summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/28154-h
diff options
context:
space:
mode:
Diffstat (limited to '28154-h')
-rw-r--r--28154-h/28154-h.htm5369
1 files changed, 5369 insertions, 0 deletions
diff --git a/28154-h/28154-h.htm b/28154-h/28154-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..858a12a
--- /dev/null
+++ b/28154-h/28154-h.htm
@@ -0,0 +1,5369 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
+<html lang="pt">
+<head>
+ <title>Petronio: peça livremente extrahida do romance Quo Vadis, por Marcellino Mesquita</title>
+ <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15">
+ <meta name="author" content="Marcelino Mesquita">
+ <meta name="date" content="1901">
+ <meta name="publisher" content="Manuel Gomes, Editor">
+ <style type="text/css">
+ @media print {
+ .pagenum { visibility: hidden;}
+ }
+ @media handheld {
+ .pagenum { visibility: hidden;}
+ }
+ body{margin-left: 10%;
+ margin-right: 10%;
+ }
+ .pagenum {
+ text-indent: 0em;
+ position: absolute;
+ left: 92%;
+ font-size: smaller;
+ text-align: right;
+ color: silver;
+ }
+ .small-caps {font-variant: small-caps;}
+ #corpo p {text-align: justify; text-indent: 1em;}
+ #capa p {text-align: center; text-indent: 0;}
+ h1 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom:2em;}
+ h2 {text-align: center; margin-top: 2em; margin-bottom:1em;}
+ h3 {text-align: center; margin-top: 2em; margin-bottom:1em;}
+ h4 {text-align: center;}
+ #corpo p.dcena{text-indent: -2em; margin-left: 2em; font-size: small;}
+ </style>
+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Petronio, by Marcelino Mesquita
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Petronio
+ Peça livremente extrahida do romance Quo Vadis de Henryk Sienkiewicz
+
+Author: Marcelino Mesquita
+
+Release Date: February 23, 2009 [EBook #28154]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PETRONIO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">PETRONIO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: solid 1px #000; padding: 1em;">
+<p><em>MARCELLINO MESQUITA</em></p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">PETRONIO</p>
+
+<p style="font-size:0.8em;">PEÇA LIVREMENTE EXTRAHIDA DO ROMANCE</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">QUO VADIS</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">DE</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">HENRYK SIENKIEWICZ</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>LISBOA</em></p>
+
+<p>MANUEL GOMES, EDITOR</p>
+
+<p><em>Livreiro de Suas Magestades e Altezas</em></p>
+
+<p><small>61&mdash;<span class="smcap">Rua Garrett</span> (<span
+class="smcap">Chiado</span>)&mdash;61</small></p>
+
+<p>M DCCCC I</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;"><small>Typ. do DIA, calçada do Cabra,
+7&mdash;Lisboa</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="font-size: small;">
+<p>Esta peça foi representada, pela primeira vez, no theatro D. Amelia, na
+noite de 8 de março de 1901. Foram os interpretes:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>Petronio</em>, poeta satyrico...... <em>Eduardo Brazão</em><br>
+<em>Néro</em>, imperador romano...... <em>Augusto Rosa</em><br>
+<em>Paulo de Tarso</em>, apostolo christão...... <em>João Rosa</em><br>
+<em>Marcos Vinicio</em>, consul, sobrinho de Petronio...... <em>Luiz
+Pinto</em><br>
+<em>Chilon</em>, philosopho charlatão...... <em>A. Pinheiro</em><br>
+<em>Tigelino</em>, chefe dos pretorianos, rival de Petronio...... <em>A.
+Antunes</em><br>
+<em>Senécion</em>, patricio romano...... <em>Carlos Bayard</em><br>
+<em>Vitelio</em>, idem...... <em>João Gil</em><br>
+<em>Lucano</em>, poeta...... <em>Henrique Alves</em><br>
+<em>Vatino</em>, intendente das festas...... <em>F. Senna</em><br>
+<em>Domicio</em>...... <em>A. Sampaio</em><br>
+<em>Musonio</em>, philosopho e poeta...... <em>F. Salles</em><br>
+<em>Ursus</em>, escravo lygio...... <em>Alfredo Santos</em><br>
+<em>Pitagoras</em>, ephebo, favorito de Néro...... <em>Maria Ferreira</em><br>
+<em>Nerva</em>, patricio de Cumas...... <em>Alvaro Cabral</em><br>
+<em>Lucio</em>, idem...... <em>S. Ayres</em><br>
+<em>Seneca</em>, philosopho...... <em>J. Reis</em><br>
+<em>Teiresias</em>, liberto de Petronio...... <em>A. Quaresma</em><br>
+<em>Um escravo de Petronio</em>...... <em>Antonio Silva</em><br>
+<em>1.º Rabbino</em>...... <em>Salles</em><br>
+<em>2.º Rabbino</em>...... <em>A. Pedro</em><br>
+<em>Gulon</em>, liberto de Vinicio...... <em>A. Silva</em><br>
+<em>Outro escravo</em>...... <em>N. Gomes</em><br>
+<em>Timon</em>, gladiador...... <em>N. N.</em><br>
+<em>Croton</em>, idem...... <em>N. N.</em><br>
+<em>1.º Senador</em>...... <em>J. Subtil</em><br>
+<em>2.º Senador</em>...... <em>Germano</em><br>
+<em>Poppêa</em>, concubina de Néro...... <em>Maria Pia</em><br>
+<em>Eunice</em>, escrava de Petronio...... <em>Maria Falcão</em><br>
+<em>Actêa</em>, ex-amante de Néro...... <em>Angela Pinto</em><br>
+<em>Lygia</em>, donzella christã...... <em>Amelia Pereira</em><br>
+<em>Calvia</em>, dama romana...... <em>Elvira Costa</em><br>
+<em>Nigidia</em>, idem...... <em>F. Salazar</em><br>
+<em>Crispinilla</em>, idem...... <em>C. de Sousa</em><br>
+<em>Flavia</em>, idem...... <em>Elvira Santos</em><br>
+<em>Pomponia</em>, idem...... <em>A. O'Sullivand</em><br>
+<em>Lucrecia</em>, idem...... <em>Maria Ferreira</em><br>
+<em>Julia</em>, dama cumense...... <em>Candida</em><br>
+<em>Octavia</em>, idem...... <em>M. Ferreira</em><br>
+</p>
+
+<p>Senadores, palacianos, ephebos, pretorianos, escravos, augustanos, povo
+romano, gladiadores, damas da côrte, escravas, etc., etc.</p>
+</div>
+
+<p><span class="pagenum">[1]</span></p>
+<hr style="width: 65%;">
+
+<div id="corpo">
+<h2><a name="ACTO_PRIMEIRO" id="ACTO_PRIMEIRO"></a>ACTO PRIMEIRO</h2>
+
+<h3>QUADRO PRIMEIRO</h3>
+
+<p class="dcena">Casa de Petronio em Roma. A um lado, a estatua de Petronio, em
+marmore. Sobre uma meza, frascos varios de aguas, de oleos; escovas, pentes,
+ferros de frisar. Duas escravas ethiopes e duas brancas, o rodeiam. As negras
+acabaram de o pentear.</p>
+
+<h4>ESCRAVA BRANCA</h4>
+
+<p>Que manto? <small>(as escravas negras sahem)</small></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>O azul. <small>(a escrava sahe e traz)</small></p>
+
+<h4>EUNICE, <small>que, de joelhos, compõe a tunica</small></h4>
+
+<p>Bello... como um Deus!</p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>sorrindo, delicado</small></h4>
+
+<p>«Animal impudens», de Séneca.<span class="pagenum">[2]</span></p>
+
+<h4>O INTRODUCTOR</h4>
+
+<p>O consul Marcos Vinicio.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Oh!</p>
+
+<h4>MARCOS <small>grave</small></h4>
+
+<p>Salve, Petronio!<small></small></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Salve. Sê bem vindo em Roma. Que o repouso te seja grato depois da
+guerra.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Que os Deuses te sejam propicios, sobre tudo Asclépias e Cypris.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Que o tal Asclépias me perdôe; não tenho fé n'elle. Um Deus cuja mãi se
+ignora! Sabe-se lá se é filho de Arsinoé ou de Corónida? Que fará do pai! Quem,
+por estes tempos que correm, pode ter a certeza de ser filho... do pai?
+<small>(Marcos, ri contrafeito)</small> Estás preocupado?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>... Não.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Dos Asclepiades já tive de me servir, o anno<span class="pagenum">[3]</span>
+passado... para a bexiga. Sabia que eram charlatães; mas o mundo repousa sobre
+o charlatanismo e a vida mesmo não é senão uma illusão! O que é precizo é saber
+distinguir as bôas illusões das más. Eu mando aquecer a minha estufa com
+madeira de cedro, pulverisada com ambar, porque prefiro os perfumes aos máus
+cheiros. Quanto a Cypris, a quem me recomendaste, devo-lhe o ter coxeado,
+amorosamente, dois mezes; mas, emfim, é uma bôa deusa a quem espero
+sacrificarás, em breve, as brancas pombas.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Talvez. Se as flechas dos Parthas me não alcançaram, em compensação, fui
+tocado pelas do Amôr, d'uma maneira imprevista.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Sim?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>A dois passos das portas de Roma.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Pelas Graças! conta-me isso.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Tanto mais que precizo do teu conselho...<span class="pagenum">[4]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>É escusado perguntar se o teu amôr é correspondido!
+<small>(olhando-o)</small> Se Lysias te tem conhecido, ornavas, hoje, a porta
+do Palatino sob a fórma d'um Hercules juvenil. <small>(Eunice offerece-lhe e
+põe-lhe o manto)</small></p>
+
+<h4>MARCOS <small>(olhando a escrava)</small></h4>
+
+<p>Por Zeus, que bella escolha! Mais bello corpo não se encontrará nem em caza
+do Barbas de Bronze, d'esse famoso Nero, teu amigo.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Tu és meu parente... e eu não sou egoista; nem tão austero, como um Aulo
+Plaucio...! Se queres...?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Como te veio á ideia Aulo Plaucio? É d'elle que te venho fallar.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Estarás, tu, por acaso enamorado de Pomponia, sua mulher? Diabo! Velha...
+virtuosa... Lamento-te.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não é de Pomponia. Oh! Não!<span class="pagenum">[5]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>De quem?...</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Nem sei. Nem sei mesmo o seu nome. Lygia? Calina? Chamam-lhe Lygia porque é
+do paiz dos Lygios; mas o seu nome barbaro é Calina. Estive doente em caza
+d'esse Plaucio, por um accidente de viagem...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Qual?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Desloquei um pé, n'uma queda do cavallo... É uma caza estranha: cheia de
+gente e silenciosa como um bosque sagrado. Durante quinze dias, ignorei que uma
+deusa a habitasse. Vi-a, uma manhã, a banhar-se n'um tanque, sob as arvores.
+E... juro-te pela espuma d'onde nasceu Aphrodite... os raios da Aurora
+brincavam atravez do seu corpo! Julguei-a uma apparição, uma sombra que os
+raios do sol nascente dissipassem, como um crepusculo! Desde então, não tive
+mais tranquilidade; não tive mais descanso; não tive outro desejo; não vejo
+outra mulher! Tudo me merece desprezo; o oiro, os bronzes de Corintho...
+Aborreço os vinhos, os festins; só vejo, só quero Lygia! O mundo para mim é
+ella... e só ella!<span class="pagenum">[6]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>É uma escrava de Plaucio? Compra-lh'a.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não é uma escrava.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Uma liberta, então?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Se nunca foi escrava, como pode ser liberta?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Quem é, pois?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>A filha d'um rei.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Hein? Começas a intrigar-me...</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>É filha de Vanio, rei dos Suévos.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>O que teve guerras, no tempo de Claudio?...</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Com os sobrinhos; que levantaram, contra<span class="pagenum">[7]</span>
+elle os Lygios, terriveís na rapina. Claudio, temendo pelas fronteiras, mandou
+Hister, legionario do Danubio, que vigiasse para que a paz não fôsse alterada.
+Hister exigiu aos Lygios a promessa de não invadirem a fronteira, e, como refem
+recebeu a filha e a mulher do chefe.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>D'onde sabes, tu, isso?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Contou-m'o Plaucio, elle proprio. Na guerra o rei dos Lygios morreu. Hister
+ficou com a mãi e a filha. A mãi morreu pouco depois, e Hister para se
+desembaraçar da creança, mandou-a a Pomponio, governador da Germania e vencedor
+dos Gathes. Quando Pomponio entrou em Roma, em triumphador, a pequena Lygia
+seguia o seu carro; mas como era um refem e não uma escrava, Pomponio
+entregou-a a sua irmã, mulher de Aulo. N'esta caza onde tudo respira virtude,
+cresceu, tão virtuosa e tão pura, que ao pé d'ella, Poppêa, que passa pela
+mulher mais bella de Roma, é como um figo do outomno, ao pé d'um pômmo das
+Hesperides!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>E, então?<span class="pagenum">[8]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Repito-te, desde que vi a luz brincar atravez do seu corpo...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Ella é então transparente como uma lampreia...!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não gracejes, Petronio.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Pois bem, diz-me o que queres, claramente.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Quero Lygia! Quero que os meus braços a apertem; que a minha bôcca respire
+na sua bôcca! Se fosse uma escrava daria por ella cem virgens! Quero-a, eis
+tudo! Têl-a, guardál-a, até que a minha cabeça branquêje como a crista do
+Sorate, no hinverno!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>... Se não é uma escrava, é, em todo o caso uma rapariga abandonada. Plaucio
+póde ceder-t'a, se quizer.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não conheces Plaucio nem Pomponia sua mulher? De resto, amam-na como
+filha!<span class="pagenum">[9]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Pomponia? conheço: é um cypreste! Tem o ar de quem vive n'um cemiterio. Mas
+é, diga se, mulher d'um homem só; o que faz que entre as nossas romanas, quatro
+e cinco vezes divorciadas, seja uma phenix!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Mas... Petronio...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Que queres que te diga, meu caro Marcos? Conheço muito bem Aulo Plaucio,
+como elle conhece o meu modo de pensar e o meu modo de viver. Se pensas que
+poderei obter alguma coisa d'elle, francamente, parece-me que te enganas.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>O teu espirito é inexgotavel em expedientes...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Exageras.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Todo o mundo te conhece.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Como o rei da elegancia? sim. É o meu reino.<span
+class="pagenum">[10]</span> Se fosse o da Lygia eu não teria senão prazer em te
+offerecer a minha filha, bello e amoroso consul.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não fallarás a Plaucio?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>... Não. É inutil. Mas... fallarei a Cezar.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Melhor ainda...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Se Lygia é um refem, Cezar pode dispôr d'ella, pode offerecer-t'a.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Fallar-lhe-has, então?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Sim.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Hoje mesmo?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Hoje... talvez. É precizo esperar occasião de o poder louvar, pelo canto, ou
+pelos versos, ou pela aptidão de cocheiro, de actôr... A proposito, fazes
+versos?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Nunca pude arranjar um hexametro.<span class="pagenum">[11]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Não tocas cithara, nem alaúde?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Não guias um carro?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Tomei, uma vez, parte n'umas corridas em Antiochia; mas fui infeliz.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Bem. Estou descançado a teu respeito. O melhor é não fazer nenhuma d'essas
+coisas e admiral-as, muito, nos outros... sobretudo em Cezar. És bello e Poppêa
+pode agradar-se de ti. É um perigo. Nero não t'o supportaria. É verdade que
+Poppêa está uma mulher experiente: d'amôr os dois primeiros maridos
+saciaram-na; Nero é para outra coisa.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Que é feito de Othon?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>O terceiro? O pobre homem ama-a ainda loucamente. Anda a choral-a sobre os
+rochedos da Hespanha. E, dizem, que de tal modo perdeu os<span
+class="pagenum">[12]</span> habitos da galanteria, que hoje, com o penteado, só
+gasta tres horas por dia!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Eu, no caso d'elle, fazia outra coisa.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>O quê?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>São valentes e duros soldados os da Iberia! Recrutaria umas legiões
+fieis...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Marcos, Marcos! Essas coisas fazem-se, mas não se dizem, nem como
+hypotheses... Eu, no logar d'elle, rir-me-hia de Poppêa e de Nero: arranjava
+uma legião, mas não era de homens, era de mulheres!... <small>(Eunice entra com
+um frasco.)</small> Ah! a verbena. <small>(deita nas mãos e esfrega as
+fontes)</small> Não imaginas como isto vivifica, dá fôrça!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Mas... Lygia...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Sim, homem, descança.<span class="pagenum">[13]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não posso, Petronio. Se eu não consigo comer nem dormir! Vou passeiar um
+pouco pela cidade, mover-me, andar, distrahir-me...</p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>reparando</small></h4>
+
+<p>É verdade, tu não fizeste a barba, hoje!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Nem hontem!</p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>toma-lhe o pulso</small></h4>
+
+<p>Tens febre. Escuta. Eu não sei o que te prescreveria um medico, um d'esses
+asclepiades; mas sei o que eu faria no teu logar. Sim... eu sei o que é o amor,
+e, que quando se deseja uma mulher, nenhuma outra a póde substituir! A belleza,
+porém, encanta sempre; e uma bella escrava...</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não, não quero.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>A novidade faz esquecer... por um novo desejo... <small>(Pondo a mão no
+hombro de Eunice, que lhe offerece, de novo a verbena)</small> Repara, um
+pouco, n'esta filha de Cós. Ha dias, o joven Fonteio offerecia-me por ella tres
+admiraveis éphebos: tres<span class="pagenum">[14]</span> maravilhas dignas do
+pincel de Scopas! <small>(olhando-a com interesse)</small> É curioso; como não
+dei ha mais tempo pelos seus encantos? No entanto, dou-t'a, leva-a.</p>
+
+<h4>MARCOS, <small>apertando a cabeça</small></h4>
+
+<p>Não, não a quero: não quero ninguem! Obrigado. Vais d'aqui ao Palatino, ao
+palacio de Cesar?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Vou.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Bem... Voltarei mais tarde. Vou á outra margem do Tibre...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Não. Vais almoçar comigo. Eunice?</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>Meu senhôr.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Tomarás o teu banho: ungirás o teu corpo, com os melhores perfumes, e irás
+para casa de Marcos Vinicio.</p>
+
+<h4>EUNICE, <small>ajoelhando-se</small></h4>
+
+<p>Ó, meu senhor, não! Não me façais sahir da<span class="pagenum">[15]</span>
+vossa casa! Prefiro ser, aqui, a ultima das vossas escravas! ser açoitada todos
+os dias, contanto que me não deis a ninguem! Não posso, tende piedade de mim!
