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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:47:11 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Christão novo + Romance Historico do Seculo XVI + +Author: Diogo de Macedo + +Release Date: June 30, 2009 [EBook #29275] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CHRISTÃO NOVO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + + +<div style="text-align:center; border: double 6px #000;"> +<p> </p> +<p style="font-size: 1.2em;"><em>DIOGO DE MACEDO</em></p> + +<p style="font-size: 2.5em;">O CHRISTÃO NOVO</p> + +<p>ROMANCE HISTORICO DO SECULO XVI</p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<p>———</p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<p>PORTO <br> +IMPRENSA PORTUGUESA <br> +Rua do Bomjardim, 181 <br> +—<br> +1876</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.2em;">O CHRISTÃO NOVO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.2em;"><em>DIOGO DE MACEDO</em></p> + +<p style="font-size: 2.5em;">O CHRISTÃO NOVO</p> + +<p>ROMANCE HISTORICO DO SECULO XVI</p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<p>———</p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<p>PORTO <br> +IMPRENSA PORTUGUESA <br> +Rua do Bomjardim, 181 <br> +—<br> +1876</p> +</div> + +<p> <span class="pn"><a +name="pag_5">{5}</a></span></p> + +<div id="corpo"> +<p> </p> + +<h1>ALGUMAS PALAVRAS</h1> + +<p><em>Historia, segundo Cesar Cantu, é a narração dos factos considerados +verdadeiros. Tem por fim a verdade, porque, no conceito de Alexandre Herculano, +encarrega-se de averiguar qual foi a existencia das gerações que passaram.</em> +</p> + +<p><em>Não deve porém considerar-se tam seria e limitada a periferia do +romance. O romance póde ser tambem a reproducção e apreciação dos eventos e +phenomenos sociaes subordinados a uma certa ordem chronologica e a uma +classificação methodica; mas, porque tem menos responsabilidade, +concedem-se-lhe mais fóros de liberdade e licença do que a esse grande e +solemne registo publico chamado historia.</em><span class="pn"><a +name="pag_6">{6}</a></span></p> + +<p><em>Pennejar-se conseguintemente um romance com todas as prescripções +historicas, é obrigação que a critica nem o bom senso exigem. O romance, não +querendo asphixiar os seus leitores em um ambiente de opio e monotonia, apenas +aproveita da historia o fundo e a base: as datas e os factos cardinaes. Em +quanto aos contornos e ás linhas e ás côres, aos personagens ainda e ainda ao +dialogo e á urdidura, usou sempre, seja elle engenhado por Walter Scott ou seja +devido á imaginativa de Alexandre Dumas, de facil e plena liberdade. Mais ainda +do que louçanias e filigranas de estilo se reclamam, para repasto da +curiosidade, os meandros e caprichos da phantasia. Só por imposição de estranho +despotismo se deve sugeitar a contextura do romance historico a toda a +fidelidade ethnologica e a todo o rigor dos acontecimentos. A narrativa e +apreciação dos factos considerados verdadeiros—a historia—não podem +associar-se de nenhum modo aos partos da imaginação e aos caprichos da +phantasia—o romance.</em></p> + +<p><em>Comprehendendo-se portanto a differença que faz a historia, propriamente +sciencia natural, do romance, simplesmente exercicio litterario, não se deve +estranhar a maneira como pensei e escrevi. Sem o auxilio da imaginação como se +conseguiria entreter a curiosidade e passar o tempo no decurso de algumas +dusias de paginas com as descripções dos obscuros successos dos dous seccos e +aridos annos de 1553 e 1554?</em></p> + +<p><em>É coisa natural que eu bastantemente abusasse das<span class="pn"><a +name="pag_7">{7}</a></span> liberdades de romancista. Por exemplo, do meu livro +translusem o caracter e a phisionomia de Simão Rodrigues com menos vantagens e +virtudes do que as que lhes foram munificamente abonadas pela tradição e pela +escriptura. Disse-se do celebre discipulo de Ignacio de Loyola que morreu (15 +de julho de 1579) com acrisolados sentimentos de religião. Nada o assombrava +nem esmorecia quando se tratava do serviço de Deus, sabendo sempre em sua vida +manifestar os mais austeros principios de abnegação e dando em todos os seus +actos os mais louvaveis exemplos de sabedoria.</em></p> + +<p><em>Egualmente a indole e os costumes de Dom João III não se descortinam em +painel que satisfaça as exigencias da critica e o rigor da verdade. Será Dom +João III o monarcha fanatico e frouxo retratado com as tintas sombrias da +palheta de Alexandre Herculano, ou antes o principe virtuoso e prudentissimo +que, segundo os annaes louvaminheiros de Frei Luiz de Sousa, foi,</em> sem a +nenhum fasermos aggravo, um dos primeiros entre os que louvamos de grandes e +excellentes virtudes?</p> + +<p><em>Emfim referem os chronistas que o joven esposo da infanta de Castella, +essa princesa não pouco memorada pela energica protecção com que mais tarde +ensoberbecera o animo pusillanime de Christovam de Moura, falleceu de +enfraquecimento phisico dous meses depois do seu faustoso matrimonio. Eu faço-o +padecer no leito frio da morte os effeitos inclementes do veneno!</em></p> + +<p><em>Em quanto a ideias religiosas e a ideias politicas<span class="pn"><a +name="pag_8">{8}</a></span> principalmente, reconheço, como com magica +eloquencia observa Emilio Castelar na vida de Lord Byron, que tem este seculo +incerto desde o seu começo vacillado entre a rasão e a fé, entre o direito e a +tradição, entre a liberdade e o cesarismo; porém julgo-me no direito de não +simpathisar com esse esqueleto de corôa de ferro na cabeça e de guela a +trovejar vinganças, com esse systema obsoleto e feudal que felizmente passou ao +mundo das tradições depois de por tantos seculos haver sido o protogonista do +grandioso drama ou da grande tragedia da historia. Esse infeliz regimen, o das +praticas e theorias theocraticas do absolutismo, já não preoccupa hoje em dia, +apesar de ainda conservar alguns alentos de cadaver, o espirito dos economistas +e o genio dos philosophos. Hoje a escolha decide-se pela monarchia +constitucional ou pelo governo democratico. Simplesmente o que resta averiguar +em amigavel concordancia é qual dos dous systemas offerece maior numero de +vantagens sociaes e melhormente contribue para a emancipação geral dos povos. +Eu presumo que todas as tendencias da mocidade preferem as doutrinas +republicanas por serem as mais desinteressadas e que todos os calculos da idade +viril abraçam os ouropeis da monarchia por serem de todos os systemas politicos +o que mais satisfaz a vaidade e as ambições dos homens. Haverá por isso quem +recrimine os meus devaneios democraticos e deteste as minhas expansões +liberaes? Deve comprehender-se que á consciencia repugnam todas as peias e que +as conquistas do<span class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span> progresso não +obrigam o espirito do homem á filiação ou observancia de uma unica fórma ou +theoria de governo.</em></p> + +<p><em>Ainda tambem relativamente a formulas e sentimentos religiosos duas +ideias se devem estremar: a ideia de Deus e a dos seus representantes na terra. +As obras e immunidades do gremio catholico não saberei respeital-as com aquelle +mistico fervor e aquellas espirituaes dedicações que me possam grangear nome e +gloria nas lendas hagiolicas; mas a ideia de Deus, sinthese de todo o bem e +espelho de todas as perfeições, venero-a sem vislumbres de duvida e com o vigor +mais intimo das minhas crenças.</em></p> + +<p><em>Não crer na bondade dos padres não é descrer das bondades divinas. Nos +tempos em que mais se invocava o simbolo da cruz e mais se pelejou pela fé +catholica, a christandade que de exemplos nos ministrou de acções e virtudes +menos orthodoxas! Conta H. Taine que Ricardo, o coração de leão, quiz um dia +sob os muros de San João de Acre comer a toda a força carne de porco. Não havia +carne de porco por mais que se procurasse. Lembra-se o cosinheiro de matar um +sarraceno gordo e tenro; salga-o e cose-o seguidamente. O rei come-o e +encontra-o delicioso. Quiz depois ver a cabeça do seu porco e o cosinheiro lh'a +conduz possuido de grandes tremuras. O rei põe-se a rir e diz que o seu +exercito não póde recear a fome porque tem á mão fartura de provisões.</em></p> + +<p><em>Então, quando os devotos e defensores da cruz fasiam<span class="pn"><a +name="pag_10">{10}</a></span> a guerra aos sarracenos, ouvia-se sempre a voz +dos anjos dos ceus que dizia:</em> Matae, matae! Não poupeis ninguem; cortae a +todos a cabeça! <em>Esta voz dos anjos era ouvida pelos christãos e por isso +tomando-se qualquer villa ou cidade tudo se passava a fio de espada, crianças +ou mulheres. Na tomada de Jerusalem setenta mil pessoas, o que prefasia toda a +população, foram exterminadas cruelmente</em><a name="tex2html1" +href="#foot160"><sup>[1]</sup></a><em>!</em></p> + +<p><em>Bem mais delongadas observações em abono de creditos litterarios e +sobretudo por descargo de consciencia se tornavam talvez indispensaveis; mas eu +encorporo-me no avultado numero dos que reconhecem a inutilidade e o +desprestigio dos prologos. Não ha juisos nem avisos que salvem das voragens do +esquecimento um ruim livro. Se o livro é mal escrito e delineado, todos os +cordiaes e remedios são falliveis e impotentes da mesma sorte que, se o livro é +de materia agradavel e perfeita, dispensa facilmente a importancia ou a +formalidade dos prologos.</em></p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot160" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> <em>H. Taine. Hist. +de la litt. anglaise, t. I.</em></p> +</div> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span></p> + +<h1>O CHRISTÃO NOVO</h1> + +<p> </p> + +<h1>I</h1> + + +<h2>CIUMES DE UM REI</h2> + +<p>Por uma das mais somnolentas e placidas noites dos fins de outubro de 1553, +no desvão de esguia janella do palacio dos nossos reis estava casual ou +intencionalmente encoberto pelas dobras de soberba cortina de rendas de +Flandres um personagem vestido com gibão de veludo preto.</p> + +<p>Usava elle de curta cabelladura côr de castanha e não inculcava mais de +cincoenta annos de idade<a name="tex2html2" href="#foot60"><sup>[2]</sup></a>. +Em volta do pescoço alvejava-lhe<span class="pn"><a +name="pag_12">{12}</a></span> uma das amplas gorgueiras encanudadas que, na +frase picaresca de um novellista espanhol, davam á cabeça o irrisorio aspecto +de um melão collocado em cima de um prato de porcelana branca. +Pronunciava-se-lhe bem um nariz em demasia grosso, era baixo da corporatura +como qualquer burguez e parecia reforçado dos musculos como um legitimo +descendente de Hercules.</p> + +<p>Para melhormente sobresairem as tintas: «em mean estatura grande proporção +de membros; olhos entre verdes e asues; boca vermelha; rosto alvo e de boa côr. +Notava-se-lhe o pescoço um pouco curto e a cintura grossa, mas não que chegasse +a desar<a name="tex2html3" href="#foot161"><sup>[3]</sup></a>.»</p> + +<p>Dominava-o finalmente a prurigem da impaciencia ou da curiosidade. +Translusiam-lhe no rosto arredondado a feição sombria do seu caracter e no +sorriso confrangido a indecisa severidade do seu genio. Algum acontecimento +inesperado lhe impressionara sobremaneira o espirito e certamente era essa uma +das mais<span class="pn"><a name="pag_13">{13}</a></span> criticas situações a +que submettera a sua delicada sensibilidade.</p> + +<p>Nada com effeito de mais critica e extraordinaria situação.</p> + +<p>Aquella esguia janella gothica pertencia ao quarto de dormir de uma poderosa +mulher e no centro do quarto via-se um dos mais nobres e esbeltos personagens +do segundo quartel do seculo XVI dado a indiscreta conversação com essa mulher +em quem todos «descobriam raras e heroicas virtudes, grande zelo e piedade +christan, grande brandura e affabilidade em obras e palavras para com grandes e +pequenos.<a name="tex2html4" href="#foot162"><sup>[4]</sup></a>»</p> + +<p>—Que nunca eu mereça o vosso desdem, exprimia-se elle com accento de +ternura e de respeito. Confio nos sentimentos do vosso coração e da vossa +nobresa, senhora. A não depositar nas vossas mãos a redoma das minhas +esperanças, teria levado o meu corpo á defensão da praça de Arzilla ou das +heroicas muralhas de Dio...<span class="pn"><a name="pag_14">{14}</a></span> +</p> + +<p>—Socegae, Dom Prior. Nada de perder o animo. Bem sabeis que de pouco serve +o meu valimento; mas ainda assim me decidirei quanto possa em vosso auxilio. +</p> + +<p>—É tudo o que vos supplico, porque sei que nada vos recusa el-rei...</p> + +<p>—Em pouco mais pensa el-rei do que no zelo da religião e no culto de Deus. +As nossas praças de Africa vão sendo abandonadas pelas lanças dos portugueses e +fracos são os reforços de soldados e munições com que se acode aos ricos +dominios das Indias. Escuta lá el-rei os meus conselhos!</p> + +<p>—A quem ha de ouvir senão a vós, senhora?</p> + +<p>—Attende em mais e em tudo o reverendo Simão Rodrigues e esse terrivel +prelado João Soares. Elle não conhece outro amor que não seja a puresa da fé e +não respeita outros homens que não sejam os jesuitas... Amor do povo e da +patria como o nutriam em seus heroicos seios seu pai e avô Dom Manoel e Dom +João! Jámais esses bons monarchas offenderam a religião de Christo e sempre +todavia se cumularam<span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span> de gloria +sem tribuanes de inquisição e sem ordens de jesuitas...</p> + +<p>—Não vos tacharei de injusta por não faltar-vos ao respeito, senhora minha. +Certo é que Dom João presta ouvidos a Simão Rodrigues, criou o venerando +collegio de Coimbra, estabeleceu em nossos reinos a mesa do Santo Officio e +toda a sua alma se affervora no zelo da religião catholica; mas todas essas +virtudes são effeito de piedade e não de falta de civica devoção. Ama tanto a +fortuna dos filhos de Loyola e dos discipulos de Torquemada como o bem dos seus +vassallos...</p> + +<p>—Não que o não fadaram os céus com a vossa indole, Dom Luiz. Por estas +lagrimas o digo, accrescentou levando o lenço aos olhos. Que differença tam +grande entre irmão e irmão! A vós não vos fallece galantaria nem juiso. Sois +valente e generoso a um tempo. Todos vos apontam como enlevo das damas, +captivaes as affeições do povo e mereceis a estimação dos mais esforçados +cavalleiros da côrte...</p> + +<p>—Não me lisongeeis assim, que podem escutar-vos e de mim curtirem +ciumes.<span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span></p> + +<p>—Ninguem me culpará perante Deus nem perante os homens. Sabe de sobejo meu +esposo quaes são os meus sentimentos a seu respeito. Amor com amor se paga e +por isso não deve tomar a mal que lhe eu pague com indifferença as suas frias +indifferenças.</p> + +<p>—Julgo que nada padecereis, senhora. Mas fallo por mim...</p> + +<p>Ainda não eram concluidas taes palavras quando de repente a cortina se +desvenda e o personagem que se conservara achegado ao peitoril da janella se +adianta com passo grave.</p> + +<p>Parecia, embora a frase tenha laivos de sediça, a estatua severa do +Commendador. Era agora, ao contrario das côres naturaes, pallido e altivo do +rosto. Dos grossos labios desferia um sorriso de neve. Dos seus olhos entre +verdes e asues dardejava um lampejo de indignação que devera ferir como o raio. +</p> + +<p>Talvez se esperasse a tremenda explosão de colera por muitos dias sopitada. +Entretanto o grave personagem declarou com serenidade:</p> + +<p>—Nada receeis, meu nobre irmão...</p> + +<p>Dom Luiz quedou em silencio. Ou a voz se<span class="pn"><a +name="pag_17">{17}</a></span> lhe prendeu nas fauces ou o respeito o fez calar. +Com porte severo e imponente apresentava-se-lhe de subito o muito alto e +poderoso rei de Portugal e dos Algarves, sua altesa serenissima o senhor Dom +João III.</p> + +<p>Era para Dom Luiz das mais solemnes e apertadas semelhante situação. Antes +mil veses se quisera em luta encarniçada com os mouros de Asamor ou com as +hordas do samorim de Calicut. Dom Luiz de Beja, Prior do Crato, digno infante +de Portugal e esforçado filho de Dom Manuel foi havido sempre no consenso +publico por cavalleiro valeroso e destemido. Em provas de coragem não no +excederam os Pachecos nem os Albuquerques e ninguem com mais galhardia soube +ainda no officio das armas brandir uma lança ou empunhar uma espada. D'elle +recontam chronistas e historiadores que principe nenhum soube dar-se ao +respeito melhormente ou faser em sua vida com que o amassem tanto. «O amor que +os portugueses lhe tinham passava a idolatria. Adornavam-no todas as partes que +podem fazer-se credoras da estima dos homens. Era nobre e generoso, compassivo +e<span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a></span> valente, affavel e tam +ousado que passava a destemido.</p> + +<p>«A estas gentis condições andavam annexas muita mansidão na sociedade e rara +prudencia nos negocios. Era guapo e bem feito; sensivel, terno e deveras +affeiçoado ao trato das senhoras.</p> + +<p>«A fama das suas boas partes moraes e phisionomicas voára até os paizes +estrangeiros. No serralho do xerife de Marrocos grangeara grande estima e uma +das suas filhas morria de amores por elle. Todas as veses que a nobre donzella +encontrava Dom Diogo das Torres, captivo a quem se facultava entrada livre no +palacio por ser protegido de Muley Abel Mumen, irmão do xerife, nunca se +fartava de fallar-lhe no infante. Um dia que passeava nos jardins do palacio +viu Dom Diogo e chamou-o para lhe diser: «Colhei de aqui algumas flores e tecei +com ellas uma corôa semelhante ás que trasem os principes christãos». Obedeceu +Dom Diogo das Torres e cuidou de offerecer-lh'a. Tomando-a então e pondo a +corôa na cabeça encantadora, ella lhe disse: «Permittam os ceus que eu algum +dia viva unida com o infante Dom Luiz como sua<span class="pn"><a +name="pag_19">{19}</a></span>esposa e que, sendo elle o rei, eu seja a rainha +de Portugal!<a name="tex2html5" href="#foot163"><sup>[5]</sup></a>»</p> + +<p>Mas agora a conjunctura não demandava feitos de valor nem proesas de +galanteria. Atrevera-se Dom Luiz entrar a sós em aposentos que apenas não eram +vedados á pessoa do monarcha portuguez: a alcova nupcial de Catharina de +Austria, essa virtuosa irman do Cesar das Espanhas, o victorioso imperador +Carlos V!</p> + +<p>Mal decorreram alguns instantes quando se voltou el-rei para sua esposa a +diser-lhe pausadamente e com um sorriso glacial:</p> + +<p>—Deveis desculpar-me, senhora, o vir interromper-vos nos vossos galanteios. +Por Deus que vos dou uma lição que vos deve servir para de outra vez terdes em +mais recato o pudor e a honra de uma rainha; mas sempre se desculpam os maus +humores de um esposo e por isso espero de vós que não tomeis a mal a minha +presença.</p> + +<p>Ás veias da orgulhosa princesa de Castella refluiu todo o sangue celta da +raça de seu pae<span class="pn"><a name="pag_20">{20}</a></span> Filippe I, +aprumou o seu bello pescoço de garça como se nada houvesse que temer, fitou +firmemente com um olhar de aguia o semblante pallido de Dom João III e de +prompto impugnou com a austera dignidade de uma rainha:</p> + +<p>—Jamais tive galanteios que não fossem para vós, senhor meu esposo!</p> + +<p>Sorriu o monarcha d'esta vez com aquelle sorriso contrafeito que lhe era +peculiar e por ventura se dispunha a retorquir em termos de menos restricta +etiqueta quando o infante se lhe dirige assim:</p> + +<p>—Assaz vos hei provado, meu irmão e senhor, a força da minha lealdade e o +quilate da minha honradez. Sabei que junto da camara de vossa altesa não me +trouxeram galanteios. Antes retalhara o coração com o gume da minha espada do +que faltar algum dia á fidelidade e ás homenagens que a vós e a ella vos devo. +Missão de outra naturesa me guiou á presença da esposa de vossa altesa +serenissima. Vim pedir-lhe, senhor, que vos amolgue o genio á compaixão e vos +decida a resgatar a honra de Dona Violante Gomes...<span class="pn"><a +name="pag_21">{21}</a></span></p> + +<p>A este suave nome de Violante Gomes pareceu sobresaltar-se o animo de +el-rei. Os olhos, que até ahi os conservara como pregados na alcatifa multicor +do aposento, erguera-os ao nivel do olhar do irmão e pareciam em semelhante +conjuncção animados de uma estranha vivacidade. Mostrava-se agora mais varonil +a phisionomia e mais aprumada a estatura do fanatico Dom João III.</p> + +<p>—Insensato que sois, meu irmão! Violante Gomes talvez algum dia venha a ser +vossa esposa; mas juro-vos... juro-vos que, em quanto eu viva, nunca Dom João +consentirá que uma barregan se associe á familia dos monarchas de Portugal!</p> + +<p>Inesperadamente assomou um vislumbre de colera ás faces amarellecidas do +infante. Pouco lhe quedaria para se esquecer da obediencia que jurara a el-rei, +quando Catharina de Austria adianta dous passos e se colloca de permeio como +decidida a conjurar a tempestade.</p> + +<p>—É de justiça, aventurou-se a interceder, o que vos implora o infante Dom +Luiz. Fará o vosso rigor com que mais se deva tomar-vos<span class="pn"><a +name="pag_22">{22}</a></span> por tiranno que por monarcha. Elle falla em nome +da humanidade e da honra, duas virtudes que o vosso espirito não poderá +desconhecer nem póde repulsar. Por isso não vos merece a resposta do orgulho e +do fanatismo...</p> + +<p>—Diseis bem, applaudiu Dom João com modos brandos e com uma indefinivel +expressão que só elle e Machiavelo sabiam fingir. Diseis bem; mas esses +negocios ficam para mais tarde. Veremos se elles interessam ao esplendor da +religião e ao bem do estado.</p> + +<p>Estendendo depois o braço para a porta do aposento, pareceu indicar a Dom +Luiz que era chegado o desfecho da entrevista.</p> + +<p>Dom Luiz de Beja, baixando a cabeça e não arredando os olhos do chão, +dirigiu-se machinalmente para a porta e se retirou em completo silencio.</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot60" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Nasceu a 2 de janeiro +de 1502.</p> + +<p><a name="foot161" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Frei Luiz de Sousa. +<em>Annaes</em>, liv. I, cap. IV.