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+<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml">
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+ <title>Pelo mundo f&oacute;ra</title>
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+ <meta name="AUTHOR" content="Maria Am&aacute;lia Vaz de Carvalho" />
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+
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+<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30404 ***</div>
+
+<div>
+<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+exist&ecirc;ncia de erros tipogr&aacute;ficos neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Nov. 2009)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox">
+<br />
+
+<h3>Maria Amalia Vaz de Carvalho
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h2>PELO MUNDO F&Oacute;RA
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 95px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>LISBOA<br />
+
+<span class="smallcaps">Livraria de Antonio Maria
+Pereira&#8213;editor</span><em><br />
+
+50, 52&#8213;Rua Augusta&#8213;52, 54</em><br />
+
+1896</h4>
+
+</div>
+
+<br />
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+<br />
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+<h2>PELO MUNDO F&Oacute;RA</h2>
+
+<br />
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+<br />
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+<br />
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+<h3>Maria Amalia Vaz de Carvalho</h3>
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+<br />
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+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
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+<br />
+
+<h2>PELO MUNDO F&Oacute;RA
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 95px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>LISBOA<br />
+
+<span class="smallcaps">Livraria de Antonio Maria
+Pereira&#8213;editor</span><em><br />
+
+50, 52&#8213;Rua Augusta&#8213;52, 54</em><br />
+
+1896</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<hr />
+<div style="text-align: center;">LISBOA<br />
+
+Typographia e Stereotypia Moderna<span style="font-style: italic;"></span><br />
+
+<span style="font-style: italic;"></span><em>II&#8213;Apostolos&#8213;II</em><br />
+
+1896<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>I
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha de certo ninguem, por pouco imaginativo
+e pouco phantasista que seja,
+que n&atilde;o tenha architectado um complicadissimo
+e alegre sonho dando-lhe por base o
+<em>prazer das viagens</em>. Aos homens
+&eacute; o interesse
+de visitar cousas novas, de experimentar
+sensa&ccedil;&otilde;es
+mais vivas, que os attrahe e chama; &aacute;s
+mulheres &eacute; o amor do desconhecido que lhes
+irrita a insaciavel curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Imaginamos todos que a ventura est&aacute; justamente...
+onde n&oacute;s n&atilde;o estamos. E que seria
+facil conquistal-a, indo em demanda d'ella um
+pouco longe, em um logar d'onde ella nos sorri,
+d'onde ella nos acena, cariciosa... trai&ccedil;oeira.
+<br />
+
+<br />
+
+Eu cedi tambem &aacute; estranha, &aacute; irresistivel
+suggest&atilde;o. Fui-me por esse mundo f&oacute;ra em
+<span class="pagenum">[2]</span>
+busca do pomo d'ouro, que tantas vezes se
+parece com aquelle fructo colhido em terras
+da Palestina&#8213;mimo e velludo por f&oacute;ra, cinzas
+escuras no interior.
+<br />
+
+<br />
+
+Era bem natural que, para mim t&atilde;o profundamente
+modelada pelo espirito da Fran&ccedil;a,
+o primeiro objectivo fosse a terra onde a
+civilisa&ccedil;&atilde;o
+franco-latina se resume em synthese
+deslumbradora.
+<br />
+
+<br />
+
+Chamava-me Paris. E Paris n&atilde;o era, j&aacute; se
+v&ecirc;, a cidade luxuosa e alegre do
+<em>boulevard</em>,
+a cidade da permanente festa, do prazer que
+se elabora de todos os requintes de uma decadencia,
+da phrenetica aspira&ccedil;&atilde;o ao gozo material
+da vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Paris era a terra sagrada d'onde brot&aacute;ra
+para a especie humana a primeira scentelha
+da Liberdade.
+<br />
+
+<br />
+
+Paris era a patria, pelo menos moral&#8213;d'aquelles
+espiritos de que a minha alma colh&ecirc;ra,
+n'um vago extase fecundante, a fl&ocirc;r maravilhosa
+e inspiradora.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos os que eu intellectualmente mais am&aacute;ra
+tinham ido alli receber a consagra&ccedil;&atilde;o suprema
+da gloria ou da desgra&ccedil;a, &aacute;s vezes de
+ambas ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[3]</span>
+Eram, no grande seculo classico, Pascal,
+Racine e Moli&egrave;re; eram, na soberba Renascen&ccedil;a
+franceza, Rabelais e Montaigne; eram
+depois, n'esse seculo XVIII hoje t&atilde;o calumniado,
+mas sempre t&atilde;o grande, e que t&atilde;o indomitas
+energias acordara na alma do homem,
+Rousseau com a sua morbida sensibilidade de
+ambicioso e de revoltado, que n&oacute;s hoje comprehendemos
+t&atilde;o bem; era Voltaire, a s&atilde; ironia
+hoje desdenhada, mas que t&atilde;o benefica
+ac&ccedil;&atilde;o
+exerceu na treva do espirito humano; era Diderot,
+o profundo precursor de todas as modernas
+theorias criticas, o homem que no seu
+tempo moveu maior numero de id&eacute;as novas e
+suggestivas; era a pleiade formidavel e fascinante
+da Revolu&ccedil;&atilde;o, a que na minha mocidade
+me dera sensa&ccedil;&otilde;es de t&atilde;o absoluto
+assombro,
+a que, desde Turgot e Mirabeau at&eacute; Robespierre,
+refizera em novos moldes o mundo moral
+e o mundo politico; era, na cumiada mais
+alta e mais luminosa da montanha da Historia,
+essa grande figura immortal, o Alexandre do
+seculo XIX, o heroe de Homero, o phrenetico
+conquistador, que empobreceu talvez a Fran&ccedil;a,
+que dizimou as popula&ccedil;&otilde;es e crucificou as
+m&atilde;es
+e as noivas, que sangrou do seu melhor sangue
+<span class="pagenum">[4]</span>
+as na&ccedil;&otilde;es e as ra&ccedil;as, mas que imprimiu
+na sua patria o cunho epico, inapagavel, inolvidavel,
+com que ella ainda hoje espanta e assombra
+o espirito dos estrangeiros! Parece
+dos tempos lendarios e &eacute; de hontem esse homem
+soberbo e fatal&#8213;em cujo olhar profundo ha
+reverbera&ccedil;&otilde;es
+do Olympo, e cuja fronte pensativa
+fez parar embevecidos, silenciosos, os mais
+impassiveis e os mais frivolos&#8213;cuja figura n&oacute;s
+topamos a cada passo na Capital do Mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Modernamente, quantos outros me chamavam,
+ainda mais queridos ao meu cora&ccedil;&atilde;o,
+ainda mais intimamente e estreitamente identificados
+com todas as recorda&ccedil;&otilde;es mais doces
+da minha vida intellectual... Era Michelet, o
+poderoso encanto allucinante; era Balzac, a vida
+intensa que pullula em crea&ccedil;&otilde;es immortaes;
+era Renan, a gra&ccedil;a emballadora, ondeante e
+morbida, que anesthesia e faz sonhar; e Taine,
+o vigor soberbo da id&eacute;a servido por um temperamento
+possante de artista e de poeta, um
+Spinosa que tivesse o pincel do Veronez para
+traduzir as vis&otilde;es do seu pensamento altissimo;
+era Musset, o divino; era Sand, e Sainte
+Beuve, e Hugo, e Lamartine: e cada um me
+attrahia por um lado ou por muitos lados da
+<span class="pagenum">[5]</span>
+sua sensibilidade e do seu genio, e cada um me
+dizia a palavra magica que faz parar, suspenso,
+embevecido, um espirito de poeta e de artista,
+humilde embora...
+<br />
+
+<br />
+
+Eram mais, eram muitos mais, todos lidos,
+todos decorados com enternecimento e apaixonado
+enlevo. Eram os que eu sempre amei
+desde que abri os olhos d'alma, e a quem devo
+os prazeres mais ardentes, mais refinados ou
+mais subtis da minha vida interior.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos alli me chamavam&#8213;c&ocirc;ro de mortos
+que eu tinha a louca illus&atilde;o de encontrar ainda.
+Parecia-me que o sorriso aberto e expansivo do
+pae Dumas havia de accentuar-se sympathicamente
+ao encarar com o meu assombro extatico;
+que a voz mordente de Voltaire se
+amolleceria para acolher em mim a mais fervente
+enthusiasta do espirito francez; que Beaumarchais
+me contaria, entre risonho e caustico,
+uma nova travessura de <em>Figaro</em>, uma
+nova paix&atilde;o de <em>Cherubin</em>;
+que Moli&egrave;re, descendo
+do seu pedestal marmoreo, me diria ao
+ouvido uma d'aquellas profundas reflex&otilde;es satyricas
+que elle n&atilde;o poup&aacute;ra &aacute;s
+<em>bas-bleus</em> do
+seu tempo!
+<br />
+
+<br />
+
+Para mim confundiam-se n'um cahos allucinante
+<span class="pagenum">[6]</span>
+as &eacute;pocas, os seculos, os periodos historicos.
+<br />
+
+<br />
+
+O meu humilde espirito colh&ecirc;ra apaixonadamente
+scentelhas soltas de todos esses espiritos;
+a minha memoria guardava reverente,
+em relicario precioso, perfumes vagos de todas
+essas essencias raras! Amara-os tanto! Sonhara-os
+tanto! O scenario onde elles se tinham
+movido interessava-me t&atilde;o profundamente!
+<br />
+
+<br />
+
+Oh! Balzac ia decerto contar-me a historia,
+para elle <em>real</em>, das suas elegantes e
+pallidas heroinas;
+elle que era forte e bom, compadecido
+da minha pequenez, n&atilde;o duvidaria apresentar-me
+a esse mundo mais humano, mais
+verdadeiro que o outro em que tanto &aacute; vontade
+sabia mover-se.
+<br />
+
+<br />
+
+A viscondessa de Beauseant, a espirituosa e
+aristocratica rainha do <em>faubourg</em>,
+aquella que
+am&aacute;ra tanto um portuguez, e que tivera no seu
+abandono uma dignidade t&atilde;o gentil e uma attitude
+de t&atilde;o romanesco encanto, ao v&ecirc;r-me
+patrocinada pelo seu grande artista, far-me-hia
+o que fez a Eugenio de Rastignac: proteger-me-hia,
+introduzir-me-hia, carinhosa e maternal,
+no circulo estreito, exclusivo, selecto onde
+viviam as suas eguaes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[7]</span>
+Ent&atilde;o, n'este ponto do meu sonho galopante,
+mais rapido que o trem que me levava, mais
+vertiginoso que o scenario mudavel que me
+envolvia, eu deixava o mundo da realidade
+sempre limitado, sempre condicional e sempre
+estreito, por outro amplissimo, fascinador e
+deslumbrante.
+<br />
+
+<br />
+
+A multid&atilde;o prestigiosa das figuras de Balzac
+cercava-me n'uma especie de circulo encantado.
+Todo o sortilegio poderoso com que
+esse grande artista&#8213;o Napole&atilde;o da litteratura&#8213;actuou
+sobre o nosso tempo, descia sobre
+o meu cerebro, excitava-o, estimulava-o
+perigosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos os meus gostos de observadora achavam
+alli a sua satisfa&ccedil;&atilde;o plena. Esquecia, n'esse
+mundo de t&atilde;o frisante
+<em>realidade</em>, de t&atilde;o intensa
+vida, tudo que o mundo actual tem de
+nauseante e de triste...
+<br />
+
+<br />
+
+De resto, Nucigen, o formidavel banqueiro
+da <em>Comedia humana</em>, &eacute; bem
+mais assustador
+que Reinach e que todos os judeus modernos
+da Columna da Bolsa; Vautrin tem um porte
+&eacute;pico de criminoso que deixa a perder de vista
+Cornelio Herz, ou Arton; de Marsay, esse personagem
+que &eacute; de Balzac como Hamlet &eacute; de
+<span class="pagenum">[8]</span>
+Shakespeare, como Tartufo &eacute; de Moli&egrave;re, como
+D. Juan &eacute; de Byron, &eacute; um politico, um diplomata,
+um perverso das altas cumiadas sociaes,
+bem superior a Rouvier, a Clemenceau, aos
+pobres pygmeus da terceira Republica; Lousteau,
+Claude Vignon, Emilio Blondet, Nathan,
+os principes do jornalismo, os grandes criticos
+e os manipuladores de <em>successos</em> ou
+de
+derrotas litterarias, n&atilde;o podem realmente comparar-se
+ao sr. Mayer, ao sr. Magnard, ao
+proprio sr. Rochefort.
+<br />
+
+<br />
+
+E que pleiade encantadora de artistas e de
+sabios! Que lindas figuras luminosas de pintores,
+de esculptores, de romancistas, de pensadores!
+D'Arthez! Joseph Bridau! Camille
+Maupin! Leon Giraud! Fulgence Ridal!
+<br />
+
+<br />
+
+Em Miguel Christien transparece a integridade
+rigida, a consciencia admiravel, a fogosa
+independencia de Armand Carrel; em D'Arthez
+a bella alma, a vida modesta e simples,
+a magnificencia intellectual de um Berryer...
+<br />
+
+<br />
+
+E todos desfilavam ante os meus olhos offuscados,
+os cinzeladores da palavra, os manejadores
+soberbos ou do escalpello que abre as
+entranhas humanas para extrahir d'ellas o segredo
+da vida, ou do pincel que rasga janellas
+<span class="pagenum">[9]</span>
+de luz para o azul, para o Ideal! Os mestres
+da sciencia e da arte, os grandes typos
+que constituiram essa sociedade imaginaria da
+obra de Balzac, reflexo idealisado da outra
+que elle frequentava e conheceu tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao p&eacute; d'esse agrupamento sublime de figuras
+que o genio creou, e que illuminam o talento,
+a gloria, a ambi&ccedil;&atilde;o ou a desventura,
+que ora se contorcem como os personagens
+que Miguel Angelo pintou nos seus frescos soberbos,
+sob o influxo de uma d&ocirc;r tremenda,
+ora sorriem olympicamente, como os retratos
+do Ticiano, surge uma legi&atilde;o adoravel de mulheres,
+em quem a gra&ccedil;a indefinivel da parisiense
+se allia ao eterno mysterio da poesia feminina,
+mulheres que se vestem como duquezas
+modernas, e sorriem, enygmaticas e suggestivas,
+como a Monna Lisa, eternamente indecifravel,
+do pintor florentino.
+<br />
+
+<br />
+
+Mulheres que sabem <em>ouvir</em>, que sabem
+comprehender,
+e julgar, e consolar, e amar; mulheres
+que, sendo perversas, teem o encanto
+diabolico da princeza de Cadignan e de Mme.
+Marneffe, e que, sendo puras, se chamam Henriette
+de Morsauf, Duqueza de Langeais; mulheres
+que s&atilde;o ao mesmo tempo imaginarias
+<span class="pagenum">[10]</span>
+e reaes; que ficaram representando na historia
+um papel preponderante e caracteristico,
+como as inspiradoras da Renascen&ccedil;a italiana,
+como as amigas gregas de Socrates e de Plat&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>II
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O comboio levava-me, rapido, ferozmente
+rapido. Levava-me para longe do meu
+ninho, dos meus filhos, de tudo que me
+faz a vida consolada e boa, de tudo que me d&aacute;
+for&ccedil;a para o trabalho, para a lucta, de tudo
+que enche de ben&ccedil;&atilde;os a minha existencia laboriosa
+e triste...
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; paizagem arida, pedregosa, da Extremadura
+hespanhola succedia um scenario mais
+animado, mais caracteristico. Ald&ecirc;as que desde
+os tempos hispano-arabes se conservam na
+mesma immobilidade barbara, sinos altos de
+egrejas gothicas, perfis apenas entrevistos de
+velhos conventos, ninhos de cegonhas nas arvores
+<span class="pagenum">[12]</span>
+que pareciam correr commigo, sombrias
+manchas de arvoredo que o vento torcia em
+attitudes de desesperada supplica...
+<br />
+
+<br />
+
+A grandeza alpestre dos Pyren&eacute;os e a Fran&ccedil;a,
+a Fran&ccedil;a emfim!... Oh! que jubilo estranho
+e mysterioso se mesclou ent&atilde;o com a saudade
+que me ia alanceando e cortando as raizes
+da alma!
+<br />
+
+<br />
+
+A Fran&ccedil;a! Como eu tinha levado annos a
+amar e a sonhar esse paiz entre todos aureolado
+aos meus olhos da luz que vem de cima!
+<br />
+
+<br />
+
+Outras que para l&aacute; partem levam projectos
+de requintada elegancia para p&ocirc;r em pratica.
+Ir&atilde;o ao Redfern, o alfaiate afamado da rua
+Rivoli, que veste t&atilde;o primorosamente as francezas
+de alto cothurno; ir&atilde;o ao Worth, popularisado
+pelos romances modernos; &aacute; Laferri&egrave;re,
+que veste as actrizes de mais fama; ao
+Felix, que principescas encommendas acabam
+de singularisar; comprar&atilde;o na Virot o ultimo
+modelo de chap&eacute;o; receber&atilde;o
+<em>chez</em> Lenth&eacute;ric
+<em>des conseils de beaut&eacute;</em>,
+que elle d&aacute; carissimos,
+<em>pela hora da morte</em>, segundo a
+expressiva
+phrase portugueza, e que de resto t&atilde;o pouco
+aproveitam a quem os recebe; interrogar&atilde;o
+anciosas a elegancia avulsa da parisiense que
+<span class="pagenum">[13]</span>
+passa, pedindo-lhe o segredo, que s&oacute; ella tem,
+de andar por sobre o solo molhado ou enlameado,
+sem macular de leve a fimbria, gentilmente
+arrega&ccedil;ada, do seu simples, gracioso
+e bem posto vestido escuro, que se amolda sobre
+um espartilho de mestra, com a nobreza
+com que sobre o corpo de uma estatueta de
+Tanagra se amolda a roupagem de linhas magistraes
+que o envolve sem encobril-o; o segredo
+de collocar sobre a sua fina cabe&ccedil;a pequenina,
+lindamente penteada, ou antes, lindamente
+despenteada, um minusculo chap&eacute;o, similhante
+a uma borboleta ou a uma fl&ocirc;r, que
+o vento parece querer levar, e que n&atilde;o leva
+nunca...
+<br />
+
+<br />
+
+O Paris que as attrahe &eacute; o Paris da moda,
+da elegancia, do <em>chic</em>, do
+<em>concours hippique</em>,
+da <em>avenue des Acacias</em>, do
+<em>vernissage</em> e dos
+pequenos theatros gaiatos. O Paris que as attrahe
+&eacute; o dos figurinos, das lojas de modas, dos
+ourives da rua de <em>la Paix</em>, dos
+frequentadores
+do <em>boulevard des Italiens</em> e da
+<em>Madeleine</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O Paris que, na velocidade vertiginosa, quasi
+tragica do <em>expresso</em>, surgia ante
+meus olhos,
+era um Paris phantastico, <em>unreal</em>,
+feito, construido,
+cimentado com o genio dos seus grandes
+<span class="pagenum">[14]</span>
+artistas, dos seus grandes poetas, dos seus
+historiadores, dos seus moralistas, dos seus sabios,
+dos seus criticos, dos seus dramaturgos,
+dos seus romancistas geniaes!
+<br />
+
+<br />
+
+A Fran&ccedil;a, a que minha alma aspirava, como
+aspira &aacute;s paizagens desoladas da Palestina a
+alma dos grandes ascetas do christianismo,
+como aspiram &aacute; mystica e penetrante atmosphera
+de Bayreuth os fanaticos da religi&atilde;o
+wagneriana, era a Fran&ccedil;a que desde Jean Goujon
+at&eacute; Rodin, e desde o Poussin at&eacute; Puvis
+de Chavannes, e desde Froissart at&eacute; Michelet,
+e desde Mme. Laffayette at&eacute; Georges Sand,
+e desde Balzac at&eacute; Zola, e desde Pascal at&eacute;
+Renan&#8213;um, o catholico que se inclina sobre
+o abysmo da duvida, outro, o sceptico que
+tem a unc&ccedil;&atilde;o evangelista de um santo... e
+desde Montaigne at&eacute; Anatole France, e desde
+Racine at&eacute; Bourget... os finos psychologos do
+eterno feminino&#8213;e desde Ronsard at&eacute; Victor
+Hugo, e desde Marot at&eacute; Verlaine, e desde a
+grande renascen&ccedil;a do seculo XVI at&eacute; ao magnifico
+movimento do romantismo, t&ecirc;em enchido
+o mundo da arte, e da poesia, e da realidade,
+e da fic&ccedil;&atilde;o, de obras primas sem conta e sem
+medida!...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[15]</span>
+De pequena tinham-me ensinado essa lingua
+t&atilde;o clara, que milhares de artistas forjaram,
+bateram, cinzelaram, incrustaram de pedrarias
+coruscantes, esmaltaram de riquissimas c&ocirc;res,
+metal precioso feito de todos os metaes, e que
+tem qualidades de flexibilidade, de elegancia,
+de sonoridade, de harmonia, de colorido, e de
+pujan&ccedil;a absolutamente incomparaveis e inimitaveis...
+De pequena tinham-me mettido nas
+m&atilde;os as obras primas dos seus genios mais brilhantes,
+e eu sentia-me no intimo da minha
+alma mais franceza &aacute;s vezes do que propriamente
+peninsular.
+<br />
+
+<br />
+
+Ah! mas que melancholico foi o despertar
+do meu ambicioso, do meu doido sonho!...
+<br />
+
+<br />
+
+Atravessei, com uma rapidez que me deixou
+confusa e palpitante, o Paris da minha evoca&ccedil;&atilde;o
+de vidente; estavam mortos os amigos
+que me tinham alimentado com a medula do
+seu cerebro, ou com o leite da sua poesia, e,
+vivos que fossem, alli perto d'elles, na atmosphera
+em que elles tinham respirado, nas ruas
+em que elles tinham morado, no scenario que
+elles enchiam do seu nome &eacute; que eu, pela
+primeira vez, ia sentil-os longe, muito longe
+de mim, na incommensuravel distancia moral,
+<span class="pagenum">[16]</span>
+que a proximidade physica revelava de
+repente ao meu chimerico espirito de sonhadora!
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+Senti ent&atilde;o o que nunca julguei que sentiria
+n'esse paiz que eu reputava positivamente
+a patria do meu espirito! Senti uma nostalgia
+t&atilde;o violenta, t&atilde;o dolorosa, que pensei morrer
+d'ella! Uma especie de desaggrega&ccedil;&atilde;o
+intellectual,
+que deve ter nome na pathologia do cerebro,
+mas que eu n&atilde;o sei scientificamente
+classificar&#8213;o que de resto n&atilde;o admira nada!
+<br />
+
+<br />
+
+Esqueci-me do que aprendera, fiquei-me em
+uma especie de assombro mudo, em que a
+saudade de Portugal punha uma nota alanceadora,
+torturante.
+<br />
+
+<br />
+
+O que os livros me tinham revelado foi como
+que varrido da minha memoria; os sonhos
+que eu tinha edificado sobre a minha vinda a
+Paris, desmoronaram-se em uma especie de
+estranho cataclysmo, e percorri a linda capital
+da Europa civilisada, n&atilde;o como uma pessoa
+que de antem&atilde;o, e por muito os ter visto descriptos,
+conhecesse os seus encantos, as suas
+bellezas soberanas, os filtros subtis que do seu
+<em>pav&eacute; de bois</em> se exhalam
+de envolta com o
+<span class="pagenum">[17]</span>
+cheiro penetrante da terra sempre humida e
+sempre regada, a festa perenne das suas ruas
+e avenidas onde a miseria n&atilde;o vem p&ocirc;r a sua
+mancha livida, onde perpassa uma multid&atilde;o
+sempre garrida e sempre feliz, a perfei&ccedil;&atilde;o nos
+seus theatros, a perversa poesia das suas can&ccedil;&otilde;es
+<em>fim de seculo</em>, a tenra verdura das
+suas
+arvores, t&atilde;o bem cuidadas que parece que de
+manh&atilde; cedo as lava todos os dias, a esponja e
+sabonete, um exercito de invisiveis jardineiros,
+a lindeza da sua luz que &aacute; tarde se faz de um
+cinzento roseo como o das paizagens de Corot,
+t&atilde;o inexprimivelmente bellas... mas como um
+ser inteiramente novo &agrave;s impress&otilde;es da vida
+extra-civilisada e que d'ella recebesse uma especie
+de choque <em>estupidificante</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+Atrav&eacute;s de tudo, o que eu sentia vivo, absorvente
+como um <em>cauchemar</em>, era a saudade
+do meu paiz, da minha Lisboa das sete collinas,
+construida em amphitheatro, sobre o Tejo
+amplo e azul, da bonhomia d'este nosso viver
+um pouco provinciano, pacato apesar do ridiculo
+de parodia involuntaria que &aacute;s vezes o
+desfigura e o desnacionalisa, da familiaridade
+com que todos nos conhecemos, nos amamos
+atrav&eacute;s do <em>debique</em>
+permanente, em que andamos
+<span class="pagenum">[18]</span>
+uns a respeito dos outros, da tranquillidade
+um tanto adormecida do nosso espirito,
+do amor da casa que distingue todo o bom
+lisboeta, da ausencia de ambi&ccedil;&atilde;o que, exceptuando
+as alturas procellosas da politica, imprime
+o seu cunho esterilisador, mas calmante,
+em todas as nossas almas serenas...
