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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Petronio + Peça livremente extrahida do romance Quo Vadis de Henryk Sienkiewicz + +Author: Marcelino Mesquita + +Release Date: February 23, 2009 [EBook #28154] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PETRONIO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">PETRONIO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 1px #000; padding: 1em;"> +<p><em>MARCELLINO MESQUITA</em></p> + +<p style="font-size: 2.5em;">PETRONIO</p> + +<p style="font-size:0.8em;">PEÇA LIVREMENTE EXTRAHIDA DO ROMANCE</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">QUO VADIS</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">DE</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">HENRYK SIENKIEWICZ</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><em>LISBOA</em></p> + +<p>MANUEL GOMES, EDITOR</p> + +<p><em>Livreiro de Suas Magestades e Altezas</em></p> + +<p><small>61—<span class="smcap">Rua Garrett</span> (<span +class="smcap">Chiado</span>)—61</small></p> + +<p>M DCCCC I</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;"><small>Typ. do DIA, calçada do Cabra, +7—Lisboa</small></p> + +<p> </p> + +<div style="font-size: small;"> +<p>Esta peça foi representada, pela primeira vez, no theatro D. Amelia, na +noite de 8 de março de 1901. Foram os interpretes:</p> + +<p> </p> + +<p><em>Petronio</em>, poeta satyrico...... <em>Eduardo Brazão</em><br> +<em>Néro</em>, imperador romano...... <em>Augusto Rosa</em><br> +<em>Paulo de Tarso</em>, apostolo christão...... <em>João Rosa</em><br> +<em>Marcos Vinicio</em>, consul, sobrinho de Petronio...... <em>Luiz +Pinto</em><br> +<em>Chilon</em>, philosopho charlatão...... <em>A. Pinheiro</em><br> +<em>Tigelino</em>, chefe dos pretorianos, rival de Petronio...... <em>A. +Antunes</em><br> +<em>Senécion</em>, patricio romano...... <em>Carlos Bayard</em><br> +<em>Vitelio</em>, idem...... <em>João Gil</em><br> +<em>Lucano</em>, poeta...... <em>Henrique Alves</em><br> +<em>Vatino</em>, intendente das festas...... <em>F. Senna</em><br> +<em>Domicio</em>...... <em>A. Sampaio</em><br> +<em>Musonio</em>, philosopho e poeta...... <em>F. Salles</em><br> +<em>Ursus</em>, escravo lygio...... <em>Alfredo Santos</em><br> +<em>Pitagoras</em>, ephebo, favorito de Néro...... <em>Maria Ferreira</em><br> +<em>Nerva</em>, patricio de Cumas...... <em>Alvaro Cabral</em><br> +<em>Lucio</em>, idem...... <em>S. Ayres</em><br> +<em>Seneca</em>, philosopho...... <em>J. Reis</em><br> +<em>Teiresias</em>, liberto de Petronio...... <em>A. Quaresma</em><br> +<em>Um escravo de Petronio</em>...... <em>Antonio Silva</em><br> +<em>1.º Rabbino</em>...... <em>Salles</em><br> +<em>2.º Rabbino</em>...... <em>A. Pedro</em><br> +<em>Gulon</em>, liberto de Vinicio...... <em>A. Silva</em><br> +<em>Outro escravo</em>...... <em>N. Gomes</em><br> +<em>Timon</em>, gladiador...... <em>N. N.</em><br> +<em>Croton</em>, idem...... <em>N. N.</em><br> +<em>1.º Senador</em>...... <em>J. Subtil</em><br> +<em>2.º Senador</em>...... <em>Germano</em><br> +<em>Poppêa</em>, concubina de Néro...... <em>Maria Pia</em><br> +<em>Eunice</em>, escrava de Petronio...... <em>Maria Falcão</em><br> +<em>Actêa</em>, ex-amante de Néro...... <em>Angela Pinto</em><br> +<em>Lygia</em>, donzella christã...... <em>Amelia Pereira</em><br> +<em>Calvia</em>, dama romana...... <em>Elvira Costa</em><br> +<em>Nigidia</em>, idem...... <em>F. Salazar</em><br> +<em>Crispinilla</em>, idem...... <em>C. de Sousa</em><br> +<em>Flavia</em>, idem...... <em>Elvira Santos</em><br> +<em>Pomponia</em>, idem...... <em>A. O'Sullivand</em><br> +<em>Lucrecia</em>, idem...... <em>Maria Ferreira</em><br> +<em>Julia</em>, dama cumense...... <em>Candida</em><br> +<em>Octavia</em>, idem...... <em>M. Ferreira</em><br> +</p> + +<p>Senadores, palacianos, ephebos, pretorianos, escravos, augustanos, povo +romano, gladiadores, damas da côrte, escravas, etc., etc.</p> +</div> + +<p><span class="pagenum">[1]</span></p> +<hr style="width: 65%;"> + +<div id="corpo"> +<h2><a name="ACTO_PRIMEIRO" id="ACTO_PRIMEIRO"></a>ACTO PRIMEIRO</h2> + +<h3>QUADRO PRIMEIRO</h3> + +<p class="dcena">Casa de Petronio em Roma. A um lado, a estatua de Petronio, em +marmore. Sobre uma meza, frascos varios de aguas, de oleos; escovas, pentes, +ferros de frisar. Duas escravas ethiopes e duas brancas, o rodeiam. As negras +acabaram de o pentear.</p> + +<h4>ESCRAVA BRANCA</h4> + +<p>Que manto? <small>(as escravas negras sahem)</small></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>O azul. <small>(a escrava sahe e traz)</small></p> + +<h4>EUNICE, <small>que, de joelhos, compõe a tunica</small></h4> + +<p>Bello... como um Deus!</p> + +<h4>PETRONIO, <small>sorrindo, delicado</small></h4> + +<p>«Animal impudens», de Séneca.<span class="pagenum">[2]</span></p> + +<h4>O INTRODUCTOR</h4> + +<p>O consul Marcos Vinicio.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Oh!</p> + +<h4>MARCOS <small>grave</small></h4> + +<p>Salve, Petronio!<small></small></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Salve. Sê bem vindo em Roma. Que o repouso te seja grato depois da +guerra.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Que os Deuses te sejam propicios, sobre tudo Asclépias e Cypris.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Que o tal Asclépias me perdôe; não tenho fé n'elle. Um Deus cuja mãi se +ignora! Sabe-se lá se é filho de Arsinoé ou de Corónida? Que fará do pai! Quem, +por estes tempos que correm, pode ter a certeza de ser filho... do pai? +<small>(Marcos, ri contrafeito)</small> Estás preocupado?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>... Não.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Dos Asclepiades já tive de me servir, o anno<span class="pagenum">[3]</span> +passado... para a bexiga. Sabia que eram charlatães; mas o mundo repousa sobre +o charlatanismo e a vida mesmo não é senão uma illusão! O que é precizo é saber +distinguir as bôas illusões das más. Eu mando aquecer a minha estufa com +madeira de cedro, pulverisada com ambar, porque prefiro os perfumes aos máus +cheiros. Quanto a Cypris, a quem me recomendaste, devo-lhe o ter coxeado, +amorosamente, dois mezes; mas, emfim, é uma bôa deusa a quem espero +sacrificarás, em breve, as brancas pombas.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Talvez. Se as flechas dos Parthas me não alcançaram, em compensação, fui +tocado pelas do Amôr, d'uma maneira imprevista.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Sim?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>A dois passos das portas de Roma.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Pelas Graças! conta-me isso.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Tanto mais que precizo do teu conselho...<span class="pagenum">[4]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>É escusado perguntar se o teu amôr é correspondido! +<small>(olhando-o)</small> Se Lysias te tem conhecido, ornavas, hoje, a porta +do Palatino sob a fórma d'um Hercules juvenil. <small>(Eunice offerece-lhe e +põe-lhe o manto)</small></p> + +<h4>MARCOS <small>(olhando a escrava)</small></h4> + +<p>Por Zeus, que bella escolha! Mais bello corpo não se encontrará nem em caza +do Barbas de Bronze, d'esse famoso Nero, teu amigo.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Tu és meu parente... e eu não sou egoista; nem tão austero, como um Aulo +Plaucio...! Se queres...?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Como te veio á ideia Aulo Plaucio? É d'elle que te venho fallar.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Estarás, tu, por acaso enamorado de Pomponia, sua mulher? Diabo! Velha... +virtuosa... Lamento-te.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não é de Pomponia. Oh! Não!<span class="pagenum">[5]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>De quem?...</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Nem sei. Nem sei mesmo o seu nome. Lygia? Calina? Chamam-lhe Lygia porque é +do paiz dos Lygios; mas o seu nome barbaro é Calina. Estive doente em caza +d'esse Plaucio, por um accidente de viagem...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Qual?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Desloquei um pé, n'uma queda do cavallo... É uma caza estranha: cheia de +gente e silenciosa como um bosque sagrado. Durante quinze dias, ignorei que uma +deusa a habitasse. Vi-a, uma manhã, a banhar-se n'um tanque, sob as arvores. +E... juro-te pela espuma d'onde nasceu Aphrodite... os raios da Aurora +brincavam atravez do seu corpo! Julguei-a uma apparição, uma sombra que os +raios do sol nascente dissipassem, como um crepusculo! Desde então, não tive +mais tranquilidade; não tive mais descanso; não tive outro desejo; não vejo +outra mulher! Tudo me merece desprezo; o oiro, os bronzes de Corintho... +Aborreço os vinhos, os festins; só vejo, só quero Lygia! O mundo para mim é +ella... e só ella!<span class="pagenum">[6]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>É uma escrava de Plaucio? Compra-lh'a.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não é uma escrava.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Uma liberta, então?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Se nunca foi escrava, como pode ser liberta?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Quem é, pois?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>A filha d'um rei.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Hein? Começas a intrigar-me...</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>É filha de Vanio, rei dos Suévos.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>O que teve guerras, no tempo de Claudio?...</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Com os sobrinhos; que levantaram, contra<span class="pagenum">[7]</span> +elle os Lygios, terriveís na rapina. Claudio, temendo pelas fronteiras, mandou +Hister, legionario do Danubio, que vigiasse para que a paz não fôsse alterada. +Hister exigiu aos Lygios a promessa de não invadirem a fronteira, e, como refem +recebeu a filha e a mulher do chefe.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>D'onde sabes, tu, isso?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Contou-m'o Plaucio, elle proprio. Na guerra o rei dos Lygios morreu. Hister +ficou com a mãi e a filha. A mãi morreu pouco depois, e Hister para se +desembaraçar da creança, mandou-a a Pomponio, governador da Germania e vencedor +dos Gathes. Quando Pomponio entrou em Roma, em triumphador, a pequena Lygia +seguia o seu carro; mas como era um refem e não uma escrava, Pomponio +entregou-a a sua irmã, mulher de Aulo. N'esta caza onde tudo respira virtude, +cresceu, tão virtuosa e tão pura, que ao pé d'ella, Poppêa, que passa pela +mulher mais bella de Roma, é como um figo do outomno, ao pé d'um pômmo das +Hesperides!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>E, então?<span class="pagenum">[8]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Repito-te, desde que vi a luz brincar atravez do seu corpo...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Ella é então transparente como uma lampreia...!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não gracejes, Petronio.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Pois bem, diz-me o que queres, claramente.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Quero Lygia! Quero que os meus braços a apertem; que a minha bôcca respire +na sua bôcca! Se fosse uma escrava daria por ella cem virgens! Quero-a, eis +tudo! Têl-a, guardál-a, até que a minha cabeça branquêje como a crista do +Sorate, no hinverno!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>... Se não é uma escrava, é, em todo o caso uma rapariga abandonada. Plaucio +póde ceder-t'a, se quizer.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não conheces Plaucio nem Pomponia sua mulher? De resto, amam-na como +filha!<span class="pagenum">[9]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Pomponia? conheço: é um cypreste! Tem o ar de quem vive n'um cemiterio. Mas +é, diga se, mulher d'um homem só; o que faz que entre as nossas romanas, quatro +e cinco vezes divorciadas, seja uma phenix!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Mas... Petronio...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Que queres que te diga, meu caro Marcos? Conheço muito bem Aulo Plaucio, +como elle conhece o meu modo de pensar e o meu modo de viver. Se pensas que +poderei obter alguma coisa d'elle, francamente, parece-me que te enganas.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>O teu espirito é inexgotavel em expedientes...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Exageras.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Todo o mundo te conhece.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Como o rei da elegancia? sim. É o meu reino.<span +class="pagenum">[10]</span> Se fosse o da Lygia eu não teria senão prazer em te +offerecer a minha filha, bello e amoroso consul.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não fallarás a Plaucio?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>... Não. É inutil. Mas... fallarei a Cezar.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Melhor ainda...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Se Lygia é um refem, Cezar pode dispôr d'ella, pode offerecer-t'a.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Fallar-lhe-has, então?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Sim.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Hoje mesmo?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Hoje... talvez. É precizo esperar occasião de o poder louvar, pelo canto, ou +pelos versos, ou pela aptidão de cocheiro, de actôr... A proposito, fazes +versos?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Nunca pude arranjar um hexametro.<span class="pagenum">[11]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Não tocas cithara, nem alaúde?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Não guias um carro?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Tomei, uma vez, parte n'umas corridas em Antiochia; mas fui infeliz.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Bem. Estou descançado a teu respeito. O melhor é não fazer nenhuma d'essas +coisas e admiral-as, muito, nos outros... sobretudo em Cezar. És bello e Poppêa +pode agradar-se de ti. É um perigo. Nero não t'o supportaria. É verdade que +Poppêa está uma mulher experiente: d'amôr os dois primeiros maridos +saciaram-na; Nero é para outra coisa.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Que é feito de Othon?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>O terceiro? O pobre homem ama-a ainda loucamente. Anda a choral-a sobre os +rochedos da Hespanha. E, dizem, que de tal modo perdeu os<span +class="pagenum">[12]</span> habitos da galanteria, que hoje, com o penteado, só +gasta tres horas por dia!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Eu, no caso d'elle, fazia outra coisa.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>O quê?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>São valentes e duros soldados os da Iberia! Recrutaria umas legiões +fieis...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Marcos, Marcos! Essas coisas fazem-se, mas não se dizem, nem como +hypotheses... Eu, no logar d'elle, rir-me-hia de Poppêa e de Nero: arranjava +uma legião, mas não era de homens, era de mulheres!... <small>(Eunice entra com +um frasco.)</small> Ah! a verbena. <small>(deita nas mãos e esfrega as +fontes)</small> Não imaginas como isto vivifica, dá fôrça!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Mas... Lygia...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Sim, homem, descança.<span class="pagenum">[13]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não posso, Petronio. Se eu não consigo comer nem dormir! Vou passeiar um +pouco pela cidade, mover-me, andar, distrahir-me...</p> + +<h4>PETRONIO, <small>reparando</small></h4> + +<p>É verdade, tu não fizeste a barba, hoje!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Nem hontem!</p> + +<h4>PETRONIO, <small>toma-lhe o pulso</small></h4> + +<p>Tens febre. Escuta. Eu não sei o que te prescreveria um medico, um d'esses +asclepiades; mas sei o que eu faria no teu logar. Sim... eu sei o que é o amor, +e, que quando se deseja uma mulher, nenhuma outra a póde substituir! A belleza, +porém, encanta sempre; e uma bella escrava...</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não, não quero.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>A novidade faz esquecer... por um novo desejo... <small>(Pondo a mão no +hombro de Eunice, que lhe offerece, de novo a verbena)</small> Repara, um +pouco, n'esta filha de Cós. Ha dias, o joven Fonteio offerecia-me por ella tres +admiraveis éphebos: tres<span class="pagenum">[14]</span> maravilhas dignas do +pincel de Scopas! <small>(olhando-a com interesse)</small> É curioso; como não +dei ha mais tempo pelos seus encantos? No entanto, dou-t'a, leva-a.</p> + +<h4>MARCOS, <small>apertando a cabeça</small></h4> + +<p>Não, não a quero: não quero ninguem! Obrigado. Vais d'aqui ao Palatino, ao +palacio de Cesar?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Vou.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Bem... Voltarei mais tarde. Vou á outra margem do Tibre...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Não. Vais almoçar comigo. Eunice?</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>Meu senhôr.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Tomarás o teu banho: ungirás o teu corpo, com os melhores perfumes, e irás +para casa de Marcos Vinicio.</p> + +<h4>EUNICE, <small>ajoelhando-se</small></h4> + +<p>Ó, meu senhor, não! Não me façais sahir da<span class="pagenum">[15]</span> +vossa casa! Prefiro ser, aqui, a ultima das vossas escravas! ser açoitada todos +os dias, contanto que me não deis a ninguem! Não posso, tende piedade de mim! +Não posso! não posso!</p> + +<h4>PETRONIO, <small>surprehendido</small></h4> + +<p>Hein?</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>Repito-vol-o, senhôr. Não irei para caza de Marcos Vinicio. Não sahirei de +vossa casa. Tende piedade! Sêde bom, como sois!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Vai chamar Teirésias. <small>(Eunice sahe)</small></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Petronio, eu não a quero. Nem a ella nem a nenhuma. Deixa...</p> + +<h4>PETRONIO <small>(brandamente)</small></h4> + +<p>Uma escrava!