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+The Project Gutenberg EBook of O presbyterio da montanha, by
+António Feliciano de Castilho
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O presbyterio da montanha
+
+Author: António Feliciano de Castilho
+
+Release Date: September 24, 2012 [EBook #28127]
+First Posted: February 19, 2009
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O PRESBYTERIO DA MONTANHA ***
+
+
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+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+ *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
+ texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em
+ caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original.
+ No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Fev. 2009)
+
+
+
+Obras completas de A. F. de Castilho
+
+XIX
+
+O Presbyterio da Montanha
+
+VOLUME I
+
+[Figura]
+
+
+LISBOA
+EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
+95, Rua Augusta, 95
+1905
+
+
+
+
+
+OBRAS COMPLETAS
+
+DE
+
+ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
+
+VOLUME 19.^o
+
+
+
+
+VOLUMES PUBLICADOS:
+
+
+I--Amor e melancolia.
+II--A chave do enigma.
+III--Cartas de Ecco e Narciso.
+IV--Felicidade pela agricultura (1.^o v.)
+V--Felicidade pela agricultura (2.^o v.)
+VI--A primavera (1.^o vol.)
+VII--A primavera (2.^o vol.)
+VIII--Vivos e mortos--Apreciações moraes, litterarias, e artisticas.
+IX--Vivos e mortos (2.^o vol.)
+X--Vivos e mortos (3.^o vol.)
+XI--Vivos e mortos (4.^o vol.)
+XII--Vivos e mortos (5.^o vol.)
+XIII--Vivos e mortos (6.^o vol.)
+XIV--Vivos e mortos (7.^o vol.)
+XV--Vivos e mortos (8.^o vol.)
+XVI---Excavações poeticas (1.^o vol.)
+XVII--Excavações poeticas (2.^o vol.)
+XVIII--Excavações poeticas (3.^o vol.)
+XIX--O Presbyterio da montanha (1.^o v.)
+
+
+NO PRÈLO:
+
+
+XX--O Presbyterio da montanha (2.^o v.)
+
+
+
+
+
+OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO
+
+Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos
+
+XIX
+
+O PRESBYTERIO DA MONTANHA
+
+VOLUME I
+
+[Figura]
+
+LISBOA
+
+Empreza da Historia de Portugal _Sociedade Editora_
+
+
+LIVRARIA MODERNA || TYPOGRAPHIA
+Rua Augusta, 95 || 45, Rua Ivens, 47
+
+
+1905
+
+
+
+
+Advertencia dos Editores
+
+
+Em 1846 principiou Castilho a colligir, entre os seus manuscritos
+antigos, alguns dos que lhe tinham nascido na estudiosa solidão de mais
+de sete annos de homisio na serra do Caramulo. A esses manuscritos, que
+ia publicar com o titulo de _O Presbyterio da montanha_, escreveu um
+prologo extenso, descriptivo, altamente pittoresco, onde, a dôze annos
+de distancia, desafogou as lembranças d'aquelles logares, e as saudades
+de um irmão, o melhor dos irmãos, o já então fallecido Abbade de S.
+Mamede da Castanheira do Vouga, no Bispado de Aveiro. O prologo
+concluiu-se, imprimiu-se na sua maxima parte, mas não chegou a
+publicar-se.
+
+O natural desleixo do Poeta a respeito do que era seu, as vicissitudes
+da sua atormentada vida, a sahida para S. Miguel, e outras causas,
+fizeram com que as folhas impressas se sumissem, nem sabemos dizer como;
+e os pouquissimos exemplares que existem, e se apontam a dedo, são hoje
+considerados especies bibliographicas de primeira raridade.
+
+Castilho possuia um, que vimos, e desappareceu; a Bibliotheca Nacional
+de Lisboa possue outro; o distinto colleccionador, bibliógrapho, e
+escritor, o snr. Annibal Fernandes-Thomaz, outro; a fallecida snr.^a D.
+Maria Peregrina de Sousa, poetisa portuense, possuia outro, que parece
+ter levado caminho; Innocencio no Tomo I do Supplemento do seu immortal
+_Diccionario_, não declara se era dono de algum; menciona a obra,
+apenas.
+
+Quanto á parte poetica do livro projectado, essa, não impressa,
+desappareceu em parte. Só algumas poucas peças encontrámos, umas
+inteiras outras incompletas; materiaes truncados da collecção. Salvando
+esses versos, cumprimos um dever moral, e outro literario.
+
+O prologo de Castilho é pois o brilhante pórtico de um edificio ainda em
+construcção, e já em ruinas; é inquestionavelmente uma das obras mais
+curiosas e instructivas que elle deixou. A chorographia, a fauna, a
+historia, a lenda, os costumes, a paizagem, as antigualhas, o
+_folk-lore_, d'aquella região alpestre, tão portugueza, mas tão
+desconhecida, tudo isso é tratado com amor, com o cuidadoso amor de um
+archeologo-poeta.
+
+Appareceu tambem uma _Introducção_ em verso sôlto a certo poema
+intitulado _O Sepulcro, historia de uma noite de S. João_, projectado
+pelo nosso autor; poema original, muito vivido, muito phantastico,
+infelizmente por concluir. Entendemos não menos intercalar essa curiosa
+Introducção, no seu logar chronologico, por varios motivos: dá-nos
+Castilho sob uma feição poetica diversa da sua habitual, e pinta-nos o
+estado da sua alma aos trinta annos, quando absorvia soffregamente o ar,
+a vida, os usos populares da montanha. O _Sepulcro_ é pois optimo
+contribuinte d'este truncado banquete literario, e fôra imperdoavel,
+apesar de incompleto, despresal-o aqui. Do borrão original, que
+possuimos pela letra do amoravel secretario Augusto Frederico, para esta
+licção actual, ha leves divergencias, que foram pelo proprio autor
+ditadas em 1864.
+
+Além do _Sepulcro_, outras peças, portuguezas e latinas, já impressas
+nas _Excavações_, teriam logar aqui, pelo seu nascimento, pela sua data,
+pela sua indole; mas o autor preferiu collocal-as n'aquelle seu volume.
+Facil é ao leitor intelligente o procural-as.
+
+
+
+
+Á MEMORIA
+
+DO
+
+EXEMPLAR DE IRMÃOS
+
+AUGUSTO FREDERICO DE CASTILHO
+
+PRIOR DE
+
+S. Mamede da Castanheira do Vouga
+
+_Em testemunho publico e perenne_
+
+_DE_
+
+AFFECTO E GRATIDÃO
+
+Offerece
+
+_Antonio Feliciano de Castilho_
+
+
+
+
+PREAMBULO
+
+
+I
+
+O livro que apresento, havia de ser difficil de classificar, se o
+classifical-o podesse por alguma via valer a pena.
+
+Não é historico, nem ficticio; não é didactico, philosophico, nem
+descriptivo; não é prosa, nem poema, nem ainda poemas; e, sem ser nada
+de tudo isso, de tudo isso participa.
+
+Nem sequer é um livro; é uma congérie de pequenas coisas, todas mais ou
+menos obscuras, e quasi todas desconnexas, e de pensamentos não
+procurados, se não tomados como elles quizeram vir, sem nenhum bem
+determinado fim moral, social, ou literario; em summa: um d'aquelles
+banquetes de aldeão, engenhados á pressa do que ha em casa,
+
+
+ _...dapibus mensas oneramus inemptis,_
+
+
+para hospedar a cortesãos que lhe passaram pela porta. Não procura
+enganal os]: com mãos limpas e coração lavado lhes põe diante o que só
+para si tinha tratado na sua horta, ceifado no seu chão, cevado no seu
+pateo, ou colhido do seu pomar. Porcelanas e pratarias, não as tem;
+algumas flores, já pode ser que as apresentará em vasos de barro; mas
+como vos assoalha com bom rosto quanto possue, não se vos alardeia de
+abastado, nem se compara com os visinhos de casas altas e balcões
+envidraçados. Como quer que vós d'elle o fiqueis, não ficará elle
+descontente de si mesmo á despedida.
+
+ * * * * *
+
+Foi o geral d'esta collecção, parte escrito de carreira, parte apenas
+esboçado ou apontado, ha hoje doze, treze, quatorze, quinze, e dezasseis
+annos, sem pensar no Publico; para mero desenfadamento de horas
+abhorrecidas; para ajudar a correr mais depressa, em sitios tristes e
+ermos, uns tempos muito ermos, muito tristes, e para mim, que nunca bem
+atinei com o futuro, muito desconfortados de esperanças.
+
+Como todo o meu fim em fazer versos não era outro senão o fazel-os, de
+todo o modo me nasciam bem. Não tinham de apparecer entre gente; não os
+educava; não os corrigia; não lhes punha galas e arrebiques. Assim
+sahiram, assim ficaram, e assim os esqueci.
+
+Revi-os depois de tornado ao mundo, aonde já cuidei que não tornasse;
+achei-os os mesmos que os tinha deixado: sinceros, mas incultos e
+semi-silvestres, como nados e creados que eram por entre troncos e
+penedos, longe de olhos e de ouvidos, que fazem por fora o mesmo que por
+dentro faz a consciencia.
+
+Vieram-me tentações de os enjeitar; mas... eram filhos; contavam já
+annos: recordavam-me tempo de saudades; eram me saudades elles proprios;
+reconheci-os; dei-lhes o meu nome; com elle os apresento.
+
+
+II
+
+Todos os autores, ainda os que mais intimos se nos figuram, cuido eu que
+_se compõem_ para o Publico; e, bem hajam elles!: não levam á praça
+senão o que teem averiguado que por lá se deseja e se procura; põem de
+parte, quanto podem, a sua pessoa, para servirem ao interesse ou gosto
+alheio.
+
+Nada d'isso tenho eu n'estas paginas.
+
+Não sou eu que vou para os leitores; são os leitores que teem de vir
+para mim, se as quizerem ler. Hão-de deixar a sua cidade, pelo meu ermo;
+as suas occupações, pelo meu ocio; a sua polidez, pela minha rudeza; os
+seus, pelos meus costumes; a historia ou o romance da sua vida, pelo
+recantinho domestico onde a minha correu, como uma fonte desconhecida e
+pura, que mana gotta a gotta n'uma cova, só vista de cima pelo ramo de
+tojo que a sombreia, ou pela nuvem, ou pela andorinha cujo ventre branco
+ella retrata no seu vôo. Pelo que, bem entendido deve ficar desde aqui
+(a fim de que não venham depois obrigar-me por divida que eu não
+contraio), que a unica deleitação que esta leitura pode dar, se pode dar
+alguma, será a que naturalmente se tem, penetrando no interior da casa
+alheia, e nos segredos do visinho.
+
+É o que faz com que, por mais futeis que pareçam as memorias, que alguns
+escrevem de suas vidas, e as correspondencias epistolares, quando por
+acaso vão dar ao prelo sem terem sido ordenadas para elle, commummente
+são lidas com interesse.
+
+É o que faz, tambem, ser muitas vezes mais aprasivel que as achadas de
+antigos monumentos publicos, o desenterro fortuito de uma antiga vivenda
+particular ou casa rustica, onde os vasos e utensís do viver quotidiano
+veem logo suscitar na phantasia os costumes, o trato, e o ser intimo, da
+gente que ali houve.
+
+Os monumentos só dizem do povo; mas a pedra da lareira, ou o ladrilho do
+forno, o gancho da candeia, ou a aza da amphora vinaria dos banquetes,
+dizem da familia. Em de redor de cada coisa d'estas ressurgem tambem uns
+eccos de vozes enterradas ha muitos seculos; confusos, mas a todos
+intelligiveis e suaves, de donas, de donzellas, de velhos e meninos, dos
+animaes caseiros, dos passarinhos e virações do ceo, do sussurro das
+plantas, dos sons, em summa, de tudo que n'esses tempos apartados foi, e
+feneceu, deixando de si menos vestigio, que a humilde talha do vinho, e
+a lampada que allumiou calada os prazeres ou os somnos de seus senhores.
+
+Os monumentos são artificiaes, e artificiosos; são estudados, e
+emphaticos; a historia que elles resam é fria. Mas cá, o romance que
+engenhamos, ageitado ás memorias e saudades do nosso mesmo passado, é
+todo perfumado de Natureza; a mentir nos diz verdades.
+
+ * * * * *
+
+As _impressões de viagens_ estão sendo ao presente um genero de
+Literatura mixta mui usado e mui querido.
+
+Não admira: para os autores é facil; para os leitores, recreativo quando
+menos. Satisfaz-se o humor cosmopolita, que todos temos muito ou pouco;
+sem cançasso nem más poisadas por terra; sem enjôo nem temporaes por
+aguas do mar; sem desabrimento de estações; sem saudades do que lá fica
+para traz; ou, havendo-as, com bom remedio para desandar, que é repetir
+algumas paginas; e emfim, sem o aborrimento, que a pessoa a viajar em
+corpo e alma tantas vezes deve de sentir em chegando aonde ninguem a
+espera, nem festeja, nem conhece, e onde não ouve pelas ruas palavra nem
+som da sua creação.
+
+A viagem escrita, sem custo de nenhuma especie se faz por uns caminhos
+atmosphericos tão suaves, que a todas as partes nos levam, com a nossa
+casa e familia, sem até nos demovermos do nosso quarto nem da nossa
+cama, se como Ovidio somos, que punha entre os regalos da vida o de ler
+deitado.
+
+ * * * * *
+
+Ora digo eu: se o attractivo commum de taes viagens é o gosto de
+conhecer sitios, gentes, e costumes, que nos são extranhos, e não medir
+as distancias que nol os apartam, que esse, pelo contrario, é o maior
+desconto do peregrinar, ¿por que se apeteceriam mais as viagens á
+França, á Inglaterra, á Suissa, á Italia, ás margens do Rheno, á Russia,
+ao Egypto, á China, ou ainda á Lua, do que a um qualquer monte da nossa
+terra, só conhecido de seus moradores e visinhos?
+
+¿Que sabeis vós mais da serra do Caramulo, em cujas faldas está
+assentado S. Mamede da Castanheira do Vouga, como um neto no regaço de
+sua avó triste e taciturna, que do monte Ararat, em cujo cume parou e se
+abriu a arca depois do diluvio? Nem mais, nem por ventura tanto.
+
+Viréis pois ás raizes do Caramulo conversar montanhezes, agrestes porém
+bons; e tão bons, que, d'entre os seus oiteiros mal sombreados e mal
+productivos, nos seus paupérrimos tugurios cobertos de loisa ou colmo, e
+pendurados á laia de ninhos pela escarpa dos precipicios, entalados nos
+córregos, ou inclinados a scismar tristezas sobre algum rio fundo e
+triste, nunca se lembraram de vos invejar a vós outros as vossas cidades
+opulentas e festivas.
+
+Estes, com falarem portuguez, são para vós estrangeiros, ou quasi. Como
+taes, não vos despraza conhecel-os, despendendo algumas poucas horas com
+quem por entre elles demorou annos, e de boa-mente lá iria agora
+enterrar os restos cançados da vida ao-pé do sepulcro de um Pae, que lhe
+lá ficou em quieto desterro para todo sempre.[1]
+
+
+III
+
+A 23 de Outubro de 1826, entrava por aquella serrana região o novo
+Prior, meu sempre e em tudo irmão, e agora saudade minha continuada e
+sem remedio, Augusto Frederico de Castilho, com a sua pequena familia,
+de que era eu parte inseparavel.
+
+Coimbra, d'onde iamos, fôra a terra dos nossos annos mais florídos;
+Lisboa, a do nosso berço e da nossa infancia. Uma e outra me chamariam
+pelos affectos em qualquer parte do mundo em que eu estivesse; e não
+houvera eu valído a resistir-lhes. Mas para aquelle ermo, que então
+cuidavamos nos durasse a vida toda, entranhavamo-nos elle e eu, por nos
+sentirmos um como o outro tão encantados com o nosso futuro, já palpado
+e colhido ás mãos, que alegres, sobre resignados, esqueciamos todos os
+outros sitios por aquelle, renunciavamos quaesquer outras delicias, mais
+amenas ou mais vívidas, por aquellas gentilezas incultas e mais poeticas
+de uma natureza quasi primitiva.
+
+ * * * * *
+
+Passámos n'uma bateirinha remada por uma velha moleira da margem, o
+viçoso rio de Bolfiar, a que deu nome, hoje corrupto, segundo a
+tradição, o _bom fiar_ de certa moça mui santa, que junto d'elle vivia
+n'uma choupaninha pobre, e esmolando a todos os pobres com o trabalho da
+sua roca; se não quizerdes antes que dos Moiros lhe viesse o appellido,
+significando _pepinal_, ou _rio das terras dos pepinos_; pacifico rio,
+que então ia grosso e desmandado por entre as suas duas ribas altas e
+verdejantes, em cujos cimos nenhum passageiro deixou nunca de se deter
+enlevado na amenidade de tal painel.
+
+Começam a estender-se-nos diante, profusas e desmedidas para um e outro
+cabo, arripiadas gândaras de carqueja e urzes, só de longe a longe
+interruptas de um sovereiro torcido e mal posto, ou de um rebanho;
+terreno boleado e ondeado como um lago, que em meio de tempestades se
+houvesse petrificado por encanto. São já fronteiras do Caramulo.
+
+
+IV
+
+A freguezia de S. Mamede não se vê em parte alguma; é dispersa, e
+emboscada. A magreza da terra não dá para grandes espessuras de
+povoação.
+
+O aspecto do paiz, para quem só o atravessa é de inhospedeiro. Mas que
+se detenham, e o tratem; acharão a hospitalidade espontanea e
+desinteressada, em todas as falas, em todas as mãos, e em todos os
+corações. É porque a solidão é de si mais affectuosa, e a pobreza mais
+liberal e larga, que o rico povoado.
+
+Esta differença e vantagem que os moradores levam á sua terra,
+experimentámol-as nós ainda antes de chegarmos á egreja e residencia,
+sahindo a receber o seu Pastor novo não só os maioraes, se não quasi
+todo o Povo com os seus trajos de festa, e repicando por cima das
+cerejeiras e nogueiras do adro os tres sinos do campanario, d'onde
+áquelle som se dispartiu pelos ares uma nuvem de pombas brancas.
+
+A egreja, alva, com o seu largo portão vermelho aberto para o seu adro
+muito verde, apresenta-se solitaria. Das povoações em que a freguezia se
+divide, nenhuma lhe é contigua nem visinha. O presbyterio, ou residencia
+parochial, é o unico edificio que a acompanha, mas por de traz, como
+serva humilde e boa, e não descobrindo mais, por entre os plátanos, que
+o portal do seu pateo toucado e semi-velado das mais espêssas, crespas,
+e lustrosas heras, onde jámais se esconderam e cantaram melros.
+
+Ambos os edificios ficam no meio do _passal_, antiga quinta «das
+Limeiras», dos Condes da Feira, como o passal fica no meio do sinuoso
+deserto, por onde se disseminam as aldeias, povoas, e casaes, que ali
+teem o seu foco espiritual.
+
+Um grande silencio rodeia largamente a casa da oração. O presbyterio não
+lh'o quebra.
+
+Baixo, de um só andar, e retirado para o fundo do seu pateo rustico mas
+espaçoso, a olhar pelas quatro janellinhas da sua frontaria principal
+unicamente para o ceo, e para umas formosas e corpolentas laranjeiras,
+que dentro do mesmo recinto vegetam, como elle clausuradas, o modesto
+domicilio, proporcionado pelo que sempre deverá ser o pastor de tal
+rebanho, não se retrahiu para mais longe, por traz da sombra do
+santuario, porque não poude: porque lh'o embargou a longa e cada vez
+mais precipitosa descida, que desde os seus calcanhares começa para além
+a esconcear, descer, e afundir-se, até á borda do estreito, rumoroso, e
+espumifero rio de S. Mamede.
+
+Uma ponte de madeira, arremessada e trémula nos ares a grande altura,
+por cima das aguas escuras e raro alcançadas do sol, communica esta com
+a ribanceira ulterior, não menos carrancuda, fragosa, arripiada, e a
+pique.
+
+Da residencia, corôa de um dos dois alcantis, até ao moirisco logar de
+Falgozelhe, seu visinho na fronteira crista da penedia d'alem-rio,
+entremeia apenas distancia, que, pela calada das noites, deixa ouvir de
+parte a parte os ladridos dos cães de gado, as cantigas do serão, e os
+alertas dos gallos a deshoras. E comtudo, aquelle _quasi-nada_ para os
+ouvidos e olhos, é para os pés caminho dilatado, fadigoso, e não sem
+perigos.
+
+As duas veredas, que levam ás duas extremidades da ponte, giram enleadas
+e perplexas, torcendo-se e refugindo, ora para a direita ora para a
+esquerda, como espavoridas do abysmo lá em baixo; descendo, tornando a
+subir, e redescendendo de novo por entre brutescos de penedia negra.
+
+Pouco matto ressequido, e alguns medronheiros silvestres, são os unicos
+entes vivos, que por ali se affoitam a tomar pé. Os seus frutos
+vermelhos, quando o vento lh'os despega maduros, vão sumir-se entre as
+espumas arrebatadas.
+
+Aquella ponte, vacillante sobre tal pégo e entre taes escarpas, com
+poucas braças de ceo por cima, e por baixo de si o rugir de tantas
+aguas, dá as sensações de um bello horror.
+
+Muita vez me deleitei de as colher, debruçado horas esquecidas para
+aquelle inferno liquido; e este pensamento algumas vezes ahi me veio por
+tardes de Junho, em quanto, calado e estendido sobre as táboas, gastadas
+e rôtas da humidade, me gosava da viração transpirada pela corrente.
+¿Foi a simples providencia do acaso, ou uma inspiração de religiosa
+poesia no fundador, a que fez reunir n'um ermo, e em tão pequeno espaço,
+como tres cantos de um poema, esta corrente, esta casa, e esta egreja?
+¡Esta corrente, emblema da vida terrestre, tão escura, tão angustiada,
+tão clamorosa, e com tão pouco de azul por cima das suas ribanceiras
+inaccessiveis, d'onde insperado vem, cada dia, algum novo penedo
+ferir-lhe o seio! Aquella egreja, tão serenamente alegre, tão aberta, o
+dia inteiro, ao generoso sol dos campos, tão gorgeada a ambas suas
+portas de passarinhos, tão garrida de espadanas sobre as campas do
+pavimento, e nos seus cinco altares tão ridente de flores silvestres,
+symbolo da alma refugida das tormentas do mundo para o ineffavel asylo
+da Fé e das Esperanças! E entre o santuario e o rio, como intermedio e
+transição dos dois extremos, a casinha do Pastor, alva como a confiança,
+verdejante e florida como as promessas, recatada como a esmola,
+inexhaurivel no seu celleiro como a Providencia, tácita como a
+meditação, com as suas portadas bem abertas como a paz, com as costas
+para a torrente, o rosto para a arca santa, os olhos atravez das arvores
+de Deus para o firmamento.....
+
+O mesmo nome de S. Mamede, com que se appellidam o santuario, a
+torrente, e o albergue, é uma nova harmonia. Mamede, ou Mamante, foi um
+humilde e obscuro pastor de gado na Capadócia, e do qual toda a Egreja
+do Oriente pregôa virtudes e milagres. Sendo ainda mancebinho, acabou
+martyr, por volta do anno 274 da nossa era.
+
+O logar santo, para o Santo; o medonho e vertiginoso, para o Martyr; o
+vigilante e benéfico, para o Pastor; o tudo, e os silvestres e pacificos
+arredores, para o Menino, já moço na valentia, ou para o moço, ainda
+menino na innocencia.
+
+Não poude ser o acaso, quem tantos acêrtos concertou.
+
+
+V
+
+Era a residencia, quando a ella chegámos, decrépita e caduca: apparencia
+de choça fabricada de pedra ensôssa, escura e descommoda no interior;
+por fora negra, com alpendres a aluir-se para o pateo apoquentado de
+inuteis e desgraciosos compartimentos. A velhice do derradeiro possuidor
+a havia em parte feito, em parte deixado, chegar áquelle estado.
+
+A transformação foi rapida e completa. Os alpendres desappareceram. Na
+casa remoçada entrou por vidraças abundancia de luz. O pateo
+desafrontado foi revestido, como a frontaria do edificio, primeiro de
+cal bem candida, logo de roseiras e limeiras bem viçosas. Um cedro
+n'elle plantado começou de levantar-se animoso e gentil; e sei que
+n'esta hora, em quanto de seus dois plantadores um já não existe na
+terra, o outro declina para o occaso, elle, medrando ainda, é já, como
+lh'o eu augurára nos meus versos, brasão do presbyterio; tem no seu
+tronco cinco palmos de circumferencia, e perto de quarenta de altura.[2]
+
+O novo Prior, o Rev.^{do} snr. Padre Antonio José Rodrigues de Campos, a
+quem Deus dilate a vida para felicidade do rebanho, varão de virtude, e
+espirito cultivado por Letras, filho d'aquellas boas terras, e amigo
+nosso que sempre foi, como ainda hoje o é do nosso nome, conserva e zéla
+tudo aquillo com amor.
+
+É para mim delicia o considerar, que á sombra grande d'aquelle cedro,
+que eu regava todos os dias, quando um menino de tres annos o poderia
+ainda arrancar sem custo, lerá talvez, depois do seu Breviario, este
+livrinho das minhas memorias, em que deposíto o seu nome mollemente
+reclinado entre tantas outras saudades minhas.
+
+
+VI
+
+Já os leitores conhecem, como quer que seja, o asylo que me escondeu
+sete annos, desde Outubro de 1826 até Fevereiro de 1834, o ninho em que
+nasceram, sem pensarem em abrir o vôo que hoje abrem para o mundo, estas
+poesias montesinhas.
+
+Mas, como todo o seu assumpto se não limita ao que deixo esboçado,
+peço-lhes ainda um pouco de indulgencia, para lhes dar a conhecer, por
+alto, os arredores.
+
+ * * * * *
+
+O passal rodeia por todos os lados a egreja e a residencia, correndo por
+traz d'ellas até onde lh'o consente o pendor do terreno, a escoar-se
+cada vez mais rapido para o rio de S. Mamede.
+
+Por essas lombas inclinadas, fronteiras á encosta alta e erma de
+Falgozelhe, se boleiam melancolica mas graciosamente as suas hortas, os
+seus pomares, a sua fonte, as suas parreiras, e as fraldas das seáras,
+que até ali chegam descendo pela direita e pela esquerda, depois de
+povoarem toda, com o seu oiro sussurrante, a larga esplanada horizontal,
+por onde, ao sahir da egreja, folga a vista de se espraiar, até ir
+bater, lá ao longe, na capellinha e matta de S. Sebastião, que lhe
+servem de limite.
+
+Seáras eram os atrios, que os Romanos pelas suas aldeias folgavam de
+avisinhar aos templos de Ceres, e mais divindades protectoras da
+Agricultura. ¿Que mais proprio, para um povo agricola como este, do que
+achar a casa do Creador, e a do seu dispenseiro, no centro da abundancia
+das messes, e saudal a com a invocação de um Pastorinho santo?
+
+O caminho publico atravessa desde o sobreiral de S. Sebastião, por entre
+duas grinaldas de oliveiras e vinha, o meu passal até ao adro; costeia a
+egreja e a casa pela direita, e, em demanda da serra alta, lá se vai
+mergulhando para a ponte, deixando n'uma de suas orlas a frescura
+sombria da fonte sobre as hortas, na outra os remanescentes da egreja
+antiga, um altar de pedra n'uma capella, meia de pedra meia de silvas,
+assoberbada com um S. Jorge de marmore, a cavallo, a brandir ainda um
+troço de lança enferrujado de musgo.
+
+
+VII
+
+Detenhâmo-nos poucos minutos, se vos apraz, ao-pé d'este altar, onde já
+ninguem ajoelha, sobre sepulturas que hoje são tremoços, e recordemos a
+obscura historia d'este sitio.
+
+¿Por que razão só as grandes ruinas se hão-de haver por merecedoras de
+attenção? Todo o passado é poetico; todo o evocar imagens humanas de sob
+a terra que pisamos, é proveitoso para alguma coisa. Nas solidões,
+mormente como esta, consola o saber que nem sempre a brenha foi brenha,
+e que onde hoje, por entre o rugir das folhas, só algum pipilar de ninho
+quebra a mudez da Natureza, houve outr'ora actividade, affectos bons, e
+até festas.
+
+Cabe pois saber, que, em tempos mui afastados, viveu na povoasinha da
+Talhada, logar emboscado, de pouco sol, pouca terra, e achegado pela
+margem de cá ás aguas do S. João do Monte, que logo a diante troca o
+nome no de S. Mamede, um moço por nome Jorge, humilde de geração como
+tudo quanto por ali nasce e se cria, mas de coração alto e espiritos
+levantados.
+
+Namorára-se Jorge (me contou n'um serão do Natal uma velha, que o ouvira
+em pequenina a seus paes, que o tinham recebido não sabia de quem)...
+mas emfim, namorára-se, que o sabia ella, de certa moça de alem-rio,
+guardadora de cabras, mas filha de um Capitão, e sobrinha em primeiro
+grau de um snr. Vigario. Lá de baixo, perto da sua vivenda entre
+penedos, levava, os dias com os olhos sempre içados aos cabeços de
+Falgozelhe, na outra banda, á caça da sua saia de serguilha, ou do seu
+sombreiro preto; e ainda não de todo malcontente, quando, por entre os
+penedos pardos e as urzes côr de fogo, a enxergava, pendurada á borda do
+precipicio, e pascendo descançadamente uma das cabrinhas que obedeciam á
+sua voz melodiosa.
+
+A voz da serrana era em verdade um dos seus dotes. Quando a esperdiçava
+cantando n'aquellas solidões, parecia-lhe a elle, que lá de baixo lh'a
+estava captando com ambas as mãos, escutar um Anjo de amor escondido
+entre as nuvens; e quereria mal até ao rouxinol que lh'a interrompesse,
+porque não sabia de coisa mais de molde para o seu coração.
+
+Vel-a á sua vontade, não a via se não aos domingos na egreja; e nem
+então, que para esses dias tinha ella umas roupinhas muito sécias, meias
+muito alvas, e tamancos de galão de oiro, que o aterravam, mostrando-lhe
+que maiores obstaculos ainda haviam posto entre os seus affectos a
+fortuna e o nascimento, do que entre as suas vivendas a corrente das
+aguas. Fazem-se pontes para os rios; não se fazem que prestem para
+communicar dois estados tão diversos.
+
+ * * * * *
+
+Amor verdadeiro pode ser platonico algum tempo; mas é poesia; e poesia
+não é vida. Ousou, e declarou-se a medo á sua formosa; não foi
+repellido. Affoitou-se a mais: ao impossivel. Abriu-se com o tio Vigario
+em confissão. O que entre elles se passou, não se sabe; taboas de
+confessionario não são carvalhos dodónios que chocalhem tudo. O que se
+sabe, é que a moça não tornou a apascentar para aquella banda, e que
+elle, pouco depois, deixou a terra, onde tinha mãe e irmãos pequenos,
+sem dizer nada a ninguem, e não levando senão o fatinho que tinha no
+corpo, o seu cajado, o seu espirito, que segundo dizem, era grande, e o
+seu amor, que não era pequeno.
+
+Constou, ao cabo de annos, que se tinha ido embarcar em um navio d'el
+Rei, e que se abalára por esses mares de Christo, sabe Deus para onde, e
+para quê.....
+
+No meio de uma furiosa tormenta, correndo grande perigo de perdimento,
+assim a fazenda que andára moirejando, como a propria vida, apegou-se
+com o Santo do seu nome, e lhe prometteu que, se o levasse com tudo seu
+a terra de salvamento, lhe mandaria fundar, e lhe dotaria, uma capella
+da sua invocação com duas Missas por semana, defronte de Falgozelhe,
+onde vivia a noiva do seu coração, por cima da Talhada, onde tinha os
+irmãos e a mãe, e pegada com a egreja onde o baptisaram a elle, e onde a
+avistava todos os domingos.....
+
+Mas de crer é que n'essa imagem se não demoraria muito em semelhante
+lance, em que as ondas formavam, por instantes montanhas tão altas e
+escarpadas, porém mais temerosas e feias que ess'outras, entre cujas
+quebradas, e por cujos visos, elle variára a sua infancia.
+
+Acudiu-lhe o Santo; e Jorge cumpriu o promettido.
+
+Tornou á Talhada, erigiu a capella, comprou fazendas em Angeja, que em
+boa e devida forma lhe adscreveu para o seu culto, e nunca mais tornou a
+aventurar-se sobre aguas do mar.
+
+Reliquias são pois da sua obra a Imagem e as pedras que ainda ali se
+divisam. O de mais, já desgastado do tempo, foi demolido, para ir servir
+como materiaes na edificação de parte da residencia, e da egreja nova,
+que já sabeis lhe estão visinhas.
+
+ * * * * *
+
+--¿Mas o fim de seus amores?--me perguntareis vós.
+
+Memoria é essa que eu tambem procurei, porém não consegui desencantal-a.
+
+O que só pude desenterrar da tradição, foi: que este mesmo Jorge viera a
+casar-se na freguezia; que tivera um filho nascido na póvoa da Talhada;
+que este se ordenára de Clérigo, fôra a Roma, e arribára a Cardeal; em
+memoria do que, ainda na actual egreja se conserva, herdada da antiga, e
+mandada por elle de Roma para aquellas suas brenhas muito amadas, uma
+Cruz de quatro palmos de altura e um de largura, com braços em baixo e
+em cima, oleada de verde, doirada nas pontas, e n'ella pintados tres
+cravos, duas chagas, e uma corôa de espinhos.
+
+Vê se, venera-se, e commenta-se, como o acabamos de dizer, pendente na
+parede do arco cruzeiro da banda direita; e affirma-se, que na capella
+de S. Jorge permanecêra com egual honra em quanto ella durou.
+
+Agora, se este em Roma purpurado, filho da rustica humildade de uma
+póvoa, em que o maior personagem que descobri foi um fuzeiro velho, e
+onde o que só fazia bulha no meu tempo era um pequeno moinho, rôto por
+todos os lados aos ventos e chuvas, foi, ou não, nascido do consorcio a
+que o Padre Vigario e seu irmão se tinham opposto, eis ahi o que eu não
+alcancei; e não quero invental-o. Provavel me parece que sim, quando me
+lembro do que a minha velha me contava d'aquelles amores, e o combino
+com a ideia que formei da constancia no bem querer dos moradores da
+minha serra.
+
+A moça deveu de conservar-se donzella, e fiel. Quanto a Jorge, qualquer
+apostaria que o foi sempre. A fortuna entulhára com riqueza o abysmo que
+os separava; e S. Jorge, que não é Santo para meias victorias, havia
+forçosamente de pagar com bizarria o obsequio do seu devoto.
+
+Piamente podemos portanto acreditar, em que, diante d'aquella Imagem de
+pedra, muitas vezes o marinheiro e a sua formosa de esquecido nome
+ouviriam juntos a Missa; e talvez diante d'aquelle mesmo altar os
+recebesse o proprio Padre Vigario, indo depois jantar com elles, e beber
+á saúde da futura geração algumas malgas de vinho verde na sua casa da
+Talhada, ao rouco murmurinho das aguas de S. João do Monte.
+
+
+VIII
+
+A egreja velha, de que foi parte esta capellinha, fôra o antigo oratorio
+dos Condes da Feira; e a residencia, já depois duas vezes transformada,
+albergue do feitor que elles ahi tinham para lhes receber os fóros, e
+lhes tratar d'aquella sua quinta, chamada, como já tocámos, «das
+Limeiras».
+
+Cederam tudo elles mesmos, concitados de sua piedade; por quanto,
+havendo sido a primeira freguesia d'estes povos no Guardão, do Bispado
+de Viseu, por de traz da serra da Alcoba, e a tres leguas de distancia
+da que ao presente é, d'ali a haviam achegado para Alcafaz, pertencente
+agora á freguezia de Agadão, sitio ainda desfavoravel pelo estirado e
+descommodo dos caminhos; o que moveu os ditos fidalgos a darem ermida,
+casa, e quinta, com largas rendas e fóros para a sustentação de Parochia
+sobre si.
+
+N'esta sua quinta, pois, senhorilmente cercada de cedros, de que poucos
+hoje permanecem para memoria, costumavam elles vir passar com seus
+amigos algum tempo do anno na montaria dos javalís, que a espessura das
+moitas então creava, segundo parece, como ainda hoje cria lobos. Folga a
+phantasia comparando e contrapondo aquelles tempos a estes, e reanimando
+o actual silencio com um reflexo e ecco da vida estrepitosa de outra
+edade.
+
+
+IX
+
+Explorámos as convisinhanças do templo e residencia. Estendâmos agora os
+olhos até ás fronteiras da terra por onde se dilata o seu pacifico
+senhorio.
+
+ * * * * *
+
+D'este centro, a meio quarto de legua a nor-noroeste, esconde-se o logar
+das Maçadas, com cincoenta almas, sua ermida de S. João Baptista, e sua
+fonte muito fresca.
+
+Para o norte, a outro meio quarto de legua, a antiga villa da
+Castanheira, com as suas entradas, cobertas de parreiral, vangloriosa
+com os seus cento e oitenta e sete moradores, e com a sua capella do
+Espirito Santo, mas dando-se-lhe pouquissimo com o telegrapho, que desde
+as ultimas guerras lhe ficou até hoje a pantomimar no alto do seu
+oiteiro. Pelos gestos d'aquelle activo surdo-mudo passam, de extrema a
+extrema do Reino, quantas noticias o revolvem, sem que a boa da villa,
+nem outro algum dos logares que entram na sua abençoada confederação de
+rustica ignorancia, as adivinhem, nem suspeitem, nem cubicem.
+
+A tres quartos de legua para nor-nordeste, dá-se com a humilde póvoa de
+Falgarinho, de não mais que oito visinhos.
+
+Subindo d'ali mais um quarto de legua contra o nordeste, encontra-se,
+n'uma quebrada da mesma crista, a Serra-de-cima, com vinte e tres
+pessoas.
+
+Descendo para o sul pelo seu ameno valle bordado de frutiferas arvores,
+e a pequena distancia, se dá de improviso com a vistosa e agradavel
+quinta da Serra-de-baixo, de sete almas, e sua capella de Nossa Senhora
+do Livramento.
+
+Nas faldas d'estas fragosas montanhas, junto ao rio de S. João do Monte,
+que a seus pés corre, está em amphitheatro o Avelal-de-cima, de vinte e
+quatro almas, a tres quartos de legua a les-nordeste da egreja.
+
+Voltando pela direita ao tortuoso rio por caminhos pouco transitaveis, a
+meio quarto de legua está para o nordeste o Avelal-de-baixo, logarejo de
+quarenta e sete almas, e uma capella de Nossa Senhora da Conceição.
+
+Deixando a margem do rio, atravessando um desfiladeiro, e subindo
+bojudas lombas, reverte-se ao nosso ponto fixo de observação.
+
+Para o nascente, descendo até á Cruzinha, e d'ahi toda a costa dos
+Ferreiros, passa-se o rio de S. João do Monte, junto ao seu confluente
+Alcafaz (nome arabe, que significa «o salto») nome que para ali está, ha
+mais de setecentos annos, soando em bocca de christãos sem renegar a sua
+origem, nem se corromper.
+
+Para a esquerda do S. João do Monte, se descortina a nossa Talhada, de
+honrada memoria, berço de um Cardeal, de um fundador de capellas, e de
+um namorado de lei; tres celebridades para um ninho hoje de quatorze
+almas, coberto de loisas e colmo, e coroado de sarças e medronheiros;
+dista-nos um quarto de legua para nordeste.
+
+Vadeando segunda vez o rio, e a pouca distancia d'elle, o S. Mamede (que
+toma este nome na juncção dos dois afluentes) se atravessa na ponte de
+pau que já sabeis, e onde eu agora, 30 de Julho ao meio dia, me tomára a
+apanhar á fresca.
+
+Subindo um pouco espaço a costa, atravez de alcantiladas rochas, toma-se
+a les-nordeste, seguindo tortuosa e mal aberta senda, que em travessia
+da montanha, sobre a esquerda do rio, leva até ao casal do Fontão, de
+onze almas, sito na margem do Alcafaz, na raiz do cabeço de Santa-Cruz,
+a quarto e meio de legua para nós.
+
+Revertendo-se onde se largou o caminho, se continua serpeando a encosta;
+e no cimo se encontra a povoação de Falgozelhe, de setenta e uma almas,
+posta a um quarto de legua da egreja, a les-sueste, quasi na extremidade
+occidental de um ramo do Caramulo. O nome da sua casa de oração é o que
+á sua altura melhor convinha: Santa-Cruz.
+
+Tomando-se o rumo do sul, e atravessando o rio Agadão por outra ponte de
+pau, e serpeando ingreme ladeira, no cimo está o pequeno e vistoso logar
+da Falgarosa, de trinta e seis moradores, com uma sua ermida da Senhora
+da Boa-Morte, a tres quartos de legua ao sul; terra que se ufana com o
+delicioso de seus pomares de caroço e de espinho, com a annosa matta de
+sobreiros que a abriga pelo nascente, norte, e noroeste; e sobre tudo,
+com ter dado á luz o instruido e virtuoso Pastor, que hoje rege aquelle
+rebanho.
+
+Voltando para o rio, passa-se n'uma bateira um pouco a baixo, depois de
+se terem abraçado os dois afluentes Agadão e S. Mamede.
+
+Subindo-se até ao vizo, está o logar da Redonda, de cincoenta almas, com
+sua capella de S. Gonçalo, a quarto e meio de legua a sudoeste da
+egreja. Redonda se chama, por estar á borda de um leito semi-circular.
+
+ * * * * *
+
+Fechemos a topographia do nosso pequeno reino, com as suas confrontações
+externas.
+
+Parte a freguezia de S. Mamede: pelo norte, com a do Préstimo; pelo
+poente, com a de Agueda; pelo sul, com as da Aguada de cima, e
+Balazaima; pelo nascente, com a de Agadão, filial, ou annexa, que aínda
+então era, á de S. Mamede, e parochia hoje sobre si; paiz ainda por
+ventura mais serrano e variado, mas que eu não cheguei a descobrir.
+
+
+X
+
+O territorio de S. Mamede é o extremo occidental de um corpulento ramo
+do Caramulo, ramo appellidado serra de Alcoba, que em voz de Moiros quer
+dizer «abobada», ou montanha boleada á feição d'ella.
+
+Do Caramulo, como tronco d'onde bracejam dispartidos este e outros
+ramos, alguma coisa quizera eu dizer, á conta do muito que merece. Mas,
+sobre que nunca o visitei, apesar de tão visinho, recearia apoucar-lhe a
+veneranda majestade, apertando n'um ou dois paragraphos as vagas
+noticias que d'elle tive.
+
+Em summa: é uma bizarra montanha rude e silvestre, dominando d'entre as
+nuvens meio Portugal, larga em fontes e penedias, poderosa em
+tempestades, em frutos magra, mas opíma em homens e mulheres de antiga
+tempera: activos, pacientes da penuria, do frio, da fome, e da nudez; é
+um paiz de selvagens christãos, para o qual as rudes terras do meu S.
+Mamede estão, em polidez e florescencia, como para os Lacedemonios
+poderia estar a antiga Attica.
+
+ * * * * *
+
+Dois monumentos accrescentam veneração ao Caramulo, quanto o podem
+mesquinhas obras humanas ás grandiosas moles naturaes.
+
+N'um dos seus cabeços mais alterosos foi erguido, nos principios d'este
+seculo, uma especie de zimborio de doze palmos de altura, pouco mais ou
+menos, de pedra muito bem lavrada e argamassada. Para quê, não dizem;
+mas dizem que por um engenheiro francez; rasão por que, os povos da
+circumvisinhança, por occasião da guerra peninsular, commetteram
+demolil-o; mas só lhe poderam fazer pelo norte um pequeno estrago. Dura
+em pé, e só é accessivel do nascente por uma vereda estreita e tortuosa.
+
+O outro monumento não é menos enigmatico, e deve estar farto de ver
+passar seculos e desfazer-se gerações.
+
+N'uma arremeçada crista, a duzentos passos da egreja do Espirito Santo
+de Arca, se alevanta elle, com o titulo immemorial de «Pedra de Arca». É
+uma desconforme loisa inteiriça, horizontalmente aguentada nos ares por
+esteios de pedra; quatro em numero a principio, hoje só tres, havendo
+sido um arrancado para as obras da visinha egreja.
+
+Tem esta lágea de comprido vinte palmos, e de largura dezasseis; de
+grossura, pelo nascente tres polegadas, pelo norte quatorze, pelo poente
+onze, e outras onze pelo sul. Os pilares contam de altura doze palmos,
+só da flor da terra para cima; de largura, um que fica para o poente
+apresenta nove palmos, tendo de grossura pelo poente palmo e meio, e
+pelo nascente um palmo. Um, que diz para o sul, tem de largura, por
+baixo quatro palmos e meio, e por cima tres, e de grossura um palmo de
+cada lado. O ultimo, que está para o norte, tem de largura, por baixo
+cinco palmos e polegada, e por cima quatro palmos e polegada.
+
+¿Com que possantes machinas, por que mãos, em que eras, e para que fim,
+se alevantou ali aquella, que á phantasia se figura bruta meza de
+gigantes silvestres? ¿Sería obra de fortificação n'um systema de guerra
+desconhecido? Quasi que nem possibilidades o abonam. Uso agrícola,
+industrial, ou civil, nem a imaginação mais inventiva lh'o rastreia.