</p> + +<p><a name="foot162" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Frei Luiz de Sousa. +<em>Annaes</em>, liv. III, cap. 11.</p> + +<p><a name="foot163" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> La Clede. <em>Hist. +ger. de Portug.</em></p> +</div> + +<p><span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span></p> + +<h1>II</h1> + + +<h2>OS REIS NÃO COSTUMAM PERDOAR AS OFFENSAS RECEBIDAS</h2> + +<p>Atravessara Dom Luiz a comprida sala chamada ordinariamente dos +<em>tudescos</em> e se dispunha a descer a marmorea escadaria dos reaes paços +da Ribeira quando se lhe aproxima um dos pagens de Catharina de Austria e, em +tom de quem dá conselhos, ousa segredar-lhe assim:</p> + +<p>—Tomae cuidado. Os reis não costumam perdoar as offensas que recebem.</p> + +<p>Ao misterioso aviso quasi que Dom Luiz não prestara ouvidos. Embuçando-se +cautelosamente na sua fina capa de panno verde e carregando sobre os olhos o +seu amplo chapeu<span class="pn"><a name="pag_24">{24}</a></span> de feltro +enfeitado com bella pluma branca, atravessou a larga escadaria e em dous +momentos se apresenta no meio do espaçoso terreiro.</p> + +<p>O Tejo, esse rio de arêas de ouro tam decantado pelos poetas, dormia +placidamente. Soaram onze horas e o ceu mostrava-se empanado de sombrias +nuvens. Raras pessoas transitavam pelas ruas da opulenta capital. Apenas de +longe a longe o bronze dos campanarios vinha alterar a prolongada monotonia da +noite.</p> + +<p>O infante, olhando a custo para as aguas ensombradas do Tejo, parecia +meditar. Depois abandonou o terreiro e a passo lento seguiu pela rua da Palha a +direcção da praça do Rocio.</p> + +<p>Absorvido em estranhos pensamentos ia elle no seu caminho quando lhe surdem +inesperadamente de cara tres vultos agigantados.</p> + +<p>Em seguida sentiu no peito a lamina de dous punhaes e certamente o seu corpo +ficaria sem forças e sem vida se os punhaes não resvalassem no aço finissimo de +uma cota de malhas.</p> + +<p>—Covardes! gritou Dom Luiz ao mesmo<span class="pn"><a +name="pag_25">{25}</a></span> tempo que desembainhava a espada e que se poz em +guarda.</p> + +<p>Immediatamente se crusaram tres espadas contra uma.</p> + +<p>Era em extremo fino e destro no jogo das armas brancas Dom Luiz de Beja. Mas +os seus adversarios mostravam-se lestos e ageis tambem. Além d'isso +ajuntavam-se tres contra um. Não podia ser mais melindrosa a posição do +infante.</p> + +<p>Por fortuna, quando já o suor lhe escorria pelas barbas e principiava de +debilitar-se-lhe o pulso, eis que um novo personagem se intromette na peleja. +</p> + +<p>Depressa cáe por terra o mais alentado dos aggressores e os dous restantes, +naturalmente com receio da morte, poseram-se em immediata e vergonhosa +retirada.</p> + +<p>—Obrigado, meu amigo, agradece o infante no momento em que aperta com +fraternal reconhecimento a destra do seu salvador.</p> + +<p>Era elle o mesmo pagem que nos paços da Ribeira lhe segredara +misteriosamente: <em>Cautela, que os reis não perdoam as offensas que +recebem!</em><span class="pn"><a name="pag_26">{26}</a></span></p> + +<p>Por causa das sombras da noite não se lhe distinguiam as feições: +poder-se-hia divisar apenas que era fransino do corpo e que lhe relusiam os +olhos como a chamma de um lampadario.</p> + +<p>Sorriu-se ouvindo os agradecimentos e, talvez com traça de se esquivar a +novos protestos de gratidão, pretendeu retirar-se. O infante porém agarrou-lhe +meigamente o braço e pediu-lhe que o acompanhasse.</p> + +<p>Pouco adiante, a confinar com o adro de San Domingos, elevava-se em um +angulo meridional do Rocio uma elegante e vistosa casaria.</p> + +<p>O infante bateu de rijo com os copos da espada tres pancadas no portal e a +porta franqueou-se-lhe minutos depois.</p> + +<p>Ambos subiram os degraus de uma escadaria resguardada de tapetes e depressa +alcançaram assim o primeiro andar da casa.</p> + +<p>Introduziu-os um domestico em uma sala de paredes vistosamente forradas de +ricos pannos de Arras e toda mobilada com largas cadeiras cobertas de seda +escarlate.</p> + +<p>D'esta sala passaram a um gabinete de exiguas<span class="pn"><a +name="pag_27">{27}</a></span> dimensões onde a seda, o brocado, as rendas e os +cristaes de Venesa offereciam ás vistas um aspecto encantador.</p> + +<p>Mais adiante abriu-se-lhes um salão da mais requintada opulencia. Tudo ahi +reçumava riquesa e bom gosto. Julgar-se-hia logo a perfumada recamara de uma +princesa.</p> + +<p>Os reposteiros foram talhados de uma preciosa fasenda da Persia que Dom +Affonso de Noronha mandara recentemente nos galeões das Indias. Não eram as +tapeçarias que cobriam o soalho de menos valor e variedade. Por toda a parte +macios coxins estofados de seda asul e franjados de ouro. Alguns quadros que +representavam as viagens de Dom Henrique e as descobertas de Vasco da Gama, +pendiam das largas paredes. Varias figuras da melhor porcelana da China se viam +aos recantos do salão sobre dous elegantes bufetes com esmero trabalhados de +madeira de ebano. Mil outros objectos de porcelana, prata e marfim decoravam +finalmente com luxo oriental aquella mansão de fadas.</p> + +<p>Mal o pagem se dispunha a observar os ricos<span class="pn"><a +name="pag_28">{28}</a></span> estofos e as admiraveis pinturas, eis que +apparece no salão uma das mais prendadas e gentis damas do reinado de Dom João +III.</p> + +<p>Trajava um vestido de lhama asul guarnecido com alamares de passamanes de +prata e ouro, decotado a modo de revelar todo o seu alvo pescoço e tam curto +das mangas que se lhe viam quasi todas as rosadas carnes do seu braço.</p> + +<p>Poucos pintores estudaram ainda tam bello perfil e mais alegre figura.</p> + +<p>Eram, como dous astros de amor, cheios de ternura e limpidez os seus olhos +castanhos. Não havia mãos de mais fina epiderme nem dedos de mais esmerada +estructura. O contorno do nariz não cedia em perfeições aos das estatuas gregas +que representam a deusa das graças e dos amores. Os labios, feitos das petalas +de uma rosa, possuia-os tam frescos e delicados que pareciam de uma criança. +</p> + +<p>Quanto não valiam os seus sorrisos e que thesouros de ternura não encerravam +as suas fallas!</p> + +<p>Era alta do corpo e franzina da cintura, como devem ser, á semelhança das +primorosas estatuas<span class="pn"><a name="pag_29">{29}</a></span> de +Praxitelles e de Phidias, esse ideal das artes plasticas, os contornos e +proporções das rainhas da bellesa. Mais nutrida que magra assim nos braços como +no rosto e, para mais se accenderem cubiças, da arca do peito avolumava-se-lhe +o contorno dos lacteos pomos de que Tasso e Camões nos fizeram a descripção. +</p> + +<p>Passava já dos trinta e seis annos de edade e comtudo ninguem lhe calcularia +acima de vinte e cinco primaveras: primaveras superabundantes de rosas e +frescura, porque uma eterna juventude é algumas veses privilegio das mulheres +formosas!</p> + +<p>Imprimiu-lhe o infante um doce beijo na mão esquerda e, apontando para o +pagem, lhe disse risonhamente:</p> + +<p>—Apresento-vos, minha querida Violante, um bom amigo que ainda ha pouco me +salvou os dias da vida.</p> + +<p>O pagem conservou-se em mudez. Possuido de uma agradavel commoção, ajoelhou +aos pés da formosa dama e não pôde elle evitar que dos seus olhos negros se +escoasse uma lagrima de praser.<span class="pn"><a +name="pag_30">{30}</a></span></p> + +<p>Violante Gomes estreitara-o nos braços de fada e com palavras divinamente +repassadas de doçura lhe rumorejou:</p> + +<p>—Deus vos recompense o bem que fiseste.</p> + +<p>Dispôz-se então a contar-lhe o infante o que se passara.</p> + +<p>A narração foi simples e curta. Poupou todas as côres da fantasia e do +romantismo. Não se lhe ouviu sequer uma accusação contra os sicarios nem contra +a pessoa que lhes commettera a empresa.</p> + +<p>O pagem depois tomou a palavra n'estes rapidos termos:</p> + +<p>—Dom Luiz é denodado em demasia. Se lhe presaes a vida, minha senhora, +deveis aconselhar-lhe que não a exponha tanto. Inimigos poderosos lhe +sobejam...</p> + +<p>—Talvez que só Deus o possa defender! exclamou Dona Violante.</p> + +<p>—Deus, acrescenta o Prior do Crato, Deus e a minha espada e os meus amigos +tambem. Que ha traidores no mundo sei-o eu; mas que se guardem, que se guardem +bem os traidores!<span class="pn"><a name="pag_31">{31}</a></span></p> + +<p>—Guardam, guardam... Não vêdes como apenas mostram elles o braço e o +punhal?</p> + +<p>A esta allusão da formosa dama logo vaticinou o pagem:</p> + +<p>—Decerto não falta um vilão que a troco de alguns ducados assassine o +principe Dom Luiz!</p> + +<p>—Mas que empenho haverá n'isso? Dizei-o, que vôl-o supplica Dom Luiz de +Beja!</p> + +<p>—Quereis que vôl-o diga em voz clara? Alguma coisa devera aprender no meu +officio de cortesão e eu vos direi agora o que sei: vosso irmão o senhor Dom +João III não vos estima... antes vos odeia!</p> + +<p>—Ousaes assim calumniar el-rei! com animo exaltado replicou o infante. Bofé +que, se vos não devesse a minha vida, diria agora que... ensandeceste.</p> + +<p>—Rogo-vos moderação, acudiu a dama. Falla o que sente e o que sabe este +generoso mancebo. Oxalá sejam imaginarios os seus receios; mas não sei que +triste presentimento me leva a crêr que algum infortunio nos ameaça...</p> + +<p>Sorriu-se o pagem com essa expressão de<span class="pn"><a +name="pag_32">{32}</a></span> interna melancolia que não se descreve nunca. Em +seguida volveu-se para o infante.</p> + +<p>—Perdão... mil veses perdão se vos offendi! lhe disse.</p> + +<p>Abraçou-o o infante com o espirito sinceramente commovido. Descobrira no +pagem um tal caracter de franquesa e um certo cunho de verdade que desde logo +se lhe afigurou ninguem ser digno de maior estima.</p> + +<p>Á primeira vista mostrava-se repugnante a phisionomia do pagem. Predominava +n'elle o sangue das raças selvagens do Oriente. Era negra como aseviche a +pupilla dos seus grandes olhos e essa pupilla parecia tarjada de um leve +circulo de sangue. O nariz era chato alguma coisa e alguma coisa largo das +asas; a côr da pelle bastante acobreada e os beiços grossos sem desar. De idade +não contava mais de vinte e dous annos, mas na agilidade dos musculos e na +vivesa do espirito poucos ou nenhuns cavalleiros o excediam.</p> + +<p>Nascera no paiz dos badages e ali fôra, em companhia de seus velhos paes, +convertido ao christianismo pela palavra e pelo exemplo de<span class="pn"><a +name="pag_33">{33}</a></span> Antonio Criminal. Quando os badages degolaram +este malaventurado jesuita foi tamanho o horror que a pobre criança concebeu +pelo seu idolo Trichandur que nunca mais quiz lembrar-se do seu paiz natalicio. +O vice-rei Jorge Cabral conhecera-o em Gôa, criara-lhe amisade pelas boas +prendas que em todo elle descobrira e embarcou-o para Lisboa no seu regresso em +1550.</p> + +<p>O pagem, embebido nos perfumes de um ambiente de delicias, agora não se +fartava de contemplar a peregrina formosura de Dona Violante. Nunca nos salões +da côrte lhe fascinaram os olhos princesa de fórmas tam correctas, de maneiras +tam delicadas e conversação mais suave. O terno e melodioso accento com que +fallava insinuava-se meigamente nos corações como se fossem harmonias do ceu. +Superabundavam-lhe bellesas assim no corpo como na alma. Talvez porque o acaso +lhe denegara a nobresa do nascimento, concedera-lhe Deus todas as mil prendas +que no mundo servem de apanagio e de cortejo á graça e á formosura.</p> + +<p>Dona Violante fez-lhes servir aos seus dous<span class="pn"><a +name="pag_34">{34}</a></span> hospedes, em ricas bandejas de prata, alguns +doces e licores. Depois, a rogo do infante, passou com agilidade os seus +pequeninos dedos pelas cordas de uma harpa e com ternissimas inflexões começou +de cantar o bello soneto em que Luiz de Camões define o amor:</p> + +<blockquote> + Amor é um fogo que arde sem se vêr; <br> + É ferida que doe e não se sente; <br> + É um contentamento descontente; <br> + É dôr que desatina sem doer. </blockquote> + +<p>Logo que terminou levanta-se o gentil prior com todo o carinho a apertar-lhe +os braços em volta da cintura e com labios de fogo imprimiu-lhe nas rosas do +collo um osculo fremente.</p> + +<p>—São estas as unicas venturas da minha alma! revelou elle ao pagem. Não vês +como ella é formosa? Algum dia te contarei como nasceram estes amores...</p> + +<p><span class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span></p> + +<h1>III</h1> + +<h2>RECOMPENSA DO CRIME</h2> + +<p>Acabara de badalejar a meia +noite no campanario da cathedral quando na portaria arqueada do memorando +collegio de Santo Antão parou um homem de gigantea corporatura.</p> + +<p>Vinha embuçado em um capote de fartos cabeções e equilibrava na cabeça um +desses negros chapeus com amplas abas e copa sumida em fórma de funil.</p> + +<p>Depois de relancear prescrutadoras e desconfiadas vistas, entrou +sorrateiramente no alpendre<span class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span> do +edificio e dirigiu-se por uma das portas lateraes para um modesto gabinete +situado ao rez do chão.</p> + +<p>Aguardava-o ali com impaciencia um magro personagem de vestes sacerdotaes e +de phisionomia carcomida pela sarna dos annos.</p> + +<p>—Então que boas novas me trazes tu? perguntou elle sentado em pobre +tamborete de carvalho e desviando os olhos de um livro escrito na lingua +latina.</p> + +<p>—Não me parecem tão alegres como desejava, regougou o recemchegado.</p> + +<p>—Bem mau é isso. Mas conta depressa o que aconteceu, meu Jacobo.</p> + +<p>—Pois saiba... saiba vossa senhoria illustrissima que tudo se frustrou por +artes do diabo.</p> + +<p>—Jacobo, fallas a serio porventura? com preoccupação interrogou o padre. +</p> + +<p>—Com verdadeira magoa o digo; mas é verdade.</p> + +<p>—O que tambem é verdade é que sois todos uns covardes...</p> + +<p>—Tudo menos isso, meu senhor. Era elle que vestia a pelle do diabo! A não +ser assim,<span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span> eu por Deus que +soubera responder pelo ferro do meu punhal!</p> + +<p>—Sempre usaes do mesmo ripanso. Todos vos credes uns fanfarrões e uns +Hercules; mas porfim de contas, se é mister que se mostre valentia ou governe +com prudencia, sois deveras mais pecos e villãos do que um asno.</p> + +<p>—Deve saber vossa senhoria illustrissima que a culpa não foi nossa. Juro +que não foi. Esperamol-o a sangue frio e logo, peito a peito como varões +honrados, procuramos mandal-o de presente ás megeras do Averno quando os +punhaes, em vez de toparem carne de christão, encontram o aço de uma saia de +malha... Mas, ainda assim, tudo se remediava á maravilha: como os punhaes eram +curtos, puchamos das durindanas em guisa de valentes campeões e em poucos +minutos dariamos com meia duzia de cutiladas remate á nossa obra se de +improviso se não intromette o demonio em favor d'elle. Um dos nossos cae por +terra e os outros... os outros...</p> + +<p>—Escusas de confessar que fugiram... provavelmente com temor de lhes +acaecer a mesma sorte.<span class="pn"><a name="pag_38">{38}</a></span></p> + +<p>—Não foi o temor, meu padre. Tem vossa senhoria em mim um rude servo que +nunca do sitio do perigo arredou pé com medo nem covardia!</p> + +<p>—Conheço-te bem, meu Jacobo. Faço justiça á tua valentia e espero que me +toleres algum arrebatamento. O pobre velho não sabe o que diz, não sabe o que +diz muitas veses... Mas dize-me ainda: que fiseste do companheiro que morreu? +</p> + +<p>—Á falta de outras virtudes, nunca me arrependi de ser prudente. A estas +horas, meu padre, está elle a servir de repasto aos peixes do Tejo.</p> + +<p>—És assisado, és assisado na verdade. Toma em paga dos teus serviços e +retira-te por hoje.</p> + +<p>Atirou-lhe o padre com um punhado de moedas de ouro e o gigante, mirando-as +com olhos de cubiça, lançou com prestesa mão d'esse precioso metal que na frase +de Tolentino é o <em>tiranno do mundo</em>.</p> + +<p>—Sempre a vossa senhoria conheci generosidade, retorquiu elle correndo a +mão esquerda pela desgrenhada cabelladura. Mas d'esta vez,<span class="pn"><a +name="pag_39">{39}</a></span> meu padre, bem sabe que tenho de repartir... +Cincoenta escudos<a name="tex2html6" href="#foot73"><sup>[6]</sup></a> é pouco. +</p> + +<p>—Nem um morabitino merecias ganhar, meu velhaco.</p> + +<p>Jacobo afastou-se sem novas replicas e a meia voz foi tratando de combinar a +melhor maneira de embair a boa fé do seu companheiro.</p> + +<p>—Sempre lhe direi que não recebi mais de trinta escudos, rosnou elle pelo +caminho.</p> + +<p>Em seguida poz-se a cantarolar aquella sabida canção<a name="tex2html7" +href="#foot74"><sup>[7]</sup></a>:</p> + +<blockquote> + Como no se desespera <br> + quien se vê como me veo <br> + tan lexos de dó desseo, <br> + tan cerca dó no quisiera? </blockquote> + +<p>Entretanto o ecclesiastico de Santo Antão esfregava as engelhadas mãos como +prova de quem se não julga de todo descontente.</p> + +<p>—Do mal o menos, murmurou levantando-se<span class="pn"><a +name="pag_40">{40}</a></span> do tamborete. Escapou-nos por hoje, mas nada se +descobriu... E que tudo se divulgasse e descobrisse? És muito anão, Dom Luiz de +Beja, para ergueres o braço contra a pessoa que te mandou assassinar!</p> + +<p>O ecclesiastico fechou o livro e deixou-se cair novamente no meio da sola do +tamborete.</p> + +<p>—Meu Deus, meu Deus! exclama então com gesto de arrependimento. As tuas +doutrinas só respiram humildade e amor; queres que amemos o nosso proximo como +nos amamos a nós mesmos; aconselhas o perdão das offensas e o abandono das +riquesas do mundo... Mas como renegamos a tua lei e os teus conselhos, Deus meu! +Entra uma vez nos seios do homem o veneno das ambições terrestres e esquecem-se +bem depressa os deveres da virtude e a salvação das nossas almas. Tudo se +esquece e... lá vamos nós, vermes orgulhosos, pelo menos subvertendo nas +voragens do crime a tranquillidade do espirito e a saude do corpo!</p> + +<p>Abrio mansamente o livro, entregou-se por alguns momentos á leitura +d'aquelle salutar capitulo que traz por epigraphe <em>De consideratione humanæ +miseriæ</em><span class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span> e que principia +por estas palavras de humildade: <em>Miser es, ubicunque fueris et quocumque te +verteris, nisi ad Deum te convertas.</em></p> + +<p>Seguidamente prostou-se o padre de joelhos e com modos de extrema beatitude +fixou os olhos nas taboas do pavimento.</p> + +<p>—Eu sei, declamou ainda, que só trabalho para o progresso da religião +catholica e em beneficio da santa madre igreja. Mas o meu coração está cheio de +magoa, meu Deus. São grandes os meus erros, são enormes os meus peccados!</p> + +<p>Decorreram dous minutos de tranquilla meditação e tudo ali, como se fosse o +recinto de um cemiterio, permanecia completamente calado. Nem o cicio dos +insectos nem as oscillações da pendula dos relogios interrompiam o silencio +sepulchral do gabinete.</p> + +<p>—Deus de misericordia! por fim proferio o padre batendo por duas veses com +os punhos na arca do peito. Meu Jesus de misericordia, guiae-me como bom +christão pelo caminho da virtude e fasei com que me não desampare nunca<span +class="pn"><a name="pag_42">{42}</a></span> a vossa infinita graça. Eis aqui um +grande peccador que, fingindo observar todas as virtudes da religião, encoberta +as chagas dos maiores vicios! Eil-o aqui, humildemente offerecendo a cabeça ao +gladio da vossa punição!... Mas tende vós piedade de mim; tende piedade de mim, +senhor!</p> + +<p>Seguidamente lançou mão de um latego de rijos loros e dispôz-se, a exemplo +dos mirificos varões de que nos fallam os livros de theologia, a flagellar +rudemente as espaduas, os peitos e os rins.</p> + +<p>Não desprendia da garganta um unico murmurio de dôr e todavia cada vez com +mais força se redobravam os açoutes.</p> + +<p>Sempre sereno do rosto e humilde da postura como as figuras de alguns +macillentos retabulos da escola flamenga, disciplinava-se cruelmente á maneira +do mais exemplar e do mais devoto dos filhos do christianismo. Se deixava de +orar é porque as correas lhe açoutavam as carnes do corpo e, se parava com o +castigo do latego, é porque em misticas leituras pregava os olhos nas paginas +do livro.<span class="pn"><a name="pag_43">{43}</a></span></p> + +<p>Esse livro abrangia mediana fórma e fôra publicado em 1492. Todo cheio de +doutrinas religiosas, rescendia das suas bellas paginas os santos olores das +folhas do evangelho. Era verdadeiro balsamo para o espirito de um christão e +ainda hoje tanto consola o christão como o philosopho. «Admiravel apesar da +negligencia do estilo, commove muito mais do que as argutas reflexões de Seneca +e as frias consolações de Boeccio. Foi traduzido em todas as linguas e lê-se em +toda a parte com infinito gosto. Conta-se até que um poderoso bey de Marrocos o +guardava na sua bibliotheca e de quando em quando o lia com inexcedivel +prazer<a name="tex2html8" href="#foot164"><sup>[8]</sup></a>.» Leitura sempre +cheia de uncção e piedade, mereceo do sabio Fontenelle o conceito de «o mais +bello livro sahido das mãos dos homens». Modestamente se intitula <em>De +imitatione Christi</em>.</p> + +<p>O padre todos os dias e todas as noites o folheava com beatifica e +inalteravel devoção. Todos os dias passava algumas horas lendo-o umas veses +silenciosamente e outras em voz alta.<span class="pn"><a +name="pag_44">{44}</a></span></p> + +<p>Que mistico e santo apostolo não devia de ser este padre! Quem posesse o +ouvido ao ralo da porta da sua pobre cella, ouvil-o-hia pedir com profundo +arrependimento aos ceus misericordia para os seus peccados e salvação para a +sua alma. Para castigo dos affectos humanos, não se poupava jejuns nem +penitencias. Na boca dos irmãos da sua ordem jámais no orbe catholico brilhara +jesuita de maiores virtudes. Quando em reverente postura de resa e devoção se +collocava defronte do seu crucifixo, logo se poderia tomar por qualquer +anachoreta da Nitria. Ninguem á primeira vista o julgara desmerecedor de +participar dos mais subidos panegyricos das lendas hagiolicas.