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diff --git a/28201-h/28201-h.htm b/28201-h/28201-h.htm new file mode 100644 index 0000000..62a65a0 --- /dev/null +++ b/28201-h/28201-h.htm @@ -0,0 +1,2863 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Noites de Insomnia, offerecidas a quem não póde dormir, nº 10</title> + <meta name="author" content="Camilo Castelo Branco"> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <meta name="KEYWORDS" content=""> + <style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { display: none;} + body {width: 80%; margin: auto;} + } + @media handheld { + .pagenum { display: none;} + body {width: 80%; margin: auto;} + } + body {width: 520px; margin-left: 90px;} + .pagenum {font-size: 0.8em; font-style: normal; color: silver; position:absolute; left: 630px;} + .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;} + hr { + border: 0; + border-bottom: solid 2px #000000; + text-align: center; + } + a {color: #000000; text-decoration: none;} + sup {font-size: 0.8em; font-style: normal;} + h2, h3, h4 {text-align: center;} + h1 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + .sc { + font-variant: small-caps; + } + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + #corpo p{ + line-height: 1.5em; + text-align: justify; + text-indent: 1em; + } + #corpo p.centrado {text-indent: 0em; text-align:center;} + .dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000000;} + #sumario { + width: 75%; + margin: auto; + border-left: solid 1px #000000; + border-top: solid 1px #000000; + border-right: solid 3px #000000; + border-bottom: solid 3px #000000; + padding: 1em; + } + blockquote {font-size: small; margin-left: 20%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não +póde dormir. Nº 10 (de 12), by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 10 (de 12) + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: February 26, 2009 [EBook #28201] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 10 (DE 12) *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<span class="pagenum">[1]</span> + +<div class="capa"> +<p style="font-size: 1.2em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p> +<hr style="width: 6em;"> + +<p style="font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p> + +<p style="font-size: 0.7em;">OFFERECIDAS</p> + +<p>A QUEM NÃO PÓDE DORMIR</p> + +<p style="font-size: 0.7em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">Camillo Castello Branco</p> +<hr style="width: 3em;"> + +<p style="font-size: 0.7em;">PUBLICAÇÃO MENSAL</p> +<br> + +<hr style="width: 3em;"> + +<p style="font-size: 0.9em;">N.º 10—OUTUBRO</p> +<hr style="width: 3em;"> + +<table width="100%" summary="endereço editor"> + <tbody> + <tr> + <th colspan="2">LIVRARIA INTERNACIONAL<br> + <span style="font-size: 0.7em;">DE</span> </th> + </tr> + <tr> + <td style="border-right: solid 1px #000000;"><span + style="font-size: 0.9em;">ERNESTO CHARDRON <br> + <em>96, Largo dos Clerigos, 98</em><br> + <strong>PORTO</strong> </span> </td> + <td><span style="font-size: 0.9em;">EUGENIO CHARDRON<br> + <em>4, Largo de S. Francisco, 4</em><br> + <strong>BRAGA</strong> </span> </td> + </tr> + </tbody> +</table> +<hr style="width: 2em;"> + +<p style="font-size: 0.9em;">1874</p> +</div> +<span class="pagenum">[2]</span> + +<div id="impressor" style="text-align: center;"> +<br> +<br> +<br> +<br> + +<hr style="width: 8em;"> + +<p>PORTO</p> + +<p style="font-size: 0.9em;">TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">68—Rua da Cancella Velha—62</p> +<hr style="width: 2em;"> + +<p style="font-size: 0.9em;">1874</p> +</div> +<span class="pagenum">[3]</span> + +<div id="sumario"> +<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p> +<hr style="width: 4em;"> + +<p style="text-align: center; font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p> +<hr style="width: 4em;"> + +<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;"><strong>SUMMARIO</strong></p> + +<p><em><a href="#cap01">Beatriz de Vilalva</a> — <a href="#cap02">Se o poeta +Bernardim Ribeiro foi commendador</a> — <a href="#cap03">Resposta de José +Anastacio</a> — <a href="#cap04">Prefacio ao sonho do Arcebispo</a> — <a +href="#cap05">O ultimo carrasco</a> — <a href="#cap06">Curiosidades +artisticas</a> — <a href="#cap07">Cantada e Carpida</a> — <a +href="#cap08">Bibliographia</a></em> </p> +</div> +<span class="pagenum">[5]</span> + +<div id="corpo"> +<hr> + +<h1><a id="cap01" name="cap01">BEATRIZ DE VILALVA</a></h1> + +<h2>I</h2> + +<p>Era o nome da encantadora bastarda do capitão-mór da Lixa.</p> + +<p>Vivia, com sua mãi, na quinta de Vilalva, com que fôra dotada, aos quinze +annos, para casar, aos dezoito, com o morgado de Pildre, Vasco Pinto de +Magalhães.</p> + +<p>Isto são cousas antigas. Era no anno de 1834. Ha quarenta annos. Um seculo +d'outras eras, quando vinte annos eram mocidade innocente, e, aos quarenta, o +homem tenteava com timido pé os umbraes do mundo. Agora, dentro de quarenta +annos, fenecem e reverdecem duas mocidades e duas velhices; o revolutear das +variadas paixões, gastando a alma e safando o cerebro, desmemoría o homem de si +mesmo; em cada decada atrophia-se-lhe o coração com as velhas imagens, e +resurgem-lhe, com as imagens novas, outras faculdades affectivas. Quarenta +annos! Eu, quando me<span class="pagenum">[6]</span> lembro que vi Pedro IV, e +por pouco não fui contemporaneo de João VI, entro em duvidas se conheci o +marquez de Pombal, e receio que me peçam noticias do terremoto de Lisboa, como +testemunha presencial.</p> + +<p>Beatriz orçava então pelos dezesete. No anno seguinte, devia casar-se com o +morgado de Pildre, que tinha cincoenta e seis annos, e uma casaria negra, ás +cavalleiras de Amarante, com duas torres senhoriaes escalavradas pela +artilheria, no tempo dos francezes.</p> + +<p>Aborrecia-o a bastarda do capitão-mór da Lixa; mas obedecia ao pai, que dava +ordens breves e seccas, e condescendia aos conselhos da mãi, mulher da plebe, +que almejava metter sua filha na casa de Pildre, sem se lhe dar que a morgada a +constituisse avó dos filhos do capellão—o menos escandaloso dos cooperadores +anonymos da conservação das varonias e proseguimento das raças.</p> + +<p>Obedecia principalmente Beatriz, porque não amava ninguem, não conhecia +homem nenhum para comparar. Tinha, apenas, a razão a dizer-lhe que um marido +não devia ser velho, e que a sua estrella era má.</p> + +<p>N'este tempo, voltaram ás suas casas os frades expulsos. Alli perto de +Vilalva, á casa do Pomar, chegou, vindo do convento da Graça, de Lisboa, um +egresso de vinte e tres annos, com dous apenas de professo. Um guapo<span +class="pagenum">[7]</span> moço, esbelto, rosado, vivo, sanguineo, um frade que +rasgára alegremente o habito, e dera vivas á liberdade quando o mandaram sahir +da cella. Eu conheci-o. Era um donoso velho, a arvore no outono, com a folhagem +amarellida, mas ainda frondosa, copada, recordando as refrigerantes sombras dos +meios dias de julho.</p> + +<p>O que não seria elle, o egresso João de Queiroz, aos vinte e tres annos, ao +sahir do convento, a desbordar exuberancias de vida represada, a desforrar-se +da violencia com que lhe desfolharam, como improprias do homem immolado, as +flôres de seis primaveras!</p> + +<p>O capitão-mór, quando viu o ex-frade, tão convisinho de Vilalva, mandou +acautelar a filha; e, de passagem, contou á mãi uma duzia de casos funestos +acontecidos com frades, no seio das trinta familias fidalgas de Amarante, Lixa, +Fafe e terras circumjacentes.</p> + +<p>A mãi de Beatriz não acautelou bastantemente a rapariga; pareceu-lhe +demasiado o recato do pai, á vista do recolhimento e da gravidade de padre +João, afiançado por todas as mães das mais secias moças da freguezia, e, sobre +tudo, pela compostura do sacerdote, já no altar, já no pouco trato que tinha +com elle no adro da igreja.</p> + +<p>Comtudo, se a presumptiva sogra do morgado de Pildre attendesse á +experiencia do<span class="pagenum">[8]</span> capitão-mór e á silva de +malfeitorias fradescas que lhe elle contou, evitaria, quando menos, que Beatriz +não andasse sósinha pelos miradouros da quinta, nem fosse ao fundo da tapada, +que embeiçava na serra, quando ouvia um tiro, e os cães da caça latiam na +encosta.</p> + +<p>Não sei que alma escrupulosa avisou o capitão-mór dos colloquios de Beatriz +com o egresso, interpondo-se, verdade é, o muro que dividia a quinta dos +montados, por onde o padre esperava a «estranha caça» á imitação dos menos +felizes navegadores de Camões.</p> + +<p>O sisudo fidalgo da Lixa, sofreando os impetos do sangue ostrogodo, +absteve-se de immolar á memoria ultrajada dos avós aquelle dom ribaldo +tonsurado. Receoso, talvez, de que o padre, colligado com os constitucionaes, +repellisse qualquer offensa, em desprezo dos pergaminhos do fidalgo, dicidiu-se +a guardar silencio, e apressar o casamento, conforme á anciosa vontade do +morgado.</p> + +<p>E, á volta de poucos dias, estava prompto o enxoval, e marcada a seguinte +semana para o consorcio.</p> + +<p>Na vespera, porém, do dia prefixo, Beatriz de Vilalva desappareceu, depois +de haver chorado torrentes, pedindo inutilmente á mãi que a não obrigasse a +casar com o detestado velho, se a não queria levar a matar-se por suas +mãos.<span class="pagenum">[9]</span></p> + +<p>Quando se divulgou, na madrugada do dia 3 de setembro de 1834, a fuga de +Beatriz, o capitão-mór remexeu com a authoridade da pessoa e com as coleras de +pai as justiças de Lixa e de Amarante.</p> + +<p>A primeira e unica suspeita do rapto foi o egresso; mas o egresso, quando +foi procurado em sua casa, sahiu á sala a receber os officiaes de justiça com +tanta serenidade quanto espanto, ao dizerem-lhe que elle era o raptor da filha +do capitão-mór.</p> + +<p>—Eu!—exclamou padre João de Queiroz com as mãos estendidas na cabeça—eu, +senhores! eu raptor de mulheres!...</p> + +<p>E, chamando sua velha mãi, disse-lhe com um solemne e brando socego:</p> + +<p>—Minha mãi, estes senhores dizem que eu roubei a snr.ª D. Beatriz de +Vilalva.</p> + +<p>—Credo!—bradou a velha afflicta.—Credo!...</p> + +<p>—Nada de exclamações, minha mãi—atalhou padre João.—O nosso dever é +franquear a estes senhores todos os cantos d'esta casa. Queiram seguir minha +mãi, cuja vida honrada de sessenta annos não permitte que os senhores a +considerem receptadora de meninas roubadas. E, entretanto que os senhores +passam busca, eu vou vestir-me para os acompanhar á presença de quem aqui os +mandou, e não terei grande magoa de entrar na<span class="pagenum">[10]</span> +cadeia, logo que fui ferido por tão perversa calumnia. O mais pungente do +insulto já cá o tenho cravado na alma.</p> + +<p>Em quanto os officiaes de justiça cumpriam o mandado, e o padre se vestia +para depois acompanhal-os, um cavalleiro açodado, e que entrára do lado de +Amarante á desfilada, apeou no terreiro da casa do Pomar, perguntando se alli +estavam os meirinhos. A resposta affirmativa, tornou o emissario do juiz +dizendo que sustassem a diligencia, porque á beira do Tamega se encontrára a +capa da menina e um bilhete em que fazia declarações.</p> + +<p>Padre João de Queiroz voltou-se contra o escrivão, e disse placidamente:</p> + +<p>—Diga vossa mercê ao snr. capitão-mór da Lixa que eu lhe perdôo.</p> + +<p>Os aguazis sahiram quasi edificados, desfazendo-se em satisfações ao egresso +que os despediu com um amoravel e pacientissimo sorriso de bem-aventurado.</p> + +<p>O bilhete de Beatriz declarava que a misera menina preferia morrer a +casar-se á vontade despotica de seu pai, e invocava o testemunho de sua mãi a +quem ella o havia predito com baldadas supplicas. Acrescentava que lhe rezassem +por sua alma, e que morria confiada na misericordia divina.</p> + +<p>A mãi, vendo o bilhete e reconhecendo a letra, pegou de berrar que tudo +aquillo era<span class="pagenum">[11]</span> impostura; que a filha lhe tinha +dado opio para ella dormir mais de quinze horas sem acordo; que a sua filha +estava escondida; e que o bilhete e a capa á beira do rio era tramoia de padre +João para se escapar á justiça. E, dadas estas razões que a muita gente +pareceram signaes de demencia, pegou de si, foi-se para a porta do egresso, e +começou a berrar aqui d'el-rei contra elle.</p> + +<p>No entanto, gente mais ajuizada procurava entre as ramarias dos salgueiros, +que formavam grutas na ourela do Tamega, o cadaver da suicida. Depois de +laboriosas pesquisas, descobriram no remanso da corrente que descahia de uma +açude, um sapato de cordovão, que uma criada de Vilalva declarou ser de sua +ama.</p> + +<p>Como anoitecesse, cessaram as diligencias, e a justiça e o publico +prescindiram do cadaver para dar como praticado o suicidio.</p> + +<p>Não obstante, a mãi de Beatriz continuou a gritar contra o roubador de sua +filha, ainda depois que o capitão-mór a removeu d'alli para a sua quinta de +Ovelha, nas vertentes do Marão—sitio azado para qualquer pessoa desditosa +gritar á vontade, e sem grande incommodo dos visinhos.</p> + +<p>Corridos seis mezes, o tragico successo estava esquecido, ou apenas era +recordado quando o padre Queiroz apparecia em Amarante,<span +class="pagenum">[12]</span> e as pessoas de bem o apontavam como victima da +calumnia, que o teve no gume da perdição; ao passo que ninguem accusava de +assassino de sua filha o estupido e ambicioso capitão-mór que a quizera atar ao +torpe cadaver do morgado de Pildre.</p> + +<p>Padre João apesar de bemquisto e indemnisado pelo respeito das pessoas +honestas, denotava no aspecto profunda tristeza, e aos seus intimos dizia que +tinha saudades da paz do convento; e, logo que se lhe ageitasse modo, iria +parochiar em algum presbyterio rural, bem longe d'aquella terra onde a +aleivosia lhe matára para sempre o contentamento da liberdade e da familia. +Instavam os amigos em despersuadil-o; mas assim que vagou uma igreja modesta no +arcebispado, e nas visinhanças de Villa Nova de Famalicão, obteve-a de prompto +com a sua reputação de liberal, e mudou-se para lá com immensa magoa dos seus +conterraneos.</p> + +<h2>II</h2> + +<p>Pouco tempo depois, correram estranhos boatos ácerca do padre e de Beatriz. +Dizia-se que uma mulher de Felgueiras, de má nota, e muito da casa do Pomar, +estando em<span class="pagenum">[13]</span> artigo de morte, dera a perceber +que morria com um grande remorso; e muito apertada pela pessoa a quem revelára +os seus trabalhos de consciencia, começou por dizer que a menina de Vilalva não +se tinha afogado; porém, como as intermittencias no exprimir-se fossem longas, +e o arrancar da vida começasse o seu derradeiro paroxismo, a moribunda expirára +sem dizer mais nada.</p> + +<p>E mais se dizia que, por uma noite de lua cheia, uns viandantes da Lixa, na +subida do monte de Santa Quiteria, haviam encontrado um homem a cavallo em um +possante macho, em companhia de uma mulher, por tal maneira envolta em um +capote, que apenas se conhecia ser mulher pelas andilhas; e que um pouco atraz +encontraram um criado a pé, o qual se retrahira para a sombra de um vallado +quando os viu; mas apesar d'isso, o conheceram, e juravam ser o criado de padre +João de Queiroz.</p> + +<p>Estas atoardas não provavam nada em juizo; ainda assim, o vigario capitular +oficiou ao prelado para que se devassasse secretamente da vida do abbade de S. +P. de E***<sup><a href="#fn1" id="mfn1" name="mfn1">[1]</a></sup>. A +syndicancia, habilmente dirigida,<span class="pagenum">[14]</span> elucidou que +o egresso abbade vivia exemplarmente. Que a sua familia era um criado e ninguem +mais; que a residencia era só, triste e silenciosa como um cenobio monastico; +emfim, que os freguezes respeitavam o seu pastor; e que, á excepção da casa do +morgado de E***, padre João não entrava em casa alguma, senão em exercicio das +suas obrigações, religiosissimamente cumpridas.