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+ <title>Noites de Insomnia, offerecidas a quem não póde dormir, nº 9</title>
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+The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não
+póde dormir. Nº 9 (de 12), by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 9 (de 12)
+
+Author: Camilo Castelo Branco
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+Release Date: February 23, 2009 [EBook #28155]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 9 (DE 12) ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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+<span class="pagenum">[1]</span>
+
+<div class="capa">
+<p style="font-size: 1.2em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p>
+<hr style="width: 6em;">
+
+<p style="font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p>
+
+<p style="font-size: 0.7em;">OFFERECIDAS</p>
+
+<p>A QUEM NÃO PÓDE DORMIR</p>
+
+<p style="font-size: 0.7em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">Camillo Castello Branco</p>
+<hr style="width: 3em;">
+
+<p style="font-size: 0.7em;">PUBLICAÇÃO MENSAL</p>
+<br>
+
+<hr style="width: 3em;">
+
+<p style="font-size: 0.9em;">N.º 9&mdash;SETEMBRO</p>
+<hr style="width: 3em;">
+
+<table width="100%" summary="endereço editor">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <th colspan="2">LIVRARIA INTERNACIONAL<br>
+ <span style="font-size: 0.7em;">DE</span> </th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="border-right: solid 1px #000000;"><span
+ style="font-size: 0.9em;">ERNESTO CHARDRON <br>
+ <em>96, Largo dos Clerigos, 98</em><br>
+ <strong>PORTO</strong> </span> </td>
+ <td><span style="font-size: 0.9em;">EUGENIO CHARDRON<br>
+ <em>4, Largo de S. Francisco, 4</em><br>
+ <strong>BRAGA</strong> </span> </td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+<hr style="width: 2em;">
+
+<p style="font-size: 0.9em;">1874</p>
+</div>
+<span class="pagenum">[2]</span>
+
+<div id="impressor" style="text-align: center;">
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<hr style="width: 8em;">
+
+<p>PORTO</p>
+
+<p style="font-size: 0.9em;">TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">68&mdash;Rua da Cancella Velha&mdash;62</p>
+<hr style="width: 2em;">
+
+<p style="font-size: 0.9em;">1874</p>
+</div>
+<span class="pagenum">[3]</span>
+
+<div id="sumario">
+<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p>
+<hr style="width: 4em;">
+
+<p style="text-align: center; font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p>
+<hr style="width: 4em;">
+
+<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;"><strong>SUMMARIO</strong></p>
+
+<p style="text-align:justify;"><em><a href="#cap01">Os salões, pelo
+exc.<sup>mo</sup> visconde de Ouguella</a> &mdash;<a href="#cap02">Condemnação
+de corpo e alma</a> &mdash;<a href="#cap03">O doutor Botija</a> &mdash;<a
+href="#cap04">O palco portuguez em 1815</a> &mdash;<a
+href="#cap05">Bibliographia (Senna Freitas, Cunha Vianna, Monsenhor Joaquim
+Pinto de Campos)</a> &mdash;<a href="#cap06">Que segredos são estes</a></em>
+</p>
+</div>
+<span class="pagenum">[5]</span>
+
+<div id="corpo">
+<hr>
+
+<h1><a id="cap01" name="cap01">OS SALÕES</a></h1>
+
+<p>Os capitulos, assim intitulados e publicados nestes livrinhos, vão ser
+reproduzidos em volume com outros, complementares da obra. Teremos, pois, um
+livro de mão primorosa, de extenso folego, portuguez na fórma, bem que estranho
+á indole nacional. Entre portuguezes, os estudos sociaes, profundos e largos,
+não se ajustam á irrequieta vertigem dos que navegam de costeagem com o baixel
+da politica.</p>
+
+<p>Aqui proeja-se ao descançado porto das situações gananciosas, e deixa-se ao
+acaso resolver os problemas.</p>
+
+<p>O snr. visconde de Ouguella revelou-se n'este severo estudo um espirito de
+grande alcance, e discipulo dos que melhormente professam a sciencia historica.
+Se algumas vezes a sua penna roça asperrima na crusta das ulceras que lhe fazem
+nauseas, resgata-se briosamente avoando ás regiões altas, no rasto luminoso das
+augustas verdades.</p>
+
+<p>O livro, que ha de ser a affirmação da<span class="pagenum">[6]</span>
+honrada consciencia que nunca, desde a primeira mocidade, apostatou da religião
+do berço, é dedicado a uma formosa criança, Ramiro Soares de Oliveira da Silva
+Coutinho, filho do snr. visconde de Ouguella.</p>
+
+<p>São maviosas de affecto paternal e de nobre civismo estas expressões que o
+pai dirige á alma que se está formando entre as caricias de uma familia
+virtuosa: <em>É incentivo, estimulo e lição, para seguir, como luzeiro e farol
+do seu futuro, as nobilissimas tradições liberaes, legadas por seu avô, e meu
+presadissimo pai, Ricardo Sylles Coutinho. Seja este tambem o testemunho do meu
+acrisolado amor filial.</em></p>
+
+<p>O prefacio que precede os <em>Salões</em> é igual a elles na elevação e
+rigidez da idéa, no donaire e esplendor da linguagem; mas avantaja-se ao
+restante como prognostico dos brilhantes capitulos que hão de proceder de tão
+desprendido e intransigente programma.</p>
+
+<p>São raros em Portugal os escriptores que, á imitação do visconde de
+Ouguella, podem enlaçar a independencia com o talento, e esculpir no frontal do
+templo, onde os vendilhões armam tenda de bufarinheiros a legenda, que lhe
+compete.</p>
+
+<p>Eis o prefacio:<span class="pagenum">[7]</span></p>
+
+<h2>AO LEITOR</h2>
+
+<blockquote style="font-size: 0.8em; margin-left: 30%;">
+ La pensée est pouvoir.<br>
+ Tout pouvoir est devoir.<br>
+ <br>
+ VICTOR HUGO.<br>
+</blockquote>
+
+<p>Este livro tem uma missão, e tem um fim.</p>
+
+<p>Escripto para o povo, a sua missão é levar a luz ás ultimas camadas sociaes.
+Diffundil-a no tugurio do operario, e na choupana humilde do aldeão.</p>
+
+<p>Inspirado nas mais sinceras crenças da democracia, aceita, como fim,
+arrancar ás garras d'esse immenso desalento e d'essa torpe corrupção&mdash;que
+por ahi vai gangrenando as sociedades&mdash;os generosos espiritos populares,
+para que as almas se não gelem, e os corações&mdash;que vivem de nobres
+aspirações&mdash;se não atrophiem, n'este completo desmoronamento de todas as
+instituições existentes.</p>
+
+<p>O author d'este livro não tem pretenções, nem vaidades, nem receios. Não se
+julga apostolo, nem propheta, nem vidente. O mais obscuro dos obreiros d'este
+seculo&mdash;como é, e quer ser&mdash;escuta, attento, o ruido que vai lá fóra,
+nos paizes onde a idéa tem um culto, onde as crenças consubstanciam religiões,
+onde<span class="pagenum">[8]</span> as sociedades se debatem na agonia de
+organisações politicas, sociaes e religiosas, que tendem a desapparecer; e pelo
+facto de existir, e de se considerar obrigado ás luctas da existencia, giza o
+terreno em que combate, sem orgulho, sem odios, e sem rancores pessoaes.</p>
+
+<p>Volta-se para os seus irmãos no trabalho, operarios tambem&mdash;qualquer
+que seja a fórma por que exercem a sua actividade, e diz-lhes:</p>
+
+<p>«Eu penso assim. Aqui tendes o producto das minhas meditações, e dos meus
+estudos. Dou-vos os lavores do meu espirito. Combatei-me, ou enfileirai-vos
+commigo.»</p>
+
+<p>Eis a razão do livro.</p>
+
+<p>Vêde, agora, a sua desenvolução.</p>
+
+<p>O author crê nas inspirações grandiosas do povo, crê na mocidade estudiosa
+das escolas, e crê nas leis immutaveis, fataes, e inexoraveis do progresso, que
+acompanham a vida das gerações, e que nos conduzem a uma determinada somma de
+civilisação, a um especimen de perfectibilidade relativa, quaesquer que sejam
+os cyclos de descrença, de abjecto abatimento, de egoismo individual, e de
+corrupção momentanea em que se debatem as sociedades.</p>
+
+<p>O author d'este livro é espiritualista.</p>
+
+<p>Devotado ás leis sagradas e eternas por<span class="pagenum">[9]</span> que
+se rege a humanidade, curvando-se, submisso e reverente, á vontade absoluta,
+que governa, e dirige o universo, pronuncia a medo, e na humildade da sua
+existencia, o nome do Ente Supremo, e crê firmemente, que todos os homens são
+iguaes. Ajoelha, e adora a omnipotencia, a infinita bondade, e sublime
+misericordia de Brahma, Zeus, Jezeu, Elohim, Jehovah, Allah, Osiris, Jupiter,
+Deus, Christna, Christo, finalmente do Eterno&mdash;qualquer que seja o nome
+sagrado, e mysterioso, por que as gerações modernas o pretendam appellidar.</p>
+
+<p>O seculo dezoito teve por missão destruir.</p>
+
+<p>O seculo dezenove é a transição, que liga, e une civilisações heterogeneas,
+é o parenthesis aberto n'estas luctas do espirito, n'esta convulsão moral, em
+que as sociedades actuaes trabalham para se regenerarem radicalmente, sob um
+differente aspecto, e aceitando novos dogmas, e diversas doutrinas.</p>
+
+<p>O author d'este livro não despreza o passado. Não o injuria, não o diffama,
+nem o calumnia. Explica-o até, e, por vezes, justifica-o.</p>
+
+<p>Mas aceita jubilosamente a corrente das idéas do seu seculo, e louva o
+Eterno na effusão das suas crenças.</p>
+
+<p>Todavia não volta o rosto, como a mulher de Loth, para contemplar
+Sodoma.<span class="pagenum">[10]</span></p>
+
+<p>Só a magestosa omnisciencia do Ser Supremo póde avaliar os entes que creou.
+</p>
+
+<p>Ao sentar-se nos bancos das escolas superiores, no prefacio de um
+livro&mdash;dado a lume por um irmão d'armas, ferido, e cahido moribundo, já,
+na arena da discussão, pelas luctas da palavra&mdash;escreveu as seguintes
+linhas:</p>
+
+<p>«Pergunta-se&mdash;se os gozos, se os prazezes pertencem unicamente a um
+pequeno numero de homens?&mdash;se a maioria, se as classes proletarias, se os
+Spartacus da civilisação moderna teem de escolher entre o passamento
+ignominioso nas gemonias do seculo dezenove, ou nas barricadas, nascidas do
+desespero, que a miseria e o ardor do martyrio obrigam a levantar?
+Pergunta-se&mdash;se o monopolio, se a concorrencia, são os dogmas injustos e
+tyrannicos, que hão de destruir as massas, como o carro do idolo Jagrenat,
+entre os indios, esmaga o craneo dos brahmanes, ou se a associação, esse credo
+dos assalariados das industrias, que os economistas victoriam&mdash;póde acabar
+com o pauperismo, e obstar á ignorancia dos povos, palladio deshumano a que os
+ambiciosos se seguram?»</p>
+
+<p>Ainda hoje o author d'estas linhas formúla as mesmas perguntas, com a mesma
+severidade, e aceita a responsabilidade d'ellas na tranquillidade constante, e
+inalteravel do seu espirito.<span class="pagenum">[11]</span></p>
+
+<p>A quem o accusar de leviano, de voluvel, e de imaginoso, no seio d'este
+hediondo tropel de ambições, que renegam, e apostasiam a cada
+hora&mdash;redemoinhando, revoltas, em torno do poder, seja qual fôr a sua
+origem ou procedencia&mdash;responde o author d'este livro com o sorriso do
+desprezo, e com a consciencia segura de que não sabe, não póde, nem quer
+deslizar nunca da lei augusta e sacrosanta do dever.</p>
+
+<p>Os espiritos, para quem a libré é mais do que um distinctivo, e uma triste e
+crapulosa missão, porque chega a ser um sacramento imprimindo
+caracter,&mdash;esses, que se curvem, que se dobrem, e que degradem a face
+humana, varrendo, com a fronte, o pó das alcatifas e alfombras das regias aulas
+e alcaceres dos principes, magnates e satrapas do poder.</p>
+
+<p>Pouco importa.</p>
+
+<p>O vocabulo <em>lacaio</em> tem, na sua etymologia, a justa e bem merecida
+ignominia.</p>
+
+<p>É a pena que a dignidade humana confere á abjecção.</p>
+
+<p>Um dos primeiros&mdash;senão o primeiro escriptor d'este seculo&mdash;narra
+o seguinte:</p>
+
+<p>«Octavio Augusto, na madrugada da batalha de Accio, encontrou um jumento a
+quem o burriqueiro alcunhára ou appellidára <em>Triumphus</em>. Este Triumpho,
+dotado com a faculdade de zurrar, pareceu-lhe de bom agouro.<span
+class="pagenum">[12]</span> Octavio Augusto ganhou a batalha, lembrou-se do
+Triumpho, mandou-o fundir, e esculpir em bronze, e collocou-o no capitolio.
+Burro capitolino foi elle&mdash;mas ficou sempre burro.»</p>
+
+<p>Eis a historia das vaidades humanas.</p>
+
+<p>«O habito não faz o monge», diz a sabedoria dos povos.</p>
+
+<p>As grandezas da terra são, as mais das vezes, o pelourinho de todas as
+ignominias&mdash;assim como do sambenito, e da cana verde da irrisão pharisaica
+surgem, em ondas de luz, a magestosa auréola do martyrio, e a apotheose
+deslumbrante, que a posteridade engrandece e divinisa.</p>
+
+<p>O author d'este livro não crê nos partidos militantes, nos diversos grupos
+parlamentares, nas ambições e cubiças, que fervilham em torno das insignias
+consulares&mdash;quer se chamem opposições ou governo.</p>
+
+<p>Escalar o poder pelo poder, aceital-o em todas as condições, á sombra de
+todas as bandeiras, na defeza de todos os codigos, e na metamorphose de todos
+os principios, parece ser a maxima inspiração de todas estas phalanges, ávidas
+e sedentas de governo, que reputam, como suprema beatitude, o ineffavel gozo de
+dirigirem uma situação politica qualquer.</p>
+
+<p>D'aqui vem o scepticismo partidario, a indifferença<span
+class="pagenum">[13]</span> profunda, e a descrença completa do povo.</p>
+
+<p>N'isto, como em tudo, o author d'este livro está ao lado do povo.</p>
+
+<p>Basta.</p>
+
+<p>Fecha-se este prologo com uma simples remissão ao prefacio ou introducção do
+livro, que fica referido.</p>
+
+<p>Assim termina esta advertencia ao leitor:</p>
+
+<p>«A educação, nas classes pobres da nossa terra, tem sido desprezada: o povo
+ignora tudo, porque tudo lhe é vedado. Convinha, pois, que á frente de um
+livro, que narra com singeleza as tristes vicissitudes por que a governação
+entre nós tem passado; que aponta, sem exagerações, como a liberdade vai sendo
+sophismada, fossem estampadas algumas linhas, que levassem a esperança a
+corações para quem a educação é um miseravel scepticismo, e a vida um sudario
+de pungentes dôres.»</p>
+
+<p>Estas linhas, escriptas ha vinte annos, firma-as o author d'este livro, com
+a convicção plena de que ainda não deslizou d'estas crenças, nem renegou, n'um
+só momento, a religião da sua mocidade.</p>
+
+<p>Em mil oitocentos cincoenta e seis, quando a pena de morte era lei entre
+nós, quando o homicidio legal erguia a sua sinistra, e hedionda influencia
+n'esta terra&mdash;terminava o author d'este livro, em presença de um
+tribunal<span class="pagenum">[14]</span> e em defeza de um réo, pelo seguinte
+modo, a sua oração:</p>
+
+<p>«Quanto a mim, resta-me a honra de ter pelejado com a forca, esta peleja
+solemne e derradeira. Se eu ficar vencido, se triumphar o carrasco, tanto peor
+para o seculo em que combati, e para a philosophia que invoquei.»</p>
+
+<p>Foi já rasgada a lei do homicidio. Falleceu o ultimo carrasco.</p>
+
+<p>Bemdito seja Deus!</p>
+
+<p>Venceu aqui a civilisação.</p>
+
+<p>É para crêr, que venceu, tambem, a justiça absoluta, a consciencia, e a
+sociedade.</p>
+
+<p>A inviolabilidade da vida humana é mais do que um principio, mais do que uma
+doutrina, mais do que uma lei: é um culto prestado ao Ente Supremo.</p>
+
+<p>Deixai, agora, que o author d'este livro peleje pela democracia.</p>
+
+<p>É esta, e só esta a verdadeira religião do futuro: é a obra sublime do
+Creador.</p>
+
+<p>Lisboa, 24 de julho de 1874.</p>
+
+<p style="text-align:right;">VISCONDE DE OUGUELLA.<span
+class="pagenum">[15]</span></p>
+<hr>
+
+<h1><a id="cap02" name="cap02">CONDEMNAÇÃO DE CORPO E ALMA</a></h1>
+
+<p>A lei dos justiçados, antes de 5 de fevereiro de 1587, condemnava o corpo e
+a alma, não admittindo á communhão os condemnados á morte. Os juizes faziam-se
+intrepretes da justiça divina. Trancavam as portas do purgatorio á contrição,
+privando a alma do sacramento, que a theologia declarára indispensavel ao
+viador da eternidade, por fóra das regiões das trevas infinitas.</p>
+
+<p>Não sei onde os legisladores acharam o esteio de tão cruel severidade com as
+almas dos justiçados. Não podemos, porém, duvidar d'este desprezo da lei de
+Jesus, em época tão assignalada de bons theologos, comprehendida nos reinados
+de D. Manoel e D. João III. Que os condemnados á morte não eram admittidos á
+communhão deprehende-se do tratado <em>De sacramentis pr&oelig;standis ultimo
+supplicio damnatis</em>, do famoso jurisconsulto Antonio da Gama, já no cap. I,
+já na dedicatoria ao cardeal D. Henrique, impressa pela primeira vez em 1559, e
+não em 1554, como diz o abbade de Sever, na <em>Bibl. Lusit.</em> O mesmo se
+infere do <em>Compromisso da Misericordia de Lisboa</em>, cap. 36,
+confirmado<span class="pagenum">[16]</span> por alvará de 19 de maio de 1618.
