diff options
Diffstat (limited to '29394-8.txt')
| -rw-r--r-- | 29394-8.txt | 4011 |
1 files changed, 4011 insertions, 0 deletions
diff --git a/29394-8.txt b/29394-8.txt new file mode 100644 index 0000000..766501e --- /dev/null +++ b/29394-8.txt @@ -0,0 +1,4011 @@ +Project Gutenberg's Historia alegre de Portugal, by Manuel Pinheiro Chagas + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Historia alegre de Portugal + leitura para o povo e para as escolas + +Author: Manuel Pinheiro Chagas + +Release Date: July 13, 2009 [EBook #29394] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA ALEGRE DE PORTUGAL *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + HISTORIA ALEGRE DE PORTUGAL + + + + + HISTORIA ALEGRE + + DE + + PORTUGAL + + LEITURA PARA O POVO E PARA AS ESCOLAS + + POR + + M. PINHEIRO CHAGAS + + + + + DAVID CORAZZI--EDITOR + EMPREZA HORAS ROMANTICAS + Lisboa--Rua da Atalaya--40 a 52 + 1880 + + + + +Ao Ill.mo e Ex.mo Sr. + +CONSELHEIRO + +MIGUEL MARTINS DANTAS + +Ministro de Portugal em Londres + + + + + Ill.mo e Ex.mo Am.o e Sr. + +Ha dois ou tres annos, desejando eu obter de Inglaterra um livro que +fôra citado no parlamento por um deputado da opposição ao ministerio +Beaconsfield, dirigi-me a v. ex.ª, meu collega na Academia, +perguntando-lhe se seria possivel alcançal-o. A resposta de v. ex.ª não +se fez esperar. Enviou-me o livro pedido, que obtivera com summa +difficuldade, e juntamente com elle quantos documentos officiaes se +referiam á questão da escravatura, questão de que esse livro se +occupava, e que então me captivava mais particularmente a attenção. Foi +mais longe ainda a amabilidade de v. ex.ª; enviou-me um livrinho +francez, de que eu não tinha conhecimento, intitulado _Entretiens +populaires sur l'histoire de France_, perguntando-me se não seria +possivel fazer, com relação á historia portugueza, um livro n'esse +genero. + +Li o livro e achei-o encantador. Tempos depois, encontrei-me com v. ex.ª +em Lisboa, e disse-lhe que ía tentar o emprehendimento a que v. ex.ª me +incitára, e pedi-lhe licença para lhe dedicar o livro, que fosse o +fructo d'essa tentativa. É o que faço agora. Como v. ex.ª verá, o plano +da _Historia alegre de Portugal_ é diversissimo do dos _Entretiens +populaires sur l'histoire de France_, mas a _Historia alegre_ vae +escripta tambem no tom faceto, folgazão, singelo e popular que achei +original, picante e util no livro francez que v. ex.ª me recommendava. + +Folgo de ter ensejo de mostrar publicamente a minha gratidão a v. ex.ª +pelas provas de estima e de consideração que me dispensou n'esta e +n'outras occasiões, e o alto apreço em que tenho o talento e o saber +do escriptor distinctissimo, que renovou completamente, com os seus +_Faux Don Sébastien_, o estudo de uma época interessante da historia +portugueza, que nos deu emfim n'esse primoroso livro um estudo +profundamente moderno, um estudo, como Gachard os sabe fazer, de um dos +episodios mais curiosos e mais romanescos da nossa vida nacional. + + De v. ex.ª + +Cruz Quebrada, 25 de outubro de 1880. + + Att.o v.or e ob.o + + _Pinheiro Chagas_. + + + + +INTRODUCÇÃO + + +O sr. João Martins, mais conhecido pelo nome de João da Agualva, porque +morava na pequena aldeia d'este nome, que fica entre Bellas e o Cacem +n'um sitio árido e feio, fôra mestre de instrucção primaria numa das +freguezias do concelho de Cintra. Conseguira a sua aposentação, e viera +para a sua aldeia natal amanhar umas terras que ali possuia, e cujo +rendimento o impedira já de morrer de fome nos tempos, em que o Estado +lhe pagava munificentemente os noventa mil réis annuaes, com que +remunerava n'essa época os primeiros guias do homem nos ásperos caminhos +da instrucção. Mas o João da Agualva era homem de uma illustração +excepcional. Convivera muito tempo com o prior de Monte-lavar, padre +instruido que emprestára ao bom do professor os livros da sua +limitada bibliotheca; em Bellas tambem se relacionára com um engenheiro +francez, empregado nas obras de agua de Valle de Lobos, de Broco e de +Valle de Figueira, o qual tomára gosto em desenvolver o espirito +intelligente e ávido de saber do velho professor. Apezar d'isto vivia +modestamente na sua pobre casa, lidando com os saloios que o tratavam +com verdadeiro respeito, e tinham por elle um affecto em que entrava um +pouco de veneração. + +Era no inverno, e o João da Agualva estava passando a noite em casa de +uma boa velha, a tia Margarida, viuva de um caseiro do marquez de +Bellas, e mãe do Francisco Artilheiro, que, depois de ter servido cinco +annos em artilheria, como indicava o seu sobre-nome, viera para Bellas +ajudar a mãe a cuidar de umas leiras de terra, que a velhinha herdára do +marido. Um grupo de saloios de Bellas e das aldeias proximas, sabendo +que o João da Agualva viera para ali seroar, tinham vindo tambem, +desejosos de ouvir algumas das historias que o velho ás vezes contava e +que entretinham agradavelmente a noite. N'essa occasião, porém, o +professor estava macambusio, e, quando o velho Bartholomeu, irmão da tia +Margarida, que era dos que mais gostavam de o ouvir, lhe pediu que +contasse alguma das suas historias, o bom do João da Agualva abanou +negativamente a cabeça. + +--Não estou hoje com disposição para historias da carochinha, +disse elle, e sabem vocês? Tenho andado a matutar n'uma cousa. Não é uma +vergonha que vocês saibam de cór as alteiadas historias de cousas que +nunca succederam, nem podiam succeder, e não saibam ao mesmo tempo nem o +que foram seus paes nem os seus avós, nem o que fizeram, nem como elles +viveram, nem o que succedeu n'esta boa terra de Portugal, que nós todos +regamos com o nosso suor, que hoje nada vale, mas que deu brado no mundo +pelas façanhas que os nossos praticaram? + +--Tomára eu saber tudo isso, sr. João da Agualva, disse o Manuel da +Idanha, rapazote de cara esperta, moço de lavoura do sr. Garignan, o +antigo dono de collegio, que hoje reside na aldeia da Idanha, a cousa de +quinhentos metros de Bellas, tomára eu saber tudo isso, mas como ha de +ser!? É verdade que, graças a Deus, sei ler e escrever, e lá o patrão +emprestou-me uma vez uns livros de historia que eu lhe pedi, mas, mal os +comecei a ler, deu-me o somno. Diziam á gente os nomes dos reis e os +filhos que tinham tido, e as batalhas que tinham ganho, e mais umas +lenga-lengas de que não percebi patavina. Ora, sr. João da Agualva, eu, +para dormir, graças a Deus, ainda não preciso de ler historia. + +--Mas que diriam vocês, tornou o velho professor, se eu, n'estes nossos +serões, lhes contasse, em vez de contos de fadas, e de historias de +Carlos Magno, a historia do que succedeu em Portugal? Talvez vocês +me entendessem, quer-me parecer que se não aborreceriam muito, e, +em todo o caso, se se enfastiassem, diziam-m'o francamente, e eu não +continuava, porque lá para massador é que não sirvo. + +--Ah! sr. João, exclamou o Manuel da Idanha, isso é que era um regalo! + +Os outros não disseram palavra, e o João, que os percebeu, riu-se para +dentro, e fingiu-se desentendido. + +--Pois então, vá feito, eu hoje estou cançado, porque já fui a pé ao +Sabugo tratar da compra de um boi, mas amanhã é domingo. Venham vocês á +noite aqui para casa da tia Margarida, e eu começarei a minha historia. + +No domingo á noite ninguem faltou; mas, se vieram, foi pelo respeito que +tinham ao João da Agualva, não porque esperassem divertir-se muito. O +Bartholomeu já abria a bôca ainda antes do João da Agualva principiar. +Mas o João chegou-se mais para o lume, porque a noite estava fria a +valer, sorriu-se, e principiou como o leitor verá no capitulo immediato. + + + + +PRIMEIRO SERÃO + +O que era Portugal.--Os seus primeiros habitantes.--As colonias +estrangeiras.--Os phenicios.--Os gregos.--Os carthaginezes.--Os +romanos.--Viriato.--Sertorio. + + +--Meus amigos, começou o João da Agualva, é de saber que esta terra em +que nós vivemos nem sempre foi Portugal, e, se alguem se lembrasse de +fallar, aqui ha cousa de uns tres ou quatro mil annos ou mesmo só de mil +annos, em Portugal e em portuguezes, havia de ver como todos ficavam +embasbacados sem perceber patavina. Isto lá para os antigos era tudo +Hespanha, desde os cocurutos dos Pyrinéus, que são uns montes que +separam a Hespanha da França, até essas aguas do mar que cercam por +todos os lados a nossa terra, mais a dos hespanhoes, e até por estar +este pedação de terra cercado de agua por toda a parte, menos pela banda +dos Pyrinéus, é que se chama a isto _peninsula_, que quer dizer uma +cousa que é quasi uma ilha, mas que o não vem a ser de todo. + +--Bem sei, bem sei! peninsula é onde houve uma guerra em que entrou meu +avô! exclamou o fallador do Manuel da Idanha. + +--Mette a viola no sacco, Manuel, quem muito falla pouco acerta. Lá +chegaremos á guerra da peninsula. Roma e Pavia não se fez n'um dia. + +--Pois então, vá lá vocemecê contando a sua historia. + +--Como eu ía dizendo, esta peninsula, a que se chama Hespanha e +Portugal, era então só Hespanha. Hespanhoes éramos nós todos... + +--Menos eu! acudiu o Bartholomeu, levantando-se todo furioso, hespanhol +é que nunca fui, nem sou, nem serei. Vae aqui tudo raso, se... + +--Espera, homem de Deus! Que tem que tudo isto fosse hespanhol se nunca +mais o ha de ser? Tambem a Hespanha, e a França, e a Inglaterra, e a +Italia, e a Grecia, e o Egypto foi tudo imperio romano, e vae lá dizer +agora a essas nações todas que se sujeitem ao mesmo governo! Tambem a +França d'antes se chamava Gallia e estendia-se pela Belgica fóra, e mais +pela Suissa, e, se o Gambetta, ou quem é que governa lá na França, +quizesse por isso empolgar a Suissa e a Belgica, ía ahi em toda a Europa +uma berraria de seiscentos demonios. + +--Pois sim, resmungou o Bartholomeu sentando-se de mau humor, mas não me +digam a mim que eu fui hespanhol. + +--Ora, meus amigos, quem foram os que primeiro moraram cá n'este canto +de terra é que ninguem sabe. Seriam uns iberos, que fallavam uma lingua +arrevesada, assim a modo similhante á que fallam hoje os hespanhoes das +Vascongadas que nem o demo entende? Isso é que lhes não posso dizer. O +que sei é que, quando a Hespanha começou a ser conhecida, havia aqui uma +sucia de povos que era uma cousa por demais, turdetanos para um lado, +celtiberos para outro, ilergetas para aqui, bastetanos para acolá. +Estava até ámanhã a dizer-lhes nomes estramboticos, se não preferisse +fallar-lhes só nos nossos avós, cá nos que moraram na nossa terra. + +--Isso é que é! bradaram todos em côro. + +--Pois muito bem! Saibam vocês que não era um povo só. No Algarve e n'um +pedaço do Alemtejo havia os _cuneenses_, no resto do Alemtejo, na +Estremadura e na Beira moravam os lusitanos, e lá para cima para o +Douro, para o Minho e mais para Traz-os-Montes moravam os gallegos. + +--Os gallegos! exclamou o irritavel Bartholomeu, veja lá como falla, sr. +João da Agualva, olhe que o pae de minha mulher veiu de Traz-os-Montes, +e meus sogro não era nenhum gallego, ouviu? + +--Valha-te Deus, Bartholomeu, então tu cuidas que os gallegos andam +todos com o barril ás costas, e são todos uns grosseirões como os +aguadeiros dos chafarizes de Lisboa? Pois digo-te, e depois t'o +mostrarei, que de todos os povos lá das Hespanhas foram os gallegos os +que mais depressa se poliram. Mas, cala-te bôca, não vá o carro adiante +dos bois, e, como tu não queres ser genro de um gallego, sempre te direi +que os que moravam para cá do Minho não eram da mesma casta que os de +lá. Os nossos chamavam-se _Bracharos_ e os gallegos da Galliza +chamavam-se _Lucenses_. + +--Ainda bem! murmurou o Bartholomeu, isso de _Bracharos_ até parece que +dá idéa de _Braga_. + +--E é verdade que dá, sr. Bartholomeu, lavre lá dois tentos. + +Todos se riram, e o João da Agualva continuou: + +--Mas não imaginem que os nossos antepassados eram assim como nós, que +viviam em cidades, villas e aldeias, que andavam vestidos dos pés até á +cabeça, que tinham espingardas para a caça e para a guerra. Qual +carapuça! Eram uns selvagens, uns lapuzes. As armas eram lanças de +cobre, e o amante pedregulho, mais uns dardos e uma especie de escudo +para se defenderem; fato pouco havia, cabello comprido como o das +mulheres, que atavam com uma fita quando tinham de ir para a guerra. +As mulheres é que tinham os seus enfeites e os seus bordados, os seus +vestidos compridos, etc. + +--Pois já se vê que lá as meninas nunca podem passar sem arrebiques! +disse o Zé Caneira, relanceando um olhar malicioso para a boa tia +Margarida que fiava na sua roca ao pé da lareira. + +--Melhor para ellas, ouviu! redarguiu a velha. Que pena que não vivesses +n'esse tempo para atares os cabellos com uma fita, quando fosses para a +guerra! + +Como o Zé Caneira era calvo, uma gargalhada geral acolheu a observação +da tia Margarida. + +--Em comidas não eram muito requintados, de carne de cabra é que elles +principalmente se alimentavam, e o seu pão era cousa de pouca +substancia. Bebiam agua, dormiam no chão, os seus barcos eram de couro, +matavam gente em sacrificio aos seus deuses, quando tinham algum doente +punham-n'o á beira da estrada, quem fazia algum roubo ou outro crime +grave era apedrejado. Não passavam de ser uns selvagens. Então que +querem? nem os homens nem os povos nascem ensinados. Todos começam +assim. Valentes eram elles, isso sim, valentes como touros. Tiveram +occasião de a mostrar, porque esta nossa terra foi na antiguidade uma +espécie de California. + +Por muito tempo ninguem soube d'ella, e os navios da gente civilisada +que vivia lá para o Oriente nunca passavam para cá do estreito de +Gibraltar, até que um dia passaram os phenicios, gente atrevida, que +queriam metter o nariz em toda a parte, e que sobretudo procuravam +terras novas para commerciar. Acharam que lhes convinham a Andaluzia e o +Algarve, e aqui fundaram algumas colonias, sendo Cadiz a principal. Como +tinhamos por cá muitas minas de ouro, e os homens deram sempre o +cavaquinho por este metal, estavam os phenicios nas suas sete quintas. +Ao mesmo tempo outro povo civilisado do Oriente, os gregos, vieram na +piugada dos phenicios, mas esses estabeleceram-se principalmente na +Hespanha do lado de lá, onde hoje é a Catalunha, e o Aragão e Valencia, +etc. + +Os indigenas de cá não se deram mal com os phenicios, emquanto elles se +limitaram a trocar as suas fazendas pelo nosso ouro e outras producções, +mas, quando viram que os taes estrangeiros começavam a fazer casa, +acabaram com o negocio, foram aos gaditanos e deram-lhes uma tareia real. + +--Foi bem feito! observou Bartholomeu. + +--Mas os phenicios, que estavam muito longe da sua terra, chamaram em +seu soccorro os carthaginezes, que eram tambem uns phenicios, quer dizer +tinham assim com os phenicios o mesmo parentesco que os brazileiros têem +comnosco. Ora os cartagineses viviam aqui mais proximo, ali na Africa, +ao pé de Tunis, não muito longe de Argel. + +--Argel! exclamou o Francisco Artilheiro, já lá estive. + +--Já lá estiveste? + +--Já, sim senhor. Quando eu andava ao serviço, e que fui para a India, o +vapor que me levou arribou a Argel. É uma bonita terra. + +--Já vês que não fica muito longe. Carthago era mais para o lado de lá. +Vieram pois os carthaginezes em soccorro dos phenicios, mas gostaram da +terra, pozeram fóra os que vinham soccorrer, e á força de bordoada, +porque bons guerreiros eram elles, sujeitaram ao seu poder tudo. + +--Mas então, tornou o Francisco Artilheiro, vocemecê diz que os nossos +eram tão valentes?... + +--Ora, que outro me fizesse essa pergunta, vá, mas tu que foste militar! +Quem vence é quem tem disciplina. Por mais valentes que os homens sejam, +em combatendo sem ordem, um por aqui, outro por ali, um regimento bem +formado dá logo cabo d'elles. + +--Isso é verdade. + +--Estavam os carthaginezes senhores da Hespanha, e, como tinham posto +fóra os phenicios, queriam tambem pôr fóra os gregos, quando estes se +lembraram de pedir o soccorro dos romanos, que andavam ha muito tempo de +rixa velha com os carthaginezes, e que eram dos povos mais pimpões +d'aquelle tempo. + +--Vieram então os romanos? perguntou o Francisco Artilheiro que +estava seguindo com interesse a narrativa. + +--Não tiveram tempo de vir, porque um tal Annibal, rapasote dos seus +vinte e cinco annos, e que dizem até que era filho de uma lusitana, +succedendo no commando dos carthaginezes a seu pae Amilcar, não esperou +que elles viessem, correu a Sagunto, uma das taes colonias gregas, +tomou-a e queimou-a, e depois sae da Hespanha, atravessa os montes +Pyrinéus e mais os montes Alpes, que parecia que tinha mesmo o diabo no +corpo, bate os romanos aqui, derrota-os acolá, escangalha-os mais alem, +e ás duas por tres, se continua assim de vento em popa, era uma vez +Roma. Porém, os romanos, que eram tambem levadinhos da breca, nunca +desanimaram, e, apesar de estarem de corda na garganta, tiveram artes de +mandar para cá um exercito, de fórma que, emquanto Annibal saía por uma +porta, entravam os romanos por outra. O atrevimento ía-lhes saíndo caro, +isso é verdade, mas a fortuna virou, e o que é certo é que d'ahi a pouco +tempo não havia nem um carthaginez na peninsula, e estavam os romanos +senhores de tudo isto. + +--Então os povos de cá estavam a olhar ao signal? perguntou Bartholomeu. + +--Ora ahi é que bate o ponto. Effectivamente, os povos cá das Hespanhas +acharam assim exquisito que os carthaginezes e os romanos andassem a +dispor d'elles, sem ao menos lhes perguntar a sua opinião, de fórma que, +quando os romanos, julgando-se senhores da Hespanha, começaram a +espreguiçar-se, os differentes povos da peninsula disseram-lhes d'esta +maneira: «Ora esperem lá, senhores romanos, que nós somos duros para +colchões!» + +--Ah! boa rapasiada! observou, esfregando as mãos, o Francisco Artilheiro. + +--Começou a pancadaria, e o povo que andou sempre na frente foram cá os +nossos lusitanos, principalmente os serranos do Herminio (que era assim +que se chamava d'antes a serra da Estrella). Não eram os romanos capazes +de metter dente cá para este lado, até que uma vez um dos seus generaes, +chamado Sergio Galba, apanhou os lusitanos á traição, e fez n'elles uma +mortandade de que poucos escaparam. + +--Ah! grande patife! exclamou o Manoel da Idanha. + +--Isso era, mas alem de patife era tolo, porque isto de excitar muito dá +maus resultados. Os lusitanos, que escaparam, ficaram como uma bicha. +Ora um d'elles era um pastor chamado Viriato, homem decidido e esperto, +que disse para os seus patricios: Façam vocês o que eu mandar, e deixem +os romanos comigo. Assim foi, juntaram-se á roda de Viriato, e, quando +appareceu um exercito romano commandado pelo consul Vetilio, o nosso +homem, que era das bandas de Vizeu, esconde n'uma emboscada uma parte da +sua gente, e com o resto põe-se a fazer fosquinhas aos romanos, +parecendo a modo medroso. O consul percebe que elle está assim com seu +susto, e diz lá de si para si: «Vaes apanhar uma surra mestra.» Corre +sobre elle, Viriato faz tres meia volta, e, pernas para que te quero, +elle ahi vae. O consul Vetilio desata a correr atraz de Viriato, e +vae-se mesmo metter na boca do lobo. Era uma vez um exercito romano. +Depois de Vetilio vem outro e outro, e elle sempre zás, pásada de crear +bicho. Em Roma havia terror, diziam que o luzitano lhes dava mais que +fazer que o proprio Annibal. Em Hespanha então era um enthusiasmo por +ahi alem. Se Viriato já nem se contentava em estar nas montanhas, +entrava pelos povoados romanos, levantava contribuições, revolucionava +os povos, era um vivo demonio, e cada novo exercito, que por cá +apparecia, não lhes digo nada, sumia-se n'um abrir e fechar de olhos, +até que emfim o consul Scipião apanha lá dois patifes que Viriato +mandára para tratar de um negocio, e tantas endrominas lhes metteu na +cabeça, e tantas promessas lhes fez que elles, quando voltaram para onde +estava o seu chefe, apanharam-n'o a dormir e mataram-n'o. + +--Oh! que grandes malvados! exclamou Bartholomeu. + +--E assim acabou esse homem que foi o que se póde chamar um homemzarrão! +Ó senhores, eu sou um pateta, que não percebo nada d'estas cousas, mas, +quando me ponho a pensar n'este Viriato, quando me lembro que era apenas +um pobre pastor de cabras, um selvagem que não entendia nada de guerras, +nem de manobras, nem de legiões para aqui, nem de centuriões para ahi, e +que, apezar disso, em defeza da sua terra, fez andar os romanos em papos +de aranha, e atarantou aquella poderosa Roma que mettia medo a todos, +quando me lembro que elle era filho d'esta boa terra; que hoje se chama +Portugal, ah! c'o a breca, sinto assim uns arripios pela espinha, e +parece que é até uma vergonha para o paiz não se lhe ter levantado uma +estatua de um tamanho por ahi alem, no alto da serra da Estrella, que +aquillo é que se podia chamar a sentinella da nossa independencia. + +E o bom do João da Agualva, no impeto do seu enthusiasmo, cerrava os +punhos; faiscavam-lhe os olhos, e dava mostras de querer elle mesmo ir +pôr nos fraguedos da serra da Estrella a estatua do seu heroe. + +--Tem rasão, tem, observou o Bartholomeu, lá que o tal Viriato foi um +homem de truz, isso foi. + +--A morte de Viriato, como podem imaginar, continuou o João da Agualva, +deixou ficar os lusitanos um pouco atrapalhados, mas continuaram a +defender-se, e os romanos viram uma bruxa com elles. Póde-se dizer que +só Roma foi senhora da Lusitania, quando não ficaram nas nossas +montanhas senão as mulheres e as creanças. Mas as creanças fizeram-se +homens, e os homens estavam mortos por jogar as cristas com os romanos. +Não tardou a apparecer-lhes uma boa occasião. + +--Vamos lá a ver isso! exclamou o Bartholomeu, com um orgulho patriotico. + +--É de saber que em Roma havia umas guerras civis, tal qual como nós +tivemos cá por muito tempo em Portugal, assim umas cousas á moda da +_Maria da Fonte_ ou da guerra dos dois irmãos. Um fulano Sylla e um +sicrano Mario andaram á pancadaria um com o outro, até que venceu um +d'elles que foi Sylla. Era homem de cabellinho na venta este Sylla, e, +apenas se viu no poleiro, começou a chacinar nos que eram do partido +contrario, de fórma que parecia que não queria deixar vivo nem um só. Os +amigos de Mario trataram de se escapulir, e um d'elles, homem +desembaraçado, chamado Sertorio, safou-se cá para Hespanha, para os +lados do Oriente. Ahi, n'um instante, revolucionou tudo, arranjou um +exercito, mas os generaes de Sylla espatifaram-lh'o, e o amigo Sertorio +tingou-se para a Africa. Souberam os lusitanos do caso, e disseram +comsigo: «Este maganão é que nos faz conta.» Mettem-se uns poucos n'um +barco, vão ali a Marrocos, por onde o Sertorio andava aos paus; +offerecem-lhe o vir commandal-os. Sertorio saltou logo para dentro do +barco, e d'ahi a pouco estavam os lusitanos em campo com Sertorio á frente. + +Este, porém, não era, como Viriato, um pastor de cabras, era homem +civilisado, sabendo tudo o que se sabia no seu tempo, e que tratou de +arranjar cá nas nossas terras uma especie de Roma. Pareceu-lhe que Evora +servia para o caso, estabeleceu-se ali, e, como o tinham acompanhado +muitos romanos, conseguiu perfeitamente o seu fim. + +Que o Sertorio era uma grande cabeça, isso é que não tem duvida! Não só +poz o sal na moleirinha dos seus patricios que se quizeram metter com +elle, mas costumou os lusitanos a ser gente civilisada, e a imitar os +romanos em tudo, de fórma que Viriato, se resuscitasse, não os +reconhecia. E a final de contas, vejam como as cousas são! Este Sertorio +deu lambada nos romanos por um sarilho! pois ninguem fez mais serviços a +Roma do que elle! Introduziu aqui as artes, os usos e os costumes de +Roma! de fórma que, depois, os nossos começaram a ter menos repugnancia +aos estrangeiros, a confundir-se com elles. Isto de fallar a mesma +lingua, de ter os mesmos habitos, sempre é uma grande cousa! Sertorio +foi assassinado, assassinado tambem por um traidor, um patricio d'elle, +um tal Perpenna! Pois senhores, quando morreu, já isto por cá era +tão romano como a propria Roma; de fórma que nunca mais houve revoltas, +e os lusitanos como o resto dos habitantes de Hespanha, á excepção dos +vasconsos que sempre foram mettidos comsigo, e nunca se deram com os +visinhos, os lusitanos ficaram fazendo parte do grande imperio que vinha +do Mar Negro ao Oceano Atlantico, e da bôca do Rheno até á foz do +Guadalquivir, e ainda mais para baixo, do outro lado do estreito. + +E com isto os não enfado mais, meus amigos, a Margarida já acabou a sua +estriga, a luz do candieiro está assim a modo aos upas como quem se quer +ir embora, e então domingo á noite continuaremos com esta conversa, +visto que vocês parece que vão gostando. + +--Ora se gostamos, sr. João de Agualva! bradaram todos em côro. Venha +depressa o domingo para ouvirmos o resto. + +E despedindo-se de Margarida, e de João, retiraram-se para as suas +casas. + + + + +SEGUNDO SERÃO + +Cesar e os montanhezes do Herminio.--O imperio romano.--O +christianismo.--Os barbaros.--Suevos, alanos e visigodos.--Os mouros.--O +reino das Asturias.--O reino de Leão.--Portucale.