+Não posso! não posso!</p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>surprehendido</small></h4>
+
+<p>Hein?</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>Repito-vol-o, senhôr. Não irei para caza de Marcos Vinicio. Não sahirei de
+vossa casa. Tende piedade! Sêde bom, como sois!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Vai chamar Teirésias. <small>(Eunice sahe)</small></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Petronio, eu não a quero. Nem a ella nem a nenhuma. Deixa...</p>
+
+<h4>PETRONIO <small>(brandamente)</small></h4>
+
+<p>Uma escrava!</p>
+
+<h4>MARCOS, <small>vendo entrar Eunice e Teirésias senta-se a lêr</small></h4>
+
+<p>Perdôa-lhe.</p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>a Teirésias</small></h4>
+
+<p>Leva Eunice, e dá-lhe quinze chibatadas. <small>(baixo)</small> Com geito
+para lhe não estragares a pelle. <small>(a Marcos)</small> O que lês?<span
+class="pagenum">[16]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>O teu livro: o Satyrikon. Já não fazes versos?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Não. Desde que Nero é poeta e os faz... É perigoso.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Se amasses!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Hoje? Ser-me-hia precizo encontrar... uma Lygia.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Uma deusa! Alcançar-ma-has, Petronio?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Será tua. Quanto se pode responder por Cezar, respondo.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Tu és filho de minha irmã e por isto me foste sempre muito caro; mas, agora,
+collocarei, nos meus lares, uma estatua tua, <small>(indicando a estatua de
+Petronio)</small> tão bella como esta e offerecer-lhe-hei sacrificios.
+<small>(vendo a)</small> Tu és verdadeiramente bello, Petronio! Se Páris era
+assim, Helena teve razão na escolha.<span class="pagenum">[17]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Chamam-me o Rei da Elegancia, Marcos. <small>(Eunice entra de semblante
+alegre)</small> Recebeste as chibatadas?</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>Sim, meu senhor, quinze, só!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Só! <small>(a Marcos)</small> Não comprehendes?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Comprehendo eu. <small>(a Eunice)</small> Tu tens um amante, aqui?</p>
+
+<h4>EUNICE, <small>joelhando-se-lhe aos pés</small></h4>
+
+<p>Sim, senhor! <small>(inclina a cabeça)</small></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Quem é? <small>(Eunice inclina mais a cabeça, silenciosa)</small> Quem é?
+<small>(repara na mulher)</small> Hei-de sabêl-o. <small>(a Marcos)</small>
+Vamos almoçar. <small>(Pôe-lhe a mão sobre o hombro, olha com interesse
+Eunice)</small> Vamos. <small>(Sahem)</small></p>
+
+<p class="dcena">(Eunice deixa-os sahir. Levanta se. Toma por disfarce o frasco
+da verbena e, fingindo sahir, espreita. Não vendo<span
+class="pagenum">[18]</span> ninguem, volta, toma a cadeira onde se sentou
+Petronio; colloca-a ao pé da estatua; sobe, abraça o marmore e, ao mesmo tempo
+em que os cabellos loiros lhe cahem pelas costas, colla os labios aos labios da
+estatua).</p>
+
+<p style="text-align:center;">O PANNO DESCE<span class="pagenum">[19]</span></p>
+
+<hr style="width: 65%;">
+
+<h3>QUADRO SEGUNDO</h3>
+
+<p class="dcena">Triclinio. (Caza de jantar no palacio de Néro.) No 1.º plano
+tres mezas, em ferradura, com os competentes leitos e cadeiras. Á esquerda uma
+balaustrada que se suppôe dar para uma escada, inferior, de entrada. As mezas
+estão promptas: os tocheiros accesos. Grande movimento de escravos, até á
+chegada dos convivas. Entram Lygia e Actêa.</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Dize-me, minha bôa Actêa, é bem certo que, Néro, Cezar, matou a mulher, a
+mãi, o irmão?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>É certo... e quantos outros!</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>E, dizias-me que o amavas?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Conhecí-o, moço, bello e generoso! É sempre<span class="pagenum">[20]</span>
+essa imagem, esse Néro que eu vejo. O outro, o que fizeram os mestres, os
+aulicos, os amigos, os senadôres, o proprio povo, esse não o conheço. Esse
+pertenceu sempre a outra mulher, cujo dominio se firmou no sangue: esse é de
+Poppêa, a divina!</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Como eu tremo de estar, aqui! Daria tudo por me vêr de novo em caza de
+Pomponia: ou na campina de Rôma, só, abandonada que fosse. Se eu pudesse... se
+tu pudesses, generosa Actêa, proporcionar-me a fuga!</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Eu t'o repito, Lygia: era a tua morte e a dos teus. A vontade de Cezar é
+absoluta! Approuve a Cezar chamar-te, és uma coisa sua, na vida e na morte!</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Uma coisa...!?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Tenho lido, tambem, as cartas de Paulo de Tarso, e ellas dizem que, lá em
+cima, ha um Deus cujo filho morreu por nós! Mas sobre a Terra não ha senão um
+Deus: é Cezar! A tua doutrina prohibe-te de seres o que eu sou...<span
+class="pagenum">[21]</span> uma concubina!... e manda-te preferir a morte á
+deshonra&mdash;como os estoicos de que me fallou tanta vez, Epicteto...</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Sempre!</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Quando uma possa evitar a outra. Ignoras os recursos d'um Cezar. A filha de
+Sejano, uma creança de doze annos, foi condenada á morte. A lei prohibe que as
+virgens possam soffrer tal pena. O que imaginas que resolveu, Tiberio?</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Eu sei!</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Mandou-a violar, primeiro, por um escravo e matou-a depois!</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Que horrôr!</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Reflecte. Não irrites nunca os tyranos. Os deuses da Terra são sempre
+sanguinarios. És bella, nova, e tão bôa...! Sê cautelosa e espera no futuro. Eu
+te protegerei, aqui, quanto pudér.</p>
+
+<h4>LYGIA, <small>abraçando-a</small></h4>
+
+<p>Como tu és bôa, Actêa!<span class="pagenum">[22]</span></p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Sem alegria e sem felicidade, é certo;... mas não sou má. «Elle» tambem o
+não era.</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Lamenta-l'o?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Se te digo que o amo, ainda! O teu Deus não morreu por amôr dos que o
+mataram?</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>E, perdoou-lhes.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>O amôr é o perdão. <small>(Como subindo a escadaria e voltando a entrar no
+salão, no 2.º plano, começam a entrar os senadôres de togas bordadas nas
+bandas, sandalias ricas, tunicas de côres. Mulheres vestidas e penteadas á
+Grega ou á Romana, as cabeças coroadas de flôres, etc.)</small></p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Que de gente sobe.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Os convivas que chegam.</p>
+
+<h4>MUSONIO, <small>entrando e passando com Séneca</small></h4>
+
+<p>Salve, Actêa!</p>
+
+<h4>SÉNECA</h4>
+
+<p>Salve, divina Actêa!<span class="pagenum">[23]</span></p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Salve, Séneca!</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Quem é este velho, de grave aspecto?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>É Séneca, o filosofo, mestre de Néro. Um filosofo que manda desprezar as
+riquezas e fez, em quatro annos, uma fortuna de quatrocentos milhões de
+cestercios!</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>E, o companheiro?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>É tambem filosofo; mas bom: um estoico.</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Como se chama?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Musonio.</p>
+
+<h4>TIGELINO, <small>entrando com Calvia</small></h4>
+
+<p>Salve, Actêa!</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Salve! <small>(a Lygia)</small> Tigelino o infâme, o corruptôr, o valido de
+Néro. O que fornece as orgias e os venenos!</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>E, a mulher?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Calvia; a mais impudica das, cortezãs, de Roma. Cinco vezes divorciada.<span
+class="pagenum">[24]</span></p>
+
+<h4>LUCANO, <small>entrando com Nigidia</small></h4>
+
+<p>Que os deuses te conservem sempre a belleza e o coração.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Salve. <small>(a Lygia)</small> Lucano o poeta e Nigidia a amante.</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>É tão novo.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>E é bello; mas Cezar odeia-o. Os seus versos são melhores do que os d'elle e
+Cezar não perdôa. A sua vida não vale uma moeda d'oiro.</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>E elle sabe-o? e, arrisca-se, aqui?...</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>É uma creança. <small>(Entra Crispinilla, com Pitagoras.)</small>
+Crispinilla a devassa, cheia de incestos...</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>E o mancebo? aquelle adolescente?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>É Pitagoras, o éphebo favorito de Néro.</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Como favorito? Ama-o muito?<span class="pagenum">[25]</span></p>
+
+<h4>ACTÊA, <small>lembrando-se da inocencia de Lygia</small></h4>
+
+<p>Sim... Ama-o, muito! <small>(Um grupo de homens e mulheres passa e
+comprimenta de longe, sem grande respeito)</small>. Senécion, Vitelio,
+Domicio... Vês como me comprimentam, de longe? Houve tempo em que teriam vindo
+comparar-me ás Deusas e beijar me os pés! São os cortezãos de todos os tempos.
+<small>(O grupo sobe)</small></p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Onde vão?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Dizer a Poppêa, a divina, o que em tempo me disseram a mim!</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Como tudo isto faz mêdo!</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>E asco! <small>(Entram, conversando, Petronio e Marcos Vinicio. Petronio vai
+para os grupos; Vinicio vê Lygia e desce)</small>. Petronio e Marcos Vinicio.
+Estes conheces de certo.</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Marcos!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Á mais pura das virgens da Terra, á mais bella das estrellas do Céu, á
+divina Lygia, salve!</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Salve, Marcos Vinicio.<span class="pagenum">[26]</span></p>
+
+<h4>MARCOS, <small>tomando o pulso d'Actêa e beijando-lh'o</small></h4>
+
+<p>Salve, Actêa. Por Vénus, sois ainda a mais bella mulher do palacio de
+Néro.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Cuidado, Marcos Vinicio, que se arremedais vosso tio, no galanteio, não
+tendes como elle a faculdade de que Néro oiça pelos vossos ouvidos e falle pela
+vossa bôca.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>O louvor é tão perigoso em Caza de Cezar?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>É que dirigido a mim pode parecer epigrama.</p>
+
+<h4>MARCOS, <small>a Lygia</small></h4>
+
+<p>Felizes os meus olhos que te comtemplam: os meus ouvidos que escutam a tua
+voz mais dôce do que as citharas e as flautas!</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Como fiquei bem, ao vêr te! Que mêdo tenho de estar aqui! Sabias que me
+encontravas?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Sabia e todavia ao vêr-te senti na minh'alma um extranho e novo prazer!<span
+class="pagenum">[27]</span></p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Como sabias?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Disse-m'o Aulo Plaucio.</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Como estará! e os seus! E porque estou eu aqui?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Por mandado de Cezar.</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>E para quê?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Cezar não dá conta, a ninguem, dos seus actos.</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Nada d'isto é natural, Marcos. Conhecia-me, acaso Cezar? Tenho o
+presentimento de desgraças! Tu és bom: leva-me para caza dos Plaucios, a caza
+onde eu vivi tranquilla e tão feliz! Faz-me mal este ruido, esta gente toda.
+Porque me arrancaram do pequeno jardim onde brincava com Aulo? O que me convem
+a mim é o socêgo e a obscuridade. Não nasci para festas e para jantares! e,
+aqui, no palacio de Néro... tenho mêdo, leva-me!<span
+class="pagenum">[28]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Acalma-te! Estou ao pé de ti. Nada pode acontecer-te. Amo-te, não o crês?</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Sim, Marcos.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>E, tu m'o disséste, tambem, n'esse jardim, onde brincavas com o pequeno
+Aulo. E, eu não ouvi nunca mais outra voz; não vi outro olhar senão o teu; não
+pensei, não tive outro querer, outra vontade senão a ti.</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>O socêgo entra na minh'alma com as tuas palavras, generoso Marcos!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Tu és a minha felicidade, ó mais bella do que Vénus! A minha felicidade
+completa, inegualavel; porque nem Cezar, nem nenhum Deus, póde sentir maior
+alegria do que um mortal <small>(abraça-a, delicadamente)</small> que sente
+bater contra o peito um peito querido! Assim, ó Lygia, o amôr nos eguala aos
+Deuses!</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>A tua palavra é como a luz, que afugenta as trévas e dissipa os terrôres.
+Entrego-me a ti.<span class="pagenum">[29]</span> Restitue-me aos meus.
+Pomponia, a casta, amar-te-ha como se fôsse tua mãi: abençoar-nos-ha e seremos
+felizes! Por ella e pelos seus te agradeço o prazer que lhe darás; e, por mim,
+Marcos, amar-te-hei até ao fim da minha vida.</p>
+
+<p class="dcena">(Na sala do fundo, onde estão, tambem, mezas visiveis, rompe a
+orchestra de citharas, flautas, harpas e timbales. Os escravos serventes entram
+dos lados)</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Vem Cezar. <small>(Vai a querer subir)</small></p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Não me deixes, só!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não. <small>(Actêa, desce)</small> Aqui tens Actêa... Eu volto já.
+<small>(Sobe.)</small></p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Oh! Actêa! <small>(agarrando-lhe a mão)</small></p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Que tens?</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Foje-me a vista.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Serena-te <small>(beijando-a)</small> Isso passa!</p>
+
+<p class="dcena">(Néro apparece ao fundo. Á maneira que passa, a multidão
+aclama-o. Começam a cahir flôres do tecto até ao fim do acto. Os escravos
+trazem brazeiros e deitam-lhe myrra. Gritam)<span
+class="pagenum">[30]</span></p>
+
+<h4>VOZES</h4>
+
+<p>Avé, Cezar!</p>
+
+<p>Avé, Jupiter!</p>
+
+<p>Avé, divino Cezar!</p>
+
+<p>Salve, divino!</p>
+
+<p>Olympico!</p>
+
+<p>Hercules!</p>
+
+<p>Immortal!</p>
+
+<h4>NÉRO, <small>junto a meza</small></h4>
+
+<p>Á meza! <small>(Os homens deitam se nos leitos. As mulheres occupam leitos e
+cadeiras. Os escravos enchem as taças de vinho que veem em baldes com gêlo:
+outros servem a comida. A orchestra toca mansamente. Néro, reclinando-se no
+leito, coroado de rosas)</small>: Petronio, dir-se-hia que entoei um dos meus
+hymnos!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>É a condicção dos Deuses. A sua presença basta para arrancar as saudações
+dos homens.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Estas? Que significam? Os romanos são verdadeiros selvagens. Não me
+entendem. Lembras-te do meu apparecimento em Napoles?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Que noite!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Que noite de gloria! Nunca sentirei mais, na<span
+class="pagenum">[31]</span> minha vida, uma impressão egual! Chorei!
+Lembras-te, Petronio?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Como um mortal! E, desmaiaste, até, nos meus braços, exclamando: «Onde ha
+triumpho comparavel ao meu?! Eis o que são os Gregos! eis a Grecia!»</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Comprende-me a Grecia. Em Roma, sei-o bem, chegam a censurar-me por cantar
+em publico; como se a arte divina pudésse manchar a purpura dos Cézares!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Voltaremos?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Certamente. Tu sabes que as profecias me dão a soberania do Oriente e do
+Egypto. Fundarei alli um imperio luminoso de arte, de sol, de poesia, de
+realidade transformada em sonho, de vida transformada n'um perpetuo gozo! Quero
+esquecer Roma e collocar o centro do mundo entre a Grecia, a Asia e o Egypto.
+Viver a vida, não dos homens, mas dos Deuses. Vogar atravez do Archipélago, em
+galéras d'oiro, á sombra de vélas de purpura, embriagar-me de sol, de poesia!
+Ser, ao mesmo tempo, Apollo e Osiris! Reinar ... viver... sonhar...!<span
+class="pagenum">[32]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Eis o sonho d'um Cezar!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Uma realidade! No Egypto levantarei monumentos, ao lado dos quaes as
+pyramides hão-de parecer brinquedos de creanças! Farei construir uma esphinge,
+sete vezes maior do que a de Memphis, que olha para o deserto, semelhando-a a
+mim! E, os seculos futuros não fallarão d'outra coisa: do monumento e de
+Néro!</p>
+
+<h4>LUCANO</h4>
+
+<p>Pelos teus versos tu te erigiste, já, um monumento, não sete, mas setenta
+vezes maior do que a de Chéops.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>E, pelo meu canto?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Se tu pudésses levantar uma estatua,&mdash;como a de Memnom&mdash;, que ao
+nascer do sol o fizesse ouvir, durante seculos, os mares do Egypto
+coalharam-se-hiam de navios, onde as multidões, das tres partes do mundo,
+viriam embriagar se, esquecer a vida, ouvindo a tua voz!</p>
+
+<p><small>(Néro, radiante, bebe e todos o acompanham)</small><span
+class="pagenum">[33]</span></p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>E... emfim, desposarei a Lua, que é viuva, e serei verdadeiramente um
+Deus!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>E, cazar-nos-has com as estrellas, para formarmos a constelação de Néro!
