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M. a Rainha e seu Augusto Tio.</p> + +<p>O folheto tem por titulo «<em>O Snr. Dom Miguel de Bragança e a Snr.ª Dona +Maria da Gloria—collecção dos artigos das comparações publicadas no</em> +«Portugal.»</p> + +<p>A introducção foi escripta pelo <em>doutor</em> Casimiro de Castro Neves, +natural de Louzada, e hoje residente em Lisboa.</p> + +<p>As <em>comparações</em> diz-se que as escrevera o snr. Francisco Candido de +Mendoça e Mello, bacharel da fornada de 1849, <em>natural de Bragança</em> e +residente no Porto.</p> + +<p>Francisco Pereira d'Azevedo é o editor e recebe os patacos do folheto.</p> + +<p>As comparações ei-las ahi:<span class="pn">{4}</span></p> + +<p>«O Snr. D. Miguel não póde admittir em sua companhia a Snr.ª D. Maria, +porque nada póde haver de commum entre ambos.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel perseguiu os ladrões e assassinos; a Snr.ª D. Maria, diz o +<em>Ecco</em>, que se bandeou com elles.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel não perseguiu os seus amigos; a Snr.ª D. Maria tem +perseguido a todos, e com muita especialidade o marechal Saldanha.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel sahiu pobre do paiz, porque não roubava nem deixava +roubar; a Snr.ª D. Maria, diz o <em>Ecco</em>, que ha-de estar bem rica, e nós +tambem o dizemos.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel sahiu rico das saudades e bençãos d'um povo que o adorava; +a Snr.ª D. Maria, se sahir, não leva poucas maldições e insultos, como póde +testemunhar quem tiver ouvidos para ouvir o que por ahi se diz, e olhos para +lêr os papeis que no paiz se publicam. Saudades é que realmente, não é só a +nós, que não deixa nenhumas!</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel demittiu magistrados por não serem limpos de mãos; a Snr.ª +D. Maria cobriu esses, e outros d'honras e dignidades.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel protegia e promovia tudo quanto era portuguez; a Snr.ª D. +Maria fazia o mesmo a tudo quanto era estrangeiro.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel conquistou Portugal com<span class="pn">{5}</span> a sua +pessoa <em>só</em>; a Snr.ª D. Maria com os estrangeiros de todos os paizes.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel viveu com a maior economia, e foi fiel aos seus +contractos; a Snr.ª D. Maria o contrario de tudo isto.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel entregou intactas as joias da corôa; a Snr.ª D. Maria +<em>consentiu</em> que não só se roubassem as de seu augusto Tio, se não ainda +que se lhe apoderassem dos bahus da sua roupa branca, que a Snr.ª Vadre lhe +conduzia, e que lhe usurpassem os seus bens proprios.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel enviou o brigue de guerra <em>Téjo</em>, commandado pelo +1.º tenente Caminha, ao Rio de Janeiro, levar aos seus parentes brasileiros a +herança de seus augustos parentes fallecidos; a Snr.ª D. Maria consentiu que +seu augusto Tio fosse defraudado não só da herança de seus augustos paes, senão +ainda de todo esbulhado da herança universal de sua augusta irman fallecida em +Santarem.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel sustentou sempre os criados da casa real, ainda os de +opinião contraria; a snr.ª D. Maria pô-los todos na rua, substituindo muitos +por estrangeiros, e deixou morrer á fome as criadas da Snr.ª D. Maria 1.ª +escapando sómente as netas do famoso João Pinto Ribeiro, que tanto concorreu +para elevar a casa de Bragança ao throno; porque os legitimistas tomaram a si o +seu parco sustento.<span class="pn">{6}</span></p> + +<p>«O Snr. D. Miguel tratou sempre bem as familias dos presos politicos, como +póde testemunhar entre outras a filha de Pedro de Mello Breyner; a Snr.ª D. +Maria tratou muitas como a esposa do conde de Villa Real, D. Fernando, que +regressou do paço moribunda.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel não consentiu nunca que nos actos officiaes se insultassem +os seus parentes brasileiros; a Snr.ª D. Maria tem <em>consentido</em> que +nesses mesmos se insulte constantemente seu augusto Tio.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel augmentou o patrimonio real; a Snr.ª D. Maria tem-no +dissipado, alienado e destruido.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel nunca mandou festejar os dias em que portuguezes +derramaram o sangue de portuguezes; a Snr. D. Maria não só consentiu que se +festejassem esses dias, senão ainda aquelles em que estrangeiros mataram +portuguezes e tomaram navios portuguezes.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel escolheu para ministros d'estado homem de inconcussa +probidade e limpeza de mãos; a Snr.ª D. Maria escolheu os caracteres mais +corrompidos e corruptores que havia no reino, e expoz-se a sete revoluções para +sustentar, a despeito da opinião publica nacional e estrangeira, o homem mais +detestavel que tem produzido a nossa terra—o homem que roubou +descaradamente—o maior dos concussionarios—o<span class="pn">{7}</span> +valido mais torpe—o homem de <em>Queen's bench</em>—<em>o conde de +Thomar</em>!</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel fez respeitar sempre o palacio de nossos reis; a Snr.ª D. +Maria fê-lo descer até onde não podia descer mais.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel foi compadre de muitos bravos soldados de seu exercito; a +Snr.ª D. Maria foi comadre do villão mais cobarde que havemos conhecido.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel escolheu para diplomaticos os homens mais conspicuos e +probos do paiz; a Snr.