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diff --git a/28155-8.txt b/28155-8.txt new file mode 100644 index 0000000..edae808 --- /dev/null +++ b/28155-8.txt @@ -0,0 +1,2763 @@ +The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não +póde dormir. Nº 9 (de 12), by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 9 (de 12) + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: February 23, 2009 [EBook #28155] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 9 (DE 12) *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA + + +NOITES DE INSOMNIA + +OFFERECIDAS + +A QUEM NÃO PÓDE DORMIR + +POR + +Camillo Castello Branco + + +PUBLICAÇÃO MENSAL + + +N.º 9--SETEMBRO + +LIVRARIA INTERNACIONAL +DE +ERNESTO CHARDRON +_96, Largo dos Clerigos, 98_ + +PORTO EUGENIO CHARDRON +_4, Largo de S. Francisco, 4_ +BRAGA + +1874 + + +PORTO + +TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA + +62--Rua da Cancella Velha--62 + +1874 + + +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA + + +NOITES DE INSOMNIA + + +SUMMARIO + + +_Os salões, pelo exc.mo visconde de Ouguella--Condemnação de corpo e +alma--O doutor Botija--O palco portuguez em 1815--Bibliographia (Senna +Freitas, Cunha Vianna, Monsenhor Joaquim Pinto de Campos)--Que +segredos são estes_ + + + + +OS SALÕES + + +Os capitulos, assim intitulados e publicados nestes livrinhos, vão ser +reproduzidos em volume com outros, complementares da obra. Teremos, +pois, um livro de mão primorosa, de extenso folego, portuguez na fórma, +bem que estranho á indole nacional. Entre portuguezes, os estudos +sociaes, profundos e largos, não se ajustam á irrequieta vertigem dos +que navegam de costeagem com o baixel da politica. + +Aqui proeja-se ao descançado porto das situações gananciosas, e deixa-se +ao acaso resolver os problemas. + +O snr. visconde de Ouguella revelou-se n'este severo estudo um espirito +de grande alcance, e discipulo dos que melhormente professam a sciencia +historica. Se algumas vezes a sua penna roça asperrima na crusta das +ulceras que lhe fazem nauseas, resgata-se briosamente avoando ás regiões +altas, no rasto luminoso das augustas verdades. + +O livro, que ha de ser a affirmação da honrada consciencia que nunca, +desde a primeira mocidade, apostatou da religião do berço, é dedicado a +uma formosa criança, Ramiro Soares de Oliveira da Silva Coutinho, filho +do snr. visconde de Ouguella. + +São maviosas de affecto paternal e de nobre civismo estas expressões que +o pai dirige á alma que se está formando entre as caricias de uma +familia virtuosa: _É incentivo, estimulo e lição, para seguir, como +luzeiro e farol do seu futuro, as nobilissimas tradições liberaes, +legadas por seu avô, e meu presadissimo pai, Ricardo Sylles Coutinho. +Seja este tambem o testemunho do meu acrisolado amor filial._ + +O prefacio que precede os _Salões_ é igual a elles na elevação e rigidez +da idéa, no donaire e esplendor da linguagem; mas avantaja-se ao +restante como prognostico dos brilhantes capitulos que hão de proceder +de tão desprendido e intransigente programma. + +São raros em Portugal os escriptores que, á imitação do visconde de +Ouguella, podem enlaçar a independencia com o talento, e esculpir no +frontal do templo, onde os vendilhões armam tenda de bufarinheiros a +legenda, que lhe compete. + +Eis o prefacio: + + +AO LEITOR + + La pensée est pouvoir. + Tout pouvoir est devoir. + + VICTOR HUGO. + +Este livro tem uma missão, e tem um fim. + +Escripto para o povo, a sua missão é levar a luz ás ultimas camadas +sociaes. Diffundil-a no tugurio do operario, e na choupana humilde do +aldeão. + +Inspirado nas mais sinceras crenças da democracia, aceita, como fim, +arrancar ás garras d'esse immenso desalento e d'essa torpe +corrupção--que por ahi vai gangrenando as sociedades--os generosos +espiritos populares, para que as almas se não gelem, e os corações--que +vivem de nobres aspirações--se não atrophiem, n'este completo +desmoronamento de todas as instituições existentes. + +O author d'este livro não tem pretenções, nem vaidades, nem receios. Não +se julga apostolo, nem propheta, nem vidente. O mais obscuro dos +obreiros d'este seculo--como é, e quer ser--escuta, attento, o ruido que +vai lá fóra, nos paizes onde a idéa tem um culto, onde as crenças +consubstanciam religiões, onde as sociedades se debatem na agonia de +organisações politicas, sociaes e religiosas, que tendem a desapparecer; +e pelo facto de existir, e de se considerar obrigado ás luctas da +existencia, giza o terreno em que combate, sem orgulho, sem odios, e sem +rancores pessoaes. + +Volta-se para os seus irmãos no trabalho, operarios tambem--qualquer que +seja a fórma por que exercem a sua actividade, e diz-lhes: + +«Eu penso assim. Aqui tendes o producto das minhas meditações, e dos +meus estudos. Dou-vos os lavores do meu espirito. Combatei-me, ou +enfileirai-vos commigo.» + +Eis a razão do livro. + +Vêde, agora, a sua desenvolução. + +O author crê nas inspirações grandiosas do povo, crê na mocidade +estudiosa das escolas, e crê nas leis immutaveis, fataes, e inexoraveis +do progresso, que acompanham a vida das gerações, e que nos conduzem a +uma determinada somma de civilisação, a um especimen de perfectibilidade +relativa, quaesquer que sejam os cyclos de descrença, de abjecto +abatimento, de egoismo individual, e de corrupção momentanea em que se +debatem as sociedades. + +O author d'este livro é espiritualista. + +Devotado ás leis sagradas e eternas por que se rege a humanidade, +curvando-se, submisso e reverente, á vontade absoluta, que governa, e +dirige o universo, pronuncia a medo, e na humildade da sua existencia, o +nome do Ente Supremo, e crê firmemente, que todos os homens são iguaes. +Ajoelha, e adora a omnipotencia, a infinita bondade, e sublime +misericordia de Brahma, Zeus, Jezeu, Elohim, Jehovah, Allah, Osiris, +Jupiter, Deus, Christna, Christo, finalmente do Eterno--qualquer que +seja o nome sagrado, e mysterioso, por que as gerações modernas o +pretendam appellidar. + +O seculo dezoito teve por missão destruir. + +O seculo dezenove é a transição, que liga, e une civilisações +heterogeneas, é o parenthesis aberto n'estas luctas do espirito, n'esta +convulsão moral, em que as sociedades actuaes trabalham para se +regenerarem radicalmente, sob um differente aspecto, e aceitando novos +dogmas, e diversas doutrinas. + +O author d'este livro não despreza o passado. Não o injuria, não o +diffama, nem o calumnia. Explica-o até, e, por vezes, justifica-o. + +Mas aceita jubilosamente a corrente das idéas do seu seculo, e louva o +Eterno na effusão das suas crenças. + +Todavia não volta o rosto, como a mulher de Loth, para contemplar +Sodoma. + +Só a magestosa omnisciencia do Ser Supremo póde avaliar os entes que +creou. + +Ao sentar-se nos bancos das escolas superiores, no prefacio de um +livro--dado a lume por um irmão d'armas, ferido, e cahido moribundo, já, +na arena da discussão, pelas luctas da palavra--escreveu as seguintes +linhas: + +«Pergunta-se--se os gozos, se os prazezes pertencem unicamente a um +pequeno numero de homens?--se a maioria, se as classes proletarias, se +os Spartacus da civilisação moderna teem de escolher entre o passamento +ignominioso nas gemonias do seculo dezenove, ou nas barricadas, nascidas +do desespero, que a miseria e o ardor do martyrio obrigam a levantar? +Pergunta-se--se o monopolio, se a concorrencia, são os dogmas injustos e +tyrannicos, que hão de destruir as massas, como o carro do idolo +Jagrenat, entre os indios, esmaga o craneo dos brahmanes, ou se a +associação, esse credo dos assalariados das industrias, que os +economistas victoriam--póde acabar com o pauperismo, e obstar á +ignorancia dos povos, palladio deshumano a que os ambiciosos se +seguram?» + +Ainda hoje o author d'estas linhas formúla as mesmas perguntas, com a +mesma severidade, e aceita a responsabilidade d'ellas na tranquillidade +constante, e inalteravel do seu espirito. + +A quem o accusar de leviano, de voluvel, e de imaginoso, no seio d'este +hediondo tropel de ambições, que renegam, e apostasiam a cada +hora--redemoinhando, revoltas, em torno do poder, seja qual fôr a sua +origem ou procedencia--responde o author d'este livro com o sorriso do +desprezo, e com a consciencia segura de que não sabe, não póde, nem quer +deslizar nunca da lei augusta e sacrosanta do dever. + +Os espiritos, para quem a libré é mais do que um distinctivo, e uma +triste e crapulosa missão, porque chega a ser um sacramento imprimindo +caracter,--esses, que se curvem, que se dobrem, e que degradem a face +humana, varrendo, com a fronte, o pó das alcatifas e alfombras das +regias aulas e alcaceres dos principes, magnates e satrapas do poder. + +Pouco importa. + +O vocabulo _lacaio_ tem, na sua etymologia, a justa e bem merecida +ignominia. + +É a pena que a dignidade humana confere á abjecção. + +Um dos primeiros--senão o primeiro escriptor d'este seculo--narra o +seguinte: + +«Octavio Augusto, na madrugada da batalha de Accio, encontrou um jumento +a quem o burriqueiro alcunhára ou appellidára _Triumphus_. Este +Triumpho, dotado com a faculdade de zurrar, pareceu-lhe de bom agouro. +Octavio Augusto ganhou a batalha, lembrou-se do Triumpho, mandou-o +fundir, e esculpir em bronze, e collocou-o no capitolio. Burro +capitolino foi elle--mas ficou sempre burro.» + +Eis a historia das vaidades humanas. + +«O habito não faz o monge», diz a sabedoria dos povos. + +As grandezas da terra são, as mais das vezes, o pelourinho de todas as +ignominias--assim como do sambenito, e da cana verde da irrisão +pharisaica surgem, em ondas de luz, a magestosa auréola do martyrio, e a +apotheose deslumbrante, que a posteridade engrandece e divinisa. + +O author d'este livro não crê nos partidos militantes, nos diversos +grupos parlamentares, nas ambições e cubiças, que fervilham em torno das +insignias consulares--quer se chamem opposições ou governo. + +Escalar o poder pelo poder, aceital-o em todas as condições, á sombra de +todas as bandeiras, na defeza de todos os codigos, e na metamorphose de +todos os principios, parece ser a maxima inspiração de todas estas +phalanges, ávidas e sedentas de governo, que reputam, como suprema +beatitude, o ineffavel gozo de dirigirem uma situação politica qualquer. + +D'aqui vem o scepticismo partidario, a indifferença profunda, e a +descrença completa do povo. + +N'isto, como em tudo, o author d'este livro está ao lado do povo. + +Basta. + +Fecha-se este prologo com uma simples remissão ao prefacio ou +introducção do livro, que fica referido. + +Assim termina esta advertencia ao leitor: + +«A educação, nas classes pobres da nossa terra, tem sido desprezada: o +povo ignora tudo, porque tudo lhe é vedado. Convinha, pois, que á frente +de um livro, que narra com singeleza as tristes vicissitudes por que a +governação entre nós tem passado; que aponta, sem exagerações, como a +liberdade vai sendo sophismada, fossem estampadas algumas linhas, que +levassem a esperança a corações para quem a educação é um miseravel +scepticismo, e a vida um sudario de pungentes dôres.» + +Estas linhas, escriptas ha vinte annos, firma-as o author d'este livro, +com a convicção plena de que ainda não deslizou d'estas crenças, nem +renegou, n'um só momento, a religião da sua mocidade. + +Em mil oitocentos cincoenta e seis, quando a pena de morte era lei entre +nós, quando o homicidio legal erguia a sua sinistra, e hedionda +influencia n'esta terra--terminava o author d'este livro, em presença de +um tribunal e em defeza de um réo, pelo seguinte modo, a sua oração: + +«Quanto a mim, resta-me a honra de ter pelejado com a forca, esta peleja +solemne e derradeira. Se eu ficar vencido, se triumphar o carrasco, +tanto peor para o seculo em que combati, e para a philosophia que +invoquei.» + +Foi já rasgada a lei do homicidio. Falleceu o ultimo carrasco. + +Bemdito seja Deus! + +Venceu aqui a civilisação. + +É para crêr, que venceu, tambem, a justiça absoluta, a consciencia, e a +sociedade. + +A inviolabilidade da vida humana é mais do que um principio, mais do que +uma doutrina, mais do que uma lei: é um culto prestado ao Ente Supremo. + +Deixai, agora, que o author d'este livro peleje pela democracia. + +É esta, e só esta a verdadeira religião do futuro: é a obra sublime do +Creador. + +Lisboa, 24 de julho de 1874. + + VISCONDE DE OUGUELLA. + + + + +CONDEMNAÇÃO DE CORPO E ALMA + + +A lei dos justiçados, antes de 5 de fevereiro de 1587, condemnava o +corpo e a alma, não admittindo á communhão os condemnados á morte. Os +juizes faziam-se intrepretes da justiça divina. Trancavam as portas do +purgatorio á contrição, privando a alma do sacramento, que a theologia +declarára indispensavel ao viador da eternidade, por fóra das regiões +das trevas infinitas. + +Não sei onde os legisladores acharam o esteio de tão cruel severidade +com as almas dos justiçados. Não podemos, porém, duvidar d'este desprezo +da lei de Jesus, em época tão assignalada de bons theologos, +comprehendida nos reinados de D. Manoel e D. João III. Que os +condemnados á morte não eram admittidos á communhão deprehende-se do +tratado _De sacramentis proestandis ultimo supplicio damnatis_, do +famoso jurisconsulto Antonio da Gama, já no cap. I, já na dedicatoria ao +cardeal D. Henrique, impressa pela primeira vez em 1559, e não em 1554, +como diz o abbade de Sever, na _Bibl. Lusit._ O mesmo se infere do +_Compromisso da Misericordia de Lisboa_, cap. 36, confirmado por alvará +de 19 de maio de 1618. Ahi se estabelece o modo de acompanhar os +padecentes e de lhes assistir. Estes usos subsistiram, através de dous +seculos, exceptuados os enforcados politicos a quem por misericordia +matavam com pouco apparato processional. + +Ainda depois da lei que permittia o Viatico aos condemnados, nem todos +gozaram esse dôce prazer, essa extrema consolação que lhes abria no +reino de Deus a porta da esperança. Themudo, nas _Decisões_, tom. II, +decis. 155, pag. 126, n.