+<br />
+
+<br />
+
+A lingua ent&atilde;o, a musica da lingua patria,
+fazia-me uma falta dolorosa. Tinha s&ecirc;de de ouvir
+falar portuguez!
+<br />
+
+<br />
+
+E preferia aos divertimentos que a engenhosa
+amabilidade do meu querido hospedeiro me
+proporcionava, e &aacute;s excurs&otilde;es artisticas em
+que elle era um <em>cicerone</em>
+incomparavel, instruidissimo,
+<em>raffin&eacute;</em>, cheio de
+id&eacute;as originaes e
+suggestivas, as tranquillas e doces noites passadas
+em Neuilly, na luz discreta da lampada
+Carcel, que um quebra-luz c&ocirc;r de rosa fazia
+mais acariciadora e mais suave, e onde a familia
+adoravelmente intelligente, e inolvidavel
+para mim, de um escriptor portuguez, que &eacute;
+um artista da mais pura ra&ccedil;a intellectual e da
+mais ampla envergadura de engenho, me fazia
+uma especie de pequenina patria. Alli a conversa
+tinha o tom pregui&ccedil;oso da nossa conversa,
+os gostos combinavam-se com os meus
+<span class="pagenum">[19]</span>
+gostos, os nossos geitos especiaes de portuguezas
+manifestavam-se a cada instante, e o
+que a gra&ccedil;a feminil de umas combinada com
+o genio nervoso e original de outros podiam
+dar de delicioso ao meu espirito, harmonisavam-se
+para me fazer esquecer a patria, os filhos,
+os outros amigos ausentes!
+<br />
+
+<br />
+
+Nem sabem&#8213;n'esse ideal cantinho do mundo
+onde vivem, um pouco alheados da civilisa&ccedil;&atilde;o
+babylonica que os aperta, os cinge e os
+invade &aacute;s vezes&#8213;elle, o artista laborioso e
+apaixonado mettido no seu trabalho austero e
+impeccavel, como um monge na sua cella estreita,
+ellas, as duas encantadoras irm&atilde;s, envoltas
+na grinalda viva de lindissimas fl&ocirc;res
+humanas, que s&atilde;o para uma
+<em>tudo</em>, e quasi
+tudo para o cora&ccedil;&atilde;o instinctivamente maternal
+da outra,&#8213;nem sabem o bem que me fizeram
+n'uma d'estas crises absurdas que s&oacute; os nervosos
+conhecem e das quaes o mundo estupidamente
+ri!
+<br />
+
+<br />
+
+Foi ahi sobretudo que eu, curada d'aquella
+violenta nostalgia que amea&ccedil;ava inutilisar inteiramente
+o resultado moral da minha viagem,
+<em>reaprendi</em> a gosar Paris,
+n&atilde;o j&aacute; o meu
+Paris ideal, especie de babylonia construida
+<span class="pagenum">[20]</span>
+em nuvens, mas o Paris verdadeiro, o Paris
+real, tal como elle lentamente me foi sendo
+revelado pelo intelligente <em>cicerone</em>
+que eu tive
+a fortuna de ter no meu divagar de
+<em>touriste</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>III
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Folheio ao acaso as notas escriptas a correr,
+na rapidez da minha viagem, e
+transcrevo-as para aqui, na sua sinceridade
+frisante.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute;, de resto, o unico merito que hoje podem
+ter as notas de viagem, o temperamento pessoal
+do artista que <em>viu</em>,
+atrav&eacute;s das impress&otilde;es
+que a sua vis&atilde;o lhe deu. Mais nada. Tudo est&aacute;
+dito, e n&atilde;o ha quem acorde uma emo&ccedil;&atilde;o
+nova,
+na alma do leitor <em>blas&eacute;</em>
+pelo conhecimento da
+obra dos grandes artistas que viajaram. O proprio
+Bourget, que &eacute; um mestre, cujo unico
+defeito &eacute; ter vindo um pouco tarde, depois de
+muitos outros, est&aacute; reduzido a chamar
+<em>Sensa&ccedil;&otilde;es
+de Italia</em> ao seu livro encantador de viagem
+na terra classica da Arte. As sensa&ccedil;&otilde;es
+<span class="pagenum">[22]</span>
+que a Italia lhe deu a elle, eis unicamente o
+que o delicado escriptor se atreve a contar,
+certo de que toda a essencia de poesia que
+d'esse maravilhoso e fecundo solo se pode extrahir,
+outros a extrahiram antes d'elle por l&aacute;
+ter passado.
+<br />
+
+<br />
+
+A minha unica desculpa vem a ser esta:
+costumada a contar n'este mesmo logar as impress&otilde;es
+colhidas na leitura dos livros, porque
+me n&atilde;o atreverei a completar, a ampliar, a
+desenvolver essas impress&otilde;es
+<em>livrescas</em> com outras
+colhidas em diversos ramos de arte; mais
+directas, mais reaes?...
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+&#8213;Acabo de sahir do Louvre, onde fui visitar
+as galerias da esculptura e principalmente essa
+sala entre todas privilegiada e bemdita, onde a
+<em>Venus victoriosa</em>, a Venus de Milo,
+esplende
+na sua sagrada formosura.
+<br />
+
+<br />
+
+Chamava-me de longe, como um sortilegio
+poderoso exercido pelo Bello, essa figura que
+eu tinha mil vezes visto em reproduc&ccedil;&otilde;es, em
+estampas, em photographias, que me tinham
+dito ser a suprema divinisa&ccedil;&atilde;o do corpo feminino,
+e que eu ia pela primeira vez contemplar
+na sua genuina pureza marmorea.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[23]</span>
+A minha impress&atilde;o, comquanto profunda,
+tem o seu qu&ecirc; de incerto e duvidoso. Porque?
+Ser&aacute; porque a Venus n&atilde;o realisou o sonho que
+eu fizera da perfei&ccedil;&atilde;o ideal dos seus contornos
+e das suas linhas? N&atilde;o. Ella &eacute; realmente a
+belleza augusta, sobrehumana, ideal, como a
+proclamam unanimes os que a tem visto e julgado.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas &eacute; que eu n&atilde;o tenho em mim enraizado
+como uma religi&atilde;o da infancia, fazendo corpo
+com as minhas cren&ccedil;as, id&eacute;as e sentimentos,
+esse culto da belleza physica que foi a fei&ccedil;&atilde;o
+primacial da civilisa&ccedil;&atilde;o dos gregos.
+<br />
+
+<br />
+
+Para mim um <em>corpo divino</em>
+&eacute; uma express&atilde;o
+litteraria, n&atilde;o &eacute; um dogma de esthetica
+instinctiva.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso, atrav&eacute;s da bella estatua procuro
+adivinhar, nas suas linhas mais geraes, a extincta
+civilisa&ccedil;&atilde;o que ella representa, de que
+ella &eacute; como que o remate e a fl&ocirc;r!
+<br />
+
+<br />
+
+Como Taine diz t&atilde;o bem, &laquo;todas as grandes
+cousas um pouco remotas correspondem a sentimentos
+que j&aacute; n&atilde;o temos.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Precisamos de os reconstruir pela reflex&atilde;o;
+e como ainda os menos profundamente instruidos
+t&ecirc;em uma educa&ccedil;&atilde;o cosmopolita e
+multipla,
+<span class="pagenum">[24]</span>
+em que umas poucas de concep&ccedil;&otilde;es de arte se
+ajustam e sobrep&otilde;em, como n&oacute;s temos, adquirida
+laboriosamente, ou bebida no ar que respiramos
+e nas rapidas leituras que fazemos,
+uma no&ccedil;&atilde;o, profunda ou elementar, de cada
+uma das civilisa&ccedil;&otilde;es que antecederam a nossa,
+acabamos depois de algum tempo de medita&ccedil;&atilde;o
+por comprehender, com o espirito, n&atilde;o com a
+alma, o sentimento que inspirou a obra de arte
+que estamos contemplando um pouco inintelligentemente.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>snobismo</em> artistico consiste em
+fingir que
+se entende tudo &aacute; primeira vista, mesmo as
+cousas mais av&ecirc;ssas ao nosso temperamento
+individual ou nacional. Evitar esse
+<em>snobismo</em> a
+todo o custo, deve ser o decidido empenho de
+qualquer espirito honesto e sincero.
+<br />
+
+<br />
+
+A Venus &eacute;, mesmo para o simples profano,
+uma esplendida revela&ccedil;&atilde;o de arte? &Eacute;,
+de certo.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o p&oacute;de um corpo feminino ondular em
+linhas mais puras, n&atilde;o p&oacute;de a branca
+fl&ocirc;r do
+marmore palpitar com mais intensa vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Pela gra&ccedil;a magestosa da sua mutilada attitude
+(que fazia ella quando tinha os seus divinos
+bra&ccedil;os, perguntam debalde os criticos especiaes
+da arte grega!), pela serenidade ineffavel
+<span class="pagenum">[25]</span>
+da sua posi&ccedil;&atilde;o, pela harmonia absoluta das
+suas linhas esculpturaes, pelo rythmo inspirador
+do seu corpo marmoreo,&#8213;a Venus de
+Milo, brotada do cinzel de desconhecido artista,
+na hora mais feliz da arte da Grecia, logo depois
+de Phidias lhe haver imprimido o sello
+supremo de sua grandeza, antes do escopro de
+Praxiteles a haver impregnado de uma languida
+gra&ccedil;a voluptuosa, de um sensualismo
+requintado e enervante, que decahe mais tarde
+na imita&ccedil;&atilde;o anti-esthetica da Natureza, nos
+realismos da polychromia, na extinc&ccedil;&atilde;o final
+do gosto e do puro ideal artistico: a Venus de
+Milo merece ser considerada, como diz Paulo
+de Saint Victor, aquella Eterna Belleza que
+Plat&atilde;o adorava, a <em>Venus
+victrix</em> cujo nome
+Cesar dava por senha aos seus soldados na vespera
+de Pharsalia, e em todo o caso a mais bella
+interpreta&ccedil;&atilde;o, que os modernos possuem d'esse
+feminino eterno que a Grecia tanto amou, que
+no mundo historico ella foi a primeira a amar,
+e cujo culto poetico e sensual traduziu nos seus
+mythos divinos, nos seus ritos magnificos, na
+sua arte incomparavel...
+<br />
+
+<br />
+
+Comtudo, n&oacute;s s&oacute;mente possuimos truncados
+restos, fragmentos secundarios da esculptura
+<span class="pagenum">[26]</span>
+grega e n&atilde;o somos capazes, sen&atilde;o por
+<em>dilettantismo</em>
+e por curiosidade intellectual, de
+comprehender bem o culto apaixonado que ao
+corpo humano foi consagrado pela Grecia.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; necessario avistar ao menos de longe essa
+ra&ccedil;a simples, viril, intelligente e bella, que foi
+de todas as ra&ccedil;as a unica que poz a sua
+concep&ccedil;&atilde;o
+da felicidade humana em perfeito accordo
+com a sua concep&ccedil;&atilde;o das leis do Universo,
+que &aacute; realisa&ccedil;&atilde;o positiva de todos os
+seus
+instinctos chamou Virtude, e &aacute;
+encarna&ccedil;&atilde;o de
+todos os impulsos naturalistas deu o nome de
+deuses; que tendeu ao aperfei&ccedil;oamento, e ao
+desenvolvimento pleno da natureza humana na
+sua constitui&ccedil;&atilde;o politica, no seu organismo
+social,
+nos seus costumes, na sua arte, na sua
+religi&atilde;o; que fez deuses &aacute; similhan&ccedil;a
+dos homens
+para os poder amar, e que, chegada ao
+ponto culminante da sua perfei&ccedil;&atilde;o artistica,
+esculpiu
+homens &aacute; similhan&ccedil;a de deuses para
+lhes render culto...
+<br />
+
+<br />
+
+Que nos importa hoje, a n&atilde;o ser como exercicio
+d'arte, a belleza ideal de um corpo de homem
+ou de um corpo de mulher?
+<br />
+
+<br />
+
+Para n&oacute;s a belleza tem outras regras bem
+mais complicadas, bem mais subtis, e t&atilde;o difficil
+<span class="pagenum">[27]</span>
+nos &eacute; conceber um corpo sem defeito,
+movendo-se na plena gra&ccedil;a e na plena liberdade
+da sua harmonia muscular, como seria &aacute;
+Grecia conceber o nosso moderno ideal do bello,
+todo em express&atilde;o, com a alma atormentada
+e complexa que se revela principalmente
+atrav&eacute;s do gesto, atrav&eacute;s do olhar,
+atrav&eacute;s da
+physionomia ardente e devastada...
+<br />
+
+<br />
+
+Para a Grecia, por&eacute;m, habituada a realisar
+a perfei&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o s&oacute;mente no
+marmore, que
+isso veiu mais tarde como complemento e como
+resultado, sen&atilde;o na propria carne humana, e
+que seguia todos os processos pelos quaes uma
+ra&ccedil;a de homens se desenvolve, se robustece, se
+apura, se requinta, at&eacute; poder attingir a belleza
+suprema: que empregava n&atilde;o s&oacute; a
+elimina&ccedil;&atilde;o
+systematica de todos os productos defeituosos,
+n&atilde;o s&oacute; o cruzamento for&ccedil;ado dos fortes
+e das
+bellas, mas tambem os exercicios permanentes
+da for&ccedil;a, e da gra&ccedil;a robusta e livre, nos
+jogos do gymnasio, na orchestrica, nas dansas
+guerreiras ou sacerdotaes, na educa&ccedil;&atilde;o,
+emfim, do corpo levada &aacute;s mais minuciosas
+praticas que podem depurar-lhe as formas e
+desenvolver-lhe as latentes energias&#8213;para a
+Grecia a belleza physica &eacute; mais que uma virtude,
+<span class="pagenum">[28]</span>
+&eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o absoluta da vida
+nacional.
+<br />
+
+<br />
+
+Sem belleza, isto &eacute;, sem harmonia, n&atilde;o ha
+for&ccedil;a; sem for&ccedil;a como &eacute; que a pequena
+Grecia
+venceria a poderosa Persia? Como &eacute; que ella
+chegaria a ser o nucleo de extraordinaria
+civilisa&ccedil;&atilde;o,
+de que ainda hoje, apesar de trinta seculos
+de mutila&ccedil;&otilde;es continuas, a nossa alma se
+alimenta, nutre e revigora?
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>IV
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Mas quem nos diz a n&oacute;s que a Venus de
+Milo, objecto de uma ardente e justa
+admira&ccedil;&atilde;o entre os modernos, n&atilde;o fosse
+no fim de contas uma estatua vulgar no seu
+tempo?
+<br />
+
+<br />
+
+Os grandes esculptores gregos, aquelles cuja
+chronologia e cuja historia chegaram at&eacute; n&oacute;s,
+descobertas pela paciente erudi&ccedil;&atilde;o, em alguns
+fragmentos de Plinio, de Pausanias, de Cicero,
+de Quintiliano, n&atilde;o faziam as suas obras
+mais preciosas sen&atilde;o em ouro, em prata, em
+marfim, em materias firmes bem mais raras
+que o paros e o pentelico, de que hoje se guardam
+nos museus os torsos mutilados, os fragmentos
+soltos, as reconstituidas estatuas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[30]</span>
+Ao p&eacute; do que se sumiu d'essa sublime estatuaria
+grega, fl&ocirc;r suprema d'aquella
+civilisa&ccedil;&atilde;o
+de athletas, de gymnastas, de oradores e de
+her&oacute;es, quantas attitudes para a
+&laquo;esculptura&raquo;!
+O que resta vale bem pouco, e representa apenas
+como documento de uma &eacute;ra extincta.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas pelo que resta, n&oacute;s sabemos que o corpo
+bello, viril, robusto e s&atilde;o, movendo-se livremente
+sob a claridade azul de um c&eacute;o sem
+manchas, era o ideal artistico d'esse povo que,
+mais feliz que nenhum outro, traduziu integro
+e immaculado o seu sonho da vida, e&#8213;para
+quem &eacute; a vida, mais que um sonho?&#8213;na religi&atilde;o,
+na arte, na poesia, nas paginas luminosas
+de Homero, Eschylo e Plat&atilde;o, na f&oacute;rma
+sublime da sua Acropole, ante a qual Renan
+soltou aquelle melancolico e sublime grito de
+amor, nas frisas e estatuas dos seus templos,
+nas ceremonias divinas e inspirativas do seu
+culto, que ora s&atilde;o castas como a longa prociss&atilde;o
+das Panatheneas, ora s&atilde;o soberbas de
+for&ccedil;a e de pujan&ccedil;a animal como as dansas e os
+jogos de ephebos n&uacute;s...
+<br />
+
+<br />
+
+A Grecia amou a sobriedade, a correc&ccedil;&atilde;o, a
+gra&ccedil;a e a for&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+E depois de percorrer um periodo longo e o
+<span class="pagenum"><a name="p31" id="p31">[31]</a></span>
+progressivo da inicia&ccedil;&atilde;o, chegou ao ponto de
+combinar e fundir os extremos mais oppostos
+n'aquella completa harmonia, que s&oacute; uma vez
+se realisou na terra e que n&atilde;o torna mais!
+<br />
+
+<br />
+
+Que importa, por&eacute;m, que n&atilde;o torne?
+<br />
+
+<br />
+
+Bastou que apparecesse uma vez, que brilhasse
+sobre n&oacute;s, astro longinquo e puro hoje
+apagado e de que ainda v&ecirc;mos o reflexo calmo,
+para que o mundo ficasse eternamente ungido
+d'aquella gra&ccedil;a mysteriosa, d'aquelle divino
+<em>atticismo</em> que em alguns raros
+eleitos resplandece
+e de que todos temos o presentimento, a
+s&ecirc;de, ou a avidez!
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso Renan, a alma mais accessivel &aacute;
+influencia do bello de que talvez possa ufanar-se
+o nosso tempo, dizia no alto da
+<em>Acropole</em>
+estas palavras que traduzem um sentir universal
+que at&eacute; alli n&atilde;o ach&aacute;ra
+express&atilde;o condigna:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;&Oacute; Natureza impeccavel! Oh! simples e
+verdadeira Belleza! Deusa cujo culto significa
+sabedoria e raz&atilde;o! oh! tu cujo templo &eacute; uma
+li&ccedil;&atilde;o eterna de sinceridade e consciencia! chego
+bem tarde aos umbraes dos teus mysterios;
+venho ao teu altar cheio de remorsos! <a href="#e1">Para
+te encontrar</a>, que infinito esfor&ccedil;o eu fiz!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[32]</span>
+&laquo;A inicia&ccedil;&atilde;o que, n'um sorriso, davas
+ao atheniense
+na primeira infancia, s&oacute; &aacute; for&ccedil;a de
+reflex&otilde;es
+e de esfor&ccedil;os eu p&ocirc;de conquistal-a!
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Tu s&oacute; &eacute;s mo&ccedil;a! tu
+s&oacute; &eacute;s pura! tu s&oacute; &eacute;s
+s&atilde;!
+tu s&oacute; &eacute;s invencivel!&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Um outro critico profundo, que estudou a
+Grecia com o amor com que se estuda a
+civilisa&ccedil;&atilde;o-m&atilde;e,
+de que todas mais ou menos
+dependeram depois, diz que no caracter nacional
+d'essa ra&ccedil;a se discriminam claramente os
+tres tra&ccedil;os fundamentaes que constituem a intelligencia
+de um artista.
+<br />
+
+<br />
+
+Estes tres tra&ccedil;os s&atilde;o a
+<em>delicadeza da
+percep&ccedil;&atilde;o</em>,
+a <em>necessidade absoluta da clareza</em> e
+o
+<em>amor e culto da vida presente</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O primeiro d'esses tra&ccedil;os permittiu-lhes perceber
+as rela&ccedil;&otilde;es secretas das cousas, deu-lhes
+o sentimento fino e raro das
+<em>nuances</em>, e a suprema
+aptid&atilde;o para construirem conjunctos de
+f&oacute;rmas, de seres e de c&ocirc;res,
+combina&ccedil;&otilde;es de
+circumstancias e de elementos t&atilde;o bem ligados
+entre si e por t&atilde;o estreita identidade de
+rela&ccedil;&otilde;es,
+que a sua crea&ccedil;&atilde;o de arte foi t&atilde;o
+<em>viva</em>
+que excedeu no mundo imaginario a harmonia
+preestabelecida no mundo real e verdadeiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao segundo deveram o sentimento da propor&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[33]</span>
+que possuiram como nenhum outro
+povo, o odio ao vago e ao abstracto, o desdem
+pelo monstruoso e pelo enorme,&#8213;que &eacute; a marca
+distinctiva do Oriente, do qual elles s&oacute; aproveitaram
+o bom,&#8213;o gosto dos contornos firmes
+e precisos. <em>O amor</em> e o
+<em>culto da vida presente</em>
+bem o revelaram na sua religi&atilde;o sem mysterio
+e sem <em>au del&aacute;</em>, na sua
+paix&atilde;o pela belleza
+plastica, na sua s&ecirc;de de serenidade e de alegria,
+no seu antagonismo ingenito com a doen&ccedil;a,
+com as miserias physicas ou moraes, no
+seu encantamento absoluto, e que &eacute; para n&oacute;s
+immoral mas que para elles o n&atilde;o era, deante
+do corpo n&uacute;, representa&ccedil;&atilde;o suprema da
+for&ccedil;a,
+da gra&ccedil;a, da saude e da belleza...
+<br />
+
+<br />
+
+Uma ra&ccedil;a t&atilde;o maravilhosamente dotada,
+idealista e positiva a um tempo, tinha por
+for&ccedil;a de traduzir-se no esplendor das artes
+plasticas.
+<br />
+
+<br />
+
+O espectaculo permanente dos bellos corpos
+n&uacute;s, ou envoltos lassamente na elegante e longa
+tunica que na altura do joelho se duplica e
+cahe sobre os p&eacute;s em pregas esculpturaes de
+inimitavel gra&ccedil;a, a contempla&ccedil;&atilde;o
+habitual d'essa
+ra&ccedil;a que se distingue pela nobreza simples
+das attitudes, pela perfei&ccedil;&atilde;o athletica da
+f&oacute;rma,
+<span class="pagenum">[34]</span>
+pela serenidade do aspecto que as nossas mesquinhas
+ambi&ccedil;&otilde;es ou o nosso devastador pensamento
+n&atilde;o tinham convulsionado,&#8213;tudo devia
+naturalmente produzir, pelo pendor imitativo
+que caracterisa o espirito do homem, a
+maravilhosa flora&ccedil;&atilde;o de artistas sublimes que
+ao principio tentaram e depois conseguiram
+libertar a no&ccedil;&atilde;o do bello da estreita
+pris&atilde;o que
+o cingia e apertava, fixar no marmore, no
+ouro, no marfim e no bronze a soberba vis&atilde;o
+da for&ccedil;a militante ou gra&ccedil;a ingenua e pura!
+<br />
+
+<br />
+
+Como &eacute; interessante seguir a evolu&ccedil;&atilde;o
+da
+arte grega desde o ponto em que ella parece
+ainda pedir &aacute; inspira&ccedil;&atilde;o hieratica do
+Egypto
+o molde incorrecto que a liga e mumifica, at&eacute;
+a hora em que Praxiteles arranca do marmore
+a sua Venus de Gnido, de que a Anthologia
+canta assim a voluptuosa formosura:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Cythera trazida pelas ondas foi a Gnido
+admirar a propria imagem, e ap&oacute;s longa
+contempla&ccedil;&atilde;o
+falou d'est'arte: Onde &eacute; que Praxiteles
+me viu sem v&eacute;os?... N&atilde;o, Praxiteles
+n&atilde;o ousou
+violar-te com olhar sacrilego. O que elle fez
+foi representar-te com o cinzel qual te havia
+sonhado!&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Ao principio, a architectura e a estatuaria,
+<span class="pagenum">[35]</span>
+estreitamente unidas, pareciam identificadas e
+inseparaveis; mas quando a estatuaria se emancipou,
+n&atilde;o foram s&oacute;mente as frisas e os baixos
+relevos dos templos, as colossaes effigies da
+&laquo;cella&raquo; interior, que captivaram e deslumbraram
+o olhar do povo grego, foram as soberbas
+figuras erguidas ao ar livre, a Athen&ecirc;a colossal
+de Phidias, a Sosandra de Kalamis, as
+mulheres de Carya, a Art&eacute;mis divina em volta
+de cuja estatua as virgens da Lacedemonia
+v&ecirc;m tecer annualmente as suas dansas rituaes!
