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diff --git a/28128-8.txt b/28128-8.txt new file mode 100644 index 0000000..ef10eeb --- /dev/null +++ b/28128-8.txt @@ -0,0 +1,2432 @@ +The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não +póde dormir. Nº8 (de 12), by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº8 (de 12) + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: February 19, 2009 [EBook #28128] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 8 (DE 12) *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA + + +NOITES DE INSOMNIA + +OFFERECIDAS + +A QUEM NÃO PÓDE DORMIR + +POR + +Camillo Castello Branco + + +PUBLICAÇÃO MENSAL + + +N.º 8--AGOSTO + +LIVRARIA INTERNACIONAL +DE +ERNESTO CHARDRON +_96, Largo dos Clerigos, 98_ + +PORTO EUGENIO CHARDRON +_4, Largo de S. Francisco, 4_ +BRAGA + +1874 + + +PORTO + +TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA + +62--Rua da Cancella Velha--62 + +1874 + + +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA + + +NOITES DE INSOMNIA + + +SUMMARIO + + +_Os salões, pelo exc.mo visconde de Ouguella--Subsidios para a +historia da serenissima casa de Bragança--O paço real da +Ribeira--As Cruas entranhas de D. Maria 1.ª, a Piedosa--D. Maria +Caraca Bonaparte--Lixo--Bibliographia--Pobreza academica--Sobre +Anselmo--Ao Publico_ + + + + +OS SALÕES + + +CAPITULO VI + +UMA AURORA + + Opprimé par des déspotes, qui, á leur tour, étaient menés par les + jésuites, et asservi sous le pouvoir sans frein des prêtres et des + nobles, ce petit peuple menait ainsi, sans aucun doute, pendant la + première moitié du dix-huitième siècle, l'existence la plus + miserable parmi toutes les nations de l'Europe. + + GERVINUS. + + L'histoire n'est jamais faite, on la refait sans cesse. + + VOLTAIRE. + + Les hommes embrassent volontiers avec une ardeur violente les rêves + qu'ils se font, mais ils ne veulent point qu'on les leur impose. + + ARSÈNE HOUSSAYE. + + Ignota obscurae viderunt sidera noctes, + Ardentemque polum flammis, coeloque volantes + Obliquas per inane faces.... + + LUCANO. + +Nos confins do globo, nas regiões arcticas, ao tocarmos as ultimas zonas +habitadas, toma a existencia proporções fabulosas. Expiram, alli, todas +as ousadias, todos os commettimentos, todas as aspirações dos mais +intrepidos navegadores. + +É longo o obituario dos homens illustres, que teem perecido, +abandonados, n'estas epopêas ignoradas. Seriam famosas as chronicas, +onde se compendiassem as façanhas, os esforços heroicos, as luctas +incessantes, e a coragem inexcedivel dos martyres, que vão perdendo a +vida em busca d'aquellas solidões polares. + +Todas as proezas que a antiguidade nos narra: os doze trabalhos de +Hercules, a entrada no formoso jardim das Hesperides, as excursões em +demanda do vellocino de ouro, o ousado empenho de transpor o labyrintho +de Creta, o maravilhoso e demorado cerco de Troya, a viagem aventurosa +de Ulysses procurando a patria, a retirada heroica de dez mil gregos +pelo interior da Asia, as conquistas de Alexandre, as invasões de +Sesostris, a fundação de Sparta, de Athenas, de Roma, e de +Carthago--finalmente as narrações de Homero, Xenophonte, Herodoto, +Diodoro, Thucydides, Quinto Curcio, Tito Livio, Plutarcho, e Eutropio, e +ainda as creações grandiosas, que remontam aos tempos pre-historicos dos +vedas, do Maha-Bharata, do Ramayana, do Kalidasa, e do Boudha +Sakya-Mouni, todos estes mythos, todas estas epopêas, todas estas +lendas, todas estas luctas titanicas, todas estas épicas aventuras são +debeis esforços, limitadissimos exageros, vagas e triviaes descripções, +em presença dos arrojos de Vasco da Gama, de Pedro Alvares Cabral, de +Christovão Colombo, de Américo Vespucio, de Magalhães, de Franklin, de +Cooper, e de não sei quantos outros navegadores e descobridores +temerarios, que teem avassallado os dous oceanos, indo, alguns d'elles, +povoar, com os seus esqueletos, as regiões remotas dos gelos polares. + +Ha um parallelo formidavel e tremendo entre a vida physica e moral da +humanidade. As leis, que regem o espirito e a materia caminham a par. + +O alvorecer da liberdade, quando um povo desperta do lethargo da +escravidão, assemelha-se á luz vaga e indecisa, com que a natureza +previdente, e sempre mãi, acode á escuridão das immensas noites +arcticas. + +Contemplemos. + +Em phases astronomicamente determinadas, o facho de luz, que arrasta +este globo, acariciando-o, e alimentando-o carinhosamente--como em berço +de ouro, e em fachas de purpura--deixa, na solidão e nas trevas, por +longas e frigidissimas épocas, as regiões que se aproximam dos polos. + +Esconde-se o astro do dia. Levantam-se tempestades inexcediveis, rangem +nas proprias raizes os arbustos, que uma temperatura, milagrosa para a +vida humana, permitte e consente que sobrevivam a uma lucta constante; +fogem espavoridos os ferozes animaes, que o Creador concedeu áquelles +climas, e o homem, ainda que afeito a esta existencia inexplicavel, +busca em cavernas, cavadas no proprio gelo, um refugio, um abrigo contra +estas tormentas, em que a terra parece agonisar. + +E quando a noite vai longa,--longa a ponto que parece +interminavel,--quando a presença d'um ente organisado assusta e apavora, +porque os vultos dão visões d'espectros, n'aquelles cataclysmos e +inversões de todas as normas por que physicamente se governa a +humanidade--do seio d'este cahos, do vacuo de todos estes ruidos, da +solidão infinda de todas estas planuras assomam os lampejos d'uma luz +vaga, indecisa, e bruxuleante--robustecem-se, avivam-se, condensam-se, +animam-se, fulguram, e em duas columnas investem com o horisonte, +aproximam-se do zenith, e desdobram-se n'uma corôa de fogo, que +resplandece, offusca, e afaga na pallidez dos planos em que se desenha, +os montes, pyramides e arcarias de gelo com que as solidificações da +agua teem revestido a terra. + +É uma aurora polar. + +O phenomeno termina. + +As trevas adensam-se, os ventos impetuosos enfurecem-se, o gelo augmenta +de volume, as plantas não receberam calorico que as aviventasse, e a +terra conserva-se fria, inerte e abandonada. + +É porque o calor e a luz foram ephemeros, e a natureza continua envolta +no seu sudario de neve, até que o luzeiro vivificador, o centro de toda +a nossa existencia venha expandir os seus raios, as suas frechas de ouro +por sobre o nosso planeta. + +A liberdade é como o sol. + +Só ella vivifica, só ella alenta, só ella esparge os seus raios de luz +pelas escuridões da intelligencia humana. Só ella rasga os véos +densissimos, que entenebrecem o senso moral dos povos. Só ella exalta +Galileu, Copernico, Luthero, Leibnitz, Calvino, Voltaire, Rousseau, +Beccaria, Filangière, Darwin, Proudhon, Lamennais, Bentham, Comte, +Stuart Mill, Littré, Michelet, Quinet, e toda esta phalange de +apostolos, que evangelisam a palavra de Deus, e pregam a boa nova, +explicando as maravilhas da creação, d'envolta com os hymnos, que +offerecem ao Eterno. + +As auroras polares são simulacros de vida--são phenomenos +meteorologicos, que fulgem e desapparecem, sem que a terra estremeça de +contentamento, sem que a natureza acorde do somno lethargico das noites +arcticas, sem que as regiões do gelo dispam o alvo manto, que as +envolve, exhaurindo a luxuriante vida, e os ricos thesouros da sua +vegetação por todos os poros dos seus ferteis e uberrimos torrões. + +Quando os povos não estão ainda preparados para as grandes evoluções +sociaes, quando as nações jazem adormecidas, nos pesadelos d'uma lenta e +demorada tyrannia, as aspirações d'um grupo diminuto de homens, o credo +da nova crença, symbolisado n'uma obscura e limitada pleiade, as +esperanças do futuro, formuladas pelos videntes e vates d'uma nova era, +são como a semente perdida de que falla o evangelho--não brota, não +germina, não rebenta, não fecunda, não viceja: fica entalada nas pedras, +ou comem-na as aves do céo. + +As evoluções sociaes, sonhadas nos improvisos e imprevidencias dos +homens, que anceiam por precipitar acontecimentos inopportunos ou +prematuros, e que tentam arrastar os tempos, na insensatez com que os +Titans ousaram escalar o Olympo--segundo a maravilhosa lenda da +mythologia grega--são auroras polares, que fulgem, brilham, e se +extinguem, deixando o frigidissimo gelo da descrença no coração dos +povos que imaginaram regenerar. + +Assim foi a revolução de 1820. + +Na noite de ignorancia, de fanatismo, de escravidão e de miseria, que ia +tão longa, e tão frigida, como nas trevas dos polos, ergueu-se um +luzeiro ephemero, passageiro, e rapido, que atravessou o horisonte +politico da patria, e esvaiu-se e dissipou-se, como um meteoro, deixando +submersa, nas trevas da mais feroz oppressão, a nobilissima Lusitania. + +A aurora polar de 1820 dissipou-se. + +As trevas de 1828 surgiram e adensaram-se com o nefasto nome de +usurpação. + +O vaticinio da emancipação dos povos, o credo dos videntes da boa nova +foram afogados no completo desconhecimento da soberania popular. Ficou o +Lazaro amortalhado, no sepulchro, sem escutar nem entender o verbo +harmonioso da redempção. + +Por vezes, no fundo d'um horisonte diaphano e transparente, recorta-se +um ponto imperceptivel, um atomo negro, que só vistas perspicazes +descortinam. Vai o baixel singrando em aguas remansadas, impellem-no +ventos prosperos e adequados a uma facil navegação; e subitamente o +atomo torna-se colosso, o ponto negro transforma-se em tempestade, e os +elementos desencadêam-se, enfurecidos, sobre o mareante, confiado e +seguro na tarde bonançosa e estival dos climas tropicaes. + +Assim nasceu a revolução. + +As colonias do norte da America, esmagadas pela soberba oppressão da +velha Albion, proclamaram-se independentes. A França educada já nas +luctas dos philosophos e encyclopedistas, affeiçoada ás theorias e +doutrinas de Descartes, Voltaire, Rousseau, D'Alembert, Hobbes e Diderot +auxiliou esta grande lucta de emancipação; e a Europa, viu, com +assombro, o Novo-mundo aceitar a republica como um systema de governo, e +sustentar a democracia como uma verdade inconcussa, que parecia o +complemento da missão do Nazareno. + +É que o christianismo recuára diante da escravidão. «Dai a Cesar o que é +de Cesar», dissera o Messias; e a França, como n'um Sinay de luz e de +transformações sociaes, formulára os direitos do homem, e esmagára, sem +remorso, todas as oppressões, e todas as tyrannias. + +A França é o capitolio da raça latina. + +Nem uma só vez a nobre terra das Gallias deixou de regar com o proprio +sangue um grande principio. E ainda, quando arrastada pela louca ambição +d'um homem desvairado, percorria a Europa, na sofreguidão das +conquistas--ainda assim, cada patrona dos seus legionarios era um fóco +de propaganda, e uma ameaça tremenda para os despotas ungidos pelo +direito divino. + +Os excessos da revolução franceza--se os houve--foram a consequencia +logica e fatalmente necessaria de tantos seculos de carnificinas, +d'escravidão, e de infamias. «Os grandes só são grandes, porque nós +estamos de joelhos: levantemo-nos», clamava Seyés ao raiar a aurora da +mais esplendida revolução, que narram os annaes de todos os povos. E o +morticinio dos albigenses, a destruição dos huguenotes, as fogueiras das +inquisições, os encerramentos nas torres, e nas bastilhas, o estupido +orgulho, e os ignobeis e torpes privilegios d'uma aristocracia banal e +dissipadora, os barbaros direitos feudaes, a miseria publica na sua +hediondez, e todas as vergonhas, todos os abusos e todos os vexames dos +governos absolutos foram anathematisados e pulverisados á face dos +grandes principios, que os vultos homericos da assembléa nacional e da +convenção ousaram proclamar. + +É d'aqui, e só d'aqui, que data a emancipação da humanidade. + +A fé religiosa podéra ser--e foi--um balsamo de consolação. Era um +esteio para as consciencias, era uma valvula de segurança, forjada pelo +clero, pelo sacerdocio, pela theocracia, para obstar ao desencadeamento +de todas as indignações, e apagar, com as adulteradas palavras de +misericordia e resignação, as justas represalias legadas por milhares de +gerações. + +As palavras de Christo, no Golgotha: «Perdoai-lhes, meu Pai, porque +elles não sabem o que fazem», ficaram sendo, na amphibologia da sua +applicação, o pára-raios de dezoito seculos de abusos, de ultrajes e +torpezas. + +Rebentou a revolução franceza. E os raios d'este Sinay da biblia da +humanidade encheram de luz a palavra justiça, em toda a severa e +inexoravel verdade do vocabulo romano: «_Jus sum cuique tribuendi._» + +Os decemviros d'esta era famosa prestavam, pela primeira vez, homenagem +á dignidade de todos os entes racionaes: viam e consideravam todos os +homens irmãos e iguaes. + +Como é triste e demorada a perfectibilidade humana! Quantos seculos de +trevas, para luzir no craneo do rei da creação esta simplicissima +verdade: todos os homens são iguaes! + +E são. + +O genio e o idiotismo formam os dous polos d'esta arca santa, d'este +tabernaculo do pensamento, da vastidão do cerebro, onde a consciencia +moral, quando culta e desenvolvida, desperta sofrega dos seus direitos, +e irrompe-lhe a intuição generosa e espontanea dos seus deveres e +obrigações. + +As colonias hespanholas responderam, com enthusiasmo, a