</p> + +<h4>MARCOS, <small>vendo entrar Eunice e Teirésias senta-se a lêr</small></h4> + +<p>Perdôa-lhe.</p> + +<h4>PETRONIO, <small>a Teirésias</small></h4> + +<p>Leva Eunice, e dá-lhe quinze chibatadas. <small>(baixo)</small> Com geito +para lhe não estragares a pelle. <small>(a Marcos)</small> O que lês?<span +class="pagenum">[16]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>O teu livro: o Satyrikon. Já não fazes versos?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Não. Desde que Nero é poeta e os faz... É perigoso.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Se amasses!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Hoje? Ser-me-hia precizo encontrar... uma Lygia.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Uma deusa! Alcançar-ma-has, Petronio?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Será tua. Quanto se pode responder por Cezar, respondo.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Tu és filho de minha irmã e por isto me foste sempre muito caro; mas, agora, +collocarei, nos meus lares, uma estatua tua, <small>(indicando a estatua de +Petronio)</small> tão bella como esta e offerecer-lhe-hei sacrificios. +<small>(vendo a)</small> Tu és verdadeiramente bello, Petronio! Se Páris era +assim, Helena teve razão na escolha.<span class="pagenum">[17]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Chamam-me o Rei da Elegancia, Marcos. <small>(Eunice entra de semblante +alegre)</small> Recebeste as chibatadas?</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>Sim, meu senhor, quinze, só!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Só! <small>(a Marcos)</small> Não comprehendes?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Comprehendo eu. <small>(a Eunice)</small> Tu tens um amante, aqui?</p> + +<h4>EUNICE, <small>joelhando-se-lhe aos pés</small></h4> + +<p>Sim, senhor! <small>(inclina a cabeça)</small></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Quem é? <small>(Eunice inclina mais a cabeça, silenciosa)</small> Quem é? +<small>(repara na mulher)</small> Hei-de sabêl-o. <small>(a Marcos)</small> +Vamos almoçar. <small>(Pôe-lhe a mão sobre o hombro, olha com interesse +Eunice)</small> Vamos. <small>(Sahem)</small></p> + +<p class="dcena">(Eunice deixa-os sahir. Levanta se. Toma por disfarce o frasco +da verbena e, fingindo sahir, espreita. Não vendo<span +class="pagenum">[18]</span> ninguem, volta, toma a cadeira onde se sentou +Petronio; colloca-a ao pé da estatua; sobe, abraça o marmore e, ao mesmo tempo +em que os cabellos loiros lhe cahem pelas costas, colla os labios aos labios da +estatua).</p> + +<p style="text-align:center;">O PANNO DESCE<span class="pagenum">[19]</span></p> + +<hr style="width: 65%;"> + +<h3>QUADRO SEGUNDO</h3> + +<p class="dcena">Triclinio. (Caza de jantar no palacio de Néro.) No 1.º plano +tres mezas, em ferradura, com os competentes leitos e cadeiras. Á esquerda uma +balaustrada que se suppôe dar para uma escada, inferior, de entrada. As mezas +estão promptas: os tocheiros accesos. Grande movimento de escravos, até á +chegada dos convivas. Entram Lygia e Actêa.</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Dize-me, minha bôa Actêa, é bem certo que, Néro, Cezar, matou a mulher, a +mãi, o irmão?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>É certo... e quantos outros!</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>E, dizias-me que o amavas?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Conhecí-o, moço, bello e generoso! É sempre<span class="pagenum">[20]</span> +essa imagem, esse Néro que eu vejo. O outro, o que fizeram os mestres, os +aulicos, os amigos, os senadôres, o proprio povo, esse não o conheço. Esse +pertenceu sempre a outra mulher, cujo dominio se firmou no sangue: esse é de +Poppêa, a divina!</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Como eu tremo de estar, aqui! Daria tudo por me vêr de novo em caza de +Pomponia: ou na campina de Rôma, só, abandonada que fosse. Se eu pudesse... se +tu pudesses, generosa Actêa, proporcionar-me a fuga!</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Eu t'o repito, Lygia: era a tua morte e a dos teus. A vontade de Cezar é +absoluta! Approuve a Cezar chamar-te, és uma coisa sua, na vida e na morte!</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Uma coisa...!?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Tenho lido, tambem, as cartas de Paulo de Tarso, e ellas dizem que, lá em +cima, ha um Deus cujo filho morreu por nós! Mas sobre a Terra não ha senão um +Deus: é Cezar! A tua doutrina prohibe-te de seres o que eu sou...<span +class="pagenum">[21]</span> uma concubina!... e manda-te preferir a morte á +deshonra—como os estoicos de que me fallou tanta vez, Epicteto...</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Sempre!</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Quando uma possa evitar a outra. Ignoras os recursos d'um Cezar. A filha de +Sejano, uma creança de doze annos, foi condenada á morte. A lei prohibe que as +virgens possam soffrer tal pena. O que imaginas que resolveu, Tiberio?</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Eu sei!</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Mandou-a violar, primeiro, por um escravo e matou-a depois!</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Que horrôr!</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Reflecte. Não irrites nunca os tyranos. Os deuses da Terra são sempre +sanguinarios. És bella, nova, e tão bôa...! Sê cautelosa e espera no futuro. Eu +te protegerei, aqui, quanto pudér.</p> + +<h4>LYGIA, <small>abraçando-a</small></h4> + +<p>Como tu és bôa, Actêa!<span class="pagenum">[22]</span></p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Sem alegria e sem felicidade, é certo;... mas não sou má. «Elle» tambem o +não era.</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Lamenta-l'o?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Se te digo que o amo, ainda! O teu Deus não morreu por amôr dos que o +mataram?</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>E, perdoou-lhes.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>O amôr é o perdão. <small>(Como subindo a escadaria e voltando a entrar no +salão, no 2.º plano, começam a entrar os senadôres de togas bordadas nas +bandas, sandalias ricas, tunicas de côres. Mulheres vestidas e penteadas á +Grega ou á Romana, as cabeças coroadas de flôres, etc.)</small></p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Que de gente sobe.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Os convivas que chegam.</p> + +<h4>MUSONIO, <small>entrando e passando com Séneca</small></h4> + +<p>Salve, Actêa!</p> + +<h4>SÉNECA</h4> + +<p>Salve, divina Actêa!<span class="pagenum">[23]</span></p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Salve, Séneca!</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Quem é este velho, de grave aspecto?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>É Séneca, o filosofo, mestre de Néro. Um filosofo que manda desprezar as +riquezas e fez, em quatro annos, uma fortuna de quatrocentos milhões de +cestercios!</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>E, o companheiro?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>É tambem filosofo; mas bom: um estoico.</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Como se chama?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Musonio.</p> + +<h4>TIGELINO, <small>entrando com Calvia</small></h4> + +<p>Salve, Actêa!</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Salve! <small>(a Lygia)</small> Tigelino o infâme, o corruptôr, o valido de +Néro. O que fornece as orgias e os venenos!</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>E, a mulher?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Calvia; a mais impudica das, cortezãs, de Roma. Cinco vezes divorciada.<span +class="pagenum">[24]</span></p> + +<h4>LUCANO, <small>entrando com Nigidia</small></h4> + +<p>Que os deuses te conservem sempre a belleza e o coração.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Salve. <small>(a Lygia)</small> Lucano o poeta e Nigidia a amante.</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>É tão novo.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>E é bello; mas Cezar odeia-o. Os seus versos são melhores do que os d'elle e +Cezar não perdôa. A sua vida não vale uma moeda d'oiro.</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>E elle sabe-o? e, arrisca-se, aqui?...</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>É uma creança. <small>(Entra Crispinilla, com Pitagoras.)</small> +Crispinilla a devassa, cheia de incestos...</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>E o mancebo? aquelle adolescente?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>É Pitagoras, o éphebo favorito de Néro.</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Como favorito? Ama-o muito?<span class="pagenum">[25]</span></p> + +<h4>ACTÊA, <small>lembrando-se da inocencia de Lygia</small></h4> + +<p>Sim... Ama-o, muito! <small>(Um grupo de homens e mulheres passa e +comprimenta de longe, sem grande respeito)</small>. Senécion, Vitelio, +Domicio... Vês como me comprimentam, de longe? Houve tempo em que teriam vindo +comparar-me ás Deusas e beijar me os pés! São os cortezãos de todos os tempos. +<small>(O grupo sobe)</small></p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Onde vão?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Dizer a Poppêa, a divina, o que em tempo me disseram a mim!</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Como tudo isto faz mêdo!</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>E asco! <small>(Entram, conversando, Petronio e Marcos Vinicio. Petronio vai +para os grupos; Vinicio vê Lygia e desce)</small>. Petronio e Marcos Vinicio. +Estes conheces de certo.</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Marcos!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Á mais pura das virgens da Terra, á mais bella das estrellas do Céu, á +divina Lygia, salve!</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Salve, Marcos Vinicio.<span class="pagenum">[26]</span></p> + +<h4>MARCOS, <small>tomando o pulso d'Actêa e beijando-lh'o</small></h4> + +<p>Salve, Actêa. Por Vénus, sois ainda a mais bella mulher do palacio de +Néro.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Cuidado, Marcos Vinicio, que se arremedais vosso tio, no galanteio, não +tendes como elle a faculdade de que Néro oiça pelos vossos ouvidos e falle pela +vossa bôca.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>O louvor é tão perigoso em Caza de Cezar?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>É que dirigido a mim pode parecer epigrama.</p> + +<h4>MARCOS, <small>a Lygia</small></h4> + +<p>Felizes os meus olhos que te comtemplam: os meus ouvidos que escutam a tua +voz mais dôce do que as citharas e as flautas!</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Como fiquei bem, ao vêr te! Que mêdo tenho de estar aqui! Sabias que me +encontravas?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Sabia e todavia ao vêr-te senti na minh'alma um extranho e novo prazer!<span +class="pagenum">[27]</span></p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Como sabias?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Disse-m'o Aulo Plaucio.</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Como estará! e os seus! E porque estou eu aqui?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Por mandado de Cezar.</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>E para quê?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Cezar não dá conta, a ninguem, dos seus actos.</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Nada d'isto é natural, Marcos. Conhecia-me, acaso Cezar? Tenho o +presentimento de desgraças! Tu és bom: leva-me para caza dos Plaucios, a caza +onde eu vivi tranquilla e tão feliz! Faz-me mal este ruido, esta gente toda. +Porque me arrancaram do pequeno jardim onde brincava com Aulo? O que me convem +a mim é o socêgo e a obscuridade. Não nasci para festas e para jantares! e, +aqui, no palacio de Néro... tenho mêdo, leva-me!<span +class="pagenum">[28]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Acalma-te! Estou ao pé de ti. Nada pode acontecer-te. Amo-te, não o crês?</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Sim, Marcos.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>E, tu m'o disséste, tambem, n'esse jardim, onde brincavas com o pequeno +Aulo. E, eu não ouvi nunca mais outra voz; não vi outro olhar senão o teu; não +pensei, não tive outro querer, outra vontade senão a ti.</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>O socêgo entra na minh'alma com as tuas palavras, generoso Marcos!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Tu és a minha felicidade, ó mais bella do que Vénus! A minha felicidade +completa, inegualavel; porque nem Cezar, nem nenhum Deus, póde sentir maior +alegria do que um mortal <small>(abraça-a, delicadamente)</small> que sente +bater contra o peito um peito querido! Assim, ó Lygia, o amôr nos eguala aos +Deuses!</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>A tua palavra é como a luz, que afugenta as trévas e dissipa os terrôres. +Entrego-me a ti.<span class="pagenum">[29]</span> Restitue-me aos meus. +Pomponia, a casta, amar-te-ha como se fôsse tua mãi: abençoar-nos-ha e seremos +felizes! Por ella e pelos seus te agradeço o prazer que lhe darás; e, por mim, +Marcos, amar-te-hei até ao fim da minha vida.</p> + +<p class="dcena">(Na sala do fundo, onde estão, tambem, mezas visiveis, rompe a +orchestra de citharas, flautas, harpas e timbales. Os escravos serventes entram +dos lados)</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Vem Cezar. <small>(Vai a querer subir)</small></p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Não me deixes, só!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não. <small>(Actêa, desce)</small> Aqui tens Actêa... Eu volto já. +<small>(Sobe.)</small></p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Oh! Actêa! <small>(agarrando-lhe a mão)</small></p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Que tens?</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Foje-me a vista.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Serena-te <small>(beijando-a)</small> Isso passa!</p> + +<p class="dcena">(Néro apparece ao fundo. Á maneira que passa, a multidão +aclama-o. Começam a cahir flôres do tecto até ao fim do acto. Os escravos +trazem brazeiros e deitam-lhe myrra. Gritam)<span +class="pagenum">[30]</span></p> + +<h4>VOZES</h4> + +<p>Avé, Cezar!</p> + +<p>Avé, Jupiter!</p> + +<p>Avé, divino Cezar!</p> + +<p>Salve, divino!</p> + +<p>Olympico!</p> + +<p>Hercules!</p> + +<p>Immortal!</p> + +<h4>NÉRO, <small>junto a meza</small></h4> + +<p>Á meza! <small>(Os homens deitam se nos leitos. As mulheres occupam leitos e +cadeiras. Os escravos enchem as taças de vinho que veem em baldes com gêlo: +outros servem a comida. A orchestra toca mansamente. Néro, reclinando-se no +leito, coroado de rosas)</small>: Petronio, dir-se-hia que entoei um dos meus +hymnos!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>É a condicção dos Deuses. A sua presença basta para arrancar as saudações +dos homens.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Estas? Que significam? Os romanos são verdadeiros selvagens. Não me +entendem. Lembras-te do meu apparecimento em Napoles?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Que noite!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Que noite de gloria! Nunca sentirei mais, na<span +class="pagenum">[31]</span> minha vida, uma impressão egual! Chorei! +Lembras-te, Petronio?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Como um mortal! E, desmaiaste, até, nos meus braços, exclamando: «Onde ha +triumpho comparavel ao meu?! Eis o que são os Gregos! eis a Grecia!»</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Comprende-me a Grecia. Em Roma, sei-o bem, chegam a censurar-me por cantar +em publico; como se a arte divina pudésse manchar a purpura dos Cézares!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Voltaremos?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Certamente. Tu sabes que as profecias me dão a soberania do Oriente e do +Egypto. Fundarei alli um imperio luminoso de arte, de sol, de poesia, de +realidade transformada em sonho, de vida transformada n'um perpetuo gozo! Quero +esquecer Roma e collocar o centro do mundo entre a Grecia, a Asia e o Egypto. +Viver a vida, não dos homens, mas dos Deuses. Vogar atravez do Archipélago, em +galéras d'oiro, á sombra de vélas de purpura, embriagar-me de sol, de poesia! +Ser, ao mesmo tempo, Apollo e Osiris! Reinar ... viver... sonhar...!<span +class="pagenum">[32]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Eis o sonho d'um Cezar!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Uma realidade! No Egypto levantarei monumentos, ao lado dos quaes as +pyramides hão-de parecer brinquedos de creanças! Farei construir uma esphinge, +sete vezes maior do que a de Memphis, que olha para o deserto, semelhando-a a +mim! E, os seculos futuros não fallarão d'outra coisa: do monumento e de +Néro!</p> + +<h4>LUCANO</h4> + +<p>Pelos teus versos tu te erigiste, já, um monumento, não sete, mas setenta +vezes maior do que a de Chéops.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>E, pelo meu canto?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Se tu pudésses levantar uma estatua,—como a de Memnom—, que ao +nascer do sol o fizesse ouvir, durante seculos, os mares do Egypto +coalharam-se-hiam de navios, onde as multidões, das tres partes do mundo, +viriam embriagar se, esquecer a vida, ouvindo a tua voz!</p> + +<p><small>(Néro, radiante, bebe e todos o acompanham)</small><span +class="pagenum">[33]</span></p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>E... emfim, desposarei a Lua, que é viuva, e serei verdadeiramente um +Deus!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>E, cazar-nos-has com as estrellas, para formarmos a constelação de Néro! +<small>(A Vitelio, gordissimo, que está de pé, na meza do centro, de taça em +punho, ébrio)</small> Cazarás Vitelio com o Nilo para gerarem hipopótamos.</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>E a mim, que destino me dás?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Cezar pode dar-te o deserto e serás rei... dos chacaes.