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-<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd">
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-<head>
- <title>Itinerario da viagem</title>
-
-
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-
-
-
-<body>
-<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30091 ***</div>
-
-<div>
-<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b>
-Devido &agrave;
-exist&ecirc;ncia de erros tipogr&aacute;ficos neste texto,
-foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
-vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
-mantida de acordo com o original. No final deste livro
-encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
-Farinha (Set. 2009)
-</div>
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
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-<div class="bbox"><br />
-
-<h1>
-ITINERARIO<br />
-
-<br />
-
-DA<br />
-
-<br />
-
-VIAGEM,</h1>
-
-<h4>
-QUE FEZ A JERUSALEM O M. R. P.<br />
-
-<br />
-
-FRANCISCO GUERREIRO,<br />
-
-<br />
-
-<em>Racioneiro, e Mestre da Capella da Santa Igreja de
-Sevilha,<br />
-
-natural da Cidade de B&eacute;ja.</em></h4>
-
-<h4>
-OFFERECIDO<br />
-
-<br />
-
-AO SENHOR<br />
-
-<br />
-
-ANTONIO VAN-PLATE,<br />
-
-<br />
-
-Familiar do Santo Officio.</h4>
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><img style="width: 250px; height: 189px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;">LISBOA OCCIDENTAL,<br />
-
-<br />
-
-Na Officina de DOMINGOS GON&Ccedil;ALVES,<br />
-
-Impressor dos Monges das Covas de Mont-furado.<br />
-
-<br />
-
-<div class="breaks">
-<hr /></div>
-
-<br />
-
-M. DCC. XXXIV.<br />
-
-Com todas as licen&ccedil;as necessarias.<br />
-
-<br />
-
-</div>
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><img style="width: 550px; height: 157px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-<h3>
-AO SENHOR<br />
-
-<br />
-
-ANTONIO VAN-PLATE,</h3>
-
-<h3><br />
-
-Familiar do Santo Officio, &amp;c.</h3>
-
-<br />
-
-<br />
-
-<em>Este breve Itinerario da viagem dilatada,
-que fez a Jerusalem o Reverendo Padre Francisco Guerreiro,
-natural da Cidade de B&egrave;ja, Racioneiro, e Mestre de Capella
-da Santa Igreja Metropolitana de Sevilha, bem conhecido
-pelos seus ascendentes, os Guerreiros de Campo de Ourique,
-e pelas obras de musica, que fez estampar, sempre admiradas,
-e nunca imitaveis, impresso pelo original Portuguez,
-que deixou escrito de sua ma&otilde;, muito differente daquelle,
-que
-os Sevilhanos adulterara&otilde;, e publicara&otilde; em outro
-seculo no
-seu idioma, offere&ccedil;o a vossa merce; na&otilde; para
-incitar mais o
-affecto, com que me deseja favorecer, que conhe&ccedil;o
-na&otilde; poder
-crescer mais, como experimento, sim por me mostrar agradecido
-a tantos beneficios, que recebo, e espero receber de sua
-Catholica, e politica generosidade.<br />
-
-<br />
-
-He este o primeiro original, que publico; e como vossa
-merce apadrinhou o acto de meu mayor empenho, honrando-me
-com a sua assistencia, em outra occasia&otilde;, agora desejo
-tambem
-que me fa&ccedil;a a honra de o patrocinar, pois pela materia, pelo
-Escritor, pelas noticias que inclue, e pela antiguidade, he digno
-do seu nobilissimo, e piedoso influxo.<br />
-
-<br />
-
-Tendo eu a certeza de que he do agrado de vossa merce,
-espero que o seja de todos, pois a estima&ccedil;a&otilde;
-vulgar sempre imita
-a particular estima&ccedil;a&otilde; de sogeitos da
-esf&eacute;ra de vossa merce;
-que entendo ser&aacute; correspondente ao desejo, que tenho de
-obsequiar
-a vossa merce, a quem Deos guarde.</em><br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;">Af. V. e C. de V. M.<br />
-
-q. s. m. b.<br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div class="signature">
-<em>Joa&otilde; de Carvalho.</em></div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<h3>ITINERARIO
-DA TERRA SANTA</h3>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Tendo eu, pela misericordia Divina, visitado
-os Lugares da Terra Santa, muitos devotos
-me pedira&otilde; escrevesse esta Santa viagem,
-para que &agrave; vista do que eu vi, se abrazassem
-os seus animos, procurando seguir
-o mesmo caminho, e serem informados do
-que lhe era necessario para este fim: e por
-condescender com os seus desejos, e pelo gosto, que tenho
-da suave memoria de o haver andado, na&otilde; me ser&aacute;
-molesto
-o fazer huma breve rela&ccedil;a&otilde; do que tenho visto: e
-para dar
-melhor noticia do movimento, que tive, para fazer esta
-peregrina&ccedil;a&otilde;, he preciso come&ccedil;ar do
-tempo, que me incliney
-a desejar ver cousas ta&otilde; dignas de hum peito Catholico.<br />
-
-<br />
-
-Depois que meus pays, e familia passara&otilde; da Cidade
-de Beja, minha Patria, a viverem na Villa de Zafra, me appliquey
-&agrave; arte de musica, e nella me doutrinou meu irma&otilde;
-Pedro Guerreiro, doutissimo na faculdade; e tanto fez com
-o castigo, e com a doutrina, sendo grande o desejo, que tinha
-<span class="pagenum">[2]</span>
-de saber, e o meu engenho accommodado &agrave; dita arte, que
-em poucos annos teve gosto, e satisfa&ccedil;a&otilde; de mim.
-Foy preciso
-o ausentarse; e eu desejando aperfei&ccedil;oarme, tive modo,
-para ser admittido &agrave;s li&ccedil;oens do grande, e
-excellente Mestre
-Christova&otilde; de Morales, o qual me deu grande luz na
-composi&ccedil;a&otilde; da musica, e me poz capaz de qualquer
-Magisterio;
-tanto, que tendo de idade dezoito annos, fuy recebido
-por Mestre de Capella, e Racioneiro da Igreja Cathedral
-de Jaem, occupa&ccedil;a&otilde;, que servi trez annos. Neste
-tempo
-vim a Sevilha a visitar a meus pays, que enta&otilde; se
-achava&otilde;
-nesta Cidade, e o Cabido da Santa Igreja me deu huma
-pra&ccedil;a de Cantor com bastante salario; e por obedecer a
-meus pays, que desejava&otilde;, e necessitava&otilde; da minha
-companhia,
-deixey o Magisterio, e Ra&ccedil;a&otilde; de Jaem, estimando a
-honra, que me fazia o Cabido da Santa Igreja, ainda que
-era mayor, e de mais conveniencia a pra&ccedil;a, que deixava.<br />
-
-<br />
-
-Poucos mezes tinha eu de residencia nesta Santa Igreja,
-quando entre seis oppositores, que havia ao Magisterio
-de Malaga, tive a primeira nomea&ccedil;a&otilde;, por me
-quererem
-favorecer o Illustrissimo Senhor Dom Bernardo Manrique,
-Bispo desta Santa Igreja, e o Illustrissimo Cabido, e na&otilde;
-por merecimentos meus; e mandada a nomea&ccedil;a&otilde; a
-ElRey,
-por sua ordem tomey posse por hum Procurador. J&aacute; estava
-preparado para ir para a residencia da Ra&ccedil;a&otilde;, e
-Magisterio
-desta Santa Igreja; e o Cabido da de Sevilha me impedio
-honrosamente, na&otilde; permittindo, que eu me retirasse a Malaga;
-e para que com melhor titulo podesse deixar o que
-j&aacute; possuhia, ordenou, que o Senhor Racioneiro, e Mestre
-da Santa Igreja Pedro Fernandes, Mestre dos Mestres
-de Hespanha, nosso Portuguez, jubilasse, e se lhe d&eacute;sse
-meya Ra&ccedil;a&otilde;, e que eu tivesse a outra metade, e
-mais o salario
-de Cantor, com obriga&ccedil;a&otilde; de dar de comer, e o
-mais
-necessario aos Seyses Typles; e que se eu lhe supervivesse,
-<span class="pagenum">[3]</span>
-entrasse em toda a Ra&ccedil;a&otilde;. Vinte e cinco annos
-vivi com
-este grande sogeito na mesma casa, e depois que Deos o
-levou, fuy provido em toda a Ra&ccedil;a&otilde; por Bullas
-Apostolicas.<br />
-
-<br />
-
-Os deste exercicio todos sabem, que temos muito
-particular obriga&ccedil;a&otilde; de compor as
-Chan&ccedil;onetas, e Vilhancicos
-em louvor do Nascimento de Jesu Christo nosso Senhor,
-nosso Salvador, e nosso Deos, e de sua Santissima M&atilde;y
-a Virgem Maria Senhora nossa; e quando compunha as letras
-para as Matinas de ta&otilde; luzida noite, e se nomeava
-<em>Bethleem</em>,
-se me accrescentava a devo&ccedil;a&otilde;, e desejo de ver, e
-celebrar
-naquelle Lugar Santissimo estes cantares em companhia, e
-memoria dos Anjos, e Pastores, que l&aacute;
-come&ccedil;ara&otilde; a nos dar
-li&ccedil;a&otilde; desta Divina Festa: e ainda que esta
-perten&ccedil;a&otilde; era ta&otilde;
-grande, que me parecia impossivel o conseguilla, por muitos
-inconvenientes, que havia enta&otilde;, especialmente o de
-meus pays, propuz, ainda que na&otilde; fiz voto, de que se Deos
-me d&eacute;sse vida mais larga, que a delles, de fazer esta Santa
-viagem: pelo que tanto que Deos os levou desta vida, me
-pareceo, que tinha feito a mayor parte deste caminho.<br />
-
-<br />
-
-Estando sempre com este cuidado, de quando chegaria
-este tempo de me ver em ta&otilde; Santo caminho, succedeo,
-que no anno de 1588. nosso Santissimo Padre Papa Sixto
-V. mandou chamar ao Illustrissimo, e Reverendissimo Senhor
-Cardeal Dom Rodrigo de Castro, Arcebispo de Sevilha,
-e estando preparado para ir a Roma, lhe pedi me levasse
-no seu servi&ccedil;o, e pedisse ao Cabido o tivesse assim a bem,
-e assim o consegui por sua Senhoria Illustrissima.<br />
-
-<br />
-
-Tanto que cheg&agrave;mos a Madrid, deteve Sua Magestade
-ao Arcebispo, e como o Vera&otilde; entrasse muito caloroso,
-na&otilde; determinou passar a diante, at&egrave; que o tempo
-refrescasse;
-e eu como desejoso de me ver j&aacute; em Italia, vendo esta
-nova dila&ccedil;a&otilde;, pedi a Sua Senhoria Illustrissima
-me d&eacute;sse
-<span class="pagenum">[4]</span>
-licen&ccedil;a para hir a Veneza a estampar huns livros, entre
-tanto
-que fizesse tempo de proseguir a sua jornada, porque ao
-presente estava&otilde; em Carthagena as Gal&egrave;s do
-Gra&otilde; Duque de
-Floren&ccedil;a. O Cardeal na&otilde; s&oacute;mente me deu
-licen&ccedil;a, mas tambem
-me fez merce de me dar a ajuda necessaria para a jornada,
-e assim me parti a Carthagena, aonde achey outras Gal&egrave;s,
-que estava&otilde; para navegar, que embarquey para Genova,
-e dahi passey a Veneza, a que cheguey em oito de
-Agosto.<br />
-
-<br />
-
-A primeira diligencia que fiz, foy ajustar a imprenssa
-dos livros de musica; e dizendo-me o Impressor, que para
-se estamparem era necessario tempo de cinco mezes, disse
-a hum amigo meu: <em>Nesse tempo podia eu fazer a minha
-viagem
-a Jerusalem</em>; a que respondeo, dizendo:
-<em>Em boa occasia&otilde;
-fallais, pois ahi est&aacute; huma nao nova, e boa, que vay
-para Tripoli de Syria</em>; do que tive grande alegria; e
-tomando
-a correc&ccedil;a&otilde; dos livros &agrave; sua conta o
-Mestre Joseph Zertino,
-Mestre da Capella de Sa&otilde; Marcos, e da Senhoria de
-Veneza, Vara&otilde; doutissimo em musica, e outras artes liberaes,
-me concertey com o Escriva&otilde; da nao, ajustando de lhe
-dar cinco escudos pela embarca&ccedil;a&otilde;, e por comer
-com o
-Capita&otilde; sete cada mez, o que he ordinario.<br />
-
-<br />
-
-Foy meu companheiro em toda esta Santa viagem
-Francisco Sanches, meu discipulo, e assim alegremente nos
-embarcamos a quatorze de Agosto de 1588. tendo eu de
-idade sessenta, sem temor do mar, nem de tantas na&ccedil;oens
-inimigas, como se encontra&otilde; nesta
-peregrina&ccedil;a&otilde;, porque o
-gosto, que tinha desta jornada, me facilitava, e suavizava
-tudo.
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[5]</span>
-<em>Do caminho, que fizemos de Veneza a Jaffa, porto da
-Terra Santa.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-No dia seguinte, que se contava&otilde; quinze do dito mez,
-em que se celebrava a Assump&ccedil;a&otilde; da Virgem Senhora
-nossa, come&ccedil;amos a navegar lentamente, por termos pouco
-vento, e melhorando o tempo, cheg&agrave;mos &agrave; Cidade de
-<em>Paren&ccedil;o</em>, na Provincia de
-<em>Istria</em>; e daqui sahimos navegando
-prosperamente pela costa de
-<em>Dalmacia</em>, terra, e Patria
-do Maximo Doutor Sa&otilde; Jeronymo; e pela Esclavonia, e
-Albania, em quinze dias cheg&aacute;mos &agrave; Ilha de
-<em>Zante</em>, terra
-na <em>Grecia</em> de Venezianos, a que ha
-trezentas leguas de Veneza;
-deixando &agrave; ma&otilde; esquerda a Ilha de
-<em>Chafallonia</em>, e
-Golfo de <em>Lepanto</em>, adonde foy aquella
-grande batalha, que
-teve a Armada da liga Christ&atilde;a com a dos Turcos, e teve
-a vitoria a dos Christ&atilde;os, sendo General della o Senhor
-Dom Joa&otilde; de Austria, irma&otilde; delRey Filippe II.
-nosso Senhor.
-Retivemos em <em>Zante</em> quatro dias;
-Ilha, bem provida
-do necessario para a vida humana, especialmente de vinho,
-que o ha em abundancia, e muito excellente; e vindo
-muitas naos de Levante a Poente a carregar, para todas,
-e para os naturaes ha abundantemente.<br />
-
-<br />
-
-Toda esta terra he de Gregos, e s&oacute;mente os Governadores
-sa&otilde; Venezianos, como Senhores della. Tem dous
-Bispos; hum Grego, outro Latino. Tem duas Povoa&ccedil;oens;
-huma junto ao mar, outra em hum alto monte, em que est&aacute;
-huma boa Fortaleza. A mayor parte das Igrejas sa&otilde; de Gregos.
-Tem hum Convento de Religiosos de Sa&otilde; Francisco,
-adonde os Latinos dizemos Missa. Ouvimos aqui huma
-Missa aos Gregos; e a officiara&otilde; de Cantocha&otilde;
-Ecclesiasticos,
-e seculares. He o seu canto simples, e ignorante. Dizem
-a Missa com devo&ccedil;a&otilde;, e muitas ceremonias, e huma
-dellas he, que a materia de pa&otilde; fermentado, e vinho que
-<span class="pagenum">[6]</span>
-se ha de consagrar, a traz o Sacerdote sobre a cabe&ccedil;a no
-Caliz
-muito cuberta, sahindo por huma porta do Altar, que
-o divide do corpo da Igreja, e dando huma volta por ella,
-se torna a recolher ao mesmo Altar, incensando hum Ministro
-ante elle, e o Povo est&aacute; adorando, em joelhos, a
-materia, que ainda na&otilde; est&aacute; consagrada.
-Est&aacute; esta Ilha perto,
-e fronteira &agrave; Morea, que he
-<em>Corintho</em>, adonde Sa&otilde; Paulo
-escreveo duas de suas Epistolas.<br />
-
-<br />
-
-Partidos de <em>Zante</em>, nos engolfamos
-at&egrave; chegar &agrave; Ilha
-de <em>Candia</em>, que por outro nome se
-chama <em>Creta</em>, a que haver&aacute;
-duzentas leguas. Fomos costeando-a, quasi cem legoas,
-e sem desembarcar, entramos por outro Golfo, que
-ser&aacute; de outras duzentas legoas, pouco mais, ou menos, e
-chegamos &agrave; Ilha de Chypre, terra fertil, e fermosissima
-de tudo o que se p&ograve;de desejar. Esta Ilha, e Reyno possuem
-os Turcos de vinte annos a esta parte, ganhando-a por
-for&ccedil;a de armas aos Venezianos, que era&otilde; Senhores
-della,
-ficando os naturaes com suas casas, e fazendas, por&egrave;m
-sogeitos
-ao Turco. Os moradores sa&otilde; Gregos, e Latinos.
-Desde que sahimos de Veneza at&egrave; que cheg&aacute;mos a
-huma
-Cidade desta Ilha, que chama&otilde;
-<em>Limisol</em>, passara&otilde; vinte e
-sete dias.<br />
-
-<br />
-
-Desembarcados nesta Cidade, come&ccedil;amos a tratar
-com os Turcos, e ainda que com algum medo no principio,
-brevemente o perdemos; porque como os Venezianos
-tem paz com elles, e n&ograve;s os Peregrinos vamos a titulo
-de Venezianos, fallando na sua propria lingua, na&otilde; ha
-que temer. Do tempo da guerra ficou muito mal tratada
-esta Cidade. A Fortaleza est&aacute; arruinada da grande bataria,
-que lhe dera&otilde; os Turcos, e as Igrejas, e Cruzes, que
-estava&otilde;
-nas entradas, e a mayor parte das casas, esta&otilde; cahidas.
-Tem esta Ilha muitas cousas necessarias, e regaladas
-para a vida, muito pa&otilde;, e vinho, assucar, e grande
-quantidade
-<span class="pagenum">[7]</span>
-de algoda&otilde;, de que carrega&otilde; muitas naos para
-Levante,
-e Poente. Aqui reside hum Consul da na&ccedil;a&otilde;
-Franceza,
-e Italiana, que he o que est&aacute;, e se poem por meyo
-entre Christ&atilde;os, e Turcos, e com elle trat&agrave;mos os
-nossos
-negocios. Fomos a sua casa, e nella nos regalou; e delle
-soubemos da guerra, que o Turco tinha na Persia, e das
-companhias de gente, que passava&otilde; pela
-<em>Caramania</em>, que
-est&aacute; muito perto, na terra firme de Asia; e da boa
-occasia&otilde;,
-que havia na presente conjuntura, para tornar a cobrar
-este Reyno, pela pouca guarni&ccedil;a&otilde;, que nelle tem:
-por&egrave;m
-melhor he na&otilde; cuidar nisto, porque os Christ&atilde;os
-na&otilde; tratamos de recuperar o que perdemos; e temos
-experiencia,
-que o que estes Barbaros conquista&otilde;, j&aacute; mais o
-perdem.<br />
-
-<br />
-
-Estando nesta Cidade, nos disse o Capita&otilde;, que se
-havia de dilatar com sua nao mais de vinte dias, e dalli
-navegaria para <em>Tripoli de Syria</em>; e
-assim lhe parecia, que
-partissemos para <em>Jaffa</em>, porto da
-Terra Santa, distante de
-<em>Jerusalem</em> doze legoas, e que
-adiantassemos estes dias: pelo
-que nos ajustou a quatro Peregrinos que eramos, com
-hum barqueiro, que tinha trez companheiros, e dizia&otilde;, que
-era&otilde; Christ&atilde;os. Levava&otilde; estes a sua
-barca carregada de alfarrobas
-&agrave; Cidade de <em>Damiata no
-Egygto</em>; e concertados em
-<em>vinte e cinco zequies</em>, que cada
-zequi vale huma pataca;
-e em quatro dias chegamos ao dito porto, a que ha de
-<em>Limisol</em>
-cento e vinte legoas.<br />
-
-<br />
-
-Foy alegrissima a vista a todos, descobrindo Terra,
-que com tanta raza&otilde; se chama Santa. Do caminho vimos
-a Cidade de <em>Cesarea da Palestina</em>, e
-outras Povoa&ccedil;oens,
-ainda que na&otilde; sahimos em terra, por nos aproveitarmos do
-bom tempo, e chegarmos com brevidade ao porto desejado.
-De <em>Veneza</em> at&egrave;
-<em>Jaffa</em> gastamos trinta e dous dias.
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[8]</span>
-<em>Da Cidade de Jaffa, e do caminho que fizemos
-at&egrave; Jerusalem.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Esta Cidade, que por outro nome se chama
-<em>Joppe</em>, foy
-muito principal, como se colhe das ruinas dos seus
-edificios. He muito celebrada na Santa Escritura pelas cousas,
-que nella acontecera&otilde;. Aqui se embarcou
-<em>Jonas Prof&eacute;ta</em>,
-quando fugindo elle de Deos, lhe ordenou este Senhor,
-que fosse pr&eacute;gar a
-<em>Ninive</em>; e pela tempestade, que
-por sua culpa permittio Deos, foy lan&ccedil;ado no mar, e tragado
-da Balea. Aqui esteve algum tempo o <em>Apostolo
-Sa&otilde; Pedro</em>,
-e nella vio aquella visa&otilde; do Ceo aberto, e baixar hum
-vaso ao modo de hum lan&ccedil;ol, cujas pontas chegava&otilde;
-ao
-Ceo, cheyo de serpentes, e aves, e outros animaes, e Deos
-lhe mandava, que matasse, e comesse; e o mais, que nos Actos
-dos Apostolos se refere.<br />
-
-<br />
-
-Aqui resuscitou o mesmo Santo Apostolo a huma mulher,
-chamada <em>Dorcas</em>; e por estas, e
-outras muitas particulares
-cousas, que ha, e succedera&otilde; nesta Cidade, he muito
-famosa, e muito celebrado o seu porto. Logo que o nosso
-barco chegou, e deu fundo, veyo da terra outro barco encaminhado
-ao nosso, em que vinha o <em>Subasi</em>, que
-he o Aguasil
-da Cidade de <em>Ram&agrave;</em>, com
-oito, ou dez arcabuzeiros, e
-frecheiros, e chegando ao nosso barco, entrara&otilde; nelle,
-olhando
-para n&ograve;s, e dizendo: <em>Christiani,
-Christiani</em>? E n&ograve;s baixando
-a cabe&ccedil;a, lhe demos a entender, que sim. O barqueiro,
-quando vio, que elles vinha&otilde;, escondeo dous barris de vinho,
-por saber o quanto deseja&otilde; este licor, deixando
-s&oacute;mente
-o que bastava para a merenda, que constou de pa&otilde;,
-e queijo, e alfarrobas.<br />
-
-<br />
-
-Acabada a merenda, nos fez sinal para que entrassemos
-no seu barco; e fomos para terra Christ&atilde;os, e Turcos
-muito alegres, rindo de hum Turco, que se emborrachou,
-ao qual dizia&otilde; os companheiros muitas galantarias.
-<br />
-
-<br />
-
-<span class="pagenum">[9]</span>
-Chegados a terra, nos pedio o <em>Subasi</em>
-de entrada hum
-<em>zequi</em> por cada hum; e recebido, nos
-encomendou a hum
-Turco, para que nos guardasse: e visto que naquella noite
-haviamos de dormir no cha&otilde;, em humas Tercenas antiquissimas,
-entr&aacute;mos em requerimento com o Turco nosso guarda,
-para que nos deixasse dormir em hum barco no mar; e elle
-ainda que o difficultou, concedeo a licen&ccedil;a tanto que lhe
-d&eacute;mos certas moedas.<br />
-
-<br />
-
-O <em>Subasi</em> naquella mesma noite partio
-para <em>Ram&agrave;</em>,
-distante quatro leguas; e lhe pedimos nos mandasse hum
-homem com bestas para nos levar a
-<em>Jerusalem</em>, o que
-elle prometteo, e cumprio. Aquella noite, e a que se seguio,
-estivemos em hum barco cheyo de Peregrinos, que vinha&otilde;
-de <em>Jerusalem</em>, em que se
-achava&otilde; quatro Cavalleiros Francezes,
-e alguns Religiosos, que nos regalara&otilde; no tempo,
-que alli estivemos.<br />
-
-<br />
-
-No terceiro dia chegou hum homem de
-<em>Ram&agrave;</em>, que se
-chamava <em>Atala</em>, e trouxe para cada
-hum de n&ograve;s hum jumento,
-e nos ajust&aacute;mos os quatro Peregrinos com elle em vinte
-e quatro <em>zequies</em>. Neste tempo
-chegara&otilde; mais dous Perigrinos,
-hum Religioso de Sa&otilde; Francisco, que vinha do
-<em>Cayro</em>,
-e hum Clerigo, ambos Francezes; e logo muitos Gregos
-com mulheres, e filhos; e todos juntos fizemos jornada
-para Jerusalem.<br />
-
-<br />
-
-Fallava o homem com quem caminhavamos muito bem
-a lingua Italiana, e dizia, <em>que era
-Christa&otilde;</em>; ainda que algumas
-vezes por gra&ccedil;a, (que a tinha, e entendimento)
-respondia, quando lhe perguntavamos porque comia de
-boa vontade com Mouros, e Turcos: <em>Olha, eu sou Mouro
-com os Mouros, e Christa&otilde; com os Christ&atilde;os, e com
-os ladroens
-sou ladra&otilde;</em>; e eu lhe dizia:
-<em>Sede v&ograve;s, amigo Atala, o
-que quizeres; mas agora comnosco sede
-Christa&otilde;</em>.<br />
-
-<br />
-
-Cheg&aacute;mos a
-<em>Ram&agrave;</em>, que por outro nome
-se chama
-<span class="pagenum">[10]</span>
-<em>Ramata</em>, adonde estivemos trez dias.
-Todo este caminho
-at&egrave; <em>Jaffa</em> he plano; ha
-muitas oliveiras, vinhas, e outras
-frutas, e entre estas huma mayor que meloens, que se
-chama em Italia <em>Anguria</em>: he muito
-fresca, e os Turcos
-usa&otilde; muito della para entreterem a sede. Foy esta Cidade
-muito fermosa em edificios, e ao presente est&aacute; arruinada;
-ainda que alguns existem, e algumas Igrejas, e Torres, especialmente
-a de <em>Sa&otilde; Jorge</em>, que
-est&aacute; f&oacute;ra da Cidade.<br />
-
-<br />
-
-Aqui pous&aacute;mos em huma casa, que ainda que em
-parte estava derrubada, tinha bastante commodo para todos
-os da comitiva. Dizem, que era de
-<em>Nicodemus</em>: agora
-he dos Religiosos de Jerusalem, e nella se recolhem os Peregrinos.
-Nesta Cidade ha muito de comer, e barato, especialmente
-gallinhas. Por grande alivio tivemos, que hum
-homem nos alugasse humas esteiras para domir, e d&eacute;mos
-algumas
-moedas a hum Turco, para que nos guardasse da parte
-de f&oacute;ra do aposento; e apressando todos a
-<em>Atala</em> nosso
-guia, para que fizessemos jornada, nos disse, que era preciso
-avisar a hum Capita&otilde; de Arabes, para que estivesse
-em certo passo, para nos segurar de outros Arabes ladroens,
-que nelle andava&otilde; roubando; o que assim foy, pois na
-manh&atilde;a
-em que madrug&aacute;mos para sahir desta Cidade, ao amanhecer,
-ach&aacute;mos naquelle passo o Capita&otilde; que dizia, com
-vinte Arabes de cavallo bem armados. Fizera&otilde;-nos deter a
-todos, e passada pouca mais de meya hora, que o nosso
-<em>Atala</em> fallou com elles,
-pass&aacute;mos de largo, e seguimos o
-nosso caminho, e depois que delles nos apart&aacute;mos, veyo
-correndo a mim hum delles a cavallo, e tocando por todo
-o meu fato, dizia: <em>Jarap, jarap</em>; no
-que me pedia, se levava
-vinho, que lhe d&eacute;sse de beber; e como lhe disse:
-<em>Que de boa vontade lhe satisfizera a sede, se o
-levara</em>, se
-foy muito triste, e eu fuy bem alegre, por me ver livre delle.<br />
-
-<br />
-
-Por todo este caminho at&egrave; Jerusalem a cada legoa nos
-<span class="pagenum">[11]</span>
-sahira&otilde; quinze, ou vinte Arabes com arcos, e frechas,
-ta&otilde;
-morenos do Sol, e ta&otilde; mal vestidos, que parecia&otilde;
-os diabos,
-dando milhares de gritos ao nosso <em>Trucima&otilde;
-Atala</em>,
-para que lhes d&eacute;sse o
-<em>Gafar</em>, que he certa portagem,
-que lhes pag&atilde;o, os que passa&otilde; por aquellas partes
-por via
-de paz; porque todos estes Arabes na&otilde; esta&otilde;
-sogeitos ao
-Gra&otilde; Turco, nem a outro nenhum Senhor; e outra renda,
-ou officio na&otilde; tem, mais que o que rouba&otilde;.
-Parecem quando
-nos sahem ao encontro, e nos poem as frechas nos peitos,
-que nos querem assettear, e com lhe dar dous, ou trez
-tostoens por todos, esta&otilde; contentes; e com todos os mais,
-que nos sahem de legoa em legoa, praticamos o mesmo; e
-ainda que sa&otilde; ambiciosos de modo, que nos apalpa&otilde;
-as algibeiras,
-e tira&otilde; o que nellas acha&otilde;, sa&otilde;
-ta&otilde; comedidos,
-que podendo tomarnos os escudos, que levamos escondidos,
-vamos seguros pelo respeito, que todos tem ao nosso
-<em>Trucima&otilde; Atala</em>, em
-aquelles caminhos, e porque os castigaria&otilde;,
-se nos tratassem mal, e os prendessem. Vimos neste
-caminho muitas Igrejas, na&otilde; de todo arruinadas, que a
-pouco custo se podia&otilde; reparar. Vimos hum edificio antigo,
-que dizem ser a casa do Bom
-<em>Ladra&otilde;</em>. Vimos as ruinas da
-Cidade de <em>Modin</em>, terra, e Patria dos
-<em>Machabeos</em>. Todo este
-caminho he plano, e s&oacute;mente quatro legoas antes de Jerusalem
-he a terra montuosa, e pedregosa.<br />
-
-<br />
-
-Tanto que foy meyo dia, descan&ccedil;&aacute;mos &agrave;
-sombra de
-humas oliveiras, junto a huma fonte; e estando comendo
-do que levavamos da Cidade de
-<em>Ram&agrave;</em>, chegou hum Turco,
-montado em hum fermoso cavallo, e sem se apear, comeo
-do que lhe dey com a minha ma&otilde;. Adverti no bom talhe do
-seu corpo, e o como vinha preparado para a guerra. Trazia
-lan&ccedil;a, cimitarra, arcabuz, arco, e frechas, e
-ma&ccedil;a, de
-que pendia&otilde; oito facas, adaga, punhal, e martello.
-Pareceo-me,
-que podia contender com dez homens, e ainda
-<span class="pagenum">[12]</span>
-tirar-lhes a vida. Veja&otilde; se he necessario hirem bem
-prevenidos,
-e petrechados, os que forem peleijar com esta gente.
-Este lugar aonde descan&ccedil;&aacute;mos, est&aacute;
-junto ao Valle <em>Terebintho</em>,
-em que <em>David</em> matou ao
-<em>Filisteo Goliath</em>. Pass&aacute;mos
-hum rio de pouca agua, e conjecturo ser este, o em
-que <em>David</em> colheo as cinco pedras,
-que levou no &ccedil;urra&otilde;,
-quando foy para a batalha, e com que venceo ao Gigante.
-Aqui ha huma ponte quasi destruida, que mostra ainda
-hoje, que foy soberbo edificio.<br />
-
-<br />
-
-Passado este Valle, e rio, subimos huma grande legoa
-de costa, e no alto d&egrave;mos em caminho plano, ainda
-que pedregoso: chegando n&ograve;s &agrave;
-<em>Cidade Santa de Jerusalem</em>,
-que est&aacute; rodeada de montes, e s&oacute;mente se
-v&ecirc; della alg[~u]a
-cousa do monte <em>Olivete</em>, daqui
-descobrimos hum peda&ccedil;o
-de muro, e as Torres do Castello; e foy tal a nossa alegria,
-e ta&otilde; extraordinario o contentamento, que todos os
-Peregrinos
-Latinos, e Gregos nos ape&aacute;mos, beijando muitas vezes
-a terra, dando muitas gra&ccedil;as, e louvores a Deos, e
-enviando-lhe
-milhares de lagrimas, e suspiros devotissimos,
-dizendo cada hum sua devo&ccedil;a&otilde; &agrave; Santa
-Cidade, e repetindo
-muitas vezes: <em>Urbs beata Hierusalem</em>.<br />
-
-<br />
-
-Neste tempo nos sahio a receber hum Christa&otilde;, chamado
-<em>Bautista</em>, que serve aos Religiosos
-de lingua para
-com os Mouros, e Turcos, e falla bem Italiano, mandado
-pelo <em>Padre Guardia&otilde;</em>, que
-j&aacute; tinha noticia da nossa hida;
-e como cheg&aacute;mos &agrave; porta da Cidade, nos fez
-sentar, e que
-esperassemos o aviso do <em>Padre
-Guardia&otilde;</em>, que he, a quem o
-<em>Pontifice</em> tem nomeado por
-Cabe&ccedil;a dos Latinos; e seria
-passada quasi meya hora, quando chegara&otilde; dous Religiosos
-Italianos, e nos saudara&otilde; da parte do Padre
-Guardia&otilde;,
-e que fossemos bem chegados, e que esperassemos hum
-pouco, em quanto elles procurava&otilde; dos Turcos a
-licen&ccedil;a
-da entrada; que logo viera&otilde;, e examinara&otilde; a
-roupa, que
-<span class="pagenum">[13]</span>
-levavamos, que era bem pouca; e he o que mais conv&egrave;m
-para seguran&ccedil;a do Peregrino. Logo que tudo vira&otilde;,
-nos dera&otilde;
-a entrada livre, pagando cada hum dous <em>zequies de
-ouro</em>.
-Os Gregos como mais de casa, e Vassallos do Turco,
-entrara&otilde; logo, e fora&otilde; ao seu Patriarcha; e neste
-tempo
-viera&otilde; os Religiosos, e nos levara&otilde; aos seis
-Latinos, que
-eramos. Em 22. de Setembro de 1588. dia do glorioso
-<em>Sa&otilde;
-Mauricio</em> entr&aacute;mos na
-<em>Cidade Santa</em>, passados trinta e sete
-dias, que tinhamos sahido de <em>Veneza</em>.<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><em>Da Santa Cidade
-de Jerusalem, do Sagrado monte Sion,
-e de suas Esta&ccedil;oens.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Levara&otilde;-nos os dous Religiosos ao Convento de
-<em>S. Salvador</em>,
-que he o principal da <em>Terra Santa</em>,
-adonde nos
-recebera&otilde; os Religiosos processionalmente, cantando
-<em>Te
-Deum laudamus, &amp;c.</em> Entr&aacute;mos na
-Igreja, que est&aacute; no alto
-da casa, e depois de fazer ora&ccedil;a&otilde;, se poz hum
-Religioso
-junto ao Altar, e fez em lingua Italiana huma muito devota
-pratica, em que nos representou a grande merce, que
-Deos nosso Senhor nos fizera, de nos permittir o ver aquelles
-Santuarios, e Lugares Santissimos, e nos exhortou, a
-que nos dispuzessemos a ganhar as Indulgencias, confessando,
-e commungando.<br />
-
-<br />
-
-Acabada a Pratica, nos levara&otilde; a huma casa, com a
-mesma Procissa&otilde;, adonde nos lavara&otilde; os
-p&egrave;s com muita devo&ccedil;a&otilde;,
-cantando Hymnos, e ora&ccedil;oens; e acabado o lavatorio,
-nos dera&otilde; bem de cear; e logo nos guiara&otilde; para
-huns
-aposentos, e a cada hum nos sinalara&otilde; cama, em que dormimos,
-e descan&ccedil;amos alegrissimamente, por nos Deos Senhor
-nosso fazer ta&otilde; singularissima merce, que na&otilde;
-concede
-a todos, pois muitos Principes, e Reys o deseja&otilde;, e
-na&otilde; alcan&ccedil;a&otilde;.
-<br />
-
-<br />
-
-<span class="pagenum">[14]</span>
-No seguinte dia nos prepar&aacute;mos para a confissa&otilde;,
-e
-o Padre Guardia&otilde; deu faculdade aos Confessores, para nos
-absolverem plenariamente, porque tem as vezes do Pontifice;
-e mostrando-lhe as nossas Dimissorias, nos deu licen&ccedil;a
-para dizer Missa. Ha trez Altares nesta Santa Igreja, e
-todos privilegiados, isto he, que se tira Alma do Purgatorio.<br />
-
-<br />
-
-Acabado o Officio, nos encomendou a hum virtuosissimo
-Religioso Italiano, chamado
-<em>Salandria</em>, que havia
-vinte annos, que estava na <em>Terra
-Santa</em>, para andar as Esta&ccedil;oens
-comnosco; e elle, e hum Companheiro, e
-<em>Bautista</em>,
-que j&aacute; nomeey, que he o nosso Interprete com os Mouros,
-e Turcos, e nos defende dos rapazes, que nos tira&otilde; pedradas
-pelas ruas, e nos avisa do que havemos de fazer, de que
-na&otilde; tussamos, nem cuspamos, porque entendem os Mouros,
-e Turcos, que zombamos delles, come&ccedil;&aacute;mos com
-alegria,
-e devo&ccedil;a&otilde; a andallas; e muitos Religiosos se
-associara&otilde;
-tambem para o mesmo, que supposto tenha&otilde; visto muitas
-vezes aquelles Lugares Santos, na&otilde; perdem a
-occasia&otilde;
-de os visitar, e ganhar as muitas Indulgencias, que lhes sa&otilde;
-concedidas.<br />
-
-<br />
-
-Deste modo, e com este Santo acompanhamento sahimos
-os seis Peregrinos; e a primeira Esta&ccedil;a&otilde;, que
-fizemos,
-foy &agrave; Igreja do <em>Apostolo
-Santiago</em>, em que o Santo foy degollado.
-He esta Igreja de Armenios, muito grande, e bem
-fabricada. A Capella da degolla&ccedil;a&otilde;
-est&aacute; &agrave; ma&otilde; esquerda da
-entrada da Igreja, adonde est&aacute; hum marmore debaixo do
-Altar, que toc&aacute;mos, e reverenci&aacute;mos. Tem os
-Armenios
-huma boa casa continuada com esta Igreja em f&oacute;rma de
-Convento.<br />
-
-<br />
-
-Daqui fomos &agrave; casa de
-<em>An&agrave;s</em>, adonde
-<em>Christo Senhor
-nosso</em> foy levado tanto que o prendera&otilde;. He
-Igreja de Armenios.
