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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:48:09 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Neta do Arcediago + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: August 20, 2009 [EBook #29740] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A NETA DO ARCEDIAGO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +</pre> + + +<div class="rodape"> +<h3>Notas de transcrição:</h3> +<p>No livro impresso a partir do qual foi feita esta transcrição, existia um grave erro de impressão na página 179, no parágrafo que começa com a frase: "Não obstante a escaramuça, a cohorte estendia por longe o terror." Este erro de impressão tornava ilegível o parágrafo, pelo que foi corrigido de acordo com uma edição das obras completas de Camilo de 1984.</p> + +<p>Foram ainda encontrados diversos erros de impressão, que por não terem qualquer impacto na interpretação do texto, foram corrigidos sem qualquer nota.</p> +</div> + + +<div style="text-align: center"> +<p> </p> + +<p> </p> +<p style="font-size: 2em;">A NETA DO ARCEDIAGO.</p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{2}</span> <span class="pn">{3}</span></p> + +<div style="border: solid 3px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 2.5em;">A NETA DO ARCEDIAGO.</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">CAMILLO CASTELLO-BRANCO.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em;">SEGUNDA EDIÇÃO.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>PORTO,<br> +EM CASA DE CRUZ COUTINHO—EDITOR,<br> +<small>Rua dos Caldeireiros, n.<sup>os</sup> 18 e 20.<br></small> +1860.<span class="pn">{4}</span></p> + +<p>PORTO: 1860—TYP. DE SEBASTIÃO JOSÉ PEREIRA,<br> +Rua do Almada, 641.<span class="pn">{5}</span></p> + +<p> </p> +</div> + +<div id="corpo"> +<h1><a name="SECTION00100">A NETA DO ARCEDIAGO.</a></h1> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00110">I.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00111">UM BERÇO BORRIFADO DE SANGUE.</a></h2> + +<p>Convém, primeiro, saber quem é este cavalheiro, que salta garbosamente d'uma +carruagem com uma dama vestida de branco, defronte do theatro de S. Carlos, em +Lisboa, em uma noite de fevereiro de 1838.</p> + +<p>Por não apurar impaciencias, diga-se tudo já. Este cavalheiro é Luiz da +Cunha e Faro. Aquella dama é... Nem tanta bondade! Não se póde dizer, por ora, +quem é a dama. Se o leitor é esperto, como supponho, ha de adivinhal-a logo, e, +de certo, fica muito contente da sua penetração.</p> + +<p>Luiz da Cunha e Faro tem vinte e cinco annos. É um homem feio, segundo a +opinião masculina, que se acha em harmonia com a sua. Não era esta, porém, a +opinião das mulheres. Algumas que por capricho, em publico, o desdenhavam como +feio, desmentiam-se em particular... Não digo que fossem todas; mas tambem não +é preciso o suffragio de todas para a reputação d'um homem feio.</p> + +<p>A que chamam v. ex.<sup>as</sup> feio? Feio é o demonio, dizia minha avó. +São e escorreito é o essencial—dizem as velhas, quando as illusões da +formosura não tem nada a fazer com ellas, nem, por isso mesmo, ellas teem +direito a optar entre o feio e o bonito.</p> + +<p>Luiz da Cunha era trigueiro; tinha a pelle bronzeada da cara pegada aos +ossos, que lhe sahiam, principalmente<span class="pn">{6}</span> os malares, em +proeminencias cadavericas. Os bordos das orbitas muito salientes contribuiam +muito para que o brilho dos olhos negros e grandes luzisse mais na escuridade +das cavernas, debroadas sempre d'um annel bastante escuro para destacar da côr +geral de azeitona. O nariz era notavel pela ausencia total do cavalete. A bôca +não se lhe via, coberta pelo bigode espêsso, que se não encaracolava nas guias, +e cahia em luzentes recurvas sobre ambos os labios. Ora aqui está o que é um +homem feio.</p> + +<p>Perguntava muita gente a razão physiologica da côr africana de Luiz, tão +diversa da alvura ingleza de seu pae João da Cunha e Faro, que, por esse +tempo, contava quarenta e cinco annos, e passava ainda por um dos bellos homens +de Lisboa.</p> + +<p>Pouca gente respondia physiologicamente a tal reparo, porque muito pouca +sabia que Luiz da Cunha era filho d'uma mulata.</p> + +<p>Agora é que ninguem poderá allegar ignorancia. Eu tenho a honra de responder +á curiosidade, que foi longo tempo a mortificação de pessoas muito sizudas.</p> + +<p>Sabia-se geralmente que o nascimento de Luiz fôra uma das multiplicadas +aventuras amorosas do fidalgo, seu pae; mas a outra metade productora, o +complemento da machina, em que o mysterioso artefacto se fabricára, isso é que +os amigos intimos de João da Cunha e Faro ignoravam.</p> + +<p>O leitor não perderia muito ignorando tambem. Ainda assim, se não quizerem +passar ao capitulo segundo, tambem nada perdem, e ficam sabendo tanto como eu.</p> + +<p>João da Cunha frequentára a universidade de Coimbra, quando era mania dos +fidalgos deixarem medrar seus filhos na seva opulenta d'uma fidalga estupidez. +Em quanto seu irmão mais velho estudava veterinaria para se não deixar enganar +em compras de cavallos, João da Cunha estudava mathematicas para se distinguir +na carreira militar.</p> + +<p>Cursava o segundo anno, com admiravel aproveitamento, quando chegou a +Coimbra um moço brazileiro, filho de portuguez, casado com uma mulata, filha +d'um rico fazendeiro de café, e fabulosamente rica, segundo era fama.</p> + +<p>A intenção do brazileiro era formar-se em naturaes<span +class="pn">{7}</span> para scientificamente explorar os vastos terrenos do +Mexico, onde seu sogro desenterrára o mais grosso do seu cabedal.</p> + +<p>E, com effeito, matriculou-se, ao mesmo tempo que sua mulher, desejosa de +cultivar o espirito, recebia em casa lições de francez, e inglez.</p> + +<p>Ricarda chamava-se ella. Não lhes quero dizer que era bonita, porque receio +que zombem da minha franca ingenuidade; porém, não chegue este capitulo ao fim, +converta-se-me esta penna em sovela, se eu não gostasse da senhora D. Ricarda, +e a não amasse com o delirio de João da Cunha.</p> + +<p>Pois elle ousou?... Ousou... Miserias inherentes ao peccado original! O +primeiro homem cahiu, e bem forte devia ser esse primeiro homem, sahido das +mãos do Creador, com toda a substancia e rigidez d'uma obra perfeita, com todas +as harmonias e segredos para desmanchar o sortilegio da tentação!... Como não +cahiria o academico, degenerado pelas fraquezas de tantas gerações que vieram +até elle, desde o Eden?</p> + +<p>Que tinha, pois, Ricarda de seductora?</p> + +<p>O que ella tinha! Sabem o que é ter um coração de lume, lume que não se +esconde, em quanto ha olhos que o dardejem em lavaredas electricas? Sabem o que +é o nervo optico, ferido d'esse galvanismo da alma, que se lhe côa nas fibras, +que se communica aos musculos, que se injecta na pupilla vertiginosa, que se +lança fóra do corpo em scintillas contagiosas, até vos pegar uma febre, que se +não cura com a quina? Sabem o que é a voluptuosidade da mulher dos tropicos? +Não crêem que o sol, a prumo, se infiltra n'ella, e a queima desde os quatorze +annos, com uma sêde insaciavel de gosos ternos, morbidos, e elanguescidos como +a requebrada cantilena d'uma carioca?</p> + +<p>Ricarda, além de tudo isto, tinha cousas de encantar. Dizia uma cousa +singela com tantos artificios de graça, de meiguice, e de cansaço, que mais +valiam as simples palavras d'ella, que os beijos mais suavemente chilreados de +uma europêa. As perolas, que tão lindo lhe faziam o sorriso brando, raro se +mostravam, porque, se os olhos diziam tudo, o sorriso não lhe vinha auxiliar os +gestos. E a flexibilidade das fórmas? Que donaire, que gentileza,<span +class="pn">{8}</span> que perfeição de estudo, ou que naturalidade tão +caprichosa em enriquecêl-a!</p> + +<p>Bem haja, pois, João da Cunha, que adorou a omnipotencia do Creador, sem +perguntar ao abbade de Salamonde a gravidade da culpa, adorando a mulher do seu +proximo, de mais a mais, seu contemporaneo. Bem haja, digo eu meio resolvido a +rasgar este periodo, se o leitor, por uma sobrenatural revelação, me não diz +que bem póde ser que o academico não esteja condemnado pela mesma razão que +Magdalena foi salva. Amar muito! Sem esta virtude, Deus sabe se a acta das +santas nos faria menção da dedicada galilea!...</p> + +<p>Não quero inculcar a santidade de João da Cunha. Creio até que o homem nunca +se lembrou d'estas honras posthumas, e a universidade, com quanto produza +grandes doutores para a mitra, ainda não deu um para a igreja. O mathematico +era capaz de renunciar á canonisação se lhe pedissem a troco o sacrificio de +abjurar o amor, que o trazia tão longe da sciencia, e tão avêsso ás obrigações +academicas, que, antes de Paschoa, tinha perdido o anno por faltas, e dissera +incriveis disparates em duas lições, que o desacreditaram.</p> + +<p>João da Cunha soubera insinuar-se na confiança do brazileiro. Era sua visita +em vespera de feriado. Fallava francez com Ricarda, e solvia, em mathematica, +as difficuldades que o obtuso marido não vencia.</p> + +<p>Seria impertinencia alongar de sobejo este episodio, que não vem ao +essencial da nossa historia. O leitor, amigo da concisão, quer que eu lhe diga +se aquella mulher de fogo se conservou incombustivel, como o amiantho, na +presença do estudante. Não, senhores. Fosse pelo que fosse, a brazileira parece +que não tinha ideias muito claras a respeito dos deveres conjugaes. Seu marido, +allucinado pela sciencia, retirou-se cá de baixo para tão alto que não podia +vêr a terra onde sua mulher vacillava ao pé de um abysmo. Acordou, uma manhã +scismando n'um <em>x</em>, que o fizera adormecer ás duas horas. Chamou sua +mulher, que o costumava saudar em francez do quarto proximo. D'esta vez não +ouviu lingua alguma das que se entendem no globo. Entrou no quarto para +contemplal-a no somno feliz de quem não estuda mathematica. Achou um leito<span +class="pn">{9}</span> vazio. Correu a casa toda, chamando-a, com sobresalto, +que não era ainda o da certeza. Nem a criada encontrou! Volveu ao quarto de +Ricarda. Reparou que sobre a commoda não estava um cofre de marfim. Era o +adereço de Ricarda: os seus brilhantes que valiam uma fortuna; os mais ricos +diamantes que deram as Minas Geraes; as melhores pedras do Novo-mundo, o valor +de quatro dotes opulentos!</p> + +<p>Desde esse dia, o brazileiro não tornou ás aulas. Sabe-se que foi curado +d'uma congestão cerebral. Viram-no, dous mezes depois, sahir de Coimbra, sem +estender a mão aos amigos, compadecidos do seu infortunio. Passára por entre +elles sem os vêr. Reputaram-no doudo, e vingaram inutilmente a affronta que o +enlouquecêra, execrando o infame João da Cunha que lhe roubára sua mulher.</p> + +<p>Mas, um dia, dez mezes depois, passára o brazileiro na rua do Ouro, em +Lisboa, e vira n'uma taboleta de ourives um annel com uma esmeralda, cravejada +entre doze brilhantes.</p> + +<p>—Quanto pede por este annel?—perguntou elle.</p> + +<p>—Dous contos de reis.</p> + +<p>—Comprou as pedras separadas, ou o annel?</p> + +<p>—Comprei o annel.</p> + +<p>—Ha muito tempo?</p> + +<p>—Ha dous mezes.</p> + +<p>—O vendedor era portuguez?</p> + +<p>—Creio que sim.</p> + +<p>—Garantiu-lhe a legitima venda de que era seu? Creio que me não entende... +Tem a certeza de que este annel não fosse um roubo?</p> + +<p>—O cavalheiro que m'o vendeu é um fidalgo.</p> + +<p>—Conhece-o?</p> + +<p>—Conheço, sim...</p> + +<p>—Desculpe estas perguntas, porque eu quero comprar o annel, e não o faria +sem a certeza de que ámanhã me fizessem as perguntas que eu lhe fiz.</p> + +<p>Pouco depois, o ourives recebia dous contos de reis por um annel que +comprára por cincoenta moedas. Contente da veniaga, esquecêra-se da reserva que +lhe fôra pedida, quando o comprou, a respeito do vendedor. A alegria fizera-o +indiscreto e expansivo. Dous contos de reis<span class="pn">{10}</span> era +dinheiro para trinta Judas, e demais o ourives não sabia o valor do segredo.</p> + +<p>—Visto que me comprou o annel, vou dizer-lhe quem m'o vendeu; mas v. s.ª +guarde segredo, não porque seja um furto; mas porque é um melindre. Este annel +foi-me vendido por um dos primeiros fidalgos de Lisboa; mas o homem pediu o +segredo do seu nome, para que o não julguem em más circumstancias. A v. s.ª +posso dizer-lhe o nome...</p> + +<p>—De certo póde, mesmo porque eu estou em vesperas de embarcar para o +Brazil, que é o meu paiz.</p> + +<p>—Lá me pareceu logo que v. s.ª era brazileiro... Por cá não ha quem dê +assim dinheiro por uma obra de gosto... Pois, senhor, o ex-possuidor d'este +annel foi Antonio da Cunha e Faro, e quem aqui m'o vendeu, com ordem sua, foi +seu filho João.</p> + +<p>—Penso que conheci em Coimbra esse cavalheiro—disse com mal fingida +serenidade o marido de Ricarda.</p> + +<p>—Póde ser, porque segundo ouvi dizer, o tal senhor João da Cunha estuda em +Coimbra.</p> + +<p>—Pensei que esse sugeito não estava em Lisboa.</p> + +<p>—Ha quinze dias de certo estava; se quer fallar com elle para ir seguro do +que lhe digo, ainda que eu lhe prometti de não dizer quem me vendeu o annel, +póde v. s.ª procural-o em casa de seu pae no Campo Grande.</p> + +<p>—Não duvido da sua palavra.</p> + +<p>O brazileiro passou a noite d'esse dia encostado ás arvores fronteiras do +palacete de Antonio da Cunha. De madrugada vira entrar um embuçado, que se lhe +afigurou João da Cunha. Ao escurecer d'esse dia viu sahir o mesmo vulto +suspeito, e seguiu-o. No Campo Pequeno viu-o entrar numa sege de praça, que +desappareceu pela estrada transversal.</p> + +<p>Na noite immediata, a pouca distancia da sege, que esperava João da Cunha, +estava um cavalleiro encoberto pelo muro da quinta do conde das Galveas. A sege +partiu e o cavalleiro seguiu-a de longe, para que o tropel do cavallo se não +tornasse suspeito.</p> + +<p>A meia legua, na azinhaga de Campolide, parou a sege. João da Cunha entrou +n'um largo portão, que se abriu no momento em que elle apeava. Caminhou por +debaixo de<span class="pn">{11}</span> uma extensa parreira, que formava uma +fresca abobada de folhagem á entrada da casinha campestre, em que morava +Ricarda.</p> + +<p>O brazileiro de certo não viu a casinha, porque o portão fechára-se nas +costas de João da Cunha. O boleeiro entrára com a sege n'uma cavalhariça a +cincoenta passos distante do portão. O marido de Ricarda adquirira aquella +imperturbavel paciencia, que vem depois dos frenezis da vingança. Quasi um anno +de meditação e estudo na desforra, que mais convinha á sua honra, era sobeja +reflexão para não perder com uma imprudencia a victoria que, tão depressa, lhe +deparára o acaso do annel.</p> + +<p>Retrocedeu para Lisboa.</p> + +<p>No dia seguinte passou, a pé, defronte do portão onde entrára João da Cunha. +Estava fechado. Circuitou o baixo muro que marcava a pequena quinta. Trepou no +lanço que lhe pareceu mais accessivel. Não viu alguem. As janellas da casa, á +hora do calor, estavam fechadas com persianas verdes interiormente corridas. +Desceu para subir outra vez ao muro que fechava a quinta na parte mais remota +da casa. Saltou dentro. Os cães de fila acorrentados ladraram; mas o aviso não +inquietou ninguem.</p> + +<p>O brazileiro embrenhou-se n'um caramanchão, enxugando o suor que lhe +empastava a camiza. Permaneceu ahi cinco horas.</p> + +<p>Ás nove ouviu o rodar da sege; ouviu ranger os gonzos do portão; ouviu +abrir-se, mais perto, a porta e janellas como se até alli não vivesse ninguem +n'aquella casa, cujo aspecto risonho bem poderia ser mentiroso.</p> + +<p>Minutos depois ouviu passos distantes, que faziam rumorejar a folhagem. E +estes passos eram cada vez mais proximos. Viu dous vultos. Eram já distinctas +as suas palavras:</p> + +<p>—E quando partiremos, João?—perguntava Ricarda.</p> + +<p>—Logo que eu te veja convalescida de modo que possamos viajar sem perigo.</p> + +<p>—Pois eu não estou boa?</p> + +<p>—Ainda não. Faz ainda ámanhã um mez que soffreste muito... para fazeres +completa a minha felicidade... Um filho teu, Ricarda!...—O brazileiro ouviu o +ciciar tremulo d'um beijo.<span class="pn">{12}</span></p> + +<p>—Mas que podemos recear agora? Vamos embora de Portugal. Consegui que vá +comnosco a ama de leite do nosso Luizinho. Não nos falta nada... Olha, João, eu +não posso assim viver tão fugida do mundo. Não temos necessidade d'isto. Se +queres que eu assim viva, obrigas-me a crêr que eu pratiquei um grande crime, +pelo qual devo ser proscripta da vida.</p> + +<p>—E não vivo eu tambem proscripto da sociedade, para viver comtigo só?</p> + +<p>—Não ha comparação. De dia vives com os teus, de noite comigo. Eu queria +que tu viesses aqui passar sósinho, com o coração cheio de saudades, as horas +aborrecidas d'estes longos dias... Vive sempre ao pé de mim, João, e eu viverei +contente em toda a parte.</p> + +<p>—Pois partiremos, minha filha. Mas é necessario fugir, porque meu pae de +certo me não deixa sahir de Portugal. A morte de meu irmão morgado veio tolher +o meu futuro. Meu pae quer entregar-me a administração da casa que me pertence, +e eu, habituado a obedecer-lhe desde creança, acho-me prêso de braços quando é +preciso ser mau filho...</p> + +<p>—Ser mau filho!...—atalhou Ricarda com resentimento.—Antes ser mau com a +pobre mulher que não sentiu os braços prêsos para ser má esposa... não é assim?</p> + +<p>João da Cunha sentára-se no banco de pedra fronteiro ao caramanchão, em que +o brazileiro retrahia o halito para não perder uma palavra, em quanto a longa +distancia lhe não permittisse uma pontaria infallivel de pistolas que lhe +oscillavam nas mãos convulsas.</p> + +<p>—Parece-me que estás cançado de mim...—continuou Ricarda, offendida pelo +silencio de João á ultima pergunta, que lhe custára a ella uma dôr de coração, +um desgosto amargo do seu amor proprio.</p> + +<p>—Cançado de ti... Não, Ricarda... O amor não se cança assim. Não tenho +tido, desde o primeiro dia em que me viste, uma pequena desigualdade comtigo. +Tudo o que te prometti foi pouco para o grande sacrificio que me fizeste; mas, +se te não dou mais, é porque mais não póde dar o coração. Podésses tu ser minha +esposa... podésse eu convencer-te...</p> + +<p>—De que me amas? Não é assim que se convence<span class="pn">{13}</span> +uma mulher... O que eu quero é a tua alma... Não me lembrou nunca ser tua +mulher, como se diz da que se dá por obrigação de casamento, para ser assim +mais feliz... Não fallemos n'isto... Essa palavra esteve para ser a minha +morte... não poderá nunca trazer-me felicidade. Ainda que eu hoje fosse viuva, +não quereria ser tua mulher, João.</p> + +<p>—Porque?!</p> + +<p>—Porque me obrigarias um dia a ser criminosa, como fui...</p> + +<p>—De que modo te obrigaria eu a seres criminosa?!</p> + +<p>—Considerando-me apenas uma companheira de casa, a quem não é obrigação +fazer carinhos, porque a mulher casada é uma posse sem disputa, é uma roseira +que dá uma flôr, e sécca para nunca mais reverdecer... Eu sei que fui muito +amada, muito estremecida por...</p> + +<p>—Por teu marido...</p> + +<p>—Sim... mas, dous mezes... e, ao cabo de dous annos, esse homem dava-me a +importancia que se dá a um socio d'uma casa commercial, e dizia-me que não vira +ainda as suas lições, quando eu me sentava ao seu lado com receio de ser +grosseiramente despresada com o seu silencio. Todas as tuas qualidades pessoaes +me não fariam impressão nenhuma, João, se aquelle homem me soubesse ao menos +mentir.</p> + +<p>—Foi preciso que elle te despresasse para eu te possuir o coração.</p> + +<p>—Foi... Pois tu crês que a mulher se degrada por prazer, sem que a +violentem a isso?! Quem faz a mulher desgraçada e despresivel na sua desgraça é +o homem. Tenho pensado muito no que fui para explicar o que sou...</p> + +<p>—E, se elle te amasse hoje, Ricarda?</p> + +<p>—Se me amasse hoje, despresal-o-ía, porque não poderia amar outro homem, +depois que te conheço.</p> + +<p>—E se eu te despresasse?</p> + +<p>—Se me despresasses, morreria, matava-me.</p> + +<p>—Não morrerás, minha filha...</p> + +<p>João da Cunha abraçou-a com vehemente transporte. Colou-lhe os labios +ardentes no collo de encantadora nudez, sorvendo-o em beijos deleitosos. Ella +deixou-se inclinar para o seio d'elle, como desmaiada em ebriedade de +ternos<span class="pn">{14}</span> deliquios. Toda esmorecida e alquebrada, os +proprios olhos, sempre fogo, pareciam apagar-se, para que a morbidez das +palpebras, pendendo amortecidas, dissessem ao sequioso amante que aquelles +olhos se fechavam para não verem o passado, e deixavam ao coração, estreme de +remorsos, o goso das delicias do momento.</p> + +<p>O marido de Ricarda deu um passo para distinguir os vultos entre as frondes +da amoreira. O prazer devêra têl-os aturdidos para não ouvirem esse passo, e +dous que se seguiram. Aquelles braços não se desenlaçavam. O extasis poderia +ser apenas um extasis de dous amantes que se perdem nas altas regiões do puro +espirito; mas o brazileiro, na sua phantasia allucinada, imaginou um crime, que +deveria deixar-lhe a elle um remorso eterno, se o não interrompesse com a +morte.</p> + +<p>Duas balas voaram de duas pistolas. Ouviu-se um grito. Ricarda levára a mão +ao seio. João da Cunha corrêra atraz d'um vulto que rompia a direito as murtas +do caramanchão em precipitada fuga. Mas, já perto do assassino, sentiu uma dôr +agudissima no hombro direito e esvahimentos de cabeça.</p> + +<p>A este tempo, o brazileiro era preza de dous enormes cães, que o filaram no +momento que elle lançava a mão a uma viga da parreira por onde descêra. Os cães +laceravam-no, saltando-lhe ao peito. O indefeso moço arremessára as pistolas +inutilmente aos cães, que redobravam de furor.</p> + +<p>Os criados de João da Cunha, ouvindo os tiros, correram na direcção. +Encontraram o cadaver de Ricarda, e alguns passos distante, seu amo que dizia +em voz desfallecida: «matem esse assassino, que me matou.» Correram onde latiam +os cães. Viram um homem encostado ao muro defendendo-se dos saltos d'elles com +as pernas, que retiravam sempre cravejadas por uma nova dentada. Não seria +preciso o braço d'outro assassino, se a lucta se demorasse entre as feras e o +brazileiro quasi morto de cansaço, e derramamento de sangue. A missão dos cães +acabou quando principiou a dos homens. Duas choupadas no peito abriram mais +larga fenda ao sangue. Mataram-no sem resistencia.<span class="pn">{15}</span></p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Eu esbocei com repugnancia este quadro. Será demasiada fidelidade dizer-vos +que a sepultura do brazileiro foi os oito palmos de terra, onde cahiu morto? +Ainda bem que os cães o não devoraram a pedaços como um passatempo durante a +noite. Ricarda foi enterrada no cemiterio, de noite, de combinação com o +parocho. Os criados conduziram á sege João da Cunha, que não quiz retirar-se +sem reconhecer o assassino.</p> + +<p>Dizem que beijára as faces mortas de Ricarda, e derramára algumas lagrimas, +que lhe fazem muita honra.</p> + +<p>A sege que o conduziu, tornou a Campolide para transportar ao palacete do +Campo-Grande um menino d'um mez nos braços da ama.</p> + +<p>João da Cunha beijando o neto que seu filho lhe entregava, na supposição de +que o ferimento era mortal, dizia lá comsigo:</p> + +<p>—Parece filho de mulata! Bem me disseram a mim de Coimbra que meu filho +fugira com uma!</p> + +<p>João da Cunha foi curado em poucos dias. A bala quebrára-lhe a clavicula +direita e sahira sem ferir algum vaso importante. O enfermo deixou-se tratar, e +não consta que tentasse romper o apparelho para se escoar de sangue.</p> + +<p>—Queria viver para o seu filho.—É como elle explicava o desejo da vida.</p> + +<p>Isto passou-se em 1813; e o romance começa em 1838.</p> + +<p>Já sabem que o filho de Ricarda é Luiz da Cunha e Faro, que apeou á porta do +theatro de S. Carlos.<span class="pn">{16}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00120">II.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00121">O FRUCTO DA SEMENTE AMALDIÇOADA.</a></h2> + +<p>João da Cunha era, pouco mais ou menos, o que são todos os homens. O seu +coração, viuvo do amor de Ricarda, vestiu lucto um anno. O choque fôra muito +forte, para que a mais robusta organisação se não resentisse, longo tempo. A +convivencia, com homens que não conheciam os precedentes da sua mysantropia, +não a procurava. Vivia só, com seu pae, e com seu filho. Recordava a ephemera +felicidade de alguns dias, rematados por uma hora de sangue. Ora, estas +recordações, por que foram muito repetidas, pouco a pouco enfraqueceram, e o +coração familiarisou-se com ellas. O que primeiro fôra terror, veio, depois de +um anno, á brandura das reminiscencias que não mortificam, porque o tempo é o +principio gerador de imagens novas que desfazem sempre as impressões das +velhas. O ferro abre profundos sulcos no cortix da arvore: depois, as fibras da +camada, vigorosa de nova seiva, passam por cima, e deixam como signal uma +cizura imperceptivel.</p> + +<p>Dous annos depois da catastrophe, João da Cunha não fugia das aventuras que +o perseguiam. Riqueza, talento, e fidalguia, afóra os dotes physicos, +auctorisavam-no a não deixar aos vinte e dous annos uma carreira que encetára +com tão má fortuna.</p> + +<p>Do seu coração, repartido por muitas paixões passageiras, nunca usurpou a +seu filho a maior parte.</p> + +<p>Em quanto elle crescia em corpo e extraordinaria penetração, o pae, que não +sabia sêl-o, alargava-lhe os desejos, adivinhando-lh'os, e prohibia á ama, aos +mestres,<span class="pn">{17}</span> e ao avô a mais ligeira contrariedade ás +vontades caprichosas do menino.</p> + +<p>Luiz, aos doze annos, era um despota com os criados, com os mestres, e +tratava o pae como se trata um irmão, quando não ha a recear a correcção +paterna. João da Cunha gostava da desenvoltura do pequeno, e ufanava-se de +leval-o, como maravilha, á sociedade dos homens e mulheres do grande mundo, que +lhe achavam muito sal nas suas respostas, e não córavam ás galhofeiras +liberdades do pequeno Ismael, como lhe chamavam, alludindo á desconhecida Agar, +que o sol da Africa bronzeára.</p> + +<p>Luiz era tanto mais caro a seu pae, quanto a sua intelligencia, com pequeno +esforço, aproveitava nas irregulares lições dos mestres soffredores. Aos quinze +annos, o filho de Ricarda era homem, e, como homem, as puerilidades, as folias +que o entretinham até aos quatorze, trocaram-se em ar reflexivo, em consciencia +de si proprio, e até em certo respeito ao pae, supposto que este lhe não +invectivasse as licenças, que os de fóra lhe censuravam.</p> + +<p>—Eis-aqui o que é o espirito!—dizia João da Cunha ao seu capellão, que +muitas vezes agourára mal da livre educação dada a Luiz—Assim que chegou á +idade da razão, ahi está meu filho obedecendo espontaneamente ao instincto dos +deveres. Não o vê tão pensador n'uma idade em que a imaginação trabalha sempre?</p> + +<p>—Não duvido que pense—respondeu o padre, solemnisando a resposta com um +sorvo de rapé—mas, se v. ex.ª me dá licença, parece-me que seu filho pensa em +alguma loucura.</p> + +<p>—Essa é boa! O padre que razão tem para tanta severidade com meu filho?</p> + +<p>—Que razão tenho? Ora ouça v. ex.ª Seu filho namora a filha do merceeiro +que mora ao lado.</p> + +<p>—Deixe-se d'isso, padre; o meu filho apenas tem dezeseis annos, e ella +ainda é mais nova.</p> + +<p>—Isso não é razão, e desculpe-me v. ex.ª a liberdade de replicar. Deus sabe +as intenções com que me intrometto em cousas, que não são de todo estranhas ao +meu ministerio. Eu quando fallo é com documentos na mão.</p> + +<p>—Alguma cartinha de namoro... Isso são rapaziadas sem consequencia.<span +class="pn">{18}</span></p> + +<p>—Não é cartinha de namoro.</p> + +<p>—Algum cordão de cabello, ou alguns suspensorios com a firma do rapaz... +Isso faz rir.</p> + +<p>—Não é cordão nem suspensorios.</p> + +<p>—Então acabe lá com isso, padre! Que é?</p> + +<p>—É uma escada de corda que sobe ao segundo andar d'aquella casa.</p> + +<p>—E sabe se elle faz uso d'essa escada?!</p> + +<p>—Ha quinze noites seguidas que sobe ás duas horas da noite e desce ás +quatro.</p> + +<p>—O rapaz é capaz de quebrar uma perna!</p> + +<p>—E eu receio que o pae da rapariga seja capaz de lh'as quebrar ambas.</p> + +<p>—N'esse caso, encarrego-o de o reprehender; mas não lhe diga que eu o sei.</p> + +<p>—Parece-me que lhe não fará grande abalo ainda que v. ex.ª o saiba. Seu +filho não o teme, nem lhe reconhece direitos sobre a liberdade de subir e +descer escadas de corda.</p> + +<p>—Está enganado.</p> + +<p>—Oxalá que sim. Eu de mim reprehendi-o já, e elle respondeu-me se eu fazia +o favor de lhe ir segurar a escada para que ella não balançasse quando elle +descia, com grave risco das suas pernas, que ficavam enleadas nas cordas +transversaes. Aqui está o que é uma zombaria que não parece d'um menino de +dezeseis annos! V. ex.ª ri-se? Ora, queira Deus que não chore ainda...</p> + +<p>—Pois que quer que eu faça, padre?</p> + +<p>—Que o castigue com severidade, ou o faça entrar no collegio dos Nobres +para ser castigado longe dos seus olhos. V. ex.ª perde seu filho. Está cavando +um manancial de desgostos, que não remediará... Elle ahi vem... Se quer, +retiro-me, para v. ex.ª lhe fallar.</p> + +<p>—Pois sim, retire-se.</p> + +<p>Luiz entrou apertando a mão ao pae, que lh'a estendeu com a familiar +etiqueta d'amigo.</p> + +<p>—Vem cá, Luiz. Tu és um homem, e é preciso fallarmos como homens. Sei que +sobes por uma escada de corda ao segundo andar d'aquella casa...</p> + +<p>—Então, de certo sabe tambem que desço...—atalhou com sorriso ironico o +filho de Ricarda.<span class="pn">{19}</span></p> + +<p>—Responda-me com seriedade. Sabe que eu posso fazêl-o retirar d'esta casa, +logo que o menino proceda de modo que mereça ser castigado?</p> + +<p>—V. ex.ª póde tudo; mas eu queria saber o que fiz que mereça castigo.</p> + +<p>—Assim é que deve responder-me. Sei que se introduz em casa do merceeiro.</p> + +<p>—É verdade, meu pae. Não nego senão o que não faço. Foi o padre Joaquim que +lh'o disse?</p> + +<p>—Não sei quem foi... É isto verdade?</p> + +<p>—É verdade; mas o padre Joaquim merece dous bofetões.</p> + +<p>—O padre Joaquim é seu amigo. Se o menino observar os conselhos d'elle, ha +de ter um proceder exemplar; e, se os não attender, obriga-me a castigal-o +asperamente, bem contra minha vontade. Não quero que se diga que um filho de +João da Cunha escala as janellas dos visinhos. O peor que póde acontecer-lhe, +meu filho, é ser surprendido n'essa casa, e olhe que de certo o não respeitam +para o deixarem descer tranquillamente como subiu.</p> + +<p>Pouco depois, Luiz da Cunha sahiu do quarto de seu pae, e passando pelo +capellão deu-lhe um abraço, que o fez impertigar-se com a grave compressão das +costellas. Luiz ria-se, e padre Joaquim desencadeava-se o mais prestes que +podia dos braços tenazes do seu discipulo de latim.</p> + +<p>As correcções paternas aproveitaram muito, por isso que, na noite d'esse +dia, á hora costumada, Luiz da Cunha agatinhou rapidamente a escada, e içou-se +para a varanda. Pouco depois que entrára, o logista, avisado por quem quer que +foi, subiu ao segundo andar. Luiz da Cunha fugiu precipitadamente, e quando +descia, na altura do primeiro andar, o robusto confeiteiro levantou os ganchos +da escada, e deixou-a pender para o centro da terra, em plena condescendencia +com as leis da gravitação.</p> + +<p>O filho de João da Cunha recuperou os sentidos quando uma patrulha da +policia o entregava ao pai, que, a essas horas, recolhia, e não é bem liquido +se tambem elle debaixo do capote trazia uma escada de corda.</p> + +<p>Luiz da Cunha desmanchou algumas articulações, cuja collocação o fez dar ao +diabo a filha do confeiteiro. O pae<span class="pn">{20}</span> ameaçou com um +chicote o seu pundonoroso visinho; mas, pelos modos, o minhoto não era homem de +transigir pelo mêdo d'uma arrogancia dos actos dos Sousas e Faros. A +rapariguinha nunca mais appareceu na janella, e, no fim da semana immediata, +casou com o caixeiro, rapaz dos suburbios de Guimarães, muito fino, que é hoje +capitalista, e não foi ainda codilhado por governo nenhum. Já vêem que a filha +do confeiteiro não perdeu nada, visto que o marido não a encontrou lesada +physica nem moralmente. Estes é que são os felizes. Não sabem nada de +psycologia, nem de anatomia: não descriminam imperfeições da alma nem do corpo.</p> + +<p>João da Cunha teve assomos de rigidez paterna. Luiz desconheceu-o, quando o +viu, sombrio e carrancudo, ordenar-lhe que seguisse o padre capellão ao +collegio dos Nobres. Obedeceu sem hesitar um momento. Entrou no collegio, onde +os mestres prevenidos trataram de captar-lhe a estima, habitual-o á casa, para +se dispensarem da outra ponta do dilemma.</p> + +<p>Luiz recebeu alegremente os companheiros que os mestres lhe escolheram. Eram +os mais estudiosos e mais ajuizados. Acharam-no docil, e persuadiram-se que lhe +tinham inoculado o amor do estudo, e o esquecimento das liberdades por que +fôra, aos dezeseis annos, encerrado no collegio.</p> + +<p>João da Cunha, maravilhado da mansidão de seu filho, visitou-o, +indemnisando-o com afagos das asperezas que precederam a sua entrada no +collegio. Luiz não se mostrou magoado com as asperezas, nem lisongeado com os +carinhos. Estava melancolico, e dizia o padre Joaquim, sempre agoureiro aziago, +que o menino meditava uma nova loucura, fosse ella qual fosse.</p> + +<p>Prophecia de padre Joaquim era infallivel. N'essa noite, Luiz cortou em +tiras os lençoes e o cobertor. Saltou para a cêrca. Partiu a cabeça ao hortelão +com um fundo de garrafa dos aguilhões do muro, quando o indiscreto gallego lhe +agarrou uma perna para a não deixar seguir o destino da outra.</p> + +<p>Luiz recolheu-se a casa de José Bento de Magalhães e Castro.</p> + +<p>Este senhor José Bento é uma pessoa que nós conhecemos<span +class="pn">{21}</span> da F<small>ILHA DO </small>A<small>RCEDIAGO</small>. É +justamente aquelle que casou com Rosa Guilhermina, em 1825; que comprára n'esse +anno o fôro de fidalgo, e fizera a sua nova residencia em Lisboa, por isso que +os invejosos no Porto tinham a petulancia de rir-se da pedra d'armas que elle +fizera lavrar no seu palacete do Reimão.</p> + +<p>Em Lisboa fôra bem recebido, particularmente por João da Cunha e Faro, que, +segundo dizem, lhe vendêra cara a consideração. D. Rosa Guilhermina era bem +acolhida na roda que torce o nariz aristocratico aos que chegam sem garantias +d'algum conspicuo de linhagens. A maledicencia dizia que João da Cunha não era +indifferente á mulher do senhor José Bento. Tanto não ouso eu dizer, e a +calumnia é mancha que não pega nos meus romances. Pêcos de imaginação, sim; mas +arreados de phantasias que desdouram o meu proximo, isso nunca.</p> + +<p>Luiz, sempre acceito com os seus gracejos a D. Rosa, fugindo do collegio, +surprendeu-a com um abraço estouvado. Pediu-lhe que não dissesse nada ao pae, e +o deixasse sentar praça em marinha, que era a sua vocação. D. Rosa +prometteu-lhe tudo, e avisou João da Cunha, que, a essas horas, recebia a fatal +nova da fuga do filho. A filha do arcediago pedia-lhe uma entrevista, antes de +encontrar-se com Luiz. O fim era combinarem o meio de o levarem com brandura a +entrar em casa, onde de certo a violencia o não levaria. João da Cunha annuiu, +e o filho de Ricarda foi recebido com affabilidade por seu pae.</p> + +<p>Não era já possivel domal-o com violencias nem com afagos. Luiz da Cunha +tinha um roteiro fixo pelo destino, cuja absurda influencia é necessario +acreditar na vida tragica de certos homens, que nos compadecem, que nos +nauzeam, e que nos assombram!</p> + +<p>João da Cunha, certo da sua inefficacia paterna, resumiu a sua auctoridade +ensinando o filho a salvar as apparencias, porque os escandalos eram +atroadores, e promettiam-lhe uma vergonhosa expulsão das casas honestas. O +merceeiro visinho, não obstante a sua coragem, passou pelo desgosto de curar-se +d'uma dura carga de pau com que o amante de sua filha, auxiliado por campinos +embriagados em noite de tourada, o mimosearam dentro do seu proprio balcão. +Toda a importancia de João da<span class="pn">{22}</span> Cunha foi necessaria +para torcer a justiça, visto que o logista era affecto em extremo á politica +vigente, o que provára mais d'uma vez com o cacete na mão. Um outro pae, que +ousou repellir de sua casa o fidalgo, chamando-lhe «mulato» perdeu a orelha +esquerda n'esta honrosa lucta, sem por isso, ainda assim, salvar a filha da +deshonra. Um irmão d'uma estanqueira, que morou ao Pote das Almas, pagou com +cadêa de tres mezes, afóra as custas do processo, a audacia de quebrar a cabeça +ao amante de sua irmã, que lhe viera, em noite de luminarias, recitar debaixo +da janella umas coplas em que lhe pedia escandalosamente licença de cear com +ella.</p> + +<p>Esta classe de mulheres era a menos ponderosa na balança da opinião publica. +Algumas d'estas aventuras faziam rir as mulheres distinctas por nascimento e +por muitas outras qualidades que não lustravam muito o nascimento...</p> + +<p>Luiz da Cunha lá foi entre ellas receber os applausos, e achou que a vereda +nova, em que se lançára, levava mais depressa ao capitolio. O que elle queria +era a reputação de conquistador, que principiava a declinar de seu pae, e justo +era que não sahisse da familia.</p> + +<p>O filho de Ricarda era jactancioso. Costumava, com os seus amigos, fixar o +dia impreterivel de tal ou tal triumpho, e bebia com elles no <em>Isidro</em> á +saude da victima destinada.</p> + +<p>Se acontecia acharem-se presentes os parentes da victima illustre, o +impudente não calava o nome, nem respeitava as conveniencias do pudor, visto +que os seus amigos o não respeitavam.</p> + +<p>O «Ismael,» que as damas desdenhavam pela côr, se não fosse o terrivel +sestro da denuncia, em fins de jantares, poderia enriquecer o seu cathalogo com +muitas illustrações do sexo, que já n'esse tempo era fraco.</p> + +<p>Mas a fatuidade indiscreta perdeu-o no conceito das menos pundonorosas. +Pouco e pouco repellido, Luiz da Cunha aos vinte e cinco annos, era detestado, +acolhido com desprêso em todas as casas, excepto na de José Bento de Magalhães +e Castro, que, em 1837, era já visconde de Bacellar. Rosa Guilhermina foi a +unica mulher que exerceu uma sombra de ascendente fraternal sobre o filho +de<span class="pn">{23}</span> Ricarda. Os seus rogos afastaram-no muitas vezes +de abysmos, em que a sua queda seria mortal. Tinha sido ella quem o salvára de +casar-se com a mulher que mais séria impressão lhe fizera, quando se viu +arremessado com infamia d'entre tantas que elle pozera no pelourinho da +ignominia.</p> + +<p>Esta mulher era uma infeliz encontrada n'um primeiro andar da rua do Ouro: +uma d'essas que vem, com os hombros nús e as tranças enfloradas, pedir-vos da +janella com um aceno e um sorriso o preço do espectaculo a que se offerecem, +por esse sorriso e aceno voluptuoso.</p> + +<p>Luiz da Cunha sympathisára com a libertinagem da mulher que lhe ensinava +cousas novas para o coração, não combalido de todo ainda pela podridão do +vicio. As duas almas comprehenderam-se maravilhosamente, porque se encontraram +na profundidade do mesmo charco. Luiz encantou-se d'esta mulher. Pediu-lhe o +exclusivo da sua alma, e foi feliz na súpplica. Liberata, desde esse dia, foi +d'elle, exclusivamente, como a filha que foge apaixonada do seio materno. +Encontrou uma bem mobilisada aposentadoria, servida de criados, e da opulencia +que os brilhantes de Ricarda, prodigalisados em ultimo recurso por João da +Cunha, lhe permittiam. Aquelles brilhantes reservára-os elle, sem escrupulo, +para patrimonio do filho da sua esquecida amante.</p> + +<p>Envergonhado d'esta união torpe, João da Cunha admoestou o filho; e, quando +esperava despertar-lhe o brio com os topicos d'uma sentimental censura aos seus +rasos instinctos, Luiz respondeu-lhe que tencionava salvar Liberata da infamia, +casando com ella.</p> + +<p>O primeiro impeto de cólera paterna foi correr sobre o filho e soval-o a +ponta-pés. Luiz estranhou a lisonja, e pôde muito sobre si para não receber o +pae na ponta de um punhal.</p> + +<p>Expulso de casa, recorreu á viscondessa de Bacellar, que lhe prometteu +reconcilial-o com o pae, com tanto que elle despresasse essa mulher, que o +arrastava com ella ao mesmo abysmo de perdição. Luiz prometteu não casar; mas +despresal-a nunca. Se seu pae lhe negasse recursos, disse elle que seria ladrão +para sustental-a, ou morreriam de fome, abraçados.<span class="pn">{24}</span></p> + +<p>João da Cunha, sabendo este heroismo, reconheceu que seu filho era a vibora, +que elle trouxera no coração, para o morder com o remorso expiador do seu +crime, cujo saldo com a Providencia começava vinte e seis annos depois.</p> + +<p>E aceitou a proposta. Continuou a dar-lhe recursos para uma dissipada +grandeza com que a libertina se infatuava, soberba do seu dominio sobre o +homem, que se não pejava de assentar-se, ao lado d'ella, na mesma sege e no +mesmo camarote.</p> + +<p>Dizia-se que Liberata era fiel ao fascinado moço. Amigos de João da Cunha +tentaram vencêl-a com promessas, para darem ao desgraçado uma surpreza que o +fizesse detestal-a.</p> + +<p>Não o conseguiram. A necessidade não a forçava. O ouro servia-lhe +prodigamente os mais exquisitos caprichos. O coração afizera-se-lhe áquelle +caracter, e a pontualidade do amante não lhe deixava um instante vago para +meditar uma traição.</p> + +<p>O leitor de certo adivinhou já quem era a mulher que apeou, com Luiz da +Cunha e Faro, da sege, á porta do theatro de S. Carlos. Agora, se a imaginação +lhe não é escassa, afigure-a no camarote 15 da 2.ª ordem, e verá uma perfeita +senhora, adestrada em salas, meneando garbosamente um leque, fitando com +requebro airoso o oculo branco nas faces que se retrahem envergonhadas, e +sorrindo com deslavada alegria ao amante, todo carinho e attenção para +ouvir-lhe alguma obscenidade allusiva a qualquer das damas, que não ousam +fixal-a de face. Liberata era o que devia ser.</p> + +<p>Hoje é moda regenerar, em romances, estas mulheres. A imaginação, cansada de +reduzir a virtude ao crime, trata de fecundar a virtude no alcouce.</p> + +<p>Em quanto a mim, as Liberatas não se regeneram. A de Luiz da Cunha dançava +lubricamente a cachucha, quando lhe fallavam em virtude.<span +class="pn">{25}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00130">III.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00131">ASSUCENA.</a></h2> + +<p>Consta da F<small>ILHA DO </small>A<small>RCEDIAGO</small> que a filha do +memoravel Leonardo Taveira, arcediago de Barroso, houvera de legitimo consorcio +com Augusto Leite, uma filha, chamada Assucena.</p> + +<p>Quando Rosa Guilhermina contrahiu segundas nupcias com José Bento de +Magalhães e Castro, tinha seis annos a creança.</p> + +<p>O filho do retrozeiro não se affeiçoou á filha de sua mulher, com quanto a +meiga menina o acarinhasse com meiguices, e lhe chamasse pae. Em pouco se +conhecia a rude insensibilidade do padrasto. As menores travessuras de Assucena +eram para elle o resultado do mimo demasiado que sua mãe lhe dava. A esperteza, +que Rosa admirava em sua filha, dizia o senhor José Bento que era malicia; e, +por entre dentes, resmungava que não seria ella quem levasse a agua ao seu +moinho. Era uma das suas phrases favoritas este annexim, que o filho da senhora +Anna Canastreira retivera na memoria, rebelde sempre para o imperativo do verbo +<em>laudo</em>, como em tempo competente se disse.</p> + +<p>Rosa doía-se da indifferença, ou, melhor, da antipathia de José Bento pela +creança. Nunca lhe perguntou a causa d'esta ingratidão aos mimos de Assucena: é +que não contava com a delicadeza de seu marido n'uma resposta. A coacção em que +a tinha o caracter brusco do assassino do mestre de latim, a reserva nada +familiar com que um ao outro se tratavam, collocava-os a distancia do que +vulgarmente se diz—confidencias domesticas.<span class="pn">{26}</span></p> + +<p>José Bento não tinha a rusticidade nem a doçura de indole de Antonio José da +Silva, o desventurado esposo de Maria Elisa, tão desventurada como elle. (Já lá +estão ambos!) Se aos dezoito annos, o aprendiz de loio annunciava uma +bestialidade mythologica, a natureza, modificada pelo dinheiro, enxertára +n'aquella cabeça, hermeticamente fechada, uma finura maliciosa. Á primeira +vista, o senhor José Bento parecia um pensador, um homem experimentado, e até +um presidente d'uma companhia de viação, ou orador gosmento de associações +commerciaes, que, só muito depois, tiveram Ciceros em <em>patois</em>.