</p> + +<h4>TIGELINO, <small>aparte</small></h4> + +<p>Insolente!</p> + +<p><small>(Cezar falla em segredo com Petronio. De repente pôe no olho uma +esmeralda e olha Marcos e Lygia. Marcos diz segrêdos amorosos, todo +curvado.)</small></p> + +<h4>MARCOS, <small>alto</small></h4> + +<p>Como eu te amo, Lygia! <small>(apertando-lhe o pulso)</small></p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Deixa-me, Marcos, fazes-me mal.<span class="pagenum">[34]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Oh! divina, ama-me muito! <small>(beija-lhe o pulso)</small> muito!</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Cezar está a olhar-vos.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Que me importa?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Tu brincas com a vida, Marcos; não bebas mais.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>O Phalerno é tão dôce e Lygia tão bella! <small>(Offerece-lhe a taça; Lygia +recuza; Marcos bebe)</small></p> + +<h4>NÉRO, <small>deixando de olhar, depõe a esmeralda na meza</small></h4> + +<p>Petronio, quem é a dama que se senta ao lado de Marcos Vinicio?</p> + +<h4>PETRONIO, <small>asustado</small></h4> + +<p>A rapariga... o refem que mandaste buscar a caza dos Plaucios.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Ah! De que povo é?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Dos Lygios.<span class="pagenum">[35]</span></p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Deve ser bella... Vinicio enche-a de galanteios.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Cobre um tronco velho d'oliveira com um vestido feminino e Vinicio +achal-o-ha admiravel. A mocidade! Muito magra. Uma cabeça de dormideira n'um pé +esguio. A ti, estheta divino, que prezas na mulher sobretudo a haste, +aposto—por muito difficil que seja julgar das proporções d'uma mulher +sentada—aposto que já lhe viste o defeito?...</p> + +<h4>NERO, <small>piscando os olhos para vêr</small></h4> + +<p>Não tem ancas.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Nenhumas. <small>(malicioso)</small></p> + +<h4>SENÉCION</h4> + +<p>Não sei o que questionavas, mas sou da opinião de Cezar.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Fazes bem. Eu estava dizendo a Cezar que tu tinhas uma certa inteligencia: +Cezar affirmava que eras estupido como um burro! +<small>(gargalhadas)</small><span class="pagenum">[36]</span></p> + +<h4>NÉRO, <small>rindo exageradamente, inclina o pollegar para o +chão</small></h4> + +<p>E está dito!</p> + +<h4>VATINO</h4> + +<p>Seja como fôr, eu creio nos sonhos. Séneca um dia disse-me que tambem +acreditava... como Plinio.</p> + +<h4>CALVIA</h4> + +<p>Sim? Pois a noite passada sonhei que era Vestal.</p> + +<h4>NERO, <small>rindo, batendo as palmas, o que todos imitam</small></h4> + +<p>Bravo!</p> + +<h4>CALVIA</h4> + +<p>E, então? São todas velhas e feias, as vossas vestaes. Só Rubria tem fórma +humana. Assim, ao menos, seriamos duas. Ainda que Rubria, na primavera, tem a +pelle cheia de manchas rôxas.</p> + +<h4>SENÉCION</h4> + +<p>De que são?</p> + +<h4>CALVIA</h4> + +<p>Ella é que sabe... e os médicos.</p> + +<h4>LUCANO</h4> + +<p>É o abrir dos botões. Flôres do amôr!<span class="pagenum">[37]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Calvia, onde deixaste a cabelleira loira, das... vestaes?</p> + +<h4>CALVIA</h4> + +<p>Tu és um impertinente.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Não era o que me chamavas, uma noite, no lago d'Agripa.</p> + +<h4>CALVIA</h4> + +<p>És capaz de dizer que te não resistí, satyro? Que não estiveste a meus +pés?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Para os encher d'anneis. <small>(Calvia olha instintivamente os pés: todos +riem)</small></p> + +<h4>VITELIO, <small>cambaleando</small></h4> + +<p>O meu annel. <small>(rí estupidamente)</small></p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>De que diabo rí esta barrica de cêbo?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>O riso é proprio do homem. Vitelio quer provar-nos que não é um porco.<span +class="pagenum">[38]</span></p> + +<h4>VITELIO</h4> + +<p>O annel... perdí o meu annel de cavalleiro... O annel que me veio de meu +pai...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Que era sapateiro.</p> + +<p class="dcena">Vitelio, rindo parvamente, procura o annel no colo de +Calvia.</p> + +<h4>CALVIA</h4> + +<p>Que queres? O atrevido.</p> + +<h4>NIGIDIA</h4> + +<p>Elle não perdeu o que procura.</p> + +<h4>LUCANO</h4> + +<p>E... ainda que o ache não será capaz de o usar.</p> + +<p class="dcena">(Os escravos reenchem as taças. Ouvem-se vozes. Vinho. +Phalerno.)</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>O jantar durará muito, ainda, Marcos?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Inda agora começou. Não estás bem?</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Sim... mas... morre-se com calor... com os perfumes...<span +class="pagenum">[39]</span></p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Toma o meu leque. Queres um vinho geládo?</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Ó não. Queria sahir.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>É impossivel.</p> + +<p class="dcena">Néro, que tem estado a comer e beber bem e a conversar com +Petronio, levanta-se. A musica emudece. Terpros e Diodoro, correm com as +citharas. Néro faz gesto negativo.</p> + +<h4>SENÉCION</h4> + +<p>Pela arte e pela humanidade!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Não estou em voz. Onde está Poppêa?</p> + +<h4>UM ESCRAVO</h4> + +<p>Doente; não pode vir.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Chamai-a <small>(o escravo sahe)</small></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Faze desta festa um festim, divino Cezar: canta!<span +class="pagenum">[40]</span></p> + +<h4>LUCANO</h4> + +<p>Cezar, não sejas implacavel.</p> + +<h4>VATINO</h4> + +<p>Não sejas implacavel!</p> + +<h4>VOZES</h4> + +<p>Sê magnanimo, Cezar!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>O meu medico prohibiu me de cantar, hoje.</p> + +<h4>SENÉCION</h4> + +<p>Poupa a tua divina garganta, Cezar. Que seria de Roma e da Grecia se a tua +voz se enublasse!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Recitarei o meu hymno novo. Se, mais tarde, puder, cantarei.</p> + +<h4>TODOS</h4> + +<p>Graças, Cezar.</p> + +<p class="dcena">Entra Poppêa, sumptuosa e bella.</p> + +<h4>VOZES</h4> + +<p>Salve, divina Augusta! Salve, ó Deusa! Salve, divina!<span +class="pagenum">[41]</span></p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Um momento, bella Poppêa. Vou recitar o meu novo hymno a Vénus. Precizo de +têl-a diante.</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Ó Marcos, é possivel! Poppêa, a sanguinaria, é esta mulher de uma belleza +divina?!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Sim, é bella; mas tu és cem vezes mais! Bebe um golo, para que eu ponha os +meus labios no sitio dos teus! <small>(Offerece-lhe a taça, que Lygia +recusa)</small></p> + +<p class="dcena">Faz-se silencio profundo. Musonio, o poeta, encosta-se a uma +cadeira e adormece, emquanto Nero recita. Este vê-o.</p> + +<h4>NÉRO, <small>recitando</small></h4> + +<blockquote style="font-size: 90%;"> + Embalde pretendi deixar a escravidão,<br> + <span style="margin-left: 2em;">Que nos impôe o amôr!</span><br> + <span style="margin-left: 2em;">A Deusa luminosa</span><br> + Que accende, em Chypre, o facho da paixão<br> + Por sobre a humanidade; altiva, desdenhosa<br> + Arrancou-me do peito o coração,<br> + E foi depôl-o aos pés, da mais formosa<br> + Das Romanas, Poppêa, a minha amada!<br> + <br> + Da Vénus Aphrodite a incandescente lava<br> + <span style="margin-left: 2em;">Passou pela minh'alma!</span><br> + <span style="margin-left: 2em;">As intimas ternuras,<span + class="pagenum">[42]</span></span><br> + Só pode soluçar a minha lyra escrava<br> + Do seu divino olhar, das calidas alvuras<br> + Do seu colo de neve, da bôcca onde os Prazeres<br> + Moram em ninho rubro entre desejos...<br> + Uma lyra que chora a pedir beijos!<br> + <br> + Vem, amada Poppêa, e escuta a Deusa:<br> + Sê como ella, de quem tens a fórma,<br> + <span style="margin-left: 2em;">Caritativa e dôce!</span><br> + <span style="margin-left: 2em;">Abre o teu leito</span><br> + Aos segrêdos do amôr, ao eterno gozo!<br> + Eu sou um Deus! que troca a divindade,<br> + Do mundo o senhorio, a magestade,<br> + <span style="margin-left: 2em;">Pelo logar do esposo!</span><br> +</blockquote> + +<h4>TODOS</h4> + +<p>Ó poeta divino! Salve!</p> + +<h4>TODOS, <small>com palmas e gritos</small></h4> + +<p>Ó voz divina!</p> + +<p>Ó immortal!</p> + +<p>Ó Jupiter!</p> + +<p>Ó artista divino!</p> + +<p>Ó resplandecente!</p> + +<p>Salve! Salve! Salve!</p> + +<h4>POPPÊA, <small>vem beijar magestosamente a mão de Néro</small></h4> + +<p>Obrigada, Cezar! <small>(sahe)</small></p> + +<p class="dcena">Mulheres choram, homens fazem gestos exagerados de espanto: o +éphebo Pitagoras vem joelhar-se ao pé do leito de Néro e fica. Sentam-se de +novo alguns convivas, outros ficam de pé.<span class="pagenum">[43]</span></p> + +<h4>PETRONIO, <small>empunhando a taça</small></h4> + +<p>A Cezar olimpico! <small>(Todos bebem)</small></p> + +<h4>NÉRO, <small>consultando</small></h4> + +<p>Petronio?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Os versos são admiraveis. Lucano deve estar amarello de inveja! +Querel-os-hia peores, para poder fazer-lhes um elogio que os valesse.</p> + +<h4>LUCANO</h4> + +<p>Maldito o destino que me fez contemporaneo de Cezar! Elle me eclipsa como a +luz do sol a luz d'um candieiro!</p> + +<h4>NÉRO, <small>a Tigelino, mostrando-lhe Musonio adormecido</small></h4> + +<p>Faze-me dormir Musonio, o estoico, por uma vez.</p> + +<h4>TIGELINO, <small>deitando veneno n'uma taça</small></h4> + +<p>Lentamente?</p> + +<h4>NERO</h4> + +<p>Não.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Musonio adormeceu emquanto Néro recitava!</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>É um crime?<span class="pagenum">[44]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>De lesa-magestade.</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>E vão acordal-o?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Para dormir outra vez... para sempre!</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Eh! Musonio? eh! filosofo?</p> + +<h4>MUSONIO, <small>aparvalhado</small></h4> + +<p>Que é? Que queres? Maldito cão!</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Cezar, chama-te. <small>(Musonio, levanta-se)</small></p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>O quê sonhavas?</p> + +<h4>MUSONIO</h4> + +<p>Que Cerebero me ladrava, raivosamente.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Tu vês, Vatino, é preciso acreditar nos sonhos.<span +class="pagenum">[45]</span></p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Petronio brindou a Cezar olimpico. Todos beberam; faltas, tu!</p> + +<p class="dcena">Musonio, percebe, e hesita em pegar na taça.</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Vamos: a Cezar olimpico.</p> + +<p class="dcena">Musonio, olha Cezar, que o fita com a esmeralda; bebe, vacila +e cahe morto.</p> + +<h4>LYGIA, <small>levantando-se</small></h4> + +<p>Que horrôr!</p> + +<p class="dcena">Dois escravos levam-no</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Tem coragem. Senta-te.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Os gladiadôres? <small>(Entram Croton e Timon)</small> Croton, não te +esqueças de que és o mestre da minha escola. E tu, Timon, mostra-nos, se podes, +como se substitue um mestre.</p> + +<p class="dcena">Os gladiadôres luctam. O interesse cresce.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Bravo, Croton.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Bello grupo para marmore.<span class="pagenum">[46]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Bravo! Timon.</p> + +<h4>CALVIA</h4> + +<p>Que bellas fórmas!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Vestal, silencio!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Não é uma bella arte?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>A mais bella, depois do canto e da musica.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Hei-de de experimental-a, tambem.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Sereis invencivel!</p> + +<p class="dcena">Croton dominou Timon. Agarra-lhe a garganta e vai +estrangulal-o.—Á voz de Néro: abraça-o e ergue-o.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Alto! Bravo, Croton! <small>(applausos)</small> Exercita-te, Timon. Por +momentos tiveste a victoria. Tens qualidades. Vai e não te esqueças de que me +deves a vida.<span class="pagenum">[47]</span></p> + +<h4>TIMON</h4> + +<p>Ella é vossa, divino Cezar!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Dai-lhe de beber. E, a mim; por Bacho, que não hei-de engulir a sêco esta +aza de pavão de Samos. <small>(deitam-lhe vinho)</small> Que comes, tu, +Calvia?</p> + +<h4>CALVIA</h4> + +<p>Una bocado de cabrito de Ambracia.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Estás em familia! Petronio, estás triste? A tua vista tem fome de graça e de +belleza. Tigelino, mostra-nos a graça assyria.</p> + +<p class="dcena">Tigelino sobe. Ouve-se o côro bachico. Dançarinas assyrias, +semi-núas, de cabeças ornadas de flôres, envoltas n'um véu ligeiro, braços e +tornezellos com braceletes d'oiro, entram dançando com o côro. Os convivas +comem e bebem, conversando em segrêdo. Côro e danças esmorecem lentamente. Os +escravos dão vinho ás bailadeiras. Algumas sentam-se. Todos estão bebedos, +excepto Lygia e Actêa. Durante as danças as luzes das salas esmorecem.</p> + +<h4>SENÉCION, <small>de pé</small></h4> + +<p>Eu creio nos Deuzes. Dizem que Roma ha-de morrer! Ha quem diga que ella +morre já! A falta<span class="pagenum">[48]</span> é dos rapazes que não tem fé +e sem fé não ha virtude.</p> + +<h4>VATINO</h4> + +<p>Quem é que diz de Roma vai morrer?</p> + +<h4>SENÉCION</h4> + +<p>Os filosofos.</p> + +<h4>VITELIO</h4> + +<p>Má raça, essa, dos filosofos.</p> + +<h4>LUCANO, <small>com Nigidia no colo</small></h4> + +<p>Não ames nunca um filosofo, Nigidia! Ama os poetas. A filosofia é uma adega +cheia de ôdres... os filosofos. Quanto mais ôccos, maiores são. Disse-o não sei +se Epicteto.</p> + +<h4>NIGIDIA</h4> + +<p>Nunca disse isso, Epicteto.</p> + +<h4>LUCANO</h4> + +<p>Não? Pois podia dizel-o; porque disse tolices muito maiores. Então, digo-o +eu.</p> + +<h4>SENÉCION</h4> + +<p>Não, Roma não morre! Teriamos de morrer todos! Nunca mais beber vinho! +<small>(chora sobre o colo de uma bachante.)</small><span +class="pagenum">[49]</span></p> + +<h4>BACHANTE</h4> + +<p>Não chores, imbecil... que te fazes feio. Dorme antes. <small>(empurra-o +levemente. Elle cahe debaixo d'uma meza e fica.)</small></p> + +<h4>LUCANO, <small>enrolando-se na hera d'uma amphora</small></h4> + +<p>Eh! lá, Bachantes, aqui está um Fauno!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Pitágoras, vem cá! <small>(a Petronio)</small> conheces alguma coisa mais +bella? <small>(beija as mãos do éphebo)</small> Hei-de cazar comtigo! Mãos tão +bellas, nunca vi. Vi... já... quando? <small>(lugubre)</small> Eram de... minha +mãe! <small>(pausa e espanto)</small> Eram de minha mãe... Sim, d'Agrippina! +<small>(baixo)</small> Dizem que pelas noites de luar pelas aguas da Baïa... +vagueia como que á procura... não se sabe de quê! Se encontra uma barca +desapparece; mas o pescadôr que a viu, morre!</p> + +<h4>VATINO</h4> + +<p>Nos Deuses não acredito... mas nos espectros... sim. Nos espectros!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>E, todavia celebrei, grandiosamente, aos Deuses tumulares! Não a quero +vêr... Cinco annos!<span class="pagenum">[50]</span> cinco annos! Matei a, mas +fui forçado a isso! Matava-me ella, se não o faço! Se eu tivesse morrido não me +tinheis ouvido, hoje!</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Graças, Cezar, por nós, pela cidade, pelo mundo!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Não a quero vêr! <small>(gritando)</small> Vinho! e que esses timbales +rujam!</p> + +<h4>LUCANO</h4> + +<p>Eu sou um Fauno! É é é... cho... ó ó ó. Os faunos amam as florestas! Nos +jardins de Néro ha bosques profundos! Nigidia, levanta-te... acorda... vamos +para o bosque!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Tem razão Lucano; abraza-se, aqui! Vamos para os jardins! Agora, sim, agora, +vou cantar. Trazei vinhos! Terpnos, Diodoro, as citharas. +<small>(obedecem)</small> Quero dançar tambem. E archotes... quero luz... muita +luz... tudo bem claro, que a não quero vêr!</p> + +<h4>CALVIA</h4> + +<p>Quem?<span class="pagenum">[51]</span></p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>A mulher das mãos brancas... como as de Pitágoras! <small>(reparando em +Actêa que acabou de fallar com Ursus o gigante que fica atraz de Marcos e +Lygia)</small> Ó bella e generosa Actêa! dá-me o teu braço. Vou cantar, para +ti, uma canção á Lua! Á casta Lua, serena como tu, velada e meiga!</p> + +<h4>ACTÊA, <small>acceitando-lhe o braço</small></h4> + +<p>Senhôr, sou a vossa escrava.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Não; és uma estrella do meu céu! Um comêta que só apparece, de longe em +longe! <small>(sobem todos)</small></p> + +<h4>MARCOS, <small>agarrando brutalmente Lygia</small></h4> + +<p>Dá-me os teus labios! Hoje ou amanhã... que importa? Para que esperar? És +minha! Cezar roubou-te para mim!</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Marcos...</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Para mim! Ha quanto te quero! Um dia em caza dos Plaucios, vi-te no banho... +núa! Não o sabias? Como és bella! Sahias da agua como a<span +class="pagenum">[52]</span> Vénus das espumas... Um sonho! Pedi-te a Cezar que +te mandou buscar... Amanhã vaes para minha caza... Dá-me os teus labios! +<small>(força para beijal-a)</small> Dá-mos, já, agora.</p> + +<h4>LYGIA, <small>recuando aflicta</small></h4> + +<p>Marcos, não te conheço... tem piedade!... não, nunca...!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Piedade? não; amôr! És minha, quero beijar-te... quero a tua bôcca! Dá-m'a! +<small>(agarrando-lhe brutalmente a cabeça)</small> Ó dá-m'a, por Jupiter! +ou...</p> + +<p class="dcena">O escravo Ursus agarra-o pela cinta e atira-o sobre o +leito.