</p> + +<p>Chegou de Roma em Companhia de Francisco Xavier no anno de 1540. Elle e +Francisco Xavier foram do numero dos jesuitas que o embaixador Pedro +Mascarenhas solicitara de Paulo III para se dedicarem no imperio das Indias á +conversão dos idolatras e ao esplendor da fé catholica. O piedoso navarro +decidio-se com Misser Paulo e Francisco de Mansilhas a ir, por suas doutrinas e +virtudes, ganhar entre o gentio<span class="pn"><a +name="pag_45">{45}</a></span> o glorioso titulo de <em>Apostolo das +Indias</em>; mas o seu companheiro preferio que el-rei Dom João o galardoasse +com a menos obscura e penosa commissão de director do collegio de Coimbra.</p> + +<p>Era Simão Rodrigues,—o ladino padre mestre provincial que na sua qualidade +de poderoso valido de el-rei julgava prestar mais acrisolados serviços á causa +de Deus e ás venturas da patria. É certo que ao benemerito Francisco Xavier +deveram as Indias uma das mais heroicas e soberbas paginas da sua epopêa. Eis o +que a tal respeito apregoam as trombetas da fama<a name="tex2html9" +href="#foot165"><sup>[9]</sup></a>:</p> + +<p>«Uma noite, referem as chronicas, os soldados do rei de Achem entraram na +praça de Malaca, deram sobre as embarcações ancoradas no porto, queimaram parte +d'ellas e ao romper da madrugada retiraram-se em triunfo como se tivessem +alcançado uma grande victoria. Encontrando um barco de sete pescadores +malaquinos, cortaram-lhes as orelhas e o nariz e com o seu sangue escreveram +uma carta prenhe de<span class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span> injurias +ao governador Simão de Mello. Accendeu em colera tam cruel insulto os +habitantes de Malaca e Francisco Xavier, movido de compaixão á vista dos +pescadores mutilados de modo tam barbaro, foi o primeiro a diser que logo +convinha vingar a injuria feita á nação portuguesa.</p> + +<p>«—Não se deve, accrescentava elle, supportar semelhante violencia. Cumpre +embarcar, acodir em seu alcance e tirar todo o desejo de vos insultarem segunda +vez. Ainda digo mais: que sois obrigados a isso se não quereis perder o nome e +a reputação.</p> + +<p>«—Nós assim o entendemos, respondeu o governador, mas faltam-nos as forças. +As vossas embarcações estão podres e incapases de servir. Para espalmar as que +temos seria necessario mais tempo do que para fabricar outras de novo. De mais +d'isso os inimigos são muitos e os nossos alliados não podem soccorrer-nos com +tanta promptidão.</p> + +<p>«—E não ha outras senão essas difficuldades para superar, senhor +governador? lhe replicou Francisco Xavier. Pois bem está: eu tomo a<span +class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span> cargo o diligenciar que se +concertem as embarcações.</p> + +<p>«Voltando-se depois para os officiaes e soldados, lhes disse em voz grave: +</p> + +<p>«—Deus está pela vossa parte, amigos e irmãos, cavalleiros e soldados de +Jesus Christo. Em seu nome vos advirto que arredeis do espirito qualquer temor +e medo. Elle vos chama a uma guerra santa. Ou fiqueis vencedores ou vencidos, a +palma sempre será vossa!</p> + +<p>«Marcha seguidamente para o porto, onde apenas achou sete fustas e um catur +á mingoa de tudo o que era necessario para se meterem ao mar. Além disso os +armazens reaes estavam completamente vasios. Não havia breu nem resina nem +estopa para calafetar as embarcações. Faltavam armas, polvora e outras munições +para poderem combater. Recorreu então a sete pessoas abastadas e moveo-as a +faser as despesas demandadas pela expedição. Dentro em cinco dias poseram-se as +fustas em estado de ir a corso.</p> + +<p>«Eram os portugueses ao todo 140 homens e embarcar tambem com elles desejava +Francisco<span class="pn"><a name="pag_48">{48}</a></span> Xavier; mas não o +consentiram o governador e os habitantes de Malaca.</p> + +<p>«O almirante portuguez encontrou no rio Parlés a frota achenina e então, +saltando a um esquife, com a espada em punho visita as suas embarcações e +proclama aos seus soldados:</p> + +<p>«—Filhos de Jesus Christo, lembrai-vos das promessas de Francisco Xavier. +Das vossas mãos depende a victoria. Os acheninos não nos podem fugir e agora +colherão o castigo devido á sua barbaridade.</p> + +<p>«—Todos pelejaremos, responderam os soldados, em defensa da lei de Jesus +Christo para se desaggravar a nossa patria e manter-se a nossa gloria. Havemos +de vencer. Descançae vós na nossa valentia e no despreso que temos pela morte.» +</p> + +<p>«O almirante voltou para a sua embarcação e logo se avistou o inimigo que, +soltando estridentes gritos, fasia retinir todo o rio. Achava-se disposto em +dez linhas e cada linha constava de seis embarcações com excepção da primeira, +que era de quatro.</p> + +<p>«Deram os inimigos uma descarga com toda<span class="pn"><a +name="pag_49">{49}</a></span> a artilharia, mas sem causarem damno algum aos +portugueses. Seguidamente os almirantes arremeçaram-se um sobre o outro e ambos +disputaram largo tempo a victoria até que a do almirante inimigo foi metida a +pique. As outras mais proximas, atravessando para salvarem a gente que nadava, +voltaram os flancos para as forças portuguesas. De maneira que essas mesmas +embarcações serviam de estorvar as que vinham atraz, porque as da seguinte +linha vinham de encontro ás da primeira, as da terceira contra as da segunda e +assim de tal modo que se dizia combatiam umas contra as outras. Então os +portugueses despediram tres descargas successivas que meteram a pique nove +embarcações grandes. Abordando depois ás embarcações acheninas, saltaram dentro +e degollaram dous mil soldados. Vendo o resto dos acheninos a sorte dos +companheiros, precipitaram-se no rio em procura de salvamento; mas afogaram-se +todos.</p> + +<p>«Nunca se proclamou victoria mais completa nem que menos custasse!</p> + +<p>«Lavrava todavia a consternação em Malaca.<span class="pn"><a +name="pag_50">{50}</a></span> Não chegara ainda noticia da frota desde que +sahira do porto. Debalde Francisco Xavier se esmerava em socegar os habitantes +e podia tanto com elles o medo, que em pouco tempo se persuadiram de ser +perdida. Até alguns sarracenos tiveram a ousadia de divulgar como noticia certa +que os acheninos a desbarataram completamente. A desconsolação por isso era +geral na cidade e todos tornavam a Francisco Xavier a culpa de se perder a +frota. O piedoso varão assegurava o contrario; mas ninguem se reconhecia no +estado de crer o que elle assegurava. Accusaram-no geralmente de ser a causa de +se perderem tantos homens valentes, zombando das preces que por elles fasia a +Deus e disendo irrisoriamente que só lhes serviam de suffragio para suas almas. +</p> + +<p>«Por fim o virtuoso varão declarou ao povo com um profundo convencimento: +</p> + +<p>«—Deus é victorioso. Nossos soldados triunfam. Estou vendo os de Achem +banhados no proprio sangue. O nosso exercito em marcha triunfante deve entrar +sexta feira pelo porto de Malaca.<span class="pn"><a +name="pag_51">{51}</a></span></p> + +<p>«Chega entretanto Manoel Godinho e confirma tudo quanto fôra annunciado. +Torna-se em viva alegria a entranhavel tristesa em que todos estavam. Os ares +retiniram com voses festivaes. Divisa-se o praser em todos os rostos. Emfim +entra o almirante na sexta feira pelo porto, bem cheio de gloria e carregado +com os despojos opimos da batalha!»</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot73" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> Moeda de ouro mandada +cunhar por Dom Duarte e depois refundida por Dom Manoel. Valia 1$600 reis.</p> + +<p><a name="foot74" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Obr. de Sá de +Miranda.</p> + +<p><a name="foot164" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> <em>Nov. diction. +hist.</em> par une société de gens-de-lettres, art. Kempis.</p> + +<p><a name="foot165" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> La Clede. <em>Hist. +ger. de Port.</em></p> +</div> + +<p><span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span></p> + +<h1>IV</h1> + + +<h2>O FESTIM DE BALTHASAR</h2> + +<p>Era Francisco Xavier um dos +raros exemplos com que os jesuitas poderiam alardear a santidade da sua +universal associação; mas quem é que em Lisboa se importava das virtudes do +apostolo das Indias?</p> + +<p>Por outras differentes rasões se recreava Lisboa com folganças e festejos. +</p> + +<p>Desde o alvorecer da madrugada salvava com festival estrondo a artilharia do +velho castello.</p> + +<p>Por todos os angulos do Rocio e do Terreiro do Paço resoavam alegres musicas +de atabales e clarins.<span class="pn"><a name="pag_54">{54}</a></span></p> + +<p>Grande parte das ruas e casarias se decoraram vistosamente com galhardetes +multicores, bambolins de murta e festões de louro e rosas.</p> + +<p>Estavam preparados com sedas e damascos os toldos e os enfeites dos +escaleres reaes.</p> + +<p>No tope dos mastareus das galeras e bergantins do Tejo viam-se tremular +flammulas e estandartes de todas as nações.</p> + +<p>É que a côrte portuguesa regalava-se com um dos mais esplendidos dias de +gala.</p> + +<p>Ao bispo de Coimbra, Dom João Soares, bem como ao duque de Aveiro, Dom João +de Lencastre, fôra commettido o honroso cargo de irem buscar a Castella a +princesa Dona Joanna e n'esse dia chegava esta guapa noiva á cidade de Lisboa +com o mais soberbo acompanhamento de gentis-homens e equipagens que raras veses +se vira em terras de Portugal.</p> + +<p>Nada pouparam o faustoso Dom João de Lencastre nem o opulento Dom João +Soares para se mostrarem com a magnificencia que competia ao seu estado e á sua +posição.</p> + +<p>Luxo e estrondo por toda a parte. Os mais ricos veludos serviam de fasenda +aos elegantes<span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span> capirotes dos +pagens. Eram sedas recamadas de bordaduras de ouro os vestuarios dos condes e +dos gentis-homens. Custosos brocados de prata reluziam nos xaireis de +centenares de ginetes e no aço polido das armaduras dos arautos e reis de armas +reflectia-se o sol com raios coruscantes.</p> + +<p>Nunca o povo de Lisboa se recordava de presencear festejos de tanta vista e +de tamanho esplendor. Era grande a alegria d'elle por isso. Ao som de confusas +charamelas soltava enthusiasticos vivas, e assim em infernal confusão de vivas +e descantes cada vez mais accendia os seus enthusiasmos!</p> + +<p>Ia-se acoutando o astro do dia nos abysmos do oceano, á mesma hora em que +nos reaes paços da Ribeira começou a solemne recepção da princesa castelhana e +do seu apparatoso cortejo.</p> + +<p>Todos na sala do throno vestiam com o mais apurado gosto e com uma especie +de luxo oriental. Eram principalmente as roupagens da rainha adereçadas da mais +rica pedraria e do mais esquisito artificio. Cingia-lhe a fronte um bello +diadema cravejado de perolas e diamantes. Cravejada<span class="pn"><a +name="pag_56">{56}</a></span> tambem de preciosa joalharia decorava-lhe o peito +a cruz da ordem de Isabel a Catholica. O manto, finalmente, era guarnecido de +renda de ouro e pespontado dos castellos e quinas de que desde o fundador da +monarchia fasem uso os mantos regios<a name="tex2html10" +href="#foot166"><sup>[10]</sup></a>.</p> + +<p>El-rei envergava uma custosa vestidura de terciopello e cobria-lhe os +hombros alentados uma opa roçagante de lhama de ouro e prata. Por cima da curta +cabelleira pousava-lhe na cabeça um chapeu enfeitado com plumas brancas, de aba +erguida de um lado e presilha recamada de vistosa pedraria. Emfim as bellas +insignias do Tosão de Ouro assoberbavam-lhe o peito e da cinta pendia-lhe um +dourado espadim em que relusiam meia duzia das mais preciosas gemmas da colonia +do Brasil.</p> + +<p>Satisfeitas as varias ceremonias e etiquetas exigidas em semelhantes +conjuncturas, procedeo-se depois a um desses opiparos banquetes que entravam na +lista dos praseres dos monarchas de Babylonia.<span class="pn"><a +name="pag_57">{57}</a></span></p> + +<p>De direito fez as honras da mesa el-rei Dom João III, ficando-lhe á dextra a +princesa de Castella Dona Joanna e ao lado esquerdo o poderoso valido Antonio +de Athayde. Em frente do velho monarcha sentara-se a rainha Dona Catharina de +Austria, cedendo a cadeira de honra a seu filho o principe Dom João e a +esquerda ao infante Dom Luiz de Beja.</p> + +<p>Por sua grandesa e gerarchia ali estava resplandecendo tudo o que se poderá +notar de melhoria nas ordens clericaes e nas raças aristocraticas de Portugal. +</p> + +<p>Não faltavam ao banquete, além dos principes e mais pessoas da familia real, +o bispo de Coimbra, os arcebispos de Braga e Lisboa, o beato jesuita Simão +Rodrigues, o illustre Dom João de Lencastre, o chanceler doutor João Monteiro, +o desembargador Dom Gonçalo Pinheiro, o nobre Marquez de Villareal, o prudente +Duque de Bragança e ainda tres dusias de lusidos personagens que na maior parte +representavam a curia de Roma e as côrtes estrangeiras.</p> + +<p>Bellos vinhos de Caparica e Seixal, bons licores<span class="pn"><a +name="pag_58">{58}</a></span> e as mais esquisitas iguarias serviam-se com +profusão. Os vinhos eram de excellente paladar e por isso motivaram algumas +alegres modificações no rigoroso codigo das etiquetas.</p> + +<p>Foi Dom João III o primeiro personagem que se ergueu com a copa na dextra. +Já não era o monarcha de severo e sisudo caracter. Mostrava-se de faces +rubicundas, olhos risonhos e maneiras joviaes. Nunca o seu espirito se abrira +com tanta expansão e tanta liberdade. Sorrindo com alegria, olhou por um +momento em derredor da mesa e proferiu pausadamente as palavras seguintes:</p> + +<p>—Sem lisonja o digo, senhores. Sobreluzem no semblante e no espirito da mui +alta e excellente esposa de meu presado filho Dom João todas as graças e mais +prendas que podem exornar a pessoa de uma princesa. Para goso e ventura de +todos os meus vassallos imploro de Deus lhe dilate a preciosa vida por muitos +annos. Sempre lhe tributarei n'esta côrte as mais ternas affeições como filha a +quem muito amo e todas as homenagens como princesa das mais excelsas virtudes. +Por isso é, fidalgos e prelados<span class="pn"><a +name="pag_59">{59}</a></span> da minha côrte, que eu com summa alegria do meu +coração brindo agora á saude da nobre princesa Dona Joanna!</p> + +<p>Todos os prelados e fidalgos levaram aos labios as preciosas amphoras +espumantes do saboroso Caparica, ao mesmo tempo que, de pé e em reverente +postura, baixaram respeitosamente para Dona Joanna as radiosas cabeças.</p> + +<p>De branco vinho do Seixal tornou logo o monarcha a encher a Copa e novamente +se dispoz a abrir os diques á sua expansiva loquela.</p> + +<p>—Grandes e senhores da minha côrte, principiou elle, não deixarei tambem de +faser votos pela existencia e ventura do herdeiro do meu throno. Piamente +confio em que Deus lhe inspirará amor pela justiça, respeito ás leis do reino e +obediencia ás doutrinas da nossa santa religião. Firmam-se n'elle as esperanças +dos leaes portugueses e certamente meu filho se tornará digno por seus talentos +e virtudes do amor dos meus vassallos. Escuso de lhe declarar as affeições do +meu seio; mas saiba que eu o amo e preso como pai e como amigo. Rogarei sempre +aos céus nas minhas orações lhe prospere Deus<span class="pn"><a +name="pag_60">{60}</a></span> a preciosa existencia... Que Deus lh'a prospere e +viva por muitos annos o glorioso principe Dom João! Meus senhores, perorou +erguendo mais a copa e a voz, viva meu filho o principe Dom João!</p> + +<p>Um coro dissono e rapido de vivas eccoou pelos recantos do vasto salão do +festim. Principes e embaixadores, fidalgos e prelados ouviram com enthusiasmo +as ultimas voses de el-rei e todos a um tempo, levando á altura dos beiços as +copas cheias d'esse valente liquido que <em>o peito accende e a cor ao gesto +muda</em>, soltaram o grito fremente de <em>viva o principe Dom João! Viva o +principe Dom João!</em></p> + +<p>Sentaram-se depois e por um pouco arrefeceram os gastronomicos delirios. +Apenas se escutavam o rangido frouxo dos talheres e as brandas passadas dos +criados. Foi porém de breve duração esta calmaria. Levantou-se o Conde da +Castanheira e, com fallas adamadas e gestos em demasia palacianos, dispoz-se a +discursar.</p> + +<p>—Pedindo venia a vossas altesas serenissimas—começou o poderoso valido, +cortejando com a cabeça o monarcha e Dona Catharina—ouso<span class="pn"><a +name="pag_61">{61}</a></span> tambem manifestar a grande satisfação que me +desperta o glorioso dia que em tam esplendido banquete se commemora. O feliz +consorcio do nosso principe real é para todos os leaes portugueses motivo de +felicitações e regosijos. Quem não ha de exultar com as virtudes varonis e +prendas naturaes dos augustos noivos? Permitti que vos saude, excelsa princesa! +Dae-me a liberdade de brindar á vossa ventura, augusto principe!</p> + +<p>Dom Antonio de Athayde bebeo de um trago o vinho do seu calix e a tam +palaciano brinde logo corresponderam em coro todos os convivas.</p> + +<p>Por seu turno ergueram-se ainda com os calices na mão o inquisidor geral D. +Henrique, o velho arcebispo de Braga e tambem Dom João de Lencastre. +Entresachados de latim e de textos theologicos se desenvolveram os dous +primeiros discursos, mostrando-se assim a erudição e sabedoria dos +respeitabilissimos varões que os proferiram. O de Dom João de Lencastre, esse +foi declamado na lingua espanhola em frase singela e correntia como sendo de +pessoa mais<span class="pn"><a name="pag_62">{62}</a></span> adestrada no jogo +das armas que em torneios de palavras.</p> + +<p>Como nas marés dos oceanos, dá-se tambem o fluxo e o refluxo nas marés do +enthusiasmo. Nem tudo, por esta rasão, era delirio e voseria. O silencio +reinava tambem de longe a longe.</p> + +<p>Silencio profundo reinava no salão do banquete quando, emfim, de um dos +recantos da mesa se levanta um mancebo de tez morena e bronzeada como a dos +povos da India.</p> + +<p>Era o joven amigo do infante Dom Luiz de Beja.</p> + +<p>—Monarcha Dom João, prologou elle com voz clara e rosto sereno, eu venho +como o profeta Daniel vaticinar-vos a sorte de Balthasar!</p> + +<p>Mal fôra proferida esta ameaça terrivel e já duas duzias dos mais esforçados +fidalgos se adiantaram com o punho nos copos dos dourados chifarotes.</p> + +<p>O pagem não se intimidou, porém. Deu maior volume á voz e com o seu placido +gesto exprimiu-se ainda:</p> + +<p>—Não encareço as vossas virtudes nem culpo os vossos vicios, monarcha Dom +João; mas<span class="pn"><a name="pag_63">{63}</a></span> sempre vos imputarei +a responsabilidade dos tremendos crimes que se commettem na vossa côrte...</p> + +<p>—Crimes na minha côrte! bradou o monarcha portuguez ao erguer-se da cadeira +como impellido por uma secreta mola.</p> + +<p>—Admiro, replicou immediatamente a rainha Dona Catharina, que ainda não vos +dissessem que tentaram hontem assassinar vosso irmão o infante D. Luiz.</p> + +<p>Á inesperada revelação succedeo um momento de espanto e alvoroço. Quem não +presaria em Portugal a vida do infante? Presavam-na deveras assim fidalgos como +peões e por isso ninguem havia entre os nobres commensaes que se não +sobresaltasse com a nova de que a vida de Dom Luiz de Beja correra imminente +risco.</p> + +<p>—Fallae agora vós, meu irmão. Por acaso premeditaram alguns sicarios contra +a vossa vida?</p> + +<p>—Tentaram na verdade, placidamente respondeo a el-rei o infante Dom Luiz. +Hontem por alta noite fui eu acommettido por tres bandidos<span class="pn"><a +name="pag_64">{64}</a></span> e de certo dos seus punhaes seria victima +innocente se me não acode aquelle generoso pagem.</p> + +<p>—Graças dou a Deus, volveu el-rei, por haverdes escapado do perigo. Mas que +foi feito dos assassinos? Justiça rigorosa se fará, meu presado irmão.</p> + +<p>—Justiça rigorosa vol-a reclamo eu! solemnemente bradou a rainha.</p> + +<p>—Justiça! justiça! conclamaram todos os convivas.</p> + +<p>Gradualmente foram esmorecendo as vingadoras explosões de enthusiasmo e +então o monarcha portuguez, retirando-se bruscamente da mesa, fez terminar esse +festival e ruidoso banquete que, para dar em tudo semelhanças do festim de +Balthasar, só faltou que mão invisivel escrevesse na parede as mysteriosas +palavras <em>mané</em>—<em>thécel</em>—<em>pharês</em>!</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot166" href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> Vid. <em>Hist. +polit. e militar de Port.</em> por L. Coelho, t. I, pag. 249.</p> +</div> + +<p><span class="pn"><a name="pag_65">{65}</a></span></p> + +<h1>V</h1> + + +<h2>ORAÇÕES E JEJUNS REDIMEM TODAS AS CULPAS</h2> + +<p>Da casa do jantar passou a +maioria dos convivas para um faustoso salão em cujos moveis sobresaiam +riquissimos estofos de cores amarella e carmesim.</p> + +<p>Aqui principiaram damas e fidalgos de se entreter com jogos de cartas, +girando a rodo sobre as mesas moedas de prata e ouro como se fossem alcacer de +Astrea os paços de el-rei Dom João III.</p> + +<p>Dom João III, esse vamos vel-o no seu gabinete preoccupadamente sentado em +larga poltrona franjada de ouro e prestando a maior<span class="pn"><a +name="pag_66">{66}</a></span> attenção ás fallas veneradoras de dous illustres +personagens.</p> + +<p>Estes personagens vestem com excessiva desigualdade no feitio e na fasenda: +traja o mais novo rico veludo roxo e o mais velho humilde roupeta de estamenha. +</p> + +<p>Será empresa difficil todavia distinguil-os no valimento e no poderio. Ambos +representam duas hierarchias eminentes: a nobresa e o clero.</p> + +<p>São o padre mestre provincial Simão Rodrigues e o celebre Conde da +Castanheira, esse poderoso valido que grangeara famas de que «n'aquelle tempo +ninguem se lhe avantajava nas partes de conselho e maduro juiso<a +name="tex2html11" href="#foot167"><sup>[11]</sup></a>».</p> + +<p>—Juro-vos, estava asseverando o jesuita, que nada se descobrio. As palavras +d'esse estonteado badage motivaram-nas os vapores do vinho.</p> + +<p>—O mesmo acredito eu, accrescenta o conde. A noite corria escura e a +empresa foi commettida a gente de confiança...</p> + +<p>—Mas, interrompe el-rei, não me disseram<span class="pn"><a +name="pag_67">{67}</a></span> já que o attentado se baldou por artes do diabo +ou por manhas de quem quer que fosse?