma boa e caridosa mulher, que, +como todos os moradores de S. Cosme, e seus arredores, estimava +muito a protegida de D. Thereza, e censurára o procedimento +de D. Euzebia.</p> + +<p>—Oh! Rosinha, foi Deus que te dirigiu para minha +casa—lhe disse ella logo que a avistou.—Que prazer me +não causa teres procurado a minha casa para te recolheres. +Tinham-me dito, que ias para casa da Joanna da Quintella, por isso +é que te não offereci para vires para aqui com tua +avó.</p> + +<p>—Agradeço-vos, senhora—disse Rosa—a +vossa bondade, e a caridade com que vos offereceis para nos +recolherdes; mas não venho pedir-vos casa e sustento de +graça, porque tenho duas inscripções de cem +mil reis cada uma; o que vos rogo é que me aboneis tudo o +<span class="pagenum"><a name="pag_262" id= +"pag_262">[262]</a></span> que eu precisar e minha avó, que +vos satisfarei logo que termine a liquidação da +herança da snr.ª D. Thereza, e receba as minhas +inscripções.</p> + +<p>—Sim, sim, minha menina,—lhe respondeu a snr.ª +Maria da Gandra—Não preciso do teu dinheiro para te +sustentar e a tua avó. Mas diz-me, como obtiveste essas +inscripções?</p> + +<p>—A snr.ª D. Julia, antes de partir para o Porto, +deu-me cem mil reis, com os quaes a snr.ª D. Thereza, em +cumprimento do seu desejo, comprou duas inscripções +em meu nome.</p> + +<p>—Foste feliz, Rosinha, em que fossem compradas em teu +nome, porque d'outra maneira D. Euzebia tomaria posse d'ellas. Tem +resignação, assim como vós, minha boa +velhinha; vinde cear, que eu depois vou-vos conduzir ao vosso +quarto.</p> + +<p>Rosa e sua avó ficaram portanto habitando na Gandra.</p> + +<p>A pequena não estava ociosa, antes pelo contrario era +tão zelosa e trabalhadeira, que a snr.ª Maria, muito +satisfeita, propoz-lhe que ella e a avó, ficassem para +sempre em sua casa. Rosa aceitou promptamente, e com +reconhecimento, pois n'aquella occasião era a maior +felicidade, que lhe podia apparecer.</p> + +<p>No dia em que se deviam tirar os sellos em casa da defunta D. +Thereza, Rosa alli compareceu por convite do juiz eleito.</p> + +<p>Quando Rosa atravessou, como estranha, a soleira da porta da +casa, que tinha sido para ella tão hospitaleira, o +coração comprimiu-se-lhe e não pôde +reter as lagrimas.</p> + +<p>Tudo se passou sem novidade; só de quando em quando D. +Euzebia mostrava por gestos e exclamações o seu +desapontamento por encontrar menos dinheiro, do que imaginava.</p> + +<p>Quando se abriu a caixa, que pertencia a Rosa, não +<span class="pagenum"><a name="pag_263" id= +"pag_263">[263]</a></span> foi uma exclamação de +surpreza, que D. Euzebia soltou, mas sim de raiva, na qual se +divisava um accento de triumpho.</p> + +<p>—Bem certa estava eu,—disse ella—que esta +velhaca havia de ter <i>empalmado</i> alguma cousa. Ah! se eu +não viesse logo... o que teria acontecido. Examinai, senhor +escrivão, o que é que ahi existe.</p> + +<p>O escrivão tirou da caixa um magnifico vestido, que, a +julgar pelo tamanho, não pertencia de certo a Rosa.</p> + +<p>—Dize velhaca,—tornou D. Euzebia—como é +que este vestido veio aqui parar?—Não preciso +perguntal-o, porque a culpada está-se denunciando pelo +rubôr, que lhe cobre as faces.</p> + +<p>—Senhora D. Euzebia—disse o juiz—o seu +proceder para com esta criança é digno de censura. +Ainda, até agora, não encontramos cousa alguma, que +fizesse, nem ao menos, suspeitar de sua probidade. Deixai-a +portanto dar-me as explicações, que tiver a +fazer.</p> + +<p>Responde Rosinha,—disse o juiz com modo affavel—como +é que este vestido se acha na tua caixa?</p> + +<p>Rosa fez-se muito corada e respondeu:</p> + +<p>—Este vestido, senhor, foi comprado com as minhas +economias.</p> + +<p>—Que é; que é?—interrompeu D. +Euzebia.</p> + +<p>—Senhora—disse severamente o juiz—ordeno que +vos caleis.</p> + +<p>—É bem publico e sabido, que eu, durante o +verão, fazia cestinhos de flôres, que ia vender +ás casas abastadas dos arredores.</p> + +<p>Quasi sempre me davam, como presente, mais do que o custo dos +cestos: entregava-me a snr.ª D. Thereza, para guardar no meu +mealheiro, estas pequenas quantias, que reservei com muito cuidado +para poder brindar a snr.ª D. Thereza no seu dia +natalicio.</p> + +<p>Estava muito indecisa, por não saber o que lhe devia +offerecer, e foi a minha avó, que me suggeriu a <span class= +"pagenum"><a name="pag_264" id="pag_264">[264]</a></span> +idéa de lhe comprar um vestido. Para levar a effeito este +meu desejo combinei em segredo, com a costureira da snr.