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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:47:11 -0700
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+<head>
+ <title>O Christão Novo, por Diogo de Macedo</title>
+ <meta name="Author" content="Diogo de Macedo">
+ <meta name="Publisher" content="Imprensa Portuguesa">
+ <meta name="Date" content="1876">
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+<body>
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+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of O Christão novo, by Diogo de Macedo
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: O Christão novo
+ Romance Historico do Seculo XVI
+
+Author: Diogo de Macedo
+
+Release Date: June 30, 2009 [EBook #29275]
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+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CHRISTÃO NOVO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+<div style="text-align:center; border: double 6px #000;">
+<p>&nbsp;</p>
+<p style="font-size: 1.2em;"><em>DIOGO DE MACEDO</em></p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">O CHRISTÃO NOVO</p>
+
+<p>ROMANCE HISTORICO DO SECULO XVI</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&mdash;&mdash;&mdash;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>PORTO <br>
+IMPRENSA PORTUGUESA <br>
+Rua do Bomjardim, 181 <br>
+&mdash;<br>
+1876</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
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+<p style="text-align:center; font-size: 1.2em;">O CHRISTÃO NOVO</p>
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+<p style="font-size: 1.2em;"><em>DIOGO DE MACEDO</em></p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">O CHRISTÃO NOVO</p>
+
+<p>ROMANCE HISTORICO DO SECULO XVI</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&mdash;&mdash;&mdash;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>PORTO <br>
+IMPRENSA PORTUGUESA <br>
+Rua do Bomjardim, 181 <br>
+&mdash;<br>
+1876</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;<span class="pn"><a
+name="pag_5">{5}</a></span></p>
+
+<div id="corpo">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>ALGUMAS PALAVRAS</h1>
+
+<p><em>Historia, segundo Cesar Cantu, é a narração dos factos considerados
+verdadeiros. Tem por fim a verdade, porque, no conceito de Alexandre Herculano,
+encarrega-se de averiguar qual foi a existencia das gerações que passaram.</em>
+</p>
+
+<p><em>Não deve porém considerar-se tam seria e limitada a periferia do
+romance. O romance póde ser tambem a reproducção e apreciação dos eventos e
+phenomenos sociaes subordinados a uma certa ordem chronologica e a uma
+classificação methodica; mas, porque tem menos responsabilidade,
+concedem-se-lhe mais fóros de liberdade e licença do que a esse grande e
+solemne registo publico chamado historia.</em><span class="pn"><a
+name="pag_6">{6}</a></span></p>
+
+<p><em>Pennejar-se conseguintemente um romance com todas as prescripções
+historicas, é obrigação que a critica nem o bom senso exigem. O romance, não
+querendo asphixiar os seus leitores em um ambiente de opio e monotonia, apenas
+aproveita da historia o fundo e a base: as datas e os factos cardinaes. Em
+quanto aos contornos e ás linhas e ás côres, aos personagens ainda e ainda ao
+dialogo e á urdidura, usou sempre, seja elle engenhado por Walter Scott ou seja
+devido á imaginativa de Alexandre Dumas, de facil e plena liberdade. Mais ainda
+do que louçanias e filigranas de estilo se reclamam, para repasto da
+curiosidade, os meandros e caprichos da phantasia. Só por imposição de estranho
+despotismo se deve sugeitar a contextura do romance historico a toda a
+fidelidade ethnologica e a todo o rigor dos acontecimentos. A narrativa e
+apreciação dos factos considerados verdadeiros&mdash;a historia&mdash;não podem
+associar-se de nenhum modo aos partos da imaginação e aos caprichos da
+phantasia&mdash;o romance.</em></p>
+
+<p><em>Comprehendendo-se portanto a differença que faz a historia, propriamente
+sciencia natural, do romance, simplesmente exercicio litterario, não se deve
+estranhar a maneira como pensei e escrevi. Sem o auxilio da imaginação como se
+conseguiria entreter a curiosidade e passar o tempo no decurso de algumas
+dusias de paginas com as descripções dos obscuros successos dos dous seccos e
+aridos annos de 1553 e 1554?</em></p>
+
+<p><em>É coisa natural que eu bastantemente abusasse das<span class="pn"><a
+name="pag_7">{7}</a></span> liberdades de romancista. Por exemplo, do meu livro
+translusem o caracter e a phisionomia de Simão Rodrigues com menos vantagens e
+virtudes do que as que lhes foram munificamente abonadas pela tradição e pela
+escriptura. Disse-se do celebre discipulo de Ignacio de Loyola que morreu (15
+de julho de 1579) com acrisolados sentimentos de religião. Nada o assombrava
+nem esmorecia quando se tratava do serviço de Deus, sabendo sempre em sua vida
+manifestar os mais austeros principios de abnegação e dando em todos os seus
+actos os mais louvaveis exemplos de sabedoria.</em></p>
+
+<p><em>Egualmente a indole e os costumes de Dom João III não se descortinam em
+painel que satisfaça as exigencias da critica e o rigor da verdade. Será Dom
+João III o monarcha fanatico e frouxo retratado com as tintas sombrias da
+palheta de Alexandre Herculano, ou antes o principe virtuoso e prudentissimo
+que, segundo os annaes louvaminheiros de Frei Luiz de Sousa, foi,</em> sem a
+nenhum fasermos aggravo, um dos primeiros entre os que louvamos de grandes e
+excellentes virtudes?</p>
+
+<p><em>Emfim referem os chronistas que o joven esposo da infanta de Castella,
+essa princesa não pouco memorada pela energica protecção com que mais tarde
+ensoberbecera o animo pusillanime de Christovam de Moura, falleceu de
+enfraquecimento phisico dous meses depois do seu faustoso matrimonio. Eu faço-o
+padecer no leito frio da morte os effeitos inclementes do veneno!</em></p>
+
+<p><em>Em quanto a ideias religiosas e a ideias politicas<span class="pn"><a
+name="pag_8">{8}</a></span> principalmente, reconheço, como com magica
+eloquencia observa Emilio Castelar na vida de Lord Byron, que tem este seculo
+incerto desde o seu começo vacillado entre a rasão e a fé, entre o direito e a
+tradição, entre a liberdade e o cesarismo; porém julgo-me no direito de não
+simpathisar com esse esqueleto de corôa de ferro na cabeça e de guela a
+trovejar vinganças, com esse systema obsoleto e feudal que felizmente passou ao
+mundo das tradições depois de por tantos seculos haver sido o protogonista do
+grandioso drama ou da grande tragedia da historia. Esse infeliz regimen, o das
+praticas e theorias theocraticas do absolutismo, já não preoccupa hoje em dia,
+apesar de ainda conservar alguns alentos de cadaver, o espirito dos economistas
+e o genio dos philosophos. Hoje a escolha decide-se pela monarchia
+constitucional ou pelo governo democratico. Simplesmente o que resta averiguar
+em amigavel concordancia é qual dos dous systemas offerece maior numero de
+vantagens sociaes e melhormente contribue para a emancipação geral dos povos.
+Eu presumo que todas as tendencias da mocidade preferem as doutrinas
+republicanas por serem as mais desinteressadas e que todos os calculos da idade
+viril abraçam os ouropeis da monarchia por serem de todos os systemas politicos
+o que mais satisfaz a vaidade e as ambições dos homens. Haverá por isso quem
+recrimine os meus devaneios democraticos e deteste as minhas expansões
+liberaes? Deve comprehender-se que á consciencia repugnam todas as peias e que
+as conquistas do<span class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span> progresso não
+obrigam o espirito do homem á filiação ou observancia de uma unica fórma ou
+theoria de governo.</em></p>
+
+<p><em>Ainda tambem relativamente a formulas e sentimentos religiosos duas
+ideias se devem estremar: a ideia de Deus e a dos seus representantes na terra.
+As obras e immunidades do gremio catholico não saberei respeital-as com aquelle
+mistico fervor e aquellas espirituaes dedicações que me possam grangear nome e
+gloria nas lendas hagiolicas; mas a ideia de Deus, sinthese de todo o bem e
+espelho de todas as perfeições, venero-a sem vislumbres de duvida e com o vigor
+mais intimo das minhas crenças.</em></p>
+
+<p><em>Não crer na bondade dos padres não é descrer das bondades divinas. Nos
+tempos em que mais se invocava o simbolo da cruz e mais se pelejou pela fé
+catholica, a christandade que de exemplos nos ministrou de acções e virtudes
+menos orthodoxas! Conta H. Taine que Ricardo, o coração de leão, quiz um dia
+sob os muros de San João de Acre comer a toda a força carne de porco. Não havia
+carne de porco por mais que se procurasse. Lembra-se o cosinheiro de matar um
+sarraceno gordo e tenro; salga-o e cose-o seguidamente. O rei come-o e
+encontra-o delicioso. Quiz depois ver a cabeça do seu porco e o cosinheiro lh'a
+conduz possuido de grandes tremuras. O rei põe-se a rir e diz que o seu
+exercito não póde recear a fome porque tem á mão fartura de provisões.</em></p>
+
+<p><em>Então, quando os devotos e defensores da cruz fasiam<span class="pn"><a
+name="pag_10">{10}</a></span> a guerra aos sarracenos, ouvia-se sempre a voz
+dos anjos dos ceus que dizia:</em> Matae, matae! Não poupeis ninguem; cortae a
+todos a cabeça! <em>Esta voz dos anjos era ouvida pelos christãos e por isso
+tomando-se qualquer villa ou cidade tudo se passava a fio de espada, crianças
+ou mulheres. Na tomada de Jerusalem setenta mil pessoas, o que prefasia toda a
+população, foram exterminadas cruelmente</em><a name="tex2html1"
+href="#foot160"><sup>[1]</sup></a><em>!</em></p>
+
+<p><em>Bem mais delongadas observações em abono de creditos litterarios e
+sobretudo por descargo de consciencia se tornavam talvez indispensaveis; mas eu
+encorporo-me no avultado numero dos que reconhecem a inutilidade e o
+desprestigio dos prologos. Não ha juisos nem avisos que salvem das voragens do
+esquecimento um ruim livro. Se o livro é mal escrito e delineado, todos os
+cordiaes e remedios são falliveis e impotentes da mesma sorte que, se o livro é
+de materia agradavel e perfeita, dispensa facilmente a importancia ou a
+formalidade dos prologos.</em></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot160" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> <em>H. Taine. Hist.
+de la litt. anglaise, t. I.</em></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;<span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span></p>
+
+<h1>O CHRISTÃO NOVO</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>I</h1>
+
+
+<h2>CIUMES DE UM REI</h2>
+
+<p>Por uma das mais somnolentas e placidas noites dos fins de outubro de 1553,
+no desvão de esguia janella do palacio dos nossos reis estava casual ou
+intencionalmente encoberto pelas dobras de soberba cortina de rendas de
+Flandres um personagem vestido com gibão de veludo preto.</p>
+
+<p>Usava elle de curta cabelladura côr de castanha e não inculcava mais de
+cincoenta annos de idade<a name="tex2html2" href="#foot60"><sup>[2]</sup></a>.
+Em volta do pescoço alvejava-lhe<span class="pn"><a
+name="pag_12">{12}</a></span> uma das amplas gorgueiras encanudadas que, na
+frase picaresca de um novellista espanhol, davam á cabeça o irrisorio aspecto
+de um melão collocado em cima de um prato de porcelana branca.
+Pronunciava-se-lhe bem um nariz em demasia grosso, era baixo da corporatura
+como qualquer burguez e parecia reforçado dos musculos como um legitimo
+descendente de Hercules.</p>
+
+<p>Para melhormente sobresairem as tintas: «em mean estatura grande proporção
+de membros; olhos entre verdes e asues; boca vermelha; rosto alvo e de boa côr.
+Notava-se-lhe o pescoço um pouco curto e a cintura grossa, mas não que chegasse
+a desar<a name="tex2html3" href="#foot161"><sup>[3]</sup></a>.»</p>
+
+<p>Dominava-o finalmente a prurigem da impaciencia ou da curiosidade.
+Translusiam-lhe no rosto arredondado a feição sombria do seu caracter e no
+sorriso confrangido a indecisa severidade do seu genio. Algum acontecimento
+inesperado lhe impressionara sobremaneira o espirito e certamente era essa uma
+das mais<span class="pn"><a name="pag_13">{13}</a></span> criticas situações a
+que submettera a sua delicada sensibilidade.</p>
+
+<p>Nada com effeito de mais critica e extraordinaria situação.</p>
+
+<p>Aquella esguia janella gothica pertencia ao quarto de dormir de uma poderosa
+mulher e no centro do quarto via-se um dos mais nobres e esbeltos personagens
+do segundo quartel do seculo XVI dado a indiscreta conversação com essa mulher
+em quem todos «descobriam raras e heroicas virtudes, grande zelo e piedade
+christan, grande brandura e affabilidade em obras e palavras para com grandes e
+pequenos.<a name="tex2html4" href="#foot162"><sup>[4]</sup></a>»</p>
+
+<p>&mdash;Que nunca eu mereça o vosso desdem, exprimia-se elle com accento de
+ternura e de respeito. Confio nos sentimentos do vosso coração e da vossa
+nobresa, senhora. A não depositar nas vossas mãos a redoma das minhas
+esperanças, teria levado o meu corpo á defensão da praça de Arzilla ou das
+heroicas muralhas de Dio...<span class="pn"><a name="pag_14">{14}</a></span>
+</p>
+
+<p>&mdash;Socegae, Dom Prior. Nada de perder o animo. Bem sabeis que de pouco serve
+o meu valimento; mas ainda assim me decidirei quanto possa em vosso auxilio.
+</p>
+
+<p>&mdash;É tudo o que vos supplico, porque sei que nada vos recusa el-rei...</p>
+
+<p>&mdash;Em pouco mais pensa el-rei do que no zelo da religião e no culto de Deus.
+As nossas praças de Africa vão sendo abandonadas pelas lanças dos portugueses e
+fracos são os reforços de soldados e munições com que se acode aos ricos
+dominios das Indias. Escuta lá el-rei os meus conselhos!</p>
+
+<p>&mdash;A quem ha de ouvir senão a vós, senhora?</p>
+
+<p>&mdash;Attende em mais e em tudo o reverendo Simão Rodrigues e esse terrivel
+prelado João Soares. Elle não conhece outro amor que não seja a puresa da fé e
+não respeita outros homens que não sejam os jesuitas... Amor do povo e da
+patria como o nutriam em seus heroicos seios seu pai e avô Dom Manoel e Dom
+João! Jámais esses bons monarchas offenderam a religião de Christo e sempre
+todavia se cumularam<span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span> de gloria
+sem tribuanes de inquisição e sem ordens de jesuitas...</p>
+
+<p>&mdash;Não vos tacharei de injusta por não faltar-vos ao respeito, senhora minha.
+Certo é que Dom João presta ouvidos a Simão Rodrigues, criou o venerando
+collegio de Coimbra, estabeleceu em nossos reinos a mesa do Santo Officio e
+toda a sua alma se affervora no zelo da religião catholica; mas todas essas
+virtudes são effeito de piedade e não de falta de civica devoção. Ama tanto a
+fortuna dos filhos de Loyola e dos discipulos de Torquemada como o bem dos seus
+vassallos...</p>
+
+<p>&mdash;Não que o não fadaram os céus com a vossa indole, Dom Luiz. Por estas
+lagrimas o digo, accrescentou levando o lenço aos olhos. Que differença tam
+grande entre irmão e irmão! A vós não vos fallece galantaria nem juiso. Sois
+valente e generoso a um tempo. Todos vos apontam como enlevo das damas,
+captivaes as affeições do povo e mereceis a estimação dos mais esforçados
+cavalleiros da côrte...</p>
+
+<p>&mdash;Não me lisongeeis assim, que podem escutar-vos e de mim curtirem
+ciumes.<span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Ninguem me culpará perante Deus nem perante os homens. Sabe de sobejo meu
+esposo quaes são os meus sentimentos a seu respeito. Amor com amor se paga e
+por isso não deve tomar a mal que lhe eu pague com indifferença as suas frias
+indifferenças.</p>
+
+<p>&mdash;Julgo que nada padecereis, senhora. Mas fallo por mim...</p>
+
+<p>Ainda não eram concluidas taes palavras quando de repente a cortina se
+desvenda e o personagem que se conservara achegado ao peitoril da janella se
+adianta com passo grave.</p>
+
+<p>Parecia, embora a frase tenha laivos de sediça, a estatua severa do
+Commendador. Era agora, ao contrario das côres naturaes, pallido e altivo do
+rosto. Dos grossos labios desferia um sorriso de neve. Dos seus olhos entre
+verdes e asues dardejava um lampejo de indignação que devera ferir como o raio.
+</p>
+
+<p>Talvez se esperasse a tremenda explosão de colera por muitos dias sopitada.
+Entretanto o grave personagem declarou com serenidade:</p>
+
+<p>&mdash;Nada receeis, meu nobre irmão...</p>
+
+<p>Dom Luiz quedou em silencio. Ou a voz se<span class="pn"><a
+name="pag_17">{17}</a></span> lhe prendeu nas fauces ou o respeito o fez calar.
+Com porte severo e imponente apresentava-se-lhe de subito o muito alto e
+poderoso rei de Portugal e dos Algarves, sua altesa serenissima o senhor Dom
+João III.</p>
+
+<p>Era para Dom Luiz das mais solemnes e apertadas semelhante situação. Antes
+mil veses se quisera em luta encarniçada com os mouros de Asamor ou com as
+hordas do samorim de Calicut. Dom Luiz de Beja, Prior do Crato, digno infante
+de Portugal e esforçado filho de Dom Manuel foi havido sempre no consenso
+publico por cavalleiro valeroso e destemido. Em provas de coragem não no
+excederam os Pachecos nem os Albuquerques e ninguem com mais galhardia soube
+ainda no officio das armas brandir uma lança ou empunhar uma espada. D'elle
+recontam chronistas e historiadores que principe nenhum soube dar-se ao
+respeito melhormente ou faser em sua vida com que o amassem tanto. «O amor que
+os portugueses lhe tinham passava a idolatria. Adornavam-no todas as partes que
+podem fazer-se credoras da estima dos homens. Era nobre e generoso, compassivo
+e<span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a></span> valente, affavel e tam
+ousado que passava a destemido.</p>
+
+<p>«A estas gentis condições andavam annexas muita mansidão na sociedade e rara
+prudencia nos negocios. Era guapo e bem feito; sensivel, terno e deveras
+affeiçoado ao trato das senhoras.</p>
+
+<p>«A fama das suas boas partes moraes e phisionomicas voára até os paizes
+estrangeiros. No serralho do xerife de Marrocos grangeara grande estima e uma
+das suas filhas morria de amores por elle. Todas as veses que a nobre donzella
+encontrava Dom Diogo das Torres, captivo a quem se facultava entrada livre no
+palacio por ser protegido de Muley Abel Mumen, irmão do xerife, nunca se
+fartava de fallar-lhe no infante. Um dia que passeava nos jardins do palacio
+viu Dom Diogo e chamou-o para lhe diser: «Colhei de aqui algumas flores e tecei
+com ellas uma corôa semelhante ás que trasem os principes christãos». Obedeceu
+Dom Diogo das Torres e cuidou de offerecer-lh'a. Tomando-a então e pondo a
+corôa na cabeça encantadora, ella lhe disse: «Permittam os ceus que eu algum
+dia viva unida com o infante Dom Luiz como sua<span class="pn"><a
+name="pag_19">{19}</a></span>esposa e que, sendo elle o rei, eu seja a rainha
+de Portugal!<a name="tex2html5" href="#foot163"><sup>[5]</sup></a>»</p>
+
+<p>Mas agora a conjunctura não demandava feitos de valor nem proesas de
+galanteria. Atrevera-se Dom Luiz entrar a sós em aposentos que apenas não eram
+vedados á pessoa do monarcha portuguez: a alcova nupcial de Catharina de
+Austria, essa virtuosa irman do Cesar das Espanhas, o victorioso imperador
+Carlos V!</p>
+
+<p>Mal decorreram alguns instantes quando se voltou el-rei para sua esposa a
+diser-lhe pausadamente e com um sorriso glacial:</p>
+
+<p>&mdash;Deveis desculpar-me, senhora, o vir interromper-vos nos vossos galanteios.
+Por Deus que vos dou uma lição que vos deve servir para de outra vez terdes em
+mais recato o pudor e a honra de uma rainha; mas sempre se desculpam os maus
+humores de um esposo e por isso espero de vós que não tomeis a mal a minha
+presença.</p>
+
+<p>Ás veias da orgulhosa princesa de Castella refluiu todo o sangue celta da
+raça de seu pae<span class="pn"><a name="pag_20">{20}</a></span> Filippe I,
+aprumou o seu bello pescoço de garça como se nada houvesse que temer, fitou
+firmemente com um olhar de aguia o semblante pallido de Dom João III e de
+prompto impugnou com a austera dignidade de uma rainha:</p>
+
+<p>&mdash;Jamais tive galanteios que não fossem para vós, senhor meu esposo!</p>
+
+<p>Sorriu o monarcha d'esta vez com aquelle sorriso contrafeito que lhe era
+peculiar e por ventura se dispunha a retorquir em termos de menos restricta
+etiqueta quando o infante se lhe dirige assim:</p>
+
+<p>&mdash;Assaz vos hei provado, meu irmão e senhor, a força da minha lealdade e o
+quilate da minha honradez. Sabei que junto da camara de vossa altesa não me
+trouxeram galanteios. Antes retalhara o coração com o gume da minha espada do
+que faltar algum dia á fidelidade e ás homenagens que a vós e a ella vos devo.
+Missão de outra naturesa me guiou á presença da esposa de vossa altesa
+serenissima. Vim pedir-lhe, senhor, que vos amolgue o genio á compaixão e vos
+decida a resgatar a honra de Dona Violante Gomes...<span class="pn"><a
+name="pag_21">{21}</a></span></p>
+
+<p>A este suave nome de Violante Gomes pareceu sobresaltar-se o animo de
+el-rei. Os olhos, que até ahi os conservara como pregados na alcatifa multicor
+do aposento, erguera-os ao nivel do olhar do irmão e pareciam em semelhante
+conjuncção animados de uma estranha vivacidade. Mostrava-se agora mais varonil
+a phisionomia e mais aprumada a estatura do fanatico Dom João III.</p>
+
+<p>&mdash;Insensato que sois, meu irmão! Violante Gomes talvez algum dia venha a ser
+vossa esposa; mas juro-vos... juro-vos que, em quanto eu viva, nunca Dom João
+consentirá que uma barregan se associe á familia dos monarchas de Portugal!</p>
+
+<p>Inesperadamente assomou um vislumbre de colera ás faces amarellecidas do
+infante. Pouco lhe quedaria para se esquecer da obediencia que jurara a el-rei,
+quando Catharina de Austria adianta dous passos e se colloca de permeio como
+decidida a conjurar a tempestade.</p>
+
+<p>&mdash;É de justiça, aventurou-se a interceder, o que vos implora o infante Dom
+Luiz. Fará o vosso rigor com que mais se deva tomar-vos<span class="pn"><a
+name="pag_22">{22}</a></span> por tiranno que por monarcha. Elle falla em nome
+da humanidade e da honra, duas virtudes que o vosso espirito não poderá
+desconhecer nem póde repulsar. Por isso não vos merece a resposta do orgulho e
+do fanatismo...</p>
+
+<p>&mdash;Diseis bem, applaudiu Dom João com modos brandos e com uma indefinivel
+expressão que só elle e Machiavelo sabiam fingir. Diseis bem; mas esses
+negocios ficam para mais tarde. Veremos se elles interessam ao esplendor da
+religião e ao bem do estado.</p>
+
+<p>Estendendo depois o braço para a porta do aposento, pareceu indicar a Dom
+Luiz que era chegado o desfecho da entrevista.</p>
+
+<p>Dom Luiz de Beja, baixando a cabeça e não arredando os olhos do chão,
+dirigiu-se machinalmente para a porta e se retirou em completo silencio.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot60" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Nasceu a 2 de janeiro
+de 1502.</p>
+
+<p><a name="foot161" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Frei Luiz de Sousa.
+<em>Annaes</em>, liv. I, cap. IV.</p>
+
+<p><a name="foot162" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Frei Luiz de Sousa.
+<em>Annaes</em>, liv. III, cap. 11.</p>
+
+<p><a name="foot163" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> La Clede. <em>Hist.