ª D. Maria escolheu <em>muitos</em> contrabandistas e +ladrões descarados.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel não podia pôr pé fóra do paço que não o acompanhassem +ondas de portuguezes; a Snr.ª D. Maria tem atravessado Lisboa e as provincias +no meio d'um silencio sepulchral.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel respeitou sempre os bispos, ainda os que eram indigitados +de contrarios á sua opinião; a Snr.ª D. Maria consentiu que os perseguissem +todos, e ainda ha alguns no exilio.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel queria reformar as ordens religiosas, e de accôrdo com a +Sé romana nomeou reformadores; quem governava em nome da Snr.ª D. Maria +destruiu-as, e expulsou os seus membros, depois de esbulhados de quanto +possuiam.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel era escravo da opinião publica;<span class="pn">{8}</span> +a Snr.ª D. Maria sempre a tem despresado, tornando-se necessaria uma revolução +para se mudarem os ministros corruptos e corruptores.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel foi chamado ao throno pelas antigas leis da monarchia, +applicadas por tribunaes que não creou; a Snr.ª D. Maria foi chamada ao throno +por uma carta de lei, feita expressamente para este fim pelo imperador do +Brazil, seu pae, e applicada por bayonetas estrangeiras.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel estava em Vienna á morte de seu augusto pae, e foi +proclamado e sustentado pela maioria da nação com as armas na mão, sendo +necessario vir o exercito de Clinton para que lh'as podessem arrancar; a Snr.ª +D. Maria só teve por si, na maxima parte, os estrangeiros que cobiçavam as +preciosidades das egrejas e dos conventos.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel vestiu e calçou os seus soldados com objectos portuguezes; +a Snr.ª D. Maria mandou vir para os seus fardamento e calçado da Inglaterra, +pesando-lhe por não poder mandar vir de lá tambem a agua para se lavar.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel apesar da amizade que o ligava a seu Tio Fernando 7.º, +recusou entregar-lhe os refugiados politicos hespanhoes, e pagou-lhes a +passagem para sahirem livremente do paiz; a Snr.ª D. Maria consentiu que +assassinassem no paiz alguns emigrados carlistas, conservou outros<span +class="pn">{9}</span> em duros ferros, e entregou alguns para serem +garrotados.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel empregou muitos constitucionaes, sómente porque tinham +merecimento; a Snr.ª D. Maria não só demittiu todos os legitimistas, senão +ainda que tem demittido aquelles que por ella se teem sacrificado.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel vestia e calçava objectos portuguezes; a Snr.ª D. Maria +até manda engommar a roupa a Inglaterra.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel, do que produziam as quintas reaes, distribuia +gratuitamente aos seus criados, e ao povo; a Snr.ª D. Maria não só destruiu a +matta dos buxos de Queluz para ser vendida aos torneiros, senão ainda mandava +vender á praça até salsa e hortelan.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel folgava de fazer cultivar as terras da corôa, e de ser o +primeiro lavrador de Portugal; a Snr.ª D. Maria alienou tudo na maxima parte, e +o que não alienou, arrendou ou deu ao seu valido.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel tratava com esmero a formosa raça d'Alter; a Snr.ª D. +Maria mandou vender tudo, até mesmo os cavallos e muares da casa real, +conservando apenas alguns poucos rabões inglezes e hanoverianos.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel respeitou o banco, apesar de lá estarem os fundos dos seus +contrarios, e de ser administrado pelos seus adversarios politicos;<span +class="pn">{10}</span> a Snr.ª D. Maria fez-lhe crua guerra.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel reconheceu os emprestimos feitos para debellar os +principios que o elevaram ao throno; a Snr.ª D. Maria não quiz reconhecer nunca +o emprestimo do Snr. D. Miguel contrahido para matar a fome aos empregados +publicos.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel tinha captado de tal sorte o amor dos soldados, que apesar +de rotos, descalços, famintos, e quebrantados de uma lucta tão prolongada, +quebravam as armas que os estrangeiros vinham arrancar-lhes das mãos; a Snr.ª +D. Maria tem contrariado de tal modo os sentimentos do paiz, e alienado as +affeições dos seus mesmos, que em todas as contendas vê rarear as suas fileiras +de soldados que vão engrossar as dos contrarios.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel tinha e queria sómente os empregados necessarios; a Snr.ª +D. Maria consentiu que se arvorasse ametade do reino em empregados para devorar +outra ametade.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel fez-se idolatrar a tal ponto do povo, e do exercito, que +até os seus mesmos adversarios o reconheciam a ponto de lhe cantarem:</p> + +<blockquote style="width: 50%; margin-left: 25%;"> + <em>Quanto mais a fome aperta<br> + Mais se canta o rei chegou:</em></blockquote> + +<p style="text-indent: 0;">e não tem bastado a longa ausencia de dezesete<span +class="pn">{11}</span> annos para destruir as affeições e esperanças dos +portuguezes; a Snr.ª D. Maria tem-se feito detestar dos seus mesmos, e o que é +maior desgraça ainda o seu nome está sendo coberto de improperios. </p> + +<p>«O que se tem dito do Snr. D. Miguel, diz-se de todos os monarchas +decahidos; porém o que se diz da Snr.ª D. Maria, diz-se de pouquissimas rainhas +no throno.