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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:48:09 -0700
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+<head>
+ <title>A Neta do Arcediago, por Camilo Castelo Branco</title>
+ <meta name="Author" content="Camilo Castelo Branco">
+ <meta name="Publisher" content="Cruz Coutinho--Editor">
+ <meta name="Date" content="1860">
+ <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15">
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+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of A Neta do Arcediago, by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Neta do Arcediago
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: August 20, 2009 [EBook #29740]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A NETA DO ARCEDIAGO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div class="rodape">
+<h3>Notas de transcrição:</h3>
+<p>No livro impresso a partir do qual foi feita esta transcrição, existia um grave erro de impressão na página 179, no parágrafo que começa com a frase: "Não obstante a escaramuça, a cohorte estendia por longe o terror." Este erro de impressão tornava ilegível o parágrafo, pelo que foi corrigido de acordo com uma edição das obras completas de Camilo de 1984.</p>
+
+<p>Foram ainda encontrados diversos erros de impressão, que por não terem qualquer impacto na interpretação do texto, foram corrigidos sem qualquer nota.</p>
+</div>
+
+
+<div style="text-align: center">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p style="font-size: 2em;">A NETA DO ARCEDIAGO.</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{2}</span> <span class="pn">{3}</span></p>
+
+<div style="border: solid 3px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 2.5em;">A NETA DO ARCEDIAGO.</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">CAMILLO CASTELLO-BRANCO.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">SEGUNDA EDIÇÃO.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>PORTO,<br>
+EM CASA DE CRUZ COUTINHO&mdash;EDITOR,<br>
+<small>Rua dos Caldeireiros, n.<sup>os</sup> 18 e 20.<br></small>
+1860.<span class="pn">{4}</span></p>
+
+<p>PORTO: 1860&mdash;TYP. DE SEBASTIÃO JOSÉ PEREIRA,<br>
+Rua do Almada, 641.<span class="pn">{5}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+<div id="corpo">
+<h1><a name="SECTION00100">A NETA DO ARCEDIAGO.</a></h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00110">I.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00111">UM BERÇO BORRIFADO DE SANGUE.</a></h2>
+
+<p>Convém, primeiro, saber quem é este cavalheiro, que salta garbosamente d'uma
+carruagem com uma dama vestida de branco, defronte do theatro de S. Carlos, em
+Lisboa, em uma noite de fevereiro de 1838.</p>
+
+<p>Por não apurar impaciencias, diga-se tudo já. Este cavalheiro é Luiz da
+Cunha e Faro. Aquella dama é... Nem tanta bondade! Não se póde dizer, por ora,
+quem é a dama. Se o leitor é esperto, como supponho, ha de adivinhal-a logo, e,
+de certo, fica muito contente da sua penetração.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha e Faro tem vinte e cinco annos. É um homem feio, segundo a
+opinião masculina, que se acha em harmonia com a sua. Não era esta, porém, a
+opinião das mulheres. Algumas que por capricho, em publico, o desdenhavam como
+feio, desmentiam-se em particular... Não digo que fossem todas; mas tambem não
+é preciso o suffragio de todas para a reputação d'um homem feio.</p>
+
+<p>A que chamam v. ex.<sup>as</sup> feio? Feio é o demonio, dizia minha avó.
+São e escorreito é o essencial&mdash;dizem as velhas, quando as illusões da
+formosura não tem nada a fazer com ellas, nem, por isso mesmo, ellas teem
+direito a optar entre o feio e o bonito.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha era trigueiro; tinha a pelle bronzeada da cara pegada aos
+ossos, que lhe sahiam, principalmente<span class="pn">{6}</span> os malares, em
+proeminencias cadavericas. Os bordos das orbitas muito salientes contribuiam
+muito para que o brilho dos olhos negros e grandes luzisse mais na escuridade
+das cavernas, debroadas sempre d'um annel bastante escuro para destacar da côr
+geral de azeitona. O nariz era notavel pela ausencia total do cavalete. A bôca
+não se lhe via, coberta pelo bigode espêsso, que se não encaracolava nas guias,
+e cahia em luzentes recurvas sobre ambos os labios. Ora aqui está o que é um
+homem feio.</p>
+
+<p>Perguntava muita gente a razão physiologica da côr africana de Luiz, tão
+diversa da alvura ingleza de seu pae João da Cunha e Faro, que, por esse
+tempo, contava quarenta e cinco annos, e passava ainda por um dos bellos homens
+de Lisboa.</p>
+
+<p>Pouca gente respondia physiologicamente a tal reparo, porque muito pouca
+sabia que Luiz da Cunha era filho d'uma mulata.</p>
+
+<p>Agora é que ninguem poderá allegar ignorancia. Eu tenho a honra de responder
+á curiosidade, que foi longo tempo a mortificação de pessoas muito sizudas.</p>
+
+<p>Sabia-se geralmente que o nascimento de Luiz fôra uma das multiplicadas
+aventuras amorosas do fidalgo, seu pae; mas a outra metade productora, o
+complemento da machina, em que o mysterioso artefacto se fabricára, isso é que
+os amigos intimos de João da Cunha e Faro ignoravam.</p>
+
+<p>O leitor não perderia muito ignorando tambem. Ainda assim, se não quizerem
+passar ao capitulo segundo, tambem nada perdem, e ficam sabendo tanto como eu.</p>
+
+<p>João da Cunha frequentára a universidade de Coimbra, quando era mania dos
+fidalgos deixarem medrar seus filhos na seva opulenta d'uma fidalga estupidez.
+Em quanto seu irmão mais velho estudava veterinaria para se não deixar enganar
+em compras de cavallos, João da Cunha estudava mathematicas para se distinguir
+na carreira militar.</p>
+
+<p>Cursava o segundo anno, com admiravel aproveitamento, quando chegou a
+Coimbra um moço brazileiro, filho de portuguez, casado com uma mulata, filha
+d'um rico fazendeiro de café, e fabulosamente rica, segundo era fama.</p>
+
+<p>A intenção do brazileiro era formar-se em naturaes<span
+class="pn">{7}</span> para scientificamente explorar os vastos terrenos do
+Mexico, onde seu sogro desenterrára o mais grosso do seu cabedal.</p>
+
+<p>E, com effeito, matriculou-se, ao mesmo tempo que sua mulher, desejosa de
+cultivar o espirito, recebia em casa lições de francez, e inglez.</p>
+
+<p>Ricarda chamava-se ella. Não lhes quero dizer que era bonita, porque receio
+que zombem da minha franca ingenuidade; porém, não chegue este capitulo ao fim,
+converta-se-me esta penna em sovela, se eu não gostasse da senhora D. Ricarda,
+e a não amasse com o delirio de João da Cunha.</p>
+
+<p>Pois elle ousou?... Ousou... Miserias inherentes ao peccado original! O
+primeiro homem cahiu, e bem forte devia ser esse primeiro homem, sahido das
+mãos do Creador, com toda a substancia e rigidez d'uma obra perfeita, com todas
+as harmonias e segredos para desmanchar o sortilegio da tentação!... Como não
+cahiria o academico, degenerado pelas fraquezas de tantas gerações que vieram
+até elle, desde o Eden?</p>
+
+<p>Que tinha, pois, Ricarda de seductora?</p>
+
+<p>O que ella tinha! Sabem o que é ter um coração de lume, lume que não se
+esconde, em quanto ha olhos que o dardejem em lavaredas electricas? Sabem o que
+é o nervo optico, ferido d'esse galvanismo da alma, que se lhe côa nas fibras,
+que se communica aos musculos, que se injecta na pupilla vertiginosa, que se
+lança fóra do corpo em scintillas contagiosas, até vos pegar uma febre, que se
+não cura com a quina? Sabem o que é a voluptuosidade da mulher dos tropicos?
+Não crêem que o sol, a prumo, se infiltra n'ella, e a queima desde os quatorze
+annos, com uma sêde insaciavel de gosos ternos, morbidos, e elanguescidos como
+a requebrada cantilena d'uma carioca?</p>
+
+<p>Ricarda, além de tudo isto, tinha cousas de encantar. Dizia uma cousa
+singela com tantos artificios de graça, de meiguice, e de cansaço, que mais
+valiam as simples palavras d'ella, que os beijos mais suavemente chilreados de
+uma europêa. As perolas, que tão lindo lhe faziam o sorriso brando, raro se
+mostravam, porque, se os olhos diziam tudo, o sorriso não lhe vinha auxiliar os
+gestos. E a flexibilidade das fórmas? Que donaire, que gentileza,<span
+class="pn">{8}</span> que perfeição de estudo, ou que naturalidade tão
+caprichosa em enriquecêl-a!</p>
+
+<p>Bem haja, pois, João da Cunha, que adorou a omnipotencia do Creador, sem
+perguntar ao abbade de Salamonde a gravidade da culpa, adorando a mulher do seu
+proximo, de mais a mais, seu contemporaneo. Bem haja, digo eu meio resolvido a
+rasgar este periodo, se o leitor, por uma sobrenatural revelação, me não diz
+que bem póde ser que o academico não esteja condemnado pela mesma razão que
+Magdalena foi salva. Amar muito! Sem esta virtude, Deus sabe se a acta das
+santas nos faria menção da dedicada galilea!...</p>
+
+<p>Não quero inculcar a santidade de João da Cunha. Creio até que o homem nunca
+se lembrou d'estas honras posthumas, e a universidade, com quanto produza
+grandes doutores para a mitra, ainda não deu um para a igreja. O mathematico
+era capaz de renunciar á canonisação se lhe pedissem a troco o sacrificio de
+abjurar o amor, que o trazia tão longe da sciencia, e tão avêsso ás obrigações
+academicas, que, antes de Paschoa, tinha perdido o anno por faltas, e dissera
+incriveis disparates em duas lições, que o desacreditaram.</p>
+
+<p>João da Cunha soubera insinuar-se na confiança do brazileiro. Era sua visita
+em vespera de feriado. Fallava francez com Ricarda, e solvia, em mathematica,
+as difficuldades que o obtuso marido não vencia.</p>
+
+<p>Seria impertinencia alongar de sobejo este episodio, que não vem ao
+essencial da nossa historia. O leitor, amigo da concisão, quer que eu lhe diga
+se aquella mulher de fogo se conservou incombustivel, como o amiantho, na
+presença do estudante. Não, senhores. Fosse pelo que fosse, a brazileira parece
+que não tinha ideias muito claras a respeito dos deveres conjugaes. Seu marido,
+allucinado pela sciencia, retirou-se cá de baixo para tão alto que não podia
+vêr a terra onde sua mulher vacillava ao pé de um abysmo. Acordou, uma manhã
+scismando n'um <em>x</em>, que o fizera adormecer ás duas horas. Chamou sua
+mulher, que o costumava saudar em francez do quarto proximo. D'esta vez não
+ouviu lingua alguma das que se entendem no globo. Entrou no quarto para
+contemplal-a no somno feliz de quem não estuda mathematica. Achou um leito<span
+class="pn">{9}</span> vazio. Correu a casa toda, chamando-a, com sobresalto,
+que não era ainda o da certeza. Nem a criada encontrou! Volveu ao quarto de
+Ricarda. Reparou que sobre a commoda não estava um cofre de marfim. Era o
+adereço de Ricarda: os seus brilhantes que valiam uma fortuna; os mais ricos
+diamantes que deram as Minas Geraes; as melhores pedras do Novo-mundo, o valor
+de quatro dotes opulentos!</p>
+
+<p>Desde esse dia, o brazileiro não tornou ás aulas. Sabe-se que foi curado
+d'uma congestão cerebral. Viram-no, dous mezes depois, sahir de Coimbra, sem
+estender a mão aos amigos, compadecidos do seu infortunio. Passára por entre
+elles sem os vêr. Reputaram-no doudo, e vingaram inutilmente a affronta que o
+enlouquecêra, execrando o infame João da Cunha que lhe roubára sua mulher.</p>
+
+<p>Mas, um dia, dez mezes depois, passára o brazileiro na rua do Ouro, em
+Lisboa, e vira n'uma taboleta de ourives um annel com uma esmeralda, cravejada
+entre doze brilhantes.</p>
+
+<p>&mdash;Quanto pede por este annel?&mdash;perguntou elle.</p>
+
+<p>&mdash;Dous contos de reis.</p>
+
+<p>&mdash;Comprou as pedras separadas, ou o annel?</p>
+
+<p>&mdash;Comprei o annel.</p>
+
+<p>&mdash;Ha muito tempo?</p>
+
+<p>&mdash;Ha dous mezes.</p>
+
+<p>&mdash;O vendedor era portuguez?</p>
+
+<p>&mdash;Creio que sim.</p>
+
+<p>&mdash;Garantiu-lhe a legitima venda de que era seu? Creio que me não entende...
+Tem a certeza de que este annel não fosse um roubo?</p>
+
+<p>&mdash;O cavalheiro que m'o vendeu é um fidalgo.</p>
+
+<p>&mdash;Conhece-o?</p>
+
+<p>&mdash;Conheço, sim...</p>
+
+<p>&mdash;Desculpe estas perguntas, porque eu quero comprar o annel, e não o faria
+sem a certeza de que ámanhã me fizessem as perguntas que eu lhe fiz.</p>
+
+<p>Pouco depois, o ourives recebia dous contos de reis por um annel que
+comprára por cincoenta moedas. Contente da veniaga, esquecêra-se da reserva que
+lhe fôra pedida, quando o comprou, a respeito do vendedor. A alegria fizera-o
+indiscreto e expansivo. Dous contos de reis<span class="pn">{10}</span> era
+dinheiro para trinta Judas, e demais o ourives não sabia o valor do segredo.</p>
+
+<p>&mdash;Visto que me comprou o annel, vou dizer-lhe quem m'o vendeu; mas v. s.ª
+guarde segredo, não porque seja um furto; mas porque é um melindre. Este annel
+foi-me vendido por um dos primeiros fidalgos de Lisboa; mas o homem pediu o
+segredo do seu nome, para que o não julguem em más circumstancias. A v. s.ª
+posso dizer-lhe o nome...</p>
+
+<p>&mdash;De certo póde, mesmo porque eu estou em vesperas de embarcar para o
+Brazil, que é o meu paiz.</p>
+
+<p>&mdash;Lá me pareceu logo que v. s.ª era brazileiro... Por cá não ha quem dê
+assim dinheiro por uma obra de gosto... Pois, senhor, o ex-possuidor d'este
+annel foi Antonio da Cunha e Faro, e quem aqui m'o vendeu, com ordem sua, foi
+seu filho João.</p>
+
+<p>&mdash;Penso que conheci em Coimbra esse cavalheiro&mdash;disse com mal fingida
+serenidade o marido de Ricarda.</p>
+
+<p>&mdash;Póde ser, porque segundo ouvi dizer, o tal senhor João da Cunha estuda em
+Coimbra.</p>
+
+<p>&mdash;Pensei que esse sugeito não estava em Lisboa.</p>
+
+<p>&mdash;Ha quinze dias de certo estava; se quer fallar com elle para ir seguro do
+que lhe digo, ainda que eu lhe prometti de não dizer quem me vendeu o annel,
+póde v. s.ª procural-o em casa de seu pae no Campo Grande.</p>
+
+<p>&mdash;Não duvido da sua palavra.</p>
+
+<p>O brazileiro passou a noite d'esse dia encostado ás arvores fronteiras do
+palacete de Antonio da Cunha. De madrugada vira entrar um embuçado, que se lhe
+afigurou João da Cunha. Ao escurecer d'esse dia viu sahir o mesmo vulto
+suspeito, e seguiu-o. No Campo Pequeno viu-o entrar numa sege de praça, que
+desappareceu pela estrada transversal.</p>
+
+<p>Na noite immediata, a pouca distancia da sege, que esperava João da Cunha,
+estava um cavalleiro encoberto pelo muro da quinta do conde das Galveas. A sege
+partiu e o cavalleiro seguiu-a de longe, para que o tropel do cavallo se não
+tornasse suspeito.</p>
+
+<p>A meia legua, na azinhaga de Campolide, parou a sege. João da Cunha entrou
+n'um largo portão, que se abriu no momento em que elle apeava. Caminhou por
+debaixo de<span class="pn">{11}</span> uma extensa parreira, que formava uma
+fresca abobada de folhagem á entrada da casinha campestre, em que morava
+Ricarda.</p>
+
+<p>O brazileiro de certo não viu a casinha, porque o portão fechára-se nas
+costas de João da Cunha. O boleeiro entrára com a sege n'uma cavalhariça a
+cincoenta passos distante do portão. O marido de Ricarda adquirira aquella
+imperturbavel paciencia, que vem depois dos frenezis da vingança. Quasi um anno
+de meditação e estudo na desforra, que mais convinha á sua honra, era sobeja
+reflexão para não perder com uma imprudencia a victoria que, tão depressa, lhe
+deparára o acaso do annel.</p>
+
+<p>Retrocedeu para Lisboa.</p>
+
+<p>No dia seguinte passou, a pé, defronte do portão onde entrára João da Cunha.
+Estava fechado. Circuitou o baixo muro que marcava a pequena quinta. Trepou no
+lanço que lhe pareceu mais accessivel. Não viu alguem. As janellas da casa, á
+hora do calor, estavam fechadas com persianas verdes interiormente corridas.
+Desceu para subir outra vez ao muro que fechava a quinta na parte mais remota
+da casa. Saltou dentro. Os cães de fila acorrentados ladraram; mas o aviso não
+inquietou ninguem.</p>
+
+<p>O brazileiro embrenhou-se n'um caramanchão, enxugando o suor que lhe
+empastava a camiza. Permaneceu ahi cinco horas.</p>
+
+<p>Ás nove ouviu o rodar da sege; ouviu ranger os gonzos do portão; ouviu
+abrir-se, mais perto, a porta e janellas como se até alli não vivesse ninguem
+n'aquella casa, cujo aspecto risonho bem poderia ser mentiroso.</p>
+
+<p>Minutos depois ouviu passos distantes, que faziam rumorejar a folhagem. E
+estes passos eram cada vez mais proximos. Viu dous vultos. Eram já distinctas
+as suas palavras:</p>
+
+<p>&mdash;E quando partiremos, João?&mdash;perguntava Ricarda.</p>
+
+<p>&mdash;Logo que eu te veja convalescida de modo que possamos viajar sem perigo.</p>
+
+<p>&mdash;Pois eu não estou boa?</p>
+
+<p>&mdash;Ainda não. Faz ainda ámanhã um mez que soffreste muito... para fazeres
+completa a minha felicidade... Um filho teu, Ricarda!...&mdash;O brazileiro ouviu o
+ciciar tremulo d'um beijo.<span class="pn">{12}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mas que podemos recear agora? Vamos embora de Portugal. Consegui que vá
+comnosco a ama de leite do nosso Luizinho. Não nos falta nada... Olha, João, eu
+não posso assim viver tão fugida do mundo. Não temos necessidade d'isto. Se
+queres que eu assim viva, obrigas-me a crêr que eu pratiquei um grande crime,
+pelo qual devo ser proscripta da vida.</p>
+
+<p>&mdash;E não vivo eu tambem proscripto da sociedade, para viver comtigo só?</p>
+
+<p>&mdash;Não ha comparação. De dia vives com os teus, de noite comigo. Eu queria
+que tu viesses aqui passar sósinho, com o coração cheio de saudades, as horas
+aborrecidas d'estes longos dias... Vive sempre ao pé de mim, João, e eu viverei
+contente em toda a parte.</p>
+
+<p>&mdash;Pois partiremos, minha filha. Mas é necessario fugir, porque meu pae de
+certo me não deixa sahir de Portugal. A morte de meu irmão morgado veio tolher
+o meu futuro. Meu pae quer entregar-me a administração da casa que me pertence,
+e eu, habituado a obedecer-lhe desde creança, acho-me prêso de braços quando é
+preciso ser mau filho...</p>
+
+<p>&mdash;Ser mau filho!...&mdash;atalhou Ricarda com resentimento.&mdash;Antes ser mau com a
+pobre mulher que não sentiu os braços prêsos para ser má esposa... não é assim?</p>
+
+<p>João da Cunha sentára-se no banco de pedra fronteiro ao caramanchão, em que
+o brazileiro retrahia o halito para não perder uma palavra, em quanto a longa
+distancia lhe não permittisse uma pontaria infallivel de pistolas que lhe
+oscillavam nas mãos convulsas.</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me que estás cançado de mim...&mdash;continuou Ricarda, offendida pelo
+silencio de João á ultima pergunta, que lhe custára a ella uma dôr de coração,
+um desgosto amargo do seu amor proprio.</p>
+
+<p>&mdash;Cançado de ti... Não, Ricarda... O amor não se cança assim. Não tenho
+tido, desde o primeiro dia em que me viste, uma pequena desigualdade comtigo.
+Tudo o que te prometti foi pouco para o grande sacrificio que me fizeste; mas,
+se te não dou mais, é porque mais não póde dar o coração. Podésses tu ser minha
+esposa... podésse eu convencer-te...</p>
+
+<p>&mdash;De que me amas? Não é assim que se convence<span class="pn">{13}</span>
+uma mulher... O que eu quero é a tua alma... Não me lembrou nunca ser tua
+mulher, como se diz da que se dá por obrigação de casamento, para ser assim
+mais feliz... Não fallemos n'isto... Essa palavra esteve para ser a minha
+morte... não poderá nunca trazer-me felicidade. Ainda que eu hoje fosse viuva,
+não quereria ser tua mulher, João.</p>
+
+<p>&mdash;Porque?!</p>
+
+<p>&mdash;Porque me obrigarias um dia a ser criminosa, como fui...</p>
+
+<p>&mdash;De que modo te obrigaria eu a seres criminosa?!</p>
+
+<p>&mdash;Considerando-me apenas uma companheira de casa, a quem não é obrigação
+fazer carinhos, porque a mulher casada é uma posse sem disputa, é uma roseira
+que dá uma flôr, e sécca para nunca mais reverdecer... Eu sei que fui muito
+amada, muito estremecida por...</p>
+
+<p>&mdash;Por teu marido...</p>
+
+<p>&mdash;Sim... mas, dous mezes... e, ao cabo de dous annos, esse homem dava-me a
+importancia que se dá a um socio d'uma casa commercial, e dizia-me que não vira
+ainda as suas lições, quando eu me sentava ao seu lado com receio de ser
+grosseiramente despresada com o seu silencio. Todas as tuas qualidades pessoaes
+me não fariam impressão nenhuma, João, se aquelle homem me soubesse ao menos
+mentir.</p>
+
+<p>&mdash;Foi preciso que elle te despresasse para eu te possuir o coração.</p>
+
+<p>&mdash;Foi... Pois tu crês que a mulher se degrada por prazer, sem que a
+violentem a isso?! Quem faz a mulher desgraçada e despresivel na sua desgraça é
+o homem. Tenho pensado muito no que fui para explicar o que sou...</p>
+
+<p>&mdash;E, se elle te amasse hoje, Ricarda?</p>
+
+<p>&mdash;Se me amasse hoje, despresal-o-ía, porque não poderia amar outro homem,
+depois que te conheço.</p>
+
+<p>&mdash;E se eu te despresasse?</p>
+
+<p>&mdash;Se me despresasses, morreria, matava-me.</p>
+
+<p>&mdash;Não morrerás, minha filha...</p>
+
+<p>João da Cunha abraçou-a com vehemente transporte. Colou-lhe os labios
+ardentes no collo de encantadora nudez, sorvendo-o em beijos deleitosos. Ella
+deixou-se inclinar para o seio d'elle, como desmaiada em ebriedade de
+ternos<span class="pn">{14}</span> deliquios. Toda esmorecida e alquebrada, os
+proprios olhos, sempre fogo, pareciam apagar-se, para que a morbidez das
+palpebras, pendendo amortecidas, dissessem ao sequioso amante que aquelles
+olhos se fechavam para não verem o passado, e deixavam ao coração, estreme de
+remorsos, o goso das delicias do momento.</p>
+
+<p>O marido de Ricarda deu um passo para distinguir os vultos entre as frondes
+da amoreira. O prazer devêra têl-os aturdidos para não ouvirem esse passo, e
+dous que se seguiram. Aquelles braços não se desenlaçavam. O extasis poderia
+ser apenas um extasis de dous amantes que se perdem nas altas regiões do puro
+espirito; mas o brazileiro, na sua phantasia allucinada, imaginou um crime, que
+deveria deixar-lhe a elle um remorso eterno, se o não interrompesse com a
+morte.</p>
+
+<p>Duas balas voaram de duas pistolas. Ouviu-se um grito. Ricarda levára a mão
+ao seio. João da Cunha corrêra atraz d'um vulto que rompia a direito as murtas
+do caramanchão em precipitada fuga. Mas, já perto do assassino, sentiu uma dôr
+agudissima no hombro direito e esvahimentos de cabeça.</p>
+
+<p>A este tempo, o brazileiro era preza de dous enormes cães, que o filaram no
+momento que elle lançava a mão a uma viga da parreira por onde descêra. Os cães
+laceravam-no, saltando-lhe ao peito. O indefeso moço arremessára as pistolas
+inutilmente aos cães, que redobravam de furor.</p>
+
+<p>Os criados de João da Cunha, ouvindo os tiros, correram na direcção.
+Encontraram o cadaver de Ricarda, e alguns passos distante, seu amo que dizia
+em voz desfallecida: «matem esse assassino, que me matou.» Correram onde latiam
+os cães. Viram um homem encostado ao muro defendendo-se dos saltos d'elles com
+as pernas, que retiravam sempre cravejadas por uma nova dentada. Não seria
+preciso o braço d'outro assassino, se a lucta se demorasse entre as feras e o
+brazileiro quasi morto de cansaço, e derramamento de sangue. A missão dos cães
+acabou quando principiou a dos homens. Duas choupadas no peito abriram mais
+larga fenda ao sangue. Mataram-no sem resistencia.<span class="pn">{15}</span></p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Eu esbocei com repugnancia este quadro. Será demasiada fidelidade dizer-vos
+que a sepultura do brazileiro foi os oito palmos de terra, onde cahiu morto?
+Ainda bem que os cães o não devoraram a pedaços como um passatempo durante a
+noite. Ricarda foi enterrada no cemiterio, de noite, de combinação com o
+parocho. Os criados conduziram á sege João da Cunha, que não quiz retirar-se
+sem reconhecer o assassino.</p>
+
+<p>Dizem que beijára as faces mortas de Ricarda, e derramára algumas lagrimas,
+que lhe fazem muita honra.</p>
+
+<p>A sege que o conduziu, tornou a Campolide para transportar ao palacete do
+Campo-Grande um menino d'um mez nos braços da ama.</p>
+
+<p>João da Cunha beijando o neto que seu filho lhe entregava, na supposição de
+que o ferimento era mortal, dizia lá comsigo:</p>
+
+<p>&mdash;Parece filho de mulata! Bem me disseram a mim de Coimbra que meu filho
+fugira com uma!</p>
+
+<p>João da Cunha foi curado em poucos dias. A bala quebrára-lhe a clavicula
+direita e sahira sem ferir algum vaso importante. O enfermo deixou-se tratar, e
+não consta que tentasse romper o apparelho para se escoar de sangue.</p>
+
+<p>&mdash;Queria viver para o seu filho.&mdash;É como elle explicava o desejo da vida.</p>
+
+<p>Isto passou-se em 1813; e o romance começa em 1838.</p>
+
+<p>Já sabem que o filho de Ricarda é Luiz da Cunha e Faro, que apeou á porta do
+theatro de S. Carlos.<span class="pn">{16}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00120">II.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00121">O FRUCTO DA SEMENTE AMALDIÇOADA.</a></h2>
+
+<p>João da Cunha era, pouco mais ou menos, o que são todos os homens. O seu
+coração, viuvo do amor de Ricarda, vestiu lucto um anno. O choque fôra muito
+forte, para que a mais robusta organisação se não resentisse, longo tempo. A
+convivencia, com homens que não conheciam os precedentes da sua mysantropia,
+não a procurava. Vivia só, com seu pae, e com seu filho. Recordava a ephemera
+felicidade de alguns dias, rematados por uma hora de sangue. Ora, estas
+recordações, por que foram muito repetidas, pouco a pouco enfraqueceram, e o
+coração familiarisou-se com ellas. O que primeiro fôra terror, veio, depois de
+um anno, á brandura das reminiscencias que não mortificam, porque o tempo é o
+principio gerador de imagens novas que desfazem sempre as impressões das
+velhas. O ferro abre profundos sulcos no cortix da arvore: depois, as fibras da
+camada, vigorosa de nova seiva, passam por cima, e deixam como signal uma
+cizura imperceptivel.</p>
+
+<p>Dous annos depois da catastrophe, João da Cunha não fugia das aventuras que
+o perseguiam. Riqueza, talento, e fidalguia, afóra os dotes physicos,
+auctorisavam-no a não deixar aos vinte e dous annos uma carreira que encetára
+com tão má fortuna.</p>
+
+<p>Do seu coração, repartido por muitas paixões passageiras, nunca usurpou a
+seu filho a maior parte.</p>
+
+<p>Em quanto elle crescia em corpo e extraordinaria penetração, o pae, que não
+sabia sêl-o, alargava-lhe os desejos, adivinhando-lh'os, e prohibia á ama, aos
+mestres,<span class="pn">{17}</span> e ao avô a mais ligeira contrariedade ás
+vontades caprichosas do menino.</p>
+
+<p>Luiz, aos doze annos, era um despota com os criados, com os mestres, e
+tratava o pae como se trata um irmão, quando não ha a recear a correcção
+paterna. João da Cunha gostava da desenvoltura do pequeno, e ufanava-se de
+leval-o, como maravilha, á sociedade dos homens e mulheres do grande mundo, que
+lhe achavam muito sal nas suas respostas, e não córavam ás galhofeiras
+liberdades do pequeno Ismael, como lhe chamavam, alludindo á desconhecida Agar,
+que o sol da Africa bronzeára.</p>
+
+<p>Luiz era tanto mais caro a seu pae, quanto a sua intelligencia, com pequeno
+esforço, aproveitava nas irregulares lições dos mestres soffredores. Aos quinze
+annos, o filho de Ricarda era homem, e, como homem, as puerilidades, as folias
+que o entretinham até aos quatorze, trocaram-se em ar reflexivo, em consciencia
+de si proprio, e até em certo respeito ao pae, supposto que este lhe não
+invectivasse as licenças, que os de fóra lhe censuravam.</p>
+
+<p>&mdash;Eis-aqui o que é o espirito!&mdash;dizia João da Cunha ao seu capellão, que
+muitas vezes agourára mal da livre educação dada a Luiz&mdash;Assim que chegou á
+idade da razão, ahi está meu filho obedecendo espontaneamente ao instincto dos
+deveres. Não o vê tão pensador n'uma idade em que a imaginação trabalha sempre?</p>
+
+<p>&mdash;Não duvido que pense&mdash;respondeu o padre, solemnisando a resposta com um
+sorvo de rapé&mdash;mas, se v. ex.ª me dá licença, parece-me que seu filho pensa em
+alguma loucura.</p>
+
+<p>&mdash;Essa é boa! O padre que razão tem para tanta severidade com meu filho?</p>
+
+<p>&mdash;Que razão tenho? Ora ouça v. ex.ª Seu filho namora a filha do merceeiro
+que mora ao lado.</p>
+
+<p>&mdash;Deixe-se d'isso, padre; o meu filho apenas tem dezeseis annos, e ella
+ainda é mais nova.</p>
+
+<p>&mdash;Isso não é razão, e desculpe-me v. ex.ª a liberdade de replicar. Deus sabe
+as intenções com que me intrometto em cousas, que não são de todo estranhas ao
+meu ministerio. Eu quando fallo é com documentos na mão.</p>
+
+<p>&mdash;Alguma cartinha de namoro... Isso são rapaziadas sem consequencia.<span
+class="pn">{18}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não é cartinha de namoro.</p>
+
+<p>&mdash;Algum cordão de cabello, ou alguns suspensorios com a firma do rapaz...
+Isso faz rir.</p>
+
+<p>&mdash;Não é cordão nem suspensorios.</p>
+
+<p>&mdash;Então acabe lá com isso, padre! Que é?</p>
+
+<p>&mdash;É uma escada de corda que sobe ao segundo andar d'aquella casa.</p>
+
+<p>&mdash;E sabe se elle faz uso d'essa escada?!</p>
+
+<p>&mdash;Ha quinze noites seguidas que sobe ás duas horas da noite e desce ás
+quatro.</p>
+
+<p>&mdash;O rapaz é capaz de quebrar uma perna!</p>
+
+<p>&mdash;E eu receio que o pae da rapariga seja capaz de lh'as quebrar ambas.</p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso, encarrego-o de o reprehender; mas não lhe diga que eu o sei.</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me que lhe não fará grande abalo ainda que v. ex.ª o saiba. Seu
+filho não o teme, nem lhe reconhece direitos sobre a liberdade de subir e
+descer escadas de corda.</p>
+
+<p>&mdash;Está enganado.</p>
+
+<p>&mdash;Oxalá que sim. Eu de mim reprehendi-o já, e elle respondeu-me se eu fazia
+o favor de lhe ir segurar a escada para que ella não balançasse quando elle
+descia, com grave risco das suas pernas, que ficavam enleadas nas cordas
+transversaes. Aqui está o que é uma zombaria que não parece d'um menino de
+dezeseis annos! V. ex.ª ri-se? Ora, queira Deus que não chore ainda...</p>
+
+<p>&mdash;Pois que quer que eu faça, padre?</p>
+
+<p>&mdash;Que o castigue com severidade, ou o faça entrar no collegio dos Nobres
+para ser castigado longe dos seus olhos. V. ex.ª perde seu filho. Está cavando
+um manancial de desgostos, que não remediará... Elle ahi vem... Se quer,
+retiro-me, para v. ex.ª lhe fallar.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, retire-se.</p>
+
+<p>Luiz entrou apertando a mão ao pae, que lh'a estendeu com a familiar
+etiqueta d'amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Vem cá, Luiz. Tu és um homem, e é preciso fallarmos como homens. Sei que
+sobes por uma escada de corda ao segundo andar d'aquella casa...</p>
+
+<p>&mdash;Então, de certo sabe tambem que desço...&mdash;atalhou com sorriso ironico o
+filho de Ricarda.<span class="pn">{19}</span></p>
+
+<p>&mdash;Responda-me com seriedade. Sabe que eu posso fazêl-o retirar d'esta casa,
+logo que o menino proceda de modo que mereça ser castigado?</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.ª póde tudo; mas eu queria saber o que fiz que mereça castigo.</p>
+
+<p>&mdash;Assim é que deve responder-me. Sei que se introduz em casa do merceeiro.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, meu pae. Não nego senão o que não faço. Foi o padre Joaquim que
+lh'o disse?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei quem foi... É isto verdade?</p>
+
+<p>&mdash;É verdade; mas o padre Joaquim merece dous bofetões.</p>
+
+<p>&mdash;O padre Joaquim é seu amigo. Se o menino observar os conselhos d'elle, ha
+de ter um proceder exemplar; e, se os não attender, obriga-me a castigal-o
+asperamente, bem contra minha vontade. Não quero que se diga que um filho de
+João da Cunha escala as janellas dos visinhos. O peor que póde acontecer-lhe,
+meu filho, é ser surprendido n'essa casa, e olhe que de certo o não respeitam
+para o deixarem descer tranquillamente como subiu.</p>
+
+<p>Pouco depois, Luiz da Cunha sahiu do quarto de seu pae, e passando pelo
+capellão deu-lhe um abraço, que o fez impertigar-se com a grave compressão das
+costellas. Luiz ria-se, e padre Joaquim desencadeava-se o mais prestes que
+podia dos braços tenazes do seu discipulo de latim.</p>
+
+<p>As correcções paternas aproveitaram muito, por isso que, na noite d'esse
+dia, á hora costumada, Luiz da Cunha agatinhou rapidamente a escada, e içou-se
+para a varanda. Pouco depois que entrára, o logista, avisado por quem quer que
+foi, subiu ao segundo andar. Luiz da Cunha fugiu precipitadamente, e quando
+descia, na altura do primeiro andar, o robusto confeiteiro levantou os ganchos
+da escada, e deixou-a pender para o centro da terra, em plena condescendencia
+com as leis da gravitação.</p>
+
+<p>O filho de João da Cunha recuperou os sentidos quando uma patrulha da
+policia o entregava ao pai, que, a essas horas, recolhia, e não é bem liquido
+se tambem elle debaixo do capote trazia uma escada de corda.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha desmanchou algumas articulações, cuja collocação o fez dar ao
+diabo a filha do confeiteiro. O pae<span class="pn">{20}</span> ameaçou com um
+chicote o seu pundonoroso visinho; mas, pelos modos, o minhoto não era homem de
+transigir pelo mêdo d'uma arrogancia dos actos dos Sousas e Faros. A
+rapariguinha nunca mais appareceu na janella, e, no fim da semana immediata,
+casou com o caixeiro, rapaz dos suburbios de Guimarães, muito fino, que é hoje
+capitalista, e não foi ainda codilhado por governo nenhum. Já vêem que a filha
+do confeiteiro não perdeu nada, visto que o marido não a encontrou lesada
+physica nem moralmente. Estes é que são os felizes. Não sabem nada de
+psycologia, nem de anatomia: não descriminam imperfeições da alma nem do corpo.</p>
+
+<p>João da Cunha teve assomos de rigidez paterna. Luiz desconheceu-o, quando o
+viu, sombrio e carrancudo, ordenar-lhe que seguisse o padre capellão ao
+collegio dos Nobres. Obedeceu sem hesitar um momento. Entrou no collegio, onde
+os mestres prevenidos trataram de captar-lhe a estima, habitual-o á casa, para
+se dispensarem da outra ponta do dilemma.</p>
+
+<p>Luiz recebeu alegremente os companheiros que os mestres lhe escolheram. Eram
+os mais estudiosos e mais ajuizados. Acharam-no docil, e persuadiram-se que lhe
+tinham inoculado o amor do estudo, e o esquecimento das liberdades por que
+fôra, aos dezeseis annos, encerrado no collegio.</p>
+
+<p>João da Cunha, maravilhado da mansidão de seu filho, visitou-o,
+indemnisando-o com afagos das asperezas que precederam a sua entrada no
+collegio. Luiz não se mostrou magoado com as asperezas, nem lisongeado com os
+carinhos. Estava melancolico, e dizia o padre Joaquim, sempre agoureiro aziago,
+que o menino meditava uma nova loucura, fosse ella qual fosse.</p>
+
+<p>Prophecia de padre Joaquim era infallivel. N'essa noite, Luiz cortou em
+tiras os lençoes e o cobertor. Saltou para a cêrca. Partiu a cabeça ao hortelão
+com um fundo de garrafa dos aguilhões do muro, quando o indiscreto gallego lhe
+agarrou uma perna para a não deixar seguir o destino da outra.</p>
+
+<p>Luiz recolheu-se a casa de José Bento de Magalhães e Castro.</p>
+
+<p>Este senhor José Bento é uma pessoa que nós conhecemos<span
+class="pn">{21}</span> da F<small>ILHA DO </small>A<small>RCEDIAGO</small>. É
+justamente aquelle que casou com Rosa Guilhermina, em 1825; que comprára n'esse
+anno o fôro de fidalgo, e fizera a sua nova residencia em Lisboa, por isso que
+os invejosos no Porto tinham a petulancia de rir-se da pedra d'armas que elle
+fizera lavrar no seu palacete do Reimão.</p>
+
+<p>Em Lisboa fôra bem recebido, particularmente por João da Cunha e Faro, que,
+segundo dizem, lhe vendêra cara a consideração. D. Rosa Guilhermina era bem
+acolhida na roda que torce o nariz aristocratico aos que chegam sem garantias
+d'algum conspicuo de linhagens. A maledicencia dizia que João da Cunha não era
+indifferente á mulher do senhor José Bento. Tanto não ouso eu dizer, e a
+calumnia é mancha que não pega nos meus romances. Pêcos de imaginação, sim; mas
+arreados de phantasias que desdouram o meu proximo, isso nunca.</p>
+
+<p>Luiz, sempre acceito com os seus gracejos a D. Rosa, fugindo do collegio,
+surprendeu-a com um abraço estouvado. Pediu-lhe que não dissesse nada ao pae, e
+o deixasse sentar praça em marinha, que era a sua vocação. D. Rosa
+prometteu-lhe tudo, e avisou João da Cunha, que, a essas horas, recebia a fatal
+nova da fuga do filho. A filha do arcediago pedia-lhe uma entrevista, antes de
+encontrar-se com Luiz. O fim era combinarem o meio de o levarem com brandura a
+entrar em casa, onde de certo a violencia o não levaria. João da Cunha annuiu,
+e o filho de Ricarda foi recebido com affabilidade por seu pae.</p>
+
+<p>Não era já possivel domal-o com violencias nem com afagos. Luiz da Cunha
+tinha um roteiro fixo pelo destino, cuja absurda influencia é necessario
+acreditar na vida tragica de certos homens, que nos compadecem, que nos
+nauzeam, e que nos assombram!</p>
+
+<p>João da Cunha, certo da sua inefficacia paterna, resumiu a sua auctoridade
+ensinando o filho a salvar as apparencias, porque os escandalos eram
+atroadores, e promettiam-lhe uma vergonhosa expulsão das casas honestas. O
+merceeiro visinho, não obstante a sua coragem, passou pelo desgosto de curar-se
+d'uma dura carga de pau com que o amante de sua filha, auxiliado por campinos
+embriagados em noite de tourada, o mimosearam dentro do seu proprio balcão.
+Toda a importancia de João da<span class="pn">{22}</span> Cunha foi necessaria
+para torcer a justiça, visto que o logista era affecto em extremo á politica
+vigente, o que provára mais d'uma vez com o cacete na mão. Um outro pae, que
+ousou repellir de sua casa o fidalgo, chamando-lhe «mulato» perdeu a orelha
+esquerda n'esta honrosa lucta, sem por isso, ainda assim, salvar a filha da
+deshonra. Um irmão d'uma estanqueira, que morou ao Pote das Almas, pagou com
+cadêa de tres mezes, afóra as custas do processo, a audacia de quebrar a cabeça
+ao amante de sua irmã, que lhe viera, em noite de luminarias, recitar debaixo
+da janella umas coplas em que lhe pedia escandalosamente licença de cear com
+ella.</p>
+
+<p>Esta classe de mulheres era a menos ponderosa na balança da opinião publica.
+Algumas d'estas aventuras faziam rir as mulheres distinctas por nascimento e
+por muitas outras qualidades que não lustravam muito o nascimento...</p>
+
+<p>Luiz da Cunha lá foi entre ellas receber os applausos, e achou que a vereda
+nova, em que se lançára, levava mais depressa ao capitolio. O que elle queria
+era a reputação de conquistador, que principiava a declinar de seu pae, e justo
+era que não sahisse da familia.</p>
+
+<p>O filho de Ricarda era jactancioso. Costumava, com os seus amigos, fixar o
+dia impreterivel de tal ou tal triumpho, e bebia com elles no <em>Isidro</em> á
+saude da victima destinada.</p>
+
+<p>Se acontecia acharem-se presentes os parentes da victima illustre, o
+impudente não calava o nome, nem respeitava as conveniencias do pudor, visto
+que os seus amigos o não respeitavam.</p>
+
+<p>O «Ismael,» que as damas desdenhavam pela côr, se não fosse o terrivel
+sestro da denuncia, em fins de jantares, poderia enriquecer o seu cathalogo com
+muitas illustrações do sexo, que já n'esse tempo era fraco.</p>
+
+<p>Mas a fatuidade indiscreta perdeu-o no conceito das menos pundonorosas.
+Pouco e pouco repellido, Luiz da Cunha aos vinte e cinco annos, era detestado,
+acolhido com desprêso em todas as casas, excepto na de José Bento de Magalhães
+e Castro, que, em 1837, era já visconde de Bacellar. Rosa Guilhermina foi a
+unica mulher que exerceu uma sombra de ascendente fraternal sobre o filho
+de<span class="pn">{23}</span> Ricarda. Os seus rogos afastaram-no muitas vezes
+de abysmos, em que a sua queda seria mortal. Tinha sido ella quem o salvára de
+casar-se com a mulher que mais séria impressão lhe fizera, quando se viu
+arremessado com infamia d'entre tantas que elle pozera no pelourinho da
+ignominia.</p>
+
+<p>Esta mulher era uma infeliz encontrada n'um primeiro andar da rua do Ouro:
+uma d'essas que vem, com os hombros nús e as tranças enfloradas, pedir-vos da
+janella com um aceno e um sorriso o preço do espectaculo a que se offerecem,
+por esse sorriso e aceno voluptuoso.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha sympathisára com a libertinagem da mulher que lhe ensinava
+cousas novas para o coração, não combalido de todo ainda pela podridão do
+vicio. As duas almas comprehenderam-se maravilhosamente, porque se encontraram
+na profundidade do mesmo charco. Luiz encantou-se d'esta mulher. Pediu-lhe o
+exclusivo da sua alma, e foi feliz na súpplica. Liberata, desde esse dia, foi
+d'elle, exclusivamente, como a filha que foge apaixonada do seio materno.
+Encontrou uma bem mobilisada aposentadoria, servida de criados, e da opulencia
+que os brilhantes de Ricarda, prodigalisados em ultimo recurso por João da
+Cunha, lhe permittiam. Aquelles brilhantes reservára-os elle, sem escrupulo,
+para patrimonio do filho da sua esquecida amante.</p>
+
+<p>Envergonhado d'esta união torpe, João da Cunha admoestou o filho; e, quando
+esperava despertar-lhe o brio com os topicos d'uma sentimental censura aos seus
+rasos instinctos, Luiz respondeu-lhe que tencionava salvar Liberata da infamia,
+casando com ella.</p>
+
+<p>O primeiro impeto de cólera paterna foi correr sobre o filho e soval-o a
+ponta-pés. Luiz estranhou a lisonja, e pôde muito sobre si para não receber o
+pae na ponta de um punhal.</p>
+
+<p>Expulso de casa, recorreu á viscondessa de Bacellar, que lhe prometteu
+reconcilial-o com o pae, com tanto que elle despresasse essa mulher, que o
+arrastava com ella ao mesmo abysmo de perdição. Luiz prometteu não casar; mas
+despresal-a nunca. Se seu pae lhe negasse recursos, disse elle que seria ladrão
+para sustental-a, ou morreriam de fome, abraçados.<span class="pn">{24}</span></p>
+
+<p>João da Cunha, sabendo este heroismo, reconheceu que seu filho era a vibora,
+que elle trouxera no coração, para o morder com o remorso expiador do seu
+crime, cujo saldo com a Providencia começava vinte e seis annos depois.</p>
+
+<p>E aceitou a proposta. Continuou a dar-lhe recursos para uma dissipada
+grandeza com que a libertina se infatuava, soberba do seu dominio sobre o
+homem, que se não pejava de assentar-se, ao lado d'ella, na mesma sege e no
+mesmo camarote.</p>
+
+<p>Dizia-se que Liberata era fiel ao fascinado moço. Amigos de João da Cunha
+tentaram vencêl-a com promessas, para darem ao desgraçado uma surpreza que o
+fizesse detestal-a.</p>
+
+<p>Não o conseguiram. A necessidade não a forçava. O ouro servia-lhe
+prodigamente os mais exquisitos caprichos. O coração afizera-se-lhe áquelle
+caracter, e a pontualidade do amante não lhe deixava um instante vago para
+meditar uma traição.</p>
+
+<p>O leitor de certo adivinhou já quem era a mulher que apeou, com Luiz da
+Cunha e Faro, da sege, á porta do theatro de S. Carlos. Agora, se a imaginação
+lhe não é escassa, afigure-a no camarote 15 da 2.ª ordem, e verá uma perfeita
+senhora, adestrada em salas, meneando garbosamente um leque, fitando com
+requebro airoso o oculo branco nas faces que se retrahem envergonhadas, e
+sorrindo com deslavada alegria ao amante, todo carinho e attenção para
+ouvir-lhe alguma obscenidade allusiva a qualquer das damas, que não ousam
+fixal-a de face. Liberata era o que devia ser.</p>
+
+<p>Hoje é moda regenerar, em romances, estas mulheres. A imaginação, cansada de
+reduzir a virtude ao crime, trata de fecundar a virtude no alcouce.</p>
+
+<p>Em quanto a mim, as Liberatas não se regeneram. A de Luiz da Cunha dançava
+lubricamente a cachucha, quando lhe fallavam em virtude.<span
+class="pn">{25}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00130">III.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00131">ASSUCENA.</a></h2>
+
+<p>Consta da F<small>ILHA DO </small>A<small>RCEDIAGO</small> que a filha do
+memoravel Leonardo Taveira, arcediago de Barroso, houvera de legitimo consorcio
+com Augusto Leite, uma filha, chamada Assucena.</p>
+
+<p>Quando Rosa Guilhermina contrahiu segundas nupcias com José Bento de
+Magalhães e Castro, tinha seis annos a creança.</p>
+
+<p>O filho do retrozeiro não se affeiçoou á filha de sua mulher, com quanto a
+meiga menina o acarinhasse com meiguices, e lhe chamasse pae. Em pouco se
+conhecia a rude insensibilidade do padrasto. As menores travessuras de Assucena
+eram para elle o resultado do mimo demasiado que sua mãe lhe dava. A esperteza,
+que Rosa admirava em sua filha, dizia o senhor José Bento que era malicia; e,
+por entre dentes, resmungava que não seria ella quem levasse a agua ao seu
+moinho. Era uma das suas phrases favoritas este annexim, que o filho da senhora
+Anna Canastreira retivera na memoria, rebelde sempre para o imperativo do verbo
+<em>laudo</em>, como em tempo competente se disse.</p>
+
+<p>Rosa doía-se da indifferença, ou, melhor, da antipathia de José Bento pela
+creança. Nunca lhe perguntou a causa d'esta ingratidão aos mimos de Assucena: é
+que não contava com a delicadeza de seu marido n'uma resposta. A coacção em que
+a tinha o caracter brusco do assassino do mestre de latim, a reserva nada
+familiar com que um ao outro se tratavam, collocava-os a distancia do que
+vulgarmente se diz&mdash;confidencias domesticas.<span class="pn">{26}</span></p>
+
+<p>José Bento não tinha a rusticidade nem a doçura de indole de Antonio José da
+Silva, o desventurado esposo de Maria Elisa, tão desventurada como elle. (Já lá
+estão ambos!) Se aos dezoito annos, o aprendiz de loio annunciava uma
+bestialidade mythologica, a natureza, modificada pelo dinheiro, enxertára
+n'aquella cabeça, hermeticamente fechada, uma finura maliciosa. Á primeira
+vista, o senhor José Bento parecia um pensador, um homem experimentado, e até
+um presidente d'uma companhia de viação, ou orador gosmento de associações
+commerciaes, que, só muito depois, tiveram Ciceros em <em>patois</em>.</p>
+
+<p>O capitalista era amigo de Rosa Guilhermina: não podemos duvidar que o era;
+mas o seu modo de ser amigo era excentrico. A approximação dos extremos
+confundira o pequeno espirito de José Bento com o grande espirito d'algum
+marido fatigado de caricias, anhelante de paixões incisivas, e incapaz de se
+amoldar ás formulas burguezas da tranquillidade domestica. O moço fidalgo, no
+primeiro anno de casado, foi o que seria no quadragesimo, se Rosa Guilhermina
+não morresse em 1849. Nunca lhe deu mostras de aborrecido, porque tambem nunca
+se mostrou enthusiasmado com a posse. Teve sempre a constancia imperturbavel
+dos felizes alarves. Nenhuma mulher valia mais que a sua, nem a sua valia mais
+que as outras.</p>
+
+<p>Rosa Guilhermina não esperava que sua filha succedesse na herança do marido,
+nem, quatro annos depois de casada, tivera ainda um filho, nem depois o teve,
+que protegesse a sua irmã, habituando-se a consideral-a tal.</p>
+
+<p>O seu pensamento foi ageital-a para tudo o que é trabalho, dotando-a com a
+educação, cultivando-lhe o espirito para que a formosura não fosse a unica
+prenda que podésse merecer-lhe um marido com patrimonio.</p>
+
+<p>Em Lisboa, José Bento não se oppôz á entrada de Assucena n'um collegio. O
+excellente coração da menina, arrancado ao de sua mãe, comprehendeu, em tenra
+idade, que a sua posição no mundo dependia de si. Docil ás mestras, que lhe
+adoravam a angelica humildade, o trabalho, a oração, e o estudo fizeram-na um
+modelo entre todas as suas companheiras. A melancolia scismadora que, aos
+quatorze annos, a estremava dos folguedos da sua idade, era um vaticinio de
+muitas lagrimas que verteria<span class="pn">{27}</span> sobre as flôres da
+mocidade, queimando n'essas o germen que nunca mais lhe desabrocharia outras.</p>
+
+<p>Em 1838, Assucena tinha dezoito annos, e era ainda alumna do collegio para
+onde entrára aos dez. A viscondessa de Bacellar conseguira de seu marido a
+influencia e os meios para que ella entrasse nas commendadeiras, ordem meio
+monastica, meio profana, em que a vida retirada se suavisa com todas as
+magnificencias do luxo, e se approxima da sociedade sem conhecêl-a pelo ponto
+de contacto em que o coração se infecciona.</p>
+
+<p>Antes de entrar nas commendadeiras, como secular, Assucena veio passar com
+sua mãe dous mezes.</p>
+
+<p>Aos dezoito annos, estranhava o mais vulgar da sociedade. Lêra muito, e, só
+com sua mãe, dava ideia de não ter desaproveitado o tempo, nem enganado os
+mestres. Na presença de estranhos o seu acanhamento dava-lhe ares de idiota.