este clamor +unisono da America do norte, e por sobre os dous oceanos voou a mensagem +de que o Novo-mundo estremecia de jubilo ao contemplar a liberdade. Foi +isto bastante para que o movimento revolucionario se propagasse na +metropole. E ao passo que os autocratas da Europa forjavam uma alliança +reaccionaria, com o intuito pueril de levantar um dique á torrente +caudal, que trasbordava nas planuras habitadas pela raça latina, a +revolução caminhava triumphante no meio dia do nosso continente, e +aceitava, como modêlo, a constituição hespanhola de 1812. + +Era a democracia que levantava o collo, e arremessava o cartel aos +privilegios de dezoito seculos. As centelhas luminosas da liberdade, as +chispas d'este fogo sagrado irrompiam tão espontaneas, e tão vivazes, +que pareciam vulcões abertos pelas forças temerosas da electricidade, +fluidos magneticos, que em correntes subterraneas pretendiam surgir dos +seios da terra, em quanto esta se debatia, agonisante, nas convulsões +d'uma nova transformação. + +Em 1820 estremeciam os dous mundos. + +A Hespanha, o Brazil, o reino de Napoles, o Piemonte, e os proprios +christãos avassallados na Grecia despertavam ao clamor da emancipação +dos povos. Irradiava o sol da justiça. Dissipavam-se as trevas na +consciencia humana. Desde o Chili até Boukarest coroavam-se as montanhas +de fachos de luz, e como se uma só vontade, um só incentivo, um só +impulso dirigisse as nações, echoava em todos os pontos o sagrado nome +da liberdade. Ouvia-se o ruido das velhas instituições que desabavam. O +clero e a nobreza perdiam o prestigio, a força, o poderio; e a +humanidade, que ouvira absorta a palavra omnipotente da convenção +nacional, estremecia jubilosa e reverente, como a virgem de Nazareth ao +escutar a saudação celestial do anjo mensageiro. + +Durou pouco a esperança. Detraz dos hymnos festivaes vinham os crepes +funerarios. Após esta radiante aurora seguiram-se as trevas da reacção, +os carceres, as galés, as deportações, os exilios e os morticinios. A +velha Europa estendeu os pulsos e deixou-se algemar. + +O mais hediondo mal da escravidão é o habito torpemente adquirido de ser +escravo. + +O maior crime da tyrannia é educar as gerações para a abjecção moral, +para a aniquilação da dignidade individual, e para a ignorancia dos +proprios deveres. + +Todavia as evoluções sociaes não dependem da vontade dos homens. + +As legitimas penalidades, na terra, imprimem-se implacaveis e cruentas +em quem pretende destruir o que de si é immutavel e eterno. O +desconhecimento completo das leis physicas e moraes da humanidade +arrasta, as mais das vezes, repetidos cataclysmos e sangrentas +catastrophes. + +A arca santa do mosaismo é o symbolo immaculado da indestructibilidade +das normas, por que o universo se rege. + +Todos os seculos teem uma feição propria, uma formula predominante, por +que se inscrevem na historia. Assim se exprime o seculo de Pericles, o +seculo de Augusto, o seculo dos Medicis, o seculo de Luiz XIV. Detraz de +cada um d'estes epithetos, que são como uma synthese, caracterisada +n'uma epigraphe, transparecem grandes commettimentos, estudos longos e +pacientes, como de benedictinos, luctas heroicas, trabalhos herculeos, +progressos infinitos, que formam a vereda, representada pelos marcos +milliarios da civilisação dos povos. Definem-se, pois, os seculos por um +grande pensamento, e gravam-se com uma nova idéa. E á medida que as +civilisações se multiplicam, as transformações são mais rapidas; e as +evoluções sociaes precipitam-se. É assim que os phenomenos da +electricidade e a força do vapor teem hoje, desde a Oceania até aos +confins do occidente europeu, a humanidade perplexa e surprehendida n'um +contacto constante, e as idéas transmittem-se com a velocidade da luz. + +Mas as gerações que se teem ido succedendo, em seculos determinados para +a sua missão--egoistas e imprevidentes, foram legando ao seculo dezenove +a solução de todos os formidaveis problemas com que hoje nos achamos a +braços. Nós--entregues e devotados ás sciencias d'observação, aos +estudos analyticos, á razão critica, á severa e leal escolha da pureza +dos elementos que constituem o nosso credo, e a encyclopedia +fundamentada dos actuaes conhecimentos humanos, encontramo-nos face a +face com a futura solução de todos os problemas religiosos, +scientificos, litterarios e sociaes, que a machiavelica prudencia de +todos os defensores dos rigorosos principios authoritarios vai deixando +accumular. + +Queixem-se de si, e só de si os zelosos apostolos da reacção--phariseus +de todas as épocas, e de todas as raças,--quando a democracia implacavel +e inexoravel na sua marcha, arrastada involuntariamente pela sua +velocidade adquirida, achar de subito a formula inteira de todas estas +temerosas soluções. + +Mil oitocentos e vinte é apenas uma data. + +Echo remoto da revolução franceza, grito agonisante d'uma nação +exhausta, indolente, ignorante, fanatisada e escrava, o povo balbuciou +sem consciencia nem fé a palavra liberdade, e adormeceu de novo, no seio +de theorias que não entendeu, de principios que não comprehendia, para +acordar d'este somno febril e agitado nas tristes e luctuosas +carnificinas do caes do Tojo. + +A inviolabilidade da vida humana era uma utopia e um escarneo para uma +geração, que se estorcia convulsa, ainda, no medo e pavor com que a +feriam em face os sombrios e ferozes carceres da inquisição. + +A democracia nem era apenas um sonho n'estes devaneios da classe media. +O proletariado, quando muito, seria uma casta de parias, que d'envolta +com o pauperismo merecia os ergastulos e gemonias da preconisada +republica romana. + +As republicas gregas e latina não eram comprehendidas pela ausencia +total das sciencias modernas. E se os vocabulos se entendiam nos +lexicons da época, desconhecia-se, pelo menos, a essencia da organisação +e constituição de povos tão diversos. A philologia e a ethnographia eram +como hieroglyphicos para uma sociedade que apenas queria destruir. O +seculo dezoito vivera em parte dos discursos emphaticos de Raynal, +Volney e Rousseau, e das historias fabulosas, escriptas pelos aulicos e +cortezãos de todas as vaidades e pompas mundanas. + +A democracia, na rasgada e imponente accepção do verbo supremo, havia de +irromper, mais tarde, n'este luzeiro immenso, que será a redempção da +humanidade. + + VISCONDE D'OUGUELLA. + + + + +SUBSIDIOS PARA A HISTORIA DA SERENISSIMA CASA DE BRAGANÇA + + +II + +A VENIAGA + +Sem preambular com as repetidas accusações (veja Rebello da Silva, +Soriano, Pinheiro Chagas) escriptas contra a cobarde inercia de D. João, +duque de Bragança, que desatravancou ao usurpador castelhano o accesso a +Portugal, vou arrolar com miudas provas as verbas que representam o +valor da honra e do patriotismo do avô de D. João IV. + +Possuo um codice que pertenceu ao archivo da casa de Bragança, escripto +em 1687, com estes dizeres na folha de rosto: _Doações do real estado e +casa de Bragança, conforme se vão desbrindo em papeis e documentos +authenticos de que em summa se dá noticia._ + +Convém saber que os successores do duque D. Fernando, degolado em tempo +de D. João II, nunca poderam obter de D. Manoel, de D. João III, da +rainha regente, de D. Sebastião e do cardeal, parte dos privilegios que +o filho de Affonso V lhes jarretára. A absoluta independencia da corôa, +e o absoluto dominio em Villa-Viçosa, nunca poderam os duques +extorquil-o á condescendencia dos soberanos. + +Obteve-o, porém, o avô de D. João IV, em fevereiro de 1581, da velhaca +magnanimidade de Philippe II de Castella, quando foi comprimentar a +Elvas o usurpador, que vinha entrando triumphalmente em Portugal. O +primeiro passo era crear magistrados seus, instaurar tribunaes sem +appellação nem aggravo das sentenças dos seus juizes, e defender o +ingresso de viandantes em seus dominios, quando elles eram suspeitos de +procedencia de lugares impedidos, e até quando o não eram. + +A seguinte _doação_ de Philippe II ao duque de Bragança, D. João, +primeiro de nome, está registada no livro V da camara de Villa-Viçosa, +fl. 31, pag. 2. + +«Eu el-rei, faço saber aos que este alvará virem que havendo respeito +ao duque de Bragança, meu muito amado e presado sobrinho e a D. +Catharina minha muito presada prima residirem ora em Villa-Viçosa, +e por outros respeitos que a isso me movem; hei por bem e me praz +que a pessoa que o dito duque nomear por guarda-mór da saude da +dita villa tenha a alçada com o dito cargo adiante declarado. Que +entrando alguma pessoa na dita villa, sem licença do dito guarda-mór, e +constando que vem de lugar impedido, o possa _mandar prender, e sendo +peão será condemnado a um anno de degredo para o couto de Castro Marim +com pregão na audiencia e 2$000 reis para os captivos; e, sendo de maior +qualidade, a mesma pena de degredo e pregão e 4$000 reis. E o mesmo nos +que metterem fatos e mercadorias das terras impedidas; e os que vierem +de terras não impedidas, entrando sem licença, presos, e da cadêa +pagarão 2$000 reis._ + +«E todas estas penas sem appellação nem aggravo, e que as sentenças +sejam dadas em camara com os vereadores. E que não passe pela +chancellaria. Ambrosio de Aguillar o fez em Elvas a 23 de fevereiro de +1581. Roque Vieira o fez escrever. El-rei.» + +Em 2 de julho de 1582 concede o mesmo monarcha ao mesmo duque _poder +despender as rendas dos concelhos das suas terras no que lhe aprouver._ + +Em 2 de maio de 1584 o mesmo Philippe II assigna o seguinte aviso: + +«Eu el-rei. Faço saber a vós licenciado Lopo de Abreu Castello Branco +que ora o duque de Bragança (D. Theodosio) meu muito amado e presado +sobrinho, com minha authoridade, envia por juiz de fora da sua villa de +Villa-Viçosa, que eu hei por bem pela confiança que de vós tenho, que +além dos poderes que por minha ordenação são dados aos juizes +ordinarios, vos tenham mais o poder e alçada ao diante declarados: + +«_Que nos casos crimes possa mandar açoutar peões de soldada que +estiverem assoldadados, e outros peões que ganharem dinheiro por +braçagem, e escravos, e que possa degredar os ditos peões para os +lugares d'além-mar por dous annos, e para os coutos do reino até tres +annos. Que possa degredar escudeiros e vassallos que não forem de +linhagem, e officiaes mecanicos para os lugares d'além-mar por dous +annos, e para os coutos do reino por tres annos... Que se alguns +fidalgos, cavalleiros e escudeiros de linhagem, e vassallos, fizessem +cousas por que mereçam ser processados, os empraze para que a certo +tempo appareçam._ João da Costa o fez em Lisboa a 2 de maio de 1584. +Rei.» + +Seguem mandados confirmando e revalidando doações abolidas ácerca das +rendas das feiras, que os duques de Bragança continuaram a perceber, +como seus avós, antes das reformas de D. João II. + +Em 1589, o duque de Bragança D. Theodosio decreta nos seus dominios +isentando os ferradores e mais officiaes mecanicos de sua casa _de todos +os serviços e encargos do concelho, de fintas, de talhas, montes, +pontes, fontes, caminhos, calçadas, etc.; nem vá com presos, nem seja +tutor, nem curador de nenhumas pessoas, nem pousem com elles, nem lhes +tomem suas casas de moradas, nem adegas, nem estrebarias, nem roupas, +nem palha, etc._ + +N'esta fórma de decreto assigna D. Catharina, por ser ainda menor o +duque. + +D. João, segundo de nome, e que depois foi rei, ainda em 1635 impetrou +licença de Philippe IV de Castella para crear doze misteres, especies de +zeladores na cobrança das alcavalas que a serenissima casa exercia sobre +os vassallos. + +D. Duarte concedêra que o duque de Bragança podesse nomear juiz, quando +o juiz de nomeação real lhe fosse suspeito. D. Affonso V confirmou. D. +João II aboliu. D. Philippe IV de Hespanha, a requerimento do duque de +Bragança, que depois foi rei, confirmou a lei de D. Duarte. + +Por doação de 1587 é permittido ao duque de Bragança não cumprir as +cartas dos corregedores da côrte. No mesmo anno lhe é facultado avocar a +si as causas das suas terras e _sentenciar como lhe parecer_. + +Em 1607 é permittido ao duque de Bragança formar chancellaria e _levar +direitos d'ella sobre cartas de seguro em caso de mortes negativas, ou +confessativas de morte, de resistencia a officiaes de justiça, ele, em +provimentos de officios e isenções de cargos_. + +Esta concessão derivava do animo bizarro do castelhano que pagava ao +duque de Bragança com o dinheiro dos proprios portuguezes, e do animo +avarento do agraciado que se cevava na pobreza dos seus conterraneos. + +Tal graça era tão pesada para os portuguezes quanto vaidosamente inepta +para o duque a do tratamento de _excellencia_ que obteve em 1597, por +lei extravagante de 6 de dezembro, que só aos duques de Bragança e aos +infantes a concedia[1]. + +Afóra a _excellencia_, «o duque de Bragança--escreve Rebello da +Silva--por ser o mais nobre e poderoso, foi tambem o primeiro que o +soberano exaltou, lançando-lhe elle proprio sobre o peito o collar do +tosão de ouro, e entregando-lhe o estoque de condestavel do reino, +dignidade por elle pedida em vão, como sabemos, ao cardeal-rei e aos +cinco governadores.» (_Hist. de Port. nos seculos XVII e XVIII_). + +Na acclamação de Philippe I de Portugal, «o primeiro que jurou foi o +duque de Bragança, o qual depois veio beijar a mão d'el-rei.» (_Obra +cit._) + +Esta preeminencia importava menos que a concessão então obtida de +transportar da India uma determinada porção de especiarias isentas de +direitos da alfandega. + +Constituiu-se pois a serenissima casa de Bragança o primeiro armazem de +canella e pimenta n'estes reinos; e, como não pagava direitos, a sua +mercadoria era a mais procurada por duas considerações: a barateza do +genero e a qualidade do especieiro. + + [1] Por provisão particular de 12 de dezembro de 1605, passada em + Valhadolid foi concedido o mesmo privilegio aos duques de Aveiro, em + attenção ao grande luzimento de sua casa, pois D. Jorge de + Alencastre, nascido em 1481, era filho do rei D. João II e de D. + Anna de Mendonça, que,--por via de regra estatuida--acabou + commendadeira de Santos. Aquelle mosteiro assignalou-se como harem + de odaliscas desbotadas. O referido D. Jorge, mestre das ordens de + S. Thiago e Avis, senhor de Aveiro e mais terras do infantado, foi + creado segundo duque de Coimbra (o 1.