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+ <title>Noites de Insomnia, offerecidas a quem não póde dormir, nº 10</title>
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+The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não
+póde dormir. Nº 10 (de 12), by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 10 (de 12)
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: February 26, 2009 [EBook #28201]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 10 (DE 12) ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+</pre>
+
+<span class="pagenum">[1]</span>
+
+<div class="capa">
+<p style="font-size: 1.2em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p>
+<hr style="width: 6em;">
+
+<p style="font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p>
+
+<p style="font-size: 0.7em;">OFFERECIDAS</p>
+
+<p>A QUEM NÃO PÓDE DORMIR</p>
+
+<p style="font-size: 0.7em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">Camillo Castello Branco</p>
+<hr style="width: 3em;">
+
+<p style="font-size: 0.7em;">PUBLICAÇÃO MENSAL</p>
+<br>
+
+<hr style="width: 3em;">
+
+<p style="font-size: 0.9em;">N.º 10&mdash;OUTUBRO</p>
+<hr style="width: 3em;">
+
+<table width="100%" summary="endereço editor">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <th colspan="2">LIVRARIA INTERNACIONAL<br>
+ <span style="font-size: 0.7em;">DE</span> </th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="border-right: solid 1px #000000;"><span
+ style="font-size: 0.9em;">ERNESTO CHARDRON <br>
+ <em>96, Largo dos Clerigos, 98</em><br>
+ <strong>PORTO</strong> </span> </td>
+ <td><span style="font-size: 0.9em;">EUGENIO CHARDRON<br>
+ <em>4, Largo de S. Francisco, 4</em><br>
+ <strong>BRAGA</strong> </span> </td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+<hr style="width: 2em;">
+
+<p style="font-size: 0.9em;">1874</p>
+</div>
+<span class="pagenum">[2]</span>
+
+<div id="impressor" style="text-align: center;">
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<hr style="width: 8em;">
+
+<p>PORTO</p>
+
+<p style="font-size: 0.9em;">TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">68&mdash;Rua da Cancella Velha&mdash;62</p>
+<hr style="width: 2em;">
+
+<p style="font-size: 0.9em;">1874</p>
+</div>
+<span class="pagenum">[3]</span>
+
+<div id="sumario">
+<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p>
+<hr style="width: 4em;">
+
+<p style="text-align: center; font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p>
+<hr style="width: 4em;">
+
+<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;"><strong>SUMMARIO</strong></p>
+
+<p><em><a href="#cap01">Beatriz de Vilalva</a> &mdash; <a href="#cap02">Se o poeta
+Bernardim Ribeiro foi commendador</a> &mdash; <a href="#cap03">Resposta de José
+Anastacio</a> &mdash; <a href="#cap04">Prefacio ao sonho do Arcebispo</a> &mdash; <a
+href="#cap05">O ultimo carrasco</a> &mdash; <a href="#cap06">Curiosidades
+artisticas</a> &mdash; <a href="#cap07">Cantada e Carpida</a> &mdash; <a
+href="#cap08">Bibliographia</a></em> </p>
+</div>
+<span class="pagenum">[5]</span>
+
+<div id="corpo">
+<hr>
+
+<h1><a id="cap01" name="cap01">BEATRIZ DE VILALVA</a></h1>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Era o nome da encantadora bastarda do capitão-mór da Lixa.</p>
+
+<p>Vivia, com sua mãi, na quinta de Vilalva, com que fôra dotada, aos quinze
+annos, para casar, aos dezoito, com o morgado de Pildre, Vasco Pinto de
+Magalhães.</p>
+
+<p>Isto são cousas antigas. Era no anno de 1834. Ha quarenta annos. Um seculo
+d'outras eras, quando vinte annos eram mocidade innocente, e, aos quarenta, o
+homem tenteava com timido pé os umbraes do mundo. Agora, dentro de quarenta
+annos, fenecem e reverdecem duas mocidades e duas velhices; o revolutear das
+variadas paixões, gastando a alma e safando o cerebro, desmemoría o homem de si
+mesmo; em cada decada atrophia-se-lhe o coração com as velhas imagens, e
+resurgem-lhe, com as imagens novas, outras faculdades affectivas. Quarenta
+annos! Eu, quando me<span class="pagenum">[6]</span> lembro que vi Pedro IV, e
+por pouco não fui contemporaneo de João VI, entro em duvidas se conheci o
+marquez de Pombal, e receio que me peçam noticias do terremoto de Lisboa, como
+testemunha presencial.</p>
+
+<p>Beatriz orçava então pelos dezesete. No anno seguinte, devia casar-se com o
+morgado de Pildre, que tinha cincoenta e seis annos, e uma casaria negra, ás
+cavalleiras de Amarante, com duas torres senhoriaes escalavradas pela
+artilheria, no tempo dos francezes.</p>
+
+<p>Aborrecia-o a bastarda do capitão-mór da Lixa; mas obedecia ao pai, que dava
+ordens breves e seccas, e condescendia aos conselhos da mãi, mulher da plebe,
+que almejava metter sua filha na casa de Pildre, sem se lhe dar que a morgada a
+constituisse avó dos filhos do capellão&mdash;o menos escandaloso dos cooperadores
+anonymos da conservação das varonias e proseguimento das raças.</p>
+
+<p>Obedecia principalmente Beatriz, porque não amava ninguem, não conhecia
+homem nenhum para comparar. Tinha, apenas, a razão a dizer-lhe que um marido
+não devia ser velho, e que a sua estrella era má.</p>
+
+<p>N'este tempo, voltaram ás suas casas os frades expulsos. Alli perto de
+Vilalva, á casa do Pomar, chegou, vindo do convento da Graça, de Lisboa, um
+egresso de vinte e tres annos, com dous apenas de professo. Um guapo<span
+class="pagenum">[7]</span> moço, esbelto, rosado, vivo, sanguineo, um frade que
+rasgára alegremente o habito, e dera vivas á liberdade quando o mandaram sahir
+da cella. Eu conheci-o. Era um donoso velho, a arvore no outono, com a folhagem
+amarellida, mas ainda frondosa, copada, recordando as refrigerantes sombras dos
+meios dias de julho.</p>
+
+<p>O que não seria elle, o egresso João de Queiroz, aos vinte e tres annos, ao
+sahir do convento, a desbordar exuberancias de vida represada, a desforrar-se
+da violencia com que lhe desfolharam, como improprias do homem immolado, as
+flôres de seis primaveras!</p>
+
+<p>O capitão-mór, quando viu o ex-frade, tão convisinho de Vilalva, mandou
+acautelar a filha; e, de passagem, contou á mãi uma duzia de casos funestos
+acontecidos com frades, no seio das trinta familias fidalgas de Amarante, Lixa,
+Fafe e terras circumjacentes.</p>
+
+<p>A mãi de Beatriz não acautelou bastantemente a rapariga; pareceu-lhe
+demasiado o recato do pai, á vista do recolhimento e da gravidade de padre
+João, afiançado por todas as mães das mais secias moças da freguezia, e, sobre
+tudo, pela compostura do sacerdote, já no altar, já no pouco trato que tinha
+com elle no adro da igreja.</p>
+
+<p>Comtudo, se a presumptiva sogra do morgado de Pildre attendesse á
+experiencia do<span class="pagenum">[8]</span> capitão-mór e á silva de
+malfeitorias fradescas que lhe elle contou, evitaria, quando menos, que Beatriz
+não andasse sósinha pelos miradouros da quinta, nem fosse ao fundo da tapada,
+que embeiçava na serra, quando ouvia um tiro, e os cães da caça latiam na
+encosta.</p>
+
+<p>Não sei que alma escrupulosa avisou o capitão-mór dos colloquios de Beatriz
+com o egresso, interpondo-se, verdade é, o muro que dividia a quinta dos
+montados, por onde o padre esperava a «estranha caça» á imitação dos menos
+felizes navegadores de Camões.</p>
+
+<p>O sisudo fidalgo da Lixa, sofreando os impetos do sangue ostrogodo,
+absteve-se de immolar á memoria ultrajada dos avós aquelle dom ribaldo
+tonsurado. Receoso, talvez, de que o padre, colligado com os constitucionaes,
+repellisse qualquer offensa, em desprezo dos pergaminhos do fidalgo, dicidiu-se
+a guardar silencio, e apressar o casamento, conforme á anciosa vontade do
+morgado.</p>
+
+<p>E, á volta de poucos dias, estava prompto o enxoval, e marcada a seguinte
+semana para o consorcio.</p>
+
+<p>Na vespera, porém, do dia prefixo, Beatriz de Vilalva desappareceu, depois
+de haver chorado torrentes, pedindo inutilmente á mãi que a não obrigasse a
+casar com o detestado velho, se a não queria levar a matar-se por suas
+mãos.<span class="pagenum">[9]</span></p>
+
+<p>Quando se divulgou, na madrugada do dia 3 de setembro de 1834, a fuga de
+Beatriz, o capitão-mór remexeu com a authoridade da pessoa e com as coleras de
+pai as justiças de Lixa e de Amarante.</p>
+
+<p>A primeira e unica suspeita do rapto foi o egresso; mas o egresso, quando
+foi procurado em sua casa, sahiu á sala a receber os officiaes de justiça com
+tanta serenidade quanto espanto, ao dizerem-lhe que elle era o raptor da filha
+do capitão-mór.</p>
+
+<p>&mdash;Eu!&mdash;exclamou padre João de Queiroz com as mãos estendidas na cabeça&mdash;eu,
+senhores! eu raptor de mulheres!...</p>
+
+<p>E, chamando sua velha mãi, disse-lhe com um solemne e brando socego:</p>
+
+<p>&mdash;Minha mãi, estes senhores dizem que eu roubei a snr.ª D. Beatriz de
+Vilalva.</p>
+
+<p>&mdash;Credo!&mdash;bradou a velha afflicta.&mdash;Credo!...</p>
+
+<p>&mdash;Nada de exclamações, minha mãi&mdash;atalhou padre João.&mdash;O nosso dever é
+franquear a estes senhores todos os cantos d'esta casa. Queiram seguir minha
+mãi, cuja vida honrada de sessenta annos não permitte que os senhores a
+considerem receptadora de meninas roubadas. E, entretanto que os senhores
+passam busca, eu vou vestir-me para os acompanhar á presença de quem aqui os
+mandou, e não terei grande magoa de entrar na<span class="pagenum">[10]</span>
+cadeia, logo que fui ferido por tão perversa calumnia. O mais pungente do
+insulto já cá o tenho cravado na alma.</p>
+
+<p>Em quanto os officiaes de justiça cumpriam o mandado, e o padre se vestia
+para depois acompanhal-os, um cavalleiro açodado, e que entrára do lado de
+Amarante á desfilada, apeou no terreiro da casa do Pomar, perguntando se alli
+estavam os meirinhos. A resposta affirmativa, tornou o emissario do juiz
+dizendo que sustassem a diligencia, porque á beira do Tamega se encontrára a
+capa da menina e um bilhete em que fazia declarações.</p>
+
+<p>Padre João de Queiroz voltou-se contra o escrivão, e disse placidamente:</p>
+
+<p>&mdash;Diga vossa mercê ao snr. capitão-mór da Lixa que eu lhe perdôo.</p>
+
+<p>Os aguazis sahiram quasi edificados, desfazendo-se em satisfações ao egresso
+que os despediu com um amoravel e pacientissimo sorriso de bem-aventurado.</p>
+
+<p>O bilhete de Beatriz declarava que a misera menina preferia morrer a
+casar-se á vontade despotica de seu pai, e invocava o testemunho de sua mãi a
+quem ella o havia predito com baldadas supplicas. Acrescentava que lhe rezassem
+por sua alma, e que morria confiada na misericordia divina.</p>
+
+<p>A mãi, vendo o bilhete e reconhecendo a letra, pegou de berrar que tudo
+aquillo era<span class="pagenum">[11]</span> impostura; que a filha lhe tinha
+dado opio para ella dormir mais de quinze horas sem acordo; que a sua filha
+estava escondida; e que o bilhete e a capa á beira do rio era tramoia de padre
+João para se escapar á justiça. E, dadas estas razões que a muita gente
+pareceram signaes de demencia, pegou de si, foi-se para a porta do egresso, e
+começou a berrar aqui d'el-rei contra elle.</p>
+
+<p>No entanto, gente mais ajuizada procurava entre as ramarias dos salgueiros,
+que formavam grutas na ourela do Tamega, o cadaver da suicida. Depois de
+laboriosas pesquisas, descobriram no remanso da corrente que descahia de uma
+açude, um sapato de cordovão, que uma criada de Vilalva declarou ser de sua
+ama.</p>
+
+<p>Como anoitecesse, cessaram as diligencias, e a justiça e o publico
+prescindiram do cadaver para dar como praticado o suicidio.</p>
+
+<p>Não obstante, a mãi de Beatriz continuou a gritar contra o roubador de sua
+filha, ainda depois que o capitão-mór a removeu d'alli para a sua quinta de
+Ovelha, nas vertentes do Marão&mdash;sitio azado para qualquer pessoa desditosa
+gritar á vontade, e sem grande incommodo dos visinhos.</p>
+
+<p>Corridos seis mezes, o tragico successo estava esquecido, ou apenas era
+recordado quando o padre Queiroz apparecia em Amarante,<span
+class="pagenum">[12]</span> e as pessoas de bem o apontavam como victima da
+calumnia, que o teve no gume da perdição; ao passo que ninguem accusava de
+assassino de sua filha o estupido e ambicioso capitão-mór que a quizera atar ao
+torpe cadaver do morgado de Pildre.</p>
+
+<p>Padre João apesar de bemquisto e indemnisado pelo respeito das pessoas
+honestas, denotava no aspecto profunda tristeza, e aos seus intimos dizia que
+tinha saudades da paz do convento; e, logo que se lhe ageitasse modo, iria
+parochiar em algum presbyterio rural, bem longe d'aquella terra onde a
+aleivosia lhe matára para sempre o contentamento da liberdade e da familia.
+Instavam os amigos em despersuadil-o; mas assim que vagou uma igreja modesta no
+arcebispado, e nas visinhanças de Villa Nova de Famalicão, obteve-a de prompto
+com a sua reputação de liberal, e mudou-se para lá com immensa magoa dos seus
+conterraneos.</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Pouco tempo depois, correram estranhos boatos ácerca do padre e de Beatriz.
+Dizia-se que uma mulher de Felgueiras, de má nota, e muito da casa do Pomar,
+estando em<span class="pagenum">[13]</span> artigo de morte, dera a perceber
+que morria com um grande remorso; e muito apertada pela pessoa a quem revelára
+os seus trabalhos de consciencia, começou por dizer que a menina de Vilalva não
+se tinha afogado; porém, como as intermittencias no exprimir-se fossem longas,
+e o arrancar da vida começasse o seu derradeiro paroxismo, a moribunda expirára
+sem dizer mais nada.</p>
+
+<p>E mais se dizia que, por uma noite de lua cheia, uns viandantes da Lixa, na
+subida do monte de Santa Quiteria, haviam encontrado um homem a cavallo em um
+possante macho, em companhia de uma mulher, por tal maneira envolta em um
+capote, que apenas se conhecia ser mulher pelas andilhas; e que um pouco atraz
+encontraram um criado a pé, o qual se retrahira para a sombra de um vallado
+quando os viu; mas apesar d'isso, o conheceram, e juravam ser o criado de padre
+João de Queiroz.</p>
+
+<p>Estas atoardas não provavam nada em juizo; ainda assim, o vigario capitular
+oficiou ao prelado para que se devassasse secretamente da vida do abbade de S.
+P. de E***<sup><a href="#fn1" id="mfn1" name="mfn1">[1]</a></sup>. A
+syndicancia, habilmente dirigida,<span class="pagenum">[14]</span> elucidou que
+o egresso abbade vivia exemplarmente. Que a sua familia era um criado e ninguem
+mais; que a residencia era só, triste e silenciosa como um cenobio monastico;
+emfim, que os freguezes respeitavam o seu pastor; e que, á excepção da casa do
+morgado de E***, padre João não entrava em casa alguma, senão em exercicio das
+suas obrigações, religiosissimamente cumpridas.</p>
+
+<p>Depois, mais nada.</p>
+
+<p>Profundo silencio. Os personagens da historia mysteriosa foram morrendo com
+a costumada regularidade. A mãi de Beatriz acabou em cheiro de douda. O
+capitão-mór morreu mais preoccupado com a derrota do Remechido que com o
+desastrado destino da filha. O morgado de Pildre, cuidando que se despicava do
+injurioso menospreço de Beatriz casando com uma senhora geitosa, vinculou-se
+matrimonialmente com uma sobrinha bonita e pobre; porém, passados tres annos,
+quando houve a certeza de que não era pai, mas sim tio-avô de seu filho,
+rebentou de paixão exacerbada pela anasarca. Contavam-se no discorrer dos
+tempos, estes casos, que faziam rir. Eu mesmo, ha vinte e seis annos, os ouvira
+n'aquella casa de Pildre, quando já era morta a viuva do morgado e fallecido o
+directo successor do vinculo, achando-se na administração do morgadio um meu
+amigo, já tambem&mdash;e<span class="pagenum">[15]</span> ha quantos
+annos!&mdash;sepultado no cemiterio dos Prazeres em Lisboa.</p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Quando, ha quinze annos, vim, pela primeira vez, a S. Miguel de Seide,
+conheci o abbade de S. P. de E***. Procurou-me, pedindo-me que lhe escrevesse
+uns versos funebres para a eça de uma senhora de casa illustre. Não comprehendi
+logo o destino dos versos. Explicou-me o abbade que a poesia, copiada em boa
+letra, seria pregada na eça, e assim exposta á contemplação do publico. Escrevi
+duas oitavas com mais sentimento do que as escreveria se conhecesse a defunta.