+Córava ás mais simples lisonjas á sua formosura, e folgava todas as vezes que
+as portas da sala se não abrissem a visitas. A presença dos hospedes
+privavam-na de expandir-se a sós com sua mãe que a beijava, como se faz a uma
+creança.</p>
+
+<p>Assucena era trigueira como seu pae, e não podia chamar-se formosa, senão em
+verso. A formosura, que não é senão a harmonia rigorosa das fórmas, é muito
+rara. O que não é raro é a graça, a sympathia, o indisivel que vos encanta, sem
+vos dar tempo a estudar a irregularidade de um nariz, ou o defeito d'uma testa.</p>
+
+<p>Engraçada e sympathica era, como nenhuma, a neta do arcediago. O sobr'olho
+cerrado castanho escuro, e o buço que lhe assombrava o labio superior, não
+fino, mas graciosamente arqueado, eram as feições mais distinctas depois dos
+olhos brandos e amortecidos, tão fóra do commum em rosto trigueiro. Gentil de
+corpo, alta como sua mãe, mais flexivel que ella, mais delicada de mão, ao
+longo da qual corria uma penugem que denunciava o braço delicioso, Assucena era
+a mulher para os sentidos e para o coração; para a voluptuosidade do amor
+animal, e para os arrobamentos do amor do espirito.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha e Faro não se recordava já de Assucena, quando a viu,
+surprendido, em casa da viscondessa.<span class="pn">{28}</span></p>
+
+<p>&mdash;Quem é esta mulher?&mdash;perguntou elle ao ouvido da viscondessa.</p>
+
+<p>&mdash;É minha filha.</p>
+
+<p>&mdash;Sua filha! a menina que eu vi, ha bons nove annos?</p>
+
+<p>&mdash;A mesma. Não o apresento, porque ella é muito acanhada, e dá de si uma
+triste ideia, quando a forçam a fallar.</p>
+
+<p>&mdash;É galante senhora! Que olhos, e que sobrancelha! Aquellas pestanas são
+divinas! Tem um olhar de santa! E aquelle buço? Ha de perdoar-me, senhora
+viscondessa; mas a filha de v. ex.ª é capaz de me fazer doudo!</p>
+
+<p>&mdash;Não zombe, senhor Luiz da Cunha. A minha Assucena não é capaz de
+endoudecer ninguem, e principalmente v. ex.ª, que não póde endoudecer, porque a
+demencia dá ideia do juizo anterior a ella...</p>
+
+<p>&mdash;Bem a entendo, senhora viscondessa. Quer dizer que ninguem perde o que não
+tem... V. ex.ª não sabe o que eu sou capaz de sentir. Até hoje tenho usado o
+mau coração; o bom ainda não entrou em serviço. Vinte e seis annos não é tarde
+para que eu me regenere. Sonhei esta noite que era virtuoso, e que dava lições
+de moral no largo do Rocio a quem me queria ouvir. Depois, tornei a sonhar, e
+fazia milagres: puz uns dentes á baroneza de Lemos, que está alli mascando com
+as gengivas quatro phrases de açafetida a seu marido, e fui á beira do Tejo
+conversar com os peixinhos que saltaram ao Terreiro do Paço, passeando em sêcco
+para me darem honras de Santo Antonio.</p>
+
+<p>&mdash;Comece com as suas impiedades, senhor Luiz da Cunha... Olhe que eu
+retiro-me d'aqui... Quando ha de perder o vicio da maledicencia? Que lhe
+importam os dentes da baroneza de Lemos?</p>
+
+<p>&mdash;Tem v. ex.ª razão. Sou um grande malvado, mas permitta que eu corrija a
+sua accusação. Eu não disse que me importava com os dentes da baroneza, que é
+cousa que ella não tem. Eu sonhei que milagrosamente lhe dava duas ordens de
+dentes, e lh'os déra quasi todos mollares, porque me consta que ella gosta de
+tortas, em que os outros se dispensam. Se isto é perversidade, minha amiga, não
+sei o que é virtude. Deixemos a velha, e fallemos na<span
+class="pn">{29}</span> juventude do nosso seculo. A senhora D. Assucena fica na
+sua companhia?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor. Vai entrar nas commendadeiras.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é incrivel! Pois v. ex.ª quer inutilisar aquella creatura, roubando-a
+á sociedade!! Isto é barbaro! Declaro que não consinto!</p>
+
+<p>&mdash;É pena que v. ex.ª não consinta! Eis-ahi uma difficuldade que eu não tinha
+prevenido! O seu consentimento é uma formula indispensavel!</p>
+
+<p>&mdash;Quer que eu lhe diga uma verdade? Estou recebendo uma impressão
+extraordinaria! Sinto por sua filha o que nunca senti! Será ella a redemptora
+d'esta alma que anda em penas ha onze annos? Parece-me que o amor é que me ha
+de salvar. Ora olhe, eu tenho imaginado que posso ainda ser feliz. V. ex.ª
+acredite que tenho sido muito muito desgraçado...</p>
+
+<p>&mdash;Não o parece.</p>
+
+<p>&mdash;Diz bem... não o parece; mas creia que não tive ainda oito dias de
+felicidade na minha vida. O mundo julga-me mal. Todas estas vertigens, que
+apparentemente me dão o caracter d'um homem embriagado de felicidade, são
+misturadas d'uma especie de nausea de mim proprio, d'um vacuo de verdadeiros
+prazeres, e tal que, nestes ultimos mezes, tenho desejado seguir um outro
+caminho por onde a verdadeira ventura me foge. E quero perseguil-a. Realmente
+lhe digo que estou cansado d'este viver. A sociedade despreza-me, e eu dou
+razão á sociedade. De certo lh'a não dava, se eu me quizesse absolver dos meus
+desvarios. Aqui entre nós: quem me perdeu foi meu pae. Se me tivesse negado os
+meios com que se nutrem os vicios, eu não seria vicioso, ou, se o fosse, o
+trabalho, como preço do vicio, ter-me-ia fatigado, ha muito. Olhe: se eu
+tivesse nascido n'outro seculo, se é que todos os seculos não tem os mesmos
+vicios, seria outro homem. V. ex.ª bem sabe que na sociedade não se fazem
+santos. Eu vim por aqui dentro com os braços abertos para receber todas as
+immoralidades, e vieram-me todas ao encontro, sem eu chamar nenhuma.</p>
+
+<p>&mdash;Naturalmente&mdash;atalhou a viscondessa, sorrindo&mdash;foi a filha do merceeiro
+que o chamou...</p>
+
+<p>&mdash;Isso não foi immoralidade, minha senhora; ou, se<span
+class="pn">{30}</span> o foi, queixem-se do peccado original, de que tanto me
+fallou aquelle pobre padre Joaquim, que, em quanto a mim, foi o unico homem
+virtuoso que não recebeu a herança da culpa de Adão, e morreu intacto como
+algumas virgens das que se conhecem pelos necrologios. A filha do confeiteiro
+não soube o que fez, e eu tambem não. A natureza exerceu sobre nós o seu
+immortal despotismo, e foi preciso que os homens viessem desmanchar á pancada o
+que ella fizera com beijos.</p>
+
+<p>&mdash;Foi a natureza que lhe ensinou a botar a escada de corda ao segundo andar?</p>
+
+<p>&mdash;Nada, não, minha senhora. Foi meu pae.</p>
+
+<p>&mdash;Como seu pae!?</p>
+
+<p>&mdash;Palavra de cavalheiro, o caso foi assim: debaixo da cama de meu pae vi
+umas cordas, que terminavam por dous ganchos. Fiz o meu raciocinio, por que já
+n'esse tempo estudava em logica as causas e os effeitos. A escada era o effeito
+d'alguma causa. Sem saber nada de mechanica, calculei a importancia social da
+escada, e mandei fazer uma semelhante ao meu criado do quarto. Ora aqui tem com
+angelica sinceridade a historia da escada de corda. Agora, pergunto eu:
+desarranjei eu a felicidade da filha do merceeiro? Não a tem v. ex.ª visto no
+theatro, ao lado d'uma especie de gallego com collarinhos em fórma de panno de
+falua? Esta especie de gallego é marido d'ella, tem cem contos de reis em
+inscripções, e não sei que no Banco Commercial, e tem a commenda da ordem de
+Christo. D'esse peccado da infancia, absolvo-me eu; dos outros é responsavel a
+sociedade.</p>
+
+<p>&mdash;Não diga a sociedade. V. ex.ª tem zombado de todos os deveres. Tem
+reduzido seu pae a um estado de tristeza que faz dó. Tem-se divorciado de todas
+as pessoas de bem. Affronta a opinião publica apresentando-se nos lugares mais
+frequentados com uma mulher, sem pudor, uma libertina que nem ao menos o salva
+de se degradar com ella em publico. Se me acha ainda uma constante censora dos
+seus desatinos, é porque sei a historia triste do seu nascimento, sympathisei
+com os infortunios de sua mãe, e tomei sobre mim o inutil zêlo da honra de seu
+filho. Não tenho conseguido nada: nada espero conseguir. Deus sabe quantas
+lagrimas me tem custado este desvelo<span class="pn">{31}</span> quasi
+maternal. Por vontade do visconde, já v. ex.ª não entra n'esta casa.
+Reprehende-me todos os dias a familiaridade com que o recebo, e é preciso que
+eu o traga illudido com a esperança de que um dia será possivel a sua reforma
+de costumes. Senhor Luiz da Cunha, pense no futuro. Condôa-se de seu pae, que
+já não tem animo de ouvir pronunciar o nome d'um filho que perdeu como seu
+amor. Veja que póde ainda remediar o mal que fez... Aparte-se d'essa mulher.
+Viva com seu pae. Convença pelo seu procedimento as pessoas, que já não
+acreditam na possibilidade da sua emenda. Eu tambem me persuado de que v. ex.ª
+deve estar cansado. Creio que deve ter momentos de envergonhar-se; outros de
+remorso, e outros de esperança. Não cerre os ouvidos ao que a esperança lhe
+promette. Se o instincto do bem lhe aconselha a virtude, obedeça-lhe, e verá
+como a vida lhe póde ainda ser agradavel. Olhe que a virtude tem consolações
+incomparaveis com os prazeres momentaneos do vicio. Tenho quarenta annos. Sei o
+que é o mundo. Combino todos os desgostos para os saber afastar de mim, e
+recebo-os, quando elles são mais fortes, como desvios do errado caminho em que
+entrei aos quinze annos. V. ex.ª não sabe que mulher lhe falla, nem imagina o
+prazer que me daria se me viessem dizer que a virtude não fôra repellida d'esse
+coração que todo o mundo considera fechado para a luz da honra.</p>
+
+<p>&mdash;Fez-me impressão, senhora viscondessa! Tem-me assim fallado tantas vezes,
+e nunca me feriu tanto. Eu não sei bem se o que me aconselha é possivel...
+Creia que vou empregar os esforços. Se o não conseguir, é porque não posso, é
+porque ha em mim um desgraçado condão de força sobrenatural.</p>
+
+<p>A conversação, n'este sentido, foi demorada.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>No dia seguinte, Liberata recebia de Luiz da Cunha um bilhete que a eximia
+dos compromissos de fidelidade, auctorisando-a a dispôr de tudo que lhe fôra
+dado. O bilhete foi recebido de manhã, e á tarde o lugar de Luiz da Cunha
+estava preenchido pelo primeiro oppositor á vacatura. Na proxima noite de
+theatro, Liberata, no camarote, ria, olhava, requebrava-se do mesmo modo, com
+a<span class="pn">{32}</span> notavel differença de que o seu companheiro era
+um capitão de marinha ingleza, que accumulava ás delicias de uma conquista de
+tal ordem os gosos d'uma solemne embriaguez de vinho.</p>
+
+<p>João da Cunha acreditou na regeneração do filho, quando o viu entrar
+contrito em casa, tão diverso do que fôra, accusando-se por uma tristeza
+silenciosa, e captivando a benevolencia dos familiares com palavras brandas.
+Por conselho da viscondessa de Bacellar, orgulhosa do seu triumpho, João da
+Cunha não lhe disse uma palavra de reprehensão. O passado não veio nunca
+irritar o pae, nem envergonhar o filho.</p>
+
+<p>Os incredulos riram da subita mudança do «mulato.» Os crentes no poder
+maravilhoso da conversão explicavam o phenomeno por um toque sobrenatural. Não
+faltou quem dissesse que a reforma do peccador fôra obra d'um egresso
+varatojano que operára admiraveis conversões nas casas onde almoçava e jantava.
+Não sabiam dizer ao certo se tambem convertêra alguem nas casas onde dormia. Eu
+tambem não, supposto que acho muito possivel o caso affirmativo.</p>
+
+<p>O que sei de sciencia certa é que Luiz da Cunha não conhecia o dito egresso
+melhor que eu e o leitor. Penso que o varatojano perderia o seu latim, se
+tentasse engrossar com a moral franciscana os alicerces fundados pela
+viscondessa de Bacellar. A emenda do filho de Ricarda não tinha nada com a
+moral christã, pelo menos o atheo não sabia que a moral de Jesus é o codigo por
+que se rege a honra sobre a terra, e se conquista no ceo a eterna bem-aventurança,
+que não é exclusivo dos pobres de espirito.</p>
+
+<p>João da Cunha passava algumas noites com seu filho em casa do visconde de
+Bacellar. Rosa Guilhermina revia-se na sua obra, e agradecia a Deus têl-a feito
+instrumento da sua vontade, para, com braços debeis, arrancar do abysmo um
+filho, restituindo-o ao amor de seu pae.</p>
+
+<p>Assucena não se maravilhava do presente de Luiz da Cunha por que não lhe
+conhecêra o passado. Sabia, por meias revelações de sua mãe, que aquelle homem
+desmerecêra no conceito do mundo, por causa do seu mau procedimento. Os crimes,
+as infamias, as impudencias nem sua mãe lh'as explicava, nem ella saberia
+comprehendêl-as.<span class="pn">{33}</span> O que ella via era um mancebo
+melancolico, quasi sempre calado, fixando-a com frequencia, fugindo d'ella se
+os olhos se encontravam, trocando palavras de absoluta necessidade, e
+conversando com viveza, e muitas vezes, com sua mãe, como se ella só lhe
+merecesse attenções. Andaria aqui um incentivo de vago ciume? A manifestação
+inexprimivel d'um germen de sympathia? O resentimento do desdem que Luiz da
+Cunha aparentava por ella?</p>
+
+<p>Se vos digo que sim, não digo cousa nenhuma do outro mundo, e obedeço á
+verdade.<span class="pn">{34}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00140">IV.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00141">CONTAGIO.</a></h2>
+
+<p>Nem eu nem vós sabemos como nasce o amor. Em physiologia, que é a sciencia
+do homem physico, não se sabe. A psycologia tambem não diz nada a este
+respeito. Os romances, que são os mais amplos expositores da materia, não
+avançam cousa nenhuma ao que está dito desde Labão e Rachel até á neta do
+arcediago e o filho de Ricarda.</p>
+
+<p>Dizer que o amor é a sensualidade, além de grosseira definição, é falsidade
+desmentida pela experiencia. Ha um amor que não rasteja nunca no raso estrado
+das propensões organicas.</p>
+
+<p>Dizer que o amor é uma operação puramente espiritual é um devaneio de
+visionarios, que trazem sempre as mulheres pelas estrellas, ao mesmo tempo que
+ellas, gravitando materialmente para o centro do globo, comem e bebem á maneira
+dos mortaes, e até das divindades do cantor de Achyles.</p>
+
+<p>Eu conheço homens, sem faisca de espirito, que se abrazam tocados pelo amor
+como o phosphoro em presença do ar. Eis-aqui um phenomeno eminentemente
+importante. Elle, só, sustenta em these que o amor não tem nada com o corpo nem
+com o espirito. Eu creio que é um fluido. É pena, porém, que eu não saiba o que
+é fluido para me dar aqui uns ares pedantescos, ensinando ao leitor, mais
+ignorante que eu, cousas que, de certo, o não privavam de continuar a comer, e
+a dormir.</p>
+
+<p>A prova de que o amor não está na cabeça, nem no coração, é que Luiz da
+Cunha e Faro tinha uma cabeça<span class="pn">{35}</span> incapaz de calcular
+as consequencias d'uma acção boa ou má, e um coração desbaratado, verminoso,
+apodrecido para nutrir em si uma flôr das que nascem aromatisando a imagem que
+o amor lá insculpiu com maviosos traços.</p>
+
+<p>Assucena, pelo habito da convivencia, perdêra a estranheza, e
+familiarisára-se com o moço tão bem aceite e tão desvelado por sua mãe. O
+sobresenho de seu padrasto com o filho de João da Cunha tornára-lhe a ella mais
+sympathico o mancebo. Recordando as asperezas do marido de sua mãe, com ella
+sua enteada, sempre carinhosa e humilde, achava ahi a razão da grosseira
+indifferença com que Luiz era recebido.</p>
+
+<p>Um dia, acharam-se sósinhos, porque a viscondessa não prevenira o filho de
+João da Cunha da sua sahida á noite, nem prohibira, por inadvertencia talvez, a
+sua filha a recepção de visitas.</p>
+
+<p>Os embaraços de Luiz, a sós com ella, eram improprios d'um rapaz de sala,
+imperturbavel fallador em todas as conjuncturas de que o homem se salva
+fallando muito, e prompto improvisador de palavras que não deixam nunca
+descahir a conversação nas trivialidades aborrecidas.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha imaginou que amava Assucena; e, só com ella, deduziu do seu
+acanhamento que a amava muito. Assucena já não córava na presença de Luiz da
+Cunha; e, só com elle, percebeu, no ardor da face, que se estava denunciando.</p>
+
+<p>Era necessario dizer alguma cousa, esgotadas as primeiras palavras d'um
+cumprimento, cuja elasticidade se não descobriu ainda.</p>
+
+<p>&mdash;Está v. ex.ª em vesperas de recolher-se ás Commendadeiras...&mdash;disse Luiz,
+cuidando que tinha acertado com a vereda por onde, mais facilmente, chegaria a
+um vasto assumpto.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade...&mdash;respondeu ella com mimo e tristeza&mdash;D'amanhã a quinze
+dias...</p>
+
+<p>&mdash;Tão cêdo!... E está desejosa de se vêr lá, não é assim?</p>
+
+<p>&mdash;Desejosa, não. Eu antes queria estar com minha mãe...</p>
+
+<p>&mdash;E ella não lhe faz a vontade?</p>
+
+<p>&mdash;Por vontade d'ella nunca eu sahiria de casa; mas<span
+class="pn">{36}</span> meu padrasto, não sei porque, acha que eu sou aqui de
+mais, e mostra-me sempre um modo aborrecido, que me incommoda, e de certo ha de
+incommodar minha boa mãe.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor visconde tem essa singularidade. Por calculo ou por genio, parece
+que toda a gente o incommoda, que todos lhe são pezados e suspeitos. Eu tenho
+sido bem mimoseado com os seus arremêssos, como v. ex.ª terá observado. Se
+encontro francas as portas d'esta casa, favor é que devo á senhora viscondessa,
+minha amiga desde a infancia, mais que minha mãe, porque uma mãe deixa muitas
+vezes perder um filho, e esta nobre senhora, este anjo que tem sobre mim uma
+influencia celeste, salvou-me.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho reparado que ella é muito sua amiga. Se v. ex.ª fosse meu irmão, de
+certo minha mãe lhe não daria mais estima...</p>
+
+<p>&mdash;E porque me não faria Deus seu irmão?&mdash;atalhou Luiz com ar infantil, e
+meiguice de sorriso. Assucena baixou os olhos, em silencio, tambem
+desabrochando um ligeiro sorriso, no nacar dos labios, que pouco sobresahia á
+côr purpurina do pejo.</p>
+
+<p>&mdash;Esta pergunta&mdash;proseguiu elle, com affectuosa tristeza&mdash;fez-lhe uma
+impressão muito diversa do que eu pensava! V. ex.ª córa, e a pergunta não é das
+que ferem a susceptibilidade do coração. Magoou-a o meu innocente desejo de ser
+seu irmão?</p>
+
+<p>&mdash;Não me magoou...</p>
+
+<p>&mdash;Pois então diga-me o que sentiu para eu poder convencer-me de que ainda
+lhe não disse uma só palavra indiscreta...</p>
+
+<p>&mdash;Não me magoou, senhor Luiz da Cunha... já lh'o disse... O que eu senti...
+não foi pezar, nem alegria... Fez-me impressão essa pergunta, por que...</p>
+
+<p>&mdash;Diga, não se arrependa... o seu coração ia fallar...</p>
+
+<p>&mdash;Porque muitas vezes tenho perguntado a mim mesma se não seria muito bom
+que...</p>
+
+<p>&mdash;Eu fosse seu irmão?</p>
+
+<p>&mdash;É verdade...</p>
+
+<p>&mdash;E córa por isso? Um desejo tão puro e tão santo diz-se, e não se
+esconde...<span class="pn">{37}</span></p>
+
+<p>&mdash;Dizer-se... nem a toda a gente. Eu disse-o a minha mãe, e ella
+perguntou-me cousas estranhas para mim... Se não fosse ella, isto que lhe disse
+com difficuldade, não teria duvida em dizêl-o ás minhas mestras do collegio,
+por que não sei onde está o mal d'este desejo.</p>
+
+<p>&mdash;Não tem nenhum... Diga-me, senhora D. Assucena, sua mãe prohibiu-a de
+manifestar o bom conceito que v. ex.ª faz de mim?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor... Só me disse que me não habituasse a pensar no senhor Luiz
+da Cunha, por que o coração em se habituando a fantasias, custa-lhe muito
+depois a desfazer-se d'ellas quando vem a realidade. E acho que minha mãe tem
+razão. V. ex.ª não póde ser meu irmão.</p>
+
+<p>&mdash;Mas amigo, mais que irmão, não poderei tambem?</p>
+
+<p>&mdash;Amigo... sim...&mdash;Assucena córou de novo, e balbuciou estas duas palavras.
+Luiz da Cunha viu-a tremer d'aquella quasi imperceptivel oscillação nervosa,
+que denuncia o antagonismo da natureza com a arte, a força expansiva do
+espirito com os estorvos compressores da educação.</p>
+
+<p>&mdash;Pois então... sejamos&mdash;continuou elle&mdash;sejamos o mais que podêmos ser...
+muito amigos, amigos por toda a vida, sim?... Por que me não responde? Receia
+que eu algum dia, se se esquecer de mim, a responsabilise pela promessa? Tambem
+não serei capaz de mortifical-a, e, se o fosse, não poderia chamar-me seu
+amigo. Quando aconteça que a minha amizade lhe seja pezada...</p>
+
+<p>&mdash;Pezada?!</p>
+
+<p>&mdash;Sim; quando se dêem motivos fortes para que me esqueça...</p>
+
+<p>&mdash;Que motivos?!</p>
+
+<p>&mdash;Se lhe derem um marido...</p>
+
+<p>Assucena levou instinctivamente o lenço aos labios, como para esconder o
+rubor que lhe assomava.</p>
+
+<p>N'este momento, entrou João da Cunha, e surprendeu ainda o escarlate, que
+destacava na tez trigueira de Assucena. Experimentado, comprehendeu o caso, que
+não tinha nada de mysterioso senão o facto de se acharem sósinhos seu filho e a
+filha da viscondessa. João da Cunha sentiu o abalo prophetico d'alguma
+desgraça. A anciedade não lhe concedia delongas. Como Assucena pediu<span
+class="pn">{38}</span> licença para retirar-se, João da Cunha perguntou ao
+filho, ainda absorto n'um silencio muito significativo para o pae:</p>
+
+<p>&mdash;Como venho encontrar-te sósinho com Assucena?</p>
+
+<p>&mdash;Entrei n'esta sala, e encontrei-a a receber-me. Se soubesse que vinha
+encontral-a sósinha, creia v. ex.ª que eu não subiria.</p>
+
+<p>&mdash;Tu comprehendes, Luiz, quanto seria melindroso para a nossa honra um
+namoro com a filha da pessoa que tão cara nos é, e tanto por ti se tem
+sacrificado?</p>
+
+<p>&mdash;Comprehendo, meu pae. E d'onde é que v. ex.ª deduz que eu namore Assucena?</p>
+
+<p>&mdash;Surprendi-a d'um modo que revelava emoções que não são as d'uma singela
+conversação.</p>
+
+<p>&mdash;Acabava eu de pedir-lhe que fosse minha amiga e amiga como póde sêl-o uma
+irmã.</p>
+
+<p>&mdash;Luiz, esses rogos não se fazem a uma mulher de dezoito annos. Irmãos só os
+faz a natureza. A arte, que approxima o homem da mulher com laços fraternaes, é
+uma ficção. Os teus amores tem sido todos faceis, d'aquelles que a seducção não
+precisa mascarar com um titulo impostor; e por isso não sabes ainda prêver as
+consequencias d'esse improvisado parentesco. Eu tive muitas irmãs, como esta
+que tu adoptas, e todas ellas quebraram o vinculo da fraternidade, quebrando
+primeiro pela honra.</p>
+
+<p>&mdash;Meu pae cuida que falla a seu filho dous mezes antes. Eu devo á
+Providencia um novo coração.</p>
+
+<p>&mdash;Quero, devo acredital-o: Deus me livre de pensar o contrario. Mas é
+preciso que meu filho saiba muitas cousas que não aprendeu na vertigem da
+dissolução em que viveu onze annos. Quando o coração é nobre, tambem ha paixões
+que principiam nobremente, e acabam pela ignominia como as outras que começam
+pela infamia. O amor violento, o amor que deshonra, o amor que faz victimas,
+não é o infame privilegio dos homens pervertidos. Os de nobre coração tambem
+deshonram, tambem pervertem, e fazem victimas. O avarento póde viver uma longa
+existencia sem um remorso, sem roubar o pão do seu semelhante, logo que elle
+alimente a sua sede de ouro com o seu proprio suor. O general, coberto de
+condecorações,<span class="pn">{39}</span> póde ter sido um barbaro nas
+batalhas, matando inermes, e incendiando choupanas que encerram velhos e
+creanças. É um algôz condecorado, ao qual Deus não pergunta o que fez de seu
+irmão; é uma consciencia tranquilla de remorsos, como a lamina da sua espada
+está limpa de sangue. O avarento do ouro, e da gloria caminham ambos por
+estrada desempedida: um legalisa a posse do ouro com a astucia e com o
+trabalho; o outro, com o poder que lhe foi conferido, e com a bravura
+sanguinaria. Na sociedade ha um homem que vive tambem de ambições, que aspira
+tambem ás glorias; mas glorias e ambições do coração, as que elle julga mais
+innocentes, as que a sociedade lhe não crimina no seu principio, as que por fim
+se lhe convertem em cilicios de remorso, em apertos de coração, e em tedio de
+si proprio, no declinar das forças physicas para a sepultura das chimeras. Este
+homem fui eu, e és tu. O coração perde-nos, Luiz. O homem que se dá
+exclusivamente ao amor, cuida que vai sobre alcatifas de flôres, e resvala n'um
+abysmo. Principia, com o proposito de ser honrado, um commercio de sensações
+brandas; e acaba enfastiado d'ellas, ancioso d'outras que não depara. Depois,
+como indemnisação do que perdeu, encontra o desprêso dos outros; como companhia
+das suas horas solitarias, tem a imagem d'uma pobre mulher que se levanta do
+charco, onde elle a lançou, agarrando-se-lhe aos cabellos; e, como refrigerio
+das sêdes que o calcinaram na mocidade, encontra na velhice... um filho, que
+lhe encrava uma corôa de espinhos sobre o stigma do crime com que a sociedade o
+manda á presença de Deus...</p>
+
+<p>&mdash;Meu pae!&mdash;atalhou Luiz pasmado da desordenada eloquencia.&mdash;Eu não sei o
+que fiz para merecer-lhe admoestações tão sevéras!</p>
+
+<p>&mdash;Isto não são admoestações, Luiz... Não sei o que disse... Lembra-me que o
+meu fim era uma cousa muito importante... Não dediques uma affeição perigosa á
+filha da viscondessa. Pára aqui. Ama uma mulher, que possas fazer tua esposa,
+ou não ames nenhuma, por que eu sei que o teu amor tem o contagio da morte...</p>
+
+<p>Assucena entrou na sala, desculpando-se da demora, com uma invenção mal
+fingida. Se quizesse ser verdadeira,<span class="pn">{40}</span> diria que
+estivera no seu quarto, saboreando, sósinha, uma felicidade que principiava por
+lagrimas.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>As confusas recriminações de João da Cunha não cahiram em coração inerte.
+Luiz nunca respeitára tanto seu pae. Supposto lhe não comprehendesse as
+comparações do ambicioso e do general com os affectos do coração, achára uma
+dôr sublime n'essa desordem, um gemido de remorso n'essa condemnação a si
+proprio, n'essa tocante ideia d'uma corôa de espinhos, cravada pelo filho, na
+fronte de seu pae, onde a sociedade gravára o lema da deshonra.</p>
+
+<p>Em casa da viscondessa, Luiz da Cunha faltou algumas noites, depois da
+ultima em que o vimos, sem grande esforço, erguer o véo do coração de Assucena.</p>
+
+<p>A causa da falta extraordinaria, e sensivel para a viscondessa, era o
+incommodo de João da Cunha, que periodicamente soffria accessos de sangue á
+cabeça, ameaços de congestão cerebral, que o debilitam pelas repetidas
+sangrias, seu allivio unico. Luiz passava os dias e as noites, ao pé de seu
+pae, pela primeira vez. Em tempos de libertinagem, as doenças do pae eram
+indifferentes ao filho, e até a formalidade d'um cumprimento lhe era pezada.</p>
+
+<p>&mdash;Que differença!&mdash;dizia D. Rosa a sua filha&mdash;Quem diria que Luiz da Cunha
+passaria as noites ao pé de seu pae! Onde estava um nobre coração! Á vista
+d'isto, ninguem deve perder a esperança de salvar um homem abandonado de todos!
+A sociedade é a que atira o desgraçado á miseria...</p>
+
+<p>&mdash;Á miseria!&mdash;atalhou Assucena.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha filha. O desprêso com que são repellidos os infelizes, que não
+podem ser bons sem os conselhos d'um bom amigo, é muitas vezes a causa de se
+perderem de todo. O mau homem cuida que se vinga redobrando em malvadez.
+Deixam-no sósinho, e elle precisa de viver em sociedade. Procura a unica que o
+recebe, a dos abandonados como elle. Ahi encontra irmãos mais perdidos que
+elle, e acha sempre um amigo. Dizia teu pae, minha filha, que o ultimo amigo do
+criminoso era o carrasco... Não entendes esta linguagem, Assucena...<span
+class="pn">{41}</span> Oxalá que nunca recordes palavras de tua mãe, ditas como
+um desafogo a quem lh'as não entende... Foi talvez com ellas que eu salvei Luiz
+da Cunha... Servem só para desgraçados... e tu, filha, és feliz, és innocente,
+és um anjo.</p>
+
+<p>&mdash;Elle é ainda desgraçado?</p>
+
+<p>&mdash;Póde ser feliz...</p>
+
+<p>&mdash;Eu queria que elle o fosse; mas é tão triste... Elle era assim d'antes?</p>
+
+<p>&mdash;Não. Escarnecia de tudo, convertia tudo em galhofa respondia ás minhas
+admoestações com agradecimentos ironicos, e contava-me os seus desatinos como
+quem conta acções meritorias. O primeiro dia em que lhe ouvi queixar-se da sua
+má estrella, foi no dia em que te viu...</p>
+
+<p>&mdash;Em que me viu!?...&mdash;atalhou Assucena, sem poder conter as palavras, que
+vinham do coração sobresaltado.</p>
+
+<p>&mdash;Porque me fazes esse reparo tão admirada?!</p>
+
+<p>&mdash;Admirada... não!... É que...</p>
+
+<p>&mdash;Não te escondas aos olhos de tua mãe, que é inutil, minha filha. Leio em
+todos os corações, e nunca se me escondeu um só pensamento do teu... Amas Luiz
+da Cunha?</p>
+
+<p>&mdash;Minha mãe!...&mdash;exclamou ella, tomando-lhe carinhosamente a mão, e fazendo
+um aceno negativo.</p>
+
+<p>&mdash;Não te assustes, Assucena. Eu não crimino essa affeição, que é muito
+natural. Se o tivesses conhecido, ha dous mezes, de certo o não amarias.
+Hoje... era quasi impossivel que o não amasses... Luiz tem alguma cousa fatal,
+que o fez querido a muitas mulheres, que se envergonhavam de lhe apertar a mão
+em publico. Hoje poucas seriam as que lhe recusassem affectos. Mas olha,
+Assucena... tua mãe vai fallar-te como todas as mais deviam fallar a uma filha
+que sáe d'um collegio aos dezoito annos. Se tivesses vivido cá fóra, não era
+necessario dizer-te que só ha uma posição que te convém com Luiz da Cunha. Se
+não fôres sua esposa, que poderás tu ser para elle?</p>
+
+<p>&mdash;Sua irmã.</p>
+
+<p>&mdash;Não ha irmãs pelo coração, minha filha. Quererias ser sua esposa?...
+Responde, Assucena... Faz de conta que fallas com a tua unica amiga. Agora não
+sou tua mãe,<span class="pn">{42}</span> visto que é de uma mãe que sua filha
+de ordinario se esconde. Querias ser sua esposa?</p>
+
+<p>&mdash;Queria...</p>
+
+<p>&mdash;Que tristes cousas vou dizer-te... Teu padrasto não te daria uma moeda de
+cobre como dote, e eu não posso tambem dar-t'a porque sou pobre como tu. Luiz
+da Cunha não tem patrimonio, não póde succeder na herança de seu pae, é pobre
+como ambas nós, logo que seu pae lhe morra. Vês o que é o mundo? Um casamento
+entre duas pessoas, habituadas a não proverem com o trabalho ás suas precisões,
+é uma desgraça. Tu serias muito infeliz, quando teu marido te dissesse «não
+temos pão.» Minha filha, eu já soube o que é não ter pão. Já desfiz um meu
+vestido para que tu não andasses nua. Já andei sem lenço na cabeça para que tu
+não tivesses fome. Já me ajoelhei comtigo nos braços, pedindo a Deus que nos
+levasse ambas, antes que tivessemos de morrer de fome entre quatro paredes. A
+amiga que nos valeu a ambas, é hoje uma desgraçada, não de fortuna, porque eu
+privo-me de muito para que ella tenha tudo. É desgraçada... pobre Maria
+Elisa... porque se deixou arrastar pelos cabellos onde a leva o mau anjo das
+suas paixões... Coitadinha! no que deu aquella mulher!...</p>
+
+<p>&mdash;Não chore assim, minha mãe...</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-me chorar... eu preciso de chorar alguma vez na tua presença... São
+mais dolorosas as lagrimas, sem testemunhas. Preciso d'uma confidente, e, se o
+não és tu, quem o será? Nos salões é preciso rir sempre. Com meu marido, é
+necessario ser o que elle é... Comtigo posso ser o que sou... Minha filha, tua
+mãe vai pedir-te um favor...</p>
+
+<p>&mdash;Favor!... que quer, minha querida mãe?</p>
+
+<p>&mdash;Esquece Luiz da Cunha.</p>
+
+<p>&mdash;Esquecêl-o...</p>
+
+<p>&mdash;Se não pódes esquecêl-o... resigna-te, não alimentes esperanças, não lh'as
+dês a elle...</p>
+
+<p>&mdash;Isso sim... isso posso fazêl-o... Quer minha mãe que eu me recolha já hoje
+ao convento?</p>
+
+<p>&mdash;Nem tanto, meu anjo, nem tanto!... Irás quando tens de ir...</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu não devo vêl-o mais...<span class="pn">{43}</span></p>
+
+<p>&mdash;Porque não? Assim o amas?!</p>
+
+<p>&mdash;Pensei que poderia vêl-o todos os dias. Não queria senão ser sua irmã. Diz
+a mãe que não posso... não o serei; mas não tenho coragem... não sei como hei
+de dizer-lhe que o não sou, porque elle ha de perguntar-me a razão porque não
+sou sua irmã, sua amiga, e eu não sei o que hei de responder-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Mas... prometteste-lhe tu essa estima de irmã?... Córas!... responde,
+Assucena.</p>
+
+<p>&mdash;Prometti...</p>
+
+<p>&mdash;Quando?!</p>
+
+<p>&mdash;Uma noite que a mãe sahiu, elle veio adiante do pae...</p>
+
+<p>&mdash;Porque me não disseste esse encontro, se elle te pareceu innocente?</p>
+
+<p>Assucena baixou, corrida, os olhos, e limpou duas lagrimas, que lhe tremiam
+nas pestanas. Ergueu-se impetuosamente, e escondeu a face no seio de sua mãe,
+que chorava com ella.</p>
+
+<p>&mdash;Foram tardias todas as minhas reflexões, minha filha?&mdash;disse a mãe com a
+voz cortada, procurando vêr a face de Assucena.</p>
+
+<p>&mdash;Não foram... Eu serei o que minha mãe quizer que eu seja; mas não sei
+porque devo maltratar um homem, que lhe merece tantas provas de estima.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não te digo que o maltrates...</p>
+
+<p>&mdash;Se elle me procurar, não lhe fallo.</p>
+
+<p>&mdash;E porque não?</p>
+
+<p>&mdash;Porque... seria peor... seria enganal-o, porque não posso esquecêl-o.</p>
+
+<p>&mdash;Desde quando o amas, minha filha?</p>
+
+<p>&mdash;Tinha eu dez annos, e elle dezesete...</p>
+
+<p>&mdash;Oh filha!&mdash;interrompeu a mãe, sorrindo&mdash;isso não era amor!</p>
+
+<p>&mdash;Não sei o que era... era amizade... nunca o esqueci... E quando o vi,
+depois de oito annos, vi tudo que me era mais caro na vida, depois de minha
+mãe...</p>
+
+<p>&mdash;E disseste-lh'o?</p>
+
+<p>&mdash;Nunca... mas, se elle m'o perguntasse, dizia-lh'o. A razão não me crimina
+d'este affecto de irmã...</p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe, filha!... Talvez, mais tarde... outra<span
+class="pn">{44}</span> razão, a da experiencia, venha desmentir a que te falla
+hoje...</p>
+
+<p>&mdash;Penso que não... Hei de seguir sempre os conselhos de minha mãe. Farei
+tudo o que posso. Se é possivel esquecêl-o, empregarei todos os esforços para
+isso. Diga-me a mãe quaes elles são.</p>
+
+<p>&mdash;Terrivel pergunta!&mdash;disse a filha do arcediago, no fundo da sua
+consciencia.</p>
+
+<p>&mdash;Não me responde, minha mãe?</p>
+
+<p>&mdash;Não o evites de todo... Recebe-o, se elle te visitar... Entretanto, póde
+ser que Deus permitta um milagre.</p>
+
+<p>&mdash;Esquecêl-o?</p>
+
+<p>&mdash;Esquecêl-o, ou poder ser sua mulher. Não é esta a intenção de Luiz da
+Cunha?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei. Não temos tido a liberdade de fallar n'essas cousas. Se elle me
+tivesse fallado n'isso, eu dizia-lhe que seria sua esposa, sem me lembrar que é
+necessario um dote.</p>
+
+<p>&mdash;E sem o consentimento de tua mãe?</p>
+
+<p>&mdash;Minha mãe quer a minha felicidade...</p>
+
+<p>&mdash;Confia-te a mim, Assucena... eu continúo a ser a tua amiga. Hei de fallar
+hoje com teu padrasto... Agora mesmo que elle ahi vem... Retira-te.</p>
+
+<p>O visconde de Bacellar entrava, com a penna na orelha, e uma carta aberta
+nas mãos.</p>
+
+<p>&mdash;Rosa&mdash;disse elle, franzindo a testa, e tirando os oculos&mdash;lê essa carta. É
+chegada agora do Porto. Basta que leias as ultimas linhas. Senão, eu t'as leio:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>«Em quanto a Maria Elisa, meu caro visconde, sinto dizer-lhe que está
+uma perdida. Ultimamente adquiriu um amante que lhe consome a generosa mesada
+que a senhora viscondessa lhe dá. Acho prodigalidade despender cincoenta mil
+reis cada mez, para sustentar dous viciosos. Ella tafula, como se tivesse doze
+contos de reis de renda. Os cinco mil cruzados, que sua senhora lhe mandou ha
+um anno, dissipou-os em menos de tres mezes. Não sei, ainda assim, como ella
+póde fazer tanto com cincoenta mil reis mensaes. Disseram-me hoje que ella
+recebia outros cincoenta; não posso colligir d'onde venham. Os meus respeitos
+&amp;c. &amp;c.»</em> <span class="pn">{45}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Rosa Guilhermina estava pallida e fria. As ultimas linhas d'esta carta eram
+a denuncia do emprego que ella dava ás suas economias. O filho da senhora Anna
+Canastreira, lida a carta, passeou na sala, dobrando-a, soprando, limpando os
+oculos, e batendo com a caixa do rapé na palma da mão esquerda.</p>
+
+<p>&mdash;Que dizes tu a isto, Rosa?</p>
+
+<p>&mdash;Que hei de eu dizer, José! que Maria Elisa deve muito a Deus, se a levar
+d'este mundo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, em quanto Deus a não leva, é preciso pôr cobro a isto. Sabes a
+maneira como?</p>
+
+<p>&mdash;Diz, meu amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Levantar-lhe a cesta. Os beneficios que lhe deves estão pagos com usura.
+Em quanto esteve comnosco foi tratada como rainha. Deu-lhe o diabo da asneira
+na cabeça, e fez tropellias que me obrigaram a sahir do Porto. Sahiu da
+companhia do S*** C***, déste-lhe uma casa mobilada de tudo, e uma mesada que
+sustentava uma familia. Vendeu casa e moveis, e andou de amante em amante, até
+que lhe déste cinco mil cruzados para ella cemprar uma quinta em Santo Thyrso.
+Qual quinta nem qual carapuça! Gastou os cinco mil cruzados, gasta os cincoenta
+mil reis, e outros cincoenta, que naturalmente são remettidos por ti. Não te
+ralho Rosa: o mal feito não tem remedio; mas reprovo d'hoje em diante o
+desfalque da nossa casa, para trazer no galarim uma mulher sem vergonha, uma
+libertina de quarenta annos. Se lhe queres continuar a mesada, manda-a entrar
+n'um convento, onde a não conheçam, e sustenta-a lá. Assim ha de dizer-se que o
+meu dinheiro serve d'alimentar mulheres perdidas, e vadias. Não estou por isso.</p>
+
+<p>&mdash;Eu pensarei no que se ha de fazer: entretanto peço-te que lhe não
+suspendas a mesada. Faz isto que te supplíca tua mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Farei; mas tu não te lembras de fazer economias para essa rapariga que não
+tem nada de seu?</p>
+
+<p>&mdash;Qual rapariga? minha filha?</p>
+
+<p>&mdash;Pois quem?</p>
+
+<p>&mdash;É a respeito d'ella que eu desejava muito alguns momentos de attenção.
+Tenho pensado no futuro d'esta menina.<span class="pn">{46}</span></p>
+
+<p>&mdash;Pois já não queres mettêl-a no convento?</p>
+
+<p>&mdash;Quero; mas o convento, sem profissão, não é futuro. Diz-me, meu amigo: tu
+dás um dote a minha filha?</p>
+
+<p>&mdash;É a quarta vez que me fazes essa pergunta, e eu respondo o que já
+respondi. A filha da viscondessa de Bacellar, das duas uma: ha de casar com
+grande dote, ou não casar. O grande dote não o dou; com pequeno dote não serve
+senão a algum amanuense de tabellião. Pediu-t'a alguem em casamento?</p>
+
+<p>&mdash;Não; mas se tu quizesses, poderiamos casal-a, talvez, com...</p>
+
+<p>&mdash;Com quem?</p>
+
+<p>&mdash;Com Luiz da Cunha.</p>
+
+<p>&mdash;Estás tôla! Deus te livre d'essa asneira! Pois tu acreditas que elle valha
+hoje mais do que valia ha tres mezes?!</p>
+
+<p>&mdash;Acredito: não tem nada do antigo homem.</p>
+
+<p>&mdash;Não terá; mas pelo sim, pelo não, sempre te vou dizendo que para tal
+casamento não sáe um pataco da minha gaveta. Tomára eu o que por lá anda por
+casa do João da Cunha! Cara me tem custado a amizade do tal fidalgo! Já não tem
+bens livres que cheguem para o pagamento de dez mil e tantos cruzados que me
+deve, afóra a fiança que eu lhe prestei para um titulo de divida que o
+extravagante do filho assignou de um conto de reis. Tem juizo, Rosa. Não te
+deixes enganar com apparencias. Alli onde o vês com ares de convertido, tudo
+aquillo é hypocrisia. Agora vou entendendo a razão de tal mudança. Queria um
+dote, e uma mulher. O dote gastava-o com a tal dissoluta que levava ao theatro,
+ou com outra que tal; e a mulher, qualquer dia vinha, com dous ponta-pés,
+pedir-te que lhe désses um bocado de pão. Ás vezes pareces tão esperta... e
+cáes em cada alhada, que nem uma cosinheira! Querem vêr que a rapariga está
+namorada com o senhor Luizinho?!</p>
+
+<p>&mdash;Basta, José... Não fallemos mais n'este assumpto. Fiz-te uma pergunta
+muito simples, e respondeste mais do que era necessario. Ficamos entendidos.
+Posso contar com a subsistencia de Assucena no convento?</p>
+
+<p>&mdash;Paguei hoje seiscentos mil reis de entrada, e estabeleci-lhe seis moedas
+por mez, e uma creada de cozinha, e<span class="pn">{47}</span> outra do
+quarto. Se é necessario mais alguma cousa, é pedir por bôca, em quanto está
+aberto o cofre.</p>
+
+<p>&mdash;Não é preciso mais nada, meu amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Poucos padrastos fazem outro tanto...</p>
+
+<p>&mdash;Tens razão, José.</p>
+
+<p>&mdash;E quando lhe appareça um digno marido, não terei duvida em lhe dar um
+dote; mas não para Luizes da Cunha, e outros que taes. Ficas zangada?</p>
+
+<p>&mdash;Porque? Fico-te de todo o coração agradecida. Tudo que fizeres em bem de
+minha filha é uma esmola de caridade.</p>
+
+<p>O visconde desceu ao escriptorio a descontar letras do governo, e Rosa
+Guilhermina fechou-se no seu quarto com a filha.</p>
+
+<p>Antes de annunciar-lhe o que se passára, tinha dito com as lagrimas o mais
+que poderia dizer-se.</p>
+
+<p>Assucena, beijando-a meigamente, dizia:</p>
+
+<p>&mdash;Adivinho tudo, minha querida mãe. Não se afflija, que eu para ser feliz,
+não preciso do dinheiro de meu padrasto.</p>
+
+<p>&mdash;Precisas... precisas...&mdash;respondia a mãe, abraçando-a com frenetica
+ternura.<span class="pn">{48}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00150">V.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00151">UM ANJO CAHIDO.</a></h2>
+
+<p>Luiz da Cunha era estranho ás apressadas solicitudes da viscondessa de
+Bacellar com o futuro de sua filha. Como a não pedíra, nem mesmo significára a
+alguem intenções de casar-se, da sua parte nenhum esforço punha para vencer as
+difficuldades do casamento, quando se déssem. Votado inteiramente a velar a
+convalescença de seu pae, as saudades de Assucena desvaneciam-se-lhe pouco e
+pouco; mas não tanto que elle não esperasse com impaciencia, todos os dias,
+noticias indirectas de sua «irmã.»</p>
+
+<p>Luiz da Cunha quizera illudir-se. O amor, que a encantadora Assucena lhe
+resuscitára nas ruinas do coração, era um sentimento de fantasia, um impotente
+esforço da vontade. Depois de onze annos de vida aparcellada de revezes na
+alma, de ignominias que entram como habito nas propensões do homem, que se crê
+irresponsavel de seus escandalos, acredite-se de boamente a conversão religiosa
+como consequencia do remorso como temor de Deus; mas negue-se a reforma do
+espirito em cousas do amor, em nobreza de affectos, em dedicações fervorosas. É
+impossivel essa reforma. Não renasce o amor no peito cansado; não mais
+desabrocha no tremedal a flôr dos perfumes ideaes, que, só no ar puro de um
+coração juvenil, embellece a vida, e promette a felicidade.</p>
+
+<p>O amante de Liberata não podia ser o interprete do coração de Assucena. Um
+sahia da innocencia, outro do crime. Luiz, depois das paixões impetuosas,
+entrava cansado no amor tranquillo para o qual é necessaria muita alma.
+Assucena, com todo o vigor da juventude, abandonava-se,<span
+class="pn">{49}</span> mais céga do que se imaginava, á paixão impetuosa.</p>
+
+<p>Se a tivessem educado nas salas, a neta do arcediago, aos dezoito annos, não
+se apaixonaria por um homem inconveniente, socialmente fallando. Aprenderia,
+desde os quatorze, a estremar o apparente do real, o homem que se namora por
+entreter, e o que se namora para casar. Rodeada de lisonjas, qual d'ellas mais
+impostora, perderia depressa a memoria dos differentes thuribularios, e, ao
+sentir no coração impressos os traços de uma imagem, outra imagem viria
+desfazêl-os depois. O amor repartido é o amor sem consequencias perigosas. A
+razão conserva sempre o seu dominio. A luta com tres é-lhe menos difficil que a
+de um só; e a donzellinha de faces de leite e rosas, se tiver mãe
+experimentada, leva a cabo emprezas arriscadas com a sisudez que os quarenta
+annos não tem. Antes de amar a realidade, o coração da virgem, na vida êrma, no
+perfume innocente dos collegios d'outro tempo, nutria-se, fortalecia-se, e
+extravasava d'um amor sem calculo, d'uma aspiração sem condições.</p>
+
+<p>Tal fôra Assucena.</p>
+
+<p>As práticas judiciosas de sua mãe poderiam impressiona-la de passagem; mas o
+amor, que vencêra o pejo, que se formára em si, e de tal força que nem os
+desdens do amante o aniquilariam, esse amor reagiu contra os mesquinhos
+estorvos de um dote, contra a dependencia ignobil das algibeiras d'um padrasto.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha, restaurada a saude melindrosa de seu pae, continuou
+regularmente as suas visitas á viscondessa. O trato grosseiro do visconde era
+cada vez mais acrimonioso. A affabilidade de Rosa desmerecêra um pouco; e as
+maneiras de Assucena pareciam-lhe, em compensação, mais ternas, mais meigas e
+insinuantes do que o tinham sido antes da sua declaração.</p>
+
+<p>E, certo, eram.</p>
+
+<p>Assucena despediu-se de João da Cunha na vespera da sua entrada nas
+commendadeiras. De Luiz despediu-se tambem; mas toda a arte foi vã para
+esconder as lagrimas do adeus. Os olhos aguados, e as palavras balbuciantes
+denunciaram-na, não a Luiz que a adivinhava; mas a João da Cunha que a não
+imaginava tão fragil á tentação do filho.<span class="pn">{50}</span></p>
+
+<p>A fantasia de Luiz deixou-se outra vez levar do enganoso amor. Era o desejo
+que o fazia credulo. Era a pergunta, que elle muitas vezes se fizera depois da
+emenda: «poderei eu ser ainda feliz, amando?» era essa pergunta que o fazia
+procurar a resposta no amor de Assucena.</p>
+
+<p>E sabem, leitores, quanto duram estas illusões em homem que deu da sua alma
+tudo quanto podia ás puras ou ás impuras paixões? É devaneio d'um dia: accesso
+febril que arrefece no dia seguinte: é o mentiroso rejuvenescer de algumas
+horas.</p>
+
+<p>«Se eu podésse lutar com as difficuldades d'uma affeição despresada!... Se
+houvesse ahi uma mulher que me ameigasse para me captivar, e, depois de
+captivo, me lançasse de si com a ponta do pé, para que ao menos, eu sentisse
+aqui no seio de pedra a tarda palpitação do amor proprio!»</p>
+
+<p>Ha homens que dizem isto, que o dizem e o desejam, que o desejam e não o
+encontram.</p>
+
+<p>Para esses de que serve o amor sem rebuço, a dedicação espontanea e
+descuidosa da mulher que vem procural-os, sem ser chamada? Pobre d'ella, se a
+ultima scintilla de piedade generosa se apagou no coração do seu verdugo amado.