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel, quando viu que a lucta só concorria para derramar sangue +portuguez inutilmente, e acarretar desgraças inevitaveis ao paiz, porque parte +da Europa dormia á beira da abysmo, e a outra parte estava colligada contra +elle, convencionou em Evora-Monte, estipulando que se respeitasse a vida e +propriedade dos seus, e que se lhe désse a elle, que de tudo era privado, uma +parca subsistencia; quem governava pela Snr.ª D. Maria, desconheceu logo a +convenção que tambem fôra assignada pela <em>leal</em> Inglaterra—condemnou ao +ostracismo e á fome o Principe generoso e uma grande parte da nação +portugueza—fez derramar ondas de sangue portuguez, e com a nefanda lei das +indemnisações esbulhou da propriedade quem a tinha—a Snr.ª D. Maria acceitou a +herança de todos estes maleficios, e <em>consentiu</em> que +continuassem—applicou-os depois aos seus mesmos, e pretende conservar-se no +throno a risco de perder a dynastia.<span class="pn">{12}</span></p> + +<p>«O Snr. D. Miguel rejeitou as propostas de Christina Munhoz de fazer entrar +o exercito de Rodil em seu auxilio, e de o casar com uma sua irman se mandasse +sahir D. Carlos de Portugal; a Snr.ª D. Maria não só tem acceitado todas as +propostas para se firmar no throno, se não ainda as tem deprecado, subindo até +lá nos braços de Rodil e Parker, e sendo sustentada por Concha e Maitland, +executores, do famoso <em>protocollo</em>, e se os estrangeiros se não +oppozerem agora á sua sahida, e ella se verificar, como dizem, são os +portuguezes quem a poem fóra a contento do clero, nobreza e povo!</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel não gastava ao thesouro annualmente acima de 20 contos de +reis; a Snr.ª D. Maria gasta ao <em>misero</em> e <em>defecado</em> Portugal +365 contos de reis por anno, e ainda 100 contos para seu marido, afóra as +dezenas e dezenas de contos para seus filhos.</p> + +<p>«O Snr. D. Miguel conservou a Tapada real de Villa Viçosa, na mesma grandeza +com que seus augustos predecessores a tiveram; a Snr.ª D. Maria manda vender as +lenhas e as estevas, que todos os dias d'ahi sahem em abundancia para Borba e +Villa Viçosa, e n'esta ultima terra tem um açougue publico de carne de veado e +gamo, que os seus criados todos os dias matam na tapada; negoceia-se com a +bolota, com as pelles dos veados, e até com os chifres!»<span +class="pn">{13}</span></p> + +<p>E então, não fallam bem destravadamente estes ridiculos fanfarrões?.. Elles, +os selvagens, que ainda ha poucos annos <em>tinham mêdo d'apparecer no +Porto</em>, não estão agora, com as suas roncas, armando aos patacos dos +papalvos?... E cuidaes que é um acto de valor pessoal—que é, ao menos, uma +temeridade que praticam?... Nada d'isso.—Não será verdade que elles mesmos +andam por ahi a dar a explicação do seu arrojo, assoalhando, com espantoso +cynismo, os presentes que fazem ao snr. <em>delgado</em>—vangloriando-se dos +bellos córtes de panno da Belgica, que lhe remettem, e dos bellos pintos, que +elle lhes chucha?...</p> + +<p>Diga-o... quem o souber—e no entanto passemos á</p> + +<h1><a name="SECTION00020000000000000000">SEGUNDA PARTE.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00021000000000000000">REFLEXÕES.</a></h2> + +<p><em>Quem diz o que quer, ouve o que não quer.</em> Assim reza um adagio, +que, pela sua antiguidade, merece, por certo, a approvação dos +<em>escribleros</em> do «<em>Portugal</em>.»<span class="pn">{14}</span></p> + +<blockquote> + <p>«O Snr. D. Miguel—dizem elles—não póde admittir na sua companhia a Snr.ª + D. Maria.» </p> +</blockquote> + +<p>E é verdade. Não póde—porque assim o quizeram meia duzia de +sanguinarios—meia duzia d'aristocratas estupidos—meia duzia de fradalhões +devassos—meia duzia d'ambiciosos e algumas duzias de scelerados, que, entre o +Tio e a Sobrinha, cavaram um abysmo insondavel, precipitando n'esse abysmo o +infeliz Portugal,—não o ridiculo e o infame «<em>Portugal</em>» de que foi +editor um sapateiro demente e estuporado—de que é editor e especulador um +negociante de <em>algo</em>-<small>DÃO</small>—mas este Portugal de sete +seculos, esta nação que se envergonha de ter no seu seio um bando de selvagens +e desavergonhados, um bando de parasytas, um bando de zangões e +empalmadores.</p> + +<blockquote> + <p>«O Snr. D. Miguel perseguiu os ladrões e assassinos.»</p> +</blockquote> + +<p>Mentis, senhores da <em>tripeça-gazetal</em>, e mentis como perros.—O Snr. +D. Miguel teve desejos de fazer punir os ladroes—mas os ladroes cercavam-no +por toda a parte, e como andavam <em>mascarados</em>, era difficil +conhecêl-os</p> + +<blockquote> + <p>«O Snr. D. Miguel não perseguiu os seus amigos—a Snr.ª D. Maria tem + perseguido a todos.»</p> +</blockquote> + +<p>Mentis, e mentis com o damnado fim de amargurar a existencia do infeliz +Principe, que<span class="pn">{15}</span> chora no exilio os negros crimes de +que vós e os vossos o fizeram victima.—O Snr. D. Miguel não queria perseguir +os seus amigos mas perseguiu-os o estupido bando de scelerados, a que vós +pertenceis.—Lembrai-vos de que escreveis no Porto, senhores do +«<em>Portugal</em>» e que no Porto, no tempo em que vós dominaveis, foram +cacetados, indistinctamente, liberaes e realistas—ainda mais, no Porto foram +cacetadas as proprias auctoridades constituidas em nome do Snr. D. Miguel.—É +aqui bem publico e notorio que o corregedor do crime foi cacetado, no largo do +Carmo, pelos soldados do 12, e como lhes gritasse «Senhores, eu sou o +corregedor!»—«É por isso mesmo!»—lhes tornavam elles—redobrando com nova +furia as cacetadas.—É aqui bem sabido que n'esse tempo bastavam tres +testemunhas das de quartilho de vinho—para se levar um homem á forca;—bastava +alcunhar qualquer realista de <em>malhado</em>, para o vêr martyrisar por essas +ruas;—bastava calumniar alguém, chamando-lhe <em>pedreiro-livre</em>, para o +vêr gemer n'uma cadêa.