+Ahi se estabelece o modo de acompanhar os padecentes e de lhes assistir. Estes
+usos subsistiram, através de dous seculos, exceptuados os enforcados politicos
+a quem por misericordia matavam com pouco apparato processional.</p>
+
+<p>Ainda depois da lei que permittia o Viatico aos condemnados, nem todos
+gozaram esse dôce prazer, essa extrema consolação que lhes abria no reino de
+Deus a porta da esperança. Themudo, nas <em>Decisões</em>, tom. II, decis. 155,
+pag. 126, n.º 3, conta que o marquez de Villa Real, cumplice na conjuração de
+1641 contra D. João IV, pediu licença ao arcebispo de Lisboa para commungar, na
+vespera do dia em que fôra degolado. O arcebispo concedeu a licença. Á meia
+noite ouviu missa no oratorio, e ás tres da tarde do dia seguinte (28 de agosto
+de 1641) foi executado. Ao mesmo proposito, leiam os curiosos o <em>Commentario
+aos Lusiadas</em>, por Manoel de Faria e Sousa, cant. III, est. 38.</p>
+
+<p>Os co-réos do marquez de Villa Real ou não pediram licença, ou lhes foi
+negada. Agostinho Manoel de Vasconcellos, poeta, escriptor galante, e mais
+verde de juizo do que de annos&mdash;pois já orçava pelos cincoenta e
+tantos&mdash;parece que não tinha absoluta confiança no sacramento, pois que
+morreu sem elle. Póde ser que este peccador incontrito, vendo que<span
+class="pagenum">[17]</span> os theologos do seculo XVI dispensavam os
+condemnados da communhão, e os julgavam irreparavelmente precítos na outra
+vida, fosse da opinião d'elles, e se deixasse ir até vêr o que succedia aos
+seus companheiros do cadafalso, passado o estreito medonho d'aquella horrenda
+morte.</p>
+
+<p>Tenho lido romances historicos portuguezes, e de bom pulso, em que os
+condemnados coevos de D. João I e II, se confessam e commungam. Esta inventiva
+piedade dos romancistas encontra as cruezas repellentes da historia. É erro
+muito desculpavel. Qual é o romancista que lê os reinícolas Antonio da Gama, e
+Themudo, e o <em>Codigo Filippino</em>, e a <em>Synopsis Chronologica</em>?!
+Estes livros são escumadeiras das faculdades imaginosas. Quem se affizer a
+herborisar em taes charnecas, póde ser que vingue saber muita cousa obsoleta;
+mas toda a sua erudição, fundida na moeda miuda dos livros de passatempo, não
+logra captivar o leitor que lhe attribua a vigilia de uma noite. Não se é
+escriptor ameno e agradavel sem muita ignorancia. Eu devo a isto os meus
+creditos e a minha fecundidade.<span class="pagenum">[18]</span></p>
+<hr>
+
+<h1><a id="cap03" name="cap03">O DOUTOR BOTIJA</a></h1>
+
+<p>Francisco Dias Gomes,&mdash;considerado pelo snr. A. Herculano o homem
+talvez de mais apurado engenho que Portugal tem tido para avaliar os meritos de
+escriptores&mdash;foi malquisto de uns poetas contemporaneos que lhe chamavam o
+<em>doutor Botija</em>, allusão tirada das vasilhas de seu commercio de
+mercearia.</p>
+
+<p>Um dos seus medianos admiradores era o abalisado mathematico e estimavel
+poeta José Anastacio da Cunha. Dos seus raros amigos&mdash;pois que os não
+grangeava em razão de sua indole desconversavel e um tanto
+hypochondriaca&mdash;o mais esclarecido e provado foi Garção Stochler, então
+lente de mathematica, e depois barão e general.</p>
+
+<p>Francisco Dias Gomes, posto que modesto e conformado com a sorte de
+especieiro, não se deixava insensivelmente morder pelos epigrammas de quem quer
+que fosse. A honesta musa que lhe inspirou os graves e soporiferos poemas
+constantes do seu livro impresso por ordem da academia real, algumas vezes se
+lhe apresentou despeitorada e de saia curta, n'aquelle desatavio que desnorteia
+a circumspecção<span class="pagenum">[19]</span> de um philologo da polpa de
+Francisco Dias.</p>
+
+<p>O leitor, provavelmente, ainda não viu como este sisudo academico jogava o
+venabulo da satyra. A academia, se alguma topou entre os manuscriptos do seu
+confrade, com certeza a pospoz como damnosa aos serios escriptos com que a
+esposa e filhos do finado critico haviam de quebrar alguns espinhos da herdada
+pobreza.</p>
+
+<p>Não me recordo se Stochler, na noticia critico-biographica anteposta aos
+versos posthumos do seu amigo, faz referencia ao espirito satyrico de Francisco
+Dias; o que certissimamente sei é que nunca vi impressa a satyra seguinte
+contra José Anastacio da Cunha, nem tão pouco a replica d'este poeta, que no
+proximo numero sahirá como prova do retrincado odio com que, em todos os
+tempos, os escriptores se expozeram á irrisão dos ignorantes, mutuando-se
+affrontosas injustiças.</p>
+
+<p>Francisco Dias é iniquissimo no conceito que finge formar de José Anastacio,
+e tanto mais censuravel quanto aquelle douto e infeliz philosopho nunca
+desfizera na valia do mercieiro poeta, segundo se deprehende da resposta.</p>
+
+<p>N'esta satyra o que muito vale é a pureza da linguagem condimentada com
+especies do seculo XVII, bastante avelhentadas e rancidas;<span
+class="pagenum">[20]</span> mas, assim mesmo, saborosas a paladares não de
+todos depravados pela malagueta da poesia vermelha que ultimamente vige e viça.
+</p>
+
+<p>Quanto a graça, é tão difficil achal-a em Francisco Dias como nas comedias
+de Jorge Ferreira. Os nossos bons classicos, quer fossem moços e mundanos, quer
+ascetas e encanecidos, não sei como pensavam; mas no escrever, eram todos como
+uns frades velhos que digeriam as suas idéas, tal qual um estomago dyspeptico
+de hoje em dia esmoe um paio do Alemtejo.</p>
+
+<p>Ahi vai, tal e quejanda, a satyra do <em>doutor Botija</em>:</p>
+
+<blockquote style="font-size: 90%;">
+ SATYRA<br>
+ <br>
+ Vem cá, louco varrido, que diabo<br>
+ Te metteu na cabeça ser poeta?<br>
+ Quem te chegou a tão extremo cabo?<br>
+ <br>
+ Não vês que toda a gente anda inquieta,<br>
+ Cançada de soffrer teus argumentos,<br>
+ Que te julga demente, que és pateta?<br>
+ <br>
+ Eu nunca imaginei que teus intentos<br>
+ Fossem fazer-te vão: agora julgo<br>
+ Que em nada se tornaram teus talentos.<br>
+ <br>
+ Se eu crêra em quantas pêtas conta o vulgo,<br>
+ Das feiticeiras sordidas e aváras,<br>
+ E outras, que aqui não digo, nem divulgo;<span class="pagenum">[21]</span><br>
+ <br>
+ Dissera que perjuro te mostráras,<br>
+ Que infido amante da cruel Canidia,<br>
+ Seus magicos encantos divulgarás.<br>
+ <br>
+ Que ella, por castigar tua perfidia,<br>
+ Sobre as azas d'um Lémure correra<br>
+ O Tauro, o Atlante, o Nilo, e a sêcca Lidia,<br>
+ <br>
+ Onde hervas potentissimas colhêra,<br>
+ Com que mixtos veneficos, horrenda,<br>
+ De funestos effeitos compozera.<br>
+ <br>
+ E porque ao fim viesse da contenda,<br>
+ Pela alta noite, barbara, ullulára,<br>
+ Com voz funesta, horrisona e tremenda,<br>
+ <br>
+ Que as infernaes Deidades convocára<br>
+ Do tremebundo Tartaro, formando<br>
+ Mil circulos no chão com fatal vara.<br>
+ <br>
+ Pallida, e consumida, suspirando,<br>
+ As horridas madeixas eriçadas,<br>
+ Com ellas murmurára um canto infando.<br>
+ <br>
+ Alli foram de todo desatadas<br>
+ As prisões, que a teu corpo o siso unia;<br>
+ Alli tuas idéas perturbadas;<br>
+ <br>
+ Sómente em ti ficou triste mania<br>
+ De maus versos fazer, de argumentar<br>
+ Com quantos ha, nas praças, noite, e dia.<br>
+ <br>
+ Não deixa a gente já de murmurar<br>
+ D'essa tremenda furia que te agita,<br>
+ D'esse teu furioso e vão fallar.<br>
+ <br>
+ Cuidas que, ainda que nescio, assim se excita<br>
+ A celebrar-te o povo por sciente,<br>
+ Elle que em tudo mofa, e fel vomita?!<span class="pagenum">[22]</span><br>
+ <br>
+ E julgas que de rustico não sente<br>
+ A differença que ha do branco ao preto?<br>
+ Por certo que te enganas claramente.<br>
+ <br>
+ Tu crês que só quem faz um bom soneto,<br>
+ Ou decifra um enigma mathematico,<br>
+ Esse só tem juizo, e é só discreto?<br>
+ <br>
+ Se para ser qualquer da vida pratico,<br>
+ Bem aviado está, se lhe é preciso,<br>
+ Ser um grande geometra, ou grammatico.<br>
+ <br>
+ Tal ha por esse mundo, e tal diviso,<br>
+ Que sem saber a regra do <em>abc</em>,<br>
+ É sagaz como trinta, e tem juizo.<br>
+ <br>
+ Como queres tu pois que não te dê<br>
+ Surriadas o povo maldizente,<br>
+ Posto que nunca estuda, e nunca lê?<br>
+ <br>
+ Se elle anda já cançado longamente<br>
+ De ouvir as tuas vãs declamações<br>
+ Com que pretendes emendar a gente!<br>
+ <br>
+ Se defender intentas conclusões,<br>
+ Mestre em artes, de borla, ou capacete,<br>
+ Porque te ouçam as tuas decisões;<br>
+ <br>
+ Rapa a cabeça tu, frade temete:<br>
+ Combaterás então mais forte e ufano,<br>
+ Que um guerreiro montado em bom ginete.<br>
+ <br>
+ Não andes pelas ruas como insano<br>
+ Syllogismos em barbara formando;<br>
+ Se assim queres ter fama, é grande engano.<br>
+ <br>
+ Que quer dizer, continuo, andar fallando<br>
+ Em curvas, corollarios e problemas,<br>
+ Demonstrações fazendo, e explicando?<span class="pagenum">[23]</span><br>
+ <br>
+ Quando te ouvem fallar em theoremas,<br>
+ Escalenos triangulos, e rectas,<br>
+ Espheroides, polygonos, e lemmas,<br>
+ <br>
+ Julgam ser isso termos de patetas<br>
+ Ou d'esses que tem pacto c'o diabo,<br>
+ E lhe fallam em partes mui secretas.<br>
+ <br>
+ Pois eu d'aconselhar-te não acabo,<br>
+ Se por tal te tiverem, fugirás<br>
+ Como cão com funil atado ao rabo.<br>
+ <br>
+ Em vão com grande esforço ladrarás,<br>
+ Distinguindo a menor, que concedendo<br>
+ Quanto o povo quizer á força irás.<br>
+ <br>
+ Que achaste, inda que tu lhe vás dizendo,<br>
+ Do circulo a sonhada quadratura,<br>
+ Nada te valerá, segundo entendo.<br>
+ <br>
+ C'os rapazes e moços, gente escura,<br>
+ Gente indomita em fim, tua pessoa<br>
+ Não poderá jámais andar segura.<br>
+ <br>
+ Tanto já de ti fallam por Lisboa,<br>
+ Que quando vaes por uma praça, ou rua,<br>
+ Grande susurro em toda a parte sôa.<br>
+ <br>
+ Ora pois tem razão, que a audacia tua,<br>
+ E teus discursos vãos, e palavrosos<br>
+ Dão causa a que qualquer teu sestro argua.<br>
+ <br>
+ Eis aqui porque chamam ociosos<br>
+ Aos que ás letras se applicam, temerarios,<br>
+ Phantasticos, herejes, mentirosos.<br>
+ <br>
+ Os fidalgos os tem por ordinarios,<br>
+ Baixos de nascimento, sem avós,<br>
+ De humildes pensamentos, vãos e varios.<span class="pagenum">[24]</span><br>
+ <br>
+ Se alguem com acto humilde e baixa voz<br>
+ Lhe offerece o elogio em prosa ou rima,<br>
+ Louco, dizem, te vai longe de nós.<br>
+ <br>
+ De nós a poesia não se estima;<br>
+ Vê se tens outra cousa por que valhas,<br>
+ Falla-nos de cavallos ou de esgrima.<br>
+ <br>
+ De cavallos, de esgrima, de batalhas,<br>
+ Não d'essas verdadeiras batalhadas<br>
+ Com lança e espada, aereas antigualhas.<br>
+ <br>
+ Entra por esta brecha ás cutiladas,<br>
+ Amigo, tu que n'isto és o primeiro,<br>
+ Segundo já te ouvi grandes roncadas.<br>
+ <br>
+ Não te ficou venida no tinteiro,<br>
+ Nem tantas soube o Molho destemido,<br>
+ De malsins espantalho verdadeiro.<br>
+ <br>
+ Se te ouvira o Palermo esmorecido<br>
+ Da côrte se ausentára, por não vêr<br>
+ Com teu valor seu credito abatido.<br>
+ <br>
+ Bem pódes pelo mundo discorrer,<br>
+ Novo Roldão, armado d'armas brancas,<br>
+ Mil encantos e aggravos desfazer.<br>
+ <br>
+ Leva do teu cavallo sobre as ancas<br>
+ Tua dama sentada; esgrime e clama,<br>
+ Que assim tudo afugentas, tudo espancas.<br>
+ <br>
+ Ganharás maior nome, e maior fama,<br>
+ Do que andar versos maus vociferando,<br>
+ Dignos dos becos sordidos d'Alfama.<br>
+ <br>
+ Se a fazer versos lá do lago infando<br>
+ O diabo sahisse em tons diversos,<br>
+ Taes como os teus faria, impio, e nefando.<span
+ class="pagenum">[25]</span><br>
+ <br>
+ Por isso não os tenhas por perversos,<br>
+ Aos que pulhas te dizem, porque em fim,<br>
+ Não ha cousa peor do que maus versos.<br>
+ <br>
+ Antes mais vale ser villão ruim,<br>
+ Frade apostata em casa das mancebas,<br>
+ Do que ser mau poeta, antes malsim.<br>
+ <br>
+ Agora quero eu que me percebas,<br>
+ Se alguem te applaude e rijo as palmas bate,<br>
+ É porque mais em teu vicio te embebas.<br>
+ <br>
+ Que aqui te manifesto sem debate,<br>
+ Todos esses amigos que te cercam,<br>
+ Todos te tem por um famoso orate.<br>
+ <br>
+ Quaes ha que rindo o folego não percam,<br>
+ Vendo, quando andas só, teu ar profundo?<br>
+ Se o gosto não lh'o invejo, caro o mercam.<br>
+ <br>
+ Como o que anda d'um bosque lá no fundo<br>
+ As féras conversando e as amadríadas<br>
+ Desgostoso das gentes, e do mundo,<br>
+ <br>
+ Quem te vê tão suspenso, outras iliadas<br>
+ Julga que andas compondo, alto portento!<br>
+ Outros novos altissimos <em>Lusiadas</em>.<br>
+ <br>
+ Mas cada vez que recordar intento<br>
+ Teu soberano e largo magisterio,<br>
+ Fico qual nau sem leme ao som do vento.<br>
+ <br>
+ Alli tudo decides com imperio:<br>
