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diff --git a/27542-8.txt b/27542-8.txt new file mode 100644 index 0000000..fdd7ae4 --- /dev/null +++ b/27542-8.txt @@ -0,0 +1,1263 @@ +The Project Gutenberg EBook of O Centenario de José Estevão, by +Sebastião de Magalhães Lima + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Centenario de José Estevão + Homenagem da Maçonaria Portugueza + +Author: Sebastião de Magalhães Lima + +Release Date: December 16, 2008 [EBook #27542] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CENTENARIO DE JOSÉ ESTEVÃO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização +disponibilizada pela bibRIA. + + + + + + +O Centenario de José Estevão + +DISCURSO + +PRONUNCIADO NO THEATRO DE AVEIRO + +EM NOME DA + +Maçonaria Portugueza + + + +MAGALHÃES LIMA + +O Centenario de José Estevão + +HOMENAGEM + +DA + +Maçonaria Portugueza. + +LISBOA + +Composto e impresso na Typ. La Bécarre, de F. Carneiro & C.ª + +47, Rua Nova do Almada, 49 + +1910 + + + +_Aos_ + +Maçons Portuguezes + +_Meus companheiros e meus Irmãos_ + +Lisboa, 26 de Dezembro de 1909. + +_Magalhães Lima_ + + + + +SENHORAS E SENHORES: + + +A vossa manifestação toca profundamente o meu ser, faz vibrar a minha +alma, não porque me lisongeie o applauso do publico, o applauso da +galeria, que é tudo quanto ha de mais ephemero como ephemera é a espuma +do mar que o vento leva (os persas adoravam o sol, quando estava no seu +zenith e apedrejavam-no, quando desapparecia no horisonte; as folhas do +loureiro são narcoticas, entorpecem e provocam o somno, e os idolos só +são idolos, ai d'elles! emquanto se lhes não vêem os pés de barro!) mas +porque reconheço quanto ha de sincero, de espontaneo, de effusivo e de +tocante na vossa homenagem. + + + + +Aveiro, pátria de José Estevão + + +Bem se póde dizer, senhoras e senhores, que fômos criados e embalados no +mesmo berço; que respirámos, juntos, o mesmo ar sadio da liberdade que +nos trouxe a brisa do mar; que partilhámos das mesmas alegrias; que +pranteámos nos mesmos pesares e que bebemos pela taça da mesma amisade +effusiva. Em Aveiro, tenho a minha familia natural e a minha familia +espiritual--que sois todos vós! Perante a minha razão, ambas são +egualmente legitimas. Fomos companheiros e somos irmãos. Por isso podeis +bem imaginar, podeis bem aquilatar, com que intimo alvoroço, com que +profundo recolhimento, venho hoje aqui, n'este dia solemnissimo (_sursum +corda!_) em que o corpo se me curva, ao mesmo tempo pelos annos e pela +commoção, semelhantemente a uma arvore amada, tronco bemdito, tronco +sagrado! que afagámos em criança e que vimos crescer; sim, repito, +podeis bem imaginar e aquilatar com que entranhada devoção, venho hoje +aqui recordar antigos camaradas queridos que cairam na estacada, ao +sôpro de ventos inclementes, porventura impiedosos. E entre outros, +apraz-me citar Mendes Leite, Bento e Bernardo Magalhães, Agostinho +Pinheiro, Francisco Rezende, Manuel Firmino de Almeida e Maia, Almeida +Vilhena, Julio Pereira de Carvalho e Costa, Manuel de Mello Freitas, +Chrispiniano da Fonseca, Manuel Gonçalves de Figueiredo, e tantos outros +que alentaram a minha mocidade e foram para mim como que arco-iris +luminosos na primavera da vida. + +Não procuro inquirir das suas ideias politicas, nem isso importa, n'um +momento em que todos os aveirenses, ousarei mesmo dizer, em que todos os +portuguezes estão ligados, unidos, estreitados e vinculados pelo mesmo +pensamento, pelo mesmo sentimento e pela mesma vontade. A hora é para a +conciliação: não é para a repulsão. A hora é para o amor e para a +concordia: não é para o odio e para a vindicta. É uma hora de jubileu +nacional que não comporta nem sectarismos nem exclusivismos. + +Um mixto de melancholia pungente e de alegria intensa me domina e +avassala: de tristeza pelos que desappareceram, sombras queridas atraz +das quaes corremos em vão, numa ancia febril, quasi infantil; de +alegria, pelos que, escapados ao naufragio, eu vim hoje aqui celebrar, +glorificar e acclamar, com o desvanecimento com que os antigos romanos +exclamavam, orgulhosos: _civis romanus sum_, sou cidadão romano; com o +orgulho com que Miguel Angelo bradava nos ultimos annos da sua vida: +_Anch'io sono pittore_, ainda sou pintor. Com esse mesmo desvanecimento +poderei exclamar: _sou cidadão aveirense_. Com esse mesmo orgulho, o +orgulho de Pericles, depois da segunda derrota do Peleponeso, poderei +bradar: _eu de mim sou o que era e estou onde sempre estive!_ + +Como poderia occultar, com effeito, o enternecimento que me enche o +coração, n'uma onda de amor, n'uma emoção intraduzivel, ao encontrar-me +de novo n'esta pittoresca cidade de Aveiro, onde, através um delicioso +kaleidoscopio, entrevejo, em doce visão, o cysne do Vouga, na sua alvura +immaculada, como o cysne do _Lohengrin_; em Aveiro, a minha patria +adoptiva, _terra mater_, onde jazem os restos mortaes de uma mãe +adorada; onde deixei o exemplo sugestivo de um pae honrado e forte; onde +tenho um irmão, exemplar raro de elevação moral e intellectual; onde +recebi, pela primeira vez, a palavra de ordem, para os rudes combates da +existencia; onde, semelhantemente ao peregrino, ao romeiro que, depois +de ter percorrido longinquas paragens, regressa ao lar, não para topar +com a desillusão cruel, como o Frei Luiz de Sousa, mas