+Eis aqui como me relacionei com o egresso graciano, ligado á lenda d'aquella
+menina, que tivera um nome digno das trovas plangentes de poeta de
+soláos&mdash;<em>Beatriz de Vilalva</em>.</p>
+
+<p>Cincoenta annos contava então o abbade. Rosto de saude e alegria. Poucas
+carnes; compleição fina, mas forte; raros cabellos grisalhos; trajo serio,
+limpo, elegante; maneiras polidas; dizeres sentenciosos; anecdotas
+chistosas,<span class="pagenum">[16]</span> mas decentes; casos do seu
+convento; tradições ineditas do seu ex-conventual José Agostinho de Macedo, e
+d'outros cerdos que não deixaram tão illustre memoria a ensombrar obscuras
+infamias. Era optimo conversador o abbade, e revia, no seu fallar, alguns
+signaes de ter estudado applicadamente philosophia. Disse-me que fôra o
+primeiro estudante do curso, e que o snr. D. Miguel I, assistindo ao seu exame
+de logica, o premiára em publico com a medalha da sua real effigie. Bom
+avaliador e juiz! O snr. D. Miguel I foi grandemente entendido em logica: toda
+a gente sabe isto, não obstante me asseverar o abbade que sua magestade não
+estudara logica; mas premiava os martyres que a estudavam, a fim de animar os
+outros votados ao martyrio.</p>
+
+<p>Com o lapso do tempo, relacionei-me com a familia herdeira da defunta que eu
+cantei ou chorei. N'esta casa vi algumas vezes o abbade, e outras na sua
+igreja. Aconteceu ir eu alli ser padrinho de uma criança d'aquella familia.
+Antecipei-me á hora dada. Detive-me a observar a residencia de padre João de
+Queiroz&mdash;silenciosa como um grande tumulo, com dous ciprestes á porta, com um
+rocio coberto de arbustos e herva espontanea a entestar na escada ingreme do
+sobrado. Tres janellas de rotulas fechadas e espessas. As paredes tapizadas de
+musgo e fetos a vegetarem<span class="pagenum">[17]</span> das fisgas. Duas
+pombas pretas a arrulharem na cornija. Um pardal a sacudir as azas molhadas no
+beiral do telhado. E á volta d'isto o rumorejo dos pinhaes circumpostos.</p>
+
+<p>Sentei-me no beiral do adro, a olhar para uma janella interior da
+residencia, e a scismar nos vinte e cinco annos que o abbade para alli
+trouxera, e nas noites e dias dos outros vinte e cinco alli passados, com
+resignação, e até com alegria, tão só e desatado dos agrados da companhia, e
+com tantos predicados para dar e receber na convivencia uma honesta felicidade!
+Quando esta meditação me estava enlevando áquella suave tristeza que faz os
+homens melhores e o fardo da vida mais leveiro, assomou um rosto de mulher na
+janella onde eu, sem intenção, fitára os olhos; e, apenas me viu, retrahiu-se
+tão de subito como se dentro tirassem por ella a repelão.</p>
+
+<p>Isto abalou-me. A mulher parecera-me bonita; mas não ha que fiar nos
+conceitos da minha vista, que pouco alcança a curta distancia; quer, porém,
+fosse feia, figurou-se-me quasi bella: era o bastante para dar larga tela ao
+nebrí da poesia, que, lá do alto, crê vêr uma rôla onde ás vezes está uma
+cegonha.</p>
+
+<p>N'este comenos, chegou o abbade, e a criança no collo da ama, e o pai com a
+madrinha, e o sacristão e as testemunhas, vindo<span
+class="pagenum">[18]</span> todos da casa do meu compadre, onde
+inadvertidamente esperavam que eu fosse.</p>
+
+<p>Finda a ceremonia, o abbade offereceu-me a sua casa por mera civilidade. Meu
+compadre acudiu logo, dizendo que nos esperava o almoço. Partimos para E***, e
+o abbade acompanhou-nos, depois de ter ido a casa despir a batina, e
+revestir-se aceadamente, de casaca preta com habito de Christo, collete de
+velludo, bota de verniz, e chapéo alto de brilhante sêda.</p>
+
+<p>Em quanto elle se demorava, depois de almoço, no quarto de minha comadre,
+alegrando-a com apropositadas anecdotas&mdash;que as tinha para tudo&mdash;fui eu com meu
+compadre vêr o pomar de fruteiras peregrinas.</p>
+
+<p>&mdash;Gosto muito d'este abbade&mdash;disse eu.&mdash;Parece-me um bom caracter, pela
+satisfação e alegre rosto com que se entrega á sua obscura missão, podendo com
+as qualidades que tem aspirar a melhor posição na vida ecclesiastica!</p>
+
+<p>&mdash;Não quer. Affeiçoou-se a isto, e nunca mais d'aqui sahiu. Eu amo-o com
+ternura. Já foi elle quem me baptisou. Devo-lhe provas de profunda estima. Tem
+sido elle o anjo pacificador das desordens grandes que tem ameaçado a
+estabilidade da nossa familia.</p>
+
+<p>&mdash;Verdadeiro pastor!&mdash;atalhei eu com sincero respeito. E acrescentei,
+passados instantes:&mdash;A<span class="pagenum">[19]</span> senhora, que vive com
+elle, é sobrinha?</p>
+&mdash;A senhora?!&mdash;acudiu meu compadre.&mdash;Está enganado. Elle não tem mulher de
+casta nenhuma em casa. Vive com um criado velho, que já veio com elle em 1835.
+
+<p>&mdash;Perdão! eu vi hoje lá uma senhora na janella que diz para o pateo.</p>
+
+<p>Riu-se meu compadre, e, remoqueando, ajuntou:</p>
+
+<p>&mdash;O meu amigo, provavelmente, estava a idealisar castellãs na residencia que
+tem ares de castello arruinado, e figurou-se-lhe vêr uma sobrinha do abbade.</p>
+
+<p>&mdash;Compadre&mdash;repliquei&mdash;eu sei quando vejo castellãs e sei quando vejo
+sobrinhas d'abbades. O senhor tem a certeza de que não ha mulher n'aquella
+casa?</p>
+
+<p>&mdash;Tenho tanta certeza como estar eu com o meu amigo n'este pomar.</p>
+
+<p>&mdash;Então, permitta-me dizer-lhe que o seu abbade é um patife.</p>
+
+<p>&mdash;Ó compadre!... Um patife?!</p>
+
+<p>&mdash;Ou dous patifes em um só abbade. Demonstro: se é sobrinha, e por tanto uma
+familiar licita e honesta, não havia razão para escondel-a, nem ella para se
+esconder rapidamente de mim: logo, não é sobrinha; e, se não é sobrinha, é...
+conclua vossê a demonstração.<span class="pagenum">[20]</span> Que é a mulher
+que vive com um abbade, e não quer ser vista?</p>
+
+<p>&mdash;Que imaginação! que romancista!&mdash;exclamou meu compadre&mdash;Desengane-se. Este
+homem póde ser que não seja o padre mais virtuoso, nem aspire a ser canonisado;
+mas mulher em casa nunca teve alguma, nem, ha vinte e cinco annos, alguem lh'a
+conheceu na freguezia ou fóra d'ella. Que mais quer que eu lhe diga?</p>
+
+<p>&mdash;Que me creia; que se convença de que o seu abbade tem na residencia uma
+mulher; que esta mulher é bonita; que eu dava n'esta santa hora dous
+beijos...</p>
+
+<p>&mdash;N'ella?</p>
+
+<p>&mdash;Não, em vossê, se me descobrisse o mysterio d'aquella mulher, alli
+sequestrada do mundo, e absorvida toda na felicidade de um homem, que a esconde
+com tanta avareza, que os seus mais particulares amigos ignoram que tal
+creatura exista.</p>
+
+<p>O meu compadre, feita uma longa pausa de reflexão, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Terá vossê razão!...</p>
+
+<p>&mdash;Não é razão: é olhos. Juro-lhe que a vi.</p>
+
+<p>&mdash;O que lhe posso dizer é que nunca entrei ao interior da residencia, nem
+pessoa alguma que eu saiba. Tem uma saleta onde era d'antes adéga, e onde
+recebe as pessoas que<span class="pagenum">[21]</span> o procuram. Quando
+esteve, ha annos, doente, e precisava de medico, e de receber mais forçosamente
+quem o visitava, passou a cama para a saleta ao rez do pateo. Eu ia lá todos os
+dias, e nunca vi ao pé d'elle senão o criado; mas scismava com um rumor de
+passos no sobrado superior; e elle dizia-me que eram ratos.</p>
+
+<p>&mdash;Eram ratazanas&mdash;corrigi eu.</p>
+
+<p>&mdash;Pois seriam...&mdash;condescendeu o compadre, e prometteu esforçar-se por
+satisfazer a minha curiosidade.&mdash;Outra cousa,&mdash;disse-me elle quando iamos
+entrando em casa de volta do pomar.&mdash;Aqui vem todos os annos, em setembro, um
+rapaz estudante de Coimbra, que é sobrinho do abbade. Este rapaz dorme lá em
+cima. É crivel que elle, tão precavido com os outros, não escondesse a amante
+das vistas do sobrinho?!</p>
+
+<p>&mdash;E quem nós diz a nós que o sobrinho não é filho, e que a amante não é mãi
+do tal rapaz?</p>
+
+<p>&mdash;Onde isso já vai! Já vossê inventou prole ao homem para ter motivo para o
+segundo tomo do romance! Ora, meu amigo... Não me disse que ella era rapariga e
+bella?</p>
+
+<p>&mdash;Rapariga, não disse.</p>
+
+<p>&mdash;Note que o tal rapaz tem vinte e dous annos.<span
+class="pagenum">[22]</span></p>
+
+<p>&mdash;E ella póde ter quarenta, e ser mãi, e ser ainda bella.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é verdade. Seja como fôr, estou picado. Hei de esgotar todos os
+recursos da minha espionagem; mas com uma condição: o que eu poder descobrir,
+dir-lh'o-hei; mas vossê não o divulgará, sob pena de me dar remorsos de
+publicar as fragilidades de um homem a quem devo as maiores finezas.</p>
+
+<p>&mdash;Pois se receia que eu, levado do furor romantico, venha a assoalhar os
+<small>MYSTERIOS DO SENHOR ABBADE</small>, nada indague, e nada me diga. Eu sou
+um homem que conto a minha vida quando não posso, por ignorancia, contar a vida
+alheia. Antes quero não saber nada. Passe por cá muito bem o snr. abbade, e não
+perturbe vossê a paz d'essa familia, onde bem póde ser que as lagrimas tenham
+delido as maculas de muita culpa. Se elle é <em>padre</em>, tambem póde ser
+<em>pai</em>. <em>Pater, pai, padre.</em> E <em>pater</em> é <em>pai</em>, como
+diz, nas <em>Odes modernas</em>, o meu amigo Anthero do Quental. Fiquemos
+n'isto.</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>Dobraram-se os annos, desde 1861, sem que eu me intromettesse na vida intima
+do<span class="pagenum">[33]</span> abbade. Em 1870, ultima vez que o vi,
+estava elle em Famalicão, na feira-grande de maio, apostando ao monte com muita
+felicidade. Reparei pouco n'esta perfida ventura de quem joga, e dei grande
+attenção á rapida velhice do padre. Poucos vestigios conservava do robusto
+homem dos cincoenta annos. Estava decrepito, enrugado, curvo, movia-se
+arrastando uma perna, trajava negligentemente; o collarinho da camisa surrado
+nos vincos revelava a invencivel desconsolação da doença, a dolorosa convicção
+de que a morte não merece ser requestada com camisa lavada.</p>
+
+<p>Deteve-se commigo uns quinze minutos, expondo-me a sua enfermidade, com
+tristeza, sem esperança, mas conformado com a previsão da sepultura. A doença
+estava acertadamente qualificada: era uma alteração de sangue. Poucas são as
+pessoas que podem gabar-se de saber de que morrem.</p>
+
+<p>E então me disse umas palavras que me deram rebates da historia de Beatriz
+de Vilalva, consoante a eu ouvira adulterada na casa de Pildre.</p>
+
+<p>Contou-me, ao proposito de um sujeito de appellido <em>Queiroz</em>, que
+passára cortejando-me, que aquelle sujeito era seu primo em terceiro grau; por
+quanto, seu avô era bastardo dos Queirozes Coimbras, e casára com uma
+abastada<span class="pagenum">[24]</span> lavradora da casa e quinta do Pomar
+no concelho de Felgueiras.</p>
+
+<p>A denominação da quinta suscitou-me a primeira reminiscencia; mas com a
+natural indecisão em cousas tão remotas.</p>
+
+<p>Depois, como a conversação descahisse para saudades da mocidade, notei-lhe o
+recolhimento subito, e logo um suspiro muito intimo do seio, e um leve orvalhar
+de lagrimas.</p>
+
+<p>&mdash;A mocidade...&mdash;disse elle.&mdash;Prouvera a Deus que eu não sahisse do meu
+cubiculo antes dos quarenta annos! Eu não saberia a esta hora que tive
+mocidade; e, ao termo da vida, olharia sem saudade para o passado, e sem abalo
+do porvir.</p>
+
+<p>&mdash;Mas...&mdash;volvi eu intencionalmente&mdash;se não enganam as apparencias, a vida
+de v. s.ª correu serenamente e alumiada pela virtude, como os arroios nas
+noites do estio prateados pela luz do luar...</p>
+
+<p>&mdash;Enganam as apparencias&mdash;replicou o abbade, apertando-me convulsivamente a
+mão como a despedir-se.&mdash;A minha vida teve uma só tempestade; mas essa durou
+cincoenta annos. A final, ferrei ancora, e achei terra; mas terra do sepulcro.
+A sua curiosidade&mdash;bem lh'a vejo no rosto&mdash;ha de ser satisfeita em breve.
