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diff --git a/28155-h/28155-h.htm b/28155-h/28155-h.htm new file mode 100644 index 0000000..d5f999d --- /dev/null +++ b/28155-h/28155-h.htm @@ -0,0 +1,2811 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Noites de Insomnia, offerecidas a quem não póde dormir, nº 9</title> + <meta name="author" content="Camilo Castelo Branco"> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <meta name="KEYWORDS" content=""> + <style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { display: none;} + body {width: 80%; margin: auto;} + } + @media handheld { + .pagenum { display: none;} + body {width: 80%; margin: auto;} + } + body {width: 520px; margin-left: 90px;} + .pagenum {font-size: 0.8em; font-style: normal; color: silver; position:absolute; left: 630px;} + .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;} + hr { + border: 0; + border-bottom: solid 2px #000000; + text-align: center; + } + a {color: #000000; text-decoration: none;} + sup {font-size: 0.8em; font-style: normal;} + h2, h3, h4 {text-align: center;} + h1 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + .sc { + font-variant: small-caps; + } + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + #corpo p{ + line-height: 1.5em; + text-align: justify; + text-indent: 1em; + } + .dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000000;} + #sumario { + width: 75%; + margin: auto; + border-left: solid 1px #000000; + border-top: solid 1px #000000; + border-right: solid 3px #000000; + border-bottom: solid 3px #000000; + padding: 1em; + } + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não +póde dormir. Nº 9 (de 12), by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 9 (de 12) + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: February 23, 2009 [EBook #28155] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 9 (DE 12) *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<span class="pagenum">[1]</span> + +<div class="capa"> +<p style="font-size: 1.2em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p> +<hr style="width: 6em;"> + +<p style="font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p> + +<p style="font-size: 0.7em;">OFFERECIDAS</p> + +<p>A QUEM NÃO PÓDE DORMIR</p> + +<p style="font-size: 0.7em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">Camillo Castello Branco</p> +<hr style="width: 3em;"> + +<p style="font-size: 0.7em;">PUBLICAÇÃO MENSAL</p> +<br> + +<hr style="width: 3em;"> + +<p style="font-size: 0.9em;">N.º 9—SETEMBRO</p> +<hr style="width: 3em;"> + +<table width="100%" summary="endereço editor"> + <tbody> + <tr> + <th colspan="2">LIVRARIA INTERNACIONAL<br> + <span style="font-size: 0.7em;">DE</span> </th> + </tr> + <tr> + <td style="border-right: solid 1px #000000;"><span + style="font-size: 0.9em;">ERNESTO CHARDRON <br> + <em>96, Largo dos Clerigos, 98</em><br> + <strong>PORTO</strong> </span> </td> + <td><span style="font-size: 0.9em;">EUGENIO CHARDRON<br> + <em>4, Largo de S. Francisco, 4</em><br> + <strong>BRAGA</strong> </span> </td> + </tr> + </tbody> +</table> +<hr style="width: 2em;"> + +<p style="font-size: 0.9em;">1874</p> +</div> +<span class="pagenum">[2]</span> + +<div id="impressor" style="text-align: center;"> +<br> +<br> +<br> +<br> + +<hr style="width: 8em;"> + +<p>PORTO</p> + +<p style="font-size: 0.9em;">TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">68—Rua da Cancella Velha—62</p> +<hr style="width: 2em;"> + +<p style="font-size: 0.9em;">1874</p> +</div> +<span class="pagenum">[3]</span> + +<div id="sumario"> +<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p> +<hr style="width: 4em;"> + +<p style="text-align: center; font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p> +<hr style="width: 4em;"> + +<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;"><strong>SUMMARIO</strong></p> + +<p style="text-align:justify;"><em><a href="#cap01">Os salões, pelo +exc.<sup>mo</sup> visconde de Ouguella</a> —<a href="#cap02">Condemnação +de corpo e alma</a> —<a href="#cap03">O doutor Botija</a> —<a +href="#cap04">O palco portuguez em 1815</a> —<a +href="#cap05">Bibliographia (Senna Freitas, Cunha Vianna, Monsenhor Joaquim +Pinto de Campos)</a> —<a href="#cap06">Que segredos são estes</a></em> +</p> +</div> +<span class="pagenum">[5]</span> + +<div id="corpo"> +<hr> + +<h1><a id="cap01" name="cap01">OS SALÕES</a></h1> + +<p>Os capitulos, assim intitulados e publicados nestes livrinhos, vão ser +reproduzidos em volume com outros, complementares da obra. Teremos, pois, um +livro de mão primorosa, de extenso folego, portuguez na fórma, bem que estranho +á indole nacional. Entre portuguezes, os estudos sociaes, profundos e largos, +não se ajustam á irrequieta vertigem dos que navegam de costeagem com o baixel +da politica.</p> + +<p>Aqui proeja-se ao descançado porto das situações gananciosas, e deixa-se ao +acaso resolver os problemas.</p> + +<p>O snr. visconde de Ouguella revelou-se n'este severo estudo um espirito de +grande alcance, e discipulo dos que melhormente professam a sciencia historica. +Se algumas vezes a sua penna roça asperrima na crusta das ulceras que lhe fazem +nauseas, resgata-se briosamente avoando ás regiões altas, no rasto luminoso das +augustas verdades.</p> + +<p>O livro, que ha de ser a affirmação da<span class="pagenum">[6]</span> +honrada consciencia que nunca, desde a primeira mocidade, apostatou da religião +do berço, é dedicado a uma formosa criança, Ramiro Soares de Oliveira da Silva +Coutinho, filho do snr. visconde de Ouguella.</p> + +<p>São maviosas de affecto paternal e de nobre civismo estas expressões que o +pai dirige á alma que se está formando entre as caricias de uma familia +virtuosa: <em>É incentivo, estimulo e lição, para seguir, como luzeiro e farol +do seu futuro, as nobilissimas tradições liberaes, legadas por seu avô, e meu +presadissimo pai, Ricardo Sylles Coutinho. Seja este tambem o testemunho do meu +acrisolado amor filial.</em></p> + +<p>O prefacio que precede os <em>Salões</em> é igual a elles na elevação e +rigidez da idéa, no donaire e esplendor da linguagem; mas avantaja-se ao +restante como prognostico dos brilhantes capitulos que hão de proceder de tão +desprendido e intransigente programma.</p> + +<p>São raros em Portugal os escriptores que, á imitação do visconde de +Ouguella, podem enlaçar a independencia com o talento, e esculpir no frontal do +templo, onde os vendilhões armam tenda de bufarinheiros a legenda, que lhe +compete.</p> + +<p>Eis o prefacio:<span class="pagenum">[7]</span></p> + +<h2>AO LEITOR</h2> + +<blockquote style="font-size: 0.8em; margin-left: 30%;"> + La pensée est pouvoir.<br> + Tout pouvoir est devoir.<br> + <br> + VICTOR HUGO.<br> +</blockquote> + +<p>Este livro tem uma missão, e tem um fim.</p> + +<p>Escripto para o povo, a sua missão é levar a luz ás ultimas camadas sociaes. +Diffundil-a no tugurio do operario, e na choupana humilde do aldeão.</p> + +<p>Inspirado nas mais sinceras crenças da democracia, aceita, como fim, +arrancar ás garras d'esse immenso desalento e d'essa torpe corrupção—que +por ahi vai gangrenando as sociedades—os generosos espiritos populares, +para que as almas se não gelem, e os corações—que vivem de nobres +aspirações—se não atrophiem, n'este completo desmoronamento de todas as +instituições existentes.</p> + +<p>O author d'este livro não tem pretenções, nem vaidades, nem receios. Não se +julga apostolo, nem propheta, nem vidente. O mais obscuro dos obreiros d'este +seculo—como é, e quer ser—escuta, attento, o ruido que vai lá fóra, +nos paizes onde a idéa tem um culto, onde as crenças consubstanciam religiões, +onde<span class="pagenum">[8]</span> as sociedades se debatem na agonia de +organisações politicas, sociaes e religiosas, que tendem a desapparecer; e pelo +facto de existir, e de se considerar obrigado ás luctas da existencia, giza o +terreno em que combate, sem orgulho, sem odios, e sem rancores pessoaes.</p> + +<p>Volta-se para os seus irmãos no trabalho, operarios tambem—qualquer +que seja a fórma por que exercem a sua actividade, e diz-lhes:</p> + +<p>«Eu penso assim. Aqui tendes o producto das minhas meditações, e dos meus +estudos. Dou-vos os lavores do meu espirito. Combatei-me, ou enfileirai-vos +commigo.»</p> + +<p>Eis a razão do livro.</p> + +<p>Vêde, agora, a sua desenvolução.</p> + +<p>O author crê nas inspirações grandiosas do povo, crê na mocidade estudiosa +das escolas, e crê nas leis immutaveis, fataes, e inexoraveis do progresso, que +acompanham a vida das gerações, e que nos conduzem a uma determinada somma de +civilisação, a um especimen de perfectibilidade relativa, quaesquer que sejam +os cyclos de descrença, de abjecto abatimento, de egoismo individual, e de +corrupção momentanea em que se debatem as sociedades.</p> + +<p>O author d'este livro é espiritualista.</p> + +<p>Devotado ás leis sagradas e eternas por<span class="pagenum">[9]</span> que +se rege a humanidade, curvando-se, submisso e reverente, á vontade absoluta, +que governa, e dirige o universo, pronuncia a medo, e na humildade da sua +existencia, o nome do Ente Supremo, e crê firmemente, que todos os homens são +iguaes. Ajoelha, e adora a omnipotencia, a infinita bondade, e sublime +misericordia de Brahma, Zeus, Jezeu, Elohim, Jehovah, Allah, Osiris, Jupiter, +Deus, Christna, Christo, finalmente do Eterno—qualquer que seja o nome +sagrado, e mysterioso, por que as gerações modernas o pretendam appellidar.</p> + +<p>O seculo dezoito teve por missão destruir.</p> + +<p>O seculo dezenove é a transição, que liga, e une civilisações heterogeneas, +é o parenthesis aberto n'estas luctas do espirito, n'esta convulsão moral, em +que as sociedades actuaes trabalham para se regenerarem radicalmente, sob um +differente aspecto, e aceitando novos dogmas, e diversas doutrinas.</p> + +<p>O author d'este livro não despreza o passado. Não o injuria, não o diffama, +nem o calumnia. Explica-o até, e, por vezes, justifica-o.</p> + +<p>Mas aceita jubilosamente a corrente das idéas do seu seculo, e louva o +Eterno na effusão das suas crenças.</p> + +<p>Todavia não volta o rosto, como a mulher de Loth, para contemplar +Sodoma.<span class="pagenum">[10]</span></p> + +<p>Só a magestosa omnisciencia do Ser Supremo póde avaliar os entes que creou. +</p> + +<p>Ao sentar-se nos bancos das escolas superiores, no prefacio de um +livro—dado a lume por um irmão d'armas, ferido, e cahido moribundo, já, +na arena da discussão, pelas luctas da palavra—escreveu as seguintes +linhas:</p> + +<p>«Pergunta-se—se os gozos, se os prazezes pertencem unicamente a um +pequeno numero de homens?—se a maioria, se as classes proletarias, se os +Spartacus da civilisação moderna teem de escolher entre o passamento +ignominioso nas gemonias do seculo dezenove, ou nas barricadas, nascidas do +desespero, que a miseria e o ardor do martyrio obrigam a levantar? +Pergunta-se—se o monopolio, se a concorrencia, são os dogmas injustos e +tyrannicos, que hão de destruir as massas, como o carro do idolo Jagrenat, +entre os indios, esmaga o craneo dos brahmanes, ou se a associação, esse credo +dos assalariados das industrias, que os economistas victoriam—póde acabar +com o pauperismo, e obstar á ignorancia dos povos, palladio deshumano a que os +ambiciosos se seguram?»</p> + +<p>Ainda hoje o author d'estas linhas formúla as mesmas perguntas, com a mesma +severidade, e aceita a responsabilidade d'ellas na tranquillidade constante, e +inalteravel do seu espirito.<span class="pagenum">[11]</span></p> + +<p>A quem o accusar de leviano, de voluvel, e de imaginoso, no seio d'este +hediondo tropel de ambições, que renegam, e apostasiam a cada +hora—redemoinhando, revoltas, em torno do poder, seja qual fôr a sua +origem ou procedencia—responde o author d'este livro com o sorriso do +desprezo, e com a consciencia segura de que não sabe, não póde, nem quer +deslizar nunca da lei augusta e sacrosanta do dever.</p> + +<p>Os espiritos, para quem a libré é mais do que um distinctivo, e uma triste e +crapulosa missão, porque chega a ser um sacramento imprimindo +caracter,—esses, que se curvem, que se dobrem, e que degradem a face +humana, varrendo, com a fronte, o pó das alcatifas e alfombras das regias aulas +e alcaceres dos principes, magnates e satrapas do poder.</p> + +<p>Pouco importa.</p> + +<p>O vocabulo <em>lacaio</em> tem, na sua etymologia, a justa e bem merecida +ignominia.</p> + +<p>É a pena que a dignidade humana confere á abjecção.</p> + +<p>Um dos primeiros—senão o primeiro escriptor d'este seculo—narra +o seguinte:</p> + +<p>«Octavio Augusto, na madrugada da batalha de Accio, encontrou um jumento a +quem o burriqueiro alcunhára ou appellidára <em>Triumphus</em>. Este Triumpho, +dotado com a faculdade de zurrar, pareceu-lhe de bom agouro.<span +class="pagenum">[12]</span> Octavio Augusto ganhou a batalha, lembrou-se do +Triumpho, mandou-o fundir, e esculpir em bronze, e collocou-o no capitolio. +Burro capitolino foi elle—mas ficou sempre burro.»</p> + +<p>Eis a historia das vaidades humanas.</p> + +<p>«O habito não faz o monge», diz a sabedoria dos povos.</p> + +<p>As grandezas da terra são, as mais das vezes, o pelourinho de todas as +ignominias—assim como do sambenito, e da cana verde da irrisão pharisaica +surgem, em ondas de luz, a magestosa auréola do martyrio, e a apotheose +deslumbrante, que a posteridade engrandece e divinisa.</p> + +<p>O author d'este livro não crê nos partidos militantes, nos diversos grupos +parlamentares, nas ambições e cubiças, que fervilham em torno das insignias +consulares—quer se chamem opposições ou governo.</p> + +<p>Escalar o poder pelo poder, aceital-o em todas as condições, á sombra de +todas as bandeiras, na defeza de todos os codigos, e na metamorphose de todos +os principios, parece ser a maxima inspiração de todas estas phalanges, ávidas +e sedentas de governo, que reputam, como suprema beatitude, o ineffavel gozo de +dirigirem uma situação politica qualquer.</p> + +<p>D'aqui vem o scepticismo partidario, a indifferença<span +class="pagenum">[13]</span> profunda, e a descrença completa do povo.</p> + +<p>N'isto, como em tudo, o author d'este livro está ao lado do povo.</p> + +<p>Basta.</p> + +<p>Fecha-se este prologo com uma simples remissão ao prefacio ou introducção do +livro, que fica referido.</p> + +<p>Assim termina esta advertencia ao leitor:</p> + +<p>«A educação, nas classes pobres da nossa terra, tem sido desprezada: o povo +ignora tudo, porque tudo lhe é vedado. Convinha, pois, que á frente de um +livro, que narra com singeleza as tristes vicissitudes por que a governação +entre nós tem passado; que aponta, sem exagerações, como a liberdade vai sendo +sophismada, fossem estampadas algumas linhas, que levassem a esperança a +corações para quem a educação é um miseravel scepticismo, e a vida um sudario +de pungentes dôres.»</p> + +<p>Estas linhas, escriptas ha vinte annos, firma-as o author d'este livro, com +a convicção plena de que ainda não deslizou d'estas crenças, nem renegou, n'um +só momento, a religião da sua mocidade.</p> + +<p>Em mil oitocentos cincoenta e seis, quando a pena de morte era lei entre +nós, quando o homicidio legal erguia a sua sinistra, e hedionda influencia +n'esta terra—terminava o author d'este livro, em presença de um +tribunal<span class="pagenum">[14]</span> e em defeza de um réo, pelo seguinte +modo, a sua oração:</p> + +<p>«Quanto a mim, resta-me a honra de ter pelejado com a forca, esta peleja +solemne e derradeira. Se eu ficar vencido, se triumphar o carrasco, tanto peor +para o seculo em que combati, e para a philosophia que invoquei.»</p> + +<p>Foi já rasgada a lei do homicidio. Falleceu o ultimo carrasco.</p> + +<p>Bemdito seja Deus!</p> + +<p>Venceu aqui a civilisação.