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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:39:01 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Talitha + evangelho em tres actos + +Author: Pinto da Rocha + +Release Date: April 29, 2009 [EBook #28639] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK TALITHA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + Pinto da Rocha + + TALITHA + + EVANGELHO EM TRES ACTOS + + Segunda Edição + + + + + LIVRARIA CHARDRON + DE LELLO & IRMÃO + Carmelitas, 144-Porto + 1909 + + + + + TALITHA + + + + + Pinto da Rocha + + TALITHA + + EVANGELHO EM TRES ACTOS + + Segunda Edição + + + + + LIVRARIA CHARDRON + DE LELLO & IRMÃO + Carmelitas, 144-Porto + 1909 + + + + +O _accordo_ assignado no Rio de Janeiro, em 9 de Setembro de 1889, entre +o Brazil e Portugal, assegurou o direito de propriedade literaria e +artistica em ambos os paizes. + + +A presente edição está devidamente registada nas _Bibliothecas +Nacionaes_, de Lisboa e Rio de Janeiro. + +Imprensa Moderna, de Manoel Lello +R. da Rainha D. Amelia, 61--PORTO +Grande premio na Exposição do Rio de Janeiro de 1908 + + + + +PERSONAGENS + + TALITHA, céga 18 annos + JOÃO FULGENCIO, cura da aldeia 80 " + DR. RUY DE ORNELLAS, medico 25 " + JOAQUINA, irmã do cura 65 " + MARQUEZA DE RILMA 50 " + Um escudeiro--Camponezas--Lavradores + +A acção passa-se em uma aldeia da Provincia de Traz-os-Montes, Portugal + +ACTUALIDADE + + + + +INTERPRETAÇÃO + +NO RIO DE JANEIRO EM 1906 + + Talitha Maria Falcão + Joaquina Jesuina Saraiva + Marqueza de Rilma Barbara Wolckart + João Fulgencio Chaby Pinheiro + Ruy de Ornellas Henrique Alves + +NO RIO GRANDE DO SUL EM 1907 + + Talitha Maria Falcão + Joaquina Maria Pinheiro + Marqueza de Rilma Olivia de Almeida + João Fulgencio Chaby Pinheiro + Ruy de Ornellas João Lopes + +A _Talitha_ subiu á scena, pela primeira vez, no Theatro Apollo, do Rio +de Janeiro, em Agosto de 1906, na festa artistica da eximia actriz Maria +Falcão. + + + + + E tomando a mão da menina disse-lhe: + --Talitha cumi:--Filhinha levanta-te. + + _Novo Testamento._ S. Marcos, V. 41. + + + + +PRIMEIRO ACTO + +Jardim, na residencia do Cura.--Á direita, um banco de pedra junto a um +poço: á esquerda, frontaria da casa. Grade ao fundo, com portão.--Vista +de estrada e campo. + + +SCENA I + +Joaquina e Ruy + +Joaquina + + Louvado seja Deus! Como está bello e forte! + +Ruy + + É verdade, Joaquina, o clima aqui da terra + encheu-me novamente o coração de alento. + Posso dizer que entrei neste bondoso lar + vigiado, sem dó, pelos olhos da morte. + E agora, a luz do Sol, os perfumes da serra, + as aguas desta fonte, o sadio alimento, + o seu cuidado santo, amigo e tutelar, + fizeram-me robusto. + +Joaquina + + E Deus não lhe fez nada? + +Ruy + + Foi elle quem salvou a minha mocidade, + porque a divina mão que fez os céos e os montes, + que deu flores á terra e deu frescura ás fontes, + que faz vibrar a luz e a voz da passarada, + que impelle a nuvem branca em plena immensidade, + um dia vos creou as almas caridosas + que vivem nesta casa, humildes e serenas, + felizes com o Bem, suaves como as rosas, + mais simples do que o trigo, a neve e as açucenas! + +Joaquina + + Então, menino, crê tambem que Deus existe?! + +Ruy + + De certo, minha amiga. + +Joaquina + + E não é um hereje, + dessa raça maldita e negra que desmente + as obras do Senhor? + +Ruy + + Ingenua creatura! + É tão alegre a crença e não crêr é tão triste, + que mesmo sem querer o coração da gente + acredita num Deus que todo o mundo rege, + num Pae que assim te deu alma simples e pura! + Faz tanto bem, Joaquina, acreditar em Deus + e adormecer á noite abrindo a consciencia + aos beijos do luar, sorrir de madrugada + á frescura que vem do azul ethereo e vasto, + que o nosso olhar ascende ás amplidões dos céos + sem esforço nenhum, como a espiral da essencia + que se evola da flôr, se a abelha delicada + lhe poisa na corolla o vôo leve e casto! + +Joaquina + + Bemdito seja Deus! Não póde imaginar + como eu fico contente ouvindo assim fallar!... + +Ruy + + Mas que idéa fazia então de mim? Julgava + talvez que eu fosse atheu? + +Joaquina, _benzendo-se_ + + Deus me perdôe... pensava! + +Ruy + + Como poude a sua alma angelica e tão boa + fazer-me, sem motivo, essa enorme injustiça? + +Joaquina + + Ah! mas não foi por mal, nem o pensei á tôa: + eu nunca o vi rezar, eu nunca o vi na missa... + E a gente vê só cara e não vê corações... + +Ruy + + E se o visse, Joaquina!... + +Joaquina + + E que é que me servia + o ver-lhe o coração? + +Ruy + + Nada, é certo. Entretanto + conheceria bem as minhas intenções, + a esperança que faz brotar, em cada dia + que passa, um pensamento alegre, puro e santo... + +Joaquina, _interrompendo_ + + É, mas diz o rifão que está o inferno cheio + de boas intenções!... + +Ruy + + Tem razão; mas não minto + se lhe disser tambem, lealmente, o que sinto: + ás vezes mais parece um verdadeiro inferno + este peito infeliz... + +Joaquina, _benzendo-se_ + + Abrenuncio, menino!... + Mas que blasphemia a sua e que peccado feio!... + Um homem que acredita em Deus, bondoso e eterno, + em Deus Nosso Senhor, não diz tal desatino!... + Virgem Maria! Credo! + +Ruy + + Alma boa de santa!... + A tua vida inteira adormeceu. A aurora + já para ti não tem aquelle brilho vivo + que a primavera, em luz, alastra pelos campos... + Tudo se transformou em outra vida; agora + a fonte já soluça, a brisa já não canta; + aos teus olhos a lua é d'um fulgor esquivo, + o sol não tem calor, o céo já não é glastro, + as estrellas febris parecem pirilampos; + trazes o teu olhar constantemente a rastro; + sómente a fé te anima; é por isso que extranhas + o inferno abrasador que muita vez domina + a minha mocidade. + +Joaquina, _com sorriso_ + + Isso me bacoreja + algum amor perdido ahi por essas eiras... + +Ruy + + É possivel, quem sabe? Os ares das montanhas + tem caprichos assim, póde bem ser, Joaquina! + +Joaquina, _cariciosa_ + + E diga-me, que olhar é esse que negreja + a sua vida alegre? Ha tantas feiticeiras!... + +Ruy, _enleiado_ + + Que olhar? + +Joaquina, _interrompendo_ + + Mas é segredo? + +Ruy + + É, por ora é segredo... + +Joaquina + + Ah! não confia em mim?! bem sei, bem sei, tem medo + que eu descubra o mysterio, a princeza encantada + que assim lhe traz a vida em tantas amarguras... + +Ruy + + Não é mysterio, não. É... cousa complicada!... + +Joaquina + + Faz muito bem zelar a flôr dos seus amores; + não os conte a ninguem; se acaso as desventuras + lhe roubarem o somno agarre-se com Deus... + +_tomando-lhe a mão e fallando-lhe ao ouvido_ + + Reze constantemente á Senhora das Dôres. + Acceite este rosario e tenha-o por bordão. + É bemaventurado aquelle que padece, + porque é delle, menino, o reino azul dos céos... + E Deus a quem promette estende sempre o pão; + reze e será feliz... Essa alma bem merece... + +Ruy + + Santa velhinha, santa... + +Joaquina, _tapando-lhe a bocca_ + + E nem um ai, silencio... + Olhe quem vem ali... + +Ruy, _voltando-se_ + + O Padre João Fulgencio + e Talitha; meu Deus!... Pobre, infeliz Talitha!... + +Joaquina, _a Ruy_ + + Parece que ficou um tanto atrapalhado... + +Ruy, _encobrindo a verdade_ + + Sempre que a vejo, assim tão cheia de bondade e + céga... + +Joaquina + + Então, que sente?... + +Ruy + + Uma dôr inaudita, + que reveste de luto as minhas alegrias: + + Ha tanta luz espalhada + na concha astral dos espaços! + E os olhos della tão baços! + E a fronte tão macerada! + + +SCENA II + +Os mesmos, Padre João e Talitha + +_Talitha vem apoiada ao braço de padre João_ + +Padre + + Pois Deus Nosso Senhor nos dê muitos bons dias. + +_assenta Talitha: a Ruy, apertando-lhe a mão_ + + Como passou a noute? + +Ruy + + Assim; mais descançado... + Sonhando... E o Senhor Cura?... + +Padre + + Eu? Ah! na minha idade + já se não dorme; eu passo a noute toda em claro, + de rosario na mão, pedindo a Deus por nós! + E quando surge o dia e mal o Sol desponta, + dando o braço a Talitha, encaminho-me á Egreja. + +Talitha + + Diz a missa que ou ouço... + +Padre + + E é raro, muito raro, + voltarmos ella e eu, da Egreja a casa, sós. + Ás vezes vem comnosco esse infeliz sargento + que arrasta por ahi o longo soffrimento, + velho e cego tambem, e eu, mortiça candeia, + a conduzir os dois pelas ruas da aldeia! + +Talitha + + Mas o senhor doutor, por mim nunca dei conta, + nem uma vez, sequer, nos acompanhou! Veja! + No emtanto está comnosco ha sete mezes, não? + +Joaquina + + Isso mesmo eu já disse... + +Ruy + + Eu dei a explicação... + +Talitha + + E poder-se-á saber? Não é curiosidade? + +Padre + + Talvez seja, talvez... + +Ruy + + Não é! + +Talitha + + Então ouçamos!... + +Ruy + + Eu rezo no silencio o santo sacrificio, + no fundo de minh'alma elevo o meu altar, + sob o docel azul das minhas esperanças!... + +Padre + + E eu sem conhecer mais essa novidade!... + +Talitha + + Qual? + +Padre + + Esta que o Doutor nos deu, mas aprendamos... + +Ruy + + Padre não é sómente aquelle que a rezar + esgota uma existencia ao peso do cilicio + e vae pelas manhans, feliz como as creanças, + curvar humildemente a fronte e a consciencia, + na sombra da capella, aos pés do Redemptor... + +Talitha + + Mas ha d'outros, então? + +Padre + + Eu não conheço, filha! + +Ruy + + Sacerdote é tambem aquelle que tem culto + ao qual offereceu toda a sua existencia. + Padre, quem se dedica um dia com fervor + a amar alguem na terra a cujos pés se humilha, + tambem é sacerdote... + +Padre + + E eu, sacerdote, exulto + ouvindo do seu labio esta expressão severa. + +Joaquina, _que tem guardado silencio, enlevada pelas palavras de Ruy_ + + Bemdito seja Deus! menino, quem me dera + conhecer a mulher que tem um filho assim... + +Talitha + + Só eu não posso vêl-o!... + +Ruy, _entre alegre e enleado_ + + Obrigado, Talitha! + +Talitha + + Não tem que agradecer, disse-o sinceramente! + Que póde desejar mais uma céga, diga?... + +Padre + + Mas conforma-te, filha, espera que o Senhor, + ouvindo-me a oração, tenha pena de mim + e acuda com remedio ao mal dessa desdita! + +Ruy + + Como eu fôra feliz... + +Joaquina + + E eu seria contente!... + +Ruy + + Se pudesse voltar, ó minha boa amiga, + aos seus olhos de céga o perdido fulgor!... + +Talitha + + Nunca mais, nunca mais... + +Padre + + Porque é que te condemnas + se toda a nossa vida é uma esperança apenas?... + +Talitha + + Se é toda de esperanças esta vida, + já me fugiu aquella que voava + bem junto do meu seio e que roçava + sobre a minh'alma a aza foragida. + + Nem sei onde ella vae, talvez perdida + nao volte a mim por não morrer escrava + na escuridão da noite immensa e cava + dos meus olhos sem luz e sem guarida... + + Nunca mais fulgirás, dôce promessa, + na minha treva densa e prematura, + como o branco luar em noite espessa. + + Se vive, o olhar dos cégos não fulgura, + dorme na sombra e de sonhar não cessa + na tristeza sem fim da noite escura! + +Ruy + + Não descreia, Talitha, as suas illusões + não fugiram, por ora, esparsas na lufada! + Quem foi que lhe roubou a ultima esperança, + que braços sem caricia, ou duras privações + lhe puderam vibrar tão rude punhalada? + Pois bem, toda a minh'alma alegre se abalança + a dizer-lhe, Talitha:--o seu formoso olhar + tão cheio de fulgor, um dia ha de voltar... + +Joaquina + + Só milagre de Deus! + +Padre + + E Deus póde fazel-o: + é Pae de todos nós! + +Talitha, _com desanimo_ + + Tenho rezado tanto! + +Ruy + + Implore mais ainda, espere, tenha crença! + +Talitha + + Tenho pedido muito e tanto me flagello + que banho as orações nas bagas do meu pranto + e aqueço-as ao calor da minha dôr immensa. + A mesma escuridão tremenda me apavora, + nem um raio do luz, nem um vago lampejo; + nunca mais hei de vêr o campo que se inflora + nem do luar terei um luminoso beijo... + +Padre + + A tua redempção ainda não surgiu... + +Joaquina, _pondo as mãos_ + + Eu tenho tanta fé! + +Ruy + + O meu presentimento + não sei o que me diz... + +Talitha + + Que o coração sentiu, + que a sua alma pensou nessa dôce ventura, + eu creio porque sei quanto é nobre e bondoso. + Mas eu creio tambem que o meu cruel tormento + sómente acabará no chão da sepultura, + onde tudo tem fim, embora tenebroso!... + +Padre, _olhando o céo_ + + Perdôa-lhe, Senhor, ella ignora o que diz... + Se tem soffrido tanto esta pobre infeliz!... + +Talitha + + Eu sei bem o que disse; a minha crença é essa. + Ha muito que eu imploro ao céo a protecção + e rezo com fervor á dôce Conceição, + pedindo-lhe, a chorar de dôr, que não esqueça + a minha noite escura e tristemente agreste + como a sombra que faz a copa de um cypreste. + Aos pés do seu altar curvei-me como escrava + e emquanto pela igreja o incenso espiralava, + e as simples orações subiam na espiral, + fechei-me na mudez do meu fervor mental + e fiz uma promessa... + +Ruy, _com interesse_ + + E então qual foi, Talitha? + +Talitha + + Votar a minha vida ao divino serviço, + se um dia terminasse o meu padecimento; + nem peço mais a Deus, é tudo o que cubiço. + +Ruy + + E se tornar a ver? + +Talitha + + Entrarei num convento + a vestir o burel de freira Carmelita. + +Padre, _crente, pondo as mãos_ + + Se Deus te ouvisse, filha! + +Joaquina, _com uncção religiosa_ + + E o Bom Jesus quizesse!... + +Ruy, _com amargura_ + + Se tivera valor a minha humilde prece!... + +Talitha, _curiosa_ + + Se tivera valor, que lhe faria, Ruy? + +Ruy + + Não pediria a Deus esse milagre extremo... + +Talitha + + Porque? + +Ruy + + Porque seria arrancal-a da treva + e lançal-a de novo em mais cruel negrura. + Juntando toda a fé que de minh'alma flúe + eu iria pedir, como um favor supremo, + que as almas alevanta e os corações eleva, + que me guiasse a mão na lucida aventura + de devolver-lhe um dia ao seu olhar perdido + aquelle brilho antigo e aquelle ardor de outr'ora + que faziam inveja ao proprio olhar de Flóra! + +Padre + + E seria capaz? + +Joaquina + + Credo! + +_Sae_ + + +SCENA III + +Padre João, Ruy e Talitha + +Ruy + + E tão convencido + estou de que o Senhor a mão me guiaria + nesse instante feliz, que não hesitaria + um momento sequer... A simples catarata + é facil de operar e em dez dias exactos + Talitha voltaria á luz que o céo desata + e que dá vida á terra, aos fructos e aos regatos!... + Pense, Talitha, pense e permitta que eu faça + esse dôce milagre. + +Talitha + + E eu tornarei a vêr + o presbyterio, a fonte, a madrugada, as aves, + as abelhas sugando o mel dos jasmineiros? + +Ruy + + Os seus olhos verão a luz da eterna graça + no sorriso gracil da alvorada, ao nascer + nas bandas do oriente em nuvens tão suaves, + como um rebanho astral de timidos cordeiros! + +Talitha + + E que mais hei de vêr? + +Ruy + + Que mais? Verá tambem + um velhinho a sorrir com lagrimas na face, + e uma velhinha branca e trémula a chorar, + e ao pé delles, alegre, o olhar de mais alguem, + numa dôce oração tão leve e tão feliz, + como se a propria brisa aqui se demorasse + um momentinho só tambem para rezar! + +Talitha, _alegre_ + + E eu voltarei de novo aos encantos da luz? + E hei de vêr tambem o jardim do mosteiro + onde floresce a fé que a nossa vida arrima, + as rosas enfeitando a Virgem que as anima, + o corpo de Jesus exanime e trigueiro, + entre cirios a arder, deitado sobre a cruz?... + E então assim feliz... + +Ruy, _interrompendo_ + + E então, Talitha, e então? + +Talitha + + Rezarei pelo Ruy, tão bom, tão generoso, + que trouxe ao meu olhar escuro e tormentoso + a esmola angelical d'um lucido clarão! + + +SCENA IV + +Os mesmos e Joaquina + +Joaquina, _entrando_ + + Padre Cura, uma carta. + +Padre + + Uma carta? Mas donde? + +_recebe-a e examina_ + + Hum! e de quem será? + +Talitha + + Joaquina, dê-me o braço... + +_Joaquina dá-lhe o braço. A Ruy_ + + Dr. Ruy, até já. + +_ao cura_ + + Até já, meu Padrinho... + +Ruy, _que se tem conservado triste_ + + Talitha!... + +Talitha, _voltando-se_ + + Meu Senhor!... + +Ruy, _indo a ella_ + + Perdão, Talitha... nada! + +Talitha + + Arrependeu-se, não? E tambem não responde... + Desconfia de mim?... Outro tanto eu não faço + Doutor, a seu respeito; eu bem sei, adivinho... + +Ruy, _com interesse_ + + Que foi que adivinhou? + +Talitha, _com malicia_ + + Uma coisa adorada... + que só tres corações conhecem bem: o seu, + o della, e o Senhor que tudo vê do céo... + +Ruy, _admirado_ + + Della, Talitha, quem? + +Joaquina, _com intenção_ + + Daquella princesinha + d'olhos da côr do céo, vestida de andorinha... + +Talitha + + Ouviu, Doutor, ouviu? + +Ruy + + Juro... + +Talitha, _interrompendo_ + + Não jure falso!... + +_a Joaquina_ + + Vamos, Madrinha, embora: é tempo de almoçar. + +_sahem_ + + +SCENA V + +Padre João e Ruy + +_Desde que recebe a carta, Padre João lê com a maior attenção. Pela sua +face corre toda a expressão de espanto que vae recebendo. Quando sahem +Joaquina e Talitha, o Padre conclue a leitura e fica a meditar. Ao +approximar-se Ruy, suspende-se._ + +Padre + + Esta agora é que foi! + +Ruy + + E que foi, Senhor Cura? + +Padre + + Quem sabe? Póde ser um pequeno precalço, + mas póde ser tambem que venha de mistura + alguma dôr maior. E não posso evitar!... + +Ruy + + O que essa carta diz deixou sua alma afflicta: + um segredo talvez que vive no seu seio?!... + +Padre + + Foi, sim, mas ja não é. Agora só receio + que m'a levem daqui... + +Ruy + + Que a levem? quem? + +Padre + + Talitha... + +Ruy + + E quem a levará deste remanso augusto? + O convento, a promessa?... + +Padre + + Oh! não... + +Ruy + + Não tenha susto! + E quem mais poderá, nesse caso, arrancal-a + do lar em que nasceu? + +Padre + + A Mãe... + +Ruy, _surprehendido_ + + Ah! mas... então... + +Padre, _baixinho_ + + Então... já percebeu?! Ella foi engeitada... + Eis aqui o segredo em que esta vida abraço. + +_baixa a cabeça, scismando_ + +Ruy, _depois de uma pausa_ + + Oh! meiga creatura! + +Padre + + E não poder salval-a!... + +Ruy + + Engeitada!... + +Padre + + Sim, sim. Ao romper da alvorada. + Ha muito tempo já. Inda no céo brilhava + a estrella da manhã; vieram procurar-me; + bateram ao portal com desusado alarme... + Ergui-me e fui abrir; a neve branqueava + os campos e eu pensei que um pobre moribundo, + no momento supremo em que deixava o mundo, + quizesse receber da minha propria mão + o balsamo final da santa extrema-uncção, + e abri desta choupana a porta sempre franca. + Parecia o jardim uma toalha branca. + Era um frio cruel, cortava como fôsse + o gume de uma faca e o fio de uma fouce... + Sahi, olhei em roda e já não vi ninguem. + No céo luzia só a estrella de Bethlem! + Não sei porque a fitei nesse feliz momento. + Um silencio profundo amordaçava o vento; + dormia a natureza um somno indefinido, + vibrou então no espaço um timido vagido... + Estremeci de horror... + +Ruy, _com anciedade_ + + Era a pobre Talitha?! + +Padre + + Approximei-me e vi, aqui junto do banco + um cestinho de verga envolto em panno branco. + Banhou-me o coração uma dôr infinita. + Na tragica mudez da alvorada deserta + tomei nas mãos, tremendo, a delicada offerta + e agasalhei-a ao peito, assim, para aquecel-a + como quem agasalha o corpo de uma estrella + que tombasse do céo... + +Ruy, _com mais anciedade_ + + E esse penhor amigo?!... + +Padre + + A meu lado cresceu e formou-se o thesoiro, + alma rica de luz, feita de amor e d'oiro. + Parece que ao romper daquella madrugada + tão fria, tão cruel, mas tão abençoada, + que eu lembro com saudade e que inda hoje bemdigo, + teve o banho castalio, o baptismo de luz + da mesma estrella exul que baptisou Jesus. + Por isso é que minh'alma agora não sopita + a magua de perdel-a... + +Ruy + + E quem terá coragem + energica e viril de arrebatar Talitha + ao seu amor leal e bom, dôce miragem, + no deserto feliz desta velhice austera? + +Padre + + A mãe que a vem buscar... + +Ruy + + A mãe não tem direito... + A mãe que engeita a filha é peior que uma fera! + +Padre + + Mas é mãe!... + +Ruy + + Sim, será, sem coração no peito. + +Padre + + Engana-se, doutor, a mãe que hoje a reclama, + depois de tanto tempo, é que lhe tem amor... + +Ruy + + Como a engeitou, então? + +Padre + + A fera tambem ama... + Quem sabe o que terá soffrido essa mulher? + Sabe-o sómente o céo, calcule-o quem puder. + E diz-me o coração que vou perdel-a em breve. + +_Erguendo as mãos ao céo_ + + Não me tires, meu Deus, esse gentil penhor! + Repara que já tenho os cabellos de neve, + tão tremulas as mãos, e os labios descorados, + como sonhos que vão batidos e levados + num extremo soluço... O que eu tenho no mundo, + pouco mais é que um ai e o golpe agora é fundo! + +_Enxuga os olhos e sáe_ + + +SCENA VI + +Ruy e Talitha + +_Ruy vê sahir o Padre e fica pensativo, fitando os olhos no chão, +sentado no banco de pedra. Depois de uma pausa, Talitha desce, +tacteando, até junto delle._ + +Talitha + + Padrinho, então não vem? + +Ruy, _sobresaltado_ + + Ah! Talitha... + +Talitha + + Perdão! + Pensei que estava aqui... + +Ruy + + Já se foi... + +Talitha + + Obrigada... + +_Vae retirar-se_ + +Ruy + + Talitha! + +Talitha + + Senhor Ruy! + +Ruy + + O seu bom coração + inda não lhe contou, baixo, muito baixinho, + quasi a tremer de medo e susto, um segredinho, + diga, não lhe contou? + +Talitha, _com muita simplicidade_ + + Que pergunta engraçada! + +Ruy + + E vive então sereno? + +Talitha + + Ah! Sim, tenho certeza! + +Ruy + + É bem feliz, Talitha, a sua singeleza! + Outro tanto, porém, ao meu já não succede + que o sinto palpitar acceleradamente, + como quem vae fallar e o soffrimento impede. + +Talitha + + Eu bem lh'o disse ha pouco... + +Ruy + + Entretanto eu lhe juro... + +Talitha, _interrompendo_ + + Não jure que é peccado a jura de quem sente + que não diz a verdade. É mais bello e mais puro + não negar. + +Ruy + + Tem razão, mas eu não disse, ainda + qual era o juramento... + +Talitha, _ingenua_ + + E qualquer que elle seja... + +Ruy + + Diga, diga o que sente... + +Talitha + + Ha de ser... + +Ruy, _curioso_ + + Ha de ser? + +Talitha + + Não digo... + +Ruy + + Diga, sim, a sua voz bemvinda + ha de me dar a esmola honesta e bemfazeja + que a minh'alma sem luz precisa de viver. + E do seu labio casto apenas um sorriso + vale mais que uma estrella e rasga um paraiso. + +Talitha + + Assim o quer, direi; jamais o seu protesto + póde ser verdadeiro... + +Ruy + + E porque não, Talitha?... + +Talitha + + Não sei, não sei porque. A jura é como o gesto + que abala fortemente, a nossa vida agita, + mas passa e foge... + +Ruy + + Ah! sim, quando falla sómente + o labio, sem fallar tambem o coração... + Ah! de certo que assim o labio sempre mente. + Mas quando o sangue estúa e faz tremer a mão + de quem jura, Talitha, ou quando a fronte em braza, + apenas num momento, empallidece e tomba, + bem como se a roçára a ponta fria da aza + feita de gelo e dôr de alguma extranha pomba, + quando um homem que sempre olhou de frente o sol + tem medo de encarar o olhar de um rouxinol, + e treme até de ouvir-lhe a voz encantadora, + quem sempre ouviu sorrindo a furia rugidora + do vento e dos trovões... + +Talitha, _interrompendo_ + + Então?... + +Ruy + + Assim revela + que é grande, generoso e casto o sentimento + que apenas se traduz e que tão mal se vela + na gaze pueril d'um simples juramento! + +Talitha, _ingenua_ + + Quem foi que o ensinou a fallar assim? + +Ruy, _timido_ + + Digo?... + +Talitha, _ingenua_ + + E porque não? Quem foi?... + +Ruy, _timido_ + + Nem mesmo eu sei, Talitha! + +Talitha, _insistido_ + + Nem sabe onde aprendeu? + +Ruy, _sorrindo_ + + Quer aprender commigo? + +Talitha, _ingenua e triste_ + + Não me quer responder, nem confessa, nem nega... + Se eu pudesse aprender, de que valera á céga + saber fallar assim? + +Ruy, _triste_ + + Á céga? + +Talitha, _simples_ + + E á Carmelita?... + +Ruy, _ancioso_ + + Á Carmelita!... e quem lhe disse que os seus olhos + recuperando a luz, como duas estrellas, + irão illuminar as fragas e os escolhos + das montanhas da Syria, entre as monjas Carmellas? + Quer sepultar-se em vida? + +Talitha + + E não é cemiterio + maior a escuridão deste pavor funereo, + sem vêr o sol que doira as nuvens do poente, + sem vêr a lua assim como um berço dolente + embalando no azul um sonho que não morre, + não vêr duma colmeia o mel que filtra e corre + como um rio de luz nascendo num enxame, + sentir e adivinhar a suprema