+<br />
+
+<br />
+
+Desappareceu o ingenuo symbolismo primitivo,
+que representava cada divindade com os
+attributos do seu poder, ou com os accessorios
+significativos das transforma&ccedil;&otilde;es naturaes de
+que ellas todas eram a concreta imagem; agora
+o que se revela ao fanatismo de belleza que
+palpita na alma grega, s&atilde;o divinos corpos de
+mulheres em toda a magnifica pujan&ccedil;a da sua
+belleza creadora, em toda a gra&ccedil;a adoravel da
+sua feminina poesia.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>V
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A estatua deante da qual eu acabo de
+passar algum tempo, pedindo-lhe o segredo
+do perdido Ideal que ella traduz,
+representa, como eu j&aacute; disse, esse momento
+fugitivo e bello da vida grega.
+<br />
+
+<br />
+
+Esculpiu-a um desconhecido artista: mas
+n&atilde;o s&atilde;o totalmente desconhecidos tambem para
+n&oacute;s, os pobres oleiros que amassaram e modelaram
+as lindas estatuas encontradas nos
+tumulos de Tanagra e n&atilde;o s&atilde;o tambem ellas
+a poesia, o encanto, o velado mysterio, a ineffavel
+gra&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+Falando d'ella, diz Paulo de Saint Victor:
+&laquo;Oh! bemdito seja o camponez grego, cuja
+enxada exhumou a deusa enterrada ha dois
+mil annos em uma leiva de trigo!... Gra&ccedil;as
+<span class="pagenum">[37]</span>
+a elle, a id&eacute;a do Bello ascendeu mais um gr&aacute;u
+sublime, o mundo plastico encontrou a sua
+Rainha!... A belleza ondula d'essa cabe&ccedil;a
+divina e espraia-se em todo o corpo como
+uma luz!... S&oacute; a lingua de Homero e de Sophocles
+seria digna de celebrar t&atilde;o regia Venus!
+S&oacute;mente a amplid&atilde;o do rythmo hellenico
+poderia moldar, sem deslustral-as, f&oacute;rmas t&atilde;o
+perfeitas!
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Por que palavras exprimir a magestade
+d'esse marmore triplamente sagrado, a attrac&ccedil;&atilde;o
+mesclada de assombro que elle inspira, o
+ideal supremo e ingenuo que revela?&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+E Theophile Gauthier, descrevendo-a, diz
+assim:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A fronte soberba, de linhas curvas, cingida
+pelas <em>bandelettes</em> do penteado,
+&eacute; tal qual
+a podiamos sonhar para s&eacute;de de uma alma
+divina; o collo direito e firme lembra o fuste
+de uma columna dorica, o seio de virgindade
+eterna &eacute; digno de servir de modelo, como o
+de Helena, para a ta&ccedil;a dos altares!&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+E, no emtanto, essa bella e pequenina cabe&ccedil;a,
+que uma gra&ccedil;a ideal nimba eternamente,
+n&atilde;o &eacute; tal como elle diz, s&eacute;de
+<em>de uma alma
+divina</em>. A Venus de Milo n&atilde;o pensa.
+N'aquella
+<span class="pagenum">[38]</span>
+branca fl&ocirc;r marmorea uma alma vegetativa
+sonha e dorme! Que sabe ella da Vida e das
+suas longas tragedias, que sulcam de rugas
+profundas a fronte pallida das mulheres, que
+contorcem em ancias, indomitas como o Oceano,
+a alma dos homens?
+<br />
+
+<br />
+
+Quem lhe revelou, a ella, o segredo das
+nossas paix&otilde;es que devastam, das nossas luctas
+que ou disvirilisam ou depravam, das
+contradic&ccedil;&otilde;es medonhas de que
+erri&ccedil;amos o
+nosso cruel destino, dos abysmos que abrimos
+debaixo dos nossos can&ccedil;ados p&eacute;s? Que
+presentimento
+sequer tem ella&#8213;a deusa inalteravel
+e serena&#8213;de tudo que a engenhosa imagina&ccedil;&atilde;o
+dos que vieram depois&#8213;deuses e homens&#8213;inventou
+para se torturarem e nos
+torturarem?
+<br />
+
+<br />
+
+Os dois mil annos que temos a pesar-nos
+sobre a cabe&ccedil;a e sobre o peito, passou-os ella
+ignorante e tranquilla sob a terra da Grecia.
+<br />
+
+<br />
+
+O que ella representa &eacute; um momento risonho
+e curto da existencia humana; um momento
+em que tudo &eacute; bello e harmonioso na
+terra e no c&eacute;o, em que, para imitar os deuses
+que crearam, os homens n&atilde;o precisam de
+deixar mutilar as suas energias mais vivas, os
+<span class="pagenum">[39]</span>
+seus instinctos mais naturaes; um momento
+em que o amor &eacute; sagrado e puro como a
+fonte inexgotavel dos s&ecirc;res, e como tal tem
+culto e tem altares; um momento em que a
+Natureza &eacute; benevola e s&atilde;, e em que da espuma
+dos mares da Jonia p&oacute;de brotar a fl&ocirc;r maravilhosa
+da eterna belleza, em que a inconstancia
+das ondas, a perfida do&ccedil;ura das sereias,
+o abysmo glauco, que tem no fundo grutas de
+esmeralda collaboram em uma obra divina e
+produzem um symbolo immortal...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Que differen&ccedil;a d'essa concep&ccedil;&atilde;o
+propria &aacute;
+esculptura antiga e a nossa de hoje, t&atilde;o fundamentalmente
+opposta nos fins e nos processos!
+<br />
+
+<br />
+
+E no emtanto a estatuaria franceza representa
+no seculo XIX um momento glorioso da
+historia da arte! Mas desenganem-se. P&oacute;de a
+estatuaria franceza moderna revelar um grande
+talento da parte de quatro ou cinco ou
+mesmo mais individuos; n&atilde;o &eacute;, n&atilde;o pode
+j&aacute;
+<span class="pagenum">[40]</span>
+ser uma necessidade, uma aspira&ccedil;&atilde;o da
+ra&ccedil;a,
+universal e irreductivel!
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um esfor&ccedil;o de talento individual,
+n&atilde;o &eacute;
+o rebento vigoroso e vivaz em que desabrocha
+finalmente a alma de um povo!
+<br />
+
+<br />
+
+Depois da minha visita incompleta, mas cheia
+de interesse, &aacute;s galerias da antiguidade classica,
+fui ao Luxemburgo v&ecirc;r as estatuas francezas
+modernas, e procurei, nos monumentos erguidos
+aqui ou alli, &aacute; memoria de um artista
+querido ou de uma gloria nacional, o sello, a
+marca, pelos quaes uma arte revela as intimas
+fibras de que &eacute; feita.
+<br />
+
+<br />
+
+Vi corpos de mulher verdadeiramente encantadores!
+O marmore, branco de mais, tinha
+a fluidez da carne tenra sob a qual o sangue,
+p&uacute;rpura viva, circ&uacute;la rico e livre, mas
+pareceu-me
+que a preoccupa&ccedil;&atilde;o da
+<em>express&atilde;o</em> dominava
+absolutamente os artistas e que elles tinham
+quasi todos perdido o segredo em virtude
+do qual um corpo humano, masculino ou
+feminino, interessa por si s&oacute;, pela harmonia
+das suas propor&ccedil;&otilde;es, pela liberdade com que
+jogam os seus musculos, pelo rythmo mysterioso
+de cada uma das suas linhas.
+<br />
+
+<br />
+
+E voltei d'essa peregrina&ccedil;&atilde;o artistica sempre
+<span class="pagenum">[41]</span>
+mais convencida, de que a esculptura &eacute;
+talvez a mais bella das artes, mas a que est&aacute;
+em menos harmonia intima com o nosso ideal
+da vida!
+<br />
+
+<br />
+
+Que temos n&oacute;s feito em um longo esfor&ccedil;o
+de dezenove seculos, apenas interrompido pelo
+movimento artificial, erudito e artistico, mas
+n&atilde;o popular da Renascen&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+Temos contrariado pertinazmente a ac&ccedil;&atilde;o
+da Natureza sobre os nossos gostos, instinctos
+e paix&otilde;es. O que &eacute; o christianismo na sua
+essencia
+philosophica e na sua influencia social?
+Uma reac&ccedil;&atilde;o violenta e permanente contra
+essa no&ccedil;&atilde;o pag&atilde; da existencia que
+fazia d'ella
+uma festa perenne e magnifica; que fazia do
+corpo humano alguma cousa de sagrado e de
+inviolavel, que tudo devia tender a satisfazer e a
+servir; que fazia dos instinctos naturalistas da
+nossa especie a lei suprema a que c&eacute;o e terra
+se subordinassem, pois que os deuses para serem
+amados deviam ter e tinham as paix&otilde;es
+que hoje fazem os homens criminosos.
+<br />
+
+<br />
+
+O animal humano era realmente ent&atilde;o o rei
+da crea&ccedil;&atilde;o, mas nenhuma das suas
+for&ccedil;as enfraquecera
+ou diminuira, nenhuma das suas
+energias f&ocirc;ra mutilada, nenhum dos seus instinctos
+<span class="pagenum">[42]</span>
+domados, e elle movia-se livre, feliz,
+triumphante e bello, em uma atmosphera de
+apotheose, que nenhuma sombra vinha sinistramente
+obumbrar.
+<br />
+
+<br />
+
+A antiguidade grega n&atilde;o &eacute; uma orgia, porque
+a orgia precisa de ter por fundo a consciencia
+do peccado, e a Grecia em tudo que fez de
+peccaminoso e de immoral aos nossos olhos,
+n&atilde;o violou nenhuma lei divina, n&atilde;o foi de
+encontro
+a nenhum preceito dogmatico; pelo
+contrario, obedecendo ao seu instincto, obedeceu
+&aacute; sua religi&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+D'esta harmonia entre a lei moral, que ent&atilde;o
+n&atilde;o existia sen&atilde;o rudimentar, e a realidade
+physica, vem a sua immensa felicidade e o encanto
+incomparavel da sua civilisa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Para o christianismo, pelo contrario, o corpo
+&eacute; o involucro, amaldi&ccedil;oado as mais das
+vezes, de paix&otilde;es condemnaveis, de instinctos
+que &eacute; necessario a todo o custo dominar, subjugar,
+vencer.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; impunemente que a especie humana
+tem vivido acurvada durante longos seculos a
+este jugo incomportavel.
+<br />
+
+<br />
+
+Resente-se d'elles at&eacute; a revolta dos atheus.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso a nossa concep&ccedil;&atilde;o da belleza physica,
+<span class="pagenum">[43]</span>
+partindo de outras fontes mais profundas
+e mais turvas, n&atilde;o podia ter nunca a incomparavel
+claridade que tem o ideal grego. Os
+esculptores, que conservam na sua alma o cunho
+indelevel que alli tem imprimido a civilisa&ccedil;&atilde;o
+christ&atilde;, &aacute; belleza do corpo humano
+prendem fatalmente considera&ccedil;&otilde;es de ordem
+complexa que n&atilde;o influenciaram a estatuaria
+antiga.
+<br />
+
+<br />
+
+As mulheres teem a attitude languida de peccadoras
+nuas, a carne, que o marmore quer
+fingir, e que tem d'ella &aacute;s vezes a flexibilidade,
+a macieza, a vibratil poesia, tem tambem
+palpita&ccedil;&otilde;es
+e solicita&ccedil;&otilde;es voluptuosas que a grave
+e simples belleza nunca deve suggerir aos que
+a contemplam e que n&atilde;o suggeria aos contemporaneos
+de Phidias!
+<br />
+
+<br />
+
+Isto n&atilde;o quer dizer que desde a antiguidade
+a esculptura seja uma arte morta. E seria
+realmente sacrilego que tal avan&ccedil;asse, quem
+viu curvada, em religioso assombro, a reproduc&ccedil;&atilde;o
+fiel d'essa <em>Noite</em> de Miguel Angelo,
+de
+uma tristeza t&atilde;o tragica e sublime, e o grandioso
+<em>Moys&eacute;s</em> de biblica
+magestade incomparavel,
+e o <em>Penseroso</em>, e o
+<em>San Jorge</em> do Donatello,
+cuja nobre attitude altiva faz passar um
+<span class="pagenum">[44]</span>
+calafrio de admira&ccedil;&atilde;o pelos nervos ainda mais
+resistentes.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas quer dizer que a estatuaria &eacute; hoje uma
+arte destinada a satisfazer, n&atilde;o a alma collectiva
+das multid&otilde;es, mas o espirito culto dos
+<em>dilettanti</em> e dos artistas; uma arte
+em que o
+genio individual p&oacute;de manifestar-se sublimemente
+e l&aacute; est&aacute; a <em>Porta de
+Bronze</em> que Rodin
+anda esculpindo que o diga, e l&aacute; est&atilde;o os tumulos
+de Barrias, e l&aacute; est&aacute; o baixo relevo de
+Rude, e l&aacute; est&atilde;o as innumeras estatuas, os
+innumeros
+monumentos que enchem as pra&ccedil;as e os
+museus affirmando que a Fran&ccedil;a d'este seculo
+possue uma intensa vitalidade artistica que a
+honra a deve encher de justo orgulho. O proprio
+Falgui&egrave;re, um pouco amaneirado como &eacute;, e
+dando ao marmore palpita&ccedil;&otilde;es sensuaes e lubrica
+languidez, l&aacute; tem no monumento erguido na
+<em>Escola das Bellas-Artes</em> a Henri
+Regnault
+uma figura de mulher deliciosa e viva, que faz
+estremecer de goso o verdadeiro artista, isto
+para n&atilde;o fallarmos na sua formosa Diana por
+quem consta que morreu de amor um pobre
+hysterico, dos muitos que andam enchendo este
+triste mundo com o espectaculo das suas pervers&otilde;es
+morbidas!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[45]</span>
+A arte moderna, a que inspira a todas as almas
+de hoje o mesmo spasmo de agonisante
+prazer, &eacute; a musica. Essa sim, que &eacute; para
+n&oacute;s
+o que a estatuaria pura, augusta e simples foi
+para os athenienses, o que a architectura gothica
+foi para as torturadas almas idealistas
+da idade media, o que a pintura foi para os renascidos
+pag&atilde;os da Renascen&ccedil;a italiana, &eacute;brios
+de c&ocirc;r, de luz, de vida. Essa sim, que &eacute; de
+n&oacute;s
+todos, e que nos faz vibrar, chorar, soffrer,
+e nos consola e nos tortura, e nos arranca a
+n&oacute;s mesmos e nos leva ao Inferno e ao C&eacute;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>VI
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Visto que no outro capitulo fallei, n&atilde;o na
+inferioridade o que seria um mal escolhido
+termo, mas na differen&ccedil;a que distingue
+a estatuaria moderna da estatuaria antiga,
+vou dizer alguma cousa a respeito de um dos
+artistas mais palpitantemente
+<em>modernos</em>, mais
+caracteristicamente diversos dos antigos que
+hoje possue a Fran&ccedil;a e a quem de passagem
+me referi nos meus anteriores artigos.
+<br />
+
+<br />
+
+Este artista &eacute; Rodin. Os seus principios foram
+rudes e difficilimos, como o de quasi todos
+os verdadeiros artistas, quer dizer d'aquelles
+que trazem comsigo um temperamento t&atilde;o
+accentuadamente independente e t&atilde;o intransigentemente
+pessoal, que desnorteia todas as
+rotinas e revoluciona todas as estheticas estabelecidas
+e todas as escolas triumphantes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p47" id="p47">[47]</a></span>
+Hoje Rodin &eacute;, elle proprio, um triumphador.
+<br />
+
+<br />
+
+Acceitam-lhe as suas audacias, proclamam-lhe
+a altiva independencia artistica, chamam-lhe
+um dos primeiros, sen&atilde;o o primeiro esculptor
+do seculo.
+<br />
+
+<br />
+
+Nem sempre comtudo succedeu assim.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando elle primeiro apresentou no
+<em>Salon</em>
+a sua figura denominada &laquo;L'&aacute;ge
+d'airain&raquo;, que
+hoje, comprada pelo Estado, se admira no Jardim
+do Luxemburgo, a primeira impress&atilde;o do
+Jury, diante da escrupulosa exactid&atilde;o de algumas
+partes d'esse corpo energico, foi que o estatuario
+o tinha modelado sobre um corpo vivo
+e real.
+<br />
+
+<br />
+
+Como se um tal excesso realista e anti-esthetico
+n&atilde;o fosse a condemna&ccedil;&atilde;o de um artista
+e pudesse produzir outra cousa a n&atilde;o ser uma
+obra morta logo &aacute; nascen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi em 1877 que a figura da &laquo;Idade de bronze&raquo;
+foi mandada ao <em>Salon</em>. Em 1881 Rodin
+expunha
+o &laquo;S. Jo&atilde;o de bronze&raquo;, &laquo;um
+anachoreta
+magro e robusto, <a href="#e2">de musculatura</a>
+devastada e
+solida, erguida sobre p&eacute;s que a marcha endureceu,
+torso nodoso, habituado a todas as intemperies,
+com um gesto de pr&eacute;gador obstinado,
+<span class="pagenum"><a name="p48" id="p48">[48]</a></span>
+que levanta a face illuminada e aberta
+dos mysticos e dos colericos.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; 1885 Rodin, que ao p&eacute; do &laquo;S.
+Jo&atilde;o&raquo; expuzera
+tambem a &laquo;Crea&ccedil;&atilde;o do homem&raquo;,
+apresenta
+na grande nave do Palacio da Industria
+os bustos expressivos e magistraes de Jean
+Paul Laurens, de Carrier-Belleuse, de Victor
+Hugo, de Dalou, de Antonin Proust.
+<br />
+
+<br />
+
+No emtanto o acontecimento magno que at&eacute;
+o presente domina a carreira artistica de Rodin
+&eacute; a concep&ccedil;&atilde;o e a
+execu&ccedil;&atilde;o da &laquo;Porta&raquo;,
+destinada ao &laquo;Museu das artes decorativas&raquo;,
+&aacute;
+qual me referi j&aacute; n'estas mesmas notas.
+<br />
+
+<br />
+
+Fiz, acompanhada do meu amavel
+<em>cicerone</em>
+o trajecto longo que leva ao &laquo;atelier&raquo; de Rodin.
+<br />
+
+<br />
+
+Caminh&aacute;mos pela rua da
+<em>Universidade</em>, atravez
+dos longos <em>boulevards</em> e das largas
+avenidas
+que se entrecruzam ou correm parallelamente
+nas proximidades dos Invalidos.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma rua aristocratica e socegada; tem
+grandes palacetes e tem velhas arvores.
+<br />
+
+<br />
+
+Outras vezes <a href="#e3">surprehendem-nos</a>
+entre esses vestigios
+de antigas grandezas, pequenas casas
+graciosas com jardinsinhos &aacute; ingleza cuidados
+e cheios de flores.
+<br />
+
+<br />
+
+No fim, perto da odiosa torre Eiffel, escandalo
+<span class="pagenum">[49]</span>
+de mau gosto, americanismo revoltante
+erguido em plena Athenas moderna,&#8213;a physionomia
+d'esta rua placida e tranquilla modifica-se
+bastante.
+<br />
+
+<br />
+
+Grandes muralhas nuas, grandes tectos envidra&ccedil;ados,
+mais altos do que as muralhas,
+annunciam ao observador que entra n'um
+bairro de esculptores e pintores.
+<br />
+
+<br />
+
+Entr&aacute;mos no n.&ordm; 182.
+<br />
+
+<br />
+
+Transposta a grande porta, que lembra o
+port&atilde;o de uma das nossas quintas, ach&aacute;mo-nos
+dentro de um cerrado bastante vasto, em que
+o ch&atilde;o &eacute; musgoso e esverdinhado, em que ha
+recantos de herva alta e vi&ccedil;osa, e por sobre os
+muros do qual, verdes ramarias de arvores espreitam
+curiosamente...
+<br />
+
+<br />
+
+A dois passos do vertiginoso movimento de
+Paris respira-se aqui uma paz profunda, uma
+quasi solid&atilde;o melancolica e doce.
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui e alli, enormissimos blocos de marmore
+de f&oacute;rmas diversissimas, de c&ocirc;r frigida e branca,
+de arestas que brilham como a&ccedil;o ou como
+vidro ao sol de abril, de veias azuladas em
+que parece gyrar um mysterioso sangue...
+<br />
+
+<br />
+
+Dormem na severa pris&atilde;o cyclopica d'esses
+blocos brutaes corpos airosos, leves, esbeltos
+<span class="pagenum">[50]</span>
+de nymphas florentinas, bustos delicados de
+Eva adolescente, divinas nudezas de que esses
+marmores s&atilde;o a primeira f&oacute;rma rude,
+f&oacute;rmas
+delicadas em que o genio do artista accender&aacute;
+uma chispa mysteriosa de vida immortal.
+<br />
+
+<br />
+
+Que deliciosas figuras de mulher um cinzel
+magistral arrancar&aacute; d'essa massa dura e informe!
+<br />
+
+<br />
+
+Como elle saber&aacute; flexibilisal-a em membros
+de uma gra&ccedil;a serpentina, arredondal-a em
+bra&ccedil;os que se abrem em uma curva deliciosa
+e suggestiva, derramar, sobre niveas espaduas
+nuas, a vaga fluida e revolta de uma cabelladura
+crespa e magnifica, entreabrir em um
+sorriso enygmatico finos labios femenis, allumiar
+de ignota chamma o globo cavado de uns
+olhos, desabrochar em molles curvas a fl&ocirc;r de
+um seio virginal...
+<br />
+
+<br />
+
+Todas estas vis&otilde;es de um mundo increado
+nos s&atilde;o suggeridas pela vista d'esse campo
+cheio de pedras enormes, que &aacute; tarde, na luz
+rosea e violeta do crepusculo, parece&#8213;disse-nos
+alguem&#8213;uma charneca semeada de gigantescos
+tumulos...
+<br />
+
+<br />
+
+Sobre esse armazem de pedra ao ar livre
+abrem as portas baixas dos &laquo;ateliers&raquo; de
+esculptores
+<span class="pagenum">[51]</span>
+que alli vieram buscar a commodidade
+e a solid&atilde;o. Um d'elles &eacute; o atelier de Rodin,
+que eu ia visitar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Infelizmente, foi trahida a minha anciosa espectativa.
+O mestre n&atilde;o estava, e o discipulo,
+que trabalha com elle,&#8213;um rapaz do Norte, de
+immensa distinc&ccedil;&atilde;o de aspecto,&#8213;nem sequer
+p&ocirc;de mostrar-nos a esplendida
+<em>Porta</em>, que estava
+no compartimento fechado contiguo &aacute;quelle
+em que n&oacute;s entr&aacute;mos, para admirar alguns grupos
+de marmore, em que a poderosa <em>griffe</em>
+do
+grande esculptor se imprimira profundamente.
+<br />
+
+<br />
+
+O talento de Rodin &eacute; t&atilde;o pessoal, &eacute;
+t&atilde;o inconfundivel
+a sua maneira, que, depois de se
+ter visto um corpo humano modelado por elle,
+n&atilde;o tornamos a confundir este poderoso manejador
+do cinzel com nenhum dos seus contemporaneos
+celebres.
+<br />
+
+<br />
+
+Discipulo de Barye e de Carrier-Belleuse, a
+originalidade de Rodin destaca, comtudo, em
+uma energia indominavel.
+<br />
+
+<br />
+
+E original &eacute; ainda o assumpto que elle escolheu
+<span class="pagenum">[52]</span>
+para essa <em>Porta</em> monumental, apesar
+de
+arrancado &aacute; Divina Comedia Dantesca. &Eacute; uma
+transforma&ccedil;&atilde;o da id&eacute;a do poeta,
+n&atilde;o &eacute; uma copia
+do seu pensamento, nem um reflexo exacto
+da terrivel vis&atilde;o florentina.