+ger. de Portug.</em></p>
+</div>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span></p>
+
+<h1>II</h1>
+
+
+<h2>OS REIS NÃO COSTUMAM PERDOAR AS OFFENSAS RECEBIDAS</h2>
+
+<p>Atravessara Dom Luiz a comprida sala chamada ordinariamente dos
+<em>tudescos</em> e se dispunha a descer a marmorea escadaria dos reaes paços
+da Ribeira quando se lhe aproxima um dos pagens de Catharina de Austria e, em
+tom de quem dá conselhos, ousa segredar-lhe assim:</p>
+
+<p>&mdash;Tomae cuidado. Os reis não costumam perdoar as offensas que recebem.</p>
+
+<p>Ao misterioso aviso quasi que Dom Luiz não prestara ouvidos. Embuçando-se
+cautelosamente na sua fina capa de panno verde e carregando sobre os olhos o
+seu amplo chapeu<span class="pn"><a name="pag_24">{24}</a></span> de feltro
+enfeitado com bella pluma branca, atravessou a larga escadaria e em dous
+momentos se apresenta no meio do espaçoso terreiro.</p>
+
+<p>O Tejo, esse rio de arêas de ouro tam decantado pelos poetas, dormia
+placidamente. Soaram onze horas e o ceu mostrava-se empanado de sombrias
+nuvens. Raras pessoas transitavam pelas ruas da opulenta capital. Apenas de
+longe a longe o bronze dos campanarios vinha alterar a prolongada monotonia da
+noite.</p>
+
+<p>O infante, olhando a custo para as aguas ensombradas do Tejo, parecia
+meditar. Depois abandonou o terreiro e a passo lento seguiu pela rua da Palha a
+direcção da praça do Rocio.</p>
+
+<p>Absorvido em estranhos pensamentos ia elle no seu caminho quando lhe surdem
+inesperadamente de cara tres vultos agigantados.</p>
+
+<p>Em seguida sentiu no peito a lamina de dous punhaes e certamente o seu corpo
+ficaria sem forças e sem vida se os punhaes não resvalassem no aço finissimo de
+uma cota de malhas.</p>
+
+<p>&mdash;Covardes! gritou Dom Luiz ao mesmo<span class="pn"><a
+name="pag_25">{25}</a></span> tempo que desembainhava a espada e que se poz em
+guarda.</p>
+
+<p>Immediatamente se crusaram tres espadas contra uma.</p>
+
+<p>Era em extremo fino e destro no jogo das armas brancas Dom Luiz de Beja. Mas
+os seus adversarios mostravam-se lestos e ageis tambem. Além d'isso
+ajuntavam-se tres contra um. Não podia ser mais melindrosa a posição do
+infante.</p>
+
+<p>Por fortuna, quando já o suor lhe escorria pelas barbas e principiava de
+debilitar-se-lhe o pulso, eis que um novo personagem se intromette na peleja.
+</p>
+
+<p>Depressa cáe por terra o mais alentado dos aggressores e os dous restantes,
+naturalmente com receio da morte, poseram-se em immediata e vergonhosa
+retirada.</p>
+
+<p>&mdash;Obrigado, meu amigo, agradece o infante no momento em que aperta com
+fraternal reconhecimento a destra do seu salvador.</p>
+
+<p>Era elle o mesmo pagem que nos paços da Ribeira lhe segredara
+misteriosamente: <em>Cautela, que os reis não perdoam as offensas que
+recebem!</em><span class="pn"><a name="pag_26">{26}</a></span></p>
+
+<p>Por causa das sombras da noite não se lhe distinguiam as feições:
+poder-se-hia divisar apenas que era fransino do corpo e que lhe relusiam os
+olhos como a chamma de um lampadario.</p>
+
+<p>Sorriu-se ouvindo os agradecimentos e, talvez com traça de se esquivar a
+novos protestos de gratidão, pretendeu retirar-se. O infante porém agarrou-lhe
+meigamente o braço e pediu-lhe que o acompanhasse.</p>
+
+<p>Pouco adiante, a confinar com o adro de San Domingos, elevava-se em um
+angulo meridional do Rocio uma elegante e vistosa casaria.</p>
+
+<p>O infante bateu de rijo com os copos da espada tres pancadas no portal e a
+porta franqueou-se-lhe minutos depois.</p>
+
+<p>Ambos subiram os degraus de uma escadaria resguardada de tapetes e depressa
+alcançaram assim o primeiro andar da casa.</p>
+
+<p>Introduziu-os um domestico em uma sala de paredes vistosamente forradas de
+ricos pannos de Arras e toda mobilada com largas cadeiras cobertas de seda
+escarlate.</p>
+
+<p>D'esta sala passaram a um gabinete de exiguas<span class="pn"><a
+name="pag_27">{27}</a></span> dimensões onde a seda, o brocado, as rendas e os
+cristaes de Venesa offereciam ás vistas um aspecto encantador.</p>
+
+<p>Mais adiante abriu-se-lhes um salão da mais requintada opulencia. Tudo ahi
+reçumava riquesa e bom gosto. Julgar-se-hia logo a perfumada recamara de uma
+princesa.</p>
+
+<p>Os reposteiros foram talhados de uma preciosa fasenda da Persia que Dom
+Affonso de Noronha mandara recentemente nos galeões das Indias. Não eram as
+tapeçarias que cobriam o soalho de menos valor e variedade. Por toda a parte
+macios coxins estofados de seda asul e franjados de ouro. Alguns quadros que
+representavam as viagens de Dom Henrique e as descobertas de Vasco da Gama,
+pendiam das largas paredes. Varias figuras da melhor porcelana da China se viam
+aos recantos do salão sobre dous elegantes bufetes com esmero trabalhados de
+madeira de ebano. Mil outros objectos de porcelana, prata e marfim decoravam
+finalmente com luxo oriental aquella mansão de fadas.</p>
+
+<p>Mal o pagem se dispunha a observar os ricos<span class="pn"><a
+name="pag_28">{28}</a></span> estofos e as admiraveis pinturas, eis que
+apparece no salão uma das mais prendadas e gentis damas do reinado de Dom João
+III.</p>
+
+<p>Trajava um vestido de lhama asul guarnecido com alamares de passamanes de
+prata e ouro, decotado a modo de revelar todo o seu alvo pescoço e tam curto
+das mangas que se lhe viam quasi todas as rosadas carnes do seu braço.</p>
+
+<p>Poucos pintores estudaram ainda tam bello perfil e mais alegre figura.</p>
+
+<p>Eram, como dous astros de amor, cheios de ternura e limpidez os seus olhos
+castanhos. Não havia mãos de mais fina epiderme nem dedos de mais esmerada
+estructura. O contorno do nariz não cedia em perfeições aos das estatuas gregas
+que representam a deusa das graças e dos amores. Os labios, feitos das petalas
+de uma rosa, possuia-os tam frescos e delicados que pareciam de uma criança.
+</p>
+
+<p>Quanto não valiam os seus sorrisos e que thesouros de ternura não encerravam
+as suas fallas!</p>
+
+<p>Era alta do corpo e franzina da cintura, como devem ser, á semelhança das
+primorosas estatuas<span class="pn"><a name="pag_29">{29}</a></span> de
+Praxitelles e de Phidias, esse ideal das artes plasticas, os contornos e
+proporções das rainhas da bellesa. Mais nutrida que magra assim nos braços como
+no rosto e, para mais se accenderem cubiças, da arca do peito avolumava-se-lhe
+o contorno dos lacteos pomos de que Tasso e Camões nos fizeram a descripção.
+</p>
+
+<p>Passava já dos trinta e seis annos de edade e comtudo ninguem lhe calcularia
+acima de vinte e cinco primaveras: primaveras superabundantes de rosas e
+frescura, porque uma eterna juventude é algumas veses privilegio das mulheres
+formosas!</p>
+
+<p>Imprimiu-lhe o infante um doce beijo na mão esquerda e, apontando para o
+pagem, lhe disse risonhamente:</p>
+
+<p>&mdash;Apresento-vos, minha querida Violante, um bom amigo que ainda ha pouco me
+salvou os dias da vida.</p>
+
+<p>O pagem conservou-se em mudez. Possuido de uma agradavel commoção, ajoelhou
+aos pés da formosa dama e não pôde elle evitar que dos seus olhos negros se
+escoasse uma lagrima de praser.<span class="pn"><a
+name="pag_30">{30}</a></span></p>
+
+<p>Violante Gomes estreitara-o nos braços de fada e com palavras divinamente
+repassadas de doçura lhe rumorejou:</p>
+
+<p>&mdash;Deus vos recompense o bem que fiseste.</p>
+
+<p>Dispôz-se então a contar-lhe o infante o que se passara.</p>
+
+<p>A narração foi simples e curta. Poupou todas as côres da fantasia e do
+romantismo. Não se lhe ouviu sequer uma accusação contra os sicarios nem contra
+a pessoa que lhes commettera a empresa.</p>
+
+<p>O pagem depois tomou a palavra n'estes rapidos termos:</p>
+
+<p>&mdash;Dom Luiz é denodado em demasia. Se lhe presaes a vida, minha senhora,
+deveis aconselhar-lhe que não a exponha tanto. Inimigos poderosos lhe
+sobejam...</p>
+
+<p>&mdash;Talvez que só Deus o possa defender! exclamou Dona Violante.</p>
+
+<p>&mdash;Deus, acrescenta o Prior do Crato, Deus e a minha espada e os meus amigos
+tambem. Que ha traidores no mundo sei-o eu; mas que se guardem, que se guardem
+bem os traidores!<span class="pn"><a name="pag_31">{31}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Guardam, guardam... Não vêdes como apenas mostram elles o braço e o
+punhal?</p>
+
+<p>A esta allusão da formosa dama logo vaticinou o pagem:</p>
+
+<p>&mdash;Decerto não falta um vilão que a troco de alguns ducados assassine o
+principe Dom Luiz!</p>
+
+<p>&mdash;Mas que empenho haverá n'isso? Dizei-o, que vôl-o supplica Dom Luiz de
+Beja!</p>
+
+<p>&mdash;Quereis que vôl-o diga em voz clara? Alguma coisa devera aprender no meu
+officio de cortesão e eu vos direi agora o que sei: vosso irmão o senhor Dom
+João III não vos estima... antes vos odeia!</p>
+
+<p>&mdash;Ousaes assim calumniar el-rei! com animo exaltado replicou o infante. Bofé
+que, se vos não devesse a minha vida, diria agora que... ensandeceste.</p>
+
+<p>&mdash;Rogo-vos moderação, acudiu a dama. Falla o que sente e o que sabe este
+generoso mancebo. Oxalá sejam imaginarios os seus receios; mas não sei que
+triste presentimento me leva a crêr que algum infortunio nos ameaça...</p>
+
+<p>Sorriu-se o pagem com essa expressão de<span class="pn"><a
+name="pag_32">{32}</a></span> interna melancolia que não se descreve nunca. Em
+seguida volveu-se para o infante.</p>
+
+<p>&mdash;Perdão... mil veses perdão se vos offendi! lhe disse.</p>
+
+<p>Abraçou-o o infante com o espirito sinceramente commovido. Descobrira no
+pagem um tal caracter de franquesa e um certo cunho de verdade que desde logo
+se lhe afigurou ninguem ser digno de maior estima.</p>
+
+<p>Á primeira vista mostrava-se repugnante a phisionomia do pagem. Predominava
+n'elle o sangue das raças selvagens do Oriente. Era negra como aseviche a
+pupilla dos seus grandes olhos e essa pupilla parecia tarjada de um leve
+circulo de sangue. O nariz era chato alguma coisa e alguma coisa largo das
+asas; a côr da pelle bastante acobreada e os beiços grossos sem desar. De idade
+não contava mais de vinte e dous annos, mas na agilidade dos musculos e na
+vivesa do espirito poucos ou nenhuns cavalleiros o excediam.</p>
+
+<p>Nascera no paiz dos badages e ali fôra, em companhia de seus velhos paes,
+convertido ao christianismo pela palavra e pelo exemplo de<span class="pn"><a
+name="pag_33">{33}</a></span> Antonio Criminal. Quando os badages degolaram
+este malaventurado jesuita foi tamanho o horror que a pobre criança concebeu
+pelo seu idolo Trichandur que nunca mais quiz lembrar-se do seu paiz natalicio.
+O vice-rei Jorge Cabral conhecera-o em Gôa, criara-lhe amisade pelas boas
+prendas que em todo elle descobrira e embarcou-o para Lisboa no seu regresso em
+1550.</p>
+
+<p>O pagem, embebido nos perfumes de um ambiente de delicias, agora não se
+fartava de contemplar a peregrina formosura de Dona Violante. Nunca nos salões
+da côrte lhe fascinaram os olhos princesa de fórmas tam correctas, de maneiras
+tam delicadas e conversação mais suave. O terno e melodioso accento com que
+fallava insinuava-se meigamente nos corações como se fossem harmonias do ceu.
+Superabundavam-lhe bellesas assim no corpo como na alma. Talvez porque o acaso
+lhe denegara a nobresa do nascimento, concedera-lhe Deus todas as mil prendas
+que no mundo servem de apanagio e de cortejo á graça e á formosura.</p>
+
+<p>Dona Violante fez-lhes servir aos seus dous<span class="pn"><a
+name="pag_34">{34}</a></span> hospedes, em ricas bandejas de prata, alguns
+doces e licores. Depois, a rogo do infante, passou com agilidade os seus
+pequeninos dedos pelas cordas de uma harpa e com ternissimas inflexões começou
+de cantar o bello soneto em que Luiz de Camões define o amor:</p>
+
+<blockquote>
+ Amor é um fogo que arde sem se vêr; <br>
+ É ferida que doe e não se sente; <br>
+ É um contentamento descontente; <br>
+ É dôr que desatina sem doer. </blockquote>
+
+<p>Logo que terminou levanta-se o gentil prior com todo o carinho a apertar-lhe
+os braços em volta da cintura e com labios de fogo imprimiu-lhe nas rosas do
+collo um osculo fremente.</p>
+
+<p>&mdash;São estas as unicas venturas da minha alma! revelou elle ao pagem. Não vês
+como ella é formosa? Algum dia te contarei como nasceram estes amores...</p>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span></p>
+
+<h1>III</h1>
+
+<h2>RECOMPENSA DO CRIME</h2>
+
+<p>Acabara de badalejar a meia
+noite no campanario da cathedral quando na portaria arqueada do memorando
+collegio de Santo Antão parou um homem de gigantea corporatura.</p>
+
+<p>Vinha embuçado em um capote de fartos cabeções e equilibrava na cabeça um
+desses negros chapeus com amplas abas e copa sumida em fórma de funil.</p>
+
+<p>Depois de relancear prescrutadoras e desconfiadas vistas, entrou
+sorrateiramente no alpendre<span class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span> do
+edificio e dirigiu-se por uma das portas lateraes para um modesto gabinete
+situado ao rez do chão.</p>
+
+<p>Aguardava-o ali com impaciencia um magro personagem de vestes sacerdotaes e
+de phisionomia carcomida pela sarna dos annos.</p>
+
+<p>&mdash;Então que boas novas me trazes tu? perguntou elle sentado em pobre
+tamborete de carvalho e desviando os olhos de um livro escrito na lingua
+latina.</p>
+
+<p>&mdash;Não me parecem tão alegres como desejava, regougou o recemchegado.</p>
+
+<p>&mdash;Bem mau é isso. Mas conta depressa o que aconteceu, meu Jacobo.</p>
+
+<p>&mdash;Pois saiba... saiba vossa senhoria illustrissima que tudo se frustrou por
+artes do diabo.</p>
+
+<p>&mdash;Jacobo, fallas a serio porventura? com preoccupação interrogou o padre.
+</p>
+
+<p>&mdash;Com verdadeira magoa o digo; mas é verdade.</p>
+
+<p>&mdash;O que tambem é verdade é que sois todos uns covardes...</p>
+
+<p>&mdash;Tudo menos isso, meu senhor. Era elle que vestia a pelle do diabo! A não
+ser assim,<span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span> eu por Deus que
+soubera responder pelo ferro do meu punhal!</p>
+
+<p>&mdash;Sempre usaes do mesmo ripanso. Todos vos credes uns fanfarrões e uns
+Hercules; mas porfim de contas, se é mister que se mostre valentia ou governe
+com prudencia, sois deveras mais pecos e villãos do que um asno.</p>
+
+<p>&mdash;Deve saber vossa senhoria illustrissima que a culpa não foi nossa. Juro
+que não foi. Esperamol-o a sangue frio e logo, peito a peito como varões
+honrados, procuramos mandal-o de presente ás megeras do Averno quando os
+punhaes, em vez de toparem carne de christão, encontram o aço de uma saia de
+malha... Mas, ainda assim, tudo se remediava á maravilha: como os punhaes eram
+curtos, puchamos das durindanas em guisa de valentes campeões e em poucos
+minutos dariamos com meia duzia de cutiladas remate á nossa obra se de
+improviso se não intromette o demonio em favor d'elle. Um dos nossos cae por
+terra e os outros... os outros...</p>
+
+<p>&mdash;Escusas de confessar que fugiram... provavelmente com temor de lhes
+acaecer a mesma sorte.<span class="pn"><a name="pag_38">{38}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Não foi o temor, meu padre. Tem vossa senhoria em mim um rude servo que
+nunca do sitio do perigo arredou pé com medo nem covardia!</p>
+
+<p>&mdash;Conheço-te bem, meu Jacobo. Faço justiça á tua valentia e espero que me
+toleres algum arrebatamento. O pobre velho não sabe o que diz, não sabe o que
+diz muitas veses... Mas dize-me ainda: que fiseste do companheiro que morreu?
+</p>
+
+<p>&mdash;Á falta de outras virtudes, nunca me arrependi de ser prudente. A estas
+horas, meu padre, está elle a servir de repasto aos peixes do Tejo.</p>
+
+<p>&mdash;És assisado, és assisado na verdade. Toma em paga dos teus serviços e
+retira-te por hoje.</p>
+
+<p>Atirou-lhe o padre com um punhado de moedas de ouro e o gigante, mirando-as
+com olhos de cubiça, lançou com prestesa mão d'esse precioso metal que na frase
+de Tolentino é o <em>tiranno do mundo</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Sempre a vossa senhoria conheci generosidade, retorquiu elle correndo a
+mão esquerda pela desgrenhada cabelladura. Mas d'esta vez,<span class="pn"><a
+name="pag_39">{39}</a></span> meu padre, bem sabe que tenho de repartir...
+Cincoenta escudos<a name="tex2html6" href="#foot73"><sup>[6]</sup></a> é pouco.
+</p>
+
+<p>&mdash;Nem um morabitino merecias ganhar, meu velhaco.</p>
+
+<p>Jacobo afastou-se sem novas replicas e a meia voz foi tratando de combinar a
+melhor maneira de embair a boa fé do seu companheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Sempre lhe direi que não recebi mais de trinta escudos, rosnou elle pelo
+caminho.</p>
+
+<p>Em seguida poz-se a cantarolar aquella sabida canção<a name="tex2html7"
+href="#foot74"><sup>[7]</sup></a>:</p>
+
+<blockquote>
+ Como no se desespera <br>
+ quien se vê como me veo <br>
+ tan lexos de dó desseo, <br>
+ tan cerca dó no quisiera? </blockquote>
+
+<p>Entretanto o ecclesiastico de Santo Antão esfregava as engelhadas mãos como
+prova de quem se não julga de todo descontente.</p>
+
+<p>&mdash;Do mal o menos, murmurou levantando-se<span class="pn"><a
+name="pag_40">{40}</a></span> do tamborete. Escapou-nos por hoje, mas nada se
+descobriu... E que tudo se divulgasse e descobrisse? És muito anão, Dom Luiz de
+Beja, para ergueres o braço contra a pessoa que te mandou assassinar!</p>
+
+<p>O ecclesiastico fechou o livro e deixou-se cair novamente no meio da sola do
+tamborete.</p>
+
+<p>&mdash;Meu Deus, meu Deus! exclama então com gesto de arrependimento. As tuas
+doutrinas só respiram humildade e amor; queres que amemos o nosso proximo como
+nos amamos a nós mesmos; aconselhas o perdão das offensas e o abandono das
+riquesas do mundo... Mas como renegamos a tua lei e os teus conselhos, Deus meu!
+Entra uma vez nos seios do homem o veneno das ambições terrestres e esquecem-se
+bem depressa os deveres da virtude e a salvação das nossas almas. Tudo se
+esquece e... lá vamos nós, vermes orgulhosos, pelo menos subvertendo nas
+voragens do crime a tranquillidade do espirito e a saude do corpo!</p>
+
+<p>Abrio mansamente o livro, entregou-se por alguns momentos á leitura
+d'aquelle salutar capitulo que traz por epigraphe <em>De consideratione humanæ
+miseriæ</em><span class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span> e que principia
+por estas palavras de humildade: <em>Miser es, ubicunque fueris et quocumque te
+verteris, nisi ad Deum te convertas.</em></p>
+
+<p>Seguidamente prostou-se o padre de joelhos e com modos de extrema beatitude
+fixou os olhos nas taboas do pavimento.</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei, declamou ainda, que só trabalho para o progresso da religião
+catholica e em beneficio da santa madre igreja. Mas o meu coração está cheio de
+magoa, meu Deus. São grandes os meus erros, são enormes os meus peccados!</p>
+
+<p>Decorreram dous minutos de tranquilla meditação e tudo ali, como se fosse o
+recinto de um cemiterio, permanecia completamente calado. Nem o cicio dos
+insectos nem as oscillações da pendula dos relogios interrompiam o silencio
+sepulchral do gabinete.</p>
+
+<p>&mdash;Deus de misericordia! por fim proferio o padre batendo por duas veses com
+os punhos na arca do peito. Meu Jesus de misericordia, guiae-me como bom
+christão pelo caminho da virtude e fasei com que me não desampare nunca<span
+class="pn"><a name="pag_42">{42}</a></span> a vossa infinita graça. Eis aqui um
+grande peccador que, fingindo observar todas as virtudes da religião, encoberta
+as chagas dos maiores vicios! Eil-o aqui, humildemente offerecendo a cabeça ao
+gladio da vossa punição!... Mas tende vós piedade de mim; tende piedade de mim,
+senhor!</p>
+
+<p>Seguidamente lançou mão de um latego de rijos loros e dispôz-se, a exemplo
+dos mirificos varões de que nos fallam os livros de theologia, a flagellar
+rudemente as espaduas, os peitos e os rins.</p>
+
+<p>Não desprendia da garganta um unico murmurio de dôr e todavia cada vez com
+mais força se redobravam os açoutes.</p>
+
+<p>Sempre sereno do rosto e humilde da postura como as figuras de alguns
+macillentos retabulos da escola flamenga, disciplinava-se cruelmente á maneira
+do mais exemplar e do mais devoto dos filhos do christianismo. Se deixava de
+orar é porque as correas lhe açoutavam as carnes do corpo e, se parava com o
+castigo do latego, é porque em misticas leituras pregava os olhos nas paginas
+do livro.<span class="pn"><a name="pag_43">{43}</a></span></p>
+
+<p>Esse livro abrangia mediana fórma e fôra publicado em 1492. Todo cheio de
+doutrinas religiosas, rescendia das suas bellas paginas os santos olores das
+folhas do evangelho. Era verdadeiro balsamo para o espirito de um christão e
+ainda hoje tanto consola o christão como o philosopho. «Admiravel apesar da
+negligencia do estilo, commove muito mais do que as argutas reflexões de Seneca
+e as frias consolações de Boeccio. Foi traduzido em todas as linguas e lê-se em
+toda a parte com infinito gosto. Conta-se até que um poderoso bey de Marrocos o
+guardava na sua bibliotheca e de quando em quando o lia com inexcedivel
+prazer<a name="tex2html8" href="#foot164"><sup>[8]</sup></a>.» Leitura sempre
+cheia de uncção e piedade, mereceo do sabio Fontenelle o conceito de «o mais
+bello livro sahido das mãos dos homens». Modestamente se intitula <em>De
+imitatione Christi</em>.</p>
+
+<p>O padre todos os dias e todas as noites o folheava com beatifica e
+inalteravel devoção. Todos os dias passava algumas horas lendo-o umas veses
+silenciosamente e outras em voz alta.<span class="pn"><a
+name="pag_44">{44}</a></span></p>
+
+<p>Que mistico e santo apostolo não devia de ser este padre! Quem posesse o
+ouvido ao ralo da porta da sua pobre cella, ouvil-o-hia pedir com profundo
+arrependimento aos ceus misericordia para os seus peccados e salvação para a
+sua alma. Para castigo dos affectos humanos, não se poupava jejuns nem
+penitencias. Na boca dos irmãos da sua ordem jámais no orbe catholico brilhara
+jesuita de maiores virtudes. Quando em reverente postura de resa e devoção se
+collocava defronte do seu crucifixo, logo se poderia tomar por qualquer
+anachoreta da Nitria. Ninguem á primeira vista o julgara desmerecedor de
+participar dos mais subidos panegyricos das lendas hagiolicas.</p>
+
+<p>Chegou de Roma em Companhia de Francisco Xavier no anno de 1540. Elle e
+Francisco Xavier foram do numero dos jesuitas que o embaixador Pedro
+Mascarenhas solicitara de Paulo III para se dedicarem no imperio das Indias á
+conversão dos idolatras e ao esplendor da fé catholica. O piedoso navarro
+decidio-se com Misser Paulo e Francisco de Mansilhas a ir, por suas doutrinas e
+virtudes, ganhar entre o gentio<span class="pn"><a
+name="pag_45">{45}</a></span> o glorioso titulo de <em>Apostolo das
+Indias</em>; mas o seu companheiro preferio que el-rei Dom João o galardoasse
+com a menos obscura e penosa commissão de director do collegio de Coimbra.</p>
+
+<p>Era Simão Rodrigues,&mdash;o ladino padre mestre provincial que na sua qualidade
+de poderoso valido de el-rei julgava prestar mais acrisolados serviços á causa
+de Deus e ás venturas da patria. É certo que ao benemerito Francisco Xavier
+deveram as Indias uma das mais heroicas e soberbas paginas da sua epopêa. Eis o
+que a tal respeito apregoam as trombetas da fama<a name="tex2html9"
+href="#foot165"><sup>[9]</sup></a>:</p>
+
+<p>«Uma noite, referem as chronicas, os soldados do rei de Achem entraram na
+praça de Malaca, deram sobre as embarcações ancoradas no porto, queimaram parte
+d'ellas e ao romper da madrugada retiraram-se em triunfo como se tivessem
+alcançado uma grande victoria. Encontrando um barco de sete pescadores
+malaquinos, cortaram-lhes as orelhas e o nariz e com o seu sangue escreveram
+uma carta prenhe de<span class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span> injurias
+ao governador Simão de Mello. Accendeu em colera tam cruel insulto os
+habitantes de Malaca e Francisco Xavier, movido de compaixão á vista dos
+pescadores mutilados de modo tam barbaro, foi o primeiro a diser que logo
+convinha vingar a injuria feita á nação portuguesa.</p>
+
+<p>«&mdash;Não se deve, accrescentava elle, supportar semelhante violencia. Cumpre
+embarcar, acodir em seu alcance e tirar todo o desejo de vos insultarem segunda
+vez. Ainda digo mais: que sois obrigados a isso se não quereis perder o nome e
+a reputação.</p>
+
+<p>«&mdash;Nós assim o entendemos, respondeu o governador, mas faltam-nos as forças.