-Aqui dera&otilde; a <em>Christo Senhor
-nosso</em> a bofetada. Mostra-se
-<span class="pagenum">[15]</span>
-aqui huma <em>Oliveira</em>, a que dizem
-estivera <em>Christo Senhor
-nosso</em> atado, em tanto, que An&agrave;s sahia para
-o ver. Tem Indulgencia
-plenaria.<br />
-
-<br />
-
-Deve saberse, que em todos os Santuarios, que se anda&otilde;
-em toda a <em>Terra Santa</em>, se diz hum
-<em>Hymno</em>,
-<em>Antiphona</em>,
-<em>Verso</em>, e
-<em>Ora&ccedil;a&otilde;</em>, para o
-que ha livro particular, e rezado
-hum Padre nosso, e huma Ave Maria, se nos explica o
-mysterio do tal Lugar.<br />
-
-<br />
-
-Fomos daqui &agrave; casa de
-<em>Caif&aacute;s</em>, em que
-est&aacute; huma
-Igreja no Lugar em que <em>Christo Senhor
-nosso</em> foy accusado,
-e tudo o mais que consta do <em>Santo
-Euangelho</em>. Visit&aacute;mos o
-Altar mayor, e lhe serve de cuberta a
-<em>Pedra</em>, que estava
-&agrave; porta do <em>Santo
-Sepulchro</em>, a qual com raza&otilde;
-difficultava&otilde;
-as <em>Santas Marias</em>, dizendo:
-<em>Quem nos tirar&agrave; a pedra?</em>
-porque he de dez palmos, pouco mais, ou menos, de comprimento,
-e quatro de largura, e muito grossa. Na Capella
-mayor ha na parede hum retrete pequeno, em que s&oacute;mente
-poder&aacute;&otilde; caber dous homens, e para se poder entrar
-he de joelhos, por ter huma pequena entrada: he este o
-Lugar adonde <em>Christo Senhor nosso</em>
-esteve como encarcerado,
-em tanto que o Pontifice sahia para o ver.<br />
-
-<br />
-
-Sahimos da Igreja a hum patio, que est&aacute; junto a ella,
-em que se v&ecirc; huma
-<em>Larangeira</em>, e he o lugar em que
-estava&otilde;
-ao fogo os Ministros de
-<em>Caif&aacute;s</em>, e adonde
-<em>Sa&otilde; Pedro</em> negou
-a <em>Christo</em>. Do alto desta casa, (que
-est&aacute; <em>poucos passos
-f&oacute;ra do muro da Cidade</em>) fizemos
-ora&ccedil;a&otilde;, e ganh&aacute;mos as Indulgencias
-do <em>Santo Cenaculo</em>, que
-est&aacute; perto della, no alto
-do <em>Monte Sion</em>, que por esta parte
-na&otilde; he mais alto, que
-a Cidade. Na&otilde; entr&aacute;mos nelle, porque os Turcos,
-com lastima
-nossa, o fizera&otilde; Mesquita. Aqui foy o Lugar, em que
-<em>Christo Senhor nosso</em> ceou com seus
-Discipulos, e instituhio
-o <em>Santissimo Sacramento</em>, donde lhes
-lavou os p&eacute;s, donde
-baixou o <em>Espirito Santo</em> no dia
-<em>Pentecostes</em>; e donde habitava
-<span class="pagenum">[16]</span>
-a <em>Virgem Senhora nossa</em>. Neste
-<em>Cenaculo</em> assistia&otilde; os
-Religiosos de Sa&otilde; Francisco, e haver&aacute; trinta
-annos, que o
-Turco o tirou aos Religiosos. A causa dizem, que foy, que
-huns Judeos dissera&otilde; ao Turco, [~q] alli era a sepultura de
-David,
-e que na&otilde; era justo, que os Christ&atilde;os pizassem a
-sepultura
-de ta&otilde; grande Prof&eacute;ta, e Rey: e como os Turcos
-tem muita venera&ccedil;a&otilde; aos Prof&eacute;tas do
-Testamento Velho,
-mandou, que os Religiosos tomassem casa dentro em
-<em>Jerusalem</em>;
-pelo que viera&otilde; para a Cidade, e comprara&otilde; huma
-boa casa, que he a de <em>Sa&otilde;
-Salvador</em>, em que agora vivem:
-ainda que por estar no Castello, que se chama dos
-<em>Pisanos</em>,
-Fortaleza da <em>Santa Cidade</em>, Lugar
-eminente, os Turcos lhe
-derrubara&otilde; os aposentos altos, porque na&otilde;
-estivesse igual
-com o Castello; e assim sa&otilde; terreos os aposentos. Este
-<em>Santo
-Cenaculo</em> foy a Casa Real; e tudo o que em circuito
-est&aacute;
-despovoado, era o mais principal da Corte de
-<em>David</em>, e
-dos mais Reys. Agora s&oacute;mente est&aacute; a Casa, e
-Igreja do <em>Santo
-Cenaculo</em>; o mais est&agrave; despovoado.<br />
-
-<br />
-
-Sahidos da Casa de
-<em>Caif&aacute;z</em>, e da Cidade,
-baixando
-hum pouco pelo <em>Monte Sion</em> para a
-parte do Oriente, est&aacute;
-o Lugar, adonde, levando os Apostolos a sepultar o
-<em>Corpo
-da Virgem nossa Senhora</em>, lho quizera&otilde; huns
-Judeos tirar,
-e secou o bra&ccedil;o do seu Sacerdote, que atrevido tocou no
-esquife; e depois lhe foy restituido, e se converteo &agrave;
-F&eacute;.
-Na&otilde; ha outro sinal desta memoria, mais que hum
-monta&otilde;
-de pedras. Aqui se ganha&otilde; muitas Indulgencias.<br />
-
-<br />
-
-Baixando mais alguma cousa por este <em>Monte
-Sion</em>,
-junto do muro da <em>Santa Cidade</em>,
-est&aacute; o Lugar, adonde Sa&otilde;
-Pedro <em>Flevit amar&egrave;</em>: e hum
-pouco mais abaixo, junto ao
-muro antigo, est&aacute; huma igreja, e Casa, como Convento,
-fermosissima no exterior; e no mais alto da Torre tem huma
-grande mea Lua de ferro. Nesta Igreja foy a <em>Santissima
-Virgem
-Maria Senhora nossa</em> presentada, sendo menina, com
-<span class="pagenum">[17]</span>
-as demais Virgens. He agora principal Mesquita dos Mouros,
-e Turcos; e est&aacute; no ambito do <em>Templo de
-Salama&otilde;</em>, que
-he dos muros a dentro.<br />
-
-<br />
-
-Baixando o que resta do Monte Sion, cheg&aacute;mos ao Valle
-de <em>Josaphat</em>, de que logo direy por
-levar direita a ordem,
-que tivemos em andar as Esta&ccedil;oens pela outra parte da
-<em>Santa
-Cidade</em>, e tornemos ao Convento de
-<em>Sa&otilde; Salvador</em>, para
-dahi as proseguirmos.<br />
-
-<br />
-
-No outro dia come&ccedil;ando as Esta&ccedil;oens, fomos pela
-<em>Rua da Amargura</em>, por onde
-<em>Christo Senhor nosso</em> sahio a
-morrer, levando a Cruz &agrave;s costas da casa de
-<em>Pilatos</em> at&egrave; o
-<em>Calvario</em>. Deix&aacute;mos
-&agrave; ma&otilde; direita a Igreja do dito
-<em>Calvario</em>,
-e <em>Santo Sepulchro</em>, em que
-na&otilde; entr&aacute;mos, por a reservarmos
-para a ultima Esta&ccedil;a&otilde;; e vimos a casa da piedosa
-mulher, que com huma limpa toalha, chegando a ao
-<em>Divinissimo
-rosto de Christo Senhor nosso</em>, o tirou estampado com o
-seu preciosissimo Sangue, e com a sua verdadeira effigie.
-Duas dobras tinha esta toalha; huma se venera em Roma,
-outra na Santa Igreja Cathedral de Jaem. Nesta rua vimos
-a casa do rico Avarento, que na&otilde; quiz dar esmola de suas
-migalhas ao <em>pobre</em>, e
-<em>Santo Lazaro</em>; e o Lugar, adonde o
-Cyrineo
-tomou a Cruz a <em>Christo Senhor nosso</em>,
-para lha ajudar
-a levar, e adonde as filhas de Jerusalem o chorava&otilde;, quando
-o Senhor lhes disse: <em>Filiae Jerusalem,
-&amp;c.</em> Tambem vimos
-a casa de Pilatos, da qual sahe hum arco em que esta&otilde;
-duas janellas, que sa&otilde; as mesmas pedras daquelle tempo,
-e de huma dellas mostrou este Juiz a <em>Christo Senhor
-nosso</em> ao
-Povo, quando disse: <em>Ecce homo</em>. Por
-baixo deste arco passa
-a rua principal; e agora serve esta casa &agrave;
-Justi&ccedil;a. Ha muitos
-Santuarios nesta rua destruidos; e hum delles se edificou
-em memoria do sentimento, e dor, que a <em>Virgem Senhora
-nossa</em>
-teve, quando vio a <em>Christo seu Unigenito Filho Senhor
-nosso</em> com a Cruz &agrave;s costas; e em todos ha
-muitas, e grandes
-<span class="pagenum">[18]</span>
-Indulgencias. Junto desta casa, que referi, rua acima, est&aacute;
-a casa delRey Herodes, adonde
-<em>Pilatos</em> mandou a
-<em>Christo
-Senhor nosso</em>, que delle foy desprezado, e do seu
-exercito,
-e vestido de huma vestidura branca, o remetteo a
-<em>Pilatos</em>.
-Vimos tambem o carcere donde o Anjo tirou a
-<em>Sa&otilde; Pedro</em>.
-Aqui ha hum peda&ccedil;o de Igreja bem fabricado. No primeiro
-de Agosto celebra a Santa Igreja Catholica esta memoria.<br />
-
-<br />
-
-Proseguindo o nosso caminho por estas ruas, pelas
-quaes foy <em>nosso Redemptor</em> derramando
-o seu Sangue purissimo,
-e preciosissimo, fomos ao <em>Templo de
-Salama&otilde;</em>, e sem
-que nelle entrassemos (porque na&otilde; he permittido aos
-Christa&otilde;s,
-e se algum entra, lhe custa a vida temporal, ou a espiritual,
-renegando da F&eacute;) vimos a
-<em>Piscina</em>, que est&aacute; junto
-ao dito Templo, em que <em>Christo Senhor
-nosso</em> deu saude ao enfermo
-de trinta e oito annos de enfermidade. Agora na&otilde; tem
-agua, e est&aacute; chea de herva, e arvores de nenhum prestimo.
-Ainda se vem vestigios dos portaes, que enta&otilde; havia. Esta
-<em>Piscina</em> est&aacute; junto da
-porta da Cidade, e da casa de <em>Sa&otilde;
-Joachim</em>, e <em>Santa
-Anna</em>, pays da <em>Virgem Senhora
-nossa</em>, e aqui
-foy a sua purissima Concei&ccedil;a&otilde;.
-Entr&aacute;mos neste Santo Lugar,
-que est&aacute; quasi debaixo da terra; o que succede em
-commum a todos os edificios; porque com a antiguidade
-do tempo os vay occultando em si a terra, que cresce, cahindo
-huns edificios sobre outros: e sahindo pela porta da
-<em>Santa Cidade</em>, que se chama de
-<em>Santo Esteva&otilde;</em>, baixando
-como
-sessenta passos, visit&aacute;mos o Lugar em que este Santo foy
-apedrejado, em que esteve huma Igreja, e hoje hum monta&otilde;
-de pedras.<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><em>Do Valle de
-Josaphath.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Baixando mais cincoenta passos, cheg&aacute;mos ao Valle de
-Josaphath, que he bem apertado. Este Valle est&aacute; entre
-o <em>Monte Olivete</em>, e o
-<em>Monte Sion</em>, ou Jerusalem, que he o
-<span class="pagenum">[19]</span>
-mesmo; porque a <em>Santa Cidade</em>
-est&aacute; edificada no <em>Monte
-Sion</em>,
-pelo que parece, que o dito Valle he como fosso da
-<em>Santa
-Cidade</em>. Ao presente na&otilde; tem agua, mas
-quando chove, dizem
-que leva muita, porque a chuva, que baixa do <em>Monte
-Olivete</em>, e Monte Sion, se recolhe neste Valle.<br />
-
-<br />
-
-Ha nelle boas oliveiras, algumas figueiras, e hortali&ccedil;as.
-Passando a ponte, visit&aacute;mos huma fermosa Igreja de
-cantaria bem lavrada; e entrando nella, baix&aacute;mos por huma
-escada muito larga, que ter&aacute; quasi quarenta degraos; e
-&agrave;
-ma&otilde; direita desta escada esta&otilde; em huma Capella os
-Sepulchros
-de <em>Sa&otilde; Joachim</em>, e de
-<em>Santa Anna</em>, pays da
-<em>Virgem Senhora
-nossa</em>, e defronte desta est&aacute; outra
-Capella, em que
-se v&ecirc; o Sepulchro do Senhor <em>Sa&otilde;
-Joseph</em>, Esposo da <em>Virgem
-Senhora nossa</em>. No baixo desta Igreja vimos huma grande
-nave, e &agrave; dita escada est&aacute; fronteira outra
-Capella, o que
-faz hum Cruzeiro bem formado. Na Capella, que he a mayor,
-sem tocar em alguma das paredes, como Ilha, est&aacute;
-huma Capellinha pequena, em que s&oacute; podem caber dous
-homens; e nella est&aacute; o Sepulchro da sempre
-<em>Virgem Maria
-Senhora nossa</em>. He de pedra, com outra que a cobre,
-sobre
-que dizemos Missa. Os Religiosos de Sa&otilde; Francisco tem
-chave desta Capella, e as mais na&ccedil;oens de
-Christ&atilde;os, para
-entrarem quando querem celebrar; para o que fech&aacute;mos as
-portas por dentro, porque os Mouros, e Turcos na&otilde; entrem
-a perturbarnos; e assim quietamente dissemos Missa quatro
-Sacerdotes sobre o Sepulchro da Virgem Senhora nossa, que
-serve de Altar. Na&otilde; sey explicar a suavidade espiritual, que
-todos sentimos, dizendo Missa em tal Santuario; e nelle
-se ganha&otilde; muitas, e grandes Indulgencias. Tem esta Igreja
-pouca luz, porque s&oacute;mente lhe entra por huma fresta,
-que tem na Capella mayor, que est&aacute; ao Oriente; e alguma,
-que entra pela porta; e na&otilde; he bastante para andar
-por ella sem luzes de cera, que levavamos. Est&aacute; este
-edificio
-<span class="pagenum">[20]</span>
-pela mayor parte debaixo da terra. Aqui vem todos os Sacerdotes
-das na&ccedil;oens Christ&atilde;as a celebrar, especialmente
-no dia da <em>Assump&ccedil;a&otilde; da Virgem
-Senhora nossa</em>. Ha nesta
-Igreja huma cisterna, que tem agua muito boa.<br />
-
-<br />
-
-Sahindo desta bemdita Igreja, a poucos passos, entr&aacute;mos
-em huma cova, grande, e redonda, de altura de
-huma lan&ccedil;a, toda penhasco, e bem clara, porque lhe entra
-muita luz, por huma abertura, que tem no alto. Est&aacute; na
-Villa, e <em>Horto de Gethsemani</em>, em que
-<em>Christo Senhor nosso</em>
-orou ao seu <em>Eterno Pay</em> aquella
-ora&ccedil;a&otilde; trina, em que suou
-gotas de Sangue, e adonde o Anjo lhe appareceo, e o confortou.
-O considerar, que neste Lugar derramou <em>Christo
-Senhor nosso</em> suor sanguineo, move os
-cora&ccedil;oens a devo&ccedil;a&otilde;,
-e contri&ccedil;a&otilde;, por duros que seja&otilde;; e a
-quarenta passos deste
-<em>Oratorio de Christo Senhor nosso</em>
-pouco mais, ou menos, se
-nos mostrou o Lugar, adonde os trez discipulos
-<em>Sa&otilde; Pedro</em>,
-<em>Sa&otilde; Joa&otilde;</em>, e
-<em>Santiago</em> estivera&otilde;
-dormindo, e <em>Christo Senhor
-nosso</em> os despertou, e reprehendeo por na&otilde;
-velarem, e orarem.
-Adiante hum tiro de pedra est&aacute; o Lugar em que
-ficara&otilde;
-os oito Discipulos. Mais adiante quarenta passos est&aacute; o
-Lugar, em que <em>Judas</em> entregou a
-Christo Senhor nosso, e o
-prendera&otilde;. Com pedras se fez aqui a modo de huma rua,
-que sinala o lugar. Em todos estes Santuarios ha infinitas Indulgencias.<br />
-
-<br />
-
-Poucos passos distante est&aacute; a ponte do
-<em>Cedron</em>: e todo
-este caminho do <em>Horto de Gethsemani</em>
-at&egrave; aqui se anda
-pela raiz do <em>Monte Olivete</em>, e junto
-ao Valle de <em>Josaphath</em>,
-adonde est&aacute; esta ponte do
-<em>Cedron</em>. Passada esta ponte se sobe
-huma grande costa, junto ao muro da Cidade, e he o
-caminho por onde levara&otilde; a <em>Christo Senhor
-nosso</em> prezo a casa
-de <em>An&agrave;s</em>. Neste mesmo
-Valle ha muitas cousas notaveis
-por antiguidade, e para a devo&ccedil;a&otilde;. Aqui
-est&aacute; hum famoso
-edificio, cavado na penha, a modo de huma Capella redonda,
-<span class="pagenum">[21]</span>
-que toda he de huma pedra, excepto o capitel, e
-he o sepulchro de
-<em>Absala&otilde;</em>, filho de
-<em>David</em>. Ha nelle huma
-grande abertura, que os moradores desta terra fizera&otilde;,
-tirando-lhe
-pedras, tal vez por ser mao filho, pois perseguio
-a seu pay. Junto deste sitio ha outro edificio, quasi arruinado,
-em memoria, de que alli esteve o glorioso
-<em>Santiago</em> o
-<em>Menor</em> o tempo que
-prendera&otilde; a <em>Christo Senhor
-nosso</em> at&egrave; que
-resuscitou, e lhe appareceo, e lhe disse, <em>que
-comesse</em>; porque
-tinha proposto de na&otilde; comer, at&egrave; que o
-<em>Senhor</em> resuscitasse.
-Logo est&aacute; o <em>Campo Santo</em>,
-a que chamara&otilde; <em>Haceldama</em>.
-He
-hum edificio de quatro paredes fortes, e tem por cima hum
-terrado de quarenta passos de comprido, e trinta de largo.
-Nelle esta&otilde; quatro, ou cinco bocas por donde
-lan&ccedil;a&otilde; os
-defuntos, que aqui se enterra&otilde;, pendurando-os por huma
-corda, e bamboleando-os, at&egrave; que os deita&otilde;
-abaixo. Comprou-se
-este campo com os trinta dinheiros, que
-<em>Judas</em> recebeo
-dos <em>Fariseos</em> em
-satisfa&ccedil;a&otilde;, e venda de <em>Christo
-Senhor
-nosso</em>. Desde enta&otilde; at&egrave;gora he
-sepultura de Peregrinos. Na&otilde;
-muito distante se nos mostrou o Lugar donde o malaventurado
-<em>Judas</em> se enforcou; e junto a ella he
-a sepultura dos
-Judeos, que parece o tomara&otilde; por patra&otilde;, para o
-acompanharem
-na sepultura, e no Inferno. Em distancia de cem passos
-est&aacute; logo a cova, em que os Apostolos estivera&otilde;
-escondidos
-at&egrave; a Resurrei&ccedil;a&otilde;. Mais adiante
-est&aacute; a casa, que chama&otilde;
-do <em>Mao conselho</em>, adonde se
-determinou a morte de
-<em>Christo Senhor nosso</em>, dizendo
-Caif&aacute;s, <em>que convinha, que hum
-homem morresse pelo Povo, por que na&otilde; perecesse toda a
-gente</em>.<br />
-
-<br />
-
-Daqui fomos pela outra ribeira deste Valle de Josaphath,
-e junto do muro da Cidade est&aacute; huma
-<em>Fonte</em>, que
-chama&otilde; de <em>nossa Senhora</em>,
-que vem, conforme dizem, do
-Templo, que j&aacute; referi, em que a <em>Virgem
-Senhora nossa</em> se
-creou; de que se colhia agua para beber, e para o mais
-servi&ccedil;o
-da casa. He muito bonissima, e della bebemos com grande
-<span class="pagenum">[22]</span>
-devo&ccedil;a&otilde;, por usar della a <em>Virgem
-Senhora nossa</em>. Junto
-a esta <em>Fonte</em> ha outra, a que
-chama&otilde; Syloe, &agrave; qual mandou
-<em>Christo Senhor nosso</em> o cego, para
-que lavasse os olhos do
-lodo, que fizera de terra, e sua benta saliva, com que lhe
-restituhio a vista. He de muito boa agua, e da que superabunda,
-se rega&otilde; muitas hortas.<br />
-
-<br />
-
-Na parte do Meyo dia, &agrave; sahida da <em>Santa
-Cidade</em> ha
-outra <em>Fonte</em>, que dizem fez
-<em>Salama&otilde;</em>, e trouxe esta
-agua
-por conductos de Bethleem do
-<em>Fonsignato</em>. Cahe a Fonte sobre
-a casa de sua m&atilde;y
-<em>Bersab&egrave;</em>. Bebemos della
-quando fomos,
-e quando viemos de Bethleem, por curiosidade de a
-gostar, por ser antiga, e feita por <em>ElRey
-Salama&otilde;</em>. Na&otilde; vi
-outras fontes na <em>Santa Cidade</em> nem
-dentro, nem f&oacute;ra; porque
-toda a agua, que se bebe na Cidade, e nos campos, he
-de chuva recolhida em cisternas; e ainda que he boa, com
-tudo a muitos causa damno a sua frescura.<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><em>Do Sagrado
-Monte Olivete, e Bethania.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Neste <em>Sagrado monte Olivete</em> obrou
-<em>Christo Senhor nosso</em>
-muitas cousas pertencentes &agrave; nossa
-Redemp&ccedil;a&otilde;; porque
-al&egrave;m do que tenho dito, que se obrou na raiz deste
-<em>Sagrado
-Monte</em>, ha muito em todo elle, que considerar, e
-reverenciar.
-Direy por agora s&oacute;mente do Lugar da
-<em>Ascensa&otilde;
-admiravel</em>, e tornarey a baixar, por hir pelo caminho,
-por
-onde este Senhor foy muitas vezes a
-<em>Bethania</em>.<br />
-
-<br />
-
-Come&ccedil;&aacute;mos a subir junto &agrave; Igreja do
-<em>Sepulchro de nossa
-Senhora</em>, e a poucos passos par&aacute;mos, adonde
-dizem, que
-vindo esta mesma Senhora das Esta&ccedil;oens deste Sagrado Monte,
-que ordinariamente fazia, depois que <em>Christo seu
-Unigenito
-Filho, e Senhor nosso</em> subio aos Ceos, vio apedrejar a
-<em>Santo Esteva&otilde;</em>, e que
-neste Lugar orou, at&egrave; o Santo Prothomartyr
-entregar a Deos o seu espirito; e subindo pouco
-<span class="pagenum">[23]</span>
-mais, vimos o Lugar, em que dizem, que o <em>Apostolo S.
-Thom&egrave;</em>
-recebera o cinto da <em>Virgem Senhora
-nossa</em>. Mais acima est&aacute;
-o Lugar, adonde os <em>Apostolos</em>
-dissera&otilde; a <em>Christo Senhor
-nosso</em> que os ensinasse a orar, e lhes deu a
-ora&ccedil;a&otilde; do <em>Padre
-nosso, &amp;c.</em> Neste Lugar est&aacute; huma
-Igreja cahida. Subimos
-hum pouco mais, e vimos o Lugar adonde os
-<em>Apostolos</em> compuzera&otilde;
-o <em>Credo</em>; e mais acima, o em que
-<em>Christo Senhor nosso</em>,
-e os <em>Apostolos</em>, vendo a
-<em>Jerusalem</em>, e ouvindo este Senhor
-que elles louvava&otilde; a fabrica do Templo, e o bem lavrado
-das pedras, lhes disse, <em>como tudo havia de ser
-destruido</em>: e
-assim o foy pelos Emperadores <em>Tito</em>,
-e <em>Vespasiano</em>; e tambem
-lhes disse os sinaes, que havia&otilde; de preceder ao dia do
-Juizo.<br />
-
-<br />
-
-Ha outros Santuarios mais, que os Mouros possuem,
-e alguns esta&otilde; convertidos em Mesquitas. O Lugar da
-Ascensa&otilde;
-na&otilde; he Mesquita, por&egrave;m os Mouros, e Turcos tem
-a chave, e na&otilde; permittem a entrada aos Christ&atilde;os,
-sem que
-lhe paguem muito bem. No alto deste <em>Sagrado
-Monte</em>, est&aacute;
-huma Igreja grande, mas muito cahida; e no meyo est&aacute;
-huma Capella redonda de bobeda inteira, e no meyo della
-huma pedra de dous palmos, e pouco mais de altura, em
-que se v&ecirc; hum p&egrave; sinalado, que dizem ser de
-<em>nosso Redemptor</em>,
-quando daqui subio aos Ceos: o outro p&egrave;, dizem, o
-levara hum Principe Christa&otilde;, que na&otilde; sey dizer,
-quem
-fosse. Com grande devo&ccedil;a&otilde; beij&aacute;mos
-este p&eacute; muitas vezes.
-He este Lugar de Santa alegria para todos os Christ&atilde;os, que
-o vem; porque nos parece, que vemos a <em>Christo Senhor
-nosso</em> subir pelos ares, e &agrave;
-<em>Virgem nossa Senhora sua Santissima
-M&atilde;y</em>, e aos Apostolos, que esta&otilde;
-com os olhos, e cora&ccedil;oens
-suspensos, olhando o caminho, que <em>Christo Senhor
-nosso</em>
-fazia para si, e para os seus Fieis.<br />
-
-<br />
-
-Ador&aacute;mos,e despedimo-nos com muita saudade deste
-Santo Lugar, e fomos pelo alto, e plano deste
-<em>Sagrado</em>
-<span class="pagenum">[24]</span>
-<em>Monte</em> para a parte do
-Septentria&otilde;, pouco mais de duzentos
-passos, a huma torresinha, e casa; Lugar, aonde dizem,
-que baixara&otilde; os Anjos, e dissera&otilde; no dia, e hora
-da <em>Ascen&ccedil;a&otilde;</em>
-aos saudosos <em>Apostolos: Viri Galilaei,
-&amp;c.</em> pelo que se
-chama Galilea pequena. He muito alegre, e fermoso este
-<em>Sagrado monte</em>. Tem muitas arvores,
-especialmente oliveiras,
-(de que tomou o nome) figueiras &amp;c. e vinhas. Est&aacute;
-&agrave;
-parte Oriental da <em>Santa Cidade</em>. De
-tal modo esta&otilde; este <em>Sagrado
-Monte</em>, e o de
-<em>Sia&otilde;</em>, que tudo o que hum
-tem se v&ecirc;
-do outro; e vendo-se do <em>Olivete</em> a
-<em>Santa Cidade</em>, por ser hum
-pouco mais alto, he huma das mais alegres, e deliciosas
-vistas, que ha no Mundo, ainda que
-<em>Jerusalem</em> hoje he muito
-pequena; porque est&aacute; assentada no meyo do
-<em>Monte Sion</em>,
-da maneira que hum livro est&aacute; em huma estante; pelo que
-se podem contar todas as casas, e torres de cima a baixo,
-sem que falte alguma. Sa&otilde; as mais das casas de bobeda, como
-Capellas de Igrejas, e todas de terrados, e assim ha poucas,
-ou nenhuma, que tenha madeira, o que tudo faz, e representa
-huma magestosa vista. Tem a Cidade quatro mil
-visinhos, pouco mais, ou menos; ainda que em outro tempo
-foy das grandes do Mundo, como se v&ecirc; das ruinas,
-que ha por aquelles outeiros, de que est&aacute; rodeada. As ruas
-que atravessa&otilde; do Meyo dia ao Septentria&otilde;
-sa&otilde; planas, e
-as do Poente ao Oriente costa abaixo, ainda que na&otilde; muito
-empinadas, pois corre muito bem hum cavallo por ellas.<br />
-
-<br />
-
-Deste <em>Sagrado Monte Olivete</em> se
-v&ecirc; bem o <em>Templo</em>, no
-Lugar em que esteve o de
-<em>Salama&otilde;</em>, que agora he
-Mesquita
-de Mouros, e Turcos. Est&aacute; no meyo de hum grande quadro
-murado, e hum angulo delle he muro da <em>Cidade
-Santa</em>,
-em hum prado desembara&ccedil;ado, e limpo, com algumas arvores.
-He fabricado &agrave; maneira de hum Zimborio, de Moysaico,
-e riquissimas columnas, e taboas de marmore, e jaspe;
-e por f&oacute;ra eleva apparatosamente a vista. Nenhum
-<span class="pagenum"><a name="p25" id="p25">[25]</a></span>
-Christa&otilde; entra dentro sobpena de perder a vida, ou renegar;
-o que se pratica em todas as suas Mesquitas, como tenho
-dito; por&egrave;m nesta he com mais rigor; porque depois da
-Casa de Meca em que estes barbaros dizem estar o
-<a href="#e1">&Ccedil;ancarra&otilde;</a>
-de Mafoma, esta he a mais principal. Algumas vezes ouviamos
-a hum Mouro, que de huma Torre chamava o Povo para
-a sua ora&ccedil;a&otilde; com grandes gritos; o que
-pratica&otilde; em todas
-as Mesquitas; porque na&otilde; admittem sinos, nem os permittem
-aos Christ&atilde;os.<br />
-
-<br />
-
-Baix&aacute;mos deste Sagrado Monte pela parte, por onde
-subimos, e ainda que huma vez fomos a
-<em>Bethania</em> pela outra
-parte, quizemos nesta occasia&otilde; hir por onde
-<em>Christo Senhor
-nosso</em> fora, poucos dias antes de sua
-<em>Sacratissima Paixa&otilde;</em>:
-e tornando ao rio <em>Cedron</em>,
-come&ccedil;&aacute;mos a subir a ladeira
-do mesmo <em>Sagrado Monte</em> em roda, que
-he caminho mais
-plano. Este he, por onde o <em>Senhor</em>
-sahia a visitar as suas devotas
-<em>Maria Magdalena</em>, e
-<em>Martha de Jerusalem</em> a
-<em>Bethania</em>
-por este caminho he menos de meya legoa; e nelle nos
-mostrara&otilde;
-a horta, em que estava a <em>Figueira</em>,
-que <em>Christo Senhor
-nosso</em> amaldi&ccedil;oou.<br />
-
-<br />
-
-Cheg&aacute;mos a <em>Bethania</em>, que
-hoje ter&aacute; sessenta casas,
-que mais parecem covas de coelhos, que habita&ccedil;a&otilde;
-de homens,
-por estarem quasi debaixo da terra. Naquelles tempos
-foy grande Povoa&ccedil;a&otilde;, hoje nem o que foy mostra.
-Entr&aacute;mos
-logo na casa de <em>Sima&otilde;
-Leproso</em>, que sa&otilde; duas Capellas
-de pedra, bem lavradas, no Lugar donde <em>Christo Senhor
-nosso</em>
-ceou com <em>Lazaro</em> resuscitado, e Maria
-Magdalena o ungio.
-Est&aacute; hum Altar em que se diz Missa no dia, que se canta
-este Euangelho, e ao presente he curral de cabras, e boys:
-e na&otilde; faltar&aacute; que alimpar, quando neste Lugar se
-houver de
-dizer Missa; e ainda que nos entristece o ver qua&otilde;
-maltratados
-sa&otilde; estes Lugares dos Mouros, e Turcos, na&otilde;
-desmaya
-a devo&ccedil;a&otilde;, e F&eacute; dos Catholicos, porque
-consideramos,
-<span class="pagenum">[26]</span>
-que Deos permitte que assim seja por seus occultos juizos.
-Daqui fomos a visitar o sepulchro de Sa&otilde; Lazaro, de que
-tem os Mouros a chave, e dando-lhes algum dinheiro, de
-boa vontade abrem a porta. Entr&aacute;mos por huma escada de
-quinze, ou mais degraos, debaixo da terra, a este Lugar,
-em que estava sepultado, quando <em>Christo Senhor
-nosso</em> o resuscitou.
-He Lugar de muita devo&ccedil;a&otilde;, considerando as
-lagrimas
-de <em>Christo Senhor nosso</em>, de
-<em>Maria</em>, e de
-<em>Martha</em>, e dos
-mais, que estava&otilde; com os Apostolos. Daqui sahimos, e andados
-alguns passos, vimos o Castello, e casa que foy de
-<em>Sa&otilde;
-Lazaro</em>; e ainda que est&aacute; tudo arruinado,
-bem mostra ter
-sido casa de homem principal, e visit&aacute;mos a casa de
-<em>Maria</em>,
-e de <em>Martha</em>, que esta&otilde;
-destruidas. No caminho est&aacute; huma
-pedra, em que dizem, esteve sentado <em>Christo Senhor
-nosso</em>
-at&egrave; que chegou <em>Martha</em>, e
-disse: <em>Domine, si fuisses h&icirc;c,
-&amp;c.</em>
-Tudo o [~q] referi est&aacute; f&oacute;ra da Cidade de
-Bethania, ainda que
-esteve dentro naquelles tempos, por ser enta&otilde; Cidade
-gr&atilde;de,
-e hoje muito pequena a Povoa&ccedil;a&otilde;. Della sahimos, e
-subindo
-por hum outeiro como trezentos passos, cheg&aacute;mos ao Lugar
-adonde foy <em>Bethfage</em>. Delle mandou
-<em>Christo Senhor nosso</em>
-aos Apostolos pela asna, e jumentinho, e subindo nella fez
-a sua entrada solemne, e triunfal em
-<em>Jerusalem</em>. Na&otilde; ha aqui
-algum edificio, mais que humas Figueiras para sinal. Daqui
-se vem algumas casas da Cidade de
-<em>Jeric&oacute;</em>, que todas
-sa&otilde;
-poucas. Est&aacute; edificada em campina raza, que va&otilde;
-acabar
-nas margens do <em>Jorda&otilde;</em>.
-Est&aacute; distante de Jerusalem trez legoas,
-poucos mais, ou menos. Tambem se v&ecirc; deste sitio
-hum lago, que ter&aacute; de comprimento trez legoas, pouco
-mais, e de largo duas. He este lago do <em>Rio
-Jorda&otilde;</em>, e nelle
-se acaba, pois na&otilde; tem outra corrente, nem sahida. Chama-se
-o <em>Mar morto</em>; e debaixo delle
-esta&otilde; aquellas malditas, e
-infames Cidades <em>Sodoma</em>, e
-<em>Gomorrha</em>: e se v&ecirc; tambem
-outro
-monte, que estar&aacute; quasi huma legoa distante, a que
-<em>Christo</em>
-<span class="pagenum">[27]</span>
-<em>Senhor nosso</em> se retirou, e nelle
-jejuou quarenta dias, e
-quarenta noites, e foy tentado pelo demonio. Passado o
-<em>Jorda&otilde;</em>
-por esta parte, que est&aacute; de
-<em>Jerusalem</em> oito legoas, pouco
-mais, principia&otilde; os montes de Arabia.<br />
-
-<br />
-
-Sahimos do Lugar de <em>Bethfage</em>, e
-subimos ao alto do
-<em>Monte Olivete</em>, levando o rosto para
-o Septentria&otilde;, e declinado
-ao Poente, passando pela Igreja da
-<em>Ascensa&otilde;</em>,
-baix&aacute;mos
-ao Lugar, adonde vendo <em>Christo Senhor
-nosso</em> a Cidade
-de <em>Jerusalem</em>, chorou sobre ella,
-dizendo: <em>Si cognovisses,
-&amp; tu, &amp;c.</em> e descendo ao Valle de
-<em>Josaphath</em>, subio &agrave; Cidade,
-e <em>Templo</em>, entrando pela
-<em>Porta Aurea</em>, que agora
-est&aacute; no muro
-cerrada de cal, e pedra, sahindo o Povo a seu recebimento
-com ramos de palmas, e os meninos cantando: <em>Hosanna in
-excelsis</em>.<br />
-
-<br />
-
-Todos os annos fazia&otilde; os Religiosos Latinos esta
-representa&ccedil;a&otilde;,
-em que o <em>Guardia&otilde;</em>, que
-representava a <em>Christo
-Senhor nosso</em>, e doze Religiosos os
-<em>Apostolos</em>, sahia&otilde;
-paramentados
-de <em>Bethfage</em>, e mandava o
-<em>Guardia&otilde;</em> a dous
-Religiosos,
-que fossem pela asna, e jumentinho; e trazendo-a,
-subia nella; e cantando os Religiosos em circuito do Preste,
-e chorando pela muita devo&ccedil;a&otilde; varios Hymnos, e
-versos
-a este proposito, ordenava&otilde; na Dominga de Ramos esta
-triunfal, e solemne Procissa&otilde;, e o sahia&otilde; a
-receber da Cidade
-muitas na&ccedil;oens Christ&atilde;as, e muito Infieis, e
-lan&ccedil;ava&otilde;
-ramos, e as suas vestiduras, por donde passava. Os Mouros;
-e Turcos estava&otilde; como pasmados vendo esta
-Procissa&otilde;, sem
-perturbarem aos Christ&atilde;os, o que parecia milagre, e o era
-certamente, por na&otilde; terem m&atilde;os, nem linguas para
-os impedir,
-por <em>Deos nosso Senhor</em> o
-na&otilde; permittir; e subindo ao <em>Santo
-Cenaculo</em>, que era enta&otilde; Convento seu,
-proseguia&otilde; o Officio
-daquelle dia. No tempo, que eu estive na Santa Cidade
-na&otilde; se fazia esta Procissa&otilde;, porque o Turco
-mandou, que
-se n&atilde;o fizesse.
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[28]</span>
-<em>Da Cidade de Bethleem, e do caminho que fizemos
-at&egrave;
-l&aacute; chegar.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-J&aacute; he tempo de tratar do alegrissimo, e bemditissimo
-caminho,
-que ha da <em>Santa Cidade de Jerusalem</em>
-&agrave; de Bethleem,
-que sa&otilde; duas leguas para a parte do Meyo dia. Sahimos
-da <em>Santa Cidade</em> ao nascer do Sol,
-pela porta de Jaffa,
-e passando pela <em>Fonte de
-Salama&otilde;</em>, e <em>casa de
-Bersab&egrave;</em> sua
-m&atilde;y, subimos huma pequena, e suave costa, e d&eacute;mos
-em hum caminho, todo plano, ainda que nelle ha muitas
-pedras. He este caminho muito aprazivel, porque o espa&ccedil;o
-de huma legoa delle tudo sa&otilde; herdades, vinhas, oliveiras,
-frutas, e muitas Torres, e casas, o que tudo faz huma
-deliciosa vista, e muitas dellas fora&otilde; casas de
-Prof&eacute;tas,
-e algumas j&aacute; fora&otilde; Igrejas. Vimos em hum campo
-grande
-quantidade de pedras ta&otilde; pequenas como gra&otilde;s, e
-do
-seu feitio; e se conta, que a <em>Virgem Senhora
-nossa</em> vendo
-semear gr&atilde;os a hum Lavrador, lhe pedio, lhe d&eacute;sse
-delles; e que elle zombando respondera, que na&otilde;
-era&otilde;
-gr&atilde;os; que era&otilde; pedras, e assim sa&otilde;
-at&egrave; hoje. Eu os vi,
-e trouxe alguns. Vimos tambem neste caminho huma grande
-arvore, que me pareceo <em>Aroeira</em>, e
-lhe chama&otilde; <em>Terebintho</em>.