º duque de Coimbra fôra seu + bisavô D. Pedro, morto em Alfarrobeira), por D. Manoel em 1500, ou + por seu proprio pai, como diz _Portugal, De Donat. reg._ n.º 410. + + + + +O PAÇO REAL DA RIBEIRA + + +De um manuscripto, que seria optimo livro da topographia de Lisboa, se o +terremoto de 1755 o não suspendesse, aniquilando talvez a mão laboriosa +que o escrevia, extrahimos o capitulo respectivo ao paço da Ribeira, e +edificios convisinhos. É a mais detida descripção que ainda vimos. Os +escriptores, que conheceram Lisboa antes da catastrophe, á semelhança de +João Baptista de Castro (_Mappa de Portugal_) poucos delineamentos +particularisaram dos grandes edificios da Lisboa de D. João V. Iremos +transcrevendo o que nos parecer mais grato aos antiquarios, e ainda aos +que, sem grande affecto a velharias, se comprazem em reconstruir na +imaginativa as feições da sempre formosa Lisboa. + +«O palacio real da Ribeira, situado junto das margens do Tejo, em frente +de uma das maiores praças da Europa, chamada _Terreiro do Paço_, é um +soberbo e vastissimo edificio, commodo e magestoso. É obra d'el-rei D. +Manoel, para o qual se mudou dos antigos paços da Alcaçova, e onde, +desde então, ficaram assistindo os reis d'este reino. Fórma este real +edificio dentro em si tres grandes quadras, com dilatadas galerias em +roda, com admiraveis quartos, preciosamente guarnecidos, e muitos +salões, os maiores dos quaes são: a casa chamada de _gala_, a sala dos +_tudescos_, onde costuma estar a guarda allemã de sentinella. Esta sala +é uma das maiores de toda a Europa, porque tem 130 palmos de comprimento +e 76 de largura. A quadra que fica junto da igreja patriarchal, chamada +_pateo da capella_, é toda rodeada de galerias de arcos sobre columnas, +com janellas ao de cima bem rasgadas. Por baixo d'estas arcadas ou +galerias, em toda a circumferencia, ha muitas tendas e lojas onde se +acha tudo que mais precioso ha no mundo, ouro, diamantes e outras pedras +preciosas. Sahindo d'esta quadra por um vasto portico voltado ao sul, se +entra em outra quadra mais comprida que larga, tambem cercada de bellas +galerias, sobre a qual abrem as janellas do quarto das rainhas. Ahi ao +pé ergue-se uma altissima e bem fabricada torre de marmore, com um +magestoso sino de relogio, e dous mais pequenos dos quartos. É obra do +snr. rei D. João V, o _Magnifico_. Tambem ha n'esta segunda quadra +muitas lojas onde se vendem cousas preciosas. Para a parte da _Ribeira +das Naus_, forma este palacio outro grande quarto, feito á moderna, obra +do mesmo monarcha, chamado o _quarto dos infantes_; e, ao cabo d'elle, +abre-se uma formosissima varanda descoberta, gradeada de marmore á +volta, primorosamente lavrado, sobre cujos pilares assentam vasos de +jaspe cheios de murta e flôres. + +«Aquella parte d'este soberbo edificio, que olha para o oriente, e +abrange a largura toda do _Terreiro do Paço_, é occupada por uma +espaçosissima galeria, que termina em um magnifico pavilhão chamado o +_Forte_. É obra de Philippe II de Hespanha, dirigida pelo famoso +architecto Philippe Terzo, podendo affirmar-se que não ha outra +semelhante em toda a Europa, como confessam todos os estrangeiros que +vem a Lisboa. D'aqui se descobre toda a barra, e o porto da cidade, +porque fica sobre a praia do rio. É tanta a magestade d'este edificio +que não vi em todo o reino de França, nem nos famosos palacios de Louvre +e Versailles tão justamente encarecidos obra tão sumptuosa; sendo para +sentir que não se chegasse a concluir o risco d'esta elegante fabrica, +pois estava delineado fechar toda a praça do _Terreiro do Paço_ em roda, +com outro pavilhão fronteiro no sitio onde hoje (1754) estão as casas da +alfandega: porém, é sestro já muito antigo ficarem imperfeitas todas as +obras que outros principes começaram. + +«Contigua a este lanço, corre uma varanda de arcos que dá serventia para +a sala dos _tudescos_, e pela fachada do sul se communica para outro +quarto, não menos magestoso com suas galerias, eirados e torreões, onde +assistem os infantes, irmãos ou filhos dos reis, e hoje serve de +residencia á rainha-mãi, D. Marianna de Austria. Tem este quarto grandes +e preciosas ante-camaras com tapeçarias e moveis inestimaveis, e +pinturas dos mais insignes authores. + +«Sua magestade costuma residir no quarto do _Forte_, que dá sobre o +_Terreiro do Paço_, e é o melhor do palacio, cujas ante-camaras, salas e +gabinetes encerram em si o mais precioso que póde a terra dar; porque as +tapeçarias de ouro, prata, velludo, damasco e outras sedas, quadros de +admiraveis pinturas, e toda a mobilia, dão a conhecer a soberania da +magestade que o occupa. A casa dos _embaixadores_ é a melhor da Europa. +Ha n'este palacio uma notavel bibliotheca, constante de muitas casas de +livros, com manuscriptos os mais raros; e, sem duvida, se estivesse em +ordem como as bibliothecas do vaticano, e de el-rei de França e da +Sorbona, não lhes seria inferior; para o que muito concorreu a curiosa +applicação (!) e magnifica despeza do snr. rei D. João V mandando +comprar fóra consideráveis collecções. + +«Para o lado do rio tem este palacio um bello jardim com grande eirado, +com viveiro abundante de todo genero de aves raras, especialmente pombas +e rolas de varias castas. Não se póde dar mais aprazivel espectaculo no +mundo que a vista d'este jardim sobre o mar. + +«O snr. rei D. João V acrescentou outro quarto a este palacio: é o que +fica no _largo da Patriarchal_ e corre até ao _theatro da opera_. Consta +este augusto edificio de varios corpos e muitas galerias todas de +apuradissima arte, obra do famoso architecto Frederico, em que os +marmores apostam duração com a eternidade. Dous lanços d'este quarto +abrem para o _largo da Patriarchal_, e em meio de cada um avulta um +portico grandioso, levantado em grossas columnas marmoreas, com capiteis +corinthios, excellentemente folheados. Todo o restante d'este primoroso +edificio é feito de polidissima cantaria, com formosos lavores e +remates, com oculos romanos na cimalha, que lhe dão graça e belleza. O +saguão que vai do _largo da Patriarchal_ e atravessa este quarto para a +_Campainha_, é a melhor peça d'arte d'esta cidade; porque as quatro +columnas de jaspe que tem na frente de duas escadas lateraes, são +perfeitissimas no trabalho dos lavôres. + +«Para o lado do _theatro da opera_ fórma este quarto uma quadra pequena +com sumptuosas galerias, para a qual se entra por um grande vestibulo +fronteiro á _Patriarchal_; mas a serventia ou passagem para o _theatro_ +é a mais arrogante e magestatica obra de Lisboa. Aqui, os marmores são +de maneira sinzelados, que nem a cêra seria capaz de mais tenues +arabescos. A natureza é vencida pela arte; porque os bustos, as +carrancas, os festões, os relevos, os capiteis, os frisos, as folhagens +são cousa tão prodigiosa, quanto é mais de assombrar a qualidade da +pedra tão rija para impressões tão delicadas. Por cima d'este vestibulo, +ergue-se uma capella magnificentissima feita para uso particular dos +patriarchas, tal e qual os pontifices a tem em Roma. E, posto que ainda +não esteja concluida, é soberbissima pela profusão de jaspes vermelhos, +negros, brancos e outras côres que lhe dão o esmalte.» + + * * * * * + +Este pallido bosquejo das opulencias do paço da Ribeira era escripto em +1754. No 1.º de novembro do anno seguinte, quem procurasse estas +riquezas com o roteiro do incognito author por guia, encontraria um +entulho, coroado de linguas de fogo, e a espaços lambido pelas vagas do +Tejo. E escrevia o assombrado homem que aquelles marmores estavam alli a +_apostar duração com a eternidade_! + + + + +AS CRUAS ENTRANHAS DE D. MARIA I A PIEDOSA + + +D. Martinho de Mascarenhas, marquez de Gouvêa, e filho do duque de +Aveiro, justiçado em 1759, não tinha culpa no delicto de seu pai. Não +obstante, entrou muito moço nas trevas das masmorras, e lá o retranziram +frio, fomes, sêdes e terrores por espaço de dezoito annos. + +Em 1777 sahiu do carcere com os outros presos. E, como não tinha de seu +uma taboa--pois que a opulenta casa de Aveiro havia sido confiscada, +salgada, arrazada, absorvida--foi enviado aos frades de Mafra para lá o +fartarem no seu refeitorio. Os historiadores coevos não houveram noticia +d'esta passagem do carcere para o mosteiro. Todos os outros fidalgos, +exhumados dos ergastulos á voz de D. Maria I, tinham familia que os +consolasse e restaurassem com as cariciosas lagrimas da alegria. D. +Martinho de Mascarenhas não tinha ninguem! ninguem que lhe désse uma +lagrima e um bocado de pão comido em liberdade! Fez como os ultimos +mendigos: foi ao convento de Mafra. + +Alli o encontrou o bispo de Coimbra, D. Miguel da Annunciação, quando, +n'aquelle anno de 1777, sahiu tambem da masmorra de Pedrouços, e por lá +passou, caminho da sua diocese; mas tão cortado de oito annos de +escuridade e nudez que já em 30 de agosto de 1779 era sepultado. + +Do itinerário do bispo, que tenho de letra de mão, em floreados +caracteres, como brinde feito áquelle prelado, vou extractar as linhas +respectivas ao marquez de Gouvêa:[2] «... Pelas 11 horas e um quarto da +noite chegou a Mafra, aonde passou o dia seguinte recebendo fraternaes +obsequios da sua amada communidade. Ahi se achava o exc.mo D. Martinho +Mascarenhas, marquez que é de Gouvêa, filho primogenito do infeliz duque +de Aveiro. Distinguiu-se muito nos obsequios do exc.mo bispo aquelle bem +instruido, amado e agradavel fidalgo, que soube tirar e trazer da sua +reclusão as mais bellas qualidades de um cavalheiro christão. Deve-se a +Deus a sua indole, e a um bom mestre que teve na sua prisão a educação, +que o faz merecedor de toda a estima e fortuna que conseguiria na boa +conservação de seu pai. Elle se chama desgraçado, e deve á sua desgraça +a occasião de se fazer ainda mais benemerito pelas suas virtudes.» + +N'este tempo já era morta a duqueza de Aveiro, no convento do Rato, onde +servia as freiras para ganhar o seu alimento; e, por não poder comprar +sapatos, andava descalça. Este supplicio era assim benigno porque se +provou que ella e seu filho de todo em todo ignoravam os intuitos +regicidas do duque. + +O marquez de Gouvêa tinha por si a compaixão dos proprios inimigos de +seu pai. Todos o animavam a pedir á rainha a restituição de alguns dos +bens confiscados; e o maior jurisconsulto d'aquelle tempo, Paschoal José +de Mello, encarregou-se de escrever a _Representação_ a D. Maria I. + +Este requerimento é um dos poucos trabalhos ineditos do eminente +escriptor; e a meu vêr, como historia e como supplica eloquente, +benemerito de estampar-se. + +A mim me cabe o prazer de o possuir e tiral-o da indigna obscuridade. + +É como segue: + + + «SENHORA. + +«A innocencia opprimida, digno objecto da piedade de um principe, a quem +o exemplo de Deus serve de regra, se prostra diante do real throno +implorando a clemencia de vossa magestade, e para mais facilmente a +conseguir offerece esta humilde representação, fundada nos principios da +humanidade e justiça, confirmados com uma longa serie de exemplos. + +«O fim das leis consistindo em dar a cada um o que lhe toca, não alcança +o juizo humano livre de illusão. Como póde sem culpa ter lugar algum +castigo, nem como seria conveniente aos interesses de um monarcha justo, +o desvio da imitação de Deus, privando da sua graça os innocentes? O que +poderia haver para alguns de problematico n'este ponto, a lei divina o +decide. Ninguem deve pagar o crime alheio por maior que seja a sua +proximidade com os delinquentes, e esta verdade foi muitas vezes +descoberta sem mais soccorro do que as luzes naturaes: é dito de um +espirito famoso que uma cousa são leis, outra é a justiça verdadeira. E, +se tambem é certo que pouco faria qualquer homem em regular o seu +procedimento pelo que sómente as mesmas leis prescrevem--que pratica de +virtudes se não devera esperar de um soberano para corresponder á +elevação em que Deus o pôz tão distante do resto dos mortaes!? Os de +maior sabedoria dados pela Providencia para a felicidade dos povos: os +merecedores do nome de pai da patria, e em fim os mais felizes no +governo de vastos dominios, persuadidos de que lhes venha de Deus