+<br />
+
+<br />
+
+Transcrevo de um critico eminente que fez
+a analyse da obra do esculptor a descrip&ccedil;&atilde;o
+d'essa
+obra soberba, que eu tanto quizera ter
+visto.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas, antes d'isso, o retrato do esculptor tal
+como elle apparece, envolto no prestigio de
+uma sympathia merecida, aos seus admiradores
+que se contam por milhares.
+<br />
+
+<br />
+
+Rodin &eacute; baixo, atarracado e placido de aspecto.
+<br />
+
+<br />
+
+A barba loura cahe-lhe em ondas fartas por
+sobre o peito, enquadrando um rosto friamente
+espiritual, um d'estes rostos de homem que
+valem principalmente pela luz interior que os
+illumina, e que ora traduz a serenidade silenciosa
+do trabalhador satisfeito com a sua obra,
+ora a distrac&ccedil;&atilde;o absorvente do artista em lucta
+com as difficuldades ingentes da execu&ccedil;&atilde;o
+manual, ora a preoccupa&ccedil;&atilde;o dolorosa do
+investigador
+insaciavel em busca do novo e do
+perfeito. A fronte de mystico, um pouco ogival
+<span class="pagenum">[53]</span>
+na f&oacute;rma, &eacute; vasta bastante para conter um
+cerebro potente de pensador e de poeta.
+<br />
+
+<br />
+
+O olhar e a voz est&atilde;o em harmonia absoluta;
+olhar agudo, brilhante, que concentra em
+si a luz; voz doce, intima, penetrante, que se
+insinua, e onde um toque de causticidade p&otilde;e
+n&atilde;o sei que estranho realce...
+<br />
+
+<br />
+
+Tal o artista de tenaz vontade, a quem a
+estatuaria moderna, complicada e symbolica,
+revela os seus segredos mais subtis.
+<br />
+
+<br />
+
+Como typo representativo da arte moderna,
+n&atilde;o o ha mais culto, mais philosophico, mais
+apto para entender tudo e tudo realisar.
+<br />
+
+<br />
+
+E porque elle &eacute; assim, absolutamente incompativel
+com o simples ideal grego, &eacute; que
+procurou no grande poeta da Idade M&eacute;dia o
+assumpto da sua obra definitiva e magistral,
+obra de metaphysico e de observador, ao
+mesmo tempo que &eacute; obra de artista;
+representa&ccedil;&atilde;o
+tragica, complexa e soberbamente executada,
+da Natureza e da Vida, em alguns dos
+seus aspectos mais inquietadores.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>VII
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tem seis metros de altura a famosa
+<em>Porta</em>.
+As estatuetas do alto, alguns grupos dos
+paineis, e os baixos relevos inferiores est&atilde;o
+completos ou quasi completos, mas ha pela
+vasta officina, espalhadas no ch&atilde;o, nos sof&aacute;s,
+nas cadeiras, em
+<em>&egrave;tag&egrave;res</em>,
+estatuetas de todas
+as dimens&otilde;es, em todas as posturas incoherentes,
+convulsas; de supplica, ou desespero, de
+agonia ou de d&ocirc;r, dando a impress&atilde;o de um
+campo de batalha em que os combatentes se
+conservassem todos vivos, ou de um cemiterio
+que houvesse resuscitado inteiro, em virtude de
+qualquer galvanismo prodigioso...
+<br />
+
+<br />
+
+O escriptor a que me estou referindo considera
+<span class="pagenum">[55]</span>
+esta multid&atilde;o de estatuas um agrupamento
+humano t&atilde;o significativo, t&atilde;o eloquente,
+t&atilde;o expressivo em cada uma das suas mil attitudes,
+que s&oacute; o apreciar&aacute; quem o estudar individuo
+por individuo, como se folheia um livro
+pagina por pagina, como se l&ecirc; uma partitura
+nota por nota, como se analysa um corpo
+fibra por fibra...
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a <em>Porta do Inferno</em>,
+quer dizer a agglomera&ccedil;&atilde;o
+n'um drama cheio de movimento e
+de vida dos Instinctos, das Fatalidades, das
+Paix&otilde;es inclementes que no homem vivem intensamente,
+dominando-lhe a vontade, vencendo-lhe
+a raz&atilde;o, subjugando-lhe as resistencias,
+dobrando-o sob a sua ac&ccedil;&atilde;o irreductivel,
+fazendo d'elle o instrumento inconsciente de
+uma for&ccedil;a da natureza que a sua intelligencia
+n&atilde;o comprehende, e que a sua virtude n&atilde;o
+submette...
+<br />
+
+<br />
+
+Sob o cinzel d'este artista genuinamente,
+apaixonadamente, sentidamente
+<em>moderno</em> que
+&eacute; Rodin, o poema do vate gibelino n&atilde;o conservou
+a c&ocirc;r local, nem t&atilde;o pouco o colorido
+catholico que o especialisa.
+<br />
+
+<br />
+
+O esculptor despiu o seu symbolo de toda a
+significa&ccedil;&atilde;o italiana e medievica, e
+s&oacute;mente
+<span class="pagenum">[56]</span>
+aproveitou a moldura que elle lhe prestava
+para exprimir dentro d'ella os aspectos humanos
+e universaes, que o tempo n&atilde;o transforma
+e que o meio n&atilde;o pode alterar.
+<br />
+
+<br />
+
+A <em>Porta</em> ainda est&aacute; por
+concluir; s&oacute;mente o
+enquadramento do poema esculpido se p&oacute;de
+julgar executado e completo.
+<br />
+
+<br />
+
+As divis&otilde;es principaes, todavia, j&aacute; podem ser
+imaginadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Come&ccedil;ando pela parte inferior da
+<em>Porta</em> v&ecirc;
+se que os baixos-relevos por sobre os quaes
+se vae erguer a composi&ccedil;&atilde;o principal,
+t&ecirc;em nos
+paineis centraes mascaras inolvidaveis, contrahidas
+por todas as express&otilde;es da Eterna D&ocirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+Corre em doida grinalda viva, em roda d'essas
+physionomias atormentadas, uma dan&ccedil;a vertiginosa
+de mulheres, de satyros e de centauros.
+<br />
+
+<br />
+
+Pelos dois humbraes da Porta, sobe uma
+<em>theoria</em> de figuras apertadas no
+estreito espa&ccedil;o,
+alongadas, fluidas, em alto relevo parcial.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o as doces apaixonadas, as criminosas felizes
+da paix&atilde;o illicita, os amantes que a mesma
+angustia entrela&ccedil;a, e as velhas, que j&aacute; perderam
+o que tinham de humano, e as crean&ccedil;as inconscientes,
+nascidas de pouco tempo e j&aacute; marcadas
+<span class="pagenum"><a name="p57" id="p57">[57]</a></span>
+pela garra adunca da Vida, tentando em
+v&atilde;o prescrutar com os seus olhinhos cegos o
+limbo incolor onde os membros rachiticos se
+lhes agitam convulsamente.
+<br />
+
+<br />
+
+No alto, sobre o front&atilde;o ha tres homens que
+s&atilde;o a representa&ccedil;&atilde;o viva do distico
+dantesco:
+<em>Lasciate ogni speranza</em>. Inclinam-se
+uns sobre
+os outros na attitude da desola&ccedil;&atilde;o inconsolada.
+Apontam com os bra&ccedil;os extendidos para
+um ponto ignoto, a regi&atilde;o do irreparavel,
+do horrendamente irreparavel.
+<br />
+
+<br />
+
+Por debaixo d'elles &aacute; frente das multid&otilde;es
+movedi&ccedil;as, que constituem o primeiro circulo
+do inferno, um poeta n&uacute;, sem nenhum dos distinctivos
+que marcam uma &eacute;poca ou uma nacionalidade,
+medita, mas em uma postura de
+repouso.
+<br />
+
+<br />
+
+Os membros fortes s&atilde;o feitos para as longas
+caminhadas e para as luctas asperrimas, <a href="#e4">o
+rosto</a> inquieto e intrepido, que se crispa na
+obsess&atilde;o de uma id&eacute;a fixa, reflecte e repercuta
+a piedade, a indigna&ccedil;&atilde;o, a tristeza, todas as
+sensa&ccedil;&otilde;es que excitam o pensador at&eacute;
+ao enthusiasmo,
+e o commovem at&eacute; &aacute;
+lamenta&ccedil;&atilde;o
+dolorida e tragica.
+<br />
+
+<br />
+
+Aos p&eacute;s d'elle, sob o seu triste olhar meditativo
+<span class="pagenum">[58]</span>
+passa em turbilh&atilde;o vertiginoso, cahe no
+espa&ccedil;o vasio, ou rasteja dolorosamente a humanidade
+inteira, na sua teima feroz de viver,
+de viver atravez da lucta dilacerante, de viver
+despeda&ccedil;ada, torturada, sangrenta, com espasmos
+violentos de gozo que fazem soffrer
+mais do que as d&ocirc;res, com agonias d'alma que
+lembram arroubamentos de extase!..
+<br />
+
+<br />
+
+Extraordinaria a concep&ccedil;&atilde;o do Mestre! Dizem
+que esses esbo&ccedil;os, esses estudos, essas
+realisa&ccedil;&otilde;es plasticas bastam para provar a
+tenacidade
+de trabalho do obreiro maravilhoso,
+a actividade genial de um creador de seres
+vivos!
+<br />
+
+<br />
+
+Cada figura isolada, cada grupo freneticamente
+enla&ccedil;ado, cada representa&ccedil;&atilde;o de uma
+das mil paix&otilde;es que cingem nos seus tentaculos
+de polvo o corpo fragil e a alma dolorida
+da pobre humanidade, affirma victoriosamente
+n&atilde;o s&oacute; a destreza magistral do estatuario, como
+tambem a ardente vis&atilde;o do poeta e a comprehens&atilde;o
+soberba do pensador.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha entre centenas de outros, cuja descrip&ccedil;&atilde;o
+acabo de ler enlevada, com pena inconsolavel
+de os n&atilde;o ter chegado a v&ecirc;r com os meus proprios
+olhos, um que bastaria, segundo a mais
+<span class="pagenum">[59]</span>
+exigente critica assegura, para confirmar a
+grandeza de concep&ccedil;&atilde;o, a for&ccedil;a
+tranquilla e
+a do&ccedil;ura melancholica d'este grande artista,
+que em f&oacute;rmas asperas, atormentadas, sem a
+molleza amaneirada de que hoje a estatuaria
+reveste o corpo humano,&#8213;soube encerrar e traduzir
+o infinito das tormentas moraes e a variedade
+horrorisante das d&ocirc;res physicas.
+<br />
+
+<br />
+
+Esse grupo &eacute; o de <em>Francesca e
+Paolo</em>, ou
+antes, t&atilde;o supprimidas est&atilde;o todas as
+condi&ccedil;&otilde;es
+do tempo e do logar, tanto escrupulo houve da
+parte do artista em conservar os caracteres geraes
+e puramente humanos, este grupo &eacute; o do
+amante e da amante, quer dizer do Amor.
+<br />
+
+<br />
+
+Do Amor, n&atilde;o como a Grecia o pintou nos
+seus mythos risonhos, mas do Amor ardente,
+apaixonado, cruciante e doloroso, cruel e divino,
+prodigo em extasis e em torturas, em
+espasmos e em lagrimas, tal como a morbida
+imagina&ccedil;&atilde;o de hoje o concebeu e creou!...
+<br />
+
+<br />
+
+O homem &eacute; alto e forte, esbelto e flexivel.
+A mulher, em pleno desabrochar da puberdade,
+est&aacute; sentada com tal ligeireza e tal meiguice
+sobre o seu joelho esquerdo, que parece
+pesar apenas o que pesaria uma ave.
+<br />
+
+<br />
+
+A mesma do&ccedil;ura de contacto &eacute; perceptivel
+<span class="pagenum">[60]</span>
+aos sentidos no gesto com que elle, fazendo
+do bra&ccedil;o um collar quente e caricioso, a prende
+a si, emquanto que a outra m&atilde;o lhe toca
+no corpo com delicada ternura... Essa m&atilde;o
+forte e musculosa, feita para se imprimir pesadamente
+nas cousas, tem a leveza divina do
+contacto de uma fl&ocirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+O abandono da amante &eacute; completo. Enla&ccedil;a-o
+como uma liana, enrola-se n'elle com um
+carinho em que ha a gratid&atilde;o do amor feliz
+e a avidez insaciavel de caricias; e com a m&atilde;o
+que lhe fica livre d'este abra&ccedil;o apaixonado toca
+femenilmente nos cabellos com um geito
+feito de timidez e de gra&ccedil;a pueril.
+<br />
+
+<br />
+
+A cabe&ccedil;a do homem inclina-se, a cabecinha
+da mulher ergue-se para elle e as duas boccas
+encontram-se em um beijo que &eacute; como que
+a uni&atilde;o mystica de dois seres!
+<br />
+
+<br />
+
+A extraordinaria magia d'esse beijo consiste
+n'isto: &eacute; um beijo visivel! Visivel na impress&atilde;o
+violenta que contorce em uma attitude de
+sedenta adora&ccedil;&atilde;o o corpo do homem; visivel
+no arroubamento da mulher todo ardor e todo
+gra&ccedil;a!
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; triste e deliciosa essa
+representa&ccedil;&atilde;o sublime
+e symbolica do amor humano. Envolve-a
+<span class="pagenum">[61]</span>
+como que o nimbo da tristeza que envolve aos
+nossos olhos tudo que &eacute; bello, intenso de vida
+e condemnado &aacute; morte!...
+<br />
+
+<br />
+
+Como v&ecirc;m, a inspira&ccedil;&atilde;o de Rodin
+participa
+do que mais agudo tem a observa&ccedil;&atilde;o da vida
+real, da vida verdadeira em todas as suas
+manifesta&ccedil;&otilde;es
+e f&oacute;rmas physicas, e de tudo que
+mais alto e subtil tem a poesia das cousas e
+que d'ellas se destaca como um perfume inebriante,
+capitoso e perturbador!
+<br />
+
+<br />
+
+O que elle principalmente traduz &eacute; o amor
+nas suas infinitas modalidades tragicas ou divinamente
+bellas...
+<br />
+
+<br />
+
+O amor dos nervos, o amor da carne e o
+amor da alma entrela&ccedil;ados e produzindo esse
+mixto doloroso, que embriaga como um filtro,
+que corr&oacute;e como um veneno, que contrahe
+como uma convuls&atilde;o, que entontece os sentidos
+e d&aacute; ao cora&ccedil;&atilde;o as
+revela&ccedil;&otilde;es da infinita
+D&ocirc;r!
+<br />
+
+<br />
+
+D'entre os criminosos de Dante, elle escolheu
+para os modelar pela sua m&atilde;o genial de grande
+artista pensador, os criminosos que o amor
+subverteu no abysmo infernal.
+<br />
+
+<br />
+
+Elles exprimem o can&ccedil;asso devastador da
+saciedade que j&aacute; nada espera; o phrenezi do
+<span class="pagenum">[62]</span>
+extase que nada satisfaz; a ternura desbordante
+que a morte ha de breve estancar; as fadigas
+as aspira&ccedil;&otilde;es, os sonhos morbidos, as angustias
+e as melancholias que essa paix&atilde;o entre
+todas omnipotente inflinge aos seus condemnados
+escravos.
+<br />
+
+<br />
+
+O amor que Schopenhauer descreve como a astucia
+suprema da Natureza que se recusa a morrer,
+e que a maior parte das vezes n&atilde;o passa de
+um arrebatamento ephemero, de uma illus&atilde;o
+rapida e momentanea; o amor que &eacute; a impossivel
+aspira&ccedil;&atilde;o que leva dois seres a quererem
+formar essa Unidade mysteriosa que seria o
+supremo triumpho da Vida sobre a
+D&ocirc;r,&#8213;aspira&ccedil;&atilde;o
+que remata no tragico desengano e na
+fallencia absoluta do Ideal sonhado, pois que
+nunca uma alma consegue penetrar absolutamente
+outra alma, nunca dois entes estranhos
+conseguem ser apenas um <em>ser unico</em>, e
+n&atilde;o ha
+agonia mais tragica do que esse luctar angustioso
+para alcan&ccedil;ar um impossivel bem,&#8213;o amor
+tal como &aacute; triste lucidez dos nossos dias elle
+apparece, doloroso, violento e cheio de ardentes
+lagrimas: eis a inspira&ccedil;&atilde;o, sen&atilde;o
+unica,
+principal do grande traductor plastico da sombria
+epop&eacute;a dantesca!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[63]</span>
+Como &eacute; triste, como representa bem o
+<em>Terror</em>
+sentido perante as duras revela&ccedil;&otilde;es da Vida,
+a sua Eva admiravel que, levantando os
+dois bra&ccedil;os em um gesto de espavorida angustia,
+e como que esmagando com elles os seios
+tumidos da humanidade futura, tapa com as
+m&atilde;os entrela&ccedil;adas os olhos que tanta miseria
+t&ecirc;m de ver ainda na terra...
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; triste, soberba e bella, rica sobretudo de
+maravilhosas interpreta&ccedil;&otilde;es a
+concep&ccedil;&atilde;o que
+Rodin f&oacute;rma da estatuaria moderna. E por elle
+ser, d'entre os esculptores modernos, o que
+mais frisantemente e voluntariamente se afasta
+do ideal da Antiguidade, &eacute; que eu, em face
+da Venus de Milo radiosa, tranquilla, serena
+e pura, quiz levantar deante dos olhos do leitor
+um esbo&ccedil;o ao menos rude e tosco embora,
+d'essa tragica <em>Porta do Inferno</em>,
+pela qual o
+esculptor nos faz penetrar na gehenna das loucas
+paix&otilde;es insaciadas, que erguem na sombra
+o seu brado ululante de intraduzivel d&ocirc;r...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>VIII
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quando a gente de longe evoca a grande
+cidade do luxo, da vida intelligente, da
+industria genial, pensa em tudo menos
+na belleza ideal das suas arvores. A mim, vejam
+que estranha cousa!&#8213;foi isso que positivamente
+me deslumbrou.
+<br />
+
+<br />
+
+O arvoredo em Paris, nos arredores de Paris,
+nos jardins, nos parques, nos bosques de
+Paris, &eacute; verdadeiramente delicioso e de um
+encanto incomparavel e unico.
+<br />
+
+<br />
+
+N'aquella fornalha tudo parece possivel menos
+o permanente idyllio que as arvores representam,
+pois nem Cintra, essa orgia de verdura,
+me consolou tanto a alma a este respeito
+<span class="pagenum">[65]</span>
+como Paris. V&ecirc;-se que o culto da arvore,
+a paix&atilde;o da Natureza, vive em um canto do
+cora&ccedil;&atilde;o d'esse pag&atilde;o extra-civilisado,
+que se
+chama o parisiense. E depois ser&aacute; realmente
+extra-civilisado como n&oacute;s julgamos o parisiense
+genuino? N&atilde;o haver&aacute; n'essa immensa cidade
+cosmopolita, a par de uma minoria pequena
+de artistas de talento, uma incontestavel multid&atilde;o
+de almas ingenuas que representam de
+boa f&eacute; toda a especie de comedia, desde o scepticismo
+<em>&agrave; outrance</em>,
+at&eacute; ao chauvinismo &aacute;
+Boulanger? Ser&aacute; verdade o que dizem d'elle
+os que o pintaram com uma amargura t&atilde;o
+acre, F. Flaubert e Balzac, por exemplo?
+<br />
+
+<br />
+
+Como quer que seja, sceptico ou sentimental,
+o parisiense adora as arvores, as flores,
+a natureza em todo o seu idyllico e sereno encanto.
+<br />
+
+<br />
+
+Um passeio ao domingo, em Auteuil, em
+Saint Cloud, em Neuilly, nas avenidas do Bois,
+bastaria para nos esclarecer a tal respeito. &Eacute;
+que tambem alli as arvores s&atilde;o incomparaveis.
+Ha alamedas longas e deliciosas, em que o
+arvoredo de um verde um pouco ru&ccedil;o se recorta
+no azul levemente grisalho do c&eacute;o! Ha
+longe verduras em Auteuil, por exemplo, que
+<span class="pagenum"><a name="p66" id="p66">[66]</a></span>
+d&atilde;o vontade de chorar, que penetram a alma
+de uma saudade doce e amarga a um tempo,
+a saudade que Ad&atilde;o teve de certo do Paraiso,
+de onde foi expulso! Os horisontes desdobram-se
+t&atilde;o longos, t&atilde;o calmos! Quem dir&aacute;
+que alli, a dois passos, se desenrola a multipla
+fita dos <em>boulevards</em>, onde a febre da
+vida
+&eacute; t&atilde;o tentadora e t&atilde;o intensa! Auteuil
+parece
+ser o fim do mundo, t&atilde;o sereno e vagamente
+adormecido &eacute; o seu aspecto, t&atilde;o ineffavel
+bucolismo
+se exhala da sua tranquilla paizagem.
+Para cada lado que lancemos os olhos, se abrem
+larguissimas avenidas ao lado de <a href="#e5">arvoredos,</a>
+com uns fundos longiquos, em que ha toda a
+especie de cambiantes.
+<br />
+
+<br />
+
+O ceu de um azul muito lavado, em que parece
+ter-se extendido um v&eacute;u diaphano de vapor,
+&eacute; bem differente do meu c&eacute;u portuguez
+de uma c&ocirc;r t&atilde;o quente, &aacute;s vezes
+deslumbradora
+e excessiva! A agua parece crystallina,
+ou sombreada de verde, de uma transparencia
+deliciosa ou de uma c&ocirc;r glauca, atrav&eacute;z
+das rendas do arvoredo, movedi&ccedil;as e multic&ocirc;res.
+<br />
+
+<br />
+
+Abril tudo em flor, atira em flocos a sua
+neve perfumada aos troncos ha pouco despidos;
+<span class="pagenum">[67]</span>
+os castanheiros agitam os seus pennachos
+brancos; os lilazes saturam a atmosphera
+do seu cheiro estonteador; ha uma expans&atilde;o
+risonha n'este paraiso artificial creado pelo homem,
+que se n&atilde;o encontra infelizmente nos
+nossos paizes do Sul, onde o solo &eacute; t&atilde;o fecundo,
+onde a Natureza um pouco acariciada
+e auxiliada se desentranharia em maravilhas
+de produc&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+A n&oacute;s basta-nos o sol ardente e a vida brutal
+de que as cousas palpitam no nosso ver&atilde;o
+africano; n&atilde;o sabemos pelo trabalho incessante,
+intelligente e methodico crear estes paraisos,
+onde repousa depois ineffavelmente a
+frenetica actividade do homem do Norte.
+<br />
+
+<br />
+
+A mim, filha de um paiz accidentado, esta
+paizagem plena, em que as alamedas se desdobram
+lentas, magestosas <em>&agrave; perte de
+vue</em>,
+faz-me uma impress&atilde;o de deliciosa calmaria.
+N&atilde;o me canso de olhar para as arvores, as
+formosas arvores, enormes, colossaes, de um
+verde tenro, de um verde ru&ccedil;o, de um verde
+<em>mauve</em>, de todas as
+grada&ccedil;&otilde;es imaginaveis do
+verde, e em que a nota do verde esmeralda,
+mais rara, apparece de vez em quando como
+uma estridula fanfarra de c&ocirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[68]</span>
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Do alto da torre de Eiffel, Paris apparece
+todo entrecortado de manchas negras de
+arvoredo&#8213;&laquo;N&atilde;o
+ha cidade com mais arvores&raquo;,
+digo eu verdadeiramente abysmada ao meu
+companheiro e <em>cicerone</em> que me
+responde:&#8213;&laquo;Londres
+ainda tem mais!&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+S&oacute; n&oacute;s portuguezes, com uma terra maravilhosa,
+um c&eacute;u esplendido, um clima em que
+a flora de todas as zonas egualmente se domestica,
+somos incapazes pela nossa inercia
+proverbial de ter esta abundancia adoravel de
+arvoredo, de verdura massi&ccedil;a em torno de n&oacute;s!