+ Não foram tão despoticos em Roma<br>
+ O tyranno Caligula, ou Tiberio.<br>
+ <br>
+ Qualquer, de ti pendente, lições toma,<br>
+ Não ousa, inda que queira, dizer nada,<br>
+ Que tudo á tua voz se rende, e doma.<span class="pagenum">[26]</span><br>
+ <br>
+ Alli qualquer materia é bem tratada,<br>
+ Com larga voz e cópia de palavras,<br>
+ Alli com teu discurso illuminada.<br>
+ <br>
+ Antes fallasses tu em gado ou lavras,<br>
+ Do que em sciencias, de que nada entendes:<br>
+ Ou fosses para o monte guardar cabras.<br>
+ <br>
+ Novos systemas se fundar emprendes,<br>
+ Porque a fama no numero te conte<br>
+ Dos grandes homens, que offuscar pretendes,<br>
+ <br>
+ Pede ao bom Ariosto que te monte<br>
+ Sobre o seu grifo rapido, e serás<br>
+ Outro Astolfo, outro audaz Bellerophonte.<br>
+ <br>
+ Ao concavo da lua subirás<br>
+ Para vêr se descobres novos mundos,<br>
+ Mas nunca o teu juizo encontrarás;<br>
+ <br>
+ Perdeu-se como pedra em poços fundos,<br>
+ Que nunca acima vem, nem nada, ou boia:<br>
+ Juizos são de Deus, altos, profundos!<br>
+ <br>
+ Não te esqueça maranha, nem tramoia,<br>
+ Porque ao fim desejado te Conduzas,<br>
+ Mais famoso serás que Helena e Troia.<br>
+ <br>
+ Avante, ó novo Gama, já confusas<br>
+ Com as tuas acções vejo as antigas,<br>
+ E para te cantar promptas as musas.<br>
+ <br>
+ Tem-nas da tua parte por amigas,<br>
+ Materia dando a satyras facetas<br>
+ Como as de Horacio, destro n'estas brigas.<br>
+ <br>
+ Se minhas forem, não serão discretas,<br>
+ Porque da rima a musica sonante<br>
+ Adorna as minhas pobres cançonetas.<span class="pagenum">[27]</span><br>
+ <br>
+ Inda esta nos faltava, a cada instante<br>
+ Andares tu contra ella declamando!<br>
+ Que mal te fez o pobre consoante?<br>
+ <br>
+ Quando o chamas não vem logo a teu mando?<br>
+ É porque com verdade não se preza<br>
+ Do teu engenho o som suave e brando.<br>
+ <br>
+ Elles fogem de ti com ligeireza<br>
+ Os consoantes, porque em ti não sentem<br>
+ Para bem usar d'elles natureza.<br>
+ <br>
+ Se as minhas conjecturas me não mentem,<br>
+ Os que poetas querem ser á força,<br>
+ Pouco de um secco rábula desmentem.<br>
+ <br>
+ Em vão um pobre espirito se esforça<br>
+ Porque os seus versos sóem docemente,<br>
+ Por mais e mais que o pensamento torça.<br>
+ <br>
+ Nunca ouviste dizer que Apollo ardente<br>
+ Agita a phantasia dos poetas,<br>
+ Para que mais seu cerebro se esquente?<br>
+ <br>
+ Inda que ouçam razões muito discretas<br>
+ Das mulheres e filhos que pão pedem,<br>
+ Deixam ficar-se, assim como patetas.<br>
+ <br>
+ Nem fomes, nem trabalhos os impedem,<br>
+ Que exercitem o dom divino e raro:<br>
+ Tanto em seu desatino se desmedem;<br>
+ <br>
+ Por isso ás vezes julga o vulgo ignaro,<br>
+ Que elles são intrataveis, desabridos,<br>
+ Posto que os bons lhe dêm louvor preclaro.<br>
+ <br>
+ Mas tu que nunca ergueste os teus sentidos,<br>
+ Que em idéas vulgares e confusas<br>
+ Sempre andaste com elles envolvidos;<span class="pagenum">[28]</span><br>
+ <br>
+ Se nunca conheceste Apollo, ou musas,<br>
+ Nem pintado sequer viste o Parnaso,<br>
+ Para que de seus dons sem saber usas?<br>
+ <br>
+ Se temes que o teu nome em negro vaso<br>
+ Para sempre se veja sepultado;<br>
+ Usa do para que tiveres azo.<br>
+ <br>
+ Não digas mal do consoante amado<br>
+ Tanto dos bons engenhos peregrinos<br>
+ Dos do tempo d'agora e do passado.<br>
+ <br>
+ Se tu fundas em Miltons e Trissinos<br>
+ Teus aereos phantasticos systemas,<br>
+ Assás de bons não foram seus destinos.<br>
+ <br>
+ Poucos ou raros lêm os seus poemas;<br>
+ Um triste e melancolico caminha<br>
+ Farto de extravagancias mil extremas.<br>
+ <br>
+ A musa d'outro misera e mesquinha,<br>
+ Languida e fria, sem adorno e graça<br>
+ Da solta prosa jaz quasi visinha.<br>
+ <br>
+ Ninguem jámais a noite e o dia passa<br>
+ Seus aridos escriptos estudando,<br>
+ Por muito que o seu gosto contrafaça.<br>
+ <br>
+ Não o nego porém, de quando em quando<br>
+ D'elles se eleva um resplendor sublime,<br>
+ Digno do Pindo e Phebo claro e brando.<br>
+ <br>
+ Mas tu a quem a rima tanto opprime,<br>
+ Se não sabes, aprende: o canto hebraico<br>
+ Dizem que ás vezes n'ella bem se exprime.<br>
+ <br>
+ E que por evitar o tom prosaico,<br>
+ Algumas vezes d'ella se servira<br>
+ O poeta syriaco e o chaldaico.<span class="pagenum">[29]</span><br>
+ <br>
+ Tambem a musa grega ao som da lyra,<br>
+ Lá nos tempos antigos, d'ella usou;<br>
+ E o romano que a face ao mundo vira.<br>
+ <br>
+ Novamente o seu uso renovou<br>
+ Dando-lhe fórma e ser o provençal,<br>
+ De nova graça a poesia ornou.<br>
+ <br>
+ Mas isto para ti de nada val,<br>
+ Que porque te foi d'ella Apollo escasso,<br>
+ D'ella e dos que a usaram dizes mal.<br>
+ <br>
+ Que mal te fez Camões e o culto Tasso?<br>
+ Camões a quem as musas educaram<br>
+ Na sua gruta, e virginal regaço?<br>
+ <br>
+ Qu'o cantico divino lhe inspiraram<br>
+ Em que aos astros ergueu os lusos feitos,<br>
+ Que tanto pelo mundo se afamaram.<br>
+ <br>
+ Para exprimir altissimos conceitos<br>
+ Nunca jámais a rima lhe fallece<br>
+ Estylo e puro culto sem defeitos.<br>
+ <br>
+ Qualquer rustico espirito conhece,<br>
+ Que quanto o Camões quiz dizer, o disse<br>
+ Facil e natural, como apparece.<br>
+ <br>
+ Quem quer que d'elle mal fallar te ouvisse,<br>
+ Diria afoutamente e com verdade,<br>
+ Q'isso em ti era inveja, era doudice.<br>
+ <br>
+ Ora pois, porque tens difficuldade<br>
+ Em dizer teu conceito em dôce rima,<br>
+ Vituperal-a é grande iniquidade.<br>
+ <br>
+ Julgavas facil e de pouca estima<br>
+ Dôces versos fazer? amigo, não,<br>
+ É preciso trabalho, estudo e lima.<span class="pagenum">[30]</span><br>
+ <br>
+ E isto sem natural inclinação,<br>
+ Ou pouco ou nada val: se disso és pobre<br>
+ Martellarás no pobre siso em vão.<br>
+ <br>
+ A vêa natural não se descobre,<br>
+ Mil glosas n'um outeiro recitando,<br>
+ Mais vis que escoria vil de ferro ou cobre.<br>
+ <br>
+ Oh quanto te escarnece a gente quando<br>
+ N'elle estás como insano loucamente<br>
+ «Tyrse, Tyrse!» com larga voz gritando.<br>
+ <br>
+ Inda do consoante tão vãmente,<br>
+ Te atreves, pobre infusa, a blasphemar,<br>
+ Sendo tu tão vã cousa, e tão demente!<br>
+ <br>
+ Elle nunca se deixa demonstrar<br>
+ Na tão formosa lingua portuguesa<br>
+ A quem com diligencia o procurar:<br>
+ <br>
+ Qualquer, inda que pouca natureza<br>
+ Tenha, dirá rimando o que quizer<br>
+ Em estylo corrente e com clareza.<br>
+ <br>
+ Tanto que aqui mui bem se póde vêr<br>
+ Que sendo o meu engenho rude e baxo,<br>
+ Exprimo quanto tenho que dizer.<br>
+ <br>
+ Ou bem ou mal os consoantes acho,<br>
+ Tão facilmente ás vezes me apparecem<br>
+ Que para os apanhar me não abaxo.<br>
+ <br>
+ Mas julgo que os ouvintes adormecem<br>
+ Co'a minha longa pratica: eu me calo,<br>
+ Pois que os gostos d'ouvir-me lhes fallecem.<br>
+ <br>
+ Em fim já sem refolho aqui te fallo;<br>
+ Se os meus versos conseguem felizmente<br>
+ Fazer dentro em teu peito algum abalo,<span class="pagenum">[31]</span><br>
+ <br>
+ Que o teu fado se quebre em continente,<br>
+ Tornando-te, de louco, homem cordato,<br>
+ E acabes de ser fabula da gente.<br>
+ <br>
+ Tuas acções medindo com recato,<br>
+ Deixando versos maus, vãos argumentos<br>
+ Que te fazem de todo mentecato,<br>
+ <br>
+ Darei por bem gastados os momentos<br>
+ Que empreguei n'esta misera escriptura,<br>
+ Censurando os teus fatuos pensamentos,<br>
+ E ter-me-hei por mimoso da ventura.<br>
+</blockquote>
+<hr>
+
+<h1><a id="cap04" name="cap04">O PALCO PORTUGUEZ EM 1815</a></h1>
+
+<p>Já n'aquelle anno, em meio da bruteza das nossas platêas, se confrangiam de
+magoa e pejo alguns raros entendimentos que vaticinavam a resurreição do
+theatro nacional. Almeida Garrett orçava então pelos dezeseis annos. Florecidas
+mais seis primaveras n'aquelle precoce espirito, a arte nova lhe desbotoaria as
+primeiras flôres da grinalda.<span class="pagenum">[32]</span></p>
+
+<p>A tristeza dos bons entendimentos, em presença do abatido e nojoso palco
+d'aquella época, prenunciava a aurora que alvoreceu, passados quinze annos, com
+o primeiro dia da liberdade. As musas, trajadas com elegancia e aquecidas ao
+sol de estranhos, repatriaram-se com os desterrados que lá fóra retemperaram o
+genio na incude da pobreza, e reviveram nos esplendores da civilisação.</p>
+
+<p>Um dos liberaes, que emigraram em 1828, e cursavam as aulas em 1815,
+escreveu, n'este anno, uma carta ácerca do theatro nacional. Se este escripto
+da primeira mocidade não revela vasto estudo nem gentilezas de phrase, com
+certeza denota razão esclarecida. O author da carta volveu á sua patria, mais
+atido á espada que á penna. Uma e outra lhe cahiram simultaneamente da mão, no
+cerco do Porto. Não sei o nome do official que jaz obscurecido na valla dos que
+morreram em batalha. Apenas em uma nota que precede a seguinte carta se diz que
+o author d'ella, morto na rareada fileira dos mais audazes soldados do
+imperador, teria sido um dos melhores cultores das letras que esmeradamente
+seguira na emigração. Archivemos o documento que merece ser lido como desfastio
+aos indigestos pastelões de historia theatral com que o snr. Theophilo
+Fernandes (Joaquim) nos tem intestinado o tedio da leitura:<span
+class="pagenum">[33]</span></p>
+
+<h3>Carta escripta a um amigo em 3 de fevereiro de 1815 sobre a chegada dos
+comicos italianos, com algumas reflexões sobre os theatros portugueses.</h3>
+
+<p>Chegou finalmente a esta cidade a companhia dos comicos italianos, ha tanto
+tempo esperada, e hontem fizeram o seu primeiro ensaio. Domingo gordo vão, pela
+primeira vez, á scena, onde a curiosidade dos <em>dilettanti</em> é igual á
+impaciencia com que viam o theatro de S. Carlos fechado por falta de actores.
+Será bem difficil que estes, que chegaram, satisfaçam plenamente a espectação
+publica, onde se conserva ainda bem gravada a lembrança dos excellentes
+cantores, que tanto nos deleitaram n'estes ultimos tempos, e que brilharam com
+a mais bem merecida reputação n'este nosso theatro de S. Carlos, e que
+illustraram distinctamente a arte da musica tão agradavel, que a nossa mesma
+imaginação figura os anjos, cantando no paraiso a gloria do Deus Supremo.</p>
+
+<p>Geralmente os portuguezes amam a musica com extremo, e tem um gosto
+particular por esta arte, principalmente depois que o senhor rei D. José fez
+vir para o seu theatro magnifico, que infelizmente o grande terremoto do anno
+de 1755 devorou, os melhores cantores que então havia em toda a Italia.
+Depois<span class="pagenum">[34]</span> d'esta época sustentou o mesmo monarcha
+a mesma inclinação por esta arte, em que era muito entendido, e á sua imitação
+a nação toda se costumou tanto á boa musica, que houve particulares que
+chegaram a rivalisar com os mesmos professores. Ainda hoje não teem perdido de
+todo este gosto, principalmente os habitantes de Lisboa, que conservam viva a
+lembrança do canto melodioso, suave e delicado da Crescentini, de Cafforina, e
+da celebre Catalana, que por uma maneira nova de cantar, levaram esta sublime
+arte áquelle grau de perfeição, a que ella póde humanamente chegar.</p>
+
+<p>Não julgo que estes virtuosos, que vieram, sejam iguaes em talentos áquelles
+de quem venho de fazer menção. Como não é sómente a arte, mas a natureza
+igualmente que os produz, e nem sempre esta é fertil em semelhantes producções,
+parece-me que o seu canto não causará nos espectadores o mesmo interesse, com
+que todos os lisbonenses corriam para o theatro a ouvir a melodia de vozes, e a
+harmonia de accentos, que realisavam os fabulosos das serêas. Como dizem,
+porém, que vem duas raparigas que não são mal parecidas, não deixarão de serem
+bem applaudidas pela platêa de Lisboa, na qual a mocidade olha sempre com mais
+attenção para os agrados da natureza do que para as perfeições da<span
+class="pagenum">[35]</span> arte, ás quaes não paga tão grande tributo como á
+belleza.</p>
+
+<p>É muito provavel que d'aqui em diante os bons cantores sejam mais raros na
+Italia, onde em outro tempo eram mais communs, não sómente porque os successos
+politicos tem influido consideravelmente n'esta parte da Europa sobre os
+progressos das artes liberaes, onde nasceram e tiveram o seu berço; mas porque
+o infame e detestavel costume da castração, com o fim de fazer as vozes finas,
+e bons sopranos, está justamente prohibida por uma lei sabia e judiciosa. Pois
+que barbaridade maior podia haver do que condemnarem os paes seus proprios
+filhos a uma mutilação que degrada a especie humana, que a inutilisa e que
+annulla os votos da natureza em prejuizo das suas mais admiraveis producções?