+E elle que lucraria?... O tedio de si proprio.</p>
+
+<p>O amor angelico de Assucena fôra outra vez recebido por Luiz da Cunha,
+esquecido já das primeiras emoções.</p>
+
+<p>A filha de Rosa entrára no convento, onde encontrára faceis amigas que se
+interessavam em remediar-lhe com conselhos a profunda tristeza. Os conselhos
+lisongeavam-na. Jubiladas no amor, as commendadeiras, illustres em nascimento,
+e até illustradas no espirito, olhavam as cousas d'este mundo, pouco mais ou
+menos, como ellas são. Menina de dezoito annos, melancolica, soffre de amor:
+entenderam as mais penetrantes. Conhecido o diagnostico da enfermidade, era
+infallivel a pharmacia, muito acreditada nas benedictinas. A quem penava do
+coração applicava-se-lhe amor a grandes dóses. Ora a barateza da droga nunca
+deixou morrer ninguem á mingua de antidoto.</p>
+
+<p>O que se dizia a Assucena era que amasse, que recebesse<span
+class="pn">{51}</span> no lucutorio quem quer que fosse, que se não deixasse
+possuir d'uma heroica abnegação, porque o mundo não valia o sacrificio. A sua
+mais presada amiga, secular tambem, que passava tres mezes no convento, e nove
+na sociedade, tomou ao seu cargo a voluntaria missão de convidar o filho de seu
+primo João da Cunha a tomar chá na sua grade, em dia dos seus annos.</p>
+
+<p>Assucena foi surprendida por Luiz da Cunha, que nunca vira tal prima, nem
+entrára em tal convento. Aceitára o convite porque desejava mostrar que lhe era
+grato o pretexto de que Assucena se servira para chamal-o ao convento.</p>
+
+<p>A prima de Luiz da Cunha era uma senhora desempoada. Na sua desprevenida
+intelligencia, dous e dous eram quatro, e, segundo ella, toda a mulher devia
+ter um amante, e particularmente aquella que reza vesperas n'um côro em quanto
+as outras elegem entre dezenas de vestidos o que ha de realçal-a mais no baile,
+ou no theatro. Eil-a, pois, em opposição com os estatutos de todos os
+patriarchas, que apadroaram conventos.</p>
+
+<p>Desde esse dia as visitas de Luiz da Cunha a sua prima eram quasi diarias.
+Na grade de sua prima, as mais das vezes, quem Luiz encontrava era Assucena.</p>
+
+<p>A viscondessa sabia d'estas visitas, e não as prohibiu a sua filha,
+despresando assim as insidiosas prevenções da intriga, que d'este modo
+procurava vingar-se de odios domesticos a D. Leonor Machado, a prima prestadia
+de Luiz da Cunha. Os reiterados avisos a Rosa Guilhermina sahiam do convento.
+Assucena ignorava-os, porque sua mãe, concebendo os melindres d'um amor
+contrariado, não fallava de proposito em Luiz da Cunha, nem consentia que sua
+filha de proposito lhe fallasse n'elle.</p>
+
+<p>O visconde tambem teve as suas duas cartas anonymas, a respeito dos
+<em>escandalosos</em> amores da sua enteada, protegidos pela
+<em>escandalosa</em> secular Leonor Machado.</p>
+
+<p>José Bento levou ao conhecimento de sua mulher as informações, que recebera,
+e Rosa, por assentir a seu marido, de quem dependia o futuro de Assucena,
+impôz-se a dolorosa obrigação de prohibir a sua filha intelligencias com Luiz
+da Cunha.</p>
+
+<p>Assucena recebeu silenciosa a correcção; mas, em silencio,<span
+class="pn">{52}</span> se promettia não lhe dar o pêso que sua mãe lhe dava.
+Era tarde para ella, e tarde para o filho de Ricarda, que acabava de
+convencer-se que o amor, e por ventura o patrimonio de Assucena, alcançado por
+astucia, faria as delicias da sua vida.</p>
+
+<p>Luiz continuou sem obstaculo as suas constantes attenções á prima. O
+visconde, informado de novo, mostrou ao seu devedor João da Cunha as cartas que
+recebêra. João da Cunha, admoestando o filho, encontrou-o um pouco parecido com
+o que fôra em tempo, respondendo-lhe que a reforma de costumes não consistia na
+renuncia completa dos mais innocentes prazeres do espirito. Como não fallou em
+materia, o caso não era tão pavoroso como o afiguravam os timidos informadores
+do padrasto.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha, ressentido das grosserias do filho do retrozeiro da rua das
+Flôres, espaçou as suas visitas a casa d'elle. Romperam-se, portanto, as
+hostilidades. O visconde ameaçava a enteada de retirar-lhe as mesadas. Luiz da
+Cunha offerecia-se como irmão a Assucena, quando seu estupido padrasto a
+desamparasse.</p>
+
+<p>E tudo isto exacerbava a paixão de Assucena, que, agradavelmente humilde,
+não sabia resistir ao amante, para obedecer ao tyranno da sua alma.</p>
+
+<p>A prelada do convento recebeu do visconde poderes, que nunca, até então,
+exercêra sobre o coração das professas, e muito menos das seculares.</p>
+
+<p>Animada pela indomita Leonor Machado, a neta do arcediago desobedecia,
+correndo pressurosa á grade, quando Luiz da Cunha apeava no páteo. Alli, a
+pobre menina alliviava da sua dôr oppressiva, chorando, e bebia a longos sôrvos
+o balsamo, que o filho de Ricarda, de antemão, trazia preparado em estudadas
+palavras de esperança.</p>
+
+<p>Mas qual esperança era essa? Que planos eram os d'elle?</p>
+
+<p>Muito communs, e muito infames.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha, invocando o seu <em>eu</em> d'outros tempos, encontrou-o.
+Pediu-lhe conselhos, e recebeu-os. Aventou uma trama que não é nada
+extraordinaria, porque não cansam por ahi cavalheiros muito probos, e
+exemplares a todos os respeitos que a praticaram com prosperos resultados.<span
+class="pn">{53}</span></p>
+
+<p>O filho de João da Cunha sabia que, morto seu pae, os successores do vinculo
+viriam desalojal-o do ultimo palmo de terra. O futuro dava-lhe cuidado. Os
+poucos bens de livre nomeação estavam hypothecados a dividas enormes,
+contrahidas por sua causa, depois que as preciosas joias de Ricarda foram
+desbaratadas em desperdicios do pae e do filho. João da Cunha, segundo o pensar
+dos medicos, não resistiria a um dos ataques cerebraes que repetidas vezes o
+ameaçavam com a morte, annunciando-se por uma sombria tristeza, e desordem de
+ideias, á maneira d'aquella em que o vimos censurar o amor do filho a Assucena.
+Luiz teve o bom senso de se julgar desvalido apenas seu pae fechasse os olhos.
+Precisava enriquecer-se e grangear com tempo uma fortuna, empregar para isso
+esforços e habilidade, embora aconselhados pela desmoralisação.</p>
+
+<p>Entendeu, portanto, que Assucena receberia um bom dote do visconde, quando
+esse dote lhe fosse imposto como resgate da deshonrada filha de sua mulher.
+Para isso era necessario tiral-a do convento, diffamal-a, forçar a viscondessa
+a influir no dinheiro de seu marido.</p>
+
+<p>O calculo parecia-lhe infallivel a elle. Assucena prestava-se maquinalmente
+á vontade do amante, por isso que sua mãe acabava de lhe fazer sentir que o
+visconde resolvêra fazêl-a entrar n'um convento do Minho, em Bairão. Era
+necessario apressar o desfecho. Leonor Machado abundava nas ideias do seu
+primo, e prometteu coadjuvar Assucena na fuga, pela sua casa, que era paredes
+meias com o muro da cêrca, sobre que se abria por um postigo. Luiz da Cunha
+comprou o hortelão, que devia abrir-lhe a porta travessa do pomar. Animou a
+timida menina a descer uma escada que lhe foi içada ao postigo. Recebeu-a nos
+braços murmurando o vigesimo juramento de nunca desmerecer a confiança que lhe
+merecia, e entrou com ella na mesma sege em que muitas vezes entrára com
+Liberata. Desde esse momento, qual das duas teria um melhor futuro?</p>
+
+<p>Deus! como presenciaes, sereno e tranquillo em vossa magestade tremenda, a
+precipitação d'um anjo em cada dia!?<span class="pn">{54}</span></p>
+
+<p>Homem, que crês na effectiva vigilancia da Providencia, responde-me:</p>
+
+<p>Se Assucena vai innocente a resvalar n'um abysmo, quem lhe dará a
+consciencia do erro? A perdição? Seja. Mas esse remorso tardio que lhe presta?
+A contrição? Seja. E, se ella morrer, blasphemando? O inferno?...</p>
+
+<p>Valha-nos Deus!......................</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p><span class="pn">{55}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00160">VI.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00161">ANJO CAHIDO, MAS AINDA ANJO.</a></h2>
+
+<p>A fuga de Assucena não admittia conjecturas. As commendadeiras explicaram-na
+com admiravel promptidão, menos Leonor Machado que, no auge do seu pasmo, não
+atinava com a causa de semelhante resolução, nem podia comprehender por onde
+ella fugira! Ingenua creatura!</p>
+
+<p>A noticia foi depressa á viscondessa de Bacellar. A pobre mãe desmaiou sem
+lêr as ultimas linhas da carta, que a consternada abbadessa lhe escrevêra. O
+visconde, encontrando-a desfallecida, lêra tambem a carta, e passados os
+segundos da surpreza, déra-lhe para rir com estupida imbecillidade.</p>
+
+<p>Tal fôra o estridor da gargalhada, que Rosa Guilhermina volveu a si para
+contemplar, com os olhos lagrimosos e absortos, o estranho espectáculo de José
+Bento, que batia com o pé direito no chão e com a mão direita na esquerda,
+exclamando, entre frouxos de riso:</p>
+
+<p>&mdash;Não t'o dizia eu? Ahi está o convertido Luiz da Cunha!... Ahi está a
+innocentinha Assucena! Sou um criado do senhor convertido, e da senhora
+innocentinha! Agora pega-lhe com um trapo quente. E dizem que és esperta! Os
+espertos cáem em cada langará, que não sei o que te diga, Rosa! Ora beija as
+mãos ao teu Luizinho que t'a pregou na menina do olho! Isto havia de acontecer
+tarde ou cêdo! Eu sempre tive quizilia com tua filha, e com o mulato; por
+alguma cousa era.<span class="pn">{56}</span></p>
+
+<p>&mdash;Está bom, José; tens razão; não me mortifiques mais porque me matas. Tem
+piedade de mim que sou mãe. Não és pae; se o fosses, em vez de gargalhadas,
+chorarias...</p>
+
+<p>&mdash;Choraria! pois não! Se fosse pae, mandava o tal bregeiro de presente ao
+diabo. Havia-lhe de arrancar o coração pela bôca. Se fosse pae&mdash;accrescentou o
+assassino do mestre de latim, morto a garfo&mdash;não descançava em quanto os não
+arrebentasse a ambos. Como não sou, não tenho nem quero ter direito algum sobre
+tal mulher. Lá se avenha.</p>
+
+<p>&mdash;Lá se avenha!&mdash;exclamou Rosa, estendendo-lhe os braços supplicantes&mdash;Lá se
+avenha... não é assim, José! Assucena é minha filha, é filha de tua mulher...
+sou mãe que tenho de sentir a deshonra d'essa desgraçada!... Por compaixão, meu
+amigo, por compaixão não a abandonemos!</p>
+
+<p>&mdash;Que queres tu agora? que eu vá buscal-a para casa na minha carruagem?</p>
+
+<p>&mdash;Não... Pelo amor de Deus não zombes com a desgraça...</p>
+
+<p>&mdash;Pois que queres?</p>
+
+<p>&mdash;Que te unas a mim para fazermos com que Luiz da Cunha case immediatamente
+com ella.</p>
+
+<p>&mdash;E que tenho eu com isso? Eu sou algum padre que os case? Isso é lá com o
+prior.</p>
+
+<p>&mdash;Jesus! tu não és tão cruel como estás fingindo, meu querido José... Finges
+que me não entendes... Paciencia! Queres-me morta.... pois sim.... eu te farei
+a vontade.</p>
+
+<p>&mdash;Ora percebam este disparate! Que tenho eu com o casamento de tua filha?</p>
+
+<p>&mdash;Não tens nada; mas se fallares com João da Cunha...</p>
+
+<p>&mdash;Fallarei. Não queres mais nada?</p>
+
+<p>&mdash;E te compadecêres de minha filha para que ella tenha um bocado de pão...</p>
+
+<p>&mdash;Agora entendi... O tal patife só casará com Assucena dotada...</p>
+
+<p>&mdash;Não sei, José; não sei se casará com ella sem dote; póde ser que sim; mas
+são ambos pobres, bem sabes que<span class="pn">{57}</span> João da Cunha deve
+tudo que poderia deixar a seu filho... Não a desamparemos.</p>
+
+<p>&mdash;Digo o que disse, Rosa. Não dou nem um pataco para que ella case com o
+filho da preta, com o amante das mulheres perdidas, com o infamador das
+senhoras honestas, e com o perdulario, que dissiparia n'um anno toda a minha
+fortuna, se podésse metter-se em minha casa. É mais facil eu recebêl-a em
+casa...</p>
+
+<p>&mdash;Deshonrada, infamada, perdida...</p>
+
+<p>&mdash;Sim; é mais facil recebêl-a assim, que aceital-a casada com esse
+desastrado galopim, hypocrita, e infame que deshonra a filha da unica senhora
+que o não repelliu de sua casa. Eu tenho sentimentos... Bem sabes que os tenho
+desde que estudei latim na travessa do Laranjal... Sei, ha muito, o que é ter
+nobreza d'alma. Assucena não é minha filha; mas que me appareça esse vil
+seductor, e verá quantos dentes lhe ficam na bôca.</p>
+
+<p>O dialogo prolongou-se n'uma luta de afflicção da parte da infeliz mãe, e um
+immutavel proposito da parte do padrasto.</p>
+
+<p>João da Cunha, contra o seu costume, entrava ao meio dia em casa do
+visconde.</p>
+
+<p>Vinha em miseravel estado. As veias da face enturgeciam do sangue que lhe
+subiu á cabeça em borbotões. O mal aggravou-se na presença de Rosa, que lhe
+viera ao encontro, banhada em lagrimas, soluçando palavras inarticuladas. O
+visconde, impassivel, encarava João da Cunha com sobrecenho.</p>
+
+<p>&mdash;Tem um excellente filho, senhor Cunha!&mdash;disse José Bento, balançando a
+cabeça com pungente ironia, e solfando no pavimento com o pé direito.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho um desgraçado filho, senhor visconde!&mdash;murmurou João da Cunha,
+cahindo extenuado sobre uma cadeira, e amparando a fronte calcinada na mão
+ardente como ella.</p>
+
+<p>&mdash;Eis-ahi continuou o inexoravel credor&mdash;o que é um fraco pae, que deixou
+crescer seu filho á lei da natureza Agora regale-se, senhor Cunha!</p>
+
+<p>&mdash;Não me despedace, visconde! Respeite a minha dôr!&mdash;murmurou o atormentado
+pae, erguendo as mãos na indescriptivel ancia da sua vergonha.<span
+class="pn">{58}</span></p>
+
+<p>&mdash;E quem é que respeita a dôr d'essa mãe, que está ahi chorando ao pé de si?</p>
+
+<p>&mdash;Sou eu, visconde, sou eu. Somos ambos paes; comprehendemo-nos chorando....</p>
+
+<p>&mdash;Agora!... Remedeiam alguma cousa?</p>
+
+<p>&mdash;Venho aqui para combinarmos a maneira de remediar esta desventura.</p>
+
+<p>&mdash;De que maneira?&mdash;exclamou a viscondessa.</p>
+
+<p>&mdash;Esse desgraçado escreve-me uma carta... Eil-a aqui: visconde... Leia, que
+eu não posso.</p>
+
+<p>&mdash;Nem eu!&mdash;disse bruscamente o visconde&mdash;que me importa a mim a carta de seu
+filho? Não tenho nada com elle: entendam-me d'uma vez para sempre.</p>
+
+<p>&mdash;Eu leio...&mdash;disse Rosa tomando a carta com soffreguidão.</p>
+
+<p>Lendo-a, fechou-a, e disse a João da Cunha:</p>
+
+<p>&mdash;É impossivel.</p>
+
+<p>&mdash;Impossivel!</p>
+
+<p>&mdash;Meu marido não dota Assucena, e, portanto... minha filha... está perdida!</p>
+
+<p>&mdash;Perdida? não!&mdash;atalhou João da Cunha&mdash;Em minha casa ha umas sôpas; e, em
+quanto eu viver, meu filho aprenderá o officio de sapateiro para não morrer de
+fome, depois da minha morte. Eu vinha aqui pedir uma esmola para o futuro de
+Assucena; não venho pedir o preço da reparação da sua honra. É preciso que me
+entenda, senhor visconde. Meu filho é neto dos Cunhas e Faros. Não mercadeja
+com a deshonra das suas amantes; não calculava com as suas migalhas quando
+arrancou a filha d'esta senhora aos braços da virtude...</p>
+
+<p>João da Cunha, alteando cada vez mais a voz, e embaralhando as ideias em
+desalinhada precipitação, denunciava o ataque periodico de sangue, que se lhe
+injectava nos olhos, transpirando na testa em frias bagas de suor. Nem o
+visconde o entendia já, nem elle mesmo seguia com consciencia o curso
+arrebatado dos pensamentos, quando de improviso levou as mãos á cabeça,
+exclamando:</p>
+
+<p>&mdash;Senhora viscondessa, se não sou sangrado já, morro, ou endoudeço!</p>
+
+<p>O visconde condoêra-se. Deu ordens prestes, e o facultativo<span
+class="pn">{59}</span> veio rapido. Depois de copiosa sangria, eram pouco
+sensiveis as melhoras. João da Cunha estava febril, e fallava em delirio.
+Sacudindo os braços vertiginosamente, pedia que lhe afastassem dos olhos o
+espectro de Ricarda.</p>
+
+<p>Decorridas horas, progredia mais intensa a febre, mais frenetico o delirio.
+As afflicções agglomeravam-se no coração de Rosa, em quanto seu marido curava
+serenamente dos seus negocios, sem enganar-se no quebrado de uma operação
+arithmetica, em seu prejuizo.</p>
+
+<p>A crise de vida ou morte passára; mas os medicos disseram que João da Cunha
+não recuperaria o seu completo juizo por muito tempo, ou talvez por nunca mais.
+Era o decimo ataque que soffria.</p>
+
+<p>Entretanto, um criado de Luiz da Cunha esperava no Campo Grande, local do
+palacete dos Cunhas, a resposta. Cinco horas depois, vira descer da carruagem,
+nos braços de dous medicos o pae de seu amo. Approximára-se, para ser
+reconhecido, os medicos disseram-lhe que se afastasse, e os lacaios
+afiançaram-lhe a demencia do fidalgo.</p>
+
+<p>Tal foi a resposta que Luiz da Cunha recebeu.</p>
+
+<p>N'essa mesma noite, o filho de Ricarda entrou no quarto de seu pae.
+Apertou-lhe a mão, chamou-o tres vezes inutilmente, e, á quarta, ouviu as
+seguintes palavras, que pareciam ser ditas ao facultativo presente:</p>
+
+<p>&mdash;Diga a meu filho que seja honrado casando immediatamente com essa menina.
+Que venha para esta casa, com sua mulher, que será minha filha. Que aproveite
+os poucos annos da minha vida para se formar em mathematica, e assentar praça
+depois, que foi essa a mais esplendida carreira de seus avós, valentes
+generaes, quasi todos mortos no campo da honra, sem uma nodoa ignominiosa. Em
+quanto elle vai estudar, sua mulher poderá mover á piedade o padrasto, e
+levantar do chão alguma esmola que elle lhe atire como um osso a um cão
+importuno. Se lh'a não dér, nem por isso será menos filha de João da Cunha;
+porque mais vale ser filha de João da Cunha, que enteada do filho d'um
+retrozeiro do Porto. Que venham ambos vêr-me.</p>
+
+<p>&mdash;Eu estou aqui, meu pae.</p>
+
+<p>&mdash;E que não se perca em Coimbra como eu me perdi...&mdash;continuou<span
+class="pn">{60}</span> elle, surdo ás interrupções incessantes de Luiz&mdash;Foi lá
+que me atirei a este fôsso, d'onde não ha sahida, nem pela porta da contrição.
+Não se segue do meu crime a expiação em meu filho. Se causei a morte de
+Ricarda, não fui eu que a matei; foi seu marido. Se se reconciliaram na
+presença de Deus, é bem que eu pague o sangue com o sangue: mas meu filho, esse
+não...</p>
+
+<p>Luiz da Cunha não decifrava das vagas exclamações de seu pae a resposta do
+visconde. Retirou-se para Lisboa, e entrou em uma casa da rua do Principe.
+Subiu a um terceiro andar, e recebeu nos braços a inquieta Assucena, que
+chorava e tremia.</p>
+
+<p>&mdash;Porque choras?</p>
+
+<p>&mdash;Estava sósinha, e muito triste, Luiz...</p>
+
+<p>&mdash;A tua criada não te fez companhia?</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem m'a póde fazer... Ou tu, ou ninguem... Agora, não choro, nem
+tremo... Que resposta deu minha mãe?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei: meu pae está effectivamente doudo. Não comprehendi nada do que
+elle disse; mas, a acreditar o delirio em que o encontrei, o visconde não lhe
+respondeu do modo que suppúnhamos.</p>
+
+<p>&mdash;E então?</p>
+
+<p>&mdash;E então, minha filha, és o que eras para mim. Bem sabes que te não amo por
+calculo, nem te adoro menos se os meus planos falharem.</p>
+
+<p>&mdash;Eu bem o sabia, Luiz! O dinheiro não faz a tua felicidade nem a
+minha...&mdash;disse ella abraçando-o com o acanhamento do pudor.</p>
+
+<p>&mdash;De certo não, Assucena. O caminho que temos a seguir é sempre o mesmo.
+Rica ou pobre serás minha esposa.</p>
+
+<p>O amor não se finge. A tibieza das phrases triviaes de Luiz da Cunha diz-nos
+que o arrependimento veio, mais cêdo do que devia esperar-se, manifestar um
+enthusiasmo sobre posse. Não se acredita, sem ter experimentado, a subita
+mudança que transforma o homem, quando a posse absoluta da mulher, que se lhe
+dá, é logo misturada de desgostos imprevistos. Um rapto, de que se espera um
+dote, é um pêso aborrecido quando a esperança, fugindo, apenas deixa nos braços
+do raptor uma mulher<span class="pn">{61}</span> sem illusão, nem prestigio. E,
+peor ainda, quando o amor é debil, o coração extenuado não aceita os
+sacrificios grandes, que, raras vezes, acrisolam o amor de fantasia, como era
+aquelle de Luiz da Cunha.</p>
+
+<p>Querem vêl-o tal qual era nas primeiras vinte e quatro horas de convivencia
+com a filha de Rosa Guilhermina?</p>
+
+<p>Chegou a conceber o pensamento de fazêl-a entrar no convento em quanto o
+escandalo não era publico! Por vergonha, lhe não fez a ella a proposta
+reparadora da sua virtude! A virtude, portanto, na opinião d'este homem era um
+attributo bem facil n'uma mulher!</p>
+
+<p>Passaram-se alguns dias, sem Assucena desconfiar da frieza do seu amante. A
+nudez, e os gestos de impaciencia que elle, ao quarto dia, não podia esconder,
+traduziu-os ella como inquietação pela perigosa enfermidade de João da Cunha.</p>
+
+<p>Luiz sahia de noite, a visitar seu pae. Não o encontrava nunca nos
+intervallos lucidos, e sabia que os accessos eram cada vez mais duradouros.</p>
+
+<p>Resolveu, sem consultar Assucena, escrever á viscondessa. A carta foi ter ás
+mãos do visconde. O visconde devolveu-lh'a aberta, com estas linhas:</p>
+
+<p>«<em>Em minha casa não ha quem responda ás infames cartas do senhor Luiz da
+Cunha. Se quer dinheiro, trabalhe. Sahiu-lhe errado o seu calculo. Creia que me
+não enganou a mim, que tenho experiencia para conhecer os patifes. O que lhe
+vale ao senhor é essa mulher não ser minha filha... De hoje em diante, os seus
+portadores a esta casa serão corridos a chicote.</em>»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Estas linhas provocaram toda a irascibilidade de Luiz da Cunha. A ameaça era
+feita em termos muito insultantes, e o brio não tinha ainda expirado no filho
+de João da Cunha. A carta recebêra-a elle em casa de seu pae. N'essa noite não
+veio á rua do Principe, e mandou um bilhete desculpando-se com a gravidade da
+doença de seu pae. Assucena viu a sua desgraça a um raio de razão n'esse
+bilhete. Eram apenas decorridos vinte dias, depois da sua fuga! Chorou uma
+noite inteira, e escreveu a sua mãe uma longa carta, que rasgou.<span
+class="pn">{62}</span></p>
+
+<p>Luiz da Cunha apeou no pateo dos Paulistas, esperando o visconde de Bacellar
+que era certo ás onze horas de passagem para o Banco, ou para a praça
+commercial.</p>
+
+<p>Vendo-o, parou diante da sua carruagem. O boleeiro sustou os cavallos, e o
+visconde, sem auxilio de criado, saltou da portinhola com resolução.</p>
+
+<p>O filho de João da Cunha não entreteve o palavriado preliminar n'estes
+conflictos. A sua arma era um chicote, e a do filho da Anna Canastreira eram os
+braços musculosos. Travou-se a luta. Cada murro bem puxado do visconde, Luiz
+recambiava-lh'o na face em chicotada, que se repetia sobre o vergão da
+primeira. Os criados do visconde soccorreriam o amo, se não encontrassem de
+frente os criados de Luiz da Cunha. Eram dous os grupos de gladiadores; e o
+povo, sem ser romano, parecia, pela sua inercia, gosar o espectaculo curioso
+entre os dous athletas.</p>
+
+<p>O capitalista fôra ferido na face pelo martello do chicote. Os cabos de
+policia, e a guarda do correio, supposto que tarde, empregaram a força. O
+capitalista teve logo ahi um fiador, que o salvou de entrar entre bayonetas.
+Luiz da Cunha do corpo da guarda foi á administração, e d'ahi ao Limoeiro,
+d'onde sahiu afiançado quarenta e oito horas depois. Tudo isto foi ridiculo a
+não poder ser mais! Cada qual explicava o caso com uma anecdota. A fuga de
+Assucena era acontecimento que não passára d'uma roda muito restricta; e,
+portanto, era livre a invenção aos interpretes do pugilato.</p>
+
+<p>Passára-se uma noite e um dia de solidão para Assucena. Como seriam
+entretidas aquellas quarenta e oito horas! Que presentimentos, que receios, que
+saudades, que reprehensões da consciencia atormentariam a pobre menina! Fechada
+no seu quarto, rejeitára o alimento que a indifferente criada lhe offerecia. A
+sua dôr tinha frenesis, que a extenuavam. Todo o seu esforço em resignar-se era
+baldado, quando a esperança lhe mentia nos passos que subiam a escada e paravam
+no primeiro ou no segundo andar.</p>
+
+<p>Depois de quarenta e oito horas, sem noticia de Luiz, o desespêro
+fortaleceu-a resolvendo-a a procural-o em casa de seu pae.</p>
+
+<p>Á noite, sahiu com a criada, perguntando de rua em<span
+class="pn">{63}</span> rua o caminho do Campo Grande. Á porta de João da Cunha
+estava um criado. Pediu-lhe que chamasse o senhor Luiz da Cunha;
+responderam-lhe que não estava lá, e que o mais certo lugar onde o encontraria
+era no Limoeiro.</p>
+
+<p>&mdash;Prêso!&mdash;exclamou Assucena.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha menina, prêso pela vigesima vez por causa das suas patacoadas.
+Não chore, creaturinha, que o senhor Luiz ha de sahir brevemente.</p>
+
+<p>&mdash;E porque o prenderam?&mdash;perguntou a criada.</p>
+
+<p>&mdash;Porque deu umas chicotadas no visconde de Bacellar, assim como quem não
+quer a cousa.</p>
+
+<p>Assucena sentiu-se arrefecer do gêlo que começa na alma, e vem em calefrios
+á sensibilidade exterior. Encostou-se á criada, pedindo-lhe que não perguntasse
+mais nada. Atravessou, sem murmurar um gemido, sem um queixume, parando
+exhausta de forças a cada instante, a grande distancia que a separava da rua do
+Principe. Entrando no seu quarto, cahira de face sobre o leito, não para
+repousar, mas para reprimir os gritos que podiam ouvir-se no segundo andar.</p>
+
+<p>E ouviram-se.</p>
+
+<p>Era meia noite. A criada adormecêra, indifferente aos gemidos da ama, que
+lhe não aceitava as imbecís consolações. Assucena, só e ás escuras, porque a
+vela se extinguira, abrira a janella do seu quarto; mas a noite de Janeiro era
+tenebrosa e frigidissima. A filha da viscondessa de Bacellar tiritava de frio,
+de susto, e até de terror de si mesma. Sentava-se sobre a cama, lançando sobre
+os hombros o cobertor. Fitava o ouvido a cada tropel remoto de passos.
+Desenganada, ajoelhava com as mãos erguidas pedindo a Deus que lhe désse vida
+até que a luz do dia lhe deixasse procurar Luiz. Assucena passava por um
+d'esses soffrimentos em que se julga possivel a morte instantanea.</p>
+
+<p>Depois, as trévas da noite romperam-se em relampagos successivos, e o quarto
+illuminava-se de clarões azulados. A aterrada menina correu a fechar a janella,
+quando uma chuva fria lhe açoitou as faces. A dôr immensa só tinha expansão nos
+gemidos. Lançou-se sobre o leito sem reflectir que a escutavam, invocando Maria
+Santissima,<span class="pn">{64}</span> pedindo compaixão a sua mãe, chamando
+Luiz com alarido de demente, e soluçando de modo que, a distancia, simulava uma
+mulher que se contorce entre os braços que a matam pela asphixia.</p>
+
+<p>No andar de baixo morava uma devota senhora, que accendia duzias de velas, e
+rezava duzias d'orações a Santa Barbara. O quarto d'ella estava ao pé do de seu
+irmão, o conego Bernabé Trigoso, que dormia no quarto, cujo tecto era o
+pavimento do de Assucena.</p>
+
+<p>Foi elle o primeiro que ouviu os gemidos, os passos, o abrir e fechar da
+janella, o ranger do leito, e ultimamente os gritos.</p>
+
+<p>Chamou sua irmã, e disse-lhe que escutasse. D. Perpetua Trigoso applicou o
+ouvido, e affirmou que não era illusão do conego os estranhos gritos da
+mysteriosa menina que alli morava.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos nós lá, Bernabé?&mdash;disse ella quando seu irmão lhe pedia o capote, e
+a mandava sahir do quarto para elle se vestir.</p>
+
+<p>Subiram ao terceiro andar cada um com sua vela mystica, das que a senhora D.
+Perpetua accendêra á santa das trovoadas, e bateram á porta.</p>
+
+<p>Assucena, sem pensar nem discernir, como desintorpecida d'um lethargo, foi
+apalpando na escuridade, imaginando que era aquelle o bater de Luiz da Cunha.
+Abriu com precipitação, e recuou espavorida ao aspecto um pouco funebre de
+Perpetua que lançára um chale de cachemira escura sobre a cabeça, franjada na
+testa por cabellos brancos. A figura magra, macillenta e cadaverica do velho,
+não era menos assustadora, vista ao clarão da vela que lhe betava de sombras as
+rugas profundas do rosto.</p>
+
+<p>&mdash;Não se assuste, visinha&mdash;disse o conego, entrando&mdash;nós somos os moradores
+do andar de baixo, e, como ouvissemos gemidos cá em cima, viemos em soccorro,
+se é que podemos servir de algum bem á pessoa que nos cortou o coração com os
+seus gemidos.</p>
+
+<p>&mdash;Era talvez mêdo dos trovões...&mdash;accrescentou D. Perpetua, dando tambem um
+passo para dentro da porta.</p>
+
+<p>&mdash;A menina estava ás escuras?&mdash;tornou o conego.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor.<span class="pn">{65}</span></p>
+
+<p>&mdash;E não tem criada?&mdash;disse a irmã.</p>
+
+<p>&mdash;A criada está a dormir.</p>
+
+<p>&mdash;Quer a menina vir comnosco para a nossa casa até ser dia?&mdash;disse o conego.</p>
+
+<p>&mdash;Vou... se me concedem esse favor&mdash;respondeu sem titubear Assucena.</p>
+
+<p>&mdash;Pois então, menina&mdash;atalhou Perpetua&mdash;cubra o meu chaile, ou vá buscar o
+seu, que está muito frio na escada.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não posso ter mais frio...&mdash;disse a filha da viscondessa.</p>
+
+<p>&mdash;Nem mais febre&mdash;tornou o conego, apalpando-lhe as mãos com singular
+carinho&mdash;Ora venha, venha comnosco. Anda lá com ella adiante, Perpetua, que eu
+fecho a porta.</p>
+
+<p>Perpetua assentou Assucena no seu esteirão; embrulhou-a em cobertores; e
+deu-lhe uma chavena de café com um golo de genebra, por conselho de seu irmão.
+Depois sentou-se a par com ella, que não cessava de tiritar, Bernabé veio,
+melhor forrado contra o frio, sentar-se ao pé d'ellas. As lagrimas de Assucena
+eram inesgotaveis. Perpetua queria consolar, mas não conhecia a dôr. O conego,
+fixando alguns minutos em silencio o semblante da pobre menina, fez a sua irmã
+um gesto significativo, tomou com paternal ternura as mãos abrazadas de
+Assucena, e perguntou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Minha filha, porque soffre? Abra o seu coração. Se lhe não podérmos ser
+uteis, poderemos ao menos conseguir que o seu soffrimento diminua respirando
+pelas palavras. Quem sabe se Deus nos approximou? Diga o que tem: falla com um
+padre, que é seu pae espiritual.<span class="pn">{66}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00170">VII.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00171">PERDIDO SEM REDEMPÇÃO</a></h2>
+
+<p>Quando Luiz da Cunha era conduzido por dous soldados á administração do
+bairro, encontrou Liberata n'uma sege, e respondeu com um gesto de cabeça á
+rasgada cortezia que ella lhe fizera.</p>
+
+<p>A sege de Liberata retrocedêra, e vinha a passo lento seguindo Luiz da
+Cunha. Quando os soldados pararam á porta da auctoridade, e Luiz, sem reparar
+na sege, desapparecêra no interior do páteo, Liberata acenou a um dos soldados,
+que se chegou á portinhola. Perguntou por que fôra prêso aquelle sujeito, e o
+soldado informou-a com a minuciosidade que podia. Pagou com um cruzado novo o
+pequeno serviço do informador, e pediu-lhe que subisse á sala da administração,
+e dissesse ao ouvido do prêso que uma pessoa, que elle encontrára, em uma sege,
+lhe mandava offerecer não só dinheiro, mas até a influencia dos seus amigos, se
+com isso era possivel a sua immediata soltura.</p>
+
+<p>O soldado não conseguira fallar ao prêso; mas soubera de um official de
+diligencias, seu conhecido, que o tal sujeito só podia ser solto com fiança, e
+não estava presente ninguem que o afiançasse.</p>
+
+<p>Liberata deu ordens promptas ao boleeiro, e a sege, a grande galope, correu
+algumas ruas, e parou á porta de um conselheiro, official-maior d'uma
+secretaria de estado. S. ex.ª não recolhêra ainda da secretaria. A protectora
+de Luiz da Cunha mandou tocar para o Terreiro do<span class="pn">{67}</span>
+Paço, e fez parar a sua sege a par da do conselheiro. Chamou um correio de
+ministro, que passeava debaixo das arcadas, e mandou-o entregar ao
+official-maior o seu <em>porte-monnaie</em>. O conselheiro veio rapidamente á
+portinhola. Trocou algumas palavras com Liberata, entrou na sua sege, e partiu
+para a administração do bairro.</p>
+
+<p>Perguntou por Luiz da Cunha; disseram-lhe que fôra remettido ao juiz
+criminal. Foi ao juiz criminal, quando o prêso acabava de sahir para o
+Limoeiro. Declarou o amante de Liberata que vinha afiançal-o. O juiz aceitou
+respeitosamente a fiança, e prometteu mandal-o soltar o mais depressa que se
+lavrasse o auto. Sahia, porém, o conselheiro, quando uma carta de uma
+notabilidade do Supremo Tribunal recommendava ao juiz que não aceitasse fiança,
+paliando quanto podésse a soltura inconvenientissima de Luiz da Cunha, que
+ameaçava a existencia do visconde de Bacellar.</p>
+
+<p>Liberata, com a certeza da soltura, dada pelo amante, foi á cadeia, procurou
+Luiz da Cunha que passeava ainda na sala do carcereiro, e contou-lhe
+rasgadamente os passos que déra. O preso agradeceu-lh'os com aviltante
+submissão, não sentindo a vergonha de ser unicamente protegido por tal mulher.
+Sem o recriminar, a amante do conselheiro perguntou-lhe, sorrindo, se melhorára
+de fortuna, despedindo-a do seu serviço. Luiz da Cunha teve a sinceridade de
+confessar que tinha saudades do tempo em que vivêra com ella. Liberata disse
+que tambem as tinha, e deu como prova não ter sido fiel a nenhum dos seus
+amantes, depois d'elle, porque não encontrára rapaz tão perfeito, nem tão
+despreoccupado das asneiras sociaes, como Luiz da Cunha.</p>
+
+<p>Recordaram scenas da sua vida de dous annos, dando tempo a que viesse a
+ordem de soltura. Passaram duas horas, e, como ella não chegasse, Liberata
+impacientou-se, e sahiu, dizendo que, se entretanto a ordem viesse, e elle
+quizesse fazer-lhe uma visita, depois da meia noite, a procurasse na rua de S.
+Bento, n.º 46.</p>
+
+<p>Luiz prometteu-lhe a suspirada visita, e apertou-lhe com estremecida
+meiguice a mão. Em quanto lhe dava a mão direita, Liberata lançava com a
+esquerda no chapéo de Luiz o <em>porte-monnaie</em>. Sahiu.<span
+class="pn">{68}</span></p>
+
+<p>Foi d'uma corrida a casa do conselheiro; obrigou-o a sahir, a vencer todos
+os obstaculos que redobraram desde que o proprio visconde peitára o juiz, e,
+taes elles eram, que só, no dia immediato á tarde, Luiz da Cunha foi solto, e o
+conselheiro veio allegar a Liberata trabalhosos serviços, que ella pagou com um
+beijo.</p>
+
+<p>Imaginam que Luiz da Cunha, apenas livre, nem tempo tem de procurar uma
+sege, e corre á rua do Principe, onde o espera a atormentada Assucena?</p>
+
+<p>Não foi assim. Sahiu placidamente da cadeia. Desceu á primeira estação de
+seges no Terreiro do Paço. Montou a que lhe pareceu mais bem servida de
+parelha. Foi jantar ao Matta, no caes do Sodré. Subiu pela rua do Alecrim.
+Tomou café no Marrare. Passou na rua de S. Bento para vêr a casa n.º 46;
+cortejou Liberata que, por dentro das janellas, lhe fitava um pequeno oculo de
+theatro. Foi ao Campo Grande saber como seu pae estava. Entristeceu-se um
+momento quando lhe disseram que passára peor, depois que um imprudente lhe
+dissera que seu filho batêra no visconde de Bacellar. Não apeou para lhe não
+irritar os padecimentos. Veio para o theatro de S. Carlos, e reparou que o
+encaravam de lado, voltando-lhe as costas, se elle os encarava de frente.
+Achou-se sósinho no salão, e sósinho no banco em que se sentára. Depois da meia
+noite, despediu o boleeiro defronte do palacio das côrtes, e seguiu a rua de S.
+Bento até á casa n.º 46.</p>
+
+<p>Dos moveis que Luiz da Cunha deixára á sua amante, nem uma cadeira existia.
+A primeira sala, forrada de ricos tapetes, opulenta de luxo e mau gosto não
+invejava o apparato da garrida decoração das salas d'um brazileiro de
+torna-viagem, que vos deslumbra com o seu baazar de porcellanas, de relogios,
+de cães e patos de vidro, de conchas variegadas, de ricas encadernações em
+marroquim de livros nunca abertos, de globos de luzente cobre, de coxins
+amarellos e vermelhos.</p>
+
+<p>A sala de Liberata tinha tudo isto em prodiga profusão. Um americano,
+antecessor do conselheiro, e successor do capitão de marinha ingleza, tinha
+sido o intelligente coordenador d'aquella miscellanea em que despendera contos
+de reis, pequena paga para os carinhos de sua<span class="pn">{69}</span>
+amante. Diziam que Liberata seria esposa d'esse americano, se o consul
+despoticamente o não mandasse prêso a bordo d'uma embarcação que o levou a seu
+pae, desfalcado em boa parte da sua fortuna.</p>
+
+<p>O conselheiro, que substituira o americano, sustentava o luxo de Liberata
+com uma farta mesada, de que ella tirava para todos os seus caprichos, podendo
+montar sege, sua mais querida ambição.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha contemplava estupidamente aquella magnificencia, que não era
+nada comparando-a á sumptuosidade d'alcova, onde foi recebido, como era dever
+que o fosse, o unico homem que a fizera conter-se nos honestos limites d'uma
+fiel amante.</p>
+
+<p>&mdash;Achas que estou muito rica?&mdash;disse Liberata, puxando-lhe com meiguice uma
+orelha.</p>
+
+<p>&mdash;As apparencias são d'isso...</p>
+
+<p>&mdash;Suppunhas que nenhum outro homem saberia dar-me valor?</p>
+
+<p>&mdash;Eu bem sabia que te não faltariam adoradores, Liberata. Para que eu me
+separasse de ti, foi preciso que eu entrasse n'uma época de demencia, que me
+dura ha quatro mezes.</p>
+
+<p>&mdash;Que tens tu feito ha quatro mezes?</p>
+
+<p>&mdash;Tenho envelhecido quarenta annos. Quiz-me oppôr á natureza, fazendo-me
+pessoa de bem, e perdi o tempo. Acabo de conhecer que era mais feliz quando a
+minha sociedade eras tu, e os meus cavallos, palavra de honra!</p>
+
+<p>&mdash;Com que então <em>eu e os teus cavallos</em>! O diacho da mistura não é
+nada amavel! Mas conta-me cá... disse-me o conselheiro...</p>
+
+<p>&mdash;Qual conselheiro?</p>
+
+<p>&mdash;O actual... não sabes quem ficou por teu fiador?</p>
+
+<p>&mdash;Pois o conselheiro é o teu amante?</p>
+
+<p>&mdash;Excellente creatura... Pois foi elle que me disse que uma enteada do
+visconde de Bacellar fugira das commendadeiras para casar comtigo. Já casaste?</p>
+
+<p>&mdash;Não, nem caso.</p>
+
+<p>&mdash;Nem casas? então, tenho mais uma companheira...</p>
+
+<p>Luiz sentiu um ligeiro toque de pundonor, ouvindo tamanho ultraje a
+Assucena, que n'este momento se lhe<span class="pn">{70}</span> afigurou de
+joelhos, pedindo a Deus a morte. Esta visão desvaneceu-se como o raio
+instantaneo de sol em ceo revolto de nuvens escuras.</p>
+
+<p>&mdash;Diz-me cá, Luizinho&mdash;continuou Liberata, lançando-lhe o braço direito
+sobre o hombro, e brincando-lhe com os anneis do longo cabello&mdash;queres ser
+outra vez meu?</p>
+
+<p>&mdash;É impossivel.</p>
+
+<p>&mdash;Porque? Tens lá a tua fidalga das commendadeiras... Já me não lembrava...</p>
+
+<p>&mdash;Não é por isso.</p>
+
+<p>&mdash;Pois então?</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho dinheiro... Aquelle manancial das joias de minha mãe esgotou-se;
+meu pae está doudo, e não me conhece...</p>
+
+<p>&mdash;E é por isso que querias casar com a filha do visconde?</p>
+
+<p>&mdash;Adivinhaste; mas o visconde não lhe dá nada, e eu nada tenho que lhe dar
+como amante, e muito menos como mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Queres tu uma cousa? Não digas a ninguem que és meu amante, e não se te dê
+que o conselheiro o seja. Queres?</p>
+
+<p>&mdash;Não; porque terias de me sustentar. A mim o que me convém é sahir já já de
+Portugal.</p>
+
+<p>&mdash;Porque?</p>
+
+<p>&mdash;Quero vêr se a pequena se recolhe a casa do padrasto, e preciso na Africa
+ou no Brazil mudar de nome, e arranjar uma fortuna.</p>
+
+<p>&mdash;És tolo! Qual Africa nem qual Brazil! A pequena, em tu lhe dizendo que
+nada feito, toma o rumo de casa, e a mãe ha de recebêl-a, se a não quizer vêr
+onde vai parar muita gente que tambem foi honrada. Tu mettes-te em casa de teu
+pae, de dia, e, passada a meia noite, vens para a tua Liberata. Em quanto eu
+tiver um annel, tens tu um casaco, em se acabando, fizemos trinta annos á
+justa. Has de crêr que sou tua amiga apesar das tuas ingratidões? Deu-me para
+aqui! Sympathisei comtigo, e se fosse rainha fazia-te rei. Ora aqui está. Nada
+de tristezas. Vamos cear, que já ouvi a campainha tres vezes. Inda cá tenho os
+criados que me déste, e não são capazes<span class="pn">{71}</span> de dar um
+pio. Quando souberam que tu cá vinhas hoje, até dançaram a gôta... Tu ficas
+sendo de hoje em diante o dono d'esta casa, e o conselheiro é o nosso mordomo,
+sim?</p>
+
+<p>Luiz da Cunha enlaçou o braço pelo de Liberata, que lhe cingia a cintura, e
+entrou na sala de jantar, onde scintillavam os crystaes variegados, pequena
+parte d'uma soberba copa. A cêa era servida por um criado, de gravata e collête
+branco. Luiz respondeu com um abraço familiar á cortezia affectuosa do seu
+antigo escudeiro de quarto.</p>
+
+<p>O <em>et cetera</em> é a palavra latina que eu conheço mais util nos usos
+sociaes. Com um <em>et cetera</em>, ou dous, fica historiada esta noite; mas
+ainda um terceiro de certo não diria que Luiz da Cunha no dia seguinte, quando
+se approximava a matinal visita do conselheiro, depois de almoço, recolheu-se
+ao quarto do criado, onde escreveu a seguinte carta:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<p style="text-align: right;">«<em>Assucena.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<p>«<em>Não te verei mais. Os obstaculos ao nosso casamento são invenciveis.
+Uma desordem, que tive com teu padrasto, obriga-me a sahir de Portugal. Escreve
+a tua mãe, e diz-lhe onde moras para que ella te procure, e te receba em sua
+casa. Se eu um dia tiver colhido algum bom resultado dos meus projectos,
+tornarei a Portugal, e serás então minha esposa, assim como eu o serei teu,
+toda a vida, pelo coração. Demoro-me escondido em Lisboa alguns dias; mas, por
+evitar mais amarguras, antes quero não tornar a vêr-te. Lembra-te que eu sou
+muito infeliz para te resignares na tua infelicidade.</em></p>
+
+
+<p style="text-align: right;">«LUIZ DA CUNHA.» </p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<p>O portador voltou, dizendo que a carta fôra recebida por um velho, que tinha
+geitos de padre.</p>
+
+<p>&mdash;Quem será este padre?!&mdash;dizia Luiz da Cunha a Liberata.<span
+class="pn">{72}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00180">VIII.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00181">PROVIDENCIA OU ACASO?</a></h2>
+
+<p>Assucena contára com pueril ingenuidade a sua vida ao conego Bernabé
+Trigoso, e a sua irmã. Não lhe occultou o seu nascimento, nem as menores
+circumstancias da sua fuga. Disse quem era o seu amante, e reparou que o
+conego, ao ouvir tal nome, exclamára de modo que não queria ser ouvido:</p>
+
+<p>&mdash;Santo Deus!</p>
+
+<p>A senhora D. Perpetua, virtuosa sem momos de beata, pedia á sua predilecta
+Senhora das Dôres que permittisse a reparação da falta de Assucena. O conego,
+crente no remedio do ceo, mas intelligente bastante para se não abandonar
+inerte ás operações invisiveis da Providencia, prometteu á sua hospeda empregar
+todos os meios possiveis para destruir os obstaculos ao seu casamento.</p>
+
+<p>&mdash;Mas&mdash;accrescentou elle&mdash;eu não creio que o senhor Luiz da Cunha recompense
+o amor que a menina lhe tem.</p>
+
+<p>&mdash;Porque? Pelo amor de Deus diga-me porque...</p>
+
+<p>&mdash;Porque não acho muito proprio de um amante o silencio de quarenta e oito
+horas, sem lhe dar por escripto, ao menos, certeza de que vive.</p>
+
+<p>&mdash;Se elle está prêso!</p>
+
+<p>&mdash;Mas os prêsos não estão privados de escrever.</p>
+
+<p>&mdash;Estará doente...</p>
+
+<p>&mdash;Estará... não aventemos explicações, menina. O tempo nos dirá tudo. Logo
+que seja dia, eu vou informar-me<span class="pn">{73}</span> do que é feito do
+senhor Luiz da Cunha. Agora vá descançar um bocadinho no quarto de minha irmã.
+São quatro horas. Tenha esperanças em Deus, que é pae, e em mim que hei de ser
+para a menina o que seria para uma filha.</p>
+
+<p>Quando foram horas de se abrirem os tribunaes, Bernabé Trigoso colheu
+informações de Luiz da Cunha. Soube que elle na vespera fôra solto, afiançado
+pelo conselheiro Costa e Almeida. Nenhumas outras informações, além das que lhe
+deu o carcereiro de uma visita, á cadêa, de certa senhora ricamente vestida,
+que viera em sege sua.</p>
+
+<p>Recolhendo a casa, sua irmã disse-lhe que Assucena adormecêra momentos
+antes, e era peccado acordal-a d'aquelle dormir, que parecia sereno como o de
+um anjo.</p>
+
+<p>&mdash;Creio que a infeliz&mdash;disse elle&mdash;deve perder a esperança em tal homem. Eu
+por mim, julguei-a perdida desde que ouvi pronunciar tal nome.</p>
+
+<p>&mdash;Pois quem é elle?</p>
+
+<p>&mdash;É um flagello da humanidade... É um homem que tem dado brado com os seus
+escandalos. Não te recordas das historias que nos contava o padre Joaquim?</p>
+
+<p>&mdash;O capellão de João da Cunha?</p>
+
+<p>&mdash;Que é pae de Luiz da Cunha... Aqui tens o abutre em cujas garras cahiu a
+pobre pomba. Desgraçada menina! É preciso preparal-a para o desengano...</p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe o que Deus fará?</p>
+
+<p>&mdash;Eu não sei o que Deus fará; mas sei o que os homens são capazes de fazer.