º 3, conta que o marquez de Villa Real, cumplice +na conjuração de 1641 contra D. João IV, pediu licença ao arcebispo de +Lisboa para commungar, na vespera do dia em que fôra degolado. O +arcebispo concedeu a licença. Á meia noite ouviu missa no oratorio, e ás +tres da tarde do dia seguinte (28 de agosto de 1641) foi executado. Ao +mesmo proposito, leiam os curiosos o _Commentario aos Lusiadas_, por +Manoel de Faria e Sousa, cant. III, est. 38. + +Os co-réos do marquez de Villa Real ou não pediram licença, ou lhes foi +negada. Agostinho Manoel de Vasconcellos, poeta, escriptor galante, e +mais verde de juizo do que de annos--pois já orçava pelos cincoenta e +tantos--parece que não tinha absoluta confiança no sacramento, pois que +morreu sem elle. Póde ser que este peccador incontrito, vendo que os +theologos do seculo XVI dispensavam os condemnados da communhão, e os +julgavam irreparavelmente precítos na outra vida, fosse da opinião +d'elles, e se deixasse ir até vêr o que succedia aos seus companheiros +do cadafalso, passado o estreito medonho d'aquella horrenda morte. + +Tenho lido romances historicos portuguezes, e de bom pulso, em que os +condemnados coevos de D. João I e II, se confessam e commungam. Esta +inventiva piedade dos romancistas encontra as cruezas repellentes da +historia. É erro muito desculpavel. Qual é o romancista que lê os +reinícolas Antonio da Gama, e Themudo, e o _Codigo Filippino_, e a +_Synopsis Chronologica_?! Estes livros são escumadeiras das faculdades +imaginosas. Quem se affizer a herborisar em taes charnecas, póde ser que +vingue saber muita cousa obsoleta; mas toda a sua erudição, fundida na +moeda miuda dos livros de passatempo, não logra captivar o leitor que +lhe attribua a vigilia de uma noite. Não se é escriptor ameno e +agradavel sem muita ignorancia. Eu devo a isto os meus creditos e a +minha fecundidade. + + + + +O DOUTOR BOTIJA + + +Francisco Dias Gomes,--considerado pelo snr. A. Herculano o homem talvez +de mais apurado engenho que Portugal tem tido para avaliar os meritos de +escriptores--foi malquisto de uns poetas contemporaneos que lhe chamavam +o _doutor Botija_, allusão tirada das vasilhas de seu commercio de +mercearia. + +Um dos seus medianos admiradores era o abalisado mathematico e estimavel +poeta José Anastacio da Cunha. Dos seus raros amigos--pois que os não +grangeava em razão de sua indole desconversavel e um tanto +hypochondriaca--o mais esclarecido e provado foi Garção Stochler, então +lente de mathematica, e depois barão e general. + +Francisco Dias Gomes, posto que modesto e conformado com a sorte de +especieiro, não se deixava insensivelmente morder pelos epigrammas de +quem quer que fosse. A honesta musa que lhe inspirou os graves e +soporiferos poemas constantes do seu livro impresso por ordem da +academia real, algumas vezes se lhe apresentou despeitorada e de saia +curta, n'aquelle desatavio que desnorteia a circumspecção de um +philologo da polpa de Francisco Dias. + +O leitor, provavelmente, ainda não viu como este sisudo academico jogava +o venabulo da satyra. A academia, se alguma topou entre os manuscriptos +do seu confrade, com certeza a pospoz como damnosa aos serios escriptos +com que a esposa e filhos do finado critico haviam de quebrar alguns +espinhos da herdada pobreza. + +Não me recordo se Stochler, na noticia critico-biographica anteposta aos +versos posthumos do seu amigo, faz referencia ao espirito satyrico de +Francisco Dias; o que certissimamente sei é que nunca vi impressa a +satyra seguinte contra José Anastacio da Cunha, nem tão pouco a replica +d'este poeta, que no proximo numero sahirá como prova do retrincado odio +com que, em todos os tempos, os escriptores se expozeram á irrisão dos +ignorantes, mutuando-se affrontosas injustiças. + +Francisco Dias é iniquissimo no conceito que finge formar de José +Anastacio, e tanto mais censuravel quanto aquelle douto e infeliz +philosopho nunca desfizera na valia do mercieiro poeta, segundo se +deprehende da resposta. + +N'esta satyra o que muito vale é a pureza da linguagem condimentada com +especies do seculo XVII, bastante avelhentadas e rancidas; mas, assim +mesmo, saborosas a paladares não de todos depravados pela malagueta da +poesia vermelha que ultimamente vige e viça. + +Quanto a graça, é tão difficil achal-a em Francisco Dias como nas +comedias de Jorge Ferreira. Os nossos bons classicos, quer fossem moços +e mundanos, quer ascetas e encanecidos, não sei como pensavam; mas no +escrever, eram todos como uns frades velhos que digeriam as suas idéas, +tal qual um estomago dyspeptico de hoje em dia esmoe um paio do +Alemtejo. + +Ahi vai, tal e quejanda, a satyra do _doutor Botija_: + + + SATYRA + + Vem cá, louco varrido, que diabo + Te metteu na cabeça ser poeta? + Quem te chegou a tão extremo cabo? + + Não vês que toda a gente anda inquieta, + Cançada de soffrer teus argumentos, + Que te julga demente, que és pateta? + + Eu nunca imaginei que teus intentos + Fossem fazer-te vão: agora julgo + Que em nada se tornaram teus talentos. + + Se eu crêra em quantas pêtas conta o vulgo, + Das feiticeiras sordidas e aváras, + E outras, que aqui não digo, nem divulgo; + + Dissera que perjuro te mostráras, + Que infido amante da cruel Canidia, + Seus magicos encantos divulgarás. + + Que ella, por castigar tua perfidia, + Sobre as azas d'um Lémure correra + O Tauro, o Atlante, o Nilo, e a sêcca Lidia, + + Onde hervas potentissimas colhêra, + Com que mixtos veneficos, horrenda, + De funestos effeitos compozera. + + E porque ao fim viesse da contenda, + Pela alta noite, barbara, ullulára, + Com voz funesta, horrisona e tremenda, + + Que as infernaes Deidades convocára + Do tremebundo Tartaro, formando + Mil circulos no chão com fatal vara. + + Pallida, e consumida, suspirando, + As horridas madeixas eriçadas, + Com ellas murmurára um canto infando. + + Alli foram de todo desatadas + As prisões, que a teu corpo o siso unia; + Alli tuas idéas perturbadas; + + Sómente em ti ficou triste mania + De maus versos fazer, de argumentar + Com quantos ha, nas praças, noite, e dia. + + Não deixa a gente já de murmurar + D'essa tremenda furia que te agita, + D'esse teu furioso e vão fallar. + + Cuidas que, ainda que nescio, assim se excita + A celebrar-te o povo por sciente, + Elle que em tudo mofa, e fel vomita?! + + E julgas que de rustico não sente + A differença que ha do branco ao preto? + Por certo que te enganas claramente. + + Tu crês que só quem faz um bom soneto, + Ou decifra um enigma mathematico, + Esse só tem juizo, e é só discreto? + + Se para ser qualquer da vida pratico, + Bem aviado está, se lhe é preciso, + Ser um grande geometra, ou grammatico. + + Tal ha por esse mundo, e tal diviso, + Que sem saber a regra do _abc_, + É sagaz como trinta, e tem juizo. + + Como queres tu pois que não te dê + Surriadas o povo maldizente, + Posto que nunca estuda, e nunca lê? + + Se elle anda já cançado longamente + De ouvir as tuas vãs declamações + Com que pretendes emendar a gente! + + Se defender intentas conclusões, + Mestre em artes, de borla, ou capacete, + Porque te ouçam as tuas decisões; + + Rapa a cabeça tu, frade temete: + Combaterás então mais forte e ufano, + Que um guerreiro montado em bom ginete. + + Não andes pelas ruas como insano + Syllogismos em barbara formando; + Se assim queres ter fama, é grande engano. + + Que quer dizer, continuo, andar fallando + Em curvas, corollarios e problemas, + Demonstrações fazendo, e explicando? + + Quando te ouvem fallar em theoremas, + Escalenos triangulos, e rectas, + Espheroides, polygonos, e lemmas, + + Julgam ser isso termos de patetas + Ou d'esses que tem pacto c'o diabo, + E lhe fallam em partes mui secretas. + + Pois eu d'aconselhar-te não acabo, + Se por tal te tiverem, fugirás + Como cão com funil atado ao rabo. + + Em vão com grande esforço ladrarás, + Distinguindo a menor, que concedendo + Quanto o povo quizer á força irás. + + Que achaste, inda que tu lhe vás dizendo, + Do circulo a sonhada quadratura, + Nada te valerá, segundo entendo. + + C'os rapazes e moços, gente escura, + Gente indomita em fim, tua pessoa + Não poderá jámais andar segura. + + Tanto já de ti fallam por Lisboa, + Que quando vaes por uma praça, ou rua, + Grande susurro em toda a parte sôa. + + Ora pois tem razão, que a audacia tua, + E teus discursos vãos, e palavrosos + Dão causa a que qualquer teu sestro argua. + + Eis aqui porque chamam ociosos + Aos que ás letras se applicam, temerarios, + Phantasticos, herejes, mentirosos. + + Os fidalgos os tem por ordinarios, + Baixos de nascimento, sem avós, + De humildes pensamentos, vãos e varios. + + Se alguem com acto humilde e baixa voz + Lhe offerece o elogio em prosa ou rima, + Louco, dizem, te vai longe de nós. + + De nós a poesia não se estima; + Vê se tens outra cousa por que valhas, + Falla-nos de cavallos ou de esgrima. + + De cavallos, de esgrima, de batalhas, + Não d'essas verdadeiras batalhadas + Com lança e espada, aereas antigualhas. + + Entra por esta brecha ás cutiladas, + Amigo, tu que n'isto és o primeiro, + Segundo já te ouvi grandes roncadas. + + Não te ficou venida no tinteiro, + Nem tantas soube o Molho destemido, + De malsins espantalho verdadeiro. + + Se te ouvira o Palermo esmorecido + Da côrte se ausentára, por não vêr + Com teu valor seu credito abatido. + + Bem pódes pelo mundo discorrer, + Novo Roldão, armado d'armas brancas, + Mil encantos e aggravos desfazer. + + Leva do teu cavallo sobre as ancas + Tua dama sentada; esgrime e clama, + Que assim tudo afugentas, tudo espancas. + + Ganharás maior nome, e maior fama, + Do que andar versos maus vociferando, + Dignos dos becos sordidos d'Alfama. + + Se a fazer versos lá do lago infando + O diabo sahisse em tons diversos, + Taes como os teus faria, impio, e nefando. + + Por isso não os tenhas por perversos, + Aos que pulhas te dizem, porque em fim, + Não ha cousa peor do que maus versos. + + Antes mais vale ser villão ruim, + Frade apostata em casa das mancebas, + Do que ser mau poeta, antes malsim. + + Agora quero eu que me percebas, + Se alguem te applaude e rijo as palmas bate, + É porque mais em teu vicio te embebas. + + Que aqui te manifesto sem debate, + Todos esses amigos que te cercam, + Todos te tem por um famoso orate. + + Quaes ha que rindo o folego não percam, + Vendo, quando andas só, teu ar profundo? + Se o gosto não lh'o invejo, caro o mercam. + + Como o que anda d'um bosque lá no fundo + As féras conversando e as amadríadas + Desgostoso das gentes, e do mundo, + + Quem te vê tão suspenso, outras iliadas + Julga que andas compondo, alto portento! + Outros novos altissimos _Lusiadas_. + + Mas cada vez que recordar intento + Teu soberano e largo magisterio, + Fico qual nau sem leme ao som do vento. + + Alli tudo decides com imperio: + Não foram tão despoticos em Roma + O tyranno Caligula, ou Tiberio. + + Qualquer, de ti pendente, lições toma, + Não ousa, inda que queira, dizer nada, + Que tudo á tua voz se rende, e doma. + + Alli qualquer materia é bem tratada, + Com larga voz e cópia de palavras, + Alli com teu discurso illuminada. + + Antes fallasses tu em gado ou lavras, + Do que em sciencias, de que nada entendes: + Ou fosses para o monte guardar cabras. + + Novos systemas se fundar emprendes, + Porque a fama no numero te conte + Dos grandes homens, que offuscar pretendes, + + Pede ao bom Ariosto que te monte + Sobre o seu grifo rapido, e serás + Outro Astolfo, outro audaz Bellerophonte. + + Ao concavo da lua subirás + Para vêr se descobres novos mundos, + Mas nunca o teu juizo encontrarás; + + Perdeu-se como pedra em poços fundos, + Que nunca acima vem, nem nada, ou boia: + Juizos são de Deus, altos, profundos! + + Não te esqueça maranha, nem tramoia, + Porque ao fim desejado te Conduzas, + Mais famoso serás que Helena e Troia. + + Avante, ó novo Gama, já confusas + Com as tuas acções vejo as antigas, + E para te cantar promptas as musas. + + Tem-nas da tua parte por amigas, + Materia dando a satyras facetas + Como as de Horacio, destro n'estas brigas. + + Se minhas forem, não serão discretas, + Porque da rima a musica sonante + Adorna as minhas pobres cançonetas. + + Inda esta nos faltava, a cada instante + Andares tu contra ella declamando! + Que mal te fez o pobre consoante? + + Quando o chamas não vem logo a teu mando? + É porque com verdade não se preza + Do teu engenho o som suave e brando. + + Elles fogem de ti com ligeireza + Os consoantes, porque em ti não sentem + Para bem usar d'elles natureza. + + Se as minhas conjecturas me não mentem, + Os que poetas querem ser á força, + Pouco de um secco rábula desmentem. + + Em vão um pobre espirito se esforça + Porque os seus versos sóem docemente, + Por mais e mais que o pensamento torça. + + Nunca ouviste dizer que Apollo ardente + Agita a phantasia dos poetas, + Para que mais seu cerebro se esquente? + + Inda que ouçam razões muito discretas + Das mulheres e filhos que pão pedem, + Deixam ficar-se, assim como patetas. + + Nem fomes, nem trabalhos os impedem, + Que exercitem o dom divino e raro: + Tanto em seu desatino se desmedem; + + Por isso ás vezes julga o vulgo ignaro, + Que elles são intrataveis, desabridos, + Posto que os bons lhe dêm louvor preclaro. + + Mas tu que nunca ergueste os teus sentidos, + Que em idéas vulgares e confusas + Sempre andaste com elles envolvidos; + + Se nunca conheceste Apollo, ou musas, + Nem pintado sequer viste o Parnaso, + Para que de seus dons sem saber usas? + + Se temes que o teu nome em negro vaso + Para sempre se veja sepultado; + Usa do para que tiveres azo. + + Não digas mal do consoante amado + Tanto dos bons engenhos peregrinos + Dos do tempo d'agora e do passado. + + Se tu fundas em Miltons e Trissinos + Teus aereos phantasticos systemas, + Assás de bons não foram seus destinos. + + Poucos ou raros lêm os seus poemas; + Um triste e melancolico caminha + Farto de extravagancias mil extremas. + + A musa d'outro misera e mesquinha, + Languida e fria, sem adorno e graça + Da solta prosa jaz quasi visinha. + + Ninguem jámais a noite e o dia passa + Seus aridos escriptos estudando, + Por muito que o seu gosto contrafaça. + + Não o nego porém, de quando em quando + D'elles se eleva um resplendor sublime, + Digno do Pindo e Phebo claro e brando. + + Mas tu a quem a rima tanto opprime, + Se não sabes, aprende: o canto hebraico + Dizem que ás vezes n'ella bem se exprime. + + E que por evitar o tom prosaico, + Algumas vezes d'ella se servira + O poeta syriaco e o chaldaico. + + Tambem a musa grega ao som da lyra, + Lá nos tempos antigos, d'ella usou; + E o romano que a face ao mundo vira. + + Novamente o seu uso renovou + Dando-lhe fórma e ser o provençal, + De nova graça a poesia ornou. + + Mas isto para ti de nada val, + Que porque te foi d'ella Apollo