belleza + da madrugada em flôr, das noites constelladas, + dos mares e do céo, de toda a natureza, + ter olhos e não vêr, inda haverá quem chame + vida a tal vida? Não! Mais negras, mais cerradas + do que esta noite immensa e triste, sem estrellas, + não póde ser, de certo, a solidão das cellas, + e o sol que tudo aquece, aquecerá de leve + a macerada fronte á monja que não teve + nem um seio de mãe que um dia a amamentasse, + nem a luz d'um olhar na pallidez da face, + e nem um coração... + +Ruy + + Talitha! + +Talitha, _ingenua_ + + Meu doutor! + +Ruy, _com intenção_ + + Um coração? + +Talitha, _ingenua_ + + Qual foi? + +Ruy, _tomando-lhe a mão_ + + O meu... + +Talitha, _comprehendendo, envergonhada_ + + O seu? + +_Retira a mão_ + +Ruy, _enleiado_ + + Perdoe. + +_Pausa prolongada_ + +Talitha, _implorando_ + + Que mal lhe fiz? + +Ruy + + Rasgou-me o coração, Talitha; + e pensará, talvez, que não me fere a dôr + de vêl-o assim rasgar? + +Talitha, _humilde, implorando_ + + Mas creia, Ruy, que foi + sem que eu desse por isso. E se o mal está feito + seja agora gentil e não me rasgue o peito. + Esqueça a minha falta, esqueça esta maldita, + não se lembre da céga e deixe-a definhar + na torva escuridão desta noite polar... + +Ruy + + E se eu não conseguir tirar do pensamento + o seu casto perfil, celeste e macilento, + se a minh'alma quizer viver escravisada + unindo o meu destino á corrente doirada + que me prende, sorrindo, ao seu cruel martyrio, + se o meu olhar prefere esse apagado cirio + dos seus olhos de céga á lucida manhan + do amor sentimental de alguma castellan, + como esquecel-a então? + +_Joaquina apparece ao fundo_ + +Talitha, _triste_ + + Não creio... + +Ruy + + Mas porque? + Já tão cedo a sua alma angelica descrê + da minha que, arrastada á fimbria azul da sua, + por toda a parte a segue e a seu lado fluctua? + Não recorda, Talitha, o dia amargurado + em que eu entrei aqui perdido e quasi morto? + Não se lembra da noite em que eu fui condemnado? + Não se lembra talvez das horas de conforto + que os seus olhos sem luz e a sua bocca em flôr + me trouxeram a rir, como um remedio santo + da minha vida enferma á cruciante dôr? + Não recorda talvez que esse supremo encanto, + essa graça divina, aligera e bemdita + a vida me salvou? + +Talitha + + Não creio... + +Ruy, _curioso_ + + É tão cruel! + Porque razão não crê, a minha alma fiel + simplesmente traduz o que a sua entendeu? + +Talitha, _com intenção_ + + Só porque a sua mão na minha não tremeu. + +Ruy + + Entretanto, Talitha, eu amo-a... + +Talitha, _tremula_ + + Ruy!... + +Ruy, _apertando-lhe a cintura_ + + Talitha! + + _Beija-lhe docemente a mão_ + +Talitha + + Ah! E eu sem poder vêr o labio que me beija!... + Que destino fatal, que desgraçada eu sou! + +Ruy + + Não foi a minha bocca ardente que a beijou. + Foi o dôce rumor da abelha que voeja + sugando á sua mão de branca flôr de liz + o magico licôr, o aroma delicado, + que vem do rosicler florido e perfumado, + no sangue que palpita em vibrações subtis!! + +Talitha + + Mas, Ruy, o seu amor não ve como eu sou pobre!! + +Ruy, _interrompendo_ + + Pobre sou eu que peço a esmola angelical + desse affecto gentil que a vida transfigura. + +Talitha + + Tão pobre que não tenho um Pae que me conforte, + nem caricias de mãe que veja esta tortura... + +Ruy + + A sua alma divina essa tortura encobre... + +Talitha + + Tão pobre que este olhar perdido é glacial + como um floco de neve, e a desfazer fluctúa... + +Ruy + + Os seus olhos sem luz tem mais fulgor que a lua. + +Talitha + + Engeitada ao nascer vivo esperando a morte... + +Ruy + + Alma branca de luz que illuminaste + a ventura das minhas esperanças, + bemdito seja o véo de negras tranças + que sobre a minha vida desnastraste! + + Bemdito seja nesse dôce engaste + das palpebras subtis brancas e mansas + o mesto olhar que cobre de bonanças + a vida deste amor que tu salvaste! + + És para mim a linha do horisonte, + curva do céo, á noite, constellada, + agua lustral de uma sagrada fonte, + + toda a ambição dest'alma allucinada, + e a nuvem que circumda a minha fronte + como um disco de treva avelludada... + +Talitha, _de mãos postas_ + + Meu Deus, e nunca mais, nunca mais hei de vêl-o!... + +Ruy + + Sim, Talitha, verá; o meu maior desvelo + ha de ser o fulgor do seu formoso olhar. + + +SCENA VII + +Os mesmos e Joaquina + +Joaquina, _que tem ouvido tudo, feliz e contente, vem descendo com +lentidão e junto de ambos exclama:_ + + Caia a benção de Deus neste formoso par... + +_Ruy e Talitha, surprehendidos, afastam-se_ + +Ruy, _recuperando a serenidade_ + + Talitha assim o quiz! + +Talitha, _perturbada_ + + A culpa não foi minha... + +Joaquina, _sorrindo e acariciando-a_ + + A culpada fui eu que te deixei sósinha! + +CAE O PANNO + + + + +SEGUNDO ACTO + +Sala de visitas em casa do Cura; tudo muito simples. Janellas e portas. +Um oratorio com lampada. Um pequeno orgam. + + +SCENA I + +Joaquina e Padre João + +_Conversando alegremente_ + +Joaquina + + Graças a Deus, chegou por fim o grande dia... + +Padre + + É verdade, é verdade! irmã, quem nos diria + que a linda pequenita... + +Joaquina + + A formosa engeitada... + +Padre + + Que Deus nos enviou naquella madrugada + inclemente de inverno... + +Joaquina, _interrompendo_ + + E parece-me ainda + vêr a neve a cahir num pó macio e branco + no cestinho de vime, ali, ao pé do banco... + +Padre + + E eu tenho aqui no ouvido aquella prece linda + que rezaste ao Senhor quando ella adormeceu + depois de ter mamado... + +Joaquina + + E, lembras-te, que fina! + Tão branquinha, tão loira, a rir, tão pequenina! + +Padre + + Se me recordo, irmã!?... Pois então, se fui eu + quem primeiro velou, durante o dia inteiro, + o somno encantador da candida innocente!... + Se me recordo, então?!... + +Joaquina, _sorrindo_ + + Mansa como um cordeiro!... + Mas uma coisa eu sei que esqueceste... + +Padre, _curioso_ + + Qual é? + +Joaquina + + Não te digo, adivinha... + +_Pausa prolongada_ + + É do primeiro dente... + +Padre, _alegre_ + + Ó Joaquina! É verdade! O que se fez!... Até + parece que a alegria andava á tentação; + e nós a rir, a rir, a rir perdidamente... + Sempre ha coisas, meu Deus!... + +Joaquina + + A vida é uma illusão, + ligeira como o vento, ás vezes nem se sente, + não é verdade? + +_Pausa_ + + Falla?... + +Padre + + É, de certo, Joaquina. + +Joaquina + + Pois então que mal faz que a gente esteja agora + a rir do que lá vae por essa vida fóra?!... + Pois agora é que é rir, que passou a desgraça, + quando a gente é feliz té na morte acha graça. + +Padre + + Por causa desse dente esteve a pequenina + tres dias por um triz... + +Joaquina, _triste_ + + Bem ás portas da morte... + +Padre + + Valeu-lhe a vela benta... + +Joaquina + + Inda foi uma sorte + eu ter guardado aquella... + +Padre, _rapidamente alegre, interrompendo_ + + Ó! mana, e o baptisado?... + Que festa! E que jantar! Aquelle frango assado, + com rodellas de paio; inda me estão lembrando + aquelle arroz de forno e aquelle vinho brando... + Recordas? + +Joaquina, _com malicia_ + + Bem me lembro, até nesse jantar + o vinho começou a subir e a trepar... + +Padre, _interrompendo, com gravidade_ + + Ó mana... + +Joaquina, _saudosa_ + + E já lá vão uns bons dezeseis annos... + +Padre, _pensativo_ + + Mas como corre o tempo! + +Joaquina, _nostalgica_ + + E como a gente muda!... + +Padre + + A vida não é nada! A magua, os desenganos, + a enfermidade e a dôr fazem a gente velha; + e não ha santo algum no céo que nos acuda! + +Joaquina + + Pois sim, sim, mas depois os filhos vão crescendo + e os paes a cada instante, a rir, vão-se revendo + na luz do seu olhar em que tambem se espelha + o tempo que passou... + +Padre, _interrompendo_ + + Como o tempo é cruel! + E aquelle immenso mal que um dia nos feriu?... + Recordas? Que manhã! Mais amarga que o fel! + +Joaquina, _olhando o céo_ + + Se me lembro, Senhor, quando ella ficou céga, + que só podia andar guiada por alguem!... + Não hei de recordar? Recordo muito bem! + Quanta vez, coitadinha, a chorar me pediu + que lhe fôsse comprar dois olhinhos melhores + para trocar os della... + +Padre, _limpando os olhos_ + + Até se me despega + o coração de dôr!... + +Joaquina + + E nenhum dos doutores + atinou de a curar, nem sequer as promessas + deram com ella a vêr... + +Padre + + Quantas vezes subi + os tres degráos do altar e rezando pedi + ferventemente a Deus, por amor de Jesus, + que lhe tornasse a dar aos seus olhos sem luz + a visão que perdera... + +Joaquina + + E agora tu confessas + que a sorte a perseguiu sem dó nem piedade, + apezar de ella ser um mimo de bondade? + +Padre + + Confesso. Até que Deus mandou a desventura + da sua juventude a alvorada feliz + desse primeiro amor... + +Joaquina + + E se Elle assim o quiz!... + +Padre + + Que seja feita a sua energica vontade, + nos céos como na terra e que um dia a tortura + tenha fim! + +Joaquina + + Pois não teve, afinal?... + +Padre + + Eu não sei... + Dizem vocês que teve e a operação deixou + o melhor resultado... + +Joaquina + + Elle diz que a curou! + O que elle fez não sei, nem mesmo perguntei + mas que ella torne a vêr... + +Padre + + É isso o que deseja + a minh'alma sincera, é vêl-a venturosa! + Entretanto, meu Deus, por que Talitha o seja + é preciso, talvez, que a vara da desgraça + me toque o coração e a fonte caprichosa + das lagrimas estale. A dôr que me ameaça + enche-me de pavor. Tenho um presentimento + que me não abandona um dia, um só momento! + +Joaquina + + Isso não vale nada... + +Padre + + Entretanto eu medito + naquelle casamento. + +Joaquina, _interrompendo_ + + O casamento?... + +Padre + + Sim; + o casamento, sim, que vae arrebatal-a + á nossa pobre vida... Está, porém, escripto, + e Deus que o destinou ha de por fim leval-a + e nunca mais trazel-a aqui, junto de mim. + +Joaquina + + E quem nos diz a nós que essa desconfiança + não seja apenas medo? + +Padre + + O coração, irmã!... + +Joaquina + + Ah! Sim o coração... o coração tambem cança! + Já não regula o teu, nem serve de evangelho, + é coração de padre e padre muito velho... + +Padre + + Pois bem, não servirá, mas inda esta manhã, + por occasião da missa, as lagrimas vertidas + tombaram-me da face ao calix consagrado, + ao recordar, então, que um dia, angustiado, + hei de vêl-a partir! Como fôram sentidas + essas bagas leaes que, em silencio, chorei + e que juntas ao vinho eu mesmo consagrei! + Eu creio em Deus e espero o golpe do destino + como um favor do céo purissimo e divino! + +Joaquina + + Descança, meu irmão! O Ruy é bom rapaz, + tem muito amor á gente, ha de ficar, verás! + Parece alma de santo e só pensa no bem. + +Padre + + Póde ser, póde ser, mas recorda tambem + a promessa que fez a nossa pequenita + e, se ella conseguir outra vez a visão, + lá se nos vae embora a meiga Carmelita... + +Joaquina + + Ah! disso eu não receio; então crês que o convento + tenha força capaz de virar-lhe a razão + o fazel-a esquecer, assim, o casamento? + +Padre + + Mas se não a levar o voto de noviça + ha de a levar o amor que quanto vê cobiça. + De certo a chamará, talvez para bem longe, + a palavra inspirada e convicta do monge + que nos fez o milagre e deu olhos á céga... + É por isso, meu Deus, que est'alma não socega! + + +SCENA II + +Os mesmos e Ruy + +Ruy, _entrando_ + + Bons dias, Senhor Cura. + +_A Joaquina_ + + E a mãe Joaquina, então, + como passou a noute? Aposto que sonharam + muito commigo, sim? + +Padre + + Foi tal qual!... + +Joaquina + + Pois eu, não; + tive mais que fazer, dormi regaladinha + durante a noite inteira... + +Ruy + + E bem conchegadinha? + +Joaquina + + Nem mais!... + +Ruy + + E claro então que nem, sequer, cuidaram + de Talitha... + +Joaquina + + Cuidei, sim senhor... + +Ruy, _prazenteiro_ + + Não entendo... + se dormiu toda a noite... + +Padre, _a rir_ + + É, eu não comprehendo + tambem como se possa, a um tempo só, dormir + e velar!... É bem certo o rifão: mais depressa + se agarra um mentiroso... + +Ruy, concluindo + + Exacto; do que um coxo... + +_Ambos riem muito_ + +Joaquina + + Mas eu é que não sei que tanto tem que rir! + +_A Ruy_ + + Nem é da sua conta + +_ao Padre_ + + e nem da sua! Peça + a Deus Nosso Senhor que dê mais tento aos dois: + +_batendo com um dedo na testa_ + + talvez haja por lá um parafuso frouxo... + +Padre, _com gravidade comica_ + + Ó mana, isso é demais... + +Ruy, _abraçando-a_ + + Não vá subir á serra; + deixemos essa historia a resolver depois + e vamos conversar da luz que se descerra + e que hoje ha de fazer toda a nossa alegria... + +Padre + + Fallava eu nisso mesmo antes da sua entrada. + +Joaquina + + E quer saber, menino, o que elle me dizia?... + +Ruy + + Pois diga, francamente, e não esqueça nada... + +Padre + + Não havia segredo, era tão natural + e tão simples, meu Deus, o que eu dizia ha pouco... + +Joaquina + + Deixe-o fallar, menino, anda que é mesmo um louco; + não diz coisa com coisa, a tudo julga mal + e já pelo peior! + +_Contando pelos dedos_ + + Primeiro, que a pequena + breve nos deixará, que o Ruy vae desposal-a, + e depois, o convento: ora veja se cabe + uma cantiga assim na cabeça d'alguem? + Se ella ha de preferir aquella quarentena + á casa dum marido!... A mim já não abala + essa ideia!... + +_Ao Padre_ + + Você nunca soube, nem sabe + um marido bonito os encantos que tem... + +_A Ruy_ + + Finalmente, receia... + +Padre, _interrompendo_ + + Eis onde pega o carro!... + E sabe Deus, Doutor, que se não fôsse a crença!!... + +Ruy + + Pois bem, Joaquina, diga, em que é que o Cura pensa? + +Joaquina + + Que depois de casada... + +Padre, _interrompendo_ + + Ouça-me então, eu narro: + Receio, é natural, que ella siga o marido, + e venha a solidão morar nesta choupana + onde eu mesmo não sei como tenho vivido! + E que será de mim e que será da mana, + diga-me, Ruy, tambem o que será de nós, + dois velhos, nesta casa, enfermos e tão sós?... + vendo, a cada momento, a lucta nos escolhos + da saudade e da dôr, sem ter no dia extremo + aquella mão leal que feche os nossos olhos?!... + Fique sabendo, Ruy, porque motivo eu tremo... + +Ruy + + Sim, mas não tem razão, pensemos na ventura, + nessa immensa ventura... + +Joaquina, _interrompendo_ + + É mesmo assim que eu penso... + +Ruy + + Que vae sentir Talitha ao vêr a luz do sol, + tantos annos depois de longa noite escura, + envolto o dôce olhar num véo pesado o denso! + Vamos fallar de nós, deste novo arrebol + que nos ha de banhar o coração e a alma, + como um luar de outomno, uma alvorada calma, + quando ella abrir á luz a languida pupilla + dos olhos ideaes, tão doces e tão flavos, + que são como um casal de abelhas que assimilla, + nas flôres dos jardins, o loiro mel dos favos. + Pensemos na expressão que o seu olhar vae ter + quando ella vir ao sol tão brancos os cabellos + do Senhor Cura... + +Padre + + Assim como a neve a descer + sobre a minha cabeça, em flócos e novellos... + +Joaquina, _saudosa_ + + E nós dois a curvar ao peso da nevada, + o corpo já pendido, a procurar a estrada + que váe á eternidade... + +Ruy, _interrompendo alegremente_ + + E já pensou, Joaquina, + no famoso jantar? + +Joaquina + + Não, depois se combina. + Como faltam ainda uns dias ao Natal + vamos tratar primeiro... + +Padre, _atalhando_ + + Isso! do nosso almoço, + porque eu já estou sentindo um enorme alvoroço + cá por dentro. + +_A Ruy_ + + Que diz? + +Ruy + + Tudo quanto fizer + a mãe Joaquina, está bem feito. + +Joaquina, _ironica_ + + Agradecida! + Eu já volto. + +_Sae_ + + +SCENA III + +Padre e Ruy + +Padre + + Então, Ruy, pensou no resultado + que vae ter para nós a sua operação? + +Ruy + + Tenho pensado muito e só me felicito: + parece que se abriu um vasto rosicler, + enchendo de perfume o lar da minha vida; + descanta-me no peito o coração alado + tão viva, tão alegre e limpida canção, + que me parece ouvir palpitar o infinito + e a dôce voz de Deus abençoar-me o nome... + +Padre + + Pois bem, Ruy, entretanto a duvida consome + os meus dias; medito e tenho muito medo + de uma lucta que vae ser travada, em segredo, + no seio de Talitha... + +Ruy + + E então que lucta é essa? + +Padre + + O encontro, á luz do Sol, do amor e da promessa. + Conheço-a muito bem. Alma branca de pérola, + possue alguma coisa assim divina e cérula. + Foi creada por mim, na dôce região + em que repoisa a crença á sombra da oração... + e sei que a pobresinha, um dia, prometteu + professar e vestir o burel carmelita, + se a Virgem lhe voltasse o seu perdido olhar. + A Mãe de Deus ouviu a prece, mas agora + que um novo dia aponta a curva azul do céo, + mostrando-lhe o porvir numa formosa aurora + de amor e de ventura, a angelica Talitha + verá, na sua frente, erguer-se e fluctuar, + constante, pertinaz, energica e severa, + a promessa que fez, a consciencia austera + a exigir-lhe que a cumpra e o seu primeiro amor + a sorrir e a tental-a... + +Ruy + + Esse mesmo receio + tambem me preoccupa. Eu já presinto a dôr + que vae, como um espinho, amargurar-lhe o seio. + Assim a Providencia ás vezes desconhece + o proprio mal que faz e como que se esquece + da victima innocente e nessa lucta enorme + a desgraça feroz que não cança, nem dorme, + de certo vencerá, se nós que a divisamos + ao longe, no horisonte, a deixarmos crescer + tão alto, que domine aquelle pobre ser. + E preciso pensar e vêr bem se afastamos + da sua intelligencia a ideia do convento, + como se afasta a flôr dos impetos do vento. + +Padre + + E quem terá prestigio e força de arrancar + áquella consciencia, a dôce, a delicada, + a candida expressão da promessa sagrada + que ella espontaneamente ergueu junto ao altar? + +Ruy + + Nao desejo arrancar essa illusão formosa + á crença da sua alma... A raiz dessa rosa + não é muito profunda, apenas esbraceja + á flôr do coração, por isso não viceja + ainda como o seio altivo e perfumado + de uma corola aberta!... Um botão delicado + agora principia a despertar á luz... + Dessa casta missão, que moverá Jesus, + sómente, Senhor Cura, a sua phrase austera + se póde encarregar; o prestigio da idade, + a alvura de luar das cans alabastrinas, + a palavra de amor, piedosa e severa, + do seu conselho bom, tão cheio de amizade, + a sua consciencia e as affeições divinas + que avizinham do céo o seu viver de santo, + a fé que o seu olhar inspira a quem o fita, + hão de estancar, por certo, a dôr, fonte do pranto, + nos olhos virginaes da mimosa Talitha. + +Padre + + Sacerdote de Deus que o serve, ha tantos annos, + nas duras provações, na dôr, nos desenganos, + sem nunca haver mentido uma só vez na vida, + tenho medo que a voz de commoção me trema, + que me fuja o valor á hora assim blasphema + de entregar á mentira esta fiel guarida... + +Ruy + + Caridosa mentira, ó culpa dôce e casta + que salva uma esperança e mais um anjo afasta + á amargura cruel de um grande sacrificio! + Responda, Senhor Cura, em sua consciencia, + acredita que Deus condemne uma existencia + purissima de flôr, a tamanho supplicio? + Que peccados terá Talitha a redimir + que precise descer em vida á sepultura, + agora que brilhou a estrella do porvir + aos seus olhos, sem luz, na densa noite escura? + Não mente, Senhor Cura, o labio quando salva: + é aspera a mentira e tem a côr terrena, + ao passo que a sua alma é branca, de açucena, + e a sua phrase é sã, é redemptora, é alva! + Em vez de sacerdote, a confessar a freira, + seja Pae que dirige o coração da filha! + Aquelle olhar sem luz, durante a vida inteira, + desviou-lhe a razão para diversa trilha. + Estenda-lhe o seu braço, ampare-a no caminho, + traga de novo a rola ao palpitar do ninho! + +Padre + + E pensa, Ruy, que um Pae, se tiver consciencia, + deva pedir que a filha afaste da lembrança + a promessa que fez, com tanta segurança, + quando implorava a Deus piedade e clemencia?... + +Ruy + + Meu amigo, nao vê que esse immenso fervor + nascia do tropel da magua e do pavor? + Que, assim feita, a promessa, além de não ser santa, + as almas enlanguece e os corações quebranta? + Não vê que faltou luz áquella intelligencia? + Que aquella alma vergou á estolida exigencia + do desespero intenso e bárbaro, que a ancia + de revêr inda o sol da sua alegre infancia + envolver-lhe a cabeça em nimbos de ventura + a levaram, talvez, nessa hora de tortura, + á extrema tentação de dar a mocidade + por um dia feliz de viva claridade? + Levita, cuja mão diariamente eleva + ao throno do Senhor a hostia consagrada, + levanta esse sacrario á curva constellada, + a flôr que pede sol não viverá na treva!... + +Padre, _depois de uma pausa_ + + Pois seja assim, meu Deus! e tu que o vês perdôa, + porque ha no meu peccado uma intenção tão boa, + tão pura e tão leal, que eu sinto adormecido + o velho coração por nunca haver mentido... + + +SCENA IV + +Os mesmos e Joaquina + +Joaquina, _entrando_ + + Que grandes trapalhões, aqui a badalar + numa palrice enorme e toda a gente á espera + que o doutor mais o cura acabem de fallar... + +Ruy + + Por que ha de ser assim tão má e tão severa? + +Padre + + Rabugice de velha!... + +Joaquina + + É só meu o proveito... + +Ruy, _abraçando-a_ + + Deixe-o fallar, Joaquina, aquillo é tudo inveja... + da sua mocidade!... + +_Riem ambos_ + +Joaquina, _entre risonha e severa_ + + Ai, ai! o malcreado! + Esquece a obrigação e falta-me ao respeito! + E a culpada sou eu! Ora não ha! Pois veja + que emquanto está gastando o seu palavreado, + seria bem melhor que cuidasse da enferma, + que vive ali no escuro abandonada e erma. + +Padre + + E você que fazia? + +Joaquina + + Eu fui tratar do almoço; + não andei de conversa á espera que o maná + nos cahisse do céo. + +Ruy + + Por isso falla grosso! + +Joaquina + + Não é da sua conta, ouviu? + +Ruy, _com a maior gravidade_ + + Ouvi... + +Joaquina + + Pois vá + tratar do seu dever porque não faz favor... + +Padre + + Então que succedeu? + +Joaquina, _amenisando a voz_ + + É que a pobre pequena + já cançou de esperar e quer vêr se o doutor + lhe permitte que venha até aqui á sala. + +Padre + + Que diz, Senhor Doutor? + +Ruy + + Que se Talitha ordena... + +Padre + + Pois faça-se a vontade... + +Joaquina + + Então, eu vou buscal-a... + +_Joaquina sae.--O Padre, ancioso, passeia ao longo da sala; Ruy, +encostado á meza, olha para a porta por onde sahiu Joaquina.