</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Es tu? <small>(atira-se-lhe ao colo e fica suspensa)</small></p> + +<h4>URSUS</h4> + +<p>Não tenha mêdo... sou eu! <small>(leva-a a colo)</small></p> + +<h4>MARCOS, <small>levantando-se tonto</small></h4> + +<p>Lygia! Lygia! <small>(vai a querer seguil-a, e cambaleia)</small> Por +Hercules! <small>(ampara-se a uma assyria que bebe)</small> Que é? que +foi?<span class="pagenum">[53]</span></p> + +<h4>ASSYRIA, <small>dando-lhe a taça</small></h4> + +<p>Um sonho! Bebe!</p> + +<p class="dcena">Marcos bebe e cahe sobre o leito.</p> + +<h4>URSUS</h4> + +<p>Eis os senhores do mundo! <small>(sahe, levando Lygia)</small>.</p> + +<p class="dcena">No jardim ouve-se a musica. As luzes esmorecem. Um ou outro +bebedo levanta a cabeça aos sons da orchestra e torna a deixal-a cahir. As +rosas sahem sempre. O panno desce, lento.</p> + +<p style="text-align:center;">FINAL DO 1.º ACTO<span +class="pagenum">[54]</span></p> + +<p><span class="pagenum">[55]</span></p> +<hr style="width: 65%;"> + +<h2><a name="ACTO_SEGUNDO" id="ACTO_SEGUNDO"></a>ACTO SEGUNDO</h2> + +<h3>QUADRO TERCEIRO</h3> + +<p class="dcena">Caza de Vinicio. O tablium ornado com flôres. Perfumadôres no +chão.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Estavas bebedo, hontem. Não gostei de te vêr. Andaste como um carroceiro dos +montes Albanos. Não sejas nunca tão sôfrego. Lembra-te que um bom vinho deve +ser bebido lentamente. Porque escravo a mandaste buscar?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Por Altacino.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>É de confiança?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Da maior. <small>(passeia agitadíssimo)</small> Que demora!<span +class="pagenum">[56]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>E, faze por lhe alcançares as bôas graças. Pôe-na de bom humôr, para lhe +destruires o máu effeito das brutalidades de hontem.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Que demora!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Sê generoso, que ella merece-o. É bella! Sê magnanimo!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Deviam, cá estar, ha meia hora.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>De certo. Queres tu, para matar o tempo, que te falle das prophecias de +Appolonio de Tyana, ou das maximas de Aristóteles, meu mestre, o estheta +maximo?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não... Deviam já ter chegado.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Está dito... Deviam já ter chegado.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Malditos escravos. Teem as pernas ankilosadas<span +class="pagenum">[57]</span> por falta de exercicio. Terei de os fazer correr +diante das varas.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Elles não são o amante que espera. Tu não tens paciencia, nem serenidade. É +precizo ser distincto, sempre! E, depois, não se traz assim uma princeza, uma +filha do rei da Lygia.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Tu zombas?... se fôsse comtigo!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Agradeceria aos Deuses o fazer-me prelibar, mais amplamente, uma posse +divina.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>A demora não é natural... Eu vou vêr...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Não percas a tua bella linha esthetica. Espera; não sejas vulgar. +<small>(ouve-se ruido)</small> Tanto mais, que me parece que chegam. <small>(o +ruido augmenta. Á porta apparecem quatro escravos. Dois d'elles com os rostos +ensanguentados)</small></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Onde está Lygia?<span class="pagenum">[58]</span></p> + +<h4>OS ESCRAVOS</h4> + +<p>Ai, Senhôr!; ai, Senhôr!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Onde está Lygia? <small>(avança furioso)</small></p> + +<h4>OS ESCRAVOS</h4> + +<p>Vê o sangue, Senhor! Vê o sangue!</p> + +<h4>UM ESCRAVO</h4> + +<p>Defendêmo-la, até á ultima.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Que é d'ella?</p> + +<h4>UM ESCRAVO</h4> + +<p>Raptaram-na!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Ah! miseravel. <small>(atira-lhe uma taça á cabeça)</small> Gulon?</p> + +<h4>GULON, <small>apparece</small></h4> + +<p>Senhôr.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Cem varadas a cada um.</p> + +<h4>OS ESCRAVOS</h4> + +<p>Senhôr, piedade!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Até a morte! <small>(os escravos sahem, em grita, adiante de +Gulon)</small><span class="pagenum">[59]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Está doido! Vamos ter carnificina. Repugnam-me os talhos. Vale. +<small>(sahe)</small></p> + +<h4>MARCOS, <small>postrado, senta-se</small></h4> + +<p>Mas quem poderia roubar-ma? Quem? Plaucio? Ai d'elle, se o foi! Ai +d'elle!... Pedirei a Cezar a sua morte!... E, se foi Cezar? Pelas furias! se +foi Néro n'uma das suas nocturnas «pescas de Perolas,» como elle lhes chama?! +E, quem podia ser senão, elle, Néro? Quem ousaria oppôr-se á sua vontade? Viu-a +hontem, apeteceu-lhe... roubou-ma! Cezar diverte-se comigo! Por Écate, por +Érebo, por vós ó Deuses do lar, <small>(toma terra n'um vaso e espalha-a pelo o +chão)</small> juro que quem quer que foi, escravo ou imperadôr, mendigo ou +Cezar, mato o! <small>(ao introductor, que apparece)</small> O meu manto.</p> + +<h4>O INTRODUCTOR</h4> + +<p>Actêa deseja fallar-vos.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Actêa? Em bôa hora. Venha. <small>(A Actêa, que entra, agarrando-lhes as +mãos)</small> Onde está Lygia?<span class="pagenum">[60]</span></p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Vinha perguntar-t'o.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não sei; roubaram-ma no caminho. <small>(junto do rosto d'Actêa, com os +dentes cerrados)</small> Actêa, se tens amôr á vida, se não queres ser causa de +desgraças, cujo alcance nem podes conhecer, diz-me a verdade: foi Cezar quem +m'a robou?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Cezar não sahiu hontem do palacio.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Pela memoria de tua mãi, por todos os Deuses, Lygia não está no Palatino?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Pela memoria de minha mãi, Lygia não está no Palatino, nem foi Cezar quem +t'a robou.</p> + +<h4>MARCOS, <small>cahindo na cadeira, com a cabeça nos punhos</small></h4> + +<p>Então foram os Plaucios! Ai d'elles!</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Aulo Plaucio procurou-me, hoje, a saber de Lygia.<span +class="pagenum">[61]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Hypocrisia! Se não soubesse d'ella ter-me-hia procurado a mim.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Tambem procurou.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>A mim?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>De manhã.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não o vi, nem me fallou.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Os teus servos contaram-lhe o acontecido. <small>(Pausa)</small> Não, +Marcos, o que aconteceu, aconteceu por vontade de Lygia.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Tu sabias que ella queria fugir?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Sabia que ella não consentiria em ser tua concubina!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>E... tu? que tens sido toda a tua vida?<span class="pagenum">[62]</span></p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Eu?... És pouco generoso! Eu era uma escrava!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Seja como fôr. Cezar deu-ma! Descobril-a-hei nem que seja debaixo da terra. +Farei d'ella o que eu quizer! A minha concubina... porque não? A minha +concubina! Nem que seja precizo chicoteal-a, de dia e de noite! Dal-a-hei, ao +ultimo dos meus escravos! Mandal-a-hei atrelar a um moinho da costa d'Africa. +Procural-a-hei, eu. Procural-a-ha Cezar, inda que seja precizo empregar todas +as legiões.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Tu deliras...! Tem cautella em não metter Cezar, na busca, porque te +arriscas a perdel-a para sempre, no dia em que elle a achar.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Como?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Ouve, Marcos. Hontem, antes de jantar levei Lygia, para a distrahir, a +passeiar nos jardins. Encontrámos Poppêa e a pequena Augusta, sua filha e filha +querida de Néro, nos braços da ama negra. Á tarde a creança cahiu doente e +Lilith,<span class="pagenum">[63]</span> a ama, diz que foi a estrangeira que a +enfeitiçou! Se a creança melhora, tudo esquecerá: se peóra Poppêa será a +primeira a accusar Lygia de feiticeria e, encontrada, não terá salvação!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Talvez que ella enfeitiçasse a creança... e a mim tambem!</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>A negra diz que a pequenita se pôz a chorar logo que passou por nós. É +certo, ouvi. Mera coincidencia. Procura-a; mas antes das melhoras da creança +não falles de Lygia. Seus olhos choraram, bastante, de mais... por ti!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Por mim? Disse-t'o ella?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Eu o vi. As suas lagrimas eram sinceras e a sua dôr sentida. Como velei por +ella no palacio de Cezar, quiz valer-lhe, se pudesse, ainda, junto de ti.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Como?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Invocando a tua generosidade para ella.<span class="pagenum">[64]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Zombas de mim: se não sei onde pára...</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Ainda o podes saber: deixa-a em paz.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não posso.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Desposa-a.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Nunca!</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Não é uma escrava, é um refem de guerra: os refens são sagrados.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Concorreste, já vejo, para o rapto?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Talvez.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Contra, Cezar.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Não; contra ti.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>E, dás-lhe razão?</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Defendo-a.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Tu ama-la?<span class="pagenum">[65]</span></p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Quanto ella merece.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Porque te não paga, como a mim, o amôr com o desprêzo.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Homem cégo, ella amava-te.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>A mim? Que amôr é esse que prefere a vida errante, a indigencia do dia +seguinte e talvez uma morte miseravel, a uma vida de riquezas e de alegria? Que +amôr é esse, que tem mêdo do prazer e sêde dos sofrimentos? É que ella me +odeia, do coração!</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Como imaginaste captival-a? Em vez de te inclinares diante dos seus pais +adoptivos, os Plaucios, e de lh'a pedires para esposa, por surpreza, roubaste +lh'a. Era a filha d'um rei, quizeste fazer d'ella a tua concubina! Feriste-lhe +os olhos inocentes com o espectaculo da orgia, sem comprehenderes que aquella +creança candida preferiria a morte á deshonra! Sabes tu quaes são as suas +crenças? sabes que Deus adora? e se esse Deus não é melhor<span +class="pagenum">[66]</span> do que essa Vénus impudíca e essa Isis que os +Romanos veneram, no seu impudôr? Que te importou tudo isto? A pobre creança, +quando fallava de ti, córava: amava-te! Como lhe pagaste a aspiração pura do +primeiro amôr? Enchendo-a de espanto, tratando-a como a uma escrava, +insultando-a!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Eu não a insultei!</p> + +<h4>ACTÊA <small>ironica</small></h4> + +<p>Generoso senhôr... vilmente! Venceste os Parthas, tu? Que é agora um coração +de mulher para um famoso guerreiro? Enganaste-te: é mais facil vencer os +barbaros. Amava-te; é possivel que te despreze, agora!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Que me importa? Amo-a eu; quero-a, hei-de tel-a.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Se ella te não amar, essa satisfação deve ser bem mesquinha. O amôr de dois +é um misterio divino: o de um só: uma torpeza! Nobre consul, adeus!<span +class="pagenum">[67]</span></p> + +<h4>PETRONIO, <small>entrando: a Actêa que vae a sahir</small></h4> + +<p>Salve, divina Actêa.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Salve, galante Petronio.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Dou-vos graças pela bondade com que tratastes Lygia.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Fiz o meu dever. Ella tem a candura d'uma virgem e a graça das pombas...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Que vôam.</p> + +<h4>ACTÊA</h4> + +<p>Officio de quem tem azas. Adeus. <small>(sahe)</small></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Sabes alguma coisa de Lygia? Actêa a que veio?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Saber d'ella... Não sahiu da cidade. Os meus escravos vigiam as portas. Ella +ou o tal gigante, hão-de apparecer.<span class="pagenum">[68]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Tens sorte em que não seja Cezar o raptadôr. Trago-te uma boa nova.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Qual?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Eunice, a minha escrava,—desde hontem que reparo que é verdadeiramente +bella!—conhece um homem capaz de a descobrir.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Quem é?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Um tal Chilon, médico, sabio, feiticeiro, ou o que é, que lê o destino e +prediz o futuro. Mandei-o chamar e trago-t'o. Queres fallar-lhe?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Que venha.</p> + +<p class="dcena">Petronio faz signal para dentro. Chilon entra. É um corcovado, +tunica no fio, esburacada, barba e cabelleira intonsas. Sandalias velhas, +etc.</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Salve, senhores nobilissimos!<span class="pagenum">[69]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Aproxima-te. Sabes bem do que queres encarregar-te?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Pelo o que em toda a Roma se falla, não é difficil de adivinhar. Roubaram +aos teus escravos, nobre senhôr, Lygia, ou Calina, filha adoptiva dos Plaucios. +Encarrego me de t'a descobrir, na cidade ou fóra, onde estiver.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Que meios tens para isso?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Os meios tens, tu, senhôr. Eu só possúo o genio.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>É homem para a descobrir.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Previno-te de que se me enganas para me apanhares dinheiro, mando-te +desfazer com varadas.</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Eu sou um pobre filosofo, senhôr, e um filosofo<span +class="pagenum">[70]</span> não pode deixar de pensar na recompensa, sobretudo +quando ella pode sêr da especie que acabais de me fazer entrevêr, tão +magnanimamente!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Então és filosofo?; mas Eunice disse-me que eras médico ou adivinho. D'onde +a conheces?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Veio consultar-me. A minha fama chegou até ella.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Sobre quê?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Materia d'amôr. Queria curar-se d'um amôr, não partilhado.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>E, curaste-a?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Fiz mais. Dei-lhe um amuleto que faz nascer o amôr reciproco: um fio do +cinto da Vénus de Chypre.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>De que escola és tu, divino sabio?<span class="pagenum">[71]</span></p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Senhôr, pelo meu manto em escumadeira, sou um cynico: um estoico, pela +paciencia com que soffro a minha miseria: e, porque, como não tenho liteira, +tenho de andar a pé, de taberna em taberna, a dar lições aos que me pagam o +vinho, sou um peripathetico.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Gostas de vinho?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Heraclito disse que o vinho era fôgo e que o fôgo era uma divindade!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Deante da qual o teu nariz se illumina.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Já te tens empregado em cargos semelhantes?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Hoje, senhôr, a virtude e a sabedoria teem tão pouco valôr, que um pobre +filosofo se vê forçado a lançar mão de todos os meios de existencia!<span +class="pagenum">[72]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Quaes são os teus?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Saber tudo o que se passa e offerecer os meus serviços a quem preciza +d'elles.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>E pagas-te?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Conforme os meus meritos. Que remedio!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não devem ser grandes porque te não deram ainda para um manto.</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Sou modesto, senhôr. O que é pequeno não é o meu merito é a gratidão dos +homens. Quando se esconde um escravo de preço quem o descobre? Quem indica os +culpados dos pasquins em <em>louvôr</em> de Poppêa, a divina? Quem descobre nas +livrarias os versos contra Cezar? Quem leva as cartas que se não podem confiar +aos escravos? Quem faz fallar os barbeiros, os alfaiates, os taberneiros e +capta a confiança dos escravos a saber<span class="pagenum">[73]</span> tudo o +que se passa n'uma casa, do atrio ao jardim? Quem conhece todas as ruas, +praças, bêcos, alfurjas, da cidade? Quem sabe o que se diz, nas thermas, no +circo...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Basta, por todos os Deuses, illustre sabio, ja sabemos quem és.</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>E quanto valho.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Bem. Tens necessidade de indicações?