—Podiamos aqui escrever um longo capitulo +d'historia—que vós fingis ignorar—mas poupamo-nos a esse trabalho, porque +fallamos no meio d'uma cidade onde todos sabem quantos realistas gemeram nas +cadêas por vinganças particulares—quantos caloteiros se fingiam realistas para +perseguir os seus crédores—quantos<span class="pn">{16}</span> ladrões se +infeitavam com o tope azul e vermelho, para atterrarem aquelles a quem tinham +roubado.—Era n'esse tempo que o vosso chefe d'então e vosso chefe d'agora—o +scelerado fradalhão Luiz................. levava a tiro de pistola as mulheres +que se não dobravam aos seus desenfreados appetites;—era n'esse tempo que +elle, o malvado <em>pedréca</em>, arranjava empregos para os paes, a troco da +deshonra das filhas;—era, finalmente n'esse tempo, que muitos bandoleiros se +acobertavam com o nome d'amigos do Snr. D. Miguel, para o tornarem odioso, e +para augmentarem, como augmentaram, o partido liberal.—E ainda hoje continuaes +a acobertar os vossos crimes com o nome do infeliz Principe, trazendo-o para a +discussão a todo o proposito; e ainda hoje continuaes a perseguição aos seus +melhores e mais leaes amigos.—Aqui estamos nós—nós que fomos emballados na +affeição mais pura á pessoa do Snr. D. Miguel—nós, que, pensando servil-o, +temos constantemente sacrificado o nosso futuro e arriscado a nossa vida,—e +que hoje, desenganados, só pedimos a Deus que o Augusto Exilado não caia de +novo nas vossas mãos—porque seria um instrumento de perseguição e de morte +para metade dos filhos d'esta terra;—nós, em fim, que podemos dar testemunho +da vossa ferocidade. E porque nos perseguistes vós?... Porque não<span +class="pn">{17}</span> pudémos deixar-nos roubar, sem que gritassemos +<em>aqui-d'el-rei</em> sobre os ladrões, denunciando-os ao publico, de viva-voz +e pela imprensa.</p> + +<p>Calai-vos, <em>honrada-gente</em>!... calai-vos, que é esse o maior serviço +que podeis fazer ao Snr. D. Miguel de Bragança.</p> + +<p>Não nos daremos agora ao infadônho trabalho de reflectir sobre cada uma das +vossas <em>comparações</em>—talvez o façamos, se continuardes a provocar-nos; +no entanto, sempre vos repetiremos que é damnada a intenção com que comparaes +S. M. a Rainha com seu Augusto Tio, attribuindo a este alguns actos, com que +pretendeis acobertar os vossos crimes, e áquella alguns erros, de que não póde +nem deve ser responsavel—porque reina e <em>não governa</em>, como acontece a +todos os Monarchas constitucionaes.—O que vós quereis—não nos cançamos de o +dizer—é fazer pesar sobre o Snr. D. Miguel a responsabilidade de todos os +assassinios, de todos os roubos, de todas as tropellias, de todas as +perseguições, que praticastes em seu nome.</p> + +<p>As vossas comparações—se não fôsse bem conhecida a damnada intenção com que +são feitas—só serviriam para tornar odioso o nome do Augusto Tio da Soberana. +</p> + +<p>Se a Senhora Dona Maria II deve ser responsavel—como Rainha +constitucional—pelos actos do seu governo, como vós quereis; é assaz<span +class="pn">{18}</span> logico, é concludentissimo, que o Snr. D. Miguel—como +Rei absoluto—é o unico responsavel por todos os erros, por todos os crimes, +que em seu nome praticou esse bando de scelerados a que pertence o +«<em>Portugal</em>.»</p> + +<p>Não illudaes o povo, <em>honrados homens</em>!... não especuleis com a +ignorancia das turbas...</p> + +<p>O Snr. D. Miguel I foi Rei absoluto, e comtudo não deve ser responsavel por +muitos crimes, que se praticaram em seu nome, e que elle ainda hoje ignora.</p> + +<p>A Snr.ª D. Maria II é Rainha constitucional, e n'esta qualidade +irresponsavel pelos actos do seu governo.</p> + +<p>Portanto, as <em>comparações</em> do «<em>Portugal</em>» são filhas da mais +refinada hypocrisia e estupidez, e tendentes só a desacreditar o Augusto +Exilado.</p> + +<p>Estaes ahi a fingir-vos victimas da perseguição dos agentes do governo, e se +houvesse <em>um delegado</em>, que soubesse cumprir com o seu dever, como vos +attreverieis vós a asseverar pela imprensa, que a Soberana manda vender salsa e +hortelã!!! e que negoceia com bolota, com pelles e até com chifres???!!!!... +</p> + +<p>Senhores do «<em>Portugal</em>» não falleis em <em>chifres</em>, que se ri o +povo.... não falleis em <em>salsa</em> e <em>hortelã</em>, que deitaes por +terra, por vossas proprias mãos, essas <em>salsadas</em> que escreveis no vosso +despresivel papel.<span class="pn">{19}</span></p> + +<p>Silencio!... e deixai-nos respirar um pouco, antes de passarmos á</p> + +<h1><a name="SECTION00030000000000000000">TERCEIRA PARTE.</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00031000000000000000">DESENGANO.</a></h2> + +<p>Quem ouvir desprevenido as <em>roncas</em> do «<em>Portugal</em>»—quem lêr +as suas <em>lamentações</em>—ha-de julgar que alli ha convicções profundas—um +valor a toda a prova—uma resignação para o martyrio.</p> + +<p>Pois se ha quem tal pense, está completamente enganado.</p> + +<p>O «<em>Portugal</em>» é uma especulação mercantil de Francisco Pereira +d'Azevedo—mais vulgarmente conhecido pelas alcunhas de Ignez das Hortas e de +Francisco da Velha.</p> + +<p>O snr. Francisco é ao mesmo tempo editor, proprietario da imprensa e da +gazeta, e negociante de <em>algo</em>-<small>DÃO</small>.</p> + +<p>A gazeta intitula-se realista, e não é mais do que <em>farcista</em>. É a +mesma gazeta de que foi editor o sapateiro José Ferreira da Silva.