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+The Project Gutenberg EBook of Agulha em Palheiro, by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Agulha em Palheiro
+ Quinta edição
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: December 16, 2008 [EBook #27541]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AGULHA EM PALHEIRO ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
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+
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+
+Notas de transcrição:
+
+
+ [A] Nesta 5ª edição desta obra detectámos uma falta de texto muito
+ significativa. Parece ter sido removida por descuido do editor, e
+ por isso resolvemos adicionar no local próprio o segmento em falta.
+ Usámos para o efeito o texto da 2ª edição, de 1865, sem alteração
+ ortográfica. Para evidenciar esta alteração marcámos o segmento de
+ texto inserido com entre as marcas [A] e [B].
+
+ Foram ainda encontrados diversos erros de impressão, que por não
+ terem qualquer impacto na interpretação do texto, foram corrigidos
+ sem qualquer nota.
+
+
+
+
+Obras
+
+de
+
+Camillo Castello Branco
+
+Edição Popular
+
+XXII
+
+AGULHA EM PALHEIRO
+
+
+
+
+VOLUMES PUBLICADOS
+
+ I--Coisas espantosas.
+
+ II--As tres irmans.
+
+ III--A engeitada.
+
+ IV--Doze casamentos felizes.
+
+ V--O esqueleto.
+
+ VI--O bem e o mal.
+
+ VII--O senhor do Paço de Ninães.
+
+ VIII--Anathema.
+
+ IX--A mulher fatal.
+
+ X--Cavar em ruinas.
+
+ XI e XII--Correspondencia epistolar.
+
+ XIII--Divindade de Jesus.
+
+ XIV--A doida do Candal.
+
+ XV--Duas horas de leitura.
+
+ XVI--Fanny.
+
+ XVII, XVIII e XIX--Novellas do Minho.
+
+ XX e XXI--Horas de paz.
+
+ XXII--Agulha em palheiro.
+
+
+
+
+_CAMILLO CASTELLO BRANCO_
+
+
+AGULHA EM PALHEIRO
+
+
+
+
+_Quinta Edição_
+
+
+LISBOA
+Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
+LIVRARIA EDITORA
+_Rua Augusta, 50, 52 e 54_
+1904
+
+
+
+
+LISBOA
+Officinas Typographica e de Encadernação
+Movidas a vapor
+_Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º_
+1904
+
+
+
+
+DEDICATORIA
+
+
+Ao poeta das creanças, das flores, do Amor, da Melancolia e dos desgraçados
+
+AO ILL.mo E EX.mo SR.
+
+
+ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
+
+
+Honra da Patria, honra dos que o prezam, e amam a Patria
+
+
+OFFERECE
+
+
+O AMIGO, O RESPEITADOR, O DISCIPULO MAIS DEVEDOR
+
+_Camillo Castello Branco._
+
+
+
+
+DUAS PALAVRAS
+
+A primeira edição d'este romance saiu de uma typographia do Rio de
+Janeiro. Parece que houve proposito em desdourar os prelos brasileiros!
+Poderá parecer tambem que se intentou desdourar o auctor; mas semelhante
+suspeita não vingaria, attendendo a que não é coisa verosimil alguem
+escrever assim. O que mais depressa poderia crer-se seria que o
+escriptor mais fleumatico morresse de fulminante desgosto, vendo a sua
+obra tão damnificada, e suja de todas as nodoas, para lavagem das quaes
+se crearam as quatro partes constitutivas da grammatica.
+
+Imprime-se o livro, como o auctor escreveu o manuscripto, e chama-se
+_segunda edição_, porque o titulo e substancia da obra está no livro
+publicado no Brasil.
+
+
+Porto, janeiro de 1865.
+
+
+
+
+AGULHA EM PALHEIRO
+
+
+I
+
+Em 1803, o sapateiro de Manuel Maria Barbosa du Bocage era Francisco
+Lourenço Gomes, estabelecido na calçada do Sacramento, em Lisboa.
+
+Francisco Lourenço era, n'aquelle tempo, rapaz de dezoito annos; mas,
+por sua muita esperteza e actividade, merecera que o pae lhe confiasse a
+gerencia da loja, grandemente afreguezada.
+
+Os poetas notaveis do tempo calçavam todos de casa de Francisco
+Lourenço; um só, porém, o maioral de todos, o repentista Bocage, calçava
+gratuitamente.
+
+Os coevos do poeta recordam-se de o terem visto quasi sempre mal
+entrajado de casacas, pantalonas e chapéos: mas, no tocante a botas,
+dizem todos que o vate Elmano primava em aceio, e raro dia saía á rua
+com ellas sem muito lustro de fina graxa.
+
+Este accidente da vida de Bocage, omittido nas biographias do immortal
+improvisador, escriptas por Castilho e Rebello da Silva, tive eu a
+fortuna de apanha-lo casualmente. Assim, pois, se explica a distincção
+das botas de Manuel Maria entre as dos seus collegas e rivaes do
+botequim Nicola: Francisco Lourenço, o sapateiro dos casquilhos
+d'aquelle tempo, era amante de versos. Principiára saboreando as trovas
+chôchas de José Daniel; e ditosa correra a vida pedestre ao infausto
+poetrasto, em quanto a admiração do sapateiro lhe foi prodiga de botas;
+quando, porém, o moço ouviu Bocage improvisar na festividade de
+Corpus-Christi, fatal hora badalou para o auctor do _Almocreve das
+Pêtas_, que nunca mais encontrou graça no seu Mecenas de bezerro e sola.
+
+O enthusiasta de poesia presenteou Bocage com umas botas, e a quitação
+de dois remontes que lhe devia. O poeta, não vezado a taes galhardias do
+vulgo profano, posto que a pouco mais subisse a capacidade do _claro
+auditorio seu_, retribuiu a generosidade do moço com prosa chan, mas
+muito mais sincera e cordeal que os versos.
+
+Francisco tomou a cuidado seu mandar todas as manhãs buscar o calçado do
+poeta predilecto, e devolver-lh'o brunido e lustroso como um espelho; e,
+apenas as solas se gretavam ou os saltos iam entortando, logo novas
+botas, em fazenda e feitios primorosas, iam saudar o vate acordado para
+um novo dia dos seus desvairados prazeres de praças e tavernas.
+
+A repetição d'estes brindes abriu, no animo generoso e popular do poeta,
+as portas á confiança timida do artista. Francisco Lourenço teve a honra
+de almoçar com Bocage no _botequim das Parras_, e d'aqui sairam juntos a
+jantar n'uma horta do Campo-Grande, onde Elmano, fiel aos seus usos e
+costumes, bebeu á tripa fôrra, e poetou, consoante o auditorio lhe
+beliscou a musa escandecida.
+
+O sapateiro, instigado por sua doce embriaguez, que era suave e honrada
+embriaguez do amor casto a uma prima, revelou ao poeta a sua paixão, e
+pediu-lhe umas quadras natalicias para festejar os annos da sua amada.
+Esta confidencia rebentou do coração do moço alli pelas alturas de S.
+Sebastião da Pedreira. Bocage, sem mais averiguações, entrou n'uma
+tenda, pediu papel, disse a Francisco Lourenço que escrevesse, e
+improvisou torrentes de quadras que extravasaram da folha de papel
+almaço. O sapateiro amante chorava de alegria; e o especieiro ficou
+pasmado e maravilhado de ter tido em sua loja o famoso poeta, que era o
+esfarrapado idolo do povo, como todos os idolos do povo, que assim os
+quer esfarrapados, ou tarde ou cedo os esfarrapa, se elles lhe cáem nas
+mãos bem ageitados.
+
+Francisco Lourenço, ao despedir-se do poeta, que ia passar a noite em
+casa do marquez de Anjeja, delicadamente lhe introduziu na algibeira do
+collete uma peça. Que bizarria de animo! Uma peça seria hoje o primeiro
+dinheiro que um editor portuguez offereceria a Bocage pela propriedade
+de um volume!
+
+Bem empregados seis mil e quatrocentos réis! A prima de Francisco, ao
+ver-se cantada assim, e, de Maria que era, transformada em _Marilia_,
+ganhou ao primo tamanho amor, que logo d'ali esqueceu sagradas
+promessas, que fizera a outro; e tanto foi, que, estando ella a bordar
+um coração varado por duas settas em cruz, com o intento de mandal-o ao
+rival de Francisco, o symbolico lencinho, dias depois, estava em poder
+do primo, que o beijava em transporte de jubilo.
+
+Bocage via a seus pés o mais ditoso dos amantes confessando que aos seus
+versos devia a immensa felicidade, que lhe não cabia no peito. Esta
+situação, grata ao genio, reaccendeu-lhe o estro em novas flammas. Um
+soneto divino caiu no coração do reconhecido moço, que foi logo d'ahi
+leva-lo ao coração de Marilia.
+
+Esta menina era filha de um colchoeiro da rua Augusta, filha unica, e
+esperançada em bom patrimonio--que seu pae, tio materno de Francisco
+Lourenço, passava por abastado. Além d'isso Maria Luciana era
+galantinha, arranjadeira de casa, prendada, e amiga de ler livros de
+devoção, e o _Almocreve das Pêtas_, e o _Anatomico jocoso_, obras do
+engenho humano, que o bom do colchoeiro pasmava de ouvir, e, com as mãos
+nas ilhargas, era todo elle então uma risada, que não ha conta-lo.
+
+Depois, porém, que Maria Luciana lera os dois poemas de Bocage, que lhe
+diziam respeito, o seu poeta valido era o grande cantor, e os livros ao
+divino pareciam-lhe coisa de moer a paciencia. A reformada creatura,
+quando a mãe lhe tirava das mãos as rimas de Bocage, e a obrigava a lêr
+o _Retiro espiritual_ e a _Novena de Santa Ursula_, zangava-se tanto lá
+no seu interior, que chegava a duvidar que Santa Ursula e sua mãe
+tivessem senso-commum!
+
+Não desagradava ao colchoeiro o sobrinho. Seu cunhado, além da
+acreditada loja na calçada do Sacramento, possuia no Cartaxo uma
+quintinha de recreio e algumas terras lavradias, e vinhedos herdados e
+adquiridos pelo officio. O rapaz desempenhava, em annos verdes, o bom
+governo da loja, e mostrava tendencias a ganhar freguezia de gente
+limpa, com quem elle se relacionava. Porém, estas boas predisposições
+eram rijamente contrariadas pela funesta noticia, que lhe chegara aos
+ouvidos, e vinha a ser: o escandalo de ter ido o moço algumas vezes
+almoçar ao botequim das Parras, em companhia de poetas! Esta reluctancia
+durou dois annos, ou mais; mas, a final, como quer que Maria perdesse a
+saude e amarellasse, o colchoeiro, que não tinha outra filha, deixou-a
+casar, dotando-a com seis mil cruzados.
+
+No fausto dia do casamanto, Francisco Lourenço foi convidar Bocage para
+jantar em sua casa. O poeta estava enfermo; prometteu ir n'outro dia, se
+não morresse d'aquella aneurisma que o tinha nos umbraes da eternidade.
+As portas da eternidade, porém, estavam a abrir-se, n'aquella hora, ao
+mais inspirado e desditoso genio que ainda viram portuguezes, sendo
+tantos os inspirados e desditosos á competencia de desgraça com elle!
+
+Poucos dias depois, n'esse anno de 1806, morreu Bocage.
+
+Francisco Lourenço chorou-o, como se ás lavaredas d'aquelle incendio
+d'alma tambem elle tivesse aquecido os embriões do seu talento. O
+artista não era poeta, nem tinha o parvulez de crer-se tal porque
+adorava Bocage. O que elle tinha era a paixão do bello, com a entranhada
+magua de não ter sido educado e guiado por aquelle rumo de magestosa
+desgraça. Bem sabia elle que Luiz de Camões morrera sem lençol em que
+amortalhar-se, e Antonio José da Silva n'uma fogueira, e Maximiano
+Torres nos presidios da Trafaria, e Garção na cadeia, e Quita na
+indigencia, e Bocage no desamparo. Sabia-o, e invejava a brilhante
+desdita de taes destinos, ao passo que os grandes de entendimento
+rojavam aos pés dos grandes da fortuna seu ignobil servilismo para não
+emparelharem na invejavel miseria com os Camões e os Bocages.
+
+Quando acontecia Francisco Lourenço dar largas a sua candida alma,
+lamentando o mau fim dos grandes espiritos em Portugal, os freguezes,
+que o ouviam, disfructavam-n'o, como hoje se diz, e iam chancear á custa
+do sincero artista. A voga, que lavrou da sua mania lamuriante,
+grangeou-lhe freguezia. Os peraltas e piza-verdes iam, acintemente, ás
+chusmas tomar medidas de botas, buscando azo de o moverem á costumada
+dissertação. Muitos o ouviam discorrer tão de sizo em tal materia, que
+saiam mais commovidos que dispostos a motejarem a louvavel sensibilidade
+do moço. Aos mais intimos ou mais velhacos recitava elle as quadras
+natalicias, que Barbosa du Bocage improvisara em S. Sebastião da
+Pedreira, e o soneto posterior, ao qual o coração de sua mulher de todo
+em todo se rendera. Estes eram os que divulgavam, como ridicula, a
+confidencia do sapateiro; e nunca lhe perdoaram ter elle na sua sala,
+impressa em pergaminho, e encaixilhada em retabulo dourado, a estrophe
+do epicedio a Elmano, por Francisco Manuel do Nascimento, que dizia
+assim em linguagem de anjos:
+
+ «ELMANO! oh! VATE! A abelha em teu moimento,
+ Sempre o seu mel componha!
+ Manná dos céos, e balsamos da Arabia
+ Alli distillem; louros enverdeçam,
+ Heras, nevados lirios!
+ Basto rosal, com mil botões o abrace!
+ Mangerona, tomilho e a flôr vermelha
+ Que annuncia em queixumes
+ De Ajax a dôr, n'um ai tinto em seu seio!
+ Do Sado as Nymphas, nymphas do aureo Tejo
+ E as indicas Nereas
+ Com lagrimas a campa lhe humedeçam!»
+ ............................................
+
+Francisco Lourenço recitava com lagrimoso enthusiasmo estes versos, e
+como thema os tomava para maldizer a nação e o governo que deixavam
+morrer de fome de pão e da patria o auctor de tão doridos queixumes, o
+exilado Filinto Elysio. E d'isso riam os casquilhos, os miseraveis cujo
+nome ninguem sabe, e cujos netos a gente não conhece, quando os topa ahi
+por esse Chiado e Rocio, cascalhando, com seus avós, umas risadas
+alvares, unico symptoma de vida intellectual que dispensam n'esta sua
+pasagem sobre o globo, que é d'elles e das moscas.
+
+O pae de Francisco Lourenço afez-se a ouvir o filho fallar de poetas, e
+achava-lhe razão. Ouvia-o queixar-se da nenhuma educação litteraria que
+tivera, e sentia sinceramente não ter aproveitado as tendencias de
+Francisco. Dizia elle:
+
+--Olha, rapaz, eu tinha um parente, que ia muito bem com a sua vida, em
+quanto olhou pela loja de mercearia que seus paes lhe deixaram. Depois
+assentou o pobre Francisco Dias Gomes em se fazer poeta, e deixou ir o
+negocio pela agua abaixo, a ponto de deixar para ahi a familia pobre. As
+obras d'elle andam impressas por esse mundo á custa da academia; mas
+isso não remedeia, em quanto a mim, a pobreza da familia. Ora eu, como
+tinha este exemplo na familia, resisti á tua e á minha inclinação. Achei
+que o melhor era dar-te o officio que me deu a mim muito trabalho com
+bom estipendio, e vida socegada. Já agora, Francisco, o remedio é
+conformares-te com a tua sorte. Se gostas de ler, lê, que eu não te levo
+isso a mal; mas bom será que olhes sempre para o essencial, que é a
+loja. Deixa-te de acamaradar com gente de outra laia, que a final ha de
+dar-te mau pago. Trago cá as minhas desconfianças de que muitas pessoas
+veem aqui fallar comtigo em poesias, e vão lá para fóra zombar de ti.
+Eu, que t'o digo, é por que alguem m'o disse. Lê os teus livros no teu
+quarto; mas na loja, se alguem te fallar em versos, fala-lhe tu em
+botas. Cada qual no seu officio. Ora agora, como estás casado e pódes
+ter filhos, farás o que melhor entenderes: educa-os como quizeres, que
+eu, graças a Deus, hei de deixar-vos o necessario para fechardes a loja,
+e cuidar n'outro modo de vida.
+
+Desde este dia Francisco Lourenço comediu-se nas palestras litterarias.
+Os disfructadores deram tento da reforma, e foram rareando a pouco e
+pouco. Se o provocavam a discorrer sobre Camões, Bocage ou Filinto, o
+ajuizado Francisco lançava mão da craveira, e dizia:
+
+--Já não conheço de versos; agora o que sei é medir pontos de pés.
+
+--Spondeus ou dactilos? atalhou um faceto de mais presumido chiste.
+
+--Pés de toda a casta, replicou Francisco, pés mesmo dos que são a
+quatro em cada sujeito, como posso provar a vossa senhoria.
+
+O farçola entendeu que o sapateiro lhe chamava quadrupede: suspeita bem
+cabida, mas não cabalmente averiguada.
+
+O certo é que este freguez deixou de o ser de Francisco Lourenço; e
+outros de sua roda se afastaram tambem, visto que o mestre se esquivava
+a ser pasto de seus ocios.
+
+Que selvagens tempos aquelles!
+
+Francisco Lourenço, se vem cincoenta annos depois, sem embargo de ser um
+habil sapateiro, poderia entrar dignamente na republica das lettras:
+começaria versejando, em solteiro, estas faceis quadrinhas, cheias de
+fogo e alma, com que todos os marechaes das lettras velaram as armas, ao
+vestirem-se cavalleiros para a crusada da civilisação. Depois escreveria
+o seu folhetim, variado em côres, como um mosaico de differentes
+linguas, e com atrevimento de idéas, que forçariam a critica a
+qualifical-as de originalidades. Francisco Lourenço teria uma luneta, um
+charuto, e um bigode encerado, e uma esquina alli no largo de Camões
+onde encostar os hombros, vergados sob o peso da cabeça prenhe de idéas.
+Depois, naufragado o coração, Francisco Lourenço iria salvar a
+humanidade, com o seu septicismo, nas regiões da politica. Faria,
+portanto, a um tempo botas para os pés, e sciencia para a cabeça da
+humanidade. Se absurdos fados o bafejassem, Francisco Lourenço subiria a
+ministro, e ninguem lhe perguntaria d'onde veio, nem a tripeça ainda
+quente lhe seria desdouro. Esta é a unica vantagem que a civilisação tem
+trazido para a fusão dos homens n'um só principio derivativo do pae
+commum. Cá, tanto faz vêr do acume das grandezas cair um homem no raso
+da lama, como erguer-se da lama um homem ao mais culminante da escala
+social. Ninguem se espanta, nem sequer pára a discutir estes vulgares
+accidentes da reformação social.
+
+Isto assim é que é bom.
+
+
+II
+
+Posto que a leitura lhe deliciasse muitas horas do dia e noite,
+Francisco Lourenço cuidava attentivamente no bom regimen de sua casa.
+Era elle quem talhava a obra superior, e a distribuia aos officiaes,
+quem recebia as damas freguezas, e com muito bom modo satisfazia seus
+caprichos. Os dias sanctificados passava-os com sua mulher e pae no
+Cartaxo, onde ia formando deposito de livros, _amigos da velhice_, como
+elle dizia. Tencionava Francisco ir lá passar o ultimo quartel da vida,
+empregando-a, sem outras distracções, no enlevo dos bons auctores que ia
+conhecendo.
+
+A carinhosa esposa ajustava perfeitamente com os prazeres intellectuaes
+de seu marido. Nunca elle descobriu pagina de livro encantador que a não
+lesse a sua mulher. Como não tinham filhos, sobejavam os ocios do
+arrumamento das coisas domesticas. Maria sentava-se a costurar, nas
+noites de inverno ao lado da banca de seu marido. Elle recitava com
+emphase, e ella chorava ou admirava-se com delicado sentir do coração ou
+espirito. A _Cantata de Dido_, a pagina mais maviosa entre as mais
+inspiradas da poesia portugueza, já ella a sabia de cór, á custa de
+ouvi-la e honra-la com as suas lagrimas. Ouvira ella ler todos os poetas
+nacionaes antigos e do seu tempo, excepto José Agostinho de Macedo, que
+Francisco aborrecia por ter sido o detractor de Camões, e o émulo
+atrevido e torpe de Bocage. O artista, quando acertava de encontrar o
+frade graciano, sentia calafrios na espinha; e, segundo elle dizia,
+vontade de escorchar com um pontapé aquelle ôdre de vinho e peçonha.
+
+Em 1816, dez annos depois de casado, Francisco Lourenço agradecia a Deus
+a felicidade do primeiro filho, quando o já não pedia nem esperava.
+
+--Ainda estou em edade de poder educal-o, e vel-o homem--disse o festivo
+pae a sua mulher.--Tenho vinte e nove annos: quando meu filho tiver a
+minha edade, posso ainda viver, como vive meu pae, sadio e robusto. Já
+sei para quem estou enriquecendo esta livraria. A minha velhice ha de
+ser um descançar em leito de rosas. Irei d'este mundo, deixando na alma
+de meu filho uma boa porção da minha essencia.
+
+Não deve o leitor duvidar d'esta linguagem levantada em bocca do
+artista. As mais vulgares e rasteiras coisas da vida, naturalmente, se
+haviam vestido, em seu espirito, com as galas da poesia, cujo perfume
+lhe rescendia em tudo. O seu permanente privar com poetas, ou com a
+natureza, mãe de todos, e mais mãe dos que a amam sem lhe devassarem os
+segredos, necessariamente influenciariam a singela alma do homem, que
+para sentir vibrar as cordas todas da poesia, estava nos primeiros
+arrobamentos de pae.
+
+Por esse tempo falleceu o velho Lourenço e o pae de Maria. A herança de
+ambos daria sobeja independencia a Francisco; porém, a existencia da
+creança, dilatando o alcance das ambições paternas, desviou-o do antigo
+proposito de passar a loja, e ir viver folgado em sua quinta. Um filho é
+realmente um aguilhão que aperta os temperamentos mais desleixados em
+grangeio de bens de fortuna. Já lhe queria parecer a Francisco Lourenço
+que quarenta mil cruzados em propriedades era pouco patrimonio para o
+seu Fernando; e quando bastasse a um filho, quem saberia os filhos
+porvindouros? Se fossem mais de quatro, reflectia o pae, pouco menos de
+pobres ficariam todos. Entendeu, pois, em proseguir no trabalho,
+afanar-se cada vez mais, encurtar as horas de leitura, e augmentar o
+numero de officiaes, a fim de exportar calçado para o Ultramar.
+
+No anno seguinte nasceu uma menina, e outra no anno immediato. Sem
+querer desagradecer a Deus, Francisco desgostou-se da duplicada mercê
+das meninas. Andava elle scismatico e melancholico a escogitar no futuro
+que havia de preparar a suas filhas. O bom homem cuidava que sem
+educação scientifica ninguem podia ter futuro; e lamentava não poder
+crear suas filhas, pondo o fito nas Bernardas Ferreiras de Lacerdas e
+Violantes do Céo, litteratas famosas que o leitor conhece. Acudia a
+senhora Maria Luciana ás tristezas de seu marido, dizendo-lhe que as
+meninas podiam ser freiras, e instruirem-se no seu convento. Isto
+consolava as tristes apprehensões do pae; mas era ainda pouco para
+allivial-o do desgosto de não ter filhos, que podessem ser tres grandes
+poetas, ou, ao menos, tres sabios que é um grau de sciencia muito mais
+facil de attingir, no voto d'elle, e no meu tambem.
+
+Fernando, aos quatro annos, frequentava as primeiras lettras; aos nove
+annos estudava latim com admiravel intelligencia; assim, até aos
+dezeseis, cursou humanidades, no intento de ir graduar-se a Coimbra.
+
+N'esta edade Fernando conhecia os poetas latinos e portuguezes: lia uns
+com seu pae, e traduzia-lhe os outros, explicando os pontos obscuros de
+Horacio e Ovidio.
+
+Grande era o dissabor do moço, quando vinha das aulas, e via, atravez da
+vidraça que abria para o pateo, seu pae talhando o bezerro de umas botas
+ou o duraque de uns sapatos. Ia elle ter com sua mãe, e pedia-lhe que
+aconselhasse o pae a passar a loja, e remediar-se com o bastante, que já
+tinham para viverem em decente mediania. A boa mãe não se esquivava de
+pedir tal coisa; mas admoestava Fernando a evitar quanto podesse
+mostrar-se envergonhado do officio de seu pae.
+
+O imprudente moço não deu o devido peso ás reflexões da mãe, e insistiu
+no seu desgosto e rogos. Bem póde ser que os condiscipulos lhe atirassem
+á cara, como despique de inveja dos progressos d'elle, o seu nascimento
+humilde. Aquelles tempos eram infamados com muitos exemplos d'este
+barbaro quilate. Á peonagem nem a muita riqueza a salvava dos remoques
+da fidalguia. Nos collegios, os mestres eram os primeiros a darem o
+exemplo das preferencias. A applicação no moço da baixa tracção era
+menos louvada que a preguiça no escolar de familia illustre. Este
+escarneo do Evangelho chegava até Coimbra, onde se degladiavam primazias
+de nobreza, e só com muita paciencia para ultrages e desprezos,
+conseguia formar-se o filho do artifice, que não se abalançava a entrar
+em communhão de sciencia com os privilegiados da boa fortuna.
+
+É, pois, de crêr que Fernando Gomes, matraqueado pelos condiscipulos,
+desejasse que seu pae levantasse mão do officio de sapateiro, que mais
+que outro qualquer--sem podermos dar razão do porque--se presta á
+zombaria nas facecias dos chocarreiros.
+
+Aventurou-se, um dia, Fernando a pedir ao pae que fechasse a loja.
+
+--Porque?!--perguntou Francisco Lourenço.
+
+--Porque...--tartamudeou o filho--se meu pae quer formar-me... não me
+parece...
+
+--Diz, homem!--acudiu o pae á indecisão de Fernando, com semblante
+transtornado--não te parece o que?
+
+--Que seja bom ter loja de...
+
+--De sapateiro?... parece que te custa a dizer a palavra _sapateiro_!
+Sapateiro, sim!... Queres tu dizer que te envergonhas do officio de teu
+pae?
+
+Fernando baixou os olhos e não respondeu; mas o silencio era, no caso, a
+mais eloquente das confirmações.
+
+--Está bom--disse Francisco--descança que se ha de remediar tudo o
+melhor que puder ser. Hoje não vaes á aula. Amanhã falaremos.
+
+Francisco Lourenço fechou-se no quarto com sua esposa, e, antes de
+referir o que passara com o filho, rompeu n'um choro soluçante, que a
+consternada mulher não sabia como explicar nem consolar.
+
+Falaram largo tempo. O marido saíu de melhor sombra. Maria chamou
+Fernando e disse-lhe:
+
+--Deus te perdôe o mal que fazes a teu pae! Eu não quiz dizer-lhe que
+fechasse a loja, e tu commetteste a imprudencia de lh'o dizer!...
+Fernando, d'esta vez vali-te; mas não caias n'outra. Olha que teu pae é
+tão bom como severo. Segue a carreira que elle te dá, e deixa-o lá com a
+sua vida. Cuidas que teu pae acha prazer em estar na loja a trabalhar?
+Enganas-te. Bem sabes quanto apaixonado elle é de livros. Se trabalha,
+para ti é, e para tuas irmãs. O que temos seria bastante para um, se
+tivesse juizo; mas seria quasi nada para tres filhos. Tu não has de
+querer ser doutor, e ver tuas irmãs sem nada. Vae á aula; e, se alguem
+te disser que és filho de sapateiro, responde-lhe tu que tens muita
+honra em ser filho de quem és... Póde ser que os fidalgos, que t'o
+disserem, te devam a ti o par de botas que trazem ...
+
+Estas judiciosas razões não consolaram a Fernando.
+
+A resposta foi um calado despeito, e uma visagem de desdem, que Maria
+viu com os olhos humidos.
+
+Decorridos poucos dias, Fernando foi ter com sua mãe, e disse-lhe que
+não tornava á aula, porque os seus condiscipulos o vexavam. Descendo a
+explicar o vexame por miudos, disse que o filho do conde de tal, zangado
+com elle por ter-lhe corrigido um theorema de geometria, lhe replicara
+qual era a figura geometrica de uma tomba; e se as entrecospias em
+logica pertenciam ao dilemma. A mãe não conheceu o travôr do epigramma.
+Chamou o marido, e quiz que o filho repetisse o conflicto diante de seu
+pae. Francisco ouviu-o, doeu-se, dissimulou o pesar, e disse-lhe:
+
+--Irás frequentar outra aula.
+
+--Acontece-me o mesmo em toda a parte, contrariou Fernando com certo
+desabrimento deshumilde.--Emquanto o pae estiver n'este modo de vida,
+hei de ser enxovalhado por todos os condiscipulos, tanto monta em
+Lisboa, como em Coimbra.
+
+--Está bom, disse serenamente o pae. Eu vou pensar e resolverei.
+
+A resolução foi prompta. Francisco Lourenço entrou no quarto onde
+Fernando estudava, e disse-lhe:
+
+--Arruma esses livros, que já te não servem de nada. És sapateiro como
+teu pae e teu avô.
+
+Fernando perdeu a côr, e quasi o sentimento. Francisco Lourenço saíu, e
+foi verter torrentes de lagrimas no seio da mulher, exclamando a
+intervallos:
+
+--Lá vão todas as minhas esperanças!... Assim havia de ser, porque ouvi
+a voz da minha vaidade, e nunca me lembrei que um filho podia ter
+vergonha do officio do pae... Vê tu, mulher, que soberba maldita eu
+andei gerando e engrossando no animo d'aquelle rapaz! Se eu lhe désse
+largas, onde iria dar comsigo tamanho orgulho! Ahi tens tu a sciencia a
+desnaturar-me um filho!... Santo Deus! Bem m'o pregava meu bom pae!...
+Quantas vezes lhe ouvi dizer que eu, se fosse um sabio, me correria de o
+vêr a elle na baixa condição de sapateiro!... Não posso nem devo
+consentir que meu filho se deshonre por amor da sabedoria... Se a
+sociedade o vexa, paciencia; que fuja da sociedade. Eu antes o quero
+sapateiro honrado, que filho infamado pela ingratidão. Façamos um homem
+de bem, e os nobres que façam os sabios ... Mas é dôr, é uma grande
+afflicção, ter de renunciar ao proposito de tantos annos! É por isso que
+eu choro ... e bem vejo que é fraqueza chorar! Tenho pena d'elle;
+tenho-a de véras... mas só assim é que eu posso resgata-lo das mãos do
+mundo, que m'o ha de perder!
+
+Maria Luciana tentou demover a intenção do marido com razões, e mais que
+tudo com lagrimas. Lembrou ella que o mandassem logo para Coimbra, onde
+os condiscipulos o não conheciam. Este remedio azedou mais a ferida do
+artista.
+
+--Pois eu, exclamou elle, hei de estar evitando que o meu nome seja
+conhecido?! Hei de esconder-me para que meu filho se não envergonhe? Hei
+de recommendar a Fernando que não diga em Coimbra quem é seu pae, ou
+consentir que elle me negue para ser mais bem recebido? Que respondes,
+Maria? ...
+
+Não respondeu nada a pesarosa mulher. A dizer a verdade, com que
+argumentos responderia ella, sem molestar-lhe o espirito? O ponto mais
+sensivel da questão era a dignidade do homem mecanico, trabalhando para
+engrandecer o filho. Se este desejo e afan lhe era deslustrado por
+desprezo do seu mister, qual gloria lhe restava? Quem lhe asseverava a
+elle que o filho, mais tarde, fugiria d'elle como d'um estorvo ao seu
+maior engrandecimento?
+
+Não obstante, Maria chamou o filho, e mandou-o pedir perdão a seu pae,
+se não queria ir para a loja trabalhar com os officiaes.
+
+--E porque não hei de eu ir?!--respondeu placidamente Fernando, com
+grande assombro da mãe.--Eu não tenho vergonha de ser sapateiro. Quero
+sê-lo quando m'o chamarem.
+
+--E não te importa o tempo que perdeste a estudar, Fernando?--tornou a
+mãe, commovida pela briosa resolução e desapego do filho.
+
+--Não perdi de todo o tempo: serei um sapateiro illustrado como meu pae
+o é. Antes isso. Terei horas de estudo e horas de trabalho. Não receio
+que me humilhem na loja.
+
+Fernando, obedecendo aos novos impulsos do momento, não sabia bem o que
+dizia, nem, a menos que a natureza se não houvesse singularisado n'elle,
+devia insistir muito tempo em pontos de tão isempta grandeza de animo.
+
+N'aquelle mesmo dia desceu á officina, e disse ao pae que lhe talhasse o
+seu serviço. O pae encarou n'elle com muita amargura e disse-lhe:
+
+--Vá para cima!
+
+Os officiaes olharam-se com espanto, como adivinhando a significação
+d'aquelle incidente. Fernando, desde a idade de nove annos, nunca
+descêra á casa de trabalho, nem trocára palavra com algum dos officiaes.
+Estes, por ironia, e lá muito em secreta maledicencia, denominavam-n'o o
+_fidalguinho_, e riam á sucapa, quando, atravez das portas envidraçadas,
+o viam passar no pateo sem lhes virar um canto de olho.
+
+A situação de Francisco Lourenço era afflictiva. A corajosa apresentação
+do filho desarmara-lhe a tal qual ira, que elle muito precisava azedar
+com a rebeldia, para tirar a limpo o seu plano. Pensava elle que o
+estudante recebera aterrado a nova: não se enganou; mas longe estava de
+cuidar que a reacção do brio o determinasse a acceitar sem custo um
+tirocinio de sapateiro. A verdade é que ambos estavam enganados: o pae
+com a franqueza do filho, e o filho com a sua propria coragem.
+
+Não sabia Francisco que dizer nem fazer. Evitava encontrar Fernando; mas
+forçoso era verem-se á mesa da ceia. O artista não poude engulir bocado.
+Maria ensopava o lenço em lagrimas. Fernando, grave, mas não triste, ia
+comendo, segundo o seu costume, e fazia o prato de suas irmãs, extranhas
+ás amarguras dos paes.
+
+Quando as meninas, depois de darem graças a Deus, se retiraram ao seu
+quarto, Fernando disse com muita brandura:
+
+--Porque hão de estar tristes?! Eu já disse á mãe que acceito qualquer
+posição que meu pae me der. Estou muito em tempo de aprender o officio:
+se meu pae não quer que seja o seu, indique-me outro. Vou sem saudades
+dos livros, nem pesar de esperanças perdidas em grandezas do mundo.
+
+--Mas envergonhas-te de ser filho d'um homem do povo!--atalhou o pae.
+
+--Não me envergonho: vocemecê não entendeu bem a minha magua. O que eu
+não posso supportar são as zombarias dos meus condiscipulos, que por
+força me hão de encher de fel o coração, e fazerem-me mau. Qualquer que
+seja o officio mechanico que me derem, viverei com os meus eguaes, e
+poderei distinguir-me d'elles com a minha instrucção, sem que ella me
+faça alvo dos seus motejos. Isto é o que eu desejo e penso.
+
+--Tens dezesete annos, Fernando!--disse o pae--É tarde para recomeçares
+nova carreira.
+
+--Eu me applicarei para ganhar tempo. Não lhe dê isso cuidado, meu pae.
+
+--E queres ser sapateiro?
+
+--Serei...
+
+Como este SEREI foi dito! Que livro eu tenho debaixo d'aquella palavra!
+Que volume de psycologia, de physiologia de coração, de philosophia
+transcendental, de tudo quanto ha ahi attinente ao homem, eu era capaz
+de extrahir d'aquelle SEREI! Da accentuação que Francisco Lorenço deu á
+palavra _sapateiro_, tambem podia formar-se outro volume psycologico,
+physiologico, um tractado completo do espirito homem em todas as suas
+variantes desde a sinceridade do santo, até á ironia do demonio de
+Goëthe, que era o mais argucioso e ironico argumentador, que o inferno
+cá mandou, depois dos enviados que prégaram a distincção entre homem e
+homem!
+
+
+III
+
+Aquelle dia e o seguinte passaram em indecisões do pae e do filho.
+Fernando esperava as ordens, sem ousar abrir um livro. A pobre mãe
+andava, de um para outro, a negociar a reconciliação: ao marido dizia
+que Fernando não podia nem devia retroceder: ao filho prégava-lhe
+sermões de paciencia para tolerar os ditos dos companheiros de aula, e
+ter bastante vaidade de ser filho de um operario honrado. O certo é que
+Maria com os seus sermões conseguiu revirar o animo do filho a tal
+ponto, que o moço, olhou em si, e viu-se ridiculo por dar tamanho pêso
+ás chufas dos condiscipulos.
+
+_O que a mulher quer, Deus quer_: é o titulo de um livro francez, que
+póde ser um proverbio em todas as linguas. Francisco Lourenço, com os
+seus assomos de louvavel dignidade, ia transtornando a carreira do
+filho, tão de longe pensada e afagada; ora Maria Luciana, em termos
+brandos, com o imperio de lagrimas, com aquelle feminil despotismo que
+tudo amolga e dobra, mais cedo do que devia esperar-se, reduziu o filho
+á rasão e consciencia de verdadeiros brios.
+
+Não contente ainda, levou Fernando a pedir perdão ao pae de o ter
+magoado com as suas vaidosas queixas, promettendo honrar-se em confessar
+por si mesmo, e com orgulho, o officio de seu pae.
+
+Francisco Lourenço resurgiu do seu quebranto, chorou mais doces
+lagrimas, e perguntou a Fernando se elle queria ir logo para Coimbra, e
+concluir lá os estudos preparatorios.
+
+Fernando mostrou desejos de ir, e logo os satisfez.