--Pausa +cheia de anciedade._ + + +SCENA V + +O mesmos, Joaquina e Talitha + +_Talitha entra de olhos vendados, pelo braço de Joaquina. Ruy e Padre +vão ao seu encontro e tomam-lhe as mãos para conduzil-a a uma cadeira. +Joaquina, deixando-a, vae cerrar as janellas e portas. Senta-se Talitha +e conversam um pouco._ + +Padre + + Como te sentes, filha? + +Talitha + + Afflicta, muito afflicta + por ver a luz do dia... + +Ruy, _tomando-lhe a mão_ + + A mesma curiosa + de sempre!... + +Talitha + + Se parece á sua intelligencia + que não tenho razão!... Ha tantos annos céga!... + +Joaquina + + Deixa-o fallar, Talitha, isto é mais tagarella + do que as creanças, vês? + +Ruy + + Pois não creia, Talitha!... + +Padre, _tomando Ruy á parte_ + + Prepare o coração e veja que anciosa + aquella vida está... tenha a maior prudencia! + +Ruy + + É muito natural; só emquanto não chega + o instante de tirar a venda que lhe vela + o dulcissimo olhar... + +_A Talitha_ + + Diga, Talitha, ainda + sente alguma dôr? + +Talitha + + Não! apenas a impressão + do lenço que me causa a maior afflicção, + a vontade feliz, viva, crescente, infinda + de vêr de novo a luz... + +Ruy + + E não ha quinze dias + que lhe descubro a vista? + +Talitha + + Ha, sim, mas lá no escuro, + onde eu não vejo nada... + +Padre + + Assim é que convem... + Depois de tanto tempo, então, já pretendias + vêr livremente o sol? Seria prematuro... + +Joaquina + + É muito perigoso!... + +Ruy + + E sentia-se bem? + Chegou a distinguir, alguma vez, o aspecto + ou a forma geral de qualquer um objecto? + +Talitha + + Muitas vezes, pois não; primeiro vagamente, + depois com nitidez. + +Padre, _alegre_ + + Mas então a doente + Recuperou a vista!? + +Joaquina + + Abençoada a hora + em que o menino entrou nesta pobre choupana!... + +Ruy + + Agradeçam a Deus! + +Talitha + + Doutor, porque demora + esta venda cruel que o meu olhar empana? + +Ruy + + Pois diga-me primeiro o que pensa de mim. + +Talitha + + Que é muito feio e máo... + +Joaquina + + Bem feito! + +Ruy + + E da Joaquina?... + +Talitha + + Penso della que é santa e que tem de setim + côr da neve o cabello, a pelle muito fina, + como eu creio que são as santas da capella. + +Ruy + + E o nosso Padre-cura? + +Talitha + + Um velhinho bondoso, + que vive para o bem e sobre os pobres vela! + Supponho que elle tenha a cabeça bem branca, + o olhar muito suave e d'expressão tão franca, + que appareça na face enrugada e senil + a dôce candidez da sua alma infantil... + E, cogitando assim, parece-me que vejo, + dos altos de uma torre, a uma enorme distancia, + como um jardim florido, a minha dôce infancia + vicejando a sorrir, a sombra do seu braço, + e o seu olhar de Pae enchendo todo o espaço + de luz, de muita luz, tão dôce e tão leal, + como o luar banhando as ondas de um trigal + numa noite estreitada, e o sangue me palpita + no seio, e o coração ardentemente agita + na immensa anciedade afflicta e pressurosa + de poder innundar a sua mão rugosa + de lagrimas febris e de beijos sem fim. + +Ruy + + Tantas coisas ao Cura e nada para mim!... + +Talitha + + Exactamente, Ruy; a saudade de vêl-o + augmenta a cada instante o meu triste flagello, + porque nos braços delle um dia adormeci + e não despertei mais... e ao Ruy... + +_baixando a voz_ + + eu nunca vi... + +Ruy, _com caricia_ + + Pois vae tornar a vêr a boa da Joaquina + que a trouxe ao collo, a rir, quando era pequenina. + +_Aproxima-se de Talitha para tirar-lhe a venda_ + + Vae vêr o Padre-cura e matar os desejos + de lhe cobrir a face e as mãos de muitos beijos... + E vae me conhecer... + +_Tira-lhe a venda_ + +_Silencio. Commoção geral. Talitha, acostumada á treva, não supporta a +luz; tapa os olhos com as mãos; depois habitua a vista, levanta-se, +olha, procura anciosamente. Antes de Talitha distinguir cada uma das +pessoas, encanta-se com a luz e com os objectos._ + +Talitha, _á luz, correndo á janella_ + + Céos! Vejo novamente + a luz que me faltou durante a meninice! + Ó Sol da minha infancia, a sorrir de contente + torno a vêr-te de novo. Azul do céo, meiguice + que ha muito não beijava o meu perdido olhar, + como deves ser lindo ao dôce despontar + da madrugada clara! + +_Ao oratorio_ + + Oratorio velhinho, + junto ao qual, em pequena, eu tanto vez rezei, + como sinto vontade, agora que revejo + o teu branco Jesus, do amor e do carinho + com que pela manhã e á noite eu te beijei, + e hoje, meu velho amigo, a estremecer te beijo! + +_Passa as mãos nos olhos, como para certificar-se que vê bem_ + + Mas parece-me um sonho! + +_Pausa. De novo esfrega os olhos_ + + Eu já não sou a céga... + +_Pausa_ + + Eu vejo tudo... + +_Estaca; olha as paredes_ + + Sim, sim tudo... + +_Olha para o tecto, baixa os olhos ao chão, volta-se para os lados, +palpa as cadeiras, palpa a meza, corre á commoda_ + + Eu não me engano. + Eu vejo a minha mão! + +_Olha para as mãos_ + + Mais branca do que o panno + +_pega o avental e examina_ + + do meu lindo avental! + +_Põe a mão sobre o peito, como que desmaiada_ + + Ah! coração, socega... + +_Neste momento Joaquina, receiando que Talitha caia, corre para +amparal-a, dizendo_ + +Joaquina + + Credo! Jesus, Senhor! + +Talitha, _como que acordando aos gritos de Joaquina, ao vêl-a tem uma +commoção e exclama_ + + Joaquina! ó boa e santa + velhinha, dôce mãe que tanta dôr e tanta + lagrima derramaste, aos pés do meu bercinho!... + +_Vendo o Cura, lança-se a elle, soluçando; abraça-o, beija-o, vê-o, +chora, ri, torna a abraçal-o, doida de alegria_ + + Mas como eu sou feliz, meu Pae, meu Avôsinho! + +_Deixa afinal o Cura e corre para Ruy_ + + E Ruy que me salvou... + +_Vae para abraçal-o, estaca: o pudor impede-a; baixa os olhos, em silencio_ + + Ah!... Ruy... eu nunca o vi!... + +Padre, _soluçando e enxugando as lagrimas, aproxima-se della, toma-lhe a +mão e leva-a junto de Ruy_ + + Beija-o, Talitha; beija, elle é digno de ti, + emquanto eu vou render a Jesus Christo, filha, + graças por essa luz que nos teus olhos brilha. + +_Sae, enxugando os olhos_ + +Joaquina, _a Ruy_ + + Á Virgem prometti uma lampada accêsa + durante uma semana, e por sua intenção, + se Ella daqui levasse as dôres e a tristeza, + fazendo este milagre. Hei de accender o azeite + e rezar a seus pés, com toda a devoção, + pedindo á Virgem Mãe que este meu voto acceite. + Louvado seja Deus! O Céo vos abençôe! + +_Sae_ + + +SCENA VI + +Talitha e Ruy + +_Depois de uma pausa prolongada_ + +Talitha, _sempre pudica_ + + Porque me encara assim? Offendi-o? Perdôe. + +Ruy, _caminhando para ella_ + + Fitei-a porque sinto o brilho desse olhar, + como um rio de luz suavissima, innundar + a minha mocidade inhospita e sombria, + num banho redemptor de dôce calmaria. + E parece-me vêr a sombra avelludada + da sua fronte branca, e pura, e macerada, + fugir espavorida á luz desse clarão... + +Talitha + + Que eu devo tão sómente á sua compaixão... + +Ruy + + Esqueça que fui eu... + +Talitha, _interrompendo_ + + Não sei como se esquece... + +Ruy + + Então recordará, por toda a sua vida, + o nosso amor feliz? + +Talitha + + A sua alma duvida? + +Ruy + + Eu não duvido, eu peço, e vae na minha prece + quanto minh'alma tem de puro sentimento... + +Talitha, _curiosa_ + + Na sua prece? + +Ruy + + Sim, tão cheia de fervor + como a casta oração que a sua crença augusta + soluça de manhã, mais triste que um lamento, + que vae, azul em fóra, ao throno do Senhor, + no murmurio subtil dessa bocca venusta. + +Talitha + + Eu nunca olvidarei a dulcida ventura + daquella noite densa, atormentada, escura, + em cujo manto negro a sua mão bondosa + rasgou a dôce aurora alegre e luminosa... + O caridoso amor, que os seus labios deixaram + gravado nesta mão que tanta vez beijaram, + foi um sonho feliz numa noite polar, + sonho de primavera em noite sem luar: + nunca mais sahirá d'entre as minhas lembranças. + Como um beijo de mãe na face das creanças, + a primeira affeição nunca se desvanece, + é como a flôr da lenda: a todo o instante cresce! + Se eu a esquecesse, Ruy, como seria ingrata! + +Ruy + + Talitha, minha vida, a densa cataracta + não poude escurecer a lucidez suprema + da sua alma christã, que vale um diadema + de rainha e de santa, a cujos pés se inclina + a minha alma que vae sobre a esteira argentina + que o seu vestido traça ao longo da jornada, + como no azul do mar as velas da jangada... + +Talitha + + E se a vela, batida ao vento da desdita, + levar á sombra eterna essa infeliz Talitha + que a sua mão salvou da mesma sombra eterna? + +Ruy + + Irei onde ella vá. Se a aragem fôr galerna + e o nosso amor levar a gondola encantada, + sobre o dorso da vaga em branca espumarada, + eu seguirei, sonhando, á prôa, na epopêa + que o seu divino olhar de candida sereia + ha de inspirar, sorrindo, a quem o illuminou. + Se o vento arremessar a vela que enfunou + á rude penedia e sossobrar a barca, + hei de salvar, então, a pequenina arca, + onde vive encerrada a pomba da alliança, + que faz do nosso amor uma alegre esperança! + +Talitha + + Apenas esperança, e nada mais! A vida + é um sonho que passa e foge; perseguida, + occulta-se a esperança á sombra de um asylo, + tão occulto tambem que, para descobril-o, + desfaz-se muita vez ou rasga-se em pedaços + a nossa fé mais pura e a crença, em estilhaços, + desapparece e vae, por esse mundo fóra, + como nuvens no céo ao despontar da aurora... + +Ruy + + Porque razão, Talitha, os nossos pobres sonhos + não poderão florir, alegres e risonhos, + á plena luz do Sol? + +Talitha + + Sonhos são illusões + que a madrugada esbate em limpidos clarões, + e nada mais... Talvez as suas, sim!... As minhas + irão fazer o ninho á sombra... As andorinhas + tem que mudar de clima ao começar o inverno, + levando para longe o seu amor materno... + A minha acostumou-se á sombra da cegueira: + se na sombra passou quasi uma vida inteira! + Na sombra adormeceu, na sombra soluçou + e na sombra sorriu... A sua mão rasgou + este sulco de luz no meu perdido olhar, + e a triste, acostumada á sombra tumular, + fugiu espavorida ao lucido lampejo + e tão distante foi, que nem sequer a vejo... + +Ruy + + É o receio infantil que vem da escuridão! + A esperança, Talitha, ainda um só instante + não sahiu do calor que faz do coração + o ninho aconchegado, o berço palpitante + e o sacrario fiel do nosso casto amor! + Na sombra nasce, e cresce, e vive tanta flôr + sem perder o perfume!... E a esperança, Talitha, + é o perfume do amor, a essencia que dormita + serena e só desperta ao carinhoso afago + dum beijo a murmurar em sonho dôce e vago... + +Talitha + + Mas antes que o murmurio a despertasse, a luz + do sol lhe recordou que aos olhos de Jesus + e aos pés de sua Mãe ella havia ajoelhado + no fervor da oração, em dia torturado, + prendendo a vida inteira ao brilho de um olhar. + Entre nós dois agora eleva-se um altar, + e eu vejo-me prostrada e envolta no burel, + sorrindo para o céo, por ter sido fiel + á promessa que fiz... + +Ruy + + E o nosso amor, Talitha, + não foi uma promessa? + +Talitha + + Ah! foi, mas a desdita + lançou-lhe a maldição no dia em que nasceu + e o nosso puro amor agora feneceu. + +Ruy + + E a tua mão divina, angelico florão + de algum ciborio astral, a tua mão de rosa + e jaspe é que me vem ferir esta affeição + que banhava em frescor a vida bonançosa + deste meu sonho azul!... Mas quando, em nostalgia, + á sombra do mosteiro, a tua phantasia + volver para o passado esse formoso olhar + tão cheio de candura e te fizer sonhar; + quando a espiral do incenso á curva do docel + subir da tua mão occulta no burel, + como a dôce expressão duma saudade immensa; + quando á noite o luar, vencendo a treva densa, + entrar na tua cella e fôr beijar-te a face, + como se por ventura envolta nelle entrasse + a minh'alma saudosa a visitar a tua: + quando esse olhar divino, em cuja luz fluctua + a pureza vestal da tua castidade, + sorrindo, remontar á dôce claridade + das estrellas no céo, minha gentil Talitha, + recorda o nosso amor, formosa cenobita, + e pensa na tortura intermina e profunda + desta vaga de fel que a minha vida innunda, + medita nesta noite atroz, que me apavora, + e tu me dás em paga a fulgurante aurora + que o meu amor te deu, sorrindo de ventura... + Bemdita seja a treva, a noite de amargura, + bemdita seja a dôr, para sempre bemdita, + que vem da tua mão, angelica Talitha! + +_Talitha, em lagrimas, soluça. Ruy vae para sahir e encontra o Padre que +entra. Pausa, durante a qual o Padre, mudo de dôr, fita os olhos, ora em +Talitha, ora em Ruy._ + + +SCENA VII + +Os mesmos e Padre + +Padre, _junto de Talitha_ + + Porque choras, creança? + +_Ruy, cabisbaixo, medita. Pausa, durante a qual se ouve o soluçar de +Talitha._ + + O teu silencio abala + toda a minh'alma, filha; abre os teus labios, falla... + +_Silencio. A Ruy_ + + A sua commoção... Ruy! Mas que succedeu? + +Ruy + + Foi mais uma illusão que se desfez... morreu! + +_Sae_ + + +SCENA VIII + +Padre e Talitha + +Padre, _abraçando Talitha_ + + Não te apoquentes, filha! A dôr que te devora + eu já previra ha muito. A noite tambem chora + no calice da flôr, e o céo que tem a luz + das estrellas sem fim, chorou, quando Jesus + abriu por sobre a terra a sombra dos seus braços, + abençoando a dôr que vaga nos espaços... + Mas os teus olhos, ha pouco illuminados, + não devem, por emquanto, andar annuviados + que se pódem cegar de novo, sem remedio... + +Talitha, _rapidamente, entre alegre e chorosa_ + + Então se eu lhe pedisse... + +Padre + + O quer que seja, pede-o... + Pede, Talitha, pede, e poupa o teu olhar... + +Talitha, _lacrimosa_ + + Pois bem, eu pedirei, que deixe-me chorar! + +Padre + + Não te apavora a noite immensa e tenebrosa?! + +Talitha + + Não me amedronta mais! A lua carinhosa + vive na escuridão. Fui tão feliz na treva + que chego a ter saudade e o coração me leva + a pedir que me deixe ind'outra vez banhar + na sombra eterna e mésta a luz do meu olhar... + +Padre + + Que blasphemia, Talitha! + +Talitha + + O meu labio não erra, + e o que elle disse, Padre, o meu fervor encerra. + +Padre + + Medita, minha filha, e Deus Nosso Senhor + envolva a tua crença em seu divino amor! + +Talitha + + Pois ouça-me um instante a confissão singela + da incomparavel dôr que a minha vida gela: + +_Padre senta-se e Talitha ajoelha-se ao lado_ + + Tinha soffrido muito; o immenso desespero + de um dia de tortura, afflictivo e severo, + me fez allucinar e, erguendo para os céos + as mãos de quem supplica, eu implorei a Deus + clemencia a tanta dôr. A noite de flagicio, + que dava á minha vida o aspecto de um supplicio, + parecia sem fim, sem luz e sem aurora. + E, como a flôr que á noite exhala, espaço a fóra, + o aroma delicado e puro do seu seio, + vencendo o meu temor e o natural anceio, + eu dei, como penhor da luz que supplicava, + a minha mocidade e o porvir que eu sonhava; + e prometti á santa e casta Samarita + votar-me para sempre ao burel carmelita... + Mas presenti, depois, que dentro de minh'alma + despontava, sorrindo, uma esperança calma + que innundava de luz o coração da céga, + e commigo pensei:--Deus, de certo, não nega + que veja agora a luz quem sempre foi escrava: + e nesse pensamento a vida concentrava. + Foi quando Ruy me fez a esmola caridosa + de uma dôce affeição que tem a côr da rosa; + e, sem pensar, jámais, em vêr de novo o mundo, + o meu amor cresceu e fez-se tão profundo + que para desprender-lhe as tumidas raizes + eu rasgarei, talvez, mais largas cicatrizes... + Depois a mão de Ruy abriu para os meus olhos + o véo da madrugada e eu vi sobre os escolhos, + toda em pedaços feita, a minha pobre herança, + perdida para sempre a querida esperança + que eu havia sonhado em dias de cegueira... + Se sacrifico o amor pelo burel de freira + eu desço á sepultura em plena mocidade; + se não cumpro a promessa e minto á santidade + do voto que levei á pedra de um altar, + não devo conservar a luz do meu olhar + e rogo novamente a Deus que m'a desfaça + e á Virgem que conceda a pequenina graça + de receber de novo esse penhor tão puro, + deixando-me, outra vez, o mesmo olhar escuro! + +Padre + + Escuta, minha filha.--A Providencia, ás vezes, + se manda aos corações as dôres e os revezes + não é que se compraza em opprimir as almas + para lhes dar mais tarde as viridentes palmas + do martyrio, não! Não, minha ingenua Talitha. + Eras ainda tu mimosa e pequenita + quando ficaste céga. Abrira para o mundo, + apenas, a tua alma e o teu olhar jocundo + sorria para a luz. Assim, innocentinha, + tu ias de manhã commigo á capellinha + e, emquanto eu murmurava as orações da missa, + tu rezavas, sorrindo, angelica e submissa, + á Virgem que te ouvia, a Salvé Magestosa, + bem como se a rezara o labio de uma rosa... + Desse labio subia um fervor tão intenso + como a espiral azul e timida do incenso... + Depois... faltou-te a luz, mas tu nunca faltaste + á mesma hora de sempre, á missa. E que contraste; + tu, pequenita e céga e o Sol com tanta luz! + Muitos annos pediste á Madre de Jesus + que te restituisse um dia o teu olhar, + como se a Virgem fôsse autora da desdita + que te ferira assim, minha meiga Talitha... + Pois creança, tu crês que a Mãe que soffreu tanto + no dia em que perdeu o filho casto e santo + te pudesse roubar dos olhos transparentes + a luz que illuminava as pupillas ardentes? + Pois ella que te viu de rastros, a rezar, + em todas as manhãs, aos pés do seu altar, + levando-lhe, a sorrir, tantos ramos de flôres, + podia assim voltar a crueldade e as dôres + sobre a tua cabeça ingenua e piedosa, + Ella que foi a Mãe mais dôce e generosa!? + Escuta, minha filha:--o livro do Senhor + descreve que, uma feita, andava na Judéa + o divino Jesus prégando a sua idéa... + Acercou-se do Mestre uma infeliz proscripta + a quem a dôr matara a filha pequenita, + e, em lagrimas, pediu que lhe voltasse á vida + o cadaver da filha extremosa e querida. + Abençoando a mãe que aquella dôr humilha + disse Jesus então: «a tua pobre filha + estava adormecida e agora está acordada; + volta que a encontrarás a rir, já levantada». + E a pobre mãe, que vira a pequenina morta, + depois, ao regressar, foi encontral-a á porta, + sorrindo alegremente, entre as demais creanças, + como um bando gazil de cordeirinhas mansas! + Pois bem, minha Talitha, o teu olhar dormiu + sómente, não morreu. Quando a céga pediu, + á Virgem Mãe de Deus, que um dia t'o salvasse, + o seu divino olhar fitava a tua face + e despertou do somno o teu formoso olhar + que nunca fôra cégo e, apenas a sonhar, + adormecera. E agora, agora que acordou + póde fitar a mão de quem lhe descerrou, + em nome de Jesus, a noite que o toldava, + que te fazia triste e lacrimosa, escrava... + +Talitha + + E a Virgem que me ouviu quando eu lhe prometti + votar-me ao seu burel, por tanto que soffri, + quererá perdoar a minha negra falta? + +Padre + + Escuta-me, Talitha: + +_Ruy surge ao fundo e escuta_ + + O coração exalta, + pergunta-lhe o que sente, o que deseja; pensa + muito, muito, em silencio, indaga a tua crença + e faze o que disser a tua consciencia, + mas não esqueças, filha, a dôce confidencia + de Ruy que illuminou o teu escuro olhar, + e lembra-te, depois, que, só por muito amar, + o Christo perdoou á pobre Magdalena. + E agora, que a tua alma está bem mais serena, + attende-me!--Rezando adormeci. A aurora + despertou-me, sorrindo, e entrevi, áquella hora, + um sonho que fugia, em busca de outros lares! + Subia docemente, ao claro azul dos ares, + o vulto da Senhora, abrindo pelo Céo + o palio virginal do seu materno véo, + desnastrado o cabello, um manto de rainha + recamado de sóes; a nuvem que a sustinha, + toda cheia de luz, deixava atraz de si + um rastro de fulgor. E eu lembrei-me de ti... + Curvaram-se a tremer as pernas fatigadas, + ao peso esmagador das longas invernadas; + e assim, postas as mãos, olhando para o vulto + da Virgem que eu adoro em fervoroso culto, + pedi-lhe que mandasse um raio de luar + ás lagrimas de fel da tua dôr sem par... + +_Talitha começa a sorrir_ + + E a Virgem, a sorrir, do seio do infinito, + baixou por sobre o meu um dôce olhar bemdito + e eu vi rolar no azul da immensa vastidão, + no fulgor de uma estrella, o beijo do perdão... + +Talitha, _correndo para a porta_ + + Ruy! + +_Encontra-se com Ruy e pára, pudibunda, de olhar no chão_ + +Padre, _só, á frente da scena, mãos postas, a olhar para o céo_ + + Perdôa, Senhor, se lhe menti, perdôa; + o meu labio peccou, mas a intenção foi boa! + +CAE O PANNO + + + + +TERCEIRO ACTO + + +Modesta sala de jantar em casa do Cura. Á direita, um oratorio sobre uma +commoda antiga; á esquerda, entre portas, um orgam. + + +SCENA I + +Joaquina, só + +_Joaquina procede aos arranjos da casa para uma noite de festa; cuida do +oratorio, accende-lhe as velas, começa a pôr a meza para a ceia; tudo em +silencio. Depois de alguns momentos entra Ruy._ + + +SCENA II + +Joaquina e Ruy + +Ruy, _entrando_ + + Boas noites, Joaquina! + +Joaquina + + As mesmas Deus lhe dê! + Inda bem que chegou; pensei que não voltasse + aqui á nossa casa! + +Ruy + + Essa agora... e porque? + +Joaquina + + É boa! Inda pergunta? Esteve lá por fóra + durante todo o dia e sem que se lembrasse + que neste pobre asylo ainda vive e mora + gente boa e christã... + +Ruy, _interrompendo_ + + E quem lhe disse tanto? + Vão vêr que foi intriga ou treta de algum santo!... + +Joaquina + + Hereje! brinque, brinque assim com Jesus Christo + e ha de vêr se é feliz! Não sabe que o Natal + é a noite sagrada? + +Ruy + + É, sei! Não foi por mal + que faltei. Pela vez primeira não assisto + á missa desta noite. Ha bem vinte e seis annos + que falleceu meu Pae: rompia a madrugada. + Começaram-me assim os tristes desenganos + e a lucta da existencia abriu-se amargurada. + Desde então, minha Mãe, boa e santa velhinha, + recorda tristemente, apenas se avizinha + a noite do Natal, a dôr daquella aurora, + e emquanto tudo ri, ella soluça e chora... + +Joaquina + + Sem mesmo a conhecer eu tenho pena della. + +Ruy + + E hoje que eu sou feliz a pobresinha vela. + Creio que neste instante os seus labios de crente + envolvem numa prece encantadora e mesta, + num templo illuminado, ao celebrar da festa, + o esposo que morreu e o proprio filho ausente. + +Joaquina + + Devera ser então mais um grande motivo + de não faltar á missa. + +Ruy + + E creia que é bem vivo + o meu pezar. Entanto a razão dessa falta + foi sagrada e vae vêr como ella tanto exalta + a minha consciencia. + +Joaquina, _ironica_ + + Eu imagino bem! + +Ruy + + Não posso vêr soffrer o coração de alguem... + Attenda-me, Joaquina, e diga se eu podia + negar-me, sem peccar, ao dever que exigia + de acudir pressuroso ao leito d'um enfermo + ardendo em alta febre e bem proximo ao termo + duma longa existencia asperrima e deserta, + onde apenas a dôr tinha uma entrada aberta. + Conhece aquelle atalho escuro e retirado + que vae dar á capella? + +Joaquina, _benzendo-se_ + + Onde foi enforcado + O marido da Emilia? + +Ruy + + Exactamente, ahi. + Mesmo nesse logar em que ficou a cruz + existe uma choupana á qual me recolhi + para fugir á chuva. O caminho conduz, + pela esquerda, á Capella; a direita, ao moinho + do velho reformado! Entrou-me na choupana + a neta do sargento a dizer que o avosinho + quasi estava a expirar. Fôra maldade insana + deixar morrer o velho á mingoa de cuidados. + Fui. Mas antes não fôsse. Em nada lhe valeu + a visita que fiz, o velho falleceu... + Como devem morrer os bravos e os soldados + assim elle expirou, fitando bem a morte, + firme como um leão e simples como um forte. + Uma miseria extrema; os netos quasi nús, + com fome e sem comida ha dois dias! + +Joaquina, _benzendo-se_ + + Jesus! + E aqui tanta fartura! + +Ruy + + A Patria é bem madrasta! + Esse velho, que a morte aos netos hoje afasta, + tem no peito e na face algumas cicatrizes + das lanças do inimigo. + +Joaquina + + Ah! são bem mais felizes + os soldados que vão á guerra e que lá morrem + no campo da batalha. + +Ruy + + Exacto. Os outros correm + o perigo maior de morrer desprezados, como + esse pobre velho. + +Joaquina + + E estão abandonados + os netos, Sr. Ruy? + +Ruy + + Não estão; felizmente + fallei ao regedor e tudo se arranjou; + demais a mais tambem, segundo me informou, + têm direito á pensão que o velho Avô doente + não poude receber. + +Joaquina + + E quem receberá + essa triste pensão, se o velho que serviu + não poude recebel-a e nem sequer a viu? + +Ruy + + Tambem já pensei nisso e tudo se fará, + minha boa Joaquina. Assim, o moribundo + me obrigou a faltar á missa do Natal. + Se um pobre que estivesse a deixar este mundo + lhe pedisse um amparo, a sua alma leal + negaria essa esmola? + +Joaquina + + Ainda m'o pergunta? + +Ruy + + Á sombra desse olhar tudo se abriga e junta + e eu leio na pupilla esmaecida e pura, + num misto de mudez, de pranto e de ternura, + que o seu bom coração tambem acudiria. + E por isso faltei; tenho, porém, certeza + que Talitha por mim, ao menos, rezaria. + E quando assim se tem tão lucida pureza + a interceder por nós aos pés da Divindade, + parece que a nossa alma, em dôce alacridade, + mergulha no baptismo, em aguas de um Jordão + todo feito de amor, de beijos e perdão! + +Joaquina + + Ah! quando eu penso em tudo o que se tem passado + depois que aqui chegou!... Como isto está mudado! + +Ruy + + Tudo é tão natural que não nos vale a pena + gastar tempo a pensar em cousa tão pequena. + +Joaquina + + Então é cousa pouca uma pobre engeitada, + ha tanto tempo céga, e sem mãe, desprezada, + encontrar quem lhe dê de novo o seu olhar, + e quem lhe tenha amor e a queira desposar!? + +Ruy + + Engeitada, que importa? O coração não pensa, + ama sómente e assim não indaga a nascença + da mulher que o inspirou. Mas não é desprezada + a formosa Talitha; esta mansão amada + serviu de lar paterno á sua dôce infancia + e, se aqui respirou a magica fragrancia + de uma alma aberta, em flôr, se a sua mão, Joaquina, + materna, a acompanhou desde assim pequenina, + pouco importa que a mãe a tivesse engeitado; + amei-a, e nesse amor eu tenho baptisado + o sonho do porvir... + +Joaquina + + Diga, e quando casar + vae leval-a d'aqui? + +Ruy + + Seria derrancar + o santo coração do velho Padre-Cura; + nem tanto necessita a completa ventura + das minhas illusões, nem teria coragem + para tamanho mal; seria mais selvagem + que a propria malvadez + +_abraçando-a_ + + tirar ao seu amor + o prazer de aspirar o aroma dessa flôr, + que ao seu lado cresceu, tão branca e tão fagueira, + como um lyrio do valle ao pé de uma roseira! + +Joaquina + + Sim; isso diz agora e depois de casado + ha de pensar, de certo, em sua mãe saudosa, + e para que ella veja, alegre e carinhosa, + o filho salvo e bom, tão robusto e córado, + o Ruy tem de levar comsigo a pequenita + que nos serve de filha e que nos faz felizes!... + +Ruy + + Descance, boa amiga; este amor tem raizes + que eu nunca poderei arrancar de Talitha, + nem penso em perturbar a paz do vosso azylo + que a propria mão de Deus formou assim tranquillo. + +Joaquina + + Se Deus que nos dôou a innocentinha, agora + mandasse a Mãe aqui para leval-a embora, + onde quer que ella fosse havia eu d'ir tambem, + porque a trouxe no collo e quero tanto bem + que passo a minha vida olhando o azul dos céos, + para vêr se descubro a Santa Mãe de Deus + e pedir-lhe que deixe á tremula velhice + dos meus dias sem luz, ao menos, a meiguice, + daquelle coração que eu vi desabrochar... + +Ruy + + E o céo que lhe responde? + +Joaquina + + O céo?... Nada! A rezar + tenho passado a vida e, nesta idade, a gente + já não póde chorar, as lagrimas seccaram + e por isto se soffre, a dôr é mais pungente + quando se quer chorar e os olhos já cançaram. + +_Ouve-se a voz de Talitha, fóra_ + +Taitha + + Ó Joaquina! Ruy, Ruy... + +Joaquina + + Ahi vem a traquina; + E ha de chamar por tudo a pobre da Joaquina... + +Ruy, _corre á porta_ + + Mas como vem alegre... + +_Entra Talitha_ + + +SCENA III + +Os mesmos e Talitha + +Talitha, _ao entrar, vendo Ruy, estaca: fica silenciosa e em seguida:_ + + Eu bem disse ao padrinho... + +Ruy, _tomando-lhe a mão_ + + Que foi que tu disseste, alma da côr do linho? + +Talitha + + Que ninguem póde crêr na jura... + +Ruy, _interrompendo com meiguice_ + + Das mulheres?... + +Talitha, _ralhando com carinho e retirando a mão_ + + Dos homens... atrevido, ainda tens coragem + de rir?... + +Ruy, _alegremente_ + + Ou de chorar, se tu assim preferes... + +Talitha + + Mas a tua promessa? Esqueceste a homenagem + da noite de Natal? + +Ruy + + Pois pergunta á Joaquina... + +Joaquina, _intervindo_ + + A mim? não sei de nada... + +Ruy, _a Talitha_ + + Ella está gracejando; + sabe tudo tão bem como eu, mas imagina + que tu és ciumenta e então, de vez em quando, + a recordar o tempo em que era rapariga, + faz pirraças á gente, armando alguma intriga... + +Talitha + + A verdade, porém, é que faltaste e eu não. + +Ruy + + Pois bem, faltei; mas tive uma forte razão: + o velho reformado estava agonisante + e mandou-me chamar; eu fui no mesmo instante + assistir-lhe á agonia. Expirou-me nos braços: + ia o sol a fugir na curva dos espaços, + á hora em que soluça o sino das trindades + o Angelus sagrado envolto nas saudades + que a terra balbucia, agradecendo ao céo + a luz que lhe mandou na flacidez do véo + crepuscular e dôce, oiro tecido em gaze, + sem brilho de offuscar e sem calor que abraze. + +Talitha + + E nunca mais o vi, nem o verei jamais!... + Foi cégo como eu fui. Nas manhãs estivaes + muita vez o encontrei, cançado dos trabalhos, + pedindo esmola ahi por todos os atalhos. + Elle ia pela mão da neta, uma creança! + Era um velho senil á sombra da esperança! + Eu ía recostada ao braço do padrinho + e, ao sentir-me, dizia: «ampare-me esse anginho + --amigo Padre-Cura, eu quero que elle veja + --como um velho soldado, a mendigar, rasteja + --neste mundo de Christo»--. E ficava a pensar + naquelle desgraçado. O meu perdido olhar + novamente voltou, quando o delle se apaga + na escuridão mortal que tudo cobre e alaga... + Se eu pudesse amparar as pobres creancinhas! + +Ruy + + Não faltará calor ás meigas andorinhas. + +Joaquina + + E quem lhes ha de dar? + +Ruy + + Quem? + +Talitha + + Deus, Jesus e nós! + +Ruy, _com ingenuidade_ + + Nós seremos os paes: + +_a Joaquina_ + + tu e o Cura, os avós... + +Joaquina + + Valha-te Deus, tontinha! + +Ruy, _a Talitha_ + + Encantadora e casta; + ó Virgem Conceição, flôr, ingenua madrasta, + bemdito seja o dia em que te amei, formosa, + sonho feito mulher, sorriso feito em rosa... + +Talitha, _admirada_ + + Que tem isso de mal? Tambem elle era cégo, + não podia cuidar da neta que o guiava + e agora, felizmente, eu tenho no aconchego + da minha mocidade a luz que me faltava + e posso olhar por ella. A minha desventura + não teve neste asylo o amor do Padre-Cura? + Depois não tive ainda?!... + +_Olha para Ruy, baixa os olhos e cala-se_ + +Joaquina, _beijando-a_ + + Ah! minha tagarella!... + +Ruy + + Depois tiveste ainda o teu formoso olhar + que andava lá no céo illuminando a estrella + d'alva. E agora tambem tens muito que narrar + do que viste na igreja... + +Talitha + + Ah! na missa do gallo? + Eu vinha exactamente aqui para contal-o... + O que eu vi, Ruy, na igreja, emquanto o Padre-Cura + dizia aquella missa!... Inda agora fulgura, + sobre a minha retina, a vivida impressão + do seu olhar tão dôce e manso, de perdão... + Inda agora o sorriso, angelico e furtivo, + do seu labio de rosa, orvalhado e festivo, + innunda de frescor a minha vida inteira, + como o rócio da noite á flôr da amendoeira. + +Ruy + + Quem foi que te sorriu com tamanha affeição, + que fez vibrar tu'alma em tanta commoção? + +Talitha + + Um milagre de Deus! Se tens fé, acredita + no que te vou dizer. + +Ruy + + Dize, minha Talitha! + +Joaquina, _approximando-se_ + + Conta, conta o que foi. + +Talitha + + Pois nesse caso, ouvi: + Quando eu entrei no templo um borborinho enorme + encheu toda a capella; então foi que eu senti + como é triste ser cégo e ter olhar que dorme + tantos annos de vida, em funda lethargia, + sem a benção gentil de vêr a luz do dia! + Toda a gente fallava, olhando para mim, + e eu muito satisfeita a caminhar assim... + +_Imita o andar magestoso_ + +Ruy + + Como tu és vaidosa! + +Joaquina, _sorrindo e pondo as mãos_ + + E como ella é catita... + +Talitha, _a Ruy, ingenua_ + + Mas se eu fôsse a teu lado, inda era mais bonita!... + Deram-me tanto abraço e beijaram-me tanto! + A capellinha estava alegre, era um encanto. + Á entrada muita flôr, o altar com muita luz, + e num bercinho branco o menino Jesus, + tão lindo, tão mimoso e tão engraçadinho, + que parecia mesmo um rouxinol no ninho. + Uma velha fitou-me e disse: que princeza! + Um velho lavrador olhou-me com surpreza + e bem alto fallou: «Que Deus Nosso Senhor + te dê um bom marido»... + +Ruy + + E que disseste, amor? + +Talitha + + Nem uma palavrinha! Eu ía bem calada, + entre muito contente e muito envergonhada. + +Joaquina + + E depois? + +Talitha + + E depois... fui então ajoelhar, + sósinha, nos degráos que sóbem ao altar, + á espera que viesse, a meia noite, a missa. + Rezando ali, a sós, com fervor de noviça, + lembrei-me da promessa e as lagrimas rolaram, + subindo-me do seio aos olhos que as choraram. + Eu sentia uma dôr immensa, por fugir + ao voto que fizera e, em vão, quiz resistir, + á minh'alma affluia um extranho remorso + e embora eu despendesse o mais sincero esforço, + para conter o pranto, o coração vergava + e, numa agitação convulsa, palpitava + acabrunhado e triste... + +_Ouve-se o repicar dos sinos_ + +Joaquina, _interrompendo_ + + Ai! que acabou a festa + e a ceia por fazer, mas que cabeça é esta!... + +_Sae e entra constantemente, nos arranjos da casa_ + +Ruy + + Mas não te lembras já que, em nome do Senhor, + o Cura abençôou o nosso casto amor? + Não te lembras tambem da lucida visão + que te trouxe do céo a estrella do perdão? + +Talitha + + De tudo me lembrei; não sei que força extranha + pesava sobre mim, como immensa montanha, + e não deixava erguer o meu olhar medroso + para encarar de frente o vulto magestoso + da Virgem Mãe de Deus! Mas quando o Cura entrou + parece que a minha alma + +_torna o sino a repicar_ + + alegre despertou... + Senti uma esperança illuminar-me o seio + e dissipar-se então esse cruel receio! + Rezei muito, rezei com tanta commoção, + pedi com tanto ardor, com tanta devoção, + que a minh'alma subiu, tão leve e tão submissa, + aos pés da Mãe de Deus, durante aquella missa, + como se fôsse presa a hostia consagrada + que o Cura levantava á cruz abençoada... + Com ella o meu olhar de supplica subiu. + E fitando, sem medo, a face alabastrina + da candida judia, eu vi que Ella sorriu + com tão dôce expressão de placidez divina + que me banhou de luz amortecida e calma + a minha santa crença e fez vibrar minh'alma! + Senti que era o perdão que vinha, n'um sorriso, + abrir á minha vida um novo paraiso... + Ergui-me docemente, approximei-me d'Ella + e, beijando-lhe a mão que sobre o mundo vela, + ouvi, como um soluço, a sua voz tão pura, + dizendo-me em segredo, em intima ternura: + + Que lindos olhos, Talitha, + os olhos que o Ruy te deu: + tem uma luz infinita, + parecem feitos no céo... + +_Joaquina, que tem parado o trabalho, attrahida pela narrarão de +Talitha, enlevada, abraça-a, lacrimosa, beija-a..._ + +Ruy, _emquanto Joaquina abraça Talitha_ + + Mas tu ouviste bem, tens a certeza plena? + +Talitha, _desprendendo-se de Joaquina_ + + Ouvi perfeitamente; a voz era serena, + tão serena e subtil que a mim se affigurava + ser o proprio silencio assim que me fallava. + +_Ouve-se o repicar dos sinos e começa-se a ouvir as primeiras vozes dos +córos distantes._ + + Estremeci de alegre e acreditei então + que surgira, afinal, o dia do perdão; + +_Approximam-se as vozes_ + + desci do altar, corri, deixei a missa e vim, + como se o coração cantasse dentro de mim, + para dizer-te, Ruy, que a minha vida é tua. + +_Corre para elle, mas detem-se e, olhando para Joaquina, baixa os olhos +timida, brincando com o avental: pausa e silencio._ + +Joaquina, _percebendo_ + + Filhos, não serei eu quem assim vos destrua + as santas illusões... + +_ouve-se o côro muito perto_ + + Se Deus as abençôa!... + +_Sae_ + +Talitha, _vendo-a sahir_ + + Ruy! + +_Corre para elle_ + +Ruy, _recebendo-a nos braços_ + + Ah! minha Talitha! + +Talitha, _abraçada, beija-o_ + + Oh! meu amor! + +Ruy, _beijando-a_ + + Perdôa! + +_As vózes elevam-se distinctamente com a musica das violas e gaitas de +fóles; pausa, emquanto os dois, enleiados, nada ouvem._ + + +SCENA IV + +Os mesmos, Padre, raparigas e rapazes + +_O Padre, entrando com as raparigas e rapazes, surprehende ainda os dois +que se beijam e Joaquina que está estupefacta, junto á porta._ + +Padre, _fingindo que não vê e fallando alto_ + + Raparigas, entrai, a noite é de alegria... + +Talitha, _surprehendidos ambos, desprende-se de Ruy e diz_ + + Tem razão, meu padrinho, nossa phantasia + deve expandir-se agora... + +Padre, _com caricia, baixo a Talitha_ + + Assim, aos beijos, não... + +Talitha + + Quem poderá conter o nosso coração? + +_Ás raparigas_ + + Raparigas, cantae! A céga já tem vista; + que a Virgem Mãe de Deus a todas vós assista; + a freira, que devia entrar para o convento, + teve hoje a redempção do seu cruel tormento! + +Um rapaz + + Viva a céguinha! + +O grupo + + Viva! + +Outro rapaz + + E mais o Padre Cura! + Viva! + +Uma rapariga + + Viva quem fez este milagre! + +O grupo + + Viva! + +Um rapaz + + E a mãe Joaquina, então, que é mesmo uma ternura?! + +Todos + + Viva! + +Joaquina + + Muito obrigada! + +Ruy + + Olha como é altiva! + +Padre + + Raparigas, dançae! + +Ruy, _a uma rapariga_ + + Pois cante a cotovia, + e vibre essa garganta até romper o dia... + +_As raparigas formam roda, os rapazes afinam as violas e o grupo, com +Talitha e Ruy á frente, dançam a Ciranda. O Cura, sentado em uma +cadeira, observa alegremente a scena._ + +Uma rapariga + + Quem deu espinho ás roseiras + não teve muita razão, + antes désse ao coração, + como deu ás Tarangeiras. + + Deus que creou tantas flôres + fez as estrellas aos centos: + não dorme quem tem amores, + que os amores são tormentos. + +Segunda rapariga + + Toda tu pareces feita + com a cêra das abelhas, + quando alguem d'aqui t'espreita + ficam-te as faces vermelhas. + +Primeira rapariga + + Quem ao pé do Sol caminha + anda sempre com calor, + Quem á lua se avizinha + póde até crear bolôr. + + As tuas tranças são pretas, + pareces de cêra mol, + não te abeires muito ao sol, + olha lá não te derretas... + +_O Cura, satisfeito e alegre, ri a cada descante das raparigas e +acompanha-as com um olhar de caricia. Enthusiasmado, levanta-se e +encaminha-se para o grupo:_ + +Padre + + Tambem eu quero entrar na dança, raparigas, + e ser como a papoila em meio das espigas! + +Primeira rapariga + + Viva, viva o Sr. Cura, + que é o paesinho desta aldeia, + que tem a alminha mais pura, + mais alva que a lua cheia. + +_Neste momento ouve-se bater á porta violentamente, ao mesmo tempo que +cessam os guizos denunciativos de um carro que parou á porta. +Quando ouve bater, o Padre Cura soffre uma visivel transformação de +physionomia que todos os circumstantes percebem._ + +Padre + + Um carro, Santo Deus! + +_Cessa toda a alegria e acercam-se do Padre que, repentinamente, põe as +mãos em oração._ + +Ruy, _acudindo_ + + Senhor Cura, que tem? + +_Ouve-se bater de novo_ + +Padre, _pensativo_ + + Ha tantos annos já! + +_Batem novamente. O Cura, sem dar uma palavra, benze-se, vae á porta e +abre-a. Entra uma senhora de lucto, acompanhada de um velho creado, com +malas e agazalhos. Todos emmudecem e olham-n'a curiosamente._ + + +SCENA V + +Os mesmos, Marqueza e Escudeiro + +Padre + + Perdão! Procura alguem? + +Marqueza + + O Cura João Fulgencio! É Vossa Senhoria? + +Padre + + Sou eu mesmo, Senhora! + +Marqueza + + Inda bem, obrigada! + Eu já tinha certeza, o céo me conduzia. + Não quero perturbar a alegria da noite: + Viajante, sósinha, e quasi desviada + pela neve que tomba, eu peço onde me acoite. + +Talitha + + Sois bem vinda, Senhora; aqui sob este tecto + encontrareis conchego e o mais sereno affecto. + +Marqueza, _olhando-a_ + + Obrigada, creança! + +Talitha + + A Noite é de Natal + e o nosso coração não sabe fazer mal... + +Padre + + Deveis estar cançada, o inverno vae tão duro! + +Marqueza + + Pensei que não chegava á sua residencia. + A nevada é cruel, o caminho coberto, + o frio é de cortar, o céo está escuro, + nem um astro se vê, perde-se a consciencia + da nossa propria vida, a estrada é um deserto... + Nem sei como cheguei... + +Talitha + + Jesus a protegeu... + +Marqueza + + Eu creio bem que sim e dou graças ao céo! + +Padre + + E não quer repousar? + +Marqueza + + Antes, porém, quizera, + Senhor Cura, dizer o que me traz aqui... + +Padre + + Assim seja, Senhora, e ao bom Jesus prouvera + que eu pudesse remir a dôr que presenti... + +_a Talitha e Ruy, fingindo alegria_ + + Ide com Deus, cantae! + +_O grupo retira-se em silencio, curiosamente_ + +Talitha, _a Ruy_ + + Quem é? Quem te parece? + +Ruy + + Não sei, mas esta voz a minh'alma conhece. + +_sahem_ + + +SCENA VI + +Marqueza e Padre + +Padre + + Senhora, estamos sós! Vossa Excellencia ordene! + +Marqueza + + Ouça-me, Senhor Cura! ouça e não me condemne! + +Padre + + E condemnar por que? Se tem algum peccado, + o coração de Deus não estará fechado! + +Marqueza + + Pensei chegar mais cedo: hontem, pelo sol posto, + estaria acabado este immenso desgosto + que me tortura a vida; a asperrima inverneira + embaraçou-me o passo e augmentou-me a canceira. + +Padre + + E vem de muito longe? + +Marqueza + + Ah! sim, de bem distante, + anciosa, esperando este feliz instante. + Ha muito tempo, um dia, ao romper da alvorada, + alguem que veiu aqui lhe trouxe uma engeitada... + +Padre + + É verdade, Senhora! + +Marqueza + + Uma carta pedia + ao Cura desta aldêa a esmola caridosa + de guardar a creança, até que a mãe chorosa, + depois, a procurasse. Afinal esse dia + felizmente chegou e a mãe que a dôr humilha, + Senhor Cura, a seus pés, vem procurar a filha... + +Padre + + E como poderei saber se esta senhora + que se confessa mãe, embora peccadora, + é realmente a mãe da creança engeitada + ha tantos annos já, naquella madrugada + tristissima d'inverno? + +Marqueza + + A carta igual áquella + que o Senhor Cura achou no berço, junto della... + +Padre, _tomando a carta_ + + Mas falta alguma cousa... + +Marqueza + + A pérola? está aqui... + +_Dá-lhe a pérola_ + + Pois desde aquella noite eu jámais a perdi + de vista e a conservei com cuidadoso afan, + como alguem que resguarda um rico talisman. + +Padre + + Seija feita de Deus a sagrada vontade, + embora se me parta o coração de dôr... + +Marqueza + + Essa dôr, Senhor Cura, ha de fugir vencida! + Eu não quero quebrar tão dôce piedade + que fez de minha filha o seu risonho amor, + nem desejo apagar a luz da sua vida + num soluço de magua. + +Padre + + Então não vem buscal-a? + +Marqueza + + Não, não, meu bom amigo, eu venho acompanhal-a. + A minha desventura, emfim, se condoeu + dest'alma cruciada e triste que viveu + reclusa na saudade, apenas na esperança + de vêr um dia ainda essa gentil creança... + Se nunca procurei saber dessa existencia + não é que se apagasse em minha consciencia, + como um sonho infeliz, a lembrança dorida + dessa flôr do peccado em anjo convertida. + Como eu pensava nella, ah! sabe-o Deus sómente! + Que lagrimas chorei por conserval-a ausente, + e quanto passei eu por causa desta filha + dil-o, com eloquencia, a dôr que me polvilha + a cabeça de cans. Amal-a com ardor + e ter de estrangular todo esse immenso amor!... + Vêl-a crescer ao longe, e calcular-lhe o encanto, + mas sem poder beijal-a, adivinhar que o pranto + as faces lhe banhava e não poder sorvel-o, + que tormento cruel, que duro pesadello... + Soffri, meu bom amigo, e soffri a sorrir, + que até para soffrer é preciso mentir! + Não me pergunte, Padre, a origem desse amor + ninguem perguntaria ao seio de uma flôr + como foi que nasceu o aroma que elle exhala. + Bastará que lhe diga: a dôr que me avassalla + é a amiga fiel que me segue ha vinte annos, + que nunca me deixou; que os tristes desenganos + dessas horas sem luz foram os companheiros + da minha mocidade e os filhos feiticeiros + que encheram o meu lar de pranto e de amargores, + como um dia sem sol, como um jardim sem flôres. + Um dia, Sr. Cura, em confissão, no templo, + diante do seu olhar que eu agora contemplo + humilde e agradecida, hei de contar-lhe a historia + da minha desventura e desta dôr ingloria, + mas não exija, Padre, agora, que eu recorde + o passado infeliz, que o coração acorde + do somno em que repousa, e desvende o segredo + que a vida me cobriu de sombras e de medo. + +Padre + + Nem quero desvendar, Senhora, essas torturas; + mas a minha velhice acostumou-se a vêr + em tão meiga creança uma filha extremosa + junto de mim crescer, florir como uma rosa + ao pé dum castanheiro, e fazer-se mulher. + Aos dez annos cegou... + +Marqueza, _interrompendo, afflicta_ + + É céga a minha filha? + +Padre + + Foi: ha dias, porém, a luz de novo brilha + no seu formoso olhar. Emquanto a escuridão + durou, eu sempre a trouxe unida ao coração, + apoiada ao meu braço. + +Marqueza + + E quem foi que a curou? + +Padre + + Alguem que a soube amar. Um dia despontou + na sua alma de flôr um novo sentimento + e a pobre céga amou e foi tambem amada. + Queria dedicar-se á vida enclausurada + na casta região da cela de um convento, + mas, sonhadora e boa, o amor venceu em breve + o vago mysticismo e a Virgem que a fadou, + condoendo-se della, o seu amor salvou... + De modo que, feliz, dentro de pouco, deve + desposar um rapaz, formoso coração... + +Marqueza, _interrompendo_ + + Ruy de Ornellas, talvez? + +Padre, _admirado_ + + Mas como adivinhou? + +Marqueza, _depois de uma pausa_ + + Não importa saber; prosiga, Senhor Cura, + eu contarei mais tarde essa alegre aventura, + tão simples e feliz. + +Padre, _proseguindo_ + + A mim, pobre ancião, + uma alegria basta: a de morrer contente + por haver feito bem á candida innocente. + Do mundo nada espero, esta gentil creança + era a minha formosa e unica esperança: + arrancam-m'a daqui e eu sinto que a corola + dessa flôr, que me dava a encantadora esmola + do seu perfume agreste, arrasta a minha vida + á derradeira estancia, á ultima guarida... + +Marqueza + + E quem lhe disse, Padre, as minhas intenções? + +Padre + + Ninguem. Mas adivinho. Eu sei que os corações + carinhosos das mães não querem a partilha + das caricias, do amor, dos beijos de uma filha. + Talitha vae partir; que o Senhor a conduza + e que uma boa estrella ao seu porvir reluza. + +Marqueza + + Attenda, Sr. Cura! A mãe que ora lhe falla + tambem sabe que a dôr o coração estala + e não lhe vem roubar a luz dessa velhice + tão cheia de bondade e simples de meiguice. + A dôr me fatigou e eu quero repousar + de tantas afflicções, e venho procurar, + nesta aldeia tranquilla e sem perversidade, + a paz que não frui na minha mocidade. + Sou rica, felizmente, e quero ter um nicho + onde acaba a existencia: é, talvez, um capricho... + Mas quero aqui viver ao lado desta filha + que a sua alma de santo, alvissima, perfilha + e nunca mais sahir deste sereno azylo + tão suave e tão bom, tão feliz e tranquillo, + onde mora a virtude. A filha que eu procuro + tambem é muito rica e tem porvir seguro. + Se a desventura um dia a separou de mim + a minha vida agora ha de chegar ao fim, + aqui onde ella teve um lar sagrado e nobre. + E o dôce olhar de Deus que o mundo inteiro cobre, + abrindo sobre nós o pallio da ventura, + ha de envolver na sombra o coração do Cura + que fez de minha filha a filha da sua alma, + extremosa e leal. E Deus que tudo acalma + ha de extinguir a dôr de todo esse passado + que eu vejo, felizmente, agora terminado... + +Padre, _alegremente_ + + Obrigado, Senhora. O coração que sente + a alheia desventura e lança boamente + o seu conforto amigo a quem já nada espera, + tem, nas bençãos do céo, eterna primavera... + E agora que sabeis que a vossa filha é viva, + attendei-me, Senhora, á santa rogativa: + Talitha esteve céga. O homem que salvou + o seu formoso olhar o amor lhe conquistou. + Ella, uma encantadora e formosa creança, + concentra nesse amor toda a sua esperança: + tiral-a será dar-lhe o mais cruel supplicio. + +Marqueza + + Não preciso pedir tão duro sacrificio + ao seu bom coração. Eu quero-a vêr feliz, + se quem serviu de Pae o consentiu e quiz. + Procurava uma filha, encontrei um casal: + para mim, que sou mãe, jámais este Natal + feliz esquecerei. E agora que conhece + a Mãe da sua filha, attenda á minha prece + e mostre-me Talitha, anceio por beijal-a. + +Padre + + Louvado seja Deus, Senhora, eu vou chamal-a. + +_Entra e volta com Talitha pela mão_ + + +SCENA VII + +Os mesmos e Talitha + +Padre, _entrando, a Talitha_ + + Recordas que uma vez, em lagrimas banhada, + disseste que a tu'alma andava amargurada + a pensar que jámais a tua mãe verias? + Recordas a palavra alegre, de conforto, + que te disse a sorrir quando tu me pedias + a luz do teu olhar que tu suppunhas morto? + +Talitha + + Nem eu posso esquecer. + +Padre + + Pois, filha, a Providencia + abriu á tua vida a sua immensa graça. + +Talitha, _curiosa_ + + E então? + +Padre + + Então responde: em tua consciencia + que mais desejas tu que o Santo Deus te faça? + +Talitha + + Que eu possa vêr um dia a minha Mãe querida! + +Marqueza, _correndo para ella e abraçando-a_ + + Talitha, minha filha! Amor da minha vida! + +Talitha, _surprehendida_ + + Minha Mãe! Minha Mãe! + +_Abraçam-se em pranto_ + +Padre + + Obrigado, Senhor; + abençoado seja este Natal de amor! + +Marqueza, _desprendendo-se de Talitha_ + + Mas como eu sou feliz! Como tu és bonita! + Que lindo nome o teu! Quem te chamou Talitha? + +_Beija, abraça-a, encara-a sorrindo e soluçando. Senta-a nos joelhos_ + + Quero ver bem de perto o teu formoso olhar. + +_Fita-lhe os olhos_ + +Talitha + + E já sabes, mamã, que de tanto chorar + com saudades de ti, um dia fiquei céga? + +Marqueza + + Com saudades de mim? + +Talitha, _agitada_ + + Não crês, mamã? + +Marqueza + + Socega; + eu acredito em tudo, a tua alma não mente... + +Talitha + + Mamã, como eu te quero! + +_Abraça-a_ + + Olha-me bem de frente! + Tanto tempo sem vêr a imagem dos meus sonhos, + agora que te encontro, eu desejo risonhos + os teus olhos de Mãe que nunca vi mais bellos; + quero beijar, sorrindo, os teus alvos cabellos + e sentir palpitar o seio teu, amigo, + e o meu seio de filha, a palpitar comtigo. + +_O Cura, que se tem enlevado a contemplar