+Memoria de algum varão ou feito insigne, já a poderia ser. Mas então, ¡a
+que rudes tempos a não havemos de referir, visto como nem data, nem
+letra, nem escultura tôsca, nem vestigio algum de arte nem de
+architectura, mas só uma bruta mechanica, ali se admira!
+
+Religiosa fabrica de alguma gentilidade parece logo aquella; e mais,
+quando se adverte na semelhança que tem com os altares druidicos, ainda
+hoje conservados em varias partes do que foram Gallias e Germania.
+
+Verdade é, que por estas nossas terras não rezam as Historias, que se
+estendesse aquella abominavel seita de sacrificadores de humanas
+victimas; mas nenhuma repugnancia ha, em que, perseguidos, como o vieram
+a ser, pelos Imperadores romanos, alguns druidas se refugiassem para
+este Occidente, e aqui, em retiros montesinhos, menos accessiveis a
+pesquizas e perseguições, professassem e mantivessem o seu culto, do
+qual (se duas coisas mal conhecidas podem ser sem temeridade comparadas)
+não muito discreparia talvez a religião do Endovélico lusitano.
+
+Este ponto, porém, outros mais sabedores que o investiguem, se vale a
+pena, como cuido; que eu me torno do Caramulo para o centro dos meus
+affectos.
+
+
+XI
+
+Nada concita aos logares veneração, como a antiguidade.
+
+Bem quizera eu poder historiar d'estes meus sitios para além de Moiros,
+Normandos, e Romanos; mas, por mais que a procure, não rastejo noticia
+d'essas edades, com que fazer obra.
+
+Se por ahi passaram em algum tempo successos grandes, se houve
+memoraveis edificios, se varões insignes pisaram aquellas terras, nem
+ruinas o attestam, nem documentos o declaram, nem tradições o denunciam.
+O solo enguliu tudo; e nenhum acaso lhe fez ainda restituir uma pedra ou
+letra para enigmas.
+
+Só ao sudoeste de Falgozelhe, já fóra da sua lavoira, na primeira
+valleira que se encontra á direita do caminho indo para Agueda, se vê
+uma fiada de umas como torrinhas, que se estende por mil e quarenta
+palmos; das quaes torrinhas, só duram hoje em dia os alicerces, e
+algumas porções deseguaes de muros esboroados a delir-se.
+
+E descendo esta valleira duzentos e vinte e cincos palmos, se dá em uma
+furna chamada «a buraca da cerejeirinha», aberta a picão em rocha viva;
+a qual tem na bocca oito palmos e meio de altura, quatro e meio de
+largura, e cento e vinte e cinco de comprimento. Da furna é geral fama
+que fôra aberta pelos Moiros.
+
+ * * * * *
+
+Em tempos de mais abusão do que estes nossos, acreditou se, dizem os
+netos, que morava ali Moira encantada, que, todas as madrugadas de S.
+João, sahia muito pontual e ritualmente, a assoalhar os seus thesoiros
+por cima dos penedos, entre os mattos orvalhados.
+
+N'esses seculos, entendido está que o terror lhe velava a estancia, e
+que ninguem se affoitou nunca a ir lá dentro.
+
+Algum Principe afortunado deveu de desencantar a Moira, que actualmente
+já não ha novas d'ella. As pastoras levam sem medo os rebanhos para a
+sua visinhança; cantam aos seus hombraes trovas muito christans; e quem
+quer, lhe devassa (como eu fiz) o seu palacio subterraneo.
+
+A opinião dos modernos tem, que fôra aquella mina aberta, pelos Moiros
+sim, mas não para tirar oiro, que é sempre a primeira conjectura, nem
+para serventia militar, que é sempre a segunda, se não só, e
+prosaicamente, á busca de agua, que em verdade de lá mana, muito fresca
+e saborosa, mas em pequena copia.
+
+ * * * * *
+
+Sobre as fortificações engenha cada um a sua hypóthese.
+
+Ha quem as supponha posteriores á invenção da artilharia, por se lhe
+figurar que só a taes armas podiam ser apropriadas; e ha quem aos Moiros
+as attribua, fundado em que, posto não ficassem d'elles por ali outros
+vestigios, o arabigo de alguns e muitos nomes de logares demonstra, que
+elles por lá viveram. E se por lá nasceram e se crearam, não podiam
+deixar de fortificar-se e defender-se contra commettimentos de inimigos,
+que é esse um instinto natural a todos os homens, mas nos homens das
+montanhas mais energico.
+
+ * * * * *
+
+Falgozelhe, em verdade se crê ter sido d'elles povoada, posto que o seu
+nome, se christão não é (como de certo não é), tambem por arabe se não
+reconhece. ¿Ser-lhe-hia imposto por gente ainda mais antiga?
+
+Mas, sem nos extraviarmos para essas novas brenhas de fabulas, o em que
+podemos ficar por mais que verosimil é que, por toda aquella serrana
+região, estanciaram Moiros em seu tempo; e, se ahi deixaram menos rasto
+que em muitas das terras visinhas, seria porque a bruteza do monte era
+já então como hoje, que não dava meios nem licença para grandes obras.
+Pequenas póvoas, que eram o mais a que podiam chegar, muito faziam em
+tirar da terra pão com que se manterem; ¡quanto mais, erigirem
+castellos, pontes, ou mesquitas, de que se podessem admirar fragmentos
+depois de sete seculos!
+
+Rebanhos moiriscos pasceram portanto por aquellas encostas. Por baixo de
+outros tectos rusticos semelhantes a estes, e por ventura no logar
+d'estes, se acalentaram creanças com versos do Alcorão. Outras arvores,
+de que estas são remota descendencia, viram passar á sombra das suas
+copas esvoaçadas da ventania albornozes de lan grosseira e parda, e
+turbantes retintos; e bois, que sulcaram com o arado o que hoje é talvez
+poisio, entendiam as vozes do lavrador arabe, e ficariam confusos e
+immoveis se revivessem para ouvir as da nossa lingua.
+
+Eis aqui o unico perfume antigo que podemos dar a estes povoados ermos,
+que eu desejaria fazer tão amados de meus leitores, como de mim o são e
+serão sempre.
+
+ * * * * *
+
+Não digo bem. O falar, e os pensamentos, e os costumes, manteem-se ainda
+antigos. As novidades das civilisações são como a escravidão, e os
+diluvios: tarde chegam a engulir as serras.
+
+A Linguagem é ali, como os ares, de uma admiravel pureza e lucidez. Se
+os diccionarios e livros mestres da nossa Lingua se perdessem, pela
+conversação corrente d'aquellas aldeias e póvoas se poderia restaurar.
+
+Troca-se mais portuguez de lei, mais riqueza de vocábulos, phraseado, e
+construcção, n'uma seroada de inverno, ou n'um palrar de sésta de
+segadores entre carvalheiras rusticas, ao estridor das cigarras amadas
+de Anacreonte, do que entre o ranger dos prelos e o resfolegar das
+balas, n'um anno inteiro da melhor typographia de Lisboa.
+
+Muitos dizeres classicos, de que por ahi chacoteiam por affonsinos, como
+o _nanja_ o _bofé_, o _canté_, o _quiçá_, e mil outros, sôam por lá sem
+extranheza em boccas de mocinhos de doze annos nos seus folguedos, ou de
+namoradas de dezoito nos seus desabafos mutuos em vespera de romaria.
+
+Com a honesta herança da Linguagem, veio dos avós aos netos a das
+crenças e praticas piedosas, e com esta a de muitos seus erros e
+abusões. São os insectos e musgos parasitas da arvore robustissima da
+Fé. Abençoada a Philosophia quando acode a limpal-a sem lhe esgalhar os
+ramos ou cerceal-a pelo pé.
+
+O tempo vai fazendo a pouco e pouco o seu officio. Não ha curas nem
+reformações mais prudentes e certas do que as suas, quando á força lh'as
+não ajudam ou contrariam.
+
+Era por essas terras, poucos annos ha, geral e profunda a credulidade de
+apparições, phantasmas de almas do outro-mundo, Moiras encantadas,
+thesoiros escondidos e lobis-homens; e ainda hoje a mór parte dos
+moradores acredita nos esconjuros, feitiços, bruxarias, adivinhações, e
+virtudes de certas praticas e fórmulas, para curar ou empecer.
+
+Estas abusões, sem deixarem de ser males muilo innegaveis, dão comtudo
+sua côr poetica muito particular ao Povo, cuja simplicidade primitiva no
+viver e trajar harmonisam com taes simplezas da intelligencia.
+
+ * * * * *
+
+Os figurins parisienses, esses idolosinhos multiformes, a cujo culto
+vivem adstrictas as gentes das cidades, e muitissima dos campos, são por
+ora totalmente incognitos na serra. A moda não exerce por lá as suas
+costumadas devastações de cabedaes, bons costumes, e saude. Os
+vestuarios e galas de ambos os sexos reproduzem-se com a mesma
+uniformidade, com que nas suas moitas e arvoredos cada especie vegetal
+renova as suas folhas e flores.
+
+Os homens vestem de burel, ou saragoça caseira, creada ás costas das
+suas ovelhas, tosquiada por elles, fiada e tecida por suas mães,
+mulheres, e filhas, apizoada e tinta (quando o é) sem sahir da
+freguesia. Trazem grandes chapeos pretos desabados, grande bordão
+ferrado, menos para defensa, que para arrimo pelo resvaladio das
+ladeiras, e tamancos cravejados.
+
+As mulheres trajam, sobre camisa de linho ou estopa da terra, sáia de
+burel de meio pizão, côr de pinhão ou preta, collete comprido justo, sem
+apêrto, e mandil; isto é, obra de vara e meia de burel mais apertado no
+tear, e sem pizão, que lhes serve de capa, lançado ao desgarre por sobre
+os hombros. A cabeça, cobrem-n-a, ou com o mesmo mandil, ou com um
+chapeo como o dos homens. As suas tamancas são menos grosseiras. O lenço
+de seda ao pescoço é, como as arrecadas e o cordão de oiro, o ultimo da
+magnificencia, e as flores da urze ou da carqueja o mais galante enfeite
+dos seus sombreiros.
+
+São luxos de toucador para dias de festa, feiras, ou romagens, quando
+calçam, com meias brancas, tamanquinhos de pregaria doirada com sua meia
+palla de marroquim vermelho, vestem roupinhas de pano burel fino, ou
+chita, põem gorjetes de filó, ou lenços de cassa bem pregados, e
+capoteiras de pontas compridas debruadas de fitas. Para a egreja, as
+mais ricas e senhoras teem mantilhas e sapatos.
+
+
+XII
+
+A educação apenas desbasta. Parca e imperfeita como a cultura do solo
+ingrato, só põe mira no essencial: em desenvolver os sentimentos
+naturaes e religiosos, o afferro á justiça e á verdade, os differentes
+amores de que se tece a paz das familias e a harmonia dos visinhos, o
+respeito á velhice e ao infortunio.
+
+As polidezes requintadas do trato são lhes desconhecidas. Esses
+discursos de cortezãos, mosaicos de phrases brilhantes, que ora
+deslumbram, ora entreteem, ainda quando nada representam,
+inspirar-lhes-hiam compaixão. Pensam o que dizem, e dizem-n-o como o
+pensam.
+
+Das artes de seduzir, não cultivam nenhuma. Aprendem para ser bons
+lavradores, boas pastoras e tecedeiras, e bons paes, e boas mães, depois
+de terem sido bons filhos e boas filhas; e n'isso limitam a sua ambição.
+
+Se ha festas, cantam e dansam como sabem; e sabem quanto basta para
+folgarem, mais de veras que damas e cavalheiros ao som de orchestras, em
+saraus esplendidos.
+
+Não falam extranhas Linguas, como nós, mas falam a nossa, que é melhor.
+
+Fora da casa de algum Ecclesiastico, não se desencantaria um só livro em
+toda a freguezia; mas os louvores da sua moralidade dariam com que
+encher mais de um livro para nos envergonhar.
+
+A egualdade quasi fraternal por ali reina, por um modo, que a todo o
+coração bem nascido dará gosto. A _mercê_ e o _vós_ de nossos maiores
+são tratamentos para os raros casos em que não cabe o _tu_.
+
+Os logarejos são todos amigos, e em grande parte parentes um dos outros.
+O mais pobre vai sentar-se festejado ao serão ou á meza do mais rico;
+isto é, do que na sua tulha tem centeio ou milho para todo o anno; e o
+abastado interrompe a sua lavoira, para ir fazer com os seus bois a
+geirasinha do indigente que a não pode pagar; e lhe leva pendurado na
+canga do arado o sacco da semente, para que elle tenha tambem, lá para o
+verão, que ceifar para seus filhos; porque toda esta boa gente sabe, por
+instinto, que as lagrimas, no meio da alegria geral, são mais amargosas
+para quem as verte, e auspiciam mal o contentamento a quem as
+presenceia.
+
+É um povo agricola, que ainda não aprendeu a envergonhar-se do seu
+parentesco chegado com a terra. Entre elles se diz «lavrador», e
+«trabalhador», como em Londres «fabricante», ou «lord», em Roma
+«cardeal», ou «monsenhor», em Paris «sabio», ou «homem de Letras», e em
+Lisboa «deputado», ou «millionario».
+
+As Armas da sua nobreza poderiam ser a charrua e o podão, com o seu
+paquife de pâmpanos e espigas, e a letra _Ut operaretur terram, de qua
+sumptus_.
+
+ * * * * *
+
+¡Que impressão, a principio de espanto, logo de respeito, e a final de
+amor, me não fez o presenciar, como, ao revéz da pragmatica das cidades,
+o trabalho das mãos era ali ennobrecimento, e a ociosidade a maior
+vergonha!!
+
+Conheci, entre estes montanhezes, quem, havendo em outro tempo vertido o
+sangue pela Patria, e cingido uma banda, madrugava (como as andorinhas
+do seu beirado para o trabalho do ninho), para se ir, em pernas e mal
+roupido, carrear o adubío para a sua fazenda, ou levar do enxadão na
+roça dos mattos entre os seus operarios. A estes, ¿que os poderia
+admirar na vida dos Cincinatos, dos Curios, e dos Camillos, se alguem
+lh'a lesse, a não ser a admiração dos historiadores?
+
+ * * * * *
+
+As irmans, as esposas, e as filhas de taes homens não poderiam deixar de
+ser mais varonís do que os homens de muitas outras terras, e de todas as
+deliciosas.
+
+Para a maioria d'ellas, o fuzo, a lançadeira, e a agulha, com o seu
+costumado cortejo de cantigas, rezas, e contos tradicionaes, que vão
+formando semelhante á precedente a geração seguinte, só são passatempos
+do serão, á luz da candeia, das pinhas bravas, ou da fogueira, que
+allumia e alegra os penates afumados. Madrugam como a aurora para os
+trabalhos fortes. Os bois conhecem a sua voz, e se deixam pacificamente
+jungir e guiar pelas suas mãos. Na vindima, carregam á cabeça cestos,
+que seriam inamoviveis (como as pyramides do Egypto) para as mãos alvas
+e beijadas de uma duzia de senhoritas. Nas ceifas, transportam á cabeça
+montanhas de espigas, tão leves e ufanas sob o pezo como uma cortesan
+sob o seu chapeo de flores de seda chegado de Paris, ou sob a sua
+grinalda de brilhantes, cada polegada da qual se poderia resolver em
+bemaventurança para dez familias. Nas renques dos saxadores e dos
+roçadores, vel-as-heis brandindo um alvião não mais leve, deixal-os
+muitas vezes para traz, e envergonhal-os com seu riso de triumpho.
+
+Não ha fadiga, nem sol, nem vento, que as quebrante. O exercicio, Anjo
+custodio da innocencia e virtude feminil, lhes infiltra ao mesmo tempo
+no sangue a saude, que do sangue se côa ao leite, e do leite aos filhos.
+Seriam as amasonas da paz, se não tivessem ambos os peitos muito bem
+inteiros, e se os homens seus eguaes as não acompanhassem em todas as
+lidas.
+
+ * * * * *
+
+Uma usança patriarchal, ou homérica, d'este paiz, que moralmente parece
+distar do nosso duas mil léguas, é a sujeição da mulher; facto que eu
+não moraliso, mas só historio.
+
+As mais graves, tanto como as mais somenos, não só á laia das Penélopes
+e Nausicaas, intendem no tear e na lavagem das roupas, mettidas no rio
+até meia-perna; não só no tráfego de porta a dentro, na cosinha para a
+familia e para os animaes domesticos; mas não se correm nem desdenham de
+ministrar de pé, como servas, á meza de seus maridos e filhos, nem em
+dias de festa ou bodo, quando a assistencia de hospedes mais poderia
+assoprar-lhes o recacho, e empavezal-as. São sempre aquillo: sempre
+passivas, boas, e contentes.
+
+
+XIII
+
+Bem estou eu pressentindo, que a muitos parecerão já minuciosas e pueris
+estas noticias; mas hei-de já agora continual-as, e seja com vénia sua.
+A outros, sei que prazem; a mim, regalam-me; e para d'aqui a alguns
+annos, quando o nivel da civilisação tiver tambem renteado as asperezas
+das serras, alguem festejará encontrar estas antigualhas, nas folhas já
+por ventura rôtas e descosidas d'este livro.
+
+Por antigualhas vivas poderiam ellas agradar já hoje ao commum da nossa
+gente; mas então hão-de ser antigualhas fosseis, e portanto com
+veneração duplicada venerandas.
+
+ * * * * *
+
+A indole da gente é de si commedida e pacifica.
+
+De todo o genero de vicios e desconcertos se poderão entre ella achar
+amostras, que emfim, terra é, e não paraiso; mas nem tantas
+proporcionalmente, nem tão feias e monstruosas em geral, como em outras
+partes, e em quasi todas.
+
+Para isso conspiram diversas causas: todos conhecem a todos; todos com
+todos se encontram cada dia. Cada um vive, por assim dizer em publico;
+ninguem é tão abastado, que possa eximir-se de trabalhar contínuo, para
+se despender em vida de enredos, corrupção e maleficios; nem tão
+extremadamente destituido da fortuna, que a miseria, a inveja, o
+despeito, o despenhem de salto em salto até ao fundo da depravação. É o
+_inter utrumque_, a _aurea mediocritas_.
+
+Conservam inteira a Fé religiosa.
+
+Não lêem, nem conhecem, nem levariam á paciencia, jornaes que
+desorientam, desencantam, e põem o genero humano em guerra viva comsigo
+mesmo.
+
+E muito menos lêem, conhecem, ou soffreriam, esta Literatura toda
+novella, toda sophismadora de tudo, toda florída e venenosa, que por cá
+nos trabalha, e de cujos herpes adoecem até as familias, que a maldizem,
+e a repulsam da sua porta.
+
+Por lá, não; o mal que se fizer, ha-de só provir da fragilidade, ou dos
+impulsos subitos da natureza; e, depois de consumado, ha-de deixar na
+consciencia remordimentos.
+
+Uma apologia, uma deificacão para cada crime, nem possivel a julgam;
+quanto mais, feita, impressa, corrente, elogiada, e seguida como
+aphorismo, onde e quando com algum nosso pressuposto interesse se
+conchava.
+
+D'estas varias causas, negativas e positivas, e talvez de outras mais,
+resulta que tanta vantagem nos levam elles em bondade pratica e
+innocencia, quanta a que lhes nós levamos em polidez, em graças
+exteriores, em tactica, em egoismo infernal e assolador. Nos amores
+ponhâmos o exemplo:
+
+ * * * * *
+
+Os seus amores se limitam no que a Natureza concita, requer, e persuade:
+tendem á união, de que se originam as familias, e por onde a especie se
+mantém.
+
+Como lhes falta o ocio, pelo qual muito bem disse Ovidio ser a maior
+arte do amor, e o culpado nos seus peores desatinos, e além do ocio lhes
+fallecem tambem sobejidões de cabedaes, que estimulam e irritam as
+phantasias, para o casamento se namoram, e não por alardo; para goso do
+coração, e não da vaidade. Põem no merecer as diligencias que outros
+põem no conseguir; no reter, a felicidade que outros imaginam encontrar
+no repellir e despresar depois de saciados.
+
+Não vivem os sexos n'uma guerra perpétua de seducções, de emboscadas,
+enganando-se e sacrificando-se um ao outro.
+
+A mulher não lavra registo dos seus adoradores; nem o homem se ufana em
+desenrolar diante dos seus conhecidos, nos corredores de um theatro, ou
+no vão de uma janella de club, em noite de baile, um copioso canhenho,
+meio historico meio fabuloso, dos seus triumphos. Ali, ali é que as
+mulheres se podem gabar de ser amadas, pois o são sem disfarces nem
+encarecimentos; são-n-o pelas suas proprias graças, pois nem modistas,
+nem cabelleireiros, nem cosmeticos, nem perfumadores, nem mestres, nem
+lisonjeiros, nem romances, as transformaram. São-n-o pelo que são, e não
+pelo que possuem ou representam, pois nem representam nem possuem nada.
+
+Palacios, creadagem, diamantes, não lhes vão lá supprir lindezas do
+corpo, graças do animo, ou preciosidades do coração.
+
+Não é entre prestigios deslumbradores, n'um ambiente de calor
+artificial, estimuladas ou vencidas do exemplo, da occasião, do medo ao
+ridiculo, e da audacia emprehendedora, não é ao abrigo do estrondo e
+confusão de um baile, que ellas recebem e fazem as suas primeiras
+declarações; é ao serão, com a sua roca na cinta, na presença de suas
+mães; ou, quando muito, na romaria, sentadas na relva com as parentas e
+amigas, em derredor da merenda, á sombra das carvalheiras.
+
+São amores que se não escondem, porque não teem de quê; amores que se
+exhalam debaixo do ceo azul; que se juram pelo Santo da illuminada
+capella do festejo, ao som folgasão da _Mirontella_ roncada pela gaita
+de folle, rainha, alma, e feiticeira ambulante do arraial.
+
+No progresso de taes inclinações é sabedora e consentidora toda a
+visinhanca; e esta mesma notoriedade defende os nossos namorados, tanto
+de se deixarem arrastar de seus mutuos desejos, como de se desvairarem e
+cahirem em infieis.
+
+Ao consorcio da Egreja, antecede o dos corações, não menos obrigado a
+lealdade e observancia. Nenhum Lovelace de véstia commetteria galantear
+a conhecida por _emprêgo_ de outrem, certo em que nenhuns lucros lhe
+surtiria o empenho, senão só motejos e descredito.
+
+D'este modo se estende ás vezes por annos, com uma constancia
+verdadeiramente biblica, até ao dia da posse, o bem-querer d'estes
+Jacobs e d'estas Rachéis.
+
+¡Quantas Lisboetas de saráus, se quizerem ser sinceras, hão de confessar
+que a escolha que n'um baile fizeram... só durou até que veio o baile
+seguinte! ¡Quantas, quantas, cujo numero de arrojados (concedendo que
+pelas duas orelhas que Deus lhes déra não ouviam dois ao mesmo tempo) se
+poderia contar, perguntando á sua modista franceza quantos vestidos
+novos lhes havia feito!
+
+Não assim lá. A que foi vista, na ceifa do anno passado, demorar-se mais
+a encher a malga para certo segador que para todos os outros, e
+pedir-lhe sempre a elle que lhe ajudasse a pôr á cabeça a gavella das
+espigas, essa continuará a fazer o mesmo na colheita d'este anno;
+continual-o-ha na dos futuros, até que, tornada sua mulher, os cuidados
+dos filhos e da casa a impidam de seguir, como antes, por passos
+contados, o seu gosto.
+
+Observação tão curiosa como verdadeira:
+
+Com toda esta liberdade, com os frequentes encontros a sós, que a
+variedade dos serviços rusticos tão a miudo lhes depara, rodeadas da
+Natureza por todas as partes, vendo livre o amor nas aves e nos
+rebanhos, favorecidas pela solidão selvática e pelo silencio, e pelas
+moitas, e pelas quebradas do solo, e por dois crepusculos em cada dia, e
+em cada semana de inverno por tantas tempestades improvisas, como
+aquella que rendeu e debellou a vidual constancia de Dido e a piedade de
+Enêas, quando o hymeneu deu com o relampago o signal de suas bôdas, e as
+nymphas pelos altos dos montes ulularam; com tudo isto, os exemplos de
+fragilidade como a de Dido por phenómeno se apontam; e annos e annos se
+devolvem, sem que um só se realise.
+
+Quando porém se dá, e vem a lume filho não de benção, o peccado de amor
+não se carrega de crueldade. O innocente não se faz victima expiatoria
+dos culpados, perdendo a vida entre as mãos de quem lh'a deu; horror
+nefandíssimo, inteiramente desconhecido d'aquelle horizonte para dentro;
+nem tão pouco é enviado, como um roubo, pelas trevas da noite, á porta
+lá ao longe de um desconsolado asylo, aberto pela misericordia em
+lagrimas ás lagrimas dos filhinhos sem mãe, nascidos em signo de rigor
+para se crearem sem beijos nem carinhos, viverem sem nome nem parentes,
+e se finarem sem heranças, nem lamentos, nem memorias.
+
+Não, não. Nem pelo infanticidio physico, nem pelo infanticidio moral,
+mereceria qualquer das minhas serranas um falso titulo, que ainda mais a
+faria corar, que a tácita confissão da sua culpa. Sabe renunciar os
+louvores com que d'antes a coroavam; ousa desherdar de antemão o seu
+cadaver do palmito, symbolo pósthumo do feminil triumpho; tudo ousa;
+tudo... como lhe fique para consolação da sua queda o encanto ineffavel
+de apertar nos braços o seu filho. Se o mundo todo, se o proprio amante,
+a desamparasse, tudo tudo esquecêra vendo-o rir; sorrira, e sentira-se
+afortunada. De não ser donzella, nem esposa, harto a compensa a
+consciencia de preencher inteiro, a espinho e espinho, a flor e flor, o
+sublime encargo, o natural sacerdocio da maternidade.
+
+Estas resignadas victimas, immoladas por um amor, por outro amor
+ressuscitadas mais interessantes, estas victimas, em quem a virtude,
+produzida pelo arrependimento, excede talvez em quilates, e eguala quasi
+em lustre a virgindade, são poucas; são rarissimas; custar-nos-hia a
+encontrar uma. Quando porém a desencantasseis, lembrando vos do que
+sabeis d'estas nossas grandes terras, fio-vos que bastante commiseração
+e respeito vos infundira.
+
+ * * * * *
+
+Casas de perdição para a mocidade, como nos povoados grandes se alinham
+em ruas e ruas, e até já por villas e aldeias vão surdindo, não se
+conhecem lá, nem se poderão tão cedo conhecer.
+
+Como leprosa seria evitada, e pereceria á mingua, e de vergonha, a que
+se proposesse esse culto venal de praseres falsos, em que as
+sacerdotisas, coroadas de flores e mascaradas de sorriso, são victimas
+das victimas que ellas sacrificam.
+
+Por isso tambem, a saude, o vigor, e a energia, se manteem, e se
+transmittem de paes a filhos, juntamente com a harmonia e serenidade dos
+casaes.
+
+
+XIV
+
+Dos amores vinhamos falando; falemos do que em outros sitios lhes serve
+de sepulcro, mas não lá; falemos do casamento.
+
+ * * * * *
+
+Os casamentos não são nunca determinados por considerações de haveres ou
+de jerarchia. O cálculo rala pouco os pensamentos d'estas gentes,
+acostumadas a viver com pouco, e a confiar muito na Providencia. As
+palavras _dote_ e _escrituras_ apenas seriam entendidas.
+
+Como um dos dois namorados chega, a poder de fortuna, ou de trabalho e
+economia, a ajuntar para _uma cama de roupa_, uma teia de estôpa, outra
+de linho, uma peça de burel, dois escabellos e uma banca de pinho, uma
+panella e dois pratos, uma candeia de folha, um bácoro, seis alqueires
+de milho, e outros tantos de centeio, tem agarrado as melenas da
+fortuna, e trata logo de a jungir com o hymeneu ao carro do Amor.
+
+O noivo dá á sua futura um presente, o qual, pelo commum, consta de um
+anel, meias, e sapatos; e a noiva ao seu futuro uma camisa para o dia
+grande.
+
+Mal que este desponta, vê já de pé os dois afortunados, garridos e
+bizarros com o seu _aceio_ dos domingos: ella, sobretudo, flammante como
+uma Imagem, com arrecadas, cordões, e alfinetes sobre lenço de seda,
+mantilha lustrosa, ou chapeo de feltro novo com enfeites.
+
+As que para tanto não teem guarda-roupa, teem amigas e visinhas, que de
+boa-mente lhes acodem, cada uma com o seu _melhorado_, convencidas como
+estão (especialmente as solteiras) de que alguma coisa da benção
+matrimonial poderá vir apegada aos diches e galas que figuraram no
+apertar das mãos.
+
+Muitas noivas, crentes na sabedoria de suas avós, se preparam de vespera
+para este acto, banhando-se em agua de alecrim, que sendo florído tem
+mais efficácia, e mettendo antes de adormecer debaixo do travesseiro
+(suppondo que em tal noite se possa adormecer) uma roca e um fuzo bem
+liados entre si, e recobertos com alguns arméos de linho e lan; no que,
+vai grande condão de conformidade de animos, perfeição de ajuntamento, e
+dura do bem-querer; com tanto que o mesmo fuzo e roca, assim maridados,
+não faltem debaixo do mesmo travesseiro na primeira noite do consorcio.
+
+O pretendente, com os seus apaniguados, espera já á porta da noiva a sua
+sahida. Esta apparece emfim, como uma aurora da serra, incendida de
+pejo, e orvalhada com as lagrimas da mãe; e segue com o rancho, a pé,
+caminho da egreja, levando ás costas as bençãos do pae, em que ainda por
+lá se crê, a turbação no seio, e nos ouvidos os votos e resas de bom
+agoiro, recitadas com fé por alguma velha mais sabida.
+
+......................................................................
+
+A egreja está já á sua espera aberta, juncada de espadana, com o altar
+enflorado de fresco, e a alampada atiçada.
+
+A ceremonia tem ali o que quer que seja de tocante, de mais bom que nas
+cidades. Em quanto o Pastor, a quem todas suas ovelhas amam, e que a
+todas as sauda por seus nomes, profere as palavras rituaes do
+sacramento, ou improvisa apóz ellas um affectuoso discurso sobre os
+deveres mutuos e a felicidade dos casados, o silencio profundo do templo
+não é interrompido com pregões de vendedores, rodar de seges, marchas de
+tropa, brados de mendigos, assobios de rapazes, martellar de artifices,
+zabumbas de arlequins.
+
+Nenhum d'esses disparatados sons, discorde symphonia das cidades, vai
+profanar a mystica poesia d'aquellas reminiscencias patriarchaes, e
+afugentar as evocadas memorias de Lia, de Rachel, e de Rebecca.
+
+O que unicamente chega lá de fóra, é o chilrar de algum passaro sobre
+alguma cerejeira do adro, o amoroso carpir de alguma rôla na matta de S.
+Sebastião, ou a voz de algum lavrador estimulando os bois perguiçosos no
+trabalho do passal; tudo fragmentos e despertadores das alegrias da
+Natureza, ou dos innocentes e primitivos exercicios da progénie de Adão.
+
+Não sei como isto diga: mas parece-me que assim se casa com mais clara e
+muito mais formosa benção.
+
+ * * * * *
+
+É um dia solemne da vida aquelle, em que duas almas votam a Deus não ser
+mais que uma, fazer de duas vidas uma vida, de dois nomes um só nome,
+como de duas metades distinctas se forma um todo inseparavel.
+
+É um dia, sem duvida, para quem bem o pondéra, solemnissimo, e que, por
+isso mesmo, se deveria por todos os modos pintar com indeléveis e suaves
+tintas na memoria, para que a sua imagem no meio das tentações podesse
+acudir como Santelmo resplandecente no meio das tempestades.
+
+Quem se recordar de que proferiu o seu voto, e escutou com jubilo outro
+egual, onde tudo era pacifico e risonho, onde nenhumas congéries de
+obras humanas encobriam as maravilhas da Mão Divina, onde com o sol
+entravam sombras de arvores, e descantes de aves livres, e fragrancias
+naturaes com as virações, quem, repito, de tudo isto se recordar,
+ha-de-lhe parecer que Deus percebeu melhor as suas palavras; ha-de
+alguma vez devanear em si (mas que o não diga) que bem poderia ser que
+alguns Anjos estivessem ali, em tão donoso tabernáculo, a bafejar a
+prisão de seda e oiro, que para sempre unia o homem e a mulher...
+
+ * * * * *
+
+Desde que saem da egreja, por baixo de um repique de sinos alvoroçados,
+e por entre os parabens e vivas dos assistentes, encontram, começando
+logo no adro, de praso a praso, por toda a extensão do caminho até á
+casa, arcos, engenhados á pressa, de loiro, ramos de pinheiro, oliveira,
+roble, canas verdes, e quantas hervas e plantas bravas menos espinhosas
+ou mais floridas brota o monte.
+
+Ao-pé de cada arco, sobre um tamborete coberto com a sua toalha, e
+ladeado de duas cadeiras para a heroina e heroe da festa, estão, postos
+de antemão pelos muchachinhos que formam a primeira frente do préstito
+triumphal, um prato de bolos, e frutos verdes ou sêccos para quem os
+quizer tomar; outro vazio, para a gratificação voluntaria, que ninguem
+deixa de lhe lançar.
+
+Entre estes arcos alguns ha, de maior pompa, e industria mais esmerada;
+foram esses prevenidos pelos padrinhos, ou pelas proprias familias de
+seus afilhados. Nos primeiros rescendem sobre urna meza dois ramalhetes
+naturaes, que enchem uma salva ou prato grande, e que os mesmos
+padrinhos offerecem, com palavras de sincero affecto o mais bem
+concertadas que podem, um á moça, outro ao mancebo; os quaes, logo a
+diante, de ordinario entre si os trocam; e junto á salva dos ramalhetes
+se vê um abundante refresco de bebida e comida para todo o
+acompanhamento, sendo o acepipe obrigado ás filhós de mel.
+
+Em cada uma d'estas _estações_ chove de todas as partes a saraivada dos
+confeitos; bebe-se á saúde dos «bem empregados» e «de quem d'ahi a nove
+mezes ha-de vir.»
+
+ * * * * *
+
+O jantar d'este dia é copioso e demorado, com tantos convivas quantos
+admitte a sala; e as portas abertas; e os copos e as boas vontades
+prestes para quem se quizer apresentar.
+
+Entre a madrinha e o padrinho ficam assentados, na cabeceira da meza, e
+o mais proximo que se pode, o desposado e a desposada. Primeiro disse «o
+desposado» (contra a regra do nosso falar galanteador), porque o logar
+da direita se lhe dá a elle. A dignidade varonil em nenhum lance esquece
+entre aquellas gentes primitivas.
+
+N'um d'estes banquetes, a que assisti, comiam ambos no mesmo prato, e
+com um só talher, e bebiam pelo mesmo copo; o que, não obstante fazer
+durar a refeição dobrado tempo, não deixava de ter graça pelo seu
+bonissimo sentido, que não podia ser outro senão representar a
+communidade e harmonia intima, em que esperavam e professavam de viver.
+
+ * * * * *
+
+Á noite ha saráu rasgado, com concerto de violas, rabecas, e ferrinhos,
+dando se a rôdo comer e beber aos tangedores.
+
+Em quanto dançam, algumas moças donzellas se furtam subtilmente á
+companhia, para irem enfeitar de flores o leito nupcial, desfolhar entre
+os lençoes rosas de cheiro (se a estação as dá), e guarnecer a roca e
+fuzo symbolicos de amores perfeitos.
+
+Tudo isto vai ligeiro; e quando o gallo, unico relogio da terra, grita
+da quinta que é meia-noite, ha já muito que os obsequiadores bondosos
+teem deixado a casa em socego e liberdade. Horas de calmaria de certo
+suavissimas, apóz um dia todo por fora e por dentro tão festejado e tão
+revôlto.....
+
+
+XV
+
+O nascer de cada filho é uma festa.
+
+Como teem robusta fé na Providencia, crêem (e mostra a experiencia que
+se não enganam), crêem e repetem, que filhos ainda em casa pobre são
+riqueza; que por taes penhores se obriga Deus, que é o Pae commum, a
+lhes acudir com mais larga mão; e que a meza, por ter mais Anjinhos ao
+pé de si, se não ha-de fazer mais escaça, se não medrar á proporção de
+tão bons hóspedes.
+
+E em verdade: se a descendencia nas cidades é tantas vezes um onus, um
+sorvedoiro, e um terror; se tão commummente se ouvem mães e paes
+deploral-a como castigo e praga; lá na serra, onde ha trabalho
+proporcionado a cada edade, lá na serra, onde, como em enxame bem
+regido, todos os consumidores são productores; lá, onde só são
+necessidades as necessidades, e onde, em fim, os paes são os mestres, o
+exemplo lição, a laboriosidade e sobriedade herança; ninguem se
+atormenta sorteando na phantasia empregos ou futuros novos para a sua
+progénie. Lá os filhos são rebentões, que alegram, remoçam, e espécarão
+a seu tempo a velhice decadente de quem lhes deu o ser, seiba, e sombra.
+
+ * * * * *
+
+Vinda a lume a creanca, entre um côro de mulheres experimentadas em taes
+lances, que supprem a falta de parteiras e doutores, tem-se já prompta a
+canastra que lhe ha-de servir de berço.
+
+Por todos os oito dias e noites que precedem ao Baptismo, é
+escrupulosamente velada, para que não venham bruxas malfazejas a
+chuchal-a. Para esse fim se mantém de sol a sol candeia bem experta; e
+ao clarão d'ella, com os olhos fitos no innocente, e quasi sempre em pé
+para que as não tome o somno, se revezam a uma e uma, fiando na roca, as
+amigas da casa.
+
+Algumas sabem versos muitos bons contra maleficios, que vão entoando com
+a sua cantilena propria, em quanto com a ponta do pé embalam brandamente
+o bercinho. Algumas folhas de oliveira ou palma, que figuraram no altar
+em Domingo de Ramos, queimadas n'esta occasião, diz-se que tambem provam
+muito bem, assim como seus borrifos de agua benta pelas portas e
+janellas.
+
+ * * * * *
+
+Não sei eu, se todos acham n'estas reliquias vivas de romanas crenças a
+graça, a fragrancia poetica, o saudoso de innocente boa-fé, que lhes eu
+sinto.
+
+¡Cuidar que ainda agora as mulherinhas de uma serra nossa, e tão
+christan como ella é, praticam o mesmo que os legionários romanos
+provavelmente ensinaram a nossas avós ha mil annos, e mais, pelo terem
+visto fazer nas aldeias da sua terra a suas mães e mulheres! ¡Cuidar que
+estamos vendo, com pequena degeneração, o que o mais rico poeta da
+Antiguidade se deliciou em cantar das crenças da sua gente! E se não,
+oiçâmol-o, e julgareis:
+
+
+ Negreja ao réz do Tibre annoso Helerno,
+santo bosque, onde levam sacrificios
+inda agora os Pontífices romanos.
+
+ Ali nasceu outr'ora, ali vivia
+a que nossos avós chamavam Grane,
+casta Nympha, de excelsos pretensores
+pedida vezes mil e em vão pedida.
+Era seu exercicio errar nos campos,
+as feras perseguir com dardo agudo,
+e as redes emboscar nos fundos valles.
+Inda que aljava ao lado não trouxesse,
+criam-n-a irman de Phebo; o parentesco
+não poderia, ó Phebo, envergonhar-te.
+
+ Quando algum namorado a requestava,
+tinha prompta a resposta.--«Aqui,--dizia--
+ha nímia luz, e a luz dobra a vergonha...
+Se preferes entrar n'aquella gruta,
+sigo-te.»--Á gruta o crédulo voava;
+ella torcia o passo, ia á carreira
+das moitas na espessura homisiar-se;
+d'ali desencantal-a era impossivel.
+
+ Viu-a Jano, e de a ver ficou perdido;
+combateu lhe o rigor com brandos rogos,
+e a sólita resposta obteve em prémio:
+que entrasse além na gruta. Obedeceu-lhe;
+segue-o a principio a Nympha... eis pára... eis foge.
+O que lhe fica apóz vê Jano. Ó louca,
+no usado esconderijo em vão confias;
+olha como t'o observa, e t'o devassa.
+Não ha que resistir-lhe... eis-te em seus braços;
+eil-o comtigo a sós na cava penha,
+onde havias buscado o teu refugio.
+
+ Saciados os sôffregos desejos,
+--«Em paga d'este goso--exclama o Nume--
+dos quícios a tutella eu te confio;
+pela honra perdida esta conserva.»
+Assim falando, candida varinha
+lhe entrega, com que os tétricos asares
+das protegidas portas afugente.
+
+ Existem de brutal voracidade
+umas infames aves; não já essas
+que de Phineu a meza espoliavam,
+mas da mesma relé: cabeça grande,
+fito olhar, bico audaz, grizalhas plumas,
+garra adunca; esvoaçam pela noite;
+onde encontram creança ao desamparo,
+que a ama deixou só, prestes a empólgam,
+arrancam-n-a do berço, e a dilaceram.
+Diz que as lactentes vísceras co'os róstros
+lhes picam, lhes devoram; teem as fauces
+sempre repletas de sorvido sangue.
+Do _estridor_ com que as trevas alvorótam,
+lhes vem o nome: _estriges_ se nomeiam.
+
+ Estas pois, quer de si nascessem aves,
+quer em aves, de velhas que antes foram,
+fatal conjuro marso as encantasse,
+penetraram de Proca no aposento.
+
+ Com cinco soes de edade, o innocentinho
+era ao bando ferino egregio pasto.
+Já co'as gulosas linguas ferem, sugam
+o tenro peito nu; sôam do infante
+os consternados trémulos vagidos,
+com que, á falta de voz, auxilio pede.
+
+ Corre a ama assustada; acha nas faces
+do caro alumno seu lavado em sangue
+das brutas garras os crueis vestigios.
+¿Que fará? vê-lhe o rosto exangue, murcho,
+que na côr arremeda as tardas folhas
+já do rígido inverno bafejadas.
+
+ Corre a Grane; o successo lhe relata.
+--«Cobra valor--a Nympha lhe responde;--
+viverá teu alumno.»
+ Entrada ao berço,
+acha a mãe, acha o pae, sôltos em pranto.
+
+ --«Eis-me; enxugae as lágrimas--exclama;--
+vou tornar-vol-o são.» Diz, e tres vezes
+de medronheiro com frondosa vara
+fere da estancia as portas; outras tantas
+co'a mesma vara o limiar sinála;
+rega o ádito; as aguas com que o rega
+encerram salutifera mistura.
+Entranhas cruas de bimestre porca
+toma nas mãos, e diz:
+ --«Aves da noite,
+í-vos, deixae as puerís entranhas.
+N'esta pequena victima tenrinha
+o tenro pequenino aqui resgato;
+é coração por coração; tomae-o;
+por visceras são visceras; redima
+esta existencia immunda outra mais nobre.»
+
+ Finda a sacra oblação, corta o deventre,
+e esmiunçado o vai pôr aos ares livres,
+prohibindo do rito ás testemunhas
+olhal-a então ninguem; por fim colloca
+a vara de oxiacanta, o don de Jano,
+na janellinha que dá luz ao quarto.
+
+ Consta que desde então não mais volveram
+ao berço aves ruins; saude, cores,
+tudo refloresceu no innocentinho.[3]
+
+
+ * * * * *
+
+O padrinho presenteia a comadre no dia do Baptisado com dois côvados de
+baêta encarnada ou verde, vinho, assucar, arroz, um cabrito, ou peixe,
+conforme o dia em que acerta. A madrinha dá um vestido, duas camisas, e
+uma touca. Cada um dos convidados, um pichel de vinho, segundo o seu
+brio.
+
+Este dia é quasi tão festivo como o do casamento, pois n'elle se cumpre
+a benção que no primeiro dia se recebêra, e está salvo o interessante
+pimpôlho para a outra e para esta vida; sendo averiguado, que as bruxas
+nada querem com sangue a que a agua e o sal tiraram o saibo do peccado.
+
+
+XVI
+
+Além d'estas duas festas, domesticas e privadas, casamento e baptisado,
+cada povoação celébra a sua, pública, no dia do Orago da sua capella.
+Tem fogo do ar e salva de morteiros á Missa cantada; banqueteiam-se uns
+aos outros; e, se o anno correu próspero, e as posses o consentem, andam
+já desde a vespera á tarde pelo adro, viellas, e azinhagas, a gaita e o
+tambor, e despovôa-se a visinhança com o chamariz do fogo de vistas
+nomeado de _armação_, ou _parreira_.
+
+Por esta occasião, nas casas principaes, isto é, nas menos apertadas,
+saltam-se até a meia-noite as danças, pela mór parte cantadas, do bom
+Portugal velho; danças, das quaes, para fóra d'aquelle vivente archivo
+de antiguidades, nem já, quasi, os nomes se conservam. São o _caracol_,
+o _Senhor da serra_, o _lundú_, ou _landum_, o _escalhabardo_, a
+_ribaldeira_, o _Francisco bandalho_, etc.
+
+A excitação do saltar, a virtude inspiradora do vinho verde, e um
+poucochinho o natural desejo de brilhar diante das raparigas e dos
+rapazes, fazem ás vezes com que ahi appareçam, como nas romarias, como
+nos serões dos lagares, escamisadas de milho, e outros ajuntamentos de
+gosto, poetas e poetisas que trovam de repente, e á porfia, por espaço
+de horas, ao som da flauta de canna, ou da viola.