ª D. +Thereza, para o fazer, e estou muito certa de que a minha +bemfeitora não despresaria a minha offerta, se tivesse a +felicidade de lh'a apresentar.</p> + +<p>Esta explicação, simples e clara, que demonstrava +um coração sincero e grato, fez borbulhar as lagrimas +nos olhos de todos os circumstantes. Devemos comtudo excluir d'este +numero D. Euzebia, que presistia em negar a verdade.</p> + +<p>Quando se encontraram as duas inscripções, D. +Euzebia chegou ao auge do desespero e da colera, e de boa vontade +as inutilisaria, se lhe fosse possivel obtel-as á +mão; mas, felizmente para Rosinha, não pôde +conseguil-o.</p> + +<p>Finalmente, pelos cuidados e protecção do juiz +eleito, Rosa e sua avó, apesar de todos os obstaculos e +vontade de D. Euzebia, receberam tudo o que lhes pertencia, e +deixaram sem maior desgosto a casa, de que a mais cruel e mais +requintada avareza as expulsava.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_265" id= +"pag_265">[265]</a></span> + +<h2>XI.</h2> + +<p>Estamos no anno seguinte.</p> + +<p>Rosa escreveu á viscondessa do Candal e a sua filha uma +carta tão affectuosa e consoladora, que fez despertar em D. +Julia um vehemente desejo de tornar a vêr a sua querida +discipula e protegida.</p> + +<p>Os dias, que faltavam para Rosa poder abraçar a sua +amiga, pareciam-lhe seculos. Esperava com uma impaciencia +impossivel de descrever, a chegada da primavera, porque +então é que devia, e podia estreitar ao +coração a sua querida amiga e preceptora.</p> + +<p>Raiou finalmente o dia tão anciosamente almejado. A +primeira pessoa que D. Julia avistou foi Rosa, que, louca +d'alegria, viera esperar a sua amiga querida, para lhe apresentar +um cestinho, igual ao que tinha estabelecido <span class= +"pagenum"><a name="pag_266" id="pag_266">[266]</a></span> e sido +causa das relações e intima união, que existia +entre ellas.</p> + +<p>D. Julia ao vêl-a deu um grito, e quiz immediatamente +descer do coupé; mas não pôde fazel-o, por que +estava tão magra, fraca e desfigurada que, quem a via, +só a um milagre podia attribuir a sua existencia. Era na +verdade um milagre, devido ao amor maternal, e continuos cuidados e +desvelos, de que a cercava a viscondessa.</p> + +<p>Rosa passou todo o dia na companhia da sua querida amiga e +protectora. D. Julia tinha muito que lhe perguntar, por que queria +saber minuciosamente tudo o que tinha acontecido, desde que ella se +tinha retirado para o Porto.</p> + +<p>Apenas teve conhecimento da morte de D. Thereza, D. Julia pediu +immediatamente a sua mãi, que recebesse em sua casa Rosa e +sua avó.</p> + +<p>A viscondessa, que desejava e queria satisfazer o mais pequeno +desejo, ou pedido de sua filha predilecta, accedeu sem demora.</p> + +<p>Rosa e sua avó vieram portanto morar para casa da +viscondessa do Candal, que foi pessoalmente dar parte d'esta sua +resolução á snr.ª Maria da Gandra.</p> + +<p>—Estou satisfeitissima, minha senhora—disse a +snr.ª Maria da Gandra—pela felicidade de Rosa; mas ao +mesmo tempo sinto um grande pesar, e é com difficuldade que +me separo d'ella. Nunca mais encontrarei uma pequena, que seja +tão humilde e trabalhadeira.</p> + +<p>A viscondessa em seguida quiz satisfazer á snr.ª +Maria da Gandra toda a despeza, que Rosa e sua avó tinham +feito em sua casa; mas a honrada e digna aldeã não +quiz aceitar a mais pequena e insignificante recompensa, e +respondeu—Que Rosa havia ganho o que ella e sua avó +tinham despendido.</p> + +<p>A despedida de Rosa e da snr.ª Maria da Gandra foi +pathetica, e só a muito custo se desprenderam, chorando, +<span class="pagenum"><a name="pag_267" id= +"pag_267">[267]</a></span> dos braços uma da outra, +promettendo Rosa vir visital-a a miudo, por que o carinho, com que +a snr.ª Maria a tinha tratado havia sido tal, que seria uma +ingrata se lhe não tributasse um profundo +reconhecimento.</p> + +<p>A alegria, que se apoderou da pobre cega, quando lhe disseram +que ia viver em casa da viscondessa do Candal, foi tal, que +só acreditou depois de muito lh'o asseverarem, por que lhe +parecia impossivel que semelhante ventura lhe succedesse.</p> + +<p>—Que a minha Rosinha—disse ella—algum dia se +havia de tornar senhora da cidade, sempre eu o julguei, por que era +muito gentil e linda para ser camponeza; mas que eu partilhasse tal +ventura, nunca o imaginei.