a scena, sae pé ante-pé, +olhando o grupo e chama para dentro. Entram Joaquina e Ruy._ + + +SCENA VIII + +Os mesmos, Joaquina e Ruy + +Marqueza + + Dize-me, filha, e tu sonhavas muitas vezes + com tua mãe? + +Talitha + + Sonhava! + +Marqueza + + E o sonho que dizia? + +Talitha + + Tanta coisa, mamã! Quando os nossos revezes + nos vinham perturbar, desde o romper do dia + até o anoitecer, pensava em ti, mamã, + e, sem dormir, sonhava até pela manhã. + +Marqueza + + Mas revezes de quem? + +Talitha + + Desta immensa tristeza + que vinha atormentar a vida de pobreza + +_baixo, quasi em segredo_ + + do nosso Padre Cura... + +Marqueza + + E o Padre Cura é pobre? + +Talitha + + Muito, muito, mamã, mas tão bom e tão nobre + que nunca pude ouvir um lamento, sequer! + +Marqueza + + D'hoje em diante, porém, não faltará mais nada: + será de todos nós aquillo que eu tiver. + Tu és rica, Talitha, e d'alma bem formada, + por certo acudirás de todo o coração + por que não faltem mais nem ventura, nem pão + a quem te fez gentil, tão boa e generosa... + +Talitha + + Muito rica, mamã? + +Marqueza + + Que te serve saber? + +Talitha + + É que o velho sargento acaba de morrer + deixando na miseria immensa e dolorosa + os netinhos com fome. O velho era céguinho! + muita vez o encontrei mendigando, sósinho, + para matar a fome e, se eu hoje sou rica, + só este pensamento a dôr me purifica + e, se tu dás licença, o Ruy vae procural-os. + +Marqueza + + Pois sim, minha Talitha, irás tambem buscal-os; + que sejam teus irmãos já que assim o quizeste. + Mas dize, o Ruy quem é? Inda não m'o disseste... + +_Durante este dialogo as duas não poderão vêr as demais pessoas, +enlevadas como estão. Ha sorrisos em todos._ + +Talitha, _perturbada_ + + O Ruy?... + +_Baixa os olhos, sorri e cala-se_ + +Marqueza + + Sim, sim o Ruy... + +Talitha, _enleada_ + + O Ruy é um doutor... + Quando eu estive céga... Eu era tão céguinha!... + Elle tratou de mim e fez a operação... + +Marqueza + + Só?! + +Talitha + + O resto não conto... + +Marqueza + + E porquê? + +Talitha + + Adivinha! + +Marqueza + + E não furtou tambem o teu primeiro amor? + +Talitha + + Furtou!... E que mal fez? Deu luz ao meu olhar, + eu dei-lhe o coração... + +Marqueza + + Mas depois de casar + deixarás tu sósinho o velho Padre Cura? + +Talitha + + Nem eu quero pensar em tamanha loucura. + Viveremos aqui juntinhos da Joaquina + que sempre me guiou, do tempo de menina. + +Marqueza + + Pois vae dizer ao Ruy que tua mãe quer vêl-o. + +Talitha, _soltando-se do pescoço da mãe, sorrindo alegremente._ + + Tu vais ver que rapaz... intelligente e bello... + Ruy! Ruy! + +_Voltando-se encontra Ruy, Joaquina e Padre. Fica embaraçada e cobre o +rosto com as mãos._ + + Meu Deus, que susto! + +Padre + + Ouvimos tudo, tudo!... + +Marqueza, _voltando-se_ + + Desculpe, Senhor Cura... em favor della acudo... + A culpada fui eu... + +Ruy, _surprehendido_ + + Ah! Senhora Marqueza! + +Marqueza + + Sim. Ruy, eu mesma, aqui. Nem me causa extranheza + o vêl-o nesta casa. Eu fui quem o mandou + em busca deste céo tão puro que o salvou. + Previ toda esta scena e quando aconselhei + que viesse até cá, senti que palpitava + o meu seio de mãe. Já vê que adivinhei + e o meu presentimento o bem me segredava... + +Talitha, _admirada_ + + Mamã, tu és Marqueza? + +_Silencio prolongado_ + +Marqueza + + A Marqueza morreu... + Agora sou a mãe da mimosa Talitha + que vem pedir perdão a quem assim soffreu + dessa magua sem par, dessa dôr infinita, + que tanto fez chorar a tua mocidade, + as lagrimas febris e negras da saudade. + Agora sou a Mãe que um dia te engeitou + e que uma vida inteira a dôr acabrunhou, + que vem pedir perdão ao velho Padre-Cura + do quanto padeceu para te dar ventura, + que vem agradecer á santa da Joaquina, + os beijos que te deu quando eras tamanina, + que vem pedir a Ruy o supremo favor + de dar á sua filha o seu primeiro amor... + +Ruy + + Marqueza, o meu amor recebe a grande esmola + do casto coração da candida Talitha, + como um beijo de luz que conforta e consola + a dôr da minha vida. O peito me palpita + na suprema alegria e eu penso na alvorada + desta noite feliz, de lucido natal, + bemdizendo, Senhora, a dôce madrugada + que vae surgir em breve. + +Talitha + + Ao despontar o dia + vamos todos buscar os netos do sargento... + Tu concordas, mamã? + +_Ao Cura_ + + Acha que faço mal? + +Padre + + Para ti, minha filha, a madrugada é fria. + O Ruy irá commigo e apenas num momento + as creanças virão: descança, pequenita. + +Marqueza, _a Joaquina_ + + Repare bem, Joaquina: este casal catita + como envelhece a gente! + +Joaquina + + E Deus Nosso Senhor + lhe dê por toda a vida o seu sagrado amor! + +Padre + + Já toca á missa d'Alva... + +Ruy, _a Talitha_ + + Estrella d'Alva, pura, + immaculada estrella, o céo desta ventura + estende sobre nós a cupula sagrada + e eu vejo nesse olhar a luz ambicionada + que faz de ti, creança, a dôce Conceição + do meu culto feliz, purissimo e christão. + +_A Joaquina_ + + Um dia, bem me lembro, a sua mão amiga + mais trémula e subtil do que uma branca estriga + ás aragens d'outomno, abrindo-me o sacrario + da sua alma de santa, entregou-me um rosario. + Recorda-se? Pois bem! nas horas de afflicção + esse rosario amigo encheu-me o coração + duma frescura immensa e assim se dissipou + essa nuvem cruel que sobre nós passou... + Quero beijar a mão da santa que me deu + nesse rosario astral uma visão do céo: + a flôr que se banhou na sua fé divina, + bondosa creatura, alvissima Joaquina! + +_Beija-lhe a mão. Joaquina, em silencio, enxuga os olhos com o avental._ + +Padre + + O dia vae surgir, o sino da capella + convida-nos á missa. Ali pela janella + já vem a madrugada entrando alegremente + num baptismo de luz que brota do nascente. + +Talitha + + Meu Deus, como é feliz a minha mocidade! + Rasgou a mão de Ruy a dôce claridade + ao meu perdido olhar, depois a mãe de Deus + envia-me o perdão do fundo azul dos céos: + e, dando luz á céga e vida á condemnada, + entrega-me, a sorrir, no fim da madrugada + do Natal de Jesus, a minha Mãe distante. + Meu Deus, como é feliz neste sereno instante + +_a Ruy_ + + a nossa mocidade ao pé desta velhice + tão boa e tão leal! Antes que alguem cobice + esta aurora de amor que ao céo nos avizinha + eu vou rezar por nós uma Salvé-Rainha: + +_Ouve-se o repicar dos sinos. Talitha approxima-se do oratorio; +ajoelham-se todos, excepto o Padre que fica de pé._ + +Talitha + + Salvé, Rainha Mãe, céu de misericordia, + vida e doçura, amor, luz da nossa esperança, + lançae por sobre nós o manto da concordia. + Salvé, Rainha, Mãe serena de bonança! + A vós, os filhos d'Eva, em lagrimas, bradamos, + por vós que estaes no céo, gemendo, suspiramos, + neste valle de magua e dôr. Eia, Senhora! + Sêde a divina Mãe, a dôce protectora + da nossa vida inteira e para nós volvei + esse olhar piedoso e tão cheio de luz! + Sobre o nosso destino a vossa mão pendei, + rasgae a nossa dôr, mostrae-nos a Jesus, + fructo do vosso ventre, ó sagrada e clemente, + ó Virgem dôce e casta, ó candida innocente! + ó Santa Mãe de Deus, ouvi a nossa voz + tão simples e fiel, rogue no céu por nós, + por que sejamos bons e dignos da promessa + do moreno Jesus. Que a nossa vida aqueça + o materno calor da estrella de Bethlem, + á luz do vosso olhar, por todo o sempre. + +Padre + + Amen! + +CAE O PANNO + + + + +RESPOSTA Á CRITICA INDIGENA + + _Toute l'operation critique se borne ainsi a constater un fait, + depuis la cause qui l'a produit jusqu'aux conséquences qu'il + produira. Sans doute, un pareil travail contient une leçon, et à se + voir dans un miroir aussi fidèle, un écrivain peut refléchir, + connâitre ses infirmités, tâcher de les marquer le plus possible. + Seulement, la leçon vient de haut, sort de la verité même du + portrait el n'est plus l'enseignement gourmê d'un professeur. La + critique expose, elle n'enseigne pas. Elle a compris elle-même que + son influence sur le niveau litteraire était à peu prés nulle, car + les tempéraments restent indociles; et elle a préféré jouer le beau + rôle d'ecrire l'histoire litteraire contemporaine, expliquée et + commentée._ + + E. Zola. _Documents litteraires_, pag. 334. + + + _Est critique, à notre jugement, celui qui fait effort pour + comprendre et qui juge avec sympathie._ + + Nolet. _La vie et l'oeuvre de Chateaubriand_, pag. 673. + + + _...si nous possedons quelques talents, nous nous empressons de les + déprécier. Après les avoir élevés au pinacle, nous les roulons dans + la bosse; puis nous y revennons, puis nous les méprisons de nouveau. + Nous ne pouvons souffrir de reputation; il nous semble qu'on nous + vole ce qu'on admire: nos vanités prennent ombrage du moindre + succès, et s'il dure un peu, elles sont au supplice._ + + Chateaubriand. _Essai sur la litterature anglaise_. pag. 171. + + + _Que la scène soit triste ou gaie, nous retrouvons toujours la même + distinction entre l'émotion réelle et l'émotion esthétique. Il faut + de toute necessité, pour que cette dernière soit possible, que + l'autre disparaisse; il faut que l'auditeur ou le spectateur ne + puisse jamais oublier qu'il y a entre le fait et lui un + intermediaire dont l'impression constitue la poesie de l'oeuvre; + c'est surtout au théâtre que cette distinction entre le réel et le + fait poetique est essentielle. L'illusion complète, loin d'être le + suprême degré de l'art, comme on l'a dit, en serait simplement la + négation._ + + Eug. Veron, _L'Estetique_, pag. 407 e 408. + + +RESPOSTA Á CRITICA INDIGENA + +A _Talitha_ é uma reminiscencia da mocidade, piedosamente recolhida pelo +coração á mudez da alma, que a minha intelligencia modesta crystallizou +em versos froixos, que o meu sentimento fixou em drama e que a cegueira +das paixões pretendeu ferir. + +Devo, quero e vou defendel-a. + + * * * * * + +Zola, o genio, o mestre, o justo, escreveu: + + «Lorsqu'on a l'honneur de tenir une plume, on se consulte avant + d'ecrire, et quand on a écrit une page, on l'affirme, on la défend.» + + _La critique contemporaine_, pag. 356. + +A critica censurou-me porque, brazileiro e rio-grandense, fui procurar +em terras de Portugal o assumpto do meu obscuro trabalho. A _Talitha_ +não é uma obra nacional: nem portugueza porque o seu autor não nasceu em +Portugal, nem brazileira porque a acção se passa em terra estrangeira, +entre personagens de uma aldeia lusitana perdida nas serranias da +provincia de Traz-os-montes. + + * * * * * + +A censura é futil. + +A critica esquece que Portugal é a patria da nossa patria; que o nosso +idioma nacional ainda não sahiu do periodo primitivo e selvagem; que a +lingua de Camões foi a lingua de Gonçalves Dias e ainda hoje é a lingua +de Olavo Bilac e de Coelho Netto; que os sentimentos de José de Alencar +vibraram nas mesmas palavras em que vibrou a alma de Camillo Castello +Branco o através das quaes se impoz á grandeza do seculo que passou a +individualidade singular e forte de Eça de Queiroz, ao mesmo tempo que +se impunha, em outro hemispherio, a personalidade singular e forte de +Machado de Assis. + +Ingenua, ignorante ou perfida, a critica esqueceu o preceito de Taine: + + «Les productions de l'esprit humain, comme celles de la nature + vivante, ne s'expliquent que par leur mllieu.» + + H. Taine--_Philosophie de l'Art_. vol. I, pag. 11. + +O homem é um producto do meio, este inflúe poderosamente na formação de +seu espirito; mais que poderosamente--decisivamente. + +A mocidade é mais docil em receber essa influencia natural e espontanea +do ambiente--do clima, das tradições, dos costumes, da religião, da arte. + +É na infancia e na adolescencia, como observa Moreau, de Tours, no seu +estudo--_La Folie chez les Enfants_--que os erros e os preconceitos se +apoderam do espirito e por tal forma criam raizes que difficilmente se +arrancam. + +Spencer, na Educação moral, intellectual e physica, affirma que a +influencia do meio sobre a mocidade decide do futuro inteiro. + +A minha adolescencia e a minha mocidade fluiram em Portugal, nas +escolas, nas aldeias, no seio patriarchal da familia paterna. + +Com os portuguezes, moços como eu, senti os pezares d'aquelle grande +povo, sorri nas alegrias d'aquella boa gente. + +Á sombra fresca e generosa das suas arvores adormeci e sonhei: ao calor +daquelle sol aqueci as minhas esperanças; no gelo daquellas neves +murcharam-me as mais perfumadas illusões; ao luar opalescente daquellas +noites ouvi a musica das primeiras serenatas: ao fulgor daquellas +estrellas peneirou no meu coração a voz dolentissima dos rouxinóes; com +a poesia popular daquella alma lyrica de onze seculos aprendi a versejar +quando a minh'alma de dezeseis annos abria para o mundo as flôres das +suas aspirações incipientes; com a lithania religiosa dos orgãos ruraes +nas capellas das aldeias aprendi a amar a Deus, a crer na sua olympica +magestade, ao mesmo tempo que filtrava docemente no meu espirito a +ternura sagrada daquelle mysticismo que reza na voz das aragens, no +perfume das flôres, no marulhar das fontes, no gorgeio das aves e até no +merencorio soluçar das vagas, rolando eternamente nas areias das praias. + +Dezoito annos correram para a minha vida feliz e descuidosa, naquella +terra santa que é a patria da saudade, e, quando o meu coração começou a +sentir as amarguras do exilio, quando a minha intelligencia poude +comprehender toda a magua da ausencia, foi na saudade portugueza + +«o delicioso pungir de acerbo espinho,» + +que eu aprendi a sentir a saudade do lar que aqui deixára, do berço que +me embalára as horas da infancia, da voz materna que me acalentára a +puericia, do céo que dera luz ao meu olhar e calor ao meu sangue, +sangue em cujas ondas correm leucocytos de sangue lusitano. «d'este +sangue abençoado», fortemente oxygenado, que me dá energia para as +luctas e ampara a tranquilidade transparente da minha consciencia, +limpida e superior, as investidas da injustiça e da critica. + +E como poderia eu, por que estranho processo de cirurgia, arrancar ao +meu organismo essa metade portugueza que constitue um nobre orgulho da +minha vida? + +E como poderia eu, por que estranho processo de psychologia, arrancar á +minh'alma esse conjuncto essencial de elementos que durante dezoito +annos se vincularam ao meu espirito, á minha intelligencia, á minha +vontade, á minha sensibilidade, com a mesma delicadeza, com a mesma +subtil insistencia com que a luz do sol penetra no seio da terra para +fazer germinar as sementes, com que a palavra das mães penetra na alma +dos filhos para transfigural-a, como o luar que transforma em espelho de +prata a agua dos lagos e dos rios? + + * * * * * + +A _Talitha_ é uma reminiscencia da mocidade passada na aldeia +traz-montana, na suave e consoladora almosphera da familia paterna; +_Talitha_ não é uma creação da minha phantasia, é a copia do modelo vivo +que eu conheci, que acompanhei na cegueira cruel e, depois, na luminosa +redempção do seu primeiro amor. + +_Ruy de Ornellas_ foi meu irmão de lettras, foi meu amigo, meu +companheiro de escola, meu consocio na bohemia alegre e feliz da vida +academica, nem o nome lhe occultei. + +O velho cura _João Fulgencio_ foi uma realidade soberba de caridosa +affeição evangelica: era um sacerdote de alma pura, um ancião de oitenta +invernos consumidos em espalhar o bem emquanto muitos moços de alma nova +mas precocemente corrompida ao contacto das descrenças enervadoras e +fataes, na convivencia intima da politicagem, dos bordeis e dos cafés, +vivem para fazer o mal, no gozo requintado de espalhar desventuras, +quando é mais facil, mais dôce, mais humano, mais confortante, mais +nobre, semear carinhos e affectos para fazer a colheita das sympathias e +das dedicações. + +A velhinha _Joaquina_, a irmã desse honrado e justo sacerdote, é o +retrato fiel, copiado á intimidade da minha propria familia, em cujo +seio fui buscar o modelo daquella virtude christan, na figura venerada +de uma santa creatura que acalentara, ha sessenta annos, a puericia de +meu Pae. + +A _Marqueza de Rilma_ não é um personagem ficticio, viveu, foi a mãe de +Talitha, não com o titulo de tão elevada condição aristocratica, mas de +nobre linhagem, victima innocente das luctas civis de 1846 que +accenderam a fogueira horrivel dos odios entre os partidos politicos. +Revelar-lhe o verdadeiro nome seria uma iniquidade, além de +absolutamente desnecessario ao desenvolvimento da acção dramatica: a +mais rudimentar educação, a mais vulgar delicadeza de sentimentos +mandavam occultar essa circumstancia, inutil á fidelidade da observação +e perfeitamente dispensavel ao estudo da psychologia do personagem. + +Que representa, pois a _Talitha_? + +O intimo e nobre desabrochar de uma consciencia que não esqueceu o +passado, que transformou um incidente da vida em pretexto para resgatar +uma divida de gratidão, para abrir no seio um longo e profundo sulco de +reconhecimento á terra sagrada em que dormem seus avós o somno +ultimo e perpétuo, onde ficaram os primeiros dias de existencia do +ancião que me deu o sêr, onde eu deixei as gerações irmans que me +acompanharam na peregrinação astral das illusões academicas. + +A perversidade incuravel dos zoilos, porém, occultou, de proposito +deliberado, que o obscuro autor da _Talitha_, agora alvejado por haver +esquecido ingratamente a sua patria, preferindo assumptos, personagens e +céos estranhos, já estudara em um drama, em tres actos, intitulado _A +Farça_, a sociedade da sua terra e um facto que se desenrolara no meio +em que vive. + +E esse drama foi levado á scena tres vezes, no Theatro S. Pedro, por uma +sociedade de amadores; mereceu a critica da imprensa local e foi +largamente estudado por dois homens conhecidos nas lettras: Alarico +Ribeiro e dr. Sebastião Leão. + +Se não teve esse modesto trabalho a ventura de ser interpretado por +artistas, não pode caber ao autor a culpa de faltar entre nós uma +companhia dramatica nacional constituida de profissionaes. + +A critica indigena devia ter conhecimento d'esse facto; se sabe d'elle é +perversa occultando-o propositalmente para ferir a _Talitha_; se não +sabe, é ignorante, e uma critica _soi-disant_ competente, que desconhece +o autor escolhido para a censura e os trabalhos por elle produzidos, não +póde exigir consideração nem respeito do meio litterario em que pretende +pontificar. + + «Il y a même, au fond de la grande majorité des critiques, un + producteur manqué, qui se regisne à parler des oeuvres d'autrui, + quand il voit que personne ne parle des siennes.» + + Zola, oeuvre cit., pag. 349. + +A critica, ou ignorante, ou perfida, ou ingenua, esqueceu que +Taine, o mestre supremo, havia pontificado: + + «La méthode moderne que je tâche de suivre, et qui commence à + s'introduire dans toutes les sciences morales, consiste a considerer + les oeuvres humaines, et en particulier les oeuvres d'art, comme des + faits et des produits dont il faut marquer les caractères et + chercher les causes; rien de plus. Ainsi comprise, la science ne + proscrit ni ne pardonne: elle constate et explique.» + + H. Taine--oeuvre cit, vol. I, pag. 14. + +Mas a critica levantou-se contra as leis proclamadas pelo proprio mestre +invocado: condemnou, não explicou. + +Sem investigar as origens do drama, sem conhecer a sua significação, sem +sondar a alma que o creára, fulminou a obra e insultou o espirito que a +produzira. + +Para maldizer bastaram-lhe dois elementos: o assumpto que é portuguez e +o estylo que não é brazileiro... + +E a critica, sempre ingenua, ou ignorante, ou perfida, esqueceu que +Shakespeare fôra buscar á nevoenta Dinamarca a figura culminante de +Hamlet, á sorridente Italia dos laranjaes em flôr, as suaves imagens de +Romeu e Julieta, e o vulto soberbamente tragico do tremendo Othelo. + +Sempre com a mesma perfidia, a critica, depois de citar os nomes de +Racine e Corneille, occultou que esses grandes espiritos da França foram +pedir á Grecia e à Roma antigas, á Hespanha medieva e aos Barbaros a +quasi totalidade dos seus heróes e das suas heroinas, deixando na +obscuridade a immensa galeria de personagens illustres da propria +patria: o genio desses dois sublimes cerebros andou a resuscitar, a +illuminar, a galvanizar no tablado do theatro francez a grandeza épica +de vultos estranhos e deixou no tumulo o vulto leonino dos +immortaes filhos da França e as imagens delicadas e formosas das +mulheres gaulezas. + +De Corneille, _Medéa_ é uma simples imitação de Lucio Seneca, romano, +que a seu turno pedira inspiração ao theatro grego; _Cid_, que é uma +obra-prima, além de ser puramente hespanhola a sua acção de altissima +tragedia, foi inspirada pela obra do poeta castelhano Guilhen de Castro, +que o genio de Corneille deixou na sombra; _Horace_ é um assumpto romano +que o poeta francez pediu a Tilo-Livio; romanos são _Polyeucte_, _Cinna_ +e _Pompée_, este inspirado por Lucano; _Mentor_ é o velho personagem da +legenda grega de Ithaca, já reproduzido no theatro hespanhol pelo poeta +Alarcon, ao qual Corneille foi pedir o modelo; _oedipe_ e _Sertorius_, +que são lampejos da constellação de decadencia de um genio, pertencem, a +primeira ao cyclo da heroicidade thebana que Sophocles já havia +immortalisado na scena grega, a segunda é pura historia da Iberia em que +o vulto admiravel do general romano fulge num derradeiro vestigio de +genio, ao lado de Viriato, o grandioso pastor dos Herminios e fundador +da nacionalidade lusitana. + +Nem mesmo no periodo da sua decadencia, vencido na queda da _Pertharite_ +e no confronto do seu _Attila_ com a _Andromaque_ de Racine, outro genio +que subia rapidamente ao zenith, nem mesmo na desventura, a alma de +Corneille vibrou pela patria, o seu talento não procurou conforto na +historia assombrosa da França: o seu coração voltou-se ainda para o +oriente, foi á Judea estudar a grandeza sublime do Rabbino da Samaria e +deixou na _Imitação de Christo_ a ultima expressão do seu genio, como o +raio extremo do sol ao entrar na sepultura do occaso. + +De Racine, póde-se affirmar que escreveu as suas tragedias +inspirando-se, ora no theatro grego, ora na Biblia. + +Assim o ensina um sabio mestre brazileiro: + + «deixando respeitosamente de parte Eschylo e Sophocles, impossiveis + de imitar, modelou-se por Eurypedes, menos perfeito na generalidade + da concepção, porém mais tocante na pintura dos accessorios e que + maior conformidade offerecia com o seu talento.» + +São d'esse genero a _Andromaque_, _Mithridates_, _Phèdre_, _Iphigénie_. + +São inspiradas na Biblia, a _Thébaïde_, _Esther_ e _Athalie_. + +Pertencem ao genero historico: _Alexandre_, _Berenice_, _Britannicus_. E +ainda mesmo quando Racine, resolvendo esmagar os seus zoilos, escreveu a +comedia _Les Plaideurs_, que é uma _charge_ temivel de espirito e de +genio, foi pedir ás _Vespas_ de Aristophanes, não só a inspiração, mas o +exemplo, o paradigma. + +Todas essas tragedias ficaram na litteratura franceza, pertencem ao +Theatro da França que não as repudiou, que as ama, que as admira, +cultuando a memoria dos genialissimos poetas, não obstante o haverem +elles esquecido a seara magnifica da patria pelos encantos das estranhas +figuras orientaes. + +Victor Hugo foi pedir a Inglaterra o vulto espantoso do dictador para +escrever a maravilha dramatica de _Cromwell_, deixando no esquecimento a +soberba grandeza de Danton! Para dar á Escola romantica a sua data +inicial no Theatro francez, o grande poeta das _Folhas de Outono_ foi +buscar á Hespanha a inspiração dos versos maravilhosos do _Hernani_ e +deixou á litteratura dramatica da França as figuras esculpturaes de +_Dona Sol_, do bandido celebre, do Rei D. Carlos e do velho aristocrata +Ruy Gomez. + +Mas onde o genio do grande filho de Besançon attingiu a altitude suprema +a que não chegaram Corneille no _Cid_ nem Racine na _Phèdre_, foi +no _Torquemada_, a epopéa dramatica do fanatismo: e Torquemada foi o +inquisidor da Hespanha. Nenhum poeta da peninsula havia arrancado á +historia a figura sinistra do sacerdote; Hugo levanta-a do tumulo, +illumina-a com as fulgurações do seu genio, como se em torno da +cariatide monstruosa da Inquisição ardessem as fogueiras dos +autos-da-fé, e liga á litteratura dramamatica da França a figura +barbara, apocalyplica do carrasco da Igreja. + +No emtanto, na historia da França havia a linha cruel de Luiz XI, algoz +do duque de Alençon, que podia ter inspirado o genio do poeta sublime. + +Alfred de Vigny, contemporaneo de Victor Hugo, na sua primeira phase +litteraria foi quasi totalmente oriental e biblico: _Eloah_, _Symeta_, +_Dryade_, _Fille de Jephté_, _Femme adultère_, _Dolorida_, _Deluge_. + +Na segunda phase produziu, em verso, o seu drama notavel Chatterton, +cujo heróe é o grande e infortunado poeta inglez que, aos 22 annos, +procurou no suicidio a solução para a vida das amarguras e tristezas que +arrastava o seu genio incomprehendido. + +E Alfred de Vigny, tão admirador de André-Chénier que n'este procurou +inspiração para a sua _Dryade_, deixou no esquecimento a figura soberba +e tragica do poeta da revolução, cuja cabeça rolou no cadafalso como uma +cabeça vulgar, não obstante: + + «avoir quelque chose là dedans» + +E a França não engeitou a obra immortal de Alfred de Vigny, e a +_Comedie-Française_ em 1881 fazia a sua _reprise_, com alto successo, +não obstante a opinião do Zola que a reputa: + + «la negation du théatre.» + +A critica, severa para mim, devêra ter vergastado primeiramente a +memoria de Lord Byron que cantou na sua lyra de poeta e serviu com a sua +espada de guerreiro a obra politica da emancipação da Grecia; devêra +anathematisar Sienkiewicz, o polaco genial que estudou no romance a +reconstituição da vida romana á época da decadencia cesarista de Nero; +devêra ter condemnado á morte M.