+<br />
+
+<br />
+
+As alamedas de Saint Cloud, com os cimos
+verdes entrela&ccedil;ados, formando a abobada sobre
+a cabe&ccedil;a dos transeuntes, pareceriam um bocadinho
+de floresta selvagem, se n&atilde;o fosse a
+invas&atilde;o da burguezia e do povo vestido de
+gala que ao domingo positivamente as inunda
+e banalisa, tirando ao sonhador que alli foi
+acariciar a sua chimera intima todo o gozo
+que elle podia beber na solid&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando de Saint Cloud, por uma tarde serena
+e d&ocirc;ce e luminosa de Abril, se regressa
+a Paris, como eu regressei, pelo caminho ao
+longo do Sena, entre o renque fino e tenro
+<span class="pagenum">[69]</span>
+dos choupos que se debru&ccedil;am nas aguas do
+rio, e os <em>chalets</em> e os palacetes que
+espreitam
+do outro lado da estrada do meio dos jardins
+coalhados de lilazes e de rosaes em fl&ocirc;r, n&atilde;o
+ha cora&ccedil;&atilde;o por mais secco e positivo que resista
+ao encanto embalador d'este passeio.
+<br />
+
+<br />
+
+Surprehende-se uma pessoa a ser mo&ccedil;a outra
+vez, mo&ccedil;a e romanesca e a arranjar na phantasia
+uma existencia que quereria ter vivido
+alli, n'aquella paz t&atilde;o proxima da infinda
+agita&ccedil;&atilde;o,
+n'aquelle ermo t&atilde;o chegado ao borburinho
+de uma vida em festa.
+<br />
+
+<br />
+
+Deve ser bom viver e sonhar alli, perto do
+mundo e t&atilde;o longe d'elle, a minutos de distancia
+do <em>boulevard</em> da Yvette Guilbert, a
+deusa
+da <em>chansonnette</em> moderna, da
+<em>Comedie</em> e da
+sua classica e correcta interpreta&ccedil;&atilde;o da arte,
+do <em>Chat Noir</em> e da sua phantasia
+revoltada, e
+ao mesmo tempo t&atilde;o longe de tudo isto, no
+silencio do arvoredo em fl&ocirc;r, na serenidade
+pantheista da dormente e calma Natureza, no
+seio inebriante dos lilazes e das rosas que estillam
+voluptuosa lethargia de cada petala da
+sua fl&ocirc;r avelludada e tenra...
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A vida para certos organismos de elei&ccedil;&atilde;o
+s&oacute;
+<span class="pagenum">[70]</span>
+se comprehende n'estes dois p&oacute;los contrarios.
+Ou tudo que a civilisa&ccedil;&atilde;o tem de mais
+quintessencial
+e de mais extremo, ou tudo que a
+natureza tem de mais calmo e de mais
+<em>permanente</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Juntar as duas cousas seria para o verdadadeiro
+artista o ideal, mas que poucos s&atilde;o os
+que as sabem ou querem reunir!...
+<br />
+
+<br />
+
+Pensava eu estas cousas vagas, ao passar
+deante de <em>Bagatelle</em>, a casa
+campestre e o lindissimo
+parque, que surdiram com t&atilde;o vertiginosa
+rapidez de uma aposta entre a infeliz
+e ent&atilde;o leviana Maria Antonietta e o Conde
+de Artois, e que hoje, depois de varias vicissitudes&#8213;as
+casas e os homens passam egualmente
+por ellas&#8213;pertence aos herdeiros do
+celebre philanthropo William Wallace. A lembran&ccedil;a
+d'esse tempo, d'essa c&ocirc;rte, d'essa mulher,
+cujo nome se fez prestigioso no martyrio,
+levaram a minha imagina&ccedil;&atilde;o para longe,
+para bem longe no passado.
+<br />
+
+<br />
+
+Fazia justamente cem annos que tanto luxo
+tanto prestigio, tanta gloria tradicional se tinham
+afogado tragicamente em ondas de sangue.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Noventa e tres</em>, o anno fatal, surgia
+sangrento
+<span class="pagenum">[71]</span>
+e tragico ante os meus olhos, produzindo
+em mim aquelle espanto e aquella fascina&ccedil;&atilde;o
+que eu sempre sinto quando voluntaria
+ou involuntariamente o evoco.
+<br />
+
+<br />
+
+Tambem ella, a pobre rainha martyr, quiz
+experimentar essa suprema sensa&ccedil;&atilde;o da vida
+feita de contrastes fortes; tambem ella quiz,
+ao lado das pompas de Versailles, a deliciosa
+pastoral do Trianon; tambem ella, despindo
+os pesados brocados e as sedas tecidas com
+ouro da c&ocirc;rte, quiz enfiar, ligeira e garrida,
+o vestidinho de cassa, com o len&ccedil;o castamente
+cruzado sobre os seios opulentos; a sua
+imagina&ccedil;&atilde;o
+romanesca de leitora de Rousseau,
+de admiradora de Gluck, tambem se soube comprazer
+n'esta delicia das experiencias contrarias
+que &eacute; o sol do
+<em>dilettantismo</em>, mas nem
+porque viveu intensamente a vida e gozou tudo
+que ella tem de melhor, desde a amisade at&eacute;
+&aacute; arte, lhe foi menos pesada a sua cruz, nem
+menos cruel a sua dolorosa via desde Versailles
+at&eacute; &aacute; Guilhotina.
+<br />
+
+<br />
+
+O ambicioso cora&ccedil;&atilde;o humano deseja tudo,
+a tudo aspira e tudo quer!
+<br />
+
+<br />
+
+E para que, no fim de contas? l&aacute; o diz Pascal
+na sua phrase incisiva e sombria: &laquo;o remate
+<span class="pagenum">[72]</span>
+&eacute; sempre identico, qualquer que tenha
+sido a comedia ou a tragedia que o antecedeu&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+E aqui est&aacute; como a vista do arvoredo de Bagatelle
+me levou para longe do bucolismo, encontrado,
+onde meu Deus?... a dois passos da
+fornalha de Paris!...
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A mais completa vis&atilde;o de arte e de magnificencia
+que ainda os meus olhos tiveram, de
+que elles guardar&atilde;o para sempre o reflexo illuminado,
+foi em Fontainebleau que a recebi.
+<br />
+
+<br />
+
+Fontainebleau est&aacute; para Versailles como
+uma joia de Benevenuto est&aacute; para um vaso de
+macissa prata imperfeitamente burilado. N&atilde;o
+ha compara&ccedil;&atilde;o entre os dois, e para um artista
+n&atilde;o ha hesita&ccedil;&atilde;o na escolha.
+<br />
+
+<br />
+
+Como paizagem, aquelle sitio, aquella poetica
+e enorme floresta consagrada por tantas
+recorda&ccedil;&otilde;es artisticas, litterarias e historicas,
+&eacute; tudo que p&oacute;de haver de mais estranhamente
+bello.
+<br />
+
+<br />
+
+Tem a poesia selvagem e a gra&ccedil;a outoni&ccedil;a,
+e saudosa. Parece um paiz devastado onde se
+deram lutas de titans, por onde passou o sopro
+de uma tempestade cyclopica, onde a natureza
+estrebuxa em cataclysmos tremendos, e
+<span class="pagenum">[73]</span>
+faz ao mesmo tempo o effeito calmante e doce
+de um ninho de verdura que abriga a alma dolente,
+e a envolve no filtro subtil das suas essencias
+vegetaes. O outomno na floresta de Fontainebleau,
+quando as arvores se revestem de toda
+a riqueza infinita de colorido d'esse periodo
+divino, quando a pompa victoriosa das fortes
+verduras acres de seiva se degrada e decomp&otilde;e
+em tons expirantes de um encanto mysterioso,
+em como que gangrenas vegetaes que
+desde o purpureo sangrento e o amarello alaranjado
+v&atilde;o at&eacute; ao c&ocirc;r de lilaz e ao
+c&ocirc;r de malva,&#8213;o
+outomno alli deve ser um poema de voluptuosa
+melancolia, d'estes que s&oacute; sabem saborear
+os que se deleitam na tristeza como
+em um nectar sagrado, defezo &aacute;s profanidades
+do vulgo...
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o admira que n'essa floresta tenham vindo
+meditar e soffrer tantas grandes almas desenganadas
+da illus&atilde;o multiforme da vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Conta Michelet, que perguntando a uma mulher
+intelligente para onde ella quereria fugir
+se uma grande d&ocirc;r lhe d&eacute;sse a s&ecirc;de, a
+necessidade
+de um asylo no seio da Natureza, ella
+lhe respondera:&#8213;Para Fontainebleau.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se tivesse uma alegria enorme, uma
+<span class="pagenum"><a name="p74" id="p74">[74]</a></span>
+alegria que lhe dilatasse a alma at&eacute; ao infinito,
+onde mais lhe agradaria estar:&#8213;Em Fontainebleau!
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que realmente aquella paizagem, como diria
+Amiel, representa todos os <em>estados da
+alma</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso S. Luiz nas suas fundas d&ocirc;res, quando
+as id&eacute;as e os sentimentos do seu tempo agonisavam,
+dando-lhe um espectaculo que lhe pungia
+atrozmente o cora&ccedil;&atilde;o, era alli na floresta
+sombria que ia rezar pedindo a Deus conforto
+e paz.
+<br />
+
+<br />
+
+Luiz XIV vencido e velho, corroido por esse
+t&eacute;dio dos Cesares, a quem nada resistiu&#8213;que
+&eacute; de certo o estado de espirito que mais deve
+approximar-se da infinita desola&ccedil;&atilde;o de Satanaz,
+foge de Versailles, das suas pompas, dos
+triumphos que os seus pintores lhe coloriam
+e que ent&atilde;o n&atilde;o eram mais que ironias diabolicas
+do passado orgulho, e vem procurar, sob
+as arvores colossaes da floresta amiga, o repouso,
+o silencio, o adormecimento &aacute;s <a href="#e6">suas</a>
+lancinantes d&ocirc;res de rei... Francisco I, desenganado
+d'esse sonho da Italia, que durante os
+seculos XV e XVI perseguiu os reis da <a href="#e7">Fran&ccedil;a</a>,
+vem alli construir uma Italia franceza que o
+console de haver perdido a outra, a que Miguel
+<span class="pagenum">[75]</span>
+Angelo e Raphael, Bramante e Donatello, Leonardo
+de Vinci e o Ticiano tinham feito t&atilde;o fascinadora
+e t&atilde;o grande!...
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; em Fontainebleau que Napole&atilde;o se despede
+do seu sonho homerico e sublime, d'esse sonho
+de um Imperio Universal, que unificasse o
+mundo civilisado sob um despota intelligente, e
+que lhe foi commum com Alexandre, com Cesar,
+com Carlos Magno e Carlos V, com todos
+os grandes capit&atilde;es da historia, t&atilde;o raros como
+os grandes poetas.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; alli que essa epop&eacute;a magestosa e tremenda
+se lhe desfaz nas tremulas m&atilde;os que assignam
+a suprema abdica&ccedil;&atilde;o do poder e da gloria.
+<br />
+
+<br />
+
+Quantas recorda&ccedil;&otilde;es me suggere esse logar
+fatidico de Fontainebleau, ou seja o palacio de
+fadas, ou seja a grande floresta sombria e vasta,
+onde talvez os Celtas, ascendentes dos francezes
+de hoje, colher&atilde;o no tronco dos annosos
+carvalhos o <em>qui</em> das
+evoca&ccedil;&otilde;es druidicas.
+<br />
+
+<br />
+
+E sahindo d'essas espheras da grandeza social
+para outra, mais ampla talvez, mas menos
+visivelmente pomposa, &eacute; em Fontainebleau, que
+Georges Sand e Musset d&atilde;o aquelles ultimos
+passeios t&atilde;o tristes, de uma melancolia feita de
+tanta saudade, quando <em>elle</em>
+j&aacute; sabe que n&atilde;o podia
+<span class="pagenum">[76]</span>
+viver sem <em>ella nem com ella</em>, como
+diz a
+triste cantiga peninsular quando
+<em>ella</em> come&ccedil;a a
+perceber, que, Ashaverus femenil do amor,
+tem de percorrer at&eacute; ao fim o seu amargo
+e cru fadario, sem encontrar quem satisfa&ccedil;a a
+sua s&ecirc;de do infinito, sem poder parar n'essa
+caminhada atroz em procura do
+<em>impossivel</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+Que fundo de paizagem t&atilde;o triste para um
+fim de amor! Onde poderiam elles encontral-o
+que lhes saturasse a alma de mais tristeza, de
+mais melancolia, de mais intensa e inexoravel
+saudade!...
+<br />
+
+<br />
+
+Era alli ainda que Musset voltara mais tarde
+evocando em solu&ccedil;os immortaes as melhores
+recorda&ccedil;&otilde;es do seu fatal amor.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Dante pourquoi dis tu qu'il n'est pire mis&egrave;re<br />
+
+Qu'un souvenir heureux dans les temps de douleur<br />
+
+Quel chagrin t'a dict&eacute; cette parole am&egrave;re</div>
+
+<div class="poetry3">
+Cette offense au malheur!</div>
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">En est il donc moins vrai que la
+lumi&egrave;re existe<br />
+
+Et faut-il l'oublier du moment qu'il fait nuit<br />
+
+Est ce bien ta grand &acirc;me immortellement triste</div>
+
+<div class="poetry3">
+Est ce tu qui l'as dit?</div>
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">Non, par ce pur flambeau dont la
+splendeur m'&eacute;claire<br />
+
+Ce blasph&egrave;me vant&eacute; ne vient pas de ton coeur<br />
+
+Un souvenir heureux est peut-&ecirc;tre sur terre</div>
+
+<div class="poetry3">
+Plus vrai que le bonheur</div>
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">..............................................................................................<br />
+
+..............................................................................................</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[77]</span>
+As estatisticas dir&atilde;o quantas leguas quadradas
+tem a floresta; os naturalistas saber&atilde;o explicar
+quaes as diversas qualidades da sua flora,
+e que essencias se distillam das suas varias
+resinas; eu sei s&oacute;mente que ella me encantou,
+como uma das mais bellas cousas que os meus
+olhos ainda contemplaram. Fui a Barbozin, a
+ald&ecirc;a em que Millet e Rousseau pintaram as
+suas t&eacute;las melhores, e evoquei alli as figuras
+da litteratura contemporanea que tem por fundo
+magestoso&#8213;bem mais magestoso do que
+ellas s&atilde;o grandes!&#8213;a floresta divina de Fontainebleau.
+<br />
+
+<br />
+
+A scena capital e magistral da <em>Sapho</em>
+de
+Daudet &eacute; alli que se passa; quando o pobre
+mo&ccedil;o, empolgado pelo polvo terrivel que &eacute; para
+a mocidade uma mulher perdida, tenta despegar-se
+d'ella, quer fugir-lhe para recome&ccedil;ar ao
+longe uma existencia calma e boa&#8213;em harmonia
+com as leis sociaes, protectoras para quem
+as respeita, inexoraveis e implacaveis para
+quem as despreza ou para quem as illude&#8213;e
+&eacute; vencido irreductivelmente pela piedade que
+ella lhe inspira, por aquelle bramido de animal,
+longo, constante, ininterrupto, com que
+<em>Sapho</em> acorda e sobresalta os
+&eacute;cos de immensa
+<span class="pagenum">[78]</span>
+solid&atilde;o ao v&ecirc;r imminente a ruptura de que elle
+lhe fala, que elle com mil precau&ccedil;&otilde;es lhe faz
+prever... Grande quadro e de uma moral acre
+e dolorosa mas incontestavel, que os mo&ccedil;os deviam
+meditar, se &eacute; que os mo&ccedil;os meditam, se
+&eacute; que a mocidade &eacute; compativel com a previdencia
+e o calculo.
+<br />
+
+<br />
+
+O parisiense tem a uma hora e meia de caminho
+de ferro essa grande matta que &eacute; uma
+das maiores da Europa e a maior da Fran&ccedil;a,
+por isso parte da litteratura contemporanea a
+tem para theatro das suas scenas de enthusiasmo,
+de paix&atilde;o ou de desespero.
+<br />
+
+<br />
+
+Os pintores v&atilde;o alli procurar os effeitos maravilhosos
+da luz penetrando na espessura, banhando-a
+em purpura, recortando em fundo de
+ouro a renda delicada da sua folhagem, picando
+de pontos deslumbrantemente luminosos os
+seus intersticios mais miudos e mais finos; Millet
+arrancou-lhe em paginas immortaes o segredo
+da religiosidade infinita que possuem as
+velhas arvores; Rousseau recortou em pequenas
+t&eacute;las retalhos de paizagem em que a alma
+das cousas palpita mysteriosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+A floresta de Fontainebleau educou uma gera&ccedil;&atilde;o
+de paizagistas, qual d'elles mais penetrado
+<span class="pagenum"><a name="p79" id="p79">[79]</a></span>
+da melancolica poesia da natureza. Que
+benefica tem sido a sua calma e suggestiva influencia,
+que saudade eu tenho da luz a que
+ella me appareceu, luz primaveril, que punha
+tons de um tenro ineffavel em cada <a href="#e8">rebento,</a>
+que rejuvenescia os velhos troncos colossaes!
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; perto d'alli o lindo Castello de Francisco I,
+a que &eacute; preciso conduzir o leitor. Deixemos,
+pois, a floresta e penetremos no palacio.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>X
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Nos seculos XV e XVI todos os principes,
+todos os poderosos da terra tiveram um
+distinctivo commum que os caracterisa:
+o seu amor enthusiasta das maravilhas da arte.
+<br />
+
+<br />
+
+Sabe-se o que foi Louren&ccedil;o de Medicis, esse
+Mecenas da litteratura italiana, esse amante
+apaixonado e prodigo da erudi&ccedil;&atilde;o, da
+architectura,
+da pintura, da estatuaria. Esse homem
+intelligente e sagaz, poeta elle proprio, e apezar
+de humanista notavel, sacudindo com bastante
+independencia o jugo do antigo que pesava
+demais sobre as musas da Italia,&#8213;mereceu
+a gloria suprema de ficar immortal no
+marmore modelado pela garra de Miguel Angelo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[82]</span>
+O <em>Penseroso</em>, das estatuas do mestre uma
+das mais emocionantes, uma das mais mysteriosamente
+e tragicamente bellas, teve por modelo
+o grande homem florentino, cujo tumulo havia
+de adornar mais tarde. Le&atilde;o X, Julio II e Clemente
+VII, foram os papas mais doudos pela
+arte de que reza a historia.
+<br />
+
+<br />
+
+Ludovico o Mouro encheu de bens e de glorias
+a Leonardo Da Vinci; os chefes da aristocratica
+Republica veneziana n&atilde;o hesitavam
+quando se tratava de pagar com prodigalidade
+louca aos seus soberbos pintores. Mas Francisco
+I, o rei da Fran&ccedil;a a quem se deve a magica de
+Fontainebleau, esse n&atilde;o s&oacute;mente adorava a
+Arte, mas era amigo apaixonado dos artistas.
+<br />
+
+<br />
+
+Sabe-se o enthusiasmo louco com que elle
+acolheu na sua c&ocirc;rte o j&aacute; octogenario Leonardo
+Da Vinci.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Hei de afogar-te em ouro, dizia elle a
+Benevenuto.&#8213;<em>Fa&ccedil;o-te
+conego</em>&#8213;exclamou deslumbrado
+para o italiano Rosso no dia em que
+este, pela primeira vez o fez penetrar n'essa
+galeria esplendida, ainda hoje chamada de
+Francisco 1.&ordm;&#8213;em que o rei desenganado e
+can&ccedil;ado passou depois quasi todos os ultimos
+annos da sua accidentada existencia. E a promessa
+<span class="pagenum">[83]</span>
+extravagante cumpriu-se tal como se fez.
+Rosso teve um logar de conego na collegiada
+da Sainte Chapelle.
+<br />
+
+<br />
+
+O que fizera elle para merecer t&atilde;o piedosa
+distinc&ccedil;&atilde;o? Pint&aacute;ra o mais estranho e
+luminoso
+carnaval de alegria e de c&ocirc;r, que ainda a
+imagina&ccedil;&atilde;o febril de um artista d'aquelle tempo
+de febre concebera e realiz&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma multid&atilde;o pantagruelica em que ha de
+tudo: o bello e o horrendo, o delicioso de gra&ccedil;a,
+e o grotesco; figuras virginaes a que talvez
+serviram de modelo para o pintor, e de encanto
+ephemero para o rei, as doces raparigas
+que alli perto ceifavam as tremulas searas, ou
+iam buscar as amphoras cheias de agua crystallina
+das rochas, &aacute;s fontes de Fontainebleau
+que Jean Goujon e Benevenuto v&atilde;o fazer idealmente
+bellas.
+<br />
+
+<br />
+
+No meio da immensa turba de mulheres e
+de homens, uma flora e uma fauna inteiramente
+novas, a flora e a fauna que os navegadores
+e os conquistadores da peninsula iberica
+acabavam, no fim das suas aventurosas viagens,
+de revelar ao velho mundo attonito.
+<br />
+
+<br />
+
+A delicia de Francisco I n&atilde;o teve limites ao
+entrar n'aquelle recinto encantado em que o
+<span class="pagenum">[84]</span>
+mundo da arte lhe desvendava os seus aspectos
+mais bellos!
+<br />
+
+<br />
+
+Interrogador e curioso como era, cada quadro
+lhe suggeria uma pergunta e uma investiga&ccedil;&atilde;o
+nova.
+<br />
+
+<br />
+
+O mundo estranho de que o Rosso pintava
+algumas das maravilhas ineditas fazia scismar
+o pag&atilde;o devoto que Francisco I era, como todas
+essas crian&ccedil;as grandes da Renascen&ccedil;a.&#8213;Mas
+ent&atilde;o mentia a Biblia quando contava a
+crea&ccedil;&atilde;o do homem?
+<br />
+
+<br />
+
+Essas ra&ccedil;as, cujo segredo agora se desvendava
+pela vez primeira, n&atilde;o eram tal, n&atilde;o podiam
+ser filhas do biblico Ad&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+E a terra movia-se em torno do sol? Onde
+ficavam n'esse caso as palavras de Josu&eacute;?...
+<br />
+
+<br />
+
+Depois contavam-lhe as magnificencias da
+Turquia, a magnanimidade de Solim&atilde;o, as
+maravilhas da civilisa&ccedil;&atilde;o arabe, t&atilde;o
+superior
+em certos pontos n'aquelle tempo &aacute;
+civilisa&ccedil;&atilde;o
+christ&atilde;, e esta id&eacute;a de que o turco
+n&atilde;o era
+finalmente o ante christo, o inimigo figadal de
+todo o bem e de todo o bello, produzia um espanto
+infantil no animo de Francisco I.
+<br />
+
+<br />
+
+Tempo encantador este de que a galeria de
+Fontainebleau ouviu as conversa&ccedil;&otilde;es curiosas,
+<span class="pagenum">[85]</span>
+mixto de tudo que ha mais ingenuo e mais
+subtil, mais refinado e mais credulo!...
+<br />
+
+<br />
+
+Ao lado do fauno sensual, do satyro coroado,
+que foi Francisco I,&#8213;o qual para contrapor
+aos seus vicios innumeros teve s&oacute;mente a vibrante
+sensibilidade para tudo que &eacute; bello;&#8213;surge
+a Margarida das Margaridas, a encantadora,
+a diserta, a latinista, a intelligente rainha
+de Navarra. N'aquelle tempo saber latim
+n&atilde;o &eacute; um requinte de pedantismo, &eacute; uma
+exigencia
+da fina cultura.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem n&atilde;o soubesse latim n&atilde;o sabia nada,
+n&atilde;o tinha conhecimento nem da poesia no
+que ella tem de mais perfeito e mais bello,
+nem da Historia no que tem de mais suggestivo
+e de mais inspirador. Ora Margarida amava
+os poetas e a poesia, e ajudava seu irm&atilde;o
+a fazer a Historia, aconselhando-o, auxiliando-o,
+inspirando-o, negociando por elle com os
+diplomatas do tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+A sciencia, a erudi&ccedil;&atilde;o, a poesia enchem o
+espirito de Margarida; quem lhe enche completamente
+a alma &eacute; o irm&atilde;o, esse irm&atilde;o grosseiro
+e sensual, natureza que, a n&atilde;o ser o
+amor da arte, seria feita do barro mais vil, e
+que mesmo salvo por esse amor, que &eacute; no fim
+<span class="pagenum">[86]</span>
+de contas mais uma sensualidade requintada
+do seu temperamento que uma aspira&ccedil;&atilde;o
+espiritualista,
+reflecte a omnipotencia dos seus instinctos
+animaes no soberbo, no inolvidavel retrato
+que d'elle fez Ticiano, o maior retratista
+do mundo, aquelle que melhor traduz a profunda
+express&atilde;o moral, a mobil physionomia,
+o caracter pessoal inconfundivel de cada um
+dos seus modelos...