+As vossas embarcações estão podres e incapases de servir. Para espalmar as que
+temos seria necessario mais tempo do que para fabricar outras de novo. De mais
+d'isso os inimigos são muitos e os nossos alliados não podem soccorrer-nos com
+tanta promptidão.</p>
+
+<p>«&mdash;E não ha outras senão essas difficuldades para superar, senhor
+governador? lhe replicou Francisco Xavier. Pois bem está: eu tomo a<span
+class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span> cargo o diligenciar que se
+concertem as embarcações.</p>
+
+<p>«Voltando-se depois para os officiaes e soldados, lhes disse em voz grave:
+</p>
+
+<p>«&mdash;Deus está pela vossa parte, amigos e irmãos, cavalleiros e soldados de
+Jesus Christo. Em seu nome vos advirto que arredeis do espirito qualquer temor
+e medo. Elle vos chama a uma guerra santa. Ou fiqueis vencedores ou vencidos, a
+palma sempre será vossa!</p>
+
+<p>«Marcha seguidamente para o porto, onde apenas achou sete fustas e um catur
+á mingoa de tudo o que era necessario para se meterem ao mar. Além disso os
+armazens reaes estavam completamente vasios. Não havia breu nem resina nem
+estopa para calafetar as embarcações. Faltavam armas, polvora e outras munições
+para poderem combater. Recorreu então a sete pessoas abastadas e moveo-as a
+faser as despesas demandadas pela expedição. Dentro em cinco dias poseram-se as
+fustas em estado de ir a corso.</p>
+
+<p>«Eram os portugueses ao todo 140 homens e embarcar tambem com elles desejava
+Francisco<span class="pn"><a name="pag_48">{48}</a></span> Xavier; mas não o
+consentiram o governador e os habitantes de Malaca.</p>
+
+<p>«O almirante portuguez encontrou no rio Parlés a frota achenina e então,
+saltando a um esquife, com a espada em punho visita as suas embarcações e
+proclama aos seus soldados:</p>
+
+<p>«&mdash;Filhos de Jesus Christo, lembrai-vos das promessas de Francisco Xavier.
+Das vossas mãos depende a victoria. Os acheninos não nos podem fugir e agora
+colherão o castigo devido á sua barbaridade.</p>
+
+<p>«&mdash;Todos pelejaremos, responderam os soldados, em defensa da lei de Jesus
+Christo para se desaggravar a nossa patria e manter-se a nossa gloria. Havemos
+de vencer. Descançae vós na nossa valentia e no despreso que temos pela morte.»
+</p>
+
+<p>«O almirante voltou para a sua embarcação e logo se avistou o inimigo que,
+soltando estridentes gritos, fasia retinir todo o rio. Achava-se disposto em
+dez linhas e cada linha constava de seis embarcações com excepção da primeira,
+que era de quatro.</p>
+
+<p>«Deram os inimigos uma descarga com toda<span class="pn"><a
+name="pag_49">{49}</a></span> a artilharia, mas sem causarem damno algum aos
+portugueses. Seguidamente os almirantes arremeçaram-se um sobre o outro e ambos
+disputaram largo tempo a victoria até que a do almirante inimigo foi metida a
+pique. As outras mais proximas, atravessando para salvarem a gente que nadava,
+voltaram os flancos para as forças portuguesas. De maneira que essas mesmas
+embarcações serviam de estorvar as que vinham atraz, porque as da seguinte
+linha vinham de encontro ás da primeira, as da terceira contra as da segunda e
+assim de tal modo que se dizia combatiam umas contra as outras. Então os
+portugueses despediram tres descargas successivas que meteram a pique nove
+embarcações grandes. Abordando depois ás embarcações acheninas, saltaram dentro
+e degollaram dous mil soldados. Vendo o resto dos acheninos a sorte dos
+companheiros, precipitaram-se no rio em procura de salvamento; mas afogaram-se
+todos.</p>
+
+<p>«Nunca se proclamou victoria mais completa nem que menos custasse!</p>
+
+<p>«Lavrava todavia a consternação em Malaca.<span class="pn"><a
+name="pag_50">{50}</a></span> Não chegara ainda noticia da frota desde que
+sahira do porto. Debalde Francisco Xavier se esmerava em socegar os habitantes
+e podia tanto com elles o medo, que em pouco tempo se persuadiram de ser
+perdida. Até alguns sarracenos tiveram a ousadia de divulgar como noticia certa
+que os acheninos a desbarataram completamente. A desconsolação por isso era
+geral na cidade e todos tornavam a Francisco Xavier a culpa de se perder a
+frota. O piedoso varão assegurava o contrario; mas ninguem se reconhecia no
+estado de crer o que elle assegurava. Accusaram-no geralmente de ser a causa de
+se perderem tantos homens valentes, zombando das preces que por elles fasia a
+Deus e disendo irrisoriamente que só lhes serviam de suffragio para suas almas.
+</p>
+
+<p>«Por fim o virtuoso varão declarou ao povo com um profundo convencimento:
+</p>
+
+<p>«&mdash;Deus é victorioso. Nossos soldados triunfam. Estou vendo os de Achem
+banhados no proprio sangue. O nosso exercito em marcha triunfante deve entrar
+sexta feira pelo porto de Malaca.<span class="pn"><a
+name="pag_51">{51}</a></span></p>
+
+<p>«Chega entretanto Manoel Godinho e confirma tudo quanto fôra annunciado.
+Torna-se em viva alegria a entranhavel tristesa em que todos estavam. Os ares
+retiniram com voses festivaes. Divisa-se o praser em todos os rostos. Emfim
+entra o almirante na sexta feira pelo porto, bem cheio de gloria e carregado
+com os despojos opimos da batalha!»</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot73" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> Moeda de ouro mandada
+cunhar por Dom Duarte e depois refundida por Dom Manoel. Valia 1$600 reis.</p>
+
+<p><a name="foot74" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Obr. de Sá de
+Miranda.</p>
+
+<p><a name="foot164" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> <em>Nov. diction.
+hist.</em> par une société de gens-de-lettres, art. Kempis.</p>
+
+<p><a name="foot165" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> La Clede. <em>Hist.
+ger. de Port.</em></p>
+</div>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span></p>
+
+<h1>IV</h1>
+
+
+<h2>O FESTIM DE BALTHASAR</h2>
+
+<p>Era Francisco Xavier um dos
+raros exemplos com que os jesuitas poderiam alardear a santidade da sua
+universal associação; mas quem é que em Lisboa se importava das virtudes do
+apostolo das Indias?</p>
+
+<p>Por outras differentes rasões se recreava Lisboa com folganças e festejos.
+</p>
+
+<p>Desde o alvorecer da madrugada salvava com festival estrondo a artilharia do
+velho castello.</p>
+
+<p>Por todos os angulos do Rocio e do Terreiro do Paço resoavam alegres musicas
+de atabales e clarins.<span class="pn"><a name="pag_54">{54}</a></span></p>
+
+<p>Grande parte das ruas e casarias se decoraram vistosamente com galhardetes
+multicores, bambolins de murta e festões de louro e rosas.</p>
+
+<p>Estavam preparados com sedas e damascos os toldos e os enfeites dos
+escaleres reaes.</p>
+
+<p>No tope dos mastareus das galeras e bergantins do Tejo viam-se tremular
+flammulas e estandartes de todas as nações.</p>
+
+<p>É que a côrte portuguesa regalava-se com um dos mais esplendidos dias de
+gala.</p>
+
+<p>Ao bispo de Coimbra, Dom João Soares, bem como ao duque de Aveiro, Dom João
+de Lencastre, fôra commettido o honroso cargo de irem buscar a Castella a
+princesa Dona Joanna e n'esse dia chegava esta guapa noiva á cidade de Lisboa
+com o mais soberbo acompanhamento de gentis-homens e equipagens que raras veses
+se vira em terras de Portugal.</p>
+
+<p>Nada pouparam o faustoso Dom João de Lencastre nem o opulento Dom João
+Soares para se mostrarem com a magnificencia que competia ao seu estado e á sua
+posição.</p>
+
+<p>Luxo e estrondo por toda a parte. Os mais ricos veludos serviam de fasenda
+aos elegantes<span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span> capirotes dos
+pagens. Eram sedas recamadas de bordaduras de ouro os vestuarios dos condes e
+dos gentis-homens. Custosos brocados de prata reluziam nos xaireis de
+centenares de ginetes e no aço polido das armaduras dos arautos e reis de armas
+reflectia-se o sol com raios coruscantes.</p>
+
+<p>Nunca o povo de Lisboa se recordava de presencear festejos de tanta vista e
+de tamanho esplendor. Era grande a alegria d'elle por isso. Ao som de confusas
+charamelas soltava enthusiasticos vivas, e assim em infernal confusão de vivas
+e descantes cada vez mais accendia os seus enthusiasmos!</p>
+
+<p>Ia-se acoutando o astro do dia nos abysmos do oceano, á mesma hora em que
+nos reaes paços da Ribeira começou a solemne recepção da princesa castelhana e
+do seu apparatoso cortejo.</p>
+
+<p>Todos na sala do throno vestiam com o mais apurado gosto e com uma especie
+de luxo oriental. Eram principalmente as roupagens da rainha adereçadas da mais
+rica pedraria e do mais esquisito artificio. Cingia-lhe a fronte um bello
+diadema cravejado de perolas e diamantes. Cravejada<span class="pn"><a
+name="pag_56">{56}</a></span> tambem de preciosa joalharia decorava-lhe o peito
+a cruz da ordem de Isabel a Catholica. O manto, finalmente, era guarnecido de
+renda de ouro e pespontado dos castellos e quinas de que desde o fundador da
+monarchia fasem uso os mantos regios<a name="tex2html10"
+href="#foot166"><sup>[10]</sup></a>.</p>
+
+<p>El-rei envergava uma custosa vestidura de terciopello e cobria-lhe os
+hombros alentados uma opa roçagante de lhama de ouro e prata. Por cima da curta
+cabelleira pousava-lhe na cabeça um chapeu enfeitado com plumas brancas, de aba
+erguida de um lado e presilha recamada de vistosa pedraria. Emfim as bellas
+insignias do Tosão de Ouro assoberbavam-lhe o peito e da cinta pendia-lhe um
+dourado espadim em que relusiam meia duzia das mais preciosas gemmas da colonia
+do Brasil.</p>
+
+<p>Satisfeitas as varias ceremonias e etiquetas exigidas em semelhantes
+conjuncturas, procedeo-se depois a um desses opiparos banquetes que entravam na
+lista dos praseres dos monarchas de Babylonia.<span class="pn"><a
+name="pag_57">{57}</a></span></p>
+
+<p>De direito fez as honras da mesa el-rei Dom João III, ficando-lhe á dextra a
+princesa de Castella Dona Joanna e ao lado esquerdo o poderoso valido Antonio
+de Athayde. Em frente do velho monarcha sentara-se a rainha Dona Catharina de
+Austria, cedendo a cadeira de honra a seu filho o principe Dom João e a
+esquerda ao infante Dom Luiz de Beja.</p>
+
+<p>Por sua grandesa e gerarchia ali estava resplandecendo tudo o que se poderá
+notar de melhoria nas ordens clericaes e nas raças aristocraticas de Portugal.
+</p>
+
+<p>Não faltavam ao banquete, além dos principes e mais pessoas da familia real,
+o bispo de Coimbra, os arcebispos de Braga e Lisboa, o beato jesuita Simão
+Rodrigues, o illustre Dom João de Lencastre, o chanceler doutor João Monteiro,
+o desembargador Dom Gonçalo Pinheiro, o nobre Marquez de Villareal, o prudente
+Duque de Bragança e ainda tres dusias de lusidos personagens que na maior parte
+representavam a curia de Roma e as côrtes estrangeiras.</p>
+
+<p>Bellos vinhos de Caparica e Seixal, bons licores<span class="pn"><a
+name="pag_58">{58}</a></span> e as mais esquisitas iguarias serviam-se com
+profusão. Os vinhos eram de excellente paladar e por isso motivaram algumas
+alegres modificações no rigoroso codigo das etiquetas.</p>
+
+<p>Foi Dom João III o primeiro personagem que se ergueu com a copa na dextra.
+Já não era o monarcha de severo e sisudo caracter. Mostrava-se de faces
+rubicundas, olhos risonhos e maneiras joviaes. Nunca o seu espirito se abrira
+com tanta expansão e tanta liberdade. Sorrindo com alegria, olhou por um
+momento em derredor da mesa e proferiu pausadamente as palavras seguintes:</p>
+
+<p>&mdash;Sem lisonja o digo, senhores. Sobreluzem no semblante e no espirito da mui
+alta e excellente esposa de meu presado filho Dom João todas as graças e mais
+prendas que podem exornar a pessoa de uma princesa. Para goso e ventura de
+todos os meus vassallos imploro de Deus lhe dilate a preciosa vida por muitos
+annos. Sempre lhe tributarei n'esta côrte as mais ternas affeições como filha a
+quem muito amo e todas as homenagens como princesa das mais excelsas virtudes.
+Por isso é, fidalgos e prelados<span class="pn"><a
+name="pag_59">{59}</a></span> da minha côrte, que eu com summa alegria do meu
+coração brindo agora á saude da nobre princesa Dona Joanna!</p>
+
+<p>Todos os prelados e fidalgos levaram aos labios as preciosas amphoras
+espumantes do saboroso Caparica, ao mesmo tempo que, de pé e em reverente
+postura, baixaram respeitosamente para Dona Joanna as radiosas cabeças.</p>
+
+<p>De branco vinho do Seixal tornou logo o monarcha a encher a Copa e novamente
+se dispoz a abrir os diques á sua expansiva loquela.</p>
+
+<p>&mdash;Grandes e senhores da minha côrte, principiou elle, não deixarei tambem de
+faser votos pela existencia e ventura do herdeiro do meu throno. Piamente
+confio em que Deus lhe inspirará amor pela justiça, respeito ás leis do reino e
+obediencia ás doutrinas da nossa santa religião. Firmam-se n'elle as esperanças
+dos leaes portugueses e certamente meu filho se tornará digno por seus talentos
+e virtudes do amor dos meus vassallos. Escuso de lhe declarar as affeições do
+meu seio; mas saiba que eu o amo e preso como pai e como amigo. Rogarei sempre
+aos céus nas minhas orações lhe prospere Deus<span class="pn"><a
+name="pag_60">{60}</a></span> a preciosa existencia... Que Deus lh'a prospere e
+viva por muitos annos o glorioso principe Dom João! Meus senhores, perorou
+erguendo mais a copa e a voz, viva meu filho o principe Dom João!</p>
+
+<p>Um coro dissono e rapido de vivas eccoou pelos recantos do vasto salão do
+festim. Principes e embaixadores, fidalgos e prelados ouviram com enthusiasmo
+as ultimas voses de el-rei e todos a um tempo, levando á altura dos beiços as
+copas cheias d'esse valente liquido que <em>o peito accende e a cor ao gesto
+muda</em>, soltaram o grito fremente de <em>viva o principe Dom João! Viva o
+principe Dom João!</em></p>
+
+<p>Sentaram-se depois e por um pouco arrefeceram os gastronomicos delirios.
+Apenas se escutavam o rangido frouxo dos talheres e as brandas passadas dos
+criados. Foi porém de breve duração esta calmaria. Levantou-se o Conde da
+Castanheira e, com fallas adamadas e gestos em demasia palacianos, dispoz-se a
+discursar.</p>
+
+<p>&mdash;Pedindo venia a vossas altesas serenissimas&mdash;começou o poderoso valido,
+cortejando com a cabeça o monarcha e Dona Catharina&mdash;ouso<span class="pn"><a
+name="pag_61">{61}</a></span> tambem manifestar a grande satisfação que me
+desperta o glorioso dia que em tam esplendido banquete se commemora. O feliz
+consorcio do nosso principe real é para todos os leaes portugueses motivo de
+felicitações e regosijos. Quem não ha de exultar com as virtudes varonis e
+prendas naturaes dos augustos noivos? Permitti que vos saude, excelsa princesa!
+Dae-me a liberdade de brindar á vossa ventura, augusto principe!</p>
+
+<p>Dom Antonio de Athayde bebeo de um trago o vinho do seu calix e a tam
+palaciano brinde logo corresponderam em coro todos os convivas.</p>
+
+<p>Por seu turno ergueram-se ainda com os calices na mão o inquisidor geral D.
+Henrique, o velho arcebispo de Braga e tambem Dom João de Lencastre.
+Entresachados de latim e de textos theologicos se desenvolveram os dous
+primeiros discursos, mostrando-se assim a erudição e sabedoria dos
+respeitabilissimos varões que os proferiram. O de Dom João de Lencastre, esse
+foi declamado na lingua espanhola em frase singela e correntia como sendo de
+pessoa mais<span class="pn"><a name="pag_62">{62}</a></span> adestrada no jogo
+das armas que em torneios de palavras.</p>
+
+<p>Como nas marés dos oceanos, dá-se tambem o fluxo e o refluxo nas marés do
+enthusiasmo. Nem tudo, por esta rasão, era delirio e voseria. O silencio
+reinava tambem de longe a longe.</p>
+
+<p>Silencio profundo reinava no salão do banquete quando, emfim, de um dos
+recantos da mesa se levanta um mancebo de tez morena e bronzeada como a dos
+povos da India.</p>
+
+<p>Era o joven amigo do infante Dom Luiz de Beja.</p>
+
+<p>&mdash;Monarcha Dom João, prologou elle com voz clara e rosto sereno, eu venho
+como o profeta Daniel vaticinar-vos a sorte de Balthasar!</p>
+
+<p>Mal fôra proferida esta ameaça terrivel e já duas duzias dos mais esforçados
+fidalgos se adiantaram com o punho nos copos dos dourados chifarotes.</p>
+
+<p>O pagem não se intimidou, porém. Deu maior volume á voz e com o seu placido
+gesto exprimiu-se ainda:</p>
+
+<p>&mdash;Não encareço as vossas virtudes nem culpo os vossos vicios, monarcha Dom
+João; mas<span class="pn"><a name="pag_63">{63}</a></span> sempre vos imputarei
+a responsabilidade dos tremendos crimes que se commettem na vossa côrte...</p>
+
+<p>&mdash;Crimes na minha côrte! bradou o monarcha portuguez ao erguer-se da cadeira
+como impellido por uma secreta mola.</p>
+
+<p>&mdash;Admiro, replicou immediatamente a rainha Dona Catharina, que ainda não vos
+dissessem que tentaram hontem assassinar vosso irmão o infante D. Luiz.</p>
+
+<p>Á inesperada revelação succedeo um momento de espanto e alvoroço. Quem não
+presaria em Portugal a vida do infante? Presavam-na deveras assim fidalgos como
+peões e por isso ninguem havia entre os nobres commensaes que se não
+sobresaltasse com a nova de que a vida de Dom Luiz de Beja correra imminente
+risco.</p>
+
+<p>&mdash;Fallae agora vós, meu irmão. Por acaso premeditaram alguns sicarios contra
+a vossa vida?</p>
+
+<p>&mdash;Tentaram na verdade, placidamente respondeo a el-rei o infante Dom Luiz.
+Hontem por alta noite fui eu acommettido por tres bandidos<span class="pn"><a
+name="pag_64">{64}</a></span> e de certo dos seus punhaes seria victima
+innocente se me não acode aquelle generoso pagem.</p>
+
+<p>&mdash;Graças dou a Deus, volveu el-rei, por haverdes escapado do perigo. Mas que
+foi feito dos assassinos? Justiça rigorosa se fará, meu presado irmão.</p>
+
+<p>&mdash;Justiça rigorosa vol-a reclamo eu! solemnemente bradou a rainha.</p>
+
+<p>&mdash;Justiça! justiça! conclamaram todos os convivas.</p>
+
+<p>Gradualmente foram esmorecendo as vingadoras explosões de enthusiasmo e
+então o monarcha portuguez, retirando-se bruscamente da mesa, fez terminar esse
+festival e ruidoso banquete que, para dar em tudo semelhanças do festim de
+Balthasar, só faltou que mão invisivel escrevesse na parede as mysteriosas
+palavras <em>mané</em>&mdash;<em>thécel</em>&mdash;<em>pharês</em>!</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot166" href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> Vid. <em>Hist.
+polit. e militar de Port.</em> por L. Coelho, t. I, pag. 249.</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_65">{65}</a></span></p>
+
+<h1>V</h1>
+
+
+<h2>ORAÇÕES E JEJUNS REDIMEM TODAS AS CULPAS</h2>
+
+<p>Da casa do jantar passou a
+maioria dos convivas para um faustoso salão em cujos moveis sobresaiam
+riquissimos estofos de cores amarella e carmesim.</p>
+
+<p>Aqui principiaram damas e fidalgos de se entreter com jogos de cartas,
+girando a rodo sobre as mesas moedas de prata e ouro como se fossem alcacer de
+Astrea os paços de el-rei Dom João III.</p>
+
+<p>Dom João III, esse vamos vel-o no seu gabinete preoccupadamente sentado em
+larga poltrona franjada de ouro e prestando a maior<span class="pn"><a
+name="pag_66">{66}</a></span> attenção ás fallas veneradoras de dous illustres
+personagens.</p>
+
+<p>Estes personagens vestem com excessiva desigualdade no feitio e na fasenda:
+traja o mais novo rico veludo roxo e o mais velho humilde roupeta de estamenha.
+</p>
+
+<p>Será empresa difficil todavia distinguil-os no valimento e no poderio. Ambos
+representam duas hierarchias eminentes: a nobresa e o clero.</p>
+
+<p>São o padre mestre provincial Simão Rodrigues e o celebre Conde da
+Castanheira, esse poderoso valido que grangeara famas de que «n'aquelle tempo
+ninguem se lhe avantajava nas partes de conselho e maduro juiso<a
+name="tex2html11" href="#foot167"><sup>[11]</sup></a>».</p>
+
+<p>&mdash;Juro-vos, estava asseverando o jesuita, que nada se descobrio. As palavras
+d'esse estonteado badage motivaram-nas os vapores do vinho.</p>
+
+<p>&mdash;O mesmo acredito eu, accrescenta o conde. A noite corria escura e a
+empresa foi commettida a gente de confiança...</p>
+
+<p>&mdash;Mas, interrompe el-rei, não me disseram<span class="pn"><a
+name="pag_67">{67}</a></span> já que o attentado se baldou por artes do diabo
+ou por manhas de quem quer que fosse?</p>
+
+<p>&mdash;Verdade é, responderam ambos ao mesmo tempo.</p>
+
+<p>&mdash;Em tal caso facilmente se poderia descobrir tudo...</p>
+
+<p>&mdash;Os aggressores, acode o jesuita, acautelaram-se bem. Os chapeus e os
+capotes deram-lhes panno de sobra para cobrirem as barbas e, quando chegou o
+diabo, todos debandaram com prudencia.</p>
+
+<p>&mdash;Tal accommettimento ha de ser sempre o dessocego do meu espirito! desabafa
+el-rei.</p>
+
+<p>&mdash;O bem do estado assim o reclama, volve por sua vez o conde.</p>
+
+<p>&mdash;Dizes, conde, que o bem do estado nos moveu... O bem do estado seria, mas
+porventura não peccamos nós contra os mandamentos da santa religião? Receio,
+meu padre, o castigo da Providencia!</p>
+
+<p>&mdash;Que póde recear vossa altesa real, o mais fervoroso filho de Deus? replica
+o poderoso jesuita com extrema brandura.</p>
+
+<p>&mdash;O castigo dos meus peccados, o castigo dos<span class="pn"><a
+name="pag_68">{68}</a></span> meus peccados... Conheço que ordenei um
+assassinio. Não terei eu, como Caim, manchado as minhas mãos em sangue
+fratricida? Meu padre, a colera do Senhor cairá sobre a minha cabeça!</p>
+
+<p>&mdash;A oração e os jejuns redimem todas as culpas...</p>
+
+<p>Proferia Simão Rodrigues esta mistica sentença quando estalou na sala do
+jogo um grande alvoroto de voses e passos.</p>
+
+<p>Sobresaltou-se o monarcha Dom João como se novamente lhe retumbasse nos
+ouvidos o tremendo vaticinio do pagem: <em>Eu venho, como Daniel,
+profetisar-vos a sorte de Balthasar.</em></p>
+
+<p>O Conde da Castanheira dirigio-se com prestesa para a soleira da porta a
+colher noticia do alvoroto e, dando volta á chave, eis que frente a frente se
+lhe depara a figura travessa do indio.</p>
+
+<p>O badage, sem comprimentos nem venia, collocou-se em poucos passos defronte
+do monarcha.</p>
+
+<p>&mdash;Não se enfade vossa altesa serenissima, lhe disse respeitosamente. É
+natural o ruge-ruge que vos chega aos ouvidos, senhor. Não provém de<span
+class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span> rebellia nem de incendio. Toda a
+côrte se alvorota e desconsola porque o principe Dom João adoeceu
+repentinamente ao levantar-se da mesa.</p>
+
+<p>&mdash;Asseveras que está doente meu filho, o meu querido filho Dom João? inquire
+el-rei ao mesmo tempo que se levanta da poltrona com visivel preoccupação.</p>
+
+<p>&mdash;E doença de morte o accommetteu, prosegue o badage. Mas nada receie vossa
+altesa serenissima, que <em>a oração e os jejuns redimem todas as culpas</em>.