-Tom&aacute;mos ramos com devo&ccedil;a&otilde;, porque
-&agrave; sua sombra
-dizem que descan&ccedil;&aacute;ra a <em>Virgem
-Senhora nossa</em>. Vimos tambem
-o <em>sepulchro de Rachel</em>, que os
-Mouros, e Turcos guarda&otilde;,
-e usa&otilde; delle Mesquita. He fermoso edificio, situado
-em hum lindo quadro, com hum muro cuberto com hum
-capitel sobre columnas. Vimos tambem huma cisterna de
-muita, e boa agua, em que os <em>Santos trez
-Reys</em> tivera&otilde;
-grande alegria, por lhes apparecer a
-<em>Estrella</em>, que se escondera,
-antes que entrassem em <em>Jerusalem</em>, e
-dalli os guiou
-at&egrave; o Lugar aonde estava o <em>Menino
-Deos</em> no portal de
-<em>Bethleem</em>.
-Vimos tambem huma Igreja de Gregos, que he a casa
-<span class="pagenum">[29]</span>
-adonde esteve <em>Elias</em>. Ha por esta
-parte muitas antigalhas
-dignas de ver, e curiosas. Desta casa se descobre a feliz,
-e desejada Igreja, e Cidade de
-<em>Bethleem</em>.<br />
-
-<br />
-
-Quando a vimos, Peregrinos, e Religiosos, que nos
-acompanhara&otilde;, nos puzemos de joelhos, cantando Hymnos,
-e ora&ccedil;oens, dando muitas gra&ccedil;as a Deos pelo
-Mysterio
-do seu Nascimento, e por permittir que, que visitassemos
-aquella <em>Santa Cidade</em>; e assim
-continu&aacute;mos, at&eacute; chegarmos
-a ella, e &agrave; porta da Igreja, que est&aacute;
-f&oacute;ra da dita <em>Cidade</em>,
-que agora ter&aacute; pouco mais de sessenta visinhos.
-Entr&aacute;mos
-pela porta principal da Igreja, que est&aacute; defronte
-da Capella mayor, ficando &agrave; ma&otilde; esquerda a
-entrada
-do Convento. Sahira&otilde;-nos a receber os Religiosos de
-Sa&otilde;
-Francisco, que alli assistem, e commummente sa&otilde; nove,
-ou dez; e fizemos ora&ccedil;a&otilde; na Igreja, que he da
-Invoca&ccedil;a&otilde;
-de <em>Santa Catharina</em>. Esta Igreja,
-Convento, e Igreja grande
-do <em>Santissimo Nascimento</em>, fazem hum
-corpo, e na de <em>Santa
-Catharina</em> dissemos Missa no dia que
-cheg&aacute;mos.<br />
-
-<br />
-
-Dita a Missa, todos os Religiosos, e Pereginos com
-tochas accezas, baix&aacute;mos por huma escada, que
-est&aacute; na parede,
-e lado da Epistola, e tem vinte degraos, a humas covas,
-em que esta&otilde; fabricadas na penha viva estas Capellas.
-Hum Altar, no Lugar, em que fora&otilde; mortos muitos dos
-meninos Innocentes; poucos passos mais dentro, a hum lado
-o <em>sepulchro de Santo Eusebio</em>,
-discipulo de <em>Sa&otilde; Jeronymo</em>;
-mais dentro dous passos em huma Capella o <em>sepulchro
-de Santa Paula</em>, e de sua filha
-<em>Eustochio</em>; e de fronte na mesma
-Capella o <em>sepulchro de Sa&otilde;
-Jeronymo</em>; mais dentro huma
-Capella, adonde <em>Sa&otilde;
-Jeronymo</em> viveo muito tempo, e traduzio
-a <em>Sagrada Biblia</em>. Todos os dias se
-visita&otilde; estes Santos
-Lugares processionalmente cantando Hymnos, Antifonas,
-Versos, e Ora&ccedil;oens em cada huma destas Esta&ccedil;oens,
-e
-se ganha&otilde; muitas Indulgencias. Daqui sahimos, e
-entr&aacute;mos
-<span class="pagenum">[30]</span>
-por hum passadi&ccedil;o apertado, e estreito, para hirmos
-&agrave; Capella
-do <em>Santissimo Nascimento</em>, e nos
-pareceo, quando entr&aacute;mos,
-que entravamos no Paraiso.<br />
-
-<br />
-
-Esta Santissima Capella em que a <em>Virgem M&atilde;y
-de
-Deos, e Senhora nossa</em> pario ao <em>Filho
-de Deos</em>, est&aacute; fabricada,
-como as outras, na penha viva. Ter&aacute; como doze palmos
-de comprimento, de largura quatro, e dous estados
-em alto. He cuberta de marmore, e jaspe, e de fermosissimo
-Moysaico. Ha nella hum Altar de huma s&oacute; pedra,
-va&otilde;
-por baixo, que he o proprio Lugar, em que nasceo <em>Jesu
-Christo, verdadeiro Filho de Deos, Homem, e Deos
-verdadeiro</em>.
-Est&aacute; este Lugar sinalado com huma pedra branca, que
-no meyo tem huma Estrella de jaspe. Sobre este celestial Altar
-diss&eacute;mos Missa do Nascimento dous dias. Dous passos
-adiante est&aacute; o Lugar, como huma piasinha de marmore
-quadrada,
-mais baixo que o pavimento, em o qual foy o Menino
-Deos reclinado no Presepio. Aqui est&aacute; descuberto hum
-peda&ccedil;o
-de penhasco, ta&otilde; ditoso, que gozou (se se p&ograve;de
-dizer) do
-resplandor, e gloria de Deos humanado: e na verdade, que
-este penhasco nos alegrou mais que todos os mais jaspes, e
-Moysaicos; porque estes nos alegrara&otilde; a vista corporea,
-aquelle nos encheo a alma de contentamento. Bem discretos
-fora&otilde; os edificadores deste Santissimo Lugar, em o deixar
-&agrave; vista, para alegria espiritual de todos os que o vem.<br />
-
-<br />
-
-Entre o Lugar do <em>Santissimo
-Nascimento</em>, e <em>Santissimo
-Presepio</em>, est&aacute; hum Altar de marmore, que
-sinala o Lugar,
-em que os Reys offerecera&otilde; os seus dons. Eu como musico
-tive mil desejos, e ancias, de ter alli os melhores musicos
-do Mundo, assim de vozes, como de todos os instrumentos,
-para dizer, e cantar mil vilhancicos, e chansonetas ao
-<em>Menino Jesus</em>, a sua
-<em>M&atilde;y Santissima</em>, e ao
-glorioso <em>Sa&otilde;
-Joseph</em>, em companhia dos Anjos, Reys, e Pastores, que
-se
-achara&otilde; naquelle diversorio; que ainda que parecia pobre,
-<span class="pagenum">[31]</span>
-excedia a todas as riquezas, que imaginar se podem.<br />
-
-<br />
-
-Nos lados do Altar do <em>Santissimo
-Nascimento</em> ha duas
-escadas, porque subimos &agrave; <em>Capella
-m&ograve;r da Igreja</em> principal,
-porque o Lugar do Nascimento Santissimo, e os demais que
-referi, esta&otilde; debaixo desta Igreja. Esta he fermosissima,
-ainda
-que em parte est&aacute; despida da sua fermosura, porque todas
-as paredes, e pavimento, estivera&otilde; cubertas com taboas
-de marmore, que os Turcos ha poucos annos a esta parte
-tirara&otilde; para ornarem as suas Mesquitas. He de trez naves,
-a do meyo muito alta, e sustenta-se o tecto em ricas, e grandes
-columnas de marmore, inteiras, e bem lavradas, e sa&otilde;
-quarenta e oito. Sobre estas columnas esta&otilde; assentadas vigas
-de cedro, que atravessa&otilde; de huma a outra, muito curiosas
-pelo artificio; e sobre isto ha outros arcos de pedra,
-e sobre elles em hum lado est&aacute; lavrada de riquissimo
-Moysaico
-a gera&ccedil;a&otilde; de <em>Christo Senhor
-nosso</em>, como a escreveo <em>Sa&otilde;
-Mattheus</em>, e do outro lado, como a escreveo
-Sa&otilde; Lucas;
-tudo de figuras de meyo corpo, com seus nomes.<br />
-
-<br />
-
-Junto &agrave; Capella mayor est&agrave; hum Altar, adonde o
-<em>Menino Deos</em> foy circumcidado. Nesta
-fermosa Igreja se
-diz Missa algumas vezes, e na&otilde; sempre; porque os Turcos
-quasi todo o dia esta&otilde; nella, e como sa&otilde; muito
-porcos,
-est&aacute; pouco aceada. O Padre Guardia&otilde; nos levou aos
-terrados
-da Casa, e Igreja; e de l&aacute; vimos o lugar, e prados, em
-que os <em>Santos Pastores</em>
-estava&otilde;, quando o Anjo lhes disse,
-que <em>Christo nosso Salvador</em> era
-nascido, cantando: <em>Gloria in
-excelsis Deo</em>. Est&aacute; de
-<em>Bethleem</em> como a terceira parte de
-huma
-legoa. Vimos tambem o Lugar, em que estava&otilde; as vinhas do
-<em>Balsamo</em>, no tempo de
-<em>Salama&otilde;</em>, que se chama
-<em>Engadi</em>. Est&aacute;
-pouco mais de huma legoa de <em>Bethleem</em>.<br />
-
-<br />
-
-Desta <em>Santa Casa</em> sahimos como cem
-passos, e entr&aacute;mos
-em huma cova (de que os Mouros tem a chave) adonde
-estivera&otilde; escondidos a <em>Virgem Senhora
-nossa, o Menino Deos</em>,
-<span class="pagenum">[32]</span>
-e <em>Sa&otilde; Joseph</em>, quando o
-<em>Anjo</em> lhes disse, que fugissem para
-o <em>Egypto</em>, por Herodes procurar o
-<em>Menino</em> para o matar.
-Nesta cova dizem, que dando a <em>Virgem Senhora
-nossa</em> de
-mamar ao seu <em>bemditissimo Filho</em>, lhe
-cahira do seu purissimo
-<em>Leite</em> na terra; pelo que todos
-leva&otilde; desta terra por devo&ccedil;a&otilde;,
-para dar &agrave;s mulheres, que tem falta de leite, e
-lan&ccedil;ada
-em hum vaso de agua, ou vinho, se lhestitue, conf&oacute;rme
-a f&eacute; da que o usa.<br />
-
-<br />
-
-Aqui nos hospeda&otilde; os Religiosos, dando-nos de comer,
-e camas a todos os Peregrinos com muito amor, e caridade,
-sem que seja necessaria recompensa&ccedil;a&otilde;; ainda que
-todos, conforme a sua possibilidade, contribuem com o que
-podem, por agradecimento, o que na&otilde; espera a sua grande
-caridade, com que trata&otilde; a todos sem differen&ccedil;a.
-A mayor
-parte dos edificios desta Casa edificou <em>Santa
-Paula</em> em
-tempo de <em>Sa&otilde; Jeronymo</em>.
-Aqui habitara&otilde; at&egrave; morrerem. O
-que est&aacute; aruinado se p&ograve;de reparar,
-por&egrave;m na&otilde; o permittem
-os Turcos. Tem bastante vivenda para os Religiosos.
-Tem dous Jardins, em que ha muitas Larangeiras, e outras
-arvores, frutas, e hortali&ccedil;as; bons passeyos, boas vistas, e
-em tudo o que se descobre houve antigamente cousas notaveis.
-Tem hum dormitorio para os Peregrinos, &agrave; maneira
-de huma nave, em que se podem hospedar at&egrave; duzentos.
-Sahimos deste Santo Lugar com tantas saudades, como
-quem deixava l&aacute; a alma, e na&otilde; acertavamos a nos
-retirar: e
-torn&aacute;mos para a <em>Santa Cidade de
-Jerusalem</em> pelo mesmo caminho,
-chorando, sem tirarmos os olhos, em quanto o alcan&ccedil;amos
-com a vista, de Lugar ta&otilde; Santissimo.
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[33]</span>
-<em>Da Igreja do Monte Calvario, e Santo
-Sepulchro.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Vistos os Santuarios da <em>Santa Cidade de
-Bethleem</em>, pedimos
-ao Senhor Guardia&otilde; nos procurasse a entrada no
-<em>Sagrado Monte Calvario, e Santo
-Sepulchro</em>; e ajustado o dia,
-e hora com o <em>Subasi</em>, Governador da
-<em>Santa Cidade de Jerusalem</em>,
-que tem as chaves desta <em>Santa
-Igreja</em>, que sempre
-est&aacute; fechada, e s&oacute;mente se abre quando elle quer,
-ou quando
-o Padre Guardia&otilde; o avisa de que ha&otilde; de entrar
-Religiosos,
-ou Peregrinos, ou alguma das na&ccedil;oens Christ&atilde;as; e
-chegado
-o dia, que foy quinta feira de tarde, veyo
-<em>Subasi</em> com
-o Escriva&otilde;, e Porteiro, e se sentou &agrave; porta desta
-<em>Santa Igreja</em>
-sobre hum poyal, que se cobrio com hum tapete, e coxins
-de veludo; e o Padre Guardia&otilde; com outros Religiosos,
-e hum Christ&atilde;o da terra, que se chama
-<em>&Aacute;n&agrave;</em>, muito bom
-homem, e fiel interprete do Convento, que falla bem Italiano,
-e Arabigo, que he a lingua commua da terra em toda
-a Palestina, e Syria. Cheg&aacute;mos sete Peregrinos, que eramos,
-que o Padre Guardia&otilde; appresentou ao Subasi, e perguntando-me
-o nosso interprete, pois era o primeiro, o como
-me chamava? Respondi, que <em>Alberto</em>;
-porque parecesse nome
-Tudesco, e na&otilde; <em>Hespanhol</em>,
-por ser de perigo, que elles
-saiba&otilde;, que somos Hespanhoes, porque entendem, que
-vamos por espias, e nos fazem escravos; e fallando Italiano,
-os assegur&aacute;mos de toda a suspeita. Escreveo o Turco o nome,
-que eu disse, com huma penna de cana, e lhe dey nove
-<em>zequies</em> de ouro, que vale cada hum
-sete centos e cincoenta,
-e o mesmo deu meu companheiro, e os mais. Os Religiosos
-Sacerdotes na&otilde; paga&otilde; cousa alguma. Paga se
-s&oacute;mente este
-dinheiro na primeira vez, que se entra nesta Santa Igreja;
-e depois, quando se abre, basta que se d&ecirc; ao Porteiro hum,
-ou dous maydines.<br />
-
-<br />
-
-Entr&aacute;mos logo nesta Santissima Igreja, em que a vista
-<span class="pagenum">[34]</span>
-na&otilde; p&ograve;de estar ociosa, pelo muito que ha, que
-ver, e venerar.
-A primeira cousa he o Lugar, aonde <em>nosso
-Redemptor</em>
-foy ungido para o sepultarem; e &agrave; ma&otilde; direita, na
-mesma
-nave, est&agrave; o <em>Santissimo
-Calvario</em>, &agrave; ma&otilde; esquerda na nave
-do meyo, defronte da porta do Coro ao Poente, est&aacute; o
-<em>Sepulchro
-do nosso Redemptor</em>; e no meyo da Igreja o Coro, que
-tem quatro Cadeiras Patriarchaes, em que em outro tempo
-se sent&agrave;ra&otilde; juntos os quatro Patriarchas da
-Christandade.
-Est&aacute; hoje a cargo dos Gregos, e nelle tem o seu Altar mayor
-com Imagens de Santos, pintadas com todo o primor.
-As naves sa&otilde; direitas, excepto que para a parte do Oriente,
-e Poente sa&otilde; redondas, &agrave; maneira de Colisseo. A
-Igreja
-he de fermosa fabrica. O tecto em partes he de Moysaico.
-As paredes em outro tempo estivera&otilde; cubertas de marmores,
-agora est&aacute; a pedra aberta. Na&otilde; perde com tudo a
-fermosura
-esta fabrica excellentissima, ainda que tenha agora esta
-falta.<br />
-
-<br />
-
-As na&ccedil;oens Christ&atilde;as, que ha em
-<em>Jerusalem</em> de diversos
-Reynos, e Provincias, e Linguas, sa&otilde; estas.<br />
-
-<br />
-
-<em>Latinos. Gregos. Armenios. Georgianos. Jacobitas.
-Abexins. Surianos. Maronitas.</em><br />
-
-<br />
-
-De cada huma destas na&ccedil;oens ha dous, ou trez Religiosos,
-repartidos pelas Capellas desta Santa Igreja, que
-dizem o Officio Divino cada hum a seu modo, rito, e lingua,
-e tem cuidado das suas alampadas, que esteja&otilde; sempre
-accezas, e limpas. A habita&ccedil;a&otilde; dos nossos
-Religiosos
-de Sa&otilde; Francisco Latinos he a melhor; porque tem Refeitorio,
-Dormitorio, e tudo o que basta para poderem estar at&egrave;
-trinta pessoas.<br />
-
-<br />
-
-Comem, e dormem estas na&ccedil;oens dentro nesta Igreja,
-e os Peregrinos, que esta&otilde; dentro, dando-lhes de comer,
-e o que pedem por hum buraco, que a casa tem como fresta,
-cruzada com duas barras de ferro. Por esta fresta falla&otilde;,
-<span class="pagenum">[35]</span>
-e se lhes ministra o necessario, e se v&ecirc; hum
-peda&ccedil;o da Igreja;
-por ella fazem ora&ccedil;a&otilde; os que esta&otilde; de
-f&oacute;ra. Tal ordem tem
-dado o Turco, para que esteja&otilde; conformes, e como germanadas
-estas na&ccedil;oens, humas com outras, que se huma alampada
-se estiver apagando, e o visinho a quizesse ati&ccedil;ar por
-devo&ccedil;a&otilde;, o condemnaria&otilde; em muitos
-cruzados; e assim com
-este rigor, ha summa paz entre todos, e nenhum se intromete
-na obriga&ccedil;a&otilde;, ou devo&ccedil;a&otilde; do
-outro.<br />
-
-<br />
-
-A todos sa&otilde; communs os
-<em>Santuarios</em>, para os poderem
-visitar em qualquer hora, que quizerem, porque esta&otilde;
-continuamente abertos; e como sempre est&agrave; fechada a porta
-da Igreja, tudo est&agrave; bem guardado: pelo que he de grande
-contentamento, e devo&ccedil;a&otilde; o poder entrar
-livremente, de
-dia, e de noite, em que muitissimas alampadas a illumina&otilde;.
-Em todos os Santuarios tem todas as na&ccedil;oens suas alampadas,
-huns mais, outros menos, e cada huma cuida das suas.<br />
-
-<br />
-
-Come&ccedil;&aacute;mos os Peregrinos, e Religiosos a nossa
-procissa&otilde;
-nesta Santa Igreja com v&egrave;las accezas, cantando o
-Hymno, Antifona, e Verso daquelle Santuario, que visitamos,
-e chegando o Religioso, que est&agrave; paramentado, nos
-diz o Mysterio, que alli passou, e a Indulgencia, que
-ganh&aacute;mos.<br />
-
-<br />
-
-A primeira Esta&ccedil;a&otilde; foy em huma Capella, que se
-chama
-o <em>Carcere de nosso Salvador</em>, no qual
-esteve em tanto,
-que os Judeos esperava&otilde;, que a Cruz, e o lugar em que se
-havia p&ocirc;r, estivessem aparelhados. Mais adiante
-visit&aacute;mos
-huma Capella, na qual os Soldados, que prendera&otilde; a
-<em>Christo
-Senhor nosso</em>,
-lan&ccedil;&aacute;ra&otilde; sortes sobre as suas
-vestiduras. Mais
-adiante entr&agrave;mos por huma porta, e baixando trinta degraos,
-cheg&aacute;mos &agrave; Capella de S. Helena, m&atilde;y
-do Emperador Constantino,
-em [~q] se sentou a Santa Emperatriz, em tanto, que se
-cavava, procurando a Cruz. Aqui nesta Cadeira da Santa
-ha muitas Indulgencias. Baix&aacute;mos mais onze, ou doze degraos,
-<span class="pagenum">[36]</span>
-feitos na mesma penha do <em>Monte
-Calvario</em>, e he o
-Lugar adonde a Santa Emperatriz achou a Santa Cruz, titulo,
-cravos, e as cruzes dos Ladroens. Chama&otilde;-se estas
-Capellas da Inven&ccedil;a&otilde; da Cruz. Esta&otilde;
-bem fabricadas, e muito
-espa&ccedil;osas, ainda que debaixo da terra, que corresponde
-ao Calvario.<br />
-
-<br />
-
-Sahimos desta Capella, e visit&aacute;mos outra, donde
-est&agrave;
-hum peda&ccedil;o de huma columna, em que Christo Senhor nosso
-esteve sentado, quando os Ministros de Pilatos, depois
-de o a&ccedil;outarem, o coroara&otilde; de espinhos. Daqui
-subimos por
-dezanove degraos, e fomos ao <em>Santo Monte
-Calvario</em>, e
-nos pareceo, que entr&agrave;vamos no Paraiso. Estando no alto,
-vimos huma Capella, que sa&otilde; duas estancias a modo de
-tribuna,
-que corresponde &agrave; primeira nave da Igreja. A primeira
-he o Lugar Sacratissimo, em que o <em>Filho de
-Deos</em> foy levantado
-na Cruz; nelle est&aacute; o buraco donde a Santa Cruz esteve
-fixada. Tem hum bocal de prata, e o ador&aacute;mos, e
-beij&aacute;mos,
-como Santuario ta&otilde; admiravel. Metemos dentro os
-nossos bra&ccedil;os n&ugrave;s, e assim digo, que
-ter&aacute; de fundo como
-trez palmos. Nos lados esta&otilde; sinalados os Lugares das cruzes
-dos Ladroens, que me parece, que tocava&otilde; huma, e
-outra cruz. Ha entre a de <em>Christo Senhor
-nosso</em>, e a do m&agrave;o
-Ladra&otilde;, <em>huma abertura</em> na
-penha de sete palmos de comprido,
-e mais de hum de largo, que chega abaixo ao Lugar
-da <em>Inven&ccedil;a&otilde; da Santa
-Cruz</em>. Esta se abrio quando <em>Christo
-Senhor nosso</em> espirou. Na outra parte da Capella, a
-trez passos,
-est&agrave; o Lugar em que cravara&otilde; a
-<em>Christo Senhor nosso</em>, estando
-a Cruz no cha&otilde;, e dalli a levantara&otilde;, e
-puzera&otilde; no
-sitio referido. Donde isto succedeo est&aacute; huma memoria de
-jaspe, e marmore bem lavrados. Esta Capella, que se chama
-da <em>Crucifixa&otilde;</em>, toda
-est&aacute; cuberta de marmore, e jaspe finissimo
-com muitos lavores, e o tecto he todo de Moysaico,
-de que esta&otilde; pendentes mais de cincoenta alampadas de todas
-<span class="pagenum">[37]</span>
-as na&ccedil;oens de Christ&atilde;os. Dissemos Missa na parte
-da
-<em>Crucifixa&otilde;</em>, na sexta
-feira seguinte ao dia, em que entr&agrave;mos,
-e foy a da <em>Paixa&otilde; secund&ugrave;m
-Joannem</em>; e este Altar se divide
-com huma cortina do Lugar em que esteve fixada a Santa
-Cruz. Na&otilde; poderey explicar a grande afluencia de
-devo&ccedil;a&otilde;,
-que todos aqui sentem interior, e exteriormente, considerando,
-que tudo, o que o Santo Euangelho refere, se obrou
-neste Santissimo Lugar. A parte donde <em>Christo Senhor
-nosso</em>
-foy encravado, est&agrave; entregue ao cuidado dos Religiosos de
-Sa&otilde; Francisco; adonde esteve crucificado aos Religiosos
-Georgianos, que sa&otilde; extremosamente devotissimos, e sempre
-esta&otilde; neste Sagrado Lugar rezando, e cantando.
-Sa&otilde; virtuosissimos
-Varoens, e de muita abstinencia, e pobreza. He ta&otilde;
-agradavel, e devota para a alma, e corpo esta estancia do
-<em>Sagrado Monte</em>, que n&atilde;o se
-enfada, ou can&ccedil;a alguem de
-estar nella. Em tudo he hum Paraiso. Oh que bem parecera&otilde;
-aqui alguns Musicos cantando as lamenta&ccedil;oens de Jeremias,
-vendo, e considerando o <em>Calvario</em>, e
-<em>Santo Sepulchro</em>,
-porque ambos estes Santuarios se podem ver juntamente!<br />
-
-<br />
-
-Baixando deste Sagrado Lugar, cheg&agrave;mos ao meyo
-da primeira nave, e vener&agrave;mos huma pedra grande, pegada
-na terra, cercada de grades de ferro de altura de palmo;
-e por cima esta&otilde; pendentes oito, ou nove alampadas de todas
-as na&ccedil;oens Christ&atilde;as. Neste Lugar foy ungido
-<em>Christo
-Senhor nosso</em> para o sepultarem, por seus devotos
-servos,
-<em>Nicodemus</em>, e <em>Joseph
-ab Arimathea</em>, assistindo a <em>Virgem
-Senhora
-nossa</em>, e as mais <em>Santas
-Mulheres</em>, e o amado Discipulo
-<em>Sa&otilde; Joa&otilde;</em>. Este
-Santo, Lugar est&agrave; defronte da porta da
-Igreja, e se v&ecirc; pela fresta, que nella ha; e os que
-esta&otilde; f&oacute;ra,
-por ella fazem ora&ccedil;a&otilde;, e ganha&otilde; as
-Indulgencias. Daqui
-ao <em>Santo Sepulchro</em> haver&agrave;
-quarenta passos para a parte do
-Poente, dentro da mesma Santa Igreja. Esta inestimavel reliquia
-<span class="pagenum">[38]</span>
-possuem os nossos Religiosos de Sa&otilde; Francisco, e
-s&oacute;mente os Latinos dizemos nelle Missa. A sua
-f&oacute;rma he
-esta. Antes da entrada ha huma pequena Capella quadrada,
-em que caber&aacute;&otilde; dez, ou doze pessoas, e no meyo
-della
-est&aacute; huma pedra de dous palmos de altura, e dous de grosso.
-Nesta pedra, dizem, que o <em>Anjo</em>
-estava sentado, quando
-fallou &agrave;s <em>Marias</em>,
-dizendo-lhes, que j&aacute; <em>Christo Senhor
-nosso</em> resuscit&aacute;ra. Por esta Capella se
-entra a outra ta&otilde; pequena,
-que a porta ter&aacute; quatro palmos de alto, e trez de
-largo. &Aacute; ma&otilde; direita est&aacute; o
-<em>Santo Sepulchro de nosso Salvador</em>,
-donde esteve o seu <em>Santissimo Corpo</em>,
-e delle resuscitou.
-He hum Altar como huma arca, cuberta com huma
-pedra marmore. Sobre este preciosissimo
-<em>Sepulchro</em> diss&eacute;mos
-Missa; e na&otilde; cabe neste lugar mais que o Sacerdote, e o
-que o ajuda. O va&otilde; ninguem o v&ecirc;, por&egrave;m
-o mais goza&otilde; todos,
-tocando-o, e beijando-o. Da parte superior pendem
-muitas alampadas de todas as na&ccedil;oens. Aqui disse Missa pela
-misericordia de Deos, e foy a da Resurrei&ccedil;a&otilde;, e
-foy grande
-alegria para mim, quando dizia no Santo Euangelho:
-<em>Surrexit,
-non est h&icirc;c, ecce locus ubi posuerunt eum</em>;
-sinalando
-com o dedo o lugar adonde esteve o <em>nosso
-Salvador</em>. Move
-certamente os nossos cora&ccedil;oens esta verdadeira
-representa&ccedil;a&otilde;.<br />
-
-<br />
-
-Esta Capella do <em>Santo Sepulchro</em>,
-ainda que por dentro
-he quadrada, por f&oacute;ra he redonda, e tem as paredes cubertas
-de marmore. Em cima tem hum capitel de columnas
-muito bem lavrado, que offerece huma boa vista aos que o
-vem de f&oacute;ra. Est&aacute; no meyo de hum circuito de
-columnas,
-sem tocar em alguma parte. O zimborio da Igreja, que lhe
-corresponde, he huma meya laranja de madeira de cedro
-muito antiga. No meyo tem huma grande abertura, como
-coroa, por donde entra a luz aos que esta&otilde; em baixo. No alto
-de huma parte est&aacute; o retrato da Emperatriz
-<em>Santa Helena</em>,
-<span class="pagenum">[39]</span>
-e da outra o do Emperador
-<em>Constantino</em> seu filho, de
-rico Moysaico, muito antigo, e outras figuras de Santos,
-que quasi na&otilde; se parecem, por estarem maltratadas da
-antiguidade,
-e do tempo.<br />
-
-<br />
-
-Sahidos deste Santissimo Lugar como dez passos, &agrave;
-ma&otilde; esquerda, esta&otilde; duas pedras redondas de
-marmore postas
-na terra, huma apartada da outra, como trez passos. Em
-huma esteve <em>Christo Senhor nosso</em>
-depois de resuscitado, na outra
-a <em>Santa Magdalena</em>, quando lhe
-appareceo em figura de
-Hortela&otilde;, e lhe disse: <em>Noli me
-tangere</em>. Daqui fomos &agrave; Capella,
-e Coro dos nossos Religiosos Franciscanos, em que
-dizem, appareceo <em>Christo Senhor
-nosso</em> a sua <em>Santissima
-M&atilde;y</em>.
-Na entrada desta Capella, na parede, guardada com huma
-rede de ferro, de modo que o podemos tocar com os dedos,
-est&aacute; hum peda&ccedil;o da columna, em que
-<em>Christo Senhor nosso</em>
-foy a&ccedil;outado. Com esta Esta&ccedil;a&otilde;
-acab&aacute;mos de visitar esta Santissima
-Igreja. Nos quatro dias, e noites, que nella estivemos
-encerrados, reiteramos estas Esta&ccedil;oens muitas vezes em
-procissa&otilde;, e s&oacute;s. He de grande contentamento
-ouvir pela
-meya noite a todas estas na&ccedil;oens dizerem Matinas, cada
-h[~u]a
-na sua lingua, e canto.<br />
-
-<br />
-
-Sahidos desta Santa Igreja, nas costas da Capella Mayor,
-e no mais alto della, que he parte do <em>Sagrado monte
-Calvario</em>, visit&aacute;mos huma Capella, adonde
-<em>Abraham</em> offereceo
-o sacrificio; e outra, que est&aacute; perto, adonde
-<em>Melchisedech</em>
-offereceo pa&otilde;, e vinho; das quaes tem cuidado
-os Religiosos Abexins: e tornando para o nosso <em>Convento
-de Sa&otilde; Salvador</em>, nelle estivemos alguns
-dias, esperando
-ao nosso <em>Trucima&otilde; Atala</em>
-para ajustarmos a nossa vinda.
-Nestes dias reiter&aacute;mos as Esta&ccedil;oens dos Sagrados
-montes
-<em>Sion</em>, e
-<em>Olivete</em>; e chegando &agrave;
-Santa Cidade de Jerusalem
-quatro Religiosos de Sa&otilde; Francisco, que vinha&otilde; do
-<em>Cayro</em>,
-dous Italianos, e dous Hespanhoes, o principal dos Italianos
-<span class="pagenum">[40]</span>
-se chamava <em>Fr. Mattheus Salerno</em>,
-homem nobre do
-Reyno de Napoles, e muito virtuoso, que vinha para Comissario
-de <em>Jerusalem</em>; e o principal dos
-Hespanhoes, Fr.
-Luiz de Quesada, natural de Sevilha, os acompanh&aacute;mos na
-continua&ccedil;a&otilde; destes exercicios, que nunca
-enfada&otilde;, mas antes
-nos da&otilde; recrea&ccedil;a&otilde; espiritual, por
-espa&ccedil;o de dez, ou doze
-dias. Trazia o Padre Salerno muito dinheiro, e muitas
-joyas para o servi&ccedil;o do <em>Santo
-Sepulchro</em>. Muitas toalhas, corporaes,
-e demais cousas para o Altar, e celebra&ccedil;a&otilde; das
-Missas,
-que offerecia&otilde; muitas Senhoras de Hespanha, e Italia.
-Hum rico Caliz, que mandava ElRey de Hespanha; e outro
-com huma alampada, que offerecia o Gr&atilde;o Duque de
-Floren&ccedil;a.
-Tudo me mostrou na Sacristia por contentar o meu
-desejo, e querer fosse eu testemunha de tudo.<br />
-
-<br />
-
-J&aacute; tratavamos de voltar para Italia, e o nosso
-<em>Atala</em>
-nos persuadia, a que fossemos com elle a Jaffa; por&egrave;m o
-<em>Padre Salerno</em> disse, que de nenhum
-modo queria andar por
-mar a costa da Palestina, porque j&aacute; entrava o Inverno; pelo
-que resolveo hir por terra at&egrave; Tripoli, e eu em o
-acompanhar:
-e tendo eu assistido hum mez na <em>Santa Cidade de
-Jerusalem</em>,
-e os Religiosos quinze dias, dispuzemos a jornada;
-e agradecemos ao Padre Guardia&otilde; a hospedagem, dando-lhe
-tambem cada hum a esmola, que podia, e na&otilde; a que
-desejava: e recebemos delle as patentes, e testemunho da
-nossa entrada na <em>Santa Cidade</em>,
-escritas em pergaminho, com
-o sello do <em>Santo Cenaculo</em>.<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><em>Da nossa sahida
-da Santa Cidade de</em>
-Jerusalem.<br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Chegou o tempo de sahirmos da Santa Cidade de
-<em>Jerusalem</em>,
-e o Padre Guardia&otilde; ajustou com
-<em>Atala</em>, e outros
-Mouros visinhos de <em>Jerusalem</em>, que
-nos levassem a <em>Damasco</em>,
-caminho de oitenta legoas. Com elles sahimos em jumentos,
-<span class="pagenum">[41]</span>
-(por na&otilde; permittirem, que os Christ&atilde;os andem a
-cavallo) sete Religiosos, e seis Peregrinos. Dous Religiosos
-destes fazia&otilde; jornada para
-<em>Alepo</em>; trez para
-<em>Constantinopla</em>;
-dous, que era&otilde; o <em>Padre
-Salerno</em>, e seu Companheiro
-Fr. Serafino, e hum Leigo Hespanhol, chamado
-<em>Irma&otilde;
-Julia&otilde;</em>, e n&ograve;s Pedro Tudesco, e
-Nicolao Polaco, para Veneza.<br />
-
-<br />
-
-Despedidos do Padre Guardia&otilde;, tomada a sua Santa
-ben&ccedil;a&otilde;, e abra&ccedil;ando com muitas
-lagrimas a todos os Religiosos,
-sahimos acompanhados de todos muitos passos f&oacute;ra
-da Cidade, e repetidos os abra&ccedil;os, e lagrimas,
-come&ccedil;amos
-a caminhar, voltando a cada passo os olhos a traz, para vermos
-a <em>Santa Cidade</em>, os Sagrados montes
-<em>Sion</em>, e
-<em>Olivete</em>, e
-nos despediamos de taes Santuarios com muita tristeza; e
-tendo caminhado como meya legoa, a perdemos de vista.
-Nesta meya legoa vimos huma Igreja, e he o lugar adonde
-<em>Jeremias</em>, vendo a Cidade, e
-chorando, compoz as Lamenta&ccedil;oens.<br />
-
-<br />
-
-Fizemos noite em huma Cidade destruida, trez legoas
-de <em>Jerusalem</em>, e nella
-esper&aacute;mos huma caravana de trinta e
-trez camellos de mercadores Mouros, por fazermos jornada
-em sua companhia. Nesta Cidade foy que a <em>Virgem
-Senhora nossa</em> achou menos ao seu Filho
-<em>Christo Jesus</em> de tenra
-idade, e tornando a <em>Jerusalem</em> a
-procurallo, o encontrou
-no meyo dos Doutores no Templo. Proseguimos a jornada
-por esta parte de <em>Jud&eacute;a</em>,
-e entr&aacute;mos na Provincia de
-<em>Samaria</em>.
-Neste dia fizemos noite na Cidade de
-<em>Sichar</em>, a que os
-Mouros chama&otilde; <em>Nablos</em>.
-Aqui est&aacute; o po&ccedil;o, donde <em>Christo
-Senhor nosso</em> fallou &agrave;
-<em>Samaritana</em>; na&otilde; o vi,
-porque entr&aacute;mos
-j&aacute; de noite; por&egrave;m meu companheiro o vio, que
-ficou
-a traz com parte da companhia, e disse que na&otilde; tinha agua.
-Estivemos naquella noite dentro da Cidade, e dormimos na
-rua, porque nos na&otilde; d&eacute;ra&otilde; pousada; e
-no dia seguinte, pela
-tarde, continu&aacute;mos a jornada.
-<br />
-
-<br />
-
-<span class="pagenum">[42]</span>
-Nesta Cidade de <em>Sichar</em>
-pr&eacute;gou <em>Christo Senhor
-nosso</em>
-dous dias, convertendo os seus moradores. He muito fermosa,
-e fresca, e tem boas casas, e muitas Torres. He habitada
-de dous mil visinhos. Est&aacute; entre dous montes, e o principal
-he o <em>Garisim</em>. Tem hum valle, dos
-fermosos que se
-podem ver, em que ha muitas hortas, e fontes, arvores, e
-frutas. Quando eu vi da outra parte da Cidade tantas fontes,
-passando por este valle, entendi que as na&otilde; haveria no tempo
-da Samaritana; porque havendo-as, na&otilde; buscaria
-ta&otilde;
-longe a agua. Aqui habitou <em>Jacob</em> com
-seus filhos, e gados,
-e deu a <em>Joseph</em> por melhor huma
-herdade, como diz a <em>Santa
-Escritura</em>. Na Cidade nos mostrara&otilde; a sua
-casa. Toda esta
-Comarca de <em>Sichar</em> he fertilissima de
-pa&otilde;, gados, e de tudo
-o necessario para a vida humana. Ao outro dia cheg&aacute;mos
-&agrave; Cidade de <em>Sebaste</em>,
-Cabe&ccedil;a do Reyno, e Provincia de
-<em>Samaria</em>;
-nome que teve em outro tempo; agora est&aacute; destruida,
-ainda que alguns edificios bem mostra&otilde; a sua antiga
-grandeza. Ha nesta Cidade huma Igreja de pedra, e duas
-partes della esta&otilde; cahidas; por&egrave;m o que
-est&aacute; em p&eacute;, he ta&otilde;
-bem lavrado, como a mais perfeita obra Romana. No Altar
-desta Igreja, dizem, foy degollado o grande
-<em>Sa&otilde; Joa&otilde;
-Bautista</em>
-por mandado delRey Herodes. He digno de
-considera&ccedil;a&otilde;
-particular, o ver esta Cidade em que residira&otilde; tantos
-Reys, destruida; pois apenas ter&aacute; cincoenta casas; o
-que tambem se v&ecirc; em toda a Palestina, pois vimos Cidades,
-pelos caminhos que and&aacute;mos, que antigamente fora&otilde;
-populosas,
-e insignes; e hoje s&oacute; se vem pedras, e algumas paredes.
-Bem se colhe ser vontade de Deos; e que esta&otilde; destruidas
-por peccados dos habitadores daquelle tempo. Aqui
-nos dissera&otilde;, que a companhia dos camellos, que vinha
-comnosco, ficando muito a traz, a roub&aacute;ra&otilde; os
-Arabes.