+Não abandonemos esta victima do erro. Desculpemol-a, que tem o seu perdão na
+innocencia com que nos contou a sua vida. Se esse homem a procurar, achal-a-ha
+em nossa casa. Se nunca mais a procurar, a nossa casa será o abrigo de
+Assucena.</p>
+
+<p>A criada da neta do arcediago desceu ao segundo andar, dizendo que um
+portador trazia uma carta para a senhora D. Assucena. O conego mandou descer o
+portador, perguntou de quem vinha a carta; o criado respondeu que era do senhor
+Luiz da Cunha, e não tinha resposta. Redarguiu Bernabé, inquirindo a residencia
+do senhor Luiz da Cunha: o moço respondeu que não tinha ordem de a dizer.</p>
+
+<p>As suspeitas do conego fortaleceram-se. Esta carta<span
+class="pn">{74}</span> era uma despedida na sua opinião. Reflectiu se devia
+entregar-lh'a, ou lêl-a. Perpetua animou-o a abril-a, visto que a intenção era
+evitar algum desgosto mortal á infeliz menina. O conego leu a carta; e ficou
+satisfeito da sua temeridade.</p>
+
+<p>&mdash;Não se lhe mostra esta infame carta&mdash;disse elle.</p>
+
+<p>&mdash;Era capaz de morrer a desgraçadinha!&mdash;accrescentou a irmã.&mdash;Mas que lhe
+dirás, se ella te pedir noticias d'esse mau homem?!</p>
+
+<p>&mdash;Digo-lhe... eu sei cá o que hei de dizer-lhe!... Digo-lhe que se
+resigne... e pedirei a Deus que lhe dê coragem para o desengano... Veremos...
+Talvez a possa salvar, servindo-me das palavras d'elle, que a matariam, se ella
+as lêsse todas...</p>
+
+<p>Assucena tossira. D. Perpetua foi pé ante pé escutar. Ouviu-a soluçar. Abriu
+a porta, e uma fresta da janella. Encontrou-a de joelhos aos pés do leito.
+Abraçou-se a ella com os olhos humidos das lagrimas, que lhe arrancára seu
+irmão com as suas, lendo a carta.</p>
+
+<p>&mdash;Sabe-se alguma cousa?&mdash;exclamou Assucena.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos lá dentro fallar com meu irmão, minha filha. Elle já veio, e alguma
+cousa lhe dirá.</p>
+
+<p>&mdash;Pois, sim, vamos...&mdash;disse, correndo impetuosamente meio vestida.</p>
+
+<p>Entrando na salêta em que o conego almoçava, D. Perpetua fêl-a sentar ao pé
+da cadeira de seu irmão, em quanto lhe apertava com os ganchos o cabello em
+desalinho. Bernabé, risonho e com ares de quem vai dar uma boa nova, deu-lhe a
+sua chavena de chá, escolheu-lhe a torrada mais appetitosa, e os biscoutos mais
+torrados. Assucena queria rejeitar; mas o conego teimou com brando afago, e
+conseguiu que ella sorrisse á pertinacia d'um papagaio que, por força, queria
+participar das sôpas de seu amo na mesma chicara.</p>
+
+<p>Findo o almoço, o conego, por um gesto, fez sahir sua irmã. Assucena não
+despregava os olhos dos labios d'elle, e achava insoffrivel a demora das
+informações que lhe promettêra.</p>
+
+<p>&mdash;Está anciosa pela resposta, minha menina?</p>
+
+<p>&mdash;Estou... Fallou-lhe? Viu-o?</p>
+
+<p>&mdash;Não o vi, nem lhe fallei.<span class="pn">{75}</span></p>
+
+<p>&mdash;Meu Deus!... então?</p>
+
+<p>&mdash;Vi uma carta d'elle, escripta a um seu amigo, que me procurou já hoje...</p>
+
+<p>&mdash;Para que?</p>
+
+<p>Bernabé Trigoso não pensára maduramente nas respostas, e luctava com as
+difficuldades do improviso.</p>
+
+<p>&mdash;Para que?... Não se apresse, minha filha. Quero primeiro convencêl-a de
+que tem Deus a seu favor. Assucena não é tão infeliz como se imaginava.</p>
+
+<p>&mdash;Pois diga, senhor, diga tudo o que sabe... Elle vem?</p>
+
+<p>&mdash;Ha de vir, mas por em quanto não. Ora diga-me qual queria, vêl-o
+perseguido por seu padrasto, ou salvo da perseguição longe de si?</p>
+
+<p>&mdash;Antes longe de mim; mas eu irei viver com elle no fim do mundo.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é que é impossivel...</p>
+
+<p>Assucena estava côr da cêra. As lagrimas estancaram-se-lhe; e as palpebras
+penderam-lhe amortecidas. Já não ouvia as palavras do conego, depois do
+<em>impossivel</em>. Quizera em vão suster a cabeça no braço tremulo. Cada vez
+mais coada, até os labios se fizeram brancos. Um ai, desentranhado do coração,
+foi seguido d'um vágado; o padre recebeu-a nos braços, e chamou sua irmã, para
+ajudal-o a leval-a á cama.</p>
+
+<p>&mdash;Este acontecimento não se evitava&mdash;disse o conego.</p>
+
+<p>&mdash;Ella sabe tudo?</p>
+
+<p>&mdash;O mais necessario. Agora resta imaginar a convalescença que é onde está o
+maior perigo. Se eu podésse fallar á mãe d'esta menina...</p>
+
+<p>&mdash;Querias entregar-lh'a?</p>
+
+<p>&mdash;Não; hoje o meu maior prazer era restituir a felicidade a esta senhora.
+Queria salval-a com a presença da mãe.</p>
+
+<p>&mdash;Poderá ser peor...</p>
+
+<p>&mdash;Não é. O remedio d'este mal são as torrentes de lagrimas, e essas só ella
+as póde verter com fructo no seio de sua mãe... Perpetua, não te separes
+d'ella; falla-lhe em sua mãe, e dize-lhe que sahi para bem seu.</p>
+
+<p>Bernabé Trigoso, quando entrou no páteo do visconde<span
+class="pn">{76}</span> de Bacellar, perguntaram-lhe se era o padre que vinha
+confessar a senhora viscondessa. Respondeu que não era o confessor da senhora
+viscondessa, mas era um conego da patriarchal que precisava fallar com s. exc.ª</p>
+
+<p>Conduziram-no ao quarto d'ella. Rosa Guilhermina estava de cama, com dous
+medicos á cabeceira, que retiraram, quando o conego entrou. Um dos medicos,
+quando se retirava, abraçára o conego, e disse á viscondessa: «Eis-aqui o
+ultimo homem dos tempos de virtude. Estimo bem vêl-o á cabeceira do seu leito,
+senhora viscondessa!» E ficaram sós.</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho o gosto de conhecêl-o...&mdash;murmurou ella com a voz enfraquecida.</p>
+
+<p>&mdash;Não importava conhecer-me antes d'este momento. De certo, eu não poderia
+evitar os desgostos por que v. exc.ª está passando...</p>
+
+<p>&mdash;Terminarão brevemente... Estou quasi morta.</p>
+
+<p>&mdash;Não morrerá. Deus não nos dá a vida como um instrumento, partido no
+primeiro estorvo, que nos embaraça uma suave carreira. Viemos para trabalhos,
+senhora viscondessa; e o mais soffredor é o mais benemerito aos olhos do
+Altissimo. Venho fallar-lhe de sua filha.</p>
+
+<p>&mdash;Sim?... Oh! foi Deus que o mandou!.. Onde está minha filha?</p>
+
+<p>&mdash;Na companhia de uma senhora que é minha irmã, e na minha companhia, que
+sou um padre.</p>
+
+<p>&mdash;Pois esse homem...</p>
+
+<p>&mdash;Quer-me fallar de Luiz da Cunha?</p>
+
+<p>&mdash;Sim...</p>
+
+<p>&mdash;Esse homem abandonou-a.</p>
+
+<p>&mdash;Já!... sem a salvar da deshonra!</p>
+
+<p>&mdash;O que nós queremos é salval-a da morte.</p>
+
+<p>&mdash;É mais feliz se morrer! Levai-a meu Deus, levai-a para vós!</p>
+
+<p>&mdash;Deus não se aconselha, senhora viscondessa. Ella vive, porque Deus o quer.
+Confiou-m'a, e eu quero encaminhal-a de modo que Deus a chame, quando a gloria
+do ceo lhe seja dada como um premio de virtudes na terra, amaldiçoada para os
+anjos.</p>
+
+<p>&mdash;Mas... é impossivel recebêl-a em minha casa...</p>
+
+<p>&mdash;Eu não quero que a receba em sua casa, minha senhora.<span
+class="pn">{77}</span> Sua filha é como se fosse minha. Debaixo das minhas
+telhas mora a honra e a abundancia. Assucena não precisa senão chorar, para
+renascer para a felicidade, que eu prometto dar-lhe. Chorar... chora ella
+sempre; mas é preciso que o seu coração se abra ás suas lagrimas, para lhe
+perdoar...</p>
+
+<p>&mdash;Eu perdôo-lhe...</p>
+
+<p>&mdash;Bem... mas o seu perdão ha de ser-lhe dado a ella, abraçando-a,
+convencendo-a de que é possivel a sua rehabilitação. E, depois, seja um segredo
+para todo o mundo a existencia de sua filha em casa do conego Bernabé Trigoso.</p>
+
+<p>&mdash;Se eu viver, dar-lhe-hei tudo o que podér para a sua subsistencia.</p>
+
+<p>&mdash;Não precisa de nada sua filha. Se v. exc.ª consente que ella seja da minha
+familia, deixe-me inteiro o cargo de pae. O seu mais precioso sustento é o do
+espirito. Esse é que eu pedirei a Deus que m'o não escassêe, e talvez o
+consiga.</p>
+
+<p>&mdash;Quer que eu procure minha filha?</p>
+
+<p>&mdash;Supplico-lh'o.</p>
+
+<p>&mdash;Se eu tivesse forças...</p>
+
+<p>&mdash;Experimente, senhora viscondessa; parece-me que posso prophetisar-lhe que
+terá forças. Trata-se de salvar uma filha. V. exc.ª sentir-se-ha melhorar
+quando se convencer de que o anjo cahido se levanta, com a dôr da sua ignominia
+adormecida. Não lhe falle em Luiz da Cunha, bem nem mal. Ha de abominal-o, sem
+que lhe lancemos em rosto a perfidia d'esse miseravel, que, no fim de tudo, não
+é menos lastimavel, porque o seu fim deve ser triste. Deixemos-lhe a elle o
+cargo de se fazer detestavel. Uma mulher apaixonada só recebe bem as censuras
+da sua consciencia. Illuda sua filha com uma piedosa mentira. Diga-lhe que
+ninguem falla da sua desgraça, que as poucas pessoas que a sabem se empenham em
+desmentil-a, fazendo crêr que Assucena vive na companhia d'uns parentes no
+Porto. É preciso mesmo que v. exc.ª faça acreditar que a enviou para alguma
+quinta longe de Lisboa.</p>
+
+<p>«Posso dizer que ella está no Minho, onde meu marido comprou uma quinta em
+meu nome para eu poder legar a quem quizesse por minha morte, e talvez eu
+conseguisse<span class="pn">{78}</span> que meu marido me concedesse dar-lh'a
+já; mas elle, depois da desordem com Luiz da Cunha, enfureceu-se contra ella,
+contra mim, contra todos...</p>
+
+<p>&mdash;Já lhe disse, minha senhora, que sua filha não precisa de quintas, se lhe
+não prohibe ser mais minha filha que sua.</p>
+
+<p>A conversação prolongava-se, quando foi annunciado o confessor da
+viscondessa. A enferma, pela subita animação que o conego lhe emprestára, e
+pela desordem de ideias que lhe confundiam o exame de uma confissão geral,
+mandou dizer ao padre que resolvêra adial-a. Entretanto, Bernabé Trigoso
+retirava-se, porque a viscondessa lhe pedíra que occultasse de seu marido, se
+elle entrasse no quarto, a causa da sua vinda áquella casa.</p>
+
+<p>As syncopes de Assucena repetiram-se na ausencia do conego. D. Perpetua,
+receosa dos resultados, chamára medico para consultal-o se devia chamar
+confessor. O medico nem receitou nem votou pela precipitação dos sacramentos.
+Colligiu das timidas informações da virtuosa senhora que a enfermidade de
+Assucena era uma forte affecção moral.</p>
+
+<p>O conego, tambem assustado, não abandonava o leito de sua filha adoptiva. As
+consequencias eram mais graves do que elle suppozera. Assucena já não chorava,
+nem perguntava nada com referencia a Luiz da Cunha. Tinha os olhos em extasis,
+e a boca meio-aberta respirava acceleradamente. Sahiam-lhe do coração gemidos
+convulsivos, como o arfar tremido da creança, quando cessa de chorar, mas,
+ainda animada pelos beijos da mãe, parece queixar-se. Estes periodos duravam
+uma hora. Se lhe perguntavam o que sentia, respondia com melancolico sorriso:
+«nada.» Se lhe davam consolações, que não podiam deixar de ser fundadas em
+frouxas palavras de esperança, a filha de Augusto Leite acenava com a cabeça,
+como se dissesse: «não me salvam com a piedosa mentira.»</p>
+
+<p>Bernabé fallava-lhe a linguagem que aconselhava á viscondessa, dizendo-lhe
+que muita gente se persuadia que Assucena, por causa do namoro de Luiz da
+Cunha, fôra tirada das commendadeiras, e conduzida a uma quinta no Minho por
+ordem de sua mãe.<span class="pn">{79}</span></p>
+
+<p>Este balsamo não prestava refrigerio algum á ferida. Bernabé Trigoso,
+sabendo muito, não sabia tudo do coração. Estes remedios aproveitam quando a
+mulher despresada esquece o amante para se lembrar da sua reputação. Assucena
+não tinha ainda pensado no que o mundo diria d'ella. Luiz da Cunha era a sua
+ideia unica, e a face torpe d'esse homem não se voltára ainda para que a
+infeliz lh'a visse pelos olhos da reflexão. O systema, pois, de Bernabé não era
+vantajoso como elle o suppunha. O soffrimento silencioso augmentava: o pulso
+impetuoso recahia n'um marasmo insensivel, para depois referver em borbotões de
+sangue. O medico aconselhava uma qualquer impostura, se não havia consolações
+verdadeiras que a salvassem. Era possivel a morte, dizia elle;&mdash;era possivel
+uma loucura; era tudo possivel, menos cural-a d'aquella desesperada situação
+com remedios da botica. Se é uma paixão por causa d'algum amor
+infeliz,&mdash;accrescentava o doutor&mdash;mintam-lhe de modo que possamos allivial-a
+d'esta crise, e reduzil-a a estado menos anormal para que se colha algum
+resultado das palavras.</p>
+
+<p>Aproveitou o conselho. O conego fingiu a recepção de uma carta d'um seu
+amigo em que se lhe promettia o breve enlace de Luiz da Cunha com Assucena. A
+innocencia tem credulidades sem critica nem senso. A pobre menina, sem
+discernir quem poderia escrever tal carta a um homem estranho a Luiz da Cunha,
+acreditou-a. Deu-se uma notavel alteração nos symptomas. O medico nunca
+alcançára um triumpho tão barato, nem tão util. Conhecer a alma é, em muitos
+casos pathologicos, a mais prestante medicina.</p>
+
+<p>No dia immediato, soube o conego que a viscondessa visitava de tarde sua
+filha. Preparou-se, felicitando-a por ter merecido a Deus tão excellente mãe.
+Dissipou-lhe os receios, a vergonha, e até o medo que se lhe incutiu, temendo
+que sua mãe viesse dissuadil-a do seu casamento.</p>
+
+<p>&mdash;Sua mãe&mdash;dizia o conego&mdash;naturalmente não lhe falla em Luiz da Cunha. A
+menina não deve tambem fallar-lhe n'elle.</p>
+
+<p>&mdash;Porque? não ha de elle ser meu marido?</p>
+
+<p>&mdash;E que tem isso? O coração de sua mãe é bondoso;<span
+class="pn">{80}</span> mas não se segue que a bondade desvaneça o melindre
+natural. Calar tal nome é uma prova de respeito com que deve retribuir a
+generosa amizade de sua mãe. É provavel que ella pouco lhe diga. A sua primeira
+expansão será de lagrimas. Receba-as que são, talvez, as que salvam a infeliz
+senhora da morte.</p>
+
+<p>Não se enganára o conego. Rosa Guilhermina fraqueou quando recebia nos
+braços Assucena. Desmaiada, podéra reputar-se morta, se o coração não batesse
+violento no seio da consternada filha.</p>
+
+<p>Bernabé, amparando-a tambem, perguntava a Assucena quanto daria por salvar
+sua mãe.</p>
+
+<p>&mdash;Dou a minha vida!&mdash;exclamou ella.</p>
+
+<p>&mdash;E, se sua mãe lhe pedisse o coração, e não a vida?</p>
+
+<p>&mdash;Tudo, tudo, senhor!</p>
+
+<p>&mdash;E, se ella lhe pedisse que renunciasse o amor de Luiz da Cunha?</p>
+
+<p>&mdash;Para salval-a?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, para salval-a.</p>
+
+<p>&mdash;Morreria, mas renunciava...</p>
+
+<p>&mdash;Melhor lhe fôra então morrer!...&mdash;disse em voz soturna Bernabé, afastando
+a viscondessa esvaida dos braços da filha, e fixando n'esta um olhar de severa
+reprehensão. A neta do arcediago deixou cahir os braços, e pregou os olhos no
+chão. Ora o rubor, ora a pallidez revesavam-lhe no rosto afflicto. Dôr e
+vergonha, amor e arrependimento, esperança e desespêro, eram por ventura as
+variadas sensações que lhe occorreram, atropellando-se para lhe fazerem mais
+difficil a consciencia da sua situação. A infeliz não podia combinar as
+palavras esperançosas do conego com o repellão e olhar severo que acabava de
+soffrer.</p>
+
+<p>&mdash;Venha comigo, menina...&mdash;disse D. Perpetua receiando algum accidente dos
+que lhe davam depois do dia anterior.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não vou sem que minha mãe me falle.</p>
+
+<p>&mdash;Deixe-a tornar a si; depois, ficará sósinha com ella.</p>
+
+<p>Assucena obedeceu. Minutos depois, Bernabé sahiu da sala em que ficava a
+viscondessa, esperando a filha, deitada n'um canapé.<span
+class="pn">{81}</span></p>
+
+<p>O conego disse quasi ao ouvido de Assucena, que entrava na sala:</p>
+
+<p>&mdash;Perante Deus é responsavel pela vida de sua mãe. Ella não lh'o dirá; mas
+digo-lh'o eu. No dia em que a menina se julgar feliz, amando um infame, matou
+sua mãe.</p>
+
+<p>Assucena entrou na sala atordoada por estas palavras.</p>
+
+<p>Bernabé Trigoso esfregava as mãos em ar de jubilo.</p>
+
+<p>&mdash;Porque estás assim contente?&mdash;perguntou D. Perpetua, alegrando-se tambem
+de anticipação.</p>
+
+<p>&mdash;Contentissimo! Salvei-as ambas! Aqui a grande difficuldade era salvar a
+filha! Bemdito seja Deus, que nunca me abandonou n'estas difficuldades!</p>
+
+<p>&mdash;Pois então? como é que salvaste a menina?</p>
+
+<p>&mdash;Puz em luta dous sentimentos fortes. A mãe que morre por sua filha, e o
+amado que despresa a sua amante. Ha de vencer o mais nobre, que é o primeiro, e
+tem em seu auxilio um coração ainda puro. Verás, Perpetua; A viscondessa não
+lhe falla em Luiz da Cunha. Este silencio só de per si é uma pungente accusação
+á filha. A viscondessa dá indicios d'uma morte proxima. Assucena começa desde
+já a sentir o remorso de a ter matado. A ancia de salval-a ha de vencer a ancia
+da saudade. Por fim é a mãe que triumpha, e não triumpharia se viesse
+lançar-lhe em rosto a deshonra. É Deus que me manda. Creio que salvaria
+Assucena sem o conselho do medico. Escusavamos, talvez, uma mentira...</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, Bernabé!&mdash;atalhou pungida a senhora D. Perpetua.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, emfim, Deus sabe as intenções com que a gente mente para tornar menos
+hediondo o crime do seu semelhante... Não ouves soluçar na sala?</p>
+
+<p>&mdash;Ouço... são ambas...</p>
+
+<p>&mdash;Bem, bem!</p>
+
+<p>&mdash;Escuta, Bernabé...</p>
+
+<p>&mdash;Que ouves?</p>
+
+<p>&mdash;Palavras... <em>perdão</em>... <em>não me mates</em>...
+<em>amaldiçoada</em>... É a mãe que falla...</p>
+
+<p>&mdash;Bem, bem!</p>
+
+<p>Pouco depois, abriu-se a porta da sala. Bernabé Trigoso, com sua irmã,
+entraram. Mãe e filha enxugavam<span class="pn">{82}</span> as lagrimas. A
+viscondessa abraçou-se a D. Perpetua, pedindo-lhe que fosse mãe de sua filha,
+forçando-lhe a mão para aceitar uma bolsa. O conego reparava na luta silenciosa
+em que sua irmã parecia afflicta e envergonhada. Cheio de affabilidade, tomou
+da mão de Rosa Guilhermina a bolsa, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Muito obrigado a v. ex.ª</p>
+
+<p>Depois, no patamar da escada entregou-lhe com dignidade a bolsa,
+solemnisando o acto com estas palavras:</p>
+
+<p>&mdash;Aceitei o dinheiro na presença de sua filha para que ella se persuada que
+é sua mãe que a sustenta, e não se considere em obrigação a estranhos. É a
+quarta vez, senhora viscondessa, que lhe digo que em minha casa ha abundancia,
+e independencia, e honra. Espero da sua bondade que me não forçará á repetição,
+porque me desgosta. Outro assumpto: que vaticina?</p>
+
+<p>&mdash;Penso que minha filha se condoeu de mim, e esquecerá o infame... É preciso
+não a abandonar... Virei, todas as vezes que podér, observar o bom resultado
+das suas diligencias, senhor conego. Se lhe parecer que é util afastal-a de
+Lisboa...</p>
+
+<p>&mdash;Não convém... A cura ha de operar-se aqui, se Deus me conceder vida, que
+será breve, porque a velhice e os padecimentos trazem sempre a gente em redor
+da sepultura...<span class="pn">{83}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00190">IX.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00191">HERANÇA DE VIRTUDE E OURO.</a></h2>
+
+<p>Não era possivel tirar um sorriso dos labios de Assucena. Muito era já
+evitar as occasiões das lagrimas, no primeiro mez da sua convalescença.</p>
+
+<p>A recahida era possivel á menor tentação de Luiz da Cunha. E, por isso, os
+cuidados do conego eram solicitos em prevenir um bilhete, ou qualquer meio de
+que o perverso se servisse, em algum momento de caprichoso desejo. Bem sabia
+Bernabé Trigoso que Luiz da Cunha existia, quasi invisivel, em Lisboa. As
+informações eram-lhe dadas por um beneficiado da Sé, seu discipulo em virtudes
+e em sciencia, unica pessoa, que frequentava sua casa. Para corresponder ás
+recommendações do conego, o padre Madureira entrara no segredo do viver de Luiz
+da Cunha. Não o vira nunca no theatro, nem nos cafés, nem no Passeio Publico;
+mas soubera casualmente d'um boleeiro que uma sege de praça o ia buscar todas
+as noites, depois das onze e meia, a Campolide. O padre Madureira, que, em
+pesquizas, teria sido um habil agente do santo-officio, indagou da casa em
+Campolide, e pôde apenas vêr-lhe o portão. Era justamente aquella onde, vinte e
+cinco annos antes, tinha sido assassinada Ricarda, e enterrado seu marido.</p>
+
+<p>O prescrutador alapou-se n'um casebre fronteiro, e viu que, ás onze horas e
+meia, uma sege parava defronte do portão. O padre estava a pé: era necessario
+seguil-a, e, para isso, desceu da sua dignidade sacerdotal ás astucias<span
+class="pn">{84}</span> de gaiato, e sentou-se na taboa. O impeto da corrida não
+dava tempo á desconfiança do sota. A sege parou na rua do Collegio. O padre
+apeou primeiro que Luiz da Cunha, e sumiu-se na travessa do Pombal. Depois,
+seguiu-o de longe, e viu-o entrar em uma casa da rua de S. Bento, reparando na
+subtileza com que a porta fôra aberta e fechada. O padre não era de meias
+informações. Queria, por força, distinguir á luz azulada da lua o numero.
+N'esta difficultosa empreza, demorára-se, sem attender a um vulto, que
+desembocara da travessa de Santa Thereza, e caminhava para elle, deixando,
+alguns passos atraz, dous outros vultos parecidos, pelo capote e chapéo
+derrubado, com os importantes sicarios de qualquer drama em cinco actos.</p>
+
+<p>O primeiro dos tres chegou, hombro com hombro, a par do irreflectido
+Madureira.</p>
+
+<p>&mdash;Que quer aqui o senhor?</p>
+
+<p>&mdash;Não queria nada&mdash;respondeu, retirando-se o observador.</p>
+
+<p>&mdash;Não quer nada, e está com os olhos espetados n'aquella janella! Ólé&mdash;disse
+o encapotado para os da rectaguarda&mdash;Conhecem este homem?</p>
+
+<p>Approximaram-se os dous, e responderam negativamente.</p>
+
+<p>&mdash;Que está vossê aqui fazendo?&mdash;tornou carrancudo, com voz de tyranno, sem
+descobrir a cara, o interruptor de uma analyse innocente.</p>
+
+<p>&mdash;Responda!&mdash;recalcitrou um dos dous&mdash;quando não metto-lhe quatro pollegadas
+de ferro na barriga.</p>
+
+<p>O padre não era connivente na proposta, e evitou o melhor que pôde
+aceital-a, explicando d'este modo a sua paragem n'aquelle sitio:</p>
+
+<p>&mdash;Eu vi aqui entrar um sujeito, e desejava muito saber que casa é esta.</p>
+
+<p>&mdash;E conhece o sujeito?&mdash;perguntou o que tinha certa authoridade, e certa
+polidez no metal de voz.</p>
+
+<p>&mdash;Conheço, sim, senhor, mas só de vista.</p>
+
+<p>&mdash;E com que fim quer saber a quem pertence esta casa?</p>
+
+<p>&mdash;Para satisfazer a minha curiosidade.</p>
+
+<p>&mdash;Pois, se está satisfeita, retire-se.<span class="pn">{85}</span></p>
+
+<p>Madureira estava satisfeitissimo até com o inesperado desenlace.</p>
+
+<p>Ainda assim, mudou de proposito, quando ouviu tres pancadas na mesma porta
+onde entrára Luiz da Cunha. Cobriu-se com a esquina da travessa Nova, e
+esperou. Ao segundo toque, foi aberta a porta. Um vulto entrára: dous foram
+postar-se na travessa de Santa Thereza. Vinte minutos depois, vira sahir um
+vulto, menos volumoso do que entrara. Viu correrem sobre elle os outros dous,
+ouviu gritos de soccorro, e divisou um corpo cambaleando até cahir. Duas
+patrulhas correram ao local do grito. Madureira confiou nas garantias da guarda
+civica, e aventurou-se a tirar a ultima conclusão dos seus principios. Foi, e
+viu, nos braços dos soldados, Luiz da Cunha com as mãos tintas de sangue, que
+lhe transsudava do collête branco, e da gravata. Eram duas punhaladas, pelo
+menos: uma no peito, e outra no pescoço.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor viu como isto foi?&mdash;perguntou um soldado ao padre.</p>
+
+<p>&mdash;Não senhor, eu vinha na travessa Nova, quando ouvi gritar.</p>
+
+<p>&mdash;Conhece este homem?</p>
+
+<p>&mdash;Nada, não conheço.</p>
+
+<p>&mdash;Quem é o senhor?&mdash;perguntaram a Luiz da Cunha, que sahira do torpor em que
+o deixára o abalo.</p>
+
+<p>&mdash;Moro no Campo Grande, no palacete de João da Cunha.</p>
+
+<p>&mdash;Olha que firma!&mdash;murmurou um soldado para o seu companheiro de
+patrulha&mdash;Bem me parecia a mim que o conhecia... Este foi o que jogou o murro
+com o visconde de Bacellar, nos Paulistas! D'esta vez parece que topou com a
+fôrma do seu pé...</p>
+
+<p>Luiz da Cunha foi conduzido por dous gallegos do chafariz, apenados por
+cabos de policia, em uma cadeira, sobre duas trancas de carreto, a casa de seu
+pae.</p>
+
+<p>Madureira, apenas luziu a fresta do seu quarto, na rua das Gavias, correu á
+rua do Principe, onde expôz na melhor ordem as aventuras da noite; só não soube
+dizer que o vulto, que o accommettêra, e desempalára o furão da casa de
+Liberata, fôra o conselheiro Costa e Almeida,<span class="pn">{86}</span> que
+não era tão <em>excellente creatura</em> como a sua amante o imaginava.</p>
+
+<p>Deixemos o padre Madureira com Bernabé Trigoso, e vamos espreitar mais
+dentro o que elle não viu, nem saberá contar ao espantado conego, e á
+espavorida Perpetua.</p>
+
+<p>O conselheiro fôra avisado por cartas da infidelidade de Liberata. Á
+primeira não deu credito. Á segunda deu algum, porque lhe marcava a hora da
+entrada. Viu com os seus proprios olhos, porque a sua duvida era tal, e tamanha
+como o pleonasmo da phrase. Depois que o viu entrar, quiz bater á porta; mas
+faltou-lhe o animo na conjectura de ter de encontrar-se com o rival. Na segunda
+noite, sem inspirar desconfianças a Liberata, entrou armado, fortalecido pelo
+ciume. Procurou-o em todos os cantos, com finura e resolução, e não o viu. No
+dia seguinte, recebe a terceira anonyma: dizem-lhe que o concorrente sahia
+quando elle entrava. Preparou-se. Chamou dous criados, e deu-lhe instrucções,
+que elles desempenharam d'um modo que não deixou nada a desejar, porque o
+julgaram morto, e as instrucções eram assim pontualmente executadas.</p>
+
+<p>Liberata ouvira os gritos de soccorro, quando o conselheiro parecia querer
+distrahil-a vibrando o teclado do piano. O criado, por um aceno, significou-lhe
+a catastrophe. A enfurecida amante de Luiz veio á janella, e perguntou a um
+grupo de soldados e cabos de policia o que acontecêra. Responderam-lhe que fôra
+alli apunhalado um rapaz de boa familia do Campo Grande. Liberata voltou para
+dentro, entrou no seu quarto, correu desfigurada com um punhal á sala, onde
+passeava o conselheiro, e desceu-lhe sobre o peito uma punhalada, que elle
+amparou no braço.</p>
+
+<p>&mdash;Já fóra de minha casa&mdash;bradou ella&mdash;quando não grito aqui-d'el-rei contra
+um ladrão, contra um assassino!</p>
+
+<p>&mdash;Cale-se, que eu retiro-me.</p>
+
+<p>&mdash;Já sû assassino! ámanhã hei de publicar o seu nome nos jornaes, como
+matador de Luiz da Cunha, se elle morrer. Fóra de minha casa, patife!</p>
+
+<p>O official maior cozeu-se com o corrimão, mais receoso da lingua que do
+punhal.</p>
+
+<p>Liberata mandou montar a sege. Era um galopar vertiginoso<span
+class="pn">{87}</span> para o Campo Grande! Encontrou defronte do palacio do
+conde das Galveas a cadeira, que conduzia Luiz. Apeou. Chamou-o, beijou-o com
+frenesi; fêl-o entrar na sua sege; mandou adiante o criado de taboa chamar um
+medico; deu ordem para que a sege volvesse vagarosamente, e entrou em sua casa
+com o filho de Ricarda desfallecido nos braços, pela perda de sangue, que ella
+em vão quizera estancar com os lenços, e até com as meias de sêda branca,
+servindo-se das ligas, e fitas dos sapatos como compressas.</p>
+
+<p>O medico declarou que as feridas não eram irremediavelmente mortaes. Luiz da
+Cunha foi curado com extremo desvelo. Um mez depois dava um passeio de sege, ao
+escurecer, a par da sua estremecida amiga.</p>
+
+<p>As indagações da policia aclararam todo este mysterio. O conselheiro não foi
+poupado á irrisão publica, e a dedicação de Liberata era celebrada como um
+heroismo incompativel com tal mulher. Alguns litteratos promettiam um drama em
+tres actos sobre bases tão dramaticas. Outros escreviam poesias em versos
+grandes intercalados de pequeno, sem que se promettia a rehabilitação de todas
+as Liberatas. E com isto, os pobres rapazes, se fizeram algum mal, foi a elles,
+porque, desde esse dia, até no Bairro Alto procuraram victimas a salvar do
+abysmo, e sahiram de lá espancados por algum marujo, que entendia melhor de
+fado e vinho, que de regeneração e amor, e ellas tambem, pelos modos.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Bernabé Trigoso reduzira Assucena a um entorpecimento moral, semelhante á
+indifferença. Eram passados quatro mezes, depois da sua quéda. A infeliz
+erguia-se sem sensibilidade: parece que perdêra, com a esperança, a memoria do
+passado. Ainda assim, Bernabé não se atinha ás apparencias. Era necessario
+sondal-a.</p>
+
+<p>Fallou-lhe em Luiz da Cunha como incidente n'uma conversação sobre o seu
+passado no collegio. Assucena pedira-lhe que não fallasse em tal homem.
+Replicára o conego, perguntando-lhe se lhe seria então indifferente a vida ou a
+morte de Luiz.</p>
+
+<p>&mdash;Antes quero que viva.</p>
+
+<p>&mdash;Porque o ama ainda?<span class="pn">{88}</span></p>
+
+<p>&mdash;Porque me queria vingar...</p>
+
+<p>&mdash;Vingar-se!...</p>
+
+<p>&mdash;Sim... vingar-me pelo remorso... É impossivel que elle não venha a
+sentil-o...</p>
+
+<p>&mdash;Isso é do coração?</p>
+
+<p>&mdash;Do coração, sim, meu querido amigo. Eu tenho hoje odio a esse homem,
+porque me vejo amada de todas as pessoas, e aborrecida por elle, depois de me
+perder... Minha mãe que devera despresar-me, ama-me... V. s.ª, e sua irmã
+adoram-me como se eu fosse d'esta casa... Só elle!... é elle o que me
+esquece... o que me deixou, desamparada!...</p>
+
+<p>&mdash;Desamparada?... E Deos não a acolheu?</p>
+
+<p>&mdash;E sabe elle se eu a estas horas peço uma esmola!</p>
+
+<p>&mdash;Não... nem lhe importa saber... Quer que eu lhe diga a ultima aventura
+d'esse homem?</p>
+
+<p>&mdash;Não... não me importa... Onde está elle?</p>
+
+<p>&mdash;Em Lisboa.</p>
+
+<p>&mdash;Em Lisboa?! Não me disseram que fôra para o Brazil?!</p>
+
+<p>&mdash;Quando foi conveniente dizer-lh'o. Hoje póde saber que Luiz da Cunha vive
+em Lisboa, debaixo das mesmas telhas com a unica mulher digna d'elle...</p>
+
+<p>&mdash;Cale-se, por piedade, meu amigo...&mdash;interrompeu ella.</p>
+
+<p>&mdash;Pois que? Não me disse que lhe era indifferente...</p>
+
+<p>&mdash;Basta-me o odio que tenho no coração... Não posso com mais...</p>
+
+<p>&mdash;Odio é muitas vezes demasiada importancia ao que é sómente despresivel. Eu
+quero que Assucena se lembre de Luiz da Cunha para perdoar-lhe no seu coração,
+conversando com Deos, se os infortunios d'esse homem forem taes, que possam
+attribuir-se a expiação do crime em que Assucena foi a primeira victima.</p>
+
+<p>&mdash;Perdoar-lhe... eu!</p>
+
+<p>&mdash;Não gosto d'essa exaltação de cólera, filha. Em quanto ella existir, não
+está cauterisada a ferida. Eu vou experimental-a.</p>
+
+<p>Bernabé Trigoso contou as scenas observadas por Madureira, e as outras
+colhidas de informações que eram já do dominio publico. Assucena escutou-as com
+attenção.<span class="pn">{89}</span> A arte valeu-lhe muito. Manteve
+silenciosa impassibilidade, quando o conego esperava alguma commoção. Mas,
+apenas livre das vigilancias de Perpetua, fechou-se no seu quarto, e chorou. O
+seu soffrimento devia ser um tumultuoso acervo de muitas dôres: odio, amor,
+ciume, saudade, desesperação, consciencia da sua quéda nos braços de tal homem,
+a preferencia em que era sacrificada a uma mulher perdida!</p>
+
+<p>O incidente passou com alguns dias de profundo abatimento. As visitas de
+Rosa Guilhermina, as diversões domesticas, que o conego lhe dava
+despertando-lhe o gosto pela musica, pela pintura, prendas em que se
+distinguira no collegio; e, de mais, a enraisada affeição com que pagava
+pequena parte da amizade que lhe dava esta familia, considerada a sua, pareciam
+tornal-a indifferente ás reminiscencias, se ellas existiam, das suas passadas
+desventuras.</p>
+
+<p>Assim correram dez mezes, que eu deixo passar sem analyse, porque em poucas
+linhas se diz que a viscondessa de Bacellar recuperára, se não um resto de
+contentamento, que perdera com a desgraça da filha, ao menos um ar de saude,
+que os medicos lhe não promettiam. O visconde, preoccupado com a alta e baixa
+de fundos, esqueceu a affronta recebida nos Paulistas, e nunca perguntou o
+destino de Assucena. Luiz da Cunha de quem no proximo capitulo fallarei mais de
+vagar, vivia com Liberata. João da Cunha estava, se não rematadamente doudo, ao
+menos tres partes do dia, fechado no seu quarto, dizia em voz cavernosa cousas
+inintelligiveis.</p>
+
+<p>Ao cabo de dez mezes Bernabé Trigoso adoeceu, e prophetisou a sua morte,
+antes que os medicos lh'a mostrassem n'uma das pontas do fatal dilemma.</p>
+
+<p>O seu primeiro acto foi um testamento verbal, dito a sua irmã, fechando-se
+com ella em longa prática. Os fins da sua vida foram suaves, tranquillos, e
+auxiliados de todos os soccorros espirituaes. A viscondessa de Bacellar
+ajoelhou muitas vezes aos pés do seu leito. Assucena, sempre ao lado do
+enfermo, não podia chorar na presença d'elle, porque o venerando velho dava
+visiveis signaes de que lhe era custosa a morte, se via lagrimas inuteis nas
+faces da que elle chamava a sua corôa de triumpho sobre os vicios<span
+class="pn">{90}</span> da terra. A filha de Rosa Guilhermina só acreditou na
+perda do seu bemfeitor, quando o moribundo apertou entre as suas, quasi frias,
+as mãos de Perpetua e as d'ella, dizendo-lhes: «é agora!...» cerrando os olhos
+sobre tudo que lhe era caro, fechando os labios com a palavra «Deos» e
+aceitando, já no limiar da eternidade, convertidas em flôres, as lagrimas, que
+enxugára aos seus irmãos de exilio.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>O conego Bernabé Trigoso passava por pobre, attendendo á sua velha chimarra,
+ás suas sempre velhas botas de cano alto, e ao seu arruçado tricorne. O seu
+espolio, só conhecido de sua irmã, era dinheiro, herança de seu pae, de seus
+avós, thesouro até preciosissimo para a numismatica, pela variedade de moedas
+de prata e ouro desde D. Affonso III.</p>
+
+<p>D. Perpetua não tocou n'essa caixa quadrada, com dimensões bastantes para
+conter uma riqueza que lhe não servia de nada a ella. Mostrou-a, sem abril-a,
+dias depois da morte de seu irmão, a Assucena. «O seu patrimonio está aqui,
+minha filha. Eu fui a depositaria, mas a menina é a dona. Meu bom irmão não
+teve animo para lhe dar os seus ultimos conselhos. Já morreu, já lá está na
+presença de Deus; mas elle vê e ouve o que fazemos e dizemos. Parece-me que bem
+cedo vou ter com elle. Tenho sonhado todas as noites, que meu irmão me chama
+para si... É tempo de cumprir as ordens do nosso amigo. Depois da minha morte,
+Assucena será tambem minha herdeira. Eu tenho uma quinta no Lumiar, onde fui
+nascida e creada, e onde desejo morrer. Partirei para lá o mais cedo que possa
+ser, Assucena vai comigo, porque sua mãe me deu consentimento. Se Deus chamar a
+contas a minha alma, digo-lhe, em nome de meu irmão, que viva n'essa quinta,
+que fuja d'esta terra d'onde vai fugindo a religião e o temor dos juizos
+divinos. Tome como director da sua vida o padre Madureira, que aprendeu a ser
+virtuoso com meu irmão. Com o tempo, a menina ha de entrar na casa de sua mãe,
+e então estará livre de todas as perfidias do mundo; mas, em quanto o não
+fizer, viva recolhida com a sua boa alma no seio do Senhor; esqueça-se dos seus
+desgostos, dando-se ao prazer de dar esmolas<span class="pn">{91}</span> sem
+ostentação, que foi sempre a constante virtude do santo, que Deus nos levou
+para a côrte celestial. Ha quasi um anno que vive n'esta casa: já agora ha de
+fechar os olhos ás duas pessoas, que mais lhe quizeram, e que a deixam no mundo
+a pedir ao Senhor pelas suas almas. Nunca se ha de esquecer dos seus amigos,
+porque meu irmão está no ceo pedindo por nós, e brevemente pediremos ambos pelo
+nosso anjo.»</p>
+
+<p>A singela prática acabou por lagrimas, que a interromperam.</p>
+
+<p>Os sonhos de D. Perpetua são o inexplicavel effeito de uma causa superior ao
+entendimento.</p>
+
+<p>Como o seu desejo era morrer onde nascêra, a irmã do conego mudou para o
+Lumiar, com Assucena, e o padre Madureira, constante companhia das duas
+senhoras, depois da morte do seu mestre e amigo.</p>
+
+<p>D. Perpetua Trigoso, durante dous mezes, foi exemplar em obras de caridade,
+como se devesse ser essa a ultima lição de Assucena.</p>
+
+<p>Setenta e tantos annos, com todos os achaques de velhice, explicam a rapida
+consumpção que, n'esses dous mezes, convenceu Perpetua de que em verdade seu
+irmão a chamava. Sacramentou-se uma tarde, com symptomas ainda de vitalidade
+para alguns dias. Entregou-se o seu testamento ao padre Madureira. E fechou o
+cyclo das suas virtudes, convidando a sua attribulada amiga a presenciar a
+morte d'uma mulher sem a consciencia d'uma injustiça. Só ella conheceu o seu
+fim, como se o anjo da bemaventurança lh'o segredasse. Morreu, abençoando
+Assucena, e passando-lhe ás mãos a cruz que não podia já suster no braço hirto
+pela aridez cadaverica.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Assucena era herdeira de quarenta mil cruzados. Nunca se julgou tão
+desvalida. Não sabia a significação encyclopedica da palavra «dinheiro.»<span
+class="pn">{92}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION001100">X.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION001101">COMO OS ANJOS SE VINGAM.</a></h2>
+
+<p>Um anno corrêra tambem para Luiz da Cunha. As duas existencias, comparadas
+entre si, afiguram-se-nos o mytho de duas almas: uma tirando para Deus um vôo;
+a outra afundando precipitadamente na região das trevas, na infinita
+desesperação.</p>
+
+<p>O rival do official maior de secretaria estabeleceu a sua residencia em casa
+de Liberata, noite e dia. O carinho com que ella o tratára na convalescença dos
+ferimentos, obrigára-o a sentimentos de gratidão, e a taes protestos de
+retribuir-lh'a em premios de inestimavel preço, que Liberata, tão incapaz de
+avalial-os como quem lh'os promettia, ria com cynica desenvoltura da sua
+rehabilitação, projectada por Luiz da Cunha.</p>
+
+<p>O neto dos Faros, durante a sua enfermidade de vinte e tantos dias, entrára
+na região philosophica dos deveres sociaes, e confeccionára certas maximas de
+alta importancia para a sua futura felicidade.</p>
+
+<p>A sociedade, que nos abomina, não tem direitos ao nosso respeito. Primeira
+maxima.</p>
+
+<p>O escandalo, quanto mais estrondoso, mais grato áquelle que o dá, porque
+assim insulta uma hypocrisia astuciosa com que Tartufo e D. Basilio douram a
+pilula aos seus parvos admiradores. Segunda maxima.</p>
+
+<p>Todo o homem tem direito a ser um infame, na opinião publica, quando é feliz
+na sua particularissima, e unica respeitavel. Terceira.<span
+class="pn">{93}</span></p>
+
+<p>A felicidade está em nós, não se reflecte dos juizos estranhos. Quarta,
+muito parecida com outra da sã philosophia. Os extremos tocam-se.</p>
+
+<p>A mulher mais digna de nós é aquella que melhor serve as nossas propensões,
+quer viva na crypta subterranea das vestaes, quer se ostente de seios nús no
+estrado do alcouce. Quinta.</p>
+
+<p>O homem que pede á opinião publica consentimento para amar uma, ou a outra,
+é um tolo. Sexta.</p>
+
+<p><em>Et cetra.</em></p>
+
+<p>E, de todas, concluiu que devia casar-se com Liberata, visto que era esta a
+mulher, que mais servia as suas propensões, e mais credito adquirira sobre o
+seu reconhecimento.</p>
+
+<p>Este homem, que tocou da torpeza o extremo em que a compaixão se allia ao
+nojo, offereceu-se a Liberata, como marido. Esperava vêl-a saltar-lhe ao
+pescoço, fundindo-se em prantos de felicidade, e recebeu em resposta a
+gargalhada mais estridorosa, mais comica, e mais fulminante! Liberata tambem
+tinha as suas maximas, bebidas na fonte impura do seu amante; mas entre as do
+seu amante não se encontravam algumas, que eram a base fundamental de todas as
+outras no catecismo d'ella. Eram estas:</p>
+
+<p>Toda a philosophia sem dinheiro é uma tolice.</p>
+
+<p>Não ha nada que se pareça tanto com o mendigo como o philosopho pobre.</p>
+
+<p>Bolsa vasia, intelligencia manca.</p>
+
+<p>Sem dinheiro não se affrontam os desprêsos da sociedade.</p>
+
+<p>Se não és rico, não sejas corrupto, porque o teu sapateiro não só te
+despresa, mas dá-te com o tira-pé.</p>
+
+<p>Mulher, cahida em leito de ouro, levanta-se toucada de brilhantes.</p>
+
+<p>A deshonra, que se estorce n'uma esteira, é que nunca se rehabilita.</p>
+
+<p>Rehabilitar-se é ser precisa, desejada, invejada, e pesada a ouro.</p>
+
+<p>Estes proverbios explicam a gargalhada de Liberata á muito séria proposta de
+Luiz da Cunha.</p>
+
+<p>&mdash;Estás doudo!&mdash;accrescentou ella, batendo as palmas&mdash;Tragam-me<span
+class="pn">{94}</span> uma camiza de força para o meu pobre Luiz, que
+endoudeceu, e quer casar comigo!... Tu fallas sério?!</p>
+
+<p>&mdash;Fallo sério... fallo-te com o coração.</p>
+
+<p>&mdash;Pobre coração! Pois ainda tens d'isso? Não nos fica bem fazermos de
+creanças... Eu não sou Assucena, meu trampolineiro...&mdash;dizia ella,
+anediando-lhe as guias do bigode&mdash;Que será feito d'essa illustre menina?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei... dizem que está no Minho em uma quinta do padrasto... Mas diz-me
+cá, Liberata... Achas disparate o nosso casamento?!</p>
+
+<p>&mdash;É uma bestialidade... Vou provar-te que nunca se disse mais tremenda
+asneira. Se casassemos, qual era o nosso futuro? Naturalmente seria, pouco mais
+ou menos, o que era ha dous mezes. Eu teria um amante rico para sustentar o meu
+marido pobre.</p>
+
+<p>&mdash;Mas hoje não acontece assim.</p>
+
+<p>&mdash;Se não acontece hoje, acontecerá ámanhã. Desde que o conselheiro foi
+despedido, gasto das minhas economias; mas as economias vão gualdidas. A sege e
+os cavallos estão á espera de comprador; os brilhantes irão depois da sege;
+depois dos brilhantes, meu caro Luiz, é necessario adquirir outros. Ora agora,
+imagina tu que és meu marido, e vê lá se te convém ficar atraz da porta, muito
+caladinho, para não assustar o amante.</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu pensei que renunciarias ao luxo que tens hoje, e te sacrificarias
+ao amor e á posse d'um só homem.</p>
+
+<p>&mdash;Creancice! A primeira victima eras tu, e a segunda eu, e a terceira os
+credores. Pois tu pensas que eu valho alguma cousa se despir este vestido de
+sêda, com rendas de Escocia, e vestir um vestidinho de chita de uma
+costureira?! Parece que não tens gastado cincoenta mil cruzados a teu pae! Não
+te lembras que, ha dous annos, me deste um luxo extravagante para me
+phantasiares, como tu dizias, uma d'essas romanas que pareciam cahidas do ceo
+n'uma nuvem de perfumes?! E agora estavas resolvido a pôr um estanque, e
+mandar-me vender charutos ao balcão!</p>
+
+<p>&mdash;É porque te amo, Liberata, e não sei como hei de indemnisar-te.</p>
+
+<p>&mdash;Não me deves nada: estás recebendo o juro d'uma<span
+class="pn">{95}</span> divida. Sem ti, meu Luiz, não era eu nada. Foste tu que
+me fizeste conhecida dando-me em espectaculo de que eu lucrei muito, quando
+dizem que o escandalo faz perder. O americano apaixonou-se por mim no theatro,
+vendo-me comtigo. O capitão de fragata foi um irritante que fez dar saltos o
+americano. O americano fez dar saltos o conselheiro. Hoje és tu um irritante de
+muitos; mas, em quanto podér sustentar fidelidade, sou tua captiva. Quando não
+podér, digo-te adeus por algum tempo.</p>
+
+<p>&mdash;E despedes-me?</p>
+
+<p>&mdash;Que remedio! mas por ora não. Vamos vivendo sem cuidados, em quanto se não
+offerece uma conveniencia, que valha a pena da nossa separação por algumas
+horas... Deixar-te eu, isso é que nunca. É cá um capricho de mulher perdida,
+que se parece muito com os caprichos das mulheres aproveitadas...</p>
+
+<p>Eis-aqui a posição social de Luiz da Cunha, dous mezes depois que fôra
+ferido. Comia e vestia das economias de Liberata. Indemnisava-a com uma
+permanente convivencia, e, muito instado, ao anoitecer, dava sósinho um curto
+passeio.</p>
+
+<p>Este viver monotono, e impresistente para a sua inconstancia natural,
+fatigou-o. Liberata conheceu o cansaço do amante, e não se affligiu, porque
+tambem ella se sentia marasmada n'uma continuada repetição das mesmas
+sensações, cada vez mais arrefecidas.</p>
+
+<p>E, depois, o filho de Ricarda habituára-se a julgar commum de dous os
+cabedaes de Liberata. Tomava das gavetas dinheiro, que não trazia de fóra, e,
+se algumas vezes trazia triplicada a quantia que levára, não lhe dava canceira
+a restituição dos fundos.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha jogava n'um terceiro andar na rua do Ouro, onde se congregavam
+em fraternal espoliação alguns negociantes, alguns bachareis vadios, poucos
+litteratos, e bastantes empregados publicos. Sempre infeliz, o parasita de
+Liberata recolhia muitas vezes colerico da perda, e encontrava a sua amante na
+cama, com a chave corrida por dentro.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha, n'essas occasiões, que foram muitas, sentia assaltos da
+consciencia, discutia com elles, e ficava sempre vencido, reputando-se infame.