</p> + +<p>Depois, mais nada.</p> + +<p>Profundo silencio. Os personagens da historia mysteriosa foram morrendo com +a costumada regularidade. A mãi de Beatriz acabou em cheiro de douda. O +capitão-mór morreu mais preoccupado com a derrota do Remechido que com o +desastrado destino da filha. O morgado de Pildre, cuidando que se despicava do +injurioso menospreço de Beatriz casando com uma senhora geitosa, vinculou-se +matrimonialmente com uma sobrinha bonita e pobre; porém, passados tres annos, +quando houve a certeza de que não era pai, mas sim tio-avô de seu filho, +rebentou de paixão exacerbada pela anasarca. Contavam-se no discorrer dos +tempos, estes casos, que faziam rir. Eu mesmo, ha vinte e seis annos, os ouvira +n'aquella casa de Pildre, quando já era morta a viuva do morgado e fallecido o +directo successor do vinculo, achando-se na administração do morgadio um meu +amigo, já tambem—e<span class="pagenum">[15]</span> ha quantos +annos!—sepultado no cemiterio dos Prazeres em Lisboa.</p> + +<h2>III</h2> + +<p>Quando, ha quinze annos, vim, pela primeira vez, a S. Miguel de Seide, +conheci o abbade de S. P. de E***. Procurou-me, pedindo-me que lhe escrevesse +uns versos funebres para a eça de uma senhora de casa illustre. Não comprehendi +logo o destino dos versos. Explicou-me o abbade que a poesia, copiada em boa +letra, seria pregada na eça, e assim exposta á contemplação do publico. Escrevi +duas oitavas com mais sentimento do que as escreveria se conhecesse a defunta. +Eis aqui como me relacionei com o egresso graciano, ligado á lenda d'aquella +menina, que tivera um nome digno das trovas plangentes de poeta de +soláos—<em>Beatriz de Vilalva</em>.</p> + +<p>Cincoenta annos contava então o abbade. Rosto de saude e alegria. Poucas +carnes; compleição fina, mas forte; raros cabellos grisalhos; trajo serio, +limpo, elegante; maneiras polidas; dizeres sentenciosos; anecdotas +chistosas,<span class="pagenum">[16]</span> mas decentes; casos do seu +convento; tradições ineditas do seu ex-conventual José Agostinho de Macedo, e +d'outros cerdos que não deixaram tão illustre memoria a ensombrar obscuras +infamias. Era optimo conversador o abbade, e revia, no seu fallar, alguns +signaes de ter estudado applicadamente philosophia. Disse-me que fôra o +primeiro estudante do curso, e que o snr. D. Miguel I, assistindo ao seu exame +de logica, o premiára em publico com a medalha da sua real effigie. Bom +avaliador e juiz! O snr. D. Miguel I foi grandemente entendido em logica: toda +a gente sabe isto, não obstante me asseverar o abbade que sua magestade não +estudara logica; mas premiava os martyres que a estudavam, a fim de animar os +outros votados ao martyrio.</p> + +<p>Com o lapso do tempo, relacionei-me com a familia herdeira da defunta que eu +cantei ou chorei. N'esta casa vi algumas vezes o abbade, e outras na sua +igreja. Aconteceu ir eu alli ser padrinho de uma criança d'aquella familia. +Antecipei-me á hora dada. Detive-me a observar a residencia de padre João de +Queiroz—silenciosa como um grande tumulo, com dous ciprestes á porta, com um +rocio coberto de arbustos e herva espontanea a entestar na escada ingreme do +sobrado. Tres janellas de rotulas fechadas e espessas. As paredes tapizadas de +musgo e fetos a vegetarem<span class="pagenum">[17]</span> das fisgas. Duas +pombas pretas a arrulharem na cornija. Um pardal a sacudir as azas molhadas no +beiral do telhado. E á volta d'isto o rumorejo dos pinhaes circumpostos.</p> + +<p>Sentei-me no beiral do adro, a olhar para uma janella interior da +residencia, e a scismar nos vinte e cinco annos que o abbade para alli +trouxera, e nas noites e dias dos outros vinte e cinco alli passados, com +resignação, e até com alegria, tão só e desatado dos agrados da companhia, e +com tantos predicados para dar e receber na convivencia uma honesta felicidade! +Quando esta meditação me estava enlevando áquella suave tristeza que faz os +homens melhores e o fardo da vida mais leveiro, assomou um rosto de mulher na +janella onde eu, sem intenção, fitára os olhos; e, apenas me viu, retrahiu-se +tão de subito como se dentro tirassem por ella a repelão.</p> + +<p>Isto abalou-me. A mulher parecera-me bonita; mas não ha que fiar nos +conceitos da minha vista, que pouco alcança a curta distancia; quer, porém, +fosse feia, figurou-se-me quasi bella: era o bastante para dar larga tela ao +nebrí da poesia, que, lá do alto, crê vêr uma rôla onde ás vezes está uma +cegonha.</p> + +<p>N'este comenos, chegou o abbade, e a criança no collo da ama, e o pai com a +madrinha, e o sacristão e as testemunhas, vindo<span +class="pagenum">[18]</span> todos da casa do meu compadre, onde +inadvertidamente esperavam que eu fosse.</p> + +<p>Finda a ceremonia, o abbade offereceu-me a sua casa por mera civilidade. Meu +compadre acudiu logo, dizendo que nos esperava o almoço. Partimos para E***, e +o abbade acompanhou-nos, depois de ter ido a casa despir a batina, e +revestir-se aceadamente, de casaca preta com habito de Christo, collete de +velludo, bota de verniz, e chapéo alto de brilhante sêda.</p> + +<p>Em quanto elle se demorava, depois de almoço, no quarto de minha comadre, +alegrando-a com apropositadas anecdotas—que as tinha para tudo—fui eu com meu +compadre vêr o pomar de fruteiras peregrinas.</p> + +<p>—Gosto muito d'este abbade—disse eu.—Parece-me um bom caracter, pela +satisfação e alegre rosto com que se entrega á sua obscura missão, podendo com +as qualidades que tem aspirar a melhor posição na vida ecclesiastica!</p> + +<p>—Não quer. Affeiçoou-se a isto, e nunca mais d'aqui sahiu. Eu amo-o com +ternura. Já foi elle quem me baptisou. Devo-lhe provas de profunda estima. Tem +sido elle o anjo pacificador das desordens grandes que tem ameaçado a +estabilidade da nossa familia.</p> + +<p>—Verdadeiro pastor!—atalhei eu com sincero respeito. E acrescentei, +passados instantes:—A<span class="pagenum">[19]</span> senhora, que vive com +elle, é sobrinha?</p> +—A senhora?!—acudiu meu compadre.—Está enganado. Elle não tem mulher de +casta nenhuma em casa. Vive com um criado velho, que já veio com elle em 1835. + +<p>—Perdão! eu vi hoje lá uma senhora na janella que diz para o pateo.</p> + +<p>Riu-se meu compadre, e, remoqueando, ajuntou:</p> + +<p>—O meu amigo, provavelmente, estava a idealisar castellãs na residencia que +tem ares de castello arruinado, e figurou-se-lhe vêr uma sobrinha do abbade.</p> + +<p>—Compadre—repliquei—eu sei quando vejo castellãs e sei quando vejo +sobrinhas d'abbades. O senhor tem a certeza de que não ha mulher n'aquella +casa?</p> + +<p>—Tenho tanta certeza como estar eu com o meu amigo n'este pomar.</p> + +<p>—Então, permitta-me dizer-lhe que o seu abbade é um patife.</p> + +<p>—Ó compadre!... Um patife?!</p> + +<p>—Ou dous patifes em um só abbade. Demonstro: se é sobrinha, e por tanto uma +familiar licita e honesta, não havia razão para escondel-a, nem ella para se +esconder rapidamente de mim: logo, não é sobrinha; e, se não é sobrinha, é... +conclua vossê a demonstração.<span class="pagenum">[20]</span> Que é a mulher +que vive com um abbade, e não quer ser vista?</p> + +<p>—Que imaginação! que romancista!—exclamou meu compadre—Desengane-se. Este +homem póde ser que não seja o padre mais virtuoso, nem aspire a ser canonisado; +mas mulher em casa nunca teve alguma, nem, ha vinte e cinco annos, alguem lh'a +conheceu na freguezia ou fóra d'ella. Que mais quer que eu lhe diga?</p> + +<p>—Que me creia; que se convença de que o seu abbade tem na residencia uma +mulher; que esta mulher é bonita; que eu dava n'esta santa hora dous +beijos...</p> + +<p>—N'ella?</p> + +<p>—Não, em vossê, se me descobrisse o mysterio d'aquella mulher, alli +sequestrada do mundo, e absorvida toda na felicidade de um homem, que a esconde +com tanta avareza, que os seus mais particulares amigos ignoram que tal +creatura exista.</p> + +<p>O meu compadre, feita uma longa pausa de reflexão, disse:</p> + +<p>—Terá vossê razão!...</p> + +<p>—Não é razão: é olhos. Juro-lhe que a vi.</p> + +<p>—O que lhe posso dizer é que nunca entrei ao interior da residencia, nem +pessoa alguma que eu saiba. Tem uma saleta onde era d'antes adéga, e onde +recebe as pessoas que<span class="pagenum">[21]</span> o procuram. Quando +esteve, ha annos, doente, e precisava de medico, e de receber mais forçosamente +quem o visitava, passou a cama para a saleta ao rez do pateo. Eu ia lá todos os +dias, e nunca vi ao pé d'elle senão o criado; mas scismava com um rumor de +passos no sobrado superior; e elle dizia-me que eram ratos.</p> + +<p>—Eram ratazanas—corrigi eu.</p> + +<p>—Pois seriam...—condescendeu o compadre, e prometteu esforçar-se por +satisfazer a minha curiosidade.—Outra cousa,—disse-me elle quando iamos +entrando em casa de volta do pomar.—Aqui vem todos os annos, em setembro, um +rapaz estudante de Coimbra, que é sobrinho do abbade. Este rapaz dorme lá em +cima. É crivel que elle, tão precavido com os outros, não escondesse a amante +das vistas do sobrinho?!</p> + +<p>—E quem nós diz a nós que o sobrinho não é filho, e que a amante não é mãi +do tal rapaz?</p> + +<p>—Onde isso já vai! Já vossê inventou prole ao homem para ter motivo para o +segundo tomo do romance! Ora, meu amigo... Não me disse que ella era rapariga e +bella?</p> + +<p>—Rapariga, não disse.</p> + +<p>—Note que o tal rapaz tem vinte e dous annos.<span +class="pagenum">[22]</span></p> + +<p>—E ella póde ter quarenta, e ser mãi, e ser ainda bella.</p> + +<p>—Isso é verdade. Seja como fôr, estou picado. Hei de esgotar todos os +recursos da minha espionagem; mas com uma condição: o que eu poder descobrir, +dir-lh'o-hei; mas vossê não o divulgará, sob pena de me dar remorsos de +publicar as fragilidades de um homem a quem devo as maiores finezas.</p> + +<p>—Pois se receia que eu, levado do furor romantico, venha a assoalhar os +<small>MYSTERIOS DO SENHOR ABBADE</small>, nada indague, e nada me diga. Eu sou +um homem que conto a minha vida quando não posso, por ignorancia, contar a vida +alheia. Antes quero não saber nada. Passe por cá muito bem o snr. abbade, e não +perturbe vossê a paz d'essa familia, onde bem póde ser que as lagrimas tenham +delido as maculas de muita culpa. Se elle é <em>padre</em>, tambem póde ser +<em>pai</em>. <em>Pater, pai, padre.</em> E <em>pater</em> é <em>pai</em>, como +diz, nas <em>Odes modernas</em>, o meu amigo Anthero do Quental. Fiquemos +n'isto.</p> + +<h2>IV</h2> + +<p>Dobraram-se os annos, desde 1861, sem que eu me intromettesse na vida intima +do<span class="pagenum">[33]</span> abbade. Em 1870, ultima vez que o vi, +estava elle em Famalicão, na feira-grande de maio, apostando ao monte com muita +felicidade. Reparei pouco n'esta perfida ventura de quem joga, e dei grande +attenção á rapida velhice do padre. Poucos vestigios conservava do robusto +homem dos cincoenta annos. Estava decrepito, enrugado, curvo, movia-se +arrastando uma perna, trajava negligentemente; o collarinho da camisa surrado +nos vincos revelava a invencivel desconsolação da doença, a dolorosa convicção +de que a morte não merece ser requestada com camisa lavada.</p> + +<p>Deteve-se commigo uns quinze minutos, expondo-me a sua enfermidade, com +tristeza, sem esperança, mas conformado com a previsão da sepultura. A doença +estava acertadamente qualificada: era uma alteração de sangue. Poucas são as +pessoas que podem gabar-se de saber de que morrem.</p> + +<p>E então me disse umas palavras que me deram rebates da historia de Beatriz +de Vilalva, consoante a eu ouvira adulterada na casa de Pildre.</p> + +<p>Contou-me, ao proposito de um sujeito de appellido <em>Queiroz</em>, que +passára cortejando-me, que aquelle sujeito era seu primo em terceiro grau; por +quanto, seu avô era bastardo dos Queirozes Coimbras, e casára com uma +abastada<span class="pagenum">[24]</span> lavradora da casa e quinta do Pomar +no concelho de Felgueiras.</p> + +<p>A denominação da quinta suscitou-me a primeira reminiscencia; mas com a +natural indecisão em cousas tão remotas.</p> + +<p>Depois, como a conversação descahisse para saudades da mocidade, notei-lhe o +recolhimento subito, e logo um suspiro muito intimo do seio, e um leve orvalhar +de lagrimas.</p> + +<p>—A mocidade...—disse elle.—Prouvera a Deus que eu não sahisse do meu +cubiculo antes dos quarenta annos! Eu não saberia a esta hora que tive +mocidade; e, ao termo da vida, olharia sem saudade para o passado, e sem abalo +do porvir.</p> + +<p>—Mas...—volvi eu intencionalmente—se não enganam as apparencias, a vida +de v. s.ª correu serenamente e alumiada pela virtude, como os arroios nas +noites do estio prateados pela luz do luar...</p> + +<p>—Enganam as apparencias—replicou o abbade, apertando-me convulsivamente a +mão como a despedir-se.—A minha vida teve uma só tempestade; mas essa durou +cincoenta annos. A final, ferrei ancora, e achei terra; mas terra do sepulcro. +A sua curiosidade—bem lh'a vejo no rosto—ha de ser satisfeita em breve. +Espere que a maledicencia, que eu pude enganar cincoenta annos, se vingue no +meu cadaver. O mundo tolera; mas não perdôa a<span class="pagenum">[25]</span> +quem o sabe illudir. Se, a final, se não vinga no vivo, vinga-se no morto. E +adeus. Se eu poder, irei visital-o a Seide, e conversaremos mais +detidamente.</p> + +<p>—Se v. s.ª me permitte, irei a sua casa.</p> + +<p>—Não vá; que a minha residencia é triste como uma caverna onde não penetra +raio de sol.</p> + +<p>Era meu dever não desfiar a lugubre imagem, porque eu bem conhecia os fios +mysteriosos que a teciam. Elle afastou-se, e eu, com tão poucos dados, fiquei +conjecturando se aquelle seria o egresso da lendaria Beatriz de Vilalva.</p> + +<h2>V</h2> + +<p>Era. O leitor, de sobra, sabe que era elle.</p> + +<p>Dous mezes depois, vi annunciada a morte do abbade de S. P. de E***. Estava +eu no Porto, e anciei saber as particularidades d'aquelle trespasse.</p> + +<p>Quanto ao morrer, disseram-me que de uma ligeira esfoliação em uma perna +resultára uma rapida gangrena, e a morte seguintemente.</p> + +<p>Quando alguns freguezes entraram á residencia,<span +class="pagenum">[26]</span> alvorotados pelo dobrar do sino, viram á beira do +morto uma senhora que nunca tinham visto, e o mancebo que já conheciam como +sobrinho do abbade.</p> + +<p>Esta senhora tinha os cabellos brancos, as faces cavadas, e a luz dos olhos +embaciada pelas lagrimas. Perguntaram-lhe se era irmã do snr. abbade. Respondeu +que não.</p> + +<p>Abriu-se o testamento do defunto, e leu-se que tudo quanto n'aquella casa +existia, tirante os utensilios da igreja, pertenciam á snr.ª D. Beatriz Pacheco +Leite de Menezes, sua herdeira universal. Declarava que o testamento seria +apresentado pela mesma senhora, e os necessarios esclarecimentos ácerca da +idoneidade da herdeira os encontraria quem os solicitasse confirmados por +escriptura na nota do tabellião, que mencionava.</p> + +<p>A herança do abbade montava a doze contos de reis em dinheiro, producto das +heranças provindas de irmãos fallecidos sem descendencia, e de uma quinta no +concelho de Amarante, intitulada <em>Vilalva</em>. Por onde se infere que padre +João de Queiroz havia comprado aos herdeiros do capitão-mór da lixa a casa onde +Beatriz tivera o berço, e onde ia encontrar o leito da morte.</p> + +<p>Quando o defunto era conduzido á sepultura, Beatriz de Vilalva sahiu com seu +filho d'aquella casa onde vivera enclaustrada desde<span +class="pagenum">[27]</span> 1835 até 1872, trinta e sete annos sem ouvir de +labios estranhos uma saudação. Acompanhou-os um velho—aquelle mesmo criado que +a conduzira á casa de Felgueiras na noite da fuga, e levára á beira do Tamega a +capa com o escripto, e atirára á corrente os sapatos.