</p> + +<p>Rosa e sua avó foram alojadas, em casa da viscondessa, em +dous quartos, muito perto d'aquelle em que habitava D. Julia; que +assim o tinha exigido para ter a sua protegida junto d'ella, o que +se executou com muita censura e reparo de D. Bertha.</p> + +<p>—Era só o que faltava—dizia um dia, a +orgulhosa D. Bertha, a D. Francisca de Meirelles, sua +amiga—trazer para nossa casa estas duas mendigas. Podes tu, +minha querida, explicar-me como é que Julia pôde +affeiçoar-se tanto a estas duas creaturas?</p> + +<p>—Tua irmã, Bertha, tem o coração +muito sensivel; basta que lhe façam uma choradeira, ou que +lhe contem uma historia triste para acreditar em tudo, e logo se +affeiçoar a qualquer, e lhe dedicar carinho é +protecção.</p> + +<p>—Mas na verdade, esta sociedade não é +tão agradavel e attrahente?—disse D. Bertha com um +sorriso ironico.—Se a cega e a neta contam commigo para lhes +fazer companhia, affirmo-te que lhes hei-de deixar muito tempo para +se aborrecerem.</p> + +<p>Conforme com estas <i>bellas</i> resoluções D. +Bertha evitava <span class="pagenum"><a name="pag_268" id= +"pag_268">[268]</a></span> o mais possivel dirigir a palavra a Rosa +e sua avó, e, quando por necessidade o fazia, era com um +modo tão sobranceiro, imperial e chocarreiro, que as duas +infelizes ficavam confusas e envergonhadas.</p> + +<p>D. Julia tentou por diversas vezes fazer nascer no +coração de D. Bertha sentimentos mais nobres e mais +christãos, mas infructuosamente, por que, procurar commover +e sensibilisar o coração empedernido e orgulhoso de +D. Bertha, era um trabalho improbo e esteril.</p> + +<p>D. Julia, feliz por ter em sua companhia a querida de seu +coração, a sua discipula, recuperou algum vigor, e +ainda pôde recomeçar as lições. A +fadiga, que d'este trabalho lhe podia provir, era attenuada pela +attenção e estudo, que Rosa prestava ás +prelecções.</p> + +<p>D. Julia ainda quiz ensinar desenho a Rosa.</p> + +<p>—Queres dar a Rosa—disse uma occasião a +viscondessa a sua filha—uma educação e +instrucção superiores á sua +posição na sociedade, e não receias que isso +para o futuro lhe cause embaraços e dissabores?</p> + +<p>—Como resposta a essa pergunta tenha, minha querida +mãi, a bondade de ouvir o que a minha protegida me dizia +outro dia:</p> + +<p>«O meu maior desejo, minha boa amiga e mestra, é +alcançar bastante instrucção e saber, para um +dia ser professora. Como me julgaria feliz podendo dizer ás +minhas discipulas: era uma aldeã muito ignorante e rustica; +uma boa menina, a snr.ª D. Julia, filha da snr.ª +viscondessa do Candal, teve a bondade de me tomar sob a sua +protecção e de me ensinar. É a ella, meninas, +a quem devo o que sei e o que vos ensino. Se me amaes, deveis +igualmente amar a snr.ª D. Julia, minha bemfeitora; e +então ellas vos renderão graças, assim como eu +vol-as rendo agora.»</p> + +<p>—Não te torno a dizer mais nada—disse a +viscondessa—Continua, minha filha, pois Rosa é digna +dos <span class="pagenum"><a name="pag_269" id= +"pag_269">[269]</a></span> teus cuidados e desvelos, e para que +elles se tornem mais proficuos ajudar-te-hei a leccional-a.</p> + +<p>A viscondessa cumpriu a sua promessa e, alternadamente com D. +Julia, dava as lições a Rosa.</p> + +<p>Estes estudos não fizeram pôr de parte a +preparação de Rosa para receber dignamente a primeira +communhão. Foi com uma piedade exemplar que ella cumpriu +este solemne acto, e o futuro provou não ter sido esteril +para o seu coração.</p> + +<p>D. Julia passou o verão entre as alternativas de melhoras +e recahidas nos seus padecimentos, que tinham uma successão +quasi regular e periodica. Umas vezes nem levantar-se da cama, ou +d'uma cadeira de braços, para onde a levavam, lhe era +possivel; outras vezes chegava a poder dar uns pequenos passeios +pelos campos das visinhanças. Aos proprios medicos custava a +comprehender como ella vivia.</p> + +<p>D. Julia, porém, não se illudia sobre o seu estado +de saude. Quando sua mãi a entretinha fazendo projectos, ou, +como ordinariamente se diz, <i>castellos no ar</i>, para o futuro, +ella sorria-se e respondia: que ainda faltava muito tempo para a +sua realisação, e que não chegava a +vêl-os confirmar.</p> + +<p>A sós com Rosa D. Julia fallava livremente sobre a +proxima terminação da sua existencia, e então +ella supplicava-lhe com instancia, que repellisse da sua +imaginação tão sinistras idéas.</p> + +<p>—Não posso crêr,—dizia ella—que +Deus nosso Senhor me queira tirar d'este mundo todos os meus +protectores: não sei que crime tenha commettido, que +mereça semelhante castigo.