+Espere que a maledicencia, que eu pude enganar cincoenta annos, se vingue no
+meu cadaver. O mundo tolera; mas não perdôa a<span class="pagenum">[25]</span>
+quem o sabe illudir. Se, a final, se não vinga no vivo, vinga-se no morto. E
+adeus. Se eu poder, irei visital-o a Seide, e conversaremos mais
+detidamente.</p>
+
+<p>&mdash;Se v. s.ª me permitte, irei a sua casa.</p>
+
+<p>&mdash;Não vá; que a minha residencia é triste como uma caverna onde não penetra
+raio de sol.</p>
+
+<p>Era meu dever não desfiar a lugubre imagem, porque eu bem conhecia os fios
+mysteriosos que a teciam. Elle afastou-se, e eu, com tão poucos dados, fiquei
+conjecturando se aquelle seria o egresso da lendaria Beatriz de Vilalva.</p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>Era. O leitor, de sobra, sabe que era elle.</p>
+
+<p>Dous mezes depois, vi annunciada a morte do abbade de S. P. de E***. Estava
+eu no Porto, e anciei saber as particularidades d'aquelle trespasse.</p>
+
+<p>Quanto ao morrer, disseram-me que de uma ligeira esfoliação em uma perna
+resultára uma rapida gangrena, e a morte seguintemente.</p>
+
+<p>Quando alguns freguezes entraram á residencia,<span
+class="pagenum">[26]</span> alvorotados pelo dobrar do sino, viram á beira do
+morto uma senhora que nunca tinham visto, e o mancebo que já conheciam como
+sobrinho do abbade.</p>
+
+<p>Esta senhora tinha os cabellos brancos, as faces cavadas, e a luz dos olhos
+embaciada pelas lagrimas. Perguntaram-lhe se era irmã do snr. abbade. Respondeu
+que não.</p>
+
+<p>Abriu-se o testamento do defunto, e leu-se que tudo quanto n'aquella casa
+existia, tirante os utensilios da igreja, pertenciam á snr.ª D. Beatriz Pacheco
+Leite de Menezes, sua herdeira universal. Declarava que o testamento seria
+apresentado pela mesma senhora, e os necessarios esclarecimentos ácerca da
+idoneidade da herdeira os encontraria quem os solicitasse confirmados por
+escriptura na nota do tabellião, que mencionava.</p>
+
+<p>A herança do abbade montava a doze contos de reis em dinheiro, producto das
+heranças provindas de irmãos fallecidos sem descendencia, e de uma quinta no
+concelho de Amarante, intitulada <em>Vilalva</em>. Por onde se infere que padre
+João de Queiroz havia comprado aos herdeiros do capitão-mór da lixa a casa onde
+Beatriz tivera o berço, e onde ia encontrar o leito da morte.</p>
+
+<p>Quando o defunto era conduzido á sepultura, Beatriz de Vilalva sahiu com seu
+filho d'aquella casa onde vivera enclaustrada desde<span
+class="pagenum">[27]</span> 1835 até 1872, trinta e sete annos sem ouvir de
+labios estranhos uma saudação. Acompanhou-os um velho&mdash;aquelle mesmo criado que
+a conduzira á casa de Felgueiras na noite da fuga, e levára á beira do Tamega a
+capa com o escripto, e atirára á corrente os sapatos.</p>
+
+<p>Um dia, amanheceu á porta da quinta de Vilalva aquella familia desconhecida
+na terra. O criado abriu as portas. Beatriz correu direita a um dos quartos da
+casa. Atirou-se contra um leito, como quem abraça um cadaver, e chamou a
+estridentes gritos sua mãi. Ella imaginava que a douda morrera alli, depois de
+a ter amaldiçoado. O filho arrancando-a do quarto escuro, tirou-a para uma sala
+carinhosamente, e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Minha querida mãi, se a senhora não amou quanto devia essa infeliz que
+morreu louca, Deus lhe perdoou pelo muito que padeceu sepultando-se viva para
+esconder a sua culpa; e eu lhe provarei que Deus teve compaixão da sua
+penitencia, enchendo-me o coração do extremoso amor com que farei a felicidade
+dos seus ultimos annos.</p>
+
+<p>Beatriz lançou-se a soluçar nos braços do filho, ungindo-lhe o rosto de
+lagrimas.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *<span class="pagenum">[28]</span></p>
+
+<p>As pessoas antigas d'aquelles sitios não cessam de procurar occasião em que
+vejam aquella formosissima Beatriz por cuja alma rezaram, posto que o parocho
+lhes dissesse que a alma da suicida havia cahido de chofre e a prumo no
+inferno.</p>
+
+<p>E, de feito, lá vêem a miudo passar pelos maus trilhos que conduzem á casa
+dos pobres e dos enfermos uma senhora vestida de negro, precedida do criado
+ancião que a conduz.</p>
+
+<p>&mdash;Bemdito seja o Senhor!&mdash;exclamam pondo as mãos as velhas que a conheceram
+menina.</p>
+
+<p>E ella acercando-as de si, pergunta-lhes os nomes, recorda-se, chora, e
+consola-se, quando alguma d'ellas póde acolher-se ao regaço da sua
+beneficencia.</p>
+
+<p>Se Deus lhe não houvesse perdoado, seria feito á imagem do homem.<span
+class="pagenum">[29]</span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#mfn1" id="fn1" name="fn1">[1]</a></sup> Certo respeito,
+demasiado talvez, me cohibe de declarar extensamente o nome do abbade, e o
+padroeiro da abbadia. Os leitores, convisinhos do local onde escrevo, sabem que
+não estou phantasiando.</p>
+</div>
+<hr>
+
+<h1><a id="cap02" name="cap02">SE O POETA BERNARDIM RIBEIRO FOI
+COMMENDADOR</a></h1>
+
+<p>Ha bastantes annos que eu sahi com este repto aos biographos do author das
+<em>Saudades</em>:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«O meu parecer é que Bernardim, e tambem Bernaldim Ribeiro, ou Bernardim
+Reinardino Ribeiro, como Faria e Sousa o chama, nem foi governador de S. Jorge
+da Mina, nem amou a infanta D. Beatriz, nem sahiu da sua terra, para Lisboa,
+senão depois que ella já tinha sahido de Lisboa para Saboya. Corre-me obrigação
+de pôr as clausulas d'este meu juizo, tão encontrado com o de doutos
+investigadores. Fal-o-hei em pouco, porque não cabe n'este genero de escriptos
+grande cavar em terra d'onde o que sahe, para o commum dos leitores, é
+pedregulho.</p>
+
+<p>Em primeiro, tenho como provavel que<span class="pagenum">[30]</span>
+Bernardim Ribeiro, sob o pseudonymo de Jano, falla de si na ecloga 2.ª Ahi diz
+elle:</p>
+
+<blockquote>
+ Quando as fomes grandes foram,<br>
+ Que Alemtejo foi perdido,<br>
+ Da aldêa que chamam Torrão<br>
+ Foi este pastor fugido:<br>
+ Levava um pouco de gado, etc.</blockquote>
+
+<p>E continúa:</p>
+
+<blockquote>
+ Toda a terra foi perdida;<br>
+ No campo do Tejo só<br>
+ Achava o gado guarida,<br>
+ Vêr Alemtejo era um dó;<br>
+ E Jano para salvar<br>
+ O gado que lhe ficou,<br>
+ Foi esta terra buscar, etc.</blockquote>
+
+<p>«Temos, pois, o poeta allegorico do Torrão&mdash;naturalidade que todos os
+biographos unanimemente dão a Bernardim Ribeiro&mdash;em Lisboa no anno das grandes
+fomes, que foi em 1522. Ora, D. Beatriz, em 5 de agosto de 1521, tinha sahido
+para Saboya.</p>
+
+<p>«Nenhum biographo até agora assignou o anno do nascimento ou o da morte de
+Bernardim Ribeiro. Póde, se o meu modo de decifrar a ecloga é plausivel,
+marcar-se-lhe o anno do nascimento em 1500, ou 1501 mais exacto, porque o
+pastor, n'outro ponto da mesma ecloga 2.ª diz:<span
+class="pagenum">[31]</span></p>
+
+<blockquote>
+ Agora hei vinte e um annos,<br>
+ E nunca inda té agora<br>
+ Me acorda de sentir damnos... etc.</blockquote>
+
+<p>«Quanto ao governo de S. Jorge, capitania-mór das armadas da India e
+commenda de Villa Cova, é tudo isso um equivoco do author da <em>Bibliotheca
+Lusitana</em>, com o qual se bandeou a boa fé de escriptores de grande porte. O
+Bernardim Ribeiro, governador de S. Jorge da Mina, assistiu em 1526 ao cerco de
+Mazagão, d'onde sahiu abrasado d'uma explosão de polvora. (Veja a <em>Chronica
+de D. Sebastião</em> por D. Manoel de Menezes).»</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>O snr. Innocencio Francisco da Silva, no tomo VIII do <em>Diccionario
+bibliographico</em>, pag. 379, não aceita como bastantemente decisivos os meus
+reparos. Traslado as razões do insigne escriptor:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«O snr. Camillo Castello Branco, em uma nota do folhetim que com o titulo
+<em>Dous corações guizados</em> publicou..., não só põe em duvida, mas nega
+redondamente que Bernardim Ribeiro, author das Saudades, seja o mesmo a quem os
+biographos attribuem as qualidades<span class="pagenum">[32]</span> de
+commendador, governador de S. Jorge da Mina, e amante da infanta D. Beatriz,
+etc. Salvo o respeito devido ao nosso... romancista e meu presado amigo,
+parece-me que o juizo definitivo que se haja de assentar sobre estes pontos
+depende ainda de ulteriores averiguações. Deixo-as a quem tiver por ellas o
+tempo e a paciencia que de presente me faltou.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Ulteriores investigações que fiz em cartapacios genealogicos e coevos
+levaram-me da certeza á evidencia de que Bernardim Ribeiro, o poeta, não era
+Bernardim Ribeiro Pacheco, o commendador de Villa Cova da ordem de Christo e
+capitão-mór das naus da india, casado com D. Maria de Vilhena, filha de D.
+Manoel de Menezes, nem ainda o outro Bernardim Ribeiro, governador de S.
+Jorge.</p>
+
+<p>Do poeta, que pertencia a familia nobilissima do Torrão, logo veremos que
+não se esqueceram os genealogicos contemporaneos.</p>
+
+<p>Do seu homonymo, para quem Barbosa Machado facilmente usurpou a
+immortalidade do outro, sei o nome de paes, de avós e de filhos.</p>
+
+<p>Era filho de Luiz Estevianes Ribeiro, criado e thesoureiro do infante D.
+Fernando (filho de el-rei D. Manoel) e fidalgo de sua casa. Nasceu em Lisboa,
+junto á ponte de Alcantara, na quinta da Rola, que D. João I dera a um de seus
+avós.<span class="pagenum">[33]</span></p>
+
+<p>Casou com D. Maria de Vilhena, filha de D. Manoel de Menezes.</p>
+
+<p>Assistiu á batalha de Alcacer-Quivir, e ficou captivo. Voltando ao reino,
+foi despachado capitão-mór das naus da India em 1589, como paga de ter votado a
+favor da successão de Philippe II, e n'esse mesmo anno teve a commenda de Villa
+Cova.</p>
+
+<p>Se o poeta Bernardim Ribeiro tinha em 1522 os vinte e um ou vinte e dous
+annos que se inferem dos versos citados, orçaria em 1589 pela idade dos
+noventa, pouco viçosa para capitanear a frota da India.</p>
+
+<p>Dizem que o Bernardim Ribeiro, poeta, deixára uma filha.</p>
+
+<p>O Bernardim, commendador, deixou dous filhos e uma filha: Luiz, Manoel e D.
+Maria de Menezes.</p>
+
+<p>Luiz Ribeiro Pacheco herdou a commenda de seu pai, e serviu-a em Ceuta.
+Casou com D. Catharina de Athayde, filha de Francisco de Portugal, e já viuva
+de Fernão Gomes Dragão.</p>
+
+<p>Manoel serviu commenda em Tanger, e morreu solteiro.</p>
+
+<p>D. Maria de Menezes casou com Luiz da Cunha, cognominado o
+<em>Pequenino</em>.</p>
+
+<p>De Luiz Ribeiro Pacheco nasceu Bernardim Ribeiro Pacheco, fallecido antes de
+casar.<span class="pagenum">[34]</span> Os haveres vinculados passaram para sua
+tia D. Maria de Menezes.</p>
+
+<p>Temos ainda outro Bernardim (ou Bernardino) Ribeiro, que era o governador de
+S. Jorge da Mina, e sahiu abrasado do cerco de Mazagão em 1526, consoante a
+<em>Chronica de D. Sebastião</em>, por D. Manoel de Menezes.</p>
+
+<p>Tres Bernardins andam, pois, fundidos no cantor da <em>Menina e Moça</em>,
+Deus sabe com que bullas em affinidades intellectuaes: parentes com certeza
+eram.</p>
+
+<p>Se um dos tres amou a filha d'el-rei D. Manoel, de semelhante ousadia é
+justo censurar-se o poeta, embora d'ahi lhe promane a sua romantica
+immortalidade. Se o matassem na rua Nova os moços do monte d'el-rei, como dizem
+as <em>Memorias ineditas</em> de Diogo de Paiva de Andrade, a catastrophe assim
+contada no poema, no romance, ou na tragedia maiores realces daria ao desditoso
+provençal. Morrer assim, ou morrer commendador, e macrobio, como querem
+Garrett, e Costa e Silva e tantos outros engenhos atilados, são cousas
+diversissimas para a arte, que houver de assentar o pedestal do solitario bardo
+da serra de Cintra.</p>
+
+<p>Mas a verdade é outra.</p>
+
+<p>No principio do seculo XVIII ventilava-se uma questão de vinculos entre
+familias do Torrão que se assignavam <em>Ribeiros</em> e
+<em>Mascarenhas</em>,<span class="pagenum">[35]</span> e appenso aos autos
+andava um instrumento antigo em que João Ribeiro, filho de Gonçalo Ribeiro,
+senhor de Aguiar de Neiva e Couto de Carvoeiro no almoxarifado de Ponte do
+lima, provava <em>ser primo co-irmão de Bernardim Ribeiro, fidalgo principal e
+muito conhecido pelos seus versos intitulados <span class="sc">Menina e
+Moça</span></em>. O referido instrumento era passado em 1552, sendo já
+fallecido Bernardim Ribeiro.</p>
+
+<p>Dos Mascarenhas, que venceram o pleito, era ascendente Manoel da Silva
+Mascarenhas, que servira em Tanger e nas armadas de Castella com o general D.
+Fradique de Toledo. Voltando a Portugal em 1640, foi um dos denunciantes da
+conjuração de 1641; e em premio d'isso o galardoou D. João IV com a alcaidaria
+da Torre de Outão, e ao mesmo tempo exerceu as funcções de guarda-mór da
+alfandega de Lisboa. Este Manoel da Silva Mascarenhas editou em 1645 as poesias
+do seu parente, mudando o titulo de <em>Menina e Moça</em> para <em>Saudades de
+Bernardim Ribeiro</em>.</p>
+
+<p>D'este ramo não houve successão que hoje possa gloriar-se de parentesco
+remoto com o poeta. Manoel da Silva Mascarenhas foi casado com D. Garcia
+Pereira, filha de João Sodré, de Ourem; mas não deixou filhos legitimos. Teve
+dous bastardos: um mataram-lh'o em Setubal; do outro não fazem cabedal os
+linhagistas.<span class="pagenum">[36]</span> Se o leitor e eu tivessemos
+pachorra, iriamos esquadrinhar a circulação sanguinea de nove ou dez gerações
+até encontrar globulos muito depauperados do sangue de Bernardim Ribeiro na
+familia <em>Leites Pereiras de Mello</em>, de S. João Novo, no Porto.</p>
+
+<p>Mas um descobrimento de tão magna valia tanto importa á familia Leite
+Pereira, como ao leitor, como a mim,&mdash;um dos bons tolos que tem produzido a
+heraldica n'este seculo XIX!</p>
+<hr>
+
+<h1><a id="cap03" name="cap03">RESPOSTA DE JOSÉ ANASTACIO</a></h1>
+
+<p style="text-indent: -1em; margin-left: 1em;"><small>SATYRA FEITA A FRANCISCO
+DIAS, TENDEIRO, COM LOJA DE MERCEARIA NA RUA DAS ARCAS, CHAMADO POR ALCUNHA O
+DOUTOR BOTIJA, EM RESPOSTA DE OUTRA, QUE FEZ A UM SUJEITO, DE QUEM NÃO TINHA O
+MINIMO CONHECIMENTO, NEM O MENOR ESCANDALO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Em quanto agora, o rude teu caixeiro<br>
+ Unta as guedelhas no mofino azeite,<br>
+ Que sobra do nojento candieiro;<span class="pagenum">[37]</span><br>
+ <br>
+ Em quanto se entretem no porco enfeite,<br>
+ E fervoroso tu lhe estás prégando<br>
+ Para que nas balanças menos deite:<br>
+ <br>
+ Ó mofino, meus versos escutando,<br>
+ Melhor aprende a venerar a gente,<br>
+ Que os jumentos, quaes tu, sabe ir picando.<br>
+ <br>
+ Que sequaz te induziu, feio demente,<br>
+ A romperes c'o a ovelha? que pateta<br>
+ Nas garras te lançou do mal presente?<br>
+ <br>
+ Foi talvez o politico de treta,<br>
+ Humanado morcego, que na escura<br>
+ Noite, á lambuge sahe da branca e preta<sup><a href="#fn2" id="mfn2"
+ name="mfn2">[2]</a></sup>?<br>
+ <br>
+ Calvo peralta, que sem tom murmura:<br>
+ Venero-o; que é burrinho sustentado<br>
+ Pelos serviços do defunto cura.<br>
+ <br>
+ Foi algum minorista relaxado<br>
+ Heroe dos Ganimedes, padre velho,<br>
+ Nos dogmas de Lieu controversado?<br>
+ <br>
+ Bibliographico vão de alto conselho:<br>
+ Governa-te por esse moralista,<br>
+ Que vende em praça o gato por coelho.<br>
+ <br>
+ Nem estes, nem o secco rabulista,<br>
+ Aguia manhosa, que folgando espera<br>
+ Comer, nas garras, quem tentar na alpista.<br>
+ <br>
+ De que hoje te arrepelles defendera,<br>
+ Por chamares ao circulo um amigo<br>
+ Que de asnos despicar-se não quizera.<span class="pagenum">[38]</span><br>
+ <br>
+ Eia commigo, pedantão, commigo,<br>
+ Que da Laconia os cães excedo na arte,<br>
+ Com que em vereda os lobos maus persigo.<br>
+ <br>
+ Não determino os versos censurar-te;<br>
+ Supposto manifestem que os favores<br>
+ Calliope comtigo não reparte.<br>
+ <br>
+ Nem respondo tão pouco aos rimadores,<br>
+ Que dão ás aguas de Hyppocrene o gosto<br>
+ N'um cantar, como aos echos dos tambores.<br>
+ <br>
+ Phebo a taes ignorantes volta o rosto:<br>
+ Das lyras que no Olympo ouvir estima,<br>
+ N'um <em>ão</em> com um <em>ão</em> o gosto não tem posto.<br>
+ <br>
+ Nem menos aos exemplos teus da rima:<br>
+ Sem ella os campos lacios, e os da aurora,<br>
+ Deram plectros, que a todos vão de cima.<br>
+ <br>
+ Nos mil volumes, creio lês por fóra;<br>
+ Mas excede na orelha um mau jumento<br>
+ Quem de Apollo as acções assim decóra.<br>
+ <br>
+ Menos respondo ao baixo atrevimento,<br>
+ De me accusares por fallar das artes,<br>
+ Em meio de qualquer ajuntamento.<br>
+ <br>
+ Comtigo n'isto a injuria bem repartes;<br>
+ O sabio no lugar onde apparece<br>
+ Das mãos não larga Homéro, nem Descartes.<br>
+ <br>
+ Ditoso quem no mundo isto conhece!<br>
+ Ditoso aquelle, que d'um n'outro errando,<br>