+
+Não comprehendia a mãe como pudesse ir sósinho, por esse mundo além, um
+menino de dezesete annos! Queria acompanhal-o, estar lá algum mez a
+ordenar-lhe a casa, ou esquadrinhar familia que lh'o recebesse e
+tratasse. Fernando, já sciente do que era vida de estudante, dissuadiu a
+mãe do seu proposito, e prometteu regular-se de modo que nem o
+desaconchego o molestasse, nem seus paes se arrependessem de o deixarem
+ir entregue a si mesmo.
+
+Fernando tomou casa em Coimbra, e viveu sósinho, e arredado de todo o
+concurso de academicos. Esta soledade não era de genio nem gosto. Embora
+tivesse elle dito que se honraria de confessar cujo filho era, manda a
+minha fidelidade de historiador asseverar, que o moço se esquivava dos
+condiscipulos folgasãos para forrar-se á contrafeita honra de se
+apregoar filho d'um sapateiro.
+
+Poucos dias depois de sua estada em Coimbra, organisou-se o batalhão
+academico para ter parte na guerra da restauração. Fernando Gomes
+alistou-se sem licença de seu pae. A bandeira hasteada era a da
+liberdade. As doutrinas proclamadas eram as da egualdade. O filho do
+artista sympathisava com a causa ventilada desde 1820. Ouvira desde
+creança citar os egregios nomes de Ferreira Borges e Fernandes Thomaz,
+arvores frondosas de civilisação, regadas com o sangue de Gomes Freire,
+e de outros martyres iniciados da revolução. Execrava as forcas
+hasteadas no Porto, tres annos antes, e em Lisboa, para o supplicio dos
+academicos. Além de tudo, acorçoava-se do intimo rancor que votava a
+fidalgos, por ter sido victima dos escarneos d'elles nas aulas de
+Lisboa. Sobejava-lhe causa a justificar o enthusiasmo com que pediu uma
+espingarda, e, primeiro que nenhum, se fardou, e impacientou com a
+demora da primeira batalha.
+
+Maria Luciana, quando tal soube, quiz ir em cata do filho: o marido
+antecipou-a no intento, e foi a Coimbra. O batalhão academico ia já
+marchando caminho do Porto. Francisco Lourenço retrocedeu para Lisboa,
+cogitando em mandar soccorros a Fernando.
+
+Devemos conjecturar, sem receio de erro, que o desembarque do libertador
+no Mindello fôra saudado de todo o coração do amigo de Bocage. Francisco
+Lourenço, com quanto arredado da phalange dos poetas mortos no começo
+d'este seculo, embriagou-se no ambiente d'elles, e bebeu a sorvos a
+liberdade nos hymnos propheticos dos timidos evangelisadores, que a não
+viram, senão ao longe na inundação sanguinea da França, e nas victorias
+de Bonaparte, que abrazavam allumiando ao mesmo tempo. Bocage devia de
+muitas vezes romper em apostrophes contra os frades que o viam amansado
+nos carceres da inquisição, e nos cubiculos conventuaes. Póde ser que o
+humilde amigo do poeta, em expansivas horas, merecesse a confidencia das
+amarguras que ennoitaram o melhor da vida do alquebrado espirito de
+Elmano. Se isto não bastasse a acrisolar o coração do homem do povo,
+quer-me parecer que o velho odio a José Agostinho de Macedo--energumeno
+panegyrista das forcas--bastaria a fazer d'elle um acerrimo _malhado_.
+
+Em quanto a mim, Francisco Lourenço abençoara secretamente a deliberação
+de Fernando; e, se foi a Coimbra, o intento de tal ida por certo não era
+estorvar-lhe o ir onde o melhor da mocidade academica levava suas forças
+de alma, e o prestigio da intelligencia, com que muito se move e reanima
+a força material das massas. Póde ser que o artista levasse recheadas as
+algibeiras de peças para fornecer o moço, e preparal-o para as
+contingencias de emigração. Esta hypothese dá em certeza, quando vemos
+Francisco Lourenço empenhado com uma casa mercantil ingleza para fazer
+chegar ás mãos do filho avultada quantia, que o moço recebeu com alegres
+hymnos á liberdade ... e ao dinheiro tambem.
+
+Fernando Gomes, em todos os recontros com o inimigo, deu provas de
+grande e imprudente coragem. Foi duas vezes ferido, e muitas vezes
+obrigado por disciplina a retirar do fogo. N'aquellas vertigens de
+bravura, que tanto pódem ser desprezo da vida, como culposa ambição de
+gloria, nenhuma consideração de obediencia o retinha em seu posto. Lá,
+os camaradas, denominavam-n'o o _pequeno diabo_, termos que se
+conformavam com a pequenez e magreza do seu corpo. O imperador já o
+conhecia de vista e de nome: muito fôra preciso para realçar entre
+tantos bravos, saídos dos bancos escolares, e quasi todos a competirem
+em intrepidez com José Estevão de Magalhães, aquella vivida lampada que
+ainda hontem se apagou no altar da patria, se é que das cinzas d'elle a
+arvore da liberdade não tem sempre de haurir seiva para reflorescimentos
+novos.
+
+Terminada a guerra nas provincias do norte, Fernando Gomes, condecorado
+com o habito da Torre e Espada, foi a Lisboa abraçar sua familia, e
+seguir as manobras do exercito que rebatia o assedio de Lisboa.
+
+Depois da convenção de Evora-Monte, e de todo apaziguada a guerra civil,
+Fernando tornou para Coimbra a começar sua formatura em direito.
+
+Proclamada a egualdade, extinctos os privilegios, rotos os diques que
+estancavam as prerogativas das raças nobres, e derramado o thesouro das
+coisas boas á vida por todos os homens indiscriminadamente, era de
+esperar que Fernando Gomes se désse por contente de ter nascido filho de
+um sapateiro, visto que o sapateiro ficava social e legalmente egualado
+ao titular. Tambem assim o esperava o, ha pouco, valente soldado das
+linhas do Porto, e, agora, desvelado e distinctissimo soldado nas lides
+da intelligencia!
+
+Sublime engano!
+
+Os seus mesmos camaradas, quer invejosos da condecoração, quer da
+intelligencia, uns com outros celebravam sarcasticamente os triumphos do
+filho do mestre Francisco Lourenço. Os conterraneos diziam que as suas
+melhores botas as deviam ao engenho do sapateiro-poeta da calçada do
+Sacramento; os provincianos, pela maior parte oriundos de uns fidalgos
+de meia-tigela, como lá dizem uns dos outros, não apertavam, sem
+repugnancia, a mão de Fernando, nem se detinham a falar com elle, quando
+podiam ser vistos e censurados pelos academicos de Lisboa.
+
+Isto acontecia um anno depois da restauração dos direitos do homem!
+Trinta annos já rodaram sobre esse facto de ridiculas convenções, e o
+filho do sapateiro é ainda hoje, e o mesmo será d'aqui a cem annos, um
+conviva chamado pela lei a sentar-se á mesa universal; mas a lei é uma
+tola: lá está o fiscal d'estas universaes communhões, que tranca os
+cancêllos do banquete, e diz ao filho do sapateiro o que já Horacio lhe
+dizia: _ne sutor ultra crepidam_; ou _tractent fabrilia fabri_, que tudo
+quer dizer: «não se admittem sapateiros cá.»
+
+Fernando recalcava em flagellador silencio o seu pesar. Nem mesmo a sua
+mãe se abria. Quando esta lhe perguntava que tratamento recebia de seus
+condiscipulos, o academico respondia:
+
+--Tratam-me bem.
+
+--Os tempos mudaram--accrescentava o pae.
+
+--Mudaram; os homens é que não--dizia Fernando; e de salto, aventava
+assumpto que désse córte na conversação penosa.
+
+Proseguiu o moço em sua formatura, e concluiu-a com ser premiado no
+ultimo anno, como em todos tinha sido.
+
+Suppunha Francisco Lourenço que seu filho, notavel pelos serviços
+prestados á restauração, e por seus premios, fosse chamado ás funcções
+da republica, sem que as elle solicitasse. Decorreram mezes, sem que o
+correio de algum ministro batesse á porta de Francisco Lourenço a
+procurar da parte de seu amo o valente e intelligente bacharel.
+
+O artista, de véras offendido de tamanha incuria, queixou-se d'isso ao
+filho. Fernando sorriu da boa fé e crença de seu pae, e disse-lhe que
+estava sinceramente arrependido de não ter renunciado ao estudo, quando
+chegou a descer á loja para sentar-se entre os officiaes.
+
+Este arrependimento, sincero ou não, desgostou o pae, e toldou-lhe o
+rosto de tristeza inconsolavel.
+
+Fernando foi ao Cartaxo, onde Francisco Lourenço tinha o melhor da sua
+livraria, comprada em nove annos com dispendiosa liberalidade de
+bibliómano. Como o local era triste, e a bibliotheca mui convidativa, o
+bacharel alli passou um anno, quasi só, raras vezes visitado por seus
+paes. Leu muito, leu tudo, e ardeu em desejos de ir vêr os locaes
+descriptos nos livros de viagens, e os monumentos perpetuados na
+historia. Virgilio e Dante deram-lhe o amor ás ruinas da Italia, Byron
+ás da Grecia, Lamartine, Chateaubriande e Volney ás do Oriente.
+
+Pediu a seu pae moderados recursos para viajar dois ou tres annos.
+Francisco Lourenço, antes do filho lh'os pedir, quizera offerecer-lh'os,
+pesaroso de o ver assim solitario, e receioso d'algum funesto resultado
+em tão contumaz estudo. Deixa-lo ir, porém, custava-lhe a vida; e a
+estremosa mãe, quando era consultada a tal respeito, dava o seu parecer
+com lagrimas.
+
+Aos rogos de Fernando nenhumas razões empeceram: Maria Luciana transigiu
+com o assentimento do marido.
+
+Os recursos pedidos eram muito inferiores á liberalidade com que o pae
+lhe estipulou o dispendio de dois annos, confiando-lhe, afóra isso,
+ordens de quantias indeterminadas. Tal confiança era bem cabida no moço,
+que durante a guerra e a formatura, cerceara, ainda de suas mesadas,
+economias com que comprava livros de recreio.
+
+Sahiu Fernando por França em direitura á Italia. Deteve-se em Roma
+alguns mezes, que lhe pareceram rapidos e deleitosos. Ninguem o
+conhecia; a ninguem procurava. Sósinho, de ruina em ruina, vivia com o
+passado, e dava pouquissima de sua admiração ás grandezas do presente.
+Conversava com Ovidio em Sulmona, com Virgilio em Mantua, e com Horacio
+em Tibur. Deliciavam-no mais as ruinas do theatro de Marcellus, que as
+pompas do Vaticano. Qualquer estatua mutilada, extrahida das escavações
+dos esboroados templos dos idolos, lhe tomava mais espirito e
+contemplação que as obras primas de Miguel Angelo.
+
+Encontrava portuguezes emigrados n'aquellas paragens, onde D. Miguel de
+Bragança procurava hospitalidade á sombra da theara pontifical. O
+principe de Portugal, com quanto convisinhasse do Vigario de Christo,
+que tem as chaves do céo, não sabemos se teve fome: as chronicas
+contemporaneas dizem que sim. O successor de S. Pedro de certo lhe
+emprestaria as chaves do céo, se sua alteza quizesse para lá ir, as
+chaves porém, dos reaes celleiros e cofres, essas é que decerto lhe não
+emprestou. Os papas dão muito mais facilmente as ambrosias celestiaes,
+que umas sopas diarias aos principes proscriptos.
+
+Não sei se Fernando Gomes pensava n'isto quando via o senhor D. Miguel
+de Bragança, e um emigrado portuguez lhe dizia que o rei não tivera com
+que comprar leite para o almoço d'aquelle dia. O emigrado que estas
+miudezas referia era um major Pacheco, que seguira o seu soberano,
+espontaneamente, desde o embarque até Roma. Casualmente o encontrara
+Fernando por lá escondido nos pardieiros da Roma dos Cezares, ou
+meditando nas virtudes de Tito, ou nas cruezas de Nero. Qualquer das
+meditações frisariam como o infante desterrado, que uns chamavam-lhe
+Tito, e Nero outros, posto que elle não fosse uma nem outra cousa: era
+apenas uma creança, quando rei; e um instrumento cego em mãos de togados
+infames, de prelados devassos, e de fidalgos estupidos. Desde que o
+raio, forjado ao fogo da civilisação e na bigorna mysteriosa do tempo, o
+fulminou a elle e aos seus, o filho de Bragança ficou sendo um
+desgraçado digno de respeito, de commiseração, e de real parentella mais
+compassiva e generosa.
+
+Ora vejam em que ladeira eu ia escorregando agora: Ahi está o meu pobre
+romance guindado a umas alturas de transcendental politica, d'onde se
+lhe não acudo, o coitado vinha abaixo estoirar n'alguma estrondosa
+parvoiçada! E tudo isto veio assim de seu natural. Por amor d'aquelle
+major Pacheco de Lobrigos que Fernando Gomes topou lá n'umas ruinas do
+Colyseu, ou cousa assim. E insisti n'este ponto, porque eu conheci em
+Villa Real, ahi por 1847, este major que voltara de Roma poucos mezes
+antes, e andava esmolando pelo Douro, com as suas barbas apostolicas, e
+grandes oculos de metal branco. Depois tornei a vel-o, estendido na
+estrada que conduz de Villa Real a Chaves, traspassado por duas espadas,
+e com a cabeça fendida até aos dentes. Fôra assim espedaçado pelas
+hostes do conde de Vinhaes, que mais acima mandou espingardear o general
+miguelista Mac-Donell, a cujas ordens andava o major Pacheco.
+
+E como quer que este ancião assim espostejado, e sepultado no adro d'um
+presbyterio contiguo á estrada, deixasse uma filha linda e pura como um
+anjo, e esta filha enlouquecesse de dôr, escrevi eu n'estes tempos uma
+elegia em prosa muito dorida, a qual publiquei no _Nacional_ do Porto.
+Em tão má hora dei a lume este testemunho de minha compaixão por os dois
+infelizes, que ambos jaziam mortos, e não sei qual d'elles mais
+cruelmente morto, em tão má hora digo, que se pude sair vivo das garras
+dos sicarios, mui pouco catholico sou em me não ter pesado a cera, e
+converter esta cera em cirios, e adornar com estes cirios o altar das
+liberdades patrias!
+
+Agora é de mais!
+
+
+IV
+
+Transferiu-se Fernando Gomes á Grecia. Estanceou com o seu Homero e
+Byron de um a outro padrão das fabulosas façanhas, historiadas em
+Thucidides e Plutarcho. Viu Grecia degenerada escrava, e de todo perdida
+para a resurreição da sua dignidade. Não teve um suspiro que lhe désse
+em hemistichio de ode, ou decima de hymno, como toda a gente faz quando
+carpe um povo cancellado do mappa das nações livres. «Nações
+livres!--dizia entre si Fernando Gomes.--Eu sei cá o que são livres! nem
+homens livres! Liberdade de morrer de fome, em toda a parte a ha, graças
+a Deus e ao progresso! Poemas ao trabalho e ao artista, em toda a parte
+se escrevem, graças á metrificação e aos especuladores ociosos, que
+deificam o suor e as mãos calosas, sentando-se em espaldares flacidos, e
+vedando o accesso de seus gabinetes aos operarios suados, calejados e
+sujos! Em toda a parte se mantem em nome da liberdade, e se chora em
+nome da servidão! Oh! meus pobres gregos, deixai-vos viver e morrer em
+vossa lethargia, que, se sacudires o torpôr de sobre o peito, virão
+depois uns próceres e éphoros, como os antigos, que vos hão de uns pôr o
+pé no peito desentorpecido, para subirem ao ponto donde vos atirem para
+baixo com muita injuria e muito desprezo da vossa ignobil raça de servos
+redimidos por elles!»
+
+Assim devia falar comsigo e com os gregos o nosso viajante.
+
+Mezes depois, temos Fernando em Paris, onde o senhorêa profundo fastio.
+Muito especial devia ser a compleição de moço de vinte e seis annos, que
+se anojava em Paris!
+
+Passou á Allemanha, marinhou os pincaros da Suissa, e desceu outra vez á
+Italia, fatigado d'alma e corpo, triste como um desterrado, saudoso do
+seu Cartaxo, saudoso de paes e irmãs; porém sem forças com que aproar no
+rumo da patria.
+
+Estava em Florença: restavam-lhe dois mezes dos dois annos concedidos.
+Releu Virgilio e Dante, Petrarcha e Tasso, os seus amigos de Italia, os
+seus guias e commensaes, as pallidas sombras que o seguiam até ás
+regiões convisinhas do sepulcro, ás tenebrosidades mysteriosas do sonho.
+
+E hei de eu acreditar (diz a leitora que sabe o que vale) hei de eu
+acreditar que Fernando não encontrasse nos mais formosos pontos do globo
+as mais formosas creações do universo? Não viu elle uma ou cem
+mulheres... (cem _senhoras_, emendarei eu, se vossa excellencia
+permitte) ou cem senhoras que o tirassem pelos cabellos d'essa
+escuridade de alma em que o exquisito moço se engolfava com as pataratas
+dos Virgilios e Dantes, e outros que taes pesadelos de um espirito que
+almeja diffundir-se e embeber-se nas delicias da poesia, tres vezes
+santa, do bello ideal!?
+
+Respondo: tem vossa excellencia razão de estar assim pasmada do homem:
+eu tambem, com quanto já saiba a preceito o que é pão bolorento por
+dentro e cordas de viola por fóra, começava a espantar-me, justamente no
+ponto em que vossa excellencia fez favor de interromper-me.
+
+Não ha duvida nenhuma: a cousa é muito para assombros. Bravia é a arvore
+que aos vinte e seis annos não floresce nem fructifica! Anasada alma
+deve ser essa que se dispende toda em extasis de livros velhos e paredes
+velhas, e historias revelhas, que nem recontadas por Michelet ou
+Castilho se podem aturar. Com um homem assim o romance era impossivel.
+Quem houvesse de descreve-lo, iria na piugada d'elle por esse mundo
+fóra, onde ha plinthos e peristylos derrocados, e confundi-lo-ia com
+algum troço de columna corynthia ou jonica. Fernando seria empolgado
+pela caterva empedernida dos antiquarios, que dariam com elle n'este
+museu de Lisboa, onde não ha nada que o valha, a não ser o titulo do
+edificio, que é museu de si mesmo.
+
+Estava eu, pois, a despenhar-me com o meu estylo espalmado na voragem
+dos escrevedores malditos da paciencia humana, quando, n'estes
+apontamentos que me dirigem, encontro o capitulo intitulado: PRIMEIRA E
+ULTIMA PAIXÃO DE FERNANDO GOMES.
+
+Primeira e ultima! exclamei. Não gosto d'isto! Com uma só paixão hei de
+eu encher duzentas paginas! Uma só paixão, n'estes nossos dias, em que
+vinte e quatro horas bastam para o prologo e o epilogo da tragedia, se é
+tragica a paixão!
+
+Comecei a lêr desanimado; cobrei esperanças no segundo capitulo; ao
+terceiro obrigar-me-ia, sendo preciso, por escriptura, a escrever dois
+volumes; ao quarto fechei o manuscripto, e coordenei os apontamentos
+pelo theor seguinte:
+
+Demorava em Florença uma familia portugueza, expatriada por affecta á
+realeza absoluta. Compunha-se esta familia de pae e duas filhas. O
+emigrado era um ex-desembargador do paço, ministro da Alçada, que
+assignara o accordão de pena ultima comminada aos academicos de Coimbra
+que, em 18 de março de 1828, mataram, no Cartaxinho, os lentes Matheus
+de Sousa Coutinho, Jeronymo Joaquim de Figueiredo, e feriram outros que,
+no dizer do accordão, _iam beijar a mão ao serenissimo senhor infante
+regente pela sua feliz chegada a estes reinos_.
+
+Bartholo de Briteiros se chamava o realista. Uma das meninas era
+Eugenia, e a outra Paulina. Em quanto á linhagem, estude quem quizer a
+origem dos Briteiros, que ha de encontra-la desde logo que as aguas do
+diluvio universal se recolheram ao centro do globo, e consentiram que os
+casaes contidos na arca procreassem os Briteiros e outras familias do
+mesmo tamanho genealogico. No que toca a riqueza, dizia-se que Bartholo
+possuia, em cada provincia de Portugal, duas, e tres e mais quintas: o
+que eu não averiguei por me parecer desnecessario.
+
+O emigrado vivia regaladamente na Praça do Dome, o mais vistoso local de
+Florença, servido de muitos creados, em palacio exornado de primosas
+alfaias e baixella. O _vassallo_ de D. Miguel de Bragança pompeava
+faustos de rei, em quanto seu _senhor_, o tão chorado principe dos seus
+amigos, mendigava em Roma. Este contraste offerece um lado de muita
+philosophia, que eu me dispenso de explanar por ter muito amor a quem me
+lê, e me não lerá, se eu me entro a enredar em camisa de onze varas...
+(Cá em Portugal já se não diz varas: é _metros_: camisa de quinze metros
+e vinte e cinco centimetros, corresponde a isso; por causa da metromania
+não se ha de perder o anexim que é expressivo).
+
+Escreve Méry a respeito de Florença: «Não me espanta que proscriptos e
+exilados, violentamente arrancados aos costumes de suas patrias, se
+lancem nos braços d'aquella Florença, que é mãe commum dos que padecem,
+e para todos se desentranha em palavras consoladoras...» E n'outro
+relanço das suas _Noites de Italia_: «Entende-se facilmente que homens e
+mulheres de alto porte, condemnados a exularem, pelo infortunio d'esta
+epocha tão atormentada, confluam a Florença de todos os pontos da
+Europa. O exilio aqui é menos penoso: não será paradoxo termos em conta
+de exilados todos os que vivem longe d'aquella cidade.»
+
+Bartholo de Briteiros, guiado pelo instincto, e não pelos viajantes--que
+o magistrado não lia viajantes--deu comsigo na formosa Toscana.
+
+Estanceavam por lá, em 1834, polacos proscriptos e muitos refugiados
+nobres da França, cujos exforços se mallograram na Vendéa. O palacio
+Orlandini, onde residia o principe de Monfort, irmão mais novo do
+imperador Napoleão, era o receptaculo de todos os proscriptos illustres,
+em nascimentos, artes e sciencias.
+
+Bartholo de Briteiros, tinha a illustração triplicada da fortuna. Era
+notorio que elle mobilara faustosamente um palacio campestre em _Poggi
+Bonzi_, e d'alli saia de passeio, em graciosa berlinda, com suas filhas,
+a _Val d'Arno_, á _Poggia Imperiale_, e a quantos pontos convergia a
+nobreza toscana.
+
+Isto lhe dera renome e accesso aos palacios Orlandini, Ricchardi,
+Strozzino.
+
+A formosura das filhas contribuia não pouco para a consideração que o
+pae gosava. Eram duas gemmas inestimaveis que sobredouravam a
+hypothetica riqueza do fidalgo portuguez. A mais nova era Paulina; quem
+perguntava porém qual das duas fosse a mais velha? Cada uma estava
+n'aquelle desabotoar de florescencia, e irradiação de graças, que seriam
+delicias da vida humana, se cada mulher bella assim, ao tocar os
+dezesete annos, alli ficasse, inamovivel, indestructivel, perpetua
+imagem do anjo, dominadora do tempo, e assim de gala, para entrar com
+todo o viço de sua formosura, e esplendor de encantos, em corpo e alma,
+na gloria do seu Creador.
+
+A mãe d'estas duas meninas morrera aos vinte annos, quando, em Lisboa,
+reinava como primeira em belleza. Os dois seraphins, que deixara no
+berço, conforme iam crescendo, recebiam do céo os dons soberanos que sua
+mãe levara. Aos quatorze d'uma, e quinze annos d'outra, dizia-se que a
+mãe não fôra mais linda que ellas.
+
+O desembargador desvelara-se medianamente na educação litteraria das
+filhas. Era elle homem de poucas lettras, e muito dado aos ocios de uma
+certa ignorancia, que é o supremo bem d'este mundo pelas muitas e boas
+horas de lerda pachorra em que a alma se embala no regaço d'ella.
+Briteiros sabia de jurisprudencia o necessario para convencer-se do
+pouquissimo que necessitava saber um magistrado palaciano, bemquisto
+para as alçadas, e braço inflexivel para hastear patibulos. Chamado
+sempre para mordomar n'estes festins de cannibaes, o amigo do throno e
+do altar via em si um homem dos antigos tempos, e gloriava-se. A juizo
+d'elle, os homens dos tempos antigos, eram os romanos, que condemnavam á
+morte os filhos, se o bom regimen da patria o requeria. Não cuidem,
+porém, que o austero Bartholo de Briteiros frouxamente acariciava as
+filhas, ou as affastava de si como cousas incompativeis da gravidade do
+seu funccionalismo e meditações. O contrario, de todo em todo. Brincava
+com ellas; com uma em cada braço, em quanto meninas até aos nove annos,
+andava de sala em sala, e assim recebia as mais circumspectas visitas. A
+orçarem por senhoras, nem assim as desquitava da obrigação de brincarem
+com elle: escondia-se nas dobras dos reposteiros, e queria que o
+andassem procurando. Muitas vezes saía d'estes brinquedos para assignar
+ao lavrar o accordão de uma sentença de forca, muito firme de pulso, e
+convicto da sua fidelidade aos principios, á moralisação dos povos, á
+ordem publica, e á justiça, filha primogenita de Jesus Christo.
+
+N'aquelle dia em que o exercito libertador assomou em Almada, e o Telles
+Jordão foi espingardeado, Bartholo de Briteiros, ainda duvidoso do
+desesperado desenlace da causa que elle julgava vencida por parte de seu
+rei, enfardelou á pressa o mais valioso de sua casa, ensacou muito
+cabedal em moeda que tinha herdado de avós, prescreveu ordens aos seus
+mordomos e caseiros das provincias, e embarcou em navio inglez, ancorado
+no Tejo, com as duas meninas palidas de susto.
+
+Horas depois, saía barra fóra, quando já em Lisboa repicavam os sinos á
+fuga do duque do Cadaval, e ao approximar-se o duque da Terceira. A esse
+tempo estalavam apedrejadas todas as vidraças do palacio de Bartholo de
+Briteiros, ás Amoreiras, e a populaça, a brava e briosa gentalha,
+apossava-se, por direito de conquista, da mobilia do desembargador, e
+repartia, a soccos fraternaes, o espolio do miguelista.
+
+
+V
+
+Estava Fernando Gomes em Florença, conforme o seu costume em toda a
+parte, sequestrado de toda a convivencia, visitando antiguidades, lendo
+outras, e como que mumificando-se a si proprio entre tantas velharias.
+
+Alguem disse a Fernando que o hospedeiro principe de Monfort mostrava
+aos seus visitadores a espada que Napoleão floreara na batalha de
+Marengo. Posto que o nosso portuguez presasse muito mais contemplar a
+lança de Leonidas ou o punhal de Bruto, não quiz perder o lanço de ver o
+sabre oriental do maior capitão do mundo, depois de Alexandre, e Cesar,
+dizia elle.
+
+O princepe recebeu-o no gabinete, onde estava escrevendo as suas
+_Memorias_: mostrou-lhe a espada, facultou-lhe o exame dos tropheus
+d'armas, recolhidos n'um armario envidraçado; e bem assim as chaves de
+ouro da cidade de Breslaw, quaes o imperador lh'as dera, congratulando-o
+pela conquista d'aquella cidade.
+
+Fernando, incitado a fallar pelo tom familiar do erudito principe, deu
+de seu saber muito boa conta sobre pontos de historia antiga, romana e
+grega, monumentos, batalhas, sciencias, e tudo quanto mereceria ser
+archivado em volumes grossos de soporiferas academias. O ex-rei de
+Westphalia deleitou-se em ouvi-lo, não sabendo ainda se era expatriado
+da Vandêa o cavalheiro que tão correctamente fallava lingua franceza.
+
+Fallou de si Fernando em breves termos, dizendo-se portuguez, soldado da
+liberdade, o infimo dos seus fautores em Portugal. Accrescentou logo que
+deixara a liberdade do seu paiz, e saíra a procura-la n'outros pontos do
+mundo, a fim de compara-la com a que deixara na sua terra, rachitica,
+derrengada e aleijadinha.
+
+Gostou o principe da grave sombra com que o douto moço mofava da
+liberdade dos portuguezes, (gente malquista sempre dos Bonapartes) e
+prolongou a palestra até horas de jantar. Fernando despediu-se já
+fatigado da convivencia: o filho do artista dava pouco pela gloria de
+conversar fito a fito com um ex-monarcha, irmão do heroe de Austerlitz,
+das Pyramides e de Friedland.
+
+Dias decorridos, Fernando foi convidado, em nome do principe de Monfort,
+a passar a noite no palacio Orlandini. Cogitou o moço no mais urbano
+modo de esquivar-se ás pesadas honras de tão luzida sociedade. A
+educação acanhara-o; e os dissabores, suggeridos por causa de seu
+nascimento, eram-lhe um constante espinho a impellirem-no para longe de
+ajuntamentos. Assustava-o de mais o receio de encontrar portuguezes nos
+salões do principe, e ter de responder-lhe ás naturaes perguntas entre
+conterraneos que se encontram em paiz estrangeiro. Precisamente
+quereriam saber o seu nome, o nome de seu pae, as suas relações na
+patria, as mil coisas que se presumem sabidas de homens que viajam e se
+relacionam com principes. Todos estes barrancos lhe empeciam o caminho
+do palacio Orlandini, e nenhum expediente lhe suggeriram com que
+delicadamente recusasse o convite. Sacrificou-se ao dever de quem tinha
+sido tão affavelmente tratado por personagem assim venerada nos
+prestigios da magestade, a magestade dos heroismos, mais imponente que a
+do sceptro hereditario.
+
+Antes da sua entrada no palacio, chegara Bartholo de Briteiros com as
+bellas meninas. Em quanto as duas portuguezas levadas pelas damas se
+gosavam da frescura da noite nos jardins, que muitas vezes serviam de
+salões, Jeronymo Bonaparte conversou com Briteiros largamente ácerca do
+moço portuguez que muito o encantara com a sua vasta erudição, e
+perguntou ao hospede se conhecia _Fernando Gomes_. O fidalgo franziu a
+testa, e disse:
+
+--Não sei dizer a vossa alteza quem seja Fernando Gomes. Os _Gomes_ em
+Portugal não sei quem sejam. Antigamente houveram os de bom toque; mas
+de D. João I para cá não acho menção d'elles nas chronicas. É appellido
+obscurecido, ou se perdeu.
+
+--Póde ser que o seu patricio achasse o _Gomes_ perdido!...--disse o
+principe com ar de riso.--O que eu sei é que o portuguez Fernando Gomes
+sabe muito, e entretem com assumptos, aborrecidos quando a gente os lê
+nos livros, ou nos monumentos. Gostei muito d'elle, e estimarei que a
+minha estima agrade ao seu patricio.
+
+Pouco depois foi annunciado Fernando Gomes, e logo conduzido á sala em
+que já estavam as damas da primeira jerarchia toscana; e, entre tantas e
+tão perigrinas, as nossas angelicaes portuguezas, honrando mais a terra
+de Camões, que quantos diplomatas nos andam lá por fóra engrandecendo.
+
+Bartholo de Briteiros fitou os olhos no portuguez, e lá entre si disse:
+«Não conheço: isto é homem ordinario.»
+
+--Tem aqui um patricio--disse o principe a Fernando.--É emigrado, e pae
+das duas meninas, que o senhor além vê, que parecem madonas. Ditosas
+revoluções as que obrigam a sair do seu ninho as formosuras que Deus faz
+para que todo o mundo as veja! O senhor de Briteiros é um pae ditoso,
+que se revê nos seus dois cherubins, dignos de Florença mais que de
+Lisboa. Os modelos que Raphael e Ticiano adivinharam, justo é que vivam
+em Italia, que é o céo das artes e das maravilhas. Não conhecia o senhor
+de Briteiros?
+
+--Não, senhor--respondeu Fernando.
+
+--De onde é o cavalheiro?--perguntou Bartholo.
+
+--Sou de Lisboa.
+
+--Talvez que, se me disser o nome de seu pae, eu possa conhecer a sua
+familia.
+
+--Vossa excellencia não conhece de certo o nome de meu pae. Sou filho de
+um homem do povo.
+
+--De onde saem os reis do genio--ajuntou Jeronymo Bonaparte.
+
+Bartholo fez um gesto insignificativo com a cabeça, e disse, passados
+minutos:
+
+--Veio de Portugal ha muito tempo?
+
+--Ha vinte e tres mezes.
+
+--Como estão as cousas por lá? Quem governa a canalha?
+
+--Governa-se ella, presumo eu--disse Fernando.
+
+O principe sorriu e murmurou:
+
+--A resposta é um livro completo. A canalha governa-se a si em
+Portugal...
+
+--Em Roma no reinado dos Cezares e no Baixo Imperio, e em toda a parte
+onde as nacionalidades se dissolvem--accrescentou Fernando.
+
+--Diz muito bem!--acudiu Briteiros--Portugal está em dissolução. O
+senhor é necessariamente realista!
+
+--Não, senhor. Fui soldado nas linhas do Porto. Pugnei a favor da
+liberdade, synonimo de humanidade. Servi-me a mim, servindo as classes
+abatidas pelo privilegio. Se me enganei, a culpa não foi minha.
+
+--Mas enganou-se...--atalhou Bartholo com má cara--A canalha é que
+reina.
+
+--Mas com gravata, luva branca, espada, chapeu de plumas, e
+arminhos--ajuntou Fernando Gomes.
+
+--E isso é bom?--redarguiu o fidalgo.
+
+--É bom como lição, como experiencia...
+
+--E depois? quando se quizerem emendar, era uma vez Portugal...
+
+--Seremos hespanhoes, inglezes, ou turcos, mas com juizo--disse
+Fernando.
+
+--Ahi está o patriotismo dos _malhados_--exclamou Briteiros.
+
+--Basta de politica--interveio o principe de Monfort, a quem destoara a
+violencia da ultima phrase do ex-ministro da Alçada.
+
+Fernando ficou pensativo a um canto do salão, meditando no appellido
+_Briteiros_. Sabia de cór os nomes dos signatarios do accordão que
+enforcou os academicos. Não lhe era extranho o feio aspecto d'aquelle
+homem. Devia ser elle: ouvira em Lisboa dizer que o mais façanhudo dos
+algozes vivia em Florença, com grande luxo, e segura posse de seus bens
+na patria. Odiou-o; não poude mais fital-o em rosto. Pensava em sair da
+sala, quando Jeronymo Bonaparte lhe disse:
+
+--Venha ver as suas lindas patricias, que desejam conhecer o
+portuguez... Mas tome tento em não argumentar com o pae. O senhor de
+Briteiros é contumaz inimigo do povo e da liberdade. Cá entre os meus
+hospedes francezes é conhecido por _Luiz XI_. O homem é um apologista
+das gaiolas de ferro para uso das avesinhas que cantam a liberdade.
+Detesta Lamartine, que escreveu contra a pena de morte, e defende que a
+arvore da liberdade deve ser cortada, torada, serrada e afeiçoada á
+maneira de forcas. Tem de bom que salga as suas theses com muita
+inepcia: gente emigrada não póde desprezar estes perrexis do riso, por
+isso o senhor de Briteiros é muito procurado. Agora vamos ver que duas
+flores saíram d'aquelle bravio matagal.
+
+Approximou-se o principe de Eugenia e Paulina.
+
+--Aqui está o seu patricio, minhas senhoras--disse elle, indicando a
+Fernando uma cadeira--conversem; espaireçam saudades da sua terra.
+
+Retirou-se o apresentante, deixando o filho de Francisco Lourenço
+penosamente enleiado.
+
+--Está ha muito em Florença?--perguntou Eugenia.
+
+--Ha dois mezes, minha senhora.
+
+--Lisboa é mais linda, não é?
+
+--Lisboa é a patria; mas Florença é a perola do mundo--disse
+Fernando.--Não vi na Grecia vestigios de lá ter havido uma Florença; e,
+com tudo, a Grecia era a colmeia dos mais doces favos do mundo antigo.
+Aqui me parece que vejo resurgidas as delicias da Roma imperial, os
+jardins de Lucullo, os marmores jorrando espadanas de crystal, as
+thermas de Antonio, os...
+
+Reteve-se Fernando. Reparou que o estavam escutando duas meninas, que,
+no ar do semblante, pareciam escutar idioma desconhecido. Que sabiam
+ellas de Lucullo e Antonio, as florinhas dos anjos, que da vida e mundo
+apenas conheciam o espaço perfumado de seus virginaes aromas? A ellas
+que se lhes dava de Florença, onde viviam tristes, com saudades do seu
+jardim de Lisboa, onde tinham cada uma seu canteiro, e em cada canteiro
+as plantas do seu amor? Seis annos havia que tinham deixado a patria, e
+ainda se diziam uma á outra: «Ainda veremos as nossas casinhas de murta?
+Já arrancariam as trepadeiras que se entrançavam em redor das janellas
+do nosso quarto?» O que ellas queriam era ouvir falar de Portugal, de
+Lisboa, do seu palacio, e talvez das suas flôres. Conheceria Fernando as
+flôres que ellas tinham?
+
+--Tem muitas saudades de Portugal?--disse Fernando.
+
+--Sempre...--respondeu Paulina.
+
+--E quem priva seu pae de voltar á patria?
+
+--Elle não quer!--disse Eugenia--Tanto lhe temos pedido! Responde nos
+sempre que só volta a Portugal com o sr. D. Miguel... Quando irá o sr.
+D. Miguel, sabe?
+
+--Não sei, minhas senhoras... Parece-me que o sr. D. Miguel não pensa em
+lá voltar...
+
+--Não?!--atalhou Paulina--E o papá a dizer que sim!... Então nunca lá
+tornaremos!
+
+--Tornam, tornam. A final o pae de vossas excellencias vae sem a
+companhia do sr. D. Miguel, e supponho até que elle póde viver
+tranquillo sem a protecção do principe. As pessoas, que serviram o
+partido do sr. D. Miguel, teem toda a segurança em Portugal; d'isto deve
+estar sobejamente informado o pae de vossa excellencia.