</p> + +<p>Um dia, amanheceu á porta da quinta de Vilalva aquella familia desconhecida +na terra. O criado abriu as portas. Beatriz correu direita a um dos quartos da +casa. Atirou-se contra um leito, como quem abraça um cadaver, e chamou a +estridentes gritos sua mãi. Ella imaginava que a douda morrera alli, depois de +a ter amaldiçoado. O filho arrancando-a do quarto escuro, tirou-a para uma sala +carinhosamente, e disse-lhe:</p> + +<p>—Minha querida mãi, se a senhora não amou quanto devia essa infeliz que +morreu louca, Deus lhe perdoou pelo muito que padeceu sepultando-se viva para +esconder a sua culpa; e eu lhe provarei que Deus teve compaixão da sua +penitencia, enchendo-me o coração do extremoso amor com que farei a felicidade +dos seus ultimos annos.</p> + +<p>Beatriz lançou-se a soluçar nos braços do filho, ungindo-lhe o rosto de +lagrimas.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *<span class="pagenum">[28]</span></p> + +<p>As pessoas antigas d'aquelles sitios não cessam de procurar occasião em que +vejam aquella formosissima Beatriz por cuja alma rezaram, posto que o parocho +lhes dissesse que a alma da suicida havia cahido de chofre e a prumo no +inferno.</p> + +<p>E, de feito, lá vêem a miudo passar pelos maus trilhos que conduzem á casa +dos pobres e dos enfermos uma senhora vestida de negro, precedida do criado +ancião que a conduz.</p> + +<p>—Bemdito seja o Senhor!—exclamam pondo as mãos as velhas que a conheceram +menina.</p> + +<p>E ella acercando-as de si, pergunta-lhes os nomes, recorda-se, chora, e +consola-se, quando alguma d'ellas póde acolher-se ao regaço da sua +beneficencia.</p> + +<p>Se Deus lhe não houvesse perdoado, seria feito á imagem do homem.<span +class="pagenum">[29]</span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#mfn1" id="fn1" name="fn1">[1]</a></sup> Certo respeito, +demasiado talvez, me cohibe de declarar extensamente o nome do abbade, e o +padroeiro da abbadia. Os leitores, convisinhos do local onde escrevo, sabem que +não estou phantasiando.</p> +</div> +<hr> + +<h1><a id="cap02" name="cap02">SE O POETA BERNARDIM RIBEIRO FOI +COMMENDADOR</a></h1> + +<p>Ha bastantes annos que eu sahi com este repto aos biographos do author das +<em>Saudades</em>:</p> + +<p> </p> + +<p>«O meu parecer é que Bernardim, e tambem Bernaldim Ribeiro, ou Bernardim +Reinardino Ribeiro, como Faria e Sousa o chama, nem foi governador de S. Jorge +da Mina, nem amou a infanta D. Beatriz, nem sahiu da sua terra, para Lisboa, +senão depois que ella já tinha sahido de Lisboa para Saboya. Corre-me obrigação +de pôr as clausulas d'este meu juizo, tão encontrado com o de doutos +investigadores. Fal-o-hei em pouco, porque não cabe n'este genero de escriptos +grande cavar em terra d'onde o que sahe, para o commum dos leitores, é +pedregulho.</p> + +<p>Em primeiro, tenho como provavel que<span class="pagenum">[30]</span> +Bernardim Ribeiro, sob o pseudonymo de Jano, falla de si na ecloga 2.ª Ahi diz +elle:</p> + +<blockquote> + Quando as fomes grandes foram,<br> + Que Alemtejo foi perdido,<br> + Da aldêa que chamam Torrão<br> + Foi este pastor fugido:<br> + Levava um pouco de gado, etc.</blockquote> + +<p>E continúa:</p> + +<blockquote> + Toda a terra foi perdida;<br> + No campo do Tejo só<br> + Achava o gado guarida,<br> + Vêr Alemtejo era um dó;<br> + E Jano para salvar<br> + O gado que lhe ficou,<br> + Foi esta terra buscar, etc.</blockquote> + +<p>«Temos, pois, o poeta allegorico do Torrão—naturalidade que todos os +biographos unanimemente dão a Bernardim Ribeiro—em Lisboa no anno das grandes +fomes, que foi em 1522. Ora, D. Beatriz, em 5 de agosto de 1521, tinha sahido +para Saboya.</p> + +<p>«Nenhum biographo até agora assignou o anno do nascimento ou o da morte de +Bernardim Ribeiro. Póde, se o meu modo de decifrar a ecloga é plausivel, +marcar-se-lhe o anno do nascimento em 1500, ou 1501 mais exacto, porque o +pastor, n'outro ponto da mesma ecloga 2.ª diz:<span +class="pagenum">[31]</span></p> + +<blockquote> + Agora hei vinte e um annos,<br> + E nunca inda té agora<br> + Me acorda de sentir damnos... etc.</blockquote> + +<p>«Quanto ao governo de S. Jorge, capitania-mór das armadas da India e +commenda de Villa Cova, é tudo isso um equivoco do author da <em>Bibliotheca +Lusitana</em>, com o qual se bandeou a boa fé de escriptores de grande porte. O +Bernardim Ribeiro, governador de S. Jorge da Mina, assistiu em 1526 ao cerco de +Mazagão, d'onde sahiu abrasado d'uma explosão de polvora. (Veja a <em>Chronica +de D. Sebastião</em> por D. Manoel de Menezes).»</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>O snr. Innocencio Francisco da Silva, no tomo VIII do <em>Diccionario +bibliographico</em>, pag. 379, não aceita como bastantemente decisivos os meus +reparos. Traslado as razões do insigne escriptor:</p> + +<p> </p> + +<p>«O snr. Camillo Castello Branco, em uma nota do folhetim que com o titulo +<em>Dous corações guizados</em> publicou..., não só põe em duvida, mas nega +redondamente que Bernardim Ribeiro, author das Saudades, seja o mesmo a quem os +biographos attribuem as qualidades<span class="pagenum">[32]</span> de +commendador, governador de S. Jorge da Mina, e amante da infanta D. Beatriz, +etc. Salvo o respeito devido ao nosso... romancista e meu presado amigo, +parece-me que o juizo definitivo que se haja de assentar sobre estes pontos +depende ainda de ulteriores averiguações. Deixo-as a quem tiver por ellas o +tempo e a paciencia que de presente me faltou.»</p> + +<p> </p> + +<p>Ulteriores investigações que fiz em cartapacios genealogicos e coevos +levaram-me da certeza á evidencia de que Bernardim Ribeiro, o poeta, não era +Bernardim Ribeiro Pacheco, o commendador de Villa Cova da ordem de Christo e +capitão-mór das naus da india, casado com D. Maria de Vilhena, filha de D. +Manoel de Menezes, nem ainda o outro Bernardim Ribeiro, governador de S. +Jorge.</p> + +<p>Do poeta, que pertencia a familia nobilissima do Torrão, logo veremos que +não se esqueceram os genealogicos contemporaneos.</p> + +<p>Do seu homonymo, para quem Barbosa Machado facilmente usurpou a +immortalidade do outro, sei o nome de paes, de avós e de filhos.</p> + +<p>Era filho de Luiz Estevianes Ribeiro, criado e thesoureiro do infante D. +Fernando (filho de el-rei D. Manoel) e fidalgo de sua casa. Nasceu em Lisboa, +junto á ponte de Alcantara, na quinta da Rola, que D. João I dera a um de seus +avós.<span class="pagenum">[33]</span></p> + +<p>Casou com D. Maria de Vilhena, filha de D. Manoel de Menezes.</p> + +<p>Assistiu á batalha de Alcacer-Quivir, e ficou captivo. Voltando ao reino, +foi despachado capitão-mór das naus da India em 1589, como paga de ter votado a +favor da successão de Philippe II, e n'esse mesmo anno teve a commenda de Villa +Cova.</p> + +<p>Se o poeta Bernardim Ribeiro tinha em 1522 os vinte e um ou vinte e dous +annos que se inferem dos versos citados, orçaria em 1589 pela idade dos +noventa, pouco viçosa para capitanear a frota da India.</p> + +<p>Dizem que o Bernardim Ribeiro, poeta, deixára uma filha.</p> + +<p>O Bernardim, commendador, deixou dous filhos e uma filha: Luiz, Manoel e D. +Maria de Menezes.</p> + +<p>Luiz Ribeiro Pacheco herdou a commenda de seu pai, e serviu-a em Ceuta. +Casou com D. Catharina de Athayde, filha de Francisco de Portugal, e já viuva +de Fernão Gomes Dragão.</p> + +<p>Manoel serviu commenda em Tanger, e morreu solteiro.</p> + +<p>D. Maria de Menezes casou com Luiz da Cunha, cognominado o +<em>Pequenino</em>.</p> + +<p>De Luiz Ribeiro Pacheco nasceu Bernardim Ribeiro Pacheco, fallecido antes de +casar.<span class="pagenum">[34]</span> Os haveres vinculados passaram para sua +tia D. Maria de Menezes.</p> + +<p>Temos ainda outro Bernardim (ou Bernardino) Ribeiro, que era o governador de +S. Jorge da Mina, e sahiu abrasado do cerco de Mazagão em 1526, consoante a +<em>Chronica de D. Sebastião</em>, por D. Manoel de Menezes.</p> + +<p>Tres Bernardins andam, pois, fundidos no cantor da <em>Menina e Moça</em>, +Deus sabe com que bullas em affinidades intellectuaes: parentes com certeza +eram.</p> + +<p>Se um dos tres amou a filha d'el-rei D. Manoel, de semelhante ousadia é +justo censurar-se o poeta, embora d'ahi lhe promane a sua romantica +immortalidade. Se o matassem na rua Nova os moços do monte d'el-rei, como dizem +as <em>Memorias ineditas</em> de Diogo de Paiva de Andrade, a catastrophe assim +contada no poema, no romance, ou na tragedia maiores realces daria ao desditoso +provençal. Morrer assim, ou morrer commendador, e macrobio, como querem +Garrett, e Costa e Silva e tantos outros engenhos atilados, são cousas +diversissimas para a arte, que houver de assentar o pedestal do solitario bardo +da serra de Cintra.</p> + +<p>Mas a verdade é outra.</p> + +<p>No principio do seculo XVIII ventilava-se uma questão de vinculos entre +familias do Torrão que se assignavam <em>Ribeiros</em> e +<em>Mascarenhas</em>,<span class="pagenum">[35]</span> e appenso aos autos +andava um instrumento antigo em que João Ribeiro, filho de Gonçalo Ribeiro, +senhor de Aguiar de Neiva e Couto de Carvoeiro no almoxarifado de Ponte do +lima, provava <em>ser primo co-irmão de Bernardim Ribeiro, fidalgo principal e +muito conhecido pelos seus versos intitulados <span class="sc">Menina e +Moça</span></em>. O referido instrumento era passado em 1552, sendo já +fallecido Bernardim Ribeiro.</p> + +<p>Dos Mascarenhas, que venceram o pleito, era ascendente Manoel da Silva +Mascarenhas, que servira em Tanger e nas armadas de Castella com o general D. +Fradique de Toledo. Voltando a Portugal em 1640, foi um dos denunciantes da +conjuração de 1641; e em premio d'isso o galardoou D. João IV com a alcaidaria +da Torre de Outão, e ao mesmo tempo exerceu as funcções de guarda-mór da +alfandega de Lisboa. Este Manoel da Silva Mascarenhas editou em 1645 as poesias +do seu parente, mudando o titulo de <em>Menina e Moça</em> para <em>Saudades de +Bernardim Ribeiro</em>.</p> + +<p>D'este ramo não houve successão que hoje possa gloriar-se de parentesco +remoto com o poeta. Manoel da Silva Mascarenhas foi casado com D. Garcia +Pereira, filha de João Sodré, de Ourem; mas não deixou filhos legitimos. Teve +dous bastardos: um mataram-lh'o em Setubal; do outro não fazem cabedal os +linhagistas.<span class="pagenum">[36]</span> Se o leitor e eu tivessemos +pachorra, iriamos esquadrinhar a circulação sanguinea de nove ou dez gerações +até encontrar globulos muito depauperados do sangue de Bernardim Ribeiro na +familia <em>Leites Pereiras de Mello</em>, de S. João Novo, no Porto.</p> + +<p>Mas um descobrimento de tão magna valia tanto importa á familia Leite +Pereira, como ao leitor, como a mim,—um dos bons tolos que tem produzido a +heraldica n'este seculo XIX!</p> +<hr> + +<h1><a id="cap03" name="cap03">RESPOSTA DE JOSÉ ANASTACIO</a></h1> + +<p style="text-indent: -1em; margin-left: 1em;"><small>SATYRA FEITA A FRANCISCO +DIAS, TENDEIRO, COM LOJA DE MERCEARIA NA RUA DAS ARCAS, CHAMADO POR ALCUNHA O +DOUTOR BOTIJA, EM RESPOSTA DE OUTRA, QUE FEZ A UM SUJEITO, DE QUEM NÃO TINHA O +MINIMO CONHECIMENTO, NEM O MENOR ESCANDALO.</small></p> + +<blockquote> + Em quanto agora, o rude teu caixeiro<br> + Unta as guedelhas no mofino azeite,<br> + Que sobra do nojento candieiro;<span class="pagenum">[37]</span><br> + <br> + Em quanto se entretem no porco enfeite,<br> + E fervoroso tu lhe estás prégando<br> + Para que nas balanças menos deite:<br> + <br> + Ó mofino, meus versos escutando,<br> + Melhor aprende a venerar a gente,<br> + Que os jumentos, quaes tu, sabe ir picando.<br> + <br> + Que sequaz te induziu, feio demente,<br> + A romperes c'o a ovelha? que pateta<br> + Nas garras te lançou do mal presente?<br> + <br> + Foi talvez o politico de treta,<br> + Humanado morcego, que na escura<br> + Noite, á lambuge sahe da branca e preta<sup><a href="#fn2" id="mfn2" + name="mfn2">[2]</a></sup>?<br> + <br> + Calvo peralta, que sem tom murmura:<br> + Venero-o; que é burrinho sustentado<br> + Pelos serviços do defunto cura.<br> + <br> + Foi algum minorista relaxado<br> + Heroe dos Ganimedes, padre velho,<br> + Nos dogmas de Lieu controversado?<br> + <br> + Bibliographico vão de alto conselho:<br> + Governa-te por esse moralista,<br> + Que vende em praça o gato por coelho.<br> + <br> + Nem estes, nem o secco rabulista,<br> + Aguia manhosa, que folgando espera<br> + Comer, nas garras, quem tentar na alpista.<br> + <br> + De que hoje te arrepelles defendera,<br> + Por chamares ao circulo um amigo<br> + Que de asnos despicar-se não quizera.<span class="pagenum">[38]</span><br> + <br> + Eia commigo, pedantão, commigo,<br> + Que da Laconia os cães excedo na arte,<br> + Com que em vereda os lobos maus persigo.<br> + <br> + Não determino os versos censurar-te;<br> + Supposto manifestem que os favores<br> + Calliope comtigo não reparte.<br> + <br> + Nem respondo tão pouco aos rimadores,<br> + Que dão ás aguas de Hyppocrene o gosto<br> + N'um cantar, como aos echos dos tambores.<br> + <br> + Phebo a taes ignorantes volta o rosto:<br> + Das lyras que no Olympo ouvir estima,<br> + N'um <em>ão</em> com um <em>ão</em> o gosto não tem posto.<br> + <br> + Nem menos aos exemplos teus da rima:<br> + Sem ella os campos lacios, e os da aurora,<br> + Deram plectros, que a todos vão de cima.<br> + <br> + Nos mil volumes, creio lês por fóra;<br> + Mas excede na orelha um mau jumento<br> + Quem de Apollo as acções assim decóra.<br> + <br> + Menos respondo ao baixo atrevimento,<br> + De me accusares por fallar das artes,<br> + Em meio de qualquer ajuntamento.<br> + <br> + Comtigo n'isto a injuria bem repartes;<br> + O sabio no lugar onde apparece<br> + Das mãos não larga Homéro, nem Descartes.<br> + <br> + Ditoso quem no mundo isto conhece!<br> + Ditoso aquelle, que d'um n'outro errando,<br> + Vagueia, té que a aurora lhe amanhece!<br> + <br> + Cada um na sua herdade anda lavrando:<br> + Tu desvelas-te em ser rico tendeiro,<br> + Eu em andar nas artes estudando.<span class="pagenum">[39]</span><br> + <br> + Nenhum d'estes defeitos, eu requeiro<br> + Para abaixar-te a longa orelha; emprégo<br> + Outro arrocho maior, maior fueiro.<br> + <br> + Por isso de outros erros te não prégo:<br> + Qual é o de seguires que entre os homes<br> + O lynce represente ser um cego.<br> + <br> + Teme-os embora tu, que d'elles comes;<br> + Mas olha que ao cobarde a espada corta:<br> + Nunca livre obra, quem receia fomes.<br> + <br> + Quem te mette a induzir na estrada torta,<br> + O que voar pretende além dos céos?<br> + A porta da virtude é estreita porta.<br> + <br> + Pondera, se com taes descuidos teus,<br> + Não podia opprimir-te, envergonhar-te,<br> + Se vergonha consente o mal nos seus.<br> + <br> + Vê se bastante era isto a depennar-te,<br> + D'essa vaidade, com que te apresentas<br> + Decidindo de leve em qualquer parte.<br> + <br> + Bem como as aves já de orgulho isentas<br> + A gralha depennaram, que entendia<br> + Encobrir suas plumas macilentas.<br> + <br> + Que mal c'o as do pavão se revestia,<br> + Eis lh'as depennam logo, e perseguindo<br> + Vão todas a infeliz, que lhes fugia.<br> + <br> + Hoje atravessa os mares repetindo:<br> + Ao vaidoso mui mal serve a vaidade:<br> + E de echo o exemplo teu lhe está servindo.<br> + <br> + Se não tiveste geito para abbade,<br> + Nem para leigo ser da Estremadura,<br> + Quem te mette a inculcar letras de frade?<span class="pagenum">[40]</span><br> + <br> + A natura não é contra natura:<br> + Para Minerva, e Clio não tens ara,<br> + Que um bom senso, não soffre má figura.<br> + <br> + Qual das celestes musas não julgára,<br> + Se teus metros Apollo a lêr vos dera,<br> + Que em seu presidio Circe te hospedára?<br> + <br> + E que tornar-te em burro pretendera,<br> + Com mania de versos maus fazeres,<br> + Como n'outros por magica fizera?<br> + <br> + Para o que seus veneficos poderes,<br> + Ajuntando, com vara diamantina<br> + Te deu, ferindo o chão, a orelha a veres?