-Na&otilde; sey que assim fosse, o que posso dizer he, que
-j&aacute; mais
-a vimos; e d&eacute;mos gra&ccedil;as a Deos por nos livrar.
-<br />
-
-<br />
-
-<span class="pagenum">[43]</span>
-Passadas dez legoas de travessia desta Provincia de
-<em>Samaria</em>,
-entr&aacute;mos na de <em>Galilea</em>.
-Da Santidade della basta dizer,
-que Christo Senhor nosso a passeou muitas vezes, e
-nella obrou as maravilhas, que referem os Chronistas Sagradas.
-Cinco legoas dentro nesta Provincia est&aacute; h[~u]a Igreja
-cahida
-entre h[~u]as casas, de que se f&oacute;rma huma pequena Aldea,
-chamada <em>Janim</em>, em o lugar adonde
-Christo Senhor nosso sarou
-aos dez Leprosos. Mais adiante trez legoas, vimos quatro
-celebrados montes. O <em>Carmelo</em>, [~q]
-est&aacute; ao Poente do nosso
-caminho, junto ao Mediterraneo. O
-<em>Hermon</em>, [~q] est&aacute;
-&agrave; parte
-de Levante, e junto a elle a Cidade de Naim, adonde
-<em>Christo
-Senhor nosso</em> resuscitou o filho da Viuva; agora he
-pequena
-Villa. O monte, a que est&aacute; contigua a <em>Santa
-Cidade de Nazareth</em>,
-adonde encarnou o <em>Filho de Deos</em>.
-Na&otilde; subimos a este
-lugar, bem que estava perto, por[~q] o na&otilde;
-permittira&otilde; os nossos
-Mouros; e s&oacute;mente vimos branquear as ruinas dos edificios.
-A ditosa casa, em que a <em>Virgem Senhora
-nossa</em> concebeo
-ao <em>Filho de Deos</em>, que estava nesta
-Cidade, a trouxera&otilde;
-os Anjos, haver&aacute; duzentos annos, para Italia, e a
-colloc&aacute;ra&otilde;
-em <em>Loreto</em>, tendo primeiramente sido
-levada a duas
-partes. Obra Deos nella infinitos milagres, de que esta&otilde;
-cheyos os livros, e na Igreja em que est&aacute;, j&aacute;
-na&otilde; ha parte
-adonde se ponha&otilde; tantas memorias. Tem muita riqueza de
-pessas de ouro, e prata, ornamentos, offertas que fizera&otilde;
-Pontifices, Reys, Principes, Senhores, &amp;c. no que lhe
-na&otilde;
-excede alguma Igreja do mundo. Cercara&otilde; os Pontifices esta
-camara Angelical com huma fermosa Igreja, e est&aacute; no
-meyo della. As paredes de f&oacute;ra esta&otilde; cubertas de
-marmore
-lavrado de lindas figuras, em que se v&ecirc; a vida da
-<em>Santissima
-Virgem, M&atilde;y de Deos, e Senhora nossa</em>. Por
-dentro esta&otilde;
-descubertas as pedras, e ladrilho, mais agradaveis, ainda
-que antigos, que todas as pedras preciosas do Mundo, pois
-cremos, que fora&otilde; tocadas milhares de vezes por
-<em>Christo</em>
-<span class="pagenum">[44]</span>
-<em>Senhor nosso</em>, e sua
-<em>Santissima M&atilde;y</em> Tem no
-meyo hum Altar
-donde dizemos Missa, que divide a huma parte a chamin&eacute;,
-adonde a <em>Virgem Senhora nossa</em>
-guizava a sua ordinaria
-comida. Est&aacute; esta ditosa chamin&eacute; cuberta de
-prata, e outras
-riquezas.<br />
-
-<br />
-
-Junto a esta Santa Igreja est&aacute; hum sumptuoso Collegio
-da Companhia de Jesus, em que assistem Religiosos de
-muitas na&ccedil;oens. Esta Santa Casa he frequentada de muita
-gente, que a visita, de toda a Christandade.<br />
-
-<br />
-
-Desta Santa Cidade de <em>Nazareth</em> sahio
-a Virgem <em>Senhora
-nossa</em> pejada, acompanhada do seu
-<em>Esposo Santissimo
-Sa&otilde; Joseph</em>, a escreverse na Cidade de
-Bethleem, pelo edito,
-e mandato geral do Emperador <em>Cesar
-Augusto</em>, por ser
-esta Cidade sua, como descendentes da Real estirpe de
-<em>David</em>; e alli pario a seu
-<em>Unigenito Filho</em>, e do
-<em>Eterno
-Pay</em>. De Nazareth a Bethleem ha trinta legoas, pouco
-mais,
-ou menos.<br />
-
-<br />
-
-O outro monte he o <em>Thabor</em>. Ao
-p&eacute; delle cheg&aacute;mos,
-e vimos dous edificios cahidos; hum no principio, outro
-no alto do monte, adonde <em>Christo Senhor
-nosso</em> esteve com
-os seus Discipulos <em>Sa&otilde;
-Pedro</em>, <em>Sa&otilde;
-Joa&otilde;</em>, e
-<em>Santiago</em>, e se transfigurou
-ante elles, e de <em>Moys&eacute;s</em>,
-e <em>Elias</em>. Nelle ouvio a voz
-do <em>Eterno Pay</em>, dizendo:
-<em>Hic est Filius meus dilectus,
-&amp;c.</em>
-Demais da Santidade deste monte, que he o principal, por
-nelle se mostrar <em>Christo Senhor
-nosso</em> glorioso, e resplandescente
-com os rayos de gloria; he tambem muito alegre, fermoso,
-e bem proporcionado na sua postura, alto redondo,
-e apartado dos outros; de modo, que parece, foy posto &agrave;
-ma&otilde; naquelles Valles.<br />
-
-<br />
-
-Proseguimos o nosso caminho, levando o rosto ao
-Norte, e cheg&aacute;mos ao mar de
-<em>Galilea</em>, que se chamou
-<em>Tiberiades</em>.
-Ainda que se chama <em>Mar</em>,
-na&otilde; o he; porque a agua
-he doce, e est&aacute; apartado do Mediterraneo mais de doze
-legoas.
-<span class="pagenum">[45]</span>
-Neste <em>mar</em>, ou
-<em>lago</em>, fez Deos milhares de
-maravilhas.
-Aqui estava&otilde; pescando <em>Sa&otilde;
-Pedro</em>, e <em>santo
-Andr&eacute;</em>, e em outro
-barco <em>Sa&otilde;
-Joa&otilde;</em>, e
-<em>Santiago</em>, quando os chamou
-<em>Christo Senhor
-nosso</em> para que o seguissem, e que os faria pescadores
-de homens; e deixando as suas redes, o seguira&otilde;. Ha na
-ribeira
-deste lago muitas Povoa&ccedil;oens, que em outro tempo
-fora&otilde; Cidades principaes. Entre ellas he celebre
-<em>Capharnaum</em>,
-<em>Corozaim</em>, e
-<em>Bethsaida</em>. Ao presente
-s&oacute;mente se vem
-as suas ruinas. Junto a este lago fez <em>Christo Senhor
-nosso</em> o
-milagre de dar de comer &agrave;s turbas, que o seguia&otilde;,
-com
-cinco paens, e dous peixes. Muitas vezes andou, e navegou
-sobre as suas aguas este mesmo Senhor. Aqui se manifestou
-aos Discipulos, depois de resuscitado. Ter&aacute; este cinco
-legoas,
-pouco mais, ou menos de comprido, e de largo pouco mais
-de duas. A agua he do <em>Rio
-Jorda&otilde;</em>, que nelle entra, e sahe
-correndo, mais de quarenta legoas at&egrave; o <em>Mar
-morto</em>, em
-que se recolhe, e na&otilde; torna a sahir. Na sua ribeira ha
-muitas
-fontes. Pous&agrave;mos esta noite, e tarde, que
-cheg&agrave;mos,
-junto a este lago, em Bethsaida, terra, e Patria dos Apostolos
-<em>Sa&otilde; Pedro</em>,
-<em>Santo Andr&egrave;</em>, seu
-irma&otilde;, e <em>Sa&otilde;
-Filippe</em>. Alegria
-grande tivemos por pernoitarmos aqui, pois <em>Christo
-Senhor
-nosso</em> aqui esteve muitas vezes. He agora huma Villa
-de cem
-visinhos. A Comarca he das fermosas, que tem o Mundo,
-muito fertil de gados, frutas, e palmas. Comemos peixe
-deste lago, que nos soube muito bem, por ser donde
-<em>Christo
-nosso Redemptor</em> o comeo algumas vezes, e por ser
-bonissimo,
-e pela devo&ccedil;a&otilde; com que o comiamos, e pela fome,
-que tinhamos.<br />
-
-<br />
-
-No outro dia madrug&agrave;mos muito, e caminh&agrave;mos por
-asperas montanhas, e cheg&agrave;mos antes do meyo dia ao celebre
-<em>Rio Jorda&otilde;</em>, que ainda que
-nesta parte na&otilde; foy o <em>Bautismo
-de Christo Senhor nosso</em>, com tudo por nelle se
-celebrar,
-nos deu a sua vista muita alegria, e contentamento.
-Ape&agrave;monos
-<span class="pagenum">[46]</span>
-todos contra a vontade dos Mouros, e com grande
-ancia cheg&agrave;mos &agrave; agua, bebendo toda a que
-pod&eacute;mos, lavando
-nella cabe&ccedil;a, rosto, e m&atilde;os; e nos parecia, que
-tinhamos
-desejo de nos converter em peixes, para na&otilde; sahirmos
-de aguas ta&otilde; santificadas. Nesta parte he o rio apertado,
-e se p&ograve;de vadear. A agua he cristalina, fresca, e muito
-doce. Pass&agrave;mos por huma ponte de pedra bem lavrada,
-e &agrave; ma&otilde; esquerda vimos huma lagoa, que se chama
-<em>Aguas
-Meronas</em>, que sa&otilde; do mesmo rio.<br />
-
-<br />
-
-Nasce este famoso rio de duas fontes, que vem do
-<em>Monte Libano</em>, huma chamada
-<em>Jor</em>, outra
-<em>Da&otilde;</em>, e dellas toma
-o nome de <em>Jorda&otilde;</em>. Estas
-fontes deixamos &agrave; ma&otilde; esquerda,
-quando vamos de <em>Damasco</em> a
-<em>Tyro</em>, e
-<em>Sydonia</em>.<br />
-
-<br />
-
-Passado o rio Jorda&otilde;, entr&agrave;mos na
-<em>Syria</em>, que commummente
-se chama <em>Suria</em>, e em trez dias
-cheg&agrave;mos a <em>Damasco</em>.
-Na&otilde; vimos cousa notavel neste caminho, s&oacute;mente
-encontr&agrave;mos muitos Senhores, e Cavalheiros Turcos,
-acompanhados
-de muita gente de p&egrave;, e cavallo, e muitos camellos
-carregados com as suas recamaras, mulheres, e familia,
-que fazia&otilde; jornada para o
-<em>Cayro</em>. Neste mesmo caminho me
-lembra sempre, quando hum Turco me deu com hum pao,
-s&oacute;mente por passatempo, e foy rindo com os seus
-companheiros.
-Antes de chegarmos &agrave; Cidade quatro legoas, a vimos;
-porque se descobre assentada ao p&egrave; do <em>Monte
-Libano</em>.
-He muito fermosa pelas muitas Torres, que tem; e pela
-abundantissima veiga. Legoa e meya antes que nella entrassemos,
-pass&agrave;mos muitas hortas, assudes, fontes, e sitios
-frescos, e aprasiveis. A tarde antes, e o dia, em que
-entr&agrave;mos,
-vimos sahir, e entrar nella mais de mil camellos,
-com provimentos necessarios. Entr&agrave;mos, e and&agrave;mos
-grande
-parte della primeiro que chegassemos &agrave; pousada, que foy
-na <em>Alfandega</em>, sempre a p&egrave;
-porque na&otilde; consentem os Turcos,
-que entremos a cavallo; nos seus Povos, e pelas jornadas
-s&oacute;mente nos permittem jumentos.
-<br />
-
-<br />
-
-<span class="pagenum">[47]</span>
-Tem esta Cidade em todas as ruas, ao menos huma
-fonte. He a mais abundante do necessario para a vida, assim
-de comestivel, como de sedas, brocados, panos, t&egrave;las,
-&amp;c.
-que na&otilde; creyo haja outra no Mundo. He a sua
-Povoa&ccedil;a&otilde;,
-pouco menos, que a de <em>Sevilha</em>. Por
-f&oacute;ra na&otilde; parecem as
-casas bem, ainda que por dentro ha muitas principaes, e apparatosas.
-Ha nella, como dizia&otilde;, quatro centas mil Mesquitas,
-bem edificadas, e todas tem &agrave; porta fonte, para se lavarem,
-os que entra&otilde; a fazer sua ora&ccedil;a&otilde;. Por
-f&oacute;ra vimos muitas,
-porque dentro na&otilde; podemos entrar na f&oacute;rma que
-est&agrave; dito.<br />
-
-<br />
-
-Estivemos nesta Cidade cinco dias, e quasi todos os
-Peregrinos enferm&agrave;ra&otilde;, porque dormiamos no
-cha&otilde;, e em
-mao aposento; por&egrave;m Deos me reservou pela sua misericordia,
-com saude, para tratar delles. Havia naquelle
-tempo em Damasco hum Cavalheiro Veneziano, chamado
-<em>Bernardo</em>, Consul dos Italianos, que
-nos deu nestes dias de
-comer regaladamente, com que repar&agrave;mos o damno, que
-experiment&agrave;vamos de na&otilde; ter comido de
-<em>Jerusal&eacute;m</em> at&egrave;
-&agrave;quella Cidade mais que pa&otilde;, uvas, e agua; porque
-ainda
-que na&otilde; falta de comer, como na&otilde; ha estalagens
-para os Christ&atilde;os,
-pass&agrave;mos mal, pois pous&agrave;mos nos curraes, e
-estrevarias
-em companhia de camellos, e bufallos. Com este Cavalheiro,
-e hum Religioso de <em>Sa&otilde;
-Francisco</em>, que o
-<em>Bax&agrave;</em>
-ViRey, e Senhor da Cidade tinha em sua casa por ayo de
-seus filhos, de quem s&oacute;mente os fiava, e na&otilde; de
-Turcos, ou
-Mouros, and&agrave;mos muitas vezes a mayor parte da Cidade
-passeando-a, para a vermos, e para comprar algumas cousas
-para a nossa jornada.<br />
-
-<br />
-
-Celebrava&otilde; os Turcos, e Mouros nestes dias que alli
-estivemos a sua <em>Paschoa</em>, que durou
-trez dias, em que todos
-andava&otilde; muito alegres. Em hum destes hia eu por huma
-rua, em que havia muita gente, vi, que hum Turco andava
-a cavallo correndo por entre elles, e era necessaria grande
-<span class="pagenum">[48]</span>
-destreza para os que estava&otilde; na&otilde; ficarem
-atropellados.
-Levava hum alfange n&ugrave;, e estava bastantemente borracho,
-pelo que abrio a cabe&ccedil;a a hum Mouro com huma s&oacute;
-cutilada.
-Eu me escondi entre os Mouros, e passou como rayo. Delle
-escapey diligentemente, porque sem duvida gostaria de
-dar outra tal, vendo hum Christa&otilde;. Este foy o encontro,
-que tive de receyo; pois sempre and&aacute;mos pela Cidade, vendo
-suas festas, sem que nos offendessem. Na&otilde; deve esta
-Cidade nada &agrave;s melhores do Mundo. He habitada de Turcos,
-Mouros, e Judeos Mercadores, e de muitas na&ccedil;oens de
-Christ&atilde;os, que sa&otilde; o mais viandantes. Em todos os
-officios
-tem bons officiaes; e muito particularmente os que tecem
-sedas; o que vimos na casa de hum Turco, em que se tecia
-o melhor brocado, que vi na minha vida. Bem merece
-esta Cidade o ser Cabe&ccedil;a da
-<em>Syria</em>. O que nella ha que ver
-de devo&ccedil;a&otilde;, he a casa de
-<em>Ananias</em>, Discipulo de
-<em>Christo nosso
-Redemptor</em>, em que lhe fallou, e mandou, que fosse
-buscar
-a <em>Sa&otilde; Paulo</em> j&aacute;
-convertido, que estava orando, e o foy a bautizar,
-e confortar. Mostr&aacute;ra&otilde;-nos o muro, por donde a
-este
-<em>Santo Apostolo</em> o
-lan&ccedil;&aacute;ra&otilde; os Christ&atilde;os em
-huma alcofa,
-e assim escapou delRey <em>Aveta</em>, que o
-queria matar.
-Mostr&aacute;ra&otilde;-nos tambem em huma pra&ccedil;a
-huma pedra cercada
-com humas grades, e della dizem, subio a cavallo Sa&otilde;
-Jorge, quando foy a matar a Serpente. S&oacute;mente escrevo o
-que vi, e o que nos dissera&otilde;.<br />
-
-<br />
-
-Chegou o tempo de fazermos viagem para Veneza,
-e o Consul Veneziano, que nos regalou neste tempo, ajustou
-com huns Mouros honrados, e fieis para nos levarem
-&agrave; Cidade de <em>Tripoli</em>,
-donde nos haviamos de embarcar,
-que tambem est&aacute; na <em>Syria</em>.
-Alcan&ccedil;&aacute;mos ainda em
-<em>Damasco</em>
-a Festa de <em>Todos os Santos</em>, e o dia
-dos Fieis Defuntos, e dissemos
-Missa no aposento do Consul encerrados, e era
-quanto celebravamos, esperava&otilde; de f&oacute;ra
-<em>Mouros</em>,
-<em>Turcos</em>,
-<em>e</em>
-<span class="pagenum">[49]</span>
-<em>Judeos</em>, que vinha&otilde; a
-negociar, para nos na&otilde; perturbar.<br />
-
-<br />
-
-Tratouse antes de sahirmos da Cidade, do caminho
-mais direito para <em>Tripoli</em>; e nos
-diss&eacute;ra&otilde;, que pelo <em>Monte
-Libano</em>, por onde viera hum Cavalheiro Veneziano,
-na&otilde;
-fossemos; porque nelle havia muitos ladroens Arabes, e o
-monte estava muito cheyo de neve: e assim rodeando, como
-vinte legoas ao nosso Mediterraneo, sahimos de
-<em>Damasco</em>.
-Vimos <em>Tyro</em>, e
-<em>Sydonia</em>; pass&aacute;mos por
-<em>Baruth</em>, e por suas
-hortas fresquissimas. Por este caminho sera&otilde; como quarenta
-e cinco legoas de <em>Damasco</em> a
-<em>Tripoli</em>.<br />
-
-<br />
-
-He esta ribeira da <em>Syria</em>, de
-excellente terra, grandes
-montes, muitas, e boas herdades, e algumas de Christ&atilde;os
-Maronitas, que vivem no <em>Monte
-Libano</em>, junto a
-<em>Tripoli</em>.
-Ha por estes montes perdizes, e outras ca&ccedil;as de Europa;
-e muitos rios, e passagens por regates, que baixa&otilde; do
-<em>Libano</em> ao Mediterraneo.<br />
-
-<br />
-
-Passando a ribeira do mar, fomos por hum caminho
-estreito aberto nas penhas, e cheg&aacute;mos a hum rio, que
-pass&aacute;mos
-por huma fermosa ponte do tempo dos Romanos.
-Alli se l&ecirc; em duas pedras hum letreiro Latino, e outro
-Arabigo,
-em que se faz memoria dos Emperadores <em>Marco
-Antonio</em>,
-e <em>Marco Aurelio</em>. Chama-se o rio
-<em>Ca&otilde;</em>, por certa fabula
-dos Gentios, que dizem, que este Ca&otilde;, que era de
-pedra, dizia aos desta terra, quando havia de haver guerra,
-ou alguma fatalidade, e depois o
-lan&ccedil;&aacute;ra&otilde; no rio, que
-tomou o seu nome. Eu o vendo pelo pre&ccedil;o, que o comprey.
-Cada hum crea o que lhe parecer.<br />
-
-<br />
-
-He este <em>Monte Libano</em> muito grande, e
-atravessa muita
-terra de Damasco at&egrave; o mar. Tem muitos bra&ccedil;os, e
-o
-principal vay direito a Tripoli, e passando duas legoas a
-diante da Cidade, se v&ecirc; bem a parte mais alta, que toda
-estava
-cuberta de neve. Deste monte se cortou a madeira para
-o <em>Templo de Salama&otilde;</em>. Ha
-nelle boas vinhas, e o vinho
-<span class="pagenum">[50]</span>
-dellas he excellentissimo. He digno de se ver, pelas muitas
-vezes, que a Santa Escritura faz delle memoria. No dia,
-que cheg&aacute;mos a <em>Tripoli</em>
-choveo muito, pelo que na&otilde; sahio
-huma grande embarca&ccedil;a&otilde;, e tinhamos grande desejo
-de a alcan&ccedil;armos.
-Deos nosso Senhor parece que a guardou por
-sua infinita bondade para virmos nella; porque ainda que
-havia outras naos para
-<em>Constantinopla</em>, e para outras partes
-de <em>Italia</em>, e
-<em>Fran&ccedil;a</em>, esta vinha em
-direitura a <em>Veneza</em>.<br />
-
-<br />
-
-He a Cidade de <em>Tripoli</em> na
-<em>Syria</em> muito boa, e de fortes
-casas. A sua Povoa&ccedil;a&otilde; est&aacute; em trez
-montesinhos, junto
-ao mar; ainda que o porto est&aacute; desviado meya legoa. He
-fresquissima, abundante de aguas, e hortas, laranjas, limoens,
-palmas, e tudo o mais que tem huma terra fertil.
-He escala dos Mercadores de meyo Mundo, de Poente, Levante,
-e India Oriental. Na nossa nao viera&otilde; para hirem para
-Veneza nove Mercadores Italianos, que vinha&otilde; da India,
-a que ha mais de duas mil legoas por terra, passando quarenta
-dias por desertos, como nos affirm&aacute;ra&otilde;, e por
-caminhos
-de area, adonde nem se acha agua, nem que se coma:
-pelo que trazem o que ha&otilde; de comer, e beber em camellos,
-que commummente costuma&otilde; trazer mil em companhia.<br />
-
-<br />
-
-Recolhemonos em <em>Tripoli</em> em h[~u]a
-casa de Religiosos,
-e Peregrinos, que he como hum Convento, em que esta&otilde;
-ordinariamente trez Religiosos de <em>Sa&otilde;
-Francisco</em>, mandados
-pelo Padre Guardia&otilde; de Jerusalem, que sa&otilde; como
-Curas dos
-Mercadores Italianos, que alli esta&otilde;.<br />
-
-<br />
-
-He esta Cidade habitada de Turcos, Mouros, e Judeos.
-O Padre Guardia&otilde; nos acompanhou a todos, Religiosos,
-e Peregrinos at&egrave; a embarca&ccedil;a&otilde;: e
-excepto os Religiosos, nos
-embarc&agrave;mos sete Peregrinos.
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[51]</span>
-<em>Da nossa viagem de Tripoli at&egrave;
-Veneza.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Sahidos do porto de <em>Tripoli</em>,
-naveg&aacute;mos, e pouco a pouco
-cheg&aacute;mos &agrave; Ilha de
-<em>Chypre</em>, passando &agrave; vista
-de <em>Famagusta</em>,
-Cabe&ccedil;a deste Reyno; e d&eacute;mos vista de
-<em>Candia</em>,
-costeando pela Turquia, at&eacute; chegar &agrave;
-<em>Morea</em>, &agrave; vista de
-<em>Modon</em>. Daqui caminh&aacute;mos a
-<em>Zante</em>, em que estivemos dez
-dias, e logo a <em>Corfu</em>, adonde
-estivemos e celebr&aacute;mos a Festa
-do <em>Nascimento de Christo Senhor
-nosso</em>. He esta Ilha de
-<em>Corfu</em>,
-huma das mayores for&ccedil;as, que os Venezianos tem na
-<em>Grecia</em>;
-e como tal, he de muita considera&ccedil;a&otilde;, por ser
-como chave de
-Italia.<br />
-
-<br />
-
-Pass&aacute;mos a costa de
-<em>Esclavonia</em>,
-<em>Albania</em> e
-<em>Dalmacia</em>,
-e cheg&agrave;mos &agrave; agradavel Ilha, e Cidade de
-<em>Lesna</em>, e nos
-hosped&aacute;ra&otilde; os Religiosos de
-<em>Sa&otilde; Francisco</em> no seu
-Convento
-por espa&ccedil;o dos cinco dias em que houve no mar grande
-tormenta.
-Falla&otilde; aqui os naturaes a lingua
-<em>Esclavonica</em>, ainda
-que entendem a <em>Italiana</em>. A Cidade he
-pequena; tem boas,
-e fortes casas, e bom porto. Daqui viemos pela costa de
-<em>Istria</em>
-&agrave; Cidade, e Bispado de
-<em>Paren&ccedil;o</em>, e sahindo da nao
-em
-hum barco, pass&aacute;mos a
-<em>Veneza</em>, a que ha quarenta legoas,
-adonde cheg&aacute;mos com saude, e alegria, e a Deos
-d&eacute;mos as
-gra&ccedil;as por nos levar, e trazer de ta&otilde; Santa
-viagem, e jornada
-ta&otilde; perigosa por mar, e terra. Gast&aacute;mos de
-<em>Tripoli</em> a
-<em>Veneza</em>
-a sessenta e seis dias. Entr&aacute;mos na Cidade em 19. de Janeiro
-do anno 1589. e desde que della sahimos, at&egrave; que
-torn&agrave;mos,
-pass&aacute;ra&otilde; cinco mezes, e cinco dias.<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><em>Da jornada, que
-fizemos de Veneza at&egrave;
-Sevilha.</em><br />
-
-</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-Detivemonos mez e meyo em Veneza, por repararmos
-a saude, e socegarmos do trabalho do caminho, recolher,
-e emendar os meus livros, que achey estampados. Hospedou-nos
-<span class="pagenum">[52]</span>
-hum Cantor da <em>Senhoria</em>, chamado
-<em>Antonio de
-Ribera</em>, que me regalou de modo, que meus pays se
-fora&otilde;
-vivos, e alli se ach&aacute;ra&otilde;, o na&otilde;
-faria&otilde; melhor, nem com mais
-amor, o que foy causa, de que nos restituissemos ao que
-eramos, pois vinhamos muito maltratados.<br />
-
-<br />
-
-Sahidos de Veneza, viemos a <em>Ferrara</em>,
-<em>Bolonha</em>,
-<em>Floren&ccedil;a</em>,
-<em>e Pisa</em>, Cidades principaes de
-<em>Italia</em>. Cheg&aacute;mos a
-<em>Leorne</em>,
-porto de <em>Toscana</em>, procurando as
-Gal&eacute;s do <em>Gra&otilde; Duque
-de Floren&ccedil;a</em>, que partia&otilde; para
-Marselha, a buscar a <em>Gra&otilde;
-Duqueza</em> sua esposa, filha do <em>Duque
-de Lorena</em>. Estava o
-<em>Gra&otilde; Duque</em> em
-<em>Leorne</em>, e me fez a merce de me
-admittir
-a beijarlhe a ma&otilde;. Mandoume aposentar, e dar o necessario
-com toda a grandeza; e me prometteo de me acc&oacute;modar nas
-Gal&eacute;s do <em>Papa</em>, que estava
-esperando por instantes para hirem
-em companhia das suas, que j&agrave; tinha&otilde; partido com
-as
-de <em>Genova</em>, e
-<em>Malta</em>, que por todas era&otilde;
-dezaseis, adornadas,
-e armadas com toda a magnificiencia, como para a occasia&otilde;
-de bodas de ta&otilde; grande Principe.<br />
-
-<br />
-
-Cheg&agrave;ra&otilde; as Gal&eacute;s do
-<em>Papa</em>, e o Capita&otilde; General
-a
-rogo do <em>Gra&otilde; Duque</em>, me
-recebeo, e me regalou na sua Capitania,
-trazendo-me na camera de popa, e dandome a sua
-mesa, e tambem tratado cheguey a
-<em>Marselha</em>, que na&otilde;
-estranhey
-o mar, pois nelle tive todos os regalos da terra.<br />
-
-<br />
-
-Na Semana Santa entrey em <em>Marselha</em>,
-e nella tive a
-<em>Paschoa</em>; e como as Gal&eacute;s
-fic&aacute;ra&otilde; esperando a
-<em>Duqueza</em>,
-fret&aacute;mos hum Bergantim para virmos a
-<em>Barcelona</em>, em que
-embarc&aacute;mos dous Genovezes, (hum se chamava
-<em>Joa&otilde; Ansaldo</em>)
-dous Italianos, e dous Hespanhoes.<br />
-
-<br />
-
-Sahimos do porto com hum pouco de mao tempo, e
-com o desejo de tornar para
-<em>Marselha</em>, tanto que nos fizemos
-ao largo; e tendo caminhado como cinco legoas; entr&aacute;mos
-no abrigo de huma calheta, por na&otilde; podermos passar a
-diante. Apenas puzemos os p&eacute;s em terra, quando vimos
-<span class="pagenum">[53]</span>
-junto a n&ograve;s hum Bergantim, que entendemos, vinha, como
-o nosso, a esperar, que o tempo melhorasse. Vinha elle cheyo
-de arcabuzeiros ladroens, e muitos Lutheranos; e descubrindo-se
-com os arcabuzes &agrave; cara, lhes diss&eacute;mos,
-<em>que se
-detivessem, que nos d&aacute;vamos por rendidos</em>,
-porque se nos puzessemos
-em resistencia, nos perdiamos, pois em o nosso Bergantim
-s&oacute;mente havia espadas, e dous arcabuzes mal preparados;
-e ainda que fossem mais, era&otilde; poucos; e assim melhor
-era salvar as vidas. Estes soldados (ou ladroens, por melhor
-dizer) entrara&otilde; no nosso Bergantim,
-tom&aacute;ra&otilde;-nos as chaves
-dos nossos alforges, e maletas, e tudo revolvera&otilde;,
-na&otilde; deixando
-cousa em seu lugar. Estavamos n&ograve;s em terra, vendo
-o que passava, e esperando o fim destes ladroens, com
-ta&otilde; pouca esperan&ccedil;a de vida, olhando huns para os
-outros
-sem dizer palavra. Era j&aacute; quasi noite, quando nos
-mand&aacute;ra&otilde;
-entrar em o seu Bergantim, e tom&aacute;ra&otilde; posse da
-nossa
-roupa, e armas; e nos fizera&otilde; tornar a traz a huma Fortaleza
-em que vivia&otilde;, e donde sahia&otilde; a fazer estes
-roubos. Antes
-que a ella nos levassem, nos puzera&otilde; em huma camara
-cheya de palha, e junto a ella muita lenha, e todos
-estivera&otilde;
-de f&oacute;ra fallando na sua lingoa: e n&ograve;s
-encomendando-nos
-a Deos, com o temor de que aquelles Hereges nos queimassem;
-por&egrave;m <em>Deos nosso Senhor</em>
-nos tirou deste temor, e perigo.<br />
-
-<br />
-
-Levara&otilde;-nos dahi a pouco &agrave; Fortaleza,
-dera&otilde;-nos de
-cear, e as suas pobres camas; e come&ccedil;&aacute;mos a
-perder o medo.
-D&eacute;mos &agrave; mulher do Capita&otilde; alguns
-escudos de ouro, e ella
-nos assegurou, que na&otilde; haveria perigo em nossas vidas.
-Trez dias estivemos desta maneira, sem nos deixarem sahir,
-nem aos nossos marinheiros, que tambem estava&otilde; prezos
-comnosco; e come&ccedil;&aacute;mos a tratar da nossa
-liberdade, sendo
-medianeiro hum <em>Francez</em> que hia, e
-vinha. Pedio o Capita&otilde;
-por cada hum de n&ograve;s cem escudos, e que nos daria a roupa;
-<span class="pagenum">[54]</span>
-ao que respondemos, que os na&otilde; tinhamos, que fizesse
-o que quizesse.<br />
-
-<br />
-
-Neste tempo chegou hum homem de Marselha desta
-companhia; e na&otilde; soubemos que ordem trouxe; por&egrave;m
-o Capita&otilde;
-disse logo, <em>que de n&ograve;s na&otilde;
-queria cousa alguma, porque
-elles era&otilde; Christ&atilde;os, e n&ograve;s tambem;
-mas que como pobres soldados
-necessitava&otilde;</em>. Cada hum deu o que pode; a
-mim me custou
-a minha roupa vinte e cinco escudos; e deramos no dia, em
-que nos prendera&otilde;, pela seguran&ccedil;a da vida, quanto
-nos pedissem.
-Aqui estivemos oito dias, e nos embarc&aacute;mos com
-seu beneplacito, acompanhando nos o Capita&otilde;, e companheiros
-trez, ou quatro legoas no seu Bergantim, e n&ograve;s no
-nosso. Quando se apartou nos disse, <em>que na&otilde;
-tornassemos a
-Marselha; porque se tornassemos, e elle nos colhesse, nos cortaria
-as cabe&ccedil;as</em>; e certamente o fariamos se
-podessemos, para
-que se soubesse de semelhantes Hereges ladroens.<br />
-
-<br />
-
-Caminh&aacute;mos dous dias por esta costa de
-<em>Fran&ccedil;a</em>, e na
-Provincia de <em>Languedoc</em> em huma
-manh&atilde;a, caminhando n&ograve;s
-a remo, vimos sahir outro Bergantim com muita pressa de
-hum rio, e que nelle entrava alguma gente de terra, e
-come&ccedil;ou
-a remar para o nosso, por&egrave;m os nossos marinheiros
-tanto trabalh&aacute;ra&otilde;, que nos na&otilde;
-pudera&otilde; alcan&ccedil;ar; por&egrave;m
-quando cuid&aacute;mos, que estavamos livres delle, appareceo
-hum navio &agrave; v&egrave;la, que vinha contra
-n&ograve;s. Entendemos, que
-seria navio, que caminhava para Levante; mas logo que
-emparelhou com o nosso Bergantim, amainou, e mandou
-que parassemos, e se descubrira&otilde; doze arcabuzeiros
-ladro[~e]s,
-e Lutheranos, que com as armas &agrave; cara nos
-rendera&otilde;, e entrara&otilde;
-o nosso Bergantim, e de n&ograve;s, e da roupa fizera&otilde; o
-mesmo, que os outros ladroens Lutheranos, ainda depois
-de lhe darmos o que levavamos nas bol&ccedil;as. Atara&otilde;
-o nosso
-Bergantim ao seu navio, e nos lev&aacute;ra&otilde; como huma
-legoa, rio
-acima, junto ahuma Povoa&ccedil;a&otilde;, que
-chama&otilde; <em>Cirinhan</em>. Esta
-<span class="pagenum">[55]</span>
-segunda priza&otilde; nos deu mais temor da morte, porque como
-disse hum dos soldados a <em>Joa&otilde;
-Ansaldo</em>, teve o arcabuz &agrave;
-cara para me matar, e disparando-o, errou o tiro, ou passou
-por alto; o que todos attribuimos, a que neste tempo nos
-encomend&aacute;mos &agrave; <em>Virgem Senhora de
-Monserrate</em>, fazendo
-voto de ir visitar a sua Casa, e de lhe dizer Missa. Passadas
-quatro horas, estando assim, veyo hum Cavalheiro, Alferes
-desta terra, e tomou por conta em hum rol toda a nossa
-roupa, e ordenou se guardasse no navio; e logo nos levou
-a huma Villa distante huma legoa, rogando-me, para que
-aceitasse o seu cavallo, e que elle como mais mo&ccedil;o
-caminharia
-a p&egrave;, de que todos lhe d&eacute;mos o agradecimento, e
-chegados ao lugar, a todos dera&otilde; pousada, e a mim me levou
-para sua casa, adonde me regalou.<br />
-
-<br />
-
-Neste lugar reside hum Cavalheiro, Senhor de dous
-lugares, este nos recebeo alegremente, e dando-nos palavra
-de seguran&ccedil;a (porque era Catholico Romano) nos disse
-escreveria
-ao <em>Duque Motmoranci</em>, Senhor da
-Provincia de
-<em>Languedoc</em>. Era Secretario deste
-Duque hum <em>Genovez</em> parente,
-e amigo de <em>Joa&otilde; Ansaldo</em>;
-e tanto que soube da nossa
-priza&otilde;, fez toda a diligencia pela nossa liberdade; e por
-elle nos mandou despachar o Duque, e nos deu hum passaporte,
-para que se encontrassemos outros navios do seu destricto,
-tivessemos seguran&ccedil;a; pelo que sahimos alegres, ainda
-que alguns escudos nos fic&aacute;ra&otilde; nas
-m&atilde;os dos soldados.<br />
-
-<br />
-
-Sahimos daqui, e em quatro dias cheg&aacute;mos a
-<em>Barcelona</em>,
-aonde d&eacute;mos gra&ccedil;as a Deos por nos livrar destes
-ladroens
-Francezes Lutheranos, e de muitas Galeotas de Turcos,
-que andava&otilde; por esta costa, das quaes tomou nove o filho
-de <em>Andr&egrave; Doria</em>. Digo
-certamente, que tendo andado
-por tantos, e ta&otilde; varios caminhos entre Turcos, Mouros, e
-Arabes, na&otilde; tivemos o perigo, e pezar que padecemos na
-Fran&ccedil;a. Visit&aacute;mos a <em>Virgem
-Santissima de Monserrate</em>, e lhe
-<span class="pagenum">[56]</span>
-d&eacute;mos as gra&ccedil;as pelas merces que
-<em>Deos nosso Senhor</em> nos fez,
-por sua intercessa&otilde;; e logo tom&aacute;mos o caminho de
-<em>Valen&ccedil;a</em>,
-<em>Murcia</em>,
-<em>Granada</em>, e cheg&aacute;mos a
-Sevilha, eu, e meu
-companheiro Francisco Sanches, com saude, adonde com
-muito contentamento fuy recebido de todos, especialmente
-do Illustrissimo Cardeal, o Senhor Dom Rodrigo de Castro,
-e do Cabido da Santa Igreja.<br />
-
-<br />
-
-Dey conta neste breve tratado da minha viagem &agrave;
-<em>Terra Santa</em>, com toda a verdade
-Christ&atilde;a, a todo o que
-desejar saber o caminho. De <em>Sevilha</em>
-a <em>Jerusalem</em> ha mil e
-quatro centas legoas de ida; e pela volta, que dey, pela Cidade
-de Damasco, entendo, que de ida, e vinda, ha trez
-mil legoas. He facil andar este caminho, pois eu o andey,
-tendo sessenta annos; pelo que se animem os mo&ccedil;os, e que
-tem possibilidade, a fazerem ta&otilde; Santa viagem; que eu lhes
-certifico, que depois de vistos ta&otilde; Santos Lugares, seja tal
-o seu contentamento, que o anteponha&otilde; ao de possuirem todos
-os thesouros do Mundo.<br />
-
-<br />
-
-<h2>FIM.</h2>
-
-<br />
-
-<div style="text-align: center;"><em><img style="width: 250px; height: 189px;" alt="" src="images/fig01.png" /></em><br />
-
-<em></em></div>
-
-<em><br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-<br />
-
-</em>
-<div class="fbox">
-<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
-
-<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
-listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
-
-<br />
-
-<br />
-
-<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
-
- <tbody>
-
- <tr align="right">
-
- <td style="width: 61px;"></td>
-
- <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
-
- <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
-
- <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
-
- </tr>
-
- <tr>
-
- <td style="text-align: right;">
- <a name="e1" id="e1"></a><a href="#p25">#p&aacute;g. 25</a></td>
-
- <td style="text-align: center;">C,ancarra&otilde;</td>
-
- <td style="text-align: center;">...</td>
-
- <td style="text-align: center;">&Ccedil;ancarra&otilde;</td>
-
- </tr>
-
- </tbody>
-</table>
-
-<div style="text-align: center;"><br />
-
-<br />
-
-</div>
-
-</div>
-
-</div>
-
-<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30091 ***</div>
-</body>
-</html>
+<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd">
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+ <title>Itinerario da viagem</title>
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+ </style>
+</head>
+
+
+
+<body>
+<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30091 ***</div>
+
+<div>
+<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+exist&ecirc;ncia de erros tipogr&aacute;ficos neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Set. 2009)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<h1>
+ITINERARIO<br />
+
+<br />
+
+DA<br />
+
+<br />
+
+VIAGEM,</h1>
+
+<h4>
+QUE FEZ A JERUSALEM O M. R. P.<br />
+
+<br />
+
+FRANCISCO GUERREIRO,<br />
+
+<br />
+
+<em>Racioneiro, e Mestre da Capella da Santa Igreja de
+Sevilha,<br />
+
+natural da Cidade de B&eacute;ja.</em></h4>
+
+<h4>
+OFFERECIDO<br />
+
+<br />
+
+AO SENHOR<br />
+
+<br />
+
+ANTONIO VAN-PLATE,<br />
+
+<br />
+
+Familiar do Santo Officio.</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 250px; height: 189px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">LISBOA OCCIDENTAL,<br />
+
+<br />
+
+Na Officina de DOMINGOS GON&Ccedil;ALVES,<br />
+
+Impressor dos Monges das Covas de Mont-furado.<br />
+
+<br />
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+M. DCC. XXXIV.<br />
+
+Com todas as licen&ccedil;as necessarias.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 550px; height: 157px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+AO SENHOR<br />
+
+<br />
+
+ANTONIO VAN-PLATE,</h3>
+
+<h3><br />
+
+Familiar do Santo Officio, &amp;c.</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Este breve Itinerario da viagem dilatada,
+que fez a Jerusalem o Reverendo Padre Francisco Guerreiro,
+natural da Cidade de B&egrave;ja, Racioneiro, e Mestre de Capella
+da Santa Igreja Metropolitana de Sevilha, bem conhecido
+pelos seus ascendentes, os Guerreiros de Campo de Ourique,
+e pelas obras de musica, que fez estampar, sempre admiradas,
+e nunca imitaveis, impresso pelo original Portuguez,
+que deixou escrito de sua ma&otilde;, muito differente daquelle,
+que
+os Sevilhanos adulterara&otilde;, e publicara&otilde; em outro
+seculo no
+seu idioma, offere&ccedil;o a vossa merce; na&otilde; para
+incitar mais o
+affecto, com que me deseja favorecer, que conhe&ccedil;o
+na&otilde; poder
+crescer mais, como experimento, sim por me mostrar agradecido
+a tantos beneficios, que recebo, e espero receber de sua
+Catholica, e politica generosidade.<br />
+
+<br />
+
+He este o primeiro original, que publico; e como vossa
+merce apadrinhou o acto de meu mayor empenho, honrando-me
+com a sua assistencia, em outra occasia&otilde;, agora desejo
+tambem
+que me fa&ccedil;a a honra de o patrocinar, pois pela materia, pelo
+Escritor, pelas noticias que inclue, e pela antiguidade, he digno
+do seu nobilissimo, e piedoso influxo.<br />
+
+<br />
+
+Tendo eu a certeza de que he do agrado de vossa merce,
+espero que o seja de todos, pois a estima&ccedil;a&otilde;
+vulgar sempre imita
+a particular estima&ccedil;a&otilde; de sogeitos da
+esf&eacute;ra de vossa merce;
+que entendo ser&aacute; correspondente ao desejo, que tenho de
+obsequiar
+a vossa merce, a quem Deos guarde.</em><br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">Af. V. e C. de V. M.<br />
+
+q. s. m. b.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">
+<em>Joa&otilde; de Carvalho.</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>ITINERARIO
+DA TERRA SANTA</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tendo eu, pela misericordia Divina, visitado
+os Lugares da Terra Santa, muitos devotos
+me pedira&otilde; escrevesse esta Santa viagem,
+para que &agrave; vista do que eu vi, se abrazassem
+os seus animos, procurando seguir
+o mesmo caminho, e serem informados do
+que lhe era necessario para este fim: e por
+condescender com os seus desejos, e pelo gosto, que tenho
+da suave memoria de o haver andado, na&otilde; me ser&aacute;
+molesto
+o fazer huma breve rela&ccedil;a&otilde; do que tenho visto: e
+para dar
+melhor noticia do movimento, que tive, para fazer esta
+peregrina&ccedil;a&otilde;, he preciso come&ccedil;ar do
+tempo, que me incliney
+a desejar ver cousas ta&otilde; dignas de hum peito Catholico.<br />
+
+<br />
+
+Depois que meus pays, e familia passara&otilde; da Cidade
+de Beja, minha Patria, a viverem na Villa de Zafra, me appliquey
+&agrave; arte de musica, e nella me doutrinou meu irma&otilde;
+Pedro Guerreiro, doutissimo na faculdade; e tanto fez com
+o castigo, e com a doutrina, sendo grande o desejo, que tinha
+<span class="pagenum">[2]</span>
+de saber, e o meu engenho accommodado &agrave; dita arte, que
+em poucos annos teve gosto, e satisfa&ccedil;a&otilde; de mim.