todo o +poder, e que de sua submissão ás leis divinas dependia mais que tudo a +respeitosa obediencia dos que mesmo Deus sujeitou á sua direcção, para +serem tratados como filhos, acharam sempre injurioso o direito rigoroso, +e o não poderam conciliar como dictames mais convenientes á magestade do +throno. Os pretores antigos já foram chamados os moderadores das leis, +pelas frequentes emendas do que n'ellas se permitte aos juizes, +prohibido pela honra e equidade, e entre estas as que geralmente se +acharam mais contrarias á recta razão e á humanidade foram aquellas em +que o castigo passava além do ultimo termo da existencia dos culpados, e +chegava a propagar-se até aos innocentes. + +«Devendo ser as penas commensuradas aos crimes, e não havendo nenhuma +proporção entre o delicto e a innocencia juntamente, pareceu estranho +que, onde a calumnia não póde inventar nada para denegrir reputações, +chegassem as armas da justiça. Contra isto parece não ter cabimento +nenhuma casta de pretexto. As qualidades da alma não se podem considerar +hereditarias na fé do livre arbitrio: a boa ordem e o bem publico não +dependem sempre da maior severidade, antes pelo contrario a experiencia +em todo o tempo tem mostrado que a fortuna acompanha a clemencia, e com +ella se mudaram os genios mais ferozes. É com tudo notorio, que em +algumas leis tiveram as paixões particulares maior introducção, do que +uma certa prudencia necessaria para as fazer validas no conceito de um +principe christão. A famosa lei dos imperadores Honorio, e Arcadio, que +impõe tão atrozes penas aos filhos dos criminosos de lesa-magestade, é +derogada pelo direito divino, pelo direito natural e das gentes. Por +este ultimo, porque desde que os homens principiaram a unir-se em +sociedades distinctas, todas as providencias se dirigiram a preservar a +innocencia das irrupções e violencias em que tinha degenerado a +liberdade humana. Pelo direito natural, porque destroe o principio da +rectidão que a natureza inspira a todo o ente racional, e priva a +innocencia do direito que tem a impunidade, e a todos os mais actos de +justiça. E pelo direito divino, porque em repetidos lugares das sagradas +letras é defendida a innocencia com pena eterna. Tambem foi abolida pelo +direito civil, porque os mesmos imperadores, a quem pertence, passados +annos, movidos da penitencia, como dizem graves authores, reduziram +todas as penas por uma nova constituição aos unicos réos dos delictos. + +«D'esta lei foi deduzida a nossa ordenação, cujos termos ambiguos e a +necessaria conciliação dos capitulos seguintes mostram, com bastante +clareza, ser a intenção do legislador que se modere: com effeito +immediatamente a imposição das penas como perpetuas as faz transitorias, +declarando não deverem ter a execução se não em quanto os que a ella +sujeita não forem restituidos ao estado do seu antigo esplendor; e além +d'isto a jurisprudencia julga todas as penas exorbitantes em direito +simplesmente comminativas, e não executivas. Estas e outras semelhantes +reflexões, que por brevidade se não expressam, moveram a religião, a +justiça e piedade dos gloriosos reis que occuparam o throno portuguez a +deixar na historia tantos exemplos de rebeldes executados, como de +filhos impunidos; mas conservados, e restituidos á nobreza, honras, +dignidades e bens de substituição; d'estes exemplos se referem os +seguintes, e, por parte do innocente o infeliz marquez de Gouvêa, se +offerecem á real inspecção de vossa magestade: + +EXEMPLOS + +«João Lourenço da Cunha foi sentenciado por crime de lesa-magestade, e +confiscados os seus bens; porém o morgado de Pombeiro passou a seu filho +Alvaro da Cunha, a quem foi tambem feita a mercê do senhorio da mesma +villa, possuido antes por seu pai. D'este descendem não só os condes de +Pombeiro, mas a maior parte da nobreza da côrte actual; porque tres +filhas suas depois da referida sentença casaram nas mais illustres casas +d'este reino. + +«D. Pedro de Castro, senhor do Cadaval, foi sentenciado pelo mesmo +crime, e os seus bens todos confiscados; mas os morgados, e os bens da +corôa passaram a seu filho primogenito D. João; cuja filha herdeira +casou com D. Fernando II, duque de Bragança, de que descendem +innumeraveis casas illustres, nas quaes com especialidade se inclue a de +Cadaval; além d'isto a D. Fernando, filho segundo do dito delinquente, +primogenito da casa de Cascaes, lhe fez depois mercê do Paul chamado do +Governador, de varios senhorios de terras, e da alcaidaria-mór da +Covilhã. + +«O conde de Vianna, D. João Affonso Telles de Menezes, commetteu o mesmo +crime, foi morto tumultuariamente pelo povo de Palmella, e foram +confiscados os seus bens; mas el-rei D. João o 1.º deu depois a seu +filho D. Pedro de Menezes o condado de Villa Real e capitania da cidade +de Ceuta, e muitos senhorios de terras: a filha legitima d'este D. Pedro +succedeu na casa de Villa Real, e D. Duarte, seu filho illegitimo, +progenitor de uma casa das mais illustres, conseguiu, como se sabe, +depois de muitas mercês, ser conde de Vianna e alferes-mór do reino. + +«D. Gonçalo Telles, conde de Neiva e Faria, alcaide-mór de Coimbra, +senhor de Cantanhede, e de outras muitas terras, foi sentenciado por +crime de lesa-magestade, e confiscados todos os seus bens; mas apesar +disso possuiu a casa seu filho D. Martinho com o senhorio de Cantanhede: +foi depois mordomo-mór da rainha D. Philippa, e é progenitor da illustre +descendencia que ainda se conserva. + +«Diogo Lopes Pacheco de que descendem as mais illustres casas, foi +havido e reputado por traidor, sem que a seu filho João Fernandes +Pacheco servisse isso de obstaculo para a conservação da dignidade de +rico-homem, que lograva, a maior que então havia da nobreza. + +«Alvaro Vaz de Almada foi sentenciado pelo mesmo crime, e confiscados os +seus bens. Mas os de morgado passaram a seu filho primogenito D. João +d'onde vieram a recahir na casa do conde de Valladares, e a D. Fernando, +filho segundo do dito criminoso, de que descendem por varonia os Almadas +do Rocio, foram dados os bens da corôa, que vagaram pelo delicto de seu +pai. + +«Martim Coelho foi sentenciado por crime de lesa-magestade, e seu filho +succedeu nos morgados, e da mesma fórma nos senhorios de terras +possuidas por seu pai. Lopo de Azevedo foi sentenciado pelo mesmo crime; +não tinha morgados, mas os senhorios de terras por elle possuidos +passaram a seu filho. + +«O infante D. Pedro foi julgado criminoso de lesa-magestade, porém +el-rei restabeleceu seu filho em todas as honras, e dignidades +antecedentes. + +«O snr. D. Diogo, duque de Vizeu, foi morto, e sentenciado pelo mesmo +crime, e confiscados todos os seus bens: não deixou filhos legitimos, +mas um bastardo seu que por essa circumstancia de nascimento, não +succedeu nos morgados, tão longe esteve d'elle prejudicar o crime de seu +pai, que casou na casa de Villa Real, e lhe deram o emprego de +condestavel, occupado algumas vezes pelos senhores infantes. D. Alvaro +de Athayde, filho segundo da casa de Atouguia, e seu filho D. Pedro de +Athayde foram sentenciados por crime de lesa-magestade, cuja sentença +pela ausencia de D. Alvaro teve sómente a execução em D. Pedro que foi +morto, e esquartejado em Setubal: isto não obstante passou toda a casa +herdada por este ultimo de sua mãi a seu filho D. Fernando, o qual +fallecendo sem successão passaram os morgados a quem tocavam; mas os +bens da corôa foram dados a D. Antonio, filho do segundo matrimonio do +sobredito delinquente D. Alvaro, e este D. Antonio foi conde da +Castanheira, vedor da fazenda, e grande privado de el-rei D. João III, e +é por filhos e filhas avô da maior parte da nobreza d'esta côrte. + +«Fernando da Silveira, escrivão da puridade de el-rei D. João II, filho +primogenito do barão de Alvito, foi culpado e sentenciado pelo mesmo +crime: fugiu para França aonde teve o atrevimento de escrever injuriosas +cartas a el-rei, foi morto n'este reino por ordem do mesmo soberano, a +quem tinha tão gravemente offendido, sendo o ministro da execução o +conde de Pallas, catalão; mas não obstante tudo isso, seu filho D. João +foi restabelecido, e como tal casou illustremente: foi commendador de +Montalvão, governador de Ceylão, trinchante d'el-rei D. João III, e seu +embaixador a França. + +«D. Fernando de Menezes, terceiro filho do conde de Vianna, irmão do +conde de Loulé, foi culpado e justiçado pelo mesmo crime, e confiscados +os seus bens. Não consta que tivesse morgados; mas sabe-se que lhe +sobreviveram seus filhos dos quaes os dous primeiros casaram +illustremente e possuiram os bens da corôa que vagaram pelo delicto de +seu pai. D. Diogo, segundo filho d'este mesmo, deu principio á casa de +D. José de Menezes e o terceiro filho do dito criminoso seguia a vida +ecclesiastica; foi desembargador do paço, cujo emprego n'aquelle tempo +era occupado por fidalgos. O conde de Penamacor foi culpado no mesmo +crime, porém seu filho D. Garcia de Albuquerque foi restabelecido e teve +o lugar de copeiro-mór de el-rei D. João III. + +«O conde de Faro, irmão do conde de Monte-Mór foi culpado do mesmo crime +de lesa-magestade, mas seu filho D. Sancho de Noronha foi restabelecido; +foi conde de Odemira, senhor de muitas terras e alcaide-mór de Extremoz. + +«Martim de Castro do Rio foi culpado e esquartejado por crime de +lesa-magestade, porém seu filho Jorge Furtado de Mendonça foi +restabelecido, casou illustremente, teve maior estimação do que antes do +delicto tivera seu pai, e d'elle descenderam os viscondes de Barbacena. + +«O marquez de Villa Real, seu filho o duque de Caminha, D. Agostinho +Manoel, o conde de Armamar, e Fernando Telles, foram sentenciados por +crime de lesa-magestade: os quatro primeiros foram degolados, e o quinto +queimado em estatua: a todos se confiscaram os bens, e como só Fernando +Telles tivesse filhos, a estes passaram os morgados, e os dos outros +delinquentes a quem de direito pertenciam. + +«Francisco de Lucena foi julgado e justiçado por crime de +lesa-magestade, da mesma fórma o senhor de Regalados, um dos Soares de +Alarcão, os mascarenhas de Montalvão, D. Raymundo, quinto duque de +Aveiro, e outros foram reputados criminosos, sentenciados como taes, +confiscados seus bens; alguns d'estes tinham descendentes, a quem +passaram os morgados, e além d'isso conservaram a mesma estimação, e +lograram as mesmas honras, que teriam se seus ascendentes permanecessem +innocentes. Francisco Maldonado, e Francisco de Mendonça foram julgados +por traidores, e como taes justiçados, e confiscados os seus bens; +nenhum d'estes tinha filhos legitimos; mas Francisco de Mendonça deixou +uma filha bastarda, que conservou a mesma estimação que teria se seu pai +não commettesse o delicto; casou competentemente ao seu nascimento, com +descendencia nobre de quem tomou tambem o appellido. Muitos outros +factos semelhantes se omittem para não abusar da regia paciencia; só se +nota não haver nenhum em contrario de pessoa de certa ordem; e é tambem +de admirar que até quando por algum dos nossos monarchas foi +recommendado ao seu successor que se conservasse inexoravel com os que +deixava profundados na desgraça, nunca tiveram efficacia bastante as +razões politicas d'este conselho, e triumphou contra elles a clemencia e +justiça. D'ahi se seguia manifestar-se mais que nunca n'este reino a +verdade importante de ser a religião o mais solido fundamento das +felicidades e das glorias. Tudo n'este tempo pareceu por Deus abençoado, +e d'este modo se conservou, não sómente a raça respeitavel, com que +viemos a recuperar os nossos fóros nacionaes; mas concorreram tambem +para a sua exaltação muitos descendentes dos proscriptos antigos +tornados pelo mesmo rei afortunado ao estado venturoso. + +«Estes exemplos constituem um perfeito costume, porque concorre n'elle a +multiplicidade dos actos, a diuturnidade do tempo e a sciencia de +principe. Se foram de justiça, não é o supplicante menos innocente, nem +menos fiel e obediente ao sceptro do que aquelles em quem se não +executou a lei, para que n'elle se interrompa uma tão dilatada serie nos +ditos exemplos; tanto mais não lhe tendo valido até agora a opinião de +muitos santos padres, de doutos juristas, canonistas e theologos, que +deu occasião ás leis estabelecidas nos reinos mais policiados da Europa, +dos quaes reputando-se os filhos nascidos antes dos crimes de seus paes, +livres de infecção, sómente a do peccado original são preservados de +toda a pena, antes pelo contrario, tendo estado o dito supplicante +expiando por excesso de rigor o crime alheio pelo tempo que se equipára +á morte, por ser já de uma duplicada vida civil, e que pelas violentas +circumstancias da rigorosa prisão em que padeceu, lhe teria acabado a +natural, se a Providencia divina lh'a não tivesse conservado apesar dos +esforços empregados para a brevidade da sua duração,--pena nunca +praticada, porque nem as leis dos imperadores, nem a nossa ordenação, +nem alguma outra impuzeram exorbitante castigo a semelhantes filhos +innocentes. + +«Se os mesmos exemplos são de graça, o supplicante prostrado diante do +throno de V. M. a implora, tomando por protectores, a religião e a +piedade d'um principe, que preparado de muito longe pela