</p> + +<p>—Verdade é, responderam ambos ao mesmo tempo.</p> + +<p>—Em tal caso facilmente se poderia descobrir tudo...</p> + +<p>—Os aggressores, acode o jesuita, acautelaram-se bem. Os chapeus e os +capotes deram-lhes panno de sobra para cobrirem as barbas e, quando chegou o +diabo, todos debandaram com prudencia.</p> + +<p>—Tal accommettimento ha de ser sempre o dessocego do meu espirito! desabafa +el-rei.</p> + +<p>—O bem do estado assim o reclama, volve por sua vez o conde.</p> + +<p>—Dizes, conde, que o bem do estado nos moveu... O bem do estado seria, mas +porventura não peccamos nós contra os mandamentos da santa religião? Receio, +meu padre, o castigo da Providencia!</p> + +<p>—Que póde recear vossa altesa real, o mais fervoroso filho de Deus? replica +o poderoso jesuita com extrema brandura.</p> + +<p>—O castigo dos meus peccados, o castigo dos<span class="pn"><a +name="pag_68">{68}</a></span> meus peccados... Conheço que ordenei um +assassinio. Não terei eu, como Caim, manchado as minhas mãos em sangue +fratricida? Meu padre, a colera do Senhor cairá sobre a minha cabeça!</p> + +<p>—A oração e os jejuns redimem todas as culpas...</p> + +<p>Proferia Simão Rodrigues esta mistica sentença quando estalou na sala do +jogo um grande alvoroto de voses e passos.</p> + +<p>Sobresaltou-se o monarcha Dom João como se novamente lhe retumbasse nos +ouvidos o tremendo vaticinio do pagem: <em>Eu venho, como Daniel, +profetisar-vos a sorte de Balthasar.</em></p> + +<p>O Conde da Castanheira dirigio-se com prestesa para a soleira da porta a +colher noticia do alvoroto e, dando volta á chave, eis que frente a frente se +lhe depara a figura travessa do indio.</p> + +<p>O badage, sem comprimentos nem venia, collocou-se em poucos passos defronte +do monarcha.</p> + +<p>—Não se enfade vossa altesa serenissima, lhe disse respeitosamente. É +natural o ruge-ruge que vos chega aos ouvidos, senhor. Não provém de<span +class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span> rebellia nem de incendio. Toda a +côrte se alvorota e desconsola porque o principe Dom João adoeceu +repentinamente ao levantar-se da mesa.</p> + +<p>—Asseveras que está doente meu filho, o meu querido filho Dom João? inquire +el-rei ao mesmo tempo que se levanta da poltrona com visivel preoccupação.</p> + +<p>—E doença de morte o accommetteu, prosegue o badage. Mas nada receie vossa +altesa serenissima, que <em>a oração e os jejuns redimem todas as culpas</em>. +</p> + +<p>—Pardés, assim ousaes chalrar com tal desassombro! prorompe o valeroso +conde carregando o sobrolho.</p> + +<p>—Fallo a verdade sem rebuço e mais direi ainda se el-rei me permitte a +ousia de fallar.</p> + +<p>—Sei que és ave de mau agouro; mas conta-nos tudo, conta-nos tudo! volve o +monarcha em profundo estado de abatimento moral.</p> + +<p>—Pois sempre vos direi, meu rei e senhor, que propinaram veneno a vosso +filho o principe Dom João!</p> + +<p>Cahio o monarcha na poltrona como se padecera os effeitos fulminadores de um +raio.<span class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span></p> + +<p>Assim alguns momentos se demorou em uma especie de glacial insensibilidade +sem que o jesuita e o conde se atrevessem a interromper o silencio. Por fim +ergueu-se tremulamente o monarcha e, não descobrindo já o destemido badage, +perguntou com voz desfallecida:</p> + +<p>—Que é feito do pagem?</p> + +<p>Olharam os dous validos para todos os recantos do gabinete, mas já não +avistaram ninguem.</p> + +<p>Não quiz el-rei que d'elle fossem em procura e, dirigindo-se para os seus +validos, lhes exprobra com friesa:</p> + +<p>—Ahi tendes a vossa obra... Ahi tendes o castigo da Providencia! Quiz Deus +punir-me com a morte de meu filho, esse innocente filho que sobre todas as +coisas eu queria e presava. Mas ai de vós, senhores, ai de vós e de mim se elle +morre!</p> + +<p>Os dous validos não aventuraram palavras de defesa ou de conforto com que +salvassem semelhante conjunctura e el-rei, deixando-os impassiveis no meio do +gabinete, saío pela porta a informar-se das clamorosas scenas que +occorriam.<span class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span></p> + +<p>—Trocaram-se os papeis provavelmente, resmoneou o Conde da Castanheira logo +que se viu a sós com o jesuita.</p> + +<p>—Por certo, concluiu o antigo companheiro de Francisco Xavier em voz mais +baixa ainda. Vou crendo que o veneno, em vez de o tragar o infante Dom Luiz, +tocou desastradamente ao principe real. Feliz noivado, feliz noivado!</p> + +<p>Por fortuna a causa efficiente do bulicio parecia limitar-se a um leve +achaque estomacal de que o principe se queixara. Explicara o joven principe que +uma vertigem lhe estonteara a cabeça e algumas nauseas lhe trouxeram incommodos +ao estomago, mas que já se sentia completamente alliviado e fóra de perigo.</p> + +<p>De feito o sabio medico Francisco Lopes, tateando-lhe o pulso com o maior +cuidado, depressa declarou que a doença apresentava apenas o caracter de uns +passageiros effeitos gastricos motivados naturalmente pelos molhos indigestos +das iguarias.</p> + +<p>Foi o principe recolhido á cama com todos os conchegos e, como asseverava o +discipulo de Hypocrates que os symptomas do accidente<span class="pn"><a +name="pag_72">{72}</a></span> não offereciam gravidade, os bellos e illuminados +salões do paço continuaram até deshoras a servir de entretenimento aos nobres +fidalgos e aos venerandos prelados.</p> + +<p>No gabinete reentrou el-rei de espirito mais socegado e rosto mais ledo. Uma +certa dose de satisfação parecia resumbrar dos seus olhos asues e a pallidez +que pouco antes lhe amarellecera as faces fôra substituida por tintas +rubicundas.</p> + +<p>—Receei peor coisa, rumorejou elle esfregando as mãos.</p> + +<p>Atraz de el-rei saira logo o Conde da Castanheira e foi por isso o jesuita a +unica pessoa que se deixou ficar no gabinete.</p> + +<p>Abrira sobre a mesa regia o seu predilecto livro <em>De imitatione +Christi</em> e, pelos signaes de concentração que lhe transpareciam no gesto, +inculcava aproveitar-se do momento para erguer a Deus alguma fervorosa prece. +</p> + +<p>Não obstante disse pausadamente ao levantar-se da poltrona:</p> + +<p>—Estava rogando aos céus que afugentasse desditas dos paços de vossa +altesa...<span class="pn"><a name="pag_73">{73}</a></span></p> + +<p>—Obrigado, meu padre. Jamais olvidarei o interesse que tomaes por minha +pessoa. Mas d'esta vez não succedeo perigo. Do sobresalto que soffremos foi +culpado sómente aquelle estonteado badage.</p> + +<p>—A não fallecerem justiças n'este reino, cumpre que seja punido para lição +de rebeldes e escarmento de atrevidos. De que pensar é vossa altesa?</p> + +<p>—Elle não tardará no tronco, meu padre. Mas agora outra coisa pretendo +saber em puridade: poderei eu remir ainda com obras e orações as minhas culpas? +</p> + +<p>—Está isento de culpas o coração de vossa altesa...</p> + +<p>—Sei que sou um grande peccador!</p> + +<p>—A alma de vossa altesa está limpa de mancha. É grande o amor que +professaes pela fé catholica. Não esquece Deus os beneficios que tendes +prestado pela igreja de Jesus Christo...</p> + +<p>—Consolam-me essas palavras, meu padre. Em recompensa de tantas consolações +haveis de lembrar-me o que vou prometter-vos: se não fôr de morte o mal de meu +filho, contai para<span class="pn"><a name="pag_74">{74}</a></span> as festas +do milagroso Santo Antão com uma custodia de ouro massiço e pedras preciosas... +</p> + +<p>—A graça de Deus seja comvosco...</p> + +<p>—Prometto mais quinhentos crusados para compra de alfaias e paramentos do +culto...</p> + +<p>—Não deixarei jamais de rogar aos céus pelo bem do estado e pelas +prosperidades de vossa altesa serenissima...</p> + +<p>—Lançai-me agora a vossa benção, meu padre.</p> + +<p>—Real senhor, eu vos abençôo em nome do Padre e do Filho e do Espirito +Santo!</p> + +<p>Ajoelhou el-rei para receber a benção do jesuita e em tam humilde postura de +santidade poder-se-hia conhecer que nunca um piedoso monarcha illustrara mais +com suas devoções os fastos da monarchia portuguesa.</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot167" href="#tex2html11"><sup>[11]</sup></a> Frei Luiz de Sousa. +<em>Annaes.</em> Parte II, livro II, cap. II.</p> +</div> + +<p><span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span></p> + +<h1>VI</h1> + + +<h2>A CAÇADA</h2> + +<p>Alguns dias depois do +casamento convidou el-rei toda a côrte para assistir a uma caçada.</p> + +<p>Ajaesaram-se logo os mais vistosos palafrens e os mais rapidos ginetes. +Desenas de creados afadigavam-se nos preparos dos nobres paços de Almeirim e +tudo ali se dispoz com o luxo de uma casa de fadas.</p> + +<p>Chegou a côrte aos paços de Almeirim por uma tarde enxuta e serena, posto +que bastante fria e nublosa a modo das tardes inglesas.</p> + +<p>Era a vespera da campanha venatoria.</p> + +<p>Na immediata madrugada foi servido um almoço<span class="pn"><a +name="pag_76">{76}</a></span> leve e em seguida ao almoço montaram a cavallo +damas e fidalgos.</p> + +<p>O monteiro-mór, a toque de uma ostentosa busina, repenicou o signal da +partida e então el-rei, cavalgando ao lado da princesa Dona Joanna e precedido +por uma centena de ricos fidalgos, adiantou-se com a rapidez de uma frecha em +direcção dos matagaes.</p> + +<p>Abundavam as opulentas coutadas de Almeirim em caça grossa e miuda de toda a +especie. Veados e corças, lebres e coelhos e cabras monteses costumavam fugir e +saltar aqui e além por entre as urzes e os giestaes, por debaixo dos ramos dos +sobros e das pernadas dos choupos. Porem a raça canina via-se decerto em penosa +maré de infelicidade. Latiam, uivavam e remordiam-se os lebreus e os podengos +sem conseguirem alcançar uma lebre ou abocar um coelho.</p> + +<p>Debalde se esperava nas clareiras a passagem de alguma peça grauda quando +alguns dos mais affoutos caçadores resolveram entrenhar-se no cerrado da +floresta. Ahi, sim, deixavam de ficar ociosas as balas e a polvora das +clavinas. Os tiros rapidamente se succederam aos tiros.<span class="pn"><a +name="pag_77">{77}</a></span></p> + +<p>Entretanto a maioria dos caçadores ainda esperava nas clareiras. Em posição +de pontaria por veses ergueram elles ao hombro o cano polido e relusente das +espingardas, os latidos dos cães ouviram-se por veses a curta distancia e os +cavallos, ao cheiro aspero da polvora, escarvavam impacientemente com as unhas +ferreas na grama do solo; mas ainda não passara ao alcance das balas uma só +lebre ou um só veado.</p> + +<p>Resolveram-se por isso desmontar e, aproveitando o exemplo dos primeiros +caçadores, lá se entrenharam egualmente por entre os verdes arbustos e os +robles gigantescos.</p> + +<p>A rainha, a princesa Joanna, o cardeal Henrique e o badage foram as unicas +pessoas que permaneceram no mesmo sitio. Mas tambem depressa lhes falleceu a +paciencia de esperarem assim na sella dos cavallos. Apearam-se pouco a pouco e +a passos vagarosos foram passeando ao longo de um renque de choupos.</p> + +<p>—O tempo corre bem, disse a rainha dando principio á conversação. Temos um +ceu claro e magnifico; mas parece-me que não produz resultado a caçada.<span +class="pn"><a name="pag_78">{78}</a></span></p> + +<p>—Também me parece, accrescenta a princesa Dona Joanna.</p> + +<p>—Juro pelos Vedas que ainda hoje teremos fartura de caça, replicou o pagem. +</p> + +<p>—Fallaste nos Vedas; mas que entendes tu por isso? inquiriu o sabio cardeal +cioso de desenvolver a sua vasta erudição.</p> + +<p>—Eu vol-o digo se vos apraz, senhor.</p> + +<p>—De bom grado escutarei. Dize lá: que são os Vedas?</p> + +<p>—Os Vedas formam uma grossa collecção de slokes ou estrofes escrita em +sanscrito sob a designação de Rig-Veda, Yadjur-Veda, Sama-Veda e Atharvana. A +todos os indios e povos do mundo, menos aos brahmanes, foi por Vichnu, o verbo +de Brahma, prohibida a leitura d'elles. Mais ninguem sabe o que dizem e contém +esses livros santos. Os brahmanes guardam-nos tão cuidadosamente nos seus +pagodes como os usurarios podem guardar um cofre de ouro. Conta-se que o +poderoso Akbar, imperador mahometano, quiz um dia conhecer as differentes +religiões dos paizes que lhe eram tributarios e, como os brahmanes tenazmente +se recusavam<span class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span> a revelar-lhe os +mysterios da sua crença, usou então de um subtil estratagema. Lembrou-se o +imperador mahometano de enviar á santa cidade de Benares um indiosito chamado +Fietzi e, fasendo-o passar por filho de um brahmane, foi o indio adoptado e +instruido na linguagem e nos ritos sagrados. De tal modo seria satisfeita a +curiosidade de Akbar, mas aconteceu que Fietzi se apaixonou por uma formosa +filha do seu preceptor e, arrependido da fraude, foi lançar-se em lagrimas aos +pés d'elle e tudo ingenuamente lhe confessou. Imagina vossa altesa qual seria o +procedimento do brahmane? Arrancou immediatamente do punhal para matar o +sacrilego! Por fortuna o brahmane cedeu aos rogos da filha, dando-a por fim em +casamento ao indio com a solemne condição de nunca em sua vida trahir os +Vedas<a name="tex2html12" href="#foot168"><sup>[12]</sup></a>.</p> + +<p>Ainda o pagem se dispunha a proseguir na anecdota de Fietzi quando o toque +arrebatado e successivo das businas lhe fez dirigir a attenção para outro +ponto.<span class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span></p> + +<p>—Caça, temos caça? exclama com alegria Catharina de Austria.</p> + +<p>Inesperadamente por baixo das ramagens do arvoredo mais proximo appareceu e +adiantou-se o corpo ameaçador de um lobo.</p> + +<p>Mostrava-se nas proporções de um molosso reforçado das patas, com os olhos +horrorosamente injectados de sangue, com a cabeça de uma grossura enorme e +infundindo pela arrogancia do olhar todo o pavor que podem incutir no espirito +de um homem os animaes carnivoros.</p> + +<p>Era bem curta a distancia entre elle e os desapercebidos personagens. Alguns +passos mais e logo as garras da fera encontrariam para repasto o corpo delicado +e fragil da rainha. Mas o molosso, por uma impressão de medo ou qualquer motivo +de surpresa, sosteve-se ali.</p> + +<p>Com as patas vigorosas escarvando o tojo e os urzes, por momentos estacou +como se o prendesse pela cerviz um cadeado de ferro.</p> + +<p>Esta demora de segundos foi, todavia, bastante longa para acodir o badage. O +corajoso rapaz depressa se postou fronteiro ao lobo.</p> + +<p>Ia agora travar-se uma luta hortenda. Iam<span class="pn"><a +name="pag_81">{81}</a></span> certamente repetir-se as barbaras scenas do circo +romano: o combate do homem contra a fera.</p> + +<p>De feito o molosso arremessou-se ao badage. Erguer as patas e aventurar um +salto enorme, tudo foi obra executada com a rapidez de uma frecha. Mas o +badage, que se affisera ás caçadas dos tigres e dos javalis nas florestas +gentilicas da India, esperou-o com a firmesa de um athleta. Quando o lobo se +arremessou ao pescoço do indio na intenção de lhe verter o sangue e lhe +despedaçar as carnes com o vigor das garras, o indio de repente cravou-lhe na +garganta a lamina de uma comprida faca de mato.</p> + +<p>A jorros espirrou o sangue da garganta da fera. Mas a fera não se estorceu +nem baqueou. Abrindo com maior furia as patas dianteiras, apertou os hombros do +indio e pretendeu esmagal-o com um amplexo terrivel.</p> + +<p>O indio não conseguio resistir áquelles musculos de bronze. Foi grande a +convulsão que padeceu. Perdendo as forças e o equilibrio, cambaleou, +estorçeu-se e cahio.</p> + +<p>Na queda acompanharam-no as garras do lobo. Estava decidido que, em +holocausto da sua<span class="pn"><a name="pag_82">{82}</a></span> dedicação, o +pobre mancebo perderia as forças e a existencia. Quem lhe podera acudir nos +apertos e nos trances de tam medonha conjunctura?</p> + +<p>Talvez os companheiros. Porém o susto levara o augusto cardeal a esconder-se +na toca de um carvalho e as duas delicadas senhoras seriam demasiadamente +franzinas de pulso para tam heroica defesa.</p> + +<p>O badage, comtudo, não havia abandonado a coragem. Conservava na dextra a +comprida faca e lembrou-se de ainda faser uso d'ella. Por um momento affrouxou +o lobo a compressão das unhas e esse momento foi o melhor auxilio que o badage +podia receber.</p> + +<p>Não é mais rapido um relampago: erguer o braço e ferir novamente a fera, eis +os prodigiosos movimentos que elle fez.</p> + +<p>O aço da faca despedaçou agora as guelas do lobo e logo em maior abundancia +se inundaram as algas e folhas do chão com um lago de sangue.</p> + +<p>A força da fera cedeu por fim ao esforço do homem. O lobo cahiu, estrabuxou +e contorceu-se. Depois atroou as selvas com dous uivos medonhos e perdeu os +últimos alentos de vida.<span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span></p> + +<p>Quasi ao mesmo tempo resoa nos espaços a buzina do monteiro-mór e é então +que no estadio da contenda se apresentam de facas e carabinas os arredios +caçadores.</p> + +<p>—Que novidades houve? inquire o monarcha ao passo que descança o cano da +espingarda ao tronco de um carvalho.</p> + +<p>—Pardés que não nos faltou susto! apostrofou o timido cardeal ao mesmo +tempo que se aventurava a sair da toca d'essa mesma arvore.</p> + +<p>El-rei não pôde conter a explosão de uma risada e todos, sem distincção de +gerarchias, expansivamente lhe seguiram o exemplo.</p> + +<p>—É bom signal, affoutou-se a diser o pagem, que sua altesa esteja de +agradavel humor.</p> + +<p>—Signal é de boa caçada. Não achas, pagem?</p> + +<p>—Assim me parece, meu senhor.</p> + +<p>—Mas que tens ahi? Que animal é esse?</p> + +<p>—Meu senhor, são os despojos da caçada.</p> + +<p>Em seguida contou a princesa Dona Joanna as peripecias do fatal +acontecimento e logo de todos fôra o pagem felicitado por sua valentia e +dedicação.<span class="pn"><a name="pag_84">{84}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot168" href="#tex2html12"><sup>[12]</sup></a> Cesar Cantu. +<em>Hist. universal.</em> Edição francesa, tomo 1, pag. 305.</p> +</div> + +<p><span class="pn"><a name="pag_85">{85}</a></span></p> + +<h1>VII</h1> + + +<h2>A LUTA</h2> + +<p>A rainha, forcejando por +esquecer as extraordinarias impressões da caçada, recreava-se momentos depois +na sua recamara dos paços de Almeirim com a leitura das trovas populares do +celebre Juan de Encina.</p> + +<p>A tristesa empanava-lhe levemente o brilho dos olhos feiticeiros e a cada +minuto lhe assaltava o espirito de ideias desconsoladoras. Parecia inquieta do +animo como se adivinhasse alguma funesta novidade.</p> + +<p>Entrou o pagem n'esta occasião e pé ante pé<span class="pn"><a +name="pag_86">{86}</a></span> dirigindo-se para o lado esquerdo da rainha, +fitou-a com olhares de poetica melancolia.</p> + +<p>—Estimo ver-te, pagem. Tenho passado aborrecida e será muito do meu gosto +ouvir contar alguma façanha alegre. Sempre me dirás o que tens feito...</p> + +<p>—Nem tudo se diz, senhora.</p> + +<p>—Sempre te conheci mysterioso. Mas agora, meu pagem, lembra-te de que estás +ao pé de quem deveras te estima...</p> + +<p>—Sei reconhecer a vossa amisade, senhora. O pobre pagem deixar-se-hia +estrangular pelas garras de um tigre só para vos compraser. Não faseis ideia da +minha dedicação, não podeis medir a grandesa do meu amor!</p> + +<p>A rainha estremeceu levemente como se a ferisse a ponta de um alfinete.</p> + +<p>—Por ventura me tens amor? assim o interrogou com um sorriso jovial.</p> + +<p>—Juro-o pelos Vedas.</p> + +<p>—Mas não reparas nos meus annos? Não vês claramente que já sou velha!</p> + +<p>—Uma rainha nunca envelhece. É uma eterna primavera de florescencia e de +perfumes.<span class="pn"><a name="pag_87">{87}</a></span></p> + +<p>—Sendo verdade o que dises, reconheço que sou uma excepção.</p> + +<p>—Senhora, esplendem em vós todas as graças e possuis todos os encantos!</p> + +<p>—Ousado mancebo, não saberei regeitar as tuas galanterias; mas emfim não +sabes que uma rainha não deve amar ninguem? Contenta-te com a minha estima. +Dou-te a minha amisade e isso é bastante.</p> + +<p>—Sabei que para vos amar, confidenciou o badage com a selvagem entoação do +seu paiz natal, pouco me foi preciso. Senhora, bastou o vosso olhar... Mas para +odiar-vos ainda será preciso menos. Escolhei...</p> + +<p>—Escolhe tu, pagem.</p> + +<p>—Escolho o vosso amor!</p> + +<p>—Comprehendo; mas que provas queres tu que eu te dê, que exigencias por +acaso imaginas impor-me?</p> + +<p>—Concedei-me tudo quanto vos peça.</p> + +<p>—Com algumas condições...</p> + +<p>—Sou orgulhoso. Não admitto condições. Disei se sim ou não.<span +class="pn"><a name="pag_88">{88}</a></span></p> + +<p>—Pois bem, prometto.</p> + +<p>O pagem, com o enternecimento de Othello ouvindo a Desdemona a primeira +revelação de affecto, estremeceu fibra a fibra de alegria.</p> + +<p>—Obrigado, lhe agradece com enthusiasmo. Ides faser a felicidade do pobre +pagem. Mil veses obrigado, senhora!</p> + +<p>—Mas então que pretendes de mim? volveu-lhe a rainha com uma espontanea +expressão de carinho.</p> + +<p>—Quasi nada e todavia pretendo tudo.</p> + +<p>—Dize...</p> + +<p>—Quem sabe se vos offendo! Talvez me não atreva...</p> + +<p>—Fases mal. Eu gosto das pessoas temerarias...</p> + +<p>—Deixai-me, senhora, dar-vos na face... na, face de rosa... um beijo... um +beijo unico!</p> + +<p>—Mancebo, retorquiu Dona Catharina com accento grave e de rosto em plena +calma, saberás que a palavra de uma rainha não falta ao que promette. Aqui tens +a minha face! O pagem com a rapidez de uma frecha aproximou-lhe<span +class="pn"><a name="pag_89">{89}</a></span> do rosto os labios cubiçosos e ali +imprimiu com soffreguidão um beijo escandecente como as lavas do Etna.</p> + +<p>Immediatamente, como possuindo-se de vergonha e respeito, fugiu com prestesa +da recamara.