+<small>(A Vitelio, gordissimo, que está de pé, na meza do centro, de taça em
+punho, ébrio)</small> Cazarás Vitelio com o Nilo para gerarem hipopótamos.</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>E a mim, que destino me dás?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Cezar pode dar-te o deserto e serás rei... dos chacaes.</p>
+
+<h4>TIGELINO, <small>aparte</small></h4>
+
+<p>Insolente!</p>
+
+<p><small>(Cezar falla em segredo com Petronio. De repente pôe no olho uma
+esmeralda e olha Marcos e Lygia. Marcos diz segrêdos amorosos, todo
+curvado.)</small></p>
+
+<h4>MARCOS, <small>alto</small></h4>
+
+<p>Como eu te amo, Lygia! <small>(apertando-lhe o pulso)</small></p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Deixa-me, Marcos, fazes-me mal.<span class="pagenum">[34]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Oh! divina, ama-me muito! <small>(beija-lhe o pulso)</small> muito!</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Cezar está a olhar-vos.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Que me importa?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Tu brincas com a vida, Marcos; não bebas mais.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>O Phalerno é tão dôce e Lygia tão bella! <small>(Offerece-lhe a taça; Lygia
+recuza; Marcos bebe)</small></p>
+
+<h4>NÉRO, <small>deixando de olhar, depõe a esmeralda na meza</small></h4>
+
+<p>Petronio, quem é a dama que se senta ao lado de Marcos Vinicio?</p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>asustado</small></h4>
+
+<p>A rapariga... o refem que mandaste buscar a caza dos Plaucios.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Ah! De que povo é?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Dos Lygios.<span class="pagenum">[35]</span></p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Deve ser bella... Vinicio enche-a de galanteios.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Cobre um tronco velho d'oliveira com um vestido feminino e Vinicio
+achal-o-ha admiravel. A mocidade! Muito magra. Uma cabeça de dormideira n'um pé
+esguio. A ti, estheta divino, que prezas na mulher sobretudo a haste,
+aposto&mdash;por muito difficil que seja julgar das proporções d'uma mulher
+sentada&mdash;aposto que já lhe viste o defeito?...</p>
+
+<h4>NERO, <small>piscando os olhos para vêr</small></h4>
+
+<p>Não tem ancas.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Nenhumas. <small>(malicioso)</small></p>
+
+<h4>SENÉCION</h4>
+
+<p>Não sei o que questionavas, mas sou da opinião de Cezar.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Fazes bem. Eu estava dizendo a Cezar que tu tinhas uma certa inteligencia:
+Cezar affirmava que eras estupido como um burro!
+<small>(gargalhadas)</small><span class="pagenum">[36]</span></p>
+
+<h4>NÉRO, <small>rindo exageradamente, inclina o pollegar para o
+chão</small></h4>
+
+<p>E está dito!</p>
+
+<h4>VATINO</h4>
+
+<p>Seja como fôr, eu creio nos sonhos. Séneca um dia disse-me que tambem
+acreditava... como Plinio.</p>
+
+<h4>CALVIA</h4>
+
+<p>Sim? Pois a noite passada sonhei que era Vestal.</p>
+
+<h4>NERO, <small>rindo, batendo as palmas, o que todos imitam</small></h4>
+
+<p>Bravo!</p>
+
+<h4>CALVIA</h4>
+
+<p>E, então? São todas velhas e feias, as vossas vestaes. Só Rubria tem fórma
+humana. Assim, ao menos, seriamos duas. Ainda que Rubria, na primavera, tem a
+pelle cheia de manchas rôxas.</p>
+
+<h4>SENÉCION</h4>
+
+<p>De que são?</p>
+
+<h4>CALVIA</h4>
+
+<p>Ella é que sabe... e os médicos.</p>
+
+<h4>LUCANO</h4>
+
+<p>É o abrir dos botões. Flôres do amôr!<span class="pagenum">[37]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Calvia, onde deixaste a cabelleira loira, das... vestaes?</p>
+
+<h4>CALVIA</h4>
+
+<p>Tu és um impertinente.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Não era o que me chamavas, uma noite, no lago d'Agripa.</p>
+
+<h4>CALVIA</h4>
+
+<p>És capaz de dizer que te não resistí, satyro? Que não estiveste a meus
+pés?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Para os encher d'anneis. <small>(Calvia olha instintivamente os pés: todos
+riem)</small></p>
+
+<h4>VITELIO, <small>cambaleando</small></h4>
+
+<p>O meu annel. <small>(rí estupidamente)</small></p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>De que diabo rí esta barrica de cêbo?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>O riso é proprio do homem. Vitelio quer provar-nos que não é um porco.<span
+class="pagenum">[38]</span></p>
+
+<h4>VITELIO</h4>
+
+<p>O annel... perdí o meu annel de cavalleiro... O annel que me veio de meu
+pai...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Que era sapateiro.</p>
+
+<p class="dcena">Vitelio, rindo parvamente, procura o annel no colo de
+Calvia.</p>
+
+<h4>CALVIA</h4>
+
+<p>Que queres? O atrevido.</p>
+
+<h4>NIGIDIA</h4>
+
+<p>Elle não perdeu o que procura.</p>
+
+<h4>LUCANO</h4>
+
+<p>E... ainda que o ache não será capaz de o usar.</p>
+
+<p class="dcena">(Os escravos reenchem as taças. Ouvem-se vozes. Vinho.
+Phalerno.)</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>O jantar durará muito, ainda, Marcos?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Inda agora começou. Não estás bem?</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Sim... mas... morre-se com calor... com os perfumes...<span
+class="pagenum">[39]</span></p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Toma o meu leque. Queres um vinho geládo?</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Ó não. Queria sahir.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>É impossivel.</p>
+
+<p class="dcena">Néro, que tem estado a comer e beber bem e a conversar com
+Petronio, levanta-se. A musica emudece. Terpros e Diodoro, correm com as
+citharas. Néro faz gesto negativo.</p>
+
+<h4>SENÉCION</h4>
+
+<p>Pela arte e pela humanidade!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Não estou em voz. Onde está Poppêa?</p>
+
+<h4>UM ESCRAVO</h4>
+
+<p>Doente; não pode vir.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Chamai-a <small>(o escravo sahe)</small></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Faze desta festa um festim, divino Cezar: canta!<span
+class="pagenum">[40]</span></p>
+
+<h4>LUCANO</h4>
+
+<p>Cezar, não sejas implacavel.</p>
+
+<h4>VATINO</h4>
+
+<p>Não sejas implacavel!</p>
+
+<h4>VOZES</h4>
+
+<p>Sê magnanimo, Cezar!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>O meu medico prohibiu me de cantar, hoje.</p>
+
+<h4>SENÉCION</h4>
+
+<p>Poupa a tua divina garganta, Cezar. Que seria de Roma e da Grecia se a tua
+voz se enublasse!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Recitarei o meu hymno novo. Se, mais tarde, puder, cantarei.</p>
+
+<h4>TODOS</h4>
+
+<p>Graças, Cezar.</p>
+
+<p class="dcena">Entra Poppêa, sumptuosa e bella.</p>
+
+<h4>VOZES</h4>
+
+<p>Salve, divina Augusta! Salve, ó Deusa! Salve, divina!<span
+class="pagenum">[41]</span></p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Um momento, bella Poppêa. Vou recitar o meu novo hymno a Vénus. Precizo de
+têl-a diante.</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Ó Marcos, é possivel! Poppêa, a sanguinaria, é esta mulher de uma belleza
+divina?!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Sim, é bella; mas tu és cem vezes mais! Bebe um golo, para que eu ponha os
+meus labios no sitio dos teus! <small>(Offerece-lhe a taça, que Lygia
+recusa)</small></p>
+
+<p class="dcena">Faz-se silencio profundo. Musonio, o poeta, encosta-se a uma
+cadeira e adormece, emquanto Nero recita. Este vê-o.</p>
+
+<h4>NÉRO, <small>recitando</small></h4>
+
+<blockquote style="font-size: 90%;">
+ Embalde pretendi deixar a escravidão,<br>
+ <span style="margin-left: 2em;">Que nos impôe o amôr!</span><br>
+ <span style="margin-left: 2em;">A Deusa luminosa</span><br>
+ Que accende, em Chypre, o facho da paixão<br>
+ Por sobre a humanidade; altiva, desdenhosa<br>
+ Arrancou-me do peito o coração,<br>
+ E foi depôl-o aos pés, da mais formosa<br>
+ Das Romanas, Poppêa, a minha amada!<br>
+ <br>
+ Da Vénus Aphrodite a incandescente lava<br>
+ <span style="margin-left: 2em;">Passou pela minh'alma!</span><br>
+ <span style="margin-left: 2em;">As intimas ternuras,<span
+ class="pagenum">[42]</span></span><br>
+ Só pode soluçar a minha lyra escrava<br>
+ Do seu divino olhar, das calidas alvuras<br>
+ Do seu colo de neve, da bôcca onde os Prazeres<br>
+ Moram em ninho rubro entre desejos...<br>
+ Uma lyra que chora a pedir beijos!<br>
+ <br>
+ Vem, amada Poppêa, e escuta a Deusa:<br>
+ Sê como ella, de quem tens a fórma,<br>
+ <span style="margin-left: 2em;">Caritativa e dôce!</span><br>
+ <span style="margin-left: 2em;">Abre o teu leito</span><br>
+ Aos segrêdos do amôr, ao eterno gozo!<br>
+ Eu sou um Deus! que troca a divindade,<br>
+ Do mundo o senhorio, a magestade,<br>
+ <span style="margin-left: 2em;">Pelo logar do esposo!</span><br>
+</blockquote>
+
+<h4>TODOS</h4>
+
+<p>Ó poeta divino! Salve!</p>
+
+<h4>TODOS, <small>com palmas e gritos</small></h4>
+
+<p>Ó voz divina!</p>
+
+<p>Ó immortal!</p>
+
+<p>Ó Jupiter!</p>
+
+<p>Ó artista divino!</p>
+
+<p>Ó resplandecente!</p>
+
+<p>Salve! Salve! Salve!</p>
+
+<h4>POPPÊA, <small>vem beijar magestosamente a mão de Néro</small></h4>
+
+<p>Obrigada, Cezar! <small>(sahe)</small></p>
+
+<p class="dcena">Mulheres choram, homens fazem gestos exagerados de espanto: o
+éphebo Pitagoras vem joelhar-se ao pé do leito de Néro e fica. Sentam-se de
+novo alguns convivas, outros ficam de pé.<span class="pagenum">[43]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>empunhando a taça</small></h4>
+
+<p>A Cezar olimpico! <small>(Todos bebem)</small></p>
+
+<h4>NÉRO, <small>consultando</small></h4>
+
+<p>Petronio?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Os versos são admiraveis. Lucano deve estar amarello de inveja!
+Querel-os-hia peores, para poder fazer-lhes um elogio que os valesse.</p>
+
+<h4>LUCANO</h4>
+
+<p>Maldito o destino que me fez contemporaneo de Cezar! Elle me eclipsa como a
+luz do sol a luz d'um candieiro!</p>
+
+<h4>NÉRO, <small>a Tigelino, mostrando-lhe Musonio adormecido</small></h4>
+
+<p>Faze-me dormir Musonio, o estoico, por uma vez.</p>
+
+<h4>TIGELINO, <small>deitando veneno n'uma taça</small></h4>
+
+<p>Lentamente?</p>
+
+<h4>NERO</h4>
+
+<p>Não.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Musonio adormeceu emquanto Néro recitava!</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>É um crime?<span class="pagenum">[44]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>De lesa-magestade.</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>E vão acordal-o?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Para dormir outra vez... para sempre!</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Eh! Musonio? eh! filosofo?</p>
+
+<h4>MUSONIO, <small>aparvalhado</small></h4>
+
+<p>Que é? Que queres? Maldito cão!</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Cezar, chama-te. <small>(Musonio, levanta-se)</small></p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>O quê sonhavas?</p>
+
+<h4>MUSONIO</h4>
+
+<p>Que Cerebero me ladrava, raivosamente.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Tu vês, Vatino, é preciso acreditar nos sonhos.<span
+class="pagenum">[45]</span></p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Petronio brindou a Cezar olimpico. Todos beberam; faltas, tu!</p>
+
+<p class="dcena">Musonio, percebe, e hesita em pegar na taça.</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Vamos: a Cezar olimpico.</p>
+
+<p class="dcena">Musonio, olha Cezar, que o fita com a esmeralda; bebe, vacila
+e cahe morto.</p>
+
+<h4>LYGIA, <small>levantando-se</small></h4>
+
+<p>Que horrôr!</p>
+
+<p class="dcena">Dois escravos levam-no</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Tem coragem. Senta-te.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Os gladiadôres? <small>(Entram Croton e Timon)</small> Croton, não te
+esqueças de que és o mestre da minha escola. E tu, Timon, mostra-nos, se podes,
+como se substitue um mestre.</p>
+
+<p class="dcena">Os gladiadôres luctam. O interesse cresce.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Bravo, Croton.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Bello grupo para marmore.<span class="pagenum">[46]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Bravo! Timon.</p>
+
+<h4>CALVIA</h4>
+
+<p>Que bellas fórmas!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Vestal, silencio!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Não é uma bella arte?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>A mais bella, depois do canto e da musica.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Hei-de de experimental-a, tambem.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Sereis invencivel!</p>
+
+<p class="dcena">Croton dominou Timon. Agarra-lhe a garganta e vai
+estrangulal-o.&mdash;Á voz de Néro: abraça-o e ergue-o.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Alto! Bravo, Croton! <small>(applausos)</small> Exercita-te, Timon. Por
+momentos tiveste a victoria. Tens qualidades. Vai e não te esqueças de que me
+deves a vida.<span class="pagenum">[47]</span></p>
+
+<h4>TIMON</h4>
+
+<p>Ella é vossa, divino Cezar!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Dai-lhe de beber. E, a mim; por Bacho, que não hei-de engulir a sêco esta
+aza de pavão de Samos. <small>(deitam-lhe vinho)</small> Que comes, tu,
+Calvia?</p>
+
+<h4>CALVIA</h4>
+
+<p>Una bocado de cabrito de Ambracia.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Estás em familia! Petronio, estás triste? A tua vista tem fome de graça e de
+belleza. Tigelino, mostra-nos a graça assyria.</p>
+
+<p class="dcena">Tigelino sobe. Ouve-se o côro bachico. Dançarinas assyrias,
+semi-núas, de cabeças ornadas de flôres, envoltas n'um véu ligeiro, braços e
+tornezellos com braceletes d'oiro, entram dançando com o côro. Os convivas
+comem e bebem, conversando em segrêdo. Côro e danças esmorecem lentamente. Os
+escravos dão vinho ás bailadeiras. Algumas sentam-se. Todos estão bebedos,
+excepto Lygia e Actêa. Durante as danças as luzes das salas esmorecem.</p>
+
+<h4>SENÉCION, <small>de pé</small></h4>
+
+<p>Eu creio nos Deuzes. Dizem que Roma ha-de morrer! Ha quem diga que ella
+morre já! A falta<span class="pagenum">[48]</span> é dos rapazes que não tem fé
+e sem fé não ha virtude.</p>
+
+<h4>VATINO</h4>
+
+<p>Quem é que diz de Roma vai morrer?</p>
+
+<h4>SENÉCION</h4>
+
+<p>Os filosofos.</p>
+
+<h4>VITELIO</h4>
+
+<p>Má raça, essa, dos filosofos.</p>
+
+<h4>LUCANO, <small>com Nigidia no colo</small></h4>
+
+<p>Não ames nunca um filosofo, Nigidia! Ama os poetas. A filosofia é uma adega
+cheia de ôdres... os filosofos. Quanto mais ôccos, maiores são. Disse-o não sei
+se Epicteto.</p>
+
+<h4>NIGIDIA</h4>
+
+<p>Nunca disse isso, Epicteto.</p>
+
+<h4>LUCANO</h4>
+
+<p>Não? Pois podia dizel-o; porque disse tolices muito maiores. Então, digo-o
+eu.</p>
+
+<h4>SENÉCION</h4>
+
+<p>Não, Roma não morre! Teriamos de morrer todos! Nunca mais beber vinho!
+<small>(chora sobre o colo de uma bachante.)</small><span
+class="pagenum">[49]</span></p>
+
+<h4>BACHANTE</h4>
+
+<p>Não chores, imbecil... que te fazes feio. Dorme antes. <small>(empurra-o
+levemente. Elle cahe debaixo d'uma meza e fica.)</small></p>
+
+<h4>LUCANO, <small>enrolando-se na hera d'uma amphora</small></h4>
+
+<p>Eh! lá, Bachantes, aqui está um Fauno!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Pitágoras, vem cá! <small>(a Petronio)</small> conheces alguma coisa mais
+bella? <small>(beija as mãos do éphebo)</small> Hei-de cazar comtigo! Mãos tão
+bellas, nunca vi. Vi... já... quando? <small>(lugubre)</small> Eram de... minha
+mãe! <small>(pausa e espanto)</small> Eram de minha mãe... Sim, d'Agrippina!
+<small>(baixo)</small> Dizem que pelas noites de luar pelas aguas da Baïa...
+vagueia como que á procura... não se sabe de quê! Se encontra uma barca
+desapparece; mas o pescadôr que a viu, morre!</p>
+
+<h4>VATINO</h4>
+
+<p>Nos Deuses não acredito... mas nos espectros... sim. Nos espectros!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>E, todavia celebrei, grandiosamente, aos Deuses tumulares! Não a quero
+vêr... Cinco annos!<span class="pagenum">[50]</span> cinco annos! Matei a, mas
+fui forçado a isso! Matava-me ella, se não o faço! Se eu tivesse morrido não me
+tinheis ouvido, hoje!</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Graças, Cezar, por nós, pela cidade, pelo mundo!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Não a quero vêr! <small>(gritando)</small> Vinho! e que esses timbales
+rujam!</p>
+
+<h4>LUCANO</h4>
+
+<p>Eu sou um Fauno! É é é... cho... ó ó ó. Os faunos amam as florestas! Nos
+jardins de Néro ha bosques profundos! Nigidia, levanta-te... acorda... vamos
+para o bosque!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Tem razão Lucano; abraza-se, aqui! Vamos para os jardins! Agora, sim, agora,
+vou cantar. Trazei vinhos! Terpnos, Diodoro, as citharas.