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Eu? Tenho necessidade de armas.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Quaes?</p> + +<h4>CHILON, <small>fazendo o gesto de dinheiro</small></h4> + +<p>Os tempos vão tão máus, para os filosofos...</p> + +<h4>MARCOS, <small>atirando-lhe a bolsa</small></h4> + +<p>Ahi tens.</p> + +<h4>CHILON, <small>apanhando-a</small></h4> + +<p>Começamos a entender-nos. Nobre senhor, ouvide: Lygia não foi roubada por +Aulo, nem<span class="pagenum">[74]</span> está no Palatino. O rapto foi feito +por Ursus, o gigante seu escravo, e pelos christãos.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Ouve, Marcos.</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Lygia adora a mesma divindade que Pomponia, a mais virtuosa das Romanas; é +Christã...</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Como o sabes?</p> + +<h4>CHILON, <small>com emphase</small></h4> + +<p>Sou christão!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Tu?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Desde hontem, senhôr, desde hontem.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Reflecte Chilon. Tu não és um imbecil. Quererás presuadir-nos de que +Pomponia e Lygia pertencem á seita dos inimigos do genero humano, dos +envenenadôres, das gentes perdidas nos ultimos vicios?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>É christã, senhôr, tende a certeza absoluta.<span +class="pagenum">[75]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>O que quer dizer que Pomponia e Lygia envenenam as fontes, immolam as +creanças encontradas nas ruas e se entregam ao deboche? Tu que viveste em caza +de Aulo vês como isto é uma calumnia ou uma tolice! Ou então os christãos não +são o que se diz.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Seja como fôr. Foi então esse Ursus quem a roubou?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Com os christãos.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>E, encontral-a-has? Saberás onde está?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Esta noite, ainda, trarei noticias.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Duplicarei a offerta se a achares. Gulon? <small>(para dentro)</small></p> + +<h4>GULON</h4> + +<p>Meu senhôr.<span class="pagenum">[76]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Dá um manto capaz a esse... filosofo.</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Nobre consul, sois duplamente generoso: cobrís d'uma vez, com a mesma capa: +a Sciencia e a Virtude! Nobre Petronio, vale. <small>(Sahe)</small></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Adeus... <em>collega</em>. Não me desagrada o tal filosofo. Descobre Lygia, +verás. Mas parece-me bom mandares desinfectar o atrio... A respeito de perfumes +a filosofia está muito atrazada... só conhece... os naturaes. Fica-te com os +Deuses... Sabes que amanhã é a festa do Lago?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Sei.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Dizem que Vatino inventou maravilhas. Não podes faltar. Cezar poderia notar +a tua falta. E... bôas novas, até lá.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Gulon?</p> + +<h4>GULON</h4> + +<p>Meu Senhôr. O jantar?<span class="pagenum">[77]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>O meu manto e o estilete. <small>(paseia agitado)</small></p> + +<h4>GULON</h4> + +<p>Eil-os. <small>(Veste-lhe o manto)</small> Ides só?</p> + +<h4>MARCOS, <small>mettendo o estilete no cinto</small></h4> + +<p>Só. <small>(Sahe)</small></p> + +<p style="text-align:center;">O PANNO DESCE<span class="pagenum">[78]</span></p> + +<p><span class="pagenum">[79]</span></p> +<hr style="width: 65%;"> + +<h3>QUADRO QUARTO</h3> + +<p class="dcena">Salão no palacio de Néro. Ao fundo um terraço d'onde se vê +Roma. Mezas, cadeiras. Anoitece, gradualmente, durante o acto.</p> + +<h4>PETRONIO, <small>a Marcos que vai a passar ao fundo</small></h4> + +<p>Dou graças aos Deuses, nobre consul, por te saber ainda vivo.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Ah! Petronio.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Nem me vias. D'onde te desenterraste? Em tua caza, em parte alguma se sabia +onde estavas. Alguma Deusa te raptou para a sua morada?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Talvez.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Mas tu estás mal, meu sobrinho, muito mal. É evidente que Vénus te perturbou +o espirito e te faz perder a razão! Por Pollux, se a chama que te consome te +não reduz a cinzas, tu metamorfoseias-te<span class="pagenum">[80]</span> +n'aquella esphinge do Egypto, que dizem que perdida d'amôr pela Lua, se tornou +indifferente ao dia, de modo a só esperar a noite, para poder com os olhos de +pedra, namorar a amante!</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Oxalá me transformasse em esphinge!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>... Se não sou eu, na ultima vez que nos vimos, na festa do lago, ou tinhas +de transformar-te em esfinge... ou eras um homem perdido.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Como assim?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Quem era a mulher que, no bosque de Diana, te queria levar para entre as +sombras?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>A mulher mascarada?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Sim.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não sube, nem quiz.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Era Poppêa.<span class="pagenum">[81]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Heim?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Chamei-te a tempo. Ella fugiu. Se n'esse momento lhe negas o amôr, que era +feito de ti?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Tel-o-hia recuzado.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Evitei essa asneira a tempo; mas a hesitação que mostraste, valeu-te o seu +odio. As mulheres não perdôam, nunca, essas coisas... e então Poppêa...! +Acautela-te.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Desprezo-a.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>A pequena Augusta morreu...</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Que me importa?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>A morte atribue-se aos feitiços de Lygia.<span +class="pagenum">[82]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Imbecís!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>E, a proposito... Lygia?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Tu não calculas, Petronio, o que me tem acontecido.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Mas diz. Tens-me causado sustos. Sabes que te quero...</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>N'essa noite... a do Lago, quando cheguei a caza esperava-me Chilon.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>O filosofo?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>O tal. Sabia de Lygia, vinha propôr-me o raptal-a. Concordei. Fomos, eu, +elle e Croton, o gladiadôr, embuçados, ao Ostrianum, o velho cemiterio, á +sahida da porta Capuana. Alli se reunem escondidamente os Christãos e lá ouvi +Paulo, o apostolo, pela primeira vez. Lygia estava junto d'elle, envolta n'um +manto escuro, embebida, a<span class="pagenum">[83]</span> ouvil-o, n'uma +allucinação de todo o seu sêr, arrebatada, divina! Se tivesses visto a sua +figura d'uma belleza ideal...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Adiante.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Todo o meu amôr renasceu com a furia d'um toiro das Hespanhas. Jurei tel-a. +Alli, era perigoso: os christãos eram alguns centos. Seguimo-la até a caza, á +sahida. Uma velha caza, no bairro do Transtiberino. Entrou n'um pateo com o +velho apostolo e esse Ursus, o escravo gigante, que a não larga, nunca. +Escondemo-nos n'um corredôr á espera de occasião propicia, eu e Croton, porque +o filosofo não sendo capaz de entrar... ficou de vigia, na rua. Ursus veio +buscar agua á cisterna do pateo. Era occasião: virei-me para Croton e +disse-lhe: matta. O gladiadôr atirou-se ao escravo como um tigre; eu corri pelo +corredôr, empurrei a porta entreaberta, agarrei Lygia ao collo e corri para +fóra. Desmaiára.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Bello grupo dariam para um rapto.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Ao chegar ao pateo eis o que eu vi. Ursus dominava<span +class="pagenum">[84]</span> Croton vergado sobre um joelho, apertando-lhe, com +uma das mãos, o pescoço. O gladiadôr tinha um estertôr na garganta, os olhos +sahiam-lhe das orbitas! Ao vêr-me, Ursus, applicou sobre o peito de Croton um +murro tal que este rolou pelo chão, de bôcca aberta, jorrando sangue. Estava +morto!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Por Hercules, que esse homem merece uma estatua.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>De chofre, voltou-se para mim, agarrou-me este braço e partiu-m'o.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Depois?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não me lembra senão d'uma voz, feita de todos os sons das citharas, dizer: +Ursus, não mates! Quando acordei estava n'uma cama e vigiava-me uma pobre +viuva, um filho e... ella!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>E foi ella quem te tractou?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Tratou-me um medico; mas salvou-me, ella! Que cuidados, que dedicação, dias +e noites! Contando<span class="pagenum">[85]</span> mesmo as horas dolorosas da +doença, passei, alli, os melhores dias da minha vida. O apostolo, contava toda +a vida e morte de Cristo, seus milagres e douctrina. Vi os mais bellos exemplos +de caridade, de amôr e de perdão! Se tu o ouvisses!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Não me faltava mais nada! O que faz o amôr! Começavas a achar essa religião +adoravel, porque era a de Lygia.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Talvez.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>É assim. O amôr transforma as pessôas completamente, opiniões e gostos. Como +a mim me está acontecendo. D'antes só gostava do perfume da verbena; +lembras-te? Hoje, como a bella Eunice prefere o das violetas, é d'este que eu +gosto mais.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Eunice?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Sim, Eunice. Ah! tu não sabias ainda... Tenho que te agradecer aquella +recuza... É uma maravilha de esthetica, a loira Eunice! Uma obra de +Praxiteles...!<span class="pagenum">[86]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>E a tua Chrisotémis?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Mandei-lhe umas sandalias bordadas a perolas... É como quem diz: vai +passeiar. É o meu processo; ellas já sabem. Chrisotémis, francamente, era +contemporanea da guerra de Troia. E, afinal, melhoraste, sahiste... e o que é +feito da tua Lygia?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Fugiu-me.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Outra vez?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>No dia em que me levantei, ella sahiu.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Tinha mêdo de ti?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Tinha mêdo de si, propria.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>É extraordinario!<span class="pagenum">[87]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Dizes bem. Ella não é como as outras mulheres!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Ah! não? Então não perdes nada com a abstinencia.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não podemos entender-nos.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Decerto, não. Que o Hades confunda esses christãos que te fazem perder o +senso commum.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Tu não conheces a sua doutrina.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Enganas-te, conheço. Já li as taes cartas de Paulo de Tarso. Babozeiras. É +uma doutrina anti-humana: porque a felicidade só vem da belleza, do amôr, e da +força! A isto, chama elle, vaidades! E que theorias! Retribuir o mal com o +bem... Que justiça! O que devemos ao bem? Se a sanção é a mesma para o bem e +para o mal, porque seriam os homens bons?<span class="pagenum">[88]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Segundo elles a sanção começa na vida futura, eterna.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Isso são coisas a verificar... depois da morte.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>A vida para elles começa com a morte.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>É natural. É como se se dissesse: o dia começa com a noite! Vais raptar +Lygia outra vez?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não. Prometti-o.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Tens tenção de adoptar a doutrina christã?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Querel-o-hia; mas toda a minha natureza se oppõe.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Emfim, és capaz de esquecer Lygia?<span class="pagenum">[89]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Nunca!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Então vai... viajar. <small>(entram escravos com amphoras e taças que +collocam nas mezas do 1.º salão e nas da varanda)</small> Vem Cezar. O que +vieste fazer?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Cezar mandou-me convidar para a leitura da Tróiada.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Tambem? E... se elle te perguntar por Lygia?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Não sei...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Dize-lhe... que a tens guardada... que esta ausencia... foi a lua de mel.</p> + +<p class="dcena">Entra Cezar, Poppêa, Tigelino, Vitelio, Senecion, Vatino etc. +escravos. Poppêa sobe para o terraço, com outras damas, onde bebem. Os éphebos +galanteiam, etc.</p> + +<h4>NÉRO, <small>aborrecidissimo</small></h4> + +<p>Salve, Petronio. Inda bem que chegaste. Creio que vou morrer de tédio, de +aborrecimento! A minha viagem á Grecia, adiada!<span +class="pagenum">[90]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Porquê?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Vesta, a propria Deusa, me avisou, no templo. Venho agora de lá. Tão ao +ouvido me disse: addia a viagem, que me assustou.</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Ficámos todos aterrados. A vestal Rubria desmaiou.</p> + +<h4>NERO</h4> + +<p>Que linda garganta que tem Rubria! Que branca! <small>(bebe)</small> Eu +precizo distrahir-me. Vinheis ouvir o poema! Não posso lêr! Nem cantar! Nem +tenho paciencia. Não posso ficar em Roma, irei para Ancio. Abafo, n'estes +bairros apertados, no meio de cazas que se desmuronam, de ruellas immundas. Um +ar empestado chega até aos jardins, chega até aqui! Porque não houve, nunca, um +tremôr de terra que destruisse Roma? Se um Deus, na sua colera, a nivelasse com +a terra, eu ensinaria como se edificava uma cidade para capital do mundo!</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Não dizes, tu, Cezar: se um Deus destruisse a cidade?<span +class="pagenum">[91]</span></p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Sim e então?</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Não és, tu, um Deus?</p> + +<h4>SENECION</h4> + +<p>Podes fazel-o.</p> + +<h4>VATINO</h4> + +<p>Fal-o.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>...Não lerei o meu poema! O meu incendio de Troia flameja timidamente! +Julgava que egualaria Homero e tinha ficado contente.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Não o egualaste?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Não...! Um esculptor quando por esculpir a estatua de um Deus, escolhe um +modêlo. Nunca vi arder uma cidade, não o posso pintar.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Mas tens genio para tanto se o quizeres fazer, Cezar. Aposto que os teus +versos...<span class="pagenum">[92]</span></p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Não, não. Responde-me a uma questão, Petronio. Tens pena que tenha ardido +Troia?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Pena de quê? Por Marte, pelo contrario. Tróia não teria ardido sem o fôgo +dado por Prometheu aos homens e sem os gregos terem declarado a guerra a +Priamo. D'ahi veio que Eschylo escreveu o seu Prometheo e Homero a Illiada. +Quero mais a estes dois poemas do que á tal Troia, provavelmente uma villoria +de cazas de madeira, velhas e sujas!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Eis o que é fallar com tino. Á poesia e á arte tem-se obrigação de +sacrificar, tudo. Felizes os Gregos que deram a Homero o assumpto do seu poêma! +Feliz Priamo que viu as ruinas da sua patria!... Eu nunca vi uma cidade em +chamas!</p> + +<p class="dcena">Silencio geral de receio.</p> + +<h4>VITELIO, <small>avinhado</small></h4> + +<p>Nem eu!; mas se fosse Cezar e a quizesse vêr, via-a!</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Era facil.<span class="pagenum">[93]</span></p> + +<h4>PITAGORAS</h4> + +<p>Poppêa e as damas, Cezar, pedem-te para vires cantar.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Aproxima-se a noite, o sol agoniza, a tarde é bella, o ar cheio de perfumes +dos jardins. Á natureza só falta um cantico...</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>O teu, Cezar!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>É cêdo ainda. <small>(olha para Tigelino, misteriosamente)</small> É cêdo, +ainda.</p> + +<h4>VITELIO</h4> + +<p>Eu adoro a musica.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Das taças.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Dize-me, Petronio, que pensas tu da musica?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>A tua, sobretudo, quando a oiço, faz-me sentir um mundo de prazeres novos. A +musica é um mar, onde á onda succede a onda, á agua, agua sem<span +class="pagenum">[94]</span> fim, até... ao infinito...! e é sempre impossivel +vêr a outra margem.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>É assim que eu penso da musica. Quando canto e tóco, eu, Cezar, senhôr do +Mundo, descubro reinos desconhecidos, mares virgens, mundos nunca sonhados! +Vejo os Deuses! subo ao Olimpo! Um sôpro estranho passa, a esphera vibra em +roda de mim e dir-te-hei <small>(leva Petronio, pelo braço, para o +lado)</small> que eu, Cezar e Deus <small>(muito baixo)</small> me sinto tão +pequeno como um grão d'areia!