+</p>
+
+<p>&mdash;Pardés, assim ousaes chalrar com tal desassombro! prorompe o valeroso
+conde carregando o sobrolho.</p>
+
+<p>&mdash;Fallo a verdade sem rebuço e mais direi ainda se el-rei me permitte a
+ousia de fallar.</p>
+
+<p>&mdash;Sei que és ave de mau agouro; mas conta-nos tudo, conta-nos tudo! volve o
+monarcha em profundo estado de abatimento moral.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sempre vos direi, meu rei e senhor, que propinaram veneno a vosso
+filho o principe Dom João!</p>
+
+<p>Cahio o monarcha na poltrona como se padecera os effeitos fulminadores de um
+raio.<span class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span></p>
+
+<p>Assim alguns momentos se demorou em uma especie de glacial insensibilidade
+sem que o jesuita e o conde se atrevessem a interromper o silencio. Por fim
+ergueu-se tremulamente o monarcha e, não descobrindo já o destemido badage,
+perguntou com voz desfallecida:</p>
+
+<p>&mdash;Que é feito do pagem?</p>
+
+<p>Olharam os dous validos para todos os recantos do gabinete, mas já não
+avistaram ninguem.</p>
+
+<p>Não quiz el-rei que d'elle fossem em procura e, dirigindo-se para os seus
+validos, lhes exprobra com friesa:</p>
+
+<p>&mdash;Ahi tendes a vossa obra... Ahi tendes o castigo da Providencia! Quiz Deus
+punir-me com a morte de meu filho, esse innocente filho que sobre todas as
+coisas eu queria e presava. Mas ai de vós, senhores, ai de vós e de mim se elle
+morre!</p>
+
+<p>Os dous validos não aventuraram palavras de defesa ou de conforto com que
+salvassem semelhante conjunctura e el-rei, deixando-os impassiveis no meio do
+gabinete, saío pela porta a informar-se das clamorosas scenas que
+occorriam.<span class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Trocaram-se os papeis provavelmente, resmoneou o Conde da Castanheira logo
+que se viu a sós com o jesuita.</p>
+
+<p>&mdash;Por certo, concluiu o antigo companheiro de Francisco Xavier em voz mais
+baixa ainda. Vou crendo que o veneno, em vez de o tragar o infante Dom Luiz,
+tocou desastradamente ao principe real. Feliz noivado, feliz noivado!</p>
+
+<p>Por fortuna a causa efficiente do bulicio parecia limitar-se a um leve
+achaque estomacal de que o principe se queixara. Explicara o joven principe que
+uma vertigem lhe estonteara a cabeça e algumas nauseas lhe trouxeram incommodos
+ao estomago, mas que já se sentia completamente alliviado e fóra de perigo.</p>
+
+<p>De feito o sabio medico Francisco Lopes, tateando-lhe o pulso com o maior
+cuidado, depressa declarou que a doença apresentava apenas o caracter de uns
+passageiros effeitos gastricos motivados naturalmente pelos molhos indigestos
+das iguarias.</p>
+
+<p>Foi o principe recolhido á cama com todos os conchegos e, como asseverava o
+discipulo de Hypocrates que os symptomas do accidente<span class="pn"><a
+name="pag_72">{72}</a></span> não offereciam gravidade, os bellos e illuminados
+salões do paço continuaram até deshoras a servir de entretenimento aos nobres
+fidalgos e aos venerandos prelados.</p>
+
+<p>No gabinete reentrou el-rei de espirito mais socegado e rosto mais ledo. Uma
+certa dose de satisfação parecia resumbrar dos seus olhos asues e a pallidez
+que pouco antes lhe amarellecera as faces fôra substituida por tintas
+rubicundas.</p>
+
+<p>&mdash;Receei peor coisa, rumorejou elle esfregando as mãos.</p>
+
+<p>Atraz de el-rei saira logo o Conde da Castanheira e foi por isso o jesuita a
+unica pessoa que se deixou ficar no gabinete.</p>
+
+<p>Abrira sobre a mesa regia o seu predilecto livro <em>De imitatione
+Christi</em> e, pelos signaes de concentração que lhe transpareciam no gesto,
+inculcava aproveitar-se do momento para erguer a Deus alguma fervorosa prece.
+</p>
+
+<p>Não obstante disse pausadamente ao levantar-se da poltrona:</p>
+
+<p>&mdash;Estava rogando aos céus que afugentasse desditas dos paços de vossa
+altesa...<span class="pn"><a name="pag_73">{73}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Obrigado, meu padre. Jamais olvidarei o interesse que tomaes por minha
+pessoa. Mas d'esta vez não succedeo perigo. Do sobresalto que soffremos foi
+culpado sómente aquelle estonteado badage.</p>
+
+<p>&mdash;A não fallecerem justiças n'este reino, cumpre que seja punido para lição
+de rebeldes e escarmento de atrevidos. De que pensar é vossa altesa?</p>
+
+<p>&mdash;Elle não tardará no tronco, meu padre. Mas agora outra coisa pretendo
+saber em puridade: poderei eu remir ainda com obras e orações as minhas culpas?
+</p>
+
+<p>&mdash;Está isento de culpas o coração de vossa altesa...</p>
+
+<p>&mdash;Sei que sou um grande peccador!</p>
+
+<p>&mdash;A alma de vossa altesa está limpa de mancha. É grande o amor que
+professaes pela fé catholica. Não esquece Deus os beneficios que tendes
+prestado pela igreja de Jesus Christo...</p>
+
+<p>&mdash;Consolam-me essas palavras, meu padre. Em recompensa de tantas consolações
+haveis de lembrar-me o que vou prometter-vos: se não fôr de morte o mal de meu
+filho, contai para<span class="pn"><a name="pag_74">{74}</a></span> as festas
+do milagroso Santo Antão com uma custodia de ouro massiço e pedras preciosas...
+</p>
+
+<p>&mdash;A graça de Deus seja comvosco...</p>
+
+<p>&mdash;Prometto mais quinhentos crusados para compra de alfaias e paramentos do
+culto...</p>
+
+<p>&mdash;Não deixarei jamais de rogar aos céus pelo bem do estado e pelas
+prosperidades de vossa altesa serenissima...</p>
+
+<p>&mdash;Lançai-me agora a vossa benção, meu padre.</p>
+
+<p>&mdash;Real senhor, eu vos abençôo em nome do Padre e do Filho e do Espirito
+Santo!</p>
+
+<p>Ajoelhou el-rei para receber a benção do jesuita e em tam humilde postura de
+santidade poder-se-hia conhecer que nunca um piedoso monarcha illustrara mais
+com suas devoções os fastos da monarchia portuguesa.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot167" href="#tex2html11"><sup>[11]</sup></a> Frei Luiz de Sousa.
+<em>Annaes.</em> Parte II, livro II, cap. II.</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span></p>
+
+<h1>VI</h1>
+
+
+<h2>A CAÇADA</h2>
+
+<p>Alguns dias depois do
+casamento convidou el-rei toda a côrte para assistir a uma caçada.</p>
+
+<p>Ajaesaram-se logo os mais vistosos palafrens e os mais rapidos ginetes.
+Desenas de creados afadigavam-se nos preparos dos nobres paços de Almeirim e
+tudo ali se dispoz com o luxo de uma casa de fadas.</p>
+
+<p>Chegou a côrte aos paços de Almeirim por uma tarde enxuta e serena, posto
+que bastante fria e nublosa a modo das tardes inglesas.</p>
+
+<p>Era a vespera da campanha venatoria.</p>
+
+<p>Na immediata madrugada foi servido um almoço<span class="pn"><a
+name="pag_76">{76}</a></span> leve e em seguida ao almoço montaram a cavallo
+damas e fidalgos.</p>
+
+<p>O monteiro-mór, a toque de uma ostentosa busina, repenicou o signal da
+partida e então el-rei, cavalgando ao lado da princesa Dona Joanna e precedido
+por uma centena de ricos fidalgos, adiantou-se com a rapidez de uma frecha em
+direcção dos matagaes.</p>
+
+<p>Abundavam as opulentas coutadas de Almeirim em caça grossa e miuda de toda a
+especie. Veados e corças, lebres e coelhos e cabras monteses costumavam fugir e
+saltar aqui e além por entre as urzes e os giestaes, por debaixo dos ramos dos
+sobros e das pernadas dos choupos. Porem a raça canina via-se decerto em penosa
+maré de infelicidade. Latiam, uivavam e remordiam-se os lebreus e os podengos
+sem conseguirem alcançar uma lebre ou abocar um coelho.</p>
+
+<p>Debalde se esperava nas clareiras a passagem de alguma peça grauda quando
+alguns dos mais affoutos caçadores resolveram entrenhar-se no cerrado da
+floresta. Ahi, sim, deixavam de ficar ociosas as balas e a polvora das
+clavinas. Os tiros rapidamente se succederam aos tiros.<span class="pn"><a
+name="pag_77">{77}</a></span></p>
+
+<p>Entretanto a maioria dos caçadores ainda esperava nas clareiras. Em posição
+de pontaria por veses ergueram elles ao hombro o cano polido e relusente das
+espingardas, os latidos dos cães ouviram-se por veses a curta distancia e os
+cavallos, ao cheiro aspero da polvora, escarvavam impacientemente com as unhas
+ferreas na grama do solo; mas ainda não passara ao alcance das balas uma só
+lebre ou um só veado.</p>
+
+<p>Resolveram-se por isso desmontar e, aproveitando o exemplo dos primeiros
+caçadores, lá se entrenharam egualmente por entre os verdes arbustos e os
+robles gigantescos.</p>
+
+<p>A rainha, a princesa Joanna, o cardeal Henrique e o badage foram as unicas
+pessoas que permaneceram no mesmo sitio. Mas tambem depressa lhes falleceu a
+paciencia de esperarem assim na sella dos cavallos. Apearam-se pouco a pouco e
+a passos vagarosos foram passeando ao longo de um renque de choupos.</p>
+
+<p>&mdash;O tempo corre bem, disse a rainha dando principio á conversação. Temos um
+ceu claro e magnifico; mas parece-me que não produz resultado a caçada.<span
+class="pn"><a name="pag_78">{78}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Também me parece, accrescenta a princesa Dona Joanna.</p>
+
+<p>&mdash;Juro pelos Vedas que ainda hoje teremos fartura de caça, replicou o pagem.
+</p>
+
+<p>&mdash;Fallaste nos Vedas; mas que entendes tu por isso? inquiriu o sabio cardeal
+cioso de desenvolver a sua vasta erudição.</p>
+
+<p>&mdash;Eu vol-o digo se vos apraz, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;De bom grado escutarei. Dize lá: que são os Vedas?</p>
+
+<p>&mdash;Os Vedas formam uma grossa collecção de slokes ou estrofes escrita em
+sanscrito sob a designação de Rig-Veda, Yadjur-Veda, Sama-Veda e Atharvana. A
+todos os indios e povos do mundo, menos aos brahmanes, foi por Vichnu, o verbo
+de Brahma, prohibida a leitura d'elles. Mais ninguem sabe o que dizem e contém
+esses livros santos. Os brahmanes guardam-nos tão cuidadosamente nos seus
+pagodes como os usurarios podem guardar um cofre de ouro. Conta-se que o
+poderoso Akbar, imperador mahometano, quiz um dia conhecer as differentes
+religiões dos paizes que lhe eram tributarios e, como os brahmanes tenazmente
+se recusavam<span class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span> a revelar-lhe os
+mysterios da sua crença, usou então de um subtil estratagema. Lembrou-se o
+imperador mahometano de enviar á santa cidade de Benares um indiosito chamado
+Fietzi e, fasendo-o passar por filho de um brahmane, foi o indio adoptado e
+instruido na linguagem e nos ritos sagrados. De tal modo seria satisfeita a
+curiosidade de Akbar, mas aconteceu que Fietzi se apaixonou por uma formosa
+filha do seu preceptor e, arrependido da fraude, foi lançar-se em lagrimas aos
+pés d'elle e tudo ingenuamente lhe confessou. Imagina vossa altesa qual seria o
+procedimento do brahmane? Arrancou immediatamente do punhal para matar o
+sacrilego! Por fortuna o brahmane cedeu aos rogos da filha, dando-a por fim em
+casamento ao indio com a solemne condição de nunca em sua vida trahir os
+Vedas<a name="tex2html12" href="#foot168"><sup>[12]</sup></a>.</p>
+
+<p>Ainda o pagem se dispunha a proseguir na anecdota de Fietzi quando o toque
+arrebatado e successivo das businas lhe fez dirigir a attenção para outro
+ponto.<span class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Caça, temos caça? exclama com alegria Catharina de Austria.</p>
+
+<p>Inesperadamente por baixo das ramagens do arvoredo mais proximo appareceu e
+adiantou-se o corpo ameaçador de um lobo.</p>
+
+<p>Mostrava-se nas proporções de um molosso reforçado das patas, com os olhos
+horrorosamente injectados de sangue, com a cabeça de uma grossura enorme e
+infundindo pela arrogancia do olhar todo o pavor que podem incutir no espirito
+de um homem os animaes carnivoros.</p>
+
+<p>Era bem curta a distancia entre elle e os desapercebidos personagens. Alguns
+passos mais e logo as garras da fera encontrariam para repasto o corpo delicado
+e fragil da rainha. Mas o molosso, por uma impressão de medo ou qualquer motivo
+de surpresa, sosteve-se ali.</p>
+
+<p>Com as patas vigorosas escarvando o tojo e os urzes, por momentos estacou
+como se o prendesse pela cerviz um cadeado de ferro.</p>
+
+<p>Esta demora de segundos foi, todavia, bastante longa para acodir o badage. O
+corajoso rapaz depressa se postou fronteiro ao lobo.</p>
+
+<p>Ia agora travar-se uma luta hortenda. Iam<span class="pn"><a
+name="pag_81">{81}</a></span> certamente repetir-se as barbaras scenas do circo
+romano: o combate do homem contra a fera.</p>
+
+<p>De feito o molosso arremessou-se ao badage. Erguer as patas e aventurar um
+salto enorme, tudo foi obra executada com a rapidez de uma frecha. Mas o
+badage, que se affisera ás caçadas dos tigres e dos javalis nas florestas
+gentilicas da India, esperou-o com a firmesa de um athleta. Quando o lobo se
+arremessou ao pescoço do indio na intenção de lhe verter o sangue e lhe
+despedaçar as carnes com o vigor das garras, o indio de repente cravou-lhe na
+garganta a lamina de uma comprida faca de mato.</p>
+
+<p>A jorros espirrou o sangue da garganta da fera. Mas a fera não se estorceu
+nem baqueou. Abrindo com maior furia as patas dianteiras, apertou os hombros do
+indio e pretendeu esmagal-o com um amplexo terrivel.</p>
+
+<p>O indio não conseguio resistir áquelles musculos de bronze. Foi grande a
+convulsão que padeceu. Perdendo as forças e o equilibrio, cambaleou,
+estorçeu-se e cahio.</p>
+
+<p>Na queda acompanharam-no as garras do lobo. Estava decidido que, em
+holocausto da sua<span class="pn"><a name="pag_82">{82}</a></span> dedicação, o
+pobre mancebo perderia as forças e a existencia. Quem lhe podera acudir nos
+apertos e nos trances de tam medonha conjunctura?</p>
+
+<p>Talvez os companheiros. Porém o susto levara o augusto cardeal a esconder-se
+na toca de um carvalho e as duas delicadas senhoras seriam demasiadamente
+franzinas de pulso para tam heroica defesa.</p>
+
+<p>O badage, comtudo, não havia abandonado a coragem. Conservava na dextra a
+comprida faca e lembrou-se de ainda faser uso d'ella. Por um momento affrouxou
+o lobo a compressão das unhas e esse momento foi o melhor auxilio que o badage
+podia receber.</p>
+
+<p>Não é mais rapido um relampago: erguer o braço e ferir novamente a fera, eis
+os prodigiosos movimentos que elle fez.</p>
+
+<p>O aço da faca despedaçou agora as guelas do lobo e logo em maior abundancia
+se inundaram as algas e folhas do chão com um lago de sangue.</p>
+
+<p>A força da fera cedeu por fim ao esforço do homem. O lobo cahiu, estrabuxou
+e contorceu-se. Depois atroou as selvas com dous uivos medonhos e perdeu os
+últimos alentos de vida.<span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span></p>
+
+<p>Quasi ao mesmo tempo resoa nos espaços a buzina do monteiro-mór e é então
+que no estadio da contenda se apresentam de facas e carabinas os arredios
+caçadores.</p>
+
+<p>&mdash;Que novidades houve? inquire o monarcha ao passo que descança o cano da
+espingarda ao tronco de um carvalho.</p>
+
+<p>&mdash;Pardés que não nos faltou susto! apostrofou o timido cardeal ao mesmo
+tempo que se aventurava a sair da toca d'essa mesma arvore.</p>
+
+<p>El-rei não pôde conter a explosão de uma risada e todos, sem distincção de
+gerarchias, expansivamente lhe seguiram o exemplo.</p>
+
+<p>&mdash;É bom signal, affoutou-se a diser o pagem, que sua altesa esteja de
+agradavel humor.</p>
+
+<p>&mdash;Signal é de boa caçada. Não achas, pagem?</p>
+
+<p>&mdash;Assim me parece, meu senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que tens ahi? Que animal é esse?</p>
+
+<p>&mdash;Meu senhor, são os despojos da caçada.</p>
+
+<p>Em seguida contou a princesa Dona Joanna as peripecias do fatal
+acontecimento e logo de todos fôra o pagem felicitado por sua valentia e
+dedicação.<span class="pn"><a name="pag_84">{84}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot168" href="#tex2html12"><sup>[12]</sup></a> Cesar Cantu.
+<em>Hist. universal.</em> Edição francesa, tomo 1, pag. 305.</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_85">{85}</a></span></p>
+
+<h1>VII</h1>
+
+
+<h2>A LUTA</h2>
+
+<p>A rainha, forcejando por
+esquecer as extraordinarias impressões da caçada, recreava-se momentos depois
+na sua recamara dos paços de Almeirim com a leitura das trovas populares do
+celebre Juan de Encina.</p>
+
+<p>A tristesa empanava-lhe levemente o brilho dos olhos feiticeiros e a cada
+minuto lhe assaltava o espirito de ideias desconsoladoras. Parecia inquieta do
+animo como se adivinhasse alguma funesta novidade.</p>
+
+<p>Entrou o pagem n'esta occasião e pé ante pé<span class="pn"><a
+name="pag_86">{86}</a></span> dirigindo-se para o lado esquerdo da rainha,
+fitou-a com olhares de poetica melancolia.</p>
+
+<p>&mdash;Estimo ver-te, pagem. Tenho passado aborrecida e será muito do meu gosto
+ouvir contar alguma façanha alegre. Sempre me dirás o que tens feito...</p>
+
+<p>&mdash;Nem tudo se diz, senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Sempre te conheci mysterioso. Mas agora, meu pagem, lembra-te de que estás
+ao pé de quem deveras te estima...</p>
+
+<p>&mdash;Sei reconhecer a vossa amisade, senhora. O pobre pagem deixar-se-hia
+estrangular pelas garras de um tigre só para vos compraser. Não faseis ideia da
+minha dedicação, não podeis medir a grandesa do meu amor!</p>
+
+<p>A rainha estremeceu levemente como se a ferisse a ponta de um alfinete.</p>
+
+<p>&mdash;Por ventura me tens amor? assim o interrogou com um sorriso jovial.</p>
+
+<p>&mdash;Juro-o pelos Vedas.</p>
+
+<p>&mdash;Mas não reparas nos meus annos? Não vês claramente que já sou velha!</p>
+
+<p>&mdash;Uma rainha nunca envelhece. É uma eterna primavera de florescencia e de
+perfumes.<span class="pn"><a name="pag_87">{87}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Sendo verdade o que dises, reconheço que sou uma excepção.</p>
+
+<p>&mdash;Senhora, esplendem em vós todas as graças e possuis todos os encantos!</p>
+
+<p>&mdash;Ousado mancebo, não saberei regeitar as tuas galanterias; mas emfim não
+sabes que uma rainha não deve amar ninguem? Contenta-te com a minha estima.
+Dou-te a minha amisade e isso é bastante.</p>
+
+<p>&mdash;Sabei que para vos amar, confidenciou o badage com a selvagem entoação do
+seu paiz natal, pouco me foi preciso. Senhora, bastou o vosso olhar... Mas para
+odiar-vos ainda será preciso menos. Escolhei...</p>
+
+<p>&mdash;Escolhe tu, pagem.</p>
+
+<p>&mdash;Escolho o vosso amor!</p>
+
+<p>&mdash;Comprehendo; mas que provas queres tu que eu te dê, que exigencias por
+acaso imaginas impor-me?</p>
+
+<p>&mdash;Concedei-me tudo quanto vos peça.</p>
+
+<p>&mdash;Com algumas condições...</p>
+
+<p>&mdash;Sou orgulhoso. Não admitto condições. Disei se sim ou não.<span
+class="pn"><a name="pag_88">{88}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, prometto.</p>
+
+<p>O pagem, com o enternecimento de Othello ouvindo a Desdemona a primeira
+revelação de affecto, estremeceu fibra a fibra de alegria.</p>
+
+<p>&mdash;Obrigado, lhe agradece com enthusiasmo. Ides faser a felicidade do pobre
+pagem. Mil veses obrigado, senhora!</p>
+
+<p>&mdash;Mas então que pretendes de mim? volveu-lhe a rainha com uma espontanea
+expressão de carinho.</p>
+
+<p>&mdash;Quasi nada e todavia pretendo tudo.</p>
+
+<p>&mdash;Dize...</p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe se vos offendo! Talvez me não atreva...</p>
+
+<p>&mdash;Fases mal. Eu gosto das pessoas temerarias...</p>
+
+<p>&mdash;Deixai-me, senhora, dar-vos na face... na, face de rosa... um beijo... um
+beijo unico!</p>
+
+<p>&mdash;Mancebo, retorquiu Dona Catharina com accento grave e de rosto em plena
+calma, saberás que a palavra de uma rainha não falta ao que promette. Aqui tens
+a minha face! O pagem com a rapidez de uma frecha aproximou-lhe<span
+class="pn"><a name="pag_89">{89}</a></span> do rosto os labios cubiçosos e ali
+imprimiu com soffreguidão um beijo escandecente como as lavas do Etna.</p>
+
+<p>Immediatamente, como possuindo-se de vergonha e respeito, fugiu com prestesa
+da recamara.</p>
+
+<p>&mdash;É certo que tambem lhe consagro eu alguma coisa mais do que amisade, ficou
+a rainha pensando agora. Grande coração aquelle! É capaz de todos os heroismos
+e todavia diante de mim parece uma criança cheia de timidez. Parece decerto uma
+criança. Mas quem o não é em taes circumstancias de enleio e talvez de
+demencia? Amor, amor! és o mobil de todas as acções esquisitas, porque és o
+germen de todos os pensamentos humanos. Jamais se realisam os teus desejos e
+todavia ninguem deixa de sujeitar-se de boa vontade ao teu jugo. Queres e não
+queres, acaricias e odeias, confias e desconfias de tudo ao mesmo tempo. Foi
+sempre voluvel o teu caracter como voluveis costumam ser as ondas do mar. És a
+gota de agua que fertilisa a aridez da vida, és ainda uma redoma de perfumes e
+um sacrario de virtudes; mas<span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a></span>
+tambem és um elemento de odios e um antro de vicios. Socrates não saberia
+definir as tuas virtudes; Hercules não poderia medir-se com a tua força. Homens
+e mulheres egualmente abrigam e sentem nas fibras dos seios as tuas chammas e
+os teus effeitos; porém quem logrou ainda sondar os teus arcanos, quem
+porventura conseguiu explicar os teus mysterios?</p>
+
+<p>N'este comenos transpunha o pagem uma sala immediata á luxuosa recamara.