+
+ * * * * *
+
+Por de mais seria querer dar ideia de taes improvisos.
+
+Os cantores, quer sejam homem e mulher, quer homem e homem, estão em pé,
+um diante do outro, no meio da roda dos ouvintes. A toada de que se
+ambos servem, é sempre das mais populares, e vai toda remançada, para
+que as ideias e rimas tenham lazer de acudir. Ás vezes, por desgarre ou
+desfastio, se deixa degenerar de cantoria n'uma especie de declamação
+accentuada.
+
+O seu verso é o de sete syllabas; o seu periodo, quatro versos,
+correspondendo-se o segundo e o quarto com toantes ou consoantes; isto
+é: usam das quadras correntes em todo o Reino.
+
+Alternam-se de quadra em quadra, ou de duas em duas quadras, conforme
+lhes convém.
+
+Principiam (é obrigado) por uma especie de elogio, ou vénia, ao dono da
+casa, se é em casa que se tem o descante, ou aos assistentes, se é em
+terreiro. Passam logo a tratar do objecto da festa, ou dos seus proprios
+amores; e d'ahi, muitas vezes sem transição, saltam para um genero entre
+elles muito saboroso, que se poderá chamar o «rustico fescenino», se, de
+envôlta com as chufas salgadas, fossem tambem como entre os Antigos, os
+dizeres e entenderes licenciosos. Um ao outro se empulham e desempulham,
+como os dois pastores virgilianos, com surriadas de impropérios sempre
+ao galarim, sem que o fogo das palavras prenda nunca nos corações. Com a
+mesma feição com que dizem, com a mesma ouvem; e tão avindos saem da
+contenda, como n'ella entraram.
+
+Um primor d'este chancear consiste em tomar cada um, para urdimento da
+sua trova, o verso, phrase, ou palavra final, da do seu adversario, por
+mostrarem assim que não vinham aparelhados para o duello, e que tudo
+quanto esgrimem lhes acudiu, extemporaneo.
+
+ * * * * *
+
+Uma coisa faz extranheza a quem assiste pela primeira vez a taes
+porfias, e em geral a todo o cantar aldeão; e é: que a primeira metade
+de cada quadra tem frequentemente um sentido diverso, e desconnexo do
+sentido da segunda metade.
+
+Os primeiros dois versos conteem uma sentença geral, uma verdade vulgar,
+uma imagem campestre, a exposição succinta de qualquer facto, mas sem
+relação alguma com o assumpto que se versa, o qual só nos dois versos
+ultimos apparece.
+
+Vão exemplos, visto não estar em academia, mas em pratica de amigos com
+meus leitores:
+
+
+O loireiro bate bate,
+que eu bem o sinto bater.
+Para comigo cantares
+has-de tornar a nascer.
+
+Á couve se come a folha;
+come-se a raiz ao nabo.
+Só te espero ver casado
+sendo mulher o diabo.
+
+Navio d'el-Rei é grande,
+é grande e chega ao Brazil.
+Se namorares alguma,
+não seja á luz do candil.
+
+Sequidão cria o centeio,
+frescura cria os repolhos.
+¡Quem me estreára comtigo,
+menina, os lençoes de folhos!
+
+
+Já se vê, por estas amostras, que a improvisação não é tão difficil
+coisa, nem para tantos encarecimentos, como a teem feito alguns
+viajantes, d'estes que só viajam no seu quarto, embarcados na sua
+poltrona.
+
+É por cá o mesmo, que provavelmente será por toda a parte, sem exceptuar
+a Italia, com que tanta bulha se nos faz.
+
+
+_Al porto di Livorno
+è giunto un bastimento.
+Cara, morir mi sento!
+mi sento, o Dio, mancar!_
+
+
+
+XVII
+
+Muito, porém, se enganára, quem inferisse que toda a poesia dos meus
+serranos é de egual teor; porque, sobre conservarem muita xácara de bons
+tempos, com as suas lacrimosas cantilenas tão singelas, tão simplices e
+aprasiveis como ellas (o que já não seria pequeno cabedal), cantam, e ás
+vezes engenham com singular felicidade, quadras repassadas de amoroso
+affecto e graça natural, que um poeta de nome não enjeitaria.
+
+E ¿que muito? ¿Por que não haviam de nascer estros por ali, onde ha
+tanta Natureza, tantos sitios inspirativos, tão bons ocios na solidão,
+tantos amores (¡e amores tão bem empregados!), e tão largos horizontes
+para a saudade!
+
+¿Por que não haviam elles de nascer, quando até pelas nossas
+encruzilhadas mal cheirosas e escuras, pelos nossos botequins fumosos e
+azoinados, pelas casas d'essas ruas feias, onde olhos e ouvidos se
+perdem e afogam em prosidade vil, rebentam, viçam, e não raro florejam,
+talentos de estimação e de valia?
+
+Mas a cada qual a sua boa dita, e o seu fadario: aos das cidades, muitas
+coisas lhes empecem (não falando no desamor que os esfria, e nas parvoas
+invejas que os matam); aos montanhezes, afóra a Natureza, que lhes
+abunda, tudo mais lhe mingúa. São poetas, sem adivinharem que ha poesia,
+como de Hesíodo se conta, a quem, sendo humilde pastor, appareceram as
+Musas, não invocadas, para o bemfadarem.
+
+ * * * * *
+
+¡Oh! ¡Que de Hesíodos se não esperdiçam, e, por falta de um prodigio que
+os desencante, fenecem desconhecidos ao mundo, e a si mesmos!
+
+......................................................................
+
+De uma pobre mocinha ovelheira posso eu dizer; que por tardes de verão
+muita vez a ouvi sem que me ella visse; eu reclinado nos degraus da
+capella de S. Sebastião; ella ali perto, cantando e fiando em pé á
+sombra de um sobreiro, no meio dos balidos do seu fato; ella e eu, como
+bem se pode crer, ¡enfeitiçados com a placidez de tão livres horas em
+logares tão fugidos, tão sobranceiros ao mundo todo!
+
+De amores eram os seus versos, e amorosa a sua fala. Brotavam-lhe todos
+corados, não da memoria se não do espirito; e o espirito d'ella,
+estava-se conhecendo que lhe residia no coração, tão bem, tão bem, tanto
+a seu grado, como em estufa bem quente uma planta mimosa, que um ameaço
+de frio mataria.
+
+Não sabia ler; raro teria visto a quem o soubesse. Nunca ouvira de obras
+de poesia senão as cantigas da sua terra, o murmurinho dos seus rios; de
+madrugada a cotovia perdida pelos altos do ceo; ao meio-dia as porfias
+das cigarras; ao descahir da tarde o badalar longinquo das Ave-Marias;
+ao cerrar da noite o regosijo da aldeia, que torna a ajuntar os seus
+moradores, os seus rebanhos, os seus carros, as suas creanças, os seus
+rafeiros, toda a sua orchestra tão bem temperada para a alma; de noite
+os grilos e o rouxinol; e em sonhos... a fala talvez do seu namorado.
+
+Por aqui se resumia a sua bibliotheca; e comtudo, não ha encarecer o que
+ella improvisava para as suas ovelhas, que a não entendiam; para mim,
+que me occultava com mil cuidados para não afugentar tão melodiosa ave;
+e para o ecco, para o ecco sobretudo, unica voz que podia levantar-se
+ao-pé da sua.
+
+Era a inspiração lyrica mais formosa, se não a mais remontada. Eram os
+objectos do seu limitado universo a mirarem-se na limpidez dos seus
+affectos, virginaes e namorados ao mesmo tempo. Eram as palavras
+destillando-se cada uma da sua ideia com a propria côr, com a propria
+fragrancia que lhe competia. Era o metro a correr, sem quebra nem
+extravasamento, a flux, sereno, sonoroso como a fonte do passal. Eram as
+rimas a vir poisar espontaneas, faceis, afinadas, uma de fronte da
+outra, como em dois arbustos diversos no mesmo valle se respondem dois
+passaros gorgeando. Era tudo, emfim, quanto a Arte requer, e só a
+Natureza pode dar aos seus mimosos
+
+......................................................................
+
+¡Pobre mocinha! ¡Dezasseis primaveras!... Até já as suas ovelhas se
+esqueceriam d'ella. Dissipou-se como um sonho de poesia. Não deixou mais
+vestigios sobre a terra, do que aos eccos haviam deixado os seus poemas.
+Se ainda canta... já não é a terra quem a ouve. Remontou o vôo muito
+mais alto que o da cotovia sua mestra; engolfou-se por entre as
+scismadoras estrellas, que tantas coisas em segredo lhe ensinavam; e
+virgem entre os Anjos, irman entre seus irmãos, entretece a sua voz
+immortal no cantico sem limite
+
+......................................................................
+
+
+XVIII
+
+Com a Poesia da montanha, releva fazer tambem menção da sua Musica.
+
+É esta quasi toda antiga; antiquissima podéramos dizer de muita; e
+conserva puro e extréme o primitivo sabor. Condiz com a Linguagem, com o
+trajar, com os costumes; seria excellente oráculo para consultarem os
+modernos compositores de operas nacionaes. Assim se temperariam para os
+nossos ouvidos, os quaes, posto que affeitos de annos para cá a
+peregrinas melodias de muito mais altos quilates, ainda comtudo se
+ageitam e conchegam melhor com as toadas sentidas e singelas da nossa
+creação.
+
+Nas boas horas fique a musica italiana, pois que entrou, e nos cahiu, e
+o merece; mas, porque bizarros agazalhamos a digna hóspeda, não se diga
+que aposentámos nos sótãos a parenta velha, bondosa, e amiga, por trazer
+vasquinha e falar chão.
+
+Rossinem, Bellinem, e Donizettem quanto quizerem; façam-n-o até (se já
+não pode ser por menos), façam-n-o a frouxo e a granel por essas
+comedias e farças, em que fala gente do nosso sangue e dos nossos nomes.
+Mas uma vez ou outra (_al de menos por cortezia_, como dizem os meus
+serranos), deixem-nos ouvir em boccas patricias coisa que nos alembre
+das cantilenas de nossas amas, cantilenas que, ainda depois de apagadas
+da memoria, lá se ficam algures no coração, com quanto basta de vida
+para ressurgirem ao primeiro aceno.
+
+Ponha-nos alguem degradados em terra extranha, entre mil arvores e
+arbustos exóticos da mais admiravel louçania; mostre-nos lá,
+emboscadinho na herva, o malmequer da nossa primeira adolescencia, a
+papoila retinta, que nos ria d'entre o verde da seára, quando meninos; a
+papoila e o malmequer muito mais nos hão-de conversar com o coração um
+só minuto, que todas ess'outras flores mais soberbas em toda uma
+primavera.
+
+Se é vergonha... seja; curtil-a-hei; mas sempre digo que muita vez
+n'esses theatros, por ahi, me estão lembrando com saudades os descantes
+da serra.
+
+Uma ária opulenta, refeita de sciencia, espinhada de difficuldades, a
+dominar o temporal desfeito da orchestra que se lhe revolve aos pés, a
+sumir os seus píncaros florídos e trémulos pelas nuvens, admiro-a,
+applaudo-a, e esqueço-a. Abalou-me tudo, a fora o coração.
+
+Porém certas cantigas que eu sei... não as applaudi, não as admirei
+quando as ouvi, mas senti-as repassar-me até ás fibras intimas;
+assimilaram-se-me com os humores; converteram-se-me para logo em
+substancia propria; ficaram-se-me cantando per si, sem voz, no meio do
+silencio.
+
+Eram faceis e pobres; seriam; mas eram do meu Portugal, dos meus ares,
+da minha terra. Conheciam-me, e conhecia-as eu, ainda antes de as ter
+encontrado.
+
+E tambem, ¡que melodiosas, que engraçadas não são algumas, até para
+orelhas forasteiras, quanto mais para as do seu molde!
+
+ * * * * *
+
+¡Oh! ¡se a penna fôra varinha de condão! ¡Se, em vez de vos falar do que
+por vocábulos se não exprime, podesse apresentar-vos lá de subito, a
+beberdes com aquelles ares bonissimos aquellas cantorias agrestes, sem
+cultura, sem enxerto, luxuriantes de natureza, macias, avelludadas,
+rescendendo a amor e contentamento!
+
+Comigo ficáreis todos, que eram minas, as quaes, lavradas por mãos
+perítas, nos podiam abastar de muito oiro, que a Arte, batendo-o e
+cunhando-o a seu modo, poria em facil giro com geral proveito.
+
+O Musico portuguez de alma, que se fosse vagabundo por essas solidões,
+edificaria como Amphião novas Thebas, attrahindo e congregando com a sua
+lyra penedias e florestas.
+
+¿Mover-se-ha algum a tental-o? moverá a final. Mas por ora, o
+thermómetro do patriotismo assignala graus para baixo de zero.
+
+Para a Poesia nacional antiga e popular já alguns olhos se teem voltado;
+e viu-se o proveito. Na Musica ha de ser o mesmo, querendo Deus; ¿mas
+quando? sabe-o Elle.
+
+Dos que por ahi a professam, nenhum dá visos de querer levantar-se.
+Fizera-o eu, se tivera a sciencia, o engenho, o fogo, que se admiram em
+alguns d'elles. ¡Oh que o fizera! e com bem pequeno custo, bem farta
+corôa grangeára.
+
+¿Que digo «custo»? ¿Onde ha ahi delicia como é o viajar caçador de
+Artes, por toda a parte bem vindo, banquetear-se á farta com
+agradecimento dos que o regalam, e deixar saudades e fama em desconto
+dos thesoiros que se tomam?
+
+ * * * * *
+
+Uma qualidade que eu notei muito notada no cantar frequente pelos meus
+espaçosos ermos, e que lhe dava uma particular feição de melancolia mui
+suave, era a extensão das notas, o prolongamento, sobretudo, das finaes
+a perder de fôlego. É donosa coisa; mórmente pela noite, e ao longe...
+
+A explicação d'esta singular maneira deve ser, segundo me parece, o
+costume de cantarem muitas vezes a sós por lombas descampadas e cumes de
+oiteiros, d'onde a voz tem de correr, e correr, primeiro que tope com
+ouvido em que se hospéde. Outras vezes é ao-pé de estrépito de aguas,
+que a afogariam a lhe faltar perseverança. Outras, em paragens de eccos,
+nas quaes uma fala aprasivel folga de se estar a si mesma namorando.
+
+ * * * * *
+
+De cabeço para cabeço, bem arredados um do outro por estirado valle,
+ouvi eu muita vez estarem duas guardadoras conversando por cantoria; e,
+graças a este methodo de irem fiando cada syllaba... comprida...
+comprida... entendiam-se (podendo apenas enxergar-se), como se estiveram
+assentadas mão por mão, e muito manas, á soalheira no seu aido.
+
+Sustentam-se estas entoadas conversações, em prosa inteiramente desatada
+de rithmo, e não obstante rimada, rimada por um modo tão insólito como
+facil.
+
+Exemplo:
+
+¿Quer uma convidar a outra? dir-lhe-ha:
+
+
+--Ó ia, eu te digo ó Maria,
+Ó iga, que se tu és minha amiga,
+Ó á, botes as cabras para cá,
+Ó enda para me ajudares a comer a merenda,
+Ó eijo, que tenho aqui brôa e queijo,
+Ó ôas, e umas maçans muito bôas.
+
+
+E remata-se com um repenicado, que serve de ponto final, com que a outra
+interlocutora fica advertida, de que pode tomar a mão no colloquio por
+ter chegado a sua vez.
+
+
+XIX
+
+Mas assaz e de sobejo nos temos demorado sobre a Poesia e Musica.
+Retomemos o fio que traziamos, que eram as festas.
+
+ * * * * *
+
+As geraes mais notaveis (pois até agora só vimos as de cada familia e as
+de cada aldeia) são: o Anno-bom, o Carnaval, a Paschoa, Maio, S. João, e
+o Natal.
+
+ * * * * *
+
+O Anno-bom não é ao presente senão um rebate para comesaina rasgada, e
+se deitar uma can fora.
+
+As pagans Janeiras, que ainda alguns se lembram de ter cantado, já lá
+vão.
+
+Consistiam (archivemos, archivemos, pois que até as serras ao cabo se
+desmemoríam) consistiam em sahirem, logo ao romper do primeiro sol do
+anno os cachopinhos de cada povoação, todos em bando, o mais bem
+arreados que podiam, com suas sacólas, ou alcôfas, ás costas, a cantarem
+de porta em porta, e, percorrido o logar, de aldeia em aldeia, até se
+lhes acabar o dia, umas trovas de parabens e boa estreia, atuchadas de
+campanudos louvores á bizarria do pae ou mãe de familias, e desfechando
+sempre em requerer alguma chouriça, gallinha, ou pão branco, para a
+ajuda do _refestêllo_; contribuição com força de Lei, mas de que todos
+se desempenhavam á boa-mente.
+
+ * * * * *
+
+O Carnaval, é como ainda nós por aqui o conhecemos nos seus dias aureos,
+tríduo de folia desatada, guerra porfiada e bem rida de todos contra
+cada um, e de cada um contra todos.
+
+São as pulhas, as peças, os esguichos, os pós, a laranja
+
+
+ .....que derruba o chapeo,
+
+
+de que o bom Filinto com tanta saudade se lembrava lá em París, o
+rabo-leva de tripas entufadas, a mão de ferrugem da chaminé com azeite
+pelos fucinhos, as estôpas apegadas ás costas e incendidas, o vinho com
+sal, as filhós com trapos, e todos os mais adminiculos, que no ritual
+classico se conteem.
+
+Por qualquer parte que então se caminhe, ainda que se não veja povoa nem
+viva alma, duas coisas se hão-de ouvir infallivelmente: uma é rir e
+apupar; toda a serra parece estar florejando gargalhadas; a outra são
+descargas de espingardaria. Ninguem tem caçadeira velha em termos de dar
+fogo, que não saia com ella a salvar.
+
+N'esta occasião (não sei por quê) o rio de S. Mamede parece marcar
+fronteira entre duas nações inimigas; a metade cíterior, e a metade
+ulterior da freguesia, formam dois exercitos, que, disposto cada um na
+sua banda pelos altos mais patentes e convisinhos aos seus adversarios,
+para lá lhe atira por cima da torrente, sem folga nem misericordia,
+turbilhões de chascos, de apupos, de rugidos de buzinas, de buxas
+accezas, e fumarada. Estremece a terra sob os pés; retumbam pelo ouco
+dos valles, pelas refolhadas e sinuosas lapas das ribanceiras, os
+rolantes trovões centuplicados...
+
+O Entrudo ébrio, que vai, titubante cavalleiro em derreado asninho,
+visitando as povoações, com barbas brancas em faces avinhadas, e canna
+em punho para se abordoar, facil, prasenteiro, com séquito de rapazía a
+abuzinar, e de mascarados saltões, satyricos, e brutescos, bem poderá
+ser o próprio Sileno das bacchanaes, metamorphoseado pelo tempo,
+constante parodiador das suas mesmas obras, pois não é necessaria grande
+perspicácia para reconhecer como, n'uma boa entrudada, se conciliaram
+diversas reliquias herdadas do paganismo: por fundo, as saturnaes; por
+embutidos e matiz, as bacchanaes, as floraes, e quejandas (o numero era
+folgado).
+
+As pastoras, que não podem deixar por tres dias o gado nos redís e
+apriscos, para se estarem regalando ao banquete da familia, teem um
+Carnaval particular, um Carnaval nómada e silvestre, cosinhado e comido
+ao ar livre, e a que ellas chamam «o seu gôrdo».
+
+O _gôrdo_, para o qual de tempos se andam aparelhando, é feito por
+varias d'ellas em commum, convidadas e admittidas outras amigas, e
+algumas vezes tambem alguns moços seus parentes.
+
+Sem o ser de nenhuma d'ellas, consegui eu assistir a um gôrdo; e ainda
+agora me está sabendo.
+
+Estava um dia Real. A sala do festim era n'uma gruta, ou amplo recesso
+de penedia, com uma alpendrada de arbustos silvestres, e um vestíbulo de
+areia parda e fina, á borda da agua.
+
+
+ Nympharum domus.....
+
+
+não lhes faltando os competentes
+
+
+ .....vivo sedilia saxo.
+
+
+O matto deu a lenha para a cosinha; o rio deu a agua; os vasos e os
+comestiveis, traziam-n-os ellas, e por mustarda e salsas a sua alegria
+folgasan, a lida, e as cantigas. Nada faltou; nem o arroz doce, de leite
+recem-mugido.
+
+Terminaram com uma dança no areal, por não haver melhor, e debandaram,
+cada uma atraz do seu gado, quando já lá por cima branquejavam
+estrellas. A fogueira serviçal lá ficou sosinha, remirando-se ainda na
+corrente soturna, e olhando com saudades a quem d'ella egualmente as
+levaria.
+
+Innocentes leviandades são todas estas, e, mais ou menos, parecidas com
+o que por toda a parte vai n'esse praso do anno. Mas, travada com ellas,
+uma usança ha ali, que só ali ha, e que eu aponto, não só porque me
+ajuda no retrato d'aquella gente optima, se não porque dará luz para se
+entender o poema que a diante vai, com o titulo de _Domingo gordo dos
+montanhezes_.
+
+N'este dia, pois, logo de manhan, acodem á matta de S. Sebastião, que já
+sabeis orla o passal pela banda do poente, todos os moços solteiros da
+freguesia, a plantar cada um um sovereiro, ou carvalho novo; findo o
+quê, e bebida sua malga de uma talha de vinho verde, que já para isso a
+Confraria do mesmo Santo ali lhes tem prevenida, se tornam para suas
+terras a folgar.
+
+Nem o introductor, nem o tempo da introducção d'esta pratica, são já
+hoje conhecidos. É uma tradição piedosa, uma lei moral, sem nenhum
+genero de comminação, mas tão á risca obedecida, como se as tivera.
+
+É, mormente em tal dia, e para gente em flor de annos, um bello exemplo
+de desinteresse; pois na plantação quem só ganha é a selva, que se
+dilata, e o Santo, a quem se engrossam os rendimentos.
+
+Se de S. Gonçalo ou Santo Antonio fôra a capellinha, ou de algum outro
+Bemaventurado, com fama de boa-mão para casamentos, ainda se aventaria
+um motivo pessoal para o obsequio; ¡mas S. Sebastião, que só da peste é
+advogado!...
+
+Seja o que fôr: o amavel instituto persevéra, ¡e oxalá dure sempre! ¡e
+oxalá por muitas partes o imitassem!
+
+ * * * * *
+
+Para que a Paschoa dos montanhezes deixe a perder de vista a de nós
+outros, bastam duas considerações: a d'elles é festa do espirito, e mais
+do corpo; a nossa nem do corpo o é, nem do espirito.
+
+Digo que é do espirito a sua, porque a Fé viva lhes faz estar vendo
+ressurgido do sepulcro o Divino Amigo da especie humana; e do corpo
+tambem, porque o brodio paschal, opíparo, rescendente, de viandas
+succulentas e escolhidas, lhes dá mate á longa e bem jejuada quarentena.
+
+Move suavemente os corações acompanhar a procissão, que da egreja sai
+depois da Missa cantada, com os seus cirios accezos, cantando as
+aleluias, atravessa o amplo adro alcatifado de bordada relva, sombreado
+das suas cerejeiras já revestidas, atravessa o passal por entre as alas
+das pacificas oliveiras, vai pela matta de S. Sebastião, e se espairece
+ao longe, como uma piedosa exultação, por entre os mattos
+rejuvenescentes.
+
+O aroma do incenso ama casar-se com a fragrancia agreste das moitas. As
+arvores figuram ensoberbecer-se de estender o seu pallio verde recamado
+de sol por cima do Filho de David. Cada hervinha pôz por fora todas suas
+galas para ver passar o seu Creador. Como elle, toda a Natureza parece
+ressuscitada, vivaz, e gloriosa. Os passaros lhe entôam canticos, como
+os homens, as mulheres, e as creanças. A aleluia ressôa em toda a parte;
+lagrimas involuntarias aljofram todos os rostos; em todos os corações
+ferve o amor de Deus, o amor da Natureza, e o amor mutuo.
+
+¡Oh! ¡que bem que se chegam ali a entender os arroubados requebros do
+Esposo e da Esposa dos Cantares! ¡Oh! ¡que permutar de boas-festas! Mal
+o presumem, os que todas as cifram em cinco ou seis letras gothicas n'um
+cartão alvibrunido, com uma das quatro pontas bem dobrada.
+
+Recolhida a procissão, tornam-se todos correndo a suas casas, a acabar
+de as pôr prestes para a proxima visita do seu Parocho. Atapetam-se de
+ramos os pavimentos; guarnecem-se as mezas com as melhores baixellas;
+crepíta o lume na cosinha revôlta; idéia-se um simulacro de altar, ou se
+enroupa uma cama de lavado para aposentar o Santo Christo, emquanto o
+senhor Prior, com a sua pequena comitiva, lhes der o gosto de provar
+(quando mais não seja) dos seus guizados e do seu vinho. Ninguem da
+familia falta á porta para receber a aspersão de agua benta, que elle ao
+entrar lhes liberalisa risonho, com as palavras rituaes da benção: «Paz
+a esta casa, e a todos que n'ella moram.»
+
+Tal visitação, que (já se vê) se não conclue no primeiro, nem muitas
+vezes, no segundo dia, paga bem o seu pequeno custo; não pela moeda de
+prata, de meio tostão ou seis vintens, recebida em cada fogo; não pelos
+saccos de folares que se ajuntam; mas pelo muito que assim de novo se
+apertam os vinculos mutuos do Pastor e do rebanho.
+
+ * * * * *
+
+No 1.^o de Maio põem, á entrada das habitações, _maias_, que são ramos
+de sabugueiro e giestas florídas; e nos linhares, rocas com seus fuzos,
+carregadas de linho e enramalhetadas de flores. Com aquillo se fadam a
+terra e a casa: a terra, para que dê linho comprido e sedoso; a casa,
+para que se guarde e mantenha próspera.
+
+¿Quem não vê n'estas maias outra degenerada herança dos nossos antigos
+senhoreadores? No principio de Maio, faziam os Romanos o festejo
+domestico dos seus _Lares_, deuses protectores da poisada, e cujos
+idolos se tinham junto ao fogo da cosinha, ou em nichos por de traz da
+porta principal. Revestiam-n-os de pelle canina; e em monumentos antigos
+se vê ao pé d'estes deuses representado o animal symbolo da fidelidade,
+e guarda nocturno do domicilio, pelo mesmo modo como Ovidio nos seus
+_Fastos_ nol-o descreve. Brindavam-n-os com libações de bom comer e
+beber, e tambem com ramilhetes e grinaldas, já de flores, e já de lan.
+
+Deveu ser entre elles o culto dos Lares o mais querido, pois acreditavam
+que eram os espiritos dos bons mortos da familia, que se compraziam de
+habitar e proteger os logares onde foram vivos, e onde vivia gente do
+seu sangue.
+
+Por isso tambem a pouco e pouco chegaram a dar zeladores divinos do
+mesmo nome a todas quantas coisas lhes requeriam, e mereciam amparadas.
+Vieram Lares _viaes_ (dos caminhos), _compitaes_ (das encruzilhadas),
+_urbanos_ (os padroeiros de cada cidade), _publicos_ (os mantenedores
+dos publicos edificios), _rusticos_ (os custodios do campo), _hostis_
+(os amparadores contra inimigos), _marinhos_ (os guardiães dos navios).
+
+É portanto evidente, que, onde quer que se estabelecesem Romanos, se
+haviam os Lares de estabelecer; e tenho, que nenhuma de suas religiosas
+praticas pegaria melhor, nem mais depressa, entre estrangeiros; e bem
+boa, bem moral que ella era, no meio d'aquelle cahos de poeticissimos
+desatinos e devassidões. Fazia venerar e amar a casa; com a casa, a
+familia; com a familia, os sãos costumes da creação. Ainda por cima,
+fazia resplandecer luzeiros de esperança na cerração das adversidades; o
+que dá coração e brios para as resistir.
+
+Pressupponhâmos como verisimillimo, e certo, que na romana provincia
+Lusitania se veneravam os Lares como na Italia; do que, aliás, podem ser
+documentos, além de outros, o nome de _lareira_, geralmente conservado
+ao lastro da chaminé, e o proprio de _lar_, com que em Traz-os-Montes se
+chama a corrente de ferro, de que pende na cosinha o caldeirão sobre a
+fogueira.
+
+Já cada um inferirá que as _maias_ dos meus serranos, festejo que só á
+casa se refere, coroando-lhes de flores a porta, e lustrando-lhes, como
+quer que seja, o seu linhar (linho por lan), teem, e não podem deixar de
+ter, aquella origem.
+
+Na cola d'esta semi-gentilidade, garrida e innocente, vem o rito
+christão, ainda mais poetico, chamado das Rogações ou Ladainhas de Maio.
+
+Os lavradores seguem, com as cabeças descobertas, e acompanhando em
+chusma as entoadas preces da Egreja, a procissão, que lá se vai,
+humilde, atravez dos campos desatados em flor. Imploram as bençãos do
+Ceo para os trabalhos da agricultura; que insectos damninhos não devorem
+a vinha ou seára; que intempéries do ar e trovejados granizos não
+derribem mortas as benevolas esperanças dos pomares.
+
+ * * * * *
+
+O S. João por larga vespera de semanas se annuncia: cantado de dia pelos
+oiteiros, de noite pelos serões.
+
+Nada ha mais affectivo, que a toada, entre melancolica e leda, com que
+se vão lentamente deduzindo as trovas (sem arte, embora, não sem graça),
+que por ali em louvor do Baptista se exhalaram outr'ora do seio de
+poetas desconhecidos.
+
+A medo me rendo á tentação urgente de as mostrar; que, despojadas da sua
+melodia, desquitadas das vozes tão frescas e juvenís das suas cantoras,
+e nuas dos seus accessorios de silencio e ruido selvatico, de calma e
+sombras em pino de verão, trovas taes aqui mal poderão parecer-se
+comsigo mesmas.
+
+Do que ides ler, ao que eu ouvi, posto não haja differença na
+substancia, vai tanto, como de uma formosa donzella podéra differir o
+seu cadaver.
+
+Sem mais precauções, eis aqui alguns trechos, que no fundo da alma se me
+estão ainda cantando, por entre simulacros de figueiras, que entretecem
+sobreceo verde á fonte crystallina do passal. As syllabas dos metros,
+não as contem; basta que todos elles acertem na cantoria ás mil
+maravilhas. Tão pouco embiquem na confiança, com que umas rusticasinhas
+de roca á cinta tratam o Santo Precursor. São amores velhos; não ha que
+lhes dizer.
+
+
+--¿San-João das barbas doiradas,
+onde foste ter as orvalhadas?
+--Fui as ter áquellas hortas,
+recordar aquellas cachopas.
+
+Recordae, recordae, perguiçosas,
+que da fonte já veem as formosas,
+com as talhas cheias de cravos,
+que lh'os deram os seus namorados,
+com as talhas cheias de flores,
+que lh'as deram os seus amores.
+
+San-João, rico cavalleiro,
+companheiro de Nosso Senhor,
+acompanhae a minha alma
+quando d'este mundo fôr.
+
+--¿Por que tendes, San-João,
+esses sapatinhos brancos?
+--Para passear ás moças
+domingos e dias santos.
+
+--¿D'onde vindes, San-João,
+que assim cheirais á macella?
+--Venho da serra da Estrella,
+de fazer uma capella.
+
+--¿D'onde vindes, San-João,
+pela calma sem chapeo?
+--Venho beber agua fresca,
+que faz calor lá no ceo.
+...................................
+
+
+Basta, basta, que já pressinto ali á esquina os aferidores e malsins da
+Literatura, que, se me tomam, com isto nas mãos, dão comigo do avêsso.
+
+Na vespera do Santo, pela tarde, hasteiam bandeirolas nas fontes. Á
+noite accendem fogueiras, dançam, cantam, namoram, e galhofeiam em de
+redor d'ellas.
+
+Á meia noite, quebram ovos para os expôrem ao sereno, que lhes ha-de
+n'elles estampar a jerogliphica prophecia do seu futuro, e chamuscam as
+hervas e flores, que sabem de constancias e inconstancias.
+
+Vão nadar nos rios, que todos n'esta noite encerram grandes virtudes e
+preservativos; mas especialmente o de S. João do Monte, á conta do seu
+nome bento.
+
+Sobre a madrugada vão lavar seus gados, e á volta colhem ramos
+orvalhados, os quaes, se nas trovoadas os queimam, livram de raio;
+trazidos no seio, defendem de mau olhado; e facilitam os partos,
+apertando-se nas mãos.
+
+A agua da fonte da manhan de S. João é como a primeira que chove em
+Maio: torna o carão formoso.
+
+ * * * * *
+
+Nos Santos, fazem o seu magusto de tarde, no aido ou em campo
+descoberto, não correndo o tempo de invernia. São rebordans a granel,
+entre grande larada de brazido, a estoirarem e a acerejar-se, em quanto
+um farto lombo de cevado rechína e fumega em vergante espeto de pau, a
+pingar n'uma telha ou frigideira.
+
+É dia já de longe apetecido pelos velhos, pelos rapazitos, e pelos
+visinhos menos folgados, que todos então se convidam.
+
+Bebe-se, como requer a quadra, que assaz é já então arripiada. Mas...
+quanto mais se vai o repasto allongando dia em fora para o crepusculo, e
+para a noite, mais se vão pendendo com scismadora tristeza os animos dos
+convivas.
+
+Á fé que lhes não falta por quê. O dia que apóz vem, é o dos finados;
+dia de saudades e receios, de desconforto e arrependimentos, para todos
+quantos, com Fé ou sem ella, possuem um entendimento, e meditam.
+
+¡E que mais meditabundo que as montanhas! ¡E quem mais devaneador e
+recolhido, que homens acostumados a solidão, curtidos nas duras
+realidades da vida, remotos do cortesão bulicio, embotador pessimo de
+toda a sensibilidade!
+
+ * * * * *
+
+Mal soaram as Ave-Marias, começa dobre funebre, que toda a noite não
+quieta.
+
+Pela escuridão pasmada se devolvem, a longe, a longe, até se esvaecerem,
+os tons afflictos, que a nenhuma de tantas poisadas deixam de dizer
+algum segredo de dor, e de encommendar algum suffragio. ¡Oh! ¡se não se
+elevarão elles, e bem ferventes, exhalados pela voz do sangue, pelo
+amor, pela amisade, pela caridade!
+
+Quando tudo jaz, a deshoras, no silencio mais fundo, nenhuma luz
+bruxuleia de nenhuma fresta, e já nenhuns olhos por ventura se
+descerram, acorda a subitas uma sepulcral melodia, que dissereis côro de
+Anjos desterrados e saudosos. Vagarosa se adianta, pelo meio da
+povoação, a supplicar em nome dos penados de alem mundo, que para si não
+podem requerer, esmola de orações, refrigerio para os ardores que lá
+padecem.
+
+Não ha seio tão escudado, que um santo horror o não estremeça; egoismo
+tão empedrenido, que sustenha as lagrimas.
+
+...Até que o solemne pregão transpõe e se esvai; e na calada se torna a
+perceber o dobre longinquo da egreja.
+
+Quanto a mim, confesso que nunca ouvi coisa, que assim me abalasse o
+interior.
+
+Estes devotos cantores, que ninguem vê, mas que vão de aldeia em aldeia
+_amentando_ as almas, arrastavam d'antes grilhões aos pés, o que ainda
+augmentava o pavor do seu pregão.
+
+Com grilhões ou sem elles, ¿despertadores taes quem entre nós os
+soffreria? Por lá querem-se, quer-se-lhes, escutam se, e obedecem-se,
+como exactores que são de um tributo da outra vida.
+
+Desde o romper d'alva não descança a egreja de absorver povo. Todos os
+caminhos, todas as asinhagas, todos os bosques, todas as ladeiras, todos
+os valles, todos os oiteiros, o brotam e expedem á porfia.
+
+Vem o ancião alquebrado, atido ao bordão; o moço em flor de annos; a
+donzella; os irmãos, pequeninos e já orphãos, pela mão de sua mãe; todos
+graves, cuidosos, taciturnos; todos lá por dentro orando; todos
+anhelando irem-se ajoelhar sobre uma sepultura bem estremada, para d'ali
+assistirem ao incruento Sacrificio.
+
+Todos os confessionarios n'este dia estão apinhados, e o semi-festim da
+vespera é quasi geralmente descontado pelo jejum mais rigoroso.
+
+ * * * * *
+
+Emfim vem o Natal.
+
+Essa festa, a fundamental, a maxima, a ridentissima, a de todas
+christianissima (quizera eu dizer) do Christianismo, nenhures cabe tão
+em cheio, nem tanto com os animos e corações se coaduna, de veras crida
+e com veras amada, como nos descampados bravos e alpestres.
+
+Víreis o Presépio de Belem, não já por caprichosas artes remedado, mas
+em tão cabal transumpto, que pelo proprio e verdadeiro vos invidaria a
+adoral o.
+
+Disséreis que ao soar da ave da meia-noite, desferiu vôo d'entre as
+estrellas, de que se corôa a montanha, côro de Anjos a dar rebate aos
+pegureiros com o pregão de «Gloria e Paz», com a nova de ser nascido o
+Desejado das gentes.
+
+¡Tanto é o ruido de alegres passos e falas, que de toda a parte confluem
+pelo escuro em demanda do Menino!
+
+Cada qual lhe traz nas mãos o seu presente, e o mais valioso dentro
+n'alma.
+
+O templo enramalhetado, oloroso, esplendido de luzes, par em par aberto,
+é a santa Gruta.
+
+Lá no tôpo, sobre a pedra bemdita, jaz a rir o Divino Infante.
+
+O adro vê dançar as rondas de camponezes á roda de um monte de arvores
+accezas, ao som da gaita e do tamboril.
+
+Os sinos doidejam de alvoroço na torre illuminada.
+
+Sob o tecto religioso se alternam em dois córos feminis as cantigas da
+benta noite. Cada um d'estes córos é exclusivamente composto das
+moradoras de cada margem do rio que biparte a freguesia. Vai entre ellas
+a mesma rivalidade, que já descobrimos entre os homens, quando no
+Carnaval travam com as suas espingardas innocentes um estrepitoso
+arremêdo de combate.
+
+É a qual dos bandos trará mais formosas quadras para entretecer com as
+antigas, mais argentinas falas e melhores requebros para as gargantear.
+Cuida-se ouvir musica de Seraphins; exulta o coração; e, sem vergonha,
+se estão sentindo as faces humedecer-se.
+
+Por meio d'estes córos, cujos enthusiasmos devotos como que se estão
+vendo lutar nos ares estrugidos, passeia em braços do Parocho o Menino,
+a fazer colheita de beijos e louvores, de supplicas e offertas. Então é
+que surdem vangloriosos de baixo de cada capa os mimos, que de longe e á
+porfia se lhe andaram apercebendo; sobre-sahindo de ordinario, a todos,
+os mui primorosos artefactos de pinhões e frutos sêccos.
+
+¡Oh! ¡que invejas para as creanças, que ali pendem ao collo de suas
+mães! vão-se-lhes os olhos, e os sorrisos, e as mãosinhas, apóz lindezas
+tão guapas; mas, vendo chegar o Menino a quem se destinam, com os seus
+olhos tão azues, a bocca tão amorosa, as faces tão coradas como as
+maçans que se lhe offerecem, é já a Elle que só cubiçam; e só choram,
+porque o não deixam acompanhal-o.
+
+ * * * * *
+
+Taes são as mais notaveis festas d'esta singela gente.
+
+¿Que inventariam philosophos para lhe dar, quando chegassem a
+destruir-lh'as com lhe tirarem a Fé?
+
+É uma pergunta simples, mas vale a pena pensar longo na resposta.
+
+ * * * * *
+
+Assim crêem, assim folgam, assim vivem, ricos de desavareza, nobres de
+humildade, e pela rudez ainda sãos, os moradores de S. Mamede da
+Castanheira do Vouga.
+
+
+XX
+
+Que eu por lá versejasse, já a ninguem ficará sendo maravilha; antes,
+sim, a podéra ser, que de tal assumpto só tal volume se estillasse; mas
+as rasões d'isso de si mesmas se confessam.
+
+Já eu disse, que os annos que por lá sumi, me foram totalmente
+desprophetisados; e que nunca esperei, nem cri possivel, que houvessemos
+jámais, eu nem coisa minha, de reparecer no mundo.
+
+Assim, só por desabhorrimento é que poetava de longe em longe; isto é:
+poetava por fóra, e no papel, que no coração e no animo estava eu comigo
+a fazel-o a toda a hora; e a melhor poesia (de leve me acreditarão os
+que d'isto sabem) não foi a que se escreveu, se não a que deslizou
+suave, entre sonhada e sentida, na profundez dos ermos, onde tudo canta,
+suspira e medita.
+
+Escrever só para si, não sei que ninguem escreva; é trabalho supérfluo,
+e que, se dá fruto, o dá ruim, que de pêco e descorado nos desconsola.
+
+¿Pois qual é, em boa verdade, o pensamento, ou affecto, que no trabalho
+de se corporificar para sahir a lume e correr por mãos e olhos, não
+perde muito do seu primitivo ser, ou da sua energia, ou da sua graça, ou
+do seu calor, ou do seu brilho, ou do seu aroma, ou do que quer que seja
+que era seu, e que era elle mesmo em grande parte?
+
+Isto dos livros não são senão uns retratos mortos, umas toadas,
+reflexos, e sombras, de festas que se fazem n'um interior, e de que os
+passageiros, por mais que se lhes abram as janellas, e que elles
+appliquem os olhos e ouvidos, só podem perceber a totalidade, e
+conjecturar as circumstancias.
+
+O escrever, o material, sujo, e ronceiro escrever, cede tanto em foros
+de expressivo ao falar precipitado e caudaloso, como a palavra (ainda
+para os maiores mestres e senhores d'ella) cede, e ha de sempre ceder,
+ás concepções e aos affectos.
+
+ * * * * *
+
+Outra explicação da exiguidade, e tenuidade (que peor é) do livrinho,
+está em que a maior e melhor parte dos condões e feitiços da montanha,
+que ora cá ao longe me apparecem tão inteiros e gentis, então que eu os
+tratava e d'elles vivia colmado, me não faziam os effeitos, que atravéz
+dos vidros da saudade me produzem.
+
+Para bem apreciar aquillo (como tudo) foi mistér havel-o perdido; que já
+por isso dizia Rousseau, que nunca tão bem falaria da liberdade, como
+entre ferros da Bastilha.
+
+¿Onde é que nos ri a imagem da primavera a abrolhar? é no meio do outono
+a desvestir-se. ¿A do verão, que tressúa afogueado? no inverno, que
+tirita e se encanece de geada.
+
+¿A meninez, com todas suas lagrimas e captiveiros, não é paraiso, para
+onde todos, todos, nos quizéramos tornar?
+
+¡Que bem que o Poeta cantava: «Aventurados em summo extremo os
+camponezes, se acabassem de entender os bens que logram!»
+
+Quanta poesia eu aspirei, e para mim vivi, sem me sentir nem o cuidar, é
+este prosaico e glacial viver, quem agora de instante a instante m'o
+explica.
+
+Á saudade me acodem as delicias de jazer sobre feno, peito e collo
+descobertos, ao phantasioso ramalhar da nogueira velha, quando
+importunas obrigações me veem ripar e consumir as semanas a dia e dia,
+os dias a hora e hora, as horas a minuto e minuto.
+
+Pela conversação pacifica das moitas e torrentes me definho, quando, no
+mais fortuito, no mais leve, tratar com homens me aguardam sempre
+desencantamentos, desconsolos, rasões para os desprezar, ou para
+fugil-os.
+
+Lá, volta-se sempre para a poisada mais alegre, ou melhor. Aqui, pelo
+contrario, ou sempre peor, ou sempre mais triste.
+
+Lá, a benevolencia é semente de benevolencia, para dar cento por um.
+Aqui, é grão que sempre degenéra, ou não germina, ou brota villans
+ingratidões, que envergonham até a quem as ouve.
+
+Lá, o folgar é franco, e as festas são festas. Aqui, o folgar é escaço e
+fingido; as festas, tumulto, ou, mais de pressa, encoberto circo de
+gladiadores, que armados com a verdade e com a mentira se acutilam uns
+aos outros, e aos ausentes, e aos amigos, e aos finados.
+
+O mais dextro no pungir e envenenar, esse se pavoneará pelo mais
+cortesão e de maior donaire; far-lhe-hão roda; e em vez de o
+esbofetearem, e de o compellirem a se enforcar como o Iscariotes por sua
+mão, para escarmento a sevandijas e lição a paes que estão creando feras
+bravas para andarem sôltas no povoado, hão-de applaudil-o por medo,
+apertar lhe a mão dissimulando o nojo, e recebel-o muitos em suas salas,
+com sabel-o expulso de muitas portas.
+
+Acobertam-se lá e ufanam-se as terras com os linhares, para o que Deus
+os fez: para vestido das familias, para faixas da infancia, para macío
+agazalho nas horas do somno ou da doença, para gala candida dos altares,
+e a final para curativo de feridas.