</p> + +<p>É para crêr, que venceu, tambem, a justiça absoluta, a consciencia, e a +sociedade.</p> + +<p>A inviolabilidade da vida humana é mais do que um principio, mais do que uma +doutrina, mais do que uma lei: é um culto prestado ao Ente Supremo.</p> + +<p>Deixai, agora, que o author d'este livro peleje pela democracia.</p> + +<p>É esta, e só esta a verdadeira religião do futuro: é a obra sublime do +Creador.</p> + +<p>Lisboa, 24 de julho de 1874.</p> + +<p style="text-align:right;">VISCONDE DE OUGUELLA.<span +class="pagenum">[15]</span></p> +<hr> + +<h1><a id="cap02" name="cap02">CONDEMNAÇÃO DE CORPO E ALMA</a></h1> + +<p>A lei dos justiçados, antes de 5 de fevereiro de 1587, condemnava o corpo e +a alma, não admittindo á communhão os condemnados á morte. Os juizes faziam-se +intrepretes da justiça divina. Trancavam as portas do purgatorio á contrição, +privando a alma do sacramento, que a theologia declarára indispensavel ao +viador da eternidade, por fóra das regiões das trevas infinitas.</p> + +<p>Não sei onde os legisladores acharam o esteio de tão cruel severidade com as +almas dos justiçados. Não podemos, porém, duvidar d'este desprezo da lei de +Jesus, em época tão assignalada de bons theologos, comprehendida nos reinados +de D. Manoel e D. João III. Que os condemnados á morte não eram admittidos á +communhão deprehende-se do tratado <em>De sacramentis prœstandis ultimo +supplicio damnatis</em>, do famoso jurisconsulto Antonio da Gama, já no cap. I, +já na dedicatoria ao cardeal D. Henrique, impressa pela primeira vez em 1559, e +não em 1554, como diz o abbade de Sever, na <em>Bibl. Lusit.</em> O mesmo se +infere do <em>Compromisso da Misericordia de Lisboa</em>, cap. 36, +confirmado<span class="pagenum">[16]</span> por alvará de 19 de maio de 1618. +Ahi se estabelece o modo de acompanhar os padecentes e de lhes assistir. Estes +usos subsistiram, através de dous seculos, exceptuados os enforcados politicos +a quem por misericordia matavam com pouco apparato processional.</p> + +<p>Ainda depois da lei que permittia o Viatico aos condemnados, nem todos +gozaram esse dôce prazer, essa extrema consolação que lhes abria no reino de +Deus a porta da esperança. Themudo, nas <em>Decisões</em>, tom. II, decis. 155, +pag. 126, n.º 3, conta que o marquez de Villa Real, cumplice na conjuração de +1641 contra D. João IV, pediu licença ao arcebispo de Lisboa para commungar, na +vespera do dia em que fôra degolado. O arcebispo concedeu a licença. Á meia +noite ouviu missa no oratorio, e ás tres da tarde do dia seguinte (28 de agosto +de 1641) foi executado. Ao mesmo proposito, leiam os curiosos o <em>Commentario +aos Lusiadas</em>, por Manoel de Faria e Sousa, cant. III, est. 38.</p> + +<p>Os co-réos do marquez de Villa Real ou não pediram licença, ou lhes foi +negada. Agostinho Manoel de Vasconcellos, poeta, escriptor galante, e mais +verde de juizo do que de annos—pois já orçava pelos cincoenta e +tantos—parece que não tinha absoluta confiança no sacramento, pois que +morreu sem elle. Póde ser que este peccador incontrito, vendo que<span +class="pagenum">[17]</span> os theologos do seculo XVI dispensavam os +condemnados da communhão, e os julgavam irreparavelmente precítos na outra +vida, fosse da opinião d'elles, e se deixasse ir até vêr o que succedia aos +seus companheiros do cadafalso, passado o estreito medonho d'aquella horrenda +morte.</p> + +<p>Tenho lido romances historicos portuguezes, e de bom pulso, em que os +condemnados coevos de D. João I e II, se confessam e commungam. Esta inventiva +piedade dos romancistas encontra as cruezas repellentes da historia. É erro +muito desculpavel. Qual é o romancista que lê os reinícolas Antonio da Gama, e +Themudo, e o <em>Codigo Filippino</em>, e a <em>Synopsis Chronologica</em>?! +Estes livros são escumadeiras das faculdades imaginosas. Quem se affizer a +herborisar em taes charnecas, póde ser que vingue saber muita cousa obsoleta; +mas toda a sua erudição, fundida na moeda miuda dos livros de passatempo, não +logra captivar o leitor que lhe attribua a vigilia de uma noite. Não se é +escriptor ameno e agradavel sem muita ignorancia. Eu devo a isto os meus +creditos e a minha fecundidade.<span class="pagenum">[18]</span></p> +<hr> + +<h1><a id="cap03" name="cap03">O DOUTOR BOTIJA</a></h1> + +<p>Francisco Dias Gomes,—considerado pelo snr. A. Herculano o homem +talvez de mais apurado engenho que Portugal tem tido para avaliar os meritos de +escriptores—foi malquisto de uns poetas contemporaneos que lhe chamavam o +<em>doutor Botija</em>, allusão tirada das vasilhas de seu commercio de +mercearia.</p> + +<p>Um dos seus medianos admiradores era o abalisado mathematico e estimavel +poeta José Anastacio da Cunha. Dos seus raros amigos—pois que os não +grangeava em razão de sua indole desconversavel e um tanto +hypochondriaca—o mais esclarecido e provado foi Garção Stochler, então +lente de mathematica, e depois barão e general.</p> + +<p>Francisco Dias Gomes, posto que modesto e conformado com a sorte de +especieiro, não se deixava insensivelmente morder pelos epigrammas de quem quer +que fosse. A honesta musa que lhe inspirou os graves e soporiferos poemas +constantes do seu livro impresso por ordem da academia real, algumas vezes se +lhe apresentou despeitorada e de saia curta, n'aquelle desatavio que desnorteia +a circumspecção<span class="pagenum">[19]</span> de um philologo da polpa de +Francisco Dias.</p> + +<p>O leitor, provavelmente, ainda não viu como este sisudo academico jogava o +venabulo da satyra. A academia, se alguma topou entre os manuscriptos do seu +confrade, com certeza a pospoz como damnosa aos serios escriptos com que a +esposa e filhos do finado critico haviam de quebrar alguns espinhos da herdada +pobreza.</p> + +<p>Não me recordo se Stochler, na noticia critico-biographica anteposta aos +versos posthumos do seu amigo, faz referencia ao espirito satyrico de Francisco +Dias; o que certissimamente sei é que nunca vi impressa a satyra seguinte +contra José Anastacio da Cunha, nem tão pouco a replica d'este poeta, que no +proximo numero sahirá como prova do retrincado odio com que, em todos os +tempos, os escriptores se expozeram á irrisão dos ignorantes, mutuando-se +affrontosas injustiças.</p> + +<p>Francisco Dias é iniquissimo no conceito que finge formar de José Anastacio, +e tanto mais censuravel quanto aquelle douto e infeliz philosopho nunca +desfizera na valia do mercieiro poeta, segundo se deprehende da resposta.</p> + +<p>N'esta satyra o que muito vale é a pureza da linguagem condimentada com +especies do seculo XVII, bastante avelhentadas e rancidas;<span +class="pagenum">[20]</span> mas, assim mesmo, saborosas a paladares não de +todos depravados pela malagueta da poesia vermelha que ultimamente vige e viça. +</p> + +<p>Quanto a graça, é tão difficil achal-a em Francisco Dias como nas comedias +de Jorge Ferreira. Os nossos bons classicos, quer fossem moços e mundanos, quer +ascetas e encanecidos, não sei como pensavam; mas no escrever, eram todos como +uns frades velhos que digeriam as suas idéas, tal qual um estomago dyspeptico +de hoje em dia esmoe um paio do Alemtejo.</p> + +<p>Ahi vai, tal e quejanda, a satyra do <em>doutor Botija</em>:</p> + +<blockquote style="font-size: 90%;"> + SATYRA<br> + <br> + Vem cá, louco varrido, que diabo<br> + Te metteu na cabeça ser poeta?<br> + Quem te chegou a tão extremo cabo?<br> + <br> + Não vês que toda a gente anda inquieta,<br> + Cançada de soffrer teus argumentos,<br> + Que te julga demente, que és pateta?<br> + <br> + Eu nunca imaginei que teus intentos<br> + Fossem fazer-te vão: agora julgo<br> + Que em nada se tornaram teus talentos.<br> + <br> + Se eu crêra em quantas pêtas conta o vulgo,<br> + Das feiticeiras sordidas e aváras,<br> + E outras, que aqui não digo, nem divulgo;<span class="pagenum">[21]</span><br> + <br> + Dissera que perjuro te mostráras,<br> + Que infido amante da cruel Canidia,<br> + Seus magicos encantos divulgarás.<br> + <br> + Que ella, por castigar tua perfidia,<br> + Sobre as azas d'um Lémure correra<br> + O Tauro, o Atlante, o Nilo, e a sêcca Lidia,<br> + <br> + Onde hervas potentissimas colhêra,<br> + Com que mixtos veneficos, horrenda,<br> + De funestos effeitos compozera.<br> + <br> + E porque ao fim viesse da contenda,<br> + Pela alta noite, barbara, ullulára,<br> + Com voz funesta, horrisona e tremenda,<br> + <br> + Que as infernaes Deidades convocára<br> + Do tremebundo Tartaro, formando<br> + Mil circulos no chão com fatal vara.<br> + <br> + Pallida, e consumida, suspirando,<br> + As horridas madeixas eriçadas,<br> + Com ellas murmurára um canto infando.<br> + <br> + Alli foram de todo desatadas<br> + As prisões, que a teu corpo o siso unia;<br> + Alli tuas idéas perturbadas;<br> + <br> + Sómente em ti ficou triste mania<br> + De maus versos fazer, de argumentar<br> + Com quantos ha, nas praças, noite, e dia.<br> + <br> + Não deixa a gente já de murmurar<br> + D'essa tremenda furia que te agita,<br> + D'esse teu furioso e vão fallar.<br> + <br> + Cuidas que, ainda que nescio, assim se excita<br> + A celebrar-te o povo por sciente,<br> + Elle que em tudo mofa, e fel vomita?!<span class="pagenum">[22]</span><br> + <br> + E julgas que de rustico não sente<br> + A differença que ha do branco ao preto?<br> + Por certo que te enganas claramente.<br> + <br> + Tu crês que só quem faz um bom soneto,<br> + Ou decifra um enigma mathematico,<br> + Esse só tem juizo, e é só discreto?<br> + <br> + Se para ser qualquer da vida pratico,<br> + Bem aviado está, se lhe é preciso,<br> + Ser um grande geometra, ou grammatico.<br> + <br> + Tal ha por esse mundo, e tal diviso,<br> + Que sem saber a regra do <em>abc</em>,<br> + É sagaz como trinta, e tem juizo.<br> + <br> + Como queres tu pois que não te dê<br> + Surriadas o povo maldizente,<br> + Posto que nunca estuda, e nunca lê?<br> + <br> + Se elle anda já cançado longamente<br> + De ouvir as tuas vãs declamações<br> + Com que pretendes emendar a gente!<br> + <br> + Se defender intentas conclusões,<br> + Mestre em artes, de borla, ou capacete,<br> + Porque te ouçam as tuas decisões;<br> + <br> + Rapa a cabeça tu, frade temete:<br> + Combaterás então mais forte e ufano,<br> + Que um guerreiro montado em bom ginete.<br> + <br> + Não andes pelas ruas como insano<br> + Syllogismos em barbara formando;<br> + Se assim queres ter fama, é grande engano.<br> + <br> + Que quer dizer, continuo, andar fallando<br> + Em curvas, corollarios e problemas,<br> + Demonstrações fazendo, e explicando?<span class="pagenum">[23]</span><br> + <br> + Quando te ouvem fallar em theoremas,<br> + Escalenos triangulos, e rectas,<br> + Espheroides, polygonos, e lemmas,<br> + <br> + Julgam ser isso termos de patetas<br> + Ou d'esses que tem pacto c'o diabo,<br> + E lhe fallam em partes mui secretas.<br> + <br> + Pois eu d'aconselhar-te não acabo,<br> + Se por tal te tiverem, fugirás<br> + Como cão com funil atado ao rabo.<br> + <br> + Em vão com grande esforço ladrarás,<br> + Distinguindo a menor, que concedendo<br> + Quanto o povo quizer á força irás.<br> + <br> + Que achaste, inda que tu lhe vás dizendo,<br> + Do circulo a sonhada quadratura,<br> + Nada te valerá, segundo entendo.<br> + <br> + C'os rapazes e moços, gente escura,<br> + Gente indomita em fim, tua pessoa<br> + Não poderá jámais andar segura.<br> + <br> + Tanto já de ti fallam por Lisboa,<br> + Que quando vaes por uma praça, ou rua,<br> + Grande susurro em toda a parte sôa.<br> + <br> + Ora pois tem razão, que a audacia tua,<br> + E teus discursos vãos, e palavrosos<br> + Dão causa a que qualquer teu sestro argua.<br> + <br> + Eis aqui porque chamam ociosos<br> + Aos que ás letras se applicam, temerarios,<br> + Phantasticos, herejes, mentirosos.<br> + <br> + Os fidalgos os tem por ordinarios,<br> + Baixos de nascimento, sem avós,<br> + De humildes pensamentos, vãos e varios.<span class="pagenum">[24]</span><br> + <br> + Se alguem com acto humilde e baixa voz<br> + Lhe offerece o elogio em prosa ou rima,<br> + Louco, dizem, te vai longe de nós.<br> + <br> + De nós a poesia não se estima;<br> + Vê se tens outra cousa por que valhas,<br> + Falla-nos de cavallos ou de esgrima.<br> + <br> + De cavallos, de esgrima, de batalhas,<br> + Não d'essas verdadeiras batalhadas<br> + Com lança e espada, aereas antigualhas.<br> + <br> + Entra por esta brecha ás cutiladas,<br> + Amigo, tu que n'isto és o primeiro,<br> + Segundo já te ouvi grandes roncadas.<br> + <br> + Não te ficou venida no tinteiro,<br> + Nem tantas soube o Molho destemido,<br> + De malsins espantalho verdadeiro.<br> + <br> + Se te ouvira o Palermo esmorecido<br> + Da côrte se ausentára, por não vêr<br> + Com teu valor seu credito abatido.<br> + <br> + Bem pódes pelo mundo discorrer,<br> + Novo Roldão, armado d'armas brancas,<br> + Mil encantos e aggravos desfazer.<br> + <br> + Leva do teu cavallo sobre as ancas<br> + Tua dama sentada; esgrime e clama,<br> + Que assim tudo afugentas, tudo espancas.<br> + <br> + Ganharás maior nome, e maior fama,<br> + Do que andar versos maus vociferando,<br> + Dignos dos becos sordidos d'Alfama.<br> + <br> + Se a fazer versos lá do lago infando<br> + O diabo sahisse em tons diversos,<br> + Taes como os teus faria, impio, e nefando.<span + class="pagenum">[25]</span><br> + <br> + Por isso não os tenhas por perversos,<br> + Aos que pulhas te dizem, porque em fim,<br> + Não ha cousa peor do que maus versos.<br> + <br> + Antes mais vale ser villão ruim,<br> + Frade apostata em casa das mancebas,<br> + Do que ser mau poeta, antes malsim.<br> + <br> + Agora quero eu que me percebas,<br> + Se alguem te applaude e rijo as palmas bate,<br> + É porque mais em teu vicio te embebas.<br> + <br> + Que aqui te manifesto sem debate,<br> + Todos esses amigos que te cercam,<br> + Todos te tem por um famoso orate.<br> + <br> + Quaes ha que rindo o folego não percam,<br> + Vendo, quando andas só, teu ar profundo?<br> + Se o gosto não lh'o invejo, caro o mercam.<br> + <br> + Como o que anda d'um bosque lá no fundo<br> + As féras conversando e as amadríadas<br> + Desgostoso das gentes, e do mundo,<br> + <br> + Quem te vê tão suspenso, outras iliadas<br> + Julga que andas compondo, alto portento!<br> + Outros novos altissimos <em>Lusiadas</em>.<br> + <br> + Mas cada vez que recordar intento<br> + Teu soberano e largo magisterio,<br> + Fico qual nau sem leme ao som do vento.<br> + <br> + Alli tudo decides com imperio:<br> + Não foram tão despoticos em Roma<br> + O tyranno Caligula, ou Tiberio.<br> + <br> + Qualquer, de ti pendente, lições toma,<br> + Não ousa, inda que queira, dizer nada,<br> + Que tudo á tua voz se rende, e doma.<span class="pagenum">[26]</span><br> + <br> + Alli qualquer materia é bem tratada,<br> + Com larga voz e cópia de palavras,<br> + Alli com teu discurso illuminada.<br> + <br> + Antes fallasses tu em gado ou lavras,<br> + Do que em sciencias, de que nada entendes:<br> + Ou fosses para o monte guardar cabras.<br> + <br> + Novos systemas se fundar emprendes,<br> + Porque a fama no numero te conte<br> + Dos grandes homens, que offuscar pretendes,<br> + <br> + Pede ao bom Ariosto que te monte<br> + Sobre o seu grifo rapido, e serás<br> + Outro Astolfo, outro audaz Bellerophonte.<br> + <br> + Ao concavo da lua subirás<br> + Para vêr se descobres novos mundos,<br> + Mas nunca o teu juizo encontrarás;<br> + <br> + Perdeu-se como pedra em poços fundos,<br> + Que nunca acima vem, nem nada, ou boia:<br> + Juizos são de Deus, altos, profundos!<br> + <br> + Não te esqueça maranha, nem tramoia,<br> + Porque ao fim desejado te Conduzas,<br> + Mais famoso serás que Helena e Troia.<br> + <br> + Avante, ó novo Gama, já confusas<br> + Com as tuas acções vejo as antigas,<br> + E para te cantar promptas as musas.