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-<head>
- <title>Itinerario da viagem</title>
-
-
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-
-
-
-<body>
-<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30091 ***</div>
-
-<div>
-<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b>
-Devido à
-existência de erros tipográficos neste texto,
-foram tomadas várias decisões quanto à
-versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi
-mantida de acordo com o original. No final deste livro
-encontrará a lista de erros corrigidos.<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
-Farinha (Set. 2009)
-</div>
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div class="bbox"><br />
-
-<h1>
-ITINERARIO<br />
-
-<br />
-
-DA<br />
-
-<br />
-
-VIAGEM,</h1>
-
-<h4>
-QUE FEZ A JERUSALEM O M. R. P.<br />
-
-<br />
-
-FRANCISCO GUERREIRO,<br />
-
-<br />
-
-<em>Racioneiro, e Mestre da Capella da Santa Igreja de
-Sevilha,<br />
-
-natural da Cidade de Béja.</em></h4>
-
-<h4>
-OFFERECIDO<br />
-
-<br />
-
-AO SENHOR<br />
-
-<br />
-
-ANTONIO VAN-PLATE,<br />
-
-<br />
-
-Familiar do Santo Officio.</h4>
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><img style="width: 250px; height: 189px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;">LISBOA OCCIDENTAL,<br />
-
-<br />
-
-Na Officina de DOMINGOS GONÇALVES,<br />
-
-Impressor dos Monges das Covas de Mont-furado.<br />
-
-<br />
-
-<div class="breaks">
-<hr /></div>
-
-<br />
-
-M. DCC. XXXIV.<br />
-
-Com todas as licenças necessarias.<br />
-
-<br />
-
-</div>
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><img style="width: 550px; height: 157px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-<h3>
-AO SENHOR<br />
-
-<br />
-
-ANTONIO VAN-PLATE,</h3>
-
-<h3><br />
-
-Familiar do Santo Officio, &c.</h3>
-
-<br />
-
-<br />
-
-<em>Este breve Itinerario da viagem dilatada,
-que fez a Jerusalem o Reverendo Padre Francisco Guerreiro,
-natural da Cidade de Bèja, Racioneiro, e Mestre de Capella
-da Santa Igreja Metropolitana de Sevilha, bem conhecido
-pelos seus ascendentes, os Guerreiros de Campo de Ourique,
-e pelas obras de musica, que fez estampar, sempre admiradas,
-e nunca imitaveis, impresso pelo original Portuguez,
-que deixou escrito de sua maõ, muito differente daquelle,
-que
-os Sevilhanos adulteraraõ, e publicaraõ em outro
-seculo no
-seu idioma, offereço a vossa merce; naõ para
-incitar mais o
-affecto, com que me deseja favorecer, que conheço
-naõ poder
-crescer mais, como experimento, sim por me mostrar agradecido
-a tantos beneficios, que recebo, e espero receber de sua
-Catholica, e politica generosidade.<br />
-
-<br />
-
-He este o primeiro original, que publico; e como vossa
-merce apadrinhou o acto de meu mayor empenho, honrando-me
-com a sua assistencia, em outra occasiaõ, agora desejo
-tambem
-que me faça a honra de o patrocinar, pois pela materia, pelo
-Escritor, pelas noticias que inclue, e pela antiguidade, he digno
-do seu nobilissimo, e piedoso influxo.<br />
-
-<br />
-
-Tendo eu a certeza de que he do agrado de vossa merce,
-espero que o seja de todos, pois a estimaçaõ
-vulgar sempre imita
-a particular estimaçaõ de sogeitos da
-esféra de vossa merce;
-que entendo será correspondente ao desejo, que tenho de
-obsequiar
-a vossa merce, a quem Deos guarde.</em><br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;">Af. V. e C. de V. M.<br />
-
-q. s. m. b.<br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div class="signature">
-<em>Joaõ de Carvalho.</em></div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<h3>ITINERARIO
-DA TERRA SANTA</h3>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Tendo eu, pela misericordia Divina, visitado
-os Lugares da Terra Santa, muitos devotos
-me pediraõ escrevesse esta Santa viagem,
-para que à vista do que eu vi, se abrazassem
-os seus animos, procurando seguir
-o mesmo caminho, e serem informados do
-que lhe era necessario para este fim: e por
-condescender com os seus desejos, e pelo gosto, que tenho
-da suave memoria de o haver andado, naõ me será
-molesto
-o fazer huma breve relaçaõ do que tenho visto: e
-para dar
-melhor noticia do movimento, que tive, para fazer esta
-peregrinaçaõ, he preciso começar do
-tempo, que me incliney
-a desejar ver cousas taõ dignas de hum peito Catholico.<br />
-
-<br />
-
-Depois que meus pays, e familia passaraõ da Cidade
-de Beja, minha Patria, a viverem na Villa de Zafra, me appliquey
-à arte de musica, e nella me doutrinou meu irmaõ
-Pedro Guerreiro, doutissimo na faculdade; e tanto fez com
-o castigo, e com a doutrina, sendo grande o desejo, que tinha
-<span class="pagenum">[2]</span>
-de saber, e o meu engenho accommodado à dita arte, que
-em poucos annos teve gosto, e satisfaçaõ de mim.
-Foy preciso
-o ausentarse; e eu desejando aperfeiçoarme, tive modo,
-para ser admittido às liçoens do grande, e
-excellente Mestre
-Christovaõ de Morales, o qual me deu grande luz na
-composiçaõ da musica, e me poz capaz de qualquer
-Magisterio;
-tanto, que tendo de idade dezoito annos, fuy recebido
-por Mestre de Capella, e Racioneiro da Igreja Cathedral
-de Jaem, occupaçaõ, que servi trez annos. Neste
-tempo
-vim a Sevilha a visitar a meus pays, que entaõ se
-achavaõ
-nesta Cidade, e o Cabido da Santa Igreja me deu huma
-praça de Cantor com bastante salario; e por obedecer a
-meus pays, que desejavaõ, e necessitavaõ da minha
-companhia,
-deixey o Magisterio, e Raçaõ de Jaem, estimando a
-honra, que me fazia o Cabido da Santa Igreja, ainda que
-era mayor, e de mais conveniencia a praça, que deixava.<br />
-
-<br />
-
-Poucos mezes tinha eu de residencia nesta Santa Igreja,
-quando entre seis oppositores, que havia ao Magisterio
-de Malaga, tive a primeira nomeaçaõ, por me
-quererem
-favorecer o Illustrissimo Senhor Dom Bernardo Manrique,
-Bispo desta Santa Igreja, e o Illustrissimo Cabido, e naõ
-por merecimentos meus; e mandada a nomeaçaõ a
-ElRey,
-por sua ordem tomey posse por hum Procurador. Já estava
-preparado para ir para a residencia da Raçaõ, e
-Magisterio
-desta Santa Igreja; e o Cabido da de Sevilha me impedio
-honrosamente, naõ permittindo, que eu me retirasse a Malaga;
-e para que com melhor titulo podesse deixar o que
-já possuhia, ordenou, que o Senhor Racioneiro, e Mestre
-da Santa Igreja Pedro Fernandes, Mestre dos Mestres
-de Hespanha, nosso Portuguez, jubilasse, e se lhe désse
-meya Raçaõ, e que eu tivesse a outra metade, e
-mais o salario
-de Cantor, com obrigaçaõ de dar de comer, e o
-mais
-necessario aos Seyses Typles; e que se eu lhe supervivesse,
-<span class="pagenum">[3]</span>
-entrasse em toda a Raçaõ. Vinte e cinco annos
-vivi com
-este grande sogeito na mesma casa, e depois que Deos o
-levou, fuy provido em toda a Raçaõ por Bullas
-Apostolicas.<br />
-
-<br />
-
-Os deste exercicio todos sabem, que temos muito
-particular obrigaçaõ de compor as
-Chançonetas, e Vilhancicos
-em louvor do Nascimento de Jesu Christo nosso Senhor,
-nosso Salvador, e nosso Deos, e de sua Santissima Mãy
-a Virgem Maria Senhora nossa; e quando compunha as letras
-para as Matinas de taõ luzida noite, e se nomeava
-<em>Bethleem</em>,
-se me accrescentava a devoçaõ, e desejo de ver, e
-celebrar
-naquelle Lugar Santissimo estes cantares em companhia, e
-memoria dos Anjos, e Pastores, que lá
-começaraõ a nos dar
-liçaõ desta Divina Festa: e ainda que esta
-pertençaõ era taõ
-grande, que me parecia impossivel o conseguilla, por muitos
-inconvenientes, que havia entaõ, especialmente o de
-meus pays, propuz, ainda que naõ fiz voto, de que se Deos
-me désse vida mais larga, que a delles, de fazer esta Santa
-viagem: pelo que tanto que Deos os levou desta vida, me
-pareceo, que tinha feito a mayor parte deste caminho.<br />
-
-<br />
-
-Estando sempre com este cuidado, de quando chegaria
-este tempo de me ver em taõ Santo caminho, succedeo,
-que no anno de 1588. nosso Santissimo Padre Papa Sixto
-V. mandou chamar ao Illustrissimo, e Reverendissimo Senhor
-Cardeal Dom Rodrigo de Castro, Arcebispo de Sevilha,
-e estando preparado para ir a Roma, lhe pedi me levasse
-no seu serviço, e pedisse ao Cabido o tivesse assim a bem,
-e assim o consegui por sua Senhoria Illustrissima.<br />
-
-<br />
-
-Tanto que chegàmos a Madrid, deteve Sua Magestade
-ao Arcebispo, e como o Veraõ entrasse muito caloroso,
-naõ determinou passar a diante, atè que o tempo
-refrescasse;
-e eu como desejoso de me ver já em Italia, vendo esta
-nova dilaçaõ, pedi a Sua Senhoria Illustrissima
-me désse
-<span class="pagenum">[4]</span>
-licença para hir a Veneza a estampar huns livros, entre
-tanto
-que fizesse tempo de proseguir a sua jornada, porque ao
-presente estavaõ em Carthagena as Galès do
-Graõ Duque de
-Florença. O Cardeal naõ sómente me deu
-licença, mas tambem
-me fez merce de me dar a ajuda necessaria para a jornada,
-e assim me parti a Carthagena, aonde achey outras Galès,
-que estavaõ para navegar, que embarquey para Genova,
-e dahi passey a Veneza, a que cheguey em oito de
-Agosto.<br />
-
-<br />
-
-A primeira diligencia que fiz, foy ajustar a imprenssa
-dos livros de musica; e dizendo-me o Impressor, que para
-se estamparem era necessario tempo de cinco mezes, disse
-a hum amigo meu: <em>Nesse tempo podia eu fazer a minha
-viagem
-a Jerusalem</em>; a que respondeo, dizendo:
-<em>Em boa occasiaõ
-fallais, pois ahi está huma nao nova, e boa, que vay
-para Tripoli de Syria</em>; do que tive grande alegria; e
-tomando
-a correcçaõ dos livros à sua conta o
-Mestre Joseph Zertino,
-Mestre da Capella de Saõ Marcos, e da Senhoria de
-Veneza, Varaõ doutissimo em musica, e outras artes liberaes,
-me concertey com o Escrivaõ da nao, ajustando de lhe
-dar cinco escudos pela embarcaçaõ, e por comer
-com o
-Capitaõ sete cada mez, o que he ordinario.<br />
-
-<br />
-
-Foy meu companheiro em toda esta Santa viagem
-Francisco Sanches, meu discipulo, e assim alegremente nos
-embarcamos a quatorze de Agosto de 1588. tendo eu de
-idade sessenta, sem temor do mar, nem de tantas naçoens
-inimigas, como se encontraõ nesta
-peregrinaçaõ, porque o
-gosto, que tinha desta jornada, me facilitava, e suavizava
-tudo.
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[5]</span>
-<em>Do caminho, que fizemos de Veneza a Jaffa, porto da
-Terra Santa.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-No dia seguinte, que se contavaõ quinze do dito mez,
-em que se celebrava a Assumpçaõ da Virgem Senhora
-nossa, começamos a navegar lentamente, por termos pouco
-vento, e melhorando o tempo, chegàmos à Cidade de
-<em>Parenço</em>, na Provincia de
-<em>Istria</em>; e daqui sahimos navegando
-prosperamente pela costa de
-<em>Dalmacia</em>, terra, e Patria
-do Maximo Doutor Saõ Jeronymo; e pela Esclavonia, e
-Albania, em quinze dias chegámos à Ilha de
-<em>Zante</em>, terra
-na <em>Grecia</em> de Venezianos, a que ha
-trezentas leguas de Veneza;
-deixando à maõ esquerda a Ilha de
-<em>Chafallonia</em>, e
-Golfo de <em>Lepanto</em>, adonde foy aquella
-grande batalha, que
-teve a Armada da liga Christãa com a dos Turcos, e teve
-a vitoria a dos Christãos, sendo General della o Senhor
-Dom Joaõ de Austria, irmaõ delRey Filippe II.
-nosso Senhor.
-Retivemos em <em>Zante</em> quatro dias;
-Ilha, bem provida
-do necessario para a vida humana, especialmente de vinho,
-que o ha em abundancia, e muito excellente; e vindo
-muitas naos de Levante a Poente a carregar, para todas,
-e para os naturaes ha abundantemente.<br />
-
-<br />
-
-Toda esta terra he de Gregos, e sómente os Governadores
-saõ Venezianos, como Senhores della. Tem dous
-Bispos; hum Grego, outro Latino. Tem duas Povoaçoens;
-huma junto ao mar, outra em hum alto monte, em que está
-huma boa Fortaleza. A mayor parte das Igrejas saõ de Gregos.
-Tem hum Convento de Religiosos de Saõ Francisco,
-adonde os Latinos dizemos Missa. Ouvimos aqui huma
-Missa aos Gregos; e a officiaraõ de Cantochaõ
-Ecclesiasticos,
-e seculares. He o seu canto simples, e ignorante. Dizem
-a Missa com devoçaõ, e muitas ceremonias, e huma
-dellas he, que a materia de paõ fermentado, e vinho que
-<span class="pagenum">[6]</span>
-se ha de consagrar, a traz o Sacerdote sobre a cabeça no
-Caliz
-muito cuberta, sahindo por huma porta do Altar, que
-o divide do corpo da Igreja, e dando huma volta por ella,
-se torna a recolher ao mesmo Altar, incensando hum Ministro
-ante elle, e o Povo está adorando, em joelhos, a
-materia, que ainda naõ está consagrada.
-Está esta Ilha perto,
-e fronteira à Morea, que he
-<em>Corintho</em>, adonde Saõ Paulo
-escreveo duas de suas Epistolas.<br />
-
-<br />
-
-Partidos de <em>Zante</em>, nos engolfamos
-atè chegar à Ilha
-de <em>Candia</em>, que por outro nome se
-chama <em>Creta</em>, a que haverá
-duzentas leguas. Fomos costeando-a, quasi cem legoas,
-e sem desembarcar, entramos por outro Golfo, que
-será de outras duzentas legoas, pouco mais, ou menos, e
-chegamos à Ilha de Chypre, terra fertil, e fermosissima
-de tudo o que se pòde desejar. Esta Ilha, e Reyno possuem
-os Turcos de vinte annos a esta parte, ganhando-a por
-força de armas aos Venezianos, que eraõ Senhores
-della,
-ficando os naturaes com suas casas, e fazendas, porèm
-sogeitos
-ao Turco. Os moradores saõ Gregos, e Latinos.
-Desde que sahimos de Veneza atè que chegámos a
-huma
-Cidade desta Ilha, que chamaõ
-<em>Limisol</em>, passaraõ vinte e
-sete dias.<br />
-
-<br />
-
-Desembarcados nesta Cidade, começamos a tratar
-com os Turcos, e ainda que com algum medo no principio,
-brevemente o perdemos; porque como os Venezianos
-tem paz com elles, e nòs os Peregrinos vamos a titulo
-de Venezianos, fallando na sua propria lingua, naõ ha
-que temer. Do tempo da guerra ficou muito mal tratada
-esta Cidade. A Fortaleza está arruinada da grande bataria,
-que lhe deraõ os Turcos, e as Igrejas, e Cruzes, que
-estavaõ
-nas entradas, e a mayor parte das casas, estaõ cahidas.
-Tem esta Ilha muitas cousas necessarias, e regaladas
-para a vida, muito paõ, e vinho, assucar, e grande
-quantidade
-<span class="pagenum">[7]</span>
-de algodaõ, de que carregaõ muitas naos para
-Levante,
-e Poente. Aqui reside hum Consul da naçaõ
-Franceza,
-e Italiana, que he o que está, e se poem por meyo
-entre Christãos, e Turcos, e com elle tratàmos os
-nossos
-negocios. Fomos a sua casa, e nella nos regalou; e delle
-soubemos da guerra, que o Turco tinha na Persia, e das
-companhias de gente, que passavaõ pela
-<em>Caramania</em>, que
-está muito perto, na terra firme de Asia; e da boa
-occasiaõ,
-que havia na presente conjuntura, para tornar a cobrar
-este Reyno, pela pouca guarniçaõ, que nelle tem:
-porèm
-melhor he naõ cuidar nisto, porque os Christãos
-naõ tratamos de recuperar o que perdemos; e temos
-experiencia,
-que o que estes Barbaros conquistaõ, já mais o
-perdem.<br />
-
-<br />
-
-Estando nesta Cidade, nos disse o Capitaõ, que se
-havia de dilatar com sua nao mais de vinte dias, e dalli
-navegaria para <em>Tripoli de Syria</em>; e
-assim lhe parecia, que
-partissemos para <em>Jaffa</em>, porto da
-Terra Santa, distante de
-<em>Jerusalem</em> doze legoas, e que
-adiantassemos estes dias: pelo
-que nos ajustou a quatro Peregrinos que eramos, com
-hum barqueiro, que tinha trez companheiros, e diziaõ, que
-eraõ Christãos. Levavaõ estes a sua
-barca carregada de alfarrobas
-à Cidade de <em>Damiata no
-Egygto</em>; e concertados em
-<em>vinte e cinco zequies</em>, que cada
-zequi vale huma pataca;
-e em quatro dias chegamos ao dito porto, a que ha de
-<em>Limisol</em>
-cento e vinte legoas.<br />
-
-<br />
-
-Foy alegrissima a vista a todos, descobrindo Terra,
-que com tanta razaõ se chama Santa. Do caminho vimos
-a Cidade de <em>Cesarea da Palestina</em>, e
-outras Povoaçoens,
-ainda que naõ sahimos em terra, por nos aproveitarmos do
-bom tempo, e chegarmos com brevidade ao porto desejado.
-De <em>Veneza</em> atè
-<em>Jaffa</em> gastamos trinta e dous dias.
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[8]</span>
-<em>Da Cidade de Jaffa, e do caminho que fizemos
-atè Jerusalem.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Esta Cidade, que por outro nome se chama
-<em>Joppe</em>, foy
-muito principal, como se colhe das ruinas dos seus
-edificios. He muito celebrada na Santa Escritura pelas cousas,
-que nella aconteceraõ. Aqui se embarcou
-<em>Jonas Proféta</em>,
-quando fugindo elle de Deos, lhe ordenou este Senhor,
-que fosse prégar a
-<em>Ninive</em>; e pela tempestade, que
-por sua culpa permittio Deos, foy lançado no mar, e tragado
-da Balea. Aqui esteve algum tempo o <em>Apostolo
-Saõ Pedro</em>,
-e nella vio aquella visaõ do Ceo aberto, e baixar hum
-vaso ao modo de hum lançol, cujas pontas chegavaõ
-ao
-Ceo, cheyo de serpentes, e aves, e outros animaes, e Deos
-lhe mandava, que matasse, e comesse; e o mais, que nos Actos
-dos Apostolos se refere.<br />
-
-<br />
-
-Aqui resuscitou o mesmo Santo Apostolo a huma mulher,
-chamada <em>Dorcas</em>; e por estas, e
-outras muitas particulares
-cousas, que ha, e succederaõ nesta Cidade, he muito
-famosa, e muito celebrado o seu porto. Logo que o nosso
-barco chegou, e deu fundo, veyo da terra outro barco encaminhado
-ao nosso, em que vinha o <em>Subasi</em>, que
-he o Aguasil
-da Cidade de <em>Ramà</em>, com
-oito, ou dez arcabuzeiros, e
-frecheiros, e chegando ao nosso barco, entraraõ nelle,
-olhando
-para nòs, e dizendo: <em>Christiani,
-Christiani</em>? E nòs baixando
-a cabeça, lhe demos a entender, que sim. O barqueiro,
-quando vio, que elles vinhaõ, escondeo dous barris de vinho,
-por saber o quanto desejaõ este licor, deixando
-sómente
-o que bastava para a merenda, que constou de paõ,
-e queijo, e alfarrobas.<br />
-
-<br />
-
-Acabada a merenda, nos fez sinal para que entrassemos
-no seu barco; e fomos para terra Christãos, e Turcos
-muito alegres, rindo de hum Turco, que se emborrachou,
-ao qual diziaõ os companheiros muitas galantarias.
-<br />
-
-<br />
-
-<span class="pagenum">[9]</span>
-Chegados a terra, nos pedio o <em>Subasi</em>
-de entrada hum
-<em>zequi</em> por cada hum; e recebido, nos
-encomendou a hum
-Turco, para que nos guardasse: e visto que naquella noite
-haviamos de dormir no chaõ, em humas Tercenas antiquissimas,
-entrámos em requerimento com o Turco nosso guarda,
-para que nos deixasse dormir em hum barco no mar; e elle
-ainda que o difficultou, concedeo a licença tanto que lhe
-démos certas moedas.<br />
-
-<br />
-
-O <em>Subasi</em> naquella mesma noite partio
-para <em>Ramà</em>,
-distante quatro leguas; e lhe pedimos nos mandasse hum
-homem com bestas para nos levar a
-<em>Jerusalem</em>, o que
-elle prometteo, e cumprio. Aquella noite, e a que se seguio,
-estivemos em hum barco cheyo de Peregrinos, que vinhaõ
-de <em>Jerusalem</em>, em que se
-achavaõ quatro Cavalleiros Francezes,
-e alguns Religiosos, que nos regalaraõ no tempo,
-que alli estivemos.<br />
-
-<br />
-
-No terceiro dia chegou hum homem de
-<em>Ramà</em>, que se
-chamava <em>Atala</em>, e trouxe para cada
-hum de nòs hum jumento,
-e nos ajustámos os quatro Peregrinos com elle em vinte
-e quatro <em>zequies</em>. Neste tempo
-chegaraõ mais dous Perigrinos,
-hum Religioso de Saõ Francisco, que vinha do
-<em>Cayro</em>,
-e hum Clerigo, ambos Francezes; e logo muitos Gregos
-com mulheres, e filhos; e todos juntos fizemos jornada
-para Jerusalem.<br />
-
-<br />
-
-Fallava o homem com quem caminhavamos muito bem
-a lingua Italiana, e dizia, <em>que era
-Christaõ</em>; ainda que algumas
-vezes por graça, (que a tinha, e entendimento)
-respondia, quando lhe perguntavamos porque comia de
-boa vontade com Mouros, e Turcos: <em>Olha, eu sou Mouro
-com os Mouros, e Christaõ com os Christãos, e com
-os ladroens
-sou ladraõ</em>; e eu lhe dizia:
-<em>Sede vòs, amigo Atala, o
-que quizeres; mas agora comnosco sede
-Christaõ</em>.<br />
-
-<br />
-
-Chegámos a
-<em>Ramà</em>, que por outro nome
-se chama
-<span class="pagenum">[10]</span>
-<em>Ramata</em>, adonde estivemos trez dias.
-Todo este caminho
-atè <em>Jaffa</em> he plano; ha
-muitas oliveiras, vinhas, e outras
-frutas, e entre estas huma mayor que meloens, que se
-chama em Italia <em>Anguria</em>: he muito
-fresca, e os Turcos
-usaõ muito della para entreterem a sede. Foy esta Cidade
-muito fermosa em edificios, e ao presente está arruinada;
-ainda que alguns existem, e algumas Igrejas, e Torres, especialmente
-a de <em>Saõ Jorge</em>, que
-está fóra da Cidade.<br />
-
-<br />
-
-Aqui pousámos em huma casa, que ainda que em
-parte estava derrubada, tinha bastante commodo para todos
-os da comitiva. Dizem, que era de
-<em>Nicodemus</em>: agora
-he dos Religiosos de Jerusalem, e nella se recolhem os Peregrinos.
-Nesta Cidade ha muito de comer, e barato, especialmente
-gallinhas. Por grande alivio tivemos, que hum
-homem nos alugasse humas esteiras para domir, e démos
-algumas
-moedas a hum Turco, para que nos guardasse da parte
-de fóra do aposento; e apressando todos a
-<em>Atala</em> nosso
-guia, para que fizessemos jornada, nos disse, que era preciso
-avisar a hum Capitaõ de Arabes, para que estivesse
-em certo passo, para nos segurar de outros Arabes ladroens,
-que nelle andavaõ roubando; o que assim foy, pois na
-manhãa
-em que madrugámos para sahir desta Cidade, ao amanhecer,
-achámos naquelle passo o Capitaõ que dizia, com
-vinte Arabes de cavallo bem armados. Fizeraõ-nos deter a
-todos, e passada pouca mais de meya hora, que o nosso
-<em>Atala</em> fallou com elles,
-passámos de largo, e seguimos o
-nosso caminho, e depois que delles nos apartámos, veyo
-correndo a mim hum delles a cavallo, e tocando por todo
-o meu fato, dizia: <em>Jarap, jarap</em>; no
-que me pedia, se levava
-vinho, que lhe désse de beber; e como lhe disse:
-<em>Que de boa vontade lhe satisfizera a sede, se o
-levara</em>, se
-foy muito triste, e eu fuy bem alegre, por me ver livre delle.<br />
-
-<br />
-
-Por todo este caminho atè Jerusalem a cada legoa nos
-<span class="pagenum">[11]</span>
-sahiraõ quinze, ou vinte Arabes com arcos, e frechas,
-taõ
-morenos do Sol, e taõ mal vestidos, que pareciaõ
-os diabos,
-dando milhares de gritos ao nosso <em>Trucimaõ
-Atala</em>,
-para que lhes désse o
-<em>Gafar</em>, que he certa portagem,
-que lhes pagão, os que passaõ por aquellas partes
-por via
-de paz; porque todos estes Arabes naõ estaõ
-sogeitos ao
-Graõ Turco, nem a outro nenhum Senhor; e outra renda,
-ou officio naõ tem, mais que o que roubaõ.
-Parecem quando
-nos sahem ao encontro, e nos poem as frechas nos peitos,
-que nos querem assettear, e com lhe dar dous, ou trez
-tostoens por todos, estaõ contentes; e com todos os mais,
-que nos sahem de legoa em legoa, praticamos o mesmo; e
-ainda que saõ ambiciosos de modo, que nos apalpaõ
-as algibeiras,
-e tiraõ o que nellas achaõ, saõ
-taõ comedidos,
-que podendo tomarnos os escudos, que levamos escondidos,
-vamos seguros pelo respeito, que todos tem ao nosso
-<em>Trucimaõ Atala</em>, em
-aquelles caminhos, e porque os castigariaõ,
-se nos tratassem mal, e os prendessem. Vimos neste
-caminho muitas Igrejas, naõ de todo arruinadas, que a
-pouco custo se podiaõ reparar. Vimos hum edificio antigo,
-que dizem ser a casa do Bom
-<em>Ladraõ</em>. Vimos as ruinas da
-Cidade de <em>Modin</em>, terra, e Patria dos
-<em>Machabeos</em>. Todo este
-caminho he plano, e sómente quatro legoas antes de Jerusalem
-he a terra montuosa, e pedregosa.<br />
-
-<br />
-
-Tanto que foy meyo dia, descançámos à
-sombra de
-humas oliveiras, junto a huma fonte; e estando comendo
-do que levavamos da Cidade de
-<em>Ramà</em>, chegou hum Turco,
-montado em hum fermoso cavallo, e sem se apear, comeo
-do que lhe dey com a minha maõ. Adverti no bom talhe do
-seu corpo, e o como vinha preparado para a guerra. Trazia
-lança, cimitarra, arcabuz, arco, e frechas, e
-maça, de
-que pendiaõ oito facas, adaga, punhal, e martello.
-Pareceo-me,
-que podia contender com dez homens, e ainda
-<span class="pagenum">[12]</span>
-tirar-lhes a vida. Vejaõ se he necessario hirem bem
-prevenidos,
-e petrechados, os que forem peleijar com esta gente.
-Este lugar aonde descançámos, está
-junto ao Valle <em>Terebintho</em>,
-em que <em>David</em> matou ao
-<em>Filisteo Goliath</em>. Passámos
-hum rio de pouca agua, e conjecturo ser este, o em
-que <em>David</em> colheo as cinco pedras,
-que levou no çurraõ,
-quando foy para a batalha, e com que venceo ao Gigante.
-Aqui ha huma ponte quasi destruida, que mostra ainda
-hoje, que foy soberbo edificio.<br />
-
-<br />
-
-Passado este Valle, e rio, subimos huma grande legoa
-de costa, e no alto dèmos em caminho plano, ainda
-que pedregoso: chegando nòs à
-<em>Cidade Santa de Jerusalem</em>,
-que está rodeada de montes, e sómente se
-vê della alg[~u]a
-cousa do monte <em>Olivete</em>, daqui
-descobrimos hum pedaço
-de muro, e as Torres do Castello; e foy tal a nossa alegria,
-e taõ extraordinario o contentamento, que todos os
-Peregrinos
-Latinos, e Gregos nos apeámos, beijando muitas vezes
-a terra, dando muitas graças, e louvores a Deos, e
-enviando-lhe
-milhares de lagrimas, e suspiros devotissimos,
-dizendo cada hum sua devoçaõ à Santa
-Cidade, e repetindo
-muitas vezes: <em>Urbs beata Hierusalem</em>.<br />
-
-<br />
-
-Neste tempo nos sahio a receber hum Christaõ, chamado
-<em>Bautista</em>, que serve aos Religiosos
-de lingua para
-com os Mouros, e Turcos, e falla bem Italiano, mandado
-pelo <em>Padre Guardiaõ</em>, que
-já tinha noticia da nossa hida;
-e como chegámos à porta da Cidade, nos fez
-sentar, e que
-esperassemos o aviso do <em>Padre
-Guardiaõ</em>, que he, a quem o
-<em>Pontifice</em> tem nomeado por
-Cabeça dos Latinos; e seria
-passada quasi meya hora, quando chegaraõ dous Religiosos
-Italianos, e nos saudaraõ da parte do Padre
-Guardiaõ,
-e que fossemos bem chegados, e que esperassemos hum
-pouco, em quanto elles procuravaõ dos Turcos a
-licença
-da entrada; que logo vieraõ, e examinaraõ a
-roupa, que
-<span class="pagenum">[13]</span>
-levavamos, que era bem pouca; e he o que mais convèm
-para segurança do Peregrino. Logo que tudo viraõ,
-nos deraõ
-a entrada livre, pagando cada hum dous <em>zequies de
-ouro</em>.
-Os Gregos como mais de casa, e Vassallos do Turco,
-entraraõ logo, e foraõ ao seu Patriarcha; e neste
-tempo
-vieraõ os Religiosos, e nos levaraõ aos seis
-Latinos, que
-eramos. Em 22. de Setembro de 1588. dia do glorioso
-<em>Saõ
-Mauricio</em> entrámos na
-<em>Cidade Santa</em>, passados trinta e sete
-dias, que tinhamos sahido de <em>Veneza</em>.<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><em>Da Santa Cidade
-de Jerusalem, do Sagrado monte Sion,
-e de suas Estaçoens.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Levaraõ-nos os dous Religiosos ao Convento de
-<em>S. Salvador</em>,
-que he o principal da <em>Terra Santa</em>,
-adonde nos
-receberaõ os Religiosos processionalmente, cantando
-<em>Te
-Deum laudamus, &c.</em> Entrámos na
-Igreja, que está no alto
-da casa, e depois de fazer oraçaõ, se poz hum
-Religioso
-junto ao Altar, e fez em lingua Italiana huma muito devota
-pratica, em que nos representou a grande merce, que
-Deos nosso Senhor nos fizera, de nos permittir o ver aquelles
-Santuarios, e Lugares Santissimos, e nos exhortou, a
-que nos dispuzessemos a ganhar as Indulgencias, confessando,
-e commungando.<br />
-
-<br />
-
-Acabada a Pratica, nos levaraõ a huma casa, com a
-mesma Procissaõ, adonde nos lavaraõ os
-pès com muita devoçaõ,
-cantando Hymnos, e oraçoens; e acabado o lavatorio,
-nos deraõ bem de cear; e logo nos guiaraõ para
-huns
-aposentos, e a cada hum nos sinalaraõ cama, em que dormimos,
-e descançamos alegrissimamente, por nos Deos Senhor
-nosso fazer taõ singularissima merce, que naõ
-concede
-a todos, pois muitos Principes, e Reys o desejaõ, e
-naõ alcançaõ.
-<br />
-
-<br />
-
-<span class="pagenum">[14]</span>
-No seguinte dia nos preparámos para a confissaõ,
-e
-o Padre Guardiaõ deu faculdade aos Confessores, para nos
-absolverem plenariamente, porque tem as vezes do Pontifice;
-e mostrando-lhe as nossas Dimissorias, nos deu licença
-para dizer Missa. Ha trez Altares nesta Santa Igreja, e
-todos privilegiados, isto he, que se tira Alma do Purgatorio.<br />
-
-<br />
-
-Acabado o Officio, nos encomendou a hum virtuosissimo
-Religioso Italiano, chamado
-<em>Salandria</em>, que havia
-vinte annos, que estava na <em>Terra
-Santa</em>, para andar as Estaçoens
-comnosco; e elle, e hum Companheiro, e
-<em>Bautista</em>,
-que já nomeey, que he o nosso Interprete com os Mouros,
-e Turcos, e nos defende dos rapazes, que nos tiraõ pedradas
-pelas ruas, e nos avisa do que havemos de fazer, de que
-naõ tussamos, nem cuspamos, porque entendem os Mouros,
-e Turcos, que zombamos delles, começámos com
-alegria,
-e devoçaõ a andallas; e muitos Religiosos se
-associaraõ
-tambem para o mesmo, que supposto tenhaõ visto muitas
-vezes aquelles Lugares Santos, naõ perdem a
-occasiaõ
-de os visitar, e ganhar as muitas Indulgencias, que lhes saõ
-concedidas.<br />
-
-<br />
-
-Deste modo, e com este Santo acompanhamento sahimos
-os seis Peregrinos; e a primeira Estaçaõ, que
-fizemos,
-foy à Igreja do <em>Apostolo
-Santiago</em>, em que o Santo foy degollado.