+<small>(obedecem)</small> Quero dançar tambem. E archotes... quero luz... muita
+luz... tudo bem claro, que a não quero vêr!</p>
+
+<h4>CALVIA</h4>
+
+<p>Quem?<span class="pagenum">[51]</span></p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>A mulher das mãos brancas... como as de Pitágoras! <small>(reparando em
+Actêa que acabou de fallar com Ursus o gigante que fica atraz de Marcos e
+Lygia)</small> Ó bella e generosa Actêa! dá-me o teu braço. Vou cantar, para
+ti, uma canção á Lua! Á casta Lua, serena como tu, velada e meiga!</p>
+
+<h4>ACTÊA, <small>acceitando-lhe o braço</small></h4>
+
+<p>Senhôr, sou a vossa escrava.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Não; és uma estrella do meu céu! Um comêta que só apparece, de longe em
+longe! <small>(sobem todos)</small></p>
+
+<h4>MARCOS, <small>agarrando brutalmente Lygia</small></h4>
+
+<p>Dá-me os teus labios! Hoje ou amanhã... que importa? Para que esperar? És
+minha! Cezar roubou-te para mim!</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Marcos...</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Para mim! Ha quanto te quero! Um dia em caza dos Plaucios, vi-te no banho...
+núa! Não o sabias? Como és bella! Sahias da agua como a<span
+class="pagenum">[52]</span> Vénus das espumas... Um sonho! Pedi-te a Cezar que
+te mandou buscar... Amanhã vaes para minha caza... Dá-me os teus labios!
+<small>(força para beijal-a)</small> Dá-mos, já, agora.</p>
+
+<h4>LYGIA, <small>recuando aflicta</small></h4>
+
+<p>Marcos, não te conheço... tem piedade!... não, nunca...!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Piedade? não; amôr! És minha, quero beijar-te... quero a tua bôcca! Dá-m'a!
+<small>(agarrando-lhe brutalmente a cabeça)</small> Ó dá-m'a, por Jupiter!
+ou...</p>
+
+<p class="dcena">O escravo Ursus agarra-o pela cinta e atira-o sobre o
+leito.</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Es tu? <small>(atira-se-lhe ao colo e fica suspensa)</small></p>
+
+<h4>URSUS</h4>
+
+<p>Não tenha mêdo... sou eu! <small>(leva-a a colo)</small></p>
+
+<h4>MARCOS, <small>levantando-se tonto</small></h4>
+
+<p>Lygia! Lygia! <small>(vai a querer seguil-a, e cambaleia)</small> Por
+Hercules! <small>(ampara-se a uma assyria que bebe)</small> Que é? que
+foi?<span class="pagenum">[53]</span></p>
+
+<h4>ASSYRIA, <small>dando-lhe a taça</small></h4>
+
+<p>Um sonho! Bebe!</p>
+
+<p class="dcena">Marcos bebe e cahe sobre o leito.</p>
+
+<h4>URSUS</h4>
+
+<p>Eis os senhores do mundo! <small>(sahe, levando Lygia)</small>.</p>
+
+<p class="dcena">No jardim ouve-se a musica. As luzes esmorecem. Um ou outro
+bebedo levanta a cabeça aos sons da orchestra e torna a deixal-a cahir. As
+rosas sahem sempre. O panno desce, lento.</p>
+
+<p style="text-align:center;">FINAL DO 1.º ACTO<span
+class="pagenum">[54]</span></p>
+
+<p><span class="pagenum">[55]</span></p>
+<hr style="width: 65%;">
+
+<h2><a name="ACTO_SEGUNDO" id="ACTO_SEGUNDO"></a>ACTO SEGUNDO</h2>
+
+<h3>QUADRO TERCEIRO</h3>
+
+<p class="dcena">Caza de Vinicio. O tablium ornado com flôres. Perfumadôres no
+chão.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Estavas bebedo, hontem. Não gostei de te vêr. Andaste como um carroceiro dos
+montes Albanos. Não sejas nunca tão sôfrego. Lembra-te que um bom vinho deve
+ser bebido lentamente. Porque escravo a mandaste buscar?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Por Altacino.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>É de confiança?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Da maior. <small>(passeia agitadíssimo)</small> Que demora!<span
+class="pagenum">[56]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>E, faze por lhe alcançares as bôas graças. Pôe-na de bom humôr, para lhe
+destruires o máu effeito das brutalidades de hontem.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Que demora!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Sê generoso, que ella merece-o. É bella! Sê magnanimo!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Deviam, cá estar, ha meia hora.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>De certo. Queres tu, para matar o tempo, que te falle das prophecias de
+Appolonio de Tyana, ou das maximas de Aristóteles, meu mestre, o estheta
+maximo?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não... Deviam já ter chegado.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Está dito... Deviam já ter chegado.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Malditos escravos. Teem as pernas ankilosadas<span
+class="pagenum">[57]</span> por falta de exercicio. Terei de os fazer correr
+diante das varas.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Elles não são o amante que espera. Tu não tens paciencia, nem serenidade. É
+precizo ser distincto, sempre! E, depois, não se traz assim uma princeza, uma
+filha do rei da Lygia.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Tu zombas?... se fôsse comtigo!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Agradeceria aos Deuses o fazer-me prelibar, mais amplamente, uma posse
+divina.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>A demora não é natural... Eu vou vêr...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Não percas a tua bella linha esthetica. Espera; não sejas vulgar.
+<small>(ouve-se ruido)</small> Tanto mais, que me parece que chegam. <small>(o
+ruido augmenta. Á porta apparecem quatro escravos. Dois d'elles com os rostos
+ensanguentados)</small></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Onde está Lygia?<span class="pagenum">[58]</span></p>
+
+<h4>OS ESCRAVOS</h4>
+
+<p>Ai, Senhôr!; ai, Senhôr!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Onde está Lygia? <small>(avança furioso)</small></p>
+
+<h4>OS ESCRAVOS</h4>
+
+<p>Vê o sangue, Senhor! Vê o sangue!</p>
+
+<h4>UM ESCRAVO</h4>
+
+<p>Defendêmo-la, até á ultima.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Que é d'ella?</p>
+
+<h4>UM ESCRAVO</h4>
+
+<p>Raptaram-na!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Ah! miseravel. <small>(atira-lhe uma taça á cabeça)</small> Gulon?</p>
+
+<h4>GULON, <small>apparece</small></h4>
+
+<p>Senhôr.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Cem varadas a cada um.</p>
+
+<h4>OS ESCRAVOS</h4>
+
+<p>Senhôr, piedade!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Até a morte! <small>(os escravos sahem, em grita, adiante de
+Gulon)</small><span class="pagenum">[59]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Está doido! Vamos ter carnificina. Repugnam-me os talhos. Vale.
+<small>(sahe)</small></p>
+
+<h4>MARCOS, <small>postrado, senta-se</small></h4>
+
+<p>Mas quem poderia roubar-ma? Quem? Plaucio? Ai d'elle, se o foi! Ai
+d'elle!... Pedirei a Cezar a sua morte!... E, se foi Cezar? Pelas furias! se
+foi Néro n'uma das suas nocturnas «pescas de Perolas,» como elle lhes chama?!
+E, quem podia ser senão, elle, Néro? Quem ousaria oppôr-se á sua vontade? Viu-a
+hontem, apeteceu-lhe... roubou-ma! Cezar diverte-se comigo! Por Écate, por
+Érebo, por vós ó Deuses do lar, <small>(toma terra n'um vaso e espalha-a pelo o
+chão)</small> juro que quem quer que foi, escravo ou imperadôr, mendigo ou
+Cezar, mato o! <small>(ao introductor, que apparece)</small> O meu manto.</p>
+
+<h4>O INTRODUCTOR</h4>
+
+<p>Actêa deseja fallar-vos.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Actêa? Em bôa hora. Venha. <small>(A Actêa, que entra, agarrando-lhes as
+mãos)</small> Onde está Lygia?<span class="pagenum">[60]</span></p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Vinha perguntar-t'o.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não sei; roubaram-ma no caminho. <small>(junto do rosto d'Actêa, com os
+dentes cerrados)</small> Actêa, se tens amôr á vida, se não queres ser causa de
+desgraças, cujo alcance nem podes conhecer, diz-me a verdade: foi Cezar quem
+m'a robou?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Cezar não sahiu hontem do palacio.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Pela memoria de tua mãi, por todos os Deuses, Lygia não está no Palatino?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Pela memoria de minha mãi, Lygia não está no Palatino, nem foi Cezar quem
+t'a robou.</p>
+
+<h4>MARCOS, <small>cahindo na cadeira, com a cabeça nos punhos</small></h4>
+
+<p>Então foram os Plaucios! Ai d'elles!</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Aulo Plaucio procurou-me, hoje, a saber de Lygia.<span
+class="pagenum">[61]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Hypocrisia! Se não soubesse d'ella ter-me-hia procurado a mim.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Tambem procurou.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>A mim?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>De manhã.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não o vi, nem me fallou.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Os teus servos contaram-lhe o acontecido. <small>(Pausa)</small> Não,
+Marcos, o que aconteceu, aconteceu por vontade de Lygia.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Tu sabias que ella queria fugir?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Sabia que ella não consentiria em ser tua concubina!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>E... tu? que tens sido toda a tua vida?<span class="pagenum">[62]</span></p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Eu?... És pouco generoso! Eu era uma escrava!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Seja como fôr. Cezar deu-ma! Descobril-a-hei nem que seja debaixo da terra.
+Farei d'ella o que eu quizer! A minha concubina... porque não? A minha
+concubina! Nem que seja precizo chicoteal-a, de dia e de noite! Dal-a-hei, ao
+ultimo dos meus escravos! Mandal-a-hei atrelar a um moinho da costa d'Africa.
+Procural-a-hei, eu. Procural-a-ha Cezar, inda que seja precizo empregar todas
+as legiões.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Tu deliras...! Tem cautella em não metter Cezar, na busca, porque te
+arriscas a perdel-a para sempre, no dia em que elle a achar.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Como?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Ouve, Marcos. Hontem, antes de jantar levei Lygia, para a distrahir, a
+passeiar nos jardins. Encontrámos Poppêa e a pequena Augusta, sua filha e filha
+querida de Néro, nos braços da ama negra. Á tarde a creança cahiu doente e
+Lilith,<span class="pagenum">[63]</span> a ama, diz que foi a estrangeira que a
+enfeitiçou! Se a creança melhora, tudo esquecerá: se peóra Poppêa será a
+primeira a accusar Lygia de feiticeria e, encontrada, não terá salvação!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Talvez que ella enfeitiçasse a creança... e a mim tambem!</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>A negra diz que a pequenita se pôz a chorar logo que passou por nós. É
+certo, ouvi. Mera coincidencia. Procura-a; mas antes das melhoras da creança
+não falles de Lygia. Seus olhos choraram, bastante, de mais... por ti!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Por mim? Disse-t'o ella?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Eu o vi. As suas lagrimas eram sinceras e a sua dôr sentida. Como velei por
+ella no palacio de Cezar, quiz valer-lhe, se pudesse, ainda, junto de ti.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Como?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Invocando a tua generosidade para ella.<span class="pagenum">[64]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Zombas de mim: se não sei onde pára...</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Ainda o podes saber: deixa-a em paz.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não posso.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Desposa-a.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Nunca!</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Não é uma escrava, é um refem de guerra: os refens são sagrados.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Concorreste, já vejo, para o rapto?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Talvez.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Contra, Cezar.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Não; contra ti.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>E, dás-lhe razão?</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Defendo-a.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Tu ama-la?<span class="pagenum">[65]</span></p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Quanto ella merece.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Porque te não paga, como a mim, o amôr com o desprêzo.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Homem cégo, ella amava-te.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>A mim? Que amôr é esse que prefere a vida errante, a indigencia do dia
+seguinte e talvez uma morte miseravel, a uma vida de riquezas e de alegria? Que
+amôr é esse, que tem mêdo do prazer e sêde dos sofrimentos? É que ella me
+odeia, do coração!</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Como imaginaste captival-a? Em vez de te inclinares diante dos seus pais
+adoptivos, os Plaucios, e de lh'a pedires para esposa, por surpreza, roubaste
+lh'a. Era a filha d'um rei, quizeste fazer d'ella a tua concubina! Feriste-lhe
+os olhos inocentes com o espectaculo da orgia, sem comprehenderes que aquella
+creança candida preferiria a morte á deshonra! Sabes tu quaes são as suas
+crenças? sabes que Deus adora? e se esse Deus não é melhor<span
+class="pagenum">[66]</span> do que essa Vénus impudíca e essa Isis que os
+Romanos veneram, no seu impudôr? Que te importou tudo isto? A pobre creança,
+quando fallava de ti, córava: amava-te! Como lhe pagaste a aspiração pura do
+primeiro amôr? Enchendo-a de espanto, tratando-a como a uma escrava,
+insultando-a!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Eu não a insultei!</p>
+
+<h4>ACTÊA <small>ironica</small></h4>
+
+<p>Generoso senhôr... vilmente! Venceste os Parthas, tu? Que é agora um coração
+de mulher para um famoso guerreiro? Enganaste-te: é mais facil vencer os
+barbaros. Amava-te; é possivel que te despreze, agora!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Que me importa? Amo-a eu; quero-a, hei-de tel-a.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Se ella te não amar, essa satisfação deve ser bem mesquinha. O amôr de dois
+é um misterio divino: o de um só: uma torpeza! Nobre consul, adeus!<span
+class="pagenum">[67]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>entrando: a Actêa que vae a sahir</small></h4>
+
+<p>Salve, divina Actêa.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Salve, galante Petronio.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Dou-vos graças pela bondade com que tratastes Lygia.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Fiz o meu dever. Ella tem a candura d'uma virgem e a graça das pombas...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Que vôam.</p>
+
+<h4>ACTÊA</h4>
+
+<p>Officio de quem tem azas. Adeus. <small>(sahe)</small></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Sabes alguma coisa de Lygia? Actêa a que veio?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Saber d'ella... Não sahiu da cidade. Os meus escravos vigiam as portas. Ella
+ou o tal gigante, hão-de apparecer.<span class="pagenum">[68]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Tens sorte em que não seja Cezar o raptadôr. Trago-te uma boa nova.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Qual?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Eunice, a minha escrava,&mdash;desde hontem que reparo que é verdadeiramente
+bella!&mdash;conhece um homem capaz de a descobrir.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Quem é?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Um tal Chilon, médico, sabio, feiticeiro, ou o que é, que lê o destino e
+prediz o futuro. Mandei-o chamar e trago-t'o. Queres fallar-lhe?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Que venha.</p>
+
+<p class="dcena">Petronio faz signal para dentro. Chilon entra. É um corcovado,
+tunica no fio, esburacada, barba e cabelleira intonsas. Sandalias velhas,
+etc.</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Salve, senhores nobilissimos!<span class="pagenum">[69]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Aproxima-te. Sabes bem do que queres encarregar-te?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Pelo o que em toda a Roma se falla, não é difficil de adivinhar. Roubaram
+aos teus escravos, nobre senhôr, Lygia, ou Calina, filha adoptiva dos Plaucios.