<br> + <br> + Tem-nas da tua parte por amigas,<br> + Materia dando a satyras facetas<br> + Como as de Horacio, destro n'estas brigas.<br> + <br> + Se minhas forem, não serão discretas,<br> + Porque da rima a musica sonante<br> + Adorna as minhas pobres cançonetas.<span class="pagenum">[27]</span><br> + <br> + Inda esta nos faltava, a cada instante<br> + Andares tu contra ella declamando!<br> + Que mal te fez o pobre consoante?<br> + <br> + Quando o chamas não vem logo a teu mando?<br> + É porque com verdade não se preza<br> + Do teu engenho o som suave e brando.<br> + <br> + Elles fogem de ti com ligeireza<br> + Os consoantes, porque em ti não sentem<br> + Para bem usar d'elles natureza.<br> + <br> + Se as minhas conjecturas me não mentem,<br> + Os que poetas querem ser á força,<br> + Pouco de um secco rábula desmentem.<br> + <br> + Em vão um pobre espirito se esforça<br> + Porque os seus versos sóem docemente,<br> + Por mais e mais que o pensamento torça.<br> + <br> + Nunca ouviste dizer que Apollo ardente<br> + Agita a phantasia dos poetas,<br> + Para que mais seu cerebro se esquente?<br> + <br> + Inda que ouçam razões muito discretas<br> + Das mulheres e filhos que pão pedem,<br> + Deixam ficar-se, assim como patetas.<br> + <br> + Nem fomes, nem trabalhos os impedem,<br> + Que exercitem o dom divino e raro:<br> + Tanto em seu desatino se desmedem;<br> + <br> + Por isso ás vezes julga o vulgo ignaro,<br> + Que elles são intrataveis, desabridos,<br> + Posto que os bons lhe dêm louvor preclaro.<br> + <br> + Mas tu que nunca ergueste os teus sentidos,<br> + Que em idéas vulgares e confusas<br> + Sempre andaste com elles envolvidos;<span class="pagenum">[28]</span><br> + <br> + Se nunca conheceste Apollo, ou musas,<br> + Nem pintado sequer viste o Parnaso,<br> + Para que de seus dons sem saber usas?<br> + <br> + Se temes que o teu nome em negro vaso<br> + Para sempre se veja sepultado;<br> + Usa do para que tiveres azo.<br> + <br> + Não digas mal do consoante amado<br> + Tanto dos bons engenhos peregrinos<br> + Dos do tempo d'agora e do passado.<br> + <br> + Se tu fundas em Miltons e Trissinos<br> + Teus aereos phantasticos systemas,<br> + Assás de bons não foram seus destinos.<br> + <br> + Poucos ou raros lêm os seus poemas;<br> + Um triste e melancolico caminha<br> + Farto de extravagancias mil extremas.<br> + <br> + A musa d'outro misera e mesquinha,<br> + Languida e fria, sem adorno e graça<br> + Da solta prosa jaz quasi visinha.<br> + <br> + Ninguem jámais a noite e o dia passa<br> + Seus aridos escriptos estudando,<br> + Por muito que o seu gosto contrafaça.<br> + <br> + Não o nego porém, de quando em quando<br> + D'elles se eleva um resplendor sublime,<br> + Digno do Pindo e Phebo claro e brando.<br> + <br> + Mas tu a quem a rima tanto opprime,<br> + Se não sabes, aprende: o canto hebraico<br> + Dizem que ás vezes n'ella bem se exprime.<br> + <br> + E que por evitar o tom prosaico,<br> + Algumas vezes d'ella se servira<br> + O poeta syriaco e o chaldaico.<span class="pagenum">[29]</span><br> + <br> + Tambem a musa grega ao som da lyra,<br> + Lá nos tempos antigos, d'ella usou;<br> + E o romano que a face ao mundo vira.<br> + <br> + Novamente o seu uso renovou<br> + Dando-lhe fórma e ser o provençal,<br> + De nova graça a poesia ornou.<br> + <br> + Mas isto para ti de nada val,<br> + Que porque te foi d'ella Apollo escasso,<br> + D'ella e dos que a usaram dizes mal.<br> + <br> + Que mal te fez Camões e o culto Tasso?<br> + Camões a quem as musas educaram<br> + Na sua gruta, e virginal regaço?<br> + <br> + Qu'o cantico divino lhe inspiraram<br> + Em que aos astros ergueu os lusos feitos,<br> + Que tanto pelo mundo se afamaram.<br> + <br> + Para exprimir altissimos conceitos<br> + Nunca jámais a rima lhe fallece<br> + Estylo e puro culto sem defeitos.<br> + <br> + Qualquer rustico espirito conhece,<br> + Que quanto o Camões quiz dizer, o disse<br> + Facil e natural, como apparece.<br> + <br> + Quem quer que d'elle mal fallar te ouvisse,<br> + Diria afoutamente e com verdade,<br> + Q'isso em ti era inveja, era doudice.<br> + <br> + Ora pois, porque tens difficuldade<br> + Em dizer teu conceito em dôce rima,<br> + Vituperal-a é grande iniquidade.<br> + <br> + Julgavas facil e de pouca estima<br> + Dôces versos fazer? amigo, não,<br> + É preciso trabalho, estudo e lima.<span class="pagenum">[30]</span><br> + <br> + E isto sem natural inclinação,<br> + Ou pouco ou nada val: se disso és pobre<br> + Martellarás no pobre siso em vão.<br> + <br> + A vêa natural não se descobre,<br> + Mil glosas n'um outeiro recitando,<br> + Mais vis que escoria vil de ferro ou cobre.<br> + <br> + Oh quanto te escarnece a gente quando<br> + N'elle estás como insano loucamente<br> + «Tyrse, Tyrse!» com larga voz gritando.<br> + <br> + Inda do consoante tão vãmente,<br> + Te atreves, pobre infusa, a blasphemar,<br> + Sendo tu tão vã cousa, e tão demente!<br> + <br> + Elle nunca se deixa demonstrar<br> + Na tão formosa lingua portuguesa<br> + A quem com diligencia o procurar:<br> + <br> + Qualquer, inda que pouca natureza<br> + Tenha, dirá rimando o que quizer<br> + Em estylo corrente e com clareza.<br> + <br> + Tanto que aqui mui bem se póde vêr<br> + Que sendo o meu engenho rude e baxo,<br> + Exprimo quanto tenho que dizer.<br> + <br> + Ou bem ou mal os consoantes acho,<br> + Tão facilmente ás vezes me apparecem<br> + Que para os apanhar me não abaxo.<br> + <br> + Mas julgo que os ouvintes adormecem<br> + Co'a minha longa pratica: eu me calo,<br> + Pois que os gostos d'ouvir-me lhes fallecem.<br> + <br> + Em fim já sem refolho aqui te fallo;<br> + Se os meus versos conseguem felizmente<br> + Fazer dentro em teu peito algum abalo,<span class="pagenum">[31]</span><br> + <br> + Que o teu fado se quebre em continente,<br> + Tornando-te, de louco, homem cordato,<br> + E acabes de ser fabula da gente.<br> + <br> + Tuas acções medindo com recato,<br> + Deixando versos maus, vãos argumentos<br> + Que te fazem de todo mentecato,<br> + <br> + Darei por bem gastados os momentos<br> + Que empreguei n'esta misera escriptura,<br> + Censurando os teus fatuos pensamentos,<br> + E ter-me-hei por mimoso da ventura.<br> +</blockquote> +<hr> + +<h1><a id="cap04" name="cap04">O PALCO PORTUGUEZ EM 1815</a></h1> + +<p>Já n'aquelle anno, em meio da bruteza das nossas platêas, se confrangiam de +magoa e pejo alguns raros entendimentos que vaticinavam a resurreição do +theatro nacional. Almeida Garrett orçava então pelos dezeseis annos. Florecidas +mais seis primaveras n'aquelle precoce espirito, a arte nova lhe desbotoaria as +primeiras flôres da grinalda.<span class="pagenum">[32]</span></p> + +<p>A tristeza dos bons entendimentos, em presença do abatido e nojoso palco +d'aquella época, prenunciava a aurora que alvoreceu, passados quinze annos, com +o primeiro dia da liberdade. As musas, trajadas com elegancia e aquecidas ao +sol de estranhos, repatriaram-se com os desterrados que lá fóra retemperaram o +genio na incude da pobreza, e reviveram nos esplendores da civilisação.</p> + +<p>Um dos liberaes, que emigraram em 1828, e cursavam as aulas em 1815, +escreveu, n'este anno, uma carta ácerca do theatro nacional. Se este escripto +da primeira mocidade não revela vasto estudo nem gentilezas de phrase, com +certeza denota razão esclarecida. O author da carta volveu á sua patria, mais +atido á espada que á penna. Uma e outra lhe cahiram simultaneamente da mão, no +cerco do Porto. Não sei o nome do official que jaz obscurecido na valla dos que +morreram em batalha. Apenas em uma nota que precede a seguinte carta se diz que +o author d'ella, morto na rareada fileira dos mais audazes soldados do +imperador, teria sido um dos melhores cultores das letras que esmeradamente +seguira na emigração. Archivemos o documento que merece ser lido como desfastio +aos indigestos pastelões de historia theatral com que o snr. Theophilo +Fernandes (Joaquim) nos tem intestinado o tedio da leitura:<span +class="pagenum">[33]</span></p> + +<h3>Carta escripta a um amigo em 3 de fevereiro de 1815 sobre a chegada dos +comicos italianos, com algumas reflexões sobre os theatros portugueses.</h3> + +<p>Chegou finalmente a esta cidade a companhia dos comicos italianos, ha tanto +tempo esperada, e hontem fizeram o seu primeiro ensaio. Domingo gordo vão, pela +primeira vez, á scena, onde a curiosidade dos <em>dilettanti</em> é igual á +impaciencia com que viam o theatro de S. Carlos fechado por falta de actores. +Será bem difficil que estes, que chegaram, satisfaçam plenamente a espectação +publica, onde se conserva ainda bem gravada a lembrança dos excellentes +cantores, que tanto nos deleitaram n'estes ultimos tempos, e que brilharam com +a mais bem merecida reputação n'este nosso theatro de S. Carlos, e que +illustraram distinctamente a arte da musica tão agradavel, que a nossa mesma +imaginação figura os anjos, cantando no paraiso a gloria do Deus Supremo.</p> + +<p>Geralmente os portuguezes amam a musica com extremo, e tem um gosto +particular por esta arte, principalmente depois que o senhor rei D. José fez +vir para o seu theatro magnifico, que infelizmente o grande terremoto do anno +de 1755 devorou, os melhores cantores que então havia em toda a Italia. +Depois<span class="pagenum">[34]</span> d'esta época sustentou o mesmo monarcha +a mesma inclinação por esta arte, em que era muito entendido, e á sua imitação +a nação toda se costumou tanto á boa musica, que houve particulares que +chegaram a rivalisar com os mesmos professores. Ainda hoje não teem perdido de +todo este gosto, principalmente os habitantes de Lisboa, que conservam viva a +lembrança do canto melodioso, suave e delicado da Crescentini, de Cafforina, e +da celebre Catalana, que por uma maneira nova de cantar, levaram esta sublime +arte áquelle grau de perfeição, a que ella póde humanamente chegar.</p> + +<p>Não julgo que estes virtuosos, que vieram, sejam iguaes em talentos áquelles +de quem venho de fazer menção. Como não é sómente a arte, mas a natureza +igualmente que os produz, e nem sempre esta é fertil em semelhantes producções, +parece-me que o seu canto não causará nos espectadores o mesmo interesse, com +que todos os lisbonenses corriam para o theatro a ouvir a melodia de vozes, e a +harmonia de accentos, que realisavam os fabulosos das serêas. Como dizem, +porém, que vem duas raparigas que não são mal parecidas, não deixarão de serem +bem applaudidas pela platêa de Lisboa, na qual a mocidade olha sempre com mais +attenção para os agrados da natureza do que para as perfeições da<span +class="pagenum">[35]</span> arte, ás quaes não paga tão grande tributo como á +belleza.</p> + +<p>É muito provavel que d'aqui em diante os bons cantores sejam mais raros na +Italia, onde em outro tempo eram mais communs, não sómente porque os successos +politicos tem influido consideravelmente n'esta parte da Europa sobre os +progressos das artes liberaes, onde nasceram e tiveram o seu berço; mas porque +o infame e detestavel costume da castração, com o fim de fazer as vozes finas, +e bons sopranos, está justamente prohibida por uma lei sabia e judiciosa. Pois +que barbaridade maior podia haver do que condemnarem os paes seus proprios +filhos a uma mutilação que degrada a especie humana, que a inutilisa e que +annulla os votos da natureza em prejuizo das suas mais admiraveis producções? +</p> + +<p>Não poderemos, pois, ouvir d'aqui em diante um novo Echiziel ou um +Crescentini, que modulavam as suas vozes finas á custa do bem que tinham +perdido, por umas notas successivas e prolongadas, que bem longe de moverem a +alma pela força da expressão, a affligiam pelos patheticos esforços de uma +modulação uniforme; mas ouviremos talvez com um prazer mais interessante os +sons masculinos d'aquellas vozes fortes e animadas, que conciliem com os seus +accentos a viva expressão dos sentimentos differentes da nossa alma, em<span +class="pagenum">[36]</span> que um gosto sublime e delicado faz consistir a +perfeição da musica, para o qual não é o melhor musico aquelle que se occupa só +em vencer difficuldades; mas aquelle que, pelas doçuras da harmonia, inspira na +nossa alma, e lhe communica os mesmos sentimentos que exprime no seu canto.</p> + +<p>Qualquer que seja, porém, o merecimento dos novos comicos, é sempre uma +especie de satisfação para os moradores de Lisboa verem o melhor theatro, que +teem, aberto, e terem quem trabalhe n'elle, o que é sempre um grande recurso em +uma grande cidade, destituida de divertimentos publicos, e onde se consome o +homem, e sobre tudo os estrangeiros, á força de uma negra melancolia, não +havendo outro passatempo, que não seja o de algumas sociedades particulares, +onde só apparecem aquelles que possuem grandes meios, para alli ostentarem toda +a sua vaidade, e quasi sempre todo o seu orgulho. É bem verdade que toda a +comica representação, que alli fazem, é quasi sempre á custa da sua bolsa, pois +que é descredito entre elles não jogar. Os gatunos que nunca faltam n'estas +assembléas, nunca perdem a occasião de os depennarem; e os murmuradores e +maldizentes de admirarem o como a fortuna faz de um tolo um homem entendido, e +como transforma um sevandija em um fidalgo cortezão.<span +class="pagenum">[37]</span></p> + +<p>É certo que os invernos são bem custosos de passar em Lisboa sem o recurso +dos theatros, não havendo outro algum divertimento publico, mais do que as +assembléas acima referidas, onde nem todos podem ir, e que nem a todos é +permittido frequentar. Não ha aqui, como em Londres, em Paris, em Vienna, em +Petersbourg e em Veneza salas publicas de baile, onde se passem as noites, e +menos cafés bem compostos, em que todo o homem bem creado acha a melhor +companhia, e onde trava amizade com os homens mais distinctos e que são assás +uteis muitas vezes. Os nossos costumes reservados, e os principios da politica, +de os dirigir pela desconfiança ou pelo temor, em que a policia ganha porque +tem menos que observar e menos motivo para temer que a ordem publica seja +alterada, fazem que estas privações se soffram com toda a paciencia, +contentando-se cada um que não tem os meios competentes para frequentar as +companhias do melhor tom, a ir passar a noite com o seu compadre ou com o seu +visinho, a murmurarem uns dos outros. Sem este recurso ficariam sempre em casa, +semelhantes ás mumias do Egypto, embrulhados nos seus capotes, unico meio de +que se servem para resistirem aos rigores da estação.</p> + +<p>Não faltará quem diga que faço um quadro de Lisboa, no tocante aos seus +divertimentos<span class="pagenum">[38]</span> publicos, menos vantajoso; pois +que uma cidade populosa que tem tres theatros nacionaes, além do italiano, e +uma quantidade immensa de grandes sociedades, que tem nas semanas dias fixos em +que se ajuntam, não está de menor condição n'esta parte ás mais opulentas da +Europa. Esta reflexão, se ficasse sem replica, me attribuiria talvez, na +opinião geral, um espirito de maledicencia que eu não tenho; e para me salvar +de qualquer imputação que n'este particular se me haja de fazer, vejo-me +obrigado a fazer aqui algumas observações sobre os nossos theatros nacionaes, +que pela sua construcção material e pelo genio dos actores, que n'elles +representam, não constituem um divertimento que chame o gosto, o interesse e a +distracção da classe mais escolhida da nação, a quem não fazem grande honra nem +excitam aquella curiosidade que faz frequentar estas escólas dos costumes e do +bom gosto.