-He esta Igreja de Armenios, muito grande, e bem
-fabricada. A Capella da degollaçaõ
-está à maõ esquerda da
-entrada da Igreja, adonde está hum marmore debaixo do
-Altar, que tocámos, e reverenciámos. Tem os
-Armenios
-huma boa casa continuada com esta Igreja em fórma de
-Convento.<br />
-
-<br />
-
-Daqui fomos à casa de
-<em>Anàs</em>, adonde
-<em>Christo Senhor
-nosso</em> foy levado tanto que o prenderaõ. He
-Igreja de Armenios.
-Aqui deraõ a <em>Christo Senhor
-nosso</em> a bofetada. Mostra-se
-<span class="pagenum">[15]</span>
-aqui huma <em>Oliveira</em>, a que dizem
-estivera <em>Christo Senhor
-nosso</em> atado, em tanto, que Anàs sahia para
-o ver. Tem Indulgencia
-plenaria.<br />
-
-<br />
-
-Deve saberse, que em todos os Santuarios, que se andaõ
-em toda a <em>Terra Santa</em>, se diz hum
-<em>Hymno</em>,
-<em>Antiphona</em>,
-<em>Verso</em>, e
-<em>Oraçaõ</em>, para o
-que ha livro particular, e rezado
-hum Padre nosso, e huma Ave Maria, se nos explica o
-mysterio do tal Lugar.<br />
-
-<br />
-
-Fomos daqui à casa de
-<em>Caifás</em>, em que
-está huma
-Igreja no Lugar em que <em>Christo Senhor
-nosso</em> foy accusado,
-e tudo o mais que consta do <em>Santo
-Euangelho</em>. Visitámos o
-Altar mayor, e lhe serve de cuberta a
-<em>Pedra</em>, que estava
-à porta do <em>Santo
-Sepulchro</em>, a qual com razaõ
-difficultavaõ
-as <em>Santas Marias</em>, dizendo:
-<em>Quem nos tirarà a pedra?</em>
-porque he de dez palmos, pouco mais, ou menos, de comprimento,
-e quatro de largura, e muito grossa. Na Capella
-mayor ha na parede hum retrete pequeno, em que sómente
-poderáõ caber dous homens, e para se poder entrar
-he de joelhos, por ter huma pequena entrada: he este o
-Lugar adonde <em>Christo Senhor nosso</em>
-esteve como encarcerado,
-em tanto que o Pontifice sahia para o ver.<br />
-
-<br />
-
-Sahimos da Igreja a hum patio, que está junto a ella,
-em que se vê huma
-<em>Larangeira</em>, e he o lugar em que
-estavaõ
-ao fogo os Ministros de
-<em>Caifás</em>, e adonde
-<em>Saõ Pedro</em> negou
-a <em>Christo</em>. Do alto desta casa, (que
-está <em>poucos passos
-fóra do muro da Cidade</em>) fizemos
-oraçaõ, e ganhámos as Indulgencias
-do <em>Santo Cenaculo</em>, que
-está perto della, no alto
-do <em>Monte Sion</em>, que por esta parte
-naõ he mais alto, que
-a Cidade. Naõ entrámos nelle, porque os Turcos,
-com lastima
-nossa, o fizeraõ Mesquita. Aqui foy o Lugar, em que
-<em>Christo Senhor nosso</em> ceou com seus
-Discipulos, e instituhio
-o <em>Santissimo Sacramento</em>, donde lhes
-lavou os pés, donde
-baixou o <em>Espirito Santo</em> no dia
-<em>Pentecostes</em>; e donde habitava
-<span class="pagenum">[16]</span>
-a <em>Virgem Senhora nossa</em>. Neste
-<em>Cenaculo</em> assistiaõ os
-Religiosos de Saõ Francisco, e haverá trinta
-annos, que o
-Turco o tirou aos Religiosos. A causa dizem, que foy, que
-huns Judeos disseraõ ao Turco, [~q] alli era a sepultura de
-David,
-e que naõ era justo, que os Christãos pizassem a
-sepultura
-de taõ grande Proféta, e Rey: e como os Turcos
-tem muita veneraçaõ aos Profétas do
-Testamento Velho,
-mandou, que os Religiosos tomassem casa dentro em
-<em>Jerusalem</em>;
-pelo que vieraõ para a Cidade, e compraraõ huma
-boa casa, que he a de <em>Saõ
-Salvador</em>, em que agora vivem:
-ainda que por estar no Castello, que se chama dos
-<em>Pisanos</em>,
-Fortaleza da <em>Santa Cidade</em>, Lugar
-eminente, os Turcos lhe
-derrubaraõ os aposentos altos, porque naõ
-estivesse igual
-com o Castello; e assim saõ terreos os aposentos. Este
-<em>Santo
-Cenaculo</em> foy a Casa Real; e tudo o que em circuito
-está
-despovoado, era o mais principal da Corte de
-<em>David</em>, e
-dos mais Reys. Agora sómente está a Casa, e
-Igreja do <em>Santo
-Cenaculo</em>; o mais està despovoado.<br />
-
-<br />
-
-Sahidos da Casa de
-<em>Caifáz</em>, e da Cidade,
-baixando
-hum pouco pelo <em>Monte Sion</em> para a
-parte do Oriente, está
-o Lugar, adonde, levando os Apostolos a sepultar o
-<em>Corpo
-da Virgem nossa Senhora</em>, lho quizeraõ huns
-Judeos tirar,
-e secou o braço do seu Sacerdote, que atrevido tocou no
-esquife; e depois lhe foy restituido, e se converteo à
-Fé.
-Naõ ha outro sinal desta memoria, mais que hum
-montaõ
-de pedras. Aqui se ganhaõ muitas Indulgencias.<br />
-
-<br />
-
-Baixando mais alguma cousa por este <em>Monte
-Sion</em>,
-junto do muro da <em>Santa Cidade</em>,
-está o Lugar, adonde Saõ
-Pedro <em>Flevit amarè</em>: e hum
-pouco mais abaixo, junto ao
-muro antigo, está huma igreja, e Casa, como Convento,
-fermosissima no exterior; e no mais alto da Torre tem huma
-grande mea Lua de ferro. Nesta Igreja foy a <em>Santissima
-Virgem
-Maria Senhora nossa</em> presentada, sendo menina, com
-<span class="pagenum">[17]</span>
-as demais Virgens. He agora principal Mesquita dos Mouros,
-e Turcos; e está no ambito do <em>Templo de
-Salamaõ</em>, que
-he dos muros a dentro.<br />
-
-<br />
-
-Baixando o que resta do Monte Sion, chegámos ao Valle
-de <em>Josaphat</em>, de que logo direy por
-levar direita a ordem,
-que tivemos em andar as Estaçoens pela outra parte da
-<em>Santa
-Cidade</em>, e tornemos ao Convento de
-<em>Saõ Salvador</em>, para
-dahi as proseguirmos.<br />
-
-<br />
-
-No outro dia começando as Estaçoens, fomos pela
-<em>Rua da Amargura</em>, por onde
-<em>Christo Senhor nosso</em> sahio a
-morrer, levando a Cruz às costas da casa de
-<em>Pilatos</em> atè o
-<em>Calvario</em>. Deixámos
-à maõ direita a Igreja do dito
-<em>Calvario</em>,
-e <em>Santo Sepulchro</em>, em que
-naõ entrámos, por a reservarmos
-para a ultima Estaçaõ; e vimos a casa da piedosa
-mulher, que com huma limpa toalha, chegando a ao
-<em>Divinissimo
-rosto de Christo Senhor nosso</em>, o tirou estampado com o
-seu preciosissimo Sangue, e com a sua verdadeira effigie.
-Duas dobras tinha esta toalha; huma se venera em Roma,
-outra na Santa Igreja Cathedral de Jaem. Nesta rua vimos
-a casa do rico Avarento, que naõ quiz dar esmola de suas
-migalhas ao <em>pobre</em>, e
-<em>Santo Lazaro</em>; e o Lugar, adonde o
-Cyrineo
-tomou a Cruz a <em>Christo Senhor nosso</em>,
-para lha ajudar
-a levar, e adonde as filhas de Jerusalem o choravaõ, quando
-o Senhor lhes disse: <em>Filiae Jerusalem,
-&c.</em> Tambem vimos
-a casa de Pilatos, da qual sahe hum arco em que estaõ
-duas janellas, que saõ as mesmas pedras daquelle tempo,
-e de huma dellas mostrou este Juiz a <em>Christo Senhor
-nosso</em> ao
-Povo, quando disse: <em>Ecce homo</em>. Por
-baixo deste arco passa
-a rua principal; e agora serve esta casa à
-Justiça. Ha muitos
-Santuarios nesta rua destruidos; e hum delles se edificou
-em memoria do sentimento, e dor, que a <em>Virgem Senhora
-nossa</em>
-teve, quando vio a <em>Christo seu Unigenito Filho Senhor
-nosso</em> com a Cruz às costas; e em todos ha
-muitas, e grandes
-<span class="pagenum">[18]</span>
-Indulgencias. Junto desta casa, que referi, rua acima, está
-a casa delRey Herodes, adonde
-<em>Pilatos</em> mandou a
-<em>Christo
-Senhor nosso</em>, que delle foy desprezado, e do seu
-exercito,
-e vestido de huma vestidura branca, o remetteo a
-<em>Pilatos</em>.
-Vimos tambem o carcere donde o Anjo tirou a
-<em>Saõ Pedro</em>.
-Aqui ha hum pedaço de Igreja bem fabricado. No primeiro
-de Agosto celebra a Santa Igreja Catholica esta memoria.<br />
-
-<br />
-
-Proseguindo o nosso caminho por estas ruas, pelas
-quaes foy <em>nosso Redemptor</em> derramando
-o seu Sangue purissimo,
-e preciosissimo, fomos ao <em>Templo de
-Salamaõ</em>, e sem
-que nelle entrassemos (porque naõ he permittido aos
-Christaõs,
-e se algum entra, lhe custa a vida temporal, ou a espiritual,
-renegando da Fé) vimos a
-<em>Piscina</em>, que está junto
-ao dito Templo, em que <em>Christo Senhor
-nosso</em> deu saude ao enfermo
-de trinta e oito annos de enfermidade. Agora naõ tem
-agua, e está chea de herva, e arvores de nenhum prestimo.
-Ainda se vem vestigios dos portaes, que entaõ havia. Esta
-<em>Piscina</em> está junto da
-porta da Cidade, e da casa de <em>Saõ
-Joachim</em>, e <em>Santa
-Anna</em>, pays da <em>Virgem Senhora
-nossa</em>, e aqui
-foy a sua purissima Conceiçaõ.
-Entrámos neste Santo Lugar,
-que está quasi debaixo da terra; o que succede em
-commum a todos os edificios; porque com a antiguidade
-do tempo os vay occultando em si a terra, que cresce, cahindo
-huns edificios sobre outros: e sahindo pela porta da
-<em>Santa Cidade</em>, que se chama de
-<em>Santo Estevaõ</em>, baixando
-como
-sessenta passos, visitámos o Lugar em que este Santo foy
-apedrejado, em que esteve huma Igreja, e hoje hum montaõ
-de pedras.<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><em>Do Valle de
-Josaphath.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Baixando mais cincoenta passos, chegámos ao Valle de
-Josaphath, que he bem apertado. Este Valle está entre
-o <em>Monte Olivete</em>, e o
-<em>Monte Sion</em>, ou Jerusalem, que he o
-<span class="pagenum">[19]</span>
-mesmo; porque a <em>Santa Cidade</em>
-está edificada no <em>Monte
-Sion</em>,
-pelo que parece, que o dito Valle he como fosso da
-<em>Santa
-Cidade</em>. Ao presente naõ tem agua, mas
-quando chove, dizem
-que leva muita, porque a chuva, que baixa do <em>Monte
-Olivete</em>, e Monte Sion, se recolhe neste Valle.<br />
-
-<br />
-
-Ha nelle boas oliveiras, algumas figueiras, e hortaliças.
-Passando a ponte, visitámos huma fermosa Igreja de
-cantaria bem lavrada; e entrando nella, baixámos por huma
-escada muito larga, que terá quasi quarenta degraos; e
-à
-maõ direita desta escada estaõ em huma Capella os
-Sepulchros
-de <em>Saõ Joachim</em>, e de
-<em>Santa Anna</em>, pays da
-<em>Virgem Senhora
-nossa</em>, e defronte desta está outra
-Capella, em que
-se vê o Sepulchro do Senhor <em>Saõ
-Joseph</em>, Esposo da <em>Virgem
-Senhora nossa</em>. No baixo desta Igreja vimos huma grande
-nave, e à dita escada está fronteira outra
-Capella, o que
-faz hum Cruzeiro bem formado. Na Capella, que he a mayor,
-sem tocar em alguma das paredes, como Ilha, está
-huma Capellinha pequena, em que só podem caber dous
-homens; e nella está o Sepulchro da sempre
-<em>Virgem Maria
-Senhora nossa</em>. He de pedra, com outra que a cobre,
-sobre
-que dizemos Missa. Os Religiosos de Saõ Francisco tem
-chave desta Capella, e as mais naçoens de
-Christãos, para
-entrarem quando querem celebrar; para o que fechámos as
-portas por dentro, porque os Mouros, e Turcos naõ entrem
-a perturbarnos; e assim quietamente dissemos Missa quatro
-Sacerdotes sobre o Sepulchro da Virgem Senhora nossa, que
-serve de Altar. Naõ sey explicar a suavidade espiritual, que
-todos sentimos, dizendo Missa em tal Santuario; e nelle
-se ganhaõ muitas, e grandes Indulgencias. Tem esta Igreja
-pouca luz, porque sómente lhe entra por huma fresta,
-que tem na Capella mayor, que está ao Oriente; e alguma,
-que entra pela porta; e naõ he bastante para andar
-por ella sem luzes de cera, que levavamos. Está este
-edificio
-<span class="pagenum">[20]</span>
-pela mayor parte debaixo da terra. Aqui vem todos os Sacerdotes
-das naçoens Christãas a celebrar, especialmente
-no dia da <em>Assumpçaõ da Virgem
-Senhora nossa</em>. Ha nesta
-Igreja huma cisterna, que tem agua muito boa.<br />
-
-<br />
-
-Sahindo desta bemdita Igreja, a poucos passos, entrámos
-em huma cova, grande, e redonda, de altura de
-huma lança, toda penhasco, e bem clara, porque lhe entra
-muita luz, por huma abertura, que tem no alto. Está na
-Villa, e <em>Horto de Gethsemani</em>, em que
-<em>Christo Senhor nosso</em>
-orou ao seu <em>Eterno Pay</em> aquella
-oraçaõ trina, em que suou
-gotas de Sangue, e adonde o Anjo lhe appareceo, e o confortou.
-O considerar, que neste Lugar derramou <em>Christo
-Senhor nosso</em> suor sanguineo, move os
-coraçoens a devoçaõ,
-e contriçaõ, por duros que sejaõ; e a
-quarenta passos deste
-<em>Oratorio de Christo Senhor nosso</em>
-pouco mais, ou menos, se
-nos mostrou o Lugar, adonde os trez discipulos
-<em>Saõ Pedro</em>,
-<em>Saõ Joaõ</em>, e
-<em>Santiago</em> estiveraõ
-dormindo, e <em>Christo Senhor
-nosso</em> os despertou, e reprehendeo por naõ
-velarem, e orarem.
-Adiante hum tiro de pedra está o Lugar em que
-ficaraõ
-os oito Discipulos. Mais adiante quarenta passos está o
-Lugar, em que <em>Judas</em> entregou a
-Christo Senhor nosso, e o
-prenderaõ. Com pedras se fez aqui a modo de huma rua,
-que sinala o lugar. Em todos estes Santuarios ha infinitas Indulgencias.<br />
-
-<br />
-
-Poucos passos distante está a ponte do
-<em>Cedron</em>: e todo
-este caminho do <em>Horto de Gethsemani</em>
-atè aqui se anda
-pela raiz do <em>Monte Olivete</em>, e junto
-ao Valle de <em>Josaphath</em>,
-adonde está esta ponte do
-<em>Cedron</em>. Passada esta ponte se sobe
-huma grande costa, junto ao muro da Cidade, e he o
-caminho por onde levaraõ a <em>Christo Senhor
-nosso</em> prezo a casa
-de <em>Anàs</em>. Neste mesmo
-Valle ha muitas cousas notaveis
-por antiguidade, e para a devoçaõ. Aqui
-está hum famoso
-edificio, cavado na penha, a modo de huma Capella redonda,
-<span class="pagenum">[21]</span>
-que toda he de huma pedra, excepto o capitel, e
-he o sepulchro de
-<em>Absalaõ</em>, filho de
-<em>David</em>. Ha nelle huma
-grande abertura, que os moradores desta terra fizeraõ,
-tirando-lhe
-pedras, tal vez por ser mao filho, pois perseguio
-a seu pay. Junto deste sitio ha outro edificio, quasi arruinado,
-em memoria, de que alli esteve o glorioso
-<em>Santiago</em> o
-<em>Menor</em> o tempo que
-prenderaõ a <em>Christo Senhor
-nosso</em> atè que
-resuscitou, e lhe appareceo, e lhe disse, <em>que
-comesse</em>; porque
-tinha proposto de naõ comer, atè que o
-<em>Senhor</em> resuscitasse.
-Logo está o <em>Campo Santo</em>,
-a que chamaraõ <em>Haceldama</em>.
-He
-hum edificio de quatro paredes fortes, e tem por cima hum
-terrado de quarenta passos de comprido, e trinta de largo.
-Nelle estaõ quatro, ou cinco bocas por donde
-lançaõ os
-defuntos, que aqui se enterraõ, pendurando-os por huma
-corda, e bamboleando-os, atè que os deitaõ
-abaixo. Comprou-se
-este campo com os trinta dinheiros, que
-<em>Judas</em> recebeo
-dos <em>Fariseos</em> em
-satisfaçaõ, e venda de <em>Christo
-Senhor
-nosso</em>. Desde entaõ atègora he
-sepultura de Peregrinos. Naõ
-muito distante se nos mostrou o Lugar donde o malaventurado
-<em>Judas</em> se enforcou; e junto a ella he
-a sepultura dos
-Judeos, que parece o tomaraõ por patraõ, para o
-acompanharem
-na sepultura, e no Inferno. Em distancia de cem passos
-está logo a cova, em que os Apostolos estiveraõ
-escondidos
-atè a Resurreiçaõ. Mais adiante
-está a casa, que chamaõ
-do <em>Mao conselho</em>, adonde se
-determinou a morte de
-<em>Christo Senhor nosso</em>, dizendo
-Caifás, <em>que convinha, que hum
-homem morresse pelo Povo, por que naõ perecesse toda a
-gente</em>.<br />
-
-<br />
-
-Daqui fomos pela outra ribeira deste Valle de Josaphath,
-e junto do muro da Cidade está huma
-<em>Fonte</em>, que
-chamaõ de <em>nossa Senhora</em>,
-que vem, conforme dizem, do
-Templo, que já referi, em que a <em>Virgem
-Senhora nossa</em> se
-creou; de que se colhia agua para beber, e para o mais
-serviço
-da casa. He muito bonissima, e della bebemos com grande
-<span class="pagenum">[22]</span>
-devoçaõ, por usar della a <em>Virgem
-Senhora nossa</em>. Junto
-a esta <em>Fonte</em> ha outra, a que
-chamaõ Syloe, à qual mandou
-<em>Christo Senhor nosso</em> o cego, para
-que lavasse os olhos do
-lodo, que fizera de terra, e sua benta saliva, com que lhe
-restituhio a vista. He de muito boa agua, e da que superabunda,
-se regaõ muitas hortas.<br />
-
-<br />
-
-Na parte do Meyo dia, à sahida da <em>Santa
-Cidade</em> ha
-outra <em>Fonte</em>, que dizem fez
-<em>Salamaõ</em>, e trouxe esta
-agua
-por conductos de Bethleem do
-<em>Fonsignato</em>. Cahe a Fonte sobre
-a casa de sua mãy
-<em>Bersabè</em>. Bebemos della
-quando fomos,
-e quando viemos de Bethleem, por curiosidade de a
-gostar, por ser antiga, e feita por <em>ElRey
-Salamaõ</em>. Naõ vi
-outras fontes na <em>Santa Cidade</em> nem
-dentro, nem fóra; porque
-toda a agua, que se bebe na Cidade, e nos campos, he
-de chuva recolhida em cisternas; e ainda que he boa, com
-tudo a muitos causa damno a sua frescura.<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><em>Do Sagrado
-Monte Olivete, e Bethania.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Neste <em>Sagrado monte Olivete</em> obrou
-<em>Christo Senhor nosso</em>
-muitas cousas pertencentes à nossa
-Redempçaõ; porque
-alèm do que tenho dito, que se obrou na raiz deste
-<em>Sagrado
-Monte</em>, ha muito em todo elle, que considerar, e
-reverenciar.
-Direy por agora sómente do Lugar da
-<em>Ascensaõ
-admiravel</em>, e tornarey a baixar, por hir pelo caminho,
-por
-onde este Senhor foy muitas vezes a
-<em>Bethania</em>.<br />
-
-<br />
-
-Começámos a subir junto à Igreja do
-<em>Sepulchro de nossa
-Senhora</em>, e a poucos passos parámos, adonde
-dizem, que
-vindo esta mesma Senhora das Estaçoens deste Sagrado Monte,
-que ordinariamente fazia, depois que <em>Christo seu
-Unigenito
-Filho, e Senhor nosso</em> subio aos Ceos, vio apedrejar a
-<em>Santo Estevaõ</em>, e que
-neste Lugar orou, atè o Santo Prothomartyr
-entregar a Deos o seu espirito; e subindo pouco
-<span class="pagenum">[23]</span>
-mais, vimos o Lugar, em que dizem, que o <em>Apostolo S.
-Thomè</em>
-recebera o cinto da <em>Virgem Senhora
-nossa</em>. Mais acima está
-o Lugar, adonde os <em>Apostolos</em>
-disseraõ a <em>Christo Senhor
-nosso</em> que os ensinasse a orar, e lhes deu a
-oraçaõ do <em>Padre
-nosso, &c.</em> Neste Lugar está huma
-Igreja cahida. Subimos
-hum pouco mais, e vimos o Lugar adonde os
-<em>Apostolos</em> compuzeraõ
-o <em>Credo</em>; e mais acima, o em que
-<em>Christo Senhor nosso</em>,
-e os <em>Apostolos</em>, vendo a
-<em>Jerusalem</em>, e ouvindo este Senhor
-que elles louvavaõ a fabrica do Templo, e o bem lavrado
-das pedras, lhes disse, <em>como tudo havia de ser
-destruido</em>: e
-assim o foy pelos Emperadores <em>Tito</em>,
-e <em>Vespasiano</em>; e tambem
-lhes disse os sinaes, que haviaõ de preceder ao dia do
-Juizo.<br />
-
-<br />
-
-Ha outros Santuarios mais, que os Mouros possuem,
-e alguns estaõ convertidos em Mesquitas. O Lugar da
-Ascensaõ
-naõ he Mesquita, porèm os Mouros, e Turcos tem
-a chave, e naõ permittem a entrada aos Christãos,
-sem que
-lhe paguem muito bem. No alto deste <em>Sagrado
-Monte</em>, está
-huma Igreja grande, mas muito cahida; e no meyo está
-huma Capella redonda de bobeda inteira, e no meyo della
-huma pedra de dous palmos, e pouco mais de altura, em
-que se vê hum pè sinalado, que dizem ser de
-<em>nosso Redemptor</em>,
-quando daqui subio aos Ceos: o outro pè, dizem, o
-levara hum Principe Christaõ, que naõ sey dizer,
-quem
-fosse. Com grande devoçaõ beijámos
-este pé muitas vezes.
-He este Lugar de Santa alegria para todos os Christãos, que
-o vem; porque nos parece, que vemos a <em>Christo Senhor
-nosso</em> subir pelos ares, e à
-<em>Virgem nossa Senhora sua Santissima
-Mãy</em>, e aos Apostolos, que estaõ
-com os olhos, e coraçoens
-suspensos, olhando o caminho, que <em>Christo Senhor
-nosso</em>
-fazia para si, e para os seus Fieis.<br />
-
-<br />
-
-Adorámos,e despedimo-nos com muita saudade deste
-Santo Lugar, e fomos pelo alto, e plano deste
-<em>Sagrado</em>
-<span class="pagenum">[24]</span>
-<em>Monte</em> para a parte do
-Septentriaõ, pouco mais de duzentos
-passos, a huma torresinha, e casa; Lugar, aonde dizem,
-que baixaraõ os Anjos, e disseraõ no dia, e hora
-da <em>Ascençaõ</em>
-aos saudosos <em>Apostolos: Viri Galilaei,
-&c.</em> pelo que se
-chama Galilea pequena. He muito alegre, e fermoso este
-<em>Sagrado monte</em>. Tem muitas arvores,
-especialmente oliveiras,
-(de que tomou o nome) figueiras &c. e vinhas. Está
-à
-parte Oriental da <em>Santa Cidade</em>. De
-tal modo estaõ este <em>Sagrado
-Monte</em>, e o de
-<em>Siaõ</em>, que tudo o que hum
-tem se vê
-do outro; e vendo-se do <em>Olivete</em> a
-<em>Santa Cidade</em>, por ser hum
-pouco mais alto, he huma das mais alegres, e deliciosas
-vistas, que ha no Mundo, ainda que
-<em>Jerusalem</em> hoje he muito
-pequena; porque está assentada no meyo do
-<em>Monte Sion</em>,
-da maneira que hum livro está em huma estante; pelo que
-se podem contar todas as casas, e torres de cima a baixo,
-sem que falte alguma. Saõ as mais das casas de bobeda, como
-Capellas de Igrejas, e todas de terrados, e assim ha poucas,
-ou nenhuma, que tenha madeira, o que tudo faz, e representa
-huma magestosa vista. Tem a Cidade quatro mil
-visinhos, pouco mais, ou menos; ainda que em outro tempo
-foy das grandes do Mundo, como se vê das ruinas,
-que ha por aquelles outeiros, de que está rodeada. As ruas
-que atravessaõ do Meyo dia ao Septentriaõ
-saõ planas, e
-as do Poente ao Oriente costa abaixo, ainda que naõ muito
-empinadas, pois corre muito bem hum cavallo por ellas.<br />
-
-<br />
-
-Deste <em>Sagrado Monte Olivete</em> se
-vê bem o <em>Templo</em>, no
-Lugar em que esteve o de
-<em>Salamaõ</em>, que agora he
-Mesquita
-de Mouros, e Turcos. Está no meyo de hum grande quadro
-murado, e hum angulo delle he muro da <em>Cidade
-Santa</em>,
-em hum prado desembaraçado, e limpo, com algumas arvores.
-He fabricado à maneira de hum Zimborio, de Moysaico,
-e riquissimas columnas, e taboas de marmore, e jaspe;
-e por fóra eleva apparatosamente a vista. Nenhum
-<span class="pagenum"><a name="p25" id="p25">[25]</a></span>
-Christaõ entra dentro sobpena de perder a vida, ou renegar;
-o que se pratica em todas as suas Mesquitas, como tenho
-dito; porèm nesta he com mais rigor; porque depois da
-Casa de Meca em que estes barbaros dizem estar o
-<a href="#e1">Çancarraõ</a>
-de Mafoma, esta he a mais principal. Algumas vezes ouviamos
-a hum Mouro, que de huma Torre chamava o Povo para
-a sua oraçaõ com grandes gritos; o que
-praticaõ em todas
-as Mesquitas; porque naõ admittem sinos, nem os permittem
-aos Christãos.<br />
-
-<br />
-
-Baixámos deste Sagrado Monte pela parte, por onde
-subimos, e ainda que huma vez fomos a
-<em>Bethania</em> pela outra
-parte, quizemos nesta occasiaõ hir por onde
-<em>Christo Senhor
-nosso</em> fora, poucos dias antes de sua
-<em>Sacratissima Paixaõ</em>:
-e tornando ao rio <em>Cedron</em>,
-começámos a subir a ladeira
-do mesmo <em>Sagrado Monte</em> em roda, que
-he caminho mais
-plano. Este he, por onde o <em>Senhor</em>
-sahia a visitar as suas devotas
-<em>Maria Magdalena</em>, e
-<em>Martha de Jerusalem</em> a
-<em>Bethania</em>
-por este caminho he menos de meya legoa; e nelle nos
-mostraraõ
-a horta, em que estava a <em>Figueira</em>,
-que <em>Christo Senhor
-nosso</em> amaldiçoou.<br />
-
-<br />
-
-Chegámos a <em>Bethania</em>, que
-hoje terá sessenta casas,
-que mais parecem covas de coelhos, que habitaçaõ
-de homens,
-por estarem quasi debaixo da terra. Naquelles tempos
-foy grande Povoaçaõ, hoje nem o que foy mostra.
-Entrámos
-logo na casa de <em>Simaõ
-Leproso</em>, que saõ duas Capellas
-de pedra, bem lavradas, no Lugar donde <em>Christo Senhor
-nosso</em>
-ceou com <em>Lazaro</em> resuscitado, e Maria
-Magdalena o ungio.
-Está hum Altar em que se diz Missa no dia, que se canta
-este Euangelho, e ao presente he curral de cabras, e boys:
-e naõ faltará que alimpar, quando neste Lugar se
-houver de
-dizer Missa; e ainda que nos entristece o ver quaõ
-maltratados
-saõ estes Lugares dos Mouros, e Turcos, naõ
-desmaya
-a devoçaõ, e Fé dos Catholicos, porque
-consideramos,
-<span class="pagenum">[26]</span>
-que Deos permitte que assim seja por seus occultos juizos.
-Daqui fomos a visitar o sepulchro de Saõ Lazaro, de que
-tem os Mouros a chave, e dando-lhes algum dinheiro, de
-boa vontade abrem a porta. Entrámos por huma escada de
-quinze, ou mais degraos, debaixo da terra, a este Lugar,
-em que estava sepultado, quando <em>Christo Senhor
-nosso</em> o resuscitou.
-He Lugar de muita devoçaõ, considerando as
-lagrimas
-de <em>Christo Senhor nosso</em>, de
-<em>Maria</em>, e de
-<em>Martha</em>, e dos
-mais, que estavaõ com os Apostolos. Daqui sahimos, e andados
-alguns passos, vimos o Castello, e casa que foy de
-<em>Saõ
-Lazaro</em>; e ainda que está tudo arruinado,
-bem mostra ter
-sido casa de homem principal, e visitámos a casa de
-<em>Maria</em>,
-e de <em>Martha</em>, que estaõ
-destruidas. No caminho está huma
-pedra, em que dizem, esteve sentado <em>Christo Senhor
-nosso</em>
-atè que chegou <em>Martha</em>, e
-disse: <em>Domine, si fuisses hîc,
-&c.</em>
-Tudo o [~q] referi está fóra da Cidade de
-Bethania, ainda que
-esteve dentro naquelles tempos, por ser entaõ Cidade
-grãde,
-e hoje muito pequena a Povoaçaõ. Della sahimos, e
-subindo
-por hum outeiro como trezentos passos, chegámos ao Lugar
-adonde foy <em>Bethfage</em>. Delle mandou
-<em>Christo Senhor nosso</em>
-aos Apostolos pela asna, e jumentinho, e subindo nella fez
-a sua entrada solemne, e triunfal em
-<em>Jerusalem</em>. Naõ ha aqui
-algum edificio, mais que humas Figueiras para sinal. Daqui
-se vem algumas casas da Cidade de
-<em>Jericó</em>, que todas
-saõ
-poucas. Está edificada em campina raza, que vaõ
-acabar
-nas margens do <em>Jordaõ</em>.
-Está distante de Jerusalem trez legoas,
-poucos mais, ou menos. Tambem se vê deste sitio
-hum lago, que terá de comprimento trez legoas, pouco
-mais, e de largo duas. He este lago do <em>Rio
-Jordaõ</em>, e nelle
-se acaba, pois naõ tem outra corrente, nem sahida. Chama-se
-o <em>Mar morto</em>; e debaixo delle
-estaõ aquellas malditas, e
-infames Cidades <em>Sodoma</em>, e
-<em>Gomorrha</em>: e se vê tambem
-outro
-monte, que estará quasi huma legoa distante, a que
-<em>Christo</em>
-<span class="pagenum">[27]</span>
-<em>Senhor nosso</em> se retirou, e nelle
-jejuou quarenta dias, e
-quarenta noites, e foy tentado pelo demonio. Passado o
-<em>Jordaõ</em>
-por esta parte, que está de
-<em>Jerusalem</em> oito legoas, pouco
-mais, principiaõ os montes de Arabia.<br />
-
-<br />
-
-Sahimos do Lugar de <em>Bethfage</em>, e
-subimos ao alto do
-<em>Monte Olivete</em>, levando o rosto para
-o Septentriaõ, e declinado
-ao Poente, passando pela Igreja da
-<em>Ascensaõ</em>,
-baixámos
-ao Lugar, adonde vendo <em>Christo Senhor
-nosso</em> a Cidade
-de <em>Jerusalem</em>, chorou sobre ella,
-dizendo: <em>Si cognovisses,
-& tu, &c.</em> e descendo ao Valle de
-<em>Josaphath</em>, subio à Cidade,
-e <em>Templo</em>, entrando pela
-<em>Porta Aurea</em>, que agora
-está no muro
-cerrada de cal, e pedra, sahindo o Povo a seu recebimento
-com ramos de palmas, e os meninos cantando: <em>Hosanna in
-excelsis</em>.<br />
-
-<br />
-
-Todos os annos faziaõ os Religiosos Latinos esta
-representaçaõ,
-em que o <em>Guardiaõ</em>, que
-representava a <em>Christo
-Senhor nosso</em>, e doze Religiosos os
-<em>Apostolos</em>, sahiaõ
-paramentados
-de <em>Bethfage</em>, e mandava o
-<em>Guardiaõ</em> a dous
-Religiosos,
-que fossem pela asna, e jumentinho; e trazendo-a,
-subia nella; e cantando os Religiosos em circuito do Preste,
-e chorando pela muita devoçaõ varios Hymnos, e
-versos
-a este proposito, ordenavaõ na Dominga de Ramos esta
-triunfal, e solemne Procissaõ, e o sahiaõ a
-receber da Cidade
-muitas naçoens Christãas, e muito Infieis, e
-lançavaõ
-ramos, e as suas vestiduras, por donde passava. Os Mouros;
-e Turcos estavaõ como pasmados vendo esta
-Procissaõ, sem
-perturbarem aos Christãos, o que parecia milagre, e o era
-certamente, por naõ terem mãos, nem linguas para
-os impedir,
-por <em>Deos nosso Senhor</em> o
-naõ permittir; e subindo ao <em>Santo
-Cenaculo</em>, que era entaõ Convento seu,
-proseguiaõ o Officio
-daquelle dia. No tempo, que eu estive na Santa Cidade
-naõ se fazia esta Procissaõ, porque o Turco
-mandou, que
-se não fizesse.