+As maximas, que<span class="pn">{96}</span> forjára na cama, durante o periodo
+da cura, não lhe serviam auxilio nenhum n'esses combates com o senso-intimo. A
+devassa philosophia não lhe desviára, com lubricos esgares, os olhos despertos
+da alma do ponto negro, que a consciencia lhe mostrava, lá em baixo, no fundo
+da voragem.</p>
+
+<p>Um dia, depois de oito mezes de hospedagem, Luiz da Cunha teve com Liberata
+esta importante prática:</p>
+
+<p>&mdash;Meu caro Luiz, chegou a occasião de darmos um saudoso abraço por algum
+tempo. Ha oito mezes que temos gasto como se tivessemos descoberto a pedra
+philosophal. Feitos os meus calculos, não podemos assim viver mais quatro
+mezes, sem que eu venda a cama. Cavallos e sege já lá vão; as minhas pulseiras,
+e o meu collar estão empenhados. Tu tens jogado mais d'um conto de reis, e sei
+que deves seis ou sete a um tal Aboim, que vai ser meu amante. Mudemos de rumo,
+que o barco vai a pique. Já te disse que não sympathiso nada com a honrada
+miseria, e a miseria a que nos vamos reduzindo é d'aquellas que tem o inferno
+da desesperação, embora digam as novellas que uma tranquillidade de
+consciencia, mantida pelo trabalho honesto, é a suprema ventura. Será; mas eu
+deixo essa ventura á mulher do meu sapateiro; e penso que tu tambem...</p>
+
+<p>&mdash;Isso quer dizer que...</p>
+
+<p>&mdash;Adivinhaste, Luizinho. Não precisas acabar a phrase: tens uma penetrante
+intelligencia. Não achas que tenho razão?</p>
+
+<p>&mdash;Tens...</p>
+
+<p>&mdash;Agora o que deves fazer é as pazes com teu pae, e vê se elle te faz seu
+herdeiro, ou se o visconde dá á enteada um bom dote. Logo que eu tenha
+restaurado a minha fortuna, tanto te recebo pobre como rico; ponto é que eu
+possa prescindir do Aboim, como prescindi do conselheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Vejo que és sempre a mesma mulher!</p>
+
+<p>&mdash;Não te comprehendo bem.</p>
+
+<p>&mdash;És a Liberata que eu encontrei na rua do Ouro.</p>
+
+<p>&mdash;Justamente a mesma.</p>
+
+<p>&mdash;Uma certa Liberata, que appareceu no theatro com um novo amante, na mesma
+noite do dia em que a deixei.<span class="pn">{97}</span></p>
+
+<p>&mdash;Tal e qual.</p>
+
+<p>&mdash;A mesma dissoluta.</p>
+
+<p>&mdash;Essa censura é mais infame que tu. Que queres de mim, Luiz? Uma garantia
+para a tua subsistencia?</p>
+
+<p>&mdash;Não quero nada.</p>
+
+<p>&mdash;Pois então, vai, que vaes pago, e bem pago dos excessos com que me
+compraste. As nossas contas estão saldadas.</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu tenho sacrificado a ti a minha reputação.</p>
+
+<p>&mdash;Fóra com a hypocrisia! Isto faz nojo! Tu não me sacrificaste nada; quem
+perdeu fui eu, e perdi tudo, porque de mais a mais o homem, que me queria
+indemnisar casando comigo, agradece-me agora com insultos. Se eu não fosse
+dissoluta, o que seria de ti?</p>
+
+<p>&mdash;És muito infame lançando-me em rosto taes favores...</p>
+
+<p>&mdash;Tu não córas, meu bom amiguinho. A differença entre nós é toda a meu
+favor, e, se não ha outra, a unica, que conheço, está entre o vestido e as
+calças. Eu sirvo-te com o meu dinheiro ha oito mezes. Desejei uma occasião de
+mostrar-me grata: encontrei-a, e fui quanto pude, e em quanto pude. Tu, nem
+agora, sabes dizer-me do fundo da escada: «obrigado, rapariga!»</p>
+
+<p>&mdash;Hei de embolsar-te das tuas despezas...</p>
+
+<p>&mdash;Como quizeres.</p>
+
+<p>&mdash;Hei de atirar-te á cara com essas migalhas.</p>
+
+<p>&mdash;De certo m'a quebravas, porque o volume não será pequeno. Ainda assim, vê
+se me acertas bem, porque bem sabes que tenho ainda o punhal com que feri por
+tua causa um homem, que teve a pouca vergonha de me fazer rica, e de me
+prometter para a velhice a felicidade, que tu me destruiste...</p>
+
+<p>A disputa acalorou-se, e a lealdade do tachigrapho não póde, sem
+deshonestidade, progredir. Fiquemos, pois, aqui, sabendo que Luiz da Cunha
+sahiu impellido por um forte empurrão, e levou com a porta na cara, quando se
+voltava para retribuir liberalmente a amabilidade.</p>
+
+<p>O alvitre de Liberata em quanto ao destino do seu expulso amante, era o mais
+judicioso. Luiz procurou a casa paterna, onde não entrára durante oito mezes.
+Encontrou seu pae, passeando n'uma sala com dous criados de vigia.<span
+class="pn">{98}</span> Estava completamente doudo: não conheceu o filho,
+supposto se deixasse beijar na mão, com um sorriso de amargo desprêso.</p>
+
+<p>Os herdeiros presumptivos de João da Cunha, inimigos figadaes do filho
+bastardo, tinham judicialmente assumido a administração do vinculo. Os bens
+livres foram dados em penhora ao visconde de Bacellar. O doudo estava sujeito á
+restricta deliberação d'uma tutela, que lhe concedêra apenas o indispensavel
+para manter uma vida inutil.</p>
+
+<p>Luiz não podia contar com cousa nenhuma d'aquella casa, a não querer
+limitar-se aos restos da mesa do pae, e a uma cama, d'onde seria expulso, logo
+que o doudo morresse.</p>
+
+<p>O annel de ferro, que o apertava, não tinha um élo mal soldado por onde elle
+se evadisse á desgraça. Não tinha um amigo a quem pedisse um conselho; nem um
+indifferente que quizesse dar-lh'o. Procuravam-no os credores unicamente; e
+d'esses, alguns eram tão insoffridos, que se retiravam appellidando-o ladrão,
+ou fugindo á bôca de um bacamarte com que o devedor insoluvel os ameaçava.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha, em casa de seu pae, chegou ao extremo de não ter umas botas,
+e de pedil-as emprestadas ao seu criado para ceder a um impulso, que o fazia
+correr sem destino.</p>
+
+<p>Chegaram-lhe as horas da profunda reconcentração. N'essas, a imagem de
+Assucena era uma braza de fogo sobre a chaga. O algoz não podia comportar a
+reminiscencia da victima. Recordal-a não era compadecer-se. Era imputar-lhe a
+causa das desgraças, que o assoberbavam: cerração absoluta de todas as suas
+esperanças.</p>
+
+<p>Viveu assim dous mezes.</p>
+
+<p>João da Cunha, quando menos se esperava, morreu da ultima congestão
+cerebral. Dizem que fôra terrivel a ultima hora lucida d'esse homem. O enigma
+dos dous cadaveres não lh'o perceberam os circumstantes. Ricarda todos
+suspeitavam que fosse a mãe de Luiz; mas esse outro cadaver, que lhe pedia
+contas de sua mulher, ninguem conjecturou quem podésse ser.</p>
+
+<p>Seu sobrinho, filho de uma sua irmã, successor no<span
+class="pn">{99}</span> vinculo, mandou immediatamente fechar as portas. Luiz da
+Cunha teve oito dias de homenagem para resolver o seu destino, e chorar a morte
+de seu pae, que foi de todos o menor abalo, que podia soffrer aquella alma
+entorpecida para todas as impressões. A consciencia da desgraça vestira-lhe a
+sensibilidade nobre d'uma crusta impenetravel. Alli não entrava nada n'aquelle
+coração ossificado. Se alguma emoção estava reservada para animar a pedra, era
+o dinheiro, o dinheiro com deshonra, por todos os meios infames, com tanto que
+podésse tornar ao mundo e convertêl-o em fel, em escarneo, em vingança.</p>
+
+<p>Mas esse dinheiro quem lh'o daria? Nem ao menos a chimera d'uma esperança
+absurda o lisongeava!</p>
+
+<p>Luiz da Cunha apresentou-se n'um quartel de cavallaria, disse que queria
+assentar praça. O commandante conhecia-o, e condoêra-se da miseria com que se
+lhe apresentava um moço, que elle vira disputar em luxo e devassidão com os
+mais distinctos da sua fileira.</p>
+
+<p>Prometteu-lhe proteccional-o, e elevou-o logo a cabo, com promessas de
+furriel, na primeira promoção.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha era melindrosamente tratado na recruta; mas, orgulhoso ou
+incivil, respondia com insultos á menor correcção do preceptor. Um dia
+travaram-se com palavras estimulantes, e por fim com as espadas. O mestre de
+esgrima foi ferido sériamente por traiçoeira cutilada, e Luiz da Cunha fugiu a
+cavallo, inutilisando assim a perseguição do momento.</p>
+
+<p>Sem destino na fuga, achou-se em Villa Franca, a cinco leguas de Lisboa. Ahi
+vendeu o cavallo a um estalajadeiro pela terça parte do valor. Seguiu, Tejo
+acima, até Santarem. Refez-se de alimento para seguir jornada, e alugava
+cavalgadura para Coimbra, quando lhe deram voz de prêso, á qual tentou fazer
+uma resistencia, que lhe custou algumas cronhadas d'arma.</p>
+
+<p>No dia seguinte á tarde entrava no Limoeiro, para ser julgado em conselho de
+guerra. D'esta vez não o soccorreram as solicitudes de Liberata. Luiz da Cunha
+pensava no suicidio, e emprasava para elle o momento posterior á deliberação do
+conselho de guerra. Dizia-se que o mais encarniçado agente contra o desertor
+era o visconde de Bacellar, que promettêra uma commenda da Conceição<span
+class="pn">{100}</span> ao auditor, se conseguisse que o conselho militar
+condemnasse o réo a degredo perpetuo.</p>
+
+<p>O padre Madureira, com o seu sestro observador, não podia ignorar o
+essencial d'este successo. Condoído dos revezes d'aquelle infeliz, contou a
+Assucena, com sua permissão, os doze mezes da vida de Luiz da Cunha, desde as
+punhaladas até á entrada na cadêa. Cedendo á sua boa alma, deixava transpirar a
+compaixão das palavras, e attribuia a expiação á serie de desventuras, que o
+reduziram a assassino, e mais tarde o levariam á forca.</p>
+
+<p>A compadecida censura do padre tinha um ecco no coração de Assucena. Os
+infortunios de Luiz da Cunha não podiam ser-lhe estranhos. Se, n'um momento de
+dolorosa exaltação, ella dissera que queria vingar-se, dez mezes tinham
+decorrido depois, e antes d'esse momento estavam alguns mezes de apaixonado
+delirio, de cega idolatria ao homem, que tão cruel lhe fôra. A religião,
+sucessora de todas as affeições de Assucena, operára em sua alma a maravilha do
+perdão para todas as injurias, d'onde quer que ellas viessem. Pensando na
+maldade de Luiz, e não podendo explical-a, attribuiu-a ao destino,
+interpretando assim do peor modo o livre arbitrio do homem remido pelos
+sacrificios de Jesus, e salvo pelas suas obras meritorias de recompensa, ou
+condemnado pelas infracções da lei divina. Esta anomalia intellectual é a
+enfermidade de muitas pessoas dedicadas, sem critica, ás cousas da fé, e
+descahidas, quando mais intentam levantar-se, nas grosseiras crenças do
+fatalismo, do destino, do «estava escripto» de Mafoma, e do <em>quó Deus
+impulerit</em> de Cesar.</p>
+
+<p>Assucena viera a convencer-se do <em>que tem de ser</em> a respeito de Luiz
+da Cunha. Entendeu que uma vontade, superior á d'elle, o obrigava a ser mau
+para os outros, que serviam de instrumento providencial á sua desgraça. A
+Providencia era assim insultada pela innocente menina, e não admira que ella
+incorresse na heresia, que passa em Roma com os fóros de san doutrina.</p>
+
+<p>D'esta conjectura ao perdão era logica a passagem.&mdash;Perdoar-lhe para
+amal-o&mdash;dizia ella na sua consciencia&mdash;isso nunca, em quanto a mão de Deus me
+não desamparar, mas perdoar-lhe para que a justiça divina se<span
+class="pn">{101}</span> aplaque; oxalá que a sua felicidade dependesse do meu
+perdão, que tão recommendado me foi pelos dous anjos que fallam do ceo...</p>
+
+<p>Assucena acreditava no seu consorcio espiritual com as almas do conego, e de
+sua irmã. Está n'essa crença a explicação da fervente supplica que ella, em
+extasis, fizera, depois que o padre Madureira narrára compungido as desventuras
+de Luiz. Não sei se as almas lhe responderam; mas, de todo o meu coração, creio
+que sim. Não se explicam certos actos que divinisam a creatura, se a não
+considerarmos tocada d'um magnetismo que mana de fonte sobrenatural. Não posso
+conceber o heroismo do perdão de Assucena, sem concebêl-a sujeita á vontade
+d'um impulso divino, d'um condão de predestinada, d'uma qualquer força, que não
+seja esta, que imprime o movimento nas acções triviaes de cada homem, incapaz
+de produzir o que outro homem não produz.</p>
+
+<p>Assucena devia recear-se de abrir sua alma ao padre Madureira. Devia; mas a
+coragem é o que espanta! Pede-lhe que soccorra Luiz da Cunha, visto que não tem
+pae, nem amigos. Offerece-lhe, para que o prêso seja solto, o dinheiro que
+quizer, com tanto que Luiz não saiba nem por sombras que é ella a que o salva.
+Isto, que pede, pede-o, chorando; e padre Madureira, tocado pelo enthusiasmo da
+caridade, não tem uma só palavra contra. Aceita o melindroso encargo, e
+promette esgotar todos os recursos, supposto se tema de não vencer os inimigos
+poderosos de Luiz.<span class="pn">{102}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION001110">XI.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION001111">SÃO MUITOS OS LAZAROS; MAS UM SÓ O CHRISTO.</a>
+</h2>
+
+<p>O visconde de Bacellar, com quanto não fosse parte contra Luiz da Cunha, seu
+aggressor, aguilhoava indirectamente o ministerio publico. Difficultava-se,
+portanto, a soltura por fiança, que a lei não concedia na reincidencia do
+delicto, aggravado agora, por deserção e roubo, e entregue por isso á summaria
+jurisprudencia militar.</p>
+
+<p>Padre Madureira, aconselhado, descoroçoou diante dos obstaculos; mas
+Assucena, como se tivesse um experimentado uso da omnipotencia do dinheiro,
+instou o padre, authorisando-o de novo para todas as despezas.</p>
+
+<p>O mestre de recruta, seguro de que não morria da cutilada, transigiu por
+dinheiro com o seu discipulo rebelde, e declinou a accusação. O conselho
+militar, movido á piedade por não sei que figuras rhetoricas do agente de
+Assucena, despresou a virulenta accusação do auditor, acalorado por suggestões
+do visconde. O juiz criminal, um pouco indeciso, como o burro de Buridan, entre
+o codigo e a peita não mesquinha, negociada pelo escrivão do processo, absolveu
+o réo, dando assim um testemunho da sua moralissima independencia de viscondes.</p>
+
+<p>O cabo de cavallaria foi militarmente condemnado a dous mezes de prisão, e
+baixa de posto a soldado raso. O seu plano de suicidio não vingou, á vista da
+limitada pena. Soubera que um braço poderoso o protegia, aluindo os obstaculos
+com alavanca de ouro. Conjecturou d'onde tal protecção poderia vir, e julgou-se
+ainda debaixo<span class="pn">{103}</span> da tutelar influencia de Liberata,
+que não podia deixar de ser o seu anjo valedor, em todas as crises.</p>
+
+<p>Desvaneceu-se-lhe esta grata certeza, quando o carcereiro o chamou á sua
+sala, deixando-o só com um homem desconhecido, trajando batina, e sapato de
+fivela.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor Luiz da Cunha&mdash;disse Madureira&mdash;deve ter conhecido que alguem o
+protege. Ignora quem é, e eu, supposto que tenha sido o solicitador da sua
+soltura, não venho aqui dizer-lhe quem lhe evitou um degredo.</p>
+
+<p>&mdash;Pois eu não hei de saber a quem devo tantos favores?!</p>
+
+<p>&mdash;A pessoa, que lh'os faz, prescinde da sua gratidão, e deseja não ser
+conhecida. Receba os beneficios, e não queira vêr a mão invisivel que o
+protege, porque a não póde vêr. Quem quer que é, não limitou ainda a sua
+caridade com o senhor Luiz da Cunha. Ha tenções de lhe dar os meios para que o
+senhor deixe Portugal, e vá no Brazil, ou na Africa, tirar algum interesse do
+capital que se lhe dér aqui. Faz-lhe conta aceitar este beneficio?</p>
+
+<p>&mdash;Aceito, cheio de reconhecimento. É o maior favor que me póde fazer esse
+Deus, que me ampara, seja quem fôr. Mas sou soldado, e preciso que me dêem
+baixa.</p>
+
+<p>&mdash;Ha de têl-a. O senhor tem dividas?</p>
+
+<p>&mdash;Tenho dividas; mas essas não me inquietam, porque os meus credores são
+ladrões civilizados. É dinheiro de jogo, que eu não pagaria ainda que podésse.</p>
+
+<p>&mdash;Mas alguem quer que o filho do fallecido João da Cunha se retire honrado
+de Portugal, apparentemente ao menos.</p>
+
+<p>&mdash;Isso meu caro senhor, é obra difficultosa. Eu não sei bem o que devo; mas,
+por um calculo approximado, não pago essas ladroeiras que me fizeram com oito
+contos de reis; e, se eu tivesse hoje quem me désse quatro, em cinco ou seis
+annos prometto que os faria chegar a cem.</p>
+
+<p>&mdash;É admiravel que o senhor Cunha com essa finura commercial se arruinasse
+até ao extremo de ser soldado para não morrer de fome...</p>
+
+<p>&mdash;Meu amigo, na adversidade é que se fazem os grandes calculos, e que se
+traçam os grandes planos.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo que vejo, os calculos e os planos de fazer que quatro contos produzam
+cem em cinco ou seis annos, só<span class="pn">{104}</span> se meditam quando o
+coração está de todo em putrefacção, e as algibeiras vazias...</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me que tem razão, senhor padre... Como se chama, meu caro senhor?</p>
+
+<p>&mdash;Não me convém que o senhor me conheça, nem o meu nome lhe é uma cousa de
+importancia. Queira continuar. Disse que eu tinha razão...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, tem razão; mas não me lembra a que respeito eu disse que o senhor
+tinha razão...</p>
+
+<p>&mdash;Tambem não importa. Sabe o que eu admiro, senhor Cunha? É a sua presença
+d'espirito!</p>
+
+<p>&mdash;Nunca me faltou. Sou um verdadeiro philosopho, e peço-lhe acredite que
+nunca estudei philosophia. Ha tempos, quando me fizeram a grosseria de me
+trazer aqui, sem o meu consentimento, resolvi suicidar-me, em certo dia e a
+certa hora...</p>
+
+<p>&mdash;Que foi o que o conteve?</p>
+
+<p>&mdash;Foi essa pessoa que me protege, alliviando-me da condemnação, que me
+promettiam os meus juizes, sendo um d'elles um homem, que foi criado de meu
+pae, e é hoje do supremo conselho militar... Isto não vem nada ao caso... O
+facto é que me não suicidei, como o senhor vê, e desde então entrei nos grandes
+calculos, bem longe de sonhar que alguem me queria fazer rico, dando-me um
+capital, que eu levarei no Brazil a uma cifra fabulosa.</p>
+
+<p>&mdash;Está, portanto, resolvido a sahir?</p>
+
+<p>&mdash;Se fosse já, era uma fortuna.</p>
+
+<p>&mdash;Ha de primeiro cumprir a sua sentença; ha de aqui receber os recibos dos
+seus credores, e para isso queira dizer-me quem elles são.</p>
+
+<p>&mdash;Não me recordo... Deixemo-nos de credores, meu amigo...</p>
+
+<p>&mdash;Um annuncio nos jornaes convidando-os a apresentarem os seus creditos,
+será sufficiente...</p>
+
+<p>&mdash;Mas não lhe disse eu já que devo mais de oito contos, que são vinte mil e
+tantos cruzados?!</p>
+
+<p>&mdash;Serão pagos.</p>
+
+<p>&mdash;Mas quem é que se interessa tanto por mim?! O senhor ha de ter a bondade
+de me dizer a quem devo beijar as mãos. Isto parece-me um lance de novella! Já
+me lembrou se andaria aqui segredo do meu nascimento!<span
+class="pn">{105}</span></p>
+
+<p>&mdash;Do seu nascimento?! pois o seu nascimento é um segredo para alguem?</p>
+
+<p>&mdash;É metade d'um segredo, pelo menos para mim. Não sei quem foi minha mãe,
+porque meu pae, que tinha razões para saber melhor que ninguem quem ella foi,
+nunca m'o disse. Imaginei que essa senhora viveria ainda, e teria mais dinheiro
+que eu... Não posso atinar com outra pessoa... Não tenho amigos, não sei d'onde
+me possa vir esta restituição, não me consta que seja o herdeiro presumptivo
+d'algum capitalista... emfim, aqui anda mysterio que o senhor padre póde pôr-me
+em linguagem portugueza, e eu prometto guardar inviolavel segredo, se fôr
+necessario esconder a beneficencia como se esconde um crime.</p>
+
+<p>&mdash;Já lhe disse que não denunciava o seu bemfeitor.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Seu</em>, ou <em>sua</em>?</p>
+
+<p>&mdash;Não tem resposta o reparo. O senhor Cunha deve ter a polidez d'um
+cavalheiro não me interrogando mais sobre tal assumpto.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem: eu respeito o mysterio: nem mais uma palavra a tal respeito.</p>
+
+<p>&mdash;Ora, diga-me, senhor, não tem pena de si? A sua quéda não lhe tem custado
+horas d'uma tormentosa reflexão?</p>
+
+<p>&mdash;Declaro-lhe que abomino o estylo pathetico, fujo de entrar no sorvedouro
+da minha consciencia; ainda assim, para lhe mostrar que não sou insensivel á
+sua pergunta, respondo: tenho soffrido; tenho-me espantado da logica maldita
+dos meus infortunios, tenho combinado a minha ultima desgraça com o meu
+primeiro crime, tenho desejado morrer; mas, ao cabo de tudo, reconheço que as
+minhas desventuras são fataes, não as posso encadear, não sei prevenil-as, sou
+victima da minha organisação, obedeço ao fim para que fui creado, tenho tanto
+arbitrio no mal como o senhor no bem, represento o crime ao mesmo tempo que
+outro representa a virtude. Ora aqui tem o que me faz reflectir, estudar, e
+abrir a golpes o segredo do meu coração. Não consigo nada com isto, e evito o
+mais que posso os assaltos do pensamento. Que valem torturas de que se não sáe
+com o coração purificado? Antes de assentar praça, tive muitos d'esses exames
+de<span class="pn">{106}</span> consciencia, e fugia d'elles, e de mim,
+aterrado. Cheguei a desconfiar que me estava reformando na desgraça; mas o que
+se não reformavam eram as minhas botas, por que cheguei a pedir a esmola d'umas
+botas a um criado de meu pae. Ora, não ha reforma possivel n'um philosopho
+descalço. Eu queria ser pessoa de bem; mas entendo que os bons instinctos
+renascem no coração do perverso, quando o terrivel assedio das desventuras
+levantam o cêrco. Um rapaz, affeito ao luxo das commodidades, e pervertido
+n'ellas, não se divorcia voluntariamente do vicio, na indigencia. Se meu pae
+não está doudo n'essa occasião, e me recebe com carinho, e me perdoa sem me
+repellir da sua amizade, e me não nega o necessario para a decencia, parece-me
+que a minha vida passava por uma subita transfiguração. Aconteceu o contrario:
+vi-me abandonado; entendi que não havia Providencia para mim, e desobriguei-me
+de respeital-a.</p>
+
+<p>&mdash;E lucrou, desobrigando-se?</p>
+
+<p>&mdash;Não: bem vê que sou desgraçado, e talvez nunca recue n'este caminho em que
+vou.</p>
+
+<p>&mdash;Mas deve recuar...</p>
+
+<p>&mdash;Crê que é possivel? Diga lá como se é honrado.</p>
+
+<p>&mdash;Sendo para os outros o que desejamos que elles sejam para nós.</p>
+
+<p>&mdash;Os outros tem sido para mim algozes.</p>
+
+<p>&mdash;Todos?</p>
+
+<p>&mdash;Todos, sim.</p>
+
+<p>&mdash;Então o senhor não tem feito victimas?</p>
+
+<p>&mdash;D'essas victimas que por ahi fazem todos os dias os <em>honrados</em> pelo
+suffragio publico. Desarranjei o futuro de algumas mulheres; mas penso que
+todas vivem mais ou menos felizes. O desgraçado sou eu.</p>
+
+<p>&mdash;E sabe que todas vivem felizes? A filha da viscondessa de Bacellar será
+feliz?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei; mas creio que sim. Dizem que vive n'uma quinta do infame
+padrasto, e naturalmente achará, como todas as outras, um marido, que não lhe
+encontre desfalque nenhum no coração. Essa mulher é um exemplo, que eu lhe
+cito, meu caro senhor, da fatalidade, que me persegue. Se ella fugisse com
+outro homem, o padrasto dotava-a, e ella casaria, fazendo a completa ventura do
+marido.<span class="pn">{107}</span> Como fugiu comigo, o padrasto insultou-me,
+cobriu-me epithetos affrontosos, obrigou-me a partir-lhe a cabeça...</p>
+
+<p>&mdash;E a abandonar a pobre menina, que não era responsavel pelas antipathias do
+padrasto...</p>
+
+<p>&mdash;São cousas ligadas... o abandono explica-se por não poder explicar-se...
+Digo-lhe sinceramente que não sei o que havia de fazer a essa mulher. Entendi
+que abandonal-a era restituil-a á mãe; e conserval-a minha amante era obrigal-a
+a cahir comigo no abysmo da miseria, fazendo-a testemunha dos esforços
+criminosos que eu faria para não cahir... Não me enganei... Assucena é hoje
+mais feliz sem mim... Estimo até que ella ignore a minha situação. O senhor
+conheceu-a?</p>
+
+<p>&mdash;Não a conheci.</p>
+
+<p>&mdash;Conhece a viscondessa?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Como está essa pobre mulher? Será ella a minha protectora?!</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;De certo, não, por que o marido não a deixa entrar nos fundos do casal. É
+um grande patife! Tenho pena de não ser poeta! Queria escrever em verso chulo a
+biographia do filho de uma tal Anna Canastreira do Porto! O responsavel da
+desgraça de Assucena é elle, que a não quiz remir da deshonra com o valor de
+duas duzias de pretos dos centenares d'elles, que ainda hoje são empilhados por
+sua conta no porão dos seus navios. Depois, dizem que sou eu o perverso, o
+escandaloso, o malvado! Fique n'isto, meu amigo; os homens fizeram isto que
+sou. Dêem-me uma independencia, e verão que hei de esforçar-me para ser bom. Os
+homens hão de vir destruir-ma, e eu serei forçado a lutar com elles. Como tenho
+contra mim o destino, hei de ficar mal na luta desigual, e como vencido, em vez
+d'um ai, receberei um escarro na cara.</p>
+
+<p>&mdash;Experimente o procedimento da honra, não em Portugal, porque os seus
+precedentes são pessimos para uma rehabilitação. Empregue o capital, que lhe
+derem, n'um ramo de commercio licito; aspire á independencia sem fausto;
+habitue-se a uma tranquilla mediocridade;<span class="pn">{108}</span> agouro
+que voltará um dia a Portugal cheio de benevolencia para o seu proximo, e
+enojado das tristes recordações do que foi.</p>
+
+<p>&mdash;Póde ser......................</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Os credores de Luiz da Cunha receberam, maravilhados da surpreza, os seus
+creditos, em uma casa commercial indicada pelas gazetas.</p>
+
+<p>Cumprida a pena, o prêso recebeu com o alvará de soltura a baixa, e folha
+corrida do crime de ferimento na pessoa do visconde.</p>
+
+<p>Fez a sua residencia em uma hospedaria, em quanto se fretava o navio em que
+devia transportar-se ao Brazil. Viveu alguns dias n'uma violenta coacção á sua
+vontade, que era mostrar-se n'uma sege a galope, n'um camarote, nos cafés, nos
+passeios, e nas praças. O desconhecido padre, porém, déra-lhe como preceito a
+reclusão no seu quarto, e Luiz obedecia, maniatado pela dependencia do capital
+promettido.</p>
+
+<p>O seu mais forte desejo era seguir o padre para averiguar a morada da pessoa
+que o protegia. Acreditemos, ainda assim, que não era a ancia de beijar as mãos
+ao bemfeitor, que lhe estimulava uma nobre curiosidade. Era o simples desejo
+d'entrar no segredo da aventura romanesca. Se não obedecia ao desejo,
+resistindo ao silencio do agente da mysteriosa pessoa, é por que receava perder
+a beneficencia com a sua imprudente e até inutil indagação.</p>
+
+<p>Chegado o dia do embarque, Madureira conduziu Luiz da Cunha a bordo, e ahi
+lhe disse que o capitão do navio lhe entregaria no Rio de Janeiro seis contos
+de reis, e algumas cartas de recommendação para negociantes portuguezes, que
+deviam dirigil-o na carreira mais prospera do commercio.</p>
+
+<p>A essas horas, Assucena, ajoelhada no seu oratorio, pedia ao espirito de
+Bernabé Trigoso que não desamparasse o desgraçado, e lhe alcançasse de Deus
+para ella a bemaventurança, quando as suas virtudes a remissem das culpas na
+balança da divina justiça. A viscondessa de Bacellar entrou n'esse momento, a
+contar á filha o pasmoso procedimento de Luiz da Cunha, pagando as suas<span
+class="pn">{109}</span> dividas, sem que ninguem descobrisse d'onde poderiam
+vir-lhe vinte e tantos mil cruzados. Rosa Guilhermina ouvira de seu marido a
+espantada narração do successo, e não podéra ser superior ao pasmo de José
+Bento. Sem algumas suspeitas, admirou a impassibilidade de Assucena, quando o
+caso não era de se ouvir sem pasmo.</p>
+
+<p>&mdash;Seria essa mulher com quem elle tem vivido?!&mdash;perguntava a viscondessa.</p>
+
+<p>&mdash;Qual mulher, minha mãe?</p>
+
+<p>&mdash;Essa dissoluta, que o teve á sua mesa?...</p>
+
+<p>&mdash;Não foi, minha mãe... Fui eu.</p>
+
+<p>&mdash;Tu!</p>
+
+<p>&mdash;Fui eu, minha mãe!</p>
+
+<p>A viscondessa, perplexa alguns segundos, abraçou, a chorar, sua filha,
+exclamando:</p>
+
+<p>&mdash;É uma lição de virtude que dás a tua mãe.</p>
+
+<p>&mdash;Um segredo eterno, sim?&mdash;disse Assucena a tremer.</p>
+
+<p>&mdash;Sim... sim... um segredo eterno... Esta virtude recebe-se mal... Ficaste
+pobre, minha filha?</p>
+
+<p>&mdash;Eu nunca posso ser pobre.. O espirito do meu bemfeitor não me desampara...</p>
+
+<p>&mdash;E não... Teu padrasto disse que te recebia em casa logo que Luiz da Cunha
+sahisse de Portugal.</p>
+
+<p>&mdash;Não aceito, minha mãe... Não é por odio que lhe tenha... é que preciso
+viver sósinha para gosar os poucos bens do espirito que tenho... Quem me tirar
+da solidão, mata-me...</p>
+
+<p>&mdash;Mas viverás sósinha com tua mãe, no meu quarto...</p>
+
+<p>&mdash;Não posso entrar n'essa casa... Quando me recordo d'ella, cerra-se-me o
+coração... Não queira que eu soffra mais, minha boa mãe. Se seu marido lhe não
+prohibe, venha vêr-me muitas vezes; mas considere-me sem familia, sem apêgo a
+nenhuma cousa do mundo, triste e só, por prazer e por
+necessidade......................</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p><span class="pn">{110}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION001120">XII.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION001121">FASCINAÇÃO DO ABYSMO.</a></h2>
+
+<p>Raro será o peito de homem onde não bata apressado o coração, que deixa, na
+patria, uma infancia com recordações suaves, ou uma adolescencia alternada por
+prazeres e amarguras.</p>
+
+<p>Deve ser-lhe tristissimo o ultimo adeus dos olhos ao ceo do seu berço! Bem
+digno de compaixão será aquelle que lhe vira as costas, com as faces enxutas!
+Esse irá mais duro da alma que o homicida, fugindo do lugar do delicto! Esse
+amaldiçoou-se a si, primeiro que a patria o amaldiçoasse; e, espedaçando os
+vinculos, que o ligavam aos deveres de homem, não sabe o que é familia, não
+sabe o que é sociedade, sente, com tedio de si proprio, que não tem patria
+nenhuma!</p>
+
+<p>Tal era o filho de Ricarda.</p>
+
+<p>Em quanto o marinheiro, com o barrete na mão, e os olhos turvos de lagrimas,
+dizia um mudo adeus ás montanhas de Portugal, e orava, com a santa poesia da
+fé, a supplica de feliz viagem ao Senhor, que faz bramir a tempestade, Luiz da
+Cunha observava com risonha curiosidade as varias physionomias dos seus
+companheiros. De tantas nem uma só deparou sem signaes de mágoa. Parece que
+todos levavam da terra uma recordação saudosa! O proprio capitão, de braços
+cruzados, á pôpa da galera, absorvido nos longinquos cimos das montanhas<span
+class="pn">{111}</span> cinzentas, não se differençava, no ar melancolico, do
+tenro moço, arrancado pela ambição aos braços da mãe, que o deixou ir sem
+resistencia, dando-se como certa a prosperidade em que tornaria a vêl-o.</p>
+
+<p>Quem mais dava nos olhos, pelo chorar ancioso, era uma senhora vestida em
+rigoroso luto, com véo preto descido, e com dous meninos, um de dous annos,
+outro de peito ainda, sentados no collo d'uma preta, criada sua.</p>
+
+<p>&mdash;Aquella dama chora por ella e por mim!&mdash;disse, com zombeteiro sorriso,
+Luiz da Cunha ao capitão.</p>
+
+<p>&mdash;E o senhor não leva saudades de ninguem?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor. Não levo, nem deixo. Não tenho patria, nem familia. Não sei
+se fóra dos lagos da Allemanha tambem ha ondinas. Se n'este mar me namorasse de
+uma, casava com ella, e viveriamos na mesma concha.</p>
+
+<p>&mdash;Bem se vê que não deixa em Portugal ninguem que lhe seja caro. A quatro
+milhas da patria, nunca tive passageiro nenhum, que risse de tão boa vontade!</p>
+
+<p>&mdash;Pois alguma vez havia de encontrar o impio contra a religião do
+amor-patrio. Não sei o que é isso, e dou-me os parabens de o não saber. Aquella
+mulher por que chora? são saudades?</p>
+
+<p>&mdash;Saudades, sim, do marido, que deixa na sepultura.</p>
+
+<p>&mdash;É o unico lugar seguro onde podia deixal-o. Se fôr ciumosa, póde ir e
+tornar, na certeza de que o não surprenderá n'uma infidelidade...</p>
+
+<p>&mdash;Não zombe de cousas tão sérias, senhor Cunha. Cá no mar respeita-se a
+religião...</p>
+
+<p>&mdash;E em terra, estes piedosos marinheiros convertem-na em libações de
+canada!... Vejo que é um bom catholico, senhor capitão!</p>
+
+<p>&mdash;E o senhor não é catholico?</p>
+
+<p>&mdash;Eu não sei o que sou, melhor do que o senhor. Sou este homem que vê. Tanto
+sou em terra como no mar. Não me canso a pensar em cousas superiores ao meu
+bom-senso, e vivo á discrição da fatalidade como este navio á mercê das
+ondas... Então aquella senhora viuva é brazileira?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor. Enviuvou ha dous mezes, e vai ao Brazil tomar conta da
+administração da sua casa. É uma rica fazendeira de café e canna.<span
+class="pn">{112}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não leva com ella algum parente?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor. Leva duas criadas, e aquelles dous meninos. Coitada! como não
+irá aquelle coração! Não ha ainda oito mezes que ella aqui passou tão contente
+com o marido, que era doudo por ella! Mal diriam elles! A vida é um engano!
+Quando penso nos trabalhos, que se procuram, para amparar dous dias de vida,
+dá-me vontade de viver em descanso com meus filhos, comendo um bocado de pão
+estreme, e ensinando-os a despresarem a enganadora ambição de riquezas, que por
+fim... alli tem o exemplo!... Quanto daria aquella senhora por ter seu marido
+vivo! Dava de boamente os trezentos contos que tem...</p>
+
+<p>&mdash;Trezentos contos! parece-me muito conto!</p>
+
+<p>&mdash;Admira-se? pois tomára eu o que ella tem d'ahi para cima...</p>
+
+<p>As reflexões melancolicas do capitão, ácerca da rapidez da vida, não
+impressionaram Luiz da Cunha: mas o fecho da lamuria philosophica, os
+<em>trezentos contos</em>, foi um valente encontrão á sua insensibilidade. Se
+n'aquelle momento fosse possivel abrir-lhe o craneo, e analysar-lhe o cerebro,
+ver-se-ia um arfar vertiginoso nas bossas predominantes d'aquella maquina! O
+capitão, sem o pensar, jogára um ariete á alma petrificada do passageiro, e
+abrira larga brecha por onde iam sahir planos de infame calculo.</p>
+
+<p>A viuva retirára, quasi nos braços das criadas, á sala de ré. Luiz da Cunha
+desceu tambem, dominado por um pensamento que não supportava delongas. Tão
+radiosa lhe fulgira a esperança de angariar uma fortuna colossal, e tão
+susceptivel de realisar-se lhe parecêra um casamento com a fazendeira de café,
+que, desde esse momento, o experimentado aventureiro julgou-se protegido pelo
+diabo côxo de Le-Sage, e prometteu não perder occasião de captar a benevolencia
+da viuva.</p>
+
+<p>Como ella tivesse recolhido ao seu beliche, para esconder dos indifferentes
+as incessantes lagrimas, Luiz meditou de vagar o seu plano, estudando o papel
+adaptado ao caracter da viuva, e afivelando-se uma mascara, visto que todas se
+ajustavam á perversa flexibilidade da sua physionomia moral.<span
+class="pn">{113}</span></p>
+
+<p>Convindo na conveniencia de representar mui sériamente, arrependeu-se das
+imprudentes facecias com que respondêra ás graves perguntas do capitão.
+Entendeu, porém, que a maneira de desvanecer o prejudicial conceito, que
+merecêra ao maritimo, era explicar a sua sarcastica jovialidade como um
+pretexto para illudir-se d'um profundo dissabor, uma d'essas pungentes ironias
+com que o desgraçado imagina vingar-se do verdugo destino, que o persegue.</p>
+
+<p>Entrou em scena, e desempenhou magistralmente. O capitão, sincero e rustico,
+mais conhecedor dos escolhos do mar que dos outros, que se topam nas
+tempestades da vida, condoeu-se da pathetica narração inventada pelo
+passageiro, alludindo á perda de um coração, que lhe fôra caro, á ingratidão
+d'uma aleivosa mulher, que injuriára com a perfidia a sua generosa alma. Por
+causa d'ella&mdash;dizia o comico&mdash;abandonava o caro berço natal, o ceo dos seus
+amores de moço, cheio de illusões, mortas, calcadas, perdidas para sempre! E
+tão grande fôra essa dôr, tal desespero involvêra de negro a sua
+alma&mdash;proseguia elle, enrugando a fronte, e correndo por ella a mão com a mais
+velhaca naturalidade&mdash;que protestara affrontar com o escarneo todos os
+sentimentos nobres, pois que os seus tambem o tinham sido por uma traiçoeira
+mulher, colligada com miseraveis inimigos.</p>
+
+<p>E, dito isto, no mais rigoroso ademan do palco, retirou-se, deixando o
+capitão contristado, e condoido da sorte do pobre moço, que tão cêdo perdêra o
+gosto da vida.</p>
+
+<p>Os passageiros da galera <em>Boa-Sorte</em>, informados pelo capitão,
+olhavam para Luiz da Cunha com certo ar de respeito e de triste curiosidade. O
+silencio funebre de tal homem, sombrio sempre, movêra o natural interesse dos
+sinceros companheiros, e não passára desapercebido a D. Marianna, supposto que
+as suas penas fossem de sobra, para se dar cuidado com as estranhas.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha felicitou-se do grande passo que déra. O que não parece nada,
+era já muito para elle. Esse interesse, essa especie de curiosa compaixão, o
+attencioso silencio com que duas palavras suas eram escutadas, eram, com
+effeito, acquisições, que lhe valiam, na opinião<span class="pn">{114}</span>
+d'aquelle publico, uma consideração, que ninguem contrariava.</p>
+
+<p>Havia um só motivo, que descerrasse um ligeiro sorriso nos labios de Luiz:
+era o menino mais velho de D. Marianna, a criancinha de dous annos, que,
+attrahida pelos agrados do passageiro, lhe dava a preferencia nos carinhos. A
+mãe lisongeava-se d'este acolhimento, e chorava, porque mais vivas a assaltavam
+as recordações de seu marido, ao qual tão caros eram os afagos do menino.</p>
+
+<p>Luiz, amestrado pelo contínuo estudo, não tratava de mitigar com o balsamo
+banal dos seus companheiros a ferida da saudosa viuva. Pelo contrario:
+dizia-lhe que chorasse, se perdêra um ente querido, um extremoso marido, metade
+da sua alma, o melhor da sua existencia, um homem digno d'ella. Como
+consolação, apenas lhe dizia que o encarasse a elle, e veria alli enxutos os
+olhos, que derramaram lagrimas de sangue, e por fim mirraram-se, como o coração
+exsangue, árido e resequido, debaixo da sua lousa. Dizia-lhe que para ella não
+era impossivel a ventura, porque, cêdo ou tarde, encontraria em um segundo
+marido o reflexo das virtudes do primeiro; seria, outra vez, ditosa, porque ha
+anjos privilegiados que o Altissimo não abandona, mesmo quando os deixa
+sósinhos na terra, onde encontrarão um amparo, que lhes adoce as saudades d'um
+outro partido, sob a lousa da sepultura.</p>
+
+<p>Este estylo de cabeça não era mesquinho em figuras. Os periodos eram
+artisticamente arredondados, acizelados, torneados como os hombros d'uma
+estatua. Os discursos, sempre decorados da vespera, não tinham falha que os
+fizesse tinnir mal aos ouvidos de Marianna. Em tudo, e até nos improvisos,
+havia uma razão de ordem connexa, um rigor lógico de honradez, um espantoso
+triumpho da corrupção eloquente sobre o gaguejar da ingenuidade sempre boçal e
+descozida nos seus discursos.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha não se escondia para estes ligeiros dialogos com Marianna. Em
+occasião de almoço ou jantar, e não sempre, é que elle se interessava na
+conversa dos que por delicadeza procuravam consolar a viuva, sempre
+inconsolavel.</p>
+
+<p>O pequeno Antoninho afizera-se tanto a Luiz, que chorava, se o não levavam
+de manhã ao beliche do seu<span class="pn">{115}</span> amigo. Marianna
+agradecia ao carinhoso soffredor de seu filho tantos favores, e ficava contente
+se Luiz lhe dizia que era devedor áquelle menino dos raros momentos de prazer,
+que Deus ainda lhe concedia por intermedio d'um innocente.</p>
+
+<p>Vejam que estudo!</p>
+
+<p>E assim passaram vinte dias de viagem. As amarguras de Marianna tinham
+transigido um pouco com a natureza, que parece não ter sido feita para os
+soffrimentos duradouros, e desmente sempre os propositos d'um lucto perpetuo,
+variando as sensações com magica destreza.</p>
+
+<p>Menos lagrimosa, ou mais resignada, que é o que sempre se diz, a viuva não
+fugia da mesa, apenas terminava a refeição. Demorava-se na palestra, silenciosa
+sim como Luiz, mas respondia com um aceno affirmativo ás attenções, que os
+brazileiros de torna-viagem lhe davam, nas suas conversas dissaboridas. Luiz
+fazia-se estranho a ellas, fingindo-se abstracto em scismadoras tristezas de
+que o compadecido capitão, ou D. Marianna o acordavam com esta ou outra
+semelhante pergunta:</p>
+
+<p>&mdash;Que tem, senhor Luiz da Cunha? Em que pensa!</p>
+
+<p>&mdash;No <em>nada</em>, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Sempre assim! Quando virá um dia de o vêrmos alegre?</p>
+
+<p>&mdash;O dia final.</p>
+
+<p>&mdash;Que ideia tão triste! Então não espera, com vinte e oito annos, tão novo,
+encontrar n'esta vida a felicidade?</p>
+
+<p>&mdash;Não, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Não póde ella apparecer-lhe como um acaso?</p>
+
+<p>&mdash;A morte.... e essa é certissima.... espero-a com a segurança de quem a vê
+continuamente diante dos olhos.</p>
+
+<p>&mdash;Não falle na morte.... Eu tenho esperanças de o vêr feliz.... Ha de
+encontrar no Brazil uma menina, muito linda e innocente, que lhe encha o
+coração d'um novo amor...</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho espaço para elle. Onde está o demonio não póde entrar um anjo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas Deus póde mais que Satanaz&mdash;replicou Marianna.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é verdade!&mdash;confirmaram tres brazileiros.<span
+class="pn">{116}</span></p>
+
+<p>&mdash;Pois Deus realise a sua generosa vontade, minha senhora.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha, com esta resposta, lançou a sonda ao coração da viuva. O que
+ella lá encontrou, não o sei eu; mas que Marianna fez um gesto de resentimento,
+isso foi um facto, que não escapava á fina observação de Luiz da Cunha, nem á
+do leitor ou leitora, que são pessoas das muito raras, que eu conheço, com
+vista dupla para lêr um coração na ruga repentina da testa, ou no ligeiro
+morder do labio.</p>
+
+<p>Seria indiscreta a versão feita por Luiz do repentino baixar d'olhos da
+viuva? Não era, não. O desejo que ella affectava de o vêr feliz pelo encontro
+d'uma linda e innocente menina, não era realmente o seu desejo, se a menina
+linda e innocente não era ella.</p>
+
+<p>Como essa pobre mulher, durante um mez de viagem, chorou todas as lagrimas,
+que tinha perpetuado á memoria de seu marido, isso explica-se pela inactividade
+das glandulas lacrimaes, quando a acção vital se concentra no coração. A sua
+desesperada angustia, nos primeiros mezes de viuva, não podia durar muito. Dôr,
+que se expande em soluços, que rejeita consolações impotentes, e não espera
+nada dos recursos ordinarios, mata depressa, ou depressa se desvanece. Ora, a
+dôr d'uma viuva de vinte e cinco annos está, mais que nenhuma outra, sujeita
+áquelle aphorismo, que não li em Hippocrates, mas nem por isso devem deixar de
+o aceitar como regra de physiologia experimental.</p>
+
+<p>E, depois, quando o aphorismo não frizasse com o facto, dou-vos uma razão
+mais forte, mais experimentada, e menos especulativa que as theorias incertas
+ácerca do coração.</p>
+
+<p>Fôra necessario que Marianna tivesse sempre a seu lado um anjo a
+segredar-lhe os precedentes de Luiz da Cunha, para que ella se não deixasse
+illaquear na rêde habilmente lançada á sua fraqueza. O aspecto grave, austero,
+e melancolico do cavalheiro, que não faltava á menor cortezia d'uma refinada
+polidez; a veneração com que todos os companheiros de viagem respeitavam a sua
+tristeza sombria; a bondade que o seu sorriso respirava quando Antoninho,
+fugindo do collo da mãe, voava com<span class="pn">{117}</span> um beijo aos
+braços d'elle; a sensatez das suas reflexões a respeito do justo pranto da
+viuva, que perdeu um bom marido, tão raro entre os pervertidos filhos do
+seculo; os seus momentaneos extasis, quando a palavra amor lhe roçava
+fugitivamente os labios; e, finalmente, a certeza, dada pelo capitão, do
+illustre nascimento de Luiz, visto que na sua carteira levava uma ordem de seis
+contos de reis, que lhe fôra entregue por um padre, especie de mordomo ou cousa
+que o valha do mysterioso passageiro: todas estas contingencias reunidas, e
+outras muitas que nem a propria viuva saberia explical-as, davam a Luiz da
+Cunha um ar de grandeza, de distincção, de sympathia, que, em poucos dias,
+causára em Marianna vergonha da sua propria fraqueza, e até pesar de ter
+encontrado tal homem.</p>
+
+<p>De mais a mais, os olhos de Luiz, tão expressivos e ardentes nas suas
+queixas contra o destino, baixavam-se submissos, se encontravam os olhos
+d'ella, em que a curiosidade não era menos significativa que a ternura. E
+porque se baixavam esses olhos? Mal vai ao coração da mulher quando esta
+curiosa pergunta a incommoda! De dia para dia redobra-lhe o desejo de entender
+esses olhos equivocos, essa modestia encantadora. Se elles se esquivam em
+confessar-se, ou se a palavra timida os não denuncia, o que era desejo, na
+mulher já ferida, torna-se em ancia de resolver o problema. Chega a assustar-se
+d'essa apparente submissão, d'essa mudez desamoravel. Quem sabe se aquelle
+olhar, fugindo aos olhos d'ella, quer dizer que o coração foge tambem? E então
+entra na empreza o mais forte inimigo da mulher: o amor-proprio, esse
+conselheiro intimo, que a salva raras vezes da queda, e, demonio de soberba,
+impelle-a quasi sempre á perdição, vendando-lhe os olhos do juizo, e dando-lhe
+aos do amor a vista dupla, o vêr penetrante, que, em linguagem do tempo, se
+chama a razão livre, a sanctificação do instincto. Era o amor-proprio o que
+fizera na face de Marianna um signal de resentimento. Ainda que Luiz da Cunha
+representasse o papel de atraiçoado amante, extenuado para novas paixões, a
+viuva, como todas as mulheres nas circumstancias d'ella, formosa e rica, tivera
+uma vez e outra a vangloriosa ideia de resuscitar aquelle homem,<span
+class="pn">{118}</span> que se julgava morto. Que nos perdôem as feiticeiras
+florinhas com que o Senhor matisou as agruras da existencia; mas uma
+fragilidade muito sensivel, e que muitas vezes as prejudica na sua isempção, é
+o orgulho de acorrentar a fera, que faz estragos desenfreada, ou insuflar uma
+existencia nova no homem, que adquiriu nota de cansado. Arriscada empreza todos
+os dias commettida com mau successo! A inexoravel serpente do éden está sempre
+assobiando aos ouvidos da eterna Eva. A vaidade, creação contemporanea da
+primeira mulher, continua a offerecer-lhe em taça de ouro o sumo do pomo, doce
+na superficie, e fel no fundo. A que intenta prostrar a seus pés o conquistador
+soberbo, para que a fascinação do seu engodo seja inveja ás que não poderam
+tanto, é sempre victima, se o homem, que facilmente se dá aos ferros, não tem
+ainda passado a linha da vida, além da qual está o completo cansaço do corpo e
+da alma, tristes socios de um tardio desengano. A que intenta restaurar no
+coração do homem as potencias, atrophiadas pela perfidia, não sabe que será
+ella a offerenda expiatoria do crime de outra mulher; não sabe que o trahido
+recupera as forças, convertendo-as em vingança, porque tudo que n'essa alma
+existia nobre e santo, bem póde ser que não sobrevivesse á morte d'um primeiro
+amor galardoado com o desprêso.</p>
+
+<p>Leitora, não se enfade v. ex.ª com o longo periodo que vem de lêr, se é que
+o leu. Não seja ingrata á lhanesa com que se lhe mostra o homem tal qual é, e
+com que se trazem do insondavel da sua alma á luz da analyse cousas que v. ex.ª
+não vê em si, e muito raras vezes descobre n'elle.</p>
+
+<p>Se D. Marianna tivesse encontrado na abundante leitura de romances uma outra
+Marianna em face d'um outro Luiz da Cunha, parece-me que saberia resistir aos
+primeiros assaltos do amor, victoria que alcançou a habil hypocrisia, adestrada
+em doze annos de infamias. Não quero, porém, com isto dizer que D. Marianna
+succumbisse, como imbecil, ao prestigio do excentrico companheiro de viagem.</p>
+
+<p>O que ella tinha de peor era não ser imbecil. Foi cousa que seu defuncto
+marido não apoiava a tendencia d'ella para o maravilhoso. A indole, acalorada
+pelos romances,<span class="pn">{119}</span> seu passatempo querido,
+manifestára-se de um modo assustador para um marido, não convencido da sua
+superioridade a todos os outros homens, perante sua mulher. O fallecido
+fazendeiro de café era um homem excellente; mas, a respeito de intelligencia,
+não fallemos n'isso. O verniz que tinha, pouco ou muito, era obra de Marianna,
+que sinceramente o presava, desde que elle entrára como feitor em casa de seu
+pae. Diga-se de passagem que este bom homem, aos trinta annos arrebatado por
+uma febre typhoide, era nosso patricio, nascêra nos Arcos de Val-de-Vez, d'ahi
+sahira aos doze annos, e ahi voltára rico para morrer nos braços de seus
+parentes, que tirou da miseria. Tantas virtudes, mantidas pelo trabalho, são
+sobeja honra á memoria do marido de D. Marianna. Não precisamos, mentindo,
+encarecer-lh'a com dotes que elle não tinha, e, por isso mesmo, não approvava
+em sua mulher.</p>
+
+<p>Mostrára-lhe, talvez, uma intuição clara que as tendencias romanescas de sua
+mulher a precipitariam. Viu bem.</p>
+
+<p>Não sei se Marianna tinha sonhado o typo de Luiz da Cunha, como se diz em
+verso; se o tinha sonhado, encontrou-o na realidade, o que é alguma cousa peor.