</p> + +<p>O capitalista era amigo de Rosa Guilhermina: não podemos duvidar que o era; +mas o seu modo de ser amigo era excentrico. A approximação dos extremos +confundira o pequeno espirito de José Bento com o grande espirito d'algum +marido fatigado de caricias, anhelante de paixões incisivas, e incapaz de se +amoldar ás formulas burguezas da tranquillidade domestica. O moço fidalgo, no +primeiro anno de casado, foi o que seria no quadragesimo, se Rosa Guilhermina +não morresse em 1849. Nunca lhe deu mostras de aborrecido, porque tambem nunca +se mostrou enthusiasmado com a posse. Teve sempre a constancia imperturbavel +dos felizes alarves. Nenhuma mulher valia mais que a sua, nem a sua valia mais +que as outras.</p> + +<p>Rosa Guilhermina não esperava que sua filha succedesse na herança do marido, +nem, quatro annos depois de casada, tivera ainda um filho, nem depois o teve, +que protegesse a sua irmã, habituando-se a consideral-a tal.</p> + +<p>O seu pensamento foi ageital-a para tudo o que é trabalho, dotando-a com a +educação, cultivando-lhe o espirito para que a formosura não fosse a unica +prenda que podésse merecer-lhe um marido com patrimonio.</p> + +<p>Em Lisboa, José Bento não se oppôz á entrada de Assucena n'um collegio. O +excellente coração da menina, arrancado ao de sua mãe, comprehendeu, em tenra +idade, que a sua posição no mundo dependia de si. Docil ás mestras, que lhe +adoravam a angelica humildade, o trabalho, a oração, e o estudo fizeram-na um +modelo entre todas as suas companheiras. A melancolia scismadora que, aos +quatorze annos, a estremava dos folguedos da sua idade, era um vaticinio de +muitas lagrimas que verteria<span class="pn">{27}</span> sobre as flôres da +mocidade, queimando n'essas o germen que nunca mais lhe desabrocharia outras.</p> + +<p>Em 1838, Assucena tinha dezoito annos, e era ainda alumna do collegio para +onde entrára aos dez. A viscondessa de Bacellar conseguira de seu marido a +influencia e os meios para que ella entrasse nas commendadeiras, ordem meio +monastica, meio profana, em que a vida retirada se suavisa com todas as +magnificencias do luxo, e se approxima da sociedade sem conhecêl-a pelo ponto +de contacto em que o coração se infecciona.</p> + +<p>Antes de entrar nas commendadeiras, como secular, Assucena veio passar com +sua mãe dous mezes.</p> + +<p>Aos dezoito annos, estranhava o mais vulgar da sociedade. Lêra muito, e, só +com sua mãe, dava ideia de não ter desaproveitado o tempo, nem enganado os +mestres. Na presença de estranhos o seu acanhamento dava-lhe ares de idiota. +Córava ás mais simples lisonjas á sua formosura, e folgava todas as vezes que +as portas da sala se não abrissem a visitas. A presença dos hospedes +privavam-na de expandir-se a sós com sua mãe que a beijava, como se faz a uma +creança.</p> + +<p>Assucena era trigueira como seu pae, e não podia chamar-se formosa, senão em +verso. A formosura, que não é senão a harmonia rigorosa das fórmas, é muito +rara. O que não é raro é a graça, a sympathia, o indisivel que vos encanta, sem +vos dar tempo a estudar a irregularidade de um nariz, ou o defeito d'uma testa.</p> + +<p>Engraçada e sympathica era, como nenhuma, a neta do arcediago. O sobr'olho +cerrado castanho escuro, e o buço que lhe assombrava o labio superior, não +fino, mas graciosamente arqueado, eram as feições mais distinctas depois dos +olhos brandos e amortecidos, tão fóra do commum em rosto trigueiro. Gentil de +corpo, alta como sua mãe, mais flexivel que ella, mais delicada de mão, ao +longo da qual corria uma penugem que denunciava o braço delicioso, Assucena era +a mulher para os sentidos e para o coração; para a voluptuosidade do amor +animal, e para os arrobamentos do amor do espirito.</p> + +<p>Luiz da Cunha e Faro não se recordava já de Assucena, quando a viu, +surprendido, em casa da viscondessa.<span class="pn">{28}</span></p> + +<p>—Quem é esta mulher?—perguntou elle ao ouvido da viscondessa.</p> + +<p>—É minha filha.</p> + +<p>—Sua filha! a menina que eu vi, ha bons nove annos?</p> + +<p>—A mesma. Não o apresento, porque ella é muito acanhada, e dá de si uma +triste ideia, quando a forçam a fallar.</p> + +<p>—É galante senhora! Que olhos, e que sobrancelha! Aquellas pestanas são +divinas! Tem um olhar de santa! E aquelle buço? Ha de perdoar-me, senhora +viscondessa; mas a filha de v. ex.ª é capaz de me fazer doudo!</p> + +<p>—Não zombe, senhor Luiz da Cunha. A minha Assucena não é capaz de +endoudecer ninguem, e principalmente v. ex.ª, que não póde endoudecer, porque a +demencia dá ideia do juizo anterior a ella...</p> + +<p>—Bem a entendo, senhora viscondessa. Quer dizer que ninguem perde o que não +tem... V. ex.ª não sabe o que eu sou capaz de sentir. Até hoje tenho usado o +mau coração; o bom ainda não entrou em serviço. Vinte e seis annos não é tarde +para que eu me regenere. Sonhei esta noite que era virtuoso, e que dava lições +de moral no largo do Rocio a quem me queria ouvir. Depois, tornei a sonhar, e +fazia milagres: puz uns dentes á baroneza de Lemos, que está alli mascando com +as gengivas quatro phrases de açafetida a seu marido, e fui á beira do Tejo +conversar com os peixinhos que saltaram ao Terreiro do Paço, passeando em sêcco +para me darem honras de Santo Antonio.</p> + +<p>—Comece com as suas impiedades, senhor Luiz da Cunha... Olhe que eu +retiro-me d'aqui... Quando ha de perder o vicio da maledicencia? Que lhe +importam os dentes da baroneza de Lemos?</p> + +<p>—Tem v. ex.ª razão. Sou um grande malvado, mas permitta que eu corrija a +sua accusação. Eu não disse que me importava com os dentes da baroneza, que é +cousa que ella não tem. Eu sonhei que milagrosamente lhe dava duas ordens de +dentes, e lh'os déra quasi todos mollares, porque me consta que ella gosta de +tortas, em que os outros se dispensam. Se isto é perversidade, minha amiga, não +sei o que é virtude. Deixemos a velha, e fallemos na<span +class="pn">{29}</span> juventude do nosso seculo. A senhora D. Assucena fica na +sua companhia?</p> + +<p>—Não, senhor. Vai entrar nas commendadeiras.</p> + +<p>—Isso é incrivel! Pois v. ex.ª quer inutilisar aquella creatura, roubando-a +á sociedade!! Isto é barbaro! Declaro que não consinto!</p> + +<p>—É pena que v. ex.ª não consinta! Eis-ahi uma difficuldade que eu não tinha +prevenido! O seu consentimento é uma formula indispensavel!</p> + +<p>—Quer que eu lhe diga uma verdade? Estou recebendo uma impressão +extraordinaria! Sinto por sua filha o que nunca senti! Será ella a redemptora +d'esta alma que anda em penas ha onze annos? Parece-me que o amor é que me ha +de salvar. Ora olhe, eu tenho imaginado que posso ainda ser feliz. V. ex.ª +acredite que tenho sido muito muito desgraçado...</p> + +<p>—Não o parece.</p> + +<p>—Diz bem... não o parece; mas creia que não tive ainda oito dias de +felicidade na minha vida. O mundo julga-me mal. Todas estas vertigens, que +apparentemente me dão o caracter d'um homem embriagado de felicidade, são +misturadas d'uma especie de nausea de mim proprio, d'um vacuo de verdadeiros +prazeres, e tal que, nestes ultimos mezes, tenho desejado seguir um outro +caminho por onde a verdadeira ventura me foge. E quero perseguil-a. Realmente +lhe digo que estou cansado d'este viver. A sociedade despreza-me, e eu dou +razão á sociedade. De certo lh'a não dava, se eu me quizesse absolver dos meus +desvarios. Aqui entre nós: quem me perdeu foi meu pae. Se me tivesse negado os +meios com que se nutrem os vicios, eu não seria vicioso, ou, se o fosse, o +trabalho, como preço do vicio, ter-me-ia fatigado, ha muito. Olhe: se eu +tivesse nascido n'outro seculo, se é que todos os seculos não tem os mesmos +vicios, seria outro homem. V. ex.ª bem sabe que na sociedade não se fazem +santos. Eu vim por aqui dentro com os braços abertos para receber todas as +immoralidades, e vieram-me todas ao encontro, sem eu chamar nenhuma.</p> + +<p>—Naturalmente—atalhou a viscondessa, sorrindo—foi a filha do merceeiro +que o chamou...</p> + +<p>—Isso não foi immoralidade, minha senhora; ou, se<span +class="pn">{30}</span> o foi, queixem-se do peccado original, de que tanto me +fallou aquelle pobre padre Joaquim, que, em quanto a mim, foi o unico homem +virtuoso que não recebeu a herança da culpa de Adão, e morreu intacto como +algumas virgens das que se conhecem pelos necrologios. A filha do confeiteiro +não soube o que fez, e eu tambem não. A natureza exerceu sobre nós o seu +immortal despotismo, e foi preciso que os homens viessem desmanchar á pancada o +que ella fizera com beijos.</p> + +<p>—Foi a natureza que lhe ensinou a botar a escada de corda ao segundo andar?</p> + +<p>—Nada, não, minha senhora. Foi meu pae.</p> + +<p>—Como seu pae!?</p> + +<p>—Palavra de cavalheiro, o caso foi assim: debaixo da cama de meu pae vi +umas cordas, que terminavam por dous ganchos. Fiz o meu raciocinio, por que já +n'esse tempo estudava em logica as causas e os effeitos. A escada era o effeito +d'alguma causa. Sem saber nada de mechanica, calculei a importancia social da +escada, e mandei fazer uma semelhante ao meu criado do quarto. Ora aqui tem com +angelica sinceridade a historia da escada de corda. Agora, pergunto eu: +desarranjei eu a felicidade da filha do merceeiro? Não a tem v. ex.ª visto no +theatro, ao lado d'uma especie de gallego com collarinhos em fórma de panno de +falua? Esta especie de gallego é marido d'ella, tem cem contos de reis em +inscripções, e não sei que no Banco Commercial, e tem a commenda da ordem de +Christo. D'esse peccado da infancia, absolvo-me eu; dos outros é responsavel a +sociedade.</p> + +<p>—Não diga a sociedade. V. ex.ª tem zombado de todos os deveres. Tem +reduzido seu pae a um estado de tristeza que faz dó. Tem-se divorciado de todas +as pessoas de bem. Affronta a opinião publica apresentando-se nos lugares mais +frequentados com uma mulher, sem pudor, uma libertina que nem ao menos o salva +de se degradar com ella em publico. Se me acha ainda uma constante censora dos +seus desatinos, é porque sei a historia triste do seu nascimento, sympathisei +com os infortunios de sua mãe, e tomei sobre mim o inutil zêlo da honra de seu +filho. Não tenho conseguido nada: nada espero conseguir. Deus sabe quantas +lagrimas me tem custado este desvelo<span class="pn">{31}</span> quasi +maternal. Por vontade do visconde, já v. ex.ª não entra n'esta casa. +Reprehende-me todos os dias a familiaridade com que o recebo, e é preciso que +eu o traga illudido com a esperança de que um dia será possivel a sua reforma +de costumes. Senhor Luiz da Cunha, pense no futuro. Condôa-se de seu pae, que +já não tem animo de ouvir pronunciar o nome d'um filho que perdeu como seu +amor. Veja que póde ainda remediar o mal que fez... Aparte-se d'essa mulher. +Viva com seu pae. Convença pelo seu procedimento as pessoas, que já não +acreditam na possibilidade da sua emenda. Eu tambem me persuado de que v. ex.ª +deve estar cansado. Creio que deve ter momentos de envergonhar-se; outros de +remorso, e outros de esperança. Não cerre os ouvidos ao que a esperança lhe +promette. Se o instincto do bem lhe aconselha a virtude, obedeça-lhe, e verá +como a vida lhe póde ainda ser agradavel. Olhe que a virtude tem consolações +incomparaveis com os prazeres momentaneos do vicio. Tenho quarenta annos. Sei o +que é o mundo. Combino todos os desgostos para os saber afastar de mim, e +recebo-os, quando elles são mais fortes, como desvios do errado caminho em que +entrei aos quinze annos. V. ex.ª não sabe que mulher lhe falla, nem imagina o +prazer que me daria se me viessem dizer que a virtude não fôra repellida d'esse +coração que todo o mundo considera fechado para a luz da honra.</p> + +<p>—Fez-me impressão, senhora viscondessa! Tem-me assim fallado tantas vezes, +e nunca me feriu tanto. Eu não sei bem se o que me aconselha é possivel... +Creia que vou empregar os esforços. Se o não conseguir, é porque não posso, é +porque ha em mim um desgraçado condão de força sobrenatural.</p> + +<p>A conversação, n'este sentido, foi demorada.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>No dia seguinte, Liberata recebia de Luiz da Cunha um bilhete que a eximia +dos compromissos de fidelidade, auctorisando-a a dispôr de tudo que lhe fôra +dado. O bilhete foi recebido de manhã, e á tarde o lugar de Luiz da Cunha +estava preenchido pelo primeiro oppositor á vacatura. Na proxima noite de +theatro, Liberata, no camarote, ria, olhava, requebrava-se do mesmo modo, com +a<span class="pn">{32}</span> notavel differença de que o seu companheiro era +um capitão de marinha ingleza, que accumulava ás delicias de uma conquista de +tal ordem os gosos d'uma solemne embriaguez de vinho.</p> + +<p>João da Cunha acreditou na regeneração do filho, quando o viu entrar +contrito em casa, tão diverso do que fôra, accusando-se por uma tristeza +silenciosa, e captivando a benevolencia dos familiares com palavras brandas. +Por conselho da viscondessa de Bacellar, orgulhosa do seu triumpho, João da +Cunha não lhe disse uma palavra de reprehensão. O passado não veio nunca +irritar o pae, nem envergonhar o filho.</p> + +<p>Os incredulos riram da subita mudança do «mulato.» Os crentes no poder +maravilhoso da conversão explicavam o phenomeno por um toque sobrenatural. Não +faltou quem dissesse que a reforma do peccador fôra obra d'um egresso +varatojano que operára admiraveis conversões nas casas onde almoçava e jantava. +Não sabiam dizer ao certo se tambem convertêra alguem nas casas onde dormia. Eu +tambem não, supposto que acho muito possivel o caso affirmativo.</p> + +<p>O que sei de sciencia certa é que Luiz da Cunha não conhecia o dito egresso +melhor que eu e o leitor. Penso que o varatojano perderia o seu latim, se +tentasse engrossar com a moral franciscana os alicerces fundados pela +viscondessa de Bacellar. A emenda do filho de Ricarda não tinha nada com a +moral christã, pelo menos o atheo não sabia que a moral de Jesus é o codigo por +que se rege a honra sobre a terra, e se conquista no ceo a eterna bem-aventurança, +que não é exclusivo dos pobres de espirito.</p> + +<p>João da Cunha passava algumas noites com seu filho em casa do visconde de +Bacellar. Rosa Guilhermina revia-se na sua obra, e agradecia a Deus têl-a feito +instrumento da sua vontade, para, com braços debeis, arrancar do abysmo um +filho, restituindo-o ao amor de seu pae.</p> + +<p>Assucena não se maravilhava do presente de Luiz da Cunha por que não lhe +conhecêra o passado. Sabia, por meias revelações de sua mãe, que aquelle homem +desmerecêra no conceito do mundo, por causa do seu mau procedimento. Os crimes, +as infamias, as impudencias nem sua mãe lh'as explicava, nem ella saberia +comprehendêl-as.<span class="pn">{33}</span> O que ella via era um mancebo +melancolico, quasi sempre calado, fixando-a com frequencia, fugindo d'ella se +os olhos se encontravam, trocando palavras de absoluta necessidade, e +conversando com viveza, e muitas vezes, com sua mãe, como se ella só lhe +merecesse attenções. Andaria aqui um incentivo de vago ciume? A manifestação +inexprimivel d'um germen de sympathia? O resentimento do desdem que Luiz da +Cunha aparentava por ella?</p> + +<p>Se vos digo que sim, não digo cousa nenhuma do outro mundo, e obedeço á +verdade.<span class="pn">{34}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00140">IV.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00141">CONTAGIO.</a></h2> + +<p>Nem eu nem vós sabemos como nasce o amor. Em physiologia, que é a sciencia +do homem physico, não se sabe. A psycologia tambem não diz nada a este +respeito. Os romances, que são os mais amplos expositores da materia, não +avançam cousa nenhuma ao que está dito desde Labão e Rachel até á neta do +arcediago e o filho de Ricarda.</p> + +<p>Dizer que o amor é a sensualidade, além de grosseira definição, é falsidade +desmentida pela experiencia. Ha um amor que não rasteja nunca no raso estrado +das propensões organicas.</p> + +<p>Dizer que o amor é uma operação puramente espiritual é um devaneio de +visionarios, que trazem sempre as mulheres pelas estrellas, ao mesmo tempo que +ellas, gravitando materialmente para o centro do globo, comem e bebem á maneira +dos mortaes, e até das divindades do cantor de Achyles.</p> + +<p>Eu conheço homens, sem faisca de espirito, que se abrazam tocados pelo amor +como o phosphoro em presença do ar. Eis-aqui um phenomeno eminentemente +importante. Elle, só, sustenta em these que o amor não tem nada com o corpo nem +com o espirito. Eu creio que é um fluido. É pena, porém, que eu não saiba o que +é fluido para me dar aqui uns ares pedantescos, ensinando ao leitor, mais +ignorante que eu, cousas que, de certo, o não privavam de continuar a comer, e +a dormir.</p> + +<p>A prova de que o amor não está na cabeça, nem no coração, é que Luiz da +Cunha e Faro tinha uma cabeça<span class="pn">{35}</span> incapaz de calcular +as consequencias d'uma acção boa ou má, e um coração desbaratado, verminoso, +apodrecido para nutrir em si uma flôr das que nascem aromatisando a imagem que +o amor lá insculpiu com maviosos traços.</p> + +<p>Assucena, pelo habito da convivencia, perdêra a estranheza, e +familiarisára-se com o moço tão bem aceite e tão desvelado por sua mãe. O +sobresenho de seu padrasto com o filho de João da Cunha tornára-lhe a ella mais +sympathico o mancebo. Recordando as asperezas do marido de sua mãe, com ella +sua enteada, sempre carinhosa e humilde, achava ahi a razão da grosseira +indifferença com que Luiz era recebido.</p> + +<p>Um dia, acharam-se sósinhos, porque a viscondessa não prevenira o filho de +João da Cunha da sua sahida á noite, nem prohibira, por inadvertencia talvez, a +sua filha a recepção de visitas.</p> + +<p>Os embaraços de Luiz, a sós com ella, eram improprios d'um rapaz de sala, +imperturbavel fallador em todas as conjuncturas de que o homem se salva +fallando muito, e prompto improvisador de palavras que não deixam nunca +descahir a conversação nas trivialidades aborrecidas.</p> + +<p>Luiz da Cunha imaginou que amava Assucena; e, só com ella, deduziu do seu +acanhamento que a amava muito. Assucena já não córava na presença de Luiz da +Cunha; e, só com elle, percebeu, no ardor da face, que se estava denunciando.</p> + +<p>Era necessario dizer alguma cousa, esgotadas as primeiras palavras d'um +cumprimento, cuja elasticidade se não descobriu ainda.</p> + +<p>—Está v. ex.ª em vesperas de recolher-se ás Commendadeiras...—disse Luiz, +cuidando que tinha acertado com a vereda por onde, mais facilmente, chegaria a +um vasto assumpto.</p> + +<p>—É verdade...—respondeu ella com mimo e tristeza—D'amanhã a quinze +dias...</p> + +<p>—Tão cêdo!... E está desejosa de se vêr lá, não é assim?</p> + +<p>—Desejosa, não. Eu antes queria estar com minha mãe...</p> + +<p>—E ella não lhe faz a vontade?</p> + +<p>—Por vontade d'ella nunca eu sahiria de casa; mas<span +class="pn">{36}</span> meu padrasto, não sei porque, acha que eu sou aqui de +mais, e mostra-me sempre um modo aborrecido, que me incommoda, e de certo ha de +incommodar minha boa mãe.</p> + +<p>—O senhor visconde tem essa singularidade. Por calculo ou por genio, parece +que toda a gente o incommoda, que todos lhe são pezados e suspeitos. Eu tenho +sido bem mimoseado com os seus arremêssos, como v. ex.ª terá observado. Se +encontro francas as portas d'esta casa, favor é que devo á senhora viscondessa, +minha amiga desde a infancia, mais que minha mãe, porque uma mãe deixa muitas +vezes perder um filho, e esta nobre senhora, este anjo que tem sobre mim uma +influencia celeste, salvou-me.</p> + +<p>—Tenho reparado que ella é muito sua amiga. Se v. ex.ª fosse meu irmão, de +certo minha mãe lhe não daria mais estima...</p> + +<p>—E porque me não faria Deus seu irmão?—atalhou Luiz com ar infantil, e +meiguice de sorriso. Assucena baixou os olhos, em silencio, tambem +desabrochando um ligeiro sorriso, no nacar dos labios, que pouco sobresahia á +côr purpurina do pejo.</p> + +<p>—Esta pergunta—proseguiu elle, com affectuosa tristeza—fez-lhe uma +impressão muito diversa do que eu pensava! V. ex.ª córa, e a pergunta não é das +que ferem a susceptibilidade do coração. Magoou-a o meu innocente desejo de ser +seu irmão?</p> + +<p>—Não me magoou...</p> + +<p>—Pois então diga-me o que sentiu para eu poder convencer-me de que ainda +lhe não disse uma só palavra indiscreta...</p> + +<p>—Não me magoou, senhor Luiz da Cunha... já lh'o disse... O que eu senti... +não foi pezar, nem alegria... Fez-me impressão essa pergunta, por que...</p> + +<p>—Diga, não se arrependa... o seu coração ia fallar...</p> + +<p>—Porque muitas vezes tenho perguntado a mim mesma se não seria muito bom +que...</p> + +<p>—Eu fosse seu irmão?</p> + +<p>—É verdade...</p> + +<p>—E córa por isso? Um desejo tão puro e tão santo diz-se, e não se +esconde...<span class="pn">{37}</span></p> + +<p>—Dizer-se... nem a toda a gente. Eu disse-o a minha mãe, e ella +perguntou-me cousas estranhas para mim... Se não fosse ella, isto que lhe disse +com difficuldade, não teria duvida em dizêl-o ás minhas mestras do collegio, +por que não sei onde está o mal d'este desejo.</p> + +<p>—Não tem nenhum... Diga-me, senhora D. Assucena, sua mãe prohibiu-a de +manifestar o bom conceito que v. ex.ª faz de mim?</p> + +<p>—Não, senhor... Só me disse que me não habituasse a pensar no senhor Luiz +da Cunha, por que o coração em se habituando a fantasias, custa-lhe muito +depois a desfazer-se d'ellas quando vem a realidade. E acho que minha mãe tem +razão. V. ex.ª não póde ser meu irmão.</p> + +<p>—Mas amigo, mais que irmão, não poderei tambem?</p> + +<p>—Amigo... sim...—Assucena córou de novo, e balbuciou estas duas palavras. +Luiz da Cunha viu-a tremer d'aquella quasi imperceptivel oscillação nervosa, +que denuncia o antagonismo da natureza com a arte, a força expansiva do +espirito com os estorvos compressores da educação.</p> + +<p>—Pois então... sejamos—continuou elle—sejamos o mais que podêmos ser... +muito amigos, amigos por toda a vida, sim?... Por que me não responde? Receia +que eu algum dia, se se esquecer de mim, a responsabilise pela promessa? Tambem +não serei capaz de mortifical-a, e, se o fosse, não poderia chamar-me seu +amigo. Quando aconteça que a minha amizade lhe seja pezada...</p> + +<p>—Pezada?!</p> + +<p>—Sim; quando se dêem motivos fortes para que me esqueça...</p> + +<p>—Que motivos?!</p> + +<p>—Se lhe derem um marido...</p> + +<p>Assucena levou instinctivamente o lenço aos labios, como para esconder o +rubor que lhe assomava.</p> + +<p>N'este momento, entrou João da Cunha, e surprendeu ainda o escarlate, que +destacava na tez trigueira de Assucena. Experimentado, comprehendeu o caso, que +não tinha nada de mysterioso senão o facto de se acharem sósinhos seu filho e a +filha da viscondessa. João da Cunha sentiu o abalo prophetico d'alguma +desgraça. A anciedade não lhe concedia delongas. Como Assucena pediu<span +class="pn">{38}</span> licença para retirar-se, João da Cunha perguntou ao +filho, ainda absorto n'um silencio muito significativo para o pae:</p> + +<p>—Como venho encontrar-te sósinho com Assucena?</p> + +<p>—Entrei n'esta sala, e encontrei-a a receber-me. Se soubesse que vinha +encontral-a sósinha, creia v. ex.ª que eu não subiria.</p> + +<p>—Tu comprehendes, Luiz, quanto seria melindroso para a nossa honra um +namoro com a filha da pessoa que tão cara nos é, e tanto por ti se tem +sacrificado?</p> + +<p>—Comprehendo, meu pae. E d'onde é que v. ex.ª deduz que eu namore Assucena?</p> + +<p>—Surprendi-a d'um modo que revelava emoções que não são as d'uma singela +conversação.</p> + +<p>—Acabava eu de pedir-lhe que fosse minha amiga e amiga como póde sêl-o uma +irmã.</p> + +<p>—Luiz, esses rogos não se fazem a uma mulher de dezoito annos. Irmãos só os +faz a natureza. A arte, que approxima o homem da mulher com laços fraternaes, é +uma ficção. Os teus amores tem sido todos faceis, d'aquelles que a seducção não +precisa mascarar com um titulo impostor; e por isso não sabes ainda prêver as +consequencias d'esse improvisado parentesco. Eu tive muitas irmãs, como esta +que tu adoptas, e todas ellas quebraram o vinculo da fraternidade, quebrando +primeiro pela honra.</p> + +<p>—Meu pae cuida que falla a seu filho dous mezes antes. Eu devo á +Providencia um novo coração.</p> + +<p>—Quero, devo acredital-o: Deus me livre de pensar o contrario. Mas é +preciso que meu filho saiba muitas cousas que não aprendeu na vertigem da +dissolução em que viveu onze annos. Quando o coração é nobre, tambem ha paixões +que principiam nobremente, e acabam pela ignominia como as outras que começam +pela infamia. O amor violento, o amor que deshonra, o amor que faz victimas, +não é o infame privilegio dos homens pervertidos. Os de nobre coração tambem +deshonram, tambem pervertem, e fazem victimas. O avarento póde viver uma longa +existencia sem um remorso, sem roubar o pão do seu semelhante, logo que elle +alimente a sua sede de ouro com o seu proprio suor. O general, coberto de +condecorações,<span class="pn">{39}</span> póde ter sido um barbaro nas +batalhas, matando inermes, e incendiando choupanas que encerram velhos e +creanças. É um algôz condecorado, ao qual Deus não pergunta o que fez de seu +irmão; é uma consciencia tranquilla de remorsos, como a lamina da sua espada +está limpa de sangue. O avarento do ouro, e da gloria caminham ambos por +estrada desempedida: um legalisa a posse do ouro com a astucia e com o +trabalho; o outro, com o poder que lhe foi conferido, e com a bravura +sanguinaria. Na sociedade ha um homem que vive tambem de ambições, que aspira +tambem ás glorias; mas glorias e ambições do coração, as que elle julga mais +innocentes, as que a sociedade lhe não crimina no seu principio, as que por fim +se lhe convertem em cilicios de remorso, em apertos de coração, e em tedio de +si proprio, no declinar das forças physicas para a sepultura das chimeras. Este +homem fui eu, e és tu. O coração perde-nos, Luiz. O homem que se dá +exclusivamente ao amor, cuida que vai sobre alcatifas de flôres, e resvala n'um +abysmo. Principia, com o proposito de ser honrado, um commercio de sensações +brandas; e acaba enfastiado d'ellas, ancioso d'outras que não depara. Depois, +como indemnisação do que perdeu, encontra o desprêso dos outros; como companhia +das suas horas solitarias, tem a imagem d'uma pobre mulher que se levanta do +charco, onde elle a lançou, agarrando-se-lhe aos cabellos; e, como refrigerio +das sêdes que o calcinaram na mocidade, encontra na velhice... um filho, que +lhe encrava uma corôa de espinhos sobre o stigma do crime com que a sociedade o +manda á presença de Deus...</p> + +<p>—Meu pae!—atalhou Luiz pasmado da desordenada eloquencia.—Eu não sei o +que fiz para merecer-lhe admoestações tão sevéras!</p> + +<p>—Isto não são admoestações, Luiz... Não sei o que disse... Lembra-me que o +meu fim era uma cousa muito importante... Não dediques uma affeição perigosa á +filha da viscondessa. Pára aqui. Ama uma mulher, que possas fazer tua esposa, +ou não ames nenhuma, por que eu sei que o teu amor tem o contagio da morte...</p> + +<p>Assucena entrou na sala, desculpando-se da demora, com uma invenção mal +fingida. Se quizesse ser verdadeira,<span class="pn">{40}</span> diria que +estivera no seu quarto, saboreando, sósinha, uma felicidade que principiava por +lagrimas.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>As confusas recriminações de João da Cunha não cahiram em coração inerte. +Luiz nunca respeitára tanto seu pae. Supposto lhe não comprehendesse as +comparações do ambicioso e do general com os affectos do coração, achára uma +dôr sublime n'essa desordem, um gemido de remorso n'essa condemnação a si +proprio, n'essa tocante ideia d'uma corôa de espinhos, cravada pelo filho, na +fronte de seu pae, onde a sociedade gravára o lema da deshonra.</p> + +<p>Em casa da viscondessa, Luiz da Cunha faltou algumas noites, depois da +ultima em que o vimos, sem grande esforço, erguer o véo do coração de Assucena.</p> + +<p>A causa da falta extraordinaria, e sensivel para a viscondessa, era o +incommodo de João da Cunha, que periodicamente soffria accessos de sangue á +cabeça, ameaços de congestão cerebral, que o debilitam pelas repetidas +sangrias, seu allivio unico. Luiz passava os dias e as noites, ao pé de seu +pae, pela primeira vez. Em tempos de libertinagem, as doenças do pae eram +indifferentes ao filho, e até a formalidade d'um cumprimento lhe era pezada.</p> + +<p>—Que differença!—dizia D. Rosa a sua filha—Quem diria que Luiz da Cunha +passaria as noites ao pé de seu pae! Onde estava um nobre coração! Á vista +d'isto, ninguem deve perder a esperança de salvar um homem abandonado de todos! +A sociedade é a que atira o desgraçado á miseria...</p> + +<p>—Á miseria!—atalhou Assucena.</p> + +<p>—Sim, minha filha. O desprêso com que são repellidos os infelizes, que não +podem ser bons sem os conselhos d'um bom amigo, é muitas vezes a causa de se +perderem de todo. O mau homem cuida que se vinga redobrando em malvadez. +Deixam-no sósinho, e elle precisa de viver em sociedade. Procura a unica que o +recebe, a dos abandonados como elle. Ahi encontra irmãos mais perdidos que +elle, e acha sempre um amigo. Dizia teu pae, minha filha, que o ultimo amigo do +criminoso era o carrasco... Não entendes esta linguagem, Assucena...<span +class="pn">{41}</span> Oxalá que nunca recordes palavras de tua mãe, ditas como +um desafogo a quem lh'as não entende... Foi talvez com ellas que eu salvei Luiz +da Cunha... Servem só para desgraçados... e tu, filha, és feliz, és innocente, +és um anjo.</p> + +<p>—Elle é ainda desgraçado?</p> + +<p>—Póde ser feliz...</p> + +<p>—Eu queria que elle o fosse; mas é tão triste... Elle era assim d'antes?</p> + +<p>—Não. Escarnecia de tudo, convertia tudo em galhofa respondia ás minhas +admoestações com agradecimentos ironicos, e contava-me os seus desatinos como +quem conta acções meritorias. O primeiro dia em que lhe ouvi queixar-se da sua +má estrella, foi no dia em que te viu...</p> + +<p>—Em que me viu!?...—atalhou Assucena, sem poder conter as palavras, que +vinham do coração sobresaltado.</p> + +<p>—Porque me fazes esse reparo tão admirada?!</p> + +<p>—Admirada... não!... É que...</p> + +<p>—Não te escondas aos olhos de tua mãe, que é inutil, minha filha. Leio em +todos os corações, e nunca se me escondeu um só pensamento do teu... Amas Luiz +da Cunha?</p> + +<p>—Minha mãe!...—exclamou ella, tomando-lhe carinhosamente a mão, e fazendo +um aceno negativo.</p> + +<p>—Não te assustes, Assucena. Eu não crimino essa affeição, que é muito +natural. Se o tivesses conhecido, ha dous mezes, de certo o não amarias. +Hoje... era quasi impossivel que o não amasses... Luiz tem alguma cousa fatal, +que o fez querido a muitas mulheres, que se envergonhavam de lhe apertar a mão +em publico. Hoje poucas seriam as que lhe recusassem affectos. Mas olha, +Assucena... tua mãe vai fallar-te como todas as mais deviam fallar a uma filha +que sáe d'um collegio aos dezoito annos. Se tivesses vivido cá fóra, não era +necessario dizer-te que só ha uma posição que te convém com Luiz da Cunha. Se +não fôres sua esposa, que poderás tu ser para elle?</p> + +<p>—Sua irmã.</p> + +<p>—Não ha irmãs pelo coração, minha filha. Quererias ser sua esposa?... +Responde, Assucena... Faz de conta que fallas com a tua unica amiga. Agora não +sou tua mãe,<span class="pn">{42}</span> visto que é de uma mãe que sua filha +de ordinario se esconde. Querias ser sua esposa?</p> + +<p>—Queria...</p> + +<p>—Que tristes cousas vou dizer-te... Teu padrasto não te daria uma moeda de +cobre como dote, e eu não posso tambem dar-t'a porque sou pobre como tu. Luiz +da Cunha não tem patrimonio, não póde succeder na herança de seu pae, é pobre +como ambas nós, logo que seu pae lhe morra. Vês o que é o mundo? Um casamento +entre duas pessoas, habituadas a não proverem com o trabalho ás suas precisões, +é uma desgraça. Tu serias muito infeliz, quando teu marido te dissesse «não +temos pão.» Minha filha, eu já soube o que é não ter pão. Já desfiz um meu +vestido para que tu não andasses nua. Já andei sem lenço na cabeça para que tu +não tivesses fome. Já me ajoelhei comtigo nos braços, pedindo a Deus que nos +levasse ambas, antes que tivessemos de morrer de fome entre quatro paredes. A +amiga que nos valeu a ambas, é hoje uma desgraçada, não de fortuna, porque eu +privo-me de muito para que ella tenha tudo. É desgraçada... pobre Maria +Elisa... porque se deixou arrastar pelos cabellos onde a leva o mau anjo das +suas paixões... Coitadinha! no que deu aquella mulher!...</p> + +<p>—Não chore assim, minha mãe...</p> + +<p>—Deixa-me chorar... eu preciso de chorar alguma vez na tua presença... São +mais dolorosas as lagrimas, sem testemunhas. Preciso d'uma confidente, e, se o +não és tu, quem o será? Nos salões é preciso rir sempre. Com meu marido, é +necessario ser o que elle é... Comtigo posso ser o que sou... Minha filha, tua +mãe vai pedir-te um favor...</p> + +<p>—Favor!... que quer, minha querida mãe?</p> + +<p>—Esquece Luiz da Cunha.</p> + +<p>—Esquecêl-o...</p> + +<p>—Se não pódes esquecêl-o... resigna-te, não alimentes esperanças, não lh'as +dês a elle...</p> + +<p>—Isso sim... isso posso fazêl-o... Quer minha mãe que eu me recolha já hoje +ao convento?</p> + +<p>—Nem tanto, meu anjo, nem tanto!... Irás quando tens de ir...</p> + +<p>—Mas eu não devo vêl-o mais...<span class="pn">{43}</span></p> + +<p>—Porque não? Assim o amas?!</p> + +<p>—Pensei que poderia vêl-o todos os dias. Não queria senão ser sua irmã. Diz +a mãe que não posso... não o serei; mas não tenho coragem... não sei como hei +de dizer-lhe que o não sou, porque elle ha de perguntar-me a razão porque não +sou sua irmã, sua amiga, e eu não sei o que hei de responder-lhe.</p> + +<p>—Mas... prometteste-lhe tu essa estima de irmã?... Córas!... responde, +Assucena.</p> + +<p>—Prometti...</p> + +<p>—Quando?!</p> + +<p>—Uma noite que a mãe sahiu, elle veio adiante do pae...</p> + +<p>—Porque me não disseste esse encontro, se elle te pareceu innocente?</p> + +<p>Assucena baixou, corrida, os olhos, e limpou duas lagrimas, que lhe tremiam +nas pestanas. Ergueu-se impetuosamente, e escondeu a face no seio de sua mãe, +que chorava com ella.</p> + +<p>—Foram tardias todas as minhas reflexões, minha filha?—disse a mãe com a +voz cortada, procurando vêr a face de Assucena.</p> + +<p>—Não foram... Eu serei o que minha mãe quizer que eu seja; mas não sei +porque devo maltratar um homem, que lhe merece tantas provas de estima.</p> + +<p>—Eu não te digo que o maltrates...</p> + +<p>—Se elle me procurar, não lhe fallo.</p> + +<p>—E porque não?</p> + +<p>—Porque... seria peor... seria enganal-o, porque não posso esquecêl-o.</p> + +<p>—Desde quando o amas, minha filha?</p> + +<p>—Tinha eu dez annos, e elle dezesete...</p> + +<p>—Oh filha!—interrompeu a mãe, sorrindo—isso não era amor!</p> + +<p>—Não sei o que era... era amizade... nunca o esqueci... E quando o vi, +depois de oito annos, vi tudo que me era mais caro na vida, depois de minha +mãe...</p> + +<p>—E disseste-lh'o?</p> + +<p>—Nunca... mas, se elle m'o perguntasse, dizia-lh'o. A razão não me crimina +d'este affecto de irmã...</p> + +<p>—Quem sabe, filha!... Talvez, mais tarde... outra<span +class="pn">{44}</span> razão, a da experiencia, venha desmentir a que te falla +hoje...</p> + +<p>—Penso que não... Hei de seguir sempre os conselhos de minha mãe. Farei +tudo o que posso. Se é possivel esquecêl-o, empregarei todos os esforços para +isso. Diga-me a mãe quaes elles são.</p> + +<p>—Terrivel pergunta!—disse a filha do arcediago, no fundo da sua +consciencia.</p> + +<p>—Não me responde, minha mãe?</p> + +<p>—Não o evites de todo... Recebe-o, se elle te visitar... Entretanto, póde +ser que Deus permitta um milagre.</p> + +<p>—Esquecêl-o?</p> + +<p>—Esquecêl-o, ou poder ser sua mulher. Não é esta a intenção de Luiz da +Cunha?</p> + +<p>—Não sei. Não temos tido a liberdade de fallar n'essas cousas. Se elle me +tivesse fallado n'isso, eu dizia-lhe que seria sua esposa, sem me lembrar que é +necessario um dote.</p> + +<p>—E sem o consentimento de tua mãe?</p> + +<p>—Minha mãe quer a minha felicidade...</p> + +<p>—Confia-te a mim, Assucena... eu continúo a ser a tua amiga. Hei de fallar +hoje com teu padrasto... Agora mesmo que elle ahi vem... Retira-te.</p> + +<p>O visconde de Bacellar entrava, com a penna na orelha, e uma carta aberta +nas mãos.</p> + +<p>—Rosa—disse elle, franzindo a testa, e tirando os oculos—lê essa carta. É +chegada agora do Porto. Basta que leias as ultimas linhas. Senão, eu t'as leio:</p> + +<p> </p> + +<p><em>«Em quanto a Maria Elisa, meu caro visconde, sinto dizer-lhe que está +uma perdida. Ultimamente adquiriu um amante que lhe consome a generosa mesada +que a senhora viscondessa lhe dá. Acho prodigalidade despender cincoenta mil +reis cada mez, para sustentar dous viciosos. Ella tafula, como se tivesse doze +contos de reis de renda. Os cinco mil cruzados, que sua senhora lhe mandou ha +um anno, dissipou-os em menos de tres mezes. Não sei, ainda assim, como ella +póde fazer tanto com cincoenta mil reis mensaes. Disseram-me hoje que ella +recebia outros cincoenta; não posso colligir d'onde venham. Os meus respeitos +&c. &c.»</em> <span class="pn">{45}</span></p> + +<p> </p> + +<p>Rosa Guilhermina estava pallida e fria. As ultimas linhas d'esta carta eram +a denuncia do emprego que ella dava ás suas economias. O filho da senhora Anna +Canastreira, lida a carta, passeou na sala, dobrando-a, soprando, limpando os +oculos, e batendo com a caixa do rapé na palma da mão esquerda.</p> + +<p>—Que dizes tu a isto, Rosa?</p> + +<p>—Que hei de eu dizer, José! que Maria Elisa deve muito a Deus, se a levar +d'este mundo.</p> + +<p>—Mas, em quanto Deus a não leva, é preciso pôr cobro a isto. Sabes a +maneira como?</p> + +<p>—Diz, meu amigo.</p> + +<p>—Levantar-lhe a cesta. Os beneficios que lhe deves estão pagos com usura. +Em quanto esteve comnosco foi tratada como rainha. Deu-lhe o diabo da asneira +na cabeça, e fez tropellias que me obrigaram a sahir do Porto. Sahiu da +companhia do S*** C***, déste-lhe uma casa mobilada de tudo, e uma mesada que +sustentava uma familia. Vendeu casa e moveis, e andou de amante em amante, até +que lhe déste cinco mil cruzados para ella cemprar uma quinta em Santo Thyrso. +Qual quinta nem qual carapuça! Gastou os cinco mil cruzados, gasta os cincoenta +mil reis, e outros cincoenta, que naturalmente são remettidos por ti. Não te +ralho Rosa: o mal feito não tem remedio; mas reprovo d'hoje em diante o +desfalque da nossa casa, para trazer no galarim uma mulher sem vergonha, uma +libertina de quarenta annos. Se lhe queres continuar a mesada, manda-a entrar +n'um convento, onde a não conheçam, e sustenta-a lá. Assim ha de dizer-se que o +meu dinheiro serve d'alimentar mulheres perdidas, e vadias. Não estou por isso.</p> + +<p>—Eu pensarei no que se ha de fazer: entretanto peço-te que lhe não +suspendas a mesada. Faz isto que te supplíca tua mulher.</p> + +<p>—Farei; mas tu não te lembras de fazer economias para essa rapariga que não +tem nada de seu?</p> + +<p>—Qual rapariga? minha filha?</p> + +<p>—Pois quem?</p> + +<p>—É a respeito d'ella que eu desejava muito alguns momentos de attenção. +Tenho pensado no futuro d'esta menina.<span class="pn">{46}</span></p> + +<p>—Pois já não queres mettêl-a no convento?</p> + +<p>—Quero; mas o convento, sem profissão, não é futuro. Diz-me, meu amigo: tu +dás um dote a minha filha?</p> + +<p>—É a quarta vez que me fazes essa pergunta, e eu respondo o que já +respondi. A filha da viscondessa de Bacellar, das duas uma: ha de casar com +grande dote, ou não casar. O grande dote não o dou; com pequeno dote não serve +senão a algum amanuense de tabellião. Pediu-t'a alguem em casamento?</p> + +<p>—Não; mas se tu quizesses, poderiamos casal-a, talvez, com...</p> + +<p>—Com quem?</p> + +<p>—Com Luiz da Cunha.</p> + +<p>—Estás tôla! Deus te livre d'essa asneira! Pois tu acreditas que elle valha +hoje mais do que valia ha tres mezes?!</p> + +<p>—Acredito: não tem nada do antigo homem.</p> + +<p>—Não terá; mas pelo sim, pelo não, sempre te vou dizendo que para tal +casamento não sáe um pataco da minha gaveta. Tomára eu o que por lá anda por +casa do João da Cunha! Cara me tem custado a amizade do tal fidalgo! Já não tem +bens livres que cheguem para o pagamento de dez mil e tantos cruzados que me +deve, afóra a fiança que eu lhe prestei para um titulo de divida que o +extravagante do filho assignou de um conto de reis. Tem juizo, Rosa. Não te +deixes enganar com apparencias. Alli onde o vês com ares de convertido, tudo +aquillo é hypocrisia. Agora vou entendendo a razão de tal mudança. Queria um +dote, e uma mulher. O dote gastava-o com a tal dissoluta que levava ao theatro, +ou com outra que tal; e a mulher, qualquer dia vinha, com dous ponta-pés, +pedir-te que lhe désses um bocado de pão. Ás vezes pareces tão esperta... e +cáes em cada alhada, que nem uma cosinheira! Querem vêr que a rapariga está +namorada com o senhor Luizinho?!</p> + +<p>—Basta, José... Não fallemos mais n'este assumpto. Fiz-te uma pergunta +muito simples, e respondeste mais do que era necessario. Ficamos entendidos. +Posso contar com a subsistencia de Assucena no convento?</p> + +<p>—Paguei hoje seiscentos mil reis de entrada, e estabeleci-lhe seis moedas +por mez, e uma creada de cozinha, e<span class="pn">{47}</span> outra do +quarto. Se é necessario mais alguma cousa, é pedir por bôca, em quanto está +aberto o cofre.</p> + +<p>—Não é preciso mais nada, meu amigo.</p> + +<p>—Poucos padrastos fazem outro tanto...</p> + +<p>—Tens razão, José.</p> + +<p>—E quando lhe appareça um digno marido, não terei duvida em lhe dar um +dote; mas não para Luizes da Cunha, e outros que taes. Ficas zangada?</p> + +<p>—Porque? Fico-te de todo o coração agradecida. Tudo que fizeres em bem de +minha filha é uma esmola de caridade.</p> + +<p>O visconde desceu ao escriptorio a descontar letras do governo, e Rosa +Guilhermina fechou-se no seu quarto com a filha.</p> + +<p>Antes de annunciar-lhe o que se passára, tinha dito com as lagrimas o mais +que poderia dizer-se.</p> + +<p>Assucena, beijando-a meigamente, dizia:</p> + +<p>—Adivinho tudo, minha querida mãe. Não se afflija, que eu para ser feliz, +não preciso do dinheiro de meu padrasto.</p> + +<p>—Precisas... precisas...—respondia a mãe, abraçando-a com frenetica +ternura.<span class="pn">{48}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00150">V.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00151">UM ANJO CAHIDO.</a></h2> + +<p>Luiz da Cunha era estranho ás apressadas solicitudes da viscondessa de +Bacellar com o futuro de sua filha. Como a não pedíra, nem mesmo significára a +alguem intenções de casar-se, da sua parte nenhum esforço punha para vencer as +difficuldades do casamento, quando se déssem. Votado inteiramente a velar a +convalescença de seu pae, as saudades de Assucena desvaneciam-se-lhe pouco e +pouco; mas não tanto que elle não esperasse com impaciencia, todos os dias, +noticias indirectas de sua «irmã.»</p> + +<p>Luiz da Cunha quizera illudir-se. O amor, que a encantadora Assucena lhe +resuscitára nas ruinas do coração, era um sentimento de fantasia, um impotente +esforço da vontade. Depois de onze annos de vida aparcellada de revezes na +alma, de ignominias que entram como habito nas propensões do homem, que se crê +irresponsavel de seus escandalos, acredite-se de boamente a conversão religiosa +como consequencia do remorso como temor de Deus; mas negue-se a reforma do +espirito em cousas do amor, em nobreza de affectos, em dedicações fervorosas. É +impossivel essa reforma. Não renasce o amor no peito cansado; não mais +desabrocha no tremedal a flôr dos perfumes ideaes, que, só no ar puro de um +coração juvenil, embellece a vida, e promette a felicidade.</p> + +<p>O amante de Liberata não podia ser o interprete do coração de Assucena. Um +sahia da innocencia, outro do crime. Luiz, depois das paixões impetuosas, +entrava cansado no amor tranquillo para o qual é necessaria muita alma. +Assucena, com todo o vigor da juventude, abandonava-se,<span +class="pn">{49}</span> mais céga do que se imaginava, á paixão impetuosa.</p> + +<p>Se a tivessem educado nas salas, a neta do arcediago, aos dezoito annos, não +se apaixonaria por um homem inconveniente, socialmente fallando. Aprenderia, +desde os quatorze, a estremar o apparente do real, o homem que se namora por +entreter, e o que se namora para casar. Rodeada de lisonjas, qual d'ellas mais +impostora, perderia depressa a memoria dos differentes thuribularios, e, ao +sentir no coração impressos os traços de uma imagem, outra imagem viria +desfazêl-os depois. O amor repartido é o amor sem consequencias perigosas. A +razão conserva sempre o seu dominio. A luta com tres é-lhe menos difficil que a +de um só; e a donzellinha de faces de leite e rosas, se tiver mãe +experimentada, leva a cabo emprezas arriscadas com a sisudez que os quarenta +annos não tem. Antes de amar a realidade, o coração da virgem, na vida êrma, no +perfume innocente dos collegios d'outro tempo, nutria-se, fortalecia-se, e +extravasava d'um amor sem calculo, d'uma aspiração sem condições.</p> + +<p>Tal fôra Assucena.