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diff --git a/27541-8.txt b/27541-8.txt new file mode 100644 index 0000000..78ba03e --- /dev/null +++ b/27541-8.txt @@ -0,0 +1,6029 @@ +The Project Gutenberg EBook of Agulha em Palheiro, by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Agulha em Palheiro + Quinta edição + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: December 16, 2008 [EBook #27541] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AGULHA EM PALHEIRO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + + +Notas de transcrição: + + + [A] Nesta 5ª edição desta obra detectámos uma falta de texto muito + significativa. Parece ter sido removida por descuido do editor, e + por isso resolvemos adicionar no local próprio o segmento em falta. + Usámos para o efeito o texto da 2ª edição, de 1865, sem alteração + ortográfica. Para evidenciar esta alteração marcámos o segmento de + texto inserido com entre as marcas [A] e [B]. + + Foram ainda encontrados diversos erros de impressão, que por não + terem qualquer impacto na interpretação do texto, foram corrigidos + sem qualquer nota. + + + + +Obras + +de + +Camillo Castello Branco + +Edição Popular + +XXII + +AGULHA EM PALHEIRO + + + + +VOLUMES PUBLICADOS + + I--Coisas espantosas. + + II--As tres irmans. + + III--A engeitada. + + IV--Doze casamentos felizes. + + V--O esqueleto. + + VI--O bem e o mal. + + VII--O senhor do Paço de Ninães. + + VIII--Anathema. + + IX--A mulher fatal. + + X--Cavar em ruinas. + + XI e XII--Correspondencia epistolar. + + XIII--Divindade de Jesus. + + XIV--A doida do Candal. + + XV--Duas horas de leitura. + + XVI--Fanny. + + XVII, XVIII e XIX--Novellas do Minho. + + XX e XXI--Horas de paz. + + XXII--Agulha em palheiro. + + + + +_CAMILLO CASTELLO BRANCO_ + + +AGULHA EM PALHEIRO + + + + +_Quinta Edição_ + + +LISBOA +Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA +LIVRARIA EDITORA +_Rua Augusta, 50, 52 e 54_ +1904 + + + + +LISBOA +Officinas Typographica e de Encadernação +Movidas a vapor +_Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º_ +1904 + + + + +DEDICATORIA + + +Ao poeta das creanças, das flores, do Amor, da Melancolia e dos desgraçados + +AO ILL.mo E EX.mo SR. + + +ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO + + +Honra da Patria, honra dos que o prezam, e amam a Patria + + +OFFERECE + + +O AMIGO, O RESPEITADOR, O DISCIPULO MAIS DEVEDOR + +_Camillo Castello Branco._ + + + + +DUAS PALAVRAS + +A primeira edição d'este romance saiu de uma typographia do Rio de +Janeiro. Parece que houve proposito em desdourar os prelos brasileiros! +Poderá parecer tambem que se intentou desdourar o auctor; mas semelhante +suspeita não vingaria, attendendo a que não é coisa verosimil alguem +escrever assim. O que mais depressa poderia crer-se seria que o +escriptor mais fleumatico morresse de fulminante desgosto, vendo a sua +obra tão damnificada, e suja de todas as nodoas, para lavagem das quaes +se crearam as quatro partes constitutivas da grammatica. + +Imprime-se o livro, como o auctor escreveu o manuscripto, e chama-se +_segunda edição_, porque o titulo e substancia da obra está no livro +publicado no Brasil. + + +Porto, janeiro de 1865. + + + + +AGULHA EM PALHEIRO + + +I + +Em 1803, o sapateiro de Manuel Maria Barbosa du Bocage era Francisco +Lourenço Gomes, estabelecido na calçada do Sacramento, em Lisboa. + +Francisco Lourenço era, n'aquelle tempo, rapaz de dezoito annos; mas, +por sua muita esperteza e actividade, merecera que o pae lhe confiasse a +gerencia da loja, grandemente afreguezada. + +Os poetas notaveis do tempo calçavam todos de casa de Francisco +Lourenço; um só, porém, o maioral de todos, o repentista Bocage, calçava +gratuitamente. + +Os coevos do poeta recordam-se de o terem visto quasi sempre mal +entrajado de casacas, pantalonas e chapéos: mas, no tocante a botas, +dizem todos que o vate Elmano primava em aceio, e raro dia saía á rua +com ellas sem muito lustro de fina graxa. + +Este accidente da vida de Bocage, omittido nas biographias do immortal +improvisador, escriptas por Castilho e Rebello da Silva, tive eu a +fortuna de apanha-lo casualmente. Assim, pois, se explica a distincção +das botas de Manuel Maria entre as dos seus collegas e rivaes do +botequim Nicola: Francisco Lourenço, o sapateiro dos casquilhos +d'aquelle tempo, era amante de versos. Principiára saboreando as trovas +chôchas de José Daniel; e ditosa correra a vida pedestre ao infausto +poetrasto, em quanto a admiração do sapateiro lhe foi prodiga de botas; +quando, porém, o moço ouviu Bocage improvisar na festividade de +Corpus-Christi, fatal hora badalou para o auctor do _Almocreve das +Pêtas_, que nunca mais encontrou graça no seu Mecenas de bezerro e sola. + +O enthusiasta de poesia presenteou Bocage com umas botas, e a quitação +de dois remontes que lhe devia. O poeta, não vezado a taes galhardias do +vulgo profano, posto que a pouco mais subisse a capacidade do _claro +auditorio seu_, retribuiu a generosidade do moço com prosa chan, mas +muito mais sincera e cordeal que os versos. + +Francisco tomou a cuidado seu mandar todas as manhãs buscar o calçado do +poeta predilecto, e devolver-lh'o brunido e lustroso como um espelho; e, +apenas as solas se gretavam ou os saltos iam entortando, logo novas +botas, em fazenda e feitios primorosas, iam saudar o vate acordado para +um novo dia dos seus desvairados prazeres de praças e tavernas. + +A repetição d'estes brindes abriu, no animo generoso e popular do poeta, +as portas á confiança timida do artista. Francisco Lourenço teve a honra +de almoçar com Bocage no _botequim das Parras_, e d'aqui sairam juntos a +jantar n'uma horta do Campo-Grande, onde Elmano, fiel aos seus usos e +costumes, bebeu á tripa fôrra, e poetou, consoante o auditorio lhe +beliscou a musa escandecida. + +O sapateiro, instigado por sua doce embriaguez, que era suave e honrada +embriaguez do amor casto a uma prima, revelou ao poeta a sua paixão, e +pediu-lhe umas quadras natalicias para festejar os annos da sua amada. +Esta confidencia rebentou do coração do moço alli pelas alturas de S. +Sebastião da Pedreira. Bocage, sem mais averiguações, entrou n'uma +tenda, pediu papel, disse a Francisco Lourenço que escrevesse, e +improvisou torrentes de quadras que extravasaram da folha de papel +almaço. O sapateiro amante chorava de alegria; e o especieiro ficou +pasmado e maravilhado de ter tido em sua loja o famoso poeta, que era o +esfarrapado idolo do povo, como todos os idolos do povo, que assim os +quer esfarrapados, ou tarde ou cedo os esfarrapa, se elles lhe cáem nas +mãos bem ageitados. + +Francisco Lourenço, ao despedir-se do poeta, que ia passar a noite em +casa do marquez de Anjeja, delicadamente lhe introduziu na algibeira do +collete uma peça. Que bizarria de animo! Uma peça seria hoje o primeiro +dinheiro que um editor portuguez offereceria a Bocage pela propriedade +de um volume! + +Bem empregados seis mil e quatrocentos réis! A prima de Francisco, ao +ver-se cantada assim, e, de Maria que era, transformada em _Marilia_, +ganhou ao primo tamanho amor, que logo d'ali esqueceu sagradas +promessas, que fizera a outro; e tanto foi, que, estando ella a bordar +um coração varado por duas settas em cruz, com o intento de mandal-o ao +rival de Francisco, o symbolico lencinho, dias depois, estava em poder +do primo, que o beijava em transporte de jubilo. + +Bocage via a seus pés o mais ditoso dos amantes confessando que aos seus +versos devia a immensa felicidade, que lhe não cabia no peito. Esta +situação, grata ao genio, reaccendeu-lhe o estro em novas flammas. Um +soneto divino caiu no coração do reconhecido moço, que foi logo d'ahi +leva-lo ao coração de Marilia. + +Esta menina era filha de um colchoeiro da rua Augusta, filha unica, e +esperançada em bom patrimonio--que seu pae, tio materno de Francisco +Lourenço, passava por abastado. Além d'isso Maria Luciana era +galantinha, arranjadeira de casa, prendada, e amiga de ler livros de +devoção, e o _Almocreve das Pêtas_, e o _Anatomico jocoso_, obras do +engenho humano, que o bom do colchoeiro pasmava de ouvir, e, com as mãos +nas ilhargas, era todo elle então uma risada, que não ha conta-lo. + +Depois, porém, que Maria Luciana lera os dois poemas de Bocage, que lhe +diziam respeito, o seu poeta valido era o grande cantor, e os livros ao +divino pareciam-lhe coisa de moer a paciencia. A reformada creatura, +quando a mãe lhe tirava das mãos as rimas de Bocage, e a obrigava a lêr +o _Retiro espiritual_ e a _Novena de Santa Ursula_, zangava-se tanto lá +no seu interior, que chegava a duvidar que Santa Ursula e sua mãe +tivessem senso-commum! + +Não desagradava ao colchoeiro o sobrinho. Seu cunhado, além da +acreditada loja na calçada do Sacramento, possuia no Cartaxo uma +quintinha de recreio e algumas terras lavradias, e vinhedos herdados e +adquiridos pelo officio. O rapaz desempenhava, em annos verdes, o bom +governo da loja, e mostrava tendencias a ganhar freguezia de gente +limpa, com quem elle se relacionava. Porém, estas boas predisposições +eram rijamente contrariadas pela funesta noticia, que lhe chegara aos +ouvidos, e vinha a ser: o escandalo de ter ido o moço algumas vezes +almoçar ao botequim das Parras, em companhia de poetas! Esta reluctancia +durou dois annos, ou mais; mas, a final, como quer que Maria perdesse a +saude e amarellasse, o colchoeiro, que não tinha outra filha, deixou-a +casar, dotando-a com seis mil cruzados. + +No fausto dia do casamanto, Francisco Lourenço foi convidar Bocage para +jantar em sua casa. O poeta estava enfermo; prometteu ir n'outro dia, se +não morresse d'aquella aneurisma que o tinha nos umbraes da eternidade. +As portas da eternidade, porém, estavam a abrir-se, n'aquella hora, ao +mais inspirado e desditoso genio que ainda viram portuguezes, sendo +tantos os inspirados e desditosos á competencia de desgraça com elle! + +Poucos dias depois, n'esse anno de 1806, morreu Bocage. + +Francisco Lourenço chorou-o, como se ás lavaredas d'aquelle incendio +d'alma tambem elle tivesse aquecido os embriões do seu talento. O +artista não era poeta, nem tinha o parvulez de crer-se tal porque +adorava Bocage. O que elle tinha era a paixão do bello, com a entranhada +magua de não ter sido educado e guiado por aquelle rumo de magestosa +desgraça. Bem sabia elle que Luiz de Camões morrera sem lençol em que +amortalhar-se, e Antonio José da Silva n'uma fogueira, e Maximiano +Torres nos presidios da Trafaria, e Garção na cadeia, e Quita na +indigencia, e Bocage no desamparo. Sabia-o, e invejava a brilhante +desdita de taes destinos, ao passo que os grandes de entendimento +rojavam aos pés dos grandes da fortuna seu ignobil servilismo para não +emparelharem na invejavel miseria com os Camões e os Bocages. + +Quando acontecia Francisco Lourenço dar largas a sua candida alma, +lamentando o mau fim dos grandes espiritos em Portugal, os freguezes, +que o ouviam, disfructavam-n'o, como hoje se diz, e iam chancear á custa +do sincero artista. A voga, que lavrou da sua mania lamuriante, +grangeou-lhe freguezia. Os peraltas e piza-verdes iam, acintemente, ás +chusmas tomar medidas de botas, buscando azo de o moverem á costumada +dissertação. Muitos o ouviam discorrer tão de sizo em tal materia, que +saiam mais commovidos que dispostos a motejarem a louvavel sensibilidade +do moço. Aos mais intimos ou mais velhacos recitava elle as quadras +natalicias, que Barbosa du Bocage improvisara em S. Sebastião da +Pedreira, e o soneto posterior, ao qual o coração de sua mulher de todo +em todo se rendera. Estes eram os que divulgavam, como ridicula, a +confidencia do sapateiro; e nunca lhe perdoaram ter elle na sua sala, +impressa em pergaminho, e encaixilhada em retabulo dourado, a estrophe +do epicedio a Elmano, por Francisco Manuel do Nascimento, que dizia +assim em linguagem de anjos: + + «ELMANO! oh! VATE! A abelha em teu moimento, + Sempre o seu mel componha! + Manná dos céos, e balsamos da Arabia + Alli distillem; louros enverdeçam, + Heras, nevados lirios! + Basto rosal, com mil botões o abrace! + Mangerona, tomilho e a flôr vermelha + Que annuncia em queixumes + De Ajax a dôr, n'um ai tinto em seu seio! + Do Sado as Nymphas, nymphas do aureo Tejo + E as indicas Nereas + Com lagrimas a campa lhe humedeçam!» + ............................................ + +Francisco Lourenço recitava com lagrimoso enthusiasmo estes versos, e +como thema os tomava para maldizer a nação e o governo que deixavam +morrer de fome de pão e da patria o auctor de tão doridos queixumes, o +exilado Filinto Elysio. E d'isso riam os casquilhos, os miseraveis cujo +nome ninguem sabe, e cujos netos a gente não conhece, quando os topa ahi +por esse Chiado e Rocio, cascalhando, com seus avós, umas risadas +alvares, unico symptoma de vida intellectual que dispensam n'esta sua +pasagem sobre o globo, que é d'elles e das moscas. + +O pae de Francisco Lourenço afez-se a ouvir o filho fallar de poetas, e +achava-lhe razão. Ouvia-o queixar-se da nenhuma educação litteraria que +tivera, e sentia sinceramente não ter aproveitado as tendencias de +Francisco. Dizia elle: + +--Olha, rapaz, eu tinha um parente, que ia muito bem com a sua vida, em +quanto olhou pela loja de mercearia que seus paes lhe deixaram. Depois +assentou o pobre Francisco Dias Gomes em se fazer poeta, e deixou ir o +negocio pela agua abaixo, a ponto de deixar para ahi a familia pobre. As +obras d'elle andam impressas por esse mundo á custa da academia; mas +isso não remedeia, em quanto a mim, a pobreza da familia. Ora eu, como +tinha este exemplo na familia, resisti á tua e á minha inclinação. Achei +que o melhor era dar-te o officio que me deu a mim muito trabalho com +bom estipendio, e vida socegada. Já agora, Francisco, o remedio é +conformares-te com a tua sorte. Se gostas de ler, lê, que eu não te levo +isso a mal; mas bom será que olhes sempre para o essencial, que é a +loja. Deixa-te de acamaradar com gente de outra laia, que a final ha de +dar-te mau pago. Trago cá as minhas desconfianças de que muitas pessoas +veem aqui fallar comtigo em poesias, e vão lá para fóra zombar de ti. +Eu, que t'o digo, é por que alguem m'o disse. Lê os teus livros no teu +quarto; mas na loja, se alguem te fallar em versos, fala-lhe tu em +botas. Cada qual no seu officio. Ora agora, como estás casado e pódes +ter filhos, farás o que melhor entenderes: educa-os como quizeres, que +eu, graças a Deus, hei de deixar-vos o necessario para fechardes a loja, +e cuidar n'outro modo de vida. + +Desde este dia Francisco Lourenço comediu-se nas palestras litterarias. +Os disfructadores deram tento da reforma, e foram rareando a pouco e +pouco. Se o provocavam a discorrer sobre Camões, Bocage ou Filinto, o +ajuizado Francisco lançava mão da craveira, e dizia: + +--Já não conheço de versos; agora o que sei é medir pontos de pés. + +--Spondeus ou dactilos? atalhou um faceto de mais presumido chiste. + +--Pés de toda a casta, replicou Francisco, pés mesmo dos que são a +quatro em cada sujeito, como posso provar a vossa senhoria. + +O farçola entendeu que o sapateiro lhe chamava quadrupede: suspeita bem +cabida, mas não cabalmente averiguada. + +O certo é que este freguez deixou de o ser de Francisco Lourenço; e +outros de sua roda se afastaram tambem, visto que o mestre se esquivava +a ser pasto de seus ocios. + +Que selvagens tempos aquelles! + +Francisco Lourenço, se vem cincoenta annos depois, sem embargo de ser um +habil sapateiro, poderia entrar dignamente na republica das lettras: +começaria versejando, em solteiro, estas faceis quadrinhas, cheias de +fogo e alma, com que todos os marechaes das lettras velaram as armas, ao +vestirem-se cavalleiros para a crusada da civilisação. Depois escreveria +o seu folhetim, variado em côres, como um mosaico de differentes +linguas, e com atrevimento de idéas, que forçariam a critica a +qualifical-as de originalidades. Francisco Lourenço teria uma luneta, um +charuto, e um bigode encerado, e uma esquina alli no largo de Camões +onde encostar os hombros, vergados sob o peso da cabeça prenhe de idéas. +Depois, naufragado o coração, Francisco Lourenço iria salvar a +humanidade, com o seu septicismo, nas regiões da politica. Faria, +portanto, a um tempo botas para os pés, e sciencia para a cabeça da +humanidade. Se absurdos fados o bafejassem, Francisco Lourenço subiria a +ministro, e ninguem lhe perguntaria d'onde veio, nem a tripeça ainda +quente lhe seria desdouro. Esta é a unica vantagem que a civilisação tem +trazido para a fusão dos homens n'um só principio derivativo do pae +commum. Cá, tanto faz vêr do acume das grandezas cair um homem no raso +da lama, como erguer-se da lama um homem ao mais culminante da escala +social. Ninguem se espanta, nem sequer pára a discutir estes vulgares +accidentes da reformação social. + +Isto assim é que é bom. + + +II + +Posto que a leitura lhe deliciasse muitas horas do dia e noite, +Francisco Lourenço cuidava attentivamente no bom regimen de sua casa. +Era elle quem talhava a obra superior, e a distribuia aos officiaes, +quem recebia as damas freguezas, e com muito bom modo satisfazia seus +caprichos. Os dias sanctificados passava-os com sua mulher e pae no +Cartaxo, onde ia formando deposito de livros, _amigos da velhice_, como +elle dizia. Tencionava Francisco ir lá passar o ultimo quartel da vida, +empregando-a, sem outras distracções, no enlevo dos bons auctores que ia +conhecendo. + +A carinhosa esposa ajustava perfeitamente com os prazeres intellectuaes +de seu marido. Nunca elle descobriu pagina de livro encantador que a não +lesse a sua mulher. Como não tinham filhos, sobejavam os ocios do +arrumamento das coisas domesticas. Maria sentava-se a costurar, nas +noites de inverno ao lado da banca de seu marido. Elle recitava com +emphase, e ella chorava ou admirava-se com delicado sentir do coração ou +espirito. A _Cantata de Dido_, a pagina mais maviosa entre as mais +inspiradas da poesia portugueza, já ella a sabia de cór, á custa de +ouvi-la e honra-la com as suas lagrimas. Ouvira ella ler todos os poetas +nacionaes antigos e do seu tempo, excepto José Agostinho de Macedo, que +Francisco aborrecia por ter sido o detractor de Camões, e o émulo +atrevido e torpe de Bocage. O artista, quando acertava de encontrar o +frade graciano, sentia calafrios na espinha; e, segundo elle dizia, +vontade de escorchar com um pontapé aquelle ôdre de vinho e peçonha. + +Em 1816, dez annos depois de casado, Francisco Lourenço agradecia a Deus +a felicidade do primeiro filho, quando o já não pedia nem esperava. + +--Ainda estou em edade de poder educal-o, e vel-o homem--disse o festivo +pae a sua mulher.--Tenho vinte e nove annos: quando meu filho tiver a +minha edade, posso ainda viver, como vive meu pae, sadio e robusto. Já +sei para quem estou enriquecendo esta livraria. A minha velhice ha de +ser um descançar em leito de rosas. Irei d'este mundo, deixando na alma +de meu filho uma boa porção da minha essencia. + +Não deve o leitor duvidar d'esta linguagem levantada em bocca do +artista. As mais vulgares e rasteiras coisas da vida, naturalmente, se +haviam vestido, em seu espirito, com as galas da poesia, cujo perfume +lhe rescendia em tudo. O seu permanente privar com poetas, ou com a +natureza, mãe de todos, e mais mãe dos que a amam sem lhe devassarem os +segredos, necessariamente influenciariam a singela alma do homem, que +para sentir vibrar as cordas todas da poesia, estava nos primeiros +arrobamentos de pae. + +Por esse tempo falleceu o velho Lourenço e o pae de Maria. A herança de +ambos daria sobeja independencia a Francisco; porém, a existencia da +creança, dilatando o alcance das ambições paternas, desviou-o do antigo +proposito de passar a loja, e ir viver folgado em sua quinta. Um filho é +realmente um aguilhão que aperta os temperamentos mais desleixados em +grangeio de bens de fortuna. Já lhe queria parecer a Francisco Lourenço +que quarenta mil cruzados em propriedades era pouco patrimonio para o +seu Fernando; e quando bastasse a um filho, quem saberia os filhos +porvindouros? Se fossem mais de quatro, reflectia o pae, pouco menos de +pobres ficariam todos. Entendeu, pois, em proseguir no trabalho, +afanar-se cada vez mais, encurtar as horas de leitura, e augmentar o +numero de officiaes, a fim de exportar calçado para o Ultramar. + +No anno seguinte nasceu uma menina, e outra no anno immediato. Sem +querer desagradecer a Deus, Francisco desgostou-se da duplicada mercê +das meninas. Andava elle scismatico e melancholico a escogitar no futuro +que havia de preparar a suas filhas. O bom homem cuidava que sem +educação scientifica ninguem podia ter futuro; e lamentava não poder +crear suas filhas, pondo o fito nas Bernardas Ferreiras de Lacerdas e +Violantes do Céo, litteratas famosas que o leitor conhece. Acudia a +senhora Maria Luciana ás tristezas de seu marido, dizendo-lhe que as +meninas podiam ser freiras, e instruirem-se no seu convento. Isto +consolava as tristes apprehensões do pae; mas era ainda pouco para +allivial-o do desgosto de não ter filhos, que podessem ser tres grandes +poetas, ou, ao menos, tres sabios que é um grau de sciencia muito mais +facil de attingir, no voto d'elle, e no meu tambem. + +Fernando, aos quatro annos, frequentava as primeiras lettras; aos nove +annos estudava latim com admiravel intelligencia; assim, até aos +dezeseis, cursou humanidades, no intento de ir graduar-se a Coimbra. + +N'esta edade Fernando conhecia os poetas latinos e portuguezes: lia uns +com seu pae, e traduzia-lhe os outros, explicando os pontos obscuros de +Horacio e Ovidio. + +Grande era o dissabor do moço, quando vinha das aulas, e via, atravez da +vidraça que abria para o pateo, seu pae talhando o bezerro de umas botas +ou o duraque de uns sapatos. Ia elle ter com sua mãe, e pedia-lhe que +aconselhasse o pae a passar a loja, e remediar-se com o bastante, que já +tinham para viverem em decente mediania. A boa mãe não se esquivava de +pedir tal coisa; mas admoestava Fernando a evitar quanto podesse +mostrar-se envergonhado do officio de seu pae. + +O imprudente moço não deu o devido peso ás reflexões da mãe, e insistiu +no seu desgosto e rogos. Bem póde ser que os condiscipulos lhe atirassem +á cara, como despique de inveja dos progressos d'elle, o seu nascimento +humilde. Aquelles tempos eram infamados com muitos exemplos d'este +barbaro quilate. Á peonagem nem a muita riqueza a salvava dos remoques +da fidalguia. Nos collegios, os mestres eram os primeiros a darem o +exemplo das preferencias. A applicação no moço da baixa tracção era +menos louvada que a preguiça no escolar de familia illustre. Este +escarneo do Evangelho chegava até Coimbra, onde se degladiavam primazias +de nobreza, e só com muita paciencia para ultrages e desprezos, +conseguia formar-se o filho do artifice, que não se abalançava a entrar +em communhão de sciencia com os privilegiados da boa fortuna. + +É, pois, de crêr que Fernando Gomes, matraqueado pelos condiscipulos, +desejasse que seu pae levantasse mão do officio de sapateiro, que mais +que outro qualquer--sem podermos dar razão do porque--se presta á +zombaria nas facecias dos chocarreiros. + +Aventurou-se, um dia, Fernando a pedir ao pae que fechasse a loja. + +--Porque?!--perguntou Francisco Lourenço. + +--Porque...--tartamudeou o filho--se meu pae quer formar-me... não me +parece... + +--Diz, homem!--acudiu o pae á indecisão de Fernando, com semblante +transtornado--não te parece o que? + +--Que seja bom ter loja de... + +--De sapateiro?... parece que te custa a dizer a palavra _sapateiro_! +Sapateiro, sim!... Queres tu dizer que te envergonhas do officio de teu +pae? + +Fernando baixou os olhos e não respondeu; mas o silencio era, no caso, a +mais eloquente das confirmações. + +--Está bom--disse Francisco--descança que se ha de remediar tudo o +melhor que puder ser. Hoje não vaes á aula. Amanhã falaremos. + +Francisco Lourenço fechou-se no quarto com sua esposa, e, antes de +referir o que passara com o filho, rompeu n'um choro soluçante, que a +consternada mulher não sabia como explicar nem consolar. + +Falaram largo tempo. O marido saíu de melhor sombra. Maria chamou +Fernando e disse-lhe: + +--Deus te perdôe o mal que fazes a teu pae! Eu não quiz dizer-lhe que +fechasse a loja, e tu commetteste a imprudencia de lh'o dizer!... +Fernando, d'esta vez vali-te; mas não caias n'outra. Olha que teu pae é +tão bom como severo. Segue a carreira que elle te dá, e deixa-o lá com a +sua vida. Cuidas que teu pae acha prazer em estar na loja a trabalhar? +Enganas-te. Bem sabes quanto apaixonado elle é de livros. Se trabalha, +para ti é, e para tuas irmãs. O que temos seria bastante para um, se +tivesse juizo; mas seria quasi nada para tres filhos. Tu não has de +querer ser doutor, e ver tuas irmãs sem nada. Vae á aula; e, se alguem +te disser que és filho de sapateiro, responde-lhe tu que tens muita +honra em ser filho de quem és... Póde ser que os fidalgos, que t'o +disserem, te devam a ti o par de botas que trazem ... + +Estas judiciosas razões não consolaram a Fernando. + +A resposta foi um calado despeito, e uma visagem de desdem, que Maria +viu com os olhos humidos. + +Decorridos poucos dias, Fernando foi ter com sua mãe, e disse-lhe que +não tornava á aula, porque os seus condiscipulos o vexavam. Descendo a +explicar o vexame por miudos, disse que o filho do conde de tal, zangado +com elle por ter-lhe corrigido um theorema de geometria, lhe replicara +qual era a figura geometrica de uma tomba; e se as entrecospias em +logica pertenciam ao dilemma. A mãe não conheceu o travôr do epigramma. +Chamou o marido, e quiz que o filho repetisse o conflicto diante de seu +pae. Francisco ouviu-o, doeu-se, dissimulou o pesar, e disse-lhe: + +--Irás frequentar outra aula. + +--Acontece-me o mesmo em toda a parte, contrariou Fernando com certo +desabrimento deshumilde.--Emquanto o pae estiver n'este modo de vida, +hei de ser enxovalhado por todos os condiscipulos, tanto monta em +Lisboa, como em Coimbra. + +--Está bom, disse serenamente o pae. Eu vou pensar e resolverei. + +A resolução foi prompta. Francisco Lourenço entrou no quarto onde +Fernando estudava, e disse-lhe: + +--Arruma esses livros, que já te não servem de nada. És sapateiro como +teu pae e teu avô. + +Fernando perdeu a côr, e quasi o sentimento. Francisco Lourenço saíu, e +foi verter torrentes de lagrimas no seio da mulher, exclamando a +intervallos: + +--Lá vão todas as minhas esperanças!... Assim havia de ser, porque ouvi +a voz da minha vaidade, e nunca me lembrei que um filho podia ter +vergonha do officio do pae... Vê tu, mulher, que soberba maldita eu +andei gerando e engrossando no animo d'aquelle rapaz! Se eu lhe désse +largas, onde iria dar comsigo tamanho orgulho! Ahi tens tu a sciencia a +desnaturar-me um filho!... Santo Deus! Bem m'o pregava meu bom pae!... +Quantas vezes lhe ouvi dizer que eu, se fosse um sabio, me correria de o +vêr a elle na baixa condição de sapateiro!... Não posso nem devo +consentir que meu filho se deshonre por amor da sabedoria... Se a +sociedade o vexa, paciencia; que fuja da sociedade. Eu antes o quero +sapateiro honrado, que filho infamado pela ingratidão. Façamos um homem +de bem, e os nobres que façam os sabios ... Mas é dôr, é uma grande +afflicção, ter de renunciar ao proposito de tantos annos! É por isso que +eu choro ... e bem vejo que é fraqueza chorar! Tenho pena d'elle; +tenho-a de véras... mas só assim é que eu posso resgata-lo das mãos do +mundo, que m'o ha de perder! + +Maria Luciana tentou demover a intenção do marido com razões, e mais que +tudo com lagrimas. Lembrou ella que o mandassem logo para Coimbra, onde +os condiscipulos o não conheciam. Este remedio azedou mais a ferida do +artista. + +--Pois eu, exclamou elle, hei de estar evitando que o meu nome seja +conhecido?! Hei de esconder-me para que meu filho se não envergonhe? Hei +de recommendar a Fernando que não diga em Coimbra quem é seu pae, ou +consentir que elle me negue para ser mais bem recebido? Que respondes, +Maria? ... + +Não respondeu nada a pesarosa mulher. A dizer a verdade, com que +argumentos responderia ella, sem molestar-lhe o espirito? O ponto mais +sensivel da questão era a dignidade do homem mecanico, trabalhando para +engrandecer o filho. Se este desejo e afan lhe era deslustrado por +desprezo do seu mister, qual gloria lhe restava? Quem lhe asseverava a +elle que o filho, mais tarde, fugiria d'elle como d'um estorvo ao seu +maior engrandecimento? + +Não obstante, Maria chamou o filho, e mandou-o pedir perdão a seu pae, +se não queria ir para a loja trabalhar com os officiaes. + +--E porque não hei de eu ir?!--respondeu placidamente Fernando, com +grande assombro da mãe.--Eu não tenho vergonha de ser sapateiro. Quero +sê-lo quando m'o chamarem. + +--E não te importa o tempo que perdeste a estudar, Fernando?--tornou a +mãe, commovida pela briosa resolução e desapego do filho. + +--Não perdi de todo o tempo: serei um sapateiro illustrado como meu pae +o é. Antes isso. Terei horas de estudo e horas de trabalho. Não receio +que me humilhem na loja. + +Fernando, obedecendo aos novos impulsos do momento, não sabia bem o que +dizia, nem, a menos que a natureza se não houvesse singularisado n'elle, +devia insistir muito tempo em pontos de tão isempta grandeza de animo. + +N'aquelle mesmo dia desceu á officina, e disse ao pae que lhe talhasse o +seu serviço. O pae encarou n'elle com muita amargura e disse-lhe: + +--Vá para cima! + +Os officiaes olharam-se com espanto, como adivinhando a significação +d'aquelle incidente. Fernando, desde a idade de nove annos, nunca +descêra á casa de trabalho, nem trocára palavra com algum dos officiaes. +Estes, por ironia, e lá muito em secreta maledicencia, denominavam-n'o o +_fidalguinho_, e riam á sucapa, quando, atravez das portas envidraçadas, +o viam passar no pateo sem lhes virar um canto de olho. + +A situação de Francisco Lourenço era afflictiva. A corajosa apresentação +do filho desarmara-lhe a tal qual ira, que elle muito precisava azedar +com a rebeldia, para tirar a limpo o seu plano. Pensava elle que o +estudante recebera aterrado a nova: não se enganou; mas longe estava de +cuidar que a reacção do brio o determinasse a acceitar sem custo um +tirocinio de sapateiro. A verdade é que ambos estavam enganados: o pae +com a franqueza do filho, e o filho com a sua propria coragem. + +Não sabia Francisco que dizer nem fazer. Evitava encontrar Fernando; mas +forçoso era verem-se á mesa da ceia. O artista não poude engulir bocado. +Maria ensopava o lenço em lagrimas. Fernando, grave, mas não triste, ia +comendo, segundo o seu costume, e fazia o prato de suas irmãs, extranhas +ás amarguras dos paes. + +Quando as meninas, depois de darem graças a Deus, se retiraram ao seu +quarto, Fernando disse com muita brandura: + +--Porque hão de estar tristes?! Eu já disse á mãe que acceito qualquer +posição que meu pae me der. Estou muito em tempo de aprender o officio: +se meu pae não quer que seja o seu, indique-me outro. Vou sem saudades +dos livros, nem pesar de esperanças perdidas em grandezas do mundo. + +--Mas envergonhas-te de ser filho d'um homem do povo!--atalhou o pae. + +--Não me envergonho: vocemecê não entendeu bem a minha magua. O que eu +não posso supportar são as zombarias dos meus condiscipulos, que por +força me hão de encher de fel o coração, e fazerem-me mau. Qualquer que +seja o officio mechanico que me derem, viverei com os meus eguaes, e +poderei distinguir-me d'elles com a minha instrucção, sem que ella me +faça alvo dos seus motejos. Isto é o que eu desejo e penso. + +--Tens dezesete annos, Fernando!