+Os traços do astucioso caracter moral não discordavam do physico. Para a sua
+physionomia triste e sympathica arranjára-se Luiz da Cunha uma alma tão ao
+natural, que deixára a perder de vista as imperfeições da natureza. A arte, em
+quanto a mim, póde mais que a sua rival.</p>
+
+<p>Sem arte não encaminhava Luiz da Cunha as cousas a ponto de Marianna ir
+sentar-se, alta noite, a seu lado, na tolda, contando silenciosa as estrellas
+do ceo, entre as quaes dizia o impostor que procurava a fada do seu destino.</p>
+
+<p>&mdash;Se a vir&mdash;dizia Marianna&mdash;peça-lhe que lhe diga o meu.</p>
+
+<p>&mdash;O seu destino posso eu dizer-lh'o, senhora D. Marianna.</p>
+
+<p>&mdash;Qual?... diga, diga.</p>
+
+<p>&mdash;Ha de ser venturosa, venturosa sempre.</p>
+
+<p>&mdash;E sou eu venturosa? Sósinha no mundo...</p>
+
+<p>&mdash;Quem tem o coração povoado d'anjos nunca está<span class="pn">{120}</span>
+sósinha... Qual será o homem que a não adore? Póde v. ex.ª rejeitar o culto,
+póde julgar-se só em quanto não encontrar uma alma afinada pela sua; mas, em
+quanto se é adorada, não se póde julgar sósinha...</p>
+
+<p>&mdash;E que valho eu para ser adorada?</p>
+
+<p>&mdash;Vale as mais santas esperanças d'um homem com o coração viçoso, ainda rico
+de todas as illusões, puro ainda de toda a mancha; vale um preço inestimavel;
+vale uma existencia. Tivesse eu esse coração, com esperanças, com vigor, com
+pureza.... não me tivessem vasado n'elle torrentes de fel que m'o queimam...</p>
+
+<p>&mdash;Sem esperança?</p>
+
+<p>&mdash;Nenhuma esperança... tenho-lh'o dito como uma confidencia que se faz a uma
+irmã...</p>
+
+<p>&mdash;E eu não posso crêl-o... Deus não quer que a sua vida acabe tão cêdo... Ha
+de haver alguem, que lhe faça esquecer essa mulher, indigna de si...</p>
+
+<p>&mdash;Onde encontrarei eu outra?</p>
+
+<p>&mdash;Onde a encontrará? Talvez no Rio de Janeiro, onde ha tantas... e tão
+seductoras...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! que santa prophecia é essa!... V. ex.ª não me conhece... não se
+conhece...</p>
+
+<p>&mdash;Não me conheço!... Que quer dizer?</p>
+
+<p>&mdash;Nada, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Diga... não me deixe dar uma má significação ás suas palavras.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, digo; mas que a não vá eu ferir... promette perdoar-me?</p>
+
+<p>&mdash;Pois que me dirá que eu não deva perdoar-lhe?!</p>
+
+<p>&mdash;Não se conhece; porque, se alguma mulher podia dar-me a mão, afastando de
+sobre mim a pedra sepulcral... Já me comprehendeu...</p>
+
+<p>Marianna baixára os olhos, e estremecêra. Subira-lhe ás faces o calor do
+coração. Sentira em si uma confusão de ideias, uma embriaguez de felicidade e
+receio, uma tal perturbação que, n'aquelle momento, quizera antes não estar
+alli, supposto que em parte alguma podésse estar melhor.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha, encostando a face á mão direita, pozera a mão de modo que os
+olhos retorcidos não perdessem um movimento de Marianna.&mdash;É o que eu tinha
+previsto&mdash;disse<span class="pn">{121}</span> elle a si proprio, sorrindo
+mentalmente. Passados alguns segundos dramaticamente taciturnos, Luiz, como de
+um rapto, sahiu do seu extasis, e perguntou com a mais artistica commoção:</p>
+
+<p>&mdash;Offendi-a? Lembre-se que prometteu perdoar-me.</p>
+
+<p>&mdash;Perdôo-lhe todo o mal que me faz...</p>
+
+<p>&mdash;Vê como sou infeliz?</p>
+
+<p>&mdash;Infeliz!... qual de nós é mais?</p>
+
+<p>&mdash;Tão infeliz que faço mal a quem eu quizera dar todas as felicidades da
+terra, se tivesse a omnipotencia d'um Deus.</p>
+
+<p>&mdash;O mal que me faz... poderia converter-se, se Deus o quizesse, em ventura
+de ambos...</p>
+
+<p>&mdash;Poderia!... eu bem sei que podia... Snr.ª D. Marianna... eu devera têl-a
+encontrado no principio da minha juventude.... Eramos hoje tudo que o desejo
+póde imaginar de mais feliz, de mais invejavel... Segue-se que é mentira
+aproximarem-se os entes que o destino talhou para se unirem... Quando se
+encontram, já a desgraça os traz desfigurados; vêem-se, e não se conhecem;
+fallam-se, e não se comprehendem; abraçam-se, e sentem-se frios como a pedra de
+um tumulo, como dous cadaveres, que se levantam, a par, da mesma campa...</p>
+
+<p>&mdash;E é o que nós somos um para o outro? Julga-me tão mal, senhor Luiz da
+Cunha!</p>
+
+<p>O filho de Ricarda ergue-se impetuosamente, dá quatro passeios no
+tombadilho, afastando os cabellos da testa, e pára defronte da viuva, com
+attitude o mais ridiculamente sinistra que póde imaginar-se.</p>
+
+<p>&mdash;Senhora D. Marianna!</p>
+
+<p>Ella fixou-o, erguendo-se tambem assustada.</p>
+
+<p>&mdash;Senhora D. Marianna! ouve uma voz celeste, que a manda salvar-me? É o
+instrumento sobrenatural do meu anjo de redempção? Responda...</p>
+
+<p>&mdash;Que posso eu responder-lhe?</p>
+
+<p>&mdash;Obedeça ao seu coração... Este momento póde marcar uma nova época na minha
+vida...</p>
+
+<p>&mdash;Senhor Luiz da Cunha...</p>
+
+<p>&mdash;Responda, Marianna... não receie ferir-me com uma palavra negativa... Eu
+preciso mesmo do ultimo desengano...<span class="pn">{122}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que hei de eu dizer-lhe... sem que me tenha dito...</p>
+
+<p>&mdash;Que a amo?... Não o adivinhou ainda, Marianna?!</p>
+
+<p>A viuva encostou-se á amurada do navio, e pousou a barba na palma da mão
+direita, cujo braço tremia em perceptivel convulsão. Um raio da lua
+reflectiu-se nas lagrimas d'ella. Luiz da Cunha teve um d'esses raros momentos
+de compaixão, que costumam assaltar o infame: devêra então maravilhar-se do
+magico prestigio da impudencia.</p>
+
+<p>O capitão subia ao convez, e olhou com indifferença para os dous
+passageiros, que não eram suspeitos a ninguem. Marianna, dizendo-se influxada
+pelo ar da noite, desceu á camara, pedindo a Luiz da Cunha que se recolhesse
+tambem. Era do plano astucioso obedecer.</p>
+
+<p>Desde o dia immediato, repararam alguns passageiros na frequente conversação
+da viuva com o homem mysterioso. O capitão, prevenido por elles, reparára
+tambem que os passeios na tolda eram certos todas as noites. O que elles todos
+notavam era uma sensivel differença nos estranhos costumes do companheiro. Já
+não era preciso instar com elle para assistir ao almoço. Acontecia muitas vezes
+encontrarem-no já com Marianna, conversando em tom que subia uma oitava acima
+quando entrava alguem. Viam-os, depois de almoço, ao pé da agulha, fugindo da
+ré onde se agrupavam os passageiros. Para admirarem o phenomeno magnetico do
+iman com o norte, achavam os criticos que era tempo de mais. Murmurou-se que
+havia namoro, e censuravam a leviandade de Marianna, que tanto chorára, e tão
+depressa esquecêra o marido. Mas não passava d'isto a murmuração.</p>
+
+<p>Com trinta e cinco dias de viagem, chegaram ao seu destino. A bordo da
+galera vieram os parentes de Marianna. Luiz da Cunha, apresentado por ella a
+seus tios, como pessoa a quem devia muitas finezas, foi convidado para sua
+casa, e aceitou com arteira difficuldade, que as instancias convencionadas de
+Marianna venceram.</p>
+
+<p>O filho de Ricarda recebeu a ordem dos seis contos de reis, fechada n'um
+envolucro em branco, qual o padre Madureira a entregara. Dentro d'esse
+envolucro, junta á ordem, estava uma carta designada a Luiz da Cunha. Abriu-a,
+e leu:<span class="pn">{123}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>Luiz da Cunha foi remido da ignominia, do degredo, da fome, e da morte
+por Assucena. Se esta certeza lhe não valer um arrependimento nobre, sirva-lhe
+ao menos de vergonha perante a sua consciencia.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>A perplexidade do promettido esposo de Marianna durou poucos segundos.
+D'aquella alma já não era possivel arrancar vergonha nem remorso. O padre
+Madureira enganára-se. Queimando a carta, Luiz da Cunha entendeu que o segredo
+voava nas cinzas d'ella. Estabeleceu tranquillas conjecturas ácerca da riqueza
+de Assucena: d'onde lhe viriam perto de quarenta mil cruzados?</p>
+
+<p>Occorreram-lhe hypotheses, quasi todas ignobeis, e sordidas. E, como nenhuma
+era mais provavel que as outras, Luiz da Cunha resolveu, um dia, embolsal-a
+d'esse emprestimo.</p>
+
+<p>Hospedado em casa d'um tio de D. Marianna, a sua vida, posto que inactiva,
+era regular, e bem procedida. Não aceitou apresentações nas salas da boa roda,
+porque D. Marianna as não frequentava, como viuva. Visitava-a todos os dias em
+familia. Escrevia-lhe todas as manhãs, e recebia de tarde o menino, que era o
+pretexto para a entrega das cartas.</p>
+
+<p>Viuva de onze mezes, D. Marianna, administradora da sua casa commercial,
+declarou, por delicadeza, aos parentes, que, passado o lucto, casava com Luiz
+da Cunha. Não se oppozeram estorvos, que seriam inuteis. O noivo era bemquisto:
+informações de Portugal era tarde para havel-as: o astuto soubera dirigir o
+plano de modo que se não pedissem a tempo.</p>
+
+<p>Casaram.</p>
+
+<p>No dia immediato espalhára-se no Rio que D. Marianna casara com um infame
+aventureiro, fugido de Portugal, depois que os seus crimes lá não cabiam.</p>
+
+<p>Esta terrivel nova fôra levada pelo capitão da galera, que se informára em
+Lisboa, para saber se Luiz da Cunha seria o que parecia no primeiro dia de
+viagem, ou nos outros.</p>
+
+<p>Era tarde. O mais que podiam os interessados na felicidade de Marianna era
+verem desmentida a calumnia, ou confirmado o boato pelo procedimento do
+marido.<span class="pn">{124}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION001130">XIII.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION001131">EXPLOSÃO DA INFAMIA REPRESADA.</a></h2>
+
+<p>Eram passados tres mezes. Não havia razão nenhuma para acreditar a fama,
+confirmada por ulteriores indagações. Luiz da Cunha não desmerecêra nada nas
+esperanças de Marianna, e vivia á mercê da vontade d'ella, que era a primeira a
+lembrar-lhe os bailes, o theatro, e os passeios, que o bom marido frequentava
+com ar de aborrecido.</p>
+
+<p>Os que tinham como certos os escandalos de Luiz em Portugal, estavam com
+elle em suspeitosa guarda, não querendo acceitar como possivel a sua emenda.
+Andava aqui inveja da avultada riqueza que a fortuna da caprichosa lhe déra; o
+todo, porém, d'esses cabedaes, em terrenos e predios urbanos, não podia
+considerar-se propriedade alienavel da viuva, que era simples administradora de
+seus filhos. Ainda assim, a sua meação avaliavam-na em cem contos de reis.</p>
+
+<p>Como quer que fosse, Luiz da Cunha estava rico. A administração economica da
+casa, em poucos annos, podia dobrar o que era legitimamente seu por mutua
+escriptura.</p>
+
+<p>O marido de Marianna chegou a acreditar na sua regeneração. Sabia das suas
+intimas confidencias que de todas as mulheres a que menos amava era a sua; mas
+tambem não sentia os imperiosos estimulos de procurar emoções nas outras. A
+paz, as commodidades, o luxo, a consideração, bem-estar que nunca
+experimentára, agradavam-lhe. Constavam-lhe as informações idas de
+Portugal,<span class="pn">{125}</span> e queria, até por capricho,
+desmentil-as. Signal era de que a opinião publica alguma cousa valia já na sua.
+Este symptoma enganaria o mais sisudo physiologista do coração, quando o
+proprio Luiz da Cunha acreditava na estranha reforma das suas tendencias.</p>
+
+<p>Basta dizer-vos que D. Marianna chamava-se feliz, e alardeava com soberba a
+sua boa escolha na presença dos que faziam côro com a maledicencia, mordendo a
+reputação de seu marido.</p>
+
+<p>Deliciosos tres mezes!</p>
+
+<p>Mas ao quarto.... Porque não morreu aquella pobre senhora no terceiro?
+Porque não se aplacou o inexoravel destino d'aquelle homem? Porque ha de ser
+tão brutal, tão despota a desgraça atirando abaixo das felizes illusões a
+victima a que deu trégoas d'alguns mezes?</p>
+
+<p>Mas, ao quarto, Luiz da Cunha viu uma dançarina no theatro, e fixou-a com
+tal curiosidade, que o coração de Marianna palpitou dolorosamente. Quiz
+desviar-lhe a attenção da perigosa mulher, e não pôde. Quiz, no dia seguinte,
+com um subtil pretexto, sahir para os arrabaldes da capital, mas seu marido,
+com pretextos ainda mais subtís, adiou a sahida.</p>
+
+<p>A dançarina era franceza. Tinha a seu favor todos os demonios alados da
+seducção. Era fresca como um ramalhete de camelias. Tinha os olhos mais
+maliciosos, mais voluptuosos, mais zombeteiros que podem descender de uma
+costella do homem, amputado no seu barro primitivo. As pernas tão expostas á
+avidez da analyse, não invejavam a correcção proverbial das de Diana caçadora.
+Nos braços, d'um setim transparente, destacava-se a rêde das veias azuladas,
+onde o sangue buliçoso vos deixaria suspeitar se eram aquelles os braços
+roubados á Venus de Milo. O pé, que nenhuma sevilhana teve nem mais pequeno nem
+mais arqueado, obedecia ao frenesi das evoluções, ou encontrava o dente da
+tarantula, cada vez que tocava o invejado pavimento do palco. Era a Paquita que
+Asmodeu inventára para Cleófas. Era a creatura de Lucifer em competencia com as
+creaturas de Deus.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha não experimentára ainda as paixões tempestuosas do theatro, a
+mordedura d'esses desejos enfurecidos pelo ciume de muitos concorrentes, essa
+garganta<span class="pn">{126}</span> que sorve com o ouro as illusões nobres
+do coração; emfim, essa vertigem, que faz de um amor vendido um triumpho á
+custa do desdouro em publico, e das lagrimas no recinto domestico.</p>
+
+<p>Era forçoso ao homem de todas as situações conhecer esta.</p>
+
+<p>Marianna não precisava de mais provas; eram desnecessarios os avisos das
+suas amigas: uma boa esposa está muito perto do coração de seu marido; a sombra
+de uma ligeira infidelidade sente-se logo no escurecer da alegria tranquilla
+que se lhe irradia dos olhos enxutos. Vem logo as lagrimas accusarem o que os
+labios não accusam. Vem a pallida melancolia enturvar os sorrisos descuidados
+da dôce paz.</p>
+
+<p>Era assim que ella se queixava de Luiz da Cunha, que parecia estranho a
+essas timidas manifestações de ciume. Se os labios deixavam passar um gemido,
+ninguem a consolava, porque não queria testemunhas. Luiz costumava enrugar a
+testa com fastiento gesto aos suspiros repetidos de sua mulher.</p>
+
+<p>Entretanto, o allucinado empregava todos os processos conhecidos para
+satisfazer a ancia pertinaz. Fez grandes offertas de dinheiro, repellidas
+sempre. Cortejou a bailarina, valendo-se umas vezes da brandura hypocrita,
+outras da violencia natural. Nem de uma, nem da outra maneira. Ao lado da
+franceza estava um amante, francez tambem, caprichoso, ciumento, e espadachim.
+Luiz da Cunha fôra ameaçado por elle, e conteve-se em quanto as esperanças lhe
+não falliram.</p>
+
+<p>Marianna já transigia com a infidelidade; mas não queria vêr-se sacrificada,
+no coração do esposo, ao amor sensual d'uma mulher sem alma. Os seus amigos
+lamentavam-na; os infamadores tenazes de Luiz da Cunha batiam as palmas. A
+infeliz tentou uma dolorosa lucta comsigo mesma. Advertiu seu marido do que se
+dizia; pediu-lhe que não désse aos seus inimigos o prazer de o apregoarem tal
+qual as informações de Lisboa o pintavam.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha riu-se, dizendo com grosseira altivez, que os seus inimigos
+podiam ser atados em feixe com um chicote, e mandados de presente ao diabo.</p>
+
+<p>As promessas redobraram, e a bailarina cahiu do pedestal<span
+class="pn">{127}</span> do capricho, onde quizera ter-se como em pedestal de
+virtude.</p>
+
+<p>Cedeu, e com tanto escandalo que na noite de proximo theatro, em pleno
+espectaculo, Luiz da Cunha recebeu do rival uma bofetada na face, á qual
+respondeu com chicotadas, que lhe deram a primazia na lucta. Tratou-se um
+duello, que Luiz da Cunha disse não aceitava, porque era filho de um dos mais
+nobres fidalgos de Portugal, e não media o seu florete com um troca-tintas da
+França. O francez, dias depois, abandonava o Rio para evitar um assedio de
+traiçoeiros punhaes, comprados por Luiz da Cunha.</p>
+
+<p>A bailarina estava sob o exclusivo dominio do novo amante. O seu fausto
+centuplicou em grandeza. Prendas d'um valor enorme, arrancadas pela
+prodigalidade do ouro a especuladores astuciosos, eram o preço da escandalosa
+rival de Marianna.</p>
+
+<p>Os amigos d'esta, finda a estação do theatro, expulsaram a dançarina, com
+artificiosa violencia, ou por dinheiro que Marianna deu como se o
+restabelecimento da sua ventura dependesse da ausencia da franceza.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha foi surprendido pela fuga da segunda Liberata que lhe tocára o
+coração. Disfarçou a affronta em publico; mas, de portas a dentro, desforçou-se
+do ultraje despresando Marianna. Esta mulher era sublime! Quiz convencer a
+sociedade de que era outra vez feliz, para readquirir o bom nome de seu marido.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha comprehendeu-a, deu ares de compadecido, fez sobre si um
+esforço, e convenceu-a do seu arrependimento. Vejamos porque.</p>
+
+<p>Dois mezes depois, Marianna era outra vez ditosa. O detrimento que a sua
+casa soffrêra, estava remido. As dissipações com a mulher do theatro, posto que
+exorbitantes, não doiam no coração da nobre senhora. Esses calculos deixava-os
+ella á curiosidade dos mesquinhos louvados dos seus haveres. O que ella queria
+era o coração de seu marido, e esse capacitou-a elle de que fôra sempre seu,
+até mesmo na embriaguez vertiginosa d'essa fatal loucura com a franceza.</p>
+
+<p>Chegou a primavera, e Luiz da Cunha projectou com sua mulher uma visita ás
+primeiras capitaes da Europa.<span class="pn">{128}</span> Marianna desejava
+vêr Paris, Veneza, e Londres: não queria, porém, tornar a Portugal. O marido
+conveio da melhor vontade na excepção, e partiram.</p>
+
+<p>Em Paris, mal se hospedaram, Luiz da Cunha sahiu a colher informações da
+dançarina <em>Carlota Gauthier</em>. Fôra escripturada para Madrid. Em breves
+dias viu com sua mulher os objectos menos notaveis de Paris. A impaciencia
+ralava-o. Inventou uma epidemia para retirar-se, e prometteu a Marianna voltar.</p>
+
+<p>Em Madrid foi acolhido por Carlota, que não teve pejo de receber o
+abandonado amante, phantasiando a violencia com que fôra arrastada a bordo a
+uma embarcação.</p>
+
+<p>Luiz propôz-lhe abandonar o theatro, a troco de doze contos de reis annuaes.
+O seu desenlace devia ser immediato: nem uma só vez appareceria no palco. Luiz
+da Cunha evitava assim que sua mulher visse a bailarina, e explicasse a viagem
+á Europa, e a sahida precipitada de Paris.</p>
+
+<p>Carlota aceitou: rompeu as escripturas; e o amante pagou a condemnação.</p>
+
+<p>Marianna não podia comprehender as sahidas frequentes de Luiz, deixando-a só
+n'uma hospedaria! Não se queixava para não ser, talvez, injusta com as
+abstracções de seu marido. Suspeitou um passageiro namoro com alguma madrilense
+d'entre tantas tão seductoras, e cujo garbo ella não podia invejar. Por
+necessidade de conviver, relacionou-se com uma familia portugueza, hospedada no
+mesmo hotel. Fugia de revelar os seus pezares; mas uma das senhoras portuguezas
+adivinhou-lh'os. O marido d'esta sabia quaes eram as distracções de Luiz da
+Cunha. O rompimento da escriptura era sabido de todos. O amante de Carlota era
+apontado. Só Marianna ignorava o que em Madrid era materia de ociosa analyse,
+até ao momento em que a senhora portugueza lhe aclarou o segredo das frequentes
+sahidas.</p>
+
+<p>Marianna adoeceu. Luiz suspeitou a inutilidade dos seus cuidados em esconder
+de sua mulher o escandalo, que dava a todo o mundo, galardoando-se d'elle, e
+guardando-se apenas d'ella.</p>
+
+<p>Na incerteza, convidou carinhosamente Marianna a continuarem a sua viagem. A
+desgraçada, apegando-se<span class="pn">{129}</span> ao derradeiro fio da
+esperança, imaginou que a dançarina ficaria em Madrid.</p>
+
+<p>A ancia de sahir restabeleceu-a, e partiram; mas, ao dar o ultimo adeus á
+dama portugueza, disse-lhe esta ao ouvido:</p>
+
+<p>&mdash;Se vão para Paris, saiba minha amiga, que a dançarina já para lá partiu ha
+dous dias.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>&mdash;Não vamos para Paris...&mdash;dizia, depois, Marianna a seu marido.</p>
+
+<p>&mdash;Porque, minha filha?</p>
+
+<p>&mdash;Porque receio a epidemia.</p>
+
+<p>&mdash;Sou informado de que já não ha peste em Paris.</p>
+
+<p>&mdash;Ha, ha...</p>
+
+<p>&mdash;Como sabes que ha?!</p>
+
+<p>&mdash;Não é só a peste, é tambem a morte para esta desgraçada mulher, que trazes
+pelos cabellos a ser testemunha das tuas infidelidades... dos teus desprêsos...</p>
+
+<p>&mdash;Isso é uma calumnia, Marianna.</p>
+
+<p>&mdash;Não vamos para Paris, meu querido amigo... não vamos, não? Já vi tudo....
+não quero vêr mais nada de lá. Vamos para a Italia... sim?</p>
+
+<p>&mdash;Iremos; mas é necessario fazer escala por Paris.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho entendido... hei de ser morta por essa mulher!...</p>
+
+<p>&mdash;Que mulher?!</p>
+
+<p>&mdash;Carlota...</p>
+
+<p>&mdash;Ora adeus! quem zombou assim da tua credulidade? Eu não sei d'essa mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Desde que te despediste d'ella em Madrid?</p>
+
+<p>&mdash;Tem juizo minha creança... Tu já sabes que a parte que tens em minha alma
+não póde ser substituida por ninguem, e muito menos por comicas...</p>
+
+<p>&mdash;Desgraçadamente tenho a certeza do contrario... Queres dar-me uma prova de
+estima? Fazes-me um favor que eu te agradecerei de joelhos?</p>
+
+<p>&mdash;Que é, Marianna?</p>
+
+<p>&mdash;Vamos para nossa casa.... Vamos ser felizes como temos sido... Eu
+esqueço-me de tudo; nunca te fallarei d'esta mulher; mas vamos já...<span
+class="pn">{130}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não tem geito nenhum esse contra-senso. É um disparate que faria rir os
+nossos conhecidos!</p>
+
+<p>&mdash;Pois que riam elles, e não chore a tua amiga. Vamos, Luiz?... fazes-me a
+vontade?</p>
+
+<p>&mdash;Não posso.</p>
+
+<p>&mdash;Não pódes?! Que maneira é essa de responder-me?! Lançaste-me um olhar que
+nunca te vi! Santo Deus, que coméço a ter mêdo do teu aspecto! Será possivel
+que tu sejas o homem que se disse?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei o que sou: fica n'aquillo que te parecer.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, Luiz, manda-me para os meus filhos, e fica tu em Paris.</p>
+
+<p>&mdash;Não irás, Marianna. Has de ir comigo.</p>
+
+<p>&mdash;Hei de ir já para minha casa... Tenho um presentimento que morrerei longe
+dos meus filhos... Desliga-te de mim, faz o que quizeres; mas não sejas tão
+mau, que me obrigues a acompanhar-te nos teus desatinos.</p>
+
+<p>Esta afflictiva scena passava-se n'uma estação onde parára a diligencia para
+os passageiros almoçarem. Luiz da Cunha deixára sua mulher, quasi de joelhos, e
+viera para uma janella trautear uma aria. Depois, irritado pelo imperioso
+<em>hei de ir já!</em> voltou-se para dentro com arremesso, crusou os braços,
+fez um gesto affirmativo de cabeça, e deu uma d'estas risadas cortadas que
+significam desprêso e ameaça.</p>
+
+<p>Marianna sentiu-se cahir desamparada, desvalida, na convicção de que seu
+marido era um malvado. Vendo-se sósinha, tremeu da sua situação. Forte em todos
+os sentimentos, tal terror se lhe incutiu, que receou pela vida. Como a
+avesinha, escondendo a cabeça sob a aza para não vêr o assassino que lhe mede
+com a pontaria o coração, Marianna escondeu a face entre as mãos, cambaleou um
+momento, e recuou sobre um canapé, onde cahiu desfallecida.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha, vendo de um lance de olhos todos os resultados d'um possivel
+divorcio, ou mais ainda, da morte de sua mulher, reprehendeu-se da
+inconveniente aspereza, intentou reconciliar-se com Marianna, e começou o seu
+novo plano, rapidamente concebido, tomando-a nos braços, chamando-a com
+ternura, e cobrindo-a de beijos.</p>
+
+<p>Marianna viu com espanto a doçura dos olhos de Luiz,<span
+class="pn">{131}</span> e por pouco não cede ao impulso de abraçal-o. A que,
+momentos antes, tremêra de mêdo diante do malvado, eil-a agora, quasi
+perdoando, arrependida do criminoso susto que tivera! Quantas mulheres assim!
+Quantas transfigurações da martyr que pena, para o anjo que perdôa! Quantas
+lagrimas o homem enxuga com um falso sorriso!</p>
+
+<p>&mdash;Não me tenhas odio, Marianna...&mdash;dizia elle, inclinando-a sobre o braço
+esquerdo, e anediando-lhe os cabellos.</p>
+
+<p>&mdash;Odio... não tenho; mas queres que eu não soffra?!</p>
+
+<p>&mdash;Quero... farei o que tu quizeres... Não queres que vamos a Paris? Não
+iremos. Vamos para a Italia, sim?</p>
+
+<p>&mdash;E de lá para nossa casa?</p>
+
+<p>&mdash;Iremos, filha... tornaremos para Madrid; vamos a Cadiz, e de lá
+embarcaremos para a Italia... queres?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim, agradeço-te de todo o meu coração o sacrificio...</p>
+
+<p>&mdash;Sacrificio! nenhum, Marianna! Tu não crês que és para mim a primeira
+mulher, que não tens uma rival que possa mais que a tua vontade?</p>
+
+<p>&mdash;Queria acreditar; mas tu...</p>
+
+<p>&mdash;Eu que? Sou fraco... sou um miseravel ludibrio do destino; mas tu vences
+esse destino, quando queres... És hoje para mim o que eras ha um anno sobre o
+mar...</p>
+
+<p>&mdash;Oh!... se eu fosse!...</p>
+
+<p>&mdash;És, filha. Não me vês arrependido? Queres-me de joelhos a teus pés?</p>
+
+<p>E o farcista fez menção de ajoelhar, quando Marianna se lhe lançou ao
+pescoço, beijando-o, banhando-lhe de lagrimas a face, soluçando, comprimindo-o
+com a vehemencia de toda a sua paixão acrisolada pelo ciume, e expansiva pelo
+prazer do triumpho sobre a rival.</p>
+
+<p>Em Madrid, Luiz da Cunha foi tão caricioso, que Marianna recordava os
+primeiros dias do seu noivado, e não os achava mais gratos, mais ligeiros nas
+suas rapidas horas do delicioso arrobamento.</p>
+
+<p>Furtando-se poucos instantes á companhia d'ella, Luiz da Cunha escrevêra a
+Carlota ordenando-lhe que o esperasse em Veneza, mas desconhecida, com um
+pseudonimo, porque assim convinha á tranquillidade de ambos.<span
+class="pn">{132}</span></p>
+
+<p>Quando, pois, D. Marianna, cheia de jubilo, sahia para Cadiz, a dançarina,
+nomeando-se <em>Julia Lamotte</em>, chegava a Veneza, e isolava-se n'um hotel,
+sacrificando a publicidade, que tão grata lhe era, á prestação annual de
+sessenta mil francos, dos quaes apenas recebêra em Madrid cinco mil.</p>
+
+<p>Em Veneza, um dos primeiros homens que Luiz da Cunha encontrou, fixando-o
+com ar provocador, foi o francez, que fugira aos sicarios escravos do amante de
+Carlota. O brigão que partira a cabeça ao visconde de Bacellar, e acutilára o
+mestre de esgrima, tinha tanta maldade como bravura. Não se apavorou do gesto
+ameaçador do francez, rodeado de francezes. Caminhou para elles, com duas
+pistolas engatilhadas, na presença de sua mulher, que permanecêra estupefacta
+sem atinar com a causa nem com o desenlace d'este estranho encontro. O grupo
+dos francezes, os homens mais delicados do mundo, respondêra com um sorriso á
+arrogancia de Luiz. Um d'elles, approximou-se de Marianna, com o chapéo na mão,
+e disse-lhe com affectuosa urbanidade:</p>
+
+<p>&mdash;Sabemos respeital-a mais que seu marido. Não receie consequencias tristes.
+Os aggredidos são cavalheiros.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha, depois da ridicula provocação, metteu as pistolas nas
+algibeiras, deu o braço a sua mulher, e saltaram na gondola que os esperava.</p>
+
+<p>Marianna pedira inutilmente a explicação d'aquelle successo. O marido
+evadia-se ás perguntas, dizendo que detestava os francezes, e imaginára que um
+d'aquelles o escarnecêra.</p>
+
+<p>Deu-se um encontro que respondeu ás apprehensões da brazileira.</p>
+
+<p>A gondola ia abicar na ilha de S. Lazaro, ao mesmo tempo que desatracava
+outra gondola com uma dama, e um jokei. A perturbação de Luiz não foi visivel
+para sua mulher, que não desviava os olhos pasmados da face da dama, que se
+approximava na direcção da sua gondola. Já perto, Marianna fez-se livida,
+convulsa, encostou-se, quasi esvahida, ao braço do gondoleiro, repellindo o de
+seu marido, e, ajudada a saltar ao caes, sentou-se, murmurando:</p>
+
+<p>&mdash;Como eu sou desgraçada, meu Deus!<span class="pn">{133}</span></p>
+
+<p>Acontece que um mau marido, repetidas vezes surprendido em flagrante por sua
+mulher, indignado contra a má fortuna dos planos, volta-se contra ella, por
+não poder vingar-se do demonio invisivel que lh'os frustra. Esse tal, em quanto
+uma ardilosa desculpa o póde justificar, transige com as lagrimas da esposa, e
+finge serenamente a contrição; mas, se a contumacia no crime, todas as vezes
+descoberto, lhe inutilisa as invenções refalsadas, e o exautora de prometter
+emendar-se, o que até alli eram brandas desculpas converte-se depois em odio ás
+algemas, em emancipação do jugo, em crime sem pretexto, nem escusas. É o
+cynismo que se desmascara. É a impostura que se revolta contra o clarão da
+verdade.</p>
+
+<p>Para ser-se tal não importa ser menos perverso que o marido de Marianna.
+Luiz da Cunha, se n'aquelle instante devia odiar a imprudente Carlota que não
+evitára tal encontro, irritou-se contra as lagrimas de sua mulher, que não
+proferira uma só palavra offensiva, nem, sequer, queixosa.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos&mdash;disse elle com aspereza.</p>
+
+<p>Marianna ergueu-se, quiz aceitar o braço de Luiz, e não pôde suster-se.</p>
+
+<p>&mdash;Não posso.&mdash;E sentou-se.</p>
+
+<p>&mdash;Se não pode, tornemos a entrar na gondola.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim.... Não te zangues, Luiz, que não te fiz mal nenhum. Se é a minha
+presença que te impacienta... pouco tempo te enfadarei... Vamos...</p>
+
+<p>Estas palavras, quasi ditas como um segredo, para que o gondoleiro as não
+escutasse, não commoveram Luiz. Pelo que no rosto se lhe via, era mais de crer
+que lhe exacerbassem a cólera. As contracções da testa, o morder dos beiços, o
+arfar das azas do nariz, os impetos das mãos aos cabellos e ao bigode,
+denunciavam a subita renascença de toda a perversidade do coração que lhe
+atirava golphadas de sangue negro á face.</p>
+
+<p>D. Marianna como dias antes em Madrid, fugia de encontrar semelhante
+aspecto. Alguma cousa havia ahi que só póde vêr-se e imaginar na cara
+assignalada pela predestinação do patibulo!</p>
+
+<p>Os frageis vinculos de respeito que prendiam marido e mulher estavam
+partidos. Desde esse dia, Luiz da Cunha<span class="pn">{134}</span> seria
+escandaloso sem justificar-se; imporia silencio a Marianna; fruiria todos os
+direitos da infamia sem empecilhos, nem covardes explicações dos seus actos.</p>
+
+<p>O programma d'esta nova phase vamos nós ouvir-lh'o no <em>Albergo di
+Italia</em>. D. Marianna está encostada ao peitoril d'uma janella, com a face
+apoiada na mão direita, com os olhos, brilhantes de lagrimas, fitos na lua que
+se levanta sobre o Lido, purpureada como os arreboes que bordam o horisonte das
+montanhas tyrobanas.</p>
+
+<p>Está só. É meia noite, e seu marido não vem. Depois que a deixou no hotel,
+sahiu, e nem sequer lhe disse que voltava. Ha cinco horas que chora, e sente-se
+menos opprimida: não sabe ella dizer se deve este bem ás lagrimas, se ás
+orações. É que orou muito; e, depois, quando levantou da taboa os joelhos,
+raiou-lhe na sua escuridade uma luz, uma esperança, qualquer cousa divina que
+não era da terra.</p>
+
+<p>E foi sentar-se, ás escuras, fitando o ceo, com a imaginação mais
+tranquilla, com as palpitações mais serenas, com a face aljofrada de lagrimas
+suavissimas. Mas a esperança qual seria? Não sabia ella dizêl-a.</p>
+
+<p>Á uma hora entrou Luiz da Cunha.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda a pé?!&mdash;perguntou elle em tom suave.</p>
+
+<p>&mdash;É um prazer contemplar este ceo&mdash;disse Marianna no mesmo tom.</p>
+
+<p>&mdash;Que lindas noites se gozam em Veneza!</p>
+
+<p>&mdash;Muito lindas.</p>
+
+<p>&mdash;Gosto de te vêr assim, Marianna.</p>
+
+<p>&mdash;Assim!... como?</p>
+
+<p>&mdash;Sem as impaciencias terriveis do ciume.</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... Tambem eu gosto de me sentir assim.</p>
+
+<p>&mdash;O ciume é cousa que não existe na boa roda. Em Veneza, e em Paris não ha
+ciume.</p>
+
+<p>&mdash;E amor?</p>
+
+<p>&mdash;Um pouco, em quanto dura. A civilisação é a liberdade das pessoas e das
+cousas: bole com tudo, toca em todos os sentimentos, entra nos juizos da
+cabeça, e enraiza-se nas aspirações da alma.</p>
+
+<p>&mdash;Não te entendo, Luiz...</p>
+
+<p>&mdash;Entendes, que tens muita intelligencia. E queres que te diga? Nenhuma
+mulher de fina educação póde ser<span class="pn">{135}</span> feliz, como
+esposa, se não estiver possuida de certos sentimentos de tolerancia com as
+faltas do marido.</p>
+
+<p>&mdash;Vou entendendo agora, e admiro a minha ignorancia de ha pouco... Ora diz,
+meu amigo, falla, que me encontras em hora de ouvir tudo... Mas olha, Luiz...
+Esta noite não te recorda aquella primeira noite, no mar, quando me dizias:
+<em>é mentira approximarem-se os entes que o destino talhou para se unirem:
+quando se encontram já a desgraça os traz desfigurados; vêem-se e não se
+conhecem; fallam-se e não se comprehendem</em>... Era uma noite assim formosa
+como esta... Se então nos não comprehendemos, Luiz, hoje comprehenderemo-nos
+melhor?...</p>
+
+<p>&mdash;Eis-ahi um incidente bem romanesco, minha amiga! Vejo que em Veneza ha de
+necessariamente conversar-se em linguagem de romance!... A recordação das
+minhas palavras o mais que prova é que tens uma feliz memoria...</p>
+
+<p>&mdash;Que tu não tens... bem se vê que as esqueceste... Creio que vens zombar
+comigo, Luiz.</p>
+
+<p>&mdash;Não, Marianna; não venho zombar. Estou capitulando comtigo. Vamos combinar
+bases novas sobre que deve assentar a nossa felicidade. Todos os casamentos são
+felizes, quando entre marido e mulher se dá uma perfeita harmonia de vontades.
+Negas isto?</p>
+
+<p>&mdash;Não.</p>
+
+<p>&mdash;Da desharmonia resultam a desordem domestica, as contrariedades pequenas,
+as desavenças constantes, e tudo isto porque se não entendem, nem se combinam.
+Entenderem-se e combinarem-se é fazer uma alliança de se não importarem
+reciprocamente das suas acções.</p>
+
+<p>&mdash;Não entendi, Luiz; ou entendi uma infamia de que te não considero capaz.</p>
+
+<p>&mdash;Pois que entendeste, Marianna?</p>
+
+<p>&mdash;Não ouso dizêl-o.</p>
+
+<p>&mdash;Eu me explico, e bem vês que o faço com toda a serenidade. Serei muito teu
+amigo, não teremos nunca o menor desmancho no nosso bem-estar, se tu quizeres
+ser indifferente ao meu procedimento com as outras mulheres.</p>
+
+<p>&mdash;Serei, Luiz; mas com uma condição...</p>
+
+<p>&mdash;Qual?<span class="pn">{136}</span></p>
+
+<p>&mdash;Conduz-me a minha casa, e depois torna para aqui, ou faz o que quizeres.</p>
+
+<p>&mdash;E qual é o teu fim?</p>
+
+<p>&mdash;Educar os meus filhos.</p>
+
+<p>&mdash;Naturalmente, depois, lembravas-me que a tua casa não podia soccorrer as
+minhas dissipações...</p>
+
+<p>&mdash;Esse receio fica-te bem; mas é vileza que ainda me não lembrou.</p>
+
+<p>&mdash;E porque não queres tu ser feliz como eu posso sêl-o? Eu pago tolerancia
+com tolerancia....</p>
+
+<p>&mdash;Isto não se crê, Luiz! Dar-se-ha caso que tu vens...</p>
+
+<p>&mdash;Embriagado?</p>
+
+<p>&mdash;Sim...</p>
+
+<p>&mdash;Não venho embriagado, Marianna; e a prova de que o não estou, é que se
+fosses um homem, n'este momento, tinhas a cabeça partida nas lages da rua.</p>
+
+<p>&mdash;Pois esquece-te que sou mulher, e faz-me essa esmola.</p>
+
+<p>&mdash;Basta! não lhe soffro nem mais uma palavra, senhora! Recolha-se ao seu
+quarto!</p>
+
+<p>Marianna ergueu-se. Tal era a placidez do seu semblante, que nem os gritos
+brutaes de Luiz lhe alteraram a pallidez. Passou por diante d'elle com os olhos
+no chão. Entrou no seu quarto, onde encontrou chorando a escrava que a creára,
+e lhe creára os filhos. Era uma amiga. Lançou-se nos braços d'ella, suffocando
+os soluços.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha sahira.</p>
+
+<p>&mdash;Não se deixe morrer, minha senhora&mdash;disse a escrava.</p>
+
+<p>&mdash;Deixava-me morrer, se não tivesse os meus filhos. Quero viver para elles
+e... é preciso fugirmos, Genoveva.</p>
+
+<p>&mdash;Fugirmos!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senão, este homem mata-me, ou eu morro de desesperação.</p>
+
+<p>&mdash;Como ha de a gente fugir? Não conhecemos aqui ninguem...</p>
+
+<p>&mdash;Pela manhã has de levar ao correio uma carta para o ministro do Brazil em
+Vienna. Vou escrevêl-a. Se vires entrar esse homem, avisa-me...</p>
+
+<p>A carta para o ministro brazileiro seguira o seu destino.<span
+class="pn">{137}</span> D. Marianna, se podésse rehavêl-a uma hora depois,
+sustaria o seu desesperado projecto de fuga. A infeliz illudira-se. O coração
+d'esta mulher não deixára sahir o amor pelas feridas das incessantes
+punhaladas. Luiz da Cunha, o homem de um anno antes, imaginára-o ella sob a
+influencia de algum diabolico prestigio da dançarina. Não podia conceber
+semelhante mudança! Não podia capacitar-se da ignominiosa tolerancia que elle
+lhe offerecêra! Amava-o ainda.</p>
+
+<p>Mas elle não a deixava muito tempo illudida. O seu proceder parecia um
+proposito para desenganal-a. Indifferença, desprêso, e até abandono de dias
+inteiros, seguiram-se ao ultimo dialogo que lhe ouvimos. Já não rebuçava a
+affronta, nem pretextava sahidas. Á hora do dia, embalava-se com Carlota nas
+gondolas de Rialto, e mostrava-se com soberba impudencia, ao lado d'ella, ao
+fim da tarde, na Ponte dos Suspiros.</p>
+
+<p>Marianna já não ignorava nada. A preta dedicada para apressar a fuga, como
+taboa de salvação para sua ama, espreitava Luiz, ou pagava a quem lhe
+espionasse os passos, que não careciam de espionagem. Cahira extenuada de
+soffrimento no leito, ao pé do qual seu marido passava o tempo necessario para
+calçar umas luvas, quando sahia de manhã para vir, se vinha, jantar á noite.
+Luiz da Cunha aconselhava-lhe os passeios, e para isso lhe vestira um jokei que
+a acompanhasse, e lhe déra plena liberdade de gosar, na sua ausencia, não só os
+prazeres do lympido ceo, mas os da terra que valiam bem a pena de sahir dos
+amúos que a molestavam.</p>
+
+<p>Uma ironia por consolação! Um escarro nas faces cadavericas da infeliz!</p>
+
+<p>Uma tarde, quinze dias depois que D. Marianna escrevêra ao ministro
+brazileiro, chegou a Veneza o primeiro addido d'aquella embaixada, e procurou
+no hotel uma senhora brazileira.</p>
+
+<p>Marianna ergueu-se para recebêl-o, e soube que era elle o encarregado de
+dispor a sua sahida para o Brazil. O addido, em poucas horas, colhêra ácerca de
+Luiz da Cunha as precisas informações: assim lh'o ordenára o ministro para não
+annuir imprudentemente ao capricho de uma senhora casada. As informações eram
+muito peores<span class="pn">{138}</span> do que a ultrajada esposa fizera
+saber ao ministro, velho amigo de seu pae, e de seus tios.</p>
+
+<p>Um navio estava prestes a fazer-se á vela para o Rio de Janeiro. Marianna
+apenas tinha tres dias para preparar-se. Na sua situação, tres horas seriam de
+sobejo. O addido devia retirar-se de Veneza, quando o navio tivesse sahido.
+Marianna não hesitou, nem pediu delongas.</p>
+
+<p>Acabava de sahir o addido, quando Luiz da Cunha entrou. A brazileira estava
+chorando.</p>
+
+<p>&mdash;Minha amiga&mdash;disse Luiz&mdash;tinha tenção de jantar comtigo; mas, se me dás
+môlho de lagrimas, retiro-me.</p>
+
+<p>&mdash;Eu é que não aceito o teu convite. Retira-te, se queres, que eu não janto
+hoje.</p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso, não jantarei só... Como estás?</p>
+
+<p>&mdash;Boa.</p>
+
+<p>&mdash;Optimo. Mas essas lagrimas não se esgotam...</p>
+
+<p>&mdash;São lagrimas de alegria.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda bem. Vê se te reanimas para irmos a Milão, na semana proxima.</p>
+
+<p>&mdash;Estou reanimada.</p>
+
+<p>&mdash;Melhor. E depois vamos a Turim, a Berlim, a Napoles, <em>et cetera</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Iremos. Estas viagens regalam-me o coração.</p>
+
+<p>&mdash;Estou gostando do teu joco-sério! Vaes-me sahindo uma <em>pretenciosa</em>
+falladora.</p>
+
+<p>&mdash;Estarei calada, Luiz!</p>
+
+<p>&mdash;É melhor.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, se me não levas a mal, sempre te farei uma pergunta...</p>
+
+<p>&mdash;Não ha pergunta sem resposta... Venha de lá isso.</p>
+
+<p>&mdash;Como se póde ser homem tão cruel?</p>
+
+<p>&mdash;Como se póde ser mulher tão impertinente?&mdash;respondo, perguntando.</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho mais que te diga.</p>
+
+<p>&mdash;Falla, se tens lá mais alguma pergunta de algibeira.</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho nenhuma; comtudo... se tens paciencia, has-de ouvir-me. Eu tenho
+filhos, de cujo patrimonio sou administradora.</p>
+
+<p>&mdash;Já sei.</p>
+
+<p>&mdash;Os meus filhos podem pedir-me contas d'esta administração.<span
+class="pn">{139}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não digas mais nada, que eu já te matei a charada no ar. Queres dizer que
+eu gasto mais do que os rendimentos da tua meação. Dir-te-hei que não consinto
+que me lances em rosto a minha dependencia da tua fortuna. Isso é vil.</p>
+
+<p>&mdash;Sou vil, é o que se segue; mas repara, Luiz, que te não lancei em rosto a
+tua dependencia.</p>
+
+<p>&mdash;A cousa bem traduzida lá vai dar. Queres despedir-me do commercio de bens?</p>
+
+<p>&mdash;Não: o peor é se te despedem...</p>
+
+<p>&mdash;Quem?! Que quer isso dizer?...&mdash;replicou elle, colerico.</p>
+
+<p>&mdash;Nada...</p>
+
+<p>&mdash;Minha querida senhora, para não irmos adiante, fiquemos aqui... Até
+ámanhã...</p>
+
+<p>&mdash;Até ámanhã, Luiz.</p>
+
+<p>No dia seguinte, o conviva de Carlota Gauthier não veio a casa. A escrava
+soube que o marido de sua ama sahira para Peschiera com a franceza, que disse,
+no hotel, voltaria passados tres dias.</p>
+
+<p>O immediato era o dia aprazado para a sahida do navio.</p>
+
+<p>O addido conduzia de madrugada D. Marianna, e sua escrava, a bordo. Genoveva
+levou sempre sua ama desfallecida nos braços. Dizia-se a bordo que a pobre
+passageira parecia morta, e não desmaiada.<span class="pn">{140}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION001140">XIV.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION001141">CAVAR PARA OS OUTROS A SEPULTURA, E PARA SI O
+INFERNO.</a></h2>
+
+<p>Luiz da Cunha passeava com Carlota nas margens do lago de Garda, ao pé do
+pittoresco Mincio. Deliciavam-se em meigos brinquedos, como duas creanças,
+embebidos um no outro, ao que pareciam, suspirando juntos como a brisa tépida
+que os arremedava no bulicio da ramagem.</p>
+
+<p>Escurecia, quando divisaram tres vultos. O barqueiro que, a distancia, os
+tinha já prevenido contra os perigos do local, ao vêr os vultos teimou que
+entrassem no barco. Luiz, instado por Carlota, olhou com saudade para as
+deleitosas testemunhas de seus prazeres, e foi, como arrastado, na direcção do
+barco.</p>
+
+<p>Mas os vultos acceleravam o passo. Carlota e o barqueiro diziam a Luiz que
+fugisse.</p>
+
+<p>&mdash;Fugir a que? São tres, e eu só fujo a trinta.</p>
+
+<p>&mdash;Foge Luiz, que eu suspeito...</p>
+
+<p>&mdash;Que suspeitas?</p>
+
+<p>&mdash;Que algum d'elles é...</p>
+
+<p>&mdash;O troca-tintas teu patricio? Deixa-me reconhecêl-o.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha esperou-os com as pistolas engatilhadas. Os vultos marchavam
+para elle tão serenos como se tivessem ouvido o tinnir do gatilho..</p>
+
+<p>&mdash;Parem, quando não mato-os!&mdash;exclamou Luiz.</p>
+
+<p>&mdash;Pois atira, miseravel!&mdash;disse um dos tres.</p>
+
+<p>Os gatilhos bateram duas pancadas surdas. Luiz recuou,<span
+class="pn">{141}</span> aperrando-os de novo. As pancadas produziram o mesmo
+som abafado.</p>
+
+<p>&mdash;Estou desarmado, covardes!&mdash;gritou elle, quando as primeiras pauladas de
+«cacetes» curtos lhe estalavam na cabeça, nos braços e no peito.</p>
+
+<p>&mdash;Chama os teus sicarios do Brazil!&mdash;dizia o antigo amante de Carlota,
+sovando-lhe a cara de pontapés, quando elle, já em terra, coberto de sangue,
+perdêra o accôrdo.</p>
+
+<p>A dançarina presenceava o espectaculo de dentro do barco, que se fizera ao
+largo, graças á prudencia do barqueiro.</p>
+
+<p>Os francezes retiraram-se a passo moroso, conversando na mais tranquilla
+pacatez de tres socios do instituto de bellas-letras, que viessem de descobrir
+nas margens do Mincio o esqueleto d'um ichtyosaurus.</p>
+
+<p>Carlota, contra a vontade do barqueiro, chegou-se a terra. Não vendo os
+vultos, saltou, e viu em terra o amante, que gemia a cada esforço inutil que
+punha para erguer-se sobre os braços macerados. O barqueiro veio em auxilio da
+consternada moça. Tomaram-no entre os braços, deitaram-no na prôa do barco, e
+lavaram-lhe a face arregoada de sangue.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha foi curado em Peschiera, e, logo que as forças lh'o
+consentiram, quiz convalescer em Veneza. Carlota seguia-o, indemnisando-o com
+extremosos cuidados do desgosto d'uma perigosa sova, por causa d'ella.</p>
+
+<p>Em Veneza, Luiz da Cunha que não déra, durante quinze dias, noticias suas a
+Marianna, com quanto se não doesse muito de tal falta, achou que era prudente
+procural-a, que não fosse ella, desesperada, sustar no Brazil a remessa d'uma
+importante quantia que elle exigira.</p>
+
+<p>No hotel disseram-lhe que sua senhora com a escrava tinham sahido n'uma
+madrugada, havia treze dias, e não voltaram.</p>
+
+<p>Entregaram-lhe as chaves dos seus quartos. Luiz da Cunha encontrou tudo,
+menos os bahús d'ella. Nem uma carta sobre as mesas! cousa nenhuma que o
+esclarecesse! Chamou o criado, que ficára com as chaves, esperando que lh'as
+recebessem:</p>
+
+<p>&mdash;Com quem sahiu a senhora?</p>
+
+<p>&mdash;Com um cavalheiro.<span class="pn">{142}</span></p>
+
+<p>&mdash;Seria de Veneza?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor: vi-o aqui entrar uma só vez, antes d'ella sahir com elle.</p>
+
+<p>&mdash;E os bahús, quem os transportou?</p>
+
+<p>&mdash;Dous homens que tinham vindo com o tal cavalheiro: pareciam marinheiros.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha informou-se. Justamente na madrugada d'esse dia sahira um
+navio com carregação de vidros para o Rio de Janeiro.</p>
+
+<p>A sua situação pareceu-lhe embaraçosa! A primeira ideia foi seguir quanto
+antes sua mulher. Consultou Carlota, e a carinhosa respondeu ternamente que o
+não acompanhava, porque não tornava ao Brazil. Ainda assim, renunciando
+generosamente o amante á esposa, a bailarina aconselhava-o que a seguisse,
+embora ella ficasse devorada de saudades.</p>
+
+<p>Esta sublime abnegação impressionou Luiz, a ponto de olvidar, surdo aos
+gritos do presentimento, as consequencias da apparição de Marianna, sósinha,
+aos seus parentes.</p>
+
+<p>Contando com a sua astucia, deferiu a viagem para mais tarde, visto que
+ainda lhe restava uma ordem de dez contos, e entretanto Marianna, forçada pela
+saudade, poderia de lá chamal-o, pedindo-lhe perdão.</p>
+
+<p>Proseguiu nas suas viagens com Carlota. Saboreou o ouro e a liberdade, não
+azedada pelas lagrimas importunas de sua mulher. Gastou francamente como se uma
+nova remessa devesse chegar do Brazil, antes de escoar a ultima libra dos dez
+contos. Fez, durante quatro mezes, pontuaes pagamentos á bailarina, de cinco
+mil francos cada mez. Contava-lhe com ingenua candura a sua vida, os seus
+haveres, e até desceu á pueril pieguice de lhe dizer que era necessario fazerem
+economias, em quanto lhe não chegava uma ordem para saccar em Londres um
+cabedal mais duradouro.</p>
+
+<p>Carlota, á palavra «economias» sentiu que o coração lhe fazia no peito uma
+pirueta, e ficava de costas voltadas para o economico amante.</p>
+
+<p>Á maneira do coração, a dançarina resolveu fazer tambem uma pirueta na
+primeira occasião.</p>
+
+<p>A occasião veio-lhe ao encontro dos desejos. Um<span class="pn">{143}</span>
+conde austriaco hospedára-se no mesmo hotel em Roma. O locandeiro tinha poderes
+discricionarios para convencer a moça. A proposta foi aceita, estipuladas as
+condições, e Carlota desappareceu com o conde na estrada que devia conduzil-a a
+Paris.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha&mdash;diga-se a verdade&mdash;não sentiu muito a ausencia da sua
+companheira de quarto. A paixão diminuira na razão directa das libras. A
+sensualidade ia-lhe arrefecendo á maneira que o espirito se lhe occupava em
+meditações sobre o futuro. O mais que fez foi estudar os pontos de contacto
+entre Carlota e Liberata, e viu que eram bustos do mesmo molde. Teve a
+imprudencia de chamar Assucena e Marianna a esta galeria, e concordou, o mais
+racionalmente que pôde, que aquellas duas eram d'um estofo muito superior ás
+outras.</p>
+
+<p>O peor era a pobreza que o ameaçava!</p>
+
+<p>Os dez contos de reis em oito mezes, com quanto economisados, tinham cahido
+na voragem dos brilhantes de Ricarda, dos bens livres de João da Cunha, dos
+quarenta mil cruzados de Assucena, do incalculavel numerario com que sahira do
+Brazil. Restavam-lhe algumas duzias de libras, e nenhum amigo, nenhum credito,
+nenhuma esperança que lhe não deixasse antever o futuro pela face da
+indigencia. Angustiado no dilemma, resolveu abandonar a Europa, que tão cara
+lhe era, e vestir uma mascara de bronze, como se precisasse de encobrir a
+vergonha, para lançar-se aos pés de sua mulher, se é que ella lhe não correria
+aos braços, banhada em lagrimas de alegria. O projecto dependia de uma execução
+immediata, porque as ultimas libras urgiam.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha, protestando vencer, ainda uma vez, a força diabolica que o
+empurrava para o abysmo da miseria, refez-se de coragem, confiou-se á
+prodigiosa omnipotencia da sua impostura, e embarcou em Civitta-Vechia n'um
+navio de escala para Buenos-Ayres.</p>
+
+<p>N'esta viagem, não ha memoria d'alguma aventura digna de menção na
+biographia do filho de Ricarda. Contaram, porém, os seus companheiros de
+viagem, que tal homem se fizera repulsivo a todos pelo desprêso com que a todos
+repellia. Era intratavel, e tinha accessos de frenesi assustadores. Corria as
+cortinas do seu beliche durante<span class="pn">{144}</span> o dia, e passeava
+toda a noite na tolda. Se em noites calmosas os passageiros tambem subiam a
+respirar, Luiz da Cunha descia com arremesso a isolar-se na sua camara.</p>
+
+<p>Vê-se que o cynico não tinha o riso despejado da escola. Soffria; mas não
+era a suave melancolia do solitario sem os remorsos: era o assomo colerico, o
+concentrado rancor do algoz que não póde estalar os grilhões que o condemnam a
+morrer no desespêro da immobilidade.</p>
+
+<p>Pois a hora do remorso não soára para este homem?! Ainda não. Talvez nunca.