escasso, + D'ella e dos que a usaram dizes mal. + + Que mal te fez Camões e o culto Tasso? + Camões a quem as musas educaram + Na sua gruta, e virginal regaço? + + Qu'o cantico divino lhe inspiraram + Em que aos astros ergueu os lusos feitos, + Que tanto pelo mundo se afamaram. + + Para exprimir altissimos conceitos + Nunca jámais a rima lhe fallece + Estylo e puro culto sem defeitos. + + Qualquer rustico espirito conhece, + Que quanto o Camões quiz dizer, o disse + Facil e natural, como apparece. + + Quem quer que d'elle mal fallar te ouvisse, + Diria afoutamente e com verdade, + Q'isso em ti era inveja, era doudice. + + Ora pois, porque tens difficuldade + Em dizer teu conceito em dôce rima, + Vituperal-a é grande iniquidade. + + Julgavas facil e de pouca estima + Dôces versos fazer? amigo, não, + É preciso trabalho, estudo e lima. + + E isto sem natural inclinação, + Ou pouco ou nada val: se disso és pobre + Martellarás no pobre siso em vão. + + A vêa natural não se descobre, + Mil glosas n'um outeiro recitando, + Mais vis que escoria vil de ferro ou cobre. + + Oh quanto te escarnece a gente quando + N'elle estás como insano loucamente + «Tyrse, Tyrse!» com larga voz gritando. + + Inda do consoante tão vãmente, + Te atreves, pobre infusa, a blasphemar, + Sendo tu tão vã cousa, e tão demente! + + Elle nunca se deixa demonstrar + Na tão formosa lingua portuguesa + A quem com diligencia o procurar: + + Qualquer, inda que pouca natureza + Tenha, dirá rimando o que quizer + Em estylo corrente e com clareza. + + Tanto que aqui mui bem se póde vêr + Que sendo o meu engenho rude e baxo, + Exprimo quanto tenho que dizer. + + Ou bem ou mal os consoantes acho, + Tão facilmente ás vezes me apparecem + Que para os apanhar me não abaxo. + + Mas julgo que os ouvintes adormecem + Co'a minha longa pratica: eu me calo, + Pois que os gostos d'ouvir-me lhes fallecem. + + Em fim já sem refolho aqui te fallo; + Se os meus versos conseguem felizmente + Fazer dentro em teu peito algum abalo, + + Que o teu fado se quebre em continente, + Tornando-te, de louco, homem cordato, + E acabes de ser fabula da gente. + + Tuas acções medindo com recato, + Deixando versos maus, vãos argumentos + Que te fazem de todo mentecato, + + Darei por bem gastados os momentos + Que empreguei n'esta misera escriptura, + Censurando os teus fatuos pensamentos, + E ter-me-hei por mimoso da ventura. + + + + +O PALCO PORTUGUEZ EM 1815 + + +Já n'aquelle anno, em meio da bruteza das nossas platêas, se confrangiam +de magoa e pejo alguns raros entendimentos que vaticinavam a resurreição +do theatro nacional. Almeida Garrett orçava então pelos dezeseis annos. +Florecidas mais seis primaveras n'aquelle precoce espirito, a arte nova +lhe desbotoaria as primeiras flôres da grinalda. + +A tristeza dos bons entendimentos, em presença do abatido e nojoso palco +d'aquella época, prenunciava a aurora que alvoreceu, passados quinze +annos, com o primeiro dia da liberdade. As musas, trajadas com elegancia +e aquecidas ao sol de estranhos, repatriaram-se com os desterrados que +lá fóra retemperaram o genio na incude da pobreza, e reviveram nos +esplendores da civilisação. + +Um dos liberaes, que emigraram em 1828, e cursavam as aulas em 1815, +escreveu, n'este anno, uma carta ácerca do theatro nacional. Se este +escripto da primeira mocidade não revela vasto estudo nem gentilezas de +phrase, com certeza denota razão esclarecida. O author da carta volveu á +sua patria, mais atido á espada que á penna. Uma e outra lhe cahiram +simultaneamente da mão, no cerco do Porto. Não sei o nome do official +que jaz obscurecido na valla dos que morreram em batalha. Apenas em uma +nota que precede a seguinte carta se diz que o author d'ella, morto na +rareada fileira dos mais audazes soldados do imperador, teria sido um +dos melhores cultores das letras que esmeradamente seguira na emigração. +Archivemos o documento que merece ser lido como desfastio aos indigestos +pastelões de historia theatral com que o snr. Theophilo Fernandes +(Joaquim) nos tem intestinado o tedio da leitura: + + +Carta escripta a um amigo em 3 de fevereiro de 1815 sobre a chegada dos +comicos italianos, com algumas reflexões sobre os theatros portugueses. + +Chegou finalmente a esta cidade a companhia dos comicos italianos, ha +tanto tempo esperada, e hontem fizeram o seu primeiro ensaio. Domingo +gordo vão, pela primeira vez, á scena, onde a curiosidade dos +_dilettanti_ é igual á impaciencia com que viam o theatro de S. Carlos +fechado por falta de actores. Será bem difficil que estes, que chegaram, +satisfaçam plenamente a espectação publica, onde se conserva ainda bem +gravada a lembrança dos excellentes cantores, que tanto nos deleitaram +n'estes ultimos tempos, e que brilharam com a mais bem merecida +reputação n'este nosso theatro de S. Carlos, e que illustraram +distinctamente a arte da musica tão agradavel, que a nossa mesma +imaginação figura os anjos, cantando no paraiso a gloria do Deus +Supremo. + +Geralmente os portuguezes amam a musica com extremo, e tem um gosto +particular por esta arte, principalmente depois que o senhor rei D. José +fez vir para o seu theatro magnifico, que infelizmente o grande +terremoto do anno de 1755 devorou, os melhores cantores que então havia +em toda a Italia. Depois d'esta época sustentou o mesmo monarcha a mesma +inclinação por esta arte, em que era muito entendido, e á sua imitação a +nação toda se costumou tanto á boa musica, que houve particulares que +chegaram a rivalisar com os mesmos professores. Ainda hoje não teem +perdido de todo este gosto, principalmente os habitantes de Lisboa, que +conservam viva a lembrança do canto melodioso, suave e delicado da +Crescentini, de Cafforina, e da celebre Catalana, que por uma maneira +nova de cantar, levaram esta sublime arte áquelle grau de perfeição, a +que ella póde humanamente chegar. + +Não julgo que estes virtuosos, que vieram, sejam iguaes em talentos +áquelles de quem venho de fazer menção. Como não é sómente a arte, mas a +natureza igualmente que os produz, e nem sempre esta é fertil em +semelhantes producções, parece-me que o seu canto não causará nos +espectadores o mesmo interesse, com que todos os lisbonenses corriam +para o theatro a ouvir a melodia de vozes, e a harmonia de accentos, que +realisavam os fabulosos das serêas. Como dizem, porém, que vem duas +raparigas que não são mal parecidas, não deixarão de serem bem +applaudidas pela platêa de Lisboa, na qual a mocidade olha sempre com +mais attenção para os agrados da natureza do que para as perfeições da +arte, ás quaes não paga tão grande tributo como á belleza. + +É muito provavel que d'aqui em diante os bons cantores sejam mais raros +na Italia, onde em outro tempo eram mais communs, não sómente porque os +successos politicos tem influido consideravelmente n'esta parte da +Europa sobre os progressos das artes liberaes, onde nasceram e tiveram o +seu berço; mas porque o infame e detestavel costume da castração, com o +fim de fazer as vozes finas, e bons sopranos, está justamente prohibida +por uma lei sabia e judiciosa. Pois que barbaridade maior podia haver do +que condemnarem os paes seus proprios filhos a uma mutilação que degrada +a especie humana, que a inutilisa e que annulla os votos da natureza em +prejuizo das suas mais admiraveis producções? + +Não poderemos, pois, ouvir d'aqui em diante um novo Echiziel ou um +Crescentini, que modulavam as suas vozes finas á custa do bem que tinham +perdido, por umas notas successivas e prolongadas, que bem longe de +moverem a alma pela força da expressão, a affligiam pelos patheticos +esforços de uma modulação uniforme; mas ouviremos talvez com um prazer +mais interessante os sons masculinos d'aquellas vozes fortes e animadas, +que conciliem com os seus accentos a viva expressão dos sentimentos +differentes da nossa alma, em que um gosto sublime e delicado faz +consistir a perfeição da musica, para o qual não é o melhor musico +aquelle que se occupa só em vencer difficuldades; mas aquelle que, pelas +doçuras da harmonia, inspira na nossa alma, e lhe communica os mesmos +sentimentos que exprime no seu canto. + +Qualquer que seja, porém, o merecimento dos novos comicos, é sempre uma +especie de satisfação para os moradores de Lisboa verem o melhor +theatro, que teem, aberto, e terem quem trabalhe n'elle, o que é sempre +um grande recurso em uma grande cidade, destituida de divertimentos +publicos, e onde se consome o homem, e sobre tudo os estrangeiros, á +força de uma negra melancolia, não havendo outro passatempo, que não +seja o de algumas sociedades particulares, onde só apparecem aquelles +que possuem grandes meios, para alli ostentarem toda a sua vaidade, e +quasi sempre todo o seu orgulho. É bem verdade que toda a comica +representação, que alli fazem, é quasi sempre á custa da sua bolsa, pois +que é descredito entre elles não jogar. Os gatunos que nunca faltam +n'estas assembléas, nunca perdem a occasião de os depennarem; e os +murmuradores e maldizentes de admirarem o como a fortuna faz de um tolo +um homem entendido, e como transforma um sevandija em um fidalgo +cortezão. + +É certo que os invernos são bem custosos de passar em Lisboa sem o +recurso dos theatros, não havendo outro algum divertimento publico, mais +do que as assembléas acima referidas, onde nem todos podem ir, e que nem +a todos é permittido frequentar. Não ha aqui, como em Londres, em Paris, +em Vienna, em Petersbourg e em Veneza salas publicas de baile, onde se +passem as noites, e menos cafés bem compostos, em que todo o homem bem +creado acha a melhor companhia, e onde trava amizade com os homens mais +distinctos e que são assás uteis muitas vezes. Os nossos costumes +reservados, e os principios da politica, de os dirigir pela desconfiança +ou pelo temor, em que a policia ganha porque tem menos que observar e +menos motivo para temer que a ordem publica seja alterada, fazem que +estas privações se soffram com toda a paciencia, contentando-se cada um +que não tem os meios competentes para frequentar as companhias do melhor +tom, a ir passar a noite com o seu compadre ou com o seu visinho, a +murmurarem uns dos outros. Sem este recurso ficariam sempre em casa, +semelhantes ás mumias do Egypto, embrulhados nos seus capotes, unico +meio de que se servem para resistirem aos rigores da estação. + +Não faltará quem diga que faço um quadro de Lisboa, no tocante aos seus +divertimentos publicos, menos vantajoso; pois que uma cidade populosa +que tem tres theatros nacionaes, além do italiano, e uma quantidade +immensa de grandes sociedades, que tem nas semanas dias fixos em que se +ajuntam, não está de menor condição n'esta parte ás mais opulentas da +Europa. Esta reflexão, se ficasse sem replica, me attribuiria talvez, na +opinião geral, um espirito de maledicencia que eu não tenho; e para me +salvar de qualquer imputação que n'este particular se me haja de fazer, +vejo-me obrigado a fazer aqui algumas observações sobre os nossos +theatros nacionaes, que pela sua construcção material e pelo genio dos +actores, que n'elles representam, não constituem um divertimento que +chame o gosto, o interesse e a distracção da classe mais escolhida da +nação, a quem não fazem grande honra nem excitam aquella curiosidade que +faz frequentar estas escólas dos costumes e do bom gosto. + +Quanto á construcção destes nossos theatros duvido que se achem, ainda +nas mesmas provincias dos reinos mais civilisados, outros semelhantes ao +da rua dos Condes ou do Salitre. As incommodidades que cada um é +obrigado alli a supportar, não compensam os agrados mais deleitaveis da +melhor representação, ainda no caso que a houvesse. No meio da platêa +arde em fogo, nas mesmas noites mais frias do inverno, o desgraçado +espectador que acha alli lugar; pelos lados da mesma platêa vem um vento +encanado pelos corredores, que atormenta todo o miseravel que occupa +estes assentos. Nos camarotes, que são tão mesquinhos como tudo o mais, +estes incommodos são ainda mais penosos; por entre as frestas das portas +entra um frio pelo inverno, que gela, e que é principio certo de +catarrhos, pleurizes e constipações, que circulam amplamente n'aquelle +triste recinto; e quando o espectaculo acaba, nem lugar reservado, em +que se esperem as carruagens, nem modo algum de prevenir os grandes +males, a que cada um fica exposto á porta da rua ou no aperto dos +corredores, até que chegue a carruagem que o ha de transportar. O +theatro do Salitre e o da Boa Hora teem estas incommodidades mais +marcadas; de maneira que todo aquelle que se propõe a ir a algum d'elles +passar uma noite, deve ir disposto a vir doente: se é de verão, pelo +nimio calor, se é de inverno, pelo frio. Assim não conheço um meio mais +proprio a quem está em boa saude, de estar doente, do que ir a um +d'estes theatros. Ora, que divertimento póde ter n'estes espectaculos +aquelle, que cuida mais em se livrar dos males a que se vê exposto, do +que gozar das illusões que apresenta á imaginação uma sala de +espectaculo? Se todos estes incommodos, que se compram por dinheiro, +fossem, comtudo, compensados pelo deleite de uma boa representação, +seria ainda assim desculpavel, sacrificar ao prazer certos incommodos, +de que uns não fazem caso por genio, e que outros desprezam, porque lhes +insta a necessidade que sentem de se distrahirem. Mas a representação é +tão insipida e tão enfadonha! Os comicos interessam tão pouco; e os +caracteres que representam são, ou por falta de natureza ou por +ignorancia propria, tão mal sustentados, que não valem a pena de se +ouvirem á custa dos grandes detrimentos que se soffrem, principalmente +quando um homem tem o seu gosto formado pelos bons modelos da arte +dramatica, a quem um actor mediocre e baixo é tão insupportavel, como +uma musica desafinada e sem harmonia na sua composição. Taes são, +portanto todos os nossos actores, os quaes entram n'esta carreira mais +com o fim de acharem n'ella uma subsistencia segura e commoda, que com o +nobre intento de adquirirem uma gloria que immortalisou os famosos nomes +de Molière, de Baron, de Garrik e de le Kain. + +Pois que uma casualidade impensada me chegou a ponto de fazer algumas +observações sobre os nossos theatros, não quero perder esta occasião de +expor o meu juizo sobre este assumpto, que aliás é um seguro +thermometro, que indica o grau em que se acha a civilisação