--Os condados de +Portugal e de Coimbra. + + +--Meus amigos, começou o João da Agualva, apenas todos fizeram roda no +domingo immediato, e que a boa da tia Margarida, depois de carregar a +sua roca, principiou a fazer girar o fuso nos seus dedos ageis, deixámos +no outro dia os bons dos nossos lusitanos, depois da morte de Sertorio, +costumados já á civilisação romana, e fallando o latim como se tivesse +sido sempre a sua lingua, gostando de dar as suas passeatas até Roma, e +provavelmente chamando barbaros aos que se lembravam com saudades dos +tempos de Viriato. Nas serras continuavam a refilar o dente aos senhores +do mundo, e o proprio Cesar, que veio a ser depois um grande homem, +estreiou-se nas guerras, tendo cá na Lusitania os seus dares e tomares +com os montanhezes do Herminio, que vieram diante d'elle em rota batida +até aqui ás proximidades de Peniche, pouco mais ou menos, e que, quando +deram de cara com o mar, não estiveram lá com meias medidas, metteram-se +n'umas jangadas, e foram merendar ás Berlengas, deitando a lingua de +fóra ao sr. Cesar, que se foi embora de queixo caído. Mas isso eram +barulhos lá de quando em quando. A verdade é que a Lusitania estava +sendo devéras romana, e então, quando lá em Roma á republica succederam +os imperadores, nem mais se pensou em independencias, nem meias +independencias. As cidades com os nomes romanos ferviam por ahi, as +estradas militares cortavam o paiz, e uma pessoa podia ir de Lisboa até +Roma sem perguntar a ninguem. Hoje diz-se: quem tem bôca vae a Roma. +Pois n'aquelle tempo, e com as estradas militares, bastava ter pés e +olhos, ía-se lá direito como um fuso. + +--Havia caminho de ferro? perguntou o Zé Caneira embasbacado. + +--Qual caminho de ferro, bruto! Teu avô ainda nem sabia que vinha isso a +ser, e já tu querias que o teu trigesimo ou quadragesimo avô andasse de +wagon! Não senhor, eram estradas ordinarias, mas feitas com todo o +cuidado e limpeza, e que, partindo de Roma, íam ter aos pontos mais +distantes do imperio! Lá que os taes romanos eram um grande povo, +isso eram! + +--Pois sim! mas regalaram-se de levar tapona cá na nossa terra, +interrompeu o Bartholomeu. + +--Quem vae á guerra dá e leva, respondeu o João da Agualva, e a final +quem vence é quem mais sabe. Se os romanos venceram, não foi nem porque +tinham mais força, nem porque eram mais valentes, foi porque sabiam +mais. Tu verás ao depois. Olha que isto cá no mundo não se leva a poder +de bordoada. Queres um exemplo? Ora ahi tens tu o mundo todo romano. O +imperador está em Roma, e tudo governa. N'isto sáem da Judéa uns homens +de bordão na mão, e de pés descalços, que começam a prégar por esse +mundo, a dizer que Deus veiu á terra, que foi crucificado, que disse que +todos os homens eram iguaes, senhores e escravos e grandes e pequenos, +que a gente deve amar não só os seus amigos, mas tambem os seus +inimigos, que ha mais alegria no céu pela volta de um peccador, que se +arrepende, do que pela entrada de noventa e nove justos, e outras cousas +assim que embasbacavam todos, e vae os imperadores romanos começaram a +scismar que esta gente, que lhes fazia mal, que desorganisava tudo, e +botam a chacinar n'esses sujeitos que se diziam christãos, e a +queimal-os, e a deital-os ás feras, e a martyrisal-os, e quanto mais os +desbastavam mais elles cresciam, e tanto e tanto que lhes não digo +nada. Ás duas por tres o mundo romano tinha sido conquistado, sem pau +nem pedra, por esses soldados de Christo. Ora aqui tens tu como quem +vence nem sempre é a força bruta. + +--Essa agora é mais fina! accudiu o Manuel da Idanha. Esses, se +venceram, é porque eram os santos apostolos, e porque prégavam a palavra +de Deus. + +--Pois assim é, Manuel, dizes tu muito bem, mas é que isto que se chama +civilisação não é tambem senão a palavra de Deus. A civilisação é o que +concorre para nos fazer melhores, mais dignos de ser homens. Umas vezes +prégam-n'a os santos, outras vezes são os sabios, e ás vezes tambem são +os soldados, porque Deus de todos os meios se serve para chegar aos seus +fins. E é assim que o instrumento d'isto a que eu chamo civilisação umas +vezes é o livro, outras vezes a cruz, e outras vezes a espada. + +Os bons dos saloios ouviam boqui-abertos estas cousas todas, que só o +Manuel da Idanha parecia perceber um bocadinho, por isso o João da +Agualva, que não queria perder a attenção do auditorio, apressou-se a +continuar: + +--Isto quer dizer, meus amigos, que foi por este tempo que principiou a +prégar-se no mundo a nossa santa religião, e foi cá a nossa terra uma +das primeiras que se converteram. Dizem até que veiu aqui o proprio +apostolo S. Thiago, mas isso estou que são lérias; o que é certo, porém, +é que ainda quasi não havia bispos por esse mundo de Christo, e já Braga +era bispado, tanto assim que se chama ao arcebispo de Braga arcebispo +primaz das Hespanhas, porque foi o primeiro que na Hespanha houve. + +Mas, entretanto, meus amigos, grandes cousas se passavam pelo mundo. +Fóra dos limites do imperio, do lado de lá do Rheno, do lado de lá do +Danubio, havia povos que Roma não conseguira conquistar: gente selvagem +como os luzitanos do tempo do Viriato; valentes como elles, e ao mesmo +tempo gente inquieta que não parava n'um sitio e que não podia viver +quasi senão de caça e de rapina. Tinham os romanos um trabalhão em os +conter, mas, quando o imperio começou a fraquear, porque aquillo estava +já sendo uma choldra, quando as legiões, que é como quem hoje diria as +divisões e as brigadas, começaram cada uma a apregoar um imperador pela +sua banda, desabam todos aquelles meus amigos sobre o imperio, e foi +como quem diz uma verdadeira inundação. Ahi pelos annos quatrocentos e +tantos caíram em cima de Hespanha, vindos das bandas dos Pyrenéus, nada +menos de tres povos, os Alanos, os Suevos e os Vandalos. Nós, só á nossa +parte, tivemos dois que tomaram conta de tudo isto, que foram os +suevos e os alanos. Mas aquillo! as florestas de alem do Danubio e do +Rheno parece que se não fartavam de despejar povos que se empurravam uns +aos outros. Atraz d'estes tres povos vieram os visigodos que expulsaram +os outros e ficaram senhores da Hespanha toda. Mas agora ahi têem vocês +como nem sempre quem vence é quem conquista. Julgam por acaso que se +fallou na Hespanha o visigodo, e que as leis visigothicas é que +governaram, e que a religião dos visigodos é que triumphou? Qual +carapuça! os vencidos é que conquistaram os vencedores e deram-lhes a +sua lingua, as suas leis e a sua religião. Porque? porque os mais +civilisados eram os vencidos, e quem mais sabe é quem triumpha. + +--Mas então, a final de contas, perguntou o Manuel da Idanha, sempre +isto ficou sendo romano? + +--Não, rapaz, não é assim. Ora dize-me uma cousa, quando tu deitas sal e +carne para dentro de uma pouca de agua, o que é que fica? é agua, é +carne ou é sal? + +--Essa agora é mais fina, não fica nem uma coisa nem outra, o que fica é +caldo. + +--Ora pois ahi tens tu: a agua eram os lusitanos, os romanos foram o +sal, e os visigodos a carne, e de tudo isso saíu uma cousa nova, um povo +novo, este caldo que depois veio a chamar-se portuguez, que é no fundo +lusitano, como o caldo é agua, e a que Roma deu o sal que foi a +idéa, e os visigodos a carne que foi a força. + +Acharam graça á comparação os bons dos saloios e o João da Agualva +proseguiu d'esta maneira: + +--Mas as cousas não ficaram por aqui, porque no anno de 756 appareceu de +repente em Hespanha gente nova. Eram os mouros. Esses, em vez de vir do +norte, vinham do sul. Seguiam uma religião nova, a de Mafoma. Não eram +uns selvagens, como tinham sido os visigodos. Traziam uma civilisação, e +das mais apuradas. Por isso a lucta que se travou foi medonha: +civilisação contra civilisação, Jesus contra Mafoma. Primeiro venceram +os mouros. Na batalha do Guadalete foram os visigodos vencidos, e morto +o seu rei Rodrigo. Em pouco tempo tinham os mouros tomado toda a +Hespanha. A nossa terra lá foi tambem para elles. Só nos montes das +Asturias, que são levados de quantos diabos ha, um punhado de visigodos +continuou a resistir, commandados por um tal Pelayo, que foi o primeiro +rei das Asturias. Metteram-se os mouros com elle, levaram para o seu +tabaco. Deixaram-n'o lá estar no seu reino, que era como quem diz um +ninho de aguia, encarapitado no cucuruto das montanhas, e c'o a breca, +parece-me que uma aguia c'o as azas estendidas fazia-lhe sombra a elle +todo. A pouco e pouco foi augmentando. Agora tomava-se uma cidade, +logo outra; a grão e grão, diz o proverbio, enche a gallinha o papo. +D'ahi a duzentos annos já os visigodos tinham tirado aos mouros terras +bastantes para formar não só um reino, mas uns poucos. A moda que havia +de se dividir o reino pelos filhos de um rei que ía para o outro mundo, +dava este resultado. Deixemos, porém, isso, e vamos a saber o que era +feito de nós. + +--Isso é que é, acudiu o Bartholomeu, os hespanhoes que tratem de si. + +--Pois nós faziamos parte do reino que se chamou reino de Leão; quando +digo nós, quero dizer de Coimbra para cima, porque, entre Coimbra e +Lisboa, umas vezes era-se mouro e outras vezes christão, mas de Lisboa +para baixo não havia duvida nenhuma, era tudo moirama. + +--Mas então, vamos a saber, isto era já Portugal ou não era Portugal? +perguntou o Zé Caneira. + +--Ora com que tu vens! Sabes o que era Portugal? Era, para assim dizer, +o Minho. Havia Portugal e havia o condado de Coimbra. Portugal +chamava-se assim porque na foz do Douro havia uma terra que se chamava +_Cale_, que depois se mudou em Gaya, e vae defronte mesmo á beira do +rio, começou a levantar-se outra terra que se chamou _Portus Cale_ ou +_Porto de Cale_. Esta terra é o que se chama hoje simplesmente _Porto_, +e o nome de _Porto de Cale_, que se foi mudando em Portugal, dava-se +a tudo o que ficava para o norte do Douro. E aqui está, meus amigos, +como Portugal deve o seu nome ao Porto, exactamente como depois lhe veio +a dever a liberdade. + +--E então Coimbra já não era Portugal? + +--Não, rapaz. Coimbra era outro condado, tambem christão, mas que tinha +existencia sobre si. Ora o que lhes digo, meus amigos, é que a corneta +do destacamento que chegou hoje está já a tocar a recolher, que são +horas de se ir chegando cada um para suas casas, e que no proximo +domingo continuaremos a nossa historia. + + + + +TERCEIRO SERÃO + +D. Affonso VI de Leão.--O conde D. Henrique.--D. Thereza.--O conde de +Trava.--Batalha de S. Mamede.--Egas Moniz.--Fundação da monarchia.--D. +Affonso Henriques.--Os cruzados.--D. Sancho I.--D. Affonso II.--D. +Sancho II.--D. Affonso III. + + +--Viram vocês, meus amigos, tornou o João de Agualva, no domingo +immediato, que o Portugal de agora, ahi pelo anno mil, pouco mais ou +menos estava, do Mondego para baixo, quasi todo em poder dos mouros, e +do Mondego para cima distribuido em dois condados, um que se chamava de +Portugal, que era como quem diz do Porto, e o outro que se chamava de +Coimbra, e ambos estes condados faziam parte do reino de Leão, onde +governava um rei de cabellinho na venta, chamado o sr. D. Affonso VI. +Ora, como D. Affonso VI tinha sempre guerra com os mouros, e como n'esse +tempo o grande pratinho para um principe ou para um fidalgo, era jogar +as cristas com elles, tanto que os íam buscar a casa de seiscentos +diabos, só para lhes dar tapona, aconteceu que dois francezes, chamados +um Henrique e outro Raymundo, ambos primos, e ambos da casa de Borgonha, +em vez de ir á Palestina, vieram aqui a Hespanha, que lhes ficava mais +ao pé da porta, pedir para dar tambem as suas garfadas nos de Mafoma. +Não havia duvida, a mesa estava sempre posta e podiam servir-se á +vontade. Deram bordoada de crear bicho, e o D. Affonso VI, que viu que +eram uns valentões, e que lhe podiam prestar para muito, casou-os com +duas filhas que tinha, uma legitima filha do matrimonio, e outra cousas +e tal etc. A primeira chamava-se Urraca e foi para o Raymundo, a segunda +chamava-se Tareja ou Thereza, e dizem até que era uma rapariga de truz, +para o Henrique. Ora ao primeiro, como era casado com a legitima, deu +elle o governo de toda a parte do reino, que ficava á borda do mar, +desde os altos da Galliza até ás proximidades do Tejo, e a D. Henrique +deu especialmente os condados de Portugal e de Coimbra, ficando sempre +sujeito ao primo. Ha quem diga que Portugal veiu como dote de D. Tareja! +Tó carocho! N'esse tempo nem os paes davam dotes ás filhas, os que +queriam casar com ellas é que ainda davam alguma cousa. + +--E acho isso muito bem entendido! exclamou vivamente o Zé Caneira, que +tinha uma filha casadoira. + +--Pois sim! redarguiu sorrindo o João da Agualva. O que é certo é que a +moda não pegou. D. Henrique, porém, ficou sendo vassallo de Affonso VI, +e empenhou-se em alargar os seus dominios, dando pancadaria nos mouros. +Muito cedo deixou de ser sujeito a seu primo, e teve a sua capital em +Guimarães, que por isso se chama o _berço da monarchia_. Mas este D. +Henrique parece que tinha bicho carpinteiro, foi á Palestina, como se +não tivesse por cá mouros com fartura, e, quando o sogro morreu deixando +o throno á cunhada D. Urraca, que já então era viuva, o bom do conde +metteu-se em todos os barulhos que lá íam por Hespanha, para ver se +apanhava mais alguma cousa para si. Qual carapuça! não apanhou nada, e +ía perdendo muito, porque os mouros, que se viram á larga, começaram a +fazer-se finos, e já subiam por ahi acima, como quem estava com desejo +de se espreguiçar o seu pedaço nos montes verdes de Coimbra. + +No meio d'esta azafama toda, morreu em 1114 o honrado conde deixando uma +viuva muito frescalhota ainda, e um filho pequeno que teria os seus tres +annos, e se chamava Affonso Henriques, que é o mesmo que se dissesse +Affonso filho de Henrique, assim como Sanches queria dizer filho de +Sancho, Fernandes filho de Fernando, e Martins filho de Martim. + +--Ora essa! exclamou um que até ahi estivera silencioso, aqui estou eu +que me chamo Antonio Martins, e mais meu pae chamava-se José. + +--Pois isto que eu digo, tornou João, era n'aquelle tempo, depois os +nomes ficaram, mas já sem se lhes saber a significação, como acontece a +muitas outras cousas. + +A mãe de D. Affonso Henriques, que era uma mulher bonita e +desembaraçada, continuou a andar por cercos e batalhas, sempre a ver se +isto cá em Portugal ficava independente, e, emquanto ella assim +procedeu, correu tudo bem; mas isto de mulheres sempre são mulheres--não +se zangue, tia Margarida--e D. Thereza lá teve o seu fatacaz por um +conde gallego, Fernão Peres de Trava, que d'ahi a pouco era quem punha e +dispunha em Portugal. Não agradava isso muito aos nossos fidalgos, e +menos ao rapazelho, que era levadinho da bréca, esperto como um alho, +valente como seu pae, e que fôra de mais a mais educado por um fidalgo +ás direitas, um tal Egas Moniz, portuguez dos quatro costados. Já se vê +que o aio não lhe ensinou a revoltar-se contra sua mãe, e até devo dizer +que são verdadeiras patranhas muitas das cousas que a esse respeito se +contam. Por exemplo, diz-se que o rapazote andava ás bulhas com a mãe, e +que o rei de Leão, D. Affonso VII, viera em soccorro da tia contra o +primo. Peta! D. Affonso VII veiu a Portugal, é verdade, mas foi para +obrigar a infanta-rainha (assim lhe chamavam) e o filho e os fidalgos e +todo o povo a reconhecer a sua suzerania. Apanhou o rapaz em Guimarães, +cercou-o, e pôl-o deveras em talas. Egas Moniz foi ter com elle, e +disse-lhe que se fosse embora e que lhe empenhava a sua palavra que a +sua suzerania seria reconhecida. Affonso VII assim o fez, e partiu d'ali +contra D. Thereza, que essa reconheceu-o immediatamente por seu senhor e +suzerano. Mas D. Affonso Henriques, livre do primo, pediu á mãe que +fizesse favor de lhe dar o governo a elle, que sempre era mais portuguez +que o conde de Trava. Este disse á rainha que não tivesse cuidado, que +elle iria dar uma duzia de palmatoadas no pequeno. Foram boas as +palmatoadas! Em S. Mamede, ao pé de Guimarães, e no anno de 1128, o +conde gallego levou uma esfrega, e teve de se pôr a andar, levando +comsigo D. Thereza. De fórma que nem D. Affonso Henriques prendeu a mãe, +nem fez cousa que se parecesse com isso. Quiz apenas governar, porque +tinha o direito de o fazer, e porque os barões portuguezes estavam +fartos de aturar o gallego. E a vassallagem que promettera a D. Affonso +VII? Boa vae ella! Mesmo agora D. Affonso Henriques pozera fóra o +gallego para se sujeitar ao de Leão! Nem se pensou em tal. Mas Egas +Moniz tinha dado a sua palavra, e não queria que um patife de um +estrangeiro dissesse que havia portuguezes desleaes. Não contou nada +ao seu querido discipulo, e foi até dos primeiros a aconselhar que se +mantivesse a independencia, mas agarrou em si, na mulher e nos filhos, e +foram todos de corda ao pescoço ter com o rei de Leão, e dizer-lhe: +«Para resgatar a minha palavra, só tenho a minha cabeça e a dos meus! +Ellas aqui estão!» O rei ficou assombrado d'este acto de lealdade e +mandou-os embora com palavras de muito louvor. + +--Homem! isso agora parece-me asneira! acudiu o Zé. Que diabo de culpa +tinha elle que esse D. Affonso Henriques não fizesse o que promettera? + +--Nenhuma, bem sei! mas elle é que ficára por fiador. Outro seria que +dissesse: Eu quiz, mas não pude. Elle foi mais franco e disse: Não pude +e não quiz. O interesse da nação oppunha-se a isso, mas a minha vida ha +de resgatar a minha palavra, e não se fundará n'uma deslealdade a nova +monarchia. + +--Aquillo é que eram homens! murmurou o Manuel da Idanha. + +--Espera que tu vaes ver o que era um homem. Este Affonso Henriques +digo-te que foi mesmo fadado para fundador de reino. Não parava um +instante. No principio do governo, andou sempre á bulha com o primo, e +com os gallegos, e tudo era ver se passava o Minho; mas um bello dia +olhou para o sul, e percebeu que para ali é que havia muito que fazer. +Os mouros começavam a dar signal de si, e a romper de novo por ali +acima. Em 1139, Affonso Henriques vae só n'uma galopada até ao Alemtejo, +derrota os mouros em Ourique, e volta para casa. A respeito de Ourique +tem havido mosquitos por cordas. Diz-se que appareceu Nosso Senhor a D. +Affonso, que este foi ali acclamado rei pelos soldados, que aquillo foi +uma batalha formidavel, etc. Eu cá não me metto n'essas cousas. Que +Nosso Senhor Jesus Christo apparecesse crucificado a D. Affonso +Henriques, é muito possivel, Deus póde fazer estes milagres, sempre que +lhe aprouver, e milagre de Deus foi a nossa historia toda. Sem a ajuda +de Nosso Senhor mal podia este pequeno povo fazer o que fez. Que a +batalha fosse muito importante, não me parece, pelo menos não teve +consequencias; ficou tudo como d'antes, e o que se não póde dizer é que +o quartel general fosse em Abrantes, porque a Abrantes ainda nós não +tinhamos chegado; que os soldados se lembrassem de acclamar D. Affonso +Henriques rei n'essa occasião tambem me parece historia. Sou capaz de +apostar que rei já lhe chamavam ha muito tempo, como chamavam rainha á +mãe; de mais a mais, esse titulo de rei, que affirmava mais a nossa +independencia, onde se deveria dar era n'uma batalha contra os leonezes, +mas n'uma batalha contra os mouros, que tanto se importavam que Portugal +fosse independente, como que fosse vassallo de Leão, a quem tanto +convinha que Affonso Henriques fosse rei como que fosse conde, não +se percebe. Diz-se tambem que foi nas côrtes de Lamego que o titulo se +confirmou. Ora adeus! Côrtes com clero, nobreza e povo ainda cá se não +faziam. E de mais, quem diz isso parece que imagina que n'aquelle tempo +se passavam as cousas como agora, e que isto de fazer rei um conde +soberano era negocio que se não podia praticar sem grandes ceremonias e +ajuntamentos. Boas noites, meus amigos. Oiçam vocês o que succedia! +Morria o rei de Leão, por exemplo, e dividia os estados pelos filhos, e +aqui ficava sendo um rei da Galliza, o outro rei de Leão e o outro de +Castella. E depois juntavam-se os estados, e já não havia reinos nem em +Galliza, nem em Castella, depois tornavam-se a separar, e assim andavam, +sem maior massada. D. Affonso Henriques fizera-se independente, era o +essencial, depois começaram a chamal-o rei, e rei se ficou chamando. O +que elle fez, como era espertalhão, para garantir a conservação do +reino, foi declarar-se vassallo do papa, e mandar-lhe pagar um pequeno +tributo, para que o pontifice lhe valesse. A manha não era má; n'aquelle +tempo quem tinha por si a côrte de Roma tinha tudo. + +Mas o caso não era chamar-se uma pessoa rei, era ter um reino que +merecesse o nome, e esse Portugalsito, que vinha apenas do Minho até ao +Mondego, para fallar a verdade, não parecia lá um grande reino. E +vae D. Affonso Henriques disse então com os seus botões: Toca a +alargal-o! Ora o que faz um de vocês quando se vê com uma terrola para +seu grangeio? Cospe nas mãos, agarra na enchada, começa a fossar o chão, +e ali está desde pela manhã até á noite. D. Affonso Henriques fez o +mesmo, cuspio nas manoplas, arrancou do montante, e elle ahi vae para a +faina em que andou desde pela manhã até á noite, quer dizer, desde que +lhe apontou o buço até que a morte pregou com elle na sepultura. O +montante era a sua enchada, rapazes, e, a cada enchadada, saía do chão +sarraceno agora Santarem, depois Lisboa. Ah! meus amigos, que vida! +Aquillo era um lidar continuado! Elle casou com uma princeza de Saboya, +a sr.ª D. Mafalda, mas estou em dizer que não foram muitas as noites em +que dormio muito bem aconchegado com ella nos seus paços de Coimbra. +Alta noite lá ía elle tomar Santarem, de surpreza, e outra vez +constava-lhe que ía uma gente do norte fazer guerra aos mouros na +Palestina, para defender contra elles o sepulchro de Christo, e vae D. +Affonso Henriques ía logo á beira-mar ter com os homens, e pedir-lhes +que descançassem aqui um pedaço, e que o ajudassem ao mesmo tempo na sua +tarefa de todos os dias. Elles não se fizeram rogar, desembarcaram, e +d'ahi a pouco estava Lisboa no poder dos nossos. Muitos d'elles por cá +ficaram, porque D. Affonso Henriques deu-lhes terras, e até ha por +ahi povoações que ainda se chamam com os nomes d'elles, por exemplo +Villa Franca, que é como quem diz villa dos Francos, etc. + +--Então os de Villa Franca são estrangeiros? perguntou o Manuel da Idanha. + +--Qual carapuça, homem! Tu não te lembras da minha comparação do caldo? +Não é sal, nem agua, nem carne; mas tem carne, agua e sal. A carne eram +os godos, a agua os luzitanos e os romanos o sal; pois tambem no caldo +se deita ás vezes o seu raminho de hortelã ou de segurelha, que sempre +lhe dá assim um sabor mais cousas, tal, etc., pois esses raminhos de +segurelha e de hortelã foram os estrangeiros, que aqui vieram a Portugal +e por cá se deixaram ficar. Vieram tambem contribuir para fazer o nosso +bom caldo portuguez. + +--É bem achado, sim senhor, observou a tia Margarida. + +--Pois assim mesmo é que é. Ora já vocês vêem que o pobre do D. Affonso +não podia estar muito tempo socegado. Hoje tomava Cintra, amanhã Mafra, +no outro dia Palmella, no outro Abrantes! Era um vivodemonio. Os mouros +com elle andavam n'um sarilho. Por isso tambem tinham-lhe tomado um +medo! Fallarem-lhes no Ibn-Errik, assim lhe chamavam elles na sua +lingua, como quem diz _filho de Henrique_, fallarem-lhes em Ibn-Errik, +era o mesmo que fallarem-lhes no diabo. E que gente que elle tinha! +homens como um Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, que morreu combatendo, +e mais andava já pelos noventa annos, e um que tomou Evora, Giraldo sem +Pavor, e outro que tomou Beja, cada qual por sua conta e risco. Gente +levadinha da bréca, isso é que é fallar a verdade. + +Mas, emfim, meus amigos, ainda que se diz «pedra movediça não cria +bolor», sempre dá o caruncho n'uma pessoa, por mais que ella se mexa e +trabalhe. D. Affonso envelheceu, mas antes d'isso já deitára um filho +que era o seu retrato, valente como elle, e homem de grande talento, D. +Sancho, que foi depois rei. Podia morrer descançado D. Affonso +Henriques, deixava a sua espada em boas mãos e a sua corôa em boa +cabeça. E com essa consolação morreu em 1185 el-rei D. Affonso +Henriques, depois de ter não só tornado o reino independente, mas de o +ter alargado até ao meio do Alemtejo, e principalmente de ter tomado +Lisboa que era, como diz o outro, a menina dos olhos dos arabes, a +cidade sem a qual não se podia fazer cá para estas bandas cousa que +geito tivesse. Ah! meus amigos, se algum de vocês fôr alguma vez a +Coimbra, e entrar na igreja de Santa Cruz, suba até á capella mór, e +olhe para os dois tumulos que ali se vêem, pergunte qual é o de D. +Affonso Henriques, e depois ajoelhe diante d'elles, porque, com +seiscentos diabos, se nós hoje não somos para ahi uns gallegos e uns +andaluzes, se démos que fallar no mundo, e praticámos cousas que fazem +com que uma pessoa tenha orgulho de se chamar portuguez, oh! com a +bréca, é a elle que o devemos, porque, como lá diz o outro, de pequenino +se torce o pepino», e este reino de Portugal era bem pequerrucho ainda, +quando esse homem de ferro levou a sua vida inteira a costumal-o a fazer +cousas grandes. + +E o bom do João da Agualva limpou o suor, que lhe escorria pela testa +com o enthusiasmo que o inflammava. Os seus companheiros escutavam-n'o +silenciosos, e já não faziam interrupções nem observações. Estavam +deveras interessados com a narrativa. + +--Meus amigos, continuou o João da Agualva, no governo como na lavoura +ha tempo para tudo, agora cava-se e depois semea-se. Primeiro compra-se +a terra e depois é que se amanha. Pois assim foi em Portugal; D. Affonso +Henriques ou D. Affonso I conquistára, D. Sancho tratou de povoar. Por +isso a historia chamou _conquistador_ ao primeiro e _povoador_ ao +segundo; e olhem que isso não quer dizer que D. Sancho não fosse tambem +um guerreiro de truz. Tó carocho! Já na vida do pae elle dera que +fallar. Apenas o pae morreu, começou elle a namorar uma terra do +Algarve, que hoje está bem decaída, mas que n'esse tempo era, por assim +dizer, a Lisboa lá do sul--Silves. Não se lhe mettia dente, porém, +com facilidade. Para ir lá por terra, era custoso como o demonio, para +ir por mar, é de saber, meus rapazes, que o sr. D. Sancho I ainda não se +lembrára de comprar nem a fragata _D. Fernando_, nem esse navio com que +andam por ahi sempre os jornaes aos tombos, e a que uns chamam o +_Pimpão_ e os outros o _Vasco da Gama_. + +Uma gargalhada geral mostrou que os bons dos ouvintes tinham apanhado +facilmente o chiste do jovial anachronismo do narrador. + +--Mas, meus amigos, isto de Portugal ficar no caminho da Palestina para +os christãos que vinham lá das terras do norte, foi uma verdadeira +pechincha. Descançavam aqui e sempre havia por cá algum biquinho de +obra. Foi o que succedeu tambem d'esta vez. D. Sancho apanhou uma frota +de cruzados... + +--Novos? perguntou o Zé. + +--Novos eram elles, que não costumavam vir para a guerra os carecas como +tu; mas é de saber que se chamavam cruzados aos christãos que tinham ido +tirar o sepulchro de Christo das mãos dos infieis, e que depois o +defendiam. D. Sancho apanhou pois uma frota de cruzados, e disse-lhes +d'esta maneira: + +«--Vocemecês é que me podiam fazer um favor. + +«--Se estiver na nossa mão!... + +«--Lá isso está. É simplesmente acompanhar-me ali a baixo a Silves, +e ajudar-me a intimar mandado de despejo aos mouros que lá estão dentro. +Eu fico com a cidade, e os senhores levam as riquezas que se apanharem. + +«--Vá de feição. + +E foi. Tomou-se Silves, tanto mais que lhes ficava na estrada, e não +tinham de torcer caminho. Mas D. Sancho não poude continuar com essas +funçanatas, porque os mouros cá da peninsula, que começavam a estar +assim esmorecidos, receberam de repente uns reforços da Moirama, e... +não lhes digo nada, vieram outra vez por ahi acima que parecia que +tornava a haver invasão. Foi uma torrente que levou tudo adiante de si. +O Tejo tornou a ser a fronteira de Portugal, e apenas no Alemtejo uma +terra ou outra surgia ainda, como uma ilha, com a bandeira portugueza, +d'entre as ondas da mourisma. Então D. Sancho pensou que primeiro que +tudo era necessario tratar do que era seu, e começou n'uma lida +abençoada: elle mandou vir gente do norte da Europa para povoar os +nossos campos desertos, elle edificou, elle fez castellos, elle cuidou +emfim de tudo, e não se esqueceu tambem de mostrar aos bispos que tinha +muita contemplação por elles, emquanto se limitavam ás suas rezas, mas +que lhes não permittia metter o nariz assim de muito perto nos negocios +do estado. A final, este bom rei morreu, menos velho que o pae, em 1212. +Tinha sido casado com uma princeza chamada D. Dulce, filha do conde +de Barcelona. De fórma que aqui temos pois já duas rainhas de Portugal, +D. Mafalda e D. Dulce. + +O filho mais velho de D. Sancho, que veiu a ser rei depois d'elle, não +se parecia muito, valha a verdade, nem com o pae, nem com o avô, mas +olhem que nem por isso foi menos util cá ao nosso paiz. É o que eu digo. +Cada qual tem