+
+--Diga-lh'o, sim?--tornou Eugenia.
+
+--Não me atrevo a aconselhal-o; porém, se o sr. Bartholo de Briteiros
+quizesse ouvir o meu parecer, dir-lhe-ia que o partido liberal só
+persegue os seus proprios amigos.
+
+As meninas não entenderam a doble intenção d'estas ultimas palavras.
+Fernando, em virtude do nenhum uso que tinha de trato com senhoras,
+compunha sempre as suas phrases em estylo sentencioso, como se as
+estivesse palestrando com philosophos ou politicos.
+
+A mim, comtudo, o que mais me espanta é a facilidade com que Fernando
+Gomes dizia aquellas coisas, mais ou menos convinhaveis ás pessoas com
+quem falava! Não o insandeceram duas mulheres que eram lindas a capricho
+de Deus! Poder estar assim um mortal, razoando em termos communs, diante
+de espiritos para quem se fez a linguagem mellica do madrigal, a poesia,
+como ella é no Oriente, e como os hebreus a saberiam lêr no cantico dos
+canticos! Pois não tinha elle olhos, á mingua de coração! Acaso o
+temperamento lymphatico póde tanto que as imagens objectivas se não
+espelhem na retina, e o coração não tome conta dos filtros que os olhos
+lhe côam como arames abrazeados de electricidade?!
+
+Eu sei cá!...
+
+Fernando, passado um quarto de hora, saiu do lado das filhas de Bartholo
+de Briteiros, e desceu ao gabinete do principe, onde sua alteza estava
+fumando e tratando assumptos litterarios com artistas, poetas, e
+eruditos de differentes paizes.
+
+O principe chamou-o á sua beira, e segredou-lhe:
+
+--Pois fugiu-lhes?! Não o entretiveram as patricias? Já sei o que foi:
+as pequenas não sabiam nada de Roma e Grecia... Mas lindas de véras,
+não? Qual lhe parece mais moldada pelos velhos typos da sua predilecta
+Grecia?--disse Jeronymo Bonaparte com jovialissimo rosto.
+
+--São formosas como portuguezas--respondeu Fernando Gomes--mas em
+Londres seriam mediocremente graciosas. Os typos gregos eram menos
+correctos; todavia a fórma antiga, como a estatuaria a perpetuou,
+exprime os estupendos lances das tragedias que não se adivinham nas
+physionomias aperfeiçoadas pela lima das gerações. As cabeças de marmore
+parece que ainda fremem cheias de vulcões. O busto das Aspazias,
+Corinnas, Faustinas e Cleopatras dardejam fogo d'aquelles pedaços de
+Carrara e Paros. A mulher viril da esplendida antiguidade, conforme a
+civilisação a veiu entronando atravez dos seculos, mais e mais se foi
+amollentando em feminilidades. Ganhava em prestigio o que perdia em
+realeza de forças. A mulher esculpturada em Roma e Grecia, ainda amante
+e amada, incutia pavor aos seus sacerdotes; a mulher dos nossos tempos é
+uma creança que se quer acariciada e bajulada como se as graças da
+infancia lhe aquilatasse o merecimento.
+
+--Parece-me porém--interrompeu o principe de Monfort--que as vantagens
+são a favor da mulher comtemporanea, da mulher mulher. Que entende o
+cavalheiro?... As suas patricias, a meu vêr, são perfeitas mulheres para
+se amarem sem inveja de gregas e romanas...
+
+--Certamente.
+
+--E saiba que teem sido pretendidas de grandes senhores da França, da
+Polonia, e da Italia. E o avarento pae não as cede ás mais remontadas
+stirpes nem aos mais abastados concorrentes. Fidalgo diz elle que o é
+dos mais antigos das Hespanhas; e, como o senhor Fernando sabe, o
+Creador ordenou, quando fez ou refez o globo, que a Hespanha ficasse
+sendo um estanque de fidalgos retemperados por sangue ostrogôdo, alano e
+suevo, sangue barbaro, que teve quatro mil annos a sua nobreza escondida
+nas florestas do norte... Advirto-o, meu amigo, d'esta avareza do senhor
+de Briteiros, que não vá succeder apaixonar-se o senhor por alguma das
+suas patricias!... Eu ficaria com eterno remorso de o ter apresentado,
+se o visse ámanhã a braços com um amor funesto!...
+
+Fernando Gomes sorriu-se das graciosidades do principe, e saiu, pouco
+depois, do baile.
+
+No restante d'aquella noite não viu Grecia nem Roma. Por sobre os vastos
+destroços, que compunham as necropolis da sua memoria, adejava um
+cherubim em nuvens de perfumes, era tudo primavera com seus devaneios;
+flôres e mocidade e verdura em tudo: de tudo tirava esperanças que lhe
+chamavam a alma ao futuro. O passado, então, pareceu-lhe melancholico: a
+poesia dos imperios pulverisados avultou-lhe como horrenda soledade; e o
+sol do dia seguinte encontrou-o ainda buscando no esplendor das suas
+visões o cherubim, que era, em todo o rigor da fidelidade, a imagem de
+Paulina Briteiros.
+
+
+VI
+
+Tinha expirado o prazo da viagem, estipulado por Fernando, e aceite por
+seu pae. No penultimo mez dos dois annos, recebeu o moço carta de
+Francisco Lourenço, instando por sua ida antes de concluido os dois
+annos, se possivel fosse. O artista dizia assim em sua carta:
+
+
+
+«Está pactuado o casamento de tuas irmãs.
+
+«Gracinda casa com um official de secretaria, rapaz de bom proceder, e
+familia honrada. Genoveva, não menos feliz, vae unir-se a um capitão de
+mar e guerra, homem já entrado na edade, mas muito estimavel, e muito do
+agrado d'ella. O prazer de nós todos seria que assistisses a esta festa,
+e enxugasses as lagrimas de teus velhos paes, quando as duas meninas, na
+mesma hora, se apartarem de nós! A estas dôres chama o mundo _festas_. O
+apartar-me de meus filhos quer o mundo que eu o festeje, como se
+approximasse mais de minha alma! Que tristeza será a d'esta casa se tu
+aqui não estiveres, filho! Que direi eu ás lagrimas de tua mãe, e ella
+ás minhas!... É preciso que nos ampares a ambos: aos teus braços é que
+ambos pediremos força para acceitar com resignação esta dôr obrigatoria,
+pela qual alguns paes recebem parabens! Não me detenho a pedir-te que
+venhas. Surda estaria a tua alma se não ouvisses os dois velhos que te
+estremecem...»
+
+..........................................................................
+
+Eu podia escrever muitas paginas soberbas de hyperboles, umas minhas, e
+outras copiadas, para dizer quanto Fernando amava Paulina; porém,
+n'essas muitas paginas, seria tudo pouco para dizer tanto como n'esta
+linha: _Fernando leu a carta de seu pae, e não sahiu de Florença_. Isto
+vai sem ponto de admiração, porque eu, em materia d'amor, estou como
+Horacio a respeito de tudo mais: _nihil mirari_. Maiores desatinos que o
+de Fernando Gomes reclamam indulgencia das almas bem formadas, almas que
+não sejam raio de luz sem calor n'uma pouca de lama, ou humano barro,
+que dispara no mesmo.
+
+Fernando mentiu a seu pae: disse que estava enfermo de febres, apanhadas
+em Roma nas lagôas pontinas. E mentiu sem vergonha de si mesmo! A
+celebrada honra de Epaminondas é a fabula mais paradoxal da antiguidade.
+Amasse elle uma Paulina, e estivesse em Florença, em Florença que, no
+dizer do author de _André Chénier_, «é como a Circe que maneata os
+forasteiros de invisiveis liames, e lhes dá continuada festa de musica,
+paisagens, perfumes, pompas e mulheres, a fim de incutir-lhes o
+esquecimento do seu paiz!...»
+
+Fernando fugiu ás musicas e aos perfumes da magica cidade. O seu amor
+era taciturno e solitario, como um luto de saudade inconsolavel. Nascera
+em rebentações de fogo como as lavaredas da Sicilia. Estava debaixo do
+céo italiano; incubou-se d'aquelle fogo, bebeu a peçonha da immensa
+mansenilha, que braceja serpentes de mortal amor por todos aquelles
+remansos fataes de Genova, Piza, Veneza e Napoles. O céo esperara-o
+n'aquelle ponto para lhe emborcar d'um jorro todo o amor, que lá em cima
+é glorificação, e cá em baixo inferno. As flôres de sua alma
+desabrolharam das mil côres da esperança, e no viço de primeiras; mas
+logo amarelleceram. O formidavel «impossivel!» bateu-lhe na cabeça e
+peito, para que a razão e o coração morressem a um tempo. A razão morreu
+para não reagir. O coração vivia com centenares de cabeças como a hydra.
+O coração é a salamandra de seus proprios incendios; lacera-se, como o
+pelicano; de cada golpeada tira golfos de sangue, e n'este sangue medram
+esperanças, cada dia mais infernadas. Este é o amor maldito dos que
+amam, como amava Fernando a creatura divinisada por todos, isempta de
+todos, vigiada pelos olhos coruscantes do velho, que tinha coração de
+pae, com ferocidades de rei das selvas, velador dos seus leonculos.
+
+Seria este imaginar impossiveis uma hallucinação do nosso homem? A gente
+mais sisuda e mais desbaratada em lidar com o mundo não lhe acontece
+tantas vezes fazer pé atraz, diante de travancos que uma borboleta
+transmonta a brincar por entre arbustos floridos? N'este artigo de
+mulheres, quantas vezes se nos figuram castellos roqueiros umas
+sobrancerias que lá ao pé se alhanam como relvados macios, planos,
+chãos, e todos desentranhados em boninas, que se estão como offerecendo
+ás solicitas abelhas, e até a zangãos damninhos!
+
+Ora vamos ver se Fernando cae das alturas por onde se anda após do
+cherubim, e vem cá baixo á estrada coimbran, ao amor rameraneiro, de
+theor e modo que o estylo possa assingelar-se o necessario para ser bem
+entendido e estimado. Fuja todo o romancista de entender com personagens
+que trazem a cabeça de telhas acima: a nossa linguagem lusitana é pouco
+para exorbitancias taes. Os francezes dizem tudo o que querem, e até o
+que não ha, nem tem ideia correspondente. Os allemães tambem. Cá entre
+nós, boa gente do velho Portugal, gente que é toda vulgo nas paixões
+quotidianas, quem quizer remedar extrangeiros nublando os ares com
+fumaças de idealismo, despega em tolice tamanha, que não será assombroso
+fecharem-se-lhe as portas da academia real das sciencias, ou
+negar-se-lhe venera da ordem de S. Thiago da Espada! Não póde ir mais
+longe o menos preço dos parvos.
+
+Paulina via todos os dias Fernando na _piazza di Dome_, sobre a qual se
+abriam as janellas dos seus aposentos. Chamava logo a irmã, clamando
+pressurosa:
+
+--Vem vêr o nosso patricio, Eugenia!
+
+Assentavam os cotovellos no peitoril do balcão de marmore, e alli se
+quedavam como duas rolas, a contemplar o portuguez, que as cortejara, e
+parecia te-las logo esquecido. Não ousava elle fita-las segunda vez!
+Remirava-as por entre os grupos: e o espaço aereo d'entre quatro cabeças
+era a suprema ambição do moço, a entre-aberta do céo nas visões de um
+santo anachoreta.
+
+Algumas noites as filhas de Bartholo de Briteiros viram Fernando no
+palacio Orlandini.
+
+--Que terá elle que nos não procura?!--dizia Paulina a sua irmã--Mas
+repara que não dá preferencia a ninguem!
+
+--É tão triste aquelle homem! Serão assim todos em Portugal?--dizia
+Eugenia.
+
+--Faz-me pena aquella tristeza! acudiu Paulina.
+
+N'outra noite a compassiva filha do fidalgo disse á irmã:
+
+--Chamemo-lo, sim? não parecerá mal?
+
+--Não; pois que mal é chamarmos o nosso patricio?
+
+Eugenia fez signal a um francez, que não era principe, nem duque, nem se
+quer especieiro rico: era um pintor, um amigo querido de Bonaparte.
+
+--Senhor Leopoldo Roberto--disse ella--conhece aquelle portuguez que
+está falando com a princeza Carlota?
+
+--Fernando?... Conheço-o desde que elle chegou a Florença--respondeu o
+palido mancebo.--Achei-o um desgraçado.
+
+--Desgraçado?!--atalhou Paulina.--Que infortunios são os d'elle?
+
+--Os extremos: os do amor sem esperança--respondeu o pintor.
+
+Paulina encontrou os olhos de sua irmã, que pareciam dizer-lhe: «ouves?»
+
+Leopoldo Roberto esperou novas perguntas das meninas. Passados minutos,
+aventurou-se o artista a perguntar:
+
+--Pois não conheciam o seu patricio?
+
+--Foi-nos apresentado pelo principe de Monfort--disse Eugenia--mas dos
+seus infortunios não sabiamos.
+
+--É de Florença a senhora que elle ama?--perguntou Paulina.
+
+--É de Portugal.
+
+--E elle está em Italia?!--accrescentou Eugenia--porque não vae então
+para Portugal?
+
+--Andará a viajar para conhecer se ella o ama, e sente a ausencia--disse
+Paulina.
+
+--A dama está em Florença. A formosa Paulina conhece-a.
+
+--Eu!...
+
+--Sim, minha senhora. Digo-lhe o grande amor de Fernando, e peço-lhe que
+o salve.
+
+O pintor ia retirar: Paulina exclamou:
+
+--Venha cá... explique-me esse mysterio... Eu conheço a senhora
+portugueza que Fernando ama?!
+
+--Os anjos de innocencia nem mesmo tem o coração que adivinha?--replicou
+Leopoldo--Hei de eu por força dizer-lhe que Fernando queria morrer sem
+que a imprevista Paulina soubesse que o matava?!
+
+As meninas não proferiram um monosyllabo. Leopoldo, o ascetico amante de
+Carlota Napoleão, approximou-se de Fernando, que falava com a princeza.
+Levava nos olhos uma alegria desusada. Carlota mudou de local, e o
+pintor disse a Fernando:
+
+--Quebrei o encanto. Paulina sabe que a amas. É bom que estas mulheres
+se glorifiquem com saberem os nomes das victimas. Morrer
+obscuramente!... morrer ignorado da mulher por quem diluimos a vida em
+lagrimas de sangue! Isso não! é preciso abrir larga fenda no peito,
+arrancar fóra o coração, e mostrar-lh'o. Então sim! ao menos servimos á
+gloria da mulher que se amou. Ella, se não póde dizer «amei-o,» diz
+«matei-o!» e póde ser que o diga com piedade; venha, pois, essa piedade
+posthuma, que deve ser regalo do cadaver! Que maior serviço posso eu
+fazer-te, amigo?
+
+Fernando apertou convulsamente a mão de Leopoldo, saiu aos jardins a
+dilatar o peito, a desdobrar da alegria que vos commove como os assaltos
+do medo. O pintor não o seguiu, dizendo:
+
+--Vae só, que eu não tenho alegria nem lagrimas que esconder. Recorda-te
+sempre de mim: propiciei-te o idolo em cujas aras era desconhecido
+holocausto. Agora pódes acabar, que cumpristes a tua missão. A minha
+ainda está imperfeita.
+
+Para que o leitor me não tome como cousa de destemperada imaginativa
+este Leopoldo Roberto, pintor francez, amante de Carlota Napoleão,
+peço-lhe que abra um livro de Eugenio Pelletan, o qual livro se chama
+_Horas de Trabalho_. Ahi, por algures, achará em resumo, n'aquella
+linguagem diamantina do illustre professor de philosophia, a historia
+dos amores; e, logo na pagina seguinte, a historia do suicidio do
+pintor.
+
+Hão de ver como elle atirou com o peito ás puas do despedaçador
+IMPOSSIVEL, e arquejou voluptuariamente n'aquellas agonias, sem
+esperança de sentir a mão da princeza enxugar-lhe o suor glacial.
+Reparem no quadro que elle aperfeiçoou na vespera do seu dia final. São
+scenas campezinas: obreiros que vão ás ceifas e voltam dos campos
+coroados de espigas. Oh! que formosissimas visões antecedem os
+paroxismos do talento! Que lucido agonisar o dos genios? Quem ha de crêr
+na mortalidade da alma, quando ella assim se rejubila ao pé do golfão em
+que o corpo se despenha como pedaço de materia postulosa e tábida?
+
+E não te salvou o anjo da arte, ó poeta das primaveras, dos arreboes, e
+dos crepusculos? Não tinhas uma Galathea em cada uma das tuas
+camponezas? Não te palpitavam aquelles corações debaixo da palheta? Já
+sabias que a tua immortalidade estava á porta do seu templo, para
+abrir-t'o logo que a lousa te batesse em cheio sobre o craneo estalado
+pela bala?
+
+Que princeza te valia uma inspiração das tuas noites desveladas!
+
+Quantas rainhas de virtudes deixaste lá em baixo escondidas nas
+florestas que perpetuaste em teus quadros!
+
+E não as amaste, como prodigo, e as déstes ao mundo, que t'as ama e as
+adora nas galerias, nos museus, nos empórios das summas maravilhas do
+bello!
+
+Olha ahi por esses palacios de principes, na Florença, em que
+premeditaste morrer, olha ahi como as turbas se enlevam no teu genero
+immorredoiro!
+
+E vê tu quantas princezas, como a tua Carlota Napoleão, desceram do
+solio ao exilio, do exilio á tumba, da tumba ao esquecimento; e os teus
+poemas ficam; e o teu espirito revive em céo e terra, e o homem pára
+diante da tua sombra, e deplora que uma princeza não subisse a ti para
+tu não desceres a procura-la no bojo negro do teu inferno, ou nas
+explendorosas serpes da chamma em que te abrasaste, ó crysalida d'um
+anjo!
+
+
+VII
+
+Queremos agora vêr como procede o portuguez.
+
+A poesia do mysterio está aguada. Descerraram-se d'entre as nevoas as
+duas estrellas que devem approximar-se ou repellir-se. A constellação é
+mais de esperar, quando os prenuncios são d'esta ordem.
+
+Tenha-se em seus brios, Fernando Gomes! Portuguezes são pouco dados a
+beberem trago a trago uma prosaica morte em ideaes mysterios! Costumâmos
+abrir o coração e despejar á flux quanto lá ha. Se nos desdenham, a
+dignidade propria nos rehabilita. Se nos acolhem, damos pelo commum
+excellentes maridos, carinhosos paes, e preciosos jarretas na velhice.
+
+Romances d'amor, que desandam em morte de tuberculos moraes, não pegam
+cá. Isto é terra de Hespanha e o céo de Italia, como diz o mais poeta
+dos portuguezes, o dulcissimo Castilho. Ama-se como na Italia, e
+entendia-se como em Hespanha. Quem quer saber o que é amar em Italia,
+leia Byron em Veneza, e Henry Beile em todos os seus romances, e
+peculiarmente na _Physiologia do amor_. Eu gosto de indicar as fontes
+limpas, para que me não attribuam aguas sujas, nem acoimem o romance de
+hoje em dia de pêco e ôco de conhecimentos uteis.
+
+Ora vamos lá ao conto, que está a meada a desencadilhar-se.
+
+Fernando Gomes venceu o seu pejo, e voltou dos jardins ao salão. Um
+francez, desconhecido d'elle, perguntou-lhe se era o portuguez Fernando.
+
+--Sou o portuguez Fernando--disse o moço.
+
+--As suas patricias encarregaram-me de perguntar a Leopoldo Roberto se o
+senhor sahira; Leopoldo Roberto não sei onde está: porém, como encontro
+o senhor, creio que lhe dou prazer communicando-lhe directamente os
+cuidados das senhoras de Briteiros.
+
+Fernando agradeceu affectuosamente a urbanidade do francez, e
+convisinhou das meninas, a tempo que chegava Bartholo.
+
+--Patricio e amigo--disse este a Fernando--não fuja da gente. Amigos,
+amigos, politica á parte.
+
+--Eu não fujo de vossa excellencia--disse o moço côr de rosa, quanto
+rosas se alastram em rosto de homem trigueiro.
+
+--Pois o senhor sabe--tornou Bartholo--que está um portuguez em
+Florença, portuguez dos bons tempos, e não o procura?!
+
+--Vossa excellencia até hoje não me deu bastante afouteza para solicitar
+tamanha honra.
+
+--Vá quando quizer. As minhas portas estão francas a quantos
+portuguezes, realistas ou não realistas, quizerem visitar um portuguez
+que honrou sua patria!--Ora o senhor, que saíu ha dois annos de Lisboa,
+ha de dizer-me se lá viu meninas mais galantes do que as minhas filhas!
+
+Fernando córou outra vez, e tartamudeou; as meninas sorriram; e o pae
+insistiu na pergunta com certo desplante que não vae mal em velhos
+folgasãos, e até faz gosto ouvi-los n'estas liberdades, quando se fundam
+em muito amor ás filhas.
+
+Fernando respondeu:
+
+--Posto que eu conhecesse pouquissimo a sociedade de Lisboa, digo, sem
+receio de baixa lisonja, que as filhas de vossa excellencia seriam em
+Lisboa, como em toda a parte, bellezas distinctas.
+
+--São a pintura da mãe--atalhou Bartholo.--Minha mulher foi a dama mais
+linda de Portugal. Deixou-me estes anjos para me ampararem. Se não
+fossem ellas, eu tinha-me atirado á cova que m'a roubou!
+
+Assomaram subitamente lagrimas aos olhos do quinquagenario. Fernando
+hauriu prazer d'aquellas lagrimas. Porque? O moço queria presuppôr
+coração, sensibilidade e affectos brandos n'aquelle homem que lhe
+avultava de bronze á phantasia.
+
+Passou Bartholo o lenço pelos olhos, e continuou:
+
+--E ha por ahi quem se tenha lembrado de me privar das filhas!... Veem
+com a palavra «casamento» propôr afoitamente a um pae que rompa os laços
+de dezoito annos, que lance de si as suas joias, a luz dos seus olhos, o
+ar do seu peito, e as deixe ir nos braços de uns libertinos fatigados,
+que as viram hontem pela primeira vez, e ámanhã lhes voltarão a face com
+sobranceria de maridos! É horrivel este systema de organisação social! A
+sociedade não se sustenta senão á custa d'estes roubos legaes feitos ao
+coração de um pae. E isto se chama manutenção da moral!... Deixa-la ser!
+As minhas filhas são a minha vida. Em quanto eu respirar, quero ve-las,
+quero te-las ao lado do meu leito de agonia. Custaram-me muito. Ficaram
+sem mãe muito tenrinhas. Criei-as eu nos meus braços: passava as noites
+com o ouvido collado á fechadura das alcovas onde dormiam as amas, para,
+assim que os anjinhos chorassem, acordar as mercenarias creadas. Isto
+fazia eu, senhor Fernando, quando negocios importantissimos de estado
+dependiam das minhas vigilias. Cresceram aquecidas pelo meu bafejo.
+Trouxe-as desde os seis annos na minha carruagem, quando ia aos
+tribunaes; não as confiava de ninguem. E queriam roubar-m'as agora que
+estão feitas, lindas, e ricas de felicidade e alegria para me
+retribuirem o muito que soffri por ellas!... Ainda bem que nenhuma me
+tem sido ingrata. Quando rejeito os pretendentes, adivinho-lhes a
+vontade d'ellas. O maximo prazer que me dão é serem dignas de illimitada
+confiança. Dizem que as vigio; tem-n'o dito o principe de Monfort; é
+falso, é calumnia; ellas ahi estão que o digam. São senhoras das suas
+acções: vão onde querem: ordenam seus passeios e visitas; e eu sigo-as
+com a docilidade e contentamento de uma creança. Ambas ellas sabem que
+me matam no momento em que me deixarem; e por isso Florença, Londres,
+Paris tem sido para minhas filhas como desertos... Coitadinhas! querem
+ir para Portugal; teem saudades de não sei que ninharias pueris!...
+Deixae estar, filhas, lá iremos, lá iremos em dias mais ditosos. A
+justiça ha de vencer, porque sois dois anjos, e estaes da parte da
+justiça. Tendes muita vida para largas esperanças. Voltaremos a Portugal
+talvez mais cedo do que vós mesmas ambicionaes. O rei... Agora reparo
+que estou falando com um soldado _mindeleiro_...
+
+--Não, senhor--atalhou Fernando--não posso gloriar-me da façanha do
+Mindello...
+
+--Façanha!... Ora essa! que façanha?!
+
+--Coragem, atrevimento, se vossa excellencia antes quer...
+
+--Qual coragem!... O senhor então não sabe a historia contemporanea...
+Fale-me de traições, se quer que eu lhe explique a façanha do Mindello,
+que, espremida na mão imparcial d'um critico, dá de si um heroismo
+negativo, uma pagina de historia que, d'aqui a cincoenta annos, quando
+os taes sete mil e quinhentos tiverem morrido, será reduzida á data do
+desembarque d'um principe foragido do Brazil, e mais nada...
+
+Fernando Gomes estava escarlate, e reteve-se a ponto de murmurar apenas:
+
+--A historia não se faz assim. Vossa excellencia está brincando!...
+
+--Brincando!... interrompeu o membro da Alçada.--Creia o que eu lhe
+digo, que tenho o segredo da rebelião desde mil oitocentos e dez. O
+senhor nasceu hontem: não sabe nada. Pegou d'uma arma, quando
+naturalmente largou a espada de folha de flandres, e a pistola de matar
+moscas...
+
+Paulina fitou os olhos em Fernando, e fez com elles e com os labios a
+mais ameigadora supplica de silencio e tolerancia. O condecorado das
+linhas do Porto sorriu-se, já perdida a côr, e fez um gesto mezureiro ás
+galhofas algum tanto colericas do fidalgo.
+
+Bartholo cahiu de seus azedumes, quasi furioso, na razão e
+arrependimento do excesso. Com brandos termos e rosto prasenteiro se
+desculpou, promettendo nunca mais fallar em rei nem roque; e ajuntou:
+
+--Sabe o que faz isto? É eu não ter portuguez com quem fale nas
+desgraças de Portugal, que tanto o são para gregos como para troianos.
+Estes emigrados francezes e polacos todos me falam dos negocios da sua
+terra, e ninguem sabe nada dos negocios da minha. Chamam-me hespanhol, e
+não querem acreditar que Portugal é uma nação que faz reis e desordens
+por sua conta e risco. Um francez a quem eu descrevi os tumultos de
+Portugal, desde que Napoleão lhe quiz lançar as garras, teve a
+petulancia de me dizer que qualquer poça d'agua suja, examinada com um
+microscopio, offerecia um rebuliço de vermes admiravel! Confesso-lhe,
+que se não tivesse duas filhas, havia de pôr a cara ao francez em apuros
+de ser examinada com o microscopio!
+
+Fernando Gomes soffreando a indignação, sorriu-se. O seu primeiro assomo
+fôra pedir o nome do francez; reflectindo, porém, um momento, desculpou
+o atrevido com as objurgatorias ridiculas e talvez sanguinarias de
+Bartholo de Briteiros contra Napoleão, na propria casa de Jeronymo
+Bonaparte, o irmão predilecto do imperador.
+
+O dialogo terminou assim, sem que as meninas proferissem palavra.
+Fernando afastou se com tristeza, recordando as vehementes expressões de
+Bartholo, com referencia ao casamento impossivel das filhas. Quem,
+d'animo frio, ouvisse o cioso pae de Paulina, daria pouco peso aos
+termos acres e despoticos do velho: o mais racional seria preparar a
+rebellião no espirito da filha, e vingar assim a sociedade ultrajada
+pelo egoismo d'um tyranno de dois corações, sedentos de mais amoraveis
+affectos, e mirando a elles por providencial influxo. Fernando, porém,
+com o seu verdadeiro, e, por isso mesmo, timorato amor, ponderou como
+invencivel a vontade do pae, e inconquistavel a vontade de Paulina.
+
+Estava elle engolfado n'estes pensares, a distancia visivel das meninas.
+Eugenia chamou-o, e disse-lhe:
+
+--O papá affligiu-o com as suas rabugices?
+
+--Não, minha senhora: eu respeito a paixão do senhor Bartholo de
+Briteiros.
+
+--Olhe que elle diz assim as coisas; mas não odeia ninguem--disse
+Paulina.--Quando vae a nossa casa? Estimavamos muito vel-o, para
+conversarmos muito da nossa terra... Vá ámanhã, sim?
+
+--Com o maior prazer...--balbuciou Fernando.
+
+--Demora-se em Florença? tornou Paulina.
+
+--Não sei dizer a vossa excellencia...
+
+--Depende o demorar-se da vontade de sua familia?--perguntou Eugenia.
+
+--Já desobedeci á vontade de meus paes. Eu devia estar em Lisboa a esta
+hora... Estou em Florença, e Deus sabe onde o meu destino me chama...
+
+Se Leopoldo Roberto houvesse sido menos explicito com a filha de
+Bartholo de Briteiros, o tom em que Fernando respondeu á pergunta de
+Eugenia bastaria a manifestal-o. O silencio de ambas, e a meiga
+expressão de Paulina foi tambem para elle sobeja prova de que o tinham
+comprehendido. Os dois corações, n'aquelle instante, esposaram-se em
+mysteriosas delicias. Tinham-se revelado tudo no magnetico relance
+d'olhos que se trocaram. Aquellas almas ou se haviam mentido, ou
+identificado para sempre. Nenhum d'elles assim o pensava. Nós, os que
+estamos de fóra, é que sabemos decidir d'estes vinculos eternos, e raro
+nos illudimos. Pena é que cada amante não traga á sua beira um
+observador, bastante martellado n'estas psycologias, para desde logo
+caminhar em terreno seguro, com a sibylla ao lado.
+
+[A]Fernando visitou o fidalgo. O acolhimento foi excellente. As meninas
+reviveram quantas recordações ainda tinham de Lisboa. O antigo
+desembargador, com insolita moderação, relatou ao hospede a chronica
+mysteriosa de Portugal desde 1810, a revolução de Gomes Freire de Andrade,
+a de 1820, e as alternativas sequentes das duas parcialidades. Teve
+momentos lucidos de consciencia politica, e de admiravel modestia. Pelos
+modos, se em vez do conde da Barca, ou do conde de Basto, elle fosse o
+ministro valído de D. João VI, ou de D. Miguel, Portugal voltaria á sua
+idade de ouro. Para se exaltar era justo que desluzisse a reputação dos
+privados de D. Carlota Joaquina, e então foi verdadeiro. Deu como decidido
+ter sido envenenado D. João VI. Contou minudenciosamente a morte do marquez
+de Loulé em Salvaterra: chamou-lhe _golpe de estado_: mas a historia ha de
+chamar-lhe golpe de cajado, porque o palaciano foi morto a pauladas.
+Deteve-se por descuido a fallar dos supplicios de Lisboa, Porto e Extremoz.
+Eram tudo, no seu modo de ver, sacrificios necessarios á manutenção da
+ordem. E argumentava com a historia. O protestantismo, dizia elle, não
+entrou em Portugal: graças ás fogueiras da inquisição. Em quanto a Europa
+ardia em guerras religiosas, Portugal gosava pacificamente da sua
+prosperidade, e da pureza do seu catholicismo. D'estas sublimes paragens da
+historia portugueza, descia o apologista do fogo depurativo da fé a provar
+a necessidade da pena de morte como cauterio ás chagas sociaes, antes que
+ellas contaminem os membros sãos. _Etc._
+
+Fernando ouvia-o silencioso. No entanto as meninas, entretidas com os
+taboleiros floridos dos seus jardins, diziam entre si:
+
+--E tu és capaz de lhe dar o ramo, Paulina?
+
+--Era... mas... que hei de eu dizer-lhe? Ensina-me Eugenia.
+
+--Eu sei cá!... não lhe digas nada... Quando o pae não vir, offerece-lhe
+as flores.
+
+--O melhor era deitar o ramo no chapéo.
+
+--Mas se elle o deixa ver ao papá?--redarguiu Eugenia.
+
+--Deus nos livre! E que pensas tu?...
+
+--De que, Paulina?
+
+--Será verdade o que disse o Leopoldo Roberto?[B]
+
+--Se elle te ama?
+
+--Sim...
+
+--Pois não vês?! Eu ia jurar que sim... E tu? tu é que devéras gostas
+d'elle...
+
+--Penso que sim... E de que serve?!... Este amor que o pae nos tem, é
+uma prisão! Todas as meninas da nossa idade tão felizes!... e a gente
+n'esta melancholia, a dominar as inclinações... para o não desgostar! Os
+outros paes não se importam. A gente vê tanta gente alegre com seus
+maridos! pois não vê?
+
+--Pois sim; mas tu que queres, Paulina? O pae não nos deixa casar...
+
+--É porque a gente não se tem importado...
+
+--Estás enganada... O pae soube que eu gostava do conde de Rohan, e
+fingiu que não o sabia. Lembras-te? Uma vez disse-me que se eu amasse
+alguem em Florença, ia immediatamente comnosco para a Azia! Quando tu em
+Paris gostaste d'aquelle emigrado portuguez, não viste como elle sahiu
+logo para Londres?
+
+--Depois, o Albuquerque foi ter a Londres--atalhou Paulina--e o pae foi
+logo para a Escossia.
+
+--É verdade; e depois, diz a toda a gente que as grandes cidades são
+desertos para nós! Tu verás, Paulina... Se elle desconfiar que amas
+Fernando, leva-nos para a Russia...
+
+--Isso leva!
+
+--Então, vê lá se te sabes esconder; e, se fallares com o Fernando,
+diz-lhe que seja acautelado, senão...
+
+--Como hei de eu falar-lhe?! Não vês que o papá já hoje me perguntou o
+que hontem estivemos a falar com elle na _soirée_ do principe?... Já me
+lembrou escrever-lhe duas palavras...
+
+--Ai! escrever-lhe!--atalhou Eugenia assustada.
+
+--Pois então? isso que tem? é crime?
+
+--E se o papá vem a saber que lhe escreveste?
+
+--Quem lh'o ha de dizer?...
+
+--Agora é que eu vejo que o amas seriamente, Paulina.
+
+--Amo: de ti não me escondo, Eugenia.
+
+--Pois então, se queres, escreve-lhe.
+
+--E que hei eu dizer-lhe? Eu nunca escrevi... Tu é que já sabes, minha
+Geni.
+
+--Diz-lhe que não denuncie que te ama: senão que o papá nos tira logo de
+Florença.
+
+--Só isso?!
+
+--Pois que mais? Quando elle te escrever, então responderás...
+
+.........................................................................
+
+Este dialogo, que parece estirado, correu em menos de quatro minutos. As
+meninas pediram ao pae licença para subirem do jardim a casa.
+
+Ora aqui tem o leitor como conversam os anjos.
+
+Quem, com ouvidos corporaes, ouvisse aquellas meninas, havia de suppor
+que estavam alli duas creaturas vulgares, como todas as que procedem de
+Eva, que dialogava com serpentes, e comia fructas da sciencia do mal!
+Cumpre saber que os anjos, em quanto perigrinam cá por estes pantanos do
+globo, fallam segundo ouvem fallar. Parece que ao descerem do céo,
+trazem, como regra, o anexim: _cada terra com seu uso_. A gente não
+acaba de capacitar-se d'isto!
+
+
+VIII
+
+Demoremos em Portugal algum espaço. A imaginação, que tem andado
+acorrentada aos apontamentos lá por essas terras lindas, mas alheias, já
+tem saudades das suas.
+
+Cá estamos em Lisboa na calçada do Sacramento, em casa do artista
+Francisco Lourenço.
+
+Estão os dois velhos á meza, onde o almoço lhes arrefece. Nenhum põe mão
+na comida. Encaram-se, e choram. Gracinda e Genoveva sahiram hontem para
+casa de seus maridos. Alli estão as cadeiras d'ellas, e sobre a meza as
+chavenas do almoço, e os guardanapos que lhes serviram dois dias antes.
+
+--E sahiram sem lagrimas!--disse o artista, com a voz golpeada de
+soluços.
+
+--Como eu saí de casa de meus paes para a tua...--respondeu a mulher.
+
+--Mas que tristeza... que solidão esta, Maria!... Nem as filhas! Nem
+agora, Fernando... de mais a mais enfermo, tão longe de nós! Que fins de
+vida os nossos, mulher! Como eu de longe via isto tão differente!
+Falava-te no prazer de acabarmos entre filhos e netos! vê tu! ninguem,
+ninguem comnosco!
+
+--Tem paciencia, homem, tem paciencia! Fernando ha de vir logo que
+esteja bom. As pequenas prometteram passar o domingo comnosco. Para a
+primavera, vamos todos para o Cartaxo. Não te afflijas, Francisco. Isto,
+assim triste e sósinho, é hoje. A gente afaz-se a tudo.
+
+--Afaz-se á ingratidão dos filhos? interrompeu o artista.
+
+--Ingratidão! Não é ingratidão! As meninas casaram com o teu
+consentimento: não foram ingratas.
+
+--Sairam sem verter uma lagrima.
+
+--Pois que queres tu? O Evangelho não diz: «deixarás pae e mãe»?
+Deixaram pae e mãe por seus maridos. É lei da natureza. Que havemos nós
+fazer-lhe? Almoça, Francisquinho, almoça.
+
+--E tu que fazes? porque não almoças?
+
+--Que queres tu! Não posso. Tenho um nó na garganta... Tambem eu... E
+Fernando longe de nós, Maria!... Que te diz o coração?
+
+--Que não tarda ahi. Talvez já venha a caminho. Se vier, não temos carta
+para a semana. Se estiver ainda doente, escreve-nos. Depois nos
+lastimaremos homem... Não tentemos a Deus.
+
+A carta, não desejada, chegou. Fernando dizia estar ainda doente, e não
+poder assignalar o tempo da sua volta. A linguagem era triste: dir-se-ia
+que a mentira lhe custava lagrimas. Os paes inferiram da tristeza a
+gravidade da doença. Francisco pensou em ir á Italia; porém, doia-lhe
+deixar sua mulher sósinha, doente de saudades, e mais lastimosa que
+elle. Esperou nova carta, contando os minutos por ancias, que o
+avelhentavam rapidamente. Ia, com sua mulher, buscar allivios a casa das
+filhas: encontrava uma e outra contentes, cuidando das suas occupações
+domesticas, cariciosas para os maridos, e levemente commovidas com as
+afflicções dos paes. A linguagem d'uma era a da outra:
+
+--Não se inquietem, que o Fernando ha de vir. Póde ser que nem esteja
+doente. Anda por lá a divertir-se, e vem quando estiver farto.