</p> + +<p>Sabemos que nas provincias ha muita gente que não quer acreditar, que um +miseravel sapateiro, estuporado e tonto, fosse o editor da gazeta dos +<em>fidalgos velhos</em>, do periodico da aristocracia de <em>sangue azul</em>! +Pois, para que se desenganem,<span class="pn">{20}</span> aqui lhes vamos dar +alguns apontamentos para uma byographia do sapateiro, primeiro editor do +«<em>Portugal</em>.»</p> + +<p>José Ferreira da Silva, filho de paes pobrissimos, e natural d'esta cidade, +foi, ainda creança, para casa d'um sapateiro, onde começou por engraixar +botins, remendar sapatos de gallegos e chinellos velhos, até que, por meio das +suas <em>habilidades</em> e com a ajuda d'alguns patacos, que os freguezes do +mestre lhe davam de <em>molhadura</em>, quando lhes hia levar as botas, pôde +estabelecer-se e casar. Tendo já loja sua, fez-se <em>carola</em> por +especulação, e tal era a <em>habilidade</em> e a <em>ligeiresa de mãos</em> de +que a natureza o dotára, que, dentro de poucos annos, achava-se possuidor +d'alguns contos de reis, arranjados ou empalmados nas confrarias e irmandades, +em que se mettia, como piolho por costura. Por occasião da invasão franceza, +uniu-se aos anarchistas, cujas <em>proezas</em> são bem sabidas n'esta cidade, +e dentro em breve tempo montavam os seus haveres a trinta mil cruzados, +chegando a ser capitão dos bandoleiros do <em>chuço</em>. Desde então, começou +a trabalhar menos pelo officio, mettendo-se a onzeneiro, e dando dinheiro a +juros, com enormissimas usuras; porém, o que n'este mister ganhára, levou-lh'o +o diabo para as mãos de um negociante, que, pouco depois, se declarou em estado +de fallencia. Estonteado com este revéz,<span class="pn">{21}</span> teve o +primeiro attaque de estupôr, e começou desde então a andar quotidianamente +pelas igrejas. Era tão enthusiasta pelas idéas liberaes, que, no tempo do +cêrco, foi denunciar os moveis, pratas e mais objectos de valor pertencentes ao +fallecido snr. José Antonio (empregado na policia do Porto), que era seu +inquilino, e tinha acompanhado o exercito realista, achando-se, por isso, +ausente. Tudo foi sequestrado, e foi tal a raiva do sapateiro, quando o Snr. D. +Pedro deu a amnistia, mandando levantar os sequestros, que ficou mais +estuporado do que estava. Era tal a sua avareza, que, tendo ainda uma boa +fortuna, andava vestido como um mendigo, e seus filhos não morriam de fartos, +como é notorio pela visinhança. Estando completamente estuporado e tonto, houve +um delegado, que, por empenhos, <em>ou pelo quer que fôsse</em>, o acceitou +para editor da infame gazeta, intitulada «<em>Portugal</em>», e com quanto não +recebesse por isso dinheiro (por estar tonto de todo) recebia-o por elle um +filho, que ainda hoje é caixeiro da <em>tripeça-gazetal</em> da rua das Hortas. +Nos ultimos tempos da sua vida, tinha uma loja d'adeleiro na rua Formosa, onde +continuava a emprestar dinheiro sobre ouro, prata e roupas, com enormissima +usura, levando de juros, de cada cruzado novo, trinta e quarenta reis por mez, +o que equivale a <em>cento por cento ao anno</em>!!!... Falleceu<span +class="pn">{22}</span> d'uma queda no dia 29 d'Outubro de 1851, testando duas +moradas de casas, a roupa e moveis da adella e algum dinheiro.</p> + +<p><em>Deus se compadeça da sua alma.</em></p> + +<p>Eis-aqui uns apontamentos para a byographia do miseravel sapateiro, +escriptos conscienciosamente, sem odio ou affeição.</p> + +<p>Agora, se querem desenganar-se da refinada hypocrisia e cynismo da infame +gazeta dos <em>farcistas</em>, comparem estes apontamentos com os que se lêem +no «<em>Portugal</em>» de 10 de Novembro de 1851:</p> + +<blockquote> + <p>«O snr. José Ferreira da Silva, natural d'esta cidade, e filho de paes + pobres, mas honrados<a name="tex2html1" href="#foot244"><sup>[1]</sup></a>, + acaba de descer á sepultura, no cemiterio da ordem 3.ª de S. Francisco, com + todas as honras funebres e com mais de 80 annos d'edade. Era laborioso e de + boas contas<a name="tex2html2" href="#foot245"><sup>[2]</sup></a>, e tão + amante de seus paes, que os teve em sua companhia até que falleceram. + Agenciára elle pelas suas economias o melhor de 25,000 crusados<a + name="tex2html3" href="#foot246"><sup>[3]</sup></a> que empregou muito bem em + promover a educação<span class="pn">{23}</span> de sua familia, e em obras + pias<a name="tex2html4" href="#foot247"><sup>[4]</sup></a>. Era tão + apaixonado das confrarias<a name="tex2html5" + href="#foot248"><sup>[5]</sup></a> que pertenceu a quasi todas as d'esta + cidade, sendo provedor da de S. Chrispim<a name="tex2html6" + href="#foot150"><sup>[6]</sup></a> definidor da 3.ª de S. Francisco, mesario + e protector de diversas outras. Serviu de juiz d'Artes<a name="tex2html7" + href="#foot151"><sup>[7]</sup></a>, e foi capitão d'ordenanças por occasião + da invasão francesa<a name="tex2html8" href="#foot249"><sup>[8]</sup></a>. + Era muito estimado e acolhido das principaes familias d'esta cidade<a + name="tex2html9" href="#foot154"><sup>[9]</sup></a>. A sua nimia boa fé o fez + ser victima d'uma quebra em que se fundiu a maior parte da sua fortuna que + tinha em mãos do quebrado<a name="tex2html10" + href="#foot250"><sup>[10]</sup></a>. O seu animo religioso não se abateu com + a adversidade, e hauriu perennes consolações no bom desempenho dos seus + deveres domesticos e no exercicio dos actos religiosos, ouvindo missa + quotidianamente, visitando o SS.