+Depois, abrindo uma porta gigantesca, predispunha-se a entrar no vasto corredor
+do palacio quando quatro alabardeiros do serviço particular de el-rei lhe
+impedem a passagem.</p>
+
+<p>&mdash;Acompanha-nos, meu caro.</p>
+
+<p>A esta desceremoniosa intimação de um dos quatro soldados o badage retorquiu
+orgulhosamente:</p>
+
+<p>&mdash;Á ordem de quem?</p>
+
+<p>&mdash;Manda el-rei nosso amo e senhor. Obedece!</p>
+
+<p>&mdash;Preciso primeiramente conhecer-vos. Em guarda, belleguins!</p>
+
+<p>O pagem desnudou a fiel espada com a ligeiresa<span class="pn"><a
+name="pag_91">{91}</a></span> de quem d'ella se sabia servir a tempo e horas e,
+recuando tres passos, aguarda com animo frio a aggressão dos alabardeiros.</p>
+
+<p>&mdash;Mãos á obra! ordena um d'elles. Faça-se por mal o que se não póde faser
+por bem. Pagarás cara a temeridade, meu criancelho!</p>
+
+<p>Á luz baça do corredor montantes e alabardas em poucos momentos se
+disposeram a começar o seu officio.</p>
+
+<p>Era vasto o corredor; mas todos conservavam as mesmas posições. O badage,
+mestre consummado no jogo da espada, não deixava adiantar uma polegada aos
+quatro contendores. Ninguem, resuscitando o pomposo estylo do padre Vieira,
+soube ainda com mais garbo e valentia brandir a lança, erguer a espada e
+fulminar o montante. Crusavam-se as armas, acachoavam diabolicas imprecações,
+empregavam-se titanicos esforços para se decidir da contenda; mas o badage
+parecia sustentar nas mãos de bronze a clava de Hercules.</p>
+
+<p>&mdash;Com mil demos! rugiu um dos alabardeiros ao cambalear no soalho com o
+desiquilibrio de um ebrio.<span class="pn"><a name="pag_92">{92}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Sinto-me ferido! regougou o segundo camarada ao largar a alabarda com
+desanimo de uma vez para sempre.</p>
+
+<p>Eram agora sómente dous os inimigos do badage. Mas um d'elles principalmente
+não affrouxava os golpes. Era de todos o mais alentado e o mais temerario.</p>
+
+<p>&mdash;Aposto que me não conheceste ainda, meu criançola!</p>
+
+<p>O badage retorquiu-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me que já nos encontramos, sicario.</p>
+
+<p>&mdash;Por signal que te acompanhava um alto personagem. Bella noite aquella!</p>
+
+<p>&mdash;Covarde! Eras tu quem de emboscada queria assassinar o infante Dom Luiz?
+</p>
+
+<p>&mdash;Tens memoria, meu fidalgote. Nem mais nem menos... Olha bem para mim: sou
+o teu conhecido Jacobo.</p>
+
+<p>O badage retrocedeu meio passo e por dous momentos apresentou a descoberto a
+arca do peito. Aproveitou este arriscado estratagema para triunfar do seu
+terrivel adversario, porque Jacobo, julgando certeiro e infallivel o golpe,
+resolveu apenas valer-se da vantagem de ferir o<span class="pn"><a
+name="pag_93">{93}</a></span> pagem. Todavia o denodado mancebo, por meio de
+uma rapida manobra, desviou o corpo e arremessa a ponta da espada em direitura
+do contendor. Em um abrir e fechar de olhos rasga-lhe a carotida e
+completamente lhe atravessa o pescoço de lado a lado!</p>
+
+<p>Ouve-se então um clamor horrendo. Á testa de uma dusia de archeiros e
+familiares do Santo Officio com ascumas e espadas acode tumultuariamente o
+jesuita Simão Rodrigues, o qual, primeiro que o pagem aproveitasse ensejo de
+evasão, com arrogancia o intima a render-se por ordem de el-rei.<span
+class="pn"><a name="pag_94">{94}</a></span></p>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_95">{95}</a></span></p>
+
+<h1>VIII</h1>
+
+
+<h2>OS ESTAUS</h2>
+
+<p>Ao indio amarraram os
+pulsos com rijas cordas e violentamente o conduziram dos paços de Almeirim á
+residencia inquisitorial do Rocio.</p>
+
+<p>Aqui foi, sempre debaixo de uma orchestra de apupos, introduzido na abobada
+subterranea que servia de encerro, onde lhe vestiram uma casula ou escapulario
+de panno amarello com cruses de Santo André pintadas de vermelho assim por
+diante como por detraz.</p>
+
+<p>Era o carcere um espaçoso quadrilongo lageado de tijolos, sustentado por
+vastas arcadas e com paredes lavradas de cantaria. A humidade,<span
+class="pn"><a name="pag_96">{96}</a></span> o frio e todas as inclemencias da
+invernosa estação ali contrariavam sobremodo todos os elementos de hygiene.
+Ausencia radical de mobilia, de conforto e ambiente puro. Á propria luz do dia,
+que é propriedade que Deus reparte sem restricção por todos os seres racionaes
+ou irracionaes, era quasi totalmente prohibido o accesso. Para bem se descrever
+precisava-se do estylo de Victor Hugo: era, em frase do grandioso poeta, morada
+onde não havia ar no verão, onde não havia fogo no inverno, onde não havia pão
+nem de inverno nem de verão. Morada lugubre do mysterio e do crime, áquella
+especie de catacumbas romanas de proposito se imprimira o caracter de infecta e
+lobrega sepultura a que faltava apenas a terrivel inscripção do inferno do
+Dante: <em>lasciate ogni speranza!</em></p>
+
+<p>Tres dias successivos viveu o pagem a codeas de pão e a goles de agua sem
+que lhe indicassem a sorte de supplicios que lhe cumpria padecer. Unicamente
+communicava com o alcaide ou carcereiro, cerbéro de aspecto extremamente alvar
+e discreto de lingua como um rochedo. Todavia o pagem não se incommodou com
+o<span class="pn"><a name="pag_97">{97}</a></span> seu estranho encerro.
+Naturesa moldada a todos os vaivens da fortuna, a transição da ventura para o
+infortunio era quasi para elle um phenomeno insensivel. Sempre se dispunha com
+animo inquebrantavel a experimentar quaesquer acontecimentos por mais
+extraordinarios que fossem.</p>
+
+<p>&mdash;Na verdade, monologava elle em maré de maior expansão, tem suas rasões o
+procedimento de Simão Rodrigues. Confesso que a sua senhoria não era affecto
+nem adstricto de maneira que podesse facilmente dispor dos meus serviços e,
+juro-o pelos Vedas, não se enganou de todo o ladino jesuita. Mas eu prometto
+ainda, meu padre, prometto ainda pagar-te juros e capital na mesma moeda.
+Pardés que havemos de saldar contas!</p>
+
+<p>Só ao entardecer do quarto dia é que foi o pagem visitado. O proprio Simão
+Rodrigues lhe appareceu disfarçado nos trajos de familiar do santo officio.</p>
+
+<p>&mdash;Não ignoras, lhe disse depois de algumas palavras de comprimento, não
+ignoras, meu filho, que peccados te condusiram a estes lugares. Escuso de
+avisar-te que, por teu mal, és accusado,<span class="pn"><a
+name="pag_98">{98}</a></span> na qualidade de christão novo, de rebelde ás
+praticas da religião e de Deus...</p>
+
+<p>&mdash;Quando se não póde esmagar a vibora, respondeu-lhe corajosamente o pagem,
+foge-se pelo menos da sua presença. Eu devera fugir para longe, embora
+procurasse nas brenhas dos sertões do Mandovy a companhia das onças e dos
+tigres. Mas sem cautela me deixei quedar n'este paiz de fanatismo e de crimes.
+Por isso me não reconheço justiça de queixar-me. Aqui me tens agora, bem
+disposto de alma e corpo a escutar as tuas fallas e á espera dos teus castigos.
+Adivinho o que me espera: antes do baraço da forca o soffrimento da masmorra,
+ou talvez, para mais demora das derradeiras agonias, a tortura da fogueira...
+</p>
+
+<p>&mdash;Estranha linguagem é essa, volveu-lhe com brandura o jesuita. De certo,
+pobre mancebo, o teu cerebro não regula assisadamente. A falta de crenças e de
+fé estiolara o vigor do teu espirito. Quem te manda ser tam orgulhoso?
+Lembra-te que é virtude evangelica a humildade. Os humildes serão exaltados e
+os orgulhosos abatidos conforme a palavra infallivel do Evangelho.<span
+class="pn"><a name="pag_99">{99}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Meu padre, embora me chames hereje ou christão novo, aprecio as bellesas e
+virtudes da religião catholica. Por ella abandonei as crenças de meus paes e as
+tradições seculares da minha raça. Voluntariamente recebi o baptismo das mãos
+de Antonio Criminal e desde então para sempre se inflammou no meu espirito o
+amor acrisolado do Deus dos christãos. De bom grado lidarei por toda a vida em
+defensão da cruz e da fé. Porém não quero, meu padre, seguir os teus preceitos
+e abraçar as tuas doutrinas, Não quero que me obrigues a pensar a teu sabor,
+repugnam-me todas as peias impostas á liberdade de consciencia, abomino emfim o
+jugo atroz a que a vossa oligarchia clerical reduz o espirito humano. De outro
+modo bem diverso comprehendo os deveres do homem. Não basta a Deus que o amemos
+sobre todas as coisas? Não basta ao rei que se seja bom cidadão? Obedecer ás
+leis, dar exemplos de bons costumes, estimar a familia e defender a patria: eis
+tudo!</p>
+
+<p>&mdash;Fallas bem, mas não convences. Amor de Deus e obediencia ao rei não
+bastam.</p>
+
+<p>&mdash;Dize-me então quaes são as leis que governam<span class="pn"><a
+name="pag_100">{100}</a></span> o mundo. Explica-me todos os mysterios do teu
+governo e da ordem inquisitorial.</p>
+
+<p>&mdash;Em duas palavras se resumem, criança: <em>mandar e obedecer</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Mas a quem se obedece, meu padre? A Deus, ou aos seus missionarios na
+terra? ao nosso rei, ou aos aulicos miseraveis que, usurpando-lhe o sceptro,
+abusam da indole e fraquesa do rei?</p>
+
+<p>&mdash;Vou mostrar-te a quem é.</p>
+
+<p>A esta laconica e mysteriosa ameaça chamou o jesuita pelo silencioso
+carcereiro, a quem ordenou, ainda com maior laconismo, estatelasse o pagem no
+segredo.</p>
+
+<p>O carcereiro puchou por uma das argolas de ferro pregadas na parede e,
+mediante um alentado esforço, depressa fez sobresair uma abertura da capacidade
+de tres palmos de largo e uns sete palmos de alto.</p>
+
+<p>Guardando sempre o mesmo silencio, pegou do corpo do badage como se lidasse
+com uma pluma de ave e, começando de lhe introduzir os pés e as pernas,
+fechou-o com celeridade na mysteriosa crypta.<span class="pn"><a
+name="pag_101">{101}</a></span></p>
+
+<p>A nova prisão era uma especie de armario de granito cuja parte superior, á
+semelhança de um enorme funil, apresentava geometricamente o desenho de uma
+figura conica.</p>
+
+<p>Sendo armario como parecia, abundava em estantes ou prateleiras, mas
+prateleiras de gosto e feitio a darem ideia aproximada das divisões funerarias
+de que se formam as capellas dos nossos cemiterios.</p>
+
+<p>&mdash;Sepultam-me vivo estes sacerdotes do Senhor, pensou o pagem. Está decidido
+que de aqui só se vae para o ceu ou para o inferno.</p>
+
+<p>Mas o pagem, mal se lhe proporcionava ensejo de criar este lugubre
+pensamento, viu escancarar-se de novo a tampa do seu sepulchro.</p>
+
+<p>&mdash;Podes sair, ordena o jesuita.</p>
+
+<p>&mdash;Bem ruim gracejo, meu padre. Julguei asphixiar como se fosse um perro. Nem
+luz nem ar e sobretudo um cheiro, a vermes podres que deveras me incommodava o
+nariz.</p>
+
+<p>&mdash;Pois arrepende-te dos teus erros. Os bens da terra não os merecem os
+peccadores que a todos os momentos offendem a vontade de Deus. Reconhecendo as
+leis e o dominio da nossa ordem,<span class="pn"><a
+name="pag_102">{102}</a></span> terás para sempre o socego do teu corpo e a
+ventura do teu espirito. Os filhos de Jesus Christo, a despeito de parecerem os
+ultimos pela modestia do habito, são hoje por todas as partes do mundo os
+primeiros na força e no poderio. Ai do insensato que julga encravar com um dedo
+a roda dos seus triunfos! Por isso, meu filho, expulsa quanto antes do teu seio
+as glorias vans do mundo secular. Em vez do gibão de velludo ou do cossolete de
+aço polido, enverga o saio de estamenha e abraça o lenho sagrado de Jesus
+Christo.</p>
+
+<p>O jesuita, deixando novamente a sós o badage, retirou-se a passo lento.</p>
+
+<p>Vendo-se agora o badage n'quella solidão tremenda, por mais uma vez
+relanceou as vistas em redor do carcere.</p>
+
+<p>A argola puchada pelo carcereiro inflammou-lhe a imaginação e, querendo
+descobrir o segredo de outras argolas identicas, adiantou-se em direitura da
+parede.</p>
+
+<p>Á imitação do homunculo, puchou com força. Era uma argola de ferro carcomida
+pela ferrugem de alguns annos. Ella parecia ceder ao primeiro<span
+class="pn"><a name="pag_103">{103}</a></span> empuxão; mas ficou segura e fixa
+como se a pretendesse abalar o pulso de uma criança. Novo empuxão com maior
+violencia e ainda, todavia, se não obteve mais feliz resultado.</p>
+
+<p>&mdash;A questão é de geito, considerou o pagem.</p>
+
+<p>Com effeito, sem exigir metade do esforço a argola cedeu á sexta ou setima
+tentativa.</p>
+
+<p>No bojo da parede, ainda que de fórma differente do armario de granito onde
+fôra introduzido o badage, manifestou-se uma crypta de genero egualmente
+lugubre. Formavam-na quatro paredes escuras de dez ou doze palmos de largo e
+deseseis ou desoito palmos de altura. Nada inculcaria de notavel a não ser uma
+especie de feretro levantado no centro do pavimento. O feretro, que era
+fabricado de pedra tosca em harmonia com todo o escondrijo, servia de asylo a
+um esqueleto de mulher. Os braços e tronco, as pernas e a caveira ali se viam
+com a pelle arroxeada e os ossos amarellecidos pelos effeitos da podridão.</p>
+
+<p>O badage, pensando na sorte das malaventuradas creaturas, sentiu ainda mais
+activa a prurigem da curiosidade. Não cuidando de fechar<span class="pn"><a
+name="pag_104">{104}</a></span> a porta do escondrijo, lembra-se de percorrer a
+trechos a parede. Lançou as mãos a segunda argola e eis que lhe apparece novo
+escondedouro. Não tem sarcophagos, nem feretros, nem prateleiras, nem divisões.
+Menos alto do que largo, é simplesmente uma grande caixa de pedra. No pavimento
+amontoam-se braços encrusados, pernas desconjuntadas e caveiras ás duzias. Era
+uma pilha putrefacta e immunda de caveiras e esqueletos humanos: um repulsivo e
+fetido ossario emfim.</p>
+
+<p>Nuvens de fumo espesso e acre vieram entretanto invadir pouco a pouco o
+espaço do carcere. Cada vez se pronuncia mais um cheiro violento de substancias
+asphixiadoras. Ficam por todo o espaço predominando esses dous inimigos dos
+pulmões: o acido carbonico e o acido sulphydrico.</p>
+
+<p>Esta horrivel atmosphera devia naturalmente influir nos sentidos e na
+organisação do badage. Influiu. A cabeça entonteceu-lhe e, cambaleando como um
+ebrio, cahiu na distancia de algumas polegadas das caveiras e esqueletos do
+ossario!</p>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_105">{105}</a></span></p>
+
+<h1>IX</h1>
+
+
+<h2>O CARCEREIRO</h2>
+
+<p>O badage
+irremediavelmente morreria asphixiado pela acção dos vapores deleterios se o
+carcereiro, cuidando de abrir uma larga janella situada ao fundo do calabouço,
+não permittisse rapido ingresso a uma camada violenta de ar.</p>
+
+<p>Abertas as portas da janella, os fluidos atmosphericos vieram naturalmente
+substituir os vapores do enxofre e assim em poucos momentos se restabeleceu nas
+gemonias inquisitoriaes um ambiente mais ou menos salutar.</p>
+
+<p>O badage acreditou na sua ressurreição.<span class="pn"><a
+name="pag_106">{106}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Obrigado, obrigado. Antes estourar de uma cutilada de mouro de Asamor do
+que morrer abafado como um perro. Com mil brecas!</p>
+
+<p>&mdash;Poupe os seus agradecimentos, resmoneou o carcereiro. Fiz apenas a minha
+obrigação. Mandaram-me que o não deixasse morrer e eu obstei a que morresse.
+Mandassem-me o contrario, eu o contrario teria feito sem tugir nem mugir e
+vossa mercê, fóra de duvida, morreria sem remissão nem aggravo.</p>
+
+<p>&mdash;Comprehendo, observa-lhe o badage, que influa mais no teu espirito a
+religião do dever do que a da misericordia. Mas tambem é certo que debaixo
+d'esse pello de perro austero e selvagem tens ou deves ter uma alma. Por
+ventura deixarias morrer, á guisa de fera estorcida na jaula, um pobre homem
+nascido e criado á semelhança de Deus?</p>
+
+<p>&mdash;Desempenho á risca as ordens que me dão. Para isso me sustentam e pagam.
+</p>
+
+<p>&mdash;Então se te dissessem&mdash;<em>estrangula tua irman e assassina tua mãe!</em>
+tu, em obediencia á malvadez do amo, julgarias cumprir com o teu dever?<span
+class="pn"><a name="pag_107">{107}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Por Deus que ninguem me obrigava a tirar a vida a meus irmãos ou a meus
+paes!</p>
+
+<p>&mdash;Mas supponhamos que assim acontecia...</p>
+
+<p>O carcereiro experimentou uma ligeira contracção de nervos, estendeu com
+gestos de ameaça terrivel os braços musculosos e regougou em bruscos termos
+como se disposesse da voz do trovão:</p>
+
+<p>&mdash;Eu, escravo, em caso tal arrancaria com estas garras de hyena a lingua do
+meu amo!</p>
+
+<p>&mdash;Não te fallece por tanto uma certa intuição do bem e do mal. Por instincto
+ou rasão natural, sempre dispões de uma certa faculdade pensante que te diz não
+ser infinita a orbita dos teus deveres servis. Reconheces em summa que o
+universo é maior...</p>
+
+<p>&mdash;Não comprehendo bem. Um desastrado carcereiro não póde saber de letras nem
+sabe o que são ideias. É um cão de fila a quem disseram: <em>guarda esse
+rebanho e no fim de cada mez receberás as gorduras de uns tantos ossos</em>. O
+cão desempenha cada dia o seu serviço de guardar e jámais se importa que o
+rebanho seja de ovelhas limpas e alfeiras ou bravias e tinhosas. Obedece á voz
+de quem manda.<span class="pn"><a name="pag_108">{108}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Mas porque obedeces tu?</p>
+
+<p>&mdash;Porque me pagam.</p>
+
+<p>&mdash;Logo, obedeces a quem te paga...</p>
+
+<p>&mdash;Está visto.</p>
+
+<p>&mdash;Logo, o serviço está em relação com a paga: maior paga, melhor serviço.
+</p>
+
+<p>&mdash;Naturalmente.</p>
+
+<p>&mdash;Logo se eu te pagar maior quantia do que a que tu percebes como
+carcereiro, depressa abandonarás a profissão de carcereiro...</p>
+
+<p>&mdash;Nem mais nem menos, meu fidalgo!</p>
+
+<p>&mdash;Dize-me então: quanto ganhas n'esta enxovia?</p>
+
+<p>&mdash;Conta redonda: 150 crusados por anno.</p>
+
+<p>&mdash;150 crusados por anno correspondem a pouco mais de 12 crusados por mez e a
+menos de 200 reis por dia. Julgas que não é pouco?</p>
+
+<p>&mdash;Deveras é muito pouco para quem se vê obrigado a sustentar mulher e
+filhos...</p>
+
+<p>&mdash;Ah, tambem tens familia?</p>
+
+<p>&mdash;Quem não tem familia, meu fidalgo?</p>
+
+<p>&mdash;De certo não sabes quem eu sou. Eu vivo sem paes, sem irmãos e sem
+parentes. Disem que sou um christão novo! Sou talvez um apostata,<span
+class="pn"><a name="pag_109">{109}</a></span> um reprobo, um paria! Vivi por
+longo tempo na innocencia e no socego dos sertões. Meus paes e meus parentes
+nutriam-se dos cachos das palmeiras, com todo o fervor das suas almas fasiam as
+suas orações no templo de Trichandur e as tempestades da desgraça jámais
+varreram tanto o repouso do seu corpo como as crenças do seu espirito. Mas um
+dia<a name="tex2html13" href="#foot110"><sup>[13]</sup></a> nos mastareus de
+enormes galeões appareceu arvorada a bandeira lusitana n'esse grandioso imperio
+onde<a name="tex2html14" href="#foot169"><sup>[14]</sup></a> <em>as plantas são
+fructos, as aguas perolas e as pedras preciosas</em>. Esta bandeira significava
+o symbolo da fé; era o labaro da paz e da fraternidade. Por isso de todas as
+cidades e aldeias se receberam os companheiros de Vasco da Gama como irmãos e
+amigos. Estabeleceu-se a troca dos generos, entabolaram-se todas as transacções
+commerciaes, vendiam-se pelos brocados de seda e pelos tecidos de lan ou de
+algodão o coral e o marfim, as perolas e o ouro, a canella e toda a casta de
+especiarias. Mas, ah, depressa a cobiça das riquesas transtornou a paz e a
+ventura das Indias! Em vez da troca e dos contractos<span class="pn"><a
+name="pag_110">{110}</a></span> mercantis, os portugueses foram preferindo as
+dadivas e a vassalagem por não desmentirem que chegavam <em>tam mortos de fome
+como vivos de cobiça</em><a name="tex2html15"
+href="#foot114"><sup>[15]</sup></a>. Accendeu-se então por toda a parte o facho
+da guerra e da discordia. Familias inteiras perderam a fasenda e a liberdade,
+povos inteiros perderam a familia e a existencia. Não te farei a resenha dos
+roubos e das violencias, dos combates e dos incendios. Basta saberes que foi
+assim que eu fiquei só no mundo: sem patria, sem dinheiro e sem amparo...</p>
+
+<p>&mdash;Uum, uum! Não sei se acredite o que me diz, atalhou o carcereiro. Não
+acredito de certo. Vossa mercê ou vossa senhoria é mais do que inculca ou
+inculca mais do que é.</p>
+
+<p>&mdash;Então que favoravel ou ruim ideia fases de mim?</p>
+
+<p>&mdash;Imagino que seja algum fidalgo poderoso.</p>
+
+<p>&mdash;Não sou fidalgo.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo menos algum conde...</p>
+
+<p>&mdash;Enganas-te.</p>
+
+<p>&mdash;Meu senhor, ninguem, sem que seja de altas<span class="pn"><a
+name="pag_111">{111}</a></span> hierarchias e de singular poderio, gosa da
+honra de entrar aqui. Para simples peões não foram feitas as seguras grades e
+as grossas paredes que sustentam estas abobadas.</p>
+
+<p>&mdash;Tens rasão. Nada sou do que dises e sou todavia muito mais que tudo isso.
+</p>
+
+<p>&mdash;Algum marquez?</p>
+
+<p>&mdash;Mais!</p>
+
+<p>&mdash;Algum duque?... O snr. duque de Lencastre, o snr. duque de Bragança, o
+snr. duque de Viseu?...</p>
+
+<p>&mdash;Mais, muito mais!</p>
+
+<p>&mdash;Acima de um duque nada conheço. São os maiores fidalgos do reino. Ninguem
+acima d'elles a não ser sua altesa serenissima o senhor Dom João III.</p>
+
+<p>&mdash;Pois recorda-te bem. Ha ainda quem valha mais de que el-rei!</p>
+
+<p>&mdash;Mais do que el-rei?</p>
+
+<p>&mdash;Muito mais, muito mais!</p>
+
+<p>&mdash;Aposto, aposto! Em nossos reinos juro e aposto que não ha quem valha mais
+do que el-rei nosso amo e senhor!</p>
+
+<p>&mdash;Vaes sabel-o já...<span class="pn"><a name="pag_112">{112}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Pois quem é, quem é?</p>
+
+<p>&mdash;Alguem é.</p>
+
+<p>&mdash;Mas quem?</p>
+
+<p>&mdash;Simão Rodrigues!</p>
+
+<p>O carcereiro poz-se a matutar por alguns momentos. Depois aventurou dous
+passos ao longo do calabouço, estalejou emfim com a mão direita uma palmada na
+testa e disse pausadamente:</p>
+
+<p>&mdash;Na verdade o jesuita é poderoso. Vale mais em forças e poderio do que um
+duque...</p>
+
+<p>&mdash;Mais que o monarcha. O monarcha tem a corôa na cabeça e o sceptro na
+dextra; mas isso tudo não passa das vans insignias da realesa. Vale menos o
+manto de terciopello do que o saio de estamenha. Perante a vontade
+inquebrantavel de Simão Rodrigues tudo averga e affrouxa como o vime, se quebra
+e desfaz como o vidro. Elle governa o estado em nome da igreja; em nome da
+religião escravisa a nobresa e o povo, essa cohorte de hebreus sempre
+amaldiçoada pela igreja. Tudo lhe obedece piamente e é el-rei o primeiro
+escravo que lhe obedece...<span class="pn"><a name="pag_113">{113}</a></span>
+</p>
+
+<p>&mdash;Assim é, assim é.</p>
+
+<p>&mdash;Todavia Simão Rodrigues teme e reconhece a força e as traças de alguem...