</p> + +<p>Quanto á construcção destes nossos theatros duvido que se achem, ainda nas +mesmas provincias dos reinos mais civilisados, outros semelhantes ao da rua dos +Condes ou do Salitre. As incommodidades que cada um é obrigado alli a +supportar, não compensam os agrados mais deleitaveis da melhor representação, +ainda no caso que a houvesse. No meio da platêa arde em fogo, nas mesmas noites +mais frias do<span class="pagenum">[39]</span> inverno, o desgraçado espectador +que acha alli lugar; pelos lados da mesma platêa vem um vento encanado pelos +corredores, que atormenta todo o miseravel que occupa estes assentos. Nos +camarotes, que são tão mesquinhos como tudo o mais, estes incommodos são ainda +mais penosos; por entre as frestas das portas entra um frio pelo inverno, que +gela, e que é principio certo de catarrhos, pleurizes e constipações, que +circulam amplamente n'aquelle triste recinto; e quando o espectaculo acaba, nem +lugar reservado, em que se esperem as carruagens, nem modo algum de prevenir os +grandes males, a que cada um fica exposto á porta da rua ou no aperto dos +corredores, até que chegue a carruagem que o ha de transportar. O theatro do +Salitre e o da Boa Hora teem estas incommodidades mais marcadas; de maneira que +todo aquelle que se propõe a ir a algum d'elles passar uma noite, deve ir +disposto a vir doente: se é de verão, pelo nimio calor, se é de inverno, pelo +frio. Assim não conheço um meio mais proprio a quem está em boa saude, de estar +doente, do que ir a um d'estes theatros. Ora, que divertimento póde ter n'estes +espectaculos aquelle, que cuida mais em se livrar dos males a que se vê +exposto, do que gozar das illusões que apresenta á imaginação uma sala de +espectaculo? Se todos estes incommodos, que se compram<span +class="pagenum">[40]</span> por dinheiro, fossem, comtudo, compensados pelo +deleite de uma boa representação, seria ainda assim desculpavel, sacrificar ao +prazer certos incommodos, de que uns não fazem caso por genio, e que outros +desprezam, porque lhes insta a necessidade que sentem de se distrahirem. Mas a +representação é tão insipida e tão enfadonha! Os comicos interessam tão pouco; +e os caracteres que representam são, ou por falta de natureza ou por ignorancia +propria, tão mal sustentados, que não valem a pena de se ouvirem á custa dos +grandes detrimentos que se soffrem, principalmente quando um homem tem o seu +gosto formado pelos bons modelos da arte dramatica, a quem um actor mediocre e +baixo é tão insupportavel, como uma musica desafinada e sem harmonia na sua +composição. Taes são, portanto todos os nossos actores, os quaes entram n'esta +carreira mais com o fim de acharem n'ella uma subsistencia segura e commoda, +que com o nobre intento de adquirirem uma gloria que immortalisou os famosos +nomes de Molière, de Baron, de Garrik e de le Kain.</p> + +<p>Pois que uma casualidade impensada me chegou a ponto de fazer algumas +observações sobre os nossos theatros, não quero perder esta occasião de expor o +meu juizo sobre este assumpto, que aliás é um seguro thermometro, que indica o +grau em que se acha a civilisação<span class="pagenum">[41]</span> e os +costumes das nações. Como escrevo uma carta e não faço uma dissertação, +cuidarei quanto podér de abreviar o meu discurso, que não terá mais que +simplesmente o resultado de fazer vêr quanto Thalia e Melpomene favorece pouco +os engenhos dos portuguezes nas artes a que presidem estas musas, cujas +influencias são tão brilhantes e tão liberaes para outras nações, que cultivam +com o melhor successo esta arte, que nos representa vivamente os vicios e as +virtudes dos homens, assim como tambem os seus defeitos e os seus ridiculos. +</p> + +<p>Podemos seguramente dizer com toda a verdade, que nós, os portuguezes, não +podemos ter a gloria de dizer que temos um theatro nacional, pois que não temos +nem actores dramaticos nem actores capazes de desempenharem estas bellas +composições do espirito humano. Não é de admirar que não haja bons +representantes, onde faltam os poetas; porque aquella mesma natureza, que +inspira o enthusiasmo da imaginação, não deixa de inspirar tambem o gosto +particular da imitação, de modo que é observação demonstrada, que onde os +engenhos sabem conceber os mais brilhantes pensamentos e estudam todos os +movimentos da nossa alma, dirigida pelas suas affeições ou pelos impulsos das +paixões humanas, ahi se encontram tambem aquelles talentos superiores<span +class="pagenum">[42]</span> e naturaes, que na scena representam com toda a +energia e delicadeza aquelles mesmos movimentos; de maneira que parece +realidade o que não é mais que imitação. Garrik, a cada sentimento que exprimia +nos theatros de Londres, mudava de voz e de semblante, como a expressão +requeria; e Molière, em França, ridiculisava com uma graça tal todas as classes +de homens de que se compõe o corpo social, quando a vaidade, presumpção ou amor +proprio as desviava dos principios que a razão prescreve, que todos sentiam em +si o defeito de que elle ria e zombava, para se corrigirem quando se julgavam +objecto dos epigrammas e dos gestos comicos do comediante. Como este mesmo era +o author das suas comedias, não é de admirar que exprimisse com energia aquillo +mesmo que a sua alma sentia com toda a sua força; e é d'este modo que os +theatros, que são as escólas dos costumes, onde se pintam ao natural pela +fealdade do vicio ou pela ridicula pratica que os degrada, preenchem plenamente +o fim para que foram instituidos; pois é evidente que todo aquelle actor que +não tiver meios proprios para penetrar a alma dos seus espectadores pelas mais +vivas e mais naturaes maneiras, figura e gestos da sua representação, não póde +produzir o effeito que esta admiravel arte de imitação é capaz de produzir, e +sem o qual effeito, uma sala<span class="pagenum">[43]</span> de espectaculo +não é mais do que uma camara optica em que os sentidos podem gozar de algumas +momentaneas illusões, mas onde a alma jámais se deixará possuir d'aquelles +prestigios do sentimento que faz amar a virtude e detestar o vicio, nas peças +tragicas, e nas comicas, temer o amargoso fel da critica que corrige o homem, +fazendo mofa dos seus costumes que pinta, quando são ridiculos, ao natural.</p> + +<p>É para notar que os engenhos portuguezes, dotados, como todos os mais que +gozam das dôces influencias do céo puro e crystallino do meio-dia, de uma viva +e ardente inclinação para as artes de pura imaginação, principalmente a da +poesia, se contentem só de a cultivarem á margem dos rios e á sombra dos +arvoredos, onde suspiram pelas suas amadas, em versos sim, amorosos e +sentimentaes, mas que só fallam de amor, de saudades, de ciumes e de +ingratidão. Um só d'estes genios favorecidos das musas tem aspirado á gloria de +rivalisar com Euripedes ou com Sophocles, de igualar a Plauto ou a Terencio, e +aquelle que tem intentado dar alguns passos na carreira dramatica, tem sido com +tão infeliz successo, que parou no principio d'ella. Muitas vezes tenho pensado +sobre a causa por que os nossos poetas, sendo inspirados de um estro proprio a +todo o genero de versificação, só para<span class="pagenum">[44]</span> o +theatral não teem os talentos requeridos; e por resultado das minhas +observações a este respeito, tenho colhido a idéa de que para compôr uma +ecloga, um idyllio, uma epistola ou uma elegia, basta ao poeta exprimir os seus +proprios sentimentos em bons versos e harmoniosos para ter um nome distincto no +Parnaso: mas para compôr uma tragedia ou uma boa comedia de caracter, é preciso +exprimir com elegancia, pureza e enthusiasmo os sentimentos dos outros, que é +absolutamente necessario conhecer e aprofundar para os saber desenvolver pela +acção. Ora este conhecimento não se adquire senão por um grande uso do mundo, e +por um tacto particular do coração do homem e de toda a natureza humana em +geral; mas este grande livro não se acha nas livrarias escripto, acha-se +espalhado no tumulto da sociedade, onde os homens desenvolvem todas as suas +idéas, todos os seus sentimentos, as suas paixões, os seus vicios, os seus +crimes e o seu heroismo. É n'este livro que o poeta dramatico aprende a pintar +na scena as virtudes de Catão e as ridiculas maneiras de um villão afidalgado; +mas se o poeta, concentrado no fogo do seu amor, não conhece senão Damiana a +quem dirige seus ais e seus queixumes, como ha de pintar as paixões dos homens +e os seus ridiculos caprichos? Esta ignorancia me parece ser a causa por que +os<span class="pagenum">[45]</span> poetas portuguezes não consagram as suas +musas mais que simplesmente ao amor a que os chama uma natural ternura, e o +conhecimento de uma paixão, que elles conhecem melhor que quaesquer outras, e +que explicam com mais sensibilidade e doçura. Nunca sahindo dos seus lares, +vivendo em um pequeno circulo, uma imaginação, por mais poetica que seja, não +póde produzir grandes e brilhantes concepções; e por consequencia, se conceber +o plano de uma tragedia, que, segundo a opinião de mr. de la Harpe, é a obra +prima do espirito humano, onde ha de ir buscar a materia para os debates? Se +quizer compôr uma comedia, apenas saberá ridiculisar os defeitos do seu visinho +tendeiro ou sapateiro.</p> + +<p>Para provar que o cothurno não é feito para os nossos poetas lusitanos, +basta lembrar que o assumpto da morte tragica da rainha D. Ignez de Castro, +assumpto dos mais interessantes que tem apparecido em scena, tanto nos tempos +antigos como nos modernos, tem apurado o estro dos nossos poetas portuguezes, +não só pelo interesse da acção, mas por ser a acção passada entre nós, e que +para excitar a compaixão tem de mais a historia que a proclama verdadeira. Tres +ou quatro tragedias temos na nossa lingua portugueza d'este infeliz successo, e +uma só d'ellas o immortalisa pelas bellezas dramaticas, que pouco ou nada<span +class="pagenum">[46]</span> correspondem a um assumpto igualmente sublime que +pathetico. Não fallo da primeira e mais antiga de Antonio Ferreira, que passa +aliás por poeta classico entre nós, e na qual se não acha a força de +sentimentos, a violencia das paixões, postas em jogo para trazerem +imminentemente a catastrophe que finalisa a tragedia. As scenas sem ligação, a +intriga mal combinada e tão descoberta pelo dialogo, que todo o espectador +conhece, desde o primeiro acto, qual será o fim da peça. Não fallo n'estes +dialogos, em que as personagens que os declamam não tem bastante força para +mostrarem todo o horror da inveja que instiga e anima os cortezãos orgulhosos +da côrte de D. Affonso IV para sacrificarem ao furor d'aquella paixão o amor +fino, legitimo e innocente de dous corações ternos, ligados pelos dôces e +sagrados laços do hymeneu. Os córos que o author Ferreira introduziu por +intervallos dos actos d'esta sua tragedia, á maneira dos gregos, é o que ha +n'ella de melhor, por serem compostos de uma bella poesia, e tão pathetica, que +movem o coração á maior sensibilidade. Outra tragedia, que temos sobre o mesmo +assumpto, composta por o arcade Alcino não tem merecimento algum: as regras do +theatro não são observadas; a versificação é languida e sem elegancia; os +sentimentos friamente exprimidos, e os actores sempre sustentando um +caracter<span class="pagenum">[47]</span> forçado e não tirado da natureza da +acção, d'aquella acção que deriva de paixões complicadas e violentas, que +deviam ser mais energicamente desenvolvidas. Esta peça não tem regularidade nem +entrecho de uma tragedia; é um drama feito á imitação dos de Metastasio, que +não é poeta tragico, pois que além dos seus dramas interessarem geralmente mais +pela musica do que pelo desenvolvimento da peça, este vem muitas vezes no +segundo acto, e o terceiro é composto então de incidentes accessorios, quasi +sempre insipidos e frios, porque n'elles não ha acção. Lembra-me ha annos vêr +representar no theatro do Bairro Alto uma tragedia de D. Ignez de Castro tirada +de uma comedia hespanhola de Don Calderon de la Barca, intitulada <em>Reynar +despues de morir</em>. Esta peça foi geralmente applaudida e gostada pela +energia e força de alma, com que uma actriz, chamada Cecilia, representou o +papel de D. Ignez de Castro; mas esta peça deveu ao genio e aos talentos d'esta +actriz o bom successo que teve, pois que examinando a contextura da peça, ella +tinha os defeitos da hespanhola, em que não havia mais que tiradas de bons +versos; mas pouca ou nenhuma verdade na acção; pois que, depois da morte d'esta +infeliz princeza, apparecia uma scena em que o seu cadaver, sentado debaixo do +solio, era coroado e solemnemente<span class="pagenum">[48]</span> proclamado +pelo seu amante, já rei, e por todo o seu povo como sua legitima rainha, e isto +muito tempo depois de ter sido a victima das paixões dos cortezãos, invejosos +de verem a familia dos Castros sobre o throno de Portugal. Esta scena, que pela +sua magestosa decoração fazia todo o interesse d'esta peça, não parece ser uma +segunda acção, que se representa? onde está pois a unidade da acção tragica, +que é o primeiro preceito da tragedia? A coroação da rainha na mesma peça é tão +irregular, quanto é novo de sentar em um solio o cadaver de uma princeza, +assassinada no seu proprio palacio, muito tempo depois de enterrada no silencio +de um sepulcro. Passemos todas estas incongruencias, que sómente trago á +lembrança para mostrar que a poesia dramatica não é largamente distribuida +pelas musas aos portuguezes.</p> + +<p>N'estes ultimos tempos appareceu entre nós, sobre o mesmo assumpto, uma +tragedia com o titulo de <em>Nova tragedia de Ignez de Castro</em>. Esta peça +observa melhor os preceitos do theatro; a sua versificação é em algumas scenas +elegante e sentimental; mas em outras não conserva esta igualdade. O fim ou o +desatado da intriga é a catastrophe, que vem um pouco precipitada e não trazida +por um jogo de paixões, susceptiveis de modificações differentes, que levam o +coração humano ao excesso da<span class="pagenum">[49]</span> paixão que agita +e move os animos; o que faz que os dialogos são curtos e as scenas ainda mais. +A da entrevista de Affonso IV com D. Ignez de Castro, que é uma das mais +interessantes da peça, não póde satisfazer os espectadores, que vêem que um rei +se occupa da sorte da infeliz Castro, de quem se separa, dizendo-lhe que vai +para o conselho de estado, onde ella ha de ser julgada, e alli elle advogará a +sua causa. Que enormes incongruencias! O rei tem no seu poder o perdoar-lhe; +não é uma acção generosa salvar a innocencia das mãos que pretendem banhar-se +no seu sangue? O conselho de estado não é um tribunal judiciario, que é só quem +póde julgar e condemnar. E um ajuntamento de conselheiros, que o rei convoca +para tratar da sorte de D. Ignez de Castro, como um negocio simplesmente +politico. E então que triste personagem faz elle em advogar pela infeliz +Castro, diante não de ministros que a julgam pelas leis, em que elle mesmo póde +dispensar, mas diante de conselheiros invejosos, que verdadeiramente são +algozes! Esta scena podia ser conduzida mais nobremente, conciliando a bondade +do rei, que se mostra interessado a favor de Castro, com a dignidade da sua +corôa, que póde ser enganada pelo artificio dos seus conselheiros, a quem é +indigno da sua parte dar-lhes consentimento para serem os executores de um +assassinio.<span class="pagenum">[50]</span> Estas delicadezas não escapariam a +Racine nem a Voltaire, se tratassem esta materia, porque, exactos observadores +de tudo o que é decente e decoroso, não atropellariam tão facilmente o respeito +da magestade, fazendo-a instrumento de crimes odiosos em um theatro em que um +monarcha, se pelas paixões é um homem como outro qualquer, pela soberania é +sempre executor da lei.