como o Fausto da +lenda, para reviver na sua Margarida fiel, isto é, no coração +fiel--venho encontrar alguns d'aquelles que tanto amei, como eu, +pendidos para o crepusculo. Como poderia occultar-vos o immenso jubilo +de que estou possuido, ao vêr n'esta sala alguns dos legitimos +representantes dos que, pela liberdade viveram e por ella soffreram e se +sacrificaram, legando-nos o difficil mas grato encargo, não só de a +conservar e de a defender, de a mantêr integra, como a bandeira de um +regimento, senão tambem o de accrescentar novas victorias ás antigas +victorias, aos antigos triumphos novos triumphos. N'esta religião, toda +de piedade, de amor, de carinho, tenho educado o meu espirito e n'ella +espero morrer. + +A amizade é um beneficio dos deuses, diziam os gregos. Emilio Castelar, +a quem eu devi uma das raras consagrações da minha vida, depois de umas +ligeiras escaramuças que tivemos na imprensa hespanhola, e que +arrefeceram um tanto as nossas relações pessoaes, aproveitando uma das +visitas da princeza Ratazzi a Lisboa, escreveu-me uma longa carta, na +qual, entre outras coisas, me dizia o seguinte: «As luctas da politica, +meu querido amigo, por mais gloriosas e brilhantes, não valem uma boa +affeição que inunda os nossos corações de uma luz radiosa, divina, a +unica capaz de espancar as trevas da discordia.» + +Quando se chega á minha edade--já Lamartine o constatava--vive-se muito +de recordações. Recordar, n'este caso, é resuscitar; é evocar a ala dos +namorados que nos tempos heroicos de mosqueteiro se batiam, quando não +morriam, pela sua dama idolatrada. E a dama, para mim, foi sempre e é +ainda a Ideia, a boa, a grande, a generosa Ideia; a origem de todos os +commettimentos, de todas as audacias, de todos os heroismos; a Ideia, +doce noiva espiritual, que não atraiçôa como os homens, que consola e +faz viver; a Ideia, estrella, guia, pharol, que nos conduz á Terra da +Promissão; a Ideia, mais poderosa do que os grandes potentados da terra, +mais forte do que todos os exercitos do mundo, a Ideia em marcha não é +outra coisa senão a propria humanidade descrevendo, através a historia e +os seculos, a sua trajectoria luminosa, do mesmo modo que os astros nos +espaços obedecem á lei da gravitação universal. + +Athenas, com os seus monumentos--exclamava Castelar--Roma com as suas +leis; Florença com as suas artes da Renascença; Veneza com a sua +bussola; Pisa com a sua lei do pendulo; Strasburgo com a imprensa; o +telephone,--acerescentarei--o telegrapho sem fios, o automobilismo, o +balão dirigivel, o aeroplano--que representa tudo isso senão a Ideia +illuminando o mundo, como a collossal estatua da Liberdade que se +encontra á entrada do porto de Nova-York? + +Nada mais consolador e fortificante do que recordar nomes queridos e +saudosissimos e relembrar sitios, onde, na despreoccupação dos annos, na +suavidade bucolica de Virgilio, vivi as minhas primeiras illusões, +povoadas pelas abelhas do Himeto, como o philosopho que da sua torre de +marfim vê o mundo côr de rosa, através uma atmosphera diaphana e +transparente. + + + + +A supremacia moral + + +Felizes os que, longe do embate, do choque das paixões brutaes e +grosseiras, das ambições illegitimas e inconfessaveis, dos odios +implacaveis, podem manter uma juventude espiritual, a eterna juventude, +divinizada por Petrarcha, amando a Vida e o Universo, na triplice +manifestação de belleza, de verdade e de justiça. + +É essa mocidade espiritual, ou, antes, essa força moral que caracterisa +o sabio, o philosopho, o poeta, o artista, emfim todos os privilegiados +do espirito e do coração. + +E foi seguramente essa mocidade espiritual, essa grande e poderosa força +moral que, mais do que nenhuma outra, caracterisou esse homem raro, +unico, excepcional, que viemos hoje aqui celebrar n'um frémito unisono +dos nossos corações, na suprema vibração das nossas almas; a palavra +feita luz, o verbo feito marmore, mais poderoso do que os thronos dos +Cesares, do que as tiáras dos pontifices--José Estevão Coelho de +Magalhães--personalidade de granito; cidadão feito para a antiga Roma +que não para o Baixo Imperio de uma sociedade corrupta; o ideal da +liberdade, do amor, da justiça, da emancipação humana, na sua maior +elevação moral e civica, o ideal da patria, d'esse patriotismo que teve +o seu echo triumphal no hymno da _Maria da Fonte_, como os +revolucionarios de 89 o tiveram na sua immortal _Marselheza_. + +Superior á força das bayonetas dos Hapsburgos, na Austria, de Eduardo +III, em Inglaterra, de Carlos V e Filippe II, em Hespanha, de Luiz XIV e +Napoleão I, em França, não cessarei de o repetir--está a acção moral do +individuo que foi, é e será sempre o segredo da civilisação. O homem não +foi feito para um eterno martyrio e para repellir eternos attentados. Ha +uma coisa superior a todas as luctas violentas: o dever reciproco. O +methodo da civilisação não se conquista, porém, com a mesma facilidade +com que se conquista uma praça forte. + +As procellas, as trombas, os cyclones--dizia o inclito Ruy Barbosa, n'um +dos seus discursos gravados em bronze--devastam mas não duram. O que não +passa é o oceano de verdades eternas, indifferentes ao rugir das paixões +contemporaneas, e por sobre elle a immensidade siderea das almas, que és +tu, ó liberdade! + +As demagogias são cataclysmos