+
+Ora, ¿que mulher de montanhez poria n'um linhar, ao alvorecer de Maio, a
+sua roca enfeitada, se adivinhasse que o pobre do seu linho, a cabo de
+tão bons serviços, poderia vir ainda a converter-se em papel para a
+nossa Imprensa, isto é, em pregoeiro e depositario de quanto erro, e
+absurdo, a ignorancia ou maldade podérem delirar, em ventilador de
+descredito e odios, em disseminador de todos os principios de
+dissolução, já moral, e já politica?! ¡Pôr-lhe ella a sua roca para
+benção! ella, a boa filha das serras, fêmea sincera e verdadeira,
+coração lavado, animo propenso em tudo para o bem! ¡Pôr-lhe ella
+encamisada e florída a sua roca, a sua casta e alegre companheira, a que
+tão santas maximas e tão formosos exemplos ouviu sempre!... Antes deitar
+á sementeira o fogo, ou amaldiçoal-a n'uma sexta feira ao meio dia, que
+vale o mesmo.
+
+
+XXI
+
+¡Que de vantagens para o ermo não são todas estas!
+
+E no gosal-as, ¡que assumpto inexhaurivel para um engenho bem nascido!
+
+Sim; mas, torno a dizel-o, é em distancia de espaço e tempo, e pela
+contraposição, que se conhecem. ¡E eu malbaratei quasi tudo isso!...
+
+
+ ........ munera nondum
+ Intellecta deum!....
+
+
+Havia de ser agora, depois de tão prolixo, de tão quebrantador martyrio
+da experiencia,
+
+
+ ..... Oh ubi campi!
+
+
+¡Como me não agarrára, com raizes mais fundas e tenazes que o meu cedro,
+ao chão da vida facil, innocente, e obscura! ¡Como não borbotára em
+hymnos o meu jubilo! ¡Como não saudára com lagrimas de gratidão a
+aurora, tornando a encontral-a! ¡Que não palrára com as torrentes! ¡Que
+noites desveladas sob o pavilhão estrellado e vastissimo da montanha!
+
+Em vez de rebuscar (como agora me foi forçado) para esboçar este painel
+noticias de logares, e até de usos, tudo eu mesmo visitára com devoção
+de peregrino; tudo revolvêra; com tudo me identificára.
+
+As saudades, que de lá para aqui me estão salteando, d'aqui para lá já
+não atinariam seu caminho; e se o atinassem alguma vez, na primeira
+sarça onde papeasse um ninho eu me soubera esconder, que me perdessem
+logo.
+
+ * * * * *
+
+--O abdicar--dizia o Imperador Diocleciano tornado Diocles, fazendeiro e
+hortelão de Salona--o abdicar é o começo do viver.
+
+¡Quantos dos que desaprenderam no regaço espinhoso da fortuna o rir, o
+dormir, e o comer, tudo isso recobrariam na primeira hora que
+empunhassem, com animo feito, uma rabiça ou um foicinho!
+
+¡Se não ha-de ser inefavel o abdicar muito, e até imperios romanos, como
+elle, quando renunciar o pouco, o quasi nada, que se tem de cidade....
+só de o cuidar, tanto namora a phantasia!
+
+¡Se jamais virá tempo de eu poisar em torrão meu, debaixo de sombras
+minhas, a cabeça encanecida e regalada!
+
+Uma barraca de poucas braças, mas revestida de rosas e limas, como o
+presbyterio. Á roda d'ella, tanto de fazenda, quanto o filhinho mais
+pequeno atravessasse correndo de um fôlego. Mas isto em solidão bem
+solidão, onde só os astros me enxergassem, só as estações me visitassem,
+e da banda do mundo nada me chegasse, senão o vento, já expurgado e
+esquecido de humanas vozes.
+
+Tal casa, e tal quinta, ser-me-hiam mais que morgado, mais que palacio e
+reino: paraizo terreal, digno vestibulo de outro melhor.
+
+Ahi me reverdecêram o coração e mais o espirito, que me elles por cá
+trazem tão lastimosamente desfloridos e murchos.
+
+Por si se retingiriam os cabellos, com o franco sol remoçador de quanto
+existe.
+
+A lyra interior volveria a cantar espontanea, como harpa eólia entre
+jasmineiros, pendente em hombral de gruta ás virações da primavera.
+
+Ainda á farta me vingára dos tantos annos, que em tarefas ephémeras e
+sem gloria, posto que não sem consciencia e diligencia, se me
+desbarataram na galé da Imprensa periodica, ou (com mais propriedade)
+nas palhas d'essa doidinha, que a si mesma se venéra por soberana do
+Universo; doidinha com diadema de papel e sceptro de lapis.
+
+Só me não rira d'ella, quando me lembrasse que me enguliu, com os annos
+que me tomou, outros tantos da minha existencia para diante; pois em
+cada tomo de periodico, sincera e honradamente redigido, se podia
+escrever este epitaphio: _Aqui jaz um anno de fadiga e dois de vida
+de.... Orae por elle_.[4] Vendem-se ainda primogenituras por menos que
+prato de lentilhas.
+
+Vingára-me (¡oh! ¡se me vingára!) de tão bons dias mallogrados; e ainda
+por ventura alguns livrinhos, menos maus que todos os meus precedentes,
+appareceriam de novo, mas sem mim, no povoado. Como Ovidio aviava os
+seus do desterro, aviaría eu os meus do meu eden.
+
+
+ Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in Urbem.
+
+
+ * * * * *
+
+--¿A que vem tomar-nos tempo com a fabula pueril dos teus gostos e
+desejos?--dirá (e ha-de dizer) algum d'estes que sabemos, que nunca
+faltam, escoimadores _ex-officio_ do alheio.
+
+--Senhor meu,--lhe respondo eu já:--pois é por isso mesmo, de não
+passarem de fabula os meus gostos e desejos, que se me ha-de relevar o
+dar-lhes eu largas no papel.
+
+Se eu vira agora cahir-me do ceo o meu tugurio e o meu quintal, coroados
+de ermo, como o Evangelista nas praias de Pathmos viu baixar do Empyrio
+a sua Jerusalem abraçada de muros de oiro, o tempo que n'estas palavras
+gasto aproveitara-o melhor, em correr para o meu refugio, beijal-o,
+replantal-o, aformosental-o. E em lá vindo o florído Maio, ride-vos de
+pagão que brindasse os seus lares com mais fé ou egual amor.
+
+ * * * * *
+
+¡A liberdade!... ¿Onde ha hi liberdade, que nem por longe se pareça com
+a de um viver remançado, em casa sem numero, nem espias, ao som da
+Natureza, á lei da propria inclinação; sem ouvir horas que nos chamem,
+sem encontrar com glosadores que nos aboquem no ar acções e palavras,
+para nol-as tingirem de branco em preto; nem cahir nas garras de
+ociosos, que vos emprazarão para toda uma tarde de Junho, ou toda uma
+noite de Dezembro; isento da praga de utopistas e reformadores, que são
+a peor salada que o diabo temperou e mecheu em hora de abhorrimento;
+seguro, emfim, de ser pisado nas ruas por soberbias de quem vos não
+vale, tremulando-lhe, na botoeira do vestido, refulgente epigramma de
+esmalte contra meritos e virtudes; e de noite, interrompido na
+meditação, ou cortado no melhor do somno, pelo retroar de carroagens,
+que em fluxo e refluxo continuo levam e trazem, sempre a correrem para
+nada, pygmeus, histriões, da farça séria d'este mundo?
+
+Se algures ficou sobre a terra a liberdade, que irmana, segura,
+ennobrece, e concilía os homens, na montanha encontrareis mais depressa
+coisa a ella parecida, do que não por estas almotaçadas metrópoles, onde
+se blasona que ella tem o seu templo, e n'elle as suas festas. Sempre
+são festas acompanhadas de vinte orgãos, a entoarem solfas diversas ao
+mesmo tempo: este, o _Te Deum_; aquelle, o _De profundis_; um, o
+_Quomodo cecidit civitas plena populo_; outro, o _Cantemus Domino_;
+qual, o _Miseremini mei_; qual, o _Ecce sacerdos magnus_.
+
+Se alguma vez se incensou presente n'este orbe a Liberdade,
+derrubaram-n-a do seu pedestal as aguas do diluvio de Noé, quando
+arrojavam cada coisa para seu cabo. Ao que havia de ser cidades, ficou o
+pedestal razo, com o formoso nome d'ella em letras de oiro. Ao que tinha
+de ser ermo pertenceu, mas sem nome nem titulo, a figura quasi inteira.
+Aqui, pregôam-n-a; lá a disfrutam. Assim vai tudo.
+
+ * * * * *
+
+E quando não, mettei bem por dentro a mão na consciencia; e, deixado o
+palavrório que não sôa muito senão por ser vazio (como tambor de
+foliões), dizei-me, ou dizei-o a vós mesmos: ¿Quem mais livre, que homem
+que desperta recobrado ao romper d'alva, por se lhe ter o somno acabado,
+e não porque ruins pesares lhe repiquem, ou o estremunhem alvoroto de
+praças, e reboliço de vizinhos, pois diante de suas janellas o que só se
+meneia e conversa são arvores, e por cima do seu tecto não moram senão
+hervas, que mal ciciam, e só recebem de visitas passarinhos ou
+borboletas?
+
+¿Quem mais livre?
+
+Acordado, encommenda a Deus o dia novo, veste o que na vespera despiu,
+sem ter de consultar a ventoinha do figurino, o camareiro, o
+cabelleireiro, o espelho, o gosto da namorada, o rol das visitas e dos
+convites. ¿Quem mais livre?
+
+Talha para si, para sua mulher, para cada um de seus filhos, as
+occupações de todo o dia. ¿Quem mais livre?
+
+Entre o trabalhar, que lhe grangeia forças, saude, bons somnos, pão, e
+para conduto um apetite desenganado, entre o trabalhar, repito, canta,
+ou traz o espirito a monte, a sabor de suas chyméras (que tambem as tem
+como qualquer outro); e é este o mais invejavel privilegio do trabalho
+corporal, sobre tudo do que tem por materia prima a terra: não captivar
+senão os braços; cavando, podando, ceifando, se podem, sem prejuiso da
+obra, estar armando doiradas torres no ar, ou conversar rasgado e rir
+com os companheiros, ou cevar em silencio a tristeza que se ama, ou a
+alegria que se esconde.
+
+Este _deus in nobis_, unica das divindades campestres em que se pode
+crer, perguntae se não será para muitas invejas aos taciturnos enxames
+que pejam escritórios e secretarías; perguntae-o a quasi todos os que
+remam á consciencia o seu remo na galé baloiçosa do Estado. ¿Quem mais
+livre?
+
+Posto o sol, pregoadas as treguas das lidas pelo sino das Ave-Marias, o
+meu rustico se recolhe, sem golilhas de seda no pescoço, para folgar
+entre eguaes, em quanto a ceia bem mercada se lhe acaba de coser ao lume
+que o aquece. Não tem de ir fazer sala a ninguem; respira a peito cheio;
+não ha que ciar se de mulher e filhas, que não dá a terra operas nem
+bailes; filhas e mulher á roda lhe serôam, tão satisfeitas como elle.
+Não se levanta ali jogo, que, por tentação ou falso pondonor, o obrigue
+a pôr n'uma carta o casal, a vergonha, e mais a vida. Não o compellem a
+ajudar com desatinos seus os alvitristas regedores do mundo em sêcco;
+nem mesmo a ouvir ler, n'uma coisa mal-cheirosa chamada periodico
+(especie de cogumellos da Imprensa, em que entre os não maléficos tantos
+ha de sapo), o artigo famoso, no qual, sem quê nem para quê, lhe
+levantam falsos testemunhos para entretenimento de vadios na hora do
+chylo. Quem não tem com que incite invejas, seguro está de vis
+praguentos. ¿Quem, finalmente, mais livre?
+
+Deita-se em cama barata, mas de bons sonhos, com as janellas e portas
+destrancadas, sem medo a malfeitores, que, sobre não creal-os o sitio,
+nada reluz na poisada que os attráia.
+
+Entretanto lhe vão caladamente amadurecendo os pães para a tulha, o
+vinho para a adega, o azeite e os frutos para a dispensa, a hortaliça
+para a panellinha de barro, as filhas para o casamento, os rapazes para
+lhe pagarem na velhice a divida da infancia, e elle e sua mulher para o
+Ceo, onde crêem de fé que os estão seus parentes esperando.
+
+¿Então, será, ou não será, este um viver dez vezes mais livre e
+afortunado que o nosso? Pois não disse eu d'elle tudo que poderia, nem o
+direi, ainda que já talvez me hajam de arguir de prolixo, que não deixei
+na matéria udo nem miudo; ¡como se miudos houvera no que são condições
+de boa ventura!
+
+Se n'isto me dilatei (e confesso que sim) um tanto fora do meu
+proposito, foi por ver se dava uma aldrabada de mansinho ao coração de
+alguns d'estes, que vivem na Côrte por fadario, por vezo, ou por
+inercia, sempre mal-contentes, pesarosos, abetumados; possuindo, ou
+podendo, se uma hora olhassem por si, adquirir, sem nenhuma
+difficuldade, o que eu, e outros taes, tão baldadamente supplicamos á
+fortuna: uma vivenda campestre, uma existencia natural, serena, commoda,
+florescente, risonha para a pessoa, dadivosa e exemplar para os
+visinhos, manancial de riqueza privada e publica, abonadora de bons
+costumes, e de afortunada descendencia; uma existencia, em summa, que, a
+de mais de retemperar corpo, animo, e coração, para se n'ella
+saborearem, até aos renunciados praseres da Cidade refina o gosto,
+quando por acaso, de longe a longe, e de passagem, se volve a elles.
+
+ * * * * *
+
+Toda a gente, e os abhorridos mais que todos, deveriam ler e meditar o
+medicinalissimo _Livro da Solidão_ do Doutor Zimmermann. Aprenderiam a
+perder-lhe o medo e ganhar-lhe amor, a embellezarem-se n'ella, a serem e
+a fazerem venturosos, quanto é dado havel-os n'este mundo tão instavel,
+tão fugidio, tão calabreado de bens e males.
+
+O homem na sociedade é um instrumento, que se gasta e quebra servindo;
+na solidão é um homem. Na sociedade, é uma partícula irresistivelmente
+arrebatada n'um redemoinho; na solidão um todo quieto.
+
+Puericia, edade de oiro da vida, não torna jamais por onde uma vez
+passou; mas na solidão se esconde ainda uma sombra d'ella; porque o
+homem, redimido dos cepos do mundo, e fôrro das humanas tirannias, se
+faz em algum modo semelhante á creança; readquire o que quer que seja da
+sua innocencia, da sua simplicidade, dos seus gostos, dos seus brincos.
+
+¿Quem se lembraria de pôr um barco de cortiça (ainda que de seu natural
+tivesse o ousal-o) n'um tanque do Passeio publico, cercado dos fumantes
+do Marrare, e dos collaboradores dos periodicos? ¿quem o ousaria, mas
+que fosse para entreter a seus filhinhos? E no campo, uma pessoa, até só
+para si, faz d'isso; e mais se encanta em o fazer, que um ricaço em
+torrear palacios.
+
+Em quanto dá tempo aos passaros para irem picar no cêvo das armadilhas
+que lhes andou dispondo, edifica á borda de um arroio uma azenha de dois
+palmos, com seu rodizio de canna a espadanar. Só no vêl-o voltear,
+respingando aljôfares pelos ares, tem entretenimento para horas.
+
+Alevanta ao pé uns paços nobres, que se encheriam com a familia de um
+coelho, estira-se a espreitar para dentro da relva, como Werther e Hugo
+se embebem nas maravilhas d'aquellas selvas e reinos de animálculos, em
+que só o mancebinho muito pequeno, ou o muito grande homem, se poderiam
+enlevar.
+
+¡A solidão! ¡a solidão!... provae-a, sequer, affligidos do mundo, e
+pregoareis d'ella o que eu me não affoito a encarecer-vos.
+
+ * * * * *
+
+Um só achaque hei-de eu impôr á boa da solidão, á gentil namorada de
+Rousseau, de Petrarca, e de todos os espiritos grandiosos; e vem a ser:
+que, pois nos descalleja o coração, banhado nas suavidades da mãe
+Natureza, e para a sensibilidade nos ajunta o que do egoismo nos detrai,
+assim nos deixa mais expostos ao pungir de alheias penas, quando não as
+podemos extirpar. No ermo ressôam mais alto os gemidos, como na calada
+da noite se dão a ouvir mais claras as vozes.
+
+Quizera-se, ao ver a penuria de muita casa, o escasso de muita colheita,
+o mal roupido de innocentinhos, o desagasalho de velhos enfermos,
+quizera-se ter mãos de Midas para acudir a tudo aquillo; e o coração,
+que não tem para dar senão suspiros, no fundo do peito se confrange
+todo, e se espedaça.
+
+¡Cada uma d'aquellas curas dependeria de tão pouco! ¡sería tão
+festejada! ¡tantos effeitos afortunados produziria! ¡deixaria, por corôa
+de beneficios, tão sinceros, tão duradoiros agradecimentos!
+
+ * * * * *
+
+Numerosas, numerosissimas, são as coisas das cidades, que d'aquellas
+alturas se não percebem; mas a que menos de todas se percebêra é o
+coração metallico dos Cresos, os seus olhos diamantinos sempre enxutos,
+os seus ouvidos que só vibram ao som do oiro. Possuem a omnipotencia
+terrestre, e ferrolham-n-a a sete chaves. Podiam ser adorados como
+deuses propicios, conquistar a unica invejavel gloria, emendando os
+erros da fortuna, espargindo felicidade, e felicidade enthesoirando.
+
+Então sim, que haveria que se lhes invejar.
+
+Dôr d'alma é, na verdade, não poder homem na solidão pagar por estes, e
+por si mesmo, dividas grandes e urgentes da Humanidade. Entretanto, lá
+estende os braços valedores até onde lhe é dado. Onde não chega a
+remediar com obras, ajuda com o bom conselho, com as recommendacões
+poderosas, com as esperanças, com a presença, com a uncção da palavra
+amigavel, com o deixar correr sobre a ferida o balsamico das lagrimas.
+Assim, se terá sempre que dar; sempre, em quanto houver no proximo
+trabalhos, e no seio coração.
+
+
+XXII
+
+Isto presenciei eu:
+
+O espiritual Pastor do rebanho de S. Mamede do Monte, de quem natural
+pejo me veda transladar louvores, que por lá se lêem em todos os peitos,
+contava entre as primeiras de suas ditas a beneficencia, que não pára
+onde se lhe exhauriu a bolsa; que, depois de dar a capa, como o Santo
+Bispo Martinho, e a coberta, como Frei Bartholomeu dos Martyres, tem
+ainda para dar a pessoa, como S. Vicente de Paulo.
+
+Era para ver (se elle não poséra tanto em recatal-a) a alacridade, a
+sôffrega alacridade, com que ia levar aqui um pão, que se devorava como
+vida que em realidade era, ali o remedio para a doença; aos mal avindos,
+a reconciliação; ao ocioso, o convite para trabalho; ao orphanado, a
+paciencia; ao errado, a luz para atinar com a senda, e o bordão para a
+seguir; ao moribundo, o conforto e a alegria; a todos a moeda aurea,
+cunhada de uma banda com a effigie do coração, da outra com a da Cruz
+florida; a moeda riquissima, que por nenhuma outra se cambía; o affecto
+fraternal.
+
+Ali, sim, que é o ser Parocho.
+
+¡Oh officio divinamente instituido, como te hão degenerado annos frios
+de descrença e desamor! ¡Com que maravilhoso laço não cifravas o que de
+mais nobre, o que de mais amavel, se abrange nas ideias da eternidade e
+nas do mundo!
+
+O rei dos sacrificios era ao mesmo tempo o servo dos indigentes. Vaso de
+eleição, elle diffundia ao povo ajoelhado os mysterios, os preceitos, os
+exemplos, as ameaças, os anáthemas, as absolvições, os confortos, e os
+jubilos. Todos os destinos terrestres se formavam, ou passavam, á sombra
+d'elle.
+
+Entrados á vida, encontravamol-o, resplandecente de Fé, á nossa espera
+diante da fonte da Graça, para n'ella, com a bocca cheia de riso, nos
+purificar.
+
+Arribados á edade da rasão e dos delirios, tornavamol-o a achar na
+piscina da penitencia para nos restituir, com eloquencia affectiva de
+Apóstolo, a foragida paz do interior.
+
+No consorcio, eram as suas mãos castas as que nos entregavam, com
+bençãos d'alma e sincera prophecia, a mão tremente da futura mãe de
+nossos filhos.
+
+Nas calamidades publicas, era a sua voz supplice e crente, e afogada em
+lagrimas, a que levava, como guia segura, o côro de todas as nossas á
+presença do Senhor da Natureza.
+
+Em nossas dissensões domesticas, elle o Anjo da concordancia, que
+primeiro apparecia.
+
+Nas nossas quédas, elle o primeiro braço que nos alçava.
+
+Nas tribulações, elle o nosso mais previsto conselheiro.
+
+Na enfermidade, elle o medico gratuito e não chamado.
+
+Na agra hora da partida, elle o que nos apercebia para a alma confusa e
+aterrada o pão, o oleo, e o fardel das esperanças para o caminho.
+
+Elle o que ainda nos seguia, depois que já todos os outros medicos iam
+longe, e até nossos paes e nossos filhos nos deixavam sós. Com preces
+fervorosas nos acompanhava, até que a terra nos submergisse; e ainda
+então nos não largava, senão para ir instaurar novas preces por nós
+sobre os altares.
+
+Solitario na sua vivenda, elle tinha por familia o seu rebanho, com
+quem, por quem, e para quem, vivia; sempre lhano, sempre dadivoso da sua
+pobreza, sempre paschoas-florídas para grandes e pequenos, só temido dos
+maus, ainda que tambem d'esses respeitado.
+
+Se carecia de progénie, se não tinha uma esposa, elle, que tão amenos
+quadros do casamento sabia apresentar aos noivos ao recebel-os, contava
+por irmãos e filhos todos os seus parochianos; tinha o seu thálamo de
+oiro a aguardal-o no paraizo, região que todos os dias entrevia atravéz
+das folhas do seu breviário; e, se ainda no coração lhe podia alguma
+ternura sobejar, tinha a sua egreja, que elle amava como esposa; em quem
+se revía; que se recreava em ataviar, em enriquecer, em lhe adquirir
+galas de roupas, de sedas, de joias, de flores, de perfumes; em cujas
+festas se remoçava; em cujos canticos se desvanecia de misturar a sua
+voz.
+
+No seu sacerdocio se acreditava a pleno, porque elle mesmo acreditava
+tambem. Se, perante a ara santa a Fé via n'elle um representante da
+Divindade, nenhum lance da sua vida desdizia esse caracter augusto e
+sobrehumano.
+
+A hora em que elle expirava, hora de consternação e alaridos para todo
+um povo, era a unica, talvez, em que pelos espiritos fuzilavam alguns
+relampagos de duvidas sobre a justiça e a misericordia do ENTE SUPREMO;
+duvidas, que a bocca do velho emmudecida, que a reprehensão dos seus
+olhos fechados, já não podia fulminar, mas que a sua presença, mal
+chegavam a beijar-lhe os pés como a bemaventurado, promptamente
+desvanecìa. Bem se adivinhava, ao olhal-o, que a sua morte não era mais
+que somno; e bem se entendia como, ao cabo de tão prolixo, de tão zeloso
+trabalhar, era rasão colher descanço e premio, como só lá em cima os
+pode haver.
+
+ * * * * *
+
+Taes eram, pelo commum, pastor e grei, nas eras cheias e prospérrimas da
+Christandade.
+
+De taes greis, e taes pastores, ainda hoje ha, mas raro; mas tão raro,
+que a dedo se apontam; e ainda se não hão-de crer, se não fôrem vistos
+bem por miudo, e contrasteados bem de espaço.
+
+De ninguem é a culpa, sendo de todos a desgraça.
+
+Não; de ninguem é a culpa. O genero humano curte sempre algum achaque
+principal; e quasi sempre maleitas. Passou-lhe a febre da superstição;
+está agora no frio da incredulidade ¿Que lhe ha-de fazer? jazer-se com
+elle, até que do alto lhe venha o remedio.
+
+ * * * * *
+
+Existe um phantasma de altar, um phantasma de sacerdocio, um phantasma
+de vulgo fiel, um phantasma de culto; mas de Fé intrinzeca, nem um
+phantasma.
+
+A pseudo-philosophia, de que a mean classe engafecêra, pegou-se d'ella,
+pelo contacto, primeiro á superior, depois á infima.
+
+Ha doenças que teem os seus periodos determinados; esta entra na conta.
+
+A classe que primeira a padeceu, por primeira e por mais illustrada já
+quer ir convalescendo; já convalesce em muitas partes, se em nenhuma se
+acha ainda san; mas a que mais tarde cahiu, por isso mesmo, e por ser a
+mais rude e numerosa, labora no auge da enfermidade, e ainda muito longe
+(segundo todos os symptômas) de se restaurar.
+
+Hoje o materialismo é especialmente plebeu.
+
+Dos cumes da ordem social podia-se ir desferindo a raio e raio, e
+descendo manso e manso, a luz, que adelgaçasse, que por derradeiro
+desfizesse, essas trevas humidas e frias, que nada criam, e afogam tudo.
+
+Mas nem de lá baixa, porque por lá faz ainda noite, nem se derrama da
+Imprensa, de que a mean classe é representante.
+
+O Poder, fingindo _proteger_, apenas _tolera_ os escassos restos da
+crença. Se alguma vez lhes dá consideração, é quando se lhe antólha que
+os poderá empregar, por material, para obras politicas a seu modo.
+
+A Literatura, ou por especulação de popularidade, ou por extravagancia
+de muito joven, ou porque o seculo XVIII do «Paiz modelo» só poude
+chegar cá no XIX; a Literatura, figurando tributar a sua homenagem á
+unica Religião civilisadora, tão decepada e desgeitosa se avém, que, por
+entre as suas expremidas lagrimas de compuncção, se lhe está vendo
+voltear por dentro dos labios o seu lembrado sorriso de septicismo.
+
+A sua religiosidade é um cálculo; ¡grande mal! é um cálculo
+transparente; ¡mal ainda muito mais funesto!
+
+Reconhece-se que, se de alguma coisa está convencida, não é da verdade
+real e absoluta que diz, mas da utilidade (ou necessidade) de que seus
+ouvintes a acreditem.
+
+Forceja para reaccender na ara um pouco de lume santo, que allumie e
+aqueça; aconselha que se lhe cheguem; mas ella fica fria e ás escuras
+por de traz da nave, olhando com ar sobranceiro para a turba.
+
+Nunca dobra tanto o joelho e a cerviz perante «o _Christo_» (como lhe
+ella sempre chama), que a sua cabeça ennastrada de loiros não fique,
+mais ou menos, sobre-sahindo á pendida fronte coroada de espinhos.
+
+¿Que poderá jamais conseguir para verdadeiras aleluias da Fé e da Moral,
+este vaidoso e vanissimo apostolado da eloquencia e poesia, que de baixo
+do falso nome de Christianismo pregôa d'elle uma, ou outra, ou muitas,
+paginas desconnexas, reformadas, e adulteradas?
+
+Quanto entre si concordavam as inspirações dos quatro Evangelistas,
+tanto discrepam uns dos outros (e não raro de si mesmos) os novos
+evangelhos d'estes missionarios sem missão. Á prima-vista se averigua
+que lhes fallece a convicção, a coherencia, a logica, e a unidade. ¿Quem
+se irá apóz taes innovadores? Ninguem.
+
+Pelo contrario: as suas diligencias para reedificar só valeriam para
+acabar de destruir, se podesse ser destruida a Religião de Jesu-Christo.
+
+A Fé é uma obra celeste, que nem a sciencia, nem a força, nem o poder da
+terra tem a minima jurisdicção para alterar.
+
+Ou a Fé toda completa, cabal, absoluta, sem um átomo de menos, sem um
+átomo de mais... ou nenhuma Fé. Fraccional-a, decompôl-a, temperal-a
+cada um para o seu paladar, é pregar-se o homem estupidamente n'uma cruz
+desbenzida, revirado com a cabeça para a terra, e os calcanhares contra
+o Ceo. Em tal caso o indifferentismo, e até o atheismo, seria menos
+descommodo e mais logico dobradamente.
+
+ * * * * *
+
+Em quanto a Literatura assim acode á obra de Christo, como o poderia
+fazer n'uma hora de ebriedade o proprio anti-Christo, ¿como é que a
+trata a autoridade mundana?
+
+Como se fôra obra sua, ou sua propriedade: estende-lhe, protectora
+desdenhosa, a barra do seu terrestre manto sobre a cabeça despojada do
+diadema luminoso, diz-lhe que se apegue, para não cahir, ao sceptro que
+a diante lhe caminha. ¡Elle, o Christianismo, elle, que ainda ha pouco
+roborava os thronos com a sua benção, permitte, quasi, que os seus
+inimigos o ludibriem!
+
+A blasphemia, que vai picar, verme peçonhento, a raiz da arvore da vida,
+d'onde se colhe a moral, a blasphemia pode qualquer derramal-a sobre as
+multidões pelo crivo immenso da Imprensa, e ficar impune; ou o seu
+castigo, se por erro lhe cahir o da Lei, orçará apenas pelo dos crimes
+leves, e indifferentes ao Estado.
+
+ * * * * *
+
+Não é ainda tudo.
+
+Aos ministros do culto, já de si por ventura tibios, como filhos e
+herdeiros de uma edade desfervorosa, sal da terra já meio derretido, luz
+do mundo já mortiça, deixam-n-os, ou fazem-n-os enfraquecer-se e
+relaxar-se ainda mais, desautorisando-os, dessangrando-os, infundindo os
+nas temporalidades odiosas.
+
+Repitâmol o: não é isto culpa de ninguem, sendo de todos desaventura. É
+uma calamidade providencial, que lá se encaminha para fins certamente
+gloriosos, que não podemos enxergar.
+
+Em Religião, como em Politica, somos nós, enfatuada geração de hoje,
+mesquinho adubío n'um chão semeado, que outros hão-de ceifar em vindo a
+quadra.
+
+Chegarão tempos (dil-o o instincto da rasão) em que os direitos e os
+deveres tenham egual pezo; em que o bom e merecido nome não seja, como
+pomba timida, empolgado por abutres ferozes logo ao abrir o primeiro
+vôo; em que todas as causas santas e uteis se conheçam e respeitem; em
+que nem a régia tribu de Judá seja, como outr'ora, apesinhada pela de
+Levi, nem a tribu sacerdotal de Levi, como hoje, mercenária, captiva, e
+escrava da de Judá.
+
+Então quando o lenho sêcco da Cruz, reflorir, e frutear (como a vara do
+Propheta) frutos de suavidade, de concordia, de alimento, de forças, de
+esperança, e de felicidade, de felicidade para abarcar dois mundos,
+então os pastores, quasi espancados agora pelos seus rebanhos, quasi
+mendigos, e cuja fronte perdeu o sello da eleição, tornarão a assentar
+ao-pé da arca santa a sua tenda humilde e venerada, não opulenta mas
+dadivosa, tenda pobre e rôta, para que pelas aberturas penetrem melhor
+até ao velho os gemidos do mais necessitado que elle, e para que os
+olhos d'elle entrevejam as estrellas.
+
+¡Oh! ¡como volverão a ser bellos os dias da Egreja acrisolada pelo fogo!
+Mal venha por quem, de imprudente, pretendesse retardal os.
+
+ * * * * *
+
+O autor d'este livrinho (que ainda, apesar de tudo, não acredita em
+malignidades gratuitas) apressa-se de inculcar, de recommendar aqui, uma
+verdade, que a sua posição d'elles lhes não deixou talvez ainda
+perceber; verdade importante para applicações, verdade a cujo
+escurecimento se pode imputar já muito e muito damno:
+
+O officio pastoral tem, ou pode ter, especialmente fora das cidades, uma
+importancia para a felicidade das familias, para o bom regimento e
+prosperidade do Estado, a que nenhuma instituição humana poderia
+confrontar a sua.
+
+Nas cidades é talvez licito o ignoral-o. O Parocho urbano é quasi um
+pastor sem rebanho; não conhece as ovelhas, nem as ovelhas o conhecem. A
+ellas, falta-lhes o tempo e a vontade para o rodearem; a elle, se para o
+officio entrou com zelo e propositos magnanimos, tudo se lhe veio a
+acabar com a esperança, e logo a caridade tambem; e a final talvez
+tambem a fé, mal se inteirou de que todos seus esforços se haviam sempre
+de quebrar no indifferentismo publico, e de que a sua voz, se lograsse
+vencer o estrépito circumfuso, só serviria para lhe atrahir escárneos e
+motejos, ou de fanatico, ou de tartufo.
+
+Nas freguesias ruraes, nas mais remotas, nas serranas e abscônditas
+sobre tudo, ainda não é totalmente assim. Á entidade abstracta _Parocho_
+se conserva, no respeito e benevolencia dos subdítos, um resto da sua
+antiga majestade, da sua benéfica influencia, das suas altissimas
+prerogativas.
+
+Ainda é um parente proximo e autorisado de todas as casas, uma especie
+de maioral de tribu (como entre os Hebreus do tempo dos Patriarchas, e
+os Arabes do deserto); um juiz de paz insuspeito; um magistrado sem
+appellação para as consciencias; um censor, não em nome da Lei (como os
+de Roma), porém em nome, e com delegação, e por inspiração, do Espirito
+de Verdade, com quem se crê ter commercio no fundo do santuario.
+Qualquer que seja a sua sciencia, é a ella que se recorre como á
+principal.
+
+Tal é, repito, a entidade _Parocho_ em abstracto.
+
+
+XXIII
+
+Isto posto, e acceito por certo, como é, pergunto: se não deverão
+empregar-se as mais incessantes, as mais efficazes diligencias, para que
+o provimento das parochias (das rusticas ao menos) recaia sempre em
+homens de cultivado e provado entendimento, de sincera e illustrada Fé,
+humanos e caritativos, desambiciosos, modestos, e de facil e aprasivel
+trato.
+
+Ninguem o negará, pois são elles as fontes, que, segundo sua qualidade,
+teem de dessedentar e fertilisar, ou de esterilisar e consumir, a terra
+que os rodeia.
+
+N'estes agros tempos de contínua revolução e peleja, ou porque tão
+momentosa ponderação não occorresse, ou porque a vista, de dentro da
+cidade, não traspassa os muros d'ella, ou porque conveniencias pessoaes
+e ephémeras, mas urgentes, mas gravissimas, tenham feito postergar
+considerações de maior utilidade, mas de effeito mais tardío; as egrejas
+ruraes, como as urbanas, jazem, pelo commum, peor que ao desamparo:
+entregues, não como egrejas, a homens de oração e de esmola, mas, como
+torres e castellos, a alcaides e capitães eleitoraes, que no dia do
+conflicto arvorem e defendam o estandarte do seu bando.
+
+¡Oh! que não sem rasão se collocou a rixosa urna dos suffragios
+politicos na extranhada mansão dos serenos suffragios religiosos. A um
+clero secularisado, competia um templo secularisado tambem.
+
+ * * * * *
+
+E não ha aqui arguir esta ou aquella parcialidade; é peccado, que todas
+ellas peccam; ou, para falar com mais justiça, é açoite que Deus mette
+na mão de cada uma, quando lhe chega a sua hora de ephémero triumpho.
+
+Se ellas bem considerassem n'isto (suppondo-as a todas, até ás mais
+illusas, como as devemos suppôr, cordealmente empenhadas na civilisação
+e no progresso), deixariam o uso d'esta arma, que para servir a revêzes
+a favor de todas e contra todas, vem a ser, a final, para todas e para
+cada uma, como se de feito não existira.
+
+O direito mesmo da Guerra, com ser tão largo e licencioso, nem tudo
+permitte. ¿Porque não ha-de logo, nas suas pelejas, a Politica
+reconhecer limites, onde o Ceo e a rasão os teem marcado?
+
+Combatam se os adversarios; mas não se envenenem as aguas; e se a
+desavença é entre consanguineos, e em solo commum, não cortemos, para
+aquecer o rancho dos nossos soldados, as oliveiras centannarias, que já
+deram oleo, sombra, e paz a nossos avós, e que ainda podem liberalisar o
+mesmo a nossos netos.
+
+¿Por que é trazer aos festins profanos os vasos do Templo?
+
+Se é chyméra a Religião, se Jesus não é em realidade senão «o Christo»,
+vão fóra tartufías, que não deshonram menos a uma nação que a um
+individuo; acabe-se de uma vez com _superstições_ importunas e
+dispendiosas.
+
+Mas se «o Christo» foi o Verbo; se o Verbo foi o sol; se o sol é ainda
+agora a vida do genero humano; se a Cruz é o unico pezo que faz crescer
+a quem a soffre; se na terra não ha luz senão a que vem de cima; se toda
+a negação expira nos labios de quem chega a ouvir como se amiudam os
+anhélitos do estertor, forcejae, forcejae para restituir, ó vós que
+ainda o podeis, ao santuario do Deus vivo os unicos sacerdotes que elle
+conhece, ao Povo os unicos oráculos em que elle pode crer, ás miserias o
+seu antigo e tão amado refugio, aos vicíos e aos crimes o dique onde já
+tantas vagas suas rebentaram em flor, e refugiram.
+
+¿Não é assaz amplo o thesoiro que entre as mãos tendes de destinos
+humanos?
+
+¿Os exercitos e as armadas, os tribunaes, os governos, todas as
+magistraturas, todos os magisterios, todas as exacções, todas as
+administrações, não vos dão de sobejo com que pagar ou empenhar
+amisades, zelos, e serviços, sem ser mistér que o povo de Deus venha,
+escravo e deshonrado, desde a sua Jerusalem deserta e muda, carregar a
+pedra e a areia para o vosso arco de triumpho?
+
+Rachel chorosa chora os seus filhos, e não quer consolada porque elles
+não existem para ella. Os moradores de Sião não entôam os seus
+inspirados canticos, porque os trasladaram para a beira dos rios de
+Babylonia. Ressuscitae para Rachel os seus filhos; reponde em Sião os
+seus moradores.
+
+A voz grande que se ouve em Rama prantear pela noite muda, calar-se-ha.
+A Cidade santa restaurará as suas festas.
+
+Não vos arreceeis de que, feriando os levitas, e despedindo-os das
+vossas tendas para a da Arca santa, o exercito da vossa parcialidade,
+qualquer que ella seja, se torne mais fraco.
+
+Pelo contrario: então é que a victoria, filha das bençãos da terra e do
+Ceo, ha-de poisar para sempre, como uma auréola, sobre a hasta do vosso
+estandarte, porque se dirá de toda a parte: «Eis ali os fortes, os que
+bastam per si para se defenderem. Eis ali os justos, a quem o Senhor
+outorgará dominação, porque elles lhe hão restituido os sacrificios.»
+
+
+XXIV
+
+Mas redescendâmos o estylo á lhaneza do nosso assumpto.
+
+ * * * * *
+
+Logo que na legislação entrar mais _bom-senso_ que _politica_, mais
+realidade que ficção, mais pensamento de semear que de ceifar, mais amor
+do homem que de homens, o recrutamento e a disciplina da milicia sagrada
+devolver-se-hão inteiramente, francamente, sem restricções mesquinhas e
+nocivas, das mãos profanas para as dos seus superiores e arbitros
+naturaes: os Prelados.
+
+O Governo se gloriará de haver se desembaraçado de uma tarefa, de pouca
+importancia aos olhos mundanos, e todavia cheia de incerteza, e de
+responsabilidade incommensuravel. Gloriar-se-ha ainda mais, de haver
+facultado com a sua restituição o incremento da religiosidade; por ella
+o das virtudes domesticas; por ellas, o das virtudes politicas; por
+tudo, o da prosperidade do Estado.
+
+Quando cada Bispo, maioral responsavel e zeloso de uma profusa grei,
+podér escolher por si mesmo, affeiçoar de espaço, collocar por sua mão,
+os vigias de cada um dos seus rebanhos parciaes, ¿quem duvída de que
+então os desacertos nas ponderadas escolhas hão-de ser tão raros, como
+os acertos o são no actual systema, em que são as casualidades, quando
+não as affeições ou os interesses, que predominam?
+
+ * * * * *
+
+Quanto aos Bispos (honra a quem a merece, e justiça a todos), as
+eleições do poder temporal teem merecido a geral approvação; teem
+recahido, pelo commum, em varões de mui notoria sciencia e prudencia,
+equidistantes dos dois oppostos fanatismos, concertados nos costumes, e
+zelosos discretamente.
+
+Graças, graças ao poder temporal, que já deu o primeiro passo, passo de
+gigante, para a suspirada reformação. Agora os restantes hão de
+seguir-se, porque são consequencia.
+
+Logo que soube, e quiz, prepôr ao Episcopado varões taes, logo que
+manifestou ao mundo que n'elles a todos os respeitos se fiava,
+tacitamente se obrigou a lhes repôr... (estas suas usurpadas regalias,
+ia eu dizer, e era um erro) estes seus onus, estes cahidos galhos da sua
+cruz, este accrescimo de trabalhos e mortificações, este para uma
+consciencia melindrosa martyrio das horas todas.
+
+Seriam elles, elles mesmos, os Bispos, os que poderiam furtar os hombros
+a tão duro redobramento de carga, se a caridade, obrigada nos do seu
+officio, os não forçára a beijal-a com lagrimas, tomal-a com exultação,
+e seguir via pelas asperezas do Calvario para o Ceo.
+
+ * * * * *
+
+¿E que são em verdade os Parochos, ou antes: ¿que foram os Parochos
+desde os antigos seculos da sua instituição, que foram, se não uns
+coadjutores dos Prelados maiores, para fazerem chegar até aos minimos e
+mais obscuros recantinhos das Diocéses a sua doutrina, a sua caridade, e
+os seus exemplos?
+
+Pois que os olhos, os ouvidos, os passos, e as mãos, de um só, e quasi
+sempre velho e cançado, não podiam alcançar tão longe como o seu
+espirito; medicos de populosos hospitaes de almas (e de corpos tambem),
+não lhes chegando as forças para estarem dia e noite a todas as
+cabeceiras, contarem todos os gemidos, ministrarem todos os remedios,
+estudarem todos os symptomas, limparem todos os suores, padecerem em
+todos e com todos, segundo a maravilhosa expressão do Apóstolo das
+gentes; distribuiram em cada enfermaría quem os supprisse, quem os
+fizesse sempre estar presentes, quem em seu nome, e segundo a sua
+sciencia, receitasse e administrasse, e nos casos duvidosos os fizesse
+de subito acudir.
+
+¿Como póde portanto, quando militam as mesmas rasões que presidiram á
+creação dos Parochos, consentir-se uma praxe, em que tudo vai
+falsificado?
+
+Dar ao medico, para seus ajudantes, homens escolhidos por homens
+inexpertos e ignaros da sua arte, não pode ser; e não ha-de ser sempre;
+e cabe nos esperar que nem continuará a ser por muito tempo.
+
+O Episcopado vai reassumir a sua autoridade imprescriptivel, o
+indispensavel respeito e obediencia dos seus primeiros subditos. Os
+presbytérios civis, hoje de tantos corvos e abutres, vão ser como essas
+torrinhas, que se branqueiam e se perfumam de incenso para morada de
+pombas. As parochias reverdecerão: e florescerão, até ao possivel auge,
+em creanças innocentes e instruidas, em adultos pios e laboriosos, em
+mulheres castas e amantes do seu lar e dos seus deveres, em velhos
+pacientes, resignados e conselheiros, em sólo bem cultivado e bem
+festivo; e o Throno se alegrará com os novos reflexos de ventura, que
+lhe virão de cada palmo da terra comprehendida no seu horizonte.
+
+
+XXV
+
+Não venha agora, no processo d'esta santificação, intrometter se o
+_Cardeal-diabo_ do ciume, com máscara de amor da Liberdade. Ainda que a
+máscara é de vidro, já d'aqui lh'a havemos de quebrar nas mãos,
+batendo-lhe em cheio com tres nomes todos presados: França, Italia,
+Inglaterra.
+
+ * * * * *
+
+¿Que nação mais ciosa das suas immunidades, que a franceza? ¿Que nação
+menos para consentir á Egreja o que de jus estricto lhe não compita?
+
+Nenhuma.
+
+Ora em França, bem sabemos todos que são unicamente os Prelados os que
+formam o seu Clero. Educam-n-o longamente. Instruem-n o copiosamente,
+por livros não escolhidos (como entre nós) pela Autoridade civil, ainda
+que (de si se entende) sujeitos á sua inspecção. Acostumam n-o ás
+praticas do seu não facil ministerio. Estudam, provam, e contraprovam, a
+aptidão e especial préstimo de cada um. Aproveitam só os que n'esse
+crivo pertinazmente bandejado sobrenadaram; e outra vez os escolhem á
+mão, para os irem repartindo pelas Parochias do modo que mais
+aproveitem; pois de ver está, que, differindo em indole e circumstancias
+as povoações como os individuos, tal individuo, que em tal povoação
+quadrará á justa, a afortunará afortunando-se; n'outra, que menos lhe
+molde, valerá menos, trabalhando e padecendo mais.
+
+ * * * * *
+
+O exemplo da Italia, tenho eu que ainda apérta melhor; porque, se lá os
+Bispos são independentes, como em França, para o provimento de suas
+egrejas, não é porque em mãos leigas esteja o sceptro do Estado. Ali o
+Sceptro é Bago juntamente.
+
+ * * * * *
+
+Documento, porém, sobre todos frisante nos offerece por ultimo a Gran
+Bretanha.