</p> + +<p>—É certo que tambem lhe consagro eu alguma coisa mais do que amisade, ficou +a rainha pensando agora. Grande coração aquelle! É capaz de todos os heroismos +e todavia diante de mim parece uma criança cheia de timidez. Parece decerto uma +criança. Mas quem o não é em taes circumstancias de enleio e talvez de +demencia? Amor, amor! és o mobil de todas as acções esquisitas, porque és o +germen de todos os pensamentos humanos. Jamais se realisam os teus desejos e +todavia ninguem deixa de sujeitar-se de boa vontade ao teu jugo. Queres e não +queres, acaricias e odeias, confias e desconfias de tudo ao mesmo tempo. Foi +sempre voluvel o teu caracter como voluveis costumam ser as ondas do mar. És a +gota de agua que fertilisa a aridez da vida, és ainda uma redoma de perfumes e +um sacrario de virtudes; mas<span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a></span> +tambem és um elemento de odios e um antro de vicios. Socrates não saberia +definir as tuas virtudes; Hercules não poderia medir-se com a tua força. Homens +e mulheres egualmente abrigam e sentem nas fibras dos seios as tuas chammas e +os teus effeitos; porém quem logrou ainda sondar os teus arcanos, quem +porventura conseguiu explicar os teus mysterios?</p> + +<p>N'este comenos transpunha o pagem uma sala immediata á luxuosa recamara. +Depois, abrindo uma porta gigantesca, predispunha-se a entrar no vasto corredor +do palacio quando quatro alabardeiros do serviço particular de el-rei lhe +impedem a passagem.</p> + +<p>—Acompanha-nos, meu caro.</p> + +<p>A esta desceremoniosa intimação de um dos quatro soldados o badage retorquiu +orgulhosamente:</p> + +<p>—Á ordem de quem?</p> + +<p>—Manda el-rei nosso amo e senhor. Obedece!</p> + +<p>—Preciso primeiramente conhecer-vos. Em guarda, belleguins!</p> + +<p>O pagem desnudou a fiel espada com a ligeiresa<span class="pn"><a +name="pag_91">{91}</a></span> de quem d'ella se sabia servir a tempo e horas e, +recuando tres passos, aguarda com animo frio a aggressão dos alabardeiros.</p> + +<p>—Mãos á obra! ordena um d'elles. Faça-se por mal o que se não póde faser +por bem. Pagarás cara a temeridade, meu criancelho!</p> + +<p>Á luz baça do corredor montantes e alabardas em poucos momentos se +disposeram a começar o seu officio.</p> + +<p>Era vasto o corredor; mas todos conservavam as mesmas posições. O badage, +mestre consummado no jogo da espada, não deixava adiantar uma polegada aos +quatro contendores. Ninguem, resuscitando o pomposo estylo do padre Vieira, +soube ainda com mais garbo e valentia brandir a lança, erguer a espada e +fulminar o montante. Crusavam-se as armas, acachoavam diabolicas imprecações, +empregavam-se titanicos esforços para se decidir da contenda; mas o badage +parecia sustentar nas mãos de bronze a clava de Hercules.</p> + +<p>—Com mil demos! rugiu um dos alabardeiros ao cambalear no soalho com o +desiquilibrio de um ebrio.<span class="pn"><a name="pag_92">{92}</a></span></p> + +<p>—Sinto-me ferido! regougou o segundo camarada ao largar a alabarda com +desanimo de uma vez para sempre.</p> + +<p>Eram agora sómente dous os inimigos do badage. Mas um d'elles principalmente +não affrouxava os golpes. Era de todos o mais alentado e o mais temerario.</p> + +<p>—Aposto que me não conheceste ainda, meu criançola!</p> + +<p>O badage retorquiu-lhe:</p> + +<p>—Parece-me que já nos encontramos, sicario.</p> + +<p>—Por signal que te acompanhava um alto personagem. Bella noite aquella!</p> + +<p>—Covarde! Eras tu quem de emboscada queria assassinar o infante Dom Luiz? +</p> + +<p>—Tens memoria, meu fidalgote. Nem mais nem menos... Olha bem para mim: sou +o teu conhecido Jacobo.</p> + +<p>O badage retrocedeu meio passo e por dous momentos apresentou a descoberto a +arca do peito. Aproveitou este arriscado estratagema para triunfar do seu +terrivel adversario, porque Jacobo, julgando certeiro e infallivel o golpe, +resolveu apenas valer-se da vantagem de ferir o<span class="pn"><a +name="pag_93">{93}</a></span> pagem. Todavia o denodado mancebo, por meio de +uma rapida manobra, desviou o corpo e arremessa a ponta da espada em direitura +do contendor. Em um abrir e fechar de olhos rasga-lhe a carotida e +completamente lhe atravessa o pescoço de lado a lado!</p> + +<p>Ouve-se então um clamor horrendo. Á testa de uma dusia de archeiros e +familiares do Santo Officio com ascumas e espadas acode tumultuariamente o +jesuita Simão Rodrigues, o qual, primeiro que o pagem aproveitasse ensejo de +evasão, com arrogancia o intima a render-se por ordem de el-rei.<span +class="pn"><a name="pag_94">{94}</a></span></p> + +<p><span class="pn"><a name="pag_95">{95}</a></span></p> + +<h1>VIII</h1> + + +<h2>OS ESTAUS</h2> + +<p>Ao indio amarraram os +pulsos com rijas cordas e violentamente o conduziram dos paços de Almeirim á +residencia inquisitorial do Rocio.</p> + +<p>Aqui foi, sempre debaixo de uma orchestra de apupos, introduzido na abobada +subterranea que servia de encerro, onde lhe vestiram uma casula ou escapulario +de panno amarello com cruses de Santo André pintadas de vermelho assim por +diante como por detraz.</p> + +<p>Era o carcere um espaçoso quadrilongo lageado de tijolos, sustentado por +vastas arcadas e com paredes lavradas de cantaria. A humidade,<span +class="pn"><a name="pag_96">{96}</a></span> o frio e todas as inclemencias da +invernosa estação ali contrariavam sobremodo todos os elementos de hygiene. +Ausencia radical de mobilia, de conforto e ambiente puro. Á propria luz do dia, +que é propriedade que Deus reparte sem restricção por todos os seres racionaes +ou irracionaes, era quasi totalmente prohibido o accesso. Para bem se descrever +precisava-se do estylo de Victor Hugo: era, em frase do grandioso poeta, morada +onde não havia ar no verão, onde não havia fogo no inverno, onde não havia pão +nem de inverno nem de verão. Morada lugubre do mysterio e do crime, áquella +especie de catacumbas romanas de proposito se imprimira o caracter de infecta e +lobrega sepultura a que faltava apenas a terrivel inscripção do inferno do +Dante: <em>lasciate ogni speranza!</em></p> + +<p>Tres dias successivos viveu o pagem a codeas de pão e a goles de agua sem +que lhe indicassem a sorte de supplicios que lhe cumpria padecer. Unicamente +communicava com o alcaide ou carcereiro, cerbéro de aspecto extremamente alvar +e discreto de lingua como um rochedo. Todavia o pagem não se incommodou com +o<span class="pn"><a name="pag_97">{97}</a></span> seu estranho encerro. +Naturesa moldada a todos os vaivens da fortuna, a transição da ventura para o +infortunio era quasi para elle um phenomeno insensivel. Sempre se dispunha com +animo inquebrantavel a experimentar quaesquer acontecimentos por mais +extraordinarios que fossem.</p> + +<p>—Na verdade, monologava elle em maré de maior expansão, tem suas rasões o +procedimento de Simão Rodrigues. Confesso que a sua senhoria não era affecto +nem adstricto de maneira que podesse facilmente dispor dos meus serviços e, +juro-o pelos Vedas, não se enganou de todo o ladino jesuita. Mas eu prometto +ainda, meu padre, prometto ainda pagar-te juros e capital na mesma moeda. +Pardés que havemos de saldar contas!</p> + +<p>Só ao entardecer do quarto dia é que foi o pagem visitado. O proprio Simão +Rodrigues lhe appareceu disfarçado nos trajos de familiar do santo officio.</p> + +<p>—Não ignoras, lhe disse depois de algumas palavras de comprimento, não +ignoras, meu filho, que peccados te condusiram a estes lugares. Escuso de +avisar-te que, por teu mal, és accusado,<span class="pn"><a +name="pag_98">{98}</a></span> na qualidade de christão novo, de rebelde ás +praticas da religião e de Deus...</p> + +<p>—Quando se não póde esmagar a vibora, respondeu-lhe corajosamente o pagem, +foge-se pelo menos da sua presença. Eu devera fugir para longe, embora +procurasse nas brenhas dos sertões do Mandovy a companhia das onças e dos +tigres. Mas sem cautela me deixei quedar n'este paiz de fanatismo e de crimes. +Por isso me não reconheço justiça de queixar-me. Aqui me tens agora, bem +disposto de alma e corpo a escutar as tuas fallas e á espera dos teus castigos. +Adivinho o que me espera: antes do baraço da forca o soffrimento da masmorra, +ou talvez, para mais demora das derradeiras agonias, a tortura da fogueira... +</p> + +<p>—Estranha linguagem é essa, volveu-lhe com brandura o jesuita. De certo, +pobre mancebo, o teu cerebro não regula assisadamente. A falta de crenças e de +fé estiolara o vigor do teu espirito. Quem te manda ser tam orgulhoso? +Lembra-te que é virtude evangelica a humildade. Os humildes serão exaltados e +os orgulhosos abatidos conforme a palavra infallivel do Evangelho.<span +class="pn"><a name="pag_99">{99}</a></span></p> + +<p>—Meu padre, embora me chames hereje ou christão novo, aprecio as bellesas e +virtudes da religião catholica. Por ella abandonei as crenças de meus paes e as +tradições seculares da minha raça. Voluntariamente recebi o baptismo das mãos +de Antonio Criminal e desde então para sempre se inflammou no meu espirito o +amor acrisolado do Deus dos christãos. De bom grado lidarei por toda a vida em +defensão da cruz e da fé. Porém não quero, meu padre, seguir os teus preceitos +e abraçar as tuas doutrinas, Não quero que me obrigues a pensar a teu sabor, +repugnam-me todas as peias impostas á liberdade de consciencia, abomino emfim o +jugo atroz a que a vossa oligarchia clerical reduz o espirito humano. De outro +modo bem diverso comprehendo os deveres do homem. Não basta a Deus que o amemos +sobre todas as coisas? Não basta ao rei que se seja bom cidadão? Obedecer ás +leis, dar exemplos de bons costumes, estimar a familia e defender a patria: eis +tudo!</p> + +<p>—Fallas bem, mas não convences. Amor de Deus e obediencia ao rei não +bastam.</p> + +<p>—Dize-me então quaes são as leis que governam<span class="pn"><a +name="pag_100">{100}</a></span> o mundo. Explica-me todos os mysterios do teu +governo e da ordem inquisitorial.</p> + +<p>—Em duas palavras se resumem, criança: <em>mandar e obedecer</em>.</p> + +<p>—Mas a quem se obedece, meu padre? A Deus, ou aos seus missionarios na +terra? ao nosso rei, ou aos aulicos miseraveis que, usurpando-lhe o sceptro, +abusam da indole e fraquesa do rei?</p> + +<p>—Vou mostrar-te a quem é.</p> + +<p>A esta laconica e mysteriosa ameaça chamou o jesuita pelo silencioso +carcereiro, a quem ordenou, ainda com maior laconismo, estatelasse o pagem no +segredo.</p> + +<p>O carcereiro puchou por uma das argolas de ferro pregadas na parede e, +mediante um alentado esforço, depressa fez sobresair uma abertura da capacidade +de tres palmos de largo e uns sete palmos de alto.</p> + +<p>Guardando sempre o mesmo silencio, pegou do corpo do badage como se lidasse +com uma pluma de ave e, começando de lhe introduzir os pés e as pernas, +fechou-o com celeridade na mysteriosa crypta.<span class="pn"><a +name="pag_101">{101}</a></span></p> + +<p>A nova prisão era uma especie de armario de granito cuja parte superior, á +semelhança de um enorme funil, apresentava geometricamente o desenho de uma +figura conica.</p> + +<p>Sendo armario como parecia, abundava em estantes ou prateleiras, mas +prateleiras de gosto e feitio a darem ideia aproximada das divisões funerarias +de que se formam as capellas dos nossos cemiterios.</p> + +<p>—Sepultam-me vivo estes sacerdotes do Senhor, pensou o pagem. Está decidido +que de aqui só se vae para o ceu ou para o inferno.</p> + +<p>Mas o pagem, mal se lhe proporcionava ensejo de criar este lugubre +pensamento, viu escancarar-se de novo a tampa do seu sepulchro.</p> + +<p>—Podes sair, ordena o jesuita.</p> + +<p>—Bem ruim gracejo, meu padre. Julguei asphixiar como se fosse um perro. Nem +luz nem ar e sobretudo um cheiro, a vermes podres que deveras me incommodava o +nariz.</p> + +<p>—Pois arrepende-te dos teus erros. Os bens da terra não os merecem os +peccadores que a todos os momentos offendem a vontade de Deus. Reconhecendo as +leis e o dominio da nossa ordem,<span class="pn"><a +name="pag_102">{102}</a></span> terás para sempre o socego do teu corpo e a +ventura do teu espirito. Os filhos de Jesus Christo, a despeito de parecerem os +ultimos pela modestia do habito, são hoje por todas as partes do mundo os +primeiros na força e no poderio. Ai do insensato que julga encravar com um dedo +a roda dos seus triunfos! Por isso, meu filho, expulsa quanto antes do teu seio +as glorias vans do mundo secular. Em vez do gibão de velludo ou do cossolete de +aço polido, enverga o saio de estamenha e abraça o lenho sagrado de Jesus +Christo.</p> + +<p>O jesuita, deixando novamente a sós o badage, retirou-se a passo lento.</p> + +<p>Vendo-se agora o badage n'quella solidão tremenda, por mais uma vez +relanceou as vistas em redor do carcere.</p> + +<p>A argola puchada pelo carcereiro inflammou-lhe a imaginação e, querendo +descobrir o segredo de outras argolas identicas, adiantou-se em direitura da +parede.</p> + +<p>Á imitação do homunculo, puchou com força. Era uma argola de ferro carcomida +pela ferrugem de alguns annos. Ella parecia ceder ao primeiro<span +class="pn"><a name="pag_103">{103}</a></span> empuxão; mas ficou segura e fixa +como se a pretendesse abalar o pulso de uma criança. Novo empuxão com maior +violencia e ainda, todavia, se não obteve mais feliz resultado.</p> + +<p>—A questão é de geito, considerou o pagem.</p> + +<p>Com effeito, sem exigir metade do esforço a argola cedeu á sexta ou setima +tentativa.</p> + +<p>No bojo da parede, ainda que de fórma differente do armario de granito onde +fôra introduzido o badage, manifestou-se uma crypta de genero egualmente +lugubre. Formavam-na quatro paredes escuras de dez ou doze palmos de largo e +deseseis ou desoito palmos de altura. Nada inculcaria de notavel a não ser uma +especie de feretro levantado no centro do pavimento. O feretro, que era +fabricado de pedra tosca em harmonia com todo o escondrijo, servia de asylo a +um esqueleto de mulher. Os braços e tronco, as pernas e a caveira ali se viam +com a pelle arroxeada e os ossos amarellecidos pelos effeitos da podridão.</p> + +<p>O badage, pensando na sorte das malaventuradas creaturas, sentiu ainda mais +activa a prurigem da curiosidade. Não cuidando de fechar<span class="pn"><a +name="pag_104">{104}</a></span> a porta do escondrijo, lembra-se de percorrer a +trechos a parede. Lançou as mãos a segunda argola e eis que lhe apparece novo +escondedouro. Não tem sarcophagos, nem feretros, nem prateleiras, nem divisões. +Menos alto do que largo, é simplesmente uma grande caixa de pedra. No pavimento +amontoam-se braços encrusados, pernas desconjuntadas e caveiras ás duzias. Era +uma pilha putrefacta e immunda de caveiras e esqueletos humanos: um repulsivo e +fetido ossario emfim.</p> + +<p>Nuvens de fumo espesso e acre vieram entretanto invadir pouco a pouco o +espaço do carcere. Cada vez se pronuncia mais um cheiro violento de substancias +asphixiadoras. Ficam por todo o espaço predominando esses dous inimigos dos +pulmões: o acido carbonico e o acido sulphydrico.</p> + +<p>Esta horrivel atmosphera devia naturalmente influir nos sentidos e na +organisação do badage. Influiu. A cabeça entonteceu-lhe e, cambaleando como um +ebrio, cahiu na distancia de algumas polegadas das caveiras e esqueletos do +ossario!</p> + +<p><span class="pn"><a name="pag_105">{105}</a></span></p> + +<h1>IX</h1> + + +<h2>O CARCEREIRO</h2> + +<p>O badage +irremediavelmente morreria asphixiado pela acção dos vapores deleterios se o +carcereiro, cuidando de abrir uma larga janella situada ao fundo do calabouço, +não permittisse rapido ingresso a uma camada violenta de ar.</p> + +<p>Abertas as portas da janella, os fluidos atmosphericos vieram naturalmente +substituir os vapores do enxofre e assim em poucos momentos se restabeleceu nas +gemonias inquisitoriaes um ambiente mais ou menos salutar.</p> + +<p>O badage acreditou na sua ressurreição.<span class="pn"><a +name="pag_106">{106}</a></span></p> + +<p>—Obrigado, obrigado. Antes estourar de uma cutilada de mouro de Asamor do +que morrer abafado como um perro. Com mil brecas!</p> + +<p>—Poupe os seus agradecimentos, resmoneou o carcereiro. Fiz apenas a minha +obrigação. Mandaram-me que o não deixasse morrer e eu obstei a que morresse. +Mandassem-me o contrario, eu o contrario teria feito sem tugir nem mugir e +vossa mercê, fóra de duvida, morreria sem remissão nem aggravo.</p> + +<p>—Comprehendo, observa-lhe o badage, que influa mais no teu espirito a +religião do dever do que a da misericordia. Mas tambem é certo que debaixo +d'esse pello de perro austero e selvagem tens ou deves ter uma alma. Por +ventura deixarias morrer, á guisa de fera estorcida na jaula, um pobre homem +nascido e criado á semelhança de Deus?</p> + +<p>—Desempenho á risca as ordens que me dão. Para isso me sustentam e pagam. +</p> + +<p>—Então se te dissessem—<em>estrangula tua irman e assassina tua mãe!</em> +tu, em obediencia á malvadez do amo, julgarias cumprir com o teu dever?<span +class="pn"><a name="pag_107">{107}</a></span></p> + +<p>—Por Deus que ninguem me obrigava a tirar a vida a meus irmãos ou a meus +paes!</p> + +<p>—Mas supponhamos que assim acontecia...</p> + +<p>O carcereiro experimentou uma ligeira contracção de nervos, estendeu com +gestos de ameaça terrivel os braços musculosos e regougou em bruscos termos +como se disposesse da voz do trovão:</p> + +<p>—Eu, escravo, em caso tal arrancaria com estas garras de hyena a lingua do +meu amo!</p> + +<p>—Não te fallece por tanto uma certa intuição do bem e do mal. Por instincto +ou rasão natural, sempre dispões de uma certa faculdade pensante que te diz não +ser infinita a orbita dos teus deveres servis. Reconheces em summa que o +universo é maior...</p> + +<p>—Não comprehendo bem. Um desastrado carcereiro não póde saber de letras nem +sabe o que são ideias. É um cão de fila a quem disseram: <em>guarda esse +rebanho e no fim de cada mez receberás as gorduras de uns tantos ossos</em>. O +cão desempenha cada dia o seu serviço de guardar e jámais se importa que o +rebanho seja de ovelhas limpas e alfeiras ou bravias e tinhosas. Obedece á voz +de quem manda.<span class="pn"><a name="pag_108">{108}</a></span></p> + +<p>—Mas porque obedeces tu?</p> + +<p>—Porque me pagam.</p> + +<p>—Logo, obedeces a quem te paga...</p> + +<p>—Está visto.</p> + +<p>—Logo, o serviço está em relação com a paga: maior paga, melhor serviço. +</p> + +<p>—Naturalmente.</p> + +<p>—Logo se eu te pagar maior quantia do que a que tu percebes como +carcereiro, depressa abandonarás a profissão de carcereiro...</p> + +<p>—Nem mais nem menos, meu fidalgo!</p> + +<p>—Dize-me então: quanto ganhas n'esta enxovia?</p> + +<p>—Conta redonda: 150 crusados por anno.</p> + +<p>—150 crusados por anno correspondem a pouco mais de 12 crusados por mez e a +menos de 200 reis por dia. Julgas que não é pouco?</p> + +<p>—Deveras é muito pouco para quem se vê obrigado a sustentar mulher e +filhos...</p> + +<p>—Ah, tambem tens familia?</p> + +<p>—Quem não tem familia, meu fidalgo?</p> + +<p>—De certo não sabes quem eu sou. Eu vivo sem paes, sem irmãos e sem +parentes. Disem que sou um christão novo! Sou talvez um apostata,<span +class="pn"><a name="pag_109">{109}</a></span> um reprobo, um paria! Vivi por +longo tempo na innocencia e no socego dos sertões. Meus paes e meus parentes +nutriam-se dos cachos das palmeiras, com todo o fervor das suas almas fasiam as +suas orações no templo de Trichandur e as tempestades da desgraça jámais +varreram tanto o repouso do seu corpo como as crenças do seu espirito. Mas um +dia<a name="tex2html13" href="#foot110"><sup>[13]</sup></a> nos mastareus de +enormes galeões appareceu arvorada a bandeira lusitana n'esse grandioso imperio +onde<a name="tex2html14" href="#foot169"><sup>[14]</sup></a> <em>as plantas são +fructos, as aguas perolas e as pedras preciosas</em>. Esta bandeira significava +o symbolo da fé; era o labaro da paz e da fraternidade. Por isso de todas as +cidades e aldeias se receberam os companheiros de Vasco da Gama como irmãos e +amigos. Estabeleceu-se a troca dos generos, entabolaram-se todas as transacções +commerciaes, vendiam-se pelos brocados de seda e pelos tecidos de lan ou de +algodão o coral e o marfim, as perolas e o ouro, a canella e toda a casta de +especiarias. Mas, ah, depressa a cobiça das riquesas transtornou a paz e a +ventura das Indias! Em vez da troca e dos contractos<span class="pn"><a +name="pag_110">{110}</a></span> mercantis, os portugueses foram preferindo as +dadivas e a vassalagem por não desmentirem que chegavam <em>tam mortos de fome +como vivos de cobiça</em><a name="tex2html15" +href="#foot114"><sup>[15]</sup></a>. Accendeu-se então por toda a parte o facho +da guerra e da discordia. Familias inteiras perderam a fasenda e a liberdade, +povos inteiros perderam a familia e a existencia. Não te farei a resenha dos +roubos e das violencias, dos combates e dos incendios. Basta saberes que foi +assim que eu fiquei só no mundo: sem patria, sem dinheiro e sem amparo...</p> + +<p>—Uum, uum! Não sei se acredite o que me diz, atalhou o carcereiro. Não +acredito de certo. Vossa mercê ou vossa senhoria é mais do que inculca ou +inculca mais do que é.</p> + +<p>—Então que favoravel ou ruim ideia fases de mim?</p> + +<p>—Imagino que seja algum fidalgo poderoso.</p> + +<p>—Não sou fidalgo.</p> + +<p>—Pelo menos algum conde...</p> + +<p>—Enganas-te.</p> + +<p>—Meu senhor, ninguem, sem que seja de altas<span class="pn"><a +name="pag_111">{111}</a></span> hierarchias e de singular poderio, gosa da +honra de entrar aqui. Para simples peões não foram feitas as seguras grades e +as grossas paredes que sustentam estas abobadas.</p> + +<p>—Tens rasão. Nada sou do que dises e sou todavia muito mais que tudo isso. +</p> + +<p>—Algum marquez?</p> + +<p>—Mais!</p> + +<p>—Algum duque?... O snr. duque de Lencastre, o snr. duque de Bragança, o +snr. duque de Viseu?...</p> + +<p>—Mais, muito mais!</p> + +<p>—Acima de um duque nada conheço. São os maiores fidalgos do reino. Ninguem +acima d'elles a não ser sua altesa serenissima o senhor Dom João III.</p> + +<p>—Pois recorda-te bem. Ha ainda quem valha mais de que el-rei!</p> + +<p>—Mais do que el-rei?</p> + +<p>—Muito mais, muito mais!</p> + +<p>—Aposto, aposto! Em nossos reinos juro e aposto que não ha quem valha mais +do que el-rei nosso amo e senhor!</p> + +<p>—Vaes sabel-o já...