passageiros. Quasi todas as revoluções de +vertigem popular naufragaram na dictadura. Só são definitivas as +revoluções do direito e pelo direito: a que descaptivou a Hollanda, no +seculo XVI; a que renovou a Inglaterra, no seculo XVII; a que organisou +as colonias anglo-americanas, no seculo XVIII, e a que fizeram, no +seculo XIX, a America latina, a Belgica, a Italia e a Grecia. + +Ao contrario de Carlysle, que via na historia a obra pessoal e quasi +exclusiva de alguns que elle denominou heroes ou grandes homens, +Michelet, o seductor Michelet, via na historia a obra das multidões, a +obra do povo, o protogonista de todas as revoluções. + +Qual das duas theorias, qual dos dois criterios philosophicos será o +verdadeiro? + +Eu creio que ambos, porque, assim como a acção completa o pensamento, +assim tambem a Revolução completa a evolução. + +Foi certamente Camillo Desmoulins, quem, no Palais Royal, n'uma noite, +ao mesmo tempo tragica e festiva, interpretando o sentimento francez, e, +mais do que o sentimento francez, o sentimento humano, soltou o grito +libertador--_Á Bastilha!_ Mas foi a população do bairro de Santo +Antonio, composta de esfarrapados, de famintos, de andrajosos, de _sans +culottes_, da canalha, na linguagem da Ordem, quem a assaltou e a +derrubou. Quero referir-me á Bastilha franceza, do seculo XVIII, porque, +depois d'isso, quantas Bastilhas se ergueram e quantas estão ainda de +pé, para vergonha da civilisação e da humanidade! + +Foi, sem duvida, Emilio Zola quem, no processo Dreyfus, interpretando +ainda o sentimento humano, soltou aquell'outro não menos formidavel +brado: _Accuso!_ Mas foi a opinião mundial, foi a consciencia +collectiva, quem lhe deu a victoria, assim como foi a opinião mundial, a +consciencia collectiva, quem denunciou o assassinio judiciario de +Francisco Ferrer. Não foram os Pyrineus que separaram momentaneamente a +Hespanha da Europa; não foi o Oceano que a separou da America: foi o +carrasco, com as mãos retintas de sangue, quem a isolou do mundo +civilisado. + +Foi Leão Tolstoi quem proclamou a recusa ao serviço militar, como meio +de acabar com as guerras que ensanguentam a humanidade. Mas foram as +massas populares, foram os intellectuaes, que julgam sempre em ultima +instancia, tribunal acima do qual não ha, não póde haver, outro +tribunal, quem lhe assegurou o triumpho moral. + +Isto quer dizer, que a iniciativa individual só é fecunda, quando +coroada pelo esforço collectivo. Entregue e abandonada a si, raramente +consegue vencer. + +Os homens só são grandes e só poderão chamar-se heroes, quando vivem +para os seus semelhantes, quando os seus corações pulsam e vibram com o +coração do povo, n'um mesmo ideal e n'uma mesma aspiração! + + + + +Os heroes + + +Serão, porém, admissiveis os heroes? + +O proprio tribuno, no seu famoso discurso da _Charles et George_, +illuminado pelo mais ardente patriotismo, repudia-os com aversão. +_Detesto os heroes todos. Os heroes são excepções monstruosas da nossa +natureza_--dizia elle. + +Aqui revela-se o precursor do pacifismo, isto é, da justiça integral e +da paz universal, que hoje preoccupa e absorve todos os grandes +pensadores do Universo. Porque José Estevão foi, principalmente, um +illuminado, um vidente, um precursor, como tentarei provar na sequencia +do meu discurso. + +José Estevão repudiava certamente os heroes que se assignalam nos campos +da batalha, devastando como cyclones, matando como assassinos, roubando +como ladrões, os heroes, synonimos de guerra e de conquista. + +A guerra! Ironia pungente, sarcasmo cruel da civilisação! + +Uma pobre mulher do povo amamenta o filho com o sacrificio do proprio +sangue; instrue-o e educa-o com o sacrificio do proprio estomago; e, +quando a creança se torna um homem, um operario, um trabalhador, de modo +a poder amparal-a n'uma velhice repousada, vem a ordem soberana em nome +da lei, e manda-o para os campos de batalha, como se mandam as rezes +para o matadouro--para o matar... + +Mas José Estevão não podia repudiar, com a mesma aversão, os heroes que +se assignalam no campo do pensamento, melhorando as condições da +existencia, tornando os homens mais felizes, porque elle foi a +encarnação mais pura, mais viva, mais authentica d'esse heroismo. + +Que são, com effeito, os heroes da antiguidade, Annibal, Cesar, +Napoleão, comparados com os heroes do nosso tempo, com os Berthelot, com +os Pasteur, com os Victor Hugo, com os Curie, com os Edison, com os +Darwin, com os Herbert Spencer, com todos os bemfeitores da humanidade, +emfim? + +Heroe, n'esta accepção, é synonimo de soberania moral e intellectual. E +foi esta soberania que José Estevão exerceu na sociedade portugueza e +que o fez entrar na immortalidade da historia. + +«_A supremacia moral é o unico poder verdadeiro. Os caracteres +superiores e os superiores talentos são aquelles que têem tanta +perspicacia para conhecer a verdade, como força para propugnar por +ella._» + + + + +A psychologia de José Estevão + + +Não nos precipitemos, porém. + +Para bem penetrar a psychologia de um homem celebre, torna-se mister +averiguar, inquirir, investigar o meio em que se desenvolveram as suas +faculdades, em que se expandiu a sua acção moral e social. + +José Estevão nasceu em Aveiro. + +Quantas vezes, na sua predilecta Costa Nova do Prado, o mar, na sua +immensidade, na