<sup>mo</sup> Sacramento, e assistindo ás + numerosas funcções religiosas que se celebram n'esta cidade. Era portuguez de + velha tempera, e tão decidido legitimista<a name="tex2html11" + href="#foot252"><sup>[11]</sup></a>, que se offereceu para editor + <em>gratuito do Portugal</em><a name="tex2html12" + href="#foot161"><sup>[12]</sup></a>, e o foi com a melhor vontade até que + Deus o chamou a si<a name="tex2html13" href="#foot253"><sup>[13]</sup></a>. + Não o arredou<span class="pn">{24}</span> nunca do seu honroso posto a + bateria d'insultos com que o mimosearam os nossos adversarios<a + name="tex2html14" href="#foot164"><sup>[14]</sup></a> que estranhavam que um + honrado popular fosse editor d'um periodico legitimista, como se a + legitimidade excluisse classes. No entanto á borda da sepultura todos os + collegas adversarios se portaram cavalheirosamente com o nosso editor. Houve + apenas uma excepção no <em>Pobres</em>. Nós lhe perdoamos o seu cynismo em + nome do fallecido. Pelo que nos toca depositamos aqui um penhor eterno de + gratidão e respeito ao veneravel<a name="tex2html15" + href="#foot254"><sup>[15]</sup></a> ancião que nos escudou perante a lei, e + esperamos que na presença do Eterno advogará a nossa causa que é a da justiça + e do direito<a name="tex2html16" href="#foot255"><sup>[16]</sup></a>. O nosso + bom amigo falleceu d'uma queda e testou com acerto<a name="tex2html17" + href="#foot168"><sup>[17]</sup></a>, deixando uma viuva inconsolavel e uma + filha e um filho herdeiros de sua honra e virtudes<a name="tex2html18" + href="#foot169"><sup>[18]</sup></a>. <em>Deus o tenha á sua vista</em><a + name="tex2html19" href="#foot256"><sup>[19]</sup></a>.</p> +</blockquote> + +<p>E que tal! Assim é que se engoda o povo, para lhe hir pilhando os +pataquinhos! É assim que o <em>Portugal-gazeta</em> costuma dizer a verdade! +</p> + +<p>Que honrada gente! E não lhes coram as faces, quando apparecem em +publico!<span class="pn">{25}</span></p> + +<p>Comparai estas amabilidades para com um miseravel sapateiro, estuporado e +tonto, com o grosseiro procedimento do snr. Francisco Candido para com a +«<em>Neta e Sobrinha de Reis</em>» procedimento que escandalisou muitos +realistas sensatos, que não comem nem querem comer a custa da illusão dos +povos.</p> + +<p>D'um lado uma consciencia tão larga, que fez do sapateiro um homem honrado, +piedoso, realista, &c. &c. Do outro uma consciencia tão estreita e +mesquinha, que se despede da Assemblea, porque a quasi totalidade dos socios +resolvêra obsequiar S. M. a Rainha!!!</p> + +<p>Parece-nos que não haverá ninguem que não suspeite qual é o fim d'estes +<em>fogachos facciosos</em>...</p> + +<blockquote style="width: 50%; margin-left: 25%;"> + Do direito fazem torto<br> + Estes astutos velhacos;<br> + Chamam gente a um asno morto...<br> + Tal é o poder dos patacos!!!</blockquote> + +<p>Uma das duas: ou o snr. Francisco Candido é o unico homem escrupuloso e de +convicções profundas, dos que escrevem no <em>Portugal</em>—ou pretende +enganar o povo.</p> + +<p>Se agarra na primeira ponta do dylemma—deve largar já a redacção do infame +<em>Portugal-gazeta</em>, fazendo assim a vontade ao padre Luiz, ao F. da +Velha, e ao garoto do pião.... Se<span class="pn">{26}</span> agarra na +segunda—tambem não podêmos deixar de lhe dizer, que procure um modo de vida +mais decente.</p> + +<p>Fóra d'ahi, snr. Francisco Candido! Um homem de probidade austéra não póde, +nem deve escrever na infame gazeta inaugurada sob a responsabilidade do homem +mais despresivel que existia no Porto. Fóra d'ahi! Deixe o logar a esses +scelerados que lh'o cobiçam. Fóra d'ahi, que a questão, para elles, é só +questão de dinheiro. Fóra d'ahi, se não quer que o publico o tenha na mesma +conta em que os tem a elles.</p> + +<p>Ignora, snr. Francisco Candido, que ahi se levam moedas pelas +correspondencias que, em sua defesa e em defesa do seu partido, mandam lançar +os proprios homens, a quem o <em>Portugal-gazeta</em> chama seus +correligionarios e amigos!! O snr. Cachapuz que o informe... elle, que +aggredido pelo <em>Ecco Popular</em>, como auctoridade realista, teve de dar +bons pintos pela defesa que fez inserir na gazeta dos +<em>farcistas</em>.—«<em>Um pataco por linha e nada menos.</em>»</p> + +<p>Não acontecia assim com a P<small>ATRIA</small>, que nunca levou nem um real +por semelhantes correspondencias—porque o redactor da P<small>ATRIA</small><a +name="tex2html20" href="#foot257"><sup>[20]</sup></a><span +class="pn">{27}</span> não sabia ser gazeteiro, e o snr. Francisco Candido bem +conhece aquelles que o roubaram, abusando do seu demasiado cavalheirismo e boa +fé.</p> + +<p>Veja se gosta d'esta comparação, snr. Francisco Candido, e saiba (se o +ignora) o que é uma gazeta na mão d'um <em>negociante</em>.</p> + +<p>Agora, ouça mais duas palavras, e ouça-as tambem o povo, para ficar +completamente desenganado ácerca do <em>Portugal-gazeta</em>.</p> + +<p>Ha cousa d'um anno, appareceram no <em>Ecco Popular</em> uns artigos infames +(cuja publicação foi provocada por uma polemica do infame +<em>Portugal-gazeta</em>) nos quaes se davam ao Tio da Rainha os nomes mais +injuriosos, e entre estes, o de <em>assassino</em>!!—O editor do <em>Ecco</em> +póde dar testemunho dos esforços, que eu fiz, invocando a sua generosidade, +para que retirasse da discussão o augusto nome do infeliz exilado; mas, apesar +d'estes esforços, lá appareceram no infame <em>Portugal-gazeta</em> umas +allusões torpes, involvendo a perfida insinuação de que era eu o auctor de +semelhantes artigos!—Um dia, ao cahir da noite, encontrei, na rua dos +Lavadouros, o snr. Francisco<span class="pn">{28}</span> Candido de Mendoça e +Mello, e perguntei-lhe se já estava desenganado de que não eram meus os +artigos. Respondeu-me «que entre mim e elle (snr. Mendoça) não havia motivo +algum d'inimisade; que até algumas vezes havia dito que eu tinha razão de me +queixar do que acontecera com a P<small>ATRIA</small>; e que elle (snr. +Mendoça), avisado do que se passára commigo, era redactor <em>independente</em> +do «<em>Portugal</em>» e não recebia ordens de ninguem, nem mesmo quanto á +politica do jornal; que já se sabia que não eram meus os artigos em que o Snr. +D. Miguel era tão atrozmente calumniado; que as allusões, de que eu me +queixava, tinham nascido d'uma errada persuasão, e não de odio ou +vindicta.»