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Só os grandes artistas se sentem pequenos deante da belleza!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Morro de aborrecimento, aqui! Ouve: imaginas que sou cégo ou idiota? Pensas +que não sei que por essa Roma pregam, todos os dias, inscripções injuriosas, +pelas esquinas? que me chamam matricida, assassino de meu irmão, e de minha +mulher? Que me chamam algoz, porque tenho morto a meus inimigos?... Um homem +bom póde ser cruel?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Póde.<span class="pagenum">[95]</span></p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Eis o meu caso. Quando a musica acalenta a minh'a alma, eu sinto-me tão bom +como uma creança no bêrço.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Os Romanos nunca vos souberam apreciar.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Os Romanos! Como eu odeio os Romanos! <small>(Vai á meza beber. Anoitece +mais)</small> Tigelino?</p> + +<h4>VITELIO</h4> + +<p>Sahiu. Disse que ia mandar accender as lampadas.</p> + +<h4>NERO</h4> + +<p>Ah! sim... Escurece.</p> + +<h4>PITAGORAS</h4> + +<p>Cezar, o cantico? <small>(ao fundo)</small></p> + +<h4>CEZAR</h4> + +<p>Ainda é cêdo... <small>(Desce a Petronio)</small> Sou em tudo um artista. A +musica abre-me as portas d'uma prespectiva indizivel; devo aos Deuses o +explorar esse infinito! Para ascender ás regiões olimpicas<span +class="pagenum">[96]</span> não será precizo, primeiro, praticar algum +prodigioso acto propiciatorio?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Não te entendo, Cezar.</p> + +<h4>NÉRO, <small>baixo</small></h4> + +<p>Para abrir as portas do mundo desconhecido, eu quiz fazer o maior sacrificio +que pode fazer um homem: minha mulher... minha mãi... foi para isso que ellas +morreram! Mas é precizo um sacrificio ainda maior para abrir as portas do +Olimpo! Cumpra-se a vontade dos Oraculos!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>...Qual é o teu projecto?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Vais vêr... de aqui a pouco. <small>(sobe)</small></p> + +<h4>PETRONIO, <small>aparte</small></h4> + +<p>Extranho-o.</p> + +<h4>NÉRO, <small>bebe e desce</small></h4> + +<p>Mas, antes, vê bem que ha dois Néros: um o que os homens conhecem; o outro o +que só tu conheces: o que mata como a Morte e o que delira como Bacho! E, mata, +porque odeia a baixeza, tudo o que<span class="pagenum">[97]</span> é vil e lhe +repugna tudo o que não merece a vida! E mata e elimina!... Como a vida será +pequena quando eu desapparecer!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Comprehendo o teu coração e as tuas máguas!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Como o meu coração é, por vezes, negro! Como este mundo e esta terra são +pequenos, mesquinhos, para mim! Mas, quanto eu puder, aniquilarei esta vida, e +esmagarei este mundo!</p> + +<p class="dcena">(Subito Roma apparece incendiada por diversos lados. Ouve-se +ruido ao longe. Pitagoras, desce)</p> + +<h4>PITAGORAS</h4> + +<p>Cezar, Roma está a arder!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Quê?</p> + +<h4>TODOS, <small>levantando-se e olhando</small></h4> + +<p>A ardêr?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Ó Deuses immortaes!... eu vos dos dou graças!.. Posso em fim vêr uma grande +cidade em chammas! Posso acabar o meu canto!<span +class="pagenum">[98]</span></p> + +<h4>VOZES, <small>do fundo</small></h4> + +<p>Cezar? Cezar?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Ah! É agora o momento. A minha cithara? <small>(Sobe)</small></p> + +<h4>UM CENTURIÃO, <small>entrando rapido</small></h4> + +<p>Divino imperador?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Quê?</p> + +<h4>CENTURIÃO</h4> + +<p>A cidade é um oceano de chamas! Os homens cahem asfixiados! O terrôr +enloquece!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>É a vontade dos Deuses! A minha cithara? <small>(Trazem-lh'a. Terpnos, +Diodoro e os musicos correm)</small> Ó Deuses, que espectaculo sublime! Graças, +por poder vêr, como Priamo, o incendio de minha patria! Agora, vou cantar! +<small>(sobe)</small></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Centurião, sabes tu se o bairro do Transtevero, foi invadido, já?</p> + +<h4>CENTURIÃO</h4> + +<p>Todo, Senhôr. Foi o primeiro.<span class="pagenum">[99]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Maldicção! Se ella morreu... <small>(sahe, doido)</small></p> + +<p class="dcena">(O incendio generalisa-se. De todos os lados do palacio corre +gente para o terraço. Néro sobe os degráus e de cithara em punho, acompanhado, +canta)</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<blockquote> +Berço de meus pais,<br> +<span style="margin-left: 1em;">Roma divina!</span><br> +Quanto eras cara<br> +<span style="margin-left: 1em;">Á minh'alma!...</span></blockquote> + + +<p class="dcena">O ruido, ao longe, cresce. Ouvem-se os rugidos das féras. O +panno desce.</p> + +<p style="text-align:center;">FIM DO SEGUNDO ACTO<span +class="pagenum">[100]</span></p> + +<p><span class="pagenum">[101]</span></p> +<hr style="width: 65%;"> + +<h2><a name="ACTO_TERCEIRO" id="ACTO_TERCEIRO"></a>ACTO TERCEIRO</h2> + +<h3>QUADRO QUINTO</h3> + +<p class="dcena">Sala no palacio de Néro. Néro e Poppêa, Vinicio, Tigelino, +Petronio, Vitelio, Senecion e Vatino.</p> + +<h4>NÉRO, <small>descendo</small></h4> + +<p>Ha tres dias que componho o meu poema. Não posso perder tempo. Sejamos +breves. Roma está exaltada?</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Gravemente.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>A animadversão cresce?</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Cada vez mais.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>O Senado?<span class="pagenum">[102]</span></p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Indignadissimo contra ti.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Ó o Senado! Reedificarei a cidade! Dar-lhe-hei uma outra digna do povo +romano; que mais quer?</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Mas as miserias, as mortes causadas...</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Não abri os meus jardins ao povo? Não tem elle que comer, á farta?</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Os pequenos estão satisfeitos. Os grandes...</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>É preciza uma decisão rapida. Que havemos de fazer, o que será +conveniente...? A tua opinião, Petronio.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Vamos para a Grecia e depois para o Egypto.</p> + +<h4>SENECION</h4> + +<p>É facil partir: voltar é que não será tão facil.<span +class="pagenum">[103]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Por Hercules, voltaremos, se fôr precizo, á frente das legiões da Asia!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Assim, farei.</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Escuta-me, Cezar. O conselho é desastroso. Antes de chegares a Ostia, +rebentará a guerra civil. E sabes, tu, se algum vago descendente do divino +Augusto, se não se fará proclamar imperador?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Farei que nenhum exista. Tu sabes como.</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Mas será um outro. Hontem, os meus soldados ouviram dizer á multidão que se +devia proclamar alguem, como Thrazéias!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Povo insaciavel e ingrato! Que mais quer?</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>A vingança.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>A vingança?... quer victimas? <small>(Pausa e silencio)</small><span +class="pagenum">[104]</span> Se nós lançassemos a nova de que foi... +<small>(olhando-os)</small> Vatino, quem incendiou a cidade?</p> + +<h4>VATINO, <small>empalidecendo</small></h4> + +<p>Eu?... Quem sou eu, ó divindade...?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Tens razão. É preciso alguem mais importante. <small>(circunvagando o +olhar)</small>: Vitelio!</p> + +<h4>VITELIO, <small>riso amarello</small></h4> + +<p>As minhas banhas farão rebentar um novo incendio.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Tigelino?... Tigelino, fôste tu que incendiaste Roma!</p> + +<h4>TIGELINO, <small>audaz</small></h4> + +<p>Por tua ordem, Cezar!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>És meu amigo?</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Tu o sabes, Senhôr.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Bem. Sacrifica-te por mim.<span class="pagenum">[105]</span></p> + +<h4>TIGELINO, <small>hypocritamente</small></h4> + +<p>Eu bem o quizera, Senhôr; mas não posso fazêl-o. <small>(ironico)</small> O +povo murmura e revolta-se. Queres tu que a guarda pretoriana faça o mesmo, pelo +seu chefe?</p> + +<h4>UM ESCRAVO</h4> + +<p>A divina Augusta deseja fallar-te, Tigelino.</p> + +<h4>TIGELINO, <small>a Cezar</small></h4> + +<p>Permittis? <small>(Cezar, faz signal aprovativo. Tigelino sahe)</small></p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Aqueci uma serpente no seio! <small>(a Petronio)</small> Vamos, falla tu. +Confio em ti. Tens mais senso do que todos elles juntos e és meu amigo.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Vamos para a Grecia.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Esperava mais do teu juizo. Se parto quem me garante que o senado não +proclame outro imperadôr? O povo era-me fiel... não é. O senado!... Ah! se este +povo e este senado tivesse uma cabeça, só!<span class="pagenum">[106]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Se queres conservar Roma, Cezar, é precizo deixares alguns Romanos.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Roma, os Romanos, que me importam? Escutar-me-hiam na Helada! Ao redor de +mim, aqui, não ha, senão traição! <small>(subito)</small> Petronio, a plebe +murmura pelas praças... se eu fôsse ao Campo de Marte e cantasse o meu hymno; o +que cantei durante o incendio... não poderia, eu, como Orpheu, encantal-os?</p> + +<h4>VATINO</h4> + +<p>A difficuldade, Cezar, era elles deixarem-te principiar.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Pois vamos para a Grecia.</p> + +<h4>POPPÊA, <small>entrando com Tigelino</small></h4> + +<p>Ouve-me, Cezar. O povo quer uma vingança e uma victima! Que digo eu? uma? +centenas, milhares! Existem as que o devem sêr, devem-se-lhe. Ignoras que na +cidade se acoita um exercito de christãos? Não os conheces? Não te fallei, eu, +tanta vez dos seus crimes e das suas infames cerimonias?<span +class="pagenum">[107]</span> das suas profecias segundo as quaes o mundo +acabará pelo fôgo? O povo, instintivamente, odeia-os e suspeita d'elles. +Ninguem os vê nos templos, no circo, nas corridas! Murmura contra ti e não +fôste, tu, Cezar, nem eu, quem incendiou a cidade! Foram elles! É preziso +dizêl-o. Viram-nos levando nas mãos as tochas incendiarias! O povo tem sêde de +vingança? dá-lha. O povo quer circo, quer sangue? dá-lh'o! Conheces os +culpados! manda!</p> + +<h4>PETRONIO <small>a Marcos, aparte</small></h4> + +<p>A caça a Lygia.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Coragem!</p> + +<h4>NÉRO, <small>levantando as mãos ao ceu</small></h4> + +<p>Oh! Zeus, Appolo, Hera, Actréa, vós, todos, ó Deuses immortaes, porque nos +não socorresteis? Que tinha feito essa bella Roma, a esses energumenos?</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Vinga-a!</p> + +<h4>VATINO</h4> + +<p>Faz justiça!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Que castigo terrivel, que torturas serão bastantes<span +class="pagenum">[108]</span> para punir tal crime? Com a ajuda das potencias do +Tartaro, darei ao meu povo um tal espectaculo, que d'elle se falará, em Roma, +pelos seculos dos seculos!</p> + +<h4>PETRONIO, <small>aparte</small></h4> + +<p>Que Cezar bandido! <small>(olhando Marcos, que passeia louco)</small> É +precizo salvar Lygia. Ou me perco, ou a salvo. <small>(approximando-se galante, +natural, brincando com a tunica gracioso)</small> Assim... encontrastes as +victimas? bem; mas escutai me. Tendes a auctoridade, tendes a guarda dos +pretorianos, tendes a fôrça! Então sêdes leaes. Entregai os christãos ao povo, +supliciais-os; mas confessai primeiro que não foram elles que incendiaram Roma! +Ha tambem uma elegancia da alma: como mestre de todas as elegancias +dir-vos-hei, que não supporto tão miseraveis comedias! <small>(Pasmo)</small> +Com relação a ti, Cezar, porque me tens fallado muita vez da posteridade, +reflecte o que ella dirá de ti! Pela divina Clio! Néro-Senhôr do mundo, +Nero-Deus queimou Roma porque era tão formidavel na Terra, como Zeus no Olympo! +Nero-poeta amou a tal ponto a poesia que lhe sacrificou a Patria! Desde o +principio do mundo, ninguem ousou pensar em tão extraordinaria coisa! Tu o +fizeste, esta gloria é tua, não a<span class="pagenum">[109]</span> renegues. +Ao pé de ti o que será Priamo, Agamenon, Achilles? os proprios Deuses? Coragem. +Livra-te de abdicações indignas; porque então a posteridade poderá dizer-te: +Nero queimou Roma; mas tão pussilamine Cezar, como pussilanime poeta, negou o +facto, e atirou, cobardemente, a falta por sobre os innocentes! Tal acção não +honrará a tua memoria!</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Senhôr, dá-me licença para que sáia. Aconselham-te a lançares-te no maior +perigo: tratam-te de Cezar e poeta pussilanime, de comediante... Os meus +ouvidos recuzam se a ouvir mais.</p> + +<h4>PETRONIO, <small>aparte</small></h4> + +<p>Cezar hesita? Estou perdido! <small>(a Tigelino)</small> Tigelino, a ti é +que eu chamei comediante, porque o és, ainda n'este momento.</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Porque não posso escutar as tuas injurias?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Porque figuras um grande amôr por Cezar e ainda ha pouco, ouvimo-lo todos e +elle, o ameaçaste com a guarda de pretorianos.<span +class="pagenum">[110]</span></p> + +<h4>POPPÊA</h4> + +<p>Cezar, como permittes que taes pensamentos venham a alguem e que esse alguem +os diga deante de ti?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>É assim que tu sabes reconhecer a amizade que sempre te tive?</p> + +<h4>MARCOS, <small>aparte</small></h4> + +<p>Petronio perdeu-se por mim!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Se me enganei, Cezar, mostra-me o meu erro; mas sabe que te disse o que me +ditou a lealdade que, emfim, te devo!</p> + +<h4>POPPÊA</h4> + +<p>Renova os insultos.</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Punide-o, Senhôr.</p> + +<h4>VATINO</h4> + +<p>Castigai o insultadôr.</p> + +<h4>VOZES</h4> + +<p>Castigai-o! <small>(affastam-se de Petronio)</small><span +class="pagenum">[111]</span></p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Quereis que o puna? Foi sempre o meu companheiro e meu amigo! Feriu-me o +coração; mas quero que elle saiba que este coração só tem para os amigos, o +perdão.</p> + +<h4>PETRONIO, <small>aparte</small></h4> + +<p>Conheço o teu perdão! <small>(alto)</small> Cezar! <small>(inclinando-se, +faz signal a Marcos, e sahem.)</small></p> + +<h4>POPPÊA</h4> + +<p>Quereis ouvir as testemunhas?</p> + +<h4>NERO</h4> + +<p>Que venham.</p> + +<p class="dcena">Um escravo sahe e traz dois rabinos de longas togas e mitras, +um escriba e Chilon.</p> + +<h4>1.º RABINO</h4> + +<p>Salve, monarcha dos monarchas, rei dos reis!</p> + +<h4>2.º RABINO</h4> + +<p>Salve, Senhôr do mundo!</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Salve, Cezar, Leão entre os homens! tu cujo reino<span +class="pagenum">[112]</span> é semelhante á claridade do sol, ao cedro do +Libano, ao balsamo de Jerichó!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Accusais os christãos de terem incendiado Roma?</p> + +<h4>1.º RABINO</h4> + +<p>Nós, Senhôr, só os accusamos de serem inimigos dos homens, e inimigos de +Roma. De terem muita vez ameaçado a cidade e o mundo, com o fogo do céu! O +resto dil-o-ha este homem, de cujos labios nunca sahiu a mentira, porque nas +veias de sua mãi corria o sangue do povo escolhido!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Quem és, tu?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>O teu cão fiel, divino Osiris! Um pobre estoico!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Detesto os estoicos: o seu desprezo pela arte e a sua linguagem repugnam-me; +como a sua miseria e falta d'aceio. Por isso mandei matar Musonio...</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Senhôr, eu sou um estoico por necessidade. Cobre<span +class="pagenum">[113]</span> o meu estoicismo, ó Resplandecente, com uma corôa +de rozas e poê-lhe, deante, uma taça de vinho e elle cantará Anacréonte!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Gosto de ti.</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Vale quanto peza.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Que sabes dos christãos?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Permittir-me-has que chore, divino Cezar?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Não. Aborrecem-me as lagrimas.</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>E terás, cem vezes, razão; porque os olhos que te viram uma vez, não devem +chorar nunca.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Falla dos christãos.</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Ouve, divino Isis! De creança me dediquei á filosofia e procurei a verdade. +Procurei-a na academia<span class="pagenum">[114]</span> de Athenas e na de +Alexandria. Tendo ouvido fallar da doutrina dos christãos, julguei que fosse +uma escola onde achasse algumas parcellas da verdade. Relacionei-me com elles +e, por minha desgraça, o primeiro que conheci foi um tal Glaucos, medico de +Napoles. Sube por elle, que adoravam um certo Christo que promettera exterminar +os homens e aniquilar todas as cidades da Terra. Por isso odeiam os homens, +envenenam as fontes e em suas assembléas cobrem de improperios os templos onde +adoramos os nossos Deuses. Christo foi crucificado, mas prometeu-lhes que no +dia em que Roma fosse destruida, voltaria á terra, a dar-lhes o reino +promettido.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Então é a occasião.</p> + +<h4>POPPÊA</h4> + +<p>O povo comprehenderá porque Roma foi queimada.