--disse o pae--É tarde para recomeçares +nova carreira. + +--Eu me applicarei para ganhar tempo. Não lhe dê isso cuidado, meu pae. + +--E queres ser sapateiro? + +--Serei... + +Como este SEREI foi dito! Que livro eu tenho debaixo d'aquella palavra! +Que volume de psycologia, de physiologia de coração, de philosophia +transcendental, de tudo quanto ha ahi attinente ao homem, eu era capaz +de extrahir d'aquelle SEREI! Da accentuação que Francisco Lorenço deu á +palavra _sapateiro_, tambem podia formar-se outro volume psycologico, +physiologico, um tractado completo do espirito homem em todas as suas +variantes desde a sinceridade do santo, até á ironia do demonio de +Goëthe, que era o mais argucioso e ironico argumentador, que o inferno +cá mandou, depois dos enviados que prégaram a distincção entre homem e +homem! + + +III + +Aquelle dia e o seguinte passaram em indecisões do pae e do filho. +Fernando esperava as ordens, sem ousar abrir um livro. A pobre mãe +andava, de um para outro, a negociar a reconciliação: ao marido dizia +que Fernando não podia nem devia retroceder: ao filho prégava-lhe +sermões de paciencia para tolerar os ditos dos companheiros de aula, e +ter bastante vaidade de ser filho de um operario honrado. O certo é que +Maria com os seus sermões conseguiu revirar o animo do filho a tal +ponto, que o moço, olhou em si, e viu-se ridiculo por dar tamanho pêso +ás chufas dos condiscipulos. + +_O que a mulher quer, Deus quer_: é o titulo de um livro francez, que +póde ser um proverbio em todas as linguas. Francisco Lourenço, com os +seus assomos de louvavel dignidade, ia transtornando a carreira do +filho, tão de longe pensada e afagada; ora Maria Luciana, em termos +brandos, com o imperio de lagrimas, com aquelle feminil despotismo que +tudo amolga e dobra, mais cedo do que devia esperar-se, reduziu o filho +á rasão e consciencia de verdadeiros brios. + +Não contente ainda, levou Fernando a pedir perdão ao pae de o ter +magoado com as suas vaidosas queixas, promettendo honrar-se em confessar +por si mesmo, e com orgulho, o officio de seu pae. + +Francisco Lourenço resurgiu do seu quebranto, chorou mais doces +lagrimas, e perguntou a Fernando se elle queria ir logo para Coimbra, e +concluir lá os estudos preparatorios. + +Fernando mostrou desejos de ir, e logo os satisfez. + +Não comprehendia a mãe como pudesse ir sósinho, por esse mundo além, um +menino de dezesete annos! Queria acompanhal-o, estar lá algum mez a +ordenar-lhe a casa, ou esquadrinhar familia que lh'o recebesse e +tratasse. Fernando, já sciente do que era vida de estudante, dissuadiu a +mãe do seu proposito, e prometteu regular-se de modo que nem o +desaconchego o molestasse, nem seus paes se arrependessem de o deixarem +ir entregue a si mesmo. + +Fernando tomou casa em Coimbra, e viveu sósinho, e arredado de todo o +concurso de academicos. Esta soledade não era de genio nem gosto. Embora +tivesse elle dito que se honraria de confessar cujo filho era, manda a +minha fidelidade de historiador asseverar, que o moço se esquivava dos +condiscipulos folgasãos para forrar-se á contrafeita honra de se +apregoar filho d'um sapateiro. + +Poucos dias depois de sua estada em Coimbra, organisou-se o batalhão +academico para ter parte na guerra da restauração. Fernando Gomes +alistou-se sem licença de seu pae. A bandeira hasteada era a da +liberdade. As doutrinas proclamadas eram as da egualdade. O filho do +artista sympathisava com a causa ventilada desde 1820. Ouvira desde +creança citar os egregios nomes de Ferreira Borges e Fernandes Thomaz, +arvores frondosas de civilisação, regadas com o sangue de Gomes Freire, +e de outros martyres iniciados da revolução. Execrava as forcas +hasteadas no Porto, tres annos antes, e em Lisboa, para o supplicio dos +academicos. Além de tudo, acorçoava-se do intimo rancor que votava a +fidalgos, por ter sido victima dos escarneos d'elles nas aulas de +Lisboa. Sobejava-lhe causa a justificar o enthusiasmo com que pediu uma +espingarda, e, primeiro que nenhum, se fardou, e impacientou com a +demora da primeira batalha. + +Maria Luciana, quando tal soube, quiz ir em cata do filho: o marido +antecipou-a no intento, e foi a Coimbra. O batalhão academico ia já +marchando caminho do Porto. Francisco Lourenço retrocedeu para Lisboa, +cogitando em mandar soccorros a Fernando. + +Devemos conjecturar, sem receio de erro, que o desembarque do libertador +no Mindello fôra saudado de todo o coração do amigo de Bocage. Francisco +Lourenço, com quanto arredado da phalange dos poetas mortos no começo +d'este seculo, embriagou-se no ambiente d'elles, e bebeu a sorvos a +liberdade nos hymnos propheticos dos timidos evangelisadores, que a não +viram, senão ao longe na inundação sanguinea da França, e nas victorias +de Bonaparte, que abrazavam allumiando ao mesmo tempo. Bocage devia de +muitas vezes romper em apostrophes contra os frades que o viam amansado +nos carceres da inquisição, e nos cubiculos conventuaes. Póde ser que o +humilde amigo do poeta, em expansivas horas, merecesse a confidencia das +amarguras que ennoitaram o melhor da vida do alquebrado espirito de +Elmano. Se isto não bastasse a acrisolar o coração do homem do povo, +quer-me parecer que o velho odio a José Agostinho de Macedo--energumeno +panegyrista das forcas--bastaria a fazer d'elle um acerrimo _malhado_. + +Em quanto a mim, Francisco Lourenço abençoara secretamente a deliberação +de Fernando; e, se foi a Coimbra, o intento de tal ida por certo não era +estorvar-lhe o ir onde o melhor da mocidade academica levava suas forças +de alma, e o prestigio da intelligencia, com que muito se move e reanima +a força material das massas. Póde ser que o artista levasse recheadas as +algibeiras de peças para fornecer o moço, e preparal-o para as +contingencias de emigração. Esta hypothese dá em certeza, quando vemos +Francisco Lourenço empenhado com uma casa mercantil ingleza para fazer +chegar ás mãos do filho avultada quantia, que o moço recebeu com alegres +hymnos á liberdade ... e ao dinheiro tambem. + +Fernando Gomes, em todos os recontros com o inimigo, deu provas de +grande e imprudente coragem. Foi duas vezes ferido, e muitas vezes +obrigado por disciplina a retirar do fogo. N'aquellas vertigens de +bravura, que tanto pódem ser desprezo da vida, como culposa ambição de +gloria, nenhuma consideração de obediencia o retinha em seu posto. Lá, +os camaradas, denominavam-n'o o _pequeno diabo_, termos que se +conformavam com a pequenez e magreza do seu corpo. O imperador já o +conhecia de vista e de nome: muito fôra preciso para realçar entre +tantos bravos, saídos dos bancos escolares, e quasi todos a competirem +em intrepidez com José Estevão de Magalhães, aquella vivida lampada que +ainda hontem se apagou no altar da patria, se é que das cinzas d'elle a +arvore da liberdade não tem sempre de haurir seiva para reflorescimentos +novos. + +Terminada a guerra nas provincias do norte, Fernando Gomes, condecorado +com o habito da Torre e Espada, foi a Lisboa abraçar sua familia, e +seguir as manobras do exercito que rebatia o assedio de Lisboa. + +Depois da convenção de Evora-Monte, e de todo apaziguada a guerra civil, +Fernando tornou para Coimbra a começar sua formatura em direito. + +Proclamada a egualdade, extinctos os privilegios, rotos os diques que +estancavam as prerogativas das raças nobres, e derramado o thesouro das +coisas boas á vida por todos os homens indiscriminadamente, era de +esperar que Fernando Gomes se désse por contente de ter nascido filho de +um sapateiro, visto que o sapateiro ficava social e legalmente egualado +ao titular. Tambem assim o esperava o, ha pouco, valente soldado das +linhas do Porto, e, agora, desvelado e distinctissimo soldado nas lides +da intelligencia! + +Sublime engano! + +Os seus mesmos camaradas, quer invejosos da condecoração, quer da +intelligencia, uns com outros celebravam sarcasticamente os triumphos do +filho do mestre Francisco Lourenço. Os conterraneos diziam que as suas +melhores botas as deviam ao engenho do sapateiro-poeta da calçada do +Sacramento; os provincianos, pela maior parte oriundos de uns fidalgos +de meia-tigela, como lá dizem uns dos outros, não apertavam, sem +repugnancia, a mão de Fernando, nem se detinham a falar com elle, quando +podiam ser vistos e censurados pelos academicos de Lisboa. + +Isto acontecia um anno depois da restauração dos direitos do homem! +Trinta annos já rodaram sobre esse facto de ridiculas convenções, e o +filho do sapateiro é ainda hoje, e o mesmo será d'aqui a cem annos, um +conviva chamado pela lei a sentar-se á mesa universal; mas a lei é uma +tola: lá está o fiscal d'estas universaes communhões, que tranca os +cancêllos do banquete, e diz ao filho do sapateiro o que já Horacio lhe +dizia: _ne sutor ultra crepidam_; ou _tractent fabrilia fabri_, que tudo +quer dizer: «não se admittem sapateiros cá.» + +Fernando recalcava em flagellador silencio o seu pesar. Nem mesmo a sua +mãe se abria. Quando esta lhe perguntava que tratamento recebia de seus +condiscipulos, o academico respondia: + +--Tratam-me bem. + +--Os tempos mudaram--accrescentava o pae. + +--Mudaram; os homens é que não--dizia Fernando; e de salto, aventava +assumpto que désse córte na conversação penosa. + +Proseguiu o moço em sua formatura, e concluiu-a com ser premiado no +ultimo anno, como em todos tinha sido. + +Suppunha Francisco Lourenço que seu filho, notavel pelos serviços +prestados á restauração, e por seus premios, fosse chamado ás funcções +da republica, sem que as elle solicitasse. Decorreram mezes, sem que o +correio de algum ministro batesse á porta de Francisco Lourenço a +procurar da parte de seu amo o valente e intelligente bacharel. + +O artista, de véras offendido de tamanha incuria, queixou-se d'isso ao +filho. Fernando sorriu da boa fé e crença de seu pae, e disse-lhe que +estava sinceramente arrependido de não ter renunciado ao estudo, quando +chegou a descer á loja para sentar-se entre os officiaes. + +Este arrependimento, sincero ou não, desgostou o pae, e toldou-lhe o +rosto de tristeza inconsolavel. + +Fernando foi ao Cartaxo, onde Francisco Lourenço tinha o melhor da sua +livraria, comprada em nove annos com dispendiosa liberalidade de +bibliómano. Como o local era triste, e a bibliotheca mui convidativa, o +bacharel alli passou um anno, quasi só, raras vezes visitado por seus +paes. Leu muito, leu tudo, e ardeu em desejos de ir vêr os locaes +descriptos nos livros de viagens, e os monumentos perpetuados na +historia. Virgilio e Dante deram-lhe o amor ás ruinas da Italia, Byron +ás da Grecia, Lamartine, Chateaubriande e Volney ás do Oriente. + +Pediu a seu pae moderados recursos para viajar dois ou tres annos. +Francisco Lourenço, antes do filho lh'os pedir, quizera offerecer-lh'os, +pesaroso de o ver assim solitario, e receioso d'algum funesto resultado +em tão contumaz estudo. Deixa-lo ir, porém, custava-lhe a vida; e a +estremosa mãe, quando era consultada a tal respeito, dava o seu parecer +com lagrimas. + +Aos rogos de Fernando nenhumas razões empeceram: Maria Luciana transigiu +com o assentimento do marido. + +Os recursos pedidos eram muito inferiores á liberalidade com que o pae +lhe estipulou o dispendio de dois annos, confiando-lhe, afóra isso, +ordens de quantias indeterminadas. Tal confiança era bem cabida no moço, +que durante a guerra e a formatura, cerceara, ainda de suas mesadas, +economias com que comprava livros de recreio. + +Sahiu Fernando por França em direitura á Italia. Deteve-se em Roma +alguns mezes, que lhe pareceram rapidos e deleitosos. Ninguem o +conhecia; a ninguem procurava. Sósinho, de ruina em ruina, vivia com o +passado, e dava pouquissima de sua admiração ás grandezas do presente. +Conversava com Ovidio em Sulmona, com Virgilio em Mantua, e com Horacio +em Tibur. Deliciavam-no mais as ruinas do theatro de Marcellus, que as +pompas do Vaticano. Qualquer estatua mutilada, extrahida das escavações +dos esboroados templos dos idolos, lhe tomava mais espirito e +contemplação que as obras primas de Miguel Angelo. + +Encontrava portuguezes emigrados n'aquellas paragens, onde D. Miguel de +Bragança procurava hospitalidade á sombra da theara pontifical. O +principe de Portugal, com quanto convisinhasse do Vigario de Christo, +que tem as chaves do céo, não sabemos se teve fome: as chronicas +contemporaneas dizem que sim. O successor de S. Pedro de certo lhe +emprestaria as chaves do céo, se sua alteza quizesse para lá ir, as +chaves porém, dos reaes celleiros e cofres, essas é que decerto lhe não +emprestou. Os papas dão muito mais facilmente as ambrosias celestiaes, +que umas sopas diarias aos principes proscriptos. + +Não sei se Fernando Gomes pensava n'isto quando via o senhor D. Miguel +de Bragança, e um emigrado portuguez lhe dizia que o rei não tivera com +que comprar leite para o almoço d'aquelle dia. O emigrado que estas +miudezas referia era um major Pacheco, que seguira o seu soberano, +espontaneamente, desde o embarque até Roma. Casualmente o encontrara +Fernando por lá escondido nos pardieiros da Roma dos Cezares, ou +meditando nas virtudes de Tito, ou nas cruezas de Nero. Qualquer das +meditações frisariam como o infante desterrado, que uns chamavam-lhe +Tito, e Nero outros, posto que elle não fosse uma nem outra cousa: era +apenas uma creança, quando rei; e um instrumento cego em mãos de togados +infames, de prelados devassos, e de fidalgos estupidos. Desde que o +raio, forjado ao fogo da civilisação e na bigorna mysteriosa do tempo, o +fulminou a elle e aos seus, o filho de Bragança ficou sendo um +desgraçado digno de respeito, de commiseração, e de real parentella mais +compassiva e generosa. + +Ora vejam em que ladeira eu ia escorregando agora: Ahi está o meu pobre +romance guindado a umas alturas de transcendental politica, d'onde se +lhe não acudo, o coitado vinha abaixo estoirar n'alguma estrondosa +parvoiçada! E tudo isto veio assim de seu natural. Por amor d'aquelle +major Pacheco de Lobrigos que Fernando Gomes topou lá n'umas ruinas do +Colyseu, ou cousa assim. E insisti n'este ponto, porque eu conheci em +Villa Real, ahi por 1847, este major que voltara de Roma poucos mezes +antes, e andava esmolando pelo Douro, com as suas barbas apostolicas, e +grandes oculos de metal branco. Depois tornei a vel-o, estendido na +estrada que conduz de Villa Real a Chaves, traspassado por duas espadas, +e com a cabeça fendida até aos dentes. Fôra assim espedaçado pelas +hostes do conde de Vinhaes, que mais acima mandou espingardear o general +miguelista Mac-Donell, a cujas ordens andava o major Pacheco. + +E como quer que este ancião assim espostejado, e sepultado no adro d'um +presbyterio contiguo á estrada, deixasse uma filha linda e pura como um +anjo, e esta filha enlouquecesse de dôr, escrevi eu n'estes tempos uma +elegia em prosa muito dorida, a qual publiquei no _Nacional_ do Porto. +Em tão má hora dei a lume este testemunho de minha compaixão por os dois +infelizes, que ambos jaziam mortos, e não sei qual d'elles mais +cruelmente morto, em tão má hora digo, que se pude sair vivo das garras +dos sicarios, mui pouco catholico sou em me não ter pesado a cera, e +converter esta cera em cirios, e adornar com estes cirios o altar das +liberdades patrias! + +Agora é de mais! + + +IV + +Transferiu-se Fernando Gomes á Grecia. Estanceou com o seu Homero e +Byron de um a outro padrão das fabulosas façanhas, historiadas em +Thucidides e Plutarcho. Viu Grecia degenerada escrava, e de todo perdida +para a resurreição da sua dignidade. Não teve um suspiro que lhe désse +em hemistichio de ode, ou decima de hymno, como toda a gente faz quando +carpe um povo cancellado do mappa das nações livres. «Nações +livres!--dizia entre si Fernando Gomes.--Eu sei cá o que são livres! nem +homens livres! Liberdade de morrer de fome, em toda a parte a ha, graças +a Deus e ao progresso! Poemas ao trabalho e ao artista, em toda a parte +se escrevem, graças á metrificação e aos especuladores ociosos, que +deificam o suor e as mãos calosas, sentando-se em espaldares flacidos, e +vedando o accesso de seus gabinetes aos operarios suados, calejados e +sujos! Em toda a parte se mantem em nome da liberdade, e se chora em +nome da servidão! Oh! meus pobres gregos, deixai-vos viver e morrer em +vossa lethargia, que, se sacudires o torpôr de sobre o peito, virão +depois uns próceres e éphoros, como os antigos, que vos hão de uns pôr o +pé no peito desentorpecido, para subirem ao ponto donde vos atirem para +baixo com muita injuria e muito desprezo da vossa ignobil raça de servos +redimidos por elles!» + +Assim devia falar comsigo e com os gregos o nosso viajante. + +Mezes depois, temos Fernando em Paris, onde o senhorêa profundo fastio. +Muito especial devia ser a compleição de moço de vinte e seis annos, que +se anojava em Paris! + +Passou á Allemanha, marinhou os pincaros da Suissa, e desceu outra vez á +Italia, fatigado d'alma e corpo, triste como um desterrado, saudoso do +seu Cartaxo, saudoso de paes e irmãs; porém sem forças com que aproar no +rumo da patria. + +Estava em Florença: restavam-lhe dois mezes dos dois annos concedidos. +Releu Virgilio e Dante, Petrarcha e Tasso, os seus amigos de Italia, os +seus guias e commensaes, as pallidas sombras que o seguiam até ás +regiões convisinhas do sepulcro, ás tenebrosidades mysteriosas do sonho. + +E hei de eu acreditar (diz a leitora que sabe o que vale) hei de eu +acreditar que Fernando não encontrasse nos mais formosos pontos do globo +as mais formosas creações do universo? Não viu elle uma ou cem +mulheres... (cem _senhoras_, emendarei eu, se vossa excellencia +permitte) ou cem senhoras que o tirassem pelos cabellos d'essa +escuridade de alma em que o exquisito moço se engolfava com as pataratas +dos Virgilios e Dantes, e outros que taes pesadelos de um espirito que +almeja diffundir-se e embeber-se nas delicias da poesia, tres vezes +santa, do bello ideal!? + +Respondo: tem vossa excellencia razão de estar assim pasmada do homem: +eu tambem, com quanto já saiba a preceito o que é pão bolorento por +dentro e cordas de viola por fóra, começava a espantar-me, justamente no +ponto em que vossa excellencia fez favor de interromper-me. + +Não ha duvida nenhuma: a cousa é muito para assombros. Bravia é a arvore +que aos vinte e seis annos não floresce nem fructifica! Anasada alma +deve ser essa que se dispende toda em extasis de livros velhos e paredes +velhas, e historias revelhas, que nem recontadas por Michelet ou +Castilho se podem aturar. Com um homem assim o romance era impossivel. +Quem houvesse de descreve-lo, iria na piugada d'elle por esse mundo +fóra, onde ha plinthos e peristylos derrocados, e confundi-lo-ia com +algum troço de columna corynthia ou jonica. Fernando seria empolgado +pela caterva empedernida dos antiquarios, que dariam com elle n'este +museu de Lisboa, onde não ha nada que o valha, a não ser o titulo do +edificio, que é museu de si mesmo. + +Estava eu, pois, a despenhar-me com o meu estylo espalmado na voragem +dos escrevedores malditos da paciencia humana, quando, n'estes +apontamentos que me dirigem, encontro o capitulo intitulado: PRIMEIRA E +ULTIMA PAIXÃO DE FERNANDO GOMES. + +Primeira e ultima! exclamei. Não gosto d'isto! Com uma só paixão hei de +eu encher duzentas paginas! Uma só paixão, n'estes nossos dias, em que +vinte e quatro horas bastam para o prologo e o epilogo da tragedia, se é +tragica a paixão! + +Comecei a lêr desanimado; cobrei esperanças no segundo capitulo; ao +terceiro obrigar-me-ia, sendo preciso, por escriptura, a escrever dois +volumes; ao quarto fechei o manuscripto, e coordenei os apontamentos +pelo theor seguinte: + +Demorava em Florença uma familia portugueza, expatriada por affecta á +realeza absoluta. Compunha-se esta familia de pae e duas filhas. O +emigrado era um ex-desembargador do paço, ministro da Alçada, que +assignara o accordão de pena ultima comminada aos academicos de Coimbra +que, em 18 de março de 1828, mataram, no Cartaxinho, os lentes Matheus +de Sousa Coutinho, Jeronymo Joaquim de Figueiredo, e feriram outros que, +no dizer do accordão, _iam beijar a mão ao serenissimo senhor infante +regente pela sua feliz chegada a estes reinos_. + +Bartholo de Briteiros se chamava o realista. Uma das meninas era +Eugenia, e a outra Paulina. Em quanto á linhagem, estude quem quizer a +origem dos Briteiros, que ha de encontra-la desde logo que as aguas do +diluvio universal se recolheram ao centro do globo, e consentiram que os +casaes contidos na arca procreassem os Briteiros e outras familias do +mesmo tamanho genealogico. No que toca a riqueza, dizia-se que Bartholo +possuia, em cada provincia de Portugal, duas, e tres e mais quintas: o +que eu não averiguei por me parecer desnecessario. + +O emigrado vivia regaladamente na Praça do Dome, o mais vistoso local de +Florença, servido de muitos creados, em palacio exornado de primosas +alfaias e baixella. O _vassallo_ de D. Miguel de Bragança pompeava +faustos de rei, em quanto seu _senhor_, o tão chorado principe dos seus +amigos, mendigava em Roma. Este contraste offerece um lado de muita +philosophia, que eu me dispenso de explanar por ter muito amor a quem me +lê, e me não lerá, se eu me entro a enredar em camisa de onze varas... +(Cá em Portugal já se não diz varas: é _metros_: camisa de quinze metros +e vinte e cinco centimetros, corresponde a isso; por causa da metromania +não se ha de perder o anexim que é expressivo). + +Escreve Méry a respeito de Florença: «Não me espanta que proscriptos e +exilados, violentamente arrancados aos costumes de suas patrias, se +lancem nos braços d'aquella Florença, que é mãe commum dos que padecem, +e para todos se desentranha em palavras consoladoras...» E n'outro +relanço das suas _Noites de Italia_: «Entende-se facilmente que homens e +mulheres de alto porte, condemnados a exularem, pelo infortunio d'esta +epocha tão atormentada, confluam a Florença de todos os pontos da +Europa. O exilio aqui é menos penoso: não será paradoxo termos em conta +de exilados todos os que vivem longe d'aquella cidade.» + +Bartholo de Briteiros, guiado pelo instincto, e não pelos viajantes--que +o magistrado não lia viajantes--deu comsigo na formosa Toscana. + +Estanceavam por lá, em 1834, polacos proscriptos e muitos refugiados +nobres da França, cujos exforços se mallograram na Vendéa. O palacio +Orlandini, onde residia o principe de Monfort, irmão mais novo do +imperador Napoleão, era o receptaculo de todos os proscriptos illustres, +em nascimentos, artes e sciencias. + +Bartholo de Briteiros, tinha a illustração triplicada da fortuna. Era +notorio que elle mobilara faustosamente um palacio campestre em _Poggi +Bonzi_, e d'alli saia de passeio, em graciosa berlinda, com suas filhas, +a _Val d'Arno_, á _Poggia Imperiale_, e a quantos pontos convergia a +nobreza toscana. + +Isto lhe dera renome e accesso aos palacios Orlandini, Ricchardi, +Strozzino. + +A formosura das filhas contribuia não pouco para a consideração que o +pae gosava. Eram duas gemmas inestimaveis que sobredouravam a +hypothetica riqueza do fidalgo portuguez. A mais nova era Paulina; quem +perguntava porém qual das duas fosse a mais velha? Cada uma estava +n'aquelle desabotoar de florescencia, e irradiação de graças, que seriam +delicias da vida humana, se cada mulher bella assim, ao tocar os +dezesete annos, alli ficasse, inamovivel, indestructivel, perpetua +imagem do anjo, dominadora do tempo, e assim de gala, para entrar com +todo o viço de sua formosura, e esplendor de encantos, em corpo e alma, +na gloria do seu Creador. + +A mãe d'estas duas meninas morrera aos vinte annos, quando, em Lisboa, +reinava como primeira em belleza. Os dois seraphins, que deixara no +berço, conforme iam crescendo, recebiam do céo os dons soberanos que sua +mãe levara. Aos quatorze d'uma, e quinze annos d'outra, dizia-se que a +mãe não fôra mais linda que ellas. + +O desembargador desvelara-se medianamente na educação litteraria das +filhas. Era elle homem de poucas lettras, e muito dado aos ocios de uma +certa ignorancia, que é o supremo bem d'este mundo pelas muitas e boas +horas de lerda pachorra em que a alma se embala no regaço d'ella. +Briteiros sabia de jurisprudencia o necessario para convencer-se do +pouquissimo que necessitava saber um magistrado palaciano, bemquisto +para as alçadas, e braço inflexivel para hastear patibulos. Chamado +sempre para mordomar n'estes festins de cannibaes, o amigo do throno e +do altar via em si um homem dos antigos tempos, e gloriava-se. A juizo +d'elle, os homens dos tempos antigos, eram os romanos, que condemnavam á +morte os filhos, se o bom regimen da patria o requeria. Não cuidem, +porém, que o austero Bartholo de Briteiros frouxamente acariciava as +filhas, ou as affastava de si como cousas incompativeis da gravidade do +seu funccionalismo e meditações. O contrario, de todo em todo. Brincava +com ellas; com uma em cada braço, em quanto meninas até aos nove annos, +andava de sala em sala, e assim recebia as mais circumspectas visitas. A +orçarem por senhoras, nem assim as desquitava da obrigação de brincarem +com elle: escondia-se nas dobras dos reposteiros, e queria que o +andassem procurando. Muitas vezes saía d'estes brinquedos para assignar +ao lavrar o accordão de uma sentença de forca, muito firme de pulso, e +convicto da sua fidelidade aos principios, á moralisação dos povos, á +ordem publica, e á justiça, filha primogenita de Jesus Christo. + +N'aquelle dia em que o exercito libertador assomou em Almada, e o Telles +Jordão foi espingardeado, Bartholo de Briteiros, ainda duvidoso do +desesperado desenlace da causa que elle julgava vencida por parte de seu +rei, enfardelou á pressa o mais valioso de sua casa, ensacou muito +cabedal em moeda que tinha herdado de avós, prescreveu ordens aos seus +mordomos e caseiros das provincias, e embarcou em navio inglez, ancorado +no Tejo, com as duas meninas palidas de susto. + +Horas depois, saía barra fóra, quando já em Lisboa repicavam os sinos á +fuga do duque do Cadaval, e ao approximar-se o duque da Terceira. A esse +tempo estalavam apedrejadas todas as vidraças do palacio de Bartholo de +Briteiros, ás Amoreiras, e a populaça, a brava e briosa gentalha, +apossava-se, por direito de conquista, da mobilia do desembargador, e +repartia, a soccos fraternaes, o espolio do miguelista. + + +V + +Estava Fernando Gomes em Florença, conforme o seu costume em toda a +parte, sequestrado de toda a convivencia, visitando antiguidades, lendo +outras, e como que mumificando-se a si proprio entre tantas velharias. + +Alguem disse a Fernando que o hospedeiro principe de Monfort mostrava +aos seus visitadores a espada que Napoleão floreara na batalha de +Marengo. Posto que o nosso portuguez presasse muito mais contemplar a +lança de Leonidas ou o punhal de Bruto, não quiz perder o lanço de ver o +sabre oriental do maior capitão do mundo, depois de Alexandre, e Cesar, +dizia elle. + +O princepe recebeu-o no gabinete, onde estava escrevendo as suas +_Memorias_: mostrou-lhe a espada, facultou-lhe o exame dos tropheus +d'armas, recolhidos n'um armario envidraçado; e bem assim as chaves de +ouro da cidade de Breslaw, quaes o imperador lh'as dera, congratulando-o +pela conquista d'aquella cidade. + +Fernando, incitado a fallar pelo tom familiar do erudito principe, deu +de seu saber muito boa conta sobre pontos de historia antiga, romana e +grega, monumentos, batalhas, sciencias, e tudo quanto mereceria ser +archivado em volumes grossos de soporiferas academias. O ex-rei de +Westphalia deleitou-se em ouvi-lo, não sabendo ainda se era expatriado +da Vandêa o cavalheiro que tão correctamente fallava lingua franceza. + +Fallou de si Fernando em breves termos, dizendo-se portuguez, soldado da +liberdade, o infimo dos seus fautores em Portugal. Accrescentou logo que +deixara a liberdade do seu paiz, e saíra a procura-la n'outros pontos do +mundo, a fim de compara-la com a que deixara na sua terra, rachitica, +derrengada e aleijadinha. + +Gostou o principe da grave sombra com que o douto moço mofava da +liberdade dos portuguezes, (gente malquista sempre dos Bonapartes) e +prolongou a palestra até horas de jantar. Fernando despediu-se já +fatigado da convivencia: o filho do artista dava pouco pela gloria de +conversar fito a fito com um ex-monarcha, irmão do heroe de Austerlitz, +das Pyramides e de Friedland. + +Dias decorridos, Fernando foi convidado, em nome do principe de Monfort, +a passar a noite no palacio Orlandini. Cogitou o moço no mais urbano +modo de esquivar-se ás pesadas honras de tão luzida sociedade. A +educação acanhara-o; e os dissabores, suggeridos por causa de seu +nascimento, eram-lhe um constante espinho a impellirem-no para longe de +ajuntamentos. Assustava-o de mais o receio de encontrar portuguezes nos +salões do principe, e ter de responder-lhe ás naturaes perguntas entre +conterraneos que se encontram em paiz estrangeiro. Precisamente +quereriam saber o seu nome, o nome de seu pae, as suas relações na +patria, as mil coisas que se presumem sabidas de homens que viajam e se +relacionam com principes. Todos estes barrancos lhe empeciam o caminho +do palacio Orlandini, e nenhum expediente lhe suggeriram com que +delicadamente recusasse o convite. Sacrificou-se ao dever de quem tinha +sido tão affavelmente tratado por personagem assim venerada nos +prestigios da magestade, a magestade dos heroismos, mais imponente que a +do sceptro hereditario. + +Antes da sua entrada no palacio, chegara Bartholo de Briteiros com as +bellas meninas. Em quanto as duas portuguezas levadas pelas damas se +gosavam da frescura da noite nos jardins, que muitas vezes serviam de +salões, Jeronymo Bonaparte conversou com Briteiros largamente ácerca do +moço portuguez que muito o encantara com a sua vasta erudição, e +perguntou ao hospede se conhecia _Fernando Gomes_. O fidalgo franziu a +testa, e disse: + +--Não sei dizer a vossa alteza quem seja Fernando Gomes. Os _Gomes_ em +Portugal não sei quem sejam. Antigamente houveram os de bom toque; mas +de D. João I para cá não acho menção d'elles nas chronicas. É appellido +obscurecido, ou se perdeu. + +--Póde ser que o seu patricio achasse o _Gomes_ perdido!...--disse o +principe com ar de riso.--O que eu sei é que o portuguez Fernando Gomes +sabe muito, e entretem com assumptos, aborrecidos quando a gente os lê +nos livros, ou nos monumentos. Gostei muito d'elle, e estimarei que a +minha estima agrade ao seu patricio. + +Pouco depois foi annunciado Fernando Gomes, e logo conduzido á sala em +que já estavam as damas da primeira jerarchia toscana; e, entre tantas e +tão perigrinas, as nossas angelicaes portuguezas, honrando mais a terra +de Camões, que quantos diplomatas nos andam lá por fóra engrandecendo. + +Bartholo de Briteiros fitou os olhos no portuguez, e lá entre si disse: +«Não conheço: isto é homem ordinario.» + +--Tem aqui um patricio--disse o principe a Fernando.--É emigrado, e pae +das duas meninas, que o senhor além vê, que parecem madonas. Ditosas +revoluções as que obrigam a sair do seu ninho as formosuras que Deus faz +para que todo o mundo as veja! O senhor de Briteiros é um pae ditoso, +que se revê nos seus dois cherubins, dignos de Florença mais que de +Lisboa. Os modelos que Raphael e Ticiano adivinharam, justo é que vivam +em Italia, que é o céo das artes e das maravilhas. Não conhecia o senhor +de Briteiros? + +--Não, senhor--respondeu Fernando. + +--De onde é o cavalheiro?--perguntou Bartholo. + +--Sou de Lisboa. + +--Talvez que, se me disser o nome de seu pae, eu possa conhecer a sua +familia. + +--Vossa excellencia não conhece de certo o nome de meu pae. Sou filho de +um homem do povo. + +--De onde saem os reis do genio--ajuntou Jeronymo Bonaparte. + +Bartholo fez um gesto insignificativo com a cabeça, e disse, passados +minutos: + +--Veio de Portugal ha muito tempo? + +--Ha vinte e tres mezes. + +--Como estão as cousas por lá? Quem governa a canalha? + +--Governa-se ella, presumo eu--disse Fernando. + +O principe sorriu e murmurou: + +--A resposta é um livro completo. A canalha governa-se a si em +Portugal... + +--Em Roma no reinado dos Cezares e no Baixo Imperio, e em toda a parte +onde as nacionalidades se dissolvem--accrescentou Fernando. + +--Diz muito bem!--acudiu Briteiros--Portugal está em dissolução. O +senhor é necessariamente realista! + +--Não, senhor. Fui soldado nas linhas do Porto. Pugnei a favor da +liberdade, synonimo de humanidade. Servi-me a mim, servindo as classes +abatidas pelo privilegio. Se me enganei, a culpa não foi minha. + +--Mas enganou-se...--atalhou Bartholo com má cara--A canalha é que +reina. + +--Mas com gravata, luva branca, espada, chapeu de plumas, e +arminhos--ajuntou Fernando Gomes. + +--E isso é bom?--redarguiu o fidalgo. + +--É bom como lição, como experiencia... + +--E depois? quando se quizerem emendar, era uma vez Portugal... + +--Seremos hespanhoes, inglezes, ou turcos, mas com juizo--disse +Fernando. + +--Ahi está o patriotismo dos _malhados_--exclamou Briteiros. + +--Basta de politica--interveio o principe de Monfort, a quem destoara a +violencia da ultima phrase do ex-ministro da Alçada. + +Fernando ficou pensativo a um canto do salão, meditando no appellido +_Briteiros_. Sabia de cór os nomes dos signatarios do accordão que +enforcou os academicos. Não lhe era extranho o feio aspecto d'aquelle +homem. Devia ser elle: ouvira em Lisboa dizer que o mais façanhudo dos +algozes vivia em Florença, com grande luxo, e segura posse de seus bens +na patria. Odiou-o; não poude mais fital-o em rosto. Pensava em sair da +sala, quando Jeronymo Bonaparte lhe disse: + +--Venha ver as suas lindas patricias, que desejam conhecer o +portuguez... Mas tome tento em não argumentar com o pae. O senhor de +Briteiros é contumaz inimigo do povo e da liberdade. Cá entre os meus +hospedes francezes é conhecido por _Luiz XI_. O homem é um apologista +das gaiolas de ferro para uso das avesinhas que cantam a liberdade. +Detesta Lamartine, que escreveu contra a pena de morte, e defende que a +arvore da liberdade deve ser cortada, torada, serrada e afeiçoada á +maneira de forcas. Tem de bom que salga as suas theses com muita +inepcia: gente emigrada não póde desprezar estes perrexis do riso, por +isso o senhor de Briteiros é muito procurado. Agora vamos ver que duas +flores saíram d'aquelle bravio matagal. + +Approximou-se o principe de Eugenia e Paulina. + +--Aqui está o seu patricio, minhas senhoras--disse elle, indicando a +Fernando uma cadeira--conversem; espaireçam saudades da sua terra. + +Retirou-se o apresentante, deixando o filho de Francisco Lourenço +penosamente enleiado. + +--Está ha muito em Florença?--perguntou Eugenia. + +--Ha dois mezes, minha senhora. + +--Lisboa é mais linda, não é? + +--Lisboa é a patria; mas Florença é a perola do mundo--disse +Fernando.--Não vi na Grecia vestigios de lá ter havido uma Florença; e, +com tudo, a Grecia era a colmeia dos mais doces favos do mundo antigo. +Aqui me parece que vejo resurgidas as delicias da Roma imperial, os +jardins de Lucullo, os marmores jorrando espadanas de crystal, as +thermas de Antonio, os... + +Reteve-se Fernando. Reparou que o estavam escutando duas meninas, que, +no ar do semblante, pareciam escutar idioma desconhecido. Que sabiam +ellas de Lucullo e Antonio, as florinhas dos anjos, que da vida e mundo +apenas conheciam o espaço perfumado de seus virginaes aromas? A ellas +que se lhes dava de Florença, onde viviam tristes, com saudades do seu +jardim de Lisboa, onde tinham cada uma seu canteiro, e em cada canteiro +as plantas do seu amor? Seis annos havia que tinham deixado a patria, e +ainda se diziam uma á outra: «Ainda veremos as nossas casinhas de murta? +Já arrancariam as trepadeiras que se entrançavam em redor das janellas +do nosso quarto?» O que ellas queriam era ouvir falar de Portugal, de +Lisboa, do seu palacio, e talvez das suas flôres. Conheceria Fernando as +flôres que ellas tinham? + +--Tem muitas saudades de Portugal?--disse Fernando. + +--Sempre...--respondeu Paulina. + +--E quem priva seu pae de voltar á patria? + +--Elle não quer!--disse Eugenia--Tanto lhe temos pedido! Responde nos +sempre que só volta a Portugal com o sr. D. Miguel... Quando irá o sr. +D. Miguel, sabe? + +--Não sei, minhas senhoras... Parece-me que o sr. D. Miguel não pensa em +lá voltar... + +--Não?!