+</p>
+
+<p>&mdash;O papa?</p>
+
+<p>&mdash;Não.</p>
+
+<p>&mdash;O snr. Conde da Castanheira, que vale tanto como o papa?</p>
+
+<p>&mdash;Tambem não.</p>
+
+<p>&mdash;Pois quem é?</p>
+
+<p>&mdash;Eu!</p>
+
+<p>&mdash;Vossa senhoria, meu fidalgo, sempre me parecera muito rico e muito
+poderoso...</p>
+
+<p>&mdash;Em verdade sou e não sou. Mas nada mais te digo. Se queres saber quem sou,
+experimenta, experimenta...</p>
+
+<p>&mdash;Que devo faser então?</p>
+
+<p>&mdash;Deves desaferrolhar-me a porta do carcere...</p>
+
+<p>&mdash;Perco o meu emprego.</p>
+
+<p>&mdash;Quanto vale o teu emprego?</p>
+
+<p>&mdash;Vale mais de 100 escudos.</p>
+
+<p>&mdash;Terás 500 escudos, terás 1:000 escudos. Queres vender a minha liberdade
+por 1:000 escudos em boas moedas de ouro?<span class="pn"><a
+name="pag_114">{114}</a></span></p>
+
+<p>O carcereiro esgaseou attonitamente os olhos e respondeu com firmesa:</p>
+
+<p>&mdash;Por 1:000 escudos vende-se a alma ao diabo. Quero, meu fidalgo!</p>
+
+<p>&mdash;Fases bem, fases bem. Estas abobadas cheiram a vermes podres e a cadaveres
+queimados!</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot110" href="#tex2html13"><sup>[13]</sup></a> Vasco da Gama
+aportou ao reino de Calicut em 20 de maio de 1499.</p>
+
+<p><a name="foot169" href="#tex2html14"><sup>[14]</sup></a> Conde da Ericeira.
+<em>Portug. restaurado.</em></p>
+
+<p><a name="foot114" href="#tex2html15"><sup>[15]</sup></a> D. João de Castro.
+Carta da India a D. João III.</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_115">{115}</a></span></p>
+
+<h1>X</h1>
+
+
+<h2>VANTAGEM DE DOUS CONTRA UM</h2>
+
+<p>Preparava-se o badage
+para se escapulir do carcere quando o homunculo, em attitude de lhe embargar a
+passagem, desfechou das suas guelas herculeas uma estridente cascalhada de
+riso.</p>
+
+<p>&mdash;Meu fidalgo, regougou elle, julga que eu seja de animo tam simplorio que
+lhe favoreça a escapula sem primeiro arrecadar no bolso os mil ducados
+promettidos por vossa senhoria? Pardés que me rio com vontade, meu fidalgo!</p>
+
+<p>&mdash;Fallas com prudencia e siso. Quem deve, paga. Eu, em troca da minha
+liberdade, devo dar-te 1:000 escudos. Devo-te portanto 1:000<span class="pn"><a
+name="pag_116">{116}</a></span> escudos em ouro ou prata. Mas esse dinheiro,
+embora seja em perolas de Ceylão ou em ouro de Ophir, difficilmente se arrecada
+no bolso do gibão.</p>
+
+<p>&mdash;Pois, meu fidalgo, teremos o contracto desmanchado... Demais, quasi estou
+repeso do que fiz. As más acções produsem o effeito da ferrugem nos metaes:
+fasem mossa na consciencia. Porventura merecem os meus amos que os atraiçoe?
+Pagam pouco, é verdade. De que valem 150 crusados? De que valem elles? Uma
+ninharia que não chega para a cova de um dente e não é preciso que o dente seja
+de elefante. Mas emfim sempre me pagam...</p>
+
+<p>&mdash;Percebo, percebo. Sabes que mais val um passaro na mão do que dous a voar.
+Dá cá, toma lá. Não é isso? Pois eu vou satisfaser os teus desejos.</p>
+
+<p>O badage pediu um tinteiro e sobre meia folha de papel escreveu com letra
+maiscula o seguinte bilhete:</p>
+
+<p>«Dona Catharina de Austria, rainha de Portugal, entregará ao portador a
+quantia de mil ducados em ouro ou prata. Do cárcere da inquisição<span
+class="pn"><a name="pag_117">{117}</a></span> do Rocio, aos 29 de desembro de
+1553. Pedro, o pagem.»</p>
+
+<p>&mdash;Toma, disse depois ao homunculo. Este bilhete vale bem o teu dinheiro.
+Ficas satisfeito?</p>
+
+<p>O carcereiro empolgou a meia folha de papel e com soffreguidão o perpassa
+duas veses em frente dos olhos. Quando lhe cresceu tempo de o ler, curvou a
+cabeça em testemunho de respeito e contrictamente resmoneou:</p>
+
+<p>&mdash;Meu fidalgo, bem adivinhava eu a estirpe de vossa senhoria! Tem relações
+com sua altesa serenissima Dona Catharina de Austria, um coração de bondade
+como não ha outro mais protector dos pobres e dos infelises. Que immensa
+gloria, que felicidade a minha em topar com tam boa e poderosa gente! Beijo-lhe
+as mãos, meu rico infantão. Agora sim. Para tudo quanto precise tem ás suas
+disposições o servo mais humilde e mais dedicado. Prompto, meu amo! Logo ou
+ámanhan, agora e já, sempre e sempre me disponho a servil-o. Palavra de homem
+honrado: quer partir já? quer que se bote o fogo a esta casa maldita? quer que
+se espatife<span class="pn"><a name="pag_118">{118}</a></span> com um cutelo a
+cabeça do snr. Simão Rodrigues? Eu obedeço como deve sempre obedecer o servo, o
+escravo. Ordene, meu fidalgo!</p>
+
+<p>&mdash;Muitas veses nos arrependemos da maxima confiança. Sou de aviso que
+primeiramente recebas o premio dos teus serviços. Vai e volta depois.
+Porventura não receias que te engane?</p>
+
+<p>&mdash;Meu amo, replicou o alcaide ao mesmo tempo que rasgava com nobre
+desinteresse o seu papel de 1:000 escudos, de hoje por diante ficarei sempre ás
+ordens de vossa senhoria illustrissima. Ja pouco me importam os meus ducados.
+Podemos partir quando queira, meu nobre senhor...</p>
+
+<p>Ouviu-se então uma voz dissonora como a furia do vendaval.</p>
+
+<p>&mdash;Não partireis! trovejou Simão Rodrigues ao assomar com passo grave no
+portal do sombrio ergastulo.</p>
+
+<p>Infelizmente para elle, o jesuita commettera um acto de rara imprudencia.
+Vinha só. Affeito á cega obediencia de um numeroso exercito de clerigos e
+alabardeiros, confiadamente se apresentou<span class="pn"><a
+name="pag_119">{119}</a></span> á porta do carcere sem soldados nem sequito.
+</p>
+
+<p>O badage e o carcereiro ficaram com o espirito indeciso. Ambos conheciam até
+que ponto alcançavam a sagacidade e jurisdicção do jesuita. Bastar-lhe-hia um
+gesto ou uma palavra para todos á porfia executarem immediatamente as suas
+ordens. Por isso não deixava de ser melindrosa a situação. Mas depressa o
+badage e o carcereiro comprehenderam a vantagem que levavam ao jesuita: dois
+contra um é sempre uma vantagem.</p>
+
+<p>Simão Rodrigues entrou no carcere e o homunculo adiantou-se para a umbreira
+da porta. A porta era solida e perra; mas o pulso vigoroso do homunculo fel-a
+girar nos gonzos sem difficuldade e logo em um abrir e fechar de olhos lhe
+correu com a chave a lingueta da fechadura. Depois, tomando a prevenção de
+esconder a chave no bolso das calças, foi augmentar o grupo do jesuita e do
+badage.</p>
+
+<p>O jesuita fallava assim:</p>
+
+<p>&mdash;Pagem, quiz ganhar de el-rei o vosso perdão. Mas el-rei nosso amo não quiz
+perdoar os<span class="pn"><a name="pag_120">{120}</a></span> vossos crimes e
+vós, convicto do crime de heresia, no primeiro domingo do Advento padecereis
+como christão novo o supplicio da fogueira. Encommendai a vossa alma a Deus...
+</p>
+
+<p>O badage, desfechando uma risada, em bom genio redarguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Não careço do teu perdão, meu padre. Agora na minha presença deixarás de
+ser o provincial Simão Rodrigues: és simplesmente um reptil, um covarde, um
+malvado... Queres ainda lutar comigo? Braço a braço, esmago-te!</p>
+
+<p>&mdash;Assim, assim, meu valente! Esmague-me essa vibora! jarrete-me esse
+verdugo!</p>
+
+<p>Apenas o carcereiro desprendera das fauces tam rudes imprecações, o jesuita
+impallideceu como um cadaver. Comprehendeu o conluio; adivinhou que se trocaram
+os papeis. Em vez de mandar e ser obedecido, restava a Simão Rodrigues o papel
+de obedecer como escravo. Lance desesperado para o seu orgulho!</p>
+
+<p>&mdash;Estranho o vosso procedimento, desabafou emfim. Insensatos que sois! Por
+ventura me faltareis á obediencia? Por acaso attentareis contra a minha vida? A
+minha vida pertence á<span class="pn"><a name="pag_121">{121}</a></span> igreja
+e a Deus. Cautela com a maldição de Deus!</p>
+
+<p>De nada, porém, valeram os argumentos. Carcereiro e encarcerado abafaram com
+um lenço a boca de Simão Rodrigues, por detraz das costas amarraram-lhe os
+braços com um pedaço do sambenito despido pelo badage e, como se faz a uma rez
+no matadouro, jungiram-no pela gorja a uma das argolas do carcere.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos deixar-te agora, proferiu o badage. Ficarás ahi, filho de
+Torquemada, entregue ao arrependimento e ao remorso dos teus crimes. Não teve
+força nem coragem el-rei Dom João III para reprimir as tuas ambições e castigar
+os teus delictos. Pois desempenho eu os deveres do rei! Para bem do povo e
+desaggravo da humanidade faz-se mister que desappareças da face do mundo e que
+tambem desappareça comtigo essa ordem de viboras e de tigres que para desdita
+nossa introdusiste de Roma nos reinos de Portugal. Adivinhas o que te vai
+succeder? Adivinhas por acaso? Desapparecerás para sempre, Simão Rodrigues.
+Antes de meia<span class="pn"><a name="pag_122">{122}</a></span> hora será o
+teu corpo um esqueleto e esse esqueleto se redusirá a um punhado de cinzas!</p>
+
+<p>Em seguida desprendeu dos pilares da abobada uma lanterna e com a chamma do
+pavio incendiou as roupas talares do jesuita.</p>
+
+<p>Começando então de atear-se uma labareda fumegante, logo os dous
+companheiros a passo lesto se dirigiram para o umbral da porta e assim sem
+saudades abandonaram aquella horrenda masmorra.</p>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_123">{123}</a></span></p>
+
+<h1>XI</h1>
+
+
+<h2>A TAVERNA</h2>
+
+<p>O carcereiro e o pagem
+toparam-se defronte do sombrio edificio de San Domingos por altas horas de uma
+noite escura como breu e sem ideias determinadas sobre a melhor direcção que
+lhes convinha aproveitar.</p>
+
+<p>Era certo que por longos momentos não podiam ali permanecer sem o risco de
+serem percebidos e presos. Mas, em conjuncturas de indecisão, quem se lembra de
+acodir convenientemente pela propria segurança? Viam-se em liberdade e esse
+unico bem lhes parecia a suprema fortuna. A largos sorvos aspiravam as<span
+class="pn"><a name="pag_124">{124}</a></span> emanações puras da noite e com as
+vistas abrangiam o espaço immenso onde volitam os astros. Pisavam aquelle chão
+por cem veses trilhado pelas doloridas plantas das victimas inquisitoriaes. Por
+ali passaram em companhia do carrasco e dos defensores da cruz algumas dusias
+de martyres envolvidos na samarra e cobertos das terriveis carochas
+sarapintadas de chammas e demonios. Mas, ainda assim, que feliz differença se
+se comparava a sombria praça de San Domingos com as estreitas e miasmaticas
+gemonias onde o corpo se esquartejava no excesso das torturas e a consciencia
+desfallecia á mingoa do ambiente da liberdade? Entretanto os dous foragidos,
+como julgando-se proximos de um foco de miasmas e de peste, reconheciam a
+necessidade instinctiva de se desviarem para longe. Não tinham pensado ainda na
+escolha do refugio. Lisboa, essa decantada sultana de marmore e granito a não
+invejar bellesas a Stambul, era cidade grandiosa e opulenta, era então, como a
+soube descrever um dos mais sympathicos engenhos da moderna geração, a «perola
+das cidades do mundo, a Phryné das capitaes<span class="pn"><a
+name="pag_125">{125}</a></span> da Europa, a terra do luxo, dos praseres, das
+ostentações e das grandesas.»<a name="tex2html16"
+href="#foot170"><sup>[16]</sup></a> Não lhe faltavam palacios nem choupanas,
+igrejas nem tavernas. Mas o olho dos activos inquisidores, Argos da peor
+especie conhecida, com tanta facilidade se estendia aos santuarios de Christo
+como sobre os santuarios das familias. Nada aos filhos de Loyola e aos
+discipulos de Torquemada lhes era vedado nem recondito: o seu fim predilecto e
+a sua ambição natural eram avassallar o mundo, eram enroscar-se como serpente
+gigantesca, desde as raises ao vertice da ramada, na arvore do universo!</p>
+
+<p>Por fim os miseros foragidos tomaram uma subita deliberação. Dirigiram-se
+para o palacio hospitaleiro de Violante Gomes.</p>
+
+<p>Apesar do prolongado e tardio da noite, ainda a formosa dama não se
+entregara aos dominios do somno. Entretinha-se a desferir da sua harpa de ebano
+e marfim alguns ligeiros acordes repassados de ternura e melancolia.</p>
+
+<p>A principio sobresaltou-se e estremeceu com<span class="pn"><a
+name="pag_126">{126}</a></span> a presença dos estranhos hospedes; mas logo com
+um sorriso feiticeiro de meiguice e suavidade se dirigiu ao indio:</p>
+
+<p>&mdash;Por acaso, meu esforçado amigo, tendes algumas aventuras mais?</p>
+
+<p>&mdash;Aventuras sérias, respondeu o badage com signaes de desanimo e tristesa.
+</p>
+
+<p>&mdash;Não percebeis quanto sinto os vossos desgostos. Mas a culpa não será
+vossa? Porque não gosaes a vida em socego, sem vos importarem os negocios do
+estado e os interesses alheios? Vós, os homens, tendes todos o espirito mordido
+pelo sarcopto das ambições. Nada vos contenta.</p>
+
+<p>&mdash;O destino assim é. Arrasta o nosso espirito para o bem ou para o mal do
+mesmo modo que succede a uma lasca de taboa ou a um pedaço de cortiça dominado
+pelas ondas do mar. Fica-me porém a consolação de que nunca a minha consciencia
+se encaminhou para o mal.</p>
+
+<p>Inesperadamente sentiu-se um alteroso arruido. Algum serio acontecimento se
+passava no largo do Rocio. Nem mais nem menos: o palacio de Violante Gomes fora
+assediado por<span class="pn"><a name="pag_127">{127}</a></span> uma turba
+sediciosa e infrene de alabardeiros e familiares do Santo Officio.</p>
+
+<p>Não era agradavel nem segura a posição dos foragidos das gemonias
+inquisitoriaes. Escapar, seria negocio difficil. Combater, seria temeridade com
+todos os visos de loucura. Sem embargo o indio não desanimou nem tremeu.</p>
+
+<p>&mdash;Senhora, disse para Violante Gomes, os vossos hospedes são incommodos e
+perigosos. Por isso vos disemos adeus até melhor occasião. Vamos ao encontro
+dos inimigos...</p>
+
+<p>&mdash;Loucos! acodiu a esbelta dama. Deixai as escadas e vinde por este sitio.
+Segui-me depressa!</p>
+
+<p>Violante Gomes, allumiada por um castiçal de prata, adiantou-se por um
+corredor estreito, subiu os degraus de umas escadas mais estreitas ainda e
+chegou ao recanto de uma saleta desguarnecida.</p>
+
+<p>&mdash;Já, já! Apressai-vos a abrir essa janella. Deita para os telhados visinhos
+e, tres ou quatro varas além, podeis escapulir-vos com segurança. Não afianço
+que não haja perigo...</p>
+
+<p>&mdash;Podemos cair dos telhados á rua como dous gatos ou dous perros, então
+regougou pela<span class="pn"><a name="pag_128">{128}</a></span> primeira vez o
+ex-carcereiro. Mas nada de sustos. D'entre dous perigos escolhe-se o menor.</p>
+
+<p>Alguns momentos depois a janella tornara-se a fechar e Violante Gomes desceu
+com animo desassocegado aos primeiros aposentos.</p>
+
+<p>O borborinho e a algasarra não affrouxavam. Pareciam o preludio de uma
+d'essas tremendas tempestades que se chamam revoluções populares.</p>
+
+<p>&mdash;Abram a porta, abram a porta!</p>
+
+<p>A estes rugidos de panthera ninguem respondia do palacio. As voses
+proseguiam entretanto:</p>
+
+<p>&mdash;Abram, senão arromba-se!</p>
+
+<p>&mdash;Arrombe-se a porta!</p>
+
+<p>&mdash;Á ordem de el-rei! Manda el-rei!</p>
+
+<p>&mdash;Abram! abram, sôs fidalgos!</p>
+
+<p>Como a porta não cedesse á intimação, as coronhadas principiaram de
+desempenhar o seu papel destruidor. Grito infernal, desacato immenso!</p>
+
+<p>De longe a longe uma voz robusta e vibrante forcejava por dominar a
+gritaria.</p>
+
+<p>&mdash;Basta, basta! bociferava.<span class="pn"><a
+name="pag_129">{129}</a></span>.</p>
+
+<p>Esforços baldados, porém. O barulho, em vez de esmorecer, augmentava pouco a
+pouco. Scenas de sangue e horror iam começar ainda.</p>
+
+<p>Entretanto os evasores dos ergastulos inquisitoriaes conseguiram chegar ao
+meio da rua da Bitesga e ali resolveram parar á porta da taverna de um parente
+do carcereiro.</p>
+
+<p>Em derredor de comprida e nodoenta banca de pinho bebiam, gesticulavam e
+rosnavam em selvatica liberdade uns quinze homens de esqualida catadura e
+trajos andrajosos que logo á primeira vista se consideravam relé de virtudes
+duvidosas.</p>
+
+<p>Ainda mais seis ou oito colossos de eguaes trajos e costumes resonavam a
+fartos folegos aos recantos da baiuca, uns acocorados indolentemente no chão e
+outros encostados sem a minima ceremonia a escabellos e tamboretes.</p>
+
+<p>Se aquella turba esqualida não denunciava um covil de feras, certamente não
+parecia um grupo de seres humanos. Eram homens todavia; mas homenzarrões de côr
+macilenta, voz cavernosa e cabeça guedelhuda e cerdosa como de juba de
+leão.<span class="pn"><a name="pag_130">{130}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Leve o diacho, rugia um d'elles, que leve o diacho tanto a zurrapa como
+quem nol-a vende. Esse filho da breca jamais nos deu cousa com geito. O
+vinho... que peste! O vinho é sempre do peor e do mais caro como se o vendesse
+a mastins da igualha d'esse bisneto de Judas.</p>
+
+<p>&mdash;Pois andas mal, pedaço de asno, acodiu segundo bebedor dirigindo-se do
+mesmo modo ao taverneiro. Se te não emendas e não cobras tento, nós
+ensinamos-te deveras. A freguesia, meu lorpa, deixa-te ás moscas o presepio...
+</p>
+
+<p>&mdash;Por isso, redarguiu de mau humor o dono da taverna, não me ha de ferver o
+miolo. Fregueses como tu, Chico, ou tambem como tu, Miguel Farçante, juro que
+os tomara ver a cem leguas do bairro. Sempre traseis os bolsos mais cheios de
+sarna e cotão que de chelpa. De calotes estou eu farto dês que vos aturo.</p>
+
+<p>&mdash;Cala-te ahi, volveu-lhe o bebedor Miguel Farçante. Bem sabes que não sou
+de genio talhado para lerias...</p>
+
+<p>&mdash;Puf, meu valentão das dusias! Lerias tuas é que pouco me importam. O que
+mais quero é que me paguem e tu, se herdasses a vergonha<span class="pn"><a
+name="pag_131">{131}</a></span> dos homens honrados, não me punhas mais as
+patas de portas a dentro.</p>
+
+<p>&mdash;Uum, uum! Pois isso vai assim, grande lorpa! Toma lá pela injuria...</p>
+
+<p>Logo na face cadaverica do vendeiro estalou uma punhada gigantesca. O
+vendeiro quedara a principio silencioso e soffredor como uma estatua; mas
+depois com a ligeiresa de um tigre pegou pelo bojo de um cangirão quasi cheio
+de vinho e, ministrando-lhe a força de um punho de Sansão, em um apice o
+arremessou á cabeça do aggressor. O barro quebrou-se em pedaços e dous jorros
+de sangue borbulharam da testa em que elle bateu.</p>
+
+<p>Immediatamente, em guisa de campo de batalha, se estremaram dous partidos.
+Em todas as mãos luziam aos reflexos das candeias facas e punhaes. Metade dos
+fregueses predispunha-se para a defesa e outra metade para a investida.</p>
+
+<p>&mdash;Vaes levar a tua conta, meliante!</p>
+
+<p>&mdash;O vendeiro teve rasão...</p>
+
+<p>&mdash;Rasão vamos ver quem a teve! Trocaram-se estas rudes ameaças em um<span
+class="pn"><a name="pag_132">{132}</a></span> abrir e fechar de olhos. Eram o
+preludio de uma contenda furiosa entre dusia e meia de ebrios e malvados,
+homunculos sem consciencia do bem e do mal, tam lestos em derramarem o sangue
+das veias de seus irmãos como em beberem até aos bordos um cangirão dos
+saborosos liquidos extrahidos das parras do Seixal.</p>
+
+<p>Foi então que o ex-carcereiro e o badage reconheceram a necessidade de
+entrar na taverna.</p>
+
+<p>&mdash;Meus rapases, fallou-lhes o badage, não estamos em maré de bulhas e rixas
+com amigos. O valor e a coragem podem experimentar-se em outra liça. Quereis
+mostrar-me agora que sois valentes, meus rapases?</p>
+
+<p>&mdash;Topa-nos ás ordens, fidalgo! Mas primeiro deixe-nos dar uma tosquia a
+taverneiros desaforados.</p>
+
+<p>O vendeiro estava já bem seguro pela gola da jaqueta. Miguel, querendo
+vingar-se da ferida, ergueu o braço musculoso e ia sem clemencia
+descarregar-lhe sobre o peito a lamina do seu punhal. Mas o golpe falhou. O
+badage<span class="pn"><a name="pag_133">{133}</a></span> segurou com força
+extraordinaria o braço que sustentava o punhal.</p>
+
+<p>Então o barulho arrefeceu e aquella corja de ebrios, baixando as facas e os
+punhaes, pediu e celebrou tregoas.</p>
+
+<p>&mdash;Disei-me pois, dirigiu-se-lhes novamente o badage, se quereis ou não
+quereis provar o vosso valor e a vossa força. Preciso do serviço dos vossos
+braços, meus rapases.</p>
+
+<p>&mdash;Fidalgo, responderam logo, diga lá o que nos quer.</p>
+
+<p>&mdash;Toca a beber primeiro, volveu o badage. Quem paga é a minha bolsa. Venha
+lá do melhor e do mais caro: Seixal ou Caparica do mais velho.</p>
+
+<p>O vendeiro apresentou seguidamente seis garrafas cobertas de pó e foi
+despejando as primeiras duas no bojudo cangirão.</p>
+
+<p>O badage pegou da vasilha e dispôz-se a offerecel-a a cada um dos
+homunculos. Cada cangirão mal chegava para quatro bebedores, mas á medida que
+se esvasiava não se esquecia o taverneiro de o reencher até aos bordos.</p>
+
+<p>Todos beberam á vontade em menos de meio<span class="pn"><a
+name="pag_134">{134}</a></span> quarto de hora e como o badage tivesse pressa
+de lhes aproveitar os serviços tratou de conduzil-os em direitura do Rocio.</p>
+
+<p>&mdash;Adeus e obrigado, disse para o taverneiro. Ahi tens um ducado de ouro de
+lei. Guarda-o em paga do teu vinho.</p>
+
+<p>&mdash;Obrigado lhe digo eu, fidalgo. A despesa está paga. Não aceito o dinheiro
+de vossa senhoria e ainda lhe fico devedor de muito mais.</p>
+
+<p>&mdash;O taverneiro é generoso, é generoso! conclamou a maioria dos fregueses.