+<br />
+
+<br />
+
+Esse perfil de fauno sensual, que o Ticiano
+retratou, domina e absorve o cora&ccedil;&atilde;o delicado
+e subtil de Margarida.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso eu a evocava agora, na galeria soberba,
+em que o sol entra a flux, ao lado do rei
+seu irm&atilde;o, analysando com elle as bellas pinturas
+que fazem das paredes um kaleidoscopo t&atilde;o
+curioso e illuminado, em que o velho e o novo
+mundo se confundem, discutindo&#8213;com Bud&eacute; seu
+bibliothecario, com Duchatel seu leitor, com os
+dois irm&atilde;os du Bellay, os celebres humanistas
+da Renascen&ccedil;a franceza, seus favoritos e commensaes,&#8213;um
+dialogo de Plat&atilde;o que tivesse acabado
+de l&ecirc;r em grego, um verso de Virgilio de
+que ella houvesse ha pouco saboreado o nectar
+subtil, servido na lingua de ouro do seculo de
+Augusto; uma apostrophe de Cicero, nas suas
+<span class="pagenum">[87]</span>
+Catilinarias, mais abrazada em rhetorica flamma;
+conversando com Marot, seu poeta e seu
+servidor, &aacute;cerca da medi&ccedil;&atilde;o e do
+rythmo de um
+hexametro ou de um hendecassyllabo; ou perguntando
+a todos elles, curiosamente, avidamente,
+informa&ccedil;&otilde;es &aacute;cerca do novo livro
+extravagante
+que um physico e antigo tonsurado
+chamado Rabelais acabava de dar &aacute; estampa em
+Ly&atilde;o, contando as mirabolantes e inverosimeis
+aventuras de Gargantua e Pantagruel, dois gigantes
+de quem ninguem at&eacute; alli ouvira falar, e
+de Panurgio, o maior sacripante que de memoria
+de homem f&ocirc;ra celebrado em lingua vulgar...
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots">
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ao reinado do prisioneiro de Pavia segue-se
+o do mystico e apaixonado Henrique II. Margarida
+eclypsa-se na sombra, e &aacute; musa dos poetas
+succede a inspiradora dos artistas &eacute;brios de
+enthusiasmo...
+<br />
+
+<br />
+
+No c&eacute;o da Renascen&ccedil;a azul e ouro, &eacute;
+Diana
+quem desponta... A Salamandra, emblema e
+symbolo do rei que arde continuamente na flamma
+impura do desejo, sem j&aacute;mais chegar a consumir-se,
+&eacute; substituida pela inicial de Henrique
+enla&ccedil;ada por dois crescentes symbolicos, e esta
+<span class="pagenum">[88]</span>
+data assim poeticamente indicada vale para a
+posteridade muito mais que a mais rigorosa
+chronologia marcada pelos sabios. Este anagramma
+amoroso representa um grande amor,
+um estranho sentimento que participa do mysticismo
+cavalleiresco e do sortilegio magico, do
+ideal mais puro e do
+<em>envo&ucirc;tement</em> mais pavoroso.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem &eacute; esta esbelta Diana, ligeira, airosa e
+bella? N&atilde;o o perguntem &aacute; Historia, que essa,
+implacavel como a verdade, falar-lhes-ha de
+uma velha furia, sedenta de dinheiro e de vingan&ccedil;as,
+esmagando os povos, que a maldizem,
+com o peso das contribui&ccedil;&otilde;es mais engenhosas,
+das que tiram o sangue e a pelle &aacute; plebe
+opprimida que se lamenta em v&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Perguntem-n'o &aacute; Arte, a magica divindade
+que transfigura tudo aquillo em que toca. Responder-lhes-ha
+a Diana de Jean Goujon, encostada
+familiarmente ao veado manso e bello que
+lembra o principe encantado das lendas, ou
+mais longe ainda, sempre modelada pelo sublime
+artista, contemplando amorosamente o mesmo
+bicho symbolico, que approxima da bocca
+finamente recortada da deusa a sua bocca de
+animal, como que a pedir o beijo mysterioso
+que quebre o encanto que o tem encarcerado
+<span class="pagenum">[89]</span>
+n'aquella f&oacute;rma inferior e que o restitua bello e
+victorioso &aacute; antiga f&oacute;rma humana.
+<br />
+
+<br />
+
+Responde-lhes a Nympha de Benevenuto
+Cellini, ora entre as f&eacute;ras que ca&ccedil;ou e os
+galgos que as perseguiram, ora estendendo-se
+voluptuosa junto &aacute; frescura das fontes, ora
+caminhando nua pelos campos, seguida pelo cortejo
+das nymphas que ella, a Diana immortal, a
+inspiradora dos eternos amores que n&atilde;o se extinguem,
+domina inalteravelmente pela altiva
+elegancia e pelo magestoso porte regio.
+<br />
+
+<br />
+
+De todas estas imagens estranhas, inverosimeis,
+de corpo longo e flexivel, que parecem copiar
+na pedra dura a fluidez das aguas correntes,
+o baloi&ccedil;o ondeante das hervas altas, a voluptuosa
+flexibilidade das lianas que se enredam
+e entrela&ccedil;am,&#8213;de todas estas imagens que
+a arte prodigalisou aqui, a nossa imagina&ccedil;&atilde;o
+comp&otilde;e uma s&oacute; figura, um s&oacute; vulto, uma
+s&oacute;
+imagem que as concretiza a todas.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a mulher amada e triumphante, a Diana
+dos encantos invenciveis e inviolados, a que
+pediu &aacute; deusa, sua madrinha o segredo dos
+filtros que fazem parte do seu culto antigo, para
+ser eternamente amada, contra o tempo, contra
+a fortuna, contra tudo...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[90]</span>
+A arte que a immortalisou no marmore devia-lh'o.
+Ninguem como ella fez da arte uma
+auxiliar, uma amiga, uma feiticeira cumplice
+dos seus encantamentos de mulher. Que importa
+o que diz a historia de Diana de Poitiers?
+Quem fala verdade &eacute; a Arte. De todas as mil
+illus&otilde;es de que a vida se faz e se comp&otilde;e,
+s&oacute;
+ella &eacute; mais intensa do que a realidade, e mais
+verdadeira do que a verdade!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>XI
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Uma das excurs&otilde;es feitas por mim com
+mais prazer &eacute; a dos Museus, tanto artisticos
+como historicos.
+<br />
+
+<br />
+
+Deixo para mais tarde falar no que senti
+em frente de alguns quadros do Louvre ou do
+<em>Museu de Madrid</em> e vou falar agora da
+minha
+visita ao museu Carnavalet. O palacio em que
+este museu est&aacute; estabelecido pertenceu a Madame
+de S&eacute;vign&eacute; e foi habitado por ella; d'aqui
+a quantidade de recorda&ccedil;&otilde;es d'esta mulher
+encantadora,
+que o povoam e para mim o tornam
+particularmente interessante.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha logo &aacute; entrada um busto d'ella que me
+fez parar enlevada em contempla&ccedil;&atilde;o de uma
+das physionomias mais espirituosas e mais
+<span class="pagenum">[92]</span>
+sympathicas que o Passado legou aos nossos
+dias.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>nez carr&eacute;</em> de que ella
+fala nas suas cartas,
+e que tornaram celebre os seus contemporaneos
+referindo-se tantas vezes a elle, l&aacute;
+est&aacute;, mas sem diminuir, antes accentuando o
+encanto da sua express&atilde;o. Os lindos cabellos
+penteados ao <em>nome d'ella</em>, (porque
+aquelle penteado
+de caracoes que enquadra t&atilde;o graciosamente
+o rosto feminil ficou sendo chamado <em>&aacute;
+Sevign&eacute;</em>) d&atilde;o um caracteristico
+especial &aacute; sua
+bella cabe&ccedil;a de juvenil matrona adoravel. O
+bom humor, a gra&ccedil;a gauleza sorriem na bocca
+espirituosa e finamente recortada.
+<br />
+
+<br />
+
+A gente n&atilde;o se espanta, ao ver este lindo
+busto de mulher, de que o original inspirasse
+verdadeiras e ardentes paix&otilde;es, e que at&eacute; aos
+sessenta annos houvesse, n&atilde;o quem a requestasse
+&aacute; moda de Ninon ou de Catharina da
+Russia, mas quem quizesse casar com ella, como
+quiz o duque de Luynes, que por signal foi repellido.
+<br />
+
+<br />
+
+Para mim, digo francamente, o <em>Museu
+Carnavalet</em>
+&eacute; Madame de Sevign&eacute; e n&atilde;o &eacute;
+mais
+nada. Este museu, extravagante contraste! est&aacute;
+cheio de recorda&ccedil;&otilde;es revolucionarias.
+L&aacute; est&aacute;
+<span class="pagenum">[93]</span>
+uma reduc&ccedil;&atilde;o feita, creio que em pedra, da
+Bastilha, l&aacute; est&aacute; uma galeria, por signal
+detestavel,
+de retratos dos vultos principaes da
+revolu&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Por debaixo da fileira de retratos em que
+figuram Mirabeau, Robespierre e Marat, est&aacute; a
+cadeira em que expirou Voltaire. A colloca&ccedil;&atilde;o
+pareceria propositadamente feita, sen&atilde;o fosse
+antes uma necessidade de symetria, pois que,
+encostada &aacute; mesma parede na outra extremidade
+da sala, est&aacute; tambem a cadeira em que
+expirou B&eacute;ranger.
+<br />
+
+<br />
+
+Entre Voltaire e os homens da Revolu&ccedil;&atilde;o a
+affinidade &eacute; vizivel para o espirito, mas o pobre
+B&eacute;ranger &eacute; que n&atilde;o vem aqui ao caso
+para cousa alguma, de modo que a inten&ccedil;&atilde;o
+philosophica que eu &aacute; primeira vista attribui
+aos conservadores do museu ficou prejudicada
+pela segunda id&eacute;a que elles tiveram de collocar
+a cadeira de B&eacute;ranger em symetria com
+a de Voltaire.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma conclus&atilde;o apenas me atrevo a tirar: &eacute;
+que em Fran&ccedil;a quem sahe do vulgar morre
+<em>de cadeira</em>. Incommodissima maneira
+de dar a
+alma ao Creador! Ainda bem que nem a B&eacute;ranger
+posso aspirar, quanto mais a Voltaire;
+<span class="pagenum">[94]</span>
+isto augmenta as minhas probabilidades de
+morrer deitada na propria cama, unica maneira
+pela qual me appetece sujeitar-me &aacute; sorte
+commum de todos os mortaes.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o venho, j&aacute; se v&ecirc;, fazer uma
+descrip&ccedil;&atilde;o
+miuda do <em>Museu Carnavalet</em>.
+Al&eacute;m de n&atilde;o ter
+fixado tanta cousa que vi&#8213;e que vai desde os
+tro&ccedil;os de ruinas e dos barros romanos achados
+em diversas excava&ccedil;&otilde;es recentes ou antigas,
+desde truncados monumentos, ou fragmentarios
+tumulos, pertencentes a epocas ainda anteriores
+ao dominio romano, at&eacute; a centenas de
+reliquias da Revolu&ccedil;&atilde;o&#8213;n&atilde;o acho que
+isso seja
+sufficientemente interessante para o leitor, a
+quem n&atilde;o posso communicar impress&otilde;es que
+n&atilde;o recebi.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha, por exemplo, no <em>Museu</em> uma
+collec&ccedil;&atilde;o
+enorme de caricaturas da &eacute;poca de Luiz Filippe,
+feitas, creio, que em barro. S&atilde;o hediondas. Tudo
+que teve um nome no reinado d'esse rei dos burguezes,
+burguez elle proprio dos p&eacute;s at&eacute; &aacute;
+cabe&ccedil;a,
+alli est&aacute; representado sob uma f&oacute;rma que
+produz <em>cauchemar</em>, &aacute;
+for&ccedil;a de irritantemente
+feia.
+<br />
+
+<br />
+
+Lembro-me por exemplo de uma cousa que
+me impressionou: uma ordem autographa de
+<span class="pagenum">[95]</span>
+Luiz XVI ordenando aos suissos da sua guarda
+que cessassem o fogo que estavam fazendo
+contra o povo. Ora, esta ordem&#8213;a ultima que
+elle assignou como rei&#8213;encerra nada menos
+que a sua abdica&ccedil;&atilde;o e a senten&ccedil;a da
+sua morte
+e dos seus.
+<br />
+
+<br />
+
+Acabada a resistencia, o monstro jacobino
+p&ocirc;de refocilar-se &aacute; vontade no sangue regio.
+Ninguem mais se levantou deante d'elle para
+obstar ao direito da sua vingan&ccedil;a secular.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo isso que em outro logar e em outra
+ordem de id&eacute;as me produziria a maior impress&atilde;o,
+alli apparecia-me inopportuno e deslocado.
+<br />
+
+<br />
+
+Como aquelles objectos friamente classificados
+me pareciam estranhos ao tempo de febre de
+que elles s&atilde;o as reliquias, por assim dizer, mumificadas!...
+&Eacute; preciso, para que certas recorda&ccedil;&otilde;es
+do passado nos &laquo;empolguem&raquo;, se apossem
+ardentemente de n&oacute;s, que as evoque a
+imagina&ccedil;&atilde;o omnipotente e creadora de um Michelet
+ou de um Carlyle! De outro modo, em
+vez de nos tornarem mais &laquo;vivo&raquo; o tempo a
+<span class="pagenum">[96]</span>
+que se referem, parece que o recuam indefinidamente
+nos limbos do passado.
+<br />
+
+<br />
+
+Um &laquo;museu&raquo; tira a vida aos objectos que encerra;
+n&atilde;o os conserva.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim como o processo de enterramento dos
+egypcios, creado em odio &aacute; morte, concorre
+para tornar mais saliente a id&eacute;a da morte, assim
+tambem o desejo de conservar certas reliquias
+parece que lhes diminue a realidade no
+passado. &Eacute; possivel que eu exprima muito vagamente
+uma cousa que sinto sem a saber
+muito bem traduzir, mas o leitor intelligente,
+que tem visto muitos museus e tem talvez sentido
+esta mesma desconsola&ccedil;&atilde;o, comprehende
+perfeitamente o que ella significa!
+<br />
+
+<br />
+
+Repito, pois: o encanto do museu Carnavalet
+tirei-o eu de mim mesma, evocando n'aquellas
+frias salas que percorri, acompanhada
+pelo indispensavel guia, as figuras que outr'ora
+as encheram de anima&ccedil;&atilde;o e vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Vi madame de Sevign&eacute; e o seu querido tio, o
+bom abbade de Livry, que t&atilde;o bem se sahiu
+da educa&ccedil;&atilde;o da sua querida e intelligente
+pupilla.
+<br />
+
+<br />
+
+Pareceu-me escutar as finezas hyperbolicas,
+que &aacute; moda do tempo, M&eacute;nage e Chapelain,
+<span class="pagenum">[97]</span>
+dirigiam cada um por seu lado &aacute; amavel e
+gentil Maria. M&eacute;nage resolveu ensinar-lhe
+italiano e hespanhol, e resolveu, o que &eacute; peior,
+apaixonar-se loucamente por ella. O bom pedante
+perdeu, j&aacute; se v&ecirc;, o tempo e o feitio que
+n&atilde;o era de amoroso, como egualmente o perdeu
+um homem que &eacute; o perfeito contraste
+d'elle, o cynico, o duellista, o
+<em>donjuanesco</em>
+Bussy Rabutin, que, depois de amar Madame
+de Sevign&eacute;, a odiou de morte, e depois de a
+odiar tornou a querer-lhe muito, encontrando-a
+sempre de pedra pura os seus transportes,
+mas capaz de apreciar o que havia de
+scintillante e caustico no seu espirito, de intrepido
+no seu valor, de melhor no seu pouco
+bom caracter. Viuva com vinte e dois annos,
+e em uma c&ocirc;rte licenciosa, em que ella propria
+se mostra cheia de estranhas indulgencias
+para os peccados alheios&#8213;tudo passou
+por ella sem lhe macular de leve a fimbria do
+seu vestido branco.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi admiravelmente virtuosa, sem ser por
+isso implacavel para as paix&otilde;es que a cercam,
+e que fazem d'esse tempo um capitulo do mais
+accidentado romance.
+<br />
+
+<br />
+
+Amiga extremosa de Fouquet, v&ecirc;-se em riscos
+<span class="pagenum">[98]</span>
+de sahir levemente compromettida do processo
+do Intendente de finan&ccedil;as, em cujo cofre
+de galantes segredos se encontram cartas
+d'ella. No emtanto essas cartas s&atilde;o simples
+pedidos em favor de um ou de outro protegido
+da marqueza, e se provam alguma cousa
+&eacute; a bondade, a generosidade do seu
+cora&ccedil;&atilde;o
+prompto a acudir e a valer. Se Fouquet guardava
+preciosamente esses bilhetes formalistas
+&eacute; porque talvez no cora&ccedil;&atilde;o do galante
+financeiro
+a formosa physionomia de madame de
+Sevign&eacute; tivesse produzido uma impress&atilde;o
+excepcional;
+mas isso n&atilde;o basta para comprometter
+uma mulher que as primeiras pessoas
+da c&ocirc;rte, em influencia e em virtude, protegem
+ardente e abertamente. Um dia Tonquedec, fidalgo
+da Bretanha, e o duque de Rohan-Chabot
+em casa d'ella, e por causa d'ella, armam
+uma especie de briga que conclue por um encontro
+no campo, como todas as brigas d'aquelle
+tempo. Nem por isso a fama de madame
+Sevign&eacute; soffre a mais leve arranhadura.
+Que culpa tem ella das loucuras e dos extremos
+que inspira a sua &laquo;razoavel&raquo; e formosa
+pessoa!
+<br />
+
+<br />
+
+O conde de Ludre esteve vae n&atilde;o vae a
+<span class="pagenum">[99]</span>
+vencer as resistencias mysteriosas d'aquelle
+cora&ccedil;&atilde;o de mulher que a precoce experiencia
+da vida endurec&ecirc;ra para o amor.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas, aquelle asseio de arminho, aquelle
+amor das cousas justas, rectas e claras, que &eacute;
+em certas mulheres um preservativo efficaz
+contra os desfallecimentos da vontade, e o exclusivismo
+ardente do seu amor materno, salvam-n'a
+d'essa tenta&ccedil;&atilde;o suprema, como a salvam
+do prestigioso amor de Turenne, da c&ocirc;rte
+persistente do principe de Conti, do amor
+claro ou disfar&ccedil;ado de tantos entre os melhores,
+entre os mais queridos e os mais felizes
+em aventuras femininas.
+<br />
+
+<br />
+
+No meio d'esse fogo que accende, a marqueza
+conserva-se alegre, calma, gostando das
+anecdotas picarescas bem contadas, prompta a
+receber uma confidencia escabrosa, comtanto
+que lh'a fa&ccedil;am com espirito e bom humor;
+indulgente para o amor da sua maior amiga
+pelo duque de la Rochefoucauld, indulgente
+para as historias mais ou menos salgadas que
+de todos os lados lhe v&ecirc;em aos ouvidos, dotada
+d'aquella philosophia tolerante que a mulher
+virtuosa tem como ninguem, porque sabe,
+como ninguem, o pre&ccedil;o da virtude.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>XII
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Insensibilidade? N&atilde;o de certo. Amor bem
+entendido de m&atilde;e, e medo talvez de soffrer
+mais do que soffrera j&aacute; na sua curta
+experiencia da vida conjugal, a que um duello
+infeliz&#8213;e por causa de uma mulher&#8213;tinha
+dado fim.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem soube no amor maternal p&ocirc;r tantos
+requintes de sensibilidade, t&atilde;o intensa paix&atilde;o,
+tanta vida, tanta abnega&ccedil;&atilde;o, t&atilde;o louco
+enthusiasmo,
+o que seria em outra ordem de sentimento
+em que taes excessos s&atilde;o quasi naturaes?
+O que a salvou foi talvez o exagero da
+propria sensibilidade. Teve medo de si. Sondou-se
+e percebeu de que loucuras seria capaz,
+amando, aquella que da maternidade serena e
+<span class="pagenum">[102]</span>
+calma soube fazer uma paix&atilde;o tempestuosa.
+Tendo bebido na infancia o amor dos grandes
+sentimentos &aacute; Corneille, de que a propria Mlle.
+de Scudery, a feiissima Sapho fez na sua obra
+vasta uma grandiloqua caricatura; iniciada
+pelos seus mestres M&eacute;nage e Chapelain nas
+extravagancias grandiosas da litteratura hespanhola;
+tudo que provavelmente via em torno
+de si estava longe de corresponder ao seu ideal
+de sacrificio eterno, de inalteravel constancia.
+D'ahi, provavelmente, o seu proposito firme de
+se refugiar no amor materno, extrahindo d'elle
+tudo que podia formar o alimento da sua alma
+exigente, ambiciosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois ella viveu em uma quadra e em um
+meio em que o papel de espectadora tinha o
+maximo interesse e podia satisfazer at&eacute; mesmo
+um espirito como o seu. Tudo que a cercava
+era digno de atten&ccedil;&atilde;o e de estudo. Tudo
+interessava, ensinava e dava ensejo para longas
+reflex&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Em cima Luiz XIV&#8213;o Jupiter que ella viu sempre
+com olhos de adora&ccedil;&atilde;o, de quasi deslumbramento,
+olhos com que o seu tempo o viu tambem,
+com que a posteridade continuaria a v&ecirc;l-o,
+se o desastre final de sua obra lhe n&atilde;o d&eacute;sse
+<span class="pagenum">[103]</span>
+a sorte que tem sempre os vencidos, e se Saint-Simon
+n&atilde;o tivesse revelado ao mundo, com a
+sua espionagem genial, o monstruoso egoismo,
+o acanhado espirito, a mediocre envergadura
+intellectual d'esse idolo com p&eacute;s de barro;&#8213;Luiz
+XIV que o amor divino e divinamente
+desinteressado da La Valli&egrave;re envolvera em
+uma nuvem de olympico prestigio. Abaixo d'elle,&#8213;tudo
+n'esse tempo ficava muito abaixo d'elle&#8213;essa
+adoravel Henriqueta de Inglaterra, fina,
+branca, lyrial, que a prematura morte embalsamada
+na eloquencia sublime de Bossuet, e a
+vida cheia de gra&ccedil;a, de encanto aristocratico
+e talvez de amor, transformaram na figura impregnada
+da poesia mais subtil d'aquelle periodo
+accidentado e romanesco. Em torno d'esses
+astros de primeira grandeza gravitam milhares
+de satellites de um brilho fulgurante e deslumbrador.
+<br />
+
+<br />
+
+O amor e a guerra, como nos romances da
+cavallaria antiga, fazem d'essa c&ocirc;rte alguma
+cousa de excepcional na Historia do mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+A guerra j&aacute; se v&ecirc;, n&atilde;o como a faziam
+Frederico
+da Prussia ou Napole&atilde;o, mas a guerra
+pomposa que celebrou pomposamente Boileau;
+a guerra em que os banquetes, as festas, os
+<span class="pagenum">[104]</span>
+bailes se entremeiavam aos combates; em que
+um cerco durava longos mezes, e cada marcha
+parecia uma cavalgada festiva...
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Mademoiselle</em>, a
+<em>grande Mademoiselle</em>, apaixonada
+por Lauzun chorava todas as lagrimas
+de seu corpo porque lhe n&atilde;o deixavam desposar
+o eleito do seu cora&ccedil;&atilde;o; a epop&eacute;a
+gentil
+das Longueville, das Chevreuses, das lindas e
+intrepidas heroinas da <em>Fronda</em>,
+andava ainda
+em todas as memorias e em todas as imagina&ccedil;&otilde;es.
+Hoje era Luiza de la Valli&egrave;re a mais
+doce martyr de um regio amor de que reza a
+Historia, que depois de pedir humildemente
+perd&atilde;o &aacute; sua rival coroada do escandalo que
+dera, fazia da ceremonia da sua consagra&ccedil;&atilde;o
+a Deus um d'estes acontecimentos palpitantes
+com que vibra uma gera&ccedil;&atilde;o inteira;
+amanh&atilde;
+&eacute; Montespan, a altiva Wasthi, a sultana magestosa
+que toma posse do seu logar de favorita
+com um impudor, uma soberba, uma pompa
+theatral, que escandalisam, que emocionam,
+que fazem trabalhar as pennas todas da
+c&ocirc;rte em <em>comptes rendu</em>
+mais ou menos pittorescos,
+mais ou menos eloquentes...