+</p>
+
+<p>Não poderemos, pois, ouvir d'aqui em diante um novo Echiziel ou um
+Crescentini, que modulavam as suas vozes finas á custa do bem que tinham
+perdido, por umas notas successivas e prolongadas, que bem longe de moverem a
+alma pela força da expressão, a affligiam pelos patheticos esforços de uma
+modulação uniforme; mas ouviremos talvez com um prazer mais interessante os
+sons masculinos d'aquellas vozes fortes e animadas, que conciliem com os seus
+accentos a viva expressão dos sentimentos differentes da nossa alma, em<span
+class="pagenum">[36]</span> que um gosto sublime e delicado faz consistir a
+perfeição da musica, para o qual não é o melhor musico aquelle que se occupa só
+em vencer difficuldades; mas aquelle que, pelas doçuras da harmonia, inspira na
+nossa alma, e lhe communica os mesmos sentimentos que exprime no seu canto.</p>
+
+<p>Qualquer que seja, porém, o merecimento dos novos comicos, é sempre uma
+especie de satisfação para os moradores de Lisboa verem o melhor theatro, que
+teem, aberto, e terem quem trabalhe n'elle, o que é sempre um grande recurso em
+uma grande cidade, destituida de divertimentos publicos, e onde se consome o
+homem, e sobre tudo os estrangeiros, á força de uma negra melancolia, não
+havendo outro passatempo, que não seja o de algumas sociedades particulares,
+onde só apparecem aquelles que possuem grandes meios, para alli ostentarem toda
+a sua vaidade, e quasi sempre todo o seu orgulho. É bem verdade que toda a
+comica representação, que alli fazem, é quasi sempre á custa da sua bolsa, pois
+que é descredito entre elles não jogar. Os gatunos que nunca faltam n'estas
+assembléas, nunca perdem a occasião de os depennarem; e os murmuradores e
+maldizentes de admirarem o como a fortuna faz de um tolo um homem entendido, e
+como transforma um sevandija em um fidalgo cortezão.<span
+class="pagenum">[37]</span></p>
+
+<p>É certo que os invernos são bem custosos de passar em Lisboa sem o recurso
+dos theatros, não havendo outro algum divertimento publico, mais do que as
+assembléas acima referidas, onde nem todos podem ir, e que nem a todos é
+permittido frequentar. Não ha aqui, como em Londres, em Paris, em Vienna, em
+Petersbourg e em Veneza salas publicas de baile, onde se passem as noites, e
+menos cafés bem compostos, em que todo o homem bem creado acha a melhor
+companhia, e onde trava amizade com os homens mais distinctos e que são assás
+uteis muitas vezes. Os nossos costumes reservados, e os principios da politica,
+de os dirigir pela desconfiança ou pelo temor, em que a policia ganha porque
+tem menos que observar e menos motivo para temer que a ordem publica seja
+alterada, fazem que estas privações se soffram com toda a paciencia,
+contentando-se cada um que não tem os meios competentes para frequentar as
+companhias do melhor tom, a ir passar a noite com o seu compadre ou com o seu
+visinho, a murmurarem uns dos outros. Sem este recurso ficariam sempre em casa,
+semelhantes ás mumias do Egypto, embrulhados nos seus capotes, unico meio de
+que se servem para resistirem aos rigores da estação.</p>
+
+<p>Não faltará quem diga que faço um quadro de Lisboa, no tocante aos seus
+divertimentos<span class="pagenum">[38]</span> publicos, menos vantajoso; pois
+que uma cidade populosa que tem tres theatros nacionaes, além do italiano, e
+uma quantidade immensa de grandes sociedades, que tem nas semanas dias fixos em
+que se ajuntam, não está de menor condição n'esta parte ás mais opulentas da
+Europa. Esta reflexão, se ficasse sem replica, me attribuiria talvez, na
+opinião geral, um espirito de maledicencia que eu não tenho; e para me salvar
+de qualquer imputação que n'este particular se me haja de fazer, vejo-me
+obrigado a fazer aqui algumas observações sobre os nossos theatros nacionaes,
+que pela sua construcção material e pelo genio dos actores, que n'elles
+representam, não constituem um divertimento que chame o gosto, o interesse e a
+distracção da classe mais escolhida da nação, a quem não fazem grande honra nem
+excitam aquella curiosidade que faz frequentar estas escólas dos costumes e do
+bom gosto.</p>
+
+<p>Quanto á construcção destes nossos theatros duvido que se achem, ainda nas
+mesmas provincias dos reinos mais civilisados, outros semelhantes ao da rua dos
+Condes ou do Salitre. As incommodidades que cada um é obrigado alli a
+supportar, não compensam os agrados mais deleitaveis da melhor representação,
+ainda no caso que a houvesse. No meio da platêa arde em fogo, nas mesmas noites
+mais frias do<span class="pagenum">[39]</span> inverno, o desgraçado espectador
+que acha alli lugar; pelos lados da mesma platêa vem um vento encanado pelos
+corredores, que atormenta todo o miseravel que occupa estes assentos. Nos
+camarotes, que são tão mesquinhos como tudo o mais, estes incommodos são ainda
+mais penosos; por entre as frestas das portas entra um frio pelo inverno, que
+gela, e que é principio certo de catarrhos, pleurizes e constipações, que
+circulam amplamente n'aquelle triste recinto; e quando o espectaculo acaba, nem
+lugar reservado, em que se esperem as carruagens, nem modo algum de prevenir os
+grandes males, a que cada um fica exposto á porta da rua ou no aperto dos
+corredores, até que chegue a carruagem que o ha de transportar. O theatro do
+Salitre e o da Boa Hora teem estas incommodidades mais marcadas; de maneira que
+todo aquelle que se propõe a ir a algum d'elles passar uma noite, deve ir
+disposto a vir doente: se é de verão, pelo nimio calor, se é de inverno, pelo
+frio. Assim não conheço um meio mais proprio a quem está em boa saude, de estar
+doente, do que ir a um d'estes theatros. Ora, que divertimento póde ter n'estes
+espectaculos aquelle, que cuida mais em se livrar dos males a que se vê
+exposto, do que gozar das illusões que apresenta á imaginação uma sala de
+espectaculo? Se todos estes incommodos, que se compram<span
+class="pagenum">[40]</span> por dinheiro, fossem, comtudo, compensados pelo
+deleite de uma boa representação, seria ainda assim desculpavel, sacrificar ao
+prazer certos incommodos, de que uns não fazem caso por genio, e que outros
+desprezam, porque lhes insta a necessidade que sentem de se distrahirem. Mas a
+representação é tão insipida e tão enfadonha! Os comicos interessam tão pouco;
+e os caracteres que representam são, ou por falta de natureza ou por ignorancia
+propria, tão mal sustentados, que não valem a pena de se ouvirem á custa dos
+grandes detrimentos que se soffrem, principalmente quando um homem tem o seu
+gosto formado pelos bons modelos da arte dramatica, a quem um actor mediocre e
+baixo é tão insupportavel, como uma musica desafinada e sem harmonia na sua
+composição. Taes são, portanto todos os nossos actores, os quaes entram n'esta
+carreira mais com o fim de acharem n'ella uma subsistencia segura e commoda,
+que com o nobre intento de adquirirem uma gloria que immortalisou os famosos
+nomes de Molière, de Baron, de Garrik e de le Kain.</p>
+
+<p>Pois que uma casualidade impensada me chegou a ponto de fazer algumas
+observações sobre os nossos theatros, não quero perder esta occasião de expor o
+meu juizo sobre este assumpto, que aliás é um seguro thermometro, que indica o
+grau em que se acha a civilisação<span class="pagenum">[41]</span> e os
+costumes das nações. Como escrevo uma carta e não faço uma dissertação,
+cuidarei quanto podér de abreviar o meu discurso, que não terá mais que
+simplesmente o resultado de fazer vêr quanto Thalia e Melpomene favorece pouco
+os engenhos dos portuguezes nas artes a que presidem estas musas, cujas
+influencias são tão brilhantes e tão liberaes para outras nações, que cultivam
+com o melhor successo esta arte, que nos representa vivamente os vicios e as
+virtudes dos homens, assim como tambem os seus defeitos e os seus ridiculos.
+</p>
+
+<p>Podemos seguramente dizer com toda a verdade, que nós, os portuguezes, não
+podemos ter a gloria de dizer que temos um theatro nacional, pois que não temos
+nem actores dramaticos nem actores capazes de desempenharem estas bellas
+composições do espirito humano. Não é de admirar que não haja bons
+representantes, onde faltam os poetas; porque aquella mesma natureza, que
+inspira o enthusiasmo da imaginação, não deixa de inspirar tambem o gosto
+particular da imitação, de modo que é observação demonstrada, que onde os
+engenhos sabem conceber os mais brilhantes pensamentos e estudam todos os
+movimentos da nossa alma, dirigida pelas suas affeições ou pelos impulsos das
+paixões humanas, ahi se encontram tambem aquelles talentos superiores<span
+class="pagenum">[42]</span> e naturaes, que na scena representam com toda a
+energia e delicadeza aquelles mesmos movimentos; de maneira que parece
+realidade o que não é mais que imitação. Garrik, a cada sentimento que exprimia
+nos theatros de Londres, mudava de voz e de semblante, como a expressão
+requeria; e Molière, em França, ridiculisava com uma graça tal todas as classes
+de homens de que se compõe o corpo social, quando a vaidade, presumpção ou amor
+proprio as desviava dos principios que a razão prescreve, que todos sentiam em
+si o defeito de que elle ria e zombava, para se corrigirem quando se julgavam
+objecto dos epigrammas e dos gestos comicos do comediante. Como este mesmo era
+o author das suas comedias, não é de admirar que exprimisse com energia aquillo
+mesmo que a sua alma sentia com toda a sua força; e é d'este modo que os
+theatros, que são as escólas dos costumes, onde se pintam ao natural pela
+fealdade do vicio ou pela ridicula pratica que os degrada, preenchem plenamente
+o fim para que foram instituidos; pois é evidente que todo aquelle actor que
+não tiver meios proprios para penetrar a alma dos seus espectadores pelas mais
+vivas e mais naturaes maneiras, figura e gestos da sua representação, não póde
+produzir o effeito que esta admiravel arte de imitação é capaz de produzir, e
+sem o qual effeito, uma sala<span class="pagenum">[43]</span> de espectaculo
+não é mais do que uma camara optica em que os sentidos podem gozar de algumas
+momentaneas illusões, mas onde a alma jámais se deixará possuir d'aquelles
+prestigios do sentimento que faz amar a virtude e detestar o vicio, nas peças
+tragicas, e nas comicas, temer o amargoso fel da critica que corrige o homem,
+fazendo mofa dos seus costumes que pinta, quando são ridiculos, ao natural.</p>
+
+<p>É para notar que os engenhos portuguezes, dotados, como todos os mais que
+gozam das dôces influencias do céo puro e crystallino do meio-dia, de uma viva
+e ardente inclinação para as artes de pura imaginação, principalmente a da
+poesia, se contentem só de a cultivarem á margem dos rios e á sombra dos
+arvoredos, onde suspiram pelas suas amadas, em versos sim, amorosos e
+sentimentaes, mas que só fallam de amor, de saudades, de ciumes e de
+ingratidão. Um só d'estes genios favorecidos das musas tem aspirado á gloria de
+rivalisar com Euripedes ou com Sophocles, de igualar a Plauto ou a Terencio, e
+aquelle que tem intentado dar alguns passos na carreira dramatica, tem sido com
+tão infeliz successo, que parou no principio d'ella. Muitas vezes tenho pensado
+sobre a causa por que os nossos poetas, sendo inspirados de um estro proprio a
+todo o genero de versificação, só para<span class="pagenum">[44]</span> o
+theatral não teem os talentos requeridos; e por resultado das minhas
+observações a este respeito, tenho colhido a idéa de que para compôr uma
+ecloga, um idyllio, uma epistola ou uma elegia, basta ao poeta exprimir os seus
+proprios sentimentos em bons versos e harmoniosos para ter um nome distincto no
+Parnaso: mas para compôr uma tragedia ou uma boa comedia de caracter, é preciso
+exprimir com elegancia, pureza e enthusiasmo os sentimentos dos outros, que é
+absolutamente necessario conhecer e aprofundar para os saber desenvolver pela
+acção. Ora este conhecimento não se adquire senão por um grande uso do mundo, e
+por um tacto particular do coração do homem e de toda a natureza humana em
+geral; mas este grande livro não se acha nas livrarias escripto, acha-se
+espalhado no tumulto da sociedade, onde os homens desenvolvem todas as suas
+idéas, todos os seus sentimentos, as suas paixões, os seus vicios, os seus
+crimes e o seu heroismo. É n'este livro que o poeta dramatico aprende a pintar
+na scena as virtudes de Catão e as ridiculas maneiras de um villão afidalgado;
+mas se o poeta, concentrado no fogo do seu amor, não conhece senão Damiana a
+quem dirige seus ais e seus queixumes, como ha de pintar as paixões dos homens
+e os seus ridiculos caprichos? Esta ignorancia me parece ser a causa por que
+os<span class="pagenum">[45]</span> poetas portuguezes não consagram as suas
+musas mais que simplesmente ao amor a que os chama uma natural ternura, e o
+conhecimento de uma paixão, que elles conhecem melhor que quaesquer outras, e
+que explicam com mais sensibilidade e doçura. Nunca sahindo dos seus lares,
+vivendo em um pequeno circulo, uma imaginação, por mais poetica que seja, não
+póde produzir grandes e brilhantes concepções; e por consequencia, se conceber
+o plano de uma tragedia, que, segundo a opinião de mr. de la Harpe, é a obra
+prima do espirito humano, onde ha de ir buscar a materia para os debates? Se
+quizer compôr uma comedia, apenas saberá ridiculisar os defeitos do seu visinho
+tendeiro ou sapateiro.</p>
+
+<p>Para provar que o cothurno não é feito para os nossos poetas lusitanos,
+basta lembrar que o assumpto da morte tragica da rainha D. Ignez de Castro,
+assumpto dos mais interessantes que tem apparecido em scena, tanto nos tempos
+antigos como nos modernos, tem apurado o estro dos nossos poetas portuguezes,
+não só pelo interesse da acção, mas por ser a acção passada entre nós, e que
+para excitar a compaixão tem de mais a historia que a proclama verdadeira. Tres
+ou quatro tragedias temos na nossa lingua portugueza d'este infeliz successo, e
+uma só d'ellas o immortalisa pelas bellezas dramaticas, que pouco ou nada<span
+class="pagenum">[46]</span> correspondem a um assumpto igualmente sublime que
+pathetico. Não fallo da primeira e mais antiga de Antonio Ferreira, que passa
+aliás por poeta classico entre nós, e na qual se não acha a força de
+sentimentos, a violencia das paixões, postas em jogo para trazerem
+imminentemente a catastrophe que finalisa a tragedia. As scenas sem ligação, a
+intriga mal combinada e tão descoberta pelo dialogo, que todo o espectador
+conhece, desde o primeiro acto, qual será o fim da peça. Não fallo n'estes
+dialogos, em que as personagens que os declamam não tem bastante força para
+mostrarem todo o horror da inveja que instiga e anima os cortezãos orgulhosos
+da côrte de D. Affonso IV para sacrificarem ao furor d'aquella paixão o amor
+fino, legitimo e innocente de dous corações ternos, ligados pelos dôces e
+sagrados laços do hymeneu. Os córos que o author Ferreira introduziu por
+intervallos dos actos d'esta sua tragedia, á maneira dos gregos, é o que ha
+n'ella de melhor, por serem compostos de uma bella poesia, e tão pathetica, que
+movem o coração á maior sensibilidade. Outra tragedia, que temos sobre o mesmo
+assumpto, composta por o arcade Alcino não tem merecimento algum: as regras do
+theatro não são observadas; a versificação é languida e sem elegancia; os
+sentimentos friamente exprimidos, e os actores sempre sustentando um
+caracter<span class="pagenum">[47]</span> forçado e não tirado da natureza da
+acção, d'aquella acção que deriva de paixões complicadas e violentas, que
+deviam ser mais energicamente desenvolvidas. Esta peça não tem regularidade nem
+entrecho de uma tragedia; é um drama feito á imitação dos de Metastasio, que
+não é poeta tragico, pois que além dos seus dramas interessarem geralmente mais
+pela musica do que pelo desenvolvimento da peça, este vem muitas vezes no
+segundo acto, e o terceiro é composto então de incidentes accessorios, quasi
+sempre insipidos e frios, porque n'elles não ha acção. Lembra-me ha annos vêr
+representar no theatro do Bairro Alto uma tragedia de D. Ignez de Castro tirada
+de uma comedia hespanhola de Don Calderon de la Barca, intitulada <em>Reynar
+despues de morir</em>. Esta peça foi geralmente applaudida e gostada pela
+energia e força de alma, com que uma actriz, chamada Cecilia, representou o
+papel de D. Ignez de Castro; mas esta peça deveu ao genio e aos talentos d'esta
+actriz o bom successo que teve, pois que examinando a contextura da peça, ella
+tinha os defeitos da hespanhola, em que não havia mais que tiradas de bons
+versos; mas pouca ou nenhuma verdade na acção; pois que, depois da morte d'esta
+infeliz princeza, apparecia uma scena em que o seu cadaver, sentado debaixo do
+solio, era coroado e solemnemente<span class="pagenum">[48]</span> proclamado
+pelo seu amante, já rei, e por todo o seu povo como sua legitima rainha, e isto
+muito tempo depois de ter sido a victima das paixões dos cortezãos, invejosos
+de verem a familia dos Castros sobre o throno de Portugal. Esta scena, que pela
+sua magestosa decoração fazia todo o interesse d'esta peça, não parece ser uma
+segunda acção, que se representa? onde está pois a unidade da acção tragica,
+que é o primeiro preceito da tragedia? A coroação da rainha na mesma peça é tão
+irregular, quanto é novo de sentar em um solio o cadaver de uma princeza,
+assassinada no seu proprio palacio, muito tempo depois de enterrada no silencio
+de um sepulcro. Passemos todas estas incongruencias, que sómente trago á
+lembrança para mostrar que a poesia dramatica não é largamente distribuida
+pelas musas aos portuguezes.</p>
+
+<p>N'estes ultimos tempos appareceu entre nós, sobre o mesmo assumpto, uma
+tragedia com o titulo de <em>Nova tragedia de Ignez de Castro</em>. Esta peça
+observa melhor os preceitos do theatro; a sua versificação é em algumas scenas
+elegante e sentimental; mas em outras não conserva esta igualdade. O fim ou o
+desatado da intriga é a catastrophe, que vem um pouco precipitada e não trazida
+por um jogo de paixões, susceptiveis de modificações differentes, que levam o
+coração humano ao excesso da<span class="pagenum">[49]</span> paixão que agita
+e move os animos; o que faz que os dialogos são curtos e as scenas ainda mais.