</p> + +<p>—Resta-te ainda minha mãi, minha +Rosinha—respondia D. Julia—que estou certa nunca te +ha-de desamparar.</p> + +<p>Rosa terminava esta penosa conversação +abraçando <span class="pagenum"><a name="pag_270" id= +"pag_270">[270]</a></span> D. Julia e procurando distrahil-a por +todos os meios possiveis.</p> + +<p>O que a dedicação mais sincera e real póde +suggerir de mais bello, tudo Rosa executava, recebendo, por +galardão, ou recompensa a mais grata, um terno sorriso de D. +Julia, ou um agradecimento da viscondessa, e para os merecer faria +o impossivel se necessario fosse.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_271" id= +"pag_271">[271]</a></span> + +<h2>XII.</h2> + +<p>D. Julia apparentava exteriormente um socego d'espirito, que +interiormente não sentia, por que receiava muito a chegada +do outono, época, que os medicos tinham marcado, a mais +longa a que poderia chegar. A anciedade, pois, que todos soffriam +pela aproximação d'esse termo fatal, era geral.</p> + +<p>Chegou o outono. Por um d'estes phenomenos, que a tisica muitas +vezes apresenta, a molestia não offereceu n'esta +estação alteração alguma.</p> + +<p>A esperança, de que D. Julia ainda poderia vencer a fatal +doença, começou a penetrar em todos os +corações, e até no da propria enferma. Rosa +chegou a dizer á viscondessa, que tinha uma +convicção firme de que D. Julia não morreria, +por que Deus Nosso Senhor era bom e não a havia de privar da +sua protectora.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_272" id= +"pag_272">[272]</a></span> + +<p>A viscondessa, que até ahi estava convencidissima, de que +sua filha não passaria além do termo marcado pelos +medicos, vendo-o passar sem que a sua fatal predicção +se realisasse, começou a crêr que se tinham enganado, +e que D. Julia ainda lograria saude.</p> + +<p>Houve portanto grande alegria em casa da viscondessa. Todos os +criados, que não amavam só, mas que veneravam D. +Julia, por que era sempre boa e affectuosa para elles, crendo que a +sua joven ama, não tendo morrido na época marcada, +estava salva, pediram unanimemente para a felicitarem; tal foi a +alegria e contentamento, de que se apoderaram com esta +esperança e crença.</p> + +<p>Estas demonstrações respeitosas de sympathia e +amisade, que os criados lhe deram, penhoraram e commoveram muito D. +Julia. A todos agradeceu com reconhecimento esta nova prova +d'affecto.</p> + +<p>Porém, de todas as felicitações, a da sua +discipula e de sua avó, foi a que mais a impressionou.</p> + +<p>Quando Rosa, conduzindo sua cega avó, se ajoelhou com +ella junto da cama de D. Julia, e lhe exprimiu, com candura e +ingenuidade, a alegria e prazer, que sentiam pelas suas melhoras, e +os votos, que faziam a Deus, para que o seu restabelecimento fosse +real e breve, não pôde soffrear a sua +commoção, e as lagrimas correram-lhe em fio pelas +faces, agradecendo a Deus o prazer que tinha gosado com a +felicitação que acabava de lhe ser dirigida.</p> + +<p>Passou-se o inverno, sem que o estado de saude de D. Julia +soffresse alteração sensivel.</p> + +<p>Com a chegada da primavera D. Julia recomeçou os seus +passeios pelos campos e pinheiraes visinhos, na companhia da sua +inseparavel Rosa, a que algumas vezes se aggregava tambem a +viscondessa.</p> + +<p>Na quaresma seguinte Rosa recebeu pela segunda vez o sacramento +da communhão, e pouco tempo depois, D. Julia, querendo que a +sua protegida progredisse <span class="pagenum"><a name="pag_273" +id="pag_273">[273]</a></span> nos seus estudos, pediu a sua +mãi que lhe escolhesse uma professora.</p> + +<p>A viscondessa annuiu immediatamente ao pedido de sua filha.</p> + +<p>Pouco tempo depois entrou para casa da viscondessa, sob +recommendação e abono do abbade de S. Cosme, uma +joven senhora, a quem ha pouco acabava de ser concedido o titulo de +capacidade.</p> + +<p>Rosa esforçava-se por todos os meios possiveis para +corresponder dignamente aos beneficios, que, D. Julia e sua +mãi, lhe estavam constantemente prodigalisando; procurando +sempre não dar o mais leve desgosto ás suas +protectoras; comtudo, é preciso dizer que Rosa não +era perfeita. A sua vivacidade natural levava-a muitas vezes a +impacientar-se, e o seu ainda pouco peso ou juizo a commetter +algumas faltas nos seus deveres; mas reconhecia com tanta +facilidade os seus erros, e mostrava-se tão arrependida e +desejosa de os emendar, com tanto afinco e perseverança, que +era impossivel tratal-a com rigor por muito tempo.