<span class="pn"><a name="pag_112">{112}</a></span></p> + +<p>—Pois quem é, quem é?</p> + +<p>—Alguem é.</p> + +<p>—Mas quem?</p> + +<p>—Simão Rodrigues!</p> + +<p>O carcereiro poz-se a matutar por alguns momentos. Depois aventurou dous +passos ao longo do calabouço, estalejou emfim com a mão direita uma palmada na +testa e disse pausadamente:</p> + +<p>—Na verdade o jesuita é poderoso. Vale mais em forças e poderio do que um +duque...</p> + +<p>—Mais que o monarcha. O monarcha tem a corôa na cabeça e o sceptro na +dextra; mas isso tudo não passa das vans insignias da realesa. Vale menos o +manto de terciopello do que o saio de estamenha. Perante a vontade +inquebrantavel de Simão Rodrigues tudo averga e affrouxa como o vime, se quebra +e desfaz como o vidro. Elle governa o estado em nome da igreja; em nome da +religião escravisa a nobresa e o povo, essa cohorte de hebreus sempre +amaldiçoada pela igreja. Tudo lhe obedece piamente e é el-rei o primeiro +escravo que lhe obedece...<span class="pn"><a name="pag_113">{113}</a></span> +</p> + +<p>—Assim é, assim é.</p> + +<p>—Todavia Simão Rodrigues teme e reconhece a força e as traças de alguem... +</p> + +<p>—O papa?</p> + +<p>—Não.</p> + +<p>—O snr. Conde da Castanheira, que vale tanto como o papa?</p> + +<p>—Tambem não.</p> + +<p>—Pois quem é?</p> + +<p>—Eu!</p> + +<p>—Vossa senhoria, meu fidalgo, sempre me parecera muito rico e muito +poderoso...</p> + +<p>—Em verdade sou e não sou. Mas nada mais te digo. Se queres saber quem sou, +experimenta, experimenta...</p> + +<p>—Que devo faser então?</p> + +<p>—Deves desaferrolhar-me a porta do carcere...</p> + +<p>—Perco o meu emprego.</p> + +<p>—Quanto vale o teu emprego?</p> + +<p>—Vale mais de 100 escudos.</p> + +<p>—Terás 500 escudos, terás 1:000 escudos. Queres vender a minha liberdade +por 1:000 escudos em boas moedas de ouro?<span class="pn"><a +name="pag_114">{114}</a></span></p> + +<p>O carcereiro esgaseou attonitamente os olhos e respondeu com firmesa:</p> + +<p>—Por 1:000 escudos vende-se a alma ao diabo. Quero, meu fidalgo!</p> + +<p>—Fases bem, fases bem. Estas abobadas cheiram a vermes podres e a cadaveres +queimados!</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot110" href="#tex2html13"><sup>[13]</sup></a> Vasco da Gama +aportou ao reino de Calicut em 20 de maio de 1499.</p> + +<p><a name="foot169" href="#tex2html14"><sup>[14]</sup></a> Conde da Ericeira. +<em>Portug. restaurado.</em></p> + +<p><a name="foot114" href="#tex2html15"><sup>[15]</sup></a> D. João de Castro. +Carta da India a D. João III.</p> +</div> + +<p><span class="pn"><a name="pag_115">{115}</a></span></p> + +<h1>X</h1> + + +<h2>VANTAGEM DE DOUS CONTRA UM</h2> + +<p>Preparava-se o badage +para se escapulir do carcere quando o homunculo, em attitude de lhe embargar a +passagem, desfechou das suas guelas herculeas uma estridente cascalhada de +riso.</p> + +<p>—Meu fidalgo, regougou elle, julga que eu seja de animo tam simplorio que +lhe favoreça a escapula sem primeiro arrecadar no bolso os mil ducados +promettidos por vossa senhoria? Pardés que me rio com vontade, meu fidalgo!</p> + +<p>—Fallas com prudencia e siso. Quem deve, paga. Eu, em troca da minha +liberdade, devo dar-te 1:000 escudos. Devo-te portanto 1:000<span class="pn"><a +name="pag_116">{116}</a></span> escudos em ouro ou prata. Mas esse dinheiro, +embora seja em perolas de Ceylão ou em ouro de Ophir, difficilmente se arrecada +no bolso do gibão.</p> + +<p>—Pois, meu fidalgo, teremos o contracto desmanchado... Demais, quasi estou +repeso do que fiz. As más acções produsem o effeito da ferrugem nos metaes: +fasem mossa na consciencia. Porventura merecem os meus amos que os atraiçoe? +Pagam pouco, é verdade. De que valem 150 crusados? De que valem elles? Uma +ninharia que não chega para a cova de um dente e não é preciso que o dente seja +de elefante. Mas emfim sempre me pagam...</p> + +<p>—Percebo, percebo. Sabes que mais val um passaro na mão do que dous a voar. +Dá cá, toma lá. Não é isso? Pois eu vou satisfaser os teus desejos.</p> + +<p>O badage pediu um tinteiro e sobre meia folha de papel escreveu com letra +maiscula o seguinte bilhete:</p> + +<p>«Dona Catharina de Austria, rainha de Portugal, entregará ao portador a +quantia de mil ducados em ouro ou prata. Do cárcere da inquisição<span +class="pn"><a name="pag_117">{117}</a></span> do Rocio, aos 29 de desembro de +1553. Pedro, o pagem.»</p> + +<p>—Toma, disse depois ao homunculo. Este bilhete vale bem o teu dinheiro. +Ficas satisfeito?</p> + +<p>O carcereiro empolgou a meia folha de papel e com soffreguidão o perpassa +duas veses em frente dos olhos. Quando lhe cresceu tempo de o ler, curvou a +cabeça em testemunho de respeito e contrictamente resmoneou:</p> + +<p>—Meu fidalgo, bem adivinhava eu a estirpe de vossa senhoria! Tem relações +com sua altesa serenissima Dona Catharina de Austria, um coração de bondade +como não ha outro mais protector dos pobres e dos infelises. Que immensa +gloria, que felicidade a minha em topar com tam boa e poderosa gente! Beijo-lhe +as mãos, meu rico infantão. Agora sim. Para tudo quanto precise tem ás suas +disposições o servo mais humilde e mais dedicado. Prompto, meu amo! Logo ou +ámanhan, agora e já, sempre e sempre me disponho a servil-o. Palavra de homem +honrado: quer partir já? quer que se bote o fogo a esta casa maldita? quer que +se espatife<span class="pn"><a name="pag_118">{118}</a></span> com um cutelo a +cabeça do snr. Simão Rodrigues? Eu obedeço como deve sempre obedecer o servo, o +escravo. Ordene, meu fidalgo!</p> + +<p>—Muitas veses nos arrependemos da maxima confiança. Sou de aviso que +primeiramente recebas o premio dos teus serviços. Vai e volta depois. +Porventura não receias que te engane?</p> + +<p>—Meu amo, replicou o alcaide ao mesmo tempo que rasgava com nobre +desinteresse o seu papel de 1:000 escudos, de hoje por diante ficarei sempre ás +ordens de vossa senhoria illustrissima. Ja pouco me importam os meus ducados. +Podemos partir quando queira, meu nobre senhor...</p> + +<p>Ouviu-se então uma voz dissonora como a furia do vendaval.</p> + +<p>—Não partireis! trovejou Simão Rodrigues ao assomar com passo grave no +portal do sombrio ergastulo.</p> + +<p>Infelizmente para elle, o jesuita commettera um acto de rara imprudencia. +Vinha só. Affeito á cega obediencia de um numeroso exercito de clerigos e +alabardeiros, confiadamente se apresentou<span class="pn"><a +name="pag_119">{119}</a></span> á porta do carcere sem soldados nem sequito. +</p> + +<p>O badage e o carcereiro ficaram com o espirito indeciso. Ambos conheciam até +que ponto alcançavam a sagacidade e jurisdicção do jesuita. Bastar-lhe-hia um +gesto ou uma palavra para todos á porfia executarem immediatamente as suas +ordens. Por isso não deixava de ser melindrosa a situação. Mas depressa o +badage e o carcereiro comprehenderam a vantagem que levavam ao jesuita: dois +contra um é sempre uma vantagem.</p> + +<p>Simão Rodrigues entrou no carcere e o homunculo adiantou-se para a umbreira +da porta. A porta era solida e perra; mas o pulso vigoroso do homunculo fel-a +girar nos gonzos sem difficuldade e logo em um abrir e fechar de olhos lhe +correu com a chave a lingueta da fechadura. Depois, tomando a prevenção de +esconder a chave no bolso das calças, foi augmentar o grupo do jesuita e do +badage.</p> + +<p>O jesuita fallava assim:</p> + +<p>—Pagem, quiz ganhar de el-rei o vosso perdão. Mas el-rei nosso amo não quiz +perdoar os<span class="pn"><a name="pag_120">{120}</a></span> vossos crimes e +vós, convicto do crime de heresia, no primeiro domingo do Advento padecereis +como christão novo o supplicio da fogueira. Encommendai a vossa alma a Deus... +</p> + +<p>O badage, desfechando uma risada, em bom genio redarguiu:</p> + +<p>—Não careço do teu perdão, meu padre. Agora na minha presença deixarás de +ser o provincial Simão Rodrigues: és simplesmente um reptil, um covarde, um +malvado... Queres ainda lutar comigo? Braço a braço, esmago-te!</p> + +<p>—Assim, assim, meu valente! Esmague-me essa vibora! jarrete-me esse +verdugo!</p> + +<p>Apenas o carcereiro desprendera das fauces tam rudes imprecações, o jesuita +impallideceu como um cadaver. Comprehendeu o conluio; adivinhou que se trocaram +os papeis. Em vez de mandar e ser obedecido, restava a Simão Rodrigues o papel +de obedecer como escravo. Lance desesperado para o seu orgulho!</p> + +<p>—Estranho o vosso procedimento, desabafou emfim. Insensatos que sois! Por +ventura me faltareis á obediencia? Por acaso attentareis contra a minha vida? A +minha vida pertence á<span class="pn"><a name="pag_121">{121}</a></span> igreja +e a Deus. Cautela com a maldição de Deus!</p> + +<p>De nada, porém, valeram os argumentos. Carcereiro e encarcerado abafaram com +um lenço a boca de Simão Rodrigues, por detraz das costas amarraram-lhe os +braços com um pedaço do sambenito despido pelo badage e, como se faz a uma rez +no matadouro, jungiram-no pela gorja a uma das argolas do carcere.</p> + +<p>—Vamos deixar-te agora, proferiu o badage. Ficarás ahi, filho de +Torquemada, entregue ao arrependimento e ao remorso dos teus crimes. Não teve +força nem coragem el-rei Dom João III para reprimir as tuas ambições e castigar +os teus delictos. Pois desempenho eu os deveres do rei! Para bem do povo e +desaggravo da humanidade faz-se mister que desappareças da face do mundo e que +tambem desappareça comtigo essa ordem de viboras e de tigres que para desdita +nossa introdusiste de Roma nos reinos de Portugal. Adivinhas o que te vai +succeder? Adivinhas por acaso? Desapparecerás para sempre, Simão Rodrigues. +Antes de meia<span class="pn"><a name="pag_122">{122}</a></span> hora será o +teu corpo um esqueleto e esse esqueleto se redusirá a um punhado de cinzas!</p> + +<p>Em seguida desprendeu dos pilares da abobada uma lanterna e com a chamma do +pavio incendiou as roupas talares do jesuita.</p> + +<p>Começando então de atear-se uma labareda fumegante, logo os dous +companheiros a passo lesto se dirigiram para o umbral da porta e assim sem +saudades abandonaram aquella horrenda masmorra.</p> + +<p><span class="pn"><a name="pag_123">{123}</a></span></p> + +<h1>XI</h1> + + +<h2>A TAVERNA</h2> + +<p>O carcereiro e o pagem +toparam-se defronte do sombrio edificio de San Domingos por altas horas de uma +noite escura como breu e sem ideias determinadas sobre a melhor direcção que +lhes convinha aproveitar.</p> + +<p>Era certo que por longos momentos não podiam ali permanecer sem o risco de +serem percebidos e presos. Mas, em conjuncturas de indecisão, quem se lembra de +acodir convenientemente pela propria segurança? Viam-se em liberdade e esse +unico bem lhes parecia a suprema fortuna. A largos sorvos aspiravam as<span +class="pn"><a name="pag_124">{124}</a></span> emanações puras da noite e com as +vistas abrangiam o espaço immenso onde volitam os astros. Pisavam aquelle chão +por cem veses trilhado pelas doloridas plantas das victimas inquisitoriaes. Por +ali passaram em companhia do carrasco e dos defensores da cruz algumas dusias +de martyres envolvidos na samarra e cobertos das terriveis carochas +sarapintadas de chammas e demonios. Mas, ainda assim, que feliz differença se +se comparava a sombria praça de San Domingos com as estreitas e miasmaticas +gemonias onde o corpo se esquartejava no excesso das torturas e a consciencia +desfallecia á mingoa do ambiente da liberdade? Entretanto os dous foragidos, +como julgando-se proximos de um foco de miasmas e de peste, reconheciam a +necessidade instinctiva de se desviarem para longe. Não tinham pensado ainda na +escolha do refugio. Lisboa, essa decantada sultana de marmore e granito a não +invejar bellesas a Stambul, era cidade grandiosa e opulenta, era então, como a +soube descrever um dos mais sympathicos engenhos da moderna geração, a «perola +das cidades do mundo, a Phryné das capitaes<span class="pn"><a +name="pag_125">{125}</a></span> da Europa, a terra do luxo, dos praseres, das +ostentações e das grandesas.»<a name="tex2html16" +href="#foot170"><sup>[16]</sup></a> Não lhe faltavam palacios nem choupanas, +igrejas nem tavernas. Mas o olho dos activos inquisidores, Argos da peor +especie conhecida, com tanta facilidade se estendia aos santuarios de Christo +como sobre os santuarios das familias. Nada aos filhos de Loyola e aos +discipulos de Torquemada lhes era vedado nem recondito: o seu fim predilecto e +a sua ambição natural eram avassallar o mundo, eram enroscar-se como serpente +gigantesca, desde as raises ao vertice da ramada, na arvore do universo!</p> + +<p>Por fim os miseros foragidos tomaram uma subita deliberação. Dirigiram-se +para o palacio hospitaleiro de Violante Gomes.</p> + +<p>Apesar do prolongado e tardio da noite, ainda a formosa dama não se +entregara aos dominios do somno. Entretinha-se a desferir da sua harpa de ebano +e marfim alguns ligeiros acordes repassados de ternura e melancolia.</p> + +<p>A principio sobresaltou-se e estremeceu com<span class="pn"><a +name="pag_126">{126}</a></span> a presença dos estranhos hospedes; mas logo com +um sorriso feiticeiro de meiguice e suavidade se dirigiu ao indio:</p> + +<p>—Por acaso, meu esforçado amigo, tendes algumas aventuras mais?</p> + +<p>—Aventuras sérias, respondeu o badage com signaes de desanimo e tristesa. +</p> + +<p>—Não percebeis quanto sinto os vossos desgostos. Mas a culpa não será +vossa? Porque não gosaes a vida em socego, sem vos importarem os negocios do +estado e os interesses alheios? Vós, os homens, tendes todos o espirito mordido +pelo sarcopto das ambições. Nada vos contenta.</p> + +<p>—O destino assim é. Arrasta o nosso espirito para o bem ou para o mal do +mesmo modo que succede a uma lasca de taboa ou a um pedaço de cortiça dominado +pelas ondas do mar. Fica-me porém a consolação de que nunca a minha consciencia +se encaminhou para o mal.</p> + +<p>Inesperadamente sentiu-se um alteroso arruido. Algum serio acontecimento se +passava no largo do Rocio. Nem mais nem menos: o palacio de Violante Gomes fora +assediado por<span class="pn"><a name="pag_127">{127}</a></span> uma turba +sediciosa e infrene de alabardeiros e familiares do Santo Officio.</p> + +<p>Não era agradavel nem segura a posição dos foragidos das gemonias +inquisitoriaes. Escapar, seria negocio difficil. Combater, seria temeridade com +todos os visos de loucura. Sem embargo o indio não desanimou nem tremeu.</p> + +<p>—Senhora, disse para Violante Gomes, os vossos hospedes são incommodos e +perigosos. Por isso vos disemos adeus até melhor occasião. Vamos ao encontro +dos inimigos...</p> + +<p>—Loucos! acodiu a esbelta dama. Deixai as escadas e vinde por este sitio. +Segui-me depressa!</p> + +<p>Violante Gomes, allumiada por um castiçal de prata, adiantou-se por um +corredor estreito, subiu os degraus de umas escadas mais estreitas ainda e +chegou ao recanto de uma saleta desguarnecida.</p> + +<p>—Já, já! Apressai-vos a abrir essa janella. Deita para os telhados visinhos +e, tres ou quatro varas além, podeis escapulir-vos com segurança. Não afianço +que não haja perigo...</p> + +<p>—Podemos cair dos telhados á rua como dous gatos ou dous perros, então +regougou pela<span class="pn"><a name="pag_128">{128}</a></span> primeira vez o +ex-carcereiro. Mas nada de sustos. D'entre dous perigos escolhe-se o menor.</p> + +<p>Alguns momentos depois a janella tornara-se a fechar e Violante Gomes desceu +com animo desassocegado aos primeiros aposentos.</p> + +<p>O borborinho e a algasarra não affrouxavam. Pareciam o preludio de uma +d'essas tremendas tempestades que se chamam revoluções populares.</p> + +<p>—Abram a porta, abram a porta!</p> + +<p>A estes rugidos de panthera ninguem respondia do palacio. As voses +proseguiam entretanto:</p> + +<p>—Abram, senão arromba-se!</p> + +<p>—Arrombe-se a porta!</p> + +<p>—Á ordem de el-rei! Manda el-rei!</p> + +<p>—Abram! abram, sôs fidalgos!</p> + +<p>Como a porta não cedesse á intimação, as coronhadas principiaram de +desempenhar o seu papel destruidor. Grito infernal, desacato immenso!</p> + +<p>De longe a longe uma voz robusta e vibrante forcejava por dominar a +gritaria.</p> + +<p>—Basta, basta! bociferava.<span class="pn"><a +name="pag_129">{129}</a></span>.</p> + +<p>Esforços baldados, porém. O barulho, em vez de esmorecer, augmentava pouco a +pouco. Scenas de sangue e horror iam começar ainda.</p> + +<p>Entretanto os evasores dos ergastulos inquisitoriaes conseguiram chegar ao +meio da rua da Bitesga e ali resolveram parar á porta da taverna de um parente +do carcereiro.</p> + +<p>Em derredor de comprida e nodoenta banca de pinho bebiam, gesticulavam e +rosnavam em selvatica liberdade uns quinze homens de esqualida catadura e +trajos andrajosos que logo á primeira vista se consideravam relé de virtudes +duvidosas.</p> + +<p>Ainda mais seis ou oito colossos de eguaes trajos e costumes resonavam a +fartos folegos aos recantos da baiuca, uns acocorados indolentemente no chão e +outros encostados sem a minima ceremonia a escabellos e tamboretes.</p> + +<p>Se aquella turba esqualida não denunciava um covil de feras, certamente não +parecia um grupo de seres humanos. Eram homens todavia; mas homenzarrões de côr +macilenta, voz cavernosa e cabeça guedelhuda e cerdosa como de juba de +leão.<span class="pn"><a name="pag_130">{130}</a></span></p> + +<p>—Leve o diacho, rugia um d'elles, que leve o diacho tanto a zurrapa como +quem nol-a vende. Esse filho da breca jamais nos deu cousa com geito. O +vinho... que peste! O vinho é sempre do peor e do mais caro como se o vendesse +a mastins da igualha d'esse bisneto de Judas.</p> + +<p>—Pois andas mal, pedaço de asno, acodiu segundo bebedor dirigindo-se do +mesmo modo ao taverneiro. Se te não emendas e não cobras tento, nós +ensinamos-te deveras. A freguesia, meu lorpa, deixa-te ás moscas o presepio... +</p> + +<p>—Por isso, redarguiu de mau humor o dono da taverna, não me ha de ferver o +miolo. Fregueses como tu, Chico, ou tambem como tu, Miguel Farçante, juro que +os tomara ver a cem leguas do bairro. Sempre traseis os bolsos mais cheios de +sarna e cotão que de chelpa. De calotes estou eu farto dês que vos aturo.</p> + +<p>—Cala-te ahi, volveu-lhe o bebedor Miguel Farçante. Bem sabes que não sou +de genio talhado para lerias...</p> + +<p>—Puf, meu valentão das dusias! Lerias tuas é que pouco me importam. O que +mais quero é que me paguem e tu, se herdasses a vergonha<span class="pn"><a +name="pag_131">{131}</a></span> dos homens honrados, não me punhas mais as +patas de portas a dentro.</p> + +<p>—Uum, uum! Pois isso vai assim, grande lorpa! Toma lá pela injuria...</p> + +<p>Logo na face cadaverica do vendeiro estalou uma punhada gigantesca. O +vendeiro quedara a principio silencioso e soffredor como uma estatua; mas +depois com a ligeiresa de um tigre pegou pelo bojo de um cangirão quasi cheio +de vinho e, ministrando-lhe a força de um punho de Sansão, em um apice o +arremessou á cabeça do aggressor. O barro quebrou-se em pedaços e dous jorros +de sangue borbulharam da testa em que elle bateu.</p> + +<p>Immediatamente, em guisa de campo de batalha, se estremaram dous partidos. +Em todas as mãos luziam aos reflexos das candeias facas e punhaes. Metade dos +fregueses predispunha-se para a defesa e outra metade para a investida.</p> + +<p>—Vaes levar a tua conta, meliante!</p> + +<p>—O vendeiro teve rasão...</p> + +<p>—Rasão vamos ver quem a teve! Trocaram-se estas rudes ameaças em um<span +class="pn"><a name="pag_132">{132}</a></span> abrir e fechar de olhos. Eram o +preludio de uma contenda furiosa entre dusia e meia de ebrios e malvados, +homunculos sem consciencia do bem e do mal, tam lestos em derramarem o sangue +das veias de seus irmãos como em beberem até aos bordos um cangirão dos +saborosos liquidos extrahidos das parras do Seixal.</p> + +<p>Foi então que o ex-carcereiro e o badage reconheceram a necessidade de +entrar na taverna.</p> + +<p>—Meus rapases, fallou-lhes o badage, não estamos em maré de bulhas e rixas +com amigos. O valor e a coragem podem experimentar-se em outra liça. Quereis +mostrar-me agora que sois valentes, meus rapases?</p> + +<p>—Topa-nos ás ordens, fidalgo! Mas primeiro deixe-nos dar uma tosquia a +taverneiros desaforados.</p> + +<p>O vendeiro estava já bem seguro pela gola da jaqueta. Miguel, querendo +vingar-se da ferida, ergueu o braço musculoso e ia sem clemencia +descarregar-lhe sobre o peito a lamina do seu punhal. Mas o golpe falhou. O +badage<span class="pn"><a name="pag_133">{133}</a></span> segurou com força +extraordinaria o braço que sustentava o punhal.</p> + +<p>Então o barulho arrefeceu e aquella corja de ebrios, baixando as facas e os +punhaes, pediu e celebrou tregoas.</p> + +<p>—Disei-me pois, dirigiu-se-lhes novamente o badage, se quereis ou não +quereis provar o vosso valor e a vossa força. Preciso do serviço dos vossos +braços, meus rapases.</p> + +<p>—Fidalgo, responderam logo, diga lá o que nos quer.</p> + +<p>—Toca a beber primeiro, volveu o badage. Quem paga é a minha bolsa. Venha +lá do melhor e do mais caro: Seixal ou Caparica do mais velho.</p> + +<p>O vendeiro apresentou seguidamente seis garrafas cobertas de pó e foi +despejando as primeiras duas no bojudo cangirão.</p> + +<p>O badage pegou da vasilha e dispôz-se a offerecel-a a cada um dos +homunculos. Cada cangirão mal chegava para quatro bebedores, mas á medida que +se esvasiava não se esquecia o taverneiro de o reencher até aos bordos.</p> + +<p>Todos beberam á vontade em menos de meio<span class="pn"><a +name="pag_134">{134}</a></span> quarto de hora e como o badage tivesse pressa +de lhes aproveitar os serviços tratou de conduzil-os em direitura do Rocio.</p> + +<p>—Adeus e obrigado, disse para o taverneiro. Ahi tens um ducado de ouro de +lei. Guarda-o em paga do teu vinho.</p> + +<p>—Obrigado lhe digo eu, fidalgo. A despesa está paga. Não aceito o dinheiro +de vossa senhoria e ainda lhe fico devedor de muito mais.</p> + +<p>—O taverneiro é generoso, é generoso! conclamou a maioria dos fregueses. +</p> + +<p>Preparavam-se todos para sair quando se lhes dirige ainda o taverneiro:</p> + +<p>—Mas para onde vades assim, papalvos?