^me Judith Gauthier, a filha gentil e +talentosa de Theophile, que, deixando de parte a herança paterna, +preciosa e brilhante, foi procurar o assumpto das suas obras notaveis +nas terras e nos costumes do extremo oriente, com especialidade no Japão +e na China; devêra ter amaldiçoado e reduzido a pó o sublime poeta +contemporaneo da França--Edmond Rostand--que engastou nos tres actos +phantasticos da _Princesse-Lointaine_ um assumpto oriental e na +_Samaritaine_, a sua obra prima, a vida, a figura, a alma encantadora da +filha da Judéa, deixando no esquecimento a belleza mystica de Joanna +d'Arc; devêra ter queimado a estatua de Castellar, porque o espantoso +rival de Cicero escreveu os extraordinarios volumes dos _Recuerdos +d'Italia_, sem ter jámais escripto uma pagina de viagem pela propria +Hespanha, sua patria; devêra ter castigado os despojos funebres de +Milton, porque o grande poeta inglez, cuja inspiração hombrea com as de +Tasso e Ariosto, cuja grandeza genial é, depois de Shakespeare, a +creação mais opulenta da poesia britanica, teve o arrojo de esquecer a +sua verde Erin e foi ao pincaro do Himalaya, ao berço da tradição +adamita, procurar o assumpto do seu _Paradise Lost_. + +E a critica para ser sincera, ou, pelo menos, logica, severa como foi +para o obscuro autor da desventurada _Talitha_, devêra censurar +amargamente a falta de patriotismo de Araujo Porto Alegre que, em versos +de um sabor arcadico e em metro solto, celebrou o almirante genovez +Colombo, deixando ingratamente no olvido a figura épica do riograndense +Tamandaré, lobo dos mares como o piloto de Palos, além de guerreiro como +Patterson. + +E a censura devêra estender-se tambem a Gonçalves de Magalhães que, em +vez de cantar o heróe dos Guararapes ou a figura brilhante de Garibaldi +que vive na tradição da liberdade sulina, preferiu celebrar na sua lyra +a aguia de Wagram, na queda monstruosa de Waterloo, tanto mais que ao +nascer do theatro brazileiro, quando fulgia o talento artistico de João +Caetano, deixou no esquecimento a figura negra de Calabar e foi á +historia de Milão pedir o assumpto e os personagens da sua tragedia +_Olgiate_, em cuja acção se estuda a tyrannia licenciosa de Galeazzo +Visconti e o assassinato do tyranno. + +E a critica, tão rispida com o autor da _Talitha_, chegando mesmo a +citar a sentença do divino Almeida Garrett para aquelles que se +abalançam ao estudo de estranhos assumptos esquecendo a patria, devêra +começar pela censura ao proprio autor do _Frei Luiz de Souza_, que +iniciou a sua vida litteraria no theatro escrevendo _Xerxes_, +_Lucrecia_, _Sophonisba_, _Atala_, _Meroppe_ e _Catão_, antes de se +lembrar que _D. Filippa de Vilhena_ fôra uma das heroinas de sua terra. + + * * * * * + +Mas a critica, severa com o autor da _Talitha_, não tem sinceridade nos +seus conceitos. + +Um formosissimo talento de artista, alma de raro quilate, aberta ás +emoções do Bello, filho d'esta terra, Araujo Vianna, musicista de +apurado engenho, escreveu a sua brilhante partitura da _Carmella_, um +encanto, uma joia. + +A acção do libreto passa-se na Italia, a musica inspira-se +claramente na escola de Massenet, sóbe á scena no Rio de Janeiro +interpretada por artistas italianos, sóbe á scena em Porto Alegre +interpretada por artistas italianos, a critica applaudiu em delirio, +extasiou-se, e ninguem viu, ninguem sentiu, que a _Carmella_ é italiana +pelo libreto e franceza pela musica; o patriotismo riograndense não se +julgou melindrado porque o intelligente _maestro_ patricio deixou na +obscuridade a nossa paisagem, o nosso clima, as nossas mulheres, os +nossos costumes, a nossa poesia, a nossa musica popular e +caracteristica, preferindo a lenda, o lyrismo, a impetuosidade, o céo, a +aventura da gloriosa e divina Italia da arte... + +A critica emmudeceu. + +Entretanto Araujo Vianna apenas visitou a Italia: o seu sangue é +genuinamente brazileiro, formou-se o seu espirito na propria patria, nem +a natureza nem a sociedade italiana influiram no seu desenvolvimento +intellectual e moral... + +A critica tinha de tudo isso conhecimento exacto e perfeito mas... +_passons là dessus_. + + «Dès lors, les impuissants et les hypocrites peuvent injurier + l'oeuvre et l'auteur, les couvrir de boue, les nier...» + + Zola--_Documents litteraires_, pag. 418. + + * * * * * + +Sempre ingenua, ou ignorante, ou perfida, a critica censura a _Talitha_, +condemnando-a porque os seus personagens fallam uma linguagem elevada, +superior á modestia das suas condições de aldeãos. + +A critica é futil e não sabe o que diz. + +_Talitha_ falla nos seus dialogos a linguagem do mysticismo que durante +dezesete annos ouviu e aprendeu com o seu velho padrinho: o cura. + +A sua linguagem é simples, ingenua e lyrica. + +Mas simples, ingenua e lyrica é a linguagem do povo portuguez, desde a +sua infancia até hoje. + +As imagens que o autor lhe põe nos labios são as mesmas que borbulham na +phantasia do povo lusitano, ha mais de nove seculos de nacionalidade, +affirmada num _folke-lore_ riquissimo e inexgottavel, desde Guesto +Ansures até Antonio Fogaça. + +Pois a uma creança de dezoito annos, alma pura e boa, natureza casta, +intelligente e fina, delicada e vibratil, torturada pela desventura, +póde ser negada a phantasia creadora, poetica e imaginosa que +caracterisa o povo em cujo meio ella vive, principalmente na aldeia, na +atmosphera idylica e bucolica, simplesmente porque a cataracta a cegou +aos oito annos? + +Mas Antonio Feliciano de Castilho foi o bardo cégo que escreveu a _Noite +do Castello_, as _Cartas de Echo a Narciso_, os _Ciumes do Bardo_, a +_Primavera_, o _Outono_ e cégo é o anonymato popular que produz ha oito +seculos esse rosario encantador e sublime das trovas e cantigas que +andam na tradição oral, na garganta de todas as mulheres, na voz de +todos os cantores, nos labios de todos os estudantes, desde o +_Cancioneiro de Garcia de Rezende_ e de _El-Rei D. Diniz_ até o +_Romanceiro_ de Garrett e os _Cancioneiros_ de Theophilo Braga e +Gualdino de Campos. + +São da poesia popular, são do povo em cujo seio _Talitha_ nasceu, +cresceu, amou, sonhou e foi noiva, as formosas quadras que correm de +labio em labio, sem autor conhecido e que Junqueiro, Eugenio de Castro, +Antonio Nobre e Correia de Oliveira gostosamente assignariam. + + I Nessas tuas mãos pequenas + como não vi em ninguem + não sei como as minhas penas + couberam nellas tão bem. + + II Perdes mais em me perder + do que eu perco em te deixar: + perco quem sabe offender, + tu perdes quem sabe amar. + + III Dizes que deixo saudades, + não me posso conformar: + pois se eu as levo commigo, + como t'as posso deixar? + + IV Acostumei tanto os meus olhos + a namorarem os teus + que de tanto confundil-os + nem já sei quaes são os meus. + + V Se os meus olhos te incommodam + quando estão na tua frente + hei de arrancal-os um dia + para te amar cegamente. + + VI Se eu soubesse que voando + alcançava o que desejo + mandava fazer as azas + que as penas são de sobejo. + + VII Eu jurei que não tornava + a dar adeus a ninguem: + quem parte saudades leva + quem fica saudades tem. + + VIII Essas tuas sobrancelhas + como nunca vi mais bellas + são laços de fita preta + unindo duas estrellas. + + IX Não sei que quer a desgraça + que atraz de mim corre tanto, + hei de parar e mostrar-lhe + que de vêl-a não me espanto. + + X Vae alta a noite, vae alta, + mais alto vae o luar, + mais alta vae a ventura + que Deus tem para me dar. + + XI É tua bocca ideal + um palacio com jardim: + as portas são de coral + os degráos são de marfim. + + XII Aguas passadas não tornam; + deixae fallar o dictado: + ó saudade, és um moinho + móes com aguas do passado. + + XIII Pára tu, meu coração! + onde estou eu, onde vim? + triste caminho de lagrimas + tem começo e não tem fim. + + XIV Ouço cousas que não ouço, + vejo cousas que não vejo: + olhos da minha saudade, + ouvidos do meu desejo! + + * * * * * + +E a um povo que assim traduz tão lyricamente, com tanta philosophia, com +tanto sentimento, todas as impressões da sua alma dôce, que assim vibra +essa poesia celeste nas cantigas das eiras ao luar, nas espadelladas, +nas desgarradas, nos desafios, na Paschoa, no Natal, nas romarias, a um +povo que tem alma poetica, mais suave que um paraiso, mais simples e +mais colorida que um poente de outono e uma alvorada de primavera, +póde-se, com justiça, arrancar essa linguagem que é caracteristica? + +O escriptor que o fizesse, a pretexto de ser verdadeiro com os seus +personagens, para que estes não pareçam superiores ao seu meio, mentiria +á propria consciencia, adulteraria a natureza, roubaria ao povo que +quizesse estudar o mais bello reflexo da sua individualidade litteraria. + +A um velho cégo que mendigava pelas estradas, entre Villa-Pouca de +Aguiar e Pedras Salgadas, na Provincia de Traz-os-Montes, muitas vezes +ouvi cantar com a sua voz roufenha, na tristissima toada, monotona +como a sua desventura, as quadras que aqui reproduzo fielmente. Andava +elle pelas feiras, pelos caminhos, pelas romarias, levando a sua +desgraça, como Ashaverus, durante sessenta annos, a toda a parte onde a +tradição religiosa celebrava as festas dos seus oragos, onde a alegria +popular estuava nas danças e folguedos; o rapazio espantado escutava-o +com profundo respeito, as raparigas ouviam-n'o em silencio, porque na +amargura das suas cantilenas, na monotonia das suas queixas, na tristeza +das suas lamentações havia verdade de conceitos e a revolta justissima +de uma alma ferida contra a dureza da sorte e a iniquidade da natureza. + +Quem lh'o ensinou, quem escreveu esses versos, onde os aprendeu elle, +que poeta mysterioso, simultaneamente artista e philosopho, traduziu na +simplicidade mystica d'aquellas quadras toda a immensidade da sua +irremediavel desventura? A alma popular, suave e lyrica, de uma raça, +filtrada na arêa branca e pura de uma tradição de oito seculos. + + Diz toda a gente e eu não nego + que Deus é pae de bondade, + mas se isso é pura verdade + como foi que eu nasci cégo? + + Lá que Deus tirasse a luz + a quem rouba ou assassina, + era a justiça da sina + que todo o mundo conduz. + + Mas a mim, não foi clemente + porque eu não tinha nascido; + é que Deus tinha o sentido + de cegar um innocente. + + Aos lobos que andam na serra + matando ovelhas e anhos, + dizendo mal aos rebanhos + Deus não castiga na terra. + + Não ha lobo que não veja, + todos são filhos de Deus, + só nos tristes olhos meus + a eterna noite negreja. + + Não tocaria viola + se eu fosse fera damnada, + mas não andava na estrada + soffrendo e pedindo esmola. + + * * * * * + +Milton, collocando nos labios de Eva os seus primorosos versos, não +curou de saber se no Paraiso a Mãe dos homens fôra educada pela serpente +nos mysterios da poesia, da arte, da phantasia, da linguagem +alcandorada, nem cogitou de saber se já naquelle tempo, no pincaro da +cordilheira industanica, se fallava o inglez. + +A Samaritana era uma mulher vulgar e desprezivel; Rostand colloca-lhe +nos labios a linguagem sublime dos seus alexandrinos formosos, sem +indagar se, ao tempo de Christo, na Samaria, junto ao poço de Jacob, já +se fallava francez, em verso, de metrica impeccavel e de rima opulenta, +brilhante, artisticamente disposta sob a fórma severa que Boileau, +Corneille e Racine haviam de prescrever 1600 annos depois. + +A critica, porém, mais céga que a minha desventurosa _Talitha_, mais +ingenua que a alma primitiva, mais ignorante que a Samaritana e mais +perfida que a Serpente, a sogra feroz de Adão, occultou o preceito de +Taine: + + «Par cet excès de l'imitation litterale, l'artiste arrive a + produire, non pas le plaisir, mais la répugnance, souvent le dêgôut, + et quelque fois l'horreur. + + «Il en est de même dans la litterature. + + «La meilleure moitié de la poesie dramatique, tout le théatre + classique grec et français, la plus grande partie des drames + espagnols et anglais, loin de copier exactemente la conversation + ordinaire, altèrent la parole humaine de propos deliberé. Chacun de + ces poètes dramatiques fait parler ses personnages en vers, impose a + leurs discours le rythme et souvent la rime. Cette falsification est + elle nuisible a l'oeuvre? + + «En aucune façon. L'experience en a été faite de la maniere la plus + frappante dans une des grandes oeuvres de ce temps, l'_Iphigénie_ de + Goethe, ecrite d'abord en prose et ensuit en vers. Elle est belle en + prose, mais, en vers, quelle diference! Ici, visiblement, c'est + l'alteration du langage ordinaire, c'est l'introduction du rythme et + du mètre qui communique à l'oeuvre son accent incomparable, cette + sublimité sereine, ce large chant tragique et soutenu, au son duquel + l'esprit s'élève au-dessus des vulgarités de la vie ordinaire et voi + reparaitre devant ses yeux les herós des anciens jours, la race + oubliée des âmes primitives, et, parmi elles, la vierge auguste, + interprète des dieux, gardienne des lois, bienfaitrice des hommes, + en qui toutes les bontés et toutes les noblesses de la nature + humaine se concentrent pour glorifier notre espèce et pour relever + notre coeur.» + + H. Taine--op. cit., vol. I, pag. 28 et 29. + +E a critica indigena censura ao obscuro autor da modesta _Talitha_ a +ousadia de ter observado o preceito que Taine, o grande mestre da França +e do mundo, ordena que se faça, exactamente o que fez Goethe para dar +maior valor e mais gloriosa belleza á sua _Iphigenia_; exactamente o que +fez Rostand para poder impôr á civilisação parisiense, na compleição +nevrotica de Sarah Bernhardt, a inferioridade da mulher da Biblia, a +hetaïra da Samaria condemnada ao supplicio da lapidação pelos heliastas +da Judéa. + + * * * * * + +Diante da bondade e em face das virtudes caracteristicas dos personagens +que se movimentam nos tres actos da _Talitha_, a critica sentiu arrepios +de indignação e abespinhou-se: á intelligencia dos censores é +inconcebivel a coincidencia de um encontro simultaneo de cinco almas +igualmente boas, simples, generosas, quasi santas; a sociedade repelle +essa pureza, os factos demonstram o contrario: o autor da _Talitha_ não +observou, phantasiou; o seu drama é um trabalho de gabinete, no ambiente +do mundo real essa hypothese não existe. + +A critica pontificou _ex-cathedra_, infallivel como o successor de S. +Pedro, Vigario de Christo na terra. + +Taine escreveu: + + «Après avoir examine devant vous la nature de l'oeuvre d'art, il + reste à etudier la loi de sa production. Cette loi peut, au premier + regard, s'exprimer ainsi: _L'oeuvre d'art est determinée par un + ensemble qui est l'état général de l'esprit et des oeuvres + environnentes.»_ + + H. Taine.--op. cit., vol. I, pag. 55. + +É a influencia do meio na producção artistica: consequentemente, para +apreciar a obra d'arte, quando é sincera, a critica necessita de +conhecer o meio em que ella foi produzida, o estado geral dos espiritos +e dos costumes em cujo seio o pintor, o esculptor ou o escriptor, pintou +o quadro, esculpiu a estatua, ou escreveu o poema. + +E dos criticos indigenas que se lançaram á _Talitha_, como San Thiago +aos moiros, apenas um viveu temporariamente em Portugal, mas nunca se +perdeu em terras trasmontanas, gastou o tempo nas ruas das cidades +populosas: a aldeia lusitana, se a viu não a estudou, se a estudou +ou não a comprehendeu ou... tresleu. + +De sorte que a critica, severa e exigente, desconhece por completo o +meio que influiu na producção da _Talitha_, não tem noção, sequer, do +estado geral do espirito e dos costumes em cuja atmosphera o obscuro +autor do drama foi buscar os seus personagens: a critica, portanto, é +ignorante e, como todo os ignorantes, é pretenciosa, balofa e +petulantissima. + +Ha doze annos ficou terminado o terceiro acto d'esse modestissimo +evangelho; ha doze annos appareceu pela primeira vez, no Brazil, a +sublime pastoral--_Os Velhos_--de D. João da Camara, cuja acção se passa +em uma aldeia do Alemtejo. + +Quando a critica indigena, do Rio Grande do Sul, assistiu á +representação dessa obra prima, extasiou-se e não viu que na formosa +comedia do mallogrado escriptor portuguez se movimentam, não cinco, mas +nove personagens, nove almas igualmente puras, virtuosas, que em toda a +acção da bellissima pastoral ha um ambiente de consoladora bondade. + +Applaudiu incondicionalmente, sem conhecer o meio em que D. João da +Camara estudou os seus personagens, nem sentiu necessidade de saber qual +era o estado geral dos espiritos e dos costumes que o brilhante +escriptor portuguez reproduziu no palco, para verificar se aquelles +personagens, aquella acção, aquelle ambiente correspondiam á realidade +objectiva da vida aldean no Alemtejo, ou se o dramaturgo phantasiara; se +seria possivel encontrar no fim do seculo XIX, em plena civilisação +occidental europea, reunidas na mesma terra, nove almas puras, +virtuosas, preoccupadas apenas com a pratica do Bem, sem um pensamento +máo, sem uma palavra rude, sem uma acção menos digna. + +Ha nos dois primeiros actos da _Talitha_ uma profunda tristeza, a +amargura soluça em todas as gargantas e no terceiro acto ha uma explosão +de alegria: esse contraste parece exquisito, inverosimil, sem exemplo na +realidade da existencia; todo o drama tem um excessivo perfume religioso +que vae ao exaggero, diz a critica. + +A critica ignora o que sejam na aldeia portugueza o sentimento +religioso, o culto catholico, a tradição christan, porque nunca viveu na +intimidade daquelles lares; o que lobrigou, através da obra suspeita e +viciada de escriptores trabalhados pelo meio social corrompido dos +grandes centros, envenenou-lhe a alma já preparada para receber a +semente do mal e a critica, enfunada de leitura superficial, para +maldizer, deixou-se ficar na commodidade das biliothecas e dos +gabinetes, acceitou as indicações da alma perversa de algum mentor sem +sinceridade, explorador da inexperiencia de creanças talentosas e +esqueceu a lição de Taine: + + «Pour plus de clarté, nous prendrons un cas très simple, simplifié + exprés, celui d'un état d'esprit dans lequel la tristesse est + predominante. + + .................................................................. + + «Il faut d'abord remarquer que les malheurs qui attristent le public + attristent aussi l'artiste. + + «Comme il est une tête dans le troupeau, il subit les chances du + troupeau. + + .................................................................. + + «Sous cette pluie continue de misères personelles, il deviendra + moins joyeux, s'il est joyeux, et plus triste s'il est triste. + Voilá--un premier effet du milieu. + + .................................................................. + + «Car, ce qui le fait artiste, c'est l'habitude de degager dans les + objets le caractère essentiel et les traits saillants: les autres + hommes ne volent que des portions, il saisit l'ensemble et l'esprit. + Et comme ici le caractère saillant est la tristesse, c'est la + tristesse qu'il aperçoil dans les choses.» + + H. Taine--Op. cit., pag. 68 e seguintes. + +Pertencem ao Sr. Adherbal de Carvalho as seguintes palavras: + + «O que deu nascimento, entre elles, á noção de fatalidade é uma + concepção que se refere, não ao futuro, mas unicamente ao passado; o + que é, é, e nenhum poder no mundo poderia fazer que um facto + concluido não existisse.» + + _A poesia e a arte no ponto de vista philosophico._--Cap. II, pag. 50. + +O modesto autor da _Talitha_ não podia fugir á acção do meio em que se +encontrou com os seus personagens, como doutrina Taine, nem se podia +oppôr á verdade: _o que é, é, e um facto concluido, poder algum o annulla_. + +Se o autor transformasse á medida do seu desejo, pensando em ser +agradavel á critica, mentiria á sua consciencia, deturparia as leis da +arte: os zoilos pódem maldizer, á vontade, o autor fica tranquillo e +contente com a fiel observancia das lições de Taine e do escriptor +brazileiro, inspirado na doutrina de Guyau. + +O facto é verdadeiro, era sufficiente que fôsse verosimil: o autor da +_Talitha_ dramatisou-o, traduziu nos seus versos modestos as desventuras +e a redempção dos seus personagens pelo amor, + + «l'amor che muove il sole e l'altre stelle.» + +O seu drama obscuro impressionou e commoveu, tanto basta: a agitação da +critica apenas conseguiu encrespar a vaidosa pleiade de coripheus do +elogio mutuo e a paixão, a animosidade e malquerença politicas. + +Zola pontificou: + + «Il n'est poin't de jeune homme arrivant de sa province qui ne rève + de distribuer des coups de férule. + + «Ces pauvres jeunes gens n'ont souvent pas deux idées nettes dans la + tête. L'experience leur manque. Ils tapent en aveugles. De lá les + jugements extraordinaires qui font resembler notre critique a une + veritables Babel, ou on parlerait toutes les langues, sauf la langue + de verité et de justice qu'il faudrait y parler. + + «Je ne nommerai personne parmi ces jeunes gens. + + «Le vent qui les apporte, les emporte.» + + _Documents litteraires; la critique contemporaine._--pags. 346, 347. + + * * * * * + +O assumpto da _Talitha_ é portuguez, portuguezes são os seus +personagens, portuguez o meio em que a acção se desenvolve, portugueza +foi a atmosphera em que o autor viveu a sua adolescencia e a sua +mocidade: o drama não podia deixar de reflectir + + «l'état général de l'esprit et des moeurs environnantes.» + +De profundas amarguras, de lacerantes provações para o povo portuguez +foi a época dolorosa em que o modesto autor da _Talitha_ aprehendeu em +flagrante o desenrolar da acção dramatica do seu poema lyrico: e essa +éra prolongou-se em uma crise tremenda que acaba de chegar ao seu auge, +a sua maxima intensidade. + +Portugal acabava de receber o _ultimatum inglez_ na questão +pungentissima das possessões africanas, a natureza fôra de uma dureza +extrema: ás innundações dos invernos succedeu a crise agricola que +esmagou a producção vinicola pela invasão phyloxerica, as agitações +politicas ganhavam terreno e a ideia republicana fazia proselytos +ameaçando as instituições monarchico-religiosas de sete seculos e, +em meio dessas provações a Providencia, esquecida da immensa piedade +d'aquelle povo sublime, ininterruptamente demonstrada em uma historia em +que não soffre solução de continuidade o culto da divindade catholica, +fulmina-lhe os homens notaveis e successivamente desapparecem no tumulo: +Fontes Pereira de Mello, Anselmo Braamcamp, Pinheiro Chagas, Guilherme +de Azevedo, Lopo Vaz, Antonio Rodrigues Sampaio, Luciano Cordeiro, +Antonio Ennes, Marianno de Carvalho, Oliveira Martins, Carlos Lobo +d'Avila, Eça de Queiroz, Alexandre da Conceição, Raphael Bordallo +Pinheiro, Gervasio Lobato, Souza Martins, Camillo Castello Branco e +Anthero de Quental imitam o exemplo de Chatterton e atravessam a +luminosa região dos seus cerebros geniaes com a inferioridade +crudellissima de uma bala. + +Da nova geração, Antonio Fogaça, Luiz Ozorio, Antonio Nobre, Moniz +Barreto seguiram a estrada da morte. + +A crise economica era pavorosa, a emigração clandestina assustava os +espiritos mais fleugmaticos, á questão ingleza, seguiu-se a revolta de +31 de Janeiro e a situação geral era tão delicada e complexa que nem o +genio de José Dias Ferreira, nem as combinações politicas de homens como +Hintze Ribeiro e Fuschini conseguiram solver. + +Ao desequilibrio financeiro succederam a questão monetaria e o augmento +da divida publica, fortemente aggravadas as condições do credito publico +pela questão internacional do emprestimo de D. Miguel. E Teixeira Bastos +escreve: + + «Diante do desconsolador espectaculo que apresenta a sociedade + portugueza estrebuchando no esphacêlo, ha quem tenha perdido de todo + a esperança de regeneração; ha quem se persuada que estão + chegados os ultimos dias de Portugal. Com effeito, a agudeza da + crise, que talvez ainda esteja longo de seu termo, justifica em + grande parte este excesso de pessimismo. + + «Portugal, como todas as nações contemporaneas, em maior ou menor + gráo, lucta com uma crise terrivel, que se revela sob aspectos + variadissimos. É uma crise politica, financeira, economica, mas + sobre tudo social e moral.» + + Teixeira Bastos--A Crise, pag. 435. + +Esse estado geral do espirito e dos costumes portuguezes influiu +poderosamente na producção artistica e litteraria d'aquelle tempo e na +que se seguia. + +Na esculptura destaca-se a estatua de _Hermengarda_ em que o talento de +Moreira Rato evoca para o marmore a alma dilacerada da heroina de +Herculano, o pessimista glorioso, o desilludido sublime de Val de Lobos. + +Na architectura não surge cousa alguma que atteste a sublimidade do +caracter nacional e o que havia de notavel, legado e herança do passado, +soffre a influencia do desanimo, da indefferença, da tristeza geral que +domina. + +É de Ramalho Ortigão o que se vae lêr: + + «Levaria muito tempo e seria excessivamente triste ennumerar todos + os attentados de que teem sido e continuam a ser objecto, perante a + mais desastrosa indifferença dos poderes constituidos, os monumentos + architectonicos da nação... + + «Dos desacatos de lesa-magestade nacional, a que tenho a dôr e a + vergonha de me referir, uns teem caracter anonymo, outros affectam + directamente a cumplicidade official. Os primeiros são uma + consequencia do desdem: os segundos são um resultado de incapacidade.» + + Ramalho Ortigão.