</p> + +<p>Rosa dava as suas lições, umas vezes no quarto de +D. Julia, quando o seu estado de saude o permittia; outras vezes no +da viscondessa, que sentia um verdadeiro e sincero prazer em +observar os progressos da predilecta e querida de sua filha.</p> + +<p>D. Maria d'Almeida, assim se chamava a professora, correspondeu +dignamente á confiança, que a viscondessa n'ella +tinha depositado, confiando-lhe a instrucção da sua +pupilla.</p> + +<p>O progresso e desenvolvimento, que Rosa sob a sua +direcção experimentou, foi grande, dando já +signaes de que em breve a discipula se tornaria uma excellente +professora.</p> + +<p>Rosa, assim que as suas obrigações e deveres +estavam terminados, dedicava-se exclusivamente a D. Julia, e sua +avó. Esta, desde que viera viver para casa da <span class= +"pagenum"><a name="pag_274" id="pag_274">[274]</a></span> +viscondessa do Candal, andava alegre e folgazã, e ainda +julgava estar sonhando, tal era a placidez e amenidade do seu +viver.</p> + +<p>Tinha já decorrido parte do anno; o outono estava quasi +findo, e o estado de saude de D. Julia não denunciava signal +algum de peoramento; a molestia, porém, que até +então estivera encubada, reappareceu com grande violencia, e +em oito dias as crises succederam-se tão proximas umas das +outras, que pozeram a enferma em estado de se não conceber +esperança alguma de a salvar.</p> + +<p>A illusão, que até ahi existira em todos, +desappareceu completamente: já não esperavam +senão o golpe final... Rosa, nem um só momento +desamparava a sua querida protectora, e juntamente com a +viscondessa, cuidava e tratava de D. Julia; não consentiam +que mais ninguem lhe prestasse o mais insignificante +serviço, chegando até a ter zelos uma da outra.</p> + +<p>Tanta dedicação e amisade teriam feito com que +Deus revogasse a fatal sentença dada a D. Julia, se o +Creador, na sua alta sabedoria, não tivesse resolvido chamar +á sua presença, a receber o premio das suas virtudes, +aquelle anjo de bondade e resignação.</p> + +<p>D. Julia, já moribunda e quasi expirante, pediu a sua +mãi, como ultima graça que lhe fazia, que não +abandonasse Rosinha, a sua querida discipula e amiga; que se +não affligisse, nem desanimasse, porque em Rosa lhe deixava, +estava certa d'isso, uma filha obediente e dedicada, que havia de +substituir no seu coração o lugar que ella deixava +vasio, e a Rosa recommendou-lhe que amasse sempre muito sua +mãi, por que n'ella encontraria um sincero apoio, e uma +terna e carinhosa amiga.</p> + +<p>Apenas D. Julia proferiu estas palavras, a hora fatal tinha +soado; abraçou sua mãi, e Rosinha e, pronunciando os +nomes de Rosa... e minha mãi... expirou, <span class= +"pagenum"><a name="pag_275" id="pag_275">[275]</a></span> voando a +sua candida alma á presença de Deus a receber a +glorificação de suas virtudes.</p> + +<p>Assim terminou D. Julia a sua existencia, que, se tinha sido +breve para o mundo, fôra longa pelas boas obras, que sempre +praticára, e pela pureza em que sempre vivera.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_276" id= +"pag_276">[276]</a></span> + +<h2>XIII.</h2> + +<p>Já decorreram seis annos depois das scenas descriptas no +capitulo antecedente.</p> + +<p>Não deixaremos, porém, a nossa muito conhecida +casa, perto de S. Cosme, pertencente á viscondessa do +Candal, por que é no caminho, que a ella conduz, que tem +lugar o que passamos a contar.</p> + +<p>Uma senhora ainda joven, e outra já de mais idade +caminham em silencio, e commovidas.</p> + +<p>A mais idosa é a nossa muito conhecida viscondessa do +Candal.</p> + +<p>O pesar da morte da sua querida filha Julia desfigurou-a muito. +O rosto tem-no emmagrecido, e sulcado de profundas rugas, e os +cabellos embranquecidos antes do tempo.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_277" id= +"pag_277">[277]</a></span> + +<p>A sua companheira é uma joven que figura ter dezesete +para dezoito annos, d'apparencia ingenua e modesta; é a +nossa Rosa, a pequena dos ramos e cestinhos.</p> + +<p>A viscondessa caminha apoiada no braço da sua +companheira. Depois d'alguma hesitação Rosa +decidiu-se a dirigir-lhe a palavra.</p> + +<p>—Receio, minha querida senhora—disse Rosa +respeitosamente—que esta visita vos cause uma grande +commoção e vos prejudique a saude. Por que a +não deixaes para quando estiverdes mais restabelecida?