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[28]</span>
-<em>Da Cidade de Bethleem, e do caminho que fizemos
-atè
-lá chegar.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Já he tempo de tratar do alegrissimo, e bemditissimo
-caminho,
-que ha da <em>Santa Cidade de Jerusalem</em>
-à de Bethleem,
-que saõ duas leguas para a parte do Meyo dia. Sahimos
-da <em>Santa Cidade</em> ao nascer do Sol,
-pela porta de Jaffa,
-e passando pela <em>Fonte de
-Salamaõ</em>, e <em>casa de
-Bersabè</em> sua
-mãy, subimos huma pequena, e suave costa, e démos
-em hum caminho, todo plano, ainda que nelle ha muitas
-pedras. He este caminho muito aprazivel, porque o espaço
-de huma legoa delle tudo saõ herdades, vinhas, oliveiras,
-frutas, e muitas Torres, e casas, o que tudo faz huma
-deliciosa vista, e muitas dellas foraõ casas de
-Profétas,
-e algumas já foraõ Igrejas. Vimos em hum campo
-grande
-quantidade de pedras taõ pequenas como graõs, e
-do
-seu feitio; e se conta, que a <em>Virgem Senhora
-nossa</em> vendo
-semear grãos a hum Lavrador, lhe pedio, lhe désse
-delles; e que elle zombando respondera, que naõ
-eraõ
-grãos; que eraõ pedras, e assim saõ
-atè hoje. Eu os vi,
-e trouxe alguns. Vimos tambem neste caminho huma grande
-arvore, que me pareceo <em>Aroeira</em>, e
-lhe chamaõ <em>Terebintho</em>.
-Tomámos ramos com devoçaõ, porque
-à sua sombra
-dizem que descançára a <em>Virgem
-Senhora nossa</em>. Vimos tambem
-o <em>sepulchro de Rachel</em>, que os
-Mouros, e Turcos guardaõ,
-e usaõ delle Mesquita. He fermoso edificio, situado
-em hum lindo quadro, com hum muro cuberto com hum
-capitel sobre columnas. Vimos tambem huma cisterna de
-muita, e boa agua, em que os <em>Santos trez
-Reys</em> tiveraõ
-grande alegria, por lhes apparecer a
-<em>Estrella</em>, que se escondera,
-antes que entrassem em <em>Jerusalem</em>, e
-dalli os guiou
-atè o Lugar aonde estava o <em>Menino
-Deos</em> no portal de
-<em>Bethleem</em>.
-Vimos tambem huma Igreja de Gregos, que he a casa
-<span class="pagenum">[29]</span>
-adonde esteve <em>Elias</em>. Ha por esta
-parte muitas antigalhas
-dignas de ver, e curiosas. Desta casa se descobre a feliz,
-e desejada Igreja, e Cidade de
-<em>Bethleem</em>.<br />
-
-<br />
-
-Quando a vimos, Peregrinos, e Religiosos, que nos
-acompanharaõ, nos puzemos de joelhos, cantando Hymnos,
-e oraçoens, dando muitas graças a Deos pelo
-Mysterio
-do seu Nascimento, e por permittir que, que visitassemos
-aquella <em>Santa Cidade</em>; e assim
-continuámos, até chegarmos
-a ella, e à porta da Igreja, que está
-fóra da dita <em>Cidade</em>,
-que agora terá pouco mais de sessenta visinhos.
-Entrámos
-pela porta principal da Igreja, que está defronte
-da Capella mayor, ficando à maõ esquerda a
-entrada
-do Convento. Sahiraõ-nos a receber os Religiosos de
-Saõ
-Francisco, que alli assistem, e commummente saõ nove,
-ou dez; e fizemos oraçaõ na Igreja, que he da
-Invocaçaõ
-de <em>Santa Catharina</em>. Esta Igreja,
-Convento, e Igreja grande
-do <em>Santissimo Nascimento</em>, fazem hum
-corpo, e na de <em>Santa
-Catharina</em> dissemos Missa no dia que
-chegámos.<br />
-
-<br />
-
-Dita a Missa, todos os Religiosos, e Pereginos com
-tochas accezas, baixámos por huma escada, que
-está na parede,
-e lado da Epistola, e tem vinte degraos, a humas covas,
-em que estaõ fabricadas na penha viva estas Capellas.
-Hum Altar, no Lugar, em que foraõ mortos muitos dos
-meninos Innocentes; poucos passos mais dentro, a hum lado
-o <em>sepulchro de Santo Eusebio</em>,
-discipulo de <em>Saõ Jeronymo</em>;
-mais dentro dous passos em huma Capella o <em>sepulchro
-de Santa Paula</em>, e de sua filha
-<em>Eustochio</em>; e de fronte na mesma
-Capella o <em>sepulchro de Saõ
-Jeronymo</em>; mais dentro huma
-Capella, adonde <em>Saõ
-Jeronymo</em> viveo muito tempo, e traduzio
-a <em>Sagrada Biblia</em>. Todos os dias se
-visitaõ estes Santos
-Lugares processionalmente cantando Hymnos, Antifonas,
-Versos, e Oraçoens em cada huma destas Estaçoens,
-e
-se ganhaõ muitas Indulgencias. Daqui sahimos, e
-entrámos
-<span class="pagenum">[30]</span>
-por hum passadiço apertado, e estreito, para hirmos
-à Capella
-do <em>Santissimo Nascimento</em>, e nos
-pareceo, quando entrámos,
-que entravamos no Paraiso.<br />
-
-<br />
-
-Esta Santissima Capella em que a <em>Virgem Mãy
-de
-Deos, e Senhora nossa</em> pario ao <em>Filho
-de Deos</em>, está fabricada,
-como as outras, na penha viva. Terá como doze palmos
-de comprimento, de largura quatro, e dous estados
-em alto. He cuberta de marmore, e jaspe, e de fermosissimo
-Moysaico. Ha nella hum Altar de huma só pedra,
-vaõ
-por baixo, que he o proprio Lugar, em que nasceo <em>Jesu
-Christo, verdadeiro Filho de Deos, Homem, e Deos
-verdadeiro</em>.
-Está este Lugar sinalado com huma pedra branca, que
-no meyo tem huma Estrella de jaspe. Sobre este celestial Altar
-dissémos Missa do Nascimento dous dias. Dous passos
-adiante está o Lugar, como huma piasinha de marmore
-quadrada,
-mais baixo que o pavimento, em o qual foy o Menino
-Deos reclinado no Presepio. Aqui está descuberto hum
-pedaço
-de penhasco, taõ ditoso, que gozou (se se pòde
-dizer) do
-resplandor, e gloria de Deos humanado: e na verdade, que
-este penhasco nos alegrou mais que todos os mais jaspes, e
-Moysaicos; porque estes nos alegraraõ a vista corporea,
-aquelle nos encheo a alma de contentamento. Bem discretos
-foraõ os edificadores deste Santissimo Lugar, em o deixar
-à vista, para alegria espiritual de todos os que o vem.<br />
-
-<br />
-
-Entre o Lugar do <em>Santissimo
-Nascimento</em>, e <em>Santissimo
-Presepio</em>, está hum Altar de marmore, que
-sinala o Lugar,
-em que os Reys offereceraõ os seus dons. Eu como musico
-tive mil desejos, e ancias, de ter alli os melhores musicos
-do Mundo, assim de vozes, como de todos os instrumentos,
-para dizer, e cantar mil vilhancicos, e chansonetas ao
-<em>Menino Jesus</em>, a sua
-<em>Mãy Santissima</em>, e ao
-glorioso <em>Saõ
-Joseph</em>, em companhia dos Anjos, Reys, e Pastores, que
-se
-acharaõ naquelle diversorio; que ainda que parecia pobre,
-<span class="pagenum">[31]</span>
-excedia a todas as riquezas, que imaginar se podem.<br />
-
-<br />
-
-Nos lados do Altar do <em>Santissimo
-Nascimento</em> ha duas
-escadas, porque subimos à <em>Capella
-mòr da Igreja</em> principal,
-porque o Lugar do Nascimento Santissimo, e os demais que
-referi, estaõ debaixo desta Igreja. Esta he fermosissima,
-ainda
-que em parte está despida da sua fermosura, porque todas
-as paredes, e pavimento, estiveraõ cubertas com taboas
-de marmore, que os Turcos ha poucos annos a esta parte
-tiraraõ para ornarem as suas Mesquitas. He de trez naves,
-a do meyo muito alta, e sustenta-se o tecto em ricas, e grandes
-columnas de marmore, inteiras, e bem lavradas, e saõ
-quarenta e oito. Sobre estas columnas estaõ assentadas vigas
-de cedro, que atravessaõ de huma a outra, muito curiosas
-pelo artificio; e sobre isto ha outros arcos de pedra,
-e sobre elles em hum lado está lavrada de riquissimo
-Moysaico
-a geraçaõ de <em>Christo Senhor
-nosso</em>, como a escreveo <em>Saõ
-Mattheus</em>, e do outro lado, como a escreveo
-Saõ Lucas;
-tudo de figuras de meyo corpo, com seus nomes.<br />
-
-<br />
-
-Junto à Capella mayor està hum Altar, adonde o
-<em>Menino Deos</em> foy circumcidado. Nesta
-fermosa Igreja se
-diz Missa algumas vezes, e naõ sempre; porque os Turcos
-quasi todo o dia estaõ nella, e como saõ muito
-porcos,
-está pouco aceada. O Padre Guardiaõ nos levou aos
-terrados
-da Casa, e Igreja; e de lá vimos o lugar, e prados, em
-que os <em>Santos Pastores</em>
-estavaõ, quando o Anjo lhes disse,
-que <em>Christo nosso Salvador</em> era
-nascido, cantando: <em>Gloria in
-excelsis Deo</em>. Está de
-<em>Bethleem</em> como a terceira parte de
-huma
-legoa. Vimos tambem o Lugar, em que estavaõ as vinhas do
-<em>Balsamo</em>, no tempo de
-<em>Salamaõ</em>, que se chama
-<em>Engadi</em>. Está
-pouco mais de huma legoa de <em>Bethleem</em>.<br />
-
-<br />
-
-Desta <em>Santa Casa</em> sahimos como cem
-passos, e entrámos
-em huma cova (de que os Mouros tem a chave) adonde
-estiveraõ escondidos a <em>Virgem Senhora
-nossa, o Menino Deos</em>,
-<span class="pagenum">[32]</span>
-e <em>Saõ Joseph</em>, quando o
-<em>Anjo</em> lhes disse, que fugissem para
-o <em>Egypto</em>, por Herodes procurar o
-<em>Menino</em> para o matar.
-Nesta cova dizem, que dando a <em>Virgem Senhora
-nossa</em> de
-mamar ao seu <em>bemditissimo Filho</em>, lhe
-cahira do seu purissimo
-<em>Leite</em> na terra; pelo que todos
-levaõ desta terra por devoçaõ,
-para dar às mulheres, que tem falta de leite, e
-lançada
-em hum vaso de agua, ou vinho, se lhestitue, confórme
-a fé da que o usa.<br />
-
-<br />
-
-Aqui nos hospedaõ os Religiosos, dando-nos de comer,
-e camas a todos os Peregrinos com muito amor, e caridade,
-sem que seja necessaria recompensaçaõ; ainda que
-todos, conforme a sua possibilidade, contribuem com o que
-podem, por agradecimento, o que naõ espera a sua grande
-caridade, com que trataõ a todos sem differença.
-A mayor
-parte dos edificios desta Casa edificou <em>Santa
-Paula</em> em
-tempo de <em>Saõ Jeronymo</em>.
-Aqui habitaraõ atè morrerem. O
-que está aruinado se pòde reparar,
-porèm naõ o permittem
-os Turcos. Tem bastante vivenda para os Religiosos.
-Tem dous Jardins, em que ha muitas Larangeiras, e outras
-arvores, frutas, e hortaliças; bons passeyos, boas vistas, e
-em tudo o que se descobre houve antigamente cousas notaveis.
-Tem hum dormitorio para os Peregrinos, à maneira
-de huma nave, em que se podem hospedar atè duzentos.
-Sahimos deste Santo Lugar com tantas saudades, como
-quem deixava lá a alma, e naõ acertavamos a nos
-retirar: e
-tornámos para a <em>Santa Cidade de
-Jerusalem</em> pelo mesmo caminho,
-chorando, sem tirarmos os olhos, em quanto o alcançamos
-com a vista, de Lugar taõ Santissimo.
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[33]</span>
-<em>Da Igreja do Monte Calvario, e Santo
-Sepulchro.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Vistos os Santuarios da <em>Santa Cidade de
-Bethleem</em>, pedimos
-ao Senhor Guardiaõ nos procurasse a entrada no
-<em>Sagrado Monte Calvario, e Santo
-Sepulchro</em>; e ajustado o dia,
-e hora com o <em>Subasi</em>, Governador da
-<em>Santa Cidade de Jerusalem</em>,
-que tem as chaves desta <em>Santa
-Igreja</em>, que sempre
-está fechada, e sómente se abre quando elle quer,
-ou quando
-o Padre Guardiaõ o avisa de que haõ de entrar
-Religiosos,
-ou Peregrinos, ou alguma das naçoens Christãas; e
-chegado
-o dia, que foy quinta feira de tarde, veyo
-<em>Subasi</em> com
-o Escrivaõ, e Porteiro, e se sentou à porta desta
-<em>Santa Igreja</em>
-sobre hum poyal, que se cobrio com hum tapete, e coxins
-de veludo; e o Padre Guardiaõ com outros Religiosos,
-e hum Christão da terra, que se chama
-<em>Ánà</em>, muito bom
-homem, e fiel interprete do Convento, que falla bem Italiano,
-e Arabigo, que he a lingua commua da terra em toda
-a Palestina, e Syria. Chegámos sete Peregrinos, que eramos,
-que o Padre Guardiaõ appresentou ao Subasi, e perguntando-me
-o nosso interprete, pois era o primeiro, o como
-me chamava? Respondi, que <em>Alberto</em>;
-porque parecesse nome
-Tudesco, e naõ <em>Hespanhol</em>,
-por ser de perigo, que elles
-saibaõ, que somos Hespanhoes, porque entendem, que
-vamos por espias, e nos fazem escravos; e fallando Italiano,
-os assegurámos de toda a suspeita. Escreveo o Turco o nome,
-que eu disse, com huma penna de cana, e lhe dey nove
-<em>zequies</em> de ouro, que vale cada hum
-sete centos e cincoenta,
-e o mesmo deu meu companheiro, e os mais. Os Religiosos
-Sacerdotes naõ pagaõ cousa alguma. Paga se
-sómente este
-dinheiro na primeira vez, que se entra nesta Santa Igreja;
-e depois, quando se abre, basta que se dê ao Porteiro hum,
-ou dous maydines.<br />
-
-<br />
-
-Entrámos logo nesta Santissima Igreja, em que a vista
-<span class="pagenum">[34]</span>
-naõ pòde estar ociosa, pelo muito que ha, que
-ver, e venerar.
-A primeira cousa he o Lugar, aonde <em>nosso
-Redemptor</em>
-foy ungido para o sepultarem; e à maõ direita, na
-mesma
-nave, està o <em>Santissimo
-Calvario</em>, à maõ esquerda na nave
-do meyo, defronte da porta do Coro ao Poente, está o
-<em>Sepulchro
-do nosso Redemptor</em>; e no meyo da Igreja o Coro, que
-tem quatro Cadeiras Patriarchaes, em que em outro tempo
-se sentàraõ juntos os quatro Patriarchas da
-Christandade.
-Está hoje a cargo dos Gregos, e nelle tem o seu Altar mayor
-com Imagens de Santos, pintadas com todo o primor.
-As naves saõ direitas, excepto que para a parte do Oriente,
-e Poente saõ redondas, à maneira de Colisseo. A
-Igreja
-he de fermosa fabrica. O tecto em partes he de Moysaico.
-As paredes em outro tempo estiveraõ cubertas de marmores,
-agora está a pedra aberta. Naõ perde com tudo a
-fermosura
-esta fabrica excellentissima, ainda que tenha agora esta
-falta.<br />
-
-<br />
-
-As naçoens Christãas, que ha em
-<em>Jerusalem</em> de diversos
-Reynos, e Provincias, e Linguas, saõ estas.<br />
-
-<br />
-
-<em>Latinos. Gregos. Armenios. Georgianos. Jacobitas.
-Abexins. Surianos. Maronitas.</em><br />
-
-<br />
-
-De cada huma destas naçoens ha dous, ou trez Religiosos,
-repartidos pelas Capellas desta Santa Igreja, que
-dizem o Officio Divino cada hum a seu modo, rito, e lingua,
-e tem cuidado das suas alampadas, que estejaõ sempre
-accezas, e limpas. A habitaçaõ dos nossos
-Religiosos
-de Saõ Francisco Latinos he a melhor; porque tem Refeitorio,
-Dormitorio, e tudo o que basta para poderem estar atè
-trinta pessoas.<br />
-
-<br />
-
-Comem, e dormem estas naçoens dentro nesta Igreja,
-e os Peregrinos, que estaõ dentro, dando-lhes de comer,
-e o que pedem por hum buraco, que a casa tem como fresta,
-cruzada com duas barras de ferro. Por esta fresta fallaõ,
-<span class="pagenum">[35]</span>
-e se lhes ministra o necessario, e se vê hum
-pedaço da Igreja;
-por ella fazem oraçaõ os que estaõ de
-fóra. Tal ordem tem
-dado o Turco, para que estejaõ conformes, e como germanadas
-estas naçoens, humas com outras, que se huma alampada
-se estiver apagando, e o visinho a quizesse atiçar por
-devoçaõ, o condemnariaõ em muitos
-cruzados; e assim com
-este rigor, ha summa paz entre todos, e nenhum se intromete
-na obrigaçaõ, ou devoçaõ do
-outro.<br />
-
-<br />
-
-A todos saõ communs os
-<em>Santuarios</em>, para os poderem
-visitar em qualquer hora, que quizerem, porque estaõ
-continuamente abertos; e como sempre està fechada a porta
-da Igreja, tudo està bem guardado: pelo que he de grande
-contentamento, e devoçaõ o poder entrar
-livremente, de
-dia, e de noite, em que muitissimas alampadas a illuminaõ.
-Em todos os Santuarios tem todas as naçoens suas alampadas,
-huns mais, outros menos, e cada huma cuida das suas.<br />
-
-<br />
-
-Começámos os Peregrinos, e Religiosos a nossa
-procissaõ
-nesta Santa Igreja com vèlas accezas, cantando o
-Hymno, Antifona, e Verso daquelle Santuario, que visitamos,
-e chegando o Religioso, que està paramentado, nos
-diz o Mysterio, que alli passou, e a Indulgencia, que
-ganhámos.<br />
-
-<br />
-
-A primeira Estaçaõ foy em huma Capella, que se
-chama
-o <em>Carcere de nosso Salvador</em>, no qual
-esteve em tanto,
-que os Judeos esperavaõ, que a Cruz, e o lugar em que se
-havia pôr, estivessem aparelhados. Mais adiante
-visitámos
-huma Capella, na qual os Soldados, que prenderaõ a
-<em>Christo
-Senhor nosso</em>,
-lançáraõ sortes sobre as suas
-vestiduras. Mais
-adiante entràmos por huma porta, e baixando trinta degraos,
-chegámos à Capella de S. Helena, mãy
-do Emperador Constantino,
-em [~q] se sentou a Santa Emperatriz, em tanto, que se
-cavava, procurando a Cruz. Aqui nesta Cadeira da Santa
-ha muitas Indulgencias. Baixámos mais onze, ou doze degraos,
-<span class="pagenum">[36]</span>
-feitos na mesma penha do <em>Monte
-Calvario</em>, e he o
-Lugar adonde a Santa Emperatriz achou a Santa Cruz, titulo,
-cravos, e as cruzes dos Ladroens. Chamaõ-se estas
-Capellas da Invençaõ da Cruz. Estaõ
-bem fabricadas, e muito
-espaçosas, ainda que debaixo da terra, que corresponde
-ao Calvario.<br />
-
-<br />
-
-Sahimos desta Capella, e visitámos outra, donde
-està
-hum pedaço de huma columna, em que Christo Senhor nosso
-esteve sentado, quando os Ministros de Pilatos, depois
-de o açoutarem, o coroaraõ de espinhos. Daqui
-subimos por
-dezanove degraos, e fomos ao <em>Santo Monte
-Calvario</em>, e
-nos pareceo, que entràvamos no Paraiso. Estando no alto,
-vimos huma Capella, que saõ duas estancias a modo de
-tribuna,
-que corresponde à primeira nave da Igreja. A primeira
-he o Lugar Sacratissimo, em que o <em>Filho de
-Deos</em> foy levantado
-na Cruz; nelle está o buraco donde a Santa Cruz esteve
-fixada. Tem hum bocal de prata, e o adorámos, e
-beijámos,
-como Santuario taõ admiravel. Metemos dentro os
-nossos braços nùs, e assim digo, que
-terá de fundo como
-trez palmos. Nos lados estaõ sinalados os Lugares das cruzes
-dos Ladroens, que me parece, que tocavaõ huma, e
-outra cruz. Ha entre a de <em>Christo Senhor
-nosso</em>, e a do mào
-Ladraõ, <em>huma abertura</em> na
-penha de sete palmos de comprido,
-e mais de hum de largo, que chega abaixo ao Lugar
-da <em>Invençaõ da Santa
-Cruz</em>. Esta se abrio quando <em>Christo
-Senhor nosso</em> espirou. Na outra parte da Capella, a
-trez passos,
-està o Lugar em que cravaraõ a
-<em>Christo Senhor nosso</em>, estando
-a Cruz no chaõ, e dalli a levantaraõ, e
-puzeraõ no
-sitio referido. Donde isto succedeo está huma memoria de
-jaspe, e marmore bem lavrados. Esta Capella, que se chama
-da <em>Crucifixaõ</em>, toda
-está cuberta de marmore, e jaspe finissimo
-com muitos lavores, e o tecto he todo de Moysaico,
-de que estaõ pendentes mais de cincoenta alampadas de todas
-<span class="pagenum">[37]</span>
-as naçoens de Christãos. Dissemos Missa na parte
-da
-<em>Crucifixaõ</em>, na sexta
-feira seguinte ao dia, em que entràmos,
-e foy a da <em>Paixaõ secundùm
-Joannem</em>; e este Altar se divide
-com huma cortina do Lugar em que esteve fixada a Santa
-Cruz. Naõ poderey explicar a grande afluencia de
-devoçaõ,
-que todos aqui sentem interior, e exteriormente, considerando,
-que tudo, o que o Santo Euangelho refere, se obrou
-neste Santissimo Lugar. A parte donde <em>Christo Senhor
-nosso</em>
-foy encravado, està entregue ao cuidado dos Religiosos de
-Saõ Francisco; adonde esteve crucificado aos Religiosos
-Georgianos, que saõ extremosamente devotissimos, e sempre
-estaõ neste Sagrado Lugar rezando, e cantando.
-Saõ virtuosissimos
-Varoens, e de muita abstinencia, e pobreza. He taõ
-agradavel, e devota para a alma, e corpo esta estancia do
-<em>Sagrado Monte</em>, que não se
-enfada, ou cança alguem de
-estar nella. Em tudo he hum Paraiso. Oh que bem pareceraõ
-aqui alguns Musicos cantando as lamentaçoens de Jeremias,
-vendo, e considerando o <em>Calvario</em>, e
-<em>Santo Sepulchro</em>,
-porque ambos estes Santuarios se podem ver juntamente!<br />
-
-<br />
-
-Baixando deste Sagrado Lugar, chegàmos ao meyo
-da primeira nave, e veneràmos huma pedra grande, pegada
-na terra, cercada de grades de ferro de altura de palmo;
-e por cima estaõ pendentes oito, ou nove alampadas de todas
-as naçoens Christãas. Neste Lugar foy ungido
-<em>Christo
-Senhor nosso</em> para o sepultarem, por seus devotos
-servos,
-<em>Nicodemus</em>, e <em>Joseph
-ab Arimathea</em>, assistindo a <em>Virgem
-Senhora
-nossa</em>, e as mais <em>Santas
-Mulheres</em>, e o amado Discipulo
-<em>Saõ Joaõ</em>. Este
-Santo, Lugar està defronte da porta da
-Igreja, e se vê pela fresta, que nella ha; e os que
-estaõ fóra,
-por ella fazem oraçaõ, e ganhaõ as
-Indulgencias. Daqui
-ao <em>Santo Sepulchro</em> haverà
-quarenta passos para a parte do
-Poente, dentro da mesma Santa Igreja. Esta inestimavel reliquia
-<span class="pagenum">[38]</span>
-possuem os nossos Religiosos de Saõ Francisco, e
-sómente os Latinos dizemos nelle Missa. A sua
-fórma he
-esta. Antes da entrada ha huma pequena Capella quadrada,
-em que caberáõ dez, ou doze pessoas, e no meyo
-della
-está huma pedra de dous palmos de altura, e dous de grosso.
-Nesta pedra, dizem, que o <em>Anjo</em>
-estava sentado, quando
-fallou às <em>Marias</em>,
-dizendo-lhes, que já <em>Christo Senhor
-nosso</em> resuscitára. Por esta Capella se
-entra a outra taõ pequena,
-que a porta terá quatro palmos de alto, e trez de
-largo. Á maõ direita está o
-<em>Santo Sepulchro de nosso Salvador</em>,
-donde esteve o seu <em>Santissimo Corpo</em>,
-e delle resuscitou.
-He hum Altar como huma arca, cuberta com huma
-pedra marmore. Sobre este preciosissimo
-<em>Sepulchro</em> dissémos
-Missa; e naõ cabe neste lugar mais que o Sacerdote, e o
-que o ajuda. O vaõ ninguem o vê, porèm
-o mais gozaõ todos,
-tocando-o, e beijando-o. Da parte superior pendem
-muitas alampadas de todas as naçoens. Aqui disse Missa pela
-misericordia de Deos, e foy a da Resurreiçaõ, e
-foy grande
-alegria para mim, quando dizia no Santo Euangelho:
-<em>Surrexit,
-non est hîc, ecce locus ubi posuerunt eum</em>;
-sinalando
-com o dedo o lugar adonde esteve o <em>nosso
-Salvador</em>. Move
-certamente os nossos coraçoens esta verdadeira
-representaçaõ.<br />
-
-<br />
-
-Esta Capella do <em>Santo Sepulchro</em>,
-ainda que por dentro
-he quadrada, por fóra he redonda, e tem as paredes cubertas
-de marmore. Em cima tem hum capitel de columnas
-muito bem lavrado, que offerece huma boa vista aos que o
-vem de fóra. Está no meyo de hum circuito de
-columnas,
-sem tocar em alguma parte. O zimborio da Igreja, que lhe
-corresponde, he huma meya laranja de madeira de cedro
-muito antiga. No meyo tem huma grande abertura, como
-coroa, por donde entra a luz aos que estaõ em baixo. No alto
-de huma parte está o retrato da Emperatriz
-<em>Santa Helena</em>,
-<span class="pagenum">[39]</span>
-e da outra o do Emperador
-<em>Constantino</em> seu filho, de
-rico Moysaico, muito antigo, e outras figuras de Santos,
-que quasi naõ se parecem, por estarem maltratadas da
-antiguidade,
-e do tempo.<br />
-
-<br />
-
-Sahidos deste Santissimo Lugar como dez passos, à
-maõ esquerda, estaõ duas pedras redondas de
-marmore postas
-na terra, huma apartada da outra, como trez passos. Em
-huma esteve <em>Christo Senhor nosso</em>
-depois de resuscitado, na outra
-a <em>Santa Magdalena</em>, quando lhe
-appareceo em figura de
-Hortelaõ, e lhe disse: <em>Noli me
-tangere</em>. Daqui fomos à Capella,
-e Coro dos nossos Religiosos Franciscanos, em que
-dizem, appareceo <em>Christo Senhor
-nosso</em> a sua <em>Santissima
-Mãy</em>.
-Na entrada desta Capella, na parede, guardada com huma
-rede de ferro, de modo que o podemos tocar com os dedos,
-está hum pedaço da columna, em que
-<em>Christo Senhor nosso</em>
-foy açoutado. Com esta Estaçaõ
-acabámos de visitar esta Santissima
-Igreja. Nos quatro dias, e noites, que nella estivemos
-encerrados, reiteramos estas Estaçoens muitas vezes em
-procissaõ, e sós. He de grande contentamento
-ouvir pela
-meya noite a todas estas naçoens dizerem Matinas, cada
-h[~u]a
-na sua lingua, e canto.<br />
-
-<br />
-
-Sahidos desta Santa Igreja, nas costas da Capella Mayor,
-e no mais alto della, que he parte do <em>Sagrado monte
-Calvario</em>, visitámos huma Capella, adonde
-<em>Abraham</em> offereceo
-o sacrificio; e outra, que está perto, adonde
-<em>Melchisedech</em>
-offereceo paõ, e vinho; das quaes tem cuidado
-os Religiosos Abexins: e tornando para o nosso <em>Convento
-de Saõ Salvador</em>, nelle estivemos alguns
-dias, esperando
-ao nosso <em>Trucimaõ Atala</em>
-para ajustarmos a nossa vinda.
-Nestes dias reiterámos as Estaçoens dos Sagrados
-montes
-<em>Sion</em>, e
-<em>Olivete</em>; e chegando à
-Santa Cidade de Jerusalem
-quatro Religiosos de Saõ Francisco, que vinhaõ do
-<em>Cayro</em>,
-dous Italianos, e dous Hespanhoes, o principal dos Italianos
-<span class="pagenum">[40]</span>
-se chamava <em>Fr. Mattheus Salerno</em>,
-homem nobre do
-Reyno de Napoles, e muito virtuoso, que vinha para Comissario
-de <em>Jerusalem</em>; e o principal dos
-Hespanhoes, Fr.
-Luiz de Quesada, natural de Sevilha, os acompanhámos na
-continuaçaõ destes exercicios, que nunca
-enfadaõ, mas antes
-nos daõ recreaçaõ espiritual, por
-espaço de dez, ou doze
-dias. Trazia o Padre Salerno muito dinheiro, e muitas
-joyas para o serviço do <em>Santo
-Sepulchro</em>. Muitas toalhas, corporaes,
-e demais cousas para o Altar, e celebraçaõ das
-Missas,
-que offereciaõ muitas Senhoras de Hespanha, e Italia.
-Hum rico Caliz, que mandava ElRey de Hespanha; e outro
-com huma alampada, que offerecia o Grão Duque de
-Florença.
-Tudo me mostrou na Sacristia por contentar o meu
-desejo, e querer fosse eu testemunha de tudo.<br />
-
-<br />
-
-Já tratavamos de voltar para Italia, e o nosso
-<em>Atala</em>
-nos persuadia, a que fossemos com elle a Jaffa; porèm o
-<em>Padre Salerno</em> disse, que de nenhum
-modo queria andar por
-mar a costa da Palestina, porque já entrava o Inverno; pelo
-que resolveo hir por terra atè Tripoli, e eu em o
-acompanhar:
-e tendo eu assistido hum mez na <em>Santa Cidade de
-Jerusalem</em>,
-e os Religiosos quinze dias, dispuzemos a jornada;
-e agradecemos ao Padre Guardiaõ a hospedagem, dando-lhe
-tambem cada hum a esmola, que podia, e naõ a que
-desejava: e recebemos delle as patentes, e testemunho da
-nossa entrada na <em>Santa Cidade</em>,
-escritas em pergaminho, com
-o sello do <em>Santo Cenaculo</em>.<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><em>Da nossa sahida
-da Santa Cidade de</em>
-Jerusalem.<br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Chegou o tempo de sahirmos da Santa Cidade de
-<em>Jerusalem</em>,
-e o Padre Guardiaõ ajustou com
-<em>Atala</em>, e outros
-Mouros visinhos de <em>Jerusalem</em>, que
-nos levassem a <em>Damasco</em>,
-caminho de oitenta legoas. Com elles sahimos em jumentos,
-<span class="pagenum">[41]</span>
-(por naõ permittirem, que os Christãos andem a
-cavallo) sete Religiosos, e seis Peregrinos. Dous Religiosos
-destes faziaõ jornada para
-<em>Alepo</em>; trez para
-<em>Constantinopla</em>;
-dous, que eraõ o <em>Padre
-Salerno</em>, e seu Companheiro
-Fr. Serafino, e hum Leigo Hespanhol, chamado
-<em>Irmaõ
-Juliaõ</em>, e nòs Pedro Tudesco, e
-Nicolao Polaco, para Veneza.<br />
-
-<br />
-
-Despedidos do Padre Guardiaõ, tomada a sua Santa
-bençaõ, e abraçando com muitas
-lagrimas a todos os Religiosos,
-sahimos acompanhados de todos muitos passos fóra
-da Cidade, e repetidos os abraços, e lagrimas,
-começamos
-a caminhar, voltando a cada passo os olhos a traz, para vermos
-a <em>Santa Cidade</em>, os Sagrados montes
-<em>Sion</em>, e
-<em>Olivete</em>, e
-nos despediamos de taes Santuarios com muita tristeza; e
-tendo caminhado como meya legoa, a perdemos de vista.
-Nesta meya legoa vimos huma Igreja, e he o lugar adonde
-<em>Jeremias</em>, vendo a Cidade, e
-chorando, compoz as Lamentaçoens.<br />
-
-<br />
-
-Fizemos noite em huma Cidade destruida, trez legoas
-de <em>Jerusalem</em>, e nella
-esperámos huma caravana de trinta e
-trez camellos de mercadores Mouros, por fazermos jornada
-em sua companhia. Nesta Cidade foy que a <em>Virgem
-Senhora nossa</em> achou menos ao seu Filho
-<em>Christo Jesus</em> de tenra
-idade, e tornando a <em>Jerusalem</em> a
-procurallo, o encontrou
-no meyo dos Doutores no Templo. Proseguimos a jornada
-por esta parte de <em>Judéa</em>,
-e entrámos na Provincia de
-<em>Samaria</em>.