e os +costumes das nações. Como escrevo uma carta e não faço uma dissertação, +cuidarei quanto podér de abreviar o meu discurso, que não terá mais que +simplesmente o resultado de fazer vêr quanto Thalia e Melpomene favorece +pouco os engenhos dos portuguezes nas artes a que presidem estas musas, +cujas influencias são tão brilhantes e tão liberaes para outras nações, +que cultivam com o melhor successo esta arte, que nos representa +vivamente os vicios e as virtudes dos homens, assim como tambem os seus +defeitos e os seus ridiculos. + +Podemos seguramente dizer com toda a verdade, que nós, os portuguezes, +não podemos ter a gloria de dizer que temos um theatro nacional, pois +que não temos nem actores dramaticos nem actores capazes de +desempenharem estas bellas composições do espirito humano. Não é de +admirar que não haja bons representantes, onde faltam os poetas; porque +aquella mesma natureza, que inspira o enthusiasmo da imaginação, não +deixa de inspirar tambem o gosto particular da imitação, de modo que é +observação demonstrada, que onde os engenhos sabem conceber os mais +brilhantes pensamentos e estudam todos os movimentos da nossa alma, +dirigida pelas suas affeições ou pelos impulsos das paixões humanas, ahi +se encontram tambem aquelles talentos superiores e naturaes, que na +scena representam com toda a energia e delicadeza aquelles mesmos +movimentos; de maneira que parece realidade o que não é mais que +imitação. Garrik, a cada sentimento que exprimia nos theatros de +Londres, mudava de voz e de semblante, como a expressão requeria; e +Molière, em França, ridiculisava com uma graça tal todas as classes de +homens de que se compõe o corpo social, quando a vaidade, presumpção ou +amor proprio as desviava dos principios que a razão prescreve, que todos +sentiam em si o defeito de que elle ria e zombava, para se corrigirem +quando se julgavam objecto dos epigrammas e dos gestos comicos do +comediante. Como este mesmo era o author das suas comedias, não é de +admirar que exprimisse com energia aquillo mesmo que a sua alma sentia +com toda a sua força; e é d'este modo que os theatros, que são as +escólas dos costumes, onde se pintam ao natural pela fealdade do vicio +ou pela ridicula pratica que os degrada, preenchem plenamente o fim para +que foram instituidos; pois é evidente que todo aquelle actor que não +tiver meios proprios para penetrar a alma dos seus espectadores pelas +mais vivas e mais naturaes maneiras, figura e gestos da sua +representação, não póde produzir o effeito que esta admiravel arte de +imitação é capaz de produzir, e sem o qual effeito, uma sala de +espectaculo não é mais do que uma camara optica em que os sentidos podem +gozar de algumas momentaneas illusões, mas onde a alma jámais se deixará +possuir d'aquelles prestigios do sentimento que faz amar a virtude e +detestar o vicio, nas peças tragicas, e nas comicas, temer o amargoso +fel da critica que corrige o homem, fazendo mofa dos seus costumes que +pinta, quando são ridiculos, ao natural. + +É para notar que os engenhos portuguezes, dotados, como todos os mais +que gozam das dôces influencias do céo puro e crystallino do meio-dia, +de uma viva e ardente inclinação para as artes de pura imaginação, +principalmente a da poesia, se contentem só de a cultivarem á margem dos +rios e á sombra dos arvoredos, onde suspiram pelas suas amadas, em +versos sim, amorosos e sentimentaes, mas que só fallam de amor, de +saudades, de ciumes e de ingratidão. Um só d'estes genios favorecidos +das musas tem aspirado á gloria de rivalisar com Euripedes ou com +Sophocles, de igualar a Plauto ou a Terencio, e aquelle que tem +intentado dar alguns passos na carreira dramatica, tem sido com tão +infeliz successo, que parou no principio d'ella. Muitas vezes tenho +pensado sobre a causa por que os nossos poetas, sendo inspirados de um +estro proprio a todo o genero de versificação, só para o theatral não +teem os talentos requeridos; e por resultado das minhas observações a +este respeito, tenho colhido a idéa de que para compôr uma ecloga, um +idyllio, uma epistola ou uma elegia, basta ao poeta exprimir os seus +proprios sentimentos em bons versos e harmoniosos para ter um nome +distincto no Parnaso: mas para compôr uma tragedia ou uma boa comedia de +caracter, é preciso exprimir com elegancia, pureza e enthusiasmo os +sentimentos dos outros, que é absolutamente necessario conhecer e +aprofundar para os saber desenvolver pela acção. Ora este conhecimento +não se adquire senão por um grande uso do mundo, e por um tacto +particular do coração do homem e de toda a natureza humana em geral; mas +este grande livro não se acha nas livrarias escripto, acha-se espalhado +no tumulto da sociedade, onde os homens desenvolvem todas as suas idéas, +todos os seus sentimentos, as suas paixões, os seus vicios, os seus +crimes e o seu heroismo. É n'este livro que o poeta dramatico aprende a +pintar na scena as virtudes de Catão e as ridiculas maneiras de um +villão afidalgado; mas se o poeta, concentrado no fogo do seu amor, não +conhece senão Damiana a quem dirige seus ais e seus queixumes, como ha +de pintar as paixões dos homens e os seus ridiculos caprichos? Esta +ignorancia me parece ser a causa por que os poetas portuguezes não +consagram as suas musas mais que simplesmente ao amor a que os chama uma +natural ternura, e o conhecimento de uma paixão, que elles conhecem +melhor que quaesquer outras, e que explicam com mais sensibilidade e +doçura. Nunca sahindo dos seus lares, vivendo em um pequeno circulo, uma +imaginação, por mais poetica que seja, não póde produzir grandes e +brilhantes concepções; e por consequencia, se conceber o plano de uma +tragedia, que, segundo a opinião de mr. de la Harpe, é a obra prima do +espirito humano, onde ha de ir buscar a materia para os debates? Se +quizer compôr uma comedia, apenas saberá ridiculisar os defeitos do seu +visinho tendeiro ou sapateiro. + +Para provar que o cothurno não é feito para os nossos poetas lusitanos, +basta lembrar que o assumpto da morte tragica da rainha D. Ignez de +Castro, assumpto dos mais interessantes que tem apparecido em scena, +tanto nos tempos antigos como nos modernos, tem apurado o estro dos +nossos poetas portuguezes, não só pelo interesse da acção, mas por ser a +acção passada entre nós, e que para excitar a compaixão tem de mais a +historia que a proclama verdadeira. Tres ou quatro tragedias temos na +nossa lingua portugueza d'este infeliz successo, e uma só d'ellas o +immortalisa pelas bellezas dramaticas, que pouco ou nada correspondem a +um assumpto igualmente sublime que pathetico. Não fallo da primeira e +mais antiga de Antonio Ferreira, que passa aliás por poeta classico +entre nós, e na qual se não acha a força de sentimentos, a violencia das +paixões, postas em jogo para trazerem imminentemente a catastrophe que +finalisa a tragedia. As scenas sem ligação, a intriga mal combinada e +tão descoberta pelo dialogo, que todo o espectador conhece, desde o +primeiro acto, qual será o fim da peça. Não fallo n'estes dialogos, em +que as personagens que os declamam não tem bastante força para mostrarem +todo o horror da inveja que instiga e anima os cortezãos orgulhosos da +côrte de D. Affonso IV para sacrificarem ao furor d'aquella paixão o +amor fino, legitimo e innocente de dous corações ternos, ligados pelos +dôces e sagrados laços do hymeneu. Os córos que o author Ferreira +introduziu por intervallos dos actos d'esta sua tragedia, á maneira dos +gregos, é o que ha n'ella de melhor, por serem compostos de uma bella +poesia, e tão pathetica, que movem o coração á maior sensibilidade. +Outra tragedia, que temos sobre o mesmo assumpto, composta por o arcade +Alcino não tem merecimento algum: as regras do theatro não são +observadas; a versificação é languida e sem elegancia; os sentimentos +friamente exprimidos, e os actores sempre sustentando um caracter +forçado e não tirado da natureza da acção, d'aquella acção que deriva de +paixões complicadas e violentas, que deviam ser mais energicamente +desenvolvidas. Esta peça não tem regularidade nem entrecho de uma +tragedia; é um drama feito á imitação dos de Metastasio, que não é poeta +tragico, pois que além dos seus dramas interessarem geralmente mais pela +musica do que pelo desenvolvimento da peça, este vem muitas vezes no +segundo acto, e o terceiro é composto então de incidentes accessorios, +quasi sempre insipidos e frios, porque n'elles não ha acção. Lembra-me +ha annos vêr representar no theatro do Bairro Alto uma tragedia de D. +Ignez de Castro tirada de uma comedia hespanhola de Don Calderon de la +Barca, intitulada _Reynar despues de morir_. Esta peça foi geralmente +applaudida e gostada pela energia e força de alma, com que uma actriz, +chamada Cecilia, representou o papel de D. Ignez de Castro; mas esta +peça deveu ao genio e aos talentos d'esta actriz o bom successo que +teve, pois que examinando a contextura da peça, ella tinha os defeitos +da hespanhola, em que não havia mais que tiradas de bons versos; mas +pouca ou nenhuma verdade na acção; pois que, depois da morte d'esta +infeliz princeza, apparecia uma scena em que o seu cadaver, sentado +debaixo do solio, era coroado e solemnemente proclamado pelo seu amante, +já rei, e por todo o seu povo como sua legitima rainha, e isto muito +tempo depois de ter sido a victima das paixões dos cortezãos, invejosos +de verem a familia dos Castros sobre o throno de Portugal. Esta scena, +que pela sua magestosa decoração fazia todo o interesse d'esta peça, não +parece ser uma segunda acção, que se representa? onde está pois a +unidade da acção tragica, que é o primeiro preceito da tragedia? A +coroação da rainha na mesma peça é tão irregular, quanto é novo de +sentar em um solio o cadaver de uma princeza, assassinada no seu proprio +palacio, muito tempo depois de enterrada no silencio de um sepulcro. +Passemos todas estas incongruencias, que sómente trago á lembrança para +mostrar que a poesia dramatica não é largamente distribuida pelas musas +aos portuguezes. + +N'estes ultimos tempos appareceu entre nós, sobre o mesmo assumpto, uma +tragedia com o titulo de _Nova tragedia de Ignez de Castro_. Esta peça +observa melhor os preceitos do theatro; a sua versificação é em algumas +scenas elegante e sentimental; mas em outras não conserva esta +igualdade. O fim ou o desatado da intriga é a catastrophe, que vem um +pouco precipitada e não trazida por um jogo de paixões, susceptiveis de +modificações differentes, que levam o coração humano ao excesso da +paixão que agita e move os animos; o que faz que os dialogos são curtos +e as scenas ainda mais. A da entrevista de Affonso IV com D. Ignez de +Castro, que é uma das mais interessantes da peça, não póde satisfazer os +espectadores, que vêem que um rei se occupa da sorte da infeliz Castro, +de quem se separa, dizendo-lhe que vai para o conselho de estado, onde +ella ha de ser julgada, e alli elle advogará a sua causa. Que enormes +incongruencias! O rei tem no seu poder o perdoar-lhe; não é uma acção +generosa salvar a innocencia das mãos que pretendem banhar-se no seu +sangue? O conselho de estado não é um tribunal judiciario, que é só quem +póde julgar e condemnar. E um ajuntamento de conselheiros, que o rei +convoca para tratar da sorte de D. Ignez de Castro, como um negocio +simplesmente politico. E então que triste personagem faz elle em advogar +pela infeliz Castro, diante não de ministros que a julgam pelas leis, em +que elle mesmo póde dispensar, mas diante de conselheiros invejosos, que +verdadeiramente são algozes! Esta scena podia ser conduzida mais +nobremente, conciliando a bondade do rei, que se mostra interessado a +favor de Castro, com a dignidade da sua corôa, que póde ser enganada +pelo artificio dos seus conselheiros, a quem é indigno da sua parte +dar-lhes consentimento para serem os executores de um assassinio. Estas +delicadezas não escapariam a Racine nem a Voltaire, se tratassem esta +materia, porque, exactos observadores de tudo o que é decente e +decoroso, não atropellariam tão facilmente o respeito da magestade, +fazendo-a instrumento de crimes odiosos em um theatro em que um +monarcha, se pelas paixões é um homem como outro qualquer, pela +soberania é sempre executor da lei. + +Alguns outros poetas n'estes tempos posteriores teem ensaiado o seu +estro n'este genero de composição. A condessa de Vimieiro compoz uma +tragedia, que foi laureada pela academia das sciencias de Lisboa, mais +por favor que por justiça. Um certo Francisco Dias, homem só conhecido +pelos seus talentos litterarios que cultivou no lugar humilde de uma +tenda, compoz outra, cuja sorte foi, segundo creio, ainda mais infeliz +do que a da condessa; e tantos esforços juntos não tem produzido um bom +poeta tragico em Portugal que possa pôr-se ao pé do grande Corneille ou +do sentimental Racine, mas ainda junto dos mais mediocres poetas +tragicos do theatro francez. Esta inopia não vem ella do principio que +acima já apontei? Para Raphael pintar uma obra prima no inimitavel +quadro da transfiguração de Christo, foi preciso que a sua imaginação +sublime lêsse no grande livro do universo todas as bellezas da natureza, +para as saber pintar com propriedade, e conforme as suas primitivas +creações; para um poeta tragico reproduzir o caracter de Catão, de +Cesar, de Marco Antonio, de Brutus e da infeliz Dido, é necessario que +entre com a sua imaginação no immenso theatro do mundo e contemple a +variedade de successos que os interesses dos homens, as suas paixões, os +motivos que as põem em acção, os progressos que fazem sobre as suas +almas para virem a dominal-as com despotico poder, os crimes e as acções +infames de que são causa, a degradação, em fim, da intelligencia humana, +quando de todo se sujeita á perversidade do vicio e se entrega á +corrupção dos costumes: sobre este quadro immenso a imaginação quer um +campo largo para o contemplar, examinar e estudar; mas este campo falta +aos nossos poetas, que levados do gosto dominante da nação, que tem por +objecto o amor, não são pintores para retratarem grandes caracteres, nem +teem imaginação bastante para darem aos grandes successos uma fórma que +mostre todos os horrores dos vicios e todas as bellezas das virtudes, +que é o principal objecto das tragedias. + +Se este genero de composição não tem dado nome a poeta