</p> + +<p>—Não, Rosa, não. Ha oito dias, que +não vim visitar a campa onde jaz a minha Julia, e oito dias +já é um espaço muito longo. Sinto-me hoje +melhor, não despresarei portanto esta occasião que se +me offerece, por que, quem sabe se recahirei?</p> + +<p>—Não penseis em tal, senhora viscondessa. Creio que +ainda haveis de ter muitos annos de vida; tenho fé, que Deus +vos não roubará á minha ternura e +reconhecimento.</p> + +<p>—Se as orações d'um anjo, Rosa, podessem +deter a morte, conheço que as tuas me preservariam d'ella. +Mas, ai de mim, a morte da minha sempre lembrada Julia +despedaçou-me o coração. Não estou eu +só n'este mundo? Bertha não me abandonou logo que +casou? Que faço então aqui n'este ermo, a que chamam +mundo?</p> + +<p>—Ah! senhora, esqueceis então a pobre Rosa, que vos +estima e ama, e que vos é tão dedicada como se +fôra vossa filha?</p> + +<p>Estas palavras, pronunciadas com um accento de submissão, +penetraram até o imo do coração da +viscondessa: sensibilisaram-na tanto, que abrindo os braços +recebeu n'elles Rosa banhada em lagrimas.</p> + +<p>—Sou uma ingrata, Rosa, bem o +reconheço,—disse a viscondessa cingindo Rosa ao +coração. Recebo com indifferentismo os teus cuidados +e carinhos, e a tua inexcedivel dedicação. +Perdôa-me, minha filha, minha <span class="pagenum"><a name= +"pag_278" id="pag_278">[278]</a></span> querida filha. Conheceste +Julia, e melhor que outra qualquer sabes quanto era merecedora da +minha ternura e amisade, e quanto é digna de ser pranteada. +Mas Julia, antes de morrer, deixou-te na minha companhia, para me +servires de consolação e allivio na minha dôr. +Abraça-me Rosa, minha filha querida.</p> + +<p>Rosa, por unica resposta, abraçou com ternura a sua +bemfeitora.</p> + +<p>As lagrimas, que lhe cobriam as faces, diziam bem alto e +eloquentemente, o que a commoção lhe embargava nos +labios.</p> + +<p>Ainda caminharam por mais algum tempo e chegaram ao +cemiterio.</p> + +<p>A viscondessa do Candal, como tributo á memoria de sua +filha, mandára-lhe levantar um lindo e rico mausoléo +de marmore branco, no qual ella tambem queria ser encerrada +á sua morte. Em volta das grades viam-se alegretes em que +haviam violetas, geranios e rosas amarellas, que Rosa cultivava e +cuidava com muito esmero, como recordação das +flôres com que enfeitára o cestinho, que fôra +causa da intima união, que se estabelecera entre ella e D. +Julia.</p> + +<p>A viscondessa e sua filha adoptiva oraram por muito tempo sobre +a campa d'aquella, que tanto tinham estremecido em vida, e que +tanto choravam na morte.</p> + +<p>Rosa, depois de ter examinado e regado todos os alegretes e +pés de flôres, um por um, para que os insectos, ou a +seccura os não estiolassem, dirigiu-se á +viscondessa.</p> + +<p>—Deixo-vos, senhora—lhe disse ella—por um +instante. Vou rezar junto da campa de minha avó.</p> + +<p>—Tambem quero acompanhar-te—replicou a +viscondessa.</p> + +<p>Não muito distante do mausoléo de D. Julia se +elevava uma cruz simples. Era ahi que jazia, havia dous annos, a +pobre cega. Terminára os seus dias socegadamente, +<span class="pagenum"><a name="pag_279" id= +"pag_279">[279]</a></span> bemdizendo a ternura de sua neta, e a +caridade affectuosa da sua bemfeitora.</p> + +<p>Devido ainda ao zelo de Rosa a campa da pobre cega, adornada com +diversas flôres, semelhava um jardimsinho.</p> + +<p>Rosa ajoelhou-se, e depois de ter rezado com fervor e +devoção por algum tempo, levantou-se, e dando o +braço á viscondessa retiraram-se, fazendo ainda uma +ultima visita ao tumulo de D. Julia.</p> + +<p>Quando se recolheram, Rosa encontrou uma carta da sua antiga +professora D. Maria d'Almeida, na qual lhe participava, que d'ahi +por dous mezes se havia de proceder aos exames +d'habilitação para os titulos de capacidade, por +isso, se ainda estava decidida a propôr-se a exame, que +enviasse os documentos necessarios ao commissario dos estudos.</p> + +<p>Rosa apresentou esta carta á viscondessa.</p> + +<p>—Sempre estás decidida a propôr-te a +exame?—lhe disse ella.</p> + +<p>—Sim, minha senhora. É o meu mais fervente e +afanoso desejo. Quero, senhora, que a instrucção e +saber, que vos devo, e a vossa querida e chorada filha, aproveite +ás crianças, que a pobresa retem na ignorancia e na +rudeza. Se eu poder ser util, ainda que seja a uma só +d'entre ellas, como, senhora, me reputarei feliz e bem paga do meu +trabalho!