-Neste dia fizemos noite na Cidade de
-<em>Sichar</em>, a que os
-Mouros chamaõ <em>Nablos</em>.
-Aqui está o poço, donde <em>Christo
-Senhor nosso</em> fallou à
-<em>Samaritana</em>; naõ o vi,
-porque entrámos
-já de noite; porèm meu companheiro o vio, que
-ficou
-a traz com parte da companhia, e disse que naõ tinha agua.
-Estivemos naquella noite dentro da Cidade, e dormimos na
-rua, porque nos naõ déraõ pousada; e
-no dia seguinte, pela
-tarde, continuámos a jornada.
-<br />
-
-<br />
-
-<span class="pagenum">[42]</span>
-Nesta Cidade de <em>Sichar</em>
-prégou <em>Christo Senhor
-nosso</em>
-dous dias, convertendo os seus moradores. He muito fermosa,
-e fresca, e tem boas casas, e muitas Torres. He habitada
-de dous mil visinhos. Está entre dous montes, e o principal
-he o <em>Garisim</em>. Tem hum valle, dos
-fermosos que se
-podem ver, em que ha muitas hortas, e fontes, arvores, e
-frutas. Quando eu vi da outra parte da Cidade tantas fontes,
-passando por este valle, entendi que as naõ haveria no tempo
-da Samaritana; porque havendo-as, naõ buscaria
-taõ
-longe a agua. Aqui habitou <em>Jacob</em> com
-seus filhos, e gados,
-e deu a <em>Joseph</em> por melhor huma
-herdade, como diz a <em>Santa
-Escritura</em>. Na Cidade nos mostraraõ a sua
-casa. Toda esta
-Comarca de <em>Sichar</em> he fertilissima de
-paõ, gados, e de tudo
-o necessario para a vida humana. Ao outro dia chegámos
-à Cidade de <em>Sebaste</em>,
-Cabeça do Reyno, e Provincia de
-<em>Samaria</em>;
-nome que teve em outro tempo; agora está destruida,
-ainda que alguns edificios bem mostraõ a sua antiga
-grandeza. Ha nesta Cidade huma Igreja de pedra, e duas
-partes della estaõ cahidas; porèm o que
-está em pé, he taõ
-bem lavrado, como a mais perfeita obra Romana. No Altar
-desta Igreja, dizem, foy degollado o grande
-<em>Saõ Joaõ
-Bautista</em>
-por mandado delRey Herodes. He digno de
-consideraçaõ
-particular, o ver esta Cidade em que residiraõ tantos
-Reys, destruida; pois apenas terá cincoenta casas; o
-que tambem se vê em toda a Palestina, pois vimos Cidades,
-pelos caminhos que andámos, que antigamente foraõ
-populosas,
-e insignes; e hoje só se vem pedras, e algumas paredes.
-Bem se colhe ser vontade de Deos; e que estaõ destruidas
-por peccados dos habitadores daquelle tempo. Aqui
-nos disseraõ, que a companhia dos camellos, que vinha
-comnosco, ficando muito a traz, a roubáraõ os
-Arabes.
-Naõ sey que assim fosse, o que posso dizer he, que
-já mais
-a vimos; e démos graças a Deos por nos livrar.
-<br />
-
-<br />
-
-<span class="pagenum">[43]</span>
-Passadas dez legoas de travessia desta Provincia de
-<em>Samaria</em>,
-entrámos na de <em>Galilea</em>.
-Da Santidade della basta dizer,
-que Christo Senhor nosso a passeou muitas vezes, e
-nella obrou as maravilhas, que referem os Chronistas Sagradas.
-Cinco legoas dentro nesta Provincia está h[~u]a Igreja
-cahida
-entre h[~u]as casas, de que se fórma huma pequena Aldea,
-chamada <em>Janim</em>, em o lugar adonde
-Christo Senhor nosso sarou
-aos dez Leprosos. Mais adiante trez legoas, vimos quatro
-celebrados montes. O <em>Carmelo</em>, [~q]
-está ao Poente do nosso
-caminho, junto ao Mediterraneo. O
-<em>Hermon</em>, [~q] está
-à parte
-de Levante, e junto a elle a Cidade de Naim, adonde
-<em>Christo
-Senhor nosso</em> resuscitou o filho da Viuva; agora he
-pequena
-Villa. O monte, a que está contigua a <em>Santa
-Cidade de Nazareth</em>,
-adonde encarnou o <em>Filho de Deos</em>.
-Naõ subimos a este
-lugar, bem que estava perto, por[~q] o naõ
-permittiraõ os nossos
-Mouros; e sómente vimos branquear as ruinas dos edificios.
-A ditosa casa, em que a <em>Virgem Senhora
-nossa</em> concebeo
-ao <em>Filho de Deos</em>, que estava nesta
-Cidade, a trouxeraõ
-os Anjos, haverá duzentos annos, para Italia, e a
-collocáraõ
-em <em>Loreto</em>, tendo primeiramente sido
-levada a duas
-partes. Obra Deos nella infinitos milagres, de que estaõ
-cheyos os livros, e na Igreja em que está, já
-naõ ha parte
-adonde se ponhaõ tantas memorias. Tem muita riqueza de
-pessas de ouro, e prata, ornamentos, offertas que fizeraõ
-Pontifices, Reys, Principes, Senhores, &c. no que lhe
-naõ
-excede alguma Igreja do mundo. Cercaraõ os Pontifices esta
-camara Angelical com huma fermosa Igreja, e está no
-meyo della. As paredes de fóra estaõ cubertas de
-marmore
-lavrado de lindas figuras, em que se vê a vida da
-<em>Santissima
-Virgem, Mãy de Deos, e Senhora nossa</em>. Por
-dentro estaõ
-descubertas as pedras, e ladrilho, mais agradaveis, ainda
-que antigos, que todas as pedras preciosas do Mundo, pois
-cremos, que foraõ tocadas milhares de vezes por
-<em>Christo</em>
-<span class="pagenum">[44]</span>
-<em>Senhor nosso</em>, e sua
-<em>Santissima Mãy</em> Tem no
-meyo hum Altar
-donde dizemos Missa, que divide a huma parte a chaminé,
-adonde a <em>Virgem Senhora nossa</em>
-guizava a sua ordinaria
-comida. Está esta ditosa chaminé cuberta de
-prata, e outras
-riquezas.<br />
-
-<br />
-
-Junto a esta Santa Igreja está hum sumptuoso Collegio
-da Companhia de Jesus, em que assistem Religiosos de
-muitas naçoens. Esta Santa Casa he frequentada de muita
-gente, que a visita, de toda a Christandade.<br />
-
-<br />
-
-Desta Santa Cidade de <em>Nazareth</em> sahio
-a Virgem <em>Senhora
-nossa</em> pejada, acompanhada do seu
-<em>Esposo Santissimo
-Saõ Joseph</em>, a escreverse na Cidade de
-Bethleem, pelo edito,
-e mandato geral do Emperador <em>Cesar
-Augusto</em>, por ser
-esta Cidade sua, como descendentes da Real estirpe de
-<em>David</em>; e alli pario a seu
-<em>Unigenito Filho</em>, e do
-<em>Eterno
-Pay</em>. De Nazareth a Bethleem ha trinta legoas, pouco
-mais,
-ou menos.<br />
-
-<br />
-
-O outro monte he o <em>Thabor</em>. Ao
-pé delle chegámos,
-e vimos dous edificios cahidos; hum no principio, outro
-no alto do monte, adonde <em>Christo Senhor
-nosso</em> esteve com
-os seus Discipulos <em>Saõ
-Pedro</em>, <em>Saõ
-Joaõ</em>, e
-<em>Santiago</em>, e se transfigurou
-ante elles, e de <em>Moysés</em>,
-e <em>Elias</em>. Nelle ouvio a voz
-do <em>Eterno Pay</em>, dizendo:
-<em>Hic est Filius meus dilectus,
-&c.</em>
-Demais da Santidade deste monte, que he o principal, por
-nelle se mostrar <em>Christo Senhor
-nosso</em> glorioso, e resplandescente
-com os rayos de gloria; he tambem muito alegre, fermoso,
-e bem proporcionado na sua postura, alto redondo,
-e apartado dos outros; de modo, que parece, foy posto à
-maõ naquelles Valles.<br />
-
-<br />
-
-Proseguimos o nosso caminho, levando o rosto ao
-Norte, e chegámos ao mar de
-<em>Galilea</em>, que se chamou
-<em>Tiberiades</em>.
-Ainda que se chama <em>Mar</em>,
-naõ o he; porque a agua
-he doce, e está apartado do Mediterraneo mais de doze
-legoas.
-<span class="pagenum">[45]</span>
-Neste <em>mar</em>, ou
-<em>lago</em>, fez Deos milhares de
-maravilhas.
-Aqui estavaõ pescando <em>Saõ
-Pedro</em>, e <em>santo
-André</em>, e em outro
-barco <em>Saõ
-Joaõ</em>, e
-<em>Santiago</em>, quando os chamou
-<em>Christo Senhor
-nosso</em> para que o seguissem, e que os faria pescadores
-de homens; e deixando as suas redes, o seguiraõ. Ha na
-ribeira
-deste lago muitas Povoaçoens, que em outro tempo
-foraõ Cidades principaes. Entre ellas he celebre
-<em>Capharnaum</em>,
-<em>Corozaim</em>, e
-<em>Bethsaida</em>. Ao presente
-sómente se vem
-as suas ruinas. Junto a este lago fez <em>Christo Senhor
-nosso</em> o
-milagre de dar de comer às turbas, que o seguiaõ,
-com
-cinco paens, e dous peixes. Muitas vezes andou, e navegou
-sobre as suas aguas este mesmo Senhor. Aqui se manifestou
-aos Discipulos, depois de resuscitado. Terá este cinco
-legoas,
-pouco mais, ou menos de comprido, e de largo pouco mais
-de duas. A agua he do <em>Rio
-Jordaõ</em>, que nelle entra, e sahe
-correndo, mais de quarenta legoas atè o <em>Mar
-morto</em>, em
-que se recolhe, e naõ torna a sahir. Na sua ribeira ha
-muitas
-fontes. Pousàmos esta noite, e tarde, que
-chegàmos,
-junto a este lago, em Bethsaida, terra, e Patria dos Apostolos
-<em>Saõ Pedro</em>,
-<em>Santo Andrè</em>, seu
-irmaõ, e <em>Saõ
-Filippe</em>. Alegria
-grande tivemos por pernoitarmos aqui, pois <em>Christo
-Senhor
-nosso</em> aqui esteve muitas vezes. He agora huma Villa
-de cem
-visinhos. A Comarca he das fermosas, que tem o Mundo,
-muito fertil de gados, frutas, e palmas. Comemos peixe
-deste lago, que nos soube muito bem, por ser donde
-<em>Christo
-nosso Redemptor</em> o comeo algumas vezes, e por ser
-bonissimo,
-e pela devoçaõ com que o comiamos, e pela fome,
-que tinhamos.<br />
-
-<br />
-
-No outro dia madrugàmos muito, e caminhàmos por
-asperas montanhas, e chegàmos antes do meyo dia ao celebre
-<em>Rio Jordaõ</em>, que ainda que
-nesta parte naõ foy o <em>Bautismo
-de Christo Senhor nosso</em>, com tudo por nelle se
-celebrar,
-nos deu a sua vista muita alegria, e contentamento.
-Apeàmonos
-<span class="pagenum">[46]</span>
-todos contra a vontade dos Mouros, e com grande
-ancia chegàmos à agua, bebendo toda a que
-podémos, lavando
-nella cabeça, rosto, e mãos; e nos parecia, que
-tinhamos
-desejo de nos converter em peixes, para naõ sahirmos
-de aguas taõ santificadas. Nesta parte he o rio apertado,
-e se pòde vadear. A agua he cristalina, fresca, e muito
-doce. Passàmos por huma ponte de pedra bem lavrada,
-e à maõ esquerda vimos huma lagoa, que se chama
-<em>Aguas
-Meronas</em>, que saõ do mesmo rio.<br />
-
-<br />
-
-Nasce este famoso rio de duas fontes, que vem do
-<em>Monte Libano</em>, huma chamada
-<em>Jor</em>, outra
-<em>Daõ</em>, e dellas toma
-o nome de <em>Jordaõ</em>. Estas
-fontes deixamos à maõ esquerda,
-quando vamos de <em>Damasco</em> a
-<em>Tyro</em>, e
-<em>Sydonia</em>.<br />
-
-<br />
-
-Passado o rio Jordaõ, entràmos na
-<em>Syria</em>, que commummente
-se chama <em>Suria</em>, e em trez dias
-chegàmos a <em>Damasco</em>.
-Naõ vimos cousa notavel neste caminho, sómente
-encontràmos muitos Senhores, e Cavalheiros Turcos,
-acompanhados
-de muita gente de pè, e cavallo, e muitos camellos
-carregados com as suas recamaras, mulheres, e familia,
-que faziaõ jornada para o
-<em>Cayro</em>. Neste mesmo caminho me
-lembra sempre, quando hum Turco me deu com hum pao,
-sómente por passatempo, e foy rindo com os seus
-companheiros.
-Antes de chegarmos à Cidade quatro legoas, a vimos;
-porque se descobre assentada ao pè do <em>Monte
-Libano</em>.
-He muito fermosa pelas muitas Torres, que tem; e pela
-abundantissima veiga. Legoa e meya antes que nella entrassemos,
-passàmos muitas hortas, assudes, fontes, e sitios
-frescos, e aprasiveis. A tarde antes, e o dia, em que
-entràmos,
-vimos sahir, e entrar nella mais de mil camellos,
-com provimentos necessarios. Entràmos, e andàmos
-grande
-parte della primeiro que chegassemos à pousada, que foy
-na <em>Alfandega</em>, sempre a pè
-porque naõ consentem os Turcos,
-que entremos a cavallo; nos seus Povos, e pelas jornadas
-sómente nos permittem jumentos.
-<br />
-
-<br />
-
-<span class="pagenum">[47]</span>
-Tem esta Cidade em todas as ruas, ao menos huma
-fonte. He a mais abundante do necessario para a vida, assim
-de comestivel, como de sedas, brocados, panos, tèlas,
-&c.
-que naõ creyo haja outra no Mundo. He a sua
-Povoaçaõ,
-pouco menos, que a de <em>Sevilha</em>. Por
-fóra naõ parecem as
-casas bem, ainda que por dentro ha muitas principaes, e apparatosas.
-Ha nella, como diziaõ, quatro centas mil Mesquitas,
-bem edificadas, e todas tem à porta fonte, para se lavarem,
-os que entraõ a fazer sua oraçaõ. Por
-fóra vimos muitas,
-porque dentro naõ podemos entrar na fórma que
-està dito.<br />
-
-<br />
-
-Estivemos nesta Cidade cinco dias, e quasi todos os
-Peregrinos enfermàraõ, porque dormiamos no
-chaõ, e em
-mao aposento; porèm Deos me reservou pela sua misericordia,
-com saude, para tratar delles. Havia naquelle
-tempo em Damasco hum Cavalheiro Veneziano, chamado
-<em>Bernardo</em>, Consul dos Italianos, que
-nos deu nestes dias de
-comer regaladamente, com que reparàmos o damno, que
-experimentàvamos de naõ ter comido de
-<em>Jerusalém</em> atè
-àquella Cidade mais que paõ, uvas, e agua; porque
-ainda
-que naõ falta de comer, como naõ ha estalagens
-para os Christãos,
-passàmos mal, pois pousàmos nos curraes, e
-estrevarias
-em companhia de camellos, e bufallos. Com este Cavalheiro,
-e hum Religioso de <em>Saõ
-Francisco</em>, que o
-<em>Baxà</em>
-ViRey, e Senhor da Cidade tinha em sua casa por ayo de
-seus filhos, de quem sómente os fiava, e naõ de
-Turcos, ou
-Mouros, andàmos muitas vezes a mayor parte da Cidade
-passeando-a, para a vermos, e para comprar algumas cousas
-para a nossa jornada.<br />
-
-<br />
-
-Celebravaõ os Turcos, e Mouros nestes dias que alli
-estivemos a sua <em>Paschoa</em>, que durou
-trez dias, em que todos
-andavaõ muito alegres. Em hum destes hia eu por huma
-rua, em que havia muita gente, vi, que hum Turco andava
-a cavallo correndo por entre elles, e era necessaria grande
-<span class="pagenum">[48]</span>
-destreza para os que estavaõ naõ ficarem
-atropellados.
-Levava hum alfange nù, e estava bastantemente borracho,
-pelo que abrio a cabeça a hum Mouro com huma só
-cutilada.
-Eu me escondi entre os Mouros, e passou como rayo. Delle
-escapey diligentemente, porque sem duvida gostaria de
-dar outra tal, vendo hum Christaõ. Este foy o encontro,
-que tive de receyo; pois sempre andámos pela Cidade, vendo
-suas festas, sem que nos offendessem. Naõ deve esta
-Cidade nada às melhores do Mundo. He habitada de Turcos,
-Mouros, e Judeos Mercadores, e de muitas naçoens de
-Christãos, que saõ o mais viandantes. Em todos os
-officios
-tem bons officiaes; e muito particularmente os que tecem
-sedas; o que vimos na casa de hum Turco, em que se tecia
-o melhor brocado, que vi na minha vida. Bem merece
-esta Cidade o ser Cabeça da
-<em>Syria</em>. O que nella ha que ver
-de devoçaõ, he a casa de
-<em>Ananias</em>, Discipulo de
-<em>Christo nosso
-Redemptor</em>, em que lhe fallou, e mandou, que fosse
-buscar
-a <em>Saõ Paulo</em> já
-convertido, que estava orando, e o foy a bautizar,
-e confortar. Mostráraõ-nos o muro, por donde a
-este
-<em>Santo Apostolo</em> o
-lançáraõ os Christãos em
-huma alcofa,
-e assim escapou delRey <em>Aveta</em>, que o
-queria matar.
-Mostráraõ-nos tambem em huma praça
-huma pedra cercada
-com humas grades, e della dizem, subio a cavallo Saõ
-Jorge, quando foy a matar a Serpente. Sómente escrevo o
-que vi, e o que nos disseraõ.<br />
-
-<br />
-
-Chegou o tempo de fazermos viagem para Veneza,
-e o Consul Veneziano, que nos regalou neste tempo, ajustou
-com huns Mouros honrados, e fieis para nos levarem
-à Cidade de <em>Tripoli</em>,
-donde nos haviamos de embarcar,
-que tambem está na <em>Syria</em>.
-Alcançámos ainda em
-<em>Damasco</em>
-a Festa de <em>Todos os Santos</em>, e o dia
-dos Fieis Defuntos, e dissemos
-Missa no aposento do Consul encerrados, e era
-quanto celebravamos, esperavaõ de fóra
-<em>Mouros</em>,
-<em>Turcos</em>,
-<em>e</em>
-<span class="pagenum">[49]</span>
-<em>Judeos</em>, que vinhaõ a
-negociar, para nos naõ perturbar.<br />
-
-<br />
-
-Tratouse antes de sahirmos da Cidade, do caminho
-mais direito para <em>Tripoli</em>; e nos
-disséraõ, que pelo <em>Monte
-Libano</em>, por onde viera hum Cavalheiro Veneziano,
-naõ
-fossemos; porque nelle havia muitos ladroens Arabes, e o
-monte estava muito cheyo de neve: e assim rodeando, como
-vinte legoas ao nosso Mediterraneo, sahimos de
-<em>Damasco</em>.
-Vimos <em>Tyro</em>, e
-<em>Sydonia</em>; passámos por
-<em>Baruth</em>, e por suas
-hortas fresquissimas. Por este caminho seraõ como quarenta
-e cinco legoas de <em>Damasco</em> a
-<em>Tripoli</em>.<br />
-
-<br />
-
-He esta ribeira da <em>Syria</em>, de
-excellente terra, grandes
-montes, muitas, e boas herdades, e algumas de Christãos
-Maronitas, que vivem no <em>Monte
-Libano</em>, junto a
-<em>Tripoli</em>.
-Ha por estes montes perdizes, e outras caças de Europa;
-e muitos rios, e passagens por regates, que baixaõ do
-<em>Libano</em> ao Mediterraneo.<br />
-
-<br />
-
-Passando a ribeira do mar, fomos por hum caminho
-estreito aberto nas penhas, e chegámos a hum rio, que
-passámos
-por huma fermosa ponte do tempo dos Romanos.
-Alli se lê em duas pedras hum letreiro Latino, e outro
-Arabigo,
-em que se faz memoria dos Emperadores <em>Marco
-Antonio</em>,
-e <em>Marco Aurelio</em>. Chama-se o rio
-<em>Caõ</em>, por certa fabula
-dos Gentios, que dizem, que este Caõ, que era de
-pedra, dizia aos desta terra, quando havia de haver guerra,
-ou alguma fatalidade, e depois o
-lançáraõ no rio, que
-tomou o seu nome. Eu o vendo pelo preço, que o comprey.
-Cada hum crea o que lhe parecer.<br />
-
-<br />
-
-He este <em>Monte Libano</em> muito grande, e
-atravessa muita
-terra de Damasco atè o mar. Tem muitos braços, e
-o
-principal vay direito a Tripoli, e passando duas legoas a
-diante da Cidade, se vê bem a parte mais alta, que toda
-estava
-cuberta de neve. Deste monte se cortou a madeira para
-o <em>Templo de Salamaõ</em>. Ha
-nelle boas vinhas, e o vinho
-<span class="pagenum">[50]</span>
-dellas he excellentissimo. He digno de se ver, pelas muitas
-vezes, que a Santa Escritura faz delle memoria. No dia,
-que chegámos a <em>Tripoli</em>
-choveo muito, pelo que naõ sahio
-huma grande embarcaçaõ, e tinhamos grande desejo
-de a alcançarmos.
-Deos nosso Senhor parece que a guardou por
-sua infinita bondade para virmos nella; porque ainda que
-havia outras naos para
-<em>Constantinopla</em>, e para outras partes
-de <em>Italia</em>, e
-<em>França</em>, esta vinha em
-direitura a <em>Veneza</em>.<br />
-
-<br />
-
-He a Cidade de <em>Tripoli</em> na
-<em>Syria</em> muito boa, e de fortes
-casas. A sua Povoaçaõ está em trez
-montesinhos, junto
-ao mar; ainda que o porto está desviado meya legoa. He
-fresquissima, abundante de aguas, e hortas, laranjas, limoens,
-palmas, e tudo o mais que tem huma terra fertil.
-He escala dos Mercadores de meyo Mundo, de Poente, Levante,
-e India Oriental. Na nossa nao vieraõ para hirem para
-Veneza nove Mercadores Italianos, que vinhaõ da India,
-a que ha mais de duas mil legoas por terra, passando quarenta
-dias por desertos, como nos affirmáraõ, e por
-caminhos
-de area, adonde nem se acha agua, nem que se coma:
-pelo que trazem o que haõ de comer, e beber em camellos,
-que commummente costumaõ trazer mil em companhia.<br />
-
-<br />
-
-Recolhemonos em <em>Tripoli</em> em h[~u]a
-casa de Religiosos,
-e Peregrinos, que he como hum Convento, em que estaõ
-ordinariamente trez Religiosos de <em>Saõ
-Francisco</em>, mandados
-pelo Padre Guardiaõ de Jerusalem, que saõ como
-Curas dos
-Mercadores Italianos, que alli estaõ.<br />
-
-<br />
-
-He esta Cidade habitada de Turcos, Mouros, e Judeos.
-O Padre Guardiaõ nos acompanhou a todos, Religiosos,
-e Peregrinos atè a embarcaçaõ: e
-excepto os Religiosos, nos
-embarcàmos sete Peregrinos.
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[51]</span>
-<em>Da nossa viagem de Tripoli atè
-Veneza.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Sahidos do porto de <em>Tripoli</em>,
-navegámos, e pouco a pouco
-chegámos à Ilha de
-<em>Chypre</em>, passando à vista
-de <em>Famagusta</em>,
-Cabeça deste Reyno; e démos vista de
-<em>Candia</em>,
-costeando pela Turquia, até chegar à
-<em>Morea</em>, à vista de
-<em>Modon</em>. Daqui caminhámos a
-<em>Zante</em>, em que estivemos dez
-dias, e logo a <em>Corfu</em>, adonde
-estivemos e celebrámos a Festa
-do <em>Nascimento de Christo Senhor
-nosso</em>. He esta Ilha de
-<em>Corfu</em>,
-huma das mayores forças, que os Venezianos tem na
-<em>Grecia</em>;
-e como tal, he de muita consideraçaõ, por ser
-como chave de
-Italia.<br />
-
-<br />
-
-Passámos a costa de
-<em>Esclavonia</em>,
-<em>Albania</em> e
-<em>Dalmacia</em>,
-e chegàmos à agradavel Ilha, e Cidade de
-<em>Lesna</em>, e nos
-hospedáraõ os Religiosos de
-<em>Saõ Francisco</em> no seu
-Convento
-por espaço dos cinco dias em que houve no mar grande
-tormenta.
-Fallaõ aqui os naturaes a lingua
-<em>Esclavonica</em>, ainda
-que entendem a <em>Italiana</em>. A Cidade he
-pequena; tem boas,
-e fortes casas, e bom porto. Daqui viemos pela costa de
-<em>Istria</em>
-à Cidade, e Bispado de
-<em>Parenço</em>, e sahindo da nao
-em
-hum barco, passámos a
-<em>Veneza</em>, a que ha quarenta legoas,
-adonde chegámos com saude, e alegria, e a Deos
-démos as
-graças por nos levar, e trazer de taõ Santa
-viagem, e jornada
-taõ perigosa por mar, e terra. Gastámos de
-<em>Tripoli</em> a
-<em>Veneza</em>
-a sessenta e seis dias. Entrámos na Cidade em 19. de Janeiro
-do anno 1589. e desde que della sahimos, atè que
-tornàmos,
-passáraõ cinco mezes, e cinco dias.<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><em>Da jornada, que
-fizemos de Veneza atè
-Sevilha.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Detivemonos mez e meyo em Veneza, por repararmos
-a saude, e socegarmos do trabalho do caminho, recolher,
-e emendar os meus livros, que achey estampados. Hospedou-nos
-<span class="pagenum">[52]</span>
-hum Cantor da <em>Senhoria</em>, chamado
-<em>Antonio de
-Ribera</em>, que me regalou de modo, que meus pays se
-foraõ
-vivos, e alli se acháraõ, o naõ
-fariaõ melhor, nem com mais
-amor, o que foy causa, de que nos restituissemos ao que
-eramos, pois vinhamos muito maltratados.<br />
-
-<br />
-
-Sahidos de Veneza, viemos a <em>Ferrara</em>,
-<em>Bolonha</em>,
-<em>Florença</em>,
-<em>e Pisa</em>, Cidades principaes de
-<em>Italia</em>. Chegámos a
-<em>Leorne</em>,
-porto de <em>Toscana</em>, procurando as
-Galés do <em>Graõ Duque
-de Florença</em>, que partiaõ para
-Marselha, a buscar a <em>Graõ
-Duqueza</em> sua esposa, filha do <em>Duque
-de Lorena</em>. Estava o
-<em>Graõ Duque</em> em
-<em>Leorne</em>, e me fez a merce de me
-admittir
-a beijarlhe a maõ. Mandoume aposentar, e dar o necessario
-com toda a grandeza; e me prometteo de me accómodar nas
-Galés do <em>Papa</em>, que estava
-esperando por instantes para hirem
-em companhia das suas, que jà tinhaõ partido com
-as
-de <em>Genova</em>, e
-<em>Malta</em>, que por todas eraõ
-dezaseis, adornadas,
-e armadas com toda a magnificiencia, como para a occasiaõ
-de bodas de taõ grande Principe.<br />
-
-<br />
-
-Chegàraõ as Galés do
-<em>Papa</em>, e o Capitaõ General
-a
-rogo do <em>Graõ Duque</em>, me
-recebeo, e me regalou na sua Capitania,
-trazendo-me na camera de popa, e dandome a sua
-mesa, e tambem tratado cheguey a
-<em>Marselha</em>, que naõ
-estranhey
-o mar, pois nelle tive todos os regalos da terra.<br />
-
-<br />
-
-Na Semana Santa entrey em <em>Marselha</em>,
-e nella tive a
-<em>Paschoa</em>; e como as Galés
-ficáraõ esperando a
-<em>Duqueza</em>,
-fretámos hum Bergantim para virmos a
-<em>Barcelona</em>, em que
-embarcámos dous Genovezes, (hum se chamava
-<em>Joaõ Ansaldo</em>)
-dous Italianos, e dous Hespanhoes.<br />
-
-<br />
-
-Sahimos do porto com hum pouco de mao tempo, e
-com o desejo de tornar para
-<em>Marselha</em>, tanto que nos fizemos
-ao largo; e tendo caminhado como cinco legoas; entrámos
-no abrigo de huma calheta, por naõ podermos passar a
-diante. Apenas puzemos os pés em terra, quando vimos
-<span class="pagenum">[53]</span>
-junto a nòs hum Bergantim, que entendemos, vinha, como
-o nosso, a esperar, que o tempo melhorasse. Vinha elle cheyo
-de arcabuzeiros ladroens, e muitos Lutheranos; e descubrindo-se
-com os arcabuzes à cara, lhes dissémos,
-<em>que se
-detivessem, que nos dávamos por rendidos</em>,
-porque se nos puzessemos
-em resistencia, nos perdiamos, pois em o nosso Bergantim
-sómente havia espadas, e dous arcabuzes mal preparados;
-e ainda que fossem mais, eraõ poucos; e assim melhor
-era salvar as vidas. Estes soldados (ou ladroens, por melhor
-dizer) entraraõ no nosso Bergantim,
-tomáraõ-nos as chaves
-dos nossos alforges, e maletas, e tudo revolveraõ,
-naõ deixando
-cousa em seu lugar. Estavamos nòs em terra, vendo
-o que passava, e esperando o fim destes ladroens, com
-taõ pouca esperança de vida, olhando huns para os
-outros
-sem dizer palavra. Era já quasi noite, quando nos
-mandáraõ
-entrar em o seu Bergantim, e tomáraõ posse da
-nossa
-roupa, e armas; e nos fizeraõ tornar a traz a huma Fortaleza
-em que viviaõ, e donde sahiaõ a fazer estes
-roubos. Antes
-que a ella nos levassem, nos puzeraõ em huma camara
-cheya de palha, e junto a ella muita lenha, e todos
-estiveraõ
-de fóra fallando na sua lingoa: e nòs
-encomendando-nos
-a Deos, com o temor de que aquelles Hereges nos queimassem;
-porèm <em>Deos nosso Senhor</em>
-nos tirou deste temor, e perigo.<br />
-
-<br />
-
-Levaraõ-nos dahi a pouco à Fortaleza,
-deraõ-nos de
-cear, e as suas pobres camas; e começámos a
-perder o medo.
-Démos à mulher do Capitaõ alguns
-escudos de ouro, e ella
-nos assegurou, que naõ haveria perigo em nossas vidas.
-Trez dias estivemos desta maneira, sem nos deixarem sahir,
-nem aos nossos marinheiros, que tambem estavaõ prezos
-comnosco; e começámos a tratar da nossa
-liberdade, sendo
-medianeiro hum <em>Francez</em> que hia, e
-vinha. Pedio o Capitaõ
-por cada hum de nòs cem escudos, e que nos daria a roupa;
-<span class="pagenum">[54]</span>
-ao que respondemos, que os naõ tinhamos, que fizesse
-o que quizesse.<br />
-
-<br />
-
-Neste tempo chegou hum homem de Marselha desta
-companhia; e naõ soubemos que ordem trouxe; porèm
-o Capitaõ
-disse logo, <em>que de nòs naõ
-queria cousa alguma, porque
-elles eraõ Christãos, e nòs tambem;
-mas que como pobres soldados
-necessitavaõ</em>. Cada hum deu o que pode; a
-mim me custou
-a minha roupa vinte e cinco escudos; e deramos no dia, em
-que nos prenderaõ, pela segurança da vida, quanto
-nos pedissem.