+A da entrevista de Affonso IV com D. Ignez de Castro, que é uma das mais
+interessantes da peça, não póde satisfazer os espectadores, que vêem que um rei
+se occupa da sorte da infeliz Castro, de quem se separa, dizendo-lhe que vai
+para o conselho de estado, onde ella ha de ser julgada, e alli elle advogará a
+sua causa. Que enormes incongruencias! O rei tem no seu poder o perdoar-lhe;
+não é uma acção generosa salvar a innocencia das mãos que pretendem banhar-se
+no seu sangue? O conselho de estado não é um tribunal judiciario, que é só quem
+póde julgar e condemnar. E um ajuntamento de conselheiros, que o rei convoca
+para tratar da sorte de D. Ignez de Castro, como um negocio simplesmente
+politico. E então que triste personagem faz elle em advogar pela infeliz
+Castro, diante não de ministros que a julgam pelas leis, em que elle mesmo póde
+dispensar, mas diante de conselheiros invejosos, que verdadeiramente são
+algozes! Esta scena podia ser conduzida mais nobremente, conciliando a bondade
+do rei, que se mostra interessado a favor de Castro, com a dignidade da sua
+corôa, que póde ser enganada pelo artificio dos seus conselheiros, a quem é
+indigno da sua parte dar-lhes consentimento para serem os executores de um
+assassinio.<span class="pagenum">[50]</span> Estas delicadezas não escapariam a
+Racine nem a Voltaire, se tratassem esta materia, porque, exactos observadores
+de tudo o que é decente e decoroso, não atropellariam tão facilmente o respeito
+da magestade, fazendo-a instrumento de crimes odiosos em um theatro em que um
+monarcha, se pelas paixões é um homem como outro qualquer, pela soberania é
+sempre executor da lei.</p>
+
+<p>Alguns outros poetas n'estes tempos posteriores teem ensaiado o seu estro
+n'este genero de composição. A condessa de Vimieiro compoz uma tragedia, que
+foi laureada pela academia das sciencias de Lisboa, mais por favor que por
+justiça. Um certo Francisco Dias, homem só conhecido pelos seus talentos
+litterarios que cultivou no lugar humilde de uma tenda, compoz outra, cuja
+sorte foi, segundo creio, ainda mais infeliz do que a da condessa; e tantos
+esforços juntos não tem produzido um bom poeta tragico em Portugal que possa
+pôr-se ao pé do grande Corneille ou do sentimental Racine, mas ainda junto dos
+mais mediocres poetas tragicos do theatro francez. Esta inopia não vem ella do
+principio que acima já apontei? Para Raphael pintar uma obra prima no
+inimitavel quadro da transfiguração de Christo, foi preciso que a sua
+imaginação sublime lêsse no grande livro do universo todas as bellezas da
+natureza, para as saber pintar<span class="pagenum">[51]</span> com
+propriedade, e conforme as suas primitivas creações; para um poeta tragico
+reproduzir o caracter de Catão, de Cesar, de Marco Antonio, de Brutus e da
+infeliz Dido, é necessario que entre com a sua imaginação no immenso theatro do
+mundo e contemple a variedade de successos que os interesses dos homens, as
+suas paixões, os motivos que as põem em acção, os progressos que fazem sobre as
+suas almas para virem a dominal-as com despotico poder, os crimes e as acções
+infames de que são causa, a degradação, em fim, da intelligencia humana, quando
+de todo se sujeita á perversidade do vicio e se entrega á corrupção dos
+costumes: sobre este quadro immenso a imaginação quer um campo largo para o
+contemplar, examinar e estudar; mas este campo falta aos nossos poetas, que
+levados do gosto dominante da nação, que tem por objecto o amor, não são
+pintores para retratarem grandes caracteres, nem teem imaginação bastante para
+darem aos grandes successos uma fórma que mostre todos os horrores dos vicios e
+todas as bellezas das virtudes, que é o principal objecto das tragedias.</p>
+
+<p>Se este genero de composição não tem dado nome a poeta algum portuguez,
+menos se teem elles distinguido na comedia, pois que não temos uma, não digo
+boa, mas ainda muito mediocre. Parece que as musas são ainda n'esta<span
+class="pagenum">[52]</span> parte mais avaras com os engenhos portuguezes, que,
+sendo os primeiros que abraçaram logo as artes graciosas, que no seculo XV a
+fortuna transplantou da Grecia para a Italia, onde acharam um benigno
+acolhimento, foram aquelles que por meio dellas menos gloria teem adquirido. As
+comedias que os nossos poetas do nosso seculo de Augusto&mdash;que é o d'el-rei
+D. João III&mdash;nos deixaram, não merecem sequer o nome de comedias; o que me
+não faz espanto, pois que Portugal então não tinha um só theatro, mais que o
+dos campos de Marte, e onde não ha theatros não ha quem componha comedias. A
+nossa feliz época da boa litteratura passou, e Camões ficou conhecido pelo
+primeiro poeta das Hespanhas pelo seu poema lyrico e não pelas suas miseraveis
+comedias, e a mesma sorte tiveram os seus contemporaneos que molharam o seu
+pincel na paleta de Melpomene. Os castelhanos que se senhorearam de Portugal,
+se distinguiram, mais que nenhuma outra nação da Europa, na arte de
+Aristophanes e de Menandro; porém não nos passaram este gosto, ou os
+portuguezes o não quizeram seguir, talvez por ser de uma nação que aborreciam.
+Como quer que seja, a arte dramatica foi inteiramente desprezada em Portugal, e
+o bom gosto da litteratura tendo-se corrompido n'este paiz pelos successos
+politicos, por que passou, fez totalmente esquecer<span
+class="pagenum">[53]</span> aos poetas do tempo este genero de composição. Elle
+se limitava só a alguns autos sacramentaes, que se representavam popularmente
+em festas de igrejas e nos adros dos templos. As vidas dos santos davam
+assumpto para muitos d'estes autos, que correm ainda entre nós; e a piedade
+christã ia buscar n'estas representações mais estimulos para amarem a religião,
+do que motivos para cultivarem uma arte que, segundo Horacio, <em>castigat
+ridendo mores</em>. Não tenho idéa, nem pela historia nem por tradição alguma,
+que em Portugal houvesse um theatro em que se representassem comedias
+portuguezas, de que não appareciam authores, ou pelos embaraços da longa
+guerra, que houve n'este reino para sustentar a corôa na casa de Bragança, que
+não deram lugar para a applicação das artes, ou porque os portuguezes não
+quizeram imitar os seus inimigos, exercitando as suas musas na poesia dramatica
+em que os hespanhoes excediam a todas as outras nações da Europa. Estes não
+tinham theatros fixos; companhias ambulantes de comediantes, de que lemos na
+historia de <em>Gil Blaz</em> a descripção tão circumstanciada como critica.
+Corriam de villa em villa, a recitar as comedias de Calderon, Moreto, Solis,
+tres «Ingenios» que inundavam toda a Hespanha, em tanto que o espirito dos
+portuguezes se contentava com os seus autos sacramentaes de<span
+class="pagenum">[54]</span> <em>Santa Genoveva</em>, <em>de Santo Aleixo</em> e
+outros semelhantes, que se davam ao publico em espectaculo nos dias das maiores
+festividades da igreja. Assim não se sabia entre nós o que era uma boa comedia,
+e n'esta ignorancia vivemos até que no principio do seculo passado appareceu o
+judeu Antonio José, que compoz um theatro de operas, as quaes nem pela poesia,
+pois que são em prosa, nem pelos titulos, que são <em>Labyrintho de Creta</em>,
+<em>Encantos de Medêa</em> e outros iguaes podem chamar-se comedias, ou porque
+trazem misturada musica de recitados e de arias, á maneira dos italianos, ou
+porque lhe falta aquelle caracter que distingue a comedia, e que Molière só
+fixou em França na época feliz da sua mais brilhante litteratura. Aquelle
+engenho, porém, infeliz pela fórma das suas composições dramaticas e mais ainda
+pela miseravel sorte que teve de ser condemnado a morrer queimado pelo santo
+officio, foi comtudo, o primeiro que viu as suas operas representadas no
+theatro do Bairro Alto, o primeiro que houve em Lisboa e onde os representantes
+eram bonecos que se moviam por arame e que fallavam pelas vozes dos
+interlocutores, que se mettiam por entre os bastidores. Tal era o estado em que
+se achava a arte dramatica em Portugal, quando já Molière brilhava em França
+como o restaurador dos theatros de Grecia e Roma, pelas<span
+class="pagenum">[55]</span> suas admiraveis comedias e como um modelo perfeito
+da mais decente, entendida, natural e agradavel representação que até então não
+tinha apparecido em algum theatro do mundo antigo e moderno.</p>
+
+<p>Nem este excellente author, que deu tanta gloria á França como Aristophanes
+tinha em outro tempo dado a Athenas, nem o genio particular que a natureza lhe
+tinha dado para imitar na scena as differentes personagens, que como author era
+obrigado a representar, causaram o mais pequeno estimulo aos engenhos
+portuguezes para o seguirem na carreira dramatica. As suas musas ficaram mudas
+n'este ponto, até que el-rei D. José, apaixonado pela musica, logo que subiu ao
+throno, mandou construir um magnifico theatro; e mandando vir da Italia os mais
+celebres musicos para cantarem n'elle as peças de Metastasio, extinguiu de todo
+o gosto da nação pelas comedias em lingua vulgar. Quem poderá deixar de
+reflectir que houvesse theatro nacional em uma nação em que o rei não gostava,
+e, por conseguinte, o não protegia? Não o havia, pois&mdash;nem comedias para
+se representarem, no caso de o haver; porque, como já disse, a poesia n'este
+genero emmudeceu em Portugal. O theatro real era tão magestoso que não admittia
+mais que pessoas de qualidades superiores; e as que ficavam mais abaixo não
+indo a elle ignoravam<span class="pagenum">[56]</span> o que era uma comedia,
+uma tragedia e os mesmos dramas em musica, que se punham no theatro real.
+Succedeu o fatal terremoto de 1755; arruinou-se com a maior parte da cidade
+este sumptuoso espectaculo, e, até que a confusão d'aquella calamidade se
+ordenou, nem el-rei teve theatro nem o povo. Mas no anno de 1758 abriu-se o da
+rua dos Condes, que ainda hoje existe nas ruinas do palacio do marquez do
+Louriçal, com algum augmento que teve, depois da sua primitiva creação. As
+peças que ao principio n'elle se representavam eram as operas de Metastasio
+traduzidas em portuguez, <em>Artaxerxes</em>, <em>Alexandre na India</em>,
+<em>Demofonte em Thracia</em>, <em>Ezio em Roma</em>, etc. com relações á
+maneira hespanhola, e mil bufonerias, que d'aquelles bellos dramas faziam as
+peças mais ridiculas que se podiam pôr em scena; e, para tornar o theatro de
+todo desprezivel, eram homens vestidos de mulheres que representavam o papel de
+Erytrêa e das mais damas das peças e suas criadas, que os traductores
+introduziam para fazerem rir a plebe. Um só poeta appareceu com uma composição
+dramatica que fosse digna de apparecer em scena; e os directores d'este
+miseravel theatro pozeram em contribuição poetas hespanhoes e italianos para
+sustentarem o theatro.</p>
+
+<p>Alguns annos depois um novo empresario estabeleceu um theatro no Bairro
+Alto, não<span class="pagenum">[57]</span> onde havia o dos bonecos em tempo
+mais antigo, mas nas ruinas do palacio do conde de Soure, cuja abertura foi com
+uma companhia de musicos italianos que foi buscar a Londres. Esta empresa não
+durou muito tempo, e aos italianos succederam os portuguezes com o mesmo
+successo que tinham os da rua dos Condes, que podiam chamar-se actores de
+arraial. Este theatro do Bairro Alto de todo acabou e succedeu-lhe o do
+Salitre, que se conserva sem melhoramento algum que possa acreditar os engenhos
+portuguezes, que, nem pelas suas composições, nem pelo jogo da representação,
+tem dado á sua patria a gloria de ter um theatro nacional.</p>
+
+<p>N'esta curta narração historica dos theatros portuguezes tenho feito vêr o
+pouco progresso que a arte dramatica tem feito em Portugal. Não é de admirar,
+porque onde os talentos superiores não são apreciados com justiça e
+recompensados com a grande estimação que lhe é devida, nem podem produzir
+fecundos fructos na arte theatral, que fazem as delicias do homem de gosto fino
+e delicado das cidades mais opulentas da Europa, nem terem a esperança de vêr
+seus nomes inscriptos nos monumentos que os homens gratos lhes consagram. As
+artes não florecem senão quando são immediatamente protegidas e estimadas pelos
+soberanos; e quer seja poeta, quer seja actor,<span class="pagenum">[58]</span>
+se tem talentos distinctos, não merece a attenção e a estimação do seu
+principe, quem contribue para fazer a sua gloria mais brilhante? Os seculos de
+Augusto, de Leão X e dos Medicis de Florença, o de Luiz XIV em França não
+provam esta verdade? Não me detenho em amplificar estas minhas idéas com outras
+razões, porque não padece duvida que a memoria dos soberanos que se tem
+pronunciado protectores das bellas-artes vive ainda nos padrões que ellas lhe
+tem erigido, entretanto que a dos mais famosos conquistadores ficou confundida
+nos estragos que fizeram. Infelizmente os nossos soberanos portuguezes tem
+esquecido esta verdade, como muitas outras, e deixaram morrer Camões, que dá
+tanta gloria a Portugal, em um hospital. Desde esta desgraçada época tem sido
+os poetas n'este paiz tão pouco venturosos pela sua arte, que o nome de poeta
+só entre nós é synonymo de pobre e de miseravel. Que comedias, que tragedias
+boas podia pois haver em um tal paiz?</p>
+
+<p>Se não podemos competir com as nações que cultivam as bellas-artes n'este
+genero dramatico, menos ainda os actores dos nossos theatros podem rivalisar
+com os das outras nações que tem formado já um gosto apurado e exquisito
+n'aquella parte que se chama representação. Ella não é mais do que uma simples
+imitação da natureza, que é o primeiro principio<span
+class="pagenum">[59]</span> que deve seguir todo o bom actor. Separar-se d'elle
+por acanhamento ou por excesso, não acompanhar de gestos correspondentes as
+expressões, não saber desenvolver pelas attitudes os sentimentos que tem para
+declamar ou recitar, deixar-se transportar por estes sentimentos sem faltar á
+dignidade e á decencia que exige a personagem que representa, pronunciar com
+clareza e energia o que lhe compete dizer, e mostrar pela physionomia que o que
+diz vem do fundo da sua alma, sem estudo nem affectação, são as circumstancias
+principaes que formam um bom actor. Ora examinemos quaes dos nossos as sabem
+pôr em uso. Os grandes artistas desenvolvem os seus talentos estudando a
+natureza e seguindo os modelos que aprenderam a imital-a. Guido, Carrache,
+Albano devem a admiravel belleza dos seus quadros a este estudo singular de
+imitação; mas onde podem achar os nossos actores modelos, a quem possam imitar
+e talvez exceder? Não fazem estudo algum da natureza; ensaiam os seus papeis
+como simples obreiros, que tem uma empreitada a fazer e que hão de acabar seja
+como fôr; e n'esta parte o povo que compõe a platêa dos nossos theatros é o
+mais tolerante povo do universo, pois que soffre com a maior paciencia todos os
+actores bons, maus, medianos e incapazes de apparecerem. Por isso<span
+class="pagenum">[60]</span> nunca aspiram áquella superioridade, em que o bom
+gosto, dirigido por um discernimento perspicaz e por uma critica sã e
+judiciosa, faz consistir a gloria do grande talento. Molière, o primeiro
+restaurador da comedia, como já disse acima, foi tambem o primeiro actor da
+França. Conta-se d'elle que os papeis que representava recitava-os antes a uma
+criada que tinha, que decidia, como intelligente, da sua boa ou má
+representação, e como bom juiz corrigia e emendava os seus defeitos. Um dia
+Molière, para melhor se convencer da intelligencia d'esta sua criada,
+recitava-lhe um papel de um author estranho, que fazia uma grande differença
+d'aquelles que eram composição d'aquelle homem inimitavel; ella conheceu logo o
+engano, e voltando-se para o amo lhe disse: «Vós representaes as vossas
+comedias como um exellente actor; mas essa que ensaiaes nem é vossa, nem vos
+fará applaudir.» Eis aqui como a applicação, o estudo e o modo de estudar
+secunda os dons da natureza: ora qual dos nossos actores tem imitado a Molière?
+Qual d'elles tem sido capaz de apurar o seu talento, se o tem, por um modo tão
+novo e tão extraordinario?</p>
+
+<p>É difficil que um homem, que tem algum conhecimento de theatros, possa
+aturar a representação dos nossos comicos portuguezes, sempre affectada, sempre
+fóra do natural e<span class="pagenum">[61]</span> sempre exprimida em vozes
+altisonantes, e cujos dialogos acabam geralmente em um hiato desagradavel e
+musical, estylo que não é proprio de quem conversa, que é o que compete á
+comedia, a qual representa um facto, um caracter, uma intriga, que se explica
+por uma conversação natural e semelhante ás que se fazem nas sociedades. Se a
+este estylo declamatorio ajuntarmos o excesso com que os criados ou criadas que
+vem á scena desempenham os seus papeis em gracejos que divertem o publico e que
+pela maior parte são insipidos, e sem outro interesse mais que o da risota,
+acharemos que está entre nós tão atrazado o jogo da representação theatral, que
+os nossos actores em seguindo bem o ponto, que lhes indica o que hão de dizer,
+são proprios para todas as personagens, e por conseguinte bons para nenhuma.
+</p>
+
+<p>Lembra-me ha annos ir ao theatro da rua dos Condes assistir á representação
+da tragedia intitulada <em>A Vestal</em>, que traduzira em portuguez com
+elegancia o celebre Bocage. Esta peça tragica, susceptivel da mais brilhante
+representação pelo seu assumpto e pelos grandes interesses que n'ella se
+tratam, foi desgraçadamente tão mal representada, que pela parte que me toca
+não me fez a menor sensação. Quantas vezes disse commigo mesmo: «Ah!