</p> + +<p>—Tinha a esperança de te conservar sempre na minha +companhia—-replicou a viscondessa.—Occuparias para +sempre o lugar do anjo, que Deus me levou, da minha Julia. +Não queres, Rosa, ser minha filha?</p> + +<p>—Ah! senhora, quero sim, ser vossa filha; isso ainda vai +além da minha ambição. Mas recordo-me que era +uma pobre rustica, e que só aos vossos beneficios devo a +minha instrucção, e a cultura da minha intelligencia. +Quero, senhora, dar de barato, e ter a vangloria de dizer que os +vossos cuidados não foram perdidos, <span class= +"pagenum"><a name="pag_280" id="pag_280">[280]</a></span> mas com +isso não me devo tornar vaidosa, por que faltaria assim aos +meus deveres. Serei sempre para vós uma filha adoptiva, +carinhosa, humilde e terna, e que achareis sempre ao vosso lado, +esforçando-se por pagar a sua divida de gratidão e +reconhecimento: Recebendo e aceitando a vossa +affeição e amisade, para mim preciosa e apreciavel, +não me devo esquecer da classe onde nasci. O meu lugar +é mais humilde; mas como elle parece bello e grandioso ao +meu coração, quando me recordo do bem, que posso +fazer a essas infelizes crianças, que vivem na bruteza, +ensinando-lhe o que sei e que é obra vossa! Ha muito que +concebi este meu projecto, e que o declarei a vossa filha: +«Ás pobres rapariguinhas das aldéas—lhe +disse eu—farei o mesmo que a snr.ª D. Julia me fez. +Ensinar-lhes-hei a serem felizes com a sorte, que Deus lhes +destinou n'este mundo; cultivarei o seu coração e o +seu espirito, e por unica recompensa não quererei mais do +que ouvil-as bem dizer os nomes da exc.<sup>ma</sup> viscondessa do +Candal e de sua filha.»</p> + +<p>—Rosa, minha querida Rosa—disse a viscondessa +abraçando-a, e com os olhos rasos de lagrimas,—que +Deus te pague a felicidade, e prazer, que me fazes nascer no +coração com as tuas palavras.</p> + +<hr style="border-bottom: 2px dotted #000;"> + +<hr style="border-bottom: 2px dotted #000; height: 1em;"> + +<hr style="border-bottom: 2px dotted #000; height: 1em;"> + +<p>Dous mezes depois, a nossa, hoje, D. Rosa de Jesus e Sousa +comparecia perante o jury nomeado para proceder ao exame das +concorrentes ao professorado. O titulo de capacidade, em grau +superior, foi-lhe concedido por unanimidade e com +distincção.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_281" id= +"pag_281">[281]</a></span> + +<h2>XIV.</h2> + +<p>Dous annos se passaram já, depois que foi conferido a D. +Rosa de Jesus e Sousa o seu titulo de capacidade.</p> + +<p>Estamos em fins d'Outubro, n'uma casa caiada de branco, que se +encontra ao entrar na freguezia de S. Cosme, do lado de S. Pedro da +Cova. Na frente ha um pateo largo e espaçoso. Sobre o muro +pendem os ramos verdejantes de dous chorões. Nas trazeiras +da casa ha um pequeno jardim, muito bem tratado, com as ruas +areadas com saibro, e que termina por um caramanchãosinho, +que, pelo bem cerrado que está, indica que no verão +deve alli haver uma frescura agradavel, auxiliada pela corrente +d'uma levada, que corre proximo. Na sala que fica ao nivel do +jardim ouve-se um murmurio confuso. Entremos, para examinar a que +elle é devido. <span class="pagenum"><a name="pag_282" id= +"pag_282">[282]</a></span> Que vemos? Grupos de lavradeirinhas, ao +todo umas trinta, pouco mais ou menos, vestidas de branco, e tendo +todas na mão um raminho de flôres do campo, com um +laço de fita. Ao fundo da sala vê-se uma rica imagem +de Nossa Senhora da Conceição, collocada sobre um +altar, bem adornado com castiçaes de prata, velas de cera e +jarras com flôres.</p> + +<p>N'um dos lados da sala ha quatro cadeiras de braços; +n'uma d'ellas está sentada a viscondessa do Candal, a quem +D. Rosa, de pé, junto d'ella, está dizendo os nomes +das suas discipulas.</p> + +<p>A viscondessa passeia a vista por todas ellas, e conhece-se-lhe +na expressão do rosto, que aquelle espectaculo a regosija e +encanta.</p> + +<p>O modo, porque todas dirigem as vistas para a porta e pelas +janellas, indica que se espera alguem.</p> + +<p>O abbade da freguezia e o administrador do concelho entram +n'este momento pelo portão.</p> + +<p>Um sorriso alegre se vê deslisar em todos os rostos. Eram +as pessoas por quem se esperava.</p> + +<p>A viscondessa e a sua pupilla vieram recebel-os á porta, +e conduziram-nos ás cadeiras que lhe estavam destinadas.