sua grandeza, na sua magestade, o mar gigante e +indomavel, provocando a nostalgia de mundos infinitos, lhe não teria +suggestionado alguns dos mais bellos pensamentos dos seus discursos +emocionantes? Quantas vezes não teria comparado o oceano com as grandes +revoluções da historia, pelo seu correr impetuoso, pelo seu rugir +leonino? E, quantas vezes, o não teria cotejado com a humanidade, quer +nas horas de bonança, quer nas horas terriveis em que a onda galga o +rochedo e invade, alterosa, a praia, como protesto contra a intrusão dos +homens, e que é a perfeita imagem das horas tragicas da insurreição, que +para os povos calcados, pisados e escravisados representa um direito, +muitas vezes um dever, e, algumas vezes tambem, uma necessidade. + +José Estevão nasceu em Aveiro. + +E, assim como a população dos centros industriaes é naturalmente +propensa ás ideias socialistas, a população das terras maritimas é +naturalmente propensa ás ideias republicanas, talvez pela independencia +que só a natureza póde dar. + +Sempre me hei de lembrar que encontrei nos pescadores de Aveiro os meus +primeiros adeptos e nunca esquecerei a galhardia, o garbo, a intrepidez +com que os vi marchar, através as ruas de Lisboa, no cortejo civico do +tri-centenario de Camões, ladeando o carro do _Commercio e Industria_. + +Foi um passeio triumphal que lhes preparei que redundou n'uma immensa +apotheose, apotheose romana, a Aveiro e aos aveirenses. + +O pescador e o mineiro são para mim as duas entidades mais sympathicas e +que mais me enternecem. + +É preciso ter descido a uma mina, como eu desci, na Belgica, para se +avaliar o que representa em esforço, em sacrificio, em abnegação, em +heroismo, a vida do mineiro. + +N'uma especie de ascensor, improvisado com taboas e cordas, desci +trezentos metros abaixo do solo--a altura da Torre Eiffel, de Paris. As +galerias são percorridas pelos wagonetes que assentam em _rails_ n'uma +extensão de muitos kilometros. O mineiro, mascando o carvão para illudir +a propria fome, está ordinariamente de costas, com a lanterna cingida á +testa ou ao ventre, de picareta em punho, para melhor poder extrahir o +minerio. Os trabalhadores formam dois turnos: um que desce ás 6 da manhã +e sóbe ás 6 da tarde, e outro que desce ás 6 da tarde e sóbe ás 6 da +manhã. + +E tal é o terror que os domina, ao descerem aos poços, que a muitos vi +eu, com espanto, persignarem-se e benzerem-se, como quem se despede da +luz e não tenciona mais regressar. + +São escolhidos de preferencia os celibatarios. Até as alegrias da +familia lhes são defesas! E quantos não vão encontrar a cegueira, e +quantos não vão encontrar a mais affrontosa das mortes n'aquellas +catacumbas immensas! + +E, ao passo que as companhias mineiras dão aos seus accionistas 20, 30, +40 e 50 por cento de dividendo, o mineiro ganha o indispensavel para não +morrer de fome. Alli, constatei, como tinha egualmente constatado na +Bolsa de Berlim, vasta _menagerie_ de feras ambiciosas, quanto o +socialismo tem uma razão logica de ser. Permitti, senhores, que exclame, +com Paulo Luiz Courier: _Ó grandes da terra, olhae para o que se passa e +tende juizo se podeis!_ + +Do pescador, nada vos direi, porque todos vós conheceis a sua temeridade +e o seu arrojo, expondo a vida com a serenidade dos grandes heroes, para +alimentarem os seus semelhantes. + +Ainda por occasião do cortejo civico do tri-centenario de Camões, +Ramalho Ortigão, na occasião em que se organisava a procissão, no +Terreiro do Paço, tomando-me do braço, levou-me a vêr o que elle chamava +os seus pescadores, os povoeiros, os pescadores da Povoa de Varzim, e +indicando-me um, disse-me: este salvou seis vidas. Tinha o peito coberto +de medalhas, como os generaes famosos. Por meu turno, tomando-o tambem +pelo braço, fui mostrar-lhe aquelles a que eu chamava os meus +pescadores, os pescadores de Aveiro, e indicando-lhe um, accrescentei: +este salvou 12 vidas. Não tinha uma unica medalha ao peito. Bem se via +que era da patria de José Estevão! + +José Estevão bebeu no berço o leite da liberdade, se assim me posso +exprimir; e, chegado á edade da razão, acompanhou em espirito a mais +cosmopolita de todas as revoluções--a revolução de 1848. + +Um seu e meu dilecto amigo, José Elias Garcia, alludindo ao facto, +disse-me um dia: «Quando esse movimento, que tantas esperanças havia +alimentado, fracassou em França, houve alguem que chorou em Portugal. +Esse alguem fui eu.» + +Nenhuma revolução logrou, com effeito, como esta, apaixonar e commover +os espiritos, pelo seu sentimentalismo idealista e humanitario. + + + + +O socialista + + +O sentimento de então transformou-se, porém, n'uma realidade positiva, +moral e humana que hoje assoberba o mundo e ameaça abalar a sociedade +pelos alicerces, tendo invadido até as espheras governamentaes. + +Lloyd George, um digno continuador de Lincoln, o rachador de lenha, que, +pelos proprios meritos, chegou á presidencia da Republica dos Estados +Unidos da America, ao apresentar o seu orçamento á Camara dos Communs, +exclamou: «Que ninguem se illuda! O meu orçamento é um orçamento de +guerra, de guerra contra o pauperismo que todo o governo tem obrigação +de attenuar, senão de extinguir.» N'um _meeting_, em Londres, onde me +foi dado ouvil-o, confirmou esta phrase e accrescentou: «É uma guerra +entre os