+Encarrego me de t'a descobrir, na cidade ou fóra, onde estiver.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Que meios tens para isso?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Os meios tens, tu, senhôr. Eu só possúo o genio.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>É homem para a descobrir.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Previno-te de que se me enganas para me apanhares dinheiro, mando-te
+desfazer com varadas.</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Eu sou um pobre filosofo, senhôr, e um filosofo<span
+class="pagenum">[70]</span> não pode deixar de pensar na recompensa, sobretudo
+quando ella pode sêr da especie que acabais de me fazer entrevêr, tão
+magnanimamente!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Então és filosofo?; mas Eunice disse-me que eras médico ou adivinho. D'onde
+a conheces?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Veio consultar-me. A minha fama chegou até ella.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Sobre quê?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Materia d'amôr. Queria curar-se d'um amôr, não partilhado.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>E, curaste-a?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Fiz mais. Dei-lhe um amuleto que faz nascer o amôr reciproco: um fio do
+cinto da Vénus de Chypre.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>De que escola és tu, divino sabio?<span class="pagenum">[71]</span></p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Senhôr, pelo meu manto em escumadeira, sou um cynico: um estoico, pela
+paciencia com que soffro a minha miseria: e, porque, como não tenho liteira,
+tenho de andar a pé, de taberna em taberna, a dar lições aos que me pagam o
+vinho, sou um peripathetico.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Gostas de vinho?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Heraclito disse que o vinho era fôgo e que o fôgo era uma divindade!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Deante da qual o teu nariz se illumina.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Já te tens empregado em cargos semelhantes?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Hoje, senhôr, a virtude e a sabedoria teem tão pouco valôr, que um pobre
+filosofo se vê forçado a lançar mão de todos os meios de existencia!<span
+class="pagenum">[72]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Quaes são os teus?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Saber tudo o que se passa e offerecer os meus serviços a quem preciza
+d'elles.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>E pagas-te?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Conforme os meus meritos. Que remedio!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não devem ser grandes porque te não deram ainda para um manto.</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Sou modesto, senhôr. O que é pequeno não é o meu merito é a gratidão dos
+homens. Quando se esconde um escravo de preço quem o descobre? Quem indica os
+culpados dos pasquins em <em>louvôr</em> de Poppêa, a divina? Quem descobre nas
+livrarias os versos contra Cezar? Quem leva as cartas que se não podem confiar
+aos escravos? Quem faz fallar os barbeiros, os alfaiates, os taberneiros e
+capta a confiança dos escravos a saber<span class="pagenum">[73]</span> tudo o
+que se passa n'uma casa, do atrio ao jardim? Quem conhece todas as ruas,
+praças, bêcos, alfurjas, da cidade? Quem sabe o que se diz, nas thermas, no
+circo...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Basta, por todos os Deuses, illustre sabio, ja sabemos quem és.</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>E quanto valho.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Bem. Tens necessidade de indicações?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Eu? Tenho necessidade de armas.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Quaes?</p>
+
+<h4>CHILON, <small>fazendo o gesto de dinheiro</small></h4>
+
+<p>Os tempos vão tão máus, para os filosofos...</p>
+
+<h4>MARCOS, <small>atirando-lhe a bolsa</small></h4>
+
+<p>Ahi tens.</p>
+
+<h4>CHILON, <small>apanhando-a</small></h4>
+
+<p>Começamos a entender-nos. Nobre senhor, ouvide: Lygia não foi roubada por
+Aulo, nem<span class="pagenum">[74]</span> está no Palatino. O rapto foi feito
+por Ursus, o gigante seu escravo, e pelos christãos.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Ouve, Marcos.</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Lygia adora a mesma divindade que Pomponia, a mais virtuosa das Romanas; é
+Christã...</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Como o sabes?</p>
+
+<h4>CHILON, <small>com emphase</small></h4>
+
+<p>Sou christão!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Tu?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Desde hontem, senhôr, desde hontem.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Reflecte Chilon. Tu não és um imbecil. Quererás presuadir-nos de que
+Pomponia e Lygia pertencem á seita dos inimigos do genero humano, dos
+envenenadôres, das gentes perdidas nos ultimos vicios?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>É christã, senhôr, tende a certeza absoluta.<span
+class="pagenum">[75]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>O que quer dizer que Pomponia e Lygia envenenam as fontes, immolam as
+creanças encontradas nas ruas e se entregam ao deboche? Tu que viveste em caza
+de Aulo vês como isto é uma calumnia ou uma tolice! Ou então os christãos não
+são o que se diz.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Seja como fôr. Foi então esse Ursus quem a roubou?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Com os christãos.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>E, encontral-a-has? Saberás onde está?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Esta noite, ainda, trarei noticias.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Duplicarei a offerta se a achares. Gulon? <small>(para dentro)</small></p>
+
+<h4>GULON</h4>
+
+<p>Meu senhôr.<span class="pagenum">[76]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Dá um manto capaz a esse... filosofo.</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Nobre consul, sois duplamente generoso: cobrís d'uma vez, com a mesma capa:
+a Sciencia e a Virtude! Nobre Petronio, vale. <small>(Sahe)</small></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Adeus... <em>collega</em>. Não me desagrada o tal filosofo. Descobre Lygia,
+verás. Mas parece-me bom mandares desinfectar o atrio... A respeito de perfumes
+a filosofia está muito atrazada... só conhece... os naturaes. Fica-te com os
+Deuses... Sabes que amanhã é a festa do Lago?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Sei.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Dizem que Vatino inventou maravilhas. Não podes faltar. Cezar poderia notar
+a tua falta. E... bôas novas, até lá.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Gulon?</p>
+
+<h4>GULON</h4>
+
+<p>Meu Senhôr. O jantar?<span class="pagenum">[77]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>O meu manto e o estilete. <small>(paseia agitado)</small></p>
+
+<h4>GULON</h4>
+
+<p>Eil-os. <small>(Veste-lhe o manto)</small> Ides só?</p>
+
+<h4>MARCOS, <small>mettendo o estilete no cinto</small></h4>
+
+<p>Só. <small>(Sahe)</small></p>
+
+<p style="text-align:center;">O PANNO DESCE<span class="pagenum">[78]</span></p>
+
+<p><span class="pagenum">[79]</span></p>
+<hr style="width: 65%;">
+
+<h3>QUADRO QUARTO</h3>
+
+<p class="dcena">Salão no palacio de Néro. Ao fundo um terraço d'onde se vê
+Roma. Mezas, cadeiras. Anoitece, gradualmente, durante o acto.</p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>a Marcos que vai a passar ao fundo</small></h4>
+
+<p>Dou graças aos Deuses, nobre consul, por te saber ainda vivo.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Ah! Petronio.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Nem me vias. D'onde te desenterraste? Em tua caza, em parte alguma se sabia
+onde estavas. Alguma Deusa te raptou para a sua morada?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Talvez.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Mas tu estás mal, meu sobrinho, muito mal. É evidente que Vénus te perturbou
+o espirito e te faz perder a razão! Por Pollux, se a chama que te consome te
+não reduz a cinzas, tu metamorfoseias-te<span class="pagenum">[80]</span>
+n'aquella esphinge do Egypto, que dizem que perdida d'amôr pela Lua, se tornou
+indifferente ao dia, de modo a só esperar a noite, para poder com os olhos de
+pedra, namorar a amante!</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Oxalá me transformasse em esphinge!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>... Se não sou eu, na ultima vez que nos vimos, na festa do lago, ou tinhas
+de transformar-te em esfinge... ou eras um homem perdido.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Como assim?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Quem era a mulher que, no bosque de Diana, te queria levar para entre as
+sombras?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>A mulher mascarada?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Sim.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não sube, nem quiz.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Era Poppêa.<span class="pagenum">[81]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Heim?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Chamei-te a tempo. Ella fugiu. Se n'esse momento lhe negas o amôr, que era
+feito de ti?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Tel-o-hia recuzado.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Evitei essa asneira a tempo; mas a hesitação que mostraste, valeu-te o seu
+odio. As mulheres não perdôam, nunca, essas coisas... e então Poppêa...!
+Acautela-te.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Desprezo-a.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>A pequena Augusta morreu...</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Que me importa?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>A morte atribue-se aos feitiços de Lygia.<span
+class="pagenum">[82]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Imbecís!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>E, a proposito... Lygia?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Tu não calculas, Petronio, o que me tem acontecido.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Mas diz. Tens-me causado sustos. Sabes que te quero...</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>N'essa noite... a do Lago, quando cheguei a caza esperava-me Chilon.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>O filosofo?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>O tal. Sabia de Lygia, vinha propôr-me o raptal-a. Concordei. Fomos, eu,
+elle e Croton, o gladiadôr, embuçados, ao Ostrianum, o velho cemiterio, á
+sahida da porta Capuana. Alli se reunem escondidamente os Christãos e lá ouvi
+Paulo, o apostolo, pela primeira vez. Lygia estava junto d'elle, envolta n'um
+manto escuro, embebida, a<span class="pagenum">[83]</span> ouvil-o, n'uma
+allucinação de todo o seu sêr, arrebatada, divina! Se tivesses visto a sua
+figura d'uma belleza ideal...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Adiante.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Todo o meu amôr renasceu com a furia d'um toiro das Hespanhas. Jurei tel-a.
+Alli, era perigoso: os christãos eram alguns centos. Seguimo-la até a caza, á
+sahida. Uma velha caza, no bairro do Transtiberino. Entrou n'um pateo com o
+velho apostolo e esse Ursus, o escravo gigante, que a não larga, nunca.
+Escondemo-nos n'um corredôr á espera de occasião propicia, eu e Croton, porque
+o filosofo não sendo capaz de entrar... ficou de vigia, na rua. Ursus veio
+buscar agua á cisterna do pateo. Era occasião: virei-me para Croton e
+disse-lhe: matta. O gladiadôr atirou-se ao escravo como um tigre; eu corri pelo
+corredôr, empurrei a porta entreaberta, agarrei Lygia ao collo e corri para
+fóra. Desmaiára.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Bello grupo dariam para um rapto.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Ao chegar ao pateo eis o que eu vi. Ursus dominava<span
+class="pagenum">[84]</span> Croton vergado sobre um joelho, apertando-lhe, com
+uma das mãos, o pescoço. O gladiadôr tinha um estertôr na garganta, os olhos
+sahiam-lhe das orbitas! Ao vêr-me, Ursus, applicou sobre o peito de Croton um
+murro tal que este rolou pelo chão, de bôcca aberta, jorrando sangue. Estava
+morto!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Por Hercules, que esse homem merece uma estatua.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>De chofre, voltou-se para mim, agarrou-me este braço e partiu-m'o.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Depois?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não me lembra senão d'uma voz, feita de todos os sons das citharas, dizer:
+Ursus, não mates! Quando acordei estava n'uma cama e vigiava-me uma pobre
+viuva, um filho e... ella!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>E foi ella quem te tractou?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Tratou-me um medico; mas salvou-me, ella! Que cuidados, que dedicação, dias
+e noites! Contando<span class="pagenum">[85]</span> mesmo as horas dolorosas da
+doença, passei, alli, os melhores dias da minha vida. O apostolo, contava toda
+a vida e morte de Cristo, seus milagres e douctrina. Vi os mais bellos exemplos
+de caridade, de amôr e de perdão! Se tu o ouvisses!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Não me faltava mais nada! O que faz o amôr! Começavas a achar essa religião
+adoravel, porque era a de Lygia.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Talvez.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>É assim. O amôr transforma as pessôas completamente, opiniões e gostos. Como
+a mim me está acontecendo. D'antes só gostava do perfume da verbena;
+lembras-te? Hoje, como a bella Eunice prefere o das violetas, é d'este que eu
+gosto mais.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Eunice?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Sim, Eunice. Ah! tu não sabias ainda... Tenho que te agradecer aquella
+recuza... É uma maravilha de esthetica, a loira Eunice! Uma obra de
+Praxiteles...!<span class="pagenum">[86]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>E a tua Chrisotémis?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Mandei-lhe umas sandalias bordadas a perolas... É como quem diz: vai
+passeiar. É o meu processo; ellas já sabem. Chrisotémis, francamente, era
+contemporanea da guerra de Troia. E, afinal, melhoraste, sahiste... e o que é
+feito da tua Lygia?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Fugiu-me.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Outra vez?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>No dia em que me levantei, ella sahiu.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Tinha mêdo de ti?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Tinha mêdo de si, propria.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>É extraordinario!<span class="pagenum">[87]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Dizes bem. Ella não é como as outras mulheres!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Ah! não? Então não perdes nada com a abstinencia.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não podemos entender-nos.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Decerto, não. Que o Hades confunda esses christãos que te fazem perder o
+senso commum.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Tu não conheces a sua doutrina.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Enganas-te, conheço. Já li as taes cartas de Paulo de Tarso. Babozeiras. É
+uma doutrina anti-humana: porque a felicidade só vem da belleza, do amôr, e da
+força! A isto, chama elle, vaidades! E que theorias! Retribuir o mal com o
+bem... Que justiça! O que devemos ao bem? Se a sanção é a mesma para o bem e
+para o mal, porque seriam os homens bons?<span class="pagenum">[88]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Segundo elles a sanção começa na vida futura, eterna.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Isso são coisas a verificar... depois da morte.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>A vida para elles começa com a morte.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>É natural. É como se se dissesse: o dia começa com a noite! Vais raptar
+Lygia outra vez?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não. Prometti-o.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Tens tenção de adoptar a doutrina christã?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Querel-o-hia; mas toda a minha natureza se oppõe.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Emfim, és capaz de esquecer Lygia?<span class="pagenum">[89]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Nunca!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Então vai... viajar. <small>(entram escravos com amphoras e taças que
+collocam nas mezas do 1.º salão e nas da varanda)</small> Vem Cezar. O que
+vieste fazer?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Cezar mandou-me convidar para a leitura da Tróiada.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Tambem? E... se elle te perguntar por Lygia?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Não sei...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Dize-lhe... que a tens guardada... que esta ausencia... foi a lua de mel.</p>
+
+<p class="dcena">Entra Cezar, Poppêa, Tigelino, Vitelio, Senecion, Vatino etc.
+escravos. Poppêa sobe para o terraço, com outras damas, onde bebem. Os éphebos
+galanteiam, etc.</p>
+
+<h4>NÉRO, <small>aborrecidissimo</small></h4>
+
+<p>Salve, Petronio. Inda bem que chegaste. Creio que vou morrer de tédio, de
+aborrecimento! A minha viagem á Grecia, adiada!<span
+class="pagenum">[90]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Porquê?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Vesta, a propria Deusa, me avisou, no templo. Venho agora de lá. Tão ao
+ouvido me disse: addia a viagem, que me assustou.</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Ficámos todos aterrados. A vestal Rubria desmaiou.</p>
+
+<h4>NERO</h4>
+
+<p>Que linda garganta que tem Rubria! Que branca! <small>(bebe)</small> Eu
+precizo distrahir-me. Vinheis ouvir o poema! Não posso lêr! Nem cantar! Nem
+tenho paciencia. Não posso ficar em Roma, irei para Ancio. Abafo, n'estes
+bairros apertados, no meio de cazas que se desmuronam, de ruellas immundas. Um
+ar empestado chega até aos jardins, chega até aqui! Porque não houve, nunca, um
+tremôr de terra que destruisse Roma? Se um Deus, na sua colera, a nivelasse com
+a terra, eu ensinaria como se edificava uma cidade para capital do mundo!</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Não dizes, tu, Cezar: se um Deus destruisse a cidade?<span
+class="pagenum">[91]</span></p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Sim e então?</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Não és, tu, um Deus?</p>
+
+<h4>SENECION</h4>
+
+<p>Podes fazel-o.</p>
+
+<h4>VATINO</h4>
+
+<p>Fal-o.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>...Não lerei o meu poema! O meu incendio de Troia flameja timidamente!
+Julgava que egualaria Homero e tinha ficado contente.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Não o egualaste?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Não...! Um esculptor quando por esculpir a estatua de um Deus, escolhe um
+modêlo. Nunca vi arder uma cidade, não o posso pintar.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Mas tens genio para tanto se o quizeres fazer, Cezar. Aposto que os teus
+versos...<span class="pagenum">[92]</span></p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Não, não. Responde-me a uma questão, Petronio. Tens pena que tenha ardido
+Troia?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Pena de quê? Por Marte, pelo contrario. Tróia não teria ardido sem o fôgo
+dado por Prometheu aos homens e sem os gregos terem declarado a guerra a
+Priamo. D'ahi veio que Eschylo escreveu o seu Prometheo e Homero a Illiada.
+Quero mais a estes dois poemas do que á tal Troia, provavelmente uma villoria
+de cazas de madeira, velhas e sujas!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Eis o que é fallar com tino. Á poesia e á arte tem-se obrigação de
+sacrificar, tudo. Felizes os Gregos que deram a Homero o assumpto do seu poêma!
+Feliz Priamo que viu as ruinas da sua patria!... Eu nunca vi uma cidade em
+chamas!</p>
+
+<p class="dcena">Silencio geral de receio.</p>
+
+<h4>VITELIO, <small>avinhado</small></h4>
+
+<p>Nem eu!; mas se fosse Cezar e a quizesse vêr, via-a!</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Era facil.<span class="pagenum">[93]</span></p>
+
+<h4>PITAGORAS</h4>
+
+<p>Poppêa e as damas, Cezar, pedem-te para vires cantar.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Aproxima-se a noite, o sol agoniza, a tarde é bella, o ar cheio de perfumes
+dos jardins. Á natureza só falta um cantico...</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>O teu, Cezar!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>É cêdo ainda. <small>(olha para Tigelino, misteriosamente)</small> É cêdo,
+ainda.</p>
+
+<h4>VITELIO</h4>
+
+<p>Eu adoro a musica.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Das taças.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Dize-me, Petronio, que pensas tu da musica?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>A tua, sobretudo, quando a oiço, faz-me sentir um mundo de prazeres novos. A
+musica é um mar, onde á onda succede a onda, á agua, agua sem<span
+class="pagenum">[94]</span> fim, até... ao infinito...! e é sempre impossivel
+vêr a outra margem.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>É assim que eu penso da musica. Quando canto e tóco, eu, Cezar, senhôr do
+Mundo, descubro reinos desconhecidos, mares virgens, mundos nunca sonhados!