</p> + +<p>As crianças tomaram os seus lugares, e restabelecido o +silencio, o abbade da freguezia tomou a palavra, e fez o seguinte +discurso:</p> + +<p>«Sinto, minhas meninas, um prazer immenso por vos +vêr aqui reunidas para a celebração do primeiro +anniversario da installação d'esta escóla, +devida á muita philantropia e caridade christã da +exc.<sup>ma</sup> viscondessa do Candal, e á +dedicação exemplar da vossa digna professora a +snr.ª D. Rosa de Jesus e Sousa. Julgo desnecessario o +rememorar-vos, que um tal sacrificio merece um eterno +reconhecimento, por que entendo que entre vós, minhas +filhas, não ha ingratas. Vós respeitaes e veneraes a +exc.<sup>ma</sup> viscondessa, e amaes com um verdadeiro +<span class="pagenum"><a name="pag_283" id= +"pag_283">[283]</a></span> amor a vossa professora, não +é assim? É, assim o creio. Mas ha ainda uma pessoa, +para quem deveis ter uma saudosa recordação, e que +tambem deveis encommendar a Deus nas vossas orações. +Prestai-me attenção, que vos vou dizer quem é +essa pessoa, cuja recordação vos deve ser grata. Ha +pouco mais ou menos doze annos, que uma pobre lavradeirinha ganhava +a sua vida fazendo cestinhos de juncos, e ramos de flôres +silvestres. Uma joven e nobre senhora, que reconheceu n'ella +amabilidade, modestia e humildade, sympathisou com ella, e +encarregou-se de a educar e instruir. Como a sua bemfeitora a achou +sempre digna dos seus beneficios, encarregou-se tambem da sua +posição futura. Essa joven senhora, de que vos fallo, +é a exc.<sup>ma</sup> snr.ª D. Julia, filha da +exc.<sup>ma</sup> viscondessa do Candal, e essa lavradeirinha, a +quem ella dispensou os seus carinhos e a sua +affeição, é a vossa douta professora. Ha +já alguns annos, que a alma da exc.<sup>ma</sup> snr.ª +D. Julia voou á presença do Deus eterno a receber o +premio das suas virtudes e das boas obras, que praticára +n'este mundo; uma das quaes ainda existe, que foi o deixar-vos a +vossa professora e amiga.</p> + +<p>«Mostrai-vos, meninas, sempre merecedoras dos beneficios, +que vos fazem, porque isso é o unico desejo das vossas +bemfeitoras e a unica recompensa, que recebem da sua +dedicação, que estou muito convencido sempre fareis +por merecer.</p> + +<p>«Não quero, porém, retardar por mais tempo o +momento de receberem o premio e galardão, que merecem pela +sua applicação ao estudo e amor ao trabalho, +áquellas que d'isso se tornaram dignas; e ás que +d'esta vez não são galardoadas resta-lhes a +esperança e o meio de, pela imitação das suas +condiscipulas, se tornarem dignas de o merecerem para o anno +futuro.</p> + +<p>«Vamos por tanto proceder á +distribuição dos premios.»</p> +<span class="pagenum"><a name="pag_284" id= +"pag_284">[284]</a></span> + +<p>Um sussurro d'alegria acolheu as ultimas palavras do digno +sacerdote.</p> + +<p>A conferencia dos premios foi esplendida.</p> + +<p>Os premios consistiam em livros religiosos e +d'instrucção, que tinham sido cuidadosamente +escolhidos pela viscondessa, e sua filha adoptiva, todos ricamente +encadernados. Era interessante e bello vêr a alegria, que se +deslisava no rosto das que tinham sido contempladas na +distribuição.</p> + +<p>Terminada a conferencia dos premios teve lugar debaixo do +caramanchão um bem servido <i>lunch</i>.</p> + +<p>—Como é magnifico o espectaculo, que apresentam +estas crianças, alegres e satisfeitas—disse a +viscondessa—Recordar-me-hei sempre d'este dia, como o mais +grato e feliz da minha vida. Tu, minha querida Rosa, attrahes as +bençãos do céo sobre nós, e sobre a +memoria da minha querida, e chorada Julia.</p> + +<p>—Ah! senhora,—disse Rosa com os olhos rasos de +lagrimas—que a vossa prophecia se realise, e a minha mais +cara aspiração ficará satisfeita.</p> + +<hr style="border-bottom: 2px dotted #000;"> + +<hr style="border-bottom: 2px dotted #000; height: 1em;"> + +<p>O desejo de Rosa realisou-se. A escóla está cada +vez mais florescente, e a freguezia ufana-se pela possuir. Todos os +moradores do lugar ainda hoje bemdizem os nomes da viscondessa do +Candal, de sua filha e de D. Rosa, modêlo raro d'um +coração verdadeiramente grato e reconhecido aos +beneficios que recebera.</p> + +<p class="centrado">FIM.</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Annos de Prosa; A Gratido; +O Arrependimento, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ANNOS DE PROSA *** + +***** This file should be named 26103-h.htm or 26103-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/6/1/0/26103/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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