+<br />
+
+<br />
+
+Depois as guerras entre os Jesuitas e Port-Royal;
+a lucta theologica entre F&eacute;n&eacute;lon e Bossuet;
+<span class="pagenum">[105]</span>
+o apparecimento de uma tragedia de Racine;
+a publica&ccedil;&atilde;o dos
+<em>Caracteres</em> de La Bruy&egrave;re;
+as <em>Maximas</em> do Duque de
+Larochefoucauld;
+o livro de Madame de La Fayette; um serm&atilde;o
+do P&eacute;re Bourdaloue; um conto de La Fontaine;
+os acontecimentos os mais sagrados e os
+mais profanos, as leituras mais edificantes e
+as mais gaiatas, os incidentes mais comicos e
+os mais tragicos&#8213;tudo se succede, tudo se entrela&ccedil;a,
+fazendo da existencia um espectaculo
+t&atilde;o alegre, t&atilde;o variado, t&atilde;o
+divertido, t&atilde;o interessante,
+t&atilde;o <em>atordoador</em>, que facil
+foi a Madame
+de S&eacute;vign&eacute; resignar-se a n&atilde;o
+p&ocirc;r na sua
+propria vida interesses dramaticos, que outros
+se encarregavam de fornecer-lhe em profus&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Basta a curiosidade para encher a
+existencia</em>,
+disse algures Fontenelle. Esta
+<em>maxima</em> de
+egoista acha-se justificada pensando na vida
+de madame de S&eacute;vign&eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Onde ha espirito mais eminentemente
+<em>curioso</em>
+no sentido elevado e espiritual da palavra
+do que o d'esta eminente e deliciosa personalidade
+femenina?
+<br />
+
+<br />
+
+Ella tem a curiosidade intelligente de todos
+os phenomenos de ordem moral e intellectual.
+Interessa-a o espectaculo das paix&otilde;es humanas
+<span class="pagenum">[106]</span>
+e achou um theatro perfeitamente adequado ao
+genero de observa&ccedil;&otilde;es que mais a divertem.
+<br />
+
+<br />
+
+A c&ocirc;rte de Luiz XIV, antes que madame de
+Maintenon tivesse desdobrado sobre ella o v&eacute;o
+de hypocrita devo&ccedil;&atilde;o em que t&atilde;o
+cautelosamente
+se embrulh&aacute;ra, &eacute; tudo que ha de mais
+proprio a interessar, a apaixonar um observador,
+um moralista como Madame de S&eacute;vign&eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Moi qui aime tant &agrave; faire des
+reflexions</em>,
+esta phrase vem mil vezes nas suas adoraveis
+cartas. E que assumpto sempre vivo,
+sempre palpitante para reflex&otilde;es n&atilde;o &eacute;
+essa
+c&ocirc;rte, onde tudo que as paix&otilde;es humanas
+t&ecirc;em
+de mais ardente, de mais insaciavel, de mais
+caracteristico, de mais desordenado, se manifesta
+sob os mais variados aspectos e nas f&oacute;rmas
+mais pomposas...
+<br />
+
+<br />
+
+O amor sem outra lei que n&atilde;o seja a inconstancia
+e o capricho; a ambi&ccedil;&atilde;o sem outra
+restric&ccedil;&atilde;o e outro limite que n&atilde;o
+sejam os que
+fatalmente lhe imp&otilde;e a fraqueza humana; a
+inveja, a soberba, a cubi&ccedil;a mais desenfreada,
+o orgulho ao mesmo tempo mais feroz e o
+mais cheio de aberra&ccedil;&otilde;es inexplicaveis, orgulho
+que principalmente se compraz nos excessos
+mais abjectos do servilismo&#8213;e todos estes
+<span class="pagenum">[107]</span>
+diversos sentimentos, uns simples, outros
+complexos, uns harmonicos, outros contradictorios,
+manifestados atravez de caracteres em
+que ha ainda relevo, contorno accentuado, individualidade
+inconfundivel, energia pessoal.
+<br />
+
+<br />
+
+P&oacute;de haver espectaculo mais digno de interesse,
+contempla&ccedil;&atilde;o que sem talvez elevar o
+espirito o divirta e o instrua mais?
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute;, por&eacute;m, o jogo complicado,
+brutal ou
+subtil do interesse e das paix&otilde;es pessoaes, o
+unico objecto de estudo para o espirito de madame
+de S&eacute;vign&eacute;. Ella tem uma vasta leitura,
+uma aptid&atilde;o para se interessar pelos estudos
+mais aridos, quasi maravilhosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando a vida em Paris a can&ccedil;a, quando a
+sociedade habitual do seu sal&atilde;o come&ccedil;a a
+enfastial-a
+um pouco, quando as gra&ccedil;as de monsieur
+de Coulanges, a extrema amabilidade de
+d'Haqueville (o qual &eacute; t&atilde;o extraordinariamente
+servi&ccedil;al e de tal modo se multiplica para satisfazer
+os seus amigos que lhe mereceu a ella a
+alcunha de <em>Les d'Haquevilles</em>) lhe
+parece um
+tanto massadora, quando a gotta de M. de La
+Rochefoucauld o faz dar gritos que lhe excitam
+demasiadamente a sensibilidade, quando
+Le P&egrave;re Bourdaloue a tem fatigado de predicas,
+<span class="pagenum">[108]</span>
+quando emfim o <em>meio</em> habitual em que
+ella se move tem perdido, pela continua&ccedil;&atilde;o,
+um pouco do seu interesse e da sua novidade,
+quando as salas que ella frequenta e das
+quaes &eacute; o querido adorno mais precioso e
+raro, n&atilde;o offerecem assumpto nenhum que a
+satisfa&ccedil;a, quando a c&ocirc;rte est&aacute; em uma
+phase
+de semsaboria estacionaria, sem incidentes e
+sem dramas, eil-a que parte para Livry, ou
+para os <em>Rochers</em>, e ahi na paz
+deliciosa do
+campo, que ella e La Fontaine s&atilde;o no seculo
+XVII os unicos a <em>sentir</em>, passeia
+s&oacute;sinha debaixo
+das arvores, ouve o rouxinol, o cuco, e
+<em>la fauvette</em>, saboreia a
+gra&ccedil;a primaveril do arvoredo
+em flor, e consagra a noite a longas
+leituras em que ha de tudo, Tasso, Cervantes,
+Descartes, Racine, La Fontaine, at&eacute; Horacio,
+porque a encantadora marqueza sabia latim e
+at&eacute; o ensinou &aacute; filha.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O que mais celebre torna deante da posteridade
+Mme. de Sevign&eacute;, o seu amor pela filha,
+&eacute; a maior prova de quanto p&oacute;de a
+illus&atilde;o
+sobre um cerebro, sobre um cora&ccedil;&atilde;o de mulher!
+<span class="pagenum">[109]</span>
+Mme. de Grignan, <em>la plus belle fille de
+France</em>,
+como lhe chamavam os que queriam por
+uma tocante atten&ccedil;&atilde;o lisongear o
+cora&ccedil;&atilde;o da
+m&atilde;e, n&atilde;o &eacute; realmente digna por motivo
+nenhum
+da adora&ccedil;&atilde;o que inspira. Pedante, interesseira,
+ambiciosa, gastadora, ingrata sobretudo,
+ingrata para essa m&atilde;e adoravel cujo
+crime unico foi preferil-a em tudo ao irm&atilde;o,
+Carlos de Sevign&eacute;, t&atilde;o sympathico quanto ella
+&eacute; antipathica, t&atilde;o dedicado quanto ella
+&eacute; egoista,
+t&atilde;o apaixonado pelas gra&ccedil;as, virtudes e encantos
+da m&atilde;e, quanto ella parece ser-lhes indifferente,
+Mme. de Grignan tem por unica virtude
+a de ter inspirado essas deliciosas cartas,
+em que um periodo longo e interessantissimo
+da Historia se reflecte com incomparavel vivacidade,
+com uma frescura, um pittoresco,
+uma anima&ccedil;&atilde;o que j&aacute;mais
+ser&atilde;o excedidos.
+<br />
+
+<br />
+
+No final da minha visita ao museu, quando
+eu tinha achado prazer infinito em evocar estas
+vis&otilde;es do passado, e muitas outras que n&atilde;o
+podem caber no limitado espa&ccedil;o d'estas notas,
+o guia que n&atilde;o sei porque tinha sympathisado
+commigo e com meu amavel companheiro, decidiu
+de si para si que n&oacute;s eramos dignos de
+ser apresentados ao conservador do museu,
+<span class="pagenum">[110]</span>
+Monsieur Cousin, que n&atilde;o sei se &eacute; parente do
+celebrado philosopho do eclectismo.
+<br />
+
+<br />
+
+Levou-nos, pois, a um gabinete reservado
+onde nos esperava uma encantadora surpreza.
+Monsieur Cousin vive fechado em uma pequena
+sala, furtada a todas as vistas profanas, imaginem
+com quem?
+<br />
+
+<br />
+
+Com madame de Grignan! N&atilde;o madame de
+Grignan em carne e osso, que isso n&atilde;o seria
+no fim de contas uma companhia por demais
+preciosa. Imagino que a convivencia de <em>la
+plus belle fille de France</em> n&atilde;o era
+t&atilde;o agradavel
+que a propria m&atilde;e, idolatra como era, n&atilde;o
+preferisse viverem em casas separadas, quando
+madame de Grignan vinha a Paris tractar das
+suas innumeras demandas, e discutir com juizes,
+advogados e procuradores como uma verdadeira
+<em>madame Pimb&ecirc;che</em> que era.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o, a maneira por que madame de Grignan
+se achava representada n'aquelle gabinete
+escondido, era por meio de um esplendido
+retrato de Mignard. A filha da encantadora
+marqueza apparece alli formosissima. Cabellos
+de um louro fulgurante, veneziano, o louro de
+Ticiano, ou de Palma Vechio; pelle branca,
+transparente, atravez da qual se sente gyrar
+<span class="pagenum">[111]</span>
+um sangue vivo e puro, olhos azues de uma
+belleza profunda e rara, penteado levantado na
+frente e voluptuosamente entrela&ccedil;ado de rubras
+fl&ocirc;res de romeira e de fl&ocirc;res brancas de
+laranjeira.
+<br />
+
+<br />
+
+No peito, completamente decotado, um ramo
+vi&ccedil;oso das mesmas fl&ocirc;res.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fl&ocirc;res de Proven&ccedil;a, fez-me notar Mr.
+Cousin, com aquella nota carinhosa na voz,
+que revela o namoro de um velho sabio, o
+namoro que o seu homonymo Cousin teve
+pela duqueza de Longueville e pela de Chevreuse!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fl&ocirc;res do meu Portugal, atalhei eu, que
+ao v&ecirc;l-as tivera tanta saudade do meu pequeno
+paiz longinquo.
+<br />
+
+<br />
+
+Se a minha antipathia a Mme. de Grignan
+n&atilde;o fosse fundada e irreductivel, tinha-a destruido
+de certo este adoravel retrato que a representa
+verdadeiramente formosa, e o que &eacute;
+mais, seductora! retrato que, apezar de ser de
+Mignard, parece feito na maneira ampla e superior
+dos grandes mestres.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim a viu o pintor, assim a viu sua m&atilde;e,
+assim a v&ecirc; em pensamento e feliz enlevo
+o velho conservador, que se fechou com ella
+<span class="pagenum">[112]</span>
+em um quarto e que a n&atilde;o deixa avistar se
+n&atilde;o a raros profanos!
+<br />
+
+<br />
+
+O meu passeio pelo Museu Carnavalet mais
+me confirmou na eterna ironia das cousas
+grandes ou pequenas!
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o posso deixar de confessar que, tirando
+as minhas evoca&ccedil;&otilde;es intimas, a melhor
+impress&atilde;o
+que de l&aacute; trouxe, deu-m'a o retrato
+da minha <em>inimiga pessoal</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>XIII
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Uma das horas mais commovidas da minha
+vida foi aquella em que entrei nos
+<em>Invalidos</em>
+para v&ecirc;r o tumulo de Napole&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Sei bem que &eacute; esta uma excurs&atilde;o obrigada
+aos viajantes da agencia Cook, aos
+<em>touristes</em>
+prud'hommescos da provincia, aos
+<em>badauds</em> de
+todas as origens, procedencias e classes.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas ter&atilde;o esses porventura sufficiente poder
+para banalisar uma figura como a do Imperador?
+<br />
+
+<br />
+
+Depois, eu fui criada por uma m&atilde;e enthusiastica
+de gloria, no culto quasi fanatico de
+Napole&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Para mim elle nunca foi, como para os meus
+compatriotas do principio do seculo, o <em>ogre
+da</em>
+<span class="pagenum">[114]</span>
+<em>Corsega</em>, o monstro peior que Nero e
+Caligula.
+Pelo contrario. As manchas do seu caracter
+s&oacute; muito mais tarde a historia m'as fez
+conhecer. Na minha mocidade n&atilde;o me falavam
+sen&atilde;o nos esplendores da sua fama e nos prodigios
+da sua heroicidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Tantas mudan&ccedil;as teem passado pela Fran&ccedil;a
+desde que, em uma ilha solitaria e longinqua do
+Oceano, o grande homem expirou, renegado e
+abandonado por todos os seus, que eu receiava
+encontrar l&aacute; muito esmorecida a sua memoria,
+muito apagados os vestigios de sua passagem.
+<br />
+
+<br />
+
+Enganei-me. A lenda napoleonica resuscita
+com insolito vigor n'essa Fran&ccedil;a de que ella
+foi a gloria ultima e inultrapassavel!
+<br />
+
+<br />
+
+Havia n'essa occasi&atilde;o justamente em Paris
+a exposi&ccedil;&atilde;o dos quadros de Meissonier, e essa
+exposi&ccedil;&atilde;o admiravel dominavam-n'a dois quadros,
+que nunca mais podem ser esquecidos
+depois de uma vez terem sido vistos.
+<br />
+
+<br />
+
+O primeiro quadro intitula-se <em>1807</em>.
+&Eacute; Napole&atilde;o
+depois de <em>Friedland</em>, triumphante,
+glorioso,
+acclamado.
+<br />
+
+<br />
+
+O Imperador ainda magro, esbelto e sobrio,
+monta o seu lendario cavallo branco, rodeia-o
+<span class="pagenum">[115]</span>
+um estado maior de marechaes deslumbrante
+e numeroso, a cada titulo dos quaes esta ligado
+um nome retumbante de batalha e de
+gloria; os seus granadeiros admiraveis, a sua
+velha guarda fanatisada e invencivel acclama-o
+em gritos que positivamente se <em>ouvem</em>
+na tela
+palpitante de Meissonier.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; o momento culminante da epopeia grandiosa.
+Sobejam os assombros, os crimes apparecem
+n'um esplendor de purpura que lembra
+menos a c&ocirc;r do sangue do que a c&ocirc;r da
+aurora!
+<br />
+
+<br />
+
+A tyrannia j&aacute; se revela em mil symptomas
+da vida do conquistador e da vida do imperante.
+Os povos j&aacute; perguntam n'um brado
+ululante de angustia em nome de que direito
+derrubam os seus thronos tradicionaes e lhe
+invadem os seus lares pacificos!
+<br />
+
+<br />
+
+Mas ah! mais forte do que esse gemido desolado
+das na&ccedil;&otilde;es invadidas, mais forte do que
+o choro convulso das m&atilde;es a quem arrancam
+continuamente os filhos, os mais bellos e os
+mais fortes,&#8213;&eacute; o clangor bellico do clarim que
+avisa a Fran&ccedil;a da suas victorias incontaveis!
+Lodi, Arcole, Rivoli, Marengo, Iena, Austerlitz,
+est&atilde;o em todas as boccas, produzem em todos os
+<span class="pagenum">[116]</span>
+cerebros o assombro, o respeito, o enthusiasmo!
+<br />
+
+<br />
+
+O segundo quadro&#8213;<em>1814</em>&#8213;&eacute;
+a retirada, &eacute;
+a derrota, &eacute; a melancolica derrocada do sonho
+gigantesco e sobrehumano.
+<br />
+
+<br />
+
+O heroe vem can&ccedil;ado, abatido e triste. Cavallo,
+cavalleiro, cortejo militar, paizagem
+circumdante, tudo respira a mesma desola&ccedil;&atilde;o
+e o mesmo abandono!
+<br />
+
+<br />
+
+A velha guarda ficou sepulta nos g&ecirc;los da
+inhospita Moscovia; os marechaes can&ccedil;ados,
+s&atilde;o os mesmos que v&atilde;o acceitar, suggerir a
+<em>d&eacute;ch&eacute;ance</em>
+proxima....
+<br />
+
+<br />
+
+Entre um anno, o da gloria soberba e unica,
+e outro, o da derrota universal, quantos crimes
+de lesa-na&ccedil;&atilde;o, de leso-direito, at&eacute; de
+leso-entendimento.
+Napole&atilde;o acab&aacute;ra por sentir aquella
+embriaguez dos Cesares que os atirava ao crime
+e &aacute; loucura em virtude de uma
+attrac&ccedil;&atilde;o irresistivel
+e fatal.
+<br />
+
+<br />
+
+Vencera todos e perdera o segredo indispensavel
+de se vencer a si proprio. D'aqui a
+ruina, d'aqui, depois da tragedia de Waterloo,
+o suplicio <em>prometheano</em> de Santa
+Helena!
+<br />
+
+<br />
+
+Bastavam estes dois quadros para dar a
+Meissonier o logar eminente que elle tem entre
+<span class="pagenum">[117]</span>
+os pintores francezes. Accusam-n'o de ser
+minucioso em demasia, de ter uma concep&ccedil;&atilde;o
+acanhada da arte, de dar muito mais atten&ccedil;&atilde;o
+aos pormenores que &aacute; esthetica geral da sua
+obra; mas estes dois quadros desmentem todas
+as accusa&ccedil;&otilde;es que lhe fazem os seus detractores.
+Meissonier comprehendeu a verdadeira
+grandeza, a grandeza epica, a que inspirou Homero
+e Cam&otilde;es; a que faz ainda hoje palpitar
+os frios cora&ccedil;&otilde;es d'esta era de industrialismo
+e de interesse egoista.
+<br />
+
+<br />
+
+O heroe que elle alli nos representa, tanto
+na hora estonteadora do triumpho, como na
+hora tragica da derrocada, &eacute; o mais importante
+dos <em>grandes homens</em>, no dizer de
+Carlyle,
+o que vale mais que todos os outros, porque
+&eacute; aquelle a quem a vontade de todos se subordina
+em um impeto de lealdade e adora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Eu tinha visto, havia pouco, os dois quadros
+famosos de que n&atilde;o posso nem sei descrever o
+interesse, a express&atilde;o, a intensa vida suggestiva,
+quando fui visitar nos <em>Invalidos</em> o
+tumulo
+de preciosa pedra, em que as cinzas de Napole&atilde;o
+est&atilde;o guardadas.
+<br />
+
+<br />
+
+L&aacute; est&aacute; elle cercado por doze silenciosas
+estatuas
+de marmore que symbolisam victorias,
+<span class="pagenum">[118]</span>
+e de bandeiras crivadas de balas que seu exercito
+conquistou.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o houve nada de banalmente curioso na
+minha visita; era uma romaria piedosa feita a
+um idolo da minha mocidade, &aacute; unica figura
+grandiosa que a edade moderna p&oacute;de apresentar
+em face das grandes figuras antigas que se
+chamam Alexandre ou Cesar.
+<br />
+
+<br />
+
+Em toda a parte o tenho visto; a sua figura
+que participa da Lenda e que &eacute; da Historia,
+protege ainda a Fran&ccedil;a como uma divindade
+tutelar contra a onda da <em>mediocracia</em>
+que avan&ccedil;a.
+N'esse paiz onde hoje apenas soam r&eacute;les
+nomes de r&eacute;les
+<em>politiqueiros</em>, echoa a pequena
+distancia um nome que vale mais que todas
+as outras glorias modernas. Que valem Frederico
+II ou Pedro o Grande, que vale Luiz XIV,
+que valem Cond&eacute; ou Turenne ou Luxemburgo,
+que valem Colbert ou Vauban, que valem Guilherme
+d'Orange, ou Malbourough, que valem
+Walenstein ou Carlos XII ao p&eacute; d'este homem
+estranho, homem do destino, que reuniu em
+si, a todas as qualidades brilhantes do guerreiro,
+as qualidades solidas do administrador; que
+foi legislador e soldado, que dominou e venceu
+a anarchia, que levou atravez do mundo
+<span class="pagenum">[119]</span>
+inteiro, do Sena at&eacute; ao Neva e do Tejo at&eacute; ao
+Vistula a id&eacute;a da Revolu&ccedil;&atilde;o, de que
+elle foi
+a formula tangivel, o propheta feito homem,
+a representa&ccedil;&atilde;o concreta e o visivel symbolo?!
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; por isso que s&oacute; na Antiguidade se encontram
+dois homens cuja miss&atilde;o excedeu em importancia
+universal aquella que Napole&atilde;o representou
+na Historia, e que esses dois homens
+s&atilde;o Alexandre e Cesar.
+<br />
+
+<br />
+
+As campanhas de Alexandre tiveram no desenvolvimento
+intellectual da Grecia e do mundo
+uma influencia enorme e decisiva:
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; para mim falar das maravilhas estrategicas
+d'essas campanhas, das quaes uma
+manobra celebre foi genialmente reproduzida
+por Napole&atilde;o em Austerlitz; mas o que interessa
+&aacute; humanidade inteira e por mim p&oacute;de ser
+lembrado, &eacute; a impuls&atilde;o gigantesca que a
+intelligencia
+do homem recebeu quando o genio
+grego foi pela primeira vez profundamente penetrado
+pelo genio do Oriente, quando os capit&atilde;es
+e os soldados da guerreira Macedonia
+venceram o amollecido imperio persa, e caminharam
+desde o Danubio at&eacute; ao Nilo, desde o
+Nilo at&eacute; ao Ganges, vendo cada dia cousas novas,
+<span class="pagenum">[120]</span>
+sentindo cada dia impress&otilde;es e suggest&otilde;es
+at&eacute; alli desconhecidas; quando elles estremeceram
+ao sopro gelido que vem dos paizes
+que se alastram ao longo do mar Negro, e foram
+quasi que asphyxiados, pelo simoun ardente,
+pelos vendavaes de areia dos desertos
+do Egypto; quando se assombraram deante das
+Pyramides que tinham resistido a vinte seculos
+de velhice, e interrogaram em v&atilde;o os obeliscos
+de Luqsor cobertos de indecifraveis hieroglyphos,
+e as longas fileiras de esphinges
+mudas, mysteriosas exhalando de si o pavor
+de um symbolo inexplicado! quando admiraram
+as estatuas colossaes de reis que na aurora
+do mundo haviam vivido e reinado, e se
+assentaram nos sal&otilde;es de Esar Haddon sobre
+os thronos dos velhos reis da Assyria que enormes
+le&otilde;es alados estavam sombriamente guardando
+havia seculos e seculos...
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; Grecia revelaram-se ent&atilde;o
+no&ccedil;&otilde;es do Universo
+que ella ignorava; maravilhas estranhas
+de uma civilisa&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o
+f&ocirc;ra feita como a
+sua de propor&ccedil;&atilde;o e de harmonia, mas que esmagava
+pela grandeza, e que se impunha pela
+for&ccedil;a colossal.
+<br />
+
+<br />
+
+Pela Iliada e pela Odyssea se percebe que
+<span class="pagenum"><a name="p121" id="p121">[121]</a></span>
+observadores eram os filhos subtis da alada
+Grecia.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo que elles ent&atilde;o viram e estudaram
+foi aproveitado mais tarde nas f&oacute;rmas de uma
+civilisa&ccedil;&atilde;o nova, mixto do que a hellenica
+teve de mais bello e a oriental de mais grandioso.
+<br />
+
+<br />
+
+E que sensa&ccedil;&otilde;es <a href="#e9">deliciosamente</a>
+novas lhe
+n&atilde;o daria essa paisagem que elles ent&atilde;o
+conheceram
+e na qual havia de tudo, desde os
+areaes sem fim at&eacute; aos Jardins do Indust&atilde;o;
+desde as miragens do deserto at&eacute; &aacute;s densas
+sombras das florestas profundas; desde as montanhas
+cuja crista se ia perder no seio das nuvens,
+at&eacute; &aacute;s redondas colinas esbrumadas em
+nevoa de um tenue c&ocirc;r de rosa; desde o tigre
+real de salto felino e ondeante e o elephante
+que em Arbelle fazia tremer a terra sob o
+peso gigantesco do corpo desforme, at&eacute; ao rhinoceronte
+e o hippopotamo, o camello, e o crocodilo,
+do Nilo e do Ganges; d'essa paisagem
+em que as arvores eram palmeiras e tamarindos,
+oleandros e verdes myrtaes; em que os homens
+tinham todas as c&ocirc;res e todos os trages;
+em que ao Persa acobreado succedia o Syrio
+queimado do sol, e o Africano c&ocirc;r da noite...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[122]</span>
+Tudo isto era um encantamento e uma surpreza,
+tudo isto continha e incluia em si resultados
+que assombraram o mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Os conhecimentos exactos, as no&ccedil;&otilde;es verdadeiras
+e positivas ac&ecirc;rca do universo, podem
+bem datar-se das campanhas famosas de Alexandre.