-Aqui estivemos oito dias, e nos embarcámos com
-seu beneplacito, acompanhando nos o Capitaõ, e companheiros
-trez, ou quatro legoas no seu Bergantim, e nòs no
-nosso. Quando se apartou nos disse, <em>que naõ
-tornassemos a
-Marselha; porque se tornassemos, e elle nos colhesse, nos cortaria
-as cabeças</em>; e certamente o fariamos se
-podessemos, para
-que se soubesse de semelhantes Hereges ladroens.<br />
-
-<br />
-
-Caminhámos dous dias por esta costa de
-<em>França</em>, e na
-Provincia de <em>Languedoc</em> em huma
-manhãa, caminhando nòs
-a remo, vimos sahir outro Bergantim com muita pressa de
-hum rio, e que nelle entrava alguma gente de terra, e
-começou
-a remar para o nosso, porèm os nossos marinheiros
-tanto trabalháraõ, que nos naõ
-puderaõ alcançar; porèm
-quando cuidámos, que estavamos livres delle, appareceo
-hum navio à vèla, que vinha contra
-nòs. Entendemos, que
-seria navio, que caminhava para Levante; mas logo que
-emparelhou com o nosso Bergantim, amainou, e mandou
-que parassemos, e se descubriraõ doze arcabuzeiros
-ladro[~e]s,
-e Lutheranos, que com as armas à cara nos
-renderaõ, e entraraõ
-o nosso Bergantim, e de nòs, e da roupa fizeraõ o
-mesmo, que os outros ladroens Lutheranos, ainda depois
-de lhe darmos o que levavamos nas bolças. Ataraõ
-o nosso
-Bergantim ao seu navio, e nos leváraõ como huma
-legoa, rio
-acima, junto ahuma Povoaçaõ, que
-chamaõ <em>Cirinhan</em>. Esta
-<span class="pagenum">[55]</span>
-segunda prizaõ nos deu mais temor da morte, porque como
-disse hum dos soldados a <em>Joaõ
-Ansaldo</em>, teve o arcabuz à
-cara para me matar, e disparando-o, errou o tiro, ou passou
-por alto; o que todos attribuimos, a que neste tempo nos
-encomendámos à <em>Virgem Senhora de
-Monserrate</em>, fazendo
-voto de ir visitar a sua Casa, e de lhe dizer Missa. Passadas
-quatro horas, estando assim, veyo hum Cavalheiro, Alferes
-desta terra, e tomou por conta em hum rol toda a nossa
-roupa, e ordenou se guardasse no navio; e logo nos levou
-a huma Villa distante huma legoa, rogando-me, para que
-aceitasse o seu cavallo, e que elle como mais moço
-caminharia
-a pè, de que todos lhe démos o agradecimento, e
-chegados ao lugar, a todos deraõ pousada, e a mim me levou
-para sua casa, adonde me regalou.<br />
-
-<br />
-
-Neste lugar reside hum Cavalheiro, Senhor de dous
-lugares, este nos recebeo alegremente, e dando-nos palavra
-de segurança (porque era Catholico Romano) nos disse
-escreveria
-ao <em>Duque Motmoranci</em>, Senhor da
-Provincia de
-<em>Languedoc</em>. Era Secretario deste
-Duque hum <em>Genovez</em> parente,
-e amigo de <em>Joaõ Ansaldo</em>;
-e tanto que soube da nossa
-prizaõ, fez toda a diligencia pela nossa liberdade; e por
-elle nos mandou despachar o Duque, e nos deu hum passaporte,
-para que se encontrassemos outros navios do seu destricto,
-tivessemos segurança; pelo que sahimos alegres, ainda
-que alguns escudos nos ficáraõ nas
-mãos dos soldados.<br />
-
-<br />
-
-Sahimos daqui, e em quatro dias chegámos a
-<em>Barcelona</em>,
-aonde démos graças a Deos por nos livrar destes
-ladroens
-Francezes Lutheranos, e de muitas Galeotas de Turcos,
-que andavaõ por esta costa, das quaes tomou nove o filho
-de <em>Andrè Doria</em>. Digo
-certamente, que tendo andado
-por tantos, e taõ varios caminhos entre Turcos, Mouros, e
-Arabes, naõ tivemos o perigo, e pezar que padecemos na
-França. Visitámos a <em>Virgem
-Santissima de Monserrate</em>, e lhe
-<span class="pagenum">[56]</span>
-démos as graças pelas merces que
-<em>Deos nosso Senhor</em> nos fez,
-por sua intercessaõ; e logo tomámos o caminho de
-<em>Valença</em>,
-<em>Murcia</em>,
-<em>Granada</em>, e chegámos a
-Sevilha, eu, e meu
-companheiro Francisco Sanches, com saude, adonde com
-muito contentamento fuy recebido de todos, especialmente
-do Illustrissimo Cardeal, o Senhor Dom Rodrigo de Castro,
-e do Cabido da Santa Igreja.<br />
-
-<br />
-
-Dey conta neste breve tratado da minha viagem à
-<em>Terra Santa</em>, com toda a verdade
-Christãa, a todo o que
-desejar saber o caminho. De <em>Sevilha</em>
-a <em>Jerusalem</em> ha mil e
-quatro centas legoas de ida; e pela volta, que dey, pela Cidade
-de Damasco, entendo, que de ida, e vinda, ha trez
-mil legoas. He facil andar este caminho, pois eu o andey,
-tendo sessenta annos; pelo que se animem os moços, e que
-tem possibilidade, a fazerem taõ Santa viagem; que eu lhes
-certifico, que depois de vistos taõ Santos Lugares, seja tal
-o seu contentamento, que o anteponhaõ ao de possuirem todos
-os thesouros do Mundo.<br />
-
-<br />
-
-<h2>FIM.</h2>
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><em><img style="width: 250px; height: 189px;" alt="" src="images/fig01.png" /></em><br />
-
-<em></em></div>
-
-<em><br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-</em>
-<div class="fbox">
-<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
-
-<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
-listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
-
- <tbody>
-
- <tr align="right">
-
- <td style="width: 61px;"></td>
-
- <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
-
- <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
-
- <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td>
-
- </tr>
-
- <tr>
-
- <td style="text-align: right;">
- <a name="e1" id="e1"></a><a href="#p25">#pág. 25</a></td>
-
- <td style="text-align: center;">C,ancarraõ</td>
-
- <td style="text-align: center;">...</td>
-
- <td style="text-align: center;">Çancarraõ</td>
-
- </tr>
-
- </tbody>
-</table>
-
-<div style="text-align: center;"><br />
-
-<br />
-
-</div>
-
-</div>
-
-</div>
-
-<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30091 ***</div>
-</body>
-</html>
+<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>Itinerario da viagem</title> + + + <meta content="Francisco Guerreiro" name="AUTHOR" /> + + <meta content="text/html; charset=UTF-8" http-equiv="Content-Type" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.breaks { +width: 80%; +margin-left:10%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + + +<body> +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30091 ***</div> + +<div> +<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b> +Devido à +existência de erros tipográficos neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Set. 2009) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<h1> +ITINERARIO<br /> + +<br /> + +DA<br /> + +<br /> + +VIAGEM,</h1> + +<h4> +QUE FEZ A JERUSALEM O M. R. P.<br /> + +<br /> + +FRANCISCO GUERREIRO,<br /> + +<br /> + +<em>Racioneiro, e Mestre da Capella da Santa Igreja de +Sevilha,<br /> + +natural da Cidade de Béja.</em></h4> + +<h4> +OFFERECIDO<br /> + +<br /> + +AO SENHOR<br /> + +<br /> + +ANTONIO VAN-PLATE,<br /> + +<br /> + +Familiar do Santo Officio.</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 250px; height: 189px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">LISBOA OCCIDENTAL,<br /> + +<br /> + +Na Officina de DOMINGOS GONÇALVES,<br /> + +Impressor dos Monges das Covas de Mont-furado.<br /> + +<br /> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<br /> + +M. DCC. XXXIV.<br /> + +Com todas as licenças necessarias.<br /> + +<br /> + +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 550px; height: 157px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +AO SENHOR<br /> + +<br /> + +ANTONIO VAN-PLATE,</h3> + +<h3><br /> + +Familiar do Santo Officio, &c.</h3> + +<br /> + +<br /> + +<em>Este breve Itinerario da viagem dilatada, +que fez a Jerusalem o Reverendo Padre Francisco Guerreiro, +natural da Cidade de Bèja, Racioneiro, e Mestre de Capella +da Santa Igreja Metropolitana de Sevilha, bem conhecido +pelos seus ascendentes, os Guerreiros de Campo de Ourique, +e pelas obras de musica, que fez estampar, sempre admiradas, +e nunca imitaveis, impresso pelo original Portuguez, +que deixou escrito de sua maõ, muito differente daquelle, +que +os Sevilhanos adulteraraõ, e publicaraõ em outro +seculo no +seu idioma, offereço a vossa merce; naõ para +incitar mais o +affecto, com que me deseja favorecer, que conheço +naõ poder +crescer mais, como experimento, sim por me mostrar agradecido +a tantos beneficios, que recebo, e espero receber de sua +Catholica, e politica generosidade.<br /> + +<br /> + +He este o primeiro original, que publico; e como vossa +merce apadrinhou o acto de meu mayor empenho, honrando-me +com a sua assistencia, em outra occasiaõ, agora desejo +tambem +que me faça a honra de o patrocinar, pois pela materia, pelo +Escritor, pelas noticias que inclue, e pela antiguidade, he digno +do seu nobilissimo, e piedoso influxo.<br /> + +<br /> + +Tendo eu a certeza de que he do agrado de vossa merce, +espero que o seja de todos, pois a estimaçaõ +vulgar sempre imita +a particular estimaçaõ de sogeitos da +esféra de vossa merce; +que entendo será correspondente ao desejo, que tenho de +obsequiar +a vossa merce, a quem Deos guarde.</em><br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">Af. V. e C. de V. M.<br /> + +q. s. m. b.<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"> +<em>Joaõ de Carvalho.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>ITINERARIO +DA TERRA SANTA</h3> + +<br /> + +<br /> + +Tendo eu, pela misericordia Divina, visitado +os Lugares da Terra Santa, muitos devotos +me pediraõ escrevesse esta Santa viagem, +para que à vista do que eu vi, se abrazassem +os seus animos, procurando seguir +o mesmo caminho, e serem informados do +que lhe era necessario para este fim: e por +condescender com os seus desejos, e pelo gosto, que tenho +da suave memoria de o haver andado, naõ me será +molesto +o fazer huma breve relaçaõ do que tenho visto: e +para dar +melhor noticia do movimento, que tive, para fazer esta +peregrinaçaõ, he preciso começar do +tempo, que me incliney +a desejar ver cousas taõ dignas de hum peito Catholico.<br /> + +<br /> + +Depois que meus pays, e familia passaraõ da Cidade +de Beja, minha Patria, a viverem na Villa de Zafra, me appliquey +à arte de musica, e nella me doutrinou meu irmaõ +Pedro Guerreiro, doutissimo na faculdade; e tanto fez com +o castigo, e com a doutrina, sendo grande o desejo, que tinha +<span class="pagenum">[2]</span> +de saber, e o meu engenho accommodado à dita arte, que +em poucos annos teve gosto, e satisfaçaõ de mim. +Foy preciso +o ausentarse; e eu desejando aperfeiçoarme, tive modo, +para ser admittido às liçoens do grande, e +excellente Mestre +Christovaõ de Morales, o qual me deu grande luz na +composiçaõ da musica, e me poz capaz de qualquer +Magisterio; +tanto, que tendo de idade dezoito annos, fuy recebido +por Mestre de Capella, e Racioneiro da Igreja Cathedral +de Jaem, occupaçaõ, que servi trez annos. Neste +tempo +vim a Sevilha a visitar a meus pays, que entaõ se +achavaõ +nesta Cidade, e o Cabido da Santa Igreja me deu huma +praça de Cantor com bastante salario; e por obedecer a +meus pays, que desejavaõ, e necessitavaõ da minha +companhia, +deixey o Magisterio, e Raçaõ de Jaem, estimando a +honra, que me fazia o Cabido da Santa Igreja, ainda que +era mayor, e de mais conveniencia a praça, que deixava.<br /> + +<br /> + +Poucos mezes tinha eu de residencia nesta Santa Igreja, +quando entre seis oppositores, que havia ao Magisterio +de Malaga, tive a primeira nomeaçaõ, por me +quererem +favorecer o Illustrissimo Senhor Dom Bernardo Manrique, +Bispo desta Santa Igreja, e o Illustrissimo Cabido, e naõ +por merecimentos meus; e mandada a nomeaçaõ a +ElRey, +por sua ordem tomey posse por hum Procurador. Já estava +preparado para ir para a residencia da Raçaõ, e +Magisterio +desta Santa Igreja; e o Cabido da de Sevilha me impedio +honrosamente, naõ permittindo, que eu me retirasse a Malaga; +e para que com melhor titulo podesse deixar o que +já possuhia, ordenou, que o Senhor Racioneiro, e Mestre +da Santa Igreja Pedro Fernandes, Mestre dos Mestres +de Hespanha, nosso Portuguez, jubilasse, e se lhe désse +meya Raçaõ, e que eu tivesse a outra metade, e +mais o salario +de Cantor, com obrigaçaõ de dar de comer, e o +mais +necessario aos Seyses Typles; e que se eu lhe supervivesse, +<span class="pagenum">[3]</span> +entrasse em toda a Raçaõ. Vinte e cinco annos +vivi com +este grande sogeito na mesma casa, e depois que Deos o +levou, fuy provido em toda a Raçaõ por Bullas +Apostolicas.<br /> + +<br /> + +Os deste exercicio todos sabem, que temos muito +particular obrigaçaõ de compor as +Chançonetas, e Vilhancicos +em louvor do Nascimento de Jesu Christo nosso Senhor, +nosso Salvador, e nosso Deos, e de sua Santissima Mãy +a Virgem Maria Senhora nossa; e quando compunha as letras +para as Matinas de taõ luzida noite, e se nomeava +<em>Bethleem</em>, +se me accrescentava a devoçaõ, e desejo de ver, e +celebrar +naquelle Lugar Santissimo estes cantares em companhia, e +memoria dos Anjos, e Pastores, que lá +começaraõ a nos dar +liçaõ desta Divina Festa: e ainda que esta +pertençaõ era taõ +grande, que me parecia impossivel o conseguilla, por muitos +inconvenientes, que havia entaõ, especialmente o de +meus pays, propuz, ainda que naõ fiz voto, de que se Deos +me désse vida mais larga, que a delles, de fazer esta Santa +viagem: pelo que tanto que Deos os levou desta vida, me +pareceo, que tinha feito a mayor parte deste caminho.<br /> + +<br /> + +Estando sempre com este cuidado, de quando chegaria +este tempo de me ver em taõ Santo caminho, succedeo, +que no anno de 1588. nosso Santissimo Padre Papa Sixto +V. mandou chamar ao Illustrissimo, e Reverendissimo Senhor +Cardeal Dom Rodrigo de Castro, Arcebispo de Sevilha, +e estando preparado para ir a Roma, lhe pedi me levasse +no seu serviço, e pedisse ao Cabido o tivesse assim a bem, +e assim o consegui por sua Senhoria Illustrissima.<br /> + +<br /> + +Tanto que chegàmos a Madrid, deteve Sua Magestade +ao Arcebispo, e como o Veraõ entrasse muito caloroso, +naõ determinou passar a diante, atè que o tempo +refrescasse; +e eu como desejoso de me ver já em Italia, vendo esta +nova dilaçaõ, pedi a Sua Senhoria Illustrissima +me désse +<span class="pagenum">[4]</span> +licença para hir a Veneza a estampar huns livros, entre +tanto +que fizesse tempo de proseguir a sua jornada, porque ao +presente estavaõ em Carthagena as Galès do +Graõ Duque de +Florença. O Cardeal naõ sómente me deu +licença, mas tambem +me fez merce de me dar a ajuda necessaria para a jornada, +e assim me parti a Carthagena, aonde achey outras Galès, +que estavaõ para navegar, que embarquey para Genova, +e dahi passey a Veneza, a que cheguey em oito de +Agosto.<br /> + +<br /> + +A primeira diligencia que fiz, foy ajustar a imprenssa +dos livros de musica; e dizendo-me o Impressor, que para +se estamparem era necessario tempo de cinco mezes, disse +a hum amigo meu: <em>Nesse tempo podia eu fazer a minha +viagem +a Jerusalem</em>; a que respondeo, dizendo: +<em>Em boa occasiaõ +fallais, pois ahi está huma nao nova, e boa, que vay +para Tripoli de Syria</em>; do que tive grande alegria; e +tomando +a correcçaõ dos livros à sua conta o +Mestre Joseph Zertino, +Mestre da Capella de Saõ Marcos, e da Senhoria de +Veneza, Varaõ doutissimo em musica, e outras artes liberaes, +me concertey com o Escrivaõ da nao, ajustando de lhe +dar cinco escudos pela embarcaçaõ, e por comer +com o +Capitaõ sete cada mez, o que he ordinario.<br /> + +<br /> + +Foy meu companheiro em toda esta Santa viagem +Francisco Sanches, meu discipulo, e assim alegremente nos +embarcamos a quatorze de Agosto de 1588. tendo eu de +idade sessenta, sem temor do mar, nem de tantas naçoens +inimigas, como se encontraõ nesta +peregrinaçaõ, porque o +gosto, que tinha desta jornada, me facilitava, e suavizava +tudo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[5]</span> +<em>Do caminho, que fizemos de Veneza a Jaffa, porto da +Terra Santa.</em><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +No dia seguinte, que se contavaõ quinze do dito mez, +em que se celebrava a Assumpçaõ da Virgem Senhora +nossa, começamos a navegar lentamente, por termos pouco +vento, e melhorando o tempo, chegàmos à Cidade de +<em>Parenço</em>, na Provincia de +<em>Istria</em>; e daqui sahimos navegando +prosperamente pela costa de +<em>Dalmacia</em>, terra, e Patria +do Maximo Doutor Saõ Jeronymo; e pela Esclavonia, e +Albania, em quinze dias chegámos à Ilha de +<em>Zante</em>, terra +na <em>Grecia</em> de Venezianos, a que ha +trezentas leguas de Veneza; +deixando à maõ esquerda a Ilha de +<em>Chafallonia</em>, e +Golfo de <em>Lepanto</em>, adonde foy aquella +grande batalha, que +teve a Armada da liga Christãa com a dos Turcos, e teve +a vitoria a dos Christãos, sendo General della o Senhor +Dom Joaõ de Austria, irmaõ delRey Filippe II. +nosso Senhor. +Retivemos em <em>Zante</em> quatro dias; +Ilha, bem provida +do necessario para a vida humana, especialmente de vinho, +que o ha em abundancia, e muito excellente; e vindo +muitas naos de Levante a Poente a carregar, para todas, +e para os naturaes ha abundantemente.<br /> + +<br /> + +Toda esta terra he de Gregos, e sómente os Governadores +saõ Venezianos, como Senhores della. Tem dous +Bispos; hum Grego, outro Latino. Tem duas Povoaçoens; +huma junto ao mar, outra em hum alto monte, em que está +huma boa Fortaleza. A mayor parte das Igrejas saõ de Gregos. +Tem hum Convento de Religiosos de Saõ Francisco, +adonde os Latinos dizemos Missa. Ouvimos aqui huma +Missa aos Gregos; e a officiaraõ de Cantochaõ +Ecclesiasticos, +e seculares. He o seu canto simples, e ignorante. Dizem +a Missa com devoçaõ, e muitas ceremonias, e huma +dellas he, que a materia de paõ fermentado, e vinho que +<span class="pagenum">[6]</span> +se ha de consagrar, a traz o Sacerdote sobre a cabeça no +Caliz +muito cuberta, sahindo por huma porta do Altar, que +o divide do corpo da Igreja, e dando huma volta por ella, +se torna a recolher ao mesmo Altar, incensando hum Ministro +ante elle, e o Povo está adorando, em joelhos, a +materia, que ainda naõ está consagrada. +Está esta Ilha perto, +e fronteira à Morea, que he +<em>Corintho</em>, adonde Saõ Paulo +escreveo duas de suas Epistolas.<br /> + +<br /> + +Partidos de <em>Zante</em>, nos engolfamos +atè chegar à Ilha +de <em>Candia</em>, que por outro nome se +chama <em>Creta</em>, a que haverá +duzentas leguas. Fomos costeando-a, quasi cem legoas, +e sem desembarcar, entramos por outro Golfo, que +será de outras duzentas legoas, pouco mais, ou menos, e +chegamos à Ilha de Chypre, terra fertil, e fermosissima +de tudo o que se pòde desejar. Esta Ilha, e Reyno possuem +os Turcos de vinte annos a esta parte, ganhando-a por +força de armas aos Venezianos, que eraõ Senhores +della, +ficando os naturaes com suas casas, e fazendas, porèm +sogeitos +ao Turco. Os moradores saõ Gregos, e Latinos. +Desde que sahimos de Veneza atè que chegámos a +huma +Cidade desta Ilha, que chamaõ +<em>Limisol</em>, passaraõ vinte e +sete dias.<br /> + +<br /> + +Desembarcados nesta Cidade, começamos a tratar +com os Turcos, e ainda que com algum medo no principio, +brevemente o perdemos; porque como os Venezianos +tem paz com elles, e nòs os Peregrinos vamos a titulo +de Venezianos, fallando na sua propria lingua, naõ ha +que temer. Do tempo da guerra ficou muito mal tratada +esta Cidade. A Fortaleza está arruinada da grande bataria, +que lhe deraõ os Turcos, e as Igrejas, e Cruzes, que +estavaõ +nas entradas, e a mayor parte das casas, estaõ cahidas. +Tem esta Ilha muitas cousas necessarias, e regaladas +para a vida, muito paõ, e vinho, assucar, e grande +quantidade +<span class="pagenum">[7]</span> +de algodaõ, de que carregaõ muitas naos para +Levante, +e Poente. Aqui reside hum Consul da naçaõ +Franceza, +e Italiana, que he o que está, e se poem por meyo +entre Christãos, e Turcos, e com elle tratàmos os +nossos +negocios. Fomos a sua casa, e nella nos regalou; e delle +soubemos da guerra, que o Turco tinha na Persia, e das +companhias de gente, que passavaõ pela +<em>Caramania</em>, que +está muito perto, na terra firme de Asia; e da boa +occasiaõ, +que havia na presente conjuntura, para tornar a cobrar +este Reyno, pela pouca guarniçaõ, que nelle tem: +porèm +melhor he naõ cuidar nisto, porque os Christãos +naõ tratamos de recuperar o que perdemos; e temos +experiencia, +que o que estes Barbaros conquistaõ, já mais o +perdem.<br /> + +<br /> + +Estando nesta Cidade, nos disse o Capitaõ, que se +havia de dilatar com sua nao mais de vinte dias, e dalli +navegaria para <em>Tripoli de Syria</em>; e +assim lhe parecia, que +partissemos para <em>Jaffa</em>, porto da +Terra Santa, distante de +<em>Jerusalem</em> doze legoas, e que +adiantassemos estes dias: pelo +que nos ajustou a quatro Peregrinos que eramos, com +hum barqueiro, que tinha trez companheiros, e diziaõ, que +eraõ Christãos. Levavaõ estes a sua +barca carregada de alfarrobas +à Cidade de <em>Damiata no +Egygto</em>; e concertados em +<em>vinte e cinco zequies</em>, que cada +zequi vale huma pataca; +e em quatro dias chegamos ao dito porto, a que ha de +<em>Limisol</em> +cento e vinte legoas.<br /> + +<br /> + +Foy alegrissima a vista a todos, descobrindo Terra, +que com tanta razaõ se chama Santa. Do caminho vimos +a Cidade de <em>Cesarea da Palestina</em>, e +outras Povoaçoens, +ainda que naõ sahimos em terra, por nos aproveitarmos do +bom tempo, e chegarmos com brevidade ao porto desejado. +De <em>Veneza</em> atè +<em>Jaffa</em> gastamos trinta e dous dias. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[8]</span> +<em>Da Cidade de Jaffa, e do caminho que fizemos +atè Jerusalem.</em><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Esta Cidade, que por outro nome se chama +<em>Joppe</em>, foy +muito principal, como se colhe das ruinas dos seus +edificios. He muito celebrada na Santa Escritura pelas cousas, +que nella aconteceraõ. Aqui se embarcou +<em>Jonas Proféta</em>, +quando fugindo elle de Deos, lhe ordenou este Senhor, +que fosse prégar a +<em>Ninive</em>; e pela tempestade, que +por sua culpa permittio Deos, foy lançado no mar, e tragado +da Balea. Aqui esteve algum tempo o <em>Apostolo +Saõ Pedro</em>, +e nella vio aquella visaõ do Ceo aberto, e baixar hum +vaso ao modo de hum lançol, cujas pontas chegavaõ +ao +Ceo, cheyo de serpentes, e aves, e outros animaes, e Deos +lhe mandava, que matasse, e comesse; e o mais, que nos Actos +dos Apostolos se refere.<br /> + +<br /> + +Aqui resuscitou o mesmo Santo Apostolo a huma mulher, +chamada <em>Dorcas</em>; e por estas, e +outras muitas particulares +cousas, que ha, e succederaõ nesta Cidade, he muito +famosa, e muito celebrado o seu porto. Logo que o nosso +barco chegou, e deu fundo, veyo da terra outro barco encaminhado +ao nosso, em que vinha o <em>Subasi</em>, que +he o Aguasil +da Cidade de <em>Ramà</em>, com +oito, ou dez arcabuzeiros, e +frecheiros, e chegando ao nosso barco, entraraõ nelle, +olhando +para nòs, e dizendo: <em>Christiani, +Christiani</em>? E nòs baixando +a cabeça, lhe demos a entender, que sim. O barqueiro, +quando vio, que elles vinhaõ, escondeo dous barris de vinho, +por saber o quanto desejaõ este licor, deixando +sómente +o que bastava para a merenda, que constou de paõ, +e queijo, e alfarrobas.<br /> + +<br /> + +Acabada a merenda, nos fez sinal para que entrassemos +no seu barco; e fomos para terra Christãos, e Turcos +muito alegres, rindo de hum Turco, que se emborrachou, +ao qual diziaõ os companheiros muitas galantarias. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[9]</span> +Chegados a terra, nos pedio o <em>Subasi</em> +de entrada hum +<em>zequi</em> por cada hum; e recebido, nos +encomendou a hum +Turco, para que nos guardasse: e visto que naquella noite +haviamos de dormir no chaõ, em humas Tercenas antiquissimas, +entrámos em requerimento com o Turco nosso guarda, +para que nos deixasse dormir em hum barco no mar; e elle +ainda que o difficultou, concedeo a licença tanto que lhe +démos certas moedas.<br /> + +<br /> + +O <em>Subasi</em> naquella mesma noite partio +para <em>Ramà</em>, +distante quatro leguas; e lhe pedimos nos mandasse hum +homem com bestas para nos levar a +<em>Jerusalem</em>, o que +elle prometteo, e cumprio. Aquella noite, e a que se seguio, +estivemos em hum barco cheyo de Peregrinos, que vinhaõ +de <em>Jerusalem</em>, em que se +achavaõ quatro Cavalleiros Francezes, +e alguns Religiosos, que nos regalaraõ no tempo, +que alli estivemos.<br /> + +<br /> + +No terceiro dia chegou hum homem de +<em>Ramà</em>, que se +chamava <em>Atala</em>, e trouxe para cada +hum de nòs hum jumento, +e nos ajustámos os quatro Peregrinos com elle em vinte +e quatro <em>zequies</em>. Neste tempo +chegaraõ mais dous Perigrinos, +hum Religioso de Saõ Francisco, que vinha do +<em>Cayro</em>, +e hum Clerigo, ambos Francezes; e logo muitos Gregos +com mulheres, e filhos; e todos juntos fizemos jornada +para Jerusalem.<br /> + +<br /> + +Fallava o homem com quem caminhavamos muito bem +a lingua Italiana, e dizia, <em>que era +Christaõ</em>; ainda que algumas +vezes por graça, (que a tinha, e entendimento) +respondia, quando lhe perguntavamos porque comia de +boa vontade com Mouros, e Turcos: <em>Olha, eu sou Mouro +com os Mouros, e Christaõ com os Christãos, e com +os ladroens +sou ladraõ</em>; e eu lhe dizia: +<em>Sede vòs, amigo Atala, o +que quizeres; mas agora comnosco sede +Christaõ</em>.<br /> + +<br /> + +Chegámos a +<em>Ramà</em>, que por outro nome +se chama +<span class="pagenum">[10]</span> +<em>Ramata</em>, adonde estivemos trez dias. +Todo este caminho +atè <em>Jaffa</em> he plano; ha +muitas oliveiras, vinhas, e outras +frutas, e entre estas huma mayor que meloens, que se +chama em Italia <em>Anguria</em>: he muito +fresca, e os Turcos +usaõ muito della para entreterem a sede. Foy esta Cidade +muito fermosa em edificios, e ao presente está arruinada; +ainda que alguns existem, e algumas Igrejas, e Torres, especialmente +a de <em>Saõ Jorge</em>, que +está fóra da Cidade.<br /> + +<br /> + +Aqui pousámos em huma casa, que ainda que em +parte estava derrubada, tinha bastante commodo para todos +os da comitiva. Dizem, que era de +<em>Nicodemus</em>: agora +he dos Religiosos de Jerusalem, e nella se recolhem os Peregrinos. +Nesta Cidade ha muito de comer, e barato, especialmente +gallinhas. Por grande alivio tivemos, que hum +homem nos alugasse humas esteiras para domir, e démos +algumas +moedas a hum Turco, para que nos guardasse da parte +de fóra do aposento; e apressando todos a +<em>Atala</em> nosso +guia, para que fizessemos jornada, nos disse, que era preciso +avisar a hum Capitaõ de Arabes, para que estivesse +em certo passo, para nos segurar de outros Arabes ladroens, +que nelle andavaõ roubando; o que assim foy, pois na +manhãa +em que madrugámos para sahir desta Cidade, ao amanhecer, +achámos naquelle passo o Capitaõ que dizia, com +vinte Arabes de cavallo bem armados. Fizeraõ-nos deter a +todos, e passada pouca mais de meya hora, que o nosso +<em>Atala</em> fallou com elles, +passámos de largo, e seguimos o +nosso caminho, e depois que delles nos apartámos, veyo +correndo a mim hum delles a cavallo, e tocando por todo +o meu fato, dizia: <em>Jarap, jarap</em>; no +que me pedia, se levava +vinho, que lhe désse de beber; e como lhe disse: +<em>Que de boa vontade lhe satisfizera a sede, se o +levara</em>, se +foy muito triste, e eu fuy bem alegre, por me ver livre delle.<br /> + +<br /> + +Por todo este caminho atè Jerusalem a cada legoa nos +<span class="pagenum">[11]</span> +sahiraõ quinze, ou vinte Arabes com arcos, e frechas, +taõ +morenos do Sol, e taõ mal vestidos, que pareciaõ +os diabos, +dando milhares de gritos ao nosso <em>Trucimaõ +Atala</em>, +para que lhes désse o +<em>Gafar</em>, que he certa portagem, +que lhes pagão, os que passaõ por aquellas partes +por via +de paz; porque todos estes Arabes naõ estaõ +sogeitos ao +Graõ Turco, nem a outro nenhum Senhor; e outra renda, +ou officio naõ tem, mais que o que roubaõ. +Parecem quando +nos sahem ao encontro, e nos poem as frechas nos peitos, +que nos querem assettear, e com lhe dar dous, ou trez +tostoens por todos, estaõ contentes; e com todos os mais, +que nos sahem de legoa em legoa, praticamos o mesmo; e +ainda que saõ ambiciosos de modo, que nos apalpaõ +as algibeiras, +e tiraõ o que nellas achaõ, saõ +taõ comedidos, +que podendo tomarnos os escudos, que levamos escondidos, +vamos seguros pelo respeito, que todos tem ao nosso +<em>Trucimaõ Atala</em>, em +aquelles caminhos, e porque os castigariaõ, +se nos tratassem mal, e os prendessem. Vimos neste +caminho muitas Igrejas, naõ de todo arruinadas, que a +pouco custo se podiaõ reparar. Vimos hum edificio antigo, +que dizem ser a casa do Bom +<em>Ladraõ</em>. Vimos as ruinas da +Cidade de <em>Modin</em>, terra, e Patria dos +<em>Machabeos</em>. Todo este +caminho he plano, e sómente quatro legoas antes de Jerusalem +he a terra montuosa, e pedregosa.<br /> + +<br /> + +Tanto que foy meyo dia, descançámos à +sombra de +humas oliveiras, junto a huma fonte; e estando comendo +do que levavamos da Cidade de +<em>Ramà</em>, chegou hum Turco, +montado em hum fermoso cavallo, e sem se apear, comeo +do que lhe dey com a minha maõ. Adverti no bom talhe do +seu corpo, e o como vinha preparado para a guerra. Trazia +lança, cimitarra, arcabuz, arco, e frechas, e +maça, de +que pendiaõ oito facas, adaga, punhal, e martello. +Pareceo-me, +que podia contender com dez homens, e ainda +<span class="pagenum">[12]</span> +tirar-lhes a vida. Vejaõ se he necessario hirem bem +prevenidos, +e petrechados, os que forem peleijar com esta gente. +Este lugar aonde descançámos, está +junto ao Valle <em>Terebintho</em>, +em que <em>David</em> matou ao +<em>Filisteo Goliath</em>. Passámos +hum rio de pouca agua, e conjecturo ser este, o em +que <em>David</em> colheo as cinco pedras, +que levou no çurraõ, +quando foy para a batalha, e com que venceo ao Gigante. +Aqui ha huma ponte quasi destruida, que mostra ainda +hoje, que foy soberbo edificio.