a sua tarefa. Uns cavam, outros semeam, outros põem fóra +os pardaes e arrancam o joio, que podem dar cabo da ceara. Foi esta a +tarefa de D. Affonso II. Ora vêem perfeitamente que, se este Portugal +tão pequeno se começasse a dividir, pedaço para aqui, pedaço para acolá, +ía-se tudo quanto Martha fiou. D. Sancho, que tivera uma sucia de +filhos, pensára mais em os deixar bem arranjados do que em assegurar a +conservação do reino. Por isso no testamento era umas mãos rotas. Esta e +aquella villa para o senhor infante fulano, esta e aquella cidade para +sicrano, e terras para este, e terras para aquelle. D. Affonso II +arrebitou a venta, e disse d'este modo: Então vamos a saber, e eu com +que fico? E ahi começa á bulha com as irmãs e com os fidalgos. Andava +tudo em polvorosa com elle. Os fidalgos, por exemplo, tinham recebido de +D. Affonso e de D. Sancho esta ou aquella terra, mas íam-se fazendo +finos, e por sua conta e risco íam apanhando mais alguma, os frades +então nunca chegaram á cabeceira de um moribundo que não apanhassem +algumas terras de bom rendimento. Isto assim não póde ser, berrava D. +Affonso II, ás duas por tres fico a olhar ao signal. E elle ahi vae por +essas provincias fóra, a obrigar os fidalgos a pôr para ali os titulos +das suas propriedades, declarando que não valiam senão os que elle +confirmasse, e foi a isso que se chamou _confirmação_. Ao mesmo tempo +prohibia ás corporações religiosas que tivessem mais terras do que as +que tinham. Emquanto ao testamento de D. Sancho I, cumpriu só o que lhe +parecia bom, e, como as irmãs refilassem, houve pancadaria a menos de real. + +--Então, por esse andar, os mouros deviam ter vida folgada com elle? +observou o Francisco Artilheiro. + +--Lá isso é verdade, e tanto assim que, quando se tomou Alcacer do Sal, +os cruzados, que nos ajudaram, e que nunca pozeram a vista em cima do +soberano, imaginaram que era uma rainha que governava em Portugal; mas, +meus amigos, olhem que o nosso paiz não lhe deve menos por isso. Se as +infantas começam a puxar para um lado, os fidalgos a puxar para o outro, +e ainda os frades a arrancar tambem as terras, n'um abrir e fechar +d'olhos tinhamos para ahi vinte reinos, e adeus Portugal. Mas o +gordanchudo do Affonso II, apesar de se não importar para nada com +os mouros, tinha cabellinho na venta; e por isso os frades foram +prohibidos de ter mais terras, as infantas tiveram de pôr para ali as +cidades que o pae lhes tinha deixado, porque D. Affonso II disse-lhes +que a respeito de corôa em Portugal não havia senão uma, e finalmente os +fidalgos tiveram de receber d'elle as terras mas por favor e mercê real. +De fórma que, a 25 de março de 1223, quando morreu apenas com trinta e +seis annos de idade, Portugal era pequeno, mas estava todo na mão do +rei, o que já era grande façanha. + +--E o filho foi pelo mesmo caminho, sr. João? perguntou o Manuel da Idanha. + +--Ora, meu amigo, eu te vou dizer o que succedeu ao filho, e por aqui tu +verás se o que eu acabo de dizer não é verdade, e se não ha na historia +exemplos para tudo. O filho era creança, quando subiu ao throno, por +conseguinte foi necessario haver regencia. Chamava-se Sancho o +pequenote, Sancho II, por alcunha o _Capello_, porque em creança andara +com um capuz de frade, lá por promessa da mãe, ou cousa assim. Quem +ficou com o governo foram os ministros do pae, e, ainda que eram homens +de truz, sempre lhes faltava a auctoridade que tinha um rei. De fórma +que toda aquella nobreza e fradaria, quando se viu assim á solta, livre +da mão de ferro de D. Affonso II, começou a alvorotar-se, e os +ministros, para os terem quietos, íam dando o que elles pediam. As +infantas apanharam as cidades, os frades foram juntando terras ás que já +tinham, e parece que o rei andava umas vezes nas mãos de uns, outras +vezes nas mãos de outros. Pouco se sabe d'aquelle tempo. Ia pelo reino +todo uma confusão de seiscentos demonios. O que é certo é que, quando D. +Sancho II chegou á maioridade, estava já tão costumado a não ser rei que +não soube puxar pelos seus direitos. E não era que elle fosse fraco. +Pois não! pelo contrario! Era da raça do avô, não estava bem senão a +cavallo e com os mouros de volta. Tomou uma boa parte do Alemtejo e do +Algarve, mas fidalgos e frades esses faziam o que queriam e sobrava-lhes +tempo. Vêem vocês? Para uma pessoa governar não basta ser um valentão. +Ás vezes um porta-machado, com umas barbaças por ahi alem, anda em +bolandas nas mãos de um creançola, outras vezes uma fraca figura faz +andar um regimento ali direitinho que nem um fuso. D. Affonso não queria +nada com os mouros, o que o não impedia de governar como um homem; para +D. Sancho as batalhas eram o pão nosso de cada dia, e em Portugal todos +governavam menos elle. Cousas da vida! Como os fidalgos faziam o que +lhes dava na cabeça, e os frades tambem, e os bispos a mesma cousa, +parecia que deviam estar todos muito satisfeitos. Mas não succedia +assim. Os bispos queixavam-se dos fidalgos, estes queixavam-se dos +frades, e todos do rei, os frades porque não reprimia os bispos, os +bispos porque não tinha mão nos fidalgos, os fidalgos porque não puxava +as orelhas ao clero. Quando elle saltava nos mouros, ainda as cousas não +corriam mal. A fidalguia gostava d'aquillo, íam todos atrás do rei, e +não se pensava em mais nada. Mas, quando uma hespanholita, chamada D. +Mecia Lopes de Haro, caiu em graça ao rei, que casou com ella, e que +passou os dias a namorar os olhos pretos da rainha, lá se foi tudo +quanto Martha fiou. A desordem excedeu todos os limites, e os bispos +foram ter com o papa a fim de lhe pedirem que tirasse a corôa a D. +Sancho II. O papa, que era Innocencio IV, pulou de contente com o +pedido. Era o mesmo que virem-lhe dizer que era elle quem dava e tirava +as corôas n'este mundo, e que vinha a ser portanto o rei dos reis. +Estava em França n'esse tempo um irmão de D. Sancho II, chamado D. +Affonso, que saíra de Portugal para ir correr terras, encontrára em +França uma condessa de Bolonha, viuva, e já durazia, ao que parece, que +gostou d'elle e com elle casou, levando-lhe o condado em dote. Ora o tal +condado era uma especie de reino, sujeito ao rei de França, que n'esse +tempo era o rei santo que elles tiveram, a saber S. Luiz. + +--S. Luiz rei de França, interrompeu a Margarida, é uma igreja que +fica ali para as bandas do Rocio. + +--Pois é uma igreja e foi um rei, tia Margarida, respondeu o João de +Agualva, como Santa Izabel é uma igreja que fica ali para as bandas da +Estrella, o que a não impediu de ser tambem uma rainha e rainha de +Portugal. + +--Isso é verdade! confirmou a tia Margarida. + +--Pois então, como lhes ía dizendo, reinava S. Luiz em França, e D. +Affonso, seu vassallo, por ser conde de Bolonha, fôra com elle á guerra, +e déra provas de ser homem desembaraçado. Lembraram-se d'elle para rei, +e D. Affonso, que era ambicioso, acceitou. Os bispos e os fidalgos +disseram comsigo que um rei feito por elles havia de ser um creado que +tivessem ali no throno, e o papa entendeu tambem que aquillo era «senhor +mandar, preto obedecer». Combinou-se tudo. D. Affonso prometteu quanto +quizeram e ahi vae elle caminho de Portugal, fingindo que ía para a +Terra Santa. Desembarca e principia a guerra civil. Tambem se não sabe +muito do modo como as cousas se passaram. Parece que foi uma guerra +levada do diabo como são sempre as guerras civis, queimaram-se villas e +cidades, arrasaram-se muitas cearas, ficou muita gente na miseria, e o +pobre D. Sancho viu-se abandonado por todos, dizem até que pela mulher, +que fôra, a final de contas, o motivo de todas aquellas cousas. +Houve só um ou outro que se lhe mostrou fiel. D. Sancho teve de saír do +nosso paiz, e foi para Hespanha, onde morreu em Toledo apenas com trinta +e sete annos. + +--Pobre do homem! acudiu compassiva a tia Margarida. Então que mal tinha +elle feito áquella gente toda? + +--Era um rei fraco, e, como se costuma dizer, não era nem para si nem +para os outros. Até a mulher não fez caso d'elle, porque as mulheres são +assim: em estando uma pessoa embasbacada a olhar para ellas, não fazem +caso nenhum, e ás vezes de quem gostam é de quem lhes chega um _calor_ +ao corpo, como o outro que diz. + +--Vae-te excommungado, bradou indignada a tia Margarida. Se um homem me +batesse, eu até parece que era capaz de lhe arrancar os olhos. + +--Pois sim, tia Margarida! não digo menos d'isso. Mas a rainha D. Mecia +não era do mesmo parecer, e pagou bem as pieguices de D. Sancho!... Só +de dois fidalgos se conta que se mostraram fieis ao desgraçado rei. Um +foi o alcaide de Celorico, que até dizem que fez uma partida com graça. +Estava-o cercando D. Affonso, e elle já não tinha nem uma migalha de +pão, n'isto passa uma aguia por cima da praça com uma truta no bico, e +deixa-a cair dentro da villa. O alcaide, em vez de a comer, manda-a +cosinhar muito bem, e envia-a de presente aos cercadores. D. +Affonso, vendo que na praça havia petiscos d'aquelles, entendeu de si, +para si que estava perdendo o tempo e o feitio, e foi-se embora. Póde +ser que isto seja patranha, mas o que é verdadeiro, sem tirar nem pôr, é +o caso de Martim de Freitas. Esse era alcaide de Coimbra, foi cercado +tambem, não se rendeu. Disseram-lhe que já D. Sancho morrera, e que por +conseguinte era D. Affonso o seu natural successor. Não acreditou. +Affirmaram-lhe que morrera em Toledo. Pediu para ir ver. Deram-lhe um +salvo conducto, e Martim de Freitas, mettendo na algibeira as chaves de +Coimbra, foi de passeio até Toledo. Mostraram-lhe o tumulo do rei, +mandou-o abrir; mostraram-lhe o caixão, quiz ver o corpo; e ao ver emfim +o pobre cadaver do seu rei, que assim morrera aos trinta e sete annos, +longe da sua terra e longe dos seus, ajoelhou e poz as chaves da cidade +nas mãos do rei que lh'as entregára; depois, tirou-as d'essas mãos já +frias que as não podiam segurar, e partiu para Coimbra, entregando-as ao +novo rei, que louvou muito a acção. + +--E tinha rasão para isso, tornou a tia Margarida, que estava sendo +agora a interruptora, mas com o tal rei novo é que eu não engraço nada. +Olhem que irmão! Sempre tinha uns figados! + +--Não era muito boa rez, não, tia Margarida, mas então n'este mundo não +são só as boas pessoas que servem. Que D. Affonso se importava tanto +com a familia como eu me importo com a familia do imperador da China, é +o que não tem questão, mas que foi um grande rei, isso tambem é verdade. + +--Era fresco o tal rei, que assim fazia guerra ao irmão sem mais nem menos! + +--Ha mais exemplos d'isso, tia Margarida, e não vão elles tão longe que +uma pessoa se não possa lembrar. Mas olhe que não param ahi as maldades +de D. Affonso. Tambem não fez caso da mulher, a tal condessa de Bolonha, +que nunca foi capaz de pôr pé em Portugal, e casou, em vida d'ella, com +uma filha do rei de Hespanha. + +--E ainda você o gaba, sr. João? perguntou a tia Margarida. Sabe o que +eu lhe digo? Parece-me que você é tão bom como elle! + +--Olhe, tia Margarida, não me rogue você nunca outra praga, que lá com +essa não me hei de eu dar mal. O que lhe disse é que o sr. D. Affonso +III foi um dos reis que fizeram mais bem ao pobre povo, e sabe vocemecê +porque? Porque era homem de cabeça, e o que succedera com elle não tinha +caído em cesto roto. Elle disse comsigo; Estes patifes d'estes fidalgos +e d'estes bispos são capazes de me fazer a mim o mesmo que fizeram a meu +irmão. Ora, eu sósinho não posso com elles. A quem me hei de encostar? +Olhou em torno de si e vio o povo, o povo em quem ninguem fallava, e que +era a final de contas quem pagava as custas dos barulhos entre os +grandes, o povo que pagava tributos a toda a gente, e que mesmo quando +vivia em seus concelhos governando-se pelos seus foraes, que eram para +assim dizer as suas leis, mesmo então era ralado pela fidalguia. E +Affonso III disse comsigo: Ora ahi está quem me serve. E desata a fazer +concelhos, e, quando reuniu côrtes que até ahi eram só de fidalgos e +padres, chamou tambem procuradores do povo, e favoreceu o mais que poude +o seu negocio, e deu-lhes socego e cousas e tal, de fórma que depois +poude dar para baixo nos prelados, que berravam pelos contractos que +tinha diabo, mas D. Affonso III, que era finorio, abanou-lhes as +orelhas. E que os papas tinham deposto não só o rei D. Sancho II, mas +tambem um imperador da Allemanha, de modo que aos chefes dos estados já +ía cheirando a chamusco, e principiaram a fazer parede contra o papa. +Assim os bispos, que levavam tapona de D. Affonso III, íam a Roma fazer +queixas ao papa, e o papa naturalmente respondia-lhes contando-lhes uma +fabula que lhes vou contar a vocês tambem. + +--Conte lá sr. João da Agualva, exclamou o Manel da Idanha, ainda que +eu, a dizer a verdade, não sei lá muito bem o que venha a ser isso de +_fava_ ou _fabula_ ou o que é. + +--Fabula é assim uma historia em que os animaes fallam como se fossem +gente, e pelo que elles dizem tira a gente... sim... é como diz o outro +pelos domingos se tiram os dias santos... Eu lá, a estas +explicações, não se póde dizer que seja um barra, mas em fim, em eu +contando o caso, logo vos apercebem. + +--É isso mesmo, tio João, conte lá, disse o Bartholomeu. + +--Uma vez as rãs foram ter com Deus Nosso Senhor e pediram-lhe um rei, e +Deus Nosso Senhor, que estava de maré, não quiz abusar das pobresinhas, +e atirou-lhes para o charco um cepo; mas o cepo não fazia nada, andava á +tona da agua, para aqui e para acolá, as rãs não lhe tinham respeito +nenhum, e saltavam n'elle, qual debaixo qual de cima, e o cepo sempre um +paz d'alma, que tanto valia terem rei como não o terem. Vae então as rãs +voltaram a Deus Nosso Senhor, e disseram-lhe d'esta maneira: Dê-nos +Vossa Divindade um rei que se veja, um rei que nos governe.--Pois então +ahi vae um rei como vocês querem, respondeu Nosso Senhor, e atirou-lhes +para o charco uma serpente, e a serpente, a primeira cousa que fez, foi +engulir as primeiras vassallas que lhe pareceram mais gordas, e depois +outras e outras, de fórma que as pobres rãs já se não atreviam nem +sequer a coaxar para que sua magestade não desse com ellas. Percebem +vocês agora porque é que o papa podia contar esta historia aos bispos +que íam ter com elle? + +--Percebo eu, acudiu logo o Manel da Idanha. É que elles não +descançaram emquanto não pozeram fóra um rei que era um paz d'alma, um +cepo, o D. Sancho II, e foram buscar outro rei que era uma serpente e +que deu cabo d'elles que foi um regalo. + +--Ora, tal qual, sô Manel. Com gente assim é que eu me entendo. D. +Affonso III bem se póde dizer que era uma serpente, porque as serpentes +são manhosas, e elle tinha manha a valer. Mostrou-o em tudo, até no modo +como se assenhoreou do Algarve, que era só o que faltava para Portugal +chegar ao mar pelo lado do sul. Tomou-o aos mouros, e isso foi obra de +pouco tempo; mas o rei de Castella começou a berrar que o Algarve lhe +devia pertencer a elle. D. Affonso III nunca lhe disse o contrario, mas +foi arrastando a entrega, e depois aproveitando tudo, de fórma que ás +duas por tres estava senhor do Algarve, e, quando D. Affonso III morreu, +que foi a 16 de fevereiro de 1279, estava Portugal completo e seguro, e, +visto que chegámos ao fim d'esta primeira parte, parece-me que o melhor +é irmos dormir, que para o outro domingo continuaremos. + +--Mas ó sô João, disse o Manel da Idanha, já agora, faça favor, não +deixe ir a gente embora, sem nos explicar uma cousa. Vocemecê diz que o +rei, para esmurrar as ventas aos bispos mais aos fidalgos, começou a +fazer concelhos por dá cá aquella palha, e lá isso é que eu não +percebo muito bem. Então que diabo tinham os fidalgos com o haver ou o +não haver concelhos? + +--Pois tem rasão, sô Manel da Idanha, e bom é que essas cousas fiquem +explicadas, porque a mim parece-me cá no meu modo de ver que o que nos +importa a nós, que somos do povo, não é tanto saber as batalhas que se +deram, e mais os reis que houve; o que nos importa é saber como é que +viviam os nossos paes, e como se governavam e cousas e tal. Ora pois, +saibam vocês que muitos dos nossos paes eram a bem dizer escravos, não +como os do tempo dos romanos que podiam ser vendidos como uns negros, +mas faziam parte das terras que cultivavam, e com ellas passavam de dono +para dono. Isto foi melhorando, e os servos passaram a ser gente livre, +mas sem ter terras suas; pagavam foros e foros pesados, os senhores das +terras eram os reis, os nobres, os bispos e os mosteiros. As terras dos +reis chamavam-se _terras da corôa_, as dos fidalgos e as da igreja +_coutos_, _honras_ e _behetrias_. Ora os fidalgos, que só tinham +obrigação de servir o rei na guerra e não pagavam mais nada, ou por +herança de seus paes, ou por doações dos reis em recompensa dos seus +serviços, íam mettendo em si o paiz todo, já se vê de embrulhada com os +padres; e os reis pouco tinham de seu, porque, demais a mais, fidalgos, +bispos e conventos apanhavam tudo quanto podiam, o que se lhes dava +e o que se lhes não dava. Por isso D. Affonso fez as taes _inquirições_, +quer dizer, obrigou todos a porem para ali os seus titulos, para se +saber se tinham as terras com direito ou sem elle, estabeleceu mais as +famosas confirmações que punham a fidalguia sempre na dependencia da +corôa, porque cada novo rei confirmava ou não confirmava as doações dos +outros, e finalmente prohibiu aos conventos que arranjassem mais terras. +E vae o povo o que fazia? Sempre que se podia livrar dos fidalgos e dos +padres por qualquer modo e feitio, formava-se um concelho. Então +continuavam a pagar tributo, e serviam nas guerras, mas não estavam +sujeitos a ninguem, governavam-se elles por si, e tinham as terras muito +suas. Ora, como os reis é que os podiam ajudar a ver-se livres da +fidalguia, chegavam-se para elles, e os reis, que tinham nos concelhos +gente que tambem ía á guerra e que lhes pagava tributos, encostavam-se +para esse lado, para terem quem lhes valesse quando os barões ou os +bispos se faziam finos. Aqui tens tu explicado pela rama como cada +concelho, que se formava, era ao mesmo tempo um asylo de liberdade para +o povo e um auxiliar para o rei contra as ameaças dos fidalgos. + +--Muito obrigado, sô João da Agualva, tornou o Manel; mas sempre lhe +digo que quem não sabe é como quem não vê. Ora quem me _havera_ de dizer +que esta historia de ter uma terra, um pelourinho no meio da praça, +era de tanta vantagem cá para o povo! Pois até domingo, e tomára eu que +passasse depressa a semana porque divertimentos como este é que ha muito +tempo a gente não apanha. + + + + +QUARTO SERÃO + +D. Diniz.--A universidade de Coimbra.--Os Templarios.--Santa Isabel.--D. +Afonso IV.--A batalha do Salado.--Morte de Ignez de Castro.--D. Pedro +I.--D. Fernando I.--Leonor Telles.--Estado de Portugal no fim do reinado +de D. Fernando. + + +--Meus amigos, principiou o João da Agualva, corriam os annos, e lá por +esse mundo de Christo íam todos abrindo os olhos. Os romanos, como lhes +disse, eram um povo que sabia o nome aos bois. Elles faziam estradas, +elles faziam edificios que ainda hoje, arruinados, deixam ficar uma +pessoa embasbacada, elles tinham escolas, o diabo! Mas, depois, vieram +os barbaros dos bosques da Allemanha e da Russia, e zas, tras, catatras, +lá se foi tudo pela agua abaixo. Por muito tempo não se pensou senão em +pancadaria. Tudo era gente rude, os reis não sabiam ler nem escrever, os +povos fallavam uma lingua assaralhopada que nem era latina, nem deixava +de o ser. Mas a pouco e pouco foram-se aclarando as cousas, foi +havendo estudos, e D. Diniz, que subiu ao throno, depois da morte de D. +Affonso III, era já um sabichão. Elle fazia os seus versos de pé +quebrado, que a gente hoje quasi que não entende, mas que eram já +escriptos n'uma lingua com termos, elle emfim vio que havia escolas por +esse mundo onde se ensinava tudo o que então se sabia, e quiz tambem ter +uma que foi a universidade de Coimbra. Depois tratou de fazer do reino +alguma cousa com geito. Já não tinha que pensar em mouros, e então +pensou na lavoura, pensou na marinha, pensou em tudo o diabo do homem! +Mandou vir capitães de navios, de Italia, para ensinarem os nossos, e +ajudou os navegantes do Porto, que sempre foram gente desembaraçada, a +crear uma especie de companhia de seguros, e não se descuidou tambem de +dar para baixo na nobreza e nos padres para elles se não fazerem finos, +e dava-lhes de modo que elles não tinham rasão de queixa, porque era +sempre com justiça. Ora, por exemplo, d'antes havia uma especie de +frades que se chamavam freires militares, que eram, como quem diz, +frades e soldados ao mesmo tempo. Em vez de fazerem voto de rezar e de +jejuar, faziam voto mas era de dar bordoada nos mouros. Havia umas +poucas de ordens n'esse gosto, a ordem dos Templarios, a de S. Thiago, a +de Aviz e outras. Ora, como é de ver, esses templarios, por exemplo, que +se fartavam de tomar terras aos mouros, com algumas haviam de ficar +para si. E depois tinham doações, emfim eram ricos a valer. O que +acontecia por cá, tambem acontecia lá por fóra. Succedeu, pois, que um +rei de França e um papa acharam excellente apanhar para si essas +riquezas todas, e acabaram com a ordem dos Templarios em toda a parte; +mas D. Diniz, que era um homem serio, não esteve pelos ajustes, e +entendeu que seria um roubo tirar aos homens o que elles tinham ganho á +custa do seu sangue, e então, como não havia de desobedecer ao papa, +abolio a ordem dos Templarios, mas passou todos os bens para outra que +pediu ao papa que creasse e a que chamou ordem de Christo. + +--Ó sr. João, perguntou o Francisco Artilheiro, esse D. Diniz não era +marido da rainha Santa Isabel? + +--Era sim, rapaz, e já vou fallar n'essa rainha, que foi tambem uma das +bençãos de Portugal n'esse tempo. Era filha do rei de Aragão, e bem se +póde dizer que aquella é que foi uma verdadeira santa. Pobre senhora! +Não lhe faltaram desgostos, não. Primeiro houve grande bulha entre o +marido e um cunhado, D. Affonso Sanches, que embirrou em que lhe +pertencia a corôa, apesar de ser mais novo; depois, e isso foi o peor, o +filho, que veio a ser D. Affonso IV, revoltou-se contra o pae, e porque? +Porque el-rei D. Diniz, que era frecheiro, e que se fartou de ter +filhos bastardos, parecia que olhava mais por elles do que pelos +proprios filhos do matrimonio. Imaginem o desgosto da rainha! Primeiro +porque emfim não havia de gostar muito de ver o marido sempre ao laré +com esta e com aquella a arranjar filhos por fóra de casa, e depois por +ver assim a guerra accesa entre seu marido e seu filho. E ainda por cima +o rei desconfiou que ella ía de accordo com o filho, e chegou até a +tratal-a mal, e a mandal-a saír da côrte. Pobre senhora! aquillo era o +que ali estava. Ella tudo supportou com resignação--as infidelidades e +as injustiças do marido, só o que queria era ver tudo em paz. E sempre o +conseguio. Tanto pediu, tanto chorou, que o filho e o pae vieram ás +boas. Mas d'ahi a pouco torna a haver intrigas, e o D. Affonso, que era +um vivo demonio, torna á pancadaria com o pae. Pois senhores, a batalha +estava para ser aqui ao pé de Lisboa, no Campo Grande; mas quando já +começavam á lambada, apparece no meio d'elles a boa rainha, que foi +mesmo o anjo da paz, e depois que ella appareceu ninguem mais se atreveu +a levantar uma lança. Oh! rapazes! digo-lhes que até me parece que não +era necessario que o papa a fizesse santa para que o povo a adorasse! +Pois então se aquella não fosse santa quem é que o havia de ser? Dizem +que mudava o ouro em rosas, e rosas em ouro. Isso creio eu, que aquellas +bentas mãos haviam de mudar em flores tudo em que tocassem, porque +eram, como o outro que diz, mãos puras e boas, como a aragem de maio! +Mas milagres maiores fazia ella ainda, porque as lagrimas que chorava em +segredo caíam depois sobre a cabeça do pai e do filho como orvalho de +paz e como chuva de amor! Sim! Sim! continuou o bom do João da Agualva, +com voz tremula, e meio a chorar, digam lá vocês que ella não mudava +tudo em que tocava em rosas, quando agora mesmo, que diabo! só de fallar +n'ella, parece que até as palavras na minha bôca se estão mudando em +flores! + +--Ai! a minha rica Santa Isabel! exclamou a tia Margarida, pondo as +mãos, n'um enlevo. Coitadinha da minha rica santa que foi logo casada +com um homem tão mau! + +--Não era mau, não senhora, tornou o João da Agualva, foi até um dos +melhores reis que nós tivemos, mas como elle ás vezes lá escorregava o +seu pedaço, e nem sempre tratou a santa como ella merecia ser tratada, +bastou isso para que o povo começasse a inventar cousas, que elle que +era um sovina, um desconfiado, um unhas de fome, e até os pintores, +quando fazem o quadro do milagre das rosas, põem-n'o com uma carantonha +de metter medo, que ninguem dirá que está ali o rei poeta, o rei a quem +chamavam o pae do povo, o rei que não quiz roubar os templarios, o rei +que fundou a universidade de Coimbra, o rei que tanto se desvelou +pelo bem do paiz! E que as injustiças, por mais pequenas que sejam, +sempre vem a pagar-se, e D. Diniz, esses peccados que teve, pagou-os bem +caro, primeiro com a revolta de seu filho, depois com a injustiça do +futuro, e agora vão vocês ver como o filho tambem pagou o que fizera ao +pae, porque em 1325 morreu el-rei D. Diniz e subiu ao throno seu filho +D. Affonso IV, a quem chamaram o Bravo. + +--Ora vamos lá a ver o que fez esse senhor, disse uma voz. + +--D. Affonso IV, meus amigos, tinha muito boas qualidades. Era, por +exemplo, um homem de muito bons costumes, e foi isso até que o levou a +praticar uma acção... emfim, depois fallaremos. Era homem serio, mas +arrebatado e vingativo. A primeira cousa que fez, assim que subiu ao +throno, foi vingar-se dos irmãos, por cuja causa tivera as bulhas com o +pai. D'ahi guerra. Quem acudiu? A rainha Santa Isabel. + +Casou uma filha com o rei de Castella, Affonso XI. Este, que era do +feitio de D. Diniz, começou a largar a mulher e a metter-se com uma tal +D. Leonor de Gusman. D. Affonso IV, que ficára embirrando deveras com +esses arranjos depois das turras com o pai, começou a criar má vontade +ao genro, e zas, toma que te dou eu, ao primeiro pretexto que teve, ahi +começam as bulhas. Foi uma guerra de cá cá ra cá, que não prestou +para nada, mas que sempre fazia mal ao povo. No mais seguiu á risca o +exemplo do pae. Tratou do povo, teve os fidalgos muito na mão, mais os +padres tambem. E então com esses não foi lá só por causa das terras a +que deitavam a unha, foi tambem por causa dos maus costumes, porque +elles gostavam de passar vida airada e outras cousas que D. Affonso IV +lhes não levou a bem. Por isso apanharam uma vez uma rabecada, n'uma +carta que D. Affonso escreveu ao papa, que foi de ficarem de cara a uma +banda. + +--Bem feito! acudiu a tia Margarida. Esse rei sim! esse é que me quadra. +Bem se vê que era filho da rainha Santa Isabel! + +--Espere lá, tia Margarida, não falle antes de tempo que, como diz o +outro, até ao lavar dos cestos é vindima. Houve no reinado de D. Affonso +IV duas cousas