Providencia, +com dotes proporcionados ao magestoso encargo que lhe destinava, se nos +mostra possuidor em grau sublime de tantas virtudes christãs, que fazem +o mais brilhante ornato da sua corôa. + +«D'um principe a quem com antecipadas luzes, sendo evidente que para +beneficio dos que deviam obedecer-lhe seria poderoso o seu exemplo mais +do que a sua real authoridade; que por não ter na terra tribunal que lhe +fosse superior, devia exceder muito em perfeição aos homens ordinarios; +e que em lugar tão eminente poderia o seu beneplacito ser a regra +soberana por onde tudo fosse decidido, passou os instantes da sua +preciosa vida, em um continuo exercicio do dominio das paixões e foi +sempre o juiz mais severo de si mesmo. D'um principe, em fim, que com +estes respeitaveis fundamentos certo de ter estabelecido o mais feliz +imperio nos corações dos seus vassallos, só fará sensivel o peso immenso +da sua real grandeza aos inimigos da igreja e da verdade. Não dará outro +uso ao seu poder, senão para que se execute o que Deus manda; e assim +como alguns, que foram a delicia dos seus povos, fará consistir a sua +maior gloria em livrar da oppressão os desgraçados. + +«Debaixo d'estes ditosos auspicios, d'estes augustos intercessores, +espera o supplicante vêr o termo do seu abatimento, a restituição da sua +liberdade, da sua honra, do seu credito e dos bens que o direito do +sangue lhe conferiu pelas vocações de seus ascendentes. Esta graça +humildemente pedida, será para o supplicante um novo vinculo da sua +submissão. E para el-rei nosso senhor um eterno monumento da sua benigna +magnanimidade.» + +Esta pungente invocação á caridade da rainha, que esvasiava os repletos +cofres do estado no mosteiro do Coração de Jesus, não valeu ao +desgraçado, sequer, uma esmola do real bolsinho. Braganças!... O marquez +de Gouvêa viveu longos annos da caridade do seu parente conde de Obidos, +e já no fim da vida recebia uma mezada que lhe dava D. João VI. D. +Martinho, se bem me recordo do que li, morreu em Lisboa, em uma humilde +casa, no bairro de Buenos-Ayres, por 1804. + + [2] É este o titulo do manuscripto: _Itinerario do ex.mo snr. bispo + conde, restituido ao seu bispado, para o qual partiu de Lisboa no + dia 11 de agosto de 1777._ + + + + +D. MARIA CARACA BONAPARTE + + +Não conheci, em Lisboa, esta senhora D. Maria, bastantemente historica e +benemerita de immorredoura escriptura. + +Conheceu-a aquelle esclarecido arcebispo, cujos sonhos, na noite da +demencia, o leitor ouviu no sublime desarranjo chamado _A catastrophe_. + +Est'outro escripto, menos nevoento e cerrado das turvações do delirio, +tem especies em que o riso se trava com o compadecimento, e outras em +que a compaixão d'aquelle distincto homem nos redobra o pezar de se +haver perdido no vigor da idade tamanho espirito. + + +D. MARIA CARACA BONAPARTE, OU A BURRINHA PROTESTANTE + +D. Maria Caraca teve tres estados: foi orphã, casada e viuva: seu pai +morreu na guerra da Italia combatendo contra os francezes pela +independencia da peninsula italiana; era natural de Milão, cantor da +opera e grande enthusiasta das novas idéas da republica, que haviam +volcanisado o seu cerebro até o delirio. + +Quando este maestro da opera viu que a França proclamava a liberdade +para tyrannisar os povos, lançou-se no partido mais hostil aos francezes +da republica sanguinaria, e morreu deixando a sua morte bem vingada. + +As suas idéas eram falsas e exageradas em religião e em politica; porque +seguia occultamente todos os erros e absurdos de Luthero e de Calvino: o +odio, que tinha ao summo pontifice era tão profundo, que o obrigava a +blasphemar e praguejar contra os cardeaes e contra a santa sé, contra os +bispos e contra as mitras e cadeiras. + +Bonaparte venceu muitos ou todos os partidos que estiveram em campo +contra a França: o general da republica principiou a imperar, e a +exercer a sua tyrannia nas provincias muito antes de exaltar na +metropole o throno do seu fatal despotismo, como sempre acontece. + +Verres na Sicilia era mais do que imperador; Cesar sempre imperou nas +provincias. Se D. Affonso d'Albuquerque fosse susceptivel de ambição +podia usurpar o titulo de imperador da Asia; porque o povo desejava +conferir-lhe todas as attribuições do imperio. + +Bonaparte no Egypto era saudado como rei do fogo; Mahomet e todos os +impostores e usurpadores da sua escola recebem a mesma baixa e servil +adulação que as almas mais vis sempre se empenham em prodigalisar ao +vencedor. A sciencia, e a virtude de homem grande, consiste em desprezar +estas frivolas demonstrações e em saber reprimir todos os excessos do +enthusiasmo, que se esvaem e perdem como o fumo. + +Bonaparte passou como um cometa; a sua descendencia extinguiu-se e toda +a sua parentela: existe na throno de França um homem que não tem pai nem +mãi, nem alliança, nem façanhas nem grandeza. É um homem que apenas +aspira a fazer com auxilio alheio uma memoria que mereça ser approvada +em uma academia. + +Os protestantes urdem e tecem muitos generos de lisonja aos seus heroes; +são arcos e pompas de triumpho, grinaldas, festins, e poemas, +representações, e orchestras, lisonjas e desvanecimento. + +Um deputado da convenção nacional disse a um seu amigo e collega, que ia +para Lião em commissão sanguinaria: tu verás em Lião a minha esposa, +abraça-a. + +N'este tempo todos os revolucionarios levavam as suas mulheres aos +horrorosos estupros do templo profanado: a mulher que servia de modelo, +e o homem que a gozava, eram escolhidos entre todos os concorrentes sem +attenção ao estado nem á condição dos que eram designados. + +Na Italia tributavam em quasi toda as cidades a Bonaparte a honra de o +desposar com a mulher mais formosa; Bonaparte aceitava este tributo da +infamia protestante, gozava e passava para outra cidade, aonde era +recebido com igual torpeza. + +Em Milão cahiu a nefasta sorte em Maria Caraca Bonaparte; e como era +filha d'um homem morto pelo exercito francez recusou sujeitar-se á +estranha condição para que a designaram, apesar de ser tão protestante +como seu pai. + +Os influentes de Milão que andavam empenhados n'esta impia e baixa +lisonja corromperam todos os parentes da burrinha; de sorte que cedeu de +seu odio politico, e principiou a ser do conquistador. + +Se Maria Caraca fosse verdadeira catholica, jámais consentiria em tão +grande infamia e vileza, porque esta especie de tyrannia é mais impia e +mais cruel de que era o tributo das cem virgens para o serralho e para o +harem. + +Uma amante ou manceba podem nutrir uma esperança honesta, e chegam ás +vezes a legitimar as suas uniões e prole; estas burrinhas são sempre a +negação da moral, o escarneo do affecto, e o epigramma do amor e da +sympathia. O protestantismo trata todas as mulheres como negras +escravas. Despreza-as para as fazer bem vis; porque a mulher deve ser +semelhante ao homem que a elege, e que a fórma e educa para sua +companheira. + +Os milanezes deram a um tio de Maria Caraca a espectativa de um +canonicato, prometteram á sua victima dous mil cruzados de dote, e por +esposo o primeiro cantor da opera de Milão. + +Maria Caraca e a sua familia realisaram todas as condições; os +protestantes de Milão cumpriram as suas fielmente: o casamento +verificou-se, o dote sahiu da renda da cidade, que pagou para Bonaparte +ter uma desgraçada por companheira dos seus vilissimos prazeres. + +Os que dispunham tão impiamente dos beneficios ecclesiasticos não podiam +ter duvida em defraudar o thesouro do municipio. + +Maria Caraca e seu marido seguiram o partido de Bonaparte, e na +restauração dos thronos viram-se na necessidade de emigrar para +Portugal: perderam patria, emprego, e até o sobrenome de Bonaparte de +que usaram por muito tempo. + +O marido morreu e deixou um filho e uma filha em Lisboa; o filho exerceu +n'esta cidade por algum tempo com seu pai a profissão de musico: tambem +morreu: eu só conheci a viuva e a filha chamada D. Thereza, as quaes +moraram na rua dos Poyaes de S. Bento. + +Quantas vilezas, quantas degradações, e quantas tyrannias envolve o +atroz procedimento de Milão! Não ha impiedade mais provocadora, não ha +infamia mais torpe, nem injuria maior feita ao mesmo tempo á igreja e ao +estado, á mulher e ao esposo, ao amor e ao estado e á santidade do +matrimonio. + +Estas estrangeiras eram da escola da infame Bisardeli: conviviam com a +sua amante, que foi muito tempo em Lisboa uma mulher luxuriosa e +depravada, que vendia todo o fumo da perfida nunciatura d'aquelle tempo. + +Eu foi conduzido em mil oitocentos e quarenta como deputado para a casa +das referidas Caracas: as lojas maçonicas dispunham do meu destino +traiçoeiramente para dispor de minha vida, e vivi por mais de um anno na +casa dos Poyaes de S. Bento com outros deputados, que serviam as lojas, +e que me vendiam, e entregavam aos seus caprichos: por esta razão ouvi e +aprendi o esboço d'esta negra historia; assim agora ouço e aprendo o seu +complemento e torpissimo enredo. + +A inspiração é a minha sabedoria; se em outro tempo soube alguma cousa +agora declaro, que nada sei e que todas as minhas idéas são communicadas +e inspiradas, do alto céo, e no seu piissimo docel. + +Eu tinha trinta annos de idade, e julgava que todos os homens eram de +boa fé, e amigos do seu semelhante. Bons e excellentes para a companhia +e convivencia, os traidores são os mais lisonjeiros: eu tive seis +companheiros de casa n'esta época: só um vive, cinco já falleceram. + +Os meus inimigos, que são todos os vilissimos protestantes, fizeram as +maiores diligencias para me matar: não houve astucia, nem enredo, nem +traição que não empregassem para conseguir este malevolo fim: é bem de +presumir que um d'estes fosse o veneno. + +A infanta e todos os usurpadores da casa de Bragança, o governo e todos +os seus clientes, a maçonaria e todos os seus agentes nacionaes e +estrangeiros, ora armavam contra mim o braço do cruel Mattos Lobo, ora +forjavam ou fingiam revoluções e acclamações nocturnas para me +surprehender no conflicto, ora lançavam sortes para me seguir de noite e +para me matar nos arroios da cidade ou nas encruzilhadas: ora engajavam +estrangeiros e carniceiros por grandes sommas para que me procurassem e +matassem na propria casa, aonde eram recebidos pelas infames Caracas. + +Um d'estes era um lanceiro, e carniceiro, que esteve na guerra do Porto, +a quem deram o preço do regicidio, e o bilhete de passagem em um brigue +para sahir para França logo que consummasse o attentado. + +Todas estas traições e maquinações eram cumulativas, horrorosas, e tão +desleaes e insidiosas, como as que se urdem ao innocente que não sabe ou +não póde defender-se. Eu estava no caso da mais perfeita ignorancia +porque nem sabia o que era: infelizmente a minha vida era n'este tempo +mui sujeita á fragilidade e a quedas que eu não procurava, antes tentava +e não sabia evitar. + +Estes monstros da tyrannia do inferno pediam e repelliam a minha +eleição; porque o seu fim unico exclusivo era a minha morte; só +admittiam a meu favor algumas apparencias ou disfarces com que encobriam +as suas tramas e horrores: eram seducções, tyrannias, convites para +lugares de traição, venenos, e armas occultas. Se viam que eu vingava +como advogado em Villa Real, pediam para eu ser eleito deputado só para +me atraiçoarem em Lisboa; e logo se arrependiam, e punham todos os +embaraços da sua infame escola e odiosa seita á minha eleição e +elevação; se viam que eu não era morto em Lisboa desejavam que eu fosse +para Coimbra aonde punham como ultima mira a cruz de meu martyrio e +funeral. + +Como podia livrar-me de tão infernal perseguição? Os monstros não +consentiram mais na minha eleição e ainda me propozeram pelo circulo de +Arganil, onde fui eleito deputado no anno de 1852, mas os infames logo +se arrependeram, e cassaram ou annullaram a eleição na camara, sem me +ouvir, e sem me mostrar o processo das suas infernaes tramoias. + +Quem deixaria de eleger-me para todas as legislaturas depois de vêr e +saber que o meu nome era singular e unico, e que a minha representação +não tinha igual em todo o mundo e redondeza? + +Quando concordaram na minha eleição para suffraganeo do patriarchado +entregaram a minha vida ao maldito e infernal nuncio, e ao abjecto e +tredo patriarcha e ás suas seitas e partidos para se desonerarem da +tarefa que os infames julgaram e declararam superior ás suas forças. + +Estes monstros esgotaram toda a traição, todas as maquinações e os seus +enganos, e não conseguiram o que desejavam: o perfido e abominavel +ministro do anti-papa chegou a convidar todas as seitas para o +espectaculo do meu envenenamento, as quaes enviaram os seus deputados e +representantes para assistir a esta scena de horror que se representou +na presença da diplomacia cruenta das actuaes usurpações da vergonhosa +Europa e da America por duas vezes. + +Só Deus omnipotente podia isentar-me de tão imminentes catastrophes. O +nosso fim actual é descrever a burrinha protestante e a sua bestial +condescendencia e venalidade. + +Um deputado que vivia na mesma casa da viuva Caraca mandou um seu criado +ao meu quarto para me offerecer uma criada da casa em que ambos +viviamos; eu não sabia desviar estes golpes, que o Senhor deixava ao