</p> + +<p>—Nós te diremos depois para onde vamos, retrucou o ex-carcereiro. Quem fôr +peco e desanimoso que fique para ahi como um perro. Pela nossa banda queremos +só gente de animo decidido e braço alentado.</p> + +<p>—Bofé que ninguem dirá que o taverneiro da Bitesga foi algum dia peco! Mas +ouvi rosnar por ahi que era preciso combater e brigar. Se a coisa é séria, +unicamente facas e punhaes são armas de pouca monta.<span class="pn"><a +name="pag_135">{135}</a></span></p> + +<p>—Fallas com a prudencia de Dom Vasco da Gama, apoiou o indio. Mas não temos +horas a perder e, na falta de outras armaduras, todas as que se encontram á mão +nos parecem de boa tempera.</p> + +<p>—Serão. Mas devem concordar que as ha bem melhores de tempera e de alcance. +Uma espada alcança mais longe do que um punhal e os pelouros de um bacamarte +vão mais longe ainda...</p> + +<p>—É certo. Mas onde ha por ahi perto algum arsenal?</p> + +<p>—Um fiel vassallo de sua altesa serenissima deve estar sempre bem +apercebido e armado. Esperem um bocado, esperem que eu venho já.</p> + +<p>Subiu o taverneiro ao primeiro andar da escura baiuca e momentos depois se +apresentou no meio dos seus fregueses com um braçado respeitavel de bacamartes +e de pistolas e machados, ascunhas e espadas. Para complemento da collecção de +armaduras de que falla o cantor dos <em>Lusiadas</em> faltavam ainda<span +class="pn"><a name="pag_136">{136}</a></span></p> + +<blockquote> + <em>Os</em> arneses e peitos relusentes, <br> + Malhas finas e laminas seguras, <br> + Escudos de pinturas differentes, </blockquote> + +<p>mas certamente sobejavam</p> + +<blockquote> + Pelouros, espingardas de aço puras, <br> + Arcos e sagittiferas aljavas, <br> + Partasanas agudas, chuças bravas. </blockquote> + +<p>—Para meia dusia de amigos, regougou o taverneiro, aqui temos pão e queijo. +Escolham á vontade...</p> + +<p>Ficaram logo apercebidos e apetrechados seis ou oito dos mais robustos e +decididos. O numero restante julgou-se egualmente bem armado com os seus +punhaes de fina lamina e as suas facas de ponta cuidadosamente afiada.</p> + +<p>—Agora, ordena o badage, cuidemos da partida. Alma alegre e caras á frente. +Vamos combater nada mais e nada menos que os serventes e soldados do Santo +Officio...</p> + +<p>—Do Santo Officio! exclamaram com espanto.</p> + +<p>Houve um momento de indecisão. Aquella palavra terrivel incutiu deveras o +terror nos espiritos mais varonis e affrouxava de medo o braço<span +class="pn"><a name="pag_137">{137}</a></span> mais possante. O tribunal do +Santo Officio ou da <em>Santa Casa</em>, segundo o conceito de um escriptor, +comparava-se então pouco mais ou menos com a arca de Noé, observando-se +unicamente a differença de que os animaes que entraram na arca sairam como +tinham entrado e de todos os que eram encerrados nos carceres da inquisição se +viam sair mansos como cordeiros aquelles que á entrada tinham a crueldade dos +lobos e a feresa dos leões!</p> + +<p>—Vejo, rosnou o ex-carcereiro, que não sois homens para empresas serias. +Tanto medo para nada! Eu, que servi por alguns annos essa corja de +inquisidores, confesso-vos que não recuo nem me arreceio.</p> + +<p>—Aqui ninguem confessa medo! interferiu o vendeiro com heroica resolução. A +vida é uma ninharia e a mim tanto se me dá morrer hoje na praça como ámanhan na +cama. Vamos ou não vamos, rapases?</p> + +<p>Momentos mais tarde a baiuca ficou permanecendo silenciosa e vasia.<span +class="pn"><a name="pag_138">{138}</a></span></p> + + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot170" href="#tex2html16"><sup>[16]</sup></a> Arnaldo Gama. <em>O +segredo do abbade.</em></p> +</div> + +<p><span class="pn"><a name="pag_139">{139}</a></span></p> + +<h1>XII</h1> + + +<h2>REFERTA DE TIGRES E LEÕES</h2> + +<p>Este arrojado troço de +feras humanas premunidas com lanças e espadões, ascunhas e alabardas, facas e +mosquetes investiu no Rocio com rude e selvagem ousia contra a infrene +multidão. Ia travar-se agora uma luta de tigres e leões.</p> + +<p>Nem a surpresa nem o medo conseguiram afugentar as mulheres ou as crianças. +As mulheres gritavam e rugiam como pantheras, as crianças, em corridas +vertiginosas arremessavam pedras e calhaus, os velhos sentiam refluir-lhes o +sangue da juventude e serviam para animar<span class="pn"><a +name="pag_140">{140}</a></span> os brios dos mais novos. Uma destemida populaça +e uma horda fanatica de soldados lidavam e combatiam, como em liça de +musulmanos contra christãos, com egual coragem e com o mesmo furor.</p> + +<p>Decorreram breves minutos e já se via, como na manhã seguinte de uma noite +de batalha, o chão alastrado de corpos ensanguentados e moribundos. Mais de +quinze cadaveres, não memorando a desastrada hecatombe dos feridos e contusos, +eram já os tristes despojos e as victimas infelises da contenda.</p> + +<p>O ruge-ruge, a voseria, a confusão e as cutiladas pareciam todavia cada vez +mais longe do seu fecho. Mas, predispondo-se a restabelecer o socego, um +personagem de altivo porte e animo resoluto á semelhança dos paladinos da idade +media, rompeu com bravura por entre o populacho e a soldadesca proferindo em +voz sonora: <em>basta, basta!</em></p> + +<p>Depressa foi reconhecido o campeão e, sendo-lhe franqueada a passagem com +todas as demonstrações de respeito, ergueu-se o grito geral de—<em>viva sua +altesa! viva o senhor infante!</em><span class="pn"><a +name="pag_141">{141}</a></span></p> + +<p>O infante Dom Luiz desembuçou a capa de veludo, mostrou ao povo o seu rosto +sympathico e com serenidade lhe fallou assim:</p> + +<p>—Ordem, ordem! El-rei deseja e estima a vida dos seus vassallos. Não quer +que elles vertam o seu sangue de tal sorte. Cobrai tento e socego, meus amigos! +</p> + +<p>Entretanto um dos mais inquietos e terriveis contendores foi pouco a pouco +recuando com a espada em punho até se aproximar do infante. Não recuava de +susto ou por impulsos de fraquesa, que nunca o seu espirito fôra abalado pelo +medo nem os nervos do seu braço jámais affrouxaram nas conjuncturas do perigo. +</p> + +<p>—Debalde gastaes a paciencia e o tempo, lhe segreda. Esta corja infrene e +rebelde que nem de filhos de Satanaz, decerto vos não obedece nem respeita.</p> + +<p>Não lhe sobejou ensejo de alongar o discurso. Um troço de aggressores +armados de alabardas e espadas, de picos e ascunhas investiu contra elle ao +grito diabolico de—<em>morram os hereges, morram os traidores!</em><span +class="pn"><a name="pag_142">{142}</a></span></p> + +<p>—Morram, morram os judeus e os hereges! conclamaram logo de todas as +partes.</p> + +<p>O infante, desnudando a espada, enrostou com a massa dos aggressores. Elles +porém, demovidos pelo respeito e pela estima que todos professavam pelo irmão +de el-rei, suspenderam o passo.</p> + +<p>—Ousareis porventura, lhes disse, erguer armas contra o irmão de el-rei? +</p> + +<p>—Não queremos offender vossa altesa, responderam do meio dos aggressores. +Queremos só esse herege e esse criminoso que ahi está. Esse buscamos, buscamos +esse só.</p> + +<p>—Que me quereis então? proferiu com sobrecenho e desassombro aquelle que +indigitavam.</p> + +<p>—A vossa cabeça. A vossa cabeça de traidor para a ponta das nossas lanças e +o vosso corpo de herege para a fogueira do Santo Officio.</p> + +<p>—Rapases, retorquiu o infante com asedume, a el-rei sómente incumbe o +castigo. Não vos é dado justiçar por vossas mãos. Se ha ahi algum criminoso, os +juises de el-rei o tem de punir segundo as leis e usos do reino.<span +class="pn"><a name="pag_143">{143}</a></span></p> + +<p>—Diz bem o senhor infante, concordaram alguns dos representantes da +populaça.</p> + +<p>—Ide-vos em boa paz então. Restabeleça-se a ordem e haja por toda a parte +socego.</p> + +<p>—Mas quem nos responde pelo herege? Quem nos responde por elle?</p> + +<p>A estas interrogações dos mais exigentes, accrescentaram ainda algumas +voses:</p> + +<p>—Sem castigo não deve ficar. É de justiça, é de justiça que seja punido... +</p> + +<p>—Será feita justiça, retorquiu o infante. Prometto-vos debaixo de minha +palavra de Prior do Crato e, o que não vale menos, de leal cavalleiro, que o +levarei á presença de el-rei para que se faça justiça rigorosa.</p> + +<p>Seguidamente pela Bitesga e outras ruas dispersou-se pouco a pouco a +sediciosa turba. O infante Dom Luiz acompanhado pelo badage, esses meteram pela +rua da Palha em direcção aos paços da Ribeira.</p> + +<p>—Decerto cumprirá vossa altesa a sua palavra? inquire o badage a meio do +caminho.</p> + +<p>—Sinto, meu amigo, que me reservasses o<span class="pn"><a +name="pag_144">{144}</a></span> officio de carcereiro. Mas confio que meu irmão +e senhor não deixará de vos tratar bem.</p> + +<p>—Alimenta vossa altesa mais esperanças do que as que eu nutro. Do animo +generoso de el-rei pouco espero. Desconfio que precisa a guela d'aquelle +serenissimo sapo de mais uma doninha...</p> + + +<p><span class="pn"><a name="pag_145">{145}</a></span></p> +<h1>XIII</h1> + + +<h2>O LEITO DA DOR</h2> + +<p>As festas e os folgares +não se interrompiam nos alegres paços da Ribeira. Comtudo não havia remedios +nem divertimentos que restabelecessem a saude do joven herdeiro da coroa.</p> + +<p>A maior parte dos dias passava-os elle de cama. Acommettera-o grave +enfermidade. Queixava-se continuamente de dores de entranhas e revoluções de +estomago. Emmagrecia a olhos vistos e a cada hora mais se lhe pronunciava a +debilidade do corpo.</p> + +<p>Á sciencia medica os symptomas e o caracter do mal não despertavam todavia +os minimos<span class="pn"><a name="pag_146">{146}</a></span> cuidados. +Effeitos do fastio e consequencias de debilidade, eis a opinião uniforme de +todos os Esculapios e Galenos da côrte. Mas é certo que sua altesa peorava de +dia para dia. Pouco a pouco encovavam-se-lhe os olhos, entesavam-se-lhe os +dedos, empallideciam-lhe as faces, afilava-se-lhe o nariz, destingiam-se-lhe os +beiços e enfraqueciam emfim todas as carnes e todos os musculos.</p> + +<p>Nada o entretinha nem consolava. Até os seus dilectos livros e os seus +estimados trovadores lhe enfastiavam agora. Já não dava apreço ás quintilhas de +Francisco de Sá, á <em>Diana</em> de Souto Mayor nem aos autos de Gil Vicente. +Consumia todo o seu tempo em suspiros e lamentações. Á proporção que lhe +desfalleciam as forças do corpo, iam-lhe fugindo do espirito a coragem, a +resignação e a paciencia.</p> + +<p>Scena enternecedora em verdade era vel-o carpir as desditas da sua mocidade +quando a esposa delicada e nervosa o procurava alentar com o balsamo das +esperanças e dos carinhos! Era o seu anjo tutelar a fiel e amoravel esposa. +Jamais lhe abandonou o leito da dor e todos<span class="pn"><a +name="pag_147">{147}</a></span> seus thesouros de ternura com elle os gastava +generosamente. Nunca seios de mulher compartilharam assim das amarguras +alheias.</p> + +<p>A alcova e os aposentos do principe ficavam no segundo andar dos paços +regios. Ali de canto a canto reinava um luxo oriental nas rendas e nas +tapeçarias, em todos os ornamentos e em toda a mobilia. Mas de que valiam esses +brocados e essas riquesas? Faltava ali uma coisa vulgar: a alegria. A saude não +se póde comprar com ouro e sem o dom precioso da saude não existem as alegrias +domesticas, os risos da existencia.</p> + +<p>El-rei seu pai, talvez porque o excesso da sua augusta sensibilidade lhe não +permittia espectaculos de tristesa, raras visitas se dignava faser-lhe. Em +compensação a rainha sua mãe todas as manhans se lhe dirigia á cabeceira do +leito e a todas as horas mandava perguntar por suas damas se o principe +melhorava.</p> + +<p>Pela saude do joven principe todas as damas, fidalgos e poetas da corte +simultaneamente se interessavam. Muitas noites estava a sua alcova liberalmente +cheia de amigos e aduladores. Como<span class="pn"><a +name="pag_148">{148}</a></span> se não julgava de gravidade a molestia, +facilitava-se a honra da entrada a todas as pessoas do tracto e das relações do +paço.</p> + +<p>Vai correndo o dia dous de janeiro de 1554 e são quasi dez horas da manhan. +Sua altesa parece dormir a somno solto e na sala contigua estão esperando que +estremunhe e acorde duas dusias de poetas e fidalgos, de damas e criados. As +damas chamam-se Dona Francisca de Aragão, Dona Catharina de Athayde e Dona +Leonor Mascarenhas. Os poetas, contando os de maior nota, são Dom Manoel de +Portugal, João Rodrigues de Sá, Frei Paulo da Cruz, Dom Simão da Silveira, João +Lopes Leitão, Jorge Souto Mayor e Antonio Ribeiro Chiado.</p> + +<p>Conversam uns com os outros em voz desanimada e confrangida. A todos parece +faltar assumpto e liberdade. Está reinando certamente um quarto de hora de +monotonia. Mas eis que entra ainda um homemzinho magro e pletorico, de barbas +louras e cabellos compridos. Tem o nariz afilado, os olhos vivos e as faces +pallidas. A boca mostra-a de exiguas dimensões, mas, segundo a fama que em +Lisboa corria, no comprimento<span class="pn"><a +name="pag_149">{149}</a></span> da lingua ninguem se lhe avantajava.</p> + +<p>Vem todo aparaltado e nedio com sua gargantilha encanudada e seus punhos de +alvas rendas. Traz na mão esquerda um chapeu de feltro enfeitado com sua pluma +branca. Dos hombros pende-lhe um farto capirote de panno preto. Calção e gibão +foram talhados de veludo verde. As meias eram de fina seda cor de carne.</p> + +<p>—Seja bem vindo vossa mercê, meu illustre coripheu da <em>Castalidum +turba</em>!</p> + +<p>A esta jovial saudação de Souto Mayor o recem-chegado estendeu a dextra e +apertou com extremos de delicadesa a robusta mão do cantor da <em>Diana</em>. +</p> + +<p>Todos os outros cavalheiros procedem por sua vez a eguaes manifestações de +amisade e seguidamente se dirige o recem-chegado para a alcova do principe. +Depressa porém reapparece na ante-camara.</p> + +<p>—Está descançando no regaço de Morpheu, murmurou elle com um sorriso +prasenteiro.</p> + +<p>—É certo que sua altesa está a dormir, confirma prosaicamente a celebrada e +formosa<span class="pn"><a name="pag_150">{150}</a></span> Natercia. Mas por +isso não nos ha de deixar o nosso amigo Pedro Caminha. Estou anciosa por ouvir +as suas poesias, meu caro Apollo.</p> + +<p>—A musa tem andado constipada, minha gentil Galatea.</p> + +<p>—Os numes não se constipam, acode o faceto Chiado.</p> + +<p>—Não o deixamos partir sem nos recitar algum poema, accrescenta Dona +Francisca de Aragão.</p> + +<p>—Assim rogam tanto! Estou plebeamente envergonhado por não traser peça de +valor; mas não sei se lhes mostre...</p> + +<p>—Mostre, mostre, senhor Caminha! rogaram com alegria tres voses de guelas +feminis.</p> + +<p>—Mas que lhes hei de eu mostrar, pobre versificador de eglogas e elegias! +</p> + +<p>—Quer mote?</p> + +<p>—Metem-me em trabalhos, metem-me em trabalhos de Hercules; mas venha de +lá...</p> + +<p>—Deixemo-nos de mote, replica Souto Mayor. Ouvi diser que é maravilhoso o +ultimo parto do engenho de vossa mercê. Recite-o antes vossa mercê.<span +class="pn"><a name="pag_151">{151}</a></span></p> + +<p>—Votos, pedimos votos! regougam a um tempo dous divergentes cavalheiros. +</p> + +<p>Entretanto uma das travessas damas atreve-se a introdusir os ageis dedos no +bolso do collete de Pedro Caminha e logo com expansivo contentamento +desembrulha uma pequenina folha de papel amarrotado.</p> + +<p>—Eureka! exclamou ella com enthusiasmo.</p> + +<p>—Leia lá, senhora Dona Francisca.</p> + +<p>—Eu leio, eu leio!</p> + +<p>Pegou Pedro Caminha no precioso autographo<a name="tex2html17" +href="#foot171"><sup>[17]</sup></a> e com entono magestatico se dispoz a +recitar:</p> + +<blockquote> + Muitas veses meus versos me pediste <br> + Que t'os mostrasse e nunca te mostrei; <br> + Em não pedir-te os teus, se bem sentiste, <br> + Entenderias porque t'os neguei: <br> + Da paga me temi; se a não tivera <br> + Muitas veses meus versos já te lera. </blockquote> + +<p>Subito rubor purpurea as faces de Souto Mayor. Julga que elle mesmo fôra o +alvo do<span class="pn"><a name="pag_152">{152}</a></span> epigramma e vai +certamente dar o troco em egual moeda quando o auctor do <em>Olyssipo</em> +requer explicações.</p> + +<p>—Diga-nos vossa mercê, acodiu Jorge Ferreira, que allusões cavillosas são +essas as do seu epigramma, senhor Caminha?</p> + +<p>Caminha virou nas mãos a folha de papel e em voz mais elevada continua de +ler:</p> + +<blockquote> + Um tem dois olhos e com vista clara, <br> + Outro um só tem e esse co'a vista estreita. <br> + Diz este áquelle: «Amigo, eu apostara <br> + A qual de nós tem vista mais perfeita?» <br> + Quem houvera que a si não se enganara <br> + Como o outro que enganado a aposta aceita? <br> + Diz-lhe este: «Vê que vejo mais que ti, <br> + Pois dois olhos te vejo, um só tu a mi!» </blockquote> + +<p>—Bravo, excellente! exclamara João Rodrigues de Sá quando comprehendeu que +os epigrammas se dirigiam a esse misero poeta que valia mais que todos elles +porque se chamava Luiz de Camões e porque era talvez o primeiro, o ultimo, o +maior portuguez do seculo deseseis.</p> + +<p>—Deveras excellente! Excedeis Horacio e<span class="pn"><a +name="pag_153">{153}</a></span> Marcial, meu illustre e grandioso vate! com +estudado sorriso e com excesso de lisonjaria acrescentou ainda Jorge de Souto +Mayor.</p> + +<p>A este pomposo elogio immediatamente replica o padre-mestre dos epigrammas: +</p> + +<p>—Agradeço as vossas finesas, meu Petrarcha. Um frouxo de tosse fez por esta +occasião acorrer as damas ao quarto do principe.</p> + +<p>Acordara sua altesa com a indiscreta algasarra e a meio corpo se erguera +sobre os macios travesseiros do leito. Parecia mais alliviado da enfermidade, +mais jovial do olhar e menos cadaverico do gesto.</p> + +<p>—Vossa altesa dormiu bem? pergunta-lhe Dom Jorge de Moura aconchegando-se +do leito.</p> + +<p>—Sinto-me com mais animo e parece-me que vou melhorando...</p> + +<p>—Não tardará que vossa altesa esteja restabelecido. Isso não ha de ser +nada, querendo Deus.</p> + +<p>—Assim espero que aconteça; mas não sei, meu amigo, não sei o que sinto nem +o que padeço. Ha tantos dias na cama sem forças nem saude!<span class="pn"><a +name="pag_154">{154}</a></span></p> + +<p>—Disem os medicos que não passam de debilidade os achaques de vossa +altesa...</p> + +<p>—Os medicos sabem tudo, sabem tudo... Só não sabem dar-me cura!</p> + +<p>Abriu-se o reposteiro da alcova e a comprimentar o principe entrou agora a +colmea dos admiradores do poeta Caminha.</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot171" href="#tex2html17"><sup>[17]</sup></a> Veja-se a <em>Vida +de Camões</em>, por Theoph. Braga.</p> +</div> + +<p><span class="pn"><a name="pag_155">{155}</a></span></p> + +<h1>XIV</h1> + + +<h2>EFFEITOS DO VENENO</h2> + +<p>Respeitosamente foi +comprimentado o herdeiro da coroa por todos os poetas e cortesãos que de +improviso assaltaram a alcova. Mas o joven Dom João não se encontrava em maré +de paciencia para aturar importunidades e por isso a numerosa colmea dos nobres +aduladores cuidou logo de se despedir.</p> + +<p>A alcova permaneceu deserta; mas soou depressa o estalido de uma secreta +mola e a um dos cantos sahiu vagarosamente por uma porta escondida na parede o +aventuroso pagem.</p> + +<p>—Bom pagem, fallou-lhe o principe decorridos<span class="pn"><a +name="pag_156">{156}</a></span> alguns momentos, sinto que me vão affrouxando o +animo e a paciencia. O badage aproximou-se do leito.</p> + +<p>—São effeitos da doença, respondeu pausadamente.</p> + +<p>—Disem-me todos que isto nada é. Todos me enganam... Só tu me dises que +estou doente... Sabes que doença padeço?</p> + +<p>—Sei, meu principe.</p> + +<p>—Que doença é?</p> + +<p>—Francisco Lopes que vos responda, senhor.</p> + +<p>—Não és sincero. Tambem tu me enganas, pagem.</p> + +<p>—Receio declarar-vos a verdade.</p> + +<p>—Tenho coragem para a ouvir. Falla, falla...</p> + +<p>—Vós todos, principes e monarchas, só tendes abertos os ouvidos á adulação +e á mentira. A verdade é amarga e severa. Seria para as vossas organisaçoes +anemicas e sedentarias um eleboro violento em demasia. Mas podesseis +comprehender as bellesas e vantagens da verdade que seria mais tranquilla a +vossa consciencia e mais duradoura a vossa saude. Então saberieis ler no livro +mysterioso do destino os deveres<span class="pn"><a +name="pag_157">{157}</a></span> que vos determina a Providencia. Serieis então +os amigos e os protectores do povo...</p> + +<p>O enfermo escutava pela primeira vez tam dura e irreverente linguagem; mas, +como se tivesse o espirito fascinado pelo canto de uma sereia, não ousava +interrompel-a.</p> + +<p>Com mais valentia de voz o badage proseguiu:</p> + +<p>—Abençoados os monarchas que são os amigos e protectores do povo! +Abençoados sejam! Mas a maioria d'elles entrega-se noite e dia ao turbilhão +vertiginoso dos praseres e das orgias em menoscabo dos interesses publicos e em +prejuiso da ventura das nações. Não é grande o numero dos monarchas, por mais +ricos e poderosos que sejam, que morrem com a consciencia de haverem feito a +felicidade dos seus vassallos. Parece que teem os olhos vendados para o bem... +</p> + +<p>—Cala-te, que és injusto e severo. Que mal te fez meu pai ou tenho feito eu +para seres assim tam rigoroso de palavras?</p> + +<p>—Sois christão e mostraes ignorancia da leitura do Evangelho. Pois sabei +que pelas culpas<span class="pn"><a name="pag_158">{158}</a></span> dos paes +respondem os filhos até á quinta geração...</p> + +<p>—Eu sei o que disem as escripturas santas; mas de que mal e de que peccados +accusas meu pai?</p> + +<p>—Rio-me da vossa innocencia, meu principe. Por ventura ignoraes os +descreditos e vexames que todos vamos soffrendo cada dia? Quantos desacertos e +que torturas se não commettem ao sabor de Simão Rodrigues e só por interesse do +tribunal da inquisição? Bastará o <em>Santo Officio</em> para causar maiores +damnos do que a peste e mais opprobrio do que a forca. Nas mãos dos seus +ministros flammeja o cutelo do carrasco, que é o mesmo que o estilete do +assassino. Confisca-se a propriedade, assassina-se o fidalgo, rouba-se com a +riquesa a honra alheia e queima-se nas labaredas da fogueira o servo da gleba +para que se accenda mais uma lampada no altar da tirannia e se fortifique ainda +com mais uma columna o templo da igreja!