que possuem e os que não possuem, entre o rico e o pobre, uma +guerra entre a democracia socialista e a oligarchia financeira, entre o +pacifismo e o imperialismo, entre o proteccionismo e o livre cambismo, +entre a Inglaterra do passado, com todos os seus vicios, e a revolução +no sentido governamental da palavra. É preciso fazer desapparecer, em +nome da civilisação, os contrastes que envergonham uma cidade como +Londres. Ao passo que, no primeiro hotel da cidade, no _Cecil Hotel_, se +banqueteiam todas as noites, em festins romanos, os _lords_, os +fidalgos, os burguezes, fazendo espumar o _Champagne_ como as aguas da +cataracta do Niagara, na trazeira do mesmo edificio que confina com o +Tamisa centenares de vagabundos, de miseraveis, sem pão e sem trabalho, +o que equivale a dizer sem patria, achegados uns aos outros, para +receberem dos seus semelhantes o calor que o proprio sangue lhes não dá, +cobrem o corpo com folhas de jornaes, para não morrerem inteiramente +gelados. Qualquer _lord_, que é a expressão da ociosidade e do +parasitarismo, não vale uma unica das minhas medidas!» + +Quando cheguei a Londres, Kropotkine disse-me: «A Inglaterra é o paiz +mais supersticioso do mundo. Estando em Brighton, e chovendo +ligeiramente, abri o meu chapeu de chuva. Das janellas de uma casa para +a qual eu me dirigia, duas meninas gritaram angustiosamente: Feche o +chapeu, sr. Kropotkine! Obedeci automaticamente. Mas, perguntando depois +o motivo de tal afflicção, ellas responderam-me: Ora essa! Pois não +sabe? Entrar n'uma casa com o guarda-chuva aberto é morte certa.» + +No fundo de cada inglez ha um pastor protestante, como no fundo de cada +francez ha um pequeno Napoleão, como no fundo de cada hespanhol ha um D. +Quixote, como no fundo de cada portuguez ha um frade. A Inglaterra é um +mixto de tradicção medieval e de progresso moderno. O socialismo quer e +procura emancipal-a dos vicios do passado. E são o partido do trabalho, +o syndicalismo operario, as sociedades eticas, por sobre as quaes paira +o espirito de Herbert Spencer, que se impõem pela sua grandeza moral. É +o quarto estado que surge com as suas legiões de trabalhadores, para, á +semelhança do Mazzanielo napolitano, reclamar os seus direitos, isto é, +o logar que lhe compete n'uma sociedade organisada. É um velho mundo que +desaba e uma aurora que se ergue, radiosa, sobre as ruinas do passado! + +«_Não ha nações morgadas nem familias morgadas_--disse José Estevão.--_A +humanidade não cabe no mundo com o seu numero e com as suas aspirações. +E esta verdade, que se tornou experimental, tornou impossivel a +existencia da propriedade territorial, inculta e abandonada, quer pelas +mãos dos individuos, quer pelas mãos dos povos. O trabalho é o principio +e o complemento de todo o direito de possuir._» + +E era de vêr o ardor com que elle combatia os impostos indirectos: +«_Detesto, acho repugnante, altamente injusto, radicalmente +antidemocratico e desigual, o imposto indirecto._» + +Com respeito ás leis da usura: «_Se ellas estão revogadas pelos poderes +da terra, ainda estão vigentes para as almas nobres, e eu hei de ser +sempre anachronico nos sentimentos de indignação que voto á classe que +trafica com a miseria e o suor dos seus semelhantes._» + +O socialismo era para José Estevão _um progresso_. O seu +apparecimento tornava-se _urgente_. _Utopia_ só podia ser o +_estacionamento_!--exclamou. + + + + +O democrata + + +José Estevão, estimulado pelas ideias humanitarias do seu tempo, fez +parte do primeiro triumvirato republicano. As suas tendencias +reflectiram-se na admiração que professava por Lamartine. + +É mr. de Lamartine--dizia--_um poeta que carpiu as miserias da +humanidade; que cantou as suas glorias; que excitou os seus melhores +instinctos; que levantou a coragem dos povos; que acalmou as suas +demasias; que, com a sua palavra, suspendeu as paixões revolucionarias +da França; é n'esta composição moral e intellectual que, no meu +presentimento, está o simulacro da fortuna politica e de todos os +governos do mundo_.» + +O retrato foi feito por mão de mestre. Um episodio o demonstra. Um dia, +o povo de Paris, como fera escapada da jaula do domador, pedia, defronte +do palacio de Bourbon, a cabeça de Lamartine, o idolo da vespera. + +--A cabeça de Lamartine! ella aqui está--exclamou o tribuno, assomando a +uma das janellas, na sua figura erecta e principesca, com a sua +sobrecasaca abotoada. + +E aquella multidão, terrivel, colerica, ameaçadora, ante aquelle +heroismo, bem superior ao heroismo dos campos de batalha, o heroismo que +dá a serenidade, recuou, como vaga encapellada que se desfaz em espuma. + +É da historia e da logica que todos os que marcham na vanguarda de um +movimento politico ou social paguem com a vida o serviço prestado aos +seus semelhantes. Todo o apostolado tem o seu calvario. E o martyrio que +tem o seu baptismo de sangue é sempre o mais fecundo. + +Em 1848 assignou com Oliveira Marreca--um santo que conheci e adorei--e +Rodrigues Sampaio, um manifesto revolucionario que se destinava a fazer +triumphar «_os principios democraticos, a causa das liberdades publicas +e da emancipação dos povos_.» + +Ainda aqui se nos revela José Estevão o precursor do movimento +democratico, como se nos revelou precursor, nos seus monumentaes +discursos do _Porto Pireu_ e das _Irmãs da caridade_. + +Na primeira d'estas orações, quando passa á historia da _ordem_--a ordem +que forjou a espada organisadora de Nemrod; a ordem que fez de um +almocreve arabe o chefe de uma religião; a ordem que compôz o balsamo de +Ferrabraz; a ordem que fez as botas de Carlos XII, o chapeu de Henrique +IV e o casaco de Napoleão--é simplesmente admiravel. + +É um trecho eloquentissimo, unico no seu genero, pela elevação do +conceito e energia da phrase, de uma rebeldia intensa, que Kropotkine +assignaria com orgulho, pela ironia desdenhosa que revela e por todo um +mundo de revolta que encerra. + + + + +O anti-clerical + + +José Estevão não queria as irmãs da caridade, porque as considerava uma +violação das leis do reino, d'aquellas que tinham levado ao throno a +sr.