famosas: primeiro a batalha do Salado, depois a morte de +D. Ignez de Castro. + +--Foi com os hespanhoes a batalha do Salado? + +--Não homem, foi dada até para os ajudar. Já lhes disse, meus amigos, +que nós desde o reinado de D. Affonso III tinhamos posto os mouros na +rua. Mas os hespanhoes ainda não tinham conseguido o mesmo, os mouros +estavam reduzidos apenas ao reino de Granada, mas sempre isso era alguma +cousa. Ora agora ali em Marrocos estava, como sabem, a moirama toda. +Imaginem que um bello dia o tal miramolim de Marrocos, ou como diabo +se chamava elle, desaba em Hespanha com o poder do mundo e junta-se ao +rei de Granada para darem cabo do rei de Castella. Era este D. Affonso +XI, genro do nosso D. Affonso IV. Aterrado com o perigo, pediu soccorro +ao sogro, apesar de estar mal com elle; mas o nosso rei, homem ajuizado, +vio que a occasião não era para dize tu direi eu, que não era só +Castella que estava em perigo, estava em perigo a Hespanha toda; se +Affonso XI levasse uma tareia e perdesse algumas provincias ficavam aqui +os mouros de raiz, e tinha de se começar outra vez a pôl-os fóra. Por +isso não esperou por mais nada, ajuntou quanta gente poude, e foi em +soccorro do genro. O nosso rei era homem de pulso, os nossos soldados +tambem eram pimpões. O soccorro não foi nada mau. Na batalha do Salado +os mouros levaram uma sova de primeira ordem, e nunca mais os de +Marrocos vieram cá metter o nariz d'este lado do mar. D. Affonso IV +voltou para a sua terra sem ter querido acceitar cousa nenhuma da grande +preza que fizeram. + +--E isso de D. Ignez de Castro o que foi, ó sr. João da Agualva? +perguntou a tia Margarida. Não foi essa Ignez de Castro que esteve aqui +em Bellas, que até ali na quinta do marquez ha uma arvore a que chamam +de Ignez de Castro? + +--Ora adeus, tia Margarida! esteve agora em Bellas! quer dizer, eu, +como não andei com ella por toda a parte, não sei se por cá passaria +alguma vez, mas onde viveu principalmente foi em Coimbra. Era uma +hespanhola esta Ignez de Castro, linda como os amores, loura como o sol, +e com um pescoço tão bonito, que lhe chamavam o _collo de garça_. Veio +para Portugal como dama da infanta D. Constança que foi mulher do +principe D. Pedro, filho de D. Affonso IV, mas o principe parece que +gostou mais da dama que da mulher. Tristes amores foram aquelles, +rapazes! Ella tinha pelo seu Pedro um fatacaz lá de dentro, que estou em +dizer que mais gostaria ella de que elle fosse um pastor de cabras do +que filho de um rei. A princeza D. Constança morreu, e para isso não +deixaria de concorrer a paixão do marido, que, por mais que elle a +quizesse esconder, rebentava por todos os lados. Coitada da princeza! +tudo fez para arredar o marido d'aquelles mal-aventurados amores. Mas +então! vão lá fugir ao seu destino! Pediu a Ignez de Castro que fosse +madrinha de um filho que ella teve, porque n'esse tempo haver amores +entre compadre e comadre quasi que era maior peccado que havel-os entre +irmãos. Nada! aquillo era como um fogo valente que tanto mais se accende +quanto mais agua lhe deitam. Em fim, morreu a princeza, e D. Pedro e D. +Ignez ficaram á vontade, porque até ahi tinham guardado respeito á pobre +senhora. Casariam? D. Pedro assim o jurou depois, mas eu estou em +dizer que não, porque para casarem era necessaria dispensa graúda, que o +papa não daria assim sem mais nem menos e com tanto segredo como o +principe quereria. Mas, ou casassem ou não, é certo que tiveram tres +filhos, e que o principe D. Pedro não queria saber de mais nada senão da +sua loura Ignez. + +D. Affonso IV não viu isso com bons olhos. Sabem como elle era. Vivia só +para a sua mulher, queria tudo em boa ordem, e não gostava d'essas +fraquezas. Os fidalgos tambem não gostavam, mas esses por outras rasões. +Tinha D. Ignez muita parentella, e diziam comsigo que, apenas D. Affonso +IV fechasse os olhos, eram os Castros que davam as cartas em Portugal. +Começaram a ferver as intrigas, e chegaram a aconselhar o rei que, visto +que não havia forças humanas que arrancassem D. Pedro á sua Ignez, o +melhor era darem cabo d'ella. D. Affonso IV torceu o nariz, mas lá por +dentro estava em braza. Ora, imaginem vocês! D. Affonso, no principio da +sua vida, tivera os maiores desgostos por causa dos bastardos de seu +pae. Tambem o tinham feito de fel e vinagre os amores de seu genro com +D. Leonor de Gusman. Morria pelo neto, um rapazinho bonito como a +aurora, que tinha de ser depois D. Fernando o Formoso. Lembrou-se das +amarguras que viriam a causar ao rapazito os filhos da amante +querida, que talvez até lhe roubassem a corôa. Subiu-lhe a mostarda ao +nariz com a teima do filho, e deu ordem aos seus tres conselheiros, +Alvaro Gonçalves, Diogo Lopes Pacheco e Pedro Coelho para que o +livrassem de D. Ignez. Ahi vão todos até Coimbra, onde estava muito +socegada a triste da rapariga. Ella, apenas suspeitou do caso, veiu com +os filhos lançar-se aos pés do rei. O pobre D. Affonso enterneceu-se, +mas os conselheiros é que viram o caso mal parado. «Se elle perdôa, +disseram comsigo, nós é que pagamos as favas.» Não esperaram que D. +Affonso resolvesse as cousas de outro modo. Foram-se á pequena, e, +emquanto o diabo esfrega um olho, ferraram com ella no outro mundo! + +--Ai que malvados! bradaram todos. + +--Isso eram, tornou o João da Agualva. Sim! que eu não desculpo D. +Pedro, nem a desculpo a ella. Se uma mulher, só porque gosta de um +homem, não está lá com mais ceremonias e passa a viver com elle, sem a +benção do padre, aonde irá isto parar? mas tambem matal-a sem mais nem +menos, matal-a no meio dos seus filhos, matar uma pobre menina, que não +fazia senão chorar, ah! só uns malvados eram capazes de fazer similhante +cousa. Por isso tambem, vêem vocês? D. Affonso foi um bom rei, um homem +de bons costumes, um valente, tudo quanto quizerem, mas a final de +contas perguntem ahi a um pequeno:--Quem era D, Affonso IV? Cuidam +que elle que lhes responde: Era um bom rei, isto, aquillo e +aquell'outro. Não, senhores, diz logo: Foi o rei que matou Ignez de +Castro. E como assassino é que a gente o conhece, e no seu manto real +não se vê o sangue das batalhas, vê-se mas é o sangue de Ignez! E esta? +Se a não matassem, o que dizia a historia? Foi a amante de um rei. Olhem +que gloria! E assim? Todos choram por ella, como a tia Margarida, que +está ali a limpar os olhos com a ponta do seu avental. + +--E o que fez D. Pedro? perguntou o Manuel da Idanha. + +--O que fez D. Pedro? Ah! com os diabos! Imaginem! Elle ainda tinha +peior genio que o pae. Apenas soube do que succedera, aquillo parecia um +leão ferido. Saltou logo para o campo em som de guerra, e D. Affonso +pagou o que fizera ao pae, porque teve tambem o filho revoltado contra +si. Correu muito sangue por esse reino, até que emfim se fez a paz, mas +D. Affonso IV pouco tempo sobreviveu, morrendo em 1359, dois annos +depois da morte de Ignez. + +--Subio ao throno D. Pedro, não é verdade? perguntou com muito interesse +o Manuel da Idanha. + +--É verdade que sim, e, meus amigos, então é que se viu o amor lá de +dentro que elle tinha á sua Ignez. Apenas subio ao throno, os assassinos +da Castro safaram-se para Hespanha, mas D. Pedro lá fez o seu +negocio com o rei de Castella, de fórma que apanhou os criminosos, menos +um, Diogo Lopes, que conseguiu fugir. Assim que os teve em seu poder, +fez-lhes torturas. A um mandou arrancar o coração pelo peito e a outro +pelas costas. + +--Credo! exclamou a tia Margarida. + +--Por isso lhe chamavam D. Pedro o Cruel, assim como tambem lhe deram o +nome de D. Pedro o Justiceiro. Justiça fez elle, porque bradava aos céus +a morte de D. Jgnez, mas uma crueldade assim é de se porem a uma pessoa +os cabellos em pé! Que mais querem? D. Pedro parece que não pensava +n'outra cousa senão na sua Ignez, elle trasladou-a, com um estadão nunca +visto, de Coimbra para Alcobaça, onde lhe mandara fazer um tumulo que +era mesmo uma lindeza. Elle declarou que tinha casado com ella, e até se +diz que a sentou, depois de morta, no throno, e mandou que todos lhe +beijassem a mão. Mas isso parece-me patranha, ainda que D. Pedro era +capaz d'essas extravagancias e de muitas mais. Porque effectivamente, +meus amigos, parece que elle tinha endoidecido com a morte de D. Ignez. +Tinha assim de repente umas furias que era livrar quem estivesse diante. +Era justiceiro, é verdade, mas fazia justiça á doida e á bruta. Outras +vezes entrava por essa Lisboa dentro a dançar, muito contente da sua +vida. Governava bem, não ha duvida, punia pelo povo, abaixava a prôa +aos bispos, conservava o reino em paz, e juntava bom dinheiro nos cofres +para uma occasião de apuros, mas era ao mesmo tempo umas mãos rotas com +os fidalgos, que tornaram a fazer-se finos, como se viu depois. + +Foi em 1367 que D. Pedro morreu, e logo subiu ao throno D. Fernando, a +quem chamavam o Formoso, de bonito que era. Lá que elle tinha telha, +isso é que não padece duvida, porque nunca se viu uma ventoinha assim. +Aquillo era mesmo um gallo de torre de igreja. Primeiro deu-lhe na tonta +o querer ser rei de Castella, de mais a mais não tendo geito nenhum para +a guerra, e não gostando de batalhas. D'ahi, o que resultou? Gastou o +que tinha, levou pasada de crear bicho, e teve de fazer as pazes. Mas +vejam vocês que cabecinha! Quando fez guerra a Castella, alliou-se com o +Aragão, mandou-lhe para lá bom dinheiro, e prometteu casar com a filha +do rei, que se chamava D. Leonor. Faz as pazes com o de Castella, e, sem +se lembrar já do primeiro casamento, promette casar com a filha do rei +castelhano, que tambem se chamava Leonor. O de Aragão não fez caso, +metteu o dinheiro portuguez, que lá tinha, nas algibeiras, e nunca mais +deu contas. Mas o peor não é isso, o peor é que D. Fernando tambem não +casou com D. Leonor de Castella, porque n'este meio tempo namorou-se de +uma dama do paço, chamada D. Leonor Telles, e desposou-a! Ao menos +n'uma cousa era elle constante, é que não saía das Leonores. + +Esta Leonor Telles foi o que se chama uma mulher de truz, bonita como as +que o são, manhosa como a serpente, e dando, como a nossa mãe Eva, o +cavaquinho pelo fructo prohibido. Quando casou com D. Fernando já era +casada com um D. João Lourenço da Cunha, mas lembrou-se á ultima hora de +que ainda eram parentes, e o rei arranjou do papa que desfizesse o +casamento. João Lourenço da Cunha deu graças ao céu por se ver livre da +mulher que estava para lh'a pregar mesmo na menina do olho, e D. +Fernando levou D. Leonor Telles para casa. Mas o povo é que não esteve +pelos autos e gritou e berrou e fez tumulto, tanto que el-rei safou-se +de Lisboa. Houve mosquitos por cordas por esse reino todo, e a final +acabou tudo em paz. D. Leonor ficou sendo rainha, os de Lisboa apanharam +para o seu tabaco e D. Fernando não tardou a levar a paga. + +O rei de Castella achou que D. Fernando o tratara com tal ou qual +sem-ceremonia, e quiz-lhe dar uma lição de bem viver. Veio a Portugal, +chegou a Lisboa, entrou por ahi dentro, fez um estrago de seiscentos +demonios, e dava cabo da capital se D. Fernando lhe não vem pedir pazes, +que, já se vê, custaram caras. Aqui ficámos finalmente em socego, e +então D. Fernando parecia outro homem. Sabia governar aquelle rapazote, +quando as mulheres lhe não faziam andar a cabeça á roda, ou quando se +não lembrava de ter outros reinos. Era economico e arranjado. Sabia pôr +as cousas no seu logar. Foi elle que cercou Lisboa de fortificações, que +depois não serviram de pouco ao seu successor. + +Mas, coitado, acertára mal, em todos os sentidos, com a tal D. Leonor +Telles, que era mesmo o demonio em pessoa; quando se enfastiou d'elle, +tomou amores com um gallego que vivia em Portugal, chamado conde +Andeiro. El-rei, entretanto, metteu-se outra vez em guerras com +Castella, e pediu auxilio aos inglezes. Oh! rapazes, que tristes tempos +foram aquelles! A vida do paço era um desaforo. Estava ali aquella +mulher, aquella... não sei que diga, a pôr na cabeça a corôa da rainha +Santa Isabel, a corôa que não podéra pôr nos seus cabellos louros a +pobre Ignez de Castro, que, apesar de todos os pezares, era mil vezes +mais capaz do que essa rainha de contrabando, que andou de um para +outro, sem vergonha de qualidade nenhuma! E ainda por cima era malvada! +vingativa! e para ella a vida de um homem valia tanto... como... a honra +do marido, que é o mais que se póde dizer! + +O povo desgraçado, porque tudo se juntava. As guerras com Castella +sempre infelizes! os inglezes, como sempre, apesar de amigos, muito +peores do que se fossem inimigos. Os fidalgos de Castella, que tinham +tomado o partido de D. Fernando, tratados aqui á grande! e ainda por +cima D. Fernando sem ter filhos, e com a filha unica já casada com D. +João I de Castella. D. Fernando, apesar da sua cegueira, já ía +percebendo as cousas, e tinha lá por dentro um desgosto que o ralava. +Tambem em 1383, tendo apenas trinta e oito annos de idade, esticou a +canella, depois de um reinado que podia ter sido muito proveitoso, e que +assim foi uma desgraça para todos. E eu tambem me vou chegando para a +cama, não sem lhes dizer que houvera mudança completa no modo de viver +da nossa gente n'estes ultimos reinados. Os fidalgos tinham levado para +baixo, e estavam já em grande parte, por assim dizer, ás sopas dos reis. +Os concelhos do povo tinham-se feito fortes, e batiam o pé á fidalguia, +e ao clero, principalmente, nas côrtes, em que entravam. O resultado de +tudo isso é o que vocês hão de ver de hoje a oito dias. + + + + +QUINTO SERÃO + +Interregno.--Regencia de Leonor Telles.--Morte do conde Andeiro.--O +cerco de Lisboa.--Nuno Alvares Pereira e João das Regras.--As côrtes de +Coimbra.--D. João I.--A batalha de Aljubarrota.--Os filhos de D. João +I.--Tomada de Ceuta.--Os descobrimentos.--D. Duarte.--Expedição de +Tanger.--Menoridade de D. Affonso V.--O infante D. Pedro.--Batalha de +Alfarrobeira.--Tomada das praças africanas.--Guerras com +Hespanha.--Batalha de Toro.--Ida de D. Affonso V a França.--Continuação +dos descobrimentos. + + +--Meus amigos, disse o João da Agualva no outro domingo, o que eu agora +vou contar ha de parecer assim a vocês grande patranha, e a todos +pareceria se não houvesse tantas provas da verdade. É caso de uma pessoa +ficar pasmada ver o que fez este paiz só, ao canto do mundo, pequeno +como é. Oiçam, pois, rapazes, com attenção. Apenas morreu el-rei D. +Fernando, tratou logo D. Leonor Telles de fazer proclamar rainha de +Portugal a sua filha D. Beatriz, que era uma pequenota casada com o rei +de Castella D. João I, e ao mesmo tempo fez-se regente. O povo, que não +queria ser castelhano, ou hespanhol como hoje diriamos, nem que o +matassem, começou a levantar-se por toda a parte. Mas o que faltava +era um chefe. Os filhos de D. Ignez de Castro andavam fugidos por fóra +de Portugal, um por isto, outro por aquillo, mas quem estava em Lisboa +era um rapaz muito sympathico, filho bastardo de el-rei D. Pedro, que +este fizera mestre de Aviz, e a quem D. Leonor Telles sempre tivera +muito odio. A elle se dirigiram. O mestre vio que não havia remedio +senão fazer o que o povo queria. Toma logo a sua resolução, vae ao paço +e mata elle mesmo o conde Andeiro, põe-se á frente do povo de Lisboa, +põe no meio da rua D. Leonor Telles, e proclama-se _defensor do reino_. +O povo toma todo, sem excepção, o seu partido, e por todas as +provincias; mas uma grande parte dos fidalgos foram para o rei de +Castella. Entre os que ficaram figurava um rapaz sympathico tambem, +valente como as armas, leal como a sua espada, amigo intimo e dedicado +do mestre de Aviz, Nuno Alvares Pereira. + +Sabedor do que se passava, desce a Portugal o rei de Castella com um +exercito poderoso; mas pára deante de Lisboa já fortificada. Os +lisboetas, commandados pelo mestre de Aviz, defenderam-se como homens, e +o rei de Castella teve de se pôr na pireza; entretanto Nuno Alvares +Pereira, que estava no Alemtejo, ganhava a batalha dos Atoleiros, e +começava a estabelecer um systema de guerra que havia de dar muito de +si. Como os concelhos estavam todos com o mestre de Aviz, a força do +exercito era principalmente infanteria. Pois Nuno Alvares Pereira +aproveitou isso para ensinar os nossos a combaterem a pé. Formava uma +especie de quadrado, ou como é que se chama, com os seus soldados, +quadrado onde a cavallaria fidalga vinha sempre despedaçar-se. + +--Ah! se elles calavam bayoneta, observou o Francisco Artilheiro, não +entrava lá para dentro nem um cavallaria só que fosse. + +--Não calavam bayoneta, respondeu o João da Agualva, porque era cousa +que então não havia, mas fincavam as lanças no chão, e fossem lá entrar +com elles. + +Acabado o cerco de Lisboa, reuniram-se os dois amigos, e foram +conquistar todas as terras de Portugal em que os fidalgos tinham +levantado a bandeira de Castella. Ao mesmo tempo reuniram-se côrtes em +Coimbra, para se escolher um rei. Ahi teve D. João I outro amigo, +advogado de mão cheia, fino como um coral, chamado João das Regras, que +foi quem lhe fez ganhar a eleição. Assim, o mestre de Aviz tinha a +felicidade de ter dois amigos particulares que o serviam +excellentemente, e cada um segundo o seu officio. Para cousas de penna e +parlenda João das Regras, para batalhas e mais bordoada correspondente +Nuno Alvares Pereira. + +--Mas então as côrtes é que escolheram quem havia de ser rei? perguntou +o Manuel da Idanha. + +--Tal e qual. + +--E eram côrtes como as de agora? acrescentou o Bartholomeu. + +--Não, senhor, havia os tres braços, como então se dizia, clero, nobreza +e povo. Os bispos e os conventos mandavam os seus escolhidos, os +fidalgos mandavam os seus e o povo tambem, quer dizer cada concelho +mandava o seu procurador. Antes de D. Affonso III, íam só os padres e os +fidalgos, depois é que o povo tambem começou a figurar n'essas festas; +mas n'estas côrtes, que se reuniram em Coimbra, como muitos fidalgos +estavam mettidos com o rei de Castella, póde-se dizer que foi o povo +quem escolheu, e que o mestre de Aviz, isto é, D. João I, foi +verdadeiramente o eleito do povo. + +--E ahi lhe valeu o João das Regras? acudiu o Manoel da Idanha. + +--Isso mesmo, porque lá para fallar não havia outro como elle. Mas d'ahi +a pouco tornou-se necessario fallar outra lingua, a lingua das espadas, +e n'essa, quem lia de cadeira era Nuno Alvares, que o novo rei fez logo +condestavel. Os castelhanos, que tinham ido de cara á banda, voltaram á +carga, e d'essa vez com um exercito immenso, porque o D. João I de lá +tinha resolvido acabar de todo com o D. João I de cá. Antes de vir o rei +com toda a sua fidalguia, já um corpo hespanhol tinha entrado pela Beira +dentro, mas em Trancoso levou uma tareia de primeira ordem. Não se +emendaram e disseram comsigo: Agora é que vão ser ellas. A fallar a +verdade tinham rasão. D. João I de Portugal teria, quando muito, uns +oito ou nove mil homens, D. João I de Castella não tinha menos de trinta +mil, e alem d'isso trazia comsigo peças de artilheria que era a primeira +vez que se viam em Portugal. Encontraram-se os dois exercitos em +Aljubarrota, que fica entre Alcobaça e Leiria, a 14 de agosto de 1385, +grande dia, rapazes! Eu não sei que diabo tinham os nossos, mas parece +que os animava um esforço sobrenatural. E elles não eram nenhuns +fracalhões, os castelhanos, era tudo gente valente e destemida, mas os +nossos estavam todos resolvidos a morrer ali mesmo. Depois tinham cabos +de guerra que sabiam da poda, emquanto os de lá eram valentes, e mais +nada. De lá, eram tudo fidalgos muito bem montados, com as suas espadas +a luzir ao sol; de cá, gente do povo, soldados de pé, mas que todos +queriam ser portuguezes com o seu rei que elles tinham feito, e que +tambem com elles queria vencer ou morrer. E por isso Nuno Alvares dizia: +Rapaziada, pé terra! e zás! lanças no chão, e venha para cá a fidalguia +castelhana, mais os traidores portuguezes que se uniram ao estrangeiro. +E não é dizer que não houvesse fidalgos tambem de cá. Oh! se os havia, e +dos bons e dos melhores, porque eram todos os que tinham preferido +morrer com um rei portuguez a receber do estrangeiro honras e +castellos, gente briosa e valente, e aventurosa, que combatia pelo seu +rei, e pela sua dama, e pela sua honra e pela sua patria. Tambem, não +lhes digo nada, nunca levaram os hespanhoes tão formidavel refrega. Por +muito tempo lhes ficou lembrada, e o rei, que fugio a toda a brida para +Santarem e de Santarem para a sua terra, não se podia consolar de +similhante desastre. D. João I mandou fazer, no sitio da batalha, uma +igreja e um convento maravilhoso, a igreja e o convento da Batalha, para +agradecer a Deus a sua victoria,--e rasão tinha para isso, porque foi +Deus decerto quem deu aos portuguezes o esforço e a galhardia que então +mostraram, que, eu, meus amigos, não sou dos que acreditam que Deus se +mette n'estes barulhos dos homens, mas quando um povo combate pela sua +terra, que é como quem diz quando um filho combate pela sua mãe, então, +meus amigos, ha uma cousa cá dentro em nós, que vem a ser a consciencia +a bradar-nos que Deus, que é a justiça e a bondade, ha de querer a +victoria do que é justo e do que é bom. + +--E a padeira de Aljubarrota, sr. João da Agualva? perguntou o Francisco +Artilheiro. + +--Deixemo-nos lá de padeiras. Eu não sou muito amigo de mulheres que se +mettem n'estas danças. A padeira era melhor que amassasse pão. Se é +verdade o que se diz, quando os castelhanos já íam de rota batida, a +padeira foi-lhes no encalço e deu cabo de sete com a pá do forno. Olhem +que grande façanha: matar quem vae fugindo! Aquillo era mulher de faca e +calhau, e eu torço sempre o nariz a essa gentinha. Vamos adiante. A +batalha de Aljubarrota decidio a sorte de Portugal. Ainda durou a guerra +muito tempo, ainda o condestavel deu nova tareia nos hespanhoes em +Valverde, mas a verdade é que estava tudo acabado. D. João I governou +então com socego, casou com uma senhora ingleza muito virtuosa e muito +boa, D. Philippa de Lencastre, teve muitos filhos que educou muito bem, +e que foram todos homens de saber e alguns d'elles grandes homens, +chamou muitas vezes as côrtes para ouvir o que ellas tinham que lhe +dizer ácerca dos negocios do Estado, e governou tão bem, que se lhe +chama, com toda a justiça, o rei da _Boa Memoria_. Já em idade +adiantada, trinta annos depois da batalha de Aljubarrota, sentiu D. João +I um appetite de tentar alguma empreza grande. Quem o metteu n'isso +foram os filhos, tudo rapazes decididos que andavam mortos por se metter +n'alguma cousa que lhes désse gloria. O que haviam de fazer? Foram-se +aos mouros. Passaram o estreito, e tomaram Ceuta que fica ali mesmo +defronte de Gibraltar. Vêem vocês? Aquillo era uma raça que não podia +estar quieta. Emquanto jogavam as cristas com os visinhos, ía tudo +bem, mas depois? Os aragonezes viravam-se para Italia, os castelhanos lá +tinham os mouros granadís, nós o que tinhamos? Os mouros de Marrocos e +as ondas do Oceano. Pois foram as ondas e os mouros que pagaram as +favas. D. João I tomou Ceuta, e D. Henrique, seu filho, deliberou tomar +o desconhecido. + +--Ó sr. João, exclamou o Francisco Artilheiro, devo confessar que lá +isso é que eu não percebo muito bem. + +--Pois eu te explico, rapaz. Julgava-se d'antes que do outro lado do mar +não havia cousa nenhuma, ou antes que as ondas lá para longe eram um +verdadeiro inferno ou um paraizo tambem, porque uns diziam que tudo para +alem eram ilhas de santos e jardins do céu, e outros que eram ilhas do +diabo e terras de maldição; que havia umas estatuas encantadas que não +deixavam passar ninguem, e um mar de pez que engolia os navios. Ora +vocês hão de saber que póde uma pessoa ser muito valente, e ter medo de +almas do outro mundo, e de feitiços e do diabo. Ali está o Francisco +Artilheiro, que, quando foi na expedição á Africa, se atirou ao Bonga +como gato a bofes, que é capaz de varrer uma feira, e que, se lhe +disserem que vá de noite ao palacio do marquez, lá ao corredor onde +dizem que falla a voz do Roque... + +--Tarrenego! exclamou o Francisco Artilheiro, um homem é para um +homem, mas lá uma alma do outro mundo!... + +--Ora ahi está! era o que acontecia aos soldados de D. João I. Com +mouros e castelhanos tudo o que quizessem, mas com as aventesmas do +mar... arreda! Pois imaginem vocês se D. Henrique não fez um milagre +conseguindo que os marinheiros do Algarve, porque elle, desde que poz o +fito em querer saber o que o mar escondia, foi-se estabelecer em Sagres, +mesmo na ponta do cabo de S. Vicente, conseguindo que os marinheiros do +Algarve se mettessem ás ondas, sem medo de phantasmas, nem de avejões. E +foram aquelles valentes, que fizeram tão grande no mundo este paiz tão +pequeno, e partiram por esses mares fóra, sem saber o que por lá havia, +e sempre a tremer da perdição da vida e da perdição da alma, e foram, e +encontraram a Madeira e encontraram os Açores, e Gil Eanes dobrou o cabo +Bojador, que era onde diziam que estavam as taes estatuas encantadas, e, +como não encontrou estatuas nenhumas, lá foi tudo atraz d'elle, e, de +repente, Portugal poude desenrolar diante do mundo um outro mundo +ignorado, a costa da Africa toda, com os seus grandes rios, os seus +bosques verdes, o seu povo de pretos, como eu vi, n'um theatro de +Lisboa, desenrolar-se diante da platéa pasmada um panno pintado com +cidades e quintas e ilhas e rios, que era de uma pessoa ficar de boca +aberta. Ah! meus amigos, podem agora não fazer caso de nós, e +podemos nós tambem dizer mal de nós mesmos, mas um povo que assim se +atreve a arcar com o que mette medo aos mais valentes, e abre aos outros +as portas de um mundo maravilhoso, é um grande povo, digam lá o que +disserem. + +--E D. João I é que fez tudo isso? perguntou o Manuel da Idanha. + +--Não foi elle, mas foi o filho, D. Henrique, que era um sabio, e que a +seu pae deveu a educação que recebera; e o grande rei, que salvára +Portugal do estrangeiro, teve a gloria, antes de morrer em 1433, de ver +começada essa obra que havia de tornar para sempre grande no mundo o seu +nome e o nome de Portugal. + +Succedeu-lhe seu filho, D. Duarte, a quem chamaram o _Eloquente_, pelo +bem que fallava e que escrevia, porque tambem fazia livros como o rei D. +Diniz, e livros muito bem feitos. Coitado! não merecia a sorte que teve. +Os irmãos, D. Henrique e D. Fernando, quizeram continuar a obra do pae, +e foram tomar Tanger. Não o conseguiram, perderam muita gente, e para se +salvar o exercito das garras dos mouros, teve de ficar preso na Moirama +o infante D. Fernando. Para o livrar era necessario entregar Ceuta, mas +o infante D. Fernando, que bem mereceu o nome de _Santo_ que lhe +pozeram, não quiz nunca ouvir fallar em similhante cousa, e preferiu +morrer atormentado nas masmorras de Fez a consentir que dessem por elle +aos mouros uma terra, que tanto sangue nos custára. Tudo isto foram +desgostos grandes para o pobre D. Duarte, que morreu, depois de cinco +annos de reinado, em 1438, da peste que então assolou o reino, porque +não houve desgraça que