</p> + +<p>As práticas judiciosas de sua mãe poderiam impressiona-la de passagem; mas o +amor, que vencêra o pejo, que se formára em si, e de tal força que nem os +desdens do amante o aniquilariam, esse amor reagiu contra os mesquinhos +estorvos de um dote, contra a dependencia ignobil das algibeiras d'um padrasto.</p> + +<p>Luiz da Cunha, restaurada a saude melindrosa de seu pae, continuou +regularmente as suas visitas á viscondessa. O trato grosseiro do visconde era +cada vez mais acrimonioso. A affabilidade de Rosa desmerecêra um pouco; e as +maneiras de Assucena pareciam-lhe, em compensação, mais ternas, mais meigas e +insinuantes do que o tinham sido antes da sua declaração.</p> + +<p>E, certo, eram.</p> + +<p>Assucena despediu-se de João da Cunha na vespera da sua entrada nas +commendadeiras. De Luiz despediu-se tambem; mas toda a arte foi vã para +esconder as lagrimas do adeus. Os olhos aguados, e as palavras balbuciantes +denunciaram-na, não a Luiz que a adivinhava; mas a João da Cunha que a não +imaginava tão fragil á tentação do filho.<span class="pn">{50}</span></p> + +<p>A fantasia de Luiz deixou-se outra vez levar do enganoso amor. Era o desejo +que o fazia credulo. Era a pergunta, que elle muitas vezes se fizera depois da +emenda: «poderei eu ser ainda feliz, amando?» era essa pergunta que o fazia +procurar a resposta no amor de Assucena.</p> + +<p>E sabem, leitores, quanto duram estas illusões em homem que deu da sua alma +tudo quanto podia ás puras ou ás impuras paixões? É devaneio d'um dia: accesso +febril que arrefece no dia seguinte: é o mentiroso rejuvenescer de algumas +horas.</p> + +<p>«Se eu podésse lutar com as difficuldades d'uma affeição despresada!... Se +houvesse ahi uma mulher que me ameigasse para me captivar, e, depois de +captivo, me lançasse de si com a ponta do pé, para que ao menos, eu sentisse +aqui no seio de pedra a tarda palpitação do amor proprio!»</p> + +<p>Ha homens que dizem isto, que o dizem e o desejam, que o desejam e não o +encontram.</p> + +<p>Para esses de que serve o amor sem rebuço, a dedicação espontanea e +descuidosa da mulher que vem procural-os, sem ser chamada? Pobre d'ella, se a +ultima scintilla de piedade generosa se apagou no coração do seu verdugo amado. +E elle que lucraria?... O tedio de si proprio.</p> + +<p>O amor angelico de Assucena fôra outra vez recebido por Luiz da Cunha, +esquecido já das primeiras emoções.</p> + +<p>A filha de Rosa entrára no convento, onde encontrára faceis amigas que se +interessavam em remediar-lhe com conselhos a profunda tristeza. Os conselhos +lisongeavam-na. Jubiladas no amor, as commendadeiras, illustres em nascimento, +e até illustradas no espirito, olhavam as cousas d'este mundo, pouco mais ou +menos, como ellas são. Menina de dezoito annos, melancolica, soffre de amor: +entenderam as mais penetrantes. Conhecido o diagnostico da enfermidade, era +infallivel a pharmacia, muito acreditada nas benedictinas. A quem penava do +coração applicava-se-lhe amor a grandes dóses. Ora a barateza da droga nunca +deixou morrer ninguem á mingua de antidoto.</p> + +<p>O que se dizia a Assucena era que amasse, que recebesse<span +class="pn">{51}</span> no lucutorio quem quer que fosse, que se não deixasse +possuir d'uma heroica abnegação, porque o mundo não valia o sacrificio. A sua +mais presada amiga, secular tambem, que passava tres mezes no convento, e nove +na sociedade, tomou ao seu cargo a voluntaria missão de convidar o filho de seu +primo João da Cunha a tomar chá na sua grade, em dia dos seus annos.</p> + +<p>Assucena foi surprendida por Luiz da Cunha, que nunca vira tal prima, nem +entrára em tal convento. Aceitára o convite porque desejava mostrar que lhe era +grato o pretexto de que Assucena se servira para chamal-o ao convento.</p> + +<p>A prima de Luiz da Cunha era uma senhora desempoada. Na sua desprevenida +intelligencia, dous e dous eram quatro, e, segundo ella, toda a mulher devia +ter um amante, e particularmente aquella que reza vesperas n'um côro em quanto +as outras elegem entre dezenas de vestidos o que ha de realçal-a mais no baile, +ou no theatro. Eil-a, pois, em opposição com os estatutos de todos os +patriarchas, que apadroaram conventos.</p> + +<p>Desde esse dia as visitas de Luiz da Cunha a sua prima eram quasi diarias. +Na grade de sua prima, as mais das vezes, quem Luiz encontrava era Assucena.</p> + +<p>A viscondessa sabia d'estas visitas, e não as prohibiu a sua filha, +despresando assim as insidiosas prevenções da intriga, que d'este modo +procurava vingar-se de odios domesticos a D. Leonor Machado, a prima prestadia +de Luiz da Cunha. Os reiterados avisos a Rosa Guilhermina sahiam do convento. +Assucena ignorava-os, porque sua mãe, concebendo os melindres d'um amor +contrariado, não fallava de proposito em Luiz da Cunha, nem consentia que sua +filha de proposito lhe fallasse n'elle.</p> + +<p>O visconde tambem teve as suas duas cartas anonymas, a respeito dos +<em>escandalosos</em> amores da sua enteada, protegidos pela +<em>escandalosa</em> secular Leonor Machado.</p> + +<p>José Bento levou ao conhecimento de sua mulher as informações, que recebera, +e Rosa, por assentir a seu marido, de quem dependia o futuro de Assucena, +impôz-se a dolorosa obrigação de prohibir a sua filha intelligencias com Luiz +da Cunha.</p> + +<p>Assucena recebeu silenciosa a correcção; mas, em silencio,<span +class="pn">{52}</span> se promettia não lhe dar o pêso que sua mãe lhe dava. +Era tarde para ella, e tarde para o filho de Ricarda, que acabava de +convencer-se que o amor, e por ventura o patrimonio de Assucena, alcançado por +astucia, faria as delicias da sua vida.</p> + +<p>Luiz continuou sem obstaculo as suas constantes attenções á prima. O +visconde, informado de novo, mostrou ao seu devedor João da Cunha as cartas que +recebêra. João da Cunha, admoestando o filho, encontrou-o um pouco parecido com +o que fôra em tempo, respondendo-lhe que a reforma de costumes não consistia na +renuncia completa dos mais innocentes prazeres do espirito. Como não fallou em +materia, o caso não era tão pavoroso como o afiguravam os timidos informadores +do padrasto.</p> + +<p>Luiz da Cunha, ressentido das grosserias do filho do retrozeiro da rua das +Flôres, espaçou as suas visitas a casa d'elle. Romperam-se, portanto, as +hostilidades. O visconde ameaçava a enteada de retirar-lhe as mesadas. Luiz da +Cunha offerecia-se como irmão a Assucena, quando seu estupido padrasto a +desamparasse.</p> + +<p>E tudo isto exacerbava a paixão de Assucena, que, agradavelmente humilde, +não sabia resistir ao amante, para obedecer ao tyranno da sua alma.</p> + +<p>A prelada do convento recebeu do visconde poderes, que nunca, até então, +exercêra sobre o coração das professas, e muito menos das seculares.</p> + +<p>Animada pela indomita Leonor Machado, a neta do arcediago desobedecia, +correndo pressurosa á grade, quando Luiz da Cunha apeava no páteo. Alli, a +pobre menina alliviava da sua dôr oppressiva, chorando, e bebia a longos sôrvos +o balsamo, que o filho de Ricarda, de antemão, trazia preparado em estudadas +palavras de esperança.</p> + +<p>Mas qual esperança era essa? Que planos eram os d'elle?</p> + +<p>Muito communs, e muito infames.</p> + +<p>Luiz da Cunha, invocando o seu <em>eu</em> d'outros tempos, encontrou-o. +Pediu-lhe conselhos, e recebeu-os. Aventou uma trama que não é nada +extraordinaria, porque não cansam por ahi cavalheiros muito probos, e +exemplares a todos os respeitos que a praticaram com prosperos resultados.<span +class="pn">{53}</span></p> + +<p>O filho de João da Cunha sabia que, morto seu pae, os successores do vinculo +viriam desalojal-o do ultimo palmo de terra. O futuro dava-lhe cuidado. Os +poucos bens de livre nomeação estavam hypothecados a dividas enormes, +contrahidas por sua causa, depois que as preciosas joias de Ricarda foram +desbaratadas em desperdicios do pae e do filho. João da Cunha, segundo o pensar +dos medicos, não resistiria a um dos ataques cerebraes que repetidas vezes o +ameaçavam com a morte, annunciando-se por uma sombria tristeza, e desordem de +ideias, á maneira d'aquella em que o vimos censurar o amor do filho a Assucena. +Luiz teve o bom senso de se julgar desvalido apenas seu pae fechasse os olhos. +Precisava enriquecer-se e grangear com tempo uma fortuna, empregar para isso +esforços e habilidade, embora aconselhados pela desmoralisação.</p> + +<p>Entendeu, portanto, que Assucena receberia um bom dote do visconde, quando +esse dote lhe fosse imposto como resgate da deshonrada filha de sua mulher. +Para isso era necessario tiral-a do convento, diffamal-a, forçar a viscondessa +a influir no dinheiro de seu marido.</p> + +<p>O calculo parecia-lhe infallivel a elle. Assucena prestava-se maquinalmente +á vontade do amante, por isso que sua mãe acabava de lhe fazer sentir que o +visconde resolvêra fazêl-a entrar n'um convento do Minho, em Bairão. Era +necessario apressar o desfecho. Leonor Machado abundava nas ideias do seu +primo, e prometteu coadjuvar Assucena na fuga, pela sua casa, que era paredes +meias com o muro da cêrca, sobre que se abria por um postigo. Luiz da Cunha +comprou o hortelão, que devia abrir-lhe a porta travessa do pomar. Animou a +timida menina a descer uma escada que lhe foi içada ao postigo. Recebeu-a nos +braços murmurando o vigesimo juramento de nunca desmerecer a confiança que lhe +merecia, e entrou com ella na mesma sege em que muitas vezes entrára com +Liberata. Desde esse momento, qual das duas teria um melhor futuro?</p> + +<p>Deus! como presenciaes, sereno e tranquillo em vossa magestade tremenda, a +precipitação d'um anjo em cada dia!?<span class="pn">{54}</span></p> + +<p>Homem, que crês na effectiva vigilancia da Providencia, responde-me:</p> + +<p>Se Assucena vai innocente a resvalar n'um abysmo, quem lhe dará a +consciencia do erro? A perdição? Seja. Mas esse remorso tardio que lhe presta? +A contrição? Seja. E, se ella morrer, blasphemando? O inferno?...</p> + +<p>Valha-nos Deus!......................</p> + +<hr class="dotted"> + +<p><span class="pn">{55}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00160">VI.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00161">ANJO CAHIDO, MAS AINDA ANJO.</a></h2> + +<p>A fuga de Assucena não admittia conjecturas. As commendadeiras explicaram-na +com admiravel promptidão, menos Leonor Machado que, no auge do seu pasmo, não +atinava com a causa de semelhante resolução, nem podia comprehender por onde +ella fugira! Ingenua creatura!</p> + +<p>A noticia foi depressa á viscondessa de Bacellar. A pobre mãe desmaiou sem +lêr as ultimas linhas da carta, que a consternada abbadessa lhe escrevêra. O +visconde, encontrando-a desfallecida, lêra tambem a carta, e passados os +segundos da surpreza, déra-lhe para rir com estupida imbecillidade.</p> + +<p>Tal fôra o estridor da gargalhada, que Rosa Guilhermina volveu a si para +contemplar, com os olhos lagrimosos e absortos, o estranho espectáculo de José +Bento, que batia com o pé direito no chão e com a mão direita na esquerda, +exclamando, entre frouxos de riso:</p> + +<p>—Não t'o dizia eu? Ahi está o convertido Luiz da Cunha!... Ahi está a +innocentinha Assucena! Sou um criado do senhor convertido, e da senhora +innocentinha! Agora pega-lhe com um trapo quente. E dizem que és esperta! Os +espertos cáem em cada langará, que não sei o que te diga, Rosa! Ora beija as +mãos ao teu Luizinho que t'a pregou na menina do olho! Isto havia de acontecer +tarde ou cêdo! Eu sempre tive quizilia com tua filha, e com o mulato; por +alguma cousa era.<span class="pn">{56}</span></p> + +<p>—Está bom, José; tens razão; não me mortifiques mais porque me matas. Tem +piedade de mim que sou mãe. Não és pae; se o fosses, em vez de gargalhadas, +chorarias...</p> + +<p>—Choraria! pois não! Se fosse pae, mandava o tal bregeiro de presente ao +diabo. Havia-lhe de arrancar o coração pela bôca. Se fosse pae—accrescentou o +assassino do mestre de latim, morto a garfo—não descançava em quanto os não +arrebentasse a ambos. Como não sou, não tenho nem quero ter direito algum sobre +tal mulher. Lá se avenha.</p> + +<p>—Lá se avenha!—exclamou Rosa, estendendo-lhe os braços supplicantes—Lá se +avenha... não é assim, José! Assucena é minha filha, é filha de tua mulher... +sou mãe que tenho de sentir a deshonra d'essa desgraçada!... Por compaixão, meu +amigo, por compaixão não a abandonemos!</p> + +<p>—Que queres tu agora? que eu vá buscal-a para casa na minha carruagem?</p> + +<p>—Não... Pelo amor de Deus não zombes com a desgraça...</p> + +<p>—Pois que queres?</p> + +<p>—Que te unas a mim para fazermos com que Luiz da Cunha case immediatamente +com ella.</p> + +<p>—E que tenho eu com isso? Eu sou algum padre que os case? Isso é lá com o +prior.</p> + +<p>—Jesus! tu não és tão cruel como estás fingindo, meu querido José... Finges +que me não entendes... Paciencia! Queres-me morta.... pois sim.... eu te farei +a vontade.</p> + +<p>—Ora percebam este disparate! Que tenho eu com o casamento de tua filha?</p> + +<p>—Não tens nada; mas se fallares com João da Cunha...</p> + +<p>—Fallarei. Não queres mais nada?</p> + +<p>—E te compadecêres de minha filha para que ella tenha um bocado de pão...</p> + +<p>—Agora entendi... O tal patife só casará com Assucena dotada...</p> + +<p>—Não sei, José; não sei se casará com ella sem dote; póde ser que sim; mas +são ambos pobres, bem sabes que<span class="pn">{57}</span> João da Cunha deve +tudo que poderia deixar a seu filho... Não a desamparemos.</p> + +<p>—Digo o que disse, Rosa. Não dou nem um pataco para que ella case com o +filho da preta, com o amante das mulheres perdidas, com o infamador das +senhoras honestas, e com o perdulario, que dissiparia n'um anno toda a minha +fortuna, se podésse metter-se em minha casa. É mais facil eu recebêl-a em +casa...</p> + +<p>—Deshonrada, infamada, perdida...</p> + +<p>—Sim; é mais facil recebêl-a assim, que aceital-a casada com esse +desastrado galopim, hypocrita, e infame que deshonra a filha da unica senhora +que o não repelliu de sua casa. Eu tenho sentimentos... Bem sabes que os tenho +desde que estudei latim na travessa do Laranjal... Sei, ha muito, o que é ter +nobreza d'alma. Assucena não é minha filha; mas que me appareça esse vil +seductor, e verá quantos dentes lhe ficam na bôca.</p> + +<p>O dialogo prolongou-se n'uma luta de afflicção da parte da infeliz mãe, e um +immutavel proposito da parte do padrasto.</p> + +<p>João da Cunha, contra o seu costume, entrava ao meio dia em casa do +visconde.</p> + +<p>Vinha em miseravel estado. As veias da face enturgeciam do sangue que lhe +subiu á cabeça em borbotões. O mal aggravou-se na presença de Rosa, que lhe +viera ao encontro, banhada em lagrimas, soluçando palavras inarticuladas. O +visconde, impassivel, encarava João da Cunha com sobrecenho.</p> + +<p>—Tem um excellente filho, senhor Cunha!—disse José Bento, balançando a +cabeça com pungente ironia, e solfando no pavimento com o pé direito.</p> + +<p>—Tenho um desgraçado filho, senhor visconde!—murmurou João da Cunha, +cahindo extenuado sobre uma cadeira, e amparando a fronte calcinada na mão +ardente como ella.</p> + +<p>—Eis-ahi continuou o inexoravel credor—o que é um fraco pae, que deixou +crescer seu filho á lei da natureza Agora regale-se, senhor Cunha!</p> + +<p>—Não me despedace, visconde! Respeite a minha dôr!—murmurou o atormentado +pae, erguendo as mãos na indescriptivel ancia da sua vergonha.<span +class="pn">{58}</span></p> + +<p>—E quem é que respeita a dôr d'essa mãe, que está ahi chorando ao pé de si?</p> + +<p>—Sou eu, visconde, sou eu. Somos ambos paes; comprehendemo-nos chorando....</p> + +<p>—Agora!... Remedeiam alguma cousa?</p> + +<p>—Venho aqui para combinarmos a maneira de remediar esta desventura.</p> + +<p>—De que maneira?—exclamou a viscondessa.</p> + +<p>—Esse desgraçado escreve-me uma carta... Eil-a aqui: visconde... Leia, que +eu não posso.</p> + +<p>—Nem eu!—disse bruscamente o visconde—que me importa a mim a carta de seu +filho? Não tenho nada com elle: entendam-me d'uma vez para sempre.</p> + +<p>—Eu leio...—disse Rosa tomando a carta com soffreguidão.</p> + +<p>Lendo-a, fechou-a, e disse a João da Cunha:</p> + +<p>—É impossivel.</p> + +<p>—Impossivel!</p> + +<p>—Meu marido não dota Assucena, e, portanto... minha filha... está perdida!</p> + +<p>—Perdida? não!—atalhou João da Cunha—Em minha casa ha umas sôpas; e, em +quanto eu viver, meu filho aprenderá o officio de sapateiro para não morrer de +fome, depois da minha morte. Eu vinha aqui pedir uma esmola para o futuro de +Assucena; não venho pedir o preço da reparação da sua honra. É preciso que me +entenda, senhor visconde. Meu filho é neto dos Cunhas e Faros. Não mercadeja +com a deshonra das suas amantes; não calculava com as suas migalhas quando +arrancou a filha d'esta senhora aos braços da virtude...</p> + +<p>João da Cunha, alteando cada vez mais a voz, e embaralhando as ideias em +desalinhada precipitação, denunciava o ataque periodico de sangue, que se lhe +injectava nos olhos, transpirando na testa em frias bagas de suor. Nem o +visconde o entendia já, nem elle mesmo seguia com consciencia o curso +arrebatado dos pensamentos, quando de improviso levou as mãos á cabeça, +exclamando:</p> + +<p>—Senhora viscondessa, se não sou sangrado já, morro, ou endoudeço!</p> + +<p>O visconde condoêra-se. Deu ordens prestes, e o facultativo<span +class="pn">{59}</span> veio rapido. Depois de copiosa sangria, eram pouco +sensiveis as melhoras. João da Cunha estava febril, e fallava em delirio. +Sacudindo os braços vertiginosamente, pedia que lhe afastassem dos olhos o +espectro de Ricarda.</p> + +<p>Decorridas horas, progredia mais intensa a febre, mais frenetico o delirio. +As afflicções agglomeravam-se no coração de Rosa, em quanto seu marido curava +serenamente dos seus negocios, sem enganar-se no quebrado de uma operação +arithmetica, em seu prejuizo.</p> + +<p>A crise de vida ou morte passára; mas os medicos disseram que João da Cunha +não recuperaria o seu completo juizo por muito tempo, ou talvez por nunca mais. +Era o decimo ataque que soffria.</p> + +<p>Entretanto, um criado de Luiz da Cunha esperava no Campo Grande, local do +palacete dos Cunhas, a resposta. Cinco horas depois, vira descer da carruagem, +nos braços de dous medicos o pae de seu amo. Approximára-se, para ser +reconhecido, os medicos disseram-lhe que se afastasse, e os lacaios +afiançaram-lhe a demencia do fidalgo.</p> + +<p>Tal foi a resposta que Luiz da Cunha recebeu.</p> + +<p>N'essa mesma noite, o filho de Ricarda entrou no quarto de seu pae. +Apertou-lhe a mão, chamou-o tres vezes inutilmente, e, á quarta, ouviu as +seguintes palavras, que pareciam ser ditas ao facultativo presente:</p> + +<p>—Diga a meu filho que seja honrado casando immediatamente com essa menina. +Que venha para esta casa, com sua mulher, que será minha filha. Que aproveite +os poucos annos da minha vida para se formar em mathematica, e assentar praça +depois, que foi essa a mais esplendida carreira de seus avós, valentes +generaes, quasi todos mortos no campo da honra, sem uma nodoa ignominiosa. Em +quanto elle vai estudar, sua mulher poderá mover á piedade o padrasto, e +levantar do chão alguma esmola que elle lhe atire como um osso a um cão +importuno. Se lh'a não dér, nem por isso será menos filha de João da Cunha; +porque mais vale ser filha de João da Cunha, que enteada do filho d'um +retrozeiro do Porto. Que venham ambos vêr-me.</p> + +<p>—Eu estou aqui, meu pae.</p> + +<p>—E que não se perca em Coimbra como eu me perdi...—continuou<span +class="pn">{60}</span> elle, surdo ás interrupções incessantes de Luiz—Foi lá +que me atirei a este fôsso, d'onde não ha sahida, nem pela porta da contrição. +Não se segue do meu crime a expiação em meu filho. Se causei a morte de +Ricarda, não fui eu que a matei; foi seu marido. Se se reconciliaram na +presença de Deus, é bem que eu pague o sangue com o sangue: mas meu filho, esse +não...</p> + +<p>Luiz da Cunha não decifrava das vagas exclamações de seu pae a resposta do +visconde. Retirou-se para Lisboa, e entrou em uma casa da rua do Principe. +Subiu a um terceiro andar, e recebeu nos braços a inquieta Assucena, que +chorava e tremia.</p> + +<p>—Porque choras?</p> + +<p>—Estava sósinha, e muito triste, Luiz...</p> + +<p>—A tua criada não te fez companhia?</p> + +<p>—Ninguem m'a póde fazer... Ou tu, ou ninguem... Agora, não choro, nem +tremo... Que resposta deu minha mãe?</p> + +<p>—Não sei: meu pae está effectivamente doudo. Não comprehendi nada do que +elle disse; mas, a acreditar o delirio em que o encontrei, o visconde não lhe +respondeu do modo que suppúnhamos.</p> + +<p>—E então?</p> + +<p>—E então, minha filha, és o que eras para mim. Bem sabes que te não amo por +calculo, nem te adoro menos se os meus planos falharem.</p> + +<p>—Eu bem o sabia, Luiz! O dinheiro não faz a tua felicidade nem a +minha...—disse ella abraçando-o com o acanhamento do pudor.</p> + +<p>—De certo não, Assucena. O caminho que temos a seguir é sempre o mesmo. +Rica ou pobre serás minha esposa.</p> + +<p>O amor não se finge. A tibieza das phrases triviaes de Luiz da Cunha diz-nos +que o arrependimento veio, mais cêdo do que devia esperar-se, manifestar um +enthusiasmo sobre posse. Não se acredita, sem ter experimentado, a subita +mudança que transforma o homem, quando a posse absoluta da mulher, que se lhe +dá, é logo misturada de desgostos imprevistos. Um rapto, de que se espera um +dote, é um pêso aborrecido quando a esperança, fugindo, apenas deixa nos braços +do raptor uma mulher<span class="pn">{61}</span> sem illusão, nem prestigio. E, +peor ainda, quando o amor é debil, o coração extenuado não aceita os +sacrificios grandes, que, raras vezes, acrisolam o amor de fantasia, como era +aquelle de Luiz da Cunha.</p> + +<p>Querem vêl-o tal qual era nas primeiras vinte e quatro horas de convivencia +com a filha de Rosa Guilhermina?</p> + +<p>Chegou a conceber o pensamento de fazêl-a entrar no convento em quanto o +escandalo não era publico! Por vergonha, lhe não fez a ella a proposta +reparadora da sua virtude! A virtude, portanto, na opinião d'este homem era um +attributo bem facil n'uma mulher!</p> + +<p>Passaram-se alguns dias, sem Assucena desconfiar da frieza do seu amante. A +nudez, e os gestos de impaciencia que elle, ao quarto dia, não podia esconder, +traduziu-os ella como inquietação pela perigosa enfermidade de João da Cunha.</p> + +<p>Luiz sahia de noite, a visitar seu pae. Não o encontrava nunca nos +intervallos lucidos, e sabia que os accessos eram cada vez mais duradouros.</p> + +<p>Resolveu, sem consultar Assucena, escrever á viscondessa. A carta foi ter ás +mãos do visconde. O visconde devolveu-lh'a aberta, com estas linhas:</p> + +<p>«<em>Em minha casa não ha quem responda ás infames cartas do senhor Luiz da +Cunha. Se quer dinheiro, trabalhe. Sahiu-lhe errado o seu calculo. Creia que me +não enganou a mim, que tenho experiencia para conhecer os patifes. O que lhe +vale ao senhor é essa mulher não ser minha filha... De hoje em diante, os seus +portadores a esta casa serão corridos a chicote.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>Estas linhas provocaram toda a irascibilidade de Luiz da Cunha. A ameaça era +feita em termos muito insultantes, e o brio não tinha ainda expirado no filho +de João da Cunha. A carta recebêra-a elle em casa de seu pae. N'essa noite não +veio á rua do Principe, e mandou um bilhete desculpando-se com a gravidade da +doença de seu pae. Assucena viu a sua desgraça a um raio de razão n'esse +bilhete. Eram apenas decorridos vinte dias, depois da sua fuga! Chorou uma +noite inteira, e escreveu a sua mãe uma longa carta, que rasgou.<span +class="pn">{62}</span></p> + +<p>Luiz da Cunha apeou no pateo dos Paulistas, esperando o visconde de Bacellar +que era certo ás onze horas de passagem para o Banco, ou para a praça +commercial.</p> + +<p>Vendo-o, parou diante da sua carruagem. O boleeiro sustou os cavallos, e o +visconde, sem auxilio de criado, saltou da portinhola com resolução.</p> + +<p>O filho de João da Cunha não entreteve o palavriado preliminar n'estes +conflictos. A sua arma era um chicote, e a do filho da Anna Canastreira eram os +braços musculosos. Travou-se a luta. Cada murro bem puxado do visconde, Luiz +recambiava-lh'o na face em chicotada, que se repetia sobre o vergão da +primeira. Os criados do visconde soccorreriam o amo, se não encontrassem de +frente os criados de Luiz da Cunha. Eram dous os grupos de gladiadores; e o +povo, sem ser romano, parecia, pela sua inercia, gosar o espectaculo curioso +entre os dous athletas.</p> + +<p>O capitalista fôra ferido na face pelo martello do chicote. Os cabos de +policia, e a guarda do correio, supposto que tarde, empregaram a força. O +capitalista teve logo ahi um fiador, que o salvou de entrar entre bayonetas. +Luiz da Cunha do corpo da guarda foi á administração, e d'ahi ao Limoeiro, +d'onde sahiu afiançado quarenta e oito horas depois. Tudo isto foi ridiculo a +não poder ser mais! Cada qual explicava o caso com uma anecdota. A fuga de +Assucena era acontecimento que não passára d'uma roda muito restricta; e, +portanto, era livre a invenção aos interpretes do pugilato.</p> + +<p>Passára-se uma noite e um dia de solidão para Assucena. Como seriam +entretidas aquellas quarenta e oito horas! Que presentimentos, que receios, que +saudades, que reprehensões da consciencia atormentariam a pobre menina! Fechada +no seu quarto, rejeitára o alimento que a indifferente criada lhe offerecia. A +sua dôr tinha frenesis, que a extenuavam. Todo o seu esforço em resignar-se era +baldado, quando a esperança lhe mentia nos passos que subiam a escada e paravam +no primeiro ou no segundo andar.</p> + +<p>Depois de quarenta e oito horas, sem noticia de Luiz, o desespêro +fortaleceu-a resolvendo-a a procural-o em casa de seu pae.</p> + +<p>Á noite, sahiu com a criada, perguntando de rua em<span +class="pn">{63}</span> rua o caminho do Campo Grande. Á porta de João da Cunha +estava um criado. Pediu-lhe que chamasse o senhor Luiz da Cunha; +responderam-lhe que não estava lá, e que o mais certo lugar onde o encontraria +era no Limoeiro.</p> + +<p>—Prêso!—exclamou Assucena.</p> + +<p>—Sim, minha menina, prêso pela vigesima vez por causa das suas patacoadas. +Não chore, creaturinha, que o senhor Luiz ha de sahir brevemente.</p> + +<p>—E porque o prenderam?—perguntou a criada.</p> + +<p>—Porque deu umas chicotadas no visconde de Bacellar, assim como quem não +quer a cousa.</p> + +<p>Assucena sentiu-se arrefecer do gêlo que começa na alma, e vem em calefrios +á sensibilidade exterior. Encostou-se á criada, pedindo-lhe que não perguntasse +mais nada. Atravessou, sem murmurar um gemido, sem um queixume, parando +exhausta de forças a cada instante, a grande distancia que a separava da rua do +Principe. Entrando no seu quarto, cahira de face sobre o leito, não para +repousar, mas para reprimir os gritos que podiam ouvir-se no segundo andar.</p> + +<p>E ouviram-se.</p> + +<p>Era meia noite. A criada adormecêra, indifferente aos gemidos da ama, que +lhe não aceitava as imbecís consolações. Assucena, só e ás escuras, porque a +vela se extinguira, abrira a janella do seu quarto; mas a noite de Janeiro era +tenebrosa e frigidissima. A filha da viscondessa de Bacellar tiritava de frio, +de susto, e até de terror de si mesma. Sentava-se sobre a cama, lançando sobre +os hombros o cobertor. Fitava o ouvido a cada tropel remoto de passos. +Desenganada, ajoelhava com as mãos erguidas pedindo a Deus que lhe désse vida +até que a luz do dia lhe deixasse procurar Luiz. Assucena passava por um +d'esses soffrimentos em que se julga possivel a morte instantanea.</p> + +<p>Depois, as trévas da noite romperam-se em relampagos successivos, e o quarto +illuminava-se de clarões azulados. A aterrada menina correu a fechar a janella, +quando uma chuva fria lhe açoitou as faces. A dôr immensa só tinha expansão nos +gemidos. Lançou-se sobre o leito sem reflectir que a escutavam, invocando Maria +Santissima,<span class="pn">{64}</span> pedindo compaixão a sua mãe, chamando +Luiz com alarido de demente, e soluçando de modo que, a distancia, simulava uma +mulher que se contorce entre os braços que a matam pela asphixia.</p> + +<p>No andar de baixo morava uma devota senhora, que accendia duzias de velas, e +rezava duzias d'orações a Santa Barbara. O quarto d'ella estava ao pé do de seu +irmão, o conego Bernabé Trigoso, que dormia no quarto, cujo tecto era o +pavimento do de Assucena.</p> + +<p>Foi elle o primeiro que ouviu os gemidos, os passos, o abrir e fechar da +janella, o ranger do leito, e ultimamente os gritos.</p> + +<p>Chamou sua irmã, e disse-lhe que escutasse. D. Perpetua Trigoso applicou o +ouvido, e affirmou que não era illusão do conego os estranhos gritos da +mysteriosa menina que alli morava.</p> + +<p>—Vamos nós lá, Bernabé?—disse ella quando seu irmão lhe pedia o capote, e +a mandava sahir do quarto para elle se vestir.</p> + +<p>Subiram ao terceiro andar cada um com sua vela mystica, das que a senhora D. +Perpetua accendêra á santa das trovoadas, e bateram á porta.</p> + +<p>Assucena, sem pensar nem discernir, como desintorpecida d'um lethargo, foi +apalpando na escuridade, imaginando que era aquelle o bater de Luiz da Cunha. +Abriu com precipitação, e recuou espavorida ao aspecto um pouco funebre de +Perpetua que lançára um chale de cachemira escura sobre a cabeça, franjada na +testa por cabellos brancos. A figura magra, macillenta e cadaverica do velho, +não era menos assustadora, vista ao clarão da vela que lhe betava de sombras as +rugas profundas do rosto.</p> + +<p>—Não se assuste, visinha—disse o conego, entrando—nós somos os moradores +do andar de baixo, e, como ouvissemos gemidos cá em cima, viemos em soccorro, +se é que podemos servir de algum bem á pessoa que nos cortou o coração com os +seus gemidos.</p> + +<p>—Era talvez mêdo dos trovões...—accrescentou D. Perpetua, dando tambem um +passo para dentro da porta.</p> + +<p>—A menina estava ás escuras?—tornou o conego.</p> + +<p>—Sim, senhor.<span class="pn">{65}</span></p> + +<p>—E não tem criada?—disse a irmã.</p> + +<p>—A criada está a dormir.</p> + +<p>—Quer a menina vir comnosco para a nossa casa até ser dia?—disse o conego.</p> + +<p>—Vou... se me concedem esse favor—respondeu sem titubear Assucena.</p> + +<p>—Pois então, menina—atalhou Perpetua—cubra o meu chaile, ou vá buscar o +seu, que está muito frio na escada.</p> + +<p>—Eu não posso ter mais frio...—disse a filha da viscondessa.</p> + +<p>—Nem mais febre—tornou o conego, apalpando-lhe as mãos com singular +carinho—Ora venha, venha comnosco. Anda lá com ella adiante, Perpetua, que eu +fecho a porta.</p> + +<p>Perpetua assentou Assucena no seu esteirão; embrulhou-a em cobertores; e +deu-lhe uma chavena de café com um golo de genebra, por conselho de seu irmão. +Depois sentou-se a par com ella, que não cessava de tiritar, Bernabé veio, +melhor forrado contra o frio, sentar-se ao pé d'ellas. As lagrimas de Assucena +eram inesgotaveis. Perpetua queria consolar, mas não conhecia a dôr. O conego, +fixando alguns minutos em silencio o semblante da pobre menina, fez a sua irmã +um gesto significativo, tomou com paternal ternura as mãos abrazadas de +Assucena, e perguntou-lhe:</p> + +<p>—Minha filha, porque soffre? Abra o seu coração. Se lhe não podérmos ser +uteis, poderemos ao menos conseguir que o seu soffrimento diminua respirando +pelas palavras. Quem sabe se Deus nos approximou? Diga o que tem: falla com um +padre, que é seu pae espiritual.<span class="pn">{66}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00170">VII.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00171">PERDIDO SEM REDEMPÇÃO</a></h2> + +<p>Quando Luiz da Cunha era conduzido por dous soldados á administração do +bairro, encontrou Liberata n'uma sege, e respondeu com um gesto de cabeça á +rasgada cortezia que ella lhe fizera.</p> + +<p>A sege de Liberata retrocedêra, e vinha a passo lento seguindo Luiz da +Cunha. Quando os soldados pararam á porta da auctoridade, e Luiz, sem reparar +na sege, desapparecêra no interior do páteo, Liberata acenou a um dos soldados, +que se chegou á portinhola. Perguntou por que fôra prêso aquelle sujeito, e o +soldado informou-a com a minuciosidade que podia. Pagou com um cruzado novo o +pequeno serviço do informador, e pediu-lhe que subisse á sala da administração, +e dissesse ao ouvido do prêso que uma pessoa, que elle encontrára, em uma sege, +lhe mandava offerecer não só dinheiro, mas até a influencia dos seus amigos, se +com isso era possivel a sua immediata soltura.</p> + +<p>O soldado não conseguira fallar ao prêso; mas soubera de um official de +diligencias, seu conhecido, que o tal sujeito só podia ser solto com fiança, e +não estava presente ninguem que o afiançasse.</p> + +<p>Liberata deu ordens promptas ao boleeiro, e a sege, a grande galope, correu +algumas ruas, e parou á porta de um conselheiro, official-maior d'uma +secretaria de estado. S. ex.ª não recolhêra ainda da secretaria. A protectora +de Luiz da Cunha mandou tocar para o Terreiro do<span class="pn">{67}</span> +Paço, e fez parar a sua sege a par da do conselheiro. Chamou um correio de +ministro, que passeava debaixo das arcadas, e mandou-o entregar ao +official-maior o seu <em>porte-monnaie</em>. O conselheiro veio rapidamente á +portinhola. Trocou algumas palavras com Liberata, entrou na sua sege, e partiu +para a administração do bairro.</p> + +<p>Perguntou por Luiz da Cunha; disseram-lhe que fôra remettido ao juiz +criminal. Foi ao juiz criminal, quando o prêso acabava de sahir para o +Limoeiro. Declarou o amante de Liberata que vinha afiançal-o. O juiz aceitou +respeitosamente a fiança, e prometteu mandal-o soltar o mais depressa que se +lavrasse o auto. Sahia, porém, o conselheiro, quando uma carta de uma +notabilidade do Supremo Tribunal recommendava ao juiz que não aceitasse fiança, +paliando quanto podésse a soltura inconvenientissima de Luiz da Cunha, que +ameaçava a existencia do visconde de Bacellar.</p> + +<p>Liberata, com a certeza da soltura, dada pelo amante, foi á cadeia, procurou +Luiz da Cunha que passeava ainda na sala do carcereiro, e contou-lhe +rasgadamente os passos que déra. O preso agradeceu-lh'os com aviltante +submissão, não sentindo a vergonha de ser unicamente protegido por tal mulher. +Sem o recriminar, a amante do conselheiro perguntou-lhe, sorrindo, se melhorára +de fortuna, despedindo-a do seu serviço. Luiz da Cunha teve a sinceridade de +confessar que tinha saudades do tempo em que vivêra com ella. Liberata disse +que tambem as tinha, e deu como prova não ter sido fiel a nenhum dos seus +amantes, depois d'elle, porque não encontrára rapaz tão perfeito, nem tão +despreoccupado das asneiras sociaes, como Luiz da Cunha.</p> + +<p>Recordaram scenas da sua vida de dous annos, dando tempo a que viesse a +ordem de soltura. Passaram duas horas, e, como ella não chegasse, Liberata +impacientou-se, e sahiu, dizendo que, se entretanto a ordem viesse, e elle +quizesse fazer-lhe uma visita, depois da meia noite, a procurasse na rua de S. +Bento, n.º 46.</p> + +<p>Luiz prometteu-lhe a suspirada visita, e apertou-lhe com estremecida +meiguice a mão. Em quanto lhe dava a mão direita, Liberata lançava com a +esquerda no chapéo de Luiz o <em>porte-monnaie</em>. Sahiu.<span +class="pn">{68}</span></p> + +<p>Foi d'uma corrida a casa do conselheiro; obrigou-o a sahir, a vencer todos +os obstaculos que redobraram desde que o proprio visconde peitára o juiz, e, +taes elles eram, que só, no dia immediato á tarde, Luiz da Cunha foi solto, e o +conselheiro veio allegar a Liberata trabalhosos serviços, que ella pagou com um +beijo.</p> + +<p>Imaginam que Luiz da Cunha, apenas livre, nem tempo tem de procurar uma +sege, e corre á rua do Principe, onde o espera a atormentada Assucena?</p> + +<p>Não foi assim. Sahiu placidamente da cadeia. Desceu á primeira estação de +seges no Terreiro do Paço. Montou a que lhe pareceu mais bem servida de +parelha. Foi jantar ao Matta, no caes do Sodré. Subiu pela rua do Alecrim. +Tomou café no Marrare. Passou na rua de S. Bento para vêr a casa n.º 46; +cortejou Liberata que, por dentro das janellas, lhe fitava um pequeno oculo de +theatro. Foi ao Campo Grande saber como seu pae estava. Entristeceu-se um +momento quando lhe disseram que passára peor, depois que um imprudente lhe +dissera que seu filho batêra no visconde de Bacellar. Não apeou para lhe não +irritar os padecimentos. Veio para o theatro de S. Carlos, e reparou que o +encaravam de lado, voltando-lhe as costas, se elle os encarava de frente. +Achou-se sósinho no salão, e sósinho no banco em que se sentára. Depois da meia +noite, despediu o boleeiro defronte do palacio das côrtes, e seguiu a rua de S. +Bento até á casa n.º 46.</p> + +<p>Dos moveis que Luiz da Cunha deixára á sua amante, nem uma cadeira existia. +A primeira sala, forrada de ricos tapetes, opulenta de luxo e mau gosto não +invejava o apparato da garrida decoração das salas d'um brazileiro de +torna-viagem, que vos deslumbra com o seu baazar de porcellanas, de relogios, +de cães e patos de vidro, de conchas variegadas, de ricas encadernações em +marroquim de livros nunca abertos, de globos de luzente cobre, de coxins +amarellos e vermelhos.</p> + +<p>A sala de Liberata tinha tudo isto em prodiga profusão. Um americano, +antecessor do conselheiro, e successor do capitão de marinha ingleza, tinha +sido o intelligente coordenador d'aquella miscellanea em que despendera contos +de reis, pequena paga para os carinhos de sua<span class="pn">{69}</span> +amante. Diziam que Liberata seria esposa d'esse americano, se o consul +despoticamente o não mandasse prêso a bordo d'uma embarcação que o levou a seu +pae, desfalcado em boa parte da sua fortuna.</p> + +<p>O conselheiro, que substituira o americano, sustentava o luxo de Liberata +com uma farta mesada, de que ella tirava para todos os seus caprichos, podendo +montar sege, sua mais querida ambição.</p> + +<p>Luiz da Cunha contemplava estupidamente aquella magnificencia, que não era +nada comparando-a á sumptuosidade d'alcova, onde foi recebido, como era dever +que o fosse, o unico homem que a fizera conter-se nos honestos limites d'uma +fiel amante.</p> + +<p>—Achas que estou muito rica?—disse Liberata, puxando-lhe com meiguice uma +orelha.</p> + +<p>—As apparencias são d'isso...</p> + +<p>—Suppunhas que nenhum outro homem saberia dar-me valor?</p> + +<p>—Eu bem sabia que te não faltariam adoradores, Liberata. Para que eu me +separasse de ti, foi preciso que eu entrasse n'uma época de demencia, que me +dura ha quatro mezes.</p> + +<p>—Que tens tu feito ha quatro mezes?</p> + +<p>—Tenho envelhecido quarenta annos. Quiz-me oppôr á natureza, fazendo-me +pessoa de bem, e perdi o tempo. Acabo de conhecer que era mais feliz quando a +minha sociedade eras tu, e os meus cavallos, palavra de honra!</p> + +<p>—Com que então <em>eu e os teus cavallos</em>! O diacho da mistura não é +nada amavel! Mas conta-me cá... disse-me o conselheiro...</p> + +<p>—Qual conselheiro?</p> + +<p>—O actual... não sabes quem ficou por teu fiador?</p> + +<p>—Pois o conselheiro é o teu amante?</p> + +<p>—Excellente creatura... Pois foi elle que me disse que uma enteada do +visconde de Bacellar fugira das commendadeiras para casar comtigo. Já casaste?</p> + +<p>—Não, nem caso.</p> + +<p>—Nem casas? então, tenho mais uma companheira...</p> + +<p>Luiz sentiu um ligeiro toque de pundonor, ouvindo tamanho ultraje a +Assucena, que n'este momento se lhe<span class="pn">{70}</span> afigurou de +joelhos, pedindo a Deus a morte. Esta visão desvaneceu-se como o raio +instantaneo de sol em ceo revolto de nuvens escuras.</p> + +<p>—Diz-me cá, Luizinho—continuou Liberata, lançando-lhe o braço direito +sobre o hombro, e brincando-lhe com os anneis do longo cabello—queres ser +outra vez meu?</p> + +<p>—É impossivel.</p> + +<p>—Porque? Tens lá a tua fidalga das commendadeiras... Já me não lembrava...</p> + +<p>—Não é por isso.</p> + +<p>—Pois então?</p> + +<p>—Não tenho dinheiro... Aquelle manancial das joias de minha mãe esgotou-se; +meu pae está doudo, e não me conhece...</p> + +<p>—E é por isso que querias casar com a filha do visconde?</p> + +<p>—Adivinhaste; mas o visconde não lhe dá nada, e eu nada tenho que lhe dar +como amante, e muito menos como mulher.</p> + +<p>—Queres tu uma cousa? Não digas a ninguem que és meu amante, e não se te dê +que o conselheiro o seja. Queres?</p> + +<p>—Não; porque terias de me sustentar. A mim o que me convém é sahir já já de +Portugal.</p> + +<p>—Porque?</p> + +<p>—Quero vêr se a pequena se recolhe a casa do padrasto, e preciso na Africa +ou no Brazil mudar de nome, e arranjar uma fortuna.</p> + +<p>—És tolo! Qual Africa nem qual Brazil! A pequena, em tu lhe dizendo que +nada feito, toma o rumo de casa, e a mãe ha de recebêl-a, se a não quizer vêr +onde vai parar muita gente que tambem foi honrada. Tu mettes-te em casa de teu +pae, de dia, e, passada a meia noite, vens para a tua Liberata. Em quanto eu +tiver um annel, tens tu um casaco, em se acabando, fizemos trinta annos á +justa. Has de crêr que sou tua amiga apesar das tuas ingratidões? Deu-me para +aqui! Sympathisei comtigo, e se fosse rainha fazia-te rei. Ora aqui está. Nada +de tristezas. Vamos cear, que já ouvi a campainha tres vezes. Inda cá tenho os +criados que me déste, e não são capazes<span class="pn">{71}</span> de dar um +pio. Quando souberam que tu cá vinhas hoje, até dançaram a gôta... Tu ficas +sendo de hoje em diante o dono d'esta casa, e o conselheiro é o nosso mordomo, +sim?</p> + +<p>Luiz da Cunha enlaçou o braço pelo de Liberata, que lhe cingia a cintura, e +entrou na sala de jantar, onde scintillavam os crystaes variegados, pequena +parte d'uma soberba copa. A cêa era servida por um criado, de gravata e collête +branco. Luiz respondeu com um abraço familiar á cortezia affectuosa do seu +antigo escudeiro de quarto.</p> + +<p>O <em>et cetera</em> é a palavra latina que eu conheço mais util nos usos +sociaes. Com um <em>et cetera</em>, ou dous, fica historiada esta noite; mas +ainda um terceiro de certo não diria que Luiz da Cunha no dia seguinte, quando +se approximava a matinal visita do conselheiro, depois de almoço, recolheu-se +ao quarto do criado, onde escreveu a seguinte carta:</p> + +<p> </p> + + +<p style="text-align: right;">«<em>Assucena.</em></p> + +<p> </p> + + +<p>«<em>Não te verei mais. Os obstaculos ao nosso casamento são invenciveis. +Uma desordem, que tive com teu padrasto, obriga-me a sahir de Portugal. Escreve +a tua mãe, e diz-lhe onde moras para que ella te procure, e te receba em sua +casa. Se eu um dia tiver colhido algum bom resultado dos meus projectos, +tornarei a Portugal, e serás então minha esposa, assim como eu o serei teu, +toda a vida, pelo coração. Demoro-me escondido em Lisboa alguns dias; mas, por +evitar mais amarguras, antes quero não tornar a vêr-te. Lembra-te que eu sou +muito infeliz para te resignares na tua infelicidade.</em></p> + + +<p style="text-align: right;">«LUIZ DA CUNHA.» </p> + +<p> </p> + + +<p>O portador voltou, dizendo que a carta fôra recebida por um velho, que tinha +geitos de padre.</p> + +<p>—Quem será este padre?!—dizia Luiz da Cunha a Liberata.<span +class="pn">{72}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00180">VIII.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00181">PROVIDENCIA OU ACASO?</a></h2> + +<p>Assucena contára com pueril ingenuidade a sua vida ao conego Bernabé +Trigoso, e a sua irmã. Não lhe occultou o seu nascimento, nem as menores +circumstancias da sua fuga. Disse quem era o seu amante, e reparou que o +conego, ao ouvir tal nome, exclamára de modo que não queria ser ouvido:</p> + +<p>—Santo Deus!</p> + +<p>A senhora D. Perpetua, virtuosa sem momos de beata, pedia á sua predilecta +Senhora das Dôres que permittisse a reparação da falta de Assucena. O conego, +crente no remedio do ceo, mas intelligente bastante para se não abandonar +inerte ás operações invisiveis da Providencia, prometteu á sua hospeda empregar +todos os meios possiveis para destruir os obstaculos ao seu casamento.</p> + +<p>—Mas—accrescentou elle—eu não creio que o senhor Luiz da Cunha recompense +o amor que a menina lhe tem.</p> + +<p>—Porque? Pelo amor de Deus diga-me porque...</p> + +<p>—Porque não acho muito proprio de um amante o silencio de quarenta e oito +horas, sem lhe dar por escripto, ao menos, certeza de que vive.</p> + +<p>—Se elle está prêso!</p> + +<p>—Mas os prêsos não estão privados de escrever.</p> + +<p>—Estará doente...</p> + +<p>—Estará... não aventemos explicações, menina. O tempo nos dirá tudo. Logo +que seja dia, eu vou informar-me<span class="pn">{73}</span> do que é feito do +senhor Luiz da Cunha. Agora vá descançar um bocadinho no quarto de minha irmã. +São quatro horas. Tenha esperanças em Deus, que é pae, e em mim que hei de ser +para a menina o que seria para uma filha.