+O remorso é o triumpho do anjo bom. Luiz da Cunha pactuára uma alliança
+insoluvel com o demonio, cuja existencia não é para mim uma fabula, quando me
+vejo impellido ao mal, e cêdo com pesar ao impulso, encarando o bem por que
+suspiro. A lucta entre as duas potencias existe no coração humano, em quanto a
+consciencia sabe estremar o crime da virtude. Mas, perdidas as noções do dever,
+raspada de sobre o coração a palavra «honra» a lucta já não existe, o anjo bom
+fugiu espavorido, o remorso é impossivel.</p>
+
+<p>E era-o para Luiz da Cunha.</p>
+
+<p>Esse fugir da sociedade, odiando os homens, era o encovar-se do tigre,
+sequioso de prêsas, raivando de fome, e espreitando com olho abrazado a victima
+desprevenida.</p>
+
+<p>Luiz contava os dias de viagem com frenetica anciedade. Só, imaginára todas
+as hypotheses terriveis do seu futuro. Dava-se como possivel a vingança de
+Marianna, privando-se não só da tutella dos enteados para diminuir os redditos,
+mas negando-lhe a elle uso-fructo da sua propria meação. Verificar esta
+horrivel conjectura era o seu desejo: vingar-se de qualquer modo era a sua
+tenção, se uma bem estudada impostura o não reconciliasse com Marianna.</p>
+
+<p>Chegou a Buenos-Ayres, e na lista dos estrangeiros que pernoitavam no mesmo
+hotel viu o nome de Francisco José de Proença. Saibamos de passagem que Proença
+era um official do exercito portuguez, que seguira as bandeiras de D. Miguel.
+Em 1833 expatriara-se para o Brazil. Filho d'um brigadeiro, visitava-se com
+João da Cunha, e fôra da roda de Luiz.<span class="pn">{145}</span></p>
+
+<p>O marido de Marianna encontrára-o no Rio de Janeiro, luctando com a
+adversidade, pobre, sem emprego, vivendo do trabalho esteril de amanuense d'um
+advogado. Soccorreu-o com um emprestimo de dinheiro para tentar o trafico da
+escravatura, pensamento dominante de Proença.</p>
+
+<p>O portuguez fôra bem acolhido por Marianna, em respeito a seu marido. Civil,
+bem morigerado, e prudente, colhêra muito na escola da desgraça. Fez-se
+bemquisto, adquiriu proveitosas relações, alcançou aura de honrado, apesar do
+seu plano de mercadejar com pretos. Este trafico não deshonrava ninguem. Era
+como qualquer outro, um ramo de commercio, que germinou illustres vergonteas,
+as quaes transplantadas depois em Portugal, bracejaram copadas sombras onde se
+acoitam em torpel as mercês, e os sacerdotes da apotheose.</p>
+
+<p>Tal era o protegido de Luiz da Cunha em Setembro de 1840, quando o seu
+protector, sahindo do Rio para a Europa, o recommendava aos tios de sua mulher.</p>
+
+<p>Foi, pois, bem natural o sobresalto de Luiz da Cunha quando viu na lista o
+nome <em>Francisco José de Proença</em>. Guiaram-no ao quarto d'elle. Proença,
+com o coração alvoroçado da surpresa, abraçou Luiz.</p>
+
+<p>&mdash;Tu aqui!...&mdash;exclamou elle.</p>
+
+<p>&mdash;Não imaginei encontrar-te fóra do Rio!</p>
+
+<p>&mdash;Vens de lá? Já vejo que não.</p>
+
+<p>&mdash;Venho da Europa. Ha que tempo sahiste do Rio?</p>
+
+<p>&mdash;Ha tres mezes. Tu ignoras tudo, pelo que vejo.</p>
+
+<p>&mdash;Se ignoro tudo!... Sei que Marianna está lá...</p>
+
+<p>&mdash;Sabes que ella está lá? E sabes como ella está?</p>
+
+<p>&mdash;Doente, talvez...</p>
+
+<p>&mdash;Doente, não... morta.</p>
+
+<p>&mdash;Homem! isso é extraordinario! Tu não mentes?</p>
+
+<p>&mdash;A brincadeira seria de mau gosto. Não minto, Cunha. Pensei até que o
+saberias.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é incrivel! Pois Marianna está morta?!</p>
+
+<p>&mdash;E sepultada ha cinco mezes.</p>
+
+<p>&mdash;Que infernal vida a minha!</p>
+
+<p>As bagas de suor frio innundavam-lhe a testa. A commoção não se differençava
+nada d'uma boa alma surprendida por uma nova terrivel.<span
+class="pn">{146}</span></p>
+
+<p>&mdash;Infernal vida a tua! tambem eu digo, Cunha... Mataste aquella senhora...</p>
+
+<p>&mdash;Matei...</p>
+
+<p>&mdash;Tardio remorso!...</p>
+
+<p>&mdash;Conta-me tudo.</p>
+
+<p>&mdash;Pouco tenho que te conte. D. Marianna appareceu no Rio, sem ninguem a
+esperar. Foi transportada n'uma rede ao seu leito. Soube-se que tu não vieras,
+e correu que tinhas morrido. Marianna não recebia visitas, nem os medicos. Pedi
+aos tios que me deixassem vêl-a, não o consegui. Um d'elles contou-me os teus
+desatinos, e disse-me que a infeliz era tão nobre que não pronunciava contra ti
+uma queixa. Precisava explicar a sua fuga, e o pouco que disse foi mais
+amplamente contado por cartas do ministro do Brazil na Austria. Levantou-se
+contra ti um brado de indignação. Contaram-se todos os teus infortunios de
+Lisboa. Á carga cerrada, os amigos de D. Marianna pediram que lhe fosse tirada
+a administração da casa de seus filhos, para que tu não viesses continuar a
+dilapidál-a. Tua virtuosa mulher pediu que a não mortificassem, visto que a sua
+morte viria breve emancipar os pobres filhos da sua indigna tutella.
+Empenharam-se todos em distrahil-a: o mais que conseguiram foi mudál-a para uma
+quinta no Bota-fogo, onde viveu vinte dias. Aqui tens bem simples a historia, e
+realmente te digo que é uma historia bem fertil de lances desgraçados... Déste
+um pontapé na fortuna, Luiz, e com esse pontapé arremeçaste tua mulher á
+sepultura...</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim... agora cala-te. As tuas reprehensões, além de inuteis, não me
+soam bem.</p>
+
+<p>&mdash;Desculpa-me se te fallo com franqueza tão rasgada. O facto de seres meu
+credor não me humilha até ao silencio approvador dos teus crimes.</p>
+
+<p>&mdash;Os meus crimes... não são meus.</p>
+
+<p>&mdash;Pois de quem?!</p>
+
+<p>&mdash;D'um demonio que me perde... E agora vejo que estou irremediavelmente
+perdido!...</p>
+
+<p>&mdash;Comparativamente ao que perdeste... estás.</p>
+
+<p>&mdash;E pobre...</p>
+
+<p>&mdash;Quasi pobre. Tens apenas quatro contos de reis<span
+class="pn">{147}</span> que te devo, e o pouco que tenho acima d'esse capital á
+tua disposição.</p>
+
+<p>&mdash;Minha mulher fez testamento?</p>
+
+<p>&mdash;Não. Tudo que tinha pertence aos filhos.</p>
+
+<p>&mdash;Mas uma escriptura <em>causa mortis</em> que fizemos?</p>
+
+<p>&mdash;É nulla: foi logo annullada. D. Marianna não podia dispôr do que era dos
+filhos: podia apenas legar-te a terça; mas não testou. Aconselho-te que não vás
+ao Rio, muito menos se tentas questionar os direitos dos teus enteados. Não
+vás, que serás morto. O teu nome desperta odios n'aquelles mesmos que recebeste
+nos teus jantares. Tens um só amigo, que se condôa de ti. Sou eu.</p>
+
+<p>&mdash;E qual será o meu futuro?</p>
+
+<p>&mdash;O que podéres grangear pelo trabalho; mas, no Rio de Janeiro, não.</p>
+
+<p>&mdash;Em que negocias?</p>
+
+<p>&mdash;Negociei em escravos.</p>
+
+<p>&mdash;Tens sido feliz?</p>
+
+<p>&mdash;Muito pouco. Tenho repugnancia para esta mercadoria.</p>
+
+<p>&mdash;Queres tentar comigo uma empreza d'essas?</p>
+
+<p>&mdash;Não. Hoje o meu commercio é menos rendoso, mais pacifico, supposto que
+mais laborioso.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei o que são emprezas laboriosas...</p>
+
+<p>&mdash;Tenta; póde ser que a fortuna te dê ainda outro abraço; mas as costas
+d'Africa estão coalhadas de negreiros.</p>
+
+<p>&mdash;Que dinheiro dispensas?</p>
+
+<p>&mdash;Oito contos de reis. Quatro que te devo, e quatro que te dou, ou te
+empresto... como quizeres.</p>
+
+<p>&mdash;Posso fazer alguma cousa com esse dinheiro?</p>
+
+<p>&mdash;Pódes, associando-te a algum negreiro, que farei teu conhecido.
+Apresento-te ao que tem maiores depositos na praia dos escravos em
+Guiné......................</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>N'esse dia foi conduzido ao escriptorio do negreiro, em Buenos-Ayres, o
+adepto com a sua quota parte de oito contos de reis. Quando tratavam as
+condições da sociedade, estava presente um mulato bem trajado, com os dedos
+scintillantes de pedras, e uma grossa cadeia de ouro<span
+class="pn">{148}</span> no pescoço. Ouvira, silencioso, o contracto, e
+seguira-o até á porta do hotel.</p>
+
+<p>Pouco depois, Luiz da Cunha recebia um bilhete anonymo, que lhe pedia uma
+entrevista, a sós, atraz da igreja das Mercês, ao escurecer. Recommendava o
+bilhete um segredo inviolavel.</p>
+
+<p>O temerario foi, sem consultar Proença, e encontrou o homem que vira em casa
+do negreiro.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor quer ser rico?&mdash;perguntou o mulato.</p>
+
+<p>&mdash;Quero.</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem responde com mais concisão, nem mais depressa. Se quer ser rico,
+siga outro rumo. A escravatura deu em droga. Metade dos negros morrem no porão:
+os outros ninguem os quer a cem mil reis fortes por cabeça.</p>
+
+<p>&mdash;Pois que rumo devo seguir?</p>
+
+<p>&mdash;Primeiro; o senhor é capaz de nunca revelar o que eu lhe disser?</p>
+
+<p>&mdash;Sou.</p>
+
+<p>&mdash;Não o sendo, a sua existencia valerá menos que um preto asmatico. Segundo:
+tem coragem?</p>
+
+<p>&mdash;Tenho, penso eu.</p>
+
+<p>&mdash;Quer entrar comigo n'um commercio que é um pouco menos infame que o da
+escravatura? Quer ser pirata?</p>
+
+<p>&mdash;Pirata! O senhor está a zombar comigo?</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho mais que fazer! Chamei-o mesmo de proposito para zombar com o
+senhor! Ora vamos, quer ou não?</p>
+
+<p>&mdash;E o senhor assegura-me que se enriquece em pouco tempo?</p>
+
+<p>&mdash;Asseguro-lhe que nos fazemos n'um momento proprietarios da propriedade que
+outros adquiriram em muitos annos.</p>
+
+<p>&mdash;E os contratempos?</p>
+
+<p>&mdash;Os do mar?</p>
+
+<p>&mdash;Não digo isso: a defeza que póde ser mais poderosa que o ataque...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! o meu amigo raciocina assim? Já vejo que me não serve... Até á paz
+geral, meu caro senhor. Segredo, ouviu?<span class="pn">{149}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mas ouça, que eu não me deliberei ainda. Não me julgue algum miseravel
+poltrão. Quer o senhor entrar no meu quarto, e fallemos lá?</p>
+
+<p>&mdash;Então, entre o senhor no meu, que é mais perto. Ceará comigo, e dormirá,
+se quizer, com a melhor das minhas escravas.<span class="pn">{150}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION001150">XV.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION001151">LOGICA DO INFORTUNIO.</a></h2>
+
+<p>Luiz da Cunha aceitára a proposta, a ceia, e a escrava. Com grande espanto
+de Proença, fizera a sua aposentadoria em casa do mulato, explicando esta
+nascente amizade por certo mysterio, que elle não dizia, porque não soubera
+inventál-o. Proença, suspeitando as intenções de Cunha, porque lhe não eram
+estranhos os boatos que corriam muito deshonrosos para o mulato, deu-se pressa
+em sahir de Buenos-Ayres com a sua carregação de cortumes para a Bahia.</p>
+
+<p>Poucos dias depois, desappareceram Luiz da Cunha e o seu recente amigo. Das
+praias de S. Thiago del Estero, sobre o Athlantico, levantaram ferro dois
+navios com aspecto mercantil, içando a bandeira da republica argentina.
+Costearam a provincia do Rio-da-Prata até ao Paraguay. Ahi fizeram-se ao largo,
+e arrearam bandeiras.</p>
+
+<p>Ao nono dia de roteiro indeterminado, reconheceram a bandeira hespanhola em
+dois navios de alto bordo que lhe passavam á prôa. A manobra foi rapida. As
+galeras auxiliadas pelas correntes procuravam a esteira dos navios, que lhes
+fugiam. Ao cahir da noite, a trombeta do pirata levou uma ameaça de morte aos
+hespanhoes. Responderam-lhe com uma bala que zumbiu nas gaveas.</p>
+
+<p>Travou-se a lucta. Era tenebrosa a noite, e ao clarão da artilheria viam-se
+d'um lado e d'outro, como visões phantasticas, as faces enraivecidas de
+aggressores destemidos, e a coragem desesperada nas dos aggredidos resolutos á
+morte com bravura.<span class="pn">{151}</span></p>
+
+<p>O mulato déra o tremendo signal da abordagem. A galera que se retirava da
+lucta, capitaneada por Luiz da Cunha, não obedecêra. É que uma bala lhe fizera
+á pôpa um rombo. Os bravos tinham descido ao porão a calafetarem inutilmente a
+fenda.</p>
+
+<p>Os piratas recuavam, e os aggredidos accommetteram com o enthusiasmo da
+victoria. A galera do mulato vomitava lavaredas. Estava incendiada.</p>
+
+<p>&mdash;Á abordagem!</p>
+
+<p>Bradaram os hespanhoes. A maruja das galeras gritou que se entregava. Os
+netos de Cortez não admittiram a proposta. Saltaram entre miseraveis
+ajoelhados. Alguns venderam cara a vida. Outros foram poupados para puxarem o
+carro do triumpho. Entre esses estava Luiz da Cunha, que não tivera coragem de
+morrer borrifado do sangue dos contrarios, como o seu companheiro, e pedira de
+joelhos a vida. O extremo da ignominia encontra a covardia. Sem a força moral
+da honra, o musculo do infame ennerva-se, e a existencia, que devia ser-lhe um
+pêso, é-lhe ainda cara! Segredos.</p>
+
+<p>Os prisioneiros foram levados ás Antilhas para serem garrotados. Alguns
+foram-n'o logo. Luiz da Cunha, que promettêra aos capitães o resgate da sua
+liberdade, pesando-se a ouro, foi posto a ferros em Porto-Rico.</p>
+
+<p>Chegára a nova á Bahia, onde Proença negociava. Não se fallava em Luiz da
+Cunha; mas dizia-se que um portuguez ou brasileiro, que parecia de educação
+distincta, fôra prêso, e demorára com astuciosas promessas o seu processo.</p>
+
+<p>Proença não tinha animo para encarar o suspeito Cunha n'esse ultimo grau da
+infamia. Apressou-lhe quanto pôde soccorros, e, calando o nome do prêso,
+solicitava a sua liberdade.</p>
+
+<p>Entretanto, Luiz da Cunha tramava a fuga. Todos os seus ardis foram
+descobertos. Parte das authoridades hespanholas quizeram desfazer-se d'elle,
+pendurando-o n'um triangulo. Mas o governador não consentira, sem primeiro
+ouvir esse homem mysterioso. Ouvindo-o, admirou-lhe a eloquencia astuciosa;
+arrancou-lhe o segredo de alguns dos precedentes que mais deviam tocar-lhe o
+espirito um pouco romanesco. Luiz da Cunha soubera<span class="pn">{152}</span>
+dar-se prestigio, porque adivinhára a indole da authoridade.</p>
+
+<p>Foi processado e condemnado a tres annos de prisão em Porto-Rico. Tres
+annos! Mil e noventa e cinco dias e outras tantas noites de ferros para esse
+homem, desamparado de todos, forçado a pedir esmola, como um ladrão, pela grade
+da enxovia! Não terá elle, ao menos, a coragem do suicidio?!</p>
+
+<p>Não tinha.</p>
+
+<p>O governador mandava-lhe umas sôpas, e umas calças velhas. Uma senhora
+desconhecida esmolava-lhe um jantar todos os domingos, e mudava-lhe os lençoes
+da pobre enxerga. O carcereiro, apiedado com a apparente resignação do pirata,
+arranjava-lhe livros, e dava-lhe para de noite uma candeia.</p>
+
+<p>Quatro mezes d'este viver! Eis alli o amante de Assucena! o marido de
+Marianna! Aquelle homem que tira de uma tigella de barro com um garfo de ferro
+umas couves, é o mesmo que pagava dançarinas a cinco mil francos por mez; é o
+mesmo que vira fugir-lhe por entre os dedos cem contos de reis. E, comtudo, não
+tem ainda trinta annos! Que futuro!</p>
+
+<p>Proença vem a Porto-Rico, ao quarto mez de prisão de Cunha. Procura o
+governador, com valiosas cartas de recommendação, e historia-lhe vagarosamente
+a vida do prêso. O governador espanta-se de tanto crime, e crê na magica
+influencia de Satanaz sobre o desgraçado. Uma das circumstancias que mais o
+pungem é o illustre nascimento de Luiz da Cunha e Faro! Era fidalgo, sentia a
+dôr collectiva da raça: o vexame e a condolencia de uma sympathica compaixão.
+Vencido pelas instantes lamurias de Proença, quiz ser arbitro na liberdade do
+prêso, assim como o tinha sido no immediato garrote que os outros soffreram.
+Luiz da Cunha, com cinco mezes de carcere, é solto. Respira o ar da liberdade,
+é senhor seu; mas a liberdade que lhe importa sem dinheiro, sem soccorro, sem
+incentivo algum ás forças que lhe sobejam ainda para commetter difficultosas
+emprezas? Que perversidade nova lhe resta a explorar? A que reservatorio do
+inferno irá elle invocar um outro genio?</p>
+
+<p>Que lhe falta?<span class="pn">{153}</span></p>
+
+<p>Luiz da Cunha fôra chamado, apenas solto, a casa do governador. Entrou n'uma
+sala particular, onde encontrou Proença. Não córou: a commoção forte que um
+facil apreciador julgaria vergonha, era o contentamento de encontrar um homem
+que, de certo, não viera alli para o deixar sem dinheiro.</p>
+
+<p>O expatriado é que não podia soster as lagrimas. Sentia o vilipendio de
+Cunha, como se tirasse dos hombros do infame para os seus o pêso da ignominia.</p>
+
+<p>&mdash;Vieste salvar-me?&mdash;disse serenamente o pirata infeliz.</p>
+
+<p>&mdash;Já ninguem te salva... Vim alcançar a tua liberdade para experimentares
+uma nova posição social. Cahiste muito no fundo. Já não ha braço que te
+levante.</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me que não. Venho de estudar na solidão da masmorra. Philosophei o
+melhor que se póde com os meus principios experimentaes. Conclui que sou uma
+machina. Não tenho vontade, nem acção. Quero vêr onde chega isto! Desejava
+poder calcular approximadamente, pelos dados da vida, que morte será a minha.
+Tenho trinta annos. Proença! como se póde ser tudo o que eu tenho sido em
+quatorze annos!</p>
+
+<p>&mdash;E que serás tu?!</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei!... o mais natural na minha situação é pedir uma esmola.</p>
+
+<p>&mdash;E és capaz de pedil-a?</p>
+
+<p>&mdash;Que duvida! Morrer de fome é escolher de todas as mortes a mais indecente.</p>
+
+<p>&mdash;E gracejas!</p>
+
+<p>&mdash;Pois tu queres que eu receba seriamente a infernal omnipotencia que me
+reduziu a isto?! Zombemos com ella.</p>
+
+<p>&mdash;Mas não ha outro recurso contra a fome senão pedir esmola?</p>
+
+<p>&mdash;Ou roubar.</p>
+
+<p>&mdash;E o trabalho?</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim... não me lembrava o trabalho!... mas que trabalho? Eu não sirvo
+para nada, não tenho força nem vocação.</p>
+
+<p>&mdash;Adquire-a, Luiz. Tu não me conheceste em outro tempo? Imaginaria alguem,
+ha oito annos, que eu viria a ser um amanuense de advogado, e mais tarde um
+negociante<span class="pn">{154}</span> de cortumes? Eu tive fome, Luiz.
+Deitei-me algumas vezes em jejum, e levantei-me sem a certeza do almoço. Não
+pedi esmola, pedi trabalho. Olha as minhas mãos... não vês estas durezas? Estão
+calejadas, mas nunca senti aqui o contacto de uma moeda de cobre como esmola.
+Trabalha, Luiz.</p>
+
+<p>&mdash;Diz-me lá em que...</p>
+
+<p>&mdash;Vives comigo: tomas uma pequena parte nas minhas occupações, e recebes uma
+parte grande dos meus interesses.</p>
+
+<p>&mdash;Não te sirvo de nada, Proença. O que fazes é dar-me uma esmola.
+Emprestas-me algum dinheiro?</p>
+
+<p>&mdash;Que farás com esse dinheiro?</p>
+
+<p>&mdash;Vou para Portugal. Tenho um palpite de que vou ser feliz...</p>
+
+<p>&mdash;Feliz! Quem fará a tua felicidade em Portugal?</p>
+
+<p>&mdash;Uma mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Como Marianna?</p>
+
+<p>&mdash;Não me falles em Marianna. Tenho tido horas de inferno pensando n'essa
+infeliz... Eu não sou de bronze, Proença. Vi-me tão afflicto uma noite na
+cadeia, que me puz de joelhos a pedir-lhe perdão, cuidando que a via. Era
+febre; mas olha que a vi tal qual ella devia ser a expirar... Palavra de honra!
+não me falles n'ella... Bastam-me os meus remorsos...</p>
+
+<p>&mdash;Tu não tens remorsos, Cunha... Não fallemos n'ella; concordo... O nome
+d'essa infeliz sôa mal nos teus ouvidos... e é uma profanação na tua bôca...
+Queres então ir a Portugal procurar uma mulher que te ha de fazer feliz... Vejo
+que a desgraça tem comtigo momentos de zombaria... Vai. Dou-te o dinheiro
+necessario para a passagem, e para a subsistencia de alguns mezes.</p>
+
+<p>&mdash;És um perfeito cavalheiro. Espero ainda embolsar-te do ultimo real que me
+emprestas... Ris-te? É porque não sabes os meus planos.</p>
+
+<p>&mdash;Os teus planos... O que me faz rir é a facilidade com que te illudes, a
+inexperiencia do que és, a intimativa com que te confias a uma esperança
+imaginaria. Que mulher de Lisboa descerá até Luiz da Cunha com a sua riqueza?
+Estou fóra de Portugal ha oito annos, e conheço a tua vida dia a dia;
+conhecem-na todos no Rio de Janeiro.<span class="pn">{155}</span> Quem te não
+conhecerá em Lisboa? Eu vi uma carta d'um tal visconde, escripta ao ministro
+portuguez no Brazil, que te apresentava um prodigio de immoralidades.</p>
+
+<p>&mdash;Esse visconde era precisamente o visconde de Bacellar.</p>
+
+<p>&mdash;De Bacellar, justamente.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é um miseravel a quem puni com um chicote nos Paulistas.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei se é um miseravel que puniste com um chicote; mas de certo não é
+calumniador. Todas as informações confirmam as d'elle. O que será feito d'uma
+menina que fugiu das Commendadeiras, e abandonaste no primeiro mez, trocando-a
+pelos amores da celebre Liberata?</p>
+
+<p>&mdash;Não fallemos n'isso... Rapaziadas!... Talvez tu não creias que a mulher
+que me ha de fazer feliz é justamente a que fugiu das Commendadeiras?</p>
+
+<p>&mdash;Vejo que é grata aos teus beneficios... Deve morrer de saudades por ti...
+Estará ella anciosa da tua chegada como Marianna?</p>
+
+<p>&mdash;Estás impertinente, Proença!... Que diabo lucras tu em apoquentar-me?!
+Marianna morreu; não posso dar-lhe vida; se podésse, dava-lh'a... Que mais
+queres?</p>
+
+<p>&mdash;Nada, Luiz... Que hei de eu querer? É que não acho natural a tua
+felicidade proveniente de uma mulher que perdeste.</p>
+
+<p>&mdash;E, se eu te disser que essa mulher me deu obra de quarenta mil cruzados,
+depois que a abandonei?</p>
+
+<p>&mdash;Se é verdade o que dizes, espanta-me que o digas sem cahires n'esse chão
+fulminado de vergonha!</p>
+
+<p>&mdash;Vergonha... de que?</p>
+
+<p>&mdash;Ha em ti um defeito de organisação, Luiz!... Tu não és o homem moral.
+Falta-te a consciencia, o senso-intimo do bem, o caracter da sociabilidade. Não
+te posso responsabilisar pelos teus crimes. O tigre tem a ferocidade nativa. Tu
+és uma aberração, Cunha. Digo-te, com as lagrimas nos olhos, que estás perdido,
+perdido para sempre... Receio muito que encontres um cadafalso no teu caminho.</p>
+
+<p>&mdash;Estás funebre! Que diabo de prophecia! O meu furor todo é desmentil-a...
+Hei de rehabilitar-me! Desafio todos os demonios para que me combatam.<span
+class="pn">{156}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION001160">XVI.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION001161">TENHO FOME! ESTOU HA TRES DIAS SEM PÃO!</a></h2>
+
+<p>Em uma tarde de Agosto de 1842, Assucena passeava sósinha entre os renques
+de loureiros e amoreiras da sua quinta do Lumiar. Abria e fechava com apparente
+distracção um livro, e, se lia, poucas linhas a fatigavam.</p>
+
+<p>Veste ainda de lucto pelos seus bemfeitores, ha tres annos mortos. Sobre o
+lenço de gorgorão que lhe cobre o pescoço, traz pendente um collar de contas de
+azeviche com uma pequena cruz de pau preto, embutida de lavores de
+madre-perola. Este adorno está em harmonia com o livro em que lê, e
+profundamente medita: é o thesouro de Kempis, a Imitação de Christo.</p>
+
+<p>Sentára-se, lendo mentalmente estas linhas:</p>
+
+<p>«Crê-te indigno da consolação divina; mas sim merecedor de muitas
+tribulações. Quanto mais se compunge o homem, mais amarga lhe é a sociedade. O
+bom não depara ahi senão incentivo para lagrimas. Ou pense em si ou nos outros,
+reconhece que sem amarguras ninguem vive aqui. E tanto mais angustiado se vê,
+mais dos outros se compadece. As compunções intimas, e a nutrição das dôres
+merecidas, são filhas dos nossos vicios e peccados; deslumbrado por elles, não
+temos vista para contemplar o ceo. Se mais vezes pensares na morte, que na
+vida, fervorosa será a tua emenda. Se scismares nas penas do inferno e do
+purgatorio, e do coração as temeres, ser-te-hão leves os trabalhos da vida, e
+não tremerás de susto.» Fechára o livro, erguêra para o ceo os olhos
+lacrimosos, e murmurára:<span class="pn">{157}</span></p>
+
+<p>&mdash;E serei eu grande peccadora, meu Deus? Não terei eu seguido a vossa santa
+lei? Terei deixado cahir a minha cruz, seguindo-vos?</p>
+
+<p>Parára uma carruagem.</p>
+
+<p>&mdash;É minha mãe!&mdash;disse alvoroçada Assucena, sahindo-lhe ao encontro.</p>
+
+<p>Rosa Guilhermina vinha triste.</p>
+
+<p>&mdash;Estranho hoje a sua physionomia, minha querida mãe! Que é? teve algum
+desgosto com o padrasto?</p>
+
+<p>&mdash;Não, filha... Como estás?</p>
+
+<p>&mdash;Bem vê que estou boa.</p>
+
+<p>&mdash;Com lagrimas nos olhos...</p>
+
+<p>&mdash;Foi de lêr o meu querido livro... Faz-me sempre este bem.</p>
+
+<p>&mdash;Que fizeste hontem, filha?</p>
+
+<p>&mdash;O que faço todos os dias. Assisti ás tres missas na capella; dei ao meio
+dia o jantar aos pobres; de tarde rezei a via-sacra; depois, passei um
+bocadinho aqui com o padre Madureira; tomamos chá á noite; rezei a corôa de
+Nossa Senhora, e deitei-me. Hoje fiz o mesmo; esperava minha mãe, e o padre...</p>
+
+<p>&mdash;Minha filha, eu entendo que és muito excessiva nas tuas devoções. Padre
+Madureira já me disse que te fazia mal tanta religião. Tu queres comprehender o
+incomprehensivel, e prejudicas o teu espirito... e a tua saude.</p>
+
+<p>&mdash;Não, mãe. Eu não acho nada incomprehensivel na religião de Jesus Christo.
+Leio muitos livros mysticos, porque não tenho outro recreio, nem o quero; rezo
+muito, porque não devo ser ingrata aos beneficios que Deus me faz, e peço á sua
+divina vontade continue a fazer-m'os. Com isto não sou pesada a ninguem...</p>
+
+<p>&mdash;Mas tudo que é de mais...</p>
+
+<p>&mdash;Servir a Deus é sempre de menos, minha mãe.</p>
+
+<p>&mdash;Mas ha cousas que denunciam fraqueza de razão.</p>
+
+<p>&mdash;Em mim?</p>
+
+<p>&mdash;Sim. Sei que vaes de noite acompanhar o viatico aos enfermos.</p>
+
+<p>&mdash;E será isso fraqueza de razão?</p>
+
+<p>&mdash;É uma demasia de virtude que não fica bem a uma senhora de vinte e dois
+annos.</p>
+
+<p>&mdash;Porque?... Todos me tratam com tanto respeito...<span
+class="pn">{158}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mas... não fazes bem: póde-se servir a Deus com suavidade.</p>
+
+<p>&mdash;Isto não me custa; mas, se a mãe não quer, não tornarei.</p>
+
+<p>&mdash;E que invenção é essa de trazer as contas por fóra do lenço?</p>
+
+<p>&mdash;Pensei que não importava trazêl-as assim, ou de outro modo.</p>
+
+<p>&mdash;De certo, não importa; mas poderá alguem chamar-te visioneira.</p>
+
+<p>&mdash;Alguem! Eu não conheço ninguem. O padre Madureira não me diz nada; a mãe
+de certo se não ri de mim; os outros, ainda que me vissem, não me envergonhavam
+com a sua zombaria... A mãe não acaba de crêr que me não importa nada o mundo?</p>
+
+<p>&mdash;Nem queres que te fallem em cousas do mundo?</p>
+
+<p>&mdash;Se me affligem, não... Queria dizer-me alguma cousa?... Vejo-a triste, e
+quer desabafar comigo... Diga o que tem...</p>
+
+<p>&mdash;Uma afflicção que tu não imaginas... e não devo dizer-t'a...</p>
+
+<p>&mdash;Se não deve dizer-m'a, terrivel cousa é! Então, não posso eu
+consolál-a...</p>
+
+<p>&mdash;Se eu soubesse que te não affligias...</p>
+
+<p>&mdash;Isso não prometto, mãe; mas, ainda que me afflija, quero soffrer comsigo.</p>
+
+<p>&mdash;E se fôr cousa que tenha mais relação comtigo de que comigo?</p>
+
+<p>&mdash;Se tiver remedio, remedeia-se com o auxilio de Deus; se não tiver,
+paciencia. O Senhor ha de dar-me forças e resignação... Mas que póde ser?
+Alguma calumnia?</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem ousa manchar a tua reputação, minha filha.</p>
+
+<p>&mdash;A minha reputação!... Ai! minha querida mãe, se soubesse o mal que me faz
+quando pronuncia essa palavra...</p>
+
+<p>&mdash;Pois porque não hei de pronunciál-a?</p>
+
+<p>&mdash;Pelo amor de Deus, calemo-nos... Diga o que é...</p>
+
+<p>&mdash;Tens animo, filha?</p>
+
+<p>&mdash;Jesus que me aterra!<span class="pn">{159}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sabes que Luiz da Cunha está em Lisboa?</p>
+
+<p>&mdash;Se o sei?... quem m'o havia dizer!...</p>
+
+<p>&mdash;Tu descóras, filha.</p>
+
+<p>&mdash;Deus dá-me animo... Não é nada, minha mãe... É isso só que me queria
+dizer?... Deixál-o estar... Não tenho nada com elle... É feliz?...</p>
+
+<p>&mdash;Muito infeliz... Vem pobre...</p>
+
+<p>&mdash;Eu não pergunto se vem rico... Será virtuoso? terá temor de Deus?</p>
+
+<p>&mdash;Vem cheio de crimes. Dizem-se em Lisboa cousas horriveis d'este homem.
+Casou muito rico...</p>
+
+<p>&mdash;Isso já eu sabia, que m'o disse o padre Madureira.</p>
+
+<p>&mdash;Mas abandonou a mulher...</p>
+
+<p>&mdash;Coitadinha!...</p>
+
+<p>&mdash;E morreu atormentada.</p>
+
+<p>&mdash;Compadeceu-se d'ella o Altissimo... Foi feliz... Rezemos-lhe pela alma,
+minha mãe.</p>
+
+<p>Assucena ergueu as mãos, murmurando o <em>padre-nosso</em>. A viscondessa
+reparou na exaltação religiosa de sua filha, e capacitou-se das suspeitas do
+padre Madureira. Estas exaltações eram uma ameaça de algum grande desmancho
+intellectual.</p>
+
+<p>Assucena obedecia ás mais extravagantes preoccupações religiosas: abraçava
+todos os prejuizos populares: desauthorisava a razão, calando-a com fanaticos
+receios. Déra-se na sociedade, como incentivo de risos, se fosse possivel
+sustentar a vehemencia das suas crenças em publico.</p>
+
+<p>Depois da oração, Assucena pediu silencio a sua mãe, que se retirou
+maravilhada da impassibilidade da filha; mas segura de que as astucias de Luiz
+da Cunha não poderiam nada contra ella. E era essa a sua afflicção.</p>
+
+<p>Padre Madureira viera á hora do chá. A neta do arcediago não dissera uma
+palavra do dialogo com a viscondessa. Porém o padre, com grandes rodeios, ia
+dar-lhe, dizia elle, uma espantosa novidade. Assucena atalhou, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Já sei. Não fallemos em tal cousa.</p>
+
+<p>&mdash;Já sabe!! mas não sabe tudo, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Sei tudo. Vem desgraçado...</p>
+
+<p>&mdash;E tão desgraçado que lhe pede uma esmola.<span class="pn">{160}</span></p>
+
+<p>&mdash;A mim?!... Santo Deus! Como sabe elle que eu...</p>
+
+<p>&mdash;Perdão, senhora D. Assucena. Attenda-me. Eu tive uma imprudencia; mas o
+meu fim era justo e nobre. Quiz punir Luiz da Cunha para que a dôr da culpa lhe
+despertasse no coração sentimentos de honra. Fiz que elle soubesse no Brazil,
+por uma carta minha, quem o salvára da ignominia e do degredo, rehabilitando-o
+para o futuro com os meios necessarios para experimentar uma nova estrada.</p>
+
+<p>&mdash;Deus lhe perdôe... senhor padre Madureira... o mal que fez! Eu perdôo-lhe,
+e Deus Nosso Senhor me receba estas lagrimas em desconto dos meus peccados.</p>
+
+<p>&mdash;Luiz da Cunha&mdash;proseguiu o padre&mdash;depois de mil revezes, apparece em
+Portugal, e encontra-se comigo, quando eu sahia do côro. Pergunta-me se v.
+exc.ª ainda vive. Vacillo na resposta. Quero até fingir que não conheço tal
+homem. Insta comigo para que lhe responda. Digo-lhe que Assucena vive; mas não
+para o mundo. «Quero vêl-a&mdash;exclama elle&mdash;quero pedir-lhe perdão!» É
+impossivel&mdash;disse-lhe eu.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim, é impossivel!...&mdash;atalhou Assucena sobresaltada.</p>
+
+<p>&mdash;Quer lançar-se-me aos pés... eu tento fugir-lhe... segura-me pela mão, e
+exclama com desespêro: «tenho fome! estou ha tres dias sem pão! dê-me uma
+esmola!»</p>
+
+<p>&mdash;Oh meu Deus!&mdash;bradou Assucena, escondendo o rosto nas mãos.</p>
+
+<p>&mdash;Eram horriveis as visagens d'aquelle infeliz!&mdash;continuou o
+padre.&mdash;Disse-lhe que viesse a minha casa; dei-lhe de comer... Sahi, deixando-o
+á mesa. Fui dar ordem n'uma hospedaria para que o sustentassem, e mandei-o para
+lá... Que é isto?&mdash;interrompeu-se impetuosamente Madureira, tomando Assucena
+nos braços&mdash;Minha filha...</p>
+
+<p>Estava desmaiada.</p>
+
+<p>Os haveres da neta do arcediago estavam reduzidos á quinta do Lumiar.
+Extremas economias permittiam-lhe pagar diariamente duas missas por alma dos
+seus bemfeitores, dar jantar a vinte pobres, e sustentar-se com muito
+pouco.<span class="pn">{161}</span></p>
+
+<p>Assucena não aceitára nunca uma mealha de casa de seu padrasto, remira-se
+com o seu pouco, embora sua mãe esgotasse todos os subterfugios para
+melhorar-lhe as commodidades. Que poderia ella fazer em bem de Luiz da Cunha?</p>
+
+<p>Padre Madureira tinha apenas o seu mesquinho ordenado do cabido, como
+beneficiado simples. Tambem não podia.</p>
+
+<p>&mdash;Que faremos?&mdash;perguntou ella ao padre.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho pensado n'um meio; e não vejo outro.</p>
+
+<p>&mdash;Qual? foi Deus que lh'o inspirou?</p>
+
+<p>&mdash;Arranjarei quem empreste quatrocentos mil reis, com juros, e o pagamento a
+prazos, hypothecando esta quinta. Com este dinheiro alcançarei um emprego para
+Luiz da Cunha, longe de Lisboa.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim, longe de Lisboa.</p>
+
+<p>&mdash;Dir-lhe-hei que é o mais que posso fazer-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Sem dizer-lhe que eu concorri para isto...</p>
+
+<p>&mdash;Farei a sua vontade. É conveniente que elle o ignore.</p>
+
+<p>Dias depois, era despachado João Maria das Neves escrivão do Juizo ordinario
+do concelho de Ribeira de Pena, na Provincia de Traz-os-Montes.</p>
+
+<p>João Maria das Neves equivalia a Luiz da Cunha e Faro. O requerente nunca
+subiu as escadas da secretaria. O seu agente foram os quatrocentos mil reis da
+neta do arcediago.</p>
+
+<p>Na ante-vespera da sua sahida de Lisboa, Luiz da Cunha quiz saber o que era
+feito de Liberata.</p>
+
+<p>Ao escurecer, porque não sahia de dia, foi á rua de S. Bento, e parou
+defronte da casa n.º 40. Viu as janellas occupadas por um rancho de senhoras, e
+deduziu que Liberata já não morava alli.</p>
+
+<p>Accendeu um cigarro na vela do tendeiro, que morava defronte, e como por
+mera curiosidade perguntou quem morava defronte.</p>
+
+<p>&mdash;É a familia d'um empregado.</p>
+
+<p>&mdash;Aqui ha tres annos morava lá uma mulher...</p>
+
+<p>&mdash;Era boa rolha! chamava-se Liberata.</p>
+
+<p>&mdash;Justamente... Que é feito d'essa mulher?</p>
+
+<p>&mdash;Eu lhe conto o que sei. Depois que aqui á minha<span
+class="pn">{162}</span> porta deram umas facadas n'um tal Luiz da Cunha que
+morava no Campo Grande, e que lhe comia a ella a mesada que certo figurão lhe
+dava, a mulher metteu-se com um jogador que a trazia nas pontinhas. Chegou a
+ter duas seges a bebeda!<a name="tex2html1" href="#foot581"><sup>[1]</sup></a>
+Vai, se não quando, a mulher adoece, e o tal jogador nunca mais ahi veio.
+Esteve de cama onze mezes, vendeu tudo quanto tinha, os trastes até fui eu que
+lh'os penhorei por cento e cincoenta mil reis que me devia do grão para os
+cavallos, azeite, arroz, &amp;c. &amp;c. &amp;c.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot581" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Respeitemos a
+fidelidade.</p>
+</div>
+
+<p>&mdash;E morreu?</p>
+
+<p>&mdash;Qual morrer! A mulher tem sete fôlegos como os gatos. D'alli foi para o
+hospital acabar de se tratar, e não ha muito que me disseram que a viram no
+Bairro Alto; mas mora á porta da rua, para não ter o trabalho de subir e descer
+as escadas. É no que veio parar a tal matrona das carruagens.</p>
+
+<p>&mdash;Sabe em que sitio ella mora?</p>
+
+<p>&mdash;Eu, graças a Deus, não ando por essas casas, mas quem me disse que a vira
+foi aquelle barbeiro que mora acolá! Se tem muito empenho em sabêl-o, isso é
+facil,</p>
+
+<p>&mdash;Faz-me muito favor.</p>
+
+<p>O tendeiro voltou, dizendo que Liberata morava na travessa da Agua da Flôr.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha agradeceu cordialmente a indagação, e subiu pela travessa
+Nova, mais absorvido que nunca na inconsequente trapalhada das cousas humanas.</p>
+
+<p>Ao voltar na esquina da rua da Rosa das partilhas viu uma mulher de chale
+vermelho, saia branca, lenço atado na cabeça com as pontas em grande laço para
+as costas, sahindo d'uma taverna abraçada com um marujo.</p>
+
+<p>Pela voz, de certo era ella, cantarolando um landum que outro marujo
+arpejava na guitarra. Acabando a cantiga, o marujo phylarmonico, fazendo um
+bordo largo de encontro a Luiz da Cunha, grunhiu:</p>
+
+<p>&mdash;Ponha-se á capa, quando não vai a pique, sû paralta!</p>
+
+<p>Luiz da Cunha recuou.</p>
+
+<p>&mdash;Canta Liberata... se não queres levar com a banza nos rizes!&mdash;tornou o
+marujo, perfilando-se com o grupo.<span class="pn">{163}</span></p>
+
+<p>E Liberata cantou outra copla das privilegiadas da travessa da Agua da Flôr.</p>
+
+<p>Ella e os marujos sentaram-se na escaleira d'uma porta.&mdash;Vieram depois
+outros marujos e mulheres em saia branca batendo as palmas, e saltando ás
+costas dos marinheiros, que as indemnisavam dos carinhos com amaveis pontapés.</p>
+
+<p>O escrivão do juiz ordinario permaneceu encostado á esquina da rua da Rosa,
+até ás dez horas. Os marujos debandaram, e Liberata recolheu-se sósinha.</p>
+
+<p>Luiz bateu á porta.</p>
+
+<p>&mdash;Quem nos honra?&mdash;perguntou ella.</p>
+
+<p>&mdash;Abre.</p>
+
+<p>&mdash;Quem és?</p>
+
+<p>&mdash;Abre sem receio.</p>
+
+<p>&mdash;Não conheço flamengos. Diz lá o teu nome... Se és o patavina d'hontem,
+vai-te com o diabo.</p>
+
+<p>&mdash;Abre, Liberata.</p>
+
+<p>&mdash;Eu conheço esta voz...&mdash;murmurou ella.</p>
+
+<p>Abrindo a porta, recuou, exclamando:</p>
+
+<p>&mdash;És tu, Luiz?!</p>
+
+<p>&mdash;Em que estado te encontro!</p>
+
+<p>&mdash;Que queres? tornei ao que fui... Nada de lamurias. Como tu me conhecestes,
+isso é que eu admiro! Pois vês em mim algum signal da mulher de ha tres annos?!</p>
+
+<p>&mdash;Apenas te conheço a voz, e os olhos. Que é isso que tens na cara? parece
+que te queimaram com vitriolo?</p>
+
+<p>&mdash;Estas nódoas vermelhas?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei cá o que isto é? Está bom... não fallemos em mais nada, senão mêtto
+uma faca no peito. Eu já fujo de abrir a porta a ociosos que me vem fallar na
+minha formosura, e nas minhas carruagens! Acabou... Nem carruagens, nem
+formosura. O diabo o deu, o diabo o levou. Tu tambem estás acabado! Disseram-me
+que estavas rico, é verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Não: apenas tenho um bocado de pão para cada dia.</p>
+
+<p>&mdash;Não te faças pobre que eu não te peço nada.</p>
+
+<p>&mdash;Pois, Liberata, eu venho pagar-te uma divida do pouco que posso, assim
+como a contrahi do muito que podias.<span class="pn">{164}</span> Depois
+d'amanhã vou empregado para a provincia, queres vir comigo?</p>
+
+<p>&mdash;Pois tu querias-me lá assim?</p>
+
+<p>&mdash;Quero... serei o teu enfermeiro.</p>
+
+<p>&mdash;Olha lá o que dizes!</p>
+
+<p>&mdash;Não me desdigo.</p>
+
+<p>&mdash;Eu tenho este vestido que vês.</p>
+
+<p>&mdash;Comprar-te-hei o que fôr da primeira necessidade.</p>
+
+<p>&mdash;Pois tu ainda gostas de mim n'este infeliz estado em que me vês?!</p>
+
+<p>&mdash;Gosto. Ha uma unica pessoa que se parece comigo n'este momento pela
+desgraça. És tu. Quero viver comtigo. Quero vêr se a rehabilitação é possivel
+para ambos nós.</p>
+
+<p>&mdash;Agora creio que é. Olha, Luiz, toda a minha philosophia desappareceu. Eu
+não t'o dizia que sem dinheiro não ha philosophia? Sabes tu que tudo isto me
+parece um sonho!... Ha mais d'um anno que me embriago todos os dias para me
+esquecer... Hei de contar-te a minha vida... Eu não esperava vêr-te mais; mas
+vê tu o que é o presentimento... Ainda não ha quatro horas que eu dizia:&mdash;«Que
+impressão faria eu n'este estado a Luiz da Cunha!» O que são as cousas d'esta
+vida!... Até parece que recuperei o som da palavra, fallando com o meu amante
+dos tempos felizes! Ai! quem me déra ser bella para te agradar ainda! Diz-me
+cá: esta machina não terá concerto?</p>
+
+<p>&mdash;Veremos.</p>
+
+<p>&mdash;Eu era ainda bella se me tirassem da cara estas manchas vermelhas. Sinto
+ainda a robustez dos trinta annos; o que me falta é o fogo da alma... Vê se
+fazes de mim outra mulher, que eu prometto de fazer a tua felicidade... Não me
+vês a chorar? Isto é galante! Cuidei que chorara pela ultima vez quando entrei,
+no hospital, pobre, e abandonada do infame que me reduziu a este estado...</p>
+
+<p>&mdash;Não chores, Liberata... Vamos vêr o que é o futuro. Até ámanhã.</p>
+
+<p>&mdash;Pois deixas-me?! Vou comtigo já.</p>
+
+<p>&mdash;Não. Preciso illudir alguem.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha deixara alguns cruzados novos sobre uma banqueta de pinho, e
+sahiu.</p>
+
+<p>Liberata não provou somno. As lagrimas incessantes<span
+class="pn">{165}</span> eram-lhe d'um sabor novo. Nunca ella fôra tão infeliz
+como n'essa noite. Havia no seu soffrimento alguma cousa que disputaria á alma
+do cynico um momento de compaixão. N'aquella degradação não diremos que as
+lagrimas regeneram; mas por isso mesmo que são inuteis, como o orvalho sobre a
+flôr arrancada e sêcca, a mulher que as chora, é bem que nos apiedemos d'ella,
+mostrando-a como exemplo, mas que a infeliz não veja que é mostrada com
+escarneo!<span class="pn">{166}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION001170">XVII.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION001171">AS PRIMEIRAS E ULTIMAS LAGRIMAS DE LUIZ DA
+CUNHA.</a></h2>
+
+<p>E dez dias depois, João Maria das Neves tomava posse do cartorio d'escrivão
+do juizo ordinario no concelho de Ribeira de Pena. É escusado dizer-vos que
+Liberata o acompanhára, e, ao decimo dia de convivencia com Luiz da Cunha, eram
+visiveis os melhoramentos n'aquella physionomia macerada. Passado um mez,
+raiavam-lhe da tez, ainda mosqueada de betas côr de açafrão, uns longes da
+descomposta formosura. Luiz tinha soberba de poder tanto no espirito d'aquella
+mulher, unica no mundo para elle, unica pessoa que o não repellira, que se
+confiára á sua vontade, entregando-se-lhe sem condições.</p>
+
+<p>O homem abandonado, só, desatado de todos os liames sociaes, revoca as
+potencias da sua alma para consubstanciar-se no coração da unica pessoa que o
+não abomina. Ha exemplos de affeições ferventes do salteador de estrada para a
+mulher que o recebe nos braços; do que aguarda na enxovia o dia do patibulo, do
+assassino por officio para a mulher que a chorar lhe dá esperanças de perdão. O
+instincto do sangue não adultera o da sociabilidade. A ancia d'uma affeição
+recresce, quando o opprobrio vem de todas as bôcas pedir o exilio do execrado
+de entre os homens.</p>
+
+<p>Assim se explica o enlace de Luiz com Liberata. Não ha hypocrisia no afan
+com que a procura, em todas as horas vagas do trabalho. Succedem-se os dias sem
+um vislumbre de fastio. Vem as longas noites do inverno, sem<span
+class="pn">{167}</span> outra convivencia, encontral-os sentados ao fogão,
+contando-se mutuamente lances de duas biographias, que muitas vezes são
+saudadas com estrepitosas gargalhadas. Feitos para se encontrarem no mesmo
+atoleiro, é necessario que ahi se amem, que ahi se reconheçam, ahi se
+centralisem na mesma aspiração, e não tenham de que se envergonhar, um ante o
+outro, de infamias passadas.</p>
+
+<p>Reconheceram-se, e amaram-se.</p>
+
+<p>Pois não seria amor a soffreguidão d'aquelles beijos? Não seria amor a
+anciedade de Liberata, procurando-o, se lhe tardava vinte minutos mais, nos
+paços do concelho? Não seria amor o orgulho com que Luiz da Cunha fallava de
+sua esposa aos cavalheiros da terra?</p>
+
+<p>Devia acontecer que Luiz da Cunha ignorasse os mais triviaes rudimentos dos
+processos judiciarios. Valêra-se d'um velho amanuense que tomára sobre si a
+administração do cartorio. Entretanto, o proprietario não curava de estudar, e
+cedia ao regente uma boa parte dos seus proventos, que eram poucos.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha conhecêra um contrabandista de Chaves, que lhe picára o desejo
+de tentar fortuna pelo contrabando. Liberata não se oppunha ao arbitrio do seu
+amante. As tentativas foram prosperas, e o audacioso contrabandista aventurára
+os seus capitaes, e outros contrahidos de emprestimo em arrojadas emprezas.</p>
+
+<p>&mdash;Se a fortuna não encravar a roda&mdash;dizia elle a Liberata&mdash;em dous annos,
+iremos viver em Paris.</p>
+
+<p>E, com effeito, a roda da fortuna girava com a velocidade dos seus
+caprichos. O escrivão não curava do officio, e raras vezes pedia contas ao
+regente. As suas continuadas excursões tornaram-se suspeitas; mas, no concelho,
+ninguem zelava os interesses do fisco, e Luiz da Cunha sortia das melhores
+sêdas os arredores por preços modicos, e enviava para o Porto e Braga valiosas
+carregações. No fim de dous annos, o contrabandista celebrava os annos de
+Liberata com um rico adereço comprado em Madrid, e adiava a sua sahida de
+Portugal por mais um anno, visto que não achava doze contos dinheiro
+sufficiente para de Paris metter, em grande, o contrabando em Portugal.</p>
+
+<p>Tentára uma arriscadissima entrada de sêdas, quando os guardas-fiscaes,
+logrados sempre, velavam as fronteiras<span class="pn">{168}</span> desde
+Monção a Verim. Encravou-se a roda da fortuna. As cargas foram tomadas, e o
+contrabandista prêso. Luiz da Cunha para remir-se gastou tudo que possuia.