+
+Os velhos sahiam mais acabrunhados das frivolas consolações das filhas e
+genros.
+
+Passadas semanas, chegou nova carta. Fernando, aconselhado pelos
+medicos, ia convalescer para Napoles; e, logo que estivesse restaurado,
+voltava para Portugal, immediatamente. Era o resumo da carta; mas o
+dizer era mais escuro; a espaços lhe tinham fugido uns desmentidos á
+falsidade. Taes como: _Tenho desejado a morte: o futuro é negro, mais
+negro que a sepultura_. E n'outro relanço: _Eu nunca devia ter saido da
+nossa casa de campo. A má estrella não me acharia n'aquella
+obscuridade._ E, finalmente, rematando a carta, dizia: _Quem sabe se eu
+tornarei a ve-los, meu querido pae, e minha santa mãe?... Tenho
+presagios terriveis...._ Era para muita pena vêr os dois velhos, cada um
+a seu lado, com o rosto entre as mãos, arrancando soluços e exclamações,
+que ninguem consolava!
+
+--Que mal fizemos nós a Deus!--clamava Francisco. Não fui eu sempre bom
+filho, bom marido, e bom pae? A quem fiz eu mal voluntario d'este mundo?
+Quem se queixa de mim do céo para me ver assim, e te ver ahi, pobre
+mulher, sem consolação de tuas filhas? Que desgraças são estas de
+Fernando!--proseguia o artista, relendo a carta.--Na doença pouco falla:
+nunca me disse que doença tinha... _Tenho desejado a morte; o futuro é
+negro, mais negro que a sepultura!_... Vê tu estas palavras, Maria! Eu
+não lhe tenho faltado com as ordens do dinheiro muito a tempo. Já lhe
+escrevi, admirando e louvando que elle gastasse muito menos do que
+esperava. Tem tudo o que quer de mim, e ha de ter, se Deus me não
+transtornar a vida, meios abundantes para viver com decencia... Então
+por que se chora elle? que _má estrella o persegue_? porque _não ha de
+tornar a ver-nos_?
+
+--A mim...--atalhou Maria--certo é que não... Pouco tenho de vida,
+Francisco...; mas olha, meu filho, sabes tu o que me lembrou agora de
+repente?...
+
+--Dize, Maria...
+
+--Estará Fernando por lá apaixonado? Queres tu vêr que elle olhou para
+alguma senhora, que o traz em torturas, e o pobre rapaz não tem coração
+que o tire de lá para fóra?
+
+--A fallar a verdade--disse Francisco--a idade das paixões é a d'elle...
+Póde ser que adivinhasses mulher, e oxalá que sim... Se a paixão fôr
+bôa, o resultado bom ha de ser; se fôr má ou impropria d'elle, o tempo
+ha de cura-la... Mas isto não allivia a nossa dôr, Maria! Eu preciso de
+vêr Fernando; quero com a minha presença reduzi-lo aos seus deveres; não
+tenho meio de saber o que isto é, se não fôr em pessoa procura-lo.
+Deixas-me tu ir, mulher?
+
+Maria deteve a resposta alguns segundos, expediu um gemido do fundo da
+alma, e murmurou:
+
+--Vae, Francisco, vae, eu irei para casa de uma das filhas, se tu
+quizeres. Não te peço que me leves comtigo para te não dar que soffrer
+na viagem. Sinto-me muito doente. Vieram as afflicções juntas, e
+acabaram-me... Pois vae, e não te demores. Dize a Fernando que venha
+dar-me um abraço, que eu quero despedir-me d'elle; e, depois, que torne
+para onde estiver melhor.
+
+Francisco Lourenço, sem mais preparativos que um passaporte e dinheiro,
+sahiu de Lisboa no primeiro navio que lhe deu passagem para porto de
+Italia.
+
+
+IX
+
+_A gente não acaba de capacitar-se d'isto_, diz o final do capitulo VII,
+a proposito dos anjos, que em pousando pé no mundo, perdem memoria do
+céo, e aclimam-se logo n'estes pantanos, cujas exhalações pestilenciaes
+teimam poetas em dizer que sobem a glorificar o Creador!
+
+Vamos ao essencial.
+
+Paulina escreveu um bilhete assim:
+
+«O papá é muito desconfiado. Tenha muita cautella, se a separação lhe é
+tão dolorosa como a mim. Não passeie na praça do Dome áquellas horas. O
+papá dorme sempre desde as quatro ás sete. Eu tenho uma creada de
+confiança a quem póde entregar as suas cartas. Adeus. Guarde com amor
+estas florinhas».
+
+Dobrou em tira estreita o bilhete, e cingiu-o em volta das astes do
+ramo.
+
+Veja agora a leitora, mais superciliosa em pontos de dignidade e pudor
+senhoril, como os extremos se tocam! O que o despejo e desenvoltura
+teria feito, é a innocencia e candura que o faz n'este caso, n'estes
+amores começados com tal qual originalidade! Aposto que nenhuma dama,
+amestrada em galanterias, escriptora de resmas sobre resmas de cartas
+amorosas, se affoitaria a escrever aquellas linhas sem previamente ter
+recebido irrefragaveis provas escriptas e oraes de uma paixão homicida!
+Escrever a um homem sem ter sido a isso mil vezes solicitada! ennodoar
+assim o amiculo virginal! dar uma menina a saber que é capaz de compôr
+um periodo com sujeito, verbo e caso!
+
+Eu não louvo meninas que escrevem bilhetes, e se sujeitam a uma analyse
+de regencia; porém, não sei sobre que argumentos hei de fundar a
+censura. Não censuro, nem louvo. A moral é uma questão de felicidade,
+segundo as regras do dever n'este mundo. Ora, a meu juizo, a moral tanto
+se lhe dá que Paulina escrevesse primeiro a Fernando, como Fernando a
+Paulina. Além de que, a desmoralisação é o escandalo. Escandalo n'este
+facto, se alguem o dá, sou eu, que conto a historia; todavia, provando
+eu a final que o acto em si era innocente e as consequencias não
+desfitaram do mais honesto scopo, é justo que me descoimem do escandalo,
+e agradeçam a historia.
+
+Em quanto á felicidade, segundo as regras do dever, sou a dizer-lhes que
+não ha nada mais incerto que as regras do dever em materia de felicidade
+n'este mundo. Muita gente vae direito á rasão pela estrada do paradoxo.
+Outra muita gente, a fugir da absurdidade, quebra as pernas no barranco
+da rasão. Uma menina escreve um bilhete a um homem: o mundo sabe-o, e
+vitupera-a. Outra menina faz-se vermelha de lacre ao receber a primeira
+carta de um homem: o mundo tem noticia d'um pudor tamanho, e cita o
+exemplo d'esta santa a quantas meninas o demonio tentador negaceia. Vae,
+depois, á primeira abre-se o coração de anjo, uns braços de esposo, e um
+horisonte de summa felicidade; e á segunda, que em solteira não ousara
+escrever duas linhas a furto de olhos maternos, depara-se-lhe um marido,
+que só viu n'ella o merecimento boçal de não saber calligraphicamente
+dizer que o amava! O primeiro pergunta á sua «Porque me escreveste» e
+ella responde-lhe:--Amava-te.--O segundo faz a mesma pergunta á sua; e
+ella, a pudica, a santa do pejo, ha de, por mais que tergiverse,
+responder-lhe: «Não te escrevi, porque me não merecias confiança». Uma
+exalta; a outra rebaixa; uma faz-se amar pelo duplo prestigio de sua
+innocencia; a outra deve entediar mais cedo que o costume, porque embaiu
+a gente, encampando como innocencia uma boa dóse de velhacaria. Ha muito
+d'isto; mas não é assim tudo. Já disse que regras fixas nenhumas ha. As
+meninas n'este ponto, consultem as damas virtuosas e illustradas. A mim
+não me chamem para coisa de tamanha responsabilidade. N'estes combates
+das paixões, os romancistas são como os escrevedores que os antigos
+cabos de guerra levavam comsigo para historiarem as carnificinas:
+ficam-se cá de longe alapados a verem o fogo, e relatam ao universo os
+varios successos. Tornemos ao essencial.
+
+Fernando Gomes viu entrar as meninas na sala em que Bartholo de
+Briteiros lhe andava mostrando alguns bustos de Bartholini, famigerado
+esculptor de Florença, que cinzelara tambem os bustos de Paulina e
+Eugenia. Estava o magistrado encarecendo com voluptuoso enthusiasmo a
+Bacchante de Bartholini, que elle vira na galeria do duque de
+Devonshire, e contava d'um francez que chegara a Florença, e pedira
+venia ao esculptor para dar um beijo na sua Bacchante, beijo ardente que
+parecera filtrar fogo nos beiços marmoreos da lasciva tentadora.
+
+Bartholo mudou de tom, quando ouviu o ciciar de sedas. Entraram as
+meninas, e approximaram-se do piano. Eugenia tocou: Paulina cantou uma
+aria da _Norma_; e, durante o alegro, como o chapeu de Fernando
+estivesse sobre a cadeira contigua ao piano, e os olhos de Fernando
+n'ella, e os de Bartholo em uma estatua da Sabina de João de Bolonha, a
+menina lançou no chapeu o ramo.
+
+Fernando viu, e sentou-se, sentou-se violentado por umas caimbras de
+pernas. Parece que devia ser unicamente abalado o coração; mas estou em
+crer que homem amante é todo e em tudo coração.
+
+D'ahi a pouco, eram horas de jantar.
+
+Fernando ouviu o chamamento d'um escudeiro agaloado. Tomou o chapeu: não
+lhe podiam as mãos convulsas com o thesouro. Aterrava-o a magnitude da
+sua felicidade. O quer que era de idiota lhe desmanchava as feições.
+Bartholo convidou-o a jantar ceremoniosamente. Fernando balbuciou
+expressões confusas de reconhecimento, ajustando bem cerradas com o
+peito as abas do chapeu e saíu.
+
+Não lhe cabia o coração no quarto da hospedaria. Queria o sol, o azul do
+céo, os pinhaes, os vinhedos, e as flôres das margens do Arno como
+testemunhas da sua alegria.
+
+Áquella mesma hora é que os dois velhos, na calçada do Sacramento, se
+abraçavam, debulhados em lagrimas, e diziam:
+
+--Que mal fizemos a Deus!
+
+Que faces a vida tem!
+
+Fernando leu um poema em cada lettra d'aquelle insignificante escripto.
+_Insignificante_, digo! Injustiça de critico litterario, que só vê a
+magestade do entendimento humano nas ramagens floridas do estylo! Como
+_insignificante_! Cada palavra d'aquelle singelo bilhete salvaria
+Leopoldo Roberto, Chatterton, e quantos por amor se tem lançado nos
+braços da morte! Dae a cada desventurado, em transes de suicidio, um
+bilhete assim, de mulher como aquella, e eu vos restituirei um homem com
+vida exhuberante, com alma recaldeada para todas as adversidades, com
+amor a Deus e aos homens, retemperado de juizo para se predispor aos
+gosos da velhice, e d'uma numerosa posteridade--destino humanal mais
+efficazmente averiguado e demonstrado.
+
+Ao escurecer, Fernando voltou a Florença, e velou a noite inteira,
+escrevendo. Quando os primeiros raios do sol lhe douraram a ultima
+pagina da carta a Paulina, a cabeça do moço, calcinada pela febre da
+felicidade, pendeu sobre a mesa, e immergiu em não melhores delicias de
+sonhos.
+
+Despertaram-n'o para lhe entregarem uma das succesivas cartas que seu
+pae lhe estava sempre mandando, quer por navios que saíam de Lisboa para
+França, quer pelo correio de Hespanha.
+
+Que melancholica transição a da leitura das suas paginas arrebatadas
+para este chão e monotono escrever do artista:
+
+«Lemos a tua carta com muita magua. Bem me dizia o coração que tu não
+vinhas! A tua carta entristece mais esta separação de tuas irmãs. Se ao
+menos tivesses saude, Fernando! Mas doente, sem me dizeres que molestia
+soffres, isto augmenta a afflicção de teus velhos paes. Muito enfermo
+deves estar para, ainda com sacrificio, não accudires á nossa saudade!
+Deus te allivie, e encaminhe para nós.
+
+«Vejo que essa cidade te prende mais que as outras; mas foi-te ingrata,
+filho. Tiveste saude em toda a parte, e só ahi adoeceste, dizendo-me tu
+que era um clima celestial o de Florença.
+
+«Talvez te prendessem as memorias d'aquelle poeta que tu me lias, ha
+annos. Era Dante, se bem me lembro; mas eu queria que o teu coração de
+filho vencesse os prazeres do espirito; queria que os não esquecesses
+por amor da sciencia.
+
+«Isto não são queixumes, Fernando, não são. É rabugice estar eu a ralhar
+comtigo porque a doença te impede de vir. O que eu te rogo, e mando,
+filho é que, assim que as forças t'o permittirem, venhas dar
+contentamento á tua boa mãe, que está muito acabadinha, e mais depressa
+irá ao seu fim, se desconfiar que nos esqueceste...»
+
+
+A carta continuava assim por longo espaço de papel, manchado de
+lagrimas.
+
+Fernando não tinha a força de alma que caracterisa os homens grandes.
+Estamos vezados a dar carta de grandeza a uns vermes que não teem
+lagrimas, nem se deixam alquebrar de vulgares contingencias da vida. O
+filho do artista depôz a carta, e murmurou:
+
+--Meus queridos paes! como eu vos sacrifico sem saber a que!... Pude
+enganar-vos para me gosar das primicias de alguma desgraça!
+
+E, respondendo a esta carta, escreveu aquella em que transluzia a muita
+acerba previdencia do seu futuro, com phrases incongruentes, e por
+virtude da qual Francisco Lourenço se fizera no caminho de Napoles.
+
+
+X
+
+O marquez de Tavira...
+
+--Temos gente nova na historia?
+
+--É verdade, leitor. Chegou agora mesmo de Roma e Florença o marquez de
+Tavira, aulico da côrte do proscripto, emigrado desde a convenção, do
+primeiro sangue de Portugal, sujeito de quarenta annos bem conservados,
+que parecem trinta, arruinado desde o seu setimo avô, mas ainda rico de
+umas riquezas inexauriveis de fidalgos portuguezes velhos--a gente de
+mais industria e artimanhas que eu conheço--não desfazendo nos fidalgos
+portuguezes novos, que estes, para se esquivarem á arguição de terem
+avós, avós arruinados, começam por não terem avós, e renegam os paes
+como logicos que são. Este periodo é de abafar!
+
+O marquez de Tavira hospedou-se em casa de Bartholo de Briteiros. Não se
+viam desde 1832. Conheciam-se do paço, tratavam-se de _tu_, e tinham
+rapaziadas communs, posto que Bartholo se lhe avantajasse em onze annos.
+
+Mania fôra sempre de Briteiros aparentar-se com Cogominhos de Tavira. O
+marquez dizia que seu avô falava no parentesco dos Briteiros da casa de
+Robordochão; e, dito isto, regularmente pedia a Bartholo dinheiro, e
+Bartholo dava dinheiro ao primo marquez, que era expansivo, quando
+embriagado; e embriagado nas orgias de Queluz, Salvaterra e Alfeite,
+costumava rir de Bartholo de Robordochão, que dava metal amarello a
+troco de sangue azul.
+
+O marquez, desde a convenção em que largara a espada de coronel de
+artilheria, vagueara por França e Belgica, destroçando o restante do
+patrimonio vendido pelo terço do valor. Depois fôra a Allemanha em cata
+do senhor D. Miguel de Bragança; e, como encontrasse pobre o real
+exilado, invocou o seu inquebrantavel espirito e aproou para Florença,
+onde o chamava a pascacice do primo Bartholo de Briteiros.
+
+O acolhimento frizou com as melhores esperanças.
+
+O marquez teve logo, e muito rogado a possui-los, bellos aposentos,
+dinheiro a granel, optima convivencia de duas meninas, que o festejavam
+com franqueza de primas, e as melhores relações de Florença.
+
+Este incídente coincidiu com aquellas tristezas e alegrias de Fernando
+Gomes, na manhã em que fechava uma carta para Paulina, e abria outra de
+seu pae.
+
+Bartholo, sedento de noticias, enguliu quantas mirificas pêtas o marquez
+inventou, concernentes a restaurar D. Miguel no throno. No dizer do
+industrioso hospede, a Russia estava a disciplinar-se para talar a
+Europa, e passar o rôdo sobre as corôas usurpadas. O ex-ministro da
+Alçada, como bebesse mais alguns calices de champagne, no auge de sua
+alegria gosou-se de visões deliciosas, entre as quaes, se a conjectura
+me é fiel, avultavam uns triangulos do caes do Sodré, e umas lavaredas
+do Campo de Sant'Anna. Bartholo quiz pôr luminarias; mas o marquez
+dissuadiu-o d'uma virtude, que pareceria ridicula a olhos extranhos: a
+virtude das luminarias!
+
+Passeava, ás seis horas da tarde d'aquelle dia, Fernando na praça do
+Dome. Paulina estava na janella. Passados momentos recolheu-se, e
+reappareceu com uma creada. Fernando comprehendeu, e avisinhou-se.
+Paulina apontou para o muro do jardim, e sahiu da janella.
+
+Caminhou o moço, rente com a parede, e viu a creada debruçada no
+peitoril d'um caramanchão angular do jardim. Atirou-lhe a carta, e
+apanhou um bilhete que ella ao mesmo tempo deixara cahir, com uma
+_saudade_, flôr que, em parte alguma, tem o nome suave que portuguezes
+lhe dão.
+
+Dizia o bilhete:
+
+«Ámanhã vamos para Piza, onde temos de passar alguns dias. Vae comnosco
+o primo marquez de Tavira, que chegou hoje de Roma. Se não fosse o medo
+e os conselhos da mana Eugenia, pedia-lhe que se fizesse encontrado
+comnosco. Seria temeridade? Eu lerei muitas vezes a sua carta, sempre
+que puder fugir á vigilancia de meu pae. São tres dias: paciencia!
+Mando-lhe uma flôr, que me faz lembrar as da nossa patria... Ainda nos
+veremos lá, Fernando?...»
+
+_Seria temeridade?_ Este modo de perguntar, esta duvida em que Paulina
+ficava, teve Fernando na perplexidade de minutos em que o coração usa
+demorar as suas decisões. A ida do marquez com ella para Piza, o primo
+marquez, tres dias de ausencia com o primo marquez... Este primo marquez
+foi quem deu um empurrão em Fernando, pela porta fóra de Florença,
+caminho de Piza. _Seria temeridade_? seria; mas o contrario, o ficar, o
+estar tres dias sem ve-la ainda mesmo que o primo marquez não fosse,
+isso é que seria pusillanimidade, juizo de mais, excesso que mulheres
+amantes consideram coração de menos.
+
+Fernando viu Bartholo e o marquez, com as duas meninas, entrarem na
+caleche. O de Tavira sentou-se em frente de Paulina. O filho do artista
+esperou que a locomotiva passasse rente por elle, e fitou o fidalgo,
+emquanto Paulina ia de rosto voltado para ve-lo. Seria já o ciume que
+lhe afuzilava nos olhos? O primo convencional dos Briteiros era, como já
+disse, um rapaz de quarenta annos, um gentil rapaz, quanto se póde
+se-lo, com um fardo de quasi meio seculo no espinhaço. As barbas
+intensas, nitidas, e negras, os longos cabellos á _Saint-Simon_, o porte
+soberbo, as fórmas fidalgas e significativas de destreza e força, as
+faces ainda rosadas, eram predicados de assustarem um amante de
+compleição doentia, poucas carnes, estatura mediana, ar e olhar
+timorato, e outros attributos de que os authores de novellas nunca
+revestem os personagens fataes, ditos _leões_.
+
+Assim que a serpe do ciume o mordeu, não havia já consideração que lhe
+estorvasse o passo. Fernando partiu para Piza, curta jornada de algumas
+horas. Passou na _piazza del Calvalieri_, para esperar, n'aquelle centro
+da celebrada cidade, a passagem da familia. Em que monumentos iria elle
+procurar Paulina? Áquella hora, a illustre familia de Portugal estava em
+casa da opulenta ingleza Smith, cujo palacio nas margens do Arno abria
+seus salões na noite d'aquelle dia. A que parte iria o triste moço, mais
+triste na soledade da terra estranha, onde elle, como de si dizia Méry,
+se julgava, ao meio dia, o locatario unico de uma grande cidade? Foi ao
+_Campo santo_, vasto jazigo dos que morreram lidando na conquista do
+sepulcro de Jesus Christo. Seria aquelle o local mais ajustado á sua
+dôr? Os tristes sem consolação, como que refugiados da vida, se travam
+em mysticas confidencias com as cinzas dos que passaram seu dia chorando
+e, alli enxugaram as ultimas lagrimas no lençol humido da leiva.
+
+Ao entrar no cemiterio, Fernando recordou as palavras d'um illustre
+viajante, que tambem lá fôra a recobrar-se de alentos para arcar com a
+desventura do seu curto dia:
+
+«O _Campo santo_ exhala poesia de morte, a poesia do nada, a poesia da
+immortalidade. Este é o verdadeiro cemiterio do christão: não se sente
+aqui a constricção d'alma que nos causa o tumulo do homem, suave e
+religiosa melancholia vae comvosco por entre as quatro galerias
+funebres, e vos inspira pensares de morte sem pavor. Este torrão não se
+desentranha em ossadas, nem o verme corroe as carnes: é terra milagrosa
+que preserva os corpos do insulto das herpes. Envolve-se em magnifico
+lençol de relvados floridos; inquadra-se em puras e graciosas ogivas do
+marmore alvissimo: é terra de Jerusalem sobre as galerias travadas; os
+cadaveres dos velhos christãos de Piza estão aqui santificados; é o
+leito de descanço dos homens fortes, que morreram em Deus, com a espada
+á ilharga e os rins ciliciados. Quão suave é este ciciar da relva que
+ressoa ao longo das galerias! Cuidaes ouvir psalmodia entoada por
+sombras, hymno de sepulcros escripto em linguagem, que, só depois da
+morte conheceremos.»
+
+Mas não era cemiterio remanso ao soffrimento do moço. Ancias de coração
+não as suavisa a philosophia da morte. Aquillo serve para os que,
+n'outro ponto, deixaram fechada a sepultura de suas esperanças.
+
+Passou arrastado o dia, sem que Fernando encontrasse vestigios de
+Paulina. Na manhã do seguinte dirigiu-se á praça onde se ergue a famosa
+_torre torta_, que o leitor tem visto pintada, e que o marquez de Tavira
+queria ver, mais que tudo. De feito, estavam o curioso emigrado e
+Bartholo e as meninas ao pé da maravilha, quando Fernando assombrou n'um
+angulo da praça.
+
+Foi Paulina quem primeiro o viu, e trocou olhares de susto com Eugenia.
+Bartholo de Briteiros, que já muitas vezes admirara a inclinação
+mysteriosa da torre, estava mais attento nos palacios da praça, e, de
+relance, viu parado o portuguez.
+
+--Aquelle não é o Fernando Gomes?!--disse elle ás filhas.
+
+--Parece...--balbuciou Paulina.
+
+--Quem?--disse o marquez.
+
+--Aquelle patricio em que eu te falei, primo Tavira.
+
+--Ah! o mindeleiro?--tornou o primo.
+
+--Tal qual.
+
+--Sempre lhe quero ver o bellicoso aspeito! Ainda não vi um dos sete mil
+e quinhentos roldões do Mindello--tornou o marquez, dando a saber que
+tinha sua tal qual instrucção do _Carlos Magno_.
+
+Fernando, posto que tarde, simulou que não vira Bartholo, e foi indo
+lentamente seu caminho.
+
+O fidalgo deixou as meninas com o marquez, e atravessou a praça,
+estugando o passo, para se avisinhar a distancia que elle o ouvisse
+chamar.
+
+--Sr. Fernando! clamou Bartholo--patricio! vae tão meditabundo! Parece
+que receia que a torre venha abaixo?!
+
+Fernando olhou com bem fingida surpreza, e retrocedeu a comprimentar o
+fidalgo.
+
+--Então por aqui!--disse o pae de Paulina.--Acolá estão as meninas, e
+meu primo o marquez de Tavira, chegado hontem de Roma. Venha cá, se quer
+conhecer um dos primeiros fidalgos de Portugal.
+
+--Com muito prazer irei comprimentar um primo de vossa
+excellencia--disse Fernando.
+
+--Aqui está o senhor Gomes--disse Bartholo ao fidalgo--filho de Lisboa,
+bacharel em direito, e bom rapaz, posto que mordeu muito cartucho nas
+linhas do Porto, na qualidade de soldado do batalhão academico, e é,
+aqui onde o vê, cavalleiro da torre e espada, valor, lealdade e
+merito!...
+
+O sorriso, que envenenava estas palavras, queimou o sangue do filho do
+artista. Paulina tinha os olhos fitos n'elle, olhos de dôr e compuncção.
+Se Fernando os visse, daria graças a Deus pela angustia que lhe era
+premiada com a maviosa paixão d'elles.
+
+O marquez gesticulou ligeiramente um cortejo de cabeça, e disse:
+
+--Consta-me que em Portugal é toda a gente condecorada por façanhas das
+linhas do Porto!
+
+--Toda a gente, não, senhor marquez--disse Fernando.--Ás linhas do Porto
+não foi toda a gente, mas todos quantos lá estiveram mereciam bem a
+condecoração de valor, lealdade e merito.
+
+O legitimista desfranziu um riso de compassivo escarneo, e disse:
+
+--Em quanto a _valor_, o general Povoas que o diga, se os _valorosos_ o
+não querem dizer. Em quanto a lealdade, bem se sabe qual foi a lealdade
+dos bravos que apedrejaram com patacos D. Pedro no theatro, e mataram
+Agostinho José Freire nas ruas de Lisboa. Em quanto a merito, isso agora
+é uma questão de barriga: a barriga de cada um é que diz o merito de
+cada qual...
+
+Fernando olhou de revez o marquez, e disse a Bartholo:
+
+--Vossa excellencia continúa a admirar a torre, e eu vou dar as voltas
+que preciso, antes de recolher-me a Florença.
+
+O marquez ficou mais que muito corrido d'este ar de desprezo com que
+Fernando replicou aos seus dizeres, que elle imaginou não só
+irrespondiveis, mas capazes de atirar a terra com os creditos de uma
+politica. Bartholo tambem se desgostou do menos preço com que o _quidam_
+tratava seu primo, e não teve mão da sua zanga, exclamando:
+
+--Então não tem resposta o que alli disse meu primo?!
+
+--Não, senhor--disse Fernando Gomes.--Dá-me sua excellencia as suas
+ordens?
+
+--Passe muito bem, senhor Gomes--disse Bartholo, chofrado.
+
+Paulina e Eugenia corresponderam ao comprimento reverencioso de
+Fernando. Paulina sentia-se contente, soberba da dignidade d'aquelle
+moço; Eugenia, porém, doía-se da quebra de brios que soffrera o primo,
+temia que a ira do pae resultasse desgosto á irmã, e anteviu a
+impossibilidade de nunca mais os dois se approximarem, sem aberta
+declaração de guerra com o pae.
+
+--Este sujeito--disse, azedado, o de Tavira--quem é lá na sua terra?
+
+--Eu sei cá? É o senhor Fernando Gomes; tal m'o apresentou Jeronymo
+Bonaparte! Estes Bonapartes, que se fizeram reis mais depressa que os
+reis do theatro do Salitre e da rua dos Condes, impingem á gente com
+titulo de _notabilidades_ quantos patavinas os visitam no desterro!
+Qualquer pintor, esculptor, ou poeta, em casa do principe de Monfort é
+egual aos duques, e tem uma cadeira ao lado dos principes. Quem lá vae
+tem de apertar a mão ao pianista Sampieri, ao cantor Tachinardi, á
+cantora Degli-Antoni, ao poeta Méry, ao pintor Vernet, ao esculptor
+Bartolini, e ao senhor Fernando Gomes, que, no dizer do ex-rei de
+Westphalia, é um enorme sabio. Aqui tens tu, primo marquez, como eu
+conheci o senhor Gomes. Dei-lhe uma vez entrada em minha casa, porque me
+pareceu humilde o sujeito: agora descobri que elle tem seus fumos de
+orgulho!...
+
+--Não se me dava de lhe abater a prôa!--atalhou o marquez.--Queria ver
+se estes valentões do Mindello sustentam a fama cá fóra das linhas...
+
+Bartholo riu-se, e Paulina olhou em rosto o primo com visivel gesto de
+despeito.
+
+--Porque?!--disse ella, com mal represada ira.
+
+--Paulina!--murmurou-lhe Eugenia ao ouvido.
+
+Bartholo não dera conta d'este incidente, e o marquez, quando ia
+esclarecer a significação do gesto extranho de sua prima, viu que ella
+voltava o rosto, e se encobria com as franjas da _sombrinha_.
+
+--Querem ver que ella ama o tal sujeito?!--disse o marquez entre si, e
+differiu para mais ao diante a elucidação d'esta importante suspeita.
+
+No dia seguinte a familia voltou para Florença.
+
+Fernando já tinha ido.
+
+Ás affrontosas palavras do marquez de sobra respondera o silencioso
+desprezo do filho do artista: não obstante, o tom injurioso
+alanceara-lhe muito dentro o coração, por ter sido Paulina testemunha da
+zombaria.
+
+Pensava elle que a filha do nobre devia ama-lo menos por ve-lo assim
+desdourado, e sem vingança egual ao affrontamento. É um inferno, na alma
+de quem ama, pensar assim!
+
+
+XI
+
+Ao cabo de tres semanas de hospedagem regalada, disse o marquez a
+Bartholo:
+
+--Ora, primo e amigo, é tempo de continuar a minha missão, que
+interrompi por tres semanas. Bem sabes que a politica me não deixa ser
+das minhas vontades. Preciso de ir a Inglaterra em serviço do rei e da
+nossa causa. Tu, como rico em toda a parte do mundo, não queres
+participar dos trabalhos lentos da restauração: fazes bem, primo
+Briteiros: eu é que não posso libertar-me d'esta missão diplomatica.
+Espera-me o Saraiva em Londres, e o rei em Berlim, no espaço de quarenta
+dias. Aqui tens a razão da minha saída.
+
+--Pois vae, primo--disse Bartholo--mas logo que te desempenhes d'essa
+missão, volta a viver comnosco em Florença.
+
+--Não prometto.
+
+--Não promettes, marquez? Pois assim nos pagas a boa vontade com que te
+convido e o muito affecto das meninas, que te desejam comnosco?!
+
+--Se ellas me desejam--tornou o primo com intencional sorriso--isso é
+que resta demonstrar, primo Bartholo...
+
+--Pois que! duvidas?
+
+--D'uma, duvido; da outra tenho quasi a evidencia que me deseja vêr
+pelas costas.
+
+--Ora essa! qual d'ellas?
+
+--Permitte que não vamos adiante n'esta penosa conversação, primo...
+Evitemos desgostos communs. Tanto soffrerias tu, como eu tenho
+soffrido...
+
+--Que tens soffrido, marquez? Pois ainda agora m'o dizes!...--tornou
+Briteiros sinceramente inquieto.
+
+--Devêra ter-t'o dito ha muitos dias, desde o segundo em que vi tua
+filha Paulina... basta.
+
+--Homem! explica-te, se não eu obrigo-te a faze-lo por tua honra!
+
+--Pois que assim o queres, sabe a verdade inteira, e reprehende-me se eu
+tiver procedido mais segundo os dictames do coração, que os da honra e
+parentesco. Eu amei tua filha Paulina com paixão. Se não t'o disse logo,
+foi porque me julguei superior a mim mesmo, e aos despotismos do amor.
+Muitas vezes em Portugal, em Paris, em Roma, em todas as capitaes da
+Europa, me julguei vencido por diversas mulheres que encontrei; e, logo
+depois de chorar a derrota, de repente me rehabilitava pelo esquecimento
+instantaneo e quasi prodigioso da mulher que horas antes me acorrentava
+aos seus mais levianos caprichos. Cuidei que o mesmo me aconteceria com
+tua filha Paulina: aqui é que o meu orgulho pagou amargamente as suas
+passadas sobrancerias. Verdadeira e insanavel paixão me inspirou
+Paulina; e, para cumulo de desgraça e vingança d'outras, tua filha, bem
+longe de amar-me, convencido me deixou de me aborrecer. Primeiro
+imaginei que Paulina não podia ou não queria amar alguem: isto podia
+ser; porque ha mulheres sem coração, e ha outras que parecem ter quatro:
+com os homens dá-se o mesmo caso. Porém, primo Briteiros, a razão do
+desamor de tua filha era a mais natural do mundo; é por que tua filha
+amava e ama outro homem.
+
+--O que?!--interrompeu iracundo o fidalgo.--Minha filha ama outro homem!
+Calumnia! A minha Paulina não ama ninguem; e hade ser tua mulher, se eu
+quizer que ella seja tua mulher. Entendes tu, marquez?
+
+--Perfeitamente entendi, primo; mas eu é que sou incapaz de permittir
+violencias, e acceitar esposa violentada. Outrem me julgue tal; mas tu
+não, Bartholo, que conheces a nossa familia, e sabes que meus avós deram
+para casa dos reis suas irmãs, e receberam como esposas as filhas dos
+reis.
+
+--Bem sei, bem sei que foram esses os costumes da nossa familia; mas por
+isso mesmo é preciso que eu obrigue a minha filha a manter-se na
+dignidade de seus avós. Quem é o homem que ella ama?
+
+--Pergunta-lh'o tu, primo. Se ella não t'o disser, consente que eu, por
+honra mesmo de nosso sangue, o não pronuncie.
+
+--Que? pois ella ama algum mechanico? Responde por quem és, marquez!
+Depressa, que me sobe o sangue ao cerebro!
+
+--Já te disse que ha grande deshonra em tal inclinação, primo... Não
+forces a minha repugnancia a revelar-te o que de mim mesmo eu quizera
+poder esconder.
+
+Bartholo de Briteiros andava na sala, aos empurrões das furias,
+sacudindo vertiginosamente os braços, emquanto o marquez com a face
+entre as mãos, e os cotovellos encostados ás almofadas de uma ottomana
+lhe relanceava os olhos de infame penetração. Quando viu que era tempo,
+ergueu-se, tomou nos braços o pae de Paulina, e disse-lhe:
+
+--Estou vivamente arrependido. Não devia ter dito nada. Era mais nobre
+esmagar-me no coração, e poupar o teu de pae, e pae como tu és, meu caro
+primo. Perdoa-me, e perdoa as fragilidades de tua filha. É um amor de
+creança que ella tem ao...
+
+--Ao... quem?--exclamou Briteiros com uma grammatica desculpavel á sua
+angustia.
+
+--Porque não hei de eu dizer-t'o, se o enlace mesmo de sangue me obriga
+a velar pela honra de tua familia, que tambem é minha! Tu nunca
+suspeitaste d'este Fernando Gomes?
+
+--Fernando Gomes! pois tu crês que minha filha ama Fernandes Gomes?!
+
+--Creio, sei-o, tenho a maxima certeza. Agora não ha que tergiversar.
+Cheguei ao ponto de me perder no teu conceito, se não adduzir provas.
+Paulina vae ao caramanchão que está sobre o caminho, e d'alli fala a
+Fernando, ás horas em que tu dormes a sesta. Trocam-se cartas todos os
+dias. Estes factos são presenciados por quem os quer ver. Vi eu mesmo,
+depois que me avisaram. Reprehendi a prima Paulina, em termos de bom e
+zeloso parente e amigo. Tua filha respondeu-me com azedume,
+recommendando-me que me não intromettesse na vida alheia. Repliquei com
+as mais sagradas razões; dei-lhe como possivel, se não certo, ser
+Fernando algum miseravel dos que de repente se levantaram da lama de
+Portugal, e vieram no extrangeiro fazer luzir o ouro, que lhes seria
+vergonha na patria. Rebateu-me com o mais formal e mais descomposto
+desdem, que meus olhos nunca viram em menina com tal edade e educação, e
+de tal linhagem! N'esta altura da questão, entendi que o meu dever era
+deixal-a ao espirito tentador que a quer perder; todavia, mais sagrado
+dever me admoestou a que te avisasse, primo, para não tomar sobre mim a
+cumplicidade de alguma enorme desgraça, e mais enorme deshonra. Agora
+encarecidamente te rogo que te hajas com a cautela e prudencia que tão
+melindroso negocio requer.
+
+--Que hei de eu fazer?!--bradou Bartholo.
+
+--Sae com tuas filhas de Florença. Vamos para Londres. Eu irei adiante
+preparar-te aposentos. Lá, se o biltre a perseguir, eu lhe tornarei
+impossivel o accesso, e a possibilidade de a ver. Se outro passo deres,
+receio que seja o peor para te saíres dignamente da difficuldade. O ar
+com que tua filha me falou revela proposito de ferro, e resolução
+inabalavel. Póde temer-te; mas obedecer-te não. Fia-te em mim, que eu
+sei o que são mulheres, primo. Finge que não sabes nada. Prepara com
+qualquer pretexto a tua viagem, e tu colherás depois os bons fructos da
+prudencia. Se, como creio, tua filha mudar de idéas em Londres, com o
+mais sincero coração te digo que serei ditoso fazendo-a marqueza de
+Tavira; mas, para que este enlace se possa fazer, é necessario que ella
+nunca desconfie que eu fui o denunciante d'este vergonhoso affecto.
+Convens n'isto, primo Bartholo?
+
+--Convenho, marquez... Seja assim..
+
+Acabava o pae de Paulina de proferir a ultima palavra, quando as duas
+meninas, pé ante pé, se afastavam ao longo do corredor que conduzia da
+sala, em que os dois dialogaram, para o interior da casa.