</p> + +<p>Alguns outros poetas n'estes tempos posteriores teem ensaiado o seu estro +n'este genero de composição. A condessa de Vimieiro compoz uma tragedia, que +foi laureada pela academia das sciencias de Lisboa, mais por favor que por +justiça. Um certo Francisco Dias, homem só conhecido pelos seus talentos +litterarios que cultivou no lugar humilde de uma tenda, compoz outra, cuja +sorte foi, segundo creio, ainda mais infeliz do que a da condessa; e tantos +esforços juntos não tem produzido um bom poeta tragico em Portugal que possa +pôr-se ao pé do grande Corneille ou do sentimental Racine, mas ainda junto dos +mais mediocres poetas tragicos do theatro francez. Esta inopia não vem ella do +principio que acima já apontei? Para Raphael pintar uma obra prima no +inimitavel quadro da transfiguração de Christo, foi preciso que a sua +imaginação sublime lêsse no grande livro do universo todas as bellezas da +natureza, para as saber pintar<span class="pagenum">[51]</span> com +propriedade, e conforme as suas primitivas creações; para um poeta tragico +reproduzir o caracter de Catão, de Cesar, de Marco Antonio, de Brutus e da +infeliz Dido, é necessario que entre com a sua imaginação no immenso theatro do +mundo e contemple a variedade de successos que os interesses dos homens, as +suas paixões, os motivos que as põem em acção, os progressos que fazem sobre as +suas almas para virem a dominal-as com despotico poder, os crimes e as acções +infames de que são causa, a degradação, em fim, da intelligencia humana, quando +de todo se sujeita á perversidade do vicio e se entrega á corrupção dos +costumes: sobre este quadro immenso a imaginação quer um campo largo para o +contemplar, examinar e estudar; mas este campo falta aos nossos poetas, que +levados do gosto dominante da nação, que tem por objecto o amor, não são +pintores para retratarem grandes caracteres, nem teem imaginação bastante para +darem aos grandes successos uma fórma que mostre todos os horrores dos vicios e +todas as bellezas das virtudes, que é o principal objecto das tragedias.</p> + +<p>Se este genero de composição não tem dado nome a poeta algum portuguez, +menos se teem elles distinguido na comedia, pois que não temos uma, não digo +boa, mas ainda muito mediocre. Parece que as musas são ainda n'esta<span +class="pagenum">[52]</span> parte mais avaras com os engenhos portuguezes, que, +sendo os primeiros que abraçaram logo as artes graciosas, que no seculo XV a +fortuna transplantou da Grecia para a Italia, onde acharam um benigno +acolhimento, foram aquelles que por meio dellas menos gloria teem adquirido. As +comedias que os nossos poetas do nosso seculo de Augusto—que é o d'el-rei +D. João III—nos deixaram, não merecem sequer o nome de comedias; o que me +não faz espanto, pois que Portugal então não tinha um só theatro, mais que o +dos campos de Marte, e onde não ha theatros não ha quem componha comedias. A +nossa feliz época da boa litteratura passou, e Camões ficou conhecido pelo +primeiro poeta das Hespanhas pelo seu poema lyrico e não pelas suas miseraveis +comedias, e a mesma sorte tiveram os seus contemporaneos que molharam o seu +pincel na paleta de Melpomene. Os castelhanos que se senhorearam de Portugal, +se distinguiram, mais que nenhuma outra nação da Europa, na arte de +Aristophanes e de Menandro; porém não nos passaram este gosto, ou os +portuguezes o não quizeram seguir, talvez por ser de uma nação que aborreciam. +Como quer que seja, a arte dramatica foi inteiramente desprezada em Portugal, e +o bom gosto da litteratura tendo-se corrompido n'este paiz pelos successos +politicos, por que passou, fez totalmente esquecer<span +class="pagenum">[53]</span> aos poetas do tempo este genero de composição. Elle +se limitava só a alguns autos sacramentaes, que se representavam popularmente +em festas de igrejas e nos adros dos templos. As vidas dos santos davam +assumpto para muitos d'estes autos, que correm ainda entre nós; e a piedade +christã ia buscar n'estas representações mais estimulos para amarem a religião, +do que motivos para cultivarem uma arte que, segundo Horacio, <em>castigat +ridendo mores</em>. Não tenho idéa, nem pela historia nem por tradição alguma, +que em Portugal houvesse um theatro em que se representassem comedias +portuguezas, de que não appareciam authores, ou pelos embaraços da longa +guerra, que houve n'este reino para sustentar a corôa na casa de Bragança, que +não deram lugar para a applicação das artes, ou porque os portuguezes não +quizeram imitar os seus inimigos, exercitando as suas musas na poesia dramatica +em que os hespanhoes excediam a todas as outras nações da Europa. Estes não +tinham theatros fixos; companhias ambulantes de comediantes, de que lemos na +historia de <em>Gil Blaz</em> a descripção tão circumstanciada como critica. +Corriam de villa em villa, a recitar as comedias de Calderon, Moreto, Solis, +tres «Ingenios» que inundavam toda a Hespanha, em tanto que o espirito dos +portuguezes se contentava com os seus autos sacramentaes de<span +class="pagenum">[54]</span> <em>Santa Genoveva</em>, <em>de Santo Aleixo</em> e +outros semelhantes, que se davam ao publico em espectaculo nos dias das maiores +festividades da igreja. Assim não se sabia entre nós o que era uma boa comedia, +e n'esta ignorancia vivemos até que no principio do seculo passado appareceu o +judeu Antonio José, que compoz um theatro de operas, as quaes nem pela poesia, +pois que são em prosa, nem pelos titulos, que são <em>Labyrintho de Creta</em>, +<em>Encantos de Medêa</em> e outros iguaes podem chamar-se comedias, ou porque +trazem misturada musica de recitados e de arias, á maneira dos italianos, ou +porque lhe falta aquelle caracter que distingue a comedia, e que Molière só +fixou em França na época feliz da sua mais brilhante litteratura. Aquelle +engenho, porém, infeliz pela fórma das suas composições dramaticas e mais ainda +pela miseravel sorte que teve de ser condemnado a morrer queimado pelo santo +officio, foi comtudo, o primeiro que viu as suas operas representadas no +theatro do Bairro Alto, o primeiro que houve em Lisboa e onde os representantes +eram bonecos que se moviam por arame e que fallavam pelas vozes dos +interlocutores, que se mettiam por entre os bastidores. Tal era o estado em que +se achava a arte dramatica em Portugal, quando já Molière brilhava em França +como o restaurador dos theatros de Grecia e Roma, pelas<span +class="pagenum">[55]</span> suas admiraveis comedias e como um modelo perfeito +da mais decente, entendida, natural e agradavel representação que até então não +tinha apparecido em algum theatro do mundo antigo e moderno.</p> + +<p>Nem este excellente author, que deu tanta gloria á França como Aristophanes +tinha em outro tempo dado a Athenas, nem o genio particular que a natureza lhe +tinha dado para imitar na scena as differentes personagens, que como author era +obrigado a representar, causaram o mais pequeno estimulo aos engenhos +portuguezes para o seguirem na carreira dramatica. As suas musas ficaram mudas +n'este ponto, até que el-rei D. José, apaixonado pela musica, logo que subiu ao +throno, mandou construir um magnifico theatro; e mandando vir da Italia os mais +celebres musicos para cantarem n'elle as peças de Metastasio, extinguiu de todo +o gosto da nação pelas comedias em lingua vulgar. Quem poderá deixar de +reflectir que houvesse theatro nacional em uma nação em que o rei não gostava, +e, por conseguinte, o não protegia? Não o havia, pois—nem comedias para +se representarem, no caso de o haver; porque, como já disse, a poesia n'este +genero emmudeceu em Portugal. O theatro real era tão magestoso que não admittia +mais que pessoas de qualidades superiores; e as que ficavam mais abaixo não +indo a elle ignoravam<span class="pagenum">[56]</span> o que era uma comedia, +uma tragedia e os mesmos dramas em musica, que se punham no theatro real. +Succedeu o fatal terremoto de 1755; arruinou-se com a maior parte da cidade +este sumptuoso espectaculo, e, até que a confusão d'aquella calamidade se +ordenou, nem el-rei teve theatro nem o povo. Mas no anno de 1758 abriu-se o da +rua dos Condes, que ainda hoje existe nas ruinas do palacio do marquez do +Louriçal, com algum augmento que teve, depois da sua primitiva creação. As +peças que ao principio n'elle se representavam eram as operas de Metastasio +traduzidas em portuguez, <em>Artaxerxes</em>, <em>Alexandre na India</em>, +<em>Demofonte em Thracia</em>, <em>Ezio em Roma</em>, etc. com relações á +maneira hespanhola, e mil bufonerias, que d'aquelles bellos dramas faziam as +peças mais ridiculas que se podiam pôr em scena; e, para tornar o theatro de +todo desprezivel, eram homens vestidos de mulheres que representavam o papel de +Erytrêa e das mais damas das peças e suas criadas, que os traductores +introduziam para fazerem rir a plebe. Um só poeta appareceu com uma composição +dramatica que fosse digna de apparecer em scena; e os directores d'este +miseravel theatro pozeram em contribuição poetas hespanhoes e italianos para +sustentarem o theatro.</p> + +<p>Alguns annos depois um novo empresario estabeleceu um theatro no Bairro +Alto, não<span class="pagenum">[57]</span> onde havia o dos bonecos em tempo +mais antigo, mas nas ruinas do palacio do conde de Soure, cuja abertura foi com +uma companhia de musicos italianos que foi buscar a Londres. Esta empresa não +durou muito tempo, e aos italianos succederam os portuguezes com o mesmo +successo que tinham os da rua dos Condes, que podiam chamar-se actores de +arraial. Este theatro do Bairro Alto de todo acabou e succedeu-lhe o do +Salitre, que se conserva sem melhoramento algum que possa acreditar os engenhos +portuguezes, que, nem pelas suas composições, nem pelo jogo da representação, +tem dado á sua patria a gloria de ter um theatro nacional.</p> + +<p>N'esta curta narração historica dos theatros portuguezes tenho feito vêr o +pouco progresso que a arte dramatica tem feito em Portugal. Não é de admirar, +porque onde os talentos superiores não são apreciados com justiça e +recompensados com a grande estimação que lhe é devida, nem podem produzir +fecundos fructos na arte theatral, que fazem as delicias do homem de gosto fino +e delicado das cidades mais opulentas da Europa, nem terem a esperança de vêr +seus nomes inscriptos nos monumentos que os homens gratos lhes consagram. As +artes não florecem senão quando são immediatamente protegidas e estimadas pelos +soberanos; e quer seja poeta, quer seja actor,<span class="pagenum">[58]</span> +se tem talentos distinctos, não merece a attenção e a estimação do seu +principe, quem contribue para fazer a sua gloria mais brilhante? Os seculos de +Augusto, de Leão X e dos Medicis de Florença, o de Luiz XIV em França não +provam esta verdade? Não me detenho em amplificar estas minhas idéas com outras +razões, porque não padece duvida que a memoria dos soberanos que se tem +pronunciado protectores das bellas-artes vive ainda nos padrões que ellas lhe +tem erigido, entretanto que a dos mais famosos conquistadores ficou confundida +nos estragos que fizeram. Infelizmente os nossos soberanos portuguezes tem +esquecido esta verdade, como muitas outras, e deixaram morrer Camões, que dá +tanta gloria a Portugal, em um hospital. Desde esta desgraçada época tem sido +os poetas n'este paiz tão pouco venturosos pela sua arte, que o nome de poeta +só entre nós é synonymo de pobre e de miseravel. Que comedias, que tragedias +boas podia pois haver em um tal paiz?</p> + +<p>Se não podemos competir com as nações que cultivam as bellas-artes n'este +genero dramatico, menos ainda os actores dos nossos theatros podem rivalisar +com os das outras nações que tem formado já um gosto apurado e exquisito +n'aquella parte que se chama representação. Ella não é mais do que uma simples +imitação da natureza, que é o primeiro principio<span +class="pagenum">[59]</span> que deve seguir todo o bom actor. Separar-se d'elle +por acanhamento ou por excesso, não acompanhar de gestos correspondentes as +expressões, não saber desenvolver pelas attitudes os sentimentos que tem para +declamar ou recitar, deixar-se transportar por estes sentimentos sem faltar á +dignidade e á decencia que exige a personagem que representa, pronunciar com +clareza e energia o que lhe compete dizer, e mostrar pela physionomia que o que +diz vem do fundo da sua alma, sem estudo nem affectação, são as circumstancias +principaes que formam um bom actor. Ora examinemos quaes dos nossos as sabem +pôr em uso. Os grandes artistas desenvolvem os seus talentos estudando a +natureza e seguindo os modelos que aprenderam a imital-a. Guido, Carrache, +Albano devem a admiravel belleza dos seus quadros a este estudo singular de +imitação; mas onde podem achar os nossos actores modelos, a quem possam imitar +e talvez exceder? Não fazem estudo algum da natureza; ensaiam os seus papeis +como simples obreiros, que tem uma empreitada a fazer e que hão de acabar seja +como fôr; e n'esta parte o povo que compõe a platêa dos nossos theatros é o +mais tolerante povo do universo, pois que soffre com a maior paciencia todos os +actores bons, maus, medianos e incapazes de apparecerem. Por isso<span +class="pagenum">[60]</span> nunca aspiram áquella superioridade, em que o bom +gosto, dirigido por um discernimento perspicaz e por uma critica sã e +judiciosa, faz consistir a gloria do grande talento. Molière, o primeiro +restaurador da comedia, como já disse acima, foi tambem o primeiro actor da +França. Conta-se d'elle que os papeis que representava recitava-os antes a uma +criada que tinha, que decidia, como intelligente, da sua boa ou má +representação, e como bom juiz corrigia e emendava os seus defeitos. Um dia +Molière, para melhor se convencer da intelligencia d'esta sua criada, +recitava-lhe um papel de um author estranho, que fazia uma grande differença +d'aquelles que eram composição d'aquelle homem inimitavel; ella conheceu logo o +engano, e voltando-se para o amo lhe disse: «Vós representaes as vossas +comedias como um exellente actor; mas essa que ensaiaes nem é vossa, nem vos +fará applaudir.» Eis aqui como a applicação, o estudo e o modo de estudar +secunda os dons da natureza: ora qual dos nossos actores tem imitado a Molière? +Qual d'elles tem sido capaz de apurar o seu talento, se o tem, por um modo tão +novo e tão extraordinario?</p> + +<p>É difficil que um homem, que tem algum conhecimento de theatros, possa +aturar a representação dos nossos comicos portuguezes, sempre affectada, sempre +fóra do natural e<span class="pagenum">[61]</span> sempre exprimida em vozes +altisonantes, e cujos dialogos acabam geralmente em um hiato desagradavel e +musical, estylo que não é proprio de quem conversa, que é o que compete á +comedia, a qual representa um facto, um caracter, uma intriga, que se explica +por uma conversação natural e semelhante ás que se fazem nas sociedades. Se a +este estylo declamatorio ajuntarmos o excesso com que os criados ou criadas que +vem á scena desempenham os seus papeis em gracejos que divertem o publico e que +pela maior parte são insipidos, e sem outro interesse mais que o da risota, +acharemos que está entre nós tão atrazado o jogo da representação theatral, que +os nossos actores em seguindo bem o ponto, que lhes indica o que hão de dizer, +são proprios para todas as personagens, e por conseguinte bons para nenhuma. +</p> + +<p>Lembra-me ha annos ir ao theatro da rua dos Condes assistir á representação +da tragedia intitulada <em>A Vestal</em>, que traduzira em portuguez com +elegancia o celebre Bocage. Esta peça tragica, susceptivel da mais brilhante +representação pelo seu assumpto e pelos grandes interesses que n'ella se +tratam, foi desgraçadamente tão mal representada, que pela parte que me toca +não me fez a menor sensação. Quantas vezes disse commigo mesmo: «Ah! +famoso<span class="pagenum">[61]</span> Talma<sup><a href="#fn1" id="mfn1" +name="mfn1">[1]</a></sup> que estiveste em Londres muitos annos com o fim de +reunires os talentos da arte theatral dos dous paizes, que os sabem tão bem +apreciar! se tu aqui estivesses, como verias esta excellente peça despedaçada +por semelhantes actores?» Em uma das scenas apparece o grande pontifice que +deve fazer executar a lei imposta ás vestaes sacrilegas e criminosas; reconhece +que sua filha é a delinquente accusada; que conflicto de grandes e violentos +sentimentos da religião e da natureza não devem combater a alma de um pai, que +sendo igualmente pontifice ou ha de faltar á observancia da lei, primeira +obrigação do homem, ou ha de calcar os estimulos quasi invenciveis da natureza, +sacrificando o seu proprio sangue á vindicta da lei? Que genio, que talentos, +que energia de caracter não são precisos para desenvolver toda esta opposição +de sentimentos que combatem o coração humano de uma e de outra parte? O pobre +miseravel actor era um automato no meio do theatro, e sem duvida eu tive tanta +afflicção de vêr a sua insufficiencia pessoal, como aborrecimento de vêr a +indifferença com que o povo portuguez soffre semelhantes actores, a quem<span +class="pagenum">[63]</span> convém mais propriamente uma enxada, do que a +profissão de uma arte para a qual lhes faltam todos os requisitos. Esta peça +me desenganou inteiramente da mediocridade dos nossos actores portuguezes e do +estado miseravel em que estão os nossos theatros nacionaes, que tem a desgraça +de verem estropeados nos seus proscenios as mais admiraveis producções do +espirito humano.