+ Vagueia, té que a aurora lhe amanhece!<br>
+ <br>
+ Cada um na sua herdade anda lavrando:<br>
+ Tu desvelas-te em ser rico tendeiro,<br>
+ Eu em andar nas artes estudando.<span class="pagenum">[39]</span><br>
+ <br>
+ Nenhum d'estes defeitos, eu requeiro<br>
+ Para abaixar-te a longa orelha; emprégo<br>
+ Outro arrocho maior, maior fueiro.<br>
+ <br>
+ Por isso de outros erros te não prégo:<br>
+ Qual é o de seguires que entre os homes<br>
+ O lynce represente ser um cego.<br>
+ <br>
+ Teme-os embora tu, que d'elles comes;<br>
+ Mas olha que ao cobarde a espada corta:<br>
+ Nunca livre obra, quem receia fomes.<br>
+ <br>
+ Quem te mette a induzir na estrada torta,<br>
+ O que voar pretende além dos céos?<br>
+ A porta da virtude é estreita porta.<br>
+ <br>
+ Pondera, se com taes descuidos teus,<br>
+ Não podia opprimir-te, envergonhar-te,<br>
+ Se vergonha consente o mal nos seus.<br>
+ <br>
+ Vê se bastante era isto a depennar-te,<br>
+ D'essa vaidade, com que te apresentas<br>
+ Decidindo de leve em qualquer parte.<br>
+ <br>
+ Bem como as aves já de orgulho isentas<br>
+ A gralha depennaram, que entendia<br>
+ Encobrir suas plumas macilentas.<br>
+ <br>
+ Que mal c'o as do pavão se revestia,<br>
+ Eis lh'as depennam logo, e perseguindo<br>
+ Vão todas a infeliz, que lhes fugia.<br>
+ <br>
+ Hoje atravessa os mares repetindo:<br>
+ Ao vaidoso mui mal serve a vaidade:<br>
+ E de echo o exemplo teu lhe está servindo.<br>
+ <br>
+ Se não tiveste geito para abbade,<br>
+ Nem para leigo ser da Estremadura,<br>
+ Quem te mette a inculcar letras de frade?<span class="pagenum">[40]</span><br>
+ <br>
+ A natura não é contra natura:<br>
+ Para Minerva, e Clio não tens ara,<br>
+ Que um bom senso, não soffre má figura.<br>
+ <br>
+ Qual das celestes musas não julgára,<br>
+ Se teus metros Apollo a lêr vos dera,<br>
+ Que em seu presidio Circe te hospedára?<br>
+ <br>
+ E que tornar-te em burro pretendera,<br>
+ Com mania de versos maus fazeres,<br>
+ Como n'outros por magica fizera?<br>
+ <br>
+ Para o que seus veneficos poderes,<br>
+ Ajuntando, com vara diamantina<br>
+ Te deu, ferindo o chão, a orelha a veres?<br>
+ <br>
+ Mas Phebo a cousas taes me não destina.<br>
+ Só na grandeza enorme da ambição,<br>
+ Que te occupa, meu rude plectro afina.<br>
+ <br>
+ Já sinto se me inflamma o coração,<br>
+ Ah! Menippo cruel da mercearia,<br>
+ Nas tramoias da tenda sabichão!<br>
+ <br>
+ Onde férvido corres á porfia,<br>
+ Uns dinheiros, sobre outros encofrando,<br>
+ Sem afrouxares nunca em tal mania<sup><a href="#fn3" id="mfn3"
+ name="mfn3">[3]</a></sup>?<br>
+ <br>
+ Não vês que eterno mal estás cavando<br>
+ A vida, que respiras, praguejada<br>
+ Pela miseria dos que estão penando?<br>
+ <br>
+ Quem te encontra de capa esfrangalhada,<br>
+ Surdindo já pelo sapato o dedo,<br>
+ Porcas as mãos, a cara besuntada,<span class="pagenum">[41]</span><br>
+ <br>
+ O ar do rosto, de quem come azedo,<br>
+ As melenas hirsutas, mal corridas,<br>
+ Figura, que promove o nojo e medo:<br>
+ <br>
+ Diria: «que mal correm as medidas<br>
+ A este pobre!» a não te conhecer<br>
+ Pelo mais traficante busca-vidas.<br>
+ <br>
+ Com que razão, te intentas defender,<br>
+ Sendo não só nos males teus culpado,<br>
+ Mas nos de quantos menos podem ter?<br>
+ <br>
+ Não sei como respiras socegado<br>
+ Encontrando no mundo a cada passo<br>
+ O triste, que tu fazes desgraçado!<br>
+ <br>
+ Podes voltar as costas, ó escasso,<br>
+ Á vista da miserrima figura,<br>
+ De quantos mata o famulento laço?<br>
+ <br>
+ Do pobre, que esforçar-se em vão procura,<br>
+ Contra o peso dos annos, que servindo<br>
+ Lhe estão de açoute, até á sepultura?<br>
+ <br>
+ Do enfermo, que o grave mal sentindo,<br>
+ Olha, e vê a terrivel desnudez<br>
+ Estar-lhe aos pés a fria cova abrindo.<br>
+ <br>
+ Presumo que em tal scena te não vês,<br>
+ Ignorante selvage inda peor,<br>
+ Que os mouros de Marrocos, ou de Fez.<br>
+ <br>
+ Não te abrandam os echos do clamor<br>
+ Da misera viuva, rodeada<br>
+ Dos tenros fructos do passado amor,<br>
+ <br>
+ Que rota, lacrimosa, esguedelhada,<br>
+ Um dia vê raiar, vê outro dia,<br>
+ Sem que lhe digam: «toma, desgraçada!»<span class="pagenum">[42]</span><br>
+ <br>
+ Avaro sabichão da Barberia,<br>
+ Aos golpes morrerás dos crueis damnos,<br>
+ Que aos tristes motivar tua mania.<br>
+ <br>
+ Pondéra meus sinceros desenganos,<br>
+ Que de outro peso são, que os palavrosos<br>
+ Discursos teus, errados, e profanos.<br>
+ <br>
+ Fizeram na terra o mal os cobiçosos;<br>
+ N'elles origem teve este direito,<br>
+ Que faz o rico, e faz os desditosos.<br>
+ <br>
+ N'elles é que se viu o homem sujeito:<br>
+ N'elles a causa da ignorancia existe,<br>
+ Pois ninguem conhecer quer seu defeito.<br>
+ <br>
+ Porque de erros tão feios não sahiste,<br>
+ Se ser tentavas critico dos homes?<br>
+ N'um bom exemplo a boa lei consiste.<br>
+ <br>
+ Outra vereda é licito que tomes;<br>
+ Seja essa a de tendeiro, em que nasceste<br>
+ Entre os exemplos já, de unhas de fomes.<br>
+ <br>
+ Olha a quanto por nescio te expozeste!<br>
+ A perderes do ser de humano a gloria,<br>
+ Porque outro avaro Midas te fizeste!<br>
+ <br>
+ Na terra gravarão triste memoria<br>
+ Teus vicios, e acções escandalosas<br>
+ Nunca sonhadas na mais vil historia.<br>
+ <br>
+ Com que horror te olharão castas esposas,<br>
+ Sabendo que aprouveste á tua dar<br>
+ Um tostão, vendo-a enferma? E que repousas!<br>
+ <br>
+ Com que odio chegarão a recordar<br>
+ Não seguiste as leis do deus vendado,<br>
+ Por mais cobres na burra accumular?<span class="pagenum">[43]</span><br>
+ <br>
+ Morrendo viva o mal aventurado;<br>
+ (Dirão ellas) nem d'elle se encarregue<br>
+ O Charonte no Averno ao remo usado.<br>
+ <br>
+ De Ixion, e Tantalo aos trabalhos chegue;<br>
+ Nas garras das harpias monstruosas<br>
+ Com elle, a grã discordia irada prégue.<br>
+ <br>
+ Cáia aos pés das Euménides raivosas,<br>
+ Que as cabeças de viboras povoadas<br>
+ Cingem de escuras fitas sanguinosas.<br>
+ <br>
+ Gema nas mãos das funebres e iradas<br>
+ Scyllas biformes, cuja enormidade<br>
+ As montanhas assombra inanimadas.<br>
+ <br>
+ Que inda pequena é calamidade<br>
+ Para quem dobra aos pés uma innocente<br>
+ Dos vicios, que disfarça em castidade.<br>
+ <br>
+ Ah! mofinento critico, indolente,<br>
+ Para opprobrios respiras n'este mundo,<br>
+ Alvo já dos rapazes, e da gente!<br>
+ <br>
+ Vê porque nome trocas o profundo<br>
+ Socego da virtude, tão querido,<br>
+ Menippo turbulento, vil, e immundo!<br>
+ <br>
+ Vê porque gloria vives opprimido,<br>
+ Querendo bravo dar a conhecer-te,<br>
+ Pela besta maior que tem nascido!<br>
+ <br>
+ Sahe vacillante quem chegou a vêr-te<br>
+ Sobre côxo banquinho repimpado<br>
+ Ao canto do balcão, sem nunca erguer-te.<br>
+ <br>
+ Quando ao mais alto o dia tem chegado<br>
+ Ergueres essa cara agolfinhada,<br>
+ Isto dizendo ao caixa enlabuzado:<span class="pagenum">[44]</span><br>
+ <br>
+ «Ouves, tratante, uma hora é já passada:<br>
+ Vai vêr no Talaveiras se sobeja<br>
+ Alguma cousa, muito acommodada.<br>
+ <br>
+ Senão, á cêa basta que isto seja;<br>
+ Que eu por mim, te confesso, estou impando:<br>
+ Inda a sardinha de hontem cá branqueja.»<br>
+ <br>
+ Sahe aturdido quem te viu ceando<br>
+ Negra bolacha, e na herva mal cozida,<br>
+ Pingo e pingo o azeite alto deitando.<br>
+ <br>
+ Mosca que ao prato vem, dobra a lambida<br>
+ Mesa de cão; e ao longe teu caixeiro<br>
+ Comendo está n'um canto por medida.<br>
+ <br>
+ Mofino, que avançado no terreiro<br>
+ O mundo desafias, teme agora<br>
+ Morrer na espada do feroz Rogeiro.<br>
+ <br>
+ Teme, teme os clamores, muito embora,<br>
+ Da grã calamidade, que gemendo<br>
+ Triste escrava do avaro, amarga chora:<br>
+ <br>
+ Da grã calamidade, que volvendo<br>
+ Os olhos para os céos, efficazmente<br>
+ Expondo o mal, que á força está fazendo.<br>
+ <br>
+ Eterno Padre, Justo, Omnipotente,<br>
+ (Diga, vendo-se toda rodeada<br>
+ Da miserrima, triste, e pobre gente)<br>
+ <br>
+ Não posso respirar mais subjugada.<br>
+ Aos erros da avareza repetidos<br>
+ Por cujas mãos tyrannas fui criada.<br>
+ <br>
+ Mil vezes entre funebres gemidos,<br>
+ Vi abraçar os pés aos avarentos<br>
+ Homens, estes que trago perseguidos.<span class="pagenum">[45]</span><br>
+ <br>
+ Dizendo-lhes com ais, e pensamentos<br>
+ Que as montanhas curvavam de gemer:<br>
+ Ó vós, causas crueis d'estes tormentos!<br>
+ <br>
+ Já que os templos dos numes soffreis vêr<br>
+ Desornados, dos numes que piedosos<br>
+ Vos deram vida, humanidade e ser:<br>
+ <br>
+ Já que os olhos cerraes aos magestosos<br>
+ Preceitos seus, no coração gravados;<br>
+ Já que abusaes de serem generosos,<br>
+ <br>
+ Ao menos vos commovam, desgraçados,<br>
+ Miseros gostos nossos, innocentes<br>
+ Combatidos da fome, e destroçados.<br>
+ <br>
+ Não sejaes fortes com as humildes gentes:<br>
+ Possa-vos compungir esta lembrança:<br>
+ Que sois co' os irmãos vossos, inclementes.<br>
+ <br>
+ Possa abalar-vos da primeira usança<br>
+ As leis, restituindo á natureza<br>
+ A gloria, os bens, o ser, a segurança.<br>
+ <br>
+ Nada, ó Jove, abrandou sua dureza;<br>
+ As razões todo o vicio aos homens tiram;<br>
+ Mas a razões não olha o da avareza.<br>
+ <br>
+ Ah! fulminante deus, quanto sentiram<br>
+ Esses que desthronar-te já quizeram,<br>
+ Que as penhas sobre penhas enxeriram!<br>
+ <br>
+ Desata sobre avaros, que offenderam<br>
+ Da natureza as leis n'um semelhante;<br>
+ Que commetter mil males me fizeram.<br>
+ <br>
+ Desata já das nuvens coruscante<br>
+ Raio que envolva em subtil cinza quantos<br>
+ Mofinos tem o mundo, ó deus tonante,<span class="pagenum">[46]</span><br>
+ <br>
+ E dizendo isto, cáiam mil e tantos<br>
+ Coriscos logo, serpenteando os ares,<br>
+ Que te acabem entre horridos espantos.<br>
+ <br>
+ Eis, clamarás então: santos altares,<br>
+ Valei, valei!&mdash;porém mal acabando,<br>
+ Tornado em cinzas te verão ficares.<br>
+ <br>
+ Oh! quanto os teus, teus males alegrando<br>
+ Correndo logo em turba, o cofre abrindo,<br>
+ Vejo as mãos para os céos alevantando!<br>
+ <br>
+ Uns o arroz da tenda já medindo,<br>
+ Outros de um ar choroso mascarados<br>
+ De quando em quando para um canto rindo!<br>
+ <br>
+ A fama de improviso aos desgraçados<br>
+ Corre, e por cem boccas apregoa,<br>
+ Teus fins terriveis, mal aventurados.<br>
+ <br>
+ Nenhum mais se entristece, nem magôa.<br>
+ É justo o céo, é justo, pois castiga<br>
+ Os avaros. Eis quanto n'elles sôa.<br>
+ <br>
+ Pedante, não maltrates a barriga,<br>
+ Entre saccos, e saccos de alimentos;<br>
+ Não sejas mais avaro que a formiga.<br>
+ <br>
+ Não queiras ser com muitos avarentos<br>
+ Semelhante a Lycurgo, rodeado<br>
+ De cofres, expirando nos tormentos.<br>
+ <br>
+ Vive de tua esposa acompanhado,<br>
+ Tendeirinhos pequenos fabricando,<br>
+ Que bem obra quem segue o decretado.<br>
+ <br>
+ Vai as medidas tu satyrisando,<br>
+ Que para bocca d'asno o mel não é;<br>
+ Deixa de andar as musas inquietando.<span class="pagenum">[47]</span><br>
+ <br>
+ Para critico seres, tens mau pé:<br>
+ Não murmures de outeiros, que em verdade,<br>
+ N'elles Apollo o bom, e ruim vê.<br>
+ <br>
+ E se fumos desejas ter de abbade,<br>
+ Mostrando-te doutor de mitra, e toga,<br>
+ Com primazias de robusto frade;<br>
+ <br>
+ Aos ratos deixa a tenda, e desafoga:<br>
+ Segue do Paiz Baixo essa mofina<br>
+ Estrada; e vai firmar-te á synagoga.<br>
+ <br>
+ Porque entre os phariseus da lei rabina,<br>
+ Te inculcarás mui bem, já me percebes<sup><a href="#fn4" id="mfn4"
+ name="mfn4">[4]</a></sup>;<br>
+ A natureza mais do que a arte ensina.<br>
+ <br>
+ Entre nós os do Luso, não recebes<br>
+ Louvor algum; olham-te mau tendeiro,<br>
+ Um vil que na ambição nunca assás bebes.<br>
+ <br>
+ Não saques mais as gentes a terreiro,<br>
+ Que aos maus sou formidavel, arrebato<br>
+ Nos cornos a capinha mais ligeiro.<br>
+ <br>
+ As virtudes abraça de barato;<br>
+ Olha que serás mais atassalhado,<br>
+ Que na bocca do cão raivoso, o gato.<br>
+ <br>
+ Sou semelhente ao genro desprezado<br>
+ Por Licambo, ou bem ao inimigo<br>
+ Vingativo do bufalo malvado.<br>
+ <br>
+ Vende o bom bacalhau, o melhor figo:<br>
+ Argumenta c'o teu almotacé:<br>
+ Detesta os vicios, anda só comtigo,<br>
+ O Alcorão não sigas de Mahomet.<span class="pagenum">[48]</span></blockquote>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>A mais completa noticia que temos de José Anastacio da Cunha deve-se ao
+esclarecido investigador, o snr. Innocencio Francisco da Silva (<em>Dicc.
+bib.</em>, t. IV, pag. 221-231). Aqui encontramos pela primeira vez a sentença
+inquisitorial que condemna José Anastacio da Cunha a ouvil-a no auto publico de
+fé, com habito penitencial. A sentença confisca-lhe todos os bens, encerra-o
+por tres annos na congregação do oratorio, com dous dias de penitencia em cada
+mez no primeiro anno; findo o triennio da reclusão, desterra-o por quatro annos
+para Evora, e veda-lhe perpetuamente o ingresso em Coimbra e Valença.</p>
+
+<p>Concluidos os tres annos de reclusão, José Anastacio requereu á mesa do
+santo officio que lhe commutasse o degredo dos quatro annos em residencia na
+congregação do oratorio. A inquisição condescendeu.</p>
+
+<p>Os delictos do condemnado estão substanciados no exordio da sentença que
+reza assim: «<em>...e pareceu a todos os votos que o réo pela prova da justiça
+e suas confissões estava legitimamente convicto no crime de heresia e apostasia
+por se persuadir dos erros do deismo, tolerantismo, e indifferentismo, tendo
+para si, e crendo que se salvaria na observancia da lei natural, como a sua
+razão e a sua consciencia<span class="pagenum">[49]</span> lhe ditasse, sem a
+sujeitar a algumas leis ou preceitos e sem a regular pelos dogmas da religião
+revelada que não acreditava; tendo tambem por injustas e tyrannas as leis com
+que a igreja obriga os fieis a captivar os seus entendimentos e a sujeitar os
+seus discursos em obsequio da fé e das verdades reveladas que lhes propõem para
+crerem sem duvida nem hesitação alguma: persuadindo-se igualmente que qualquer
+pessoa se salvaria em toda e qualquer religião que seguisse e fielmente
+observasse, capacitado que obrava bem, ainda que errasse, não sendo por
+malicia, mas só por falta de conhecimentos</em>», etc.</p>
+
+<p>A inquisição já não tinha garras n'aquelle anno de 1778. Vinte annos antes,
+um réo com menos delictos, seria queimado. José Anastacio orçava então pelos
+trinta e quatro annos; era tenente do regimento de artilheria do Porto, e lente
+cathedratico da cadeira de geometria na universidade.</p>
+
+<p>José Monteiro da Rocha, lente de astronomia, figadal inimigo de José
+Anastacio, teve o maior quinhão no vingado odio que o perdeu. Em um debate
+scientifico degladiado entre os dous sabios, encontro o professor de geometria
+assim apreciado por Monteiro da Rocha<sup><a href="#fn5" id="mfn5"
+name="mfn5">[5]</a></sup>:<span class="pagenum">[50]</span> <em>Estes papeis
+respiram tanta arrogancia e presumpção, contém tantas falsidades e imposturas,
+e desmandam-se em allusões tão satyricas, e dicterios tão grosseiros,
+insolentes, e malignos que bem manifestamente dão a conhecer que o author tem o
+miolo desconcertado ou damnado o coração.</em></p>
+
+<p>Se tinha o coração damnado, a inquisição expungiu-lhe o virus hydrophobo, e
+Monteiro da Rocha fez uma boa acção proporcionando ao seu inimigo o ensejo de
+reconciliar-se com S. Domingos, mediante sete annos de reclusão e confisco de
+bens.</p>
+
+<p>O insigne mathematico falleceu aos quarenta e tres annos de idade, na
+calçada de Nossa Senhora das Necessidades, nos braços de sua mãi, que elle
+adorava extremosamente.</p>
+
+<p>O snr. Innocencio Francisco da Silva publicou em 1839 as <em>Composições
+poeticas do doutor José Anastacio da Cunha</em>, incluindo n'ellas a <em>Voz da
+Razão</em> que não era de José Anastacio. O illustrado bibliophilo reconheceu
+depois e confessou o seu engano, por se ater ao boato publico.</p>
+
+<p>Nas mais completas collecções de poesias ineditas do douto philosopho não
+entra a <em>Voz da Razão</em>. Prezo-me de ter possuido as suas poesias
+completas, e não vi rastro d'esse poema nem d'outros com a mesma tendencia
+irreligiosa.<span class="pagenum">[51]</span></p>
+
+<p>No <em>Diccionario bibliographico</em>, tom. IV, pag. 226, o snr. Innocencio
+Francisco da Silva, considerando extraviada a maior parte das poesias do seu
+biographado, escreve: «... João Baptista Vieira Godinho, outro intimo amigo de
+José Anastacio, fallecido no Rio de Janeiro a 11 de fevereiro de 1811, no posto
+de tenente-general, teve tambem em seu poder muitas composições do sobredito;
+porém, confiando-as algum tempo antes de morrer ao conde de Linhares, D.