--_O culto da Arte em Portugal_, pags., 19 e + seguintes. + +Quanto á vida e a producção litteraria, o autor da _Talitha_ invoca o +depoimento do grande critico portuguez; é elle quem affirma: + + «Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou pela inepcia de + abastardadas classes dirigentes, os fieis debandam por não haver + egreja que os reuna, e é já evidente esta enorme catastrophe: que na + arte de portugal faltam corações portuguezes. + + «Fere-nos já esse phenomeno consternador em todos os aspectos da + vida intellectual. + + .................................................................. + + «A juventude litteraria, dotada de uma consideravel força de + applicação e de talento, traz-nos uma poetica exotica, de climas + nevoentos, anti-meridional, e vem fallando uma lingua secreta, + cabalistica, interessantemente engenhosa, incomprehensivel para o + povo e para os que não estiverem iniciados na morphologia espiritica + das novas seitas. + + «Em toda a historiographia contemporanea se nota uma glacial frieza + de critica, uma anemica pallidez de expressão, um geral entono de + apagada tristeza, em que bem se demonstra que não circula o sangue + vermelho da raça, nem se retrata o genio do nosso povo, meigo, + docil, de apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente sociavel, + amando a grande alegria estridente das feiras, das tardes de touros, + das romarias dos seus santos populares, conservando nas intimas + camadas sociaes um residuo trovadoresco, de palladino e de + menestrel, susceptivel ainda das paixões mais profundas, todo de + imposição e repentismo, capaz das coisas mais imprevistamente + grandes, poetico, aventureiro e destemido. + + «Na poesia, assim como na pintura e na musica, não ha uma escola + portugueza, porque, na falta de laço social que congregue os nossos + artistas, sem elementos coordenados de estudo, sem modelos patentes, + sem lição commum, não ha entre elles mutuamente, nem entre elles e o + povo de que derivam, communhão alguma de ideal ou de sentimentos.» + + Ram. Ortigão.--op. cit., pag. 110 e seguintes. + + * * * * * + +Embora modesta a _Talitha_, embora sem merecimento o seu autor obscuro, +como poderiam ambos--drama e escriptor--fugir a esse estado geral do +espirito e dos costumes, de que falla Taine? + +Necessariamente deveriam obedecer á lei, e por isso apparece nos dois +primeiros actos do drama essa dolorida tristeza que é o reflexo da +situação geral da sociedade e que a desventura daquella familia, pela +desventura da pequena Talitha, aggrava e apura com intensidade. + + «D'autre part, l'artiste a été élevé parmi des contemporains + mélancoliques; partant, les idées qu'il a reçu et celles qu'il + reçoit encore tous les jours sont mélancholiques. + + «La religion regnante, qui s'est accommodée au lugubre train des + choses, lui dit que la terre est un exil, le monde un cachot, la vie + un mal, et que toute notre affaire est de meriter d'en sortir» + + H. Taine--op. cit., vol. I. pag. 65. + +Aliás é profundamente melancolica toda a obra litteraria portugueza +desse tempo, muito principalmente na poesia. + +É um soluço de magua--o _Espirito Gentil_--de Luiz Ozorio; formam um +rosario de amarguras--as _Orações do Amor_ de Antonio Fogaça; é um +gemido crudellissimo o _Só_ de Antonio Nobre; é como um echo de +Necropole--_Nada_--de Julio Dantas. + +No theatro, Marcellino de Mesquita lança a _Noite do Calvario_, +reproducção profundamente dolorosa e triste de um acontecimento real da +vida de um lar que o dramaturgo generalisa ás condições da vida social, +aliás já cruelmente desvendada nos _Castros_. + +Para fugir á influencia da actualidade Julio Dantas recorre ao passado, +á chronica, a historia e não consegue eximir-se á impressão da +desventura: _O que morreu de amor_ é uma resurreição esmagadora de +magua; a _Severa_ é um manto de crepe encobrindo um cenotaphio; _O serão +nas larangeiras_ é uma ironia finissima, um esfusiar de espirito que +occulta, mascára, e pinta um immenso abatimento moral. + +Gervasio Lobato passa nesse meio espalhando gargalhadas, ridiculo e +_troça_ sobre a sociedade carcomida pela crise e acabrunha de pilherias +a burguezia e a classe media no _Commissario de Policia_, no _Solar dos +Barrigas_ e na _Lisboa em Camisa_, passando do palco ao romance. + +A _Velhice do Padre Eterno_ é uma _charge_ monumental sobre o +ultramontanismo da sociedade religiosa: a _Patria_ é uma objurgatoria +tremenda, um raio de colera olympica; os _Simples_, constituem um colar +de lagrimas de uma jeremiada genial e as _Orações ao Pão e á Luz_ são as +aspirações tantalicas do genio ao seio da excelsa divinisação da arte, +como refugio extremo de uma alma que foge ás revoltas da terra para não +cahir na lama das decomposições sociaes. + +A _Rosa engeitada_, de D. João da Camara, é a dôr vivendo e esmagando as +almas; os _Velhos_, apezar do seu encanto bucolico e purissimo, é um +crepusculo de sombras dôces. + +A _Cruz da Esmola_, de Eduardo Schwalbach, é a photographia nitida da +tortura e do desespero... + +E tudo isso é a reproducção conscienciosa de um estado de pathologia +social... a menos que a critica não attribua tudo isso á phantasia dos +artistas pelo gozo requintado de esmagar a propria patria ao peso de +calumnias... + +Mas neste caso como comprehender o collossal successo das obras +extraordinarias de Ramalho Ortigão na critica, de Eça do Queiroz ao +romance e de Raphael Bordallo na caricatura, profligando esse estado +geral de espirito e de costumes como Alphonse Karr, Gavarni e Flaubert +na alta cultura genial da França, em plena floração artistica e litteraria? + +O terceiro acto da _Talitha_ não destôa dos anteriores, a unidade não se +quebra, transmitte-se, completa-se: a mesma suave melancolia dos +primeiros conserva-se na narrativa da morte do sargento que _Ruy_ +communica a _Joaquina_ e no _raconto_ que das suas desventuras, faz a +_Marqueza de Rilma_ ao velho cura João Fulgencio. + +A mesma serenidade christan dos primeiros actos paira no terceiro +através da descripção em que _Talitha_, ao som dos sinos distantes da +missa do gallo, conta a _Ruy_ e a _Joaquina_ a sua allucinação +passageira e termina com a _Salve-Rainha_ rezada ao soluçar do orgam e +ao repique da alvorada annunciando a missa d'alva. + +A alegria que vibra n'este acto é mais intensa, realmente, mas n'elle se +encontram trez factos culminantes: a confirmação do noivado de Talitha +pelo perdão da Virgem na visão da missa; a cura radical e milagrosa da +sua cegueira e o apparecimento da mãe tanto tempo perdida. + +Mas a alegria não surge alli de surpresa, repentinamente: no primeiro +acto ella vibra na scena final de amor em que as duas almas que se +comprehendem recebem a benção da velha Joaquina surprehendendo-as na +ventura do seu idyllio, e no segundo acto a primeira scena succede +naturalmente a essa e os dois velhos ligam, plas recordações, a passada +alegria de outros tempos, a que se vae em breve descerrar quando _Ruy_ +levantar definitivamente a venda aos olhos da redimida. + +Ahi a alegria vae á intensidade das lagrimas, é a tristeza que +nasce das extremas emoções da felicidade que não é triste e, se +momentaneamente desapparece quando _Talitha_ se deixa vencer pela fé +religiosa e rompe o juramento de amor para cumprir o juramento do voto +de clausura, de novo se reata e estala em um sorriso de supremo +arrebatamento, quando a piedosa e santa mentira do _Cura_, depois da +confissão, lhe relata o sonho da madrugada anterior em que elle viu +rolar no espaço + + no fulgor de uma estrella o beijo do perdão. + + * * * * * + +A virtude daquellas almas!... + +E porque razão de alta monta o autor da _Talitha_ devia quebrar a +verdade do facto observado, a unidade d'aquelle conjuncto que elle não +phantasiou e que, felizmente, encontrou num dia da sua mocidade, em meio +da crise social moral que caracterizava aquella época dolorosa de +provações populares? + +Introduzir um personagem que não tivesse as mesmas qualidades de +caracter seria deturpar os factos para obedecer ao _métier_, a +carpintaria de theatro vencendo a moral na arte: um cumulo de estupidez. + +Além de tudo, inutil: a emoção dramatica, o effeito theatral são +completos e seguros com a simplicidade daquellas cinco figuras, porque o +Bem, a Virtude e a Harmonia encantam e commovem sempre, em todas as +zonas e latitudes da terra. + +Pertencem ao Sr. Adherbal de Carvalho as seguintes palavras: + + «O artista que emprega suas faculdades ao serviço de uma idéa + generosa não é menos artista por isso, se bem que não seja por isso + que elle é artista. O amor e a intelligencia do bem suppõem uma + concepção superior das condições da vida individual e social que é + preciso desejar a todos os artistas como a todos os homens...» + + .................................................................. + + «Entretanto ha uma observação a fazer neste ponto, é que parece mais + facil pintar o vicio do que a virtude. Balsac, que se sahiu + admiravelmente na pintura dos monstros, encalhava quasl sempre + quando era atacado pelos homens pudicos. + + «Tão verdadeiros e vivos são os seus libertinos da alta o baixa + sociedade, como os outros, na maior parte do tempo, são ternos e mal + acanhados.» + + Op. cit. pag. 32. + +Ainda mesmo quando o autor da _Talitha_ houvesse faltado á verdade dos +factos que observou, teria tentado o problema, na opinião do estheta +brazileiro, mais difficil de resolver: o estudo e a interpretação da +Virtude o do Bem, na psychologia dos cinco personagens que jogam em +scena a acção do seu obscuro poema lyrico. + +A critica indigena, ignorante ou perversa, petulante ou futil, feriu-se +com as proprias armas. + + * * * * * + +Que o autor da _Talitha_, sem prestigio para fazel-o, permittiu-se a +liberdade de escrever um drama em verso, fórma litteraria que está +totalmente banida do theatro moderno, supplantada pela prosa. + + +É outra censura da critica indigena; espera-a a mesma sorte das +anteriores: a critica é vesga e não sabe o que diz. + +Do theatro moderno ainda não foi banida a fórma alta e pura do verso: +semelhante vandalismo seria uma violencia feita á arte, á belleza, ao +bom gosto, á suprema lei do rythmo, para cujo excelso dominio tendem +naturalmente todas as manifestações da vida e a linguagem da poesia do +metro e da rima, a altissima elegancia. + +Moderno é Victor Hugo, gigante de oiro do theatro francez e escreveu em +verso: _Esmeralda_, _Burgraves_, _Ruy Blas_, _Cromwell_, _Torquemada_, +_Grandmère_, _L'Épée_, _Mangerontils?_, _Sur la lisière d'un bois_, _Les +gueux_, _Étre aimé_, _La Forêt-mouillée_. + +Modernos são Paul Delair e Lomon e escreveram em verso os seus dramas +_Garin_, _Jean Dacier_ e _Marquis de Kenilis_ que Zola critica +asperamente na sua obra--_Naturalisme au Théâtre_. + +Moderno é Banville e produziu _Hymnis_, _Riquet à la houpe_ e _Socrates +et sa femme_, tres comedias em verso. + +Moderno é Alphonse Daudet e entre as suas obras figura _Char_, comedia +em verso, em um acto. + +Moderno é Alfred Musset e legou ao theatro da sua patria: _Les marrons +du feu_, comedia; _A quoi rêvent les jeunes filles_, comedia; e _La +coupe et les lèvres_, drama, todos em verso. + +Moderno é Ed. Pailleron e no seu theatro figuram _Narcotique_, comedia +em um acto, e _Hélène_, drama em quatro actos, ambos em verso. + +Moderno é Ludovic Halévy, collaborador de Meilhac, e produziu, em verso, +a _Phryné_ e _Nina, la Tueuse_. + +Modernissimo é Emile Augier, o grande mestre da litteratura dramatica e +da carpintaria theatral e escreveu em verso a maior parte das suas +peças. São em verso: _Cigüe_, _Paul Forestier_, _Homme de bien_, +_Aventurière_, _Gabrielle_, _Joueur de flúte_, _Philiberte_ e +_Jeunesse_. + +Moderno é Catulle Mendés e em 1872 dotou o theatro com a sua comedia em +verso, _La Part du Roi_, em um acto; em 1888 fez representar a sua +formosa phantasia, tambem em verso--_Isoline_, em tres actos; e em 1889 +produziu, ainda em verso, o drama em 6 actos--_Fiammete_; em 1906, punha +em scena no Odéon, o seu drama _Glatigny_, tambem em verso. + +Modernissimo é Jean Richepin e, em 1905, fazia representar na Comédie +Française o seu _D. Quichote_, em verso. + +Modernissimo é tambem André Arnymede, que em 1906 assombrava a critica +parisiense com a representação triumphal de _La Courtisane_, em cinco +actos e em verso. + +Modernissimo é Francis de Croisset e escreveu em verso os tres actos +sensacionaes do Paon que subiu á scena na Comédie Française. + +Modernissimo é Emile Veyrin que viu os seus formosos versos dos quatro +actos de _Embarquement Pour Cythère_, no palco do Theatro des Bouffes +Parisienne. + +Modernissimo é Jacques Richepin e, em Abril de 1907, viu na ribalta da +_Porte St. Martin_, os soberbos alexandrinos da _Majorlaine_, em cinco +actos, depois de haver debutado com os versos admiraveis da _Reine de +Tyr_, no theatro Sarah Bernhardt. + +Moderno é François Coppée, e em 1878, em collaboração com Armand +d'Artois, produziu o drama em cinco actos _Guerre des Cent ans_; em +1879, _Le Trésor_, comedia em um acto; em 1881, _Madame Maintenon_, +drama em cinco actos e um prologo: em 1883, _Severo Torelli_, drama em +cinco actos; em 1885, _Les Jacobites_, drama em cinco actos; em 1880, +_Le Passant_, em um acto; e em 1888, _La Grève des Forgerons_, em um +acto, e em 1905, _Scarron_, em cinco actos: e todos esses trabalhos são +em verso. + +Rostand escreveu todos os seus dramas em verso: _Princesse Lointaine_, +_Romanesques_, _Cyranno de Bergerac_, _Samaritaine_, _Ayglon_ e +ultimamente os tres primeiros actos do _Chant-clair_... + +Miguel Zamacoix acaba de escrever e fazer representar em Paris pelo +genio de Sarah Bernhardt, _Les Boufons_, em verso alexandrino, obra +prima que a critica europea colloca, senão acima, ao lado do _Cyrano_. + +E ainda recentemente, em Outubro de 1906, a imprensa franceza se occupou +de uma outra obra prima do talento de Catulle Mendés, em soberbos +alexandrinos, de um mysticisco celeste, que se intitula _Sainte Thérèse_. + +Na Inglaterra, Robert Browning escreveu a tragedia historica _Strafford_ +e os dramas _Mancha no Brazão_ e _Regresso dos Deuses_, todos em verso. + +Na Italia, Gabriel d'Annunzio escreveu em verso os tres actos da _Filha +de Jorio_, e fez representar por Eleonora Duse o seu grandioso monumento +_Francesca da Rimini_, em verso, como em verso havia escripto pouco +antes o seu extraordinario _Nerone_, o genio brilhante de Boito, e +Cavalloti o seu formosissimo idylio _Cantico dei cantici_, em 1882. + +Na Hespanha, deixando de parte o _D. Juan Tenorio_, de Zorrilla: o +_Trovador_, de Gutierres; a _Roda de la Fortuna_, de Thomaz Rubi, todos +de 1850: Hartzemburch produziu mais recentemente _Los Amantes de +Terruel_; _Alfonso, el Casto_ e _La Madre de Pelagio_, e Echegaray o seu +conhecidissimo _Gran Galeoto_. + +E todos esses dramas são escriptos em verso. + +Em Portugal, João de Deus, o lyrico sublime, escreveu _Horacio e Lidia_; +Eugenio de Castro, o revolucionario de genio, o extraordinario autor da +_Belkiss_ e de _Constança_, acaba de publicar o _Annel de Polycrates_; +Henrique Lopes de Mendonça, o _Duque de Vizeu_ e a _Noiva_: +Fernando Caldeira, a _Mantilha de Renda_ e a _Madrugada_; Marcellino de +Mesquita, a _Leonor Telles_; Julio Dantas, a _Ceia dos Cardeaes_; +Francisco Palha, a _Fabia_; Luiz de Magalhães, o _D. Quixote_, os dois +ultimos para o Theatro Academico, de Coimbra, todos em verso; sómente +para citar os escriptores da actualidade, deixando de parte _O Catão_ e +a _Merope_ de Almeida Garrett e o _Camões_, de Antonio Feliciano de +Castilho. + +Finalmente: em verso tambem escreveram no Brazil: Gonçalves de +Magalhães, o _Olgiato_; Arthur Azevedo, o _Badejo_; Zeferino Brasil, o +_Outro_ e Coelho Netto, _As estações_. + +A critica, portanto, ou é ignorante ou mentiu propositalmente. + + * * * * * + +Mas a critica adiantou-se ainda: abriu dogmaticamente uma excepção: o +verso em theatro só se admitte para as tragedias historicas. + +Outra cincada. + +Em Portugal, Fernando Caldeira deixou no theatro duas joias preciosas: a +_Mantilha de Renda_ e a _Madrugada_ que nem são tragedias, nem tem +filiação alguma historica. + +Na Italia, Cavallotti legou á lilteratura dramatica um primor de +lyrismo: o _Cantico dei cantici_ que não é tragico, nem historico. + +Em França, Catulle Mendès escreveu, em verso, os tres actos de _Isoline_ +e os seis do _Fiammette_ que nada tem a vêr com a historia, nem com a +tragedia. + +François Coppée produziu _Le Trésor_, _Le Passant_, _La Grève des +Forgerons_, todos em um acto e que não tem a minima relação com a +tragedia, nem o menor vestigio de historia. + +No Brasil, o _Badejo_, de Arthur Azevedo, é uma comedia, o _Outro_, de +Zeferino Brasil, um drama; _As estações_, de Coelho Netto, uma +phantasia, todos em verso, sem relação alguma com a historia ou com a +tragedia. + +A critica indigena + + «appartient à ce monde de paresseux qui font chaque soir une grande + oeuvre, en buvant une chope; seulement, le lendemain, ils ont sommeil + et ne trouvent pas le temps d'ècrire la grande oeuvre. «La vie se + passe, l'âge arrive, ils restent des debutants.» + + Zola, _La critique Contemporaine_, pag. 351. + +Entretanto, René Doumic, um mestre da critica, escreve na _Revue des +Deux Mondes_: + + «Je voudrais seulement que les poètes qui se sentent une vocation + d'auteurs dramatiques ne s'imaginent point que le succès ne peut + être obtenu par eux, à la scène, qu'en nous narrant des histoires + romantiques ou des féeries.» + +E Gaston Sorbets conclúe: + + «M. René Doumic á assurément raison: la poesie dramatique est faite + anssi pour exprimer les mouvements les plus profonds de notre coeur + ou les aspirations les plus hautes de notre âme. Il suffit de voiler + de poesie la Verité nue pour faire de cette divinité une muse + nouvelle.» + +Deixemos vociferar os maldizentes: nós ficamos com os criticos que sabem +sentir e... lêr. + + * * * * * + +Os zoilos que se lançaram á modestissima _Talitha_, censuraram ao seu +autor o atrevimento inaudito de não observar a regra do Theatro francez +de Corneille e Racine, que manda emparelhar systematicamente os graves e +agudos na symetria inalteravel prescripta por aquellas duas autoridades. + +Mas a critica, absolutamente não tem competencia para impôr aos +escriptores brazileiros, por muito modestos e insignificantes que sejam, +as leis e as regras da arte poetica franceza. + +Se a obra d'arte é portugueza ou brazileira, o auctor não se submette ás +leis da poetica franceza: observa os modelos nacionaes e portuguezes. + +E, sem receio de ser contestado por quem quer que seja, o autor da +_Talitha_ affirma: não ha poeta algum na lingua de Camões, quer no +theatro, quer fóra delle, que obedeça ás exigencias das prescripções +francezas, que, aliás, o proprio Corneille, invocado pela critica, não +seguiu nem adoptou na _Imitation de Christ_: + + «Le desir de savoir est naturel aux hommes: + il nait dans leur berceau sans mourir qu'avec eux + mais, ô Dieu, dont la main nous fait ce que nous sommes, + que peut-il sans ta crainte avoir de fructueux? + + Liv. I, Chap. II. + + «Vanité d'entasser richesses sur richesses, + Vanité de languir dans la soif des honneurs, + Vanité de choisir pour souverains bonheurs + de la chair et des sens les damnables caresses. + + Liv. I, Chap. I. + + «Vraiment grand est celui qui dans soi se ravale + qui rentre en son néant pour s'y connaitre bien, + qui de tous les honneurs que l'univers étale + craint la pompe fatale, + et ne l'estime en rien. + + Liv. I, Chap. III. + +Victor Hugo, o mestre supremo, tambem não obedeceu invariavelmente a +esta regra que a critica pretende impôr dogmaticamente, como immutavel. + +Vejamos na _Esmeralda_, acto I: + + «Nous irons au clair de lune + danser avec les esprits... + Vive Clopin, roi de Thune! + Vivent les gueux de Paris! + + «Au milieu de la ronde infame + qu'importe le soupir d'une ame? + Je souffre! oh! jamais plus de flamme + au sein d'un volcan ne gronda. + +Em _La Forêt mouillée_, Scene II: + + «Les moutons promis aux fourchettes + Passent là-bas; j'entends leurs voix + Sonnez, clochettes, + au fond des bois. + Le beau Narcisse est en manchettes; + Silène a mis toutes ses croix. + +Rostand, o impeccavel, na _Samaritaine_, tambem não se subordinou +absolutamente a essa regra, como se vê logo na primeira scena: + + «Poussé par la brise des nuits, + et vagabond jusqu'à l'aurore, + je viens pour des fins que j'ignore, + comme un fantôme que je suis. + D'une sandale sonore + je viens, je glisse et je m'enfuis... + Mais, ô Jehovah que j'adore! + quelle est cette grande ombre encore + qui se tient debout près du puits? + +e assim prosegue o genial poeta em toda essa scena que se compõe de +cento e nove versos. + +E para que não diga a critica perversa que n'esses exemplos não ha +alexandrinos, aqui ficam estes alexandrinos, ainda do I acto, scena V, +em que Photina declama: + + «Mon bien aimé--je t'ai cherché--depuis l'aurore, + Sans te trouver,--et je te trouve,--et c'est le soir; + Mais quel bonheur!