--atalhou Paulina--E o papá a dizer que sim!... Então nunca lá +tornaremos! + +--Tornam, tornam. A final o pae de vossas excellencias vae sem a +companhia do sr. D. Miguel, e supponho até que elle póde viver +tranquillo sem a protecção do principe. As pessoas, que serviram o +partido do sr. D. Miguel, teem toda a segurança em Portugal; d'isto deve +estar sobejamente informado o pae de vossa excellencia. + +--Diga-lh'o, sim?--tornou Eugenia. + +--Não me atrevo a aconselhal-o; porém, se o sr. Bartholo de Briteiros +quizesse ouvir o meu parecer, dir-lhe-ia que o partido liberal só +persegue os seus proprios amigos. + +As meninas não entenderam a doble intenção d'estas ultimas palavras. +Fernando, em virtude do nenhum uso que tinha de trato com senhoras, +compunha sempre as suas phrases em estylo sentencioso, como se as +estivesse palestrando com philosophos ou politicos. + +A mim, comtudo, o que mais me espanta é a facilidade com que Fernando +Gomes dizia aquellas coisas, mais ou menos convinhaveis ás pessoas com +quem falava! Não o insandeceram duas mulheres que eram lindas a capricho +de Deus! Poder estar assim um mortal, razoando em termos communs, diante +de espiritos para quem se fez a linguagem mellica do madrigal, a poesia, +como ella é no Oriente, e como os hebreus a saberiam lêr no cantico dos +canticos! Pois não tinha elle olhos, á mingua de coração! Acaso o +temperamento lymphatico póde tanto que as imagens objectivas se não +espelhem na retina, e o coração não tome conta dos filtros que os olhos +lhe côam como arames abrazeados de electricidade?! + +Eu sei cá!... + +Fernando, passado um quarto de hora, saiu do lado das filhas de Bartholo +de Briteiros, e desceu ao gabinete do principe, onde sua alteza estava +fumando e tratando assumptos litterarios com artistas, poetas, e +eruditos de differentes paizes. + +O principe chamou-o á sua beira, e segredou-lhe: + +--Pois fugiu-lhes?! Não o entretiveram as patricias? Já sei o que foi: +as pequenas não sabiam nada de Roma e Grecia... Mas lindas de véras, +não? Qual lhe parece mais moldada pelos velhos typos da sua predilecta +Grecia?--disse Jeronymo Bonaparte com jovialissimo rosto. + +--São formosas como portuguezas--respondeu Fernando Gomes--mas em +Londres seriam mediocremente graciosas. Os typos gregos eram menos +correctos; todavia a fórma antiga, como a estatuaria a perpetuou, +exprime os estupendos lances das tragedias que não se adivinham nas +physionomias aperfeiçoadas pela lima das gerações. As cabeças de marmore +parece que ainda fremem cheias de vulcões. O busto das Aspazias, +Corinnas, Faustinas e Cleopatras dardejam fogo d'aquelles pedaços de +Carrara e Paros. A mulher viril da esplendida antiguidade, conforme a +civilisação a veiu entronando atravez dos seculos, mais e mais se foi +amollentando em feminilidades. Ganhava em prestigio o que perdia em +realeza de forças. A mulher esculpturada em Roma e Grecia, ainda amante +e amada, incutia pavor aos seus sacerdotes; a mulher dos nossos tempos é +uma creança que se quer acariciada e bajulada como se as graças da +infancia lhe aquilatasse o merecimento. + +--Parece-me porém--interrompeu o principe de Monfort--que as vantagens +são a favor da mulher comtemporanea, da mulher mulher. Que entende o +cavalheiro?... As suas patricias, a meu vêr, são perfeitas mulheres para +se amarem sem inveja de gregas e romanas... + +--Certamente. + +--E saiba que teem sido pretendidas de grandes senhores da França, da +Polonia, e da Italia. E o avarento pae não as cede ás mais remontadas +stirpes nem aos mais abastados concorrentes. Fidalgo diz elle que o é +dos mais antigos das Hespanhas; e, como o senhor Fernando sabe, o +Creador ordenou, quando fez ou refez o globo, que a Hespanha ficasse +sendo um estanque de fidalgos retemperados por sangue ostrogôdo, alano e +suevo, sangue barbaro, que teve quatro mil annos a sua nobreza escondida +nas florestas do norte... Advirto-o, meu amigo, d'esta avareza do senhor +de Briteiros, que não vá succeder apaixonar-se o senhor por alguma das +suas patricias!... Eu ficaria com eterno remorso de o ter apresentado, +se o visse ámanhã a braços com um amor funesto!... + +Fernando Gomes sorriu-se das graciosidades do principe, e saiu, pouco +depois, do baile. + +No restante d'aquella noite não viu Grecia nem Roma. Por sobre os vastos +destroços, que compunham as necropolis da sua memoria, adejava um +cherubim em nuvens de perfumes, era tudo primavera com seus devaneios; +flôres e mocidade e verdura em tudo: de tudo tirava esperanças que lhe +chamavam a alma ao futuro. O passado, então, pareceu-lhe melancholico: a +poesia dos imperios pulverisados avultou-lhe como horrenda soledade; e o +sol do dia seguinte encontrou-o ainda buscando no esplendor das suas +visões o cherubim, que era, em todo o rigor da fidelidade, a imagem de +Paulina Briteiros. + + +VI + +Tinha expirado o prazo da viagem, estipulado por Fernando, e aceite por +seu pae. No penultimo mez dos dois annos, recebeu o moço carta de +Francisco Lourenço, instando por sua ida antes de concluido os dois +annos, se possivel fosse. O artista dizia assim em sua carta: + + + +«Está pactuado o casamento de tuas irmãs. + +«Gracinda casa com um official de secretaria, rapaz de bom proceder, e +familia honrada. Genoveva, não menos feliz, vae unir-se a um capitão de +mar e guerra, homem já entrado na edade, mas muito estimavel, e muito do +agrado d'ella. O prazer de nós todos seria que assistisses a esta festa, +e enxugasses as lagrimas de teus velhos paes, quando as duas meninas, na +mesma hora, se apartarem de nós! A estas dôres chama o mundo _festas_. O +apartar-me de meus filhos quer o mundo que eu o festeje, como se +approximasse mais de minha alma! Que tristeza será a d'esta casa se tu +aqui não estiveres, filho! Que direi eu ás lagrimas de tua mãe, e ella +ás minhas!... É preciso que nos ampares a ambos: aos teus braços é que +ambos pediremos força para acceitar com resignação esta dôr obrigatoria, +pela qual alguns paes recebem parabens! Não me detenho a pedir-te que +venhas. Surda estaria a tua alma se não ouvisses os dois velhos que te +estremecem...» + +.......................................................................... + +Eu podia escrever muitas paginas soberbas de hyperboles, umas minhas, e +outras copiadas, para dizer quanto Fernando amava Paulina; porém, +n'essas muitas paginas, seria tudo pouco para dizer tanto como n'esta +linha: _Fernando leu a carta de seu pae, e não sahiu de Florença_. Isto +vai sem ponto de admiração, porque eu, em materia d'amor, estou como +Horacio a respeito de tudo mais: _nihil mirari_. Maiores desatinos que o +de Fernando Gomes reclamam indulgencia das almas bem formadas, almas que +não sejam raio de luz sem calor n'uma pouca de lama, ou humano barro, +que dispara no mesmo. + +Fernando mentiu a seu pae: disse que estava enfermo de febres, apanhadas +em Roma nas lagôas pontinas. E mentiu sem vergonha de si mesmo! A +celebrada honra de Epaminondas é a fabula mais paradoxal da antiguidade. +Amasse elle uma Paulina, e estivesse em Florença, em Florença que, no +dizer do author de _André Chénier_, «é como a Circe que maneata os +forasteiros de invisiveis liames, e lhes dá continuada festa de musica, +paisagens, perfumes, pompas e mulheres, a fim de incutir-lhes o +esquecimento do seu paiz!...» + +Fernando fugiu ás musicas e aos perfumes da magica cidade. O seu amor +era taciturno e solitario, como um luto de saudade inconsolavel. Nascera +em rebentações de fogo como as lavaredas da Sicilia. Estava debaixo do +céo italiano; incubou-se d'aquelle fogo, bebeu a peçonha da immensa +mansenilha, que braceja serpentes de mortal amor por todos aquelles +remansos fataes de Genova, Piza, Veneza e Napoles. O céo esperara-o +n'aquelle ponto para lhe emborcar d'um jorro todo o amor, que lá em cima +é glorificação, e cá em baixo inferno. As flôres de sua alma +desabrolharam das mil côres da esperança, e no viço de primeiras; mas +logo amarelleceram. O formidavel «impossivel!» bateu-lhe na cabeça e +peito, para que a razão e o coração morressem a um tempo. A razão morreu +para não reagir. O coração vivia com centenares de cabeças como a hydra. +O coração é a salamandra de seus proprios incendios; lacera-se, como o +pelicano; de cada golpeada tira golfos de sangue, e n'este sangue medram +esperanças, cada dia mais infernadas. Este é o amor maldito dos que +amam, como amava Fernando a creatura divinisada por todos, isempta de +todos, vigiada pelos olhos coruscantes do velho, que tinha coração de +pae, com ferocidades de rei das selvas, velador dos seus leonculos. + +Seria este imaginar impossiveis uma hallucinação do nosso homem? A gente +mais sisuda e mais desbaratada em lidar com o mundo não lhe acontece +tantas vezes fazer pé atraz, diante de travancos que uma borboleta +transmonta a brincar por entre arbustos floridos? N'este artigo de +mulheres, quantas vezes se nos figuram castellos roqueiros umas +sobrancerias que lá ao pé se alhanam como relvados macios, planos, +chãos, e todos desentranhados em boninas, que se estão como offerecendo +ás solicitas abelhas, e até a zangãos damninhos! + +Ora vamos ver se Fernando cae das alturas por onde se anda após do +cherubim, e vem cá baixo á estrada coimbran, ao amor rameraneiro, de +theor e modo que o estylo possa assingelar-se o necessario para ser bem +entendido e estimado. Fuja todo o romancista de entender com personagens +que trazem a cabeça de telhas acima: a nossa linguagem lusitana é pouco +para exorbitancias taes. Os francezes dizem tudo o que querem, e até o +que não ha, nem tem ideia correspondente. Os allemães tambem. Cá entre +nós, boa gente do velho Portugal, gente que é toda vulgo nas paixões +quotidianas, quem quizer remedar extrangeiros nublando os ares com +fumaças de idealismo, despega em tolice tamanha, que não será assombroso +fecharem-se-lhe as portas da academia real das sciencias, ou +negar-se-lhe venera da ordem de S. Thiago da Espada! Não póde ir mais +longe o menos preço dos parvos. + +Paulina via todos os dias Fernando na _piazza di Dome_, sobre a qual se +abriam as janellas dos seus aposentos. Chamava logo a irmã, clamando +pressurosa: + +--Vem vêr o nosso patricio, Eugenia! + +Assentavam os cotovellos no peitoril do balcão de marmore, e alli se +quedavam como duas rolas, a contemplar o portuguez, que as cortejara, e +parecia te-las logo esquecido. Não ousava elle fita-las segunda vez! +Remirava-as por entre os grupos: e o espaço aereo d'entre quatro cabeças +era a suprema ambição do moço, a entre-aberta do céo nas visões de um +santo anachoreta. + +Algumas noites as filhas de Bartholo de Briteiros viram Fernando no +palacio Orlandini. + +--Que terá elle que nos não procura?!--dizia Paulina a sua irmã--Mas +repara que não dá preferencia a ninguem! + +--É tão triste aquelle homem! Serão assim todos em Portugal?--dizia +Eugenia. + +--Faz-me pena aquella tristeza! acudiu Paulina. + +N'outra noite a compassiva filha do fidalgo disse á irmã: + +--Chamemo-lo, sim? não parecerá mal? + +--Não; pois que mal é chamarmos o nosso patricio? + +Eugenia fez signal a um francez, que não era principe, nem duque, nem se +quer especieiro rico: era um pintor, um amigo querido de Bonaparte. + +--Senhor Leopoldo Roberto--disse ella--conhece aquelle portuguez que +está falando com a princeza Carlota? + +--Fernando?... Conheço-o desde que elle chegou a Florença--respondeu o +palido mancebo.--Achei-o um desgraçado. + +--Desgraçado?!--atalhou Paulina.--Que infortunios são os d'elle? + +--Os extremos: os do amor sem esperança--respondeu o pintor. + +Paulina encontrou os olhos de sua irmã, que pareciam dizer-lhe: «ouves?» + +Leopoldo Roberto esperou novas perguntas das meninas. Passados minutos, +aventurou-se o artista a perguntar: + +--Pois não conheciam o seu patricio? + +--Foi-nos apresentado pelo principe de Monfort--disse Eugenia--mas dos +seus infortunios não sabiamos. + +--É de Florença a senhora que elle ama?--perguntou Paulina. + +--É de Portugal. + +--E elle está em Italia?!--accrescentou Eugenia--porque não vae então +para Portugal? + +--Andará a viajar para conhecer se ella o ama, e sente a ausencia--disse +Paulina. + +--A dama está em Florença. A formosa Paulina conhece-a. + +--Eu!... + +--Sim, minha senhora. Digo-lhe o grande amor de Fernando, e peço-lhe que +o salve. + +O pintor ia retirar: Paulina exclamou: + +--Venha cá... explique-me esse mysterio... Eu conheço a senhora +portugueza que Fernando ama?! + +--Os anjos de innocencia nem mesmo tem o coração que adivinha?--replicou +Leopoldo--Hei de eu por força dizer-lhe que Fernando queria morrer sem +que a imprevista Paulina soubesse que o matava?! + +As meninas não proferiram um monosyllabo. Leopoldo, o ascetico amante de +Carlota Napoleão, approximou-se de Fernando, que falava com a princeza. +Levava nos olhos uma alegria desusada. Carlota mudou de local, e o +pintor disse a Fernando: + +--Quebrei o encanto. Paulina sabe que a amas. É bom que estas mulheres +se glorifiquem com saberem os nomes das victimas. Morrer +obscuramente!... morrer ignorado da mulher por quem diluimos a vida em +lagrimas de sangue! Isso não! é preciso abrir larga fenda no peito, +arrancar fóra o coração, e mostrar-lh'o. Então sim! ao menos servimos á +gloria da mulher que se amou. Ella, se não póde dizer «amei-o,» diz +«matei-o!» e póde ser que o diga com piedade; venha, pois, essa piedade +posthuma, que deve ser regalo do cadaver! Que maior serviço posso eu +fazer-te, amigo? + +Fernando apertou convulsamente a mão de Leopoldo, saiu aos jardins a +dilatar o peito, a desdobrar da alegria que vos commove como os assaltos +do medo. O pintor não o seguiu, dizendo: + +--Vae só, que eu não tenho alegria nem lagrimas que esconder. Recorda-te +sempre de mim: propiciei-te o idolo em cujas aras era desconhecido +holocausto. Agora pódes acabar, que cumpristes a tua missão. A minha +ainda está imperfeita. + +Para que o leitor me não tome como cousa de destemperada imaginativa +este Leopoldo Roberto, pintor francez, amante de Carlota Napoleão, +peço-lhe que abra um livro de Eugenio Pelletan, o qual livro se chama +_Horas de Trabalho_. Ahi, por algures, achará em resumo, n'aquella +linguagem diamantina do illustre professor de philosophia, a historia +dos amores; e, logo na pagina seguinte, a historia do suicidio do +pintor. + +Hão de ver como elle atirou com o peito ás puas do despedaçador +IMPOSSIVEL, e arquejou voluptuariamente n'aquellas agonias, sem +esperança de sentir a mão da princeza enxugar-lhe o suor glacial. +Reparem no quadro que elle aperfeiçoou na vespera do seu dia final. São +scenas campezinas: obreiros que vão ás ceifas e voltam dos campos +coroados de espigas. Oh! que formosissimas visões antecedem os +paroxismos do talento! Que lucido agonisar o dos genios? Quem ha de crêr +na mortalidade da alma, quando ella assim se rejubila ao pé do golfão em +que o corpo se despenha como pedaço de materia postulosa e tábida? + +E não te salvou o anjo da arte, ó poeta das primaveras, dos arreboes, e +dos crepusculos? Não tinhas uma Galathea em cada uma das tuas +camponezas? Não te palpitavam aquelles corações debaixo da palheta? Já +sabias que a tua immortalidade estava á porta do seu templo, para +abrir-t'o logo que a lousa te batesse em cheio sobre o craneo estalado +pela bala? + +Que princeza te valia uma inspiração das tuas noites desveladas! + +Quantas rainhas de virtudes deixaste lá em baixo escondidas nas +florestas que perpetuaste em teus quadros! + +E não as amaste, como prodigo, e as déstes ao mundo, que t'as ama e as +adora nas galerias, nos museus, nos empórios das summas maravilhas do +bello! + +Olha ahi por esses palacios de principes, na Florença, em que +premeditaste morrer, olha ahi como as turbas se enlevam no teu genero +immorredoiro! + +E vê tu quantas princezas, como a tua Carlota Napoleão, desceram do +solio ao exilio, do exilio á tumba, da tumba ao esquecimento; e os teus +poemas ficam; e o teu espirito revive em céo e terra, e o homem pára +diante da tua sombra, e deplora que uma princeza não subisse a ti para +tu não desceres a procura-la no bojo negro do teu inferno, ou nas +explendorosas serpes da chamma em que te abrasaste, ó crysalida d'um +anjo! + + +VII + +Queremos agora vêr como procede o portuguez. + +A poesia do mysterio está aguada. Descerraram-se d'entre as nevoas as +duas estrellas que devem approximar-se ou repellir-se. A constellação é +mais de esperar, quando os prenuncios são d'esta ordem. + +Tenha-se em seus brios, Fernando Gomes! Portuguezes são pouco dados a +beberem trago a trago uma prosaica morte em ideaes mysterios! Costumâmos +abrir o coração e despejar á flux quanto lá ha. Se nos desdenham, a +dignidade propria nos rehabilita. Se nos acolhem, damos pelo commum +excellentes maridos, carinhosos paes, e preciosos jarretas na velhice. + +Romances d'amor, que desandam em morte de tuberculos moraes, não pegam +cá. Isto é terra de Hespanha e o céo de Italia, como diz o mais poeta +dos portuguezes, o dulcissimo Castilho. Ama-se como na Italia, e +entendia-se como em Hespanha. Quem quer saber o que é amar em Italia, +leia Byron em Veneza, e Henry Beile em todos os seus romances, e +peculiarmente na _Physiologia do amor_. Eu gosto de indicar as fontes +limpas, para que me não attribuam aguas sujas, nem acoimem o romance de +hoje em dia de pêco e ôco de conhecimentos uteis. + +Ora vamos lá ao conto, que está a meada a desencadilhar-se. + +Fernando Gomes venceu o seu pejo, e voltou dos jardins ao salão. Um +francez, desconhecido d'elle, perguntou-lhe se era o portuguez Fernando. + +--Sou o portuguez Fernando--disse o moço. + +--As suas patricias encarregaram-me de perguntar a Leopoldo Roberto se o +senhor sahira; Leopoldo Roberto não sei onde está: porém, como encontro +o senhor, creio que lhe dou prazer communicando-lhe directamente os +cuidados das senhoras de Briteiros. + +Fernando agradeceu affectuosamente a urbanidade do francez, e +convisinhou das meninas, a tempo que chegava Bartholo. + +--Patricio e amigo--disse este a Fernando--não fuja da gente. Amigos, +amigos, politica á parte. + +--Eu não fujo de vossa excellencia--disse o moço côr de rosa, quanto +rosas se alastram em rosto de homem trigueiro. + +--Pois o senhor sabe--tornou Bartholo--que está um portuguez em +Florença, portuguez dos bons tempos, e não o procura?! + +--Vossa excellencia até hoje não me deu bastante afouteza para solicitar +tamanha honra. + +--Vá quando quizer. As minhas portas estão francas a quantos +portuguezes, realistas ou não realistas, quizerem visitar um portuguez +que honrou sua patria!--Ora o senhor, que saíu ha dois annos de Lisboa, +ha de dizer-me se lá viu meninas mais galantes do que as minhas filhas! + +Fernando córou outra vez, e tartamudeou; as meninas sorriram; e o pae +insistiu na pergunta com certo desplante que não vae mal em velhos +folgasãos, e até faz gosto ouvi-los n'estas liberdades, quando se fundam +em muito amor ás filhas. + +Fernando respondeu: + +--Posto que eu conhecesse pouquissimo a sociedade de Lisboa, digo, sem +receio de baixa lisonja, que as filhas de vossa excellencia seriam em +Lisboa, como em toda a parte, bellezas distinctas. + +--São a pintura da mãe--atalhou Bartholo.--Minha mulher foi a dama mais +linda de Portugal. Deixou-me estes anjos para me ampararem. Se não +fossem ellas, eu tinha-me atirado á cova que m'a roubou! + +Assomaram subitamente lagrimas aos olhos do quinquagenario. Fernando +hauriu prazer d'aquellas lagrimas. Porque? O moço queria presuppôr +coração, sensibilidade e affectos brandos n'aquelle homem que lhe +avultava de bronze á phantasia. + +Passou Bartholo o lenço pelos olhos, e continuou: + +--E ha por ahi quem se tenha lembrado de me privar das filhas!... Veem +com a palavra «casamento» propôr afoitamente a um pae que rompa os laços +de dezoito annos, que lance de si as suas joias, a luz dos seus olhos, o +ar do seu peito, e as deixe ir nos braços de uns libertinos fatigados, +que as viram hontem pela primeira vez, e ámanhã lhes voltarão a face com +sobranceria de maridos! É horrivel este systema de organisação social! A +sociedade não se sustenta senão á custa d'estes roubos legaes feitos ao +coração de um pae. E isto se chama manutenção da moral!... Deixa-la ser! +As minhas filhas são a minha vida. Em quanto eu respirar, quero ve-las, +quero te-las ao lado do meu leito de agonia. Custaram-me muito. Ficaram +sem mãe muito tenrinhas. Criei-as eu nos meus braços: passava as noites +com o ouvido collado á fechadura das alcovas onde dormiam as amas, para, +assim que os anjinhos chorassem, acordar as mercenarias creadas. Isto +fazia eu, senhor Fernando, quando negocios importantissimos de estado +dependiam das minhas vigilias. Cresceram aquecidas pelo meu bafejo. +Trouxe-as desde os seis annos na minha carruagem, quando ia aos +tribunaes; não as confiava de ninguem. E queriam roubar-m'as agora que +estão feitas, lindas, e ricas de felicidade e alegria para me +retribuirem o muito que soffri por ellas!... Ainda bem que nenhuma me +tem sido ingrata. Quando rejeito os pretendentes, adivinho-lhes a +vontade d'ellas. O maximo prazer que me dão é serem dignas de illimitada +confiança. Dizem que as vigio; tem-n'o dito o principe de Monfort; é +falso, é calumnia; ellas ahi estão que o digam. São senhoras das suas +acções: vão onde querem: ordenam seus passeios e visitas; e eu sigo-as +com a docilidade e contentamento de uma creança. Ambas ellas sabem que +me matam no momento em que me deixarem; e por isso Florença, Londres, +Paris tem sido para minhas filhas como desertos... Coitadinhas! querem +ir para Portugal; teem saudades de não sei que ninharias pueris!... +Deixae estar, filhas, lá iremos, lá iremos em dias mais ditosos. A +justiça ha de vencer, porque sois dois anjos, e estaes da parte da +justiça. Tendes muita vida para largas esperanças. Voltaremos a Portugal +talvez mais cedo do que vós mesmas ambicionaes. O rei... Agora reparo +que estou falando com um soldado _mindeleiro_... + +--Não, senhor--atalhou Fernando--não posso gloriar-me da façanha do +Mindello... + +--Façanha!... Ora essa! que façanha?! + +--Coragem, atrevimento, se vossa excellencia antes quer... + +--Qual coragem!... O senhor então não sabe a historia contemporanea... +Fale-me de traições, se quer que eu lhe explique a façanha do Mindello, +que, espremida na mão imparcial d'um critico, dá de si um heroismo +negativo, uma pagina de historia que, d'aqui a cincoenta annos, quando +os taes sete mil e quinhentos tiverem morrido, será reduzida á data do +desembarque d'um principe foragido do Brazil, e mais nada... + +Fernando Gomes estava escarlate, e reteve-se a ponto de murmurar apenas: + +--A historia não se faz assim. Vossa excellencia está brincando!... + +--Brincando!... interrompeu o membro da Alçada.--Creia o que eu lhe +digo, que tenho o segredo da rebelião desde mil oitocentos e dez. O +senhor nasceu hontem: não sabe nada. Pegou d'uma arma, quando +naturalmente largou a espada de folha de flandres, e a pistola de matar +moscas... + +Paulina fitou os olhos em Fernando, e fez com elles e com os labios a +mais ameigadora supplica de silencio e tolerancia. O condecorado das +linhas do Porto sorriu-se, já perdida a côr, e fez um gesto mezureiro ás +galhofas algum tanto colericas do fidalgo. + +Bartholo cahiu de seus azedumes, quasi furioso, na razão e +arrependimento do excesso. Com brandos termos e rosto prasenteiro se +desculpou, promettendo nunca mais fallar em rei nem roque; e ajuntou: + +--Sabe o que faz isto? É eu não ter portuguez com quem fale nas +desgraças de Portugal, que tanto o são para gregos como para troianos. +Estes emigrados francezes e polacos todos me falam dos negocios da sua +terra, e ninguem sabe nada dos negocios da minha. Chamam-me hespanhol, e +não querem acreditar que Portugal é uma nação que faz reis e desordens +por sua conta e risco. Um francez a quem eu descrevi os tumultos de +Portugal, desde que Napoleão lhe quiz lançar as garras, teve a +petulancia de me dizer que qualquer poça d'agua suja, examinada com um +microscopio, offerecia um rebuliço de vermes admiravel! Confesso-lhe, +que se não tivesse duas filhas, havia de pôr a cara ao francez em apuros +de ser examinada com o microscopio! + +Fernando Gomes soffreando a indignação, sorriu-se. O seu primeiro assomo +fôra pedir o nome do francez; reflectindo, porém, um momento, desculpou +o atrevido com as objurgatorias ridiculas e talvez sanguinarias de +Bartholo de Briteiros contra Napoleão, na propria casa de Jeronymo +Bonaparte, o irmão predilecto do imperador. + +O dialogo terminou assim, sem que as meninas proferissem palavra. +Fernando afastou se com tristeza, recordando as vehementes expressões de +Bartholo, com referencia ao casamento impossivel das filhas. Quem, +d'animo frio, ouvisse o cioso pae de Paulina, daria pouco peso aos +termos acres e despoticos do velho: o mais racional seria preparar a +rebellião no espirito da filha, e vingar assim a sociedade ultrajada +pelo egoismo d'um tyranno de dois corações, sedentos de mais amoraveis +affectos, e mirando a elles por providencial influxo. Fernando, porém, +com o seu verdadeiro, e, por isso mesmo, timorato amor, ponderou como +invencivel a vontade do pae, e inconquistavel a vontade de Paulina. + +Estava elle engolfado n'estes pensares, a distancia visivel das meninas. +Eugenia chamou-o, e disse-lhe: + +--O papá affligiu-o com as suas rabugices? + +--Não, minha senhora: eu respeito a paixão do senhor Bartholo de +Briteiros. + +--Olhe que elle diz assim as coisas; mas não odeia ninguem--disse +Paulina.--Quando vae a nossa casa? Estimavamos muito vel-o, para +conversarmos muito da nossa terra... Vá ámanhã, sim? + +--Com o maior prazer...--balbuciou Fernando. + +--Demora-se em Florença? tornou Paulina. + +--Não sei dizer a vossa excellencia... + +--Depende o demorar-se da vontade de sua familia?--perguntou Eugenia. + +--Já desobedeci á vontade de meus paes. Eu devia estar em Lisboa a esta +hora... Estou em Florença, e Deus sabe onde o meu destino me chama... + +Se Leopoldo Roberto houvesse sido menos explicito com a filha de +Bartholo de Briteiros, o tom em que Fernando respondeu á pergunta de +Eugenia bastaria a manifestal-o. O silencio de ambas, e a meiga +expressão de Paulina foi tambem para elle sobeja prova de que o tinham +comprehendido. Os dois corações, n'aquelle instante, esposaram-se em +mysteriosas delicias. Tinham-se revelado tudo no magnetico relance +d'olhos que se trocaram. Aquellas almas ou se haviam mentido, ou +identificado para sempre. Nenhum d'elles assim o pensava. Nós, os que +estamos de fóra, é que sabemos decidir d'estes vinculos eternos, e raro +nos illudimos. Pena é que cada amante não traga á sua beira um +observador, bastante martellado n'estas psycologias, para desde logo +caminhar em terreno seguro, com a sibylla ao lado. + +[A]Fernando visitou o fidalgo. O acolhimento foi excellente. As meninas +reviveram quantas recordações ainda tinham de Lisboa. O antigo +desembargador, com insolita moderação, relatou ao hospede a chronica +mysteriosa de Portugal desde 1810, a revolução de Gomes Freire de Andrade, +a de 1820, e as alternativas sequentes das duas parcialidades. Teve +momentos lucidos de consciencia politica, e de admiravel modestia. Pelos +modos, se em vez do conde da Barca, ou do conde de Basto, elle fosse o +ministro valído de D. João VI, ou de D. Miguel, Portugal voltaria á sua +idade de ouro. Para se exaltar era justo que desluzisse a reputação dos +privados de D. Carlota Joaquina, e então foi verdadeiro. Deu como decidido +ter sido envenenado D. João VI. Contou minudenciosamente a morte do marquez +de Loulé em Salvaterra: chamou-lhe _golpe de estado_: mas a historia ha de +chamar-lhe golpe de cajado, porque o palaciano foi morto a pauladas. +Deteve-se por descuido a fallar dos supplicios de Lisboa, Porto e Extremoz. +Eram tudo, no seu modo de ver, sacrificios necessarios á manutenção da +ordem. E argumentava com a historia. O protestantismo, dizia elle, não +entrou em Portugal: graças ás fogueiras da inquisição. Em quanto a Europa +ardia em guerras religiosas, Portugal gosava pacificamente da sua +prosperidade, e da pureza do seu catholicismo. D'estas sublimes paragens da +historia portugueza, descia o apologista do fogo depurativo da fé a provar +a necessidade da pena de morte como cauterio ás chagas sociaes, antes que +ellas contaminem os membros sãos. _Etc._ + +Fernando ouvia-o silencioso. No entanto as meninas, entretidas com os +taboleiros floridos dos seus jardins, diziam entre si: + +--E tu és capaz de lhe dar o ramo, Paulina? + +--Era... mas... que hei de eu dizer-lhe? Ensina-me Eugenia. + +--Eu sei cá!... não lhe digas nada... Quando o pae não vir, offerece-lhe +as flores. + +--O melhor era deitar o ramo no chapéo. + +--Mas se elle o deixa ver ao papá?--redarguiu Eugenia. + +--Deus nos livre! E que pensas tu?... + +--De que, Paulina? + +--Será verdade o que disse o Leopoldo Roberto?[B] + +--Se elle te ama? + +--Sim... + +--Pois não vês?! Eu ia jurar que sim... E tu? tu é que devéras gostas +d'elle... + +--Penso que sim... E de que serve?!... Este amor que o pae nos tem, é +uma prisão! Todas as meninas da nossa idade tão felizes!... e a gente +n'esta melancholia, a dominar as inclinações... para o não desgostar! Os +outros paes não se importam. A gente vê tanta gente alegre com seus +maridos! pois não vê? + +--Pois sim; mas tu que queres, Paulina? O pae não nos deixa casar... + +--É porque a gente não se tem importado... + +--Estás enganada... O pae soube que eu gostava do conde de Rohan, e +fingiu que não o sabia. Lembras-te? Uma vez disse-me que se eu amasse +alguem em Florença, ia immediatamente comnosco para a Azia! Quando tu em +Paris gostaste d'aquelle emigrado portuguez, não viste como elle sahiu +logo para Londres? + +--Depois, o Albuquerque foi ter a Londres--atalhou Paulina--e o pae foi +logo para a Escossia. + +--É verdade; e depois, diz a toda a gente que as grandes cidades são +desertos para nós! Tu verás, Paulina... Se elle desconfiar que amas +Fernando, leva-nos para a Russia... + +--Isso leva! + +--Então, vê lá se te sabes esconder; e, se fallares com o Fernando, +diz-lhe que seja acautelado, senão... + +--Como hei de eu falar-lhe?! Não vês que o papá já hoje me perguntou o +que hontem estivemos a falar com elle na _soirée_ do principe?... Já me +lembrou escrever-lhe duas palavras... + +--Ai! escrever-lhe!--atalhou Eugenia assustada. + +--Pois então? isso que tem? é crime? + +--E se o papá vem a saber que lhe escreveste? + +--Quem lh'o ha de dizer?... + +--Agora é que eu vejo que o amas seriamente, Paulina. + +--Amo: de ti não me escondo, Eugenia. + +--Pois então, se queres, escreve-lhe. + +--E que hei eu dizer-lhe? Eu nunca escrevi... Tu é que já sabes, minha +Geni. + +--Diz-lhe que não denuncie que te ama: senão que o papá nos tira logo de +Florença. + +--Só isso?! + +--Pois que mais? Quando elle te escrever, então responderás... + +......................................................................... + +Este dialogo, que parece estirado, correu em menos de quatro minutos. As +meninas pediram ao pae licença para subirem do jardim a casa. + +Ora aqui tem o leitor como conversam os anjos. + +Quem, com ouvidos corporaes, ouvisse aquellas meninas, havia de suppor +que estavam alli duas creaturas vulgares, como todas as que procedem de +Eva, que dialogava com serpentes, e comia fructas da sciencia do mal! +Cumpre saber que os anjos, em quanto perigrinam cá por estes pantanos do +globo, fallam segundo ouvem fallar. Parece que ao descerem do céo, +trazem, como regra, o anexim: _cada terra com seu uso_. A gente não +acaba de capacitar-se d'isto! + + +VIII + +Demoremos em Portugal algum espaço. A imaginação, que tem andado +acorrentada aos apontamentos lá por essas terras lindas, mas alheias, já +tem saudades das suas. + +Cá estamos em Lisboa na calçada do Sacramento, em casa do artista +Francisco Lourenço. + +Estão os dois velhos á meza, onde o almoço lhes arrefece. Nenhum põe mão +na comida. Encaram-se, e choram. Gracinda e Genoveva sahiram hontem para +casa de seus maridos. Alli estão as cadeiras d'ellas, e sobre a meza as +chavenas do almoço, e os guardanapos que lhes serviram dois dias antes. + +--E sahiram sem lagrimas!--disse o artista, com a voz golpeada de +soluços. + +--Como eu saí de casa de meus paes para a tua...