meu +alvedrio para o merecimento, e para que désse a devida preferencia á sua +santa luz e mandamento. + +O inimigo occulto era d'uma seita de usurpadores de Deus: a sua traição +vingou por pouco tempo; quando me tentou com alguma pessoa da sua +familia não conseguiu o que desejava; o criado fez-lhe a traição, que +elle me urdiu a mim. + +Os inimigos da nossa casa e dynastia recorreram a D. Thereza Caraca, e +fizeram-lhe o mesmo partido, que os milanezes tinham feito á sua mãi +para que me seduzisse e envenenasse. + +Prometteram-lhe dinheiro, um marido, e um emprego para este, e +realisaram todas estas promessas, mas eu só bebi meia taça de seu +perfido veneno; na primeira occasião que tive de lucido intervallo +repelli a seductora, e todas as suas seducções, e, como vi que se +obstinava, sahi da casa. + +O que é a verdade? esta mulher disse que estava gravida e tentou +attribuir-me o seu ventre, ou isentar-se pelo aborto do seu nefando e +odioso mister de calumniadora; disse-me que ia queixar-se de mim ao +nuncio, ou agente occulto da junta apostolica que por este tempo estava +em Lisboa, em quanto estiveram interrompidas as relações com a côrte de +Roma. Eu zombei da perfidia e do sarcasmo d'esta mulher calumniadora e +embusteira; e procurei livral-a de sua tentativa de aborto, o que +felizmente consegui por dinheiro. + +Esta odiosa creatura teve n'este tempo dous amantes: o primeiro era um +deputado, que a seduziu para que me envenenasse, o qual morreu pouco +tempo depois, e logo adoeceu tão gravemente que parecia um espectro, ou +um cadaver ambulante: era um agente dos pedreiros livres. + +Havia n'esta casa só duas pessoas da familia, a mãi e a filha; eu tive +dous enlouquecimentos de falso amor; repelli duas tentativas da mesma +perfida natureza e nojenta cavillação. + +D. Thereza tocava dous instrumentos e cantava, tinha um amante para +casar que a acompanhava no canto e com o violoncello: eu comprei em +quanto alli estive dous pintasilgos ensinados a tirar agua com o bico, +os quaes foram ambos mortos por um gato, que havia em casa. + +A criada tambem teve dous amantes, um era sapateiro coxo, que a +procurava e requestava para casar: ambos realisaram os seus casamentos. + +A filha da viuva Caraca tinha na mesma casa um estabelecimento de +capella, e inculcava-se ao respeitavel publico como modista: a mãi tinha +o seu estabelecimento de hospedaria. + +Eram dous estabelecimentos: a casa tinha sahida para duas ruas e duas +portas para a rua dos Poyaes de S. Bento: viveram alli commigo cinco +deputados, dous delegados, dous juizes do districto, dous governadores +civis, dous juizes da antiga magistratura, dous Domingos dos quaes um +era o atraiçoado e o enganado por todos os outros: eramos ambos +deputados pelo circulo de Villa Real: os outros eram deputados por +outros circulos. + +Os delegados foram Domingos Vieira, e José Manoel Botelho, os juizes +foram o José Maria da Chamusca e o Quesado, os governadores civis foram +o dr. José Maria e João Pedro Pessanha, os juizes antigos foram o mesmo +José Maria e Domingos Vieira, e não preciso dizer quem eram os Domingos, +senão que eu sou já tão diverso do que era, que não pareço o mesmo. Os +cinco e seis deputados formavam as cinco e seis qualidades já referidas. + +Quem poderá calcular as lagrimas que tenho chorado para carpir os +peccados e os erros da minha mocidade, e para os emendar com divina +graça e misericordia? está-me parecendo que reunidas faziam o maior lago +dos nossos passeios e jardins. + +Actualmente não como carne nem peixe não bebo vinho nem cerveja, +passam-se quinze dias e tres semanas sem que prove doçura, nem chá, nem +café, nem chocolate, como por medida e por peso, e não uso de carne nem +de genero algum de tabaco, não passeio, nem vou aos espectaculos; +prefiro andar a pé e só peço ao Senhor que se compadeça da minha alma. + +A burra protestante é bem parecida com a vacca, e com o burro da seita: +eu não conversava com estas em pontos ou artigos da santa fé, o seu +veneno era a maior traição e os seus reconditos apenas me revelaram +parte da sua historia de Milão. + +Eu sempre assisti á missa mais catholica de que tinha noticia, e não +suspeitava em ninguem cavillação ou perfidia tão negra e atroz, que +chegasse a ostentar fé falsa da diabolica e tenebrosa consciencia: agora +sei que ha muitas d'estas embrutecidas consciencias, e não duvido que as +duas Caracas fossem d'este hediondo esconjuro. + +Os maçons são em geral d'esta sanhuda seita do inferno; os usurpadores +de Portugal pactuam com o demonio, e entregam as almas para poderem +possuir as leis das santas casas do divino Salvador. + +Mas estes venenosos monstros apenas gozam a presa: o direito santo e +eterno foge d'elles como foge a cerração quando nasce a aurora que vem +remir o mundo. + +Os mesmos inimigos recebem outro engano ou desengano semelhante quando +tentam usurpar o poder da santa igreja para legitimar a sua tyrannia. + +A falsa communhão dos protestantes está no estado: não póde legitimar os +actos do poder usurpador e dominador. + +O estado catholico está na igreja, e por isso legítima os seus poderes +todas as vezes que recorre para este fim ao poder espiritual do summo +pontifice. A era actual é a perfeição da disciplina. + + + + +LIXO + + +O snr. Joaquim Antonio de Sousa Telles de Mattos, critico erudito e +menos conhecido que merece, publicou, em Evora, um opusculo intitulado: +_A imparcialidade critica do snr. Joaquim de Vasconcellos._ Allude á +_Analyse critica da versão do FAUST_. A obra do critico do snr. visconde +de Castilho é um livro crasso que morreu de tabardões, e jaz no +_carneiro_ das livrarias esperando que o dente roaz da carcôma o +pulverise por modo que as letras portuguezas se desenfezem d'aquellas +escamas de ignorancia e odio. + +O snr. Telles de Mattos colligiu algumas necedades graudas que denominou +_vasconcellismos_. + +Abre a lista, com a novidade--_declinar_ verbos. Eis a passagem onde se +encontra o lerdo descôco do critico de Castilho: _Nenhum doutorando dos +ultimos cinco annos em Coimbra, estaria no caso de_ declinar _os verbos +auxiliares allemães, sem merecer palmatoada..._ (pag. 26). E acrescenta +o snr. Mattos: «Quando eu vi o _Sejai_ e _Estejai_ julguei que era erro +typographico dos _germanismos_ annunciados; vendo porém _declinar_ +verbos, percebi que o snr. Vasconcellos saberá tanto de allemão como +qualquer analphabeto nascido debaixo do paternal carinho de Bismarck.» + +Observa que a pag. 57 o snr. Vasconcellos inclue a Suissa na Allemanha; +e acrescenta: «A Suissa pertence á Allemanha na geographia do snr. +Vasconcellos; ella deve ser equiparada á sua grammatica.» + +Nota que o snr. Vasconcellos escrevendo: _os manes do Olympo_ (pag. 128) +désse a perceber que os deuses olympicos tem manes. _Manes_ tanto +significam almas dos mortos como deuses infernaes. A mythologia do snr. +Vasconcellos é como a geographia, e não desdiz da grammatica. + +Cita, na pag. 208, o imperativo do verbo _ser_, _apud_ Vasconcellos: +«_Sejai_ pois corajoso e apparecei como modêlo.» E a pag. 507: «_Sejai_ +tão infames quanto quizerdes.» E a pag. 337: «_Estejai_ dentro ao golpe +da sineta.» _Coup de clochette_--golpe de sineta, segundo Vasconcellos. +Em portuguez, traduz-se _badalada_, ou _toque de sineta_. Desculpem esta +observação os alumnos de instrucção do 3.º anno dos lyceus. + +«Desço eu (diz o snr. Vasconcellos a pag. 239) sem cessar de cima para +baixo.» O snr. Telles de Mattos ajunta: «Leitor, agradece a fineza: sem +o pleonasmo, ficavas percebendo com certeza que se desce de baixo para +cima.» + +Os cães, _apud_ Vasconcellos, grunhem. A pag. 273: «Tu vês um cão... +elle _grunhe_.» A pag. 277: «Não grunhes, cão!» E torna: «Quer o cão... +_grunhir_.» Nunca se usurpou tantas vezes a linguagem ao cevado. + +Se o snr. Vasconcellos estudasse portuguez pelo _Methodo_ de Monteverde, +teria aprendido nas _Vozes dos animaes_ do snr. Pedro Diniz como vozêam +cães e porcos. + + _Muge_ a vacca; _berra_ o touro; + _Grasna_ a rã; _ruge_ o leão; + O gato _mia_; uiva o lobo; + Tambem _uiva_ e _ladra_ o cão. + + .......................... + + _Chia_ a lebre; _grasna_ o pato; + Ouvem-se os porcos _grunhir_; + Libando o succo das flôres, + Costuma a abelha _zumbir_, etc. + +Tambem Vasconcellos, traduzindo Goethe, descobriu no cão um _caroço_ +(pag. 285). Diz-lhe o snr. Telles que _Kern_ significa _pevide_ ou +_caroço_, quand se trata de fructos; mas n'outras conjuncturas, é +_amago_, _substancia_, etc. O snr. Vasconcellos, quando tirava os +significados de _Kern_, achou _caroço_, e pespegou-o logo no cão; por +isso o cão encaroçado _grunhiu_ tres vezes. Podéra... + +A pag. 474, escreve Vasconcellos: _ouvir por um oculo._ Eu esta phrase +não a estranho. Mais me espantára, se elle dissesse: _vêr por uma +corneta acustica._ + +Dá-nos Vasconcellos a pag. 503 Tantalo _enterrado até ao queixo na +agua._ Póde uma pessoa estar _enterrada_ na agua, e estar _submergida_ +na terra. Tambem não estranho isto; mais me assombra a coragem da +ignorancia, se é que não ha um fado irresistivel e tolo que nasceu +comnosco, ou _com nós nasceu_, como diz Joaquim de Vasconcellos a pag. +339. + + + + +BIBLIOGRAPHIA + + +_Escriptos humoristicos em prosa e verso do fallecido JOSÉ DE SOUSA +BANDEIRA, precedidos da biographia e retrato do author. Porto, 1874._--O +berço da liberdade em Portugal foi embalado com as trovas politicas do +redactor do _Azemel_ e do _Artilheiro_. Bandeira é o patriarcha da +facecia jornalistica entre nós. A sua graça era da velha escóla de José +Daniel e de José Agostinho de Macedo. Não pespontava de delicadeza: ia +direita aos beiços do leitor e abria-lh'os forçosamente em casquinadas +de riso. Hoje em dia, o riso é mais preguiçoso, quando folheamos estas +paginas do livro escripto ha 38 annos. São cinzas, e cinzas esquecidas +os estadistas que José de Sousa Bandeira motejou no tumultuoso palco +politico de aquelle tempo; todavia, a historia não prescindirá de +consultar os _Annaes da imprensa da liberdade restaurada_, quando houver +de assentar de vez os vultos dos grandes obreiros do governo +representativo; e, entre todos os archivistas das luctas d'esses dias, +José de Sousa Bandeira foi o mais independente e afouto. Custodio José +Vieira, talento insigne e apreciador inflexivel dos homens e das cousas, +escreveu a biographia do jornalista com quem muitas vezes pleiteou na +sua juventude de publicista. É um lavor incompleto, dado que na vida de +Sousa Bandeira lhe não esquecessem os lances capitaes. É incompleto, por +que as 83 paginas escriptas deviam prolongar-se até completar a historia +e o proseguimento da restauração dos direitos civicos em Portugal. +Custodio Vieira revela-se, n'este eloquente escripto, historiador +severo. No estylo, usa as concisões de D. Francisco Manoel de Mello, e o +atticismo dos historiographos que melhormente exemplificaram a arte de +narrar. Se elle um dia poder furtar-se aos braços da sua amada e +amantissima jurisprudencia (que amores!) póde ser que a historia se +preze de brindar os portuguezes com os fastos da sua emancipação. + + * * * * * + +_No Minho, por D. ANTONIO DA COSTA. Lisboa, 1874._--Apenas publicado, +divulgou-se o gracioso livro de D. Antonio da Costa, escriptor provado +em ramos de variada litteratura. Os _Tres mundos_ foi obra que affirmou +os distinctos dotes revelados nos livros anteriores. Este do _Minho_ é o +repousar suave de circumspectas canceiras, que asseveram meditação, +estudo, espirito reflexivo e capacidade para tentativas avessas do +indolente genio portuguez. Escrever 310 paginas ácerca d'estas moutas +verdejantes do Minho, sem enfastiar, é condão de quem sabe quebrar com +as diversões da arte a monotonia da natureza. E, depois, jornadear por +estradas reaes, pernoitar por estalagens urbanas--em que não ha +vislumbre de urbanidade, nem sequer misericordia--passar uma noite em +Braga, é sentir-se a mais robusta e inventiva alma encodear de uma +crusta de estupidez que nos faz pensar que temos no peito uma tartaruga +sôrna. Braga, a scintillante esmeralda d'esta manilha de pedras finas +que D. Affonso Henriques tirou do pujante braço de Hespanha, Braga seria +a querida dos forasteiros de todo o mundo, se as camas das suas +hospedarias não fossem alfobres de insectos _apteros_ com seis patas, e +_hemipteros_ com azas, segundo Cuvier. Sei que no Indostão ha hospicios +em que as pulgas são pensionadas e medicadas nas suas enfermidades. Sei +que os indostanicos respeitam o dogma da metempsychose, e se deixam +sugar devotamente por ellas; mas nem Braga é Aurengabad, nem eu sou da +raça mahratta, nem tenho razões bem assentes para desconfiar que o +espirito de minha avó se compraz em me morder no hotel Real de Braga. + +Não encontro memoria d'este martyrio no livro do snr. D. Antonio da +Costa. Attribuo a omissão á delicadeza do martyr. Ha tormentos tão sujos +que o relatal-os em gemidos é indecencia consignada no _Compendio de +civilidade_ do snr. João Felix. Se bem me lembro, Boileau cantou a pulga +em magnificos alexandrinos; hoje em dia; nem á pedestre prosa se +consente rolar uma lagrima sobre a cutis sevandijada por estes e outros +carnivoros creados em um dos sete dias genesiacos... para satisfação e +proveito do homem. + +O meu amigo D. Antonio da Costa, convisinhando do snr. Manoel dos +Malhos, que roncava impenetravel ás harpias do hotel, chorou +copiosamente no capitulo intitulado: _Uma insomnia._ Quem sabe se, +n'aquella noite, as luras epidermicas da casca de Manoel dos Malhos +attrahiram as hordas a desenxovarem n'ellas as suas larvas e nymphas? +Eu, n'aquellas estalagens, encontro sempre dous Manoeis dos Malhos, um +de cada lado, e os outros bichos no meio. + +Formal e substancialmente são admiraveis os capitulos d'este livro, +intitulados _O Bom Jesus do Monte_, _Um castello feudal em 1873_, _A +mulher do Minho_, e a _Ultima impressão_. N'estas paginas que fecham o +livro reluzem os entranhados desvelos com que o snr. D. Antonio da +Costa, ha tantos annos, afaga as criancinhas carecidas da segunda alma +da educação. Este capitulo é um obelisco de gratidão publica e amoravel +a perpetuar a memoria de D. Maria Francisca dos Santos Araujo, abastada +senhora de Leça que fez do seu ouro um quinto evangelho de propaganda +caritativa. «Ah, senhora!