+famoso<span class="pagenum">[61]</span> Talma<sup><a href="#fn1" id="mfn1"
+name="mfn1">[1]</a></sup> que estiveste em Londres muitos annos com o fim de
+reunires os talentos da arte theatral dos dous paizes, que os sabem tão bem
+apreciar! se tu aqui estivesses, como verias esta excellente peça despedaçada
+por semelhantes actores?» Em uma das scenas apparece o grande pontifice que
+deve fazer executar a lei imposta ás vestaes sacrilegas e criminosas; reconhece
+que sua filha é a delinquente accusada; que conflicto de grandes e violentos
+sentimentos da religião e da natureza não devem combater a alma de um pai, que
+sendo igualmente pontifice ou ha de faltar á observancia da lei, primeira
+obrigação do homem, ou ha de calcar os estimulos quasi invenciveis da natureza,
+sacrificando o seu proprio sangue á vindicta da lei? Que genio, que talentos,
+que energia de caracter não são precisos para desenvolver toda esta opposição
+de sentimentos que combatem o coração humano de uma e de outra parte? O pobre
+miseravel actor era um automato no meio do theatro, e sem duvida eu tive tanta
+afflicção de vêr a sua insufficiencia pessoal, como aborrecimento de vêr a
+indifferença com que o povo portuguez soffre semelhantes actores, a quem<span
+class="pagenum">[63]</span> convém mais propriamente uma enxada, do que a
+profissão de uma arte para a qual lhes faltam todos os requisitos. Esta peça
+me desenganou inteiramente da mediocridade dos nossos actores portuguezes e do
+estado miseravel em que estão os nossos theatros nacionaes, que tem a desgraça
+de verem estropeados nos seus proscenios as mais admiraveis producções do
+espirito humano.</p>
+
+<p>Tenho dado uma curta idéa do pouco que a poesia dramatica concorre n'esta
+parte para a gloria nacional, assim como do pouco que os nossos actores
+contribuem para fazer brilhar uma arte que os povos mais polidos amam com tanto
+excesso, porque n'ella acham uma dôce e agradavel distracção aos seus negocios
+civis, quando ella é cultivada principalmente por aquelles talentos sublimes
+que ennobrecem tanto as nações que os viu nascer e creou, como a mesma arte que
+souberam aperfeiçoar.</p>
+
+<p>Os limites de uma simples carta não me permittiram que eu tratasse este
+assumpto com aquella extensão que elle requeria para desilludir os muitos
+ignorantes que se persuadem da boa direcção dos nossos theatros e dos grandes
+talentos dos nossos actores. Contentei-me unicamente com tocar este ponto pela
+superficie conforme convinha a uma simples carta, em que a casualidade quiz que
+o fizesse entrar, a fim de dar a conhecer o<span class="pagenum">[64]</span>
+nosso grande atrazamento n'esta parte; e creio que algumas das minhas
+observações não serão frivolas na opinião d'aquelles que tem frequentado os
+theatros estrangeiros, em que as peças que se representam n'elles concorrem tão
+poderosamente para a educação publica se ir aperfeiçoando cada vez mais, o que,
+a meu vêr, é o principal objecto da instituição dos theatros.</p>
+
+<p>O povo de Lisboa não gosta com preferencia senão de farças e entremezes, por
+que só quer rir e divertir-se com as baboseiras que se dizem n'elles; mas é
+porque não conhece ainda a grande utilidade que poderia tirar de uma escóla de
+costumes e de maneiras que lhe quadrariam melhor que as muitas chalaças que
+ouvem, que lhes pervertem toda a inclinação que poderiam ter para aprenderem a
+ser polidos, decentes, modestos e virtuosos cidadãos&mdash;o que as peças
+theatraes que estão vendo representar, todos os dias, lhes não ensinam.</p>
+
+<p>Adeus, meu bom amigo; perdôe esta matraca que lhe dou em favor do espirito
+com que a escrevi, que é o do bem publico, que se estende tambem a este ramo,
+que produz os fructos delicados do bom gosto, o qual se adquire nos theatros, e
+d'aquella urbanidade que não é filha da imitação; mas de uma intelligencia
+dirigida pela razão&mdash;tão util ao homem<span class="pagenum">[65]</span> na
+sua condição particular, como gloriosa para a nação a que elle pertence.</p>
+
+<p>Sou sinceramente</p>
+
+<p style="text-align: right;">amigo fiel e affectivo</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>M.</em></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#mfn1" id="fn1" name="fn1">[1]</a></sup> Talma, primeiro actor
+tragico do theatro de Paris.</p>
+</div>
+<hr>
+
+<h1><a id="cap05" name="cap05">BIBLIOGRAPHIA</a></h1>
+
+<p class="sc" style="text-align:center;">(Padre Senna Freitas&mdash;Cunha
+Vianna&mdash;Monsenhor Joaquim Pinto de Campos)</p>
+
+<p><em>Padre Senna Freitas.</em> <span class="sc">No presbiterio e no
+templo</span>, vol. I, <em>Livraria Internacional de E. Chardron. Porto.
+1874.</em>&mdash;Este primeiro tomo comprehende dezesete artigos que se
+rivalisam na excellencia da doutrina e da linguagem. Alguns, sem destoar da
+seriedade do livro, movem o leitor a um sorriso complacente. N'este genero,
+estrema-se o intitulado <em>Asphyxia... pela imprensa</em>. Tem resaltos de
+graça e nervo epigrammatico. Faz lembrar as paginas felizes de Luis Veuillot
+nos <em>Odeurs de Paris</em>. «Livros, opusculos, livrorios, livrecos,<span
+class="pagenum">[66]</span> nacionaes, nacionalisados, <em>in folio</em>,
+<em>in quarto</em>, <em>in octavo</em>, em dezeseis; obesos, normaes, anemicos,
+succulentos, indigestos, aquosos; edicionados aos mil, aos dous, aos tres mil,
+de mais de dez a menos de dous tostões; impressos a capricho, moldurados,
+coloridos, iriados, rendilhados, casquilhos.» (Pag. 215 e 216).</p>
+
+<p>Recenseia d'esta arte o snr. padre Senna Freitas as producções asphyxiosas;
+mas não se deprehenda que elle, o illustrado escriptor respiraria melhor
+oxygeneo em regiões onde escasseassem prelos e authores. O que o suffoca é o
+gaz acido carbonico das inepcias em dicção, em philosophia, e em moral. Contra
+as da linguagem protesta o snr. Senna Freitas, abrasado nas risonhas coleras do
+padre Francisco Manoel do Nascimento: «Pois ha nada comparavel em elegancia
+castiça de terminologia áquellas paginas e áquellas columnas arrebicadas de
+gallicismos, e anglicismos tão expressivos e engraçados que deixam a nossa
+lingua corrida? Travemos, por exemplo, d'uma gazeta (salvas, bem entendido, as
+que fazem honra ao jornalismo). A pouco fundo, já lá apparecem a boiar os
+«meetings», os «comités», as recriminações do articulista contra as «chicanas»
+parlamentares, e as «coalições» ministeriaes, e o estylo por demais «descosido»
+em que se exprimiu o deputado fulano de tal, etc... Passemos á revista
+interna<span class="pagenum">[67]</span> e noticiosa&mdash;prosegue o analysta
+bem humorado.&mdash;Acaba de dar-se um successo tristemente «remarcavel» que o
+noticiador conta «em detalhe» aos leitores, «tirando d'elle partido» para fazer
+uma discreta consideração moral. Em seguida, dá um leve «golpe de vista» pelo
+«high-life» da terra, e analysa o ultimo livro publicado por... que é na sua
+apreciação um verdadeiro «chefe d'obra.» (Pag. 219).</p>
+
+<p>E assim, com razão e discreto sal, o esclarecido moço, que tão digna e
+exemplarmente allia o viçor da idade ao respeito do habito clerical, vai
+desfiando o ruim tecido dos maus livros, quer na fórma, quer na substancia.</p>
+
+<p>Culpa os romances nimiamente realistas de perversores dos bons costumes: «Ha
+o romance serio, instructivo, philosophico, moral, espiritualista, da tempera
+do <em>Promessi Sposi</em> de Manzoni, que nos transporta a uma atmosphera
+salubre, onde se respira um ar impregnado de oxygeneo; que photographa todo o
+lado bello, puro e grande da humanidade. E ha o romance enervante, declinação
+insipida e interminavel d'<em>elles</em> e d'<em>ellas</em>; o romance bohemio
+ou cigano, composto pelo mancebo apaixonado, que come no <em>restaurante</em>
+de terceira classe, e morre etico aos vinte e cinco annos; e o romance realista
+ou positivista, ainda peor que o precedente, sem ideal algum; condensado de
+todos os miasmas da lama, de todas as corrupções do esphacelo, e de todos os
+sarcasmos e negações do atheismo, sem outra esphera por conseguinte mais que a
+materia pura, só por uma ironia de mau gosto chamado <em>a alma nova</em>.»
+(Pag. 227 e 228).</p>
+
+<p>Acato a opinião do snr. Senna Freitas, quanto ás novellas descriptivas da
+vida contemporanea; mas desliso da severidade do seu juizo. Creio que assim
+como os bons e moralissimos romances não morigeram, tambem os immoraes não
+desmoralisam. Não são os romances que formam os costumes bons e maus; são os
+costumes que fazem os romances. E casos ha em que as novellas saturadas de
+virtude são inverosimeis e puramente phantasticas. Eu já escrevi algumas,
+nomeadamente as <em>Lagrimas abençoadas</em> e as <em>Tres irmãs</em>. Ninguem
+acreditou aquillo; e toda a gente aceitou como copias do natural <em>Os
+brilhantes do brazileiro</em> e <em>A mulher fatal</em>&mdash;dous livros
+miasmaticos, que só podem lêr-se com o interior do nariz plantado de alfadega e
+mangericão. Quando o marquez d'Urfé escrevia as suas novellas pastoraes,
+embrincadas de polidissima cortezia nos amores, vivia-se em França, pouco mais
+ou menos, como nos romances de Soulié, de Kock e de Feydeau. Ha de tudo. Ha
+muitissima gente honesta que lê a <em>Lelia</em> de Sand, e muitissima gente de
+ruins manhas que lê a<span class="pagenum">[69]</span> <em>Fabiola</em> do
+cardeal Wisemann. Sem embargo estes reparos não desluzem a efficacia das
+considerações do snr. Senna Freitas.</p>
+
+<p>Da summa do seu livro direi, com sincera admiração e devida justiça, que se
+revela ahi um excellente escriptor, um padre illustradissimo, um homem de bem,
+um argumentador convicto e em grande parte irrefutavel. D'este modo ajuiza o
+author da sua obra: <em>É um livro christão que não fará ruim companhia junto
+ao lar das boas familias: nada mais.</em></p>
+
+<p>É muito mais; porque afervora as crenças tibias, alvoroça as almas
+marasmadas na indifferença religiosa, descondensa a escuridade que fez noite
+algida nos corações abatidos pela desgraça. O snr. Senna Freitas nobilita o
+clero portuguez e honra as letras patrias. Se não fosse a palavra
+<em>religião</em>, quem explicaria tão obscura vida em tão alumiado espirito?
+</p>
+
+<p>Congratulo-me com o meu benemerito amigo Ernesto Chardron, quando vejo entre
+as edições da sua copiosa livaria a estreia gloriosa do snr. Senna Freitas.</p>
+<hr style="width: 20%;">
+
+<p><em>Cunha Vianna.</em> <span class="sc">Relampagos</span>, com um prologo
+por <em>João Penha</em>. <em>Livraria Internacional. Porto, 1874.</em>&mdash;O
+author está na primeira florecencia<span class="pagenum">[70]</span> dos annos.
+Reçumbra-lhe do rosto a branda tristeza dos que soffrem com o encontro da
+incerteza nos umbraes da vida. Nuta entre os parceis, quando as vagas descahem,
+e lhe abrem um vacuo onde as idealisações lhe não dão pé, nem o positivismo
+ancora. É um dos muitos, cuja salvação depende de pouco: a experiencia da vida,
+o entrar na inanidade das cousas, o acordar com a cabeça ferida na corrente que
+fecha a galé dos obreiros do ideal&mdash;especie de somnambulos que fallam
+comsigo proprios, como João Penha, o redactor do <em>Prologo</em>.</p>
+
+<p>Este, ainda assim, tem momentos de apégar no commum da vida. O seu fechar
+dos sonetos conhecidos e decorados é sempre a zombaria das altas cousas, dos
+raptos á divindade que se esconde, e aos mysterios do céo que atira estrellas a
+milhões sobre os seus interrogadores. O paio de Lamego e o presunto de Melgaço
+raro deixam de testemunhar que o espirito de João Penha é escorreito, e que a
+poesia, quando lhe apparece, como as revoadas das andorinhas, passa, não
+deixando de si no azul um vestigio de saudade.</p>
+
+<p>O snr. Cunha Vianna está ainda entre os poetas de consciencia e inspiração.
+N'estes seus poemas não ha os desmandos e dislates que individualisam a poesia
+ultimamente inventada. É muito moço, e a sua musa parece<span
+class="pagenum">[71]</span> filha da que floreceu em Portugal ha trinta annos.
+Não se dôa por isso o esperançoso escriptor. Do bom senso dos seus versos ha de
+derivar-se o bom senso da sua prosa. Quando as flôres fenecerem, e os fructos
+se desabotoarem, verá quanto proveitoso é ter sido, a um tempo, o interprete do
+vago da alma e o aprendiz do positivo dos bons diccionarios.</p>
+
+<p>Entre as suas poesias escolho um fragmento da <em>Armada</em> para que o
+leitor se convença de que lhe não inculco no snr. Cunha Vianna um arrolador de
+podridões, de anemias, de chloroses, e de tanta outra moxinifada com que
+intentam fazer-nos da imaginação hospital.</p>
+
+<p>N'este poema, o oceano interroga Portugal algemado na grilheta do
+despotismo. Veleja ao longe a esquadra da Terceira que aprôa ao Mindelo. O
+grande Atlante pergunta á armada o seu destino:</p>
+
+<blockquote style="font-size: 90%;">
+ &mdash;Somos a Liberdade!<br>
+ a esplendida epopéa!<br>
+ a voz da humanidade!<br>
+ o sol da Nova-Idéa!<br>
+ Somos, oh monstro aquatico,<br>
+ o verbo democratico,<br>
+ tão forte como Deus!<br>
+ mais rijo que a tormenta!<br>
+ Astros, descei dos ceus!<br>
+ Nuvens, descei do espaço!<br>
+ vinde beijar o traço<br>
+ das nossas naus possantes!<span class="pagenum">[72]</span><br>
+ Nós somos os gigantes,<br>
+ os Cyclopes modernos:<br>
+ vimos livrar os mundos<br>
+ de horrificos infernos.<br>
+ Vimos fazer a guerra,<br>
+ bradar a Torquemada:<br>
+ &mdash;pódes fugir da terra,<br>
+ que o teu imperio é nada!<br>
+ Somos a Liberdade!<br>
+ a esplendida epopéa!<br>
+ a voz da humanidade!<br>
+ a luz da Nova-Idéa!<br>
+ <br>
+ «&mdash;Eu vos saúdo, ministros<br>
+ d'uma idade d'esplendores!<br>
+ Expulsai corvos sinistros<br>
+ d'essa terra de condores!<br>
+ &mdash;aves d'arrojo inaudito,<br>
+ que muitas vezes s'elevam<br>
+ ás solidões do infinito!<br>
+ Que lindo paiz! é vêl-o:<br>
+ por toda a parte boninas,<br>
+ e, mais além, do Mindelo<br>
+ as vicejantes campinas!<br>
+ E mais ao longe a cidade,<br>
+ que reflora ao Douro a estancia,<br>
+ a Ostende da liberdade,<br>
+ nova rival de Numancia!<br>
+ &mdash;o Capitolio altaneiro<br>
+ d'um povo livre e guerreiro,<br>
+ que, n'um heroismo ardente,<br>
+ unico, bello, e assombroso,<br>
+ roubou mais d'um continente<br>
+ ao meu reino tormentoso!<br>
+ Heis de vencer, porque a historia,<br>
+ a virgem que vos inspira,<br>
+ já vos prepara na lyra<span class="pagenum">[73]</span><br>
+ os hosannas da victoria!<br>
+ Vencerá ao retrocesso<br>
+ quem este abysmo venceu:<br>
+ tendes por guia o progresso&mdash;<br>
+ d'esta idade o Prometheu!»<br>
+ <br>
+         *        *        *<br>
+ <br>
+ Tempos depois a luz da nova aurora<br>
+ illuminava os montes e a cidade!<br>
+ A tyrannia, aniquilado o sceptro,<br>
+         como livido espectro<br>
+ lá transpunha os umbraes da soledade;<br>
+ e um povo inteiro, a quem a paz inflora,<br>
+         salvava estrepitoso<br>
+         o brilho radioso<br>
+         da augusta Liberdade! </blockquote>
+
+<p>Eis aqui um poeta.</p>
+<hr style="width: 20%;">
+
+<p><span class="sc">Jerusalem</span>, por <em>Joaquim Pinto de Campos</em>,
+etc. <em>Lisboa, 1874.</em>&mdash;Precede este precioso livro uma carta do snr.
+visconde de Castilho. Ahi se annunciam primores, quanto ao modo como a obra é
+escripta, e se dá de suspeito o snr. visconde quanto á substancia, ao contexto
+da idéa. «Creei-me semi-pagão entre pagãos millenarios do melhor engenho,
+sociedade minha ainda hoje», diz o grande poeta,<span
+class="pagenum">[74]</span> em quem reviveram as almas de Anacreonte e Ovidio.
+</p>
+
+<p>Comprehende-se este retrocesso no rasto esplendoroso que nos leva até casa
+dos Mecenas; mas, se ahi nos convida Petronio para uma cêa de Trimalcião,
+dá-nos vontade de fugir para uma das ágapes lôbregas em que o bocado de pão se
+ungia de lagrimas.</p>
+
+<p>Magestade, estrondo, alegrias, febris prazeres e infernaes delicias tudo
+teriam de seu as musas pagãs com que deleitar a inspiração e o officio dos seus
+dilectos; mas poesia, a sincera, a ideal, a que aformosêa a vida dentro dos
+abysmos das suas quedas, essa não nos vem herdada de Horacio nem de Catullo:
+deu-nol-a o christianismo.</p>
+
+<p>Aos muito affeiçoados a reliquias do velho Oriente suscita o monsenhor Pinto
+de Campos as reminiscencias dos cyclos anteriores á sagração do local em que
+passaram os lances da divina missão de Jesus Christo. A cada passo, resaltam
+ahi recordações da Roma imperial, com todos os accessorios que lhe lustraram a
+prosperidade como contraste da voragem que de um hausto a sorveu para sempre
+apagada.</p>
+
+<p>O livro é tão de molde para todos os paladares, cinge-se tão caroavel ao
+deleite do curioso, do sabio e do devoto, que a ninguem será estranho o prazer
+da leitura. Em duas<span class="pagenum">[75]</span> palavras qualifica um
+doutissimo critico fluminense o livro do snr. Pinto Campos: <em>para mim tenho
+que a opinião classificará esta obra entre as de mór vulto que este seculo ha
+visto em lingua portugueza.</em> (Reflexões de um solitario relativas ao livro
+<em>Jerusalem</em>, pag. 3).</p>
+
+<p>Evidentemente, o snr. Pinto de de Campos conhece e exercita as menos communs
+bellezas da nossa lingua. Já o haviamos admirado nas fluencias descuidadas da
+conversação, antes de o reconhecermos no purismo d'este livro perfeitamente
+executado. O seu estylo tem a sobriedade, a parcimonia de enfeites que se
+adquirem quando a sã e alumiada razão os escolhe. As pompas e os recamos da
+dicção occorrem-lhe a ponto com rigorosa propriedade. A unção religiosa dos
+quadros nunca é prejudicada pelos estofos da rhetorica. As figuras cedem a sua
+luz ficticia ao brilho permanente da verdade. A relanços descriptivos da Terra
+Santa, resôa ás vezes o dizer chão e affavel de fr. Pantaleão de Aveiro,
+alternando-se com os raptos vehementes da piedade de Chateaubriand e do
+apaixonado lyrismo de Lamartine; mas tudo isto tão nosso, tão portuguez, tão
+condimentado do idioma de Sousa e de Bernardes, que não póde ser senão de
+monsenhor Pinto de Campos.</p>
+
+<p>O leitor, que lê os telegrammas vindos do Brazil, já viu que lá se ergueu
+uma voz calumniadora<span class="pagenum">[76]</span> acoimando de plagiario o
+author da <em>Jerusalem</em>. Sem interposição de tempo, sahiu pela honra e
+lealdade do calumniado escriptor um dos maiores sabios que hoje se contam
+viventissimos na rareada fileira dos sinceros homens de letras em Portugal.