+Foy preciso
+o ausentarse; e eu desejando aperfei&ccedil;oarme, tive modo,
+para ser admittido &agrave;s li&ccedil;oens do grande, e
+excellente Mestre
+Christova&otilde; de Morales, o qual me deu grande luz na
+composi&ccedil;a&otilde; da musica, e me poz capaz de qualquer
+Magisterio;
+tanto, que tendo de idade dezoito annos, fuy recebido
+por Mestre de Capella, e Racioneiro da Igreja Cathedral
+de Jaem, occupa&ccedil;a&otilde;, que servi trez annos. Neste
+tempo
+vim a Sevilha a visitar a meus pays, que enta&otilde; se
+achava&otilde;
+nesta Cidade, e o Cabido da Santa Igreja me deu huma
+pra&ccedil;a de Cantor com bastante salario; e por obedecer a
+meus pays, que desejava&otilde;, e necessitava&otilde; da minha
+companhia,
+deixey o Magisterio, e Ra&ccedil;a&otilde; de Jaem, estimando a
+honra, que me fazia o Cabido da Santa Igreja, ainda que
+era mayor, e de mais conveniencia a pra&ccedil;a, que deixava.<br />
+
+<br />
+
+Poucos mezes tinha eu de residencia nesta Santa Igreja,
+quando entre seis oppositores, que havia ao Magisterio
+de Malaga, tive a primeira nomea&ccedil;a&otilde;, por me
+quererem
+favorecer o Illustrissimo Senhor Dom Bernardo Manrique,
+Bispo desta Santa Igreja, e o Illustrissimo Cabido, e na&otilde;
+por merecimentos meus; e mandada a nomea&ccedil;a&otilde; a
+ElRey,
+por sua ordem tomey posse por hum Procurador. J&aacute; estava
+preparado para ir para a residencia da Ra&ccedil;a&otilde;, e
+Magisterio
+desta Santa Igreja; e o Cabido da de Sevilha me impedio
+honrosamente, na&otilde; permittindo, que eu me retirasse a Malaga;
+e para que com melhor titulo podesse deixar o que
+j&aacute; possuhia, ordenou, que o Senhor Racioneiro, e Mestre
+da Santa Igreja Pedro Fernandes, Mestre dos Mestres
+de Hespanha, nosso Portuguez, jubilasse, e se lhe d&eacute;sse
+meya Ra&ccedil;a&otilde;, e que eu tivesse a outra metade, e
+mais o salario
+de Cantor, com obriga&ccedil;a&otilde; de dar de comer, e o
+mais
+necessario aos Seyses Typles; e que se eu lhe supervivesse,
+<span class="pagenum">[3]</span>
+entrasse em toda a Ra&ccedil;a&otilde;. Vinte e cinco annos
+vivi com
+este grande sogeito na mesma casa, e depois que Deos o
+levou, fuy provido em toda a Ra&ccedil;a&otilde; por Bullas
+Apostolicas.<br />
+
+<br />
+
+Os deste exercicio todos sabem, que temos muito
+particular obriga&ccedil;a&otilde; de compor as
+Chan&ccedil;onetas, e Vilhancicos
+em louvor do Nascimento de Jesu Christo nosso Senhor,
+nosso Salvador, e nosso Deos, e de sua Santissima M&atilde;y
+a Virgem Maria Senhora nossa; e quando compunha as letras
+para as Matinas de ta&otilde; luzida noite, e se nomeava
+<em>Bethleem</em>,
+se me accrescentava a devo&ccedil;a&otilde;, e desejo de ver, e
+celebrar
+naquelle Lugar Santissimo estes cantares em companhia, e
+memoria dos Anjos, e Pastores, que l&aacute;
+come&ccedil;ara&otilde; a nos dar
+li&ccedil;a&otilde; desta Divina Festa: e ainda que esta
+perten&ccedil;a&otilde; era ta&otilde;
+grande, que me parecia impossivel o conseguilla, por muitos
+inconvenientes, que havia enta&otilde;, especialmente o de
+meus pays, propuz, ainda que na&otilde; fiz voto, de que se Deos
+me d&eacute;sse vida mais larga, que a delles, de fazer esta Santa
+viagem: pelo que tanto que Deos os levou desta vida, me
+pareceo, que tinha feito a mayor parte deste caminho.<br />
+
+<br />
+
+Estando sempre com este cuidado, de quando chegaria
+este tempo de me ver em ta&otilde; Santo caminho, succedeo,
+que no anno de 1588. nosso Santissimo Padre Papa Sixto
+V. mandou chamar ao Illustrissimo, e Reverendissimo Senhor
+Cardeal Dom Rodrigo de Castro, Arcebispo de Sevilha,
+e estando preparado para ir a Roma, lhe pedi me levasse
+no seu servi&ccedil;o, e pedisse ao Cabido o tivesse assim a bem,
+e assim o consegui por sua Senhoria Illustrissima.<br />
+
+<br />
+
+Tanto que cheg&agrave;mos a Madrid, deteve Sua Magestade
+ao Arcebispo, e como o Vera&otilde; entrasse muito caloroso,
+na&otilde; determinou passar a diante, at&egrave; que o tempo
+refrescasse;
+e eu como desejoso de me ver j&aacute; em Italia, vendo esta
+nova dila&ccedil;a&otilde;, pedi a Sua Senhoria Illustrissima
+me d&eacute;sse
+<span class="pagenum">[4]</span>
+licen&ccedil;a para hir a Veneza a estampar huns livros, entre
+tanto
+que fizesse tempo de proseguir a sua jornada, porque ao
+presente estava&otilde; em Carthagena as Gal&egrave;s do
+Gra&otilde; Duque de
+Floren&ccedil;a. O Cardeal na&otilde; s&oacute;mente me deu
+licen&ccedil;a, mas tambem
+me fez merce de me dar a ajuda necessaria para a jornada,
+e assim me parti a Carthagena, aonde achey outras Gal&egrave;s,
+que estava&otilde; para navegar, que embarquey para Genova,
+e dahi passey a Veneza, a que cheguey em oito de
+Agosto.<br />
+
+<br />
+
+A primeira diligencia que fiz, foy ajustar a imprenssa
+dos livros de musica; e dizendo-me o Impressor, que para
+se estamparem era necessario tempo de cinco mezes, disse
+a hum amigo meu: <em>Nesse tempo podia eu fazer a minha
+viagem
+a Jerusalem</em>; a que respondeo, dizendo:
+<em>Em boa occasia&otilde;
+fallais, pois ahi est&aacute; huma nao nova, e boa, que vay
+para Tripoli de Syria</em>; do que tive grande alegria; e
+tomando
+a correc&ccedil;a&otilde; dos livros &agrave; sua conta o
+Mestre Joseph Zertino,
+Mestre da Capella de Sa&otilde; Marcos, e da Senhoria de
+Veneza, Vara&otilde; doutissimo em musica, e outras artes liberaes,
+me concertey com o Escriva&otilde; da nao, ajustando de lhe
+dar cinco escudos pela embarca&ccedil;a&otilde;, e por comer
+com o
+Capita&otilde; sete cada mez, o que he ordinario.<br />
+
+<br />
+
+Foy meu companheiro em toda esta Santa viagem
+Francisco Sanches, meu discipulo, e assim alegremente nos
+embarcamos a quatorze de Agosto de 1588. tendo eu de
+idade sessenta, sem temor do mar, nem de tantas na&ccedil;oens
+inimigas, como se encontra&otilde; nesta
+peregrina&ccedil;a&otilde;, porque o
+gosto, que tinha desta jornada, me facilitava, e suavizava
+tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[5]</span>
+<em>Do caminho, que fizemos de Veneza a Jaffa, porto da
+Terra Santa.</em><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No dia seguinte, que se contava&otilde; quinze do dito mez,
+em que se celebrava a Assump&ccedil;a&otilde; da Virgem Senhora
+nossa, come&ccedil;amos a navegar lentamente, por termos pouco
+vento, e melhorando o tempo, cheg&agrave;mos &agrave; Cidade de
+<em>Paren&ccedil;o</em>, na Provincia de
+<em>Istria</em>; e daqui sahimos navegando
+prosperamente pela costa de
+<em>Dalmacia</em>, terra, e Patria
+do Maximo Doutor Sa&otilde; Jeronymo; e pela Esclavonia, e
+Albania, em quinze dias cheg&aacute;mos &agrave; Ilha de
+<em>Zante</em>, terra
+na <em>Grecia</em> de Venezianos, a que ha
+trezentas leguas de Veneza;
+deixando &agrave; ma&otilde; esquerda a Ilha de
+<em>Chafallonia</em>, e
+Golfo de <em>Lepanto</em>, adonde foy aquella
+grande batalha, que
+teve a Armada da liga Christ&atilde;a com a dos Turcos, e teve
+a vitoria a dos Christ&atilde;os, sendo General della o Senhor
+Dom Joa&otilde; de Austria, irma&otilde; delRey Filippe II.
+nosso Senhor.
+Retivemos em <em>Zante</em> quatro dias;
+Ilha, bem provida
+do necessario para a vida humana, especialmente de vinho,
+que o ha em abundancia, e muito excellente; e vindo
+muitas naos de Levante a Poente a carregar, para todas,
+e para os naturaes ha abundantemente.<br />
+
+<br />
+
+Toda esta terra he de Gregos, e s&oacute;mente os Governadores
+sa&otilde; Venezianos, como Senhores della. Tem dous
+Bispos; hum Grego, outro Latino. Tem duas Povoa&ccedil;oens;
+huma junto ao mar, outra em hum alto monte, em que est&aacute;
+huma boa Fortaleza. A mayor parte das Igrejas sa&otilde; de Gregos.
+Tem hum Convento de Religiosos de Sa&otilde; Francisco,
+adonde os Latinos dizemos Missa. Ouvimos aqui huma
+Missa aos Gregos; e a officiara&otilde; de Cantocha&otilde;
+Ecclesiasticos,
+e seculares. He o seu canto simples, e ignorante. Dizem
+a Missa com devo&ccedil;a&otilde;, e muitas ceremonias, e huma
+dellas he, que a materia de pa&otilde; fermentado, e vinho que
+<span class="pagenum">[6]</span>
+se ha de consagrar, a traz o Sacerdote sobre a cabe&ccedil;a no
+Caliz
+muito cuberta, sahindo por huma porta do Altar, que
+o divide do corpo da Igreja, e dando huma volta por ella,
+se torna a recolher ao mesmo Altar, incensando hum Ministro
+ante elle, e o Povo est&aacute; adorando, em joelhos, a
+materia, que ainda na&otilde; est&aacute; consagrada.
+Est&aacute; esta Ilha perto,
+e fronteira &agrave; Morea, que he
+<em>Corintho</em>, adonde Sa&otilde; Paulo
+escreveo duas de suas Epistolas.<br />
+
+<br />
+
+Partidos de <em>Zante</em>, nos engolfamos
+at&egrave; chegar &agrave; Ilha
+de <em>Candia</em>, que por outro nome se
+chama <em>Creta</em>, a que haver&aacute;
+duzentas leguas. Fomos costeando-a, quasi cem legoas,
+e sem desembarcar, entramos por outro Golfo, que
+ser&aacute; de outras duzentas legoas, pouco mais, ou menos, e
+chegamos &agrave; Ilha de Chypre, terra fertil, e fermosissima
+de tudo o que se p&ograve;de desejar. Esta Ilha, e Reyno possuem
+os Turcos de vinte annos a esta parte, ganhando-a por
+for&ccedil;a de armas aos Venezianos, que era&otilde; Senhores
+della,
+ficando os naturaes com suas casas, e fazendas, por&egrave;m
+sogeitos
+ao Turco. Os moradores sa&otilde; Gregos, e Latinos.
+Desde que sahimos de Veneza at&egrave; que cheg&aacute;mos a
+huma
+Cidade desta Ilha, que chama&otilde;
+<em>Limisol</em>, passara&otilde; vinte e
+sete dias.<br />
+
+<br />
+
+Desembarcados nesta Cidade, come&ccedil;amos a tratar
+com os Turcos, e ainda que com algum medo no principio,
+brevemente o perdemos; porque como os Venezianos
+tem paz com elles, e n&ograve;s os Peregrinos vamos a titulo
+de Venezianos, fallando na sua propria lingua, na&otilde; ha
+que temer. Do tempo da guerra ficou muito mal tratada
+esta Cidade. A Fortaleza est&aacute; arruinada da grande bataria,
+que lhe dera&otilde; os Turcos, e as Igrejas, e Cruzes, que
+estava&otilde;
+nas entradas, e a mayor parte das casas, esta&otilde; cahidas.
+Tem esta Ilha muitas cousas necessarias, e regaladas
+para a vida, muito pa&otilde;, e vinho, assucar, e grande
+quantidade
+<span class="pagenum">[7]</span>
+de algoda&otilde;, de que carrega&otilde; muitas naos para
+Levante,
+e Poente. Aqui reside hum Consul da na&ccedil;a&otilde;
+Franceza,
+e Italiana, que he o que est&aacute;, e se poem por meyo
+entre Christ&atilde;os, e Turcos, e com elle trat&agrave;mos os
+nossos
+negocios. Fomos a sua casa, e nella nos regalou; e delle
+soubemos da guerra, que o Turco tinha na Persia, e das
+companhias de gente, que passava&otilde; pela
+<em>Caramania</em>, que
+est&aacute; muito perto, na terra firme de Asia; e da boa
+occasia&otilde;,
+que havia na presente conjuntura, para tornar a cobrar
+este Reyno, pela pouca guarni&ccedil;a&otilde;, que nelle tem:
+por&egrave;m
+melhor he na&otilde; cuidar nisto, porque os Christ&atilde;os
+na&otilde; tratamos de recuperar o que perdemos; e temos
+experiencia,
+que o que estes Barbaros conquista&otilde;, j&aacute; mais o
+perdem.<br />
+
+<br />
+
+Estando nesta Cidade, nos disse o Capita&otilde;, que se
+havia de dilatar com sua nao mais de vinte dias, e dalli
+navegaria para <em>Tripoli de Syria</em>; e
+assim lhe parecia, que
+partissemos para <em>Jaffa</em>, porto da
+Terra Santa, distante de
+<em>Jerusalem</em> doze legoas, e que
+adiantassemos estes dias: pelo
+que nos ajustou a quatro Peregrinos que eramos, com
+hum barqueiro, que tinha trez companheiros, e dizia&otilde;, que
+era&otilde; Christ&atilde;os. Levava&otilde; estes a sua
+barca carregada de alfarrobas
+&agrave; Cidade de <em>Damiata no
+Egygto</em>; e concertados em
+<em>vinte e cinco zequies</em>, que cada
+zequi vale huma pataca;
+e em quatro dias chegamos ao dito porto, a que ha de
+<em>Limisol</em>
+cento e vinte legoas.<br />
+
+<br />
+
+Foy alegrissima a vista a todos, descobrindo Terra,
+que com tanta raza&otilde; se chama Santa. Do caminho vimos
+a Cidade de <em>Cesarea da Palestina</em>, e
+outras Povoa&ccedil;oens,
+ainda que na&otilde; sahimos em terra, por nos aproveitarmos do
+bom tempo, e chegarmos com brevidade ao porto desejado.
+De <em>Veneza</em> at&egrave;
+<em>Jaffa</em> gastamos trinta e dous dias.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[8]</span>
+<em>Da Cidade de Jaffa, e do caminho que fizemos
+at&egrave; Jerusalem.</em><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Esta Cidade, que por outro nome se chama
+<em>Joppe</em>, foy
+muito principal, como se colhe das ruinas dos seus
+edificios. He muito celebrada na Santa Escritura pelas cousas,
+que nella acontecera&otilde;. Aqui se embarcou
+<em>Jonas Prof&eacute;ta</em>,
+quando fugindo elle de Deos, lhe ordenou este Senhor,
+que fosse pr&eacute;gar a
+<em>Ninive</em>; e pela tempestade, que
+por sua culpa permittio Deos, foy lan&ccedil;ado no mar, e tragado
+da Balea. Aqui esteve algum tempo o <em>Apostolo
+Sa&otilde; Pedro</em>,
+e nella vio aquella visa&otilde; do Ceo aberto, e baixar hum
+vaso ao modo de hum lan&ccedil;ol, cujas pontas chegava&otilde;
+ao
+Ceo, cheyo de serpentes, e aves, e outros animaes, e Deos
+lhe mandava, que matasse, e comesse; e o mais, que nos Actos
+dos Apostolos se refere.<br />
+
+<br />
+
+Aqui resuscitou o mesmo Santo Apostolo a huma mulher,
+chamada <em>Dorcas</em>; e por estas, e
+outras muitas particulares
+cousas, que ha, e succedera&otilde; nesta Cidade, he muito
+famosa, e muito celebrado o seu porto. Logo que o nosso
+barco chegou, e deu fundo, veyo da terra outro barco encaminhado
+ao nosso, em que vinha o <em>Subasi</em>, que
+he o Aguasil
+da Cidade de <em>Ram&agrave;</em>, com
+oito, ou dez arcabuzeiros, e
+frecheiros, e chegando ao nosso barco, entrara&otilde; nelle,
+olhando
+para n&ograve;s, e dizendo: <em>Christiani,
+Christiani</em>? E n&ograve;s baixando
+a cabe&ccedil;a, lhe demos a entender, que sim. O barqueiro,
+quando vio, que elles vinha&otilde;, escondeo dous barris de vinho,
+por saber o quanto deseja&otilde; este licor, deixando
+s&oacute;mente
+o que bastava para a merenda, que constou de pa&otilde;,
+e queijo, e alfarrobas.<br />
+
+<br />
+
+Acabada a merenda, nos fez sinal para que entrassemos
+no seu barco; e fomos para terra Christ&atilde;os, e Turcos
+muito alegres, rindo de hum Turco, que se emborrachou,
+ao qual dizia&otilde; os companheiros muitas galantarias.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[9]</span>
+Chegados a terra, nos pedio o <em>Subasi</em>
+de entrada hum
+<em>zequi</em> por cada hum; e recebido, nos
+encomendou a hum
+Turco, para que nos guardasse: e visto que naquella noite
+haviamos de dormir no cha&otilde;, em humas Tercenas antiquissimas,
+entr&aacute;mos em requerimento com o Turco nosso guarda,
+para que nos deixasse dormir em hum barco no mar; e elle
+ainda que o difficultou, concedeo a licen&ccedil;a tanto que lhe
+d&eacute;mos certas moedas.<br />
+
+<br />
+
+O <em>Subasi</em> naquella mesma noite partio
+para <em>Ram&agrave;</em>,
+distante quatro leguas; e lhe pedimos nos mandasse hum
+homem com bestas para nos levar a
+<em>Jerusalem</em>, o que
+elle prometteo, e cumprio. Aquella noite, e a que se seguio,
+estivemos em hum barco cheyo de Peregrinos, que vinha&otilde;
+de <em>Jerusalem</em>, em que se
+achava&otilde; quatro Cavalleiros Francezes,
+e alguns Religiosos, que nos regalara&otilde; no tempo,
+que alli estivemos.<br />
+
+<br />
+
+No terceiro dia chegou hum homem de
+<em>Ram&agrave;</em>, que se
+chamava <em>Atala</em>, e trouxe para cada
+hum de n&ograve;s hum jumento,
+e nos ajust&aacute;mos os quatro Peregrinos com elle em vinte
+e quatro <em>zequies</em>. Neste tempo
+chegara&otilde; mais dous Perigrinos,
+hum Religioso de Sa&otilde; Francisco, que vinha do
+<em>Cayro</em>,
+e hum Clerigo, ambos Francezes; e logo muitos Gregos
+com mulheres, e filhos; e todos juntos fizemos jornada
+para Jerusalem.<br />
+
+<br />
+
+Fallava o homem com quem caminhavamos muito bem
+a lingua Italiana, e dizia, <em>que era
+Christa&otilde;</em>; ainda que algumas
+vezes por gra&ccedil;a, (que a tinha, e entendimento)
+respondia, quando lhe perguntavamos porque comia de
+boa vontade com Mouros, e Turcos: <em>Olha, eu sou Mouro
+com os Mouros, e Christa&otilde; com os Christ&atilde;os, e com
+os ladroens
+sou ladra&otilde;</em>; e eu lhe dizia:
+<em>Sede v&ograve;s, amigo Atala, o
+que quizeres; mas agora comnosco sede
+Christa&otilde;</em>.<br />
+
+<br />
+
+Cheg&aacute;mos a
+<em>Ram&agrave;</em>, que por outro nome
+se chama
+<span class="pagenum">[10]</span>
+<em>Ramata</em>, adonde estivemos trez dias.
+Todo este caminho
+at&egrave; <em>Jaffa</em> he plano; ha
+muitas oliveiras, vinhas, e outras
+frutas, e entre estas huma mayor que meloens, que se
+chama em Italia <em>Anguria</em>: he muito
+fresca, e os Turcos
+usa&otilde; muito della para entreterem a sede. Foy esta Cidade
+muito fermosa em edificios, e ao presente est&aacute; arruinada;
+ainda que alguns existem, e algumas Igrejas, e Torres, especialmente
+a de <em>Sa&otilde; Jorge</em>, que
+est&aacute; f&oacute;ra da Cidade.<br />
+
+<br />
+
+Aqui pous&aacute;mos em huma casa, que ainda que em
+parte estava derrubada, tinha bastante commodo para todos
+os da comitiva. Dizem, que era de
+<em>Nicodemus</em>: agora
+he dos Religiosos de Jerusalem, e nella se recolhem os Peregrinos.
+Nesta Cidade ha muito de comer, e barato, especialmente
+gallinhas. Por grande alivio tivemos, que hum
+homem nos alugasse humas esteiras para domir, e d&eacute;mos
+algumas
+moedas a hum Turco, para que nos guardasse da parte
+de f&oacute;ra do aposento; e apressando todos a
+<em>Atala</em> nosso
+guia, para que fizessemos jornada, nos disse, que era preciso
+avisar a hum Capita&otilde; de Arabes, para que estivesse
+em certo passo, para nos segurar de outros Arabes ladroens,
+que nelle andava&otilde; roubando; o que assim foy, pois na
+manh&atilde;a
+em que madrug&aacute;mos para sahir desta Cidade, ao amanhecer,
+ach&aacute;mos naquelle passo o Capita&otilde; que dizia, com
+vinte Arabes de cavallo bem armados. Fizera&otilde;-nos deter a
+todos, e passada pouca mais de meya hora, que o nosso
+<em>Atala</em> fallou com elles,
+pass&aacute;mos de largo, e seguimos o
+nosso caminho, e depois que delles nos apart&aacute;mos, veyo
+correndo a mim hum delles a cavallo, e tocando por todo
+o meu fato, dizia: <em>Jarap, jarap</em>; no
+que me pedia, se levava
+vinho, que lhe d&eacute;sse de beber; e como lhe disse:
+<em>Que de boa vontade lhe satisfizera a sede, se o
+levara</em>, se
+foy muito triste, e eu fuy bem alegre, por me ver livre delle.<br />
+
+<br />
+
+Por todo este caminho at&egrave; Jerusalem a cada legoa nos
+<span class="pagenum">[11]</span>
+sahira&otilde; quinze, ou vinte Arabes com arcos, e frechas,
+ta&otilde;
+morenos do Sol, e ta&otilde; mal vestidos, que parecia&otilde;
+os diabos,
+dando milhares de gritos ao nosso <em>Trucima&otilde;
+Atala</em>,
+para que lhes d&eacute;sse o
+<em>Gafar</em>, que he certa portagem,
+que lhes pag&atilde;o, os que passa&otilde; por aquellas partes
+por via
+de paz; porque todos estes Arabes na&otilde; esta&otilde;
+sogeitos ao
+Gra&otilde; Turco, nem a outro nenhum Senhor; e outra renda,
+ou officio na&otilde; tem, mais que o que rouba&otilde;.
+Parecem quando
+nos sahem ao encontro, e nos poem as frechas nos peitos,
+que nos querem assettear, e com lhe dar dous, ou trez
+tostoens por todos, esta&otilde; contentes; e com todos os mais,
+que nos sahem de legoa em legoa, praticamos o mesmo; e
+ainda que sa&otilde; ambiciosos de modo, que nos apalpa&otilde;
+as algibeiras,
+e tira&otilde; o que nellas acha&otilde;, sa&otilde;
+ta&otilde; comedidos,
+que podendo tomarnos os escudos, que levamos escondidos,
+vamos seguros pelo respeito, que todos tem ao nosso
+<em>Trucima&otilde; Atala</em>, em
+aquelles caminhos, e porque os castigaria&otilde;,
+se nos tratassem mal, e os prendessem. Vimos neste
+caminho muitas Igrejas, na&otilde; de todo arruinadas, que a
+pouco custo se podia&otilde; reparar. Vimos hum edificio antigo,
+que dizem ser a casa do Bom
+<em>Ladra&otilde;</em>. Vimos as ruinas da
+Cidade de <em>Modin</em>, terra, e Patria dos
+<em>Machabeos</em>. Todo este
+caminho he plano, e s&oacute;mente quatro legoas antes de Jerusalem
+he a terra montuosa, e pedregosa.<br />
+
+<br />
+
+Tanto que foy meyo dia, descan&ccedil;&aacute;mos &agrave;
+sombra de
+humas oliveiras, junto a huma fonte; e estando comendo
+do que levavamos da Cidade de
+<em>Ram&agrave;</em>, chegou hum Turco,
+montado em hum fermoso cavallo, e sem se apear, comeo
+do que lhe dey com a minha ma&otilde;. Adverti no bom talhe do
+seu corpo, e o como vinha preparado para a guerra. Trazia
+lan&ccedil;a, cimitarra, arcabuz, arco, e frechas, e
+ma&ccedil;a, de
+que pendia&otilde; oito facas, adaga, punhal, e martello.
+Pareceo-me,
+que podia contender com dez homens, e ainda
+<span class="pagenum">[12]</span>
+tirar-lhes a vida. Veja&otilde; se he necessario hirem bem
+prevenidos,
+e petrechados, os que forem peleijar com esta gente.
+Este lugar aonde descan&ccedil;&aacute;mos, est&aacute;
+junto ao Valle <em>Terebintho</em>,
+em que <em>David</em> matou ao
+<em>Filisteo Goliath</em>. Pass&aacute;mos
+hum rio de pouca agua, e conjecturo ser este, o em
+que <em>David</em> colheo as cinco pedras,
+que levou no &ccedil;urra&otilde;,
+quando foy para a batalha, e com que venceo ao Gigante.
+Aqui ha huma ponte quasi destruida, que mostra ainda
+hoje, que foy soberbo edificio.<br />
+
+<br />
+
+Passado este Valle, e rio, subimos huma grande legoa
+de costa, e no alto d&egrave;mos em caminho plano, ainda
+que pedregoso: chegando n&ograve;s &agrave;
+<em>Cidade Santa de Jerusalem</em>,
+que est&aacute; rodeada de montes, e s&oacute;mente se
+v&ecirc; della alg[~u]a
+cousa do monte <em>Olivete</em>, daqui
+descobrimos hum peda&ccedil;o
+de muro, e as Torres do Castello; e foy tal a nossa alegria,
+e ta&otilde; extraordinario o contentamento, que todos os
+Peregrinos
+Latinos, e Gregos nos ape&aacute;mos, beijando muitas vezes
+a terra, dando muitas gra&ccedil;as, e louvores a Deos, e
+enviando-lhe
+milhares de lagrimas, e suspiros devotissimos,
+dizendo cada hum sua devo&ccedil;a&otilde; &agrave; Santa
+Cidade, e repetindo
+muitas vezes: <em>Urbs beata Hierusalem</em>.<br />
+
+<br />
+
+Neste tempo nos sahio a receber hum Christa&otilde;, chamado
+<em>Bautista</em>, que serve aos Religiosos
+de lingua para
+com os Mouros, e Turcos, e falla bem Italiano, mandado
+pelo <em>Padre Guardia&otilde;</em>, que
+j&aacute; tinha noticia da nossa hida;
+e como cheg&aacute;mos &agrave; porta da Cidade, nos fez
+sentar, e que
+esperassemos o aviso do <em>Padre
+Guardia&otilde;</em>, que he, a quem o
+<em>Pontifice</em> tem nomeado por
+Cabe&ccedil;a dos Latinos; e seria
+passada quasi meya hora, quando chegara&otilde; dous Religiosos
+Italianos, e nos saudara&otilde; da parte do Padre
+Guardia&otilde;,
+e que fossemos bem chegados, e que esperassemos hum
+pouco, em quanto elles procurava&otilde; dos Turcos a
+licen&ccedil;a
+da entrada; que logo viera&otilde;, e examinara&otilde; a
+roupa, que
+<span class="pagenum">[13]</span>
+levavamos, que era bem pouca; e he o que mais conv&egrave;m
+para seguran&ccedil;a do Peregrino. Logo que tudo vira&otilde;,
+nos dera&otilde;
+a entrada livre, pagando cada hum dous <em>zequies de
+ouro</em>.
+Os Gregos como mais de casa, e Vassallos do Turco,
+entrara&otilde; logo, e fora&otilde; ao seu Patriarcha; e neste
+tempo
+viera&otilde; os Religiosos, e nos levara&otilde; aos seis
+Latinos, que
+eramos. Em 22. de Setembro de 1588. dia do glorioso
+<em>Sa&otilde;
+Mauricio</em> entr&aacute;mos na
+<em>Cidade Santa</em>, passados trinta e sete
+dias, que tinhamos sahido de <em>Veneza</em>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Da Santa Cidade
+de Jerusalem, do Sagrado monte Sion,
+e de suas Esta&ccedil;oens.</em><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Levara&otilde;-nos os dous Religiosos ao Convento de
+<em>S. Salvador</em>,
+que he o principal da <em>Terra Santa</em>,
+adonde nos
+recebera&otilde; os Religiosos processionalmente, cantando
+<em>Te
+Deum laudamus, &amp;c.</em> Entr&aacute;mos na
+Igreja, que est&aacute; no alto
+da casa, e depois de fazer ora&ccedil;a&otilde;, se poz hum
+Religioso
+junto ao Altar, e fez em lingua Italiana huma muito devota
+pratica, em que nos representou a grande merce, que
+Deos nosso Senhor nos fizera, de nos permittir o ver aquelles
+Santuarios, e Lugares Santissimos, e nos exhortou, a
+que nos dispuzessemos a ganhar as Indulgencias, confessando,
+e commungando.<br />
+
+<br />
+
+Acabada a Pratica, nos levara&otilde; a huma casa, com a
+mesma Procissa&otilde;, adonde nos lavara&otilde; os
+p&egrave;s com muita devo&ccedil;a&otilde;,
+cantando Hymnos, e ora&ccedil;oens; e acabado o lavatorio,
+nos dera&otilde; bem de cear; e logo nos guiara&otilde; para
+huns
+aposentos, e a cada hum nos sinalara&otilde; cama, em que dormimos,
+e descan&ccedil;amos alegrissimamente, por nos Deos Senhor
+nosso fazer ta&otilde; singularissima merce, que na&otilde;
+concede
+a todos, pois muitos Principes, e Reys o deseja&otilde;, e
+na&otilde; alcan&ccedil;a&otilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[14]</span>
+No seguinte dia nos prepar&aacute;mos para a confissa&otilde;,
+e
+o Padre Guardia&otilde; deu faculdade aos Confessores, para nos
+absolverem plenariamente, porque tem as vezes do Pontifice;
+e mostrando-lhe as nossas Dimissorias, nos deu licen&ccedil;a
+para dizer Missa. Ha trez Altares nesta Santa Igreja, e
+todos privilegiados, isto he, que se tira Alma do Purgatorio.<br />
+
+<br />
+
+Acabado o Officio, nos encomendou a hum virtuosissimo
+Religioso Italiano, chamado
+<em>Salandria</em>, que havia
+vinte annos, que estava na <em>Terra
+Santa</em>, para andar as Esta&ccedil;oens
+comnosco; e elle, e hum Companheiro, e
+<em>Bautista</em>,
+que j&aacute; nomeey, que he o nosso Interprete com os Mouros,
+e Turcos, e nos defende dos rapazes, que nos tira&otilde; pedradas
+pelas ruas, e nos avisa do que havemos de fazer, de que
+na&otilde; tussamos, nem cuspamos, porque entendem os Mouros,
+e Turcos, que zombamos delles, come&ccedil;&aacute;mos com
+alegria,
+e devo&ccedil;a&otilde; a andallas; e muitos Religiosos se
+associara&otilde;
+tambem para o mesmo, que supposto tenha&otilde; visto muitas
+vezes aquelles Lugares Santos, na&otilde; perdem a
+occasia&otilde;
+de os visitar, e ganhar as muitas Indulgencias, que lhes sa&otilde;
+concedidas.<br />
+
+<br />
+
+Deste modo, e com este Santo acompanhamento sahimos
+os seis Peregrinos; e a primeira Esta&ccedil;a&otilde;, que
+fizemos,
+foy &agrave; Igreja do <em>Apostolo
+Santiago</em>, em que o Santo foy degollado.
+He esta Igreja de Armenios, muito grande, e bem
+fabricada. A Capella da degolla&ccedil;a&otilde;
+est&aacute; &agrave; ma&otilde; esquerda da
+entrada da Igreja, adonde est&aacute; hum marmore debaixo do
+Altar, que toc&aacute;mos, e reverenci&aacute;mos. Tem os
+Armenios
+huma boa casa continuada com esta Igreja em f&oacute;rma de
+Convento.<br />
+
+<br />
+
+Daqui fomos &agrave; casa de
+<em>An&agrave;s</em>, adonde
+<em>Christo Senhor
+nosso</em> foy levado tanto que o prendera&otilde;. He
+Igreja de Armenios.