</p> + +<p>Quando foram horas de se abrirem os tribunaes, Bernabé Trigoso colheu +informações de Luiz da Cunha. Soube que elle na vespera fôra solto, afiançado +pelo conselheiro Costa e Almeida. Nenhumas outras informações, além das que lhe +deu o carcereiro de uma visita, á cadêa, de certa senhora ricamente vestida, +que viera em sege sua.</p> + +<p>Recolhendo a casa, sua irmã disse-lhe que Assucena adormecêra momentos +antes, e era peccado acordal-a d'aquelle dormir, que parecia sereno como o de +um anjo.</p> + +<p>—Creio que a infeliz—disse elle—deve perder a esperança em tal homem. Eu +por mim, julguei-a perdida desde que ouvi pronunciar tal nome.</p> + +<p>—Pois quem é elle?</p> + +<p>—É um flagello da humanidade... É um homem que tem dado brado com os seus +escandalos. Não te recordas das historias que nos contava o padre Joaquim?</p> + +<p>—O capellão de João da Cunha?</p> + +<p>—Que é pae de Luiz da Cunha... Aqui tens o abutre em cujas garras cahiu a +pobre pomba. Desgraçada menina! É preciso preparal-a para o desengano...</p> + +<p>—Quem sabe o que Deus fará?</p> + +<p>—Eu não sei o que Deus fará; mas sei o que os homens são capazes de fazer. +Não abandonemos esta victima do erro. Desculpemol-a, que tem o seu perdão na +innocencia com que nos contou a sua vida. Se esse homem a procurar, achal-a-ha +em nossa casa. Se nunca mais a procurar, a nossa casa será o abrigo de +Assucena.</p> + +<p>A criada da neta do arcediago desceu ao segundo andar, dizendo que um +portador trazia uma carta para a senhora D. Assucena. O conego mandou descer o +portador, perguntou de quem vinha a carta; o criado respondeu que era do senhor +Luiz da Cunha, e não tinha resposta. Redarguiu Bernabé, inquirindo a residencia +do senhor Luiz da Cunha: o moço respondeu que não tinha ordem de a dizer.</p> + +<p>As suspeitas do conego fortaleceram-se. Esta carta<span +class="pn">{74}</span> era uma despedida na sua opinião. Reflectiu se devia +entregar-lh'a, ou lêl-a. Perpetua animou-o a abril-a, visto que a intenção era +evitar algum desgosto mortal á infeliz menina. O conego leu a carta; e ficou +satisfeito da sua temeridade.</p> + +<p>—Não se lhe mostra esta infame carta—disse elle.</p> + +<p>—Era capaz de morrer a desgraçadinha!—accrescentou a irmã.—Mas que lhe +dirás, se ella te pedir noticias d'esse mau homem?!</p> + +<p>—Digo-lhe... eu sei cá o que hei de dizer-lhe!... Digo-lhe que se +resigne... e pedirei a Deus que lhe dê coragem para o desengano... Veremos... +Talvez a possa salvar, servindo-me das palavras d'elle, que a matariam, se ella +as lêsse todas...</p> + +<p>Assucena tossira. D. Perpetua foi pé ante pé escutar. Ouviu-a soluçar. Abriu +a porta, e uma fresta da janella. Encontrou-a de joelhos aos pés do leito. +Abraçou-se a ella com os olhos humidos das lagrimas, que lhe arrancára seu +irmão com as suas, lendo a carta.</p> + +<p>—Sabe-se alguma cousa?—exclamou Assucena.</p> + +<p>—Vamos lá dentro fallar com meu irmão, minha filha. Elle já veio, e alguma +cousa lhe dirá.</p> + +<p>—Pois, sim, vamos...—disse, correndo impetuosamente meio vestida.</p> + +<p>Entrando na salêta em que o conego almoçava, D. Perpetua fêl-a sentar ao pé +da cadeira de seu irmão, em quanto lhe apertava com os ganchos o cabello em +desalinho. Bernabé, risonho e com ares de quem vai dar uma boa nova, deu-lhe a +sua chavena de chá, escolheu-lhe a torrada mais appetitosa, e os biscoutos mais +torrados. Assucena queria rejeitar; mas o conego teimou com brando afago, e +conseguiu que ella sorrisse á pertinacia d'um papagaio que, por força, queria +participar das sôpas de seu amo na mesma chicara.</p> + +<p>Findo o almoço, o conego, por um gesto, fez sahir sua irmã. Assucena não +despregava os olhos dos labios d'elle, e achava insoffrivel a demora das +informações que lhe promettêra.</p> + +<p>—Está anciosa pela resposta, minha menina?</p> + +<p>—Estou... Fallou-lhe? Viu-o?</p> + +<p>—Não o vi, nem lhe fallei.<span class="pn">{75}</span></p> + +<p>—Meu Deus!... então?</p> + +<p>—Vi uma carta d'elle, escripta a um seu amigo, que me procurou já hoje...</p> + +<p>—Para que?</p> + +<p>Bernabé Trigoso não pensára maduramente nas respostas, e luctava com as +difficuldades do improviso.</p> + +<p>—Para que?... Não se apresse, minha filha. Quero primeiro convencêl-a de +que tem Deus a seu favor. Assucena não é tão infeliz como se imaginava.</p> + +<p>—Pois diga, senhor, diga tudo o que sabe... Elle vem?</p> + +<p>—Ha de vir, mas por em quanto não. Ora diga-me qual queria, vêl-o +perseguido por seu padrasto, ou salvo da perseguição longe de si?</p> + +<p>—Antes longe de mim; mas eu irei viver com elle no fim do mundo.</p> + +<p>—Isso é que é impossivel...</p> + +<p>Assucena estava côr da cêra. As lagrimas estancaram-se-lhe; e as palpebras +penderam-lhe amortecidas. Já não ouvia as palavras do conego, depois do +<em>impossivel</em>. Quizera em vão suster a cabeça no braço tremulo. Cada vez +mais coada, até os labios se fizeram brancos. Um ai, desentranhado do coração, +foi seguido d'um vágado; o padre recebeu-a nos braços, e chamou sua irmã, para +ajudal-o a leval-a á cama.</p> + +<p>—Este acontecimento não se evitava—disse o conego.</p> + +<p>—Ella sabe tudo?</p> + +<p>—O mais necessario. Agora resta imaginar a convalescença que é onde está o +maior perigo. Se eu podésse fallar á mãe d'esta menina...</p> + +<p>—Querias entregar-lh'a?</p> + +<p>—Não; hoje o meu maior prazer era restituir a felicidade a esta senhora. +Queria salval-a com a presença da mãe.</p> + +<p>—Poderá ser peor...</p> + +<p>—Não é. O remedio d'este mal são as torrentes de lagrimas, e essas só ella +as póde verter com fructo no seio de sua mãe... Perpetua, não te separes +d'ella; falla-lhe em sua mãe, e dize-lhe que sahi para bem seu.</p> + +<p>Bernabé Trigoso, quando entrou no páteo do visconde<span +class="pn">{76}</span> de Bacellar, perguntaram-lhe se era o padre que vinha +confessar a senhora viscondessa. Respondeu que não era o confessor da senhora +viscondessa, mas era um conego da patriarchal que precisava fallar com s. exc.ª</p> + +<p>Conduziram-no ao quarto d'ella. Rosa Guilhermina estava de cama, com dous +medicos á cabeceira, que retiraram, quando o conego entrou. Um dos medicos, +quando se retirava, abraçára o conego, e disse á viscondessa: «Eis-aqui o +ultimo homem dos tempos de virtude. Estimo bem vêl-o á cabeceira do seu leito, +senhora viscondessa!» E ficaram sós.</p> + +<p>—Não tenho o gosto de conhecêl-o...—murmurou ella com a voz enfraquecida.</p> + +<p>—Não importava conhecer-me antes d'este momento. De certo, eu não poderia +evitar os desgostos por que v. exc.ª está passando...</p> + +<p>—Terminarão brevemente... Estou quasi morta.</p> + +<p>—Não morrerá. Deus não nos dá a vida como um instrumento, partido no +primeiro estorvo, que nos embaraça uma suave carreira. Viemos para trabalhos, +senhora viscondessa; e o mais soffredor é o mais benemerito aos olhos do +Altissimo. Venho fallar-lhe de sua filha.</p> + +<p>—Sim?... Oh! foi Deus que o mandou!.. Onde está minha filha?</p> + +<p>—Na companhia de uma senhora que é minha irmã, e na minha companhia, que +sou um padre.</p> + +<p>—Pois esse homem...</p> + +<p>—Quer-me fallar de Luiz da Cunha?</p> + +<p>—Sim...</p> + +<p>—Esse homem abandonou-a.</p> + +<p>—Já!... sem a salvar da deshonra!</p> + +<p>—O que nós queremos é salval-a da morte.</p> + +<p>—É mais feliz se morrer! Levai-a meu Deus, levai-a para vós!</p> + +<p>—Deus não se aconselha, senhora viscondessa. Ella vive, porque Deus o quer. +Confiou-m'a, e eu quero encaminhal-a de modo que Deus a chame, quando a gloria +do ceo lhe seja dada como um premio de virtudes na terra, amaldiçoada para os +anjos.</p> + +<p>—Mas... é impossivel recebêl-a em minha casa...</p> + +<p>—Eu não quero que a receba em sua casa, minha senhora.<span +class="pn">{77}</span> Sua filha é como se fosse minha. Debaixo das minhas +telhas mora a honra e a abundancia. Assucena não precisa senão chorar, para +renascer para a felicidade, que eu prometto dar-lhe. Chorar... chora ella +sempre; mas é preciso que o seu coração se abra ás suas lagrimas, para lhe +perdoar...</p> + +<p>—Eu perdôo-lhe...</p> + +<p>—Bem... mas o seu perdão ha de ser-lhe dado a ella, abraçando-a, +convencendo-a de que é possivel a sua rehabilitação. E, depois, seja um segredo +para todo o mundo a existencia de sua filha em casa do conego Bernabé Trigoso.</p> + +<p>—Se eu viver, dar-lhe-hei tudo o que podér para a sua subsistencia.</p> + +<p>—Não precisa de nada sua filha. Se v. exc.ª consente que ella seja da minha +familia, deixe-me inteiro o cargo de pae. O seu mais precioso sustento é o do +espirito. Esse é que eu pedirei a Deus que m'o não escassêe, e talvez o +consiga.</p> + +<p>—Quer que eu procure minha filha?</p> + +<p>—Supplico-lh'o.</p> + +<p>—Se eu tivesse forças...</p> + +<p>—Experimente, senhora viscondessa; parece-me que posso prophetisar-lhe que +terá forças. Trata-se de salvar uma filha. V. exc.ª sentir-se-ha melhorar +quando se convencer de que o anjo cahido se levanta, com a dôr da sua ignominia +adormecida. Não lhe falle em Luiz da Cunha, bem nem mal. Ha de abominal-o, sem +que lhe lancemos em rosto a perfidia d'esse miseravel, que, no fim de tudo, não +é menos lastimavel, porque o seu fim deve ser triste. Deixemos-lhe a elle o +cargo de se fazer detestavel. Uma mulher apaixonada só recebe bem as censuras +da sua consciencia. Illuda sua filha com uma piedosa mentira. Diga-lhe que +ninguem falla da sua desgraça, que as poucas pessoas que a sabem se empenham em +desmentil-a, fazendo crêr que Assucena vive na companhia d'uns parentes no +Porto. É preciso mesmo que v. exc.ª faça acreditar que a enviou para alguma +quinta longe de Lisboa.</p> + +<p>«Posso dizer que ella está no Minho, onde meu marido comprou uma quinta em +meu nome para eu poder legar a quem quizesse por minha morte, e talvez eu +conseguisse<span class="pn">{78}</span> que meu marido me concedesse dar-lh'a +já; mas elle, depois da desordem com Luiz da Cunha, enfureceu-se contra ella, +contra mim, contra todos...</p> + +<p>—Já lhe disse, minha senhora, que sua filha não precisa de quintas, se lhe +não prohibe ser mais minha filha que sua.</p> + +<p>A conversação prolongava-se, quando foi annunciado o confessor da +viscondessa. A enferma, pela subita animação que o conego lhe emprestára, e +pela desordem de ideias que lhe confundiam o exame de uma confissão geral, +mandou dizer ao padre que resolvêra adial-a. Entretanto, Bernabé Trigoso +retirava-se, porque a viscondessa lhe pedíra que occultasse de seu marido, se +elle entrasse no quarto, a causa da sua vinda áquella casa.</p> + +<p>As syncopes de Assucena repetiram-se na ausencia do conego. D. Perpetua, +receosa dos resultados, chamára medico para consultal-o se devia chamar +confessor. O medico nem receitou nem votou pela precipitação dos sacramentos. +Colligiu das timidas informações da virtuosa senhora que a enfermidade de +Assucena era uma forte affecção moral.</p> + +<p>O conego, tambem assustado, não abandonava o leito de sua filha adoptiva. As +consequencias eram mais graves do que elle suppozera. Assucena já não chorava, +nem perguntava nada com referencia a Luiz da Cunha. Tinha os olhos em extasis, +e a boca meio-aberta respirava acceleradamente. Sahiam-lhe do coração gemidos +convulsivos, como o arfar tremido da creança, quando cessa de chorar, mas, +ainda animada pelos beijos da mãe, parece queixar-se. Estes periodos duravam +uma hora. Se lhe perguntavam o que sentia, respondia com melancolico sorriso: +«nada.» Se lhe davam consolações, que não podiam deixar de ser fundadas em +frouxas palavras de esperança, a filha de Augusto Leite acenava com a cabeça, +como se dissesse: «não me salvam com a piedosa mentira.»</p> + +<p>Bernabé fallava-lhe a linguagem que aconselhava á viscondessa, dizendo-lhe +que muita gente se persuadia que Assucena, por causa do namoro de Luiz da +Cunha, fôra tirada das commendadeiras, e conduzida a uma quinta no Minho por +ordem de sua mãe.<span class="pn">{79}</span></p> + +<p>Este balsamo não prestava refrigerio algum á ferida. Bernabé Trigoso, +sabendo muito, não sabia tudo do coração. Estes remedios aproveitam quando a +mulher despresada esquece o amante para se lembrar da sua reputação. Assucena +não tinha ainda pensado no que o mundo diria d'ella. Luiz da Cunha era a sua +ideia unica, e a face torpe d'esse homem não se voltára ainda para que a +infeliz lh'a visse pelos olhos da reflexão. O systema, pois, de Bernabé não era +vantajoso como elle o suppunha. O soffrimento silencioso augmentava: o pulso +impetuoso recahia n'um marasmo insensivel, para depois referver em borbotões de +sangue. O medico aconselhava uma qualquer impostura, se não havia consolações +verdadeiras que a salvassem. Era possivel a morte, dizia elle;—era possivel +uma loucura; era tudo possivel, menos cural-a d'aquella desesperada situação +com remedios da botica. Se é uma paixão por causa d'algum amor +infeliz,—accrescentava o doutor—mintam-lhe de modo que possamos allivial-a +d'esta crise, e reduzil-a a estado menos anormal para que se colha algum +resultado das palavras.</p> + +<p>Aproveitou o conselho. O conego fingiu a recepção de uma carta d'um seu +amigo em que se lhe promettia o breve enlace de Luiz da Cunha com Assucena. A +innocencia tem credulidades sem critica nem senso. A pobre menina, sem +discernir quem poderia escrever tal carta a um homem estranho a Luiz da Cunha, +acreditou-a. Deu-se uma notavel alteração nos symptomas. O medico nunca +alcançára um triumpho tão barato, nem tão util. Conhecer a alma é, em muitos +casos pathologicos, a mais prestante medicina.</p> + +<p>No dia immediato, soube o conego que a viscondessa visitava de tarde sua +filha. Preparou-se, felicitando-a por ter merecido a Deus tão excellente mãe. +Dissipou-lhe os receios, a vergonha, e até o medo que se lhe incutiu, temendo +que sua mãe viesse dissuadil-a do seu casamento.</p> + +<p>—Sua mãe—dizia o conego—naturalmente não lhe falla em Luiz da Cunha. A +menina não deve tambem fallar-lhe n'elle.</p> + +<p>—Porque? não ha de elle ser meu marido?</p> + +<p>—E que tem isso? O coração de sua mãe é bondoso;<span +class="pn">{80}</span> mas não se segue que a bondade desvaneça o melindre +natural. Calar tal nome é uma prova de respeito com que deve retribuir a +generosa amizade de sua mãe. É provavel que ella pouco lhe diga. A sua primeira +expansão será de lagrimas. Receba-as que são, talvez, as que salvam a infeliz +senhora da morte.</p> + +<p>Não se enganára o conego. Rosa Guilhermina fraqueou quando recebia nos +braços Assucena. Desmaiada, podéra reputar-se morta, se o coração não batesse +violento no seio da consternada filha.</p> + +<p>Bernabé, amparando-a tambem, perguntava a Assucena quanto daria por salvar +sua mãe.</p> + +<p>—Dou a minha vida!—exclamou ella.</p> + +<p>—E, se sua mãe lhe pedisse o coração, e não a vida?</p> + +<p>—Tudo, tudo, senhor!</p> + +<p>—E, se ella lhe pedisse que renunciasse o amor de Luiz da Cunha?</p> + +<p>—Para salval-a?</p> + +<p>—Sim, para salval-a.</p> + +<p>—Morreria, mas renunciava...</p> + +<p>—Melhor lhe fôra então morrer!...—disse em voz soturna Bernabé, afastando +a viscondessa esvaida dos braços da filha, e fixando n'esta um olhar de severa +reprehensão. A neta do arcediago deixou cahir os braços, e pregou os olhos no +chão. Ora o rubor, ora a pallidez revesavam-lhe no rosto afflicto. Dôr e +vergonha, amor e arrependimento, esperança e desespêro, eram por ventura as +variadas sensações que lhe occorreram, atropellando-se para lhe fazerem mais +difficil a consciencia da sua situação. A infeliz não podia combinar as +palavras esperançosas do conego com o repellão e olhar severo que acabava de +soffrer.</p> + +<p>—Venha comigo, menina...—disse D. Perpetua receiando algum accidente dos +que lhe davam depois do dia anterior.</p> + +<p>—Eu não vou sem que minha mãe me falle.</p> + +<p>—Deixe-a tornar a si; depois, ficará sósinha com ella.</p> + +<p>Assucena obedeceu. Minutos depois, Bernabé sahiu da sala em que ficava a +viscondessa, esperando a filha, deitada n'um canapé.<span +class="pn">{81}</span></p> + +<p>O conego disse quasi ao ouvido de Assucena, que entrava na sala:</p> + +<p>—Perante Deus é responsavel pela vida de sua mãe. Ella não lh'o dirá; mas +digo-lh'o eu. No dia em que a menina se julgar feliz, amando um infame, matou +sua mãe.</p> + +<p>Assucena entrou na sala atordoada por estas palavras.</p> + +<p>Bernabé Trigoso esfregava as mãos em ar de jubilo.</p> + +<p>—Porque estás assim contente?—perguntou D. Perpetua, alegrando-se tambem +de anticipação.</p> + +<p>—Contentissimo! Salvei-as ambas! Aqui a grande difficuldade era salvar a +filha! Bemdito seja Deus, que nunca me abandonou n'estas difficuldades!</p> + +<p>—Pois então? como é que salvaste a menina?</p> + +<p>—Puz em luta dous sentimentos fortes. A mãe que morre por sua filha, e o +amado que despresa a sua amante. Ha de vencer o mais nobre, que é o primeiro, e +tem em seu auxilio um coração ainda puro. Verás, Perpetua; A viscondessa não +lhe falla em Luiz da Cunha. Este silencio só de per si é uma pungente accusação +á filha. A viscondessa dá indicios d'uma morte proxima. Assucena começa desde +já a sentir o remorso de a ter matado. A ancia de salval-a ha de vencer a ancia +da saudade. Por fim é a mãe que triumpha, e não triumpharia se viesse +lançar-lhe em rosto a deshonra. É Deus que me manda. Creio que salvaria +Assucena sem o conselho do medico. Escusavamos, talvez, uma mentira...</p> + +<p>—É verdade, Bernabé!—atalhou pungida a senhora D. Perpetua.</p> + +<p>—Mas, emfim, Deus sabe as intenções com que a gente mente para tornar menos +hediondo o crime do seu semelhante... Não ouves soluçar na sala?</p> + +<p>—Ouço... são ambas...</p> + +<p>—Bem, bem!</p> + +<p>—Escuta, Bernabé...</p> + +<p>—Que ouves?</p> + +<p>—Palavras... <em>perdão</em>... <em>não me mates</em>... +<em>amaldiçoada</em>... É a mãe que falla...</p> + +<p>—Bem, bem!</p> + +<p>Pouco depois, abriu-se a porta da sala. Bernabé Trigoso, com sua irmã, +entraram. Mãe e filha enxugavam<span class="pn">{82}</span> as lagrimas. A +viscondessa abraçou-se a D. Perpetua, pedindo-lhe que fosse mãe de sua filha, +forçando-lhe a mão para aceitar uma bolsa. O conego reparava na luta silenciosa +em que sua irmã parecia afflicta e envergonhada. Cheio de affabilidade, tomou +da mão de Rosa Guilhermina a bolsa, dizendo:</p> + +<p>—Muito obrigado a v. ex.ª</p> + +<p>Depois, no patamar da escada entregou-lhe com dignidade a bolsa, +solemnisando o acto com estas palavras:</p> + +<p>—Aceitei o dinheiro na presença de sua filha para que ella se persuada que +é sua mãe que a sustenta, e não se considere em obrigação a estranhos. É a +quarta vez, senhora viscondessa, que lhe digo que em minha casa ha abundancia, +e independencia, e honra. Espero da sua bondade que me não forçará á repetição, +porque me desgosta. Outro assumpto: que vaticina?</p> + +<p>—Penso que minha filha se condoeu de mim, e esquecerá o infame... É preciso +não a abandonar... Virei, todas as vezes que podér, observar o bom resultado +das suas diligencias, senhor conego. Se lhe parecer que é util afastal-a de +Lisboa...</p> + +<p>—Não convém... A cura ha de operar-se aqui, se Deus me conceder vida, que +será breve, porque a velhice e os padecimentos trazem sempre a gente em redor +da sepultura...<span class="pn">{83}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00190">IX.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00191">HERANÇA DE VIRTUDE E OURO.</a></h2> + +<p>Não era possivel tirar um sorriso dos labios de Assucena. Muito era já +evitar as occasiões das lagrimas, no primeiro mez da sua convalescença.</p> + +<p>A recahida era possivel á menor tentação de Luiz da Cunha. E, por isso, os +cuidados do conego eram solicitos em prevenir um bilhete, ou qualquer meio de +que o perverso se servisse, em algum momento de caprichoso desejo. Bem sabia +Bernabé Trigoso que Luiz da Cunha existia, quasi invisivel, em Lisboa. As +informações eram-lhe dadas por um beneficiado da Sé, seu discipulo em virtudes +e em sciencia, unica pessoa, que frequentava sua casa. Para corresponder ás +recommendações do conego, o padre Madureira entrara no segredo do viver de Luiz +da Cunha. Não o vira nunca no theatro, nem nos cafés, nem no Passeio Publico; +mas soubera casualmente d'um boleeiro que uma sege de praça o ia buscar todas +as noites, depois das onze e meia, a Campolide. O padre Madureira, que, em +pesquizas, teria sido um habil agente do santo-officio, indagou da casa em +Campolide, e pôde apenas vêr-lhe o portão. Era justamente aquella onde, vinte e +cinco annos antes, tinha sido assassinada Ricarda, e enterrado seu marido.</p> + +<p>O prescrutador alapou-se n'um casebre fronteiro, e viu que, ás onze horas e +meia, uma sege parava defronte do portão. O padre estava a pé: era necessario +seguil-a, e, para isso, desceu da sua dignidade sacerdotal ás astucias<span +class="pn">{84}</span> de gaiato, e sentou-se na taboa. O impeto da corrida não +dava tempo á desconfiança do sota. A sege parou na rua do Collegio. O padre +apeou primeiro que Luiz da Cunha, e sumiu-se na travessa do Pombal. Depois, +seguiu-o de longe, e viu-o entrar em uma casa da rua de S. Bento, reparando na +subtileza com que a porta fôra aberta e fechada. O padre não era de meias +informações. Queria, por força, distinguir á luz azulada da lua o numero. +N'esta difficultosa empreza, demorára-se, sem attender a um vulto, que +desembocara da travessa de Santa Thereza, e caminhava para elle, deixando, +alguns passos atraz, dous outros vultos parecidos, pelo capote e chapéo +derrubado, com os importantes sicarios de qualquer drama em cinco actos.</p> + +<p>O primeiro dos tres chegou, hombro com hombro, a par do irreflectido +Madureira.</p> + +<p>—Que quer aqui o senhor?</p> + +<p>—Não queria nada—respondeu, retirando-se o observador.</p> + +<p>—Não quer nada, e está com os olhos espetados n'aquella janella! Ólé—disse +o encapotado para os da rectaguarda—Conhecem este homem?</p> + +<p>Approximaram-se os dous, e responderam negativamente.</p> + +<p>—Que está vossê aqui fazendo?—tornou carrancudo, com voz de tyranno, sem +descobrir a cara, o interruptor de uma analyse innocente.</p> + +<p>—Responda!—recalcitrou um dos dous—quando não metto-lhe quatro pollegadas +de ferro na barriga.</p> + +<p>O padre não era connivente na proposta, e evitou o melhor que pôde +aceital-a, explicando d'este modo a sua paragem n'aquelle sitio:</p> + +<p>—Eu vi aqui entrar um sujeito, e desejava muito saber que casa é esta.</p> + +<p>—E conhece o sujeito?—perguntou o que tinha certa authoridade, e certa +polidez no metal de voz.</p> + +<p>—Conheço, sim, senhor, mas só de vista.</p> + +<p>—E com que fim quer saber a quem pertence esta casa?</p> + +<p>—Para satisfazer a minha curiosidade.</p> + +<p>—Pois, se está satisfeita, retire-se.<span class="pn">{85}</span></p> + +<p>Madureira estava satisfeitissimo até com o inesperado desenlace.</p> + +<p>Ainda assim, mudou de proposito, quando ouviu tres pancadas na mesma porta +onde entrára Luiz da Cunha. Cobriu-se com a esquina da travessa Nova, e +esperou. Ao segundo toque, foi aberta a porta. Um vulto entrára: dous foram +postar-se na travessa de Santa Thereza. Vinte minutos depois, vira sahir um +vulto, menos volumoso do que entrara. Viu correrem sobre elle os outros dous, +ouviu gritos de soccorro, e divisou um corpo cambaleando até cahir. Duas +patrulhas correram ao local do grito. Madureira confiou nas garantias da guarda +civica, e aventurou-se a tirar a ultima conclusão dos seus principios. Foi, e +viu, nos braços dos soldados, Luiz da Cunha com as mãos tintas de sangue, que +lhe transsudava do collête branco, e da gravata. Eram duas punhaladas, pelo +menos: uma no peito, e outra no pescoço.</p> + +<p>—O senhor viu como isto foi?—perguntou um soldado ao padre.</p> + +<p>—Não senhor, eu vinha na travessa Nova, quando ouvi gritar.</p> + +<p>—Conhece este homem?</p> + +<p>—Nada, não conheço.</p> + +<p>—Quem é o senhor?—perguntaram a Luiz da Cunha, que sahira do torpor em que +o deixára o abalo.</p> + +<p>—Moro no Campo Grande, no palacete de João da Cunha.</p> + +<p>—Olha que firma!—murmurou um soldado para o seu companheiro de +patrulha—Bem me parecia a mim que o conhecia... Este foi o que jogou o murro +com o visconde de Bacellar, nos Paulistas! D'esta vez parece que topou com a +fôrma do seu pé...</p> + +<p>Luiz da Cunha foi conduzido por dous gallegos do chafariz, apenados por +cabos de policia, em uma cadeira, sobre duas trancas de carreto, a casa de seu +pae.</p> + +<p>Madureira, apenas luziu a fresta do seu quarto, na rua das Gavias, correu á +rua do Principe, onde expôz na melhor ordem as aventuras da noite; só não soube +dizer que o vulto, que o accommettêra, e desempalára o furão da casa de +Liberata, fôra o conselheiro Costa e Almeida,<span class="pn">{86}</span> que +não era tão <em>excellente creatura</em> como a sua amante o imaginava.</p> + +<p>Deixemos o padre Madureira com Bernabé Trigoso, e vamos espreitar mais +dentro o que elle não viu, nem saberá contar ao espantado conego, e á +espavorida Perpetua.</p> + +<p>O conselheiro fôra avisado por cartas da infidelidade de Liberata. Á +primeira não deu credito. Á segunda deu algum, porque lhe marcava a hora da +entrada. Viu com os seus proprios olhos, porque a sua duvida era tal, e tamanha +como o pleonasmo da phrase. Depois que o viu entrar, quiz bater á porta; mas +faltou-lhe o animo na conjectura de ter de encontrar-se com o rival. Na segunda +noite, sem inspirar desconfianças a Liberata, entrou armado, fortalecido pelo +ciume. Procurou-o em todos os cantos, com finura e resolução, e não o viu. No +dia seguinte, recebe a terceira anonyma: dizem-lhe que o concorrente sahia +quando elle entrava. Preparou-se. Chamou dous criados, e deu-lhe instrucções, +que elles desempenharam d'um modo que não deixou nada a desejar, porque o +julgaram morto, e as instrucções eram assim pontualmente executadas.</p> + +<p>Liberata ouvira os gritos de soccorro, quando o conselheiro parecia querer +distrahil-a vibrando o teclado do piano. O criado, por um aceno, significou-lhe +a catastrophe. A enfurecida amante de Luiz veio á janella, e perguntou a um +grupo de soldados e cabos de policia o que acontecêra. Responderam-lhe que fôra +alli apunhalado um rapaz de boa familia do Campo Grande. Liberata voltou para +dentro, entrou no seu quarto, correu desfigurada com um punhal á sala, onde +passeava o conselheiro, e desceu-lhe sobre o peito uma punhalada, que elle +amparou no braço.</p> + +<p>—Já fóra de minha casa—bradou ella—quando não grito aqui-d'el-rei contra +um ladrão, contra um assassino!</p> + +<p>—Cale-se, que eu retiro-me.</p> + +<p>—Já sû assassino! ámanhã hei de publicar o seu nome nos jornaes, como +matador de Luiz da Cunha, se elle morrer. Fóra de minha casa, patife!</p> + +<p>O official maior cozeu-se com o corrimão, mais receoso da lingua que do +punhal.</p> + +<p>Liberata mandou montar a sege. Era um galopar vertiginoso<span +class="pn">{87}</span> para o Campo Grande! Encontrou defronte do palacio do +conde das Galveas a cadeira, que conduzia Luiz. Apeou. Chamou-o, beijou-o com +frenesi; fêl-o entrar na sua sege; mandou adiante o criado de taboa chamar um +medico; deu ordem para que a sege volvesse vagarosamente, e entrou em sua casa +com o filho de Ricarda desfallecido nos braços, pela perda de sangue, que ella +em vão quizera estancar com os lenços, e até com as meias de sêda branca, +servindo-se das ligas, e fitas dos sapatos como compressas.</p> + +<p>O medico declarou que as feridas não eram irremediavelmente mortaes. Luiz da +Cunha foi curado com extremo desvelo. Um mez depois dava um passeio de sege, ao +escurecer, a par da sua estremecida amiga.</p> + +<p>As indagações da policia aclararam todo este mysterio. O conselheiro não foi +poupado á irrisão publica, e a dedicação de Liberata era celebrada como um +heroismo incompativel com tal mulher. Alguns litteratos promettiam um drama em +tres actos sobre bases tão dramaticas. Outros escreviam poesias em versos +grandes intercalados de pequeno, sem que se promettia a rehabilitação de todas +as Liberatas. E com isto, os pobres rapazes, se fizeram algum mal, foi a elles, +porque, desde esse dia, até no Bairro Alto procuraram victimas a salvar do +abysmo, e sahiram de lá espancados por algum marujo, que entendia melhor de +fado e vinho, que de regeneração e amor, e ellas tambem, pelos modos.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Bernabé Trigoso reduzira Assucena a um entorpecimento moral, semelhante á +indifferença. Eram passados quatro mezes, depois da sua quéda. A infeliz +erguia-se sem sensibilidade: parece que perdêra, com a esperança, a memoria do +passado. Ainda assim, Bernabé não se atinha ás apparencias. Era necessario +sondal-a.</p> + +<p>Fallou-lhe em Luiz da Cunha como incidente n'uma conversação sobre o seu +passado no collegio. Assucena pedira-lhe que não fallasse em tal homem. +Replicára o conego, perguntando-lhe se lhe seria então indifferente a vida ou a +morte de Luiz.</p> + +<p>—Antes quero que viva.</p> + +<p>—Porque o ama ainda?<span class="pn">{88}</span></p> + +<p>—Porque me queria vingar...</p> + +<p>—Vingar-se!...</p> + +<p>—Sim... vingar-me pelo remorso... É impossivel que elle não venha a +sentil-o...</p> + +<p>—Isso é do coração?</p> + +<p>—Do coração, sim, meu querido amigo. Eu tenho hoje odio a esse homem, +porque me vejo amada de todas as pessoas, e aborrecida por elle, depois de me +perder... Minha mãe que devera despresar-me, ama-me... V. s.ª, e sua irmã +adoram-me como se eu fosse d'esta casa... Só elle!... é elle o que me +esquece... o que me deixou, desamparada!...</p> + +<p>—Desamparada?... E Deos não a acolheu?</p> + +<p>—E sabe elle se eu a estas horas peço uma esmola!</p> + +<p>—Não... nem lhe importa saber... Quer que eu lhe diga a ultima aventura +d'esse homem?</p> + +<p>—Não... não me importa... Onde está elle?</p> + +<p>—Em Lisboa.</p> + +<p>—Em Lisboa?! Não me disseram que fôra para o Brazil?!</p> + +<p>—Quando foi conveniente dizer-lh'o. Hoje póde saber que Luiz da Cunha vive +em Lisboa, debaixo das mesmas telhas com a unica mulher digna d'elle...</p> + +<p>—Cale-se, por piedade, meu amigo...—interrompeu ella.</p> + +<p>—Pois que? Não me disse que lhe era indifferente...</p> + +<p>—Basta-me o odio que tenho no coração... Não posso com mais...</p> + +<p>—Odio é muitas vezes demasiada importancia ao que é sómente despresivel. Eu +quero que Assucena se lembre de Luiz da Cunha para perdoar-lhe no seu coração, +conversando com Deos, se os infortunios d'esse homem forem taes, que possam +attribuir-se a expiação do crime em que Assucena foi a primeira victima.</p> + +<p>—Perdoar-lhe... eu!</p> + +<p>—Não gosto d'essa exaltação de cólera, filha. Em quanto ella existir, não +está cauterisada a ferida. Eu vou experimental-a.</p> + +<p>Bernabé Trigoso contou as scenas observadas por Madureira, e as outras +colhidas de informações que eram já do dominio publico. Assucena escutou-as com +attenção.<span class="pn">{89}</span> A arte valeu-lhe muito. Manteve +silenciosa impassibilidade, quando o conego esperava alguma commoção. Mas, +apenas livre das vigilancias de Perpetua, fechou-se no seu quarto, e chorou. O +seu soffrimento devia ser um tumultuoso acervo de muitas dôres: odio, amor, +ciume, saudade, desesperação, consciencia da sua quéda nos braços de tal homem, +a preferencia em que era sacrificada a uma mulher perdida!</p> + +<p>O incidente passou com alguns dias de profundo abatimento. As visitas de +Rosa Guilhermina, as diversões domesticas, que o conego lhe dava +despertando-lhe o gosto pela musica, pela pintura, prendas em que se +distinguira no collegio; e, de mais, a enraisada affeição com que pagava +pequena parte da amizade que lhe dava esta familia, considerada a sua, pareciam +tornal-a indifferente ás reminiscencias, se ellas existiam, das suas passadas +desventuras.</p> + +<p>Assim correram dez mezes, que eu deixo passar sem analyse, porque em poucas +linhas se diz que a viscondessa de Bacellar recuperára, se não um resto de +contentamento, que perdera com a desgraça da filha, ao menos um ar de saude, +que os medicos lhe não promettiam. O visconde, preoccupado com a alta e baixa +de fundos, esqueceu a affronta recebida nos Paulistas, e nunca perguntou o +destino de Assucena. Luiz da Cunha de quem no proximo capitulo fallarei mais de +vagar, vivia com Liberata. João da Cunha estava, se não rematadamente doudo, ao +menos tres partes do dia, fechado no seu quarto, dizia em voz cavernosa cousas +inintelligiveis.</p> + +<p>Ao cabo de dez mezes Bernabé Trigoso adoeceu, e prophetisou a sua morte, +antes que os medicos lh'a mostrassem n'uma das pontas do fatal dilemma.</p> + +<p>O seu primeiro acto foi um testamento verbal, dito a sua irmã, fechando-se +com ella em longa prática. Os fins da sua vida foram suaves, tranquillos, e +auxiliados de todos os soccorros espirituaes. A viscondessa de Bacellar +ajoelhou muitas vezes aos pés do seu leito. Assucena, sempre ao lado do +enfermo, não podia chorar na presença d'elle, porque o venerando velho dava +visiveis signaes de que lhe era custosa a morte, se via lagrimas inuteis nas +faces da que elle chamava a sua corôa de triumpho sobre os vicios<span +class="pn">{90}</span> da terra. A filha de Rosa Guilhermina só acreditou na +perda do seu bemfeitor, quando o moribundo apertou entre as suas, quasi frias, +as mãos de Perpetua e as d'ella, dizendo-lhes: «é agora!...» cerrando os olhos +sobre tudo que lhe era caro, fechando os labios com a palavra «Deos» e +aceitando, já no limiar da eternidade, convertidas em flôres, as lagrimas, que +enxugára aos seus irmãos de exilio.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>O conego Bernabé Trigoso passava por pobre, attendendo á sua velha chimarra, +ás suas sempre velhas botas de cano alto, e ao seu arruçado tricorne. O seu +espolio, só conhecido de sua irmã, era dinheiro, herança de seu pae, de seus +avós, thesouro até preciosissimo para a numismatica, pela variedade de moedas +de prata e ouro desde D. Affonso III.</p> + +<p>D. Perpetua não tocou n'essa caixa quadrada, com dimensões bastantes para +conter uma riqueza que lhe não servia de nada a ella. Mostrou-a, sem abril-a, +dias depois da morte de seu irmão, a Assucena. «O seu patrimonio está aqui, +minha filha. Eu fui a depositaria, mas a menina é a dona. Meu bom irmão não +teve animo para lhe dar os seus ultimos conselhos. Já morreu, já lá está na +presença de Deus; mas elle vê e ouve o que fazemos e dizemos. Parece-me que bem +cedo vou ter com elle. Tenho sonhado todas as noites, que meu irmão me chama +para si... É tempo de cumprir as ordens do nosso amigo. Depois da minha morte, +Assucena será tambem minha herdeira. Eu tenho uma quinta no Lumiar, onde fui +nascida e creada, e onde desejo morrer. Partirei para lá o mais cedo que possa +ser, Assucena vai comigo, porque sua mãe me deu consentimento. Se Deus chamar a +contas a minha alma, digo-lhe, em nome de meu irmão, que viva n'essa quinta, +que fuja d'esta terra d'onde vai fugindo a religião e o temor dos juizos +divinos. Tome como director da sua vida o padre Madureira, que aprendeu a ser +virtuoso com meu irmão. Com o tempo, a menina ha de entrar na casa de sua mãe, +e então estará livre de todas as perfidias do mundo; mas, em quanto o não +fizer, viva recolhida com a sua boa alma no seio do Senhor; esqueça-se dos seus +desgostos, dando-se ao prazer de dar esmolas<span class="pn">{91}</span> sem +ostentação, que foi sempre a constante virtude do santo, que Deus nos levou +para a côrte celestial. Ha quasi um anno que vive n'esta casa: já agora ha de +fechar os olhos ás duas pessoas, que mais lhe quizeram, e que a deixam no mundo +a pedir ao Senhor pelas suas almas. Nunca se ha de esquecer dos seus amigos, +porque meu irmão está no ceo pedindo por nós, e brevemente pediremos ambos pelo +nosso anjo.»</p> + +<p>A singela prática acabou por lagrimas, que a interromperam.</p> + +<p>Os sonhos de D. Perpetua são o inexplicavel effeito de uma causa superior ao +entendimento.</p> + +<p>Como o seu desejo era morrer onde nascêra, a irmã do conego mudou para o +Lumiar, com Assucena, e o padre Madureira, constante companhia das duas +senhoras, depois da morte do seu mestre e amigo.</p> + +<p>D. Perpetua Trigoso, durante dous mezes, foi exemplar em obras de caridade, +como se devesse ser essa a ultima lição de Assucena.</p> + +<p>Setenta e tantos annos, com todos os achaques de velhice, explicam a rapida +consumpção que, n'esses dous mezes, convenceu Perpetua de que em verdade seu +irmão a chamava. Sacramentou-se uma tarde, com symptomas ainda de vitalidade +para alguns dias. Entregou-se o seu testamento ao padre Madureira. E fechou o +cyclo das suas virtudes, convidando a sua attribulada amiga a presenciar a +morte d'uma mulher sem a consciencia d'uma injustiça. Só ella conheceu o seu +fim, como se o anjo da bemaventurança lh'o segredasse. Morreu, abençoando +Assucena, e passando-lhe ás mãos a cruz que não podia já suster no braço hirto +pela aridez cadaverica.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Assucena era herdeira de quarenta mil cruzados. Nunca se julgou tão +desvalida. Não sabia a significação encyclopedica da palavra «dinheiro.»<span +class="pn">{92}</span></p> + +<h1><a name="SECTION001100">X.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION001101">COMO OS ANJOS SE VINGAM.</a></h2> + +<p>Um anno corrêra tambem para Luiz da Cunha. As duas existencias, comparadas +entre si, afiguram-se-nos o mytho de duas almas: uma tirando para Deus um vôo; +a outra afundando precipitadamente na região das trevas, na infinita +desesperação.</p> + +<p>O rival do official maior de secretaria estabeleceu a sua residencia em casa +de Liberata, noite e dia. O carinho com que ella o tratára na convalescença dos +ferimentos, obrigára-o a sentimentos de gratidão, e a taes protestos de +retribuir-lh'a em premios de inestimavel preço, que Liberata, tão incapaz de +avalial-os como quem lh'os promettia, ria com cynica desenvoltura da sua +rehabilitação, projectada por Luiz da Cunha.</p> + +<p>O neto dos Faros, durante a sua enfermidade de vinte e tantos dias, entrára +na região philosophica dos deveres sociaes, e confeccionára certas maximas de +alta importancia para a sua futura felicidade.</p> + +<p>A sociedade, que nos abomina, não tem direitos ao nosso respeito. Primeira +maxima.</p> + +<p>O escandalo, quanto mais estrondoso, mais grato áquelle que o dá, porque +assim insulta uma hypocrisia astuciosa com que Tartufo e D. Basilio douram a +pilula aos seus parvos admiradores. Segunda maxima.</p> + +<p>Todo o homem tem direito a ser um infame, na opinião publica, quando é feliz +na sua particularissima, e unica respeitavel. Terceira.<span +class="pn">{93}</span></p> + +<p>A felicidade está em nós, não se reflecte dos juizos estranhos. Quarta, +muito parecida com outra da sã philosophia. Os extremos tocam-se.</p> + +<p>A mulher mais digna de nós é aquella que melhor serve as nossas propensões, +quer viva na crypta subterranea das vestaes, quer se ostente de seios nús no +estrado do alcouce. Quinta.</p> + +<p>O homem que pede á opinião publica consentimento para amar uma, ou a outra, +é um tolo. Sexta.</p> + +<p><em>Et cetra.</em></p> + +<p>E, de todas, concluiu que devia casar-se com Liberata, visto que era esta a +mulher, que mais servia as suas propensões, e mais credito adquirira sobre o +seu reconhecimento.</p> + +<p>Este homem, que tocou da torpeza o extremo em que a compaixão se allia ao +nojo, offereceu-se a Liberata, como marido. Esperava vêl-a saltar-lhe ao +pescoço, fundindo-se em prantos de felicidade, e recebeu em resposta a +gargalhada mais estridorosa, mais comica, e mais fulminante! Liberata tambem +tinha as suas maximas, bebidas na fonte impura do seu amante; mas entre as do +seu amante não se encontravam algumas, que eram a base fundamental de todas as +outras no catecismo d'ella. Eram estas:</p> + +<p>Toda a philosophia sem dinheiro é uma tolice.</p> + +<p>Não ha nada que se pareça tanto com o mendigo como o philosopho pobre.</p> + +<p>Bolsa vasia, intelligencia manca.</p> + +<p>Sem dinheiro não se affrontam os desprêsos da sociedade.</p> + +<p>Se não és rico, não sejas corrupto, porque o teu sapateiro não só te +despresa, mas dá-te com o tira-pé.</p> + +<p>Mulher, cahida em leito de ouro, levanta-se toucada de brilhantes.</p> + +<p>A deshonra, que se estorce n'uma esteira, é que nunca se rehabilita.</p> + +<p>Rehabilitar-se é ser precisa, desejada, invejada, e pesada a ouro.</p> + +<p>Estes proverbios explicam a gargalhada de Liberata á muito séria proposta de +Luiz da Cunha.</p> + +<p>—Estás doudo!—accrescentou ella, batendo as palmas—Tragam-me<span +class="pn">{94}</span> uma camiza de força para o meu pobre Luiz, que +endoudeceu, e quer casar comigo!... Tu fallas sério?!</p> + +<p>—Fallo sério... fallo-te com o coração.</p> + +<p>—Pobre coração! Pois ainda tens d'isso? Não nos fica bem fazermos de +creanças... Eu não sou Assucena, meu trampolineiro...—dizia ella, +anediando-lhe as guias do bigode—Que será feito d'essa illustre menina?</p> + +<p>—Não sei... dizem que está no Minho em uma quinta do padrasto... Mas diz-me +cá, Liberata... Achas disparate o nosso casamento?!</p> + +<p>—É uma bestialidade... Vou provar-te que nunca se disse mais tremenda +asneira. Se casassemos, qual era o nosso futuro? Naturalmente seria, pouco mais +ou menos, o que era ha dous mezes. Eu teria um amante rico para sustentar o meu +marido pobre.</p> + +<p>—Mas hoje não acontece assim.</p> + +<p>—Se não acontece hoje, acontecerá ámanhã. Desde que o conselheiro foi +despedido, gasto das minhas economias; mas as economias vão gualdidas. A sege e +os cavallos estão á espera de comprador; os brilhantes irão depois da sege; +depois dos brilhantes, meu caro Luiz, é necessario adquirir outros. Ora agora, +imagina tu que és meu marido, e vê lá se te convém ficar atraz da porta, muito +caladinho, para não assustar o amante.</p> + +<p>—Mas eu pensei que renunciarias ao luxo que tens hoje, e te sacrificarias +ao amor e á posse d'um só homem.</p> + +<p>—Creancice! A primeira victima eras tu, e a segunda eu, e a terceira os +credores. Pois tu pensas que eu valho alguma cousa se despir este vestido de +sêda, com rendas de Escocia, e vestir um vestidinho de chita de uma +costureira?! Parece que não tens gastado cincoenta mil cruzados a teu pae! Não +te lembras que, ha dous annos, me deste um luxo extravagante para me +phantasiares, como tu dizias, uma d'essas romanas que pareciam cahidas do ceo +n'uma nuvem de perfumes?! E agora estavas resolvido a pôr um estanque, e +mandar-me vender charutos ao balcão!</p> + +<p>—É porque te amo, Liberata, e não sei como hei de indemnisar-te.</p> + +<p>—Não me deves nada: estás recebendo o juro d'uma<span +class="pn">{95}</span> divida. Sem ti, meu Luiz, não era eu nada. Foste tu que +me fizeste conhecida dando-me em espectaculo de que eu lucrei muito, quando +dizem que o escandalo faz perder. O americano apaixonou-se por mim no theatro, +vendo-me comtigo. O capitão de fragata foi um irritante que fez dar saltos o +americano. O americano fez dar saltos o conselheiro. Hoje és tu um irritante de +muitos; mas, em quanto podér sustentar fidelidade, sou tua captiva. Quando não +podér, digo-te adeus por algum tempo.</p> + +<p>—E despedes-me?</p> + +<p>—Que remedio! mas por ora não. Vamos vivendo sem cuidados, em quanto se não +offerece uma conveniencia, que valha a pena da nossa separação por algumas +horas... Deixar-te eu, isso é que nunca. É cá um capricho de mulher perdida, +que se parece muito com os caprichos das mulheres aproveitadas...</p> + +<p>Eis-aqui a posição social de Luiz da Cunha, dous mezes depois que fôra +ferido. Comia e vestia das economias de Liberata. Indemnisava-a com uma +permanente convivencia, e, muito instado, ao anoitecer, dava sósinho um curto +passeio.</p> + +<p>Este viver monotono, e impresistente para a sua inconstancia natural, +fatigou-o. Liberata conheceu o cansaço do amante, e não se affligiu, porque +tambem ella se sentia marasmada n'uma continuada repetição das mesmas +sensações, cada vez mais arrefecidas.</p> + +<p>E, depois, o filho de Ricarda habituára-se a julgar commum de dous os +cabedaes de Liberata. Tomava das gavetas dinheiro, que não trazia de fóra, e, +se algumas vezes trazia triplicada a quantia que levára, não lhe dava canceira +a restituição dos fundos.</p> + +<p>Luiz da Cunha jogava n'um terceiro andar na rua do Ouro, onde se congregavam +em fraternal espoliação alguns negociantes, alguns bachareis vadios, poucos +litteratos, e bastantes empregados publicos. Sempre infeliz, o parasita de +Liberata recolhia muitas vezes colerico da perda, e encontrava a sua amante na +cama, com a chave corrida por dentro.