+Parece-nos ter entrevisto no <em>Solitario</em>, que tão egregiamente repelle
+os detrahidores de Pinto de Campos, o conselheiro José Feliciano de Castilho, o
+mais poderoso talento alliançado á mais tenaz memoria de que temos noticia, e,
+mais que noticia, lição aturada e incansavel.</p>
+
+<p>Eis aqui a repulsão da aleivosia, que trasladamos textualmente:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Li uns artigos em que, confrontando-se trechos da <em>Jerusalem</em> com
+outros semelhantes das obras de Pozada Arango e de Perinaldo, se qualificam
+essas transcripções de <em>plagiatos escandalosos, furto na mão, bocca na
+botija, acto proprio para fazer subir o pejo ás faces do culpado, motivo de
+indignação</em>, etc., etc. Assim enfeixadas as injurias, não se dirá que as
+attenuo; e quanto ao facto da reproducção d'esses e outros passos no soberbo
+livro, começo declarando que elle é real, licito; publicado, antes de o ser
+pelos censores, pelo proprio escriptor; e que, nas circumstancias d'esta
+polemica, pouca prova de lealdade de quem occulta essa declaração com que o
+author de antemão<span class="pagenum">[77]</span> desmorona todo esse castello
+de cartas. Ah! isso não convinha aos sinceros Aristarchos: esmerilharam tudo,
+mas fecharam olhos nada menos que sobre o peristilo do monumento, ao qual
+apenas fazem uma referencia vaga, passando como cão por vinha vindimada.</p>
+
+<p>«O author podia, como grande numero dos seus predecessores em um assumpto
+d'esta ordem, reproduzir aquillo que bem entrasse no plano da sua obra, em
+materia de descripções, de averiguações e narrações dos successos, sem citar as
+fontes. Pois acaso inventa-se a religião? Inventa-se a historia? Inventa-se a
+natureza? Inventam-se factos? Sempre que em tudo isso se toca, é evidente que
+se repete o que já se ha dito; e todas as vezes que essas descripções estão bem
+feitas, que utilidade ha em alteral-as? Nada haveria mais facil que dar sempre
+as mesmas idéas por diversas palavras, mas n'isso então é que se daria
+manifesta má fé, porque transpareceria a intenção culposa, o que nunca póde
+imputar-se a quem, uma ou outra vez, traduz litteralmente de livros que andam
+em todas as mãos.</p>
+
+<p>«Não desenvolverei este ponto em these, como tão facil seria; limitar-me-hei
+a demonstrar a candura com que monsenhor Pinto de Campos, logo ao romper o seu
+livro, nos denunciou... isso mesmo que hoje se lhe assaca? Completa elle o seu
+prologo (pag. XVI e XVII),<span class="pagenum">[78]</span> revelando a quem
+vai lêr, que transcreveu largos trechos de escriptores antigos e modernos;
+enumera os principaes d'esses escriptores; affirma, com inexcedivel modestia,
+que só a ess'outros (o que é descabido) deve ser restituida qualquer gloriola,
+que das suas paginas se possa colher; que se embrenhou na floresta d'esses
+authores; que das flôres d'elles sugou o mel. Transcreverei (com as almejadas
+aspas):</p>
+
+<p>«Na averiguação e narração dos successos, tomei por norma <em>seguir os
+varões</em> doutissimos e diligentissimos, <em>citando lealmente suas palavras
+ás vezes, muitas outras suas sentenças</em>; assim como é certo que lhes
+addicionei outras muitas, que pelo proprio estudo alcancei... <em>Segui</em> de
+preferencia a Sagrada Escriptura, Flavio José, S. Jeronymo, e entre os
+proporcionalmente modernos, Quaresmio... Em muitos outros, antigos e modernos,
+<em>procurei flôres que em meu ramilhete ennastrasse, e a todos os quaes fiquei
+mais ou menos devedor; se n'este rescende alguma fragrancia, a elles e não a
+mim se deve</em>. Sem ordem nem de merito nem de idades, aqui apontarei
+Adricomio, Biagio Terzi, Calmei, Mariano Morone de Maléo, Chateaubriand,
+Lamartine, conde Marcellus, Valiani, Geramb, Poujoulat, <span
+class="sc">Michaud</span>, fr. Pantaleão d'Aveiro; <span
+class="sc">Mislin</span>, fr. Lavinio, Renazzi, Gaume, <span class="sc">Pozada
+Arango</span>, Escrich,<span class="pagenum">[79]</span> Munk, Dupin, De
+Saulcy, Saint Aignan; e particularmente os padres Dupuis e <span
+class="sc">Perinaldo</span> me foram de <span class="sc">inexcedivel
+auxilio</span>... Não se destina esta enumeração a ostentar pompa de erudição;
+serve, ao contrario, para <em>restituir a outros</em> qualquer gloriola que de
+entre estas paginas podesse ser colhida. Solícita abelha, embrenhei-me n'essa
+vasta floresta e sem estragar as flôres, <em>suguei-lhes o mel</em>; e se em
+alguma havia veneno, lá o deixei.»</p>
+
+<p>«O que ahi fica (idéa que mais de uma vez apparece reiterada no corpo da
+obra), constitue um luxo de precauções, a fim de que nenhum mal intencionado
+ousasse attribuir-lhe a intenção de locupletar-se com a jactura alheia. «Eu
+segui varões doutissimos», «suas palavras ás vezes, muitas outras suas
+sentenças.» «Em muitos authores procurei flôres que em meu ramilhete
+ennastrasse, e a todos fiquei mais ou menos devedor.» «Apontarei entre estes
+Pozada Arango, Michaud, Milsin.» «Particularmente o padre Perinaldo me foi de
+inexcedivel auxilio.» «Se n'este ramilhete rescende alguma fragrancia, a elles,
+e não a mim se deve.» «Seja a elles restituida qualquer gloriola que d'entre
+estas paginas podesse ser colhida.» «Na vasta floresta dos authores citados,
+suguei o mel de suas flôres. »</p>
+
+<p>«Santo Deus! É n'estas circumstancias que se imputa a um escriptor a
+perpetração de<span class="pagenum">[80]</span> (nada menos!) <em>plagios
+escandalosos</em>! O que ahi fica, se pecca é pela repetição, até á saciedade,
+do proprio facto com que os inimigos hoje o criminam. Foi innocentemente o
+monsenhor quem deu essas armas contra si. Leram no prefacio os seus detractores
+que elle declarava haver transcripto numerosos passos de Michaud, Mislin,
+Pozada Arango; e que Perinaldo principalmente lhe havia sido de inexcedivel
+auxilio. O processo da malevolencia tornava-se, desde então, singelissimo.</p>
+
+<p>«Ah! elle diz que ha um escriptor chamado Perinaldo, que lhe foi de
+inexcedivel auxilio? que ha um Pozada Arango, etc., de quem extrahiu as
+proprias palavras, ás vezes, ou sentenças? que para este ramilhete colheu
+d'esses livros muitas flôres, e as mais preciosas? Ora, copiosas flôres,
+colhidas de livros, não podem ser rosas, nem malmequeres, são forçosamente
+paginas. Toca a procurar esses livros, cuja existencia elle nos patentêa; a
+pesquizar ahi os trechos do que nos revela ter-se apoderado; e depois,
+lançando-lhe em rosto o que elle mesmo nos denunciou, tripudiaremos, e subindo
+ao capitolio, iremos render graças aos deuses!»</p>
+
+<p>«Em tal procedimento, a lealdade pede meças á justiça.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Delida a macula com que a malevolencia,<span class="pagenum">[81]</span>
+aborto de odios politicos, tentou denegrir a mais notavel obra modernamente
+escripta com os primores da lingua portugueza por um brazileiro&mdash;que entre
+os seus e os nossos a escreve como os distinctissimos&mdash;não temos senão a
+louvar o grande alento que tirou a salvo de tropeços esta obra perduravel com
+que monsenhor Pinto de Campos brindou os seus conterraneos e os da patria de
+seus avós. Já conheciamos e reverenciavamos o orador religioso e parlamentar.
+Agora lhe recebemos de sua mão um livro que vamos reler e collocar entre os que
+nos ensinaram a escrever.<span class="pagenum">[82]</span></p>
+<hr>
+
+<h1><a id="cap06" name="cap06">QUE SEGREDOS SÃO ESTES?...</a></h1>
+
+<blockquote style="font-size: 80%; margin-left: 30%;">
+ Fosse terror ou sentimento fosse<br>
+ De mais occulta origem...<br>
+
+
+ <p style="text-align:right;"><span class="sc">Garrett.</span></p>
+
+ <p><br>
+ A pallida doença lhe tocava<br>
+ Com fria mão o corpo enfraquecido.</p>
+
+ <p style="text-align:right;">          <span class="sc">Camões.</span><br>
+ </p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+</blockquote>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>&mdash;Fui hoje vêr á casa da saude o Duarte Valdez.</p>
+
+<p>&mdash;O nosso companheiro de casa em Coimbra?</p>
+
+<p>&mdash;Justamente.</p>
+
+<p>&mdash;Que tem elle?</p>
+
+<p>&mdash;Os dias contados.</p>
+
+<p>&mdash;Tisico?</p>
+
+<p>&mdash;Perguntei ao doutor Arantes que doença<span
+class="pagenum">[83]</span> era a do Valdez. Fez com os hombros um tregeito
+significativo de que a medicina nem sempre tem alçada para devassar das doenças
+que matam, e denominal-as com terminações inflammatoriamente gregas. Quando,
+porém, é a alma que mata o corpo, os medicos lavam d'ahi as mãos como o
+governador da Judêa.</p>
+
+<p>Tive este dialogo, em Lisboa, ha hoje doze annos, e, seguidamente, fui á
+casa da saude no largo do Monteiro.</p>
+
+<p>Quando, na ida, atravessava o jardim da Estrella, sentei-me a encadear as
+lembranças vagas e desatadas que eu tinha de Duarte Valdez.</p>
+
+<p>Tres épocas me occorreram.</p>
+
+<p>Primeira, a da nossa jovial convivencia em um casebre da Couraça dos
+Apostolos, em Coimbra, no anno 1845. Segunda, outra menos modesta e menos
+alegre camaradagem de quarto, no hotel Francez, do Porto, em 1851.</p>
+
+<p>Antes de mencionar a terceira época, urge saber-se que nenhum de nós se
+formára. Elle contentára-se com um diploma de insufficiencia em rhetorica, e eu
+com a prenda não commum de arpejar tres varios fados na viola. Não
+rivalisavamos em sciencia. Formavamos da nossa reciproca ignorancia um conceito
+honesto. Não queriamos implicar com sabios, nem para os invejar nem para os
+detrahir.<span class="pagenum">[84]</span></p>
+
+<p>A terceira época ou terceiro encontro foi em 1856. Vi-o em S. João da Foz, e
+ouvi-lhe revelar mysteriosamente que estava emboscado em uns arvoredos, entre
+Lordello e Pastelleiro, com uma extremosa e estremecida menina, fugida aos
+paes. Não me recordo os pormenores d'estes amores que elle me disse serem os
+primeiros e ultimos. Tenho, porém, a certeza de que me ri d'uns <em>amores
+ultimos</em>, aos vinte e cinco annos de idade.</p>
+
+<p>N'aquelle tempo a fuga de uma menina qualquer não era successo por tanta
+maneira horrido, que eu devesse desmaiar na presença do meu acelerado amigo. Eu
+já contava então uns decrepitos vinte e nove annos, e conhecia varios
+acontecimentos impudicos, por exemplo, aquelle da D. Hermenigilda d'Amarante,
+que eu exhibi ás lagrimas do publico sensivel nas <em>Scenas da Foz</em>.
+Aquella especie de pellicula carmezim que assetina a epiderme do rosto, e se
+chama <em>pudicicia</em> nos droguistas da moral, tinham-m'a delido as aguas
+lustraes da nossa civilisação pagã, para o que tambem muito contribuiram as
+reuniões semanaes da Philarmonica, na rua das Hortas, onde os rabecões entravam
+cheios de cupidos e sahiam cheios de suspiros. Muitas senhoras portuenses, que
+hoje cedem a primazia da ternura ás filhas, viram n'aquellas salas da
+Philarmonica os anjos com quem se maridaram. Os annuncios<span
+class="pagenum">[85]</span> das festas lyricas, enviados dos corações aos
+corações, rezavam assim: <em>Sabbado, ás 7 da noite, musica de Mozart, e Laços
+de Hymemeu</em>. Tudo antigo e bom.</p>
+
+<p>Isto veio a proposito de eu não ter uma congestão de pudor, quando Duarte
+Valdez me segredou que se embrenhára nas selvas rumorosas do Pastelleiro com
+uma menina perdida de amor, e tão cega de alma que já não via na imaginação,
+sequer, as lagrimas da mãi, e o mortal abatimento do pai que a amaldiçoava.</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>O enfermeiro-mór da casa da saude conduziu-me ao quarto de Duarte. Com
+certeza, se eu o encontrasse desprevenidamente, não o conheceria. O espasmo dos
+olhos seria bastante a desfigurar-lhe as outras feições, quasi sumidas na
+desgrenhada cabelleira e nas barbas. Immobilisava-lhe o semblante a sinistra
+quietação da demencia contemplativa.</p>
+
+<p>Tambem elle me não reconheceu a mim, sem que eu lhe dissesse o meu nome.
+Fitava-me com repulsão, como se a presença de um<span
+class="pagenum">[86]</span> desconhecido o molestasse fortemente; porém, depois
+que eu me nomeei, sahiu do torpor, levantou-se de golpe, e abraçou-me com
+transporte.</p>
+
+<p>&mdash;Que tens tu, Duarte?... Estavas aqui, e não me participavas?</p>
+
+<p>&mdash;Eu não sabia que estavas em Lisboa, nem tinha a vaidade de suppôr que
+ainda me conhecesses. Desde que te fallei na Foz, em 1856, nunca mais nos
+encontramos nem escrevemos.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade; mas nem por isso me eram estranhos os principaes passos da
+tua vida. Soube que casaste...</p>
+
+<p>&mdash;Sim... casei...</p>
+
+<p>&mdash;Com aquella menina que então... estava comtigo?</p>
+
+<p>&mdash;Não...&mdash;respondeu Duarte com assombrado aspecto, e um sacudir de
+cabeça indicativos de azedume por tal pergunta.</p>
+
+<p>Hesitei, á vista de tão subita mudança, se devia proseguir em tal
+interrogatorio. Foi elle quem interrompeu o silencio, repetindo:</p>
+
+<p>&mdash;Não, não casei com essa...&mdash;e acrescentou, pondo-me no hombro a
+mão tremula&mdash;casei com outra... que já morreu...</p>
+
+<p>&mdash;Morreu?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, morreram ambas; matei-as eu...</p>
+
+<p>E, erguendo-se, travou-me do braço, levou-me comsigo para a janella, que
+abria sobre um<span class="pagenum">[87]</span> jardim, alongou a vista na
+direcção da cupula do convento de Jesus, fez um gesto com a mão direita
+apontando para o céo, e quiz dizer umas palavras que, abafadas pelos gemidos,
+pareciam rever-lhe nos olhos em lagrimas copiosas.</p>
+
+<p>E eu, que poderia imaginar agora phrases muito apropositadas á situação do
+meu amigo, não as invento, porque não lh'as disse então.</p>
+
+<p>E quem seria mais verboso que eu, em lance tão desusado? Se elle, com
+effeito, havia matado as duas mulheres, eu, na verdade, não devia ensaiar
+maneiras de o consolar, dizendo-lhe que, se as matou, fizera muito bem.