ª D. Maria II, que nunca capitulou, dentro da esphera do poder e das +sympathias, com aquellas invasões surrateiras do poder ecclesiastico, +que para ella eram suspeitas de serem contrarias ao poder +representativo. + +«Respeitemos essas leis,--dizia elle--porque vivemos por ellas. São as +nossas leis, são o nosso coração, são a nossa vida, são a nossa +historia. + +Com essas leis no pensamento, entrámos sete mil perseguidos, sete mil +expatriados, que tinham mais do que nós essas leis no pensamento, porque +tinham visto n'essas congregações religiosas os instigadores e os +conselheiros de uma tyrannia nefanda; porque tinham visto sahir d'essas +casas ou corporações religiosas cohortes de testemunhas falsas que +tinham ido aos tribunaes, para levantar com os processos judiciaes os +patibulos d'onde deviam cahir as cabeças d'aquelles que ellas tinham +marcado como nefastos ao seu predominio... + +É preciso que nos convençamos de que não podemos salvar os objectos que +veneramos, se não reunirmos todas as nossas forças constitucionaes e +moraes, para desfazermos e contrariarmos as intrigas e os embustes, +pelos quaes se quer repor outra vez no seu throno e predominio estas +instituições que nós combatemos, destruimos e desfizemos. + +Taes instituições, pelas riquezas e influencias de familia, tornam-se +nefastas aos poderes do Estado e ao exercicio das liberdades publicas. + + +«Sou inimigo das irmãs da caridade,--dizia--porque as considero como um +ataque ao principio de familia; e a caridade attribuida a uma certa +instituição, com o piedoso fim de educar as creanças e tratar dos +enfermos nos differentes paizes da terra, é uma malicia ostentosa feita +em nome de Deus. + +........................................................................ + +«Não se queima só, queimando as carnes, carbonisando os ossos; queima-se +apartando do coração, desfazendo e levando para longinquas paragens o +que elle tem de mais caro. + +........................................................................ + +«Sr. presidente, isto não é questão de irmãs da caridade, estão +enganados; é mais alguma coisa, é a questão das ordens religiosas; é a +sua elevação ao estado primitivo.» + + +O espirito catholico congreganista é adverso aos principios liberaes e +por isso carece de ser vigiado de perto. As irmãs da caridade são uma +emanação do espirito jesuitico e em volta d'essa congregação juntaram-se +todas essas ideias que ficaram desbaratadas e destruidas pela +perseguição que se fez a essa instituição. A religiosidade, no sentido +que lhe dão os theologos, não dispensa o culto externo; e o culto +externo das irmãs da caridade é pouco consentaneo com as formas, com os +costumes e com as prevenções da auctoridade civil. + +Foi justamente para provar que a mulher portugueza era tão boa ou melhor +educadora que as irmãs de caridade francezas, expulsas do nosso paiz, +graças ao seu formidavel libello, que José Estevão fundou o Asylo de S. +João, com sede em Lisboa e Porto e que com muito prazer nos é dado +representar n'este logar. + +O que pedem os liberaes? + +O rigoroso cumprimento dos decretos que não foram revogados: de Pombal +que expulsou os jesuitas; de Joaquim Antonio de Aguiar que dissolveu as +congregações religiosas e de Loulé e Braancamp relativo ás irmãs da +caridade. + +Pedem a revogação do decreto de abril de 1901 (Hintze Ribeiro) que, +prohibindo o noviciado e a clausura, dá, todavia, existencia legal ás +congregações religiosas, desde que se trate de ensino e beneficencia que +são precisamente as duas armas mais perigosas de que o clericalismo usa +e abusa a seu talante e por causa das quaes foi expulso de França. + +A natureza offerece-nos universalmente um espectaculo desolador: a força +triumphante. Mas o homem, sahido da longa evolução dos seres +organisados, concebeu a noção da justiça e experimentou os transportes +do amor, não do amor que se manifesta no calor do sol, no perfume das +flôres, no brilho das estrellas, no murmurio das aguas, no crescimento +das arvores, mas do amor que se revela nos individuos, nas classes e nos +povos solidarios. + +Brada-se a cada passo, clamei eu ha dias n'uma reunião, contra os bandos +de mendigos, de vadios, de miseraveis, de analphabetos, que enxameiam, +pelas ruas das grandes cidades, como se a culpa fosse d'elles, filhos +espurios de uma sociedade madrasta. A culpa é toda nossa; a culpa é do +egoismo collectivo. A vagabundagem, a mendicidade não se evita com a +repressão, com as casas de correcção, com a esquadra policial. Evita-se +e corrige-se com