n'esse tempo não acontecesse. + +Succedeu-lhe um filho pequeno que tinha, e que foi D. Affonso V, e, como +D. Duarte era muito amigo da mulher, foi a ella que nomeou regente. Ora, +na verdade, tendo o pequeno uns poucos de tios que seriam todos grandes +reis, como D. Pedro, D. Henrique e mesmo D. João, dar a regencia a uma +mulher, e de mais a mais hespanhola, era tolice graúda, por isso o povo +não gostou, e as côrtes convidaram D. Pedro a tomar conta da regencia. A +rainha, que era levada da bréca, e que nunca podéra ver os cunhados, deu +pulo de corça com esta resolução, a que foi obrigada a ceder, e, com o +partido que tinha, agitou o reino de tal maneira, que D. Pedro não teve +remedio senão tomar providencias, e uma d'ellas foi tirar o filho á +rainha, porque o pequeno estava sendo nas mãos d'ella um instrumento de +revolta. A final, a rainha foi para Hespanha, mas eu estou convencido, +rapazes, que o odio que D. Affonso V sempre teve ao tio veio d'ahi. Ora +imaginem vocês! D. Affonso era uma creança n'esse tempo, agarrado á mãe +como são todas as creanças; não percebia cousa nenhuma de politica +nem de meia politica, viu-se arrancado dos braços da sua mamãsinha, que +se agarrava a elle a chorar, e arrancado por quem? Por seu tio. Depois, +quando fosse maior, podia reconhecer que o tio era o que se podia chamar +um grande homem, que lhe tinha governado o reino como ninguem seria +capaz de o governar, que era tão pouco amigo de vaidades, que nem +quizera que lhe fizessem uma estatua, mas o rancor da creança nunca se +foi embora. Pois o tio, apenas elle chegou á maioridade, logo lhe +entregou o governo, sem a mais pequena demora, e foi viver para Coimbra +com o maior socego. Apesar de tudo isso, e apesar de ser muito amigo da +mulher que era filha de D. Pedro, o rei tal odio tinha ao tio e ao sogro +que deu ouvidos a todas as intrigas dos inimigos d'elle, e +principalmente ás do primeiro duque de Bragança, seu tio tambem, filho +bastardo de D. João I; chegou o duque a levantar tropas para ir contra o +pobre D. Pedro, que, espicaçado e ralado por todas as fórmas, teve de +tratar da sua defeza. Emquanto o duque de Bragança levantava tropas por +sua conta e risco, achava o rei isso muito bem feito; apenas o infante +D. Pedro juntou alguns soldados para não atravessar esse reino ao +desamparo, logo D. Affonso V entendeu que era caso de rebeldia e +traição, e marchou contra elle. Na Alfarrobeira, ali ao pé de Alverca, +se encontraram as tropas de um e as tropas do outro. Não houve +batalha, mas travaram-se de rasões os soldados, e, quando mal se +precatavam, achou-se tudo embrulhado na bulha, e lá morreu o pobre do +infante D. Pedro, tão sabio, tão bom, tão justiceiro. + +Quem ouvir isto, ha de dizer que D. Affonso V era um malvado, pois não +era; cabeça de vento sim, nunca houve outra igual! Sympathico e bondoso, +um mãos-rotas, principalmente para os fidalgos que apanhavam d'elle +quanto queriam, enthusiasmava-se todo por cousas que já não importavam a +ninguem, e quiz até fazer uma cruzada contra os turcos. Os outros +principes christãos não estiveram pelos autos, e vae elle então +voltou-se contra os mouros da Africa, e é certo que juntou a Ceuta as +praças de Tanger, Arzilla e Alcacer Ceguer. Por isso lhe chamaram o +_Africano_. Emfim, bom seria que nunca tivesse pensado n'outra cousa, +mas deu-lhe na veneta querer tambem ser rei de Hespanha, e, quando lá +houve grande bulha para se saber quem havia de succeder ao rei que +morrera, se havia de ser D. Isabel que era irmã, se D. Joanna que era +filha, o nosso D. Affonso, apezar de já não ser novo, casou com esta, +que vinha a ser tambem sua sobrinha, ao passo que D. Fernando de Aragão +casava com a outra. D'ahi veio uma guerra levada dos demonios; mas, a +final, D. Affonso deu a batalha de Toro, que ficou indecisa, mas foi o +mesmo que se a perdesse, porque não poude continuar a guerra. De que +se ha de lembrar então o nosso D. Affonso V? De ir em pessoa pedir +soccorro ao rei Luiz XI de França, que era o mais manhoso de todos os +principes, e que não fazia nada sem interesse. Luiz XI andou a cassoar +com elle, até que D. Affonso V mandou dizer ao filho, que ficára a +governar o reino, que subisse ao throno, porque elle abdicava, e ía para +a Terra Santa; mas depois muda de tenções, e, quando já ninguem o +esperava, apparece em Portugal. O filho é que não quiz saber de mais +nada; entregou-lhe logo a corôa, que D. Affonso acceitou, morrendo +quatro annos depois, em 1431. + +--Ó sr. João, interrompeu o Bartholomeu, e essa historia de descobrir +terras novas tinha parado? + +--Qual tinha parado, homem! Emquanto D. Henrique viveu, e só expirou em +1460, quando já D. Affonso V era homem, não pensou n'outra cousa; todos +os annos se ía descobrindo mais alguma porção da Africa, e já não havia +quem acreditasse em carapetões de estatuas. Os portuguezes, o que faziam +era sempre seguir para baixo, até ver se topavam com a India, ou então +se davam com um rei que diziam que era christão, e a quem chamavam o +Prestes João das Indias. + +--E quem era esse rei? perguntou o Manuel. + +--Eu depois lhes digo, rapazes, agora não me fallem á mão. O que é certo +é que estava já descoberta uma boa porção da Africa, e já por lá se +fazia muito bom negocio, tanto que D. Affonso V, que andava embrulhado +com outras cousas, e que não podia cuidar dos descobrimentos como o tio, +arrendou o commercio da costa da Mina a um tal Fernão Gomes, com a +condição d'elle continuar a descobrir terras. Felizmente, quem ía subir +ao throno era um rei de outra laia, que tinha lume no olho, e que havia +de levar as cousas pelo rumo que devia de ser, para gloria do nosso paiz. + +Foi D. João II esse rei, e com rasão lhe chamaram o principe perfeito, +porque não houve nenhum que entendesse tão bem do seu officio; mas, +antes de fallar n'elle, meus amigos, deixem-me vocês explicar-lhes o que +é que se tinha passado no tempo d'esses tres primeiros reis da dynastia +que se chamou de Aviz. + +Viram vocês como os reis se encostaram ao povo para dar cabo da nobreza +e do clero, e como lhe deram força para que os fidalgos e padres se não +fizessem finos. Por isso tambem se póde dizer que foi o povo quem fez +rei D. João I, e este nunca se esqueceu d'isso. Comtudo, padres e +fidalgos, continuavam a ser muito poderosos, e, se D. Duarte, com a lei +chamada mental, e o infante D. Pedro lhes tinham dado para baixo, D. +Affonso V quasi que desfizera tudo, porque com elle não havia parente +pobre, dava aos fidalgos o que elles queriam, e com rasão dizia o +filho que seu pae o deixára rei das estradas de Portugal, o que, valha a +verdade, não devia ser um grande reino. Ora agora acontecia tambem o +seguinte: é que o povo, nas côrtes, estava sendo mais um servo do rei do +que outra cousa. Já não podia dizer aos reis: «Toma lá, dá cá.» Já não +era cada concelho que mandava um procurador, juntavam-se uns poucos de +procuradores para mandar um deputado a que chamavam definidor, e o rei +sempre os podia ter mais na sua mão do que á turbamulta dos antigos +procuradores. Alem d'isso, os doutores, o que aprendiam nas escolas eram +as leis de Roma, o direito romano, e ahi o que se dizia era que o rei +podia fazer o que quizesse. O que resultava? Resultava que o clero e a +nobreza haviam de levar para baixo, mas que o povo depois... esperasse +pela pancada. É o que vocês saberão para o domingo que vem, porque a tia +Margarida está a caír com somno, e eu não quero que digam de mim, como +de alguns prégadores, que sou bom para quem anda com falta de dormir. + + + + +SEXTO SERÃO + +D. João II.--As côrtes de Évora.--Morte do duque de Bragança.--Morte do +duque de Vizeu.--Continuação dos descobrimentos.--O cabo da Boa +Esperança.--Christovão Colombo.--Entrada dos judeus.--Morte do principe +D. Affonso.--D. Manuel.--Descobrimento da India e do Brazil.--Os +conquistadores da India.--Fernão de Magalhães.--D. João III.--A +inquisição e os jesuitas.--Decadencia do nosso dominio na India.--D. +Sebastião.--A batalha de Alcacer-Kibir.--D. Henrique, o cardeal-rei.--A +successão do throno.--D. Antonio, prior do Crato.--Batalha de +Alcantara.--Perda da independencia:--Causas da decadencia de Portugal. + + +--Estou morto por saber, porque é que chamaram a D. João II o principe +perfeito, principiou o Manuel da Idanha no domingo immediato, quando +estiveram todos sentados á roda da lareira, porque, emfim, vocemecê já +nos fallou n'uns poucos de reis de quem se não póde dizer mal: D. Diniz, +por exemplo, D. João I, etc. + +--Eu te digo, rapaz, é porque não houve nenhum que percebesse tão bem o +seu tempo, nem soubesse tão bem como é que se governa. Era homem de +cabellinho na venta, mas só dava cabo de quem lhe fazia transtornar os +seus planos, era valente como os que o são, mas, depois de ser rei, +nunca mais foi á guerra. Calculava tudo, combinava tudo, e, como +quem joga bem a bisca, sabia de cór os trunfos, e o que queria era +marcar bons pontos, désse lá por onde désse. Subiu ao throno, na firme +resolução de acabar com os privilegios da nobreza e do clero. Para isso, +como de costume, serviu-se do povo. Chamou côrtes a Evora, ahi +entendeu-se com os procuradores do povo para elles se queixarem dos +fidalgos. Então o rei põe-se no seu logar, e toca a deitar abaixo +privilegios. Se vocês querem ver o que é berraria! O primeiro que se +levantou foi o duque de Bragança, e esse então metteu-se com os +castelhanos. D. João II não esteve com ceremonias, mandou-lhe cortar a +cabeça. O duque de Vizeu, seu proprio primo e cunhado, fez-se tambem +chefe de conspiração. O mesmo rei deu cabo d'elle com uma boa punhalada, +e depois foi tudo raso com o diabo do homem. Prendia uns, desterrava +outros, mandava matar este, confiscava os bens áquelle... um inferno. + +--Então por isso é que era principe perfeito? perguntou a tia Margarida +indignada. + +--Ó mulhersinha, espere lá. Diz o proverbio: cada terra com seu uso, +cada roca com seu fuso. Pois eu digo tambem: cada tempo com os seus +costumes. O tempo d'elle não era como o nosso. Hoje matar um homem é, +com rasão, uma cousa por ahi alem. N'aquelle tempo parecia a todos +perfeitamente natural que se castigassem com a morte, mesmo á +punhalada, todas as conspirações. Ora D. João II só escapou por milagre +a muitas que houve contra elle. + +Mas D. João II não era homem que se assustasse. Estreiara-se em Arzilla, +ao lado de seu pae, e logo mostrára um grande esforço; na refrega de +Toro, em Hespanha, foi elle quem ganhou a batalha pelo seu lado, +emquanto o pae a perdia pelo outro. Nas conspirações, que se faziam +contra elle, mostrou sempre uma coragem por ahi alem, mas tambem não +perdoava nenhuma. E tanto fez, tanto fez, que a final todas as cabeças +se abaixaram, e quem ficou governando a valer e devéras foi elle. + +Eu não lhes digo, rapazes, que approvo todas aquellas crueldades, e que +acho bonito que D. João II matasse sem dó nem piedade até os parentes. +Conheço que era preciso ter cabellos no coração para fazer o que elle +fez, mas que querem vocês? É sina que nunca se fizeram as grandes +mudanças politicas sem correr muito sangue. Dizia aquelle engenheiro +francez, que aqui esteve em Bellas na obra da agua, quando ás vezes se +punha a conversar commigo: «João, não se faz omeleta sem se quebrar +ovos.» E dizia bem. Aquillo entre D. João II e a nobreza era guerra de +morte. Atiravam á cabeça; eu bem sei que era mais bonito perdoar. Mas, +meus amigos, perdoar aos seus inimigos só o fez Nosso Senhor Jesus +Christo, e isso bastava para que todos conhecessem que elle era Deus +e não homem. + +Em todo o caso, rapazes, sempre lhes quero confessar que, para gostar +deveras de D. João II, preciso de desviar os olhos d'aquella sangueira +toda, e ver o que elle fez por outro lado. Ah! que rei aquelle, rapazes! +Nos descobrimentos foi um segundo infante D. Henrique, porque não foi só +dizer aos pilotos: «Vão vocês andando por ahi abaixo, e quando toparem a +India mandem cá um recado.» Não, senhores! Agarrou em dois judeus que +eram homens de sabença, e mandou-os por terra ao Egypto, para que fossem +do Egypto ver se topavam a India e se sabiam como é que se podia lá ir +ter por mar. Foram estes Pedro da Covilhã e Affonso de Paiva. Ao mesmo +tempo não deixára de mandar navios pela Africa abaixo. Um sujeito, +chamado Bartholomeu Dias, tanto andou, tanto andou sempre com a terra á +esquerda, até que um bello dia, por mais que tocasse á esquerda, não via +senão agua: «Mau, disse elle comsigo, o diabo da costa virou de rumo.» +Vira elle tambem e dá com a terra que ía para cima em vez de ir para +baixo como até ahi. «Eu cheguei ao fim da Africa, disse comsigo o +Bartholomeu Dias, eu passei algum cabo sem dar por isso.» E, já todo +contente, queria ir seguindo para diante a ver onde iria dar comsigo. +Mas a marinhagem estava cançada e quiz por força voltar para traz. +Não houve remedio, e á volta effectivamente deram com o tal cabo que +vinha a ser a ponta da Africa, e apanharam tantos temporaes que +Bartholomeu Dias chamou a esse cabo, cabo Tormentorio; mas, quando +chegou a Lisboa e contou a D. João II o que succedera, este, que logo +percebeu que estava dado o grande passo na descoberta da India, não quiz +para tamanha descoberta um nome de mau agouro, e mudou ao cabo +Tormentorio o nome em cabo da Boa Esperança, como quem diz: Agora sim, +agora é que me parece que vamos por estrada direita. + +Ora hão de vocês saber, rapazes, que por esta occasião vivia em Portugal +um sujeito genovez chamado Christovão Colombo, que era homem entendido +em cousas de mar, e que se occupava tambem muito de descobrimentos de +terras e tal etc. Foi até por isso que elle veio para Portugal, porque +isto aqui era a forja, onde, para assim dizer, se fabricavam terras +novas, e todos os que se enthusiasmavam com essas cousas vinham para cá +assoprar aos folles. Christovão Colombo estivera na Madeira, ouvira +fallar em signaes de terra para os lados do pôr do sol, e começára a +embirrar que, indo atraz do sol, havia de esbarrar com a India. Fallou +n'isso a D. João II, este consultou os sabios, e os sabios desataram a +rir. Colombo então foi-se embora e começou a offerecer os seus serviços +a quem lhe désse uma casca de noz; acceitou-os a Hespanha, depois de +massar muito o pobre do homem. Christovão Colombo partiu seguindo sempre +para o occidente, e a final deu com uma terra povoada de selvagens, que +vinha a ser nem mais nem menos do que a America, emfim um mundo inteiro +muito maior que a Europa toda. Ora, tudo isso podia ter vindo para nós, +e não nos fazia mal nenhum, se D. João II não cáe na asneira de não +acreditar no Colombo, que todos sabiam que era um homem esperto, e de +lhe não querer dar dois ou tres navios para tentar a sua descoberta, +elle que tinha navios a rodo por esses portos todos! + +--Sim! lá isso! acudiu o Manuel da Idanha coçando na cabeça. Vocemecê +diz que o homem era tão espertalhão, mas essa parece-me de cabo de +esquadra! + +--Achas, meu palerma? Diz um proverbio: Quem adivinha vae para a +casinha. E eu já te mostro que outro qualquer, no caso de D. João II, +fazia o mesmo. Tu imaginas que Christovão Colombo chegou ao pé de D. +João II e lhe disse: Saiba Vossa Alteza (que então ainda se não dava +magestade aos reis) saiba Vossa Alteza que ali defronte dos Açores está +um paiz muito rico, onde ha muito ouro, e muita prata e muitos +diamantes, e, se Vossa Alteza quizer, eu chego ali n'um instante e cá +lh'o trago? Estás tu muito enganado. O proprio Colombo nem sabia que +havia ali similhante paiz. Toda a sua mania era que, sendo a terra +redonda, e n'isso tinha elle rasão, indo uma pessoa para o occidente, +havia de dar volta e chegar ao oriente. Mas o que elle não sabia é que a +terra era tão grande como lhe saíu; e, se não lhe apparece a America, o +homem via-se grego, e ainda tinha de comer muito pão antes de arribar, +onde elle queria ir, tanto que provavelmente não levava no porão farinha +que lhe chegasse. Ora agora, pensem vocês tambem, rapazes, no seguinte: +Havia um bom par de annos que Portugal andava a teimar em seguir pela +Africa abaixo á procura da India. Teimou, teimou, até que a final chegou +ao fim da Africa, e percebeu que a terra seguia para cima, e ía com toda +a certeza parar á India. E é exactamente quando se consegue o que se +procurava havia tanto tempo, quando se descobre o cabo da Boa Esperança, +quando se tem a certeza de que se encontrou o caminho da India, que vem +um sujeito ter com o rei de Portugal, que está todo alegre com a +descoberta, e dizer-lhe: Faça favor de apagar tudo isso, e de começar +outra vez a procurar a India por outro lado. O rei, é claro, mandou-o +pentear macacos. Ora agora confesso tambem que se não põe assim no meio +da rua um homem como Christovão Colombo. Procurar a India pelo occidente +não impedia que se continuasse a procurar pelo caminho que até ahi se +seguira, e nós já tinhamos topado tanta terra que não esperavamos, +que não era cousa do outro mundo que fossem mais duas caravellas a Deus +e á ventura ver o que o mar dava de si. + +Emfim não se fez isso; os hespanhoes ficaram com a America, e +principiaram ao desafio comnosco n'isso de descobrimentos, tanto que foi +necessario que o papa dividisse entre elles os novos mundos ao meio, +dizendo: Para aqui descobrem os hespanhoes, e para aqui descobrem os +portuguezes, o que fazia com que um rei de França dissesse depois: Ora +sempre eu queria ver o artigo do testamento do pai Adão que deixou a +terra aos hespanhoes e aos portuguezes! + +Todos se riram, e o João da Agualva continuou: + +--Muito mais provas de juizo deu el-rei D. João II, e felizes seriamos +nós se os reis que se seguiram fossem como elle. Na Africa, tratou de +chamar a si os pretos, de os mandar baptisar, mas ás boas, e de fazer +por ali fortalezas para se assenhorear do commercio. Na Europa então +houve uma cousa que mostra que elle sabia ser rei. Os soberanos de +Hespanha, todos devotos, mandaram pôr fóra do seu paiz os judeus, que +eram, como foram sempre, uma raça trabalhadeira e esperta, que se +enriquecia e ía enriquecendo a terra onde vivia. Mas a rainha de +Hespanha, lá por beaterios tolos, não os quiz consentir no seu reino, e +intimou-lhes mandado de despejo. Sempre quero que vocês me digam +porque? Porque tinham crucificado Jesus Christo? Mas isso foram uns +malandrins de Jerusalem, e nem os filhos tinham culpa do que os paes +fizeram, e até os paes de muitos d'elles talvez nem em Jerusalem +estivessem n'esse tempo. Porque não acreditavam na religião christã? O +peor era para elles. Pois se não se póde salvar quem não for christão, +no outro mundo torceriam a orelha, e não era necessario já n'este mundo +ir-lhes torcendo pescoço. Porque não comiam toucinho? Tanto melhor para +os bons christãos, que sempre ficava mais barata a carne de porco. Mas +fossem lá dizer estas cousas n'aquelle tempo aos reis catholicos! Corria +uma pessoa risco de ir parar a uma fogueira. D. João II riu-se da +devoção dos visinhos, recebeu os judeus na sua terra, e tirou proveito +do caso, obrigando-os, em troca do asylo que lhes dava, a pagar-lhe um +bom tributo. Elles estavam com a corda na garganta, pagaram com lingua +de palmo, ainda que isso lhes havia de custar, porque sempre foram +sovinas. Mas, como diz o outro, para judeu, judeu e meio. + +--Olhe lá, ó sr. João de Agualva, e então quem diz que a inquisição cá +em Portugal queimava os judeus? perguntou o Manuel da Idanha. + +--Lá chegaremos, sr. Manuel da Idanha, lá chegaremos. Não ha só muitas +Marias na terra, ha tambem muitos Joões, e nós então tivemos seis, +cada um do seu feitio. + +Tudo se paga, meus amigos, e um homem póde ser principe perfeito; quando +ultraja a lei de Deus, derramando o sangue de seus irmãos, ha de o pagar +com lagrimas que tambem são sangue ás vezes. Tinha D. João II um filho +chamado Affonso, a quem queria como ás meninas dos seus olhos. Casára +com a filha dos reis de Hespanha, e as festas com que se celebrou o +casamento tinham sido das mais pomposas. Morreu, e morreu de um +desastre. Quem pôde imaginar a dôr d'aquelle pae! Chorou esse homem de +ferro, que tantas lagrimas tambem fizera derramar, chorou lagrimas de +sangue, do sangue do seu coração, e, lá nas horas mortas da noite, +quando estivesse sósinho a pensar no filho, havia de ver muitas vezes os +espectros d'aquelles que matára sem ter piedade da orphandade de seus +filhos, como Deus não tivera tambem compaixão da orphandade da sua alma. +Morreu quatro annos depois, em 1495, sem poder deixar a corôa a um filho +seu, porque debalde quizera legitimar um bastardo que tinha, e assim, +altos juizos de Deus! quem lhe havia de succeder, e não é só isso, quem +havia de colher para si a gloria de realisar a conquista da India, que +D. João II tão cuidadosamente preparava? Um irmão d'aquelle duque de +Vizeu, que elle assassinára, D. Manuel, o _Afortunado_. + +Afortunado ou Venturoso lhe chamou a historia, e com rasão, porque não +teve senão bamburrice, o que não quer dizer que fosse um palerma, e que +não tivesse mesmo bastante tino, mas fazia tanta differença de D. João +II como uma larangeira de um carvalho. Encontrou a papinha feita. +Estavam preparados os navios para a descoberta da India, poz á frente +d'elles Vasco da Gama, e em 1497 chegava Vasco da Gama á India, que era +o paiz mais rico d'esse tempo. Mandou atraz d'elle Pedro Alvares Cabral, +este chega-se mais para o occidente do que devia ser, e esbarra com o +Brazil em 1500; bom! Põe ambos de parte, que lá ingrato como aquelle não +havia nenhum, e manda para a India uma esquadra, onde ía Duarte Pacheco, +homem que parece mesmo um d'aquelles sujeitos da antiguidade, que eram +meios homens, meios deuses, e de quem se contam muitas patranhas, que +foram excedidas pelas verdades d'este nosso patricio. Querem vocês +saber? Na India havia muitos reis, como ainda hoje ha, apesar que estão +agora todos sujeitos aos inglezes. Vasco da Gama tinha chegado a uma +terra chamada Calicut, onde residiam muitos mouros, que eram quem fazia +n'esse tempo o negocio todo da India. Viram a bolsa em perigo, e não +descançaram emquanto não pozeram ao rei de Calicut de mal com os +portuguezes. Palavra puxa palavra, elle matou-nos um homem, apanhou uma +lição mestra, e de vingança em vingança ficámos inimigos para +sempre. Mas havia outro rei, o rei de Cochim, que era e foi sempre nosso +amigo. D'ahi, barulho entre os dois. Como o rei de Calicut era muito +mais poderoso, esperou que não estivessem lá navios nossos, e, sabendo +que tinha ficado apenas Duarte Pacheco e mais uns cincoenta portuguezes, +disse comsigo: «Agora é que tu m'as pagas.» E arranjou um exercito +forte, e marchou contra o pobre rei, nosso amigo. Os soldados de Cochim +tinham medo que se pellavam, e fugiam que era um louvar a Deus; mas +Duarte Pacheco, mais os seus cincoenta homens, com a sua habilidade e a +sua valentia, conseguiu tomar o passo ao de Calicut, e dar-lhe tareias +monumentaes. Ó rapazes, pois uma pessoa não se hade ás vezes ufanar de +ser portuguez? Quando é que se viu uma cousa assim? Meia duzia de gatos +bastaram para dar cabo de exercitos immensos! Eu bem sei que era a +disciplina, que eram as armas, que era tambem a fraqueza d'aquelles +bananas, que o sol da India faz uns mollengas, mas era necessario que +fossem de aço e de ferro, em vez de ser de carne e osso, esses valentes +que assim viam, sem descorar, marchar contra elles um exercito +formidavel! Era necessario que se tivessem disposto a morrer para não +deixarem que fosse pisada aos pés a bandeira de Portugal! E, a final de +contas, por muito molles que os outros fossem, sempre eram mil +contra um, e, com certeza, nenhum dos nossos pensava que saíria com +vida de similhante combate. Depois acções d'essas eram mais faceis, não +só porque os nossos já tinham tomado confiança em si, e sentiam-se +capazes de levar aos pontapés quantos indios houvesse na India, mas +tambem porque elles tinham-nos tomado medo; mas isso tudo a quem o +devemos senão a Duarte Pacheco? Pois, meus amigos, imaginam vocês que +Duarte Pacheco foi feito governador da India, ou teve algum titulo, ou +alguma recompensa grande? Qual carapuça! D. Manuel nem mais pensou +n'elle, e era tão feliz que logo encontrou para ser primeiro vice-rei da +India um homem como D. Francisco de Almeida, que em toda a parte do +mundo seria digno de exercer os primeiros logares. + +Com effeito, D. Manuel, que primeiro quizera apenas que os seus seus +navios viessem carregados de mercadorias da India, que depois cá se +vendiam na Europa, entendeu que devia tomar raizes, e encarregou D. +Francisco de Almeida de governar os portuguezes que por lá estivessem, +fundando ao mesmo tempo fortalezas. D. Francisco de Almeida entendia, +porém, e não deixava de ter rasão, que Portugal era um paiz muito +pequeno para estar assim a mandar soldados para a India, e o que elle +queria era ser senhor do mar para que ninguem mais ali podesse fazer +negocio. Emquanto só teve os indios pela prôa íam as cousas bem, +mas os turcos, que viam diminuir os seus rendimentos com o novo caminho +das Indias, começaram a metter-se na dança, e os turcos não eram tropa +fandanga, eram gente de quem tremia a Europa. Tambem, quando se +encontraram primeiro com os portuguezes, levaram a melhor e até mataram +um filho de D. Francisco de Almeida, que o vice-rei adorava. Foi a sua +perdição, porque D. Francisco de Almeida não descançou emquanto não +vingou a morte do seu estremecido Lourenço. Os turcos levaram uma sova +de primeira qualidade, e na India ficou-se sabendo de uma vez para +sempre que casta de homens eram os portuguezes. + +Pois, rapazes, parecia que d'esta vez D. Manuel se daria por muito feliz +em ter no Oriente um homem como D. Francisco de Almeida, que tinha posto +os indios a pão e laranja, e dado uma esfrega tal nos turcos que se não +atreveram por muito tempo a tornar á India. Enganam-se. Apenas acabou o +seu tempo, foi chamado a Portugal, e naturalmente el-rei nem pensaria +mais n'elle, ainda que não tivesse morrido no caminho. Mas continuava a +ser tão feliz que encontrou, para substituir D. Francisco de Almeida, um +homem que ainda valia mais do que elle, porque era o grande Affonso de +Albuquerque. Ah! meus amigos, apparecem de vez em quando no mundo uns +homens, que são capazes de revolver a terra, como os Napoleões e +outros assim, Affonso de Albuquerque foi um d'esses. + +A respeito das cousas da India não pensava como D. Francisco de Almeida, +mas não era porque visse as cousas de outro modo, era porque achára +maneira de as concertar. Sim, elle bem sabia que Portugal não podia +estar a encher a India de soldados, mas o que elle queria era que os +Indios se misturassem com os portuguezes, e, para o conseguir, ao passo +que era cruel com os mouros, com os indios era tão bom e tão justo que, +depois da sua morte, íam elles resar ao seu tumulo, como quem vae resar +ao tumulo de um santo. Escolheu elle tres pontos, em que estabeleceu, +para assim dizer, os seus quarteis generaes, e todos muito bem +escolhidos: Ormuz, ao pé da