+Figurou-se-me que Duarte fallára figuradamente. Porque ha muitos sujeitos,
+ainda mal, que vivem penalisados com remorsos de ter matado certas senhoras,
+sem ao menos admittirem que os medicos collaborassem com elles. Ora eu que
+reputára, n'outro tempo, aquelle Duarte Valdez tanto ou quê desarranjado pelas
+novellas, attribui ao seu romanticismo a parte odiosa no assassinio das duas
+senhoras.</p>
+
+<p>Passados alguns segundos, fiz-lhe esta vulgarissima pergunta:</p>
+
+<p>&mdash;Como as mataste tu?</p>
+
+<p>&mdash;Despedaçando-as uma contra a outra.</p>
+
+<p>Póde ser que o leitor esteja sorrindo; saiba, porém, que o tremor d'aquellas
+palavras vibrava tanto do seio do afflicto moço que uns<span
+class="pagenum">[88]</span> calefrios me correram a espinha, e o turvamento das
+lagrimas me embaciou a vista. Situações analogas terá experimentado o leitor no
+theatro. Duas palavras, em uma ficção dramatica, exprimidas pelo actor que
+pintou os vincos da desgraça no rosto com fino pó de carvão, obrigam ás
+lagrimas pessoas que não chorariam, se a desgraça fosse com ellas.</p>
+
+<p>&mdash;Chora, chora!&mdash;me disse elle, com vehemente
+exaltação.&mdash;Preciso que me chorem, porque... eu morrerei, adorando as duas
+mulheres que matei... e ninguem me ha de chorar.</p>
+
+<p>&mdash;Pódes tu contar-me a tua historia?&mdash;perguntei eu.</p>
+
+<p>&mdash;Posso... quero contar-t'a; mas receio que m'a não creias... A minha
+familia, e os medicos da provincia dizem que eu me deixo matar pela
+superstição, indigna da minha intelligencia... É um phantasma que me mata,
+dizem elles... Ah! se o vissem! se eu te podesse contar...</p>
+
+<p>&mdash;Mas olha, Duarte, conta o que poderes... Eu hei de comprehender das
+tuas dôres alguma cousa mais que o vulgar dos homens. Até as superstições, se
+as tens, eu t'as entenderei; porque ha infortunios que não podem entender-se,
+sem a intervenção de alguma cousa sobrehumana.</p>
+
+<p>&mdash;Pois então, vou contar-te a minha desastrada vida... Aquella infeliz
+menina que esteve<span class="pagenum">[89]</span> na Foz, ha dez
+annos&mdash;começou Duarte com pausadas intercadencias&mdash;seria a minha
+bemaventurança, se eu não viesse a este mundo com a predestinação dos reprobos.
+Meu pai, desde que eu a tirei da casa paterna, ganhou-me entranhado odio; não
+por causa da culpa; mas com receio que eu remediasse a culpa com o casamento. O
+seu primeiro acto de vingança foi dar a casa a meu irmão, e reduzir-me a um
+patrimonio tão escasso que não chegaria ás minhas despezas de dous annos. Maria
+do Resgate era mais pobre que eu. Não desisti ainda assim de casar com ella.
+Pedi um emprego com a eloquencia da virtude desgraçada, já quando a minha
+subsistencia corria por conta dos paes de Maria. Estava eu em vespera de ser
+despachado amanuense do governo civil de Bragança, quando meu pai conseguiu
+inutilisar os esforços humilhantes que eu fizera para adquirir tão mesquinho
+emprego. Fui ajoelhar aos pés de meu pai: estava ao pé de mim, para me defender
+dos primeiros impetos da ira d'elle, minha mãi. Eu pedi-lhe simplesmente que
+não se oppozesse á minha collocação. Respondeu que se dava por aviltado, se seu
+filho fosse exercer tão ignobil occupação; e, sem me dar a confiança de
+questionar com o seu orgulho, disse que me dava recursos para estar dous annos
+em Lisbôa,<span class="pagenum">[90]</span> ou o tempo necessario para me
+esquecer da filha do procurador de causas.</p>
+
+<p>Minha mãi chamou-me de parte, e aconselhou-me que annuisse; na certeza de
+que, no espaço de dous annos, se eu não esquecesse Maria do Resgate, ella
+conseguiria o consentimento de meu pai.</p>
+
+<p>Cedi forçado pela extrema necessidade. Maria, tão confiada em mim quanto eu
+confiava no meu proprio coração, accedeu na ausencia dos dous annos. Assim que
+eu sahi para Lisboa, sahiu ella para um convento de Bragança.</p>
+
+<p>Cheguei aqui, e encontrei dinheiro em abundancia, amigos, relações,
+mulheres, liberdade, distracções, theatros, cêas, um desafogo de vida tão
+agradavel quanto amargurado me tinha corrido o ultimo anno.</p>
+
+<p>Ás vezes, em meio dos meus divertimentos, assaltavam-me remorsos. Era então
+que eu respondia ás cartas apaixonadas de Maria, e perguntava a minha mãi se já
+tinha conseguido amollecer o duro coração de meu pai. Respondia-me que
+esperasse, e Maria respondia-me que esperava uma de duas cousas, que ambas lhe
+serviam: sahir da sua cella para mim ou para a sepultura. Os meus amigos viam
+estas cartas, e riam-se da minha credulidade.</p>
+
+<p>Ao cabo de um anno, os remorsos que me<span class="pagenum">[91]</span>
+incutiam as cartas, já nem a virtude tinham de as inspirar verdadeiras. Maria
+graduou por ellas o sentimento frio que as disfarçava, e disse-me que eu era
+tão ingrato que nem ao menos a deixava morrer enganada.</p>
+
+<p>Aborreciam-me já as lastimas e a obrigação de as consolar. Sentava-me
+constrangido para lhe escrever. Já me queixava da sua pertinacia em me accusar
+de ingrato, quando ella mesma se acommodára á cruel necessidade da separação.
+Culpando-a de indiscreta, perguntava-lhe se quereria para mando um homem que
+teria de mendigar ou roubar para sustental-a. Aqui havia uma occulta infamia na
+mentira. Se eu pretendesse em Lisboa um emprego, tel-o-hia, sufficiente á
+sustentação de uma familia modesta; mas eu, desde que pisei os tapetes dos
+salões, pensava em ter salões com tapetes, e desde que as carruagens dos meus
+amigos me levaram aos theatros, desejei possuil-as para me desquitar de
+obrigações aos meus amigos. Eu estava perdido como meu pai me desejára; estava
+deshonrado bastantemente para desviar a imaginação da filha do procurador de
+causas, quando as titulares de Lisboa me perguntavam quem era a rainha dos
+bailes.</p>
+
+<p>Ao fim de dous annos, minha mãi, quando eu já não perguntava o resultado das
+suas diligencias, avisou-me que meu pai vinha a<span
+class="pagenum">[92]</span> Lisboa, na companhia de um nosso primo e de nossa
+prima, chegados do Brazil, com o proposito de nos visitarem.</p>
+
+<p>Estes nossos primos eram naturaes do Rio de Janeiro. Alli ficára meu tio,
+pai d'elles, quando meu avô, que para lá fôra com o principe regente na
+qualidade de desembargador do paço, voltou para Portugal. Eu sabia d'estes
+parentes, e muitas vezes meu pai dissera que seria convenientissimo casar um de
+seus filhos com a prima brazileira, cuja fortuna rendia mais n'um mez que toda
+a nossa casa em um anno.</p>
+
+<p>Confesso-te miseravelmente que me sobresaltou o aviso da vinda de minha
+prima. Vi salões com tapetes, e vi as suspiradas carruagens. Quem eu não vi foi
+a imagem de Maria do Resgate.</p>
+
+<p>Minha prima Olinda era adoravel, ainda sem riqueza.</p>
+
+<p>Este conceito que formei ao vêl-a e ouvil-a, dispensou-me de o formar, de
+mim, de grande villão. Amnistiava-me com a idéa de que, sendo ella pobre, eu a
+quereria para esposa. Amei-a, é certo que a idolatrei. Não tenho outra virtude
+que contrabalance com os meus delictos na presença de Deus, e d'ella e da outra
+desgraçada.</p>
+
+<p>Havia dous mezes que Maria do Resgate me não escrevia, quando aqui chegou
+Olinda,<span class="pagenum">[93]</span> e, passados dous mezes, sahia eu de
+Lisboa, casado com minha prima, a ir visitar minha mãi, para depois ir ao Rio
+receber os trezentos contos de minha mulher, e d'alli passarmos a residir em
+Lisboa, n'um palacio, com tapetes e carruagens.</p>
+
+<p>Meu pai foi adiante preparar as festas da recepção, e ornamentar as salas
+para o baile, e a hospedagem para os convidados da nossa grande parentella.</p>
+
+<p>Entrei profundamente triste na minha villa. As janellas da casa de Maria do
+Resgate estavam fechadas como se houvesse alli morrido alguem. Nas casas
+visinhas, havia senhoras e crianças que choviam abadas de flôres sobre o nosso
+carro.</p>
+
+<p>Pouco depois que sahimos da mesa do jantar, atravessei com minha mulher a
+sala de espera, para descermos ao jardim. N'este transito, vimos sahir de um
+canto da sala uma mulher trajada de luto, que marchou de encontro a Olinda, sem
+levantar o véo espesso do rosto.</p>
+
+<p>Não a conheci; mas mal podia suster-me de convulso.</p>
+
+<p>&mdash;Que tens?!&mdash;disse minha mulher.&mdash;Esta senhora parece que
+tem alguma cousa que me dizer...</p>
+
+<p>&mdash;Tenho, sim, minha senhora&mdash;acudiu a mulher de luto&mdash;v.
+exc.ª não me conhece<span class="pagenum">[94]</span> nas salas de seu marido,
+porque eu sou a viuva de um pobre procurador de causas que morreu ha quinze
+dias, quando perdeu a esperança de vêr remediada a deshonra de nossa filha. Em
+quanto ella teve pai, embora perdida no conceito do mundo, tinha o pão, que seu
+pai lhe ganhava; mas agora, reduzida á orphandade, á pobreza, e á deshonra,
+venho implorar a v. exc.ª que a receba como sua criada, visto que foi seu
+marido que a perdeu. V. exc.ª fará o que a sua virtude e caridade lhe
+aconselhar.</p>
+
+<p>E sahiu sem esperar resposta.</p>
+
+<p>Estas palavras ouço-as ainda como se a alma da mulher que as disse m'as
+estivesse escrevendo na consciencia com um estylete de fogo.</p>
+
+<p>&mdash;Que é isto?&mdash;perguntou-me minha mulher.</p>
+
+<p>&mdash;É uma desgraça que eu te contarei&mdash;respondi torvamente.</p>
+
+<p>&mdash;Conta-m'a já, e remediêmol-a sem demora&mdash;tornou ella.</p>
+
+<p>Escondi-me com Olinda no mais sombrio do jardim, e tudo lhe referi com a
+sinceridade de um penitente. Ella ouviu-me com semblante carregado, avincando a
+testa, e ás vezes com signaes de compaixão, que de certo não era por mim.</p>
+
+<p>Depois, ergueu-se, repelliu com brandura<span class="pagenum">[95]</span> a
+minha mão que lhe acariciava o rosto e murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Eu ignorava tudo isto. Desgraça irremediavel, já agora! Eu quero
+fallar com a mãi d'essa infeliz menina.</p>
+
+<p>E assim que foi noite fechada, sahiu com um escudeiro, que a conduziu a casa
+da viuva do procurador.</p>
+
+<p>Suspeito que a conferencia versou sobre a rica dotação de Maria do Resgate.
+A viuva repelliu a proposta, porque minha mulher voltando ao seu quarto, disse,
+como se ninguem a escutasse:</p>
+
+<p>&mdash;As deshonradas... de certo não são ellas.</p>
+
+<p>Até aqui&mdash;proseguiu Duarte Valdez&mdash;não ha nada maravilhoso na
+minha historia...</p>
+
+<p>&mdash;De certo não; tudo vulgar&mdash;obtemperei eu que sabia centurias
+d'estas historias, cuja trivialidade nenhum romancista de tino hoje em dia
+aproveita da fardagem dos vicios communs.</p>
+
+<p>&mdash;O horrivel maravilhoso começa agora&mdash;continuou
+Duarte.&mdash;Passados vintes dias, divulgou-se a noticia de estar moribunda no
+convento de Bragança Maria do Resgate. E em uma das seguintes noites, estando
+eu a dormir profundamente em um leito proximo do de minha mulher, acordei,
+sentindo no pescoço os apertões convulsos de duas mãos que me estrangulavam; e,
+abrindo os olhos,<span class="pagenum">[96]</span> vi distinctamente nas trevas
+o rosto macerado de Maria muito perto do meu rosto; e, ao mesmo tempo que as
+suas mãos me asphyxiavam, sentia que o joelho d'ella me esmagava o coração.
+N'este lance dei um grito, e ouvi o estrebuchar de minha mulher, que soltava
+uns gemidos afflictissimos, como se lá sentisse angustias de suffocação iguaes
+ás minhas. Saltei do leito, e fui á recamara buscar a lamparina. Quando voltei,
+minha mulher estava de joelhos á beira da sua cama, com as mãos postas, com as
+faces cobertas de lagrimas, e os olhos esgazeados de terror.</p>
+
+<p>&mdash;Que é isto, Olinda?&mdash;exclamei.</p>
+
+<p>E ella, escondendo o rosto entre as mãos, murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Vi agora a desgraçada menina que tu abandonaste. Já estava
+amortalhada. Era formosa como as martyres, e bem mais linda do que eu...
+Disse-me adeus... Sabia que eu tinha chorado por ella... Veio dizer-me que
+estava remida das suas dôres.</p>
+
+<p>Eu não disse a Olinda que tambem vira Maria do Resgate.</p>
+
+<p>O meu terror abafava-me a voz na garganta. Recorri á oração...&mdash;eu que
+desde a infancia não tinha orado. Fui ao quarto de minha mãi; acordei-a;
+pedi-lhe que viesse commigo para o oratorio. Contei-lhe as torturas<span
+class="pagenum">[97]</span> da minha visão, e a visão de Olinda. Ella pegou de
+tremer e chorar. Se eu lhe dizia, sobre-posse, que a coincidencia dos sonhos
+podia acontecer, sem intervenção do phantasma de Maria, minha mãi não achava
+isto possivel, e mais me trespassava de horror.</p>
+
+<p>No dia seguinte, chegou a noticia de ter expirado á uma hora da noite
+antecedente a reclusa do convento de Bragança. A pessoa que trouxe a nova, era
+encarregada de me entregar o maço de minhas cartas. Em volta das ultimas, que
+eu lhe escrevêra de Lisboa, havia uma cinta de papel e um escripto interposto
+com estas palavras:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>Quando receber isto, que lhe deixo, para se convencer de que não ha
+testemunho escripto da sua crueldade, a mais feliz serei eu, porque estarei
+morta. O senhor de certo nunca será feliz, porque infamia e boa consciencia não
+se encontram juntas. Perdôo-lhe o que me fez: mas não posso perdoar-lhe a morte
+de meu pai nem o desamparo em que fica minha mãi.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Resta-me dizer-te&mdash;ajuntou Duarte, arquejando de cansaço e
+commoção&mdash;que minha mulher desde aquella hora nunca mais teve um instante
+de alegria nem saude. Viemos, passados dias, para Lisboa. D'aqui partimos<span
+class="pagenum">[98]</span> para o Rio de Janeiro. Ao cabo de oito mezes, eu
+estava viuvo, e rico, muitissimo rico, e cada dia, cada hora mais desgraçado,
+mais combalido de uma enfermidade indescriptivel. Voltei ao seio de minha
+familia. Já não encontrei minha mãi; e a presença de meu pai coava-me nas veias
+um estremecimento de pavor. Ha cinco annos que arrasto esta vida sem a coragem
+de a despedaçar. Sinto ainda na garganta a pressão dos dedos fincados do
+phantasma. Ajoelho-lhe, alta noite, e imploro-lhe que me deixe morrer socegado.
+Peço á alma de minha mulher que suavise com palavras compassivas a vingança da
+desgraçada que deve estar na presença de Deus... Em fim...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>E não proseguiu, porque n'este momento entrava o doutor Arantes, o previsto
+medico da casa da saude, que, sem ouvir esta narrativa, sabia que aquelle
+enfermo devia morrer, pela mesma razão mysteriosa que muitos atacados de
+semelhante morbus engordam e porejam saude por todos os orificios da sua
+enxundiosa epiderme.</p>
+
+<p style="text-align:center; text-indent: 0em;">*<br>
+*      *<span class="pagenum">[99]</span></p>
+
+<p>Duarte Valdez, que ainda vi na vespera da sua ida para a Madeira, foi e não
+voltou. As supplicas de Olinda lograriam que a misericordia divina o resgatasse
+da presa do seu remorso.</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Que segredos são estes da natura?</em></blockquote>
+
+<p>Perguntaria Luiz de Camões.</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM DO 9.° NUMERO</p>
+</div>
+<hr>
+
+<div style="font-size: 80%;">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3 style="text-align:center;">Ernesto Chardron, editor </h3>
+
+<p style="text-align:center;">DICCIONARIO UNIVERSAL DE EDUCAÇÃO E ENSINO</p>
+
+<p style="text-align:justify;">Util á mocidade de ambos os sexos, ás mães de
+familia, aos professores, aos directores e directoras de collegios, aos alumnos
+que se preparam para exames, contendo o mais essencial da sabedoria humana,
+trasladado a portuguez por CAMILLO CASTELLO BRANCO e ampliado pelo traductor
+nos artigos deficientes a Portugal e Brazil. 2 grossos vol. cada um de 800
+paginas a 2 columnas, 6$000. Encadernados, 7$000</p>
+
+<p>AS GRANDES INVENÇÕES ANTIGAS E MODERNAS</p>
+
+<p>Nas sciencias, industria e artes, por LUIZ FIGUIER obra adornada com 238
+gravuras magnificas, e traduzida da 5.ª edição original francesa. 1 grosso vol.
+brochado, 3$000. Com uma rica cartonagem, 3$600</p>
+
+<p>GRANDE DICCIONARIO PORTUGUEZ</p>
+
+<p>Ou o thesouro da lingua portugueza, pelo DR. FREI DOMINGOS VIEIRA</p>
+
+<p>1.º volume&mdash;A-B, 4$500</p>
+
+<p>2.º » &mdash;C-D, 4$500</p>
+
+<p>3.º » &mdash;E-L, 5$500</p>
+
+<p>4.º » &mdash;M-P, 4$000</p>
+
+<p>Volume 5.º (ultimo) estará á venda em dezembro de 1874.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem
+não póde dormir. Nº 9 (de 12), by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 9 (DE 12) ***
+
+***** This file should be named 28155-h.htm or 28155-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/2/8/1/5/28155/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
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+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
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+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
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+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
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+
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+
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
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