<br> + <br> + Mas Phebo a cousas taes me não destina.<br> + Só na grandeza enorme da ambição,<br> + Que te occupa, meu rude plectro afina.<br> + <br> + Já sinto se me inflamma o coração,<br> + Ah! Menippo cruel da mercearia,<br> + Nas tramoias da tenda sabichão!<br> + <br> + Onde férvido corres á porfia,<br> + Uns dinheiros, sobre outros encofrando,<br> + Sem afrouxares nunca em tal mania<sup><a href="#fn3" id="mfn3" + name="mfn3">[3]</a></sup>?<br> + <br> + Não vês que eterno mal estás cavando<br> + A vida, que respiras, praguejada<br> + Pela miseria dos que estão penando?<br> + <br> + Quem te encontra de capa esfrangalhada,<br> + Surdindo já pelo sapato o dedo,<br> + Porcas as mãos, a cara besuntada,<span class="pagenum">[41]</span><br> + <br> + O ar do rosto, de quem come azedo,<br> + As melenas hirsutas, mal corridas,<br> + Figura, que promove o nojo e medo:<br> + <br> + Diria: «que mal correm as medidas<br> + A este pobre!» a não te conhecer<br> + Pelo mais traficante busca-vidas.<br> + <br> + Com que razão, te intentas defender,<br> + Sendo não só nos males teus culpado,<br> + Mas nos de quantos menos podem ter?<br> + <br> + Não sei como respiras socegado<br> + Encontrando no mundo a cada passo<br> + O triste, que tu fazes desgraçado!<br> + <br> + Podes voltar as costas, ó escasso,<br> + Á vista da miserrima figura,<br> + De quantos mata o famulento laço?<br> + <br> + Do pobre, que esforçar-se em vão procura,<br> + Contra o peso dos annos, que servindo<br> + Lhe estão de açoute, até á sepultura?<br> + <br> + Do enfermo, que o grave mal sentindo,<br> + Olha, e vê a terrivel desnudez<br> + Estar-lhe aos pés a fria cova abrindo.<br> + <br> + Presumo que em tal scena te não vês,<br> + Ignorante selvage inda peor,<br> + Que os mouros de Marrocos, ou de Fez.<br> + <br> + Não te abrandam os echos do clamor<br> + Da misera viuva, rodeada<br> + Dos tenros fructos do passado amor,<br> + <br> + Que rota, lacrimosa, esguedelhada,<br> + Um dia vê raiar, vê outro dia,<br> + Sem que lhe digam: «toma, desgraçada!»<span class="pagenum">[42]</span><br> + <br> + Avaro sabichão da Barberia,<br> + Aos golpes morrerás dos crueis damnos,<br> + Que aos tristes motivar tua mania.<br> + <br> + Pondéra meus sinceros desenganos,<br> + Que de outro peso são, que os palavrosos<br> + Discursos teus, errados, e profanos.<br> + <br> + Fizeram na terra o mal os cobiçosos;<br> + N'elles origem teve este direito,<br> + Que faz o rico, e faz os desditosos.<br> + <br> + N'elles é que se viu o homem sujeito:<br> + N'elles a causa da ignorancia existe,<br> + Pois ninguem conhecer quer seu defeito.<br> + <br> + Porque de erros tão feios não sahiste,<br> + Se ser tentavas critico dos homes?<br> + N'um bom exemplo a boa lei consiste.<br> + <br> + Outra vereda é licito que tomes;<br> + Seja essa a de tendeiro, em que nasceste<br> + Entre os exemplos já, de unhas de fomes.<br> + <br> + Olha a quanto por nescio te expozeste!<br> + A perderes do ser de humano a gloria,<br> + Porque outro avaro Midas te fizeste!<br> + <br> + Na terra gravarão triste memoria<br> + Teus vicios, e acções escandalosas<br> + Nunca sonhadas na mais vil historia.<br> + <br> + Com que horror te olharão castas esposas,<br> + Sabendo que aprouveste á tua dar<br> + Um tostão, vendo-a enferma? E que repousas!<br> + <br> + Com que odio chegarão a recordar<br> + Não seguiste as leis do deus vendado,<br> + Por mais cobres na burra accumular?<span class="pagenum">[43]</span><br> + <br> + Morrendo viva o mal aventurado;<br> + (Dirão ellas) nem d'elle se encarregue<br> + O Charonte no Averno ao remo usado.<br> + <br> + De Ixion, e Tantalo aos trabalhos chegue;<br> + Nas garras das harpias monstruosas<br> + Com elle, a grã discordia irada prégue.<br> + <br> + Cáia aos pés das Euménides raivosas,<br> + Que as cabeças de viboras povoadas<br> + Cingem de escuras fitas sanguinosas.<br> + <br> + Gema nas mãos das funebres e iradas<br> + Scyllas biformes, cuja enormidade<br> + As montanhas assombra inanimadas.<br> + <br> + Que inda pequena é calamidade<br> + Para quem dobra aos pés uma innocente<br> + Dos vicios, que disfarça em castidade.<br> + <br> + Ah! mofinento critico, indolente,<br> + Para opprobrios respiras n'este mundo,<br> + Alvo já dos rapazes, e da gente!<br> + <br> + Vê porque nome trocas o profundo<br> + Socego da virtude, tão querido,<br> + Menippo turbulento, vil, e immundo!<br> + <br> + Vê porque gloria vives opprimido,<br> + Querendo bravo dar a conhecer-te,<br> + Pela besta maior que tem nascido!<br> + <br> + Sahe vacillante quem chegou a vêr-te<br> + Sobre côxo banquinho repimpado<br> + Ao canto do balcão, sem nunca erguer-te.<br> + <br> + Quando ao mais alto o dia tem chegado<br> + Ergueres essa cara agolfinhada,<br> + Isto dizendo ao caixa enlabuzado:<span class="pagenum">[44]</span><br> + <br> + «Ouves, tratante, uma hora é já passada:<br> + Vai vêr no Talaveiras se sobeja<br> + Alguma cousa, muito acommodada.<br> + <br> + Senão, á cêa basta que isto seja;<br> + Que eu por mim, te confesso, estou impando:<br> + Inda a sardinha de hontem cá branqueja.»<br> + <br> + Sahe aturdido quem te viu ceando<br> + Negra bolacha, e na herva mal cozida,<br> + Pingo e pingo o azeite alto deitando.<br> + <br> + Mosca que ao prato vem, dobra a lambida<br> + Mesa de cão; e ao longe teu caixeiro<br> + Comendo está n'um canto por medida.<br> + <br> + Mofino, que avançado no terreiro<br> + O mundo desafias, teme agora<br> + Morrer na espada do feroz Rogeiro.<br> + <br> + Teme, teme os clamores, muito embora,<br> + Da grã calamidade, que gemendo<br> + Triste escrava do avaro, amarga chora:<br> + <br> + Da grã calamidade, que volvendo<br> + Os olhos para os céos, efficazmente<br> + Expondo o mal, que á força está fazendo.<br> + <br> + Eterno Padre, Justo, Omnipotente,<br> + (Diga, vendo-se toda rodeada<br> + Da miserrima, triste, e pobre gente)<br> + <br> + Não posso respirar mais subjugada.<br> + Aos erros da avareza repetidos<br> + Por cujas mãos tyrannas fui criada.<br> + <br> + Mil vezes entre funebres gemidos,<br> + Vi abraçar os pés aos avarentos<br> + Homens, estes que trago perseguidos.<span class="pagenum">[45]</span><br> + <br> + Dizendo-lhes com ais, e pensamentos<br> + Que as montanhas curvavam de gemer:<br> + Ó vós, causas crueis d'estes tormentos!<br> + <br> + Já que os templos dos numes soffreis vêr<br> + Desornados, dos numes que piedosos<br> + Vos deram vida, humanidade e ser:<br> + <br> + Já que os olhos cerraes aos magestosos<br> + Preceitos seus, no coração gravados;<br> + Já que abusaes de serem generosos,<br> + <br> + Ao menos vos commovam, desgraçados,<br> + Miseros gostos nossos, innocentes<br> + Combatidos da fome, e destroçados.<br> + <br> + Não sejaes fortes com as humildes gentes:<br> + Possa-vos compungir esta lembrança:<br> + Que sois co' os irmãos vossos, inclementes.<br> + <br> + Possa abalar-vos da primeira usança<br> + As leis, restituindo á natureza<br> + A gloria, os bens, o ser, a segurança.<br> + <br> + Nada, ó Jove, abrandou sua dureza;<br> + As razões todo o vicio aos homens tiram;<br> + Mas a razões não olha o da avareza.<br> + <br> + Ah! fulminante deus, quanto sentiram<br> + Esses que desthronar-te já quizeram,<br> + Que as penhas sobre penhas enxeriram!<br> + <br> + Desata sobre avaros, que offenderam<br> + Da natureza as leis n'um semelhante;<br> + Que commetter mil males me fizeram.<br> + <br> + Desata já das nuvens coruscante<br> + Raio que envolva em subtil cinza quantos<br> + Mofinos tem o mundo, ó deus tonante,<span class="pagenum">[46]</span><br> + <br> + E dizendo isto, cáiam mil e tantos<br> + Coriscos logo, serpenteando os ares,<br> + Que te acabem entre horridos espantos.<br> + <br> + Eis, clamarás então: santos altares,<br> + Valei, valei!—porém mal acabando,<br> + Tornado em cinzas te verão ficares.<br> + <br> + Oh! quanto os teus, teus males alegrando<br> + Correndo logo em turba, o cofre abrindo,<br> + Vejo as mãos para os céos alevantando!<br> + <br> + Uns o arroz da tenda já medindo,<br> + Outros de um ar choroso mascarados<br> + De quando em quando para um canto rindo!<br> + <br> + A fama de improviso aos desgraçados<br> + Corre, e por cem boccas apregoa,<br> + Teus fins terriveis, mal aventurados.<br> + <br> + Nenhum mais se entristece, nem magôa.<br> + É justo o céo, é justo, pois castiga<br> + Os avaros. Eis quanto n'elles sôa.<br> + <br> + Pedante, não maltrates a barriga,<br> + Entre saccos, e saccos de alimentos;<br> + Não sejas mais avaro que a formiga.<br> + <br> + Não queiras ser com muitos avarentos<br> + Semelhante a Lycurgo, rodeado<br> + De cofres, expirando nos tormentos.<br> + <br> + Vive de tua esposa acompanhado,<br> + Tendeirinhos pequenos fabricando,<br> + Que bem obra quem segue o decretado.<br> + <br> + Vai as medidas tu satyrisando,<br> + Que para bocca d'asno o mel não é;<br> + Deixa de andar as musas inquietando.<span class="pagenum">[47]</span><br> + <br> + Para critico seres, tens mau pé:<br> + Não murmures de outeiros, que em verdade,<br> + N'elles Apollo o bom, e ruim vê.<br> + <br> + E se fumos desejas ter de abbade,<br> + Mostrando-te doutor de mitra, e toga,<br> + Com primazias de robusto frade;<br> + <br> + Aos ratos deixa a tenda, e desafoga:<br> + Segue do Paiz Baixo essa mofina<br> + Estrada; e vai firmar-te á synagoga.<br> + <br> + Porque entre os phariseus da lei rabina,<br> + Te inculcarás mui bem, já me percebes<sup><a href="#fn4" id="mfn4" + name="mfn4">[4]</a></sup>;<br> + A natureza mais do que a arte ensina.<br> + <br> + Entre nós os do Luso, não recebes<br> + Louvor algum; olham-te mau tendeiro,<br> + Um vil que na ambição nunca assás bebes.<br> + <br> + Não saques mais as gentes a terreiro,<br> + Que aos maus sou formidavel, arrebato<br> + Nos cornos a capinha mais ligeiro.<br> + <br> + As virtudes abraça de barato;<br> + Olha que serás mais atassalhado,<br> + Que na bocca do cão raivoso, o gato.<br> + <br> + Sou semelhente ao genro desprezado<br> + Por Licambo, ou bem ao inimigo<br> + Vingativo do bufalo malvado.<br> + <br> + Vende o bom bacalhau, o melhor figo:<br> + Argumenta c'o teu almotacé:<br> + Detesta os vicios, anda só comtigo,<br> + O Alcorão não sigas de Mahomet.<span class="pagenum">[48]</span></blockquote> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>A mais completa noticia que temos de José Anastacio da Cunha deve-se ao +esclarecido investigador, o snr. Innocencio Francisco da Silva (<em>Dicc. +bib.</em>, t. IV, pag. 221-231). Aqui encontramos pela primeira vez a sentença +inquisitorial que condemna José Anastacio da Cunha a ouvil-a no auto publico de +fé, com habito penitencial. A sentença confisca-lhe todos os bens, encerra-o +por tres annos na congregação do oratorio, com dous dias de penitencia em cada +mez no primeiro anno; findo o triennio da reclusão, desterra-o por quatro annos +para Evora, e veda-lhe perpetuamente o ingresso em Coimbra e Valença.</p> + +<p>Concluidos os tres annos de reclusão, José Anastacio requereu á mesa do +santo officio que lhe commutasse o degredo dos quatro annos em residencia na +congregação do oratorio. A inquisição condescendeu.</p> + +<p>Os delictos do condemnado estão substanciados no exordio da sentença que +reza assim: «<em>...e pareceu a todos os votos que o réo pela prova da justiça +e suas confissões estava legitimamente convicto no crime de heresia e apostasia +por se persuadir dos erros do deismo, tolerantismo, e indifferentismo, tendo +para si, e crendo que se salvaria na observancia da lei natural, como a sua +razão e a sua consciencia<span class="pagenum">[49]</span> lhe ditasse, sem a +sujeitar a algumas leis ou preceitos e sem a regular pelos dogmas da religião +revelada que não acreditava; tendo tambem por injustas e tyrannas as leis com +que a igreja obriga os fieis a captivar os seus entendimentos e a sujeitar os +seus discursos em obsequio da fé e das verdades reveladas que lhes propõem para +crerem sem duvida nem hesitação alguma: persuadindo-se igualmente que qualquer +pessoa se salvaria em toda e qualquer religião que seguisse e fielmente +observasse, capacitado que obrava bem, ainda que errasse, não sendo por +malicia, mas só por falta de conhecimentos</em>», etc.</p> + +<p>A inquisição já não tinha garras n'aquelle anno de 1778. Vinte annos antes, +um réo com menos delictos, seria queimado. José Anastacio orçava então pelos +trinta e quatro annos; era tenente do regimento de artilheria do Porto, e lente +cathedratico da cadeira de geometria na universidade.</p> + +<p>José Monteiro da Rocha, lente de astronomia, figadal inimigo de José +Anastacio, teve o maior quinhão no vingado odio que o perdeu. Em um debate +scientifico degladiado entre os dous sabios, encontro o professor de geometria +assim apreciado por Monteiro da Rocha<sup><a href="#fn5" id="mfn5" +name="mfn5">[5]</a></sup>:<span class="pagenum">[50]</span> <em>Estes papeis +respiram tanta arrogancia e presumpção, contém tantas falsidades e imposturas, +e desmandam-se em allusões tão satyricas, e dicterios tão grosseiros, +insolentes, e malignos que bem manifestamente dão a conhecer que o author tem o +miolo desconcertado ou damnado o coração.</em></p> + +<p>Se tinha o coração damnado, a inquisição expungiu-lhe o virus hydrophobo, e +Monteiro da Rocha fez uma boa acção proporcionando ao seu inimigo o ensejo de +reconciliar-se com S. Domingos, mediante sete annos de reclusão e confisco de +bens.</p> + +<p>O insigne mathematico falleceu aos quarenta e tres annos de idade, na +calçada de Nossa Senhora das Necessidades, nos braços de sua mãi, que elle +adorava extremosamente.</p> + +<p>O snr. Innocencio Francisco da Silva publicou em 1839 as <em>Composições +poeticas do doutor José Anastacio da Cunha</em>, incluindo n'ellas a <em>Voz da +Razão</em> que não era de José Anastacio. O illustrado bibliophilo reconheceu +depois e confessou o seu engano, por se ater ao boato publico.</p> + +<p>Nas mais completas collecções de poesias ineditas do douto philosopho não +entra a <em>Voz da Razão</em>. Prezo-me de ter possuido as suas poesias +completas, e não vi rastro d'esse poema nem d'outros com a mesma tendencia +irreligiosa.<span class="pagenum">[51]</span></p> + +<p>No <em>Diccionario bibliographico</em>, tom. IV, pag. 226, o snr. Innocencio +Francisco da Silva, considerando extraviada a maior parte das poesias do seu +biographado, escreve: «... João Baptista Vieira Godinho, outro intimo amigo de +José Anastacio, fallecido no Rio de Janeiro a 11 de fevereiro de 1811, no posto +de tenente-general, teve tambem em seu poder muitas composições do sobredito; +porém, confiando-as algum tempo antes de morrer ao conde de Linhares, D. +Rodrigo de Sousa Coutinho, ignora-se o destino que tiveram.»</p> + +<p>Podiam ter peor destino. Vieram á minha mão em 1872. É um volume em 8.º +encadernado em marroquim, dourado por folhas. Contém parte 1.ª e parte 2.ª dos +versos. É prefaciado por <em>J. B. V. G.</em> (João Baptista Vieira Godinho), +que se propõe reunir as poesias <em>do seu desgraçado amigo</em>. Não sei como +este volume sahiu da livraria do conde de Linhares. Eu comprei-o ao livreiro +Rodrigues, do Pote das Almas, em Lisboa; e elle comprou-o aos herdeiros do +jurisconsulto Pereira e Sousa. O livro, a final, entrou no pantheon mais digno +que lhe podia occasionar o fado dos livros que não é sempre o melhor: está na +livraria do snr. visconde de Azevedo, no Porto.</p> + +<p>Presumo, todavia, que Vieira Godinho não logrou colligir todas as poesias do +seu amigo.<span class="pagenum">[52]</span> A <em>Satyra</em>, que o leitor +acabou de lêr, pertence a outro codice.</p> + +<p>Tambem possuo da letra de José Anastacio a versão muito emendada do 1.º e +3.