</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Muitos o sabem já, divina Augusta! N'isso se falla nos Jardins, no Campo de +Marte, a toda a hora. O povo levanta-se, sedento de vingança! Essa vingança +será a minha.<span class="pagenum">[115]</span></p> + +<h4>NERO</h4> + +<p>Porquê?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Ouvide, divino Cezar! Glaucos, o medico, não me ensinava que a doutrina +christã ordenasse que se odiassem os homens; pelo contrario dizia que esse +Christo era uma bôa divindade e que a base da sua doutrina era o amôr. Amei +Glaucos e tanto d'elle confiei que com elle partilhava o meu pão e o meu +dinheiro. Um dia, entre Napoles e Roma, deu-me uma punhalada e vendeu-me a +mulher, a minha Berenice, tão formosa e tão bella! a um mercadôr de +escravos!</p> + +<h4>POPPÊA</h4> + +<p>Pobre homem.</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Chegado a Roma procurei os seus chefes para obter justiça contra Glaucos. +Nada obtive; mas fiquei conhecendo o apostolo Pedro, o apostolo Paulo, o filho +do Zebedeu, Crispo e muitos outros. Sei onde habitavam, antes do incendio e +onde se reunem. Posso indicar o subterraneo do Vaticano e o Cemiterio +d'Ostrianum. N'este, ouvi pregar o apostolo Paulo. Vi Glaucos degolar creanças +para que o apostolo derramasse o sangue sobre<span class="pagenum">[116]</span> +a cabeça dos neophitos e ouvi Lygia, a filha adoptiva dos Plaucios, gabar-se de +ter enfiteiçado a tua filha, divina Osiris! e a tua, ó Isis, a pequenina +Augusta!</p> + +<h4>POPPÊA</h4> + +<p>Cezar, vinga a nossa filha! Ouves, Cezar?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Por Hercules!</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Ouvindo isto quiz apunhala-la. Impediu-m'o o nobre consul Marcos Vinicio que +estava ao seu lado e que a ama!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Quem?</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>O consul Marcos Vinicio.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>É christão? Oh! a tragedia degenera em farça!</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Senhôr, pela luz que vêm de ti, te juro que o é. Como o é Pomponia, o +pequeno Aulo, Lygia, Ursus, Lino e milhares d'outros, cujos templos<span +class="pagenum">[117]</span> secretos posso indicar! As vossas prisões não +chegarão para os conter!</p> + +<h4>POPPÊA</h4> + +<p>Cezar, vinga a nossa filha. Ordemna.</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>E, appressai vos, aliás, o consul Marcos Vinicio terá tempo de a esconder. +Sahiu correndo... dir-vos-hei a caza...</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>Dou-te dez homens. Vai lá immediatamente.</p> + +<h4>CHILON</h4> + +<p>Dez homens... com Ursus lá dentro... nem de longe!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Tigelino, entrego-t'os.</p> + +<h4>POPPÊA</h4> + +<p>E, nossa filha, Cezar?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Por todos os Deuses que será vingada! Oh, os christãos! não deixarei um +sobre a face de Terra! Os leões de Numidia e os tigres de Hircania terão<span +class="pagenum">[118]</span> o mais lauto banquete de que ha memoria, na +historia do mundo!</p> + +<h4>UM ESCRAVO, <small>entra appressado</small></h4> + +<p>Cezar, um velho que se diz ex-centurião da Judêa pede para te fallar.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Que quer?</p> + +<h4>ESCRAVO</h4> + +<p>Não o disse. Quer fallar a Cezar...</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Entre quem seja.</p> + +<h4>PAULO, <small>entra, com ar rude</small></h4> + +<p>És tu o Cezar?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Creio que sou. E, tú, quem és?</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Paulo de Tarso!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Não conheço; mas falla... Estou hoje de bom humôr... Vens da Judêa?<span +class="pagenum">[119]</span></p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Lá estive, pela segunda vez, depois de percorrer a Lygia, a Cilicia e a +Galacia. Depois de ter fundado a egreja de Thessaloníca e de ter prégado em +Athenas e em Corintho.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Prégado, o quê?</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>A religião de Christo, nosso Senhôr, meu e teu!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>És christão? É o primeiro que vejo...</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Pela graça de Deus.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Qual Deus?</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>O unico que ha. Que está no céu! e que um dia desceu á Terra e morreu pelos +nossos pecados e pela nossa remissão!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Tambem por mim?<span class="pagenum">[120]</span></p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p> </p> + +<p>Por todos.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Ignorava que devia esse favor a teu Deus! Séneca nunca me fallou d'essa +divindade! Encarrego-te de lhe agradeceres por mim!</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>O meu Deus é superior ás tuas zombarias...</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Mas o que queres, tu, afinal, com o teu Deus? É para me fallares d'elle que +aqui vieste?</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Em seu nome.</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>És christão. Vens pedir o perdão para ti e para os teus?</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>De quê?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Do seu crime.</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Qual crime?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>O de terem incendiado Roma.<span class="pagenum">[121]</span></p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Gritam isso nas praças, vós o espalhastes! A plebe miseravel, sedenta de +sangue, pede para elles o circo e a fogueira!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>E tel-a hão.</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Porquê?</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Porque fôram elles...</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Que...</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>... Incendiaram a cidade.</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Néro, Imperadôr dos Romanos, Rei do mundo, Cezar augusto... mentes! +<small>(Vai a lançar-se a elle)</small></p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Deixai. Velho, tu és um doido por fôrça.</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Chamo-me Paulo e sou apostolo de Christo!<span +class="pagenum">[122]</span></p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>É poderoso o teu Deus. Só assim...</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Tu o vês. Tu és Cezar, cercado dos teus, defendido pela tua guarda +pretoriana, tendo ao teu dispôr, dezenas de legiões: eu sou Paulo, um velho +cujas pernas tremem no andar, cujos braços oscilam quando ora, e eu faço, pelo +meu Deus,—o que tu não serias capaz de fazer pelos teus falsos +Deuses—rio-me de ti, de teu poder, porque elle não alcança mais do que +até á morte!</p> + +<h4>TIGELINO</h4> + +<p>É o maior alcance.</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Não é nenhum. A vida da terra é transitoria e mesquinha: só é grande a que +vem depois da morte: infinita, eterna!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Quem t'a garantiu?</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>O meu Deus; que eu vi morrer na Cruz, no Calvario, ao pé de Jerusalem, para +nol-a dar<span class="pagenum">[123]</span> em troca! O que prégou a egualdade +na Terra, o que amaldiçoou o despota e levantou o escravo; o que prégou o +desprezo da carne e santificou a alma! O que condemnou, ó Romanos, a vossa +luxuria tôrpe, a vossa prostituição feita de todas as abominações e infamias! O +Deus dos Christãos! Aquelle que fez com que eu, o mais humilde dos seus +pastores, vos fale como se fôra o vosso imperador e elle... o verdadeiro, +pense...</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>No supplicio a inventar de que sejas digno, divino apostolo!</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Todos me agradam, Nero. Desde o harpão dos teus gladiadores, até aos dentes +das tuas feras! Está assente para mim... agradeço-te! Mas ha uma legião de +pobres que nunca te fizeram mal; que vivem felizes na humildade das suas +crenças com o seu Deus e que, como elle ensinou, dão a Cezar o que é de Cezar e +a Christo o que é de Christo! Nunca perturbaram os teus prazeres, nunca +disputaram o teu poder, nunca insultaram publicamente os teus affectos, nem +tentaram contra a tua vida ou a dos teus.<span class="pagenum">[124]</span> +Innocentes d'um crime de que os accusam, só podem defender-se, morrendo! São +fracos, humildes, ignorados! Não carregues a tua memoria com crimes inuteis; +porque, em verdade te digo, que se o fizeres terás de responder por elles...</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Ante quem?</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Ante o nosso pae, que está no céu!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Cala-te.</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Cezar, disse!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>De mais. Tigelino mette-me na cadeia esse apostolo, esse pastor, a vêr se o +tal poderoso Deus o tira de lá. <small>(A Paulo)</small> E, quanto ás tuas +ovelhas, prepara-te para vêres, no Circo, como os leões lhes tosquiam a lã.</p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Não ha piedade na tua alma, Cezar?</p> + +<h4>NÉRO, <small>ironico</small></h4> + +<p>Não sou um Deus...<span class="pagenum">[125]</span></p> + +<h4>PAULO</h4> + +<p>Não. Ha um, só! E, em nome d'elle, eu te amaldiçôo! Assassino de tua mãe e +de tua irmã! Anti-Christo! O abysmo abre-se a teus pés! a morte vae +empolgar-te! o tumulo abre a guella para te engulir! Amaldiçôo-te, cadaver +vivo! porque morrerás no espanto e no terrôr! e serás condemnado por todos os +seculos dos seculos sem fim! <small>(Agarram-no)</small> Maldito sejas, +assassino! incendiario! matricida!</p> + +<h4>TIGELINO, <small>vae a matal-o com o estylete</small></h4> + +<p>Cala-te, velho!</p> + +<h4>NÉRO</h4> + +<p>Tem audacia, por Jupiter! Guarda-m'o para o circo, quero vêr como é feito, +por dentro, um apostolo christão!</p> + +<p class="dcena">(Os escravos levam-no, arrastado)</p> + +<p>Emfim, consegui distrahir-me, hoje. Vamos jantar.</p> + +<p class="dcena">Dá o braço a Poppêa. Vão sahindo.</p> + +<p style="text-align:center;">O PANNO DESCE<span +class="pagenum">[126]</span></p> + +<p><span class="pagenum">[127]</span></p> +<hr style="width: 65%;"> + +<h3>QUADRO SEXTO</h3> + +<p class="dcena" style="text-align:center;">Jardim de Petronio.</p> + +<h4>PETRONIO, <small>inspeccionando as mezas e flôres</small></h4> + +<p>Poucas flôres. O calôr do incendio chegaria a Cumes?</p> + +<h4>O INTRODUCTOR</h4> + +<p>Procura-te um servo de Numa, com uma carta.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Vem de Roma?</p> + +<h4>O SERVO, <small>entrando</small></h4> + +<p>De Numa. <small>(da-lhe um rolo de pergaminho)</small></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Como vai o teu senhôr?</p> + +<h4>O SERVO</h4> + +<p>Bem, nobre Petronio.<span class="pagenum">[128]</span></p> + +<h4>PETRONIO, <small>lêndo</small></h4> + +<p>.......... «Aviso-te de que receberás, em breve, ordem de não abandonar +Cumas e dias depois a de te abrires as veias... Eis o que está decidido no +palacio de Cezar... Vale. Séneca.» Virá atrazada a ordem. Licio, dirás a teu +amo que lhe agradeço a carta e que já estava prevenido. Leva-lhe esta taça +<small>(dá-lhe uma d'oiro)</small> como recordação minha e penhôr de nossa +longa amizade. <small>(o servo sahe)</small> <small>(ao escravo)</small> Chama +Eunice. <small>(rindo)</small> Julgava, talvez, surprehender-me esse bandalho +de Cezar! Como se eu lhe não conhecesse as manchas de toda a vida! Como não +respondi, logo, á sua carta, decidiu-se. Pois ha-de agradar-lhe a resposta. +<small>(Entra Eunice, de branco. Petronio, senta-se)</small> Vem Eunice; +abraça-me e beija-me! Amas-me?</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>Se fôsses um Deus, não te amaria mais. <small>(ajoelha-se-lhe aos +pés)</small></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>E tu sabes a quem deves o meu amôr?</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>A ti, á tua bondade!<span class="pagenum">[129]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>E a Chilon.</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>A Chilon?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Não te vendeu elle dois fios da cinta da Vénus de Chypre?</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>Oh, o charlatão! Ninguem pode modificar a vontade dos Deuses?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Nem mesmo o nobre Chilon?</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>Nobre?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>É hoje um dos companheiros de Néro. Uma arma de Poppêa. Delatou os +christãos.</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>Oh, o infame!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Tal imperadôr, tal côrte! <small>(acaricia-lhe a cabeça)</small> Mas tu és, +verdadeiramente, bella, Eunice.</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>Meu Senhôr!<span class="pagenum">[130]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Feliz aquelle que, como eu, encontrou o amôr habitando em tal corpo! +Parece-me ás vezes que sômos duas divindades! Nem Lyzias, nem Praxiteles, +criaram, nunca, linhas tão bellas! Não ha marmore mais quente, mais rozado do +que o do teu collo! <small>(Toma um punhado de violetas e deita-lh'o pela +cabeça e hombros)</small> Eis o que os christãos querem abolir: o culto da +belleza! Um selvagem não criaria uma tão ridicula filosofia. Trata sempre o teu +corpo bello, como um dom divino! Sê sempre Deusa, bella, adoravel, Eunice! +<small>(Beija a)</small></p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>Tu és tão bom, meu senhor, tão bom, que eu quizera ser realmente uma +Deusa... e tua escrava, como sou!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Enganas-te. Tu não és minha escrava: pertencem-te esta casa, estes jardins, +os meus escravos, os campos e os rebanhos.</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>A mim?<span class="pagenum">[131]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>A ti. Libertei-te ha muito. Nada te disse. O consul dispensou a tua +presença. Fiz-te, sem saberes, os meus presentes de nupcias.</p> + +<h4>EUNICE, <small>beijando-lhe as mãos</small></h4> + +<p>Meu senhor e para quê?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Porque vamos talvez separar-nos.</p> + +<h4>EUNICE, <small>levantando-se</small></h4> + +<p>Como, senhor?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Socega... terei de fazer uma longa viagem...</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>Leva-me comtigo.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Não posso.</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>Não podes?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>É uma desconhecida viagem... que se tem de fazer, só!<span +class="pagenum">[132]</span></p> + +<h4>EUNICE, <small>receiando comprehender</small></h4> + +<p>Só?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Só!</p> + +<h4>EUNICE, <small>comprehendendo</small></h4> + +<p>Petronio! meu senhor. <small>(Joelha de novo)</small>.</p> + +<h4>PETRONIO, <small>respondendo á pergunta, muda, do olhar de +Eunice</small></h4> + +<p>Sim!</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>Que desgraçada sou! Os deuses não permittirão...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Eunice, eu quero morrer... como me compete!</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>Comprehendo, meu senhor. <small>(Domina-se completamente.)</small></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Tu és bella, livre, rica! A mocidade e a belleza tem os seus direitos. +Lembra-te de mim... com amor!</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>Não, meu senhor, eu não sou rica nem livre. Não o quero ser. Sou a tua +escrava!<span class="pagenum">[133]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Então eu serei o escravo da minha escrava. <small>(Acaricia-a)</small> +Eunice, faz servir o jantar. <small>(Dão um longo beijo.)</small> Que a belleza +seja sempre adorada!</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>E a bondade!</p> + +<p class="dcena">Eunice sahe e volta com Nerva, Lucio, Octavia e Julia. Ao +entrar uns adolescentes coroam-nos de rozas. Trazem-se perfumes. Ha uma +orchestra invisivel.</p> + +<h4>TODOS</h4> + +<p>Salve, Petronio.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Salve, salve.</p> + +<p class="dcena">Reclinam-se. Os escravos servem.</p> + +<h4>JULIA</h4> + +<p>Que noticias de Roma?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Cesar mandou-me chamar.</p> + +<h4>JULIA</h4> + +<p>É teu amigo, Cezar.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Muito.<span class="pagenum">[134]</span></p> + +<h4>OCTAVIA</h4> + +<p>Acaso serás tu, agora, o querido dos homens, como tens sido sempre o das +mulheres?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Que os Deuses se amerciem de mim, formosa Octavia. Na minha edade! +<small>(Riem)</small>.</p> + +<h4>NERVA</h4> + +<p>E, não vais?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Não vou.</p> + +<h4>LUCIO</h4> + +<p>Ficarás então em Cumas?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Para sempre.</p> + +<h4>OCTAVIA</h4> + +<p>E o imperador?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Que cante e dance.</p> + +<h4>JULIA</h4> + +<p>É a sua maneira de descançar.<span class="pagenum">[135]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>É; porque para se fatigar vae matando os christãos.</p> + +<h4>NERVA</h4> + +<p>A perseguição continúa?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Cada vez mais terrivel.</p> + +<h4>OCTAVIA</h4> + +<p>Haverá, ainda, muitas tardes de circo?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>É natural. Os christãos são já aos milhares, em Roma, como em outras cidades +da Italia, na Grecia e na Asia. Ha-os entre os legionarios, entre os +pretorianos, nas melhores familias de Roma.