+
+Ali a Egreja Catholica, sem ser a do Estado, não protegida se não
+tolerada, não acarinhada se não temida pelo seu progressivo, cada vez
+mais rapido, mais assombroso, engrandecimento, gosa se, não obstante,
+por longa e pacifica posse, d'este seu não _privilegio_, se não
+_direito_ essencial; e os seus Bispos são pelo menos tão independentes
+no tocante á cura de almas dentro de suas Diocéses, como dentro nas suas
+os proprios Bispos protestantes.
+
+
+XXVI
+
+Ora pois: logo que entre nós se houver perfeito d'este modo a
+regeneração do Clero pelos seus principes (unicos legitimos em tudo que
+ao seu ministerio se refere) cabe esperar que a optima parte das nossas
+populações ruraes se ha-de ir tambem insensivelmente regenerando, e que
+a minha gente de S. Mamede do Monte será querida, e comprehendida até
+por cortesãos, quando sahirem a folgar no campo algum estio.
+
+Para então é que este livrinho, semelhante aos frutos que amadurecem em
+casa e ás escuras, ha-de ter para mais alguem o sabor que eu já lhe
+tomo.
+
+ * * * * *
+
+Se elle consegue, para além das raias da minha expectação, fazer com que
+um só captivo da Cidade cobre amor á vida solitária, ou que um unico
+solitário aprenda a conhecer alguma parte da sua encoberta
+bemaventurança, já não trocarei o pobre gosto de o ter escrito, pelos
+maiores triumphos literarios.
+
+
+FIM DO PROLOGO
+
+
+
+
+
+Notas de Castilho a este Preambulo
+
+
+NOTA I
+
+Fontes de estudo
+
+
+Como, durante a minha estada na serra, me não passava pela mente que
+houvesse algum dia de bosquejar esta humilde Odyssêa dos sitios e gente
+d'ella, nada trouxe apontado a tal respeito. Revolvendo as minhas
+memorias não escritas, achei n'ellas consideraveis lacunas, mormente no
+tocante á topographia, que eu desejava (quanto dado me fosse) completar.
+N'esta pressa me soccorri á officiosa amisade do actual Prior de S.
+Mamede da Castanheira, o Rev.^{do} Padre Antonio Jozé Rodrigues de
+Campos, a cujo zelo devo o ter podido apresentar menos imperfeito o meu
+painel, em que faltará tudo, á excepção de verdade nas coisas, e nos
+retratos parecença.
+
+
+NOTA II
+
+Parochos
+
+Na generalidade que estabeleço, por muito convencido, caberá fazer
+algumas gloriosas excepções; e, sem ir mais longe, o meu Parocho, n'esta
+freguesia de Santa Isabel[5], o Rev.^{do} Padre Jozé Jacintho Tavares, é
+varão de copiosas Letras, tanto sacras como profanas, de sãos costumes,
+sobredoirados de indole sociavel e amena, e incançavel na caridade. As
+reparações e embellezamentos, com que se tem remoçado o templo em que
+elle serve, nada são comparados com os soccorros de pão, de letras, e de
+instrucção christan e civil, que já começam a disfrutar os indigentes da
+sua freguesia. Largos são ainda os seus projectos; ajude-o a
+Providencia; deixará formoso exemplo aos do seu officio, e muita saudade
+filial de mulheres e homens prestaveis, em que elle haverá transformado,
+pela educação, creancinhas ainda hontem desamparadas, e a pique de
+perdimento. Não quiz perder este lanço de ajudar com um pequeno brado o
+clamor da gratidão popular, que algum dia ha-de ser alto.
+
+
+FIM DO PRIMEIRO VOLUME
+
+
+
+
+Notas:
+
+[1] O Doutor de capello José Feliciano de Castilho Barreto falleceu na
+Castanheira do Vouga a 6 de Março de 1827, e foi enterrado na capella
+mór da egreja parochial. Foram em 6 de Outubro de 1872 transportados os
+seus restos mortaes para o jasigo da sua familia no cemiterio dos
+Praseres em Lisboa, onde se conservam.
+
+ Os Editores
+
+[2] Existe ainda este cedro que tem alcançado descommunal corpulencia.
+Chamam-lhe por lá _o cedro do poeta_, ou _do Castilho_.
+
+ Os Editores.
+
+[3] Ovidio--_Os Fastos_--Liv. VI.
+
+[4] Allusão aos amargores da redacção da _Revista Universal Lisbonense_,
+minuciosamente narrados _nas Memorias de Castilho_.
+
+ Os Editores.
+
+[5] Castilho morava então na rua de S. Marçal.
+
+ Os Editores.
+
+
+
+
+
+
+
+EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
+
+Sociedade editora
+
+Livraria Moderna
+
+95--RUA AUGUSTA--LISBOA
+
+
+
+
+Obras completas de A. F. de Castilho
+
+XX
+
+O Presbyterio da Montanha
+
+VOLUME II
+
+[Figura]
+
+
+LISBOA
+EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
+95, Rua Augusta, 95
+1905
+
+
+OBRAS COMPLETAS
+
+DE
+
+ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
+
+VOLUME 20.^o
+
+
+
+
+VOLUMES PUBLICADOS:
+
+
+I--Amor e melancolia.
+II--A chave do enigma.
+III--Cartas de Ecco e Narciso.
+IV--Felicidade pela agricultura (1.^o v.)
+V--Felicidade pela agricultura (2.^o v.)
+VI--A primavera (1.^o vol.)
+VII--A primavera (2.^o vol.)
+VIII--Vivos e mortos--Apreciações moraes, litterarias, e artisticas.
+IX--Vivos e mortos (2.^o vol.)
+X--Vivos e mortos (3.^o vol.)
+XI--Vivos e mortos (4.^o vol.)
+XII--Vivos e mortos (5.^o vol.)
+XIII--Vivos e mortos (6.^o vol.)
+XIV--Vivos e mortos (7.^o vol.)
+XV--Vivos e mortos (8.^o vol.)
+XVI---Excavações poeticas (1.^o vol.)
+XVII--Excavações poeticas (2.^o vol.)
+XVIII--Excavações poeticas (3.^o vol.)
+XIX--O Presbyterio da montanha (1.^o v.)
+XX--O Presbyterio da montanha (2.^o v.)
+
+
+NO PRÉLO:
+
+
+XXI--O Outono.
+
+
+
+
+
+OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO
+
+Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos
+
+XX
+
+O PRESBYTERIO DA MONTANHA
+
+VOLUME II
+
+[Figura]
+
+LISBOA
+
+Empreza da Historia de Portugal _Sociedade Editora_
+
+
+LIVRARIA MODERNA || TYPOGRAPHIA
+Rua Augusta, 95 || 45, Rua Ivens, 47
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+1905
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+I
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+A PRIMEIRA NOITE NA SERRA
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+ ... Ibi haec incondita solus montibus et silvis studio jactabat
+ inani.
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+¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! ¿Em solitario monte,
+que se espanta de ver-me, e cuja austéra fronte
+nada avistou jamais, no amplissimo horizonte,
+de mundo a tumultuar, de cidades a rir...
+ n'este ermo ignaro, frio, mudo...
+aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo!
+ ¡o meu presente e o meu porvir!
+
+ Genio invisivel da montanha,
+ de astros, de sol, o ceo te banha;
+ o mar de longe te acompanha
+ no livre cantico sem fim.
+Escada de Jacob da terra ao firmamento,
+ a mansão tua é monumento
+da potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.
+
+Emquanto, em derredor do solio teu sublime,
+a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,
+se volve, se transforma, e sua angustia exprime
+n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,
+ a variedades sobranceiro
+mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,
+ e do diluvio assolador.
+
+ Silencio e paz comtigo habita;
+ o ermo é como o eremita;
+ loucas vaidades não cogita;
+ ama o seu rustico trajar;
+em apparente inercia ama que ferva occulto
+ de seus affectos o tumulto,
+seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.
+
+Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:
+eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,
+póde ouvir de tua harpa a casta melodia,
+e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;
+ sim; mas eu, frivolo, profano,
+á solidão extranho, affeito ao mundo insano,
+ ¿que hei-de esperar? ¿que tenho aqui?
+
+ Toda a minh'alma se entristece,
+ e se confrange, e se ennoitece,
+ ao ver que a sorte lhe destece
+ de um sopro os aureos sonhos seus.
+Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto!
+ sonhava mundo... ¡acho um deserto!
+sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!
+
+Náufrago, perco a lyra em meio da viagem.
+¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem,
+quem me resurgirá? Dos montes a linguagem...
+oiço... escuto... medito... e em vão quero entender
+ é como uns sons de ignota fala;
+qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala,
+ sem me abalar, nem me embeber.
+
+ ¡Oh! ¿á minh'alma taciturna
+ que importa, ó montanha soturna,
+ que de perfumes sejas urna
+ da terra erguida sobre o altar?
+¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,
+ que o sol doirado, ao teu deserto
+mais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?
+
+Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,
+¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,
+só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo,
+bramirei:--«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel!
+ ¡são mais pesares, mais saudades,
+mais estro a arder em vão, mais visões de cidades,
+ mais tentações a dar-me fel!...»
+
+ ¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores!
+ ¡Tanto vate a ceifar louvores!...
+ ¡Tanto moço a colher amores!...
+ ¡Tantos loireiros e rosaes!...
+E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado,
+ qual roble que geme indignado,
+vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!
+
+Assim ruge, baldão de vingativo nume,
+esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;
+assim, nos gelos sua, agrilhoado ao cume
+do caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.
+ Só o abutre de eterna fome,
+que o grande coração algoz sem fim lhe come,
+ responde em ais á sua voz.
+
+ Fenece o dia. ¡Hora jocunda,
+ que eu tanto amava! ¡hora fecunda
+ dos cantos meus! ¿por que me inunda
+ nova amargura o coração?
+¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre?
+ a serra em luto se me encobre;
+a nocturna mudez duplica a solidão.
+
+Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa.
+De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;
+tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,
+nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir
+ de luzeiros um labyrinto.
+¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sinto
+ é vento em selvas a rugir.
+
+ Calae, fugi, ventos agrestes;
+ sumi-vos, lampadas celestes;
+ n'um seio a delirios já prestes
+ não susciteis mais tentações.
+Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...
+ vós, astros, cifras de diamantes,
+o arcano me aclarae lá d'essas regiões.
+
+¡Oh! ¡se á minha razão, contradictoria, altiva,
+que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva,
+de vós, faroes do Ceo, baixasse a crença viva,
+que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...
+ ¡se me volvesseis as ditosas
+esp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas,
+ com que se enfeita e esconde a Cruz!...
+
+ Tornar-se-me-hiam de improviso
+ a solidão, em paraizo;
+ a magua, em perenne sorriso;
+ em alto cantico, a mudez;
+a mallograda lyra, o não colhido loiro,
+ em harpa augusta, em palmas d'oiro;
+e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.
+
+Delirios sempre vãos, fugi de um peito enfermo;
+tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo;
+ermo para ambições, é inferno, e não ermo;
+para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo.
+ Gentis phantasmas de cidades,
+vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,
+ como um esquife em aureo veo.
+
+ ¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me,
+ (embora em saudades me eu queime)!
+ O somno, as vigilias enchei-me
+ da vossa esplendida vizão.
+¿Val o riso choroso as festas da loucura?
+ vinde, guiae-me á sepultura,
+crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.
+
+¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,
+nem ecco respondeu n'estes covões ignotos.
+Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotos
+dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;
+ não, no silvestre seio vosso,
+nem de amenas ficções apascentar-me posso,
+ nem menos as posso esquecer.
+
+ ¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futuro
+ sondou jamais o abysmo escuro?
+ ¡Apenas chego e já murmuro!
+ ¿O de que tremo acaso sei?
+Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,
+ aqui me aguardem, recatados,
+dias de estro e de paz, quaes nunca disfrutei.
+
+Se além, no presbyterio, humillima choupana,
+(Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)
+mais que fraterno amor sollícito se afana
+em me afôfar o ninho, a vida em me inflorar;
+ se n'um retiro verde e mudo,
+por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,
+ sombras no estio, o inverno ao lar;
+
+ se a solidão que me apavora,
+ sómente o fôr vista de fóra;
+ se em seus recôncavos demora
+ gente feliz, povo de irmãos;
+se do antigo viver, das crenças de outra edade,
+ vestigios guarda a soledade;
+se poesia se vive entre estes aldeãos;
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+se a alegria, serena, isenta de pesares,
+como a fresca saude, habita os puros ares;
+se em toda a parte ha Deus, em céos, em terra, e mares,
+se Deus em toda a parte á Natureza ri...
+ coração meu, não desanimes,
+gozos que não prevês, e cantos mais sublimes,
+ encontrarás talvez aqui.
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+ ¡Ah! sendo assim, ¡que importa a fama!
+ Tambem philoméla derrama
+ sua harmonia ás selvas que ama
+ longe de ouvintes e do sol.
+Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teria
+ que a viva, a lustrosa poesia,
+de perolas que a flux borbóta o rouxinol?
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+ Castanheira do Vouga
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+ Outubro de 1826.
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+
+II
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+O SEPULCRO OU HISTORIA DE UMA NOITE DE SAN JOÃO (POEMA)
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+INTRODUCÇÃO
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+(QUE É MELHOR DORMIR, QUE LER)
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+ (Ermo alpestre entre cabeços de rocha e pinheiros, na serra do
+ Caramulo. É noite escura como breu. O autor e um arrieiro, ambos a
+ cavallo, transviados na montanha.)
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+I
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+--Bem lh'o disse eu, perdemos o caminho;
+a velha era por força alguma bruxa.
+Logo eu zanguei co'a cara e mais co'a touca!
+--Bom; a pobre mulher (¿que mais querias?)
+tres vezes t'o ensinou.
+ --Nem trinta vezes
+que eu passasse por elle, o aprenderia;
+a não ser pelo rasto que deixasse
+esmurrando o nariz por essas lapas.
+Já levo sem ferrage ambas as mulas;
+perdeu-se o norte; não descubro casa,
+nem gente, nem caminho, e é quasi noite.
+Patrão, por meia legua mais ou menos,
+não se deixa uma estrada como aquella,
+que costeava o monte á beira da agua.
+A velha era uma bruxa, e nós dois asnos.
+--Dize um que vale dois, mas dois não digas.
+Se tomámos o atalho em vez da estrada,
+toda a culpa foi tua; eu não queria,
+porem teimaste; e eu não me opponho a teimas.
+--Mas eu ¿por que teimei? ¡pois se a maldita,
+com ar de santa, e palavrinhas manças,
+nos rabiscou co'o pau no pó da estrada
+tão claramente as idas, as venidas
+d'esta serra sem fim, não lhe escapando
+lomba, moiteira, torcicólo ou brenha,
+que a mula mesma entenderia o mappa!
+¿Quem não cahia em tal? cahiam todos.
+E de mais ¿quem nos diz que aquelles riscos
+não tinham diabrura ou nigromancia
+capazes de encarchar um Santo em carne?
+¿E quem me diz a mim que a grenha russa
+não vai ao pé de nós? ¡talvez sentada
+na anca da mula!... ¡_fúgite_, demonios!
+ Meu Doutor, pelo mundo ha muita coisa;
+quem mais anda, mais sabe; e eu não sou tolo,
+nem creancinha de honte. ¡Olha o diabo!
+bem digo eu; a azinhaga aqui poz ponto;
+caminho... ¡era uma vez! ¡Má raio a parta!
+¿que havemos de fazer nestas alturas?
+--Tornarmos para traz.
+ --¿Por este escuro?
+¿quer dar cabo das mulas, e estoirar-me?
+¡co'um milhão de diabos!!...
+ --Pois fiquemos.
+--E as mulas comam terra, como os sapos,
+e nós carqueja.
+ --As noites são bem curtas.
+--Se ao menos se avistasse alguma venda...
+--Em rompendo a manhan teremos tudo.
+Por agora apeemo-nos.
+
+(_Apeiam-se._)
+
+ * * * * *
+
+ --No inferno
+estoire entre um milhão de Satanazes
+o que inventou primeiro andar de noite;
+era o maior ladrão... ¿Que bulha é essa?
+--Não é nada; uma pedra que rebola.
+--¡Que rebola!? ¡e sem mão! será bonito,
+mas nem por isso engraço. ¿E aquelle bruto
+lá em cima no pinhal, que guincha tanto!
+--Algum mocho.
+ --Más balas o atravessem,
+e lhe acabem co'a casta antes de um'hora;
+cuidei que era outra coisa. Eu na taverna
+valho por cinco ou seis; mas cá perdido,
+e então de noite, um pisco me põe medo.
+--Pois dorme.
+ --¿O quê? ¡dormir! ¡co'a bruxa ás barbas!
+só se eu fôsse algum bêbado. Esta noite
+nem pregar olho, nem largar das unhas
+dois penedos; e ao pé já está reforço.
+--Golgan, já que não foi por nossa escolha,
+busquemos contentar-nos co'a poisada,
+que inda não é tão má como o parece.
+¡Quantos ha menos bem acomodados
+por esse mundo agora! uns em cadeias,
+outros entre ladrões, náufragos outros,
+estes em luto, aquelles em doença.
+Bastantes em colxões de plumas fôfas
+revolvem entre hollanda, e sedas, e oiro,
+cuidados tristes, asperos remorsos.
+¡Quantos até nas salas mais alegres,
+entre as luzes, e as muzicas, e as danças,
+mas em face de um sôffrego banqueiro,
+padecem mais que um reo chegando á fôrca
+Não ha mal sem peor; qualquer estado
+se se compara, é bom; com cara alegre
+suavisam-se os incommodos; um fardo
+n'um hombro impaciente é fardo e meio.
+Quem não soffre um descommodo pequeno
+nos grandes morre; um leve desagrado
+dá realce ao prazer quando nos volta.
+Qualquer estado, e pessimo que seja,
+tem seu lado risonho; e é da prudencia
+d'entre os picos da silva achar a amora.
+_Amen_.--Brava o latim; dá ceia e cama.
+--A falta d'esta ceia é novo adubo
+do almoço de amanhan; e emquanto á cama,
+¿que outra melhor do que esta em mez de Junho?
+Nem paredes nem tectos, que nos roubem
+a viração da noite apoz a calma;
+por entre essa quebrada dos penhascos
+lá em baixo o mar co'os seus murmurios frescos;
+sobre nós, e por baixo das estrellas,
+pendendo como um lustre, este carvalho
+cravejado de insectos que entre-luzem;
+dois rouxinoes ao longe; as lageas, mornas.
+Vê; que soberba camara!; que leitos
+desde a origem dos seculos nos guarda
+no seio d'esta brenha a Natureza!
+--Ao menos não tem pulgas. ¡Xó, canalha!
+¡leva rumor! é bom pregar de coices.
+Não durma, Sôr Doutor.
+ --Não tarda muito
+que eu não entre a sonhar ¡Que bellos sonhos
+não devem ser os de uma noite d'estas!
+--Tenha lá mão com isso; o que eu prometto,
+para espalhar-lhe o somno, é uma enfiada
+de casos que eu passei na minha vida;
+tão rara, que podia ir á _Gazeta_!
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+Uma vez ia eu só; era em Novembro;
+chuviscava e fazia um tal escuro
+que era metter os dedos pelos olhos.
+(Lembrou-me esta a proposito da mula
+escoicinhar sem causa.) E era bom tempo
+aquelle; andava Christo pelo mundo;
+tinha eu mais duros, que patacos hoje,
+e andava o oiro aos pontapés da gente;
+tambem... ¡já cá não torna! O grande caso
+é que n'aquelle tempo era eu solteiro,
+e rapaz bonitote; e havia muitas
+que me fizessem fogo; eu cuido, e é certo,
+que não pelos vintens; nem pela cara;
+mas isto de casar co'um almocreve,
+seja elle o diabo dos infernos,
+parece a todas bem: é uma delicia
+ter o seu homem só de vez em quando,
+em logar do espião de um pegamaço
+com residencia fixa em ar de abbade.
+Mas... não é bom falar na vida alheia.
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+Como lhe ia contando, era almocreve;
+chamavam-me o _Chupista_. ¡Oh! que bolaxa
+que eu pespeguei na cara do coécas
+que me inventou a alcunha em certa venda!
+qualquer creança lhe moia os queixos;
+já lá está onde o pague ¿Onde ia o ponto?
+¡ah! sim; era almocreve e recoveiro;
+e andava com dez machos todo o anno
+a correr quanto valle e monte havia
+para cobrar o fôro aos Frades Cruzios.
+Que isto do fôro é bom, nem que pareça;
+uns pagam-lhe borel, outros centeio,
+queijos, presuntos, lan, cevada, vinho,
+gallinhame por arte do diabo,
+ovos, e até o musgo onde se empalham.[1]
+Não ha n'um pardieiro um desgraçado
+que não deva pagar alguma nica.
+Já vê donde me vinha a minha alcunha;
+mas sem rasão; é porque andava ás ordens.
+Tambem já tenho ouvido alguns autores,
+tal como o meu cunhado, e mais uns certos,
+que é coisa bem mal feita a tal derriça;
+Mas bem feito ou mal feito, eu não sou Papa.
+Vamos cá co'o meu conto.
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+ Era uma noite,
+cuido que já lh'o disse, ali por Maio,
+e fazia um luar... que era um consolo.
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+ Eu saio a meu avô; se é boa a estrada,
+gósto de andar de noite havendo lua;
+cá pelas brenhas não, que não sou lobo.
+Vinha eu mui fresco em mangas de camisa,
+em cima de uma carga de presuntos,
+pela estrada real, co'os sete machos
+a dormitar ao som da chocalhada.
+Vinhamos caminhando em certo passo
+de quem gosta da noite, ou vem sem pressa,
+ou de quem traz comida a gente farta.
+
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+ * * * * *
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+
+Que lhe digo, em abono da verdade,
+que servir Santa-Cruz não dá desgosto:
+pagam bem, fazem festa ao gallinheiro,
+vendo os machos no pateo é uma alegria!...
+¡aquillo até os olhos se lhes riem!
+dão pinga, e de cear, e muitas vezes
+vi eu estar vai não vai a dar-me um beijo
+o Frade gordo que recebe o saque.
+¡Bom tempo! ¡bom de lei! já cá não torna.
+Não durma Sôr Doutor.
+ --Não durmo; acaba.
+--¡Acabar! não acabo em toda a noite,
+nem que estoire a barriga do diabo.
+Inda eu não comecei. Lembra-me um Frade
+que havia em Santarem; tinha um cachaço,...
+por tal signal que até revia enxundia;
+¡e era um demo, o maldito, a beber vinho!...
+¡Mas aquillo! a prégar era uma joia;
+um sermãosinho d'elle atarantava
+e punha tudo azul. Tinha a constancia
+de arrumar prègações de duas horas.
+N'um que eu lhe ouvi, depois de falar muito...
+(e olhe, foi tanto, que eu, e muita gente,
+já tinhamos dormido á regalada)
+disse muito pausado: «Eu principio.»
+
+ Assim faço eu tambem. Todos devemos
+tirar das prègações algum proveito.
+Ora pois, não me durma, e ahi vai a historia;
+porém tenha lá mão, que a levo errada.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Nesse dia á tardinha, na estalage
+tinha entrado uma velha; era um diabo,
+que isso... só visto! pequenina, magra,
+muito preta; era um bilro de pau santo.
+Tinha pela cabeça um lenço pardo
+atado pela barba, um manteo ruço,
+e uma mantinha exotica e de agoiro.
+Tinha então uma cara não sei como;
+nem parecia cara; era um nó cego
+que fazia azoar a toda a gente;
+mas muito experta; e uns olhos como um bixo.
+¡Tambem aquella rez tinha no corpo
+muita pipa de sangue de creanças!
+
+
+ * * * * *
+
+
+Cheguei eu á estalage, e ia com fome;
+vou-me á carga do fôro, agarro uns ovos,
+mando os frigir com mel, que é papa fina;
+e então para quem tem de andar de noite
+dizem que é bom, que livra do catarro,
+já se sabe com quatro pingarolas.
+Ia se preparando o meu guizado,
+e era um cheiro tão bom pela cosinha,
+que isso não ha dizer. Já dois gallegos,
+e mais, tinham ceado; andavam tolos
+a cochichar, e ás voltas pela casa,
+um olho em mim, outro olho na tigella,
+e eu muito concho a rir, e a pescar tudo.
+Basta dizer que me pediram ambos
+que vendesse um quinhão; ¡e isto em gallegos!
+
+
+ * * * * *
+
+
+ Emfim, cheirava bem, e estava d'alma.
+Mas o monstro da velha era uma estaca
+ali muito direita ao pé dos ovos,
+com cada olho aberto, ¡que te parto!
+Era mesmo um olhar de inveja e zanga.
+Logo eu tive má fé co'a tal menina
+quando ella perguntou quem era o dono.
+Porém quem mal não usa mal não cuida;
+sentei-me á meza a codear nos ovos.
+Ora agora o vereis: a minha amiga
+amúa-se n'um canto, mais vermelha
+que um pimentão, e eu sempre a observar n'ella.
+Ferra os olhos em mim com tal quezilia,
+que a não ser por temer a Deus e a ella,
+batia-lhe co'o prato pelas trombas.
+Botava cada lagrima... ¡de punho!
+dava cada suspiro, a excommungada,
+¡que punha medo! accendo o meu cigarro,
+pago, monto a cavallo, e sigo a estrada.
+
+ Era já noite escura, e um vento frio
+como o gran Satanaz.
+
+
+ * * * * *
+
+
+ ¿Que diabo é isso?
+ressona?; ou já na costa anda algum moiro?
+--Avante; são as ramas que sussurram.
+--Pois deixe-as sussurrar. Vinha eu picando
+pela estrada real por ser já tarde,
+e a assobiar sósinho o _tiroliro_.
+Vai senão quando, estacam-se-me as bestas.
+Á esquerda, como ahi, ficava um monte;
+d'esta banda um pinhal muito fechado;
+de sorte que o caminho (e então mui longe
+de todo o povoado) era um soturno,
+que nem Roldão o andava áquellas horas.
+Entrei logo a suar e a arripiar-me;
+e as mulas n'um inferno de pinotes
+sem quê nem para quê; davam taes rinchos,
+que se fundia o chão; pregavam coices,
+que assoviavam no ar; ¡que contradança!
+era uma groza de diabos doidos,
+e eu mais doido, no meio, á bordoada.[2]
+Aqui digo eu como dizia o Frade
+n'outro sermão de um Santo; _não lh'o pinto
+por não ter um pincel_. Mas faça ideia
+que tal eu ficaria lobrigando
+(¡eu te arrenego diabo!) uma luzerna
+a ir e a vir, á roda, e acima e abaixo,
+lá longe no pinhal. Que era bruxedo
+tive eu logo de fé; muitos que m'o ouvem
+riem-se, e tal; deixal-os rir; ha bruxas;
+que isso sei eu; ¡e então ali! ¡tão tarde!
+Por força era algum sabbado lá d'ellas,
+que as taes amigas juntam-se de noite
+a fazer os seus sabbados, o mesmo
+como nós no Natal á meia noite...
+Ha muita comezana de creanças,
+sarrabulhos de sangue, cambalhotas,
+e umas rizadas..... que até Deus se admira.
+No meio anda um pretinho muito gordo,
+que é o proprio diabo em carne e osso.
+Diz então muita coisa a todas ellas,
+dá-lhe lá seus conselhos, toma contas
+do que teem feito, e..... acaba a tal comedia.
+Untam-se co'uma untura que lá sabem,
+transformam-se em corujas e mosquitos,
+o diabo e o lume sorvem-se na terra
+dizendo boa noite até tal dia,
+e ellas voltam-se a casa a armar já outras.
+Isto sabia-o eu como os meus dedos.
+Lembrou-me a tal gulosa da estalage,
+e então é que dei tudo por perdido.
+Deitei fóra o cigarro, e entro em voz baixa
+(¡sempre isto do pavor faz muita asneira!)
+entrei eu co'as mãos postas para as mulas
+a pedir-lhes co'as lagrimas nos olhos,
+pelas Almas Bemditas, que deixassem
+todo aquelle motim, que me perdiam;
+que fugissem d'ali, que andavam bruxas,
+e que pé ante pé viessem vindo;
+que eu promettia uma ração dobrada.
+Partimos. De repente desembésta
+d'ao-pé da tal luzerna um certo vulto
+direito para nós como uma xára.
+Com seis milhões de grozas de diabos!
+¿quem havia de ser, senão a velha?
+Salta n'um pulo a estrada, atrepa ao monte,
+chega ao cimo, e de lá muito sizuda
+entra a dizer-me adeus, e (¡t'arrenego!)
+a fazer-me uma cara dos infernos...
+--¿E tu viste-lhe a cara em tanto escuro?
+--Certo é que lembrou bem; tambem agora
+lá me faz confusão ter visto a cara.
+¿Escuro? isso era escuro como um prego;
+não sei como isso foi, mas vi-lh'a, e vi-lh'a;
+¡assim eu visse Deus! trago-a ainda hoje
+tão bem encasquetada no juizo,
+que a podia pintar, e era pintura,
+que urrariam os bois se lh'a mostrassem.
+Quer escuro quer não, vi-a, e está dito.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Mas o bom não foi isso; o mais bonito
+foi entrar de repente o gallinhaço
+nas canastras da carga em cantarolas,
+a romper, a fugir, e eu pila pila
+para aqui, para ali, correndo ás cegas
+sem as poder juntar. Foi se-me a noite
+n'esta labutação; de cada canto
+sentia um cacarejo, ia ás carreiras,
+gallinha... por um oculo. Já rouco,
+moido e desesp'rado, ao romper d'alva
+vejo as minhas senhoras mui contentes
+todas juntas n'um bando ao pé das mulas.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Mas alto; esta é peor. ¿Não vê? repare:
+¡um clarão para ali!! d'esta nos trincam;
+¡meu Deus! ¡onde diabo eu tinha a morte!!
+--Alegra-te, Golgan; ¿que noite é esta?
+--Para nós ambos de Fieis defuntos.
+--De San João.
+ --¡Ah! sim; pois é fogueira,
+e não é outra coisa. ¡Ora o diabo!
+sempre tive uma colica soffrível.
+Mas vamos nós a andar, se lhe parece.
+Dizia um Padre Mestre ali do Algarve,
+n'umas rasões que teve com meu tio,
+que era barbeiro então, e o Padre Mestre
+era o Vigario d'elle; e elle, o meu tio,
+ia fazer-lhe a barba e mais ao preto,
+que era um tição que só á bofetada;
+¡mas muito presumido! ¡e então por moças
+dava o grande magano um cavaquinho!!...
+Com que emfim, tinha o Padre este ditado:
+aonde ha lume ha fumo; e eu então digo
+que por força onde ha lume ha-de haver gente;
+e que onde ha gente ha casa; e toda a casa
+tem a sua cosinha, e então ceâmos.
+E é partir de repente em quanto ha lume.
+.........................................
+.........................................
+
+
+
+II
+
+
+Eis aqui um dialogo de ensanchas
+sem geito, sem sabor, sem fim, sem nexo--
+grita o leitor perdendo as estribeiras.
+¿Onde foi isto? ¿ou quando? ¿quem são elles?
+¿onde vão? ¿d'onde veem?
+
+
+ * * * * *
+
+
+ Leitor amigo,
+ha duas horas que soubéras tudo,
+se o cruel arrieiro o permittisse;
+mas vais sabel-o em quanto enfreia as mulas.
+Quanto a elle, presumo que o conheces;
+o nome do outro autor dir-t'o-hei n'um verso
+não peor que outros muitos portuguezes:
+Antonio Feliciano de Castilho.
+Venho do Minho de assistir a bodas;
+recolho me outra vez á Castanheira[3]
+a casa do Prior, a fazer versos,
+beber-lhe o vinho verde, e dormir muito.
+O theatro da scena é certo monte
+de que me esquece o nome; o anno, e o dia,
+Mil oitocentos e vinte e oito, á noite,
+vespera de S. João. Se mais desejas,
+é perguntar, que eu te respondo a tudo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Mas o melhor (se queres um conselho)
+é fazer-me um favor, ao qual protesto
+ser toda a vida grato: anda comnosco;
+a noite está bellissima; podemos
+ir co'o nosso vagar pataratando,
+e conduzindo as mulas pela redea.
+Mas tens medo ao Golgan; pois boas noites;
+fica-te em paz, regala te, que eu juro
+que estando em teu logar fazia o mesmo.
+Se queres, faze ás paginas seguintes
+onde vai mais Golgan (porque já agora
+hei-de contar a historia por miudo)
+faze, digo, a taes paginas o mesmo
+que eu, tu, e elle, e nós, e vós, e elles,
+fazemos ás dos _Martyres_ do Padre,
+que são apezar d'isso uma obra prima.
+Passa-as em claro, e dize que já leste.
+Quem fala assim não quer suor alheio.
+E adeus; até mais ver que vou com pressa.
+.........................................
+.........................................
+
+
+
+III
+
+
+--Olhe lá, Sôr Doutor; diz um livrito,
+que a gente sem falar é como os burros;
+e eu digo que diz bem. Quero contar-lhe,
+para ver se se encurta este caminho,
+o mais que se passou depois da historia.
+Mas vá picando a mula; ¡olhe a fogueira!
+
+
+ * * * * *
+
+
+Com que, como eu já disse, ao outro dia
+vi as gallinhas ao redor das bestas;
+torno-as a pôr na carga, e digo logo:
+A Santa-Cruz não vão vocês de certo;
+nem vocês, nem a carga dos presuntos,
+nem nada que aqui vai, ¡com trinta infernos!
+Servos de Deus tão bons, tão meus amigos,
+¡haviam comer tal! ¡metter no corpo
+talvez quanto bruxedo ha neste mundo!
+Deus me livre do mais, que de encarrêgos
+posso-me eu bem livrar. Corto co'as mulas
+direito á Hespanha, e vendo-as a uns ciganos,
+com carga e tudo.
+ --¿As mulas!
+ --Pois as mulas
+tinham tantos diabos na muchilla
+como as gallinhas, os boreis, e os ovos.
+Mas eu era rapaz; se fosse agora,
+não digo que o fizesse. O divertido
+foi andar eu trez annos para quatro
+a correr Portugal e Hespanha toda
+a buscar confessor; ¡tudo ignorante!
+Padre douto, nem um que me absolvesse.
+Por fim achei o filho de um cigano,
+dei-lhe trez duros, e botou-m'a logo.
+Mas então penitencia não falemos;
+se a quizesse rezar, ¡nem toda a vida!
+Tudo se arranjou bem; dei-lhe outro duro,
+e elle por ter vagar, se incumbiu d'ella;
+mas disse-me que havia até ser velho
+mortificar o corpo co'um vergalho,
+e com muitos jejuns. ¡Se eu fôra pato!
+Sabe então o que fiz inda algum tempo?
+era correr de chôto os meus pedaços,
+e depois descançar.
+
+
+ * * * * *
+
+
+ Deixemos isto,
+que não lhe importa muito, e a mim nem nada;
+vim para a minha terra apenas pude,
+muito pimpão, e cheio como um ovo.
+Namorei, namoraram-me bastantes;
+por encurtar rasões, casei com uma
+que era filha do irmão de um primo ou tio
+de um meu compadre Abreu, que era cunhado
+da sogra d'esta mesma rapariga,
+e enteado do irmão do Cura velho;
+tudo gente limpinha, muito boa,
+e temente ao Senhor, que é todo o caso.
+Gastei para impôr Bulla os meus tanturrios,
+¡e não foi lá tão pouco! ¡Veja agora:
+¡para a gente casar largar dinheiro!
+É como ir para a India ou para a fôrca,
+e pagar inda em cima aos da sentença.
+Perguntei ao Banqueiro a causa d'isto,
+disse me elle que a causa era nós termos
+quatro humores no corpo, e d'aqui vinha
+haver os quatro grãos na parentela;
+que ella era minha prima, e que entre primos
+havia os quatro grãos todos inteiros.
+Não se riu, nem me eu ri; paguei-lhe em peças
+não só os quatro grãos que se não viam,
+mas ainda mais cá certa brincadeira.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Deixar; fosse o que fosse; emfim, casei me.
+Aquelle mez primeiro é uma delicia;
+foi todo elle um _cantate_; muito amigos,
+muito beijo, e comer; muita broega,
+muita romage, e tudo muito e muito.
+Nunca houve um par assim tão contentinho;
+nanja na aldeia e na comarca em roda;
+era até amizade escandalosa.
+Tanto assim, que o Prior, mais era amigo
+de fazer a vontade a toda a gente,
+n'um dia santo á pratica da Missa
+deu-me um foguete ¡caspite! Disse elle
+que marido e mulher com tal namoro
+era coisa mais vil que mil diabos.
+Fizemos-lhe a vontade antes de muito;
+ella entrou-me a azoar com trinta coisas,
+e eu a dar-lhe a matar. Por fim de contas,
+o asneirão do Juiz, que era vizinho,
+tomou isto em trambolho, e ameaçou-me
+de me encaixar no fundo dos infernos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+¿E então que lhe parece a entaladella?
+Vivia em paz, ralha o Prior; dezanco-a,
+vem o Juiz, promette-me a enxovia.
+É como o conto de um palerma velho
+que ia a pé co'um rapaz e mais um burro.
+--Bem sei.
+ --Pois sim senhor. Com que, tivemos,
+não digo bem; teve ella oito ou dez filhos;
+e sempre a dois e dois; forte coelha!
+Entrei a dar á bruta; acudiu povo,
+ella fugiu, mas eu fugi sem ella.
+E d'então para cá desandou tudo.
+E hoje ando aqui por moço de arrieiro,
+a perder noites, e a estrompar as ventas.
+Aqui está por que eu digo que este mundo
+é coisa muito celebre! uns ovitos
+e uma pinga de mel fizeram tudo.
+........................................
+
+
+ * * * * *
+
+
+¡Brava! ¿não ouve uns sinos que repicam?
+¡olhe um foguete! ¡truz! ¡Viva o Vinagre!
+¡e viva a ceia e a cama que estão perto!
+
+
+
+IV
+
+
+Com effeito, assim era; a poucos passos
+já se ouvia tambor, gaita de folles,
+risadas, bombas. Apressando as mulas
+na direcção dos sons e da fogueira,
+descemos uma encosta, a cujas abas,
+entre uns poucos de antigos castanheiros,
+uns cinco ou seis pastores se occupavam
+a abobadar de murta uma fontinha.
+Interromperam logo o seu trabalho
+para nos vir saudar; mostraram pena
+de ouvir que nos perdêramos no monte,
+off'recendo á porfia os seus albergues.
+Não findara a benevola contenda,
+se um d'elles agarrando o freio á mula
+me não posesse a andar; agradecendo
+os desejos dos mais que inda ficavam,
+segui affoitamente o nosso guia.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Uma ponte de pau que atravessámos
+coberta de chorões, nos poz á borda
+de um trigo já maduro e sussurrante,
+contiguo ao seu casal. ¡Quanto eu folgara
+de descrever tudo isto! Uma casinha
+plantada ahi como risonha ilhota
+n'um vasto mar de tremulas searas,
+e clara como a neve, ou como a lua
+que a espreitava do ceo por entre as folhas
+de um esquivo parreiral. Junto ás paredes,
+de rosas e limeiras revestidas,
+canapés de cortiça apresentavam
+a imagem do descanço e a do convite.
+Não era necessario entrar a porta,
+para já conhecer o domicilio
+da hospedage e da paz; que as proprias auras,
+como que em tão poeticas folhagens
+se ouviam sussurrar: ¡«Bemvindo o estranho!»
+
+
+ * * * * *
+
+
+ Não longe lhe ficava a sua aldeia
+na c'roa de um oiteiro; pensarieis,
+vendo-as tão perto, e um bosque a separal-as,
+a aldeia tão brilhante de fogueiras
+e esta casa tão só mas tão alegre,
+pensarieis, como eu, ver n'uma festa
+moça ausente e feliz, amante e amada,
+que entre o prazer commum não quer nem deve
+ir desfazer seus pensamentos doces.
+
+
+ * * * * *
+
+
+ Visinho seu mui proximo era o templo,
+aos valles do arredor alardeando
+na sua torre branca um Anjo de oiro,
+e a um lado a Residencia, occulta em parte
+n'um ramilhete de altas cerejeiras.
+
+
+ * * * * *
+
+
+ Nunca mão de pintor juntou n'um quadro
+objectos mais simpathicos. Tal como
+trépido arroio em tacita espessura
+das copas bebe a sombra, e envia ás copas,
+do sol reflexo voadores raios,
+do casal a presença alegra o templo;
+a presença do templo está lançando
+sobre o casal o sério da virtude.
+Tudo isto sob um ceo de fertil benção,
+sobre um chão de abundancia, e no ar mais puro!
+--¡Meu Pae,!--grita o pastor entrando á pressa--
+minhas irmans! ¡um hospede!--
+
+
+ * * * * *
+
+
+ A tal nome,
+como se fosse á voz de alguma fada,
+com repentina luz nos apparecem
+creanças folgasans, esbeltas moças,
+um ancião, e uma velha. Imagináreis
+ver Graças, ver Amores, ver Napêas,
+trajados de aldeãos, e honrando os lares
+de Baucis e Philémon, que o parecem
+na edade e na virtude os meus dois velhos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Não mora entre seáras a etiqueta;
+mas sobre herdada meza de pinheiro
+em troco adeja a cordeal franqueza,
+o bom desejo adubo da abundancia,
+e a amisade dos bons, filha do instincto,
+que nasce qual relampago, mas dura.
+Deu-se o primeiro instante ao comprimento,
+logo o segundo aos commodos; o resto
+á conversa, e ao bulicio de tal noite.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Vem-nos do forno, envolto co'as risadas,
+vital perfume de mellifluos bolos,
+que em molles virações traz a alegria.
+Aquella vai e vem compondo a meza;
+esta afervora a ceia, e a cada instante
+corre á janella que descobre a aldeia.
+Juntam-se á bulha os sinos da parochia,
+que o sacristão na vespera do Orago
+jurou provar seu zelo aos Ceos e á terra.
+O festivo repique exalta as mentes,
+os meninos não param, correm, gritam,
+repartem bombas, furtam-se valverdes,
+e rindo ameaçam fogo á pipa velha.
+A boa annosa mãe ralha do estrondo,
+e o faz inda maior; o esposo enfia
+uma sobre outra historias do seu tempo.
+O avito candieiro de tres lumes
+cobre da meza o centro, e chama á ceia;
+a sôlta sociedade eis se lhe aggrega.
+Não foi longo o festim, mas cada copo
+lhe augmentava o praser. ¡Salve tres vezes,
+ó dos tres lumes candieiro avito!
+¡quanto amor, quanta paz, que bens, que festas
+não tens visto florir em tua casa!
+¡quantas mãos tão felizes como puras
+te hão accendido em noite igual! ¡quem sabe
+que de memorias para ti conservas!
+¡Em premio da hospedage aqui te accendam
+longas eras em noites semelhantes
+dignos de seus avós contentes netos!
+
+
+ * * * * *
+
+
+Iria a muda apostrophe adiante,
+mas ouviu-se o zabumba.--¡Ahi veem! ¡são elles!--
+dizem todos, e todos saem pulando.
+--Olhae; olhae; ¡nem uma luz na aldeia!
+este anno veio tudo. ¡Que alegria
+terá o nosso Parocho!
+ --Maria,
+dá cá o meu chapéo.
+ --¡Corre, Pedrinho!
+--¿Onde está meu irmão?
+ --¡Não se demorem!
+--Vamos dançar.
+ --Perdi as alcaxofras.
+--Vinde por cá; passemos-lhes adiante;
+que rancho que lá vem!................
+..........................................
+.................... Golgan, que eu fosse,
+não pintara a estrondosa miscellanea
+que vôa do cazal ao Presbyterio.
+Lavra nos proprios velhos o alvoroço;
+vão co'os mais quasi a par; lavra em mim mesmo,
+estranho á festa. O pateo illuminado
+nos recebe, e comnosco a aldeia em pezo.
+--Viva o nosso Prior!...
+ --¡Viva!!!...
+ Mil vozes
+restrugem o ecco apenas avistaram
+rindo á janella o velho gordo e alegre.
+--¡Viva o Senhor San João! ¡viva a alegria!
+
+
+
+V
+
+
+Bate o zabumba; a muzica rebenta;
+fogem foguetes pelos ares livres
+estrepitando; o campanario ovante
+de jubilo endoidece; repentina
+por dez partes acceza alta fogueira
+dentro de um vasto circulo purpureo
+mostra o prazer brincando em cada rosto.
+Bello é ver n'este lance as raparigas
+compondo mais o lenço, alevantando
+o chapeo, que o semblante lhes encobre,
+dando, como a descuido, um toque leve,
+mas gracioso, ás flores que lh'o adornam,
+e á flor do seio, e ao laço do collete.
+¡Quantos nós ata amor n'esses instantes!
+¡quantos outros aperta! ¡em quantos outros
+embebe o espinho de um sutil ciume!
+
+¡Chiton! temos o Parocho na frente;
+e as cangalhas vêem mais do que parece.
+A _alegria decente_, eis o estribilho
+com que recheia as praticas. Se cantam,
+co'a cabeça e co'o pé bate o compasso;
+se pulam boa dança em honra ao Santo,
+bota fora uma can. Por isso o baile
+circula agora a estridula fogueira;
+por isso o San João vai toda a noite
+injuriado em canticos devotos.
+
+
+
+VI
+
+
+Meia noite. Que som mysterioso!
+interrupção no baile e nos descantes.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Fada das amorosas prophecias,
+tu, tu passaste agora em concha aerea
+tirada pelo zephyro; sentimos
+todos nós tua magica presença.
+¡Boa viagem, Fada, e boa noite!