—Fiquei <em>quasi</em> satisfeito com a declaração do snr. Mendoça; +e para o ficar <em>completamente</em>, disse-lhe que era justo rectificar a +perfida insinuação que se fizera. Assim o julgou o snr. Mendoça, e assim m'o +prometteu; mas, até hoje, estou á espera do cumprimento da sua +promessa!—Quereria o snr. Mendoça cumpril-a, e serviriam d'obstaculo os +<em>negociantes de politica</em>, que já não é a primeira vez que negoceiam com +o meu credito, com o meu suor e com o meu sangue?... Fóra d'ahi, snr. Mendoça! +Um homem de probidade austera, não póde conservar essa posição.—Olhe que não +escrevo isto para augmentar os seus embaraços. Sei que ha promessas +solemnes<span class="pn">{29}</span> de lhe apalpar as costas, e se os meus +pedidos valessem, eu pediria que ninguem fizesse caso da sua despedida da +Assemblea, das suas cartas, e do mais que se tem passado.</p> +<hr class="dotted"> + +<blockquote> + <p>Duas palavras ao snr. <em>Antonio Pinto Cardoso da Gama</em>, e peço + tambem para ellas a mais séria attenção do publico. </p> + + <p>O snr. <em>Gama</em> é delegado do procurador regio na 2.ª vara, e debaixo + da sua alçada está a typographia do <em>Portugal-gazeta</em>. A mim não me + importa que o snr. <em>Gama</em> deva obrigações a ninguem; o que desejo é + vêl-o applicar a lei igualmente a <em>amigos</em> e adversarios.</p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>Snr. <em>Gama</em>: No dia 29 d'Outubro de 1851 falleceu o sapateiro José + Ferreira da Silva, que foi editor do <em>Portugal-gazeta</em>. Este infame + papel continuou a publicar-se <em>illegalmente</em>, até ao dia 10 de + Novembro, <em>debaixo da responsabilidade do fallecido</em>, e o snr. Gama + não procedeu, senão depois que eu requeri procedimento! Por fim, o + «<em>Portugal</em>» foi absolvido; mas o seu proprio defensor teve a + franqueza de me confessar que a sentença estava mal fundamentada—porque a + lei é muito clara e a infracção era muito visivel! Eu sei tudo o que se + passou com esse <em>decantado</em> processo, e calo-me por ora, mas hei-de + fallar, e <em>fallar muito claro</em>, quando fôr tempo para isso.... Agora, + snr. Gama, vou mostrar-lhe quanto é nociva a impunidade, e quanto é + prejudicial que se não observem as leis.</p> + + <p>O snr. Gama já sabe (porque o escripto se vende publicamente, e devia + ser-lhe remettido, na conformidade da lei), que na imprensa dos + <em>negociantes</em> do <em>Portugal-gazeta</em> se imprimiu um folheto + intitulado==<em>Descripção da viagem de SS. MM. desde que sahiram<span + class="pn">{30}</span> de Lisboa até á sua entrada n'esta cidade.</em>==Este + folheto não traz o nome da officina, como a lei manda, e a lei pune + severamente esta infracção, e a lei, snr. Gama, diz que qualquer pessoa do + povo poderá accusar os delegados, quando estes não cumprirem com o seu + dever.—Fico á espera, snr. Gama, e pouco me importa que o infame + <em>Portugal-gazeta</em> me chame <em>denunciante</em>. Deus me livre de que + elle me chame homem honrado. As cousas tomam-se como da mão de quem veem. Uma + injuria na bôcca do immundo papel dos <em>farcistas</em> é o maior elogio que + se me póde fazer.—Ao seu dispôr, snr. Gama.</p> + <hr class="dotted"> + + <p>Já me vai faltando a paciencia, e creio que—para quem não for muito + estupido, muito hypocrita, muito desavergonhado ou muito simplorio—já bastam + os factos que deixo apontados para todos se desenganarem de que o + <em>Portugal-gazeta</em> é uma tôrpe especulação mercantil; que o editor, + redactores e collaboradores só tractam d'illudir o povo, para lhe irem + comendo os patacos; e, em fim, que publicam o papel mais infame que tem + prostituido a imprensa;</p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>Porque o <em>Portugal-gazeta</em></p> + + <blockquote style="width: 50%; margin-left: 25%;"> + «................... pirata inico<br> + Dos trabalhos alheios feito rico»</blockquote> + + <p>—insulta a Rainha, e ao mesmo tempo imprime uma incomiastica descripção + da viagem ao Porto, com a mira nos <em>pataqinnhos</em>. </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>Porque se finge victima d'uma perseguição acintosa, e encontra um delegado + mais macio do que velludo.</p> + + <p>Porque calumnía por gôsto, para especular com a honra, com o credito e com + o suor alheio.</p> + + <p>Porque se diz realista, e foi chuchando as moedas do snr. Cachapuz, para o + defender como auctoridade realista.<span class="pn">{31}</span></p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>Porque anda todos os dias a atirar á praça publica o nome do Tio da + Rainha, só pelo gôsto de o vêr desacatado pelas turbas, para depois ganhar + patacos com as suas defesas e comparações.</p> + + <p>Porque, finalmente, os que no <em>Portugal-gazeta</em> se declaram hoje + defensores do Snr. D. Miguel—são os mesmos que hontem o cobriam d'injurias, + e lhe chamavam tyranno e usurpador. </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>Este desengano é para aquelles que ainda acreditavam na boa fé do + <em>Portugal-gazeta</em>. Resta-me dar tambem um desengano aos <em>gazeteiros + farcistas</em>. </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>Escusaes de andar com investigações, prohibindo os vossos empregados de + fallarem commigo—porque eu sei tudo o que se passa entre vós, e fui avisado, + em tempo competente, d'aquella proposta, que se fez em certa + reunião......................, de se darem algumas moedas a + quem..................... e folguei muito de que alguns cavalheiros se + portassem como verdadeiros fidalgos portuguezes, embora illudidos, repellindo + uma proposta tão miseravel. </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>Podeis continuar a perseguir-me, que com isso só conseguis augmentar a + aversão que vos tenho. </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>Este é o desforço que eu tiro das vossas provocações.