+Aqui dera&otilde; a <em>Christo Senhor
+nosso</em> a bofetada. Mostra-se
+<span class="pagenum">[15]</span>
+aqui huma <em>Oliveira</em>, a que dizem
+estivera <em>Christo Senhor
+nosso</em> atado, em tanto, que An&agrave;s sahia para
+o ver. Tem Indulgencia
+plenaria.<br />
+
+<br />
+
+Deve saberse, que em todos os Santuarios, que se anda&otilde;
+em toda a <em>Terra Santa</em>, se diz hum
+<em>Hymno</em>,
+<em>Antiphona</em>,
+<em>Verso</em>, e
+<em>Ora&ccedil;a&otilde;</em>, para o
+que ha livro particular, e rezado
+hum Padre nosso, e huma Ave Maria, se nos explica o
+mysterio do tal Lugar.<br />
+
+<br />
+
+Fomos daqui &agrave; casa de
+<em>Caif&aacute;s</em>, em que
+est&aacute; huma
+Igreja no Lugar em que <em>Christo Senhor
+nosso</em> foy accusado,
+e tudo o mais que consta do <em>Santo
+Euangelho</em>. Visit&aacute;mos o
+Altar mayor, e lhe serve de cuberta a
+<em>Pedra</em>, que estava
+&agrave; porta do <em>Santo
+Sepulchro</em>, a qual com raza&otilde;
+difficultava&otilde;
+as <em>Santas Marias</em>, dizendo:
+<em>Quem nos tirar&agrave; a pedra?</em>
+porque he de dez palmos, pouco mais, ou menos, de comprimento,
+e quatro de largura, e muito grossa. Na Capella
+mayor ha na parede hum retrete pequeno, em que s&oacute;mente
+poder&aacute;&otilde; caber dous homens, e para se poder entrar
+he de joelhos, por ter huma pequena entrada: he este o
+Lugar adonde <em>Christo Senhor nosso</em>
+esteve como encarcerado,
+em tanto que o Pontifice sahia para o ver.<br />
+
+<br />
+
+Sahimos da Igreja a hum patio, que est&aacute; junto a ella,
+em que se v&ecirc; huma
+<em>Larangeira</em>, e he o lugar em que
+estava&otilde;
+ao fogo os Ministros de
+<em>Caif&aacute;s</em>, e adonde
+<em>Sa&otilde; Pedro</em> negou
+a <em>Christo</em>. Do alto desta casa, (que
+est&aacute; <em>poucos passos
+f&oacute;ra do muro da Cidade</em>) fizemos
+ora&ccedil;a&otilde;, e ganh&aacute;mos as Indulgencias
+do <em>Santo Cenaculo</em>, que
+est&aacute; perto della, no alto
+do <em>Monte Sion</em>, que por esta parte
+na&otilde; he mais alto, que
+a Cidade. Na&otilde; entr&aacute;mos nelle, porque os Turcos,
+com lastima
+nossa, o fizera&otilde; Mesquita. Aqui foy o Lugar, em que
+<em>Christo Senhor nosso</em> ceou com seus
+Discipulos, e instituhio
+o <em>Santissimo Sacramento</em>, donde lhes
+lavou os p&eacute;s, donde
+baixou o <em>Espirito Santo</em> no dia
+<em>Pentecostes</em>; e donde habitava
+<span class="pagenum">[16]</span>
+a <em>Virgem Senhora nossa</em>. Neste
+<em>Cenaculo</em> assistia&otilde; os
+Religiosos de Sa&otilde; Francisco, e haver&aacute; trinta
+annos, que o
+Turco o tirou aos Religiosos. A causa dizem, que foy, que
+huns Judeos dissera&otilde; ao Turco, [~q] alli era a sepultura de
+David,
+e que na&otilde; era justo, que os Christ&atilde;os pizassem a
+sepultura
+de ta&otilde; grande Prof&eacute;ta, e Rey: e como os Turcos
+tem muita venera&ccedil;a&otilde; aos Prof&eacute;tas do
+Testamento Velho,
+mandou, que os Religiosos tomassem casa dentro em
+<em>Jerusalem</em>;
+pelo que viera&otilde; para a Cidade, e comprara&otilde; huma
+boa casa, que he a de <em>Sa&otilde;
+Salvador</em>, em que agora vivem:
+ainda que por estar no Castello, que se chama dos
+<em>Pisanos</em>,
+Fortaleza da <em>Santa Cidade</em>, Lugar
+eminente, os Turcos lhe
+derrubara&otilde; os aposentos altos, porque na&otilde;
+estivesse igual
+com o Castello; e assim sa&otilde; terreos os aposentos. Este
+<em>Santo
+Cenaculo</em> foy a Casa Real; e tudo o que em circuito
+est&aacute;
+despovoado, era o mais principal da Corte de
+<em>David</em>, e
+dos mais Reys. Agora s&oacute;mente est&aacute; a Casa, e
+Igreja do <em>Santo
+Cenaculo</em>; o mais est&agrave; despovoado.<br />
+
+<br />
+
+Sahidos da Casa de
+<em>Caif&aacute;z</em>, e da Cidade,
+baixando
+hum pouco pelo <em>Monte Sion</em> para a
+parte do Oriente, est&aacute;
+o Lugar, adonde, levando os Apostolos a sepultar o
+<em>Corpo
+da Virgem nossa Senhora</em>, lho quizera&otilde; huns
+Judeos tirar,
+e secou o bra&ccedil;o do seu Sacerdote, que atrevido tocou no
+esquife; e depois lhe foy restituido, e se converteo &agrave;
+F&eacute;.
+Na&otilde; ha outro sinal desta memoria, mais que hum
+monta&otilde;
+de pedras. Aqui se ganha&otilde; muitas Indulgencias.<br />
+
+<br />
+
+Baixando mais alguma cousa por este <em>Monte
+Sion</em>,
+junto do muro da <em>Santa Cidade</em>,
+est&aacute; o Lugar, adonde Sa&otilde;
+Pedro <em>Flevit amar&egrave;</em>: e hum
+pouco mais abaixo, junto ao
+muro antigo, est&aacute; huma igreja, e Casa, como Convento,
+fermosissima no exterior; e no mais alto da Torre tem huma
+grande mea Lua de ferro. Nesta Igreja foy a <em>Santissima
+Virgem
+Maria Senhora nossa</em> presentada, sendo menina, com
+<span class="pagenum">[17]</span>
+as demais Virgens. He agora principal Mesquita dos Mouros,
+e Turcos; e est&aacute; no ambito do <em>Templo de
+Salama&otilde;</em>, que
+he dos muros a dentro.<br />
+
+<br />
+
+Baixando o que resta do Monte Sion, cheg&aacute;mos ao Valle
+de <em>Josaphat</em>, de que logo direy por
+levar direita a ordem,
+que tivemos em andar as Esta&ccedil;oens pela outra parte da
+<em>Santa
+Cidade</em>, e tornemos ao Convento de
+<em>Sa&otilde; Salvador</em>, para
+dahi as proseguirmos.<br />
+
+<br />
+
+No outro dia come&ccedil;ando as Esta&ccedil;oens, fomos pela
+<em>Rua da Amargura</em>, por onde
+<em>Christo Senhor nosso</em> sahio a
+morrer, levando a Cruz &agrave;s costas da casa de
+<em>Pilatos</em> at&egrave; o
+<em>Calvario</em>. Deix&aacute;mos
+&agrave; ma&otilde; direita a Igreja do dito
+<em>Calvario</em>,
+e <em>Santo Sepulchro</em>, em que
+na&otilde; entr&aacute;mos, por a reservarmos
+para a ultima Esta&ccedil;a&otilde;; e vimos a casa da piedosa
+mulher, que com huma limpa toalha, chegando a ao
+<em>Divinissimo
+rosto de Christo Senhor nosso</em>, o tirou estampado com o
+seu preciosissimo Sangue, e com a sua verdadeira effigie.
+Duas dobras tinha esta toalha; huma se venera em Roma,
+outra na Santa Igreja Cathedral de Jaem. Nesta rua vimos
+a casa do rico Avarento, que na&otilde; quiz dar esmola de suas
+migalhas ao <em>pobre</em>, e
+<em>Santo Lazaro</em>; e o Lugar, adonde o
+Cyrineo
+tomou a Cruz a <em>Christo Senhor nosso</em>,
+para lha ajudar
+a levar, e adonde as filhas de Jerusalem o chorava&otilde;, quando
+o Senhor lhes disse: <em>Filiae Jerusalem,
+&amp;c.</em> Tambem vimos
+a casa de Pilatos, da qual sahe hum arco em que esta&otilde;
+duas janellas, que sa&otilde; as mesmas pedras daquelle tempo,
+e de huma dellas mostrou este Juiz a <em>Christo Senhor
+nosso</em> ao
+Povo, quando disse: <em>Ecce homo</em>. Por
+baixo deste arco passa
+a rua principal; e agora serve esta casa &agrave;
+Justi&ccedil;a. Ha muitos
+Santuarios nesta rua destruidos; e hum delles se edificou
+em memoria do sentimento, e dor, que a <em>Virgem Senhora
+nossa</em>
+teve, quando vio a <em>Christo seu Unigenito Filho Senhor
+nosso</em> com a Cruz &agrave;s costas; e em todos ha
+muitas, e grandes
+<span class="pagenum">[18]</span>
+Indulgencias. Junto desta casa, que referi, rua acima, est&aacute;
+a casa delRey Herodes, adonde
+<em>Pilatos</em> mandou a
+<em>Christo
+Senhor nosso</em>, que delle foy desprezado, e do seu
+exercito,
+e vestido de huma vestidura branca, o remetteo a
+<em>Pilatos</em>.
+Vimos tambem o carcere donde o Anjo tirou a
+<em>Sa&otilde; Pedro</em>.
+Aqui ha hum peda&ccedil;o de Igreja bem fabricado. No primeiro
+de Agosto celebra a Santa Igreja Catholica esta memoria.<br />
+
+<br />
+
+Proseguindo o nosso caminho por estas ruas, pelas
+quaes foy <em>nosso Redemptor</em> derramando
+o seu Sangue purissimo,
+e preciosissimo, fomos ao <em>Templo de
+Salama&otilde;</em>, e sem
+que nelle entrassemos (porque na&otilde; he permittido aos
+Christa&otilde;s,
+e se algum entra, lhe custa a vida temporal, ou a espiritual,
+renegando da F&eacute;) vimos a
+<em>Piscina</em>, que est&aacute; junto
+ao dito Templo, em que <em>Christo Senhor
+nosso</em> deu saude ao enfermo
+de trinta e oito annos de enfermidade. Agora na&otilde; tem
+agua, e est&aacute; chea de herva, e arvores de nenhum prestimo.
+Ainda se vem vestigios dos portaes, que enta&otilde; havia. Esta
+<em>Piscina</em> est&aacute; junto da
+porta da Cidade, e da casa de <em>Sa&otilde;
+Joachim</em>, e <em>Santa
+Anna</em>, pays da <em>Virgem Senhora
+nossa</em>, e aqui
+foy a sua purissima Concei&ccedil;a&otilde;.
+Entr&aacute;mos neste Santo Lugar,
+que est&aacute; quasi debaixo da terra; o que succede em
+commum a todos os edificios; porque com a antiguidade
+do tempo os vay occultando em si a terra, que cresce, cahindo
+huns edificios sobre outros: e sahindo pela porta da
+<em>Santa Cidade</em>, que se chama de
+<em>Santo Esteva&otilde;</em>, baixando
+como
+sessenta passos, visit&aacute;mos o Lugar em que este Santo foy
+apedrejado, em que esteve huma Igreja, e hoje hum monta&otilde;
+de pedras.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Do Valle de
+Josaphath.</em><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Baixando mais cincoenta passos, cheg&aacute;mos ao Valle de
+Josaphath, que he bem apertado. Este Valle est&aacute; entre
+o <em>Monte Olivete</em>, e o
+<em>Monte Sion</em>, ou Jerusalem, que he o
+<span class="pagenum">[19]</span>
+mesmo; porque a <em>Santa Cidade</em>
+est&aacute; edificada no <em>Monte
+Sion</em>,
+pelo que parece, que o dito Valle he como fosso da
+<em>Santa
+Cidade</em>. Ao presente na&otilde; tem agua, mas
+quando chove, dizem
+que leva muita, porque a chuva, que baixa do <em>Monte
+Olivete</em>, e Monte Sion, se recolhe neste Valle.<br />
+
+<br />
+
+Ha nelle boas oliveiras, algumas figueiras, e hortali&ccedil;as.
+Passando a ponte, visit&aacute;mos huma fermosa Igreja de
+cantaria bem lavrada; e entrando nella, baix&aacute;mos por huma
+escada muito larga, que ter&aacute; quasi quarenta degraos; e
+&agrave;
+ma&otilde; direita desta escada esta&otilde; em huma Capella os
+Sepulchros
+de <em>Sa&otilde; Joachim</em>, e de
+<em>Santa Anna</em>, pays da
+<em>Virgem Senhora
+nossa</em>, e defronte desta est&aacute; outra
+Capella, em que
+se v&ecirc; o Sepulchro do Senhor <em>Sa&otilde;
+Joseph</em>, Esposo da <em>Virgem
+Senhora nossa</em>. No baixo desta Igreja vimos huma grande
+nave, e &agrave; dita escada est&aacute; fronteira outra
+Capella, o que
+faz hum Cruzeiro bem formado. Na Capella, que he a mayor,
+sem tocar em alguma das paredes, como Ilha, est&aacute;
+huma Capellinha pequena, em que s&oacute; podem caber dous
+homens; e nella est&aacute; o Sepulchro da sempre
+<em>Virgem Maria
+Senhora nossa</em>. He de pedra, com outra que a cobre,
+sobre
+que dizemos Missa. Os Religiosos de Sa&otilde; Francisco tem
+chave desta Capella, e as mais na&ccedil;oens de
+Christ&atilde;os, para
+entrarem quando querem celebrar; para o que fech&aacute;mos as
+portas por dentro, porque os Mouros, e Turcos na&otilde; entrem
+a perturbarnos; e assim quietamente dissemos Missa quatro
+Sacerdotes sobre o Sepulchro da Virgem Senhora nossa, que
+serve de Altar. Na&otilde; sey explicar a suavidade espiritual, que
+todos sentimos, dizendo Missa em tal Santuario; e nelle
+se ganha&otilde; muitas, e grandes Indulgencias. Tem esta Igreja
+pouca luz, porque s&oacute;mente lhe entra por huma fresta,
+que tem na Capella mayor, que est&aacute; ao Oriente; e alguma,
+que entra pela porta; e na&otilde; he bastante para andar
+por ella sem luzes de cera, que levavamos. Est&aacute; este
+edificio
+<span class="pagenum">[20]</span>
+pela mayor parte debaixo da terra. Aqui vem todos os Sacerdotes
+das na&ccedil;oens Christ&atilde;as a celebrar, especialmente
+no dia da <em>Assump&ccedil;a&otilde; da Virgem
+Senhora nossa</em>. Ha nesta
+Igreja huma cisterna, que tem agua muito boa.<br />
+
+<br />
+
+Sahindo desta bemdita Igreja, a poucos passos, entr&aacute;mos
+em huma cova, grande, e redonda, de altura de
+huma lan&ccedil;a, toda penhasco, e bem clara, porque lhe entra
+muita luz, por huma abertura, que tem no alto. Est&aacute; na
+Villa, e <em>Horto de Gethsemani</em>, em que
+<em>Christo Senhor nosso</em>
+orou ao seu <em>Eterno Pay</em> aquella
+ora&ccedil;a&otilde; trina, em que suou
+gotas de Sangue, e adonde o Anjo lhe appareceo, e o confortou.
+O considerar, que neste Lugar derramou <em>Christo
+Senhor nosso</em> suor sanguineo, move os
+cora&ccedil;oens a devo&ccedil;a&otilde;,
+e contri&ccedil;a&otilde;, por duros que seja&otilde;; e a
+quarenta passos deste
+<em>Oratorio de Christo Senhor nosso</em>
+pouco mais, ou menos, se
+nos mostrou o Lugar, adonde os trez discipulos
+<em>Sa&otilde; Pedro</em>,
+<em>Sa&otilde; Joa&otilde;</em>, e
+<em>Santiago</em> estivera&otilde;
+dormindo, e <em>Christo Senhor
+nosso</em> os despertou, e reprehendeo por na&otilde;
+velarem, e orarem.
+Adiante hum tiro de pedra est&aacute; o Lugar em que
+ficara&otilde;
+os oito Discipulos. Mais adiante quarenta passos est&aacute; o
+Lugar, em que <em>Judas</em> entregou a
+Christo Senhor nosso, e o
+prendera&otilde;. Com pedras se fez aqui a modo de huma rua,
+que sinala o lugar. Em todos estes Santuarios ha infinitas Indulgencias.<br />
+
+<br />
+
+Poucos passos distante est&aacute; a ponte do
+<em>Cedron</em>: e todo
+este caminho do <em>Horto de Gethsemani</em>
+at&egrave; aqui se anda
+pela raiz do <em>Monte Olivete</em>, e junto
+ao Valle de <em>Josaphath</em>,
+adonde est&aacute; esta ponte do
+<em>Cedron</em>. Passada esta ponte se sobe
+huma grande costa, junto ao muro da Cidade, e he o
+caminho por onde levara&otilde; a <em>Christo Senhor
+nosso</em> prezo a casa
+de <em>An&agrave;s</em>. Neste mesmo
+Valle ha muitas cousas notaveis
+por antiguidade, e para a devo&ccedil;a&otilde;. Aqui
+est&aacute; hum famoso
+edificio, cavado na penha, a modo de huma Capella redonda,
+<span class="pagenum">[21]</span>
+que toda he de huma pedra, excepto o capitel, e
+he o sepulchro de
+<em>Absala&otilde;</em>, filho de
+<em>David</em>. Ha nelle huma
+grande abertura, que os moradores desta terra fizera&otilde;,
+tirando-lhe
+pedras, tal vez por ser mao filho, pois perseguio
+a seu pay. Junto deste sitio ha outro edificio, quasi arruinado,
+em memoria, de que alli esteve o glorioso
+<em>Santiago</em> o
+<em>Menor</em> o tempo que
+prendera&otilde; a <em>Christo Senhor
+nosso</em> at&egrave; que
+resuscitou, e lhe appareceo, e lhe disse, <em>que
+comesse</em>; porque
+tinha proposto de na&otilde; comer, at&egrave; que o
+<em>Senhor</em> resuscitasse.
+Logo est&aacute; o <em>Campo Santo</em>,
+a que chamara&otilde; <em>Haceldama</em>.
+He
+hum edificio de quatro paredes fortes, e tem por cima hum
+terrado de quarenta passos de comprido, e trinta de largo.
+Nelle esta&otilde; quatro, ou cinco bocas por donde
+lan&ccedil;a&otilde; os
+defuntos, que aqui se enterra&otilde;, pendurando-os por huma
+corda, e bamboleando-os, at&egrave; que os deita&otilde;
+abaixo. Comprou-se
+este campo com os trinta dinheiros, que
+<em>Judas</em> recebeo
+dos <em>Fariseos</em> em
+satisfa&ccedil;a&otilde;, e venda de <em>Christo
+Senhor
+nosso</em>. Desde enta&otilde; at&egrave;gora he
+sepultura de Peregrinos. Na&otilde;
+muito distante se nos mostrou o Lugar donde o malaventurado
+<em>Judas</em> se enforcou; e junto a ella he
+a sepultura dos
+Judeos, que parece o tomara&otilde; por patra&otilde;, para o
+acompanharem
+na sepultura, e no Inferno. Em distancia de cem passos
+est&aacute; logo a cova, em que os Apostolos estivera&otilde;
+escondidos
+at&egrave; a Resurrei&ccedil;a&otilde;. Mais adiante
+est&aacute; a casa, que chama&otilde;
+do <em>Mao conselho</em>, adonde se
+determinou a morte de
+<em>Christo Senhor nosso</em>, dizendo
+Caif&aacute;s, <em>que convinha, que hum
+homem morresse pelo Povo, por que na&otilde; perecesse toda a
+gente</em>.<br />
+
+<br />
+
+Daqui fomos pela outra ribeira deste Valle de Josaphath,
+e junto do muro da Cidade est&aacute; huma
+<em>Fonte</em>, que
+chama&otilde; de <em>nossa Senhora</em>,
+que vem, conforme dizem, do
+Templo, que j&aacute; referi, em que a <em>Virgem
+Senhora nossa</em> se
+creou; de que se colhia agua para beber, e para o mais
+servi&ccedil;o
+da casa. He muito bonissima, e della bebemos com grande
+<span class="pagenum">[22]</span>
+devo&ccedil;a&otilde;, por usar della a <em>Virgem
+Senhora nossa</em>. Junto
+a esta <em>Fonte</em> ha outra, a que
+chama&otilde; Syloe, &agrave; qual mandou
+<em>Christo Senhor nosso</em> o cego, para
+que lavasse os olhos do
+lodo, que fizera de terra, e sua benta saliva, com que lhe
+restituhio a vista. He de muito boa agua, e da que superabunda,
+se rega&otilde; muitas hortas.<br />
+
+<br />
+
+Na parte do Meyo dia, &agrave; sahida da <em>Santa
+Cidade</em> ha
+outra <em>Fonte</em>, que dizem fez
+<em>Salama&otilde;</em>, e trouxe esta
+agua
+por conductos de Bethleem do
+<em>Fonsignato</em>. Cahe a Fonte sobre
+a casa de sua m&atilde;y
+<em>Bersab&egrave;</em>. Bebemos della
+quando fomos,
+e quando viemos de Bethleem, por curiosidade de a
+gostar, por ser antiga, e feita por <em>ElRey
+Salama&otilde;</em>. Na&otilde; vi
+outras fontes na <em>Santa Cidade</em> nem
+dentro, nem f&oacute;ra; porque
+toda a agua, que se bebe na Cidade, e nos campos, he
+de chuva recolhida em cisternas; e ainda que he boa, com
+tudo a muitos causa damno a sua frescura.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Do Sagrado
+Monte Olivete, e Bethania.</em><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Neste <em>Sagrado monte Olivete</em> obrou
+<em>Christo Senhor nosso</em>
+muitas cousas pertencentes &agrave; nossa
+Redemp&ccedil;a&otilde;; porque
+al&egrave;m do que tenho dito, que se obrou na raiz deste
+<em>Sagrado
+Monte</em>, ha muito em todo elle, que considerar, e
+reverenciar.
+Direy por agora s&oacute;mente do Lugar da
+<em>Ascensa&otilde;
+admiravel</em>, e tornarey a baixar, por hir pelo caminho,
+por
+onde este Senhor foy muitas vezes a
+<em>Bethania</em>.<br />
+
+<br />
+
+Come&ccedil;&aacute;mos a subir junto &agrave; Igreja do
+<em>Sepulchro de nossa
+Senhora</em>, e a poucos passos par&aacute;mos, adonde
+dizem, que
+vindo esta mesma Senhora das Esta&ccedil;oens deste Sagrado Monte,
+que ordinariamente fazia, depois que <em>Christo seu
+Unigenito
+Filho, e Senhor nosso</em> subio aos Ceos, vio apedrejar a
+<em>Santo Esteva&otilde;</em>, e que
+neste Lugar orou, at&egrave; o Santo Prothomartyr
+entregar a Deos o seu espirito; e subindo pouco
+<span class="pagenum">[23]</span>
+mais, vimos o Lugar, em que dizem, que o <em>Apostolo S.
+Thom&egrave;</em>
+recebera o cinto da <em>Virgem Senhora
+nossa</em>. Mais acima est&aacute;
+o Lugar, adonde os <em>Apostolos</em>
+dissera&otilde; a <em>Christo Senhor
+nosso</em> que os ensinasse a orar, e lhes deu a
+ora&ccedil;a&otilde; do <em>Padre
+nosso, &amp;c.</em> Neste Lugar est&aacute; huma
+Igreja cahida. Subimos
+hum pouco mais, e vimos o Lugar adonde os
+<em>Apostolos</em> compuzera&otilde;
+o <em>Credo</em>; e mais acima, o em que
+<em>Christo Senhor nosso</em>,
+e os <em>Apostolos</em>, vendo a
+<em>Jerusalem</em>, e ouvindo este Senhor
+que elles louvava&otilde; a fabrica do Templo, e o bem lavrado
+das pedras, lhes disse, <em>como tudo havia de ser
+destruido</em>: e
+assim o foy pelos Emperadores <em>Tito</em>,
+e <em>Vespasiano</em>; e tambem
+lhes disse os sinaes, que havia&otilde; de preceder ao dia do
+Juizo.<br />
+
+<br />
+
+Ha outros Santuarios mais, que os Mouros possuem,
+e alguns esta&otilde; convertidos em Mesquitas. O Lugar da
+Ascensa&otilde;
+na&otilde; he Mesquita, por&egrave;m os Mouros, e Turcos tem
+a chave, e na&otilde; permittem a entrada aos Christ&atilde;os,
+sem que
+lhe paguem muito bem. No alto deste <em>Sagrado
+Monte</em>, est&aacute;
+huma Igreja grande, mas muito cahida; e no meyo est&aacute;
+huma Capella redonda de bobeda inteira, e no meyo della
+huma pedra de dous palmos, e pouco mais de altura, em
+que se v&ecirc; hum p&egrave; sinalado, que dizem ser de
+<em>nosso Redemptor</em>,
+quando daqui subio aos Ceos: o outro p&egrave;, dizem, o
+levara hum Principe Christa&otilde;, que na&otilde; sey dizer,
+quem
+fosse. Com grande devo&ccedil;a&otilde; beij&aacute;mos
+este p&eacute; muitas vezes.
+He este Lugar de Santa alegria para todos os Christ&atilde;os, que
+o vem; porque nos parece, que vemos a <em>Christo Senhor
+nosso</em> subir pelos ares, e &agrave;
+<em>Virgem nossa Senhora sua Santissima
+M&atilde;y</em>, e aos Apostolos, que esta&otilde;
+com os olhos, e cora&ccedil;oens
+suspensos, olhando o caminho, que <em>Christo Senhor
+nosso</em>
+fazia para si, e para os seus Fieis.<br />
+
+<br />
+
+Ador&aacute;mos,e despedimo-nos com muita saudade deste
+Santo Lugar, e fomos pelo alto, e plano deste
+<em>Sagrado</em>
+<span class="pagenum">[24]</span>
+<em>Monte</em> para a parte do
+Septentria&otilde;, pouco mais de duzentos
+passos, a huma torresinha, e casa; Lugar, aonde dizem,
+que baixara&otilde; os Anjos, e dissera&otilde; no dia, e hora
+da <em>Ascen&ccedil;a&otilde;</em>
+aos saudosos <em>Apostolos: Viri Galilaei,
+&amp;c.</em> pelo que se
+chama Galilea pequena. He muito alegre, e fermoso este
+<em>Sagrado monte</em>. Tem muitas arvores,
+especialmente oliveiras,
+(de que tomou o nome) figueiras &amp;c. e vinhas. Est&aacute;
+&agrave;
+parte Oriental da <em>Santa Cidade</em>. De
+tal modo esta&otilde; este <em>Sagrado
+Monte</em>, e o de
+<em>Sia&otilde;</em>, que tudo o que hum
+tem se v&ecirc;
+do outro; e vendo-se do <em>Olivete</em> a
+<em>Santa Cidade</em>, por ser hum
+pouco mais alto, he huma das mais alegres, e deliciosas
+vistas, que ha no Mundo, ainda que
+<em>Jerusalem</em> hoje he muito
+pequena; porque est&aacute; assentada no meyo do
+<em>Monte Sion</em>,
+da maneira que hum livro est&aacute; em huma estante; pelo que
+se podem contar todas as casas, e torres de cima a baixo,
+sem que falte alguma. Sa&otilde; as mais das casas de bobeda, como
+Capellas de Igrejas, e todas de terrados, e assim ha poucas,
+ou nenhuma, que tenha madeira, o que tudo faz, e representa
+huma magestosa vista. Tem a Cidade quatro mil
+visinhos, pouco mais, ou menos; ainda que em outro tempo
+foy das grandes do Mundo, como se v&ecirc; das ruinas,
+que ha por aquelles outeiros, de que est&aacute; rodeada. As ruas
+que atravessa&otilde; do Meyo dia ao Septentria&otilde;
+sa&otilde; planas, e
+as do Poente ao Oriente costa abaixo, ainda que na&otilde; muito
+empinadas, pois corre muito bem hum cavallo por ellas.<br />
+
+<br />
+
+Deste <em>Sagrado Monte Olivete</em> se
+v&ecirc; bem o <em>Templo</em>, no
+Lugar em que esteve o de
+<em>Salama&otilde;</em>, que agora he
+Mesquita
+de Mouros, e Turcos. Est&aacute; no meyo de hum grande quadro
+murado, e hum angulo delle he muro da <em>Cidade
+Santa</em>,
+em hum prado desembara&ccedil;ado, e limpo, com algumas arvores.
+He fabricado &agrave; maneira de hum Zimborio, de Moysaico,
+e riquissimas columnas, e taboas de marmore, e jaspe;
+e por f&oacute;ra eleva apparatosamente a vista. Nenhum
+<span class="pagenum"><a name="p25" id="p25">[25]</a></span>
+Christa&otilde; entra dentro sobpena de perder a vida, ou renegar;
+o que se pratica em todas as suas Mesquitas, como tenho
+dito; por&egrave;m nesta he com mais rigor; porque depois da
+Casa de Meca em que estes barbaros dizem estar o
+<a href="#e1">&Ccedil;ancarra&otilde;</a>
+de Mafoma, esta he a mais principal. Algumas vezes ouviamos
+a hum Mouro, que de huma Torre chamava o Povo para
+a sua ora&ccedil;a&otilde; com grandes gritos; o que
+pratica&otilde; em todas
+as Mesquitas; porque na&otilde; admittem sinos, nem os permittem
+aos Christ&atilde;os.<br />
+
+<br />
+
+Baix&aacute;mos deste Sagrado Monte pela parte, por onde
+subimos, e ainda que huma vez fomos a
+<em>Bethania</em> pela outra
+parte, quizemos nesta occasia&otilde; hir por onde
+<em>Christo Senhor
+nosso</em> fora, poucos dias antes de sua
+<em>Sacratissima Paixa&otilde;</em>:
+e tornando ao rio <em>Cedron</em>,
+come&ccedil;&aacute;mos a subir a ladeira
+do mesmo <em>Sagrado Monte</em> em roda, que
+he caminho mais
+plano. Este he, por onde o <em>Senhor</em>
+sahia a visitar as suas devotas
+<em>Maria Magdalena</em>, e
+<em>Martha de Jerusalem</em> a
+<em>Bethania</em>
+por este caminho he menos de meya legoa; e nelle nos
+mostrara&otilde;
+a horta, em que estava a <em>Figueira</em>,
+que <em>Christo Senhor
+nosso</em> amaldi&ccedil;oou.<br />
+
+<br />
+
+Cheg&aacute;mos a <em>Bethania</em>, que
+hoje ter&aacute; sessenta casas,
+que mais parecem covas de coelhos, que habita&ccedil;a&otilde;
+de homens,
+por estarem quasi debaixo da terra. Naquelles tempos
+foy grande Povoa&ccedil;a&otilde;, hoje nem o que foy mostra.
+Entr&aacute;mos
+logo na casa de <em>Sima&otilde;
+Leproso</em>, que sa&otilde; duas Capellas
+de pedra, bem lavradas, no Lugar donde <em>Christo Senhor
+nosso</em>
+ceou com <em>Lazaro</em> resuscitado, e Maria
+Magdalena o ungio.
+Est&aacute; hum Altar em que se diz Missa no dia, que se canta
+este Euangelho, e ao presente he curral de cabras, e boys:
+e na&otilde; faltar&aacute; que alimpar, quando neste Lugar se
+houver de
+dizer Missa; e ainda que nos entristece o ver qua&otilde;
+maltratados
+sa&otilde; estes Lugares dos Mouros, e Turcos, na&otilde;
+desmaya
+a devo&ccedil;a&otilde;, e F&eacute; dos Catholicos, porque
+consideramos,
+<span class="pagenum">[26]</span>
+que Deos permitte que assim seja por seus occultos juizos.
+Daqui fomos a visitar o sepulchro de Sa&otilde; Lazaro, de que
+tem os Mouros a chave, e dando-lhes algum dinheiro, de
+boa vontade abrem a porta. Entr&aacute;mos por huma escada de
+quinze, ou mais degraos, debaixo da terra, a este Lugar,
+em que estava sepultado, quando <em>Christo Senhor
+nosso</em> o resuscitou.
+He Lugar de muita devo&ccedil;a&otilde;, considerando as
+lagrimas
+de <em>Christo Senhor nosso</em>, de
+<em>Maria</em>, e de
+<em>Martha</em>, e dos
+mais, que estava&otilde; com os Apostolos. Daqui sahimos, e andados
+alguns passos, vimos o Castello, e casa que foy de
+<em>Sa&otilde;
+Lazaro</em>; e ainda que est&aacute; tudo arruinado,
+bem mostra ter
+sido casa de homem principal, e visit&aacute;mos a casa de
+<em>Maria</em>,
+e de <em>Martha</em>, que esta&otilde;
+destruidas. No caminho est&aacute; huma
+pedra, em que dizem, esteve sentado <em>Christo Senhor
+nosso</em>
+at&egrave; que chegou <em>Martha</em>, e
+disse: <em>Domine, si fuisses h&icirc;c,
+&amp;c.</em>
+Tudo o [~q] referi est&aacute; f&oacute;ra da Cidade de
+Bethania, ainda que
+esteve dentro naquelles tempos, por ser enta&otilde; Cidade
+gr&atilde;de,
+e hoje muito pequena a Povoa&ccedil;a&otilde;. Della sahimos, e
+subindo
+por hum outeiro como trezentos passos, cheg&aacute;mos ao Lugar
+adonde foy <em>Bethfage</em>. Delle mandou
+<em>Christo Senhor nosso</em>
+aos Apostolos pela asna, e jumentinho, e subindo nella fez
+a sua entrada solemne, e triunfal em
+<em>Jerusalem</em>. Na&otilde; ha aqui
+algum edificio, mais que humas Figueiras para sinal. Daqui
+se vem algumas casas da Cidade de
+<em>Jeric&oacute;</em>, que todas
+sa&otilde;
+poucas. Est&aacute; edificada em campina raza, que va&otilde;
+acabar
+nas margens do <em>Jorda&otilde;</em>.
+Est&aacute; distante de Jerusalem trez legoas,
+poucos mais, ou menos. Tambem se v&ecirc; deste sitio
+hum lago, que ter&aacute; de comprimento trez legoas, pouco
+mais, e de largo duas. He este lago do <em>Rio
+Jorda&otilde;</em>, e nelle
+se acaba, pois na&otilde; tem outra corrente, nem sahida. Chama-se
+o <em>Mar morto</em>; e debaixo delle
+esta&otilde; aquellas malditas, e
+infames Cidades <em>Sodoma</em>, e
+<em>Gomorrha</em>: e se v&ecirc; tambem
+outro
+monte, que estar&aacute; quasi huma legoa distante, a que
+<em>Christo</em>
+<span class="pagenum">[27]</span>
+<em>Senhor nosso</em> se retirou, e nelle
+jejuou quarenta dias, e
+quarenta noites, e foy tentado pelo demonio. Passado o
+<em>Jorda&otilde;</em>
+por esta parte, que est&aacute; de
+<em>Jerusalem</em> oito legoas, pouco
+mais, principia&otilde; os montes de Arabia.<br />
+
+<br />
+
+Sahimos do Lugar de <em>Bethfage</em>, e
+subimos ao alto do
+<em>Monte Olivete</em>, levando o rosto para
+o Septentria&otilde;, e declinado
+ao Poente, passando pela Igreja da
+<em>Ascensa&otilde;</em>,
+baix&aacute;mos
+ao Lugar, adonde vendo <em>Christo Senhor
+nosso</em> a Cidade
+de <em>Jerusalem</em>, chorou sobre ella,
+dizendo: <em>Si cognovisses,
+&amp; tu, &amp;c.</em> e descendo ao Valle de
+<em>Josaphath</em>, subio &agrave; Cidade,
+e <em>Templo</em>, entrando pela
+<em>Porta Aurea</em>, que agora
+est&aacute; no muro
+cerrada de cal, e pedra, sahindo o Povo a seu recebimento
+com ramos de palmas, e os meninos cantando: <em>Hosanna in
+excelsis</em>.<br />
+
+<br />
+
+Todos os annos fazia&otilde; os Religiosos Latinos esta
+representa&ccedil;a&otilde;,
+em que o <em>Guardia&otilde;</em>, que
+representava a <em>Christo
+Senhor nosso</em>, e doze Religiosos os
+<em>Apostolos</em>, sahia&otilde;
+paramentados
+de <em>Bethfage</em>, e mandava o
+<em>Guardia&otilde;</em> a dous
+Religiosos,
+que fossem pela asna, e jumentinho; e trazendo-a,
+subia nella; e cantando os Religiosos em circuito do Preste,
+e chorando pela muita devo&ccedil;a&otilde; varios Hymnos, e
+versos
+a este proposito, ordenava&otilde; na Dominga de Ramos esta
+triunfal, e solemne Procissa&otilde;, e o sahia&otilde; a
+receber da Cidade
+muitas na&ccedil;oens Christ&atilde;as, e muito Infieis, e
+lan&ccedil;ava&otilde;
+ramos, e as suas vestiduras, por donde passava. Os Mouros;
+e Turcos estava&otilde; como pasmados vendo esta
+Procissa&otilde;, sem
+perturbarem aos Christ&atilde;os, o que parecia milagre, e o era
+certamente, por na&otilde; terem m&atilde;os, nem linguas para
+os impedir,
+por <em>Deos nosso Senhor</em> o
+na&otilde; permittir; e subindo ao <em>Santo
+Cenaculo</em>, que era enta&otilde; Convento seu,
+proseguia&otilde; o Officio
+daquelle dia. No tempo, que eu estive na Santa Cidade
+na&otilde; se fazia esta Procissa&otilde;, porque o Turco
+mandou, que
+se n&atilde;o fizesse.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[28]</span>
+<em>Da Cidade de Bethleem, e do caminho que fizemos
+at&egrave;
+l&aacute; chegar.</em><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; he tempo de tratar do alegrissimo, e bemditissimo
+caminho,
+que ha da <em>Santa Cidade de Jerusalem</em>
+&agrave; de Bethleem,
+que sa&otilde; duas leguas para a parte do Meyo dia. Sahimos
+da <em>Santa Cidade</em> ao nascer do Sol,
+pela porta de Jaffa,
+e passando pela <em>Fonte de
+Salama&otilde;</em>, e <em>casa de
+Bersab&egrave;</em> sua
+m&atilde;y, subimos huma pequena, e suave costa, e d&eacute;mos
+em hum caminho, todo plano, ainda que nelle ha muitas
+pedras. He este caminho muito aprazivel, porque o espa&ccedil;o
+de huma legoa delle tudo sa&otilde; herdades, vinhas, oliveiras,
+frutas, e muitas Torres, e casas, o que tudo faz huma
+deliciosa vista, e muitas dellas fora&otilde; casas de
+Prof&eacute;tas,
+e algumas j&aacute; fora&otilde; Igrejas. Vimos em hum campo
+grande
+quantidade de pedras ta&otilde; pequenas como gra&otilde;s, e
+do
+seu feitio; e se conta, que a <em>Virgem Senhora
+nossa</em> vendo
+semear gr&atilde;os a hum Lavrador, lhe pedio, lhe d&eacute;sse
+delles; e que elle zombando respondera, que na&otilde;
+era&otilde;
+gr&atilde;os; que era&otilde; pedras, e assim sa&otilde;
+at&egrave; hoje. Eu os vi,
+e trouxe alguns. Vimos tambem neste caminho huma grande
+arvore, que me pareceo <em>Aroeira</em>, e
+lhe chama&otilde; <em>Terebintho</em>.