--respondeu a mulher. + +--Mas que tristeza... que solidão esta, Maria!... Nem as filhas! Nem +agora, Fernando... de mais a mais enfermo, tão longe de nós! Que fins de +vida os nossos, mulher! Como eu de longe via isto tão differente! +Falava-te no prazer de acabarmos entre filhos e netos! vê tu! ninguem, +ninguem comnosco! + +--Tem paciencia, homem, tem paciencia! Fernando ha de vir logo que +esteja bom. As pequenas prometteram passar o domingo comnosco. Para a +primavera, vamos todos para o Cartaxo. Não te afflijas, Francisco. Isto, +assim triste e sósinho, é hoje. A gente afaz-se a tudo. + +--Afaz-se á ingratidão dos filhos? interrompeu o artista. + +--Ingratidão! Não é ingratidão! As meninas casaram com o teu +consentimento: não foram ingratas. + +--Sairam sem verter uma lagrima. + +--Pois que queres tu? O Evangelho não diz: «deixarás pae e mãe»? +Deixaram pae e mãe por seus maridos. É lei da natureza. Que havemos nós +fazer-lhe? Almoça, Francisquinho, almoça. + +--E tu que fazes? porque não almoças? + +--Que queres tu! Não posso. Tenho um nó na garganta... Tambem eu... E +Fernando longe de nós, Maria!... Que te diz o coração? + +--Que não tarda ahi. Talvez já venha a caminho. Se vier, não temos carta +para a semana. Se estiver ainda doente, escreve-nos. Depois nos +lastimaremos homem... Não tentemos a Deus. + +A carta, não desejada, chegou. Fernando dizia estar ainda doente, e não +poder assignalar o tempo da sua volta. A linguagem era triste: dir-se-ia +que a mentira lhe custava lagrimas. Os paes inferiram da tristeza a +gravidade da doença. Francisco pensou em ir á Italia; porém, doia-lhe +deixar sua mulher sósinha, doente de saudades, e mais lastimosa que +elle. Esperou nova carta, contando os minutos por ancias, que o +avelhentavam rapidamente. Ia, com sua mulher, buscar allivios a casa das +filhas: encontrava uma e outra contentes, cuidando das suas occupações +domesticas, cariciosas para os maridos, e levemente commovidas com as +afflicções dos paes. A linguagem d'uma era a da outra: + +--Não se inquietem, que o Fernando ha de vir. Póde ser que nem esteja +doente. Anda por lá a divertir-se, e vem quando estiver farto. + +Os velhos sahiam mais acabrunhados das frivolas consolações das filhas e +genros. + +Passadas semanas, chegou nova carta. Fernando, aconselhado pelos +medicos, ia convalescer para Napoles; e, logo que estivesse restaurado, +voltava para Portugal, immediatamente. Era o resumo da carta; mas o +dizer era mais escuro; a espaços lhe tinham fugido uns desmentidos á +falsidade. Taes como: _Tenho desejado a morte: o futuro é negro, mais +negro que a sepultura_. E n'outro relanço: _Eu nunca devia ter saido da +nossa casa de campo. A má estrella não me acharia n'aquella +obscuridade._ E, finalmente, rematando a carta, dizia: _Quem sabe se eu +tornarei a ve-los, meu querido pae, e minha santa mãe?... Tenho +presagios terriveis...._ Era para muita pena vêr os dois velhos, cada um +a seu lado, com o rosto entre as mãos, arrancando soluços e exclamações, +que ninguem consolava! + +--Que mal fizemos nós a Deus!--clamava Francisco. Não fui eu sempre bom +filho, bom marido, e bom pae? A quem fiz eu mal voluntario d'este mundo? +Quem se queixa de mim do céo para me ver assim, e te ver ahi, pobre +mulher, sem consolação de tuas filhas? Que desgraças são estas de +Fernando!--proseguia o artista, relendo a carta.--Na doença pouco falla: +nunca me disse que doença tinha... _Tenho desejado a morte; o futuro é +negro, mais negro que a sepultura!_... Vê tu estas palavras, Maria! Eu +não lhe tenho faltado com as ordens do dinheiro muito a tempo. Já lhe +escrevi, admirando e louvando que elle gastasse muito menos do que +esperava. Tem tudo o que quer de mim, e ha de ter, se Deus me não +transtornar a vida, meios abundantes para viver com decencia... Então +por que se chora elle? que _má estrella o persegue_? porque _não ha de +tornar a ver-nos_? + +--A mim...--atalhou Maria--certo é que não... Pouco tenho de vida, +Francisco...; mas olha, meu filho, sabes tu o que me lembrou agora de +repente?... + +--Dize, Maria... + +--Estará Fernando por lá apaixonado? Queres tu vêr que elle olhou para +alguma senhora, que o traz em torturas, e o pobre rapaz não tem coração +que o tire de lá para fóra? + +--A fallar a verdade--disse Francisco--a idade das paixões é a d'elle... +Póde ser que adivinhasses mulher, e oxalá que sim... Se a paixão fôr +bôa, o resultado bom ha de ser; se fôr má ou impropria d'elle, o tempo +ha de cura-la... Mas isto não allivia a nossa dôr, Maria! Eu preciso de +vêr Fernando; quero com a minha presença reduzi-lo aos seus deveres; não +tenho meio de saber o que isto é, se não fôr em pessoa procura-lo. +Deixas-me tu ir, mulher? + +Maria deteve a resposta alguns segundos, expediu um gemido do fundo da +alma, e murmurou: + +--Vae, Francisco, vae, eu irei para casa de uma das filhas, se tu +quizeres. Não te peço que me leves comtigo para te não dar que soffrer +na viagem. Sinto-me muito doente. Vieram as afflicções juntas, e +acabaram-me... Pois vae, e não te demores. Dize a Fernando que venha +dar-me um abraço, que eu quero despedir-me d'elle; e, depois, que torne +para onde estiver melhor. + +Francisco Lourenço, sem mais preparativos que um passaporte e dinheiro, +sahiu de Lisboa no primeiro navio que lhe deu passagem para porto de +Italia. + + +IX + +_A gente não acaba de capacitar-se d'isto_, diz o final do capitulo VII, +a proposito dos anjos, que em pousando pé no mundo, perdem memoria do +céo, e aclimam-se logo n'estes pantanos, cujas exhalações pestilenciaes +teimam poetas em dizer que sobem a glorificar o Creador! + +Vamos ao essencial. + +Paulina escreveu um bilhete assim: + +«O papá é muito desconfiado. Tenha muita cautella, se a separação lhe é +tão dolorosa como a mim. Não passeie na praça do Dome áquellas horas. O +papá dorme sempre desde as quatro ás sete. Eu tenho uma creada de +confiança a quem póde entregar as suas cartas. Adeus. Guarde com amor +estas florinhas». + +Dobrou em tira estreita o bilhete, e cingiu-o em volta das astes do +ramo. + +Veja agora a leitora, mais superciliosa em pontos de dignidade e pudor +senhoril, como os extremos se tocam! O que o despejo e desenvoltura +teria feito, é a innocencia e candura que o faz n'este caso, n'estes +amores começados com tal qual originalidade! Aposto que nenhuma dama, +amestrada em galanterias, escriptora de resmas sobre resmas de cartas +amorosas, se affoitaria a escrever aquellas linhas sem previamente ter +recebido irrefragaveis provas escriptas e oraes de uma paixão homicida! +Escrever a um homem sem ter sido a isso mil vezes solicitada! ennodoar +assim o amiculo virginal! dar uma menina a saber que é capaz de compôr +um periodo com sujeito, verbo e caso! + +Eu não louvo meninas que escrevem bilhetes, e se sujeitam a uma analyse +de regencia; porém, não sei sobre que argumentos hei de fundar a +censura. Não censuro, nem louvo. A moral é uma questão de felicidade, +segundo as regras do dever n'este mundo. Ora, a meu juizo, a moral tanto +se lhe dá que Paulina escrevesse primeiro a Fernando, como Fernando a +Paulina. Além de que, a desmoralisação é o escandalo. Escandalo n'este +facto, se alguem o dá, sou eu, que conto a historia; todavia, provando +eu a final que o acto em si era innocente e as consequencias não +desfitaram do mais honesto scopo, é justo que me descoimem do escandalo, +e agradeçam a historia. + +Em quanto á felicidade, segundo as regras do dever, sou a dizer-lhes que +não ha nada mais incerto que as regras do dever em materia de felicidade +n'este mundo. Muita gente vae direito á rasão pela estrada do paradoxo. +Outra muita gente, a fugir da absurdidade, quebra as pernas no barranco +da rasão. Uma menina escreve um bilhete a um homem: o mundo sabe-o, e +vitupera-a. Outra menina faz-se vermelha de lacre ao receber a primeira +carta de um homem: o mundo tem noticia d'um pudor tamanho, e cita o +exemplo d'esta santa a quantas meninas o demonio tentador negaceia. Vae, +depois, á primeira abre-se o coração de anjo, uns braços de esposo, e um +horisonte de summa felicidade; e á segunda, que em solteira não ousara +escrever duas linhas a furto de olhos maternos, depara-se-lhe um marido, +que só viu n'ella o merecimento boçal de não saber calligraphicamente +dizer que o amava! O primeiro pergunta á sua «Porque me escreveste» e +ella responde-lhe:--Amava-te.--O segundo faz a mesma pergunta á sua; e +ella, a pudica, a santa do pejo, ha de, por mais que tergiverse, +responder-lhe: «Não te escrevi, porque me não merecias confiança». Uma +exalta; a outra rebaixa; uma faz-se amar pelo duplo prestigio de sua +innocencia; a outra deve entediar mais cedo que o costume, porque embaiu +a gente, encampando como innocencia uma boa dóse de velhacaria. Ha muito +d'isto; mas não é assim tudo. Já disse que regras fixas nenhumas ha. As +meninas n'este ponto, consultem as damas virtuosas e illustradas. A mim +não me chamem para coisa de tamanha responsabilidade. N'estes combates +das paixões, os romancistas são como os escrevedores que os antigos +cabos de guerra levavam comsigo para historiarem as carnificinas: +ficam-se cá de longe alapados a verem o fogo, e relatam ao universo os +varios successos. Tornemos ao essencial. + +Fernando Gomes viu entrar as meninas na sala em que Bartholo de +Briteiros lhe andava mostrando alguns bustos de Bartholini, famigerado +esculptor de Florença, que cinzelara tambem os bustos de Paulina e +Eugenia. Estava o magistrado encarecendo com voluptuoso enthusiasmo a +Bacchante de Bartholini, que elle vira na galeria do duque de +Devonshire, e contava d'um francez que chegara a Florença, e pedira +venia ao esculptor para dar um beijo na sua Bacchante, beijo ardente que +parecera filtrar fogo nos beiços marmoreos da lasciva tentadora. + +Bartholo mudou de tom, quando ouviu o ciciar de sedas. Entraram as +meninas, e approximaram-se do piano. Eugenia tocou: Paulina cantou uma +aria da _Norma_; e, durante o alegro, como o chapeu de Fernando +estivesse sobre a cadeira contigua ao piano, e os olhos de Fernando +n'ella, e os de Bartholo em uma estatua da Sabina de João de Bolonha, a +menina lançou no chapeu o ramo. + +Fernando viu, e sentou-se, sentou-se violentado por umas caimbras de +pernas. Parece que devia ser unicamente abalado o coração; mas estou em +crer que homem amante é todo e em tudo coração. + +D'ahi a pouco, eram horas de jantar. + +Fernando ouviu o chamamento d'um escudeiro agaloado. Tomou o chapeu: não +lhe podiam as mãos convulsas com o thesouro. Aterrava-o a magnitude da +sua felicidade. O quer que era de idiota lhe desmanchava as feições. +Bartholo convidou-o a jantar ceremoniosamente. Fernando balbuciou +expressões confusas de reconhecimento, ajustando bem cerradas com o +peito as abas do chapeu e saíu. + +Não lhe cabia o coração no quarto da hospedaria. Queria o sol, o azul do +céo, os pinhaes, os vinhedos, e as flôres das margens do Arno como +testemunhas da sua alegria. + +Áquella mesma hora é que os dois velhos, na calçada do Sacramento, se +abraçavam, debulhados em lagrimas, e diziam: + +--Que mal fizemos a Deus! + +Que faces a vida tem! + +Fernando leu um poema em cada lettra d'aquelle insignificante escripto. +_Insignificante_, digo! Injustiça de critico litterario, que só vê a +magestade do entendimento humano nas ramagens floridas do estylo! Como +_insignificante_! Cada palavra d'aquelle singelo bilhete salvaria +Leopoldo Roberto, Chatterton, e quantos por amor se tem lançado nos +braços da morte! Dae a cada desventurado, em transes de suicidio, um +bilhete assim, de mulher como aquella, e eu vos restituirei um homem com +vida exhuberante, com alma recaldeada para todas as adversidades, com +amor a Deus e aos homens, retemperado de juizo para se predispor aos +gosos da velhice, e d'uma numerosa posteridade--destino humanal mais +efficazmente averiguado e demonstrado. + +Ao escurecer, Fernando voltou a Florença, e velou a noite inteira, +escrevendo. Quando os primeiros raios do sol lhe douraram a ultima +pagina da carta a Paulina, a cabeça do moço, calcinada pela febre da +felicidade, pendeu sobre a mesa, e immergiu em não melhores delicias de +sonhos. + +Despertaram-n'o para lhe entregarem uma das succesivas cartas que seu +pae lhe estava sempre mandando, quer por navios que saíam de Lisboa para +França, quer pelo correio de Hespanha. + +Que melancholica transição a da leitura das suas paginas arrebatadas +para este chão e monotono escrever do artista: + +«Lemos a tua carta com muita magua. Bem me dizia o coração que tu não +vinhas! A tua carta entristece mais esta separação de tuas irmãs. Se ao +menos tivesses saude, Fernando! Mas doente, sem me dizeres que molestia +soffres, isto augmenta a afflicção de teus velhos paes. Muito enfermo +deves estar para, ainda com sacrificio, não accudires á nossa saudade! +Deus te allivie, e encaminhe para nós. + +«Vejo que essa cidade te prende mais que as outras; mas foi-te ingrata, +filho. Tiveste saude em toda a parte, e só ahi adoeceste, dizendo-me tu +que era um clima celestial o de Florença. + +«Talvez te prendessem as memorias d'aquelle poeta que tu me lias, ha +annos. Era Dante, se bem me lembro; mas eu queria que o teu coração de +filho vencesse os prazeres do espirito; queria que os não esquecesses +por amor da sciencia. + +«Isto não são queixumes, Fernando, não são. É rabugice estar eu a ralhar +comtigo porque a doença te impede de vir. O que eu te rogo, e mando, +filho é que, assim que as forças t'o permittirem, venhas dar +contentamento á tua boa mãe, que está muito acabadinha, e mais depressa +irá ao seu fim, se desconfiar que nos esqueceste...» + + +A carta continuava assim por longo espaço de papel, manchado de +lagrimas. + +Fernando não tinha a força de alma que caracterisa os homens grandes. +Estamos vezados a dar carta de grandeza a uns vermes que não teem +lagrimas, nem se deixam alquebrar de vulgares contingencias da vida. O +filho do artista depôz a carta, e murmurou: + +--Meus queridos paes! como eu vos sacrifico sem saber a que!... Pude +enganar-vos para me gosar das primicias de alguma desgraça! + +E, respondendo a esta carta, escreveu aquella em que transluzia a muita +acerba previdencia do seu futuro, com phrases incongruentes, e por +virtude da qual Francisco Lourenço se fizera no caminho de Napoles. + + +X + +O marquez de Tavira... + +--Temos gente nova na historia? + +--É verdade, leitor. Chegou agora mesmo de Roma e Florença o marquez de +Tavira, aulico da côrte do proscripto, emigrado desde a convenção, do +primeiro sangue de Portugal, sujeito de quarenta annos bem conservados, +que parecem trinta, arruinado desde o seu setimo avô, mas ainda rico de +umas riquezas inexauriveis de fidalgos portuguezes velhos--a gente de +mais industria e artimanhas que eu conheço--não desfazendo nos fidalgos +portuguezes novos, que estes, para se esquivarem á arguição de terem +avós, avós arruinados, começam por não terem avós, e renegam os paes +como logicos que são. Este periodo é de abafar! + +O marquez de Tavira hospedou-se em casa de Bartholo de Briteiros. Não se +viam desde 1832. Conheciam-se do paço, tratavam-se de _tu_, e tinham +rapaziadas communs, posto que Bartholo se lhe avantajasse em onze annos. + +Mania fôra sempre de Briteiros aparentar-se com Cogominhos de Tavira. O +marquez dizia que seu avô falava no parentesco dos Briteiros da casa de +Robordochão; e, dito isto, regularmente pedia a Bartholo dinheiro, e +Bartholo dava dinheiro ao primo marquez, que era expansivo, quando +embriagado; e embriagado nas orgias de Queluz, Salvaterra e Alfeite, +costumava rir de Bartholo de Robordochão, que dava metal amarello a +troco de sangue azul. + +O marquez, desde a convenção em que largara a espada de coronel de +artilheria, vagueara por França e Belgica, destroçando o restante do +patrimonio vendido pelo terço do valor. Depois fôra a Allemanha em cata +do senhor D. Miguel de Bragança; e, como encontrasse pobre o real +exilado, invocou o seu inquebrantavel espirito e aproou para Florença, +onde o chamava a pascacice do primo Bartholo de Briteiros. + +O acolhimento frizou com as melhores esperanças. + +O marquez teve logo, e muito rogado a possui-los, bellos aposentos, +dinheiro a granel, optima convivencia de duas meninas, que o festejavam +com franqueza de primas, e as melhores relações de Florença. + +Este incídente coincidiu com aquellas tristezas e alegrias de Fernando +Gomes, na manhã em que fechava uma carta para Paulina, e abria outra de +seu pae. + +Bartholo, sedento de noticias, enguliu quantas mirificas pêtas o marquez +inventou, concernentes a restaurar D. Miguel no throno. No dizer do +industrioso hospede, a Russia estava a disciplinar-se para talar a +Europa, e passar o rôdo sobre as corôas usurpadas. O ex-ministro da +Alçada, como bebesse mais alguns calices de champagne, no auge de sua +alegria gosou-se de visões deliciosas, entre as quaes, se a conjectura +me é fiel, avultavam uns triangulos do caes do Sodré, e umas lavaredas +do Campo de Sant'Anna. Bartholo quiz pôr luminarias; mas o marquez +dissuadiu-o d'uma virtude, que pareceria ridicula a olhos extranhos: a +virtude das luminarias! + +Passeava, ás seis horas da tarde d'aquelle dia, Fernando na praça do +Dome. Paulina estava na janella. Passados momentos recolheu-se, e +reappareceu com uma creada. Fernando comprehendeu, e avisinhou-se. +Paulina apontou para o muro do jardim, e sahiu da janella. + +Caminhou o moço, rente com a parede, e viu a creada debruçada no +peitoril d'um caramanchão angular do jardim. Atirou-lhe a carta, e +apanhou um bilhete que ella ao mesmo tempo deixara cahir, com uma +_saudade_, flôr que, em parte alguma, tem o nome suave que portuguezes +lhe dão. + +Dizia o bilhete: + +«Ámanhã vamos para Piza, onde temos de passar alguns dias. Vae comnosco +o primo marquez de Tavira, que chegou hoje de Roma. Se não fosse o medo +e os conselhos da mana Eugenia, pedia-lhe que se fizesse encontrado +comnosco. Seria temeridade? Eu lerei muitas vezes a sua carta, sempre +que puder fugir á vigilancia de meu pae. São tres dias: paciencia! +Mando-lhe uma flôr, que me faz lembrar as da nossa patria... Ainda nos +veremos lá, Fernando?...» + +_Seria temeridade?_ Este modo de perguntar, esta duvida em que Paulina +ficava, teve Fernando na perplexidade de minutos em que o coração usa +demorar as suas decisões. A ida do marquez com ella para Piza, o primo +marquez, tres dias de ausencia com o primo marquez... Este primo marquez +foi quem deu um empurrão em Fernando, pela porta fóra de Florença, +caminho de Piza. _Seria temeridade_? seria; mas o contrario, o ficar, o +estar tres dias sem ve-la ainda mesmo que o primo marquez não fosse, +isso é que seria pusillanimidade, juizo de mais, excesso que mulheres +amantes consideram coração de menos. + +Fernando viu Bartholo e o marquez, com as duas meninas, entrarem na +caleche. O de Tavira sentou-se em frente de Paulina. O filho do artista +esperou que a locomotiva passasse rente por elle, e fitou o fidalgo, +emquanto Paulina ia de rosto voltado para ve-lo. Seria já o ciume que +lhe afuzilava nos olhos? O primo convencional dos Briteiros era, como já +disse, um rapaz de quarenta annos, um gentil rapaz, quanto se póde +se-lo, com um fardo de quasi meio seculo no espinhaço. As barbas +intensas, nitidas, e negras, os longos cabellos á _Saint-Simon_, o porte +soberbo, as fórmas fidalgas e significativas de destreza e força, as +faces ainda rosadas, eram predicados de assustarem um amante de +compleição doentia, poucas carnes, estatura mediana, ar e olhar +timorato, e outros attributos de que os authores de novellas nunca +revestem os personagens fataes, ditos _leões_. + +Assim que a serpe do ciume o mordeu, não havia já consideração que lhe +estorvasse o passo. Fernando partiu para Piza, curta jornada de algumas +horas. Passou na _piazza del Calvalieri_, para esperar, n'aquelle centro +da celebrada cidade, a passagem da familia. Em que monumentos iria elle +procurar Paulina? Áquella hora, a illustre familia de Portugal estava em +casa da opulenta ingleza Smith, cujo palacio nas margens do Arno abria +seus salões na noite d'aquelle dia. A que parte iria o triste moço, mais +triste na soledade da terra estranha, onde elle, como de si dizia Méry, +se julgava, ao meio dia, o locatario unico de uma grande cidade? Foi ao +_Campo santo_, vasto jazigo dos que morreram lidando na conquista do +sepulcro de Jesus Christo. Seria aquelle o local mais ajustado á sua +dôr? Os tristes sem consolação, como que refugiados da vida, se travam +em mysticas confidencias com as cinzas dos que passaram seu dia chorando +e, alli enxugaram as ultimas lagrimas no lençol humido da leiva. + +Ao entrar no cemiterio, Fernando recordou as palavras d'um illustre +viajante, que tambem lá fôra a recobrar-se de alentos para arcar com a +desventura do seu curto dia: + +«O _Campo santo_ exhala poesia de morte, a poesia do nada, a poesia da +immortalidade. Este é o verdadeiro cemiterio do christão: não se sente +aqui a constricção d'alma que nos causa o tumulo do homem, suave e +religiosa melancholia vae comvosco por entre as quatro galerias +funebres, e vos inspira pensares de morte sem pavor. Este torrão não se +desentranha em ossadas, nem o verme corroe as carnes: é terra milagrosa +que preserva os corpos do insulto das herpes. Envolve-se em magnifico +lençol de relvados floridos; inquadra-se em puras e graciosas ogivas do +marmore alvissimo: é terra de Jerusalem sobre as galerias travadas; os +cadaveres dos velhos christãos de Piza estão aqui santificados; é o +leito de descanço dos homens fortes, que morreram em Deus, com a espada +á ilharga e os rins ciliciados. Quão suave é este ciciar da relva que +ressoa ao longo das galerias! Cuidaes ouvir psalmodia entoada por +sombras, hymno de sepulcros escripto em linguagem, que, só depois da +morte conheceremos.» + +Mas não era cemiterio remanso ao soffrimento do moço. Ancias de coração +não as suavisa a philosophia da morte. Aquillo serve para os que, +n'outro ponto, deixaram fechada a sepultura de suas esperanças. + +Passou arrastado o dia, sem que Fernando encontrasse vestigios de +Paulina. Na manhã do seguinte dirigiu-se á praça onde se ergue a famosa +_torre torta_, que o leitor tem visto pintada, e que o marquez de Tavira +queria ver, mais que tudo. De feito, estavam o curioso emigrado e +Bartholo e as meninas ao pé da maravilha, quando Fernando assombrou n'um +angulo da praça. + +Foi Paulina quem primeiro o viu, e trocou olhares de susto com Eugenia. +Bartholo de Briteiros, que já muitas vezes admirara a inclinação +mysteriosa da torre, estava mais attento nos palacios da praça, e, de +relance, viu parado o portuguez. + +--Aquelle não é o Fernando Gomes?!--disse elle ás filhas. + +--Parece...--balbuciou Paulina. + +--Quem?--disse o marquez. + +--Aquelle patricio em que eu te falei, primo Tavira. + +--Ah! o mindeleiro?--tornou o primo. + +--Tal qual. + +--Sempre lhe quero ver o bellicoso aspeito! Ainda não vi um dos sete mil +e quinhentos roldões do Mindello--tornou o marquez, dando a saber que +tinha sua tal qual instrucção do _Carlos Magno_. + +Fernando, posto que tarde, simulou que não vira Bartholo, e foi indo +lentamente seu caminho. + +O fidalgo deixou as meninas com o marquez, e atravessou a praça, +estugando o passo, para se avisinhar a distancia que elle o ouvisse +chamar. + +--Sr. Fernando! clamou Bartholo--patricio! vae tão meditabundo! Parece +que receia que a torre venha abaixo?! + +Fernando olhou com bem fingida surpreza, e retrocedeu a comprimentar o +fidalgo. + +--Então por aqui!--disse o pae de Paulina.--Acolá estão as meninas, e +meu primo o marquez de Tavira, chegado hontem de Roma. Venha cá, se quer +conhecer um dos primeiros fidalgos de Portugal. + +--Com muito prazer irei comprimentar um primo de vossa +excellencia--disse Fernando. + +--Aqui está o senhor Gomes--disse Bartholo ao fidalgo--filho de Lisboa, +bacharel em direito, e bom rapaz, posto que mordeu muito cartucho nas +linhas do Porto, na qualidade de soldado do batalhão academico, e é, +aqui onde o vê, cavalleiro da torre e espada, valor, lealdade e +merito!... + +O sorriso, que envenenava estas palavras, queimou o sangue do filho do +artista. Paulina tinha os olhos fitos n'elle, olhos de dôr e compuncção. +Se Fernando os visse, daria graças a Deus pela angustia que lhe era +premiada com a maviosa paixão d'elles. + +O marquez gesticulou ligeiramente um cortejo de cabeça, e disse: + +--Consta-me que em Portugal é toda a gente condecorada por façanhas das +linhas do Porto! + +--Toda a gente, não, senhor marquez--disse Fernando.--Ás linhas do Porto +não foi toda a gente, mas todos quantos lá estiveram mereciam bem a +condecoração de valor, lealdade e merito. + +O legitimista desfranziu um riso de compassivo escarneo, e disse: + +--Em quanto a _valor_, o general Povoas que o diga, se os _valorosos_ o +não querem dizer. Em quanto a lealdade, bem se sabe qual foi a lealdade +dos bravos que apedrejaram com patacos D. Pedro no theatro, e mataram +Agostinho José Freire nas ruas de Lisboa. Em quanto a merito, isso agora +é uma questão de barriga: a barriga de cada um é que diz o merito de +cada qual... + +Fernando olhou de revez o marquez, e disse a Bartholo: + +--Vossa excellencia continúa a admirar a torre, e eu vou dar as voltas +que preciso, antes de recolher-me a Florença. + +O marquez ficou mais que muito corrido d'este ar de desprezo com que +Fernando replicou aos seus dizeres, que elle imaginou não só +irrespondiveis, mas capazes de atirar a terra com os creditos de uma +politica. Bartholo tambem se desgostou do menos preço com que o _quidam_ +tratava seu primo, e não teve mão da sua zanga, exclamando: + +--Então não tem resposta o que alli disse meu primo?! + +--Não, senhor--disse Fernando Gomes.--Dá-me sua excellencia as suas +ordens? + +--Passe muito bem, senhor Gomes--disse Bartholo, chofrado. + +Paulina e Eugenia corresponderam ao comprimento reverencioso de +Fernando. Paulina sentia-se contente, soberba da dignidade d'aquelle +moço; Eugenia, porém, doía-se da quebra de brios que soffrera o primo, +temia que a ira do pae resultasse desgosto á irmã, e anteviu a +impossibilidade de nunca mais os dois se approximarem, sem aberta +declaração de guerra com o pae. + +--Este sujeito--disse, azedado, o de Tavira--quem é lá na sua terra? + +--Eu sei cá? É o senhor Fernando Gomes; tal m'o apresentou Jeronymo +Bonaparte! Estes Bonapartes, que se fizeram reis mais depressa que os +reis do theatro do Salitre e da rua dos Condes, impingem á gente com +titulo de _notabilidades_ quantos patavinas os visitam no desterro! +Qualquer pintor, esculptor, ou poeta, em casa do principe de Monfort é +egual aos duques, e tem uma cadeira ao lado dos principes. Quem lá vae +tem de apertar a mão ao pianista Sampieri, ao cantor Tachinardi, á +cantora Degli-Antoni, ao poeta Méry, ao pintor Vernet, ao esculptor +Bartolini, e ao senhor Fernando Gomes, que, no dizer do ex-rei de +Westphalia, é um enorme sabio. Aqui tens tu, primo marquez, como eu +conheci o senhor Gomes. Dei-lhe uma vez entrada em minha casa, porque me +pareceu humilde o sujeito: agora descobri que elle tem seus fumos de +orgulho!... + +--Não se me dava de lhe abater a prôa!--atalhou o marquez.--Queria ver +se estes valentões do Mindello sustentam a fama cá fóra das linhas... + +Bartholo riu-se, e Paulina olhou em rosto o primo com visivel gesto de +despeito. + +--Porque?!--disse ella, com mal represada ira. + +--Paulina!--murmurou-lhe Eugenia ao ouvido. + +Bartholo não dera conta d'este incidente, e o marquez, quando ia +esclarecer a significação do gesto extranho de sua prima, viu que ella +voltava o rosto, e se encobria com as franjas da _sombrinha_. + +--Querem ver que ella ama o tal sujeito?!--disse o marquez entre si, e +differiu para mais ao diante a elucidação d'esta importante suspeita. + +No dia seguinte a familia voltou para Florença. + +Fernando já tinha ido. + +Ás affrontosas palavras do marquez de sobra respondera o silencioso +desprezo do filho do artista: não obstante, o tom injurioso +alanceara-lhe muito dentro o coração, por ter sido Paulina testemunha da +zombaria. + +Pensava elle que a filha do nobre devia ama-lo menos por ve-lo assim +desdourado, e sem vingança egual ao affrontamento. É um inferno, na alma +de quem ama, pensar assim! + + +XI + +Ao cabo de tres semanas de hospedagem regalada, disse o marquez a +Bartholo: + +--Ora, primo e amigo, é tempo de continuar a minha missão, que +interrompi por tres semanas. Bem sabes que a politica me não deixa ser +das minhas vontades. Preciso de ir a Inglaterra em serviço do rei e da +nossa causa. Tu, como rico em toda a parte do mundo, não queres +participar dos trabalhos lentos da restauração: fazes bem, primo +Briteiros: eu é que não posso libertar-me d'esta missão diplomatica. +Espera-me o Saraiva em Londres, e o rei em Berlim, no espaço de quarenta +dias. Aqui tens a razão da minha saída. + +--Pois vae, primo--disse Bartholo--mas logo que te desempenhes d'essa +missão, volta a viver comnosco em Florença. + +--Não prometto. + +--Não promettes, marquez? Pois assim nos pagas a boa vontade com que te +convido e o muito affecto das meninas, que te desejam comnosco?! + +--Se ellas me desejam--tornou o primo com intencional sorriso--isso é +que resta demonstrar, primo Bartholo... + +--Pois que! duvidas? + +--D'uma, duvido; da outra tenho quasi a evidencia que me deseja vêr +pelas costas. + +--Ora essa! qual d'ellas? + +--Permitte que não vamos adiante n'esta penosa conversação, primo... +Evitemos desgostos communs. Tanto soffrerias tu, como eu tenho +soffrido... + +--Que tens soffrido, marquez? Pois ainda agora m'o dizes!...--tornou +Briteiros sinceramente inquieto. + +--Devêra ter-t'o dito ha muitos dias, desde o segundo em que vi tua +filha Paulina... basta. + +--Homem! explica-te, se não eu obrigo-te a faze-lo por tua honra! + +--Pois que assim o queres, sabe a verdade inteira, e reprehende-me se eu +tiver procedido mais segundo os dictames do coração, que os da honra e +parentesco. Eu amei tua filha Paulina com paixão. Se não t'o disse logo, +foi porque me julguei superior a mim mesmo, e aos despotismos do amor. +Muitas vezes em Portugal, em Paris, em Roma, em todas as capitaes da +Europa, me julguei vencido por diversas mulheres que encontrei; e, logo +depois de chorar a derrota, de repente me rehabilitava pelo esquecimento +instantaneo e quasi prodigioso da mulher que horas antes me acorrentava +aos seus mais levianos caprichos. Cuidei que o mesmo me aconteceria com +tua filha Paulina: aqui é que o meu orgulho pagou amargamente as suas +passadas sobrancerias. Verdadeira e insanavel paixão me inspirou +Paulina; e, para cumulo de desgraça e vingança d'outras, tua filha, bem +longe de amar-me, convencido me deixou de me aborrecer. Primeiro +imaginei que Paulina não podia ou não queria amar alguem: isto podia +ser; porque ha mulheres sem coração, e ha outras que parecem ter quatro: +com os homens dá-se o mesmo caso. Porém, primo Briteiros, a razão do +desamor de tua filha era a mais natural do mundo; é por que tua filha +amava e ama outro homem. + +--O que?!--interrompeu iracundo o fidalgo.--Minha filha ama outro homem! +Calumnia! A minha Paulina não ama ninguem; e hade ser tua mulher, se eu +quizer que ella seja tua mulher. Entendes tu, marquez? + +--Perfeitamente entendi, primo; mas eu é que sou incapaz de permittir +violencias, e acceitar esposa violentada. Outrem me julgue tal; mas tu +não, Bartholo, que conheces a nossa familia, e sabes que meus avós deram +para casa dos reis suas irmãs, e receberam como esposas as filhas dos +reis. + +--Bem sei, bem sei que foram esses os costumes da nossa familia; mas por +isso mesmo é preciso que eu obrigue a minha filha a manter-se na +dignidade de seus avós. Quem é o homem que ella ama? + +--Pergunta-lh'o tu, primo. Se ella não t'o disser, consente que eu, por +honra mesmo de nosso sangue, o não pronuncie. + +--Que? pois ella ama algum mechanico? Responde por quem és, marquez! +Depressa, que me sobe o sangue ao cerebro! + +--Já te disse que ha grande deshonra em tal inclinação, primo... Não +forces a minha repugnancia a revelar-te o que de mim mesmo eu quizera +poder esconder. + +Bartholo de Briteiros andava na sala, aos empurrões das furias, +sacudindo vertiginosamente os braços, emquanto o marquez com a face +entre as mãos, e os cotovellos encostados ás almofadas de uma ottomana +lhe relanceava os olhos de infame penetração. Quando viu que era tempo, +ergueu-se, tomou nos braços o pae de Paulina, e disse-lhe: + +--Estou vivamente arrependido. Não devia ter dito nada. Era mais nobre +esmagar-me no coração, e poupar o teu de pae, e pae como tu és, meu caro +primo. Perdoa-me, e perdoa as fragilidades de tua filha. É um amor de +creança que ella tem ao... + +--Ao... quem?--exclamou Briteiros com uma grammatica desculpavel á sua +angustia. + +--Porque não hei de eu dizer-t'o, se o enlace mesmo de sangue me obriga +a velar pela honra de tua familia, que tambem é minha! Tu nunca +suspeitaste d'este Fernando Gomes? + +--Fernando Gomes! pois tu crês que minha filha ama Fernandes Gomes?! + +--Creio, sei-o, tenho a maxima certeza. Agora não ha que tergiversar. +Cheguei ao ponto de me perder no teu conceito, se não adduzir provas. +Paulina vae ao caramanchão que está sobre o caminho, e d'alli fala a +Fernando, ás horas em que tu dormes a sesta. Trocam-se cartas todos os +dias. Estes factos são presenciados por quem os quer ver. Vi eu mesmo, +depois que me avisaram. Reprehendi a prima Paulina, em termos de bom e +zeloso parente e amigo. Tua filha respondeu-me com azedume, +recommendando-me que me não intromettesse na vida alheia. Repliquei com +as mais sagradas razões; dei-lhe como possivel, se não certo, ser +Fernando algum miseravel dos que de repente se levantaram da lama de +Portugal, e vieram no extrangeiro fazer luzir o ouro, que lhes seria +vergonha na patria. Rebateu-me com o mais formal e mais descomposto +desdem, que meus olhos nunca viram em menina com tal edade e educação, e +de tal linhagem! N'esta altura da questão, entendi que o meu dever era +deixal-a ao espirito tentador que a quer perder; todavia, mais sagrado +dever me admoestou a que te avisasse, primo, para não tomar sobre mim a +cumplicidade de alguma enorme desgraça, e mais enorme deshonra. Agora +encarecidamente te rogo que te hajas com a cautela e prudencia que tão +melindroso negocio requer. + +--Que hei de eu fazer?!--bradou Bartholo. + +--Sae com tuas filhas de Florença. Vamos para Londres. Eu irei adiante +preparar-te aposentos. Lá, se o biltre a perseguir, eu lhe tornarei +impossivel o accesso, e a possibilidade de a ver. Se outro passo deres, +receio que seja o peor para te saíres dignamente da difficuldade. O ar +com que tua filha me falou revela proposito de ferro, e resolução +inabalavel. Póde temer-te; mas obedecer-te não. Fia-te em mim, que eu +sei o que são mulheres, primo. Finge que não sabes nada. Prepara com +qualquer pretexto a tua viagem, e tu colherás depois os bons fructos da +prudencia. Se, como creio, tua filha mudar de idéas em Londres, com o +mais sincero coração te digo que serei ditoso fazendo-a marqueza de +Tavira; mas, para que este enlace se possa fazer, é necessario que ella +nunca desconfie que eu fui o denunciante d'este vergonhoso affecto. +Convens n'isto, primo Bartholo? + +--Convenho, marquez... Seja assim.. + +Acabava o pae de Paulina de proferir a ultima palavra, quando as duas +meninas, pé ante pé, se afastavam ao longo do corredor que conduzia da +sala, em que os dois dialogaram, para o interior da casa. + +Paulina lançou-se no braços da irmã, e exclamou: + +--Oh! que infame é aquelle homem! que infame!... Que hei de eu fazer, +Eugenia? diz-m'o por compaixão da tua pobre Paulina! + +--Que has de tu fazer, filha?... Eu sei!... Soffrer como eu soffri, +quando o pae nos tirou de Paris... + +--Isso é que não!