</p> + +<p>Luiz da Cunha, n'essas occasiões, que foram muitas, sentia assaltos da +consciencia, discutia com elles, e ficava sempre vencido, reputando-se infame. +As maximas, que<span class="pn">{96}</span> forjára na cama, durante o periodo +da cura, não lhe serviam auxilio nenhum n'esses combates com o senso-intimo. A +devassa philosophia não lhe desviára, com lubricos esgares, os olhos despertos +da alma do ponto negro, que a consciencia lhe mostrava, lá em baixo, no fundo +da voragem.</p> + +<p>Um dia, depois de oito mezes de hospedagem, Luiz da Cunha teve com Liberata +esta importante prática:</p> + +<p>—Meu caro Luiz, chegou a occasião de darmos um saudoso abraço por algum +tempo. Ha oito mezes que temos gasto como se tivessemos descoberto a pedra +philosophal. Feitos os meus calculos, não podemos assim viver mais quatro +mezes, sem que eu venda a cama. Cavallos e sege já lá vão; as minhas pulseiras, +e o meu collar estão empenhados. Tu tens jogado mais d'um conto de reis, e sei +que deves seis ou sete a um tal Aboim, que vai ser meu amante. Mudemos de rumo, +que o barco vai a pique. Já te disse que não sympathiso nada com a honrada +miseria, e a miseria a que nos vamos reduzindo é d'aquellas que tem o inferno +da desesperação, embora digam as novellas que uma tranquillidade de +consciencia, mantida pelo trabalho honesto, é a suprema ventura. Será; mas eu +deixo essa ventura á mulher do meu sapateiro; e penso que tu tambem...</p> + +<p>—Isso quer dizer que...</p> + +<p>—Adivinhaste, Luizinho. Não precisas acabar a phrase: tens uma penetrante +intelligencia. Não achas que tenho razão?</p> + +<p>—Tens...</p> + +<p>—Agora o que deves fazer é as pazes com teu pae, e vê se elle te faz seu +herdeiro, ou se o visconde dá á enteada um bom dote. Logo que eu tenha +restaurado a minha fortuna, tanto te recebo pobre como rico; ponto é que eu +possa prescindir do Aboim, como prescindi do conselheiro.</p> + +<p>—Vejo que és sempre a mesma mulher!</p> + +<p>—Não te comprehendo bem.</p> + +<p>—És a Liberata que eu encontrei na rua do Ouro.</p> + +<p>—Justamente a mesma.</p> + +<p>—Uma certa Liberata, que appareceu no theatro com um novo amante, na mesma +noite do dia em que a deixei.<span class="pn">{97}</span></p> + +<p>—Tal e qual.</p> + +<p>—A mesma dissoluta.</p> + +<p>—Essa censura é mais infame que tu. Que queres de mim, Luiz? Uma garantia +para a tua subsistencia?</p> + +<p>—Não quero nada.</p> + +<p>—Pois então, vai, que vaes pago, e bem pago dos excessos com que me +compraste. As nossas contas estão saldadas.</p> + +<p>—Mas eu tenho sacrificado a ti a minha reputação.</p> + +<p>—Fóra com a hypocrisia! Isto faz nojo! Tu não me sacrificaste nada; quem +perdeu fui eu, e perdi tudo, porque de mais a mais o homem, que me queria +indemnisar casando comigo, agradece-me agora com insultos. Se eu não fosse +dissoluta, o que seria de ti?</p> + +<p>—És muito infame lançando-me em rosto taes favores...</p> + +<p>—Tu não córas, meu bom amiguinho. A differença entre nós é toda a meu +favor, e, se não ha outra, a unica, que conheço, está entre o vestido e as +calças. Eu sirvo-te com o meu dinheiro ha oito mezes. Desejei uma occasião de +mostrar-me grata: encontrei-a, e fui quanto pude, e em quanto pude. Tu, nem +agora, sabes dizer-me do fundo da escada: «obrigado, rapariga!»</p> + +<p>—Hei de embolsar-te das tuas despezas...</p> + +<p>—Como quizeres.</p> + +<p>—Hei de atirar-te á cara com essas migalhas.</p> + +<p>—De certo m'a quebravas, porque o volume não será pequeno. Ainda assim, vê +se me acertas bem, porque bem sabes que tenho ainda o punhal com que feri por +tua causa um homem, que teve a pouca vergonha de me fazer rica, e de me +prometter para a velhice a felicidade, que tu me destruiste...</p> + +<p>A disputa acalorou-se, e a lealdade do tachigrapho não póde, sem +deshonestidade, progredir. Fiquemos, pois, aqui, sabendo que Luiz da Cunha +sahiu impellido por um forte empurrão, e levou com a porta na cara, quando se +voltava para retribuir liberalmente a amabilidade.</p> + +<p>O alvitre de Liberata em quanto ao destino do seu expulso amante, era o mais +judicioso. Luiz procurou a casa paterna, onde não entrára durante oito mezes. +Encontrou seu pae, passeando n'uma sala com dous criados de vigia.<span +class="pn">{98}</span> Estava completamente doudo: não conheceu o filho, +supposto se deixasse beijar na mão, com um sorriso de amargo desprêso.</p> + +<p>Os herdeiros presumptivos de João da Cunha, inimigos figadaes do filho +bastardo, tinham judicialmente assumido a administração do vinculo. Os bens +livres foram dados em penhora ao visconde de Bacellar. O doudo estava sujeito á +restricta deliberação d'uma tutela, que lhe concedêra apenas o indispensavel +para manter uma vida inutil.</p> + +<p>Luiz não podia contar com cousa nenhuma d'aquella casa, a não querer +limitar-se aos restos da mesa do pae, e a uma cama, d'onde seria expulso, logo +que o doudo morresse.</p> + +<p>O annel de ferro, que o apertava, não tinha um élo mal soldado por onde elle +se evadisse á desgraça. Não tinha um amigo a quem pedisse um conselho; nem um +indifferente que quizesse dar-lh'o. Procuravam-no os credores unicamente; e +d'esses, alguns eram tão insoffridos, que se retiravam appellidando-o ladrão, +ou fugindo á bôca de um bacamarte com que o devedor insoluvel os ameaçava.</p> + +<p>Luiz da Cunha, em casa de seu pae, chegou ao extremo de não ter umas botas, +e de pedil-as emprestadas ao seu criado para ceder a um impulso, que o fazia +correr sem destino.</p> + +<p>Chegaram-lhe as horas da profunda reconcentração. N'essas, a imagem de +Assucena era uma braza de fogo sobre a chaga. O algoz não podia comportar a +reminiscencia da victima. Recordal-a não era compadecer-se. Era imputar-lhe a +causa das desgraças, que o assoberbavam: cerração absoluta de todas as suas +esperanças.</p> + +<p>Viveu assim dous mezes.</p> + +<p>João da Cunha, quando menos se esperava, morreu da ultima congestão +cerebral. Dizem que fôra terrivel a ultima hora lucida d'esse homem. O enigma +dos dous cadaveres não lh'o perceberam os circumstantes. Ricarda todos +suspeitavam que fosse a mãe de Luiz; mas esse outro cadaver, que lhe pedia +contas de sua mulher, ninguem conjecturou quem podésse ser.</p> + +<p>Seu sobrinho, filho de uma sua irmã, successor no<span +class="pn">{99}</span> vinculo, mandou immediatamente fechar as portas. Luiz da +Cunha teve oito dias de homenagem para resolver o seu destino, e chorar a morte +de seu pae, que foi de todos o menor abalo, que podia soffrer aquella alma +entorpecida para todas as impressões. A consciencia da desgraça vestira-lhe a +sensibilidade nobre d'uma crusta impenetravel. Alli não entrava nada n'aquelle +coração ossificado. Se alguma emoção estava reservada para animar a pedra, era +o dinheiro, o dinheiro com deshonra, por todos os meios infames, com tanto que +podésse tornar ao mundo e convertêl-o em fel, em escarneo, em vingança.</p> + +<p>Mas esse dinheiro quem lh'o daria? Nem ao menos a chimera d'uma esperança +absurda o lisongeava!</p> + +<p>Luiz da Cunha apresentou-se n'um quartel de cavallaria, disse que queria +assentar praça. O commandante conhecia-o, e condoêra-se da miseria com que se +lhe apresentava um moço, que elle vira disputar em luxo e devassidão com os +mais distinctos da sua fileira.</p> + +<p>Prometteu-lhe proteccional-o, e elevou-o logo a cabo, com promessas de +furriel, na primeira promoção.</p> + +<p>Luiz da Cunha era melindrosamente tratado na recruta; mas, orgulhoso ou +incivil, respondia com insultos á menor correcção do preceptor. Um dia +travaram-se com palavras estimulantes, e por fim com as espadas. O mestre de +esgrima foi ferido sériamente por traiçoeira cutilada, e Luiz da Cunha fugiu a +cavallo, inutilisando assim a perseguição do momento.</p> + +<p>Sem destino na fuga, achou-se em Villa Franca, a cinco leguas de Lisboa. Ahi +vendeu o cavallo a um estalajadeiro pela terça parte do valor. Seguiu, Tejo +acima, até Santarem. Refez-se de alimento para seguir jornada, e alugava +cavalgadura para Coimbra, quando lhe deram voz de prêso, á qual tentou fazer +uma resistencia, que lhe custou algumas cronhadas d'arma.</p> + +<p>No dia seguinte á tarde entrava no Limoeiro, para ser julgado em conselho de +guerra. D'esta vez não o soccorreram as solicitudes de Liberata. Luiz da Cunha +pensava no suicidio, e emprasava para elle o momento posterior á deliberação do +conselho de guerra. Dizia-se que o mais encarniçado agente contra o desertor +era o visconde de Bacellar, que promettêra uma commenda da Conceição<span +class="pn">{100}</span> ao auditor, se conseguisse que o conselho militar +condemnasse o réo a degredo perpetuo.</p> + +<p>O padre Madureira, com o seu sestro observador, não podia ignorar o +essencial d'este successo. Condoído dos revezes d'aquelle infeliz, contou a +Assucena, com sua permissão, os doze mezes da vida de Luiz da Cunha, desde as +punhaladas até á entrada na cadêa. Cedendo á sua boa alma, deixava transpirar a +compaixão das palavras, e attribuia a expiação á serie de desventuras, que o +reduziram a assassino, e mais tarde o levariam á forca.</p> + +<p>A compadecida censura do padre tinha um ecco no coração de Assucena. Os +infortunios de Luiz da Cunha não podiam ser-lhe estranhos. Se, n'um momento de +dolorosa exaltação, ella dissera que queria vingar-se, dez mezes tinham +decorrido depois, e antes d'esse momento estavam alguns mezes de apaixonado +delirio, de cega idolatria ao homem, que tão cruel lhe fôra. A religião, +sucessora de todas as affeições de Assucena, operára em sua alma a maravilha do +perdão para todas as injurias, d'onde quer que ellas viessem. Pensando na +maldade de Luiz, e não podendo explical-a, attribuiu-a ao destino, +interpretando assim do peor modo o livre arbitrio do homem remido pelos +sacrificios de Jesus, e salvo pelas suas obras meritorias de recompensa, ou +condemnado pelas infracções da lei divina. Esta anomalia intellectual é a +enfermidade de muitas pessoas dedicadas, sem critica, ás cousas da fé, e +descahidas, quando mais intentam levantar-se, nas grosseiras crenças do +fatalismo, do destino, do «estava escripto» de Mafoma, e do <em>quó Deus +impulerit</em> de Cesar.</p> + +<p>Assucena viera a convencer-se do <em>que tem de ser</em> a respeito de Luiz +da Cunha. Entendeu que uma vontade, superior á d'elle, o obrigava a ser mau +para os outros, que serviam de instrumento providencial á sua desgraça. A +Providencia era assim insultada pela innocente menina, e não admira que ella +incorresse na heresia, que passa em Roma com os fóros de san doutrina.</p> + +<p>D'esta conjectura ao perdão era logica a passagem.—Perdoar-lhe para +amal-o—dizia ella na sua consciencia—isso nunca, em quanto a mão de Deus me +não desamparar, mas perdoar-lhe para que a justiça divina se<span +class="pn">{101}</span> aplaque; oxalá que a sua felicidade dependesse do meu +perdão, que tão recommendado me foi pelos dous anjos que fallam do ceo...</p> + +<p>Assucena acreditava no seu consorcio espiritual com as almas do conego, e de +sua irmã. Está n'essa crença a explicação da fervente supplica que ella, em +extasis, fizera, depois que o padre Madureira narrára compungido as desventuras +de Luiz. Não sei se as almas lhe responderam; mas, de todo o meu coração, creio +que sim. Não se explicam certos actos que divinisam a creatura, se a não +considerarmos tocada d'um magnetismo que mana de fonte sobrenatural. Não posso +conceber o heroismo do perdão de Assucena, sem concebêl-a sujeita á vontade +d'um impulso divino, d'um condão de predestinada, d'uma qualquer força, que não +seja esta, que imprime o movimento nas acções triviaes de cada homem, incapaz +de produzir o que outro homem não produz.</p> + +<p>Assucena devia recear-se de abrir sua alma ao padre Madureira. Devia; mas a +coragem é o que espanta! Pede-lhe que soccorra Luiz da Cunha, visto que não tem +pae, nem amigos. Offerece-lhe, para que o prêso seja solto, o dinheiro que +quizer, com tanto que Luiz não saiba nem por sombras que é ella a que o salva. +Isto, que pede, pede-o, chorando; e padre Madureira, tocado pelo enthusiasmo da +caridade, não tem uma só palavra contra. Aceita o melindroso encargo, e +promette esgotar todos os recursos, supposto se tema de não vencer os inimigos +poderosos de Luiz.<span class="pn">{102}</span></p> + +<h1><a name="SECTION001110">XI.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION001111">SÃO MUITOS OS LAZAROS; MAS UM SÓ O CHRISTO.</a> +</h2> + +<p>O visconde de Bacellar, com quanto não fosse parte contra Luiz da Cunha, seu +aggressor, aguilhoava indirectamente o ministerio publico. Difficultava-se, +portanto, a soltura por fiança, que a lei não concedia na reincidencia do +delicto, aggravado agora, por deserção e roubo, e entregue por isso á summaria +jurisprudencia militar.</p> + +<p>Padre Madureira, aconselhado, descoroçoou diante dos obstaculos; mas +Assucena, como se tivesse um experimentado uso da omnipotencia do dinheiro, +instou o padre, authorisando-o de novo para todas as despezas.</p> + +<p>O mestre de recruta, seguro de que não morria da cutilada, transigiu por +dinheiro com o seu discipulo rebelde, e declinou a accusação. O conselho +militar, movido á piedade por não sei que figuras rhetoricas do agente de +Assucena, despresou a virulenta accusação do auditor, acalorado por suggestões +do visconde. O juiz criminal, um pouco indeciso, como o burro de Buridan, entre +o codigo e a peita não mesquinha, negociada pelo escrivão do processo, absolveu +o réo, dando assim um testemunho da sua moralissima independencia de viscondes.</p> + +<p>O cabo de cavallaria foi militarmente condemnado a dous mezes de prisão, e +baixa de posto a soldado raso. O seu plano de suicidio não vingou, á vista da +limitada pena. Soubera que um braço poderoso o protegia, aluindo os obstaculos +com alavanca de ouro. Conjecturou d'onde tal protecção poderia vir, e julgou-se +ainda debaixo<span class="pn">{103}</span> da tutelar influencia de Liberata, +que não podia deixar de ser o seu anjo valedor, em todas as crises.</p> + +<p>Desvaneceu-se-lhe esta grata certeza, quando o carcereiro o chamou á sua +sala, deixando-o só com um homem desconhecido, trajando batina, e sapato de +fivela.</p> + +<p>—O senhor Luiz da Cunha—disse Madureira—deve ter conhecido que alguem o +protege. Ignora quem é, e eu, supposto que tenha sido o solicitador da sua +soltura, não venho aqui dizer-lhe quem lhe evitou um degredo.</p> + +<p>—Pois eu não hei de saber a quem devo tantos favores?!</p> + +<p>—A pessoa, que lh'os faz, prescinde da sua gratidão, e deseja não ser +conhecida. Receba os beneficios, e não queira vêr a mão invisivel que o +protege, porque a não póde vêr. Quem quer que é, não limitou ainda a sua +caridade com o senhor Luiz da Cunha. Ha tenções de lhe dar os meios para que o +senhor deixe Portugal, e vá no Brazil, ou na Africa, tirar algum interesse do +capital que se lhe dér aqui. Faz-lhe conta aceitar este beneficio?</p> + +<p>—Aceito, cheio de reconhecimento. É o maior favor que me póde fazer esse +Deus, que me ampara, seja quem fôr. Mas sou soldado, e preciso que me dêem +baixa.</p> + +<p>—Ha de têl-a. O senhor tem dividas?</p> + +<p>—Tenho dividas; mas essas não me inquietam, porque os meus credores são +ladrões civilizados. É dinheiro de jogo, que eu não pagaria ainda que podésse.</p> + +<p>—Mas alguem quer que o filho do fallecido João da Cunha se retire honrado +de Portugal, apparentemente ao menos.</p> + +<p>—Isso meu caro senhor, é obra difficultosa. Eu não sei bem o que devo; mas, +por um calculo approximado, não pago essas ladroeiras que me fizeram com oito +contos de reis; e, se eu tivesse hoje quem me désse quatro, em cinco ou seis +annos prometto que os faria chegar a cem.</p> + +<p>—É admiravel que o senhor Cunha com essa finura commercial se arruinasse +até ao extremo de ser soldado para não morrer de fome...</p> + +<p>—Meu amigo, na adversidade é que se fazem os grandes calculos, e que se +traçam os grandes planos.</p> + +<p>—Pelo que vejo, os calculos e os planos de fazer que quatro contos produzam +cem em cinco ou seis annos, só<span class="pn">{104}</span> se meditam quando o +coração está de todo em putrefacção, e as algibeiras vazias...</p> + +<p>—Parece-me que tem razão, senhor padre... Como se chama, meu caro senhor?</p> + +<p>—Não me convém que o senhor me conheça, nem o meu nome lhe é uma cousa de +importancia. Queira continuar. Disse que eu tinha razão...</p> + +<p>—Sim, tem razão; mas não me lembra a que respeito eu disse que o senhor +tinha razão...</p> + +<p>—Tambem não importa. Sabe o que eu admiro, senhor Cunha? É a sua presença +d'espirito!</p> + +<p>—Nunca me faltou. Sou um verdadeiro philosopho, e peço-lhe acredite que +nunca estudei philosophia. Ha tempos, quando me fizeram a grosseria de me +trazer aqui, sem o meu consentimento, resolvi suicidar-me, em certo dia e a +certa hora...</p> + +<p>—Que foi o que o conteve?</p> + +<p>—Foi essa pessoa que me protege, alliviando-me da condemnação, que me +promettiam os meus juizes, sendo um d'elles um homem, que foi criado de meu +pae, e é hoje do supremo conselho militar... Isto não vem nada ao caso... O +facto é que me não suicidei, como o senhor vê, e desde então entrei nos grandes +calculos, bem longe de sonhar que alguem me queria fazer rico, dando-me um +capital, que eu levarei no Brazil a uma cifra fabulosa.</p> + +<p>—Está, portanto, resolvido a sahir?</p> + +<p>—Se fosse já, era uma fortuna.</p> + +<p>—Ha de primeiro cumprir a sua sentença; ha de aqui receber os recibos dos +seus credores, e para isso queira dizer-me quem elles são.</p> + +<p>—Não me recordo... Deixemo-nos de credores, meu amigo...</p> + +<p>—Um annuncio nos jornaes convidando-os a apresentarem os seus creditos, +será sufficiente...</p> + +<p>—Mas não lhe disse eu já que devo mais de oito contos, que são vinte mil e +tantos cruzados?!</p> + +<p>—Serão pagos.</p> + +<p>—Mas quem é que se interessa tanto por mim?! O senhor ha de ter a bondade +de me dizer a quem devo beijar as mãos. Isto parece-me um lance de novella! Já +me lembrou se andaria aqui segredo do meu nascimento!<span +class="pn">{105}</span></p> + +<p>—Do seu nascimento?! pois o seu nascimento é um segredo para alguem?</p> + +<p>—É metade d'um segredo, pelo menos para mim. Não sei quem foi minha mãe, +porque meu pae, que tinha razões para saber melhor que ninguem quem ella foi, +nunca m'o disse. Imaginei que essa senhora viveria ainda, e teria mais dinheiro +que eu... Não posso atinar com outra pessoa... Não tenho amigos, não sei d'onde +me possa vir esta restituição, não me consta que seja o herdeiro presumptivo +d'algum capitalista... emfim, aqui anda mysterio que o senhor padre póde pôr-me +em linguagem portugueza, e eu prometto guardar inviolavel segredo, se fôr +necessario esconder a beneficencia como se esconde um crime.</p> + +<p>—Já lhe disse que não denunciava o seu bemfeitor.</p> + +<p>—<em>Seu</em>, ou <em>sua</em>?</p> + +<p>—Não tem resposta o reparo. O senhor Cunha deve ter a polidez d'um +cavalheiro não me interrogando mais sobre tal assumpto.</p> + +<p>—Pois bem: eu respeito o mysterio: nem mais uma palavra a tal respeito.</p> + +<p>—Ora, diga-me, senhor, não tem pena de si? A sua quéda não lhe tem custado +horas d'uma tormentosa reflexão?</p> + +<p>—Declaro-lhe que abomino o estylo pathetico, fujo de entrar no sorvedouro +da minha consciencia; ainda assim, para lhe mostrar que não sou insensivel á +sua pergunta, respondo: tenho soffrido; tenho-me espantado da logica maldita +dos meus infortunios, tenho combinado a minha ultima desgraça com o meu +primeiro crime, tenho desejado morrer; mas, ao cabo de tudo, reconheço que as +minhas desventuras são fataes, não as posso encadear, não sei prevenil-as, sou +victima da minha organisação, obedeço ao fim para que fui creado, tenho tanto +arbitrio no mal como o senhor no bem, represento o crime ao mesmo tempo que +outro representa a virtude. Ora aqui tem o que me faz reflectir, estudar, e +abrir a golpes o segredo do meu coração. Não consigo nada com isto, e evito o +mais que posso os assaltos do pensamento. Que valem torturas de que se não sáe +com o coração purificado? Antes de assentar praça, tive muitos d'esses exames +de<span class="pn">{106}</span> consciencia, e fugia d'elles, e de mim, +aterrado. Cheguei a desconfiar que me estava reformando na desgraça; mas o que +se não reformavam eram as minhas botas, por que cheguei a pedir a esmola d'umas +botas a um criado de meu pae. Ora, não ha reforma possivel n'um philosopho +descalço. Eu queria ser pessoa de bem; mas entendo que os bons instinctos +renascem no coração do perverso, quando o terrivel assedio das desventuras +levantam o cêrco. Um rapaz, affeito ao luxo das commodidades, e pervertido +n'ellas, não se divorcia voluntariamente do vicio, na indigencia. Se meu pae +não está doudo n'essa occasião, e me recebe com carinho, e me perdoa sem me +repellir da sua amizade, e me não nega o necessario para a decencia, parece-me +que a minha vida passava por uma subita transfiguração. Aconteceu o contrario: +vi-me abandonado; entendi que não havia Providencia para mim, e desobriguei-me +de respeital-a.</p> + +<p>—E lucrou, desobrigando-se?</p> + +<p>—Não: bem vê que sou desgraçado, e talvez nunca recue n'este caminho em que +vou.</p> + +<p>—Mas deve recuar...</p> + +<p>—Crê que é possivel? Diga lá como se é honrado.</p> + +<p>—Sendo para os outros o que desejamos que elles sejam para nós.</p> + +<p>—Os outros tem sido para mim algozes.</p> + +<p>—Todos?</p> + +<p>—Todos, sim.</p> + +<p>—Então o senhor não tem feito victimas?</p> + +<p>—D'essas victimas que por ahi fazem todos os dias os <em>honrados</em> pelo +suffragio publico. Desarranjei o futuro de algumas mulheres; mas penso que +todas vivem mais ou menos felizes. O desgraçado sou eu.</p> + +<p>—E sabe que todas vivem felizes? A filha da viscondessa de Bacellar será +feliz?</p> + +<p>—Não sei; mas creio que sim. Dizem que vive n'uma quinta do infame +padrasto, e naturalmente achará, como todas as outras, um marido, que não lhe +encontre desfalque nenhum no coração. Essa mulher é um exemplo, que eu lhe +cito, meu caro senhor, da fatalidade, que me persegue. Se ella fugisse com +outro homem, o padrasto dotava-a, e ella casaria, fazendo a completa ventura do +marido.<span class="pn">{107}</span> Como fugiu comigo, o padrasto insultou-me, +cobriu-me epithetos affrontosos, obrigou-me a partir-lhe a cabeça...</p> + +<p>—E a abandonar a pobre menina, que não era responsavel pelas antipathias do +padrasto...</p> + +<p>—São cousas ligadas... o abandono explica-se por não poder explicar-se... +Digo-lhe sinceramente que não sei o que havia de fazer a essa mulher. Entendi +que abandonal-a era restituil-a á mãe; e conserval-a minha amante era obrigal-a +a cahir comigo no abysmo da miseria, fazendo-a testemunha dos esforços +criminosos que eu faria para não cahir... Não me enganei... Assucena é hoje +mais feliz sem mim... Estimo até que ella ignore a minha situação. O senhor +conheceu-a?</p> + +<p>—Não a conheci.</p> + +<p>—Conhece a viscondessa?</p> + +<p>—Sim, senhor.</p> + +<p>—Como está essa pobre mulher? Será ella a minha protectora?!</p> + +<p>—Não, senhor.</p> + +<p>—De certo, não, por que o marido não a deixa entrar nos fundos do casal. É +um grande patife! Tenho pena de não ser poeta! Queria escrever em verso chulo a +biographia do filho de uma tal Anna Canastreira do Porto! O responsavel da +desgraça de Assucena é elle, que a não quiz remir da deshonra com o valor de +duas duzias de pretos dos centenares d'elles, que ainda hoje são empilhados por +sua conta no porão dos seus navios. Depois, dizem que sou eu o perverso, o +escandaloso, o malvado! Fique n'isto, meu amigo; os homens fizeram isto que +sou. Dêem-me uma independencia, e verão que hei de esforçar-me para ser bom. Os +homens hão de vir destruir-ma, e eu serei forçado a lutar com elles. Como tenho +contra mim o destino, hei de ficar mal na luta desigual, e como vencido, em vez +d'um ai, receberei um escarro na cara.</p> + +<p>—Experimente o procedimento da honra, não em Portugal, porque os seus +precedentes são pessimos para uma rehabilitação. Empregue o capital, que lhe +derem, n'um ramo de commercio licito; aspire á independencia sem fausto; +habitue-se a uma tranquilla mediocridade;<span class="pn">{108}</span> agouro +que voltará um dia a Portugal cheio de benevolencia para o seu proximo, e +enojado das tristes recordações do que foi.</p> + +<p>—Póde ser......................</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Os credores de Luiz da Cunha receberam, maravilhados da surpreza, os seus +creditos, em uma casa commercial indicada pelas gazetas.</p> + +<p>Cumprida a pena, o prêso recebeu com o alvará de soltura a baixa, e folha +corrida do crime de ferimento na pessoa do visconde.</p> + +<p>Fez a sua residencia em uma hospedaria, em quanto se fretava o navio em que +devia transportar-se ao Brazil. Viveu alguns dias n'uma violenta coacção á sua +vontade, que era mostrar-se n'uma sege a galope, n'um camarote, nos cafés, nos +passeios, e nas praças. O desconhecido padre, porém, déra-lhe como preceito a +reclusão no seu quarto, e Luiz obedecia, maniatado pela dependencia do capital +promettido.</p> + +<p>O seu mais forte desejo era seguir o padre para averiguar a morada da pessoa +que o protegia. Acreditemos, ainda assim, que não era a ancia de beijar as mãos +ao bemfeitor, que lhe estimulava uma nobre curiosidade. Era o simples desejo +d'entrar no segredo da aventura romanesca. Se não obedecia ao desejo, +resistindo ao silencio do agente da mysteriosa pessoa, é por que receava perder +a beneficencia com a sua imprudente e até inutil indagação.</p> + +<p>Chegado o dia do embarque, Madureira conduziu Luiz da Cunha a bordo, e ahi +lhe disse que o capitão do navio lhe entregaria no Rio de Janeiro seis contos +de reis, e algumas cartas de recommendação para negociantes portuguezes, que +deviam dirigil-o na carreira mais prospera do commercio.</p> + +<p>A essas horas, Assucena, ajoelhada no seu oratorio, pedia ao espirito de +Bernabé Trigoso que não desamparasse o desgraçado, e lhe alcançasse de Deus +para ella a bemaventurança, quando as suas virtudes a remissem das culpas na +balança da divina justiça. A viscondessa de Bacellar entrou n'esse momento, a +contar á filha o pasmoso procedimento de Luiz da Cunha, pagando as suas<span +class="pn">{109}</span> dividas, sem que ninguem descobrisse d'onde poderiam +vir-lhe vinte e tantos mil cruzados. Rosa Guilhermina ouvira de seu marido a +espantada narração do successo, e não podéra ser superior ao pasmo de José +Bento. Sem algumas suspeitas, admirou a impassibilidade de Assucena, quando o +caso não era de se ouvir sem pasmo.</p> + +<p>—Seria essa mulher com quem elle tem vivido?!—perguntava a viscondessa.</p> + +<p>—Qual mulher, minha mãe?</p> + +<p>—Essa dissoluta, que o teve á sua mesa?...</p> + +<p>—Não foi, minha mãe... Fui eu.</p> + +<p>—Tu!</p> + +<p>—Fui eu, minha mãe!</p> + +<p>A viscondessa, perplexa alguns segundos, abraçou, a chorar, sua filha, +exclamando:</p> + +<p>—É uma lição de virtude que dás a tua mãe.</p> + +<p>—Um segredo eterno, sim?—disse Assucena a tremer.</p> + +<p>—Sim... sim... um segredo eterno... Esta virtude recebe-se mal... Ficaste +pobre, minha filha?</p> + +<p>—Eu nunca posso ser pobre.. O espirito do meu bemfeitor não me desampara...</p> + +<p>—E não... Teu padrasto disse que te recebia em casa logo que Luiz da Cunha +sahisse de Portugal.</p> + +<p>—Não aceito, minha mãe... Não é por odio que lhe tenha... é que preciso +viver sósinha para gosar os poucos bens do espirito que tenho... Quem me tirar +da solidão, mata-me...</p> + +<p>—Mas viverás sósinha com tua mãe, no meu quarto...</p> + +<p>—Não posso entrar n'essa casa... Quando me recordo d'ella, cerra-se-me o +coração... Não queira que eu soffra mais, minha boa mãe. Se seu marido lhe não +prohibe, venha vêr-me muitas vezes; mas considere-me sem familia, sem apêgo a +nenhuma cousa do mundo, triste e só, por prazer e por +necessidade......................</p> + +<hr class="dotted"> + +<p><span class="pn">{110}</span></p> + +<h1><a name="SECTION001120">XII.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION001121">FASCINAÇÃO DO ABYSMO.</a></h2> + +<p>Raro será o peito de homem onde não bata apressado o coração, que deixa, na +patria, uma infancia com recordações suaves, ou uma adolescencia alternada por +prazeres e amarguras.</p> + +<p>Deve ser-lhe tristissimo o ultimo adeus dos olhos ao ceo do seu berço! Bem +digno de compaixão será aquelle que lhe vira as costas, com as faces enxutas! +Esse irá mais duro da alma que o homicida, fugindo do lugar do delicto! Esse +amaldiçoou-se a si, primeiro que a patria o amaldiçoasse; e, espedaçando os +vinculos, que o ligavam aos deveres de homem, não sabe o que é familia, não +sabe o que é sociedade, sente, com tedio de si proprio, que não tem patria +nenhuma!</p> + +<p>Tal era o filho de Ricarda.</p> + +<p>Em quanto o marinheiro, com o barrete na mão, e os olhos turvos de lagrimas, +dizia um mudo adeus ás montanhas de Portugal, e orava, com a santa poesia da +fé, a supplica de feliz viagem ao Senhor, que faz bramir a tempestade, Luiz da +Cunha observava com risonha curiosidade as varias physionomias dos seus +companheiros. De tantas nem uma só deparou sem signaes de mágoa. Parece que +todos levavam da terra uma recordação saudosa! O proprio capitão, de braços +cruzados, á pôpa da galera, absorvido nos longinquos cimos das montanhas<span +class="pn">{111}</span> cinzentas, não se differençava, no ar melancolico, do +tenro moço, arrancado pela ambição aos braços da mãe, que o deixou ir sem +resistencia, dando-se como certa a prosperidade em que tornaria a vêl-o.</p> + +<p>Quem mais dava nos olhos, pelo chorar ancioso, era uma senhora vestida em +rigoroso luto, com véo preto descido, e com dous meninos, um de dous annos, +outro de peito ainda, sentados no collo d'uma preta, criada sua.</p> + +<p>—Aquella dama chora por ella e por mim!—disse, com zombeteiro sorriso, +Luiz da Cunha ao capitão.</p> + +<p>—E o senhor não leva saudades de ninguem?</p> + +<p>—Não, senhor. Não levo, nem deixo. Não tenho patria, nem familia. Não sei +se fóra dos lagos da Allemanha tambem ha ondinas. Se n'este mar me namorasse de +uma, casava com ella, e viveriamos na mesma concha.</p> + +<p>—Bem se vê que não deixa em Portugal ninguem que lhe seja caro. A quatro +milhas da patria, nunca tive passageiro nenhum, que risse de tão boa vontade!</p> + +<p>—Pois alguma vez havia de encontrar o impio contra a religião do +amor-patrio. Não sei o que é isso, e dou-me os parabens de o não saber. Aquella +mulher por que chora? são saudades?</p> + +<p>—Saudades, sim, do marido, que deixa na sepultura.</p> + +<p>—É o unico lugar seguro onde podia deixal-o. Se fôr ciumosa, póde ir e +tornar, na certeza de que o não surprenderá n'uma infidelidade...</p> + +<p>—Não zombe de cousas tão sérias, senhor Cunha. Cá no mar respeita-se a +religião...</p> + +<p>—E em terra, estes piedosos marinheiros convertem-na em libações de +canada!... Vejo que é um bom catholico, senhor capitão!</p> + +<p>—E o senhor não é catholico?</p> + +<p>—Eu não sei o que sou, melhor do que o senhor. Sou este homem que vê. Tanto +sou em terra como no mar. Não me canso a pensar em cousas superiores ao meu +bom-senso, e vivo á discrição da fatalidade como este navio á mercê das +ondas... Então aquella senhora viuva é brazileira?</p> + +<p>—Sim, senhor. Enviuvou ha dous mezes, e vai ao Brazil tomar conta da +administração da sua casa. É uma rica fazendeira de café e canna.<span +class="pn">{112}</span></p> + +<p>—Não leva com ella algum parente?</p> + +<p>—Não, senhor. Leva duas criadas, e aquelles dous meninos. Coitada! como não +irá aquelle coração! Não ha ainda oito mezes que ella aqui passou tão contente +com o marido, que era doudo por ella! Mal diriam elles! A vida é um engano! +Quando penso nos trabalhos, que se procuram, para amparar dous dias de vida, +dá-me vontade de viver em descanso com meus filhos, comendo um bocado de pão +estreme, e ensinando-os a despresarem a enganadora ambição de riquezas, que por +fim... alli tem o exemplo!... Quanto daria aquella senhora por ter seu marido +vivo! Dava de boamente os trezentos contos que tem...</p> + +<p>—Trezentos contos! parece-me muito conto!</p> + +<p>—Admira-se? pois tomára eu o que ella tem d'ahi para cima...</p> + +<p>As reflexões melancolicas do capitão, ácerca da rapidez da vida, não +impressionaram Luiz da Cunha: mas o fecho da lamuria philosophica, os +<em>trezentos contos</em>, foi um valente encontrão á sua insensibilidade. Se +n'aquelle momento fosse possivel abrir-lhe o craneo, e analysar-lhe o cerebro, +ver-se-ia um arfar vertiginoso nas bossas predominantes d'aquella maquina! O +capitão, sem o pensar, jogára um ariete á alma petrificada do passageiro, e +abrira larga brecha por onde iam sahir planos de infame calculo.</p> + +<p>A viuva retirára, quasi nos braços das criadas, á sala de ré. Luiz da Cunha +desceu tambem, dominado por um pensamento que não supportava delongas. Tão +radiosa lhe fulgira a esperança de angariar uma fortuna colossal, e tão +susceptivel de realisar-se lhe parecêra um casamento com a fazendeira de café, +que, desde esse momento, o experimentado aventureiro julgou-se protegido pelo +diabo côxo de Le-Sage, e prometteu não perder occasião de captar a benevolencia +da viuva.</p> + +<p>Como ella tivesse recolhido ao seu beliche, para esconder dos indifferentes +as incessantes lagrimas, Luiz meditou de vagar o seu plano, estudando o papel +adaptado ao caracter da viuva, e afivelando-se uma mascara, visto que todas se +ajustavam á perversa flexibilidade da sua physionomia moral.<span +class="pn">{113}</span></p> + +<p>Convindo na conveniencia de representar mui sériamente, arrependeu-se das +imprudentes facecias com que respondêra ás graves perguntas do capitão. +Entendeu, porém, que a maneira de desvanecer o prejudicial conceito, que +merecêra ao maritimo, era explicar a sua sarcastica jovialidade como um +pretexto para illudir-se d'um profundo dissabor, uma d'essas pungentes ironias +com que o desgraçado imagina vingar-se do verdugo destino, que o persegue.</p> + +<p>Entrou em scena, e desempenhou magistralmente. O capitão, sincero e rustico, +mais conhecedor dos escolhos do mar que dos outros, que se topam nas +tempestades da vida, condoeu-se da pathetica narração inventada pelo +passageiro, alludindo á perda de um coração, que lhe fôra caro, á ingratidão +d'uma aleivosa mulher, que injuriára com a perfidia a sua generosa alma. Por +causa d'ella—dizia o comico—abandonava o caro berço natal, o ceo dos seus +amores de moço, cheio de illusões, mortas, calcadas, perdidas para sempre! E +tão grande fôra essa dôr, tal desespero involvêra de negro a sua +alma—proseguia elle, enrugando a fronte, e correndo por ella a mão com a mais +velhaca naturalidade—que protestara affrontar com o escarneo todos os +sentimentos nobres, pois que os seus tambem o tinham sido por uma traiçoeira +mulher, colligada com miseraveis inimigos.</p> + +<p>E, dito isto, no mais rigoroso ademan do palco, retirou-se, deixando o +capitão contristado, e condoido da sorte do pobre moço, que tão cêdo perdêra o +gosto da vida.</p> + +<p>Os passageiros da galera <em>Boa-Sorte</em>, informados pelo capitão, +olhavam para Luiz da Cunha com certo ar de respeito e de triste curiosidade. O +silencio funebre de tal homem, sombrio sempre, movêra o natural interesse dos +sinceros companheiros, e não passára desapercebido a D. Marianna, supposto que +as suas penas fossem de sobra, para se dar cuidado com as estranhas.</p> + +<p>Luiz da Cunha felicitou-se do grande passo que déra. O que não parece nada, +era já muito para elle. Esse interesse, essa especie de curiosa compaixão, o +attencioso silencio com que duas palavras suas eram escutadas, eram, com +effeito, acquisições, que lhe valiam, na opinião<span class="pn">{114}</span> +d'aquelle publico, uma consideração, que ninguem contrariava.</p> + +<p>Havia um só motivo, que descerrasse um ligeiro sorriso nos labios de Luiz: +era o menino mais velho de D. Marianna, a criancinha de dous annos, que, +attrahida pelos agrados do passageiro, lhe dava a preferencia nos carinhos. A +mãe lisongeava-se d'este acolhimento, e chorava, porque mais vivas a assaltavam +as recordações de seu marido, ao qual tão caros eram os afagos do menino.</p> + +<p>Luiz, amestrado pelo contínuo estudo, não tratava de mitigar com o balsamo +banal dos seus companheiros a ferida da saudosa viuva. Pelo contrario: +dizia-lhe que chorasse, se perdêra um ente querido, um extremoso marido, metade +da sua alma, o melhor da sua existencia, um homem digno d'ella. Como +consolação, apenas lhe dizia que o encarasse a elle, e veria alli enxutos os +olhos, que derramaram lagrimas de sangue, e por fim mirraram-se, como o coração +exsangue, árido e resequido, debaixo da sua lousa. Dizia-lhe que para ella não +era impossivel a ventura, porque, cêdo ou tarde, encontraria em um segundo +marido o reflexo das virtudes do primeiro; seria, outra vez, ditosa, porque ha +anjos privilegiados que o Altissimo não abandona, mesmo quando os deixa +sósinhos na terra, onde encontrarão um amparo, que lhes adoce as saudades d'um +outro partido, sob a lousa da sepultura.</p> + +<p>Este estylo de cabeça não era mesquinho em figuras. Os periodos eram +artisticamente arredondados, acizelados, torneados como os hombros d'uma +estatua. Os discursos, sempre decorados da vespera, não tinham falha que os +fizesse tinnir mal aos ouvidos de Marianna. Em tudo, e até nos improvisos, +havia uma razão de ordem connexa, um rigor lógico de honradez, um espantoso +triumpho da corrupção eloquente sobre o gaguejar da ingenuidade sempre boçal e +descozida nos seus discursos.</p> + +<p>Luiz da Cunha não se escondia para estes ligeiros dialogos com Marianna. Em +occasião de almoço ou jantar, e não sempre, é que elle se interessava na +conversa dos que por delicadeza procuravam consolar a viuva, sempre +inconsolavel.</p> + +<p>O pequeno Antoninho afizera-se tanto a Luiz, que chorava, se o não levavam +de manhã ao beliche do seu<span class="pn">{115}</span> amigo. Marianna +agradecia ao carinhoso soffredor de seu filho tantos favores, e ficava contente +se Luiz lhe dizia que era devedor áquelle menino dos raros momentos de prazer, +que Deus ainda lhe concedia por intermedio d'um innocente.</p> + +<p>Vejam que estudo!</p> + +<p>E assim passaram vinte dias de viagem. As amarguras de Marianna tinham +transigido um pouco com a natureza, que parece não ter sido feita para os +soffrimentos duradouros, e desmente sempre os propositos d'um lucto perpetuo, +variando as sensações com magica destreza.</p> + +<p>Menos lagrimosa, ou mais resignada, que é o que sempre se diz, a viuva não +fugia da mesa, apenas terminava a refeição. Demorava-se na palestra, silenciosa +sim como Luiz, mas respondia com um aceno affirmativo ás attenções, que os +brazileiros de torna-viagem lhe davam, nas suas conversas dissaboridas. Luiz +fazia-se estranho a ellas, fingindo-se abstracto em scismadoras tristezas de +que o compadecido capitão, ou D. Marianna o acordavam com esta ou outra +semelhante pergunta:</p> + +<p>—Que tem, senhor Luiz da Cunha? Em que pensa!</p> + +<p>—No <em>nada</em>, minha senhora.</p> + +<p>—Sempre assim! Quando virá um dia de o vêrmos alegre?</p> + +<p>—O dia final.</p> + +<p>—Que ideia tão triste! Então não espera, com vinte e oito annos, tão novo, +encontrar n'esta vida a felicidade?</p> + +<p>—Não, minha senhora.</p> + +<p>—Não póde ella apparecer-lhe como um acaso?</p> + +<p>—A morte.... e essa é certissima.... espero-a com a segurança de quem a vê +continuamente diante dos olhos.</p> + +<p>—Não falle na morte.... Eu tenho esperanças de o vêr feliz.... Ha de +encontrar no Brazil uma menina, muito linda e innocente, que lhe encha o +coração d'um novo amor...</p> + +<p>—Não tenho espaço para elle. Onde está o demonio não póde entrar um anjo.</p> + +<p>—Mas Deus póde mais que Satanaz—replicou Marianna.</p> + +<p>—Isso é verdade!—confirmaram tres brazileiros.<span +class="pn">{116}</span></p> + +<p>—Pois Deus realise a sua generosa vontade, minha senhora.</p> + +<p>Luiz da Cunha, com esta resposta, lançou a sonda ao coração da viuva. O que +ella lá encontrou, não o sei eu; mas que Marianna fez um gesto de resentimento, +isso foi um facto, que não escapava á fina observação de Luiz da Cunha, nem á +do leitor ou leitora, que são pessoas das muito raras, que eu conheço, com +vista dupla para lêr um coração na ruga repentina da testa, ou no ligeiro +morder do labio.</p> + +<p>Seria indiscreta a versão feita por Luiz do repentino baixar d'olhos da +viuva? Não era, não. O desejo que ella affectava de o vêr feliz pelo encontro +d'uma linda e innocente menina, não era realmente o seu desejo, se a menina +linda e innocente não era ella.</p> + +<p>Como essa pobre mulher, durante um mez de viagem, chorou todas as lagrimas, +que tinha perpetuado á memoria de seu marido, isso explica-se pela inactividade +das glandulas lacrimaes, quando a acção vital se concentra no coração. A sua +desesperada angustia, nos primeiros mezes de viuva, não podia durar muito. Dôr, +que se expande em soluços, que rejeita consolações impotentes, e não espera +nada dos recursos ordinarios, mata depressa, ou depressa se desvanece. Ora, a +dôr d'uma viuva de vinte e cinco annos está, mais que nenhuma outra, sujeita +áquelle aphorismo, que não li em Hippocrates, mas nem por isso devem deixar de +o aceitar como regra de physiologia experimental.</p> + +<p>E, depois, quando o aphorismo não frizasse com o facto, dou-vos uma razão +mais forte, mais experimentada, e menos especulativa que as theorias incertas +ácerca do coração.</p> + +<p>Fôra necessario que Marianna tivesse sempre a seu lado um anjo a +segredar-lhe os precedentes de Luiz da Cunha, para que ella se não deixasse +illaquear na rêde habilmente lançada á sua fraqueza. O aspecto grave, austero, +e melancolico do cavalheiro, que não faltava á menor cortezia d'uma refinada +polidez; a veneração com que todos os companheiros de viagem respeitavam a sua +tristeza sombria; a bondade que o seu sorriso respirava quando Antoninho, +fugindo do collo da mãe, voava com<span class="pn">{117}</span> um beijo aos +braços d'elle; a sensatez das suas reflexões a respeito do justo pranto da +viuva, que perdeu um bom marido, tão raro entre os pervertidos filhos do +seculo; os seus momentaneos extasis, quando a palavra amor lhe roçava +fugitivamente os labios; e, finalmente, a certeza, dada pelo capitão, do +illustre nascimento de Luiz, visto que na sua carteira levava uma ordem de seis +contos de reis, que lhe fôra entregue por um padre, especie de mordomo ou cousa +que o valha do mysterioso passageiro: todas estas contingencias reunidas, e +outras muitas que nem a propria viuva saberia explical-as, davam a Luiz da +Cunha um ar de grandeza, de distincção, de sympathia, que, em poucos dias, +causára em Marianna vergonha da sua propria fraqueza, e até pesar de ter +encontrado tal homem.</p> + +<p>De mais a mais, os olhos de Luiz, tão expressivos e ardentes nas suas +queixas contra o destino, baixavam-se submissos, se encontravam os olhos +d'ella, em que a curiosidade não era menos significativa que a ternura. E +porque se baixavam esses olhos? Mal vai ao coração da mulher quando esta +curiosa pergunta a incommoda! De dia para dia redobra-lhe o desejo de entender +esses olhos equivocos, essa modestia encantadora. Se elles se esquivam em +confessar-se, ou se a palavra timida os não denuncia, o que era desejo, na +mulher já ferida, torna-se em ancia de resolver o problema. Chega a assustar-se +d'essa apparente submissão, d'essa mudez desamoravel. Quem sabe se aquelle +olhar, fugindo aos olhos d'ella, quer dizer que o coração foge tambem? E então +entra na empreza o mais forte inimigo da mulher: o amor-proprio, esse +conselheiro intimo, que a salva raras vezes da queda, e, demonio de soberba, +impelle-a quasi sempre á perdição, vendando-lhe os olhos do juizo, e dando-lhe +aos do amor a vista dupla, o vêr penetrante, que, em linguagem do tempo, se +chama a razão livre, a sanctificação do instincto. Era o amor-proprio o que +fizera na face de Marianna um signal de resentimento. Ainda que Luiz da Cunha +representasse o papel de atraiçoado amante, extenuado para novas paixões, a +viuva, como todas as mulheres nas circumstancias d'ella, formosa e rica, tivera +uma vez e outra a vangloriosa ideia de resuscitar aquelle homem,<span +class="pn">{118}</span> que se julgava morto. Que nos perdôem as feiticeiras +florinhas com que o Senhor matisou as agruras da existencia; mas uma +fragilidade muito sensivel, e que muitas vezes as prejudica na sua isempção, é +o orgulho de acorrentar a fera, que faz estragos desenfreada, ou insuflar uma +existencia nova no homem, que adquiriu nota de cansado. Arriscada empreza todos +os dias commettida com mau successo! A inexoravel serpente do éden está sempre +assobiando aos ouvidos da eterna Eva. A vaidade, creação contemporanea da +primeira mulher, continua a offerecer-lhe em taça de ouro o sumo do pomo, doce +na superficie, e fel no fundo. A que intenta prostrar a seus pés o conquistador +soberbo, para que a fascinação do seu engodo seja inveja ás que não poderam +tanto, é sempre victima, se o homem, que facilmente se dá aos ferros, não tem +ainda passado a linha da vida, além da qual está o completo cansaço do corpo e +da alma, tristes socios de um tardio desengano. A que intenta restaurar no +coração do homem as potencias, atrophiadas pela perfidia, não sabe que será +ella a offerenda expiatoria do crime de outra mulher; não sabe que o trahido +recupera as forças, convertendo-as em vingança, porque tudo que n'essa alma +existia nobre e santo, bem póde ser que não sobrevivesse á morte d'um primeiro +amor galardoado com o desprêso.