º acto do <em>Mafoma de Voltaire</em>. Diz lá uma nota de Pereira e Sousa que +<em>aquelles mesmos papeis estiveram no cartorio da mesa do santo officio</em>. +Por isso eu os guardo com muita veneração, e os beijo reverentemente, pensando +que elles passaram pelos bentos dedos do cardeal de Cunha, inquisidor geral.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#mfn2" id="fn2" name="fn2">[2]</a></sup> Diogo José da Serra, +um escandaloso vadio d'esta cidade, tão ignorante como devasso. Este homem foi +quem induziu á factura da <em>Satyra</em> o doutor Botija.</p> + +<p><sup><a href="#mfn3" id="fn3" name="fn3">[3]</a></sup> Calumnia que os +herdeiros de Francisco Dias estimariam que não o fosse. O poeta arguido de +avarento morreu pobrissimo.</p> + +<p><sup><a href="#mfn4" id="fn4" name="fn4">[4]</a></sup> Francisco Dias Gomes +era de geração judaica.</p> + +<p><sup><a href="#mfn5" id="fn5" name="fn5">[5]</a></sup> Documento inedito de +que tambem possue traslado o snr. Innocencio Francisco da Silva.</p> +</div> +<hr> + +<h1><a id="cap04" name="cap04">PREFACIO AO SONHO DO ARCEBISPO</a></h1> + +<p>O correspondente lisbonense do <em>Jornal da Manhã</em>, indigitando o +rastilho de futuras combustões no arranjo social das cousas portuguezas, +malsina, sem nomeal-os, uns opusculos mensaes, onde se exhibem contra a casa de +Bragança ineditos attribuidos falsariamente a arcebispos. Os opusculos +accusados com injusta malquerença são as <em>Noites de insomnia</em>, e os +manuscriptos arguidos de fraude são os dous<span class="pagenum">[53]</span> +innocentes dislates de um illustremente desgraçado talento, cujos autographos +offereço a quem, na duvida, quizer examinal-os.</p> + +<p>Em nenhum dos dous artigos (a <em>Catastrophe</em>, e <em>D. Maria +Caraca</em>) é atacada a dynastia brigantina, e menos ainda a legalidade que +assiste á testa coroada, com que mui jubilosamente me envaideço e sobremodo me +honro, em nome do partido da ordem, cujo estandarte as <em>Noites de +insomnia</em>, desde ora avante, desfraldam.</p> + +<p>As noticias, historicamente relativas á familia ducal e real de Bragança, +publicadas n'estes livrinhos, não pesam sobre a memoria do esclarecido +arcebispo;—são todas de minha lavra, e de minha responsabilidade perante os +doutos. Todavia, se alguem me rastreia, n'esse lavor meramente historico, o +insidioso plano de aluir o throno, sou obrigado a declarar que não se acham +ainda bastantemente decisivas as minhas intenções a respeito de sua magestade, +nem me parece que cheguem as cousas a termos de eu ter de desthronar o snr. D. +Luiz I. E, dado que razões imprevistas, mas rijas, me impulsem a exterminar a +casa de Bragança, hei de fazer quanto em mim couber, na hora do maior perigo, +por ter mão... na manta real. Por onde se vê que, em materia de Coriolanos, +Belisarios, e outros, ainda os ha por aqui, na patria dos Pachecos.<span +class="pagenum">[54]</span> Iniquissimamente, pois, me culpa o escriptor +referido, quando me arrola entre os obreiros subterraneos da oligarchia; e ao +mesmo tempo incute pavores no animo d'um alto personagem. Por causa d'estes +alarmas, temos visto a timidez que se denuncia, e denota pouca firmeza de +consciencia, debilidade de espirito, incerteza juridica do lugar que se occupa, +braço inerme para a defensão da real e sagrada propriedade. Se conhecem a +pusillanimidade d'aquelle a quem cumpre ser forte, e até heroe no cairel da +voragem, não lhe mettam espantos na alma com phantasmas; robusteçam-no para a +provação, quando a hora troar, a hora maldita em que o povo açacala as garras, +e golfa das tabernas com bramidos de leão. Se não querem prevenir as +catastrophes, porque não ha prevenções contra a fatalidade, não se finjam +previstos, pondo estas innocentes <em>Noites</em> a espreitar Cesar pelo olho +esquerdo de Bruto.</p> + +<p>Quanto ao arcebispo de Mitylene, não se diga que elle me deixou, como +herança de rancores demagogos uns papeis, de que eu estou estillando petroleo +para o holocausto da casa de Bragança. Posto que o celebre jurisconsulto, +depois de alienado, se imaginasse proscripto dos seus direitos ao ducado +brigantino, nunca lhe coou da penna de ferro injuria contra<span +class="pagenum">[55]</span> a familia real, que era, pouco mais ou menos, a +d'elle.</p> + +<p>Verá o leitor, no seguinte artigo, quanto o vidente de mundos defezos ás +pessoas que se dizem ajuizadas, respeitava seus regios predecessores, e +nomeadamente seu avô o snr. rei D. Manoel, e seu mais remoto avô o snr. D. +Affonso Henriques, que elle viu em Villa-Real, trezentos annos antes da +povoação d'aquella villa.</p> + +<p>Verdadeiramente, a gente não sabe se os doudos são os que vêem cousas +estranhas, se somos nós que não vemos senão trivialidades. Gerard de Nerval +pende a crêr que os doudos são os que tem o condão extraordinario de vêr o +invisivel aos parvoeirões. Regra geral: assim que um homem descamba da linha +recta que vai desde o almoço até á cêa através do jantar, a razão humana +desconfia d'elle. Se este homem suspeito, unicamente, lesa os seus interesses, +chamam-lhe, com piedosa indulgencia, tolo: se, por demasia de espiritualidades, +damnifica os interesses alheios, estigmatisam-o de mentecapto. Qualquer das +qualificações impellem á morte moral. Eu ainda não atinei bem com a denominação +ajustada ao doutor D. Domingos de Magalhães, porque no seu modo de escrever +historia, philosophia e moral, se revela muito mais acerto, critica e sciencia +que nos livros de uns homens que não se<span class="pagenum">[56]</span> acham +bem definidos nas diversas doenças apyreticas do cerebro. Eis aqui um rapto de +luz que elle denominou:</p> + +<h2>SONHO</h2> + +<p class="centrado"><small>(INEDITO DO ARCEBISPO DE MITYLENE, ESCRIPTO NO +PERIODO DA ALIENAÇÃO)</small></p> + +<p>No decurso de dezeseis gerações não veio ao mundo nem assomou ao pensamento +de nenhum sabio o que a actual inspiração ensina, e communica a todos pelo modo +mais extraordinario e divino, ou pela fonte mais pura e heroica do santo e +actual desaggravo. A Divina Providencia jámais se revelou tão benefica e +misericordiosa, nem tão solicita e desvanecida para com a pobre e triste +humanidade, que escurece o beneficio e parece desprezar o seu author divino, só +pela torpe e abominavel gloria do seu desprezado egoismo e da sua indomita +soberba. Estava já endurecido o coração de Pharaó, e não consentiu a sua vil +injuria que o infinito poder da vara e a sua misericordia o livrassem da ira do +mar e do justo castigo das aguas.</p> + +<p>O sonho actual é de outro Pharaó, que só viu as sete vaccas gordas, e não +quiz ou não pôde vêr as magras, e as deixou todas para traz e desprezadas em +poder de herejes e de inimigos do santo nome e da fé. Diz a historia<span +class="pagenum">[67]</span> que Pharaó viu primeiramente sete vaccas gordas, e +que a estas se seguiram sete vaccas muito magras e muito definhadas, que mal +podiam sahir do rio aonde se banhavam e bebiam. Ás nossas sete vaccas são sete +seculos de dezeseis gerações, que deixamos para traz das costas, magros, +definhados e proscriptos, que terminaram pela mais negra, medonha e absoluta +penuria de todo o recurso e remedio. A mãi e o pai comem a carne do filho, os +mortos jazem sem sepultura, a impiedade triumpha, a verdadeira fé anda +foragida, a injuria do Senhor substitue o culto, e sobre as cadeiras de Moysés +já não se assentam os escribas e os phariseus; os mais depravados inimigos +perseguem em nome do Senhor todos os seus santos ministros, e predizem pelas +suas obras o fim do mundo, e a necessidade do ultimo e geral escarmento.</p> + +<p>Tal é o quadro da abominavel heresia, e da mais atroz injuria, que se pode +levantar contra o Senhor em nome do demonio sem o proclamar como Anti-Christo; +o vituperio de tão grande affronta avexa os filhos do Divino Amor, o mais +horrivel pesadelo coarcta as suas faculdades, e o delirio do sonho chama e +reclama a necessidade do mais santo esconjuro, e da mais afouta e intrepida +penitencia. Felizes as mulheres estereis, e mil vezes mais acordado, ou menos +infeliz e desprezivel<span class="pagenum">[58]</span> será o aborto, que não +recebeu a agua do baptismo nem chegou a uso de razão para não soffrer a injuria +da maldita geração do peccado, e do seu enorme e horroroso castigo.</p> + +<p>Passados sete seculos como um sonho, quebraram o preito, apagaram a gloria, +e amofinaram o beneficio de seiscentas batalhas e de outras tantas victorias, +riscaram das paginas mais gloriosas da nossa historia monumentos eternos para +escrever o geroglifico da maior vileza que nega as façanhas aos heroes, e depõe +a estatua do seu pedestal para a substituirem pela mais desprezivel do seculo, +e pelo que tiver deixado nome mais injurioso, conspurcado e escravo.</p> + +<p>Descobriram os nossos antigos o Brazil, e fundaram n'elle a maior colonia do +mundo, que se fundou sem o vicio dos perseguidos e dos emigrados religiosos e +politicos; e os que tiveram esta gloria são desprezados, e os seus herdeiros +perseguidos. O usurpador que se fez possuidor para proclamar o falso principio +de independente, e que entregou os estados ao ouro, e ao poder da Inglaterra +foi levantado e exaltado; porque emprehendeu entre nós a mesma façanha e legou +o seu vil commettimento ao partido mais vil e fementido, atroz e degenerado, +que pode organisar-se em nome de uma seita protestante e heretica para +commetter esta grande aleivosia e<span class="pagenum">[59]</span> diabolico +mandato. D. Affonso Henriques ainda dorme o somno dos seculos; os seus heroicos +serviços ainda não foram julgados pela posteridade; parece que o grande vulto +espera que a fama das suas façanhas o alevante sobre todos os porticos e sobre +a fronteira de todos os templos e igrejas catholicas. Que fará a mais hedionda +e vil injuria d'este sonho abominavel dos herejes? Levanta o impio e exacerba o +catholico, vende a terra da patria; e, para ter sepultura em paiz protestante, +pactua com o demonio a quem entregou a alma a traição e o aleive; o seu +desdouro é o mais abominavel tramite e caminho do inferno.</p> + +<p>Fez em Lisboa injuria ao veneravel corpo e santelmo d'el-rei o snr. D. +Manoel, meu presado avô. Os usurpadores apodrecem em seus sarcophagos, e os +reis legitimos recendem e perfumam a desfeita porque não legaram a vileza do +seu coração, deixaram os estados, os eternos monumentos, os mosteiros e a maior +grandeza do reino, e não roubaram nem atraiçoaram nem renegaram de Deus nem da +patria, nem abandonaram a justiça nem venderam as suas consciencias.</p> + +<p>Como pôde a nação chegar apesar de tão emeritas virtudes e de tão relevantes +serviços ao ultimo estado de degradação e vilipendio? Devemos presumir que a +nação sempre foi perversa, e que os heroes foram poucos<span +class="pagenum">[60]</span> mas estrenuos, e tão briosos e fieis que +conquistaram do mundo a maior fama, do Senhor o mais desusado e grandioso favor +e auxilio. São poucos os heroes? quantos monarchas illustraram o throno? +quantos fieis e valentes venceram em Ourique? quantos foram os mais dignos +missionarios do Oriente? quantos Pachecos e Albuquerques? quantos Castros e +Mascarenhas? quantos Magalhães e Gamas? Aonde estão as suas estatuas? que é +feito do corpo santo de S. Francisco Xavier?</p> + +<p>São estas as perguntas que vos dirijo, as invectivas que hei de fazer-vos +até o fim: eis o martyrio que appeteço e a santidade que o Senhor me concede, +como propheta, para vingar a injuria de sete seculos, o sonho e o pesadelo do +mais atroz delirio. Os filhos de S. Francisco, de S. Domingos, de S. Theotonio, +e de Santo Antonio que dormem nos claustros dos extinctos e abominados +conventos; os monges negros de S. Bento, os inimitaveis de S. Bernardo, toda a +familia de Santo Agostinho, os proceres d'Alcantara e de Bruno fallam pela +nossa bocca, e dirigem o nosso pensamento n'esta humilde e generosa tarefa. Que +fizeste, ó impio, de tanta santidade que perverteste, e da sua grande fama e +publica utilidade?</p> + +<p>No sonho de sete seculos não pôde a sabedoria de tão grandes heroes levantar +o eterno<span class="pagenum">[61]</span> monumento do actual desdouro e da sua +fatal cegueira? Somos nós o vingador das injurias, porque o Senhor nos conserva +e defende, afouta e encaminha para o nosso honroso e santo ministerio. Está por +terra o edifficio de nossa grandeza; vê o mundo, admira e contemplam os anjos a +nossa actual miseria e compadecem-se d'este ruinoso estado: só não se move o +povo, só o interdicto dorme o maldito somno da morte, e não delira nem appetece +a eterna felicidade de sua salvação e liberdade! </p> + +<p>Sabemos que o actual abominio tenta exterminar toda a geração d'ourique, e +cassar as promessas do Divino Salvador matando o Promettido e Desejado; e +d'este projecto ri e zomba, e escarnece a nossa fé pela vaidade do sonho ser +digna e merecedora de mais prompto desprezo; mas não basta que o Senhor defenda +uma causa para que se considere heroica: convém que o homem e o povo eleito e +escolhido para a façanha se mostrem dignos, timbrosos, sobranceiros ao maior +perigo e intrepidos e confiados na justiça do commettimento, e na gloria da +Divina Protecção. O sonho, que desdoura o homem, cerca de terror o timido e +fugitivo escravo do demonio, porque não confia no poder do seu senhor, nem na +justiça da causa nem na certeza do seu delicto.</p> + +<p>Todas as vezes que me occorre algum nobre pensamento do Divino Amor e do seu +desaggravo,<span class="pagenum">[62]</span> não posso resistir ao desejo de o +exarar. O amor de Deus é um sentimento imperioso, porque Deus é o summo bem: o +que tem a felicidade de vêr o Senhor não póde deixar de o amar sobre todas as +cousas; porque assim o exige a natureza do bem que nos arrebata. Se o triste e +mesquinho não ama o Senhor sobre todas as cousas, outro espirito assenhorêa a +alma do possesso, e pode dizer-se que impera n'ella o demonio. Quem não é por +mim é contra mim. A manifestação mais perfeita de amor é o desaggravo da +offensa; o que não desaggrava não ama: porque ao summo bem corresponde o amor +mais perfeito: não amando, aborrece; e, na presença da injuria e do escandalo +do desacato, toma sobre si e á sua conta toda a cumplicidade da offensa, e +faz-se digno do mesmo rigor da pena, e do maior castigo devido á perpetração do +delicto.</p> + +<p>Os mais revezados delictos maculam a geração actual; é uma herança que +recorda a dureza de Pharaó e a obstinada e cruel memoria de Herodes e Pilatos. +No Egypto a vara do poder, na Judêa o Divino Verbo, que veio ao mundo para nos +regenerar, pesam e sentem a falta de desaggravo, e só lamentam a dureza do povo +e a sua affectada cegueira. É um sonho, que sempre se repete, e que manifesta +bem palpavel n'este mundo das illusões o irresistivel poder do maleficio, que +actua sobre os<span class="pagenum">[63]</span> escravos do peccado e filhos da +ira e da sua perversa condição. Fuja o homem de commetter o peccado +imperdoavel; porque em sua fatal herança não só deturpa e cega, senão que +domina e arrasta a alma para a maior perdição, e para o fundo do abysmo.</p> + +<p>A quantos d'estes póde aproveitar o desaggravo e o martyrio ninguem ha que +ignore, e muitos desejam ser purificados pelos heroicos processos da santa +penitencia da fé, mas ninguem os sujeita, nem ha força que os violente; e +tremem do exito, vivem no fóco da calumnia e do erro, da perseguição, e d'um +para outro dia soffrem a tremenda metempsychose da furia do dragão. Fallamos ao +povo que conserva o direito de propria consciencia e algum vislumbre de boa fé +para que procure e abrace a salvação da indulgencia e do martyrio, que tem +diante.</p> + +<p>Quando o fiel d'uma balança pende por força irresistivel para o abysmo, são +felizes os que se lançam na outra concha; porque a força contraria os impelle e +ascende mais do que a natural virtude dos seus corpos diaphanos. Que bella +monção para tão feliz viagem! que bello sonho para os sete seculos venturosos +que se hão de completar na eternidade!