+Vejo os Deuses! subo ao Olimpo! Um sôpro estranho passa, a esphera vibra em
+roda de mim e dir-te-hei <small>(leva Petronio, pelo braço, para o
+lado)</small> que eu, Cezar e Deus <small>(muito baixo)</small> me sinto tão
+pequeno como um grão d'areia!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Só os grandes artistas se sentem pequenos deante da belleza!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Morro de aborrecimento, aqui! Ouve: imaginas que sou cégo ou idiota? Pensas
+que não sei que por essa Roma pregam, todos os dias, inscripções injuriosas,
+pelas esquinas? que me chamam matricida, assassino de meu irmão, e de minha
+mulher? Que me chamam algoz, porque tenho morto a meus inimigos?... Um homem
+bom póde ser cruel?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Póde.<span class="pagenum">[95]</span></p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Eis o meu caso. Quando a musica acalenta a minh'a alma, eu sinto-me tão bom
+como uma creança no bêrço.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Os Romanos nunca vos souberam apreciar.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Os Romanos! Como eu odeio os Romanos! <small>(Vai á meza beber. Anoitece
+mais)</small> Tigelino?</p>
+
+<h4>VITELIO</h4>
+
+<p>Sahiu. Disse que ia mandar accender as lampadas.</p>
+
+<h4>NERO</h4>
+
+<p>Ah! sim... Escurece.</p>
+
+<h4>PITAGORAS</h4>
+
+<p>Cezar, o cantico? <small>(ao fundo)</small></p>
+
+<h4>CEZAR</h4>
+
+<p>Ainda é cêdo... <small>(Desce a Petronio)</small> Sou em tudo um artista. A
+musica abre-me as portas d'uma prespectiva indizivel; devo aos Deuses o
+explorar esse infinito! Para ascender ás regiões olimpicas<span
+class="pagenum">[96]</span> não será precizo, primeiro, praticar algum
+prodigioso acto propiciatorio?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Não te entendo, Cezar.</p>
+
+<h4>NÉRO, <small>baixo</small></h4>
+
+<p>Para abrir as portas do mundo desconhecido, eu quiz fazer o maior sacrificio
+que pode fazer um homem: minha mulher... minha mãi... foi para isso que ellas
+morreram! Mas é precizo um sacrificio ainda maior para abrir as portas do
+Olimpo! Cumpra-se a vontade dos Oraculos!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>...Qual é o teu projecto?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Vais vêr... de aqui a pouco. <small>(sobe)</small></p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>aparte</small></h4>
+
+<p>Extranho-o.</p>
+
+<h4>NÉRO, <small>bebe e desce</small></h4>
+
+<p>Mas, antes, vê bem que ha dois Néros: um o que os homens conhecem; o outro o
+que só tu conheces: o que mata como a Morte e o que delira como Bacho! E, mata,
+porque odeia a baixeza, tudo o que<span class="pagenum">[97]</span> é vil e lhe
+repugna tudo o que não merece a vida! E mata e elimina!... Como a vida será
+pequena quando eu desapparecer!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Comprehendo o teu coração e as tuas máguas!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Como o meu coração é, por vezes, negro! Como este mundo e esta terra são
+pequenos, mesquinhos, para mim! Mas, quanto eu puder, aniquilarei esta vida, e
+esmagarei este mundo!</p>
+
+<p class="dcena">(Subito Roma apparece incendiada por diversos lados. Ouve-se
+ruido ao longe. Pitagoras, desce)</p>
+
+<h4>PITAGORAS</h4>
+
+<p>Cezar, Roma está a arder!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Quê?</p>
+
+<h4>TODOS, <small>levantando-se e olhando</small></h4>
+
+<p>A ardêr?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Ó Deuses immortaes!... eu vos dos dou graças!.. Posso em fim vêr uma grande
+cidade em chammas! Posso acabar o meu canto!<span
+class="pagenum">[98]</span></p>
+
+<h4>VOZES, <small>do fundo</small></h4>
+
+<p>Cezar? Cezar?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Ah! É agora o momento. A minha cithara? <small>(Sobe)</small></p>
+
+<h4>UM CENTURIÃO, <small>entrando rapido</small></h4>
+
+<p>Divino imperador?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Quê?</p>
+
+<h4>CENTURIÃO</h4>
+
+<p>A cidade é um oceano de chamas! Os homens cahem asfixiados! O terrôr
+enloquece!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>É a vontade dos Deuses! A minha cithara? <small>(Trazem-lh'a. Terpnos,
+Diodoro e os musicos correm)</small> Ó Deuses, que espectaculo sublime! Graças,
+por poder vêr, como Priamo, o incendio de minha patria! Agora, vou cantar!
+<small>(sobe)</small></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Centurião, sabes tu se o bairro do Transtevero, foi invadido, já?</p>
+
+<h4>CENTURIÃO</h4>
+
+<p>Todo, Senhôr. Foi o primeiro.<span class="pagenum">[99]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Maldicção! Se ella morreu... <small>(sahe, doido)</small></p>
+
+<p class="dcena">(O incendio generalisa-se. De todos os lados do palacio corre
+gente para o terraço. Néro sobe os degráus e de cithara em punho, acompanhado,
+canta)</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<blockquote>
+Berço de meus pais,<br>
+<span style="margin-left: 1em;">Roma divina!</span><br>
+Quanto eras cara<br>
+<span style="margin-left: 1em;">Á minh'alma!...</span></blockquote>
+
+
+<p class="dcena">O ruido, ao longe, cresce. Ouvem-se os rugidos das féras. O
+panno desce.</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM DO SEGUNDO ACTO<span
+class="pagenum">[100]</span></p>
+
+<p><span class="pagenum">[101]</span></p>
+<hr style="width: 65%;">
+
+<h2><a name="ACTO_TERCEIRO" id="ACTO_TERCEIRO"></a>ACTO TERCEIRO</h2>
+
+<h3>QUADRO QUINTO</h3>
+
+<p class="dcena">Sala no palacio de Néro. Néro e Poppêa, Vinicio, Tigelino,
+Petronio, Vitelio, Senecion e Vatino.</p>
+
+<h4>NÉRO, <small>descendo</small></h4>
+
+<p>Ha tres dias que componho o meu poema. Não posso perder tempo. Sejamos
+breves. Roma está exaltada?</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Gravemente.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>A animadversão cresce?</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Cada vez mais.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>O Senado?<span class="pagenum">[102]</span></p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Indignadissimo contra ti.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Ó o Senado! Reedificarei a cidade! Dar-lhe-hei uma outra digna do povo
+romano; que mais quer?</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Mas as miserias, as mortes causadas...</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Não abri os meus jardins ao povo? Não tem elle que comer, á farta?</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Os pequenos estão satisfeitos. Os grandes...</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>É preciza uma decisão rapida. Que havemos de fazer, o que será
+conveniente...? A tua opinião, Petronio.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Vamos para a Grecia e depois para o Egypto.</p>
+
+<h4>SENECION</h4>
+
+<p>É facil partir: voltar é que não será tão facil.<span
+class="pagenum">[103]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Por Hercules, voltaremos, se fôr precizo, á frente das legiões da Asia!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Assim, farei.</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Escuta-me, Cezar. O conselho é desastroso. Antes de chegares a Ostia,
+rebentará a guerra civil. E sabes, tu, se algum vago descendente do divino
+Augusto, se não se fará proclamar imperador?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Farei que nenhum exista. Tu sabes como.</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Mas será um outro. Hontem, os meus soldados ouviram dizer á multidão que se
+devia proclamar alguem, como Thrazéias!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Povo insaciavel e ingrato! Que mais quer?</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>A vingança.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>A vingança?... quer victimas? <small>(Pausa e silencio)</small><span
+class="pagenum">[104]</span> Se nós lançassemos a nova de que foi...
+<small>(olhando-os)</small> Vatino, quem incendiou a cidade?</p>
+
+<h4>VATINO, <small>empalidecendo</small></h4>
+
+<p>Eu?... Quem sou eu, ó divindade...?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Tens razão. É preciso alguem mais importante. <small>(circunvagando o
+olhar)</small>: Vitelio!</p>
+
+<h4>VITELIO, <small>riso amarello</small></h4>
+
+<p>As minhas banhas farão rebentar um novo incendio.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Tigelino?... Tigelino, fôste tu que incendiaste Roma!</p>
+
+<h4>TIGELINO, <small>audaz</small></h4>
+
+<p>Por tua ordem, Cezar!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>És meu amigo?</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Tu o sabes, Senhôr.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Bem. Sacrifica-te por mim.<span class="pagenum">[105]</span></p>
+
+<h4>TIGELINO, <small>hypocritamente</small></h4>
+
+<p>Eu bem o quizera, Senhôr; mas não posso fazêl-o. <small>(ironico)</small> O
+povo murmura e revolta-se. Queres tu que a guarda pretoriana faça o mesmo, pelo
+seu chefe?</p>
+
+<h4>UM ESCRAVO</h4>
+
+<p>A divina Augusta deseja fallar-te, Tigelino.</p>
+
+<h4>TIGELINO, <small>a Cezar</small></h4>
+
+<p>Permittis? <small>(Cezar, faz signal aprovativo. Tigelino sahe)</small></p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Aqueci uma serpente no seio! <small>(a Petronio)</small> Vamos, falla tu.
+Confio em ti. Tens mais senso do que todos elles juntos e és meu amigo.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Vamos para a Grecia.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Esperava mais do teu juizo. Se parto quem me garante que o senado não
+proclame outro imperadôr? O povo era-me fiel... não é. O senado!... Ah! se este
+povo e este senado tivesse uma cabeça, só!<span class="pagenum">[106]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Se queres conservar Roma, Cezar, é precizo deixares alguns Romanos.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Roma, os Romanos, que me importam? Escutar-me-hiam na Helada! Ao redor de
+mim, aqui, não ha, senão traição! <small>(subito)</small> Petronio, a plebe
+murmura pelas praças... se eu fôsse ao Campo de Marte e cantasse o meu hymno; o
+que cantei durante o incendio... não poderia, eu, como Orpheu, encantal-os?</p>
+
+<h4>VATINO</h4>
+
+<p>A difficuldade, Cezar, era elles deixarem-te principiar.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Pois vamos para a Grecia.</p>
+
+<h4>POPPÊA, <small>entrando com Tigelino</small></h4>
+
+<p>Ouve-me, Cezar. O povo quer uma vingança e uma victima! Que digo eu? uma?
+centenas, milhares! Existem as que o devem sêr, devem-se-lhe. Ignoras que na
+cidade se acoita um exercito de christãos? Não os conheces? Não te fallei, eu,
+tanta vez dos seus crimes e das suas infames cerimonias?<span
+class="pagenum">[107]</span> das suas profecias segundo as quaes o mundo
+acabará pelo fôgo? O povo, instintivamente, odeia-os e suspeita d'elles.
+Ninguem os vê nos templos, no circo, nas corridas! Murmura contra ti e não
+fôste, tu, Cezar, nem eu, quem incendiou a cidade! Foram elles! É preziso
+dizêl-o. Viram-nos levando nas mãos as tochas incendiarias! O povo tem sêde de
+vingança? dá-lha. O povo quer circo, quer sangue? dá-lh'o! Conheces os
+culpados! manda!</p>
+
+<h4>PETRONIO <small>a Marcos, aparte</small></h4>
+
+<p>A caça a Lygia.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Coragem!</p>
+
+<h4>NÉRO, <small>levantando as mãos ao ceu</small></h4>
+
+<p>Oh! Zeus, Appolo, Hera, Actréa, vós, todos, ó Deuses immortaes, porque nos
+não socorresteis? Que tinha feito essa bella Roma, a esses energumenos?</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Vinga-a!</p>
+
+<h4>VATINO</h4>
+
+<p>Faz justiça!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Que castigo terrivel, que torturas serão bastantes<span
+class="pagenum">[108]</span> para punir tal crime? Com a ajuda das potencias do
+Tartaro, darei ao meu povo um tal espectaculo, que d'elle se falará, em Roma,
+pelos seculos dos seculos!</p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>aparte</small></h4>
+
+<p>Que Cezar bandido! <small>(olhando Marcos, que passeia louco)</small> É
+precizo salvar Lygia. Ou me perco, ou a salvo. <small>(approximando-se galante,
+natural, brincando com a tunica gracioso)</small> Assim... encontrastes as
+victimas? bem; mas escutai me. Tendes a auctoridade, tendes a guarda dos
+pretorianos, tendes a fôrça! Então sêdes leaes. Entregai os christãos ao povo,
+supliciais-os; mas confessai primeiro que não foram elles que incendiaram Roma!
+Ha tambem uma elegancia da alma: como mestre de todas as elegancias
+dir-vos-hei, que não supporto tão miseraveis comedias! <small>(Pasmo)</small>
+Com relação a ti, Cezar, porque me tens fallado muita vez da posteridade,
+reflecte o que ella dirá de ti! Pela divina Clio! Néro-Senhôr do mundo,
+Nero-Deus queimou Roma porque era tão formidavel na Terra, como Zeus no Olympo!
+Nero-poeta amou a tal ponto a poesia que lhe sacrificou a Patria! Desde o
+principio do mundo, ninguem ousou pensar em tão extraordinaria coisa! Tu o
+fizeste, esta gloria é tua, não a<span class="pagenum">[109]</span> renegues.
+Ao pé de ti o que será Priamo, Agamenon, Achilles? os proprios Deuses? Coragem.
+Livra-te de abdicações indignas; porque então a posteridade poderá dizer-te:
+Nero queimou Roma; mas tão pussilamine Cezar, como pussilanime poeta, negou o
+facto, e atirou, cobardemente, a falta por sobre os innocentes! Tal acção não
+honrará a tua memoria!</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Senhôr, dá-me licença para que sáia. Aconselham-te a lançares-te no maior
+perigo: tratam-te de Cezar e poeta pussilanime, de comediante... Os meus
+ouvidos recuzam se a ouvir mais.</p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>aparte</small></h4>
+
+<p>Cezar hesita? Estou perdido! <small>(a Tigelino)</small> Tigelino, a ti é
+que eu chamei comediante, porque o és, ainda n'este momento.</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Porque não posso escutar as tuas injurias?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Porque figuras um grande amôr por Cezar e ainda ha pouco, ouvimo-lo todos e
+elle, o ameaçaste com a guarda de pretorianos.<span
+class="pagenum">[110]</span></p>
+
+<h4>POPPÊA</h4>
+
+<p>Cezar, como permittes que taes pensamentos venham a alguem e que esse alguem
+os diga deante de ti?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>É assim que tu sabes reconhecer a amizade que sempre te tive?</p>
+
+<h4>MARCOS, <small>aparte</small></h4>
+
+<p>Petronio perdeu-se por mim!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Se me enganei, Cezar, mostra-me o meu erro; mas sabe que te disse o que me
+ditou a lealdade que, emfim, te devo!</p>
+
+<h4>POPPÊA</h4>
+
+<p>Renova os insultos.</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Punide-o, Senhôr.</p>
+
+<h4>VATINO</h4>
+
+<p>Castigai o insultadôr.</p>
+
+<h4>VOZES</h4>
+
+<p>Castigai-o! <small>(affastam-se de Petronio)</small><span
+class="pagenum">[111]</span></p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Quereis que o puna? Foi sempre o meu companheiro e meu amigo! Feriu-me o
+coração; mas quero que elle saiba que este coração só tem para os amigos, o
+perdão.</p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>aparte</small></h4>
+
+<p>Conheço o teu perdão! <small>(alto)</small> Cezar! <small>(inclinando-se,
+faz signal a Marcos, e sahem.)</small></p>
+
+<h4>POPPÊA</h4>
+
+<p>Quereis ouvir as testemunhas?</p>
+
+<h4>NERO</h4>
+
+<p>Que venham.</p>
+
+<p class="dcena">Um escravo sahe e traz dois rabinos de longas togas e mitras,
+um escriba e Chilon.</p>
+
+<h4>1.º RABINO</h4>
+
+<p>Salve, monarcha dos monarchas, rei dos reis!</p>
+
+<h4>2.º RABINO</h4>
+
+<p>Salve, Senhôr do mundo!</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Salve, Cezar, Leão entre os homens! tu cujo reino<span
+class="pagenum">[112]</span> é semelhante á claridade do sol, ao cedro do
+Libano, ao balsamo de Jerichó!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Accusais os christãos de terem incendiado Roma?</p>
+
+<h4>1.º RABINO</h4>
+
+<p>Nós, Senhôr, só os accusamos de serem inimigos dos homens, e inimigos de
+Roma. De terem muita vez ameaçado a cidade e o mundo, com o fogo do céu! O
+resto dil-o-ha este homem, de cujos labios nunca sahiu a mentira, porque nas
+veias de sua mãi corria o sangue do povo escolhido!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Quem és, tu?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>O teu cão fiel, divino Osiris! Um pobre estoico!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Detesto os estoicos: o seu desprezo pela arte e a sua linguagem repugnam-me;
+como a sua miseria e falta d'aceio. Por isso mandei matar Musonio...</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Senhôr, eu sou um estoico por necessidade. Cobre<span
+class="pagenum">[113]</span> o meu estoicismo, ó Resplandecente, com uma corôa
+de rozas e poê-lhe, deante, uma taça de vinho e elle cantará Anacréonte!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Gosto de ti.</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Vale quanto peza.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Que sabes dos christãos?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Permittir-me-has que chore, divino Cezar?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Não. Aborrecem-me as lagrimas.</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>E terás, cem vezes, razão; porque os olhos que te viram uma vez, não devem
+chorar nunca.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Falla dos christãos.</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Ouve, divino Isis! De creança me dediquei á filosofia e procurei a verdade.
+Procurei-a na academia<span class="pagenum">[114]</span> de Athenas e na de
+Alexandria. Tendo ouvido fallar da doutrina dos christãos, julguei que fosse
+uma escola onde achasse algumas parcellas da verdade. Relacionei-me com elles
+e, por minha desgraça, o primeiro que conheci foi um tal Glaucos, medico de
+Napoles. Sube por elle, que adoravam um certo Christo que promettera exterminar
+os homens e aniquilar todas as cidades da Terra. Por isso odeiam os homens,
+envenenam as fontes e em suas assembléas cobrem de improperios os templos onde
+adoramos os nossos Deuses. Christo foi crucificado, mas prometeu-lhes que no
+dia em que Roma fosse destruida, voltaria á terra, a dar-lhes o reino
+promettido.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Então é a occasião.</p>
+
+<h4>POPPÊA</h4>
+
+<p>O povo comprehenderá porque Roma foi queimada.</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Muitos o sabem já, divina Augusta! N'isso se falla nos Jardins, no Campo de
+Marte, a toda a hora. O povo levanta-se, sedento de vingança! Essa vingança
+será a minha.<span class="pagenum">[115]</span></p>
+
+<h4>NERO</h4>
+
+<p>Porquê?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Ouvide, divino Cezar! Glaucos, o medico, não me ensinava que a doutrina
+christã ordenasse que se odiassem os homens; pelo contrario dizia que esse
+Christo era uma bôa divindade e que a base da sua doutrina era o amôr. Amei
+Glaucos e tanto d'elle confiei que com elle partilhava o meu pão e o meu
+dinheiro. Um dia, entre Napoles e Roma, deu-me uma punhalada e vendeu-me a
+mulher, a minha Berenice, tão formosa e tão bella! a um mercadôr de
+escravos!</p>
+
+<h4>POPPÊA</h4>
+
+<p>Pobre homem.</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Chegado a Roma procurei os seus chefes para obter justiça contra Glaucos.