Persia; Goa, no meio da India; Malaca, para +os lados da China e das ilhas a que se chamava das Especiarias ou das +Molucas. Primeiro tomou Goa, depois Malaca que tinha dente de coelho, +porque os malaios são levadinhos da bréca, depois Ormuz, e, quando +acabou de fazer tudo isto, estava já demittido, e sabendo que ía ser +nomeado para o seu logar o seu peor inimigo! Morreu com esse desgosto. + +Tambem d'essa vez tinha-se acabado o fornecimento de grandes homens, e +os dois ultimos governadores da India, no tempo de D. Manuel, não foram +lá grande cousa, mas tambem não estragaram nada. Aquillo então ía +n'um sino. Os portuguezes espalhavam-se por toda a parte, de um lado +chegavam á China, do outro á Persia, do outro ás Molucas, do outro a +Cambaya. Tinham fortalezas por toda a parte; elles recebiam a boa +canella de Ceylão, o bom cravo das Molucas, a boa pimenta da India, os +bons cavallos da Persia, as sedas da China, o incenso da Arabia, os +diamantes de Golconda, e traziam estas riquezas todas para a Europa e +vinham aqui a Lisboa, que estava sempre cheia de navios, os hollandezes +e os inglezes comprar tudo isto para o vender por esse mundo. Do Brazil +não se fazia caso porque nem valia a pena; na Africa sempre se íam +tomando praças, que era para n'aquellas constantes guerras com os mouros +se exercitar a fidalguia, que depois fazia o diabo a quatro na India. +Emfim, quando D. Manuel mandou ao papa uma embaixada com presentes +vindos de todas as suas conquistas, Roma ficou embasbacada, e não se +fallava em todo esse mundo senão na grandeza de Portugal. Bons tempos, +meus amigos, mas que duraram pouco! + +No reino, D. Manuel logo mostrou que, se não era tolo, tambem não tinha +o entendimento de D. João II. Poz fóra os judeus; é verdade que depois, +quando em Lisboa o povo fez uma matança nos que tinham ficado a titulo +de se terem convertido, mostrou-se muito zangado e castigou a cidade. +Grande não foi elle, mas viu-se cercado de gente que o fez grande, +e teve a esperteza de os saber conhecer. Depois, punha-os de parte com a +maior facilidade, mas atinava com elles; só não percebeu o que podia +esperar de Fernão de Magalhães, que, zangando-se com uma picardia que +lhe fez, passou para Hespanha, e assim nos deixou ficar sem a gloria de +termos sido nós os primeiros que deram volta ao mundo, como fizeram os +hespanhoes commandados pelo tal Fernão de Magalhães, porque isso, +n'aquelle tempo, não havia por esses mares uma onda que não marulhasse +em portuguez... + +--Em portuguez porque? perguntou o Francisco Artilheiro. Eu nunca +percebi o que ellas diziam. + +--Então é que têem a cabeça tão dura como tu, porque foi sempre o +portuguez a primeira lingua que ouviram, e até lá para a terra dos +bacalhaus, para o norte, onde faz um frio de rachar, lá mesmo foi Gaspar +Cortereal que primeiro descobriu a Terra Nova. Emfim, meus amigos, +depois de ter casado tres vezes, e sempre com princezas hespanholas, +morreu em 1521 el-rei D. Manuel, e, verdade verdade, com elle se póde +dizer que morreu a grandeza de Portugal. + +Succedeu-lhe o filho D. João III, que era o beato mais beato que tem +vindo a este mundo. D. Manuel já lá tinha as suas manias, mas, como eu +lhes contei, quando os de Lisboa desataram a matar os judeus, ou +antes os christaos novos, deu-lhes com o _basta_. D. João III, esse, não +descançou emquanto não metteu em Portugal a inquisição. O papa não +queria, fazia-se rogado, e D. João III é que insistiu com elle para +apanhar essa prenda. Chegou a gastar rios de dinheiro para o conseguir!! +Ora, realmente, metter cá um tribunal que, apenas um sujeito se esquecia +de ir á missa, ferrava com elle na cadeia, quando não era na fogueira, +só lembrava a D. João III. Até os estrangeiros fugiam, e então o resto +dos judeus, que ainda por cá havia, e que por amor á nossa terra se +tinham feito christãos, com medo da inquisição, se foram safando logo +que poderam. E, não contente com isso, introduziu tambem a companhia de +Jesus, que era uma ordem nova de frades mais disciplinados que um +regimento, e que tinham jurado ser elles que haviam de governar o mundo. +Ora, lá para prégar aos herejes, e aos gentios da India, e aos selvagens +do Brazil, eram muito bons, porque não recuavam nem diante da morte, e +houve jesuitas, como S. Francisco Xavier, que não ficaram a dever nada +aos doze apostolos; mas em Portugal mettiam-se em toda a parte: elles +ensinavam, elles confessavam, e estou em dizer que não podia ser bom. Eu +não sou contra os padres, nem contra a religião, pelo contrario, mas +tambem não se hão de metter em tudo. Ora vejam vocês como havia de +viver um dos nossos avós d'esses tempos! Os jesuitas a apertarem-lhe o +freio, e ao mais pequeno desmando, zás, fogueira da inquisição com elle. +Até se fizeram macambuzios os pobres homens, que eram até ahi gente +alegre. Não se podia escrever cousa nenhuma, que não viessem logo os +jesuitas: Corte-se isto porque parece contra a religião, não se +represente aquillo porque se faz troça a um frade, e porque torna e +porque deixa. O que é certo, meu amigos, é que, emquanto lá por fóra se +andava para diante, e se faziam invenções, e se estudava, nós não +passavamos da cepa torta, e o mal que isso fez vão vocês vêl-o. + +Na India parecia que ía tudo muito bem, mas via-se que não podia durar +muito. Valentes eram os nossos, mas, em vez de fazerem o que Albuquerque +queria, em vez de accommodarem os Indios, e de se porem ás boas com +elles, não senhor, faziam crueldades que era uma cousa por demais, e o +que queriam era apanhar dinheiro. Passavam o tempo, ora em guerra com o +rei de Calicut, ora com o rei de Cambaya, ora com o rei de Achem, ora +com o rei de Bintam, ora com o rei de Kandy, ora com todos ao mesmo +tempo. Isto não era vida. Obravam prodigios de valor, isso é verdade, +como por exemplo nos dois cercos de Diu, em que Antonio da Silveira e D. +João de Mascarenhas se defenderam de um modo maravilhoso, mas, á força +de dar cutiladas, o braço ía cançando, e o paiz estava esfalfado. +Não havia nem um instante de socego. Se apparecia um governador como D. +João de Castro, o da Penha Verde de Cintra, que era honradissimo e +justiceiro, os outros não pensavam senão em roubar. Já se pegavam uns +com os outros, como fez Lopo Vaz de Sampaio com Pedro Mascarenhas, e +quando D. João III, o Piedoso, como lhe chamaram os frades, morreu em +1557, todos previam que isto ía para baixo. O filho mais velho de D. +João III morrera ainda em vida do pae, e quem lhe succedeu foi um neto, +creança de cinco annos, que tinha o nome de D. Sebastião. Ficou regente +a avó, senhora de bastante juizo, que governou bem, mas que em 1562 teve +de ceder a regencia ao cunhado, o cardeal D. Henrique, todo dominado +pelos jesuitas, e que cercou de padres o principe. O que resultou d'ahi? +Resultou que D. Sebastião, que gostava de guerras e batalhas, fez-se ao +mesmo tempo beato. Parecia um d'aquelles antigos frades militares, que +tinham concorrido tanto para expulsar os mouros de Portugal. Não quiz +casar, e até fugia das mulheres. Não pensava senão em dar cabo dos +mouros. Ora, se nós que já tinhamos tanto trabalho para nos sustentarmos +na India, que fôramos obrigados a largar umas poucas de praças na +Africa, que tinhamos precisado de um grande esforço para salvar Mazagão, +cercada pelos mouros, nos mettiamos em grandes guerras com elles, +aonde iria isto parar! Pois foi o que succedeu. Na India o trabalho era +cada vez maior; um governador, chamado D. Constantino de Bragança, +parente da casa real, fizera por lá grandes cousas, mas pouco tempo +depois juntavam-se quasi todos os reis da India e vinham sobre nós. O +que nos valeu foi termos um novo Affonso de Albuquerque, um general de +mão cheia, D. Luiz de Athayde, que a tudo acudiu e tudo salvou; mas +vocês bem vêem que isto não podia continuar assim. Quando as cousas +estavam n'este bonito estado, quando nós tinhamos ás costas a India, o +Brazil para que D. João III principiára a olhar, onde precisávamos de +nos defender contra os aventureiros francezes que achavam a terra a seu +gosto, de que se ha de lembrar el-rei D. Sebastião? De ir conquistar +Marrocos! Eu já tenho ouvido dizer que mais valia termos conquistado +Marrocos, que nos ficava á porta, do que irmos á India que ficava tão +longe. Pois sim, mas o que era necessario era escolher. Ou uma cousa ou +outra. Mas D. Sebastião, com aquella embrulhada, que elle tinha na +cabeça, de idéas religiosas e de idéas guerreiras, não attendia a cousa +nenhuma, nem fazia calculos nenhuns. O que elle queria era dar lambada +nos mouros, e, apesar dos conselhos de toda a gente, levanta um pequeno +exercito, e para o levantar custou-lhe, porque já não havia braços +no paiz... co'a breca, que elles não chegavam para tudo! e abala-se +para a Africa a pretexto de ir soccorrer um principe mouro que tinha +sido expulso do throno por seu tio! + +Ah! meus amigos, aquillo era mesmo um doido que ali ía. A gente gosta de +ver um rapaz que tem o sangue na guelra, e que se atira para diante, +embora faça asneira, mas é que D. Sebastião estava perfeitamente maluco. +Era maluquice a empreza, foi maluquice o modo como a preparou, foi +maluquice o modo como a dirigiu. Parecia que Deus, por umas poucas de +vezes, o quizera salvar, e elle sempre a atirar comsigo de cabeça para +baixo. Emfim, no dia 4 de agosto de 1578, deu-se a batalha á moda de +seiscentos diabos, porque nem houve commando, nem houve nada. D. +Sebastião atirou-se aos mouros e não quiz saber de exercito, nem de +cousa nenhuma. Emquanto poude dar cutilada, deu. A flor da fidalguia +portugueza ali morreu, a que não morreu ficou prisioneira. Os soldados +fugiram, uns por aqui outros por ali, e, quando a noticia chegou ao +reino, imaginem que afflicção! Não se perdera só um rei, perdera-se a +corôa, porque não havia herdeiros, e quem subiu ao throno foi o velho +cardeal D. Henrique, tio avô do fallecido, que nunca fôra esperto e que +estava então meio apatetado. Ainda houve quem dissesse que D. Sebastião +não morrera, porque ninguem o vira caír morto, e o cadaver que +appareceu, e que se disse que era d'elle, estava tão desfigurado que se +não podia conhecer. Assim lá ficou D. Henrique a governar, mas para que? +Todos sabiam que a corôa era herança que não tardava. Quem a havia de +apanhar? Quem tinha direito verdadeiro era a duqueza de Bragança, por +ser filha de um irmão de D. João III, D. Duarte; quem era mais +sympathico ao povo era D. Antonio, filho bastardo de outro irmão de D. +João III, D. Luiz; quem tinha mais força era D. Filippe II, rei de +Hespanha, filho de uma irmã de D. João III, D. Isabel. Ainda havia +outros que se diziam herdeiros, mas entre aquelles tres é que a lucta +era séria. Ferviam as intrigas. D. Filippe tinha em Portugal um +embaixador, e até por signal era portuguez, D. Christovão de Moura, que +comprava todos quantos se queriam vender, e bem parvos eram os que não +íam ao mercado. As côrtes, chamadas por D. Henrique para decidir a +questão, estavam já tão pouco costumadas a metter o seu bedelho n'essas +questões, que disseram ao rei que decidisse como quizesse, apesar de +berrar muito contra isso um portuguez ás direitas, procurador de Lisboa, +e que se chamava Phebo Moniz. O rei não decidiu cousa alguma. Morreu em +1580, e deixou o quartel general em Abrantes, tudo como d'antes. Nomeou +governadores do reino uns sujeitos que se tinham já vendido aos +hespanhoes, e que de certo íam escolher D. Filippe II. Mas, como se +demorassem, este não esteve para os aturar, e mandou-nos cá um exercito +commandado pelo duque de Alba. Vendo os hespanhoes, o povo virou-se para +D. Antonio, prior do Crato e bastardo do infante D. Luiz, e acclamou-o +rei. Valente era elle, mas não era mais nada. Quiz resistir aos +hespanhoes com um punhado de gente que nunca pegára em armas. Batido em +Alcantara, ás portas de Lisboa, depois de algumas horas de combate, +fugiu para o Minho, por onde andou escondido, até que poude safar-se +para o estrangeiro. Filippe II entrou socegadamente em Lisboa, e era uma +vez a independencia de Portugal. + +--O que! estavamos hespanhoes? perguntou furioso o Bartholomeu. + +--Estavamos hespanhoes, sim, meu amigo, e eu te vou explicar como é que +tinhamos chegado a isso em tão pouco tempo. Em primeiro logar, creio que +já sabem que D. João II abaixára a prôa de todo á nobreza, e d'ahi por +diante os fidalgos ficaram sendo simplesmente criados do paço. O povo +ajudára o rei a fazer essa obra necessaria, mas o rei, apenas se viu +servido, deu-lhe para baixo, e el-rei D. Manuel começou a dizer que os +foraes, que eram as leis por que se governavam os concelhos, não estavam +muito claros, e para os aclarar, reformou-os, quer dizer, deu cabo +d'elles. Em côrtes já se não fallava senão de longe a longe. D'antes, +pelo menos, para se lançarem tributos novos, sempre se reuniam as +côrtes. D. Manuel não quiz que ellas se incommodassem por tão pouco, e, +para lhes poupar trabalho, começou elle a deitar os tributos por sua +conta. Ora isto é muito bom, emquanto as cousas vão correndo bem. O rei +tem ali o seu povo manso como um leão domesticado, com as unhas cortadas +e os dentes limados, mas, quando vem as occasiões, o povo mette o +rabinho nas pernas e não tuge nem muge. Para mais ajuda, a inquisição +concorria para terem todos pouca vontade de se mexer. Os jesuitas, que +tanto podiam fazer pela influencia que possuiam, não se importaram para +nada com isso. Frades como elles eram, muito ligados entre si, e muito +escravos do seu geral que estava em Roma, não tinham patria, a sua +patria era a Companhia. Depois, vocês bem vêem que o reino não podia +deixar de estar sem forças. Era um saír de gente todos os annos para a +Africa, para a India, para o Brazil, que era uma cousa por demais. No +meio de tantas riquezas o paiz achava-se pobre. Havia muita gente rica e +vadia, mas não havia lavoura, não havia fabricas, não havia nada, o +dinheiro entrava por um lado para saír pelo outro. Demais a mais tudo +era pandiga rasgada. Os portuguezes vinham do Oriente descançar das suas +fadigas. Tinham escravos para o serviço, passavam os dias na amante +vadiagem. Não ha cousa que mais deite a perder os homens. Por isso +D. Filippe e o seu embaixador Christovão de Moura encontraram tudo podre. + +Hão de vocês dizer: Pois então, só porque um rei morreu, e só porque se +perdeu um exercito, que não era grande cousa, perdeu-se Portugal? É +assim mesmo. Faltou o rei, faltou tudo, porque o povo nem já sabia de +si, e as côrtes, quando não havia quem mandasse alguma cousa, nem sabiam +o que haviam de fazer. Soldados portuguezes, os bons, estavam na India, +e não bastavam; os que tinham voltado não pensavam senão na pandiga. +Tudo estava alluido na nação portugueza, veio o empurrão de +Alcacer-Kibir, foi tudo abaixo, e eu, meus amigos, não vou para baixo, +vou para cima que são horas de me ir chegando ao pouso. Domingo +continuaremos, porque já agora havemos de acabar, que lá dizer que eu +tenho muita vontade de lhes contar a historia do que se passou no tempo +dos Filippes, isso não tenho. Então é que Portugal perdeu a esperança de +se levantar. + + + + +SETIMO SERÃO + +Portugal durante o dominio hespanhol.--Filippe I.--Os falsos D. +Sebastião.--Ultimos esforços do prior do Crato.--Os inglezes e +hollandezes no ultramar.--A invencivel armada.--D. Filippe II.--Perda e +restauração da Bahia.--Filippe III.--O conde-duque de Olivares e os +privilegios das provincias.--Perda de Pernambuco.--Tumultos de Evora.--O +duque de Bragança.--A conspiração dos fidalgos.--Revolução de 1 de +dezembro de 1640. + + +--Meus amigos, disse o João da Agualva no domingo immediato, demorei-me +e o resultado foi apanhar uma constipação, que ainda mal me deixa +fallar. Não quiz comtudo deixar de vir para se não perder este bom +costume dos domingos, mas pouco tempo me demoro, e não farei mais do que +contar-lhes a historia do que passou Portugal com o dominio dos hespanhoes. + +Se nós ao menos tivessemos passado para uma nação forte, com vida e com +sangue, alguma cousa lucrariamos, mas a Hespanha estava peor do que nós. +Parecia muito poderosa por fóra, mas só havia podridão lá dentro. Depois +andava em guerra com a Europa toda, e n'essa guerra nos embrulhou +para nossa desgraça. + +Apesar dos pesares, não cuidem vocês que tudo foram rosas para o nosso +rei Filippe I, que era em Hespanha Filippe II. Elle veio com pésinhos de +lã, prometteu respeitar as liberdades portuguezas, nunca nos dar por +governadores senão portuguezes ou principes da familia real, jurou +quanto quizeram, mas o povo não andava satisfeito, e, como não tinha a +quem se encostar, pensava em D. Sebastião, o _Desejado_, como lhe +chamam. Assim que apparecia um homem que tinha alguma parecença com o +rei fallecido, diziam logo que era elle, de fórma que os hespanhoes +estavam sempre em sobresalto. Por isso o rei de Penamacor e o rei da +Ericeira, uns pobres homens que o povo embirrou em querer que fosse cada +um d'elles D. Sebastião, e que tomaram o caso a serio, provocaram os +seus tumultos, sendo os da Ericeira um poucochinho graves. Passados +tempos, ainda appareceram lá fora, em Hespanha e em Italia, dois homens +que diziam ser D. Sebastião, e que lograram muita gente, mas esses eram +verdadeiros intrujões que nem mesmo pensavam senão em comer á +barba-longa, á custa dos freguezes. O tal amor ao D. Sebastião foi-se +pegando a ponto que começou a formar-se uma seita que ainda ha pouco +tempo durava, a seita dos sebastianistas, que acreditavam que D. +Sebastião havia de apparecer n'um dia de nevoeiro para governar em +Portugal. Eu ainda conheci um sebastianista. + +--E eu tambem, acudiu o Bartholomeu. + +--Já vêem que não minto. Mas d'esse D. Sebastião não ha de vir mal ao +mundo, nem bem que é o peor. D. Antonio tambem trabalhava pela sua +banda, e, como a ilha Terceira o acclamára rei, foi-se lá metter e +arranjou soccorro de França, mas os hespanhoes bateram a esquadra +franceza, e tomaram a ilha. Depois arranjou soccorros da rainha de +Inglaterra, que mandou uma esquadra a Lisboa, mas os inglezes foram +repellidos, e D. Antonio, descoroçoado de todo, foi morrer a Paris em 1595. + +Mas querem vocês ver o que nós ganhámos com o estar juntos á Hespanha? +Foi termos á perna os inglezes e os hollandezes, que principiaram a +sacudir-nos da India, e que então aos nossos navios faziam guerra +mortal. Ia tudo pela agua abaixo, e, para mais desventura, Filippe +lembra-se de mandar contra a Inglaterra uma esquadra immensa, a que +chamou «a invencivel armada», e que saíu do porto de Lisboa. A armada +perdeu-se e lá se foram os nossos melhores navios. Filippe morria em +1598, e succedia-lhe Filippe II aqui e III em Hespanha. Se as cousas +tinham ido mal até ahi, então foram peor. A Hespanha ía a Deus e á +ventura, e nós atraz d'ella. O governo hespanhol, que mal cuidava de si, +não cuidava nada de nós. Os inglezes e os hollandezes tomavam-nos +quasi tudo o que tinhamos na India, e estes ultimos tambem se mettiam no +Brazil comnosco. Grandes façanhas ainda se faziam, é verdade, e da +Bahia, por exemplo, foram os hollandezes expulsos, mas, quando Filippe +II morreu em 1621, já o nosso poder não era nem a sombra do que tinha sido. + +Succedeu-lhe Filippe III, e esse tinha um primeiro ministro chamado +conde-duque de Olivares, que imaginou que havia de acabar com os +privilegios das provincias, principalmente com os de Portugal. Não +pensava n'outra cousa, de fórma que deixava ir as colonias, e no Brazil +já os hollandezes tinham tomado raizes, e estavam senhores de +Pernambuco. Mas os portuguezes começaram a achar a brincadeira pesada e +a refilar ao Olivares. Em 1637 rebentou uma revolta em Evora, foi logo +apagada, mas com muito sangue. Peor para o caso. Os fidalgos, que +andavam tambem damnados, principiavam a conversar com o duque de +Bragança, D. João, e a apalpal-o para ver se elle quereria a corôa. O +duque não dizia nem que sim, nem que não. Mas n'isto a Catalunha, que +tambem não perdoava ao Olivares a sem-ceremonia com que elle lhe queria +tirar os seus antigos privilegios, revolta-se. Boa occasião! Os +fidalgos, em Lisboa, sentiam-se cada vez mais dispostos a mandar os +hespanhoes para o diabo. O Olivares não fazia senão desesperal-os e +atiçal-os. Tinha-lhes dado por governador a duqueza de Mantua, e para +secretario do governo um portuguez, Miguel de Vasconcellos, que era mais +damnado contra os seus patricios do que se fosse hespanhol. Emquanto +deixava perder as colonias portuguezas, Olivares levava os nossos +fidalgos e os nossos soldados para as guerras de Flandres e da +Catalunha. Lembra-se emfim de dar ordem ao duque de Bragança para que vá +para Madrid. Então é que já se não podia estar com pannos quentes. Os +fidalgos dizem ao duque de Bragança: Ou acceita a corôa, ou nós pomo-nos +em republica. O duque, a final, disse que sim. Com a bréca! aquillo foi +um momento. Era um punhado de homens, os que andavam assim a conspirar; +elles não sabiam se podiam contar com o povo, nem se não podiam, +conspiravam ás claras, que parece que em Lisboa todos sabiam da +conspiração menos os hespanhoes; reuniam-se umas vezes em casa de João +Pinto Ribeiro, outras vezes em casa de D. Antão de Almada, no jardim. No +dia 1 de dezembro de 1640 saem todos para o meio da rua. Eram quarenta, +pouco mais ou menos. Chegam ao paço, matam o Miguel de Vasconcellos, +agarram na duqueza de Mantua e fecham-n'a á chave, desarmam a guarda, +abrem as janellas, e dizem a quem ía passando: Viva o duque de Bragança, +rei de Portugal! viva o sr. D. João IV! O povo diz-lhes cá de baixo: +Viva! e viva, e viva! e eram uma vez os hespanhoes, e d'ahi a +pedaço estava tudo tão socegado como se não tivesse havido cousa +nenhuma, e os hespanhoes tinham desapparecido; e aqui têem vocês como se +faz uma revolução quando ella está na vontade de todos. Digo-lhes, +rapazes, que este dia 1 de dezembro consola uma pessoa. Parecia que o +paiz não tinha feito senão acordar de um pesadello. Aquillo foi só +saltar da cama abaixo, e elle ahi estava de pé, todo pimpão como em +outros tempos. E sabem vocês porque isto foi? É porque as nações são +como as espadas, onde enrijam é na bigorna. + + + + +OITAVO SERÃO + +Unanimidade da revolução.--Preparativos de resistencia.--Organisação +militar do paiz.--As allianças.--Relações de Portugal com +a Hollanda.--Restauração de Pernambuco e de Angola, e perda +de Ceylão.--Conspirações contra D. João IV.--Guerra da +Restauração.--Batalhas de Montijo e de Telena.--D. Affonso VI.--A sua +educação e a sua indole.--Regencia da rainha D. Luiza.--Antonio +Conti.--O conde de Castello Melhor.--Continuação da guerra.--Cerco de +Badajoz.--Batalha das Linhas de Elvas.--Paz entre a Hespanha e a +França.--Campanhas de D. João de Austria.--Schomberg.--Victorias do +Ameixial, Castello Rodrigo e Montes Claros.--Planos do conde de Castello +Melhor.--Intrigas do Paço.--Casamento, desthronamento e divorcio +vergonhoso de D. Affonso VI.--Regencia do infante D. Pedro.--Casamento +com a cunhada.--Tratado de Methwen.--Guerra da successão de +Hespanha.--D. João V.--As minas do Brazil.--Desperdicios, beaterio e +immoralidades. + + +--Meus amigos, principiou no outro domingo o João da Agualva, e já +ninguem o interrompia, tal era o interesse com que todos seguiam a sua +narrativa; o que succedeu na capital, succedeu no reino todo. Aquillo +foi chegar a noticia do que se passava em Lisboa, e de um momento para o +outro desappareciam os hespanhoes, e tornava tudo a ser Portugal. +Poupámos-lhes muita despeza em correios, porque logo souberam pelo +primeiro que Lisboa se tinha revoltado, que tinha vencido, que reinava +em Portugal D. João IV, e que a Hespanha, do Minho para baixo e do +Caya para o occidente, já não possuia nem um palmo de terra. Querem +vocês saber como o conde-duque de Olivares deu a noticia ao patrão? Foi +d'esta maneira:--Dou os parabens a Vossa Magestade; acabam de lhe entrar +uns poucos de milhões no bolso.--Como assim? perguntou o rei que estava +a jogar, e que não desgostaria de que lhe saisse d'essa maneira a sorte +grande de Hespanha.--Porque o duque de Bragança, tornou o ministro, +acaba de se revoltar, e de se fazer rei de Portugal, e, como temos de +lhe tirar os bens e de lhe cortar a cabeça, fica Vossa Magestade mais +rico. O rei não gostou muito d'esse modo de enriquecer, e ainda olhou +para os parceiros a ver se algum lhe dava quatro vintens pela herança. +Nenhum caíu n'essa. + +Isso era muito bom, mas Portugal é que não vivia de cantigas. A Hespanha +era então ainda maior do que hoje é, e, se ella nos caísse em cima, +estavamos promptos. De que precisavamos nós? De dinheiro, de soldados e +de allianças. Tratou-se logo de tudo. Dinheiro votaram as côrtes quanto +se quiz; para arranjar soldados fez-se uma obra fina que nunca ninguem +até ahi tinha feito, e que foi pôr toda a gente em armas. E como? +dividiu-se o reino em tres linhas; a primeira de soldados, que se +chamavam pagos, a segunda de milicianos, e a terceira, que era a dos +velhotes, de ordenanças. Uns íam á guerra, os outros ajudavam-nos +em sendo preciso, saíndo, o menos que podesse ser, dos seus sitios, e +finalmente os ultimos defendiam as suas terras, porque isso, atraz de um +muro, todos fazem figura. Digo-lhes, rapazes, que aquillo é que foi uma +idéa, e olhem que não nos serviu só então, tambem na guerra da peninsula +foi o que nos valeu, e, aqui para nós, não me parece que fizessem muito +bem em deitar abaixo aquella historia. Estava já tudo costumado, e +quando vinha uma guerra, saltava toda a gente para o meio da rua; e +olhem que isto de estar um homem dentro de casa, de espingarda na mão, +dá que fazer aos mais pintados. E logo se viu. + +Emquanto a allianças tambem não faltaram; é verdade que não serviram de +muito, porque cada um cuidava de si. A França, prompta, o que ella +queria era abaixar a prôa á Hespanha, mas, como tambem lá andava em +guerra com os hespanhoes, o mais que fez foi consentir que arranjassemos +officiaes francezes pelo nosso dinheiro; a Inglaterra, a mesma cousa, +muita festa para a festa, mas andava embrulhada em guerras civís, não +mandou para cá nem um navio. Então a Hollanda ainda foi peor, isso... +recebeu o nosso embaixador de braços abertos, poz luminarias, achou que +tinhamos feito muito bem, mas, quando o embaixador lhe disse: «Então +agora que estamos amigos, venham para cá as nossas colonias, que +são nossas e não dos hespanhoes», a Hollanda exclamou: «As colonias! ah! +sim! nós somos tão amigos d'ellas! Estão já acostumadas comnosco! até +tinhamos pena de as deixar». E acrescentava o embaixador: «Mas então, +c'os diabos, ao menos não nos tomem mais nenhuma».--«Não tomamos, dizia +a Hollanda, isso nunca. Ora agora sabem vocês? as colonias são como as +cerejas. O caso é apanhar uma». Ah! elle é isso! disseram os portuguezes +comsigo, pois então vamos a ellas. E, zás, rebenta uma revolta em +Pernambuco, e os brazileiros a berrarem: Viva D. João IV! A Hollanda +chamou o nosso embaixador: «Então que diabo é isso? nós somos amigos e +fazem-nos uma partida d'estas!»