+¡Salve, hora duodecima; bateste,
+e descerrou-se a porta do futuro.
+Sua nevoa desfeita em orvalhadas
+vai nas plantas eleitas, vai nas flores
+mal chamuscadas, vai filtrar nas sortes
+benção, certeza, amor, felicidade.
+Já se interrompem bailes e descantes.
+Embebida em potentes nigromancias
+toda esta multidão por modos varios
+exerce escrupulosa altos mysterios.
+Mas renasce o alvoroço; é porque os copos
+dos bilhetes fatidicos chegaram
+da ama nas mãos com riso de importancia.
+
+--Não falta aqui rapaz nem rapariga--
+diz ella;--o senhor Padre escreveu todos,
+mesmo á vista do rol dos confessados.
+Meia noite já deu; quem quer casar-se,
+pode vir vindo.
+
+ Ao grande reboliço
+succedeu a attenção, que a cada sorte
+outra vez se converte em gargalhadas.
+Por cada par que amor approvaria,
+veem disparates comicos ás duzias,
+e dão rebate ás palmas e epigrammas.
+O proprio bom do velho applaude a tudo,
+e por primeira vez da sua vida
+encontra em si chorrilhos de finuras.
+Já pede a uma o bolo do noivado;
+quer ser padrinho de outra; e ás mais bonitas
+quer baptisar de graça os pequerruchos.
+
+Muito custa no mundo o ser discreto
+sem descambar o pé! coisas escapam...
+que é por Deus não haver o Santo Officio,
+como esta ao nosso padre:
+ --Olhae, rapazes,
+vai n'estas sortes o que vai no mundo:
+o acaso e a Providencia, ao que parece,
+ambos lêem pelo mesmo Breviario.
+
+Não foi dos mais christãos o epiphonema,
+mas fez rir. O Golgan neste comenos
+chega, furta uma sorte, e diz abrindo-a:
+--Esta, seja quem fôr, é cá p'ra nostri.
+
+Pede que a leiam; lê-se-lhe:--O coveiro.--
+Mudo o povo se entre-olha; e de repente
+co'as pragas do Golgan destampam risos,
+como os que o padre Homero encaixa aos deuses;
+¡inextinguiveis risos! Mas não cede
+a chufas nem a agoiro o varão forte;
+e com mão bem segura extrae sublime
+do outro copo outra sorte:--Ambrosia Trécula.
+
+Então do pateo o riso clamoroso
+deveu-se ouvir no Artabro e Guadiana,
+e retumbou nos ceos: Trécula... Trécula.
+
+--¿Quem diabo é esta Ambrosia?--o heroe pergunta.
+--Sou eu--responde a ama.
+ --¡Está brincando!
+é talvez sua neta ou titrineta.
+--Vá-se, tolo.
+ --Olhe cá, senhora tia,
+não vai a arrenegar; não lhe pergunto
+por cara, corpo e modos, que são lindos;
+¿mas tem fazenda ou bois, ou oiro, ou chelpa?
+
+Com o desdem mais dramatico, a matrona
+voltou costas; e o bêbado prosegue:
+--Sô Reverendo, não lhe aceite os banhos,
+que eu sou casado, e ponho impedimentos.
+
+Obriguei-o a calar-se. Eis que me off'recem
+tirar tambem; tirei; ¿quem tiraria?
+uma das filhas do meu bom Philémon.
+Recebi parabens de todo o povo;
+deixei-o bem disposto a divertir-se,
+e tornei co'o o meu _sogro_ ao nosso albergue.
+Instou que me deitasse; respondi-lhe
+que em noite de San-João ninguem se deita;
+que alem d'isso a jornada fôra curta,
+e sem nimia fadiga; ultimamente
+que, pois que elle esperava a mais familia,
+esperava eu tambem; não sendo airoso
+faltar á noiva no primeiro dia.
+--Cedo, mas só co'a clausula--disse elle--
+que inda amanhan sois nosso.
+ --Assigno.
+ --¡Bello!
+
+
+ * * * * *
+
+
+Então toca a palrar até que venham.
+Saiâmos, que faz calma; alem, na eira,
+sobre a alta palha do centeio novo
+tomaremos a fresca e as orvalhadas.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Disse, e fez se. ¡Que ceo! ¡que paz! ¡que noite!
+na molle aragem das fagueiras horas
+meu coração feliz desabroxado
+me enchia de um perfume egual ao vosso,
+nocturnas flores, que o gosais sosinhas.
+¡Quem podesse apanhar, prender na vida
+estes momentos lubricos, momentos
+que só caem do ceo durante a noite,
+e só na solidão! Temi perdel-os
+co'a triste distracção de mutuas falas.
+Lembrou-me haver notado no meu velho
+um genio amigo de contar historias;
+pedi-lhe uma qualquer, bem decidido
+a deixal-o á vontade espanejar-se
+sem lhe dar attenção; mas enganei-me,
+Pondo o rosto na mão, nos céos os olhos,
+entra a buscar pela memoria antiga
+algum caso mais raro; e como desse
+casualmente co'a vista em certo lume
+n'um cabeço remoto,
+
+
+ * * * * *
+
+
+ --Ouvi--me disse;--
+por aquella luzinha lá ao longe
+lembra-me um caso, e um caso que foi certo,
+passado ali no Minho ha largos annos.
+Inda eu conservo em casa uns Breviarios
+de um Padre irmão da minha avó materna,
+que poderão servir de documento.
+Elle mesmo o escreveu nas folhas brancas
+do principio e do fim dos quatro tomos.
+E era um clerigo honrado, o que escrevia;
+merece tanta fé como a Escritura.
+Diz elle então ali (nem é só elle;
+minha Avó sua irman dizia o mesmo):
+que esta nossa familia inda descende
+da Rosa de quem fala a dita historia.
+A minha avó foi Rosa, e tinha o nome
+de sua mãe; a minha mãe foi Rosa;
+a vossa _noiva_ é Rosa; e n'esta casa,
+querendo Deus, sempre ha-de haver o nome.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Depois d'este preambulo de Rosas,
+veio a historia, e encantou-me; ou fossem causa
+hora e sitio, ou a amavel singeleza
+com que narrava o historiador das medas,
+ou já disposição com que eu me achasse.
+Creio que sim: do espirito do ouvinte
+vem mais de meio o merito das obras.
+Por exemplo: da Eneida o livro quarto
+dias ha que me enfada; ha tambem dias
+em que se atura o _Italico_ do Padre;[4]
+e em que se entende um pouco a pálrea bruta
+que aos brutos deu do amavel Lafontaine.[5]
+Nada parece mal, trazido a tempo;
+fora de tempo, tudo. A mesma coisa
+entre obras e leitores acontece,
+que entre os garfos e as arvores: se enxertam
+quando o não pede o tronco e o veda a lua,
+¡adeus ramo bastardo! e se ao contrario,
+penetra a seiva toda, e pula o ramo.
+
+Fosse o que fosse, ouvi com tanto gosto,
+que protestei contar-vol-o a meu modo;
+e o poema seguinte é o desempenho.
+Tivesse elle, o que em vão lhe hei procurado,
+da prosa do meu sogro o tom singelo,
+talvez, leitores meus, o relerieis.
+
+Inventar, descrever, compor os versos,
+são os tres pés, da trípode de Apollo.
+Já sabereis do Reverendo Kinsey
+que eu não tenho invenção; que nada pinto
+co'a verdadeira côr da Natureza;
+que os versos meus são bons, mas que aborrecem;
+o que não tira que um poéta eu seja
+digno de ser notado entre os que vivem.
+Ora, quanto á invenção d'este poema,
+bem vedes que a não ha, ou se a ha que é d'outrem.
+E quanto ás descripcões, fiz o possivel
+para não metter mais que as do meu _sogro_.
+Mas faltava o melhor, e o mais difficil:
+versificar á moda. Atirei fora
+o Virgilio, o Racine, e o Metastasio,
+gebos todos monótonos, que enfiam
+os versos bons e os optimos aos centos;
+atirei-me ao Filinto e aos Filintistas;
+estudei, fiz ensaios, compuz paginas
+de embréxados velhissimos e esdruxulos,
+e não foi sem proveito o estudo acerrimo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Perdoae se este livro inda vai falho
+d'esses donaires que travêssos fogem
+de mal expertas mãos; soffrei-o em quanto
+vou destilar sobre outro o _Elucidario_,
+qual se espreme um limão sobre um guizote.
+
+
+Abril de 1831.
+
+FIM DA INTRODUCÇÃO[6]
+
+
+
+
+III
+
+EPISTOLA
+
+A JOÃO EVANGELISTA PEREIRA DA COSTA
+
+(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)
+
+
+
+Da paz de um ermo ao turbilhão da côrte
+a Musa de Castilho á do seu Costa
+saude e amor. Já outra primavera
+se enflora, a seu pesar, desde que ausente
+pede aos montes a irman, que a não suspira,
+e dorme ao lado de um feliz ingrato.
+
+
+Em quanto a minha, ignota, emprega os ocios
+em cantos cujo ecco além não passa
+....................................
+
+
+1831--Abril, 21.
+
+
+
+
+IV
+
+O PRESBYTÉRIO
+
+
+
+¡Salvè, principio e fim dos meus passeios!
+¡Salvè, ó tu, cujo tecto, alva casinha,
+cobre ha perto de um lustro os meus autores,
+meus castellos no ar, meus faceis versos!
+¡Salvè, co'o teu rosal; co'as tuas limas,
+festivo ornato das paredes brancas;
+co'o teu portão patente oppresso de heras;
+e co'a tua nogueira; e co'o teu cedro,
+brasão futuro do obumbrado pateo!
+¡Salvè outra vez, meu presbytério! ¡Salvè!
+
+
+ * * * * *
+
+
+Hoje, que o caprichoso do meu estro
+(bem sabes se elle o é) deixa inconstante
+versos índa no chôco, outros que apenas
+vão da casca a sahir, outros que breve
+teem de fugir do ninho em vôos livres,
+entrou, mal veio a aurora esclarecer-te,
+a doidejar-te em roda, a namorar-te,
+qual borboleta ociosa ou leve abelha.
+Pois que elle o quer.... cantemos-te; e perdôa
+se o canto falador, transpondo os cumes
+das tuas cerejeiras, fôr mais longe
+revelar tua humilde obscuridade.
+
+
+ * * * * *
+
+
+A antiga mediania, a segurança,
+a paz, o amor dos Ceos, o amor dos homens,
+genios foram, que em bençãos presidiram
+aos alicerces teus. De Pário monte
+não foi mistér que entranhas te enviassem
+chão, columnas, e abóbadas, e estatuas;
+tuas portas sem chave não cresceram
+lá nas florestas do hemisphério opposto.
+Foi visinho pinhal teu sôlho e tecto;
+deu-te paredes mais visinho oiteiro;
+portões e meza um cedro bom da extrema.
+Não custaste nem lagrimas a pobre,
+que á força te cedesse a choça avita,
+nem odioso suor; e não se dormem
+somnos melhores em Belem nem Mafra.
+
+
+ * * * * *
+
+
+¿Que importa que no centro d'estes ermos
+vivas tão só, que apenas descortines
+n'um dos altos d'em torno esquiva aldeia?
+Tu e o templo co'as messes que vos cingem
+bastais no quadro agreste; em vós affluem
+(como em sua Queluz) nos festos dias
+ondas e ondas de amaveis saudadores.
+Os rebanhos ociosos não desdenham
+tôjo em flor, que te doira o chão das mattas,
+d'onde envôltos co' os trémulos balidos,
+veem cantos de amorosas guardadoras
+endoidecer teu ecco.
+ Os caminheiros
+abençôam-te a sombra; aqui teem fonte,
+que em tua relva, ao fresco das parreiras,
+detém, dessedentando-as, caravanas
+que vão ou veem no alpestre Caramulo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+O anjo das flores liberal te arqueia
+de bordada verdura as rescendentes
+claras janellas.
+ Um bulicio manso
+de amigas vozes teu recinto alegra.
+Na sua tépida choça os bois ruminam
+ante o feno em montões; dorme no páteo
+farto esquadrão lanigero; ao sol pôsto,
+cão, dos lobos terror, te vela as noites;
+teus gallos as demarcam vigilantes.
+Co'a luz primeira arrulha-te alvejando
+cypria nuvem plumosa; e apenas saltam
+da dextra mão mesquinha os grãos doirados,
+em torno da gentil madrugadeira
+de toda a parte os hospedes revôam.
+Bicam por entre as pombas á porfia
+a gallinha de filhos rodeada,
+o manso grasnador do aquoso tanque,
+o vaidoso perú, que ri cantando,
+e vós, e vós, mais vivos do que todos,
+não chamados, mas sempre a nós bemvindos,
+passarinhos do ceo, turba sem dono.
+
+ * * * * *
+
+Singelo presbyterio, ¡oh! ¡como te amo,
+co'o teu ar casaleiro! Amo o teu forno,
+tão social á noite; a simples sala,
+quasi sempre deserta; a livraria,
+deserta rara vez; estas alcôvas,
+que enche um só leito; e a adega, assoviada
+do alvo sôpro do Norte; e o fuso, e a pia
+da cheirosa vendima; e o teu celleiro,
+alto, arejado, e tão patente aos pobres,
+como as portas do templo convisinho.
+
+
+ * * * * *
+
+
+¡Floresças para o Ceo e para a terra
+nos inconstantes seculos! ¡floresças,
+feliz, co'o feliz dono, edade longa!
+E se, lá no futuro, algum amigo,
+sócio dos dias bons, saudoso e triste,
+torcendo a estrada, a te pedir viesse
+novas do teu cantor,--«Amou me, e amei-o--
+lhe dirias mostrando-te; e--«Seus ossos--
+juntaria o teu velho--aqui descançam.»
+
+ * * * * *
+
+Sim; apraz-me cuidar que inda os meus restos,
+gratos aos bons d'este recanto obscuro,
+onde escapei no seculo de sangue,
+cá ficarão n'este ocio, inda alguns dias
+do simples montanhez talvez chorados.
+
+ * * * * *
+
+Oh santa perseguida Liberdade,
+¡onde te achei!.... Onde não vivem homens;
+n'um torrão bravo que não chama invejas.
+
+ * * * * *
+
+Em quanto, ora que a noite o ceo regela
+humida e turva, tantos ricos enchem
+de bocejante enôjo as assemblêas,
+e tantos, tantos miseros, sem lares,
+sem consôlo, sem pão, sem voz de amigo,
+só reos de patrio amor, dormem nas furnas,
+pelas praias do Oceano, e pelas rochas
+(sublimes troncos pelo pé cortados)...
+tua clara fogueira nos aquece;
+¡graças, graças a um Deus!
+ Assim vagava
+sobre o universo undoso a arca do justo.
+
+ * * * * *
+
+Nós, depois de annos tres, inda esperâmos.
+Ainda do trovão eccos retumbam.
+Ainda os escarceos assoladores
+remugem lá por fóra. Ainda a pomba
+co'o ramo de oliveira inda não volve.
+
+ * * * * *
+
+¡Oh santa perseguida Liberdade!
+¡Oh! ¡Se eu podesse, a trôco dos meus dias,
+restituir-te á minha Patria!....
+
+ * * * * *
+
+ Basta.
+Esperemos ainda. Oremos sempre;
+e talvez que não tarde a grata aurora,
+em que, a adejar da serra pelos pincaros,
+venha de longe a nuncia das venturas,
+a pomba com o seu ramo de oliveira!...
+
+Castanheira de Vouga
+
+ Maio de 1831.
+
+
+
+
+
+V
+
+A LYRA DO DESTERRADO
+
+(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)
+
+
+
+Era a noite dos finados;
+sombria noite de outono.
+Entre sinos acordados
+lá jaz Roma entregue ao sono;
+seus luzeiros apagados.
+
+Do ceo pelo rôto manto
+só brilham frouxas estrellas;
+sai a custo o clarão santo
+dos templos pelas janellas;
+e Petrarcha vela emtanto.
+
+Véla Petrarcha, e suspira
+no leito amoroso e ermo;
+olhos na véla que expira;
+saudades no peito enfermo;
+nem gloria sonha, nem lyra.
+
+Qual raio sôlto de lua
+por móveis aguas vibrada
+n'um bosque inteiro flutúa,
+tal adeja no passado
+a saudosa mente sua.
+
+¿Quem dirá seus pensamentos?
+a douta lingua está muda.
+¡Que paixões, que sentimentos,
+no rosto, que aspeitos muda,
+veem transluzir por momentos!
+
+Ora é dor, ora é sorriso,
+esperança, amor, transporte;
+queixas, ternuras diviso;
+desce aos abysmos da morte,
+vôa aéreo ao Paraizo.
+
+¡Não falar o Vate agora
+co'os labios que move apenas!
+¡Que torrente abrazadora!
+¡que amor! ¡que incendidas penas!
+¡quão nova a paixão não fôra!
+
+Vai a noite adiantada;
+humido vento assovia;
+treme a luz quasi apagada.
+Do grão Cantor que vigia
+ferve a mente a sonhos dada.
+
+--«Eís o templo conhecido
+que os meus destinos encerra.
+A mãe terna, o pae querido,
+cá m'os tem no seio a terra.
+Cá vi Laura, e fui perdido...
+...............................
+
+Castanheira do Vouga
+ 1830...(?)
+
+
+
+
+
+VI
+
+EPISTOLA
+
+(Fragmento achado entre os manuscritos de Castilho)
+
+
+
+A minha primavera emfim renasce.
+Té n'este horror selvatico dos montes
+roupas traja nupciaes a Natureza.
+O ceo azul, o ar morno, as aguas puras,
+tudo nos diz «amor»; dizem-n-o as aves
+chalreando ao florir das alvoradas;
+bala o rebanho alegre; armento o muge;
+na folha nova zéphiro o cicia;
+a camponeza em meio de mil flores,
+que lh'o exhalam balsamico, o suspira,
+e ao viçoso tapiz, á sombra vasta
+macia e tentadora lança os olhos.
+
+Em quanto o rouxinol, Orpheu plumoso,
+enleva a fonte e as arvores nocturnas,
+cantando amor, da lua ao raio incerto,
+lições que mais de um ente ao longe estuda
+(e pratica talvez); em sons de lyra,
+solitario eu tambem, lições de affectos
+de cá te envio ao centro da cidade.
+N'esse ruidoso vórtice de povo,
+de vãos praseres, de negocios futeis,
+a geral rotação te arrasta ás cegas;
+é dever da amisade erguer-te aos olhos
+luz, salvadora luz. Náufrago entre ondas
+pode não ver a táboa ás vezes perto;
+pode a praia ignorar, e tel a em face.
+Táboa amor te lançou da praia firme;
+ledo e fausto Hymeneu te está chamando.
+.......................................
+
+
+
+
+
+VII
+
+A ROMARIA
+
+
+
+Lá vem Maio rosado. Já floreja
+nas planicies, verdeja pelos montes;
+é o mez de Amor, é o mez de Philoméla.
+
+Aureo amanhece o dia suspirado
+da romaria annual; léguas em roda
+já tudo é festa, esp'rança, e regosijo.
+As povoações, desertas. Por estradas,
+por torcidos atalhos, por oiteiros,
+correm de toda a parte ornados bandos.
+Lá retrôa nos eccos aturdidos
+a matinal girandola ruidosa;
+acorda ao longe a torre com repiques;
+um povo de cem povos misturado
+enche a vozeada selva, a acceza ermida,
+e de ondeado matiz cobre o terreno.
+Arfa ao sol, no alto mastro volteando,
+triumphante bandeira alvi-cerúlea.
+Vai e vem, ora chega, ora se allonga,
+não está em nenhum sitio, e assoma em todos,
+a alma da festa, a gloria do Gallego,
+a aguda gaita túmida e franjada,
+que ao rufado tambor sócia, repete
+a moda velha e alegre, amor dos campos.
+Em vidrado alguidar reluzem n'agua
+os doirados tremóços, que afadigam
+com compradores a afrontada tia.
+As navalhas e anéis, o apito, o espelho,
+se assoalham mais além; na alva toalha,
+alva e folhuda, estão chamando o exul.
+Em cima de seus carros triumphantes
+os laureados tonéis, reis da alegria,
+dão n'um fogo perenne a vida a tudo.
+
+Aqui se ouve o descante ao desafio,
+que a viola ora segue, ora acompanha.
+Ali se apinham para ver as danças,
+que a discorde rabecca entorta ás vezes.
+Lá, se entorna o licor em puros vidros;
+ao pé se adoça a fresca limonada.
+
+Aqui se comprimentam; além chamam;
+um se perde, outro se acha, outro convida.
+Este corre; esta pára a ataviar-se,
+por mostrar o cordão e o lenço novo.
+Estirados na relva os velhos palram;
+grita o rapaz. O amante, recostado
+ao páu, por onde um braço lhe serpeia,
+faz longa côrte á tímida futura,
+que em resposta de amor lhe dá tremóços.
+
+N'isto vôa o foguete, e atrôa as nuvens.
+Lá sai a procissão; lá foram todos.
+¡Ah! depois do jantar comido ás sombras,
+cada um levará, volvendo a casa,
+gratas lembranças para o anno inteiro.
+
+
+
+
+
+VIII
+
+O DOMINGO GORDO DOS MONTANHEZES
+
+OU
+
+A MATTA DE S. SEBASTIÃO
+
+
+ Versos na plantação de uns carvalhos junto á egreja de S. Mamede da
+ Castanheira do Vouga pelos rapazes solteiros da freguezia no
+ Domingo do Carnaval de 183...
+
+
+
+I
+
+
+N'este dia, em que o povo tumultuando
+nos casaes, nas aldeias, nas cidades,
+troca a enxada, o tear, o livro, a agulha,
+por copos, danças, máscaras, e risos
+nas saturnaes christans; quando se espraia,
+desde o seio de Roma aos fins da terra,
+de um praser contagioso alta vertigem;
+¿por que retreme ao golpe das enxadas
+sob os meus pés a solitaria encosta?
+
+ * * * * *
+
+¡Saude a vós, a vós louvor. Bemvindos,
+montanhezes, fieis aos priscos usos!
+O cântaro do estylo ahi está coroado,
+risonho e prestes a inundar os copos;
+o prémio á vista vos redobre as forças.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Rasgae co'o duro ferro a terra dura;
+de vossos paes a matta veneranda
+em torno de seu santo antigo dono
+se accrescente por vós. Plantae, que é tempo,
+no chão, sagrado de suor devoto,
+ó presente annual, que o Ceo prospére.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Onde quer que elle jaz, abençoemos
+as cinzas do homem bom, lá d'essas eras
+que a pia usança introduziu primeiro.
+¡Quanto a sua virtude era risonha!
+--«Cada solteiro plantará n'este ermo
+mais uma arvoresinha de anno em anno,
+que lá em cima encontrará seu premio.»
+¡Oh! estes rogos, sim, este pedido,
+doce e desint'ressado, uncção respira;
+manda mais do que as Leis; morrer não deve.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Produz, produz a miudo, ó Natureza,
+por teu bem, por bem nosso, homens como esse.
+Haja quem diga ao joven par, que ás aras
+sobe apenas amante, e desce esposo:
+--«Hoje, que são já fruto esp'ranças de hontem,
+entrae sorrindo pelo chão da vida;
+plantae, plantae um'arvore que o lembre.»
+
+
+ * * * * *
+
+
+Quando a cabana festival se enrama,
+se enflora a meza, e os aldeãos visinhos
+veem festejar na casa um filho novo,
+a mão paterna, de praser tremendo,
+orne de um novo tronco o prédio avito.
+
+
+ * * * * *
+
+
+¿Depois de suspirada e curta ausencia
+volve um irmão das terras estrangeiras?
+¿Convalesce um parente? ¿Em bem se acaba
+suado, volumoso, eterno pleito,
+que empobreceu o avô, o filho, e o neto?
+¿Fizestes o adversario amigo vosso?
+¿Sorriu-vos a ventura? ¿É farto o anno?
+A sêrdes Reis, alçáreis monumentos;
+¿que vale um monumento? O homem dos campos
+melhores pode erguer a menos custo:
+plante sobre o caminho arvores férteis.
+Por elle o passageiro ardendo em calma
+ache a sombra hospedeira que o recreie.
+Por elle o pobre, que seu pão mendiga
+de casal em casal, de monte em monte,
+que não vê ceo, nem lar onde se aqueça,
+nem feno onde descance, e em todo o mundo
+só tem por património a caridade,
+ache a fruta a pender em curvos ramos,
+a acenar-lhe, a off'recer-se-lhe, a sorrir-lhe.
+Assim, do bem de um só germinariam
+mil bens communs; e do praser de um homem
+o publico praser, publicas bençãos.
+
+
+
+II
+
+
+Se tendes de nascer, nascei mui breve,
+sensiveis corações a quem Deus guarda,
+a gloria de influir eguaes costumes.
+Desde já nossas lagrimas de affecto
+correm por vós; ao seio do futuro
+nós vos lançamos desde cá louvores.
+
+
+
+III
+
+
+Sentemo-nos, em quanto os vossos filhos
+aqui se embebem na tarefa honrosa,
+sentemo-nos á sombra, a vós bem grata,
+do carvalhal que as vossas mãos plantaram,
+homens das cans, antigas testemunhas
+dos tempos que não são.
+
+
+ * * * * *
+
+
+ Vós, deputados
+das mortas gerações aos vivos de hoje
+como pregões propheticos; thesoiro
+de saudades, de dor, de experiencia;
+bons velhos, á vossa alma taciturna
+aprazem mais que a festa os pensamentos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Falae: ¿d'onde vos nasce essa tristeza
+profunda a um tempo e vaga, amarga e doce?
+¿Será de enfeitiçada sympathia
+que nos attrai á terra, ao chão da vida,
+chão sempre cubiçado e sempre ingrato?
+
+
+ * * * * *
+
+
+O coração, zeloso da existencia,
+compara os dias seus do tronco aos dias,
+e a conta desegual o opprime e o fecha.
+¡Annos a nós, e seculos aos bosques!...
+Planta o pae, mas a sombra hospéda os filhos;
+netos, que não verá, gosarão d'ella;
+e indiff'rentes incógnitos vindoiros
+rirão contentes ao folhudo abrigo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Mas, velhos, mui ditoso o que em seu predio
+dispõe arvore fértil de esperanças,
+que irá legada aos filhos de seus filhos.
+Prophecias de amor lhe expande o seio,
+sorri, e ama o que é seu, na esp'rança ao menos.
+Mas feliz egualmente o que em seu predio
+possue vaidoso um tronco hereditario.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Na réga, e ao vir da flor, e ao dar do fruto,
+¿como ha-de não pensar em seus maiores?
+Um lh'o plantou, os outros lh'o trataram;
+¿Como ha-de recusar-lhe uma saudade,
+um suspiro, um suffragio, um elogio?
+A gratidão medita á mesma sombra
+onde já meditára o amor paterno.
+Esta arvore mortal é o santo marco,
+em que se juntam, se entrelaçam, crescem,
+dos idos o interesse e o dos vindoiros;
+nó de affeição, que os seculos reune.
+
+
+ * * * * *
+
+
+¿Vedes vós essa mãe, que ha tantos annos
+chora um filho alem-mar, em longes terras?
+Mostrae-lhe um passageiro a dar á vella
+para o porto feliz; ¡com que ternura
+lhe não dará, chorando, um longo abraço,
+que leve, que lh'o entregue, ao seu querido,
+e todo o amor de mãe lhe exprima n'elle!...
+¡E com quanto alvoroço o desterrado
+não cingirá o amavel mensageiro!...
+Eis o emblema da arvore, cruzando
+viva e lembrada o Oceano das edades,
+mensageira de int'resse aos paes e aos filhos.
+
+
+
+IV
+
+
+¿Qual de vós, repoisando n'esta cama
+de folhas mortas, qual de vós, no meio
+d'esses troncos musgosos, seculares,
+não viaja com o espirito espraiado
+por esse mundo antigo e antigos homens?
+Sim, vossa alma se apraz, phantasiando
+de lhe restituir quanto houve d'elles:
+uma vida, uma choça, herdade e patria.
+Deslembram cans; rugosas faces riem;
+reviveis n'um minuto annos de infancia
+sob a affeição de um pae, de um pae nos lares;
+sem cuidados, sem prole, e sem temores,
+entrais folgando o limiar da vida.
+¡Podesse n'este ponto o pensamento,
+como ave em ramo flórido e viscoso,
+deter-se a recordar, ficar pregado!
+¿Vós suspirais?!... desfaz-se-vos o sonho,
+e a extincta geração recai nas campas.
+
+
+ * * * * *
+
+
+¿Mas quê? ¿d'esses antigos plantadores
+nada mais resta além de uns troncos mudos
+n'este universo movediço e instavel?
+¿nem uma só lembrança, um dito, um nome?
+Tudo passou sem mínimo vestigio,
+como os sons leves de um descante ao longe.
+...........................................
+
+
+
+V
+
+
+Bons aldeões, estas sombras regaladas
+vos falam nos avós; porém comigo,
+comigo, extranho, e novo em meio d'ellas,
+conversam no aureo tempo a que assistiram;
+recordam-me as edades do Universo,
+e os varios povos, e os paizes varios,
+contemporaneos do nascente mundo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Intonsas, invioladas, venerandas,
+outras selvas, como esta que nos fecha,
+fecharam do homem a primeira origem.
+Sob as verdes abóbadas immensas
+as velhas tradições nol-os descrevem
+pobres e alegres, nús e satisfeitos,
+saboreando em ocio a glande e a fonte,
+dormindo sobre a folha, e sem pedirem
+outra casa, outro templo, outra cidade.
+
+
+ * * * * *
+
+
+A pouco e pouco o numero crescia,
+minguando a pouco e pouco a singeleza.
+Infecta o vicio á terra; os ceos se mudam;
+a um Maio eterno as estações succedem;
+o ar se gela e accende, alaga e silva;
+já bravejam leões, já bramam tigres;
+o homem se acoita ao seio das cavernas.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Vós, troncos, até ali seus companheiros,
+acudís a servil-o; ¡e em quantos modos!
+lá, crepitais em rútila fogueira;
+aqui, das feras prohibís a entrada;
+dais uma clava ao caçador valente;
+na serviçal cortiça um berço aos filhos;
+leitos a amor, assentos á velhice,
+aos enxames um lar, um copo ás festas.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Das precisões ao grito, o engenho acorda;
+lá surgem povoações, curraes, tugúrios,
+e uma capella ás rusticas deidades.
+Lá rompe o novo arado a terra dura;
+lá geme, a transportar enormes pezos,
+o carro, e sulca atónitos caminhos.
+O genio excita o genio; o exemplo, o exemplo;
+a rudeza se pule; as artes crescem;
+a especie racional das mais triumpha.
+
+
+ * * * * *
+
+
+As gerações do ceo, do mar, da terra,
+tudo é já seu; os campos lhe obedecem;
+faltava o Oceano; affoita quilha o rasga.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Então foi, que estas arvores, tão uteis
+no patrio continente, abriram vôo
+sobre o liquido abysmo a novos climas.
+
+
+ * * * * *
+
+
+¿E em que parte do globo, arvore excelsa,
+te podes presentar, que não recordes
+uma façanha, um culto, um grão successo?
+
+
+ * * * * *
+
+
+¿Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta
+que foste invicta clava em mão de Alcides;
+vê-te, suspira, bate o chão raivando
+de achar-se escravo, e de não ter-lhe as forças.
+¿Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta
+do arvoredo Dodónio as mil respostas,
+o passado e o porvir patente a todos,
+e o livro do destino aberto ao mundo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+¿Na Ausónia? Mas Cybelle amou teus ramos;
+Roma os sagrou a Jove; e, fulminada,
+eras tremendo agoiro a todo o Imperio.
+¿Em Roma? ¿E a c'rôa civica?
+
+
+ * * * * *
+
+
+ ¿Nos campos?
+¿E Phílémon, o justo, o caro aos deuses?
+
+
+ * * * * *
+
+
+¿Nas Gallias? em seus barbaros oiteiros
+tu, só, eras o altar, o deus, e o templo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+¿Na Caledonia, em Morven, junto aos lagos,
+sobre os cumes, á beira das torrentes?
+Lá tu viste Tremnor, Fingal, e os bravos,
+reunidos na vespera do sangue
+em nocturno festim que allumiavas,
+quando na harpa dos bardos reviviam
+os feitos dos heroes do antigo tempo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+¡Salve, eleito Israel! Eis-nos em campos
+de Sichem. Vejo os principes e os velhos,
+os juizes, as tribus, apinhar-se
+em torno ao tabernáculo de Sila.
+Por cima d'este mar ondeado e vivo
+reina de praia em praia alto silencio.
+Sublime como o cedro do deserto,
+se levanta Josué, braço do Eterno,
+em nome do Senhor, que o manda e inspira;
+os favores do Ceo recorda ao povo;
+renasce a Fé; os idolos se arrazam;
+--«¡Gloria ao Deus de Israel!--vozeia a turba--
+¡ao Deus dos nossos paes, dos nossos netos!
+--Erga-se um monumento,--exclama o chefe--
+que, se infieis um dia os esquecerdes,
+vos envergonhe, e acorde os votos de hoje.»
+E a monumento põe no logar santo
+enorme pedra á sombra de um carvalho,
+que abrigava co'a copa o santuário.[7]
+Despede o Povo, e em paz contente expira;
+em paz, que já não vê perjúrios novos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Escrava de Madian a plebe expia,
+na miseria e no opprobrio, os males torpes
+que fez ante o Senhor. Mas inda existe
+um justo, a quem Deus fie o libertal-a:
+é Gedeão, é o Josué segundo.[8]
+Este, em quanto seu pae lança aos caminhos
+medroso olhar á espera do inimigo
+para fugir com elle, ajunta á pressa
+o trigo que limpou.
+ Vê de repente
+um Anjo, que debaixo do carvalho
+se assenta, e lhe repete a lei do Eterno.
+Esse mesmo carvalho é testemunha
+da belleza do alado mensageiro,
+da voz de salvação mandada ao Povo,
+e do holocausto acceito e posto em cinzas,
+e do altar, a quem _Paz_ foi dada em nome.
+
+
+ * * * * *
+
+
+E este, que tão frondoso opáca os valles,
+¿por que o rodeia um bando taciturno
+dos fortes de Galaad? as suas armas
+jazem quebradas; sua dor vai funda;
+dos olhos tristes para o ceo voltados
+pelo rosto amarello lhes escorre
+grosso pranto, que alaga as f'ridas frescas.
+Choram Saul, e a régia descendencia,
+que mortos no combate aqui descançam.
+Para o Monarcha agigantado e invicto
+nenhuma estátua se erguerá na campa.
+Sua columna e funebre palacio
+preparou-lh'os com tempo a Natureza:
+o tronco, rei da selva, o está cobrindo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+¡Mas quanto é mais tocante o que se eleva
+nas faldas solitarias da montanha!
+Ali Débora jaz; ali Rebecca
+chora na morte a que a nutriu na infancia,
+ama no coração, mãe nos extremos,
+de seus primeiros e ultimos segredos
+confidente fiel no lar paterno,
+querida socia na feliz viagem,
+e no lar conjugal seu doce allivio.
+¿Arvore a tanto affecto consagrada
+na affectuosa Biblia irá sem nome?
+o _carvalho das lagrimas_ lhe chamam.
+
+
+
+VI
+
+
+¡Que uso tão doce aos corações piedosos!
+Reverdecei, costumes do bom tempo,
+quando o Rei, o pastor, o chefe, a virgem,
+tinham sob um ceo livre a sepultura.
+A Morte, menos barbara do que hoje,
+com avarenta mão não ferrolhava
+sob um tecto pezado, entre altos muros,
+as prezas, cá de fóra em vão pedidas.
+Não era um templo um cárcere de mortos.
+Dormiam mollemente em terra franca,
+em jardins frescos, em copadas selvas.
+Esta esp'rança adoçava um pouco o amargo
+do ultimo trago aos labios moribundos.
+Este bem, tão pequeno em mal tão grande,
+¡quanto valor não tinha aos que ficavam!
+O irmão, o pae, o filho, o amigo, o esposo,
+podiam livremente, a toda a hora,
+ir regar de seu pranto amadas cinzas,
+fartar saudades, inflammar lembranças,
+delirar doce a noite, e o dia inteiro,
+e de praser a um peito onde palpitam
+superstições de amor ou de amisade,
+dizer:
+ «Este tapiz relvoso o cobre;
+esta ave lhe gorgeia; esta aura sôlta
+o refresca; esta lua apraz-lhe aos manes;
+a primavera m'o visita, e espalha
+tambem por cima d'elle o seu regaço;
+esta violeta é sua, hei-de colhel-a;
+d'est'arvore a raiz sente-lhe a fronte,
+nutre-se do seu pó, vive por elle,
+é elle mesmo em parte; arvore amiga,
+recebe o nome caro, hoje sem dono,
+toma os abraços que não posso dar-lhe.»
+
+
+ * * * * *
+
+
+Sim, sim, convém um bosque ás sepulturas.
+A arvore, Deus a fez como passagem
+do mundo que respira ao mundo inerte;
+commum co'os animaes, commum co'a terra,
+vive e não sente; habita e ignora o mundo,
+sympathisa co'a morte e co'a existencia,
+é grata ás cinzas, á saude é grata.
+
+
+ * * * * *
+
+
+¡Que férreos somos nós, que a um como vago
+atiramos sem dó perdidos, mixtos,
+o detestado, o amigo, o estranho, e o nosso!
+Se alguem da voraz Sylla aos sorvedoiros
+arrojasse o que os seculos pouparam,
+bronzes, escritos, marmores romanos,
+ou, derrotando porticos, columnas,
+theatros, colliseus, palacios, templos,
+em serra inutil amontoasse as pedras,
+¿quem não vertêra em lagrimas o sangue?
+¡E ante a nossa affeição teem menos pezo
+que as ruinas de Roma as que são nossas?!...
+¡Dá-se tanto aos ditosos, aos contentes,
+espectaculos, jogos, aureas festas,
+jardins, parques!... ¡e aos miseros que gemem,
+e aos peitos melancólicos, viuvos,
+ha-de negar se um canto onde pranteiem!?...
+¿De tanto mundo que pertence aos vivos
+nada dareis aos seus antigos donos?
+¡nem um torrão perdido, e uns troncos nullos?!...
+
+
+ * * * * *
+
+
+¿Quando virá um dia, em que estes bosques,
+semeados de tumulos não altos,
+de lugubres saudades se povôem?
+Então, a propria Morte, hoje tão sêcca,
+terá sua grinalda; a dor, seu gosto;
+e visitas o pó, e cultos o ermo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Pelas noites mui placidas do estio,
+ao duvidoso alvor da lua incerta,
+bello será, sentado n'este sitio,
+ver vir, d'aqui, d'ali, frouxos, dispersos,
+o do casal, o morador na aldeia,
+entrar chorando, e procurar seus mortos.
+Aqui duas irmans resam de joelhos
+sobre o seio materno sepultado.
+Aqui o velho attento as contas passa
+pelos dedos convulsos, e se encosta,
+sem o saber, na fallecida esposa.
+O filho aos pés da mãe co'os mais soluça
+o Padre-Nosso apenas aprendido.
+Deitado ao lado do submerso amigo,
+o amigo devaneia antigos annos.
+Por toda a parte, as lagrimas e affectos,
+memorias doces, orações e esp'ranças.
+
+
+ * * * * *
+
+
+¿E a quem não conviria egual retiro?
+N'elle a tristeza encontraria um pasto;
+a sciencia, reflexões; o vicio, escolhos;
+a leviandade, assento; a desventura,
+consolação; o amor, silencio e pranto.
+Ensaiára-se o infante para a vida;
+o velho, para a morte; o moralista
+viria achar uncção para a verdade;
+o orador, persuasões, ternura, encantos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Ó filhos da montanha, ¡oh! libertae-vos
+de um preconceito vão; é toda a terra
+a terra do Senhor; afora o vicio,
+debaixo d'este ceo nada é profano.
+A benção do Pastor consagraria
+vosso asylo feliz; e a Cruz em meio
+todo de um santo influxo enchêra o bosque.
+
+
+
+VII
+
+
+Mas, em quanto esses dias vos não raiam,
+bons velhos, vigiae que, de anno em anno,
+aos juvenis futuros plantadores,
+em vez de se afrouxar, se inflamme o zelo.
+Cresça com seu favor por estas serras
+a geração dos vegetaes gigantes.
+Com todos vós conversam todos elles
+sem cobrir campas; guardam-vos saudades,
+são parentes de todas as aldeias,
+e o brasão da montanha é o vosso parque.
+Sobre tudo influi que a vossa raça
+trema ao só nome do brutal machado
+que ouse violar a veneranda herança.
+O que só Deus medrou, só Deus derribe.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Crêde-me (eu já vi outras) vossa terra
+é descrida, enteada á Natureza.
+Cumpre a vós adoçar-lhe o aspecto agreste,
+amiudar-lhe no oceano ermo dos ares
+estas ilhas, virentes, graciosas,
+que espalhem primavera pelos montes,
+que attráiam as volantes caravanas
+do rouxinol, da rôla, e da andorinha.
+
+
+
+VIII
+
+
+Lá em baixo a casa humilde que branqeja,
+entre os alegres plátanos e o templo,
+quasi que pasma, e se entristece e encolhe,
+de ver em torno a solidão tão vasta.
+Como que está pedindo... ao menos bosques;
+não tem outros jardins, outros passeios,
+que offereça a seu dono, o Pastor vosso.
+Preparae desde já para o futuro
+sombras novas aos novos successores,
+e refrigério estivo ás cans do velho.
+Casae co'o vosso int'resse o int'resse alheio.
+Mil vezes sua voz reconhecida
+rogará paz ditosa aos vossos netos,
+quando, serena a mente, e sôlta a vista
+lá fôrem divagar, ora embebidos
+nos psalmos, nos poeticos arrojos,
+ora admirando o Autor e o Nó dos mundos,
+no largo azul dos ceos, no alto dos troncos
+e no zumbir e no voar do insecto.
+
+
+ * * * * *
+
+
+¡Surgi! ¡surgi! Lá jazem as enxadas.
+
+ Velhos, surgi! La voltam triumphantes,
+findo o novo trabalho, os vossos filhos.
+Agora espumem copos, sôem risos,
+exulte a dança, alonguem-se os cantores.
+Conquistastes o inculto á Natureza:
+forçástel-a a sorrir, a ornar-se em festas.
+Toda a vasta planicie, hontem tão erma,
+¡que povoada vai já! ¡como promette
+lembrar ao vosso gado, ás vossas filhas!
+
+
+UM VELHO
+
+Sim, dará sombra e vai povoado o valle:
+mas fosse eu rico, e lhe dobrára encantos.
+
+
+SEGUNDO VELHO
+
+¿E como, irmão?
+
+
+O PRIMEIRO
+
+ No alto d'este oiteiro,
+d'onde se avista o mar, o ceo, a terra,
+poria uma capella, e um San-Mamede
+co'o rosto de um menino, e o rir de um Anjo;
+nas mãos o cajadito, o alforge ao lado,
+e o seu rafeiro ao pé todo soberbo
+co'a colleira escarlate, e todo amigo
+a lamber o seu Santo. É bom que os altos
+se c'rôem de capellas, que levantem
+o pensamento aos Ceos, no campo espalhem
+devoção e piedade, e aos peregrinos
+ensinem o caminho e a vista alegrem.
+
+
+UM PASTOR
+
+Sim, co'o santo pastor de guarda aos bosques,
+¿que haviam de temer, nem cães nem gado?
+Nos degraus da capella, á sombra inquieta,
+longas séstas sonháramos de amores.
+
+
+TERCEIRO VELHO
+
+Já lá vão o bom tempo e os bons costumes;
+foi-se a abundancia e os corações piedosos.
+Esses fundavam templos, como o nosso,
+n'um árido deserto; e hoje.... se estala
+no campanario um sino, em ocio eterno
+fica mudo a pender dos braços podres.
+
+
+
+IX
+
+
+Bem, bem. Mal que a fortuna me sorria,
+serei eu quem consagre o vosso oiteiro;
+não a Mamede, não ao pastor martyr,
+mas á contrita amavel Peccadora.
+¿Não valem mais as lagrimas que o sangue?
+¿Mais que heroico valor não nos commove
+doce humildade e penitencia longa?
+E de mais: se ás aspérrimas proezas
+vos não destina o Ceo, todos nascestes
+captivos frágeis de amorosas culpas.
+Muita virgem no monte solitario
+tentada pelo amor e pelo amante,
+só com ver a capella ha-de livrar-se,
+e pela salva flor dar lhe-ha mil flores.
+E quando aqui errantes missionarios
+vierem dar, e á sombra dos carvalhos,
+as turbas apinhadas instruirem,
+¡que persuasões, que lagrimas, que exemplos
+hão-de tirar da veneranda Imagem!....
+
+
+ * * * * *
+
+
+¡Qual me ri já na mente o grão projecto!
+Eu serei pois o fundador de um culto
+que aos frutos da moral reuna flores.
+Sim; ¿quem tolhe o prazer puro e innocente?
+...........................................
+
+
+
+X
+
+
+Partiram. E eis-me só. Todos partiram.
+O alvoroço do entrudo os chama aos lares.
+¡Oh! ¡Bemdita a ignorancia d'estas serras!
+O rustico inda ri na Patria em luto,
+e eu finjo o riso por dobrar-lhe o erro.
+¡Bem sabe elle que lagrimas aos mares
+d'este horizonte em roda estão correndo!
+¿Sabe elle que o atro dia é menos atro?