+</p>
+
+<p>Preparavam-se todos para sair quando se lhes dirige ainda o taverneiro:</p>
+
+<p>&mdash;Mas para onde vades assim, papalvos?</p>
+
+<p>&mdash;Nós te diremos depois para onde vamos, retrucou o ex-carcereiro. Quem fôr
+peco e desanimoso que fique para ahi como um perro. Pela nossa banda queremos
+só gente de animo decidido e braço alentado.</p>
+
+<p>&mdash;Bofé que ninguem dirá que o taverneiro da Bitesga foi algum dia peco! Mas
+ouvi rosnar por ahi que era preciso combater e brigar. Se a coisa é séria,
+unicamente facas e punhaes são armas de pouca monta.<span class="pn"><a
+name="pag_135">{135}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Fallas com a prudencia de Dom Vasco da Gama, apoiou o indio. Mas não temos
+horas a perder e, na falta de outras armaduras, todas as que se encontram á mão
+nos parecem de boa tempera.</p>
+
+<p>&mdash;Serão. Mas devem concordar que as ha bem melhores de tempera e de alcance.
+Uma espada alcança mais longe do que um punhal e os pelouros de um bacamarte
+vão mais longe ainda...</p>
+
+<p>&mdash;É certo. Mas onde ha por ahi perto algum arsenal?</p>
+
+<p>&mdash;Um fiel vassallo de sua altesa serenissima deve estar sempre bem
+apercebido e armado. Esperem um bocado, esperem que eu venho já.</p>
+
+<p>Subiu o taverneiro ao primeiro andar da escura baiuca e momentos depois se
+apresentou no meio dos seus fregueses com um braçado respeitavel de bacamartes
+e de pistolas e machados, ascunhas e espadas. Para complemento da collecção de
+armaduras de que falla o cantor dos <em>Lusiadas</em> faltavam ainda<span
+class="pn"><a name="pag_136">{136}</a></span></p>
+
+<blockquote>
+ <em>Os</em> arneses e peitos relusentes, <br>
+ Malhas finas e laminas seguras, <br>
+ Escudos de pinturas differentes, </blockquote>
+
+<p>mas certamente sobejavam</p>
+
+<blockquote>
+ Pelouros, espingardas de aço puras, <br>
+ Arcos e sagittiferas aljavas, <br>
+ Partasanas agudas, chuças bravas. </blockquote>
+
+<p>&mdash;Para meia dusia de amigos, regougou o taverneiro, aqui temos pão e queijo.
+Escolham á vontade...</p>
+
+<p>Ficaram logo apercebidos e apetrechados seis ou oito dos mais robustos e
+decididos. O numero restante julgou-se egualmente bem armado com os seus
+punhaes de fina lamina e as suas facas de ponta cuidadosamente afiada.</p>
+
+<p>&mdash;Agora, ordena o badage, cuidemos da partida. Alma alegre e caras á frente.
+Vamos combater nada mais e nada menos que os serventes e soldados do Santo
+Officio...</p>
+
+<p>&mdash;Do Santo Officio! exclamaram com espanto.</p>
+
+<p>Houve um momento de indecisão. Aquella palavra terrivel incutiu deveras o
+terror nos espiritos mais varonis e affrouxava de medo o braço<span
+class="pn"><a name="pag_137">{137}</a></span> mais possante. O tribunal do
+Santo Officio ou da <em>Santa Casa</em>, segundo o conceito de um escriptor,
+comparava-se então pouco mais ou menos com a arca de Noé, observando-se
+unicamente a differença de que os animaes que entraram na arca sairam como
+tinham entrado e de todos os que eram encerrados nos carceres da inquisição se
+viam sair mansos como cordeiros aquelles que á entrada tinham a crueldade dos
+lobos e a feresa dos leões!</p>
+
+<p>&mdash;Vejo, rosnou o ex-carcereiro, que não sois homens para empresas serias.
+Tanto medo para nada! Eu, que servi por alguns annos essa corja de
+inquisidores, confesso-vos que não recuo nem me arreceio.</p>
+
+<p>&mdash;Aqui ninguem confessa medo! interferiu o vendeiro com heroica resolução. A
+vida é uma ninharia e a mim tanto se me dá morrer hoje na praça como ámanhan na
+cama. Vamos ou não vamos, rapases?</p>
+
+<p>Momentos mais tarde a baiuca ficou permanecendo silenciosa e vasia.<span
+class="pn"><a name="pag_138">{138}</a></span></p>
+
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot170" href="#tex2html16"><sup>[16]</sup></a> Arnaldo Gama. <em>O
+segredo do abbade.</em></p>
+</div>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_139">{139}</a></span></p>
+
+<h1>XII</h1>
+
+
+<h2>REFERTA DE TIGRES E LEÕES</h2>
+
+<p>Este arrojado troço de
+feras humanas premunidas com lanças e espadões, ascunhas e alabardas, facas e
+mosquetes investiu no Rocio com rude e selvagem ousia contra a infrene
+multidão. Ia travar-se agora uma luta de tigres e leões.</p>
+
+<p>Nem a surpresa nem o medo conseguiram afugentar as mulheres ou as crianças.
+As mulheres gritavam e rugiam como pantheras, as crianças, em corridas
+vertiginosas arremessavam pedras e calhaus, os velhos sentiam refluir-lhes o
+sangue da juventude e serviam para animar<span class="pn"><a
+name="pag_140">{140}</a></span> os brios dos mais novos. Uma destemida populaça
+e uma horda fanatica de soldados lidavam e combatiam, como em liça de
+musulmanos contra christãos, com egual coragem e com o mesmo furor.</p>
+
+<p>Decorreram breves minutos e já se via, como na manhã seguinte de uma noite
+de batalha, o chão alastrado de corpos ensanguentados e moribundos. Mais de
+quinze cadaveres, não memorando a desastrada hecatombe dos feridos e contusos,
+eram já os tristes despojos e as victimas infelises da contenda.</p>
+
+<p>O ruge-ruge, a voseria, a confusão e as cutiladas pareciam todavia cada vez
+mais longe do seu fecho. Mas, predispondo-se a restabelecer o socego, um
+personagem de altivo porte e animo resoluto á semelhança dos paladinos da idade
+media, rompeu com bravura por entre o populacho e a soldadesca proferindo em
+voz sonora: <em>basta, basta!</em></p>
+
+<p>Depressa foi reconhecido o campeão e, sendo-lhe franqueada a passagem com
+todas as demonstrações de respeito, ergueu-se o grito geral de&mdash;<em>viva sua
+altesa! viva o senhor infante!</em><span class="pn"><a
+name="pag_141">{141}</a></span></p>
+
+<p>O infante Dom Luiz desembuçou a capa de veludo, mostrou ao povo o seu rosto
+sympathico e com serenidade lhe fallou assim:</p>
+
+<p>&mdash;Ordem, ordem! El-rei deseja e estima a vida dos seus vassallos. Não quer
+que elles vertam o seu sangue de tal sorte. Cobrai tento e socego, meus amigos!
+</p>
+
+<p>Entretanto um dos mais inquietos e terriveis contendores foi pouco a pouco
+recuando com a espada em punho até se aproximar do infante. Não recuava de
+susto ou por impulsos de fraquesa, que nunca o seu espirito fôra abalado pelo
+medo nem os nervos do seu braço jámais affrouxaram nas conjuncturas do perigo.
+</p>
+
+<p>&mdash;Debalde gastaes a paciencia e o tempo, lhe segreda. Esta corja infrene e
+rebelde que nem de filhos de Satanaz, decerto vos não obedece nem respeita.</p>
+
+<p>Não lhe sobejou ensejo de alongar o discurso. Um troço de aggressores
+armados de alabardas e espadas, de picos e ascunhas investiu contra elle ao
+grito diabolico de&mdash;<em>morram os hereges, morram os traidores!</em><span
+class="pn"><a name="pag_142">{142}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Morram, morram os judeus e os hereges! conclamaram logo de todas as
+partes.</p>
+
+<p>O infante, desnudando a espada, enrostou com a massa dos aggressores. Elles
+porém, demovidos pelo respeito e pela estima que todos professavam pelo irmão
+de el-rei, suspenderam o passo.</p>
+
+<p>&mdash;Ousareis porventura, lhes disse, erguer armas contra o irmão de el-rei?
+</p>
+
+<p>&mdash;Não queremos offender vossa altesa, responderam do meio dos aggressores.
+Queremos só esse herege e esse criminoso que ahi está. Esse buscamos, buscamos
+esse só.</p>
+
+<p>&mdash;Que me quereis então? proferiu com sobrecenho e desassombro aquelle que
+indigitavam.</p>
+
+<p>&mdash;A vossa cabeça. A vossa cabeça de traidor para a ponta das nossas lanças e
+o vosso corpo de herege para a fogueira do Santo Officio.</p>
+
+<p>&mdash;Rapases, retorquiu o infante com asedume, a el-rei sómente incumbe o
+castigo. Não vos é dado justiçar por vossas mãos. Se ha ahi algum criminoso, os
+juises de el-rei o tem de punir segundo as leis e usos do reino.<span
+class="pn"><a name="pag_143">{143}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Diz bem o senhor infante, concordaram alguns dos representantes da
+populaça.</p>
+
+<p>&mdash;Ide-vos em boa paz então. Restabeleça-se a ordem e haja por toda a parte
+socego.</p>
+
+<p>&mdash;Mas quem nos responde pelo herege? Quem nos responde por elle?</p>
+
+<p>A estas interrogações dos mais exigentes, accrescentaram ainda algumas
+voses:</p>
+
+<p>&mdash;Sem castigo não deve ficar. É de justiça, é de justiça que seja punido...
+</p>
+
+<p>&mdash;Será feita justiça, retorquiu o infante. Prometto-vos debaixo de minha
+palavra de Prior do Crato e, o que não vale menos, de leal cavalleiro, que o
+levarei á presença de el-rei para que se faça justiça rigorosa.</p>
+
+<p>Seguidamente pela Bitesga e outras ruas dispersou-se pouco a pouco a
+sediciosa turba. O infante Dom Luiz acompanhado pelo badage, esses meteram pela
+rua da Palha em direcção aos paços da Ribeira.</p>
+
+<p>&mdash;Decerto cumprirá vossa altesa a sua palavra? inquire o badage a meio do
+caminho.</p>
+
+<p>&mdash;Sinto, meu amigo, que me reservasses o<span class="pn"><a
+name="pag_144">{144}</a></span> officio de carcereiro. Mas confio que meu irmão
+e senhor não deixará de vos tratar bem.</p>
+
+<p>&mdash;Alimenta vossa altesa mais esperanças do que as que eu nutro. Do animo
+generoso de el-rei pouco espero. Desconfio que precisa a guela d'aquelle
+serenissimo sapo de mais uma doninha...</p>
+
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_145">{145}</a></span></p>
+<h1>XIII</h1>
+
+
+<h2>O LEITO DA DOR</h2>
+
+<p>As festas e os folgares
+não se interrompiam nos alegres paços da Ribeira. Comtudo não havia remedios
+nem divertimentos que restabelecessem a saude do joven herdeiro da coroa.</p>
+
+<p>A maior parte dos dias passava-os elle de cama. Acommettera-o grave
+enfermidade. Queixava-se continuamente de dores de entranhas e revoluções de
+estomago. Emmagrecia a olhos vistos e a cada hora mais se lhe pronunciava a
+debilidade do corpo.</p>
+
+<p>Á sciencia medica os symptomas e o caracter do mal não despertavam todavia
+os minimos<span class="pn"><a name="pag_146">{146}</a></span> cuidados.
+Effeitos do fastio e consequencias de debilidade, eis a opinião uniforme de
+todos os Esculapios e Galenos da côrte. Mas é certo que sua altesa peorava de
+dia para dia. Pouco a pouco encovavam-se-lhe os olhos, entesavam-se-lhe os
+dedos, empallideciam-lhe as faces, afilava-se-lhe o nariz, destingiam-se-lhe os
+beiços e enfraqueciam emfim todas as carnes e todos os musculos.</p>
+
+<p>Nada o entretinha nem consolava. Até os seus dilectos livros e os seus
+estimados trovadores lhe enfastiavam agora. Já não dava apreço ás quintilhas de
+Francisco de Sá, á <em>Diana</em> de Souto Mayor nem aos autos de Gil Vicente.
+Consumia todo o seu tempo em suspiros e lamentações. Á proporção que lhe
+desfalleciam as forças do corpo, iam-lhe fugindo do espirito a coragem, a
+resignação e a paciencia.</p>
+
+<p>Scena enternecedora em verdade era vel-o carpir as desditas da sua mocidade
+quando a esposa delicada e nervosa o procurava alentar com o balsamo das
+esperanças e dos carinhos! Era o seu anjo tutelar a fiel e amoravel esposa.
+Jamais lhe abandonou o leito da dor e todos<span class="pn"><a
+name="pag_147">{147}</a></span> seus thesouros de ternura com elle os gastava
+generosamente. Nunca seios de mulher compartilharam assim das amarguras
+alheias.</p>
+
+<p>A alcova e os aposentos do principe ficavam no segundo andar dos paços
+regios. Ali de canto a canto reinava um luxo oriental nas rendas e nas
+tapeçarias, em todos os ornamentos e em toda a mobilia. Mas de que valiam esses
+brocados e essas riquesas? Faltava ali uma coisa vulgar: a alegria. A saude não
+se póde comprar com ouro e sem o dom precioso da saude não existem as alegrias
+domesticas, os risos da existencia.</p>
+
+<p>El-rei seu pai, talvez porque o excesso da sua augusta sensibilidade lhe não
+permittia espectaculos de tristesa, raras visitas se dignava faser-lhe. Em
+compensação a rainha sua mãe todas as manhans se lhe dirigia á cabeceira do
+leito e a todas as horas mandava perguntar por suas damas se o principe
+melhorava.</p>
+
+<p>Pela saude do joven principe todas as damas, fidalgos e poetas da corte
+simultaneamente se interessavam. Muitas noites estava a sua alcova liberalmente
+cheia de amigos e aduladores. Como<span class="pn"><a
+name="pag_148">{148}</a></span> se não julgava de gravidade a molestia,
+facilitava-se a honra da entrada a todas as pessoas do tracto e das relações do
+paço.</p>
+
+<p>Vai correndo o dia dous de janeiro de 1554 e são quasi dez horas da manhan.
+Sua altesa parece dormir a somno solto e na sala contigua estão esperando que
+estremunhe e acorde duas dusias de poetas e fidalgos, de damas e criados. As
+damas chamam-se Dona Francisca de Aragão, Dona Catharina de Athayde e Dona
+Leonor Mascarenhas. Os poetas, contando os de maior nota, são Dom Manoel de
+Portugal, João Rodrigues de Sá, Frei Paulo da Cruz, Dom Simão da Silveira, João
+Lopes Leitão, Jorge Souto Mayor e Antonio Ribeiro Chiado.</p>
+
+<p>Conversam uns com os outros em voz desanimada e confrangida. A todos parece
+faltar assumpto e liberdade. Está reinando certamente um quarto de hora de
+monotonia. Mas eis que entra ainda um homemzinho magro e pletorico, de barbas
+louras e cabellos compridos. Tem o nariz afilado, os olhos vivos e as faces
+pallidas. A boca mostra-a de exiguas dimensões, mas, segundo a fama que em
+Lisboa corria, no comprimento<span class="pn"><a
+name="pag_149">{149}</a></span> da lingua ninguem se lhe avantajava.</p>
+
+<p>Vem todo aparaltado e nedio com sua gargantilha encanudada e seus punhos de
+alvas rendas. Traz na mão esquerda um chapeu de feltro enfeitado com sua pluma
+branca. Dos hombros pende-lhe um farto capirote de panno preto. Calção e gibão
+foram talhados de veludo verde. As meias eram de fina seda cor de carne.</p>
+
+<p>&mdash;Seja bem vindo vossa mercê, meu illustre coripheu da <em>Castalidum
+turba</em>!</p>
+
+<p>A esta jovial saudação de Souto Mayor o recem-chegado estendeu a dextra e
+apertou com extremos de delicadesa a robusta mão do cantor da <em>Diana</em>.
+</p>
+
+<p>Todos os outros cavalheiros procedem por sua vez a eguaes manifestações de
+amisade e seguidamente se dirige o recem-chegado para a alcova do principe.
+Depressa porém reapparece na ante-camara.</p>
+
+<p>&mdash;Está descançando no regaço de Morpheu, murmurou elle com um sorriso
+prasenteiro.</p>
+
+<p>&mdash;É certo que sua altesa está a dormir, confirma prosaicamente a celebrada e
+formosa<span class="pn"><a name="pag_150">{150}</a></span> Natercia. Mas por
+isso não nos ha de deixar o nosso amigo Pedro Caminha. Estou anciosa por ouvir
+as suas poesias, meu caro Apollo.</p>
+
+<p>&mdash;A musa tem andado constipada, minha gentil Galatea.</p>
+
+<p>&mdash;Os numes não se constipam, acode o faceto Chiado.</p>
+
+<p>&mdash;Não o deixamos partir sem nos recitar algum poema, accrescenta Dona
+Francisca de Aragão.</p>
+
+<p>&mdash;Assim rogam tanto! Estou plebeamente envergonhado por não traser peça de
+valor; mas não sei se lhes mostre...</p>
+
+<p>&mdash;Mostre, mostre, senhor Caminha! rogaram com alegria tres voses de guelas
+feminis.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que lhes hei de eu mostrar, pobre versificador de eglogas e elegias!
+</p>
+
+<p>&mdash;Quer mote?</p>
+
+<p>&mdash;Metem-me em trabalhos, metem-me em trabalhos de Hercules; mas venha de
+lá...</p>
+
+<p>&mdash;Deixemo-nos de mote, replica Souto Mayor. Ouvi diser que é maravilhoso o
+ultimo parto do engenho de vossa mercê. Recite-o antes vossa mercê.<span
+class="pn"><a name="pag_151">{151}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Votos, pedimos votos! regougam a um tempo dous divergentes cavalheiros.
+</p>
+
+<p>Entretanto uma das travessas damas atreve-se a introdusir os ageis dedos no
+bolso do collete de Pedro Caminha e logo com expansivo contentamento
+desembrulha uma pequenina folha de papel amarrotado.</p>
+
+<p>&mdash;Eureka! exclamou ella com enthusiasmo.</p>
+
+<p>&mdash;Leia lá, senhora Dona Francisca.</p>
+
+<p>&mdash;Eu leio, eu leio!</p>
+
+<p>Pegou Pedro Caminha no precioso autographo<a name="tex2html17"
+href="#foot171"><sup>[17]</sup></a> e com entono magestatico se dispoz a
+recitar:</p>
+
+<blockquote>
+ Muitas veses meus versos me pediste <br>
+ Que t'os mostrasse e nunca te mostrei; <br>
+ Em não pedir-te os teus, se bem sentiste, <br>
+ Entenderias porque t'os neguei: <br>
+ Da paga me temi; se a não tivera <br>
+ Muitas veses meus versos já te lera. </blockquote>
+
+<p>Subito rubor purpurea as faces de Souto Mayor. Julga que elle mesmo fôra o
+alvo do<span class="pn"><a name="pag_152">{152}</a></span> epigramma e vai
+certamente dar o troco em egual moeda quando o auctor do <em>Olyssipo</em>
+requer explicações.</p>
+
+<p>&mdash;Diga-nos vossa mercê, acodiu Jorge Ferreira, que allusões cavillosas são
+essas as do seu epigramma, senhor Caminha?</p>
+
+<p>Caminha virou nas mãos a folha de papel e em voz mais elevada continua de
+ler:</p>
+
+<blockquote>
+ Um tem dois olhos e com vista clara, <br>
+ Outro um só tem e esse co'a vista estreita. <br>
+ Diz este áquelle: «Amigo, eu apostara <br>
+ A qual de nós tem vista mais perfeita?» <br>
+ Quem houvera que a si não se enganara <br>
+ Como o outro que enganado a aposta aceita? <br>
+ Diz-lhe este: «Vê que vejo mais que ti, <br>
+ Pois dois olhos te vejo, um só tu a mi!» </blockquote>
+
+<p>&mdash;Bravo, excellente! exclamara João Rodrigues de Sá quando comprehendeu que
+os epigrammas se dirigiam a esse misero poeta que valia mais que todos elles
+porque se chamava Luiz de Camões e porque era talvez o primeiro, o ultimo, o
+maior portuguez do seculo deseseis.</p>
+
+<p>&mdash;Deveras excellente! Excedeis Horacio e<span class="pn"><a
+name="pag_153">{153}</a></span> Marcial, meu illustre e grandioso vate! com
+estudado sorriso e com excesso de lisonjaria acrescentou ainda Jorge de Souto
+Mayor.</p>
+
+<p>A este pomposo elogio immediatamente replica o padre-mestre dos epigrammas:
+</p>
+
+<p>&mdash;Agradeço as vossas finesas, meu Petrarcha. Um frouxo de tosse fez por esta
+occasião acorrer as damas ao quarto do principe.</p>
+
+<p>Acordara sua altesa com a indiscreta algasarra e a meio corpo se erguera
+sobre os macios travesseiros do leito. Parecia mais alliviado da enfermidade,
+mais jovial do olhar e menos cadaverico do gesto.</p>
+
+<p>&mdash;Vossa altesa dormiu bem? pergunta-lhe Dom Jorge de Moura aconchegando-se
+do leito.</p>
+
+<p>&mdash;Sinto-me com mais animo e parece-me que vou melhorando...</p>
+
+<p>&mdash;Não tardará que vossa altesa esteja restabelecido. Isso não ha de ser
+nada, querendo Deus.</p>
+
+<p>&mdash;Assim espero que aconteça; mas não sei, meu amigo, não sei o que sinto nem
+o que padeço. Ha tantos dias na cama sem forças nem saude!<span class="pn"><a
+name="pag_154">{154}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Disem os medicos que não passam de debilidade os achaques de vossa
+altesa...</p>
+
+<p>&mdash;Os medicos sabem tudo, sabem tudo... Só não sabem dar-me cura!</p>
+
+<p>Abriu-se o reposteiro da alcova e a comprimentar o principe entrou agora a
+colmea dos admiradores do poeta Caminha.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot171" href="#tex2html17"><sup>[17]</sup></a> Veja-se a <em>Vida
+de Camões</em>, por Theoph. Braga.</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_155">{155}</a></span></p>
+
+<h1>XIV</h1>
+
+
+<h2>EFFEITOS DO VENENO</h2>
+
+<p>Respeitosamente foi
+comprimentado o herdeiro da coroa por todos os poetas e cortesãos que de
+improviso assaltaram a alcova. Mas o joven Dom João não se encontrava em maré
+de paciencia para aturar importunidades e por isso a numerosa colmea dos nobres
+aduladores cuidou logo de se despedir.</p>
+
+<p>A alcova permaneceu deserta; mas soou depressa o estalido de uma secreta
+mola e a um dos cantos sahiu vagarosamente por uma porta escondida na parede o
+aventuroso pagem.</p>
+
+<p>&mdash;Bom pagem, fallou-lhe o principe decorridos<span class="pn"><a
+name="pag_156">{156}</a></span> alguns momentos, sinto que me vão affrouxando o
+animo e a paciencia. O badage aproximou-se do leito.</p>
+
+<p>&mdash;São effeitos da doença, respondeu pausadamente.</p>
+
+<p>&mdash;Disem-me todos que isto nada é. Todos me enganam... Só tu me dises que
+estou doente... Sabes que doença padeço?</p>
+
+<p>&mdash;Sei, meu principe.</p>
+
+<p>&mdash;Que doença é?</p>
+
+<p>&mdash;Francisco Lopes que vos responda, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Não és sincero. Tambem tu me enganas, pagem.</p>
+
+<p>&mdash;Receio declarar-vos a verdade.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho coragem para a ouvir. Falla, falla...</p>
+
+<p>&mdash;Vós todos, principes e monarchas, só tendes abertos os ouvidos á adulação
+e á mentira. A verdade é amarga e severa. Seria para as vossas organisaçoes
+anemicas e sedentarias um eleboro violento em demasia. Mas podesseis
+comprehender as bellesas e vantagens da verdade que seria mais tranquilla a
+vossa consciencia e mais duradoura a vossa saude. Então saberieis ler no livro
+mysterioso do destino os deveres<span class="pn"><a
+name="pag_157">{157}</a></span> que vos determina a Providencia. Serieis então
+os amigos e os protectores do povo...</p>
+
+<p>O enfermo escutava pela primeira vez tam dura e irreverente linguagem; mas,
+como se tivesse o espirito fascinado pelo canto de uma sereia, não ousava
+interrompel-a.</p>
+
+<p>Com mais valentia de voz o badage proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Abençoados os monarchas que são os amigos e protectores do povo!