</p> + +<p>Quando nosso Senhor veio ao mundo era o cordeiro immaculado, e veio para o +eterno sacrificio do Amor Divino. Nasceu em um presepio,<span +class="pagenum">[64]</span> e podia nascer em um monte, que era dado a sua +santidade, e fóra do redil aonde nascem quasi todos os cordeiros, mas nasceu em +um presepio para nascer entre os pastores e bem resguardado dos lobos, que +procuravam o innocente para o matar. Em Bethlem e no templo, quando o menino +foi ao Agrado e esteve entre os doutores, renovaram os insanos judeus as suas +tentativas e machinações; e por isso o meu Senhor fugiu de Bethlem para o +Egypto e d'este a primeira e a segunda vez para a Lusitania; d'onde finalmente +sahiu para a grande e heroica missão, que nos remiu no calvario. S. Thiago e S. +João eram irmãos do Senhor; veio ás Hespanhas o grande apostolo, e veio tambem +S. João, mas nenhum teve o seu martyrio na Peninsula. S. Thiago foi receber á +Judêa a sua promessa. S. João foi ao imperio dos Cesares, e á terra do +paganismo e do amor depravado da louca e desnudada Venus. Voltaram os seus +corpos? que recondito conserva o virginal de S. João? Este sonho póde condizer +com a Rodhoma por ter S. João recebido no calvario a santa maternidade da +Virgem minha Senhora.</p> + +<p>Desde que nascemos para o santo ministerio do actual desaggravo de dezeseis +gerações, um presentimento feroz persegue e incita a indomita heresia para nos +matar; o veneno é a sua arma; actualmente só o mais decidido milagre<span +class="pagenum">[65]</span> me podia salvar da furia; eu presagío que o meio +heretico só tende a abysmar os seus altares e instrumentos. O tetrico sonho da +ira impotente subjuga os escravos que se irritam e despedaçam, como as ondas +que quebram contra o invulneravel rochedo, e se abysmam pela inutil furia do +seu audaz commettimento. Os judeus levaram a sua insania ao cabo, e veio o +maior castigo do povo e sobre a terra com a justa ira do Senhor: o ultimo +propheta foi morto entre o templo e o altar, e a prophecia foi negada para +sempre ao judeu, que só tem actualmente a de Jonas, que foi sempre mandado em +missão de Ninive e de Babylonia aos pagãos e gentios. A Virgem minha Senhora +inaugurou no Carmo o centro da adoração, e transferiu para o novo reino de Sião +o docel de sua prophecia aonde se conserva. Se em vez do culto devido á +santidade do Senhor o nosso reconhecimento hereditario se convertesse em fel +d'injuria, e dessemos ao meu Senhor e á sua Santissima Mãi o calix da maldição +dos judeus—deviamos recear que viesse sobre nós o mesmo flagello, e que a +falta de desaggravo nos equiparasse para a pena do escarmento ao detestavel +povo e aos seus perfidos ministros e traidores.</p> + +<p>O nosso centro de desaggravo installou-se na Penha da Estrella e debaixo do +docel e da egide da Virgem minha Senhora. Quantos mezes<span +class="pagenum">[66]</span> se conspiraram para apagar aquella luz sacrosanta, +e comprometteram as suas almas n'este malfadado empenho e ousadia? O seu +pensamento era só um, e a nossa morte o unico desenlace de todos os +estratagemas. O ministro executor do barbaro decreto trepidou, e desde que +chegamos a esta villa até o presente as suas combinações e ardis tem-se +resentido da mesma canha e imbecilidade. O coche funerario que me destinava a +tyrannia converteu-se na traquitana, que me conduziu á estação; o decreto de +despejo que me lançava fóra de casa em Lisboa e d'esta villa ha de executar-se +pelo santo direito do talião divino contra os vergonhosos authores, porque +todos os seus meios eram d'impios sem fé e sem verdade de juramento, de crueis +perseguidores de fieis, e de profanadores dos templos e de sua maxima +santidade.</p> + +<p>O sonho, que actualmente nos alevanta de toda a desanimação produzida pela +heresia, é dos sete seculos magros, que hão de ser coroados por outros sete +seculos pingues e ferteis, heroicos e cheios de fartas e de briosas chronicas, +que encerrem as façanhas dos fieis, a succinta historia dos povos, e o precinto +da catholica santidade e igualdade de todos os filhos e do mesmo Pai santo e +commum no céo e na terra. As casas de Bragança e de S. Bruno sempre foram +perseguidas pelos nobres e falsos<span class="pagenum">[67]</span> fidalgos: +todas as suas façanhas tem sido commandadas por pessoas de familia no fervor do +nobre enthusiasmo do povo, executadas pelo devaneio e pelo assombro do milagre, +por ficarem em esquecimento e sem galardão do mundo e só com o grande e +extraordinariamente mais real e verdadeiro do proprio som e merecimento: por +esta razão faltam as estatuas aos heroes, e vem no meio da enxurrada as +obscenas dos mais tredos e falsos pyrilampos.</p> + +<p>Os seculos, que estão para succeder invocam a audaz cooperação do povo, e +exigem que o novo heroe seja o mesmo comicio, e a centuria, que defender o +templo e desvanecer o seu culto. É necessario que a Terra Santa reuna o povo +mais digno, e que a authoridade e o poder divino unam o capitel e a cimalha do +novo edifficio, e commandem a pureza da fé e a sua excellente doutrina com o +mais sonoro e metallico alarido de desaggravo e de arguição. Todas as nossas +instituições tendem ao valente ensejo d'esta restauração do povo para o fazer +nobre e para o exaltar pelo martyrio e por meio da virgindade e da santidade da +crença; a corrupção corre em veias e carcome o amago do tronco que apodrece e +cahe: a nova arvore estende as suas raizes por todo o mundo e ha de cobrir com +os seus copados ramos todas as plagas,<span class="pagenum">[68]</span> e zonas +da esphera: o castello que era do procere o do conde ou do rei e senhor, será +de Deus e do padre santo, do fiel e do mais devoto e digno de seu sublime +culto. Todos os heroes rivalisarão com os filhos de Javão, e dar-se-ha o premio +ao que desvanecer maior virtude e sacrificio com mais encarecidas provas, e com +mais heroico desinteresse.</p> + +<p>O snr. D. Affonso Henriques vestia o talar ecclesiastico para fallar do +pulpito, e para narrar as maravilhas de todas as suas victorias, se vinha ao +reino algum rei ou principe estrangeiro convidado pelo desejo de estudar as +nossas proezas e façanhas e para se informar do seu alarido: o grande monarcha +não desejava fallar de assento sem subir ao pulpito, porque n'esta cadeira de +verdade recebia as suas inspirações e mais fortes commoções e graças. Todos os +estrangeiros estranhavam o monarcha, e o seu habito de paz, que era o talar, +senão a batina de estudante: quando o viam subir ao pulpito alguns riam; depois +que sentiam as commoções de sua eloquencia e persuasão louvavam o orador e +choravam quando o orador chorava, commoviam-se e aplaudiam segundo o costume do +tempo com tão fortes demonstrações e signaes, que chegavam a interromper o +discurso. N'este emphase de sua justa admiração pediam ao rei que repetisse, e +como nada levava estudado<span class="pagenum">[69]</span> progredia ao acaso e +sempre com o maior espanto e alarido deixava o auditorio, e corriam a tomar o +seu supplicio e disciplina pelo desacato que os mouros commetteram em Ourique +na occasião da batalha contra o Santissimo Sacramento, que estava na ermida de +Nossa Senhora do Monte.</p> + +<p>Qual é o povo perdido? é o gentio de todos os seculos; que corre com os que +correm, que dorme com os que dormem, que se deixa corromper pelos corruptos e +se faz perverso por falta de sal e de doutrina que o preserve e conserve. A +sociedade de homens notaveis e dos falsos proceres correu atraz da illusão, e +levou comsigo e arrastou o maior numero; vive no meio do fôro a parte sã e +sensata. Quem acordará os dormintes e levantará do pó os que jazem feridos pela +scentelha do maior erro e catastrophe? Só o Senhor nos póde acudir e soccorrer: +levantai as vossas vistas, exaltai o vosso pensamento, fazei-vos fortes no +reducto das vossas consciencias do desaggravo e esperai do santo alfageme o +milagroso remedio e toda a sua recompensa.</p> + +<p>Estes são os nossos sonhos. Pensava no sonho de Pharaó o santo José filho de +Jacob, e só o Senhor alevantou o véo do mysterio, e deu ao mysterioso numero a +sua santa e verdadeira significação. Ha sete peccados mortaes, e contra estes +outras sete virtudes, mas<span class="pagenum">[70]</span> vem primeiro os +peccados ao mundo antes que venha o remedio da virtude que supprime o peccado +correspondente: a sabedoria consiste em desvanecer a virtude para que não tenha +lugar o peccado, que a escurece e affronta. Este terá sido o sonho e o +constante pensamento da casa de Bragança no decurso de dezeseis gerações? é +certo que só o Senhor nos concede o mysterio d'este desvanecimento e a sua +gloria futura; venha o povo, e furte a virtude ao merito, e deixe a torpeza dos +bens aos vis forasteiros, que surgem do inferno por tão negro e absurdo +estipendio, e usurpação.</p> + +<p>No meio dos seus sonhos e prophecias o santo rei d'Ourique previa e +affirmava, que o seu successor da 16.ª geração havia de ser rei e papa, e era +tão firme n'esta sincera e antecipada previsão, que algumas vezes via a propria +figura, e se compadecia das tramas e desgraças que o haviam de perseguir, e dos +males que haviam de sobrevir ao reino, e das heresias em que já o via e +considerava submerso e como amortecido pelo diuturno interdicto e geral +perdição. S. Affonso devia aos estrangeiros e ás cruzadas extraordinarios +favores; o seu pensamento de grande estadista e o grande desejo que teve de ser +util á santa causa da fé, fez com que pedisse e solicitasse de sua santidade um +decreto para<span class="pagenum">[71]</span> que o nosso reino fosse +considerado reino da cruzada com todas as suas indulgencias que obteve a grande +contentamento de todos os cavalleiros da cruz, e com grande desgosto e tristeza +de todos os falsos monstros do culto, e membros podres da nobreza. Este decreto +causou grande alarma, o povo defendeu a medida, que até os ecclesiasticos +combatiam com muito alarido de fingido zelo pelo bem da Igreja. Este conflicto +ameaçou o reino nascente, veio o nuncio de Roma, lançou interdicto, e triumphou +o rei com o povo, porque seu coração era real e tão recto e justo, que não +soffria a menor injuria do templo, e desaggravava os desacatos dos mouros com o +mais cruel supplicio de seu corpo e quasi á vista do povo e para o edifficar +como exemplo. A este tempo já muitos ecclesiasticos seguiam o ocio da paz e +principiavam a gozar e appetecer as delicias de Capua: os simoniacos engordavam +capões e perús para as festas do anno e deixavam nús os pobres, e desamparados +os orphãos e as viuvas; que faria o rei? mendigar o soccorro do padre santo e a +virtude de sua santa indulgencia e receber do Divino Salvador a inauferivel do +futuro remedio e prophecia, e de Roma a anachronica certeza dos males que +principiavam a devorar a santidade da curia e a corcomer o corpo d'aquella +santa e bemfazeja arvore.<span class="pagenum">[72]</span></p> + +<p>A prophecia é dada ao rei; foi David propheta e Salomão, Pharaó sonhava, e o +rei até quando sonha deve prophetisar para que o povo descance e confie na sua +sabedoria e providencia. Todos os prophetas tiveram honras reaes e de santos, +recebiam corôa de martyres e eram mandados ao povo, ou por causa do povo aos +seus reis e ministros do governo.</p> + +<p>Se o rei for santo certamente ha de ser propheta; porque todos os reis +legitimos são constituidos por causa do povo; e por isso bem decidiu a santa sé +pontificia quando deixou o complemento da santidade de S. Affonso reservada +para o computo da 16.ª geração: mas pareceu-nos que a ultima prova se devia +presumir e dar por existente ou por verificada e cumprida como promessa divina, +ou desnecessaria e superabundante.</p> + +<p>Assim aconteceu sempre em Roma com o milagre d'Ourique; mas nem sempre o +povo recebeu a fé viva d'este santo milagre: os que vivem da falsa opinião e +exploram as más disposições erram e perdem as suas almas, e não cessam de +condemnar as alheias; estes iracundos da propria alma tramam e conspiram com +todos os aventureiros, para levantar o idolo de suas paixões e sensuaes +appetites: não vos pareça menor o numero dos defensores da boa e santa causa, +nem deis por perdida<span class="pagenum">[73]</span> a mais arriscada e +perigosa do juizo humano em quanto se conservar pura da fé, isenta de contagio, +estrenua e airosa pela virtude do desaggravo, e pela mais sublime e divina da +sua penitencia e martyrio: se fôr desvanecido por virgens, se não tolerar o +desacato, nem a vil affronta do impio, nem o sarcasmo do judeu e do +protestante, nem a simonia do falso e perfido, nem a atrophia das almas sem as +marcar com o ferrete, e sem as entregar ao indefectivel juizo da santidade e da +fé.</p> + +<p>O nosso sonho foi uma visão ou previsão de S. Affonso, que se verificou em +Villa Real, n'esta antiga villa ou cidade: nós vimos em sonho o que S. Affonso +no seu tempo previu como propheta: o sonho tem uma historia necessaria para a +sua explicação; e como vem os factos traçados e encaminhados para este mesmo +fim, temos unicamente a acrescentar o seguinte.</p> + +<p>S. Affonso foi rei d'Ourique por justa e divina acclamação, as côrtes e os +poderes do estado applaudiram a eleição, juraram seus preitos, e deram todos os +documentos de boa fé e de cordial testemunho, do sincero empenho e da resolução +em que estavam de todos os sacrificios para sustentar a acclamação e para +continuar a guerra aos infieis. S. Affonso pretendeu o voto universal por ser +causa de milagre e de grande sacrificio e do maior testemunho,<span +class="pagenum">[74]</span> e muitos ecclesiasticos que viviam nos prazeres do +ocio, e que sentiam vêr retaliados pela guerra os campos das suas prebendas e +passaes, e muitos ignobeis e falsos nobres, que seguiam a lei de seu egoismo, e +d'estes em o maior numero commentavam a acclamação desfavoravelmente e +persuadindo o povo a que não aceitasse o rei porque esta acclamação havia de +causar grande descontentamento em Hespanha e traria comsigo algum maior +dissabor da parte do supremo pontifice.</p> + +<p>Havia com effeito da côrte de Roma duas exigencias muito fortes e constantes +perante a côrte de Portugal: a primeira por causa do fôro de S. Pedro que é de +morgadio do Divino Salvador, e a segunda por causa das cruzadas; por se dizer, +que não irão do reino as cruzadas á Terra Santa, como eram obrigados todos os +fieis. Sempre o conde-rei se tinha desembaraçado d'estas interpellações com +muito favor, e não cessava a intriga de urdir novos ardis; por virem de fonte +conhecida e poderosa, que era a côrte de Hespanha: mas obteve S. Affonso a +bulla, que declarava o nosso reino Terra Santa e reino de cruzada, o seu rei +como benemerito filho da santa Igreja e como antigo cruzado da Terra Santa de +Palestina, e applicasse o fôro do Divino Salvador para as despezas da guerra. E +logo a invicta monarchia obteve o suffragio e principiou a julgar-se<span +class="pagenum">[75]</span> invencivel: mas os seus inimigos não dormiam, e +agora veremos o que urdiram em Roma mais calumnioso e atroz.</p> + +<p>Formaram em Hespanha um processo secreto contra o rei com muitas testemunhas +de Portugal, gente vil, desconhecida e de negra e atroz calumnia: os seus +depoimentos recheados de torpezas e de peccados phantasticos que attribuiam ao +rei, e com o principal artigo d'esta infame accusação que o monarcha a quem +davam titulo de ambicioso seguia a falsa lei da polygamia, e que era no seu +modo de viver semelhante aos reis mouros, e que tinha uma e duas mulheres em +cada terra e que obrigava os meninos a beijar-lhe a mão como pai de todos, ou +como papa; e que não havia mulher casada que não tivesse algum filho parecido +com o rei, e que estava o reino cheio de malhados, e que por este signal se +conheciam em melhor sombra do que os filhos dos negros. E mais diziam, que o +rei só era generoso e de real doação para as mulheres, e que os homens andavam +diante do soberbo califa como escravos d'harem. Levavam este recado os malignos +tão bem encadeado, como se fosse verdadeiro: o demonio os ensinava a mentir a +Deus e a jurar falso; verdadeira mentira é todo o engano, que se faz ao padre +santo, que é vigario do Senhor.