</p> + +<p>Tenho dado uma curta idéa do pouco que a poesia dramatica concorre n'esta +parte para a gloria nacional, assim como do pouco que os nossos actores +contribuem para fazer brilhar uma arte que os povos mais polidos amam com tanto +excesso, porque n'ella acham uma dôce e agradavel distracção aos seus negocios +civis, quando ella é cultivada principalmente por aquelles talentos sublimes +que ennobrecem tanto as nações que os viu nascer e creou, como a mesma arte que +souberam aperfeiçoar.</p> + +<p>Os limites de uma simples carta não me permittiram que eu tratasse este +assumpto com aquella extensão que elle requeria para desilludir os muitos +ignorantes que se persuadem da boa direcção dos nossos theatros e dos grandes +talentos dos nossos actores. Contentei-me unicamente com tocar este ponto pela +superficie conforme convinha a uma simples carta, em que a casualidade quiz que +o fizesse entrar, a fim de dar a conhecer o<span class="pagenum">[64]</span> +nosso grande atrazamento n'esta parte; e creio que algumas das minhas +observações não serão frivolas na opinião d'aquelles que tem frequentado os +theatros estrangeiros, em que as peças que se representam n'elles concorrem tão +poderosamente para a educação publica se ir aperfeiçoando cada vez mais, o que, +a meu vêr, é o principal objecto da instituição dos theatros.</p> + +<p>O povo de Lisboa não gosta com preferencia senão de farças e entremezes, por +que só quer rir e divertir-se com as baboseiras que se dizem n'elles; mas é +porque não conhece ainda a grande utilidade que poderia tirar de uma escóla de +costumes e de maneiras que lhe quadrariam melhor que as muitas chalaças que +ouvem, que lhes pervertem toda a inclinação que poderiam ter para aprenderem a +ser polidos, decentes, modestos e virtuosos cidadãos—o que as peças +theatraes que estão vendo representar, todos os dias, lhes não ensinam.</p> + +<p>Adeus, meu bom amigo; perdôe esta matraca que lhe dou em favor do espirito +com que a escrevi, que é o do bem publico, que se estende tambem a este ramo, +que produz os fructos delicados do bom gosto, o qual se adquire nos theatros, e +d'aquella urbanidade que não é filha da imitação; mas de uma intelligencia +dirigida pela razão—tão util ao homem<span class="pagenum">[65]</span> na +sua condição particular, como gloriosa para a nação a que elle pertence.</p> + +<p>Sou sinceramente</p> + +<p style="text-align: right;">amigo fiel e affectivo</p> + +<p style="text-align: right;"><em>M.</em></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#mfn1" id="fn1" name="fn1">[1]</a></sup> Talma, primeiro actor +tragico do theatro de Paris.</p> +</div> +<hr> + +<h1><a id="cap05" name="cap05">BIBLIOGRAPHIA</a></h1> + +<p class="sc" style="text-align:center;">(Padre Senna Freitas—Cunha +Vianna—Monsenhor Joaquim Pinto de Campos)</p> + +<p><em>Padre Senna Freitas.</em> <span class="sc">No presbiterio e no +templo</span>, vol. I, <em>Livraria Internacional de E. Chardron. Porto. +1874.</em>—Este primeiro tomo comprehende dezesete artigos que se +rivalisam na excellencia da doutrina e da linguagem. Alguns, sem destoar da +seriedade do livro, movem o leitor a um sorriso complacente. N'este genero, +estrema-se o intitulado <em>Asphyxia... pela imprensa</em>. Tem resaltos de +graça e nervo epigrammatico. Faz lembrar as paginas felizes de Luis Veuillot +nos <em>Odeurs de Paris</em>. «Livros, opusculos, livrorios, livrecos,<span +class="pagenum">[66]</span> nacionaes, nacionalisados, <em>in folio</em>, +<em>in quarto</em>, <em>in octavo</em>, em dezeseis; obesos, normaes, anemicos, +succulentos, indigestos, aquosos; edicionados aos mil, aos dous, aos tres mil, +de mais de dez a menos de dous tostões; impressos a capricho, moldurados, +coloridos, iriados, rendilhados, casquilhos.» (Pag. 215 e 216).</p> + +<p>Recenseia d'esta arte o snr. padre Senna Freitas as producções asphyxiosas; +mas não se deprehenda que elle, o illustrado escriptor respiraria melhor +oxygeneo em regiões onde escasseassem prelos e authores. O que o suffoca é o +gaz acido carbonico das inepcias em dicção, em philosophia, e em moral. Contra +as da linguagem protesta o snr. Senna Freitas, abrasado nas risonhas coleras do +padre Francisco Manoel do Nascimento: «Pois ha nada comparavel em elegancia +castiça de terminologia áquellas paginas e áquellas columnas arrebicadas de +gallicismos, e anglicismos tão expressivos e engraçados que deixam a nossa +lingua corrida? Travemos, por exemplo, d'uma gazeta (salvas, bem entendido, as +que fazem honra ao jornalismo). A pouco fundo, já lá apparecem a boiar os +«meetings», os «comités», as recriminações do articulista contra as «chicanas» +parlamentares, e as «coalições» ministeriaes, e o estylo por demais «descosido» +em que se exprimiu o deputado fulano de tal, etc... Passemos á revista +interna<span class="pagenum">[67]</span> e noticiosa—prosegue o analysta +bem humorado.—Acaba de dar-se um successo tristemente «remarcavel» que o +noticiador conta «em detalhe» aos leitores, «tirando d'elle partido» para fazer +uma discreta consideração moral. Em seguida, dá um leve «golpe de vista» pelo +«high-life» da terra, e analysa o ultimo livro publicado por... que é na sua +apreciação um verdadeiro «chefe d'obra.» (Pag. 219).</p> + +<p>E assim, com razão e discreto sal, o esclarecido moço, que tão digna e +exemplarmente allia o viçor da idade ao respeito do habito clerical, vai +desfiando o ruim tecido dos maus livros, quer na fórma, quer na substancia.</p> + +<p>Culpa os romances nimiamente realistas de perversores dos bons costumes: «Ha +o romance serio, instructivo, philosophico, moral, espiritualista, da tempera +do <em>Promessi Sposi</em> de Manzoni, que nos transporta a uma atmosphera +salubre, onde se respira um ar impregnado de oxygeneo; que photographa todo o +lado bello, puro e grande da humanidade. E ha o romance enervante, declinação +insipida e interminavel d'<em>elles</em> e d'<em>ellas</em>; o romance bohemio +ou cigano, composto pelo mancebo apaixonado, que come no <em>restaurante</em> +de terceira classe, e morre etico aos vinte e cinco annos; e o romance realista +ou positivista, ainda peor que o precedente, sem ideal algum; condensado de +todos os miasmas da lama, de todas as corrupções do esphacelo, e de todos os +sarcasmos e negações do atheismo, sem outra esphera por conseguinte mais que a +materia pura, só por uma ironia de mau gosto chamado <em>a alma nova</em>.» +(Pag. 227 e 228).</p> + +<p>Acato a opinião do snr. Senna Freitas, quanto ás novellas descriptivas da +vida contemporanea; mas desliso da severidade do seu juizo. Creio que assim +como os bons e moralissimos romances não morigeram, tambem os immoraes não +desmoralisam. Não são os romances que formam os costumes bons e maus; são os +costumes que fazem os romances. E casos ha em que as novellas saturadas de +virtude são inverosimeis e puramente phantasticas. Eu já escrevi algumas, +nomeadamente as <em>Lagrimas abençoadas</em> e as <em>Tres irmãs</em>. Ninguem +acreditou aquillo; e toda a gente aceitou como copias do natural <em>Os +brilhantes do brazileiro</em> e <em>A mulher fatal</em>—dous livros +miasmaticos, que só podem lêr-se com o interior do nariz plantado de alfadega e +mangericão. Quando o marquez d'Urfé escrevia as suas novellas pastoraes, +embrincadas de polidissima cortezia nos amores, vivia-se em França, pouco mais +ou menos, como nos romances de Soulié, de Kock e de Feydeau. Ha de tudo. Ha +muitissima gente honesta que lê a <em>Lelia</em> de Sand, e muitissima gente de +ruins manhas que lê a<span class="pagenum">[69]</span> <em>Fabiola</em> do +cardeal Wisemann. Sem embargo estes reparos não desluzem a efficacia das +considerações do snr. Senna Freitas.</p> + +<p>Da summa do seu livro direi, com sincera admiração e devida justiça, que se +revela ahi um excellente escriptor, um padre illustradissimo, um homem de bem, +um argumentador convicto e em grande parte irrefutavel. D'este modo ajuiza o +author da sua obra: <em>É um livro christão que não fará ruim companhia junto +ao lar das boas familias: nada mais.</em></p> + +<p>É muito mais; porque afervora as crenças tibias, alvoroça as almas +marasmadas na indifferença religiosa, descondensa a escuridade que fez noite +algida nos corações abatidos pela desgraça. O snr. Senna Freitas nobilita o +clero portuguez e honra as letras patrias. Se não fosse a palavra +<em>religião</em>, quem explicaria tão obscura vida em tão alumiado espirito? +</p> + +<p>Congratulo-me com o meu benemerito amigo Ernesto Chardron, quando vejo entre +as edições da sua copiosa livaria a estreia gloriosa do snr. Senna Freitas.</p> +<hr style="width: 20%;"> + +<p><em>Cunha Vianna.</em> <span class="sc">Relampagos</span>, com um prologo +por <em>João Penha</em>. <em>Livraria Internacional. Porto, 1874.</em>—O +author está na primeira florecencia<span class="pagenum">[70]</span> dos annos. +Reçumbra-lhe do rosto a branda tristeza dos que soffrem com o encontro da +incerteza nos umbraes da vida. Nuta entre os parceis, quando as vagas descahem, +e lhe abrem um vacuo onde as idealisações lhe não dão pé, nem o positivismo +ancora. É um dos muitos, cuja salvação depende de pouco: a experiencia da vida, +o entrar na inanidade das cousas, o acordar com a cabeça ferida na corrente que +fecha a galé dos obreiros do ideal—especie de somnambulos que fallam +comsigo proprios, como João Penha, o redactor do <em>Prologo</em>.</p> + +<p>Este, ainda assim, tem momentos de apégar no commum da vida. O seu fechar +dos sonetos conhecidos e decorados é sempre a zombaria das altas cousas, dos +raptos á divindade que se esconde, e aos mysterios do céo que atira estrellas a +milhões sobre os seus interrogadores. O paio de Lamego e o presunto de Melgaço +raro deixam de testemunhar que o espirito de João Penha é escorreito, e que a +poesia, quando lhe apparece, como as revoadas das andorinhas, passa, não +deixando de si no azul um vestigio de saudade.</p> + +<p>O snr. Cunha Vianna está ainda entre os poetas de consciencia e inspiração. +N'estes seus poemas não ha os desmandos e dislates que individualisam a poesia +ultimamente inventada. É muito moço, e a sua musa parece<span +class="pagenum">[71]</span> filha da que floreceu em Portugal ha trinta annos. +Não se dôa por isso o esperançoso escriptor. Do bom senso dos seus versos ha de +derivar-se o bom senso da sua prosa. Quando as flôres fenecerem, e os fructos +se desabotoarem, verá quanto proveitoso é ter sido, a um tempo, o interprete do +vago da alma e o aprendiz do positivo dos bons diccionarios.</p> + +<p>Entre as suas poesias escolho um fragmento da <em>Armada</em> para que o +leitor se convença de que lhe não inculco no snr. Cunha Vianna um arrolador de +podridões, de anemias, de chloroses, e de tanta outra moxinifada com que +intentam fazer-nos da imaginação hospital.</p> + +<p>N'este poema, o oceano interroga Portugal algemado na grilheta do +despotismo. Veleja ao longe a esquadra da Terceira que aprôa ao Mindelo. O +grande Atlante pergunta á armada o seu destino:</p> + +<blockquote style="font-size: 90%;"> + —Somos a Liberdade!<br> + a esplendida epopéa!<br> + a voz da humanidade!<br> + o sol da Nova-Idéa!<br> + Somos, oh monstro aquatico,<br> + o verbo democratico,<br> + tão forte como Deus!<br> + mais rijo que a tormenta!<br> + Astros, descei dos ceus!<br> + Nuvens, descei do espaço!<br> + vinde beijar o traço<br> + das nossas naus possantes!<span class="pagenum">[72]</span><br> + Nós somos os gigantes,<br> + os Cyclopes modernos:<br> + vimos livrar os mundos<br> + de horrificos infernos.<br> + Vimos fazer a guerra,<br> + bradar a Torquemada:<br> + —pódes fugir da terra,<br> + que o teu imperio é nada!<br> + Somos a Liberdade!<br> + a esplendida epopéa!<br> + a voz da humanidade!<br> + a luz da Nova-Idéa!<br> + <br> + «—Eu vos saúdo, ministros<br> + d'uma idade d'esplendores!<br> + Expulsai corvos sinistros<br> + d'essa terra de condores!<br> + —aves d'arrojo inaudito,<br> + que muitas vezes s'elevam<br> + ás solidões do infinito!<br> + Que lindo paiz! é vêl-o:<br> + por toda a parte boninas,<br> + e, mais além, do Mindelo<br> + as vicejantes campinas!<br> + E mais ao longe a cidade,<br> + que reflora ao Douro a estancia,<br> + a Ostende da liberdade,<br> + nova rival de Numancia!<br> + —o Capitolio altaneiro<br> + d'um povo livre e guerreiro,<br> + que, n'um heroismo ardente,<br> + unico, bello, e assombroso,<br> + roubou mais d'um continente<br> + ao meu reino tormentoso!<br> + Heis de vencer, porque a historia,<br> + a virgem que vos inspira,<br> + já vos prepara na lyra<span class="pagenum">[73]</span><br> + os hosannas da victoria!<br> + Vencerá ao retrocesso<br> + quem este abysmo venceu:<br> + tendes por guia o progresso—<br> + d'esta idade o Prometheu!»<br> + <br> + * * *<br> + <br> + Tempos depois a luz da nova aurora<br> + illuminava os montes e a cidade!<br> + A tyrannia, aniquilado o sceptro,<br> + como livido espectro<br> + lá transpunha os umbraes da soledade;<br> + e um povo inteiro, a quem a paz inflora,<br> + salvava estrepitoso<br> + o brilho radioso<br> + da augusta Liberdade! </blockquote> + +<p>Eis aqui um poeta.</p> +<hr style="width: 20%;"> + +<p><span class="sc">Jerusalem</span>, por <em>Joaquim Pinto de Campos</em>, +etc. <em>Lisboa, 1874.</em>—Precede este precioso livro uma carta do snr. +visconde de Castilho. Ahi se annunciam primores, quanto ao modo como a obra é +escripta, e se dá de suspeito o snr. visconde quanto á substancia, ao contexto +da idéa. «Creei-me semi-pagão entre pagãos millenarios do melhor engenho, +sociedade minha ainda hoje», diz o grande poeta,<span +class="pagenum">[74]</span> em quem reviveram as almas de Anacreonte e Ovidio. +</p> + +<p>Comprehende-se este retrocesso no rasto esplendoroso que nos leva até casa +dos Mecenas; mas, se ahi nos convida Petronio para uma cêa de Trimalcião, +dá-nos vontade de fugir para uma das ágapes lôbregas em que o bocado de pão se +ungia de lagrimas.</p> + +<p>Magestade, estrondo, alegrias, febris prazeres e infernaes delicias tudo +teriam de seu as musas pagãs com que deleitar a inspiração e o officio dos seus +dilectos; mas poesia, a sincera, a ideal, a que aformosêa a vida dentro dos +abysmos das suas quedas, essa não nos vem herdada de Horacio nem de Catullo: +deu-nol-a o christianismo.