+Tom&aacute;mos ramos com devo&ccedil;a&otilde;, porque
+&agrave; sua sombra
+dizem que descan&ccedil;&aacute;ra a <em>Virgem
+Senhora nossa</em>. Vimos tambem
+o <em>sepulchro de Rachel</em>, que os
+Mouros, e Turcos guarda&otilde;,
+e usa&otilde; delle Mesquita. He fermoso edificio, situado
+em hum lindo quadro, com hum muro cuberto com hum
+capitel sobre columnas. Vimos tambem huma cisterna de
+muita, e boa agua, em que os <em>Santos trez
+Reys</em> tivera&otilde;
+grande alegria, por lhes apparecer a
+<em>Estrella</em>, que se escondera,
+antes que entrassem em <em>Jerusalem</em>, e
+dalli os guiou
+at&egrave; o Lugar aonde estava o <em>Menino
+Deos</em> no portal de
+<em>Bethleem</em>.
+Vimos tambem huma Igreja de Gregos, que he a casa
+<span class="pagenum">[29]</span>
+adonde esteve <em>Elias</em>. Ha por esta
+parte muitas antigalhas
+dignas de ver, e curiosas. Desta casa se descobre a feliz,
+e desejada Igreja, e Cidade de
+<em>Bethleem</em>.<br />
+
+<br />
+
+Quando a vimos, Peregrinos, e Religiosos, que nos
+acompanhara&otilde;, nos puzemos de joelhos, cantando Hymnos,
+e ora&ccedil;oens, dando muitas gra&ccedil;as a Deos pelo
+Mysterio
+do seu Nascimento, e por permittir que, que visitassemos
+aquella <em>Santa Cidade</em>; e assim
+continu&aacute;mos, at&eacute; chegarmos
+a ella, e &agrave; porta da Igreja, que est&aacute;
+f&oacute;ra da dita <em>Cidade</em>,
+que agora ter&aacute; pouco mais de sessenta visinhos.
+Entr&aacute;mos
+pela porta principal da Igreja, que est&aacute; defronte
+da Capella mayor, ficando &agrave; ma&otilde; esquerda a
+entrada
+do Convento. Sahira&otilde;-nos a receber os Religiosos de
+Sa&otilde;
+Francisco, que alli assistem, e commummente sa&otilde; nove,
+ou dez; e fizemos ora&ccedil;a&otilde; na Igreja, que he da
+Invoca&ccedil;a&otilde;
+de <em>Santa Catharina</em>. Esta Igreja,
+Convento, e Igreja grande
+do <em>Santissimo Nascimento</em>, fazem hum
+corpo, e na de <em>Santa
+Catharina</em> dissemos Missa no dia que
+cheg&aacute;mos.<br />
+
+<br />
+
+Dita a Missa, todos os Religiosos, e Pereginos com
+tochas accezas, baix&aacute;mos por huma escada, que
+est&aacute; na parede,
+e lado da Epistola, e tem vinte degraos, a humas covas,
+em que esta&otilde; fabricadas na penha viva estas Capellas.
+Hum Altar, no Lugar, em que fora&otilde; mortos muitos dos
+meninos Innocentes; poucos passos mais dentro, a hum lado
+o <em>sepulchro de Santo Eusebio</em>,
+discipulo de <em>Sa&otilde; Jeronymo</em>;
+mais dentro dous passos em huma Capella o <em>sepulchro
+de Santa Paula</em>, e de sua filha
+<em>Eustochio</em>; e de fronte na mesma
+Capella o <em>sepulchro de Sa&otilde;
+Jeronymo</em>; mais dentro huma
+Capella, adonde <em>Sa&otilde;
+Jeronymo</em> viveo muito tempo, e traduzio
+a <em>Sagrada Biblia</em>. Todos os dias se
+visita&otilde; estes Santos
+Lugares processionalmente cantando Hymnos, Antifonas,
+Versos, e Ora&ccedil;oens em cada huma destas Esta&ccedil;oens,
+e
+se ganha&otilde; muitas Indulgencias. Daqui sahimos, e
+entr&aacute;mos
+<span class="pagenum">[30]</span>
+por hum passadi&ccedil;o apertado, e estreito, para hirmos
+&agrave; Capella
+do <em>Santissimo Nascimento</em>, e nos
+pareceo, quando entr&aacute;mos,
+que entravamos no Paraiso.<br />
+
+<br />
+
+Esta Santissima Capella em que a <em>Virgem M&atilde;y
+de
+Deos, e Senhora nossa</em> pario ao <em>Filho
+de Deos</em>, est&aacute; fabricada,
+como as outras, na penha viva. Ter&aacute; como doze palmos
+de comprimento, de largura quatro, e dous estados
+em alto. He cuberta de marmore, e jaspe, e de fermosissimo
+Moysaico. Ha nella hum Altar de huma s&oacute; pedra,
+va&otilde;
+por baixo, que he o proprio Lugar, em que nasceo <em>Jesu
+Christo, verdadeiro Filho de Deos, Homem, e Deos
+verdadeiro</em>.
+Est&aacute; este Lugar sinalado com huma pedra branca, que
+no meyo tem huma Estrella de jaspe. Sobre este celestial Altar
+diss&eacute;mos Missa do Nascimento dous dias. Dous passos
+adiante est&aacute; o Lugar, como huma piasinha de marmore
+quadrada,
+mais baixo que o pavimento, em o qual foy o Menino
+Deos reclinado no Presepio. Aqui est&aacute; descuberto hum
+peda&ccedil;o
+de penhasco, ta&otilde; ditoso, que gozou (se se p&ograve;de
+dizer) do
+resplandor, e gloria de Deos humanado: e na verdade, que
+este penhasco nos alegrou mais que todos os mais jaspes, e
+Moysaicos; porque estes nos alegrara&otilde; a vista corporea,
+aquelle nos encheo a alma de contentamento. Bem discretos
+fora&otilde; os edificadores deste Santissimo Lugar, em o deixar
+&agrave; vista, para alegria espiritual de todos os que o vem.<br />
+
+<br />
+
+Entre o Lugar do <em>Santissimo
+Nascimento</em>, e <em>Santissimo
+Presepio</em>, est&aacute; hum Altar de marmore, que
+sinala o Lugar,
+em que os Reys offerecera&otilde; os seus dons. Eu como musico
+tive mil desejos, e ancias, de ter alli os melhores musicos
+do Mundo, assim de vozes, como de todos os instrumentos,
+para dizer, e cantar mil vilhancicos, e chansonetas ao
+<em>Menino Jesus</em>, a sua
+<em>M&atilde;y Santissima</em>, e ao
+glorioso <em>Sa&otilde;
+Joseph</em>, em companhia dos Anjos, Reys, e Pastores, que
+se
+achara&otilde; naquelle diversorio; que ainda que parecia pobre,
+<span class="pagenum">[31]</span>
+excedia a todas as riquezas, que imaginar se podem.<br />
+
+<br />
+
+Nos lados do Altar do <em>Santissimo
+Nascimento</em> ha duas
+escadas, porque subimos &agrave; <em>Capella
+m&ograve;r da Igreja</em> principal,
+porque o Lugar do Nascimento Santissimo, e os demais que
+referi, esta&otilde; debaixo desta Igreja. Esta he fermosissima,
+ainda
+que em parte est&aacute; despida da sua fermosura, porque todas
+as paredes, e pavimento, estivera&otilde; cubertas com taboas
+de marmore, que os Turcos ha poucos annos a esta parte
+tirara&otilde; para ornarem as suas Mesquitas. He de trez naves,
+a do meyo muito alta, e sustenta-se o tecto em ricas, e grandes
+columnas de marmore, inteiras, e bem lavradas, e sa&otilde;
+quarenta e oito. Sobre estas columnas esta&otilde; assentadas vigas
+de cedro, que atravessa&otilde; de huma a outra, muito curiosas
+pelo artificio; e sobre isto ha outros arcos de pedra,
+e sobre elles em hum lado est&aacute; lavrada de riquissimo
+Moysaico
+a gera&ccedil;a&otilde; de <em>Christo Senhor
+nosso</em>, como a escreveo <em>Sa&otilde;
+Mattheus</em>, e do outro lado, como a escreveo
+Sa&otilde; Lucas;
+tudo de figuras de meyo corpo, com seus nomes.<br />
+
+<br />
+
+Junto &agrave; Capella mayor est&agrave; hum Altar, adonde o
+<em>Menino Deos</em> foy circumcidado. Nesta
+fermosa Igreja se
+diz Missa algumas vezes, e na&otilde; sempre; porque os Turcos
+quasi todo o dia esta&otilde; nella, e como sa&otilde; muito
+porcos,
+est&aacute; pouco aceada. O Padre Guardia&otilde; nos levou aos
+terrados
+da Casa, e Igreja; e de l&aacute; vimos o lugar, e prados, em
+que os <em>Santos Pastores</em>
+estava&otilde;, quando o Anjo lhes disse,
+que <em>Christo nosso Salvador</em> era
+nascido, cantando: <em>Gloria in
+excelsis Deo</em>. Est&aacute; de
+<em>Bethleem</em> como a terceira parte de
+huma
+legoa. Vimos tambem o Lugar, em que estava&otilde; as vinhas do
+<em>Balsamo</em>, no tempo de
+<em>Salama&otilde;</em>, que se chama
+<em>Engadi</em>. Est&aacute;
+pouco mais de huma legoa de <em>Bethleem</em>.<br />
+
+<br />
+
+Desta <em>Santa Casa</em> sahimos como cem
+passos, e entr&aacute;mos
+em huma cova (de que os Mouros tem a chave) adonde
+estivera&otilde; escondidos a <em>Virgem Senhora
+nossa, o Menino Deos</em>,
+<span class="pagenum">[32]</span>
+e <em>Sa&otilde; Joseph</em>, quando o
+<em>Anjo</em> lhes disse, que fugissem para
+o <em>Egypto</em>, por Herodes procurar o
+<em>Menino</em> para o matar.
+Nesta cova dizem, que dando a <em>Virgem Senhora
+nossa</em> de
+mamar ao seu <em>bemditissimo Filho</em>, lhe
+cahira do seu purissimo
+<em>Leite</em> na terra; pelo que todos
+leva&otilde; desta terra por devo&ccedil;a&otilde;,
+para dar &agrave;s mulheres, que tem falta de leite, e
+lan&ccedil;ada
+em hum vaso de agua, ou vinho, se lhestitue, conf&oacute;rme
+a f&eacute; da que o usa.<br />
+
+<br />
+
+Aqui nos hospeda&otilde; os Religiosos, dando-nos de comer,
+e camas a todos os Peregrinos com muito amor, e caridade,
+sem que seja necessaria recompensa&ccedil;a&otilde;; ainda que
+todos, conforme a sua possibilidade, contribuem com o que
+podem, por agradecimento, o que na&otilde; espera a sua grande
+caridade, com que trata&otilde; a todos sem differen&ccedil;a.
+A mayor
+parte dos edificios desta Casa edificou <em>Santa
+Paula</em> em
+tempo de <em>Sa&otilde; Jeronymo</em>.
+Aqui habitara&otilde; at&egrave; morrerem. O
+que est&aacute; aruinado se p&ograve;de reparar,
+por&egrave;m na&otilde; o permittem
+os Turcos. Tem bastante vivenda para os Religiosos.
+Tem dous Jardins, em que ha muitas Larangeiras, e outras
+arvores, frutas, e hortali&ccedil;as; bons passeyos, boas vistas, e
+em tudo o que se descobre houve antigamente cousas notaveis.
+Tem hum dormitorio para os Peregrinos, &agrave; maneira
+de huma nave, em que se podem hospedar at&egrave; duzentos.
+Sahimos deste Santo Lugar com tantas saudades, como
+quem deixava l&aacute; a alma, e na&otilde; acertavamos a nos
+retirar: e
+torn&aacute;mos para a <em>Santa Cidade de
+Jerusalem</em> pelo mesmo caminho,
+chorando, sem tirarmos os olhos, em quanto o alcan&ccedil;amos
+com a vista, de Lugar ta&otilde; Santissimo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[33]</span>
+<em>Da Igreja do Monte Calvario, e Santo
+Sepulchro.</em><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Vistos os Santuarios da <em>Santa Cidade de
+Bethleem</em>, pedimos
+ao Senhor Guardia&otilde; nos procurasse a entrada no
+<em>Sagrado Monte Calvario, e Santo
+Sepulchro</em>; e ajustado o dia,
+e hora com o <em>Subasi</em>, Governador da
+<em>Santa Cidade de Jerusalem</em>,
+que tem as chaves desta <em>Santa
+Igreja</em>, que sempre
+est&aacute; fechada, e s&oacute;mente se abre quando elle quer,
+ou quando
+o Padre Guardia&otilde; o avisa de que ha&otilde; de entrar
+Religiosos,
+ou Peregrinos, ou alguma das na&ccedil;oens Christ&atilde;as; e
+chegado
+o dia, que foy quinta feira de tarde, veyo
+<em>Subasi</em> com
+o Escriva&otilde;, e Porteiro, e se sentou &agrave; porta desta
+<em>Santa Igreja</em>
+sobre hum poyal, que se cobrio com hum tapete, e coxins
+de veludo; e o Padre Guardia&otilde; com outros Religiosos,
+e hum Christ&atilde;o da terra, que se chama
+<em>&Aacute;n&agrave;</em>, muito bom
+homem, e fiel interprete do Convento, que falla bem Italiano,
+e Arabigo, que he a lingua commua da terra em toda
+a Palestina, e Syria. Cheg&aacute;mos sete Peregrinos, que eramos,
+que o Padre Guardia&otilde; appresentou ao Subasi, e perguntando-me
+o nosso interprete, pois era o primeiro, o como
+me chamava? Respondi, que <em>Alberto</em>;
+porque parecesse nome
+Tudesco, e na&otilde; <em>Hespanhol</em>,
+por ser de perigo, que elles
+saiba&otilde;, que somos Hespanhoes, porque entendem, que
+vamos por espias, e nos fazem escravos; e fallando Italiano,
+os assegur&aacute;mos de toda a suspeita. Escreveo o Turco o nome,
+que eu disse, com huma penna de cana, e lhe dey nove
+<em>zequies</em> de ouro, que vale cada hum
+sete centos e cincoenta,
+e o mesmo deu meu companheiro, e os mais. Os Religiosos
+Sacerdotes na&otilde; paga&otilde; cousa alguma. Paga se
+s&oacute;mente este
+dinheiro na primeira vez, que se entra nesta Santa Igreja;
+e depois, quando se abre, basta que se d&ecirc; ao Porteiro hum,
+ou dous maydines.<br />
+
+<br />
+
+Entr&aacute;mos logo nesta Santissima Igreja, em que a vista
+<span class="pagenum">[34]</span>
+na&otilde; p&ograve;de estar ociosa, pelo muito que ha, que
+ver, e venerar.
+A primeira cousa he o Lugar, aonde <em>nosso
+Redemptor</em>
+foy ungido para o sepultarem; e &agrave; ma&otilde; direita, na
+mesma
+nave, est&agrave; o <em>Santissimo
+Calvario</em>, &agrave; ma&otilde; esquerda na nave
+do meyo, defronte da porta do Coro ao Poente, est&aacute; o
+<em>Sepulchro
+do nosso Redemptor</em>; e no meyo da Igreja o Coro, que
+tem quatro Cadeiras Patriarchaes, em que em outro tempo
+se sent&agrave;ra&otilde; juntos os quatro Patriarchas da
+Christandade.
+Est&aacute; hoje a cargo dos Gregos, e nelle tem o seu Altar mayor
+com Imagens de Santos, pintadas com todo o primor.
+As naves sa&otilde; direitas, excepto que para a parte do Oriente,
+e Poente sa&otilde; redondas, &agrave; maneira de Colisseo. A
+Igreja
+he de fermosa fabrica. O tecto em partes he de Moysaico.
+As paredes em outro tempo estivera&otilde; cubertas de marmores,
+agora est&aacute; a pedra aberta. Na&otilde; perde com tudo a
+fermosura
+esta fabrica excellentissima, ainda que tenha agora esta
+falta.<br />
+
+<br />
+
+As na&ccedil;oens Christ&atilde;as, que ha em
+<em>Jerusalem</em> de diversos
+Reynos, e Provincias, e Linguas, sa&otilde; estas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Latinos. Gregos. Armenios. Georgianos. Jacobitas.
+Abexins. Surianos. Maronitas.</em><br />
+
+<br />
+
+De cada huma destas na&ccedil;oens ha dous, ou trez Religiosos,
+repartidos pelas Capellas desta Santa Igreja, que
+dizem o Officio Divino cada hum a seu modo, rito, e lingua,
+e tem cuidado das suas alampadas, que esteja&otilde; sempre
+accezas, e limpas. A habita&ccedil;a&otilde; dos nossos
+Religiosos
+de Sa&otilde; Francisco Latinos he a melhor; porque tem Refeitorio,
+Dormitorio, e tudo o que basta para poderem estar at&egrave;
+trinta pessoas.<br />
+
+<br />
+
+Comem, e dormem estas na&ccedil;oens dentro nesta Igreja,
+e os Peregrinos, que esta&otilde; dentro, dando-lhes de comer,
+e o que pedem por hum buraco, que a casa tem como fresta,
+cruzada com duas barras de ferro. Por esta fresta falla&otilde;,
+<span class="pagenum">[35]</span>
+e se lhes ministra o necessario, e se v&ecirc; hum
+peda&ccedil;o da Igreja;
+por ella fazem ora&ccedil;a&otilde; os que esta&otilde; de
+f&oacute;ra. Tal ordem tem
+dado o Turco, para que esteja&otilde; conformes, e como germanadas
+estas na&ccedil;oens, humas com outras, que se huma alampada
+se estiver apagando, e o visinho a quizesse ati&ccedil;ar por
+devo&ccedil;a&otilde;, o condemnaria&otilde; em muitos
+cruzados; e assim com
+este rigor, ha summa paz entre todos, e nenhum se intromete
+na obriga&ccedil;a&otilde;, ou devo&ccedil;a&otilde; do
+outro.<br />
+
+<br />
+
+A todos sa&otilde; communs os
+<em>Santuarios</em>, para os poderem
+visitar em qualquer hora, que quizerem, porque esta&otilde;
+continuamente abertos; e como sempre est&agrave; fechada a porta
+da Igreja, tudo est&agrave; bem guardado: pelo que he de grande
+contentamento, e devo&ccedil;a&otilde; o poder entrar
+livremente, de
+dia, e de noite, em que muitissimas alampadas a illumina&otilde;.
+Em todos os Santuarios tem todas as na&ccedil;oens suas alampadas,
+huns mais, outros menos, e cada huma cuida das suas.<br />
+
+<br />
+
+Come&ccedil;&aacute;mos os Peregrinos, e Religiosos a nossa
+procissa&otilde;
+nesta Santa Igreja com v&egrave;las accezas, cantando o
+Hymno, Antifona, e Verso daquelle Santuario, que visitamos,
+e chegando o Religioso, que est&agrave; paramentado, nos
+diz o Mysterio, que alli passou, e a Indulgencia, que
+ganh&aacute;mos.<br />
+
+<br />
+
+A primeira Esta&ccedil;a&otilde; foy em huma Capella, que se
+chama
+o <em>Carcere de nosso Salvador</em>, no qual
+esteve em tanto,
+que os Judeos esperava&otilde;, que a Cruz, e o lugar em que se
+havia p&ocirc;r, estivessem aparelhados. Mais adiante
+visit&aacute;mos
+huma Capella, na qual os Soldados, que prendera&otilde; a
+<em>Christo
+Senhor nosso</em>,
+lan&ccedil;&aacute;ra&otilde; sortes sobre as suas
+vestiduras. Mais
+adiante entr&agrave;mos por huma porta, e baixando trinta degraos,
+cheg&aacute;mos &agrave; Capella de S. Helena, m&atilde;y
+do Emperador Constantino,
+em [~q] se sentou a Santa Emperatriz, em tanto, que se
+cavava, procurando a Cruz. Aqui nesta Cadeira da Santa
+ha muitas Indulgencias. Baix&aacute;mos mais onze, ou doze degraos,
+<span class="pagenum">[36]</span>
+feitos na mesma penha do <em>Monte
+Calvario</em>, e he o
+Lugar adonde a Santa Emperatriz achou a Santa Cruz, titulo,
+cravos, e as cruzes dos Ladroens. Chama&otilde;-se estas
+Capellas da Inven&ccedil;a&otilde; da Cruz. Esta&otilde;
+bem fabricadas, e muito
+espa&ccedil;osas, ainda que debaixo da terra, que corresponde
+ao Calvario.<br />
+
+<br />
+
+Sahimos desta Capella, e visit&aacute;mos outra, donde
+est&agrave;
+hum peda&ccedil;o de huma columna, em que Christo Senhor nosso
+esteve sentado, quando os Ministros de Pilatos, depois
+de o a&ccedil;outarem, o coroara&otilde; de espinhos. Daqui
+subimos por
+dezanove degraos, e fomos ao <em>Santo Monte
+Calvario</em>, e
+nos pareceo, que entr&agrave;vamos no Paraiso. Estando no alto,
+vimos huma Capella, que sa&otilde; duas estancias a modo de
+tribuna,
+que corresponde &agrave; primeira nave da Igreja. A primeira
+he o Lugar Sacratissimo, em que o <em>Filho de
+Deos</em> foy levantado
+na Cruz; nelle est&aacute; o buraco donde a Santa Cruz esteve
+fixada. Tem hum bocal de prata, e o ador&aacute;mos, e
+beij&aacute;mos,
+como Santuario ta&otilde; admiravel. Metemos dentro os
+nossos bra&ccedil;os n&ugrave;s, e assim digo, que
+ter&aacute; de fundo como
+trez palmos. Nos lados esta&otilde; sinalados os Lugares das cruzes
+dos Ladroens, que me parece, que tocava&otilde; huma, e
+outra cruz. Ha entre a de <em>Christo Senhor
+nosso</em>, e a do m&agrave;o
+Ladra&otilde;, <em>huma abertura</em> na
+penha de sete palmos de comprido,
+e mais de hum de largo, que chega abaixo ao Lugar
+da <em>Inven&ccedil;a&otilde; da Santa
+Cruz</em>. Esta se abrio quando <em>Christo
+Senhor nosso</em> espirou. Na outra parte da Capella, a
+trez passos,
+est&agrave; o Lugar em que cravara&otilde; a
+<em>Christo Senhor nosso</em>, estando
+a Cruz no cha&otilde;, e dalli a levantara&otilde;, e
+puzera&otilde; no
+sitio referido. Donde isto succedeo est&aacute; huma memoria de
+jaspe, e marmore bem lavrados. Esta Capella, que se chama
+da <em>Crucifixa&otilde;</em>, toda
+est&aacute; cuberta de marmore, e jaspe finissimo
+com muitos lavores, e o tecto he todo de Moysaico,
+de que esta&otilde; pendentes mais de cincoenta alampadas de todas
+<span class="pagenum">[37]</span>
+as na&ccedil;oens de Christ&atilde;os. Dissemos Missa na parte
+da
+<em>Crucifixa&otilde;</em>, na sexta
+feira seguinte ao dia, em que entr&agrave;mos,
+e foy a da <em>Paixa&otilde; secund&ugrave;m
+Joannem</em>; e este Altar se divide
+com huma cortina do Lugar em que esteve fixada a Santa
+Cruz. Na&otilde; poderey explicar a grande afluencia de
+devo&ccedil;a&otilde;,
+que todos aqui sentem interior, e exteriormente, considerando,
+que tudo, o que o Santo Euangelho refere, se obrou
+neste Santissimo Lugar. A parte donde <em>Christo Senhor
+nosso</em>
+foy encravado, est&agrave; entregue ao cuidado dos Religiosos de
+Sa&otilde; Francisco; adonde esteve crucificado aos Religiosos
+Georgianos, que sa&otilde; extremosamente devotissimos, e sempre
+esta&otilde; neste Sagrado Lugar rezando, e cantando.
+Sa&otilde; virtuosissimos
+Varoens, e de muita abstinencia, e pobreza. He ta&otilde;
+agradavel, e devota para a alma, e corpo esta estancia do
+<em>Sagrado Monte</em>, que n&atilde;o se
+enfada, ou can&ccedil;a alguem de
+estar nella. Em tudo he hum Paraiso. Oh que bem parecera&otilde;
+aqui alguns Musicos cantando as lamenta&ccedil;oens de Jeremias,
+vendo, e considerando o <em>Calvario</em>, e
+<em>Santo Sepulchro</em>,
+porque ambos estes Santuarios se podem ver juntamente!<br />
+
+<br />
+
+Baixando deste Sagrado Lugar, cheg&agrave;mos ao meyo
+da primeira nave, e vener&agrave;mos huma pedra grande, pegada
+na terra, cercada de grades de ferro de altura de palmo;
+e por cima esta&otilde; pendentes oito, ou nove alampadas de todas
+as na&ccedil;oens Christ&atilde;as. Neste Lugar foy ungido
+<em>Christo
+Senhor nosso</em> para o sepultarem, por seus devotos
+servos,
+<em>Nicodemus</em>, e <em>Joseph
+ab Arimathea</em>, assistindo a <em>Virgem
+Senhora
+nossa</em>, e as mais <em>Santas
+Mulheres</em>, e o amado Discipulo
+<em>Sa&otilde; Joa&otilde;</em>. Este
+Santo, Lugar est&agrave; defronte da porta da
+Igreja, e se v&ecirc; pela fresta, que nella ha; e os que
+esta&otilde; f&oacute;ra,
+por ella fazem ora&ccedil;a&otilde;, e ganha&otilde; as
+Indulgencias. Daqui
+ao <em>Santo Sepulchro</em> haver&agrave;
+quarenta passos para a parte do
+Poente, dentro da mesma Santa Igreja. Esta inestimavel reliquia
+<span class="pagenum">[38]</span>
+possuem os nossos Religiosos de Sa&otilde; Francisco, e
+s&oacute;mente os Latinos dizemos nelle Missa. A sua
+f&oacute;rma he
+esta. Antes da entrada ha huma pequena Capella quadrada,
+em que caber&aacute;&otilde; dez, ou doze pessoas, e no meyo
+della
+est&aacute; huma pedra de dous palmos de altura, e dous de grosso.
+Nesta pedra, dizem, que o <em>Anjo</em>
+estava sentado, quando
+fallou &agrave;s <em>Marias</em>,
+dizendo-lhes, que j&aacute; <em>Christo Senhor
+nosso</em> resuscit&aacute;ra. Por esta Capella se
+entra a outra ta&otilde; pequena,
+que a porta ter&aacute; quatro palmos de alto, e trez de
+largo. &Aacute; ma&otilde; direita est&aacute; o
+<em>Santo Sepulchro de nosso Salvador</em>,
+donde esteve o seu <em>Santissimo Corpo</em>,
+e delle resuscitou.
+He hum Altar como huma arca, cuberta com huma
+pedra marmore. Sobre este preciosissimo
+<em>Sepulchro</em> diss&eacute;mos
+Missa; e na&otilde; cabe neste lugar mais que o Sacerdote, e o
+que o ajuda. O va&otilde; ninguem o v&ecirc;, por&egrave;m
+o mais goza&otilde; todos,
+tocando-o, e beijando-o. Da parte superior pendem
+muitas alampadas de todas as na&ccedil;oens. Aqui disse Missa pela
+misericordia de Deos, e foy a da Resurrei&ccedil;a&otilde;, e
+foy grande
+alegria para mim, quando dizia no Santo Euangelho:
+<em>Surrexit,
+non est h&icirc;c, ecce locus ubi posuerunt eum</em>;
+sinalando
+com o dedo o lugar adonde esteve o <em>nosso
+Salvador</em>. Move
+certamente os nossos cora&ccedil;oens esta verdadeira
+representa&ccedil;a&otilde;.<br />
+
+<br />
+
+Esta Capella do <em>Santo Sepulchro</em>,
+ainda que por dentro
+he quadrada, por f&oacute;ra he redonda, e tem as paredes cubertas
+de marmore. Em cima tem hum capitel de columnas
+muito bem lavrado, que offerece huma boa vista aos que o
+vem de f&oacute;ra. Est&aacute; no meyo de hum circuito de
+columnas,
+sem tocar em alguma parte. O zimborio da Igreja, que lhe
+corresponde, he huma meya laranja de madeira de cedro
+muito antiga. No meyo tem huma grande abertura, como
+coroa, por donde entra a luz aos que esta&otilde; em baixo. No alto
+de huma parte est&aacute; o retrato da Emperatriz
+<em>Santa Helena</em>,
+<span class="pagenum">[39]</span>
+e da outra o do Emperador
+<em>Constantino</em> seu filho, de
+rico Moysaico, muito antigo, e outras figuras de Santos,
+que quasi na&otilde; se parecem, por estarem maltratadas da
+antiguidade,
+e do tempo.<br />
+
+<br />
+
+Sahidos deste Santissimo Lugar como dez passos, &agrave;
+ma&otilde; esquerda, esta&otilde; duas pedras redondas de
+marmore postas
+na terra, huma apartada da outra, como trez passos. Em
+huma esteve <em>Christo Senhor nosso</em>
+depois de resuscitado, na outra
+a <em>Santa Magdalena</em>, quando lhe
+appareceo em figura de
+Hortela&otilde;, e lhe disse: <em>Noli me
+tangere</em>. Daqui fomos &agrave; Capella,
+e Coro dos nossos Religiosos Franciscanos, em que
+dizem, appareceo <em>Christo Senhor
+nosso</em> a sua <em>Santissima
+M&atilde;y</em>.
+Na entrada desta Capella, na parede, guardada com huma
+rede de ferro, de modo que o podemos tocar com os dedos,
+est&aacute; hum peda&ccedil;o da columna, em que
+<em>Christo Senhor nosso</em>
+foy a&ccedil;outado. Com esta Esta&ccedil;a&otilde;
+acab&aacute;mos de visitar esta Santissima
+Igreja. Nos quatro dias, e noites, que nella estivemos
+encerrados, reiteramos estas Esta&ccedil;oens muitas vezes em
+procissa&otilde;, e s&oacute;s. He de grande contentamento
+ouvir pela
+meya noite a todas estas na&ccedil;oens dizerem Matinas, cada
+h[~u]a
+na sua lingua, e canto.<br />
+
+<br />
+
+Sahidos desta Santa Igreja, nas costas da Capella Mayor,
+e no mais alto della, que he parte do <em>Sagrado monte
+Calvario</em>, visit&aacute;mos huma Capella, adonde
+<em>Abraham</em> offereceo
+o sacrificio; e outra, que est&aacute; perto, adonde
+<em>Melchisedech</em>
+offereceo pa&otilde;, e vinho; das quaes tem cuidado
+os Religiosos Abexins: e tornando para o nosso <em>Convento
+de Sa&otilde; Salvador</em>, nelle estivemos alguns
+dias, esperando
+ao nosso <em>Trucima&otilde; Atala</em>
+para ajustarmos a nossa vinda.
+Nestes dias reiter&aacute;mos as Esta&ccedil;oens dos Sagrados
+montes
+<em>Sion</em>, e
+<em>Olivete</em>; e chegando &agrave;
+Santa Cidade de Jerusalem
+quatro Religiosos de Sa&otilde; Francisco, que vinha&otilde; do
+<em>Cayro</em>,
+dous Italianos, e dous Hespanhoes, o principal dos Italianos
+<span class="pagenum">[40]</span>
+se chamava <em>Fr. Mattheus Salerno</em>,
+homem nobre do
+Reyno de Napoles, e muito virtuoso, que vinha para Comissario
+de <em>Jerusalem</em>; e o principal dos
+Hespanhoes, Fr.
+Luiz de Quesada, natural de Sevilha, os acompanh&aacute;mos na
+continua&ccedil;a&otilde; destes exercicios, que nunca
+enfada&otilde;, mas antes
+nos da&otilde; recrea&ccedil;a&otilde; espiritual, por
+espa&ccedil;o de dez, ou doze
+dias. Trazia o Padre Salerno muito dinheiro, e muitas
+joyas para o servi&ccedil;o do <em>Santo
+Sepulchro</em>. Muitas toalhas, corporaes,
+e demais cousas para o Altar, e celebra&ccedil;a&otilde; das
+Missas,
+que offerecia&otilde; muitas Senhoras de Hespanha, e Italia.
+Hum rico Caliz, que mandava ElRey de Hespanha; e outro
+com huma alampada, que offerecia o Gr&atilde;o Duque de
+Floren&ccedil;a.
+Tudo me mostrou na Sacristia por contentar o meu
+desejo, e querer fosse eu testemunha de tudo.<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; tratavamos de voltar para Italia, e o nosso
+<em>Atala</em>
+nos persuadia, a que fossemos com elle a Jaffa; por&egrave;m o
+<em>Padre Salerno</em> disse, que de nenhum
+modo queria andar por
+mar a costa da Palestina, porque j&aacute; entrava o Inverno; pelo
+que resolveo hir por terra at&egrave; Tripoli, e eu em o
+acompanhar:
+e tendo eu assistido hum mez na <em>Santa Cidade de
+Jerusalem</em>,
+e os Religiosos quinze dias, dispuzemos a jornada;
+e agradecemos ao Padre Guardia&otilde; a hospedagem, dando-lhe
+tambem cada hum a esmola, que podia, e na&otilde; a que
+desejava: e recebemos delle as patentes, e testemunho da
+nossa entrada na <em>Santa Cidade</em>,
+escritas em pergaminho, com
+o sello do <em>Santo Cenaculo</em>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Da nossa sahida
+da Santa Cidade de</em>
+Jerusalem.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Chegou o tempo de sahirmos da Santa Cidade de
+<em>Jerusalem</em>,
+e o Padre Guardia&otilde; ajustou com
+<em>Atala</em>, e outros
+Mouros visinhos de <em>Jerusalem</em>, que
+nos levassem a <em>Damasco</em>,
+caminho de oitenta legoas. Com elles sahimos em jumentos,
+<span class="pagenum">[41]</span>
+(por na&otilde; permittirem, que os Christ&atilde;os andem a
+cavallo) sete Religiosos, e seis Peregrinos. Dous Religiosos
+destes fazia&otilde; jornada para
+<em>Alepo</em>; trez para
+<em>Constantinopla</em>;
+dous, que era&otilde; o <em>Padre
+Salerno</em>, e seu Companheiro
+Fr. Serafino, e hum Leigo Hespanhol, chamado
+<em>Irma&otilde;
+Julia&otilde;</em>, e n&ograve;s Pedro Tudesco, e
+Nicolao Polaco, para Veneza.<br />
+
+<br />
+
+Despedidos do Padre Guardia&otilde;, tomada a sua Santa
+ben&ccedil;a&otilde;, e abra&ccedil;ando com muitas
+lagrimas a todos os Religiosos,
+sahimos acompanhados de todos muitos passos f&oacute;ra
+da Cidade, e repetidos os abra&ccedil;os, e lagrimas,
+come&ccedil;amos
+a caminhar, voltando a cada passo os olhos a traz, para vermos
+a <em>Santa Cidade</em>, os Sagrados montes
+<em>Sion</em>, e
+<em>Olivete</em>, e
+nos despediamos de taes Santuarios com muita tristeza; e
+tendo caminhado como meya legoa, a perdemos de vista.
+Nesta meya legoa vimos huma Igreja, e he o lugar adonde
+<em>Jeremias</em>, vendo a Cidade, e
+chorando, compoz as Lamenta&ccedil;oens.<br />
+
+<br />
+
+Fizemos noite em huma Cidade destruida, trez legoas
+de <em>Jerusalem</em>, e nella
+esper&aacute;mos huma caravana de trinta e
+trez camellos de mercadores Mouros, por fazermos jornada
+em sua companhia. Nesta Cidade foy que a <em>Virgem
+Senhora nossa</em> achou menos ao seu Filho
+<em>Christo Jesus</em> de tenra
+idade, e tornando a <em>Jerusalem</em> a
+procurallo, o encontrou
+no meyo dos Doutores no Templo. Proseguimos a jornada
+por esta parte de <em>Jud&eacute;a</em>,
+e entr&aacute;mos na Provincia de
+<em>Samaria</em>.
+Neste dia fizemos noite na Cidade de
+<em>Sichar</em>, a que os
+Mouros chama&otilde; <em>Nablos</em>.
+Aqui est&aacute; o po&ccedil;o, donde <em>Christo
+Senhor nosso</em> fallou &agrave;
+<em>Samaritana</em>; na&otilde; o vi,
+porque entr&aacute;mos
+j&aacute; de noite; por&egrave;m meu companheiro o vio, que
+ficou
+a traz com parte da companhia, e disse que na&otilde; tinha agua.
+Estivemos naquella noite dentro da Cidade, e dormimos na
+rua, porque nos na&otilde; d&eacute;ra&otilde; pousada; e
+no dia seguinte, pela
+tarde, continu&aacute;mos a jornada.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[42]</span>
+Nesta Cidade de <em>Sichar</em>
+pr&eacute;gou <em>Christo Senhor
+nosso</em>
+dous dias, convertendo os seus moradores. He muito fermosa,
+e fresca, e tem boas casas, e muitas Torres. He habitada
+de dous mil visinhos. Est&aacute; entre dous montes, e o principal
+he o <em>Garisim</em>. Tem hum valle, dos
+fermosos que se
+podem ver, em que ha muitas hortas, e fontes, arvores, e
+frutas. Quando eu vi da outra parte da Cidade tantas fontes,
+passando por este valle, entendi que as na&otilde; haveria no tempo
+da Samaritana; porque havendo-as, na&otilde; buscaria
+ta&otilde;
+longe a agua. Aqui habitou <em>Jacob</em> com
+seus filhos, e gados,
+e deu a <em>Joseph</em> por melhor huma
+herdade, como diz a <em>Santa
+Escritura</em>. Na Cidade nos mostrara&otilde; a sua
+casa. Toda esta
+Comarca de <em>Sichar</em> he fertilissima de
+pa&otilde;, gados, e de tudo
+o necessario para a vida humana. Ao outro dia cheg&aacute;mos
+&agrave; Cidade de <em>Sebaste</em>,
+Cabe&ccedil;a do Reyno, e Provincia de
+<em>Samaria</em>;
+nome que teve em outro tempo; agora est&aacute; destruida,
+ainda que alguns edificios bem mostra&otilde; a sua antiga
+grandeza. Ha nesta Cidade huma Igreja de pedra, e duas
+partes della esta&otilde; cahidas; por&egrave;m o que
+est&aacute; em p&eacute;, he ta&otilde;
+bem lavrado, como a mais perfeita obra Romana. No Altar
+desta Igreja, dizem, foy degollado o grande
+<em>Sa&otilde; Joa&otilde;
+Bautista</em>
+por mandado delRey Herodes. He digno de
+considera&ccedil;a&otilde;
+particular, o ver esta Cidade em que residira&otilde; tantos
+Reys, destruida; pois apenas ter&aacute; cincoenta casas; o
+que tambem se v&ecirc; em toda a Palestina, pois vimos Cidades,
+pelos caminhos que and&aacute;mos, que antigamente fora&otilde;
+populosas,
+e insignes; e hoje s&oacute; se vem pedras, e algumas paredes.