algum portuguez, +menos se teem elles distinguido na comedia, pois que não temos uma, não +digo boa, mas ainda muito mediocre. Parece que as musas são ainda n'esta +parte mais avaras com os engenhos portuguezes, que, sendo os primeiros +que abraçaram logo as artes graciosas, que no seculo XV a fortuna +transplantou da Grecia para a Italia, onde acharam um benigno +acolhimento, foram aquelles que por meio dellas menos gloria teem +adquirido. As comedias que os nossos poetas do nosso seculo de +Augusto--que é o d'el-rei D. João III--nos deixaram, não merecem sequer +o nome de comedias; o que me não faz espanto, pois que Portugal então +não tinha um só theatro, mais que o dos campos de Marte, e onde não ha +theatros não ha quem componha comedias. A nossa feliz época da boa +litteratura passou, e Camões ficou conhecido pelo primeiro poeta das +Hespanhas pelo seu poema lyrico e não pelas suas miseraveis comedias, e +a mesma sorte tiveram os seus contemporaneos que molharam o seu pincel +na paleta de Melpomene. Os castelhanos que se senhorearam de Portugal, +se distinguiram, mais que nenhuma outra nação da Europa, na arte de +Aristophanes e de Menandro; porém não nos passaram este gosto, ou os +portuguezes o não quizeram seguir, talvez por ser de uma nação que +aborreciam. Como quer que seja, a arte dramatica foi inteiramente +desprezada em Portugal, e o bom gosto da litteratura tendo-se corrompido +n'este paiz pelos successos politicos, por que passou, fez totalmente +esquecer aos poetas do tempo este genero de composição. Elle se limitava +só a alguns autos sacramentaes, que se representavam popularmente em +festas de igrejas e nos adros dos templos. As vidas dos santos davam +assumpto para muitos d'estes autos, que correm ainda entre nós; e a +piedade christã ia buscar n'estas representações mais estimulos para +amarem a religião, do que motivos para cultivarem uma arte que, segundo +Horacio, _castigat ridendo mores_. Não tenho idéa, nem pela historia nem +por tradição alguma, que em Portugal houvesse um theatro em que se +representassem comedias portuguezas, de que não appareciam authores, ou +pelos embaraços da longa guerra, que houve n'este reino para sustentar a +corôa na casa de Bragança, que não deram lugar para a applicação das +artes, ou porque os portuguezes não quizeram imitar os seus inimigos, +exercitando as suas musas na poesia dramatica em que os hespanhoes +excediam a todas as outras nações da Europa. Estes não tinham theatros +fixos; companhias ambulantes de comediantes, de que lemos na historia de +_Gil Blaz_ a descripção tão circumstanciada como critica. Corriam de +villa em villa, a recitar as comedias de Calderon, Moreto, Solis, tres +«Ingenios» que inundavam toda a Hespanha, em tanto que o espirito dos +portuguezes se contentava com os seus autos sacramentaes de _Santa +Genoveva_, _de Santo Aleixo_ e outros semelhantes, que se davam ao +publico em espectaculo nos dias das maiores festividades da igreja. +Assim não se sabia entre nós o que era uma boa comedia, e n'esta +ignorancia vivemos até que no principio do seculo passado appareceu o +judeu Antonio José, que compoz um theatro de operas, as quaes nem pela +poesia, pois que são em prosa, nem pelos titulos, que são _Labyrintho de +Creta_, _Encantos de Medêa_ e outros iguaes podem chamar-se comedias, ou +porque trazem misturada musica de recitados e de arias, á maneira dos +italianos, ou porque lhe falta aquelle caracter que distingue a comedia, +e que Molière só fixou em França na época feliz da sua mais brilhante +litteratura. Aquelle engenho, porém, infeliz pela fórma das suas +composições dramaticas e mais ainda pela miseravel sorte que teve de ser +condemnado a morrer queimado pelo santo officio, foi comtudo, o primeiro +que viu as suas operas representadas no theatro do Bairro Alto, o +primeiro que houve em Lisboa e onde os representantes eram bonecos que +se moviam por arame e que fallavam pelas vozes dos interlocutores, que +se mettiam por entre os bastidores. Tal era o estado em que se achava a +arte dramatica em Portugal, quando já Molière brilhava em França como o +restaurador dos theatros de Grecia e Roma, pelas suas admiraveis +comedias e como um modelo perfeito da mais decente, entendida, natural e +agradavel representação que até então não tinha apparecido em algum +theatro do mundo antigo e moderno. + +Nem este excellente author, que deu tanta gloria á França como +Aristophanes tinha em outro tempo dado a Athenas, nem o genio particular +que a natureza lhe tinha dado para imitar na scena as differentes +personagens, que como author era obrigado a representar, causaram o mais +pequeno estimulo aos engenhos portuguezes para o seguirem na carreira +dramatica. As suas musas ficaram mudas n'este ponto, até que el-rei D. +José, apaixonado pela musica, logo que subiu ao throno, mandou construir +um magnifico theatro; e mandando vir da Italia os mais celebres musicos +para cantarem n'elle as peças de Metastasio, extinguiu de todo o gosto +da nação pelas comedias em lingua vulgar. Quem poderá deixar de +reflectir que houvesse theatro nacional em uma nação em que o rei não +gostava, e, por conseguinte, o não protegia? Não o havia, pois--nem +comedias para se representarem, no caso de o haver; porque, como já +disse, a poesia n'este genero emmudeceu em Portugal. O theatro real era +tão magestoso que não admittia mais que pessoas de qualidades +superiores; e as que ficavam mais abaixo não indo a elle ignoravam o que +era uma comedia, uma tragedia e os mesmos dramas em musica, que se +punham no theatro real. Succedeu o fatal terremoto de 1755; arruinou-se +com a maior parte da cidade este sumptuoso espectaculo, e, até que a +confusão d'aquella calamidade se ordenou, nem el-rei teve theatro nem o +povo. Mas no anno de 1758 abriu-se o da rua dos Condes, que ainda hoje +existe nas ruinas do palacio do marquez do Louriçal, com algum augmento +que teve, depois da sua primitiva creação. As peças que ao principio +n'elle se representavam eram as operas de Metastasio traduzidas em +portuguez, _Artaxerxes_, _Alexandre na India_, _Demofonte em Thracia_, +_Ezio em Roma_, etc. com relações á maneira hespanhola, e mil +bufonerias, que d'aquelles bellos dramas faziam as peças mais ridiculas +que se podiam pôr em scena; e, para tornar o theatro de todo +desprezivel, eram homens vestidos de mulheres que representavam o papel +de Erytrêa e das mais damas das peças e suas criadas, que os traductores +introduziam para fazerem rir a plebe. Um só poeta appareceu com uma +composição dramatica que fosse digna de apparecer em scena; e os +directores d'este miseravel theatro pozeram em contribuição poetas +hespanhoes e italianos para sustentarem o theatro. + +Alguns annos depois um novo empresario estabeleceu um theatro no Bairro +Alto, não onde havia o dos bonecos em tempo mais antigo, mas nas ruinas +do palacio do conde de Soure, cuja abertura foi com uma companhia de +musicos italianos que foi buscar a Londres. Esta empresa não durou muito +tempo, e aos italianos succederam os portuguezes com o mesmo successo +que tinham os da rua dos Condes, que podiam chamar-se actores de +arraial. Este theatro do Bairro Alto de todo acabou e succedeu-lhe o do +Salitre, que se conserva sem melhoramento algum que possa acreditar os +engenhos portuguezes, que, nem pelas suas composições, nem pelo jogo da +representação, tem dado á sua patria a gloria de ter um theatro +nacional. + +N'esta curta narração historica dos theatros portuguezes tenho feito vêr +o pouco progresso que a arte dramatica tem feito em Portugal. Não é de +admirar, porque onde os talentos superiores não são apreciados com +justiça e recompensados com a grande estimação que lhe é devida, nem +podem produzir fecundos fructos na arte theatral, que fazem as delicias +do homem de gosto fino e delicado das cidades mais opulentas da Europa, +nem terem a esperança de vêr seus nomes inscriptos nos monumentos que os +homens gratos lhes consagram. As artes não florecem senão quando são +immediatamente protegidas e estimadas pelos soberanos; e quer seja +poeta, quer seja actor, se tem talentos distinctos, não merece a +attenção e a estimação do seu principe, quem contribue para fazer a sua +gloria mais brilhante? Os seculos de Augusto, de Leão X e dos Medicis de +Florença, o de Luiz XIV em França não provam esta verdade? Não me +detenho em amplificar estas minhas idéas com outras razões, porque não +padece duvida que a memoria dos soberanos que se tem pronunciado +protectores das bellas-artes vive ainda nos padrões que ellas lhe tem +erigido, entretanto que a dos mais famosos conquistadores ficou +confundida nos estragos que fizeram. Infelizmente os nossos soberanos +portuguezes tem esquecido esta verdade, como muitas outras, e deixaram +morrer Camões, que dá tanta gloria a Portugal, em um hospital. Desde +esta desgraçada época tem sido os poetas n'este paiz tão pouco +venturosos pela sua arte, que o nome de poeta só entre nós é synonymo de +pobre e de miseravel. Que comedias, que tragedias boas podia pois haver +em um tal paiz? + +Se não podemos competir com as nações que cultivam as bellas-artes +n'este genero dramatico, menos ainda os actores dos nossos theatros +podem rivalisar com os das outras nações que tem formado já um gosto +apurado e exquisito n'aquella parte que se chama representação. Ella não +é mais do que uma simples imitação da natureza, que é o primeiro +principio que deve seguir todo o bom actor. Separar-se d'elle por +acanhamento ou por excesso, não acompanhar de gestos correspondentes as +expressões, não saber desenvolver pelas attitudes os sentimentos que tem +para declamar ou recitar, deixar-se transportar por estes sentimentos +sem faltar á dignidade e á decencia que exige a personagem que +representa, pronunciar com clareza e energia o que lhe compete dizer, e +mostrar pela physionomia que o que diz vem do fundo da sua alma, sem +estudo nem affectação, são as circumstancias principaes que formam um +bom actor. Ora examinemos quaes dos nossos as sabem pôr em uso. Os +grandes artistas desenvolvem os seus talentos estudando a natureza e +seguindo os modelos que aprenderam a imital-a. Guido, Carrache, Albano +devem a admiravel belleza dos seus quadros a este estudo singular de +imitação; mas onde podem achar os nossos actores modelos, a quem possam +imitar e talvez exceder? Não fazem estudo algum da natureza; ensaiam os +seus papeis como simples obreiros, que tem uma empreitada a fazer e que +hão de acabar seja como fôr; e n'esta parte o povo que compõe a platêa +dos nossos theatros é o mais tolerante povo do universo, pois que soffre +com a maior paciencia todos os actores bons, maus, medianos e incapazes +de apparecerem. Por isso nunca aspiram áquella superioridade, em que o +bom gosto, dirigido por um discernimento perspicaz e por uma critica sã +e judiciosa, faz consistir a gloria do grande talento. Molière, o +primeiro restaurador da comedia, como já disse acima, foi tambem o +primeiro actor da França. Conta-se d'elle que os papeis que representava +recitava-os antes a uma criada que tinha, que decidia, como +intelligente, da sua boa ou má representação, e como bom juiz corrigia e +emendava os seus defeitos. Um dia Molière, para melhor se convencer da +intelligencia d'esta sua criada, recitava-lhe um papel de um author +estranho, que fazia uma grande differença d'aquelles que eram composição +d'aquelle homem inimitavel; ella conheceu logo o engano, e voltando-se +para o amo lhe disse: «Vós representaes as vossas comedias como um +exellente actor; mas essa que ensaiaes nem é vossa, nem vos fará +applaudir.» Eis aqui como a applicação, o estudo e o modo de estudar +secunda os dons da natureza: ora qual dos nossos actores tem imitado a +Molière? Qual d'elles tem sido capaz de apurar o seu talento, se o tem, +por um modo tão novo e tão extraordinario? + +É difficil que um homem, que tem algum conhecimento de theatros, possa +aturar a representação dos nossos comicos portuguezes, sempre affectada, +sempre fóra do natural e sempre exprimida em vozes altisonantes, e cujos +dialogos acabam geralmente em um hiato desagradavel e musical, estylo +que não é proprio de quem conversa, que é o que compete á comedia, a +qual representa um facto, um caracter, uma intriga, que se explica por +uma conversação natural e semelhante ás que se fazem nas sociedades. Se +a este estylo declamatorio ajuntarmos o excesso com que os criados ou +criadas que vem á scena desempenham os seus papeis em gracejos que +divertem o publico e que pela maior parte são insipidos, e sem outro +interesse mais que o da risota, acharemos que está entre nós tão +atrazado o jogo da representação theatral, que os nossos actores em +seguindo bem o ponto, que lhes indica o que hão de dizer, são proprios +para todas as personagens, e por conseguinte bons para nenhuma. + +Lembra-me ha annos ir ao theatro da rua dos Condes assistir á +representação da tragedia intitulada _A Vestal_, que traduzira em +portuguez com elegancia o celebre Bocage. Esta peça tragica, susceptivel +da mais brilhante representação pelo seu assumpto e pelos grandes +interesses que n'ella se tratam, foi desgraçadamente tão mal +representada, que pela parte que me toca não me fez a menor sensação. +Quantas vezes disse commigo mesmo: «Ah! famoso Talma[1] que estiveste em +Londres muitos annos com o fim de reunires os talentos da arte theatral +dos dous paizes, que os sabem tão bem apreciar! se tu aqui estivesses, +como verias esta excellente peça despedaçada por semelhantes actores?» +Em uma das scenas apparece o grande pontifice que deve fazer executar a +lei imposta ás vestaes sacrilegas e criminosas; reconhece que sua filha +é a delinquente accusada; que conflicto de grandes e violentos +sentimentos da religião e da natureza não devem combater a alma de um +pai, que sendo igualmente pontifice ou ha de faltar á observancia da +lei, primeira obrigação do homem, ou ha de calcar os estimulos quasi +invenciveis da natureza, sacrificando o seu proprio sangue á vindicta da +lei? Que genio, que talentos, que energia de caracter não são precisos +para desenvolver toda esta opposição de sentimentos que combatem o +coração humano de uma e de outra parte? O pobre miseravel actor era um +automato no meio do theatro, e sem duvida eu tive tanta afflicção de vêr +a sua insufficiencia pessoal, como aborrecimento de vêr