</p> + +<p>Aos muito affeiçoados a reliquias do velho Oriente suscita o monsenhor Pinto +de Campos as reminiscencias dos cyclos anteriores á sagração do local em que +passaram os lances da divina missão de Jesus Christo. A cada passo, resaltam +ahi recordações da Roma imperial, com todos os accessorios que lhe lustraram a +prosperidade como contraste da voragem que de um hausto a sorveu para sempre +apagada.</p> + +<p>O livro é tão de molde para todos os paladares, cinge-se tão caroavel ao +deleite do curioso, do sabio e do devoto, que a ninguem será estranho o prazer +da leitura. Em duas<span class="pagenum">[75]</span> palavras qualifica um +doutissimo critico fluminense o livro do snr. Pinto Campos: <em>para mim tenho +que a opinião classificará esta obra entre as de mór vulto que este seculo ha +visto em lingua portugueza.</em> (Reflexões de um solitario relativas ao livro +<em>Jerusalem</em>, pag. 3).</p> + +<p>Evidentemente, o snr. Pinto de de Campos conhece e exercita as menos communs +bellezas da nossa lingua. Já o haviamos admirado nas fluencias descuidadas da +conversação, antes de o reconhecermos no purismo d'este livro perfeitamente +executado. O seu estylo tem a sobriedade, a parcimonia de enfeites que se +adquirem quando a sã e alumiada razão os escolhe. As pompas e os recamos da +dicção occorrem-lhe a ponto com rigorosa propriedade. A unção religiosa dos +quadros nunca é prejudicada pelos estofos da rhetorica. As figuras cedem a sua +luz ficticia ao brilho permanente da verdade. A relanços descriptivos da Terra +Santa, resôa ás vezes o dizer chão e affavel de fr. Pantaleão de Aveiro, +alternando-se com os raptos vehementes da piedade de Chateaubriand e do +apaixonado lyrismo de Lamartine; mas tudo isto tão nosso, tão portuguez, tão +condimentado do idioma de Sousa e de Bernardes, que não póde ser senão de +monsenhor Pinto de Campos.</p> + +<p>O leitor, que lê os telegrammas vindos do Brazil, já viu que lá se ergueu +uma voz calumniadora<span class="pagenum">[76]</span> acoimando de plagiario o +author da <em>Jerusalem</em>. Sem interposição de tempo, sahiu pela honra e +lealdade do calumniado escriptor um dos maiores sabios que hoje se contam +viventissimos na rareada fileira dos sinceros homens de letras em Portugal. +Parece-nos ter entrevisto no <em>Solitario</em>, que tão egregiamente repelle +os detrahidores de Pinto de Campos, o conselheiro José Feliciano de Castilho, o +mais poderoso talento alliançado á mais tenaz memoria de que temos noticia, e, +mais que noticia, lição aturada e incansavel.</p> + +<p>Eis aqui a repulsão da aleivosia, que trasladamos textualmente:</p> + +<p> </p> + +<p>Li uns artigos em que, confrontando-se trechos da <em>Jerusalem</em> com +outros semelhantes das obras de Pozada Arango e de Perinaldo, se qualificam +essas transcripções de <em>plagiatos escandalosos, furto na mão, bocca na +botija, acto proprio para fazer subir o pejo ás faces do culpado, motivo de +indignação</em>, etc., etc. Assim enfeixadas as injurias, não se dirá que as +attenuo; e quanto ao facto da reproducção d'esses e outros passos no soberbo +livro, começo declarando que elle é real, licito; publicado, antes de o ser +pelos censores, pelo proprio escriptor; e que, nas circumstancias d'esta +polemica, pouca prova de lealdade de quem occulta essa declaração com que o +author de antemão<span class="pagenum">[77]</span> desmorona todo esse castello +de cartas. Ah! isso não convinha aos sinceros Aristarchos: esmerilharam tudo, +mas fecharam olhos nada menos que sobre o peristilo do monumento, ao qual +apenas fazem uma referencia vaga, passando como cão por vinha vindimada.</p> + +<p>«O author podia, como grande numero dos seus predecessores em um assumpto +d'esta ordem, reproduzir aquillo que bem entrasse no plano da sua obra, em +materia de descripções, de averiguações e narrações dos successos, sem citar as +fontes. Pois acaso inventa-se a religião? Inventa-se a historia? Inventa-se a +natureza? Inventam-se factos? Sempre que em tudo isso se toca, é evidente que +se repete o que já se ha dito; e todas as vezes que essas descripções estão bem +feitas, que utilidade ha em alteral-as? Nada haveria mais facil que dar sempre +as mesmas idéas por diversas palavras, mas n'isso então é que se daria +manifesta má fé, porque transpareceria a intenção culposa, o que nunca póde +imputar-se a quem, uma ou outra vez, traduz litteralmente de livros que andam +em todas as mãos.</p> + +<p>«Não desenvolverei este ponto em these, como tão facil seria; limitar-me-hei +a demonstrar a candura com que monsenhor Pinto de Campos, logo ao romper o seu +livro, nos denunciou... isso mesmo que hoje se lhe assaca? Completa elle o seu +prologo (pag. XVI e XVII),<span class="pagenum">[78]</span> revelando a quem +vai lêr, que transcreveu largos trechos de escriptores antigos e modernos; +enumera os principaes d'esses escriptores; affirma, com inexcedivel modestia, +que só a ess'outros (o que é descabido) deve ser restituida qualquer gloriola, +que das suas paginas se possa colher; que se embrenhou na floresta d'esses +authores; que das flôres d'elles sugou o mel. Transcreverei (com as almejadas +aspas):</p> + +<p>«Na averiguação e narração dos successos, tomei por norma <em>seguir os +varões</em> doutissimos e diligentissimos, <em>citando lealmente suas palavras +ás vezes, muitas outras suas sentenças</em>; assim como é certo que lhes +addicionei outras muitas, que pelo proprio estudo alcancei... <em>Segui</em> de +preferencia a Sagrada Escriptura, Flavio José, S. Jeronymo, e entre os +proporcionalmente modernos, Quaresmio... Em muitos outros, antigos e modernos, +<em>procurei flôres que em meu ramilhete ennastrasse, e a todos os quaes fiquei +mais ou menos devedor; se n'este rescende alguma fragrancia, a elles e não a +mim se deve</em>. Sem ordem nem de merito nem de idades, aqui apontarei +Adricomio, Biagio Terzi, Calmei, Mariano Morone de Maléo, Chateaubriand, +Lamartine, conde Marcellus, Valiani, Geramb, Poujoulat, <span +class="sc">Michaud</span>, fr. Pantaleão d'Aveiro; <span +class="sc">Mislin</span>, fr. Lavinio, Renazzi, Gaume, <span class="sc">Pozada +Arango</span>, Escrich,<span class="pagenum">[79]</span> Munk, Dupin, De +Saulcy, Saint Aignan; e particularmente os padres Dupuis e <span +class="sc">Perinaldo</span> me foram de <span class="sc">inexcedivel +auxilio</span>... Não se destina esta enumeração a ostentar pompa de erudição; +serve, ao contrario, para <em>restituir a outros</em> qualquer gloriola que de +entre estas paginas podesse ser colhida. Solícita abelha, embrenhei-me n'essa +vasta floresta e sem estragar as flôres, <em>suguei-lhes o mel</em>; e se em +alguma havia veneno, lá o deixei.»</p> + +<p>«O que ahi fica (idéa que mais de uma vez apparece reiterada no corpo da +obra), constitue um luxo de precauções, a fim de que nenhum mal intencionado +ousasse attribuir-lhe a intenção de locupletar-se com a jactura alheia. «Eu +segui varões doutissimos», «suas palavras ás vezes, muitas outras suas +sentenças.» «Em muitos authores procurei flôres que em meu ramilhete +ennastrasse, e a todos fiquei mais ou menos devedor.» «Apontarei entre estes +Pozada Arango, Michaud, Milsin.» «Particularmente o padre Perinaldo me foi de +inexcedivel auxilio.» «Se n'este ramilhete rescende alguma fragrancia, a elles, +e não a mim se deve.» «Seja a elles restituida qualquer gloriola que d'entre +estas paginas podesse ser colhida.» «Na vasta floresta dos authores citados, +suguei o mel de suas flôres. »</p> + +<p>«Santo Deus! É n'estas circumstancias que se imputa a um escriptor a +perpetração de<span class="pagenum">[80]</span> (nada menos!) <em>plagios +escandalosos</em>! O que ahi fica, se pecca é pela repetição, até á saciedade, +do proprio facto com que os inimigos hoje o criminam. Foi innocentemente o +monsenhor quem deu essas armas contra si. Leram no prefacio os seus detractores +que elle declarava haver transcripto numerosos passos de Michaud, Mislin, +Pozada Arango; e que Perinaldo principalmente lhe havia sido de inexcedivel +auxilio. O processo da malevolencia tornava-se, desde então, singelissimo.</p> + +<p>«Ah! elle diz que ha um escriptor chamado Perinaldo, que lhe foi de +inexcedivel auxilio? que ha um Pozada Arango, etc., de quem extrahiu as +proprias palavras, ás vezes, ou sentenças? que para este ramilhete colheu +d'esses livros muitas flôres, e as mais preciosas? Ora, copiosas flôres, +colhidas de livros, não podem ser rosas, nem malmequeres, são forçosamente +paginas. Toca a procurar esses livros, cuja existencia elle nos patentêa; a +pesquizar ahi os trechos do que nos revela ter-se apoderado; e depois, +lançando-lhe em rosto o que elle mesmo nos denunciou, tripudiaremos, e subindo +ao capitolio, iremos render graças aos deuses!»</p> + +<p>«Em tal procedimento, a lealdade pede meças á justiça.»</p> + +<p> </p> + +<p>Delida a macula com que a malevolencia,<span class="pagenum">[81]</span> +aborto de odios politicos, tentou denegrir a mais notavel obra modernamente +escripta com os primores da lingua portugueza por um brazileiro—que entre +os seus e os nossos a escreve como os distinctissimos—não temos senão a +louvar o grande alento que tirou a salvo de tropeços esta obra perduravel com +que monsenhor Pinto de Campos brindou os seus conterraneos e os da patria de +seus avós. Já conheciamos e reverenciavamos o orador religioso e parlamentar. +Agora lhe recebemos de sua mão um livro que vamos reler e collocar entre os que +nos ensinaram a escrever.<span class="pagenum">[82]</span></p> +<hr> + +<h1><a id="cap06" name="cap06">QUE SEGREDOS SÃO ESTES?...</a></h1> + +<blockquote style="font-size: 80%; margin-left: 30%;"> + Fosse terror ou sentimento fosse<br> + De mais occulta origem...<br> + + + <p style="text-align:right;"><span class="sc">Garrett.</span></p> + + <p><br> + A pallida doença lhe tocava<br> + Com fria mão o corpo enfraquecido.</p> + + <p style="text-align:right;"> <span class="sc">Camões.</span><br> + </p> + + <p> </p> +</blockquote> + +<h2>I</h2> + +<p>—Fui hoje vêr á casa da saude o Duarte Valdez.</p> + +<p>—O nosso companheiro de casa em Coimbra?</p> + +<p>—Justamente.</p> + +<p>—Que tem elle?</p> + +<p>—Os dias contados.</p> + +<p>—Tisico?</p> + +<p>—Perguntei ao doutor Arantes que doença<span +class="pagenum">[83]</span> era a do Valdez. Fez com os hombros um tregeito +significativo de que a medicina nem sempre tem alçada para devassar das doenças +que matam, e denominal-as com terminações inflammatoriamente gregas. Quando, +porém, é a alma que mata o corpo, os medicos lavam d'ahi as mãos como o +governador da Judêa.</p> + +<p>Tive este dialogo, em Lisboa, ha hoje doze annos, e, seguidamente, fui á +casa da saude no largo do Monteiro.</p> + +<p>Quando, na ida, atravessava o jardim da Estrella, sentei-me a encadear as +lembranças vagas e desatadas que eu tinha de Duarte Valdez.</p> + +<p>Tres épocas me occorreram.</p> + +<p>Primeira, a da nossa jovial convivencia em um casebre da Couraça dos +Apostolos, em Coimbra, no anno 1845. Segunda, outra menos modesta e menos +alegre camaradagem de quarto, no hotel Francez, do Porto, em 1851.</p> + +<p>Antes de mencionar a terceira época, urge saber-se que nenhum de nós se +formára. Elle contentára-se com um diploma de insufficiencia em rhetorica, e eu +com a prenda não commum de arpejar tres varios fados na viola. Não +rivalisavamos em sciencia. Formavamos da nossa reciproca ignorancia um conceito +honesto. Não queriamos implicar com sabios, nem para os invejar nem para os +detrahir.<span class="pagenum">[84]</span></p> + +<p>A terceira época ou terceiro encontro foi em 1856. Vi-o em S. João da Foz, e +ouvi-lhe revelar mysteriosamente que estava emboscado em uns arvoredos, entre +Lordello e Pastelleiro, com uma extremosa e estremecida menina, fugida aos +paes. Não me recordo os pormenores d'estes amores que elle me disse serem os +primeiros e ultimos. Tenho, porém, a certeza de que me ri d'uns <em>amores +ultimos</em>, aos vinte e cinco annos de idade.</p> + +<p>N'aquelle tempo a fuga de uma menina qualquer não era successo por tanta +maneira horrido, que eu devesse desmaiar na presença do meu acelerado amigo. Eu +já contava então uns decrepitos vinte e nove annos, e conhecia varios +acontecimentos impudicos, por exemplo, aquelle da D. Hermenigilda d'Amarante, +que eu exhibi ás lagrimas do publico sensivel nas <em>Scenas da Foz</em>. +Aquella especie de pellicula carmezim que assetina a epiderme do rosto, e se +chama <em>pudicicia</em> nos droguistas da moral, tinham-m'a delido as aguas +lustraes da nossa civilisação pagã, para o que tambem muito contribuiram as +reuniões semanaes da Philarmonica, na rua das Hortas, onde os rabecões entravam +cheios de cupidos e sahiam cheios de suspiros. Muitas senhoras portuenses, que +hoje cedem a primazia da ternura ás filhas, viram n'aquellas salas da +Philarmonica os anjos com quem se maridaram. Os annuncios<span +class="pagenum">[85]</span> das festas lyricas, enviados dos corações aos +corações, rezavam assim: <em>Sabbado, ás 7 da noite, musica de Mozart, e Laços +de Hymemeu</em>. Tudo antigo e bom.</p> + +<p>Isto veio a proposito de eu não ter uma congestão de pudor, quando Duarte +Valdez me segredou que se embrenhára nas selvas rumorosas do Pastelleiro com +uma menina perdida de amor, e tão cega de alma que já não via na imaginação, +sequer, as lagrimas da mãi, e o mortal abatimento do pai que a amaldiçoava.</p> + +<h2>II</h2> + +<p>O enfermeiro-mór da casa da saude conduziu-me ao quarto de Duarte. Com +certeza, se eu o encontrasse desprevenidamente, não o conheceria. O espasmo dos +olhos seria bastante a desfigurar-lhe as outras feições, quasi sumidas na +desgrenhada cabelleira e nas barbas. Immobilisava-lhe o semblante a sinistra +quietação da demencia contemplativa.</p> + +<p>Tambem elle me não reconheceu a mim, sem que eu lhe dissesse o meu nome. +Fitava-me com repulsão, como se a presença de um<span +class="pagenum">[86]</span> desconhecido o molestasse fortemente; porém, depois +que eu me nomeei, sahiu do torpor, levantou-se de golpe, e abraçou-me com +transporte.</p> + +<p>—Que tens tu, Duarte?... Estavas aqui, e não me participavas?</p> + +<p>—Eu não sabia que estavas em Lisboa, nem tinha a vaidade de suppôr que +ainda me conhecesses. Desde que te fallei na Foz, em 1856, nunca mais nos +encontramos nem escrevemos.</p> + +<p>—É verdade; mas nem por isso me eram estranhos os principaes passos da +tua vida. Soube que casaste...</p> + +<p>—Sim... casei...</p> + +<p>—Com aquella menina que então... estava comtigo?</p> + +<p>—Não...—respondeu Duarte com assombrado aspecto, e um sacudir de +cabeça indicativos de azedume por tal pergunta.</p> + +<p>Hesitei, á vista de tão subita mudança, se devia proseguir em tal +interrogatorio. Foi elle quem interrompeu o silencio, repetindo:</p> + +<p>—Não, não casei com essa...—e acrescentou, pondo-me no hombro a +mão tremula—casei com outra... que já morreu...</p> + +<p>—Morreu?</p> + +<p>—Sim, morreram ambas; matei-as eu...</p> + +<p>E, erguendo-se, travou-me do braço, levou-me comsigo para a janella, que +abria sobre um<span class="pagenum">[87]</span> jardim, alongou a vista na +direcção da cupula do convento de Jesus, fez um gesto com a mão direita +apontando para o céo, e quiz dizer umas palavras que, abafadas pelos gemidos, +pareciam rever-lhe nos olhos em lagrimas copiosas.</p> + +<p>E eu, que poderia imaginar agora phrases muito apropositadas á situação do +meu amigo, não as invento, porque não lh'as disse então.