+Bem se colhe ser vontade de Deos; e que esta&otilde; destruidas
+por peccados dos habitadores daquelle tempo. Aqui
+nos dissera&otilde;, que a companhia dos camellos, que vinha
+comnosco, ficando muito a traz, a roub&aacute;ra&otilde; os
+Arabes.
+Na&otilde; sey que assim fosse, o que posso dizer he, que
+j&aacute; mais
+a vimos; e d&eacute;mos gra&ccedil;as a Deos por nos livrar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[43]</span>
+Passadas dez legoas de travessia desta Provincia de
+<em>Samaria</em>,
+entr&aacute;mos na de <em>Galilea</em>.
+Da Santidade della basta dizer,
+que Christo Senhor nosso a passeou muitas vezes, e
+nella obrou as maravilhas, que referem os Chronistas Sagradas.
+Cinco legoas dentro nesta Provincia est&aacute; h[~u]a Igreja
+cahida
+entre h[~u]as casas, de que se f&oacute;rma huma pequena Aldea,
+chamada <em>Janim</em>, em o lugar adonde
+Christo Senhor nosso sarou
+aos dez Leprosos. Mais adiante trez legoas, vimos quatro
+celebrados montes. O <em>Carmelo</em>, [~q]
+est&aacute; ao Poente do nosso
+caminho, junto ao Mediterraneo. O
+<em>Hermon</em>, [~q] est&aacute;
+&agrave; parte
+de Levante, e junto a elle a Cidade de Naim, adonde
+<em>Christo
+Senhor nosso</em> resuscitou o filho da Viuva; agora he
+pequena
+Villa. O monte, a que est&aacute; contigua a <em>Santa
+Cidade de Nazareth</em>,
+adonde encarnou o <em>Filho de Deos</em>.
+Na&otilde; subimos a este
+lugar, bem que estava perto, por[~q] o na&otilde;
+permittira&otilde; os nossos
+Mouros; e s&oacute;mente vimos branquear as ruinas dos edificios.
+A ditosa casa, em que a <em>Virgem Senhora
+nossa</em> concebeo
+ao <em>Filho de Deos</em>, que estava nesta
+Cidade, a trouxera&otilde;
+os Anjos, haver&aacute; duzentos annos, para Italia, e a
+colloc&aacute;ra&otilde;
+em <em>Loreto</em>, tendo primeiramente sido
+levada a duas
+partes. Obra Deos nella infinitos milagres, de que esta&otilde;
+cheyos os livros, e na Igreja em que est&aacute;, j&aacute;
+na&otilde; ha parte
+adonde se ponha&otilde; tantas memorias. Tem muita riqueza de
+pessas de ouro, e prata, ornamentos, offertas que fizera&otilde;
+Pontifices, Reys, Principes, Senhores, &amp;c. no que lhe
+na&otilde;
+excede alguma Igreja do mundo. Cercara&otilde; os Pontifices esta
+camara Angelical com huma fermosa Igreja, e est&aacute; no
+meyo della. As paredes de f&oacute;ra esta&otilde; cubertas de
+marmore
+lavrado de lindas figuras, em que se v&ecirc; a vida da
+<em>Santissima
+Virgem, M&atilde;y de Deos, e Senhora nossa</em>. Por
+dentro esta&otilde;
+descubertas as pedras, e ladrilho, mais agradaveis, ainda
+que antigos, que todas as pedras preciosas do Mundo, pois
+cremos, que fora&otilde; tocadas milhares de vezes por
+<em>Christo</em>
+<span class="pagenum">[44]</span>
+<em>Senhor nosso</em>, e sua
+<em>Santissima M&atilde;y</em> Tem no
+meyo hum Altar
+donde dizemos Missa, que divide a huma parte a chamin&eacute;,
+adonde a <em>Virgem Senhora nossa</em>
+guizava a sua ordinaria
+comida. Est&aacute; esta ditosa chamin&eacute; cuberta de
+prata, e outras
+riquezas.<br />
+
+<br />
+
+Junto a esta Santa Igreja est&aacute; hum sumptuoso Collegio
+da Companhia de Jesus, em que assistem Religiosos de
+muitas na&ccedil;oens. Esta Santa Casa he frequentada de muita
+gente, que a visita, de toda a Christandade.<br />
+
+<br />
+
+Desta Santa Cidade de <em>Nazareth</em> sahio
+a Virgem <em>Senhora
+nossa</em> pejada, acompanhada do seu
+<em>Esposo Santissimo
+Sa&otilde; Joseph</em>, a escreverse na Cidade de
+Bethleem, pelo edito,
+e mandato geral do Emperador <em>Cesar
+Augusto</em>, por ser
+esta Cidade sua, como descendentes da Real estirpe de
+<em>David</em>; e alli pario a seu
+<em>Unigenito Filho</em>, e do
+<em>Eterno
+Pay</em>. De Nazareth a Bethleem ha trinta legoas, pouco
+mais,
+ou menos.<br />
+
+<br />
+
+O outro monte he o <em>Thabor</em>. Ao
+p&eacute; delle cheg&aacute;mos,
+e vimos dous edificios cahidos; hum no principio, outro
+no alto do monte, adonde <em>Christo Senhor
+nosso</em> esteve com
+os seus Discipulos <em>Sa&otilde;
+Pedro</em>, <em>Sa&otilde;
+Joa&otilde;</em>, e
+<em>Santiago</em>, e se transfigurou
+ante elles, e de <em>Moys&eacute;s</em>,
+e <em>Elias</em>. Nelle ouvio a voz
+do <em>Eterno Pay</em>, dizendo:
+<em>Hic est Filius meus dilectus,
+&amp;c.</em>
+Demais da Santidade deste monte, que he o principal, por
+nelle se mostrar <em>Christo Senhor
+nosso</em> glorioso, e resplandescente
+com os rayos de gloria; he tambem muito alegre, fermoso,
+e bem proporcionado na sua postura, alto redondo,
+e apartado dos outros; de modo, que parece, foy posto &agrave;
+ma&otilde; naquelles Valles.<br />
+
+<br />
+
+Proseguimos o nosso caminho, levando o rosto ao
+Norte, e cheg&aacute;mos ao mar de
+<em>Galilea</em>, que se chamou
+<em>Tiberiades</em>.
+Ainda que se chama <em>Mar</em>,
+na&otilde; o he; porque a agua
+he doce, e est&aacute; apartado do Mediterraneo mais de doze
+legoas.
+<span class="pagenum">[45]</span>
+Neste <em>mar</em>, ou
+<em>lago</em>, fez Deos milhares de
+maravilhas.
+Aqui estava&otilde; pescando <em>Sa&otilde;
+Pedro</em>, e <em>santo
+Andr&eacute;</em>, e em outro
+barco <em>Sa&otilde;
+Joa&otilde;</em>, e
+<em>Santiago</em>, quando os chamou
+<em>Christo Senhor
+nosso</em> para que o seguissem, e que os faria pescadores
+de homens; e deixando as suas redes, o seguira&otilde;. Ha na
+ribeira
+deste lago muitas Povoa&ccedil;oens, que em outro tempo
+fora&otilde; Cidades principaes. Entre ellas he celebre
+<em>Capharnaum</em>,
+<em>Corozaim</em>, e
+<em>Bethsaida</em>. Ao presente
+s&oacute;mente se vem
+as suas ruinas. Junto a este lago fez <em>Christo Senhor
+nosso</em> o
+milagre de dar de comer &agrave;s turbas, que o seguia&otilde;,
+com
+cinco paens, e dous peixes. Muitas vezes andou, e navegou
+sobre as suas aguas este mesmo Senhor. Aqui se manifestou
+aos Discipulos, depois de resuscitado. Ter&aacute; este cinco
+legoas,
+pouco mais, ou menos de comprido, e de largo pouco mais
+de duas. A agua he do <em>Rio
+Jorda&otilde;</em>, que nelle entra, e sahe
+correndo, mais de quarenta legoas at&egrave; o <em>Mar
+morto</em>, em
+que se recolhe, e na&otilde; torna a sahir. Na sua ribeira ha
+muitas
+fontes. Pous&agrave;mos esta noite, e tarde, que
+cheg&agrave;mos,
+junto a este lago, em Bethsaida, terra, e Patria dos Apostolos
+<em>Sa&otilde; Pedro</em>,
+<em>Santo Andr&egrave;</em>, seu
+irma&otilde;, e <em>Sa&otilde;
+Filippe</em>. Alegria
+grande tivemos por pernoitarmos aqui, pois <em>Christo
+Senhor
+nosso</em> aqui esteve muitas vezes. He agora huma Villa
+de cem
+visinhos. A Comarca he das fermosas, que tem o Mundo,
+muito fertil de gados, frutas, e palmas. Comemos peixe
+deste lago, que nos soube muito bem, por ser donde
+<em>Christo
+nosso Redemptor</em> o comeo algumas vezes, e por ser
+bonissimo,
+e pela devo&ccedil;a&otilde; com que o comiamos, e pela fome,
+que tinhamos.<br />
+
+<br />
+
+No outro dia madrug&agrave;mos muito, e caminh&agrave;mos por
+asperas montanhas, e cheg&agrave;mos antes do meyo dia ao celebre
+<em>Rio Jorda&otilde;</em>, que ainda que
+nesta parte na&otilde; foy o <em>Bautismo
+de Christo Senhor nosso</em>, com tudo por nelle se
+celebrar,
+nos deu a sua vista muita alegria, e contentamento.
+Ape&agrave;monos
+<span class="pagenum">[46]</span>
+todos contra a vontade dos Mouros, e com grande
+ancia cheg&agrave;mos &agrave; agua, bebendo toda a que
+pod&eacute;mos, lavando
+nella cabe&ccedil;a, rosto, e m&atilde;os; e nos parecia, que
+tinhamos
+desejo de nos converter em peixes, para na&otilde; sahirmos
+de aguas ta&otilde; santificadas. Nesta parte he o rio apertado,
+e se p&ograve;de vadear. A agua he cristalina, fresca, e muito
+doce. Pass&agrave;mos por huma ponte de pedra bem lavrada,
+e &agrave; ma&otilde; esquerda vimos huma lagoa, que se chama
+<em>Aguas
+Meronas</em>, que sa&otilde; do mesmo rio.<br />
+
+<br />
+
+Nasce este famoso rio de duas fontes, que vem do
+<em>Monte Libano</em>, huma chamada
+<em>Jor</em>, outra
+<em>Da&otilde;</em>, e dellas toma
+o nome de <em>Jorda&otilde;</em>. Estas
+fontes deixamos &agrave; ma&otilde; esquerda,
+quando vamos de <em>Damasco</em> a
+<em>Tyro</em>, e
+<em>Sydonia</em>.<br />
+
+<br />
+
+Passado o rio Jorda&otilde;, entr&agrave;mos na
+<em>Syria</em>, que commummente
+se chama <em>Suria</em>, e em trez dias
+cheg&agrave;mos a <em>Damasco</em>.
+Na&otilde; vimos cousa notavel neste caminho, s&oacute;mente
+encontr&agrave;mos muitos Senhores, e Cavalheiros Turcos,
+acompanhados
+de muita gente de p&egrave;, e cavallo, e muitos camellos
+carregados com as suas recamaras, mulheres, e familia,
+que fazia&otilde; jornada para o
+<em>Cayro</em>. Neste mesmo caminho me
+lembra sempre, quando hum Turco me deu com hum pao,
+s&oacute;mente por passatempo, e foy rindo com os seus
+companheiros.
+Antes de chegarmos &agrave; Cidade quatro legoas, a vimos;
+porque se descobre assentada ao p&egrave; do <em>Monte
+Libano</em>.
+He muito fermosa pelas muitas Torres, que tem; e pela
+abundantissima veiga. Legoa e meya antes que nella entrassemos,
+pass&agrave;mos muitas hortas, assudes, fontes, e sitios
+frescos, e aprasiveis. A tarde antes, e o dia, em que
+entr&agrave;mos,
+vimos sahir, e entrar nella mais de mil camellos,
+com provimentos necessarios. Entr&agrave;mos, e and&agrave;mos
+grande
+parte della primeiro que chegassemos &agrave; pousada, que foy
+na <em>Alfandega</em>, sempre a p&egrave;
+porque na&otilde; consentem os Turcos,
+que entremos a cavallo; nos seus Povos, e pelas jornadas
+s&oacute;mente nos permittem jumentos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[47]</span>
+Tem esta Cidade em todas as ruas, ao menos huma
+fonte. He a mais abundante do necessario para a vida, assim
+de comestivel, como de sedas, brocados, panos, t&egrave;las,
+&amp;c.
+que na&otilde; creyo haja outra no Mundo. He a sua
+Povoa&ccedil;a&otilde;,
+pouco menos, que a de <em>Sevilha</em>. Por
+f&oacute;ra na&otilde; parecem as
+casas bem, ainda que por dentro ha muitas principaes, e apparatosas.
+Ha nella, como dizia&otilde;, quatro centas mil Mesquitas,
+bem edificadas, e todas tem &agrave; porta fonte, para se lavarem,
+os que entra&otilde; a fazer sua ora&ccedil;a&otilde;. Por
+f&oacute;ra vimos muitas,
+porque dentro na&otilde; podemos entrar na f&oacute;rma que
+est&agrave; dito.<br />
+
+<br />
+
+Estivemos nesta Cidade cinco dias, e quasi todos os
+Peregrinos enferm&agrave;ra&otilde;, porque dormiamos no
+cha&otilde;, e em
+mao aposento; por&egrave;m Deos me reservou pela sua misericordia,
+com saude, para tratar delles. Havia naquelle
+tempo em Damasco hum Cavalheiro Veneziano, chamado
+<em>Bernardo</em>, Consul dos Italianos, que
+nos deu nestes dias de
+comer regaladamente, com que repar&agrave;mos o damno, que
+experiment&agrave;vamos de na&otilde; ter comido de
+<em>Jerusal&eacute;m</em> at&egrave;
+&agrave;quella Cidade mais que pa&otilde;, uvas, e agua; porque
+ainda
+que na&otilde; falta de comer, como na&otilde; ha estalagens
+para os Christ&atilde;os,
+pass&agrave;mos mal, pois pous&agrave;mos nos curraes, e
+estrevarias
+em companhia de camellos, e bufallos. Com este Cavalheiro,
+e hum Religioso de <em>Sa&otilde;
+Francisco</em>, que o
+<em>Bax&agrave;</em>
+ViRey, e Senhor da Cidade tinha em sua casa por ayo de
+seus filhos, de quem s&oacute;mente os fiava, e na&otilde; de
+Turcos, ou
+Mouros, and&agrave;mos muitas vezes a mayor parte da Cidade
+passeando-a, para a vermos, e para comprar algumas cousas
+para a nossa jornada.<br />
+
+<br />
+
+Celebrava&otilde; os Turcos, e Mouros nestes dias que alli
+estivemos a sua <em>Paschoa</em>, que durou
+trez dias, em que todos
+andava&otilde; muito alegres. Em hum destes hia eu por huma
+rua, em que havia muita gente, vi, que hum Turco andava
+a cavallo correndo por entre elles, e era necessaria grande
+<span class="pagenum">[48]</span>
+destreza para os que estava&otilde; na&otilde; ficarem
+atropellados.
+Levava hum alfange n&ugrave;, e estava bastantemente borracho,
+pelo que abrio a cabe&ccedil;a a hum Mouro com huma s&oacute;
+cutilada.
+Eu me escondi entre os Mouros, e passou como rayo. Delle
+escapey diligentemente, porque sem duvida gostaria de
+dar outra tal, vendo hum Christa&otilde;. Este foy o encontro,
+que tive de receyo; pois sempre and&aacute;mos pela Cidade, vendo
+suas festas, sem que nos offendessem. Na&otilde; deve esta
+Cidade nada &agrave;s melhores do Mundo. He habitada de Turcos,
+Mouros, e Judeos Mercadores, e de muitas na&ccedil;oens de
+Christ&atilde;os, que sa&otilde; o mais viandantes. Em todos os
+officios
+tem bons officiaes; e muito particularmente os que tecem
+sedas; o que vimos na casa de hum Turco, em que se tecia
+o melhor brocado, que vi na minha vida. Bem merece
+esta Cidade o ser Cabe&ccedil;a da
+<em>Syria</em>. O que nella ha que ver
+de devo&ccedil;a&otilde;, he a casa de
+<em>Ananias</em>, Discipulo de
+<em>Christo nosso
+Redemptor</em>, em que lhe fallou, e mandou, que fosse
+buscar
+a <em>Sa&otilde; Paulo</em> j&aacute;
+convertido, que estava orando, e o foy a bautizar,
+e confortar. Mostr&aacute;ra&otilde;-nos o muro, por donde a
+este
+<em>Santo Apostolo</em> o
+lan&ccedil;&aacute;ra&otilde; os Christ&atilde;os em
+huma alcofa,
+e assim escapou delRey <em>Aveta</em>, que o
+queria matar.
+Mostr&aacute;ra&otilde;-nos tambem em huma pra&ccedil;a
+huma pedra cercada
+com humas grades, e della dizem, subio a cavallo Sa&otilde;
+Jorge, quando foy a matar a Serpente. S&oacute;mente escrevo o
+que vi, e o que nos dissera&otilde;.<br />
+
+<br />
+
+Chegou o tempo de fazermos viagem para Veneza,
+e o Consul Veneziano, que nos regalou neste tempo, ajustou
+com huns Mouros honrados, e fieis para nos levarem
+&agrave; Cidade de <em>Tripoli</em>,
+donde nos haviamos de embarcar,
+que tambem est&aacute; na <em>Syria</em>.
+Alcan&ccedil;&aacute;mos ainda em
+<em>Damasco</em>
+a Festa de <em>Todos os Santos</em>, e o dia
+dos Fieis Defuntos, e dissemos
+Missa no aposento do Consul encerrados, e era
+quanto celebravamos, esperava&otilde; de f&oacute;ra
+<em>Mouros</em>,
+<em>Turcos</em>,
+<em>e</em>
+<span class="pagenum">[49]</span>
+<em>Judeos</em>, que vinha&otilde; a
+negociar, para nos na&otilde; perturbar.<br />
+
+<br />
+
+Tratouse antes de sahirmos da Cidade, do caminho
+mais direito para <em>Tripoli</em>; e nos
+diss&eacute;ra&otilde;, que pelo <em>Monte
+Libano</em>, por onde viera hum Cavalheiro Veneziano,
+na&otilde;
+fossemos; porque nelle havia muitos ladroens Arabes, e o
+monte estava muito cheyo de neve: e assim rodeando, como
+vinte legoas ao nosso Mediterraneo, sahimos de
+<em>Damasco</em>.
+Vimos <em>Tyro</em>, e
+<em>Sydonia</em>; pass&aacute;mos por
+<em>Baruth</em>, e por suas
+hortas fresquissimas. Por este caminho sera&otilde; como quarenta
+e cinco legoas de <em>Damasco</em> a
+<em>Tripoli</em>.<br />
+
+<br />
+
+He esta ribeira da <em>Syria</em>, de
+excellente terra, grandes
+montes, muitas, e boas herdades, e algumas de Christ&atilde;os
+Maronitas, que vivem no <em>Monte
+Libano</em>, junto a
+<em>Tripoli</em>.
+Ha por estes montes perdizes, e outras ca&ccedil;as de Europa;
+e muitos rios, e passagens por regates, que baixa&otilde; do
+<em>Libano</em> ao Mediterraneo.<br />
+
+<br />
+
+Passando a ribeira do mar, fomos por hum caminho
+estreito aberto nas penhas, e cheg&aacute;mos a hum rio, que
+pass&aacute;mos
+por huma fermosa ponte do tempo dos Romanos.
+Alli se l&ecirc; em duas pedras hum letreiro Latino, e outro
+Arabigo,
+em que se faz memoria dos Emperadores <em>Marco
+Antonio</em>,
+e <em>Marco Aurelio</em>. Chama-se o rio
+<em>Ca&otilde;</em>, por certa fabula
+dos Gentios, que dizem, que este Ca&otilde;, que era de
+pedra, dizia aos desta terra, quando havia de haver guerra,
+ou alguma fatalidade, e depois o
+lan&ccedil;&aacute;ra&otilde; no rio, que
+tomou o seu nome. Eu o vendo pelo pre&ccedil;o, que o comprey.
+Cada hum crea o que lhe parecer.<br />
+
+<br />
+
+He este <em>Monte Libano</em> muito grande, e
+atravessa muita
+terra de Damasco at&egrave; o mar. Tem muitos bra&ccedil;os, e
+o
+principal vay direito a Tripoli, e passando duas legoas a
+diante da Cidade, se v&ecirc; bem a parte mais alta, que toda
+estava
+cuberta de neve. Deste monte se cortou a madeira para
+o <em>Templo de Salama&otilde;</em>. Ha
+nelle boas vinhas, e o vinho
+<span class="pagenum">[50]</span>
+dellas he excellentissimo. He digno de se ver, pelas muitas
+vezes, que a Santa Escritura faz delle memoria. No dia,
+que cheg&aacute;mos a <em>Tripoli</em>
+choveo muito, pelo que na&otilde; sahio
+huma grande embarca&ccedil;a&otilde;, e tinhamos grande desejo
+de a alcan&ccedil;armos.
+Deos nosso Senhor parece que a guardou por
+sua infinita bondade para virmos nella; porque ainda que
+havia outras naos para
+<em>Constantinopla</em>, e para outras partes
+de <em>Italia</em>, e
+<em>Fran&ccedil;a</em>, esta vinha em
+direitura a <em>Veneza</em>.<br />
+
+<br />
+
+He a Cidade de <em>Tripoli</em> na
+<em>Syria</em> muito boa, e de fortes
+casas. A sua Povoa&ccedil;a&otilde; est&aacute; em trez
+montesinhos, junto
+ao mar; ainda que o porto est&aacute; desviado meya legoa. He
+fresquissima, abundante de aguas, e hortas, laranjas, limoens,
+palmas, e tudo o mais que tem huma terra fertil.
+He escala dos Mercadores de meyo Mundo, de Poente, Levante,
+e India Oriental. Na nossa nao viera&otilde; para hirem para
+Veneza nove Mercadores Italianos, que vinha&otilde; da India,
+a que ha mais de duas mil legoas por terra, passando quarenta
+dias por desertos, como nos affirm&aacute;ra&otilde;, e por
+caminhos
+de area, adonde nem se acha agua, nem que se coma:
+pelo que trazem o que ha&otilde; de comer, e beber em camellos,
+que commummente costuma&otilde; trazer mil em companhia.<br />
+
+<br />
+
+Recolhemonos em <em>Tripoli</em> em h[~u]a
+casa de Religiosos,
+e Peregrinos, que he como hum Convento, em que esta&otilde;
+ordinariamente trez Religiosos de <em>Sa&otilde;
+Francisco</em>, mandados
+pelo Padre Guardia&otilde; de Jerusalem, que sa&otilde; como
+Curas dos
+Mercadores Italianos, que alli esta&otilde;.<br />
+
+<br />
+
+He esta Cidade habitada de Turcos, Mouros, e Judeos.
+O Padre Guardia&otilde; nos acompanhou a todos, Religiosos,
+e Peregrinos at&egrave; a embarca&ccedil;a&otilde;: e
+excepto os Religiosos, nos
+embarc&agrave;mos sete Peregrinos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[51]</span>
+<em>Da nossa viagem de Tripoli at&egrave;
+Veneza.</em><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Sahidos do porto de <em>Tripoli</em>,
+naveg&aacute;mos, e pouco a pouco
+cheg&aacute;mos &agrave; Ilha de
+<em>Chypre</em>, passando &agrave; vista
+de <em>Famagusta</em>,
+Cabe&ccedil;a deste Reyno; e d&eacute;mos vista de
+<em>Candia</em>,
+costeando pela Turquia, at&eacute; chegar &agrave;
+<em>Morea</em>, &agrave; vista de
+<em>Modon</em>. Daqui caminh&aacute;mos a
+<em>Zante</em>, em que estivemos dez
+dias, e logo a <em>Corfu</em>, adonde
+estivemos e celebr&aacute;mos a Festa
+do <em>Nascimento de Christo Senhor
+nosso</em>. He esta Ilha de
+<em>Corfu</em>,
+huma das mayores for&ccedil;as, que os Venezianos tem na
+<em>Grecia</em>;
+e como tal, he de muita considera&ccedil;a&otilde;, por ser
+como chave de
+Italia.<br />
+
+<br />
+
+Pass&aacute;mos a costa de
+<em>Esclavonia</em>,
+<em>Albania</em> e
+<em>Dalmacia</em>,
+e cheg&agrave;mos &agrave; agradavel Ilha, e Cidade de
+<em>Lesna</em>, e nos
+hosped&aacute;ra&otilde; os Religiosos de
+<em>Sa&otilde; Francisco</em> no seu
+Convento
+por espa&ccedil;o dos cinco dias em que houve no mar grande
+tormenta.
+Falla&otilde; aqui os naturaes a lingua
+<em>Esclavonica</em>, ainda
+que entendem a <em>Italiana</em>. A Cidade he
+pequena; tem boas,
+e fortes casas, e bom porto. Daqui viemos pela costa de
+<em>Istria</em>
+&agrave; Cidade, e Bispado de
+<em>Paren&ccedil;o</em>, e sahindo da nao
+em
+hum barco, pass&aacute;mos a
+<em>Veneza</em>, a que ha quarenta legoas,
+adonde cheg&aacute;mos com saude, e alegria, e a Deos
+d&eacute;mos as
+gra&ccedil;as por nos levar, e trazer de ta&otilde; Santa
+viagem, e jornada
+ta&otilde; perigosa por mar, e terra. Gast&aacute;mos de
+<em>Tripoli</em> a
+<em>Veneza</em>
+a sessenta e seis dias. Entr&aacute;mos na Cidade em 19. de Janeiro
+do anno 1589. e desde que della sahimos, at&egrave; que
+torn&agrave;mos,
+pass&aacute;ra&otilde; cinco mezes, e cinco dias.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Da jornada, que
+fizemos de Veneza at&egrave;
+Sevilha.</em><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Detivemonos mez e meyo em Veneza, por repararmos
+a saude, e socegarmos do trabalho do caminho, recolher,
+e emendar os meus livros, que achey estampados. Hospedou-nos
+<span class="pagenum">[52]</span>
+hum Cantor da <em>Senhoria</em>, chamado
+<em>Antonio de
+Ribera</em>, que me regalou de modo, que meus pays se
+fora&otilde;
+vivos, e alli se ach&aacute;ra&otilde;, o na&otilde;
+faria&otilde; melhor, nem com mais
+amor, o que foy causa, de que nos restituissemos ao que
+eramos, pois vinhamos muito maltratados.<br />
+
+<br />
+
+Sahidos de Veneza, viemos a <em>Ferrara</em>,
+<em>Bolonha</em>,
+<em>Floren&ccedil;a</em>,
+<em>e Pisa</em>, Cidades principaes de
+<em>Italia</em>. Cheg&aacute;mos a
+<em>Leorne</em>,
+porto de <em>Toscana</em>, procurando as
+Gal&eacute;s do <em>Gra&otilde; Duque
+de Floren&ccedil;a</em>, que partia&otilde; para
+Marselha, a buscar a <em>Gra&otilde;
+Duqueza</em> sua esposa, filha do <em>Duque
+de Lorena</em>. Estava o
+<em>Gra&otilde; Duque</em> em
+<em>Leorne</em>, e me fez a merce de me
+admittir
+a beijarlhe a ma&otilde;. Mandoume aposentar, e dar o necessario
+com toda a grandeza; e me prometteo de me acc&oacute;modar nas
+Gal&eacute;s do <em>Papa</em>, que estava
+esperando por instantes para hirem
+em companhia das suas, que j&agrave; tinha&otilde; partido com
+as
+de <em>Genova</em>, e
+<em>Malta</em>, que por todas era&otilde;
+dezaseis, adornadas,
+e armadas com toda a magnificiencia, como para a occasia&otilde;
+de bodas de ta&otilde; grande Principe.<br />
+
+<br />
+
+Cheg&agrave;ra&otilde; as Gal&eacute;s do
+<em>Papa</em>, e o Capita&otilde; General
+a
+rogo do <em>Gra&otilde; Duque</em>, me
+recebeo, e me regalou na sua Capitania,
+trazendo-me na camera de popa, e dandome a sua
+mesa, e tambem tratado cheguey a
+<em>Marselha</em>, que na&otilde;
+estranhey
+o mar, pois nelle tive todos os regalos da terra.<br />
+
+<br />
+
+Na Semana Santa entrey em <em>Marselha</em>,
+e nella tive a
+<em>Paschoa</em>; e como as Gal&eacute;s
+fic&aacute;ra&otilde; esperando a
+<em>Duqueza</em>,
+fret&aacute;mos hum Bergantim para virmos a
+<em>Barcelona</em>, em que
+embarc&aacute;mos dous Genovezes, (hum se chamava
+<em>Joa&otilde; Ansaldo</em>)
+dous Italianos, e dous Hespanhoes.<br />
+
+<br />
+
+Sahimos do porto com hum pouco de mao tempo, e
+com o desejo de tornar para
+<em>Marselha</em>, tanto que nos fizemos
+ao largo; e tendo caminhado como cinco legoas; entr&aacute;mos
+no abrigo de huma calheta, por na&otilde; podermos passar a
+diante. Apenas puzemos os p&eacute;s em terra, quando vimos
+<span class="pagenum">[53]</span>
+junto a n&ograve;s hum Bergantim, que entendemos, vinha, como
+o nosso, a esperar, que o tempo melhorasse. Vinha elle cheyo
+de arcabuzeiros ladroens, e muitos Lutheranos; e descubrindo-se
+com os arcabuzes &agrave; cara, lhes diss&eacute;mos,
+<em>que se
+detivessem, que nos d&aacute;vamos por rendidos</em>,
+porque se nos puzessemos
+em resistencia, nos perdiamos, pois em o nosso Bergantim
+s&oacute;mente havia espadas, e dous arcabuzes mal preparados;
+e ainda que fossem mais, era&otilde; poucos; e assim melhor
+era salvar as vidas. Estes soldados (ou ladroens, por melhor
+dizer) entrara&otilde; no nosso Bergantim,
+tom&aacute;ra&otilde;-nos as chaves
+dos nossos alforges, e maletas, e tudo revolvera&otilde;,
+na&otilde; deixando
+cousa em seu lugar. Estavamos n&ograve;s em terra, vendo
+o que passava, e esperando o fim destes ladroens, com
+ta&otilde; pouca esperan&ccedil;a de vida, olhando huns para os
+outros
+sem dizer palavra. Era j&aacute; quasi noite, quando nos
+mand&aacute;ra&otilde;
+entrar em o seu Bergantim, e tom&aacute;ra&otilde; posse da
+nossa
+roupa, e armas; e nos fizera&otilde; tornar a traz a huma Fortaleza
+em que vivia&otilde;, e donde sahia&otilde; a fazer estes
+roubos. Antes
+que a ella nos levassem, nos puzera&otilde; em huma camara
+cheya de palha, e junto a ella muita lenha, e todos
+estivera&otilde;
+de f&oacute;ra fallando na sua lingoa: e n&ograve;s
+encomendando-nos
+a Deos, com o temor de que aquelles Hereges nos queimassem;
+por&egrave;m <em>Deos nosso Senhor</em>
+nos tirou deste temor, e perigo.<br />
+
+<br />
+
+Levara&otilde;-nos dahi a pouco &agrave; Fortaleza,
+dera&otilde;-nos de
+cear, e as suas pobres camas; e come&ccedil;&aacute;mos a
+perder o medo.
+D&eacute;mos &agrave; mulher do Capita&otilde; alguns
+escudos de ouro, e ella
+nos assegurou, que na&otilde; haveria perigo em nossas vidas.
+Trez dias estivemos desta maneira, sem nos deixarem sahir,
+nem aos nossos marinheiros, que tambem estava&otilde; prezos
+comnosco; e come&ccedil;&aacute;mos a tratar da nossa
+liberdade, sendo
+medianeiro hum <em>Francez</em> que hia, e
+vinha. Pedio o Capita&otilde;
+por cada hum de n&ograve;s cem escudos, e que nos daria a roupa;
+<span class="pagenum">[54]</span>
+ao que respondemos, que os na&otilde; tinhamos, que fizesse
+o que quizesse.<br />
+
+<br />
+
+Neste tempo chegou hum homem de Marselha desta
+companhia; e na&otilde; soubemos que ordem trouxe; por&egrave;m
+o Capita&otilde;
+disse logo, <em>que de n&ograve;s na&otilde;
+queria cousa alguma, porque
+elles era&otilde; Christ&atilde;os, e n&ograve;s tambem;
+mas que como pobres soldados
+necessitava&otilde;</em>. Cada hum deu o que pode; a
+mim me custou
+a minha roupa vinte e cinco escudos; e deramos no dia, em
+que nos prendera&otilde;, pela seguran&ccedil;a da vida, quanto
+nos pedissem.
+Aqui estivemos oito dias, e nos embarc&aacute;mos com
+seu beneplacito, acompanhando nos o Capita&otilde;, e companheiros
+trez, ou quatro legoas no seu Bergantim, e n&ograve;s no
+nosso. Quando se apartou nos disse, <em>que na&otilde;
+tornassemos a
+Marselha; porque se tornassemos, e elle nos colhesse, nos cortaria
+as cabe&ccedil;as</em>; e certamente o fariamos se
+podessemos, para
+que se soubesse de semelhantes Hereges ladroens.<br />
+
+<br />
+
+Caminh&aacute;mos dous dias por esta costa de
+<em>Fran&ccedil;a</em>, e na
+Provincia de <em>Languedoc</em> em huma
+manh&atilde;a, caminhando n&ograve;s
+a remo, vimos sahir outro Bergantim com muita pressa de
+hum rio, e que nelle entrava alguma gente de terra, e
+come&ccedil;ou
+a remar para o nosso, por&egrave;m os nossos marinheiros
+tanto trabalh&aacute;ra&otilde;, que nos na&otilde;
+pudera&otilde; alcan&ccedil;ar; por&egrave;m
+quando cuid&aacute;mos, que estavamos livres delle, appareceo
+hum navio &agrave; v&egrave;la, que vinha contra
+n&ograve;s. Entendemos, que
+seria navio, que caminhava para Levante; mas logo que
+emparelhou com o nosso Bergantim, amainou, e mandou
+que parassemos, e se descubrira&otilde; doze arcabuzeiros
+ladro[~e]s,
+e Lutheranos, que com as armas &agrave; cara nos
+rendera&otilde;, e entrara&otilde;
+o nosso Bergantim, e de n&ograve;s, e da roupa fizera&otilde; o
+mesmo, que os outros ladroens Lutheranos, ainda depois
+de lhe darmos o que levavamos nas bol&ccedil;as. Atara&otilde;
+o nosso
+Bergantim ao seu navio, e nos lev&aacute;ra&otilde; como huma
+legoa, rio
+acima, junto ahuma Povoa&ccedil;a&otilde;, que
+chama&otilde; <em>Cirinhan</em>. Esta
+<span class="pagenum">[55]</span>
+segunda priza&otilde; nos deu mais temor da morte, porque como
+disse hum dos soldados a <em>Joa&otilde;
+Ansaldo</em>, teve o arcabuz &agrave;
+cara para me matar, e disparando-o, errou o tiro, ou passou
+por alto; o que todos attribuimos, a que neste tempo nos
+encomend&aacute;mos &agrave; <em>Virgem Senhora de
+Monserrate</em>, fazendo
+voto de ir visitar a sua Casa, e de lhe dizer Missa. Passadas
+quatro horas, estando assim, veyo hum Cavalheiro, Alferes
+desta terra, e tomou por conta em hum rol toda a nossa
+roupa, e ordenou se guardasse no navio; e logo nos levou
+a huma Villa distante huma legoa, rogando-me, para que
+aceitasse o seu cavallo, e que elle como mais mo&ccedil;o
+caminharia
+a p&egrave;, de que todos lhe d&eacute;mos o agradecimento, e
+chegados ao lugar, a todos dera&otilde; pousada, e a mim me levou
+para sua casa, adonde me regalou.<br />
+
+<br />
+
+Neste lugar reside hum Cavalheiro, Senhor de dous
+lugares, este nos recebeo alegremente, e dando-nos palavra
+de seguran&ccedil;a (porque era Catholico Romano) nos disse
+escreveria
+ao <em>Duque Motmoranci</em>, Senhor da
+Provincia de
+<em>Languedoc</em>. Era Secretario deste
+Duque hum <em>Genovez</em> parente,
+e amigo de <em>Joa&otilde; Ansaldo</em>;
+e tanto que soube da nossa
+priza&otilde;, fez toda a diligencia pela nossa liberdade; e por
+elle nos mandou despachar o Duque, e nos deu hum passaporte,
+para que se encontrassemos outros navios do seu destricto,
+tivessemos seguran&ccedil;a; pelo que sahimos alegres, ainda
+que alguns escudos nos fic&aacute;ra&otilde; nas
+m&atilde;os dos soldados.<br />
+
+<br />
+
+Sahimos daqui, e em quatro dias cheg&aacute;mos a
+<em>Barcelona</em>,
+aonde d&eacute;mos gra&ccedil;as a Deos por nos livrar destes
+ladroens
+Francezes Lutheranos, e de muitas Galeotas de Turcos,
+que andava&otilde; por esta costa, das quaes tomou nove o filho
+de <em>Andr&egrave; Doria</em>. Digo
+certamente, que tendo andado
+por tantos, e ta&otilde; varios caminhos entre Turcos, Mouros, e
+Arabes, na&otilde; tivemos o perigo, e pezar que padecemos na
+Fran&ccedil;a. Visit&aacute;mos a <em>Virgem
+Santissima de Monserrate</em>, e lhe
+<span class="pagenum">[56]</span>
+d&eacute;mos as gra&ccedil;as pelas merces que
+<em>Deos nosso Senhor</em> nos fez,
+por sua intercessa&otilde;; e logo tom&aacute;mos o caminho de
+<em>Valen&ccedil;a</em>,
+<em>Murcia</em>,
+<em>Granada</em>, e cheg&aacute;mos a
+Sevilha, eu, e meu
+companheiro Francisco Sanches, com saude, adonde com
+muito contentamento fuy recebido de todos, especialmente
+do Illustrissimo Cardeal, o Senhor Dom Rodrigo de Castro,
+e do Cabido da Santa Igreja.<br />
+
+<br />
+
+Dey conta neste breve tratado da minha viagem &agrave;
+<em>Terra Santa</em>, com toda a verdade
+Christ&atilde;a, a todo o que
+desejar saber o caminho. De <em>Sevilha</em>
+a <em>Jerusalem</em> ha mil e
+quatro centas legoas de ida; e pela volta, que dey, pela Cidade
+de Damasco, entendo, que de ida, e vinda, ha trez
+mil legoas. He facil andar este caminho, pois eu o andey,
+tendo sessenta annos; pelo que se animem os mo&ccedil;os, e que
+tem possibilidade, a fazerem ta&otilde; Santa viagem; que eu lhes
+certifico, que depois de vistos ta&otilde; Santos Lugares, seja tal
+o seu contentamento, que o anteponha&otilde; ao de possuirem todos
+os thesouros do Mundo.<br />
+
+<br />
+
+<h2>FIM.</h2>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em><img style="width: 250px; height: 189px;" alt="" src="images/fig01.png" /></em><br />
+
+<em></em></div>
+
+<em><br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+</em>
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 61px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">
+ <a name="e1" id="e1"></a><a href="#p25">#p&aacute;g. 25</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">C,ancarra&otilde;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&Ccedil;ancarra&otilde;</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<div style="text-align: center;"><br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+</div>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30091 ***</div>
+</body>
+</html>