+A paz, a confiança, as alegrias,
+a abundancia, a união de antigos Lusos,
+não deixaram, fugindo, um só vestigio.
+No vaivem das facções, que se entrevencem,
+tudo se perde e esquece, afora a raiva.
+Os bons usos, as festas populares,
+a romaria alegre, as patrias danças,
+vão-se apagando... Aqui, mesmo na brenha,
+a pastora, esquecendo os seus amores,
+canta a questão dos Reis, o hymno da guerra,
+sons novos, que o seu gado e o ecco extranham.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Ó Patria, bella Italia do Occidente,
+tu que egual a Parthénope repoisas
+debaixo da invejada laranjeira
+e do mirto florido, ao deleitoso
+ruido de aguas limpidas, no abri
+de um ceo inspirador tão proprio ao genio,
+ó bella Italia do Occidente, ó Patria,
+¿era pois fado teu lidar sem fruto
+para seres a inveja, a flor das gentes?....
+A guerra, sim, te coroou co'as palmas
+das quatro partes do orbe, e as naus do mundo
+trouxeram a teus pés thesoiros, sceptros.
+Mas as flores das artes, mas os frutos
+das sciencias, no chão dos outros povos
+com tanto custo e com suor medrados,
+¿espontâneos no teu medraram nunca?...
+¿Tiveste nunca os dons, que em paz florentes
+ornam e absolvem da conquista os loiros?
+¡Que imperios teem cahido! e tu, tu ousas,
+hoje ainda, aspirar á eternidade!!...
+Talvez bem perto os seculos se cheguem,
+que hão-de ver cego arado andar lavrando
+tuas cidades de esquecido nome,
+e o rebanho indiff'rente apascentar-se
+sobre os teus tribunaes, theatros, praças.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Vê-te o sol com praser; deixa-te a custo,
+Lusitania, que á borda do Oceano
+brilhas qual deusa em majestade e em graça.
+Deusa, e immortal, te crêram; mas tu jazes
+entre tropheos em pó, lavada em sangue.
+Deshonrada Cleópatra, inda és bella,
+mas já nas veias te circula a morte.
+¡Ai de quem nutre as áspides no seio!...
+
+
+ * * * * *
+
+
+¡Ó Patria, ó Patria, com que voz tão baixa,
+com que pejo te expróbro! ¡Ah! se podéres,
+perdôa meu furor, vê só meu pranto;
+ó Patria, ó mãe, ó misera querida!...
+
+
+ * * * * *
+
+
+¿Que ouvi? ¡longinquo estrondo! ¿que seria?
+¡Som de espingardas!... Sim, talvez... são homens
+que nos matam irmãos... ¡Alerta!... oiçâmos...
+
+..............................................
+
+
+
+
+
+IX
+
+O SAN JOÃO NAS FALDAS DO CARAMULO
+
+
+ Dia em que o Poeta plantou por suas mãos um cedro no pateo da
+ residencia parochial da Castanheira do Vouga
+
+
+(FRAGMENTO)
+
+
+
+..........................................
+
+ Se, de teus annos na madura força,
+a mão que te ora planta inda fôr viva,
+essa mesma, já trémula e caduca,
+no tronco te abrirá, com pio exforço,
+graciosa capellinha, onde sorria
+um San-João, o Santo alegre do ermo,
+trajo de pelles, juvenil frescura,
+olhos nos Ceos, aos pés cordeiro branco.
+
+
+ * * * * *
+
+
+N'essa noite poetica e devota,
+em que o praser, centuplicando aspectos,
+povôa, anima, encanta o mundo inteiro,
+agua e terra, ar e ceo, tudo é macio,
+em que a velhice, a mocidade, a infancia,
+sympathisam no vago da alegria;
+quando n'alma insaciavel de delicias
+se juntam, com mistura inexplicavel,
+ao saudoso passado, aos bens presentes,
+as mil visões do esplendido futuro;
+quando em laço phantastico se aggregam
+da vida e eternidade os pensamentos,
+gosos, superstições, fraquezas, cultos,
+qual ramalhete de cipreste e rosas
+na caprichosa mão das feiticeiras;
+n'essa noite, das noites invejada,
+a ti concorrerão por toda a parte,
+té das aldeias do horizonte extremo,
+dançantes bandos que a viola guia.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Verás girar seus bailes clamorosos
+em redor das estrídulas fogueiras;
+ouvirás os seus cânticos em côro
+devoto e ennamorado. A bomba foge,
+zune fugindo, e sollapada estoira;
+o buscapé no ar caracolando
+morde n'um, morde n'outro, ameaça a todos,
+dispersa os grupos, gasta-se raivando,
+e entre os risos rebenta atroando os ares;
+ali circula em vórtice perenne
+a roda leve espadanando incendios,
+chovendo oiro luzente e estrellas alvas;
+aqui floreia o fúlgido valverde,
+vesuviosinho que arremette ás nuvens;
+arranca o vôo e vai rugindo aos astros
+o ignívomo foguete estrepitoso.
+
+
+ * * * * *
+
+
+¡E a musica entretanto! ¡e as doces falas!
+¡e os protestos de amor! ¡e a prece occulta!
+¡e essa mão dada a furto e a furto acceita!
+¡e esse olhar falador! ¡e essas virtudes
+da meia-noite em ponto! ¡e a flor crestada!
+¡e as sortes que a fortuna extrai ás vezes,
+e muitas mais a próvida malicia!
+¡e a fonte que amanhece entre descantes,
+e pasma rindo de se ver coroada
+de festões verdes e entrançadas flores!
+¡Que noites, que alegrias, que triumphos,
+te aguardam no porvir, me estão na mente![9]
+............................................
+
+
+
+
+
+X
+
+O MOSTEIRO
+
+
+
+Vós, que sois do amavel sexo
+ardentes adoradores,
+que girais de bella em bella,
+qual leve abelha entre as flores,
+
+que sabeis n'um só momento
+a mil deusas incensar,
+e pareceis de ternura
+não poder-vos saciar,
+
+mancebos, o mundo é vosso;
+mil bellas o mundo tem;
+mas não choreis as que á sombra
+repoisar das aras veem.
+
+Se um jardim, florído, immenso,
+encontrais na sociedade,
+¿que importa que poucas rosas
+lhe furte a mão da piedade?
+
+poucas rosas, que dispostas
+vão depois na solidão
+lançar mais doces perfumes,
+seguras de extranha mão.
+
+Vagae, vagae livremente
+nos jardins da Idália Venus;
+segui as Nymphas e as Graças
+pelos seus bosques amenos;
+
+os prazeres vos rodeiem,
+os jogos em torno vôem;
+a mocidade vos ria;
+espêssas rosas vos c'rôem;
+
+¿que falta aos desejos vossos?
+¡ah! soffrei, sem murmurar,
+ver d'entre os vergéis florídos
+poucas pombas desertar,
+
+poucas pombas, que innocentes,
+e temendo o caçador,
+vão nos ermos solitarios
+buscar um fado melhor.
+
+Do Libano opacos cedros,
+de Sião bosque tranquillo,
+vós, palmeiras de Idumêa,
+prestae-lhes seguro asylo.
+
+Estranhas vistas não turbem
+os seus piedosos segredos;
+contentes á sombra vivam
+dos sagrados arvoredos.
+
+Silencio, paz, e ternura,
+alva estrella de innocencia,
+e a vista de um ceo risonho,
+lhes doirem toda a existencia.
+
+Murmúrio de castas fontes,
+perfume de simples flores,
+lhes paguem jardins que infestam
+os abutres e os açores.
+
+Eu vos lamento e vos chóro,
+insensiveis corações,
+que de um mosteiro entre os muros
+não vêdes senão prisões.
+
+Córae da vossa loucura.
+Correi a ver de mais perto
+o Eden recatado ao mundo
+no seio d'este deserto.
+
+Modestas virgens o habitam,
+que só não teem liberdade
+de colher em frutos de oiro
+as festas da sociedade.
+
+Segui-me, segui-me affoitos,
+entremos. Abriu-se o templo.
+Seus ermos, ao mundo ignotos,
+inteiros d'aqui contemplo.
+
+¿Não vêdes sobre os altares
+com graça engrupadas flores
+lançar torrentes de aromas,
+brilhar co'as mais vivas cores?
+
+N'esses prados invisiveis
+tambem pois se eleva a aurora;
+sol, e zephyros, e fontes,
+lhes dão sorrisos de Flora.
+
+Essas pois, que vós julgaveis
+desgraçadas prisioneiras,
+teem praseres, teem delicias,
+teem jardins, são jardineiras.
+
+Vêde ornar formosa Imagem
+rico manto que fulgura,
+de oiro e sedas matizado
+com vistosa bordadura.
+
+Vêde a grinalda florida;
+vêde o ramo; estes jasmins,
+estes lirios, estas rosas,
+não são já de seus jardins.
+
+Não devem sua existencia
+nem á terra nem ao Ceo,
+e nem zephyros nem fontes
+serviram no augmento seu.
+
+Formou-as arte engenhosa;
+poude mais que a Natureza;
+deu mais vida ás suas flores;
+prestou-lhes egual belleza.
+
+¿Sabeis, que mãos feiticeiras
+obraram prodigios taes?
+eis o trabalho e os recreios
+d'essas piedosas Vestaes.
+
+Ellas no côro apparecem;
+e, ao som dos orgãos divinos,
+de sua alma aos Ceos se elevam
+devotos brilhantes hymnos.
+
+Innocentes e macias,
+d'estas vozes a mistura
+sem perturbar os sentidos
+infunde n'alma ternura.
+
+Em seus canticos não reina
+terreno vulgar affecto;
+é mais puro, é mais sublime
+de seus amores o objecto.
+
+O pensamento que as ouve,
+sai da térrea habitação,
+deixa os ares, das esphéras
+atravessa o turbilhão,
+
+vê do Empyrio as portas de oiro
+abertas á humanidade,
+rompe audaz, vai submergir-se
+no fulgor da Divindade.
+
+Cessa a musica, e de novo
+volve a mente ao patrio mundo;
+mas dos virgineos desertos
+primeiro se arroja ao fundo.
+
+Lá divisa, em liberdade,
+nas livres tranquillas horas,
+dadas a cantos diversos
+estas formosas cantoras.
+
+Na sombra d'aquelles bosques,
+n'aquelles molles passeios,
+tambem pois das Musas entram
+os aprasiveis recreios.
+
+Olhae por fim seus aspectos,
+¿Não vedes vós a bondade,
+a alegria da innocencia,
+as virtudes da piedade?
+
+Eis os Genios que lhes tornam
+encantadora a existencia:
+as virtudes da piedade,
+os praseres da innocencia.
+
+A amisade entre ellas reina;
+¿os encantos da amisade
+não prestarão, por ventura,
+delicias á soledade?
+
+Mas basta, insensatos, basta;
+á scena se corra o veo;
+não profanem vossos olhos
+mais tempo os átrios do Ceo.
+
+Ide no mundo esquecel-as,
+em vez de as irdes chorar;
+e o vosso mundo vos baste,
+como lhes basta um altar.
+
+Mas esperae; respondei-me;
+consultae vosso interior:
+¿sois ditosos co'os sorrisos
+de um falso inconstante amor?
+
+¿Sabeis vós o que amor seja?
+¿Satisfaz-se o coração
+com esses fogos incertos,
+e essa eterna agitação?
+
+¿Não virá talvez um dia,
+em que, mais sabios, queirais
+unir os vossos destinos
+á melhor d'entre as mortaes?
+
+¿Como a haveis de achar no mundo,
+no mundo, cujos enganos
+vós conheceis, ajudastes,
+seguistes, por tantos annos?
+
+Tremereis de um laço eterno.
+A vossa pena consiste
+em pensardes que a virtude
+que não tendes, não existe.
+
+Então aqui vos espero,
+n'estes quietos retiros.
+Estes muros que insultaveis,
+ouvirão vossos suspiros.
+
+Entre estas virgens mimosas,
+que severa educação
+forma, longe dos humanos,
+á sombra da solidão,
+
+viréis procurar o objecto,
+cuja ternura innocente
+vos deve tornar a vida
+risonha, pura, e contente.
+
+Não detesteis um recinto,
+onde Amor, onde Hymeneu,
+onde um Genio, amigo vosso,
+vosso thesoiro escondeu.
+
+Pensae, pensae que ali vive,
+cresce em virtude e talentos,
+e em graças, aquella que ha-de
+doirar os vossos momentos.
+
+Qual arbusto delicado,
+que a viçosa louçania
+mostrar em seu proprio clima,
+em seu proprio ceo, devia,
+
+mas foi por mão inimiga
+trazido a estranhos logares,
+onde murcho cederia
+a influxos de infestos ares,
+
+se da estufa compassiva
+lhe não fosse aberto o seio,
+onde vegeta e floresce
+de arbustos eguaes no meio;
+
+ali não receia as neves;
+não treme da tempestade;
+gosa o sol; vive no mundo,
+vivendo na soledade;
+
+de extranhos somente é visto;
+tem louvor; é cubiçado;
+mas das flores, mas dos frutos,
+não é jamais despojado.
+
+¡Mil vezes feliz, mil vezes,
+quem ousa, á luz da verdade,
+queimar a máscara d'oiro
+ás larvas da sociedade!
+
+Medrae, sagrados mosteiros;
+medrae, desprezando a inveja;
+jamais fulminar-vos possa
+calumnia que em vão troveja.
+
+Brilhae, como ilhas florídas,
+no meio do mar profundo
+de vicios, crimes, e horrores,
+que alaga, que abrange o mundo.
+
+Sêde o asylo das virtudes,
+do Eden a propria entrada,
+o enlace dos Ceos co'a terra,
+do Empyrio a sublime escada.
+
+
+Coimbra--1826 (?)
+
+
+
+
+XI
+
+SANTA MARIA EGYPCÍACA
+
+(Fragmento de um poema)
+
+
+
+.........................................
+Prostrada aos pés da Cruz, ante a caveira,
+jaz solitaria a Egypcia. Rios descem
+de olhos lindos, que os ceos fitar não ousam,
+
+
+ * * * * *
+
+
+¿Tão nova, e isenta? ¡Oh! não; mudou de amores.
+Dos primeiros só guarda a dor e as penas;
+mas os novos, os ultimos, protesta
+conserval-os em vida, e em morte havel-os.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Té aqui, pela alma escura só lhe ardiam
+relampagos dispersos; derretido
+raio dos Ceos lhe côa pelas veias.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Brilhou no mundo como a flor de um dia.
+Os soes vivos, os ventos importunos,
+lhe ameaçavam fim; ruins borboletas
+captivas da belleza iam murchal-a.
+Imprevisto invisivel jardineiro
+a tempo a salva, e a transplantou no ermo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+No mundo, sobre o abysmo, hontem folgava
+impróvida e leviana; hoje pranteia
+na solidão, mas sob um Ceo que a espera.
+As cidades, em que ídolo brilhára,
+inda a chamam em vão, e em vão a aguardam.
+De um lustro que a houveram, ¡quantos lustros
+lhe volveram saudade!
+
+
+ * * * * *
+
+
+ Em viço de annos,
+e mais bella que as flores todas juntas
+das dezassete suas primaveras,
+qual fugaz sonho de manhan de estio,
+foi-se, e não voltou mais, Deus sabe aonde.
+Murcharam festas; esmorecem danças;
+os banquetes, diffusos pela noite,
+já não veem despertar ternura e risos.
+Nas roseiras intactas se desfolham
+os botões das grinaldas; o alaúde,
+que falou tanto amor nas mãos da bella,
+discorde jaz, e mudo...
+
+
+ * * * * *
+
+
+ Ella, entretanto,
+co'os mimosos pés nús calcando areias,
+desornado o cabello, envôlta em pelles,
+timida, envergonhada, pesarosa,
+vai caminho do Ceo co'a fronte baixa.
+Mil vezes á avesinha se compára,
+sem família, sem lar; corre erradia;
+¿não ha-de ambas manter a paz que é de ambas?
+Beija a caverna frígida que a hospéda,
+e agradecendo este hórrido paraizo
+ao Deus que lh'o depára, esquece o mundo,
+ou sem saudade e com horror o aviva.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Ai coração tão amplo, onde estuava
+mar de affectos sem conto, escoado agora,
+¿quem o ha de encher? ¡em solidão tão funda!
+¿quem o ha-de encher? Já o enche o que enche tudo,
+o que brilha na luz, no sol, nos astros,
+corre nos aquilões, anima os troncos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Só conversa com Deus, e a Deus só ouve.
+Este seio, estas tranças desatadas,
+são brinco só do vento do deserto.
+Esta mão, tão mimosa e tão querida,
+só procura, excavando a terra ingrata,
+a amorosa raiz, ou já se encurva
+para dar agua aos labios sequiosos.
+A aurora a vem saudar já de joelhos.
+Não ha um sol, não ha na noite um astro,
+que não saiba os seus ais e eternas preces.
+Nem que passe o chacal, a hiena, a onça,
+foge, ou quebra os devotos exercicios.
+Treme a gazella, e encolhe-se aos rugidos;
+e a Estrangeira não treme; ora, e descança.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Ao fresco desmaiar da extrema tarde,
+quando os raios do sol já mal doiravam
+da longinqua palmeira o incerto cume,
+¡que vezes, assentada, e sustentando
+na eburnea mão o pallido semblante,
+atraz do astro fogoso e fugitivo,
+mandava o coração, mandava os olhos!
+
+
+ * * * * *
+
+
+--«Além--dizia--além, n'esse Occidente,
+corre o santo Jordão delicias minhas,
+que o Salvador banhou, que eu passei mesma.
+Talvez aquella nevoa que lá brilha,
+mudada em rosa, em purpuras, em oiro,
+seja da santa veia alegre filha,
+Além... Jerusalem, Sião, Judêa...»
+
+
+ * * * * *
+
+
+E a taes nomes, enxames de memorias,
+de saudades, de affectos, lhe adejavam
+pela alma, alegre em parte, em parte escura.
+Raro, mas inda ás vezes lhe assomavam
+no involuntario somno ideias meigas.
+Inda, uma vez ou outra, o amor banido
+entrava de relance o antigo alvergue,
+e apóz elle os passeios namorados,
+os theatros esplendidos, as galas,
+as mezas rindo, os bailes desenvôltos;
+e as victorias, e as chusmas dos praseres,
+como á sua rainha vão saudal-a.
+Acordava sorrindo, a Cruz fitava;
+e atirando se á terra, e sôlta em chóros,
+pagava erros não seus com dor bem sua.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Taes se lhe vão no ermo deslizando
+dias e annos, sem ver na areia impressos
+mais vestigios que os seus.
+
+
+ * * * * *
+
+
+ De tempo em tempo,
+só vê talvez, ou ver presume ao longe,
+do horisonte nas sombras pavorosas,
+o ténue pó da immensa caravana,
+que vai de Alépo á Méka em certa estrada.
+Por ella ora, e entre o orar lamenta
+a devota fanática impiedade.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Tal vai manando a limpida existencia.
+Egual ao ramalhete que desmaia,
+e se esfólha no altar entre os perfumes,
+tal, sem gosto e sem dor, e sem que o note,
+perdendo vai co'o tempo a bella Egypcia
+encantos, já seu mal, e mal do mundo.
+O juvenil das formas exteriores
+concentrou-se-lhe n'alma; em cans e em rugas
+se esconde um coração de amor não farto.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Quem a tivesse visto, e a visse agora,
+sentiria o que sente o viajante,
+quando, perto d'ali, vai dar co'os restos,
+saudosos restos, da gentil Palmyra.
+Uma e outra já gloria do Universo;
+agora mudas, sós, e deslembradas,
+e socias no deserto, e eguaes no exemplo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Meio seculo a viu prantear sosinha
+annos ligeiros da fugaz infancia.
+Ao fim da gran carreira, o Ceo lhe envia
+o solitario Zózimo, como ella
+ancião virtuoso, e habitador das covas,
+que lhe oiça a longa vida, a anime, e exforce;
+lhe dê perdão e paz de um Deus em nome.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Pela primeira vez contente e alegre,
+ousando olhar os Ceos,
+ --«¿Trareis,--lhe disse--
+á pobre peccadora o manjar de Anjos?»
+--«Sim.»
+ E partiu.
+ Com vista prolongada
+ella o segue; co'os olhos no deserto
+o espera todo o dia; ¡e este é tão longo!...
+¡tarda tanto o bom hóspede!...
+
+
+ * * * * *
+
+
+ Passou-se
+um anno inteiro. É elle agora; é elle;
+conheço o fraco andar que o zelo apressa,
+e as cans, e a calva, e as faces penitentes...
+
+
+ * * * * *
+
+
+Chega; clama; a caverna não responde;
+grita, e só ouve a si. Olha em redondo,
+vê-a jazer na areia, e a areia escrita
+por mão trémula, errante, ao que parece:
+
+
+Bom Zózimo, por santa caridade
+enterra o corpo da infeliz Maria.
+Aqui morri no dia em que te fôste.
+Encommenda-me a Deus, e Deus t'o pague.
+
+............................................
+
+
+
+
+
+XII
+
+EPISTOLA
+
+Ao meu amigo o Desembargador Manuel Venancio Deslandes
+
+(NO DIA DOS MEUS ANNOS)
+
+FRAGMENTO
+
+
+
+Em torno ao teu amigo estão fervendo,
+Deslandes meu, na hora em que te escreve,
+de uma festa caseira o reboliço.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Bem que alveje de neve o Caramulo,
+e um frígido suão de lá nos venha,
+ninguem hoje de frio aqui se queixa.
+Não descança nem pé, nem mão, nem lingua;
+o sumptuoso lar arde em tres fógos;
+o forno se afogueia; a branca meza
+vai-se de loiça e vidros alegrando.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Uma estuda em compôr as sobremezas;
+outra enrama de loiro alta ferrugem
+das vigas da cosinha; esta, sizuda,
+de riscado avental e nus os braços,
+com importancia e afan revira espêtos;
+aquella, anda scismatica, e raivosa
+de eu nascer em Janeiro, um mez agreste,
+que além de um alecrim, de umas violetas,
+nascidas por engano, além de rosas,
+frágeis, sem cheiro, e languidas, não cria
+com que se enflore a meza dos meus annos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+¿Porque é, quando a sorrir divagam todos,
+quando só para mim se andam tecendo
+estas pompas domesticas, agora
+que a potente amisade em meu obsequio
+para tudo fazer até fez estros;
+agora, emfim, que aos raios da alegria
+não ha um coração que se não abra...
+¿por que se fecha o meu? ¿Dará (não creio)
+da Natureza o luto um certo assombro
+ás festas do homem? ¿Pensas que enfartado
+d'esta patria amargura, a filtre aos gostos,
+qual vaso que azedado a tudo azéda?...
+.............................................
+
+26 de Janeiro
+de 1833.
+
+
+FIM DO PRESBYTERIO DA MONTANHA
+
+
+
+
+NOTAS DOS EDITORES
+
+AO VOLUME I DO
+
+PRESBYTERIO DA MONTANHA
+
+
+Da villa da Castanheira--No Bispado de Coimbra, e na Provedoria de
+Esgueira, 1 legua da villa de Agueda, e 11 da cidade do Porto para o
+sul, em logar alto, tem seu assento a villa da Castanheira, que chamam
+da Beira, a qual é tambem dos Condes da Feira, e n'ella entra em
+correição o seu Ouvidor. Consta de 160 visinhos, com uma egreja
+parochial da invocação de S. Mamede, Priorado do Conde da Feira, que
+rende 600$000 réis, e tres ermidas. O seu termo tem uma freguezia
+dedicada a Santa Maria Magdalena, no logar de Aguadão, que consta de 100
+visinhos. É curado annexo á egreja de S. Mamede, que apresenta o seu
+Prior. Tem este logar muitas fontes de delgadas e salutiferas aguas, que
+fertilisam seus campos de pão e vinho, e os fazem abundantes de todo
+genero de frutas. Assistem ao seu governo civil dois Juizes ordinarios,
+Vereadores, um procurador do Concelho, Escrivão da Camara, Juiz dos
+Orphãos com seu Escrivão, 1 Alcaide, e 1 Companhia da Ordenança.
+
+(_Chorographia portugueza_ pelo Padre Antonio Carvalho da Costa.--T. II,
+pag. 176--1708.)
+
+
+Castanheira do Vouga--Villa na provincia da Beira baixa, Bispado de
+Coimbra, Comarca de Esgueira. É da Casa do Infantado; tem 803 visinhos.
+Está situada em monte junto da serra do Caramulo. É seu orago S. Mamede.
+Tem quatro altares; e o maior é do orago; os outros são do Santissimo,
+de Nossa Senhora da Expectação, com sua irmandade, e outro de S. Jorge.
+O Parocho é Prior, apresentação da casa do Infantado; tem de renda
+400$000 reis. Tem tres ermidas, que são: a do Espirito Santo, a de Nossa
+Senhora do Bom-despacho, e a de S. Sebastião. Os frutos d'esta terra são
+milho grosso, centeio, e algum vinho. Governa esta villa um Juiz
+ordinario, e a Camara. Passam por esta freguezia os rios Aguedão,
+Alfusqueiro, e Agueda.
+
+(_Diccionario geographico_ pelo Padre Luiz Cardoso. 1751.)
+
+
+ * * * * *
+
+
+Castanheira do Vouga.--Freguezia no Bispado de Coimbra; tem por Orago S.
+Mamede; o Parocho é Prior da apresentação da Casa do Infantado; rende
+480$000 réis; dista de Lisboa 40 leguas, e de Coimbra 7; tem 58 fogos.
+
+Ágadão--Freguezia no Bispado de Coimbra; tem por Orago Santa Maria
+Magdalena; o Parocho é Cura da apresentação do Prior da Castanheira;
+rende 40$000 réis; dista de Lisboa 40 leguas, e de Coimbra 6; tem 102
+moradores
+
+(_Portugal sacro-profano_--por Paulo Dias de Niza; cryptonimo do Padre
+Luiz Cardoso--Lisboa--1767--8.^o--2 vol)
+
+
+ * * * * *
+
+
+Castanheira do Vouga.--Villa, Douro, Comarca de Agueda, Concelho do
+Vouga, 40 kilometros ao N. O. de Coimbra; 240 ao N. de Lisboa; 140
+fogos. Em 1757 tinha 58 fogos. Orago S. Mamede. Bispado e Districto
+administrativo de Aveiro. Foi do Bispado de Coimbra. Era antigamente da
+Comarca de Esgueira. É da Casa do Infantado. Situada em um monte proximo
+á serra do Caramulo. A Casa do Infantado apresentava o Prior, que tinha
+400$000 réis. É fertil em milho e centeio; produz algum vinho, e do mais
+pouco. Tem foral dado por D. Manuel em Lisboa a 16 de Junho de 1514. Era
+cabeça do concelho do seu nome e tinha Juiz ordinario, Camara,
+Escrivães, e mais Justiças. Passam pela freguezia os rios Agueda,
+Aguedão, e Alfusqueira.
+
+(_Portugal antigo e moderno_--por Augusto Soares de Azevedo Barbosa de
+Pinho Leal--Lisboa, 1874).
+
+
+ * * * * *
+
+
+Pag. 11 lin. ultima
+
+Dapibus mensas oneramus inemptis
+
+
+Oneramos as mezas com iguarias não compradas; isto é, vivemos, sem
+comprar, das nossas lavras proprias.
+
+Citação de Virgilio (_Georgicas_, Liv. IV, v. 133), com uma pequenina
+variante exigida pelo sentido. O texto inteiro e exacto é:
+
+
+ _....Sero que revertens
+nocte domum, dapibus mensas onerabat inemptis._
+
+
+Isso faz parte de uma historieta que Virgílio conta, e que vamos ouvir
+na traducção de Castilho:
+
+
+ ......Alembra-me que outr'ora,
+lá por onde o Galeso arrasta a veia escura
+por entre loiros chãos de cereal cultura,
+junto á Ebália cidade, a de torreados muros,
+conheci um corycio em annos já maduros,
+dono de uma chanzinha ali desamparada.
+O pobre do torrão de si não dava nada:
+nem pasto para bois, nem para um fato hervinha.
+Sumitico de pães, escasso para vinha,
+era um sarçal fechado; e no sarçal, comtudo,
+o bom velho, a poder de diligencia e estudo,
+tinha hortaliça rara, e emmoldurada em torno
+com seve de jardim para maior adorno,
+alvos lirios, verbena, e papoilas de prato.
+Não trocára co'os Reis seu parco haver tão grato.
+Recolhia ao casal já noite; e, ¡que riqueza
+de iguarias de graça a assoberbar-lhe a meza!
+
+
+
+Pag. 18 lin. 3
+
+Passámos n'uma bateirinha, remada por uma velha moleira da margem, o
+víçoso rio de Bolfiar.
+
+
+Todos esses meios de transporte mudaram muito de 1826 para hoje. O
+caminho de ferro, as estradas, e todos os aperfeiçoamentos modernos,
+deram cabo da antiga viagem tão pittoresca.
+
+
+Pag. 36 lin. 20
+
+Uma especie de zimborio de doze palmos de altura.
+
+
+Deve ser talvez alguma pyramide geodesica ali levantada pelos que
+primeiro se dedicaram ao estudo da triangulação do Reino.
+
+
+Pag. 37 lin. 3
+
+Uma desconforme loisa inteiriça horizontalmente aguentada nos ares por
+esteios de pedra.
+
+
+Estes antiquissimos monumentos megalithicos ainda se encontram em muitas
+partes das Hespanhas, e acham-se estudados á luz da sciencia moderna.
+
+
+Pag. 42 lin. 6
+
+A Linguagem é ali, como os ares, de uma admiravel pureza e lucídez.
+
+
+O portuguez que n'aquella serra se falava, e fala, influiu em Castilho o
+seu constante amor á vernaculidade. Veja-se nas _Excavações poeticas_ o
+que elle diz do velho camponez Francisco Gomes, creado da casa, e «um
+dos mais chapados classicos» que elle jamais encontrou.
+
+
+Pag. 58 lin. 7
+
+Lia, Rachel e Rebecca
+
+
+Lia era filha primogenita de Labão, e irman de Rachel. Achando-se Rachel
+ajustada para casar com Jacob, teve Labão astucia de lhe substituir Lia,
+apesar de menos formosa. Foi mãe de Ruben, Simeão, Levi, Judá, Issachar,
+Zabulon, e Dina.
+
+Rachel, irman de Lia, tambem foi mulher de seu cunhado Jacob, e teve
+José, e mais Benjamim, de cujo parto falleceu. Parece que ainda se
+conserva e mostra o seu tumulo.
+
+Rebecca, filha de Bathuel, casou aos dezoito annos com Isaac, filho de
+Abrahão, e teve por filhos Ezaú e Jacob.
+
+Todas estas figuras biblicas, vivas 17 seculos antes da era christan,
+são encantadoras de singeleza e graça nas descripções que d'ellas nos
+deixaram os Livros santos.
+
+
+Pag. 72 lin. 15
+
+Uma pobre mocinha ovelheira
+
+
+Mais de uma vez se recordou Castilho d'esta pastora, cujo nome era
+Antonia. Veja-se o lindissimo retrato que pintou d'ella o nosso Poeta na
+sua _Chave do enigma_.
+
+
+Pag. 80, lin. 9
+
+Filinto e o entrudo
+
+
+Com o seu espirito essencialmente nacional, recordava-se o bom Francisco
+Manuel do Nascimento, com muita saudade, do entrudo brutal da velha
+Lisboa.
+
+
+¡Viva o meu Portugal! ¡viva a laranja
+que derruba o chapeo!
+
+
+exclamava elle em París, ao lembrar-se das grosseiras costumagens dos
+Portuguezes, felizmente meio polídas já hoje.
+
+
+Pag. 82 linhas 6 e 8
+
+Citações latinas
+
+
+Essas duas são de Virgilio (_Eneida_, Livro I)
+
+
+_Fronte sub adversa scopulis pendentibus antrum;
+intus aquae dulces, vivoque sedilia saxo;
+nympharum domus_.
+
+
+Isto é: defronte, sob uns pendurados penedos, abre-se um antro; e lá
+dentro correm aguas doces, e apparecem assentos como que talhados na
+rocha viva; verdadeira habitação de nymphas.
+
+
+Pag. 87 lin. 21
+
+As rogações de Maio
+
+Foram instituidas por S. Mamerto, Bispo de Vienna, no Delphinado,
+fallecido no anno 475.
+
+
+Pagina 99 linha 23
+
+O ubi campi!
+
+
+Recordação de palavras de Virgilio ao Livro II das _Georgicas_:
+
+
+_Rura mihi et rigui placeant in vallibus amnes;
+flumina amem silvasque inglorius. O ubi campi
+Spercheosque, et virginibus bacchata Lacaems
+Taygeta!......_
+
+
+Sejam minhas delicias os campos, e os ribeiros a deslizar nos valles;
+encantem-me os rios e os bosques, como obscuro que sou. ¿Onde estais,
+campinas? ¿onde estás, rio Sperchio, e tu, monte Taygéte, habitado pelas
+alegres virgens espartanas?
+
+Castilho traduziu assim este trecho:
+
+
+Então amar só quero os rios e arvoredos,
+de glorias desquitado. Ai, campos meus tão quedos!
+ai ribeiras do Spérchio, oiteiros do Taygéto,
+das virgens de Lacónia ás órgias predilecto,
+¿onde, onde me estais vós?....
+
+
+
+Pag. 102, lin. 10
+
+Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in urbem
+
+
+Verso de Ovidio, logo no começo da elegia I do Livro I das _Tristezas_.
+Dirigindo-se ao seu proprio volume, escrito (ou antes chorado) no
+desterro, entre os gelos do Ponto, diz-lhe o autor: vae meu pequeno
+livro; has-de entrar sem mim na Cidade; nem por isso te quero mal.
+
+
+Parte, ó meu pobre livro; irás sem mim, sosinho,
+correr na gran Cidade incognito caminho
+
+
+traduziu alguem
+
+
+Pag. 107, lin. 17
+
+Zimmermann
+
+
+João Jorge Zimmermann, nascido em Brug, cantão de Berne, a 8 de Dezembro
+de 1728, seguiu os estudos medicos, e foi abalisado sabio. Nomeou-o
+medico da sua camara em 1768 el-Rei de Inglaterra; el Rei de Prussia
+Frederico, o grande, foi tratado por elle na sua ultima doença, e deveu
+allivios aos seus cuidados intelligentes. O Principe russo Orloff foi de
+proposito com sua mulher consultar Zimmermann ao Hanover; e ao tornar-se
+a S. Petersburgo falou d'elle com enthusiasmo á Imperatriz Catherina,
+que em 1784 procurou attrahir á sua côrte aquelle luminar da sciencia.
+Elle pediu excusa, porque a vida mundana não condizia com os habitos que
+tinha creado o seu espirito; não se ofendeu a eminente Princeza, e
+conferiu-lhe a ordem de Wladimiro. Infeliz na vida domestica, viu
+morrer-lhe entre os braços uma filha adorada, e endoidecer-lhe um filho.
+Falleceu este notavel homem em 7 de Outubro de 1795. Além de outras
+obras, entre ellas um poema sobre o terremoto de Lisboa, publicou em
+1756 o seu _Tratado da Solidão_, onde todas as vantagens moraes do
+isolamento são defendidas com eloquencia e convicção, e sem mysanthropia
+exagerada.
+
+
+Pag. 108, lin. 6
+
+O Passeio publico e o Marrare
+
+
+Para os habitantes da Lisboa moderna, diremos que o Passeio publico,
+riscado em 1764 pelo architecto da cidade, Reynaldo Manuel, nas antigas
+Hortas da cera, era o refugio campestre mais delicioso que podiam gosar
+os habitantes da Capital. Ia desde a actual praça dos Restauradores até
+á extinta praça da Alegria, na altura da rua das Pretas. No sitio exacto
+do monumento aos heroes de 1640, espalmava-se um grande tanque redondo
+(hoje no jardim da Graça).
+
+O café Marrare, poiso dos elegantes lisbonenses, era no Chiado.
+
+
+
+
+ADDITAMENTO
+
+
+Visto ser esta obra de Castilho dedicada á memoria de seu bom irmão,
+pareceu-nos acertado juntar aqui um dos tres sermões que ainda restam
+d'este. As suas obras ineditas mandou o proprio Doutor Augusto Frederico
+de Castilho que lh'as queimassem por sua morte. Salvaram-se, apenas, as
+seguintes:
+
+
+ I--O sermão de S. Pedro, ou da Fé; II--O sermão da esmola, ou da
+ Caridade; III--O sermão nas exequias do senhor D. Pedro IV; IV--A
+ pastoral dedicada ao seu rebanho episcopal de Beja; V--Uns versos
+ na _Primavera_ de Antonio Feliciano.
+
+-----File: 111.png---\-----------------[Blank Page] -----File:
+112.png---\-----------------
+
+
+
+
+SERMÃO
+
+DA
+
+ESMOLA OU DA CARIDADE
+
+
+ Prégado na 5.^a dominga da Quaresma de 1839 na Sé de Lisboa pelo
+ Conego Arcipreste da mesma Sé, o Doutor de capello em Canones
+ Augusto Frederico de Castilho
+
+
+
+_Jesus abscondit se, et exivit de templo._
+Escondeu-se Jesus, e sahiu do templo.
+
+
+
+De duas coisas nos fala o texto que propuz: de Jesus escondido, e de
+Jesus fóra do templo; e nem por sahido do templo, nem por escondido,
+deixa Jesus de ser Jesus, ou nos dispensa de seu serviço. Jesus vivo, e
+na occasião de que trata o Evangelho, estava no mundo, e faltava no
+templo. Jesus, hoje, por dois milagres de fé e amor, por duas
+eucharistias, está no templo, e mais no mundo: no _templo_, encoberto no
+Sacramento; no _mundo_, encoberto nos seus pobres. N'uma e n'outra parte
+o devemos servir com egual zelo.
+
+Orar todo o dia na egreja, e deixar fóra d'ella morrer á fome e ao frio
+os necessitados, não é de christão; é fé morta. Soccorrer aos infelizes,
+sem crer (se tal é possivel) n'Aquelle que elles representam, é caridade
+morta; tambem não é de christão.
+
+Vós pareceis christãos pela fé, pois que vindes á casa de Deus; vós o
+pareceis, mas não o sois, porque essa fé é morta; cumpre que se
+resuscite pela caridade.
+
+Da caridade prégarei portanto hoje, ou antes da esmola, que é a caridade
+pratica e activa; é o christianismo na sua parte mundana, o culto do
+Verbo humanado aos olhos de todos, a religião de todas as religiões, a
+philosophia de todas as philosophias, o axioma para todos os
+entendimentos, o dogma até para o atheismo. O objecto é o mais
+accommodado ás necessidades do tempo em que vivemos; offensa faria á
+vossa piedade, se vos exigisse a attenção.
+
+ * * * * *
+
+Alma e coração, discurso e affectos, convencem e persuadem como dever a
+esmola. Não creou a Natureza irmãos privilegiados, e morgados na familia
+dos homens: para uns, patrimonio de riquezas, e commodidades; para
+outros, encargos de miseria, e lagrimas. Acasos, sagacidades, ou
+malicias, estabeleceram essa desegualdade; e andou tambem ahi traça
+recôndita da Providencia, para estreitamente nos ligar; se uns de outros
+não carecessemos, não nos amáramos; se tudo a nós mesmos referissemos,
+não fôramos virtuosos, seriamos os mais infelizes dos entes,
+desentranhada de nós a beneficencia, origem de toda a sociedade, e
+purissima fonte dos verdadeiros prazeres da vida. Egualou-nos, pois, a
+Natureza; a Providencia nos desegualou; e n'esta contradicção apparente,
+é que Deus, supremo Autor de ambas, manifestou toda a sabedoria dos seus
+conselhos. Na Natureza, isto é, na sua Justiça, quiz que tivessemos uma
+norma de egualdade; na Providencia, isto é, na sua caridade, que
+aprendessemos a restabelecer, quanto em nós coubesse, aquella egualdade
+primitiva por mutuos soccorros.
+
+O homem caritativo é portanto o homem da Natureza, e o filho mimoso da
+Providencia, depositario e executor da Justiça de Deus, transumpto e
+argumento de sua bondade e misericordia.
+
+O supérfluo de nossos bens constitue rigorosamente o patrimonio dos
+pobres, e negar-lh'o é ao mesmo tempo injustiça e barbaridade, egual á
+do depositario que consome os bens sagrados do deposito, do ecónomo que
+converte em proprio uso as rendas do seu senhor, do tutor que devora a
+substancia do seu pupillo; é ainda mais: é declararmo-nos inimigos de
+Deus, desacreditando, e dando, de certo modo, quebra áquella
+Providencia, cujos éramos dispensadores e supplementos; áquella
+Providencia, que não consente que as avesinhas mesmas, que voam errantes
+pelo ar, caiam mortas em terra, sem ordenação do Pae Celeste.
+
+Tudo quanto de nós emana, ou em nós ressumbra bello, generoso, heroico,
+brota (não duvidemos) da caridade. Deus, para tornar as virtudes caras,
+e accessiveis até aos mais faltos de discurso, não creou a caridade,
+senão que a tirou de suas proprias entranhas, e orvalhando-a sobre a
+terra, lhe deu por benção que de todas as mais virtudes fosse ella
+semente e fruto, seiva interior e graciosa florescencia; e ella ahi nos
+ficou independente de qualquer reflexão, affecto innato, instinto (¿por
+que o não diremos?), instinto moral.
+
+Ainda mais, senhores: não só a tornou o mais profundo, mas tambem o mais
+extenso de todos os affectos, para que, sobre encher-nos o coração de
+virtude, ella nol o podesse occupar; sobre constituir-nos felicidade,
+nol-a podesse tornar permanente.
+
+¡Oh! ¡que maravilhosa não é esta caridade, que em todas as edades, e em
+todas as circumstancias da vida e do mundo, sempre acha alimento, sempre
+lhe renascem objectos, e infinita como o Ceo, d'onde procede, cobre,
+como elle, toda a Natureza creada, passa dos homens aos animaes brutos,
+d'estes aos proprios entes insensiveis, adivinha infortunios, inventa e
+persuade soccorros, até para entes que os não sabem agradecer, que os
+não requerem, que os não precisam!
+
+Tem a caridade, como as demais paixões, os seus excessos; momentos em
+que se não sabe conter, nem governar; suspiros, lagrimas, e desalentos;
+enthusiasmos, impetos, e arrojos heroicos; mas, como tudo lhe nasce do
+amor e compaixão, tudo é terno, tudo é mavioso e consolador. Virtude de
+virtudes, virtude unica onde não ha excessos.
+
+Pela caridade principalmente nos podemos dizer imagens de Deus, e obras
+primas da creação. ¡Ah! ¡que se jamais se podessem tributar ao homem
+cultos, que só á Divindade se devem, ninguem tanto os merecêra, como
+esses que, possuindo os thesoiros dos bens terrestres, os derramam no
+seio dos infelizes!
+
+Porém, meus irmãos, não é mistér uma brandura de animo requintada, para
+nos movermos com os infortunios dos nossos semelhantes, e
+procurarmos-lhes o remedio. ¿Qual de nós, vendo padecer um animalsinho,
+morto de fome, transido de frio, desamparado ás inclemencias de uma
+noite de inverno, e invocando a nossa piedade com aquelles gritos
+lastimosos, que a Natureza ensinou a todos os viventes para dizerem as
+suas dores, qual de nós se não sentiria profundamente condoído, não
+correria a abrir-lhe a porta, a agasalhal o, a soccorrel-o? ¡Ah! ¿e
+deixariamos no infortunio o homem? ¿o homem, semelhante nosso, nosso
+irmão, com quem nos ligam todos os interesses, cujos bens possuimos,
+cuja felicidade é tão travada com a nossa, e cuja desgraça tem sido
+talvez effeito da nossa injustiça, da nossa barbaridade?
+
+¡Oh! ricos do mundo, que cegastes e ensurdecestes o coração... ¿que
+digo? que o trazeis defunto no peito, e incapaz de resurgir aos clamores
+mais doridos da Natureza, ¡ah! emquanto, ao redor de vós, se estão
+sempre a abrir abysmos, que engolem tantos miseraveis, ¿que uso mais
+util farieis vós de vossos bens, do que seria o acudir-lhes? Na vossa
+avidez insaciavel (semelhantes ao inferno, que, por mais victimas que lá
+chovam, não cessa de clamar _affer_, _affer_, mais e mais), uns de vós,
+ó ricos do mundo, se contentam com a visão beatifica dos seus cofres; a
+sua alegria, a sua felicidade, o seu proximo, o seu mundo, a sua alma, o
+seu Deus, tudo seu ali jaz; ali enterraram o coração, e o conservam mais
+duro, mais inerte, mais frio, mais inutil, que esse metal que
+amontoaram; em quanto outros, pródigos em excesso, como se os seus
+thesoiros os affrontassem, os semeiam e desbaratam por phantasias, por
+luxos, por vaidades, sem moderação, sem ordem, sem destino, sem uma só
+utilidade real. Mais loucos ainda e mais infelizes, outros emfim,
+parecendo arrenegar dos beneficios da Providencia, os cofres que ella
+confiou nas suas mãos, elles os despedaçam e espalham, não só sem
+vantagem do proximo, mas ainda com o maior prejuizo, e inteira ruina de
+si mesmos. Com essas riquezas franquearam a entrada a todos os vicios,
+abysmaram a rasão, destruiram as forças, aniquilaram a saude,
+anteciparam a morte, e.... ¡ah! meus irmãos, ¡que de inquietações, de
+violencias, de trabalhos e de dores, para comprar uma eternidade
+desgraçada! ¡Com a chave de oiro de um paraiso, abrir um sepulcro e o
+inferno!