--replicou Paulina--Não me deixo assim esmagar! +Fernando ha de ir tambem para Londres. Vou escrever-lhe e contar-lhe +tudo... se o não puder ver, terei a coragem de soffrer e esperar, com a +certeza de que elle está tambem em Londres... Pois que pensas tu?... Eu +não posso esquecel-o, assim como tu esqueceste o francez, Eugenia! É +porque tu o não amavas; se o amasses, a desesperação te daria forças! +Tenho-as; sinto-me capaz de tudo!... O malvado!... á custa de que +infamia elle queria fazer-me marqueza!... + +--Eu logo te disse--atalhou Eugenia--que não fazias bem em falar com +tanta soberba, quando elle te reprehendeu... + +--Fiz muito bem! desenganei-o: está desenganado para sempre... Agora +tudo que elle fizer são indignidades, e cada dia, e cada hora, hei de +abominal-o mais. + +Aqui tem a leitora bem significada Paulina n'este conhecido verso: + + _Ás vezes branca nuvem cospe um raio!_ + +Quem diria que tamanhos vulcões de colera se escondiam no sereno peito +da gentil creatura, que parecia talhada de molde para soffrer docilmente +o martyrio! Ahi está o que faz o sol de Florença! Devem-se á Italia +aquellas conflagrações! Em Portugal me quer parecer que Paulina não +fosse aquillo. A minha espionagem de romancista nunca me alviçarou casos +identicos de barreiras de Portugal a dentro. Por isso mesmo é que eu +tenho de ir em cata dos meus personagens lá fora, para alternar, com +lances de estremecer, as frias historias que tenho posto em livros de +que ninguem se espanta, e que passam por as mais frias, insipidas, e +inertes lucubrações do espirito humano. Esta agora, sim! + +Paulina cortou o folego da imprecação para ir escrever a Fernando. + +Poz em resumo o dialogo do pae com o marquez, e a resolução de ambos. +Pedia-lhe que os seguisse para Londres, e averiguasse onde se alojavam. +Asseverava-lhe que, á custa de tudo, se haviam de ver em Londres; e +terminava, com a mais candida desenvoltura que póde ter uma menina, +dizendo que, extremos de perseguição, ella fugiria para elle, e seria +sua esposa. + +Na tarde d'este dia Bartholo de Briteiros deitou-se a dormir a sesta: +assim lh'o impoz o cauteloso espião. Fernando já tinha em si a carta e a +resposta. Appareceu na praça do Dome, e Paulina no caramanchão. Poucas +expressões se trocaram depois que Fernando atirou a carta. + +A resposta era qual a delicada menina podia mais ambicionar. O amante +sentia-se menos desditoso do que ella se imaginava. Para elle a +afflicção de Paulina era extrema prova de amor. Antes a queria assim +contrariada, e acrisolada ao fogo da oppressão. Incutia-lhe animo e +esperanças. Promettia, mediante o auxilio do ministro em Londres, espiar +os menores passos do marquez e de Bartholo. Se a não acoroçoava a fugir +de seu pae, antevia, como primeira hora de sua felicidade sem nuvem, +aquella em que Paulina se confiasse á sua honra. Do marquez dizia apenas +que era inferior ao seu nojo, e lamentava que os grandes fidalgos +andassem a competir em aviltamento com a mais infima ralé. + +O marquez, escondido n'uma loja da praça, presenciava os passos de +Fernando. O homem, que tanto preleccionara acerca da prudencia, não teve +mão de si. O demonio da pobreza espicaçava-o! Era o demonio da pobreza +que prevalecia ás furias do ciume. Saiu da loja, e veio ao meio da praça +por onde Fernando caminhava com a altivez que dá a felicidade do +coração. + +Viu elle o marquez, e, a seu pesar, dardejou-lhe um olhar de desprezo, +que parecia provocação. O neto de reis, se havia de ir ávante, e deixar +o verme, parou, metteu as mãos nas algibeiras; e fez um tregeito de +pernas, e assobiou umas toadas, que fariam as delicias de um faiante em +pleno goso de seus tavernaes meneios. + +Fernando sorriu-se, e caminhou. + +--O senhor ri-se?--exclamou o marquez. + +--Ri, sim, senhor--disse placidamente o filho de Francisco Lourenço. + +--Que quer dizer o seu riso?!--replicou o fidalgo. + +--Que vossa excellencia é uma pessoa irrisoria. + +--Mas eu arranco-lhe os figados pela boca, bradou o marquez. + +--Operação difficil!... tornou Fernando sorrindo. + +--Julga-me da sua bitola, sô villão? + +--Eu não sei como hei de julga-lo, senhor marquez, depois que o julguei +tolo! + +E approximou-se com magestosa serenidade. Fernando parecia crescer, +nutrir, illuminar-se, e tornar-se mesmo grande aos olhos do +convencionado de Evora-Monte. + +--Tem de dar-me uma satisfação com armas! replicou o marquez. Joga +alguma que não seja o arcabuz do cerco do Porto? + +--Não senhor; não jogo armas. + +--Quer dizer que não se bate? + +--Bato com todas. + +--Tem padrinhos? + +--Os dois primeiros homens que se encontrarem. O primeiro já eu vi. + +--Quem? diga-o, para lhe enviar os meus. + +--É um pintor: chama-se Leopoldo Roberto. + +--Lá me quiz parecer! disse o marquez gargalhando uma risada secca. + +--Que lhe quiz parecer a vossa excellencia?! + +--Que os seus padrinhos haviam de ser pintores ou cousa que o valesse... + +--A coarctada é miseravel, senhor marquez! vossa excellencia é um +covarde, que não vale o desprezo do pintor. + +O marquez de Tavira levou as mãos ás proprias respeitaveis barbas. +Puchou as mechas a um lado e outro com tregeitos muito de incutir terror +em almas fracas. Deteve-se um pouco n'esta operação minacissima, e tirou +do peito alfim estas memorandas coisas: + +--Villão seria eu se expozesse a minha vida ao revez de sujar-me com tal +competidor! Precisamente o senhor é um aventureiro, que anda a farejar +mulher dotada cá por paizes onde lhe não conhecem a suja betesga d'onde +saiu. Lá na patria sabem-lhe o nome, ou ninguem lh'o sabe, é mais +acertado dizer!... Convinha-lhe a filha de Bartholo de Briteiros? Que +atrevimento de ambições o seu! Afinal, que espera colher d'esta +aventura?... A correcção dada por um lacaio de meu primo! + +--Se o lacaio tiver mais coragem do que vossa excellencia, em cujos +hombros assentaria cabalmente a farda. + +--Miseravel!...--rugiu o marquez! + +--Tolo!--replicou Fernando. + +O primeiro voltou as costas; o filho do artista permaneceu no seu posto +alguns minutos, encarando as duas meninas, que os viram approximar da +praça, e esperavam, atribuladas, a infelicidade do encontro. + + +XII + +Decorridos dez dias, chegou a Napoles Francisco Lourenço. Aqui o +trouxera a certeza anciosa de encontrar seu filho em convalescença, se é +que Fernando o não enganára com o louvavel intento de o poupar a maiores +afflicções. Durante a viagem para França, o artista entendeu que saíra +precipitadamente de Lisboa, sem agenciar relações que o dirigissem a +Napoles. Quem o guiaria n'uma grande cidade como aquella? Estaria o +filho n'um hotel ou nos arrebaldes? + +Para remediar semelhante imprevidencia, dirigiu-se, torcendo o seu +itenerario, a Paris, e apresentou-se ao ministro portuguez, expondo o +seu destino. O ministro deu-lhe carta para Napoles. + +Poucas horas depois da chegada, Francisco Lourenço tinha a certeza de +que seu filho saira de Napoles dois annos antes, e nunca mais ahi +voltára, e a certeza tambem de que o moço estava em Florença, havia +quinze dias. + +Saiu Francisco para Florença, cuidando que seu filho peorára, ou +melhorára a ponto de dispensar a convalescença n'outros ares. Com as +recommendações que levára de Napoles, soube em pouco tempo que Fernando +embarcára em Genova com destino a Londres. + +--A Londres!...--exclamou o velho.--Então é certo que meu filho me vae +fugindo. + +--É mais natural que o vá procurando--respondeu a pessoa a quem o +artista ia de Florença recommendado.--Póde ser que seu filho fosse +embarcar para Portugal em algum dos portos de Inglaterra. O certo é que, +minutos depois da sua chegada a Londres, o senhor ha de saber onde seu +filho está hospedado, se é que elle lá está. Entretanto as minhas +informações dão que Fernando Gomes--continuou o chefe da policia de +Florença--estava mais ou menos ligado com uma familia portugueza +emigrada, cuja cabeça é Bartholo de Briteiros, residente n'esta cidade +por espaço de dois annos e tantos mezes. Dizem mais que Fernando Gomes e +um tal marquez de Tavira concorreram a amar uma filha do senhor de +Briteiros, e por ciume se insultaram na praça do Dome. + +--E meu filho--atalhou Francisco Lourenço com amargura--não esteve +doente?! + +--As minhas informações não me dizem que elle estivesse doente, e penso +poder asseverar-lhe que seu filho gosou em Florença a melhor saude. +Encontrei-o miudas vezes em casa de Jeronymo Bonaparte, onde elle era +muito estimado do principe. Comquanto não estivessemos relacionados, só +de o ver devo crer que o senhor Fernando Gomes passasse bem, a julgar +pelo seu aspecto não doentio, posto que pallido. + +Munido de indicações e uma carta, Francisco foi esperar em Genova a +sahida de um barco inglez para Falmouth. + +Tão rapidamente quanto em Florença lhe prometteram esclarecimentos, +recebeu-os em Londres, na repartição da policia, onde lhe deram um +_policeman_ que o guiou á rua, hotel, e numero do quarto em que assistia +Fernando. O velho fez mentalmente o elogio da policia britannica. + +Bateu Francisco Lourenço na porta indicada. Abriu-lh'a o filho. + +--Entro com os braços abertos!--disse o velho convulsivo de jubilo.--Não +te venho ralhar, filho!... + +Fernando abraçou-o com fervor, e limpou-lhe as lagrimas copiosas. + +--Minha mãe como está?--disse Fernando... + +--Doente a deixei... Deus sabe como ella está... Acho-te bom, meu +Fernando... Ainda bem!... Não cuides que eu antes queria achar-te +doente... Perdôo-te a mentira, porque... antes assim... E agora?... +Agora vens ver tua mãe?... + +--Descance, meu pae--atalhou o enleiado moço.--Descance, e depois... + +--Não póde ser depois, Fernando... Que faço eu aqui?! Não vim vêr +Londres; vim procurar-te, vim chamar-te. Se me não seguires, que faço eu +longe de tua mãe, que a esta hora mal sabe que voltas tenho dado... Era +melhor que me não dissesses que ias para Napoles: poupavas-me tanto +desgosto e fadiga!... Bem vês que estou muito velho... Não me deixaste +assim... Em tres annos ninguem envelhece tanto... + +--Perdão, meu pae!--exclamou Fernando, apertando contra o seio as cans +do velho lagrimoso. + +--Tanto chorar, na minha edade, é sorte de poucos... Vejo tantos paes, +com os meus annos, em socego, á espera da morte, rodeados de seus +filhos, fartos e ricos do fructo dos trabalhos d'elles... + +--Tem razão...--atalhou Fernando--mas esses são os paes que teem filhos +menos desgraçados que eu! Eu queria contar-lhe a minha vida... uma só +palavra a explica... é uma paixão, meu pae, que me deshonrou aos seus +olhos; por amor d'uma mulher lhe menti, e me envileci em minha propria +consciencia... + +--Não estás deshonrado aos meus olhos, Fernando... Desgraçado é que me +pareces, filho... Não me contes a tua vida, que a sei. Lá deixaste em +Florença as tuas memorias... Isso mesmo por que m'o não disseste? Antes +isso que o engano. Eu não me espantaria que deixasses pae e mãe por uma +mulher. Tuas irmãs tinham sido criadas no regaço de tua mãe, e fizeram o +mesmo... Deixaram-nos sósinhos. Mas poderás tu dizer-me que futuro é o +teu? que tencionas fazer? Bartholo de Briteiros, esse mau homem, que tem +uma historia escripta com sangue, foge-te com a filha para Londres. Que +vens tu aqui fazer? Queres tirar-lh'a? + +--Não, meu pae; quero vel-a, unicamente vel-a; porque no dia em que +perder a esperança de a tornar a vêr, hei de matar-me para esquecel-a... + +Fernando escondeu o rosto no seio do pae, e exclamou: + +--Deixe-me chorar, que são as primeiras lagrimas. Não houve coração +algum que m'as recebesse... + +E soluçava convulsivamente nos braços do velho, que o apertava ao peito +com tremuras de compaixão e amor. + +--Diz-me tu, filho...--tornou com muita brandura Francisco +Lourenço--essa senhora despreza-te? + +--Oh! não!... O desprezo seria a minha salvação--respondeu Fernando com +vehemencia.--A desgraça é ella amar-me, e ser uma santa em dedicação e +sacrificios. Por amor de mim foi tirada de Florença para Londres; e ha +quinze dias que a cada instante a espero aqui... fugindo á crueza do +pae, que quer casal-a... + +--E tu has de acceitar uma filha fugida a seu pae?...--interrompeu o +velho.--Vê se podes, á custa mesmo da vida, ser honrado, filho! Seja o +pae um malvado, seja a filha uma santa, embora...; mas não te absolvas +em tua consciencia, se consentires que essa menina fuja para ti. + +--Mas o pae faz-me a injustiça de suppôr que eu não irei logo recebel-a +como esposa? Não sabe que ella é... + +--Sei que é rica... os Briteiros são muito ricos... Isso é que me queres +dizer, Fernando?... + +--Não, senhor; queria dizer-lhe que Paulina Briteiros não é mulher que +algum homem possa victimar, por mais infame que ser possa; ora eu, meu +pae, amo-a com esta paixão que vê. O mundo não nos perdoaria a culpa de +nos unirmos contra a vontade de seu pae? + +--O mundo não vos deixaria unir sem grande perseguição, filho. Antes de +alcançares o descanço de uma honrada lucta com a sociedade, serias +muitas vezes infamado, esmagado e talvez vencido. + +--Espere, meu pae!... cale-se!--exclamou de subito Fernando.--Estes +passos são de mulher... + +--Será ella, meu Deus!--disse Francisco Lourenço. + +Fernando foi á porta, viu a criada confidente de Paulina. A moça assim +que o viu debulhou-se em lagrimas, e balbuciou: + +--A menina não pôde escrever-lhe... Está-se preparando para sair com o +pae... Recebeu ordem de repente. Vai para um convento da Irlanda: foi o +que elle lhe disse, a não querer ella casar com o maldito marquez. A +senhora D. Paulina não verteu nem uma lagrima, e respondeu: «Irei para +onde o pae quizer; não caso com o marquez, que é um villão». Que coragem +a d'aquella menina! Depois fez-me um signal; e eu corri a participar-lhe +isto. A senhora D. Eugenia manda-lhe pedir que, para salvar a irmã de +morrer no convento, indo o senhor para fóra de Londres, talvez se +conseguisse que o pae a deixasse ficar em casa, e manda-lhe dizer que o +faça se tem amor á pobre menina. + +--E porque não hade elle fazel-o?--atalhou Francisco Lourenço.--Diga +vocemecê a sua ama que ao lado de Fernando está seu pae, e que meu +filho, por amor da senhora que soffre tanto, nos ha de obedecer a ambos. + +--É impossivel!--exclamou Fernando allucinado por sua enorme +angustia.--É impossivel desamparal-a no maior aperto da perseguição! +Para que me quer meu pae em Portugal, se eu vou lá morrer?!... Que vil +eu seria no conceito de Paulina, affastando-me na occasião em que ella +mais precisa do meu conforto?... Diga á sr.ª D. Eugenia--proseguiu elle +voltando-se para a criada--que eu não posso obedecer lhe, salvo se ella +entende que a minha morte remedeia os desgostos de sua irmã. É de crer +que sim; mas eu é que estou convencido que Paulina quer que eu viva. + +Francisco Lourenço fitava o filho com os olhos embaciados de lagrimas, e +não o contradisse. + +A creada saíu com um bilhete d'oito linhas escriptas por Fernando. + +Após breves instantes de silencio d'ambos, o filho disse serenamente: + +--Meu bom pae, eu agradeço á Providencia poder n'esta hora falar com um +homem a quem devo as primeiras luzes da minha intelligencia. Maior +desgraça seria a minha, se meu pae não podesse comprender-me, +indultar-me, e compadecer-se. Accuso-me de o ter enganado; era mais +honroso dizer-lhe que tinha coração, mas eu cuidei que mentindo, sem +medo de ser descoberto, salvava a irreverencia inseparavel de +confidencias taes a um pae. O meu engano duplica o merecimento de ser +perdoado. Conhece a minha situação, meu pae. Com a alma despedaçada lhe +digo que não sei como remedial-a. Quer que eu o siga? Seguirei: já vejo +de todo e para sempre negra a minha vida... Seguirei; mas uma hora virá +em que meu pae se lastime por ter imposto ao meu coração a sua +respeitavel vontade. Se quer que eu viva e procure alguma saída d'este +circulo de ferro, deixe-me seguir Paulina á Irlanda... + +--Bem, filho--atalhou o velho contrafazendo placidez e seguridade de +animo--Concedo o que desejas e precisas; mas escuta: os meus haveres são +poucos; tuas irmãs casaram dotadas; tu pouco tens gastado +comparativamente ao que eu antevia; mas assim mesmo excede o que devia +ser teu dote. A officina dá pouco, porque a tenho desamparada. Desde que +em Lisboa se estabeleceram sapateiros francezes, muita freguezia me +deixou. Não me affligiu este desprezo do que é nosso, porque, bemdito +seja Deus, contava com o pouco para muita felicidade. Eu estou reduzido +a tres contos de réis, e os bens do Cartaxo, que outro tanto poderão +valer. Acabado isto, irei pedir agasalho a uma tua irmã, e tua mãe a +outra; e tu, que és formado, a todo o tempo conseguirás algum emprego +que te alimente. O fim da nossa vida póde assim talhar-se, e Deus +permittirá que não seja peor. Digo-te isto para que saibas com que pódes +contar, Fernando. Lança as tuas contas; e, quando vires que tens +consumido o que possuo, tem tu a generosa compaixão de não pedir mais. +Eu comigo não posso contar para o trabalho. Estou com pouquissima vista; +mais de uma vez n'estes ultimos annos me tem ameaçado a cegueira. Corre +tudo na loja por conta dos officiaes: uns roubam, outros desmazelam-se; +ninguem tenho em que possa fiar-me. Aqui tens singelamente dito tudo. +Agora sê o que poderes ser em favor d'essa senhora; mas não te deshonres +por causa do amor. Eu creio que é falso o amor que leva o homem á +indignidade. + +Fernando, após breve pausa, respondeu: + +--Eu sabia quaes eram os haveres de meu pae, quando saí de Lisboa. +Viajei dois annos, gastando o menos que podia. Como o meu viver era só, +e indifferente ás regalias das cidades em que passei, restringi as +minhas despezas á sustentação parca, e ao vestido mais urgente. Assim +mesmo gastei muito em proporção do que devia gastar. Pouco tem hoje meu +pae para a sua subsistencia: não devo pedir-lhe um quinhão d'essas +migalhas. Irei ensinar linguas na Irlanda: sei um pouco de todas as que +se falam na Europa. Muitos emigrados portuguezes aqui viveram assim. A +fome illude-se com pouco. + +Francisco Lourenço abraçou o filho, e murmurou: + +--Não quero, filho, não quero isso assim. Quando a necessidade te +obrigar ao trabalho e á independencia dos impossiveis recursos de teu +pae, eu t'o direi sem pejo, nem pesar de te ver humilhado. Então +trabalharás para ti, e verás quão doce é o pão negro que se lavra com o +proprio suor... + + +XIII + +Paulina leu o bilhete de Fernando, que dizia assim: + + +«Ver-me-has em toda a parte; e, quando me não vires, sabe que eu +contemplo o céo que te cobre, ou te espero em outro mundo para uma outra +vida. Vivo ou morto, a minha alma será sempre comtigo, Paulina! Ámanhã +parto para Irlanda. Não sei se é para Dublin que te levam. Eu te +encontrarei... Até lá.» + + +E estava alli, á beira d'elle, o choroso velho, aquelle pae amantissimo, +quando Fernando escreveu: _Ámanhã parto_!... A crueldade dos filhos que +amam! Que fragil é tudo isto que ahi chamam leis da natureza, quando o +amor, aquella creança dos fabulistas, mesmo ás cegas, lhes atira um +encontrão! + +Em quanto Paulina relia o bilhete e o mostrava á irmã com a douda +alegria de mulher amada, Bartholo de Briteiros, encerrado com o marquez +de Tavira, dialogavam d'este theor: + +--Mas não me saberás tu explicar o contentamento com que Paulina se está +preparando?!--dizia Bartholo. + +--Aquillo é febre que arrefece depressa, primo Briteiros. As mulheres +são assim. + +--E era capaz de entrar no convento, e esquecer-se de pae, irmã, e tudo! + +--Nos primeiros dias, sim; depois, quando lhe faltasse o animo, e não +visse o Fernando, nem tivesse noticias d'elle, modificava o seu parecer +a respeito de conventos e de amor. As mulheres são assim, primo +Briteiros. Umas ha que são capazes de morrer por orgulho, e outras por +soberba são capazes de se envilecerem. Mas a nossa Paulina não ha de +morrer nem aviltar-se, visto que o convento é uma fabula, e a fria +Irlanda se não ha de gosar de a ter nos seus mosteiros. A creada +desempenhou perfeitamente o papel, pelos modos. É o dinheiro mais bem +empregado que tu tens consumido para salvar tuas filhas das unhas dos +aventureiros... + +Corte-se aqui o dialogo para dar um esboço muito pela rama d'esta ladina +creada, que tambem tinha a honra de ser portugueza. + +O marquez descobrira que ella era a intermediaria de Paulina e Fernando. +Aconselhou, por isso, Bartholo que a seduzisse com dinheiro a ir +participar a Fernando que a menina se recolhia a um mosteiro da Irlanda; +e ao mesmo tempo, da parte de Eugenia, lhe pedisse que se retirasse de +Londres, a ver se assim abrandavam os rigores do pae. A creada accedeu á +proposta com o mais admiravel desapego de gratificação. Saiu logo a +cumprir o mandado, e recebeu o bilhete de Fernando. Na fiel entrega do +bilhete a Paulina é que assenta o elogio da creada. Bartholo ficou +contente d'ella, e Paulina extremamente grata á expontanea resolução da +creada. Mas é pena que tanto a ama, como a creada, como Fernando Gomes +fossem enganados por cavillações suggeridas pelo marquez de Tavira, que +era o mais refinado velhaco de que ainda tivemos noticia! + +Agora ate-se o dialogo. + +--Foi bem lembrada a tua ideia, primo!--tornou o ministro da Alçada, +como que orgulhando-se de ter na sua parentella um sujeito com +ideias.--O homem agora vae dar comsigo em Irlanda. Quem diabo lhe ha de +lá dizer que nós vamos para Madrid? + +--É verdade!--exclamou o inventor da ideia com radiosa ufania. + +--Quando elle o souber--tornou Bartholo--espero eu que tu sejas meu +genro, e minha filha feliz... Palavra de cavalheiro! eu não tinha alma +de a fechar n'um convento! Quero-lhe muito, e por isso t'a dou com a +condição de que nunca sairá da minha companhia, primo. + +--Já te disse que a minha maior dôr seria separar-me de ti, primo +Briteiros! Se ha pessoa n'este mundo que eu preze tanto como a tua +filha, és tu! Ainda mesmo que Paulina me fique odiando para sempre, e +não venha a ser minha mulher, crê tu que tamanho golpe não cortará os +vinculos de amizade que nos prendem. Serei um teu dedicado irmão, um +vigilante mordomo do teu bem estar, capaz de todo me sacrificar ao zêlo +com que tu olhas pela ventura de tuas filhas. + +--És honrado, primo Tavira!--exclamou Bartholo--Conta com o amor da +minha Paulina, quando esse maldito demonio a tiver deixado... + +--D'elle estás tu livre, Briteiros! Se outro peor não vier depois... mas +eu terei astucia para te salvar de todos. + +A creada, que captivara a confiança do amo, como sentisse remorder-lhe o +remorso de ter, apesar de tudo, atraiçoado a menina que a tratara sempre +como amiga, desde a infancia de ambas, cogitou no modo como foi +industriada, e de si para si decidiu que a ida de Paulina para um +convento de Irlanda era um logro a Fernando Gomes. Levada d'esta +apprehensão, e do desejo de remediar o mal, se era um mal ser ecco da +mentira, foi manso e manso colar a orelha á fechadura da porta que +separava Bartholo e o marquez das salas mais frequentadas da casa. A +parte do dialogo que ella escutou era a mais importante. O amo erguera a +voz, quando perguntou ao marquez: + +--_Quem diabo lhe ha de dizer que nós vamos para Madrid?_ + +--A criada respondeu entre si: «Hei de ser eu» e foi de corrida contar a +Paulina o que ouvira; e, instantes depois, ia a caminho do hotel de +Fernando com a nova, e já em toda a seguridade de sua consciencia. O +filho do artista ouviu o contra annuncio com prazer. Estava a seu lado o +velho, como a gosar-se em lagrimas das poucas horas de convivencia com +seu filho. Esperava dar-lhe na manhã do dia seguinte o adeus de +indeterminada, e talvez eterna separação. A nova foi de prazer para +ambos. Francisco Lourenço iria com seu filho para Hespanha, e te-lo-hia +menos longe de si. O prazer de Fernando, de natureza diversa, consistia +em ser Paulina menos sacrificada por amor d'elle. O convento +avultava-lhe com mil angustias, que lá não existem. O receio de a ver +sossobrar entre ferros, em lucta com os apertos monasticos recommendados +por Bartholo, era a mais pungente de suas dôres. Entreluziam-lhe +esperanças em Madrid: mais facilidade na fuga, mais protecção nos +costumes; amigos que lhe dessem auxilio; e a breve jornada a Portugal. + +N'este enlevo de alegrias, forçoso era que viesse logo o desconto. +Francisco Lourenço, quasi sem ponderar o valor da pergunta, disse a +Fernando: + +--Essa senhora sabe de quem és filho? + +--Nunca m'o perguntou... + +--Nem tu lh'o dirias... mas tens tu reflectido n'este ponto? A senhora +D. Paulina de Briteiros amar-te-hia se lhe tu houvesses dito que teu pae +é o sapateiro da calçada do Sacramento? E amar-te-ha, quando alguem, +bastante curioso, ou encarregado de saber o teu nascimento, a informe de +que o viajante portuguez, posto que viva de seus proprios recursos, é +filho de um sapateiro? + +Fernando odiou-se a si proprio n'este momento, e respondeu com um gesto +desabrido. + +O artista achegou-se do filho para lhe vêr o rosto, cujas alterações +seus olhos não alcançavam. E disse: + +--Fizeram-te mal estas reflexões, Fernando? + +--Fizeram, meu pae--disse o moço agastado.--Por isso mesmo, para me +forrar d'estas agonias horriveis, melhor fôra que me tivesse dado a +felicidade do artista. Eu seria a esta hora um homem com a alegria pura +de todo o homem que trabalha, e tem suas ambições e coração +circumscriptos a muito pouco. Que fatal lembrança a de me arrancar da +minha esphera, para que eu hoje não tenha nenhuma! Os pequenos +regeitar-me-hão como os grandes me regeitam, quando souberem quem eu +sou!... + +--Deus se compadeça de ti!--murmurou o velho, limpando as lagrimas--e me +perdôe a mim o mal que te fiz, pelo muito que tenho expiado a minha +vaidade de te fazer maior do que teu pae. Valha-te o Senhor! Que +direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhações? Para que a +procuras afincadamente, se vaes de rastros após ella! Por que has de tu +querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma +carreira por onde levarias teus filhos á grandeza! São as tuas cartas de +bacharel formado que te arremessam aos despropositos das ambições? Ou é +a tua intelligencia que te diz que não nasceste para a mediania? Se é a +tua habilitação, faz que ella te sirva, filho. Entra como quem és, e o +pouco que és, na estrada da honra: faz realçar o teu merecimento com tua +mesma humildade, e lá irás dar ao ponto onde chega o homem honrado, todo +o homem, ainda que a muitos pareça que não. A tua intelligencia é +impossivel que te aconselhe esse odio ao acaso que te fez nascer de paes +mechanicos. Eu, filho, li quanto pude, estudei quanto os meus poucos +principios me permittiram; e Deus sabe que nunca tive pejo de ser quem +era. A razão esclarecida é o que falta aos homens que se envergonham de +não terem nascido já nobres, já respeitados, e idolatrados do mundo. +Pensava eu que, allumiando a tua razão, te dava armas para combateres os +prejuizos e preconceitos miseraveis das raças. Fiz o contrario, filho; +justamente o contrario... + +--Não, meu pae...--interrompeu Fernando--perdoe-me, e não se afflija, +por amor de minha mãe lh'o rogo! Eu tenho o presentimento de que ainda +hei de provar-lhe que me não vexo da baixeza do meu nascimento... esta +dôr foi uma irreflexão, meu pae. Tem o coração estes desgraçados +caprichos... Caprichos, e mais nada... Se Paulina me perguntar quem sou, +dir-lhe-hei quem sou; se quizer saber quem é meu pae, dir-lhe-hei +ufanamente quem é meu pae. Por que não?... Aquella candida alma +deslustrar-se-hia em me ter pertencido? Então que torpe deve ser o +coração humano! Com que prazer e ardor eu iria buscar á derradeira ordem +social a mulher pobre, a filha do varredor das ruas, a filha do +carrasco, que me desse o seu amor, sem perguntar-me a minha origem?... + +Alongou-se o dialogo entre os dois, que terminaram abraçando-se, e +chorando. + +Era tempo de se aprestarem para a viagem. Fernando, sabendo que a +familia Briteiros havia de atravessar o Canal no dia seguinte, de +passagem para França, tomou nota da saida de um navio de Plymouth para +portos de Hespanha. Resolveram seguir o caminho mais perto, consultando +a vontade de seu pae. + +Pessoa extranha, que observasse o aspecto de Fernando, veria as nuvens +que lhe assombreavam a alma. Embaciára-se-lhe, não sabemos por que +maravilhoso influxo, a limpidez da esperança, com a qual até áquella +hora conseguira affrontar a adversidade. Era o desalento, um não sei que +de contricção intima, que paralysa as faculdades robustas da vontade +n'um quasi morrer de toda ella. + +As terriveis hypotheses do pae, concernentes ao sapateiro em amores com +a illustrissima pretendida do marquez de Tavira, poderiam tanto! + +O orgulho do coração do homem do povo será capaz de aniquilar tamanha +paixão? + +Ha exemplos; mas tão obscuros que nenhum romancista quer fazer obra por +elles. + +Em novella, criada para as folgas de grandes damas, e galans mancebos, +enfastiados d'outros gosos, qual romancista baixa das alturas da sua +imaginação a historiar quadros sociaes de sapateiros? + +Se em Portugal os sapateiros lessem, tal livro seria comprado por uma +classe e pagaria as fadigas do popular escriptor. + +É precisa muita abnegação para isto, n'esta terra e com esta gente, que +acha mesmo illiteraria a palavra «sapateiro». + +_Artista_, recommendam-me que diga _artista_, para não offender o +apparelho articular das pessoas afidalgadas de nervos! + +Já é! ha poucos mezes contei, romanceei, panegyriquei a vida de um +gallego n'um volume de duzentas e tantas paginas! É rastear muito esta +arte! Ha tanto principe na historia portugueza a pedir romance! e tanta +princeza tambem! + +Por que não hei de eu escrever historias de principes e de princezas, e +deixar os sapateiros subir algum tanto na escala d'umas qualificações +modernas que elles se vão inventando para seu uso, que a isso os obriga +o menos-preço d'esta luminosissima e fraternal civilisação? + +O nome de sapateiro está a sumir-se. Já muitos do menoscabado officio se +denominam _artistas d'artes correlativas_... dos pés. Dos individuos +cultos, que os mettem n'estas andanças e chibanças, deviam elles +chamar-se não _sapateiros_, mas _ferradores_. + + +XV + +O secretario da embaixada portugueza em Madrid havia sido camarada de +Fernando Gomes no cerco do Porto; e seu contemporaneo na universidade. +Approximara-os mais em Coimbra o paralelo dos nascimentos: eram ambos +filhos de artistas. Separados depois da formatura, um para os cargos +publicos, outro para as viagens, continuaram sempre correspondencia de +bons amigos. O secretario da legação recebeu a nova da chegada de +Fernando a Madrid, e maravilhou-se de encontral-o sumido n'um quarto de +obscura estalagem. + +Contou o bacharel diffusamente a historia dos seus vagabundos amores, e +explicou a obscuridade e recato em que tencionava viver para não causar +desgostos á filha de Bartholo de Briteiros. Queria elle existir +secretamente em Madrid, de modo que o pae de Paulina o imaginasse na +Irlanda, procurando a reclusa nos conventos; entretanto, era seu intento +diligenciar casarem-se judicialmente, ou, no extremo d'algum imprevisto +accidente, fugir com ella para Portugal. O amigo escusava prometter-lhe +todo o auxilio. Era este um dos academicos que frequentavam a +universidade em 1828, quando os dois lentes foram assassinados. Fôra +elle um dos sorteados para a impolitica vingança; como quer, porém, que +estivesse enfermo n'essa occasião, forrou-se assim ao incommodo de ser +estrangulado. Ora Bartholo de Briteiros, como sabem, tinha sido o mais +impassivel signatario do accordão: o amigo de Fernando vira caminharem á +forca os seus condiscipulos; e tal rancor ganhou aos juizes, que só o +nome de Briteiros lhe trouxe aos olhos faulas de raiva mal abafada pelo +correr de dez annos. Para elle era não só prova de amigo, mas desforra +de inimigo coadjuvar o camarada das linhas do Porto a zombar das +astucias do ministro da Alçada. + +Com tal protecção, Fernando soube a hora em que chegou Bartholo, a rua e +hotel onde se aposentou; e Paulina, pouco depois da sua chegada, recebia +d'uma creada do seu quarto, na hospedaria, uma carta de Fernando. + +Francisco Lourenço, cuidando que assim ficavam bem encaminhados os +honestos intentos de seu filho, seguiu para Lisboa. A mãe, anciada de +saudades de ambos, quando viu o marido sem o filho, arrancou um ai, e +perdeu o sentimento. Volvendo a si, ouviu com pasmo a miuda narrativa +dos casos acontecidos ao esposo, e deu graças a Deus sem arguir a dura +alma do filho. Á santa mulher, para sua consolação, bastou lhe saber que +Fernando vivia. O procurar elle sua felicidade, na idade propria do +amor, com tantas adversidades, foi á boa mãe maior motivo de +compadecimento que de censura. Como, por momentos, o considerou morto, +era natural que tudo lhe perdoasse, estando elle vivo. Assim ficaram os +dois velhos, esperando que inesperadamente lhes apparecessem casados o +filho e a gentil fidalga. Francisco Lourenço foi ao Cartaxo dar ordens a +confortos da casa, mobilação, e mais aprestos, sendo que Fernando +mostrara desejos d'ir alli descançar annos, ou talvez a vida toda, +qualquer que fosse o incerto desenlace de suas canceiras. + +Bartholo e o marquez de Tavira davam-se os embora do feliz exito da sua +falcatrua. Viam Paulina alegre, dada a bailes e a theatros, com bom +rosto para o proprio marquez, e nem por sombras magoada d'alguma +fugitiva saudade! O fidalgo continuava sempre a dizer «que as mulheres +eram assim». E o pae de Paulina admirava a esperteza e acume seu futuro +genro. + +Raro dia faltava á menina carta de Fernando, por intervenção do +secretario da legação, que acintemente acceitara o conhecimento do +marquez de Tavira, para mais de perto collaborar na derrota do Bartholo. + +Paulina entretinha horas de conversação com o amigo de Fernando, +intervaladas por troca rapida de palavras concernentes ao intento que os +approximava. No animo do fidalgo já a suspeita se ia ingerindo: a +assiduidade das visitas do secretario incommodava-o, e tinha-o de +atalaia. O marquez inquietava-se não menos que o primo. Acordaram os +dois em dar de mão ao visitante diario d'algumas horas. Mas, nos bailes +ou nos theatros, o secretario era o flagello dos dois olheiros, que se +viam baldeados, como lá dizem, entre Scylla e Charybdes. + +Assentou Bartholo em ser pae severo. Apresentou-se á filha. Ia de +catadura horrida. Dir-se-ia que empunhava a penna para assignar um +accordão de pena ultima. + +--Paulina!