—Tornai a + provocar-me, que eu cá fico a colligir a <em>papellada velha</em>.... </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>Senhores do <em>Portugal-gazeta</em>, procurai bem entre os do vosso + bando, a vêr se encontraes os fabricadores de <em>moeda falsa</em>, de que ha + pouco vos queixastes... Já estaes calados?!.. Dar-vos-hiam para isso alguma + <em>moeda verdadeira</em>?... </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>Senhores do <em>Portugal-gazeta</em>—silencio!... </p> +</blockquote> + +<p style="text-align:center;"> —</p> + +<p>Leitores, desculpai a duresa da phrase e a desigualdade do estylo. Este +folheto foi escripto ao correr<span class="pn">{32}</span> da penna, e +resente-se das alternativas da minha vida.—Eu penso com Chateaubriand (sem +possuir o seu talento) que é uma loucura atirar com o meu nome ao meio da +multidão;—comtudo para que se não julgue que declino a responsabilidade, aqui +pônho a minha assignatura.</p> + +<p> </p> + +<p>Porto 18 de Maio de 1852.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right"><em>João Augusto Novaes Vieira.</em></p> + +<p> </p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot244" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Não podêmos deixar de +fazer algumas annotações a este ridiculo <em>apontoado</em> +d'imposturas.—Acreditariamos piamente que os paes do sapateiro fossem muito +probos, apesar de pobrissimos; mas, desde que os <em>farcistas</em> lhes chamam +<em>honrados</em>, ficamos com nossas duvidas... Deus nos livre de ser +<em>honrado</em> na bocca de semelhante <em>gentinha</em>...</p> + +<p><a name="foot245" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Bastava que fôsse de +tão boas contas como os que <em>tomaram á sua conta</em> a empreza da +P<small>ATRIA</small>... Arreda!</p> + +<p><a name="foot246" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> E que tal? Um +sapateiro que, em poucos annos, arranja 25 mil cruzados pelas <em>suas +economias</em>, devia ser muito honrado...</p> + +<p><a name="foot247" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Ninguem sabe que elle +praticasse taes obras, senão os <em>farcistas</em> do +«<em>Portugal-gazeta</em>.»</p> + +<p><a name="foot248" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> E como não seria +apaixonado, se d'ellas é que <em>economisou</em> o dinheiro que tinha?...</p> + +<p><a name="foot150" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> Por ser a confraria +dos sapateiros.</p> + +<p><a name="foot151" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> E era muito bom juiz, +especialmente da arte do padre Antonio Vieira.</p> + +<p><a name="foot249" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> Capitão dos +bandoleiros do <em>chuço</em>, que assassinavam e roubavam a torto e a direito, +dando ás suas victimas o nome de <em>jacobinos</em>.</p> + +<p><a name="foot154" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> Pêta refinada.</p> + +<p><a name="foot250" href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> Por <em>Diós</em> +veio, por <em>Diós</em> foi.</p> + +<p><a name="foot252" href="#tex2html11"><sup>[11]</sup></a> Pois não! Todos os +que forem ladrões, tractantes, calumniadores e desavergonhados—são decididos +<em>legitimistas</em>, na bôcca do <em>Portugal-gazeta</em>.</p> + +<p><a name="foot161" href="#tex2html12"><sup>[12]</sup></a> Refinadissima pêta. +</p> + +<p><a name="foot253" href="#tex2html13"><sup>[13]</sup></a> Foi uma occasião +chamado á policia, <em>por impostura do delegado</em>, e perguntado se era o +editor do «<em>Portugal</em>» respondeu primeiro que não sabia, e depois +negativamente. Não obstante, continuou a figurar como editor, contra a expressa +determinação da lei.—Quem quizer, que commente.</p> + +<p><a name="foot164" href="#tex2html14"><sup>[14]</sup></a> Se elle estava +tonto de todo, que lhe havia de importar?</p> + +<p><a name="foot254" href="#tex2html15"><sup>[15]</sup></a> Miseravel e bem +miseravel. O <em>Portugal-gazeta</em> troca os nomes a tudo.</p> + +<p><a name="foot255" href="#tex2html16"><sup>[16]</sup></a> Fóra, +<em>farcistas</em>!</p> + +<p><a name="foot168" href="#tex2html17"><sup>[17]</sup></a> Ou alguem testou +por elle.... quem sabe?...</p> + +<p><a name="foot169" href="#tex2html18"><sup>[18]</sup></a> Podéra não!</p> + +<p><a name="foot256" href="#tex2html19"><sup>[19]</sup></a> E lhe perdoe. +<em>Amen.</em></p> + +<p><a name="foot257" href="#tex2html20"><sup>[20]</sup></a> Falla-se do +verdadeiro fundador e redactor do jornal, e não do <em>doutor</em> Cazimiro de +Castro Neves, <em>que ainda tem saudades do tempo em que jogava o seu +pião</em>, como elle proprio disse em letra redonda, não obstante as nossas +advertencias. Disse tambem que era «<em>uma pessoa physica</em>.» Veja-se, no +diccionario de Moraes, a definição de pessoa, e conhecer-se-ha que o tal +<em>menino dos olhos azues</em> é um <em>doutorasso</em>.... no jogo do pião, +que é jogo de garotos.</p> +</div> +</div> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30355 ***</div> +</body> +</html> |