</p> + +<p>Leitora, não se enfade v. ex.ª com o longo periodo que vem de lêr, se é que +o leu. Não seja ingrata á lhanesa com que se lhe mostra o homem tal qual é, e +com que se trazem do insondavel da sua alma á luz da analyse cousas que v. ex.ª +não vê em si, e muito raras vezes descobre n'elle.</p> + +<p>Se D. Marianna tivesse encontrado na abundante leitura de romances uma outra +Marianna em face d'um outro Luiz da Cunha, parece-me que saberia resistir aos +primeiros assaltos do amor, victoria que alcançou a habil hypocrisia, adestrada +em doze annos de infamias. Não quero, porém, com isto dizer que D. Marianna +succumbisse, como imbecil, ao prestigio do excentrico companheiro de viagem.</p> + +<p>O que ella tinha de peor era não ser imbecil. Foi cousa que seu defuncto +marido não apoiava a tendencia d'ella para o maravilhoso. A indole, acalorada +pelos romances,<span class="pn">{119}</span> seu passatempo querido, +manifestára-se de um modo assustador para um marido, não convencido da sua +superioridade a todos os outros homens, perante sua mulher. O fallecido +fazendeiro de café era um homem excellente; mas, a respeito de intelligencia, +não fallemos n'isso. O verniz que tinha, pouco ou muito, era obra de Marianna, +que sinceramente o presava, desde que elle entrára como feitor em casa de seu +pae. Diga-se de passagem que este bom homem, aos trinta annos arrebatado por +uma febre typhoide, era nosso patricio, nascêra nos Arcos de Val-de-Vez, d'ahi +sahira aos doze annos, e ahi voltára rico para morrer nos braços de seus +parentes, que tirou da miseria. Tantas virtudes, mantidas pelo trabalho, são +sobeja honra á memoria do marido de D. Marianna. Não precisamos, mentindo, +encarecer-lh'a com dotes que elle não tinha, e, por isso mesmo, não approvava +em sua mulher.</p> + +<p>Mostrára-lhe, talvez, uma intuição clara que as tendencias romanescas de sua +mulher a precipitariam. Viu bem.</p> + +<p>Não sei se Marianna tinha sonhado o typo de Luiz da Cunha, como se diz em +verso; se o tinha sonhado, encontrou-o na realidade, o que é alguma cousa peor. +Os traços do astucioso caracter moral não discordavam do physico. Para a sua +physionomia triste e sympathica arranjára-se Luiz da Cunha uma alma tão ao +natural, que deixára a perder de vista as imperfeições da natureza. A arte, em +quanto a mim, póde mais que a sua rival.</p> + +<p>Sem arte não encaminhava Luiz da Cunha as cousas a ponto de Marianna ir +sentar-se, alta noite, a seu lado, na tolda, contando silenciosa as estrellas +do ceo, entre as quaes dizia o impostor que procurava a fada do seu destino.</p> + +<p>—Se a vir—dizia Marianna—peça-lhe que lhe diga o meu.</p> + +<p>—O seu destino posso eu dizer-lh'o, senhora D. Marianna.</p> + +<p>—Qual?... diga, diga.</p> + +<p>—Ha de ser venturosa, venturosa sempre.</p> + +<p>—E sou eu venturosa? Sósinha no mundo...</p> + +<p>—Quem tem o coração povoado d'anjos nunca está<span class="pn">{120}</span> +sósinha... Qual será o homem que a não adore? Póde v. ex.ª rejeitar o culto, +póde julgar-se só em quanto não encontrar uma alma afinada pela sua; mas, em +quanto se é adorada, não se póde julgar sósinha...</p> + +<p>—E que valho eu para ser adorada?</p> + +<p>—Vale as mais santas esperanças d'um homem com o coração viçoso, ainda rico +de todas as illusões, puro ainda de toda a mancha; vale um preço inestimavel; +vale uma existencia. Tivesse eu esse coração, com esperanças, com vigor, com +pureza.... não me tivessem vasado n'elle torrentes de fel que m'o queimam...</p> + +<p>—Sem esperança?</p> + +<p>—Nenhuma esperança... tenho-lh'o dito como uma confidencia que se faz a uma +irmã...</p> + +<p>—E eu não posso crêl-o... Deus não quer que a sua vida acabe tão cêdo... Ha +de haver alguem, que lhe faça esquecer essa mulher, indigna de si...</p> + +<p>—Onde encontrarei eu outra?</p> + +<p>—Onde a encontrará? Talvez no Rio de Janeiro, onde ha tantas... e tão +seductoras...</p> + +<p>—Oh! que santa prophecia é essa!... V. ex.ª não me conhece... não se +conhece...</p> + +<p>—Não me conheço!... Que quer dizer?</p> + +<p>—Nada, minha senhora.</p> + +<p>—Diga... não me deixe dar uma má significação ás suas palavras.</p> + +<p>—Pois sim, digo; mas que a não vá eu ferir... promette perdoar-me?</p> + +<p>—Pois que me dirá que eu não deva perdoar-lhe?!</p> + +<p>—Não se conhece; porque, se alguma mulher podia dar-me a mão, afastando de +sobre mim a pedra sepulcral... Já me comprehendeu...</p> + +<p>Marianna baixára os olhos, e estremecêra. Subira-lhe ás faces o calor do +coração. Sentira em si uma confusão de ideias, uma embriaguez de felicidade e +receio, uma tal perturbação que, n'aquelle momento, quizera antes não estar +alli, supposto que em parte alguma podésse estar melhor.</p> + +<p>Luiz da Cunha, encostando a face á mão direita, pozera a mão de modo que os +olhos retorcidos não perdessem um movimento de Marianna.—É o que eu tinha +previsto—disse<span class="pn">{121}</span> elle a si proprio, sorrindo +mentalmente. Passados alguns segundos dramaticamente taciturnos, Luiz, como de +um rapto, sahiu do seu extasis, e perguntou com a mais artistica commoção:</p> + +<p>—Offendi-a? Lembre-se que prometteu perdoar-me.</p> + +<p>—Perdôo-lhe todo o mal que me faz...</p> + +<p>—Vê como sou infeliz?</p> + +<p>—Infeliz!... qual de nós é mais?</p> + +<p>—Tão infeliz que faço mal a quem eu quizera dar todas as felicidades da +terra, se tivesse a omnipotencia d'um Deus.</p> + +<p>—O mal que me faz... poderia converter-se, se Deus o quizesse, em ventura +de ambos...</p> + +<p>—Poderia!... eu bem sei que podia... Snr.ª D. Marianna... eu devera têl-a +encontrado no principio da minha juventude.... Eramos hoje tudo que o desejo +póde imaginar de mais feliz, de mais invejavel... Segue-se que é mentira +aproximarem-se os entes que o destino talhou para se unirem... Quando se +encontram, já a desgraça os traz desfigurados; vêem-se, e não se conhecem; +fallam-se, e não se comprehendem; abraçam-se, e sentem-se frios como a pedra de +um tumulo, como dous cadaveres, que se levantam, a par, da mesma campa...</p> + +<p>—E é o que nós somos um para o outro? Julga-me tão mal, senhor Luiz da +Cunha!</p> + +<p>O filho de Ricarda ergue-se impetuosamente, dá quatro passeios no +tombadilho, afastando os cabellos da testa, e pára defronte da viuva, com +attitude o mais ridiculamente sinistra que póde imaginar-se.</p> + +<p>—Senhora D. Marianna!</p> + +<p>Ella fixou-o, erguendo-se tambem assustada.</p> + +<p>—Senhora D. Marianna! ouve uma voz celeste, que a manda salvar-me? É o +instrumento sobrenatural do meu anjo de redempção? Responda...</p> + +<p>—Que posso eu responder-lhe?</p> + +<p>—Obedeça ao seu coração... Este momento póde marcar uma nova época na minha +vida...</p> + +<p>—Senhor Luiz da Cunha...</p> + +<p>—Responda, Marianna... não receie ferir-me com uma palavra negativa... Eu +preciso mesmo do ultimo desengano...<span class="pn">{122}</span></p> + +<p>—Que hei de eu dizer-lhe... sem que me tenha dito...</p> + +<p>—Que a amo?... Não o adivinhou ainda, Marianna?!</p> + +<p>A viuva encostou-se á amurada do navio, e pousou a barba na palma da mão +direita, cujo braço tremia em perceptivel convulsão. Um raio da lua +reflectiu-se nas lagrimas d'ella. Luiz da Cunha teve um d'esses raros momentos +de compaixão, que costumam assaltar o infame: devêra então maravilhar-se do +magico prestigio da impudencia.</p> + +<p>O capitão subia ao convez, e olhou com indifferença para os dous +passageiros, que não eram suspeitos a ninguem. Marianna, dizendo-se influxada +pelo ar da noite, desceu á camara, pedindo a Luiz da Cunha que se recolhesse +tambem. Era do plano astucioso obedecer.</p> + +<p>Desde o dia immediato, repararam alguns passageiros na frequente conversação +da viuva com o homem mysterioso. O capitão, prevenido por elles, reparára +tambem que os passeios na tolda eram certos todas as noites. O que elles todos +notavam era uma sensivel differença nos estranhos costumes do companheiro. Já +não era preciso instar com elle para assistir ao almoço. Acontecia muitas vezes +encontrarem-no já com Marianna, conversando em tom que subia uma oitava acima +quando entrava alguem. Viam-os, depois de almoço, ao pé da agulha, fugindo da +ré onde se agrupavam os passageiros. Para admirarem o phenomeno magnetico do +iman com o norte, achavam os criticos que era tempo de mais. Murmurou-se que +havia namoro, e censuravam a leviandade de Marianna, que tanto chorára, e tão +depressa esquecêra o marido. Mas não passava d'isto a murmuração.</p> + +<p>Com trinta e cinco dias de viagem, chegaram ao seu destino. A bordo da +galera vieram os parentes de Marianna. Luiz da Cunha, apresentado por ella a +seus tios, como pessoa a quem devia muitas finezas, foi convidado para sua +casa, e aceitou com arteira difficuldade, que as instancias convencionadas de +Marianna venceram.</p> + +<p>O filho de Ricarda recebeu a ordem dos seis contos de reis, fechada n'um +envolucro em branco, qual o padre Madureira a entregara. Dentro d'esse +envolucro, junta á ordem, estava uma carta designada a Luiz da Cunha. Abriu-a, +e leu:<span class="pn">{123}</span></p> + +<p> </p> + +<p><em>Luiz da Cunha foi remido da ignominia, do degredo, da fome, e da morte +por Assucena. Se esta certeza lhe não valer um arrependimento nobre, sirva-lhe +ao menos de vergonha perante a sua consciencia.</em></p> + +<p> </p> + +<p>A perplexidade do promettido esposo de Marianna durou poucos segundos. +D'aquella alma já não era possivel arrancar vergonha nem remorso. O padre +Madureira enganára-se. Queimando a carta, Luiz da Cunha entendeu que o segredo +voava nas cinzas d'ella. Estabeleceu tranquillas conjecturas ácerca da riqueza +de Assucena: d'onde lhe viriam perto de quarenta mil cruzados?</p> + +<p>Occorreram-lhe hypotheses, quasi todas ignobeis, e sordidas. E, como nenhuma +era mais provavel que as outras, Luiz da Cunha resolveu, um dia, embolsal-a +d'esse emprestimo.</p> + +<p>Hospedado em casa d'um tio de D. Marianna, a sua vida, posto que inactiva, +era regular, e bem procedida. Não aceitou apresentações nas salas da boa roda, +porque D. Marianna as não frequentava, como viuva. Visitava-a todos os dias em +familia. Escrevia-lhe todas as manhãs, e recebia de tarde o menino, que era o +pretexto para a entrega das cartas.</p> + +<p>Viuva de onze mezes, D. Marianna, administradora da sua casa commercial, +declarou, por delicadeza, aos parentes, que, passado o lucto, casava com Luiz +da Cunha. Não se oppozeram estorvos, que seriam inuteis. O noivo era bemquisto: +informações de Portugal era tarde para havel-as: o astuto soubera dirigir o +plano de modo que se não pedissem a tempo.</p> + +<p>Casaram.</p> + +<p>No dia immediato espalhára-se no Rio que D. Marianna casara com um infame +aventureiro, fugido de Portugal, depois que os seus crimes lá não cabiam.</p> + +<p>Esta terrivel nova fôra levada pelo capitão da galera, que se informára em +Lisboa, para saber se Luiz da Cunha seria o que parecia no primeiro dia de +viagem, ou nos outros.</p> + +<p>Era tarde. O mais que podiam os interessados na felicidade de Marianna era +verem desmentida a calumnia, ou confirmado o boato pelo procedimento do +marido.<span class="pn">{124}</span></p> + +<h1><a name="SECTION001130">XIII.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION001131">EXPLOSÃO DA INFAMIA REPRESADA.</a></h2> + +<p>Eram passados tres mezes. Não havia razão nenhuma para acreditar a fama, +confirmada por ulteriores indagações. Luiz da Cunha não desmerecêra nada nas +esperanças de Marianna, e vivia á mercê da vontade d'ella, que era a primeira a +lembrar-lhe os bailes, o theatro, e os passeios, que o bom marido frequentava +com ar de aborrecido.</p> + +<p>Os que tinham como certos os escandalos de Luiz em Portugal, estavam com +elle em suspeitosa guarda, não querendo acceitar como possivel a sua emenda. +Andava aqui inveja da avultada riqueza que a fortuna da caprichosa lhe déra; o +todo, porém, d'esses cabedaes, em terrenos e predios urbanos, não podia +considerar-se propriedade alienavel da viuva, que era simples administradora de +seus filhos. Ainda assim, a sua meação avaliavam-na em cem contos de reis.</p> + +<p>Como quer que fosse, Luiz da Cunha estava rico. A administração economica da +casa, em poucos annos, podia dobrar o que era legitimamente seu por mutua +escriptura.</p> + +<p>O marido de Marianna chegou a acreditar na sua regeneração. Sabia das suas +intimas confidencias que de todas as mulheres a que menos amava era a sua; mas +tambem não sentia os imperiosos estimulos de procurar emoções nas outras. A +paz, as commodidades, o luxo, a consideração, bem-estar que nunca +experimentára, agradavam-lhe. Constavam-lhe as informações idas de +Portugal,<span class="pn">{125}</span> e queria, até por capricho, +desmentil-as. Signal era de que a opinião publica alguma cousa valia já na sua. +Este symptoma enganaria o mais sisudo physiologista do coração, quando o +proprio Luiz da Cunha acreditava na estranha reforma das suas tendencias.</p> + +<p>Basta dizer-vos que D. Marianna chamava-se feliz, e alardeava com soberba a +sua boa escolha na presença dos que faziam côro com a maledicencia, mordendo a +reputação de seu marido.</p> + +<p>Deliciosos tres mezes!</p> + +<p>Mas ao quarto.... Porque não morreu aquella pobre senhora no terceiro? +Porque não se aplacou o inexoravel destino d'aquelle homem? Porque ha de ser +tão brutal, tão despota a desgraça atirando abaixo das felizes illusões a +victima a que deu trégoas d'alguns mezes?</p> + +<p>Mas, ao quarto, Luiz da Cunha viu uma dançarina no theatro, e fixou-a com +tal curiosidade, que o coração de Marianna palpitou dolorosamente. Quiz +desviar-lhe a attenção da perigosa mulher, e não pôde. Quiz, no dia seguinte, +com um subtil pretexto, sahir para os arrabaldes da capital, mas seu marido, +com pretextos ainda mais subtís, adiou a sahida.</p> + +<p>A dançarina era franceza. Tinha a seu favor todos os demonios alados da +seducção. Era fresca como um ramalhete de camelias. Tinha os olhos mais +maliciosos, mais voluptuosos, mais zombeteiros que podem descender de uma +costella do homem, amputado no seu barro primitivo. As pernas tão expostas á +avidez da analyse, não invejavam a correcção proverbial das de Diana caçadora. +Nos braços, d'um setim transparente, destacava-se a rêde das veias azuladas, +onde o sangue buliçoso vos deixaria suspeitar se eram aquelles os braços +roubados á Venus de Milo. O pé, que nenhuma sevilhana teve nem mais pequeno nem +mais arqueado, obedecia ao frenesi das evoluções, ou encontrava o dente da +tarantula, cada vez que tocava o invejado pavimento do palco. Era a Paquita que +Asmodeu inventára para Cleófas. Era a creatura de Lucifer em competencia com as +creaturas de Deus.</p> + +<p>Luiz da Cunha não experimentára ainda as paixões tempestuosas do theatro, a +mordedura d'esses desejos enfurecidos pelo ciume de muitos concorrentes, essa +garganta<span class="pn">{126}</span> que sorve com o ouro as illusões nobres +do coração; emfim, essa vertigem, que faz de um amor vendido um triumpho á +custa do desdouro em publico, e das lagrimas no recinto domestico.</p> + +<p>Era forçoso ao homem de todas as situações conhecer esta.</p> + +<p>Marianna não precisava de mais provas; eram desnecessarios os avisos das +suas amigas: uma boa esposa está muito perto do coração de seu marido; a sombra +de uma ligeira infidelidade sente-se logo no escurecer da alegria tranquilla +que se lhe irradia dos olhos enxutos. Vem logo as lagrimas accusarem o que os +labios não accusam. Vem a pallida melancolia enturvar os sorrisos descuidados +da dôce paz.</p> + +<p>Era assim que ella se queixava de Luiz da Cunha, que parecia estranho a +essas timidas manifestações de ciume. Se os labios deixavam passar um gemido, +ninguem a consolava, porque não queria testemunhas. Luiz costumava enrugar a +testa com fastiento gesto aos suspiros repetidos de sua mulher.</p> + +<p>Entretanto, o allucinado empregava todos os processos conhecidos para +satisfazer a ancia pertinaz. Fez grandes offertas de dinheiro, repellidas +sempre. Cortejou a bailarina, valendo-se umas vezes da brandura hypocrita, +outras da violencia natural. Nem de uma, nem da outra maneira. Ao lado da +franceza estava um amante, francez tambem, caprichoso, ciumento, e espadachim. +Luiz da Cunha fôra ameaçado por elle, e conteve-se em quanto as esperanças lhe +não falliram.</p> + +<p>Marianna já transigia com a infidelidade; mas não queria vêr-se sacrificada, +no coração do esposo, ao amor sensual d'uma mulher sem alma. Os seus amigos +lamentavam-na; os infamadores tenazes de Luiz da Cunha batiam as palmas. A +infeliz tentou uma dolorosa lucta comsigo mesma. Advertiu seu marido do que se +dizia; pediu-lhe que não désse aos seus inimigos o prazer de o apregoarem tal +qual as informações de Lisboa o pintavam.</p> + +<p>Luiz da Cunha riu-se, dizendo com grosseira altivez, que os seus inimigos +podiam ser atados em feixe com um chicote, e mandados de presente ao diabo.</p> + +<p>As promessas redobraram, e a bailarina cahiu do pedestal<span +class="pn">{127}</span> do capricho, onde quizera ter-se como em pedestal de +virtude.</p> + +<p>Cedeu, e com tanto escandalo que na noite de proximo theatro, em pleno +espectaculo, Luiz da Cunha recebeu do rival uma bofetada na face, á qual +respondeu com chicotadas, que lhe deram a primazia na lucta. Tratou-se um +duello, que Luiz da Cunha disse não aceitava, porque era filho de um dos mais +nobres fidalgos de Portugal, e não media o seu florete com um troca-tintas da +França. O francez, dias depois, abandonava o Rio para evitar um assedio de +traiçoeiros punhaes, comprados por Luiz da Cunha.</p> + +<p>A bailarina estava sob o exclusivo dominio do novo amante. O seu fausto +centuplicou em grandeza. Prendas d'um valor enorme, arrancadas pela +prodigalidade do ouro a especuladores astuciosos, eram o preço da escandalosa +rival de Marianna.</p> + +<p>Os amigos d'esta, finda a estação do theatro, expulsaram a dançarina, com +artificiosa violencia, ou por dinheiro que Marianna deu como se o +restabelecimento da sua ventura dependesse da ausencia da franceza.</p> + +<p>Luiz da Cunha foi surprendido pela fuga da segunda Liberata que lhe tocára o +coração. Disfarçou a affronta em publico; mas, de portas a dentro, desforçou-se +do ultraje despresando Marianna. Esta mulher era sublime! Quiz convencer a +sociedade de que era outra vez feliz, para readquirir o bom nome de seu marido.</p> + +<p>Luiz da Cunha comprehendeu-a, deu ares de compadecido, fez sobre si um +esforço, e convenceu-a do seu arrependimento. Vejamos porque.</p> + +<p>Dois mezes depois, Marianna era outra vez ditosa. O detrimento que a sua +casa soffrêra, estava remido. As dissipações com a mulher do theatro, posto que +exorbitantes, não doiam no coração da nobre senhora. Esses calculos deixava-os +ella á curiosidade dos mesquinhos louvados dos seus haveres. O que ella queria +era o coração de seu marido, e esse capacitou-a elle de que fôra sempre seu, +até mesmo na embriaguez vertiginosa d'essa fatal loucura com a franceza.</p> + +<p>Chegou a primavera, e Luiz da Cunha projectou com sua mulher uma visita ás +primeiras capitaes da Europa.<span class="pn">{128}</span> Marianna desejava +vêr Paris, Veneza, e Londres: não queria, porém, tornar a Portugal. O marido +conveio da melhor vontade na excepção, e partiram.</p> + +<p>Em Paris, mal se hospedaram, Luiz da Cunha sahiu a colher informações da +dançarina <em>Carlota Gauthier</em>. Fôra escripturada para Madrid. Em breves +dias viu com sua mulher os objectos menos notaveis de Paris. A impaciencia +ralava-o. Inventou uma epidemia para retirar-se, e prometteu a Marianna voltar.</p> + +<p>Em Madrid foi acolhido por Carlota, que não teve pejo de receber o +abandonado amante, phantasiando a violencia com que fôra arrastada a bordo a +uma embarcação.</p> + +<p>Luiz propôz-lhe abandonar o theatro, a troco de doze contos de reis annuaes. +O seu desenlace devia ser immediato: nem uma só vez appareceria no palco. Luiz +da Cunha evitava assim que sua mulher visse a bailarina, e explicasse a viagem +á Europa, e a sahida precipitada de Paris.</p> + +<p>Carlota aceitou: rompeu as escripturas; e o amante pagou a condemnação.</p> + +<p>Marianna não podia comprehender as sahidas frequentes de Luiz, deixando-a só +n'uma hospedaria! Não se queixava para não ser, talvez, injusta com as +abstracções de seu marido. Suspeitou um passageiro namoro com alguma madrilense +d'entre tantas tão seductoras, e cujo garbo ella não podia invejar. Por +necessidade de conviver, relacionou-se com uma familia portugueza, hospedada no +mesmo hotel. Fugia de revelar os seus pezares; mas uma das senhoras portuguezas +adivinhou-lh'os. O marido d'esta sabia quaes eram as distracções de Luiz da +Cunha. O rompimento da escriptura era sabido de todos. O amante de Carlota era +apontado. Só Marianna ignorava o que em Madrid era materia de ociosa analyse, +até ao momento em que a senhora portugueza lhe aclarou o segredo das frequentes +sahidas.</p> + +<p>Marianna adoeceu. Luiz suspeitou a inutilidade dos seus cuidados em esconder +de sua mulher o escandalo, que dava a todo o mundo, galardoando-se d'elle, e +guardando-se apenas d'ella.</p> + +<p>Na incerteza, convidou carinhosamente Marianna a continuarem a sua viagem. A +desgraçada, apegando-se<span class="pn">{129}</span> ao derradeiro fio da +esperança, imaginou que a dançarina ficaria em Madrid.</p> + +<p>A ancia de sahir restabeleceu-a, e partiram; mas, ao dar o ultimo adeus á +dama portugueza, disse-lhe esta ao ouvido:</p> + +<p>—Se vão para Paris, saiba minha amiga, que a dançarina já para lá partiu ha +dous dias.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>—Não vamos para Paris...—dizia, depois, Marianna a seu marido.</p> + +<p>—Porque, minha filha?</p> + +<p>—Porque receio a epidemia.</p> + +<p>—Sou informado de que já não ha peste em Paris.</p> + +<p>—Ha, ha...</p> + +<p>—Como sabes que ha?!</p> + +<p>—Não é só a peste, é tambem a morte para esta desgraçada mulher, que trazes +pelos cabellos a ser testemunha das tuas infidelidades... dos teus desprêsos...</p> + +<p>—Isso é uma calumnia, Marianna.</p> + +<p>—Não vamos para Paris, meu querido amigo... não vamos, não? Já vi tudo.... +não quero vêr mais nada de lá. Vamos para a Italia... sim?</p> + +<p>—Iremos; mas é necessario fazer escala por Paris.</p> + +<p>—Tenho entendido... hei de ser morta por essa mulher!...</p> + +<p>—Que mulher?!</p> + +<p>—Carlota...</p> + +<p>—Ora adeus! quem zombou assim da tua credulidade? Eu não sei d'essa mulher.</p> + +<p>—Desde que te despediste d'ella em Madrid?</p> + +<p>—Tem juizo minha creança... Tu já sabes que a parte que tens em minha alma +não póde ser substituida por ninguem, e muito menos por comicas...</p> + +<p>—Desgraçadamente tenho a certeza do contrario... Queres dar-me uma prova de +estima? Fazes-me um favor que eu te agradecerei de joelhos?</p> + +<p>—Que é, Marianna?</p> + +<p>—Vamos para nossa casa.... Vamos ser felizes como temos sido... Eu +esqueço-me de tudo; nunca te fallarei d'esta mulher; mas vamos já...<span +class="pn">{130}</span></p> + +<p>—Não tem geito nenhum esse contra-senso. É um disparate que faria rir os +nossos conhecidos!</p> + +<p>—Pois que riam elles, e não chore a tua amiga. Vamos, Luiz?... fazes-me a +vontade?</p> + +<p>—Não posso.</p> + +<p>—Não pódes?! Que maneira é essa de responder-me?! Lançaste-me um olhar que +nunca te vi! Santo Deus, que coméço a ter mêdo do teu aspecto! Será possivel +que tu sejas o homem que se disse?</p> + +<p>—Não sei o que sou: fica n'aquillo que te parecer.</p> + +<p>—Pois bem, Luiz, manda-me para os meus filhos, e fica tu em Paris.</p> + +<p>—Não irás, Marianna. Has de ir comigo.</p> + +<p>—Hei de ir já para minha casa... Tenho um presentimento que morrerei longe +dos meus filhos... Desliga-te de mim, faz o que quizeres; mas não sejas tão +mau, que me obrigues a acompanhar-te nos teus desatinos.</p> + +<p>Esta afflictiva scena passava-se n'uma estação onde parára a diligencia para +os passageiros almoçarem. Luiz da Cunha deixára sua mulher, quasi de joelhos, e +viera para uma janella trautear uma aria. Depois, irritado pelo imperioso +<em>hei de ir já!</em> voltou-se para dentro com arremesso, crusou os braços, +fez um gesto affirmativo de cabeça, e deu uma d'estas risadas cortadas que +significam desprêso e ameaça.</p> + +<p>Marianna sentiu-se cahir desamparada, desvalida, na convicção de que seu +marido era um malvado. Vendo-se sósinha, tremeu da sua situação. Forte em todos +os sentimentos, tal terror se lhe incutiu, que receou pela vida. Como a +avesinha, escondendo a cabeça sob a aza para não vêr o assassino que lhe mede +com a pontaria o coração, Marianna escondeu a face entre as mãos, cambaleou um +momento, e recuou sobre um canapé, onde cahiu desfallecida.</p> + +<p>Luiz da Cunha, vendo de um lance de olhos todos os resultados d'um possivel +divorcio, ou mais ainda, da morte de sua mulher, reprehendeu-se da +inconveniente aspereza, intentou reconciliar-se com Marianna, e começou o seu +novo plano, rapidamente concebido, tomando-a nos braços, chamando-a com +ternura, e cobrindo-a de beijos.</p> + +<p>Marianna viu com espanto a doçura dos olhos de Luiz,<span +class="pn">{131}</span> e por pouco não cede ao impulso de abraçal-o. A que, +momentos antes, tremêra de mêdo diante do malvado, eil-a agora, quasi +perdoando, arrependida do criminoso susto que tivera! Quantas mulheres assim! +Quantas transfigurações da martyr que pena, para o anjo que perdôa! Quantas +lagrimas o homem enxuga com um falso sorriso!</p> + +<p>—Não me tenhas odio, Marianna...—dizia elle, inclinando-a sobre o braço +esquerdo, e anediando-lhe os cabellos.</p> + +<p>—Odio... não tenho; mas queres que eu não soffra?!</p> + +<p>—Quero... farei o que tu quizeres... Não queres que vamos a Paris? Não +iremos. Vamos para a Italia, sim?</p> + +<p>—E de lá para nossa casa?</p> + +<p>—Iremos, filha... tornaremos para Madrid; vamos a Cadiz, e de lá +embarcaremos para a Italia... queres?</p> + +<p>—Sim, sim, agradeço-te de todo o meu coração o sacrificio...</p> + +<p>—Sacrificio! nenhum, Marianna! Tu não crês que és para mim a primeira +mulher, que não tens uma rival que possa mais que a tua vontade?</p> + +<p>—Queria acreditar; mas tu...</p> + +<p>—Eu que? Sou fraco... sou um miseravel ludibrio do destino; mas tu vences +esse destino, quando queres... És hoje para mim o que eras ha um anno sobre o +mar...</p> + +<p>—Oh!... se eu fosse!...</p> + +<p>—És, filha. Não me vês arrependido? Queres-me de joelhos a teus pés?</p> + +<p>E o farcista fez menção de ajoelhar, quando Marianna se lhe lançou ao +pescoço, beijando-o, banhando-lhe de lagrimas a face, soluçando, comprimindo-o +com a vehemencia de toda a sua paixão acrisolada pelo ciume, e expansiva pelo +prazer do triumpho sobre a rival.</p> + +<p>Em Madrid, Luiz da Cunha foi tão caricioso, que Marianna recordava os +primeiros dias do seu noivado, e não os achava mais gratos, mais ligeiros nas +suas rapidas horas do delicioso arrobamento.</p> + +<p>Furtando-se poucos instantes á companhia d'ella, Luiz da Cunha escrevêra a +Carlota ordenando-lhe que o esperasse em Veneza, mas desconhecida, com um +pseudonimo, porque assim convinha á tranquillidade de ambos.<span +class="pn">{132}</span></p> + +<p>Quando, pois, D. Marianna, cheia de jubilo, sahia para Cadiz, a dançarina, +nomeando-se <em>Julia Lamotte</em>, chegava a Veneza, e isolava-se n'um hotel, +sacrificando a publicidade, que tão grata lhe era, á prestação annual de +sessenta mil francos, dos quaes apenas recebêra em Madrid cinco mil.</p> + +<p>Em Veneza, um dos primeiros homens que Luiz da Cunha encontrou, fixando-o +com ar provocador, foi o francez, que fugira aos sicarios escravos do amante de +Carlota. O brigão que partira a cabeça ao visconde de Bacellar, e acutilára o +mestre de esgrima, tinha tanta maldade como bravura. Não se apavorou do gesto +ameaçador do francez, rodeado de francezes. Caminhou para elles, com duas +pistolas engatilhadas, na presença de sua mulher, que permanecêra estupefacta +sem atinar com a causa nem com o desenlace d'este estranho encontro. O grupo +dos francezes, os homens mais delicados do mundo, respondêra com um sorriso á +arrogancia de Luiz. Um d'elles, approximou-se de Marianna, com o chapéo na mão, +e disse-lhe com affectuosa urbanidade:</p> + +<p>—Sabemos respeital-a mais que seu marido. Não receie consequencias tristes. +Os aggredidos são cavalheiros.</p> + +<p>Luiz da Cunha, depois da ridicula provocação, metteu as pistolas nas +algibeiras, deu o braço a sua mulher, e saltaram na gondola que os esperava.</p> + +<p>Marianna pedira inutilmente a explicação d'aquelle successo. O marido +evadia-se ás perguntas, dizendo que detestava os francezes, e imaginára que um +d'aquelles o escarnecêra.</p> + +<p>Deu-se um encontro que respondeu ás apprehensões da brazileira.</p> + +<p>A gondola ia abicar na ilha de S. Lazaro, ao mesmo tempo que desatracava +outra gondola com uma dama, e um jokei. A perturbação de Luiz não foi visivel +para sua mulher, que não desviava os olhos pasmados da face da dama, que se +approximava na direcção da sua gondola. Já perto, Marianna fez-se livida, +convulsa, encostou-se, quasi esvahida, ao braço do gondoleiro, repellindo o de +seu marido, e, ajudada a saltar ao caes, sentou-se, murmurando:</p> + +<p>—Como eu sou desgraçada, meu Deus!<span class="pn">{133}</span></p> + +<p>Acontece que um mau marido, repetidas vezes surprendido em flagrante por sua +mulher, indignado contra a má fortuna dos planos, volta-se contra ella, por +não poder vingar-se do demonio invisivel que lh'os frustra. Esse tal, em quanto +uma ardilosa desculpa o póde justificar, transige com as lagrimas da esposa, e +finge serenamente a contrição; mas, se a contumacia no crime, todas as vezes +descoberto, lhe inutilisa as invenções refalsadas, e o exautora de prometter +emendar-se, o que até alli eram brandas desculpas converte-se depois em odio ás +algemas, em emancipação do jugo, em crime sem pretexto, nem escusas. É o +cynismo que se desmascara. É a impostura que se revolta contra o clarão da +verdade.</p> + +<p>Para ser-se tal não importa ser menos perverso que o marido de Marianna. +Luiz da Cunha, se n'aquelle instante devia odiar a imprudente Carlota que não +evitára tal encontro, irritou-se contra as lagrimas de sua mulher, que não +proferira uma só palavra offensiva, nem, sequer, queixosa.</p> + +<p>—Vamos—disse elle com aspereza.</p> + +<p>Marianna ergueu-se, quiz aceitar o braço de Luiz, e não pôde suster-se.</p> + +<p>—Não posso.—E sentou-se.</p> + +<p>—Se não pode, tornemos a entrar na gondola.</p> + +<p>—Pois sim.... Não te zangues, Luiz, que não te fiz mal nenhum. Se é a minha +presença que te impacienta... pouco tempo te enfadarei... Vamos...</p> + +<p>Estas palavras, quasi ditas como um segredo, para que o gondoleiro as não +escutasse, não commoveram Luiz. Pelo que no rosto se lhe via, era mais de crer +que lhe exacerbassem a cólera. As contracções da testa, o morder dos beiços, o +arfar das azas do nariz, os impetos das mãos aos cabellos e ao bigode, +denunciavam a subita renascença de toda a perversidade do coração que lhe +atirava golphadas de sangue negro á face.</p> + +<p>D. Marianna como dias antes em Madrid, fugia de encontrar semelhante +aspecto. Alguma cousa havia ahi que só póde vêr-se e imaginar na cara +assignalada pela predestinação do patibulo!</p> + +<p>Os frageis vinculos de respeito que prendiam marido e mulher estavam +partidos. Desde esse dia, Luiz da Cunha<span class="pn">{134}</span> seria +escandaloso sem justificar-se; imporia silencio a Marianna; fruiria todos os +direitos da infamia sem empecilhos, nem covardes explicações dos seus actos.</p> + +<p>O programma d'esta nova phase vamos nós ouvir-lh'o no <em>Albergo di +Italia</em>. D. Marianna está encostada ao peitoril d'uma janella, com a face +apoiada na mão direita, com os olhos, brilhantes de lagrimas, fitos na lua que +se levanta sobre o Lido, purpureada como os arreboes que bordam o horisonte das +montanhas tyrobanas.</p> + +<p>Está só. É meia noite, e seu marido não vem. Depois que a deixou no hotel, +sahiu, e nem sequer lhe disse que voltava. Ha cinco horas que chora, e sente-se +menos opprimida: não sabe ella dizer se deve este bem ás lagrimas, se ás +orações. É que orou muito; e, depois, quando levantou da taboa os joelhos, +raiou-lhe na sua escuridade uma luz, uma esperança, qualquer cousa divina que +não era da terra.</p> + +<p>E foi sentar-se, ás escuras, fitando o ceo, com a imaginação mais +tranquilla, com as palpitações mais serenas, com a face aljofrada de lagrimas +suavissimas. Mas a esperança qual seria? Não sabia ella dizêl-a.</p> + +<p>Á uma hora entrou Luiz da Cunha.</p> + +<p>—Ainda a pé?!—perguntou elle em tom suave.</p> + +<p>—É um prazer contemplar este ceo—disse Marianna no mesmo tom.</p> + +<p>—Que lindas noites se gozam em Veneza!</p> + +<p>—Muito lindas.</p> + +<p>—Gosto de te vêr assim, Marianna.</p> + +<p>—Assim!... como?</p> + +<p>—Sem as impaciencias terriveis do ciume.</p> + +<p>—Ah!... Tambem eu gosto de me sentir assim.</p> + +<p>—O ciume é cousa que não existe na boa roda. Em Veneza, e em Paris não ha +ciume.</p> + +<p>—E amor?</p> + +<p>—Um pouco, em quanto dura. A civilisação é a liberdade das pessoas e das +cousas: bole com tudo, toca em todos os sentimentos, entra nos juizos da +cabeça, e enraiza-se nas aspirações da alma.</p> + +<p>—Não te entendo, Luiz...</p> + +<p>—Entendes, que tens muita intelligencia. E queres que te diga? Nenhuma +mulher de fina educação póde ser<span class="pn">{135}</span> feliz, como +esposa, se não estiver possuida de certos sentimentos de tolerancia com as +faltas do marido.</p> + +<p>—Vou entendendo agora, e admiro a minha ignorancia de ha pouco... Ora diz, +meu amigo, falla, que me encontras em hora de ouvir tudo... Mas olha, Luiz... +Esta noite não te recorda aquella primeira noite, no mar, quando me dizias: +<em>é mentira approximarem-se os entes que o destino talhou para se unirem: +quando se encontram já a desgraça os traz desfigurados; vêem-se e não se +conhecem; fallam-se e não se comprehendem</em>... Era uma noite assim formosa +como esta... Se então nos não comprehendemos, Luiz, hoje comprehenderemo-nos +melhor?...</p> + +<p>—Eis-ahi um incidente bem romanesco, minha amiga! Vejo que em Veneza ha de +necessariamente conversar-se em linguagem de romance!... A recordação das +minhas palavras o mais que prova é que tens uma feliz memoria...</p> + +<p>—Que tu não tens... bem se vê que as esqueceste... Creio que vens zombar +comigo, Luiz.</p> + +<p>—Não, Marianna; não venho zombar. Estou capitulando comtigo. Vamos combinar +bases novas sobre que deve assentar a nossa felicidade. Todos os casamentos são +felizes, quando entre marido e mulher se dá uma perfeita harmonia de vontades. +Negas isto?</p> + +<p>—Não.</p> + +<p>—Da desharmonia resultam a desordem domestica, as contrariedades pequenas, +as desavenças constantes, e tudo isto porque se não entendem, nem se combinam. +Entenderem-se e combinarem-se é fazer uma alliança de se não importarem +reciprocamente das suas acções.</p> + +<p>—Não entendi, Luiz; ou entendi uma infamia de que te não considero capaz.</p> + +<p>—Pois que entendeste, Marianna?</p> + +<p>—Não ouso dizêl-o.</p> + +<p>—Eu me explico, e bem vês que o faço com toda a serenidade. Serei muito teu +amigo, não teremos nunca o menor desmancho no nosso bem-estar, se tu quizeres +ser indifferente ao meu procedimento com as outras mulheres.</p> + +<p>—Serei, Luiz; mas com uma condição...</p> + +<p>—Qual?<span class="pn">{136}</span></p> + +<p>—Conduz-me a minha casa, e depois torna para aqui, ou faz o que quizeres.</p> + +<p>—E qual é o teu fim?</p> + +<p>—Educar os meus filhos.</p> + +<p>—Naturalmente, depois, lembravas-me que a tua casa não podia soccorrer as +minhas dissipações...</p> + +<p>—Esse receio fica-te bem; mas é vileza que ainda me não lembrou.</p> + +<p>—E porque não queres tu ser feliz como eu posso sêl-o? Eu pago tolerancia +com tolerancia....</p> + +<p>—Isto não se crê, Luiz! Dar-se-ha caso que tu vens...</p> + +<p>—Embriagado?</p> + +<p>—Sim...</p> + +<p>—Não venho embriagado, Marianna; e a prova de que o não estou, é que se +fosses um homem, n'este momento, tinhas a cabeça partida nas lages da rua.</p> + +<p>—Pois esquece-te que sou mulher, e faz-me essa esmola.</p> + +<p>—Basta! não lhe soffro nem mais uma palavra, senhora! Recolha-se ao seu +quarto!</p> + +<p>Marianna ergueu-se. Tal era a placidez do seu semblante, que nem os gritos +brutaes de Luiz lhe alteraram a pallidez. Passou por diante d'elle com os olhos +no chão. Entrou no seu quarto, onde encontrou chorando a escrava que a creára, +e lhe creára os filhos. Era uma amiga. Lançou-se nos braços d'ella, suffocando +os soluços.</p> + +<p>Luiz da Cunha sahira.</p> + +<p>—Não se deixe morrer, minha senhora—disse a escrava.</p> + +<p>—Deixava-me morrer, se não tivesse os meus filhos. Quero viver para elles +e... é preciso fugirmos, Genoveva.</p> + +<p>—Fugirmos!</p> + +<p>—Sim, senão, este homem mata-me, ou eu morro de desesperação.</p> + +<p>—Como ha de a gente fugir? Não conhecemos aqui ninguem...</p> + +<p>—Pela manhã has de levar ao correio uma carta para o ministro do Brazil em +Vienna. Vou escrevêl-a. Se vires entrar esse homem, avisa-me...</p> + +<p>A carta para o ministro brazileiro seguira o seu destino.<span +class="pn">{137}</span> D. Marianna, se podésse rehavêl-a uma hora depois, +sustaria o seu desesperado projecto de fuga. A infeliz illudira-se. O coração +d'esta mulher não deixára sahir o amor pelas feridas das incessantes +punhaladas. Luiz da Cunha, o homem de um anno antes, imaginára-o ella sob a +influencia de algum diabolico prestigio da dançarina. Não podia conceber +semelhante mudança! Não podia capacitar-se da ignominiosa tolerancia que elle +lhe offerecêra! Amava-o ainda.</p> + +<p>Mas elle não a deixava muito tempo illudida. O seu proceder parecia um +proposito para desenganal-a. Indifferença, desprêso, e até abandono de dias +inteiros, seguiram-se ao ultimo dialogo que lhe ouvimos. Já não rebuçava a +affronta, nem pretextava sahidas. Á hora do dia, embalava-se com Carlota nas +gondolas de Rialto, e mostrava-se com soberba impudencia, ao lado d'ella, ao +fim da tarde, na Ponte dos Suspiros.</p> + +<p>Marianna já não ignorava nada. A preta dedicada para apressar a fuga, como +taboa de salvação para sua ama, espreitava Luiz, ou pagava a quem lhe +espionasse os passos, que não careciam de espionagem. Cahira extenuada de +soffrimento no leito, ao pé do qual seu marido passava o tempo necessario para +calçar umas luvas, quando sahia de manhã para vir, se vinha, jantar á noite. +Luiz da Cunha aconselhava-lhe os passeios, e para isso lhe vestira um jokei que +a acompanhasse, e lhe déra plena liberdade de gosar, na sua ausencia, não só os +prazeres do lympido ceo, mas os da terra que valiam bem a pena de sahir dos +amúos que a molestavam.</p> + +<p>Uma ironia por consolação! Um escarro nas faces cadavericas da infeliz!</p> + +<p>Uma tarde, quinze dias depois que D. Marianna escrevêra ao ministro +brazileiro, chegou a Veneza o primeiro addido d'aquella embaixada, e procurou +no hotel uma senhora brazileira.</p> + +<p>Marianna ergueu-se para recebêl-o, e soube que era elle o encarregado de +dispor a sua sahida para o Brazil. O addido, em poucas horas, colhêra ácerca de +Luiz da Cunha as precisas informações: assim lh'o ordenára o ministro para não +annuir imprudentemente ao capricho de uma senhora casada. As informações eram +muito peores<span class="pn">{138}</span> do que a ultrajada esposa fizera +saber ao ministro, velho amigo de seu pae, e de seus tios.</p> + +<p>Um navio estava prestes a fazer-se á vela para o Rio de Janeiro. Marianna +apenas tinha tres dias para preparar-se. Na sua situação, tres horas seriam de +sobejo. O addido devia retirar-se de Veneza, quando o navio tivesse sahido. +Marianna não hesitou, nem pediu delongas.</p> + +<p>Acabava de sahir o addido, quando Luiz da Cunha entrou. A brazileira estava +chorando.</p> + +<p>—Minha amiga—disse Luiz—tinha tenção de jantar comtigo; mas, se me dás +môlho de lagrimas, retiro-me.</p> + +<p>—Eu é que não aceito o teu convite. Retira-te, se queres, que eu não janto +hoje.</p> + +<p>—N'esse caso, não jantarei só... Como estás?</p> + +<p>—Boa.</p> + +<p>—Optimo. Mas essas lagrimas não se esgotam...</p> + +<p>—São lagrimas de alegria.</p> + +<p>—Ainda bem. Vê se te reanimas para irmos a Milão, na semana proxima.</p> + +<p>—Estou reanimada.</p> + +<p>—Melhor. E depois vamos a Turim, a Berlim, a Napoles, <em>et cetera</em>.</p> + +<p>—Iremos. Estas viagens regalam-me o coração.</p> + +<p>—Estou gostando do teu joco-sério! Vaes-me sahindo uma <em>pretenciosa</em> +falladora.</p> + +<p>—Estarei calada, Luiz!</p> + +<p>—É melhor.</p> + +<p>—Mas, se me não levas a mal, sempre te farei uma pergunta...</p> + +<p>—Não ha pergunta sem resposta... Venha de lá isso.</p> + +<p>—Como se póde ser homem tão cruel?</p> + +<p>—Como se póde ser mulher tão impertinente?—respondo, perguntando.</p> + +<p>—Não tenho mais que te diga.</p> + +<p>—Falla, se tens lá mais alguma pergunta de algibeira.</p> + +<p>—Não tenho nenhuma; comtudo... se tens paciencia, has-de ouvir-me. Eu tenho +filhos, de cujo patrimonio sou administradora.</p> + +<p>—Já sei.</p> + +<p>—Os meus filhos podem pedir-me contas d'esta administração.<span +class="pn">{139}</span></p> + +<p>—Não digas mais nada, que eu já te matei a charada no ar. Queres dizer que +eu gasto mais do que os rendimentos da tua meação. Dir-te-hei que não consinto +que me lances em rosto a minha dependencia da tua fortuna. Isso é vil.</p> + +<p>—Sou vil, é o que se segue; mas repara, Luiz, que te não lancei em rosto a +tua dependencia.</p> + +<p>—A cousa bem traduzida lá vai dar. Queres despedir-me do commercio de bens?</p> + +<p>—Não: o peor é se te despedem...</p> + +<p>—Quem?! Que quer isso dizer?...—replicou elle, colerico.</p> + +<p>—Nada...</p> + +<p>—Minha querida senhora, para não irmos adiante, fiquemos aqui... Até +ámanhã...</p> + +<p>—Até ámanhã, Luiz.</p> + +<p>No dia seguinte, o conviva de Carlota Gauthier não veio a casa. A escrava +soube que o marido de sua ama sahira para Peschiera com a franceza, que disse, +no hotel, voltaria passados tres dias.</p> + +<p>O immediato era o dia aprazado para a sahida do navio.</p> + +<p>O addido conduzia de madrugada D. Marianna, e sua escrava, a bordo. Genoveva +levou sempre sua ama desfallecida nos braços. Dizia-se a bordo que a pobre +passageira parecia morta, e não desmaiada.<span class="pn">{140}</span></p> + +<h1><a name="SECTION001140">XIV.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION001141">CAVAR PARA OS OUTROS A SEPULTURA, E PARA SI O +INFERNO.</a></h2> + +<p>Luiz da Cunha passeava com Carlota nas margens do lago de Garda, ao pé do +pittoresco Mincio. Deliciavam-se em meigos brinquedos, como duas creanças, +embebidos um no outro, ao que pareciam, suspirando juntos como a brisa tépida +que os arremedava no bulicio da ramagem.</p> + +<p>Escurecia, quando divisaram tres vultos. O barqueiro que, a distancia, os +tinha já prevenido contra os perigos do local, ao vêr os vultos teimou que +entrassem no barco. Luiz, instado por Carlota, olhou com saudade para as +deleitosas testemunhas de seus prazeres, e foi, como arrastado, na direcção do +barco.</p> + +<p>Mas os vultos acceleravam o passo. Carlota e o barqueiro diziam a Luiz que +fugisse.</p> + +<p>—Fugir a que? São tres, e eu só fujo a trinta.</p> + +<p>—Foge Luiz, que eu suspeito...</p> + +<p>—Que suspeitas?</p> + +<p>—Que algum d'elles é...</p> + +<p>—O troca-tintas teu patricio? Deixa-me reconhecêl-o.</p> + +<p>Luiz da Cunha esperou-os com as pistolas engatilhadas. Os vultos marchavam +para elle tão serenos como se tivessem ouvido o tinnir do gatilho..</p> + +<p>—Parem, quando não mato-os!—exclamou Luiz.</p> + +<p>—Pois atira, miseravel!—disse um dos tres.