+Rodrigo de Sousa Coutinho, ignora-se o destino que tiveram.»</p>
+
+<p>Podiam ter peor destino. Vieram á minha mão em 1872. É um volume em 8.º
+encadernado em marroquim, dourado por folhas. Contém parte 1.ª e parte 2.ª dos
+versos. É prefaciado por <em>J. B. V. G.</em> (João Baptista Vieira Godinho),
+que se propõe reunir as poesias <em>do seu desgraçado amigo</em>. Não sei como
+este volume sahiu da livraria do conde de Linhares. Eu comprei-o ao livreiro
+Rodrigues, do Pote das Almas, em Lisboa; e elle comprou-o aos herdeiros do
+jurisconsulto Pereira e Sousa. O livro, a final, entrou no pantheon mais digno
+que lhe podia occasionar o fado dos livros que não é sempre o melhor: está na
+livraria do snr. visconde de Azevedo, no Porto.</p>
+
+<p>Presumo, todavia, que Vieira Godinho não logrou colligir todas as poesias do
+seu amigo.<span class="pagenum">[52]</span> A <em>Satyra</em>, que o leitor
+acabou de lêr, pertence a outro codice.</p>
+
+<p>Tambem possuo da letra de José Anastacio a versão muito emendada do 1.º e
+3.º acto do <em>Mafoma de Voltaire</em>. Diz lá uma nota de Pereira e Sousa que
+<em>aquelles mesmos papeis estiveram no cartorio da mesa do santo officio</em>.
+Por isso eu os guardo com muita veneração, e os beijo reverentemente, pensando
+que elles passaram pelos bentos dedos do cardeal de Cunha, inquisidor geral.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#mfn2" id="fn2" name="fn2">[2]</a></sup> Diogo José da Serra,
+um escandaloso vadio d'esta cidade, tão ignorante como devasso. Este homem foi
+quem induziu á factura da <em>Satyra</em> o doutor Botija.</p>
+
+<p><sup><a href="#mfn3" id="fn3" name="fn3">[3]</a></sup> Calumnia que os
+herdeiros de Francisco Dias estimariam que não o fosse. O poeta arguido de
+avarento morreu pobrissimo.</p>
+
+<p><sup><a href="#mfn4" id="fn4" name="fn4">[4]</a></sup> Francisco Dias Gomes
+era de geração judaica.</p>
+
+<p><sup><a href="#mfn5" id="fn5" name="fn5">[5]</a></sup> Documento inedito de
+que tambem possue traslado o snr. Innocencio Francisco da Silva.</p>
+</div>
+<hr>
+
+<h1><a id="cap04" name="cap04">PREFACIO AO SONHO DO ARCEBISPO</a></h1>
+
+<p>O correspondente lisbonense do <em>Jornal da Manhã</em>, indigitando o
+rastilho de futuras combustões no arranjo social das cousas portuguezas,
+malsina, sem nomeal-os, uns opusculos mensaes, onde se exhibem contra a casa de
+Bragança ineditos attribuidos falsariamente a arcebispos. Os opusculos
+accusados com injusta malquerença são as <em>Noites de insomnia</em>, e os
+manuscriptos arguidos de fraude são os dous<span class="pagenum">[53]</span>
+innocentes dislates de um illustremente desgraçado talento, cujos autographos
+offereço a quem, na duvida, quizer examinal-os.</p>
+
+<p>Em nenhum dos dous artigos (a <em>Catastrophe</em>, e <em>D. Maria
+Caraca</em>) é atacada a dynastia brigantina, e menos ainda a legalidade que
+assiste á testa coroada, com que mui jubilosamente me envaideço e sobremodo me
+honro, em nome do partido da ordem, cujo estandarte as <em>Noites de
+insomnia</em>, desde ora avante, desfraldam.</p>
+
+<p>As noticias, historicamente relativas á familia ducal e real de Bragança,
+publicadas n'estes livrinhos, não pesam sobre a memoria do esclarecido
+arcebispo;&mdash;são todas de minha lavra, e de minha responsabilidade perante os
+doutos. Todavia, se alguem me rastreia, n'esse lavor meramente historico, o
+insidioso plano de aluir o throno, sou obrigado a declarar que não se acham
+ainda bastantemente decisivas as minhas intenções a respeito de sua magestade,
+nem me parece que cheguem as cousas a termos de eu ter de desthronar o snr. D.
+Luiz I. E, dado que razões imprevistas, mas rijas, me impulsem a exterminar a
+casa de Bragança, hei de fazer quanto em mim couber, na hora do maior perigo,
+por ter mão... na manta real. Por onde se vê que, em materia de Coriolanos,
+Belisarios, e outros, ainda os ha por aqui, na patria dos Pachecos.<span
+class="pagenum">[54]</span> Iniquissimamente, pois, me culpa o escriptor
+referido, quando me arrola entre os obreiros subterraneos da oligarchia; e ao
+mesmo tempo incute pavores no animo d'um alto personagem. Por causa d'estes
+alarmas, temos visto a timidez que se denuncia, e denota pouca firmeza de
+consciencia, debilidade de espirito, incerteza juridica do lugar que se occupa,
+braço inerme para a defensão da real e sagrada propriedade. Se conhecem a
+pusillanimidade d'aquelle a quem cumpre ser forte, e até heroe no cairel da
+voragem, não lhe mettam espantos na alma com phantasmas; robusteçam-no para a
+provação, quando a hora troar, a hora maldita em que o povo açacala as garras,
+e golfa das tabernas com bramidos de leão. Se não querem prevenir as
+catastrophes, porque não ha prevenções contra a fatalidade, não se finjam
+previstos, pondo estas innocentes <em>Noites</em> a espreitar Cesar pelo olho
+esquerdo de Bruto.</p>
+
+<p>Quanto ao arcebispo de Mitylene, não se diga que elle me deixou, como
+herança de rancores demagogos uns papeis, de que eu estou estillando petroleo
+para o holocausto da casa de Bragança. Posto que o celebre jurisconsulto,
+depois de alienado, se imaginasse proscripto dos seus direitos ao ducado
+brigantino, nunca lhe coou da penna de ferro injuria contra<span
+class="pagenum">[55]</span> a familia real, que era, pouco mais ou menos, a
+d'elle.</p>
+
+<p>Verá o leitor, no seguinte artigo, quanto o vidente de mundos defezos ás
+pessoas que se dizem ajuizadas, respeitava seus regios predecessores, e
+nomeadamente seu avô o snr. rei D. Manoel, e seu mais remoto avô o snr. D.
+Affonso Henriques, que elle viu em Villa-Real, trezentos annos antes da
+povoação d'aquella villa.</p>
+
+<p>Verdadeiramente, a gente não sabe se os doudos são os que vêem cousas
+estranhas, se somos nós que não vemos senão trivialidades. Gerard de Nerval
+pende a crêr que os doudos são os que tem o condão extraordinario de vêr o
+invisivel aos parvoeirões. Regra geral: assim que um homem descamba da linha
+recta que vai desde o almoço até á cêa através do jantar, a razão humana
+desconfia d'elle. Se este homem suspeito, unicamente, lesa os seus interesses,
+chamam-lhe, com piedosa indulgencia, tolo: se, por demasia de espiritualidades,
+damnifica os interesses alheios, estigmatisam-o de mentecapto. Qualquer das
+qualificações impellem á morte moral. Eu ainda não atinei bem com a denominação
+ajustada ao doutor D. Domingos de Magalhães, porque no seu modo de escrever
+historia, philosophia e moral, se revela muito mais acerto, critica e sciencia
+que nos livros de uns homens que não se<span class="pagenum">[56]</span> acham
+bem definidos nas diversas doenças apyreticas do cerebro. Eis aqui um rapto de
+luz que elle denominou:</p>
+
+<h2>SONHO</h2>
+
+<p class="centrado"><small>(INEDITO DO ARCEBISPO DE MITYLENE, ESCRIPTO NO
+PERIODO DA ALIENAÇÃO)</small></p>
+
+<p>No decurso de dezeseis gerações não veio ao mundo nem assomou ao pensamento
+de nenhum sabio o que a actual inspiração ensina, e communica a todos pelo modo
+mais extraordinario e divino, ou pela fonte mais pura e heroica do santo e
+actual desaggravo. A Divina Providencia jámais se revelou tão benefica e
+misericordiosa, nem tão solicita e desvanecida para com a pobre e triste
+humanidade, que escurece o beneficio e parece desprezar o seu author divino, só
+pela torpe e abominavel gloria do seu desprezado egoismo e da sua indomita
+soberba. Estava já endurecido o coração de Pharaó, e não consentiu a sua vil
+injuria que o infinito poder da vara e a sua misericordia o livrassem da ira do
+mar e do justo castigo das aguas.</p>
+
+<p>O sonho actual é de outro Pharaó, que só viu as sete vaccas gordas, e não
+quiz ou não pôde vêr as magras, e as deixou todas para traz e desprezadas em
+poder de herejes e de inimigos do santo nome e da fé. Diz a historia<span
+class="pagenum">[67]</span> que Pharaó viu primeiramente sete vaccas gordas, e
+que a estas se seguiram sete vaccas muito magras e muito definhadas, que mal
+podiam sahir do rio aonde se banhavam e bebiam. Ás nossas sete vaccas são sete
+seculos de dezeseis gerações, que deixamos para traz das costas, magros,
+definhados e proscriptos, que terminaram pela mais negra, medonha e absoluta
+penuria de todo o recurso e remedio. A mãi e o pai comem a carne do filho, os
+mortos jazem sem sepultura, a impiedade triumpha, a verdadeira fé anda
+foragida, a injuria do Senhor substitue o culto, e sobre as cadeiras de Moysés
+já não se assentam os escribas e os phariseus; os mais depravados inimigos
+perseguem em nome do Senhor todos os seus santos ministros, e predizem pelas
+suas obras o fim do mundo, e a necessidade do ultimo e geral escarmento.</p>
+
+<p>Tal é o quadro da abominavel heresia, e da mais atroz injuria, que se pode
+levantar contra o Senhor em nome do demonio sem o proclamar como Anti-Christo;
+o vituperio de tão grande affronta avexa os filhos do Divino Amor, o mais
+horrivel pesadelo coarcta as suas faculdades, e o delirio do sonho chama e
+reclama a necessidade do mais santo esconjuro, e da mais afouta e intrepida
+penitencia. Felizes as mulheres estereis, e mil vezes mais acordado, ou menos
+infeliz e desprezivel<span class="pagenum">[58]</span> será o aborto, que não
+recebeu a agua do baptismo nem chegou a uso de razão para não soffrer a injuria
+da maldita geração do peccado, e do seu enorme e horroroso castigo.</p>
+
+<p>Passados sete seculos como um sonho, quebraram o preito, apagaram a gloria,
+e amofinaram o beneficio de seiscentas batalhas e de outras tantas victorias,
+riscaram das paginas mais gloriosas da nossa historia monumentos eternos para
+escrever o geroglifico da maior vileza que nega as façanhas aos heroes, e depõe
+a estatua do seu pedestal para a substituirem pela mais desprezivel do seculo,
+e pelo que tiver deixado nome mais injurioso, conspurcado e escravo.</p>
+
+<p>Descobriram os nossos antigos o Brazil, e fundaram n'elle a maior colonia do
+mundo, que se fundou sem o vicio dos perseguidos e dos emigrados religiosos e
+politicos; e os que tiveram esta gloria são desprezados, e os seus herdeiros
+perseguidos. O usurpador que se fez possuidor para proclamar o falso principio
+de independente, e que entregou os estados ao ouro, e ao poder da Inglaterra
+foi levantado e exaltado; porque emprehendeu entre nós a mesma façanha e legou
+o seu vil commettimento ao partido mais vil e fementido, atroz e degenerado,
+que pode organisar-se em nome de uma seita protestante e heretica para
+commetter esta grande aleivosia e<span class="pagenum">[59]</span> diabolico
+mandato. D. Affonso Henriques ainda dorme o somno dos seculos; os seus heroicos
+serviços ainda não foram julgados pela posteridade; parece que o grande vulto
+espera que a fama das suas façanhas o alevante sobre todos os porticos e sobre
+a fronteira de todos os templos e igrejas catholicas. Que fará a mais hedionda
+e vil injuria d'este sonho abominavel dos herejes? Levanta o impio e exacerba o
+catholico, vende a terra da patria; e, para ter sepultura em paiz protestante,
+pactua com o demonio a quem entregou a alma a traição e o aleive; o seu
+desdouro é o mais abominavel tramite e caminho do inferno.</p>
+
+<p>Fez em Lisboa injuria ao veneravel corpo e santelmo d'el-rei o snr. D.
+Manoel, meu presado avô. Os usurpadores apodrecem em seus sarcophagos, e os
+reis legitimos recendem e perfumam a desfeita porque não legaram a vileza do
+seu coração, deixaram os estados, os eternos monumentos, os mosteiros e a maior
+grandeza do reino, e não roubaram nem atraiçoaram nem renegaram de Deus nem da
+patria, nem abandonaram a justiça nem venderam as suas consciencias.</p>
+
+<p>Como pôde a nação chegar apesar de tão emeritas virtudes e de tão relevantes
+serviços ao ultimo estado de degradação e vilipendio? Devemos presumir que a
+nação sempre foi perversa, e que os heroes foram poucos<span
+class="pagenum">[60]</span> mas estrenuos, e tão briosos e fieis que
+conquistaram do mundo a maior fama, do Senhor o mais desusado e grandioso favor
+e auxilio. São poucos os heroes? quantos monarchas illustraram o throno?
+quantos fieis e valentes venceram em Ourique? quantos foram os mais dignos
+missionarios do Oriente? quantos Pachecos e Albuquerques? quantos Castros e
+Mascarenhas? quantos Magalhães e Gamas? Aonde estão as suas estatuas? que é
+feito do corpo santo de S. Francisco Xavier?</p>
+
+<p>São estas as perguntas que vos dirijo, as invectivas que hei de fazer-vos
+até o fim: eis o martyrio que appeteço e a santidade que o Senhor me concede,
+como propheta, para vingar a injuria de sete seculos, o sonho e o pesadelo do
+mais atroz delirio. Os filhos de S. Francisco, de S. Domingos, de S. Theotonio,
+e de Santo Antonio que dormem nos claustros dos extinctos e abominados
+conventos; os monges negros de S. Bento, os inimitaveis de S. Bernardo, toda a
+familia de Santo Agostinho, os proceres d'Alcantara e de Bruno fallam pela
+nossa bocca, e dirigem o nosso pensamento n'esta humilde e generosa tarefa. Que
+fizeste, ó impio, de tanta santidade que perverteste, e da sua grande fama e
+publica utilidade?</p>
+
+<p>No sonho de sete seculos não pôde a sabedoria de tão grandes heroes levantar
+o eterno<span class="pagenum">[61]</span> monumento do actual desdouro e da sua
+fatal cegueira? Somos nós o vingador das injurias, porque o Senhor nos conserva
+e defende, afouta e encaminha para o nosso honroso e santo ministerio. Está por
+terra o edifficio de nossa grandeza; vê o mundo, admira e contemplam os anjos a
+nossa actual miseria e compadecem-se d'este ruinoso estado: só não se move o
+povo, só o interdicto dorme o maldito somno da morte, e não delira nem appetece
+a eterna felicidade de sua salvação e liberdade! </p>
+
+<p>Sabemos que o actual abominio tenta exterminar toda a geração d'ourique, e
+cassar as promessas do Divino Salvador matando o Promettido e Desejado; e
+d'este projecto ri e zomba, e escarnece a nossa fé pela vaidade do sonho ser
+digna e merecedora de mais prompto desprezo; mas não basta que o Senhor defenda
+uma causa para que se considere heroica: convém que o homem e o povo eleito e
+escolhido para a façanha se mostrem dignos, timbrosos, sobranceiros ao maior
+perigo e intrepidos e confiados na justiça do commettimento, e na gloria da
+Divina Protecção. O sonho, que desdoura o homem, cerca de terror o timido e
+fugitivo escravo do demonio, porque não confia no poder do seu senhor, nem na
+justiça da causa nem na certeza do seu delicto.</p>
+
+<p>Todas as vezes que me occorre algum nobre pensamento do Divino Amor e do seu
+desaggravo,<span class="pagenum">[62]</span> não posso resistir ao desejo de o
+exarar. O amor de Deus é um sentimento imperioso, porque Deus é o summo bem: o
+que tem a felicidade de vêr o Senhor não póde deixar de o amar sobre todas as
+cousas; porque assim o exige a natureza do bem que nos arrebata. Se o triste e
+mesquinho não ama o Senhor sobre todas as cousas, outro espirito assenhorêa a
+alma do possesso, e pode dizer-se que impera n'ella o demonio. Quem não é por
+mim é contra mim. A manifestação mais perfeita de amor é o desaggravo da
+offensa; o que não desaggrava não ama: porque ao summo bem corresponde o amor
+mais perfeito: não amando, aborrece; e, na presença da injuria e do escandalo
+do desacato, toma sobre si e á sua conta toda a cumplicidade da offensa, e
+faz-se digno do mesmo rigor da pena, e do maior castigo devido á perpetração do
+delicto.</p>
+
+<p>Os mais revezados delictos maculam a geração actual; é uma herança que
+recorda a dureza de Pharaó e a obstinada e cruel memoria de Herodes e Pilatos.