+
+Paulina lançou-se no braços da irmã, e exclamou:
+
+--Oh! que infame é aquelle homem! que infame!... Que hei de eu fazer,
+Eugenia? diz-m'o por compaixão da tua pobre Paulina!
+
+--Que has de tu fazer, filha?... Eu sei!... Soffrer como eu soffri,
+quando o pae nos tirou de Paris...
+
+--Isso é que não!--replicou Paulina--Não me deixo assim esmagar!
+Fernando ha de ir tambem para Londres. Vou escrever-lhe e contar-lhe
+tudo... se o não puder ver, terei a coragem de soffrer e esperar, com a
+certeza de que elle está tambem em Londres... Pois que pensas tu?... Eu
+não posso esquecel-o, assim como tu esqueceste o francez, Eugenia! É
+porque tu o não amavas; se o amasses, a desesperação te daria forças!
+Tenho-as; sinto-me capaz de tudo!... O malvado!... á custa de que
+infamia elle queria fazer-me marqueza!...
+
+--Eu logo te disse--atalhou Eugenia--que não fazias bem em falar com
+tanta soberba, quando elle te reprehendeu...
+
+--Fiz muito bem! desenganei-o: está desenganado para sempre... Agora
+tudo que elle fizer são indignidades, e cada dia, e cada hora, hei de
+abominal-o mais.
+
+Aqui tem a leitora bem significada Paulina n'este conhecido verso:
+
+ _Ás vezes branca nuvem cospe um raio!_
+
+Quem diria que tamanhos vulcões de colera se escondiam no sereno peito
+da gentil creatura, que parecia talhada de molde para soffrer docilmente
+o martyrio! Ahi está o que faz o sol de Florença! Devem-se á Italia
+aquellas conflagrações! Em Portugal me quer parecer que Paulina não
+fosse aquillo. A minha espionagem de romancista nunca me alviçarou casos
+identicos de barreiras de Portugal a dentro. Por isso mesmo é que eu
+tenho de ir em cata dos meus personagens lá fora, para alternar, com
+lances de estremecer, as frias historias que tenho posto em livros de
+que ninguem se espanta, e que passam por as mais frias, insipidas, e
+inertes lucubrações do espirito humano. Esta agora, sim!
+
+Paulina cortou o folego da imprecação para ir escrever a Fernando.
+
+Poz em resumo o dialogo do pae com o marquez, e a resolução de ambos.
+Pedia-lhe que os seguisse para Londres, e averiguasse onde se alojavam.
+Asseverava-lhe que, á custa de tudo, se haviam de ver em Londres; e
+terminava, com a mais candida desenvoltura que póde ter uma menina,
+dizendo que, extremos de perseguição, ella fugiria para elle, e seria
+sua esposa.
+
+Na tarde d'este dia Bartholo de Briteiros deitou-se a dormir a sesta:
+assim lh'o impoz o cauteloso espião. Fernando já tinha em si a carta e a
+resposta. Appareceu na praça do Dome, e Paulina no caramanchão. Poucas
+expressões se trocaram depois que Fernando atirou a carta.
+
+A resposta era qual a delicada menina podia mais ambicionar. O amante
+sentia-se menos desditoso do que ella se imaginava. Para elle a
+afflicção de Paulina era extrema prova de amor. Antes a queria assim
+contrariada, e acrisolada ao fogo da oppressão. Incutia-lhe animo e
+esperanças. Promettia, mediante o auxilio do ministro em Londres, espiar
+os menores passos do marquez e de Bartholo. Se a não acoroçoava a fugir
+de seu pae, antevia, como primeira hora de sua felicidade sem nuvem,
+aquella em que Paulina se confiasse á sua honra. Do marquez dizia apenas
+que era inferior ao seu nojo, e lamentava que os grandes fidalgos
+andassem a competir em aviltamento com a mais infima ralé.
+
+O marquez, escondido n'uma loja da praça, presenciava os passos de
+Fernando. O homem, que tanto preleccionara acerca da prudencia, não teve
+mão de si. O demonio da pobreza espicaçava-o! Era o demonio da pobreza
+que prevalecia ás furias do ciume. Saiu da loja, e veio ao meio da praça
+por onde Fernando caminhava com a altivez que dá a felicidade do
+coração.
+
+Viu elle o marquez, e, a seu pesar, dardejou-lhe um olhar de desprezo,
+que parecia provocação. O neto de reis, se havia de ir ávante, e deixar
+o verme, parou, metteu as mãos nas algibeiras; e fez um tregeito de
+pernas, e assobiou umas toadas, que fariam as delicias de um faiante em
+pleno goso de seus tavernaes meneios.
+
+Fernando sorriu-se, e caminhou.
+
+--O senhor ri-se?--exclamou o marquez.
+
+--Ri, sim, senhor--disse placidamente o filho de Francisco Lourenço.
+
+--Que quer dizer o seu riso?!--replicou o fidalgo.
+
+--Que vossa excellencia é uma pessoa irrisoria.
+
+--Mas eu arranco-lhe os figados pela boca, bradou o marquez.
+
+--Operação difficil!... tornou Fernando sorrindo.
+
+--Julga-me da sua bitola, sô villão?
+
+--Eu não sei como hei de julga-lo, senhor marquez, depois que o julguei
+tolo!
+
+E approximou-se com magestosa serenidade. Fernando parecia crescer,
+nutrir, illuminar-se, e tornar-se mesmo grande aos olhos do
+convencionado de Evora-Monte.
+
+--Tem de dar-me uma satisfação com armas! replicou o marquez. Joga
+alguma que não seja o arcabuz do cerco do Porto?
+
+--Não senhor; não jogo armas.
+
+--Quer dizer que não se bate?
+
+--Bato com todas.
+
+--Tem padrinhos?
+
+--Os dois primeiros homens que se encontrarem. O primeiro já eu vi.
+
+--Quem? diga-o, para lhe enviar os meus.
+
+--É um pintor: chama-se Leopoldo Roberto.
+
+--Lá me quiz parecer! disse o marquez gargalhando uma risada secca.
+
+--Que lhe quiz parecer a vossa excellencia?!
+
+--Que os seus padrinhos haviam de ser pintores ou cousa que o valesse...
+
+--A coarctada é miseravel, senhor marquez! vossa excellencia é um
+covarde, que não vale o desprezo do pintor.
+
+O marquez de Tavira levou as mãos ás proprias respeitaveis barbas.
+Puchou as mechas a um lado e outro com tregeitos muito de incutir terror
+em almas fracas. Deteve-se um pouco n'esta operação minacissima, e tirou
+do peito alfim estas memorandas coisas:
+
+--Villão seria eu se expozesse a minha vida ao revez de sujar-me com tal
+competidor! Precisamente o senhor é um aventureiro, que anda a farejar
+mulher dotada cá por paizes onde lhe não conhecem a suja betesga d'onde
+saiu. Lá na patria sabem-lhe o nome, ou ninguem lh'o sabe, é mais
+acertado dizer!... Convinha-lhe a filha de Bartholo de Briteiros? Que
+atrevimento de ambições o seu! Afinal, que espera colher d'esta
+aventura?... A correcção dada por um lacaio de meu primo!
+
+--Se o lacaio tiver mais coragem do que vossa excellencia, em cujos
+hombros assentaria cabalmente a farda.
+
+--Miseravel!...--rugiu o marquez!
+
+--Tolo!--replicou Fernando.
+
+O primeiro voltou as costas; o filho do artista permaneceu no seu posto
+alguns minutos, encarando as duas meninas, que os viram approximar da
+praça, e esperavam, atribuladas, a infelicidade do encontro.
+
+
+XII
+
+Decorridos dez dias, chegou a Napoles Francisco Lourenço. Aqui o
+trouxera a certeza anciosa de encontrar seu filho em convalescença, se é
+que Fernando o não enganára com o louvavel intento de o poupar a maiores
+afflicções. Durante a viagem para França, o artista entendeu que saíra
+precipitadamente de Lisboa, sem agenciar relações que o dirigissem a
+Napoles. Quem o guiaria n'uma grande cidade como aquella? Estaria o
+filho n'um hotel ou nos arrebaldes?
+
+Para remediar semelhante imprevidencia, dirigiu-se, torcendo o seu
+itenerario, a Paris, e apresentou-se ao ministro portuguez, expondo o
+seu destino. O ministro deu-lhe carta para Napoles.
+
+Poucas horas depois da chegada, Francisco Lourenço tinha a certeza de
+que seu filho saira de Napoles dois annos antes, e nunca mais ahi
+voltára, e a certeza tambem de que o moço estava em Florença, havia
+quinze dias.
+
+Saiu Francisco para Florença, cuidando que seu filho peorára, ou
+melhorára a ponto de dispensar a convalescença n'outros ares. Com as
+recommendações que levára de Napoles, soube em pouco tempo que Fernando
+embarcára em Genova com destino a Londres.
+
+--A Londres!...--exclamou o velho.--Então é certo que meu filho me vae
+fugindo.
+
+--É mais natural que o vá procurando--respondeu a pessoa a quem o
+artista ia de Florença recommendado.--Póde ser que seu filho fosse
+embarcar para Portugal em algum dos portos de Inglaterra. O certo é que,
+minutos depois da sua chegada a Londres, o senhor ha de saber onde seu
+filho está hospedado, se é que elle lá está. Entretanto as minhas
+informações dão que Fernando Gomes--continuou o chefe da policia de
+Florença--estava mais ou menos ligado com uma familia portugueza
+emigrada, cuja cabeça é Bartholo de Briteiros, residente n'esta cidade
+por espaço de dois annos e tantos mezes. Dizem mais que Fernando Gomes e
+um tal marquez de Tavira concorreram a amar uma filha do senhor de
+Briteiros, e por ciume se insultaram na praça do Dome.
+
+--E meu filho--atalhou Francisco Lourenço com amargura--não esteve
+doente?!
+
+--As minhas informações não me dizem que elle estivesse doente, e penso
+poder asseverar-lhe que seu filho gosou em Florença a melhor saude.
+Encontrei-o miudas vezes em casa de Jeronymo Bonaparte, onde elle era
+muito estimado do principe. Comquanto não estivessemos relacionados, só
+de o ver devo crer que o senhor Fernando Gomes passasse bem, a julgar
+pelo seu aspecto não doentio, posto que pallido.
+
+Munido de indicações e uma carta, Francisco foi esperar em Genova a
+sahida de um barco inglez para Falmouth.
+
+Tão rapidamente quanto em Florença lhe prometteram esclarecimentos,
+recebeu-os em Londres, na repartição da policia, onde lhe deram um
+_policeman_ que o guiou á rua, hotel, e numero do quarto em que assistia
+Fernando. O velho fez mentalmente o elogio da policia britannica.
+
+Bateu Francisco Lourenço na porta indicada. Abriu-lh'a o filho.
+
+--Entro com os braços abertos!--disse o velho convulsivo de jubilo.--Não
+te venho ralhar, filho!...
+
+Fernando abraçou-o com fervor, e limpou-lhe as lagrimas copiosas.
+
+--Minha mãe como está?--disse Fernando...
+
+--Doente a deixei... Deus sabe como ella está... Acho-te bom, meu
+Fernando... Ainda bem!... Não cuides que eu antes queria achar-te
+doente... Perdôo-te a mentira, porque... antes assim... E agora?...
+Agora vens ver tua mãe?...
+
+--Descance, meu pae--atalhou o enleiado moço.--Descance, e depois...
+
+--Não póde ser depois, Fernando... Que faço eu aqui?! Não vim vêr
+Londres; vim procurar-te, vim chamar-te. Se me não seguires, que faço eu
+longe de tua mãe, que a esta hora mal sabe que voltas tenho dado... Era
+melhor que me não dissesses que ias para Napoles: poupavas-me tanto
+desgosto e fadiga!... Bem vês que estou muito velho... Não me deixaste
+assim... Em tres annos ninguem envelhece tanto...
+
+--Perdão, meu pae!--exclamou Fernando, apertando contra o seio as cans
+do velho lagrimoso.
+
+--Tanto chorar, na minha edade, é sorte de poucos... Vejo tantos paes,
+com os meus annos, em socego, á espera da morte, rodeados de seus
+filhos, fartos e ricos do fructo dos trabalhos d'elles...
+
+--Tem razão...--atalhou Fernando--mas esses são os paes que teem filhos
+menos desgraçados que eu! Eu queria contar-lhe a minha vida... uma só
+palavra a explica... é uma paixão, meu pae, que me deshonrou aos seus
+olhos; por amor d'uma mulher lhe menti, e me envileci em minha propria
+consciencia...
+
+--Não estás deshonrado aos meus olhos, Fernando... Desgraçado é que me
+pareces, filho... Não me contes a tua vida, que a sei. Lá deixaste em
+Florença as tuas memorias... Isso mesmo por que m'o não disseste? Antes
+isso que o engano. Eu não me espantaria que deixasses pae e mãe por uma
+mulher. Tuas irmãs tinham sido criadas no regaço de tua mãe, e fizeram o
+mesmo... Deixaram-nos sósinhos. Mas poderás tu dizer-me que futuro é o
+teu? que tencionas fazer? Bartholo de Briteiros, esse mau homem, que tem
+uma historia escripta com sangue, foge-te com a filha para Londres. Que
+vens tu aqui fazer? Queres tirar-lh'a?
+
+--Não, meu pae; quero vel-a, unicamente vel-a; porque no dia em que
+perder a esperança de a tornar a vêr, hei de matar-me para esquecel-a...
+
+Fernando escondeu o rosto no seio do pae, e exclamou:
+
+--Deixe-me chorar, que são as primeiras lagrimas. Não houve coração
+algum que m'as recebesse...
+
+E soluçava convulsivamente nos braços do velho, que o apertava ao peito
+com tremuras de compaixão e amor.
+
+--Diz-me tu, filho...--tornou com muita brandura Francisco
+Lourenço--essa senhora despreza-te?
+
+--Oh! não!... O desprezo seria a minha salvação--respondeu Fernando com
+vehemencia.--A desgraça é ella amar-me, e ser uma santa em dedicação e
+sacrificios. Por amor de mim foi tirada de Florença para Londres; e ha
+quinze dias que a cada instante a espero aqui... fugindo á crueza do
+pae, que quer casal-a...
+
+--E tu has de acceitar uma filha fugida a seu pae?...--interrompeu o
+velho.--Vê se podes, á custa mesmo da vida, ser honrado, filho! Seja o
+pae um malvado, seja a filha uma santa, embora...; mas não te absolvas
+em tua consciencia, se consentires que essa menina fuja para ti.
+
+--Mas o pae faz-me a injustiça de suppôr que eu não irei logo recebel-a
+como esposa? Não sabe que ella é...
+
+--Sei que é rica... os Briteiros são muito ricos... Isso é que me queres
+dizer, Fernando?...
+
+--Não, senhor; queria dizer-lhe que Paulina Briteiros não é mulher que
+algum homem possa victimar, por mais infame que ser possa; ora eu, meu
+pae, amo-a com esta paixão que vê. O mundo não nos perdoaria a culpa de
+nos unirmos contra a vontade de seu pae?
+
+--O mundo não vos deixaria unir sem grande perseguição, filho. Antes de
+alcançares o descanço de uma honrada lucta com a sociedade, serias
+muitas vezes infamado, esmagado e talvez vencido.
+
+--Espere, meu pae!... cale-se!--exclamou de subito Fernando.--Estes
+passos são de mulher...
+
+--Será ella, meu Deus!--disse Francisco Lourenço.
+
+Fernando foi á porta, viu a criada confidente de Paulina. A moça assim
+que o viu debulhou-se em lagrimas, e balbuciou:
+
+--A menina não pôde escrever-lhe... Está-se preparando para sair com o
+pae... Recebeu ordem de repente. Vai para um convento da Irlanda: foi o
+que elle lhe disse, a não querer ella casar com o maldito marquez. A
+senhora D. Paulina não verteu nem uma lagrima, e respondeu: «Irei para
+onde o pae quizer; não caso com o marquez, que é um villão». Que coragem
+a d'aquella menina! Depois fez-me um signal; e eu corri a participar-lhe
+isto. A senhora D. Eugenia manda-lhe pedir que, para salvar a irmã de
+morrer no convento, indo o senhor para fóra de Londres, talvez se
+conseguisse que o pae a deixasse ficar em casa, e manda-lhe dizer que o
+faça se tem amor á pobre menina.
+
+--E porque não hade elle fazel-o?--atalhou Francisco Lourenço.--Diga
+vocemecê a sua ama que ao lado de Fernando está seu pae, e que meu
+filho, por amor da senhora que soffre tanto, nos ha de obedecer a ambos.
+
+--É impossivel!--exclamou Fernando allucinado por sua enorme
+angustia.--É impossivel desamparal-a no maior aperto da perseguição!
+Para que me quer meu pae em Portugal, se eu vou lá morrer?!... Que vil
+eu seria no conceito de Paulina, affastando-me na occasião em que ella
+mais precisa do meu conforto?... Diga á sr.ª D. Eugenia--proseguiu elle
+voltando-se para a criada--que eu não posso obedecer lhe, salvo se ella
+entende que a minha morte remedeia os desgostos de sua irmã. É de crer
+que sim; mas eu é que estou convencido que Paulina quer que eu viva.
+
+Francisco Lourenço fitava o filho com os olhos embaciados de lagrimas, e
+não o contradisse.
+
+A creada saíu com um bilhete d'oito linhas escriptas por Fernando.
+
+Após breves instantes de silencio d'ambos, o filho disse serenamente:
+
+--Meu bom pae, eu agradeço á Providencia poder n'esta hora falar com um
+homem a quem devo as primeiras luzes da minha intelligencia. Maior
+desgraça seria a minha, se meu pae não podesse comprender-me,
+indultar-me, e compadecer-se. Accuso-me de o ter enganado; era mais
+honroso dizer-lhe que tinha coração, mas eu cuidei que mentindo, sem
+medo de ser descoberto, salvava a irreverencia inseparavel de
+confidencias taes a um pae. O meu engano duplica o merecimento de ser
+perdoado. Conhece a minha situação, meu pae. Com a alma despedaçada lhe
+digo que não sei como remedial-a. Quer que eu o siga? Seguirei: já vejo
+de todo e para sempre negra a minha vida... Seguirei; mas uma hora virá
+em que meu pae se lastime por ter imposto ao meu coração a sua
+respeitavel vontade. Se quer que eu viva e procure alguma saída d'este
+circulo de ferro, deixe-me seguir Paulina á Irlanda...
+
+--Bem, filho--atalhou o velho contrafazendo placidez e seguridade de
+animo--Concedo o que desejas e precisas; mas escuta: os meus haveres são
+poucos; tuas irmãs casaram dotadas; tu pouco tens gastado
+comparativamente ao que eu antevia; mas assim mesmo excede o que devia
+ser teu dote. A officina dá pouco, porque a tenho desamparada. Desde que
+em Lisboa se estabeleceram sapateiros francezes, muita freguezia me
+deixou. Não me affligiu este desprezo do que é nosso, porque, bemdito
+seja Deus, contava com o pouco para muita felicidade. Eu estou reduzido
+a tres contos de réis, e os bens do Cartaxo, que outro tanto poderão
+valer. Acabado isto, irei pedir agasalho a uma tua irmã, e tua mãe a
+outra; e tu, que és formado, a todo o tempo conseguirás algum emprego
+que te alimente. O fim da nossa vida póde assim talhar-se, e Deus
+permittirá que não seja peor. Digo-te isto para que saibas com que pódes
+contar, Fernando. Lança as tuas contas; e, quando vires que tens
+consumido o que possuo, tem tu a generosa compaixão de não pedir mais.
+Eu comigo não posso contar para o trabalho. Estou com pouquissima vista;
+mais de uma vez n'estes ultimos annos me tem ameaçado a cegueira. Corre
+tudo na loja por conta dos officiaes: uns roubam, outros desmazelam-se;
+ninguem tenho em que possa fiar-me. Aqui tens singelamente dito tudo.
+Agora sê o que poderes ser em favor d'essa senhora; mas não te deshonres
+por causa do amor. Eu creio que é falso o amor que leva o homem á
+indignidade.
+
+Fernando, após breve pausa, respondeu:
+
+--Eu sabia quaes eram os haveres de meu pae, quando saí de Lisboa.
+Viajei dois annos, gastando o menos que podia. Como o meu viver era só,
+e indifferente ás regalias das cidades em que passei, restringi as
+minhas despezas á sustentação parca, e ao vestido mais urgente. Assim
+mesmo gastei muito em proporção do que devia gastar. Pouco tem hoje meu
+pae para a sua subsistencia: não devo pedir-lhe um quinhão d'essas
+migalhas. Irei ensinar linguas na Irlanda: sei um pouco de todas as que
+se falam na Europa. Muitos emigrados portuguezes aqui viveram assim. A
+fome illude-se com pouco.
+
+Francisco Lourenço abraçou o filho, e murmurou:
+
+--Não quero, filho, não quero isso assim. Quando a necessidade te
+obrigar ao trabalho e á independencia dos impossiveis recursos de teu
+pae, eu t'o direi sem pejo, nem pesar de te ver humilhado. Então
+trabalharás para ti, e verás quão doce é o pão negro que se lavra com o
+proprio suor...
+
+
+XIII
+
+Paulina leu o bilhete de Fernando, que dizia assim:
+
+
+«Ver-me-has em toda a parte; e, quando me não vires, sabe que eu
+contemplo o céo que te cobre, ou te espero em outro mundo para uma outra
+vida. Vivo ou morto, a minha alma será sempre comtigo, Paulina! Ámanhã
+parto para Irlanda. Não sei se é para Dublin que te levam. Eu te
+encontrarei... Até lá.»
+
+
+E estava alli, á beira d'elle, o choroso velho, aquelle pae amantissimo,
+quando Fernando escreveu: _Ámanhã parto_!... A crueldade dos filhos que
+amam! Que fragil é tudo isto que ahi chamam leis da natureza, quando o
+amor, aquella creança dos fabulistas, mesmo ás cegas, lhes atira um
+encontrão!
+
+Em quanto Paulina relia o bilhete e o mostrava á irmã com a douda
+alegria de mulher amada, Bartholo de Briteiros, encerrado com o marquez
+de Tavira, dialogavam d'este theor:
+
+--Mas não me saberás tu explicar o contentamento com que Paulina se está
+preparando?!--dizia Bartholo.
+
+--Aquillo é febre que arrefece depressa, primo Briteiros. As mulheres
+são assim.
+
+--E era capaz de entrar no convento, e esquecer-se de pae, irmã, e tudo!
+
+--Nos primeiros dias, sim; depois, quando lhe faltasse o animo, e não
+visse o Fernando, nem tivesse noticias d'elle, modificava o seu parecer
+a respeito de conventos e de amor. As mulheres são assim, primo
+Briteiros. Umas ha que são capazes de morrer por orgulho, e outras por
+soberba são capazes de se envilecerem. Mas a nossa Paulina não ha de
+morrer nem aviltar-se, visto que o convento é uma fabula, e a fria
+Irlanda se não ha de gosar de a ter nos seus mosteiros. A creada
+desempenhou perfeitamente o papel, pelos modos. É o dinheiro mais bem
+empregado que tu tens consumido para salvar tuas filhas das unhas dos
+aventureiros...
+
+Corte-se aqui o dialogo para dar um esboço muito pela rama d'esta ladina
+creada, que tambem tinha a honra de ser portugueza.
+
+O marquez descobrira que ella era a intermediaria de Paulina e Fernando.
+Aconselhou, por isso, Bartholo que a seduzisse com dinheiro a ir
+participar a Fernando que a menina se recolhia a um mosteiro da Irlanda;
+e ao mesmo tempo, da parte de Eugenia, lhe pedisse que se retirasse de
+Londres, a ver se assim abrandavam os rigores do pae. A creada accedeu á
+proposta com o mais admiravel desapego de gratificação. Saiu logo a
+cumprir o mandado, e recebeu o bilhete de Fernando. Na fiel entrega do
+bilhete a Paulina é que assenta o elogio da creada. Bartholo ficou
+contente d'ella, e Paulina extremamente grata á expontanea resolução da
+creada. Mas é pena que tanto a ama, como a creada, como Fernando Gomes
+fossem enganados por cavillações suggeridas pelo marquez de Tavira, que
+era o mais refinado velhaco de que ainda tivemos noticia!
+
+Agora ate-se o dialogo.
+
+--Foi bem lembrada a tua ideia, primo!--tornou o ministro da Alçada,
+como que orgulhando-se de ter na sua parentella um sujeito com
+ideias.--O homem agora vae dar comsigo em Irlanda. Quem diabo lhe ha de
+lá dizer que nós vamos para Madrid?
+
+--É verdade!--exclamou o inventor da ideia com radiosa ufania.
+
+--Quando elle o souber--tornou Bartholo--espero eu que tu sejas meu
+genro, e minha filha feliz... Palavra de cavalheiro! eu não tinha alma
+de a fechar n'um convento! Quero-lhe muito, e por isso t'a dou com a
+condição de que nunca sairá da minha companhia, primo.
+
+--Já te disse que a minha maior dôr seria separar-me de ti, primo
+Briteiros! Se ha pessoa n'este mundo que eu preze tanto como a tua
+filha, és tu! Ainda mesmo que Paulina me fique odiando para sempre, e
+não venha a ser minha mulher, crê tu que tamanho golpe não cortará os
+vinculos de amizade que nos prendem. Serei um teu dedicado irmão, um
+vigilante mordomo do teu bem estar, capaz de todo me sacrificar ao zêlo
+com que tu olhas pela ventura de tuas filhas.
+
+--És honrado, primo Tavira!--exclamou Bartholo--Conta com o amor da
+minha Paulina, quando esse maldito demonio a tiver deixado...
+
+--D'elle estás tu livre, Briteiros! Se outro peor não vier depois... mas
+eu terei astucia para te salvar de todos.
+
+A creada, que captivara a confiança do amo, como sentisse remorder-lhe o
+remorso de ter, apesar de tudo, atraiçoado a menina que a tratara sempre
+como amiga, desde a infancia de ambas, cogitou no modo como foi
+industriada, e de si para si decidiu que a ida de Paulina para um
+convento de Irlanda era um logro a Fernando Gomes. Levada d'esta
+apprehensão, e do desejo de remediar o mal, se era um mal ser ecco da
+mentira, foi manso e manso colar a orelha á fechadura da porta que
+separava Bartholo e o marquez das salas mais frequentadas da casa. A
+parte do dialogo que ella escutou era a mais importante. O amo erguera a
+voz, quando perguntou ao marquez:
+
+--_Quem diabo lhe ha de dizer que nós vamos para Madrid?_
+
+--A criada respondeu entre si: «Hei de ser eu» e foi de corrida contar a
+Paulina o que ouvira; e, instantes depois, ia a caminho do hotel de
+Fernando com a nova, e já em toda a seguridade de sua consciencia. O
+filho do artista ouviu o contra annuncio com prazer. Estava a seu lado o
+velho, como a gosar-se em lagrimas das poucas horas de convivencia com
+seu filho. Esperava dar-lhe na manhã do dia seguinte o adeus de
+indeterminada, e talvez eterna separação. A nova foi de prazer para
+ambos. Francisco Lourenço iria com seu filho para Hespanha, e te-lo-hia
+menos longe de si. O prazer de Fernando, de natureza diversa, consistia
+em ser Paulina menos sacrificada por amor d'elle. O convento
+avultava-lhe com mil angustias, que lá não existem. O receio de a ver
+sossobrar entre ferros, em lucta com os apertos monasticos recommendados
+por Bartholo, era a mais pungente de suas dôres. Entreluziam-lhe
+esperanças em Madrid: mais facilidade na fuga, mais protecção nos
+costumes; amigos que lhe dessem auxilio; e a breve jornada a Portugal.
+
+N'este enlevo de alegrias, forçoso era que viesse logo o desconto.
+Francisco Lourenço, quasi sem ponderar o valor da pergunta, disse a
+Fernando:
+
+--Essa senhora sabe de quem és filho?
+
+--Nunca m'o perguntou...
+
+--Nem tu lh'o dirias... mas tens tu reflectido n'este ponto? A senhora
+D. Paulina de Briteiros amar-te-hia se lhe tu houvesses dito que teu pae
+é o sapateiro da calçada do Sacramento? E amar-te-ha, quando alguem,
+bastante curioso, ou encarregado de saber o teu nascimento, a informe de
+que o viajante portuguez, posto que viva de seus proprios recursos, é
+filho de um sapateiro?
+
+Fernando odiou-se a si proprio n'este momento, e respondeu com um gesto
+desabrido.
+
+O artista achegou-se do filho para lhe vêr o rosto, cujas alterações
+seus olhos não alcançavam. E disse:
+
+--Fizeram-te mal estas reflexões, Fernando?
+
+--Fizeram, meu pae--disse o moço agastado.--Por isso mesmo, para me
+forrar d'estas agonias horriveis, melhor fôra que me tivesse dado a
+felicidade do artista. Eu seria a esta hora um homem com a alegria pura
+de todo o homem que trabalha, e tem suas ambições e coração
+circumscriptos a muito pouco. Que fatal lembrança a de me arrancar da
+minha esphera, para que eu hoje não tenha nenhuma! Os pequenos
+regeitar-me-hão como os grandes me regeitam, quando souberem quem eu
+sou!...
+
+--Deus se compadeça de ti!--murmurou o velho, limpando as lagrimas--e me
+perdôe a mim o mal que te fiz, pelo muito que tenho expiado a minha
+vaidade de te fazer maior do que teu pae. Valha-te o Senhor! Que
+direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhações? Para que a
+procuras afincadamente, se vaes de rastros após ella! Por que has de tu
+querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma
+carreira por onde levarias teus filhos á grandeza! São as tuas cartas de
+bacharel formado que te arremessam aos despropositos das ambições? Ou é
+a tua intelligencia que te diz que não nasceste para a mediania? Se é a
+tua habilitação, faz que ella te sirva, filho. Entra como quem és, e o
+pouco que és, na estrada da honra: faz realçar o teu merecimento com tua
+mesma humildade, e lá irás dar ao ponto onde chega o homem honrado, todo
+o homem, ainda que a muitos pareça que não. A tua intelligencia é
+impossivel que te aconselhe esse odio ao acaso que te fez nascer de paes
+mechanicos. Eu, filho, li quanto pude, estudei quanto os meus poucos
+principios me permittiram; e Deus sabe que nunca tive pejo de ser quem
+era. A razão esclarecida é o que falta aos homens que se envergonham de
+não terem nascido já nobres, já respeitados, e idolatrados do mundo.
+Pensava eu que, allumiando a tua razão, te dava armas para combateres os
+prejuizos e preconceitos miseraveis das raças. Fiz o contrario, filho;
+justamente o contrario...
+
+--Não, meu pae...--interrompeu Fernando--perdoe-me, e não se afflija,
+por amor de minha mãe lh'o rogo! Eu tenho o presentimento de que ainda
+hei de provar-lhe que me não vexo da baixeza do meu nascimento... esta
+dôr foi uma irreflexão, meu pae. Tem o coração estes desgraçados
+caprichos... Caprichos, e mais nada... Se Paulina me perguntar quem sou,
+dir-lhe-hei quem sou; se quizer saber quem é meu pae, dir-lhe-hei
+ufanamente quem é meu pae. Por que não?... Aquella candida alma
+deslustrar-se-hia em me ter pertencido? Então que torpe deve ser o
+coração humano! Com que prazer e ardor eu iria buscar á derradeira ordem
+social a mulher pobre, a filha do varredor das ruas, a filha do
+carrasco, que me desse o seu amor, sem perguntar-me a minha origem?...
+
+Alongou-se o dialogo entre os dois, que terminaram abraçando-se, e
+chorando.
+
+Era tempo de se aprestarem para a viagem. Fernando, sabendo que a
+familia Briteiros havia de atravessar o Canal no dia seguinte, de
+passagem para França, tomou nota da saida de um navio de Plymouth para
+portos de Hespanha. Resolveram seguir o caminho mais perto, consultando
+a vontade de seu pae.
+
+Pessoa extranha, que observasse o aspecto de Fernando, veria as nuvens
+que lhe assombreavam a alma. Embaciára-se-lhe, não sabemos por que
+maravilhoso influxo, a limpidez da esperança, com a qual até áquella
+hora conseguira affrontar a adversidade. Era o desalento, um não sei que
+de contricção intima, que paralysa as faculdades robustas da vontade
+n'um quasi morrer de toda ella.
+
+As terriveis hypotheses do pae, concernentes ao sapateiro em amores com
+a illustrissima pretendida do marquez de Tavira, poderiam tanto!
+
+O orgulho do coração do homem do povo será capaz de aniquilar tamanha
+paixão?
+
+Ha exemplos; mas tão obscuros que nenhum romancista quer fazer obra por
+elles.
+
+Em novella, criada para as folgas de grandes damas, e galans mancebos,
+enfastiados d'outros gosos, qual romancista baixa das alturas da sua
+imaginação a historiar quadros sociaes de sapateiros?
+
+Se em Portugal os sapateiros lessem, tal livro seria comprado por uma
+classe e pagaria as fadigas do popular escriptor.
+
+É precisa muita abnegação para isto, n'esta terra e com esta gente, que
+acha mesmo illiteraria a palavra «sapateiro».
+
+_Artista_, recommendam-me que diga _artista_, para não offender o
+apparelho articular das pessoas afidalgadas de nervos!
+
+Já é! ha poucos mezes contei, romanceei, panegyriquei a vida de um
+gallego n'um volume de duzentas e tantas paginas! É rastear muito esta
+arte! Ha tanto principe na historia portugueza a pedir romance! e tanta
+princeza tambem!
+
+Por que não hei de eu escrever historias de principes e de princezas, e
+deixar os sapateiros subir algum tanto na escala d'umas qualificações
+modernas que elles se vão inventando para seu uso, que a isso os obriga
+o menos-preço d'esta luminosissima e fraternal civilisação?
+
+O nome de sapateiro está a sumir-se. Já muitos do menoscabado officio se
+denominam _artistas d'artes correlativas_... dos pés. Dos individuos
+cultos, que os mettem n'estas andanças e chibanças, deviam elles
+chamar-se não _sapateiros_, mas _ferradores_.
+
+
+XV
+
+O secretario da embaixada portugueza em Madrid havia sido camarada de
+Fernando Gomes no cerco do Porto; e seu contemporaneo na universidade.
+Approximara-os mais em Coimbra o paralelo dos nascimentos: eram ambos
+filhos de artistas. Separados depois da formatura, um para os cargos
+publicos, outro para as viagens, continuaram sempre correspondencia de
+bons amigos. O secretario da legação recebeu a nova da chegada de
+Fernando a Madrid, e maravilhou-se de encontral-o sumido n'um quarto de
+obscura estalagem.
+
+Contou o bacharel diffusamente a historia dos seus vagabundos amores, e
+explicou a obscuridade e recato em que tencionava viver para não causar
+desgostos á filha de Bartholo de Briteiros. Queria elle existir
+secretamente em Madrid, de modo que o pae de Paulina o imaginasse na
+Irlanda, procurando a reclusa nos conventos; entretanto, era seu intento
+diligenciar casarem-se judicialmente, ou, no extremo d'algum imprevisto
+accidente, fugir com ella para Portugal. O amigo escusava prometter-lhe
+todo o auxilio. Era este um dos academicos que frequentavam a
+universidade em 1828, quando os dois lentes foram assassinados. Fôra
+elle um dos sorteados para a impolitica vingança; como quer, porém, que
+estivesse enfermo n'essa occasião, forrou-se assim ao incommodo de ser
+estrangulado. Ora Bartholo de Briteiros, como sabem, tinha sido o mais
+impassivel signatario do accordão: o amigo de Fernando vira caminharem á
+forca os seus condiscipulos; e tal rancor ganhou aos juizes, que só o
+nome de Briteiros lhe trouxe aos olhos faulas de raiva mal abafada pelo
+correr de dez annos. Para elle era não só prova de amigo, mas desforra
+de inimigo coadjuvar o camarada das linhas do Porto a zombar das
+astucias do ministro da Alçada.
+
+Com tal protecção, Fernando soube a hora em que chegou Bartholo, a rua e
+hotel onde se aposentou; e Paulina, pouco depois da sua chegada, recebia
+d'uma creada do seu quarto, na hospedaria, uma carta de Fernando.
+
+Francisco Lourenço, cuidando que assim ficavam bem encaminhados os
+honestos intentos de seu filho, seguiu para Lisboa. A mãe, anciada de
+saudades de ambos, quando viu o marido sem o filho, arrancou um ai, e
+perdeu o sentimento. Volvendo a si, ouviu com pasmo a miuda narrativa
+dos casos acontecidos ao esposo, e deu graças a Deus sem arguir a dura
+alma do filho. Á santa mulher, para sua consolação, bastou lhe saber que
+Fernando vivia. O procurar elle sua felicidade, na idade propria do
+amor, com tantas adversidades, foi á boa mãe maior motivo de
+compadecimento que de censura. Como, por momentos, o considerou morto,
+era natural que tudo lhe perdoasse, estando elle vivo. Assim ficaram os
+dois velhos, esperando que inesperadamente lhes apparecessem casados o
+filho e a gentil fidalga. Francisco Lourenço foi ao Cartaxo dar ordens a
+confortos da casa, mobilação, e mais aprestos, sendo que Fernando
+mostrara desejos d'ir alli descançar annos, ou talvez a vida toda,
+qualquer que fosse o incerto desenlace de suas canceiras.
+
+Bartholo e o marquez de Tavira davam-se os embora do feliz exito da sua
+falcatrua. Viam Paulina alegre, dada a bailes e a theatros, com bom
+rosto para o proprio marquez, e nem por sombras magoada d'alguma
+fugitiva saudade! O fidalgo continuava sempre a dizer «que as mulheres
+eram assim». E o pae de Paulina admirava a esperteza e acume seu futuro
+genro.
+
+Raro dia faltava á menina carta de Fernando, por intervenção do
+secretario da legação, que acintemente acceitara o conhecimento do
+marquez de Tavira, para mais de perto collaborar na derrota do Bartholo.