</p> + +<p>Os gatilhos bateram duas pancadas surdas. Luiz recuou,<span +class="pn">{141}</span> aperrando-os de novo. As pancadas produziram o mesmo +som abafado.</p> + +<p>—Estou desarmado, covardes!—gritou elle, quando as primeiras pauladas de +«cacetes» curtos lhe estalavam na cabeça, nos braços e no peito.</p> + +<p>—Chama os teus sicarios do Brazil!—dizia o antigo amante de Carlota, +sovando-lhe a cara de pontapés, quando elle, já em terra, coberto de sangue, +perdêra o accôrdo.</p> + +<p>A dançarina presenceava o espectaculo de dentro do barco, que se fizera ao +largo, graças á prudencia do barqueiro.</p> + +<p>Os francezes retiraram-se a passo moroso, conversando na mais tranquilla +pacatez de tres socios do instituto de bellas-letras, que viessem de descobrir +nas margens do Mincio o esqueleto d'um ichtyosaurus.</p> + +<p>Carlota, contra a vontade do barqueiro, chegou-se a terra. Não vendo os +vultos, saltou, e viu em terra o amante, que gemia a cada esforço inutil que +punha para erguer-se sobre os braços macerados. O barqueiro veio em auxilio da +consternada moça. Tomaram-no entre os braços, deitaram-no na prôa do barco, e +lavaram-lhe a face arregoada de sangue.</p> + +<p>Luiz da Cunha foi curado em Peschiera, e, logo que as forças lh'o +consentiram, quiz convalescer em Veneza. Carlota seguia-o, indemnisando-o com +extremosos cuidados do desgosto d'uma perigosa sova, por causa d'ella.</p> + +<p>Em Veneza, Luiz da Cunha que não déra, durante quinze dias, noticias suas a +Marianna, com quanto se não doesse muito de tal falta, achou que era prudente +procural-a, que não fosse ella, desesperada, sustar no Brazil a remessa d'uma +importante quantia que elle exigira.</p> + +<p>No hotel disseram-lhe que sua senhora com a escrava tinham sahido n'uma +madrugada, havia treze dias, e não voltaram.</p> + +<p>Entregaram-lhe as chaves dos seus quartos. Luiz da Cunha encontrou tudo, +menos os bahús d'ella. Nem uma carta sobre as mesas! cousa nenhuma que o +esclarecesse! Chamou o criado, que ficára com as chaves, esperando que lh'as +recebessem:</p> + +<p>—Com quem sahiu a senhora?</p> + +<p>—Com um cavalheiro.<span class="pn">{142}</span></p> + +<p>—Seria de Veneza?</p> + +<p>—Não, senhor: vi-o aqui entrar uma só vez, antes d'ella sahir com elle.</p> + +<p>—E os bahús, quem os transportou?</p> + +<p>—Dous homens que tinham vindo com o tal cavalheiro: pareciam marinheiros.</p> + +<p>Luiz da Cunha informou-se. Justamente na madrugada d'esse dia sahira um +navio com carregação de vidros para o Rio de Janeiro.</p> + +<p>A sua situação pareceu-lhe embaraçosa! A primeira ideia foi seguir quanto +antes sua mulher. Consultou Carlota, e a carinhosa respondeu ternamente que o +não acompanhava, porque não tornava ao Brazil. Ainda assim, renunciando +generosamente o amante á esposa, a bailarina aconselhava-o que a seguisse, +embora ella ficasse devorada de saudades.</p> + +<p>Esta sublime abnegação impressionou Luiz, a ponto de olvidar, surdo aos +gritos do presentimento, as consequencias da apparição de Marianna, sósinha, +aos seus parentes.</p> + +<p>Contando com a sua astucia, deferiu a viagem para mais tarde, visto que +ainda lhe restava uma ordem de dez contos, e entretanto Marianna, forçada pela +saudade, poderia de lá chamal-o, pedindo-lhe perdão.</p> + +<p>Proseguiu nas suas viagens com Carlota. Saboreou o ouro e a liberdade, não +azedada pelas lagrimas importunas de sua mulher. Gastou francamente como se uma +nova remessa devesse chegar do Brazil, antes de escoar a ultima libra dos dez +contos. Fez, durante quatro mezes, pontuaes pagamentos á bailarina, de cinco +mil francos cada mez. Contava-lhe com ingenua candura a sua vida, os seus +haveres, e até desceu á pueril pieguice de lhe dizer que era necessario fazerem +economias, em quanto lhe não chegava uma ordem para saccar em Londres um +cabedal mais duradouro.</p> + +<p>Carlota, á palavra «economias» sentiu que o coração lhe fazia no peito uma +pirueta, e ficava de costas voltadas para o economico amante.</p> + +<p>Á maneira do coração, a dançarina resolveu fazer tambem uma pirueta na +primeira occasião.</p> + +<p>A occasião veio-lhe ao encontro dos desejos. Um<span class="pn">{143}</span> +conde austriaco hospedára-se no mesmo hotel em Roma. O locandeiro tinha poderes +discricionarios para convencer a moça. A proposta foi aceita, estipuladas as +condições, e Carlota desappareceu com o conde na estrada que devia conduzil-a a +Paris.</p> + +<p>Luiz da Cunha—diga-se a verdade—não sentiu muito a ausencia da sua +companheira de quarto. A paixão diminuira na razão directa das libras. A +sensualidade ia-lhe arrefecendo á maneira que o espirito se lhe occupava em +meditações sobre o futuro. O mais que fez foi estudar os pontos de contacto +entre Carlota e Liberata, e viu que eram bustos do mesmo molde. Teve a +imprudencia de chamar Assucena e Marianna a esta galeria, e concordou, o mais +racionalmente que pôde, que aquellas duas eram d'um estofo muito superior ás +outras.</p> + +<p>O peor era a pobreza que o ameaçava!</p> + +<p>Os dez contos de reis em oito mezes, com quanto economisados, tinham cahido +na voragem dos brilhantes de Ricarda, dos bens livres de João da Cunha, dos +quarenta mil cruzados de Assucena, do incalculavel numerario com que sahira do +Brazil. Restavam-lhe algumas duzias de libras, e nenhum amigo, nenhum credito, +nenhuma esperança que lhe não deixasse antever o futuro pela face da +indigencia. Angustiado no dilemma, resolveu abandonar a Europa, que tão cara +lhe era, e vestir uma mascara de bronze, como se precisasse de encobrir a +vergonha, para lançar-se aos pés de sua mulher, se é que ella lhe não correria +aos braços, banhada em lagrimas de alegria. O projecto dependia de uma execução +immediata, porque as ultimas libras urgiam.</p> + +<p>Luiz da Cunha, protestando vencer, ainda uma vez, a força diabolica que o +empurrava para o abysmo da miseria, refez-se de coragem, confiou-se á +prodigiosa omnipotencia da sua impostura, e embarcou em Civitta-Vechia n'um +navio de escala para Buenos-Ayres.</p> + +<p>N'esta viagem, não ha memoria d'alguma aventura digna de menção na +biographia do filho de Ricarda. Contaram, porém, os seus companheiros de +viagem, que tal homem se fizera repulsivo a todos pelo desprêso com que a todos +repellia. Era intratavel, e tinha accessos de frenesi assustadores. Corria as +cortinas do seu beliche durante<span class="pn">{144}</span> o dia, e passeava +toda a noite na tolda. Se em noites calmosas os passageiros tambem subiam a +respirar, Luiz da Cunha descia com arremesso a isolar-se na sua camara.</p> + +<p>Vê-se que o cynico não tinha o riso despejado da escola. Soffria; mas não +era a suave melancolia do solitario sem os remorsos: era o assomo colerico, o +concentrado rancor do algoz que não póde estalar os grilhões que o condemnam a +morrer no desespêro da immobilidade.</p> + +<p>Pois a hora do remorso não soára para este homem?! Ainda não. Talvez nunca. +O remorso é o triumpho do anjo bom. Luiz da Cunha pactuára uma alliança +insoluvel com o demonio, cuja existencia não é para mim uma fabula, quando me +vejo impellido ao mal, e cêdo com pesar ao impulso, encarando o bem por que +suspiro. A lucta entre as duas potencias existe no coração humano, em quanto a +consciencia sabe estremar o crime da virtude. Mas, perdidas as noções do dever, +raspada de sobre o coração a palavra «honra» a lucta já não existe, o anjo bom +fugiu espavorido, o remorso é impossivel.</p> + +<p>E era-o para Luiz da Cunha.</p> + +<p>Esse fugir da sociedade, odiando os homens, era o encovar-se do tigre, +sequioso de prêsas, raivando de fome, e espreitando com olho abrazado a victima +desprevenida.</p> + +<p>Luiz contava os dias de viagem com frenetica anciedade. Só, imaginára todas +as hypotheses terriveis do seu futuro. Dava-se como possivel a vingança de +Marianna, privando-se não só da tutella dos enteados para diminuir os redditos, +mas negando-lhe a elle uso-fructo da sua propria meação. Verificar esta +horrivel conjectura era o seu desejo: vingar-se de qualquer modo era a sua +tenção, se uma bem estudada impostura o não reconciliasse com Marianna.</p> + +<p>Chegou a Buenos-Ayres, e na lista dos estrangeiros que pernoitavam no mesmo +hotel viu o nome de Francisco José de Proença. Saibamos de passagem que Proença +era um official do exercito portuguez, que seguira as bandeiras de D. Miguel. +Em 1833 expatriara-se para o Brazil. Filho d'um brigadeiro, visitava-se com +João da Cunha, e fôra da roda de Luiz.<span class="pn">{145}</span></p> + +<p>O marido de Marianna encontrára-o no Rio de Janeiro, luctando com a +adversidade, pobre, sem emprego, vivendo do trabalho esteril de amanuense d'um +advogado. Soccorreu-o com um emprestimo de dinheiro para tentar o trafico da +escravatura, pensamento dominante de Proença.</p> + +<p>O portuguez fôra bem acolhido por Marianna, em respeito a seu marido. Civil, +bem morigerado, e prudente, colhêra muito na escola da desgraça. Fez-se +bemquisto, adquiriu proveitosas relações, alcançou aura de honrado, apesar do +seu plano de mercadejar com pretos. Este trafico não deshonrava ninguem. Era +como qualquer outro, um ramo de commercio, que germinou illustres vergonteas, +as quaes transplantadas depois em Portugal, bracejaram copadas sombras onde se +acoitam em torpel as mercês, e os sacerdotes da apotheose.</p> + +<p>Tal era o protegido de Luiz da Cunha em Setembro de 1840, quando o seu +protector, sahindo do Rio para a Europa, o recommendava aos tios de sua mulher.</p> + +<p>Foi, pois, bem natural o sobresalto de Luiz da Cunha quando viu na lista o +nome <em>Francisco José de Proença</em>. Guiaram-no ao quarto d'elle. Proença, +com o coração alvoroçado da surpresa, abraçou Luiz.</p> + +<p>—Tu aqui!...—exclamou elle.</p> + +<p>—Não imaginei encontrar-te fóra do Rio!</p> + +<p>—Vens de lá? Já vejo que não.</p> + +<p>—Venho da Europa. Ha que tempo sahiste do Rio?</p> + +<p>—Ha tres mezes. Tu ignoras tudo, pelo que vejo.</p> + +<p>—Se ignoro tudo!... Sei que Marianna está lá...</p> + +<p>—Sabes que ella está lá? E sabes como ella está?</p> + +<p>—Doente, talvez...</p> + +<p>—Doente, não... morta.</p> + +<p>—Homem! isso é extraordinario! Tu não mentes?</p> + +<p>—A brincadeira seria de mau gosto. Não minto, Cunha. Pensei até que o +saberias.</p> + +<p>—Isso é incrivel! Pois Marianna está morta?!</p> + +<p>—E sepultada ha cinco mezes.</p> + +<p>—Que infernal vida a minha!</p> + +<p>As bagas de suor frio innundavam-lhe a testa. A commoção não se differençava +nada d'uma boa alma surprendida por uma nova terrivel.<span +class="pn">{146}</span></p> + +<p>—Infernal vida a tua! tambem eu digo, Cunha... Mataste aquella senhora...</p> + +<p>—Matei...</p> + +<p>—Tardio remorso!...</p> + +<p>—Conta-me tudo.</p> + +<p>—Pouco tenho que te conte. D. Marianna appareceu no Rio, sem ninguem a +esperar. Foi transportada n'uma rede ao seu leito. Soube-se que tu não vieras, +e correu que tinhas morrido. Marianna não recebia visitas, nem os medicos. Pedi +aos tios que me deixassem vêl-a, não o consegui. Um d'elles contou-me os teus +desatinos, e disse-me que a infeliz era tão nobre que não pronunciava contra ti +uma queixa. Precisava explicar a sua fuga, e o pouco que disse foi mais +amplamente contado por cartas do ministro do Brazil na Austria. Levantou-se +contra ti um brado de indignação. Contaram-se todos os teus infortunios de +Lisboa. Á carga cerrada, os amigos de D. Marianna pediram que lhe fosse tirada +a administração da casa de seus filhos, para que tu não viesses continuar a +dilapidál-a. Tua virtuosa mulher pediu que a não mortificassem, visto que a sua +morte viria breve emancipar os pobres filhos da sua indigna tutella. +Empenharam-se todos em distrahil-a: o mais que conseguiram foi mudál-a para uma +quinta no Bota-fogo, onde viveu vinte dias. Aqui tens bem simples a historia, e +realmente te digo que é uma historia bem fertil de lances desgraçados... Déste +um pontapé na fortuna, Luiz, e com esse pontapé arremeçaste tua mulher á +sepultura...</p> + +<p>—Pois sim... agora cala-te. As tuas reprehensões, além de inuteis, não me +soam bem.</p> + +<p>—Desculpa-me se te fallo com franqueza tão rasgada. O facto de seres meu +credor não me humilha até ao silencio approvador dos teus crimes.</p> + +<p>—Os meus crimes... não são meus.</p> + +<p>—Pois de quem?!</p> + +<p>—D'um demonio que me perde... E agora vejo que estou irremediavelmente +perdido!...</p> + +<p>—Comparativamente ao que perdeste... estás.</p> + +<p>—E pobre...</p> + +<p>—Quasi pobre. Tens apenas quatro contos de reis<span +class="pn">{147}</span> que te devo, e o pouco que tenho acima d'esse capital á +tua disposição.</p> + +<p>—Minha mulher fez testamento?</p> + +<p>—Não. Tudo que tinha pertence aos filhos.</p> + +<p>—Mas uma escriptura <em>causa mortis</em> que fizemos?</p> + +<p>—É nulla: foi logo annullada. D. Marianna não podia dispôr do que era dos +filhos: podia apenas legar-te a terça; mas não testou. Aconselho-te que não vás +ao Rio, muito menos se tentas questionar os direitos dos teus enteados. Não +vás, que serás morto. O teu nome desperta odios n'aquelles mesmos que recebeste +nos teus jantares. Tens um só amigo, que se condôa de ti. Sou eu.</p> + +<p>—E qual será o meu futuro?</p> + +<p>—O que podéres grangear pelo trabalho; mas, no Rio de Janeiro, não.</p> + +<p>—Em que negocias?</p> + +<p>—Negociei em escravos.</p> + +<p>—Tens sido feliz?</p> + +<p>—Muito pouco. Tenho repugnancia para esta mercadoria.</p> + +<p>—Queres tentar comigo uma empreza d'essas?</p> + +<p>—Não. Hoje o meu commercio é menos rendoso, mais pacifico, supposto que +mais laborioso.</p> + +<p>—Não sei o que são emprezas laboriosas...</p> + +<p>—Tenta; póde ser que a fortuna te dê ainda outro abraço; mas as costas +d'Africa estão coalhadas de negreiros.</p> + +<p>—Que dinheiro dispensas?</p> + +<p>—Oito contos de reis. Quatro que te devo, e quatro que te dou, ou te +empresto... como quizeres.</p> + +<p>—Posso fazer alguma cousa com esse dinheiro?</p> + +<p>—Pódes, associando-te a algum negreiro, que farei teu conhecido. +Apresento-te ao que tem maiores depositos na praia dos escravos em +Guiné......................</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>N'esse dia foi conduzido ao escriptorio do negreiro, em Buenos-Ayres, o +adepto com a sua quota parte de oito contos de reis. Quando tratavam as +condições da sociedade, estava presente um mulato bem trajado, com os dedos +scintillantes de pedras, e uma grossa cadeia de ouro<span +class="pn">{148}</span> no pescoço. Ouvira, silencioso, o contracto, e +seguira-o até á porta do hotel.</p> + +<p>Pouco depois, Luiz da Cunha recebia um bilhete anonymo, que lhe pedia uma +entrevista, a sós, atraz da igreja das Mercês, ao escurecer. Recommendava o +bilhete um segredo inviolavel.</p> + +<p>O temerario foi, sem consultar Proença, e encontrou o homem que vira em casa +do negreiro.</p> + +<p>—O senhor quer ser rico?—perguntou o mulato.</p> + +<p>—Quero.</p> + +<p>—Ninguem responde com mais concisão, nem mais depressa. Se quer ser rico, +siga outro rumo. A escravatura deu em droga. Metade dos negros morrem no porão: +os outros ninguem os quer a cem mil reis fortes por cabeça.</p> + +<p>—Pois que rumo devo seguir?</p> + +<p>—Primeiro; o senhor é capaz de nunca revelar o que eu lhe disser?</p> + +<p>—Sou.</p> + +<p>—Não o sendo, a sua existencia valerá menos que um preto asmatico. Segundo: +tem coragem?</p> + +<p>—Tenho, penso eu.</p> + +<p>—Quer entrar comigo n'um commercio que é um pouco menos infame que o da +escravatura? Quer ser pirata?</p> + +<p>—Pirata! O senhor está a zombar comigo?</p> + +<p>—Não tenho mais que fazer! Chamei-o mesmo de proposito para zombar com o +senhor! Ora vamos, quer ou não?</p> + +<p>—E o senhor assegura-me que se enriquece em pouco tempo?</p> + +<p>—Asseguro-lhe que nos fazemos n'um momento proprietarios da propriedade que +outros adquiriram em muitos annos.</p> + +<p>—E os contratempos?</p> + +<p>—Os do mar?</p> + +<p>—Não digo isso: a defeza que póde ser mais poderosa que o ataque...</p> + +<p>—Ah! o meu amigo raciocina assim? Já vejo que me não serve... Até á paz +geral, meu caro senhor. Segredo, ouviu?<span class="pn">{149}</span></p> + +<p>—Mas ouça, que eu não me deliberei ainda. Não me julgue algum miseravel +poltrão. Quer o senhor entrar no meu quarto, e fallemos lá?</p> + +<p>—Então, entre o senhor no meu, que é mais perto. Ceará comigo, e dormirá, +se quizer, com a melhor das minhas escravas.<span class="pn">{150}</span></p> + +<h1><a name="SECTION001150">XV.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION001151">LOGICA DO INFORTUNIO.</a></h2> + +<p>Luiz da Cunha aceitára a proposta, a ceia, e a escrava. Com grande espanto +de Proença, fizera a sua aposentadoria em casa do mulato, explicando esta +nascente amizade por certo mysterio, que elle não dizia, porque não soubera +inventál-o. Proença, suspeitando as intenções de Cunha, porque lhe não eram +estranhos os boatos que corriam muito deshonrosos para o mulato, deu-se pressa +em sahir de Buenos-Ayres com a sua carregação de cortumes para a Bahia.</p> + +<p>Poucos dias depois, desappareceram Luiz da Cunha e o seu recente amigo. Das +praias de S. Thiago del Estero, sobre o Athlantico, levantaram ferro dois +navios com aspecto mercantil, içando a bandeira da republica argentina. +Costearam a provincia do Rio-da-Prata até ao Paraguay. Ahi fizeram-se ao largo, +e arrearam bandeiras.</p> + +<p>Ao nono dia de roteiro indeterminado, reconheceram a bandeira hespanhola em +dois navios de alto bordo que lhe passavam á prôa. A manobra foi rapida. As +galeras auxiliadas pelas correntes procuravam a esteira dos navios, que lhes +fugiam. Ao cahir da noite, a trombeta do pirata levou uma ameaça de morte aos +hespanhoes. Responderam-lhe com uma bala que zumbiu nas gaveas.</p> + +<p>Travou-se a lucta. Era tenebrosa a noite, e ao clarão da artilheria viam-se +d'um lado e d'outro, como visões phantasticas, as faces enraivecidas de +aggressores destemidos, e a coragem desesperada nas dos aggredidos resolutos á +morte com bravura.<span class="pn">{151}</span></p> + +<p>O mulato déra o tremendo signal da abordagem. A galera que se retirava da +lucta, capitaneada por Luiz da Cunha, não obedecêra. É que uma bala lhe fizera +á pôpa um rombo. Os bravos tinham descido ao porão a calafetarem inutilmente a +fenda.</p> + +<p>Os piratas recuavam, e os aggredidos accommetteram com o enthusiasmo da +victoria. A galera do mulato vomitava lavaredas. Estava incendiada.</p> + +<p>—Á abordagem!</p> + +<p>Bradaram os hespanhoes. A maruja das galeras gritou que se entregava. Os +netos de Cortez não admittiram a proposta. Saltaram entre miseraveis +ajoelhados. Alguns venderam cara a vida. Outros foram poupados para puxarem o +carro do triumpho. Entre esses estava Luiz da Cunha, que não tivera coragem de +morrer borrifado do sangue dos contrarios, como o seu companheiro, e pedira de +joelhos a vida. O extremo da ignominia encontra a covardia. Sem a força moral +da honra, o musculo do infame ennerva-se, e a existencia, que devia ser-lhe um +pêso, é-lhe ainda cara! Segredos.</p> + +<p>Os prisioneiros foram levados ás Antilhas para serem garrotados. Alguns +foram-n'o logo. Luiz da Cunha, que promettêra aos capitães o resgate da sua +liberdade, pesando-se a ouro, foi posto a ferros em Porto-Rico.</p> + +<p>Chegára a nova á Bahia, onde Proença negociava. Não se fallava em Luiz da +Cunha; mas dizia-se que um portuguez ou brasileiro, que parecia de educação +distincta, fôra prêso, e demorára com astuciosas promessas o seu processo.</p> + +<p>Proença não tinha animo para encarar o suspeito Cunha n'esse ultimo grau da +infamia. Apressou-lhe quanto pôde soccorros, e, calando o nome do prêso, +solicitava a sua liberdade.</p> + +<p>Entretanto, Luiz da Cunha tramava a fuga. Todos os seus ardis foram +descobertos. Parte das authoridades hespanholas quizeram desfazer-se d'elle, +pendurando-o n'um triangulo. Mas o governador não consentira, sem primeiro +ouvir esse homem mysterioso. Ouvindo-o, admirou-lhe a eloquencia astuciosa; +arrancou-lhe o segredo de alguns dos precedentes que mais deviam tocar-lhe o +espirito um pouco romanesco. Luiz da Cunha soubera<span class="pn">{152}</span> +dar-se prestigio, porque adivinhára a indole da authoridade.</p> + +<p>Foi processado e condemnado a tres annos de prisão em Porto-Rico. Tres +annos! Mil e noventa e cinco dias e outras tantas noites de ferros para esse +homem, desamparado de todos, forçado a pedir esmola, como um ladrão, pela grade +da enxovia! Não terá elle, ao menos, a coragem do suicidio?!</p> + +<p>Não tinha.</p> + +<p>O governador mandava-lhe umas sôpas, e umas calças velhas. Uma senhora +desconhecida esmolava-lhe um jantar todos os domingos, e mudava-lhe os lençoes +da pobre enxerga. O carcereiro, apiedado com a apparente resignação do pirata, +arranjava-lhe livros, e dava-lhe para de noite uma candeia.</p> + +<p>Quatro mezes d'este viver! Eis alli o amante de Assucena! o marido de +Marianna! Aquelle homem que tira de uma tigella de barro com um garfo de ferro +umas couves, é o mesmo que pagava dançarinas a cinco mil francos por mez; é o +mesmo que vira fugir-lhe por entre os dedos cem contos de reis. E, comtudo, não +tem ainda trinta annos! Que futuro!</p> + +<p>Proença vem a Porto-Rico, ao quarto mez de prisão de Cunha. Procura o +governador, com valiosas cartas de recommendação, e historia-lhe vagarosamente +a vida do prêso. O governador espanta-se de tanto crime, e crê na magica +influencia de Satanaz sobre o desgraçado. Uma das circumstancias que mais o +pungem é o illustre nascimento de Luiz da Cunha e Faro! Era fidalgo, sentia a +dôr collectiva da raça: o vexame e a condolencia de uma sympathica compaixão. +Vencido pelas instantes lamurias de Proença, quiz ser arbitro na liberdade do +prêso, assim como o tinha sido no immediato garrote que os outros soffreram. +Luiz da Cunha, com cinco mezes de carcere, é solto. Respira o ar da liberdade, +é senhor seu; mas a liberdade que lhe importa sem dinheiro, sem soccorro, sem +incentivo algum ás forças que lhe sobejam ainda para commetter difficultosas +emprezas? Que perversidade nova lhe resta a explorar? A que reservatorio do +inferno irá elle invocar um outro genio?</p> + +<p>Que lhe falta?<span class="pn">{153}</span></p> + +<p>Luiz da Cunha fôra chamado, apenas solto, a casa do governador. Entrou n'uma +sala particular, onde encontrou Proença. Não córou: a commoção forte que um +facil apreciador julgaria vergonha, era o contentamento de encontrar um homem +que, de certo, não viera alli para o deixar sem dinheiro.</p> + +<p>O expatriado é que não podia soster as lagrimas. Sentia o vilipendio de +Cunha, como se tirasse dos hombros do infame para os seus o pêso da ignominia.</p> + +<p>—Vieste salvar-me?—disse serenamente o pirata infeliz.</p> + +<p>—Já ninguem te salva... Vim alcançar a tua liberdade para experimentares +uma nova posição social. Cahiste muito no fundo. Já não ha braço que te +levante.</p> + +<p>—Parece-me que não. Venho de estudar na solidão da masmorra. Philosophei o +melhor que se póde com os meus principios experimentaes. Conclui que sou uma +machina. Não tenho vontade, nem acção. Quero vêr onde chega isto! Desejava +poder calcular approximadamente, pelos dados da vida, que morte será a minha. +Tenho trinta annos. Proença! como se póde ser tudo o que eu tenho sido em +quatorze annos!</p> + +<p>—E que serás tu?!</p> + +<p>—Eu sei!... o mais natural na minha situação é pedir uma esmola.</p> + +<p>—E és capaz de pedil-a?</p> + +<p>—Que duvida! Morrer de fome é escolher de todas as mortes a mais indecente.</p> + +<p>—E gracejas!</p> + +<p>—Pois tu queres que eu receba seriamente a infernal omnipotencia que me +reduziu a isto?! Zombemos com ella.</p> + +<p>—Mas não ha outro recurso contra a fome senão pedir esmola?</p> + +<p>—Ou roubar.</p> + +<p>—E o trabalho?</p> + +<p>—Ah! sim... não me lembrava o trabalho!... mas que trabalho? Eu não sirvo +para nada, não tenho força nem vocação.</p> + +<p>—Adquire-a, Luiz. Tu não me conheceste em outro tempo? Imaginaria alguem, +ha oito annos, que eu viria a ser um amanuense de advogado, e mais tarde um +negociante<span class="pn">{154}</span> de cortumes? Eu tive fome, Luiz. +Deitei-me algumas vezes em jejum, e levantei-me sem a certeza do almoço. Não +pedi esmola, pedi trabalho. Olha as minhas mãos... não vês estas durezas? Estão +calejadas, mas nunca senti aqui o contacto de uma moeda de cobre como esmola. +Trabalha, Luiz.</p> + +<p>—Diz-me lá em que...</p> + +<p>—Vives comigo: tomas uma pequena parte nas minhas occupações, e recebes uma +parte grande dos meus interesses.</p> + +<p>—Não te sirvo de nada, Proença. O que fazes é dar-me uma esmola. +Emprestas-me algum dinheiro?</p> + +<p>—Que farás com esse dinheiro?</p> + +<p>—Vou para Portugal. Tenho um palpite de que vou ser feliz...</p> + +<p>—Feliz! Quem fará a tua felicidade em Portugal?</p> + +<p>—Uma mulher.</p> + +<p>—Como Marianna?</p> + +<p>—Não me falles em Marianna. Tenho tido horas de inferno pensando n'essa +infeliz... Eu não sou de bronze, Proença. Vi-me tão afflicto uma noite na +cadeia, que me puz de joelhos a pedir-lhe perdão, cuidando que a via. Era +febre; mas olha que a vi tal qual ella devia ser a expirar... Palavra de honra! +não me falles n'ella... Bastam-me os meus remorsos...</p> + +<p>—Tu não tens remorsos, Cunha... Não fallemos n'ella; concordo... O nome +d'essa infeliz sôa mal nos teus ouvidos... e é uma profanação na tua bôca... +Queres então ir a Portugal procurar uma mulher que te ha de fazer feliz... Vejo +que a desgraça tem comtigo momentos de zombaria... Vai. Dou-te o dinheiro +necessario para a passagem, e para a subsistencia de alguns mezes.</p> + +<p>—És um perfeito cavalheiro. Espero ainda embolsar-te do ultimo real que me +emprestas... Ris-te? É porque não sabes os meus planos.</p> + +<p>—Os teus planos... O que me faz rir é a facilidade com que te illudes, a +inexperiencia do que és, a intimativa com que te confias a uma esperança +imaginaria. Que mulher de Lisboa descerá até Luiz da Cunha com a sua riqueza? +Estou fóra de Portugal ha oito annos, e conheço a tua vida dia a dia; +conhecem-na todos no Rio de Janeiro.<span class="pn">{155}</span> Quem te não +conhecerá em Lisboa? Eu vi uma carta d'um tal visconde, escripta ao ministro +portuguez no Brazil, que te apresentava um prodigio de immoralidades.</p> + +<p>—Esse visconde era precisamente o visconde de Bacellar.</p> + +<p>—De Bacellar, justamente.</p> + +<p>—Isso é um miseravel a quem puni com um chicote nos Paulistas.</p> + +<p>—Não sei se é um miseravel que puniste com um chicote; mas de certo não é +calumniador. Todas as informações confirmam as d'elle. O que será feito d'uma +menina que fugiu das Commendadeiras, e abandonaste no primeiro mez, trocando-a +pelos amores da celebre Liberata?</p> + +<p>—Não fallemos n'isso... Rapaziadas!... Talvez tu não creias que a mulher +que me ha de fazer feliz é justamente a que fugiu das Commendadeiras?</p> + +<p>—Vejo que é grata aos teus beneficios... Deve morrer de saudades por ti... +Estará ella anciosa da tua chegada como Marianna?</p> + +<p>—Estás impertinente, Proença!... Que diabo lucras tu em apoquentar-me?! +Marianna morreu; não posso dar-lhe vida; se podésse, dava-lh'a... Que mais +queres?</p> + +<p>—Nada, Luiz... Que hei de eu querer? É que não acho natural a tua +felicidade proveniente de uma mulher que perdeste.</p> + +<p>—E, se eu te disser que essa mulher me deu obra de quarenta mil cruzados, +depois que a abandonei?</p> + +<p>—Se é verdade o que dizes, espanta-me que o digas sem cahires n'esse chão +fulminado de vergonha!</p> + +<p>—Vergonha... de que?</p> + +<p>—Ha em ti um defeito de organisação, Luiz!... Tu não és o homem moral. +Falta-te a consciencia, o senso-intimo do bem, o caracter da sociabilidade. Não +te posso responsabilisar pelos teus crimes. O tigre tem a ferocidade nativa. Tu +és uma aberração, Cunha. Digo-te, com as lagrimas nos olhos, que estás perdido, +perdido para sempre... Receio muito que encontres um cadafalso no teu caminho.</p> + +<p>—Estás funebre! Que diabo de prophecia! O meu furor todo é desmentil-a... +Hei de rehabilitar-me! Desafio todos os demonios para que me combatam.<span +class="pn">{156}</span></p> + +<h1><a name="SECTION001160">XVI.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION001161">TENHO FOME! ESTOU HA TRES DIAS SEM PÃO!</a></h2> + +<p>Em uma tarde de Agosto de 1842, Assucena passeava sósinha entre os renques +de loureiros e amoreiras da sua quinta do Lumiar. Abria e fechava com apparente +distracção um livro, e, se lia, poucas linhas a fatigavam.</p> + +<p>Veste ainda de lucto pelos seus bemfeitores, ha tres annos mortos. Sobre o +lenço de gorgorão que lhe cobre o pescoço, traz pendente um collar de contas de +azeviche com uma pequena cruz de pau preto, embutida de lavores de +madre-perola. Este adorno está em harmonia com o livro em que lê, e +profundamente medita: é o thesouro de Kempis, a Imitação de Christo.</p> + +<p>Sentára-se, lendo mentalmente estas linhas:</p> + +<p>«Crê-te indigno da consolação divina; mas sim merecedor de muitas +tribulações. Quanto mais se compunge o homem, mais amarga lhe é a sociedade. O +bom não depara ahi senão incentivo para lagrimas. Ou pense em si ou nos outros, +reconhece que sem amarguras ninguem vive aqui. E tanto mais angustiado se vê, +mais dos outros se compadece. As compunções intimas, e a nutrição das dôres +merecidas, são filhas dos nossos vicios e peccados; deslumbrado por elles, não +temos vista para contemplar o ceo. Se mais vezes pensares na morte, que na +vida, fervorosa será a tua emenda. Se scismares nas penas do inferno e do +purgatorio, e do coração as temeres, ser-te-hão leves os trabalhos da vida, e +não tremerás de susto.» Fechára o livro, erguêra para o ceo os olhos +lacrimosos, e murmurára:<span class="pn">{157}</span></p> + +<p>—E serei eu grande peccadora, meu Deus? Não terei eu seguido a vossa santa +lei? Terei deixado cahir a minha cruz, seguindo-vos?</p> + +<p>Parára uma carruagem.</p> + +<p>—É minha mãe!—disse alvoroçada Assucena, sahindo-lhe ao encontro.</p> + +<p>Rosa Guilhermina vinha triste.</p> + +<p>—Estranho hoje a sua physionomia, minha querida mãe! Que é? teve algum +desgosto com o padrasto?</p> + +<p>—Não, filha... Como estás?</p> + +<p>—Bem vê que estou boa.</p> + +<p>—Com lagrimas nos olhos...</p> + +<p>—Foi de lêr o meu querido livro... Faz-me sempre este bem.</p> + +<p>—Que fizeste hontem, filha?</p> + +<p>—O que faço todos os dias. Assisti ás tres missas na capella; dei ao meio +dia o jantar aos pobres; de tarde rezei a via-sacra; depois, passei um +bocadinho aqui com o padre Madureira; tomamos chá á noite; rezei a corôa de +Nossa Senhora, e deitei-me. Hoje fiz o mesmo; esperava minha mãe, e o padre...</p> + +<p>—Minha filha, eu entendo que és muito excessiva nas tuas devoções. Padre +Madureira já me disse que te fazia mal tanta religião. Tu queres comprehender o +incomprehensivel, e prejudicas o teu espirito... e a tua saude.</p> + +<p>—Não, mãe. Eu não acho nada incomprehensivel na religião de Jesus Christo. +Leio muitos livros mysticos, porque não tenho outro recreio, nem o quero; rezo +muito, porque não devo ser ingrata aos beneficios que Deus me faz, e peço á sua +divina vontade continue a fazer-m'os. Com isto não sou pesada a ninguem...</p> + +<p>—Mas tudo que é de mais...</p> + +<p>—Servir a Deus é sempre de menos, minha mãe.</p> + +<p>—Mas ha cousas que denunciam fraqueza de razão.</p> + +<p>—Em mim?</p> + +<p>—Sim. Sei que vaes de noite acompanhar o viatico aos enfermos.</p> + +<p>—E será isso fraqueza de razão?</p> + +<p>—É uma demasia de virtude que não fica bem a uma senhora de vinte e dois +annos.</p> + +<p>—Porque?... Todos me tratam com tanto respeito...<span +class="pn">{158}</span></p> + +<p>—Mas... não fazes bem: póde-se servir a Deus com suavidade.</p> + +<p>—Isto não me custa; mas, se a mãe não quer, não tornarei.</p> + +<p>—E que invenção é essa de trazer as contas por fóra do lenço?</p> + +<p>—Pensei que não importava trazêl-as assim, ou de outro modo.</p> + +<p>—De certo, não importa; mas poderá alguem chamar-te visioneira.</p> + +<p>—Alguem! Eu não conheço ninguem. O padre Madureira não me diz nada; a mãe +de certo se não ri de mim; os outros, ainda que me vissem, não me envergonhavam +com a sua zombaria... A mãe não acaba de crêr que me não importa nada o mundo?</p> + +<p>—Nem queres que te fallem em cousas do mundo?</p> + +<p>—Se me affligem, não... Queria dizer-me alguma cousa?... Vejo-a triste, e +quer desabafar comigo... Diga o que tem...</p> + +<p>—Uma afflicção que tu não imaginas... e não devo dizer-t'a...</p> + +<p>—Se não deve dizer-m'a, terrivel cousa é! Então, não posso eu +consolál-a...</p> + +<p>—Se eu soubesse que te não affligias...</p> + +<p>—Isso não prometto, mãe; mas, ainda que me afflija, quero soffrer comsigo.</p> + +<p>—E se fôr cousa que tenha mais relação comtigo de que comigo?</p> + +<p>—Se tiver remedio, remedeia-se com o auxilio de Deus; se não tiver, +paciencia. O Senhor ha de dar-me forças e resignação... Mas que póde ser? +Alguma calumnia?</p> + +<p>—Ninguem ousa manchar a tua reputação, minha filha.</p> + +<p>—A minha reputação!... Ai! minha querida mãe, se soubesse o mal que me faz +quando pronuncia essa palavra...</p> + +<p>—Pois porque não hei de pronunciál-a?</p> + +<p>—Pelo amor de Deus, calemo-nos... Diga o que é...</p> + +<p>—Tens animo, filha?</p> + +<p>—Jesus que me aterra!<span class="pn">{159}</span></p> + +<p>—Sabes que Luiz da Cunha está em Lisboa?</p> + +<p>—Se o sei?... quem m'o havia dizer!...</p> + +<p>—Tu descóras, filha.</p> + +<p>—Deus dá-me animo... Não é nada, minha mãe... É isso só que me queria +dizer?... Deixál-o estar... Não tenho nada com elle... É feliz?...</p> + +<p>—Muito infeliz... Vem pobre...</p> + +<p>—Eu não pergunto se vem rico... Será virtuoso? terá temor de Deus?</p> + +<p>—Vem cheio de crimes. Dizem-se em Lisboa cousas horriveis d'este homem. +Casou muito rico...</p> + +<p>—Isso já eu sabia, que m'o disse o padre Madureira.</p> + +<p>—Mas abandonou a mulher...</p> + +<p>—Coitadinha!...</p> + +<p>—E morreu atormentada.</p> + +<p>—Compadeceu-se d'ella o Altissimo... Foi feliz... Rezemos-lhe pela alma, +minha mãe.</p> + +<p>Assucena ergueu as mãos, murmurando o <em>padre-nosso</em>. A viscondessa +reparou na exaltação religiosa de sua filha, e capacitou-se das suspeitas do +padre Madureira. Estas exaltações eram uma ameaça de algum grande desmancho +intellectual.</p> + +<p>Assucena obedecia ás mais extravagantes preoccupações religiosas: abraçava +todos os prejuizos populares: desauthorisava a razão, calando-a com fanaticos +receios. Déra-se na sociedade, como incentivo de risos, se fosse possivel +sustentar a vehemencia das suas crenças em publico.</p> + +<p>Depois da oração, Assucena pediu silencio a sua mãe, que se retirou +maravilhada da impassibilidade da filha; mas segura de que as astucias de Luiz +da Cunha não poderiam nada contra ella. E era essa a sua afflicção.</p> + +<p>Padre Madureira viera á hora do chá. A neta do arcediago não dissera uma +palavra do dialogo com a viscondessa. Porém o padre, com grandes rodeios, ia +dar-lhe, dizia elle, uma espantosa novidade. Assucena atalhou, dizendo:</p> + +<p>—Já sei. Não fallemos em tal cousa.</p> + +<p>—Já sabe!! mas não sabe tudo, minha senhora.</p> + +<p>—Sei tudo. Vem desgraçado...</p> + +<p>—E tão desgraçado que lhe pede uma esmola.<span class="pn">{160}</span></p> + +<p>—A mim?!... Santo Deus! Como sabe elle que eu...</p> + +<p>—Perdão, senhora D. Assucena. Attenda-me. Eu tive uma imprudencia; mas o +meu fim era justo e nobre. Quiz punir Luiz da Cunha para que a dôr da culpa lhe +despertasse no coração sentimentos de honra. Fiz que elle soubesse no Brazil, +por uma carta minha, quem o salvára da ignominia e do degredo, rehabilitando-o +para o futuro com os meios necessarios para experimentar uma nova estrada.</p> + +<p>—Deus lhe perdôe... senhor padre Madureira... o mal que fez! Eu perdôo-lhe, +e Deus Nosso Senhor me receba estas lagrimas em desconto dos meus peccados.</p> + +<p>—Luiz da Cunha—proseguiu o padre—depois de mil revezes, apparece em +Portugal, e encontra-se comigo, quando eu sahia do côro. Pergunta-me se v. +exc.ª ainda vive. Vacillo na resposta. Quero até fingir que não conheço tal +homem. Insta comigo para que lhe responda. Digo-lhe que Assucena vive; mas não +para o mundo. «Quero vêl-a—exclama elle—quero pedir-lhe perdão!» É +impossivel—disse-lhe eu.</p> + +<p>—Sim, sim, é impossivel!...—atalhou Assucena sobresaltada.</p> + +<p>—Quer lançar-se-me aos pés... eu tento fugir-lhe... segura-me pela mão, e +exclama com desespêro: «tenho fome! estou ha tres dias sem pão! dê-me uma +esmola!»</p> + +<p>—Oh meu Deus!—bradou Assucena, escondendo o rosto nas mãos.</p> + +<p>—Eram horriveis as visagens d'aquelle infeliz!—continuou o +padre.—Disse-lhe que viesse a minha casa; dei-lhe de comer... Sahi, deixando-o +á mesa. Fui dar ordem n'uma hospedaria para que o sustentassem, e mandei-o para +lá... Que é isto?—interrompeu-se impetuosamente Madureira, tomando Assucena +nos braços—Minha filha...</p> + +<p>Estava desmaiada.</p> + +<p>Os haveres da neta do arcediago estavam reduzidos á quinta do Lumiar. +Extremas economias permittiam-lhe pagar diariamente duas missas por alma dos +seus bemfeitores, dar jantar a vinte pobres, e sustentar-se com muito +pouco.<span class="pn">{161}</span></p> + +<p>Assucena não aceitára nunca uma mealha de casa de seu padrasto, remira-se +com o seu pouco, embora sua mãe esgotasse todos os subterfugios para +melhorar-lhe as commodidades. Que poderia ella fazer em bem de Luiz da Cunha?</p> + +<p>Padre Madureira tinha apenas o seu mesquinho ordenado do cabido, como +beneficiado simples. Tambem não podia.</p> + +<p>—Que faremos?—perguntou ella ao padre.</p> + +<p>—Tenho pensado n'um meio; e não vejo outro.</p> + +<p>—Qual? foi Deus que lh'o inspirou?</p> + +<p>—Arranjarei quem empreste quatrocentos mil reis, com juros, e o pagamento a +prazos, hypothecando esta quinta. Com este dinheiro alcançarei um emprego para +Luiz da Cunha, longe de Lisboa.</p> + +<p>—Sim, sim, longe de Lisboa.</p> + +<p>—Dir-lhe-hei que é o mais que posso fazer-lhe.</p> + +<p>—Sem dizer-lhe que eu concorri para isto...</p> + +<p>—Farei a sua vontade. É conveniente que elle o ignore.</p> + +<p>Dias depois, era despachado João Maria das Neves escrivão do Juizo ordinario +do concelho de Ribeira de Pena, na Provincia de Traz-os-Montes.</p> + +<p>João Maria das Neves equivalia a Luiz da Cunha e Faro. O requerente nunca +subiu as escadas da secretaria. O seu agente foram os quatrocentos mil reis da +neta do arcediago.</p> + +<p>Na ante-vespera da sua sahida de Lisboa, Luiz da Cunha quiz saber o que era +feito de Liberata.</p> + +<p>Ao escurecer, porque não sahia de dia, foi á rua de S. Bento, e parou +defronte da casa n.º 40. Viu as janellas occupadas por um rancho de senhoras, e +deduziu que Liberata já não morava alli.</p> + +<p>Accendeu um cigarro na vela do tendeiro, que morava defronte, e como por +mera curiosidade perguntou quem morava defronte.</p> + +<p>—É a familia d'um empregado.</p> + +<p>—Aqui ha tres annos morava lá uma mulher...</p> + +<p>—Era boa rolha! chamava-se Liberata.</p> + +<p>—Justamente... Que é feito d'essa mulher?</p> + +<p>—Eu lhe conto o que sei. Depois que aqui á minha<span +class="pn">{162}</span> porta deram umas facadas n'um tal Luiz da Cunha que +morava no Campo Grande, e que lhe comia a ella a mesada que certo figurão lhe +dava, a mulher metteu-se com um jogador que a trazia nas pontinhas. Chegou a +ter duas seges a bebeda!<a name="tex2html1" href="#foot581"><sup>[1]</sup></a> +Vai, se não quando, a mulher adoece, e o tal jogador nunca mais ahi veio. +Esteve de cama onze mezes, vendeu tudo quanto tinha, os trastes até fui eu que +lh'os penhorei por cento e cincoenta mil reis que me devia do grão para os +cavallos, azeite, arroz, &c. &c. &c.</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot581" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Respeitemos a +fidelidade.</p> +</div> + +<p>—E morreu?</p> + +<p>—Qual morrer! A mulher tem sete fôlegos como os gatos. D'alli foi para o +hospital acabar de se tratar, e não ha muito que me disseram que a viram no +Bairro Alto; mas mora á porta da rua, para não ter o trabalho de subir e descer +as escadas. É no que veio parar a tal matrona das carruagens.</p> + +<p>—Sabe em que sitio ella mora?</p> + +<p>—Eu, graças a Deus, não ando por essas casas, mas quem me disse que a vira +foi aquelle barbeiro que mora acolá! Se tem muito empenho em sabêl-o, isso é +facil,</p> + +<p>—Faz-me muito favor.</p> + +<p>O tendeiro voltou, dizendo que Liberata morava na travessa da Agua da Flôr.</p> + +<p>Luiz da Cunha agradeceu cordialmente a indagação, e subiu pela travessa +Nova, mais absorvido que nunca na inconsequente trapalhada das cousas humanas.</p> + +<p>Ao voltar na esquina da rua da Rosa das partilhas viu uma mulher de chale +vermelho, saia branca, lenço atado na cabeça com as pontas em grande laço para +as costas, sahindo d'uma taverna abraçada com um marujo.</p> + +<p>Pela voz, de certo era ella, cantarolando um landum que outro marujo +arpejava na guitarra. Acabando a cantiga, o marujo phylarmonico, fazendo um +bordo largo de encontro a Luiz da Cunha, grunhiu:</p> + +<p>—Ponha-se á capa, quando não vai a pique, sû paralta!</p> + +<p>Luiz da Cunha recuou.</p> + +<p>—Canta Liberata... se não queres levar com a banza nos rizes!—tornou o +marujo, perfilando-se com o grupo.<span class="pn">{163}</span></p> + +<p>E Liberata cantou outra copla das privilegiadas da travessa da Agua da Flôr.</p> + +<p>Ella e os marujos sentaram-se na escaleira d'uma porta.—Vieram depois +outros marujos e mulheres em saia branca batendo as palmas, e saltando ás +costas dos marinheiros, que as indemnisavam dos carinhos com amaveis pontapés.</p> + +<p>O escrivão do juiz ordinario permaneceu encostado á esquina da rua da Rosa, +até ás dez horas. Os marujos debandaram, e Liberata recolheu-se sósinha.</p> + +<p>Luiz bateu á porta.</p> + +<p>—Quem nos honra?—perguntou ella.</p> + +<p>—Abre.</p> + +<p>—Quem és?</p> + +<p>—Abre sem receio.</p> + +<p>—Não conheço flamengos. Diz lá o teu nome... Se és o patavina d'hontem, +vai-te com o diabo.</p> + +<p>—Abre, Liberata.</p> + +<p>—Eu conheço esta voz...—murmurou ella.</p> + +<p>Abrindo a porta, recuou, exclamando:</p> + +<p>—És tu, Luiz?!</p> + +<p>—Em que estado te encontro!</p> + +<p>—Que queres? tornei ao que fui... Nada de lamurias. Como tu me conhecestes, +isso é que eu admiro! Pois vês em mim algum signal da mulher de ha tres annos?!</p> + +<p>—Apenas te conheço a voz, e os olhos. Que é isso que tens na cara? parece +que te queimaram com vitriolo?</p> + +<p>—Estas nódoas vermelhas?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Eu sei cá o que isto é? Está bom... não fallemos em mais nada, senão mêtto +uma faca no peito. Eu já fujo de abrir a porta a ociosos que me vem fallar na +minha formosura, e nas minhas carruagens! Acabou... Nem carruagens, nem +formosura. O diabo o deu, o diabo o levou. Tu tambem estás acabado! Disseram-me +que estavas rico, é verdade?</p> + +<p>—Não: apenas tenho um bocado de pão para cada dia.</p> + +<p>—Não te faças pobre que eu não te peço nada.</p> + +<p>—Pois, Liberata, eu venho pagar-te uma divida do pouco que posso, assim +como a contrahi do muito que podias.<span class="pn">{164}</span> Depois +d'amanhã vou empregado para a provincia, queres vir comigo?</p> + +<p>—Pois tu querias-me lá assim?</p> + +<p>—Quero... serei o teu enfermeiro.</p> + +<p>—Olha lá o que dizes!</p> + +<p>—Não me desdigo.</p> + +<p>—Eu tenho este vestido que vês.</p> + +<p>—Comprar-te-hei o que fôr da primeira necessidade.</p> + +<p>—Pois tu ainda gostas de mim n'este infeliz estado em que me vês?!</p> + +<p>—Gosto. Ha uma unica pessoa que se parece comigo n'este momento pela +desgraça. És tu. Quero viver comtigo. Quero vêr se a rehabilitação é possivel +para ambos nós.</p> + +<p>—Agora creio que é. Olha, Luiz, toda a minha philosophia desappareceu. Eu +não t'o dizia que sem dinheiro não ha philosophia? Sabes tu que tudo isto me +parece um sonho!... Ha mais d'um anno que me embriago todos os dias para me +esquecer... Hei de contar-te a minha vida... Eu não esperava vêr-te mais; mas +vê tu o que é o presentimento... Ainda não ha quatro horas que eu dizia:—«Que +impressão faria eu n'este estado a Luiz da Cunha!» O que são as cousas d'esta +vida!... Até parece que recuperei o som da palavra, fallando com o meu amante +dos tempos felizes! Ai! quem me déra ser bella para te agradar ainda! Diz-me +cá: esta machina não terá concerto?</p> + +<p>—Veremos.</p> + +<p>—Eu era ainda bella se me tirassem da cara estas manchas vermelhas. Sinto +ainda a robustez dos trinta annos; o que me falta é o fogo da alma... Vê se +fazes de mim outra mulher, que eu prometto de fazer a tua felicidade... Não me +vês a chorar? Isto é galante! Cuidei que chorara pela ultima vez quando entrei, +no hospital, pobre, e abandonada do infame que me reduziu a este estado...