--disse. + +--Meu papá. + +--Vamos a contas. + +--A contas?! + +--Que quer dizer a pertinacia d'este homem, que te não deixa? + +--Qual homem, meu papá?--disse ella, pensando que Fernando fôra +descoberto no seu esconderijo. + +--O homem da embaixada... este mal trapilho que tem o pae em Lisboa a +fazer candieiros na rua Augusta. + +--Eu sei cá o que elle quer?... O primo marquez foi quem o apresentou, e +não me disse se o pae d'elle fazia candieiros. + +--Fale-me com mais humildade!--bradou Bartholo. + +--Pois eu que disse menos humilde? + +--Não quero ironias. + +--Ironias!... O papá é injusto comigo!... Eu posso lá saber a razão +porque o homem nos procura? Pensei que o faria por delicadeza, por +sermos patricios, e conhecermos pouco a sociedade de Madrid. + +--Então...--tornou o pae--asseveras-me que elle não tem intenção nenhuma +menos respeitosa? + +--Pois elle ha de faltar-me ao respeito?... Jesus! + +Ó céos! o rosto de innocencia estupida com que Paulina fez aquella +pergunta! Ó amor, o que tu pódes e fazes! Que uma dama de bons annos, +quarenta pelo menos, puxados á fieira do amor, consiga lograr uma +criança incauta, isto está de seu na natureza das cousas; mas que uma +menina de dezesete annos, ainda agora a florescer a sua primeira +primavera de coração, zombe da vigilancia e perspicacia d'um pae +quinquagenario, e o esteja assim logrando com uns dizeres de parvoinha +candura!... Uma hora de amor é um curso de theatro completo. Quantas +ficções lá se aprendem, com grandes estafas, nas aulas do conservatorio +dramatico, vae ahi qualquer menina espigadinha exercita-las todas ante o +auditorio da sua familia, se me concedeis que ella tenha uma faisca de +lume no olho, e um Etna dentro do peito! + +E diz o apophtegma antigo: _Amor logra muitas cousas, e o dinheiro +tudo_! Não é assim: as luzes desmentiram tambem os Senecas e +Theophrastos. O dinheiro não consegue desbestialisar o alarve que o tem +a rôdos; e o amor vae dentro do espirito mais rombo e bôto, e eil-o que +o desentranha em prodigios de subtilezas, argucias, e sublimes +velhacarias! E até talento! Ha ahi sujeito que vingou um nome +esperançoso n'uma época de sua vida: chegou mesmo a escrever locaes com +certo orientalismo; e de repente tapam-se-lhe as valvulas, e o talento +suppura por tolice. Que foi? Averigua-se e sabe-se que o homem deixou de +escrever as locaes aziaticas assim que a mulher amada casou com outro. + +Bartholo não teve que recalcitrar a esta pergunta: + +--Pois ha de elle faltar-me ao respeito!?--E depois a exclamação +«Jesus!» desarmou-lhe de todo as suspeitas. E, como se tanto fosse +pouco, Paulina continuou: + +--Não quer o papá que eu fale mais com o Almeida? Não falarei. Verá como +lhe volto as costas assim que o vir. + +--Não é preciso tanto, nem nada, filha--redarguiu de muito bom rosto o +pae--se me tu dizes que o Almeida nada te diz que te preoccupe o +coração... + +--O coração!--interrompeu a menina com o mais pasmado e lindo +semblante.--Ora essa!... O papá está a rir-se de mim, não está? + +--Falo-te serio, Paulina... Tenho muito medo da inexperiencia dos teus +annos. Tu tens-me feito o sangue de fel e vinagre por causa d'aquelle +homem, que me ia roubando a tua estima, e a ti mesma te ia fazendo +esquecer de quem és... Ora agora, filhinha, que essa tempestade passou, +tu não me dirás que foi o que te moveu a gostar do tal Gomes?... Não te +envergonhes, menina, que ninguem nos ouve... Elle não se inculcava +sequer pessoa de bem; era um bacharelzito, um inimigo das nossas crenças +politicas e religiosas; em quanto á figura, tudo n'elle é plebeu, +trivial; mesmo em talento e instrucção, que o principe gabava muito, eu +nunca lhe ouvi dizer cousa que admirasse a gente; emfim, queria eu que +me tu dissesses por que amaste tal homem... + +--Era um passa-tempo, papá! + +--Não duvido, Paulina; mas as meninas da tua qualidade, quando +galanteiam para se divertirem, escolhem outra casta de homens, para que +se lhes não atire á cara com precedentes desairosos, quando ellas amam +seriamente, e com proposito de se casarem. Ora diz-me tu cá: se teu +primo marquez se lembra de casar comtigo, cuidas que elle ha de gostar +que tu hajas acceitado a côrte d'um sarrafaçal sem nome, que andava por +esse mundo a gastar uns safados cobres lá do pae, que ninguem conhece? + +--Pois sim...--disse Paulina com mal refreada vehemencia--mas como o +primo marquez se não lembra de ser meu marido, nem eu o queria, ainda +mesmo que elle pensasse em tal... + +--Não o querias? então que mais querias tu, filha. + +--Eu não queria mais, nem tanto... Quero estar assim solteira, que estou +bem... O papá não me dizia, ha poucos mezes ainda, que eu e a mana o +matavamos se casassemos!... + +--Disse isso, na supposição de que saíeis da minha companhia; mas o +marquez, se casar comtigo, não sae da minha casa. É já um contracto +estipulado, filha... A minha palavra está dada; contei com o teu são +juizo, quando a dei... Que respondes tu, Paulinasinha? + +--Deixe-me pensar, meu pae. O primo marquez não tem pressa da resposta, +e o papá tambem não. Deixe-me gosar mais algum tempo a minha liberdade, +e depois eu direi o que tiver pensado. + +--Pois sim, filha: dou-te quinze dias. Sou um bom pae, não sou? Outro +qualquer diria: isto ha de fazer-se, porque quero que se faça. Eu, não. +Transijo com a minha criança, na certeza de que ella ha de saber-me +agradecer a brandura e os carinhos. Não has de querer que eu morra sem +te ver _marqueza de Tavira_! O primo tem os vinculos desfalcados; mas a +fidalguia d'aquelle sangue vale milhões para quem se preza de ser maior +pelo nascimento que pelos bens da fortuna. Morro consolado se encontrar +para tua irmã um marido egual... Em quanto ao secretario da legação, não +deixes de lhe falar: trata-o bem, porque, a falar a verdade, lhe devemos +a elle a alguma consideração que temos em Madrid. Não me parece mau +rapaz; mas zangava-me ve-lo sempre que podia em segredos comtigo!... Que +te dizia elle? + +--Nada que se não podesse ouvir... Só alguma vez, nos bailes ou no +theatro, me fez rir com as suas satyras ás fidalgas hespanholas... é o +que elle me diz baixinho, para os outros não ouvirem. + +--Ah! é isso?--atalhou com boçal confiança o jubiloso Bartholo.--Então, +filha, continúa a rir-te com elle; mas tem compaixão do primo marquez, +que arde em zêlos quando falas com alguem. + +--Pois que não arda, que eu tanto se me dá como não que elle fale com +quem quizer. O pae cuida que posso amar o primo marquez, com vinte e +tres annos mais do que eu?... + +--Mas parece um rapaz, e ha de ser um excellente esposo, Paulina. Os +maridos querem-se d'aquella edade. + +--Não sei para que!...--acudiu com perdoavel desenvoltura a menina. + +Bartholo ia explicar a vantagem que sobrelevam os maridos de quarenta +aos de vinte annos, quando algum incidente privou a minha joven leitora +de ver aqui tratada a preceito uma materia, que poderia cooperar +grandemente para a sua futura felicidade. Decorreram os quinze dias +aprazados para a decisão de Paulina. + +N'este espaço estreitou-se mais a correspondencia d'ella e Fernando, já +inclinado á suspirada catastrophe do casamento judicial. A actividade do +secretario, como agente d'este inesperado desfecho, foi inexcedivel. +Opinara elle pela fuga, e depois casarem-se em Portugal. O filho do +artista, com o animo abalado pelas honradas admoestações de seu pae, +optou pelo casamento judicial, sem prescripção da menor formalidade +honesta. Paulina pendia mais ao parecer do secretario, e achava +escusadas as demasias de probidade com que o noivo queria tratado o seu +casamento. Assim mesmo Fernando reagia á vontade de Paulina, e dizia +acceitar o plano da fuga em ultimo recurso. A recusa estribava n'estas +razões, dadas por elle ao seu amigo: + +--Se eu fujo com Paulina, porei um cunho infamante no meu procedimento. +Se eu fosse um grande de Portugal, por brazões ou riquezas, a sociedade +diria que eu tomára o violento alvitre da fuga para remover d'um lanço +todas as difficuldades antepostas pelo capricho do pae. Assim plebeu, e +quasi pobre, se fujo com ella, dir-se-ha que desprezei os meios +judiciarios por medo de não achar justiça que ousasse contrariar a +vontade do fidalgo poderoso. + +--Mas--atalhou o sincero amigo, que sabia muito do coração das damas, +estudado em Hespanha--quem te diz a ti que, durante o processo +necessario ao supprimento do consentimento paterno, a senhora D. Paulina +varia de ideias, e requer a remoção do deposito para casa de seu pae? +Quem te diz que... + +--Se o fizer--atalhou Fernando--mais tenho de me louvar pelo meu +procedimento; claro é que Paulina devia arrepender-se, e dar-me o +inferno, as mais tormentuosas agonias que tu podes imaginar. Antes isso, +meu amigo: antes essa prova! Poderás tu fazer-me a justiça de suppôr que +eu sigo os caprichos d'uma mulher rica? + +--Não. + +--Pois bem: venha depressa o momento em que eu possa conhecer-lhe a +alma, cuja nobreza tu me deixas entrever a luz duvidosa. + +--Não é assim: eu previno, e mais nada. + +--Prevines a possibilidade do arrependimento, emquanto dura o processo. + +--É bem de ver. + +--E d'esperar? + +--Isso não sei; mas deves temer muito da força do adversario. Os juizes +em Madrid são corruptissimos, e pesam na balança o oiro do fidalgo +realista, e se o oiro do fidalgo realista pesar o quilate legal, +acceitam esta legalidade, em vez d'outra que as leis estatuiram. Esta é +uma das faces: a outra é a dos meios empregados no convento onde vae ser +depositada Paulina, para a demoverem. Raro acontece que elles não +vinguem, ao cabo de seis mezes d'espera. Insisto. Eu, em teu logar, +fugia. A meia legua de Madrid estás em segurança. Na semana que vem, +entras em Portugal. Chegas a Lisboa, e encontras na primeira egreja um +prior que vos absolve. Uma batalha assim vencida é plena e gloriosa: a +outra, que vaes dar, costuma ser tão golpeada de contrariedades, que, +afinal, o triumpho é semsabor. Mas faz o que quizeres. Decide-te por um +dos conselhos, que nunca poderás identificar os dois. Honra e coração +costumam andar bem-avindos, mas é só nos romances. + +--E fóra dos romances, amigo Almeida--disse Fernando.--Agora mesmo te +estou dando a prova. Diante das razoaveis difficuldades que me levantas, +ouso ainda insistir pelo deposito, e envergonho-me de ter vacillado +entre o processo judicial e a fuga. + + +XV + +Paulina convidara Fernando a um colloquio nocturno, na vespera do dia em +que havia de ser requerido o deposito. Este convite fôra-lhe suggerido +pelo secretario da legação, que antevia mau desfecho do negocio tratado +com pannos quentes. Induzira elle a menina a propôr de viva voz e com +instancia ao noivo a fuga immediata: esperava Almeida que a presença, a +resolução e intimativa de Paulina quebrantassem a firmeza do seu amigo. + +Era aquella a primeira vez que Fernando Gomes ouviu a voz de Paulina, +depois da saída de Florença. Foi com alegria de coração; todavia algum +vago presagio lhe ennublava o espirito. + +A familia Briteiros occupava o primeiro andar do melhor hotel de Madrid. +Fernando devia entrar ás nove horas da noite e pedir um quarto no +_entre-sol_ do edificio. O corredor commum d'estes quartos baixos tinha +escada que subia ao primeiro andar. Ás onze horas Fernando subiria esta +escada, e encontraria Paulina no tôpo. A excellencia do plano +correspondeu á execução. Ninguem occupava os quartos inferiores, excepto +um francez chegado á mesma hora. O hospede entrara, e fechara-se em sua +camara. Ás onze horas era completo o silencio no andar superior. +Bartholo dormia o pacifico somno de quem tomou o chá com algumas +inoffensivas gottas de extracto de morfina, ministrado á filha pelo +previdente secretario da legação, que assim pensava ir lentamente +vingando os condiscipulos enforcados. O marquez recolhia da tertulia ás +tres horas da manhã. Eugenia velava com sua irmã, como quem velava em +cousa muito de seu interesse, e vae já dizer-se para que não esqueça. + +Fernando subiu as escadinhas em espiral. + +Quiz-lhe parecer que via um vulto á porta, aberta no cimo da escada, e +parou no intento de retroceder. Fez-se um pallido clarão no interior da +sala. Assomou á entrada Paulina, e murmurou: + +--Sóbe sem receio, Fernando. + +--Parece-me que estava aqui gente, quando eu subia...--disse o moço. + +--Não te enganaste. + +--Quem era? + +--Depois saberás tudo: escuso dizer-te que não tem nada comtigo o vulto. +É um homem que ama minha irmã: é o conde de Rohan. Não podemos perder +tempo--continua Paulina com adoravel alvoroço.--Preferes os mil estorvos +com que vamos luctar á certeza da ventura sem o menor desgosto? + +--E o que é a ventura sem o menor desgosto, minha querida +Paulina?--perguntou Fernando, já meio aturdido pelo magnetismo d'aquella +voz, d'aquelles olhos, d'aquellas roupas brancas, d'aquella luz, +d'aquelles braços, que, a tremerem, se lhe ousavam enlaçar no pescoço +com o mais pudico despejo das almas puras, que tudo fazem com a mais +santa das intenções. + +--Pois não achas mil vezes melhor que fujamos para Portugal?--tornou +Paulina--Tu não me amas, não!... Vê tu que differença do teu coração +para o meu! + +--Por Deus!--atalhou Fernando.--Eu não te amo, Paulina!?... + +--Que quer dizer a tua repugnancia em acabar com isto d'uma vez!?... Ha +tanto tempo a soffrer a perseguição de meu pae!... Desde que acabaram os +quinze dias, estou n'um martyrio incessante com perguntas, maus modos, e +desprezos! E a padecer tanto por amor de ti! Sei que, se fôr depositada, +meu pae ha de dar-me dias horriveis de amargura; e, por fim, tu verás +que a justiça me entrega a elle para nunca mais saberes de mim, nem eu +de ti, meu Fernando! Olha, querido amigo, tira-me d'aqui; fujamos para a +tua familia; vamos ser felizes; lembra-te que eu deixo o amor de meu +pae, e tudo, para seguir a tua sorte! Leva-me, Fernando, leva-me, porque +depois de ámanhã n'esta casa nem tenho mesmo minha irmã que me console +as tristezas e saudades. Minha irmã foge ámanhã por noite com o conde. +Vão casar-se a Paris. Assim que ella lhe escreveu a chama-lo, veiu logo, +e preparou tudo para a fuga. E eu pensava que o teu amor era mais forte +que o d'elle!... Porque me não levas, Fernando? Falas-me tanto em honra, +meu amado! Eu não entendo os pontos de honra em que me estás sempre +falando! O nosso amigo Almeida tambem os não entende. Quando se ama +verdadeiramente, as considerações, que tu me fazes, parece-me que +ninguem as faz... Que prazer tens tu em que eu vá estar seis mezes ou +mais n'um convento á espera que a demanda se decida, sem mesmo +antevermos a certeza da decisão favoravel!? Isso é crueldade! Olha que +me não vês, Fernando, nem talvez possas escrever-me! Se eu morrer de +magua, de quem é a culpa? Quantas vezes te arrependerás de me não ter +ouvido n'esta hora? + +Não era necessario tanto. Fernando Gomes estava vencido e convencido. As +ultimas palavras de Paulina tinham sido cortadas de soluços. Nunca homem +algum resistiu a isto! Scipião, o respeitador historico das mulheres, se +visse este lance viria outra vez ao mundo dar testemunho de uma virtude, +que a sua celebrada continencia usurpava. + +Fernando tomou nos braços a soluçante menina, e disse-lhe: + +--Fugiremos, Paulina. Fugiremos, quando quizeres. Ámanhã, se te apraz. +Deus vê as minhas e tuas intenções. Espero que nunca te arrependas do +passo, que o mundo, a seu pezar, não poderá infamar-te. + +Paulina expandiu-se em requebros de ternura e raptos de alegria. A +combinação de horas, signaes, e menores accidentes da fuga ficou +pactuado. Disse a menina que se conservasse elle á escuta algum tempo, +emquanto ella ia preparar o pacotinho da mais necessaria bagagem; e, +depois, a recadasse no seu quarto, e de madrugada a levasse comsigo, +sendo este o melhor modo de não inspirar desconfianças. Como embriagado +de alegria, Fernando accedeu a tudo sem contestar; esperou, e recebeu o +pacote, que era uma mala ingleza quadrada, cujo peso elle notou com +admiração. + +Ao romper da manhã, o passageiro, com ar de quem vae entrar nos +vehiculos da madrugada, saíu do hotel; sobraçando a mala com grande +espanto do creado, que o vira entrar sem ella, e recolheu-se á sua +pousada, d'onde logo escreveu ao secretario da legação. + +Almeida acudiu logo a felicitar o reconsiderado amigo, congratulando-se +de ter elle sido o indirecto motor da saudavel reforma nos estoicos +principios do seu camarada. Traçaram o plano facilimo da fuga. Fóra de +portas estariam cavalgaduras. O funccionario diplomatico iria com os +fugitivos para remover obstaculos imprevistos da policia. Fernando era +já o homem avesso do dia anterior. Falava o coração, alliviado do +pesadello da impertinente honra. + +Sentia-se enlouquecer de esperanças alegres, anciosas, insoffridas da +morosidade do tempo. + +--Aqui tens a riqueza da minha Paulina!--disse elle sorrindo e mostrando +a mala.--Ninguem dirá que eu a raptei por causa d'essa malinha, que deve +encerrar algum vestido, e as minhas cartas... + +Almeida tomou ao alto a mala, e disse: + +--Não: aqui ha alguma cousa mais que sedas e papeis! Isto pesa como +ouro. + +--Ouro?! estás brincando!--disse Fernando. + +--Está aberta a mala. Se não temes a profanação, vejamos o que vae aqui. + +--Sim, vejamos--condescendeu Fernando, desfivellando as correias. + +Ao de cima iam as cartas em massos, cintadas com fitas de diversas +côres. Seguia-se alguma, pouca e finissima roupa branca, cuja +hollandilha, e cambraia tomava pouco espaço. Depois, um vestido de seda +azul, o que ella vestia no baile de Jeronymo Bonaparte, onde viu +Fernando Gomes pela primeira vez. Depois, sobre o fundo da mala, +descobriram uma caixa de tartaruga, pouco mais larga e comprida que um +palmo. Esta caixa é que realmente pesava como ouro, e estava fechada. + +Fernando esteve algum tempo tomando o peso da caixa, em meditativo +silencio, e disse: + +--Não levo isto: é preciso que faças chegar, antes de á noite, este +objecto a Paulina. Aqui vão grandes valores... não levarei comigo, aqui +fechada, a minha condemnação. O mundo chama ladrões aos homens que +praticam assim. Depressa, Almeida. Inventa o milagre de fazer entregar +isto a Paulina, quando não, está tudo transtornado. + +--És um homem impossivel!--replicou o secretario da legação, menos +escrupuloso que philosopho, se é que se chama acertadamente philosophos, +uns sujeitos que sabem receber, em pleno espirito, a luz toda do +seculo.--Pois tu recusas acceitar Paulina com as joias do seu uso? + +--Recuso. Paulina não tem nada. + +--Nem a legitima de sua mãe? + +--Paulina é menor: seu pae é que lh'a administra. + +--Eu não discuto direito comtigo; limito-me a descobrir que és um asno +exemplar, e dá-me vontade de te mandar cavar pés de... Com effeito! +Venham aqui aprender moralisação os futuros amadores de meninas que +levam caixõesinhos pesados, quando fogem com os amantes!... + +--Tens graça; mas eu tenho razão, que é melhor--retorquiu Fernando +Gomes. + +Emquanto elles altercam já em phrases desabridas, saibamos que rumor é +este que vae em casa de Bartholo de Briteiros. + +O creado do hotel, como visse saír o hospede de algumas horas com a mala +que não trouxera, obedeceu ao instincto da curiosidade, e seguiu-o com +todas as precauções. Viu a pousada em que entrára, tomou o numero da +porta, e voltou a casa a dar conta ao patrão. + +O dono do hotel, timbroso em manter a fama honrada do seu +estabelecimento, consultou o alcaide sem aventar suspeitas além das que +realmente davam em resultado a verdade inteira do facto. + +Sabia elle que o locatario do primeiro andar era um portuguez +riquissimo, e que mais de uma vez pernoitara, nos baixos da casa, um +francez mysterioso, que tinha intelligencias com uma das filhas do +portuguez, segundo elle deprehendera d'uma troca de escriptos, por alta +noite, entre as janellas do primeiro andar e sobre-lojas. Estes +esclarecimentos deram rastros ao alcaide para suas averiguações. + +Com quanto o sujeito da mala não fosse o francez alludido, observou mais +o austero hospedeiro que, no mesmo dia, entre as oito e nove horas da +manhã, o francez rebuçado cautelosamente sahira com um volume debaixo do +braço. Estas coincidencias de dois homens na mesma pousada, na mesma +noite, e com volumes iguaes, ou cousa assim, feriram faiscas de +penetração na cabeça, aliás cerrada, do hespanhol, que, de collaboração +com o alcaide, deu como effeito um consideravel roubo ao portuguez +Bartholo de Briteiros. + +Esclarecido assim o facto, o alcaide apresentou-se ao fidalgo ás dez +horas da manhã, e perguntou-lhe se suspeitava que em sua casa faltassem +objectos de valor. + +--Não!--disse Briteiros--Quem ha de subtrahir objectos de valor de minha +casa?! + +--Examine, senhor--disse o subalterno da policia--que a minha obrigação +é averiguar, e sem detença. + +Bartholo entrou nos quartos de suas filhas improvisamente, e +encontrou-as empacotando e dobrando roupa de seu uso. + +--Que fazem as meninas?!--perguntou o pae com assombro. + +Paulina e Eugenia ficaram tolhidas, interdictas, e incapazes de +responder um monossyllabo. + +--Que estão a fazer, não ouvem?!--replicou Bartholo examinando a roupa +dobrada. + +Acudiu-lhe uma atroz suspeita. Fez-se côr de terra. Dilataram-se-lhe em +arqueijos as azas do nariz. Raiaram-se-lhe os olhos de linhas +sanguineas. Correu ás gavetas dos toucadores e das commodas; remexeu +tudo, revistou tudo impetuosamente, e exclamou: + +--As caixas das joias!? As tuas joias, Paulina, e as tuas, Eugenia? Onde +estão cem mil cruzados de brilhantes de vossa mãe? + +Paulina cravou os olhos no chão, perdida a côr, e quasi os sentidos. +Eugenia, mais fraca de compleição, e muito timorata, cahiu em joelhos, e +exclamou: + +--Perdão, meu pae!... + +--Roubado! roubado!--bradou o velho--roubado por minhas filhas! + +E saiu em vertiginosa corrida e a brados por a casa fora, até entrar na +sala onde estava o alcaide. + +Paulina, logo que o pae sahiu, disse á irmã: + +--Tu és uma miseravel se descobrires alguma cousa. Não pronuncies o nome +dos desgraçados, Eugenia! Ainda que nos matem, salvemo-los a elles! + +D'ahi a instantes, foram as meninas chamadas á sala, e interrogadas. +Nenhuma resposta deram ás perguntas do alcaide. Ás do pae respondiam, +principalmente Paulina: + +--Os brilhantes e as joias não estão em poder de ladrões. + +Mas, no tocante a nomes, nenhuma proferiu palavra. + +N'este momento angustioso, entrou o secretario da legação. N'um relance +comprehendeu tudo. Briteiros abraçara-se n'elle, exclamando: + +--Roubado em muitos contos de réis por consentimento de minhas filhas... +E ellas, estas infames, estavam-se preparando para seguir os ladrões! +Não haverá justiça em Hespanha, senhor alcaide? + +--Ha--respondeu Almeida--e o ministro portuguez, em Madrid, é o +funccionario a quem primariamente compete solicitar a justiça em favor +do senhor Bartholo de Briteiros. Os passos do senhor alcaide hão de ser +dados de accordo comigo. Queiram esperar-me, que eu volto. + +Sahiu Almeida, e entrou em sua sege, que o transportou á pousada de +Fernando Gomes. + +Sem lhe dar completa explicação das causas, obrigou-o a sair, e +transportou-o a sua casa. Ahi, simplesmente lhe disse: + +--Se o meu plano vingar, d'aqui a pouco ha de estar Paulina comtigo. + +E saíu, a desapoderado galope dos cavallos, para o hotel de Briteiros. + +Ao apear, disse ao boleeiro: + +--Se uma senhora saltar na sege, vai n'um raio apea-la em casa, mas +torce o caminho. + +Subiu. As meninas tinham saído da sala. + +Bartholo e o alcaide estavam ouvindo o depoimento do dono e creado do +hotel, que denominavam francezes os conductores dos volumes. + +Almeida pediu licença para ter particular conferencia com as meninas. +Bartholo cedeu de prompto, entregou-se cegamente ás deliberações do +funccionario, que se dava o ar mysterioso de quem tem o fio da meada. + +A conferencia foi sem testemunhas. + +--Fernando está em minha casa--disse Almeida.--Aqui ha um desesperado +recurso, um unico. A senhora D. Paulina entra na minha sege, e é +conduzida a Fernando. + +--Oh! meu Deus! já!--exclamou ella, erguendo-se para saír. + +--E eu fico, Paulina?--bradou Eugenia. + +--Pois vossa excellencia tambem quer fugir com Fernando?--disse Almeida. + +--Eu havia de fugir esta noite com o conde de Rohan--respondeu Eugenia. + +--Fujam ambas!--tornou o secretario, mas onde está esse conde? + +--Era hospede cá no hotel... Amo-o ha cinco annos... Vamos, vamos, +Paulina... + +--Eu indagarei onde está o conde--disse Almeida--Não se demorem. + +Alguns segundos depois, o estrepito da carruagem fazia tremer as +vidraças do hotel. A visinhança viu o rapido saltar de duas meninas, +veleiras como anjos alados, cobertas e encapuzadas de capas de merino +branco com bordados e borlas verdes nos capuzes. Ninguem soube dizer +mais nada. + +O secretario saíu com o alcaide, e Bartholo de Briteiros tornou aos +aposentos das filhas, no intento de as mandar vestir para entrarem n'um +convento. + +Quando assomou á porta do quarto, viu duas creadas debulhadas em +lagrimas. + + +XVI + +Paulina e Eugenia, menos apavoradas do que suppõe o leitor, apearam no +pateo do secretario da legação, e foram guiadas a uma sala, em que +Fernando Gomes, prostrado mais que o commum em lances taes, parecia +meditar no suicidio. Paulina galvanisou-o moderadamente, apertando-lhe +as mãos com mais tremor de ternura que d'afflicção. + +--Que abatimento, Fernando!--disse ella, em quanto Eugenia, desalentada +pelo quebrantamento do moço, soluçava a chorar, na incerteza do seu +destino. + +--Isto não é abatimento, Paulina...--disse elle--é porque em verdade eu +recebo com dôr a alcunha de ladrão!... Falei-te eu em joias? Que +infernal lembrança a de me dares os brilhantes de teu pae!... Quando te +disse eu que precisava de ser infame para ser feliz? + +--Foi uma indiscrição, meu amigo; mas perdoa-m'a...--disse Paulina--Como +os brilhantes tinham sido da mamã, e o papá muitas vezes nos disse que +eram nossos, cuidámos que podiamos reparti-los entre ambas, sem medo de +que chamassem roubo a isto. Agora não tem remedio a nossa loucura... Não +te estejas tu assim a matar, meu Fernando. O crime é meu e não teu... + +--Cala-te, pobre criança!--redarguiu Fernando--tu não sabes que mal me +fizeste... + +Algumas phrases mais, talvez inopportunas, do filho do artista, +obrigaram Paulina a chorar e arrepender-se. + +Chegou, n'este escuro trance, o secretario, e todos o viram como +prenuncio de bonança. Eugenia saíu logo a perguntar-lhe se sabia onde +estava o conde. + +--Ainda não, minha senhora. Será talvez, difficil encontra-lo, se elle +já souber que o perseguem. + +--Sou tambem perseguido?--atalhou Fernando. + +--Ninguem sabe o teu nome, mas precisamente te procuram na estalagem +onde estavas. Porém, como falaste sempre francez, e, por bom alvitre +meu, te despediste como quem vae para França, muito diabolica será a +alcaidaria madrilense se te farejar aqui. Observo que os meus amigos +estão todos tres sem juizo para decidirem o que lhes convém. + +--Eu decidi--disse Fernando. + +--O teu plano deve ser o unico racional na tua situação: é a fuga. A +sr.ª D. Eugenia dir-me-ha o que tenciona fazer se o seu conde não +apparece. + +--Não apparece!--exclamou ella atribulada. + +--Póde não apparecer, minha senhora, e não ha motivo para que vossa +excellencia o considere descuidado, covarde, ou traidor. + +--Então que eu hei de fazer?!--tornou Eugenia, pondo as mãos com +dilacerante angustia. + +--Quer vossa excellencia seguir sua irmã, e esperar em Portugal que eu a +avise do destino do conde? + +--Não lembres á sr.ª D. Eugenia um destino impossivel--disse Fernando +Gomes.--Eu não vou para Portugal. + +--Como?! não vaes para Portugal? + +--Não fujo--replicou Fernando--e, quando fugisse, não iria levar a meu +pae a noticia do nome que deixo em Madrid. + +--Pois se ninguem te sabe aqui o nome? + +--Sabe-o a minha consciencia. + +--Pois foge para França--recalcitrou Almeida--ou para a Italia, ou para +onde quizeres. + +--Não fujo; e perdoa-me, Paulina... Nós não podemos fugir. Teu pae vae +receber de minha mão os brilhantes de sua mulher e de sua filha; tu +entras espontaneamente n'um convento; de lá requeres dispensa do +consentimento de teu pae: sairás de Madrid com honestidade, e eu com +honra. É impossivel ser feliz, e dar-te felicidade, se faltarem estas +condições á nossa união. Isto é irrevogavel, meu amigo. Por delicadeza e +compaixão não discutas comigo. Temo que este anjo suspeite da minha +dedicação, se tu me condemnares pela fraqueza das minhas apprehensões. + +Paulina teve momentos de suspeita, e outros peores de arrependimento. +Quizera ella esconder-se com a vergonha de seu acto a um coração +bastante forte, ou bastante desempoeirado, que lhe fizesse sentir com +vaidade a grandeza do seu heroismo. Nem elle mesmo a absolvia! elle, por +quem a imprudente se perdera no conceito do mundo, e na estima do pae! +São pungentissimos os espinhos das corôas que santificam os martyres da +honra! Este é um dos casos em que a mulher amada, amigo, sociedade tudo +conjura a azedar com mais fel o calix do homem probo! Acontece que o +leitor de um romance, que taes casos narra, sympathisa com semelhantes +excepções d'este mundo sublunar, mas assim mesmo, o panegyrico do +romance é galardão tardio, que não vale a menor das dôres que +excruciavam a alma do pobre filho de Francisco Lourenço. + +Estavam como atrophiadas as duas meninas. Almeida, sem dizer o seu +destino, tinha saído. Fernando encarou na lagrimosa Paulina, correu a +ella, e ajoelhou-se-lhe aos pés, murmurando: + +--Duvidarás tu que te adoro, ó anjo da minha alma!... Poderás crer que o +receio de ser apregoado ladrão me faz baixar ao egoismo de maldizer a +hora em que te vi!... Não, não, minha querida filha; não me julgues +capaz de afastar uma infamia com outra... + +--Degradei-me por amor de ti--soluçou ella--e agora hei de ir morrer +n'um convento, sem a amizade de ninguem, perdida no conceito de toda a +gente, e tratada com vilipendio por todos... Cuidei que não me tornava +indigna aos teus olhos... + +--Indigna aos meus olhos!--exclamou Fernando coberto de lagrimas--quando +te disse eu palavra que te dê razão de tamanha calumnia! Ó Paulina, eu +quero-te pobre, quero fugir comtigo já, mas salva tu da deshonra o meu +nome, que ha de ser tambem o teu. Não leves o valor de um ceitil da casa +de teu pae. Espera que o boato do grande roubo de cem mil cruzados, de +que teu pae te argue, se desvaneça, para que a tua dignidade não fique +tão feiamente manchada. Não vês tu que se trata de salvar o teu nome? + +--Salva-lo, como?...--redarguiu Paulina. + +--Restituindo os brilhantes--disse Fernando. + +--De que serve restitui-los? Crês tu que o pae me dará licença de ser +tua esposa por isso? Meu pae tem cem vezes o valor dos brilhantes... Ha +de perseguir-me atrozmente para eu não casar comtigo, Fernando... + +......................................................................... +......................................................................... +......................................................................... + +No entanto, o secretario da legação entrou no hotel de Bartholo de +Briteiros. + +Encontrou o velho prostrado no leito, espertando d'uma demorada syncope. +Ninguem ao lado do pobre pae! N'aquelle instante solemne calou-se o +velho rancor de Almeida, e falou a compaixão. + +--Mataram-me, as ingratas!--exclamou Bartholo--fugiram, fugiram as +perdidas! Deixaram-me assim, sósinho, a amaldiçoa-las, agora, e sempre, +e na hora da morte... + +Almeida deixou-se abraçar pelo anciado velho, e disse-lhe: + +--Cobre a possivel serenidade para me ouvir, senhor Bartholo. + +--Diga o que quizer, meu amigo. Pouca vida terei para ouvi-lo. + +--Suas filhas deviam fugir ao vexame dos interrogatorios judiciaes, e +fugiram. Conduziu-as a minha carruagem; estão em minha casa. + +--Estão?!...--exclamou Bartholo. + +--Estão, como se estivessem na austeridade d'um mosteiro. Vossa +excellencia deu-lhes o impulso desgraçado que dão os paes que o não +sabem ser. Quiz vossa excellencia pautar o coração de suas filhas: +tentou um absurdo, que deu origem á culpa. A natureza reage contra as +violencias; e a reacção é quasi sempre indiscreta ou criminosa. Sua +filha Eugenia amava o conde de Rohan, sua filha Paulina amava Fernando +Gomes. O francez sei quem é de tradição; Fernando, que eu conheço desde +as escolas, é um homem de tantas e tão insolitas virtudes, que o mundo +actual ha de vêr-lh'as com extranheza. Vossa excellencia impugnou o +enlace de suas filhas com estes dois mancebos escolhidos por ellas. Uma, +ia ser immolada ao marquez de Tavira, que sae embriagado dos alcouces ás +tres horas da manhã; a outra estava esperando a sua hora de sacrificio. +O funesto resultado d'estas coacções foi uma e outra conspirarem +surdamente contra a insensata tyrannia de vossa excellencia. Fernando +Gomes chegava a Madrid um dia antes de vossa excellencia, em vez de +estar na Irlanda procurando a senhora D. Paulina nos mosteiros; o conde +de Rohan, chamado de França por a senhora D. Eugenia, veiu hospedar-se +n'este mesmo hotel. + +--E eu sempre vendido e enganado por ellas!...