<br /> + +<br /> + +Passado este Valle, e rio, subimos huma grande legoa +de costa, e no alto dèmos em caminho plano, ainda +que pedregoso: chegando nòs à +<em>Cidade Santa de Jerusalem</em>, +que está rodeada de montes, e sómente se +vê della alg[~u]a +cousa do monte <em>Olivete</em>, daqui +descobrimos hum pedaço +de muro, e as Torres do Castello; e foy tal a nossa alegria, +e taõ extraordinario o contentamento, que todos os +Peregrinos +Latinos, e Gregos nos apeámos, beijando muitas vezes +a terra, dando muitas graças, e louvores a Deos, e +enviando-lhe +milhares de lagrimas, e suspiros devotissimos, +dizendo cada hum sua devoçaõ à Santa +Cidade, e repetindo +muitas vezes: <em>Urbs beata Hierusalem</em>.<br /> + +<br /> + +Neste tempo nos sahio a receber hum Christaõ, chamado +<em>Bautista</em>, que serve aos Religiosos +de lingua para +com os Mouros, e Turcos, e falla bem Italiano, mandado +pelo <em>Padre Guardiaõ</em>, que +já tinha noticia da nossa hida; +e como chegámos à porta da Cidade, nos fez +sentar, e que +esperassemos o aviso do <em>Padre +Guardiaõ</em>, que he, a quem o +<em>Pontifice</em> tem nomeado por +Cabeça dos Latinos; e seria +passada quasi meya hora, quando chegaraõ dous Religiosos +Italianos, e nos saudaraõ da parte do Padre +Guardiaõ, +e que fossemos bem chegados, e que esperassemos hum +pouco, em quanto elles procuravaõ dos Turcos a +licença +da entrada; que logo vieraõ, e examinaraõ a +roupa, que +<span class="pagenum">[13]</span> +levavamos, que era bem pouca; e he o que mais convèm +para segurança do Peregrino. Logo que tudo viraõ, +nos deraõ +a entrada livre, pagando cada hum dous <em>zequies de +ouro</em>. +Os Gregos como mais de casa, e Vassallos do Turco, +entraraõ logo, e foraõ ao seu Patriarcha; e neste +tempo +vieraõ os Religiosos, e nos levaraõ aos seis +Latinos, que +eramos. Em 22. de Setembro de 1588. dia do glorioso +<em>Saõ +Mauricio</em> entrámos na +<em>Cidade Santa</em>, passados trinta e sete +dias, que tinhamos sahido de <em>Veneza</em>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Da Santa Cidade +de Jerusalem, do Sagrado monte Sion, +e de suas Estaçoens.</em><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Levaraõ-nos os dous Religiosos ao Convento de +<em>S. Salvador</em>, +que he o principal da <em>Terra Santa</em>, +adonde nos +receberaõ os Religiosos processionalmente, cantando +<em>Te +Deum laudamus, &c.</em> Entrámos na +Igreja, que está no alto +da casa, e depois de fazer oraçaõ, se poz hum +Religioso +junto ao Altar, e fez em lingua Italiana huma muito devota +pratica, em que nos representou a grande merce, que +Deos nosso Senhor nos fizera, de nos permittir o ver aquelles +Santuarios, e Lugares Santissimos, e nos exhortou, a +que nos dispuzessemos a ganhar as Indulgencias, confessando, +e commungando.<br /> + +<br /> + +Acabada a Pratica, nos levaraõ a huma casa, com a +mesma Procissaõ, adonde nos lavaraõ os +pès com muita devoçaõ, +cantando Hymnos, e oraçoens; e acabado o lavatorio, +nos deraõ bem de cear; e logo nos guiaraõ para +huns +aposentos, e a cada hum nos sinalaraõ cama, em que dormimos, +e descançamos alegrissimamente, por nos Deos Senhor +nosso fazer taõ singularissima merce, que naõ +concede +a todos, pois muitos Principes, e Reys o desejaõ, e +naõ alcançaõ. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[14]</span> +No seguinte dia nos preparámos para a confissaõ, +e +o Padre Guardiaõ deu faculdade aos Confessores, para nos +absolverem plenariamente, porque tem as vezes do Pontifice; +e mostrando-lhe as nossas Dimissorias, nos deu licença +para dizer Missa. Ha trez Altares nesta Santa Igreja, e +todos privilegiados, isto he, que se tira Alma do Purgatorio.<br /> + +<br /> + +Acabado o Officio, nos encomendou a hum virtuosissimo +Religioso Italiano, chamado +<em>Salandria</em>, que havia +vinte annos, que estava na <em>Terra +Santa</em>, para andar as Estaçoens +comnosco; e elle, e hum Companheiro, e +<em>Bautista</em>, +que já nomeey, que he o nosso Interprete com os Mouros, +e Turcos, e nos defende dos rapazes, que nos tiraõ pedradas +pelas ruas, e nos avisa do que havemos de fazer, de que +naõ tussamos, nem cuspamos, porque entendem os Mouros, +e Turcos, que zombamos delles, começámos com +alegria, +e devoçaõ a andallas; e muitos Religiosos se +associaraõ +tambem para o mesmo, que supposto tenhaõ visto muitas +vezes aquelles Lugares Santos, naõ perdem a +occasiaõ +de os visitar, e ganhar as muitas Indulgencias, que lhes saõ +concedidas.<br /> + +<br /> + +Deste modo, e com este Santo acompanhamento sahimos +os seis Peregrinos; e a primeira Estaçaõ, que +fizemos, +foy à Igreja do <em>Apostolo +Santiago</em>, em que o Santo foy degollado. +He esta Igreja de Armenios, muito grande, e bem +fabricada. A Capella da degollaçaõ +está à maõ esquerda da +entrada da Igreja, adonde está hum marmore debaixo do +Altar, que tocámos, e reverenciámos. Tem os +Armenios +huma boa casa continuada com esta Igreja em fórma de +Convento.<br /> + +<br /> + +Daqui fomos à casa de +<em>Anàs</em>, adonde +<em>Christo Senhor +nosso</em> foy levado tanto que o prenderaõ. He +Igreja de Armenios. +Aqui deraõ a <em>Christo Senhor +nosso</em> a bofetada. Mostra-se +<span class="pagenum">[15]</span> +aqui huma <em>Oliveira</em>, a que dizem +estivera <em>Christo Senhor +nosso</em> atado, em tanto, que Anàs sahia para +o ver. Tem Indulgencia +plenaria.<br /> + +<br /> + +Deve saberse, que em todos os Santuarios, que se andaõ +em toda a <em>Terra Santa</em>, se diz hum +<em>Hymno</em>, +<em>Antiphona</em>, +<em>Verso</em>, e +<em>Oraçaõ</em>, para o +que ha livro particular, e rezado +hum Padre nosso, e huma Ave Maria, se nos explica o +mysterio do tal Lugar.<br /> + +<br /> + +Fomos daqui à casa de +<em>Caifás</em>, em que +está huma +Igreja no Lugar em que <em>Christo Senhor +nosso</em> foy accusado, +e tudo o mais que consta do <em>Santo +Euangelho</em>. Visitámos o +Altar mayor, e lhe serve de cuberta a +<em>Pedra</em>, que estava +à porta do <em>Santo +Sepulchro</em>, a qual com razaõ +difficultavaõ +as <em>Santas Marias</em>, dizendo: +<em>Quem nos tirarà a pedra?</em> +porque he de dez palmos, pouco mais, ou menos, de comprimento, +e quatro de largura, e muito grossa. Na Capella +mayor ha na parede hum retrete pequeno, em que sómente +poderáõ caber dous homens, e para se poder entrar +he de joelhos, por ter huma pequena entrada: he este o +Lugar adonde <em>Christo Senhor nosso</em> +esteve como encarcerado, +em tanto que o Pontifice sahia para o ver.<br /> + +<br /> + +Sahimos da Igreja a hum patio, que está junto a ella, +em que se vê huma +<em>Larangeira</em>, e he o lugar em que +estavaõ +ao fogo os Ministros de +<em>Caifás</em>, e adonde +<em>Saõ Pedro</em> negou +a <em>Christo</em>. Do alto desta casa, (que +está <em>poucos passos +fóra do muro da Cidade</em>) fizemos +oraçaõ, e ganhámos as Indulgencias +do <em>Santo Cenaculo</em>, que +está perto della, no alto +do <em>Monte Sion</em>, que por esta parte +naõ he mais alto, que +a Cidade. Naõ entrámos nelle, porque os Turcos, +com lastima +nossa, o fizeraõ Mesquita. Aqui foy o Lugar, em que +<em>Christo Senhor nosso</em> ceou com seus +Discipulos, e instituhio +o <em>Santissimo Sacramento</em>, donde lhes +lavou os pés, donde +baixou o <em>Espirito Santo</em> no dia +<em>Pentecostes</em>; e donde habitava +<span class="pagenum">[16]</span> +a <em>Virgem Senhora nossa</em>. Neste +<em>Cenaculo</em> assistiaõ os +Religiosos de Saõ Francisco, e haverá trinta +annos, que o +Turco o tirou aos Religiosos. A causa dizem, que foy, que +huns Judeos disseraõ ao Turco, [~q] alli era a sepultura de +David, +e que naõ era justo, que os Christãos pizassem a +sepultura +de taõ grande Proféta, e Rey: e como os Turcos +tem muita veneraçaõ aos Profétas do +Testamento Velho, +mandou, que os Religiosos tomassem casa dentro em +<em>Jerusalem</em>; +pelo que vieraõ para a Cidade, e compraraõ huma +boa casa, que he a de <em>Saõ +Salvador</em>, em que agora vivem: +ainda que por estar no Castello, que se chama dos +<em>Pisanos</em>, +Fortaleza da <em>Santa Cidade</em>, Lugar +eminente, os Turcos lhe +derrubaraõ os aposentos altos, porque naõ +estivesse igual +com o Castello; e assim saõ terreos os aposentos. Este +<em>Santo +Cenaculo</em> foy a Casa Real; e tudo o que em circuito +está +despovoado, era o mais principal da Corte de +<em>David</em>, e +dos mais Reys. Agora sómente está a Casa, e +Igreja do <em>Santo +Cenaculo</em>; o mais està despovoado.<br /> + +<br /> + +Sahidos da Casa de +<em>Caifáz</em>, e da Cidade, +baixando +hum pouco pelo <em>Monte Sion</em> para a +parte do Oriente, está +o Lugar, adonde, levando os Apostolos a sepultar o +<em>Corpo +da Virgem nossa Senhora</em>, lho quizeraõ huns +Judeos tirar, +e secou o braço do seu Sacerdote, que atrevido tocou no +esquife; e depois lhe foy restituido, e se converteo à +Fé. +Naõ ha outro sinal desta memoria, mais que hum +montaõ +de pedras. Aqui se ganhaõ muitas Indulgencias.<br /> + +<br /> + +Baixando mais alguma cousa por este <em>Monte +Sion</em>, +junto do muro da <em>Santa Cidade</em>, +está o Lugar, adonde Saõ +Pedro <em>Flevit amarè</em>: e hum +pouco mais abaixo, junto ao +muro antigo, está huma igreja, e Casa, como Convento, +fermosissima no exterior; e no mais alto da Torre tem huma +grande mea Lua de ferro. Nesta Igreja foy a <em>Santissima +Virgem +Maria Senhora nossa</em> presentada, sendo menina, com +<span class="pagenum">[17]</span> +as demais Virgens. He agora principal Mesquita dos Mouros, +e Turcos; e está no ambito do <em>Templo de +Salamaõ</em>, que +he dos muros a dentro.<br /> + +<br /> + +Baixando o que resta do Monte Sion, chegámos ao Valle +de <em>Josaphat</em>, de que logo direy por +levar direita a ordem, +que tivemos em andar as Estaçoens pela outra parte da +<em>Santa +Cidade</em>, e tornemos ao Convento de +<em>Saõ Salvador</em>, para +dahi as proseguirmos.<br /> + +<br /> + +No outro dia começando as Estaçoens, fomos pela +<em>Rua da Amargura</em>, por onde +<em>Christo Senhor nosso</em> sahio a +morrer, levando a Cruz às costas da casa de +<em>Pilatos</em> atè o +<em>Calvario</em>. Deixámos +à maõ direita a Igreja do dito +<em>Calvario</em>, +e <em>Santo Sepulchro</em>, em que +naõ entrámos, por a reservarmos +para a ultima Estaçaõ; e vimos a casa da piedosa +mulher, que com huma limpa toalha, chegando a ao +<em>Divinissimo +rosto de Christo Senhor nosso</em>, o tirou estampado com o +seu preciosissimo Sangue, e com a sua verdadeira effigie. +Duas dobras tinha esta toalha; huma se venera em Roma, +outra na Santa Igreja Cathedral de Jaem. Nesta rua vimos +a casa do rico Avarento, que naõ quiz dar esmola de suas +migalhas ao <em>pobre</em>, e +<em>Santo Lazaro</em>; e o Lugar, adonde o +Cyrineo +tomou a Cruz a <em>Christo Senhor nosso</em>, +para lha ajudar +a levar, e adonde as filhas de Jerusalem o choravaõ, quando +o Senhor lhes disse: <em>Filiae Jerusalem, +&c.</em> Tambem vimos +a casa de Pilatos, da qual sahe hum arco em que estaõ +duas janellas, que saõ as mesmas pedras daquelle tempo, +e de huma dellas mostrou este Juiz a <em>Christo Senhor +nosso</em> ao +Povo, quando disse: <em>Ecce homo</em>. Por +baixo deste arco passa +a rua principal; e agora serve esta casa à +Justiça. Ha muitos +Santuarios nesta rua destruidos; e hum delles se edificou +em memoria do sentimento, e dor, que a <em>Virgem Senhora +nossa</em> +teve, quando vio a <em>Christo seu Unigenito Filho Senhor +nosso</em> com a Cruz às costas; e em todos ha +muitas, e grandes +<span class="pagenum">[18]</span> +Indulgencias. Junto desta casa, que referi, rua acima, está +a casa delRey Herodes, adonde +<em>Pilatos</em> mandou a +<em>Christo +Senhor nosso</em>, que delle foy desprezado, e do seu +exercito, +e vestido de huma vestidura branca, o remetteo a +<em>Pilatos</em>. +Vimos tambem o carcere donde o Anjo tirou a +<em>Saõ Pedro</em>. +Aqui ha hum pedaço de Igreja bem fabricado. No primeiro +de Agosto celebra a Santa Igreja Catholica esta memoria.<br /> + +<br /> + +Proseguindo o nosso caminho por estas ruas, pelas +quaes foy <em>nosso Redemptor</em> derramando +o seu Sangue purissimo, +e preciosissimo, fomos ao <em>Templo de +Salamaõ</em>, e sem +que nelle entrassemos (porque naõ he permittido aos +Christaõs, +e se algum entra, lhe custa a vida temporal, ou a espiritual, +renegando da Fé) vimos a +<em>Piscina</em>, que está junto +ao dito Templo, em que <em>Christo Senhor +nosso</em> deu saude ao enfermo +de trinta e oito annos de enfermidade. Agora naõ tem +agua, e está chea de herva, e arvores de nenhum prestimo. +Ainda se vem vestigios dos portaes, que entaõ havia. Esta +<em>Piscina</em> está junto da +porta da Cidade, e da casa de <em>Saõ +Joachim</em>, e <em>Santa +Anna</em>, pays da <em>Virgem Senhora +nossa</em>, e aqui +foy a sua purissima Conceiçaõ. +Entrámos neste Santo Lugar, +que está quasi debaixo da terra; o que succede em +commum a todos os edificios; porque com a antiguidade +do tempo os vay occultando em si a terra, que cresce, cahindo +huns edificios sobre outros: e sahindo pela porta da +<em>Santa Cidade</em>, que se chama de +<em>Santo Estevaõ</em>, baixando +como +sessenta passos, visitámos o Lugar em que este Santo foy +apedrejado, em que esteve huma Igreja, e hoje hum montaõ +de pedras.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Do Valle de +Josaphath.</em><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Baixando mais cincoenta passos, chegámos ao Valle de +Josaphath, que he bem apertado. Este Valle está entre +o <em>Monte Olivete</em>, e o +<em>Monte Sion</em>, ou Jerusalem, que he o +<span class="pagenum">[19]</span> +mesmo; porque a <em>Santa Cidade</em> +está edificada no <em>Monte +Sion</em>, +pelo que parece, que o dito Valle he como fosso da +<em>Santa +Cidade</em>. Ao presente naõ tem agua, mas +quando chove, dizem +que leva muita, porque a chuva, que baixa do <em>Monte +Olivete</em>, e Monte Sion, se recolhe neste Valle.<br /> + +<br /> + +Ha nelle boas oliveiras, algumas figueiras, e hortaliças. +Passando a ponte, visitámos huma fermosa Igreja de +cantaria bem lavrada; e entrando nella, baixámos por huma +escada muito larga, que terá quasi quarenta degraos; e +à +maõ direita desta escada estaõ em huma Capella os +Sepulchros +de <em>Saõ Joachim</em>, e de +<em>Santa Anna</em>, pays da +<em>Virgem Senhora +nossa</em>, e defronte desta está outra +Capella, em que +se vê o Sepulchro do Senhor <em>Saõ +Joseph</em>, Esposo da <em>Virgem +Senhora nossa</em>. No baixo desta Igreja vimos huma grande +nave, e à dita escada está fronteira outra +Capella, o que +faz hum Cruzeiro bem formado. Na Capella, que he a mayor, +sem tocar em alguma das paredes, como Ilha, está +huma Capellinha pequena, em que só podem caber dous +homens; e nella está o Sepulchro da sempre +<em>Virgem Maria +Senhora nossa</em>. He de pedra, com outra que a cobre, +sobre +que dizemos Missa. Os Religiosos de Saõ Francisco tem +chave desta Capella, e as mais naçoens de +Christãos, para +entrarem quando querem celebrar; para o que fechámos as +portas por dentro, porque os Mouros, e Turcos naõ entrem +a perturbarnos; e assim quietamente dissemos Missa quatro +Sacerdotes sobre o Sepulchro da Virgem Senhora nossa, que +serve de Altar. Naõ sey explicar a suavidade espiritual, que +todos sentimos, dizendo Missa em tal Santuario; e nelle +se ganhaõ muitas, e grandes Indulgencias. Tem esta Igreja +pouca luz, porque sómente lhe entra por huma fresta, +que tem na Capella mayor, que está ao Oriente; e alguma, +que entra pela porta; e naõ he bastante para andar +por ella sem luzes de cera, que levavamos. Está este +edificio +<span class="pagenum">[20]</span> +pela mayor parte debaixo da terra. Aqui vem todos os Sacerdotes +das naçoens Christãas a celebrar, especialmente +no dia da <em>Assumpçaõ da Virgem +Senhora nossa</em>. Ha nesta +Igreja huma cisterna, que tem agua muito boa.<br /> + +<br /> + +Sahindo desta bemdita Igreja, a poucos passos, entrámos +em huma cova, grande, e redonda, de altura de +huma lança, toda penhasco, e bem clara, porque lhe entra +muita luz, por huma abertura, que tem no alto. Está na +Villa, e <em>Horto de Gethsemani</em>, em que +<em>Christo Senhor nosso</em> +orou ao seu <em>Eterno Pay</em> aquella +oraçaõ trina, em que suou +gotas de Sangue, e adonde o Anjo lhe appareceo, e o confortou. +O considerar, que neste Lugar derramou <em>Christo +Senhor nosso</em> suor sanguineo, move os +coraçoens a devoçaõ, +e contriçaõ, por duros que sejaõ; e a +quarenta passos deste +<em>Oratorio de Christo Senhor nosso</em> +pouco mais, ou menos, se +nos mostrou o Lugar, adonde os trez discipulos +<em>Saõ Pedro</em>, +<em>Saõ Joaõ</em>, e +<em>Santiago</em> estiveraõ +dormindo, e <em>Christo Senhor +nosso</em> os despertou, e reprehendeo por naõ +velarem, e orarem. +Adiante hum tiro de pedra está o Lugar em que +ficaraõ +os oito Discipulos. Mais adiante quarenta passos está o +Lugar, em que <em>Judas</em> entregou a +Christo Senhor nosso, e o +prenderaõ. Com pedras se fez aqui a modo de huma rua, +que sinala o lugar. Em todos estes Santuarios ha infinitas Indulgencias.<br /> + +<br /> + +Poucos passos distante está a ponte do +<em>Cedron</em>: e todo +este caminho do <em>Horto de Gethsemani</em> +atè aqui se anda +pela raiz do <em>Monte Olivete</em>, e junto +ao Valle de <em>Josaphath</em>, +adonde está esta ponte do +<em>Cedron</em>. Passada esta ponte se sobe +huma grande costa, junto ao muro da Cidade, e he o +caminho por onde levaraõ a <em>Christo Senhor +nosso</em> prezo a casa +de <em>Anàs</em>. Neste mesmo +Valle ha muitas cousas notaveis +por antiguidade, e para a devoçaõ. Aqui +está hum famoso +edificio, cavado na penha, a modo de huma Capella redonda, +<span class="pagenum">[21]</span> +que toda he de huma pedra, excepto o capitel, e +he o sepulchro de +<em>Absalaõ</em>, filho de +<em>David</em>. Ha nelle huma +grande abertura, que os moradores desta terra fizeraõ, +tirando-lhe +pedras, tal vez por ser mao filho, pois perseguio +a seu pay. Junto deste sitio ha outro edificio, quasi arruinado, +em memoria, de que alli esteve o glorioso +<em>Santiago</em> o +<em>Menor</em> o tempo que +prenderaõ a <em>Christo Senhor +nosso</em> atè que +resuscitou, e lhe appareceo, e lhe disse, <em>que +comesse</em>; porque +tinha proposto de naõ comer, atè que o +<em>Senhor</em> resuscitasse. +Logo está o <em>Campo Santo</em>, +a que chamaraõ <em>Haceldama</em>. +He +hum edificio de quatro paredes fortes, e tem por cima hum +terrado de quarenta passos de comprido, e trinta de largo. +Nelle estaõ quatro, ou cinco bocas por donde +lançaõ os +defuntos, que aqui se enterraõ, pendurando-os por huma +corda, e bamboleando-os, atè que os deitaõ +abaixo. Comprou-se +este campo com os trinta dinheiros, que +<em>Judas</em> recebeo +dos <em>Fariseos</em> em +satisfaçaõ, e venda de <em>Christo +Senhor +nosso</em>. Desde entaõ atègora he +sepultura de Peregrinos. Naõ +muito distante se nos mostrou o Lugar donde o malaventurado +<em>Judas</em> se enforcou; e junto a ella he +a sepultura dos +Judeos, que parece o tomaraõ por patraõ, para o +acompanharem +na sepultura, e no Inferno. Em distancia de cem passos +está logo a cova, em que os Apostolos estiveraõ +escondidos +atè a Resurreiçaõ. Mais adiante +está a casa, que chamaõ +do <em>Mao conselho</em>, adonde se +determinou a morte de +<em>Christo Senhor nosso</em>, dizendo +Caifás, <em>que convinha, que hum +homem morresse pelo Povo, por que naõ perecesse toda a +gente</em>.<br /> + +<br /> + +Daqui fomos pela outra ribeira deste Valle de Josaphath, +e junto do muro da Cidade está huma +<em>Fonte</em>, que +chamaõ de <em>nossa Senhora</em>, +que vem, conforme dizem, do +Templo, que já referi, em que a <em>Virgem +Senhora nossa</em> se +creou; de que se colhia agua para beber, e para o mais +serviço +da casa. He muito bonissima, e della bebemos com grande +<span class="pagenum">[22]</span> +devoçaõ, por usar della a <em>Virgem +Senhora nossa</em>. Junto +a esta <em>Fonte</em> ha outra, a que +chamaõ Syloe, à qual mandou +<em>Christo Senhor nosso</em> o cego, para +que lavasse os olhos do +lodo, que fizera de terra, e sua benta saliva, com que lhe +restituhio a vista. He de muito boa agua, e da que superabunda, +se regaõ muitas hortas.<br /> + +<br /> + +Na parte do Meyo dia, à sahida da <em>Santa +Cidade</em> ha +outra <em>Fonte</em>, que dizem fez +<em>Salamaõ</em>, e trouxe esta +agua +por conductos de Bethleem do +<em>Fonsignato</em>. Cahe a Fonte sobre +a casa de sua mãy +<em>Bersabè</em>. Bebemos della +quando fomos, +e quando viemos de Bethleem, por curiosidade de a +gostar, por ser antiga, e feita por <em>ElRey +Salamaõ</em>. Naõ vi +outras fontes na <em>Santa Cidade</em> nem +dentro, nem fóra; porque +toda a agua, que se bebe na Cidade, e nos campos, he +de chuva recolhida em cisternas; e ainda que he boa, com +tudo a muitos causa damno a sua frescura.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Do Sagrado +Monte Olivete, e Bethania.</em><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Neste <em>Sagrado monte Olivete</em> obrou +<em>Christo Senhor nosso</em> +muitas cousas pertencentes à nossa +Redempçaõ; porque +alèm do que tenho dito, que se obrou na raiz deste +<em>Sagrado +Monte</em>, ha muito em todo elle, que considerar, e +reverenciar. +Direy por agora sómente do Lugar da +<em>Ascensaõ +admiravel</em>, e tornarey a baixar, por hir pelo caminho, +por +onde este Senhor foy muitas vezes a +<em>Bethania</em>.<br /> + +<br /> + +Começámos a subir junto à Igreja do +<em>Sepulchro de nossa +Senhora</em>, e a poucos passos parámos, adonde +dizem, que +vindo esta mesma Senhora das Estaçoens deste Sagrado Monte, +que ordinariamente fazia, depois que <em>Christo seu +Unigenito +Filho, e Senhor nosso</em> subio aos Ceos, vio apedrejar a +<em>Santo Estevaõ</em>, e que +neste Lugar orou, atè o Santo Prothomartyr +entregar a Deos o seu espirito; e subindo pouco +<span class="pagenum">[23]</span> +mais, vimos o Lugar, em que dizem, que o <em>Apostolo S. +Thomè</em> +recebera o cinto da <em>Virgem Senhora +nossa</em>. Mais acima está +o Lugar, adonde os <em>Apostolos</em> +disseraõ a <em>Christo Senhor +nosso</em> que os ensinasse a orar, e lhes deu a +oraçaõ do <em>Padre +nosso, &c.</em> Neste Lugar está huma +Igreja cahida. Subimos +hum pouco mais, e vimos o Lugar adonde os +<em>Apostolos</em> compuzeraõ +o <em>Credo</em>; e mais acima, o em que +<em>Christo Senhor nosso</em>, +e os <em>Apostolos</em>, vendo a +<em>Jerusalem</em>, e ouvindo este Senhor +que elles louvavaõ a fabrica do Templo, e o bem lavrado +das pedras, lhes disse, <em>como tudo havia de ser +destruido</em>: e +assim o foy pelos Emperadores <em>Tito</em>, +e <em>Vespasiano</em>; e tambem +lhes disse os sinaes, que haviaõ de preceder ao dia do +Juizo.<br /> + +<br /> + +Ha outros Santuarios mais, que os Mouros possuem, +e alguns estaõ convertidos em Mesquitas. O Lugar da +Ascensaõ +naõ he Mesquita, porèm os Mouros, e Turcos tem +a chave, e naõ permittem a entrada aos Christãos, +sem que +lhe paguem muito bem. No alto deste <em>Sagrado +Monte</em>, está +huma Igreja grande, mas muito cahida; e no meyo está +huma Capella redonda de bobeda inteira, e no meyo della +huma pedra de dous palmos, e pouco mais de altura, em +que se vê hum pè sinalado, que dizem ser de +<em>nosso Redemptor</em>, +quando daqui subio aos Ceos: o outro pè, dizem, o +levara hum Principe Christaõ, que naõ sey dizer, +quem +fosse. Com grande devoçaõ beijámos +este pé muitas vezes. +He este Lugar de Santa alegria para todos os Christãos, que +o vem; porque nos parece, que vemos a <em>Christo Senhor +nosso</em> subir pelos ares, e à +<em>Virgem nossa Senhora sua Santissima +Mãy</em>, e aos Apostolos, que estaõ +com os olhos, e coraçoens +suspensos, olhando o caminho, que <em>Christo Senhor +nosso</em> +fazia para si, e para os seus Fieis.<br /> + +<br /> + +Adorámos,e despedimo-nos com muita saudade deste +Santo Lugar, e fomos pelo alto, e plano deste +<em>Sagrado</em> +<span class="pagenum">[24]</span> +<em>Monte</em> para a parte do +Septentriaõ, pouco mais de duzentos +passos, a huma torresinha, e casa; Lugar, aonde dizem, +que baixaraõ os Anjos, e disseraõ no dia, e hora +da <em>Ascençaõ</em> +aos saudosos <em>Apostolos: Viri Galilaei, +&c.</em> pelo que se +chama Galilea pequena. He muito alegre, e fermoso este +<em>Sagrado monte</em>. Tem muitas arvores, +especialmente oliveiras, +(de que tomou o nome) figueiras &c. e vinhas. Está +à +parte Oriental da <em>Santa Cidade</em>. De +tal modo estaõ este <em>Sagrado +Monte</em>, e o de +<em>Siaõ</em>, que tudo o que hum +tem se vê +do outro; e vendo-se do <em>Olivete</em> a +<em>Santa Cidade</em>, por ser hum +pouco mais alto, he huma das mais alegres, e deliciosas +vistas, que ha no Mundo, ainda que +<em>Jerusalem</em> hoje he muito +pequena; porque está assentada no meyo do +<em>Monte Sion</em>, +da maneira que hum livro está em huma estante; pelo que +se podem contar todas as casas, e torres de cima a baixo, +sem que falte alguma. Saõ as mais das casas de bobeda, como +Capellas de Igrejas, e todas de terrados, e assim ha poucas, +ou nenhuma, que tenha madeira, o que tudo faz, e representa +huma magestosa vista. Tem a Cidade quatro mil +visinhos, pouco mais, ou menos; ainda que em outro tempo +foy das grandes do Mundo, como se vê das ruinas, +que ha por aquelles outeiros, de que está rodeada. As ruas +que atravessaõ do Meyo dia ao Septentriaõ +saõ planas, e +as do Poente ao Oriente costa abaixo, ainda que naõ muito +empinadas, pois corre muito bem hum cavallo por ellas.<br /> + +<br /> + +Deste <em>Sagrado Monte Olivete</em> se +vê bem o <em>Templo</em>, no +Lugar em que esteve o de +<em>Salamaõ</em>, que agora he +Mesquita +de Mouros, e Turcos. Está no meyo de hum grande quadro +murado, e hum angulo delle he muro da <em>Cidade +Santa</em>, +em hum prado desembaraçado, e limpo, com algumas arvores. +He fabricado à maneira de hum Zimborio, de Moysaico, +e riquissimas columnas, e taboas de marmore, e jaspe; +e por fóra eleva apparatosamente a vista. Nenhum +<span class="pagenum"><a name="p25" id="p25">[25]</a></span> +Christaõ entra dentro sobpena de perder a vida, ou renegar; +o que se pratica em todas as suas Mesquitas, como tenho +dito; porèm nesta he com mais rigor; porque depois da +Casa de Meca em que estes barbaros dizem estar o +<a href="#e1">Çancarraõ</a> +de Mafoma, esta he a mais principal. Algumas vezes ouviamos +a hum Mouro, que de huma Torre chamava o Povo para +a sua oraçaõ com grandes gritos; o que +praticaõ em todas +as Mesquitas; porque naõ admittem sinos, nem os permittem +aos Christãos.<br /> + +<br /> + +Baixámos deste Sagrado Monte pela parte, por onde +subimos, e ainda que huma vez fomos a +<em>Bethania</em> pela outra +parte, quizemos nesta occasiaõ hir por onde +<em>Christo Senhor +nosso</em> fora, poucos dias antes de sua +<em>Sacratissima Paixaõ</em>: +e tornando ao rio <em>Cedron</em>, +começámos a subir a ladeira +do mesmo <em>Sagrado Monte</em> em roda, que +he caminho mais +plano. Este he, por onde o <em>Senhor</em> +sahia a visitar as suas devotas +<em>Maria Magdalena</em>, e +<em>Martha de Jerusalem</em> a +<em>Bethania</em> +por este caminho he menos de meya legoa; e nelle nos +mostraraõ +a horta, em que estava a <em>Figueira</em>, +que <em>Christo Senhor +nosso</em> amaldiçoou.<br /> + +<br /> + +Chegámos a <em>Bethania</em>, que +hoje terá sessenta casas, +que mais parecem covas de coelhos, que habitaçaõ +de homens, +por estarem quasi debaixo da terra. Naquelles tempos +foy grande Povoaçaõ, hoje nem o que foy mostra. +Entrámos +logo na casa de <em>Simaõ +Leproso</em>, que saõ duas Capellas +de pedra, bem lavradas, no Lugar donde <em>Christo Senhor +nosso</em> +ceou com <em>Lazaro</em> resuscitado, e Maria +Magdalena o ungio. +Está hum Altar em que se diz Missa no dia, que se canta +este Euangelho, e ao presente he curral de cabras, e boys: +e naõ faltará que alimpar, quando neste Lugar se +houver de +dizer Missa; e ainda que nos entristece o ver quaõ +maltratados +saõ estes Lugares dos Mouros, e Turcos, naõ +desmaya +a devoçaõ, e Fé dos Catholicos, porque +consideramos, +<span class="pagenum">[26]</span> +que Deos permitte que assim seja por seus occultos juizos. +Daqui fomos a visitar o sepulchro de Saõ Lazaro, de que +tem os Mouros a chave, e dando-lhes algum dinheiro, de +boa vontade abrem a porta. Entrámos por huma escada de +quinze, ou mais degraos, debaixo da terra, a este Lugar, +em que estava sepultado, quando <em>Christo Senhor +nosso</em> o resuscitou. +He Lugar de muita devoçaõ, considerando as +lagrimas +de <em>Christo Senhor nosso</em>, de +<em>Maria</em>, e de +<em>Martha</em>, e dos +mais, que estavaõ com os Apostolos. Daqui sahimos, e andados +alguns passos, vimos o Castello, e casa que foy de +<em>Saõ +Lazaro</em>; e ainda que está tudo arruinado, +bem mostra ter +sido casa de homem principal, e visitámos a casa de +<em>Maria</em>, +e de <em>Martha</em>, que estaõ +destruidas. No caminho está huma +pedra, em que dizem, esteve sentado <em>Christo Senhor +nosso</em> +atè que chegou <em>Martha</em>, e +disse: <em>Domine, si fuisses hîc, +&c.</em> +Tudo o [~q] referi está fóra da Cidade de +Bethania, ainda que +esteve dentro naquelles tempos, por ser entaõ Cidade +grãde, +e hoje muito pequena a Povoaçaõ. Della sahimos, e +subindo +por hum outeiro como trezentos passos, chegámos ao Lugar +adonde foy <em>Bethfage</em>. Delle mandou +<em>Christo Senhor nosso</em> +aos Apostolos pela asna, e jumentinho, e subindo nella fez +a sua entrada solemne, e triunfal em +<em>Jerusalem</em>. Naõ ha aqui +algum edificio, mais que humas Figueiras para sinal. Daqui +se vem algumas casas da Cidade de +<em>Jericó</em>, que todas +saõ +poucas. Está edificada em campina raza, que vaõ +acabar +nas margens do <em>Jordaõ</em>. +Está distante de Jerusalem trez legoas, +poucos mais, ou menos. Tambem se vê deste sitio +hum lago, que terá de comprimento trez legoas, pouco +mais, e de largo duas. He este lago do <em>Rio +Jordaõ</em>, e nelle +se acaba, pois naõ tem outra corrente, nem sahida. Chama-se +o <em>Mar morto</em>; e debaixo delle +estaõ aquellas malditas, e +infames Cidades <em>Sodoma</em>, e +<em>Gomorrha</em>: e se vê tambem +outro +monte, que estará quasi huma legoa distante, a que +<em>Christo</em> +<span class="pagenum">[27]</span> +<em>Senhor nosso</em> se retirou, e nelle +jejuou quarenta dias, e +quarenta noites, e foy tentado pelo demonio. Passado o +<em>Jordaõ</em> +por esta parte, que está de +<em>Jerusalem</em> oito legoas, pouco +mais, principiaõ os montes de Arabia.