</p> + +<p>—Não chores, Liberata... Vamos vêr o que é o futuro. Até ámanhã.</p> + +<p>—Pois deixas-me?! Vou comtigo já.</p> + +<p>—Não. Preciso illudir alguem.</p> + +<p>Luiz da Cunha deixara alguns cruzados novos sobre uma banqueta de pinho, e +sahiu.</p> + +<p>Liberata não provou somno. As lagrimas incessantes<span +class="pn">{165}</span> eram-lhe d'um sabor novo. Nunca ella fôra tão infeliz +como n'essa noite. Havia no seu soffrimento alguma cousa que disputaria á alma +do cynico um momento de compaixão. N'aquella degradação não diremos que as +lagrimas regeneram; mas por isso mesmo que são inuteis, como o orvalho sobre a +flôr arrancada e sêcca, a mulher que as chora, é bem que nos apiedemos d'ella, +mostrando-a como exemplo, mas que a infeliz não veja que é mostrada com +escarneo!<span class="pn">{166}</span></p> + +<h1><a name="SECTION001170">XVII.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION001171">AS PRIMEIRAS E ULTIMAS LAGRIMAS DE LUIZ DA +CUNHA.</a></h2> + +<p>E dez dias depois, João Maria das Neves tomava posse do cartorio d'escrivão +do juizo ordinario no concelho de Ribeira de Pena. É escusado dizer-vos que +Liberata o acompanhára, e, ao decimo dia de convivencia com Luiz da Cunha, eram +visiveis os melhoramentos n'aquella physionomia macerada. Passado um mez, +raiavam-lhe da tez, ainda mosqueada de betas côr de açafrão, uns longes da +descomposta formosura. Luiz tinha soberba de poder tanto no espirito d'aquella +mulher, unica no mundo para elle, unica pessoa que o não repellira, que se +confiára á sua vontade, entregando-se-lhe sem condições.</p> + +<p>O homem abandonado, só, desatado de todos os liames sociaes, revoca as +potencias da sua alma para consubstanciar-se no coração da unica pessoa que o +não abomina. Ha exemplos de affeições ferventes do salteador de estrada para a +mulher que o recebe nos braços; do que aguarda na enxovia o dia do patibulo, do +assassino por officio para a mulher que a chorar lhe dá esperanças de perdão. O +instincto do sangue não adultera o da sociabilidade. A ancia d'uma affeição +recresce, quando o opprobrio vem de todas as bôcas pedir o exilio do execrado +de entre os homens.</p> + +<p>Assim se explica o enlace de Luiz com Liberata. Não ha hypocrisia no afan +com que a procura, em todas as horas vagas do trabalho. Succedem-se os dias sem +um vislumbre de fastio. Vem as longas noites do inverno, sem<span +class="pn">{167}</span> outra convivencia, encontral-os sentados ao fogão, +contando-se mutuamente lances de duas biographias, que muitas vezes são +saudadas com estrepitosas gargalhadas. Feitos para se encontrarem no mesmo +atoleiro, é necessario que ahi se amem, que ahi se reconheçam, ahi se +centralisem na mesma aspiração, e não tenham de que se envergonhar, um ante o +outro, de infamias passadas.</p> + +<p>Reconheceram-se, e amaram-se.</p> + +<p>Pois não seria amor a soffreguidão d'aquelles beijos? Não seria amor a +anciedade de Liberata, procurando-o, se lhe tardava vinte minutos mais, nos +paços do concelho? Não seria amor o orgulho com que Luiz da Cunha fallava de +sua esposa aos cavalheiros da terra?</p> + +<p>Devia acontecer que Luiz da Cunha ignorasse os mais triviaes rudimentos dos +processos judiciarios. Valêra-se d'um velho amanuense que tomára sobre si a +administração do cartorio. Entretanto, o proprietario não curava de estudar, e +cedia ao regente uma boa parte dos seus proventos, que eram poucos.</p> + +<p>Luiz da Cunha conhecêra um contrabandista de Chaves, que lhe picára o desejo +de tentar fortuna pelo contrabando. Liberata não se oppunha ao arbitrio do seu +amante. As tentativas foram prosperas, e o audacioso contrabandista aventurára +os seus capitaes, e outros contrahidos de emprestimo em arrojadas emprezas.</p> + +<p>—Se a fortuna não encravar a roda—dizia elle a Liberata—em dous annos, +iremos viver em Paris.</p> + +<p>E, com effeito, a roda da fortuna girava com a velocidade dos seus +caprichos. O escrivão não curava do officio, e raras vezes pedia contas ao +regente. As suas continuadas excursões tornaram-se suspeitas; mas, no concelho, +ninguem zelava os interesses do fisco, e Luiz da Cunha sortia das melhores +sêdas os arredores por preços modicos, e enviava para o Porto e Braga valiosas +carregações. No fim de dous annos, o contrabandista celebrava os annos de +Liberata com um rico adereço comprado em Madrid, e adiava a sua sahida de +Portugal por mais um anno, visto que não achava doze contos dinheiro +sufficiente para de Paris metter, em grande, o contrabando em Portugal.</p> + +<p>Tentára uma arriscadissima entrada de sêdas, quando os guardas-fiscaes, +logrados sempre, velavam as fronteiras<span class="pn">{168}</span> desde +Monção a Verim. Encravou-se a roda da fortuna. As cargas foram tomadas, e o +contrabandista prêso. Luiz da Cunha para remir-se gastou tudo que possuia. +Liberata foi a Chaves com o precioso peculio a salvar o amante. Choraram, +abraçando-se no carcere? Não. A antiga amante do conselheiro dizia a Luiz, +sorrindo:</p> + +<p>—Vamos para Paris? Parece-me que fez neste mez seis anos que eu te fui +buscar ao Limoeiro. É fado meu! O pior é não termos um conselheiro, que nos dê +a sege... O mais tudo vai bem. Temos feijões em casa, e muito amor para prato +de meio.</p> + +<p>As authoridades queixaram-se ao governo, allegando que o funccionario +publico João Maria das Neves era o primeiro contrabandista. Os jornaes de +Lisboa reproduziram a accusação. Ia ser demittido, quando o ministro se achou +coacto por um dos seus amigos que lhe citou uma historia d'uns quatrocentos mil +reis...</p> + +<p>O escrivão continuou funcionando. Vendeu o adereço de Liberata, e tentou +novas aventuras em pequena escala. A sorte sorriu-lhe outra vez, com quanto as +denuncias o rodeassem de perigos. Liberata acompanhava-o galhardamente nas +emprezas. Montava com varonil perfeição. Grudava um bigode com gracioso +arreganho; vestia um casaco de peles: cruzava com a perna em brunida bota +d'agua um bacamarte, e lançava com um piparote para a nuca o chapéo sevilhano.</p> + +<p>—Era esta a mulher que eu devia ter encontrado aos quinze annos!—dizia o +filho de Ricarda.</p> + +<p>Em 1845 o escrivão estava remido do preço com que comprára a liberdade dois +anos antes. Resolvêra dar o ultimo assalto á vigilancia dos guardas. Eram doze +cargas de panos d'alto preço, que podiam augmentar seis mil cruzados ao seu +peculio. Deviam entrar por Almeida.</p> + +<p>Luiz da Cunha apresentou-se ahi com a corajosa Liberata. As cargas pisaram +algumas milhas de territorio portuguez, quando os guardas a cavalo, a toda a +brida, lhe vinham no alcance. Os almocreves aperraram os bacamartes, com o +contrabandista à frente. Liberata não se afastára de ao pé do seu amante. +Travou-se um vivo tiroteio. Augmentaram os guardas. As cargas foram tomadas; +dous almocreves morreram. Luiz da Cunha fugiu, e<span class="pn">{169}</span> a +destemida cavalleira, com a clavina despejada, esporeava ao lado d'elle.</p> + +<p>—Estás salvo—disse ella—mas eu estou ferida.</p> + +<p>—Ferida! aonde?</p> + +<p>—No peito... e creio que morrerei!</p> + +<p>—Não digas tal... Apeia-te.</p> + +<p>—Não, que ouço ainda o tropel de cavallos. Quero que te salves... Se eu +cahir, não me levantes, que me não dás vida.</p> + +<p>Galoparam alguns minutos. Pararam. Já se não ouvia o ruido dos cavallos nas +extensas veigas de Pinhel.</p> + +<p>—Apeemos—disse Luiz.</p> + +<p>—Pois sim... Estou quasi morta, Luiz... Desaperta-me este collete... Vês?</p> + +<p>—Vejo sangue...</p> + +<p>—É no coração que eu sinto a bala. Isto não tem remedio...</p> + +<p>—Vamos a Pinhel... Torna a montar, minha filha.</p> + +<p>—Não posso, nem me importa morrer aqui ou em Pinhel.</p> + +<p>—Isto é atroz!... Não te posso salvar!...</p> + +<p>—Salvaste-me, Luiz. Morro contente assim... Agora é que as nossas contas +estão saldadas. Tu tiraste-me da morte da alma, e eu quiz defender-te da morte +do corpo. É um bom fim o meu! As mulheres virtuosas... raras são as que assim +morrem... Se me não encontrasses perdida de todo, não poderias nada sobre +mim... Fogem-me os sentidos, Luiz... É a vida... Deixa-me expirar bem perto do +teu coração... Como é bom morrer-se com o perfeito juizo para se conhecer a +pessoa que se deixa... com tanta saudade.. Que dôr!... o peor é deixar-te +pobre... e... só... no mundo.</p> + +<p>Liberata expirou.</p> + +<p>As primeiras e ultimas lagrimas de Luiz da Cunha cahiram sobre as faces +mortas d'essa mulher......</p> + +<p>São quatro horas da madrugada.</p> + +<p>Bateram á porta do parocho da matriz de Pinhel. O padre vem á janella e vê +um vulto disforme na escuridão.</p> + +<p>—Quem é?</p> + +<p>—Um passageiro que pede a v. s.ª licença para poder<span +class="pn">{170}</span> enterrar o cadaver d'um seu companheiro de jornada, +morto de repente.</p> + +<p>—Eu não concedo que se enterre ninguem sem ordem da authoridade civil. Não +conheço o senhor, e não sei se se trata de esconder algum crime debaixo das +telhas sagradas. Espere que seja dia para se lavrar auto, e depois fallaremos.</p> + +<p>O compassivo pastor deu-lhe com a janella na cara, e retirou-se instado por +uma voz roufenha de mulher que lhe recommendava carinhosamente que se não +constipasse, que estava suado.</p> + +<p>Era saber muito!</p> + +<p>Luiz da Cunha pousou o cadaver na parede do adro. Ouviu passos. Eram +jornaleiros que sahiam para o trabalho. Chamou dous com promessa de boa paga. +Mandou-os abrir uma sepultura no adro. Desceu a depositar o cadaver. Beijou-o +na face. Assistiu ao attêrro. Pagou aos operarios, e montou o cavallo de +Liberata, que farejava o sangue de sua dona.</p> + +<p>—Ainda me não venceste, demonio!—Hei de vingar-me da sociedade que me +quebrou o ultimo amparo! Hei de vingar-te, Liberata!</p> + +<p>Era um como rugido facinoroso esta exclamação.<span class="pn">{171}</span></p> + +<h1><a name="SECTION001180">XVIII.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION001181">A LUZ DO AMOR NAS TREVAS DA DEMENCIA.</a></h2> + +<p>Desde agosto de 1842, época da apparição de Luiz da Cunha em Lisboa, +Assucena cahiu n'uma tristeza inconsolavel, n'um ancioso desejo de morte que, +continuamente, pedia a Deus, apesar dos seus principios de resignação, e +abandono á vontade divina.</p> + +<p>Nem Rosa Guilhermina, nem o padre Madureira podiam nada contra a +misanthropia da neta do arcediago. Receavam-lhe a demencia, porque, muitas +vezes, eram desconnexas as suas ideias, e incompativeis até com a sua +religiosidade. Tentaram sahir com ella, por consentimento do visconde condoido, +a uma distracção em viagem. Assucena recusava-se, e rejeitava com enfado as +opportunas instancias de sua mãe.</p> + +<p>Queriam adivinhal-a, e não achavam vereda que os guiasse. Sabiam que a sua +devoção era cada vez mais fervente, e descobriram os cilicios com que cingia a +cintura, e as disciplinas que lhe arrancavam gemidos alta noite.</p> + +<p>As admoestações não aproveitavam nada. Esperavam todos os dias encontral-a +douda, e o que de certo lhe faltava, para que assim a julgassem, era alguma +acção peccaminosa, que desmentisse a rigidez do seu ascetismo.</p> + +<p>Nunca perguntou por Luiz da Cunha, mas pedia sempre á Virgem Mãe que fosse a +protectora d'elle, e o remisse da condemnação eterna, descontando-lhe os +sofrimentos d'este mundo.</p> + +<p>E seguiram-se assim, sem alteração para Assucena, os dias de seis annos. Em +1848 morreu a filha do arcediago<span class="pn">{172}</span> quasi +repentinamente: mas desde muito que o seu testamento estava feito. Assucena era +herdeira d'uma quinta no Minho, unica disposição que a mulher de José Bento +podia legar.</p> + +<p>Este golpe confirmou as conjecturas do padre Madureira. Assucena teve +passageiros accessos de demencia. Convalescida, ordenou ao padre que lhe +trouxesse um tabellião. Á solemnidade e bom tino da supplica, não resistiu o +padre desconfiado.</p> + +<p>Assucena dava o uso-fructo da sua quinta ao beneficiado Madureira, em quanto +vivo, com a condição de elle fazer cumprir o legado de tres missas diarias: uma +por alma do conego Bernabé Trigoso; outra por alma de D. Perpetua Trigoso; e +outra por D. Rosa Guilhermina, sua mãe. Por morte do padre, a quinta passaria á +Santa Casa da Misericordia com as mesmas condições para sempre.</p> + +<p>Madureira, sabendo nas vesperas da partida, que Assucena se retirava para a +sua quinta de Caldellas, na provincia do Minho, admoestou, supplicou, mas não +conseguiu demovêl-a do proposito.</p> + +<p>—A minha sahida d'esta casa—dizia ella—é o maior sacrificio que eu posso +fazer. Deus m'o acceitará, porque no serviço de Deus me sacrifico. Preciso ser +grata aos bemfeitores mortos, e ao vivo: os suffragios para os mortos, e a +posse d'esta quinta, meu purgatorio e paraizo, para o meu bemfeitor.</p> + +<p>—E deixa o seu bemfeitor com tamanha presença d'espirito, senhora D. +Assucena!</p> + +<p>—Deixo-o com a mais violenta dôr de coração. É o cilicio com que martyriso +o meu espirito. Deus me levará em conta esta renuncia da convivencia com o meu +bom amigo.</p> + +<p>Madureira não podia constrangêl-a, receando abreviar uma loucura +irremediavel.</p> + +<p>Acompanhou-a ao Minho, na primavera de 1849. Estiveram alguns dias no Senhor +do Monte, onde a melancolia de Assucena parecia desopprimil-a, alargando-lhe o +coração pela amplitude do céo, que, n'aquelle local, convida a um scismar +suavissimo, a uma santa saudade d'outra existencia, que deve ter precedido a +das dôres terrenas.</p> + +<p>A quinta de Caldellas é um eden. As aguas prateadas<span +class="pn">{173}</span> do rio Homem banham-lhe as orlas verdejantes. Por entre +as franças das acacias, enastradas no salgueiro, suspira a viração rescendente +do perfume das flores maninhas. Em antigos tempos, o genio bucolico de um +possuidor creára alli tudo que a invenção póde realisar de mais viçoso, de mais +lympida frescura, de mais poetico devaneio.</p> + +<p>O edificio é antigo, d'essa pittoresca architectura, sem escóla, respigada +em todos os modêlos, e acizelada pela phantasia do que ahi quizera eternizar +debaixo d'esse formoso céo os prazeres innocentes d'outras eras, d'outros +idilios que raros corações concebem hoje.</p> + +<p>Aos lados da magestosa entrada, erguem-se os cyprestes seculares, outr'ora +confidentes de segredos que a mão do amor lhes entalhára na casca, perecedoura +como tudo em que o homem quer perpetuar-se.</p> + +<p>É essa a herança da neta do arcediago. Ahi fugiram tres mezes em deliciosos +instantes a padre Madureira.</p> + +<p>Chamavam-no a Lisboa as suas obrigações clericaes, e o quasi abandono em que +deixára a quinta do Lumiar. Fôra, promettendo á lacrimosa Assucena, vir ahi +passar todos os estios. Deixára-a acariciada pela velha serva que já o fôra do +conego Trigoso. Dispôz o arrendamento da quinta para evitar á nova possuidora +canceiras d'administração. Afflictivo fôra aquelle adeus! Assucena dos braços +d'elle corrêra a lançar-se aos pés da cruz.</p> + +<p>E, depois, o oratorio, a capella, as devoções eram a sua vida. Ninguem a +encontrava fóra dos muros da quinta. Os proprios caseiros viam-na apenas +atravéz de um véo negro, no côro da capella em dias santificados.</p> + +<p>Os symptomas d'um transtorno intellectual eram sensiveis cada vez mais, não +para ella que, toda absorta em Deus, não tinha ensejo de comparar-se com os +moradores da terra; mas para a consternada velha que, de perto, lhe observava +os gestos, os temores pueris, as visões beatificas, e até a imaginaria +convicção de que o conego, em fórma de cherubim, a visitava em sonhos.</p> + +<p>E, se acontecia descer, á tarde, ás margens do rio, sentia refrigerar-se no +coração, respirava alto, sorria-se aos gratos risos da natureza, punha a mão no +seio que se agitava em estranhas commoções d'um sentimento incognito, de uma +saudade inexprimivel. E, de repente, ao<span class="pn">{174}</span> riso +succediam as lagrimas; á instantanea frescura das rosas da face a pallidez do +susto. Assucena fugia, dizendo que offendêra o Senhor com pensamentos mundanos. +Fechava-se no seu quarto, soluçando a cada vergoada que se abria no corpo com +as disciplinas.</p> + +<p>Em 1850, padre Madureira veio ao Minho, e viu que a molestia progredia. +Empregou uma religiosa severidade para arrancál-a á mystica exaltação; mas era +tarde. O disparate principiava nas devoções de Assucena. Não queria entrar na +capella, sem aspergil-a com agua-benta, por isso que vira erguer-se um homem +amortalhado sobre o carneiro onde dormia o somno de duzentos annos o fundador +d'aquella casa.</p> + +<p>Um habil confessor não podéra aclarar o espirito enturbado da mysteriosa +senhora. Imaginando-a em lucta com alguma paixão desditosa, franqueava-lhe as +portas do mundo para que se não perdesse na região das chimeras. Assucena +respondia com lagrimas ao confessor, e, apertada pela explicação das lagrimas e +do silencio, gritava pela misericordia divina.</p> + +<p>Madureira, despedindo-se d'ella no outomno de 1850, foi seguro de que não +tornaria a vêl-a senão douda.</p> + +<p>Previra bem.</p> + +<p>Quando, em 1851, voltou, foi recebido com uma gargalhada. Assucena estava +vestida com o seu chambre de cassa branca, e sapatos de duraque em fitas +cruzadas nas pernas. Eram trastes dos dezoito annos, conservados ainda nos seus +bahús de educanda. O padre respondeu com o pasmo e com as lagrimas á +gargalhada.</p> + +<p>—Porque chora?—disse ella, com tristeza.</p> + +<p>—Porque choro? Oh minha filha!... não me pergunte porque choro...</p> + +<p>—Tambem eu chorei, meu amigo, quando me disseram que o desgraçado tinha +fome...</p> + +<p>—Quem?</p> + +<p>—Pois, quem!? Luiz da Cunha, esse verme que todos pizam, desde que me +mordeu no coração. Se eu lhe perdoei, para que o perseguem? Deixem o infeliz! A +deshonrada, a infamada, a martyr, fui eu... Não quero que ninguem me vingue...</p> + +<p>—Assucena!...<span class="pn">{175}</span></p> + +<p>—Se eu fosse outra, procurava-o na cadêa... Fui eu que o abandonei +primeiro... quando o meu padrasto o pôz a ferros... Que me importava a mim a +sociedade! Quem me vem consolar das torturas que me tem custado este +abandono!?...</p> + +<p>—Isto parece incrivel, meu Deus!—exclamava o padre, voltando a face dos +olhos abrazados de Assucena.</p> + +<p>—Não me fuja, senhor padre Madureira. O senhor não tem culpa nos meus +infortunios. Ha de sempre lembrar-me que levou o dinheiro ao desgraçado, e que +lhe deu um bocado de pão, quando elle disse que tinha fome... Ouça-me... Onde +está Luiz?</p> + +<p>—Não sei, senhora.</p> + +<p>—Pois eu quero vêl-o para perdoar-lhe...</p> + +<p>—O seu perdão não melhora os infortunios d'elle. Deus é que perdôa...</p> + +<p>—Sim, sim, Deus...</p> + +<p>Assucena fugira da sala impetuosamente bradando: «Deus! Deus!» Madureira +seguiu-a, e encontrou-a no seu quarto de joelhos, com os labios collados no +pavimento, diante do oratorio.</p> + +<p>Levantou-a, e viu-lhe os olhos embaciados d'aquella nevoa cinzenta da gôta +coral. Sentou-a ao pé de si, e disse-lhe com voz tremula de compuncção:</p> + +<p>—Minha filha... Venha comigo para Lisboa...</p> + +<p>—Deus me livre! Elle ha de aqui vir ter.</p> + +<p>—Luiz da Cunha?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Viu-o alguma vez n'estes sitios?—perguntou o padre suspeitoso.</p> + +<p>—Vi... passou, ha um anno, na estrada. Estava eu no portão pela parte de +dentro. Espreitei, quando ouvi o tropel d'um cavallo. Era elle.</p> + +<p>—Fallou-lhe?</p> + +<p>—Não; nem elle podia vêr-me... Tem as barbas até á cintura; vestia uma +jaqueta de pelles, e ia tão triste, tão macilento!... Teria elle fome?</p> + +<p>—E se elle lhe pedisse de comer?</p> + +<p>—Dava-lhe tudo quanto tenho! Para que quero eu esta casa, esta quinta, +estas cadeiras, esta camiza, se eu morro muito cêdo?! Que venha, e eu dou-lhe +tudo! Não<span class="pn">{176}</span> quero que o persigam, já disse! Hei de +accusar diante de Deus quem o matar!</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Padre Madureira viveu na quinta de Caldellas alguns mezes. Quando se +retirou, deixou Assucena aos cuidados de um egresso, vindo de Lisboa por +escolha d'elle. Era irremediavel a demencia. Assucena recusava receber +facultativos, e irritava-se em frenesis quando lhe pediam que se deixasse +visitar por um medico. Se fugia á vigilancia do egresso, ia ao portão fitar o +ouvido; ouvindo tropel de cavallo, espreitava; desenganada da sua louca +esperança, sentava-se na pedra, chorando com mavioso mimo, com infantil +resentimento, até que o seu guarda, inventando promessas, a conduzia a casa.</p> + +<p>E nunca a tão bella alma d'aquella mulher resurgiu das trevas!</p> + +<p>Aos longos dias da desgraça seguiu-se a longa noite da demencia!<span +class="pn">{177}</span></p> + +<h1><a name="SECTION001190">XIX.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION001191">UM VEIO NOVO A EXPLORAR.</a></h2> + +<p>E Luiz da Cunha?</p> + +<p>Deixára Liberata na sua ultima paragem, e fôra ao concelho de Ribeira de +Pena exercer o seu officio. Os lucros de dois annos de contrabando perdêra-os +na fatal tomadia. Estava, outra vez, pobre: faltava-lhe a coragem animadora de +Liberata; cahiu n'um estupôr moral, em que o pensamento do suicidio muitas +vezes lhe esvoaçou sobre o cabo do punhal, sem poder entrar com elle no +coração. Luiz da Cunha não podia aniquilar-se.</p> + +<p>Os jornaes gritaram contra o empregado publico, de novo contrabandista. O +ministro, que já não era o mesmo que o despachára, demittiu-o. Demittido, +desencadearam-se contra elle as malevolencias do concelho, onde nunca praticara +erro de officio, que não dirigia, nem extorsão, que não precisava. Retirou-se +para o Porto, onde chegou na memoravel noite da resistencia á contra-revolução +de 9 de Outubro de 1846. Associou-se ao motim popular que prendêra o duque da +Terceira. Deu morras ao ministerio reaccionario, indicando-se victima dos +Cabraes.</p> + +<p>Entrou no serviço da junta governativa, foi tenente quartel mestre d'um +batalhão de artistas, alcançou o despacho de director d'uma alfandega da raia, +e distingiu-se com bravura em Torres Vedras, e Val-Passos.</p> + +<p>Quando os hespanhoes interventores entraram em Valença, o tenente quartel +mestre arrostou com impotente heroismo o collosso. Metteu-se debaixo das balas, +e as balas,<span class="pn">{178}</span> cruzando-se-lhe em redor, respeitaram +aquelle homem, que parecia ter o sêllo invulneravel do primeiro assassino, a +prerogativa de Caim.</p> + +<p>Desarmada a junta suprema, Luiz da Cunha ficou no Porto, vivendo de pequenos +emprestimos que alguns amigos politicos lhe faziam, e de pequenas esmolas que +algum membro da junta patrioticamente lhe dava. Assim viveu até 1850, na agua +furtada de uma estalagem da rua de S. Sebastião, d'onde foi expulso porque não +pagava. Casualmente, deparou um seu conhecido camarada que servira a junta, +como sargento de cavallaria. Convidado por elle, foi ser seu hospede ahi para +os sitios do Marco de Canavezes. Luiz da Cunha conheceu que o seu hospedeiro +amigo era um homem tambem mysterioso. O ex-sargento de cavallaria, nos +primeiros dias, teve a delicadeza de não catechisar o seu hospede aos +principios da communidade sem as theorias socialistas. Fartava-o regaladamente +á sua mesa; levava-o de patuscada a casa da sua amazia; punha á sua disposição +uma rica egua de raça para passeios, e ensinava-o a matar perdizes com +finissima pontaria.</p> + +<p>Uma noite acabavam de cear, e Luiz da Cunha historiou o mais +sentimentalmente que podia a morte da heroica Liberata. José do Taboado (era a +graça do hospitaleiro), enthusiasta pela gloria, propôz uma ovação á memoria de +Liberata, a qual, como todas, foi freneticamente recebida pela senhora Joaquina +Vêsga, intima do proponente, e bem aceita ao hospede enternecido.</p> + +<p>—Meu caro Neves!—disse, depois, José do Taboado—acabemos com isto! Queres +ser dos meus?</p> + +<p>—Se quero ser dos teus?</p> + +<p>—Franqueza, e viva amizade! Sabes quem sou?</p> + +<p>—Sei que és um excellente amigo...</p> + +<p>—Dos meus amigos; mas inimigo dos ricos. Eu sou chefe d'uma quadrilha de +salteadores. Tira o chapéo na minha presença!</p> + +<p>—Cá estou descoberto...—disse Luiz, sorrindo-se, e descobrindo-se.</p> + +<p>—Agora cobre-te. Enche esses copos, Joaquina... Á tua saude, Neves! Á saude +do meu chefe de estado maior! Aceitas?<span class="pn">{179}</span></p> + +<p>—Aceito!</p> + +<p>—Toca!—E deram-se as mãos com vertiginoso transporte.</p> + +<p>—Serás rico em pouco tempo...—continuou o chefe—para que diabo queres tu +as excellentes forças que tens? Como é que cumpres o protesto de vingança que +fizeste, quando te mataram Liberata, porque roubavas a fazenda nacional?</p> + +<p>—Tens razão......................</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Dias depois os jornaes do Porto pediam força para debellar uma poderosa +quadrilha de ladrões que assaltavam as casas famosas em dinheiro. Citaram a +morte d'uma senhora, rica proprietaria do Douro; a de um padre muito rico das +circumvisinhanças de Villa Real; e varios assaltos em fórma a casas inutilmente +defendidas. Um destacamento de infanteria dera caça aos salteadores, que +resistiram com intrepidez admiravel. Contava-se o heroismo do chefe, que +saltava vallados com um ferido no arção da sella. O ferido era Luiz da Cunha.</p> + +<p>Não obstante a escaramuça, a cohorte estendia por longe o +terror. Proprietarios isolados refugiavam-se nas +povoações, e as povoações velavam armadas com os olhos fixos nas fogueiras que +os ladrões acendiam nas quebradas das serras. Ninguem, porém, ousava +desalojal-os das suas tendas. As almenaras ardiam até ser dia; as roldas e +sobre-roldas velavam durante a noite, e Luiz da Cunha, abraçado á sua clavina +de dous cannos, dormia tranquillo com a face sobre os apparelhos da sua egua +fiel.</p> + +<p>José do Taboado não mentira. O filho de João da Cunha e Faro tinha ouro, +muito ouro, podia retirar-se com um passadio honesto, e adquirir até uma +reputação honrada. O seu pensamento era passar á Africa em 1853, com o louvavel +intuito de commerciar em generos licitos com a metropole. José do Taboado +promettêra-lhe acompanhal-o, e, para isso, liquidava os ultimos saldos com +alguns proprietarios, incursos na condemnação de Proudhon.</p> + +<p>O filho de Ricarda tinha quarenta e um annos. Julgal-o-iam de cincoenta; mas +os cabellos brancos não tinham nada com o vigor feroz da alma. O seu fito era +voltar<span class="pn">{180}</span> a Lisboa, rico, alardeando a passada +infamia, com tanto que arrastasse com correntes de ouro após si o respeito +publico. Desejava lançar aos pés de Assucena esse dinheiro que ella lhe +emprestára. Desejava levantar no cemiterio publico um faustuoso monumento a +Liberata, como insulto ás mulheres do «grande mundo.» Quatro annos de fortuna, +e o seu sonho seria visto á luz da realidade! A sua fama teria alguma cousa de +horrivel heroismo. O seu nome, partido o braço vingativo, seria levado aos +vindouros como a tradicção d'um meteoro que abrira um rasto de fogo entre os +homens.</p> + +<p>José do Taboado, que não se alteava ás concepções arrojadas do camarada, +admirava-o como um grande homem, gostava de ouvil-o, e dizia que a sua +linguagem não parecia d'um simples escrivão do juizo ordinario. Levava-o a casa +de cavalheiros de nome, que hospedavam affavelmente o salteador (não importa +explicar o disparate), e os cavalheiros maravilhavam-se do estylo puritano do +supposto Neves, e mais ainda da vasta noticia que elle dava de paizes +estrangeiros, dizendo, ao mesmo tempo, que nunca os vira.</p> + +<p>Encontraram-se uma noite em casa d'um fidalgo de Basto, onde concorreram +outros, discutindo linhagens. Excepto os presentes, que eram todos +representantes de illustres governadores das possessões portuguezas, todos os +outros eram netos de almocreves, de lavradores, e até de ciganos, afóra os +eivados de sangue judeu, que eram muitos.</p> + +<p>Um dos detractores citou, como em distracção, seu tio João da Cunha e Faro. +Luiz, agitado por tal nome, prendeu astutamente o incidente do parentesco á +conversação, dizendo que conhecêra João da Cunha e Faro, em Lisboa, onde fôra +caixeiro em 1838. Perguntou se morrêra.</p> + +<p>—Morreu doudo—respondeu o senhor Bernardo de Malafaia e Alvim de Castro e +Leite Pereira de Menezes e Sá Corrêa de Sepulveda e Cunha e Faro &c. +&c. &c.—Morreu doudo. Foi o malvado bastardo que o matou.</p> + +<p>—O bastardo?!—atalhou Luiz.</p> + +<p>—Sim: o filho d'uma mulata que elle roubou em Coimbra...<span +class="pn">{181}</span></p> + +<p>—Sabes se já morreu esse homem?—perguntou um senhor com quinze appellidos.</p> + +<p>—Não sei; mas é de crêr que sim. Ainda vos não contei a passagem dos ossos?</p> + +<p>—Já; mas conta-a ao amigo Neves, que é romantica.</p> + +<p>—Pois lá vai. Haverá sete annos que eu fui a Lisboa e hospedei-me em casa +de meu primo Ignacio da Cunha, que succedeu no vinculo de meu tio João da +Cunha. Era no verão, e resolvemos passar alguns dias n'uma bonita casa de campo +que meu primo tem em Bemfica. Foram comnosco o primo Alvaro de Castro, o primo +conde de Santa Justa, o primo D. Pedro de Malafaia, o primo D. Antonio de +Alvim, o tio Monsenhor Menezes, &c. &c. &c. Estavamos sentados +debaixo d'um caramanchão, e disse o primo João da Cunha, apontando para a álea +das amoreiras: «Alli foi que morreu a amante de meu tio João.» Contou-nos que +um velho criado, morto alguns mezes antes, lhe contára tudo, e lhe dissera o +sitio onde fôra enterrado o marido e assassino d'essa tal Ricarda, porque os +criados deram cabo d'elle.</p> + +<p>Quando ouvimos isto, tivemos, todos á uma, desejos de procurar os ossos do +tal marido. No outro dia, viemos cavar no sitio, e com effeito demos com os +ossos, e o primo D. Antonio de Alvim, mexendo na terra, encontrou um riquissimo +annel de brilhantes com uma enorme esmeralda. Procuramos mais, e achamos a +folha de um punhal com as letras que diziam «Rio de Janeiro.» Não topamos mais +nada. O que eu posso dizer-lhe, senhor Neves, é que o annel foi vendido por +duzentas moedas, por signal que o primo Ignacio da Cunha as perdeu todas contra +um valete, em casa do primo D. José de Castro e Alvim.</p> + +<p>—É uma interessante historia!—disse Luiz da Cunha em abstracta +meditação—E a tal brazileira onde foi enterrada?</p> + +<p>—Na igreja, é o que disse o tal criado.</p> + +<p>—E o filho d'essa brazileira era o tal bastardo que matou o pae!</p> + +<p>—Justamente.</p> + +<p>—E não acha que o pae foi bem morto pelo filho?</p> + +<p>—Homem! essa é de cabo de esquadra!<span class="pn">{182}</span></p> + +<p>—Se o tio de v. exc.ª, o senhor João da Cunha, foi causa da morte da mulher +d'esse homem, não era justo que o filho de tamanho crime fosse o verdugo do +pae, a viva reminiscencia d'esses dous cadaveres, o aguilhão constante de +remorso que o enlouqueceu?</p> + +<p>—O nosso amigo está muito rasoavel nos seus discursos... Essas doutrinas +são de bons tempos...</p> + +<p>—E o caso é que elle diz bem!—atalhou um fidalgo depondo as cartas do +voltarete—o filho foi o instrumento com que a Providencia castigou o pae.</p> + +<p>—Então, n'esse caso, muita gente pagou innocentemente—replicou o senhor +Bernardo de Malafaia &c.—O tal bastardo foi o açoute da humanidade. Perdeu +umas poucas de mulheres, matou outras, esteve prêso nas Antilhas por pirata... +fez o diabo.</p> + +<p>—E, por fim, é natural que se suicidasse...—disse Luiz da Cunha.</p> + +<p>—É o que elle devia ter feito ha muito—concluiu o expositor da scena dos +ossos.</p> + +<p>O filho de Ricarda projectou ajuntar ás suas futuras obras um monumento a +sua mãe.<span class="pn">{183}</span></p> + +<h1><a name="SECTION001200">CONCLUSÃO.</a></h1> + +<p>São 24 de Setembro de 1853.</p> + +<p>É meia noite.</p> + +<p>Assucena pergunta ao egresso inseparavel:</p> + +<p>—Que barulho é esse que fazem lá dentro?!</p> + +<p>—Já disse a v. exc.ª que os caseiros, sabendo que uma quadrilha de ladrões +apparecêra ao anoitecer na freguezia de S. Vicente, recearam que esta casa seja +atacada, porque dizem lá por fóra que vive aqui uma senhora muito rica.</p> + +<p>—Eu muito rica! Já o fui... agora não tenho nada...</p> + +<p>—Pois sim; mas os ladrões não se persuadem d'isso, e quem sabe se virão cá? +Os caseiros, á cautella, chamaram gente, e tratam de se pôr em defeza no caso +que elles ataquem. V. ex.ª ainda que ouça tiros não tenha medo.</p> + +<p>—Mas de que serve matal-os?! Se quer, eu vou dizer-lhes que não tenho nada, +e elles vão-se embora.</p> + +<p>—As cousas não correm assim, minha senhora. Salteadores não acreditam na +palavra das damas. O melhor é defender-se cada qual, e eu estou certo que +elles, em lhe zunindo o chumbo pelos ouvidos, vão prégar a outra freguezia.</p> + +<p>O ruido de passos e vozes augmentou na sala. O egresso chamou a criada para +ao pé de Assucena, e foi juntar-se ao povo.</p> + +<p>—Que temos, rapazes?—perguntou elle.</p> + +<p>—Os homens ahi estão.</p> + +<p>—Quem os viu?</p> + +<p>—Nós. Ouvimos estropear cavallos, e depois rugiu a ramada do portão, e +vimos um homem, ou o diabo por elle, que saltava do muro para dentro. Depois +buliram<span class="pn">{184}</span> na tranca e abriu-se a porta.... Quél-os +vêr?... Olhe... senhor frei Antonio.... olhe aqui por entre estas faias.... +Elles lá vem.... Ó rapazes, aqui é que se conhecem os homens! Quando eu disser +«fogo» é fazer de conta que se acaba aqui o mundo... Deixa-os vir... Olha... +quatro já eu lobrigo... Alli!... alli não se perde um quarto.... Deixa-os +chegar mais.... É agora!... Fogo!</p> + +<p>Despejaram-se doze espingardas ao mesmo tempo; e á detonação succedêra uma +infernal algazarra dos defensores.</p> + +<p>—Leva arriba, rapazes!—gritava o regedor aos seus—Cerca, tem mão, por +esse lado...</p> + +<p>E desceram ao páteo, animados pelo recuar dos salteadores. A sineta da +capella dava áquella infernal orchestra de berros e tiros um tiple horroroso. +Os ladrões recuavam, sustentando o fogo: accommettiam com denodo, um momento; +mas a população que os cercava não cedia aos impetos da cohorte, militarmente, +organisada em batalha á voz do chefe.</p> + +<p>A sineta chamava chusmas de povo que affluiam disparando as armas. A +quadrilha conheceu o perigo, e retirou accelerada; mas nem todos retiraram: um +tinha cahido, e não se erguêra mais. Em redor d'este cadaver agglomerou-se a +multidão. Approximaram-lhe da cara um archote de palha, e viram-lhe uma fenda +de bala sobre a orelha direita.</p> + +<p>Não era menos infernal o alarido do triumpho! Pegaram no cadaver e +levaram-no para debaixo das janellas, depositando-o sobre um banco de pedra. O +egresso veio ao quinteiro, viu-lhe a cara, e murmurou!...</p> + +<p>—Pobre homem! morreu sem sacramentos!... Oxalá que tivesse um momento de +contrição! E não está mal trajado... Deixem-no aqui ficar até amanhã, porque é +necessario que o administrador o mande levantar...</p> + +<p>Entrou no quarto de Assucena que batia os dentes como n'um tremor de +catalepsia.</p> + +<p>—Não tenha medo, minha senhora.</p> + +<p>—Mataram alguem?</p> + +<p>—Ficou um; mas lá vão os outros, que eram bastantes.</p> + +<p>—Rezemos por alma d'esse que morreu...<span class="pn">{185}</span></p> + +<p>—Pois sim, rezemos—disse o egresso, ajoelhando ao pé d'ella.</p> + +<p>—Poderá salvar-se?—disse ella, interrompendo a oração.</p> + +<p>—Deus é pae de misericordia.</p> + +<p>—Quem sabe se elle roubava por ter fome?...Vá vêr se elle não estará +morto... poderemos ainda cural-o.</p> + +<p>—Aquelle está bem morto, minha senhora.</p> + +<p>—Então rezemos: <em>Padre nosso, que estaes nos ceos, sanctificado seja o +vosso nome</em>... Não posso... Reze, senhor padre Joaquim... Eu estou muito +afflicta... Quero tomar ar... Anna... quero-me vestir... Traz-me o meu vestido +de seda preta de manga curta; os meus canhões de velludo preto; o meu lenço de +ramos amarellos; a minha saia de renda; o meu chale de cazemira vermelho...</p> + +<p>—Está com o accesso; não traga nada—murmurou o padre ao ouvido da criada.</p> + +<p>—Não ouves, Anna? Então! Tambem tu me desobedeces! Ora vamos!</p> + +<p>—Vá, vá dar-lhe essas cousas—tornou o egresso, e sahira para que ella se +vestisse.</p> + +<p>Assucena collocou-se diante do espelho.</p> + +<p>—Como são grandes estes cabellos!...—disse ella, puxando dois graciosos +pinceis de cabellos, que lhe sahiam dos angulos da maxilla inferior. Procurou +anciosa uma tesoura, e aparou-os.</p> + +<p>—Agora sim—disse ella com risonha satisfação—Assim estou mais bella para +o noivado.</p> + +<p>A criada ajudou-a a vestir. Vestida, olhou-se outra vez ao espelho, +enfeitando na cabeça desgrenhada o lenço dos florões amarellos, e puxando para +a garganta a grade preta do afogado no vestido.</p> + +<p>—Agora, vamos.</p> + +<p>—Onde, minha querida senhora?!</p> + +<p>—Vamos passear no jardim... Quero esperal-o.</p> + +<p>—Esperal-o... a quem?</p> + +<p>—És tola! Pois não sabes que Luiz da Cunha vem receber-me esta noite?</p> + +<p>—Oh minha Mãe Santissima, compadecei-vos d'ella!</p> + +<p>—Que estás a dizer? Vens, ou vou só!?</p> + +<p>O egresso entrou, chamando por Anna.<span class="pn">{186}</span></p> + +<p>—Que é?! Onde vai?!—perguntou elle a Assucena espavorida.</p> + +<p>—Vou esperal-o.</p> + +<p>—Não sahirá d'aqui... Sente-se n'esta cadeira.</p> + +<p>—Não quero! Vou sósinha, sem medo nenhum. O meu Luiz é valente...</p> + +<p>—É melhor acompanhal-a....—murmurou o padre.</p> + +<p>E sahiram pela porta do jardim.</p> + +<p>—Que linda noite!—disse ella, saltando entre os buxos.</p> + +<p>—Está muito fria a noite, senhora D. Assucena.</p> + +<p>—Fria! Ora essa! Calor tenho eu de mais no coração! Quantos annos tenho eu? +Dezoito... Queriam que eu tornasse para as Commendadeiras! Isso sim!... Quem +conheceu uma vez Luiz da Cunha, nunca mais o esquece... morre por elle... Sou +sua mulher... Jurou-m'o nos braços d'elle quando eu fugia.... Porque estou eu +aqui? Prenderam-me... fizeram bem! O amor violentado vence ou mata. Eu me +desforrarei em risos de esposa das lagrimas que tenho chorado n'este +desterro... Elle não tarda, e depois fujam os meus inimigos! Sim, fujam, que o +meu esposo é muito valente!</p> + +<p>—Recolha-se, minha senhora.</p> + +<p>—Recolher-me?! ás Commendadeiras?</p> + +<p>—Ao seu quarto...</p> + +<p>—Não quero.... Deixem-me respirar.... Vamos ao portão esperal-o.</p> + +<p>O egresso seguiu-a.</p> + +<p>Ao passarem pelo quinteiro, onde estava o cadaver, com a fogueira do costume +ao lado, Assucena perguntou:</p> + +<p>—Que é aquillo?!</p> + +<p>—É o corpo do ladrão que morreu—disse o padre, querendo afastal-a.</p> + +<p>—Quero vêl-o... coitadinho!</p> + +<p>—Não veja, senhora D. Assucena... A vista não é agradavel.</p> + +<p>—Quero vêl-o... não tenho medo aos mortos...</p> + +<p>E forçou a desprendêl-a o braço do padre. Levantou um tição da fogueira, +approximou o clarão azulado da face do cadaver,... soltou um grito que se não +descreve,<span class="pn">{187}</span> nem se imagina, deixou cahir o lume, +correu n'um impeto vertiginoso, com as mãos agarradas á cabeça pela quinta +abaixo, na ladeira que conduzia ao rio Homem.</p> + +<p>É ocioso dizer-vos de quem era o cadaver. O primeiro momento de repouso para +Luiz da Cunha principiava alli. Foi abençoada a bala que o salvou do patibulo.</p> + +<p>O egresso não podia alcançar Assucena na carreira... Gritou por soccorro, +por ella, por Deus, por Maria Santissima. Tinha-a já perdido de vista, quando +ouvia o chofre d'um corpo que baqueava na agua.</p> + +<p>No <em>Braz Tizana</em> de 24 de Setembro de 1853 lê-se o seguinte:</p> + +<p> </p> + +<p>«<em>Um cadaver.</em>—No rio Homem, acima da ponte de Caldellas, appareceu +o cadaver de uma mulher de trinta e seis a quarenta annos; tinha vestido de +sêda preta, e parece ser pessoa de consideração.»</p> + +<p>No mesmo jornal de 28 do mesmo mez e anno lê-se o seguinte:</p> + +<p> </p> + +<p>«<em>Signaes d'um cadaver.</em>—A mulher que appareceu morta acima da ponte +de Caldellas, tinha os signaes seguintes: idade trinta e seis a quarenta annos; +cabello e sobre-olho castanho-escuro; bôca e nariz regular; rosto redondo; +labios grossos; e no queixo de uma e de outra parte alguns cabellos que +mostravam ter sido aparados; um pequeno buço; vestido de seda preta com pouco +uso; manga curta; canhões de velludo preto; grade preta no afogado do mesmo +vestido, e o corpo forrado de panninho entrançado, côr de flôr de alecrim e +vermelho, com tres espartilhos no peito; chale de cachemira vermelho em meio +uso, com franja em volta, barra, e ramos pretos; na cabeça um lenço grande +azul, com ramos amarellos, de algodão, e barra da mesma côr; saia de morim +branco em bom uso com uma estreita renda em volta; saiote de baieta de seda +branca com cinco pannos quasi novo, e um pente a fingir tartaruga rendilhado e +moderno; camisa de panninho com manga curta. Ainda se não sabe quem seja.»<span +class="pn">{188}</span></p> + +<p>Lê-se no <em>Portuense</em> de 10 de Novembro de 1853:</p> + +<p> </p> + +<p>«Ha dois mezes annunciaram os jornaes do Porto a apparição de um cadaver de +uma senhora n'um dos rios de Braga ou Guimarães. Tornaram os jornaes a fallar +n'este cadaver dando as mais minuciosas informações de vestidos, de +physionomia, de idade, e até de conjecturas sobre o genero de morte que +soffreria a supposta senhora. Seguiu-se a isto um profundo silencio e nem ao +menos respirou a noticia de menor acto administrativo na investigação d'este +acontecimento. Póde ser que se désse um drama muito mysterioso, com peripecias +muito horriveis, mas o publico tem direito a perguntar se a senhora ou mulher +foi assassinada ou se se suicidou?»</p> + +<p> </p> + +<p>A resposta ao <em>Portuense</em> é um livro.<span class="pn">{189}</span></p> + +<p style="text-align: center;">FIM</p> +</div> + +<table align="center" summary="Indice"> + <tbody> + <tr> + <th colspan="2">Indice</th> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html45" href="#SECTION00110">I.—UM BERÇO BORRIFADO DE + SANGUE.</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html47" href="#SECTION00120">II.—O FRUCTO DA SEMENTE + AMALDIÇOADA.</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html49" href="#SECTION00130">III.—ASSUCENA.</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html51" href="#SECTION00140">IV.—CONTAGIO.</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html53" href="#SECTION00150">V.—UM ANJO CAHIDO.</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html55" href="#SECTION00160">VI.—ANJO CAHIDO, MAS AINDA + ANJO.</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html57" href="#SECTION00170">VII.—PERDIDO SEM + REDEMPÇÃO</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html59" href="#SECTION00180">VIII.—PROVIDENCIA OU + ACASO?</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html61" href="#SECTION00190">IX.—HERANÇA DE VIRTUDE E + OURO.</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html63" href="#SECTION001100">X.—COMO OS ANJOS SE + VINGAM.</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html65" href="#SECTION001110">XI.—SÃO MUITOS OS + LAZAROS; MAS UM SÓ O CHRISTO.</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html67" href="#SECTION001120">XII.—FASCINAÇÃO DO + ABYSMO.</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html69" href="#SECTION001130">XIII.—EXPLOSÃO DA INFAMIA + REPRESADA.</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html71" href="#SECTION001140">XIV.—CAVAR PARA OS OUTROS + A SEPULTURA, E PARA SI O INFERNO.</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html73" href="#SECTION001150">XV.—LOGICA DO + INFORTUNIO.</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html75" href="#SECTION001160">XVI.—TENHO FOME! ESTOU HA + TRES DIAS SEM PÃO!</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html77" href="#SECTION001170">XVII.—AS PRIMEIRAS E + ULTIMAS LAGRIMAS DE LUIZ DA CUNHA.</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html79" href="#SECTION001180">XVIII.—A LUZ DO AMOR NAS + TREVAS DA DEMENCIA.</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html81" href="#SECTION001190">XIX.—UM VEIO NOVO A + EXPLORAR.</a></td> + <td></td> + </tr> + <tr> + <td><a name="tex2html83" href="#SECTION001200">CONCLUSÃO.</a></td> + <td></td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p> </p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's A Neta do Arcediago, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A NETA DO ARCEDIAGO *** + +***** This file should be named 29740-h.htm or 29740-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/9/7/4/29740/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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