a indifferença +com que o povo portuguez soffre semelhantes actores, a quem convém mais +propriamente uma enxada, do que a profissão de uma arte para a qual +lhes faltam todos os requisitos. Esta peça me desenganou inteiramente +da mediocridade dos nossos actores portuguezes e do estado miseravel em +que estão os nossos theatros nacionaes, que tem a desgraça de verem +estropeados nos seus proscenios as mais admiraveis producções do +espirito humano. + +Tenho dado uma curta idéa do pouco que a poesia dramatica concorre +n'esta parte para a gloria nacional, assim como do pouco que os nossos +actores contribuem para fazer brilhar uma arte que os povos mais polidos +amam com tanto excesso, porque n'ella acham uma dôce e agradavel +distracção aos seus negocios civis, quando ella é cultivada +principalmente por aquelles talentos sublimes que ennobrecem tanto as +nações que os viu nascer e creou, como a mesma arte que souberam +aperfeiçoar. + +Os limites de uma simples carta não me permittiram que eu tratasse este +assumpto com aquella extensão que elle requeria para desilludir os +muitos ignorantes que se persuadem da boa direcção dos nossos theatros e +dos grandes talentos dos nossos actores. Contentei-me unicamente com +tocar este ponto pela superficie conforme convinha a uma simples carta, +em que a casualidade quiz que o fizesse entrar, a fim de dar a conhecer +o nosso grande atrazamento n'esta parte; e creio que algumas das minhas +observações não serão frivolas na opinião d'aquelles que tem frequentado +os theatros estrangeiros, em que as peças que se representam n'elles +concorrem tão poderosamente para a educação publica se ir aperfeiçoando +cada vez mais, o que, a meu vêr, é o principal objecto da instituição +dos theatros. + +O povo de Lisboa não gosta com preferencia senão de farças e entremezes, +por que só quer rir e divertir-se com as baboseiras que se dizem +n'elles; mas é porque não conhece ainda a grande utilidade que poderia +tirar de uma escóla de costumes e de maneiras que lhe quadrariam melhor +que as muitas chalaças que ouvem, que lhes pervertem toda a inclinação +que poderiam ter para aprenderem a ser polidos, decentes, modestos e +virtuosos cidadãos--o que as peças theatraes que estão vendo +representar, todos os dias, lhes não ensinam. + +Adeus, meu bom amigo; perdôe esta matraca que lhe dou em favor do +espirito com que a escrevi, que é o do bem publico, que se estende +tambem a este ramo, que produz os fructos delicados do bom gosto, o qual +se adquire nos theatros, e d'aquella urbanidade que não é filha da +imitação; mas de uma intelligencia dirigida pela razão--tão util ao +homem na sua condição particular, como gloriosa para a nação a que elle +pertence. + +Sou sinceramente + + amigo fiel e affectivo + + _M._ + + [1] Talma, primeiro actor tragico do theatro de Paris. + + + + +BIBLIOGRAPHIA + +(Padre Senna Freitas--Cunha Vianna--Monsenhor Joaquim Pinto de Campos) + + +_Padre Senna Freitas._ NO PRESBITERIO E NO TEMPLO, vol. I, _Livraria +Internacional de E. Chardron. Porto. 1874._--Este primeiro tomo +comprehende dezesete artigos que se rivalisam na excellencia da doutrina +e da linguagem. Alguns, sem destoar da seriedade do livro, movem o +leitor a um sorriso complacente. N'este genero, estrema-se o intitulado +_Asphyxia... pela imprensa_. Tem resaltos de graça e nervo +epigrammatico. Faz lembrar as paginas felizes de Luis Veuillot nos +_Odeurs de Paris_. «Livros, opusculos, livrorios, livrecos, nacionaes, +nacionalisados, _in folio_, _in quarto_, _in octavo_, em dezeseis; +obesos, normaes, anemicos, succulentos, indigestos, aquosos; edicionados +aos mil, aos dous, aos tres mil, de mais de dez a menos de dous tostões; +impressos a capricho, moldurados, coloridos, iriados, rendilhados, +casquilhos.» (Pag. 215 e 216). + +Recenseia d'esta arte o snr. padre Senna Freitas as producções +asphyxiosas; mas não se deprehenda que elle, o illustrado escriptor +respiraria melhor oxygeneo em regiões onde escasseassem prelos e +authores. O que o suffoca é o gaz acido carbonico das inepcias em +dicção, em philosophia, e em moral. Contra as da linguagem protesta o +snr. Senna Freitas, abrasado nas risonhas coleras do padre Francisco +Manoel do Nascimento: «Pois ha nada comparavel em elegancia castiça de +terminologia áquellas paginas e áquellas columnas arrebicadas de +gallicismos, e anglicismos tão expressivos e engraçados que deixam a +nossa lingua corrida? Travemos, por exemplo, d'uma gazeta (salvas, bem +entendido, as que fazem honra ao jornalismo). A pouco fundo, já lá +apparecem a boiar os «meetings», os «comités», as recriminações do +articulista contra as «chicanas» parlamentares, e as «coalições» +ministeriaes, e o estylo por demais «descosido» em que se exprimiu o +deputado fulano de tal, etc... Passemos á revista interna e +noticiosa--prosegue o analysta bem humorado.--Acaba de dar-se um +successo tristemente «remarcavel» que o noticiador conta «em detalhe» +aos leitores, «tirando d'elle partido» para fazer uma discreta +consideração moral. Em seguida, dá um leve «golpe de vista» pelo +«high-life» da terra, e analysa o ultimo livro publicado por... que é na +sua apreciação um verdadeiro «chefe d'obra.» (Pag. 219). + +E assim, com razão e discreto sal, o esclarecido moço, que tão digna e +exemplarmente allia o viçor da idade ao respeito do habito clerical, vai +desfiando o ruim tecido dos maus livros, quer na fórma, quer na +substancia. + +Culpa os romances nimiamente realistas de perversores dos bons costumes: +«Ha o romance serio, instructivo, philosophico, moral, espiritualista, +da tempera do _Promessi Sposi_ de Manzoni, que nos transporta a uma +atmosphera salubre, onde se respira um ar impregnado de oxygeneo; que +photographa todo o lado bello, puro e grande da humanidade. E ha o +romance enervante, declinação insipida e interminavel d'_elles_ e +d'_ellas_; o romance bohemio ou cigano, composto pelo mancebo +apaixonado, que come no _restaurante_ de terceira classe, e morre etico +aos vinte e cinco annos; e o romance realista ou positivista, ainda peor +que o precedente, sem ideal algum; condensado de todos os miasmas da +lama, de todas as corrupções do esphacelo, e de todos os sarcasmos e +negações do atheismo, sem outra esphera por conseguinte mais que a +materia pura, só por uma ironia de mau gosto chamado _a alma nova_.» +(Pag. 227 e 228). + +Acato a opinião do snr. Senna Freitas, quanto ás novellas descriptivas +da vida contemporanea; mas desliso da severidade do seu juizo. Creio que +assim como os bons e moralissimos romances não morigeram, tambem os +immoraes não desmoralisam. Não são os romances que formam os costumes +bons e maus; são os costumes que fazem os romances. E casos ha em que as +novellas saturadas de virtude são inverosimeis e puramente phantasticas. +Eu já escrevi algumas, nomeadamente as _Lagrimas abençoadas_ e as _Tres +irmãs_. Ninguem acreditou aquillo; e toda a gente aceitou como copias do +natural _Os brilhantes do brazileiro_ e _A mulher fatal_--dous livros +miasmaticos, que só podem lêr-se com o interior do nariz plantado de +alfadega e mangericão. Quando o marquez d'Urfé escrevia as suas novellas +pastoraes, embrincadas de polidissima cortezia nos amores, vivia-se em +França, pouco mais ou menos, como nos romances de Soulié, de Kock e de +Feydeau. Ha de tudo. Ha muitissima gente honesta que lê a _Lelia_ de +Sand, e muitissima gente de ruins manhas que lê a _Fabiola_ do cardeal +Wisemann. Sem embargo estes reparos não desluzem a efficacia das +considerações do snr. Senna Freitas. + +Da summa do seu livro direi, com sincera admiração e devida justiça, que +se revela ahi um excellente escriptor, um padre illustradissimo, um +homem de bem, um argumentador convicto e em grande parte irrefutavel. +D'este modo ajuiza o author da sua obra: _É um livro christão que não +fará ruim companhia junto ao lar das boas familias: nada mais._ + +É muito mais; porque afervora as crenças tibias, alvoroça as almas +marasmadas na indifferença religiosa, descondensa a escuridade que fez +noite algida nos corações abatidos pela desgraça. O snr. Senna Freitas +nobilita o clero portuguez e honra as letras patrias. Se não fosse a +palavra _religião_, quem explicaria tão obscura vida em tão alumiado +espirito? + +Congratulo-me com o meu benemerito amigo Ernesto Chardron, quando vejo +entre as edições da sua copiosa livaria a estreia gloriosa do snr. Senna +Freitas. + + * * * * * + +_Cunha Vianna._ RELAMPAGOS com um prologo por _João Penha_. _Livraria +Internacional. Porto, 1874._--O author está na primeira florecencia dos +annos. Reçumbra-lhe do rosto a branda tristeza dos que soffrem com o +encontro da incerteza nos umbraes da vida. Nuta entre os parceis, quando +as vagas descahem, e lhe abrem um vacuo onde as idealisações lhe não dão +pé, nem o positivismo ancora. É um dos muitos, cuja salvação depende de +pouco: a experiencia da vida, o entrar na inanidade das cousas, o +acordar com a cabeça ferida na corrente que fecha a galé dos obreiros do +ideal--especie de somnambulos que fallam comsigo proprios, como João +Penha, o redactor do _Prologo_. + +Este, ainda assim, tem momentos de apégar no commum da vida. O seu +fechar dos sonetos conhecidos e decorados é sempre a zombaria das altas +cousas, dos raptos á divindade que se esconde, e aos mysterios do céo +que atira estrellas a milhões sobre os seus interrogadores. O paio de +Lamego e o presunto de Melgaço raro deixam de testemunhar que o espirito +de João Penha é escorreito, e que a poesia, quando lhe apparece, como as +revoadas das andorinhas, passa, não deixando de si no azul um vestigio +de saudade. + +O snr. Cunha Vianna está ainda entre os poetas de consciencia e +inspiração. N'estes seus poemas não ha os desmandos e dislates que +individualisam a poesia ultimamente inventada. É muito moço, e a sua +musa parece filha da que floreceu em Portugal ha trinta annos. Não se +dôa por isso o esperançoso escriptor. Do bom senso dos seus versos ha de +derivar-se o bom senso da sua prosa. Quando as flôres fenecerem, e os +fructos se desabotoarem, verá quanto proveitoso é ter sido, a um tempo, +o interprete do vago da alma e o aprendiz do positivo dos bons +diccionarios. + +Entre as suas poesias escolho um fragmento da _Armada_ para que o leitor +se convença de que lhe não inculco no snr. Cunha Vianna um arrolador de +podridões, de anemias, de chloroses, e de tanta outra moxinifada com que +intentam fazer-nos da imaginação hospital. + +N'este poema, o oceano interroga Portugal algemado na grilheta do +despotismo. Veleja ao longe a esquadra da Terceira que aprôa ao Mindelo. +O grande Atlante pergunta á armada o seu destino: + + --Somos a Liberdade! + a esplendida epopéa! + a voz da humanidade! + o sol da Nova-Idéa! + Somos, oh monstro aquatico, + o verbo democratico, + tão forte como Deus! + mais rijo que a tormenta! + Astros, descei dos ceus! + Nuvens, descei do espaço! + vinde beijar o traço + das nossas naus possantes! + Nós somos os gigantes, + os Cyclopes modernos: + vimos livrar os mundos + de horrificos infernos. + Vimos fazer a guerra, + bradar a Torquemada: + --pódes fugir da terra, + que o teu imperio é nada! + Somos a Liberdade! + a esplendida epopéa! + a voz da humanidade! + a luz da Nova-Idéa! + + «--Eu vos saúdo, ministros + d'uma idade d'esplendores! + Expulsai corvos sinistros + d'essa terra de condores! + --aves d'arrojo inaudito, + que muitas vezes s'elevam + ás solidões do infinito! + Que lindo paiz! é vêl-o: + por toda a parte boninas, + e, mais além, do Mindelo + as vicejantes campinas! + E mais ao longe a cidade, + que reflora ao Douro a estancia, + a Ostende da liberdade, + nova rival de Numancia! + --o Capitolio altaneiro + d'um povo livre e guerreiro, + que, n'um heroismo ardente, + unico, bello, e assombroso, + roubou mais d'um continente + ao meu reino tormentoso! + Heis de vencer, porque a historia, + a virgem que vos inspira, + já vos prepara na lyra + os hosannas da victoria! + Vencerá ao retrocesso + quem este abysmo venceu: + tendes por guia o progresso-- + d'esta idade o Prometheu!» + + * * * + + Tempos depois a luz da nova aurora + illuminava os montes e a cidade! + A tyrannia, aniquilado o sceptro, + como livido espectro + lá transpunha os umbraes da soledade; + e um povo inteiro, a quem a paz inflora, + salvava estrepitoso + o brilho radioso + da augusta Liberdade! + +Eis aqui um poeta. + + * * * * * + +JERUSALEM, por _Joaquim Pinto de Campos_, etc. _Lisboa, 1874._--Precede +este precioso livro uma carta do snr. visconde de Castilho. Ahi se +annunciam primores, quanto ao modo como a obra é escripta, e se dá de +suspeito o snr. visconde quanto á substancia, ao contexto da idéa. +«Creei-me semi-pagão entre pagãos millenarios do melhor engenho, +sociedade minha ainda hoje», diz o grande poeta, em quem reviveram as +almas de Anacreonte e Ovidio. + +Comprehende-se este retrocesso no rasto esplendoroso que nos leva até +casa dos Mecenas; mas, se ahi nos convida Petronio para uma cêa de +Trimalcião, dá-nos vontade de fugir para uma das ágapes lôbregas em que +o bocado de pão se ungia de lagrimas. + +Magestade, estrondo, alegrias, febris prazeres e infernaes delicias tudo +teriam de seu as musas pagãs com que deleitar a inspiração e o officio +dos seus dilectos; mas poesia, a sincera, a ideal, a que aformosêa a +vida dentro dos abysmos das suas quedas, essa não nos vem herdada de +Horacio nem de Catullo: deu-nol-a o christianismo. + +Aos muito affeiçoados a reliquias do velho Oriente suscita o monsenhor +Pinto de Campos as reminiscencias dos cyclos anteriores á sagração do +local em que passaram os lances da divina missão de Jesus Christo. A +cada passo, resaltam ahi recordações da Roma imperial, com todos os +accessorios que lhe lustraram a prosperidade como contraste da voragem +que de um hausto a sorveu para sempre apagada. + +O livro é tão de molde para todos os paladares, cinge-se tão caroavel ao +deleite do curioso, do sabio e do devoto, que a ninguem será estranho o +prazer da leitura. Em duas palavras qualifica um doutissimo critico +fluminense o livro do snr. Pinto Campos: _para mim tenho que a opinião +classificará esta obra entre as de mór vulto que este seculo ha visto em +lingua portugueza._ (Reflexões de um solitario relativas ao livro +_Jerusalem_, pag. 3). + +Evidentemente, o snr. Pinto de de Campos conhece e exercita as