+No Egypto a vara do poder, na Judêa o Divino Verbo, que veio ao mundo para nos
+regenerar, pesam e sentem a falta de desaggravo, e só lamentam a dureza do povo
+e a sua affectada cegueira. É um sonho, que sempre se repete, e que manifesta
+bem palpavel n'este mundo das illusões o irresistivel poder do maleficio, que
+actua sobre os<span class="pagenum">[63]</span> escravos do peccado e filhos da
+ira e da sua perversa condição. Fuja o homem de commetter o peccado
+imperdoavel; porque em sua fatal herança não só deturpa e cega, senão que
+domina e arrasta a alma para a maior perdição, e para o fundo do abysmo.</p>
+
+<p>A quantos d'estes póde aproveitar o desaggravo e o martyrio ninguem ha que
+ignore, e muitos desejam ser purificados pelos heroicos processos da santa
+penitencia da fé, mas ninguem os sujeita, nem ha força que os violente; e
+tremem do exito, vivem no fóco da calumnia e do erro, da perseguição, e d'um
+para outro dia soffrem a tremenda metempsychose da furia do dragão. Fallamos ao
+povo que conserva o direito de propria consciencia e algum vislumbre de boa fé
+para que procure e abrace a salvação da indulgencia e do martyrio, que tem
+diante.</p>
+
+<p>Quando o fiel d'uma balança pende por força irresistivel para o abysmo, são
+felizes os que se lançam na outra concha; porque a força contraria os impelle e
+ascende mais do que a natural virtude dos seus corpos diaphanos. Que bella
+monção para tão feliz viagem! que bello sonho para os sete seculos venturosos
+que se hão de completar na eternidade!</p>
+
+<p>Quando nosso Senhor veio ao mundo era o cordeiro immaculado, e veio para o
+eterno sacrificio do Amor Divino. Nasceu em um presepio,<span
+class="pagenum">[64]</span> e podia nascer em um monte, que era dado a sua
+santidade, e fóra do redil aonde nascem quasi todos os cordeiros, mas nasceu em
+um presepio para nascer entre os pastores e bem resguardado dos lobos, que
+procuravam o innocente para o matar. Em Bethlem e no templo, quando o menino
+foi ao Agrado e esteve entre os doutores, renovaram os insanos judeus as suas
+tentativas e machinações; e por isso o meu Senhor fugiu de Bethlem para o
+Egypto e d'este a primeira e a segunda vez para a Lusitania; d'onde finalmente
+sahiu para a grande e heroica missão, que nos remiu no calvario. S. Thiago e S.
+João eram irmãos do Senhor; veio ás Hespanhas o grande apostolo, e veio tambem
+S. João, mas nenhum teve o seu martyrio na Peninsula. S. Thiago foi receber á
+Judêa a sua promessa. S. João foi ao imperio dos Cesares, e á terra do
+paganismo e do amor depravado da louca e desnudada Venus. Voltaram os seus
+corpos? que recondito conserva o virginal de S. João? Este sonho póde condizer
+com a Rodhoma por ter S. João recebido no calvario a santa maternidade da
+Virgem minha Senhora.</p>
+
+<p>Desde que nascemos para o santo ministerio do actual desaggravo de dezeseis
+gerações, um presentimento feroz persegue e incita a indomita heresia para nos
+matar; o veneno é a sua arma; actualmente só o mais decidido milagre<span
+class="pagenum">[65]</span> me podia salvar da furia; eu presagío que o meio
+heretico só tende a abysmar os seus altares e instrumentos. O tetrico sonho da
+ira impotente subjuga os escravos que se irritam e despedaçam, como as ondas
+que quebram contra o invulneravel rochedo, e se abysmam pela inutil furia do
+seu audaz commettimento. Os judeus levaram a sua insania ao cabo, e veio o
+maior castigo do povo e sobre a terra com a justa ira do Senhor: o ultimo
+propheta foi morto entre o templo e o altar, e a prophecia foi negada para
+sempre ao judeu, que só tem actualmente a de Jonas, que foi sempre mandado em
+missão de Ninive e de Babylonia aos pagãos e gentios. A Virgem minha Senhora
+inaugurou no Carmo o centro da adoração, e transferiu para o novo reino de Sião
+o docel de sua prophecia aonde se conserva. Se em vez do culto devido á
+santidade do Senhor o nosso reconhecimento hereditario se convertesse em fel
+d'injuria, e dessemos ao meu Senhor e á sua Santissima Mãi o calix da maldição
+dos judeus&mdash;deviamos recear que viesse sobre nós o mesmo flagello, e que a
+falta de desaggravo nos equiparasse para a pena do escarmento ao detestavel
+povo e aos seus perfidos ministros e traidores.</p>
+
+<p>O nosso centro de desaggravo installou-se na Penha da Estrella e debaixo do
+docel e da egide da Virgem minha Senhora. Quantos mezes<span
+class="pagenum">[66]</span> se conspiraram para apagar aquella luz sacrosanta,
+e comprometteram as suas almas n'este malfadado empenho e ousadia? O seu
+pensamento era só um, e a nossa morte o unico desenlace de todos os
+estratagemas. O ministro executor do barbaro decreto trepidou, e desde que
+chegamos a esta villa até o presente as suas combinações e ardis tem-se
+resentido da mesma canha e imbecilidade. O coche funerario que me destinava a
+tyrannia converteu-se na traquitana, que me conduziu á estação; o decreto de
+despejo que me lançava fóra de casa em Lisboa e d'esta villa ha de executar-se
+pelo santo direito do talião divino contra os vergonhosos authores, porque
+todos os seus meios eram d'impios sem fé e sem verdade de juramento, de crueis
+perseguidores de fieis, e de profanadores dos templos e de sua maxima
+santidade.</p>
+
+<p>O sonho, que actualmente nos alevanta de toda a desanimação produzida pela
+heresia, é dos sete seculos magros, que hão de ser coroados por outros sete
+seculos pingues e ferteis, heroicos e cheios de fartas e de briosas chronicas,
+que encerrem as façanhas dos fieis, a succinta historia dos povos, e o precinto
+da catholica santidade e igualdade de todos os filhos e do mesmo Pai santo e
+commum no céo e na terra. As casas de Bragança e de S. Bruno sempre foram
+perseguidas pelos nobres e falsos<span class="pagenum">[67]</span> fidalgos:
+todas as suas façanhas tem sido commandadas por pessoas de familia no fervor do
+nobre enthusiasmo do povo, executadas pelo devaneio e pelo assombro do milagre,
+por ficarem em esquecimento e sem galardão do mundo e só com o grande e
+extraordinariamente mais real e verdadeiro do proprio som e merecimento: por
+esta razão faltam as estatuas aos heroes, e vem no meio da enxurrada as
+obscenas dos mais tredos e falsos pyrilampos.</p>
+
+<p>Os seculos, que estão para succeder invocam a audaz cooperação do povo, e
+exigem que o novo heroe seja o mesmo comicio, e a centuria, que defender o
+templo e desvanecer o seu culto. É necessario que a Terra Santa reuna o povo
+mais digno, e que a authoridade e o poder divino unam o capitel e a cimalha do
+novo edifficio, e commandem a pureza da fé e a sua excellente doutrina com o
+mais sonoro e metallico alarido de desaggravo e de arguição. Todas as nossas
+instituições tendem ao valente ensejo d'esta restauração do povo para o fazer
+nobre e para o exaltar pelo martyrio e por meio da virgindade e da santidade da
+crença; a corrupção corre em veias e carcome o amago do tronco que apodrece e
+cahe: a nova arvore estende as suas raizes por todo o mundo e ha de cobrir com
+os seus copados ramos todas as plagas,<span class="pagenum">[68]</span> e zonas
+da esphera: o castello que era do procere o do conde ou do rei e senhor, será
+de Deus e do padre santo, do fiel e do mais devoto e digno de seu sublime
+culto. Todos os heroes rivalisarão com os filhos de Javão, e dar-se-ha o premio
+ao que desvanecer maior virtude e sacrificio com mais encarecidas provas, e com
+mais heroico desinteresse.</p>
+
+<p>O snr. D. Affonso Henriques vestia o talar ecclesiastico para fallar do
+pulpito, e para narrar as maravilhas de todas as suas victorias, se vinha ao
+reino algum rei ou principe estrangeiro convidado pelo desejo de estudar as
+nossas proezas e façanhas e para se informar do seu alarido: o grande monarcha
+não desejava fallar de assento sem subir ao pulpito, porque n'esta cadeira de
+verdade recebia as suas inspirações e mais fortes commoções e graças. Todos os
+estrangeiros estranhavam o monarcha, e o seu habito de paz, que era o talar,
+senão a batina de estudante: quando o viam subir ao pulpito alguns riam; depois
+que sentiam as commoções de sua eloquencia e persuasão louvavam o orador e
+choravam quando o orador chorava, commoviam-se e aplaudiam segundo o costume do
+tempo com tão fortes demonstrações e signaes, que chegavam a interromper o
+discurso. N'este emphase de sua justa admiração pediam ao rei que repetisse, e
+como nada levava estudado<span class="pagenum">[69]</span> progredia ao acaso e
+sempre com o maior espanto e alarido deixava o auditorio, e corriam a tomar o
+seu supplicio e disciplina pelo desacato que os mouros commetteram em Ourique
+na occasião da batalha contra o Santissimo Sacramento, que estava na ermida de
+Nossa Senhora do Monte.</p>
+
+<p>Qual é o povo perdido? é o gentio de todos os seculos; que corre com os que
+correm, que dorme com os que dormem, que se deixa corromper pelos corruptos e
+se faz perverso por falta de sal e de doutrina que o preserve e conserve. A
+sociedade de homens notaveis e dos falsos proceres correu atraz da illusão, e
+levou comsigo e arrastou o maior numero; vive no meio do fôro a parte sã e
+sensata. Quem acordará os dormintes e levantará do pó os que jazem feridos pela
+scentelha do maior erro e catastrophe? Só o Senhor nos póde acudir e soccorrer:
+levantai as vossas vistas, exaltai o vosso pensamento, fazei-vos fortes no
+reducto das vossas consciencias do desaggravo e esperai do santo alfageme o
+milagroso remedio e toda a sua recompensa.</p>
+
+<p>Estes são os nossos sonhos. Pensava no sonho de Pharaó o santo José filho de
+Jacob, e só o Senhor alevantou o véo do mysterio, e deu ao mysterioso numero a
+sua santa e verdadeira significação. Ha sete peccados mortaes, e contra estes
+outras sete virtudes, mas<span class="pagenum">[70]</span> vem primeiro os
+peccados ao mundo antes que venha o remedio da virtude que supprime o peccado
+correspondente: a sabedoria consiste em desvanecer a virtude para que não tenha
+lugar o peccado, que a escurece e affronta. Este terá sido o sonho e o
+constante pensamento da casa de Bragança no decurso de dezeseis gerações? é
+certo que só o Senhor nos concede o mysterio d'este desvanecimento e a sua
+gloria futura; venha o povo, e furte a virtude ao merito, e deixe a torpeza dos
+bens aos vis forasteiros, que surgem do inferno por tão negro e absurdo
+estipendio, e usurpação.</p>
+
+<p>No meio dos seus sonhos e prophecias o santo rei d'Ourique previa e
+affirmava, que o seu successor da 16.ª geração havia de ser rei e papa, e era
+tão firme n'esta sincera e antecipada previsão, que algumas vezes via a propria
+figura, e se compadecia das tramas e desgraças que o haviam de perseguir, e dos
+males que haviam de sobrevir ao reino, e das heresias em que já o via e
+considerava submerso e como amortecido pelo diuturno interdicto e geral
+perdição. S. Affonso devia aos estrangeiros e ás cruzadas extraordinarios
+favores; o seu pensamento de grande estadista e o grande desejo que teve de ser
+util á santa causa da fé, fez com que pedisse e solicitasse de sua santidade um
+decreto para<span class="pagenum">[71]</span> que o nosso reino fosse
+considerado reino da cruzada com todas as suas indulgencias que obteve a grande
+contentamento de todos os cavalleiros da cruz, e com grande desgosto e tristeza
+de todos os falsos monstros do culto, e membros podres da nobreza. Este decreto
+causou grande alarma, o povo defendeu a medida, que até os ecclesiasticos
+combatiam com muito alarido de fingido zelo pelo bem da Igreja. Este conflicto
+ameaçou o reino nascente, veio o nuncio de Roma, lançou interdicto, e triumphou
+o rei com o povo, porque seu coração era real e tão recto e justo, que não
+soffria a menor injuria do templo, e desaggravava os desacatos dos mouros com o
+mais cruel supplicio de seu corpo e quasi á vista do povo e para o edifficar
+como exemplo. A este tempo já muitos ecclesiasticos seguiam o ocio da paz e
+principiavam a gozar e appetecer as delicias de Capua: os simoniacos engordavam
+capões e perús para as festas do anno e deixavam nús os pobres, e desamparados
+os orphãos e as viuvas; que faria o rei? mendigar o soccorro do padre santo e a
+virtude de sua santa indulgencia e receber do Divino Salvador a inauferivel do
+futuro remedio e prophecia, e de Roma a anachronica certeza dos males que
+principiavam a devorar a santidade da curia e a corcomer o corpo d'aquella
+santa e bemfazeja arvore.<span class="pagenum">[72]</span></p>
+
+<p>A prophecia é dada ao rei; foi David propheta e Salomão, Pharaó sonhava, e o
+rei até quando sonha deve prophetisar para que o povo descance e confie na sua
+sabedoria e providencia. Todos os prophetas tiveram honras reaes e de santos,
+recebiam corôa de martyres e eram mandados ao povo, ou por causa do povo aos
+seus reis e ministros do governo.</p>
+
+<p>Se o rei for santo certamente ha de ser propheta; porque todos os reis
+legitimos são constituidos por causa do povo; e por isso bem decidiu a santa sé
+pontificia quando deixou o complemento da santidade de S. Affonso reservada
+para o computo da 16.ª geração: mas pareceu-nos que a ultima prova se devia
+presumir e dar por existente ou por verificada e cumprida como promessa divina,
+ou desnecessaria e superabundante.</p>
+
+<p>Assim aconteceu sempre em Roma com o milagre d'Ourique; mas nem sempre o
+povo recebeu a fé viva d'este santo milagre: os que vivem da falsa opinião e
+exploram as más disposições erram e perdem as suas almas, e não cessam de
+condemnar as alheias; estes iracundos da propria alma tramam e conspiram com
+todos os aventureiros, para levantar o idolo de suas paixões e sensuaes
+appetites: não vos pareça menor o numero dos defensores da boa e santa causa,
+nem deis por perdida<span class="pagenum">[73]</span> a mais arriscada e
+perigosa do juizo humano em quanto se conservar pura da fé, isenta de contagio,
+estrenua e airosa pela virtude do desaggravo, e pela mais sublime e divina da
+sua penitencia e martyrio: se fôr desvanecido por virgens, se não tolerar o
+desacato, nem a vil affronta do impio, nem o sarcasmo do judeu e do
+protestante, nem a simonia do falso e perfido, nem a atrophia das almas sem as
+marcar com o ferrete, e sem as entregar ao indefectivel juizo da santidade e da
+fé.</p>
+
+<p>O nosso sonho foi uma visão ou previsão de S. Affonso, que se verificou em
+Villa Real, n'esta antiga villa ou cidade: nós vimos em sonho o que S. Affonso
+no seu tempo previu como propheta: o sonho tem uma historia necessaria para a
+sua explicação; e como vem os factos traçados e encaminhados para este mesmo
+fim, temos unicamente a acrescentar o seguinte.</p>
+
+<p>S. Affonso foi rei d'Ourique por justa e divina acclamação, as côrtes e os
+poderes do estado applaudiram a eleição, juraram seus preitos, e deram todos os
+documentos de boa fé e de cordial testemunho, do sincero empenho e da resolução
+em que estavam de todos os sacrificios para sustentar a acclamação e para
+continuar a guerra aos infieis. S. Affonso pretendeu o voto universal por ser
+causa de milagre e de grande sacrificio e do maior testemunho,<span
+class="pagenum">[74]</span> e muitos ecclesiasticos que viviam nos prazeres do
+ocio, e que sentiam vêr retaliados pela guerra os campos das suas prebendas e
+passaes, e muitos ignobeis e falsos nobres, que seguiam a lei de seu egoismo, e
+d'estes em o maior numero commentavam a acclamação desfavoravelmente e
+persuadindo o povo a que não aceitasse o rei porque esta acclamação havia de
+causar grande descontentamento em Hespanha e traria comsigo algum maior
+dissabor da parte do supremo pontifice.</p>
+
+<p>Havia com effeito da côrte de Roma duas exigencias muito fortes e constantes
+perante a côrte de Portugal: a primeira por causa do fôro de S. Pedro que é de
+morgadio do Divino Salvador, e a segunda por causa das cruzadas; por se dizer,
+que não irão do reino as cruzadas á Terra Santa, como eram obrigados todos os
+fieis. Sempre o conde-rei se tinha desembaraçado d'estas interpellações com
+muito favor, e não cessava a intriga de urdir novos ardis; por virem de fonte
+conhecida e poderosa, que era a côrte de Hespanha: mas obteve S. Affonso a
+bulla, que declarava o nosso reino Terra Santa e reino de cruzada, o seu rei
+como benemerito filho da santa Igreja e como antigo cruzado da Terra Santa de
+Palestina, e applicasse o fôro do Divino Salvador para as despezas da guerra. E
+logo a invicta monarchia obteve o suffragio e principiou a julgar-se<span
+class="pagenum">[75]</span> invencivel: mas os seus inimigos não dormiam, e
+agora veremos o que urdiram em Roma mais calumnioso e atroz.</p>
+
+<p>Formaram em Hespanha um processo secreto contra o rei com muitas testemunhas
+de Portugal, gente vil, desconhecida e de negra e atroz calumnia: os seus
+depoimentos recheados de torpezas e de peccados phantasticos que attribuiam ao
+rei, e com o principal artigo d'esta infame accusação que o monarcha a quem
+davam titulo de ambicioso seguia a falsa lei da polygamia, e que era no seu
+modo de viver semelhante aos reis mouros, e que tinha uma e duas mulheres em
+cada terra e que obrigava os meninos a beijar-lhe a mão como pai de todos, ou
+como papa; e que não havia mulher casada que não tivesse algum filho parecido
+com o rei, e que estava o reino cheio de malhados, e que por este signal se
+conheciam em melhor sombra do que os filhos dos negros. E mais diziam, que o
+rei só era generoso e de real doação para as mulheres, e que os homens andavam
+diante do soberbo califa como escravos d'harem. Levavam este recado os malignos
+tão bem encadeado, como se fosse verdadeiro: o demonio os ensinava a mentir a
+Deus e a jurar falso; verdadeira mentira é todo o engano, que se faz ao padre
+santo, que é vigario do Senhor.</p>
+
+<p>E com o mesmo intuito e abominavel pensamento<span
+class="pagenum">[76]</span> de homens de consciencia perdida, por terem paz
+occulta com os mouros e longas tregoas, e por não quererem renunciar aos
+commodos e seu egoismo, acrescentava a calumnia, dizendo que S. Affonso era
+hereje, e pretendia provar a accusação com tres factos: primeiro, por subir ao
+pulpito de habito talar e de cota, para prégar como prégava a favor do divino
+apparecimento, que os calumniadores impugnavam e davam por fabuloso, dizendo
+que nenhum bispo portuguez se jactava do milagre, nem prégava a favor da sua
+existencia, e que os seus padres tambem não prégavam tal façanha, e por isso
+subia o rei ao pulpito para o seu falso ministerio. O segundo facto que ligava
+ao primeiro consistia em dizer que distrahia das cruzadas os seus cavalleiros,
+e que os convidava para ficar no reino, e angariava para a deserção das suas
+bandeiras nacionaes com grandes promessas e doações de terras, que tirava á
+santa Igreja, e que n'este numero admittia sem escolha muitos e grandes herejes
+da mesma falsa escola dos homens mais ambiciosos, e que este D. Affonso era tão
+sofrego de ambição que tinha guerreado com sua mãi, e que a tivera presa até
+que morreu no castello de Lanhoso.</p>
+
+<p>E ligavam a estes factos outro de maior atrocidade; porque directa e
+indirectamente<span class="pagenum">[77]</span> offendia a santidade do summo
+pontifice, mas a nada d'isto attende a calumnia, quando vem proferida pelo
+maligno espirito contra a maxima verdade divina; e diziam os calumniadores e
+verdadeiros herejes que S. Affonso obtivera a bulla do privilegio pontificio do
+reino por meio de grande e manifesta obcecação e por falsa causa que allegou, e
+que era o maior inimigo das santas cruzadas, e que no seu lidar e batalhar era
+semelhante ao demonio, e que jámais deixava de ferir o seu adversario, e que ás
+vezes o feria pela malha com a sua espada quatro e cinco vezes superior á
+abertura da malha ou rede de ferro, e que este milagre era do demonio; e que
+elle tinham vencido em Ourique contra a opinião dos seus generaes por
+ingerencia do demonio e por ser grande hereje.</p>
+
+<p>O processo era secreto, e D. Affonso não pôde prevenir o exito da injuriosa
+e negra calumnia; andava lidando com mouros ao pé de Cintra, aonde tinha
+castello fronteiro, e tinham os mouros o seu sustentado pelos seus navios, e
+gente de mar e chegavam com as suas correrias até Lisboa e talavam os campos,
+matavam e roubavam; e alli vivia ao pé S. Affonso solicito do modo porque havia
+de extinguir o covil, e já tinha certa a sua presa, quando o surprehendeu a
+noticia que vinha de Traz-os-Montes vencendo leguas e horas, de<span
+class="pagenum">[78]</span> que andava um nuncio de Roma pelas igrejas
+principaes das villas e terras do reino a publicar um interdicto contra o rei e
+contra os seus soldados, se não abandonassem o rei no mesmo momento.</p>
+
+<p>Apenas recebeu a tristissima noticia com todas as certezas do que se
+publicava e ordenava, o rei chorou por tres causas: pela futura sorte do reino;
+pelo erro d'aquelles perfidos calumniadores; e pela fraqueza humana que
+sujeitava o vigario do Divino Salvador a tão capciosa e calumniosa illusão.