</p> + +<p>E com o mesmo intuito e abominavel pensamento<span +class="pagenum">[76]</span> de homens de consciencia perdida, por terem paz +occulta com os mouros e longas tregoas, e por não quererem renunciar aos +commodos e seu egoismo, acrescentava a calumnia, dizendo que S. Affonso era +hereje, e pretendia provar a accusação com tres factos: primeiro, por subir ao +pulpito de habito talar e de cota, para prégar como prégava a favor do divino +apparecimento, que os calumniadores impugnavam e davam por fabuloso, dizendo +que nenhum bispo portuguez se jactava do milagre, nem prégava a favor da sua +existencia, e que os seus padres tambem não prégavam tal façanha, e por isso +subia o rei ao pulpito para o seu falso ministerio. O segundo facto que ligava +ao primeiro consistia em dizer que distrahia das cruzadas os seus cavalleiros, +e que os convidava para ficar no reino, e angariava para a deserção das suas +bandeiras nacionaes com grandes promessas e doações de terras, que tirava á +santa Igreja, e que n'este numero admittia sem escolha muitos e grandes herejes +da mesma falsa escola dos homens mais ambiciosos, e que este D. Affonso era tão +sofrego de ambição que tinha guerreado com sua mãi, e que a tivera presa até +que morreu no castello de Lanhoso.</p> + +<p>E ligavam a estes factos outro de maior atrocidade; porque directa e +indirectamente<span class="pagenum">[77]</span> offendia a santidade do summo +pontifice, mas a nada d'isto attende a calumnia, quando vem proferida pelo +maligno espirito contra a maxima verdade divina; e diziam os calumniadores e +verdadeiros herejes que S. Affonso obtivera a bulla do privilegio pontificio do +reino por meio de grande e manifesta obcecação e por falsa causa que allegou, e +que era o maior inimigo das santas cruzadas, e que no seu lidar e batalhar era +semelhante ao demonio, e que jámais deixava de ferir o seu adversario, e que ás +vezes o feria pela malha com a sua espada quatro e cinco vezes superior á +abertura da malha ou rede de ferro, e que este milagre era do demonio; e que +elle tinham vencido em Ourique contra a opinião dos seus generaes por +ingerencia do demonio e por ser grande hereje.</p> + +<p>O processo era secreto, e D. Affonso não pôde prevenir o exito da injuriosa +e negra calumnia; andava lidando com mouros ao pé de Cintra, aonde tinha +castello fronteiro, e tinham os mouros o seu sustentado pelos seus navios, e +gente de mar e chegavam com as suas correrias até Lisboa e talavam os campos, +matavam e roubavam; e alli vivia ao pé S. Affonso solicito do modo porque havia +de extinguir o covil, e já tinha certa a sua presa, quando o surprehendeu a +noticia que vinha de Traz-os-Montes vencendo leguas e horas, de<span +class="pagenum">[78]</span> que andava um nuncio de Roma pelas igrejas +principaes das villas e terras do reino a publicar um interdicto contra o rei e +contra os seus soldados, se não abandonassem o rei no mesmo momento.</p> + +<p>Apenas recebeu a tristissima noticia com todas as certezas do que se +publicava e ordenava, o rei chorou por tres causas: pela futura sorte do reino; +pelo erro d'aquelles perfidos calumniadores; e pela fraqueza humana que +sujeitava o vigario do Divino Salvador a tão capciosa e calumniosa illusão. +Fallou aos seus, e nenhum o deixou só n'aquella altura; e contra a opinião dos +que julgaram que devia aceitar uma tregoa proposta pelos mouros pela causa +principal do perigo em que viu aquelle castello de Cintra, resolveu tomar o +castello na mesma noite, e o mesmo foi que ser o rei o primeiro a saltar +dentro—ainda havia luz—e tomou o castello em duas horas. Deu immediatamente +as suas providencias, e partiu para Traz-os-Montes e correu na distancia de +mais de sessenta leguas a outro maior perigo, por vir de Hespanha o nuncio, e +de Roma, d'onde menos se devia esperar, o flagello. O providente monarcha +deixou a tregoa com o castello tomado; os mouros já não lucravam o armisticio, +mas tinham proposto a suspensão, e não podiam recusar o arbitrio.</p> + +<p>Chegou D. Affonso em menos de tres dias<span class="pagenum">[79]</span> e +de tres noites sempre armado de ferro, com a morte de alguns cavallos que +deixou estafados para tomar outros, e já ninguem o acompanhava quando entrou em +Villa Real, aonde o nuncio tinha publicado o abominavel interdicto, e já ia no +caminho de Lamego em direcção a Coimbra. O rei manda prevenir o legado de que +estava em Villa Real para fallar com elle e de que o esperava n'aquella capital +para o receber com todas as honras devidas á sua alta categoria e jerarchia. O +nuncio era o principe real d'Hespanha.</p> + +<p>Com esta providencia mandou tocar os sinos de alarma. A tropa que estava na +terra reuniu para um lado, para o outro reuniu todo o collegio das humanidades +com os seus balandraus e opas, mas sem cruz e sem nenhum ecclesiastico, porque +estes se reuniram e assentaram por votos da maioria, que não deviam apparecer +ao monarcha nem concorrer ao templo. O rei só com o seu talar á porta da igreja +que estava n'esse tempo no sitio aonde está actualmente o templo incompleto da +Senhora do Carmo esperava o concurso no meio de maior anciedade, e nenhum se +resolveu a entrar. A irmandade e a tropa ouviam grandes vivas ao rei, e cada um +sonhava que eram os vivas do outro bando, e não se moviam: o rei já não podia +esperar, porque recebeu a certeza de que o nuncio não voltava<span +class="pagenum">[80]</span> a Villa Real, antes havia de acclamar a sua +desgraçada e infausta commissão até Lisboa.</p> + +<p>Que faria? Chorava aquella desgraça e tendo resolvido correr atraz do nuncio +para o informar e para pedir recurso do interdicto por não ter sido ouvido nem +convencido de tão graves causas, via-se só á porta da igreja; olhou e viu a +distancia o successor de dezeseis gerações, que caminhava para o templo com o +poder do summo pontifice e do provigario do divino Salvador, entrou, despiu o +habito talar e partiu.</p> + +<p>Nós vimos a scena que S. Affonso viu e previu, mas de que modo? Ouvimos os +vivas, reconhecemos os dous bandos, vimos a porta meia aberta do templo, a +estatua do homem ou do heroe, e sentiamos que se recolhia por nos vêr; +marchamos só para o ministerio do templo, e os bandos receosos, desconfiados, +mas desejosos de nos acompanhar não se moviam: perguntei de quem era o busto? +que motivo tinha o povo e o exercito para se conservar em tão grande +espectação, e recolhi a historia, que fica narrada, por muito santa e por muito +verdadeira.</p> + +<p>Antes de me dirigir ao convenio, estava eu no meio de muitos individuos +contemporaneos, que ora me convidavam para o fumo de tabaco, ora para assistir +a algum funeral; ora me assustavam com o perigo de grandes traições<span +class="pagenum">[81]</span> que se armavam contra nós, e como as desprezei? +deixando-os e ficando só.</p> + +<p>E como levamos a narração de interdicto a esta altura devemos acrescentar em +poucas palavras o que mais occorreu. D. Affonso devia estar cançado da lida e +da jornada, o que mais tinha mortificado aquella indomita vontade com o receio +do perigo que ameaçava o estado; apenas se confirmou no seu nobre intento com a +previsão de santo remedio, cahiu cançado. Tinha em Villa Real um filho +semelhante aos que trazia em outras terras, só este o acompanhava e seguia: com +um afilhado que trazia nos estudos para adiantar o pobre mais esperançoso, +porque d'isto tinha elrei cuidado e geral intendencia; e o encarregou de lhe +trazer alguma comida, e apenas comeu logo partiu para Lamego, e o acompanhou +aquelle mancebo, que veio a ser conde de muito e grande merecimento no reino da +Galliza.</p> + +<p>Em Lamego tinha o nuncio repetido o enganoso interdicto, e partiu logo para +Vizeu, seguiu o rei aquella falsa e perfida colera de mal avisado vaticinio até +Vizeu, aonde viu a mesma parodia de Villa Real e a scena de Lamego, e +preparou-se de prevenir o nuncio em Coimbra: o que conseguiu matando-se com +trabalho, d'indomito e de invencivel lidador.</p> + +<p>Em toda a parte o rei encontrava ciladas de traição e de morte que o povo +logo descobria;<span class="pagenum">[82]</span> e como julgava estes odios +vindos d'Hespanha, matava immediatamente os traidores; e dizia: «Assim como o +nosso rei está interdicto, nós faremos justiça.»</p> + +<p>Em Coimbra preveniu o nuncio, e convenceu-o facilmente da injustiça que +commettia pelos principios do direito, e até á vista dos poderes que trazia de +sua santidade; e reuniu um conselho de sabios, que accordou no meio que se +devia seguir; o nuncio pareceu accordar, mas trahiu a sua missão; de madrugada +affixou interdicto e fugiu. Então foi apanhado pelo rei com tres matadores +d'Hespanha, e d'estes não ficou um.</p> +<hr> + +<h1><a id="cap05" name="cap05">O ULTIMO CARRASCO</a></h1> + +<p>Luiz Negro é o nome, terrivelmente adjectivado, do ultimo carrasco legal, +que morreu no Limoeiro, ha poucos mezes. </p> + +<p>Na provincia transmontana contam-se ainda, nos saraus aldeãos, as lendas +sinistras do facinoroso soldado de dragões de Chaves.<span +class="pagenum">[83]</span> </p> + +<p>O <em>Ultimo carrasco</em> é o bosquejo d'esse personagem, tão decahido da +sua antiga importancia, mas tão considerado ainda no funccionalismo, que lhe +concederam as honras, quando o desbalizaram do ordenado. </p> + +<p>O snr. visconde de Ouguella possue, do proprio pulso de Luiz Negro, o +escorço dos factos que o constituiram homicida legal, com estipendio; todavia, +não podemos favorecer a memoria d'este executor da justiça, asseverando que +elle cumpriu os seus deveres; por quanto, do contexto da obra vêr-se-ha que +Luiz Negro, quando tinha de enforcar, pagava a quem o substituisse. </p> + +<p>No prologo do <em>Ultimo carrasco</em>, no recamado estylo com que todos os +seus escriptos se opulentam, o snr. visconde de Ouguella detem-se na antiga +idéa de abolição da pena de morte. Entre os mais energicos apostolos d'essa +humanissima missão, está Carlos Ramires Coutinho, desde que passou dos bancos +da universidade para a tribuna forense. </p> + +<p>Os primeiros brados, que resoaram na imprensa, nos tribunaes e na +consciencia publica, sahiram da alma liberrimamente generosa d'aquelle moço. Os +annos volveram-se, os attritos do desengano desbotaram-lhe o verniz de muitas e +queridas illusões; mas o sentir profundamente humanitario lá se lhe insurge, +apesar dos dissabores, em pró das classes<span class="pagenum">[84]</span> cuja +emancipação os preconceitos retardam. Nem as insignias titulares, nem o egoismo +tão irmanado com os bens da fortuna enervaram a alliança que travou o visconde +de Ouguella com as aspirações da democracia. Para elle o titulo não é a inerte +e absurda indifferença de fidalgo, nem da superabundancia de meios surtiu a +atrophia dos fidalgos sentimentos que a pobreza, talvez, obrigasse a transigir +com a fatalidade das circumstancias. </p> + +<p>Queremos dizer que dos escriptos do visconde de Ouguella reveem, +principalmente, os impulsos liberaes de um animo que não enfraquece nem +descança na lucta. No prefacio, que vai lêr-se, do <em>Ultimo carrasco</em> +resaltam um altissimo condoimento da ignorancia, que sob-põem o collo ao jugo, +e uma vehemente invectiva aos que, se podessem, apagariam a immensa luz que +lhes abriu caminho por onde se passaram dos tamboretes de couro para os +flaccidos sophás. </p> + +<h1>O ULTIMO CARRASCO</h1> + +<h2>INTRODUCÇÃO</h2> + +<p>É dolorosa a tarefa. </p> + +<p>São pungentes, tambem, as recordações. </p> + +<p>Todavia a feição singular d'este nosso seculo<span +class="pagenum">[85]</span> exige imperiosamente estas luctas, e obriga-nos a +estas pugnas, as mais das vezes, inglorias. </p> + +<p>Seja assim. </p> + +<p>Tão rapidamente se photographam, hoje, as metamorphoses dos apostolos, +allucinam-se com tanta promptidão os espiritos, e desvairam-se as consciencias +em tão loucas vertigens, que temos nós—nós, os exploradores obscuros, e +audazes obreiros—de lidar e mourejar constantemente, para affirmar, a cada +hora, estes principios sacrosantos, que consubstanciam, e determinam a religião +do dever. </p> + +<p>Ainda ha pouco, uma das mais esplendidas intelligencias da peninsula, rica +de todas as opulencias d'este nosso sólo do occidente, marcada com o sello +divino, precursora da boa nova, sentinella e espia vigilante das mais puras +crenças em que se basêa a democracia, esqueceu, nos delirios que dá o mando e o +poder, todas as inspirações, e toda a religião do povo—religião das massas, +que, elevando-o, o engrandeceram e divinisaram—e, acommettido pelas vaidades +pueris dos Nabuchos de todos os tempos, exilou, deportou, e fusilou como se +fôra elle—elle, o tribuno das escolas e dos congressos—um duque d'Alva nas +ferocidades das conquistas do imperio de Carlos V, ou um deploravel Telles +Jordão, nascido para sicario de todas as reacções.<span +class="pagenum">[86]</span> </p> + +<p>É triste, é lamentavel, é afflictivo, que o Demosthenes da peninsula +hispanica, berço na actualidade da familia mais heroica da raça latina, +deslembre e olvide, nas allucinações, que ensombram o fastigio do poder, +principios inconcussos e sagrados, e venha dar senão razão, pelo menos pretexto +a essas hordas barbaras de hunos, vandalos ou não sabemos se de bandoleiros, +que atravessam e devastam as Vascongadas, a Navarra, e a Catalunha, missionando +crenças, que seriam ridiculas e apenas abjectas, n'este seculo, se um rasto de +sangue, de fogo, e de metralha não enchesse de terror e de luto as povoações +por onde caminham e perpassam. </p> + +<p>Não ha razão d'estado, não ha lei de salvação popular, não ha causa nenhuma, +por mais ardilosa, machiavelica ou especiosa que seja, que consagre nunca, e em +caso nenhum, uma offensa feita ás leis geraes por que se rege a humanidade. </p> + +<p>A vida humana é inviolavel sempre, e para todo o sempre. </p> + +<p>Errem os homens—embora!