--exclamou Bartholo. + +--Era a justa paga do despotismo com que vossa excellencia dispunha de +suas filhas, que tinham em si o despotismo mais imperioso do coração! +Pergunto eu ao sr. Bartholo de Briteiros: se suas filhas, para se +libertarem d'um jugo violento, deram o extranho passo de prepararem a +fuga, que crimes e vergonhas as reterão no mau caminho que tomaram, se +vossa excellencia não tiver a prudencia de as chamar a si, e +rehabilita-las no conceito do mundo?!... Por em quanto não ha nada que +as avilte. O levarem ellas suas joias e as de sua mãe, isso, a meu vêr e +de toda a gente, é cousa de si tão desculpavel, que não tem mesmo penas +na lei que a puna. O valor moral do acto tambem nada significa. Imagine +vossa excellencia que as suas filhas gostavam dos seus enfeites, e, +quando fugiam, levaram comsigo esses adornos da vaidade, aos quaes ellas +não ligaram valor algum real. Já disse a vossa excellencia que não +conheço pessoalmente o conde, amado pela senhora D. Eugenia. Informei-me +agora mesmo na embaixada franceza, e soube que o conde era um dos mais +nobres legitimistas da França, e tem castellos, senão reconstruidos á +moderna, cravejados de muitos brazões, que, se me não engano, podem +competir antiguidade com os de vossa excellencia. Este cavalheiro era +incapaz de ser o receptador de um furto. Em quanto a Fernando, o +portuguez, posto que não tenha castellos nem mais appellido que o +_Gomes_, que vossa excellencia provavelmente não encontra nos seus +nobiliarios, os brilhantes que se presumem ter ido n'uma caixa, em tão +pouco os reputa elle, que me encarrega a mim de os depositar nas mãos de +vossa excellencia. Queira o senhor Bartholo estalar a fechadura da caixa +para verificar a identidade dos objectos. Fernando Gomes não sabe o que +está ahi. + +Almeida entregou a caixa a Bartholo, que apenas o interrompia com +variados gestos de raiva, surpreza e condescendencia. + +Depois proseguiu: + +--Fernando Gomes está fazendo companhia ás filhas de vossa excellencia +em minha casa. O conde de Rohan está hospedado na embaixada franceza. O +que o conde quer não sei; o que Fernando deseja é que a senhora D. +Paulina entre pacificamente n'um convento, e de lá instaure um processo +para vossa excellencia ser ouvido na questão de consentimento para +matrimonio. Resolvi eu, sem permissão d'uns e d'outros, vir propôr a +vossa excellencia o seguinte: suas filhas voltarão para casa, e vossa +excellencia consentirá que ellas se desposem com homens de sua escolha, +recahindo ella em sujeitos tão benemeritos como o conde e Fernando +Gomes. Ouvirei a sua resposta. + +Bartholo desceu do leito, amparando-se ao hombro de Almeida. Passou á +ante-camara, sentou-se a chorar e enxugar lagrimas, reflectiu alguns +segundos, e disse: + +--Pois que venham as minhas filhas para casa, e eu cederei o que fôr de +razão ceder. Mas, senhor Almeida!... Esta ignominia já deve ser notoria +em todo o Madrid! + +--Apenas a justiça, auctorisada por vossa excellencia, anda em +averiguações inuteis. Mande o senhor Bartholo suspender a vulgarisação +que os esbirros estão dando aos desgostos particularissimos de sua vida. + +--Vou mandar...--disse Bartholo. + +--Veem, por tanto, suas filhas. Eu não levo a certeza dos bons intentos +de vossa excellencia. Por isso mesmo ouso lembrar-lhe que, se forem o +inverso dos meus bons desejos, as consequencias redundarão todas em +desgostos maiores para vossa excellencia, e póde ser que mui grande +vilipendio para suas filhas. O senhor Briteiros, se as chama para as +castigar com violencias, abre n'esta casa trinta portas por onde ellas +podem fugir. Ha uma hora em que um pae reconhece que toda a sua força se +quebra diante do aceno d'uma debil criança. A lucta é desigual com o +coração, senhor Bartholo... + +--Diz bem...--atalhou o velho.--Fui eu que as perdi com a educação, com +o mundo, com a vida de Paris e Florença... + +--Assim seria; mas o mal é insanavel com cauterios: requer muita +prudencia o corrigi-lo. Vossa excellencia póde faltar a suas filhas +ámanhã; e o mundo ha de chama-las a si com a educação que lhes deu, e +engolfa-las no seu abysmo. Salve-as com tempo, senhor Briteiros. A +sociedade dá ás mulheres este nefasto prestigio, que as enthrona, com a +condição de se despenharem depois na voragem onde foram buscar a +realeza. + +--Diz bem...--repetiu Bartholo de Briteiros, que, segundo minha opinião, +percebeu levemente o interlocutor. + + +XVII + +Almeida foi apresentado ao conde de Rohan, que se envolvera na bandeira +franceza, logo que houve noticia do descobrimento da projectada fuga. + +Para honra da França, diremos que o descendente do famoso cardeal, +quando recebeu o pacote de Eugenia, se bem que o achou pesado, não +cuidou que levava metade das joias e brilhantes. A mim, porém, me quer +parecer que o illustre conde não faria caramunhas de mau gosto, quando a +menina lhe mostrasse os aderesses de ricas pedras. A França, n'isto e em +tudo, vae na dianteira dos espiritos. A virtude, lá, é cousa tão +contingente, que chega a não ser regra. Menina que foge, não perde aos +olhos do seu raptor, nem o tribunal do mundo se entoga com gravidade de +juiz para cousa tão futil. O conde de Rohan pensava muito em descobrir +Eugenia, e pouquissimo nos brilhantes, quando o cavalheiro d'Almeida lhe +foi apresentado pelo benevolo embaixador francez, amigo de ambos. + +Contou o secretario os successos decorridos, e a convenção, pouco +segura, mas preparatoria para bom resultado, que fizera com Bartholo de +Briteiros. O francez, approvando tudo com palavras de muito +reconhecimento, pediu a Almeida a grande mercê de ser o apresentante dos +brilhantes e dos seus respeitos ao fidalgo de Portugal. Estes +_respeitos_, associados aos brilhantes, fizeram que o secretario notasse +a superioridade do espirito da França sobre o de Portugal. Em quanto +Fernando se estava n'aquellas lamurias e quebrantos, o conde de Rohan, +fumando um perfumado charuto de Havana, com a chavena de chocolate ao +lado, sorria mui placidamente, ao passo que o informador contava os +acontecimentos occorridos; e, com quanta graça mesureira tinha de seus +placidos modos, enviou _ao fidalgo portuguez_ (hidalgo, disse elle) os +seus brilhantes e os respeitos d'elle. + +--Em quanto á minha boa Eugenia--accrescentou o conde--terá o cavalheiro +a benevolencia de lhe asseverar que eu sou sempre o mesmo homem, +submisso escravo das suas vontades. + +Com tão boas novas, correu Almeida a sua casa. + +As noticias foram gratas a todos, posto que Paulina por palavras não +denotasse a satisfação intima, que sentira. Póde deduzir-se, sem +desairar a menina, que as amarguras de Fernando, aquellas exuberancias +de dignidade, o muito falar na honra de seu nome, agradaram +mediocremente á filha de Bartholo. Perguntei a differentes senhoras, +differentes em temperamento, se o despeito de Paulina seria justo. Com +muita magua de meu coração ouvi resposta, unanime de todas--que Paulina +tinha razão; que Fernando encerrava nas arterias agua chilra; que um +homem, assim apontado em subtilezas de honra, poderá ser um bom +guarda-livros, um bom mordomo d'uma casa, mas que ha de sempre ser um +amante glacial. + +Fiquei suspenso, e prometti refutar semelhantes despropositos, quando +escrevesse este romance. Desisto da tenção formada. + +Antes quero que o leitor discuta e abysme as senhoras que injuriaram o +pobre moço, e acharam extrema graça e galhardia de animo no conde de +Rohan. + +Entretanto, Paulina, ao despedir-se de Fernando, abraçou-o com +exterioridades de muito affecto, e pediu-lhe que não chorasse, +accrescentando: + +--Tu podes contar sempre comigo, Fernando. Esperanças de que meu pae +consinta no casamento, não levo nenhuma; mas se tu entenderes que, por +meios da justiça, podemos conseguir os nossos desejos, tão +desgraçadamente contrariados quando eu me julgava e te julgava feliz, +estou prompta a requerer. + +Notem a frialdade d'esta linguagem! Fernando, Eugenia e Almeida todos a +notaram. Elle, porém, beijou-lhe a mão, e disse: + +--Vae, minha amiga, e esquece-me, se quizeres e poderes. O que nunca +poderás esquecer é que o homem, que te não servia para o coração, tinha +alguma boa qualidade que ha de eternamente viver em tua memoria. Antes +esquecido por ti, que deshonrado por amor de ti, Paulina. + +Sobreveiu o secretario com reflexões tendentes a conciliar os animos +despeitados dos dois tão amantes, tão doidos de alegria, algumas horas +antes; e agora, a separarem-se, com a desconfiança n'alma, a +desconfiança que é quasi sempre a doença morta do coração! + +Paulina desceu, chorando, encostada ao braço de Almeida. + +O filho do artista lembrou-se, n'este acerbo momento, de sua mãe, porque +teve precisão de orar, e quem lhe ensinara a oração fôra sua mãe. + +Deixemo-lo orar e chorar. Preces e lagrimas assim, os anjos as levam ao +Senhor. Áquellas almas disse Jesus: «pedi, e sereis attendidas.» + +Os que dão cegamente sua alma a quem a não merece, e rogam a Deus o +resgate d'ella, sentem-se livres. + +Os que vão de rastros e quasi moribundos sob o pé da injustiça humana, +oram, e recobram uma força, que é insulto á covardia dos fortes. +Deixa-los chorar e orar. + +Deus lhes mostrará os balsamos das urnas que ahi estão a desbordar desde +que o Homem-divino perdoou aos que o matavam por ignorancia. Porque não +hão de perdoar estes homens de barro á cafila de farizeus que os não +entendem? + +Da cafila de farizeus exceptuo Paulina de Briteiros. Se eu não podesse +estrema-la, rasgava aqui estas paginas, e queimava os apontamentos, para +que nenhum collega meu d'este maldito officio saísse alguma vez a lume +com a historia d'uma linda mulher com alma tão feia! + +Paulina e Eugenia entraram nos seus aposentos, sem verem o pae. + +O secretario foi ao quarto de Bartholo entregar a outra porção de +brilhantes, e continuar sua missão de conciliador e conselheiro. + +O fidalgo denotava boas intenções, em quanto ao conde de Rohan. De +Fernando Gomes disse, á terceira pergunta, que havia de pensar no melhor +modo de se realisarem os desejos de sua filha. + +As meninas passaram aquelle dia sem leve incommodo de sua saude, nem +accessos de lagrimas que mereçam chronica. Doe-me ter de dizer que, ahi +por fins da tarde, riram com as creadas da figura que ellas deviam +fazer, quando saltaram á carroagem, desgrenhadas, com os capuzes das +capas encarapuçados á laia de feiticeiras. Esta frivolidade de espirito +feminil é cousa tão vulgar, que eu peço á leitora que não levante a +pedra, e deixe ir as cousas em paz, como Christo mandou ir uma +peccadora. + +No dia seguinte Fernando Gomes, instado por seu amigo, saíu com elle em +carroagem. Passearam até á ponte de Segovia, e apearam na praça do Sol, +onde o secretario havia de cumprir ordens do ministro. + +O acaso encaminhara para alli o marquez de Tavira, que trazia o espirito +encavalgado por um dragão. + +Viram-se e reconheceram-se. + +O marquez, cego de sua raiva, parou em frente de Fernando, e disse a +brados que muita gente ouviu: + +--Ainda tem a pouca vergonha de se mostrar nas praças um biltre que +seduz filhas-familias a roubarem seus paes! + +Se o periodo fosse mais comprido, morria incompleto na garganta do +marquez. O filho de Francisco Lourenço engriphou os dedos com sanha +felina. O rancor, brutalisando o homem, parece que lhe dá parecenças com +a fera, cuja sanha imita! As dez unhas de Fernando faziam espirrar o +sangue gothico do marquez, que escabujava como o Lacoonte de Virgilio +nas roscas das serpentes. Cairam ambos de modo que o de Tavira foi +fender o occipital no eixo d'uma carroagem, cujo dono fizera alto para +disfructar a lucta. + +Almeida estava, poucos passos distante, observando o desenlace, que o +enchia de jubilo. O marquez, ensanguentado, coberto de lama, e quasi +desaccordado, nem de leve se boliu, quando Fernando desencravou as +unhas. Approximou-se Almeida, e offereceu ao fidalgo a sua carroagem +para conduzi-lo onde quizesse. O soberbo de sua miseria respondeu com +uma insolencia, e retirou-se com respeitosa, mas curiosa cauda de +gaiatos, testemunhas pertinazes e minudenciosas de todos os conflictos +magnificos. + +Constou ao secretario que o marquez saíra, no seguinte dia, de Madrid, +com direcção a Portugal, onde a presença do convencionado não +incommodava ninguem. Parece que Bartholo de Briteiros lhe emprestara +dinheiro com que elle podesse na patria sustentar a antiga ociosidade e +dissipação de seus avós. E, como não sei se virá de molde lembrar o nome +d'este sujeito no decurso da novella, fique o leitor sabendo que o +marquez de Tavira, depois de residir em Lisboa alguns mezes, fez-se um +liberal rasgado, ou roto, como quizerem, e conseguiu ser nomeado +ministro n'uma das côrtes da Europa, e mais tarde governador dos estados +da India, d'onde veiu, já muito na flôr dos sessenta annos, casar em +Portugal, onde está rico e honrado. + +Paulina, sabedora da derrota que soffrera o primo marquez, sentiu uma +satisfação que eu sinceramente lhe não louvo, e ao mesmo tempo um +accrescimo de estima por Fernando, estima que eu não posso attribuir ao +coração. Estas anomalias que a moral reprova e a animalogia desentende, +são uns geitos de mulher que avisadamente não discuto. São assim. Deus +as faça melhores ou peores, de modo, porém, que fiquem mais decifraveis +e intelligiveis. + +Bartholo, como é bem de ver, ficou raivoso contra Fernando Gomes, e +esteve uma noite toda a scismar no modo menos estrondoso de se desfazer +d'aquelle inimigo. Ponderou o malvado intento de lhe comprar a vida; mas +occorria-lhe que em Madrid era difficil e arriscado andar em cata de um +sicario destro e fiel. Desanimou: mas jurou que sua filha Paulina havia +de morrer n'um convento, se teimasse em querer casar com o facinoroso. + +Este successo apressou o casamento de Eugenia com o conde de Rohan. O +fidalgo colheu informações, que condisseram exactamente com as do +secretario, mas muito por miudo. O conde era oriundo dos primeiros +soberanos da Bretanha, condes de Porrhoit, viscondes de Rennes, por +Alain I, quarto filho de Eudon, que vivia no seculo X. D'esta +nobilissima stirpe procediam os duques de Rohan, com esta legenda no +escudo: ROI NE PUIS, PRINCE NE DAIGNE, ROHAN JE SUIS. + +Á vista d'isto, e do mais que deixo á averiguação dos genealogicos, +Bartholo de Briteiros deu Eugenia ao conde, liberalmente dotada, e +resolveu ir viver em Paris no inverno, e n'um dos castellos da Bretanha, +no verão, em companhia de seu genro. + +O velho principiava assim a vingar-se de Fernando Gomes. + +No jantar nupcial, ao qual assistiram titulares hespanhoes, e a +diplomacia dos differentes estados, Bartholo de Briteiros, n'um brinde +que propôz a seu genro, disse em remate do discurso: + +--Eu morrerei feliz, se vir minha filha Paulina casada com um parente +dos Rohan; e, se não puder ser tanto, que seja, e muito ainda será, um +nobre da França ou das Hespanhas, a quem meu genro aperte a mão, sem +receio de a retirar suja. + +--De sangue...--disse Almeida com um sorriso que tinha fogo do inferno. + +Esta palavra «sangue» turvou um pouco o vinho que Bartholo bebia. Ao +ex-ministro da Alçada quiz parecer que havia n'aquelle dizer succinto +uma allusão. Nem que o secretario da legação fallasse em corda! + + +XVIII + +Fernando Gomes, informado, não por Paulina, mas por Almeida, dos +successos que se iam encaminhando a um natural e triste desfecho de +tantos trabalhos, póde dizer-se que morreu antes que o matassem. +Senhoreou-o amargura serena, sem contorsões; mas profunda, luctuosa, e +inalteravel por nenhuma diversão. + +Alguma carta que escrevia a Paulina ia breve, desalentada, sem a palavra +esperança, sem a palavra saudade, sem a palavra amor. + +Divagava por uns nevoentos dizeres, como devem ser os do enfermo de +mortal doença, que antevê o fim, e se está, meio vida, meio eternidade, +conversando com amigos, que deixa sem saudade e sem esperança de tornar +a ve-los n'outro mundo. + +Paulina entendia mal esta nova phase do espirito de Fernando, e +respondia-lhe queixando-se da seccura de suas cartas; porém, a tibieza +dos queixumes podia apostar lethargia d'alma com o apparente regelo das +cartas de Fernando. + +--Como cahiste n'esse estado? perguntava Almeida ao seu amigo. + +--Era o meu estado natural. Assim me conheceste no cerco e na +universidade. Paulina emprestou-me uma segunda natureza que eu lhe +devolvi em lagrimas, e fiquei como era, peor do que era, porque havia +uma virtude em que eu tinha fé--o coração da mulher--e esta crença +tambem se foi diluida em lagrimas. + +--Injustiça!--interrompeu Almeida.--Não te diz ella que está prompta a +requerer o seu deposito? + +--Disse, não diz. + +--Propõe-lh'o. + +--Não. Quero forrar o meu pundonor ao ultraje da negativa. + +--Farei eu a proposta, mediante o conde de Rohan. + +--Recuso o favor. Quem te diz a ti que o conde de Rohan deseja o +casamento de sua cunhada comigo? + +--Elle. + +--Não creias. O conde de Rohan tem irmãos. Paulina é rica e formosa como +Eugenia. + +--Imponho-me o dever de não julgar ninguem pelos teus olhos. Tu és uma +raridade, um excentrico, uma cousa com geitos de pessoa. Erras quantos +juizos fazes. Eu hei de sondar o conde. Póde ser que tudo se consiga sem +processo judicial. + +O secretario procurou o conde. Fallou amplamente de Fernando Gomes, e +das suas injustiças ao caracter de Paulina. O conde mostrou sympathisar +com o caracter do portuguez, e disse: + +--Eu fallarei a meu sogro. + +E falou de modo que as suas ultimas palavras summariam o elogio que se +lhe deve: + +--O homem, cuja mão eu aperto com sincera satisfação de quem sabe prezar +a virtude, é Fernando Gomes. Peço encarecidamente a mão de minha cunhada +para este tão modesto como honrado mancebo. Condescenda, meu sogro, para +eu poder dar-lhe o nome de provado amigo. + +Bartholo de Briteiros respondeu umas palavras oscillantes, que nenhuma +resolução significavam. O conde saiu maguado d'esta conferencia, e disse +á cunhada: + +--Se Paulina quizer casar com Fernando, tem de adoptar meios +extraordinarios. Requeira o deposito, que a familia do ministro francez +presta-lhe sua casa. + +Paulina respondeu: + +--Era preciso que Fernando ao menos me enganasse, para eu acceitar o seu +conselho. Fernando, quando me escreve, nem ao menos diz que me ama. + +--Ama com a mais segura das paixões: a paixão que mata com infernal +lentidão. + +--Se elle m'o fizesse assim acreditar!...--replicou ella. + +O conde inferiu que Paulina estava cançada das virtuosas, +incomprehensiveis e fastidíosas singularidades de Fernando. E assim, +muito á puridade, o communicou ao secretario. + +Bartholo chamou Paulina, e mostrou-lhe cartas de Lisboa. A importancia +d'estas cartas ha de ressumbrar na seguinte, que ella escreveu a +Fernando: + + +«Meu querido amigo. + +«Nem a cegueira do amor me engana. As tuas cartas dizem-me tudo que está +em tua alma. Eu não sei por que desmereci aos teus olhos. Não sei, +Fernando! Aquella impensada fuga que eu havia de fazer, com teu +consentimento, creio que me tirou todo o prestigio. Esta pobre +formosura, que tanto encarecias, já te não inspira mesmo as palavras +animadoras que releio nas antigas cartas, com o coração traspassado de +dôr! O ser rica sabia eu que era cousa nenhuma em teu conceito; mas o +ser-te leal ha dois annos, á custa de tormentos tamanhos, cuidava eu que +seria um titulo á tua eterna dedicação. Louca mulher, que tão vaidosa +julguei merecer o que o mundo não póde dar! Com que me recompensas tu o +fel que eu tenho tragado desde que voltei dos teus frios braços para +debaixo dos olhos severos e queixosos de meu pae? O teu esfriamento é +incrivel! Se me dissessem que amas outra mulher, comprehenderia o homem +e a ingratidão. Mas sei que vives só, que vives triste, que tudo te é +indifferente, e eu mesma quasi esquecida! Cada carta que me envias é +como obrigada pela delicadeza. Palavras inintelligiveis, apprehensões +vagas, e nenhuma em que me digas positivamente o que pensas, e esperas +de mim! E eu amante como sempre! Capaz de tudo, mas incapaz de me +abalançar a novos sacrificios, sem que me tu digas corajosamente: +«Luctemos de novo!» Porque m'o não dizes, ó Fernando!? + +«Ainda agora saí do quarto de meu pae, onde fui chamada, e entrei a +tremer. Mostrou-me cartas de Portugal, cartas forjadas talvez aqui, e +mandadas lançar lá no correio. Todas falam de ti miserias que eu me pejo +de dizer. Mas adivinho que desejas ouvi-las. Creio que, em dizer-t'as, +te allivio de conjunturas dolorosas. Noticiam que teu pae é um sapateiro +de Lisboa, que tua mãe era colchoeira, e que andas por aqui a estragar +as economias de teu pae, em quanto elle lá está quebrado de trabalho, +cerceando ao pão de cada dia para te sustentar uma vida aventureira. São +assim miserias d'este jaez. Irritou-me a alegria de meu pae, quando elle +com ar de victoria me estava lendo estas calumnias. Não tive mão em mim, +e disse-lhe: «Isso é tudo falso. Se o pae de Fernando fosse um +sapateiro, não iria visita-lo a Londres, nem lhe daria a decencia com +que tem vivido ha dois annos em Florença, aqui, e em toda a parte. Meu +pae encontrou-o em casa d'um principe, e o principe de Monfort não +aperta a mão a filhos de sapateiros, nem ministros de Portugal em +Hespanha o tratariam com tanta consideração, se elle fosse o que essas +cartas dizem. Meu pae enfureceu-se dizendo que o Almeida era filho d'um +latoeiro, e por isso occultava o teu nascimento...» + +Fernando, n'este ponto, machucou a carta na mão direita, e atirou-a aos +pés. + + +RESPOSTA + +«Minha senhora. + +«Não mentiram ao pae de vossa excellencia. Sou filho d'um sapateiro, e +d'uma colchoeira. Meu pae está ganhando o pão que me sustenta, e +vendendo as suas economias para suprir ás despezas que o seu trabalho +não alcança. O sapateiro foi a Londres, é certo; mas não foi visitar-me, +como vossa excellencia presume: foi pedir-me que voltasse á pobre casa, +onde minha boa mãe me chamava para me abraçar antes de morrer. Ensurdeci +ao chamamento de minha mãe, e não vi as lagrimas de meu pae. Vossa +excellencia tinha-me levado ouvidos e olhos, deixando-me no coração +apenas a fibra do remorso de ser mau filho. + +«Humilho-me diante de vossa excellencia, não como filho do sapateiro, +mas avergado pelo arrependimento de lhe ter occultado a minha humilde +origem. Foi o coração que me trahiu, dizendo-me que para vossa +excellencia era cousa de nenhuma significação o meu nascimento. Penso +que devo ser desculpado d'esta falta: seria grande extranheza andar eu +divulgando o meu nascimento. Eu tinha estado em França, e vira ministros +sahirem das officinas: e o mundo respeitava-os pela honra dos paes, e +por sua elevação com esforços proprios. Tudo me induziu, não a +esquecer-me de que meu pae era sapateiro, mas a presumir que me era +licito com minhas acções continuar a ser honrado como meu pae, sendo +certo, minha senhora, que eu nunca ousei suppôr que meu pae carecia de +minhas virtudes para se dar nobreza de si. + +«Faz-me pena o desgosto de vossa excellencia quando esta carta estiver +lendo! + +«O que a senhora D. Paulina de Briteiros tem soffrido por minha causa! +Que mal empregados sacrificios! + +«Não foi a mão de Deus que a susteve á borda do abysmo, minha senhora? +Que immensa vergonha e agonia devia ser a sua, se vossa excellencia a +esta hora fosse minha mulher?! Que torturas irremediaveis! Como havia +dizer-lhe eu em Portugal o nome de meu pae? + +«Nunca pensára n'isto!... Agora me parece incrivel que não pensasse! + +«Escrevo-lhe com quanta quietação de espirito se póde, minha senhora. O +coração está esmagado. Matou-o a vergonha de ter pulsado em tão baixo +peito, vergonha que eu confesso sentir diante da sombra de vossa +excellencia, agora, e sempre. + +«Veja que horrivel organisação social esta, senhora D. Paulina! Diga +vossa excellencia em sua intima e clara razão, se eu merecia ser +vilipendiado por meu nascimento, emquanto não praticasse alguma acção +infamante! que mal fiz eu á sociedade em ter nascido de operarios?... +Desculpe-me vossa excellencia estas perguntas vans, desordenadas e +indignas da sua attenção. + +«N'este momento vou queimar as cartas de vossa excellencia, menos d'esta +ultima a pagina em que, por suas mãos, a Providencia me ministra uma +lição, que me póde ainda levantar diante de mim mesmo. + +«De novo lhe rogo me perdôe, no silencio de sua consciencia, porque as +suas palavras já não poderei vê-las escriptas. Subscrevo-me, com quanto +respeito me inspiram suas virtudes, creado de vossa excellencia + + «_Fernando Gomes._» + + +Almeida tinha saído com o ministro para o Aranjuez, para voltar quatro +dias depois. Fernando queimou as cartas de Paulina, lendo as primeiras +de Florença, quanto as lagrimas lh'o consentiam. Enfardou o seu fato. +Comprou passagem na primeira diligencia em direcção á fronteira de +Portugal, e mandou entregar a sua ultima carta a Paulina, ao embarcar-se +na locomotiva. + +Almeida, recolhendo do Aranjuez, encontrou este conciso escripto: + + +«Vou vêr o pobre artista, e a pobre companheira do artista, que não tem +culpa dos meus infortunios. + +«Com as mãos erguidas te rogo que não digas a alguem o meu destino. + +«Terás as minhas cartas regularmente, em quanto viver. + +«Graças, meu amigo, pelo coração de irmão que me déste. A recompensa é +este chorar que me tolhe poder escrever-te mais. São as ultimas lagrimas +do teu Fernando.» + + +XIX + +DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA + + Lisboa, 4 de agosto de 1842. + +«Meu presado amigo. + +«Aqui estou na casa onde nasci, no pequeno quarto em que os livros me +iniciaram para tormentos superiores aos que conheceste em minha vida. + +«Entrei em casa inesperadamente, e encontrei minha mãe chorando, e nos +braços d'ella, uma de minhas irmãs viuva, e alli, ao lado, deitada n'um +berço, uma criancinha de dois mezes. + +«Minha irmã casára com um capitão de mar e guerra, que morreu em viagem +para Moçambique. Fôra ella dotada com dez mil cruzados, cuja maior parte +o marido empregou em mercadorias, que levava comsigo, na esperança de +grandes lucros. + +«O navio deu á costa, e presume-se que meu cunhado se suicidou. A minha +pobre irmã ainda ignora que está em pobreza extrema. + +«Sabe-o meu pae, que é um santo, e acceita das mãos da Providencia tudo +que vier. + +«Outra minha irmã, casada com um official de secretaria, vive muito +infeliz, e tem querido refugiar-se no abrigo dos paes; o marido, em +poucos mezes, leva quasi dissipado o dote, sem mesmo assim poder +resgatar-se de descreditos que mais tarde ou mais cedo o reduzirão a vir +pedir esmola á porta do seu sogro. Acaba meu pae de me contar estas +alegrias, que eu te refiro para que vejas os ditosos auspicios com que +entrei nos lares domesticos. + +«Meu pae está quasi cego, e minha mãe n'um estado de decrepidez +extraordinaria. As minhas despezas dos ultimos oito mezes custaram ao +santo velho o sacrificio da venda dos bens do Cartaxo. O que elle não +vendeu foi a livraria, nem os manuscriptos de Bocage, seu amigo da +mocidade. Disse-me que me salvara os livros para me legar amigos. Perdôa +ao bom velho o seu descrer em amigos: elle não sabia que tu eras mais +verdadeiro e valedor que os livros. + +«O meu futuro é facil de conjecturar. Tenho uma numerosa familia +dependente de mim. A outra minha irmã, e uma filha, não tardarão aqui. +Meu pae ainda vae á loja examinar, ou finge que examina, o trabalho dos +officiaes. Estes são já pouquissimos, em relação com o diminuto consumo +que tem a obra. + +«Penso em arranjar emprego; mas sinceramente te digo que não sei o para +que sirvo, nem como estas cousas se alcançam. Lembra-me abrir loja de +conselhos e requerimentos; estou esquecido do pouco que aprendi; careço +de muita pratica, e de muita paciencia. Falta-me gosto, alma e vontade. +Nenhuns estimulos d'actividade me impellem. Este espectaculo inesperado +escureceu-me o espirito de modo que nenhum raio d'esperança já póde +reanimar-me. Espero em Deus que esta crise não se demore; e, depois, +veremos. + +«N'outra carta me abrirei mais comtigo. A oppressão produz no animo +dolorosa preguiça. Em contentamento sereno ou nas afflicções agitadas, +n'estes dois extremos, é que o espirito se compraz ou desafoga em +diffusas cartas. Esta minha dôr é termo medio que prostra e embrutece. +Adeus. Teu amigo muito grato + + _Fernando._» + + +DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES + + Madrid, 14 de agosto de 1842. + +«Meu Fernando. Quando recebi no Aranjuez, onde tive de demorar-me, a tua +carta de despedida, corri logo a Madrid, não esperançado em +encontrar-te, mas em ancias de saber o que se havia passado em minha +ausencia. Esporeava-me o odio que recresceu n'estes ultimos mezes contra +o algoz togado, o villão que me enganou quando eu tinha na mão o fio com +que esperava cortar-lhe a vida na garganta. + +«Deram-me a tua carta, e contou-me o creado que te vira queimar as de +Paulina. Percebi logo que um completo rompimento vos separara para +sempre. Odiei-a! Dei-te logo razão, porque eu sabia que tu eras um anjo +merecedor de melhor alma. + +«Na incerteza de me estarem trancadas as portas de Bartholo, procurei na +rua o conde de Rohan, e soube que Paulina estava doente. Perguntei, sem +rebuço, que razões se haviam dado para a tua saida repentina de Madrid, +e elle sem me dar explicações, instou por saber o teu destino. Não lh'o +podia dizer, não lh'o diria, ainda mesmo que antevisse n'esta infracção +a tua felicidade. _A tua felicidade_, digo eu! + +«Ha homens que ninguem deve conduzir a uma supposta felicidade: a má +sina póde tudo com elles, e reverte-lhes em mal os mais logicos planos +do bem. Os proprios amigos se tornam fautores da sua desgraça. + +«N'este mesmo dia recebi um bilhete de Paulina, a perguntar-me onde +estarias. Respondi que o não podia declarar. Redobraram instancias: +permaneci inabalavel. O ultimo bilhete d'ella é este que te envio[1]. +Não calculo o que succedeu para resolução tão improvisa! Dar-se-ha caso, +Fernando, que a tua doentia imaginação te enganasse? Poderias tu ser +injusto, sem consciencia de o ser? Irias arrebatadamente, onde com +alguma hora de reflexão, deixarias de ir? + +«Não ouso decidir por mim a hypothese: tamanha confiança me merece o teu +bom juizo e reflexiva dignidade. Antes me quiz persuadir que procedeste +como devias. Esperei. + +«Agora, porém, recebo a tua carta de 4 de agosto. Nem uma palavra a tal +respeito! Dir-se-hia que eu sonhei que tinhas amado Paulina, ou tu d'uma +para outra semana perdeste a memoria do teu coração! Isto mais me +capacita de que a razão do teu proceder foi tão grande que presumes deva +eu já sabe-la, e por amor de ti proprio a omittes. Juro-te que apenas +sei o que devo inferir dos bilhetes d'ella. + +«O conde ignora tudo. Bartholo está com ares de satisfação; nada, porém, +diz ao genro nem a Eugenia. Este mysterio mortifica-me. Esclarece-m'o, +que o deves ao teu Almeida. + +«Falemos agora da tua situação. Compunge-me a sorte de tuas irmãs, e de +teus bons paes. Triste espectaculo, na verdade; mas providencial e +necessario para a glorificação da tua honra. Precisas de força, e de +paciencia para poder emprega-la. + +«Queres um cargo publico? Os teus estudos, talento e serviços hão-de +obte-lo; mas não cuides que será já, meu amigo. Tu perdeste a occasião +de entrar nas secretarias com o arcabuz do cêrco do Porto debaixo do +braço. As gravatas dos heroes de gabinete na emigração já se não temem +das dragonas. Estamos em tempos pacificos. O que ha seis annos se +conseguia e recebia com a mão a cheirar a polvora, é preciso have-lo +agora das mãos enluvadas das mulheres, que fazem os despachos nas +othomanas, com os ministros reclinados sobre o seio. Advirto-te, para +que a decepção te não surprehenda. + +«Entretanto, meu caro Fernando, o que tu precisas é de encaminhar desde +já a tua pretenção, dando ares de que não pretendes. Resgata os teus +bens do Cartaxo, se o comprador t'os ceder: ostenta uma independencia +que fira o orgulho villão dos grandes que não supportam animos generosos +e isemptos; entra na politica, e escreve, que necessariamente has de +escrever coisas excellentes, visto que é esse o ramo de conhecimentos +humanos que dá fructo a quem lh'o pede, e para o qual todo o homem está +habilitado. A honra ha de ser-te um empeço á boa saída; mas póde ser que +a mesma excepção te aproveite. Ora como para estas coisas, e +principalmente para a independencia, é necessario o dinheiro, vae ter á +rua Augusta, procura meu velho pae, que has de encontrar a bater alguma +caldeira, e diz-lhe quem és. Deves saber que eu sou já senhor da +legitima materna, e este capital, que excede a vinte contos de réis, lá +o tem meu pae á espera que eu lhe dê destino. A tal qual decencia, com +que vivo aqui, é meu pae que m'a dá, prohibindo-me que eu gaste da +herança de minha mãe. Vê tu que animo este de artista, que ainda não +despegou uma semana de trabalhar! Vae lá, meu amigo; elle está +prevenido, e sabe que és meu irmão. Pede o que quizeres, para m'o +pagares quando puderes. + +«Fecho, que está a partir o correio. Escreve muito ao teu + + _Almeida_.» + + +DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA + + Lisboa, 31 de agosto de 1842. + +«Meu irmão. + +«Guardo em minha alma a tua carta. + +«Falarei primeiro dos teus fraternaes offerecimentos. + +«Fui vêr teu pae, porque desejava conhece-lo e abraça-lo. Que cabellos +brancos, e que mãos calejadas aquellas! Que bem e orgulhoso me senti nos +braços d'elle! Falla de ti com lagrimas; mas todo aquelle rosto se abre +em contentamentos d'um justo! + +«Quiz que lhe contasse pormenores da tua vida em Madrid. + +«Satisfiz aquella ancia do teu velho. Foi dia de férias na officina a +minha visita. Mandou os operarios passear, recommendando-lhes que não +fossem á taverna. Depois jantei com elle, e lá fiquei até á noite. Teu +pae deita se ao escurecer e ergue-se com a aurora. Disse-me elle quando +eu estava para sahir: «Veja lá o dinheiro que quer, doutor.» +Respondi-lhe que não queria nenhum. Montou os seus grandes oculos de +cobre, arregaçou os punhos da camisa, releu a tua carta, e exclamou: +«Então como se entende o que reza esta carta do meu Hypolito?!» Satisfiz +ás suas duvidas, dizendo-lhe que o teu offerecimento não fôra +solicitado, nem por em quanto me era preciso aceita-lo. + +«Assim passaram quatro boas horas da minha vida. Face a face com o +principe de Monfort não me senti tão feliz e entranhado de respeito como +ao lado do artista, do teu digno pae, meu querido Almeida. + +«Beijo-te as mãos pelo amigo que me déste. Em quanto ao dinheiro, +deixemo-lo estar, _como nosso_, na mão do honrado depositario. Quando +precisarmos, lá iremos. + +«Agora direi pouco de Paulina para te satisfazer, e menos terei que +dizer-te, enviando-te uma copia da pagina da sua ultima carta. Ahi tens +decifrado o enygma. O filho do sapateiro teve pejo e arrependimento de +se haver abalançado ao coração da filha de um Briteiros: pejo de se +haver abatido, e arrependido de a ter humilhado. Cahi em mim. Podia ser +mais tarde, e mais funestamente para ambos. Deus poupou-me ao aperto de +entrar em Portugal, e por esta porta dentro, onde todos choram, com a +faustuosa e brilhante Paulina, que está fadada para alegrias e +esplendores. Que sentiria aquella alma vendo-se aqui n'este ambiente de +pobreza, pobreza que se adivinha em tudo! Alli dois velhos; além duas +irmãs uma viuva, outra divorciada; acolá duas criancinhas, cada uma em +seu berço, vagindo; lá em baixo o martellar do trabalho; em tudo o cunho +de uma maneira de ser incompativel com a indole e educação de +Paulina!... + +«Que queres tu, á vista d'isto, que eu faça ao coração? + +«Suffoco-o; obrigo-o a repartir-se por estas quatro creaturas, que não +teem mais ninguem. + +«O bilhete de Paulina como não me auctorisas a queima-lo, devolvo-t'o; +póde ser que ella venha a envergonhar-se de te-lo escripto, e t'o +reclame. + +«Persiste em não dizer nada de mim; e, se tenho algum outro favor a +pedir-te, é que me não fales d'ella; antes me ajuda a esquece-la. + +«Meu generoso pae ainda a tal respeito me não disse palavra. Adivinhou +tudo. Tudo me tinha prophetisado em Londres, com estas palavras: _Que +direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhações? Para que a +procuras afincadamente, se vaes de rastros apoz ella? Porque has de tu +querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma +carreira por onde levarias teus filhos á grandeza?