--escreve o eloquente enthusiasmo do obreiro da +instrucção--devem de ser formosos os vossos momentos, quando na escóla +que edificastes vos achardes rodeada das meninas que se estão educando +no vosso bafo, e não menos quando sahindo d'alli festejada por ellas, ao +passardes pelas ruas de Leça, chegarem ás portas todas aquellas mães com +as filhinhas mais pequenas ao collo, e fordes vendo todas essas mães +apontarem para vós, dizendo alvoroçadas para as crianças: _É aquella!_» + +O livro _No Minho_ está julgado por 1:500 leitores que o já possuem; e, +todavia, annunciou-se a excellente obra nos primeiros dias de julho. Não +são triviaes estes triumphos em Portugal, repetidos com as mais notaveis +producções do benemerito escriptor. Aquelle grave e philosophico livro +dos _Tres mundos_, relido com intelligente ardor e creio que já +reimpresso, attesta que renasce n'este paiz o afan do estudo, e o gosto +da instrucção solida. Deviamos vir a isto, depois do cataclysmo de +palavrorio e marmanjarias com que uns sycambros andaram por ahi a querer +derrancar a mocidade. Não póde o illustre escriptor frizar de todo a sua +indole peculiar ao genero escoteiro--digamol-o assim--d'estas cousas +levissimas e quasi futeis que se escrevem em jornadas de fronteiras a +dentro. O modêlo, que Almeida Garrett imitou dos francezes, é um estorvo +que desanima. O romance, interposto na viagem, era em 1840 um dôce +engodo, e foi grande parte na prosperidade do livro. Estavamos ainda no +periodo romantico. A menina dos rouxinoes devia ser contemporanea dos +bardos que se inspiravam das proprias cabelleiras á Saint-Simon. Os +rapazes d'aquelle cyclo acreditavam em Garrett, e andavam saturados do +amor dos Espronceda e Musset. + +Hoje, não. O livro do snr. D. Antonio da Costa é, a intervallos, +condimentado das grandes questões do dia, da vitalidade regeneratriz que +estúa no pulso de todas as forças. Se parte dos leitores o desejam mais +futil, ha de haver muito quem assim o estime em dobro. Eu, de mim, achei +n'estas trezentas paginas o sorriso alegre, a meditação melancolica, o +rebate saudoso de perdidos contentamentos, o estimulo a considerações de +porvindouros beneficios a filhos e netos--consolação unica, mas santa, +que a Providencia dá aos que não esperam nada da vida presente. + + * * * * * + +_Phantasias e escriptores contemporaneos, pelo VISCONDE DE BENALCANFÔR. +Porto, 1874._--Ricardo Guimarães, com o camartello do folhetim, derruiu +o carroção, no Porto, ha vinte annos. O carroção tinha, por aquelle +tempo, dous seculos de moda. Fôra inventado na rua das Cangostas para +uso de uma familia obesa, formada de quinze pessoas adiposas. Esta +familia derreteu-se no estio de 1650; mas o carroção ficou. + +No lapso de duzentos annos, o carroção, parado no largo da Batalha, com +a lança vermelha atravessada nas sôgas dos ramalhudos bois, viu passar e +desapparecer todos os vehiculos adelgaçados pelo cepilho do progresso. O +carroção escancarou as goelas, e riu da americana, da victoria, do +phaetont, do landeau, da caleche, do dog-cart, da tipoia, do coupé, do +tilburi, do daumont, do brougham, do mail-coach, do poncy-chaise, do +groom, do break. Ricardo Guimarães, fundibulario da hoste moderna, +carregou a funda de estylo, remessou-a ao Golias de couro; e o gigante, +arrastado pelos bois que mugiam saudosos da palha-milha que comiam á +porta do theatro lyrico, dispersou os membros por Barcellos, Famalicão e +regiões visinhas. O milagre não fôra obra de um homem nem de uma geração +de espiritos finos. Fôra o estylo de Ricardo Guimarães--o estylo que é a +dynamisação de todas as forças, desde a polvora até á dynamite, desde a +alçaprema de Archimedes até á machina de Papin. Era uma delicia o +escrever d'este rapaz, e outra delicia o modo como entornava no papel os +brilhantes paradoxos, as hyperboles ridentes, as metaphoras +originalissimas. Era meu companheiro de hotel (que hotel, ó Ricardo!) em +1855. Escrevia artigos politicos de madrugada, na calma, entre meio dia +e uma hora, do seguinte feitio: tinteiro e papel no sobrado; elle +adaptava-se horisontalmente ao colchão, na postura de quem espreita a +profundidade de uma cisterna, descia o braço direito até ao pavimento, e +escrevia lá em baixo. Assim tratava Ricardo Guimarães, de bôrco, a +politica do _Nacional_, no soalho, como quem deita migalhas a uma pêga. + +Depois, um dia, enfardelou os fraques e os vernizes, os retratos de +algumas mulheres formosas e os economistas mais avançados, desdobrou as +azas da sua arrojada phantasia, deu um sorriso aos seus amigos, e... +adeus! D'ahi a pouco, deputado, esposo, pai. Fez-se um silencio de annos +na sua voga de escriptor. Os seus camaradas, que haviam afivelado com +elle a espora de cana em algaras litterarias, trajaram luto quando se +convenceram que o _visconde de Benalcanfôr_ era o epitaphio de _Ricardo +Guimarães_. + +Eil-o que resurge com as feições mais accentuadas, o sorriso menos +expansivo e mais hervado de ironia, a graça mais palaciana, a satyra com +oculos verdes para que a não acoimem de estouvada, e as antigas imagens +de sua invenção com decote que não deixe vêr a curva da espadua. + +D'esta reforma, salvou o visconde de Benalcanfôr as facetas +resplandecentes do estylo, deveras portuguez na palavra, francez no +boleio da phrase--ligação que é uma formosura, quando o escriptor tem a +consciencia d'essa difficultosa amalgama. + +Tem o visconde publicado os melhores livros que possuimos ácerca de +viagens. Este das Phantasias seria aquelle que eu mais encarecesse em +quilates de graça e critica, se me não visse ahi tão amigavelmente +indulgenciado em onze paginas. Ponderei, gravemente, meu caro Ricardo, +n'este livro o teu capitulo, intitulado ELOGIO MUTUO. Tu, com certeza, +antes queres de mim uma reminiscencia da juventude, que os tardios e +quasi inuteis gabos feitos ao teu assignalado talento. + + * * * * * + +BERNARDINO PINHEIRO. _Amores d'um visionario, romance historico original +do seculo XVI. 2 tom. Lisboa, 1874._--Se a linguagem das civilisações +adiantadas e os pensamentos de perfectibilidade humana podessem +pensar-se e exprimir-se no seculo XVI, este romance do snr. Bernardino +Pinheiro corresponderia, cabalmente, á qualificação de _historico_. A +illusão desfaz-se a cada pagina, sempre que os personagens entendem na +questão do progredir social. Que Antonio de Gouvêa, o heroe do livro, +depois de ouvir, na Europa litteraria e convulsa de reformas, as +theorias dos adversarios do papa e do dogma, propagasse idéas e palavras +novas em Portugal, é possivel; mas que a freira do Salvador, e D. +Margarida de Lencastre, e a escrava liberta discreteassem tão eloquentes +e progressistas ácerca dos direitos do homem, da emancipação do escravo, +da liberdade do pensamento, repugna aceital-o a razão, posto que de bom +animo nos affeiçoemos á vehemencia e esplendor d'essas phrases +intempestivas. + +Mulheres illustradas, se as houve em Portugal no seculo XVI, são umas +que o snr. Pinheiro nos mostra em um dos admiraveis capitulos do seu +livro. As paginas descriptivas de _Uma academia feminina do seculo XVI_ +quadrariam em livro da mais selecta historia do reinado de D. João III. +Alli estão as Sigéas, que não gozam fama de pudentissimas escriptoras, +se um poema erotico as não calumnía. Pois, n'esses completos moldes que +o snr. Pinheiro nos deu da sciencia feminil, está o maximo, o ultimo +estadio do alcance intellectual da mulher. Soror Maria, a monja que, de +escrupulosa, não ousava erguer o véo a sós com o amante, revelou +incapacidade para discorrer tão liberrima, na carta a Gouvêa, ácerca das +regalias do coração. Escrevendo ácerca de uma visionaria, diz a freira +ao seu amado: «Os espiritos convictos são logicos. O fanatismo tem as +suas leis fataes--e, por vezes, posto que raras, felizes...» E +acrescenta com intelligente ironia: «Que enormissimos criminosos que nós +somos:--amamo-nos, e acreditamos no evangelho puro!... Quando serão no +mundo livres o pensamento e o amor?!» + +A freira em 1548, podia delinquir porque era mulher; mas não saberia +desculpar o seu delicto com argumentos d'aquella natureza. E soror +Maria, se tivesse no corpo o demonio incubo da philosophia, quando abriu +a porta da cerca monastica ao amante, sahiria por ella, em vez de, +colhida em flagrantes amorios, pedir misericordia á mestra de noviças. +Teria feito o que fez depois, independente de luzes que lhe mostrassem a +nullidade e tyrannia dos votos de reclusão, castidade e pobreza. + +Esta macula é resgatada por nitidissimas paginas que manifestam o +historiador avantajando-se ao romancista. O capitulo XVIII +(_Illustrações em Coimbra_) é labor bastante a graduar um espirito culto +na convivencia dos varões insignes do seculo XVI. A disposição do grupo +é magnifica. Alli se admiram os luzeiros que chammejaram á volta da alma +negra de João III e não vingaram esclarecel-a. + +O quadro do auto de fé em que Antonio de Gouvêa é salvo da fogueira pela +cohorte dos escravos, é tão vigorosamente desenhado quanto inverosimil. +Os frades de S. Domingos não se deixavam embair por tretas nem +sancadilhas á sua credulidade, quando queimavam herejes da laia de +Gouvêa. Não obstante, esse trance, pelas commoções que produz, +dispensa-se dos realces da naturalidade. + +Em summa, _Os amores d'um visionario_ é um livro que merece graduar-se +entre os bons romances portugueses, tanto pelos predicamentos da +imaginação, como pelo subsidio de historia que presta ás pessoas +desaffectas a demorados estudos. + + + + +POBREZA ACADEMICA + + +O secretario da academia real das sciencias de Lisboa, José Bonifacio de +Andrade e Silva, escreveu a monsenhor Ferreira Gordo, pedindo-lhe um +donativo para ajuda de se pagar o busto do duque de Lafões, D. João +Carlos de Bragança, que a mesma academia desejava collocar em uma das +suas salas. O sabio monsenhor respondeu com circumspecção e graça por +meio da seguinte carta, que está inedita: + + +«Poderá v. s.ª certificar em meu nome á academia, que eu estou disposto +a concorrer com o contingente, que me couber, guardada a proporção +arithmetica, para o monumento, que pretende dedicar á memoria sempre +saudosa do seu illustre fundador, e que aproveitarei de bom grado todas +as occasiões, em que possa dar-lhe mostras do meu reconhecimento pelo +muito, de que lhe fui devedor. Mas não se achando todos os socios n'este +empenho, e fallecendo á maior parte d'elles meios, para fazer donativos +d'esta natureza, parece-me que a academia teria resolvido com mais +prudencia, e circumspecção decretando que a despeza do dito monumento +sahisse inteiramente dos seus fundos. Que póde doar sem detrimento seu +um religioso, não sendo commissario da Terra Santa, prior geral dos +conegos regrantes de Santo Agostinho, abbade geral do mosteiro de +Alcobaça, ou ministro provincial dos menores observantes de qualquer das +duas provincias de Portugal e Algarves? Que rendimento tem um professor +regio de humanidades, um lente da universidade, um ministro, e qualquer +outro funccionario publico, que na fallencia de bens patrimoniaes, lhe +não seja indispensavel para sua mantença? Dirá alguem que a academia +roga, e não manda, e isto é verdade; mas como ninguem quer o fóro de +pobre, nem ser marcado com a nota de pouco officioso, esta rogativa virá +a ser para a maior parte dos socios, o effeito de um rigoroso +mandamento. De mais se a academia é real, se todos os seus trabalhos se +dirigem a fazer prosperar, e florecer os estados de quem lhe deu este +titulo, e a subsistencia, e se até agora tem gozado a singular +prerogativa de ser presidida por uma personagem de sangue real, acho +muito improprio, que a despeito, de tudo isto, se lhe queiram dar os +attributos de uma irmandade religiosa, fazendo dependente da caridade de +seus irmãos, e não do seu patrimonio, qualquer despeza extraordinaria, +que emprehender. Perdôe v. s.