+Liberata foi a Chaves com o precioso peculio a salvar o amante. Choraram,
+abraçando-se no carcere? Não. A antiga amante do conselheiro dizia a Luiz,
+sorrindo:</p>
+
+<p>&mdash;Vamos para Paris? Parece-me que fez neste mez seis anos que eu te fui
+buscar ao Limoeiro. É fado meu! O pior é não termos um conselheiro, que nos dê
+a sege... O mais tudo vai bem. Temos feijões em casa, e muito amor para prato
+de meio.</p>
+
+<p>As authoridades queixaram-se ao governo, allegando que o funccionario
+publico João Maria das Neves era o primeiro contrabandista. Os jornaes de
+Lisboa reproduziram a accusação. Ia ser demittido, quando o ministro se achou
+coacto por um dos seus amigos que lhe citou uma historia d'uns quatrocentos mil
+reis...</p>
+
+<p>O escrivão continuou funcionando. Vendeu o adereço de Liberata, e tentou
+novas aventuras em pequena escala. A sorte sorriu-lhe outra vez, com quanto as
+denuncias o rodeassem de perigos. Liberata acompanhava-o galhardamente nas
+emprezas. Montava com varonil perfeição. Grudava um bigode com gracioso
+arreganho; vestia um casaco de peles: cruzava com a perna em brunida bota
+d'agua um bacamarte, e lançava com um piparote para a nuca o chapéo sevilhano.</p>
+
+<p>&mdash;Era esta a mulher que eu devia ter encontrado aos quinze annos!&mdash;dizia o
+filho de Ricarda.</p>
+
+<p>Em 1845 o escrivão estava remido do preço com que comprára a liberdade dois
+anos antes. Resolvêra dar o ultimo assalto á vigilancia dos guardas. Eram doze
+cargas de panos d'alto preço, que podiam augmentar seis mil cruzados ao seu
+peculio. Deviam entrar por Almeida.</p>
+
+<p>Luiz da Cunha apresentou-se ahi com a corajosa Liberata. As cargas pisaram
+algumas milhas de territorio portuguez, quando os guardas a cavalo, a toda a
+brida, lhe vinham no alcance. Os almocreves aperraram os bacamartes, com o
+contrabandista à frente. Liberata não se afastára de ao pé do seu amante.
+Travou-se um vivo tiroteio. Augmentaram os guardas. As cargas foram tomadas;
+dous almocreves morreram. Luiz da Cunha fugiu, e<span class="pn">{169}</span> a
+destemida cavalleira, com a clavina despejada, esporeava ao lado d'elle.</p>
+
+<p>&mdash;Estás salvo&mdash;disse ella&mdash;mas eu estou ferida.</p>
+
+<p>&mdash;Ferida! aonde?</p>
+
+<p>&mdash;No peito... e creio que morrerei!</p>
+
+<p>&mdash;Não digas tal... Apeia-te.</p>
+
+<p>&mdash;Não, que ouço ainda o tropel de cavallos. Quero que te salves... Se eu
+cahir, não me levantes, que me não dás vida.</p>
+
+<p>Galoparam alguns minutos. Pararam. Já se não ouvia o ruido dos cavallos nas
+extensas veigas de Pinhel.</p>
+
+<p>&mdash;Apeemos&mdash;disse Luiz.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim... Estou quasi morta, Luiz... Desaperta-me este collete... Vês?</p>
+
+<p>&mdash;Vejo sangue...</p>
+
+<p>&mdash;É no coração que eu sinto a bala. Isto não tem remedio...</p>
+
+<p>&mdash;Vamos a Pinhel... Torna a montar, minha filha.</p>
+
+<p>&mdash;Não posso, nem me importa morrer aqui ou em Pinhel.</p>
+
+<p>&mdash;Isto é atroz!... Não te posso salvar!...</p>
+
+<p>&mdash;Salvaste-me, Luiz. Morro contente assim... Agora é que as nossas contas
+estão saldadas. Tu tiraste-me da morte da alma, e eu quiz defender-te da morte
+do corpo. É um bom fim o meu! As mulheres virtuosas... raras são as que assim
+morrem... Se me não encontrasses perdida de todo, não poderias nada sobre
+mim... Fogem-me os sentidos, Luiz... É a vida... Deixa-me expirar bem perto do
+teu coração... Como é bom morrer-se com o perfeito juizo para se conhecer a
+pessoa que se deixa... com tanta saudade.. Que dôr!... o peor é deixar-te
+pobre... e... só... no mundo.</p>
+
+<p>Liberata expirou.</p>
+
+<p>As primeiras e ultimas lagrimas de Luiz da Cunha cahiram sobre as faces
+mortas d'essa mulher......</p>
+
+<p>São quatro horas da madrugada.</p>
+
+<p>Bateram á porta do parocho da matriz de Pinhel. O padre vem á janella e vê
+um vulto disforme na escuridão.</p>
+
+<p>&mdash;Quem é?</p>
+
+<p>&mdash;Um passageiro que pede a v. s.ª licença para poder<span
+class="pn">{170}</span> enterrar o cadaver d'um seu companheiro de jornada,
+morto de repente.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não concedo que se enterre ninguem sem ordem da authoridade civil. Não
+conheço o senhor, e não sei se se trata de esconder algum crime debaixo das
+telhas sagradas. Espere que seja dia para se lavrar auto, e depois fallaremos.</p>
+
+<p>O compassivo pastor deu-lhe com a janella na cara, e retirou-se instado por
+uma voz roufenha de mulher que lhe recommendava carinhosamente que se não
+constipasse, que estava suado.</p>
+
+<p>Era saber muito!</p>
+
+<p>Luiz da Cunha pousou o cadaver na parede do adro. Ouviu passos. Eram
+jornaleiros que sahiam para o trabalho. Chamou dous com promessa de boa paga.
+Mandou-os abrir uma sepultura no adro. Desceu a depositar o cadaver. Beijou-o
+na face. Assistiu ao attêrro. Pagou aos operarios, e montou o cavallo de
+Liberata, que farejava o sangue de sua dona.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda me não venceste, demonio!&mdash;Hei de vingar-me da sociedade que me
+quebrou o ultimo amparo! Hei de vingar-te, Liberata!</p>
+
+<p>Era um como rugido facinoroso esta exclamação.<span class="pn">{171}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION001180">XVIII.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION001181">A LUZ DO AMOR NAS TREVAS DA DEMENCIA.</a></h2>
+
+<p>Desde agosto de 1842, época da apparição de Luiz da Cunha em Lisboa,
+Assucena cahiu n'uma tristeza inconsolavel, n'um ancioso desejo de morte que,
+continuamente, pedia a Deus, apesar dos seus principios de resignação, e
+abandono á vontade divina.</p>
+
+<p>Nem Rosa Guilhermina, nem o padre Madureira podiam nada contra a
+misanthropia da neta do arcediago. Receavam-lhe a demencia, porque, muitas
+vezes, eram desconnexas as suas ideias, e incompativeis até com a sua
+religiosidade. Tentaram sahir com ella, por consentimento do visconde condoido,
+a uma distracção em viagem. Assucena recusava-se, e rejeitava com enfado as
+opportunas instancias de sua mãe.</p>
+
+<p>Queriam adivinhal-a, e não achavam vereda que os guiasse. Sabiam que a sua
+devoção era cada vez mais fervente, e descobriram os cilicios com que cingia a
+cintura, e as disciplinas que lhe arrancavam gemidos alta noite.</p>
+
+<p>As admoestações não aproveitavam nada. Esperavam todos os dias encontral-a
+douda, e o que de certo lhe faltava, para que assim a julgassem, era alguma
+acção peccaminosa, que desmentisse a rigidez do seu ascetismo.</p>
+
+<p>Nunca perguntou por Luiz da Cunha, mas pedia sempre á Virgem Mãe que fosse a
+protectora d'elle, e o remisse da condemnação eterna, descontando-lhe os
+sofrimentos d'este mundo.</p>
+
+<p>E seguiram-se assim, sem alteração para Assucena, os dias de seis annos. Em
+1848 morreu a filha do arcediago<span class="pn">{172}</span> quasi
+repentinamente: mas desde muito que o seu testamento estava feito. Assucena era
+herdeira d'uma quinta no Minho, unica disposição que a mulher de José Bento
+podia legar.</p>
+
+<p>Este golpe confirmou as conjecturas do padre Madureira. Assucena teve
+passageiros accessos de demencia. Convalescida, ordenou ao padre que lhe
+trouxesse um tabellião. Á solemnidade e bom tino da supplica, não resistiu o
+padre desconfiado.</p>
+
+<p>Assucena dava o uso-fructo da sua quinta ao beneficiado Madureira, em quanto
+vivo, com a condição de elle fazer cumprir o legado de tres missas diarias: uma
+por alma do conego Bernabé Trigoso; outra por alma de D. Perpetua Trigoso; e
+outra por D. Rosa Guilhermina, sua mãe. Por morte do padre, a quinta passaria á
+Santa Casa da Misericordia com as mesmas condições para sempre.</p>
+
+<p>Madureira, sabendo nas vesperas da partida, que Assucena se retirava para a
+sua quinta de Caldellas, na provincia do Minho, admoestou, supplicou, mas não
+conseguiu demovêl-a do proposito.</p>
+
+<p>&mdash;A minha sahida d'esta casa&mdash;dizia ella&mdash;é o maior sacrificio que eu posso
+fazer. Deus m'o acceitará, porque no serviço de Deus me sacrifico. Preciso ser
+grata aos bemfeitores mortos, e ao vivo: os suffragios para os mortos, e a
+posse d'esta quinta, meu purgatorio e paraizo, para o meu bemfeitor.</p>
+
+<p>&mdash;E deixa o seu bemfeitor com tamanha presença d'espirito, senhora D.
+Assucena!</p>
+
+<p>&mdash;Deixo-o com a mais violenta dôr de coração. É o cilicio com que martyriso
+o meu espirito. Deus me levará em conta esta renuncia da convivencia com o meu
+bom amigo.</p>
+
+<p>Madureira não podia constrangêl-a, receando abreviar uma loucura
+irremediavel.</p>
+
+<p>Acompanhou-a ao Minho, na primavera de 1849. Estiveram alguns dias no Senhor
+do Monte, onde a melancolia de Assucena parecia desopprimil-a, alargando-lhe o
+coração pela amplitude do céo, que, n'aquelle local, convida a um scismar
+suavissimo, a uma santa saudade d'outra existencia, que deve ter precedido a
+das dôres terrenas.</p>
+
+<p>A quinta de Caldellas é um eden. As aguas prateadas<span
+class="pn">{173}</span> do rio Homem banham-lhe as orlas verdejantes. Por entre
+as franças das acacias, enastradas no salgueiro, suspira a viração rescendente
+do perfume das flores maninhas. Em antigos tempos, o genio bucolico de um
+possuidor creára alli tudo que a invenção póde realisar de mais viçoso, de mais
+lympida frescura, de mais poetico devaneio.</p>
+
+<p>O edificio é antigo, d'essa pittoresca architectura, sem escóla, respigada
+em todos os modêlos, e acizelada pela phantasia do que ahi quizera eternizar
+debaixo d'esse formoso céo os prazeres innocentes d'outras eras, d'outros
+idilios que raros corações concebem hoje.</p>
+
+<p>Aos lados da magestosa entrada, erguem-se os cyprestes seculares, outr'ora
+confidentes de segredos que a mão do amor lhes entalhára na casca, perecedoura
+como tudo em que o homem quer perpetuar-se.</p>
+
+<p>É essa a herança da neta do arcediago. Ahi fugiram tres mezes em deliciosos
+instantes a padre Madureira.</p>
+
+<p>Chamavam-no a Lisboa as suas obrigações clericaes, e o quasi abandono em que
+deixára a quinta do Lumiar. Fôra, promettendo á lacrimosa Assucena, vir ahi
+passar todos os estios. Deixára-a acariciada pela velha serva que já o fôra do
+conego Trigoso. Dispôz o arrendamento da quinta para evitar á nova possuidora
+canceiras d'administração. Afflictivo fôra aquelle adeus! Assucena dos braços
+d'elle corrêra a lançar-se aos pés da cruz.</p>
+
+<p>E, depois, o oratorio, a capella, as devoções eram a sua vida. Ninguem a
+encontrava fóra dos muros da quinta. Os proprios caseiros viam-na apenas
+atravéz de um véo negro, no côro da capella em dias santificados.</p>
+
+<p>Os symptomas d'um transtorno intellectual eram sensiveis cada vez mais, não
+para ella que, toda absorta em Deus, não tinha ensejo de comparar-se com os
+moradores da terra; mas para a consternada velha que, de perto, lhe observava
+os gestos, os temores pueris, as visões beatificas, e até a imaginaria
+convicção de que o conego, em fórma de cherubim, a visitava em sonhos.</p>
+
+<p>E, se acontecia descer, á tarde, ás margens do rio, sentia refrigerar-se no
+coração, respirava alto, sorria-se aos gratos risos da natureza, punha a mão no
+seio que se agitava em estranhas commoções d'um sentimento incognito, de uma
+saudade inexprimivel. E, de repente, ao<span class="pn">{174}</span> riso
+succediam as lagrimas; á instantanea frescura das rosas da face a pallidez do
+susto. Assucena fugia, dizendo que offendêra o Senhor com pensamentos mundanos.
+Fechava-se no seu quarto, soluçando a cada vergoada que se abria no corpo com
+as disciplinas.</p>
+
+<p>Em 1850, padre Madureira veio ao Minho, e viu que a molestia progredia.
+Empregou uma religiosa severidade para arrancál-a á mystica exaltação; mas era
+tarde. O disparate principiava nas devoções de Assucena. Não queria entrar na
+capella, sem aspergil-a com agua-benta, por isso que vira erguer-se um homem
+amortalhado sobre o carneiro onde dormia o somno de duzentos annos o fundador
+d'aquella casa.</p>
+
+<p>Um habil confessor não podéra aclarar o espirito enturbado da mysteriosa
+senhora. Imaginando-a em lucta com alguma paixão desditosa, franqueava-lhe as
+portas do mundo para que se não perdesse na região das chimeras. Assucena
+respondia com lagrimas ao confessor, e, apertada pela explicação das lagrimas e
+do silencio, gritava pela misericordia divina.</p>
+
+<p>Madureira, despedindo-se d'ella no outomno de 1850, foi seguro de que não
+tornaria a vêl-a senão douda.</p>
+
+<p>Previra bem.</p>
+
+<p>Quando, em 1851, voltou, foi recebido com uma gargalhada. Assucena estava
+vestida com o seu chambre de cassa branca, e sapatos de duraque em fitas
+cruzadas nas pernas. Eram trastes dos dezoito annos, conservados ainda nos seus
+bahús de educanda. O padre respondeu com o pasmo e com as lagrimas á
+gargalhada.</p>
+
+<p>&mdash;Porque chora?&mdash;disse ella, com tristeza.</p>
+
+<p>&mdash;Porque choro? Oh minha filha!... não me pergunte porque choro...</p>
+
+<p>&mdash;Tambem eu chorei, meu amigo, quando me disseram que o desgraçado tinha
+fome...</p>
+
+<p>&mdash;Quem?</p>
+
+<p>&mdash;Pois, quem!? Luiz da Cunha, esse verme que todos pizam, desde que me
+mordeu no coração. Se eu lhe perdoei, para que o perseguem? Deixem o infeliz! A
+deshonrada, a infamada, a martyr, fui eu... Não quero que ninguem me vingue...</p>
+
+<p>&mdash;Assucena!...<span class="pn">{175}</span></p>
+
+<p>&mdash;Se eu fosse outra, procurava-o na cadêa... Fui eu que o abandonei
+primeiro... quando o meu padrasto o pôz a ferros... Que me importava a mim a
+sociedade! Quem me vem consolar das torturas que me tem custado este
+abandono!?...</p>
+
+<p>&mdash;Isto parece incrivel, meu Deus!&mdash;exclamava o padre, voltando a face dos
+olhos abrazados de Assucena.</p>
+
+<p>&mdash;Não me fuja, senhor padre Madureira. O senhor não tem culpa nos meus
+infortunios. Ha de sempre lembrar-me que levou o dinheiro ao desgraçado, e que
+lhe deu um bocado de pão, quando elle disse que tinha fome... Ouça-me... Onde
+está Luiz?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei, senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Pois eu quero vêl-o para perdoar-lhe...</p>
+
+<p>&mdash;O seu perdão não melhora os infortunios d'elle. Deus é que perdôa...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim, Deus...</p>
+
+<p>Assucena fugira da sala impetuosamente bradando: «Deus! Deus!» Madureira
+seguiu-a, e encontrou-a no seu quarto de joelhos, com os labios collados no
+pavimento, diante do oratorio.</p>
+
+<p>Levantou-a, e viu-lhe os olhos embaciados d'aquella nevoa cinzenta da gôta
+coral. Sentou-a ao pé de si, e disse-lhe com voz tremula de compuncção:</p>
+
+<p>&mdash;Minha filha... Venha comigo para Lisboa...</p>
+
+<p>&mdash;Deus me livre! Elle ha de aqui vir ter.</p>
+
+<p>&mdash;Luiz da Cunha?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Viu-o alguma vez n'estes sitios?&mdash;perguntou o padre suspeitoso.</p>
+
+<p>&mdash;Vi... passou, ha um anno, na estrada. Estava eu no portão pela parte de
+dentro. Espreitei, quando ouvi o tropel d'um cavallo. Era elle.</p>
+
+<p>&mdash;Fallou-lhe?</p>
+
+<p>&mdash;Não; nem elle podia vêr-me... Tem as barbas até á cintura; vestia uma
+jaqueta de pelles, e ia tão triste, tão macilento!... Teria elle fome?</p>
+
+<p>&mdash;E se elle lhe pedisse de comer?</p>
+
+<p>&mdash;Dava-lhe tudo quanto tenho! Para que quero eu esta casa, esta quinta,
+estas cadeiras, esta camiza, se eu morro muito cêdo?! Que venha, e eu dou-lhe
+tudo! Não<span class="pn">{176}</span> quero que o persigam, já disse! Hei de
+accusar diante de Deus quem o matar!</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Padre Madureira viveu na quinta de Caldellas alguns mezes. Quando se
+retirou, deixou Assucena aos cuidados de um egresso, vindo de Lisboa por
+escolha d'elle. Era irremediavel a demencia. Assucena recusava receber
+facultativos, e irritava-se em frenesis quando lhe pediam que se deixasse
+visitar por um medico. Se fugia á vigilancia do egresso, ia ao portão fitar o
+ouvido; ouvindo tropel de cavallo, espreitava; desenganada da sua louca
+esperança, sentava-se na pedra, chorando com mavioso mimo, com infantil
+resentimento, até que o seu guarda, inventando promessas, a conduzia a casa.</p>
+
+<p>E nunca a tão bella alma d'aquella mulher resurgiu das trevas!</p>
+
+<p>Aos longos dias da desgraça seguiu-se a longa noite da demencia!<span
+class="pn">{177}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION001190">XIX.</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION001191">UM VEIO NOVO A EXPLORAR.</a></h2>
+
+<p>E Luiz da Cunha?</p>
+
+<p>Deixára Liberata na sua ultima paragem, e fôra ao concelho de Ribeira de
+Pena exercer o seu officio. Os lucros de dois annos de contrabando perdêra-os
+na fatal tomadia. Estava, outra vez, pobre: faltava-lhe a coragem animadora de
+Liberata; cahiu n'um estupôr moral, em que o pensamento do suicidio muitas
+vezes lhe esvoaçou sobre o cabo do punhal, sem poder entrar com elle no
+coração. Luiz da Cunha não podia aniquilar-se.</p>
+
+<p>Os jornaes gritaram contra o empregado publico, de novo contrabandista. O
+ministro, que já não era o mesmo que o despachára, demittiu-o. Demittido,
+desencadearam-se contra elle as malevolencias do concelho, onde nunca praticara
+erro de officio, que não dirigia, nem extorsão, que não precisava. Retirou-se
+para o Porto, onde chegou na memoravel noite da resistencia á contra-revolução
+de 9 de Outubro de 1846. Associou-se ao motim popular que prendêra o duque da
+Terceira. Deu morras ao ministerio reaccionario, indicando-se victima dos
+Cabraes.</p>
+
+<p>Entrou no serviço da junta governativa, foi tenente quartel mestre d'um
+batalhão de artistas, alcançou o despacho de director d'uma alfandega da raia,
+e distingiu-se com bravura em Torres Vedras, e Val-Passos.</p>
+
+<p>Quando os hespanhoes interventores entraram em Valença, o tenente quartel
+mestre arrostou com impotente heroismo o collosso. Metteu-se debaixo das balas,
+e as balas,<span class="pn">{178}</span> cruzando-se-lhe em redor, respeitaram
+aquelle homem, que parecia ter o sêllo invulneravel do primeiro assassino, a
+prerogativa de Caim.</p>
+
+<p>Desarmada a junta suprema, Luiz da Cunha ficou no Porto, vivendo de pequenos
+emprestimos que alguns amigos politicos lhe faziam, e de pequenas esmolas que
+algum membro da junta patrioticamente lhe dava. Assim viveu até 1850, na agua
+furtada de uma estalagem da rua de S. Sebastião, d'onde foi expulso porque não
+pagava. Casualmente, deparou um seu conhecido camarada que servira a junta,
+como sargento de cavallaria. Convidado por elle, foi ser seu hospede ahi para
+os sitios do Marco de Canavezes. Luiz da Cunha conheceu que o seu hospedeiro
+amigo era um homem tambem mysterioso. O ex-sargento de cavallaria, nos
+primeiros dias, teve a delicadeza de não catechisar o seu hospede aos
+principios da communidade sem as theorias socialistas. Fartava-o regaladamente
+á sua mesa; levava-o de patuscada a casa da sua amazia; punha á sua disposição
+uma rica egua de raça para passeios, e ensinava-o a matar perdizes com
+finissima pontaria.</p>
+
+<p>Uma noite acabavam de cear, e Luiz da Cunha historiou o mais
+sentimentalmente que podia a morte da heroica Liberata. José do Taboado (era a
+graça do hospitaleiro), enthusiasta pela gloria, propôz uma ovação á memoria de
+Liberata, a qual, como todas, foi freneticamente recebida pela senhora Joaquina
+Vêsga, intima do proponente, e bem aceita ao hospede enternecido.</p>
+
+<p>&mdash;Meu caro Neves!&mdash;disse, depois, José do Taboado&mdash;acabemos com isto! Queres
+ser dos meus?</p>
+
+<p>&mdash;Se quero ser dos teus?</p>
+
+<p>&mdash;Franqueza, e viva amizade! Sabes quem sou?</p>
+
+<p>&mdash;Sei que és um excellente amigo...</p>
+
+<p>&mdash;Dos meus amigos; mas inimigo dos ricos. Eu sou chefe d'uma quadrilha de
+salteadores. Tira o chapéo na minha presença!</p>
+
+<p>&mdash;Cá estou descoberto...&mdash;disse Luiz, sorrindo-se, e descobrindo-se.</p>
+
+<p>&mdash;Agora cobre-te. Enche esses copos, Joaquina... Á tua saude, Neves! Á saude
+do meu chefe de estado maior! Aceitas?<span class="pn">{179}</span></p>
+
+<p>&mdash;Aceito!</p>
+
+<p>&mdash;Toca!&mdash;E deram-se as mãos com vertiginoso transporte.</p>
+
+<p>&mdash;Serás rico em pouco tempo...&mdash;continuou o chefe&mdash;para que diabo queres tu
+as excellentes forças que tens? Como é que cumpres o protesto de vingança que
+fizeste, quando te mataram Liberata, porque roubavas a fazenda nacional?</p>
+
+<p>&mdash;Tens razão......................</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Dias depois os jornaes do Porto pediam força para debellar uma poderosa
+quadrilha de ladrões que assaltavam as casas famosas em dinheiro. Citaram a
+morte d'uma senhora, rica proprietaria do Douro; a de um padre muito rico das
+circumvisinhanças de Villa Real; e varios assaltos em fórma a casas inutilmente
+defendidas. Um destacamento de infanteria dera caça aos salteadores, que
+resistiram com intrepidez admiravel. Contava-se o heroismo do chefe, que
+saltava vallados com um ferido no arção da sella. O ferido era Luiz da Cunha.</p>
+
+<p>Não obstante a escaramuça, a cohorte estendia por longe o
+terror. Proprietarios isolados refugiavam-se nas
+povoações, e as povoações velavam armadas com os olhos fixos nas fogueiras que
+os ladrões acendiam nas quebradas das serras. Ninguem, porém, ousava
+desalojal-os das suas tendas. As almenaras ardiam até ser dia; as roldas e
+sobre-roldas velavam durante a noite, e Luiz da Cunha, abraçado á sua clavina
+de dous cannos, dormia tranquillo com a face sobre os apparelhos da sua egua
+fiel.</p>
+
+<p>José do Taboado não mentira. O filho de João da Cunha e Faro tinha ouro,
+muito ouro, podia retirar-se com um passadio honesto, e adquirir até uma
+reputação honrada. O seu pensamento era passar á Africa em 1853, com o louvavel
+intuito de commerciar em generos licitos com a metropole. José do Taboado
+promettêra-lhe acompanhal-o, e, para isso, liquidava os ultimos saldos com
+alguns proprietarios, incursos na condemnação de Proudhon.</p>
+
+<p>O filho de Ricarda tinha quarenta e um annos. Julgal-o-iam de cincoenta; mas
+os cabellos brancos não tinham nada com o vigor feroz da alma. O seu fito era
+voltar<span class="pn">{180}</span> a Lisboa, rico, alardeando a passada
+infamia, com tanto que arrastasse com correntes de ouro após si o respeito
+publico. Desejava lançar aos pés de Assucena esse dinheiro que ella lhe
+emprestára. Desejava levantar no cemiterio publico um faustuoso monumento a
+Liberata, como insulto ás mulheres do «grande mundo.» Quatro annos de fortuna,
+e o seu sonho seria visto á luz da realidade! A sua fama teria alguma cousa de
+horrivel heroismo. O seu nome, partido o braço vingativo, seria levado aos
+vindouros como a tradicção d'um meteoro que abrira um rasto de fogo entre os
+homens.</p>
+
+<p>José do Taboado, que não se alteava ás concepções arrojadas do camarada,
+admirava-o como um grande homem, gostava de ouvil-o, e dizia que a sua
+linguagem não parecia d'um simples escrivão do juizo ordinario. Levava-o a casa
+de cavalheiros de nome, que hospedavam affavelmente o salteador (não importa
+explicar o disparate), e os cavalheiros maravilhavam-se do estylo puritano do
+supposto Neves, e mais ainda da vasta noticia que elle dava de paizes
+estrangeiros, dizendo, ao mesmo tempo, que nunca os vira.</p>
+
+<p>Encontraram-se uma noite em casa d'um fidalgo de Basto, onde concorreram
+outros, discutindo linhagens. Excepto os presentes, que eram todos
+representantes de illustres governadores das possessões portuguezas, todos os
+outros eram netos de almocreves, de lavradores, e até de ciganos, afóra os
+eivados de sangue judeu, que eram muitos.</p>
+
+<p>Um dos detractores citou, como em distracção, seu tio João da Cunha e Faro.
+Luiz, agitado por tal nome, prendeu astutamente o incidente do parentesco á
+conversação, dizendo que conhecêra João da Cunha e Faro, em Lisboa, onde fôra
+caixeiro em 1838. Perguntou se morrêra.</p>
+
+<p>&mdash;Morreu doudo&mdash;respondeu o senhor Bernardo de Malafaia e Alvim de Castro e
+Leite Pereira de Menezes e Sá Corrêa de Sepulveda e Cunha e Faro &amp;c.
+&amp;c. &amp;c.&mdash;Morreu doudo. Foi o malvado bastardo que o matou.</p>
+
+<p>&mdash;O bastardo?!&mdash;atalhou Luiz.</p>
+
+<p>&mdash;Sim: o filho d'uma mulata que elle roubou em Coimbra...<span
+class="pn">{181}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sabes se já morreu esse homem?&mdash;perguntou um senhor com quinze appellidos.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei; mas é de crêr que sim. Ainda vos não contei a passagem dos ossos?</p>
+
+<p>&mdash;Já; mas conta-a ao amigo Neves, que é romantica.</p>
+
+<p>&mdash;Pois lá vai. Haverá sete annos que eu fui a Lisboa e hospedei-me em casa
+de meu primo Ignacio da Cunha, que succedeu no vinculo de meu tio João da
+Cunha. Era no verão, e resolvemos passar alguns dias n'uma bonita casa de campo
+que meu primo tem em Bemfica. Foram comnosco o primo Alvaro de Castro, o primo
+conde de Santa Justa, o primo D. Pedro de Malafaia, o primo D. Antonio de
+Alvim, o tio Monsenhor Menezes, &amp;c. &amp;c. &amp;c. Estavamos sentados
+debaixo d'um caramanchão, e disse o primo João da Cunha, apontando para a álea
+das amoreiras: «Alli foi que morreu a amante de meu tio João.» Contou-nos que
+um velho criado, morto alguns mezes antes, lhe contára tudo, e lhe dissera o
+sitio onde fôra enterrado o marido e assassino d'essa tal Ricarda, porque os
+criados deram cabo d'elle.</p>
+
+<p>Quando ouvimos isto, tivemos, todos á uma, desejos de procurar os ossos do
+tal marido. No outro dia, viemos cavar no sitio, e com effeito demos com os
+ossos, e o primo D. Antonio de Alvim, mexendo na terra, encontrou um riquissimo
+annel de brilhantes com uma enorme esmeralda. Procuramos mais, e achamos a
+folha de um punhal com as letras que diziam «Rio de Janeiro.» Não topamos mais
+nada. O que eu posso dizer-lhe, senhor Neves, é que o annel foi vendido por
+duzentas moedas, por signal que o primo Ignacio da Cunha as perdeu todas contra
+um valete, em casa do primo D. José de Castro e Alvim.</p>
+
+<p>&mdash;É uma interessante historia!&mdash;disse Luiz da Cunha em abstracta
+meditação&mdash;E a tal brazileira onde foi enterrada?</p>
+
+<p>&mdash;Na igreja, é o que disse o tal criado.</p>
+
+<p>&mdash;E o filho d'essa brazileira era o tal bastardo que matou o pae!</p>
+
+<p>&mdash;Justamente.</p>
+
+<p>&mdash;E não acha que o pae foi bem morto pelo filho?</p>
+
+<p>&mdash;Homem! essa é de cabo de esquadra!<span class="pn">{182}</span></p>
+
+<p>&mdash;Se o tio de v. exc.ª, o senhor João da Cunha, foi causa da morte da mulher
+d'esse homem, não era justo que o filho de tamanho crime fosse o verdugo do
+pae, a viva reminiscencia d'esses dous cadaveres, o aguilhão constante de
+remorso que o enlouqueceu?</p>
+
+<p>&mdash;O nosso amigo está muito rasoavel nos seus discursos... Essas doutrinas
+são de bons tempos...</p>
+
+<p>&mdash;E o caso é que elle diz bem!&mdash;atalhou um fidalgo depondo as cartas do
+voltarete&mdash;o filho foi o instrumento com que a Providencia castigou o pae.</p>
+
+<p>&mdash;Então, n'esse caso, muita gente pagou innocentemente&mdash;replicou o senhor
+Bernardo de Malafaia &amp;c.&mdash;O tal bastardo foi o açoute da humanidade. Perdeu
+umas poucas de mulheres, matou outras, esteve prêso nas Antilhas por pirata...
+fez o diabo.</p>
+
+<p>&mdash;E, por fim, é natural que se suicidasse...&mdash;disse Luiz da Cunha.</p>
+
+<p>&mdash;É o que elle devia ter feito ha muito&mdash;concluiu o expositor da scena dos
+ossos.</p>
+
+<p>O filho de Ricarda projectou ajuntar ás suas futuras obras um monumento a
+sua mãe.<span class="pn">{183}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION001200">CONCLUSÃO.</a></h1>
+
+<p>São 24 de Setembro de 1853.</p>
+
+<p>É meia noite.</p>
+
+<p>Assucena pergunta ao egresso inseparavel:</p>
+
+<p>&mdash;Que barulho é esse que fazem lá dentro?!</p>
+
+<p>&mdash;Já disse a v. exc.ª que os caseiros, sabendo que uma quadrilha de ladrões
+apparecêra ao anoitecer na freguezia de S. Vicente, recearam que esta casa seja
+atacada, porque dizem lá por fóra que vive aqui uma senhora muito rica.</p>
+
+<p>&mdash;Eu muito rica! Já o fui... agora não tenho nada...</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim; mas os ladrões não se persuadem d'isso, e quem sabe se virão cá?
+Os caseiros, á cautella, chamaram gente, e tratam de se pôr em defeza no caso
+que elles ataquem. V. ex.ª ainda que ouça tiros não tenha medo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas de que serve matal-os?! Se quer, eu vou dizer-lhes que não tenho nada,
+e elles vão-se embora.</p>
+
+<p>&mdash;As cousas não correm assim, minha senhora. Salteadores não acreditam na
+palavra das damas. O melhor é defender-se cada qual, e eu estou certo que
+elles, em lhe zunindo o chumbo pelos ouvidos, vão prégar a outra freguezia.</p>
+
+<p>O ruido de passos e vozes augmentou na sala. O egresso chamou a criada para
+ao pé de Assucena, e foi juntar-se ao povo.</p>
+
+<p>&mdash;Que temos, rapazes?&mdash;perguntou elle.</p>
+
+<p>&mdash;Os homens ahi estão.</p>
+
+<p>&mdash;Quem os viu?</p>
+
+<p>&mdash;Nós. Ouvimos estropear cavallos, e depois rugiu a ramada do portão, e
+vimos um homem, ou o diabo por elle, que saltava do muro para dentro. Depois
+buliram<span class="pn">{184}</span> na tranca e abriu-se a porta.... Quél-os
+vêr?... Olhe... senhor frei Antonio.... olhe aqui por entre estas faias....
+Elles lá vem.... Ó rapazes, aqui é que se conhecem os homens! Quando eu disser
+«fogo» é fazer de conta que se acaba aqui o mundo... Deixa-os vir... Olha...
+quatro já eu lobrigo... Alli!... alli não se perde um quarto.... Deixa-os
+chegar mais.... É agora!... Fogo!</p>
+
+<p>Despejaram-se doze espingardas ao mesmo tempo; e á detonação succedêra uma
+infernal algazarra dos defensores.</p>
+
+<p>&mdash;Leva arriba, rapazes!&mdash;gritava o regedor aos seus&mdash;Cerca, tem mão, por
+esse lado...</p>
+
+<p>E desceram ao páteo, animados pelo recuar dos salteadores. A sineta da
+capella dava áquella infernal orchestra de berros e tiros um tiple horroroso.
+Os ladrões recuavam, sustentando o fogo: accommettiam com denodo, um momento;
+mas a população que os cercava não cedia aos impetos da cohorte, militarmente,
+organisada em batalha á voz do chefe.</p>
+
+<p>A sineta chamava chusmas de povo que affluiam disparando as armas. A
+quadrilha conheceu o perigo, e retirou accelerada; mas nem todos retiraram: um
+tinha cahido, e não se erguêra mais. Em redor d'este cadaver agglomerou-se a
+multidão. Approximaram-lhe da cara um archote de palha, e viram-lhe uma fenda
+de bala sobre a orelha direita.</p>
+
+<p>Não era menos infernal o alarido do triumpho! Pegaram no cadaver e
+levaram-no para debaixo das janellas, depositando-o sobre um banco de pedra. O
+egresso veio ao quinteiro, viu-lhe a cara, e murmurou!...</p>
+
+<p>&mdash;Pobre homem! morreu sem sacramentos!... Oxalá que tivesse um momento de
+contrição! E não está mal trajado... Deixem-no aqui ficar até amanhã, porque é
+necessario que o administrador o mande levantar...</p>
+
+<p>Entrou no quarto de Assucena que batia os dentes como n'um tremor de
+catalepsia.</p>
+
+<p>&mdash;Não tenha medo, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Mataram alguem?</p>
+
+<p>&mdash;Ficou um; mas lá vão os outros, que eram bastantes.</p>
+
+<p>&mdash;Rezemos por alma d'esse que morreu...<span class="pn">{185}</span></p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, rezemos&mdash;disse o egresso, ajoelhando ao pé d'ella.</p>
+
+<p>&mdash;Poderá salvar-se?&mdash;disse ella, interrompendo a oração.</p>
+
+<p>&mdash;Deus é pae de misericordia.</p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe se elle roubava por ter fome?...Vá vêr se elle não estará
+morto... poderemos ainda cural-o.</p>
+
+<p>&mdash;Aquelle está bem morto, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Então rezemos: <em>Padre nosso, que estaes nos ceos, sanctificado seja o
+vosso nome</em>... Não posso... Reze, senhor padre Joaquim... Eu estou muito
+afflicta... Quero tomar ar... Anna... quero-me vestir... Traz-me o meu vestido
+de seda preta de manga curta; os meus canhões de velludo preto; o meu lenço de
+ramos amarellos; a minha saia de renda; o meu chale de cazemira vermelho...</p>
+
+<p>&mdash;Está com o accesso; não traga nada&mdash;murmurou o padre ao ouvido da criada.</p>
+
+<p>&mdash;Não ouves, Anna? Então! Tambem tu me desobedeces! Ora vamos!</p>
+
+<p>&mdash;Vá, vá dar-lhe essas cousas&mdash;tornou o egresso, e sahira para que ella se
+vestisse.</p>
+
+<p>Assucena collocou-se diante do espelho.</p>
+
+<p>&mdash;Como são grandes estes cabellos!...&mdash;disse ella, puxando dois graciosos
+pinceis de cabellos, que lhe sahiam dos angulos da maxilla inferior. Procurou
+anciosa uma tesoura, e aparou-os.</p>
+
+<p>&mdash;Agora sim&mdash;disse ella com risonha satisfação&mdash;Assim estou mais bella para
+o noivado.</p>
+
+<p>A criada ajudou-a a vestir. Vestida, olhou-se outra vez ao espelho,
+enfeitando na cabeça desgrenhada o lenço dos florões amarellos, e puxando para
+a garganta a grade preta do afogado no vestido.</p>
+
+<p>&mdash;Agora, vamos.</p>
+
+<p>&mdash;Onde, minha querida senhora?!</p>
+
+<p>&mdash;Vamos passear no jardim... Quero esperal-o.</p>
+
+<p>&mdash;Esperal-o... a quem?</p>
+
+<p>&mdash;És tola! Pois não sabes que Luiz da Cunha vem receber-me esta noite?</p>
+
+<p>&mdash;Oh minha Mãe Santissima, compadecei-vos d'ella!</p>
+
+<p>&mdash;Que estás a dizer? Vens, ou vou só!?</p>
+
+<p>O egresso entrou, chamando por Anna.<span class="pn">{186}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que é?! Onde vai?!&mdash;perguntou elle a Assucena espavorida.</p>
+
+<p>&mdash;Vou esperal-o.</p>
+
+<p>&mdash;Não sahirá d'aqui... Sente-se n'esta cadeira.</p>
+
+<p>&mdash;Não quero! Vou sósinha, sem medo nenhum. O meu Luiz é valente...</p>
+
+<p>&mdash;É melhor acompanhal-a....&mdash;murmurou o padre.</p>
+
+<p>E sahiram pela porta do jardim.</p>
+
+<p>&mdash;Que linda noite!&mdash;disse ella, saltando entre os buxos.</p>
+
+<p>&mdash;Está muito fria a noite, senhora D. Assucena.</p>
+
+<p>&mdash;Fria! Ora essa! Calor tenho eu de mais no coração! Quantos annos tenho eu?
+Dezoito... Queriam que eu tornasse para as Commendadeiras! Isso sim!... Quem
+conheceu uma vez Luiz da Cunha, nunca mais o esquece... morre por elle... Sou
+sua mulher... Jurou-m'o nos braços d'elle quando eu fugia.... Porque estou eu
+aqui? Prenderam-me... fizeram bem! O amor violentado vence ou mata. Eu me
+desforrarei em risos de esposa das lagrimas que tenho chorado n'este
+desterro... Elle não tarda, e depois fujam os meus inimigos! Sim, fujam, que o
+meu esposo é muito valente!</p>
+
+<p>&mdash;Recolha-se, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Recolher-me?! ás Commendadeiras?</p>
+
+<p>&mdash;Ao seu quarto...</p>
+
+<p>&mdash;Não quero.... Deixem-me respirar.... Vamos ao portão esperal-o.</p>
+
+<p>O egresso seguiu-a.</p>
+
+<p>Ao passarem pelo quinteiro, onde estava o cadaver, com a fogueira do costume
+ao lado, Assucena perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;Que é aquillo?!</p>
+
+<p>&mdash;É o corpo do ladrão que morreu&mdash;disse o padre, querendo afastal-a.</p>
+
+<p>&mdash;Quero vêl-o... coitadinho!</p>
+
+<p>&mdash;Não veja, senhora D. Assucena... A vista não é agradavel.</p>
+
+<p>&mdash;Quero vêl-o... não tenho medo aos mortos...</p>
+
+<p>E forçou a desprendêl-a o braço do padre. Levantou um tição da fogueira,
+approximou o clarão azulado da face do cadaver,... soltou um grito que se não
+descreve,<span class="pn">{187}</span> nem se imagina, deixou cahir o lume,
+correu n'um impeto vertiginoso, com as mãos agarradas á cabeça pela quinta
+abaixo, na ladeira que conduzia ao rio Homem.</p>
+
+<p>É ocioso dizer-vos de quem era o cadaver. O primeiro momento de repouso para
+Luiz da Cunha principiava alli. Foi abençoada a bala que o salvou do patibulo.</p>
+
+<p>O egresso não podia alcançar Assucena na carreira... Gritou por soccorro,
+por ella, por Deus, por Maria Santissima. Tinha-a já perdido de vista, quando
+ouvia o chofre d'um corpo que baqueava na agua.</p>
+
+<p>No <em>Braz Tizana</em> de 24 de Setembro de 1853 lê-se o seguinte:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«<em>Um cadaver.</em>&mdash;No rio Homem, acima da ponte de Caldellas, appareceu
+o cadaver de uma mulher de trinta e seis a quarenta annos; tinha vestido de
+sêda preta, e parece ser pessoa de consideração.»</p>
+
+<p>No mesmo jornal de 28 do mesmo mez e anno lê-se o seguinte:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«<em>Signaes d'um cadaver.</em>&mdash;A mulher que appareceu morta acima da ponte
+de Caldellas, tinha os signaes seguintes: idade trinta e seis a quarenta annos;
+cabello e sobre-olho castanho-escuro; bôca e nariz regular; rosto redondo;
+labios grossos; e no queixo de uma e de outra parte alguns cabellos que
+mostravam ter sido aparados; um pequeno buço; vestido de seda preta com pouco
+uso; manga curta; canhões de velludo preto; grade preta no afogado do mesmo
+vestido, e o corpo forrado de panninho entrançado, côr de flôr de alecrim e
+vermelho, com tres espartilhos no peito; chale de cachemira vermelho em meio
+uso, com franja em volta, barra, e ramos pretos; na cabeça um lenço grande
+azul, com ramos amarellos, de algodão, e barra da mesma côr; saia de morim
+branco em bom uso com uma estreita renda em volta; saiote de baieta de seda
+branca com cinco pannos quasi novo, e um pente a fingir tartaruga rendilhado e
+moderno; camisa de panninho com manga curta. Ainda se não sabe quem seja.»<span
+class="pn">{188}</span></p>
+
+<p>Lê-se no <em>Portuense</em> de 10 de Novembro de 1853:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Ha dois mezes annunciaram os jornaes do Porto a apparição de um cadaver de
+uma senhora n'um dos rios de Braga ou Guimarães. Tornaram os jornaes a fallar
+n'este cadaver dando as mais minuciosas informações de vestidos, de
+physionomia, de idade, e até de conjecturas sobre o genero de morte que
+soffreria a supposta senhora. Seguiu-se a isto um profundo silencio e nem ao
+menos respirou a noticia de menor acto administrativo na investigação d'este
+acontecimento. Póde ser que se désse um drama muito mysterioso, com peripecias
+muito horriveis, mas o publico tem direito a perguntar se a senhora ou mulher
+foi assassinada ou se se suicidou?»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>A resposta ao <em>Portuense</em> é um livro.<span class="pn">{189}</span></p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM</p>
+</div>
+
+<table align="center" summary="Indice">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <th colspan="2">Indice</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html45" href="#SECTION00110">I.&mdash;UM BERÇO BORRIFADO DE
+ SANGUE.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html47" href="#SECTION00120">II.&mdash;O FRUCTO DA SEMENTE
+ AMALDIÇOADA.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html49" href="#SECTION00130">III.&mdash;ASSUCENA.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html51" href="#SECTION00140">IV.&mdash;CONTAGIO.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html53" href="#SECTION00150">V.&mdash;UM ANJO CAHIDO.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html55" href="#SECTION00160">VI.&mdash;ANJO CAHIDO, MAS AINDA
+ ANJO.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html57" href="#SECTION00170">VII.&mdash;PERDIDO SEM
+ REDEMPÇÃO</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html59" href="#SECTION00180">VIII.&mdash;PROVIDENCIA OU
+ ACASO?</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html61" href="#SECTION00190">IX.&mdash;HERANÇA DE VIRTUDE E
+ OURO.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html63" href="#SECTION001100">X.&mdash;COMO OS ANJOS SE
+ VINGAM.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html65" href="#SECTION001110">XI.&mdash;SÃO MUITOS OS
+ LAZAROS; MAS UM SÓ O CHRISTO.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html67" href="#SECTION001120">XII.&mdash;FASCINAÇÃO DO
+ ABYSMO.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html69" href="#SECTION001130">XIII.&mdash;EXPLOSÃO DA INFAMIA
+ REPRESADA.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html71" href="#SECTION001140">XIV.&mdash;CAVAR PARA OS OUTROS
+ A SEPULTURA, E PARA SI O INFERNO.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html73" href="#SECTION001150">XV.&mdash;LOGICA DO
+ INFORTUNIO.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html75" href="#SECTION001160">XVI.&mdash;TENHO FOME! ESTOU HA
+ TRES DIAS SEM PÃO!</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html77" href="#SECTION001170">XVII.&mdash;AS PRIMEIRAS E
+ ULTIMAS LAGRIMAS DE LUIZ DA CUNHA.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html79" href="#SECTION001180">XVIII.&mdash;A LUZ DO AMOR NAS
+ TREVAS DA DEMENCIA.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html81" href="#SECTION001190">XIX.&mdash;UM VEIO NOVO A
+ EXPLORAR.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a name="tex2html83" href="#SECTION001200">CONCLUSÃO.</a></td>
+ <td></td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's A Neta do Arcediago, by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A NETA DO ARCEDIAGO ***
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
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+
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+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
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+particular state visit http://pglaf.org
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+approach us with offers to donate.
+
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+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
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+
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+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
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+
+
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