--«Patifes! dizia o embaixador. Aquillo é +do sol! esquenta-lhes a cabeça, e dão por paus e por pedras. Mas, aqui +para nós, se elles dizem: Viva D. João IV, não havemos de lhes ir dizer: +Morra D. João IV! Não nos ficava bem.»--«Pois sim, mas digam-lhes que +estejam quietos.»--«Pois isso dizemos nós.» E D. João IV mandava para lá +armas e officiaes, e dizia-lhes: «Ahi vae isso, que é para vocês estarem +quietos.» E em poucos annos estavamos senhores de Pernambuco, e os +hollandezes na rua. + +D'ahi a tempos, Salvador Correia de Sá ía a Angola e punha fóra os +hollandezes que nos tinham tomado esse reino.--«Então isto que vem a +ser? bradaram os hollandezes, então os senhores vão de proposito do +Brazil a Angola para nos sacudir!»--«Quem é que fez isso?» perguntava o +embaixador.--«Salvador Correia de Sá.»--«Sim! pois estejam vocês +descançados, que lhe vamos já perguntar pelo correio, que diabo de +lembrança foi essa. Em vindo resposta cá lh'a mandamos. E a proposito, +sr.ª Hollanda, vocês tomaram-nos Ceylão?»--«Tomámos Ceylão, mas que +defeza! Antonio de Sousa Coutinho defendeu-se maravilhosamente. Os +nossos generaes são todos accordes que nunca encontraram resistencia tão +desesperada! Quando escreverem para lá, mandem os nossos parabens ao sr. +Antonio de Sousa Coutinho e recommendações aos amigos.» + +E era assim que nós estávamos com a Hollanda: abraços na Europa e +lambada lá por fóra. + +Houve só duas côrtes que não quizeram nunca reconhecer a independencia +de Portugal; uma foi a côrte de Roma que estava toda nas mãos dos +hespanhoes, e a outra a da Allemanha, cujo imperador era da mesma +familia que a do rei Filippe. E fizeram-nos transtorno: a primeira +porque estávamos assim a modo excommungados, a segunda por uma patifaria +que praticou o imperador, mandando prender sem mais nem menos o principe +D. Duarte de Bragança, irmão de D. João IV, que andava por lá na guerra +contra os turcos, e que tanta conta nos faria em Portugal. Morreu +na cadeia o pobre rapaz por causa de nós e da traição do tal imperador. + +Em Portugal, ao principio, tinha ido tudo bem, mas, assim que passou +aquelle primeiro fogo, houve muitos que começaram a pensar no caso e que +disseram comsigo: «Isto foi uma grande asneira. Vem ahi os hespanhoes e +dão cabo de todos nós. O melhor é pormos as costas no seguro, e, antes +que elles venham ter comnosco, vamos nós ao encontro d'elles, que sempre +apanharemos alguma cousa.» E n'isto desatam a conspirar contra D. João +IV. Foram castigados cruelmente. Morreram muitos com a cabeça cortada, e +mais nem todos eram culpados. Mas que querem vocês? A mania de D. João +IV era que o não tomariam a sério como rei em Madrid, emquanto não +mandasse cortar a cabeça a alguem. + +Pois em primeiro logar visse bem a quem matava, e em segundo logar eu +sempre ouvi que os reis, quando são mais reis, é quando perdôam. E, alem +d'isso, os hespanhoes quando tomaram a sério D. João IV não foi quando +elle mandou cortar a cabeça a fidalgos portuguezes, mas quando os +soldados portuguezes lhes começaram a esfregar as costas a elles. + +Lá que os taes conspiradores tinham rasão em estar com medo, isso +tinham, porque parecia mesmo impossivel que Portugal resistisse. +Tambem o que nos valeu foi a asneira dos hespanhoes, que nos primeiros +dois annos não fizeram senão dar um rebate falso a uma praça, atacar +outra, escaramuçar aqui, disparar uns tiros alem. Parecia que estavam +incumbidos por D. João IV de fazer andar os nossos soldados na recruta. +Em 1644 é que, pela primeira vez, fizeram assim movimento mais serio, +mas já tinhamos então soldados velhos, commandados por um bom general, +Mathias de Albuquerque, e os amigos hespanhoes levaram a primeira sova +mesmo lá na sua terra, em Montijo; em 1646 nova batalha em Telena, mas +n'essa perdemos nós mais do que lucrámos, ainda que os hespanhoes com +isso nada ganharam tambem, porque voltaram á costumeira antiga. Emfim, +para encurtar rasões, quando D. João IV morreu, em 1656, estavamos havia +dezeseis annos n'aquella brincadeira, hoje íamos nós á Hespanha e +apanhavamos gado, ámanhã vinham elles cá e levavam-nos o nosso. Mas quem +lucrava com isso? Éramos nós, porque os nossos milicianos, e as nossas +ordenanças íam-se costumando á guerra, e cada vez este bocadinho de +Portugal se ía tornando para a Hespanha mais duro de roer. + +Em 1656 morreu pois D. João IV, como eu lhes disse, e succedeu-lhe seu +filho D. Affonso VI, a quem chamaram o _Victorioso_, como chamaram a +D. João IV o _Restaurador_, mas emfim a este com mais um bocadinho +de rasão. + +D. Affonso VI não era o filho mais velho, mas o mais velho, um rapazito +que dava esperanças, Theodosio, morrera em 1653. D. Affonso VI fôra +desde creança muito doente, nunca podéra aprender cousa nenhuma e tivera +uma educação muito descuidada. O seu gosto era brincar com os garotos +que íam para debaixo das janellas do paço, e, quando foi homem, andava +em pandigas pela cidade, com uma roda de facinoras que faziam tudo o que +queriam á sombra d'elle, a ponto que até havia mortes nas ruas de +Lisboa! Como ainda era pequeno quando seu pae morreu, ficou regendo o +reino sua mãe D. Luiza de Gusmão, uma hespanhola muito decidida, que +diziam até que fôra quem mais concorrera para o marido acceitar a corôa. +A regente lá foi governando com acerto, emquanto o rapazote andava ao +laré com um tal Antonio Conti, que lhe soubera conquistar a amisade. A +rainha um dia pegou n'esse Antonio Conti, e ferrou com elle desterrado +no Brazil. Ó diabo que tal fizeste! o pequeno zanga-se, e, quando o +conde de Castello Melhor lhe disse que era bom que começasse a governar +por si, porque tinha já chegado á maioridade, D. Affonso, para pregar +pirraça á mãe, acceitou; eu não louvo o conde de Castello Melhor por ter +aconselhado esta acção, mas a verdade é que D. Affonso VI já estava +em idade de governar, e que, se não podia dirigir os negocios, sempre +era melhor que por elle os dirigisse um homem como o conde de Castello +Melhor, que tinha uma excellente cachimonia, do que a rainha, que, +apezar de ser esperta, sempre era senhora, e por isso menos capaz de +governar o reino em tempo de guerra. + +Bem conheço que D. Affonso VI era um mau rei, que não tinha juizo, que +se entregava a divertimentos indecentes e até criminosos, mas uma +qualidade tinha elle, percebia perfeitamente que não sabia cuidar do +reino, e deixava o Castello Melhor fazer tudo quanto queria. Ora o +Castello Melhor era uma das melhores cabeças que têem governado o nosso +paiz, como vocês vão ver, porque é bom que saibam o que se passára na +guerra. + +Logo depois da morte de D. João IV, um general portuguez, João Mendes de +Vasconcellos, fizera grande asneira. Vendo que os hespanhoes andavam só +a fazer fosquinhas, disse comsigo: Não nos hão de conquistar, e havemos +de ser nós que os conquistaremos a elles. Junta um exercito magnifico, e +vae cercar Badajoz. Ainda ali ganhámos uma batalha, que foi a do Forte +de S. Miguel, mas a final tivemos de levantar o cerco, depois de +havermos perdido inutilmente a flor dos nossos soldados. Ora o que +succedeu? Foi que, no anno seguinte, quer dizer em 1659, os hespanhoes, +picados com o nosso atrevimento, saíram da sua pachorra, juntaram +um exercito formidavel commandado pelo proprio ministro do rei, D. Luiz +de Haro, vieram sobre Portugal e cercaram Elvas. A cousa esteve +phosphorica, porque os nossos melhores soldados tinham ficado estendidos +diante de Badajoz, e andava isto por cá muito desarranjado. Mas para +alguma cousa haviam de servir os dezenove annos de guerra. Em primeiro +logar Elvas, governada por D. Sancho Manuel que foi depois conde de +Villa Flor, defendeu-se admiravelmente, em segundo logar o conde de +Cantanhede, depois marquez de Marialva, como não tinha outra gente, +reuniu um exercito quasi todo de milicianos e saltou nos hespanhoes que +cercavam Elvas. Foi no dia 14 de janeiro de 1659 que se deu a batalha, +conhecida pelo nome de batalha das linhas de Elvas, e nunca os +hespanhoes apanharam tamanha pilota. Os prisioneiros foram aos milhares, +artilheria, bagagens, tudo nos caío nas mãos, e o proprio D. Luiz de +Haro escapou-se por um fio. Tambem nunca mais nos perdoou aquella sova, +e, quando n'esse mesmo anno foi fazer a paz com a França, deu aos +francezes tudo quanto elles quizeram, só com uma condição--a de se não +fallar em Portugal. Era patifaria graúda do ministro francez, um padre, +um tal cardeal Mazarino, porque as tareias que davamos nos hespanhoes +tinham feito muita conta aos francezes. Mas o Mazarino foi +apanhando o que poude, e pouco lhe importou mandar-nos á fava. + +Vêem vocês a situação em que ficámos. Quando começámos a guerra com a +Hespanha, estava ella em guerra tambem com quasi toda a Europa, o que +não era mau para nós. Em 1648 fez a paz com muitas nações, e isso não +foi lá muito bom, porém, como a França continuava em guerra, e essa só +por si dava mais que fazer á Hespanha do que todas as outras juntas, +ainda a cousa não ía mal; mas agora? A França fazia a paz, quasi que se +alliava com os hespanhoes, porque o rei de França, Luiz XIV, casava com +uma princeza hespanhola, e nós é que ficavamos em campo, com a Hespanha +ás costas. Ella ainda esteve dois annos a apalpar-nos, mas em 1662 +rompeu o fogo com alma. Poz um dos seus melhores generaes, D. João de +Austria, filho bastardo do rei, á frente dos seus exercitos, e caíu em +cima de nós com todo o seu peso. + +Ora foi exactamente em 1662 que entrou no poder o conde de Castello +Melhor, e foi sobre elle que desabou esse temporal desfeito. Nunca +Portugal se vira em tão maus lençoes. D. João de Austria tomava praças +sobre praças, e na campanha do anno immediato, 1663, quasi que chegava +ás portas de Lisboa. Mas o ministro fizera o diabo, parece que até das +pedras tinha feito soldados. Depois, como Mazarino era um finorio, que +não desgostava de jogar com pau de dois bicos, ao passo que +contentava a Hespanha, mandava-nos para cá os officiaes que podia, entre +elles o conde de Schomberg, que era um general de mão cheia. Não +commandou nunca em chefe, porque os nossos não gostavam, e tinham rasão, +que elles já haviam dado provas de que não precisavam de tutores; mas +foi um excellente conselheiro. O que é certo, meus amigos, é que, em +tres annos successivos, em que os hespanhoes fizeram todos os esforços +para dar cabo de nós, levaram tres sovas mestras; a primeira deu-lh'a em +1663 o conde de Villa Flor na batalha do Ameixial, a segunda em 1664 +Pedro Jacques de Magalhães na batalha de Castello Rodrigo, a terceira em +1665 na batalha de Montes Claros o marquez de Marialva. D'ahi por diante +nunca os hespanhoes levantaram cabeça, e não pensaram mais em tomar +conta outra vez de Portugal. + +Ora o conde de Castello Melhor tinha uma grande idéa; dizia elle +comsigo: os hespanhoes levaram tanta pancadaria, que, se fazemos a paz +com elles, ficando nós simplesmente com o que tinhamos ao principio, +póde-se dizer que fomos logrados. Demais a mais Portugal é pequeno, a +Hespanha é grande; em qualquer bulha que tivermos estamos de mau +partido. É necessario fazer Portugal maior e a Hespanha mais pequena. E +toda a sua tineta era obrigar os hespanhoes a dar-nos a Galliza. E +o que fazia elle então? Encostava-se a Luiz XIV, rei de França, que +andava namorando umas provincias hespanholas lá de Flandres. Casava D. +Affonso VI com uma princeza franceza, e dizia comsigo: Mais dia menos +dia, Luiz XIV pega-se com a Hespanha. Nós vamos com elle. A Hespanha +leva para o seu tabaco a valer. Elle fica com as provincias que quizer, +até com a Flandres toda, se isso lhe fizer conta, e nós com a Galliza, e +com mais alguma cousa se podér ser. + +--E era bem pensado, sr. João da Agualva, observou o Bartholomeu, porque +é que não havia de ser nossa a Galliza? + +--Tens rasão, e já vês que, se nós tivessemos a Galliza tambem, não +estavamos sempre com medo de ser engulidos pelos visinhos. Mas que +queres tu? Entretanto íam grandes intrigas no paço. A rainha, que era +uma princeza toda _liró_ e toda costumada ás janotices da côrte de Luiz +XIV, achando-se casada com um homem que só se dava bem com moços de +cavallariça, e que de mais a mais era tão doente que nem marido podia +ser, principiou a desgostar-se, e ao mesmo tempo a agradar-se do infante +D. Pedro, rapaz desempennado, que tambem não desgostava da francezita. +Pensaram em se juntar e governar o paiz. Principiaram as intrigas. Tanto +fizeram que conseguiram pôr fóra o conde de Castello Melhor. +Desamparado, o pobre D. Affonso VI não tardou a ser expulso do +throno, e até o descasaram, coitado! Foi necessario para isso um +processo que é uma vergonha, e realmente não posso perceber como foi que +uma rainha se deixou assim andar nas bôcas do mundo!... Emfim, o que é +certo é que desterraram o pobre D. Affonso VI, mandando-o para a ilha +Terceira; prenderam-n'o depois em Cintra, onde morreu, e a rainha casou +com o cunhado, e este ficou a governar o reino. Eu já lhes disse, +rapazes, que bem conheço os defeitos de D. Affonso VI; mas o pobre +homem, que era mesmo uma creança, que se não importava para nada com a +politica, que tivera a fortuna de acertar com um bom ministro que +governava por elle e governava bem, não merecia que lhe fizessem +similhante entrega! Mette dó, porque elle nem sabia defender-se, andava +ali como o menino nas mãos das bruxas. + +E o irmão, que lhe tirára a corôa, e que lhe tirára a mulher, nem ao +menos lhe dava a sua liberdade, nem lhe consentia que espairecesse. +Tinha-o preso n'um quarto em Cintra, e ali o deixou morrer de +aborrecimento e de desgosto, a elle que nunca fizera mal a ninguem senão +com as suas tolas rapaziadas! + +Emfim, passemos adiante! O que é certo é que isto succedeu em 1667, e +logo no anno seguinte de 1668 fazia-se a paz com a Hespanha, sem lucro +nenhum para nós, porque nem ao menos apanhavamos a praça africana +de Ceuta, que era tão nossa, por causa da qual morreu no captiveiro o +infante santo, e que em 1640 não conseguira livrar-se dos hespanhoes. + +Tanto se empenhára em governar o reino o sr. D. Pedro II, que desde 1667 +até 1683, anno em que morreu D. Affonso VI, só tomou o titulo de +regente, e a final de contas não fez senão tolices. Demais a mais +algumas cousas boas que deixou fazer, logo as desmanchou. Um ministro +que elle teve, o conde da Ericeira, quiz ver se fundava fabricas em +Portugal, mas em 1703 um tratado com a Inglaterra, conhecido pelo nome +de tratado de Methwen, que este era o nome do embaixador que o assignou, +deu cabo da nossa industria. Conservou-se em paz, tanto que lhe deram o +nome de _Pacifico_, e vae no fim do seu reinado mette-se sem mais nem +menos na guerra da successão de Hespanha, favorecendo D. Carlos da casa +de Austria contra D. Filippe da casa de Bourbon. Como tinhamos então um +excellente general, que era o marquez das Minas, deu-nos este o gostinho +de entrar victorioso em Madrid, e de proclamar ali D. Carlos rei de +Hespanha; mas esse gostinho não tardámos a amargal-o, porque, morrendo +D. Pedro II no dia 1 de dezembro de 1706, logo no dia 25 de abril de +1707 era o marquez das Minas batido na batalha de Almanza com graves +perdas para nós, tanto que até ao fim da guerra póde-se dizer que +nunca mais levantámos cabeça. + +Subio ao throno D. João V, e eu, para lhes dizer a verdade, o que não +posso perceber é como ha historiadores que gabam aquelle rei. Cá para +mim foi um dos peores que nós tivemos. Possuia algumas qualidades que +não eram de todo más, era porém o mesmo que se as não tivesse, porque +não pensava senão no beaterio, e em obras grandes e magnificas, que a +maior parte das vezes para nada serviam. Logo por desgraça foi n'esse +reinado que começaram a render rios e rios de dinheiro as minas do +Brazil, e tudo era pouco para o rei que não cuidava senão de si e nada +do reino. Por exemplo, achou-se embrulhado com a Hespanha e com a França +n'uma guerra que no seu tempo não foi senão desastrosa. Uns corsarios +francezes deram-nos cabo do Rio de Janeiro e levaram-nos umas riquezas +espantosas. Pois não encontrou aquelle homem uns poucos de navios para +saltarem tambem nas colonias francezas, ou para protegerem as nossas! +Emfim! se os não tinhamos, paciencia! Mas d'ahi a pouco saíu de Lisboa +uma excellente esquadra em soccorro do papa, commandada pelo conde do +Rio Grande, esquadra que foi bater os turcos no cabo Matapan! Ora vejam +se ha um patarata assim! Annos depois, por causa de uns insultos feitos +em Madrid ao nosso embaixador, está para rebentar a guerra com a +Hespanha. Fazem-se preparativos, e vê-se que não temos nem exercito, nem +marinha. De que tratou logo D. João V? De comprar armamento? Qual +historia! De mandar fazer em Paris, para si, uma barraca de campanha +muito rica, e tão luxuosa que toda a gente a ía ver!! + +Não tinhamos estradas, não tinhamos rios canalisados, não tinhamos +desentulhados os portos, não tinhamos nada do que nos era necessario, +mas tinhamos aquella monstruosidade do convento de Mafra que custou 120 +milhões de cruzados, que não serve para cousa nenhuma, e que nem ao +menos é bonito. Dizem que gostava muito de imitar Luiz XIV, mas o que me +dizia o engenheiro francez que esteve aqui em Bellas, é que Luiz XIV +mandava ir sabios para França, dava pensões aos sabios estrangeiros, e +este o que dava era dinheiro para igrejas, e o que mandava vir era de +Roma bullas e capellas. Dizem que nunca deixou ás nações estrangeiras +pôr pé em ramo verde comnosco. Quem lhe valeu para isso foram os +diplomatas que teve, que nunca em Portugal os houve tão bons, e tambem o +ser tão orgulhoso que ía aos ares só com a idéa de que mangavam com elle. + +Mas no mais não me fallem em D. João V, que até me sobe o sangue á +cabeça. Pois vocês conhecem cousa que mais indigne do que ir um homem +ali para Lisboa, no campo da Lã, ver os inquisidores queimarem +gente de bem, ou porque não gostavam de toucinho, ou porque nem sempre +íam á missa, e depois montar a cavallo, para se metter em Odivellas na +cella de uma freira e passar ali a noite? Eu digo que me chega a parecer +nem sei o que uma malvadez assim. + +Morreu em 1750 esse rei que não fez nada bom em Portugal, a não ser as +Aguas-Livres. Pouco mais dinheiro gastou que se podesse dizer que fosse +bem gasto. E digo-lhes que, se vocês olharem para o paiz, até lhes ha de +fazer pena. A nobreza já não se compunha senão simplesmente de criados +do paço, o clero immenso e corrompido enchia o reino com os seus padres +e os seus conventos, e conservava o povo n'uma ignorancia completa, o +povo, miseravel, vadio, ou emigrava para o Brazil, ou pedia esmola ás +portarias dos conventos, ou sentava-se ao sol. Tinhamos chegado ao mais +baixo a que podiamos chegar. Felizmente, quando uma nação desce a tal +ponto, sempre apparece alguem que a levante e esse, eu, para o outro +domingo, lhes direi quem foi. Por hoje basta. Quando fallo no sr. D. +João V, o _Magnifico_, e penso no mal que elle fez ao paiz, fico sempre +macambusio, e então o melhor é ir-me deitar. + + + + +NONO SERÃO + +D. José I.--As transformações sociaes.--O marquez de Pombal +e a revolução.--Terramoto de 1 de novembro de 1755.--As +grandes reformas de Sebastião de Carvalho.--Expulsão dos +jesuitas.--Reforma da universidade.--Reorganisação do +exercito.--Agricultura.--Industria.--Inquisição.--Christãos novos e +christãos velhos.--Politica estrangeira.--Energia com Roma e com +Inglaterra.--Reconstrucção de Lisboa.--Estatua de D. José.--Attentado +contra o rei.--Supplicio dos Tavoras.--D. Maria I.--Reacção contra as +medidas do marquez de Pombal.--Processo do grande ministro.--Pina +Manique, Francisco de Almada.--Martinho de Mello.--Loucura da +rainha.--Regencia do principe D. João.--A republica franceza.--Campanha +do Roussillon.--Campanha de 1801.--Napoleão e o tratado de +Fontainebleau.--Fuga da familia real para o Brazil.--Guerra +peninsular.--Congresso de Vienna.--D. João VI.--Conspiração de +1817.--Revolta de Pernambuco.--Revolução de 1820. + + +Hão de vocês notar, rapazes, observou o João da Agualva mal todos se +sentaram no domingo seguinte em torno da lareira, que, em estando para +haver uma grande mudança na sorte dos homens, parece que todos, sem o +querer e sem o saber, trabalham para essa mudança, desejando fazer +muitas vezes exactamente o contrario. Por exemplo, lembram-se vocês que +ali por 1500 é que os reis se fizeram senhores absolutos, porque +acabaram com os privilegios da nobreza, e com os foraes do povo. +Quem é que contribuiu para isso? O povo, que ajudou o rei a dar +cabo dos nobres. Agora encaminha-se tudo para a liberdade e para a +igualdade, e quem é que no nosso paiz vae concorrer mais para similhante +cousa? O marquez de Pombal. Dir-me-hão vocês: Então o marquez de Pombal +era algum liberalão por ahi alem como os de vinte? Qual historia! Era um +tyranno e dos mais ferozes que nunca houve, mas, sem o querer e sem o +saber, ninguem mais do que elle trabalhou pela liberdade. + +Em primeiro logar hão de vocês saber que o rei D. José, que subiu ao +throno por morte de seu pae D. João V, quasi que nem conhecia o marquez +de Pombal, que já era homem dos seus cincoenta annos, e que tinha andado +por fóra como embaixador, ora em Londres, ora em Vienna de Austria, onde +casára com a filha de um figurão austriaco. Quem metteu empenhos para +que elle fosse ministro foi a mãe de D. José, D. Marianna se chamava +ella, archiduqueza de Austria, e por isso amiga da mulher do marquez, +que então se chamava simplesmente Sebastião José de Carvalho e Mello. +Era um ministro como os outros, e o rei não fazia mais caso d'elle do +que fazia dos seus collegas, quando de repente acontece uma grande +desgraça em Lisboa, que veio a ser o terramoto do dia 1 de novembro de +1755. A cidade foi quasi toda a terra, morreram muitas mil pessoas, +outras ficaram a pedir esmola, e sobretudo reinava um terror +tamanho que ninguem sabia o que havia de fazer nem para onde se havia de +virar. O Sebastião de Carvalho não perdeu a tramontana. Toma elle a +direcção de tudo, arranja sustento, enforca ás portas da cidade quantos +ladrões apanha, porque isso então era uma praga, trata do desentulho, e +logo em seguida de reconstruir a cidade, isto com uma actividade, com um +desembaraço, com um acerto, que D. José disse comsigo: Temos homem! +D'ahi por diante quem governou foi elle, e é de uma pessoa pasmar ver o +que fez. Até ahi os governos, para fallar a verdade, em quem menos +pensavam era no povo e no paiz. O dinheiro do estado não servia senão +para elles fazerem o que lhes agradava, e por felizes se podiam dar os +povos quando lhes dava o capricho para cousas uteis. Sebastião José de +Carvalho e Mello tratou do paiz e mais nada. Ora de que é que o paiz +precisava? + +Precisava, primeiro que tudo, de acabar com as despezas no gosto das que +fazia el-rei D. João V, que era umas mãos rotas com fidalgos e com igrejas. + +Precisava de poder pensar e estudar, sem ser sempre debaixo da +palmatoria dos frades e dos jesuitas. + +Precisava de acabar com a inquisição, porque era uma vergonha que ainda +se queimasse gente em Portugal só porque não ía á missa. + +Precisava de ter exercito e de ter marinha. + +Precisava de ter industria. + +Precisava de ter lavoura. + +E nada d'isto elle tinha. + +Sebastião de Carvalho via estas cousas e disse comsigo: Mãos á obra. Ora +digam-me vocês: Quando chegam a uma quintarola que compraram e vêem tudo +estragado: os pardaes a darem cabo da fructa, as cearas a morrerem á +sede, a terra fraca por falta de estrume, as hervas ruins a afogarem o +trigo, o que é que fazem? Arregaçam as mangas e dizem: Vamos a isto. E +sacham as hervas, sem dó nem piedade, e saltam ao tiro nos pardaes até +os pôrem fóra, e deitam estrume na terra, e levam a agua da rega para as +cearas, e levantam os muros arrasados, e enxotam os porcos que lhes +vinham fossar nas batatas, e sacodem as gallinhas que lhes depinicavam +tudo, e até vocês se riam se os accusassem de crueldade porque matavam +os pardaes, ou porque arrancavam e deitavam fóra as hervas ruins. + +Pois Sebastião José de Carvalho e Mello tratou Portugal exactamente como +vocês tratariam a tal quintarola. Olhou para tudo e disse comsigo: Eh! +com os diabos, como isto está. No paço ha um bando de pardaes que dá +cabo da melhor fructa dos pomares da nação. Toca a enxotar os pardaes, +e, como os pardaes refilaram, saltou ao tiro n'elles. As cearas da +intelligencia, que tambem são trigo porque dão o pão do espirito, não +podiam medrar porque os affogava por toda a parte o joio do jesuitismo. +Toca a sachar os jesuitas. Os muros da quinta estavam arrasados, quer +dizer, estavam as fronteiras a descoberto, e em vez de haver fortes o +que havia era igrejas, e elle mandou fazer o forte da Graça em Elvas, e +poz o exercito a direito, mandando vir para isso um militar estrangeiro, +o principe de Lippe, que era da escola de um rei da Prussia que foi o +primeiro militar do seu tempo. Não havia lavoura nem havia industria, +porque ninguem lhe dava a protecção da rega e do adubo, e Pombal deu-lhe +tudo isso á moda do seu tempo, que elle tambem não podia adivinhar o que +hoje se sabe. Elle reformou os estudos e a universidade, elle fundou +companhias e fabricas, elle partiu os dentes á inquisição, elle poz fóra +os jesuitas, elle tirou a censura dos livros aos padres, elle acabou com +distincções de christãos-novos e christãos-velhos, e na India e no +Brazil acabou tambem com todas as tolices das raças, elle arreganhou os +dentes a Roma, e soube pôr o papa no seu logar, elle bateu o pé á +Hespanha, elle fez-se respeitar da Inglaterra, elle acabou com os +morgados pequenos que só faziam mal á lavoura, elle não deixou que +entrassem para padres e frades todos quantos o queriam ser, porque, se +as cousas continuassem assim, ás duas por tres não havia senão +cabeças rapadas em Portugal, emfim, meus amigos, é de uma pessoa pasmar +ver que aquelle diabo de homem, que ao mesmo tempo fazia de Lisboa uma +cidade nova e levantava uma estatua ao seu rei no Terreiro do Paço, em +tudo poz a mão, tudo melhorou, tudo reformou, tudo arranjou, e póde-se +dizer que virou a nação de dentro para fóra. Já se vê que fez tudo isto +com o «posso, quero e mando.» Mas a quem é que prestou verdadeiros +serviços? Foi á liberdade, porque tirou o povo da miseria e da +ignorancia em que vivia, porque o livrou de ter os jesuitas por tutores, +e assim o animou a cuidar dos seus direitos, e o preparou para um bello +dia reclamar a liberdade. Foi cruel, bem sei, não digo menos d'isso. +Tratou os homens como se fossem pardaes, e praticou mesmo barbaridades +escusadas; mas que diabo! não sei que sina é esta: reforma graúda sem +muito sangue parece que não ha modo de se fazer; uma vez são os +reformadores que derramam o seu proprio sangue, e então é que a reforma +vem de Deus, como acontece com o christianismo; outras vezes os +reformadores derramam o sangue dos outros, e então é que a reforma vem +dos homens, como aconteceu com a revolução franceza; porque lá isso de +regar as arvores