as casas de trabalho, com as colonias agricolas, com as +créches, com escolas, como as nossas escolas liberaes e com asylos, como +o Asylo de S. João. + +A estas manifestações de amor, chama-se solidariedade, que póde +resumir-se n'esta palavra de ordem: viver para os seus semelhantes. + + + + +A Maçonaria Portugueza + + +E, aqui, permitta-nos a assembleia que o Grão-Mestre da Maçonaria +Portugueza preste uma homenagem calorosa, ardente e enternecida a quem +tão alevantadamente a representou, a quem tão alevantadamente manteve o +seu prestigio e o seu renome. E que ninguem se assuste! Muitas vezes vos +terão dito, Senhoras, que a Maçonaria é uma sociedade de malfeitores. + +Se ser malfeitor é amar a humanidade, ouvir a voz da natureza que nos +brada: Todos os homens são irmãos, todos constituem uma unica familia; +se ser malfeitor é fazer o bem pelo amor do proprio bem e escutar a voz +da consciencia; se ser malfeitor é amar a verdade, praticar a justiça, e +proceder com rectidão; se ser malfeitor é obedecer á razão, esclarecida +pela sciencia; se ser malfeitor é amar os bons, fugir dos maus, mas não +odiar ninguem; se ser malfeitor é ser progressivo; se ser malfeitor é +ser tolerante, regosijarmo-nos com a justiça e insurgirmo-nos contra a +violencia e a iniquidade; se ser malfeitor é accender essa immensa +fogueira a que se chama a escola; se ser malfeitor é arrancar uma faisca +de cada syllaba soletrada; se ser malfeitor é desenvolver o cerebro da +creança pela instrucção; se ser malfeitor é formar o caracter pela +educação; se ser malfeitor é combater o prejuizo, o preconceito, o +fanatismo, a superstição, o erro e a mentira; se ser malfeitor é viver +para os nossos semelhantes; se ser malfeitor é moralisar pelo exemplo; +nós, os maçons, reivindicamos, com orgulho, esse titulo de honra. + +José Estevão que, na _Flecha dos mortos_, como Baudin na barricada de +Paris, affrontou as balas inimigas com bravura epica, José Estevão, +soldado e tribuno, foi Grão-Mestre da Maçonaria portugueza, como o foi o +general Gomes Freire de Andrade, enforcado na explanada da Torre de S. +Julião da Barra, por ter commettido o enorme crime de ser portuguez n'um +momento em que muitos eram inglezes. Umas modestas flores solitarias, +cultivadas por mão amiga, á maneira das cruzes de madeira que o +viandante encontra nas estradas desertas, attestam que n'aquelle logar +se matou um homem. José Estevão foi Grão-Mestre, como o foi o duque de +Loulé, como o foi José da Silva Mendes Leal, como o foram o conde de +Paraty, o conde Valbom, o visconde de Ouguella, Bernardino Machado, o +coronel Ferreira de Castro e o Conde das Antas; como o foi o illustre +professor Antonio Augusto de Aguiar; como o foi o mallogrado chefe +republicano José Elias Garcia, cujo enterro representou a apotheose de +todos os que aspiram a uma patria livre; como foi Grão Mestre o rei +Eduardo, de Inglaterra, e, como o é actualmente, o duque de Connaught, +seu irmão; como foi Grão-Mestre o rei Oscar, da Suecia; como o foram +José da Silva Carvalho e Passos Manuel; como o foram os imperadores +Guilherme I e Frederico, da Allemanha, e, como o é ainda hoje, por +intermedio do seu representante, o imperador Guilherme II; como foram +maçons os patriotas de 1820. + +Um professor da Universidade Livre de Bruxellas, n'um livro recente +sobre _Politica internacional_, affirma que a grande revolução de 89 não +teria tido logar se não fosse a Maçonaria. Mirabeau, S.^t Just, Sieyès, +Camillo Desmoulins, Lafayette, Danton, Boissy d'Anglas foram maçons. +Diderot pertenceu á Loja dos _Nove Irmãos_, de onde sahiu a _Declaração +dos direitos do homem_. Foi maçon o sabio Littré, que, sendo iniciado na +loja da _Clemente Amité_, tomou como divisa: «O principal dever do homem +para comsigo mesmo é instruir-se; o principal dever do homem para com os +seus semelhantes é instruil-os.» + +Por toda a parte se accentua uma tendencia para um fim determinado: a +unidade espiritual da humanidade. Apparentemente separados, os espiritos +criam e desenvolvem a consciencia da sua unidade. Apesar de não +dependerem uns dos outros, encontram-se todavia, ligados por afinidades +espirituaes, descendentes de uma mesma raça ou cidadãos de um mesmo +Estado. + +Para os que conhecem os signaes do tempo, não são os Estados nacionaes +que representam as unidades economicas predominantes, nem são tambem os +systemas religiosos que levam os homens a fraternisar uns com os outros: +é a vida mundial á qual está cada vez mais subordinado o trabalho de +cada individuo e de cada Estado; é a ideia de uma humanidade harmonica; +é o internacionalismo que se revela como o culto do futuro. E a unica +instituição que, através todas as perseguições e todas as vicissitudes, +se tem mantido com caracter universal, é a Maçonaria. + +A mensagem de José Estevão, dirigida em 1862 ao povo maçonico, é de uma +actualidade palpitante e dir-se-hia escripta ha poucos dias e ha poucas +horas--tal era a sua previsão! + +«O que é a reacção que invadiu o nosso paiz senão um d'esses trabalhos +insidiosos e solapados contra todos os grandes principios, porque a +Maçonaria tem sempre combatido com tanta coragem e perseverança? + +«Esta fórma de combater não é a que elles preferem. Adoptam-n'a por +necessidade. Se lhe fôra possivel n'um momento derrubar a obra da razão +e da