+Nada obtive; mas fiquei conhecendo o apostolo Pedro, o apostolo Paulo, o filho
+do Zebedeu, Crispo e muitos outros. Sei onde habitavam, antes do incendio e
+onde se reunem. Posso indicar o subterraneo do Vaticano e o Cemiterio
+d'Ostrianum. N'este, ouvi pregar o apostolo Paulo. Vi Glaucos degolar creanças
+para que o apostolo derramasse o sangue sobre<span class="pagenum">[116]</span>
+a cabeça dos neophitos e ouvi Lygia, a filha adoptiva dos Plaucios, gabar-se de
+ter enfiteiçado a tua filha, divina Osiris! e a tua, ó Isis, a pequenina
+Augusta!</p>
+
+<h4>POPPÊA</h4>
+
+<p>Cezar, vinga a nossa filha! Ouves, Cezar?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Por Hercules!</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Ouvindo isto quiz apunhala-la. Impediu-m'o o nobre consul Marcos Vinicio que
+estava ao seu lado e que a ama!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Quem?</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>O consul Marcos Vinicio.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>É christão? Oh! a tragedia degenera em farça!</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Senhôr, pela luz que vêm de ti, te juro que o é. Como o é Pomponia, o
+pequeno Aulo, Lygia, Ursus, Lino e milhares d'outros, cujos templos<span
+class="pagenum">[117]</span> secretos posso indicar! As vossas prisões não
+chegarão para os conter!</p>
+
+<h4>POPPÊA</h4>
+
+<p>Cezar, vinga a nossa filha. Ordemna.</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>E, appressai vos, aliás, o consul Marcos Vinicio terá tempo de a esconder.
+Sahiu correndo... dir-vos-hei a caza...</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>Dou-te dez homens. Vai lá immediatamente.</p>
+
+<h4>CHILON</h4>
+
+<p>Dez homens... com Ursus lá dentro... nem de longe!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Tigelino, entrego-t'os.</p>
+
+<h4>POPPÊA</h4>
+
+<p>E, nossa filha, Cezar?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Por todos os Deuses que será vingada! Oh, os christãos! não deixarei um
+sobre a face de Terra! Os leões de Numidia e os tigres de Hircania terão<span
+class="pagenum">[118]</span> o mais lauto banquete de que ha memoria, na
+historia do mundo!</p>
+
+<h4>UM ESCRAVO, <small>entra appressado</small></h4>
+
+<p>Cezar, um velho que se diz ex-centurião da Judêa pede para te fallar.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Que quer?</p>
+
+<h4>ESCRAVO</h4>
+
+<p>Não o disse. Quer fallar a Cezar...</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Entre quem seja.</p>
+
+<h4>PAULO, <small>entra, com ar rude</small></h4>
+
+<p>És tu o Cezar?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Creio que sou. E, tú, quem és?</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Paulo de Tarso!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Não conheço; mas falla... Estou hoje de bom humôr... Vens da Judêa?<span
+class="pagenum">[119]</span></p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Lá estive, pela segunda vez, depois de percorrer a Lygia, a Cilicia e a
+Galacia. Depois de ter fundado a egreja de Thessaloníca e de ter prégado em
+Athenas e em Corintho.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Prégado, o quê?</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>A religião de Christo, nosso Senhôr, meu e teu!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>És christão? É o primeiro que vejo...</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Pela graça de Deus.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Qual Deus?</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>O unico que ha. Que está no céu! e que um dia desceu á Terra e morreu pelos
+nossos pecados e pela nossa remissão!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Tambem por mim?<span class="pagenum">[120]</span></p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Por todos.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Ignorava que devia esse favor a teu Deus! Séneca nunca me fallou d'essa
+divindade! Encarrego-te de lhe agradeceres por mim!</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>O meu Deus é superior ás tuas zombarias...</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Mas o que queres, tu, afinal, com o teu Deus? É para me fallares d'elle que
+aqui vieste?</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Em seu nome.</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>És christão. Vens pedir o perdão para ti e para os teus?</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>De quê?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Do seu crime.</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Qual crime?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>O de terem incendiado Roma.<span class="pagenum">[121]</span></p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Gritam isso nas praças, vós o espalhastes! A plebe miseravel, sedenta de
+sangue, pede para elles o circo e a fogueira!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>E tel-a hão.</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Porquê?</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Porque fôram elles...</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Que...</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>... Incendiaram a cidade.</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Néro, Imperadôr dos Romanos, Rei do mundo, Cezar augusto... mentes!
+<small>(Vai a lançar-se a elle)</small></p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Deixai. Velho, tu és um doido por fôrça.</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Chamo-me Paulo e sou apostolo de Christo!<span
+class="pagenum">[122]</span></p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>É poderoso o teu Deus. Só assim...</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Tu o vês. Tu és Cezar, cercado dos teus, defendido pela tua guarda
+pretoriana, tendo ao teu dispôr, dezenas de legiões: eu sou Paulo, um velho
+cujas pernas tremem no andar, cujos braços oscilam quando ora, e eu faço, pelo
+meu Deus,&mdash;o que tu não serias capaz de fazer pelos teus falsos
+Deuses&mdash;rio-me de ti, de teu poder, porque elle não alcança mais do que
+até á morte!</p>
+
+<h4>TIGELINO</h4>
+
+<p>É o maior alcance.</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Não é nenhum. A vida da terra é transitoria e mesquinha: só é grande a que
+vem depois da morte: infinita, eterna!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Quem t'a garantiu?</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>O meu Deus; que eu vi morrer na Cruz, no Calvario, ao pé de Jerusalem, para
+nol-a dar<span class="pagenum">[123]</span> em troca! O que prégou a egualdade
+na Terra, o que amaldiçoou o despota e levantou o escravo; o que prégou o
+desprezo da carne e santificou a alma! O que condemnou, ó Romanos, a vossa
+luxuria tôrpe, a vossa prostituição feita de todas as abominações e infamias! O
+Deus dos Christãos! Aquelle que fez com que eu, o mais humilde dos seus
+pastores, vos fale como se fôra o vosso imperador e elle... o verdadeiro,
+pense...</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>No supplicio a inventar de que sejas digno, divino apostolo!</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Todos me agradam, Nero. Desde o harpão dos teus gladiadores, até aos dentes
+das tuas feras! Está assente para mim... agradeço-te! Mas ha uma legião de
+pobres que nunca te fizeram mal; que vivem felizes na humildade das suas
+crenças com o seu Deus e que, como elle ensinou, dão a Cezar o que é de Cezar e
+a Christo o que é de Christo! Nunca perturbaram os teus prazeres, nunca
+disputaram o teu poder, nunca insultaram publicamente os teus affectos, nem
+tentaram contra a tua vida ou a dos teus.<span class="pagenum">[124]</span>
+Innocentes d'um crime de que os accusam, só podem defender-se, morrendo! São
+fracos, humildes, ignorados! Não carregues a tua memoria com crimes inuteis;
+porque, em verdade te digo, que se o fizeres terás de responder por elles...</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Ante quem?</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Ante o nosso pae, que está no céu!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Cala-te.</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Cezar, disse!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>De mais. Tigelino mette-me na cadeia esse apostolo, esse pastor, a vêr se o
+tal poderoso Deus o tira de lá. <small>(A Paulo)</small> E, quanto ás tuas
+ovelhas, prepara-te para vêres, no Circo, como os leões lhes tosquiam a lã.</p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Não ha piedade na tua alma, Cezar?</p>
+
+<h4>NÉRO, <small>ironico</small></h4>
+
+<p>Não sou um Deus...<span class="pagenum">[125]</span></p>
+
+<h4>PAULO</h4>
+
+<p>Não. Ha um, só! E, em nome d'elle, eu te amaldiçôo! Assassino de tua mãe e
+de tua irmã! Anti-Christo! O abysmo abre-se a teus pés! a morte vae
+empolgar-te! o tumulo abre a guella para te engulir! Amaldiçôo-te, cadaver
+vivo! porque morrerás no espanto e no terrôr! e serás condemnado por todos os
+seculos dos seculos sem fim! <small>(Agarram-no)</small> Maldito sejas,
+assassino! incendiario! matricida!</p>
+
+<h4>TIGELINO, <small>vae a matal-o com o estylete</small></h4>
+
+<p>Cala-te, velho!</p>
+
+<h4>NÉRO</h4>
+
+<p>Tem audacia, por Jupiter! Guarda-m'o para o circo, quero vêr como é feito,
+por dentro, um apostolo christão!</p>
+
+<p class="dcena">(Os escravos levam-no, arrastado)</p>
+
+<p>Emfim, consegui distrahir-me, hoje. Vamos jantar.</p>
+
+<p class="dcena">Dá o braço a Poppêa. Vão sahindo.</p>
+
+<p style="text-align:center;">O PANNO DESCE<span
+class="pagenum">[126]</span></p>
+
+<p><span class="pagenum">[127]</span></p>
+<hr style="width: 65%;">
+
+<h3>QUADRO SEXTO</h3>
+
+<p class="dcena" style="text-align:center;">Jardim de Petronio.</p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>inspeccionando as mezas e flôres</small></h4>
+
+<p>Poucas flôres. O calôr do incendio chegaria a Cumes?</p>
+
+<h4>O INTRODUCTOR</h4>
+
+<p>Procura-te um servo de Numa, com uma carta.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Vem de Roma?</p>
+
+<h4>O SERVO, <small>entrando</small></h4>
+
+<p>De Numa. <small>(da-lhe um rolo de pergaminho)</small></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Como vai o teu senhôr?</p>
+
+<h4>O SERVO</h4>
+
+<p>Bem, nobre Petronio.<span class="pagenum">[128]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>lêndo</small></h4>
+
+<p>.......... «Aviso-te de que receberás, em breve, ordem de não abandonar
+Cumas e dias depois a de te abrires as veias... Eis o que está decidido no
+palacio de Cezar... Vale. Séneca.» Virá atrazada a ordem. Licio, dirás a teu
+amo que lhe agradeço a carta e que já estava prevenido. Leva-lhe esta taça
+<small>(dá-lhe uma d'oiro)</small> como recordação minha e penhôr de nossa
+longa amizade. <small>(o servo sahe)</small> <small>(ao escravo)</small> Chama
+Eunice. <small>(rindo)</small> Julgava, talvez, surprehender-me esse bandalho
+de Cezar! Como se eu lhe não conhecesse as manchas de toda a vida! Como não
+respondi, logo, á sua carta, decidiu-se. Pois ha-de agradar-lhe a resposta.
+<small>(Entra Eunice, de branco. Petronio, senta-se)</small> Vem Eunice;
+abraça-me e beija-me! Amas-me?</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>Se fôsses um Deus, não te amaria mais. <small>(ajoelha-se-lhe aos
+pés)</small></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>E tu sabes a quem deves o meu amôr?</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>A ti, á tua bondade!<span class="pagenum">[129]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>E a Chilon.</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>A Chilon?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Não te vendeu elle dois fios da cinta da Vénus de Chypre?</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>Oh, o charlatão! Ninguem pode modificar a vontade dos Deuses?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Nem mesmo o nobre Chilon?</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>Nobre?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>É hoje um dos companheiros de Néro. Uma arma de Poppêa. Delatou os
+christãos.</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>Oh, o infame!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Tal imperadôr, tal côrte! <small>(acaricia-lhe a cabeça)</small> Mas tu és,
+verdadeiramente, bella, Eunice.</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>Meu Senhôr!<span class="pagenum">[130]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Feliz aquelle que, como eu, encontrou o amôr habitando em tal corpo!
+Parece-me ás vezes que sômos duas divindades! Nem Lyzias, nem Praxiteles,
+criaram, nunca, linhas tão bellas! Não ha marmore mais quente, mais rozado do
+que o do teu collo! <small>(Toma um punhado de violetas e deita-lh'o pela
+cabeça e hombros)</small> Eis o que os christãos querem abolir: o culto da
+belleza! Um selvagem não criaria uma tão ridicula filosofia. Trata sempre o teu
+corpo bello, como um dom divino! Sê sempre Deusa, bella, adoravel, Eunice!
+<small>(Beija a)</small></p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>Tu és tão bom, meu senhor, tão bom, que eu quizera ser realmente uma
+Deusa... e tua escrava, como sou!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Enganas-te. Tu não és minha escrava: pertencem-te esta casa, estes jardins,
+os meus escravos, os campos e os rebanhos.</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>A mim?<span class="pagenum">[131]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>A ti. Libertei-te ha muito. Nada te disse. O consul dispensou a tua
+presença. Fiz-te, sem saberes, os meus presentes de nupcias.</p>
+
+<h4>EUNICE, <small>beijando-lhe as mãos</small></h4>
+
+<p>Meu senhor e para quê?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Porque vamos talvez separar-nos.</p>
+
+<h4>EUNICE, <small>levantando-se</small></h4>
+
+<p>Como, senhor?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Socega... terei de fazer uma longa viagem...</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>Leva-me comtigo.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Não posso.</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>Não podes?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>É uma desconhecida viagem... que se tem de fazer, só!<span
+class="pagenum">[132]</span></p>
+
+<h4>EUNICE, <small>receiando comprehender</small></h4>
+
+<p>Só?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Só!</p>
+
+<h4>EUNICE, <small>comprehendendo</small></h4>
+
+<p>Petronio! meu senhor. <small>(Joelha de novo)</small>.</p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>respondendo á pergunta, muda, do olhar de
+Eunice</small></h4>
+
+<p>Sim!</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>Que desgraçada sou! Os deuses não permittirão...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Eunice, eu quero morrer... como me compete!</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>Comprehendo, meu senhor. <small>(Domina-se completamente.)</small></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Tu és bella, livre, rica! A mocidade e a belleza tem os seus direitos.
+Lembra-te de mim... com amor!</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>Não, meu senhor, eu não sou rica nem livre. Não o quero ser. Sou a tua
+escrava!<span class="pagenum">[133]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Então eu serei o escravo da minha escrava. <small>(Acaricia-a)</small>
+Eunice, faz servir o jantar. <small>(Dão um longo beijo.)</small> Que a belleza
+seja sempre adorada!</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>E a bondade!</p>
+
+<p class="dcena">Eunice sahe e volta com Nerva, Lucio, Octavia e Julia. Ao
+entrar uns adolescentes coroam-nos de rozas. Trazem-se perfumes. Ha uma
+orchestra invisivel.</p>
+
+<h4>TODOS</h4>
+
+<p>Salve, Petronio.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Salve, salve.</p>
+
+<p class="dcena">Reclinam-se. Os escravos servem.</p>
+
+<h4>JULIA</h4>
+
+<p>Que noticias de Roma?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Cesar mandou-me chamar.</p>
+
+<h4>JULIA</h4>
+
+<p>É teu amigo, Cezar.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Muito.<span class="pagenum">[134]</span></p>
+
+<h4>OCTAVIA</h4>
+
+<p>Acaso serás tu, agora, o querido dos homens, como tens sido sempre o das
+mulheres?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Que os Deuses se amerciem de mim, formosa Octavia. Na minha edade!
+<small>(Riem)</small>.</p>
+
+<h4>NERVA</h4>
+
+<p>E, não vais?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Não vou.</p>
+
+<h4>LUCIO</h4>
+
+<p>Ficarás então em Cumas?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Para sempre.</p>
+
+<h4>OCTAVIA</h4>
+
+<p>E o imperador?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Que cante e dance.</p>
+
+<h4>JULIA</h4>
+
+<p>É a sua maneira de descançar.<span class="pagenum">[135]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>É; porque para se fatigar vae matando os christãos.</p>
+
+<h4>NERVA</h4>
+
+<p>A perseguição continúa?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Cada vez mais terrivel.</p>
+
+<h4>OCTAVIA</h4>
+
+<p>Haverá, ainda, muitas tardes de circo?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>É natural. Os christãos são já aos milhares, em Roma, como em outras cidades
+da Italia, na Grecia e na Asia. Ha-os entre os legionarios, entre os
+pretorianos, nas melhores familias de Roma.</p>
+
+<h4>NERVA</h4>
+
+<p>Dizem que nunca houve tres tardes de circo, como as dos christãos!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Nunca!<span class="pagenum">[136]</span></p>
+
+<h4>JULIA</h4>
+
+<p>Estiveste em todas, Petronio?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Em todas.</p>
+
+<h4>OCTAVIA</h4>
+
+<p>Amas o espectaculo?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Não: necessitava de lá estar.</p>
+
+<h4>LUCIO</h4>
+
+<p>Conta-nos.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Nenhum de vós esteve em Roma?</p>
+
+<h4>NERVA</h4>
+
+<p>Nenhum; creio.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Pois foram celebres as tardes. Nero lançou a ordem de prisão. Agarraram-se
+homens e mulheres, velhos e novos, creanças e virgens! Na primeira tarde,
+vestiram-nos com pelles de animaes e largaram-lhes os cães fulvos de Peleponéso
+e os molossos zebrados dos Pyrenéus,<span class="pagenum">[137]</span>
+esfaimados, de dias. As prezas, porém, eram extranhas, e os cães hesitaram no
+attaque. Mas logo que o primeiro enterrou os dentes na espadua d'uma rapariga,
+os outros, ao verem sangue, cahiram sobre o monte dos christãos, ajoelhados!
+Então, por entre as convulsões, os estertores de agonia, os uivos dos mastins,
+ouviam-se vozes, que diziam: pelo Christo! pelo Christo! As feras mutilavam e,
+sobre a arena, corria em rêgos o sangue entre membros decepados e os corpos
+sedentos dos cães insaciaveis! O cheiro do sangue e dos intestinos abertos
+cobriu os perfumes da Arabia e encheu o circo! Os cães não venciam a tarefa. O
+povo rugindo, em delirio, pediu os leões. Viram-se então cabeças desapparecer
+em guellas vermelhas, peitos abertos com um roçar de garra, corações e ventres
+extravazados, e o ruido dos ossos triturados por maxillas de ferro! O povo
+esmagava-se, descendo as bancadas, para vêr melhor: os leões enchiam de trovões
+as arcarias do Circo!</p>
+
+<h4>OCTAVIA</h4>
+
+<p>E acabou?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Não. Havia ainda muitos vivos. Abriram-se<span class="pagenum">[138]</span>
+as jaulas e sahiram os tigres do Euphrates, as pantheras de Java, ursos, lobos,
+hyenas, chacaes! A scena perdeu toda a apparencia de realidade! Entre os
+gritos, os urros, os rugidos, ouviam-se gritos, aqui e ali, pelas bancadas,
+gritos, entre dentes, de mulheres em espasmo, cujas forças se iam exgotando!