+
+Paulina entretinha horas de conversação com o amigo de Fernando,
+intervaladas por troca rapida de palavras concernentes ao intento que os
+approximava. No animo do fidalgo já a suspeita se ia ingerindo: a
+assiduidade das visitas do secretario incommodava-o, e tinha-o de
+atalaia. O marquez inquietava-se não menos que o primo. Acordaram os
+dois em dar de mão ao visitante diario d'algumas horas. Mas, nos bailes
+ou nos theatros, o secretario era o flagello dos dois olheiros, que se
+viam baldeados, como lá dizem, entre Scylla e Charybdes.
+
+Assentou Bartholo em ser pae severo. Apresentou-se á filha. Ia de
+catadura horrida. Dir-se-ia que empunhava a penna para assignar um
+accordão de pena ultima.
+
+--Paulina!--disse.
+
+--Meu papá.
+
+--Vamos a contas.
+
+--A contas?!
+
+--Que quer dizer a pertinacia d'este homem, que te não deixa?
+
+--Qual homem, meu papá?--disse ella, pensando que Fernando fôra
+descoberto no seu esconderijo.
+
+--O homem da embaixada... este mal trapilho que tem o pae em Lisboa a
+fazer candieiros na rua Augusta.
+
+--Eu sei cá o que elle quer?... O primo marquez foi quem o apresentou, e
+não me disse se o pae d'elle fazia candieiros.
+
+--Fale-me com mais humildade!--bradou Bartholo.
+
+--Pois eu que disse menos humilde?
+
+--Não quero ironias.
+
+--Ironias!... O papá é injusto comigo!... Eu posso lá saber a razão
+porque o homem nos procura? Pensei que o faria por delicadeza, por
+sermos patricios, e conhecermos pouco a sociedade de Madrid.
+
+--Então...--tornou o pae--asseveras-me que elle não tem intenção nenhuma
+menos respeitosa?
+
+--Pois elle ha de faltar-me ao respeito?... Jesus!
+
+Ó céos! o rosto de innocencia estupida com que Paulina fez aquella
+pergunta! Ó amor, o que tu pódes e fazes! Que uma dama de bons annos,
+quarenta pelo menos, puxados á fieira do amor, consiga lograr uma
+criança incauta, isto está de seu na natureza das cousas; mas que uma
+menina de dezesete annos, ainda agora a florescer a sua primeira
+primavera de coração, zombe da vigilancia e perspicacia d'um pae
+quinquagenario, e o esteja assim logrando com uns dizeres de parvoinha
+candura!... Uma hora de amor é um curso de theatro completo. Quantas
+ficções lá se aprendem, com grandes estafas, nas aulas do conservatorio
+dramatico, vae ahi qualquer menina espigadinha exercita-las todas ante o
+auditorio da sua familia, se me concedeis que ella tenha uma faisca de
+lume no olho, e um Etna dentro do peito!
+
+E diz o apophtegma antigo: _Amor logra muitas cousas, e o dinheiro
+tudo_! Não é assim: as luzes desmentiram tambem os Senecas e
+Theophrastos. O dinheiro não consegue desbestialisar o alarve que o tem
+a rôdos; e o amor vae dentro do espirito mais rombo e bôto, e eil-o que
+o desentranha em prodigios de subtilezas, argucias, e sublimes
+velhacarias! E até talento! Ha ahi sujeito que vingou um nome
+esperançoso n'uma época de sua vida: chegou mesmo a escrever locaes com
+certo orientalismo; e de repente tapam-se-lhe as valvulas, e o talento
+suppura por tolice. Que foi? Averigua-se e sabe-se que o homem deixou de
+escrever as locaes aziaticas assim que a mulher amada casou com outro.
+
+Bartholo não teve que recalcitrar a esta pergunta:
+
+--Pois ha de elle faltar-me ao respeito!?--E depois a exclamação
+«Jesus!» desarmou-lhe de todo as suspeitas. E, como se tanto fosse
+pouco, Paulina continuou:
+
+--Não quer o papá que eu fale mais com o Almeida? Não falarei. Verá como
+lhe volto as costas assim que o vir.
+
+--Não é preciso tanto, nem nada, filha--redarguiu de muito bom rosto o
+pae--se me tu dizes que o Almeida nada te diz que te preoccupe o
+coração...
+
+--O coração!--interrompeu a menina com o mais pasmado e lindo
+semblante.--Ora essa!... O papá está a rir-se de mim, não está?
+
+--Falo-te serio, Paulina... Tenho muito medo da inexperiencia dos teus
+annos. Tu tens-me feito o sangue de fel e vinagre por causa d'aquelle
+homem, que me ia roubando a tua estima, e a ti mesma te ia fazendo
+esquecer de quem és... Ora agora, filhinha, que essa tempestade passou,
+tu não me dirás que foi o que te moveu a gostar do tal Gomes?... Não te
+envergonhes, menina, que ninguem nos ouve... Elle não se inculcava
+sequer pessoa de bem; era um bacharelzito, um inimigo das nossas crenças
+politicas e religiosas; em quanto á figura, tudo n'elle é plebeu,
+trivial; mesmo em talento e instrucção, que o principe gabava muito, eu
+nunca lhe ouvi dizer cousa que admirasse a gente; emfim, queria eu que
+me tu dissesses por que amaste tal homem...
+
+--Era um passa-tempo, papá!
+
+--Não duvido, Paulina; mas as meninas da tua qualidade, quando
+galanteiam para se divertirem, escolhem outra casta de homens, para que
+se lhes não atire á cara com precedentes desairosos, quando ellas amam
+seriamente, e com proposito de se casarem. Ora diz-me tu cá: se teu
+primo marquez se lembra de casar comtigo, cuidas que elle ha de gostar
+que tu hajas acceitado a côrte d'um sarrafaçal sem nome, que andava por
+esse mundo a gastar uns safados cobres lá do pae, que ninguem conhece?
+
+--Pois sim...--disse Paulina com mal refreada vehemencia--mas como o
+primo marquez se não lembra de ser meu marido, nem eu o queria, ainda
+mesmo que elle pensasse em tal...
+
+--Não o querias? então que mais querias tu, filha.
+
+--Eu não queria mais, nem tanto... Quero estar assim solteira, que estou
+bem... O papá não me dizia, ha poucos mezes ainda, que eu e a mana o
+matavamos se casassemos!...
+
+--Disse isso, na supposição de que saíeis da minha companhia; mas o
+marquez, se casar comtigo, não sae da minha casa. É já um contracto
+estipulado, filha... A minha palavra está dada; contei com o teu são
+juizo, quando a dei... Que respondes tu, Paulinasinha?
+
+--Deixe-me pensar, meu pae. O primo marquez não tem pressa da resposta,
+e o papá tambem não. Deixe-me gosar mais algum tempo a minha liberdade,
+e depois eu direi o que tiver pensado.
+
+--Pois sim, filha: dou-te quinze dias. Sou um bom pae, não sou? Outro
+qualquer diria: isto ha de fazer-se, porque quero que se faça. Eu, não.
+Transijo com a minha criança, na certeza de que ella ha de saber-me
+agradecer a brandura e os carinhos. Não has de querer que eu morra sem
+te ver _marqueza de Tavira_! O primo tem os vinculos desfalcados; mas a
+fidalguia d'aquelle sangue vale milhões para quem se preza de ser maior
+pelo nascimento que pelos bens da fortuna. Morro consolado se encontrar
+para tua irmã um marido egual... Em quanto ao secretario da legação, não
+deixes de lhe falar: trata-o bem, porque, a falar a verdade, lhe devemos
+a elle a alguma consideração que temos em Madrid. Não me parece mau
+rapaz; mas zangava-me ve-lo sempre que podia em segredos comtigo!... Que
+te dizia elle?
+
+--Nada que se não podesse ouvir... Só alguma vez, nos bailes ou no
+theatro, me fez rir com as suas satyras ás fidalgas hespanholas... é o
+que elle me diz baixinho, para os outros não ouvirem.
+
+--Ah! é isso?--atalhou com boçal confiança o jubiloso Bartholo.--Então,
+filha, continúa a rir-te com elle; mas tem compaixão do primo marquez,
+que arde em zêlos quando falas com alguem.
+
+--Pois que não arda, que eu tanto se me dá como não que elle fale com
+quem quizer. O pae cuida que posso amar o primo marquez, com vinte e
+tres annos mais do que eu?...
+
+--Mas parece um rapaz, e ha de ser um excellente esposo, Paulina. Os
+maridos querem-se d'aquella edade.
+
+--Não sei para que!...--acudiu com perdoavel desenvoltura a menina.
+
+Bartholo ia explicar a vantagem que sobrelevam os maridos de quarenta
+aos de vinte annos, quando algum incidente privou a minha joven leitora
+de ver aqui tratada a preceito uma materia, que poderia cooperar
+grandemente para a sua futura felicidade. Decorreram os quinze dias
+aprazados para a decisão de Paulina.
+
+N'este espaço estreitou-se mais a correspondencia d'ella e Fernando, já
+inclinado á suspirada catastrophe do casamento judicial. A actividade do
+secretario, como agente d'este inesperado desfecho, foi inexcedivel.
+Opinara elle pela fuga, e depois casarem-se em Portugal. O filho do
+artista, com o animo abalado pelas honradas admoestações de seu pae,
+optou pelo casamento judicial, sem prescripção da menor formalidade
+honesta. Paulina pendia mais ao parecer do secretario, e achava
+escusadas as demasias de probidade com que o noivo queria tratado o seu
+casamento. Assim mesmo Fernando reagia á vontade de Paulina, e dizia
+acceitar o plano da fuga em ultimo recurso. A recusa estribava n'estas
+razões, dadas por elle ao seu amigo:
+
+--Se eu fujo com Paulina, porei um cunho infamante no meu procedimento.
+Se eu fosse um grande de Portugal, por brazões ou riquezas, a sociedade
+diria que eu tomára o violento alvitre da fuga para remover d'um lanço
+todas as difficuldades antepostas pelo capricho do pae. Assim plebeu, e
+quasi pobre, se fujo com ella, dir-se-ha que desprezei os meios
+judiciarios por medo de não achar justiça que ousasse contrariar a
+vontade do fidalgo poderoso.
+
+--Mas--atalhou o sincero amigo, que sabia muito do coração das damas,
+estudado em Hespanha--quem te diz a ti que, durante o processo
+necessario ao supprimento do consentimento paterno, a senhora D. Paulina
+varia de ideias, e requer a remoção do deposito para casa de seu pae?
+Quem te diz que...
+
+--Se o fizer--atalhou Fernando--mais tenho de me louvar pelo meu
+procedimento; claro é que Paulina devia arrepender-se, e dar-me o
+inferno, as mais tormentuosas agonias que tu podes imaginar. Antes isso,
+meu amigo: antes essa prova! Poderás tu fazer-me a justiça de suppôr que
+eu sigo os caprichos d'uma mulher rica?
+
+--Não.
+
+--Pois bem: venha depressa o momento em que eu possa conhecer-lhe a
+alma, cuja nobreza tu me deixas entrever a luz duvidosa.
+
+--Não é assim: eu previno, e mais nada.
+
+--Prevines a possibilidade do arrependimento, emquanto dura o processo.
+
+--É bem de ver.
+
+--E d'esperar?
+
+--Isso não sei; mas deves temer muito da força do adversario. Os juizes
+em Madrid são corruptissimos, e pesam na balança o oiro do fidalgo
+realista, e se o oiro do fidalgo realista pesar o quilate legal,
+acceitam esta legalidade, em vez d'outra que as leis estatuiram. Esta é
+uma das faces: a outra é a dos meios empregados no convento onde vae ser
+depositada Paulina, para a demoverem. Raro acontece que elles não
+vinguem, ao cabo de seis mezes d'espera. Insisto. Eu, em teu logar,
+fugia. A meia legua de Madrid estás em segurança. Na semana que vem,
+entras em Portugal. Chegas a Lisboa, e encontras na primeira egreja um
+prior que vos absolve. Uma batalha assim vencida é plena e gloriosa: a
+outra, que vaes dar, costuma ser tão golpeada de contrariedades, que,
+afinal, o triumpho é semsabor. Mas faz o que quizeres. Decide-te por um
+dos conselhos, que nunca poderás identificar os dois. Honra e coração
+costumam andar bem-avindos, mas é só nos romances.
+
+--E fóra dos romances, amigo Almeida--disse Fernando.--Agora mesmo te
+estou dando a prova. Diante das razoaveis difficuldades que me levantas,
+ouso ainda insistir pelo deposito, e envergonho-me de ter vacillado
+entre o processo judicial e a fuga.
+
+
+XV
+
+Paulina convidara Fernando a um colloquio nocturno, na vespera do dia em
+que havia de ser requerido o deposito. Este convite fôra-lhe suggerido
+pelo secretario da legação, que antevia mau desfecho do negocio tratado
+com pannos quentes. Induzira elle a menina a propôr de viva voz e com
+instancia ao noivo a fuga immediata: esperava Almeida que a presença, a
+resolução e intimativa de Paulina quebrantassem a firmeza do seu amigo.
+
+Era aquella a primeira vez que Fernando Gomes ouviu a voz de Paulina,
+depois da saída de Florença. Foi com alegria de coração; todavia algum
+vago presagio lhe ennublava o espirito.
+
+A familia Briteiros occupava o primeiro andar do melhor hotel de Madrid.
+Fernando devia entrar ás nove horas da noite e pedir um quarto no
+_entre-sol_ do edificio. O corredor commum d'estes quartos baixos tinha
+escada que subia ao primeiro andar. Ás onze horas Fernando subiria esta
+escada, e encontraria Paulina no tôpo. A excellencia do plano
+correspondeu á execução. Ninguem occupava os quartos inferiores, excepto
+um francez chegado á mesma hora. O hospede entrara, e fechara-se em sua
+camara. Ás onze horas era completo o silencio no andar superior.
+Bartholo dormia o pacifico somno de quem tomou o chá com algumas
+inoffensivas gottas de extracto de morfina, ministrado á filha pelo
+previdente secretario da legação, que assim pensava ir lentamente
+vingando os condiscipulos enforcados. O marquez recolhia da tertulia ás
+tres horas da manhã. Eugenia velava com sua irmã, como quem velava em
+cousa muito de seu interesse, e vae já dizer-se para que não esqueça.
+
+Fernando subiu as escadinhas em espiral.
+
+Quiz-lhe parecer que via um vulto á porta, aberta no cimo da escada, e
+parou no intento de retroceder. Fez-se um pallido clarão no interior da
+sala. Assomou á entrada Paulina, e murmurou:
+
+--Sóbe sem receio, Fernando.
+
+--Parece-me que estava aqui gente, quando eu subia...--disse o moço.
+
+--Não te enganaste.
+
+--Quem era?
+
+--Depois saberás tudo: escuso dizer-te que não tem nada comtigo o vulto.
+É um homem que ama minha irmã: é o conde de Rohan. Não podemos perder
+tempo--continua Paulina com adoravel alvoroço.--Preferes os mil estorvos
+com que vamos luctar á certeza da ventura sem o menor desgosto?
+
+--E o que é a ventura sem o menor desgosto, minha querida
+Paulina?--perguntou Fernando, já meio aturdido pelo magnetismo d'aquella
+voz, d'aquelles olhos, d'aquellas roupas brancas, d'aquella luz,
+d'aquelles braços, que, a tremerem, se lhe ousavam enlaçar no pescoço
+com o mais pudico despejo das almas puras, que tudo fazem com a mais
+santa das intenções.
+
+--Pois não achas mil vezes melhor que fujamos para Portugal?--tornou
+Paulina--Tu não me amas, não!... Vê tu que differença do teu coração
+para o meu!
+
+--Por Deus!--atalhou Fernando.--Eu não te amo, Paulina!?...
+
+--Que quer dizer a tua repugnancia em acabar com isto d'uma vez!?... Ha
+tanto tempo a soffrer a perseguição de meu pae!... Desde que acabaram os
+quinze dias, estou n'um martyrio incessante com perguntas, maus modos, e
+desprezos! E a padecer tanto por amor de ti! Sei que, se fôr depositada,
+meu pae ha de dar-me dias horriveis de amargura; e, por fim, tu verás
+que a justiça me entrega a elle para nunca mais saberes de mim, nem eu
+de ti, meu Fernando! Olha, querido amigo, tira-me d'aqui; fujamos para a
+tua familia; vamos ser felizes; lembra-te que eu deixo o amor de meu
+pae, e tudo, para seguir a tua sorte! Leva-me, Fernando, leva-me, porque
+depois de ámanhã n'esta casa nem tenho mesmo minha irmã que me console
+as tristezas e saudades. Minha irmã foge ámanhã por noite com o conde.
+Vão casar-se a Paris. Assim que ella lhe escreveu a chama-lo, veiu logo,
+e preparou tudo para a fuga. E eu pensava que o teu amor era mais forte
+que o d'elle!... Porque me não levas, Fernando? Falas-me tanto em honra,
+meu amado! Eu não entendo os pontos de honra em que me estás sempre
+falando! O nosso amigo Almeida tambem os não entende. Quando se ama
+verdadeiramente, as considerações, que tu me fazes, parece-me que
+ninguem as faz... Que prazer tens tu em que eu vá estar seis mezes ou
+mais n'um convento á espera que a demanda se decida, sem mesmo
+antevermos a certeza da decisão favoravel!? Isso é crueldade! Olha que
+me não vês, Fernando, nem talvez possas escrever-me! Se eu morrer de
+magua, de quem é a culpa? Quantas vezes te arrependerás de me não ter
+ouvido n'esta hora?
+
+Não era necessario tanto. Fernando Gomes estava vencido e convencido. As
+ultimas palavras de Paulina tinham sido cortadas de soluços. Nunca homem
+algum resistiu a isto! Scipião, o respeitador historico das mulheres, se
+visse este lance viria outra vez ao mundo dar testemunho de uma virtude,
+que a sua celebrada continencia usurpava.
+
+Fernando tomou nos braços a soluçante menina, e disse-lhe:
+
+--Fugiremos, Paulina. Fugiremos, quando quizeres. Ámanhã, se te apraz.
+Deus vê as minhas e tuas intenções. Espero que nunca te arrependas do
+passo, que o mundo, a seu pezar, não poderá infamar-te.
+
+Paulina expandiu-se em requebros de ternura e raptos de alegria. A
+combinação de horas, signaes, e menores accidentes da fuga ficou
+pactuado. Disse a menina que se conservasse elle á escuta algum tempo,
+emquanto ella ia preparar o pacotinho da mais necessaria bagagem; e,
+depois, a recadasse no seu quarto, e de madrugada a levasse comsigo,
+sendo este o melhor modo de não inspirar desconfianças. Como embriagado
+de alegria, Fernando accedeu a tudo sem contestar; esperou, e recebeu o
+pacote, que era uma mala ingleza quadrada, cujo peso elle notou com
+admiração.
+
+Ao romper da manhã, o passageiro, com ar de quem vae entrar nos
+vehiculos da madrugada, saíu do hotel; sobraçando a mala com grande
+espanto do creado, que o vira entrar sem ella, e recolheu-se á sua
+pousada, d'onde logo escreveu ao secretario da legação.
+
+Almeida acudiu logo a felicitar o reconsiderado amigo, congratulando-se
+de ter elle sido o indirecto motor da saudavel reforma nos estoicos
+principios do seu camarada. Traçaram o plano facilimo da fuga. Fóra de
+portas estariam cavalgaduras. O funccionario diplomatico iria com os
+fugitivos para remover obstaculos imprevistos da policia. Fernando era
+já o homem avesso do dia anterior. Falava o coração, alliviado do
+pesadello da impertinente honra.
+
+Sentia-se enlouquecer de esperanças alegres, anciosas, insoffridas da
+morosidade do tempo.
+
+--Aqui tens a riqueza da minha Paulina!--disse elle sorrindo e mostrando
+a mala.--Ninguem dirá que eu a raptei por causa d'essa malinha, que deve
+encerrar algum vestido, e as minhas cartas...
+
+Almeida tomou ao alto a mala, e disse:
+
+--Não: aqui ha alguma cousa mais que sedas e papeis! Isto pesa como
+ouro.
+
+--Ouro?! estás brincando!--disse Fernando.
+
+--Está aberta a mala. Se não temes a profanação, vejamos o que vae aqui.
+
+--Sim, vejamos--condescendeu Fernando, desfivellando as correias.
+
+Ao de cima iam as cartas em massos, cintadas com fitas de diversas
+côres. Seguia-se alguma, pouca e finissima roupa branca, cuja
+hollandilha, e cambraia tomava pouco espaço. Depois, um vestido de seda
+azul, o que ella vestia no baile de Jeronymo Bonaparte, onde viu
+Fernando Gomes pela primeira vez. Depois, sobre o fundo da mala,
+descobriram uma caixa de tartaruga, pouco mais larga e comprida que um
+palmo. Esta caixa é que realmente pesava como ouro, e estava fechada.
+
+Fernando esteve algum tempo tomando o peso da caixa, em meditativo
+silencio, e disse:
+
+--Não levo isto: é preciso que faças chegar, antes de á noite, este
+objecto a Paulina. Aqui vão grandes valores... não levarei comigo, aqui
+fechada, a minha condemnação. O mundo chama ladrões aos homens que
+praticam assim. Depressa, Almeida. Inventa o milagre de fazer entregar
+isto a Paulina, quando não, está tudo transtornado.
+
+--És um homem impossivel!--replicou o secretario da legação, menos
+escrupuloso que philosopho, se é que se chama acertadamente philosophos,
+uns sujeitos que sabem receber, em pleno espirito, a luz toda do
+seculo.--Pois tu recusas acceitar Paulina com as joias do seu uso?
+
+--Recuso. Paulina não tem nada.
+
+--Nem a legitima de sua mãe?
+
+--Paulina é menor: seu pae é que lh'a administra.
+
+--Eu não discuto direito comtigo; limito-me a descobrir que és um asno
+exemplar, e dá-me vontade de te mandar cavar pés de... Com effeito!
+Venham aqui aprender moralisação os futuros amadores de meninas que
+levam caixõesinhos pesados, quando fogem com os amantes!...
+
+--Tens graça; mas eu tenho razão, que é melhor--retorquiu Fernando
+Gomes.
+
+Emquanto elles altercam já em phrases desabridas, saibamos que rumor é
+este que vae em casa de Bartholo de Briteiros.
+
+O creado do hotel, como visse saír o hospede de algumas horas com a mala
+que não trouxera, obedeceu ao instincto da curiosidade, e seguiu-o com
+todas as precauções. Viu a pousada em que entrára, tomou o numero da
+porta, e voltou a casa a dar conta ao patrão.
+
+O dono do hotel, timbroso em manter a fama honrada do seu
+estabelecimento, consultou o alcaide sem aventar suspeitas além das que
+realmente davam em resultado a verdade inteira do facto.
+
+Sabia elle que o locatario do primeiro andar era um portuguez
+riquissimo, e que mais de uma vez pernoitara, nos baixos da casa, um
+francez mysterioso, que tinha intelligencias com uma das filhas do
+portuguez, segundo elle deprehendera d'uma troca de escriptos, por alta
+noite, entre as janellas do primeiro andar e sobre-lojas. Estes
+esclarecimentos deram rastros ao alcaide para suas averiguações.
+
+Com quanto o sujeito da mala não fosse o francez alludido, observou mais
+o austero hospedeiro que, no mesmo dia, entre as oito e nove horas da
+manhã, o francez rebuçado cautelosamente sahira com um volume debaixo do
+braço. Estas coincidencias de dois homens na mesma pousada, na mesma
+noite, e com volumes iguaes, ou cousa assim, feriram faiscas de
+penetração na cabeça, aliás cerrada, do hespanhol, que, de collaboração
+com o alcaide, deu como effeito um consideravel roubo ao portuguez
+Bartholo de Briteiros.
+
+Esclarecido assim o facto, o alcaide apresentou-se ao fidalgo ás dez
+horas da manhã, e perguntou-lhe se suspeitava que em sua casa faltassem
+objectos de valor.
+
+--Não!--disse Briteiros--Quem ha de subtrahir objectos de valor de minha
+casa?!
+
+--Examine, senhor--disse o subalterno da policia--que a minha obrigação
+é averiguar, e sem detença.
+
+Bartholo entrou nos quartos de suas filhas improvisamente, e
+encontrou-as empacotando e dobrando roupa de seu uso.
+
+--Que fazem as meninas?!--perguntou o pae com assombro.
+
+Paulina e Eugenia ficaram tolhidas, interdictas, e incapazes de
+responder um monossyllabo.
+
+--Que estão a fazer, não ouvem?!--replicou Bartholo examinando a roupa
+dobrada.
+
+Acudiu-lhe uma atroz suspeita. Fez-se côr de terra. Dilataram-se-lhe em
+arqueijos as azas do nariz. Raiaram-se-lhe os olhos de linhas
+sanguineas. Correu ás gavetas dos toucadores e das commodas; remexeu
+tudo, revistou tudo impetuosamente, e exclamou:
+
+--As caixas das joias!? As tuas joias, Paulina, e as tuas, Eugenia? Onde
+estão cem mil cruzados de brilhantes de vossa mãe?
+
+Paulina cravou os olhos no chão, perdida a côr, e quasi os sentidos.
+Eugenia, mais fraca de compleição, e muito timorata, cahiu em joelhos, e
+exclamou:
+
+--Perdão, meu pae!...
+
+--Roubado! roubado!--bradou o velho--roubado por minhas filhas!
+
+E saiu em vertiginosa corrida e a brados por a casa fora, até entrar na
+sala onde estava o alcaide.
+
+Paulina, logo que o pae sahiu, disse á irmã:
+
+--Tu és uma miseravel se descobrires alguma cousa. Não pronuncies o nome
+dos desgraçados, Eugenia! Ainda que nos matem, salvemo-los a elles!
+
+D'ahi a instantes, foram as meninas chamadas á sala, e interrogadas.
+Nenhuma resposta deram ás perguntas do alcaide. Ás do pae respondiam,
+principalmente Paulina:
+
+--Os brilhantes e as joias não estão em poder de ladrões.
+
+Mas, no tocante a nomes, nenhuma proferiu palavra.
+
+N'este momento angustioso, entrou o secretario da legação. N'um relance
+comprehendeu tudo. Briteiros abraçara-se n'elle, exclamando:
+
+--Roubado em muitos contos de réis por consentimento de minhas filhas...
+E ellas, estas infames, estavam-se preparando para seguir os ladrões!
+Não haverá justiça em Hespanha, senhor alcaide?
+
+--Ha--respondeu Almeida--e o ministro portuguez, em Madrid, é o
+funccionario a quem primariamente compete solicitar a justiça em favor
+do senhor Bartholo de Briteiros. Os passos do senhor alcaide hão de ser
+dados de accordo comigo. Queiram esperar-me, que eu volto.
+
+Sahiu Almeida, e entrou em sua sege, que o transportou á pousada de
+Fernando Gomes.
+
+Sem lhe dar completa explicação das causas, obrigou-o a sair, e
+transportou-o a sua casa. Ahi, simplesmente lhe disse:
+
+--Se o meu plano vingar, d'aqui a pouco ha de estar Paulina comtigo.
+
+E saíu, a desapoderado galope dos cavallos, para o hotel de Briteiros.
+
+Ao apear, disse ao boleeiro:
+
+--Se uma senhora saltar na sege, vai n'um raio apea-la em casa, mas
+torce o caminho.
+
+Subiu. As meninas tinham saído da sala.
+
+Bartholo e o alcaide estavam ouvindo o depoimento do dono e creado do
+hotel, que denominavam francezes os conductores dos volumes.
+
+Almeida pediu licença para ter particular conferencia com as meninas.
+Bartholo cedeu de prompto, entregou-se cegamente ás deliberações do
+funccionario, que se dava o ar mysterioso de quem tem o fio da meada.
+
+A conferencia foi sem testemunhas.
+
+--Fernando está em minha casa--disse Almeida.--Aqui ha um desesperado
+recurso, um unico. A senhora D. Paulina entra na minha sege, e é
+conduzida a Fernando.
+
+--Oh! meu Deus! já!--exclamou ella, erguendo-se para saír.
+
+--E eu fico, Paulina?--bradou Eugenia.
+
+--Pois vossa excellencia tambem quer fugir com Fernando?--disse Almeida.
+
+--Eu havia de fugir esta noite com o conde de Rohan--respondeu Eugenia.
+
+--Fujam ambas!--tornou o secretario, mas onde está esse conde?
+
+--Era hospede cá no hotel... Amo-o ha cinco annos... Vamos, vamos,
+Paulina...
+
+--Eu indagarei onde está o conde--disse Almeida--Não se demorem.
+
+Alguns segundos depois, o estrepito da carruagem fazia tremer as
+vidraças do hotel. A visinhança viu o rapido saltar de duas meninas,
+veleiras como anjos alados, cobertas e encapuzadas de capas de merino
+branco com bordados e borlas verdes nos capuzes. Ninguem soube dizer
+mais nada.
+
+O secretario saíu com o alcaide, e Bartholo de Briteiros tornou aos
+aposentos das filhas, no intento de as mandar vestir para entrarem n'um
+convento.
+
+Quando assomou á porta do quarto, viu duas creadas debulhadas em
+lagrimas.
+
+
+XVI
+
+Paulina e Eugenia, menos apavoradas do que suppõe o leitor, apearam no
+pateo do secretario da legação, e foram guiadas a uma sala, em que
+Fernando Gomes, prostrado mais que o commum em lances taes, parecia
+meditar no suicidio. Paulina galvanisou-o moderadamente, apertando-lhe
+as mãos com mais tremor de ternura que d'afflicção.
+
+--Que abatimento, Fernando!--disse ella, em quanto Eugenia, desalentada
+pelo quebrantamento do moço, soluçava a chorar, na incerteza do seu
+destino.
+
+--Isto não é abatimento, Paulina...--disse elle--é porque em verdade eu
+recebo com dôr a alcunha de ladrão!... Falei-te eu em joias? Que
+infernal lembrança a de me dares os brilhantes de teu pae!... Quando te
+disse eu que precisava de ser infame para ser feliz?
+
+--Foi uma indiscrição, meu amigo; mas perdoa-m'a...--disse Paulina--Como
+os brilhantes tinham sido da mamã, e o papá muitas vezes nos disse que
+eram nossos, cuidámos que podiamos reparti-los entre ambas, sem medo de
+que chamassem roubo a isto. Agora não tem remedio a nossa loucura... Não
+te estejas tu assim a matar, meu Fernando. O crime é meu e não teu...
+
+--Cala-te, pobre criança!--redarguiu Fernando--tu não sabes que mal me
+fizeste...
+
+Algumas phrases mais, talvez inopportunas, do filho do artista,
+obrigaram Paulina a chorar e arrepender-se.
+
+Chegou, n'este escuro trance, o secretario, e todos o viram como
+prenuncio de bonança. Eugenia saíu logo a perguntar-lhe se sabia onde
+estava o conde.
+
+--Ainda não, minha senhora. Será talvez, difficil encontra-lo, se elle
+já souber que o perseguem.
+
+--Sou tambem perseguido?--atalhou Fernando.
+
+--Ninguem sabe o teu nome, mas precisamente te procuram na estalagem
+onde estavas. Porém, como falaste sempre francez, e, por bom alvitre
+meu, te despediste como quem vae para França, muito diabolica será a
+alcaidaria madrilense se te farejar aqui. Observo que os meus amigos
+estão todos tres sem juizo para decidirem o que lhes convém.
+
+--Eu decidi--disse Fernando.
+
+--O teu plano deve ser o unico racional na tua situação: é a fuga. A
+sr.ª D. Eugenia dir-me-ha o que tenciona fazer se o seu conde não
+apparece.
+
+--Não apparece!--exclamou ella atribulada.
+
+--Póde não apparecer, minha senhora, e não ha motivo para que vossa
+excellencia o considere descuidado, covarde, ou traidor.
+
+--Então que eu hei de fazer?!--tornou Eugenia, pondo as mãos com
+dilacerante angustia.
+
+--Quer vossa excellencia seguir sua irmã, e esperar em Portugal que eu a
+avise do destino do conde?
+
+--Não lembres á sr.ª D. Eugenia um destino impossivel--disse Fernando
+Gomes.--Eu não vou para Portugal.
+
+--Como?! não vaes para Portugal?
+
+--Não fujo--replicou Fernando--e, quando fugisse, não iria levar a meu
+pae a noticia do nome que deixo em Madrid.
+
+--Pois se ninguem te sabe aqui o nome?
+
+--Sabe-o a minha consciencia.
+
+--Pois foge para França--recalcitrou Almeida--ou para a Italia, ou para
+onde quizeres.
+
+--Não fujo; e perdoa-me, Paulina... Nós não podemos fugir. Teu pae vae
+receber de minha mão os brilhantes de sua mulher e de sua filha; tu
+entras espontaneamente n'um convento; de lá requeres dispensa do
+consentimento de teu pae: sairás de Madrid com honestidade, e eu com
+honra. É impossivel ser feliz, e dar-te felicidade, se faltarem estas
+condições á nossa união. Isto é irrevogavel, meu amigo. Por delicadeza e
+compaixão não discutas comigo. Temo que este anjo suspeite da minha
+dedicação, se tu me condemnares pela fraqueza das minhas apprehensões.
+
+Paulina teve momentos de suspeita, e outros peores de arrependimento.
+Quizera ella esconder-se com a vergonha de seu acto a um coração
+bastante forte, ou bastante desempoeirado, que lhe fizesse sentir com
+vaidade a grandeza do seu heroismo. Nem elle mesmo a absolvia! elle, por
+quem a imprudente se perdera no conceito do mundo, e na estima do pae!
+São pungentissimos os espinhos das corôas que santificam os martyres da
+honra! Este é um dos casos em que a mulher amada, amigo, sociedade tudo
+conjura a azedar com mais fel o calix do homem probo! Acontece que o
+leitor de um romance, que taes casos narra, sympathisa com semelhantes
+excepções d'este mundo sublunar, mas assim mesmo, o panegyrico do
+romance é galardão tardio, que não vale a menor das dôres que
+excruciavam a alma do pobre filho de Francisco Lourenço.
+
+Estavam como atrophiadas as duas meninas. Almeida, sem dizer o seu
+destino, tinha saído. Fernando encarou na lagrimosa Paulina, correu a
+ella, e ajoelhou-se-lhe aos pés, murmurando:
+
+--Duvidarás tu que te adoro, ó anjo da minha alma!... Poderás crer que o
+receio de ser apregoado ladrão me faz baixar ao egoismo de maldizer a
+hora em que te vi!... Não, não, minha querida filha; não me julgues
+capaz de afastar uma infamia com outra...
+
+--Degradei-me por amor de ti--soluçou ella--e agora hei de ir morrer
+n'um convento, sem a amizade de ninguem, perdida no conceito de toda a
+gente, e tratada com vilipendio por todos... Cuidei que não me tornava
+indigna aos teus olhos...
+
+--Indigna aos meus olhos!--exclamou Fernando coberto de lagrimas--quando
+te disse eu palavra que te dê razão de tamanha calumnia! Ó Paulina, eu
+quero-te pobre, quero fugir comtigo já, mas salva tu da deshonra o meu
+nome, que ha de ser tambem o teu. Não leves o valor de um ceitil da casa
+de teu pae. Espera que o boato do grande roubo de cem mil cruzados, de
+que teu pae te argue, se desvaneça, para que a tua dignidade não fique
+tão feiamente manchada. Não vês tu que se trata de salvar o teu nome?
+
+--Salva-lo, como?...--redarguiu Paulina.
+
+--Restituindo os brilhantes--disse Fernando.
+
+--De que serve restitui-los? Crês tu que o pae me dará licença de ser
+tua esposa por isso? Meu pae tem cem vezes o valor dos brilhantes... Ha
+de perseguir-me atrozmente para eu não casar comtigo, Fernando...
+
+.........................................................................
+.........................................................................
+.........................................................................
+
+No entanto, o secretario da legação entrou no hotel de Bartholo de
+Briteiros.
+
+Encontrou o velho prostrado no leito, espertando d'uma demorada syncope.
+Ninguem ao lado do pobre pae! N'aquelle instante solemne calou-se o
+velho rancor de Almeida, e falou a compaixão.
+
+--Mataram-me, as ingratas!--exclamou Bartholo--fugiram, fugiram as
+perdidas! Deixaram-me assim, sósinho, a amaldiçoa-las, agora, e sempre,
+e na hora da morte...
+
+Almeida deixou-se abraçar pelo anciado velho, e disse-lhe:
+
+--Cobre a possivel serenidade para me ouvir, senhor Bartholo.
+
+--Diga o que quizer, meu amigo. Pouca vida terei para ouvi-lo.
+
+--Suas filhas deviam fugir ao vexame dos interrogatorios judiciaes, e
+fugiram. Conduziu-as a minha carruagem; estão em minha casa.
+
+--Estão?!...--exclamou Bartholo.
+
+--Estão, como se estivessem na austeridade d'um mosteiro. Vossa
+excellencia deu-lhes o impulso desgraçado que dão os paes que o não
+sabem ser. Quiz vossa excellencia pautar o coração de suas filhas:
+tentou um absurdo, que deu origem á culpa. A natureza reage contra as
+violencias; e a reacção é quasi sempre indiscreta ou criminosa. Sua
+filha Eugenia amava o conde de Rohan, sua filha Paulina amava Fernando
+Gomes. O francez sei quem é de tradição; Fernando, que eu conheço desde
+as escolas, é um homem de tantas e tão insolitas virtudes, que o mundo
+actual ha de vêr-lh'as com extranheza. Vossa excellencia impugnou o
+enlace de suas filhas com estes dois mancebos escolhidos por ellas. Uma,
+ia ser immolada ao marquez de Tavira, que sae embriagado dos alcouces ás
+tres horas da manhã; a outra estava esperando a sua hora de sacrificio.
+O funesto resultado d'estas coacções foi uma e outra conspirarem
+surdamente contra a insensata tyrannia de vossa excellencia. Fernando
+Gomes chegava a Madrid um dia antes de vossa excellencia, em vez de
+estar na Irlanda procurando a senhora D. Paulina nos mosteiros; o conde
+de Rohan, chamado de França por a senhora D. Eugenia, veiu hospedar-se
+n'este mesmo hotel.