<br /> + +<br /> + +Sahimos do Lugar de <em>Bethfage</em>, e +subimos ao alto do +<em>Monte Olivete</em>, levando o rosto para +o Septentriaõ, e declinado +ao Poente, passando pela Igreja da +<em>Ascensaõ</em>, +baixámos +ao Lugar, adonde vendo <em>Christo Senhor +nosso</em> a Cidade +de <em>Jerusalem</em>, chorou sobre ella, +dizendo: <em>Si cognovisses, +& tu, &c.</em> e descendo ao Valle de +<em>Josaphath</em>, subio à Cidade, +e <em>Templo</em>, entrando pela +<em>Porta Aurea</em>, que agora +está no muro +cerrada de cal, e pedra, sahindo o Povo a seu recebimento +com ramos de palmas, e os meninos cantando: <em>Hosanna in +excelsis</em>.<br /> + +<br /> + +Todos os annos faziaõ os Religiosos Latinos esta +representaçaõ, +em que o <em>Guardiaõ</em>, que +representava a <em>Christo +Senhor nosso</em>, e doze Religiosos os +<em>Apostolos</em>, sahiaõ +paramentados +de <em>Bethfage</em>, e mandava o +<em>Guardiaõ</em> a dous +Religiosos, +que fossem pela asna, e jumentinho; e trazendo-a, +subia nella; e cantando os Religiosos em circuito do Preste, +e chorando pela muita devoçaõ varios Hymnos, e +versos +a este proposito, ordenavaõ na Dominga de Ramos esta +triunfal, e solemne Procissaõ, e o sahiaõ a +receber da Cidade +muitas naçoens Christãas, e muito Infieis, e +lançavaõ +ramos, e as suas vestiduras, por donde passava. Os Mouros; +e Turcos estavaõ como pasmados vendo esta +Procissaõ, sem +perturbarem aos Christãos, o que parecia milagre, e o era +certamente, por naõ terem mãos, nem linguas para +os impedir, +por <em>Deos nosso Senhor</em> o +naõ permittir; e subindo ao <em>Santo +Cenaculo</em>, que era entaõ Convento seu, +proseguiaõ o Officio +daquelle dia. No tempo, que eu estive na Santa Cidade +naõ se fazia esta Procissaõ, porque o Turco +mandou, que +se não fizesse. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[28]</span> +<em>Da Cidade de Bethleem, e do caminho que fizemos +atè +lá chegar.</em><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Já he tempo de tratar do alegrissimo, e bemditissimo +caminho, +que ha da <em>Santa Cidade de Jerusalem</em> +à de Bethleem, +que saõ duas leguas para a parte do Meyo dia. Sahimos +da <em>Santa Cidade</em> ao nascer do Sol, +pela porta de Jaffa, +e passando pela <em>Fonte de +Salamaõ</em>, e <em>casa de +Bersabè</em> sua +mãy, subimos huma pequena, e suave costa, e démos +em hum caminho, todo plano, ainda que nelle ha muitas +pedras. He este caminho muito aprazivel, porque o espaço +de huma legoa delle tudo saõ herdades, vinhas, oliveiras, +frutas, e muitas Torres, e casas, o que tudo faz huma +deliciosa vista, e muitas dellas foraõ casas de +Profétas, +e algumas já foraõ Igrejas. Vimos em hum campo +grande +quantidade de pedras taõ pequenas como graõs, e +do +seu feitio; e se conta, que a <em>Virgem Senhora +nossa</em> vendo +semear grãos a hum Lavrador, lhe pedio, lhe désse +delles; e que elle zombando respondera, que naõ +eraõ +grãos; que eraõ pedras, e assim saõ +atè hoje. Eu os vi, +e trouxe alguns. Vimos tambem neste caminho huma grande +arvore, que me pareceo <em>Aroeira</em>, e +lhe chamaõ <em>Terebintho</em>. +Tomámos ramos com devoçaõ, porque +à sua sombra +dizem que descançára a <em>Virgem +Senhora nossa</em>. Vimos tambem +o <em>sepulchro de Rachel</em>, que os +Mouros, e Turcos guardaõ, +e usaõ delle Mesquita. He fermoso edificio, situado +em hum lindo quadro, com hum muro cuberto com hum +capitel sobre columnas. Vimos tambem huma cisterna de +muita, e boa agua, em que os <em>Santos trez +Reys</em> tiveraõ +grande alegria, por lhes apparecer a +<em>Estrella</em>, que se escondera, +antes que entrassem em <em>Jerusalem</em>, e +dalli os guiou +atè o Lugar aonde estava o <em>Menino +Deos</em> no portal de +<em>Bethleem</em>. +Vimos tambem huma Igreja de Gregos, que he a casa +<span class="pagenum">[29]</span> +adonde esteve <em>Elias</em>. Ha por esta +parte muitas antigalhas +dignas de ver, e curiosas. Desta casa se descobre a feliz, +e desejada Igreja, e Cidade de +<em>Bethleem</em>.<br /> + +<br /> + +Quando a vimos, Peregrinos, e Religiosos, que nos +acompanharaõ, nos puzemos de joelhos, cantando Hymnos, +e oraçoens, dando muitas graças a Deos pelo +Mysterio +do seu Nascimento, e por permittir que, que visitassemos +aquella <em>Santa Cidade</em>; e assim +continuámos, até chegarmos +a ella, e à porta da Igreja, que está +fóra da dita <em>Cidade</em>, +que agora terá pouco mais de sessenta visinhos. +Entrámos +pela porta principal da Igreja, que está defronte +da Capella mayor, ficando à maõ esquerda a +entrada +do Convento. Sahiraõ-nos a receber os Religiosos de +Saõ +Francisco, que alli assistem, e commummente saõ nove, +ou dez; e fizemos oraçaõ na Igreja, que he da +Invocaçaõ +de <em>Santa Catharina</em>. Esta Igreja, +Convento, e Igreja grande +do <em>Santissimo Nascimento</em>, fazem hum +corpo, e na de <em>Santa +Catharina</em> dissemos Missa no dia que +chegámos.<br /> + +<br /> + +Dita a Missa, todos os Religiosos, e Pereginos com +tochas accezas, baixámos por huma escada, que +está na parede, +e lado da Epistola, e tem vinte degraos, a humas covas, +em que estaõ fabricadas na penha viva estas Capellas. +Hum Altar, no Lugar, em que foraõ mortos muitos dos +meninos Innocentes; poucos passos mais dentro, a hum lado +o <em>sepulchro de Santo Eusebio</em>, +discipulo de <em>Saõ Jeronymo</em>; +mais dentro dous passos em huma Capella o <em>sepulchro +de Santa Paula</em>, e de sua filha +<em>Eustochio</em>; e de fronte na mesma +Capella o <em>sepulchro de Saõ +Jeronymo</em>; mais dentro huma +Capella, adonde <em>Saõ +Jeronymo</em> viveo muito tempo, e traduzio +a <em>Sagrada Biblia</em>. Todos os dias se +visitaõ estes Santos +Lugares processionalmente cantando Hymnos, Antifonas, +Versos, e Oraçoens em cada huma destas Estaçoens, +e +se ganhaõ muitas Indulgencias. Daqui sahimos, e +entrámos +<span class="pagenum">[30]</span> +por hum passadiço apertado, e estreito, para hirmos +à Capella +do <em>Santissimo Nascimento</em>, e nos +pareceo, quando entrámos, +que entravamos no Paraiso.<br /> + +<br /> + +Esta Santissima Capella em que a <em>Virgem Mãy +de +Deos, e Senhora nossa</em> pario ao <em>Filho +de Deos</em>, está fabricada, +como as outras, na penha viva. Terá como doze palmos +de comprimento, de largura quatro, e dous estados +em alto. He cuberta de marmore, e jaspe, e de fermosissimo +Moysaico. Ha nella hum Altar de huma só pedra, +vaõ +por baixo, que he o proprio Lugar, em que nasceo <em>Jesu +Christo, verdadeiro Filho de Deos, Homem, e Deos +verdadeiro</em>. +Está este Lugar sinalado com huma pedra branca, que +no meyo tem huma Estrella de jaspe. Sobre este celestial Altar +dissémos Missa do Nascimento dous dias. Dous passos +adiante está o Lugar, como huma piasinha de marmore +quadrada, +mais baixo que o pavimento, em o qual foy o Menino +Deos reclinado no Presepio. Aqui está descuberto hum +pedaço +de penhasco, taõ ditoso, que gozou (se se pòde +dizer) do +resplandor, e gloria de Deos humanado: e na verdade, que +este penhasco nos alegrou mais que todos os mais jaspes, e +Moysaicos; porque estes nos alegraraõ a vista corporea, +aquelle nos encheo a alma de contentamento. Bem discretos +foraõ os edificadores deste Santissimo Lugar, em o deixar +à vista, para alegria espiritual de todos os que o vem.<br /> + +<br /> + +Entre o Lugar do <em>Santissimo +Nascimento</em>, e <em>Santissimo +Presepio</em>, está hum Altar de marmore, que +sinala o Lugar, +em que os Reys offereceraõ os seus dons. Eu como musico +tive mil desejos, e ancias, de ter alli os melhores musicos +do Mundo, assim de vozes, como de todos os instrumentos, +para dizer, e cantar mil vilhancicos, e chansonetas ao +<em>Menino Jesus</em>, a sua +<em>Mãy Santissima</em>, e ao +glorioso <em>Saõ +Joseph</em>, em companhia dos Anjos, Reys, e Pastores, que +se +acharaõ naquelle diversorio; que ainda que parecia pobre, +<span class="pagenum">[31]</span> +excedia a todas as riquezas, que imaginar se podem.<br /> + +<br /> + +Nos lados do Altar do <em>Santissimo +Nascimento</em> ha duas +escadas, porque subimos à <em>Capella +mòr da Igreja</em> principal, +porque o Lugar do Nascimento Santissimo, e os demais que +referi, estaõ debaixo desta Igreja. Esta he fermosissima, +ainda +que em parte está despida da sua fermosura, porque todas +as paredes, e pavimento, estiveraõ cubertas com taboas +de marmore, que os Turcos ha poucos annos a esta parte +tiraraõ para ornarem as suas Mesquitas. He de trez naves, +a do meyo muito alta, e sustenta-se o tecto em ricas, e grandes +columnas de marmore, inteiras, e bem lavradas, e saõ +quarenta e oito. Sobre estas columnas estaõ assentadas vigas +de cedro, que atravessaõ de huma a outra, muito curiosas +pelo artificio; e sobre isto ha outros arcos de pedra, +e sobre elles em hum lado está lavrada de riquissimo +Moysaico +a geraçaõ de <em>Christo Senhor +nosso</em>, como a escreveo <em>Saõ +Mattheus</em>, e do outro lado, como a escreveo +Saõ Lucas; +tudo de figuras de meyo corpo, com seus nomes.<br /> + +<br /> + +Junto à Capella mayor està hum Altar, adonde o +<em>Menino Deos</em> foy circumcidado. Nesta +fermosa Igreja se +diz Missa algumas vezes, e naõ sempre; porque os Turcos +quasi todo o dia estaõ nella, e como saõ muito +porcos, +está pouco aceada. O Padre Guardiaõ nos levou aos +terrados +da Casa, e Igreja; e de lá vimos o lugar, e prados, em +que os <em>Santos Pastores</em> +estavaõ, quando o Anjo lhes disse, +que <em>Christo nosso Salvador</em> era +nascido, cantando: <em>Gloria in +excelsis Deo</em>. Está de +<em>Bethleem</em> como a terceira parte de +huma +legoa. Vimos tambem o Lugar, em que estavaõ as vinhas do +<em>Balsamo</em>, no tempo de +<em>Salamaõ</em>, que se chama +<em>Engadi</em>. Está +pouco mais de huma legoa de <em>Bethleem</em>.<br /> + +<br /> + +Desta <em>Santa Casa</em> sahimos como cem +passos, e entrámos +em huma cova (de que os Mouros tem a chave) adonde +estiveraõ escondidos a <em>Virgem Senhora +nossa, o Menino Deos</em>, +<span class="pagenum">[32]</span> +e <em>Saõ Joseph</em>, quando o +<em>Anjo</em> lhes disse, que fugissem para +o <em>Egypto</em>, por Herodes procurar o +<em>Menino</em> para o matar. +Nesta cova dizem, que dando a <em>Virgem Senhora +nossa</em> de +mamar ao seu <em>bemditissimo Filho</em>, lhe +cahira do seu purissimo +<em>Leite</em> na terra; pelo que todos +levaõ desta terra por devoçaõ, +para dar às mulheres, que tem falta de leite, e +lançada +em hum vaso de agua, ou vinho, se lhestitue, confórme +a fé da que o usa.<br /> + +<br /> + +Aqui nos hospedaõ os Religiosos, dando-nos de comer, +e camas a todos os Peregrinos com muito amor, e caridade, +sem que seja necessaria recompensaçaõ; ainda que +todos, conforme a sua possibilidade, contribuem com o que +podem, por agradecimento, o que naõ espera a sua grande +caridade, com que trataõ a todos sem differença. +A mayor +parte dos edificios desta Casa edificou <em>Santa +Paula</em> em +tempo de <em>Saõ Jeronymo</em>. +Aqui habitaraõ atè morrerem. O +que está aruinado se pòde reparar, +porèm naõ o permittem +os Turcos. Tem bastante vivenda para os Religiosos. +Tem dous Jardins, em que ha muitas Larangeiras, e outras +arvores, frutas, e hortaliças; bons passeyos, boas vistas, e +em tudo o que se descobre houve antigamente cousas notaveis. +Tem hum dormitorio para os Peregrinos, à maneira +de huma nave, em que se podem hospedar atè duzentos. +Sahimos deste Santo Lugar com tantas saudades, como +quem deixava lá a alma, e naõ acertavamos a nos +retirar: e +tornámos para a <em>Santa Cidade de +Jerusalem</em> pelo mesmo caminho, +chorando, sem tirarmos os olhos, em quanto o alcançamos +com a vista, de Lugar taõ Santissimo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[33]</span> +<em>Da Igreja do Monte Calvario, e Santo +Sepulchro.</em><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Vistos os Santuarios da <em>Santa Cidade de +Bethleem</em>, pedimos +ao Senhor Guardiaõ nos procurasse a entrada no +<em>Sagrado Monte Calvario, e Santo +Sepulchro</em>; e ajustado o dia, +e hora com o <em>Subasi</em>, Governador da +<em>Santa Cidade de Jerusalem</em>, +que tem as chaves desta <em>Santa +Igreja</em>, que sempre +está fechada, e sómente se abre quando elle quer, +ou quando +o Padre Guardiaõ o avisa de que haõ de entrar +Religiosos, +ou Peregrinos, ou alguma das naçoens Christãas; e +chegado +o dia, que foy quinta feira de tarde, veyo +<em>Subasi</em> com +o Escrivaõ, e Porteiro, e se sentou à porta desta +<em>Santa Igreja</em> +sobre hum poyal, que se cobrio com hum tapete, e coxins +de veludo; e o Padre Guardiaõ com outros Religiosos, +e hum Christão da terra, que se chama +<em>Ánà</em>, muito bom +homem, e fiel interprete do Convento, que falla bem Italiano, +e Arabigo, que he a lingua commua da terra em toda +a Palestina, e Syria. Chegámos sete Peregrinos, que eramos, +que o Padre Guardiaõ appresentou ao Subasi, e perguntando-me +o nosso interprete, pois era o primeiro, o como +me chamava? Respondi, que <em>Alberto</em>; +porque parecesse nome +Tudesco, e naõ <em>Hespanhol</em>, +por ser de perigo, que elles +saibaõ, que somos Hespanhoes, porque entendem, que +vamos por espias, e nos fazem escravos; e fallando Italiano, +os assegurámos de toda a suspeita. Escreveo o Turco o nome, +que eu disse, com huma penna de cana, e lhe dey nove +<em>zequies</em> de ouro, que vale cada hum +sete centos e cincoenta, +e o mesmo deu meu companheiro, e os mais. Os Religiosos +Sacerdotes naõ pagaõ cousa alguma. Paga se +sómente este +dinheiro na primeira vez, que se entra nesta Santa Igreja; +e depois, quando se abre, basta que se dê ao Porteiro hum, +ou dous maydines.<br /> + +<br /> + +Entrámos logo nesta Santissima Igreja, em que a vista +<span class="pagenum">[34]</span> +naõ pòde estar ociosa, pelo muito que ha, que +ver, e venerar. +A primeira cousa he o Lugar, aonde <em>nosso +Redemptor</em> +foy ungido para o sepultarem; e à maõ direita, na +mesma +nave, està o <em>Santissimo +Calvario</em>, à maõ esquerda na nave +do meyo, defronte da porta do Coro ao Poente, está o +<em>Sepulchro +do nosso Redemptor</em>; e no meyo da Igreja o Coro, que +tem quatro Cadeiras Patriarchaes, em que em outro tempo +se sentàraõ juntos os quatro Patriarchas da +Christandade. +Está hoje a cargo dos Gregos, e nelle tem o seu Altar mayor +com Imagens de Santos, pintadas com todo o primor. +As naves saõ direitas, excepto que para a parte do Oriente, +e Poente saõ redondas, à maneira de Colisseo. A +Igreja +he de fermosa fabrica. O tecto em partes he de Moysaico. +As paredes em outro tempo estiveraõ cubertas de marmores, +agora está a pedra aberta. Naõ perde com tudo a +fermosura +esta fabrica excellentissima, ainda que tenha agora esta +falta.<br /> + +<br /> + +As naçoens Christãas, que ha em +<em>Jerusalem</em> de diversos +Reynos, e Provincias, e Linguas, saõ estas.<br /> + +<br /> + +<em>Latinos. Gregos. Armenios. Georgianos. Jacobitas. +Abexins. Surianos. Maronitas.</em><br /> + +<br /> + +De cada huma destas naçoens ha dous, ou trez Religiosos, +repartidos pelas Capellas desta Santa Igreja, que +dizem o Officio Divino cada hum a seu modo, rito, e lingua, +e tem cuidado das suas alampadas, que estejaõ sempre +accezas, e limpas. A habitaçaõ dos nossos +Religiosos +de Saõ Francisco Latinos he a melhor; porque tem Refeitorio, +Dormitorio, e tudo o que basta para poderem estar atè +trinta pessoas.<br /> + +<br /> + +Comem, e dormem estas naçoens dentro nesta Igreja, +e os Peregrinos, que estaõ dentro, dando-lhes de comer, +e o que pedem por hum buraco, que a casa tem como fresta, +cruzada com duas barras de ferro. Por esta fresta fallaõ, +<span class="pagenum">[35]</span> +e se lhes ministra o necessario, e se vê hum +pedaço da Igreja; +por ella fazem oraçaõ os que estaõ de +fóra. Tal ordem tem +dado o Turco, para que estejaõ conformes, e como germanadas +estas naçoens, humas com outras, que se huma alampada +se estiver apagando, e o visinho a quizesse atiçar por +devoçaõ, o condemnariaõ em muitos +cruzados; e assim com +este rigor, ha summa paz entre todos, e nenhum se intromete +na obrigaçaõ, ou devoçaõ do +outro.<br /> + +<br /> + +A todos saõ communs os +<em>Santuarios</em>, para os poderem +visitar em qualquer hora, que quizerem, porque estaõ +continuamente abertos; e como sempre està fechada a porta +da Igreja, tudo està bem guardado: pelo que he de grande +contentamento, e devoçaõ o poder entrar +livremente, de +dia, e de noite, em que muitissimas alampadas a illuminaõ. +Em todos os Santuarios tem todas as naçoens suas alampadas, +huns mais, outros menos, e cada huma cuida das suas.<br /> + +<br /> + +Começámos os Peregrinos, e Religiosos a nossa +procissaõ +nesta Santa Igreja com vèlas accezas, cantando o +Hymno, Antifona, e Verso daquelle Santuario, que visitamos, +e chegando o Religioso, que està paramentado, nos +diz o Mysterio, que alli passou, e a Indulgencia, que +ganhámos.<br /> + +<br /> + +A primeira Estaçaõ foy em huma Capella, que se +chama +o <em>Carcere de nosso Salvador</em>, no qual +esteve em tanto, +que os Judeos esperavaõ, que a Cruz, e o lugar em que se +havia pôr, estivessem aparelhados. Mais adiante +visitámos +huma Capella, na qual os Soldados, que prenderaõ a +<em>Christo +Senhor nosso</em>, +lançáraõ sortes sobre as suas +vestiduras. Mais +adiante entràmos por huma porta, e baixando trinta degraos, +chegámos à Capella de S. Helena, mãy +do Emperador Constantino, +em [~q] se sentou a Santa Emperatriz, em tanto, que se +cavava, procurando a Cruz. Aqui nesta Cadeira da Santa +ha muitas Indulgencias. Baixámos mais onze, ou doze degraos, +<span class="pagenum">[36]</span> +feitos na mesma penha do <em>Monte +Calvario</em>, e he o +Lugar adonde a Santa Emperatriz achou a Santa Cruz, titulo, +cravos, e as cruzes dos Ladroens. Chamaõ-se estas +Capellas da Invençaõ da Cruz. Estaõ +bem fabricadas, e muito +espaçosas, ainda que debaixo da terra, que corresponde +ao Calvario.<br /> + +<br /> + +Sahimos desta Capella, e visitámos outra, donde +està +hum pedaço de huma columna, em que Christo Senhor nosso +esteve sentado, quando os Ministros de Pilatos, depois +de o açoutarem, o coroaraõ de espinhos. Daqui +subimos por +dezanove degraos, e fomos ao <em>Santo Monte +Calvario</em>, e +nos pareceo, que entràvamos no Paraiso. Estando no alto, +vimos huma Capella, que saõ duas estancias a modo de +tribuna, +que corresponde à primeira nave da Igreja. A primeira +he o Lugar Sacratissimo, em que o <em>Filho de +Deos</em> foy levantado +na Cruz; nelle está o buraco donde a Santa Cruz esteve +fixada. Tem hum bocal de prata, e o adorámos, e +beijámos, +como Santuario taõ admiravel. Metemos dentro os +nossos braços nùs, e assim digo, que +terá de fundo como +trez palmos. Nos lados estaõ sinalados os Lugares das cruzes +dos Ladroens, que me parece, que tocavaõ huma, e +outra cruz. Ha entre a de <em>Christo Senhor +nosso</em>, e a do mào +Ladraõ, <em>huma abertura</em> na +penha de sete palmos de comprido, +e mais de hum de largo, que chega abaixo ao Lugar +da <em>Invençaõ da Santa +Cruz</em>. Esta se abrio quando <em>Christo +Senhor nosso</em> espirou. Na outra parte da Capella, a +trez passos, +està o Lugar em que cravaraõ a +<em>Christo Senhor nosso</em>, estando +a Cruz no chaõ, e dalli a levantaraõ, e +puzeraõ no +sitio referido. Donde isto succedeo está huma memoria de +jaspe, e marmore bem lavrados. Esta Capella, que se chama +da <em>Crucifixaõ</em>, toda +está cuberta de marmore, e jaspe finissimo +com muitos lavores, e o tecto he todo de Moysaico, +de que estaõ pendentes mais de cincoenta alampadas de todas +<span class="pagenum">[37]</span> +as naçoens de Christãos. Dissemos Missa na parte +da +<em>Crucifixaõ</em>, na sexta +feira seguinte ao dia, em que entràmos, +e foy a da <em>Paixaõ secundùm +Joannem</em>; e este Altar se divide +com huma cortina do Lugar em que esteve fixada a Santa +Cruz. Naõ poderey explicar a grande afluencia de +devoçaõ, +que todos aqui sentem interior, e exteriormente, considerando, +que tudo, o que o Santo Euangelho refere, se obrou +neste Santissimo Lugar. A parte donde <em>Christo Senhor +nosso</em> +foy encravado, està entregue ao cuidado dos Religiosos de +Saõ Francisco; adonde esteve crucificado aos Religiosos +Georgianos, que saõ extremosamente devotissimos, e sempre +estaõ neste Sagrado Lugar rezando, e cantando. +Saõ virtuosissimos +Varoens, e de muita abstinencia, e pobreza. He taõ +agradavel, e devota para a alma, e corpo esta estancia do +<em>Sagrado Monte</em>, que não se +enfada, ou cança alguem de +estar nella. Em tudo he hum Paraiso. Oh que bem pareceraõ +aqui alguns Musicos cantando as lamentaçoens de Jeremias, +vendo, e considerando o <em>Calvario</em>, e +<em>Santo Sepulchro</em>, +porque ambos estes Santuarios se podem ver juntamente!<br /> + +<br /> + +Baixando deste Sagrado Lugar, chegàmos ao meyo +da primeira nave, e veneràmos huma pedra grande, pegada +na terra, cercada de grades de ferro de altura de palmo; +e por cima estaõ pendentes oito, ou nove alampadas de todas +as naçoens Christãas. Neste Lugar foy ungido +<em>Christo +Senhor nosso</em> para o sepultarem, por seus devotos +servos, +<em>Nicodemus</em>, e <em>Joseph +ab Arimathea</em>, assistindo a <em>Virgem +Senhora +nossa</em>, e as mais <em>Santas +Mulheres</em>, e o amado Discipulo +<em>Saõ Joaõ</em>. Este +Santo, Lugar està defronte da porta da +Igreja, e se vê pela fresta, que nella ha; e os que +estaõ fóra, +por ella fazem oraçaõ, e ganhaõ as +Indulgencias. Daqui +ao <em>Santo Sepulchro</em> haverà +quarenta passos para a parte do +Poente, dentro da mesma Santa Igreja. Esta inestimavel reliquia +<span class="pagenum">[38]</span> +possuem os nossos Religiosos de Saõ Francisco, e +sómente os Latinos dizemos nelle Missa. A sua +fórma he +esta. Antes da entrada ha huma pequena Capella quadrada, +em que caberáõ dez, ou doze pessoas, e no meyo +della +está huma pedra de dous palmos de altura, e dous de grosso. +Nesta pedra, dizem, que o <em>Anjo</em> +estava sentado, quando +fallou às <em>Marias</em>, +dizendo-lhes, que já <em>Christo Senhor +nosso</em> resuscitára. Por esta Capella se +entra a outra taõ pequena, +que a porta terá quatro palmos de alto, e trez de +largo. Á maõ direita está o +<em>Santo Sepulchro de nosso Salvador</em>, +donde esteve o seu <em>Santissimo Corpo</em>, +e delle resuscitou. +He hum Altar como huma arca, cuberta com huma +pedra marmore. Sobre este preciosissimo +<em>Sepulchro</em> dissémos +Missa; e naõ cabe neste lugar mais que o Sacerdote, e o +que o ajuda. O vaõ ninguem o vê, porèm +o mais gozaõ todos, +tocando-o, e beijando-o. Da parte superior pendem +muitas alampadas de todas as naçoens. Aqui disse Missa pela +misericordia de Deos, e foy a da Resurreiçaõ, e +foy grande +alegria para mim, quando dizia no Santo Euangelho: +<em>Surrexit, +non est hîc, ecce locus ubi posuerunt eum</em>; +sinalando +com o dedo o lugar adonde esteve o <em>nosso +Salvador</em>. Move +certamente os nossos coraçoens esta verdadeira +representaçaõ.<br /> + +<br /> + +Esta Capella do <em>Santo Sepulchro</em>, +ainda que por dentro +he quadrada, por fóra he redonda, e tem as paredes cubertas +de marmore. Em cima tem hum capitel de columnas +muito bem lavrado, que offerece huma boa vista aos que o +vem de fóra. Está no meyo de hum circuito de +columnas, +sem tocar em alguma parte. O zimborio da Igreja, que lhe +corresponde, he huma meya laranja de madeira de cedro +muito antiga. No meyo tem huma grande abertura, como +coroa, por donde entra a luz aos que estaõ em baixo. No alto +de huma parte está o retrato da Emperatriz +<em>Santa Helena</em>, +<span class="pagenum">[39]</span> +e da outra o do Emperador +<em>Constantino</em> seu filho, de +rico Moysaico, muito antigo, e outras figuras de Santos, +que quasi naõ se parecem, por estarem maltratadas da +antiguidade, +e do tempo.<br /> + +<br /> + +Sahidos deste Santissimo Lugar como dez passos, à +maõ esquerda, estaõ duas pedras redondas de +marmore postas +na terra, huma apartada da outra, como trez passos. Em +huma esteve <em>Christo Senhor nosso</em> +depois de resuscitado, na outra +a <em>Santa Magdalena</em>, quando lhe +appareceo em figura de +Hortelaõ, e lhe disse: <em>Noli me +tangere</em>. Daqui fomos à Capella, +e Coro dos nossos Religiosos Franciscanos, em que +dizem, appareceo <em>Christo Senhor +nosso</em> a sua <em>Santissima +Mãy</em>. +Na entrada desta Capella, na parede, guardada com huma +rede de ferro, de modo que o podemos tocar com os dedos, +está hum pedaço da columna, em que +<em>Christo Senhor nosso</em> +foy açoutado. Com esta Estaçaõ +acabámos de visitar esta Santissima +Igreja. Nos quatro dias, e noites, que nella estivemos +encerrados, reiteramos estas Estaçoens muitas vezes em +procissaõ, e sós. He de grande contentamento +ouvir pela +meya noite a todas estas naçoens dizerem Matinas, cada +h[~u]a +na sua lingua, e canto.<br /> + +<br /> + +Sahidos desta Santa Igreja, nas costas da Capella Mayor, +e no mais alto della, que he parte do <em>Sagrado monte +Calvario</em>, visitámos huma Capella, adonde +<em>Abraham</em> offereceo +o sacrificio; e outra, que está perto, adonde +<em>Melchisedech</em> +offereceo paõ, e vinho; das quaes tem cuidado +os Religiosos Abexins: e tornando para o nosso <em>Convento +de Saõ Salvador</em>, nelle estivemos alguns +dias, esperando +ao nosso <em>Trucimaõ Atala</em> +para ajustarmos a nossa vinda. +Nestes dias reiterámos as Estaçoens dos Sagrados +montes +<em>Sion</em>, e +<em>Olivete</em>; e chegando à +Santa Cidade de Jerusalem +quatro Religiosos de Saõ Francisco, que vinhaõ do +<em>Cayro</em>, +dous Italianos, e dous Hespanhoes, o principal dos Italianos +<span class="pagenum">[40]</span> +se chamava <em>Fr. Mattheus Salerno</em>, +homem nobre do +Reyno de Napoles, e muito virtuoso, que vinha para Comissario +de <em>Jerusalem</em>; e o principal dos +Hespanhoes, Fr. +Luiz de Quesada, natural de Sevilha, os acompanhámos na +continuaçaõ destes exercicios, que nunca +enfadaõ, mas antes +nos daõ recreaçaõ espiritual, por +espaço de dez, ou doze +dias. Trazia o Padre Salerno muito dinheiro, e muitas +joyas para o serviço do <em>Santo +Sepulchro</em>. Muitas toalhas, corporaes, +e demais cousas para o Altar, e celebraçaõ das +Missas, +que offereciaõ muitas Senhoras de Hespanha, e Italia. +Hum rico Caliz, que mandava ElRey de Hespanha; e outro +com huma alampada, que offerecia o Grão Duque de +Florença. +Tudo me mostrou na Sacristia por contentar o meu +desejo, e querer fosse eu testemunha de tudo.<br /> + +<br /> + +Já tratavamos de voltar para Italia, e o nosso +<em>Atala</em> +nos persuadia, a que fossemos com elle a Jaffa; porèm o +<em>Padre Salerno</em> disse, que de nenhum +modo queria andar por +mar a costa da Palestina, porque já entrava o Inverno; pelo +que resolveo hir por terra atè Tripoli, e eu em o +acompanhar: +e tendo eu assistido hum mez na <em>Santa Cidade de +Jerusalem</em>, +e os Religiosos quinze dias, dispuzemos a jornada; +e agradecemos ao Padre Guardiaõ a hospedagem, dando-lhe +tambem cada hum a esmola, que podia, e naõ a que +desejava: e recebemos delle as patentes, e testemunho da +nossa entrada na <em>Santa Cidade</em>, +escritas em pergaminho, com +o sello do <em>Santo Cenaculo</em>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Da nossa sahida +da Santa Cidade de</em> +Jerusalem.<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Chegou o tempo de sahirmos da Santa Cidade de +<em>Jerusalem</em>, +e o Padre Guardiaõ ajustou com +<em>Atala</em>, e outros +Mouros visinhos de <em>Jerusalem</em>, que +nos levassem a <em>Damasco</em>, +caminho de oitenta legoas. Com elles sahimos em jumentos, +<span class="pagenum">[41]</span> +(por naõ permittirem, que os Christãos andem a +cavallo) sete Religiosos, e seis Peregrinos. Dous Religiosos +destes faziaõ jornada para +<em>Alepo</em>; trez para +<em>Constantinopla</em>; +dous, que eraõ o <em>Padre +Salerno</em>, e seu Companheiro +Fr. Serafino, e hum Leigo Hespanhol, chamado +<em>Irmaõ +Juliaõ</em>, e nòs Pedro Tudesco, e +Nicolao Polaco, para Veneza.<br /> + +<br /> + +Despedidos do Padre Guardiaõ, tomada a sua Santa +bençaõ, e abraçando com muitas +lagrimas a todos os Religiosos, +sahimos acompanhados de todos muitos passos fóra +da Cidade, e repetidos os abraços, e lagrimas, +começamos +a caminhar, voltando a cada passo os olhos a traz, para vermos +a <em>Santa Cidade</em>, os Sagrados montes +<em>Sion</em>, e +<em>Olivete</em>, e +nos despediamos de taes Santuarios com muita tristeza; e +tendo caminhado como meya legoa, a perdemos de vista. +Nesta meya legoa vimos huma Igreja, e he o lugar adonde +<em>Jeremias</em>, vendo a Cidade, e +chorando, compoz as Lamentaçoens.<br /> + +<br /> + +Fizemos noite em huma Cidade destruida, trez legoas +de <em>Jerusalem</em>, e nella +esperámos huma caravana de trinta e +trez camellos de mercadores Mouros, por fazermos jornada +em sua companhia. Nesta Cidade foy que a <em>Virgem +Senhora nossa</em> achou menos ao seu Filho +<em>Christo Jesus</em> de tenra +idade, e tornando a <em>Jerusalem</em> a +procurallo, o encontrou +no meyo dos Doutores no Templo. Proseguimos a jornada +por esta parte de <em>Judéa</em>, +e entrámos na Provincia de +<em>Samaria</em>. +Neste dia fizemos noite na Cidade de +<em>Sichar</em>, a que os +Mouros chamaõ <em>Nablos</em>. +Aqui está o poço, donde <em>Christo +Senhor nosso</em> fallou à +<em>Samaritana</em>; naõ o vi, +porque entrámos +já de noite; porèm meu companheiro o vio, que +ficou +a traz com parte da companhia, e disse que naõ tinha agua. +Estivemos naquella noite dentro da Cidade, e dormimos na +rua, porque nos naõ déraõ pousada; e +no dia seguinte, pela +tarde, continuámos a jornada. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[42]</span> +Nesta Cidade de <em>Sichar</em> +prégou <em>Christo Senhor +nosso</em> +dous dias, convertendo os seus moradores. He muito fermosa, +e fresca, e tem boas casas, e muitas Torres. He habitada +de dous mil visinhos. Está entre dous montes, e o principal +he o <em>Garisim</em>. Tem hum valle, dos +fermosos que se +podem ver, em que ha muitas hortas, e fontes, arvores, e +frutas. Quando eu vi da outra parte da Cidade tantas fontes, +passando por este valle, entendi que as naõ haveria no tempo +da Samaritana; porque havendo-as, naõ buscaria +taõ +longe a agua. Aqui habitou <em>Jacob</em> com +seus filhos, e gados, +e deu a <em>Joseph</em> por melhor huma +herdade, como diz a <em>Santa +Escritura</em>. Na Cidade nos mostraraõ a sua +casa. Toda esta +Comarca de <em>Sichar</em> he fertilissima de +paõ, gados, e de tudo +o necessario para a vida humana. Ao outro dia chegámos +à Cidade de <em>Sebaste</em>, +Cabeça do Reyno, e Provincia de +<em>Samaria</em>; +nome que teve em outro tempo; agora está destruida, +ainda que alguns edificios bem mostraõ a sua antiga +grandeza. Ha nesta Cidade huma Igreja de pedra, e duas +partes della estaõ cahidas; porèm o que +está em pé, he taõ +bem lavrado, como a mais perfeita obra Romana. No Altar +desta Igreja, dizem, foy degollado o grande +<em>Saõ Joaõ +Bautista</em> +por mandado delRey Herodes. He digno de +consideraçaõ +particular, o ver esta Cidade em que residiraõ tantos +Reys, destruida; pois apenas terá cincoenta casas; o +que tambem se vê em toda a Palestina, pois vimos Cidades, +pelos caminhos que andámos, que antigamente foraõ +populosas, +e insignes; e hoje só se vem pedras, e algumas paredes. +Bem se colhe ser vontade de Deos; e que estaõ destruidas +por peccados dos habitadores daquelle tempo. Aqui +nos disseraõ, que a companhia dos camellos, que vinha +comnosco, ficando muito a traz, a roubáraõ os +Arabes. +Naõ sey que assim fosse, o que posso dizer he, que +já mais +a vimos; e démos graças a Deos por nos livrar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[43]</span> +Passadas dez legoas de travessia desta Provincia de +<em>Samaria</em>, +entrámos na de <em>Galilea</em>. +Da Santidade della basta dizer, +que Christo Senhor nosso a passeou muitas vezes, e +nella obrou as maravilhas, que referem os Chronistas Sagradas. +Cinco legoas dentro nesta Provincia está h[~u]a Igreja +cahida +entre h[~u]as casas, de que se fórma huma pequena Aldea, +chamada <em>Janim</em>, em o lugar adonde +Christo Senhor nosso sarou +aos dez Leprosos. Mais adiante trez legoas, vimos quatro +celebrados montes. O <em>Carmelo</em>, [~q] +está ao Poente do nosso +caminho, junto ao Mediterraneo. O +<em>Hermon</em>, [~q] está +à parte +de Levante, e junto a elle a Cidade de Naim, adonde +<em>Christo +Senhor nosso</em> resuscitou o filho da Viuva; agora he +pequena +Villa. O monte, a que está contigua a <em>Santa +Cidade de Nazareth</em>, +adonde encarnou o <em>Filho de Deos</em>. +Naõ subimos a este +lugar, bem que estava perto, por[~q] o naõ +permittiraõ os nossos +Mouros; e sómente vimos branquear as ruinas dos edificios. +A ditosa casa, em que a <em>Virgem Senhora +nossa</em> concebeo +ao <em>Filho de Deos</em>, que estava nesta +Cidade, a trouxeraõ +os Anjos, haverá duzentos annos, para Italia, e a +collocáraõ +em <em>Loreto</em>, tendo primeiramente sido +levada a duas +partes. Obra Deos nella infinitos milagres, de que estaõ +cheyos os livros, e na Igreja em que está, já +naõ ha parte +adonde se ponhaõ tantas memorias. Tem muita riqueza de +pessas de ouro, e prata, ornamentos, offertas que fizeraõ +Pontifices, Reys, Principes, Senhores, &c. no que lhe +naõ +excede alguma Igreja do mundo. Cercaraõ os Pontifices esta +camara Angelical com huma fermosa Igreja, e está no +meyo della. As paredes de fóra estaõ cubertas de +marmore +lavrado de lindas figuras, em que se vê a vida da +<em>Santissima +Virgem, Mãy de Deos, e Senhora nossa</em>. Por +dentro estaõ +descubertas as pedras, e ladrilho, mais agradaveis, ainda +que antigos, que todas as pedras preciosas do Mundo, pois +cremos, que foraõ tocadas milhares de vezes por +<em>Christo</em> +<span class="pagenum">[44]</span> +<em>Senhor nosso</em>, e sua +<em>Santissima Mãy</em> Tem no +meyo hum Altar +donde dizemos Missa, que divide a huma parte a chaminé, +adonde a <em>Virgem Senhora nossa</em> +guizava a sua ordinaria +comida. Está esta ditosa chaminé cuberta de +prata, e outras +riquezas.<br /> + +<br /> + +Junto a esta Santa Igreja está hum sumptuoso Collegio +da Companhia de Jesus, em que assistem Religiosos de +muitas naçoens. Esta Santa Casa he frequentada de muita +gente, que a visita, de toda a Christandade.<br /> + +<br /> + +Desta Santa Cidade de <em>Nazareth</em> sahio +a Virgem <em>Senhora +nossa</em> pejada, acompanhada do seu +<em>Esposo Santissimo +Saõ Joseph</em>, a escreverse na Cidade de +Bethleem, pelo edito, +e mandato geral do Emperador <em>Cesar +Augusto</em>, por ser +esta Cidade sua, como descendentes da Real estirpe de +<em>David</em>; e alli pario a seu +<em>Unigenito Filho</em>, e do +<em>Eterno +Pay</em>. De Nazareth a Bethleem ha trinta legoas, pouco +mais, +ou menos.<br /> + +<br /> + +O outro monte he o <em>Thabor</em>. Ao +pé delle chegámos, +e vimos dous edificios cahidos; hum no principio, outro +no alto do monte, adonde <em>Christo Senhor +nosso</em> esteve com +os seus Discipulos <em>Saõ +Pedro</em>, <em>Saõ +Joaõ</em>, e +<em>Santiago</em>, e se transfigurou +ante elles, e de <em>Moysés</em>, +e <em>Elias</em>. Nelle ouvio a voz +do <em>Eterno Pay</em>, dizendo: +<em>Hic est Filius meus dilectus, +&c.</em> +Demais da Santidade deste monte, que he o principal, por +nelle se mostrar <em>Christo Senhor +nosso</em> glorioso, e resplandescente +com os rayos de gloria; he tambem muito alegre, fermoso, +e bem proporcionado na sua postura, alto redondo, +e apartado dos outros; de modo, que parece, foy posto à +maõ naquelles Valles.<br /> + +<br /> + +Proseguimos o nosso caminho, levando o rosto ao +Norte, e chegámos ao mar de +<em>Galilea</em>, que se chamou +<em>Tiberiades</em>. +Ainda que se chama <em>Mar</em>, +naõ o he; porque a agua +he doce, e está apartado do Mediterraneo mais de doze +legoas. +<span class="pagenum">[45]</span> +Neste <em>mar</em>, ou +<em>lago</em>, fez Deos milhares de +maravilhas. +Aqui estavaõ pescando <em>Saõ +Pedro</em>, e <em>santo +André</em>, e em outro +barco <em>Saõ +Joaõ</em>, e +<em>Santiago</em>, quando os chamou +<em>Christo Senhor +nosso</em> para que o seguissem, e que os faria pescadores +de homens; e deixando as suas redes, o seguiraõ. Ha na +ribeira +deste lago muitas Povoaçoens, que em outro tempo +foraõ Cidades principaes. Entre ellas he celebre +<em>Capharnaum</em>, +<em>Corozaim</em>, e +<em>Bethsaida</em>. Ao presente +sómente se vem +as suas ruinas. Junto a este lago fez <em>Christo Senhor +nosso</em> o +milagre de dar de comer às turbas, que o seguiaõ, +com +cinco paens, e dous peixes. Muitas vezes andou, e navegou +sobre as suas aguas este mesmo Senhor. Aqui se manifestou +aos Discipulos, depois de resuscitado. Terá este cinco +legoas, +pouco mais, ou menos de comprido, e de largo pouco mais +de duas. A agua he do <em>Rio +Jordaõ</em>, que nelle entra, e sahe +correndo, mais de quarenta legoas atè o <em>Mar +morto</em>, em +que se recolhe, e naõ torna a sahir. Na sua ribeira ha +muitas +fontes. Pousàmos esta noite, e tarde, que +chegàmos, +junto a este lago, em Bethsaida, terra, e Patria dos Apostolos +<em>Saõ Pedro</em>, +<em>Santo Andrè</em>, seu +irmaõ, e <em>Saõ +Filippe</em>. Alegria +grande tivemos por pernoitarmos aqui, pois <em>Christo +Senhor +nosso</em> aqui esteve muitas vezes. He agora huma Villa +de cem +visinhos. A Comarca he das fermosas, que tem o Mundo, +muito fertil de gados, frutas, e palmas. Comemos peixe +deste lago, que nos soube muito bem, por ser donde +<em>Christo +nosso Redemptor</em> o comeo algumas vezes, e por ser +bonissimo, +e pela devoçaõ com que o comiamos, e pela fome, +que tinhamos.<br /> + +<br /> + +No outro dia madrugàmos muito, e caminhàmos por +asperas montanhas, e chegàmos antes do meyo dia ao celebre +<em>Rio Jordaõ</em>, que ainda que +nesta parte naõ foy o <em>Bautismo +de Christo Senhor nosso</em>, com tudo por nelle se +celebrar, +nos deu a sua vista muita alegria, e contentamento. +Apeàmonos +<span class="pagenum">[46]</span> +todos contra a vontade dos Mouros, e com grande +ancia chegàmos à agua, bebendo toda a que +podémos, lavando +nella cabeça, rosto, e mãos; e nos parecia, que +tinhamos +desejo de nos converter em peixes, para naõ sahirmos +de aguas taõ santificadas. Nesta parte he o rio apertado, +e se pòde vadear. A agua he cristalina, fresca, e muito +doce. Passàmos por huma ponte de pedra bem lavrada, +e à maõ esquerda vimos huma lagoa, que se chama +<em>Aguas +Meronas</em>, que saõ do mesmo rio.<br /> + +<br /> + +Nasce este famoso rio de duas fontes, que vem do +<em>Monte Libano</em>, huma chamada +<em>Jor</em>, outra +<em>Daõ</em>, e dellas toma +o nome de <em>Jordaõ</em>. Estas +fontes deixamos à maõ esquerda, +quando vamos de <em>Damasco</em> a +<em>Tyro</em>, e +<em>Sydonia</em>.<br /> + +<br /> + +Passado o rio Jordaõ, entràmos na +<em>Syria</em>, que commummente +se chama <em>Suria</em>, e em trez dias +chegàmos a <em>Damasco</em>. +Naõ vimos cousa notavel neste caminho, sómente +encontràmos muitos Senhores, e Cavalheiros Turcos, +acompanhados +de muita gente de pè, e cavallo, e muitos camellos +carregados com as suas recamaras, mulheres, e familia, +que faziaõ jornada para o +<em>Cayro</em>. Neste mesmo caminho me +lembra sempre, quando hum Turco me deu com hum pao, +sómente por passatempo, e foy rindo com os seus +companheiros. +Antes de chegarmos à Cidade quatro legoas, a vimos; +porque se descobre assentada ao pè do <em>Monte +Libano</em>. +He muito fermosa pelas muitas Torres, que tem; e pela +abundantissima veiga. Legoa e meya antes que nella entrassemos, +passàmos muitas hortas, assudes, fontes, e sitios +frescos, e aprasiveis. A tarde antes, e o dia, em que +entràmos, +vimos sahir, e entrar nella mais de mil camellos, +com provimentos necessarios. Entràmos, e andàmos +grande +parte della primeiro que chegassemos à pousada, que foy +na <em>Alfandega</em>, sempre a pè +porque naõ consentem os Turcos, +que entremos a cavallo; nos seus Povos, e pelas jornadas +sómente nos permittem jumentos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[47]</span> +Tem esta Cidade em todas as ruas, ao menos huma +fonte. He a mais abundante do necessario para a vida, assim +de comestivel, como de sedas, brocados, panos, tèlas, +&c. +que naõ creyo haja outra no Mundo. He a sua +Povoaçaõ, +pouco menos, que a de <em>Sevilha</em>. Por +fóra naõ parecem as +casas bem, ainda que por dentro ha muitas principaes, e apparatosas. +Ha nella, como diziaõ, quatro centas mil Mesquitas, +bem edificadas, e todas tem à porta fonte, para se lavarem, +os que entraõ a fazer sua oraçaõ. Por +fóra vimos muitas, +porque dentro naõ podemos entrar na fórma que +està dito.<br /> + +<br /> + +Estivemos nesta Cidade cinco dias, e quasi todos os +Peregrinos enfermàraõ, porque dormiamos no +chaõ, e em +mao aposento; porèm Deos me reservou pela sua misericordia, +com saude, para tratar delles. Havia naquelle +tempo em Damasco hum Cavalheiro Veneziano, chamado +<em>Bernardo</em>, Consul dos Italianos, que +nos deu nestes dias de +comer regaladamente, com que reparàmos o damno, que +experimentàvamos de naõ ter comido de +<em>Jerusalém</em> atè +àquella Cidade mais que paõ, uvas, e agua; porque +ainda +que naõ falta de comer, como naõ ha estalagens +para os Christãos, +passàmos mal, pois pousàmos nos curraes, e +estrevarias +em companhia de camellos, e bufallos. Com este Cavalheiro, +e hum Religioso de <em>Saõ +Francisco</em>, que o +<em>Baxà</em> +ViRey, e Senhor da Cidade tinha em sua casa por ayo de +seus filhos, de quem sómente os fiava, e naõ de +Turcos, ou +Mouros, andàmos muitas vezes a mayor parte da Cidade +passeando-a, para a vermos, e para comprar algumas cousas +para a nossa jornada.<br /> + +<br /> + +Celebravaõ os Turcos, e Mouros nestes dias que alli +estivemos a sua <em>Paschoa</em>, que durou +trez dias, em que todos +andavaõ muito alegres. Em hum destes hia eu por huma +rua, em que havia muita gente, vi, que hum Turco andava +a cavallo correndo por entre elles, e era necessaria grande +<span class="pagenum">[48]</span> +destreza para os que estavaõ naõ ficarem +atropellados. +Levava hum alfange nù, e estava bastantemente borracho, +pelo que abrio a cabeça a hum Mouro com huma só +cutilada. +Eu me escondi entre os Mouros, e passou como rayo. Delle +escapey diligentemente, porque sem duvida gostaria de +dar outra tal, vendo hum Christaõ. Este foy o encontro, +que tive de receyo; pois sempre andámos pela Cidade, vendo +suas festas, sem que nos offendessem. Naõ deve esta +Cidade nada às melhores do Mundo. He habitada de Turcos, +Mouros, e Judeos Mercadores, e de muitas naçoens de +Christãos, que saõ o mais viandantes. Em todos os +officios +tem bons officiaes; e muito particularmente os que tecem +sedas; o que vimos na casa de hum Turco, em que se tecia +o melhor brocado, que vi na minha vida. Bem merece +esta Cidade o ser Cabeça da +<em>Syria</em>. O que nella ha que ver +de devoçaõ, he a casa de +<em>Ananias</em>, Discipulo de +<em>Christo nosso +Redemptor</em>, em que lhe fallou, e mandou, que fosse +buscar +a <em>Saõ Paulo</em> já +convertido, que estava orando, e o foy a bautizar, +e confortar. Mostráraõ-nos o muro, por donde a +este +<em>Santo Apostolo</em> o +lançáraõ os Christãos em +huma alcofa, +e assim escapou delRey <em>Aveta</em>, que o +queria matar. +Mostráraõ-nos tambem em huma praça +huma pedra cercada +com humas grades, e della dizem, subio a cavallo Saõ +Jorge, quando foy a matar a Serpente. Sómente escrevo o +que vi, e o que nos disseraõ.<br /> + +<br /> + +Chegou o tempo de fazermos viagem para Veneza, +e o Consul Veneziano, que nos regalou neste tempo, ajustou +com huns Mouros honrados, e fieis para nos levarem +à Cidade de <em>Tripoli</em>, +donde nos haviamos de embarcar, +que tambem está na <em>Syria</em>. +Alcançámos ainda em +<em>Damasco</em> +a Festa de <em>Todos os Santos</em>, e o dia +dos Fieis Defuntos, e dissemos +Missa no aposento do Consul encerrados, e era +quanto celebravamos, esperavaõ de fóra +<em>Mouros</em>, +<em>Turcos</em>, +<em>e</em> +<span class="pagenum">[49]</span> +<em>Judeos</em>, que vinhaõ a +negociar, para nos naõ perturbar.<br /> + +<br /> + +Tratouse antes de sahirmos da Cidade, do caminho +mais direito para <em>Tripoli</em>; e nos +disséraõ, que pelo <em>Monte +Libano</em>, por onde viera hum Cavalheiro Veneziano, +naõ +fossemos; porque nelle havia muitos ladroens Arabes, e o +monte estava muito cheyo de neve: e assim rodeando, como +vinte legoas ao nosso Mediterraneo, sahimos de +<em>Damasco</em>. +Vimos <em>Tyro</em>, e +<em>Sydonia</em>; passámos por +<em>Baruth</em>, e por suas +hortas fresquissimas. Por este caminho seraõ como quarenta +e cinco legoas de <em>Damasco</em> a +<em>Tripoli</em>.<br /> + +<br /> + +He esta ribeira da <em>Syria</em>, de +excellente terra, grandes +montes, muitas, e boas herdades, e algumas de Christãos +Maronitas, que vivem no <em>Monte +Libano</em>, junto a +<em>Tripoli</em>. +Ha por estes montes perdizes, e outras caças de Europa; +e muitos rios, e passagens por regates, que baixaõ do +<em>Libano</em> ao Mediterraneo.<br /> + +<br /> + +Passando a ribeira do mar, fomos por hum caminho +estreito aberto nas penhas, e chegámos a hum rio, que +passámos +por huma fermosa ponte do tempo dos Romanos. +Alli se lê em duas pedras hum letreiro Latino, e outro +Arabigo, +em que se faz memoria dos Emperadores <em>Marco +Antonio</em>, +e <em>Marco Aurelio</em>. Chama-se o rio +<em>Caõ</em>, por certa fabula +dos Gentios, que dizem, que este Caõ, que era de +pedra, dizia aos desta terra, quando havia de haver guerra, +ou alguma fatalidade, e depois o +lançáraõ no rio, que +tomou o seu nome. Eu o vendo pelo preço, que o comprey. +Cada hum crea o que lhe parecer.<br /> + +<br /> + +He este <em>Monte Libano</em> muito grande, e +atravessa muita +terra de Damasco atè o mar. Tem muitos braços, e +o +principal vay direito a Tripoli, e passando duas legoas a +diante da Cidade, se vê bem a parte mais alta, que toda +estava +cuberta de neve. Deste monte se cortou a madeira para +o <em>Templo de Salamaõ</em>. Ha +nelle boas vinhas, e o vinho +<span class="pagenum">[50]</span> +dellas he excellentissimo. He digno de se ver, pelas muitas +vezes, que a Santa Escritura faz delle memoria. No dia, +que chegámos a <em>Tripoli</em> +choveo muito, pelo que naõ sahio +huma grande embarcaçaõ, e tinhamos grande desejo +de a alcançarmos. +Deos nosso Senhor parece que a guardou por +sua infinita bondade para virmos nella; porque ainda que +havia outras naos para +<em>Constantinopla</em>, e para outras partes +de <em>Italia</em>, e +<em>França</em>, esta vinha em +direitura a <em>Veneza</em>.<br /> + +<br /> + +He a Cidade de <em>Tripoli</em> na +<em>Syria</em> muito boa, e de fortes +casas. A sua Povoaçaõ está em trez +montesinhos, junto +ao mar; ainda que o porto está desviado meya legoa. He +fresquissima, abundante de aguas, e hortas, laranjas, limoens, +palmas, e tudo o mais que tem huma terra fertil. +He escala dos Mercadores de meyo Mundo, de Poente, Levante, +e India Oriental. Na nossa nao vieraõ para hirem para +Veneza nove Mercadores Italianos, que vinhaõ da India, +a que ha mais de duas mil legoas por terra, passando quarenta +dias por desertos, como nos affirmáraõ, e por +caminhos +de area, adonde nem se acha agua, nem que se coma: +pelo que trazem o que haõ de comer, e beber em camellos, +que commummente costumaõ trazer mil em companhia.<br /> + +<br /> + +Recolhemonos em <em>Tripoli</em> em h[~u]a +casa de Religiosos, +e Peregrinos, que he como hum Convento, em que estaõ +ordinariamente trez Religiosos de <em>Saõ +Francisco</em>, mandados +pelo Padre Guardiaõ de Jerusalem, que saõ como +Curas dos +Mercadores Italianos, que alli estaõ.<br /> + +<br /> + +He esta Cidade habitada de Turcos, Mouros, e Judeos. +O Padre Guardiaõ nos acompanhou a todos, Religiosos, +e Peregrinos atè a embarcaçaõ: e +excepto os Religiosos, nos +embarcàmos sete Peregrinos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[51]</span> +<em>Da nossa viagem de Tripoli atè +Veneza.</em><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Sahidos do porto de <em>Tripoli</em>, +navegámos, e pouco a pouco +chegámos à Ilha de +<em>Chypre</em>, passando à vista +de <em>Famagusta</em>, +Cabeça deste Reyno; e démos vista de +<em>Candia</em>, +costeando pela Turquia, até chegar à +<em>Morea</em>, à vista de +<em>Modon</em>. Daqui caminhámos a +<em>Zante</em>, em que estivemos dez +dias, e logo a <em>Corfu</em>, adonde +estivemos e celebrámos a Festa +do <em>Nascimento de Christo Senhor +nosso</em>. He esta Ilha de +<em>Corfu</em>, +huma das mayores forças, que os Venezianos tem na +<em>Grecia</em>; +e como tal, he de muita consideraçaõ, por ser +como chave de +Italia.<br /> + +<br /> + +Passámos a costa de +<em>Esclavonia</em>, +<em>Albania</em> e +<em>Dalmacia</em>, +e chegàmos à agradavel Ilha, e Cidade de +<em>Lesna</em>, e nos +hospedáraõ os Religiosos de +<em>Saõ Francisco</em> no seu +Convento +por espaço dos cinco dias em que houve no mar grande +tormenta. +Fallaõ aqui os naturaes a lingua +<em>Esclavonica</em>, ainda +que entendem a <em>Italiana</em>. A Cidade he +pequena; tem boas, +e fortes casas, e bom porto. Daqui viemos pela costa de +<em>Istria</em> +à Cidade, e Bispado de +<em>Parenço</em>, e sahindo da nao +em +hum barco, passámos a +<em>Veneza</em>, a que ha quarenta legoas, +adonde chegámos com saude, e alegria, e a Deos +démos as +graças por nos levar, e trazer de taõ Santa +viagem, e jornada +taõ perigosa por mar, e terra. Gastámos de +<em>Tripoli</em> a +<em>Veneza</em> +a sessenta e seis dias. Entrámos na Cidade em 19. de Janeiro +do anno 1589. e desde que della sahimos, atè que +tornàmos, +passáraõ cinco mezes, e cinco dias.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Da jornada, que +fizemos de Veneza atè +Sevilha.</em><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Detivemonos mez e meyo em Veneza, por repararmos +a saude, e socegarmos do trabalho do caminho, recolher, +e emendar os meus livros, que achey estampados. Hospedou-nos +<span class="pagenum">[52]</span> +hum Cantor da <em>Senhoria</em>, chamado +<em>Antonio de +Ribera</em>, que me regalou de modo, que meus pays se +foraõ +vivos, e alli se acháraõ, o naõ +fariaõ melhor, nem com mais +amor, o que foy causa, de que nos restituissemos ao que +eramos, pois vinhamos muito maltratados.<br /> + +<br /> + +Sahidos de Veneza, viemos a <em>Ferrara</em>, +<em>Bolonha</em>, +<em>Florença</em>, +<em>e Pisa</em>, Cidades principaes de +<em>Italia</em>. Chegámos a +<em>Leorne</em>, +porto de <em>Toscana</em>, procurando as +Galés do <em>Graõ Duque +de Florença</em>, que partiaõ para +Marselha, a buscar a <em>Graõ +Duqueza</em> sua esposa, filha do <em>Duque +de Lorena</em>. Estava o +<em>Graõ Duque</em> em +<em>Leorne</em>, e me fez a merce de me +admittir +a beijarlhe a maõ. Mandoume aposentar, e dar o necessario +com toda a grandeza; e me prometteo de me accómodar nas +Galés do <em>Papa</em>, que estava +esperando por instantes para hirem +em companhia das suas, que jà tinhaõ partido com +as +de <em>Genova</em>, e +<em>Malta</em>, que por todas eraõ +dezaseis, adornadas, +e armadas com toda a magnificiencia, como para a occasiaõ +de bodas de taõ grande Principe.<br /> + +<br /> + +Chegàraõ as Galés do +<em>Papa</em>, e o Capitaõ General +a +rogo do <em>Graõ Duque</em>, me +recebeo, e me regalou na sua Capitania, +trazendo-me na camera de popa, e dandome a sua +mesa, e tambem tratado cheguey a +<em>Marselha</em>, que naõ +estranhey +o mar, pois nelle tive todos os regalos da terra.<br /> + +<br /> + +Na Semana Santa entrey em <em>Marselha</em>, +e nella tive a +<em>Paschoa</em>; e como as Galés +ficáraõ esperando a +<em>Duqueza</em>, +fretámos hum Bergantim para virmos a +<em>Barcelona</em>, em que +embarcámos dous Genovezes, (hum se chamava +<em>Joaõ Ansaldo</em>) +dous Italianos, e dous Hespanhoes.<br /> + +<br /> + +Sahimos do porto com hum pouco de mao tempo, e +com o desejo de tornar para +<em>Marselha</em>, tanto que nos fizemos +ao largo; e tendo caminhado como cinco legoas; entrámos +no abrigo de huma calheta, por naõ podermos passar a +diante. Apenas puzemos os pés em terra, quando vimos +<span class="pagenum">[53]</span> +junto a nòs hum Bergantim, que entendemos, vinha, como +o nosso, a esperar, que o tempo melhorasse. Vinha elle cheyo +de arcabuzeiros ladroens, e muitos Lutheranos; e descubrindo-se +com os arcabuzes à cara, lhes dissémos, +<em>que se +detivessem, que nos dávamos por rendidos</em>, +porque se nos puzessemos +em resistencia, nos perdiamos, pois em o nosso Bergantim +sómente havia espadas, e dous arcabuzes mal preparados; +e ainda que fossem mais, eraõ poucos; e assim melhor +era salvar as vidas. Estes soldados (ou ladroens, por melhor +dizer) entraraõ no nosso Bergantim, +tomáraõ-nos as chaves +dos nossos alforges, e maletas, e tudo revolveraõ, +naõ deixando +cousa em seu lugar. Estavamos nòs em terra, vendo +o que passava, e esperando o fim destes ladroens, com +taõ pouca esperança de vida, olhando huns para os +outros +sem dizer palavra. Era já quasi noite, quando nos +mandáraõ +entrar em o seu Bergantim, e tomáraõ posse da +nossa +roupa, e armas; e nos fizeraõ tornar a traz a huma Fortaleza +em que viviaõ, e donde sahiaõ a fazer estes +roubos. Antes +que a ella nos levassem, nos puzeraõ em huma camara +cheya de palha, e junto a ella muita lenha, e todos +estiveraõ +de fóra fallando na sua lingoa: e nòs +encomendando-nos +a Deos, com o temor de que aquelles Hereges nos queimassem; +porèm <em>Deos nosso Senhor</em> +nos tirou deste temor, e perigo.<br /> + +<br /> + +Levaraõ-nos dahi a pouco à Fortaleza, +deraõ-nos de +cear, e as suas pobres camas; e começámos a +perder o medo. +Démos à mulher do Capitaõ alguns +escudos de ouro, e ella +nos assegurou, que naõ haveria perigo em nossas vidas. +Trez dias estivemos desta maneira, sem nos deixarem sahir, +nem aos nossos marinheiros, que tambem estavaõ prezos +comnosco; e começámos a tratar da nossa +liberdade, sendo +medianeiro hum <em>Francez</em> que hia, e +vinha. Pedio o Capitaõ +por cada hum de nòs cem escudos, e que nos daria a roupa; +<span class="pagenum">[54]</span> +ao que respondemos, que os naõ tinhamos, que fizesse +o que quizesse.<br /> + +<br /> + +Neste tempo chegou hum homem de Marselha desta +companhia; e naõ soubemos que ordem trouxe; porèm +o Capitaõ +disse logo, <em>que de nòs naõ +queria cousa alguma, porque +elles eraõ Christãos, e nòs tambem; +mas que como pobres soldados +necessitavaõ</em>. Cada hum deu o que pode; a +mim me custou +a minha roupa vinte e cinco escudos; e deramos no dia, em +que nos prenderaõ, pela segurança da vida, quanto +nos pedissem. +Aqui estivemos oito dias, e nos embarcámos com +seu beneplacito, acompanhando nos o Capitaõ, e companheiros +trez, ou quatro legoas no seu Bergantim, e nòs no +nosso. Quando se apartou nos disse, <em>que naõ +tornassemos a +Marselha; porque se tornassemos, e elle nos colhesse, nos cortaria +as cabeças</em>; e certamente o fariamos se +podessemos, para +que se soubesse de semelhantes Hereges ladroens.<br /> + +<br /> + +Caminhámos dous dias por esta costa de +<em>França</em>, e na +Provincia de <em>Languedoc</em> em huma +manhãa, caminhando nòs +a remo, vimos sahir outro Bergantim com muita pressa de +hum rio, e que nelle entrava alguma gente de terra, e +começou +a remar para o nosso, porèm os nossos marinheiros +tanto trabalháraõ, que nos naõ +puderaõ alcançar; porèm +quando cuidámos, que estavamos livres delle, appareceo +hum navio à vèla, que vinha contra +nòs. Entendemos, que +seria navio, que caminhava para Levante; mas logo que +emparelhou com o nosso Bergantim, amainou, e mandou +que parassemos, e se descubriraõ doze arcabuzeiros +ladro[~e]s, +e Lutheranos, que com as armas à cara nos +renderaõ, e entraraõ +o nosso Bergantim, e de nòs, e da roupa fizeraõ o +mesmo, que os outros ladroens Lutheranos, ainda depois +de lhe darmos o que levavamos nas bolças. Ataraõ +o nosso +Bergantim ao seu navio, e nos leváraõ como huma +legoa, rio +acima, junto ahuma Povoaçaõ, que +chamaõ <em>Cirinhan</em>. Esta +<span class="pagenum">[55]</span> +segunda prizaõ nos deu mais temor da morte, porque como +disse hum dos soldados a <em>Joaõ +Ansaldo</em>, teve o arcabuz à +cara para me matar, e disparando-o, errou o tiro, ou passou +por alto; o que todos attribuimos, a que neste tempo nos +encomendámos à <em>Virgem Senhora de +Monserrate</em>, fazendo +voto de ir visitar a sua Casa, e de lhe dizer Missa. Passadas +quatro horas, estando assim, veyo hum Cavalheiro, Alferes +desta terra, e tomou por conta em hum rol toda a nossa +roupa, e ordenou se guardasse no navio; e logo nos levou +a huma Villa distante huma legoa, rogando-me, para que +aceitasse o seu cavallo, e que elle como mais moço +caminharia +a pè, de que todos lhe démos o agradecimento, e +chegados ao lugar, a todos deraõ pousada, e a mim me levou +para sua casa, adonde me regalou.<br /> + +<br /> + +Neste lugar reside hum Cavalheiro, Senhor de dous +lugares, este nos recebeo alegremente, e dando-nos palavra +de segurança (porque era Catholico Romano) nos disse +escreveria +ao <em>Duque Motmoranci</em>, Senhor da +Provincia de +<em>Languedoc</em>. Era Secretario deste +Duque hum <em>Genovez</em> parente, +e amigo de <em>Joaõ Ansaldo</em>; +e tanto que soube da nossa +prizaõ, fez toda a diligencia pela nossa liberdade; e por +elle nos mandou despachar o Duque, e nos deu hum passaporte, +para que se encontrassemos outros navios do seu destricto, +tivessemos segurança; pelo que sahimos alegres, ainda +que alguns escudos nos ficáraõ nas +mãos dos soldados.<br /> + +<br /> + +Sahimos daqui, e em quatro dias chegámos a +<em>Barcelona</em>, +aonde démos graças a Deos por nos livrar destes +ladroens +Francezes Lutheranos, e de muitas Galeotas de Turcos, +que andavaõ por esta costa, das quaes tomou nove o filho +de <em>Andrè Doria</em>. Digo +certamente, que tendo andado +por tantos, e taõ varios caminhos entre Turcos, Mouros, e +Arabes, naõ tivemos o perigo, e pezar que padecemos na +França. Visitámos a <em>Virgem +Santissima de Monserrate</em>, e lhe +<span class="pagenum">[56]</span> +démos as graças pelas merces que +<em>Deos nosso Senhor</em> nos fez, +por sua intercessaõ; e logo tomámos o caminho de +<em>Valença</em>, +<em>Murcia</em>, +<em>Granada</em>, e chegámos a +Sevilha, eu, e meu +companheiro Francisco Sanches, com saude, adonde com +muito contentamento fuy recebido de todos, especialmente +do Illustrissimo Cardeal, o Senhor Dom Rodrigo de Castro, +e do Cabido da Santa Igreja.<br /> + +<br /> + +Dey conta neste breve tratado da minha viagem à +<em>Terra Santa</em>, com toda a verdade +Christãa, a todo o que +desejar saber o caminho. De <em>Sevilha</em> +a <em>Jerusalem</em> ha mil e +quatro centas legoas de ida; e pela volta, que dey, pela Cidade +de Damasco, entendo, que de ida, e vinda, ha trez +mil legoas. He facil andar este caminho, pois eu o andey, +tendo sessenta annos; pelo que se animem os moços, e que +tem possibilidade, a fazerem taõ Santa viagem; que eu lhes +certifico, que depois de vistos taõ Santos Lugares, seja tal +o seu contentamento, que o anteponhaõ ao de possuirem todos +os thesouros do Mundo.<br /> + +<br /> + +<h2>FIM.</h2> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em><img style="width: 250px; height: 189px;" alt="" src="images/fig01.png" /></em><br /> + +<em></em></div> + +<em><br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +</em> +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 61px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"> + <a name="e1" id="e1"></a><a href="#p25">#pág. 25</a></td> + + <td style="text-align: center;">C,ancarraõ</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Çancarraõ</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<div style="text-align: center;"><br /> + +<br /> + +</div> + +</div> + +</div> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30091 ***</div> +</body> +</html> |