do bem com o sangue das nossas proprias veias, Deus é +que o ensina, que os homens só por si não são capazes de chegar a +tanto. + +--Ó sr. João, exclamou o Bartholomeu, mas parece-me que tenho ouvido +dizer que os Tavoras, o duque de Aveiro e os mais fidalgos soffreram +tormentos do diabo ali na praça de Belem. Ora, ainda que fosse +necessario dar cabo d'elles, acho que não era preciso atormental-os, e +que o marquez de Pombal tinha na verdade cabellos no coração. + +--Não digo menos d'isso, Bartholomeu, mas ouve lá uma cousa: tu sabes +porque é que os fidalgos foram executados, não sabes? Foi por darem uns +tiros no rei. Elles queriam livrar-se do ministro, o rei não largava o +ministro, cada vez se lhe agarrava mais, como depois mostrou, fazendo-o +conde de Oeiras e marquez de Pombal, e então lembraram-se de dar cabo de +D. José. Ora sabes tu como fôra castigado em França, pouco tempo antes, +um homem que tinha querido matar o rei Luiz XV? Foi posto a tormentos, +depois nas feridas abertas deitaram-lhe chumbo a ferver, e a final +ataram-n'o aos rabos de quatro cavallos, e esquartejaram-n'o. E comtudo +ninguem diz que Luiz XV tivesse cabellos no coração. As cousas faziam-se +assim no seu tempo, não foi o marquez de Pombal que as inventou. + +Hão de vocês dizer: Este diabo gaba sempre as tyrannias por toda a +parte. Já defendeu D. João II, agora defende o marquez de Pombal. Eu não +as louvo, rapazes. Se vivesse n'esses tempos e podesse, havia de berrar +contra ellas; mas cá de longe, vendo as cousas com socego, digo que +ninguem é perfeito, e que todos os homens têem, como dizia o tal +engenheiro francez que esteve em Bellas, os defeitos das suas +qualidades. Ali está o Francisco Artilheiro que foi soldado: havia de +ter servido com muitos coroneis. Encontrou algum que fosse teso a valer +e que ao mesmo tempo desatasse a chorar, no tempo das varadas, quando +tinha de mandar chibatar algum soldado? Não póde ser. Estes pimpões que +quebram todos os abusos, que põem um joelho de ferro em cima de todas as +revoltas, fazem aos homens o mesmo que fazem ás cousas, e o dever de +quem depois conta a historia é perceber isso tudo, e não estar a berrar +contra aquelles que fizeram serviços ao seu paiz, só porque nem sempre +paravam onde seria melhor que tivessem parado. + +Mas vamos nós ao resto da historia que d'aqui a pouco já as noites são +mais pequenas, e mal chega o tempo para dormir a quem tem de se levantar +com o sol. D. José morreu em 1777, e, apenas elle fechou os olhos, +rebentou o odio que havia contra o grande ministro; ninguem quiz lá +pensar no bem que elle tinha feito, e todos clamaram contra as suas +crueldades. Demais a mais quem succedia a D. José era sua filha a rainha +D. Maria I, muito beata, embirrando muito com o marquez, porque +desconfiava que elle quizera fazer passar o throno para o filho +d'ella, um rapazito muito esperto, chamado D. José; e então o rei a +morrer hoje e o ministro a ser demittido ámanhã. Não houve picardia que +lhe não fizessem. Mandaram-n'o para a sua quinta do Pombal, e, estando +elle já doente e amargurado, moeram-n'o com perguntas porque lhe armaram +um processo. Se podessem desfazer tudo o que elle fizera, desfaziam, mas +a final só soltaram os presos, porque emquanto ao mais tiveram medo de +dar bordoada no finado rei, que a final de contas respondia pelos actos +do ministro, porque elle é que assignava as ordens. Tiraram o retrato do +marquez da memoria do Terreiro do Paço, qué só em 1834 se tornou a pôr +como era justo; em vez do retrato pozeram as armas de Lisboa que são um +navio á véla, e foi então que o marquez de Pombal disse, ao saber do +caso: Ai! Portugal que vaes a véla! + +Bem quizera D. Maria I admittir os jesuitas outra vez, mas não podia +ser, porque o marquez de Pombal não só os expulsára de Portugal, mas +fizera uma liga contra elles em toda a Europa, e conseguira que o papa +Clemente XIV acabasse com a Ordem. Muito trabalharam os parentes dos +Tavoras para conseguir que se désse uma sentença a declarar que era peta +o que se dissera a seu respeito, e injusta a sentença que os condemnava; +mas a final não conseguiram isso, porque a rainha percebeu que, +condemnando o marquez de Pombal, a quem condemnava era ao pae. + +No mais tudo andou para traz, a não ser na marinha, que teve um bom +ministro, Martinho de Mello, e n'isto de escolas que sempre se foram +desenvolvendo. Houve alem d'isso dois homens que fizeram muito bem a +Lisboa e ao Porto, a saber, o intendente da policia Pina Manique e o +corregedor do Porto Francisco de Almada. É que já se não podia deixar de +cuidar de melhoramentos; mas o que deu cabo de nós foi a birra que +tivemos em nos metter na bulha contra a republica franceza. Isso, fallar +em Portugal nas idéas novas, era o mesmo que fallar no diabo, e D. Maria +I, em vez de tratar da sua vida, seguio o caminho de D. João V. Este +ía-se metter com os turcos que lhe não faziam mal nenhum, D. Maria I +foi-se metter com a republica franceza, que estava lá tão longe e que +nada tinha com Portugal. + +O que resultou d'aqui é que mandámos uma divisão ao Russilhão a ajudar +os hespanhoes, e uma esquadra a Toulon a ajudar os inglezes. A divisão +do Russilhão portou-se o que se chama bem, mas depois? A Hespanha fez a +paz com a França, e nós ficámos a olhar ao signal, a Inglaterra +mettia-nos na dança, e depois punha-se de palanque. Tivemos de andar a +pedir a paz á republica franceza, quasi de joelhos, e o Napoleão, que já +n'esse tempo começava a governar em França, e que nos tinha jurado pela +pelle, teve a habilidade de açudar a Hespanha contra nós, +resultando d'ahi a guerra de 1801. Foi uma guerra vergonhosa. Tinhamos o +exercito escangalhado, não fizemos senão levar bordoada, e, para +alcançarmos paz, tivemos de pagar bom dinheiro, e de dar aos hespanhoes +Olivença que nunca mais apanhámos. De nada nos valeram todas as +humilhações. Em 1807, Napoleão, que já era imperador, e que andava n'uma +lucta de morte com a Inglaterra, quiz que fechassemos os portos aos +nossos antigos alliados. Andámos a hesitar, até que Napoleão, que não +gostava de perder tempo, declara que a casa de Bragança deixára de +reinar, e mette-nos cá dentro um exercito commandado pelo Junot. A +familia real não teve senão tempo de fazer as malas e de partir para o +Brazil, por conselho dos inglezes. Devo-lhes dizer uma cousa: a rainha +D. Maria I endoidecera havia muito tempo, e quem governava em seu nome +como principe regente desde 1792, era o principe D. João, seu filho mais +velho, porque aquelle D. José, de quem lhes fallei, e que dava tantas +esperanças, tinha morrido em 1788. + +Imaginem vocês como ficaria o povo com esta _partida_, e agora é que é o +caso de se lhe chamar _partida_. + +Abandonado pela familia real, viu o Junot tomar conta do governo, +agarrar no exercito portuguez, que não tinha ordem para resistir, e +mandal-o para França servir no exercito de Napoleão, lançar +contribuições pesadas como o diabo, e emfim tratar isto como terra +conquistada. E, para maior vergonha, Junot invadira o paiz, no coração +do inverno, com meia duzia de gatos, e entrára em Lisboa á frente de +quatro soldados estropiados e esfarrapados. A vergonha de todas estas +humilhações começou a fazer ferver o sangue aos portuguezes, e um bello +dia rebentou a revolta no Porto. Foi como quem diz um rastilho de +polvora. Desde o Minho até ao Algarve, não houve terra em que se não +pegasse em armas contra os francezes. O Junot mandou as suas tropas +esmagar as revoltas, e os francezes fizeram então cousas do arco da +velha, mataram, roubaram, queimaram... + +--Ah! pae do céu! exclamou a tia Margarida, eu era bem pequenina então, +havia de ter sete ou oito annos, mas lembra-me do que minha mãe me +contava. Havia um que ella chamava o _Maneta_, que isso parece que era o +diabo em pessoa. + +--Era o general Loison, que não tinha um braço. Em Evora fez elle o +demonio, mas, por mais que fizessem, não conseguiam acabar com a +revolta. Era pobre gente do povo, sem armas, sem disciplina, sem chefe, +que assim se levantava contra os francezes, e estes davam-lhe para baixo +facilmente, mas a gente levava aqui em Bellas, levantava-se em Cintra, +íam os francezes a Cintra, levantavam-se os de Bellas. Demais a mais, +cada qual faz a guerra como póde. Lá em batalha não podiam os +nossos medir-se com os soldados de Napoleão. O que faziam? Davam-lhes +caça; em os apanhando separados, carga para cima d'elles. Era facada, +era paulada, era tiro de bacamarte, era o que podia ser, com os diabos! +que um povo é como uma pessoa, quando o querem pisar aos pés, defende-se +com unhas e dentes. Mas n'isto os inglezes, que andavam á tóca de ver se +podiam saír da sua ilha e desembarcar n'algum sitio onde podessem +incommodar Napoleão, assim que viram que Portugal estava revoltado, +desembarcaram aqui um exercito commandado por um sugeito chamado +Wellington, que, se não era tão bom general como Napoleão, pelo menos +parece-me que ainda seria mais feliz do que elle. O Junot, que não +passava de ser um valentão, foi batido pelos inglezes na Roliça e +Vimeiro, onde os nossos, já se vê, tambem combateram ao lado das fardas +vermelhas, que é, como vocês sabem, o uniforme inglez, e, para se safar +de Portugal, teve de capitular. É verdade que o patife apanhou uma +capitulação, que a não podia ter melhor se fosse elle que houvesse dado +a tunda nos inglezes. Levou-nos tudo o que nos tinha roubado, e nem se +fallou nos nossos soldados que lá andaram, contra vontade sua, a servir +no exercito de Napoleão. + +--Ó sr. João, acudiu o Manuel da Idanha, vocemecê ha de desculpar +uma pergunta, mas parece-me que ninguem póde vir por terra de França a +Portugal, sem passar pela Hespanha, não é verdade? + +--É sim, rapaz; mas que queres tu dizer com isso? + +--Quero dizer que não percebo como foi que o Junot cá veio. Então os +hespanhoes deixaram-n'o passar? + +--Fizeram mais alguma cousa, vieram com elle, porque n'esse tempo +estavam ainda muito manos com os francezes, tanto que repartiram entre +si Portugal como quem reparte um melão, uma talhada para este, outra +talhada para aquelle, etc. Mas o Napoleão surripiou aos hespanhoes a sua +familia real, e fez rei de Hespanha um seu irmão chamado José, de fórma +que, quando nós nos revoltámos, revoltaram-se elles tambem, e começámos +uns e outros á lambada aos francezes. + +Entretanto cá se arranjára um governo; tratou elle de organisar o +exercito, que ainda era á moda de 1640, e que só precisava de um general +como o principe de Lippe para ficar uma joia. Esse general appareceu, +foi um inglez chamado Beresford, que n'um abrir e fechar de olhos poz +tudo a direito. O que é certo, meus amigos, é que na guerra da +Peninsula, que durou seis annos, os nossos soldados, combatendo ao lado +dos soldados inglezes, passavam por ser tão bons como elles e +talvez melhores. Já se vê que tinha sido necessario virem muitos +officiaes inglezes para os nossos regimentos, porque a officialidade +portugueza estava toda dispersa, uns tinham ido para França, outros para +o Brazil, e outros, diga-se a verdade, não prestavam para nada. + +--Ó sr. João, dá licença que lhe faça uma pergunta? interrompeu de novo +o Manuel da Idanha. + +--Faze, rapaz, podéra! Pois então para que estou eu aqui? + +--Porque é que se chamou a essa guerra a guerra da Peninsula? + +--Não te disse eu, rapaz, no principio d'esta conversa, que Portugal e a +Hespanha juntos formavam uma peninsula, quer dizer quasi uma ilha, +porque a cérca o mar por toda a parte menos por um lado, que é onde pega +com a França pelos Pyrenéus? + +--Disse, sim senhor. + +--E não te acabei de dizer que, quando nos revoltámos contra Napoleão, +revoltaram-se tambem os hespanhoes, e que desatámos uns e outros á +pancada aos francezes? + +--Tambem é verdade. + +--Pois então ahi tens tu: a guerra era de Hespanha e de Portugal, por +conseguinte era a guerra da Peninsula. + +--Ora tambem quero fazer uma pergunta, disse a tia Margarida. + +--Pois então, tia Margarida! Era o que faltava era que as mulheres não +tivessem a palavra. + +--O que você precisava era de um puxão de orelhas, mas emfim lá vae a +pergunta. Eu, sempre que minha mãe fallava n'essas cousas, ouvia-lhe +dizer que os francezes eram muito maus, mas que os inglezes talvez ainda +fossem peores. Ora você diz que os inglezes vieram ajudar-nos... + +--Dizia muito bem a sua mãe, tia Margarida, mas eu tambem não digo mal. +Soldados inglezes sempre foram abrutados, principalmente em estando com +o vinho. Nunca vieram a Portugal senão ajudar-nos, e nunca tambem cá +vieram que não ficasse tudo a berrar contra elles. Olhem no tempo de D. +Fernando. Parece-me que lhes contei que, vindo elles combater ao nosso +lado contra os hespanhoes, fizeram o que o demonio não fez. E, agora que +já respondi ás suas perguntas, vou continuar a minha historia. + +O Junot foi posto fóra em 1808, os inglezes então viraram-se contra os +francezes que estavam na Hespanha, e metteram-se pela Galliza dentro, +mas o Soult, apanhando-os lá, deu-lhes uma tareia formidavel, e depois +veio sobre Portugal e entrou no Porto. A gente do Porto, a fugir dos +francezes, metteu-se na ponte de barcas que então havia sobre o +Douro, para passar para o outro lado; a ponte abateu e morreram milhares +de pessoas. + +--Ah! bem sei! interrompeu a tia Margarida, diz que foi o dia de juizo. + +--Ora se foi! os francezes pararam no Porto, mas nós e os inglezes +fomo-nos a elles d'ahi a tempo e pozemol-os fóra. O Napoleão, embirrando +com o caso, mandou um exercito commandado pelo marechal Masséna, um dos +seus melhores generaes, com ordem de atirar o Wellington ao mar; mas o +Wellington, que era homem avisado, e que não gostava de tomar banhos de +choque, aproveitára o tempo a arranjar as linhas de Torres Vedras, de +traz das quaes se metteu. O Masséna bateu com as ventas nas linhas, vio +que não podia fazer nada, foi-se embora, e nós logo atraz d'elle. + +Para encurtar rasões, em quatro annos de campanha, fomos a pouco e pouco +empurrando os francezes pela Hespanha fóra, em 1814 entrámos em França +de embrulhada, e, como os russos, os austriacos e os prussianos tambem +entraram por outro lado, levando o Napoleão adiante de si, caíu aquella +caranguejola toda, o Napoleão teve de dar a sua demissão de imperador, e +nós ficámos livres dos francezes. + +Dois annos depois, em 1816, morreu a rainha D. Maria I no Brazil, sem +que ninguem, por assim dizer, désse por isso. O principe regente tomou +o nome de D. João VI e continuou tudo como até ahi. + +Entretanto em Portugal estava tudo descontente. O povo levantára-se +contra os francezes por sua conta e risco, e parecia-lhe historia que o +rei, que fugira, continuasse a não fazer caso nenhum d'elle. + +Em Hespanha tinham-se reunido côrtes e arranjára-se uma constituição +pela qual se acabava com o poder absoluto dos reis. Em Portugal, se não +se fizera o mesmo, não fôra por falta de vontade, mas os inglezes não +deixavam. Todos percebiam, porém, que se não podia voltar á antiga, como +se não se tivesse passado cousa nenhuma no intervallo. Por outro lado a +teima do rei em ficar no Brazil já nos ía fazendo chegar a mostarda ao +nariz, tanto mais que, ao passo que havia por cá muita miseria, estava +sempre a ir dinheiro para o Brazil, e não só dinheiro mas tropa tambem, +porque D. João VI, em 1817, lembrára-se de juntar Montevideu ao Brazil, +como se o Brazil ainda fosse pequeno, aproveitando para isso a revolta +das colonias hespanholas. Emfim, a conservação de Beresford e dos +coroneis inglezes no quadro do exercito portuguez incommodava os nossos +officiaes, e descontentava a nação. + +Em 1817, descobre-se ainda por cima uma conspiração liberal, dão como +implicado n'ella, com provas de cá cá rá cá, um general muito +estimado, Gomes Freire de Andrade, de quem diziam que Beresford tinha +ciumes, e enforcam-n'o. Tudo isto ía fazendo ferver o sangue aos +portuguezes, e, quando em 1820 começou a haver revoluções liberaes por +toda a parte, rebenta tambem uma revolução liberal no Porto, espalha-se +logo por todo o reino, chega a Lisboa, e pega-se ao Brazil. D. João VI é +obrigado a acceital-a, e a vir para Portugal, a mandar embora os +officiaes inglezes, e a assignar uma constituição que as côrtes fizeram; +mas os governos lá de fóra, e logo os mais poderosos, acharam perigoso +que se tornasse a fallar em liberdade e constituições, e decidiram que +viesse um exercito francez pôr a mordaça na boca aos liberaes da +Hespanha, emquanto um exercito austriaco ía fazer o mesmo aos da Italia. +Apenas cá chegou a noticia, os amigos do absolutismo, que tinham por +chefe o infante D. Miguel, segundo filho do rei, levam este para Villa +Franca, e deitam abaixo a constituição. Mas o que a fez caír não foram +elles, foram os passos dos soldados francezes que já a essas horas +andavam por Hespanha. + +Entretanto o Brazil, onde ficára governando o principe D. Pedro, que era +o filho mais velho do rei, fazia-se independente. Antes d'elle tinham +feito o mesmo as colonias visinhas que pertenciam á Hespanha, e +cincoenta annos antes as que pertenciam á Inglaterra. No Brazil já +houvera duas tentativas de revolta, e ambas tinham sido afogadas em +sangue, uma em 1789, outra em 1817. A final venceram. Accusam muito D. +Pedro de se ter feito imperador do Brazil, e de se haver revoltado +contra seu pae. Elle não se revoltou, mas só podia fazer uma de duas +cousas, ou ir com os brazileiros, ou pôr-se no andar da rua. Então esses +figurões imaginavam que um paiz rico, grande e forte, está agora para +receber ordens de outro mais pequeno, ou maior que elle seja, e que fica +de mais a mais do outro lado do mar? Ora, historias da vida! e não se +queixem d'isso. É ordem das cousas. As colonias são como os filhos. A +gente educa-os, trata-os, deixa-os ir crescendo. Quando são maiores +emancipam-se. E ninguem tem que estranhar. Foi o que aconteceu com o +Brazil. Estava maior, emancipou-se. Perdemos o Brazil em 1825, em 1826 +morreu D. João VI. Os seus ultimos dias foram amargurados. Tivera guerra +com o filho mais velho que se revoltára com o Brazil; estivera para ser +desthronado pelo filho mais novo, D. Miguel, que o chegára a prender na +Bemposta, e que elle depois tivera que mandar para fóra do reino; a +mulher, D. Carlota Joaquina, que estava sempre ás turras com elle, nunca +lhe déra senão desgostos. Falleceu ralado o pobre do rei, que era uma +excellente pessoa, amigo de tomar o seu rapé com socego, e que para sua +desgraça governára no tempo da revolução franceza, no tempo de +Napoleão, e no tempo da revolução de 1820. E ha de a gente acreditar no +rifão: Dá Deus o frio conforme a roupa. + +E, como eu tambem estou com frio, rapazes, vou até casa á procura de +roupa, e no proximo domingo acabaremos com isto. + + + + +DECIMO SERÃO + +Historia contemporanea.--D. Pedro IV.--A Carta Constitucional.--Regencia +da infanta D. Izabel Maria.--D. Miguel, rei absoluto.--Sublevação do +Porto.--Emigração.--A ilha Terceira.--O conde de Villa +Flor.--Perseguição aos liberaes.--A esquadra franceza no Tejo.--D. Pedro +IV põe-se á frente dos liberaes.--Desembarque no Mindello.--Cêrco do +Porto.--Expedição do Algarve.--Batalha do Cabo de S. Vicente.--Entrada +das tropas do duque da Terceira em Lisboa, a 24 de julho.--Cêrco de +Lisboa.--Batalhas de Asseiceira e Almoster.--Convenção de Evora +Monte.--Reinado de D. Maria II.--Revolução de Setembro.--Constituição de +1838.--Restauração da Carta.--A Maria da Fonte.--A Junta do Porto.--A +intervenção estrangeira.--A Regeneração.--Reinado de D. Pedro V.--A +febre amarella.--Reinado de D. Luiz.--Conclusão. + + +--Vocês percebem, meus amigos, principiou o João da Agualva, que, tendo +de lhes contar agora acontecimentos em que tomou parte muita gente que +ainda está viva e sã, e não querendo offender ninguem, não posso estar +com muitas reflexões. Quem succedeu a D. João VI foi D. Pedro IV, já +então imperador do Brazil. Este, que era um principe que percebia as +cousas, vio bem que o nosso tempo já não era tempo para +absolutismos, e antes quiz dar elle uma constituição do que ir o povo +arrancar-lh'a. Mandou portanto para Portugal a Carta, dizendo ao mesmo +tempo que abdicava em sua filha D. Maria, a qual havia de casar com seu +tio o infante D. Miguel, e, emquanto D. Miguel não voltava para +Portugal, nomeou regente a infanta D. Izabel Maria, que vocês haviam de +conhecer muito bem. + +--Ora se conhecemos! morava ali em Bemfica! + +--Tal qual! morreu ha cousa de tres ou quatro annos. A Carta +Constitucional ficou sendo lei do reino, apezar de algumas revoltas, mas +o infante D. Miguel, apenas chegou a Lisboa em 1828, fecha as côrtes, +atira com a Carta de pernas ao ar e faz-se proclamar rei absoluto. A +guarnição do Porto não está pelos ajustes, e revolta-se, mas tem de +fugir para Hespanha. Tudo o que eram liberaes, e que poderam safar-se, +emigraram uns para França, outros para Inglaterra. Mas o que é certo é +que o povo todo estava com D. Miguel. Porque? Como póde haver um povo +que não goste de liberdade? Vão lá explical-o! Os padres e os frades +estavam quasi todos ao lado de D. Miguel, e levavam comsigo muita gente. + +Mas a ilha Terceira não esteve pelos autos, e não acceitou o +absolutismo. Apenas isso constou, correram os emigrados para essa ilha, +o conde de Villa Flor tomou conta do governo, e ali resistio ás +esquadras de D. Miguel. Este, entretanto, com o devido respeito, +fazia tolices graúdas, e a maior era perseguir os liberaes a ferro e +fogo. A forca estava sempre armada, as prisões sempre atulhadas, e os +caceteiros não deixavam ninguem socegado. Isto de fazer martyres é o +diabo. Para a arvore da liberdade não ha rega como o sangue dos seus +filhos. + +Ora, além d'isso, emquanto o governo francez se mostrava pouco amigo da +liberdade, tinha D. Miguel as sympathias da França, mas depois da +revolução de 1830 aconteceu o contrario. O governo de D. Miguel caíu na +asneira de perseguir uns francezes. D'ahi resultou vir uma esquadra +franceza ao Tejo e levar os navios que ahi estavam. Ao mesmo tempo D. +Pedro, que tivera os seus dares e tomares com os brazileiros, abdicou a +corôa imperial do Brazil, e veio tomar o commando dos defensores de sua +filha. Põe-se á frente d'elles, que não eram muitos, eram 7:500, +desembarca no Mindello a 8 de julho de 1832, mette-se no Porto, e ahi +resiste mais de um anno aos soldados de D. Miguel, que eram muito +valentes, mas mal commandados. Envia ao Algarve em 1833 meia duzia de +gatos, debaixo das ordens do conde de Villa Flor, já então duque da +Terceira, n'uma pequena esquadra, que primeiro fôra commandada por um +inglez chamado Sertorius, que ainda vive, e que o estava sendo por outro +inglez chamado Napier. Este desembarca o duque da Terceira no +Algarve; depois vae-se á esquadra miguelista e derrota-a no cabo de S. +Vicente. O duque da Terceira marcha sobre Lisboa, bate na cova da +Piedade os miguelistas, commandados pelo Telles Jordão, que tinha sido +um tyranno para os presos liberaes, e que ali morreu, e entrou em Lisboa +no dia 24 de julho de 1833. D. Pedro vem para Lisboa que os miguelistas +cercam. Elle e os seus dois marechaes, duques da Terceira e de Saldanha, +obrigam os miguelistas a retirar para Santarem. Depois o duque de +Saldanha por um lado bate os miguelistas em Almoster, o duque da +Terceira por outro bate-os na Asseiceira, e D. Miguel assigna a 25 de +maio de 1834 a convenção de Evora Monte, pela qual o seu exercito +depunha as armas, e elle abandonava Portugal. Como se esperasse +unicamente o fim da sua empreza para terminar tambem a sua vida, D. +Pedro IV veiu aqui morrer a Queluz no dia 24 de setembro de 1834. Podem +para ahi pensar d'elle o que quizerem, meus amigos, mas o homem que, +tendo nascido no throno, passou a sua vida a regeitar corôas, e a +combater, como um soldado valente, pela liberdade dos povos, merece bem +as tres estatuas que no Porto, em Lisboa e no Rio de Janeiro, mostram +que, ao menos depois da sua morte, não foram ingratos com elle os +portuguezes e os brazileiros. + +Succedia-lhe a senhora D. Maria II, que viveu bem pouco tempo, e +teve uma vida bem atormentada. Logo em 1836 um partido, que queria mais +liberdades que as da Carta fez a revolução de setembro, e em 1838 veiu +uma nova constituição. Contra ella se fazem muitas revoltas, até que em +janeiro de 1842 Costa Cabral, depois conde de Thomar, deita abaixo a +constituição de 1838, e põe outra vez a Carta de pé. Governou elle muito +tempo, mas, diga-se a verdade, um poucochinho á bruta. D'ahi vieram mais +revoluções, e a maior de todas que foi a da Maria da Fonte, em 1846, em +que metade do reino obedecia á Junta do Porto, e a outra metade ao +governo nomeado pela rainha. Batidos em Val-Passos, em Torres Vedras, e +no Alto do Viso, os _patuléas_, como se chamava aos partidarios da +junta, são obrigados a depor as armas pelos inglezes e pelos hespanhoes +que mandaram uns uma esquadra, os outros um exercito para restabelecerem +aqui o socego. Mas no fundo estava tudo em braza, e quando em 1851 o +duque de Saldanha se levantou contra o conde, hoje marquez de Thomar, +foi tudo atraz d'elle. Reuniram-se côrtes que introduziram umas mudanças +na Carta, e d'ahi por diante nunca mais houve revoltas de consideração. +Pegaram os governos a fazer estradas e caminhos de ferro, e lá de +partidos é que eu não entendo. Em 1853 morria a senhora D. Maria II, +considerada por todos como uma santa senhora, e uma santa mãe, e +succedeu-lhe seu filho, o senhor D. Pedro V, sendo regente nos +primeiros dois annos o senhor D. Fernando que vocês todos conhecem. O +sr. D. Pedro V era uma joia, como sabem. Quando em 1857 veio a febre +amarella a Lisboa, andou elle pelos hospitaes, a consolar os doentes, e +a dar coragem e exemplo a todos. Tambem quando em 1859 morreu a boa +rainha Estephania, sua mulher não houve portuguez que a não chorasse com +elle, e quando em 1861 morreu elle tambem quasi de repente, com os seus +dois irmãos, o senhor D. Fernando e o senhor D. João, a dôr do povo foi +tamanha que chegou a haver tumultos, porque até se desconfiava que +aquillo não fosse natural. Subio ao throno o senhor D. Luiz que hoje +reina, e aqui portanto acaba a historia. Sempre direi, com tudo, que não +são muitos os paizes por esse mundo onde os povos ainda hoje chorem +pelos reis, e que isso vem de serem os nossos tão amigos da liberdade +como são e tem sido, graças a Deus. E aqui, meus amigos, acabo a minha +tarefa; o que eu desejo, rapazes, é que vocês achem que não os massou +muito o pobre do João da Agualva, e que entendam que empregaram melhor o +seu tempo a ouvir as minhas historias, do que a beber decilitros na +taverna do Funileiro. + +FIM + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Historia alegre de Portugal, by +Manuel Pinheiro Chagas + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA ALEGRE DE PORTUGAL *** + +***** This file should be named 29394-8.txt or 29394-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/9/3/9/29394/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. |