+Abençoados sejam! Mas a maioria d'elles entrega-se noite e dia ao turbilhão
+vertiginoso dos praseres e das orgias em menoscabo dos interesses publicos e em
+prejuiso da ventura das nações. Não é grande o numero dos monarchas, por mais
+ricos e poderosos que sejam, que morrem com a consciencia de haverem feito a
+felicidade dos seus vassallos. Parece que teem os olhos vendados para o bem...
+</p>
+
+<p>&mdash;Cala-te, que és injusto e severo. Que mal te fez meu pai ou tenho feito eu
+para seres assim tam rigoroso de palavras?</p>
+
+<p>&mdash;Sois christão e mostraes ignorancia da leitura do Evangelho. Pois sabei
+que pelas culpas<span class="pn"><a name="pag_158">{158}</a></span> dos paes
+respondem os filhos até á quinta geração...</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei o que disem as escripturas santas; mas de que mal e de que peccados
+accusas meu pai?</p>
+
+<p>&mdash;Rio-me da vossa innocencia, meu principe. Por ventura ignoraes os
+descreditos e vexames que todos vamos soffrendo cada dia? Quantos desacertos e
+que torturas se não commettem ao sabor de Simão Rodrigues e só por interesse do
+tribunal da inquisição? Bastará o <em>Santo Officio</em> para causar maiores
+damnos do que a peste e mais opprobrio do que a forca. Nas mãos dos seus
+ministros flammeja o cutelo do carrasco, que é o mesmo que o estilete do
+assassino. Confisca-se a propriedade, assassina-se o fidalgo, rouba-se com a
+riquesa a honra alheia e queima-se nas labaredas da fogueira o servo da gleba
+para que se accenda mais uma lampada no altar da tirannia e se fortifique ainda
+com mais uma columna o templo da igreja!</p>
+
+<p>&mdash;Não blasfemes assim, hereje. Lembra-te que fallas diante de um principe de
+sangue.</p>
+
+<p>&mdash;Principes e monarchas não os respeito nem<span class="pn"><a
+name="pag_159">{159}</a></span> acato senão pelo esplendor das suas virtudes.
+Onde está o rol das vossas virtudes? Foi benefica a missão de que vos
+encarregou o Deus que sempre tendes á flor dos labios e a que nunca ergueu
+altares o vosso coração. Deus mandou-vos amar o proximo. Devieis ser o auxilio
+e não o latego do povo. Mas vós, que tendes para tudo ministros e conselheiros,
+só os não tendes para vos aconselharem a minorar os infortunios do pobre e
+obrigarem a repartir com as crianças que padecem fome as iguarias superfluas
+dos lautos e magnificos banquetes...</p>
+
+<p>&mdash;Não te quero ouvir mais, não te quero ouvir mais. Lembra-te que ainda te
+posso punir e esmagar, villão!</p>
+
+<p>&mdash;Tendes o poder e a riquesa, herdeiro do throno de Portugal. Sei que sempre
+a vossos pés se rojaram desenas e dusias de cortesãos ambiciosos, cortesãos que
+se habituam a procurar o esplendor das gemmas preciosas das coroas regias para
+encobrirem a baixesa da sua consciencia e a lepra do seu espirito. Sei que
+todos os vossos caprichos e devaneios, embora custem milhares de crusados,
+serão satisfeitos<span class="pn"><a name="pag_160">{160}</a></span> mais
+depressa, do que se enxuga o pranto do desvalido que, relado pela fome, se vê
+estrebuchando na enxerga pestilenta da miseria... Mas vejo tambem que se
+offusca o nimbo da vossa gloria e declina a estrella da vossa grandesa! Em vez
+de ser de perolas e rubis, será logo de terra e de cinzas a vossa coroa.
+Depressa se desfará em pó o vosso sceptro e, em vez de recamarem o vosso corpo
+o ouropel e os avellorios do throno, será entregue o vosso corpo aos vermes e á
+podridão do sepulchro!</p>
+
+<p>&mdash;Basta, basta! São de fogo as tuas palavras. Sinto que me requeimam as
+entranhas, pagem!</p>
+
+<p>N'este comenos entrou Francisco Lopes a satisfaser a sua visita ordinaria.
+</p>
+
+<p>O medico aproximou-se do principe, ausculta-lhe o peito com a maior
+observação e em seguida com todo o cuidado lhe tatea o pulso.</p>
+
+<p>Não proferiu um monosyllabo e jámais denunciou pelas impressões do rosto ou
+por outros quaesquer signaes exteriores a gravidade ou as melhoras do enfermo.
+</p>
+
+<p>Sempre com a mesma austeridade aproximou-se<span class="pn"><a
+name="pag_161">{161}</a></span> de um dos angulos da alcova, recurvou-se de
+vagar sobre uma elegante mesa de jacarandá, serviu-se de uma penna de pato
+collocada ao longo de um precioso tinteiro de prata e com rapidez formula em
+meia folha de papel o recipe do costume.</p>
+
+<p>Em seguida o medico ergueu com dous dedos a receita, baixou com gesto
+comprimentador a cabeça em direcção do leito e logo com inalteravel silencio
+transpoz os umbraes da porta.</p>
+
+<p>No centro da sala contigua esperava-o uma pessoa vestida completamente de
+roupas negras que ninguem mais era senão o jesuita Simão Rodrigues.</p>
+
+<p>A meia voz segredou-lhe o medico:</p>
+
+<p>&mdash;Está moribundo. Está sem vida. Morre antes de meia hora.</p>
+
+<p>O jesuita laconicamente accrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;<em>Requiescat in pace!</em></p>
+
+<p>Entretanto não abandonara o badage o leito do principe. Ninguem mais se
+conservava ali. Talvez porque se quisesse poupar a organisação debil do
+principe ás fadigas das conversações e ao constrangimento das visitas, ou então
+por<span class="pn"><a name="pag_162">{162}</a></span> que o quadro pavoroso da
+morte não é espectaculo que deleite as vistas e atraia a presença dos
+cortesãos.</p>
+
+<p>O espirito de sua altesa estorcia-se nos derradeiros paroxismos. Poucos
+momentos de vida lhe restavam já e que severos momentos de tortura não deviam
+de ser aquelles! Affligiam-no contorsões horrendas; o fogo violento de um
+vulcão abrasava-lhe as entranhas; os musculos e tendões dos braços pareciam
+fios de arame agitados por uma descarga electrica.</p>
+
+<p>Elle todavia prestava segura e ininterrompida attenção ás palavras
+mysteriosas do badage. Sobresaltava-se, contorcia-se, desesperava-se como se
+lhe ardessem as carnes no brasido infernal de uma fornalha; mas ainda nutria
+alentos e voz para de quando em quando diser ao badage:</p>
+
+<p>&mdash;Contai-me tudo, contai-me tudo o que sabeis...</p>
+
+<p>O badage continuou a revelar-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Vou por fim denunciar-vos tudo o que sei. É caso incrivel, mas é verdade.
+Foi crime horrendo, mas aconteceu. Está soffrendo vossa altesa<span
+class="pn"><a name="pag_163">{163}</a></span> os effeitos do veneno e é el-rei,
+acredite-me vossa altesa, é el-rei Dom João III a causa da sua morte!</p>
+
+<p>A tam inesperada e tremenda revelação o corpo do principe contorceu-se com
+maior violencia. Quiz erguer-se do leito, gritar logo por soccorro e despedaçar
+as carnes com as unhas como se o dominassem os instinctos de um abutre. Porém a
+alcova nupcial tornara-se depressa a habitação lugubre da morte. Agora a voz e
+as forças abandonaram de vez o corpo franzino do principe. Era elle apenas um
+cadaver!<span class="pn"><a name="pag_164">{164}</a></span></p>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_165">{165}</a></span></p>
+
+<h1>XV</h1>
+
+
+<h2>O PERDÃO</h2>
+
+<p>Com o espirito entregue
+aos dominios de uma vaga melancolia desceu seguidamente o badage ao primeiro
+andar dos Paços da Ribeira, onde, ao derredor de uma luxuosa banca pejada de
+papeis, meia dusia dos mais altos personagens se debatiam em calorosa
+conversação nos aposentos particulares de el-rei.</p>
+
+<p>O badage, predispondo-se a colher o fio da conversação, cautelosamente
+applicou o ouvido ao ralo da porta dos regios aposentos.</p>
+
+<p>&mdash;É mister, continuava de expor ao monarcha o beato provincial, um tremendo
+e exemplar<span class="pn"><a name="pag_166">{166}</a></span> castigo. Aquelle
+herege não póde ser absolvido nem perdoado. Sabeis, senhor, até onde alcançam o
+grau dos seus crimes, o excesso das suas heresias, o numero dos seus peccados?
+</p>
+
+<p>&mdash;Já me contaste, meu padre, o que por desfortuna vos aconteceu. Confesso
+que foi horrivel a vossa posição. Atrever-se aquelle herege a martyrisar-vos
+com o fogo! Presumo que não foram os vossos tormentos inferiores aos de San
+Lourenço, o martyr das grelhas.</p>
+
+<p>&mdash;Pela minha parte lhe perdôo tudo. Encontro-me salvo e livre de perigo.
+Agora só me resta esquecer de boamente o mal que me fez. Mas os desacatos á
+religião catholica, as offensas dirigidas a Deus...</p>
+
+<p>&mdash;Perdoae-lhe vós, observou a rainha, que Deus tudo perdoa como pai de
+misericordia.</p>
+
+<p>&mdash;Vejo que minha presada esposa, accrescenta o monarcha, se interessa
+generosamente pelo seu pagem. Cá de mim não tenho resentimentos nem gostei
+nunca de vindictas. Em boa fé, meu padre, vos declaro que tudo esqueço. Mas que
+diseis, Simão Rodrigues? De vós depende o perdão ou o castigo!<span
+class="pn"><a name="pag_167">{167}</a></span></p>
+
+<p>Dispunha-se a retorquir o provincial quando o badage se apresenta de
+improviso.</p>
+
+<p>&mdash;Recuso, disse com firmesa, todo o perdão e todo o favor. Simão Rodrigues,
+Simão Rodrigues, sois vós que precisaes da graça de el-rei!</p>
+
+<p>&mdash;Não comprehendo bem o teu orgulho, meu amigo! acodiu o nobre Duque de
+Beja.</p>
+
+<p>&mdash;É o orgulho de quem estima e defende uma boa causa: a causa do povo.</p>
+
+<p>&mdash;O povo, sempre o povo! exclama com asedume o terrivel jesuita. Dize-me:
+que entendes tu por essa massa enorme e infrene, esse corpo sem entendimento
+nem consciencia que apedreja hoje o idolo da vespera, essa cabeça desvairada
+que nunca soube comprehender as doçuras da paz nem respeitar as glorias de
+Deus?</p>
+
+<p>&mdash;O povo, proferiu o indio com enthusiastico espirito, é um instrumento de
+trabalho que emprega todo o suor do seu corpo e todos os dias da sua existencia
+no roçar das charnecas, no arroteamento dos latifundios, nos perigos e labores
+das officinas, sobrecarregado sempre de<span class="pn"><a
+name="pag_168">{168}</a></span> gabellas e desfavores, ganhando apenas os meios
+pecuniarios de não morrer de fome e não conseguindo nunca abandonar a sua
+condição servil. É o contrario de essa classe que se chama a nobresa e de essa
+oligarchia que se chama o clero. O nobre e o padre, favorecidos por uma
+legislação de isenções e privilegios, são homens livres que deixam de
+contribuir para as despesas do estado, que tudo á larga possuem e que
+desconhecem os suores do trabalho. Gosam e mandam a seu alvedrio... O povo,
+todavia, constitue a maxima parte, a grande porção do estado. Do seu braço, das
+suas forças e da sua actividade provém a riquesa publica, a defesa das
+monarchias ou das republicas, a manutenção da ordem e da paz, o desenvolvimento
+do commercio e das industrias. O povo é o elemento mais forte das instituições
+politicas e da ordem social: o eixo e as rodas da machina social. Seria preciso
+conseguintemente não despojal-o da sua personalidade e da sua liberdade... Mas
+quando irromperá a fulgorosa alvorada em que esse rebanho de ilotas ou escravos
+desperte ao grito heroico e triunfal de um novo Spartaco,<span class="pn"><a
+name="pag_169">{169}</a></span> o libertador dos povos? Quando, proclamado o
+advento da igualdade e da justiça, surgirá a epocha redemptora em que a essa
+<em>cohorte renegada de hebreus</em> se concedam pelas prescripções de uma
+legislação benefica e humana os foros de cidadãos e os direitos de homens
+livres, a sua alforria politica e social emfim? Eu erguerei sempre a minha voz
+contra os excessos da tyrannia feudal, inquisitorial ou real que fasem do povo
+uma besta de carga. O systema pagão ainda prevalece nas hodiernas sociedades,
+apesar de já decorrerem mais de quinze seculos de christianismo<a
+name="tex2html18" href="#foot172"><sup>[18]</sup></a>: isto é do reinado da
+igualdade, da liberdade, da fraternidade humana. Porque se não ha de abolir
+este nefando systema aperfeiçoando as coisas existentes, dando ás ideias
+diversa direcção, melhorando as leis e os habitos e os costumes? Vós,
+provincial Simão Rodrigues, confiaes que, submettendo o povo ao jugo da
+escravidão e roubando-lhe a luz do sol nas abobadas dos carceres, conseguis a
+regeneração da sociedade civil e a grandesa da igreja catholica. Mas por<span
+class="pn"><a name="pag_170">{170}</a></span> acaso ignoraes que a consciencia
+publica e o senso universal reprovam com vehemencia as traças e ardis
+empregados pelo vosso systema estacionario e fanatico, systema vergonhoso que
+directamente conduz á anniquilação e ao opprobrio? As nações não podem viver
+sem leis de egualdade na distribuição dos bens e dos males, dos cargos e
+beneficios. Não podem os homens coexistir e prosperar sem as vantagens de uma
+associação commum. Como é pois que a vossa corporação de jesuitas ambiciona
+dispor de todas as forças e riquesas, de todos os elementos de soberania e de
+todos os graus de despotismo? Não comprehendeis o grande pensamento do
+dever&mdash;que é a lei da vida, a grandiosa ideia do bem&mdash;que é o dever da
+humanidade! Conheço que debalde cairei sem nome nem gloria como o soldado
+ferido no fragor dos combates. Mas eu vos profetiso, Simão Rodrigues, eu vos
+profetiso que ainda um dia, ao grito de triunfo dos meus irmãos, ha de sobre as
+cinzas frias do jesuitismo e dos Cains do Santo Officio erguer-se em canticos
+de alegria o altar da liberdade!<span class="pn"><a
+name="pag_171">{171}</a></span></p>
+
+<p>Logo Simão Rodrigues se dispunha a esfriar a impressão do democratico
+discurso do badage; mas Catharina de Austria, com a fronte radiosa de firmesa e
+coragem, apressou-se a diser para seu esposo:</p>
+
+<p>&mdash;Não approvaes, senhor, os gentis e nobres sentimentos d'este mancebo? Por
+Deus vos declaro que não conheço em nossos reinos mais generoso fidalgo nem
+mais leal vassallo!</p>
+
+<p>&mdash;Assim o creio, concordou o monarcha impressionado por um estranho
+sentimento de generosidade. Tanto que resolvo mostrar-lhe a minha gratidão e a
+minha graça. Ficas satisfeito, proseguiu ao dirigir-se affavelmente ao badage,
+em aceitar a commissão com que me apraz honrar-vos? Quero provar-vos com animo
+generoso que sei premiar as virtudes e serviços dos meus vassallos...</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, atalhou com um olhar de fogo o jesuita Simão Rodrigues, por Deus
+que vos não pertence premiar os herejes nem os criminosos!</p>
+
+<p>&mdash;Jamais um monarcha de Portugal deixará de cumprir quanto prometteu...
+Pagem! mando-vos substituir nos meus dominios da India<span class="pn"><a
+name="pag_172">{172}</a></span> com os mesmos foros e jurisdicção o viso-rei
+Dom Affonso de Noronha.</p>
+
+<p>Seguidamente fôra o badage abraçado com espontaneas manifestações de
+contentamento pelo seu sincero amigo o duque de Beja.</p>
+
+<p>&mdash;Fez-se justiça, fez-se justiça por fim! exclama a rainha com viva explosão
+de enthusiasmo.</p>
+
+<p>Experimentaram os nervos do badage uma passageira commoção, humildemente
+recurvou elle pela primeira vez a sua cabeça altiva e com brandura ajoelhou aos
+pés do sombrio monarcha:</p>
+
+<p>&mdash;Muito agradeço a vossa altesa, lhe disse, as honrarias e os louvores; mas
+consinta-me que não aceite.</p>
+
+<p>&mdash;Puf! meu rapaz. Pareces bem orgulhoso e bem louco. Pois já te não convem o
+viso-reinado das Indias?</p>
+
+<p>Ao successor de Dom Manoel, o glorioso principe que tam respeitado e temido
+fisera no Oriente o nome portuguez, retrucou o indio com magestosa serenidade:
+</p>
+
+<p>&mdash;Parto para as agras e florestas do meu<span class="pn"><a
+name="pag_173">{173}</a></span> paiz; mas deixe-me vossa altesa partir sem
+honrarias nem proveito. Não me sedusem as grandesas da vida nem os avellorios
+do mundo. Christão velho ou christão novo, deveras ficarei contente com dar a
+Simão Rodrigues um exemplo de modestia e uma lição de humildade!<span
+class="pn"><a name="pag_174">{174}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot172" href="#tex2html18"><sup>[18]</sup></a> Lamennais. <em>Du
+passé et de l'avenir du peuple.</em></p>
+</div>
+
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_175">{175}</a></span></p>
+
+<h1>XVI</h1>
+
+
+<h2>A VINGANÇA</h2>
+
+<p>Foi annunciado o almoço e
+então suas altesas as pessoas reaes, acompanhadas de suas senhorias os
+conselheiros e o celebre provincial, poseram logo termo á audiencia.</p>
+
+<p>Apenas se conservou na sala o badage.</p>
+
+<p>&mdash;Talvez me chamem desassisado, scismou elle. Regeitar assim riquesas e
+titulos!... Grande virtude e grande proesa, na verdade... Quem não gosta de
+elevar-se e engrandecer-se, quem não deseja passar de braço erguido por cima da
+cabeça dos outros, embora á custa da sua consciencia e da sua dignidade?
+Todavia do meu<span class="pn"><a name="pag_176">{176}</a></span> procedimento
+não me arrependerei nunca. As Indias são emporio de riquesas e eu depressa
+possuiria armasens de fasendas e especiarias, cofres de joias e de barras de
+ouro... Mas quem me dava todos esses bens? Porventura sua altesa serenissima? O
+rei, no seu officio inalteravel de gastar, dispõe dos haveres e dos suores do
+povo, a massa que produz e trabalha. De certo deveria a minha fortuna ás
+generosidades do rei... Mas não és tu&mdash;a maior, a grande porção da
+humanidade&mdash;que trabalhas e que produses e que tudo vaes pagando?... Povo, das
+bagas do teu suor é que nascem as perolas das coroas regias. Eu comprehendo
+isso, comprehendo! Havia pois de enriquecer-me á vossa custa, meus irmãos?</p>
+
+<p>O badage sentou-se na luxuosa estadella do monarcha, dobrou a cabeça sobre
+os braços crusados na beira da mesa e assim por alguns momentos permaneceu como
+adormecido pelo cansaço. Entregava o seu espirito á meditação, porque logo
+alteou a sua cabeça esbelta e se dispoz lentamente a escrever.</p>
+
+<p>Todos os mais intimos e sinceros sentimentos<span class="pn"><a
+name="pag_177">{177}</a></span> do seu coração transmittia-os agora a meia
+folha de papel. Estava confiando por meio das letras alfabeticas de uma carta
+dirigida a Catharina de Austria os seus fervorosos affectos e as suas saudosas
+despedidas.</p>
+
+<p>&mdash;Amei-a com dedicação! monologava elle quando acabou de escrever. Mais
+pelas prendas do seu espirito que pelas bellesas do seu corpo... Conheci-a
+sempre bondosa e casta como os anjos. O orgulho, a soberba e a impudicicia de
+uma rainha são vicios que jamais lhe empanaram o brilho das suas virtudes. Não
+me esquecerei nunca de abençoar o seu nome e de estremecer a sua imagem. Nobre
+e gentil senhora! quem soffreria os impetos e cruesas de vosso esposo, o lobo
+sombrio e fanatico, se não fossem as vossas caricias e os vossos conselhos de
+ovelha paciente e delicada?</p>
+
+<p>Leu a carta seguidamente, reflectiu ainda por alguns minutos e rasgou-a em
+varios pedaços a final.</p>
+
+<p>&mdash;Não! reconsidera com altivez. Não darei eu esta prova de fraquesa.
+Coragem, coragem!... Sempre, como perola escondida na clausura da<span
+class="pn"><a name="pag_178">{178}</a></span> concha, apertarei nos meus seios
+de alma o segredo dos meus amores. Quem sabe se lhe causaria despreso em vez de
+saudade, riso em vez de compaixão?</p>
+
+<p>O badage levantou-se bruscamente da estadella, correu as vistas pelas
+douradas paredes da sala e dirigiu os passos para o lumiar da porta.</p>
+
+<p>Aquelle palacio escaldava-lhe a cabeça como se o abrasasse a cratera de um
+volcão.</p>
+
+<p>Resolvera abandonal-o para sempre e já caminhava ao longo do corredor quando
+um magro personagem de semblante pallido como o de um cadaver e de vestes
+negras á semelhança de um fantasma o obriga a parar improvisamente.</p>
+
+<p>Em repasto da sua vingança, não se recusara Simão Rodrigues a ensanguentar o
+seu punhal traiçoeiro. Elle em carne e osso, com o punhal escondido na manga da
+roupeta, aguardava o pagem na penumbra solitaria do corredor.</p>
+
+<p>O pagem cahiu, com effeito, ao borbulhar do seio um jorro de sangue. Não
+acodiria braço que o protegesse nem medicina que o salvasse.<span class="pn"><a
+name="pag_179">{179}</a></span> Crisparam-se-lhe os dedos, arroxearam-se-lhe os
+beiços, empallideceram-lhe as faces e entregou a Deus o derradeiro alento da
+sua juvenil existencia depois de articular esta crudelissima ironia:</p>
+
+<p>&mdash;É assim... que se vingam... os filhos de... Ignacio de... Loyola!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div align="center">
+FIM. </div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div align="center">
+</div>
+
+</div>
+
+<h2>INDICE</h2>
+
+<table align="center" border="0" summary="Indice">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td colspan="3"><a href="#pag_5">Algumas palavras</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_5">5</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-aliGN:RIGHT;">I</td>
+ <td>&mdash;</td>
+ <td><a href="#pag_11">Ciumes de um rei</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_11">11</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">II</td>
+ <td>&mdash;</td>
+ <td><a href="#pag_23">Os reis não costumam perdoar as offensas
+ recebidas</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_23">23</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">III</td>
+ <td>&mdash;</td>
+ <td><a href="#pag_35">Recompensa do crime</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_35">35</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">IV</td>
+ <td>&mdash;</td>
+ <td><a href="#pag_53">O festim de Balthasar</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_53">53</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">V</td>
+ <td>&mdash;</td>
+ <td><a href="#pag_65">Orações e jejuns redimem todas as culpas</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_65">65</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">VI</td>
+ <td>&mdash;</td>
+ <td><a href="#pag_75">A caçada</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_75">75</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">VII</td>
+ <td>&mdash;</td>
+ <td><a href="#pag_85">A luta</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_85">85</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">VIII</td>
+ <td>&mdash;</td>
+ <td><a href="#pag_95">Os estaus</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_95">95</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">IX</td>
+ <td>&mdash;</td>
+ <td><a href="#pag_105">O carcereiro</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_105">105</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">X</td>
+ <td>&mdash;</td>
+ <td><a href="#pag_115">Vantagem de dous contra um</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_115">115</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XI</td>
+ <td>&mdash;</td>
+ <td><a href="#pag_123">A taverna</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_123">123</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XII</td>
+ <td>&mdash;</td>
+ <td><a href="#pag_139">Referta de tigres e leões</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_139">139</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XIII</td>
+ <td>&mdash;</td>
+ <td><a href="#pag_145">O leito da dor</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_145">145</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XIV</td>
+ <td>&mdash;</td>
+ <td><a href="#pag_155">Effeitos do veneno</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_155">155</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XV</td>
+ <td>&mdash;</td>
+ <td><a href="#pag_165">O perdão</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_165">165</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XVI</td>
+ <td>&mdash;</td>
+ <td><a href="#pag_175">A vingança</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_175">175</a></td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p align="center">PORTO&mdash;IMPRENSA PORTUGUEZA</p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Christão novo, by Diogo de Macedo
+
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+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+
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