philosophia, não demoravam esta almejada catastrophe. Mas transigem +com as circumstancias e adoptam o arbitrio de temporisar. + +«Os inimigos, porém, são os mesmos. Os gritos de peleja são os que eram +bradados em tempo de mais poder. Agora segredam-nos, mas exprimem as +mesmas paixões, os mesmos intuitos. Ao som d'elles, foram ganhas +execraveis batalhas contra os fóros da humanidade. Agora, com as mesmas +evocações, são praguejados os seus progressos e embaraçada a sua marcha +no caminho da perfeição. + +«A Maçonaria deve acordar do seu lethargo, levantar a sua bandeira, +inspirar-se das suas recordações, tomar o seu posto tradicional. Se +assim não fizermos, trahimos o juramento que prestámos, injuriamos a +memoria dos irmãos, nossos passados, e usurpamos o titulo de maçons, +porque o não é, porque não merece tal nome aquelle que é tardo em acudir +pela defeza dos principios da sua ordem, aquelle que se cança na lucta e +deixa as armas no campo. + +«Cumpre á Maçonaria vigiar as praias da civilisação e ter bem policiados +todos os signaes e precauções, para evitar aquelles enganos, desassustar +a navegação, e tornar a viagem dos homens e das nações n'este mundo, +mais certa, mais livre, mais virtuosa e mais honestamente aprazivel.» + +Meus senhores: Escreveu Maximo Gorki que ha duas maneiras de viver: a +putrefacção que é propria das almas egoistas e vis e a combustão que +representa o calor, a vida e o movimento. + +José Estevão viveu em plena combustão, e foi, em Portugal, não só o +precursor do pacifismo, do socialismo, do movimento democratico, do +anarchismo scientifico e philosophico, do anti-clericalismo, senão +tambem a mais alta encarnação do genio latino, ao qual a humanidade deve +o nascimento e o renascimento da civilisação; d'esse genio que irradia +sobre o mundo e que todos os dias, no dizer de Anatole France, nos dá +mais sciencia, mais liberdade, mais belleza, uma justiça mais justa e +leis melhores; d'esse genio que não morreu ainda, nem morrerá nunca, +como alguns erradamente suppõem, porque tem na America a sua continuação +e a sua immortalidade pela sua raça, pela sua historia, pela sua +tradicção, pela sua lingua, a verdadeira patria espiritual. + +«Para o futuro--dizia--pertencerei decerto ao partido que começa a +formar-se, que já está crescido, que vive entre nós sem termos dado por +tal, que nos inspira sem nós o sentirmos e que mesmo do berço dirige as +coisas publicas e domina até os homens de mais forte vontade... Se este +partido fosse obra dos homens ou a sua creação pudesse ser contrariada +por elles, talvez se não fizesse; mas esta ordem de coisas surge, +rebenta da situação.» + +Muitos lhe chamaram Demosthenes, outros Cicero, outros Mirabeau. Nada +mais absurdo do que estas comparações que attestam uma mentalidade +inferior. Cada orador obedece ao seu temperamento e é filho das +circumstancias em que a sua palavra tem de actuar. José Estevão foi, +principalmente, um grande tribuno, porque sentia estuar-lhe nas veias o +sangue quente do revoltado, sem o que não ha sabios, nem philosophos, +nem poetas, nem artistas. É com esta materia prima que se fabricam os +heroes do nosso tempo. _In hoc signo vinces_... + +Se os paizes se caracterisam, em geral, pelos nomes dos seus homens +celebres, dos seus immortaes:--a França, por Racine, por Corneille, por +Moliére, por Lamartine, por Gambetta; a Inglaterra, por Byron, +Shakespeare e Gladstone; a Allemanha, por Schiller, Goethe, Mozart, +Beethoven; a Italia, por Dante, Petrarcha, Mazzini, Garibaldi; a Grecia, +por Homero e Demosthenes; Roma, por Virgilio e Cicero; a Hungria, por +Kossuth; a Hespanha, por Velasquez, Cervantes e Castelar, nós, +proclamando Portugal, como a patria de José Estevão, teremos prestado á +sua memoria a maior das consagrações, tornando-o um symbolo--um symbolo +da patria livre e redimida, da liberdade victoriosa e da emancipação da +consciencia portugueza. + +E é, solidario n'esta aspiração, que eu, em nome do Grande Oriente +Lusitano Unido, não só felicito e louvo os promotores d'este centenario, +como tambem convido a assistencia a não esquecer esta data que se +tornará uma data historica nos annaes das celebrações nacionaes. + + + + +Do mesmo auctor: + + +Miniaturas Romanticas + +A Senhora Viscondessa (_romance_) + +Costumes Madrilenos + +A Questão do Banco Nacional Ultramarino + +A Actualidade (_estudo economico social_) + +Padres e Reis + +O Papa perante o Seculo + +Os Estados Unidos da Europa (_trad._) + +Revolta (_1.ª parte_) + +Revolta (_2.ª parte_) + +Pela Patria e pela Republica + +O Socialismo na Europa + +O Livro da Paz + +O Primeiro de Maio + +A Federação Iberica (_edição franceza_) + +Paz e Arbitragem + +O Federalismo + +O Centenario no Estrangeiro (_conferencia_) + +A Guerra e a Paz (_conferencia_) + +A Obra Internacional (_edição portug. e franc._) + +O Congresso de Roma (_conferencia_) + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Centenario de José Estevão, by +Sebastião de Magalhães Lima + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CENTENARIO DE JOSÉ ESTEVÃO *** + +***** This file should be named 27542-8.txt or 27542-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/7/5/4/27542/ + +Produced by Pedro Saborano. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. 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