+
+--E eu sempre vendido e enganado por ellas!...--exclamou Bartholo.
+
+--Era a justa paga do despotismo com que vossa excellencia dispunha de
+suas filhas, que tinham em si o despotismo mais imperioso do coração!
+Pergunto eu ao sr. Bartholo de Briteiros: se suas filhas, para se
+libertarem d'um jugo violento, deram o extranho passo de prepararem a
+fuga, que crimes e vergonhas as reterão no mau caminho que tomaram, se
+vossa excellencia não tiver a prudencia de as chamar a si, e
+rehabilita-las no conceito do mundo?!... Por em quanto não ha nada que
+as avilte. O levarem ellas suas joias e as de sua mãe, isso, a meu vêr e
+de toda a gente, é cousa de si tão desculpavel, que não tem mesmo penas
+na lei que a puna. O valor moral do acto tambem nada significa. Imagine
+vossa excellencia que as suas filhas gostavam dos seus enfeites, e,
+quando fugiam, levaram comsigo esses adornos da vaidade, aos quaes ellas
+não ligaram valor algum real. Já disse a vossa excellencia que não
+conheço pessoalmente o conde, amado pela senhora D. Eugenia. Informei-me
+agora mesmo na embaixada franceza, e soube que o conde era um dos mais
+nobres legitimistas da França, e tem castellos, senão reconstruidos á
+moderna, cravejados de muitos brazões, que, se me não engano, podem
+competir antiguidade com os de vossa excellencia. Este cavalheiro era
+incapaz de ser o receptador de um furto. Em quanto a Fernando, o
+portuguez, posto que não tenha castellos nem mais appellido que o
+_Gomes_, que vossa excellencia provavelmente não encontra nos seus
+nobiliarios, os brilhantes que se presumem ter ido n'uma caixa, em tão
+pouco os reputa elle, que me encarrega a mim de os depositar nas mãos de
+vossa excellencia. Queira o senhor Bartholo estalar a fechadura da caixa
+para verificar a identidade dos objectos. Fernando Gomes não sabe o que
+está ahi.
+
+Almeida entregou a caixa a Bartholo, que apenas o interrompia com
+variados gestos de raiva, surpreza e condescendencia.
+
+Depois proseguiu:
+
+--Fernando Gomes está fazendo companhia ás filhas de vossa excellencia
+em minha casa. O conde de Rohan está hospedado na embaixada franceza. O
+que o conde quer não sei; o que Fernando deseja é que a senhora D.
+Paulina entre pacificamente n'um convento, e de lá instaure um processo
+para vossa excellencia ser ouvido na questão de consentimento para
+matrimonio. Resolvi eu, sem permissão d'uns e d'outros, vir propôr a
+vossa excellencia o seguinte: suas filhas voltarão para casa, e vossa
+excellencia consentirá que ellas se desposem com homens de sua escolha,
+recahindo ella em sujeitos tão benemeritos como o conde e Fernando
+Gomes. Ouvirei a sua resposta.
+
+Bartholo desceu do leito, amparando-se ao hombro de Almeida. Passou á
+ante-camara, sentou-se a chorar e enxugar lagrimas, reflectiu alguns
+segundos, e disse:
+
+--Pois que venham as minhas filhas para casa, e eu cederei o que fôr de
+razão ceder. Mas, senhor Almeida!... Esta ignominia já deve ser notoria
+em todo o Madrid!
+
+--Apenas a justiça, auctorisada por vossa excellencia, anda em
+averiguações inuteis. Mande o senhor Bartholo suspender a vulgarisação
+que os esbirros estão dando aos desgostos particularissimos de sua vida.
+
+--Vou mandar...--disse Bartholo.
+
+--Veem, por tanto, suas filhas. Eu não levo a certeza dos bons intentos
+de vossa excellencia. Por isso mesmo ouso lembrar-lhe que, se forem o
+inverso dos meus bons desejos, as consequencias redundarão todas em
+desgostos maiores para vossa excellencia, e póde ser que mui grande
+vilipendio para suas filhas. O senhor Briteiros, se as chama para as
+castigar com violencias, abre n'esta casa trinta portas por onde ellas
+podem fugir. Ha uma hora em que um pae reconhece que toda a sua força se
+quebra diante do aceno d'uma debil criança. A lucta é desigual com o
+coração, senhor Bartholo...
+
+--Diz bem...--atalhou o velho.--Fui eu que as perdi com a educação, com
+o mundo, com a vida de Paris e Florença...
+
+--Assim seria; mas o mal é insanavel com cauterios: requer muita
+prudencia o corrigi-lo. Vossa excellencia póde faltar a suas filhas
+ámanhã; e o mundo ha de chama-las a si com a educação que lhes deu, e
+engolfa-las no seu abysmo. Salve-as com tempo, senhor Briteiros. A
+sociedade dá ás mulheres este nefasto prestigio, que as enthrona, com a
+condição de se despenharem depois na voragem onde foram buscar a
+realeza.
+
+--Diz bem...--repetiu Bartholo de Briteiros, que, segundo minha opinião,
+percebeu levemente o interlocutor.
+
+
+XVII
+
+Almeida foi apresentado ao conde de Rohan, que se envolvera na bandeira
+franceza, logo que houve noticia do descobrimento da projectada fuga.
+
+Para honra da França, diremos que o descendente do famoso cardeal,
+quando recebeu o pacote de Eugenia, se bem que o achou pesado, não
+cuidou que levava metade das joias e brilhantes. A mim, porém, me quer
+parecer que o illustre conde não faria caramunhas de mau gosto, quando a
+menina lhe mostrasse os aderesses de ricas pedras. A França, n'isto e em
+tudo, vae na dianteira dos espiritos. A virtude, lá, é cousa tão
+contingente, que chega a não ser regra. Menina que foge, não perde aos
+olhos do seu raptor, nem o tribunal do mundo se entoga com gravidade de
+juiz para cousa tão futil. O conde de Rohan pensava muito em descobrir
+Eugenia, e pouquissimo nos brilhantes, quando o cavalheiro d'Almeida lhe
+foi apresentado pelo benevolo embaixador francez, amigo de ambos.
+
+Contou o secretario os successos decorridos, e a convenção, pouco
+segura, mas preparatoria para bom resultado, que fizera com Bartholo de
+Briteiros. O francez, approvando tudo com palavras de muito
+reconhecimento, pediu a Almeida a grande mercê de ser o apresentante dos
+brilhantes e dos seus respeitos ao fidalgo de Portugal. Estes
+_respeitos_, associados aos brilhantes, fizeram que o secretario notasse
+a superioridade do espirito da França sobre o de Portugal. Em quanto
+Fernando se estava n'aquellas lamurias e quebrantos, o conde de Rohan,
+fumando um perfumado charuto de Havana, com a chavena de chocolate ao
+lado, sorria mui placidamente, ao passo que o informador contava os
+acontecimentos occorridos; e, com quanta graça mesureira tinha de seus
+placidos modos, enviou _ao fidalgo portuguez_ (hidalgo, disse elle) os
+seus brilhantes e os respeitos d'elle.
+
+--Em quanto á minha boa Eugenia--accrescentou o conde--terá o cavalheiro
+a benevolencia de lhe asseverar que eu sou sempre o mesmo homem,
+submisso escravo das suas vontades.
+
+Com tão boas novas, correu Almeida a sua casa.
+
+As noticias foram gratas a todos, posto que Paulina por palavras não
+denotasse a satisfação intima, que sentira. Póde deduzir-se, sem
+desairar a menina, que as amarguras de Fernando, aquellas exuberancias
+de dignidade, o muito falar na honra de seu nome, agradaram
+mediocremente á filha de Bartholo. Perguntei a differentes senhoras,
+differentes em temperamento, se o despeito de Paulina seria justo. Com
+muita magua de meu coração ouvi resposta, unanime de todas--que Paulina
+tinha razão; que Fernando encerrava nas arterias agua chilra; que um
+homem, assim apontado em subtilezas de honra, poderá ser um bom
+guarda-livros, um bom mordomo d'uma casa, mas que ha de sempre ser um
+amante glacial.
+
+Fiquei suspenso, e prometti refutar semelhantes despropositos, quando
+escrevesse este romance. Desisto da tenção formada.
+
+Antes quero que o leitor discuta e abysme as senhoras que injuriaram o
+pobre moço, e acharam extrema graça e galhardia de animo no conde de
+Rohan.
+
+Entretanto, Paulina, ao despedir-se de Fernando, abraçou-o com
+exterioridades de muito affecto, e pediu-lhe que não chorasse,
+accrescentando:
+
+--Tu podes contar sempre comigo, Fernando. Esperanças de que meu pae
+consinta no casamento, não levo nenhuma; mas se tu entenderes que, por
+meios da justiça, podemos conseguir os nossos desejos, tão
+desgraçadamente contrariados quando eu me julgava e te julgava feliz,
+estou prompta a requerer.
+
+Notem a frialdade d'esta linguagem! Fernando, Eugenia e Almeida todos a
+notaram. Elle, porém, beijou-lhe a mão, e disse:
+
+--Vae, minha amiga, e esquece-me, se quizeres e poderes. O que nunca
+poderás esquecer é que o homem, que te não servia para o coração, tinha
+alguma boa qualidade que ha de eternamente viver em tua memoria. Antes
+esquecido por ti, que deshonrado por amor de ti, Paulina.
+
+Sobreveiu o secretario com reflexões tendentes a conciliar os animos
+despeitados dos dois tão amantes, tão doidos de alegria, algumas horas
+antes; e agora, a separarem-se, com a desconfiança n'alma, a
+desconfiança que é quasi sempre a doença morta do coração!
+
+Paulina desceu, chorando, encostada ao braço de Almeida.
+
+O filho do artista lembrou-se, n'este acerbo momento, de sua mãe, porque
+teve precisão de orar, e quem lhe ensinara a oração fôra sua mãe.
+
+Deixemo-lo orar e chorar. Preces e lagrimas assim, os anjos as levam ao
+Senhor. Áquellas almas disse Jesus: «pedi, e sereis attendidas.»
+
+Os que dão cegamente sua alma a quem a não merece, e rogam a Deus o
+resgate d'ella, sentem-se livres.
+
+Os que vão de rastros e quasi moribundos sob o pé da injustiça humana,
+oram, e recobram uma força, que é insulto á covardia dos fortes.
+Deixa-los chorar e orar.
+
+Deus lhes mostrará os balsamos das urnas que ahi estão a desbordar desde
+que o Homem-divino perdoou aos que o matavam por ignorancia. Porque não
+hão de perdoar estes homens de barro á cafila de farizeus que os não
+entendem?
+
+Da cafila de farizeus exceptuo Paulina de Briteiros. Se eu não podesse
+estrema-la, rasgava aqui estas paginas, e queimava os apontamentos, para
+que nenhum collega meu d'este maldito officio saísse alguma vez a lume
+com a historia d'uma linda mulher com alma tão feia!
+
+Paulina e Eugenia entraram nos seus aposentos, sem verem o pae.
+
+O secretario foi ao quarto de Bartholo entregar a outra porção de
+brilhantes, e continuar sua missão de conciliador e conselheiro.
+
+O fidalgo denotava boas intenções, em quanto ao conde de Rohan. De
+Fernando Gomes disse, á terceira pergunta, que havia de pensar no melhor
+modo de se realisarem os desejos de sua filha.
+
+As meninas passaram aquelle dia sem leve incommodo de sua saude, nem
+accessos de lagrimas que mereçam chronica. Doe-me ter de dizer que, ahi
+por fins da tarde, riram com as creadas da figura que ellas deviam
+fazer, quando saltaram á carroagem, desgrenhadas, com os capuzes das
+capas encarapuçados á laia de feiticeiras. Esta frivolidade de espirito
+feminil é cousa tão vulgar, que eu peço á leitora que não levante a
+pedra, e deixe ir as cousas em paz, como Christo mandou ir uma
+peccadora.
+
+No dia seguinte Fernando Gomes, instado por seu amigo, saíu com elle em
+carroagem. Passearam até á ponte de Segovia, e apearam na praça do Sol,
+onde o secretario havia de cumprir ordens do ministro.
+
+O acaso encaminhara para alli o marquez de Tavira, que trazia o espirito
+encavalgado por um dragão.
+
+Viram-se e reconheceram-se.
+
+O marquez, cego de sua raiva, parou em frente de Fernando, e disse a
+brados que muita gente ouviu:
+
+--Ainda tem a pouca vergonha de se mostrar nas praças um biltre que
+seduz filhas-familias a roubarem seus paes!
+
+Se o periodo fosse mais comprido, morria incompleto na garganta do
+marquez. O filho de Francisco Lourenço engriphou os dedos com sanha
+felina. O rancor, brutalisando o homem, parece que lhe dá parecenças com
+a fera, cuja sanha imita! As dez unhas de Fernando faziam espirrar o
+sangue gothico do marquez, que escabujava como o Lacoonte de Virgilio
+nas roscas das serpentes. Cairam ambos de modo que o de Tavira foi
+fender o occipital no eixo d'uma carroagem, cujo dono fizera alto para
+disfructar a lucta.
+
+Almeida estava, poucos passos distante, observando o desenlace, que o
+enchia de jubilo. O marquez, ensanguentado, coberto de lama, e quasi
+desaccordado, nem de leve se boliu, quando Fernando desencravou as
+unhas. Approximou-se Almeida, e offereceu ao fidalgo a sua carroagem
+para conduzi-lo onde quizesse. O soberbo de sua miseria respondeu com
+uma insolencia, e retirou-se com respeitosa, mas curiosa cauda de
+gaiatos, testemunhas pertinazes e minudenciosas de todos os conflictos
+magnificos.
+
+Constou ao secretario que o marquez saíra, no seguinte dia, de Madrid,
+com direcção a Portugal, onde a presença do convencionado não
+incommodava ninguem. Parece que Bartholo de Briteiros lhe emprestara
+dinheiro com que elle podesse na patria sustentar a antiga ociosidade e
+dissipação de seus avós. E, como não sei se virá de molde lembrar o nome
+d'este sujeito no decurso da novella, fique o leitor sabendo que o
+marquez de Tavira, depois de residir em Lisboa alguns mezes, fez-se um
+liberal rasgado, ou roto, como quizerem, e conseguiu ser nomeado
+ministro n'uma das côrtes da Europa, e mais tarde governador dos estados
+da India, d'onde veiu, já muito na flôr dos sessenta annos, casar em
+Portugal, onde está rico e honrado.
+
+Paulina, sabedora da derrota que soffrera o primo marquez, sentiu uma
+satisfação que eu sinceramente lhe não louvo, e ao mesmo tempo um
+accrescimo de estima por Fernando, estima que eu não posso attribuir ao
+coração. Estas anomalias que a moral reprova e a animalogia desentende,
+são uns geitos de mulher que avisadamente não discuto. São assim. Deus
+as faça melhores ou peores, de modo, porém, que fiquem mais decifraveis
+e intelligiveis.
+
+Bartholo, como é bem de ver, ficou raivoso contra Fernando Gomes, e
+esteve uma noite toda a scismar no modo menos estrondoso de se desfazer
+d'aquelle inimigo. Ponderou o malvado intento de lhe comprar a vida; mas
+occorria-lhe que em Madrid era difficil e arriscado andar em cata de um
+sicario destro e fiel. Desanimou: mas jurou que sua filha Paulina havia
+de morrer n'um convento, se teimasse em querer casar com o facinoroso.
+
+Este successo apressou o casamento de Eugenia com o conde de Rohan. O
+fidalgo colheu informações, que condisseram exactamente com as do
+secretario, mas muito por miudo. O conde era oriundo dos primeiros
+soberanos da Bretanha, condes de Porrhoit, viscondes de Rennes, por
+Alain I, quarto filho de Eudon, que vivia no seculo X. D'esta
+nobilissima stirpe procediam os duques de Rohan, com esta legenda no
+escudo: ROI NE PUIS, PRINCE NE DAIGNE, ROHAN JE SUIS.
+
+Á vista d'isto, e do mais que deixo á averiguação dos genealogicos,
+Bartholo de Briteiros deu Eugenia ao conde, liberalmente dotada, e
+resolveu ir viver em Paris no inverno, e n'um dos castellos da Bretanha,
+no verão, em companhia de seu genro.
+
+O velho principiava assim a vingar-se de Fernando Gomes.
+
+No jantar nupcial, ao qual assistiram titulares hespanhoes, e a
+diplomacia dos differentes estados, Bartholo de Briteiros, n'um brinde
+que propôz a seu genro, disse em remate do discurso:
+
+--Eu morrerei feliz, se vir minha filha Paulina casada com um parente
+dos Rohan; e, se não puder ser tanto, que seja, e muito ainda será, um
+nobre da França ou das Hespanhas, a quem meu genro aperte a mão, sem
+receio de a retirar suja.
+
+--De sangue...--disse Almeida com um sorriso que tinha fogo do inferno.
+
+Esta palavra «sangue» turvou um pouco o vinho que Bartholo bebia. Ao
+ex-ministro da Alçada quiz parecer que havia n'aquelle dizer succinto
+uma allusão. Nem que o secretario da legação fallasse em corda!
+
+
+XVIII
+
+Fernando Gomes, informado, não por Paulina, mas por Almeida, dos
+successos que se iam encaminhando a um natural e triste desfecho de
+tantos trabalhos, póde dizer-se que morreu antes que o matassem.
+Senhoreou-o amargura serena, sem contorsões; mas profunda, luctuosa, e
+inalteravel por nenhuma diversão.
+
+Alguma carta que escrevia a Paulina ia breve, desalentada, sem a palavra
+esperança, sem a palavra saudade, sem a palavra amor.
+
+Divagava por uns nevoentos dizeres, como devem ser os do enfermo de
+mortal doença, que antevê o fim, e se está, meio vida, meio eternidade,
+conversando com amigos, que deixa sem saudade e sem esperança de tornar
+a ve-los n'outro mundo.
+
+Paulina entendia mal esta nova phase do espirito de Fernando, e
+respondia-lhe queixando-se da seccura de suas cartas; porém, a tibieza
+dos queixumes podia apostar lethargia d'alma com o apparente regelo das
+cartas de Fernando.
+
+--Como cahiste n'esse estado? perguntava Almeida ao seu amigo.
+
+--Era o meu estado natural. Assim me conheceste no cerco e na
+universidade. Paulina emprestou-me uma segunda natureza que eu lhe
+devolvi em lagrimas, e fiquei como era, peor do que era, porque havia
+uma virtude em que eu tinha fé--o coração da mulher--e esta crença
+tambem se foi diluida em lagrimas.
+
+--Injustiça!--interrompeu Almeida.--Não te diz ella que está prompta a
+requerer o seu deposito?
+
+--Disse, não diz.
+
+--Propõe-lh'o.
+
+--Não. Quero forrar o meu pundonor ao ultraje da negativa.
+
+--Farei eu a proposta, mediante o conde de Rohan.
+
+--Recuso o favor. Quem te diz a ti que o conde de Rohan deseja o
+casamento de sua cunhada comigo?
+
+--Elle.
+
+--Não creias. O conde de Rohan tem irmãos. Paulina é rica e formosa como
+Eugenia.
+
+--Imponho-me o dever de não julgar ninguem pelos teus olhos. Tu és uma
+raridade, um excentrico, uma cousa com geitos de pessoa. Erras quantos
+juizos fazes. Eu hei de sondar o conde. Póde ser que tudo se consiga sem
+processo judicial.
+
+O secretario procurou o conde. Fallou amplamente de Fernando Gomes, e
+das suas injustiças ao caracter de Paulina. O conde mostrou sympathisar
+com o caracter do portuguez, e disse:
+
+--Eu fallarei a meu sogro.
+
+E falou de modo que as suas ultimas palavras summariam o elogio que se
+lhe deve:
+
+--O homem, cuja mão eu aperto com sincera satisfação de quem sabe prezar
+a virtude, é Fernando Gomes. Peço encarecidamente a mão de minha cunhada
+para este tão modesto como honrado mancebo. Condescenda, meu sogro, para
+eu poder dar-lhe o nome de provado amigo.
+
+Bartholo de Briteiros respondeu umas palavras oscillantes, que nenhuma
+resolução significavam. O conde saiu maguado d'esta conferencia, e disse
+á cunhada:
+
+--Se Paulina quizer casar com Fernando, tem de adoptar meios
+extraordinarios. Requeira o deposito, que a familia do ministro francez
+presta-lhe sua casa.
+
+Paulina respondeu:
+
+--Era preciso que Fernando ao menos me enganasse, para eu acceitar o seu
+conselho. Fernando, quando me escreve, nem ao menos diz que me ama.
+
+--Ama com a mais segura das paixões: a paixão que mata com infernal
+lentidão.
+
+--Se elle m'o fizesse assim acreditar!...--replicou ella.
+
+O conde inferiu que Paulina estava cançada das virtuosas,
+incomprehensiveis e fastidíosas singularidades de Fernando. E assim,
+muito á puridade, o communicou ao secretario.
+
+Bartholo chamou Paulina, e mostrou-lhe cartas de Lisboa. A importancia
+d'estas cartas ha de ressumbrar na seguinte, que ella escreveu a
+Fernando:
+
+
+«Meu querido amigo.
+
+«Nem a cegueira do amor me engana. As tuas cartas dizem-me tudo que está
+em tua alma. Eu não sei por que desmereci aos teus olhos. Não sei,
+Fernando! Aquella impensada fuga que eu havia de fazer, com teu
+consentimento, creio que me tirou todo o prestigio. Esta pobre
+formosura, que tanto encarecias, já te não inspira mesmo as palavras
+animadoras que releio nas antigas cartas, com o coração traspassado de
+dôr! O ser rica sabia eu que era cousa nenhuma em teu conceito; mas o
+ser-te leal ha dois annos, á custa de tormentos tamanhos, cuidava eu que
+seria um titulo á tua eterna dedicação. Louca mulher, que tão vaidosa
+julguei merecer o que o mundo não póde dar! Com que me recompensas tu o
+fel que eu tenho tragado desde que voltei dos teus frios braços para
+debaixo dos olhos severos e queixosos de meu pae? O teu esfriamento é
+incrivel! Se me dissessem que amas outra mulher, comprehenderia o homem
+e a ingratidão. Mas sei que vives só, que vives triste, que tudo te é
+indifferente, e eu mesma quasi esquecida! Cada carta que me envias é
+como obrigada pela delicadeza. Palavras inintelligiveis, apprehensões
+vagas, e nenhuma em que me digas positivamente o que pensas, e esperas
+de mim! E eu amante como sempre! Capaz de tudo, mas incapaz de me
+abalançar a novos sacrificios, sem que me tu digas corajosamente:
+«Luctemos de novo!» Porque m'o não dizes, ó Fernando!?
+
+«Ainda agora saí do quarto de meu pae, onde fui chamada, e entrei a
+tremer. Mostrou-me cartas de Portugal, cartas forjadas talvez aqui, e
+mandadas lançar lá no correio. Todas falam de ti miserias que eu me pejo
+de dizer. Mas adivinho que desejas ouvi-las. Creio que, em dizer-t'as,
+te allivio de conjunturas dolorosas. Noticiam que teu pae é um sapateiro
+de Lisboa, que tua mãe era colchoeira, e que andas por aqui a estragar
+as economias de teu pae, em quanto elle lá está quebrado de trabalho,
+cerceando ao pão de cada dia para te sustentar uma vida aventureira. São
+assim miserias d'este jaez. Irritou-me a alegria de meu pae, quando elle
+com ar de victoria me estava lendo estas calumnias. Não tive mão em mim,
+e disse-lhe: «Isso é tudo falso. Se o pae de Fernando fosse um
+sapateiro, não iria visita-lo a Londres, nem lhe daria a decencia com
+que tem vivido ha dois annos em Florença, aqui, e em toda a parte. Meu
+pae encontrou-o em casa d'um principe, e o principe de Monfort não
+aperta a mão a filhos de sapateiros, nem ministros de Portugal em
+Hespanha o tratariam com tanta consideração, se elle fosse o que essas
+cartas dizem. Meu pae enfureceu-se dizendo que o Almeida era filho d'um
+latoeiro, e por isso occultava o teu nascimento...»
+
+Fernando, n'este ponto, machucou a carta na mão direita, e atirou-a aos
+pés.
+
+
+RESPOSTA
+
+«Minha senhora.
+
+«Não mentiram ao pae de vossa excellencia. Sou filho d'um sapateiro, e
+d'uma colchoeira. Meu pae está ganhando o pão que me sustenta, e
+vendendo as suas economias para suprir ás despezas que o seu trabalho
+não alcança. O sapateiro foi a Londres, é certo; mas não foi visitar-me,
+como vossa excellencia presume: foi pedir-me que voltasse á pobre casa,
+onde minha boa mãe me chamava para me abraçar antes de morrer. Ensurdeci
+ao chamamento de minha mãe, e não vi as lagrimas de meu pae. Vossa
+excellencia tinha-me levado ouvidos e olhos, deixando-me no coração
+apenas a fibra do remorso de ser mau filho.
+
+«Humilho-me diante de vossa excellencia, não como filho do sapateiro,
+mas avergado pelo arrependimento de lhe ter occultado a minha humilde
+origem. Foi o coração que me trahiu, dizendo-me que para vossa
+excellencia era cousa de nenhuma significação o meu nascimento. Penso
+que devo ser desculpado d'esta falta: seria grande extranheza andar eu
+divulgando o meu nascimento. Eu tinha estado em França, e vira ministros
+sahirem das officinas: e o mundo respeitava-os pela honra dos paes, e
+por sua elevação com esforços proprios. Tudo me induziu, não a
+esquecer-me de que meu pae era sapateiro, mas a presumir que me era
+licito com minhas acções continuar a ser honrado como meu pae, sendo
+certo, minha senhora, que eu nunca ousei suppôr que meu pae carecia de
+minhas virtudes para se dar nobreza de si.
+
+«Faz-me pena o desgosto de vossa excellencia quando esta carta estiver
+lendo!
+
+«O que a senhora D. Paulina de Briteiros tem soffrido por minha causa!
+Que mal empregados sacrificios!
+
+«Não foi a mão de Deus que a susteve á borda do abysmo, minha senhora?
+Que immensa vergonha e agonia devia ser a sua, se vossa excellencia a
+esta hora fosse minha mulher?! Que torturas irremediaveis! Como havia
+dizer-lhe eu em Portugal o nome de meu pae?
+
+«Nunca pensára n'isto!... Agora me parece incrivel que não pensasse!
+
+«Escrevo-lhe com quanta quietação de espirito se póde, minha senhora. O
+coração está esmagado. Matou-o a vergonha de ter pulsado em tão baixo
+peito, vergonha que eu confesso sentir diante da sombra de vossa
+excellencia, agora, e sempre.
+
+«Veja que horrivel organisação social esta, senhora D. Paulina! Diga
+vossa excellencia em sua intima e clara razão, se eu merecia ser
+vilipendiado por meu nascimento, emquanto não praticasse alguma acção
+infamante! que mal fiz eu á sociedade em ter nascido de operarios?...
+Desculpe-me vossa excellencia estas perguntas vans, desordenadas e
+indignas da sua attenção.
+
+«N'este momento vou queimar as cartas de vossa excellencia, menos d'esta
+ultima a pagina em que, por suas mãos, a Providencia me ministra uma
+lição, que me póde ainda levantar diante de mim mesmo.
+
+«De novo lhe rogo me perdôe, no silencio de sua consciencia, porque as
+suas palavras já não poderei vê-las escriptas. Subscrevo-me, com quanto
+respeito me inspiram suas virtudes, creado de vossa excellencia
+
+ «_Fernando Gomes._»
+
+
+Almeida tinha saído com o ministro para o Aranjuez, para voltar quatro
+dias depois. Fernando queimou as cartas de Paulina, lendo as primeiras
+de Florença, quanto as lagrimas lh'o consentiam. Enfardou o seu fato.
+Comprou passagem na primeira diligencia em direcção á fronteira de
+Portugal, e mandou entregar a sua ultima carta a Paulina, ao embarcar-se
+na locomotiva.
+
+Almeida, recolhendo do Aranjuez, encontrou este conciso escripto:
+
+
+«Vou vêr o pobre artista, e a pobre companheira do artista, que não tem
+culpa dos meus infortunios.
+
+«Com as mãos erguidas te rogo que não digas a alguem o meu destino.
+
+«Terás as minhas cartas regularmente, em quanto viver.
+
+«Graças, meu amigo, pelo coração de irmão que me déste. A recompensa é
+este chorar que me tolhe poder escrever-te mais. São as ultimas lagrimas
+do teu Fernando.»
+
+
+XIX
+
+DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA
+
+ Lisboa, 4 de agosto de 1842.
+
+«Meu presado amigo.
+
+«Aqui estou na casa onde nasci, no pequeno quarto em que os livros me
+iniciaram para tormentos superiores aos que conheceste em minha vida.
+
+«Entrei em casa inesperadamente, e encontrei minha mãe chorando, e nos
+braços d'ella, uma de minhas irmãs viuva, e alli, ao lado, deitada n'um
+berço, uma criancinha de dois mezes.
+
+«Minha irmã casára com um capitão de mar e guerra, que morreu em viagem
+para Moçambique. Fôra ella dotada com dez mil cruzados, cuja maior parte
+o marido empregou em mercadorias, que levava comsigo, na esperança de
+grandes lucros.
+
+«O navio deu á costa, e presume-se que meu cunhado se suicidou. A minha
+pobre irmã ainda ignora que está em pobreza extrema.
+
+«Sabe-o meu pae, que é um santo, e acceita das mãos da Providencia tudo
+que vier.
+
+«Outra minha irmã, casada com um official de secretaria, vive muito
+infeliz, e tem querido refugiar-se no abrigo dos paes; o marido, em
+poucos mezes, leva quasi dissipado o dote, sem mesmo assim poder
+resgatar-se de descreditos que mais tarde ou mais cedo o reduzirão a vir
+pedir esmola á porta do seu sogro. Acaba meu pae de me contar estas
+alegrias, que eu te refiro para que vejas os ditosos auspicios com que
+entrei nos lares domesticos.
+
+«Meu pae está quasi cego, e minha mãe n'um estado de decrepidez
+extraordinaria. As minhas despezas dos ultimos oito mezes custaram ao
+santo velho o sacrificio da venda dos bens do Cartaxo. O que elle não
+vendeu foi a livraria, nem os manuscriptos de Bocage, seu amigo da
+mocidade. Disse-me que me salvara os livros para me legar amigos. Perdôa
+ao bom velho o seu descrer em amigos: elle não sabia que tu eras mais
+verdadeiro e valedor que os livros.
+
+«O meu futuro é facil de conjecturar. Tenho uma numerosa familia
+dependente de mim. A outra minha irmã, e uma filha, não tardarão aqui.
+Meu pae ainda vae á loja examinar, ou finge que examina, o trabalho dos
+officiaes. Estes são já pouquissimos, em relação com o diminuto consumo
+que tem a obra.
+
+«Penso em arranjar emprego; mas sinceramente te digo que não sei o para
+que sirvo, nem como estas cousas se alcançam. Lembra-me abrir loja de
+conselhos e requerimentos; estou esquecido do pouco que aprendi; careço
+de muita pratica, e de muita paciencia. Falta-me gosto, alma e vontade.
+Nenhuns estimulos d'actividade me impellem. Este espectaculo inesperado
+escureceu-me o espirito de modo que nenhum raio d'esperança já póde
+reanimar-me. Espero em Deus que esta crise não se demore; e, depois,
+veremos.
+
+«N'outra carta me abrirei mais comtigo. A oppressão produz no animo
+dolorosa preguiça. Em contentamento sereno ou nas afflicções agitadas,
+n'estes dois extremos, é que o espirito se compraz ou desafoga em
+diffusas cartas. Esta minha dôr é termo medio que prostra e embrutece.
+Adeus. Teu amigo muito grato
+
+ _Fernando._»
+
+
+DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES
+
+ Madrid, 14 de agosto de 1842.
+
+«Meu Fernando. Quando recebi no Aranjuez, onde tive de demorar-me, a tua
+carta de despedida, corri logo a Madrid, não esperançado em
+encontrar-te, mas em ancias de saber o que se havia passado em minha
+ausencia. Esporeava-me o odio que recresceu n'estes ultimos mezes contra
+o algoz togado, o villão que me enganou quando eu tinha na mão o fio com
+que esperava cortar-lhe a vida na garganta.
+
+«Deram-me a tua carta, e contou-me o creado que te vira queimar as de
+Paulina. Percebi logo que um completo rompimento vos separara para
+sempre. Odiei-a! Dei-te logo razão, porque eu sabia que tu eras um anjo
+merecedor de melhor alma.
+
+«Na incerteza de me estarem trancadas as portas de Bartholo, procurei na
+rua o conde de Rohan, e soube que Paulina estava doente. Perguntei, sem
+rebuço, que razões se haviam dado para a tua saida repentina de Madrid,
+e elle sem me dar explicações, instou por saber o teu destino. Não lh'o
+podia dizer, não lh'o diria, ainda mesmo que antevisse n'esta infracção
+a tua felicidade. _A tua felicidade_, digo eu!
+
+«Ha homens que ninguem deve conduzir a uma supposta felicidade: a má
+sina póde tudo com elles, e reverte-lhes em mal os mais logicos planos
+do bem. Os proprios amigos se tornam fautores da sua desgraça.
+
+«N'este mesmo dia recebi um bilhete de Paulina, a perguntar-me onde
+estarias. Respondi que o não podia declarar. Redobraram instancias:
+permaneci inabalavel. O ultimo bilhete d'ella é este que te envio[1].
+Não calculo o que succedeu para resolução tão improvisa! Dar-se-ha caso,
+Fernando, que a tua doentia imaginação te enganasse? Poderias tu ser
+injusto, sem consciencia de o ser? Irias arrebatadamente, onde com
+alguma hora de reflexão, deixarias de ir?
+
+«Não ouso decidir por mim a hypothese: tamanha confiança me merece o teu
+bom juizo e reflexiva dignidade. Antes me quiz persuadir que procedeste
+como devias. Esperei.
+
+«Agora, porém, recebo a tua carta de 4 de agosto. Nem uma palavra a tal
+respeito! Dir-se-hia que eu sonhei que tinhas amado Paulina, ou tu d'uma
+para outra semana perdeste a memoria do teu coração! Isto mais me
+capacita de que a razão do teu proceder foi tão grande que presumes deva
+eu já sabe-la, e por amor de ti proprio a omittes. Juro-te que apenas
+sei o que devo inferir dos bilhetes d'ella.
+
+«O conde ignora tudo. Bartholo está com ares de satisfação; nada, porém,
+diz ao genro nem a Eugenia. Este mysterio mortifica-me. Esclarece-m'o,
+que o deves ao teu Almeida.
+
+«Falemos agora da tua situação. Compunge-me a sorte de tuas irmãs, e de
+teus bons paes. Triste espectaculo, na verdade; mas providencial e
+necessario para a glorificação da tua honra. Precisas de força, e de
+paciencia para poder emprega-la.
+
+«Queres um cargo publico? Os teus estudos, talento e serviços hão-de
+obte-lo; mas não cuides que será já, meu amigo. Tu perdeste a occasião
+de entrar nas secretarias com o arcabuz do cêrco do Porto debaixo do
+braço. As gravatas dos heroes de gabinete na emigração já se não temem
+das dragonas. Estamos em tempos pacificos. O que ha seis annos se
+conseguia e recebia com a mão a cheirar a polvora, é preciso have-lo
+agora das mãos enluvadas das mulheres, que fazem os despachos nas
+othomanas, com os ministros reclinados sobre o seio. Advirto-te, para
+que a decepção te não surprehenda.
+
+«Entretanto, meu caro Fernando, o que tu precisas é de encaminhar desde
+já a tua pretenção, dando ares de que não pretendes. Resgata os teus
+bens do Cartaxo, se o comprador t'os ceder: ostenta uma independencia
+que fira o orgulho villão dos grandes que não supportam animos generosos
+e isemptos; entra na politica, e escreve, que necessariamente has de
+escrever coisas excellentes, visto que é esse o ramo de conhecimentos
+humanos que dá fructo a quem lh'o pede, e para o qual todo o homem está
+habilitado. A honra ha de ser-te um empeço á boa saída; mas póde ser que
+a mesma excepção te aproveite. Ora como para estas coisas, e
+principalmente para a independencia, é necessario o dinheiro, vae ter á
+rua Augusta, procura meu velho pae, que has de encontrar a bater alguma
+caldeira, e diz-lhe quem és. Deves saber que eu sou já senhor da
+legitima materna, e este capital, que excede a vinte contos de réis, lá
+o tem meu pae á espera que eu lhe dê destino. A tal qual decencia, com
+que vivo aqui, é meu pae que m'a dá, prohibindo-me que eu gaste da
+herança de minha mãe. Vê tu que animo este de artista, que ainda não
+despegou uma semana de trabalhar! Vae lá, meu amigo; elle está
+prevenido, e sabe que és meu irmão. Pede o que quizeres, para m'o
+pagares quando puderes.
+
+«Fecho, que está a partir o correio. Escreve muito ao teu
+
+ _Almeida_.»
+
+
+DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA
+
+ Lisboa, 31 de agosto de 1842.
+
+«Meu irmão.
+
+«Guardo em minha alma a tua carta.
+
+«Falarei primeiro dos teus fraternaes offerecimentos.
+
+«Fui vêr teu pae, porque desejava conhece-lo e abraça-lo. Que cabellos
+brancos, e que mãos calejadas aquellas! Que bem e orgulhoso me senti nos
+braços d'elle! Falla de ti com lagrimas; mas todo aquelle rosto se abre
+em contentamentos d'um justo!
+
+«Quiz que lhe contasse pormenores da tua vida em Madrid.
+
+«Satisfiz aquella ancia do teu velho. Foi dia de férias na officina a
+minha visita. Mandou os operarios passear, recommendando-lhes que não
+fossem á taverna. Depois jantei com elle, e lá fiquei até á noite. Teu
+pae deita se ao escurecer e ergue-se com a aurora. Disse-me elle quando
+eu estava para sahir: «Veja lá o dinheiro que quer, doutor.»