ª como secretario a liberdade, que tomei, +que como meu amigo que é, tenho certeza me desculpará, se o que acabo de +escrever se encontrar com o seu parecer, que muito respeito.» + + +Os academicos de hoje são outra casta de gente, quanto a pelintraria. Se +não fazem bustos, é porque ainda estão vivos todos os sujeitos que hão +de resuscitar no marmore e no alabastro. Aquelles salões desertos hão de +ser povoados de estatuas, quando as cangas de sabios que hoje lavram os +baldios da sciencia, se foram a pascer nos almargens da immortalidade. +Medita a geração nova no modo de os entrajar, pois que a funeral casaca +destôa das arrojadas manias e sabenças de cada sujeito. Creio que +deveremos apparecer, nós, os academicos, cada qual com seu caranguejo +symbolico na mão operosa. O mocho, a ave de Minerva, apenas cabe de +direito ao snr. João Felix Pereira, o pervigil diurno e nocturno. + + + + +SOBRE ANSELMO + + +Usam dizer algumas pessoas assalteadas por bandidos da imprensa: «Não +respondo, porque o insultador é canalha.» Isto é um desacerto. Não ha +canalha irrespondivel. Todo o infame que calumnía representa uma +parcella da opinião publica. E essa parcella, malevola ou enganada, crê +esmagar o calumniado quando o interprete de seus odios ou preconceitos +tem no espinhaço a couraça repulsiva do escaravêlho, invulneravel aos +bicos da penna e aos loros do látego. + +Anselmo é um como isso. E, todavia, eu respondo a um grupo de sujeitos +representados na imprensa por Anselmo. Separal-o individualmente, e +atagantal-o, isso é que de modo nenhum. O sapo esguicha um pus fetido +quando lhe verberam as pustulas do couro. Não se bate em homens d'esta +laia, desde que o pelourinho e o açoute foram expungidos da lei. + +Convém saber que Anselmo não escreve: assigna. Theophilo Joaquim +Fernandes é o tubo intestinal por onde Anselmo estrava a alma +excrementicia; ao mesmo tempo que Anselmo é a testa polida (não é +tartaruga: finge) em que Joaquim escreve as suas protervias a carvão. +Theophilo, o ignorante que eu abafei com a critica risonha, sem lhe +impor alçada ás devassidões notorias, resfolga nas iras do outro. É a +vingança negra do mais safado caracter que ainda sahiu desembolado ao +curro das letras. + +No impresso assignado por Anselmo de Moraes encontrei duas aleivosias +que me doeram por estar conspurcado n'ellas o nome serio do snr. José +Gomes Monteiro, invocado como authoridade no meu descredito. São as +seguintes: + + +«Da cadêa começou Camillo a abrir brecha para a rapina na casa Moré, +mandando ahi mostrar um romance de descompostura ao dignissimo +procurador regio, que não lhe tolerou certas obscenidades no carcere; o +amigo do procurador regio, gerente da dita casa, teve de pagar o romance +para poupar um desgosto ao magistrado respeitavel. Ainda não ha muito +tempo que o snr. José Gomes Monteiro se refugiou no nosso escriptorio +para evitar o encontro de Camillo na loja Moré, que ia alli armar uma +_escroquerie_, com o fim, dizia elle, de pagar uma decima... + +«Ultimamente comprometteu a sorte de Vieira de Castro com a sua defeza; +explorou a desgraça do amigo com o drama o _Condemnado_, que vendeu a +dous individuos.» + + +Pedi ao snr. José Gomes Monteiro, antigo gerente da casa Moré, e editor +do _Condemnado_, que se dignasse ajudar-me a interpretar estas +deshonrosas referencias a um romance que s. exc.ª me pagára para não ser +publicado, a uma fuga de s. exc.ª no escriptorio de Anselmo para se +furtar a uma _escroquerie_; e finalmente á dupla venda do drama _O +Condemnado_ a s. exc.ª e a outro simultaneamente. + +O snr. José Gomes Monteiro, na volta do correio, respondeu d'esta fórma: + + + _Snr. Camillo Castello Branco._ + + +Meu amigo. + + +Acabo de receber a carta de v. datada de hontem, incluindo o impresso +que Anselmo de Moraes fez aqui circular. Apresso-me em responder-lhe. + +O primeiro periodo marcado por v. allude ás _Memorias do Carcere_ cuja +editação v. me veio propor em seguida á do _Amor de Perdição_. Ajustamos +a publicação d'essa obra antes de eu ter lido o original, que só no dia +seguinte me foi entregue. Li então o manuscripto aonde encontrei algumas +expressões que me pareceram offensivas da reconhecida probidade do +conselheiro Camillo Aureliano da Silva e Sousa, então procurador regio +junto á Relação do Porto. Por este motivo tive de devolver o original a +v. rogando-lhe houvesse por nulla a nossa convenção, por isso que eu +não podia ser editor de um livro em que de certo por erradas +informações, era maltratado um amigo meu, que eu tinha na conta de +magistrado integerrimo e de honradissimo cavalheiro. V. veio +immediatamente procurar-me e aceitando o meu testemunho como a expressão +da pura verdade, confessou ter sido mal informado ácerca da immaculada +probidade do meu amigo. Voltou o manuscripto devidamente reformado e v. +não se limitando a expungir as phrases que eu havia condemnado, fez +generosamente justiça ao honrado magistrado. Publicou-se o livro e elle +mesmo dará testemunho da inexactidão do que se affirma no citado +impresso, de que eu me vira obrigado a pagar um romance escripto por v. +contra o meu amigo para lhe poupar um desgosto. + +Confesso não ter guardado rigorosa reserva sobre este incidente, do que +sinceramente me peza, visto que a minha indiscrição deu lugar a que os +factos fossem desfigurados em desabono de v. + +V. não precisa de certo que eu o justifique, nem me justifique a mim de +me haver um dia refugiado no escriptorio do signatario do impresso para +me subtrahir a um pedido de v. Declaro com toda a ingenuidade não me +recordar d'esse grave capitulo de accusação dirigido não sei se a mim se +a v. O que afoutamente posso asseverar é que nas muitas transacções +commerciaes que temos tido encontrei sempre em v. a maior franqueza e +inexcedivel probidade. Não é por isso verdade que v. depois de me haver +vendido a propriedade do drama _O Condemnado_ o tivesse subrepticiamente +vendido tambem a outra casa editora. É verdade que d'este drama se veio +a fazer no Rio de Janeiro uma contrafacção, mas tenho completa certeza +de que v. fôra inteiramente alheio a esta fraude, que a falta de um +tratado com o Brazil infelizmente authorisa. + +V. fica authorisado a fazer d'esta minha carta o uso que lhe convier. + +Sou como sempre + + De v. etc. + +Porto, 25 de julho de 1874. + + _José Gomes Monteiro._ + + +Apraz-me grandemente o publico testemunho d'esta carta, no momento em +que as minhas relações sociaes e commerciaes com o snr. José Gomes +Monteiro se desatam. Eu não poderia, sem impostôra inutilidade, +fingir-me amigo de s. exc.ª desde que do contexto da sua carta se +deprehende que o snr. Gomes Monteiro não se recorda bem se fugiu de mim +para o escriptorio de Anselmo. Figura-se-me mais consentaneo ao honesto +caracter do snr. Gomes Monteiro negar-se pela palavra a um favor pedido, +e não pelo escondrijo no escriptorio de Anselmo a quem, pelos modos, s. +exc.ª não disse _que nas muitas transacções commerciaes que tivera +commigo encontrára sempre a maior franqueza e inexcedivel probidade_. + +Tirante esta feição mais attendivel do impresso, o remanescente é +indiscutivel nos prelos e nos tribunaes. Tenho vergonha das infamias +alheias, e respeito os nomes das pessoas que ahi se ultrajam. + +No entanto, não me esquivo a tocar dous episodios da minha biographia, +que lá vem contados: + +Que eu guardara cabras em Villa Real. + +Quer o leitor saber onde Theophilo foi esquadrinhar este indecoroso +lance da minha vida? Em um livro meu, chamado DUAS HORAS DE LEITURA, +escripto ha 20 annos. Sou eu que, em uma carta ao meu fallecido amigo +José Barbosa e Silva, conto assim o caso das cabras: + + +«Aos meus dez annos, levantou-se uma tempestade no seio da minha +familia. Uma vaga levou meu pai á sepultura; outra atirou commigo de +Lisboa, minha patria, para um torrão agro e triste do norte; e a +outra... Não merece chronica a outra: arrebatou-me um esperançoso +patrimonio. Foi bem pregada a peça, para que eu não tivesse a impudencia +de nascer, a despeito da moral juridica, filho natural de não sei que +nobre. Disseram-me que uma lei da snr.ª D. Maria I me desherdava. A boa +da rainha, se tivesse amado mais cedo um certo bispo, não legislaria tão +cruamente para os filhos do peccado; Denominava-se a _piedosa_, pela +mesma razão que um rei nosso, soprando a fogueira de vinte mil hebreus, +se chamou o _piedoso_... Fui educado n'uma aldêa, onde tenho uma irmã +casada com um medico, irmão de um padre, que foi meu mestre. O mestre +podia ensinar-me muita cousa que me falta; mas eu era refractario á luz +da gorda sciencia do meu padre. Fugia de casa para a serra, dava muitos +tiros ás gallinholas e perdizes... O meu gosto era (_hic_, cabras) +pascer o rebanho de casa por aquelles saudosos valles. Todavia, minha +irmã oppunha-se a este humilde serviço. Dizia-me cousas que eu não +percebia ácerca da minha dignidade, reprehendia os meus baixos +instinctos, attrahia ao seu voto o marido e o padre, e cortava-me o +rasteiro vôo, escondendo de mim a clavina, o polvorinho, os salpicões, a +brôa, e a cabacinha da aguardente. Não obstante, eu pedia tudo de +emprestimo, e ia com as ovelhas para o monte. Passava lá o dia inteiro, +sentado nas espinhas d'aquelles alcantis fragosos, sempre sósinho, +scismando sem saber em quê, engolfada a vista nas gargantas dos +despenhadeiros.» + + * * * * * + +A respeito de cabras, não ha mais nada nos archivos impressos, que eu +deva transmittir á posteridade. + +Ai! meu saudoso rebanho! Provavelmente, d'este lidar com cabras é que me +ficou o sestro e coragem de aparar as marradas de cabrões, como Anselmo. + +N'essa mesma carta a Barbosa e Silva, conto eu que ajudava diariamente á +missa a cinco sacerdotes. O sarrafaçal deixou escapar o ensejo de dizer +ao publico que eu tambem fui sacristão. + +E a historia da filha do taberneiro, que me deu um fato novo e uma moeda +para eu lhe casar com a filha; e vai eu pego a fugir com o fato e a +moeda e deixo a rapariguinha perdida! + +Desbragada porcaria! + +Ó meus amigos de Villa Real, ou lá d'onde se passou o caso +infando! Procurai a miseranda menina; e, se a topardes n'alguma +gafaria--derradeira paragem da espiral das perdidas--trazei-a a casa +d'este Anselmo para lhe agradecer o pregão que a vinga, e para lá se +rehabilitar, vendo-se honesta em contacto com certo exemplo femeal de +podridão d'alma e corpo. + + * * * * * + +Despedi-me, ha dias, de assignante da _Actualidade_. Estou arrependido. +Devemos todos contribuir com alguns cobres para que Anselmo de Moraes +não seja forçado pela necessidade a _picar-nos_ (giria d'elle) o paletó +no cunhal da viella da Neta. Em quanto aquelle archi-pulha tiver gazeta, +o seu pão, embora deshonrado, garante-nos do assalto nocturno. Não lhe +leio mais o jornal; mas dou-lhe a esmola dos 240 reis mensaes. Mande-os +receber em quanto a espinha em via de amollecimento me consentir +subscrever com seis patacos, a fim de que elle me não liquide a cadêa do +relogio. + +É verdade: affirma o impudentissimo caloteiro que tem lá uns titulos do +saldo de nossas contas. + +A fim de que esses documentos appareçam, offereço o seguinte e perpetuo +supplemento a todos os numeros da _Actualidade_: + + +ANSELMO DE MORAES É RADICALMENTE LADRÃO, COM UM CORTEJO DE TORPEZAS +ESPECIAES E RARAS NOS LADRÕES MAIS DESPEJADOS. + + + + +AO PUBLICO + + +AO PUBLICO + +Distribuiu-se ahi ha dias com generosa profusão um libello famoso por +motivos a que sou completamente estranho, mas em que nem por isso +quizeram que eu deixasse de figurar. + +Indignou por ahi a todos a alludida publicação, sem exceptuar os +proprios amigos ou parciaes do signatario d'ella, o snr. Anselmo de +Moraes. Dou-me com isso por bem vingado das malevolas intenções que me +apontaram ás iras atravessadas do insultador enraivecido. Não ha +desforço pessoal que valha tanto, e, ainda que o houvesse, não seria eu +que o tirasse. A dignidade nem sempre manda procurar o aggressor, antes +ás vezes exige que se evite. + +O meu fim é, pois, sómente esclarecer o publico, a quem respeito, como +devo, e de quem quero continuar a merecer bom conceito, ácerca da +perfida insinuação com que se intentou manchar a minha probidade +commercial, que só d'isto posso aqui fallar sem offensa da moral +publica. Obrigou-me aquella insinuação a dirigir-me ao exc.mo snr. José +Gomes Monteiro, que, como homem de bem, se dignou dar-me o testemunho +que se segue: + + + _Snr._ + +_Respondendo restrictamente á carta que de V. acabo de receber, +cumpre-me declarar, como o exige o meu caracter, que durante o tempo que +sob a minha direcção V. serviu a casa da snr.ª viuva Moré, nunca d'ella +subtrahiu cousa alguma ou quantia e prestou regularmente as suas +contas._ + + _De V._ + +_Porto 28, 7, 74._ + + _attento venerador_ + + _José Gomes Monteiro_ + + +Depois d'isto seria de mais tudo quanto eu podesse dizer. Fica o publico +habilitado para fazer o seu juizo. + + _Ernesto Chardron._ + + + + +FIM DO 8.º NUMERO + + + + +EMENDAS AO N.º 7 + + +Pag. 47, lin. 15: quer-me _parece_, emende: quer-me _parecer_. + +Pag. 95, lin. 10: _king-charles_, emende: _king's-charles_. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem +não póde dormir. Nº8 (de 12), by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 8 (DE 12) *** + +***** This file should be named 28128-8.txt or 28128-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/8/1/2/28128/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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