menos +communs bellezas da nossa lingua. Já o haviamos admirado nas fluencias +descuidadas da conversação, antes de o reconhecermos no purismo d'este +livro perfeitamente executado. O seu estylo tem a sobriedade, a +parcimonia de enfeites que se adquirem quando a sã e alumiada razão os +escolhe. As pompas e os recamos da dicção occorrem-lhe a ponto com +rigorosa propriedade. A unção religiosa dos quadros nunca é prejudicada +pelos estofos da rhetorica. As figuras cedem a sua luz ficticia ao +brilho permanente da verdade. A relanços descriptivos da Terra Santa, +resôa ás vezes o dizer chão e affavel de fr. Pantaleão de Aveiro, +alternando-se com os raptos vehementes da piedade de Chateaubriand e do +apaixonado lyrismo de Lamartine; mas tudo isto tão nosso, tão portuguez, +tão condimentado do idioma de Sousa e de Bernardes, que não póde ser +senão de monsenhor Pinto de Campos. + +O leitor, que lê os telegrammas vindos do Brazil, já viu que lá se +ergueu uma voz calumniadora acoimando de plagiario o author da +_Jerusalem_. Sem interposição de tempo, sahiu pela honra e lealdade do +calumniado escriptor um dos maiores sabios que hoje se contam +viventissimos na rareada fileira dos sinceros homens de letras em +Portugal. Parece-nos ter entrevisto no _Solitario_, que tão egregiamente +repelle os detrahidores de Pinto de Campos, o conselheiro José Feliciano +de Castilho, o mais poderoso talento alliançado á mais tenaz memoria de +que temos noticia, e, mais que noticia, lição aturada e incansavel. + +Eis aqui a repulsão da aleivosia, que trasladamos textualmente: + + +Li uns artigos em que, confrontando-se trechos da _Jerusalem_ com outros +semelhantes das obras de Pozada Arango e de Perinaldo, se qualificam +essas transcripções de _plagiatos escandalosos, furto na mão, bocca na +botija, acto proprio para fazer subir o pejo ás faces do culpado, motivo +de indignação_, etc., etc. Assim enfeixadas as injurias, não se dirá que +as attenuo; e quanto ao facto da reproducção d'esses e outros passos no +soberbo livro, começo declarando que elle é real, licito; publicado, +antes de o ser pelos censores, pelo proprio escriptor; e que, nas +circumstancias d'esta polemica, pouca prova de lealdade de quem occulta +essa declaração com que o author de antemão desmorona todo esse castello +de cartas. Ah! isso não convinha aos sinceros Aristarchos: esmerilharam +tudo, mas fecharam olhos nada menos que sobre o peristilo do monumento, +ao qual apenas fazem uma referencia vaga, passando como cão por vinha +vindimada. + +«O author podia, como grande numero dos seus predecessores em um +assumpto d'esta ordem, reproduzir aquillo que bem entrasse no plano da +sua obra, em materia de descripções, de averiguações e narrações dos +successos, sem citar as fontes. Pois acaso inventa-se a religião? +Inventa-se a historia? Inventa-se a natureza? Inventam-se factos? Sempre +que em tudo isso se toca, é evidente que se repete o que já se ha dito; +e todas as vezes que essas descripções estão bem feitas, que utilidade +ha em alteral-as? Nada haveria mais facil que dar sempre as mesmas idéas +por diversas palavras, mas n'isso então é que se daria manifesta má fé, +porque transpareceria a intenção culposa, o que nunca póde imputar-se a +quem, uma ou outra vez, traduz litteralmente de livros que andam em +todas as mãos. + +«Não desenvolverei este ponto em these, como tão facil seria; +limitar-me-hei a demonstrar a candura com que monsenhor Pinto de Campos, +logo ao romper o seu livro, nos denunciou... isso mesmo que hoje se lhe +assaca? Completa elle o seu prologo (pag. XVI e XVII), revelando a quem +vai lêr, que transcreveu largos trechos de escriptores antigos e +modernos; enumera os principaes d'esses escriptores; affirma, com +inexcedivel modestia, que só a ess'outros (o que é descabido) deve ser +restituida qualquer gloriola, que das suas paginas se possa colher; que +se embrenhou na floresta d'esses authores; que das flôres d'elles sugou +o mel. Transcreverei (com as almejadas aspas): + +«Na averiguação e narração dos successos, tomei por norma _seguir os +varões_ doutissimos e diligentissimos, _citando lealmente suas palavras +ás vezes, muitas outras suas sentenças_; assim como é certo que lhes +addicionei outras muitas, que pelo proprio estudo alcancei... _Segui_ de +preferencia a Sagrada Escriptura, Flavio José, S. Jeronymo, e entre os +proporcionalmente modernos, Quaresmio... Em muitos outros, antigos e +modernos, _procurei flôres que em meu ramilhete ennastrasse, e a todos +os quaes fiquei mais ou menos devedor; se n'este rescende alguma +fragrancia, a elles e não a mim se deve_. Sem ordem nem de merito nem de +idades, aqui apontarei Adricomio, Biagio Terzi, Calmei, Mariano Morone +de Maléo, Chateaubriand, Lamartine, conde Marcellus, Valiani, Geramb, +Poujoulat, MICHAUD, fr. Pantaleão d'Aveiro; MISLIN, fr. Lavinio, +Renazzi, Gaume, POZADA ARANGO, Escrich, Munk, Dupin, De Saulcy, Saint +Aignan; e particularmente os padres Dupuis e PERINALDO me foram de +INEXCEDIVEL AUXILIO... Não se destina esta enumeração a ostentar pompa +de erudição; serve, ao contrario, para _restituir a outros_ qualquer +gloriola que de entre estas paginas podesse ser colhida. Solícita +abelha, embrenhei-me n'essa vasta floresta e sem estragar as flôres, +_suguei-lhes o mel_; e se em alguma havia veneno, lá o deixei.» + +«O que ahi fica (idéa que mais de uma vez apparece reiterada no corpo da +obra), constitue um luxo de precauções, a fim de que nenhum mal +intencionado ousasse attribuir-lhe a intenção de locupletar-se com a +jactura alheia. «Eu segui varões doutissimos», «suas palavras ás vezes, +muitas outras suas sentenças.» «Em muitos authores procurei flôres que +em meu ramilhete ennastrasse, e a todos fiquei mais ou menos devedor.» +«Apontarei entre estes Pozada Arango, Michaud, Milsin.» «Particularmente +o padre Perinaldo me foi de inexcedivel auxilio.» «Se n'este ramilhete +rescende alguma fragrancia, a elles, e não a mim se deve.» «Seja a elles +restituida qualquer gloriola que d'entre estas paginas podesse ser +colhida.» «Na vasta floresta dos authores citados, suguei o mel de suas +flôres. » + +«Santo Deus! É n'estas circumstancias que se imputa a um escriptor a +perpetração de (nada menos!) _plagios escandalosos_! O que ahi fica, se +pecca é pela repetição, até á saciedade, do proprio facto com que os +inimigos hoje o criminam. Foi innocentemente o monsenhor quem deu essas +armas contra si. Leram no prefacio os seus detractores que elle +declarava haver transcripto numerosos passos de Michaud, Mislin, Pozada +Arango; e que Perinaldo principalmente lhe havia sido de inexcedivel +auxilio. O processo da malevolencia tornava-se, desde então, +singelissimo. + +«Ah! elle diz que ha um escriptor chamado Perinaldo, que lhe foi de +inexcedivel auxilio? que ha um Pozada Arango, etc., de quem extrahiu as +proprias palavras, ás vezes, ou sentenças? que para este ramilhete +colheu d'esses livros muitas flôres, e as mais preciosas? Ora, copiosas +flôres, colhidas de livros, não podem ser rosas, nem malmequeres, são +forçosamente paginas. Toca a procurar esses livros, cuja existencia elle +nos patentêa; a pesquizar ahi os trechos do que nos revela ter-se +apoderado; e depois, lançando-lhe em rosto o que elle mesmo nos +denunciou, tripudiaremos, e subindo ao capitolio, iremos render graças +aos deuses!» + +«Em tal procedimento, a lealdade pede meças á justiça.» + + +Delida a macula com que a malevolencia, aborto de odios politicos, +tentou denegrir a mais notavel obra modernamente escripta com os +primores da lingua portugueza por um brazileiro--que entre os seus e os +nossos a escreve como os distinctissimos--não temos senão a louvar o +grande alento que tirou a salvo de tropeços esta obra perduravel com que +monsenhor Pinto de Campos brindou os seus conterraneos e os da patria de +seus avós. Já conheciamos e reverenciavamos o orador religioso e +parlamentar. Agora lhe recebemos de sua mão um livro que vamos reler e +collocar entre os que nos ensinaram a escrever. + + + + +QUE SEGREDOS SÃO ESTES?... + + Fosse terror ou sentimento fosse + De mais occulta origem... + + GARRETT. + + A pallida doença lhe tocava + Com fria mão o corpo enfraquecido. + + CAMÕES. + + +I + +--Fui hoje vêr á casa da saude o Duarte Valdez. + +--O nosso companheiro de casa em Coimbra? + +--Justamente. + +--Que tem elle? + +--Os dias contados. + +--Tisico? + +--Perguntei ao doutor Arantes que doença era a do Valdez. Fez com os +hombros um tregeito significativo de que a medicina nem sempre tem +alçada para devassar das doenças que matam, e denominal-as com +terminações inflammatoriamente gregas. Quando, porém, é a alma que mata +o corpo, os medicos lavam d'ahi as mãos como o governador da Judêa. + +Tive este dialogo, em Lisboa, ha hoje doze annos, e, seguidamente, fui á +casa da saude no largo do Monteiro. + +Quando, na ida, atravessava o jardim da Estrella, sentei-me a encadear +as lembranças vagas e desatadas que eu tinha de Duarte Valdez. + +Tres épocas me occorreram. + +Primeira, a da nossa jovial convivencia em um casebre da Couraça dos +Apostolos, em Coimbra, no anno 1845. Segunda, outra menos modesta e +menos alegre camaradagem de quarto, no hotel Francez, do Porto, em 1851. + +Antes de mencionar a terceira época, urge saber-se que nenhum de nós se +formára. Elle contentára-se com um diploma de insufficiencia em +rhetorica, e eu com a prenda não commum de arpejar tres varios fados na +viola. Não rivalisavamos em sciencia. Formavamos da nossa reciproca +ignorancia um conceito honesto. Não queriamos implicar com sabios, nem +para os invejar nem para os detrahir. + +A terceira época ou terceiro encontro foi em 1856. Vi-o em S. João da +Foz, e ouvi-lhe revelar mysteriosamente que estava emboscado em uns +arvoredos, entre Lordello e Pastelleiro, com uma extremosa e estremecida +menina, fugida aos paes. Não me recordo os pormenores d'estes amores que +elle me disse serem os primeiros e ultimos. Tenho, porém, a certeza de +que me ri d'uns _amores ultimos_, aos vinte e cinco annos de idade. + +N'aquelle tempo a fuga de uma menina qualquer não era successo por tanta +maneira horrido, que eu devesse desmaiar na presença do meu acelerado +amigo. Eu já contava então uns decrepitos vinte e nove annos, e conhecia +varios acontecimentos impudicos, por exemplo, aquelle da D. Hermenigilda +d'Amarante, que eu exhibi ás lagrimas do publico sensivel nas _Scenas da +Foz_. Aquella especie de pellicula carmezim que assetina a epiderme do +rosto, e se chama _pudicicia_ nos droguistas da moral, tinham-m'a delido +as aguas lustraes da nossa civilisação pagã, para o que tambem muito +contribuiram as reuniões semanaes da Philarmonica, na rua das Hortas, +onde os rabecões entravam cheios de cupidos e sahiam cheios de suspiros. +Muitas senhoras portuenses, que hoje cedem a primazia da ternura ás +filhas, viram n'aquellas salas da Philarmonica os anjos com quem se +maridaram. Os annuncios das festas lyricas, enviados dos corações aos +corações, rezavam assim: _Sabbado, ás 7 da noite, musica de Mozart, e +Laços de Hymemeu_. Tudo antigo e bom. + +Isto veio a proposito de eu não ter uma congestão de pudor, quando +Duarte Valdez me segredou que se embrenhára nas selvas rumorosas do +Pastelleiro com uma menina perdida de amor, e tão cega de alma que já +não via na imaginação, sequer, as lagrimas da mãi, e o mortal abatimento +do pai que a amaldiçoava. + + +II + +O enfermeiro-mór da casa da saude conduziu-me ao quarto de Duarte. Com +certeza, se eu o encontrasse desprevenidamente, não o conheceria. O +espasmo dos olhos seria bastante a desfigurar-lhe as outras feições, +quasi sumidas na desgrenhada cabelleira e nas barbas. Immobilisava-lhe o +semblante a sinistra quietação da demencia contemplativa. + +Tambem elle me não reconheceu a mim, sem que eu lhe dissesse o meu nome. +Fitava-me com repulsão, como se a presença de um desconhecido o +molestasse fortemente; porém, depois que eu me nomeei, sahiu do torpor, +levantou-se de golpe, e abraçou-me com transporte. + +--Que tens tu, Duarte?... Estavas aqui, e não me participavas? + +--Eu não sabia que estavas em Lisboa, nem tinha a vaidade de suppôr que +ainda me conhecesses. Desde que te fallei na Foz, em 1856, nunca mais +nos encontramos nem escrevemos. + +--É verdade; mas nem por isso me eram estranhos os principaes passos da +tua vida. Soube que casaste... + +--Sim... casei... + +--Com aquella menina que então... estava comtigo? + +--Não...--respondeu Duarte com assombrado aspecto, e um sacudir de +cabeça indicativos de azedume por tal pergunta. + +Hesitei, á vista de tão subita mudança, se devia proseguir em tal +interrogatorio. Foi elle quem interrompeu o silencio, repetindo: + +--Não, não casei com essa...--e acrescentou, pondo-me no hombro a mão +tremula--casei com outra... que já morreu... + +--Morreu? + +--Sim, morreram ambas; matei-as eu... + +E, erguendo-se, travou-me do braço, levou-me comsigo para a janella, que +abria sobre um jardim, alongou a vista na direcção da cupula do convento +de Jesus, fez um gesto com a mão direita apontando para o céo, e quiz +dizer umas palavras que, abafadas pelos gemidos, pareciam rever-lhe nos +olhos em lagrimas copiosas. + +E eu, que poderia imaginar agora phrases muito apropositadas á situação +do meu amigo, não as invento, porque não lh'as disse então. + +E quem seria mais verboso que eu, em lance tão desusado? Se elle, com +effeito, havia matado as duas mulheres, eu, na verdade, não devia +ensaiar maneiras de o consolar, dizendo-lhe que, se as matou, fizera +muito bem. Figurou-se-me que Duarte fallára figuradamente. Porque ha +muitos sujeitos, ainda mal, que vivem penalisados com remorsos de ter +matado certas senhoras, sem ao menos admittirem que os medicos +collaborassem com elles. Ora eu que reputára, n'outro tempo, aquelle +Duarte Valdez tanto ou quê desarranjado pelas novellas, attribui ao seu +romanticismo a parte odiosa no assassinio das duas senhoras. + +Passados alguns segundos, fiz-lhe esta vulgarissima pergunta: + +--Como as mataste tu? + +--Despedaçando-as uma contra a outra. + +Póde ser que o leitor esteja sorrindo; saiba, porém, que o tremor +d'aquellas palavras vibrava tanto do seio do afflicto moço que uns +calefrios me correram a espinha, e o turvamento das lagrimas me embaciou +a vista. Situações analogas terá experimentado o leitor no theatro. Duas +palavras, em uma ficção dramatica, exprimidas pelo actor que pintou os +vincos da desgraça no rosto com fino pó de carvão, obrigam ás lagrimas +pessoas que não chorariam, se a desgraça fosse com ellas. + +--Chora, chora!