+
+Maus ricos, vós sois como o discipulo traidor; com esses dinheiros de
+maldição, preço dos tormentos e da morte de Jesu-Christo, que todos os
+dias se renova nos seus pobres, que vós entregais e desamparais sem
+piedade, com esses dinheiros de maldição, ides comprar um arrependimento
+esteril, um remorso tardio, uma morte desesperada, o odio dos homens, a
+vingança de Deus, os tormentos eternos!
+
+¡Quantas injustiças accumuladas n'esta barbara opulencia! Injustiça para
+com os infelizes, cujos bens sonegamos, cujos lamentos não queremos
+escutar, cuja morte mesmo antecipamos muitas vezes.--Injustiça para com
+Deus, de quem recebemos esses bens, com a condição da caridade, e cuja
+Providencia desmentimos, e a quem devemos continuos beneficios e
+esmolas, desde que entramos no mundo.--Injustiça para comnosco mesmos, a
+quem fechamos as portas de um céo de deleites, em quem apagamos todos os
+sentimentos de virtude, a quem já n'este mundo excluimos de toda a
+felicidade.--Injustiça, emfim, para com todo o genero humano, de quem
+nos afastamos, a quem não queremos pertencer, de quem até nos declaramos
+inimigos.
+
+¿E para onde fugirão os nossos olhos, que lá não vá a miseria publica
+perseguil-os? Nunca soaram tão alto os gemidos dos desgraçados, porque
+nunca a nossa immoralidade foi tão barbara. Realisou-se sobre tantos
+irmãos nossos parte grande das maldições, com que Deus, por bocca de
+Moysés, ameaçava os seus inimigos. Explorae por todas as guaridas da
+indigencia; visitae os tugurios e choupanas miseraveis das aldeias, das
+maiores povoações, e até das cidades... ¡Grande Deus! ¡que multidão e
+variedade de miserias! Uns arruinam a saude por comidas dessaborosas e
+doentias, mais para brutos que para gente; a outros, nem um boccado de
+pão negro e amargoso apparece nas vinte e quatro horas; ¡quantas se não
+chamam poisadas e casas, que antes são covas, masmorras, ou jazigo de
+viventes! ¡de quantos não é cama a terra humida, e vestido o que nem
+lhes encobre a nudez! ¡Tantos paes cercados de um bando de meninos,
+chorando e pedindo-lhes pão! Tantos outros meninos, ainda mais
+infelizes, orphãos de pae e mãe, que nada teem na Natureza, além do sol
+que os aquece, e do ar que respiram, e começam a conhecer tão cedo a
+dureza dos homens, obrigados, quasi desde que abrem os olhos, a procurar
+por si mesmos com que supram as necessidades, ainda tão mesquinhas, mas
+tão pesadas para nós! ¡Tantas viuvas sem protecção, em quem, sobre o
+desamparo e dôr perpétua da viuvez, accresceu verem os seus bens
+arrancados por crédores, e quantas vezes por ladrões, debaixo do nome de
+crédores! ¡Tantos obreiros atirando-se a trabalhos superiores ás suas
+forças, ou á sua creação, ou aos seus annos, para sustentarem, com o
+suor, a vida, que, n'esse mesmo suor, se lhes está derretendo e
+mirrando! ¡Tantos enfermos expirando á mingua, sem medico, sem
+tratamento, sem remedios, sem enfermeiros, sem alma viva que os console,
+que lhes suscite as ideias da Eternidade, e até sem um lençol que os
+amortalhe! ¡Tantos privados dos olhos, dos braços, e do uso dos sentidos
+mais preciosos, incapazes de trabalhar, arrojados para a borda dos
+caminhos, soffrendo dias inteiros os ardores do sol, as chuvas, os
+frios, e os ventos do inverno, considerados como monstros de outra
+especie pelos homens! ¡Tantos mendigos, emfim, sem lar, sem nada, nem um
+amigo, sósinhos em meio de tanto mundo!
+
+¡Mas que me canço eu a enfeixar o que não tem conta! E quando de taes
+miserias conseguisse fazer aqui um piedoso inventario, ¡quantas outras
+não ficariam de fóra, mais profundas, e mais miserias, porque ellas
+mesmas refogem e se escondem! As ruas e as praças, com todos os seus
+clamores e penurias, não confessam ainda assim quanto a nossa especie
+está padecendo. Ha, em todo este exterior, um não sei que reflexo de
+verniz e doirado, um não sei que ruido festivo, um perfume de opulencia
+e sabores, um certo sorrir, um raio de sol, um aspecto de céo azul, uma
+vida e uma esperança, que são disfarce, e mascara da existencia do povo,
+real e intima. Pelas ruas corre abundante a vida. Sahindo-se para a rua,
+deixam-se á porta as lagrimas, e cuidados verdadeiros, e toma-se na
+bocca e faces o contentamento postiço. Por fóra andam os corpos em toda
+a sua gala; mas dentro, por todo esse immenso _dentro_, nas entranhas
+d'esse infinito massiço de pedras e areia, n'esses fechados labyrintos
+sem termo, n'esses apinhados e humanos favos de mel, estão chorando
+milhares de corações, estão-se desesperando milhares de almas.
+
+Oh! ¡se Deus permittisse que, na hora em que o abastado gira para se
+recrear, por esses caminhos tão lageados de marmores, tão ataviados de
+vidros de cores, de metaes brilhantes, de todas as espumas mais formosas
+do luxo, se Deus permittisse que n'essa hora se lhe revelasse aos olhos
+por entre que duas montanhas de infortunio, vai caminhando! ¡oh! ¡como
+de repente, semelhante a Pharaó, na estrada do Mar Vermelho, desabariam
+de todas as partes a afogal-o ondas e mares de dor!
+
+Sim, senhores, alem de outros infelizes que tambem precisam da caridade,
+¡quantos pobres envergonhados que abafam soluços e gemidos entre as
+quatro paredes da sua casa! Nas horas da noite, quando das dansas, dos
+jogos, dos espectaculos, e de peores logares, saem torrentes de
+mundanos, em quem parece que o tempo, o dinheiro, a saude e a fama pesam
+insoffrivelmente, ¡que de vezes se lhes não atravessam diante uns
+phantasmas de penuria, em fórma já de mulheres, já de meninos, já de
+anciãos, a quem a vergonha do sol não consentíra sahir dos seus
+sepulcros! De um portal, de um recanto, da bocca estreita de uma rua,
+nos saem as suas vozes, semelhantes a gemidos, antes que as trevas, de
+que não soffrem arrancar-se, nol-os deixem descobrir, estendendo a mão a
+receber a esmola, e a abençoar a caridade; algum vos esconde um rosto,
+que, em melhores dias, tinheis visto brilhar á luz da prosperidade.
+
+Estes mortos e esquecidos do mundo, espectros pallidos, que temem os
+dias, e não temem o aspecto da noite, porque já não podem ser mais
+infelizes, é Deus quem nol os envia ao encontro, menos por elles que por
+nós, menos para alliviarmos as suas penas que para elles nos inspirarem
+algum affecto ao coração gasto, algum pensamento fundo e importante á
+alma dissipada. ¡Felizes vós, os que entendeis estes avisos mysteriosos
+da desgraça, estas embaixadas solemnes do outro mundo! ¡Felizes os que,
+em vez de os repellir com dureza, accudis com o dinheiro á necessidade,
+com a esperança ao queixume, e com a commiseração a quem não cuidava que
+no mundo a houvesse!
+
+--Mas estes pobres, e a maior parte dos pobres que me accommettem, que
+me desatinam, que me desesperam (dizeis vós), ¿quem me abona a sua
+pobreza? e concedendo-lh'a, ¿quem me affirma que não é ella castigo da
+sua perguiça, ou mau proceder?... ¿Que vos importa? Se póde ser uma
+coisa ou outra, dae; antes lançar dez vezes, vinte vezes, cem vezes, em
+vaso cheio, ou em vaso indigno, do que deixar de accudir uma só vez a
+quem do vosso superfluo fará o seu necessario, e talvez, se lhe
+recusasseis, padecêra n'um dia o que vós não padeceis n'um anno, ou,
+para o não padecer, commêttera crimes, que, depois de o perderem a elle
+n'este mundo, vos percam a vós no outro. E demais: vós, que tão de
+repente sentenciais o desgraçado que não conheceis, ¿por que vos não
+sentenciará Deus, por esse mesmo facto, a vós?
+
+_Póde não ser pobre o que vos pede._--Sim, e algumas vezes se tem
+visto.--_Póde ter merecimentos para muito mais ainda do que
+padece._--Sim, que é homem como vós, e com mais razão do que vós para
+aborrecer os homens, e ser seu inimigo. Sim: tudo isso póde ser; ¿mas
+examinastes vós se era tudo isso, ou se era uma parte? Recusando a
+esmola por tal motivo, ¿não tereis muitas vezes accrescentado ao roubo a
+injuria? ¡Ah! em quanto sentenciais uma alma que não conheceis, e
+condemnais o vosso semelhante para o deixar ir despojado, ¡quanto mais
+razão não tem elle para condemnar a vossa alma, que vós mesmos lhe
+descobristes inteira com uma só palavra!
+
+Mas ainda vos concedo (perdôe-me Deus a concessão), que todos esses
+andam expiando peccados seus; são até criminosos e facinorosos; que nem
+um d'elles tem necessidade; são até abastados e opulentos; que todo o
+mendigo é um salteador e um millionario. ¿Estais contentes com a
+concessão, ou quereis mais? Não podeis querer mais, porque o não ha.
+Pois bem: ¿mas que direis, quando eu vos apresentar pobres, de uma
+pobreza processada e demonstrada, que vos não importunam nem se queixam,
+dos quaes muitos, dos quaes inteiras classes, não mereceram, nem poderam
+merecer, o seu estado? Ahi tendes os enjeitados, que não é muito que o
+sejam do mundo, e da fortuna, depois de o serem de suas mães; ahi os
+tendes, que a Misericordia mesma não basta a amamental-os e vestil-os,
+e, de seus pobres bercinhos, caem em cardumes nas sepulturas, e vôam a
+ir depôr na presença de Deus, contra a dureza de tantos, que, tendo-lhes
+dado a vida por um peccado, por um peccado ainda mais mortal (se é
+licito dizêl-o) o da avareza, lhes concorrêram para a morte.
+
+¿Quereis mais? mais vos darei: tambem necessitados, tambem innocentes.
+Ahi estão tantos asylos da infancia desvalida, onde se queria educar e
+felicitar um seculo novo, e que, por falta de caridade publica,
+morreram, depois de tão bem nascidos e esperançosos.
+
+¿Quereis mais? ahi estão os asylos da velhice, tambem e mais desvalida,
+onde os soccorros nunca são sobejos, nem sufficientes; porque muitos
+mais são sempre os que batem e choram áquellas portas de refugio, que os
+que a estreiteza das posses consentem sentar-se lá dentro á meza do
+convite de Deus.
+
+Assim que, por ambos os horizontes da vida, vos está o Senhor chamando o
+coração, e por toda a parte vos tem cercado do dever da esmola.
+
+¿Quereis mais? ahi tendes hospitaes, recolhimentos, cadeias.
+
+¿Quereis mais? ahi tendes centenares de religiosos egressos, a quem
+falta pão, lar, vestido, mundo, que o não conhecem, nem elle os conhece;
+militares que envelheceram nas armas e morrem á míngua; viuvas e orphãos
+de servidores do Estado, a quem se não paga, nem com esperanças.
+
+¿Quereis mais, e mais sem conta? ahi tendes os partidos politicos
+vencidos, em quem não é mister longo exame para se reconhecer a
+desgraça, porque é corollario evidente de causas notorias. A terça parte
+de uma edade do homem, dezanove annos, para não datar de mais longe, tem
+sido entre nós consumidos em dissenções e odios. Com successivos
+terremotos políticos, teem desabado as mais altas torres de fortuna;
+desappareceram abundancias afogadas entre ruínas; voaram arrancadas de
+furacões contrarios e imprevistos, as mais florescentes esperanças; os
+caminhos trilhados e sabidos subverteram-se; por onde se descia,
+sobe-se; por onde se vingavam as alturas, desce-se precipitado; algum
+dos filhos do pobre vôa dormitando em côche de oiro, e o ancião doirado,
+que ainda hontem lhe houvera matado a fome, lhe alonga a mão, da margem
+do caminho, clamando esmola. Não se cuide, senhores, que eu condemno o
+presente e absolvo o passado. Sei os males e os bens do passado; entendo
+os males e os bens do presente, ou antes os males do presente e bens do
+futuro; mas vejo, de mais a mais, um cardume de males extraordinarios,
+que não são, para que assim digâmos, nem do homem, nem da Natureza, nem
+de Deus, mas sim da mudança, da transformação da fortuna, da fortuna
+cega, que, no trocar das mãos, quebra sem pejo, nem dó, nem consciencia,
+o que depois todos choram e ninguem concerta.
+
+Vivemos pois entranhados e afogados n'um mundo de dôres, que não vemos,
+pela peior de todas as cegueiras, que é o não querer ver. E quando
+d'esta somnolencia, d'este lethargo, d'esta morte do coração, acordamos
+algum momento a este som _Esmola a este vosso irmão pelas chagas de
+Nosso Senhor Jesu-Christo_, já nos reputâmos muito generosos, se em vez
+do silencio ou de uma injuria, lhe acudimos com um _Deus o favoreça_; e
+tornâmos a atar muito depressa o fio dos pensamentos vãos ou
+peccaminosos que traziamos; e lá deixámos para traz a Jesu-Christo morto
+de fome, a Jesu-Christo chorando na pessoa do seu pobre. ¡Ah! que se o
+seu estado de abjecção os não obrigasse á humildade ínfima, se o uso de
+soffrer estas repulsas os não tornasse já meio insensiveis, se elles nos
+podessem retorquir, «¡Quê! (nos responderiam) ¿Deus que nos favoreça?
+Deus nos favoreceu com esses bens que indevidamente retendes; Deus nos
+favoreceu com os thesoiros da sua Providencia, que vós nos roubastes.
+¿Que o Senhor nos favoreça? ¿Quereis acaso tental-o? ¿que elle obre em
+nosso favor um milagre desnecessario? ¿que torne a chover o maná do céo,
+não sobre um deserto árido como aos nossos paes, mas sobre uma terra,
+que por toda a parte está cheia dos seus frutos e das suas dádivas? Esse
+maná vós o possuis, e encerrado inutilmente nos vossos vasos; Deus fará
+que se corrompa e apodreça. ¿Que Deus nos favoreça, deshumanos? Sim,
+sim, elle nos favorece na vossa propria dureza; os merecimentos que
+terieis na sua presença em serdes misericordiosos, elle os accumula
+sobre a nossa resignação; com os infortunios que nos accrescentais, e os
+prémios que rejeitais, se juntarão em nosso favor aos prémios de que a
+sua misericordia nos achar dignos.»
+
+¡Ah! meus queridos irmãos, que se em nossa dureza fossemos capazes de
+entender os gritos e lagrimas de tantos paes de familias, cujas familias
+podem dizer que não teem pae, tantos orphãos de pae e mãe, tantas viuvas
+desamparadas, tantos jornaleiros e camponezes arruinados, tantos
+enfermos, tantos cégos e aleijados, tantos mendigos, tantos pobres
+envergonhados, achariamos, nas suas lagrimas e gritos, menos a
+significação das suas dôres e desalento, que uma reprehensão amarga da
+nossa barbaridade para com os nossos irmãos, da nossa ingratidão para
+com Deus; acharíamos, sim, acharíamos até n'esses lamentos, a expressão
+propria com que devêramos deplorar nós mesmos a dureza, antes
+ferocidade, dos nossos corações.
+
+Não só, meus irmãos, as nossas liberalidades atalham todas estas
+miserias, mas ainda vão precaver muitas desordens. Aqui é uma pobre
+rapariga, a cuja honra se preparam violentos ataques. O Céo a dotára das
+qualidades mais eminentes; mas a fortuna tentou de algum modo desfazer a
+obra do Céo, juntando-lhe a pobreza com a formosura. Do seio da
+opulencia, um libertino já vibrou olhos tôrpes e ávidos para o santuario
+da virtude. A belleza o seduziu primeiro, depois a propria honra, e
+todas as qualidades que lhe notou, como outros tantos titulos que
+exaltaram o seu triumpho, por mais arriscado e difficil. Já abriu os
+seus cofres com prodigalidade horrivel; deu-se o primeiro ataque;
+frustrou-se. Não importa; os desejos augmentaram-se na repulsa, o
+merecimento da victoria vai subindo de ponto em ponto, e a seducção, de
+mãos dadas com a indigencia... ¿não vencerão cedo ou tarde? Chegou emfim
+esse dia; ¡venceu! e com um sorriso infernal applaudiu o seu triumpho, e
+a desgraça que consumou. Approximemo-nos agora, e contemplemos a pobre
+victima. Ali jaz, n'um arrependimento já tardio e inutil para o mundo;
+ali jaz recordando todos os artificios do traidor, que, depois de a
+desgraçar, chegou mesmo a aborrecel a; ali jaz na mesma indigencia que
+d'antes, porém mais infeliz agora; a sua honra fugindo abalou-lhe todas
+as outras virtudes. Em odio a Deus e a si mesma, ¿ficou-lhe ao menos um
+refugio no mundo? nenhum, porque o traidor, declarando-se seu cruel
+inimigo, foi divulgar o segredo, e exigir esses applausos infames, que
+tanto mereceu. ¡Pobre infeliz! Se tivesses nascido na abundancia,
+seriais sempre um anjo tão bello de virtude. Se a caridade te houvesse a
+tempo procurado, e descoberto n'esse asylo simples e modesto, onde
+vivias tão innocente e bemquista de Deus e dos homens, ¿não se teria
+afastado ainda o raio que reduziu a cinzas o desambicioso edificio da
+tua felicidade?
+
+Além é um moço, que, cançado da dureza dos homens, começa a não conhecer
+as leis na sua necessidade. Por toda a parte repellido, julgou direito
+prover por si mesmo, e a todos os despeitos, á sua conservação.--«Todos
+esses a quem recorri (diz comsigo mesmo) são felizes; eu não quero a sua
+felicidade; mas tenho, como elles, direito de viver.»--Levado assim
+pelos raciocinios errados do vicio, ou só por um instinto que lhe
+bafejou a injustiça dos homens, começou por pequenos furtos; passou a
+maiores; nunca mais reconheceu os titulos sagrados da propriedade;
+zombou de todos os respeitos humanos; relaxou de todo a consciencia; e
+acabará em salteador e assassino. Uma caridade a tempo o affasta do
+precipicio onde o leva de rastos a immoralidade, e lhe tira deante dos
+olhos dois futuros que o terão muitas vezes feito estremecer: um carcere
+perpetuo, um degredo, uma morte infame n'este mundo, e no outro penas
+correspondentes, em si e na sua duração, a crimes de que nunca se
+arrependeu, e damnos que nunca tiveram restituição. E quando elle passar
+para o patibulo, vós fechareis talvez as vossas janellas, e direis: «Não
+tenho coração para taes espectaculos;» ¡como se esse mesmo coração não
+fosse o seu peor algoz, o que o conduziu áquelle passo affrontoso!
+
+N'outra parte um desesperado, que sonhou alguns momentos a felicidade,
+mas que imprevistamente se sentiu naufragado de todas as suas
+esperanças, que contou, para segurar a subsistencia, com os amigos que o
+atraiçoaram, com a fortuna que lhe fugiu, que se vê precipitado n'uma
+desgraça a que não prevê termo na sua desesperação, insulta o Céo,
+blasfema da Providencia, e, se lhe não accudis, ¡quem sabe se irá (como
+tantos outros) afiar um punhal, temperar um veneno, ou suspender um
+laço, por onde arranque uma existencia que o importuna! ¿E a caridade e
+a ternura não poderão ainda aqui obrar um novo milagre? ¿fazer-lhe
+rebentar as lagrimas, cuja fonte se lhe exhaurira? ¿abrandar-lhe o
+coração? ¿obrigál o a bemdizer a Providencia, e abençoar o pão com que
+lhe sustentamos uma vida que lhe fizemos amar ainda?
+
+¡Oh! ¡meu Deus! ¡que doces prerogativas não déstes vós ás almas
+generosas e humanas! Se entre os próprios pagãos alcançava uma côroa o
+que salvava os dias do seu concidadão, ¡que honras não merece dos outros
+homens o que os arranca a uma morte desesperada, depois de uma vida
+infeliz! ¡que os reconcilia com o Céo que já suppunham surdo e injusto!
+¡e que até previne com os seus soccorros a desordem e excessos da
+miseria que lhes arrancariam os meios de salvação!
+
+¡Ah! meus irmãos, se nos basta ser homens, para reconhecermos como bem
+real esta doce obrigação da esmola, segundo a razão e humanidade, ¡que
+mais fortes motivos não tem o homem christão, para ser esmoler, segundo
+as Escrituras, e particularmente o Evangelho! Os deveres da caridade não
+são para nós simplices axiomas, ou preceitos da philosophia; não são o
+resultado de um mero instinto moral: as santas doutrinas reveladas
+vieram não só confirmar, mas dar ainda, se é possível, uma extensão
+muito maior a tudo quanto n'esta parte a Religião natural nos havia
+imposto.
+
+Segundo o systema religioso do Christianismo, ¡por quantos modos, até
+indirectos, nos não é persuadida a caridade! O Padre derramou sobre nós
+todo o thesoiro das misericordias do Céo; creou nos entes os mais
+perfeitos de toda a Natureza; a sua mesma divindade foi o typo pelo qual
+nos formou (pelas suas proprias mãos, dizem as Escrituras); não só nos
+adornou de todas as graças que perdemos na desobediência de nossos paes,
+mas todas as suas creaturas contribuiram, e ainda contribuem (mais
+parcamente sim, depois do peccado), para nos tornar o mundo uma
+habitação commoda e feliz. Esse sol que nos allumia o theatro do mundo,
+essas estações que lhe mudam as scenas, os frutos saborosos e delicados
+que rompem da terra, os vestidos que nos cobrem, o ar que respiramos, o
+somno que nos restaura as forças, os prazeres que nos lisonjeiam os
+sentidos, os prazeres ainda mais puros e doces da consciencia e do
+coração, são outras tantas esmolas, com que Deus proveu desde a
+eternidade ao homem, sobre fraco e indigente, ingrato a tantos
+beneficios.
+
+Na sábia disposição com que de mais o Eterno Padre arranjou todo o
+grande systema da Natureza, ¿não nos deu Elle uma grande lição de
+caridade, estabelecendo em todas as suas obras uma encadeacão successiva
+e mutua de dependencias e soccorros? Olhae, por exemplo, como os mares
+liberalisam as suas aguas ao ar em nuvens, o ar as suas á terra em
+chuvas, a terra ás fontes, as fontes aos rios, os rios outra vez aos
+mares; e n'este rodear das aguas, plantas, animaes, homens, o mundo todo
+se conserva, se reanima, se restaura.
+
+D'esta mesma sorte, não só as grandes porções da Natureza, mas ainda os
+seus minimos individuos, trazem travado um commercio mutuo de esmolas; e
+os soccorros de uns, em circulo perpetuo, se tornam essenciaes á
+existencia dos outros. É assim que, por toda a parte envolvidos pela
+Natureza, do meio da qual nos elevamos, como obras as mais perfeitas,
+não só nos não devemos resvalar a uma condição inferior á da propria
+materia bruta, mas avantajar-nos tanto mais na mutua caridade, quanto
+nos devemos considerar como entes, cuja conservação é mais importante
+para a manifestação da gloria de Deus.
+
+O Divino Verbo, por um mysterio da mais incomprehensivel misericordia,
+desce ao mundo, demora-se entre os homens, deixa-lhes um thesoiro de
+felicidade nas suas doutrinas, dá-lhes a esmola de todo o seu sangue,
+lava a mancha da nossa origem, e restabelece a paz entre o Céo e a
+terra.
+
+O Espirito Santo vem tornar effectivos todos os meios de santificação, e
+nos accode com esmolas continuas, desde que abrimos os olhos, até que
+deixamos o mundo; pelo baptismo assenta os nossos nomes no livro da
+vida; confirma-nos e augmenta-nos depois esse perdão; repete-o tantas
+vezes quantas offendemos o Céo; sustenta-nos com o manjar dos anjos; e
+accode-nos até com remedios temporaes, á hora em que as portas do
+carcere se vão abrir, e a alma sôlta reverter á sua origem.
+
+Mas não só pelo seu exemplo e meios tão indirectos nos persuadiu Deus a
+esmola; não é uma simples recommendação, é um dos preceitos mais
+rigorosos:--_Ego proecipio tibi, ut aperias manum fratri tuo egeno, et
+pauperi qui tecum versatur in terra_: Sou eu, é o teu proprio Deus, quem
+te ordena, que abras a tua mão ao necessitado e ao pobre, que lida
+comtigo sobre a terra. Esta lei tão clara, tão precisa e absoluta na sua
+letra, ¿terá acaso todos esses caractéres que devem sempre manifestar-se
+em todas as leis de Deus? Examinemol-a, e seja o proprio Deus quem nol-a
+interprete.
+
+É _justa e necessaria_: necessaria muito mais ainda para o bem
+espiritual dos bem-feitores, do que para o commodo temporal do
+soccorrido. A esmola, segundo Jesu-Christo, é um acto de Religião,
+conjuntamente com a oração e jejuns; é pois rigorosamente um meio
+expiatorio; é um commercio que temos com Deus por meio do nosso proximo;
+é uma agua copiosa (diz o Espirito-Santo) com que apagamos o incendio
+das nossas iniquidades; é uma santa usura, em que trocamos bens
+superfluos e temporaes por bens inapreciaveis e eternos; são thesoiros
+que ficam depositados no seio do pobre, e que d'ali estão sempre
+clamando ao Céo em nosso favor; são bolsas que nunca teem de se estragar
+nem de esgotar-se, que nunca nos serão roubadas nem podem ser
+consumidas; é um seguro para o dia da afflicção; é finalmente um arrimo
+a que nos soccorremos para não cahir.
+
+Mais: é _util_, considerada mesmo temporalmente para quem a dá. O
+Espirito-Santo o disse tambem nos Proverbios: _Aquelle que der ao pobre,
+de nada carecerá; aquelle que desprezar as suas supplicas, cahirá tambem
+na pobreza._--Eis aqui, meus irmãos, eis aqui patente o terrivel segredo
+da vingança divina, quando aniquilla tantas fortunas que pareciam tão
+solidamente estabelecidas: _Dispersit, dedit pauperibus; divites dimisil
+inanes_. Sim, porque as maldições, ó ricos do mundo, que o pobre vos
+lança em segredo, na amargura da sua alma, são ouvidas com todas suas
+imprecações, por Aquelle que o creou, e que nunca d'elle arredará os
+seus olhos. Folgae hoje, que, semelhantes ao mau rico do Evangelho,
+sereis ámanhan sepultados no inferno, debaixo do peso de vossos
+thesoiros; _et sepultus est in inferno_. E se as vossas riquezas vos são
+consentidas, muitas vezes é para que principiem o vosso inferno no
+mundo. Se pareceis prosperar, é para que a vossa quéda seja mais
+espantosa, ou para que os vossos descendentes, que não são culpados nas
+vossas iniquidades, não experimentem a punição da vossa dureza, e
+recebam juntos esses bens a que irão dar um justo emprego.
+
+¡Ah! meus irmãos, dizei me: ¿vistes vós, pelo contrario, que homem algum
+se arruinasse jámais pelas suas larguezas com os pobres? ¿Não é antes
+uma verdade, confirmada pela experiencia de tantos seculos, que as
+familias de mais caridade são as que mais teem prosperado? Sim, sim, o
+Espirito Santo o disse pela bocca do mais sublime de todos os prophetas:
+«Se derramares toda a tua misericordia sobre os necessitados, e encheres
+de consolação almas que gemiam na afflicção, a tua casa se tornará como
+um jardim sempre regado, e a tua prosperidade será tão perenne como a
+fonte que a todos offerece os seus licores, e por mais que a bebam nunca
+se esgota, nem cessará de correr.» ¿E o Redemptor não disse ainda mais
+expressamente: _Date et dabitur vobis_? ¿Não compara elle a retribuição
+com que o Céo ha-de corresponder ás nossas liberalidades, com uma medida
+avantajada, calcada, de cogulo, a verter de todos os lados, que se nos
+vasará para o regaço? ¡Oh! não duvidemos: os bens do misericordioso,
+repartidos pelos infelizes, são o azeite e a farinha milagrosa da santa
+viuva de Sarepta. Comeu Elias, diz a Escritura, comeu ella e a sua casa;
+e desde aquelle dia nunca lhe faltou a farinha no pote, nunca o azeite
+do vasinho se diminuia.
+
+Vêde, depois d'isto, ¡que multidão de bençãos as Escrituras não veem
+chovendo sobre o homem compassivo e esmoler! O Senhor o conserve, o
+Senhor lhe dê uma longa vida, o faça feliz no mundo, o livre das mãos
+dos seus inimigos, o allivie no leito da sua dôr. O que dispersar os
+seus bens pelos pobres, viverá de seculo em seculo na memoria dos
+homens, abençoado será o seu nome, e n'elle se despontarão as settas
+envenenadas da calumnia. _Justitia ejus manet in saeculum saeculi.
+Exaltabitur in gloria. Ab auditione mala non timebit._ ¿Que significam
+tantas promessas, meus irmãos, tantos premios, tanta abundancia de
+bençãos, as glorias do Céo e da terra, tudo cumulado sobre o homem
+benefico? ¿Que sacrificio tão importante se vai exigir d'elle? ¿a que
+lances heroicos o querem persuadir? ¿que perdas soffrerá que cumpra
+contrabalançar por premios de tão alta valia? ¿Exige-se-lhe a
+mendicidade e a miseria, em que viveram os Apostolos e o Redemptor? ¿um
+exterminio de todas as paixões? ¿uma abnegação de todos os prazeres? ¿as
+mortificacões da penitencia? ¿a constancia e morte gloriosa dos
+martyres? Não, não. Pede-se-lhe só amor e provas de amor para com seu
+irmão; pedem-se-lhe só lagrimas e pão para os infelizes. Não se lhe
+intima que dê, com prejuizo seu, até o ultimo boccado d'esse pão, mas
+empenham-se os titulos mais sagrados da misericordia, e
+patenteiam-se-lhe todos os cofres e enchentes da Graça, para lhe pedir
+só as migalhas superfluas da sua meza.
+
+¡Grande Deus! ¡que generosidade incomprehensivel a vossa! ¡Remunerardes
+como sacrificio uma virtude, e acceitardes como virtude o que nada custa
+ao coração! ¡Accumulardes os vossos prémios sobre os prazeres mais doces
+da consciencia! ¡Considerardes em mais do que homem a quem só cumprìu
+com deveres da humanidade! ¡Avaliardes em tanto um superfluo, que
+trasbordamos para o seio do desgraçado, quando já nol-o havieis dado com
+essa condição! ¡Acceitardes, finalmente, esses bens frageis, temporaes e
+caducos, esses bens que só devemos á vossa liberalidade, como moeda
+correspondente em valor ao preço inestimavel dos vossos thesoiros
+infinitos!
+
+Mas d'estas elevadas contemplações, em que todos nos deveriamos abysmar,
+vós me chamais, meus irmãos, vós me fazeis descer ás profundezas da
+vossa miseria, e surprehender nas vossas consciencias um segredo bem
+importante. ¿E não adivinho eu quaes teem sido, desde que enunciei o
+thema e objecto do meu discurso, os pensamentos de muitos de vós, da
+maior parte, ou antes de quasi todos os que me escutais?--«Feliz
+(exclama cada um de vós, no seu coração) feliz de mim, se eu podera
+soccorrer o meu proximo, que a tão bom barato me veria de posse do Céo.
+Porém Deus não me destinou a mim esses premios e bençãos; e se a esmola
+fôra um meio indispensavel de salvação, eu me perderia sem remedio, não
+por minha culpa, mas por culpa da fortuna. Todos os meus bens
+escassamente chegam para a minha sustentação e da minha casa.»--Assim
+pensais; assim buscamos pretextos para illudir todos os preceitos até os
+mais terminantes e expressos da Religião. Mentis a Deus, aqui, na sua
+presença, dentro da sua mesma casa, e, suppondo justificada a vossa
+propria crueldade, vos revestis d'aquelle zelo hypócrita do phariseu do
+Evangelho, e lançais de travez os olhos para os ricos, que ahi estão
+comvosco. Folgais talvez com a sua confusão; e a doutrina da caridade, a
+doutrina de tanto amor, só serve de despertar em vós a insolencia, o
+desprezo, e o odio. Não permitia Deus que a sua preciosa semente se
+perca d'este modo; que só a acceite um pequeno torrão de terra, e que em
+vez de produzir os bellos frutos do Senhor, a maior parte do seu campo,
+ou quasi todo elle, continue a só desatar-se em cardos e espinhos.
+Afugentemos as aves d'esta preciosa sementeira. Arredemos as pedras, e
+não consintâmos que fique sem proveito e inculto nenhum pedacinho, por
+mais pequeno, da sua terra.
+
+Todos vós podeis dar a esmola, todos, sem excepção, vos achais obrigados
+a ella; e esta universalidade constitue, n'aquelle divino preceito, o
+seu segundo caracter de lei.
+
+Ha duas especies de esmola (diz Santo Agostinho): uma da bolsa, e a
+outra do coração. Tão longe vai, pois, a esmola como a caridade; e para
+podermos soccorrer o nosso proximo, basta-nos possuir um coração. ¿Não
+tendes dinheiro, mas tendes pão com fartura? Reparti-o por tantos
+famintos. ¿Escassamente vos chega o pão, mas tendes algumas roupas
+superfluas? Cobri com ellas tantos nús. ¿Nada tendes hoje? Promettei
+para ámanhan; enchei de esperanças o seio vazio de todas as consolações.
+¿São a caso insignificantes os bens que vos restam para os frutos da
+caridade? Offerecei-os assim mesmo; basta que deis só um copo de agua
+fria a um dos mais pequenos do mundo, lembrando-vos de que elle é meu
+discipulo (vos diz Jesu Christo); este só copo eu vos affirmo que não
+ficará sem recompensa. ¿Nada tendes que dar? Reparae bem: ¿Nada tendes
+que dar? Lançae bem os olhos de todos os lados. Sondae bem toda a vossa
+fortuna. ¿Nada tendes que dar? Se não mentis ao desgraçado, se na
+verdade vos achais privado de todo o genero de haveres, ainda possuis
+muitos bens em que não reparaveis. São os que existem dentro do vosso
+coração. Offerecei-lh'os. Derramae d'elle torrentes de balsamos sobre
+todas as feridas dos vossos tristes irmãos. Sois ainda mais rico com o
+vosso coração, no meio mesmo da miseria, do que os ricos sem elle,
+afogados nos seus thesoiros. Consultae esse coração; ouvi como um
+oraculo as suas respostas. ¿Que vos demorais? Segui todos os seus
+impulsos.
+
+¿Não tendes com que soccorrer o indigente? Correi á morada do rico.
+Entrae affoitos.
+
+Pintae-lhe as miserias do seu semelhante. Mostrae que só os interesses
+da humanidade vos dirigiram ali. Contae o que presenciastes com os
+vossos olhos. Chorae diante d'elle. Desfazei as calumnias. Reconciliae
+as eternas inimizades da opulencia com a miseria, e, semelhantes aos
+corvos de Elias, voae á choupaninha faminta do deserto, com o pão e com
+a carne, que vos deu essa Providencia, que assim soubestes interessar.
+
+¡Não tendes que dar! Ajudae o vosso proximo, com o trabalho dos vossos
+braços. Advogae perante o poderoso a causa do fraco. Desfazei os enredos
+e calumnias, que ennegreceram vosso irmão, que lhe roubaram todas as
+protecções.
+
+¡Não tendes que dar! Congraçae o homem com o homem, a familia com a
+familia.
+
+¡Não tendes que dar! Visitae tantos desgraçados, que gemem por esses
+carceres; persuadi-lhes a paciencia, e a resignação evangelica;
+confortae-os com palavras doces, com esperanças consoladoras.
+Approximae-vos ao leito do enfermo; offerecei-lhe, com mão carinhosa, os
+remedios; animae-o com os vossos sorrisos, e fazei que troque os
+suspiros da sua dôr e do seu desalento em suspiros de ternura, em
+expressões de confôrto; que veja os Céos abertos, e que goze
+antecipadamente de premios, que, se não fosseis vós, talvez não tivesse
+de possuir.
+
+¡Não tendes que dar! Instrui, na santa doutrina, a tantos meninos, e
+ainda a pessoas maiores, que a ignoram. Bemdizei de vosso proximo na
+presença, assim como na ausencia. Ajudae-o com as vossas orações.
+
+Nada tendes que dar! ¡Nada tendes que dar! ¡Ah! ainda tendes lagrimas.
+São as perolas e os diamantes da alma; e esse thesoiro nunca se esgota
+para um christão. Tomae a vós uma parte do seu infortunio, e elles
+ficarão menos oppressos. ¡Que esmolas, tanto ou mais preciosas que as do
+oiro! ¡De quantos e quantos modos, não sabe reproduzir-se a
+beneficencia!
+
+Bemaventurados, disse o Redemptor, todos os que usam de misericordia,
+porque elles alcançarão misericordia.
+
+Eis aqui as bençãos e os premios do Céo, recahindo sobre todos vós, sem
+exclusão de um só. Ahi vos tendes tão ricos, aos olhos do Senhor, como
+esses ricos, cuja dureza lamentaveis, a cujos bens vos promettieis dar
+um melhor emprego, se os possuisseis. ¿Quem vos detem? ¿por que não
+correis a praticar essas obras de misericordia, que podeis? ¿a
+merecerdes essas bençãos e premios, que ha pouco ambicionaveis? ¡Quê!
+¡Já se vos affrouxa o zêlo! Sim, o zêlo, que murmura, que reprehende,
+que insulta nos outros a infracção dos deveres, em quanto os julga
+alheios, esmorece de todo se esses deveres se tornaram proprios; e, por
+mais injusta contradicção, as fraquezas, que não perdoamos no mundo,
+sendo em nós, já as sabemos desculpar; ¡e quantas vezes não passam de
+desculpadas a canonisadas! Pois bem, senhores: se a razão, se a
+humanidade, se a justiça, se a consciencia, se os interesses do mundo,
+se as bençãos do tempo e da Eternidade, se todos os premios de Deus,
+emfim, nada podem comvosco, possam-n-o, ao menos, as suas ameaças,
+castigos e maldições, que vão constituir a sua lei perfeitamente
+obrigatoria. Eis o seu ultimo caracter.
+
+¿Recusais a misericordia de Deus? Já não tendes que escolher. Só lhe
+ficaram as vinganças. Affastae-vos, ó santa familia de infelizes.
+Pobresinhos do Senhor, affastae-vos da terra maldita, onde vai chover
+fogo e colera do Céo. Para além, para além, é o vosso refugio, á dextra
+do Eterno Padre. _Venite ad me, omnes qui laboratis, etc._ ¿Não vos
+tinha elle dito que os vossos gritos lhe chegariam aos ouvidos, que as
+humiliações se lhes converteriam um dia em triumphos? Sim, sim, ó
+famintos, ó sedentos, nus, chorosos, calcados, perseguidos, ¡jubilae!
+Vós nunca cessastes de ser os seus filhos muito amados. Eu vou reassumir
+todos os thesoiros (vos diz elle) que a minha Providencia repartira
+pelos vossos barbaros oppressores. Eu lhes havia dado mais altos meios
+do que a vós mesmos de alcançarem a minha gloria, de alcançarem a menos
+custo. Os privilegios com que eu os mimosiei, só serviram de os fazer
+ingratos e crueis. Frutos mui formosos do meu campo, fostel-o vós, ó
+meus pobres; frutos que eu vou recolher e guardar para sempre no meu
+seio; elles foram arvores estereis, que, dominando toda a sementeira, a
+açoitaram com os ramos, a damnaram com a sombra, a devoraram com as
+raizes; infecundas e nocivas eu as arranquei em meu furor; eu vou
+lançal-as ao fogo. Retirae-vos de mim, malditos. Precipitae-vos no
+incendio eterno, que foi preparado ao diabo e aos seus anjos; porque eu
+tive fome, e vós me não déstes de comer; eu tive sêde, e vós me não
+déstes de beber; fui peregrino, e não me recolhestes; nu, e não me
+vestistes; enfermo e encarcerado, e não me visitastes. Todas as vezes
+que despedistes, que calcastes os pequenos do mundo, a mim, a mim o
+fizestes.
+
+¡Ah! meus irmãos, possa esta sentença de maldição estampar-se hoje com
+letras de fogo e indeleveis nos vossos corações. Este Jesus escondido
+nos pobres, este Jesus que por ahi vaga fóra dos templos, coberto de
+remendos, macilento, prostrado debaixo do pêso de tantas cruzes, é um
+rei de majestade, é um senhor indignado que vos ha-de apparecer em toda
+a sua cólera, e de cujas sentenças nunca poderêis mais appelar. ¡Oh!
+compadecei-vos d'elle, soccorrei-o emquanto o-vêdes pobre, cahido e
+humilhado, para o não experimentardes depois, senhor altivo e vingador.
+¡Oh! pobresinhos do Senhor, parabens! o coração me-diz que esta semente
+não será perdida, e que terêis hoje ao menos soccorros e consolações.
+
+Pois bem, Senhor. A Vós, recorremos hoje, que ainda é tempo. Aqui
+promettemos soccorrer-vos com o que é vosso, a Vós, ó meu Jesus pobre; a
+vós, cahido, a vós humilhado, para vos não experimentarmos depois
+accusador, testemunha, vingador e inexoravel. Antes que nos-accendais
+esses fogos de maldicção, já era nossos corações temos accezos outros,
+que muito mais são vossos: os da caridade.
+
+Ó modêlo do bom pae de familias, ajuntae-nos em tôrno da meza do vosso
+banquete celestial, aonde se assenta o opulento Salomão a par do Lazaro
+mendigo, os grandes com os pequenos da terra, o peccador arrependido com
+o justo que nunca vos-offendeu. Reclinae-nos sôbre o vosso seio; e n'um
+abraço de eterno amor nos-apertae a todos sôbre o vosso coração
+paternal, por todos os séculos dos séculos.
+
+Assim seja.
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+I--A primeira noite na serra 5
+
+II--O sepulchro, ou historia de uma noite
+de S. João 11
+
+III--Epistola a João Evangelista Pereira da
+Costa 41
+
+IV--O Presbyterio 43
+
+V--A lyra do desterrado 49
+
+VI--Epistola a 51
+
+VII--A romaria 53
+
+VIII--O Domingo gordo dos montanhezes 55
+
+IX--O S. João nas faldas do Caramulo 77
+
+X--O mosteiro 81
+
+XI--Santa Maria Egypcíaca 91
+
+XII--Epistola ao Desembargador Deslandes 97
+
+Notas ao 1.^o volume 99
+
+Additamento 107
+
+Sermão da Esmola ou da Caridade 109
+
+
+
+
+
+EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL Sociedade editora
+
+[Figura]
+
+LIVRARIA MODERNA 95--RUA AUGUSTA--LISBOA
+
+
+
+
+*Notas:*
+
+[1] Verbi gratia na quinta da Domanderes.
+
+
+ Nota do autor.
+
+
+[2] Descreva-se aqui n'uma nota o encontro que hoje tivemos com o
+gallinheiro de Santa Cruz junto ao Val da Gallega, que quiz descarregar
+uma espingarda em mim e no poeta, julgando-nos ladrões, pelas muitas
+perguntas que lhe faziamos sobre o que levava etc. etc.--Nota do
+secretario Augusto.
+
+[3] A Castanheira do Vouga, Bispado de Aveiro, Comarca da Feira, a uma
+legua de Agueda.
+
+
+ Nota do autor.
+
+
+[4] A traducção de parte de Silio Italico pelo Padre Francisco Manoel do
+Nascimento (Filinto Elysio.)
+
+
+ Nota do autor.
+
+
+[5] Traducção da escolha das Fabulas de Lafontaine pelo mesmo.
+
+
+ Nota do autor.
+
+
+[6] (O poema desappareceu, ou nunca chegou a escrever-se.)
+
+
+ Nota dos Editores.
+
+
+[7] Josué--cap. XXIV
+
+[8] Juizes--cap. VI.
+
+[9] Foi este fragmento publicado na _Revista Universal Lisbonense_ de 19
+de Junho de 1845--Tomo IV, pag. 582.
+
+
+ Os Editores.
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | Volume I | | |
+ |#pág. 20| a ém | além |
+ |#pág. 33| «o salto)» | «o salto») |
+ |#pág. 56| lnes | lhes |
+ |#pág. 69| fescenino,» | fescenino», |
+ |#pág. 94| acompapanhal-o | acompanhal-o |
+ | | | |
+ | Volume II| | |
+ |#pág. 45| dextra não | dextra mão |
+ |#pág. 113| tarrestres | terrestres |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O presbyterio da montanha, by
+António Feliciano de Castilho
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O PRESBYTERIO DA MONTANHA ***
+
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+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
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+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation information page at www.gutenberg.org
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at 809
+North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email
+contact links and up to date contact information can be found at the
+Foundation's web site and official page at www.gutenberg.org/contact
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit www.gutenberg.org/donate
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For forty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
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