+Respondi-lhe que não queria nenhum. Montou os seus grandes oculos de
+cobre, arregaçou os punhos da camisa, releu a tua carta, e exclamou:
+«Então como se entende o que reza esta carta do meu Hypolito?!» Satisfiz
+ás suas duvidas, dizendo-lhe que o teu offerecimento não fôra
+solicitado, nem por em quanto me era preciso aceita-lo.
+
+«Assim passaram quatro boas horas da minha vida. Face a face com o
+principe de Monfort não me senti tão feliz e entranhado de respeito como
+ao lado do artista, do teu digno pae, meu querido Almeida.
+
+«Beijo-te as mãos pelo amigo que me déste. Em quanto ao dinheiro,
+deixemo-lo estar, _como nosso_, na mão do honrado depositario. Quando
+precisarmos, lá iremos.
+
+«Agora direi pouco de Paulina para te satisfazer, e menos terei que
+dizer-te, enviando-te uma copia da pagina da sua ultima carta. Ahi tens
+decifrado o enygma. O filho do sapateiro teve pejo e arrependimento de
+se haver abalançado ao coração da filha de um Briteiros: pejo de se
+haver abatido, e arrependido de a ter humilhado. Cahi em mim. Podia ser
+mais tarde, e mais funestamente para ambos. Deus poupou-me ao aperto de
+entrar em Portugal, e por esta porta dentro, onde todos choram, com a
+faustuosa e brilhante Paulina, que está fadada para alegrias e
+esplendores. Que sentiria aquella alma vendo-se aqui n'este ambiente de
+pobreza, pobreza que se adivinha em tudo! Alli dois velhos; além duas
+irmãs uma viuva, outra divorciada; acolá duas criancinhas, cada uma em
+seu berço, vagindo; lá em baixo o martellar do trabalho; em tudo o cunho
+de uma maneira de ser incompativel com a indole e educação de
+Paulina!...
+
+«Que queres tu, á vista d'isto, que eu faça ao coração?
+
+«Suffoco-o; obrigo-o a repartir-se por estas quatro creaturas, que não
+teem mais ninguem.
+
+«O bilhete de Paulina como não me auctorisas a queima-lo, devolvo-t'o;
+póde ser que ella venha a envergonhar-se de te-lo escripto, e t'o
+reclame.
+
+«Persiste em não dizer nada de mim; e, se tenho algum outro favor a
+pedir-te, é que me não fales d'ella; antes me ajuda a esquece-la.
+
+«Meu generoso pae ainda a tal respeito me não disse palavra. Adivinhou
+tudo. Tudo me tinha prophetisado em Londres, com estas palavras: _Que
+direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhações? Para que a
+procuras afincadamente, se vaes de rastros apoz ella? Porque has de tu
+querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma
+carreira por onde levarias teus filhos á grandeza?_
+
+«Na ultima pergunta é que o propheta ouviu demasiadamente os seus
+arremessados desejos. Esta minha carreira é a da inhabilidade e da
+pobreza; mas cá estou a refazer-me de alentos para a trilhar. Adeus, meu
+extremoso amigo. Não acceito o teu alvitre de me fazer politico. Já vi o
+que isto é. Não estou ainda bastante pôdre para adubar o torrão em que
+braceja a arvore da immoralidade. Estou envergonhado de ter dado o meu
+sangue para isto! Ás vezes chego a scismar se Bartholo de Briteiros
+teria razão!
+
+«Perdôa esta impia ironia. Antes isto que os patibulos. Cada qual
+enforca a sua honra á sua vontade, e não causa lastima nem espanto. Não
+ha tempo para mais. Adeus. Teu
+
+ _Fernando_.»
+
+
+XX
+
+
+DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES
+
+ Madrid, 3 de setembro de 1842.
+
+«Meu Fernando, não espero a tua resposta para te escrever. Tenho só
+tempo de participar-te que Paulina entrou hoje n'um convento, contra a
+vontade do pae. O conde de Rohan suppõe que és tu a causa d'este
+successo. Bartholo suppõe que a filha se enclausurou para de lá requerer
+casamento comtigo. Elles e eu andamos litteralmente ás aranhas. Ella e
+tu sois os ferrolhos do mysterio. Sae a mala. Adeus.
+
+ _Almeida_.»
+
+
+DO MESMO AO MESMO
+
+ Madrid, 12 de setembro de 1842.
+
+«Viva Deus! que quebraste os sete cadeados do cofre! Vi o altissimo
+quilate do oiro da tua honra. Já o conhecia.
+
+«Estas linhas deviam magoar-te; mas não justificam a fuga, e menos ainda
+o desprezo. Não é desprezo o que sentes por ella; mas, seja o que fôr os
+effeitos são analogos.
+
+«Paulina, como já deves saber, vive no convento das Therezinhas.
+Consta-me, de informações exactas, que Paulina está n'um consternador
+abatimento de espirito. Raro se deixa vêr e apenas sáe da cella para
+receber, na grade, a visita do conde ou do pae. Eugenia entra no
+convento, e passa muitas horas com ella; mas nem assim lhe arranca o
+essencial motivo do rompimento e reclusão.
+
+«Bartholo tem providenciado para o caso de haver deposito judicial.
+Realisa-se o que eu te havia dito. Sei que de antemão, e por hypothese,
+já estão alugados os juizes.
+
+«Eugenia pediu-me hontem um encontro no Prado. Insistiu comigo para eu
+lhe descobrir a tua residencia. Inutil. Jura que Paulina te ama até se
+deixar morrer, para assim pelo remorso se vingar da tua ingratidão.
+Estive, sem receio de quebrantar minha palavra, quasi a mostrar-lhe a
+copia da pagina da ultima carta da irmã. Desisti, por me não parecer,
+ainda assim, justificavel o teu procedimento, e tambem para respeitar o
+sigillo de Paulina. Ella, que o reserva, lá tem suas razões, e nós as
+nossas.
+
+«Aconselhar-te eu? não me atrevo a tanto. Já disse: contra certos
+destinos é impotente esta logica vulgar, _vade-mecum_ de todos os homens
+vulgares. Escuta o teu coração, sem menos-preço da consciencia. Obriga a
+razão a obtemperar a certas e importantissimas pequenezas, que são o
+essencial da vida. Isto não é conselho: é supplica.
+
+«Bartholo vive muito ha dias com um marquez gallego, que veio ao senado;
+riquissimo gallego, e descendente dos monarchas de Aragão. Presume o
+conde de Rohan, com o muito sal do seu espirito, que Paulina corre risco
+de ser encabeçada na côrte descabeçada de Aragão. Eugenia accrescenta a
+estas observações que Paulina só sairá do mosteiro, se a não deixarem lá
+sepultar na clausura. Isto parece-me extremamente grave, Fernando.
+
+«Queres tu que eu ultrapasse as tuas ordens, ou prescrever-m'as novas?
+Custa-me a ser-te fiel entre as reiteradas insistencias do conde, de
+Eugenia, e da piedade a que indirectamente me compunge Paulina.
+
+«Anceio a tua resposta.
+
+«Dá outro abraço ao meu bom pae. Diz-lhe que eu vou muito cedo aperta-lo
+ao coração, e que, se o aborrecimento d'esta vida diplomatica fôr assim
+augmentando, de certo lá ficarei a ouvir o estrondear das caldeiras.
+Adeus. Muito do coração.
+
+ _Almeida._»
+
+
+DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA
+
+ «Lisboa, 12 de setembro de 1842.
+
+«Respondo, meu amigo, á tua cartinha. A esta hora já recebeste a carta
+explicativa do meu procedimento. Julga-me, e absolve-me, se fui injusto.
+O meu destino é vêr que as minhas acções, aconselhadas pelo dever,
+redundam sempre em gravame alheio e desconceito meu. Estou enganado com
+o mundo. Devo restringir-me, cada vez mais, n'um curto espaço em que
+todas as operações de minha intelligencia, se reduzam ao trabalho
+necessario á vida. Só assim poderei achar um cantinho da sociedade, onde
+caiba com a minha insignificancia.
+
+«Cuidei que, saindo de Madrid, deixava essa senhora em paz comsigo e com
+o mundo. Puz o coração debaixo dos pés, e nem assim consigo a liberdade
+do espirito!
+
+«A entrada de Paulina no convento, a meu parecer, significa uma fadiga
+de alma, que faz as mulheres eguaes aos homens. Paulina soffreu; creio
+que sim. Está repousando para reassumir as poderosas faculdades de sua
+juventude, formosura e aspirações. Póde ser que, ao receberes esta
+carta, ella tenha já deixado o mosteiro pelas salas; e ámanhã deixará as
+salas pelo mosteiro. Paulina lê romances. Os personagens femininos, da
+novella moderna, são quasi todos a copia fiel da brilhante extravagancia
+do espirito. Leem-se, e a sympathia, em vez do riso, nos impressiona.
+Imitam-se, onde ha espaço, e é preciso te-lo, ainda assim, para as
+scenas grandiosas, que, a final, desfecham em tragedias que o mundo,
+futil e chocarreiro, denomina «comedias».
+
+«Na proxima carta me dirás o proseguimento d'esse estranho passo.
+Authoriso-te a dizer-lhe, tão directamente quanto puderes, que respeito
+em silencio todos os seus designios, e peço a Deus, que ao encontro
+d'elles, lhe saia o anjo da felicidade. Em quanto a ama-la, faz-lhe
+sentir que eu sou bastante desgraçado para não poder esquece-la.
+
+«Vou ámanhã ao Porto a fim de solicitar o embolso de algumas dividas de
+calçado que lá devem a meu pae as lojas que se forneciam de nossa casa.
+Tudo é necessario para ir custeando estas grandes despezas. Já vês que
+estou feito caixeiro de cobrança de uma loja de sapatos. Para bem
+desempenhar estas funcções, levo comigo as minhas cartas de bacharel
+formado em leis!
+
+«Vou ver as paragens onde vimos juntos a morte tantas vezes! Procurarei
+o rochedo das Antas, onde me encostei ferido no dia em que fui
+condecorado. Ama o teu camarada d'aquelles bons dias de sangue, de
+esperanças, de alegrias.
+
+ _Fernando._»
+
+DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES
+
+ Madrid, 25 de setembro de 1842.[2]
+
+«Meu amigo.
+
+«Bartholo de Briteiros está na eternidade. O marquez gallego foi o
+indirecto homicida do lambaz Briteiros! Houve jantar opiparo no hotel. O
+amphitrião recolheu-se pesado á cama, e, se adormeceu, acordou na
+eternidade.
+
+«Não fez testamento. Achou o conde umas declarações, ou norma de
+testamento, que dão noticia da grande fortuna de Bartholo. Orçam-n'a em
+seiscentos contos, em differentes especies.
+
+«Paulina saiu do mosteiro para a companhia de Eugenia. Fiz a minha
+visita de pezames ao conde, que me disse ir brevemente a Portugal
+liquidar a herança do sogro, e vae depois para França. É de suppôr que
+Paulina acompanhe a irmã.
+
+«Em vista do que, já não receio que a joven menina pereça no mosteiro.
+
+«Ninguem me tem fallado de ti. A tristeza de Paulina sei eu que é
+inalteravel.
+
+«Diz-me o que fazes: fala-me da tua familia. Teu sempre extremoso
+
+ _H. de Almeida_.»
+
+
+Nenhuma outra carta nos veiu á mão.
+
+Fernando Gomes, voltando do Porto com os creditos de seu pae liquidados,
+melhorou o pessoal dos operarios, e alargou o seu commercio, creando
+freguezias de lojas nas terras que percorreu. Em toda a parte encontrou
+condiscipulos, que se maravilharam de o verem agenciando os interesses
+d'uma loja de sapateiro. Deu isto em resultado que ninguem o visitou nas
+estalagens onde se aposentava.
+
+Francisco Lourenço mostrava-se penalisado de vêr seu filho occupar-se em
+tal mister, tão incongruente com sua educação. Reconhecia a iniciativa
+melhoradora do estabelecimento; mas, ainda assim, pedia-lhe
+incessantemente que requeresse um emprego, allegando sua instrucção e
+serviços.
+
+Fernando, submisso a seu pae, aos prantos da mãe, e meiguices das pobres
+irmãs, requereu, apresentou ao ministro seus papeis, foi tres vezes á
+audiencia geral do secretario de Estado, e esperou.
+
+De vez em quando ia examinar o seu nome no livro da secretaria, e lia
+sempre: ESPERADO.
+
+Este _esperado_ é regularmente o prologo do _indeferido_.
+Indeferiram-lhe o requerimento. O logar pedido na thesouraria fôra dado
+a um filho de regedor, que puzera ás ordens da situação oito votos e
+quatro cacetes, que valiam vinte e quatro votos.
+
+Fernando leu o despacho no _Diario do Governo_, leu os commentarios n'um
+jornal da opposição, e riu-se.
+
+Pegou na medalha de Torre e Espada, embrulhou-a n'um papel de
+mata-borrão, e enviou-a ao ministro, com esta carta:
+
+
+«Excellentissimo. As _honras_ a quem competem. Faça vossa excellencia
+presente d'isso ao meu feliz competidor. Ganhei essa coisa por ter suado
+sangue a favor d'esta causa em que o merito do cacete devia ser
+instaurado. O cacete venceu. Agora competem aos sacerdotes do pagode,
+que eu ajudei a erguer, as condecorações que nada prestam aos operarios
+inactivos. Eu, e o meu competidor, que ceifou o carvalho civico com o
+cacete paterno, o que fizemos foi derramar sangue de irmãos. Devemos
+hombrear nas honras. Ora, os arrependidos devem rejeita-las em favor dos
+contumazes. Deus guarde a vossa excellencia, como todos havemos mister,
+e de veras lh'o deseja o criado inutil de vossa excellencia, _Fernando
+Gomes_, com loja de sapateiro na calçada do Sacramento, n.º 11--Lisboa.»
+
+
+O ministro recebeu a carta e o embrulho. Pensou em autoar o signatario;
+mas o official maior pediu licença para observar a sua excellencia que a
+carta não encerrava injuria pessoal nem collectiva, salvo aos
+caceteiros, por cuja honra não ficava airoso ao ministro saír. Assim
+acabou o episodio.
+
+Fernando Gomes passou de agente exterior a fiscal da officina. Descia á
+loja, e examinava de perto a labutação; ajudava a encaixotar o calçado,
+e assignava, em nome de seu pae, a correspondencia com os freguezes. Os
+officiaes antigos respeitavam-n'o, dando-lhe sempre o epitheto de
+doutor. Ora o doutor um dia, alto e bom som, disse a todos os seus
+officiaes que se chamava Fernando.
+
+Esta metamorphose divulgou-se, contada pelos operarios. É admiravel que
+ninguem lhe désse grande peso! Muitos doutores disseram: «se elle viu
+que não tinha geito para mais nada, fez bem em se fazer sapateiro, assim
+como dizem que o pae se queria transformar de sapateiro em poeta».
+
+O mundo tem d'estes escarneos, que fazem vontade de perguntar ao Creador
+se está contente com a obra que fez.
+
+Á força de muito observar, Fernando já sabia talhar umas botas como se
+fosse creado no officio. Diante, porém, do pae não ousava fazel-o, nem
+os officiaes ousavam dizel-o ao velho. Parecia a Francisco Lourenço que
+o trabalho de talha andava muito supprido, e elogiava a actividade do
+contra-mestre encarregado d'aquelle serviço. Elle, por si, o pobre cego,
+nada fazia já.
+
+Fernando passava todas as noites em casa, ora contando á mãe e irmãs o
+que vira em suas viagens; ora lendo a seu pae os poetas relidos na
+infancia, e os livros de historia e viagens, que elle trouxera do
+estrangeiro. Estas leituras coavam calor de contentamento, a través dos
+setenta invernos de Francisco Lourenço, e embalavam o rebelde somno da
+mãe, que acabava por adormecer entre o seu rozario e uma descripção dos
+gelos polares por Cook.
+
+Esta vida durou assim seis mezes. É de crer que n'este espaço se
+trocassem interessantes cartas entre Fernando e o secretario da legação.
+Como as não alcançámos, o que podemos conjecturar é que Paulina se
+conservou em Madrid esperando que o seu saudoso amigo, alguma hora, alli
+voltasse, conduzido pelo amor, ou pelo pezar de tão dura ingratidão. Não
+sabemos se o conde veiu a Portugal liquidar o patrimonio de sua mulher,
+como Almeida annunciára. Se veiu, é muito de suppôr que ninguem em
+Lisboa lhe désse noticias do _chevalier Ferdinand Gomes_, como elle
+euphonicamente o conhecia.
+
+
+XXI
+
+Estava um dia, 5 de janeiro de 1843, Fernando Gomes na loja da calçada
+do Sacramento, aviando uma carregação de fazenda para o Porto.
+
+Antes de descer á loja, sua mãe, quando ia para a mesa do almoço,
+abraçou-se n'elle, e disse-lhe:
+
+--Olha Fernando, tu não crês em sonhos, e eu creio!... Tive um sonho
+alegre!...
+
+--Então sonhou que vendiamos algumas grozas de botas, minha mãe? Os
+nossos sonhos alegres não pódem ir mais além d'esta ambição de vender
+muito sapato.
+
+--Bemdito seja o Senhor, que nos ajuda, filho!--disse a velhinha.--Desde
+que tu diriges a casa, parece que tudo levou volta! Olha que teu pae já
+disse que, se assim continuarmos um anno mais, havemos de resgatar os
+nossos bemzinhos do Cartaxo.
+
+--Então sonhou, minha mãe, que estavamos outra vez proprietarios no
+Cartaxo?
+
+--Não foi isso, Fernando... Sonhei mais alguma coisa... Sonhei que te
+via vestido de principe.
+
+--De principe?! Ólé! de principe! Sabe o que deu causa a esse sonho?
+
+--Que foi, meu filho?
+
+--É porque hontem á noite estivemos a conversar a respeito do entrudo,
+que está á porta. A mãe adormeceu com a ideia do entrudo, e por isso
+sonhou que me via vestido de principe. Não foi outra coisa, minha
+querida mãesinha... Venha almoçar, que eu levo-a pelo braço, como em
+casa de Jeronymo Bonaparte levei uma vez a princeza Carolina.
+
+--Valha-te nosso Senhor! não me deixas dizer o meu sonho até ao
+fim!--tornou ella, dando-lhe uma fagueira palmada na face esquerda.
+
+--Pois o sonho estava no principio, minha mãe?
+
+--Estava... Credo!
+
+--Cuidei que o principe acabava principe. Querem ver que elle se fez
+sapateiro?
+
+As irmãs riram; e o velho, abrindo os seus grandes olhos cataratosos,
+largou tambem uma casquinada de alegre riso.
+
+Fernando temperou o chá de sua mãe, serviu o pae, e proseguiu:
+
+--Ora agora, ninguem a interrompe, mãesinha. Exponha lá as suas alegres
+visões.
+
+--Tu eras principe; ou estavas vestido de principe; mas, através do
+peitilho da farda, batido a ouro, via-se-te o coração. Quando tu assim
+estavas, começaste a chorar, porque descera do céo um anjo, e te levara
+o coração para Deus. N'isto appareces vestido de negro, muito pallido,
+menos no logar do rosto onde corriam as lagrimas, que brilhavam como
+diamantes. Quando assim estavas muito triste, e nós todos a chorar
+comtigo, torna a descer o anjo, e dá-te o coração, que te havia levado,
+dizendo-te umas palavras, que se me varreram da memoria. Eis se não
+quando, appareces vestido todo de resplendores de luz, com um semblante
+muito luminoso, e uma alegria, como a pintam no rosto dos
+bem-aventurados que adoram o Altissimo. Teu pae estava como absorto a
+olhar para ti, eu tambem, todos riamos e choravamos de felicidade, ao
+mesmo tempo, e n'este momento é que eu acordei.
+
+--Alegre sonho, minha mãe! disse Fernando. O que eu agora queria era que
+vocemecê me explicasse o como se ha de converter em realidade esse
+bonito vestido de resplendores.
+
+--Pergunta-o ao Senhor que me deu o sonho, filho, disse a mãe.
+
+--O seu chá arrefece, tornou Fernando, eu faço-lhe outra chavena.
+
+--Pois sim, meu querido filho; tem paciencia, que eu estou a tremer o
+queixo. A velhice parece que traz comsigo uma constante Siberia!
+
+--Vejo que ainda se lembra das suas lições de geographia, que o pae lhe
+dava ha vinte annos, minha mãe. Ainda sabe que a Siberia é fria!
+
+--Não, que tu cuidas que a velha ha de ser estupida por que é
+velha!...--disse ella risonha.--Olha que ainda ás vezes recordo os
+versos do nosso Bocage, e do nosso Francisco Dias Gomes. Este era do
+nosso sangue; o outro era do nosso coração, não era Francisco?
+
+--Oh! se era! estou-o vendo, como se fosse hontem, quando elle, na
+mercearia, a S. Sebastião da Pedreira, me improvisou os versos com que
+eu te venci, minha ingrata! Amaste-me por não poderes amar o Bocage, não
+foi? Ora confessa a verdade, que eu agora já não tenho ciumes...
+
+--Olha o tolo!--disse a senhora Maria Luciana, com a bocca cheia pelo
+bocado de pão, rebelde aos seus raros dentes.--Lá que os versinhos me
+encantaram, isso te juro eu que sim, Francisco... Não sei o que seria se
+me dissesses em prosa aquellas coisas... Tu eras tão acanhado quando ias
+lá a casa! Olha se te lembras que para me dares um raminho de violetas
+em dia de meus annos, andaste a pedir ao aprendiz, quinze dias antes,
+que m'o entregasse...
+
+Fernando e as irmãs sorriam, sem quebra de respeito, d'estas amorosas
+reminiscencias dos dois velhos, que trocavam gracejos, que era um como
+prazer de lagrimas ouvi-los, de lagrimas, digo, para ouvintes que
+tivessem coração muito sensivel ás poucas coisas commoventes que tem a
+vida humana.
+
+Findo o almoço desceu Fernando á loja, como já se disse começando este
+capitulo.
+
+Acabára elle de dar saída aos caixões de embarque, e outras ordens,
+quando Hypolito de Almeida apeou d'uma carruagem, com as cortinas
+corridas por dentro das vidraças.
+
+Fernando viu-o no limiar da loja, e correu a abraça-lo, exclamando:
+
+--Que surpreza! Eu não te esperava, meu querido amigo! Subamos á saleta.
+Deixa-me ao menos tirar esta jaleca!
+
+Almeida fitou os olhos no amigo do cêrco, de Coimbra, de Paris, de
+Madrid, e as lagrimas rebentaram-lhe a quatro.
+
+--Isso que é?--disse Fernando.--Que tens tu, Almeida?
+
+--Tenho a alegria, que precisa chorar como a dôr. A tua virtude causa-me
+uma vehemencia de respeito, de piedade, sensações tão estranhas e
+fortes, que me fazem isto que vês, estas não sei se primeiras lagrimas
+de minha vida. O que tu pudeste sobre ti, ó Fernando!
+
+Os officiaes pararam de trabalhar, enleados n'este lance, e chorando sem
+comprehender o alcance do que viam.
+
+--Subamos--repetiu Fernando commovido.--Vem dar um abraço em meu pae, em
+paga dos muitos abraços que tenho dado no teu.
+
+--Pois sim, vamos--tartamudeou Almeida, n'uma irresolução.--Vamos...
+tambem quero vêr tua mãe...
+
+Subiram, e os dois velhos vieram logo espontaneamente á saleta por
+ouvirem pronunciar o appellido _Almeida_.
+
+--É o amigo do nosso Fernando--disse Francisco--vem d'ahi, Maria! vem
+abraça-lo.
+
+Oh meu Deus! que magnificos lances preparam as vossas divinas leis!
+Quantas vezes, e quantos lances assim passam despercebidos na
+obscuridade onde vivem os vossos eleitos!
+
+Os dois velhinhos acharam-se nos braços de Hypolito de Almeida, que
+sentiu em suas faces as lagrimas de ambos. Fernando, electrisado por
+aquelle instante da vida do céo, beijou a mão do amigo, por que elle
+assim respeitava e amava seus paes humildes.
+
+Almeida parecia querer dizer alguma coisa que se lhe não moldava á
+expressão. Aquelle vacillar, e olhar d'um para outro rosto, o começar e
+recomeçar da phrase, terminou por esta abrupta pergunta á mãe de
+Fernando:
+
+--Minha senhora, quer ter a delicadeza de offerecer a sua casa a uma
+dama, que veio em minha companhia, e me está lá fóra esperando na
+carruagem?
+
+--É sua irmã, senhor Almeida?--perguntou a velha.
+
+--Não tem irmã--disse Fernando.--Será sua esposa. Queres surprehender-me
+com a tua noiva? é hespanhola?
+
+--Não é noiva--tornou o secretario--é irmã.
+
+--Irmã!--redarguiu Fernando com espanto.
+
+--Sim, irmã, porque tu és meu irmão.
+
+--Como?!--exclamou impetuosamente Fernando.
+
+--Vá, vá!--volveu Almeida--vá, minha senhora, offerecer a sua casa á sua
+filha Paulina, que vem aqui pedir-lhe a mão de seu filho!
+
+--Fernando já tinha corrido a escada abaixo; mas, a meia descida, parou,
+olhou para si, e viu-se n'aquelle traje. Hesitou instantes, e disse:
+
+--Porque não?! Ainda me torturas, miseravel vaidade!
+
+A mãe seguia-o de perto, ajudada por Almeida.
+
+Em seguida iam as duas irmãs de Fernando, cada uma com seu filhinho nos
+braços.
+
+Francisco Lourenço, que mal descortinava as escaleiras, ia mui de manso,
+tacteando o mainel da escada.
+
+Fernando abriu a portinhola da carroagem.
+
+Paulina saltou-lhe aos braços; e, antes de proferir palavra, rompeu n'um
+chorar e soluçar tão suffocante, que, nos braços dos dois e da velhinha,
+foi transportada para o pateo.
+
+Fernando ajoelhou á beira de Paulina, que recostava a face desmaiada ao
+seio de Maria Luciana. Uma das creancinhas, do colo de sua mãe,
+estendeu-lhe a mão a um dos anneis dos cabellos negros.
+
+Paulina abriu os olhos, e sorriu á creança, e apertou a mão de Fernando.
+
+Maria, com as mãos erguidas, murmurou:
+
+--É o anjo do Senhor que volta com o coração de meu filho. Vejo-te agora
+vestido de resplendores, Fernando!
+
+O moço lembrou-se do sonho de sua mãe, e respondeu beijando-lhe a mão.
+
+Ainda agora chegava Francisco Lourenço. Pediu que o deixassem approximar
+de Paulina, e disse com a voz convulsa de lagrimas:
+
+--Eu lhe agradeço, minha senhora! Eu lhe agradeço o bem que faz ao meu
+virtuoso filho. Deus a abençôe, santa, que soube avaliar os merecimentos
+d'este anjo. Deixe-me rojar as cans aos seus pés, que não ha desaire
+n'esta humildade do pobre velho, ainda que elle fosse um rei!
+
+Paulina abraçou-se expansivamente ao artista, e chamou-lhe pae.
+
+--Pae! meu Deus!--exclamou elle--Com que liberalidade me pagaes os
+padecimentos de alguns annos! Minha filha, que immensa alegria vem
+trazer a tantos que a pediam ao Senhor! Eu quero que meu filho sinta
+mais intensa felicidade que eu!...
+
+Paulina sahiu amparada ao braço de Fernando, e no pescoço de Maria
+Luciana. Entraram na saleta da livraria. Era a riqueza d'aquella casa.
+Sentou-se a ditosa na cadeira de Fernando, junto á meza onde elle fazia
+as suas leituras. Relanceou os olhos sobre a mesa, e viu na capa d'um
+grosso volume de papel almasso esta palavra--_Paulina._--
+
+Lançou rapida mão ao livro. Leu das ultimas paginas escriptas as linhas
+finaes, que diziam assim:
+
+
+«_Porque te vejo ainda, ó abençoado anjo do meu infortunio! Que luz é
+que tu me mandas em sonhos, se o meu despertar é sempre no meu abysmo de
+saudade?... Ainda te verei, ó Paulina?..._»
+
+
+Ergueu-se, escarlate d'alegria, o anjo abençoado d'aquelle augusto
+infortunio, abraçou Fernando com fremente ardor, e disse:
+
+--Pois não vim eu trazer-te a luz dos teus sonhos, meu querido Fernando?
+
+
+CONCLUSÃO
+
+Fernando Gomes não pedia explicações de sua felicidade a Hypolito de
+Almeida, nem a Paulina de Briteiros.
+
+Aquellas alegrias tinham ainda a vaga desconnexão d'um sonho.
+
+Os enlevos do presente não pedia ao passado a sua razão de existencia.
+
+Os paes, e as irmãs de Fernando, pallidas e melancholicas meninas, tão
+na madrugada da vida desgraçadas, pareciam estar agradecendo a Paulina o
+bem que fazia a seu irmão, unico amparo d'ellas.
+
+Almeida, quando pôde falar, sem desdizer da eloquencia das lagrimas da
+bem-aventurada familia, disse gravemente o seguinte:
+
+--Fernando, eu já te vi de joelhos aos pés d'esta senhora; mas não te
+ouvi pedir perdão...
+
+--Ah! exclamou Paulina, apertando ao seio Fernando para que has de tu
+ajoelhar-te? Não quero, meu querido amigo. A mais desgraçada não era
+eu!... Eu sabia que havia de encontrar-te, Fernando; tu é que não
+esperavas mais ver-me. Eras incomparavelmente mais atormentado que eu...
+
+--Mas, atalhou Almeida, vossa excellencia dá-me licença de expôr o
+relatorio conciso... (o _sizo_, n'estes relatorios d'amores, é
+extraordinaria coisa...)
+
+Fernando e Paulina sorriram com o secretario, que proseguiu:
+
+--Expôr o relatorio, dizia eu, dos imperiosos acontecimentos que me
+constituiram na gloriosa obrigação de ser o mais ditoso dos
+casamenteiros. Permitte vossa excellencia?
+
+--Se fôr sempre engraçado como começa, consinto, disse Paulina.
+
+--Como hei de eu ser engraçado contando uma historia de lagrimas, minha
+senhora?
+
+--Então não diga, não diga; eu contarei tudo ao meu Fernando. São poucas
+palavras, meu amigo; é uma só palavra... _amava-te_; mas o teu Almeida
+foi um barbaro! Sabia as minhas angustias, e deixava-me morrer.
+Mandei-lhe pedir do convento, tantas vezes, que me dissesse em que ponto
+da terra eu poderia encontrar-te!... Por fim calei-me, e esperei acabar
+alli, e deixar-te uma lembrança que havia de vingar-me... Não
+recordemos... não queiras que eu recorde o que soffri, até á hora em que
+me vi livre para te procurar... Aqui estou, Fernando... É a segunda vez
+que te procuro... D'esta vez não me deixes mais sair do abrigo da tua
+grande alma...
+
+Não sei se o prolongar o colloquio d'estas felizes creaturas seria dar
+ao leitor um quinhão do contentamento d'aquella familia; o que
+certamente me dispensam, é preambular para chegarmos ao ponto do
+casamento.
+
+Almeida, n'este mesmo dia, voltou com a licença do patriarcha para os
+esposorios se celebrarem logo, onde aprouvesse aos contrahentes, dentro
+do patriarchado.
+
+Paulina quiz ser recebida na egreja onde fôra baptisada, e onde estava a
+sepultura de sua mãe. Do templo de Santa Izabel passaram a visitar, nas
+Amoreiras, o palacio onde Paulina tinha nascido.
+
+--Pedia-te--disse ella a Fernando--que ficasses aqui, e a nossa familia
+toda. Vê tu como em vinte e quatro horas o nosso bom Almeida fez mobilar
+esta casa, ha nove annos deshabitada! Meu pae não consentiu nunca que
+vivesse alguem na casa onde minha mãe tinha morrido... Olha, Fernando,
+n'este quarto morreu ella e nasci eu!...
+
+Desceram ao jardim. Lá estavam os canteiros, mas nenhuma flôr das que
+ella memorava com infantil saudade em Florença.
+
+--Ellas renascerão!--disse Paulina.--Nós teremos as minhas flôres,
+Fernando! Serão os meus enfeites nos dias memoraveis de nossos prazeres
+e amarguras! Na felicidade deve ser tão doce recordar os gosos como as
+lagrimas...
+
+A familia de Fernando aposentou-se no palacio das Amoreiras. A loja da
+calçada do Sacramento fechou-se, depois que Francisco Lourenço andou
+repartindo por asylos, e cadeias, e familias pobres, a fazenda com que
+ia recomeçar a prosperidade do estabelecimento.
+
+O primeiro e unico desgosto que assaltou, de surpreza, Fernando Gomes,
+foi quererem os governos faze-lo por força visconde. O ministro que, á
+conta da remessa da medalha e da carta memoranda, o quizera metter nas
+garras da justiça, era o mais pertinaz thuribulario do homem que, um
+anno antes, fôra vencido em concorrencia com o filho do regedor. O
+ministerio estava entalado entre o Banco de Portugal e a divida activa,
+e a divida passiva, e a divida fluctuante. Fernando Gomes era convidado
+a salvar a ordem e as liberdades patrias, mediante cincoenta contos,
+garantidos pelas contribuições directas, indirectas, quinto para
+amortisação, real de agua... garantiam-lhe os cincoenta contos até com
+os brilhantes da corôa, se elle pagasse á guarnição do Porto, que
+ameaçava sublevar-se. Fernando Gomes teve pejo de ser portuguez, e
+respondeu que pagaria os direitos do viscondado se o dessem ao sobrinho
+do regedor, o qual sobrinho do regedor--diga-se aqui de passagem--chegou
+a ser visconde, sem que ninguem lhe pagasse os direitos.
+
+Francisco Lourenço morreu em 1848, e a senhora Maria Luciana dois annos
+depois.
+
+Tão ditosos lhes correram estes ultimos annos da existencia, que mais
+parece que os anjos vieram a traslada-los de um céo para outro.
+
+Gracinda e Genoveva educaram seus filhos na abundancia e melindre com
+que foram educados os de Paulina. Entre a filha do nobilissimo Briteiros
+e as empobrecidas filhas do artista, nenhuma estrema observavam os
+servos e a sociedade. As pompas no trajar eram eguaes, e raro se
+encontrava uma sem as outras nos bailes, onde Fernando ia por comprazer
+com sua mulher, e ella por comprazer com as invenciveis prescripções do
+mundo.
+
+Eugenia passava em Paris os invernos, e alguns passou em Lisboa. Todas
+as damas bem sorteadas em felicidade conjugal, poderiam inveja-la, menos
+Paulina. A condessa de Rohan dizia que, a não o ter, teria pedido a Deus
+um marido como o de sua irmã.
+
+São volvidos vinte annos. Paulina deve ter quarenta. É ainda uma
+d'aquellas privilegiadas formosuras, que Deus faz e conserva para que a
+adoração dos esposos não afrouxe nunca. Fernando Gomes, a orçar por
+cincoenta e dois annos, promette prolongada vida: a alegria do coração,
+e da consciencia é muito na pureza do sangue, no equilibrio nervoso, e
+n'esta suprema felicidade humana chamada saude, isto havemos de
+inferil-o da nenhuma concorrencia de medicos e padres ao palacio das
+Amoreiras.
+
+Quem alli é certo, todas as noites, é Hypolito de Almeida, conde de S.
+Salvador, par do reino, ministro de estado honorario, e padrinho dos
+dois filhos de Fernando. Como é riquissimo e solteiro, espera-se que os
+afilhados lhe succedam na herança.
+
+A um seu amigo contou o conde de S. Salvador que, um d'estes ultimos
+dias, Fernando Gomes descia a calçada do Sacramento com sua mulher e
+filhos. Em frente da loja onde morou Francisco Lourenço, parou Fernando,
+chamou os filhos, e disse-lhes:
+
+--Vosso avô foi cincoenta annos sapateiro n'esta casa. Se alguma vez o
+orgulho vos quizer perder, vinde aqui, e lembrae-vos que vosso honrado e
+santo avô foi cincoenta annos sapateiro n'esta casa.
+
+E voltando-se a Paulina, disse-lhe:
+
+--Lembras-te, filha?... Ha vinte e dois annos, feitos em cinco de
+janeiro, que tu apeaste n'este mesmo sitio... Foi aqui... Minha mãe e eu
+levámos-te em braços para aquella pobre salinha dos meus livros.
+Recordas-te, Paulina?
+
+A senhora, com os olhos turvos de lagrimas, apertou a mão do marido, que
+lh'a beijou sem pejo de seus filhos.
+
+
+Ha um annexim, que diz:
+
+PROCURAR AGULHA EM PALHEIRO.
+
+É baldado empenho?
+
+Pois eu assevero que, uma vez, procurei uma, e achei-a!
+
+E, desde então, com a minha infinita paciencia, acho tudo que quero,
+n'este palheiro da humanidade, mórmente quando os individuos, que
+procuro, teem devorado a palha, e se me apresentam a nu,--coisa que me
+tem acontecido mais vezes do que mereço a Deus.
+
+Agora não espero achar tão cedo sujeito como Fernando Gomes.
+
+Paulinas de certo ha muitas. As senhoras, em geral, são, como ella,
+todas, todas, quando encontram homens como aquelle.
+
+Nós, miseraveis despotas e miseraveis escravos, é que as fazemos más ao
+parecer do mundo; mas na pureza de sua essencia, na angelica porção que
+trazem do céo, não podemos nós corrompel-as.
+
+Se não, corrompiamos.
+
+Ó santas do infortunio, vós sois, no juizo de Deus, como as santas da
+virtude!
+
+
+FIM
+
+ [1] Dizia assim:--«Guarde o seu segredo; mas diga ao seu amigo que
+ ainda o amo, e cada vez mais o admiro. Peça-lhe que me accuse,
+ para eu poder defender-me. Pergunte-lhe se eu mereço tal desprezo!»
+
+ [2] Fernando recebeu, voltando do Porto, em começo de outubro, esta
+ carta, com atrazo de oito dias.
+
+
+
+
+
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+
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+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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