</p> + +<p>E quem seria mais verboso que eu, em lance tão desusado? Se elle, com +effeito, havia matado as duas mulheres, eu, na verdade, não devia ensaiar +maneiras de o consolar, dizendo-lhe que, se as matou, fizera muito bem. +Figurou-se-me que Duarte fallára figuradamente. Porque ha muitos sujeitos, +ainda mal, que vivem penalisados com remorsos de ter matado certas senhoras, +sem ao menos admittirem que os medicos collaborassem com elles. Ora eu que +reputára, n'outro tempo, aquelle Duarte Valdez tanto ou quê desarranjado pelas +novellas, attribui ao seu romanticismo a parte odiosa no assassinio das duas +senhoras.</p> + +<p>Passados alguns segundos, fiz-lhe esta vulgarissima pergunta:</p> + +<p>—Como as mataste tu?</p> + +<p>—Despedaçando-as uma contra a outra.</p> + +<p>Póde ser que o leitor esteja sorrindo; saiba, porém, que o tremor d'aquellas +palavras vibrava tanto do seio do afflicto moço que uns<span +class="pagenum">[88]</span> calefrios me correram a espinha, e o turvamento das +lagrimas me embaciou a vista. Situações analogas terá experimentado o leitor no +theatro. Duas palavras, em uma ficção dramatica, exprimidas pelo actor que +pintou os vincos da desgraça no rosto com fino pó de carvão, obrigam ás +lagrimas pessoas que não chorariam, se a desgraça fosse com ellas.</p> + +<p>—Chora, chora!—me disse elle, com vehemente +exaltação.—Preciso que me chorem, porque... eu morrerei, adorando as duas +mulheres que matei... e ninguem me ha de chorar.</p> + +<p>—Pódes tu contar-me a tua historia?—perguntei eu.</p> + +<p>—Posso... quero contar-t'a; mas receio que m'a não creias... A minha +familia, e os medicos da provincia dizem que eu me deixo matar pela +superstição, indigna da minha intelligencia... É um phantasma que me mata, +dizem elles... Ah! se o vissem! se eu te podesse contar...</p> + +<p>—Mas olha, Duarte, conta o que poderes... Eu hei de comprehender das +tuas dôres alguma cousa mais que o vulgar dos homens. Até as superstições, se +as tens, eu t'as entenderei; porque ha infortunios que não podem entender-se, +sem a intervenção de alguma cousa sobrehumana.</p> + +<p>—Pois então, vou contar-te a minha desastrada vida... Aquella infeliz +menina que esteve<span class="pagenum">[89]</span> na Foz, ha dez +annos—começou Duarte com pausadas intercadencias—seria a minha +bemaventurança, se eu não viesse a este mundo com a predestinação dos reprobos. +Meu pai, desde que eu a tirei da casa paterna, ganhou-me entranhado odio; não +por causa da culpa; mas com receio que eu remediasse a culpa com o casamento. O +seu primeiro acto de vingança foi dar a casa a meu irmão, e reduzir-me a um +patrimonio tão escasso que não chegaria ás minhas despezas de dous annos. Maria +do Resgate era mais pobre que eu. Não desisti ainda assim de casar com ella. +Pedi um emprego com a eloquencia da virtude desgraçada, já quando a minha +subsistencia corria por conta dos paes de Maria. Estava eu em vespera de ser +despachado amanuense do governo civil de Bragança, quando meu pai conseguiu +inutilisar os esforços humilhantes que eu fizera para adquirir tão mesquinho +emprego. Fui ajoelhar aos pés de meu pai: estava ao pé de mim, para me defender +dos primeiros impetos da ira d'elle, minha mãi. Eu pedi-lhe simplesmente que +não se oppozesse á minha collocação. Respondeu que se dava por aviltado, se seu +filho fosse exercer tão ignobil occupação; e, sem me dar a confiança de +questionar com o seu orgulho, disse que me dava recursos para estar dous annos +em Lisbôa,<span class="pagenum">[90]</span> ou o tempo necessario para me +esquecer da filha do procurador de causas.</p> + +<p>Minha mãi chamou-me de parte, e aconselhou-me que annuisse; na certeza de +que, no espaço de dous annos, se eu não esquecesse Maria do Resgate, ella +conseguiria o consentimento de meu pai.</p> + +<p>Cedi forçado pela extrema necessidade. Maria, tão confiada em mim quanto eu +confiava no meu proprio coração, accedeu na ausencia dos dous annos. Assim que +eu sahi para Lisboa, sahiu ella para um convento de Bragança.</p> + +<p>Cheguei aqui, e encontrei dinheiro em abundancia, amigos, relações, +mulheres, liberdade, distracções, theatros, cêas, um desafogo de vida tão +agradavel quanto amargurado me tinha corrido o ultimo anno.</p> + +<p>Ás vezes, em meio dos meus divertimentos, assaltavam-me remorsos. Era então +que eu respondia ás cartas apaixonadas de Maria, e perguntava a minha mãi se já +tinha conseguido amollecer o duro coração de meu pai. Respondia-me que +esperasse, e Maria respondia-me que esperava uma de duas cousas, que ambas lhe +serviam: sahir da sua cella para mim ou para a sepultura. Os meus amigos viam +estas cartas, e riam-se da minha credulidade.</p> + +<p>Ao cabo de um anno, os remorsos que me<span class="pagenum">[91]</span> +incutiam as cartas, já nem a virtude tinham de as inspirar verdadeiras. Maria +graduou por ellas o sentimento frio que as disfarçava, e disse-me que eu era +tão ingrato que nem ao menos a deixava morrer enganada.</p> + +<p>Aborreciam-me já as lastimas e a obrigação de as consolar. Sentava-me +constrangido para lhe escrever. Já me queixava da sua pertinacia em me accusar +de ingrato, quando ella mesma se acommodára á cruel necessidade da separação. +Culpando-a de indiscreta, perguntava-lhe se quereria para mando um homem que +teria de mendigar ou roubar para sustental-a. Aqui havia uma occulta infamia na +mentira. Se eu pretendesse em Lisboa um emprego, tel-o-hia, sufficiente á +sustentação de uma familia modesta; mas eu, desde que pisei os tapetes dos +salões, pensava em ter salões com tapetes, e desde que as carruagens dos meus +amigos me levaram aos theatros, desejei possuil-as para me desquitar de +obrigações aos meus amigos. Eu estava perdido como meu pai me desejára; estava +deshonrado bastantemente para desviar a imaginação da filha do procurador de +causas, quando as titulares de Lisboa me perguntavam quem era a rainha dos +bailes.</p> + +<p>Ao fim de dous annos, minha mãi, quando eu já não perguntava o resultado das +suas diligencias, avisou-me que meu pai vinha a<span +class="pagenum">[92]</span> Lisboa, na companhia de um nosso primo e de nossa +prima, chegados do Brazil, com o proposito de nos visitarem.</p> + +<p>Estes nossos primos eram naturaes do Rio de Janeiro. Alli ficára meu tio, +pai d'elles, quando meu avô, que para lá fôra com o principe regente na +qualidade de desembargador do paço, voltou para Portugal. Eu sabia d'estes +parentes, e muitas vezes meu pai dissera que seria convenientissimo casar um de +seus filhos com a prima brazileira, cuja fortuna rendia mais n'um mez que toda +a nossa casa em um anno.</p> + +<p>Confesso-te miseravelmente que me sobresaltou o aviso da vinda de minha +prima. Vi salões com tapetes, e vi as suspiradas carruagens. Quem eu não vi foi +a imagem de Maria do Resgate.</p> + +<p>Minha prima Olinda era adoravel, ainda sem riqueza.</p> + +<p>Este conceito que formei ao vêl-a e ouvil-a, dispensou-me de o formar, de +mim, de grande villão. Amnistiava-me com a idéa de que, sendo ella pobre, eu a +quereria para esposa. Amei-a, é certo que a idolatrei. Não tenho outra virtude +que contrabalance com os meus delictos na presença de Deus, e d'ella e da outra +desgraçada.</p> + +<p>Havia dous mezes que Maria do Resgate me não escrevia, quando aqui chegou +Olinda,<span class="pagenum">[93]</span> e, passados dous mezes, sahia eu de +Lisboa, casado com minha prima, a ir visitar minha mãi, para depois ir ao Rio +receber os trezentos contos de minha mulher, e d'alli passarmos a residir em +Lisboa, n'um palacio, com tapetes e carruagens.</p> + +<p>Meu pai foi adiante preparar as festas da recepção, e ornamentar as salas +para o baile, e a hospedagem para os convidados da nossa grande parentella.</p> + +<p>Entrei profundamente triste na minha villa. As janellas da casa de Maria do +Resgate estavam fechadas como se houvesse alli morrido alguem. Nas casas +visinhas, havia senhoras e crianças que choviam abadas de flôres sobre o nosso +carro.</p> + +<p>Pouco depois que sahimos da mesa do jantar, atravessei com minha mulher a +sala de espera, para descermos ao jardim. N'este transito, vimos sahir de um +canto da sala uma mulher trajada de luto, que marchou de encontro a Olinda, sem +levantar o véo espesso do rosto.</p> + +<p>Não a conheci; mas mal podia suster-me de convulso.</p> + +<p>—Que tens?!—disse minha mulher.—Esta senhora parece que +tem alguma cousa que me dizer...</p> + +<p>—Tenho, sim, minha senhora—acudiu a mulher de luto—v. +exc.ª não me conhece<span class="pagenum">[94]</span> nas salas de seu marido, +porque eu sou a viuva de um pobre procurador de causas que morreu ha quinze +dias, quando perdeu a esperança de vêr remediada a deshonra de nossa filha. Em +quanto ella teve pai, embora perdida no conceito do mundo, tinha o pão, que seu +pai lhe ganhava; mas agora, reduzida á orphandade, á pobreza, e á deshonra, +venho implorar a v. exc.ª que a receba como sua criada, visto que foi seu +marido que a perdeu. V. exc.ª fará o que a sua virtude e caridade lhe +aconselhar.</p> + +<p>E sahiu sem esperar resposta.</p> + +<p>Estas palavras ouço-as ainda como se a alma da mulher que as disse m'as +estivesse escrevendo na consciencia com um estylete de fogo.</p> + +<p>—Que é isto?—perguntou-me minha mulher.</p> + +<p>—É uma desgraça que eu te contarei—respondi torvamente.</p> + +<p>—Conta-m'a já, e remediêmol-a sem demora—tornou ella.</p> + +<p>Escondi-me com Olinda no mais sombrio do jardim, e tudo lhe referi com a +sinceridade de um penitente. Ella ouviu-me com semblante carregado, avincando a +testa, e ás vezes com signaes de compaixão, que de certo não era por mim.</p> + +<p>Depois, ergueu-se, repelliu com brandura<span class="pagenum">[95]</span> a +minha mão que lhe acariciava o rosto e murmurou:</p> + +<p>—Eu ignorava tudo isto. Desgraça irremediavel, já agora! Eu quero +fallar com a mãi d'essa infeliz menina.</p> + +<p>E assim que foi noite fechada, sahiu com um escudeiro, que a conduziu a casa +da viuva do procurador.</p> + +<p>Suspeito que a conferencia versou sobre a rica dotação de Maria do Resgate. +A viuva repelliu a proposta, porque minha mulher voltando ao seu quarto, disse, +como se ninguem a escutasse:</p> + +<p>—As deshonradas... de certo não são ellas.</p> + +<p>Até aqui—proseguiu Duarte Valdez—não ha nada maravilhoso na +minha historia...</p> + +<p>—De certo não; tudo vulgar—obtemperei eu que sabia centurias +d'estas historias, cuja trivialidade nenhum romancista de tino hoje em dia +aproveita da fardagem dos vicios communs.</p> + +<p>—O horrivel maravilhoso começa agora—continuou +Duarte.—Passados vintes dias, divulgou-se a noticia de estar moribunda no +convento de Bragança Maria do Resgate. E em uma das seguintes noites, estando +eu a dormir profundamente em um leito proximo do de minha mulher, acordei, +sentindo no pescoço os apertões convulsos de duas mãos que me estrangulavam; e, +abrindo os olhos,<span class="pagenum">[96]</span> vi distinctamente nas trevas +o rosto macerado de Maria muito perto do meu rosto; e, ao mesmo tempo que as +suas mãos me asphyxiavam, sentia que o joelho d'ella me esmagava o coração. +N'este lance dei um grito, e ouvi o estrebuchar de minha mulher, que soltava +uns gemidos afflictissimos, como se lá sentisse angustias de suffocação iguaes +ás minhas. Saltei do leito, e fui á recamara buscar a lamparina. Quando voltei, +minha mulher estava de joelhos á beira da sua cama, com as mãos postas, com as +faces cobertas de lagrimas, e os olhos esgazeados de terror.</p> + +<p>—Que é isto, Olinda?—exclamei.</p> + +<p>E ella, escondendo o rosto entre as mãos, murmurou:</p> + +<p>—Vi agora a desgraçada menina que tu abandonaste. Já estava +amortalhada. Era formosa como as martyres, e bem mais linda do que eu... +Disse-me adeus... Sabia que eu tinha chorado por ella... Veio dizer-me que +estava remida das suas dôres.</p> + +<p>Eu não disse a Olinda que tambem vira Maria do Resgate.</p> + +<p>O meu terror abafava-me a voz na garganta. Recorri á oração...—eu que +desde a infancia não tinha orado. Fui ao quarto de minha mãi; acordei-a; +pedi-lhe que viesse commigo para o oratorio. Contei-lhe as torturas<span +class="pagenum">[97]</span> da minha visão, e a visão de Olinda. Ella pegou de +tremer e chorar. Se eu lhe dizia, sobre-posse, que a coincidencia dos sonhos +podia acontecer, sem intervenção do phantasma de Maria, minha mãi não achava +isto possivel, e mais me trespassava de horror.</p> + +<p>No dia seguinte, chegou a noticia de ter expirado á uma hora da noite +antecedente a reclusa do convento de Bragança. A pessoa que trouxe a nova, era +encarregada de me entregar o maço de minhas cartas. Em volta das ultimas, que +eu lhe escrevêra de Lisboa, havia uma cinta de papel e um escripto interposto +com estas palavras:</p> + +<p> </p> + +<p><em>Quando receber isto, que lhe deixo, para se convencer de que não ha +testemunho escripto da sua crueldade, a mais feliz serei eu, porque estarei +morta. O senhor de certo nunca será feliz, porque infamia e boa consciencia não +se encontram juntas. Perdôo-lhe o que me fez: mas não posso perdoar-lhe a morte +de meu pai nem o desamparo em que fica minha mãi.</em></p> + +<p> </p> + +<p>Resta-me dizer-te—ajuntou Duarte, arquejando de cansaço e +commoção—que minha mulher desde aquella hora nunca mais teve um instante +de alegria nem saude. Viemos, passados dias, para Lisboa. D'aqui partimos<span +class="pagenum">[98]</span> para o Rio de Janeiro. Ao cabo de oito mezes, eu +estava viuvo, e rico, muitissimo rico, e cada dia, cada hora mais desgraçado, +mais combalido de uma enfermidade indescriptivel. Voltei ao seio de minha +familia. Já não encontrei minha mãi; e a presença de meu pai coava-me nas veias +um estremecimento de pavor. Ha cinco annos que arrasto esta vida sem a coragem +de a despedaçar. Sinto ainda na garganta a pressão dos dedos fincados do +phantasma. Ajoelho-lhe, alta noite, e imploro-lhe que me deixe morrer socegado. +Peço á alma de minha mulher que suavise com palavras compassivas a vingança da +desgraçada que deve estar na presença de Deus... Em fim...</p> + +<p> </p> + +<p>E não proseguiu, porque n'este momento entrava o doutor Arantes, o previsto +medico da casa da saude, que, sem ouvir esta narrativa, sabia que aquelle +enfermo devia morrer, pela mesma razão mysteriosa que muitos atacados de +semelhante morbus engordam e porejam saude por todos os orificios da sua +enxundiosa epiderme.</p> + +<p style="text-align:center; text-indent: 0em;">*<br> +* *<span class="pagenum">[99]</span></p> + +<p>Duarte Valdez, que ainda vi na vespera da sua ida para a Madeira, foi e não +voltou. As supplicas de Olinda lograriam que a misericordia divina o resgatasse +da presa do seu remorso.</p> + +<blockquote> + <em>Que segredos são estes da natura?</em></blockquote> + +<p>Perguntaria Luiz de Camões.</p> + +<p style="text-align:center;">FIM DO 9.° NUMERO</p> +</div> +<hr> + +<div style="font-size: 80%;"> +<p> </p> + +<p> </p> + +<h3 style="text-align:center;">Ernesto Chardron, editor </h3> + +<p style="text-align:center;">DICCIONARIO UNIVERSAL DE EDUCAÇÃO E ENSINO</p> + +<p style="text-align:justify;">Util á mocidade de ambos os sexos, ás mães de +familia, aos professores, aos directores e directoras de collegios, aos alumnos +que se preparam para exames, contendo o mais essencial da sabedoria humana, +trasladado a portuguez por CAMILLO CASTELLO BRANCO e ampliado pelo traductor +nos artigos deficientes a Portugal e Brazil. 2 grossos vol. cada um de 800 +paginas a 2 columnas, 6$000. 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Nº 9 (de 12), by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 9 (DE 12) *** + +***** This file should be named 28155-h.htm or 28155-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/8/1/5/28155/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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