+Empallideciam os rostos e vozes gritavam: basta! basta! Um exercito de Numidas,
+armados de flechas, fez recolher as féras. Limpou-se a arena; as fontes
+jorraram aguas perfumadas e uma nuvem de adolescentes, vestidos de amôres,
+encheu o circo de petalas de rosas! Caso extranho e unico no circo: Nero desceu
+á arena, tomou a cithara e cantou um hymno!</p>
+
+<h4>LUCIO</h4>
+
+<p>E foi applaudido?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Como sempre.</p>
+
+<h4>OCTAVIA</h4>
+
+<p>A mim era-me impossivel assistir a uma tarde de circo.<span
+class="pagenum">[139]</span></p>
+
+<h4>JULIA</h4>
+
+<p>E tu, Petronio, cujo gosto e prazeres teem um tão grande cunho de elegancia
+e de delicadeza...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Comecei por dizer, bella Julia, que precisava de lá estar.</p>
+
+<h4>NERVA</h4>
+
+<p>E, a segunda?</p>
+
+<h4>LUCIO</h4>
+
+<p>Conta-nos a segunda.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Foi menos interessante. Limitaram-se a queimar muitos e a sacrificar os
+restantes. Todo o prazer do espectaculo, para quem o achava, estava em gozar a
+morte lenta, a agonia das victimas! <small>(Reparando)</small> Por Pollux, eu
+deixo de contar, se apenas empregaes os vossos sentidos em me ouvir.</p>
+
+<h4>NERVA</h4>
+
+<p>Escutamos-te e comemos, ao mesmo tempo.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Mas não bebeis. <small>(faz signal; os escravos enchem as
+taças)</small><span class="pagenum">[140]</span></p>
+
+<h4>LUCIO</h4>
+
+<p>Conta a terceira.</p>
+
+<h4>OCTAVIA</h4>
+
+<p>É mais curiosa, a terceira tarde?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Terrivelmente curiosa, para mim. Foi de noite. Na noite a seguir áquella em
+que Néro passeiou, entre crucificados christãos, breados, a arder, pelos
+jardins!</p>
+
+<h4>JULIA</h4>
+
+<p>Que crueldade!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>E quê cheiro! A peripecia extranha foi esta. Quando soaram as cornetas,
+correu-se a grade d'um subterraneo e um homem colossal, um Lygio, de côxas
+herculeas e braços, os musculos do peito que pareciam dois escudos unidos, tal
+era o relêvo, appareceu, na arêna! Quando se esperava que inimigo lhe dariam,
+abriu-se a grade fronteira e um toiro da Hespanha, negro como a noite, rompeu
+pelo circo, trazendo, atado ás hastes, no cachaço, o corpo semi-nú d'uma virgem
+christã. Lygia! rugiu o escravo ao conhecer<span class="pagenum">[141]</span> a
+rapariga! Lygia, tem coragem!... E, de espinha curva, rapido, cortando a terra,
+o olhar em braza, as mãos em garra... aproximou-se do toiro, e d'um salto,
+cahiu-lhe na frente, agarrando lhe os cornos! Fez-se um silencio profundo!
+Ouvir-se-hia o vôo d'uma môsca! Homem e toiro quedaram se na imobilidade do
+marmore, semelhantes a um trabalho d'Hercules, esculpido! Para se libertar do
+jugo, o toiro, fincando-se nas patas, dobrou-se, em arco: turgiam-se os
+musculos do homem a estalar a pelle que se fazia purpura! No peito de Néro,
+como no das vestaes, como nos do povo inteiro, os corações saltavam! Corria o
+suor pelas testas! A palavra expirava nos labios! Homem e toiro, n'um suprêmo
+esforço, dir-se-hiam pregados no solo! Estes momentos duraram séculos.
+Subitamente, ouviu se como um vagido surdo, e, como n'uma allucinação, os olhos
+viram a cabeça da fera, voltar, voltar, quasi imperceptivelmente... Ouvia-se o
+respirar offegante do homem; mas a cabeça do toiro continuava a voltar-se,
+lentamente, lentamente... quando, de subito, da bôcca sahe-lhe, pendida a
+lingua cheia de baba! Um momento mais... um ranger de vertebras... e n'um
+tremôr subito, o olhar baço, o pescoço estendido, como uma massa inerte, o
+toiro cahe!... morto!<span class="pagenum">[142]</span></p>
+
+<h4>NERVA</h4>
+
+<p>Por Jupiter, eis ahi um homem!</p>
+
+<h4>JULIA</h4>
+
+<p>Por Venus!</p>
+
+<h4>LUCIO</h4>
+
+<p>Por Hercules!</p>
+
+<h4>OCTAVIA</h4>
+
+<p>E, foram perdoados?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>O povo ergueu-se pedindo-o. Néro recuzava, quando, de subito, um bello
+rapaz, um guerreiro, salta á arena, rasga a tunica no peito, para mostrar as
+cicatrizes das batalhas e levanta os braços para o povo, cobrindo com o manto o
+corpo nú da christã. O povo rugiu improperios e Néro, com mêdo, cedeu.</p>
+
+<h4>JULIA</h4>
+
+<p>Quem era esse mancebo? Um amante?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Um apaixonado, que a pretendera arrancar á prizão que tentava salval-a,
+ainda, nos subterraneos do circo, e que, sem esperança, estava a meu lado,
+branco como um cadaver!<span class="pagenum">[143]</span></p>
+
+<h4>JULIA</h4>
+
+<p>Chamava-se?</p>
+
+<h4>OCTAVIA</h4>
+
+<p>Quem era?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Marcos Vinicio, o filho de minha irmã. Eis porque vos disse do começo, bella
+Octavia, que precizava de lá estar.</p>
+
+<h4>JULIA</h4>
+
+<p>Que tormentos d'amante!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>A felicidade é como a vida: nasce entre dôres!</p>
+
+<h4>NERVA</h4>
+
+<p>Que é feito d'elles?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Cazaram e foram para o campo, para a beira mar, afogar em beijos os terrôres
+e lagrimas passadas!</p>
+
+<h4>OCTAVIA</h4>
+
+<p>Que os Deuses os protejam.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Pois brindemos aos Deuses pela sua felicidade. <small>(bebem)</small><span
+class="pagenum">[144]</span></p>
+
+<h4>JULIA</h4>
+
+<p>Amava-lo muito, Petronio?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Tanto, que arrisquei, por elle, o favôr de Cezar!</p>
+
+<h4>NERVA</h4>
+
+<p>Como?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Defendendo os christãos.</p>
+
+<h4>LUCIO</h4>
+
+<p>Os christãos?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Os christãos que me importavam? Defendia Lygia e Marcos.</p>
+
+<h4>NERVA</h4>
+
+<p>Espantava-me que defendesses os Deuses estranhos.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Nem os estranhos, nem os nossos.</p>
+
+<h4>LUCIO</h4>
+
+<p>Não amas os nossos Deuses?<span class="pagenum">[145]</span></p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Muito... para figuras de rethorica!</p>
+
+<h4>OCTAVIA</h4>
+
+<p>O que amais então no mundo, elegante sceptico?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>As arvores e as flôres; as joias e os perfumes; as estatuas de Praxiteles e
+os bronzes de Corintho; os vinhos velhos da Grecia e as mulheres novas... de
+toda a parte.</p>
+
+<h4>JULIA</h4>
+
+<p>Tendes amado muito.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>E, ainda os livros, a poesia, os versos&mdash;excepto os de Néro&mdash;.</p>
+
+<h4>OCTAVIA</h4>
+
+<p>Dizem que os scepticos são, sempre, alegres.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Será por isso que me esforcei por viver, sempre, alegremente, e o farei até
+ao fim... o que será facil... agora! <small>(tomando a taça)</small> Á Rainha
+de Chypre! por Eunice!<span class="pagenum">[146]</span></p>
+
+<h4>NERVA</h4>
+
+<p>Aos Deuses, pela felicidade de Petronio!</p>
+
+<h4>EUNICE, <small>aparte a Petronio</small></h4>
+
+<p>Ao meu senhôr! <small>(bebem os dois, sós)</small></p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>levantando-se um pouco sobre o leito</small></h4>
+
+<p>Amigos, perdoai-me o fazer-vos um pedido: eu quizera que cada um de vós se
+dignasse de acceitar a taça com que brindou aos Deuses e á minha felicidade.
+<small>(toma a taça)</small> Eis a taça do meu brinde á rainha de Chypre, por
+Eunice. Nenhuns outros labios beberão por ella; nenhuma outra mão ousará
+levantal-a, em honra de outra divindade! <small>(atira-a ao chão e parte-se:
+espanto)</small> Amigos, alegrai-vos. A velhice é a triste companheira dos
+nossos ultimos annos. Dou-vos um exemplo e um conselho.</p>
+
+<h4>NERVA</h4>
+
+<p>Que queres fazer?</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Gozar, beber, contemplar as fórmas divinas que repoisam a meu lado e
+adormecer, emfim, n'um sonho, cercado de rozas. Fiz já as minhas<span
+class="pagenum">[147]</span> despedidas a Cezar. Ouvide o que lhe mandei dizer,
+no meus adeus. <small>(tira um rolo e lê)</small> «Sei, divino Cezar, que me
+esperas impacientemente e que para premiares a minha ida para junto de ti, não
+duvidarias dar-me o comando das tuas guardas e fazer de Tigelino um almocreve,
+officio para que parece ter sido creado pelos Deuses! Pelo Hades e em
+particular pelos manes de tua mãi, de teu irmão, de tua mulher, juro-te que me
+é impossivel ir. A vida é um thesoiro de que eu sube extrahir as mais preciosas
+joias; mas tem coisas, tambem, que confesso sou incapaz de suportar até ao fim!
+Não vás pensar que me indignou o assassinato de tua mãi, de teu irmão, de tua
+mulher; que me revoltei contra o incendio de Roma; que me offendeu o teu
+processo de matar todos os homens honrados de teu imperio! Não; mas por largos
+annos ainda, deixar-me esfolar os ouvidos pelo teu canto, vêr as tuas pobres
+tibias escoicear nas danças pirricas, ouvir-te tocar, declamar, recitar a teu
+modo&mdash;pobre poeta d'agua dôce&mdash;semelhante perspectiva é superior a
+minhas fôrças. Resolvi morrer! Roma tapa os ouvidos; o universo cobre-te de
+gargalhadas! E, eu? eu não quero mais envergonhar-me de ti! O ladrar de
+Cerebero ser-me-ha menos penoso: não sou amigo<span
+class="pagenum">[148]</span> d'elle, não tenho de córar pela sua voz! Goza e
+passa bem, mas deixa-te de musica! assassina, mas não faças versos! envenêna,
+mas para-te de dançar! incendeia as cidades, mas deixa em paz a cithara! Tal é
+o conselho do teu amigo, Petronio.» <small>(dá o rolo ao escravo)</small>
+Queima esta carta e manda entrar o médico.</p>
+
+<h4>NERVA</h4>
+
+<p>... Mas é a morte!</p>
+
+<h4>LUCIO</h4>
+
+<p>E, nós...?</p>
+
+<h4>PETRONIO, <small>rindo sereno</small></h4>
+
+<p>Nada receieis. Nenhum tem necessidade de dizer que ouviu ler esta carta.
+<small>(Faz signal ao medico que entra. Este passa-lhe no pulso uma anilha de
+oiro e com um estylete abre-lhe a veia radial)</small>.</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>Senhor, se os Deuses me dessem a immortalidade, se Cezar me desse um
+imperio, para te deixar, eu não faria nunca! Tenho pois o direito de ir
+comtigo... concede-m'o!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Tu amas me, verdadeiramente, divina! Vem commigo, pois, se assim o
+queres.<span class="pagenum">[149]</span></p>
+
+<h4>EUNICE, <small>alegre, estendendo o braço ao medico</small></h4>
+
+<p>Abre. <small>(O medico faz o mesmo. O sangue corre. Eunice inclina se sobre
+o peito de Petronio)</small>.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Phalerno! <small>(Um escravo deita-lh'o)</small> Servide antes, ás damas, o
+xaroposo Careno, ou o opalino Chio, que convida a amar! <small>(Inclina se para
+Eunice)</small> Não queres tu, Divina, que bebamos, na tua taça, pela ultima
+vez, aos Deuses, por toda a felicidade que nos deram?</p>
+
+<h4>EUNICE</h4>
+
+<p>Sim, meu senhor. <small>(Bebem os dois)</small>.</p>
+
+<h4>O INTRODUCTOR</h4>
+
+<p>Marcos Venicio e Lygia.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Bem vindos! <small>(Ao medico)</small> Não posso morrer ainda; estanca-me o
+sangue. <small>(O medico liga-lhe o pulso, rapido)</small>.</p>
+
+<h4>MARCOS, <small>entra</small></h4>
+
+<p>Salve senhores! salve Petronio.</p>
+
+<h4>TODOS</h4>
+
+<p>Salve Marcos!<span class="pagenum">[150]</span></p>
+
+<h4>TODOS</h4>
+
+<p>Salve Lygia!</p>
+
+<h4>NERVA</h4>
+
+<p>Salve, formosa Lygia!</p>
+
+<h4>PETRONIO <small>aos dois que chegam junto d'elle</small></h4>
+
+<p>Salve! Salve! <small>(Os escravos trazem duas cadeiras. Marcos e Lygia
+sentam-se)</small>. Que vieste fazer a Cumes, Marcos?</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Escrevemos-te. Queriamos que fosses passar comnosco uns tempos na nossa casa
+da Sicilia. A tua carta entristeceu-nos. Resolvemos vir-mos buscar-te. És
+preciso á nossa ventura!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Admiro o teu coração: como me admira que dois noivos se possam lembrar d'um
+amigo ausente.</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Tu és para nós muito caro. Devemos-te a maior parte da nossa felicidade!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Foi o vosso Christo quem vos salvou! <small>(Levemente
+ironico)</small>.<span class="pagenum">[151]</span></p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Não rias...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Oh, não; mas é preciso confessar que Ursus e o povo romano tambem fizeram
+alguma coisa para o caso.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Vem comnosco, Petronio.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Não, feliz esposo da princeza Aurora: se eu tivesse desejo de ir para onde
+me queres levar, eu não o poderia fazer. Se alguma coisa depois da
+morte&mdash;ao contrario da opinião de Pyrrhon&mdash;subsiste e vive, a que
+animava o corpo da minha bella, de cabellos d'oiro, a minha Eunice, espera-me!
+<small>(Indicando-a)</small> Está morta! <small>(Arranca a facha do pulso e
+aperta Eunice contra o peito)</small>.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Petronio!</p>
+
+<h4>LYGIA</h4>
+
+<p>Meu amigo!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Não vos afflijaes! Para vós nasce a aurora da vida, para mim, pôz-se já o
+sol, cerca-me o crepusculo!<span class="pagenum">[152]</span> Tinha de ser:
+conheces Néro, comprehendes o resto. Vivi como quiz, morro como me apraz! Não
+vos afflijaes! A morte é um episodio da vida! Já vês, Marcos, que te enganas,
+se pensas que só o teu Deus dá a tranquillidade na morte! Vê como morro
+tranquillo. Platão diz que a virtude é uma musica e a vida do sabio uma
+harmonia! Se assim é, vivi e morro virtuoso. <small>(Toma a taça)</small>
+Permitte, virtuosa Lygia, que me despeça de ti, com as palavras com que te
+saudei, na primeira vez que nos vimos. «Vi durante a minha vida povos sem
+conto, mas uma mulher que te egualasse, eu não vi nunca!» <small>(Aos
+dois)</small> Se eu tenho uma alma, ella irá poisar junto á vossa casa, na
+forma d'uma borboleta, ou, como querem os egypcios, na de um falcão. Só, assim,
+irei. <small>(Levantando a taça e todos)</small> O ultimo brinde aos noivos.
+<small>(A voz enfraquece levemente)</small> Que a terra de Sicilia se
+metamorfoseie para vós n'um jardim dos Hesperides, que os Deuses dos campos,
+dos lagos, das fontes, façam nascer as flores sob os vossos pés, e que em todos
+os acanthos dos vossos pyristilos vivam e noivem, eternamente, as pombas
+brancas! <small>(Bebe e todos. Inclina-se a beijar a cabeça
+d'Eunice)</small>.<span class="pagenum">[153]</span></p>
+
+<h4>O INTRODUCTOR</h4>
+
+<p>Um servo de Numa.</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>Outro?</p>
+
+<h4>O SERVO</h4>
+
+<p>Nobre Petronio. Chego de Roma a toda a brida, mandado por Numa, meu senhor,
+dizer-te...</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>O quê?</p>
+
+<h4>O SERVO</h4>
+
+<p>Revoltou-se Vindex, com as legiões da Galia. A guarda pretoriana, amigos,
+escravos, todos abandonaram Cezar. Todos fugiram do palacio e o deixaram só!
+Só, de mêdo, suicidou-se!</p>
+
+<h4>PETRONIO</h4>
+
+<p>É tarde! <small>(Desmaia e morre sobre a cabeça de Eunice)</small>.</p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Que dôr!</p>
+
+<h4>VOZES</h4>
+
+<p>Mortos! O bom Petronio! A bella Eunice!<span class="pagenum">[154]</span></p>
+
+<h4>MARCOS</h4>
+
+<p>Sabeis, vós, amigos, o que morreu? O mundo romano: a Graça e a Belleza!</p>
+
+<h4>LYGIA, <small>joelhando</small></h4>
+
+<p>Ó Christo! tende piedade das suas almas!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;"><small>(O PANNO DESCE, LENTO)</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM DO TERCEIRO E ULTIMO ACTO</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Petronio, by Marcelino Mesquita
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PETRONIO ***
+
+***** This file should be named 28154-h.htm or 28154-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/2/8/1/5/28154/
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>