--me disse elle, com vehemente exaltação.--Preciso que me +chorem, porque... eu morrerei, adorando as duas mulheres que matei... e +ninguem me ha de chorar. + +--Pódes tu contar-me a tua historia?--perguntei eu. + +--Posso... quero contar-t'a; mas receio que m'a não creias... A minha +familia, e os medicos da provincia dizem que eu me deixo matar pela +superstição, indigna da minha intelligencia... É um phantasma que me +mata, dizem elles... Ah! se o vissem! se eu te podesse contar... + +--Mas olha, Duarte, conta o que poderes... Eu hei de comprehender das +tuas dôres alguma cousa mais que o vulgar dos homens. Até as +superstições, se as tens, eu t'as entenderei; porque ha infortunios que +não podem entender-se, sem a intervenção de alguma cousa sobrehumana. + +--Pois então, vou contar-te a minha desastrada vida... Aquella infeliz +menina que esteve na Foz, ha dez annos--começou Duarte com pausadas +intercadencias--seria a minha bemaventurança, se eu não viesse a este +mundo com a predestinação dos reprobos. Meu pai, desde que eu a tirei da +casa paterna, ganhou-me entranhado odio; não por causa da culpa; mas com +receio que eu remediasse a culpa com o casamento. O seu primeiro acto de +vingança foi dar a casa a meu irmão, e reduzir-me a um patrimonio tão +escasso que não chegaria ás minhas despezas de dous annos. Maria do +Resgate era mais pobre que eu. Não desisti ainda assim de casar com +ella. Pedi um emprego com a eloquencia da virtude desgraçada, já quando +a minha subsistencia corria por conta dos paes de Maria. Estava eu em +vespera de ser despachado amanuense do governo civil de Bragança, quando +meu pai conseguiu inutilisar os esforços humilhantes que eu fizera para +adquirir tão mesquinho emprego. Fui ajoelhar aos pés de meu pai: estava +ao pé de mim, para me defender dos primeiros impetos da ira d'elle, +minha mãi. Eu pedi-lhe simplesmente que não se oppozesse á minha +collocação. Respondeu que se dava por aviltado, se seu filho fosse +exercer tão ignobil occupação; e, sem me dar a confiança de questionar +com o seu orgulho, disse que me dava recursos para estar dous annos em +Lisbôa, ou o tempo necessario para me esquecer da filha do procurador de +causas. + +Minha mãi chamou-me de parte, e aconselhou-me que annuisse; na certeza +de que, no espaço de dous annos, se eu não esquecesse Maria do Resgate, +ella conseguiria o consentimento de meu pai. + +Cedi forçado pela extrema necessidade. Maria, tão confiada em mim quanto +eu confiava no meu proprio coração, accedeu na ausencia dos dous annos. +Assim que eu sahi para Lisboa, sahiu ella para um convento de Bragança. + +Cheguei aqui, e encontrei dinheiro em abundancia, amigos, relações, +mulheres, liberdade, distracções, theatros, cêas, um desafogo de vida +tão agradavel quanto amargurado me tinha corrido o ultimo anno. + +Ás vezes, em meio dos meus divertimentos, assaltavam-me remorsos. Era +então que eu respondia ás cartas apaixonadas de Maria, e perguntava a +minha mãi se já tinha conseguido amollecer o duro coração de meu pai. +Respondia-me que esperasse, e Maria respondia-me que esperava uma de +duas cousas, que ambas lhe serviam: sahir da sua cella para mim ou para +a sepultura. Os meus amigos viam estas cartas, e riam-se da minha +credulidade. + +Ao cabo de um anno, os remorsos que me incutiam as cartas, já nem a +virtude tinham de as inspirar verdadeiras. Maria graduou por ellas o +sentimento frio que as disfarçava, e disse-me que eu era tão ingrato que +nem ao menos a deixava morrer enganada. + +Aborreciam-me já as lastimas e a obrigação de as consolar. Sentava-me +constrangido para lhe escrever. Já me queixava da sua pertinacia em me +accusar de ingrato, quando ella mesma se acommodára á cruel necessidade +da separação. Culpando-a de indiscreta, perguntava-lhe se quereria para +mando um homem que teria de mendigar ou roubar para sustental-a. Aqui +havia uma occulta infamia na mentira. Se eu pretendesse em Lisboa um +emprego, tel-o-hia, sufficiente á sustentação de uma familia modesta; +mas eu, desde que pisei os tapetes dos salões, pensava em ter salões com +tapetes, e desde que as carruagens dos meus amigos me levaram aos +theatros, desejei possuil-as para me desquitar de obrigações aos meus +amigos. Eu estava perdido como meu pai me desejára; estava deshonrado +bastantemente para desviar a imaginação da filha do procurador de +causas, quando as titulares de Lisboa me perguntavam quem era a rainha +dos bailes. + +Ao fim de dous annos, minha mãi, quando eu já não perguntava o resultado +das suas diligencias, avisou-me que meu pai vinha a Lisboa, na companhia +de um nosso primo e de nossa prima, chegados do Brazil, com o proposito +de nos visitarem. + +Estes nossos primos eram naturaes do Rio de Janeiro. Alli ficára meu +tio, pai d'elles, quando meu avô, que para lá fôra com o principe +regente na qualidade de desembargador do paço, voltou para Portugal. Eu +sabia d'estes parentes, e muitas vezes meu pai dissera que seria +convenientissimo casar um de seus filhos com a prima brazileira, cuja +fortuna rendia mais n'um mez que toda a nossa casa em um anno. + +Confesso-te miseravelmente que me sobresaltou o aviso da vinda de minha +prima. Vi salões com tapetes, e vi as suspiradas carruagens. Quem eu não +vi foi a imagem de Maria do Resgate. + +Minha prima Olinda era adoravel, ainda sem riqueza. + +Este conceito que formei ao vêl-a e ouvil-a, dispensou-me de o formar, +de mim, de grande villão. Amnistiava-me com a idéa de que, sendo ella +pobre, eu a quereria para esposa. Amei-a, é certo que a idolatrei. Não +tenho outra virtude que contrabalance com os meus delictos na presença +de Deus, e d'ella e da outra desgraçada. + +Havia dous mezes que Maria do Resgate me não escrevia, quando aqui +chegou Olinda, e, passados dous mezes, sahia eu de Lisboa, casado com +minha prima, a ir visitar minha mãi, para depois ir ao Rio receber os +trezentos contos de minha mulher, e d'alli passarmos a residir em +Lisboa, n'um palacio, com tapetes e carruagens. + +Meu pai foi adiante preparar as festas da recepção, e ornamentar as +salas para o baile, e a hospedagem para os convidados da nossa grande +parentella. + +Entrei profundamente triste na minha villa. As janellas da casa de Maria +do Resgate estavam fechadas como se houvesse alli morrido alguem. Nas +casas visinhas, havia senhoras e crianças que choviam abadas de flôres +sobre o nosso carro. + +Pouco depois que sahimos da mesa do jantar, atravessei com minha mulher +a sala de espera, para descermos ao jardim. N'este transito, vimos sahir +de um canto da sala uma mulher trajada de luto, que marchou de encontro +a Olinda, sem levantar o véo espesso do rosto. + +Não a conheci; mas mal podia suster-me de convulso. + +--Que tens?!--disse minha mulher.--Esta senhora parece que tem alguma +cousa que me dizer... + +--Tenho, sim, minha senhora--acudiu a mulher de luto--v. exc.ª não me +conhece nas salas de seu marido, porque eu sou a viuva de um pobre +procurador de causas que morreu ha quinze dias, quando perdeu a +esperança de vêr remediada a deshonra de nossa filha. Em quanto ella +teve pai, embora perdida no conceito do mundo, tinha o pão, que seu pai +lhe ganhava; mas agora, reduzida á orphandade, á pobreza, e á deshonra, +venho implorar a v. exc.ª que a receba como sua criada, visto que foi +seu marido que a perdeu. V. exc.ª fará o que a sua virtude e caridade +lhe aconselhar. + +E sahiu sem esperar resposta. + +Estas palavras ouço-as ainda como se a alma da mulher que as disse m'as +estivesse escrevendo na consciencia com um estylete de fogo. + +--Que é isto?--perguntou-me minha mulher. + +--É uma desgraça que eu te contarei--respondi torvamente. + +--Conta-m'a já, e remediêmol-a sem demora--tornou ella. + +Escondi-me com Olinda no mais sombrio do jardim, e tudo lhe referi com a +sinceridade de um penitente. Ella ouviu-me com semblante carregado, +avincando a testa, e ás vezes com signaes de compaixão, que de certo não +era por mim. + +Depois, ergueu-se, repelliu com brandura a minha mão que lhe acariciava +o rosto e murmurou: + +--Eu ignorava tudo isto. Desgraça irremediavel, já agora! Eu quero +fallar com a mãi d'essa infeliz menina. + +E assim que foi noite fechada, sahiu com um escudeiro, que a conduziu a +casa da viuva do procurador. + +Suspeito que a conferencia versou sobre a rica dotação de Maria do +Resgate. A viuva repelliu a proposta, porque minha mulher voltando ao +seu quarto, disse, como se ninguem a escutasse: + +--As deshonradas... de certo não são ellas. + +Até aqui--proseguiu Duarte Valdez--não ha nada maravilhoso na minha +historia... + +--De certo não; tudo vulgar--obtemperei eu que sabia centurias d'estas +historias, cuja trivialidade nenhum romancista de tino hoje em dia +aproveita da fardagem dos vicios communs. + +--O horrivel maravilhoso começa agora--continuou Duarte.--Passados +vintes dias, divulgou-se a noticia de estar moribunda no convento de +Bragança Maria do Resgate. E em uma das seguintes noites, estando eu a +dormir profundamente em um leito proximo do de minha mulher, acordei, +sentindo no pescoço os apertões convulsos de duas mãos que me +estrangulavam; e, abrindo os olhos, vi distinctamente nas trevas o rosto +macerado de Maria muito perto do meu rosto; e, ao mesmo tempo que as +suas mãos me asphyxiavam, sentia que o joelho d'ella me esmagava o +coração. N'este lance dei um grito, e ouvi o estrebuchar de minha +mulher, que soltava uns gemidos afflictissimos, como se lá sentisse +angustias de suffocação iguaes ás minhas. Saltei do leito, e fui á +recamara buscar a lamparina. Quando voltei, minha mulher estava de +joelhos á beira da sua cama, com as mãos postas, com as faces cobertas +de lagrimas, e os olhos esgazeados de terror. + +--Que é isto, Olinda?--exclamei. + +E ella, escondendo o rosto entre as mãos, murmurou: + +--Vi agora a desgraçada menina que tu abandonaste. Já estava +amortalhada. Era formosa como as martyres, e bem mais linda do que eu... +Disse-me adeus... Sabia que eu tinha chorado por ella... Veio dizer-me +que estava remida das suas dôres. + +Eu não disse a Olinda que tambem vira Maria do Resgate. + +O meu terror abafava-me a voz na garganta. Recorri á oração...--eu que +desde a infancia não tinha orado. Fui ao quarto de minha mãi; acordei-a; +pedi-lhe que viesse commigo para o oratorio. Contei-lhe as torturas da +minha visão, e a visão de Olinda. Ella pegou de tremer e chorar. Se eu +lhe dizia, sobre-posse, que a coincidencia dos sonhos podia acontecer, +sem intervenção do phantasma de Maria, minha mãi não achava isto +possivel, e mais me trespassava de horror. + +No dia seguinte, chegou a noticia de ter expirado á uma hora da noite +antecedente a reclusa do convento de Bragança. A pessoa que trouxe a +nova, era encarregada de me entregar o maço de minhas cartas. Em volta +das ultimas, que eu lhe escrevêra de Lisboa, havia uma cinta de papel e +um escripto interposto com estas palavras: + + +_Quando receber isto, que lhe deixo, para se convencer de que não ha +testemunho escripto da sua crueldade, a mais feliz serei eu, porque +estarei morta. O senhor de certo nunca será feliz, porque infamia e boa +consciencia não se encontram juntas. Perdôo-lhe o que me fez: mas não +posso perdoar-lhe a morte de meu pai nem o desamparo em que fica minha +mãi._ + + +Resta-me dizer-te--ajuntou Duarte, arquejando de cansaço e commoção--que +minha mulher desde aquella hora nunca mais teve um instante de alegria +nem saude. Viemos, passados dias, para Lisboa. D'aqui partimos para o +Rio de Janeiro. Ao cabo de oito mezes, eu estava viuvo, e rico, +muitissimo rico, e cada dia, cada hora mais desgraçado, mais combalido +de uma enfermidade indescriptivel. Voltei ao seio de minha familia. Já +não encontrei minha mãi; e a presença de meu pai coava-me nas veias um +estremecimento de pavor. Ha cinco annos que arrasto esta vida sem a +coragem de a despedaçar. Sinto ainda na garganta a pressão dos dedos +fincados do phantasma. Ajoelho-lhe, alta noite, e imploro-lhe que me +deixe morrer socegado. Peço á alma de minha mulher que suavise com +palavras compassivas a vingança da desgraçada que deve estar na presença +de Deus... Em fim... + + +E não proseguiu, porque n'este momento entrava o doutor Arantes, o +previsto medico da casa da saude, que, sem ouvir esta narrativa, sabia +que aquelle enfermo devia morrer, pela mesma razão mysteriosa que muitos +atacados de semelhante morbus engordam e porejam saude por todos os +orificios da sua enxundiosa epiderme. + + * * * * * + +Duarte Valdez, que ainda vi na vespera da sua ida para a Madeira, foi e +não voltou. As supplicas de Olinda lograriam que a misericordia divina o +resgatasse da presa do seu remorso. + + _Que segredos são estes da natura?_ + +Perguntaria Luiz de Camões. + + +FIM DO 9.° NUMERO + + + + +Ernesto Chardron, editor + +DICCIONARIO UNIVERSAL DE EDUCAÇÃO E ENSINO + +Util á mocidade de ambos os sexos, ás mães de familia, aos professores, +aos directores e directoras de collegios, aos alumnos une se preparam +para exames, contendo o mais essencial da sabedoria humana, trasladado a +portuguez por CAMILLO CASTELLO BRANCO e ampliado pelo traductor nos +artigos deficientes a Portugal e Brazil. 2 grossos vol. cada um de 800 +paginas a 2 columnas, 6$000. Encadernados, 7$000 + +AS GRANDES INVENÇÕES ANTIGAS E MODERNAS + +Nas sciencias, industria e artes, por LUIZ FIGUIER obra adornada com 238 +gravuras magnificas, e traduzida da 5.ª edição original francesa. 1 +grosso vol. brochado, 3$000. Com uma rica cartonagem, 3$600 + +GRANDE DICCIONARIO PORTUGUEZ + +Ou o thesouro da lingua portugueza, pelo DR. FREI DOMINGOS VIEIRA + +1.º volume--A-B, 4$500 + +2.º »--C-D, 4$500 + +3.º »--E-L, 5$500 + +4.º »--M-P, 4$000 + +Volume 5.º (ultimo) estará á venda em dezembro de 1874. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem +não póde dormir. Nº 9 (de 12), by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 9 (DE 12) *** + +***** This file should be named 28155-8.txt or 28155-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/8/1/5/28155/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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