</p> + +<h4>NERVA</h4> + +<p>Dizem que nunca houve tres tardes de circo, como as dos christãos!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Nunca!<span class="pagenum">[136]</span></p> + +<h4>JULIA</h4> + +<p>Estiveste em todas, Petronio?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Em todas.</p> + +<h4>OCTAVIA</h4> + +<p>Amas o espectaculo?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Não: necessitava de lá estar.</p> + +<h4>LUCIO</h4> + +<p>Conta-nos.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Nenhum de vós esteve em Roma?</p> + +<h4>NERVA</h4> + +<p>Nenhum; creio.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Pois foram celebres as tardes. Nero lançou a ordem de prisão. Agarraram-se +homens e mulheres, velhos e novos, creanças e virgens! Na primeira tarde, +vestiram-nos com pelles de animaes e largaram-lhes os cães fulvos de Peleponéso +e os molossos zebrados dos Pyrenéus,<span class="pagenum">[137]</span> +esfaimados, de dias. As prezas, porém, eram extranhas, e os cães hesitaram no +attaque. Mas logo que o primeiro enterrou os dentes na espadua d'uma rapariga, +os outros, ao verem sangue, cahiram sobre o monte dos christãos, ajoelhados! +Então, por entre as convulsões, os estertores de agonia, os uivos dos mastins, +ouviam-se vozes, que diziam: pelo Christo! pelo Christo! As feras mutilavam e, +sobre a arena, corria em rêgos o sangue entre membros decepados e os corpos +sedentos dos cães insaciaveis! O cheiro do sangue e dos intestinos abertos +cobriu os perfumes da Arabia e encheu o circo! Os cães não venciam a tarefa. O +povo rugindo, em delirio, pediu os leões. Viram-se então cabeças desapparecer +em guellas vermelhas, peitos abertos com um roçar de garra, corações e ventres +extravazados, e o ruido dos ossos triturados por maxillas de ferro! O povo +esmagava-se, descendo as bancadas, para vêr melhor: os leões enchiam de trovões +as arcarias do Circo!</p> + +<h4>OCTAVIA</h4> + +<p>E acabou?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Não. Havia ainda muitos vivos. Abriram-se<span class="pagenum">[138]</span> +as jaulas e sahiram os tigres do Euphrates, as pantheras de Java, ursos, lobos, +hyenas, chacaes! A scena perdeu toda a apparencia de realidade! Entre os +gritos, os urros, os rugidos, ouviam-se gritos, aqui e ali, pelas bancadas, +gritos, entre dentes, de mulheres em espasmo, cujas forças se iam exgotando! +Empallideciam os rostos e vozes gritavam: basta! basta! Um exercito de Numidas, +armados de flechas, fez recolher as féras. Limpou-se a arena; as fontes +jorraram aguas perfumadas e uma nuvem de adolescentes, vestidos de amôres, +encheu o circo de petalas de rosas! Caso extranho e unico no circo: Nero desceu +á arena, tomou a cithara e cantou um hymno!</p> + +<h4>LUCIO</h4> + +<p>E foi applaudido?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Como sempre.</p> + +<h4>OCTAVIA</h4> + +<p>A mim era-me impossivel assistir a uma tarde de circo.<span +class="pagenum">[139]</span></p> + +<h4>JULIA</h4> + +<p>E tu, Petronio, cujo gosto e prazeres teem um tão grande cunho de elegancia +e de delicadeza...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Comecei por dizer, bella Julia, que precisava de lá estar.</p> + +<h4>NERVA</h4> + +<p>E, a segunda?</p> + +<h4>LUCIO</h4> + +<p>Conta-nos a segunda.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Foi menos interessante. Limitaram-se a queimar muitos e a sacrificar os +restantes. Todo o prazer do espectaculo, para quem o achava, estava em gozar a +morte lenta, a agonia das victimas! <small>(Reparando)</small> Por Pollux, eu +deixo de contar, se apenas empregaes os vossos sentidos em me ouvir.</p> + +<h4>NERVA</h4> + +<p>Escutamos-te e comemos, ao mesmo tempo.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Mas não bebeis. <small>(faz signal; os escravos enchem as +taças)</small><span class="pagenum">[140]</span></p> + +<h4>LUCIO</h4> + +<p>Conta a terceira.</p> + +<h4>OCTAVIA</h4> + +<p>É mais curiosa, a terceira tarde?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Terrivelmente curiosa, para mim. Foi de noite. Na noite a seguir áquella em +que Néro passeiou, entre crucificados christãos, breados, a arder, pelos +jardins!</p> + +<h4>JULIA</h4> + +<p>Que crueldade!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>E quê cheiro! A peripecia extranha foi esta. Quando soaram as cornetas, +correu-se a grade d'um subterraneo e um homem colossal, um Lygio, de côxas +herculeas e braços, os musculos do peito que pareciam dois escudos unidos, tal +era o relêvo, appareceu, na arêna! Quando se esperava que inimigo lhe dariam, +abriu-se a grade fronteira e um toiro da Hespanha, negro como a noite, rompeu +pelo circo, trazendo, atado ás hastes, no cachaço, o corpo semi-nú d'uma virgem +christã. Lygia! rugiu o escravo ao conhecer<span class="pagenum">[141]</span> a +rapariga! Lygia, tem coragem!... E, de espinha curva, rapido, cortando a terra, +o olhar em braza, as mãos em garra... aproximou-se do toiro, e d'um salto, +cahiu-lhe na frente, agarrando lhe os cornos! Fez-se um silencio profundo! +Ouvir-se-hia o vôo d'uma môsca! Homem e toiro quedaram se na imobilidade do +marmore, semelhantes a um trabalho d'Hercules, esculpido! Para se libertar do +jugo, o toiro, fincando-se nas patas, dobrou-se, em arco: turgiam-se os +musculos do homem a estalar a pelle que se fazia purpura! No peito de Néro, +como no das vestaes, como nos do povo inteiro, os corações saltavam! Corria o +suor pelas testas! A palavra expirava nos labios! Homem e toiro, n'um suprêmo +esforço, dir-se-hiam pregados no solo! Estes momentos duraram séculos. +Subitamente, ouviu se como um vagido surdo, e, como n'uma allucinação, os olhos +viram a cabeça da fera, voltar, voltar, quasi imperceptivelmente... Ouvia-se o +respirar offegante do homem; mas a cabeça do toiro continuava a voltar-se, +lentamente, lentamente... quando, de subito, da bôcca sahe-lhe, pendida a +lingua cheia de baba! Um momento mais... um ranger de vertebras... e n'um +tremôr subito, o olhar baço, o pescoço estendido, como uma massa inerte, o +toiro cahe!... morto!<span class="pagenum">[142]</span></p> + +<h4>NERVA</h4> + +<p>Por Jupiter, eis ahi um homem!</p> + +<h4>JULIA</h4> + +<p>Por Venus!</p> + +<h4>LUCIO</h4> + +<p>Por Hercules!</p> + +<h4>OCTAVIA</h4> + +<p>E, foram perdoados?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>O povo ergueu-se pedindo-o. Néro recuzava, quando, de subito, um bello +rapaz, um guerreiro, salta á arena, rasga a tunica no peito, para mostrar as +cicatrizes das batalhas e levanta os braços para o povo, cobrindo com o manto o +corpo nú da christã. O povo rugiu improperios e Néro, com mêdo, cedeu.</p> + +<h4>JULIA</h4> + +<p>Quem era esse mancebo? Um amante?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Um apaixonado, que a pretendera arrancar á prizão que tentava salval-a, +ainda, nos subterraneos do circo, e que, sem esperança, estava a meu lado, +branco como um cadaver!<span class="pagenum">[143]</span></p> + +<h4>JULIA</h4> + +<p>Chamava-se?</p> + +<h4>OCTAVIA</h4> + +<p>Quem era?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Marcos Vinicio, o filho de minha irmã. Eis porque vos disse do começo, bella +Octavia, que precizava de lá estar.</p> + +<h4>JULIA</h4> + +<p>Que tormentos d'amante!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>A felicidade é como a vida: nasce entre dôres!</p> + +<h4>NERVA</h4> + +<p>Que é feito d'elles?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Cazaram e foram para o campo, para a beira mar, afogar em beijos os terrôres +e lagrimas passadas!</p> + +<h4>OCTAVIA</h4> + +<p>Que os Deuses os protejam.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Pois brindemos aos Deuses pela sua felicidade. <small>(bebem)</small><span +class="pagenum">[144]</span></p> + +<h4>JULIA</h4> + +<p>Amava-lo muito, Petronio?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Tanto, que arrisquei, por elle, o favôr de Cezar!</p> + +<h4>NERVA</h4> + +<p>Como?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Defendendo os christãos.</p> + +<h4>LUCIO</h4> + +<p>Os christãos?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Os christãos que me importavam? Defendia Lygia e Marcos.</p> + +<h4>NERVA</h4> + +<p>Espantava-me que defendesses os Deuses estranhos.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Nem os estranhos, nem os nossos.</p> + +<h4>LUCIO</h4> + +<p>Não amas os nossos Deuses?<span class="pagenum">[145]</span></p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Muito... para figuras de rethorica!</p> + +<h4>OCTAVIA</h4> + +<p>O que amais então no mundo, elegante sceptico?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>As arvores e as flôres; as joias e os perfumes; as estatuas de Praxiteles e +os bronzes de Corintho; os vinhos velhos da Grecia e as mulheres novas... de +toda a parte.</p> + +<h4>JULIA</h4> + +<p>Tendes amado muito.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>E, ainda os livros, a poesia, os versos—excepto os de Néro—.</p> + +<h4>OCTAVIA</h4> + +<p>Dizem que os scepticos são, sempre, alegres.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Será por isso que me esforcei por viver, sempre, alegremente, e o farei até +ao fim... o que será facil... agora! <small>(tomando a taça)</small> Á Rainha +de Chypre! por Eunice!<span class="pagenum">[146]</span></p> + +<h4>NERVA</h4> + +<p>Aos Deuses, pela felicidade de Petronio!</p> + +<h4>EUNICE, <small>aparte a Petronio</small></h4> + +<p>Ao meu senhôr! <small>(bebem os dois, sós)</small></p> + +<h4>PETRONIO, <small>levantando-se um pouco sobre o leito</small></h4> + +<p>Amigos, perdoai-me o fazer-vos um pedido: eu quizera que cada um de vós se +dignasse de acceitar a taça com que brindou aos Deuses e á minha felicidade. +<small>(toma a taça)</small> Eis a taça do meu brinde á rainha de Chypre, por +Eunice. Nenhuns outros labios beberão por ella; nenhuma outra mão ousará +levantal-a, em honra de outra divindade! <small>(atira-a ao chão e parte-se: +espanto)</small> Amigos, alegrai-vos. A velhice é a triste companheira dos +nossos ultimos annos. Dou-vos um exemplo e um conselho.</p> + +<h4>NERVA</h4> + +<p>Que queres fazer?</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Gozar, beber, contemplar as fórmas divinas que repoisam a meu lado e +adormecer, emfim, n'um sonho, cercado de rozas. Fiz já as minhas<span +class="pagenum">[147]</span> despedidas a Cezar. Ouvide o que lhe mandei dizer, +no meus adeus. <small>(tira um rolo e lê)</small> «Sei, divino Cezar, que me +esperas impacientemente e que para premiares a minha ida para junto de ti, não +duvidarias dar-me o comando das tuas guardas e fazer de Tigelino um almocreve, +officio para que parece ter sido creado pelos Deuses! Pelo Hades e em +particular pelos manes de tua mãi, de teu irmão, de tua mulher, juro-te que me +é impossivel ir. A vida é um thesoiro de que eu sube extrahir as mais preciosas +joias; mas tem coisas, tambem, que confesso sou incapaz de suportar até ao fim! +Não vás pensar que me indignou o assassinato de tua mãi, de teu irmão, de tua +mulher; que me revoltei contra o incendio de Roma; que me offendeu o teu +processo de matar todos os homens honrados de teu imperio! Não; mas por largos +annos ainda, deixar-me esfolar os ouvidos pelo teu canto, vêr as tuas pobres +tibias escoicear nas danças pirricas, ouvir-te tocar, declamar, recitar a teu +modo—pobre poeta d'agua dôce—semelhante perspectiva é superior a +minhas fôrças. Resolvi morrer! Roma tapa os ouvidos; o universo cobre-te de +gargalhadas! E, eu? eu não quero mais envergonhar-me de ti! O ladrar de +Cerebero ser-me-ha menos penoso: não sou amigo<span +class="pagenum">[148]</span> d'elle, não tenho de córar pela sua voz! Goza e +passa bem, mas deixa-te de musica! assassina, mas não faças versos! envenêna, +mas para-te de dançar! incendeia as cidades, mas deixa em paz a cithara! Tal é +o conselho do teu amigo, Petronio.» <small>(dá o rolo ao escravo)</small> +Queima esta carta e manda entrar o médico.</p> + +<h4>NERVA</h4> + +<p>... Mas é a morte!</p> + +<h4>LUCIO</h4> + +<p>E, nós...?</p> + +<h4>PETRONIO, <small>rindo sereno</small></h4> + +<p>Nada receieis. Nenhum tem necessidade de dizer que ouviu ler esta carta. +<small>(Faz signal ao medico que entra. Este passa-lhe no pulso uma anilha de +oiro e com um estylete abre-lhe a veia radial)</small>.</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>Senhor, se os Deuses me dessem a immortalidade, se Cezar me desse um +imperio, para te deixar, eu não faria nunca! Tenho pois o direito de ir +comtigo... concede-m'o!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Tu amas me, verdadeiramente, divina! Vem commigo, pois, se assim o +queres.<span class="pagenum">[149]</span></p> + +<h4>EUNICE, <small>alegre, estendendo o braço ao medico</small></h4> + +<p>Abre. <small>(O medico faz o mesmo. O sangue corre. Eunice inclina se sobre +o peito de Petronio)</small>.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Phalerno! <small>(Um escravo deita-lh'o)</small> Servide antes, ás damas, o +xaroposo Careno, ou o opalino Chio, que convida a amar! <small>(Inclina se para +Eunice)</small> Não queres tu, Divina, que bebamos, na tua taça, pela ultima +vez, aos Deuses, por toda a felicidade que nos deram?</p> + +<h4>EUNICE</h4> + +<p>Sim, meu senhor. <small>(Bebem os dois)</small>.</p> + +<h4>O INTRODUCTOR</h4> + +<p>Marcos Venicio e Lygia.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Bem vindos! <small>(Ao medico)</small> Não posso morrer ainda; estanca-me o +sangue. <small>(O medico liga-lhe o pulso, rapido)</small>.</p> + +<h4>MARCOS, <small>entra</small></h4> + +<p>Salve senhores! salve Petronio.</p> + +<h4>TODOS</h4> + +<p>Salve Marcos!<span class="pagenum">[150]</span></p> + +<h4>TODOS</h4> + +<p>Salve Lygia!</p> + +<h4>NERVA</h4> + +<p>Salve, formosa Lygia!</p> + +<h4>PETRONIO <small>aos dois que chegam junto d'elle</small></h4> + +<p>Salve! Salve! <small>(Os escravos trazem duas cadeiras. Marcos e Lygia +sentam-se)</small>. Que vieste fazer a Cumes, Marcos?</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Escrevemos-te. Queriamos que fosses passar comnosco uns tempos na nossa casa +da Sicilia. A tua carta entristeceu-nos. Resolvemos vir-mos buscar-te. És +preciso á nossa ventura!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Admiro o teu coração: como me admira que dois noivos se possam lembrar d'um +amigo ausente.</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Tu és para nós muito caro. Devemos-te a maior parte da nossa felicidade!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Foi o vosso Christo quem vos salvou! <small>(Levemente +ironico)</small>.<span class="pagenum">[151]</span></p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Não rias...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Oh, não; mas é preciso confessar que Ursus e o povo romano tambem fizeram +alguma coisa para o caso.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Vem comnosco, Petronio.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Não, feliz esposo da princeza Aurora: se eu tivesse desejo de ir para onde +me queres levar, eu não o poderia fazer. Se alguma coisa depois da +morte—ao contrario da opinião de Pyrrhon—subsiste e vive, a que +animava o corpo da minha bella, de cabellos d'oiro, a minha Eunice, espera-me! +<small>(Indicando-a)</small> Está morta! <small>(Arranca a facha do pulso e +aperta Eunice contra o peito)</small>.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Petronio!</p> + +<h4>LYGIA</h4> + +<p>Meu amigo!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Não vos afflijaes! Para vós nasce a aurora da vida, para mim, pôz-se já o +sol, cerca-me o crepusculo!<span class="pagenum">[152]</span> Tinha de ser: +conheces Néro, comprehendes o resto. Vivi como quiz, morro como me apraz! Não +vos afflijaes! A morte é um episodio da vida! Já vês, Marcos, que te enganas, +se pensas que só o teu Deus dá a tranquillidade na morte! Vê como morro +tranquillo. Platão diz que a virtude é uma musica e a vida do sabio uma +harmonia! Se assim é, vivi e morro virtuoso. <small>(Toma a taça)</small> +Permitte, virtuosa Lygia, que me despeça de ti, com as palavras com que te +saudei, na primeira vez que nos vimos. «Vi durante a minha vida povos sem +conto, mas uma mulher que te egualasse, eu não vi nunca!» <small>(Aos +dois)</small> Se eu tenho uma alma, ella irá poisar junto á vossa casa, na +forma d'uma borboleta, ou, como querem os egypcios, na de um falcão. Só, assim, +irei. <small>(Levantando a taça e todos)</small> O ultimo brinde aos noivos. +<small>(A voz enfraquece levemente)</small> Que a terra de Sicilia se +metamorfoseie para vós n'um jardim dos Hesperides, que os Deuses dos campos, +dos lagos, das fontes, façam nascer as flores sob os vossos pés, e que em todos +os acanthos dos vossos pyristilos vivam e noivem, eternamente, as pombas +brancas! <small>(Bebe e todos. Inclina-se a beijar a cabeça +d'Eunice)</small>.<span class="pagenum">[153]</span></p> + +<h4>O INTRODUCTOR</h4> + +<p>Um servo de Numa.</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>Outro?</p> + +<h4>O SERVO</h4> + +<p>Nobre Petronio. Chego de Roma a toda a brida, mandado por Numa, meu senhor, +dizer-te...</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>O quê?</p> + +<h4>O SERVO</h4> + +<p>Revoltou-se Vindex, com as legiões da Galia. A guarda pretoriana, amigos, +escravos, todos abandonaram Cezar. Todos fugiram do palacio e o deixaram só! +Só, de mêdo, suicidou-se!</p> + +<h4>PETRONIO</h4> + +<p>É tarde! <small>(Desmaia e morre sobre a cabeça de Eunice)</small>.</p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Que dôr!</p> + +<h4>VOZES</h4> + +<p>Mortos! O bom Petronio! A bella Eunice!<span class="pagenum">[154]</span></p> + +<h4>MARCOS</h4> + +<p>Sabeis, vós, amigos, o que morreu? O mundo romano: a Graça e a Belleza!</p> + +<h4>LYGIA, <small>joelhando</small></h4> + +<p>Ó Christo! tende piedade das suas almas!</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;"><small>(O PANNO DESCE, LENTO)</small></p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">FIM DO TERCEIRO E ULTIMO ACTO</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Petronio, by Marcelino Mesquita + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PETRONIO *** + +***** This file should be named 28154-h.htm or 28154-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/8/1/5/28154/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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