_ + +«Na ultima pergunta é que o propheta ouviu demasiadamente os seus +arremessados desejos. Esta minha carreira é a da inhabilidade e da +pobreza; mas cá estou a refazer-me de alentos para a trilhar. Adeus, meu +extremoso amigo. Não acceito o teu alvitre de me fazer politico. Já vi o +que isto é. Não estou ainda bastante pôdre para adubar o torrão em que +braceja a arvore da immoralidade. Estou envergonhado de ter dado o meu +sangue para isto! Ás vezes chego a scismar se Bartholo de Briteiros +teria razão! + +«Perdôa esta impia ironia. Antes isto que os patibulos. Cada qual +enforca a sua honra á sua vontade, e não causa lastima nem espanto. Não +ha tempo para mais. Adeus. Teu + + _Fernando_.» + + +XX + + +DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES + + Madrid, 3 de setembro de 1842. + +«Meu Fernando, não espero a tua resposta para te escrever. Tenho só +tempo de participar-te que Paulina entrou hoje n'um convento, contra a +vontade do pae. O conde de Rohan suppõe que és tu a causa d'este +successo. Bartholo suppõe que a filha se enclausurou para de lá requerer +casamento comtigo. Elles e eu andamos litteralmente ás aranhas. Ella e +tu sois os ferrolhos do mysterio. Sae a mala. Adeus. + + _Almeida_.» + + +DO MESMO AO MESMO + + Madrid, 12 de setembro de 1842. + +«Viva Deus! que quebraste os sete cadeados do cofre! Vi o altissimo +quilate do oiro da tua honra. Já o conhecia. + +«Estas linhas deviam magoar-te; mas não justificam a fuga, e menos ainda +o desprezo. Não é desprezo o que sentes por ella; mas, seja o que fôr os +effeitos são analogos. + +«Paulina, como já deves saber, vive no convento das Therezinhas. +Consta-me, de informações exactas, que Paulina está n'um consternador +abatimento de espirito. Raro se deixa vêr e apenas sáe da cella para +receber, na grade, a visita do conde ou do pae. Eugenia entra no +convento, e passa muitas horas com ella; mas nem assim lhe arranca o +essencial motivo do rompimento e reclusão. + +«Bartholo tem providenciado para o caso de haver deposito judicial. +Realisa-se o que eu te havia dito. Sei que de antemão, e por hypothese, +já estão alugados os juizes. + +«Eugenia pediu-me hontem um encontro no Prado. Insistiu comigo para eu +lhe descobrir a tua residencia. Inutil. Jura que Paulina te ama até se +deixar morrer, para assim pelo remorso se vingar da tua ingratidão. +Estive, sem receio de quebrantar minha palavra, quasi a mostrar-lhe a +copia da pagina da ultima carta da irmã. Desisti, por me não parecer, +ainda assim, justificavel o teu procedimento, e tambem para respeitar o +sigillo de Paulina. Ella, que o reserva, lá tem suas razões, e nós as +nossas. + +«Aconselhar-te eu? não me atrevo a tanto. Já disse: contra certos +destinos é impotente esta logica vulgar, _vade-mecum_ de todos os homens +vulgares. Escuta o teu coração, sem menos-preço da consciencia. Obriga a +razão a obtemperar a certas e importantissimas pequenezas, que são o +essencial da vida. Isto não é conselho: é supplica. + +«Bartholo vive muito ha dias com um marquez gallego, que veio ao senado; +riquissimo gallego, e descendente dos monarchas de Aragão. Presume o +conde de Rohan, com o muito sal do seu espirito, que Paulina corre risco +de ser encabeçada na côrte descabeçada de Aragão. Eugenia accrescenta a +estas observações que Paulina só sairá do mosteiro, se a não deixarem lá +sepultar na clausura. Isto parece-me extremamente grave, Fernando. + +«Queres tu que eu ultrapasse as tuas ordens, ou prescrever-m'as novas? +Custa-me a ser-te fiel entre as reiteradas insistencias do conde, de +Eugenia, e da piedade a que indirectamente me compunge Paulina. + +«Anceio a tua resposta. + +«Dá outro abraço ao meu bom pae. Diz-lhe que eu vou muito cedo aperta-lo +ao coração, e que, se o aborrecimento d'esta vida diplomatica fôr assim +augmentando, de certo lá ficarei a ouvir o estrondear das caldeiras. +Adeus. Muito do coração. + + _Almeida._» + + +DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA + + «Lisboa, 12 de setembro de 1842. + +«Respondo, meu amigo, á tua cartinha. A esta hora já recebeste a carta +explicativa do meu procedimento. Julga-me, e absolve-me, se fui injusto. +O meu destino é vêr que as minhas acções, aconselhadas pelo dever, +redundam sempre em gravame alheio e desconceito meu. Estou enganado com +o mundo. Devo restringir-me, cada vez mais, n'um curto espaço em que +todas as operações de minha intelligencia, se reduzam ao trabalho +necessario á vida. Só assim poderei achar um cantinho da sociedade, onde +caiba com a minha insignificancia. + +«Cuidei que, saindo de Madrid, deixava essa senhora em paz comsigo e com +o mundo. Puz o coração debaixo dos pés, e nem assim consigo a liberdade +do espirito! + +«A entrada de Paulina no convento, a meu parecer, significa uma fadiga +de alma, que faz as mulheres eguaes aos homens. Paulina soffreu; creio +que sim. Está repousando para reassumir as poderosas faculdades de sua +juventude, formosura e aspirações. Póde ser que, ao receberes esta +carta, ella tenha já deixado o mosteiro pelas salas; e ámanhã deixará as +salas pelo mosteiro. Paulina lê romances. Os personagens femininos, da +novella moderna, são quasi todos a copia fiel da brilhante extravagancia +do espirito. Leem-se, e a sympathia, em vez do riso, nos impressiona. +Imitam-se, onde ha espaço, e é preciso te-lo, ainda assim, para as +scenas grandiosas, que, a final, desfecham em tragedias que o mundo, +futil e chocarreiro, denomina «comedias». + +«Na proxima carta me dirás o proseguimento d'esse estranho passo. +Authoriso-te a dizer-lhe, tão directamente quanto puderes, que respeito +em silencio todos os seus designios, e peço a Deus, que ao encontro +d'elles, lhe saia o anjo da felicidade. Em quanto a ama-la, faz-lhe +sentir que eu sou bastante desgraçado para não poder esquece-la. + +«Vou ámanhã ao Porto a fim de solicitar o embolso de algumas dividas de +calçado que lá devem a meu pae as lojas que se forneciam de nossa casa. +Tudo é necessario para ir custeando estas grandes despezas. Já vês que +estou feito caixeiro de cobrança de uma loja de sapatos. Para bem +desempenhar estas funcções, levo comigo as minhas cartas de bacharel +formado em leis! + +«Vou ver as paragens onde vimos juntos a morte tantas vezes! Procurarei +o rochedo das Antas, onde me encostei ferido no dia em que fui +condecorado. Ama o teu camarada d'aquelles bons dias de sangue, de +esperanças, de alegrias. + + _Fernando._» + +DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES + + Madrid, 25 de setembro de 1842.[2] + +«Meu amigo. + +«Bartholo de Briteiros está na eternidade. O marquez gallego foi o +indirecto homicida do lambaz Briteiros! Houve jantar opiparo no hotel. O +amphitrião recolheu-se pesado á cama, e, se adormeceu, acordou na +eternidade. + +«Não fez testamento. Achou o conde umas declarações, ou norma de +testamento, que dão noticia da grande fortuna de Bartholo. Orçam-n'a em +seiscentos contos, em differentes especies. + +«Paulina saiu do mosteiro para a companhia de Eugenia. Fiz a minha +visita de pezames ao conde, que me disse ir brevemente a Portugal +liquidar a herança do sogro, e vae depois para França. É de suppôr que +Paulina acompanhe a irmã. + +«Em vista do que, já não receio que a joven menina pereça no mosteiro. + +«Ninguem me tem fallado de ti. A tristeza de Paulina sei eu que é +inalteravel. + +«Diz-me o que fazes: fala-me da tua familia. Teu sempre extremoso + + _H. de Almeida_.» + + +Nenhuma outra carta nos veiu á mão. + +Fernando Gomes, voltando do Porto com os creditos de seu pae liquidados, +melhorou o pessoal dos operarios, e alargou o seu commercio, creando +freguezias de lojas nas terras que percorreu. Em toda a parte encontrou +condiscipulos, que se maravilharam de o verem agenciando os interesses +d'uma loja de sapateiro. Deu isto em resultado que ninguem o visitou nas +estalagens onde se aposentava. + +Francisco Lourenço mostrava-se penalisado de vêr seu filho occupar-se em +tal mister, tão incongruente com sua educação. Reconhecia a iniciativa +melhoradora do estabelecimento; mas, ainda assim, pedia-lhe +incessantemente que requeresse um emprego, allegando sua instrucção e +serviços. + +Fernando, submisso a seu pae, aos prantos da mãe, e meiguices das pobres +irmãs, requereu, apresentou ao ministro seus papeis, foi tres vezes á +audiencia geral do secretario de Estado, e esperou. + +De vez em quando ia examinar o seu nome no livro da secretaria, e lia +sempre: ESPERADO. + +Este _esperado_ é regularmente o prologo do _indeferido_. +Indeferiram-lhe o requerimento. O logar pedido na thesouraria fôra dado +a um filho de regedor, que puzera ás ordens da situação oito votos e +quatro cacetes, que valiam vinte e quatro votos. + +Fernando leu o despacho no _Diario do Governo_, leu os commentarios n'um +jornal da opposição, e riu-se. + +Pegou na medalha de Torre e Espada, embrulhou-a n'um papel de +mata-borrão, e enviou-a ao ministro, com esta carta: + + +«Excellentissimo. As _honras_ a quem competem. Faça vossa excellencia +presente d'isso ao meu feliz competidor. Ganhei essa coisa por ter suado +sangue a favor d'esta causa em que o merito do cacete devia ser +instaurado. O cacete venceu. Agora competem aos sacerdotes do pagode, +que eu ajudei a erguer, as condecorações que nada prestam aos operarios +inactivos. Eu, e o meu competidor, que ceifou o carvalho civico com o +cacete paterno, o que fizemos foi derramar sangue de irmãos. Devemos +hombrear nas honras. Ora, os arrependidos devem rejeita-las em favor dos +contumazes. Deus guarde a vossa excellencia, como todos havemos mister, +e de veras lh'o deseja o criado inutil de vossa excellencia, _Fernando +Gomes_, com loja de sapateiro na calçada do Sacramento, n.º 11--Lisboa.» + + +O ministro recebeu a carta e o embrulho. Pensou em autoar o signatario; +mas o official maior pediu licença para observar a sua excellencia que a +carta não encerrava injuria pessoal nem collectiva, salvo aos +caceteiros, por cuja honra não ficava airoso ao ministro saír. Assim +acabou o episodio. + +Fernando Gomes passou de agente exterior a fiscal da officina. Descia á +loja, e examinava de perto a labutação; ajudava a encaixotar o calçado, +e assignava, em nome de seu pae, a correspondencia com os freguezes. Os +officiaes antigos respeitavam-n'o, dando-lhe sempre o epitheto de +doutor. Ora o doutor um dia, alto e bom som, disse a todos os seus +officiaes que se chamava Fernando. + +Esta metamorphose divulgou-se, contada pelos operarios. É admiravel que +ninguem lhe désse grande peso! Muitos doutores disseram: «se elle viu +que não tinha geito para mais nada, fez bem em se fazer sapateiro, assim +como dizem que o pae se queria transformar de sapateiro em poeta». + +O mundo tem d'estes escarneos, que fazem vontade de perguntar ao Creador +se está contente com a obra que fez. + +Á força de muito observar, Fernando já sabia talhar umas botas como se +fosse creado no officio. Diante, porém, do pae não ousava fazel-o, nem +os officiaes ousavam dizel-o ao velho. Parecia a Francisco Lourenço que +o trabalho de talha andava muito supprido, e elogiava a actividade do +contra-mestre encarregado d'aquelle serviço. Elle, por si, o pobre cego, +nada fazia já. + +Fernando passava todas as noites em casa, ora contando á mãe e irmãs o +que vira em suas viagens; ora lendo a seu pae os poetas relidos na +infancia, e os livros de historia e viagens, que elle trouxera do +estrangeiro. Estas leituras coavam calor de contentamento, a través dos +setenta invernos de Francisco Lourenço, e embalavam o rebelde somno da +mãe, que acabava por adormecer entre o seu rozario e uma descripção dos +gelos polares por Cook. + +Esta vida durou assim seis mezes. É de crer que n'este espaço se +trocassem interessantes cartas entre Fernando e o secretario da legação. +Como as não alcançámos, o que podemos conjecturar é que Paulina se +conservou em Madrid esperando que o seu saudoso amigo, alguma hora, alli +voltasse, conduzido pelo amor, ou pelo pezar de tão dura ingratidão. Não +sabemos se o conde veiu a Portugal liquidar o patrimonio de sua mulher, +como Almeida annunciára. Se veiu, é muito de suppôr que ninguem em +Lisboa lhe désse noticias do _chevalier Ferdinand Gomes_, como elle +euphonicamente o conhecia. + + +XXI + +Estava um dia, 5 de janeiro de 1843, Fernando Gomes na loja da calçada +do Sacramento, aviando uma carregação de fazenda para o Porto. + +Antes de descer á loja, sua mãe, quando ia para a mesa do almoço, +abraçou-se n'elle, e disse-lhe: + +--Olha Fernando, tu não crês em sonhos, e eu creio!... Tive um sonho +alegre!... + +--Então sonhou que vendiamos algumas grozas de botas, minha mãe? Os +nossos sonhos alegres não pódem ir mais além d'esta ambição de vender +muito sapato. + +--Bemdito seja o Senhor, que nos ajuda, filho!--disse a velhinha.--Desde +que tu diriges a casa, parece que tudo levou volta! Olha que teu pae já +disse que, se assim continuarmos um anno mais, havemos de resgatar os +nossos bemzinhos do Cartaxo. + +--Então sonhou, minha mãe, que estavamos outra vez proprietarios no +Cartaxo? + +--Não foi isso, Fernando... Sonhei mais alguma coisa... Sonhei que te +via vestido de principe. + +--De principe?! Ólé! de principe! Sabe o que deu causa a esse sonho? + +--Que foi, meu filho? + +--É porque hontem á noite estivemos a conversar a respeito do entrudo, +que está á porta. A mãe adormeceu com a ideia do entrudo, e por isso +sonhou que me via vestido de principe. Não foi outra coisa, minha +querida mãesinha... Venha almoçar, que eu levo-a pelo braço, como em +casa de Jeronymo Bonaparte levei uma vez a princeza Carolina. + +--Valha-te nosso Senhor! não me deixas dizer o meu sonho até ao +fim!--tornou ella, dando-lhe uma fagueira palmada na face esquerda. + +--Pois o sonho estava no principio, minha mãe? + +--Estava... Credo! + +--Cuidei que o principe acabava principe. Querem ver que elle se fez +sapateiro? + +As irmãs riram; e o velho, abrindo os seus grandes olhos cataratosos, +largou tambem uma casquinada de alegre riso. + +Fernando temperou o chá de sua mãe, serviu o pae, e proseguiu: + +--Ora agora, ninguem a interrompe, mãesinha. Exponha lá as suas alegres +visões. + +--Tu eras principe; ou estavas vestido de principe; mas, através do +peitilho da farda, batido a ouro, via-se-te o coração. Quando tu assim +estavas, começaste a chorar, porque descera do céo um anjo, e te levara +o coração para Deus. N'isto appareces vestido de negro, muito pallido, +menos no logar do rosto onde corriam as lagrimas, que brilhavam como +diamantes. Quando assim estavas muito triste, e nós todos a chorar +comtigo, torna a descer o anjo, e dá-te o coração, que te havia levado, +dizendo-te umas palavras, que se me varreram da memoria. Eis se não +quando, appareces vestido todo de resplendores de luz, com um semblante +muito luminoso, e uma alegria, como a pintam no rosto dos +bem-aventurados que adoram o Altissimo. Teu pae estava como absorto a +olhar para ti, eu tambem, todos riamos e choravamos de felicidade, ao +mesmo tempo, e n'este momento é que eu acordei. + +--Alegre sonho, minha mãe! disse Fernando. O que eu agora queria era que +vocemecê me explicasse o como se ha de converter em realidade esse +bonito vestido de resplendores. + +--Pergunta-o ao Senhor que me deu o sonho, filho, disse a mãe. + +--O seu chá arrefece, tornou Fernando, eu faço-lhe outra chavena. + +--Pois sim, meu querido filho; tem paciencia, que eu estou a tremer o +queixo. A velhice parece que traz comsigo uma constante Siberia! + +--Vejo que ainda se lembra das suas lições de geographia, que o pae lhe +dava ha vinte annos, minha mãe. Ainda sabe que a Siberia é fria! + +--Não, que tu cuidas que a velha ha de ser estupida por que é +velha!...--disse ella risonha.--Olha que ainda ás vezes recordo os +versos do nosso Bocage, e do nosso Francisco Dias Gomes. Este era do +nosso sangue; o outro era do nosso coração, não era Francisco? + +--Oh! se era! estou-o vendo, como se fosse hontem, quando elle, na +mercearia, a S. Sebastião da Pedreira, me improvisou os versos com que +eu te venci, minha ingrata! Amaste-me por não poderes amar o Bocage, não +foi? Ora confessa a verdade, que eu agora já não tenho ciumes... + +--Olha o tolo!--disse a senhora Maria Luciana, com a bocca cheia pelo +bocado de pão, rebelde aos seus raros dentes.--Lá que os versinhos me +encantaram, isso te juro eu que sim, Francisco... Não sei o que seria se +me dissesses em prosa aquellas coisas... Tu eras tão acanhado quando ias +lá a casa! Olha se te lembras que para me dares um raminho de violetas +em dia de meus annos, andaste a pedir ao aprendiz, quinze dias antes, +que m'o entregasse... + +Fernando e as irmãs sorriam, sem quebra de respeito, d'estas amorosas +reminiscencias dos dois velhos, que trocavam gracejos, que era um como +prazer de lagrimas ouvi-los, de lagrimas, digo, para ouvintes que +tivessem coração muito sensivel ás poucas coisas commoventes que tem a +vida humana. + +Findo o almoço desceu Fernando á loja, como já se disse começando este +capitulo. + +Acabára elle de dar saída aos caixões de embarque, e outras ordens, +quando Hypolito de Almeida apeou d'uma carruagem, com as cortinas +corridas por dentro das vidraças. + +Fernando viu-o no limiar da loja, e correu a abraça-lo, exclamando: + +--Que surpreza! Eu não te esperava, meu querido amigo! Subamos á saleta. +Deixa-me ao menos tirar esta jaleca! + +Almeida fitou os olhos no amigo do cêrco, de Coimbra, de Paris, de +Madrid, e as lagrimas rebentaram-lhe a quatro. + +--Isso que é?--disse Fernando.--Que tens tu, Almeida? + +--Tenho a alegria, que precisa chorar como a dôr. A tua virtude causa-me +uma vehemencia de respeito, de piedade, sensações tão estranhas e +fortes, que me fazem isto que vês, estas não sei se primeiras lagrimas +de minha vida. O que tu pudeste sobre ti, ó Fernando! + +Os officiaes pararam de trabalhar, enleados n'este lance, e chorando sem +comprehender o alcance do que viam. + +--Subamos--repetiu Fernando commovido.--Vem dar um abraço em meu pae, em +paga dos muitos abraços que tenho dado no teu. + +--Pois sim, vamos--tartamudeou Almeida, n'uma irresolução.--Vamos... +tambem quero vêr tua mãe... + +Subiram, e os dois velhos vieram logo espontaneamente á saleta por +ouvirem pronunciar o appellido _Almeida_. + +--É o amigo do nosso Fernando--disse Francisco--vem d'ahi, Maria! vem +abraça-lo. + +Oh meu Deus! que magnificos lances preparam as vossas divinas leis! +Quantas vezes, e quantos lances assim passam despercebidos na +obscuridade onde vivem os vossos eleitos! + +Os dois velhinhos acharam-se nos braços de Hypolito de Almeida, que +sentiu em suas faces as lagrimas de ambos. Fernando, electrisado por +aquelle instante da vida do céo, beijou a mão do amigo, por que elle +assim respeitava e amava seus paes humildes. + +Almeida parecia querer dizer alguma coisa que se lhe não moldava á +expressão. Aquelle vacillar, e olhar d'um para outro rosto, o começar e +recomeçar da phrase, terminou por esta abrupta pergunta á mãe de +Fernando: + +--Minha senhora, quer ter a delicadeza de offerecer a sua casa a uma +dama, que veio em minha companhia, e me está lá fóra esperando na +carruagem? + +--É sua irmã, senhor Almeida?--perguntou a velha. + +--Não tem irmã--disse Fernando.--Será sua esposa. Queres surprehender-me +com a tua noiva? é hespanhola? + +--Não é noiva--tornou o secretario--é irmã. + +--Irmã!--redarguiu Fernando com espanto. + +--Sim, irmã, porque tu és meu irmão. + +--Como?!--exclamou impetuosamente Fernando. + +--Vá, vá!--volveu Almeida--vá, minha senhora, offerecer a sua casa á sua +filha Paulina, que vem aqui pedir-lhe a mão de seu filho! + +--Fernando já tinha corrido a escada abaixo; mas, a meia descida, parou, +olhou para si, e viu-se n'aquelle traje. Hesitou instantes, e disse: + +--Porque não?! Ainda me torturas, miseravel vaidade! + +A mãe seguia-o de perto, ajudada por Almeida. + +Em seguida iam as duas irmãs de Fernando, cada uma com seu filhinho nos +braços. + +Francisco Lourenço, que mal descortinava as escaleiras, ia mui de manso, +tacteando o mainel da escada. + +Fernando abriu a portinhola da carroagem. + +Paulina saltou-lhe aos braços; e, antes de proferir palavra, rompeu n'um +chorar e soluçar tão suffocante, que, nos braços dos dois e da velhinha, +foi transportada para o pateo. + +Fernando ajoelhou á beira de Paulina, que recostava a face desmaiada ao +seio de Maria Luciana. Uma das creancinhas, do colo de sua mãe, +estendeu-lhe a mão a um dos anneis dos cabellos negros. + +Paulina abriu os olhos, e sorriu á creança, e apertou a mão de Fernando. + +Maria, com as mãos erguidas, murmurou: + +--É o anjo do Senhor que volta com o coração de meu filho. Vejo-te agora +vestido de resplendores, Fernando! + +O moço lembrou-se do sonho de sua mãe, e respondeu beijando-lhe a mão. + +Ainda agora chegava Francisco Lourenço. Pediu que o deixassem approximar +de Paulina, e disse com a voz convulsa de lagrimas: + +--Eu lhe agradeço, minha senhora! Eu lhe agradeço o bem que faz ao meu +virtuoso filho. Deus a abençôe, santa, que soube avaliar os merecimentos +d'este anjo. Deixe-me rojar as cans aos seus pés, que não ha desaire +n'esta humildade do pobre velho, ainda que elle fosse um rei! + +Paulina abraçou-se expansivamente ao artista, e chamou-lhe pae. + +--Pae! meu Deus!--exclamou elle--Com que liberalidade me pagaes os +padecimentos de alguns annos! Minha filha, que immensa alegria vem +trazer a tantos que a pediam ao Senhor! Eu quero que meu filho sinta +mais intensa felicidade que eu!... + +Paulina sahiu amparada ao braço de Fernando, e no pescoço de Maria +Luciana. Entraram na saleta da livraria. Era a riqueza d'aquella casa. +Sentou-se a ditosa na cadeira de Fernando, junto á meza onde elle fazia +as suas leituras. Relanceou os olhos sobre a mesa, e viu na capa d'um +grosso volume de papel almasso esta palavra--_Paulina._-- + +Lançou rapida mão ao livro. Leu das ultimas paginas escriptas as linhas +finaes, que diziam assim: + + +«_Porque te vejo ainda, ó abençoado anjo do meu infortunio! Que luz é +que tu me mandas em sonhos, se o meu despertar é sempre no meu abysmo de +saudade?... Ainda te verei, ó Paulina?..._» + + +Ergueu-se, escarlate d'alegria, o anjo abençoado d'aquelle augusto +infortunio, abraçou Fernando com fremente ardor, e disse: + +--Pois não vim eu trazer-te a luz dos teus sonhos, meu querido Fernando? + + +CONCLUSÃO + +Fernando Gomes não pedia explicações de sua felicidade a Hypolito de +Almeida, nem a Paulina de Briteiros. + +Aquellas alegrias tinham ainda a vaga desconnexão d'um sonho. + +Os enlevos do presente não pedia ao passado a sua razão de existencia. + +Os paes, e as irmãs de Fernando, pallidas e melancholicas meninas, tão +na madrugada da vida desgraçadas, pareciam estar agradecendo a Paulina o +bem que fazia a seu irmão, unico amparo d'ellas. + +Almeida, quando pôde falar, sem desdizer da eloquencia das lagrimas da +bem-aventurada familia, disse gravemente o seguinte: + +--Fernando, eu já te vi de joelhos aos pés d'esta senhora; mas não te +ouvi pedir perdão... + +--Ah! exclamou Paulina, apertando ao seio Fernando para que has de tu +ajoelhar-te? Não quero, meu querido amigo. A mais desgraçada não era +eu!... Eu sabia que havia de encontrar-te, Fernando; tu é que não +esperavas mais ver-me. Eras incomparavelmente mais atormentado que eu... + +--Mas, atalhou Almeida, vossa excellencia dá-me licença de expôr o +relatorio conciso... (o _sizo_, n'estes relatorios d'amores, é +extraordinaria coisa...) + +Fernando e Paulina sorriram com o secretario, que proseguiu: + +--Expôr o relatorio, dizia eu, dos imperiosos acontecimentos que me +constituiram na gloriosa obrigação de ser o mais ditoso dos +casamenteiros. Permitte vossa excellencia? + +--Se fôr sempre engraçado como começa, consinto, disse Paulina. + +--Como hei de eu ser engraçado contando uma historia de lagrimas, minha +senhora? + +--Então não diga, não diga; eu contarei tudo ao meu Fernando. São poucas +palavras, meu amigo; é uma só palavra... _amava-te_; mas o teu Almeida +foi um barbaro! Sabia as minhas angustias, e deixava-me morrer. +Mandei-lhe pedir do convento, tantas vezes, que me dissesse em que ponto +da terra eu poderia encontrar-te!... Por fim calei-me, e esperei acabar +alli, e deixar-te uma lembrança que havia de vingar-me... Não +recordemos... não queiras que eu recorde o que soffri, até á hora em que +me vi livre para te procurar... Aqui estou, Fernando... É a segunda vez +que te procuro... D'esta vez não me deixes mais sair do abrigo da tua +grande alma... + +Não sei se o prolongar o colloquio d'estas felizes creaturas seria dar +ao leitor um quinhão do contentamento d'aquella familia; o que +certamente me dispensam, é preambular para chegarmos ao ponto do +casamento. + +Almeida, n'este mesmo dia, voltou com a licença do patriarcha para os +esposorios se celebrarem logo, onde aprouvesse aos contrahentes, dentro +do patriarchado. + +Paulina quiz ser recebida na egreja onde fôra baptisada, e onde estava a +sepultura de sua mãe. Do templo de Santa Izabel passaram a visitar, nas +Amoreiras, o palacio onde Paulina tinha nascido. + +--Pedia-te--disse ella a Fernando--que ficasses aqui, e a nossa familia +toda. Vê tu como em vinte e quatro horas o nosso bom Almeida fez mobilar +esta casa, ha nove annos deshabitada! Meu pae não consentiu nunca que +vivesse alguem na casa onde minha mãe tinha morrido... Olha, Fernando, +n'este quarto morreu ella e nasci eu!... + +Desceram ao jardim. Lá estavam os canteiros, mas nenhuma flôr das que +ella memorava com infantil saudade em Florença. + +--Ellas renascerão!--disse Paulina.--Nós teremos as minhas flôres, +Fernando! Serão os meus enfeites nos dias memoraveis de nossos prazeres +e amarguras! Na felicidade deve ser tão doce recordar os gosos como as +lagrimas... + +A familia de Fernando aposentou-se no palacio das Amoreiras. A loja da +calçada do Sacramento fechou-se, depois que Francisco Lourenço andou +repartindo por asylos, e cadeias, e familias pobres, a fazenda com que +ia recomeçar a prosperidade do estabelecimento. + +O primeiro e unico desgosto que assaltou, de surpreza, Fernando Gomes, +foi quererem os governos faze-lo por força visconde. O ministro que, á +conta da remessa da medalha e da carta memoranda, o quizera metter nas +garras da justiça, era o mais pertinaz thuribulario do homem que, um +anno antes, fôra vencido em concorrencia com o filho do regedor. O +ministerio estava entalado entre o Banco de Portugal e a divida activa, +e a divida passiva, e a divida fluctuante. Fernando Gomes era convidado +a salvar a ordem e as liberdades patrias, mediante cincoenta contos, +garantidos pelas contribuições directas, indirectas, quinto para +amortisação, real de agua... garantiam-lhe os cincoenta contos até com +os brilhantes da corôa, se elle pagasse á guarnição do Porto, que +ameaçava sublevar-se. Fernando Gomes teve pejo de ser portuguez, e +respondeu que pagaria os direitos do viscondado se o dessem ao sobrinho +do regedor, o qual sobrinho do regedor--diga-se aqui de passagem--chegou +a ser visconde, sem que ninguem lhe pagasse os direitos. + +Francisco Lourenço morreu em 1848, e a senhora Maria Luciana dois annos +depois. + +Tão ditosos lhes correram estes ultimos annos da existencia, que mais +parece que os anjos vieram a traslada-los de um céo para outro. + +Gracinda e Genoveva educaram seus filhos na abundancia e melindre com +que foram educados os de Paulina. Entre a filha do nobilissimo Briteiros +e as empobrecidas filhas do artista, nenhuma estrema observavam os +servos e a sociedade. As pompas no trajar eram eguaes, e raro se +encontrava uma sem as outras nos bailes, onde Fernando ia por comprazer +com sua mulher, e ella por comprazer com as invenciveis prescripções do +mundo. + +Eugenia passava em Paris os invernos, e alguns passou em Lisboa. Todas +as damas bem sorteadas em felicidade conjugal, poderiam inveja-la, menos +Paulina. A condessa de Rohan dizia que, a não o ter, teria pedido a Deus +um marido como o de sua irmã. + +São volvidos vinte annos. Paulina deve ter quarenta. É ainda uma +d'aquellas privilegiadas formosuras, que Deus faz e conserva para que a +adoração dos esposos não afrouxe nunca. Fernando Gomes, a orçar por +cincoenta e dois annos, promette prolongada vida: a alegria do coração, +e da consciencia é muito na pureza do sangue, no equilibrio nervoso, e +n'esta suprema felicidade humana chamada saude, isto havemos de +inferil-o da nenhuma concorrencia de medicos e padres ao palacio das +Amoreiras. + +Quem alli é certo, todas as noites, é Hypolito de Almeida, conde de S. +Salvador, par do reino, ministro de estado honorario, e padrinho dos +dois filhos de Fernando. Como é riquissimo e solteiro, espera-se que os +afilhados lhe succedam na herança. + +A um seu amigo contou o conde de S. Salvador que, um d'estes ultimos +dias, Fernando Gomes descia a calçada do Sacramento com sua mulher e +filhos. Em frente da loja onde morou Francisco Lourenço, parou Fernando, +chamou os filhos, e disse-lhes: + +--Vosso avô foi cincoenta annos sapateiro n'esta casa. Se alguma vez o +orgulho vos quizer perder, vinde aqui, e lembrae-vos que vosso honrado e +santo avô foi cincoenta annos sapateiro n'esta casa. + +E voltando-se a Paulina, disse-lhe: + +--Lembras-te, filha?... Ha vinte e dois annos, feitos em cinco de +janeiro, que tu apeaste n'este mesmo sitio... Foi aqui... Minha mãe e eu +levámos-te em braços para aquella pobre salinha dos meus livros. +Recordas-te, Paulina? + +A senhora, com os olhos turvos de lagrimas, apertou a mão do marido, que +lh'a beijou sem pejo de seus filhos. + + +Ha um annexim, que diz: + +PROCURAR AGULHA EM PALHEIRO. + +É baldado empenho? + +Pois eu assevero que, uma vez, procurei uma, e achei-a! + +E, desde então, com a minha infinita paciencia, acho tudo que quero, +n'este palheiro da humanidade, mórmente quando os individuos, que +procuro, teem devorado a palha, e se me apresentam a nu,--coisa que me +tem acontecido mais vezes do que mereço a Deus. + +Agora não espero achar tão cedo sujeito como Fernando Gomes. + +Paulinas de certo ha muitas. As senhoras, em geral, são, como ella, +todas, todas, quando encontram homens como aquelle. + +Nós, miseraveis despotas e miseraveis escravos, é que as fazemos más ao +parecer do mundo; mas na pureza de sua essencia, na angelica porção que +trazem do céo, não podemos nós corrompel-as. + +Se não, corrompiamos. + +Ó santas do infortunio, vós sois, no juizo de Deus, como as santas da +virtude! + + +FIM + + [1] Dizia assim:--«Guarde o seu segredo; mas diga ao seu amigo que + ainda o amo, e cada vez mais o admiro. Peça-lhe que me accuse, + para eu poder defender-me. Pergunte-lhe se eu mereço tal desprezo!» + + [2] Fernando recebeu, voltando do Porto, em começo de outubro, esta + carta, com atrazo de oito dias. + + + + + +End of Project Gutenberg's Agulha em Palheiro, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AGULHA EM PALHEIRO *** + +***** This file should be named 27541-8.txt or 27541-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/7/5/4/27541/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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