+Fallou aos seus, e nenhum o deixou só n'aquella altura; e contra a opinião dos
+que julgaram que devia aceitar uma tregoa proposta pelos mouros pela causa
+principal do perigo em que viu aquelle castello de Cintra, resolveu tomar o
+castello na mesma noite, e o mesmo foi que ser o rei o primeiro a saltar
+dentro&mdash;ainda havia luz&mdash;e tomou o castello em duas horas. Deu immediatamente
+as suas providencias, e partiu para Traz-os-Montes e correu na distancia de
+mais de sessenta leguas a outro maior perigo, por vir de Hespanha o nuncio, e
+de Roma, d'onde menos se devia esperar, o flagello. O providente monarcha
+deixou a tregoa com o castello tomado; os mouros já não lucravam o armisticio,
+mas tinham proposto a suspensão, e não podiam recusar o arbitrio.</p>
+
+<p>Chegou D. Affonso em menos de tres dias<span class="pagenum">[79]</span> e
+de tres noites sempre armado de ferro, com a morte de alguns cavallos que
+deixou estafados para tomar outros, e já ninguem o acompanhava quando entrou em
+Villa Real, aonde o nuncio tinha publicado o abominavel interdicto, e já ia no
+caminho de Lamego em direcção a Coimbra. O rei manda prevenir o legado de que
+estava em Villa Real para fallar com elle e de que o esperava n'aquella capital
+para o receber com todas as honras devidas á sua alta categoria e jerarchia. O
+nuncio era o principe real d'Hespanha.</p>
+
+<p>Com esta providencia mandou tocar os sinos de alarma. A tropa que estava na
+terra reuniu para um lado, para o outro reuniu todo o collegio das humanidades
+com os seus balandraus e opas, mas sem cruz e sem nenhum ecclesiastico, porque
+estes se reuniram e assentaram por votos da maioria, que não deviam apparecer
+ao monarcha nem concorrer ao templo. O rei só com o seu talar á porta da igreja
+que estava n'esse tempo no sitio aonde está actualmente o templo incompleto da
+Senhora do Carmo esperava o concurso no meio de maior anciedade, e nenhum se
+resolveu a entrar. A irmandade e a tropa ouviam grandes vivas ao rei, e cada um
+sonhava que eram os vivas do outro bando, e não se moviam: o rei já não podia
+esperar, porque recebeu a certeza de que o nuncio não voltava<span
+class="pagenum">[80]</span> a Villa Real, antes havia de acclamar a sua
+desgraçada e infausta commissão até Lisboa.</p>
+
+<p>Que faria? Chorava aquella desgraça e tendo resolvido correr atraz do nuncio
+para o informar e para pedir recurso do interdicto por não ter sido ouvido nem
+convencido de tão graves causas, via-se só á porta da igreja; olhou e viu a
+distancia o successor de dezeseis gerações, que caminhava para o templo com o
+poder do summo pontifice e do provigario do divino Salvador, entrou, despiu o
+habito talar e partiu.</p>
+
+<p>Nós vimos a scena que S. Affonso viu e previu, mas de que modo? Ouvimos os
+vivas, reconhecemos os dous bandos, vimos a porta meia aberta do templo, a
+estatua do homem ou do heroe, e sentiamos que se recolhia por nos vêr;
+marchamos só para o ministerio do templo, e os bandos receosos, desconfiados,
+mas desejosos de nos acompanhar não se moviam: perguntei de quem era o busto?
+que motivo tinha o povo e o exercito para se conservar em tão grande
+espectação, e recolhi a historia, que fica narrada, por muito santa e por muito
+verdadeira.</p>
+
+<p>Antes de me dirigir ao convenio, estava eu no meio de muitos individuos
+contemporaneos, que ora me convidavam para o fumo de tabaco, ora para assistir
+a algum funeral; ora me assustavam com o perigo de grandes traições<span
+class="pagenum">[81]</span> que se armavam contra nós, e como as desprezei?
+deixando-os e ficando só.</p>
+
+<p>E como levamos a narração de interdicto a esta altura devemos acrescentar em
+poucas palavras o que mais occorreu. D. Affonso devia estar cançado da lida e
+da jornada, o que mais tinha mortificado aquella indomita vontade com o receio
+do perigo que ameaçava o estado; apenas se confirmou no seu nobre intento com a
+previsão de santo remedio, cahiu cançado. Tinha em Villa Real um filho
+semelhante aos que trazia em outras terras, só este o acompanhava e seguia: com
+um afilhado que trazia nos estudos para adiantar o pobre mais esperançoso,
+porque d'isto tinha elrei cuidado e geral intendencia; e o encarregou de lhe
+trazer alguma comida, e apenas comeu logo partiu para Lamego, e o acompanhou
+aquelle mancebo, que veio a ser conde de muito e grande merecimento no reino da
+Galliza.</p>
+
+<p>Em Lamego tinha o nuncio repetido o enganoso interdicto, e partiu logo para
+Vizeu, seguiu o rei aquella falsa e perfida colera de mal avisado vaticinio até
+Vizeu, aonde viu a mesma parodia de Villa Real e a scena de Lamego, e
+preparou-se de prevenir o nuncio em Coimbra: o que conseguiu matando-se com
+trabalho, d'indomito e de invencivel lidador.</p>
+
+<p>Em toda a parte o rei encontrava ciladas de traição e de morte que o povo
+logo descobria;<span class="pagenum">[82]</span> e como julgava estes odios
+vindos d'Hespanha, matava immediatamente os traidores; e dizia: «Assim como o
+nosso rei está interdicto, nós faremos justiça.»</p>
+
+<p>Em Coimbra preveniu o nuncio, e convenceu-o facilmente da injustiça que
+commettia pelos principios do direito, e até á vista dos poderes que trazia de
+sua santidade; e reuniu um conselho de sabios, que accordou no meio que se
+devia seguir; o nuncio pareceu accordar, mas trahiu a sua missão; de madrugada
+affixou interdicto e fugiu. Então foi apanhado pelo rei com tres matadores
+d'Hespanha, e d'estes não ficou um.</p>
+<hr>
+
+<h1><a id="cap05" name="cap05">O ULTIMO CARRASCO</a></h1>
+
+<p>Luiz Negro é o nome, terrivelmente adjectivado, do ultimo carrasco legal,
+que morreu no Limoeiro, ha poucos mezes. </p>
+
+<p>Na provincia transmontana contam-se ainda, nos saraus aldeãos, as lendas
+sinistras do facinoroso soldado de dragões de Chaves.<span
+class="pagenum">[83]</span> </p>
+
+<p>O <em>Ultimo carrasco</em> é o bosquejo d'esse personagem, tão decahido da
+sua antiga importancia, mas tão considerado ainda no funccionalismo, que lhe
+concederam as honras, quando o desbalizaram do ordenado. </p>
+
+<p>O snr. visconde de Ouguella possue, do proprio pulso de Luiz Negro, o
+escorço dos factos que o constituiram homicida legal, com estipendio; todavia,
+não podemos favorecer a memoria d'este executor da justiça, asseverando que
+elle cumpriu os seus deveres; por quanto, do contexto da obra vêr-se-ha que
+Luiz Negro, quando tinha de enforcar, pagava a quem o substituisse. </p>
+
+<p>No prologo do <em>Ultimo carrasco</em>, no recamado estylo com que todos os
+seus escriptos se opulentam, o snr. visconde de Ouguella detem-se na antiga
+idéa de abolição da pena de morte. Entre os mais energicos apostolos d'essa
+humanissima missão, está Carlos Ramires Coutinho, desde que passou dos bancos
+da universidade para a tribuna forense. </p>
+
+<p>Os primeiros brados, que resoaram na imprensa, nos tribunaes e na
+consciencia publica, sahiram da alma liberrimamente generosa d'aquelle moço. Os
+annos volveram-se, os attritos do desengano desbotaram-lhe o verniz de muitas e
+queridas illusões; mas o sentir profundamente humanitario lá se lhe insurge,
+apesar dos dissabores, em pró das classes<span class="pagenum">[84]</span> cuja
+emancipação os preconceitos retardam. Nem as insignias titulares, nem o egoismo
+tão irmanado com os bens da fortuna enervaram a alliança que travou o visconde
+de Ouguella com as aspirações da democracia. Para elle o titulo não é a inerte
+e absurda indifferença de fidalgo, nem da superabundancia de meios surtiu a
+atrophia dos fidalgos sentimentos que a pobreza, talvez, obrigasse a transigir
+com a fatalidade das circumstancias. </p>
+
+<p>Queremos dizer que dos escriptos do visconde de Ouguella reveem,
+principalmente, os impulsos liberaes de um animo que não enfraquece nem
+descança na lucta. No prefacio, que vai lêr-se, do <em>Ultimo carrasco</em>
+resaltam um altissimo condoimento da ignorancia, que sob-põem o collo ao jugo,
+e uma vehemente invectiva aos que, se podessem, apagariam a immensa luz que
+lhes abriu caminho por onde se passaram dos tamboretes de couro para os
+flaccidos sophás. </p>
+
+<h1>O ULTIMO CARRASCO</h1>
+
+<h2>INTRODUCÇÃO</h2>
+
+<p>É dolorosa a tarefa. </p>
+
+<p>São pungentes, tambem, as recordações. </p>
+
+<p>Todavia a feição singular d'este nosso seculo<span
+class="pagenum">[85]</span> exige imperiosamente estas luctas, e obriga-nos a
+estas pugnas, as mais das vezes, inglorias. </p>
+
+<p>Seja assim. </p>
+
+<p>Tão rapidamente se photographam, hoje, as metamorphoses dos apostolos,
+allucinam-se com tanta promptidão os espiritos, e desvairam-se as consciencias
+em tão loucas vertigens, que temos nós&mdash;nós, os exploradores obscuros, e
+audazes obreiros&mdash;de lidar e mourejar constantemente, para affirmar, a cada
+hora, estes principios sacrosantos, que consubstanciam, e determinam a religião
+do dever. </p>
+
+<p>Ainda ha pouco, uma das mais esplendidas intelligencias da peninsula, rica
+de todas as opulencias d'este nosso sólo do occidente, marcada com o sello
+divino, precursora da boa nova, sentinella e espia vigilante das mais puras
+crenças em que se basêa a democracia, esqueceu, nos delirios que dá o mando e o
+poder, todas as inspirações, e toda a religião do povo&mdash;religião das massas,
+que, elevando-o, o engrandeceram e divinisaram&mdash;e, acommettido pelas vaidades
+pueris dos Nabuchos de todos os tempos, exilou, deportou, e fusilou como se
+fôra elle&mdash;elle, o tribuno das escolas e dos congressos&mdash;um duque d'Alva nas
+ferocidades das conquistas do imperio de Carlos V, ou um deploravel Telles
+Jordão, nascido para sicario de todas as reacções.<span
+class="pagenum">[86]</span> </p>
+
+<p>É triste, é lamentavel, é afflictivo, que o Demosthenes da peninsula
+hispanica, berço na actualidade da familia mais heroica da raça latina,
+deslembre e olvide, nas allucinações, que ensombram o fastigio do poder,
+principios inconcussos e sagrados, e venha dar senão razão, pelo menos pretexto
+a essas hordas barbaras de hunos, vandalos ou não sabemos se de bandoleiros,
+que atravessam e devastam as Vascongadas, a Navarra, e a Catalunha, missionando
+crenças, que seriam ridiculas e apenas abjectas, n'este seculo, se um rasto de
+sangue, de fogo, e de metralha não enchesse de terror e de luto as povoações
+por onde caminham e perpassam. </p>
+
+<p>Não ha razão d'estado, não ha lei de salvação popular, não ha causa nenhuma,
+por mais ardilosa, machiavelica ou especiosa que seja, que consagre nunca, e em
+caso nenhum, uma offensa feita ás leis geraes por que se rege a humanidade. </p>
+
+<p>A vida humana é inviolavel sempre, e para todo o sempre. </p>
+
+<p>Errem os homens&mdash;embora!&mdash;Succumbam momentaneamente as idéas grandiosas de
+emancipação dos povos&mdash;resignemo-nos, e esperemos. Mas salvemos todos esta arca
+santa, este sacrario das mais nobres aspirações da democracia. </p>
+
+<p>Dêmos ao <em>sacer esto</em> das doze taboas a<span
+class="pagenum">[87]</span> unica e verdadeira interpretação das sociedades
+modernas. </p>
+
+<p>Não votemos o criminoso, qualquer que seja o seu delicto ou a penalidade em
+que incorreu, aos deuses infernaes. Rehabilitando-o, votemol-o á sociedade, ás
+verdadeiras crenças, á familia, e á patria. </p>
+
+<p>A Vida do homem é sagrada. </p>
+
+<p>Como são sagrados todos os direitos absolutos, como é sagrado e mysterioso o
+fim do homem, como é sagrada, indescortinavel, desconhecida e insondavel a
+causa da existencia humana, a razão da vida harmoniosa do universo, o
+pensamento supremo, que presidiu a todos estes esplendores, que se formulam e
+desenrolam nas magnificencias da creação. </p>
+
+<p>E é o homem, na pequenez da mais miserrima e limitada existencia, na
+ignorancia fatal das suas transformações futuras, nas trevas densissimas do seu
+porvir, que diz a outro homem&mdash;a um irmão seu, ao Abel da sua raça: «Eu
+mato-te, assassino-te, á face d'este sol esplendido, em presença de toda a
+creação, com a consciencia segura e tranquilla de que Deus me ouve, me vê, e me
+escuta, em nome d'umas leis que eu inventei, e escrevi,&mdash;por que eu, homem,
+pelo facto de ser legislador e juiz arvoro-me em carrasco, e rasgo e devasso
+consciencias, analyso e preso intenções, forjo e imagino crenças, e
+condemno<span class="pagenum">[88]</span> em nome de Deus vivo, e da justiça
+absoluta de que me faço interprete, magistrado e saião!» </p>
+
+<p>Crêmos firmemente que a misericordia divina alcança ainda estas sinistras e
+ferozes aberrações dos verdugos e dos algozes. </p>
+
+<p>Perdoai a todos, Senhor, e quando o perdão da vossa infinita bondade,
+n'esses effluvios repassados de sentimento, como pai e creador, descer sobre
+nós, que a vaidade pharisaica, o orgulho ignobil de todos os sacerdocios, e de
+todas as theocracias, scepticismo inconsciente de todas as ignorancias, e a
+blasphemia perdoavel, nascida do desespero, e da miseria, achem, nas pregas do
+vosso manto d'esquecimento, lugar onde se abriguem, pela omnipotencia do vosso
+poder, e pela misericordia infinita dos vossos designios. </p>
+
+<p>Que a religião do futuro seja um hymno de gloria, um hossana de perpetuo
+louvor, onde só a myrrha e o incenso subam aos vossos altares&mdash;e que as
+carnificinas humanas desde os homicidios nos <em>dolmens</em> dos deicidas até
+ás fogueiras do fanatismo catholico desappareçam e se extingam em presença do
+verdadeiro culto, que o ente humilde, e inconsciente da sua missão, na terra,
+presta á sublime causa, ao Ente que regula e dirige o universo. </p>
+
+<p style="text-align:right;">VISCONDE DE OUGUELLA.<span
+class="pagenum">[89]</span></p>
+<hr>
+
+<h1><a id="cap06" name="cap06">CURIOSIDADES ARTISTICAS</a></h1>
+
+<p>No principio d'este seculo, as melhores pinturas ornamentavam as salas dos
+marquezes de Borba, de Angeja, de Abrantes, de Tancos, de Lavradio, de Bellas,
+e do visconde da Bahia que primava em originaes de grandes mestres. Manoel
+Joaquim Collaço e um padre João Chrysostomo, ambos de Lisboa, e ha muitos annos
+fallecidos, colleccionaram excellentes quadros. O possuidor das mais ricas
+estampas era, por esse tempo, um José Joaquim de Castro, vulgarmente chamado o
+<em>Agua de Inglaterra</em>, não sabemos se em razão de a preparar, se por
+descender do hebreu Jacob de Castro Sarmento que a inventou. </p>
+
+<p>Fr. José Mayne, confessor de D. Pedro III, legou á academia das sciencias o
+seu museu, e não sei se a sua galeria dos melhores pintores coevos, em que
+sobresahiam os quadros de Joaquim Manoel da Rocha, habilissimo na pintura da
+natureza morta. Tambem fr. Manoel<span class="pagenum">[90]</span> do Cenaculo,
+arcebispo de Evora, colleccionou soberbas pinturas, que tiveram variados e
+obscuros destinos. </p>
+
+<p>No convento de Bemfica houve um quadro original de Wandyck: era o da
+Crucifixão. Presume-se que pouco mais possue Portugal d'aquelle grande artista.