—Succumbam momentaneamente as idéas grandiosas de +emancipação dos povos—resignemo-nos, e esperemos. Mas salvemos todos esta arca +santa, este sacrario das mais nobres aspirações da democracia. </p> + +<p>Dêmos ao <em>sacer esto</em> das doze taboas a<span +class="pagenum">[87]</span> unica e verdadeira interpretação das sociedades +modernas. </p> + +<p>Não votemos o criminoso, qualquer que seja o seu delicto ou a penalidade em +que incorreu, aos deuses infernaes. Rehabilitando-o, votemol-o á sociedade, ás +verdadeiras crenças, á familia, e á patria. </p> + +<p>A Vida do homem é sagrada. </p> + +<p>Como são sagrados todos os direitos absolutos, como é sagrado e mysterioso o +fim do homem, como é sagrada, indescortinavel, desconhecida e insondavel a +causa da existencia humana, a razão da vida harmoniosa do universo, o +pensamento supremo, que presidiu a todos estes esplendores, que se formulam e +desenrolam nas magnificencias da creação. </p> + +<p>E é o homem, na pequenez da mais miserrima e limitada existencia, na +ignorancia fatal das suas transformações futuras, nas trevas densissimas do seu +porvir, que diz a outro homem—a um irmão seu, ao Abel da sua raça: «Eu +mato-te, assassino-te, á face d'este sol esplendido, em presença de toda a +creação, com a consciencia segura e tranquilla de que Deus me ouve, me vê, e me +escuta, em nome d'umas leis que eu inventei, e escrevi,—por que eu, homem, +pelo facto de ser legislador e juiz arvoro-me em carrasco, e rasgo e devasso +consciencias, analyso e preso intenções, forjo e imagino crenças, e +condemno<span class="pagenum">[88]</span> em nome de Deus vivo, e da justiça +absoluta de que me faço interprete, magistrado e saião!» </p> + +<p>Crêmos firmemente que a misericordia divina alcança ainda estas sinistras e +ferozes aberrações dos verdugos e dos algozes. </p> + +<p>Perdoai a todos, Senhor, e quando o perdão da vossa infinita bondade, +n'esses effluvios repassados de sentimento, como pai e creador, descer sobre +nós, que a vaidade pharisaica, o orgulho ignobil de todos os sacerdocios, e de +todas as theocracias, scepticismo inconsciente de todas as ignorancias, e a +blasphemia perdoavel, nascida do desespero, e da miseria, achem, nas pregas do +vosso manto d'esquecimento, lugar onde se abriguem, pela omnipotencia do vosso +poder, e pela misericordia infinita dos vossos designios. </p> + +<p>Que a religião do futuro seja um hymno de gloria, um hossana de perpetuo +louvor, onde só a myrrha e o incenso subam aos vossos altares—e que as +carnificinas humanas desde os homicidios nos <em>dolmens</em> dos deicidas até +ás fogueiras do fanatismo catholico desappareçam e se extingam em presença do +verdadeiro culto, que o ente humilde, e inconsciente da sua missão, na terra, +presta á sublime causa, ao Ente que regula e dirige o universo. </p> + +<p style="text-align:right;">VISCONDE DE OUGUELLA.<span +class="pagenum">[89]</span></p> +<hr> + +<h1><a id="cap06" name="cap06">CURIOSIDADES ARTISTICAS</a></h1> + +<p>No principio d'este seculo, as melhores pinturas ornamentavam as salas dos +marquezes de Borba, de Angeja, de Abrantes, de Tancos, de Lavradio, de Bellas, +e do visconde da Bahia que primava em originaes de grandes mestres. Manoel +Joaquim Collaço e um padre João Chrysostomo, ambos de Lisboa, e ha muitos annos +fallecidos, colleccionaram excellentes quadros. O possuidor das mais ricas +estampas era, por esse tempo, um José Joaquim de Castro, vulgarmente chamado o +<em>Agua de Inglaterra</em>, não sabemos se em razão de a preparar, se por +descender do hebreu Jacob de Castro Sarmento que a inventou. </p> + +<p>Fr. José Mayne, confessor de D. Pedro III, legou á academia das sciencias o +seu museu, e não sei se a sua galeria dos melhores pintores coevos, em que +sobresahiam os quadros de Joaquim Manoel da Rocha, habilissimo na pintura da +natureza morta. Tambem fr. Manoel<span class="pagenum">[90]</span> do Cenaculo, +arcebispo de Evora, colleccionou soberbas pinturas, que tiveram variados e +obscuros destinos. </p> + +<p>No convento de Bemfica houve um quadro original de Wandyck: era o da +Crucifixão. Presume-se que pouco mais possue Portugal d'aquelle grande artista. +Na sala do marquez de Alegrete (Penalva), havia um quadro de Raphael. Existia +outro na igreja do seminario de Brancannes. Fallamos sempre no preterito, +porque duvidamos que taes preciosidades se conservem, assalteadas, a um tempo, +pelo desamor das artes e pelo amor ao dinheiro. </p> + +<p>No templo de Belem ha tres quadros de Manoel Campello. O que representa +Jesus Christo vergado sob a cruz está na escada principal do extincto convento. +Os outros são o da Coroação dos espinhos e o da Resurreição. </p> + +<p>Na tribuna da igreja de S. Roque ha o painel que representa a vinda do +Espirito Santo: é de Gaspar Dias. Em 1740, o celebrado Pedro Guaranti +arrebatou-se na contemplação d'aquella obra prima. É tambem do insigne pintor o +Senhor do Horto que existe em Belem, e o de S. Roque, na capella da invocação +do mesmo santo. São obras de primeira execução. </p> + +<p>No refeitorio de Belem, o quadro do nascimento de Jesus é do celebre Simão +Rodrigues. De fr. Marcos da Cruz, coevo de D. João III,<span +class="pagenum">[91]</span> havia na igreja do Carmo, de Lisboa, o painel de +Santa Maria Magdalena de Paris. Os do arco cruzeiro de Jesus, já damnificados +no fim do seculo passado, tambem eram d'elle ou se lhe attribuiam. (Vej. +<em>Mem. hist. do ministerio do pulpito</em>, por fr. Manoel do Cenaculo, pag. +135). </p> + +<p>De quadros de Vieira Lusitano temos antiga noticia de existirem o de Santo +Agostinho na portaria do convento da Graça, o de S. Francisco na capella-mór da +igreja, o de S. Pedro e S. Paulo em casa dos condes de Povolide, e alguns na +igreja dos Paulistas. </p> + +<p>Na casa de Tancos (Atalaias) estiveram oito paineis de Jacob Bassano, pelos +quaes o principe Eugenio (1663-1736) mandou offerecer duzentos mil cruzados, +que foram rejeitados. Entre aquelles inestimaveis quadros havia um de Leonardo +de Vinci, alguns de Corregio, de Miguel Angelo, de Salviati, e de Antonio +Tempesta. Um primoroso Luiz XIV a cavallo era do famigerado Lebrun.<span +class="pagenum">[92]</span> </p> +<hr> + +<h1><a id="cap07" name="cap07">CANTADA E CARPIDA</a></h1> + +<p>A marqueza de Tavora, D. Leonor, justiçada no patibulo em 1759, foi a mais +formosa fidalga das côrtes de D. João V e D. José I. </p> + +<p>Morreu aos cincoenta e nove annos. Subiu intrepida ao cadafalso. Parecia +inflexivel ao espectaculo do cutelo. Nem uma lagrima, nem um gemido +supplicante! Mas o meirinho das cadeias e tres algozes tinham ordem de lhe +arrancarem o pranto em um mais doloroso supplicio, que não constava da +sentença. </p> + +<p>Começaram, pois, mostrando-lhe, um a um, os instrumentos das execuções, que +se haviam de fazer no marido, nos filhos e parentes: as aspas, em que deviam +ser amarrados, as macetas de ferro com que haviam de ser-lhes quebrados os +ossos dos braços e pernas, as cordas destinadas ao garrote, e a olandilha com +que os desmembrados cadaveres seriam tapados até se accenderem as fogueiras. +</p> + +<p>A marqueza então chorou. </p> + +<p>Quando o algoz lhe desvelou o collo para a degolar, D. Leonor, com gentil +pejo, murmurou: «Não me descomponhas.»<span class="pagenum">[93]</span> </p> + +<p>Testemunhas d'este transe deixaram á escripta e á tradição oral que a +marqueza era ainda magestosa no garbo, na altivez, nas reliquias admiraveis da +belleza, raro permanecente em annos tão adiantados. </p> + +<p>Quando tinha cincoenta, acompanhou á India o vice-rei seu marido. </p> + +<p>A familia real foi despedil-os até á praia, alli mesmo áquella praia de +Belem, onde, nove annos depois, se passou a horrenda carnagem. </p> + +<p>Foi em uma graciosa manhã da primavera de 1750, aos 28 de março. </p> + +<p>D'entre os milhares de concorrentes á praia, por onde a heroica marqueza +demandava o bergantim da sua nau, sahiu um poeta dos melhores entre os pessimos +d'aquelle tempo, ajoelhou diante da vice-rainha, e depositou-lhe na mão, que o +levantava da postura humilde, um rolo de papel atado por laçaria de seda +variegada. </p> + +<p>A marqueza desenrolou, leu as primeiras linhas, sorriu-se amoravelmente, e +disse: </p> + +<p>—Não lhe perdôo a lisonja. Esqueceu-se que tenho cincoenta annos? </p> + +<p>—A natureza é que se esqueceu de v. exc.ª depois que lhe aperfeiçoou os +vinte e cinco annos—respondeu o galã. </p> + +<p>A poesia constava d'isto:<span class="pagenum">[94]</span> </p> + +<p style="text-indent: -1em; margin-left: 1em;"><small>Á ILL.<sup>ma</sup> E +EXC.<sup>ma</sup> SNR.ª MARQUEZA DE TAVORA NA HEROICA RESOLUÇÃO DE ACOMPANHAR +SEU QUERIDO ESPOSO, O SNR. MARQUEZ DE TAVORA AOS ESTADOS DA INDIA.</small></p> + +<blockquote> + Vai, ó formosa heroina!<br> + do mar essas ondas sulca;<br> + que, se és Venus na belleza,<br> + Venus nasceu das espumas.<br> + <br> + Vai, divindade, não temas<br> + da salgada agua as furias,<br> + que até impera nos mares<br> + a immortal formosura.<br> + <br> + Vai ser de Thetis inveja,<br> + ser de Neptuno ventura,<br> + das sereias lindo encanto,<br> + das nymphas formosa injuria.<br> + <br> + Os tritões, e as nereidas<br> + sendo alegres testemunhas,<br> + a nau carroça, tu, deusa,<br> + passeia as ondas ceruleas.<br> + <br> + Vai, que é pequeno hemispherio<br> + um só mundo ás luzes tuas,<br> + e quem em um só não cabe<br> + justamente o outro busca.<br> + <br> + São do sol os diamantes<br> + producção brilhante, e sua;<br> + se produz lá um sol tantos,<br> + tres que farão? Conjunctura.<span class="pagenum">[95]</span><br> + <br> + Vai examinar o Oriente<br> + d'onde sahe a luz mais pura;<br> + verás do teu nascimento<br> + pelo exemplar copia justa.<br> + <br> + Vai, que d'esta vez, senhora,<br> + ficará, por tua industria,<br> + a valentia formosa,<br> + a formosura robusta.<br> + <br> + Vai, vai só com teu esposo,<br> + tudo o mais creio se escusa;<br> + onde basta a sua fama,<br> + sobeja a sua figura.<br> + <br> + Sem violencia no estrago<br> + terão teus raios fortuna;<br> + se ao sol barbaros adoram,<br> + logo que chegas, triumphas.<br> + <br> + Interesse, e não fineza<br> + tua heroica acção inculca;<br> + com este excesso que obras<br> + immortal gloria procuras.<br> + <br> + Se anima entre os dous corpos<br> + uma só alma, e não duas,<br> + pois a não partes na ausencia,<br> + melhor a vida asseguras.<br> + <br> + Á dôr da saudade foges,<br> + tens razão, mostras desculpa<br> + por um estrago suave<br> + trocar uma morte dura.<span class="pagenum">[96]</span><br> + <br> + Agua, e fogo são contrarios,<br> + teu amor naturaes muda;<br> + pois faz em novo milagre<br> + que o incendio ao mar se una.<br> + <br> + Vai! Conheça o mundo todo,<br> + mais alto poder divulga,<br> + que o sexo que em ti domina,<br> + o sangue que em ti circula.<br> +</blockquote> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>As esperanças bem fundadas na sensatez e bravura do marquez de Tavora não +foram menos cantadas que a gentileza da esposa. O regulo Canajá, infesto +devastador de Diu, sentiu-lhe o peso do braço vencedor. Arderam as esquadras do +inimigo, espavoridas ainda do arrazamento da fortaleza de Neudabel. O Bounsuló +e o Marata fugiram-lhe a furia, levantando o assedio de Neutim. O rei de Sunda +perdeu os seus fortes, e as terras de Pondá e Zambaulim. Em quatro annos de +vice-reinado, o marquez de Tavora ceifára louros que lhe promettiam sombra e +gloriosa resalva das contrariedades da fortuna. </p> + +<p>E, apenas devolvidos cinco annos, depois que desembarcára, n'aquella mesma +praia de Belem, que espectaculo! Um algoz lhe mostra os corpos despedaçados da +esposa, dos filhos e do genro. Depois explica-lhe por miudo<span +class="pagenum">[97]</span> a acção dos instrumentos que o vão atormentar. E +depois... </p> + +<p>Repugnam os sabidos pormenores d'aquelle supplicio. </p> + +<p>A descripção previa, feita aos padecentes, diz o snr. Soriano, na +<em>Historia do reinado d'el-rei D. José I</em>, que deve com toda a razão ser +attribuida ao cruel e ferocissimo coração de Sebastião José de Carvalho. </p> + +<p>Ora, o snr. John Smith, author das <em>Memorias do marquez de Pombal</em>, +diz que todas as ferocidades d'aquelle supplicio, constantes e não constantes +da sentença, promanaram directamente do coração de D. José I. </p> + +<p>Lá se avenham os dous algozes na presença do Supremo Juiz. </p> +<hr> + +<h1><a id="cap08" name="cap08">BIBLIOGRAPHIA</a></h1> + +<p class="sc" style="text-align:center;">(Henry Murger—Pinheiro Chagas)</p> + +<p><span class="sc">Henry Murger.</span> <em>Scenas da vida de Bohemia</em>, +traducção de <span class="sc">Gustavo A. Barbosa</span>. <em>Livraria +Internacional</em>. Porto. 1874, 8.º—424 pag.—É um romance urdido com os +brilhantes fios da mais extravagante, verdadeira e esplendida vida de uns +rapazes francezes que, ha quarenta annos, se chamavam os +<em>bohemios</em>,<span class="pagenum">[98]</span> e depois attingiram o +galarim das artes e letras, e encheram o mundo com o seu nome. D'esses, ainda +ha poucos annos, sobreviviam cinco ou seis que voltavam ao passado a vista do +coração—o olhar lagrimoso da saudade—em busca dos alegres convivas, ceifados +pela morte, quando as messes da gloria, o ouro e a consideração não bastavam a +esquecel-os da ridente pobreza da sua mocidade. Adivinham-se, no romance, os +nomes mal disfarçados nos pseudonymos. Os grandes pintores, os criticos +intrepidos, os dramaturgos laureados, os arrebatados poetas, os historiadores +austeros, todos ahi entreluzem de entre as risonhas ficções, pintadas pelo +scintillante estylo de Henry Murger. </p> + +<p>Quanto á versão portugueza, é uma das mais aprimoradas que ainda vimos—um +verdadeiro trabalho de intelligente e consciencioso esmero. O traductor arcou +pertinazmente com as maximas difficuldades do original. Nenhum neologismo lhe +afrouxou o alento na transposição acertada com que o aproximou da phrase +portugueza. Por maneira que, a espaços, não se estremam bem as indoles das duas +linguas, como se, entre nós, corressem analogas subtilezas no dizer, e as +mesmas analogias do pensamento. Assim, comprehende-se que as traducções sejam +thesouros literariamente portuguezes; e ao esclarecido traductor<span +class="pagenum">[99]</span> cabe distincto lugar entre os sabedores das duas +linguas. E, quando de par com o estudo se allia o deleite do enredo, o livro, +que proporciona dous prazeres tão pouco vulgares, é um livro excellente. </p> +<hr style="width:30%;"> + +<p><em>O Terremoto de Lisboa</em>, romance historico, por <span class="sc">M. +Pinheiro Chagas</span>. Lisboa. <em>Livraria editora</em> de Mattos Moreira +& C.ª, 1874.—Haveria razão para não exigir livros primorosos de escriptor +tão fecundo e variado em differentes ramos das letras; mas, no author d'este +livro, manifesta-se a rara excepção que constitue o engenho distincto. A +fertilidade não lesa o detido cuidado no esmeril da linguagem. Os raptos da +imaginação não descuram a cadencia da linguagem, o torneio da phrase, o decoro +e pompa d'este nosso formoso idioma que só desserve aos que o exercitam com +insufficiente estudo. N'este romance do <em>Terremoto de Lisboa</em>, pautou o +snr. Pinheiro Chagas com rigoroso lapis os delineamentos das figuras +historicas. Diogo de Mendonça e Sebastião José de Carvalho avultam aqui na tela +romantica fidelissimos aos originaes da historia. Todavia, se, por vezes, o +louvor tece corôas ao valido de D. José I com demasiado colorido de flôres +salpicadas do sangue de illustres<span class="pagenum">[100]</span> e +innocentes victimas, isso é um modo de ver pela lente da politica, em cuja +apreciação eu não entro, nem me arrogo o jus de contestar ao excellente +romancista a veridicidade dos seus conceitos. As notaveis bellezas d'este +romance assentam na habilidade da contextura, no tino com que as peripecias +convergem para o desenlace justificado pelo titulo. Pelo que é da excellencia +secundaria em uma novella, o estylo, isso é já de sobra apreciado nos muitos, +posto que rapidos, trabalhos de Pinheiro Chagas. A florescencia é sobria, os +atavios não estofam a penuria da idéa, os ornatos frisam rigorosamente com a +conveniencia dos lances. Denominamos «secundaria» a excellencia do estylo em +romances, porque sabemos, de propria experiencia, que os livros d'esta especie, +mais lapidados, e, no dizer antigo, mais penteados na phrase, são, por via de +regra, os menormente bem-quistos da maioria de leitores que desadoram palavras +que lhes não sejam da maior familiaridade. Tem, todavia, o snr. Pinheiro Chagas +o raro condão de escrever para todos, e a todos, lidos e não lidos, deve o +abalizado escriptor a sua grande popularidade. </p> + +<p class="centrado">FIM DO 10.º NUMERO</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem +não póde dormir. Nº 10 (de 12), by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 10 (DE 12) *** + +***** This file should be named 28201-h.htm or 28201-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/8/2/0/28201/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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