--il ne fait pas--tout a fait-noir: + mes yeux encore + pourrent te voir. + +e assim por toda a _fala_ de Photina, gue se compõe de mais de vinte +nove versos. + +Na lingua portugueza, porém, não ha um poeta sequer que obedeça á regra +da metrica franceza, nem no drama, nem no poema. + +Junqueiro, na _Morte de D. João_, na _Musa em ferias_, na _Velhice do +Padre Eterno_, na _Patria_, ou nos _Simples_ usa indistinctamente as +rimas agudas, graves, e esdruxulas, emparelhadas, ou alternadas. + + «O pensamento humano + mergulhou como um Deus nas grutas do oceano, + embebeu-se no azul, andou pelo infinito, + interrogou a historia, os ventos, o granito, + todas as creações, todas as creaturas, + vermes, religiões, abysmos, sepulturas, + e disse-nos: Jesus, Socrates, Platão + fallaram a verdade. Existe uma rasão, + uma ideia, uma lei, mysteriosa, etherea, + que rege o movimento e as formas da materia... + + _Morte de D. João._--Introducção, pag. 31. + + * * * * * + + «Hediondo! assassinar um homem que assassina! + Collocar o direito ao pé da guilhotina. + Resolver a questão do crime--um cemiterio! + Sanccionar Papavoine e decretar Tiberio! + Um carrasco de guarda á nossa segurança! + O pelotão--juiz e o tribunal--vingança! + E é uma coisa que indigna, um facto que comove, + que quasi ao terminar o seculo dezenove + pensem como Marat, pensem como Cain + as leis no velho mundo e o tigre em Bombaim! + + _Musa em férias_; Idilios e Satiras, pag. 137. + +Julio Dantas, o brilhante poeta da _Ceia dos Cardeaes_ tambem não +adoptou a regra que a critica indigena pretende nacionalizar. + + Xerez. + «Roma! Roma que viu, pela primeira vez, + Beneditto XIV, um papa,--a receber + Conselhos de Inglaterra e cartas de Voltaire! + ............................................ + + «As cartas de Voltaire, honram! + ... É natural + fala como francez. + ... Fala como cardeal! + ............................................ + + «Mas perdão... Não será politica de mais + para uma ceia alegre? Emfim trez cardeaes + não salvam Roma... + +Como se vê, Julio Dantas, empregou successivamente dez agudos. + +E esse arrojo do eminente poeta portuguez não impediu que a _Ceia dos +Cardeaes_ tivesse oito traducções em allemão, francez, italiano, +hespanhol e no dialeto catalão, nem evitou que fôsse representada mais +de quatrocentas vezes. + +Entre os poetas brasileiros bastará citar dois nomes de primeira +grandeza: Alberto de Oliveira e Goulart de Andrada; nenhum se submette á +exigencia franceza da critica indigena. + +A _Cruz da montanha_ do primeiro é um poemeto de 126 alexandrinos. Em +toda essa obra prima não ha dois versos agudos e apenas se encontra uma +parelha de esdruxulos. + +Observa-se o mesmo phenomeno em varias outras composições como--_A +Enchente_, com 76 alexandrinos; a _Lagarta_, com 124 versos de vario +metro, onde apenas ha 14 rimas agudas: _Atmo_, com 88 alexandrinos, +entre os quaes apenas dois esdruxulos e nem um agudo. + + * * * * * + +_Ascenção perigosa_, de Goulart, é uma poesia composta de 44 +alexandrinos, dos quaes apenas quatro são esdruxulos e nem um agudo. + +_Apocalypse_ é formado de 158 alexandrinos: nem um agudo, sómente dois +esdruxulos. + + * * * * * + +E a razão é simples, é natural, é formidavel: o idioma francez é +abundantissimo de agudos e o portuguez é, relativamente, pauperrimo. + +Para observar inalteravelmente a regra franceza que a critica pedante e +fátua pretende impôr vaidosamente, depressa ficariam exgottadas as rimas +agudas e o poeta incidiria na repetição das consoantes, o que constitúe +o defeito da pobreza de rimas, acremente censurado pela critica. + +Além disso, os francezes não conhecem as palavras esdruxulas, ao passo +que a lingua vernacula é riquissima d'esses vocabulos e, a ser observada +na poesia dramatica portugueza e brazileira a lei da arte de Corneille e +Racine, os poetas lusitanos e patricios vêr-se-iam obrigados a escrever +alternadamente os seus versos em parelhas systematicas de esdruxulas, +graves e agudas, o que seria, além de fatigante e exhaustivo, de um +rebuscamento torturado, monotono, somnolento. + +O obscuro autor da _Talitha_ preferiu deixar expandir-se naturalmente o +pensamento proprio, de accordo com a alma dos personagens: o verso e a +rima já de si são condições impostas pela exigencia artistica, +apurar essa exigencia com o requinte de uma symetria dispensavel, +equivaleria a torturar os sentimentos das figuras que se movem na acção +dramatica. + +O facto de ser uma regra de Corneille e de Racine tambem geralmente +seguida por outros poetas modernos--o emprego alternado de dois agudos e +dois graves, não evita a monotonia, principalmente quando se traduz o +pensamento de um personagem ou se reproduz um vulto historico: na vida +real ninguem se exprime por essa fórma. + +Entretanto, admittidos geralmente o verso e a rima, o poeta deve quanto +possivel, para evitar a monotonia, variar o rythmo, o metro e o +encadeamento da rima: as difficuldades artisticas e technicas não são +excluidas por esse criterio, conservam-se; a monotonia desapparece e o +pensamento, exprimindo-se com mais liberdade, permitte melhor estudo da +psychologia dos personagens, e mais vigor descriptivo. + +O proprio autor da _Talitha_ verificou praticamente o que acaba de +affirmar quando escreveu a _Visão de Colombo_, em um acto, obedecendo +systematicamente á regra da poetica franceza e emparelhando os +alexandrinos por ordem de rimas agudas, graves e esdruxulas em toda a +extensão do poema dramatico, formado de quatro centos e poucos versos, +sem repetição de rimas. + + +Ramalho Ortigão ensina: + + «não são as academias que pautam as proposições e os limites da + creação artistica. Tudo o que se pode formular em preceito cessa de + ter valor em arte. A obra de arte não é um producto de escola: é a + livre expressão individual de uma alma, convertida em realidade + objectiva e communicando aos homens uma vibração nova de + sentimento. + + «A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua cathegoria, + deduz-se da maior ou menor quantidade de ideias que a sua obra + suggere e dos sentimentos cuja percussão ella determina.» + + Op. cit., pag. 145. + +Adherbal de Carvalho doutrina: + + «É no sentido da liberdade que em geral se faz todo o progresso; é + neste sentido que tambem se deve fazer todo o progresso do verso. + + «A liberdade do rythmo era muito insufficiente entre os romanticos. + Vimos que a consequencia é a pobreza, a esterilidade do proprio + pensamento; porque a forma do verso reage sobre o cerebro do poeta. + O remedio seria a auzencia de estorvo sem fim, a suppressão de + regras não racionadas: liberdade é fecundidade.» + + Op. cit., pag. 282. + +E depois d'essas duas sentenças, atreve-se o autor da _Talitha_ a +perguntar á critica indigena como será possivel arvorar em preceito +obrigatorio de arte poetica da nossa lingua, a regra de Racine e +Corneille, quando a tendencia moderna é para supressão da rima e para a +cultura extremada do rythmo no verso branco? + +A falla de _Cacambo_ e o episodio da morte de _Lindoya_ no _Uruguay_ de +Basilio Gama nada perderam em valor artistico pela falta de rima: o +_Colombo_ de Araujo Porto Alegre encerra verdadeiras maravilhas em verso +branco; Alexandre Herculano, que foi um cinzelador do verso, na _Harpa +do Crente_ deixou primorosos lavores em verso solto. + +Anthero Quental, cujas _Odes modernas_ arrancaram a Michelet uma soberba +explosão de espanto + + «Se em Portugal ainda houver quatro ou cinco homens como o poeta das + _Odes modernas_, Portugal continuará a ser um grande paiz vivo.» + +Anthero legou nessa obra monumental pequenos monumentos em verso branco. + +E para não fallar na _D. Branca_ de Garrett, todo escripto em versos +soltos, bastará citar os livros admiraveis de Correia de Oliveira: _Ara_ +e _Raiz_, demonstração brilhante de que a obrigatoriedade da rima tende +a desapparecer cedendo á liberdade do pensamento. + +O velho mestre Antonio Feliciano de Castilho, na sua Arte poetica, +escreveu: + + «Os versos agudos, pelo seu modo secco estalado de acabar, sem + elasticidade, sem vibração, se assim o podemos dizer, teem o que + quer que seja de ingrato ao ouvido; seriam insoffriveis, se alguem + se lembrasse de nol-os dar enfiados aos centos e aos milheiros, como + os graves nos apparecem, sem nos cançarem: demais por isso mesmo que + os vocabulos agudos são menos frequentes, d'ahi tiram os versos + agudos um quid de exhibição e exquisitice que não parece frisar + senão com as idéas extravagantes, comicas, brutescas ou satyricas. + + «Do expendido por boa razão se infere: l.º que em toda e qualquer + especie de metro são os versos graves que devem, predominar.» + +A critica pretenciosa e petulante indicadora de regras de arte +rebella-se contra a autoridade incontestavel e consagrada de Antonio +Feliciano de Castilho e quer que em versos portuguezes o autor da +_Talitha_ adopte a regra franceza, que equipare agudos e graves e os +manda empregar em numero igual, symetrica e systematicamente dispostos +em parelhas alternadas. + +O autor da _Talitha_ não adoptou a regra de Castilho mas tem ao seu +lado, para apoiarem o seu procedimento, as autoridades dos rebeldes +Junqueiro, Feijó, Luiz de Magalhães, Lopes de Mendonça, Julio Dantas, +Eugenio de Castro, Antonio Nobre, Gonçalves Crespo, Marcellino de +Mesquita, Fernando Caldeira que não a observaram, nem se +submetteram á lei de Corneille e Racine, e, o que é tudo, do proprio +Antonio Feliciano de Castilho que não adoptou a regra franceza na +composição dos alexandrinos emparelhados. + +Isso em Portugal, porque no Brasil o autor da _Talitha_ encontra apoio +para o seu procedimento em Alberto de Oliveira, Olavo Bilac, Goulart de +Andrada, Martins Fontes, Guimarães Passos, Luiz Murat, Machado de Assis, +Valentim Magalhães, Lucio Mendonça, Oscar Lopes, Pereira da Silva, +Emilio Menezes, Frota Pessoa, Flexa Ribeiro, Zeferino Brasil e Coelho +Netto que não consideram a technica franceza como adaptavel ao verso +portuguez, se bem que discretamente observem a opinião de Castilho, +relativamente á proporção das rimas agudas e graves. + +Ora, a critica indigena, ainda rescendendo aos aromas equivocos da +primeira infancia, ha de permittir que o autor da _Talitha_ prefira as +autoridades artisticas de dois hemispherios, acima citadas, ao +impertinente pedantismo da incompetencia de quem, em materia de +autoridade litteraria, não chegou ainda se quer á categoria de +trintanario do _Pegaso_, na estrebaria de Augias. + + * * * * * + +A critica indigena censura a pobreza de rima da _Talitha_: não tem razão. + +A _Ceia dos Cardeaes_ é uma obra prima: assim o prégou a critica, assim +a considera a opinião. + +Pois bem; essa joia tem 338 versos; o primeiro acto da _Talitha_ +compõe-se de 492. + +A _Ceia dos Cardeaes_ tem apenas 66 rimas diversas; o primeiro acto da +_Talitha_ dispõe de 127 rimas differentes: a proporção naquella é de 5%, +nesta é de 25%. + +Na _Ceia dos Cardeaes_ ha apenas 31 rimas que não foram repetidas; no +1.° acto da Talitha ha 80. + +Na primeira, a obra prima, essa proporção é de 9%, na _Talitha_, a +condemnada, a proporção é de 17%. A critica indigena tem cabellos na +lingua e fel no coração. + +A _Samaritana_ é a obra prima de Rostand, assim a julgou a critica +europea, assim a julga o proprio poeta. + +O primeiro acto d'essa joia magestosa tem 808 versos. + +Pois bem: entre esses ha 322 repetições, apenas em 17 rimas. + +Poder-se-ia fazer o confronto dos tres actos: basta esse que ahi fica +para demonstrar que a critica nem soube o que disse, nem sabe o que é +pobreza ou riqueza de rima. + +A opulencia de rima póde ser exigida em composições poeticas esparsas, +que não tenham grande extensão, mas em um poema dramatico essa exigencia +da critica é despotica, é absurda, principalmente quando os personagens +que o movimentam são da especie daquelles que figuram no entrecho da +_Talitha_. + +Collocar nos labios de _Joaquina_ versos de rima escolhida, apurada, sem +repetições de termos que andam constantemente na conversa commum, +substituindo estes por palavras rebuscadas nos diccionarios de rimas, +sómente para que a critica se extasie deante de uma riqueza phantastica, +equivaleria a falsear a natureza intima do personagem e fazer de uma +santa e simples mulher vulgar da aldeia, uma pretenciosa ridicula; a +espontaneidade do escriptor desappareceria para dar logar ao +rebuscamento, o artista seria supplantado pelo artifice, o poeta pelo +rimador, o sentimento pela paciencia. + +A opulencia da rima importaria necessariamente na elevação da +linguagem e a critica deixa de ser logica exigindo por essa fórma o que +já condemnára, considerando alcandorada em demasia para personagens de +aldeia a linguagem que o autor da _Talitha_ confiou a cada um d'elles. + +Nos acontecimentos vulgares da vida de aldeia as palavras são simples, +corriqueiras; o vocabulario dos aldeãos é pouco extenso e +tradicionalmente consagrado: ha phrases peculiares, ha para cada facto +da vida, póde-se dizer, um termo que não se substitue, um conceito +consagrado pelo uso immemorial; o mesmo sentimento, traduzido por outros +termos, em phrase diversa, não é comprehendido. + +O eminentissimo critico e brilhante espirito de estheta brasileiro o +notavel mestre da lingua vernacula, Snr. José Verissimo, doutrina +superiormente: + + «O grande escriptor em todas as linguas é o que escreve e consegue + todos os effeitos da sua arte com o vocabulario corrente, não só do + povo--que é realmente pobre--mas da litteratura do seu tempo.» + + Citação de Elysio de Carvalho no livro--_As modernas correntes + estheticas_, pag. 27. + +Em taes condições, se o dialogo, apezar de ser em verso, deve reflectir, +quanto possivel, as condições normaes da vida e do personagem, attribuir +a este a expressão dos seus affectos, das suas dôres, das suas alegrias, +dos seus desejos ou das suas esperanças, por meio de palavras em rima +opulenta, será desnaturar o personagem, será mentir á realidade, será +phantasiar um typo que a natureza local reproduzida no theatro, não +creou na vida real. + +Comprehende-se essa exigencia na alta tragedia historica ou sacra, ou +ainda nas phantasias mythologicas: alli, sim, a linguagem póde e deve +ser alcandorada sem inverosimilhança, os personagens vem +distinguidos pelo prestigio da historia, da Biblia, do sobrenatural, que +substituem toda a realidade objectiva. + +A admiração, a fé e a idolatria pódem crear os maiores absurdos: Esopo, +Phedro, Lafontaine fizeram falar os animaes em verso sublime, limado, +terso, brilhante, sonóro, de rima opulentissima. + +Zola escreveu: + + «C'est, je le répète, le seul cadre ou j'admets, au theatre, le + dedain du vrai. On est là en pleine convention, en pleine fantaisie, + et le charme est d'y mentir, d'y échapper a toutes les realités de + ce bas monde. + + .................................................................. + + «Jamais les auteurs ne se trouvent acculés par la vraisemblance et + la logique: ils peuvent aller dans tous les sens, aussi loin qu'ils + veulent, certains de ne se heurter contre aucune muraille. + + .................................................................. + + «La comédie et le drame, au contraire, sont tenus à être + vraisemblables.» + + Zola. _Le Naturalisme au théâtre_, pag. 357, 358. + +Mas João de Deus, que foi em Portugal «a mais completa encarnação do +lyrico apaixonado, sem entraves positivos, sem preoccupações +estylisticas visando á erudição», que foi «sentimento singelo, o amor, +esse amor portuguezissimo, em palavras singelas, versos de medida +simples e estylo simples», João de Deus que cantou a simpleza rural da +sua terra, a alma dôce do povo e dos campos, esse «que é o lyrico mais +portuguez» como considera Fidelino Figueiredo, «um grande scismador e um +grande artista, que não tem artificios na sua poesia, singela como todos +os grandes sentimentos, harmoniosa e virginal como um sorriso de +creança, suave e consoladora como uma parábola de Christo, serena e +luminosa como um dialogo de Platão», no dizer profundo de Alexandre da +Conceição, João de Deus não se preoccupou com a opulencia da rima, nem +mesmo quando escreveu para o theatro aquella encantadora phantasia em um +acto _Horacio e Lydia_, romana pelo assumpto, grega pela technica. + +Ora, a _Talitha_ é composta de 1873 versos de varios metros, +predominando o alexandrino. + +Para demonstrar opulencia de rima, o obscuro autor da _Talitha_ reservou +as suas modestas poesias esparsas, entre as quaes figura a _Ode ás +Arvores_, dedicada a Coelho Netto, ode essa que se compõe de 312 +alexandrinos, e não tem sequer uma rima repetida, além da grande +abundancia de vocabulos cuja difficuldade de rima é conhecida. + +Um dos zoilos da Talitha, com o intuito de provar que os tres actos +d'esse evangelho são indigentes de rima, nota que no 2.° acto a palavra +enferma rima com erma e no 3.° acto tambem enfermo rima com ermo. + +E o zoilo exclama: + + «Para _Enfermo_ o poeta encontrou apenas a rima _ermo_, uma rima + pobrissima.» + +Mais pobre de espirito é o critico. + +A _Talitha_ compõe-se de 1873 versos; quatro vezes apenas o maldizente +encontrou a rima em _erma_, ainda assim uma vez no masculino e outra no +feminino, e fulmina a censura: + + «o poeta só encontrou a rima _ermo_ para _enfermo_, rima pobrissima.» + +Ignorante, perverso, futil, ou lorpa. + +Pois bem, o autor da _Talitha_ consultou os diccionarios de rima de +Castilho e de Alencar, duas autoridades na materia, e para _enfermo_ +apenas encontrou _ermo_, _termo_ e _estafermo_. As duas primeiras foram +applicadas, uma no segundo, outra no terceiro acto. + +Quanto á terceira--_estafermo_--o poeta da _Talitha_ só a poderia +utilizar se fizesse referencia ao critico. + +Para agradar á sua opinião e corresponder á sua exigencia, o zoilo +pretende que o autor da _Talitha_ deveria forgicar palavras, +neologismos, sómente com o fim de não repetir a rima! + +Mas se essa rima é pobrissima, que culpa tem o autor da _Talitha_, se a +lingua apenas lhe faculta, além dessa, mais duas, uma das quaes +pertencente ao calão? + +Entretanto o critico mentiu: no segundo acto a rima de _enferma_ é +_erma_; no terceiro acto á palavra _enfermo_ foi dada a rima--_termo_. + +2.º acto, pag. 64: + + «seria bem melhor que cuidasse da enferma, + que vive ali no escuro abandonada e erma» + +3.º acto, pag. 89: + + «de acudir pressuroso ao leito dum enfermo + ardendo em alta febre e bem proximo ao termo + d'uma longa existencia...» + +Eis ahi ao que se reduz a censura do zoilo: á mentira. + + * * * * * + +Por ultimo a critica indigena censura o autor da _Talitha_ por ter +escripto o drama em tres actos afim de apresentar, desnecessariamente, +no terceiro, a _marqueza_, mãe da heroina. + +E a critica, em ar de pilheria, pede um quarto acto para que appareça +tambem o Pae de _Talitha_. + +O autor não teria duvida em satisfazer o desejo da critica, escrevendo +mais dois actos para apresentação da sogra de _Talitha_, se tambem a +critica de outra tempera, a critica elevada e honesta, não houvesse +solicitado a redacção dos tres actos simplesmente aos dois primeiros +para que esse obscuro trabalho + + «seja legado pelo autor ao seu paiz, como um thesouro, refundindo-a, + cortando as scenas a mais, deixando-a nos dois actos primeiros mais + o milagre e a oração; assim _Talitha_ será um primor litterario...» + + Critica da _Tribuna do Rio_. + + + «O drama é magnifico. E porque não dizer o melhor drama que se tem + escripto no Brazil?» + + Critica da _Gazeta de Noticias_, do Rio. + + + «Os tres actos do Sr. Pinto da Rocha dão a quem os ouviu a + satisfação rara e salutar que só produzem as obras de arte, erguidas + severamente com a segurança de que só é capaz a sinceridade.» + + Critica do _Paiz_, do Rio. + + + «...mas os bons versos, as rimas felizes e inesperadas abundam na + peça, que fica sendo um dos mais bellos poemas da nossa litteratura. + + «... pois nao ha muito disso por toda essa America afóra.» + + Arthur Azevedo--Critica da _Noticia_, do Rio. + +Á critica indigena, rasteiramente inspirada pelo odio e pela paixão +politica, o autor da _Talitha_ contrapõe a critica da imprensa do Rio. + +Será vaidosa a citação d'essas opiniões, mas o obscuro autor da +_Talitha_ tem orgulho do seu trabalho e esse orgulho é como a +soberbia das mães que beijam os filhinhos aleijados e loucos, tendo-os +no coração como as imagens incomparaveis da suprema formosura. + +A _Talitha_ não será brasileira porque o assumpto e os personagens são +portuguezes; não será portugueza porque o seu autor não teve a +felicidade de nascer em Portugal, mas... + +Mas a _Talitha_ é mais que portugueza, mais que brazileira, é humana. + +Mas a _Talitha_ é minha... É o producto do meu espirito, do meu +trabalho, é filha da minha mocidade... + +É modesta, é pauperrima, e futil, mas é minha. + +E a critica indigena dos zoilos que produziu? Nada, absolutamente nada; +póde viver noventa annos, como Sárah, não haverá Abrahão na terra que +lhe arranque um Isaac das entranhas... + +Os zoilos são admiraveis, sabem tudo e não fazem cousa alguma. + +Conhecem perfeitamente a patria, sob todos os aspectos, desde a +fecundidade uberrima da terra aos esplendores astraes do céo; desde a +constituição intima da familia á grandeza fulgurante da historia. + +Os primores da paysagem, a belleza e a simplicidade dos costumes, os +encantos da musica popular e da poesia anonyma, a bravura dos homens com +o typo legendario do gaúcho, a formosura das mulheres inspirando os +altos feitos heroicos, o mysterio das florestas que dá o aspecto +profundo á alma do povo, a vastidão das campinas que modela a franqueza +limpida das consciencias, o desdobrar ondulante das cochilhas que +imprime ao typo riograndense a epopeia da nossa historia, os vultos +homericos dos nossos guerreiros, a envergadura dos nossos estadistas, a +intelligencia dos nossos escriptores, a obra dos nossos politicos, tudo +isso a critica dos zoilos conhece... _à merveille_. + +Sabe ella que o verso está banido do theatro moderno e só é admittido +nos assumptos historicos ou nas phantasias caprichosas dos sonhos e +devaneios litterarios; sabe ella que os alexandrinos devem ser +emparelhados á maneira de Corneille e Racine, alternando-se agudos e +graves, na symetria impeccavel de parallelas geometricamente exactas; +sabe ella que o rythmo do verso não deve ser apenas o junqueireano para +evitar a monotonia: sabe ella que a rima deve ser opulenta: sabe que no +theatro moderno a prosa supplanta o verso, porque se presta melhor ás +exigencias do estudo da psychologia dos personagens; que a escola +romantica foi batida pelo naturalismo; que hoje os exemplos a seguir não +são os d'Ennery, os Augier, os Scribe, os Labiche, os Dumas, os Meilhac: +que os modelos acceitaveis são Suderman, Ibsen, Hauptmann Bjornsen; tudo +isso a critica dos zoilos sabe perfeitamente. + +Além disso a critica tem talento, tem erudição, tem admiradores, tem +bibliothecas, tem a vida garantida e facil pela munificencia do thesouro +publico, tem o apoio da sociedade, não sabe o que seja a amargura da +lucta pela existencia... + +Entretanto as horas passam, os dias correm, os mezes flúem, os annos se +succedem e a critica deixa em abandono todo esse material soberbo e +magestoso, esquece todos esses elementos de incomparavel riqueza, e não +produz absolutamente nada. + +Atravessa a existencia, como um janota futil que vive preoccupado com a +coloração garrida das gravatas, com o brilho frio dos collarinhos, com o +figurino do fato, empanturrando-se da leitura _à la diable_, maldizendo +do tudo e de todos e vivendo de um usofructo que a sociedade constituiu +pelo trabalho accumulado exactamente d'aquelles que a critica dos zoilos +alveja, fere, offende e babuja. + +Vive para gozar e maldizer. + +A critica indigena dos zoilos é como o Sahára: esterilidade completa, +beduinos e camellos. + +Á caravana dos zoilos, o deserto e a receita de Ezequiel. + + Pinto da Rocha + + + + +Livraria Chardron + +De LELLO & IRMÃO + +RUA DAS CARMELITAS, 144--PORTO + + GARCIA REDONDO + + Salada de fructas, 500 + Atravez da Europa, 500 + Cara alegre, no prélo + A mulher--manias e cacoetas, no prélo + + MANOEL ARÃO + + Transfiguração, 1 vol., 1$000 + + COELHO NETTO + + Esphynge, 600 + Sertão, 600 + Agua de Juventa, 700 + A Bico de penna, 700 + Romanceiro, 500 + Theatro, 400 + Jardim das Oliveiras, 500 + Quebranto (theatro), 1 vol, 800 + Fabulario, 500 + Miragem, romance, 1 vol., 600 + Apologos, no prélo + Fé, no prélo + Theatro, 1.º vol., no prélo + Mysterios do Natal, no prélo + + JOÃO GRAVE + + Os famintos, 500 + A eterna mentira, 600 + O ultimo fauno, 500 + O Passado, no prélo + + SHAKESPEARE + + Sonho d'uma noite de S. 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