+Na sala do marquez de Alegrete (Penalva), havia um quadro de Raphael. Existia
+outro na igreja do seminario de Brancannes. Fallamos sempre no preterito,
+porque duvidamos que taes preciosidades se conservem, assalteadas, a um tempo,
+pelo desamor das artes e pelo amor ao dinheiro. </p>
+
+<p>No templo de Belem ha tres quadros de Manoel Campello. O que representa
+Jesus Christo vergado sob a cruz está na escada principal do extincto convento.
+Os outros são o da Coroação dos espinhos e o da Resurreição. </p>
+
+<p>Na tribuna da igreja de S. Roque ha o painel que representa a vinda do
+Espirito Santo: é de Gaspar Dias. Em 1740, o celebrado Pedro Guaranti
+arrebatou-se na contemplação d'aquella obra prima. É tambem do insigne pintor o
+Senhor do Horto que existe em Belem, e o de S. Roque, na capella da invocação
+do mesmo santo. São obras de primeira execução. </p>
+
+<p>No refeitorio de Belem, o quadro do nascimento de Jesus é do celebre Simão
+Rodrigues. De fr. Marcos da Cruz, coevo de D. João III,<span
+class="pagenum">[91]</span> havia na igreja do Carmo, de Lisboa, o painel de
+Santa Maria Magdalena de Paris. Os do arco cruzeiro de Jesus, já damnificados
+no fim do seculo passado, tambem eram d'elle ou se lhe attribuiam. (Vej.
+<em>Mem. hist. do ministerio do pulpito</em>, por fr. Manoel do Cenaculo, pag.
+135). </p>
+
+<p>De quadros de Vieira Lusitano temos antiga noticia de existirem o de Santo
+Agostinho na portaria do convento da Graça, o de S. Francisco na capella-mór da
+igreja, o de S. Pedro e S. Paulo em casa dos condes de Povolide, e alguns na
+igreja dos Paulistas. </p>
+
+<p>Na casa de Tancos (Atalaias) estiveram oito paineis de Jacob Bassano, pelos
+quaes o principe Eugenio (1663-1736) mandou offerecer duzentos mil cruzados,
+que foram rejeitados. Entre aquelles inestimaveis quadros havia um de Leonardo
+de Vinci, alguns de Corregio, de Miguel Angelo, de Salviati, e de Antonio
+Tempesta. Um primoroso Luiz XIV a cavallo era do famigerado Lebrun.<span
+class="pagenum">[92]</span> </p>
+<hr>
+
+<h1><a id="cap07" name="cap07">CANTADA E CARPIDA</a></h1>
+
+<p>A marqueza de Tavora, D. Leonor, justiçada no patibulo em 1759, foi a mais
+formosa fidalga das côrtes de D. João V e D. José I. </p>
+
+<p>Morreu aos cincoenta e nove annos. Subiu intrepida ao cadafalso. Parecia
+inflexivel ao espectaculo do cutelo. Nem uma lagrima, nem um gemido
+supplicante! Mas o meirinho das cadeias e tres algozes tinham ordem de lhe
+arrancarem o pranto em um mais doloroso supplicio, que não constava da
+sentença. </p>
+
+<p>Começaram, pois, mostrando-lhe, um a um, os instrumentos das execuções, que
+se haviam de fazer no marido, nos filhos e parentes: as aspas, em que deviam
+ser amarrados, as macetas de ferro com que haviam de ser-lhes quebrados os
+ossos dos braços e pernas, as cordas destinadas ao garrote, e a olandilha com
+que os desmembrados cadaveres seriam tapados até se accenderem as fogueiras.
+</p>
+
+<p>A marqueza então chorou. </p>
+
+<p>Quando o algoz lhe desvelou o collo para a degolar, D. Leonor, com gentil
+pejo, murmurou: «Não me descomponhas.»<span class="pagenum">[93]</span> </p>
+
+<p>Testemunhas d'este transe deixaram á escripta e á tradição oral que a
+marqueza era ainda magestosa no garbo, na altivez, nas reliquias admiraveis da
+belleza, raro permanecente em annos tão adiantados. </p>
+
+<p>Quando tinha cincoenta, acompanhou á India o vice-rei seu marido. </p>
+
+<p>A familia real foi despedil-os até á praia, alli mesmo áquella praia de
+Belem, onde, nove annos depois, se passou a horrenda carnagem. </p>
+
+<p>Foi em uma graciosa manhã da primavera de 1750, aos 28 de março. </p>
+
+<p>D'entre os milhares de concorrentes á praia, por onde a heroica marqueza
+demandava o bergantim da sua nau, sahiu um poeta dos melhores entre os pessimos
+d'aquelle tempo, ajoelhou diante da vice-rainha, e depositou-lhe na mão, que o
+levantava da postura humilde, um rolo de papel atado por laçaria de seda
+variegada. </p>
+
+<p>A marqueza desenrolou, leu as primeiras linhas, sorriu-se amoravelmente, e
+disse: </p>
+
+<p>&mdash;Não lhe perdôo a lisonja. Esqueceu-se que tenho cincoenta annos? </p>
+
+<p>&mdash;A natureza é que se esqueceu de v. exc.ª depois que lhe aperfeiçoou os
+vinte e cinco annos&mdash;respondeu o galã. </p>
+
+<p>A poesia constava d'isto:<span class="pagenum">[94]</span> </p>
+
+<p style="text-indent: -1em; margin-left: 1em;"><small>Á ILL.<sup>ma</sup> E
+EXC.<sup>ma</sup> SNR.ª MARQUEZA DE TAVORA NA HEROICA RESOLUÇÃO DE ACOMPANHAR
+SEU QUERIDO ESPOSO, O SNR. MARQUEZ DE TAVORA AOS ESTADOS DA INDIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vai, ó formosa heroina!<br>
+ do mar essas ondas sulca;<br>
+ que, se és Venus na belleza,<br>
+ Venus nasceu das espumas.<br>
+ <br>
+ Vai, divindade, não temas<br>
+ da salgada agua as furias,<br>
+ que até impera nos mares<br>
+ a immortal formosura.<br>
+ <br>
+ Vai ser de Thetis inveja,<br>
+ ser de Neptuno ventura,<br>
+ das sereias lindo encanto,<br>
+ das nymphas formosa injuria.<br>
+ <br>
+ Os tritões, e as nereidas<br>
+ sendo alegres testemunhas,<br>
+ a nau carroça, tu, deusa,<br>
+ passeia as ondas ceruleas.<br>
+ <br>
+ Vai, que é pequeno hemispherio<br>
+ um só mundo ás luzes tuas,<br>
+ e quem em um só não cabe<br>
+ justamente o outro busca.<br>
+ <br>
+ São do sol os diamantes<br>
+ producção brilhante, e sua;<br>
+ se produz lá um sol tantos,<br>
+ tres que farão? Conjunctura.<span class="pagenum">[95]</span><br>
+ <br>
+ Vai examinar o Oriente<br>
+ d'onde sahe a luz mais pura;<br>
+ verás do teu nascimento<br>
+ pelo exemplar copia justa.<br>
+ <br>
+ Vai, que d'esta vez, senhora,<br>
+ ficará, por tua industria,<br>
+ a valentia formosa,<br>
+ a formosura robusta.<br>
+ <br>
+ Vai, vai só com teu esposo,<br>
+ tudo o mais creio se escusa;<br>
+ onde basta a sua fama,<br>
+ sobeja a sua figura.<br>
+ <br>
+ Sem violencia no estrago<br>
+ terão teus raios fortuna;<br>
+ se ao sol barbaros adoram,<br>
+ logo que chegas, triumphas.<br>
+ <br>
+ Interesse, e não fineza<br>
+ tua heroica acção inculca;<br>
+ com este excesso que obras<br>
+ immortal gloria procuras.<br>
+ <br>
+ Se anima entre os dous corpos<br>
+ uma só alma, e não duas,<br>
+ pois a não partes na ausencia,<br>
+ melhor a vida asseguras.<br>
+ <br>
+ Á dôr da saudade foges,<br>
+ tens razão, mostras desculpa<br>
+ por um estrago suave<br>
+ trocar uma morte dura.<span class="pagenum">[96]</span><br>
+ <br>
+ Agua, e fogo são contrarios,<br>
+ teu amor naturaes muda;<br>
+ pois faz em novo milagre<br>
+ que o incendio ao mar se una.<br>
+ <br>
+ Vai! Conheça o mundo todo,<br>
+ mais alto poder divulga,<br>
+ que o sexo que em ti domina,<br>
+ o sangue que em ti circula.<br>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>As esperanças bem fundadas na sensatez e bravura do marquez de Tavora não
+foram menos cantadas que a gentileza da esposa. O regulo Canajá, infesto
+devastador de Diu, sentiu-lhe o peso do braço vencedor. Arderam as esquadras do
+inimigo, espavoridas ainda do arrazamento da fortaleza de Neudabel. O Bounsuló
+e o Marata fugiram-lhe a furia, levantando o assedio de Neutim. O rei de Sunda
+perdeu os seus fortes, e as terras de Pondá e Zambaulim. Em quatro annos de
+vice-reinado, o marquez de Tavora ceifára louros que lhe promettiam sombra e
+gloriosa resalva das contrariedades da fortuna. </p>
+
+<p>E, apenas devolvidos cinco annos, depois que desembarcára, n'aquella mesma
+praia de Belem, que espectaculo! Um algoz lhe mostra os corpos despedaçados da
+esposa, dos filhos e do genro. Depois explica-lhe por miudo<span
+class="pagenum">[97]</span> a acção dos instrumentos que o vão atormentar. E
+depois... </p>
+
+<p>Repugnam os sabidos pormenores d'aquelle supplicio. </p>
+
+<p>A descripção previa, feita aos padecentes, diz o snr. Soriano, na
+<em>Historia do reinado d'el-rei D. José I</em>, que deve com toda a razão ser
+attribuida ao cruel e ferocissimo coração de Sebastião José de Carvalho. </p>
+
+<p>Ora, o snr. John Smith, author das <em>Memorias do marquez de Pombal</em>,
+diz que todas as ferocidades d'aquelle supplicio, constantes e não constantes
+da sentença, promanaram directamente do coração de D. José I. </p>
+
+<p>Lá se avenham os dous algozes na presença do Supremo Juiz. </p>
+<hr>
+
+<h1><a id="cap08" name="cap08">BIBLIOGRAPHIA</a></h1>
+
+<p class="sc" style="text-align:center;">(Henry Murger&mdash;Pinheiro Chagas)</p>
+
+<p><span class="sc">Henry Murger.</span> <em>Scenas da vida de Bohemia</em>,
+traducção de <span class="sc">Gustavo A. Barbosa</span>. <em>Livraria
+Internacional</em>. Porto. 1874, 8.º&mdash;424 pag.&mdash;É um romance urdido com os
+brilhantes fios da mais extravagante, verdadeira e esplendida vida de uns
+rapazes francezes que, ha quarenta annos, se chamavam os
+<em>bohemios</em>,<span class="pagenum">[98]</span> e depois attingiram o
+galarim das artes e letras, e encheram o mundo com o seu nome. D'esses, ainda
+ha poucos annos, sobreviviam cinco ou seis que voltavam ao passado a vista do
+coração&mdash;o olhar lagrimoso da saudade&mdash;em busca dos alegres convivas, ceifados
+pela morte, quando as messes da gloria, o ouro e a consideração não bastavam a
+esquecel-os da ridente pobreza da sua mocidade. Adivinham-se, no romance, os
+nomes mal disfarçados nos pseudonymos. Os grandes pintores, os criticos
+intrepidos, os dramaturgos laureados, os arrebatados poetas, os historiadores
+austeros, todos ahi entreluzem de entre as risonhas ficções, pintadas pelo
+scintillante estylo de Henry Murger. </p>
+
+<p>Quanto á versão portugueza, é uma das mais aprimoradas que ainda vimos&mdash;um
+verdadeiro trabalho de intelligente e consciencioso esmero. O traductor arcou
+pertinazmente com as maximas difficuldades do original. Nenhum neologismo lhe
+afrouxou o alento na transposição acertada com que o aproximou da phrase
+portugueza. Por maneira que, a espaços, não se estremam bem as indoles das duas
+linguas, como se, entre nós, corressem analogas subtilezas no dizer, e as
+mesmas analogias do pensamento. Assim, comprehende-se que as traducções sejam
+thesouros literariamente portuguezes; e ao esclarecido traductor<span
+class="pagenum">[99]</span> cabe distincto lugar entre os sabedores das duas
+linguas. E, quando de par com o estudo se allia o deleite do enredo, o livro,
+que proporciona dous prazeres tão pouco vulgares, é um livro excellente. </p>
+<hr style="width:30%;">
+
+<p><em>O Terremoto de Lisboa</em>, romance historico, por <span class="sc">M.
+Pinheiro Chagas</span>. Lisboa. <em>Livraria editora</em> de Mattos Moreira
+&amp; C.ª, 1874.&mdash;Haveria razão para não exigir livros primorosos de escriptor
+tão fecundo e variado em differentes ramos das letras; mas, no author d'este
+livro, manifesta-se a rara excepção que constitue o engenho distincto. A
+fertilidade não lesa o detido cuidado no esmeril da linguagem. Os raptos da
+imaginação não descuram a cadencia da linguagem, o torneio da phrase, o decoro
+e pompa d'este nosso formoso idioma que só desserve aos que o exercitam com
+insufficiente estudo. N'este romance do <em>Terremoto de Lisboa</em>, pautou o
+snr. Pinheiro Chagas com rigoroso lapis os delineamentos das figuras
+historicas. Diogo de Mendonça e Sebastião José de Carvalho avultam aqui na tela
+romantica fidelissimos aos originaes da historia. Todavia, se, por vezes, o
+louvor tece corôas ao valido de D. José I com demasiado colorido de flôres
+salpicadas do sangue de illustres<span class="pagenum">[100]</span> e
+innocentes victimas, isso é um modo de ver pela lente da politica, em cuja
+apreciação eu não entro, nem me arrogo o jus de contestar ao excellente
+romancista a veridicidade dos seus conceitos. As notaveis bellezas d'este
+romance assentam na habilidade da contextura, no tino com que as peripecias
+convergem para o desenlace justificado pelo titulo. Pelo que é da excellencia
+secundaria em uma novella, o estylo, isso é já de sobra apreciado nos muitos,
+posto que rapidos, trabalhos de Pinheiro Chagas. A florescencia é sobria, os
+atavios não estofam a penuria da idéa, os ornatos frisam rigorosamente com a
+conveniencia dos lances. Denominamos «secundaria» a excellencia do estylo em
+romances, porque sabemos, de propria experiencia, que os livros d'esta especie,
+mais lapidados, e, no dizer antigo, mais penteados na phrase, são, por via de
+regra, os menormente bem-quistos da maioria de leitores que desadoram palavras
+que lhes não sejam da maior familiaridade. Tem, todavia, o snr. Pinheiro Chagas
+o raro condão de escrever para todos, e a todos, lidos e não lidos, deve o
+abalizado escriptor a sua grande popularidade. </p>
+
+<p class="centrado">FIM DO 10.º NUMERO</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
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+não póde dormir. Nº 10 (de 12), by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 10 (DE 12) ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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+
+
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+works. See paragraph 1.E below.
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+
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+Literary Archive Foundation
+
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
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+status with the IRS.
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+charities and charitable donations in all 50 states of the United
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+works.
+
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
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+
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