</p> + +<p>—Não blasfemes assim, hereje. Lembra-te que fallas diante de um principe de +sangue.</p> + +<p>—Principes e monarchas não os respeito nem<span class="pn"><a +name="pag_159">{159}</a></span> acato senão pelo esplendor das suas virtudes. +Onde está o rol das vossas virtudes? Foi benefica a missão de que vos +encarregou o Deus que sempre tendes á flor dos labios e a que nunca ergueu +altares o vosso coração. Deus mandou-vos amar o proximo. Devieis ser o auxilio +e não o latego do povo. Mas vós, que tendes para tudo ministros e conselheiros, +só os não tendes para vos aconselharem a minorar os infortunios do pobre e +obrigarem a repartir com as crianças que padecem fome as iguarias superfluas +dos lautos e magnificos banquetes...</p> + +<p>—Não te quero ouvir mais, não te quero ouvir mais. Lembra-te que ainda te +posso punir e esmagar, villão!</p> + +<p>—Tendes o poder e a riquesa, herdeiro do throno de Portugal. Sei que sempre +a vossos pés se rojaram desenas e dusias de cortesãos ambiciosos, cortesãos que +se habituam a procurar o esplendor das gemmas preciosas das coroas regias para +encobrirem a baixesa da sua consciencia e a lepra do seu espirito. Sei que +todos os vossos caprichos e devaneios, embora custem milhares de crusados, +serão satisfeitos<span class="pn"><a name="pag_160">{160}</a></span> mais +depressa, do que se enxuga o pranto do desvalido que, relado pela fome, se vê +estrebuchando na enxerga pestilenta da miseria... Mas vejo tambem que se +offusca o nimbo da vossa gloria e declina a estrella da vossa grandesa! Em vez +de ser de perolas e rubis, será logo de terra e de cinzas a vossa coroa. +Depressa se desfará em pó o vosso sceptro e, em vez de recamarem o vosso corpo +o ouropel e os avellorios do throno, será entregue o vosso corpo aos vermes e á +podridão do sepulchro!</p> + +<p>—Basta, basta! São de fogo as tuas palavras. Sinto que me requeimam as +entranhas, pagem!</p> + +<p>N'este comenos entrou Francisco Lopes a satisfaser a sua visita ordinaria. +</p> + +<p>O medico aproximou-se do principe, ausculta-lhe o peito com a maior +observação e em seguida com todo o cuidado lhe tatea o pulso.</p> + +<p>Não proferiu um monosyllabo e jámais denunciou pelas impressões do rosto ou +por outros quaesquer signaes exteriores a gravidade ou as melhoras do enfermo. +</p> + +<p>Sempre com a mesma austeridade aproximou-se<span class="pn"><a +name="pag_161">{161}</a></span> de um dos angulos da alcova, recurvou-se de +vagar sobre uma elegante mesa de jacarandá, serviu-se de uma penna de pato +collocada ao longo de um precioso tinteiro de prata e com rapidez formula em +meia folha de papel o recipe do costume.</p> + +<p>Em seguida o medico ergueu com dous dedos a receita, baixou com gesto +comprimentador a cabeça em direcção do leito e logo com inalteravel silencio +transpoz os umbraes da porta.</p> + +<p>No centro da sala contigua esperava-o uma pessoa vestida completamente de +roupas negras que ninguem mais era senão o jesuita Simão Rodrigues.</p> + +<p>A meia voz segredou-lhe o medico:</p> + +<p>—Está moribundo. Está sem vida. Morre antes de meia hora.</p> + +<p>O jesuita laconicamente accrescentou:</p> + +<p>—<em>Requiescat in pace!</em></p> + +<p>Entretanto não abandonara o badage o leito do principe. Ninguem mais se +conservava ali. Talvez porque se quisesse poupar a organisação debil do +principe ás fadigas das conversações e ao constrangimento das visitas, ou então +por<span class="pn"><a name="pag_162">{162}</a></span> que o quadro pavoroso da +morte não é espectaculo que deleite as vistas e atraia a presença dos +cortesãos.</p> + +<p>O espirito de sua altesa estorcia-se nos derradeiros paroxismos. Poucos +momentos de vida lhe restavam já e que severos momentos de tortura não deviam +de ser aquelles! Affligiam-no contorsões horrendas; o fogo violento de um +vulcão abrasava-lhe as entranhas; os musculos e tendões dos braços pareciam +fios de arame agitados por uma descarga electrica.</p> + +<p>Elle todavia prestava segura e ininterrompida attenção ás palavras +mysteriosas do badage. Sobresaltava-se, contorcia-se, desesperava-se como se +lhe ardessem as carnes no brasido infernal de uma fornalha; mas ainda nutria +alentos e voz para de quando em quando diser ao badage:</p> + +<p>—Contai-me tudo, contai-me tudo o que sabeis...</p> + +<p>O badage continuou a revelar-lhe:</p> + +<p>—Vou por fim denunciar-vos tudo o que sei. É caso incrivel, mas é verdade. +Foi crime horrendo, mas aconteceu. Está soffrendo vossa altesa<span +class="pn"><a name="pag_163">{163}</a></span> os effeitos do veneno e é el-rei, +acredite-me vossa altesa, é el-rei Dom João III a causa da sua morte!</p> + +<p>A tam inesperada e tremenda revelação o corpo do principe contorceu-se com +maior violencia. Quiz erguer-se do leito, gritar logo por soccorro e despedaçar +as carnes com as unhas como se o dominassem os instinctos de um abutre. Porém a +alcova nupcial tornara-se depressa a habitação lugubre da morte. Agora a voz e +as forças abandonaram de vez o corpo franzino do principe. Era elle apenas um +cadaver!<span class="pn"><a name="pag_164">{164}</a></span></p> + +<p><span class="pn"><a name="pag_165">{165}</a></span></p> + +<h1>XV</h1> + + +<h2>O PERDÃO</h2> + +<p>Com o espirito entregue +aos dominios de uma vaga melancolia desceu seguidamente o badage ao primeiro +andar dos Paços da Ribeira, onde, ao derredor de uma luxuosa banca pejada de +papeis, meia dusia dos mais altos personagens se debatiam em calorosa +conversação nos aposentos particulares de el-rei.</p> + +<p>O badage, predispondo-se a colher o fio da conversação, cautelosamente +applicou o ouvido ao ralo da porta dos regios aposentos.</p> + +<p>—É mister, continuava de expor ao monarcha o beato provincial, um tremendo +e exemplar<span class="pn"><a name="pag_166">{166}</a></span> castigo. Aquelle +herege não póde ser absolvido nem perdoado. Sabeis, senhor, até onde alcançam o +grau dos seus crimes, o excesso das suas heresias, o numero dos seus peccados? +</p> + +<p>—Já me contaste, meu padre, o que por desfortuna vos aconteceu. Confesso +que foi horrivel a vossa posição. Atrever-se aquelle herege a martyrisar-vos +com o fogo! Presumo que não foram os vossos tormentos inferiores aos de San +Lourenço, o martyr das grelhas.</p> + +<p>—Pela minha parte lhe perdôo tudo. Encontro-me salvo e livre de perigo. +Agora só me resta esquecer de boamente o mal que me fez. Mas os desacatos á +religião catholica, as offensas dirigidas a Deus...</p> + +<p>—Perdoae-lhe vós, observou a rainha, que Deus tudo perdoa como pai de +misericordia.</p> + +<p>—Vejo que minha presada esposa, accrescenta o monarcha, se interessa +generosamente pelo seu pagem. Cá de mim não tenho resentimentos nem gostei +nunca de vindictas. Em boa fé, meu padre, vos declaro que tudo esqueço. Mas que +diseis, Simão Rodrigues? De vós depende o perdão ou o castigo!<span +class="pn"><a name="pag_167">{167}</a></span></p> + +<p>Dispunha-se a retorquir o provincial quando o badage se apresenta de +improviso.</p> + +<p>—Recuso, disse com firmesa, todo o perdão e todo o favor. Simão Rodrigues, +Simão Rodrigues, sois vós que precisaes da graça de el-rei!</p> + +<p>—Não comprehendo bem o teu orgulho, meu amigo! acodiu o nobre Duque de +Beja.</p> + +<p>—É o orgulho de quem estima e defende uma boa causa: a causa do povo.</p> + +<p>—O povo, sempre o povo! exclama com asedume o terrivel jesuita. Dize-me: +que entendes tu por essa massa enorme e infrene, esse corpo sem entendimento +nem consciencia que apedreja hoje o idolo da vespera, essa cabeça desvairada +que nunca soube comprehender as doçuras da paz nem respeitar as glorias de +Deus?</p> + +<p>—O povo, proferiu o indio com enthusiastico espirito, é um instrumento de +trabalho que emprega todo o suor do seu corpo e todos os dias da sua existencia +no roçar das charnecas, no arroteamento dos latifundios, nos perigos e labores +das officinas, sobrecarregado sempre de<span class="pn"><a +name="pag_168">{168}</a></span> gabellas e desfavores, ganhando apenas os meios +pecuniarios de não morrer de fome e não conseguindo nunca abandonar a sua +condição servil. É o contrario de essa classe que se chama a nobresa e de essa +oligarchia que se chama o clero. O nobre e o padre, favorecidos por uma +legislação de isenções e privilegios, são homens livres que deixam de +contribuir para as despesas do estado, que tudo á larga possuem e que +desconhecem os suores do trabalho. Gosam e mandam a seu alvedrio... O povo, +todavia, constitue a maxima parte, a grande porção do estado. Do seu braço, das +suas forças e da sua actividade provém a riquesa publica, a defesa das +monarchias ou das republicas, a manutenção da ordem e da paz, o desenvolvimento +do commercio e das industrias. O povo é o elemento mais forte das instituições +politicas e da ordem social: o eixo e as rodas da machina social. Seria preciso +conseguintemente não despojal-o da sua personalidade e da sua liberdade... Mas +quando irromperá a fulgorosa alvorada em que esse rebanho de ilotas ou escravos +desperte ao grito heroico e triunfal de um novo Spartaco,<span class="pn"><a +name="pag_169">{169}</a></span> o libertador dos povos? Quando, proclamado o +advento da igualdade e da justiça, surgirá a epocha redemptora em que a essa +<em>cohorte renegada de hebreus</em> se concedam pelas prescripções de uma +legislação benefica e humana os foros de cidadãos e os direitos de homens +livres, a sua alforria politica e social emfim? Eu erguerei sempre a minha voz +contra os excessos da tyrannia feudal, inquisitorial ou real que fasem do povo +uma besta de carga. O systema pagão ainda prevalece nas hodiernas sociedades, +apesar de já decorrerem mais de quinze seculos de christianismo<a +name="tex2html18" href="#foot172"><sup>[18]</sup></a>: isto é do reinado da +igualdade, da liberdade, da fraternidade humana. Porque se não ha de abolir +este nefando systema aperfeiçoando as coisas existentes, dando ás ideias +diversa direcção, melhorando as leis e os habitos e os costumes? Vós, +provincial Simão Rodrigues, confiaes que, submettendo o povo ao jugo da +escravidão e roubando-lhe a luz do sol nas abobadas dos carceres, conseguis a +regeneração da sociedade civil e a grandesa da igreja catholica. Mas por<span +class="pn"><a name="pag_170">{170}</a></span> acaso ignoraes que a consciencia +publica e o senso universal reprovam com vehemencia as traças e ardis +empregados pelo vosso systema estacionario e fanatico, systema vergonhoso que +directamente conduz á anniquilação e ao opprobrio? As nações não podem viver +sem leis de egualdade na distribuição dos bens e dos males, dos cargos e +beneficios. Não podem os homens coexistir e prosperar sem as vantagens de uma +associação commum. Como é pois que a vossa corporação de jesuitas ambiciona +dispor de todas as forças e riquesas, de todos os elementos de soberania e de +todos os graus de despotismo? Não comprehendeis o grande pensamento do +dever—que é a lei da vida, a grandiosa ideia do bem—que é o dever da +humanidade! Conheço que debalde cairei sem nome nem gloria como o soldado +ferido no fragor dos combates. Mas eu vos profetiso, Simão Rodrigues, eu vos +profetiso que ainda um dia, ao grito de triunfo dos meus irmãos, ha de sobre as +cinzas frias do jesuitismo e dos Cains do Santo Officio erguer-se em canticos +de alegria o altar da liberdade!<span class="pn"><a +name="pag_171">{171}</a></span></p> + +<p>Logo Simão Rodrigues se dispunha a esfriar a impressão do democratico +discurso do badage; mas Catharina de Austria, com a fronte radiosa de firmesa e +coragem, apressou-se a diser para seu esposo:</p> + +<p>—Não approvaes, senhor, os gentis e nobres sentimentos d'este mancebo? Por +Deus vos declaro que não conheço em nossos reinos mais generoso fidalgo nem +mais leal vassallo!</p> + +<p>—Assim o creio, concordou o monarcha impressionado por um estranho +sentimento de generosidade. Tanto que resolvo mostrar-lhe a minha gratidão e a +minha graça. Ficas satisfeito, proseguiu ao dirigir-se affavelmente ao badage, +em aceitar a commissão com que me apraz honrar-vos? Quero provar-vos com animo +generoso que sei premiar as virtudes e serviços dos meus vassallos...</p> + +<p>—Senhor, atalhou com um olhar de fogo o jesuita Simão Rodrigues, por Deus +que vos não pertence premiar os herejes nem os criminosos!</p> + +<p>—Jamais um monarcha de Portugal deixará de cumprir quanto prometteu... +Pagem! mando-vos substituir nos meus dominios da India<span class="pn"><a +name="pag_172">{172}</a></span> com os mesmos foros e jurisdicção o viso-rei +Dom Affonso de Noronha.</p> + +<p>Seguidamente fôra o badage abraçado com espontaneas manifestações de +contentamento pelo seu sincero amigo o duque de Beja.</p> + +<p>—Fez-se justiça, fez-se justiça por fim! exclama a rainha com viva explosão +de enthusiasmo.</p> + +<p>Experimentaram os nervos do badage uma passageira commoção, humildemente +recurvou elle pela primeira vez a sua cabeça altiva e com brandura ajoelhou aos +pés do sombrio monarcha:</p> + +<p>—Muito agradeço a vossa altesa, lhe disse, as honrarias e os louvores; mas +consinta-me que não aceite.</p> + +<p>—Puf! meu rapaz. Pareces bem orgulhoso e bem louco. Pois já te não convem o +viso-reinado das Indias?</p> + +<p>Ao successor de Dom Manoel, o glorioso principe que tam respeitado e temido +fisera no Oriente o nome portuguez, retrucou o indio com magestosa serenidade: +</p> + +<p>—Parto para as agras e florestas do meu<span class="pn"><a +name="pag_173">{173}</a></span> paiz; mas deixe-me vossa altesa partir sem +honrarias nem proveito. Não me sedusem as grandesas da vida nem os avellorios +do mundo. Christão velho ou christão novo, deveras ficarei contente com dar a +Simão Rodrigues um exemplo de modestia e uma lição de humildade!<span +class="pn"><a name="pag_174">{174}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot172" href="#tex2html18"><sup>[18]</sup></a> Lamennais. <em>Du +passé et de l'avenir du peuple.</em></p> +</div> + + +<p><span class="pn"><a name="pag_175">{175}</a></span></p> + +<h1>XVI</h1> + + +<h2>A VINGANÇA</h2> + +<p>Foi annunciado o almoço e +então suas altesas as pessoas reaes, acompanhadas de suas senhorias os +conselheiros e o celebre provincial, poseram logo termo á audiencia.</p> + +<p>Apenas se conservou na sala o badage.</p> + +<p>—Talvez me chamem desassisado, scismou elle. Regeitar assim riquesas e +titulos!... Grande virtude e grande proesa, na verdade... Quem não gosta de +elevar-se e engrandecer-se, quem não deseja passar de braço erguido por cima da +cabeça dos outros, embora á custa da sua consciencia e da sua dignidade? +Todavia do meu<span class="pn"><a name="pag_176">{176}</a></span> procedimento +não me arrependerei nunca. As Indias são emporio de riquesas e eu depressa +possuiria armasens de fasendas e especiarias, cofres de joias e de barras de +ouro... Mas quem me dava todos esses bens? Porventura sua altesa serenissima? O +rei, no seu officio inalteravel de gastar, dispõe dos haveres e dos suores do +povo, a massa que produz e trabalha. De certo deveria a minha fortuna ás +generosidades do rei... Mas não és tu—a maior, a grande porção da +humanidade—que trabalhas e que produses e que tudo vaes pagando?... Povo, das +bagas do teu suor é que nascem as perolas das coroas regias. Eu comprehendo +isso, comprehendo! Havia pois de enriquecer-me á vossa custa, meus irmãos?</p> + +<p>O badage sentou-se na luxuosa estadella do monarcha, dobrou a cabeça sobre +os braços crusados na beira da mesa e assim por alguns momentos permaneceu como +adormecido pelo cansaço. Entregava o seu espirito á meditação, porque logo +alteou a sua cabeça esbelta e se dispoz lentamente a escrever.</p> + +<p>Todos os mais intimos e sinceros sentimentos<span class="pn"><a +name="pag_177">{177}</a></span> do seu coração transmittia-os agora a meia +folha de papel. Estava confiando por meio das letras alfabeticas de uma carta +dirigida a Catharina de Austria os seus fervorosos affectos e as suas saudosas +despedidas.</p> + +<p>—Amei-a com dedicação! monologava elle quando acabou de escrever. Mais +pelas prendas do seu espirito que pelas bellesas do seu corpo... Conheci-a +sempre bondosa e casta como os anjos. O orgulho, a soberba e a impudicicia de +uma rainha são vicios que jamais lhe empanaram o brilho das suas virtudes. Não +me esquecerei nunca de abençoar o seu nome e de estremecer a sua imagem. Nobre +e gentil senhora! quem soffreria os impetos e cruesas de vosso esposo, o lobo +sombrio e fanatico, se não fossem as vossas caricias e os vossos conselhos de +ovelha paciente e delicada?</p> + +<p>Leu a carta seguidamente, reflectiu ainda por alguns minutos e rasgou-a em +varios pedaços a final.</p> + +<p>—Não! reconsidera com altivez. Não darei eu esta prova de fraquesa. +Coragem, coragem!... Sempre, como perola escondida na clausura da<span +class="pn"><a name="pag_178">{178}</a></span> concha, apertarei nos meus seios +de alma o segredo dos meus amores. Quem sabe se lhe causaria despreso em vez de +saudade, riso em vez de compaixão?</p> + +<p>O badage levantou-se bruscamente da estadella, correu as vistas pelas +douradas paredes da sala e dirigiu os passos para o lumiar da porta.</p> + +<p>Aquelle palacio escaldava-lhe a cabeça como se o abrasasse a cratera de um +volcão.</p> + +<p>Resolvera abandonal-o para sempre e já caminhava ao longo do corredor quando +um magro personagem de semblante pallido como o de um cadaver e de vestes +negras á semelhança de um fantasma o obriga a parar improvisamente.</p> + +<p>Em repasto da sua vingança, não se recusara Simão Rodrigues a ensanguentar o +seu punhal traiçoeiro. Elle em carne e osso, com o punhal escondido na manga da +roupeta, aguardava o pagem na penumbra solitaria do corredor.</p> + +<p>O pagem cahiu, com effeito, ao borbulhar do seio um jorro de sangue. Não +acodiria braço que o protegesse nem medicina que o salvasse.<span class="pn"><a +name="pag_179">{179}</a></span> Crisparam-se-lhe os dedos, arroxearam-se-lhe os +beiços, empallideceram-lhe as faces e entregou a Deus o derradeiro alento da +sua juvenil existencia depois de articular esta crudelissima ironia:</p> + +<p>—É assim... que se vingam... os filhos de... Ignacio de... Loyola!</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div align="center"> +FIM. </div> + +<p> </p> + +<div align="center"> +</div> + +</div> + +<h2>INDICE</h2> + +<table align="center" border="0" summary="Indice"> + <tbody> + <tr> + <td colspan="3"><a href="#pag_5">Algumas palavras</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_5">5</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-aliGN:RIGHT;">I</td> + <td>—</td> + <td><a href="#pag_11">Ciumes de um rei</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_11">11</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">II</td> + <td>—</td> + <td><a href="#pag_23">Os reis não costumam perdoar as offensas + recebidas</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_23">23</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">III</td> + <td>—</td> + <td><a href="#pag_35">Recompensa do crime</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_35">35</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">IV</td> + <td>—</td> + <td><a href="#pag_53">O festim de Balthasar</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_53">53</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">V</td> + <td>—</td> + <td><a href="#pag_65">Orações e jejuns redimem todas as culpas</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_65">65</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">VI</td> + <td>—</td> + <td><a href="#pag_75">A caçada</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_75">75</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">VII</td> + <td>—</td> + <td><a href="#pag_85">A luta</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_85">85</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">VIII</td> + <td>—</td> + <td><a href="#pag_95">Os estaus</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_95">95</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">IX</td> + <td>—</td> + <td><a href="#pag_105">O carcereiro</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_105">105</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">X</td> + <td>—</td> + <td><a href="#pag_115">Vantagem de dous contra um</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_115">115</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XI</td> + <td>—</td> + <td><a href="#pag_123">A taverna</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_123">123</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XII</td> + <td>—</td> + <td><a href="#pag_139">Referta de tigres e leões</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_139">139</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XIII</td> + <td>—</td> + <td><a href="#pag_145">O leito da dor</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_145">145</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XIV</td> + <td>—</td> + <td><a href="#pag_155">Effeitos do veneno</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_155">155</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XV</td> + <td>—</td> + <td><a href="#pag_165">O perdão</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_165">165</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XVI</td> + <td>—</td> + <td><a href="#pag_175">A vingança</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_175">175</a></td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p align="center">PORTO—IMPRENSA PORTUGUEZA</p> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Christão novo, by Diogo de Macedo + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CHRISTÃO NOVO *** + +***** This file should be named 29275-h.htm or 29275-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/9/2/7/29275/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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