+Foi ent&atilde;o que se fez essa uni&atilde;o fecunda
+e miraculosa do espirito hellenico e do
+espirito oriental, a India, a Persia, a Babylonia,
+continham em germen Alexandria e as suas
+escolas, os Arabes e a sua civilisa&ccedil;&atilde;o ephemera
+mas deslumbrante...
+<br />
+
+<br />
+
+Quanto a Cesar, esse latinisou, romanisou o
+mundo at&eacute; ent&atilde;o descoberto; tornando possivel
+a sua posterior christianisa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Sob o sceptro dos Imperadores o mundo tinha-se
+feito romano, e d'alli veiu que sob o
+baculo dos primeiros Bispos elle poude fazer-se
+christ&atilde;o. N&atilde;o havia j&aacute; nem
+ra&ccedil;as que mutuamente
+se dilacerassem, nem religi&otilde;es que
+umas &aacute;s outras se contradissessem, nem tribus
+que entre si se combatessem... O Imperio
+novo estava maduro para receber o baptismo
+de uma s&oacute; religi&atilde;o, &aacute; qual as hordas
+barbaras viriam successivamente submetter-se...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[123]</span>
+&Eacute; ainda, por isso mesmo, que os que
+hoje v&ecirc;em na Historia a logica success&atilde;o
+de causas e de leis produzindo a logica success&atilde;o
+de phenomenos que s&atilde;o resultados, v&ecirc;em
+em Napole&atilde;o a for&ccedil;a ao servi&ccedil;o da
+id&eacute;a, o instrumento
+de uma grande transforma&ccedil;&atilde;o social
+obedecendo a uma miss&atilde;o superior, e cumprindo-a
+de uma f&oacute;rma perfeita. A Revolu&ccedil;&atilde;o
+franceza
+sem Napole&atilde;o, n&atilde;o chegaria a ser um facto
+historico, egual nos seus effeitos &aacute;
+proclama&ccedil;&atilde;o
+do christianismo, superior nas suas
+inten&ccedil;&otilde;es &aacute; Reforma do seculo XVI.
+<br />
+
+<br />
+
+Essa Revolu&ccedil;&atilde;o hoje t&atilde;o calumniada
+pelos
+mesmos que lhe gosam os resultados definitivos
+e os effeitos niveladores e libertadores,
+acabaria, a n&atilde;o dar-se o apparecimento fatidico
+de Napole&atilde;o, em uma anarchia ensanguentada
+da qual nem um principio se salvaria
+talvez. Napole&atilde;o sahido do meio da turba,
+como que encarnando em si a alma do povo,
+liberta da sua escravid&atilde;o secular, fez da
+Revolu&ccedil;&atilde;o
+um facto, um facto irreductivel, contra
+o qual nem a mais reaccionaria vontade p&ocirc;de
+nada. Em primeiro logar elle formulou em leis,
+as doutrinas revolucionarias; o seu codigo civil
+tem resistido a todas as mudan&ccedil;as de regimen
+<span class="pagenum">[124]</span>
+politico que ha setenta e oito annos tem
+convulsionado a Fran&ccedil;a &aacute; superficie, sem terem
+comtudo alterado a sua constitui&ccedil;&atilde;o civil e o
+seu regimen de propriedade; depois elle fez de
+uma Revolu&ccedil;&atilde;o local, que tinha por origem
+primeira os abusos financeiros, uma Revolu&ccedil;&atilde;o
+universal que levou o mundo a um dos
+periodos decisivos da sua marcha progressiva,
+e que transformou completamente a organisa&ccedil;&atilde;o
+social de toda a Europa moderna.
+<br />
+
+<br />
+
+Os seus exercitos assoladores como eram, e
+n&atilde;o os defenderei mesmo contra os que lhe
+chamam as hostes de Attila, os seus exercitos
+semearam, sem o saber, sem o querer talvez,
+a semente da liberdade por toda a parte onde
+levaram o lemma da usurpa&ccedil;&atilde;o e da tyrannia.
+Elles passaram, e sob os p&eacute;s d'essas legi&otilde;es
+terriveis que espalhavam o assombro e o pavor,
+ergueram-se por encanto institui&ccedil;&otilde;es novas,
+e os povos readquiriram a dignidade e a
+liberdade, ambas perdidas na abjecta subserviencia
+ao despotismo sem grandeza das modernas
+dynastias.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>XIV
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+As bellas theorias optimistas dos doutrinarios
+que haviam proclamado os <em>Direitos
+do homem</em>, a Egualdade, a Liberdade
+e a Fraternidade, a bondade innata da especie
+humana, o retrocesso &aacute; boa Natureza, o Culto
+da raz&atilde;o humana como a religi&atilde;o melhor e
+a mais infallivel, tinham produzido, ninguem sabia
+em virtude de que sortilegio hediondo, uma
+horda de freneticos cannibaes, devorando-se uns
+aos outros com delicia selvagem e requintes de
+odio e covardia, ao p&eacute; dos quaes empallideciam
+as descrip&ccedil;&otilde;es que o passado nos legou
+das suas peiores tragedias.
+<br />
+
+<br />
+
+Ninguem atinava como de t&atilde;o puras premissas
+tinham sahido t&atilde;o horrendos resultados;
+<span class="pagenum">[126]</span>
+ninguem podia explicar como do bem se gerara
+tanto mal, como do progresso das luzes
+se tinha feito t&atilde;o negra escurid&atilde;o, porque motivo
+inten&ccedil;&otilde;es t&atilde;o sublimemente generosas
+tinham
+produzido t&atilde;o monstruosos e contradictorios
+effeitos.
+<br />
+
+<br />
+
+A primeira embriaguez da liberdade sem
+restric&ccedil;&otilde;es e sem limites, produz sempre no
+homem esta demencia m&aacute;. A Historia assim
+o diz, mas n'esse tempo era apenas uma restrictissima
+minoria, a que sabia l&ecirc;r a Historia
+e colher as suas li&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Imagine-se que Napole&atilde;o n&atilde;o tinha
+ent&atilde;o
+surgido; que depois da orgia de sangue que
+se chamou Terror, e da orgia de lodo e vinho
+e que se chamou Directorio, n&atilde;o se erguia,
+mais alto que qualquer individualidade e qualquer
+institui&ccedil;&atilde;o, essa for&ccedil;a
+disciplinadora, organisadora
+dos partidos internos, subjugadora
+dos inimigos estranhos, t&atilde;o poderosa, t&atilde;o
+efficaz,
+t&atilde;o capaz de querer, t&atilde;o profundamente
+inimiga da anarchia mansa, que dissolve as
+na&ccedil;&otilde;es e da anarchia brava que as esphacella.
+<br />
+
+<br />
+
+A reac&ccedil;&atilde;o mais desbragada e mais insolita
+tomaria ent&atilde;o conta da Fran&ccedil;a, que n'esse momento
+decapitada, mutilada, exangue e sceptica,
+<span class="pagenum">[127]</span>
+n&atilde;o achava dentro de si nem uma energia
+redemptora, nem uma cren&ccedil;a activa, nem uma
+s&oacute; fibra que n&atilde;o estivesse morbidamente
+combalida.
+<br />
+
+<br />
+
+O sublime esfor&ccedil;o de tantos genios humanitarios
+seria por um longo periodo, que hoje
+n&atilde;o podemos calcular com acerto, inteiramente
+perdido; da Revolu&ccedil;&atilde;o restaria apenas a memoria
+dos seus inexpiaveis crimes. E porque
+havia rolado nos degraus da guilhotina a bella
+cabe&ccedil;a precocemente embranquecida de Maria
+Antonietta, e porque o pobre e burguez e inoffensivo
+Luiz XVI tinha expiado, como quasi
+sempre succede em politica, os erros e as faltas
+dos seus antecessores, acontecia que Montesquieu,
+Voltaire, Rousseau, Turgot, Condorcet
+teriam pensado, escripto, meditado, trabalhado
+em v&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem &eacute; que seria capaz de pacificar os partidos
+exasperados a n&atilde;o ser esse homem superior
+a todo o seu tempo, superior &aacute; sua ra&ccedil;a,
+e que p&ocirc;de congregar no mesmo fim:&#8213;fazer
+grande e gloriosa a patria commum;&#8213;os vencidos
+e os vencedores, os regicidas e os ex-emigrados
+os que tinham escapado por milagre
+&aacute;s proscrip&ccedil;&otilde;es jacobinas e os que as
+tinham
+<span class="pagenum">[128]</span>
+decretado, Fouch&eacute; e Talleyrand, os filhos
+da antiga aristocracia espoliada, e os
+triumphantes espoliadores que estavam na
+posse do que f&ocirc;ra d'ella?...
+<br />
+
+<br />
+
+E d'essa agglomera&ccedil;&atilde;o de interesses contrarios,
+de ambi&ccedil;&otilde;es que se excluiam, de classes
+que eram antagonicas por instincto e por
+circumstancias, de adversarios que se odiavam
+mutuamente, quem tirou a Fran&ccedil;a poderosa,
+affirmativa, unificada pelo mesmo codigo
+de justi&ccedil;a, enriquecida pelo mesmo regimen de
+propriedade, tendo conquistado a egualdade civil
+para todos os seus filhos, vendo abertas todas
+as carreiras para as individualidades que se
+distinguissem no seu seio, consolidadas todas as
+conquistas, emfim, d'essa liberdade que amea&ccedil;ara
+suicidar-se, envenenando no seu sangue
+aquelles que d'elle haviam sonhado nutrir-se?
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; este o papel cumprido por Napole&atilde;o na Historia,
+&eacute; esta a sua miss&atilde;o na Fran&ccedil;a; como
+foi
+sua miss&atilde;o no mundo espalhar, propagar os principios
+da Revolu&ccedil;&atilde;o que elle, sem talvez o querer,
+representava como ninguem!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[129]</span>
+Os que o julgarem mais tarde h&atilde;o de julgal-o
+assim, e h&atilde;o de perdoar ou escurecer, como
+succede com Cesar, como succede com Alexandre,
+os seus erros e defeitos pessoaes, os quaes,
+feito o balan&ccedil;o final, que s&oacute; o futuro
+far&aacute;, foram
+talvez mais uteis do que nocivos, porque contribuiram
+para o inutilisar no momento em que
+o seu papel deixava de estar em estreita harmonia
+com as circumstancias que necessitaram
+a sua coopera&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Ultimamente, por&eacute;m, desenvolveu-se no mundo
+a febre de atacar ou defender o caracter pessoal
+de Napole&atilde;o em <em>memorias</em>
+numerosissimas,
+em folhetos, em livros de historia, em pamphletos,
+em ensaios criticos, etc., etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem deu o <em>branle</em> a este movimento
+bibliographico
+extravagante, que tem como her&oacute;e
+Napole&atilde;o, foi Taine em um dos seus volumes
+sobre as <em>Origens da Fran&ccedil;a
+Contemporanea</em>,
+em que tra&ccedil;ou do grande homem um retrato,
+por todos conhecido hoje, retrato &aacute; Rembrandt,
+cuja belleza magistral n&atilde;o fere &aacute; primeira
+vista sen&atilde;o os verdadeiros entendidos, quer dizer
+os psychologos e os observadores e moralistas.
+<br />
+
+<br />
+
+Taine para desenhar Napole&atilde;o serviu-se do
+<span class="pagenum">[130]</span>
+seu velho processo de documentos miudinhos
+juxtapostos, que n&atilde;o &eacute; de certo o mais
+interessante
+para o grosso publico. Interrogou as testemunhas
+oculares, os criados, as damas de honor
+da Imperatriz Josephina, as pessoas que
+mais ou menos estiveram na intimidade e no
+contacto directo de Napole&atilde;o. Ora, &eacute; bem sabido
+<em>que n&atilde;o ha grande homem para o seu criado
+de quarto</em>, mas ainda assim Napole&atilde;o excede
+tanto a craveira commum e Taine sabe de tal
+modo vivificar os mortos documentos com que
+f&oacute;rma o seu <em>dossier</em> de
+investigador, a sua imagina&ccedil;&atilde;o
+auxiliou-o de tal modo, indo procurar
+nos <em>condottieri</em> do seculo XIV e XV,
+como Stendhal
+j&aacute; fizera antes d'elle, os antepassados cuja
+influencia hereditaria e atavica, se fez sentir com
+t&atilde;o pittoresco relevo no grande aventureiro do
+seculo XIX&#8213;que mais contribuem para a grandeza
+de Napole&atilde;o as accusa&ccedil;&otilde;es de Taine,
+que
+os elogios de mediocridades incapazes de entenderem
+a verdadeira grandeza.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; se v&ecirc; que um homem como Napole&atilde;o
+n&atilde;o
+p&oacute;de ser julgado pelo nosso codigo moral. O seu
+potente cerebro, o maior de certo que a determinados
+respeitos tem havido no mundo, n&atilde;o
+se deixa subordinar pelas leis fatalmente restrictas,
+<span class="pagenum">[131]</span>
+pelas quaes a simples humanidade tem
+de reger-se para mutuamente se supportar.
+<br />
+
+<br />
+
+A sua imagina&ccedil;&atilde;o portentosa p&otilde;e-n'o
+continuamente
+a dous passos do crime ou da loucura;
+as suas paix&otilde;es indomitas n&atilde;o conhecem
+regra, como n&atilde;o conhece obstaculos a sua vontade
+inflexivel.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; em virtude d'estas faculdades extraordinarias
+que elle &eacute; capaz de executar cousas que
+os outros nem em sonhos ousariam conceber.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o admira que as
+<em>memorias</em> do tempo lhe
+sejam muitas vezes contrarias. Elle teve de subjugar
+muitas vontades, de se contrap&ocirc;r a muitas
+ambi&ccedil;&otilde;es, de humilhar naturalmente muitas
+vaidades, de excitar muita inveja e muito despeito,
+para que os seus contemporaneos mais
+intimos sejam capazes de perdoar-lhe a grandeza
+excepcional de um destino que a todos
+offuscava.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o que ninguem p&oacute;de negar-lhe &eacute; o poder
+singular de seduc&ccedil;&atilde;o que o seu sorriso
+irresistivel,
+que o seu olhar de aguia exerciam.
+Venceu e dominou todos os que se lhe approximavam,
+e os proprios imperantes, seus inimigos,
+receberam, ao contacto d'aquella grandeza
+simples que o distinguia, o choque electrico que
+<span class="pagenum">[132]</span>
+se communicava fatalmente da alma d'elle &aacute;s
+almas com que a sua estava em contacto.
+<br />
+
+<br />
+
+O retrato de Taine indignou, por&eacute;m, apezar
+da sua incontestavel belleza artistica, apezar da
+sua express&atilde;o intensa de vida, dos toques
+<em>humanos</em>
+que o fazem palpitar, os adoradores de
+um Napole&atilde;o imaginario, todo virtudes burguezas
+de familia, e clemencia de <em>Moral em
+ac&ccedil;&atilde;o</em>
+e um escriptor francez para mim desconhecido,
+o Sr. Arthur Levy, acaba de publicar um
+grande volume com o fim de contrap&ocirc;r o verdadeiro
+Napole&atilde;o, o que elle chama <em>Napoleon
+intime</em>, ao terrivel grande homem descripto por
+Taine, e de contradizer o critico francez em todas
+as suas asser&ccedil;&otilde;es &aacute;cerca do caracter
+pessoal
+do Imperador.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, o <em>Napoleon intime</em> do Sr. Arthur
+L&eacute;vy &eacute; a
+mais falsa personagem historica que p&oacute;de imaginar-se,
+embora seja todo elle composto,
+como um mosaico laboriosissimo, de pedacinhos
+de cartas escriptas por Napole&atilde;o, e de pedacinhos
+de documentos de uma authenticidade incontestavel.
+<br />
+
+<br />
+
+O que mais irrita o auctor do <em>Napoleon
+intime</em>
+&eacute; a hereditariedade italiana, que Taine t&atilde;o
+logicamente lhe attribue. <em>Um burguez
+francez</em>
+<span class="pagenum">[133]</span>
+<em>dos quatro costados e com todas as virtudes
+m&eacute;dias e as qualidades mediocres da burguezia
+francesa</em> eis o que o Sr. Levy pretende
+fazer do heroe das Pyramides e de Austerlitz
+e de Arcole e de Wagram!...
+<br />
+
+<br />
+
+Sobre o tumulo de soberba pedra moscovita,
+que a piedade de nacionaes e estrangeiros
+visita quotidianamente em veneravel recolhimento,
+poder-se-hia escrever segundo o
+criterio do Sr. Arthur Levy, o que sobre a sepultura
+de um burguez de 1830 mandou gravar
+a familia consternada:
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Bom esposo, bom pae, bom filho e bom
+guarda nacional.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Napoleon intime</em> est&aacute;
+escripto, &eacute; verdade, com
+grande copia de referencias, de cita&ccedil;&otilde;es e
+documentos.
+Em primeiro logar, documentos e cita&ccedil;&otilde;es
+truncadas nada significam. Depois, quando
+muito, elles poderiam provar que uma das faces
+do multiplo caracter de Napole&atilde;o era essa que
+o Sr. Arthur Levy quer apresentar como predominante:
+isto &eacute;, uma certa fraqueza, que &eacute; frequente
+nos seres superiores para o seu
+<em>entourage</em>
+mais intimo, para a familia, para a mulher,
+para os amigos, sempre que os amigos
+lhe n&atilde;o resistiam.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[134]</span>
+O her&oacute;e de mil batalhas desde as campanhas
+da Italia e do Egypto at&eacute; essa admiravel campanha
+de Fran&ccedil;a, a de mais superior estrategia,
+segundo asseveram entendidos; o organisador,
+o administrador, o general extraordinario
+em cuja vis&atilde;o se gravava toda a topographia
+de um paiz, com os seus accidentes
+de terreno, os seus valles, e montanhas, os seus
+recessos, as suas planicies, os seus pontos mais
+fracos e os mais fortes, e que fazia d'essa
+sciencia rara a applica&ccedil;&atilde;o mais genial e
+a mais pratica; o homem de mil occupa&ccedil;&otilde;es
+simultaneas, que deslumbrava, pasmava, esfalfava
+os seus collaboradores subalternos; o
+violento, o apaixonado, o teimoso, o tyranno;
+o organismo de uma delicadeza de impress&otilde;es,
+de uma violencia de impulsos, de um apuro de
+sensibilidade excepcionaes; o que suggeria milagres
+e os fazia; o que subjugou e seduziu uma
+na&ccedil;&atilde;o inteira; a figura, emfim,
+<em>unica!</em> em toda
+a Historia moderna, que foi Napole&atilde;o, nem
+por um momento transparece nas paginas de
+uniforme e banal elogio que o Sr. Arthur Levy
+lhe consagra laboriosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+Napole&atilde;o antes queria, de certo, esse retrato
+&aacute;s vezes de um cr&uacute; realismo de toques, que Taine
+<span class="pagenum">[135]</span>
+lhe consagrou, do que o monotono panegyrico
+d'este seu incommodo admirador.
+<br />
+
+<br />
+
+Aquelle que eu fui ver aos <em>Invalidos</em>
+&eacute; talvez
+o Napole&atilde;o de Taine, o do Sr. Levy, oh! esse
+&eacute; que affirmo com a infallibilidade da minha
+intui&ccedil;&atilde;o de mulher, que n&atilde;o
+&eacute; de modo algum.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>Segunda parte
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>O fim do Paganismo
+</h3>
+
+<h4>
+(<span class="smallcaps">gast&atilde;o de boissier</span>)
+</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A litteratura franceza da actualidade &eacute; pouco
+abundante em obras fundamentaes de sciencia
+ou de historia, embora conte no seu seio dois
+dos historiadores mais brilhantes dos modernos
+tempos Renan e Taine. &Aacute; excep&ccedil;&atilde;o,
+por&eacute;m,
+d'estes dous grandes espiritos, que devem as linhas
+principaes da sua educa&ccedil;&atilde;o intellectual
+&aacute;
+Allemanha e &aacute; Inglaterra e nos quaes s&atilde;o
+profundamente
+sensiveis essas influencias estranhas&#8213;p&oacute;de
+dizer-se que a grande gera&ccedil;&atilde;o dos
+Michelet, dos Quinet, dos Auguste Comte n&atilde;o
+deixou herdeiros capazes de nobremente a representarem.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[140]</span>
+Contin&uacute;a, por&eacute;m, a escrever-se muito em
+Fran&ccedil;a, e como as qualidades eminentemente
+sociaveis d'esta na&ccedil;&atilde;o privilegiada a tornam apta
+para o seu grande papel de propagadora, de
+educadora dos espiritos, p&oacute;de bem accrescentar-se
+que n&oacute;s os europ&ecirc;us do Occidente quasi
+tudo que sabemos, o sabemos passado pelos livros
+da Fran&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Ou traduzidos para francez ou assimilados
+pelo espirito da Fran&ccedil;a, &eacute; por esse caminho que
+nos chegam todas as grandes id&eacute;as mais ou menos
+novas, elaboradas ou transformadas pela
+ra&ccedil;a anglo-saxonia, pela ra&ccedil;a germanica, ou
+pela ra&ccedil;a slava.
+<br />
+
+<br />
+
+Eu por mim lamento infinitamente que em
+Portugal a litteratura ingleza por exemplo seja
+t&atilde;o incompletamente conhecida. Tenho achado
+tantas vezes um gozo incomparavel na leitura
+de escriptores inglezes, que n&atilde;o posso deixar de
+sentir que esse intenso prazer intellectual n&atilde;o
+seja mais universalmente partilhado. E &eacute;-o t&atilde;o
+pouco que ha tempos uma amiga minha&#8213;muito
+instruida e <em>gr&atilde; ledora</em>
+por signal&#8213;me affirmava
+ter ouvido a um <em>homem de Estado</em>
+portuguez,
+ministro, e n&atilde;o sei que mais, se mais
+alguma cousa p&oacute;de haver que ministro, na opini&atilde;o
+<span class="pagenum">[141]</span>
+<em>imparcial</em> de quem o
+&eacute;,&#8213;affirmar audaciosamente
+que para provar a inferioridade
+mental da Inglaterra bastava dizer isto: <em>&eacute;
+que
+a Inglaterra n&atilde;o tinha uma litteratura!</em>
+<br />
+
+<br />
+
+Que a patria que viu nascer desde Chaucer e
+Spencer, at&eacute; Shakespeare, Milton e Byron, desde
+Bacon at&eacute; Herbert Spencer, desde Addisson
+at&eacute; Macaulay, desde Richardson at&eacute; Georges
+Elliot, desde Bunyan o inspirado da Religi&atilde;o
+at&eacute; Carlyle o inspirado da Historia&#8213;perd&ocirc;e
+as heresias do joven estadista, meu compatriota,
+cuja ignorancia me parece o estar realmente
+predestinando para governar e dirigir a
+nossa metaphorica N&aacute;u do Estado, por muitos
+annos e bons.
+<br />
+
+<br />
+
+Vinha tudo isto a proposito de eu ter hoje,
+contra o meu costume, de apresentar um livro
+francez t&atilde;o erudito, t&atilde;o profundamente e
+facilmente
+elaborado, t&atilde;o cuidadosamente feito sobre
+documentos authenticos, como se o firmasse o
+nome de um inglez estudioso, ou de um sabio
+allem&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O livro, chama-se <em>O fim do paganismo</em>
+e deve-se
+&aacute; penna autorisada e seria de Gaston Boissier
+da Academia Franceza, grande e sincero
+cultor da antiguidade latina e autor de obras
+<span class="pagenum"><a name="p142" id="p142">[142]</a></span>
+muito importantes sobre a historia das lettras
+classicas.
+<br />
+
+<br />
+
+A obra &eacute; enorme. Tem dous volumes macissos
+que tratam unicamente de assumptos estreitamente
+ligados ao seu titulo, mas apezar d'isso
+l&ecirc;-se com immenso agrado, porque &eacute; profundo
+sem ser pedante, &eacute; vivo sem ser desordenado
+e est&aacute; escripto com um sentimento intenso e
+profundo da &eacute;poca que o inspirou.
+<br />
+
+<br />
+
+Essa &eacute;poca &eacute; aquella em que as ultimas luctas
+religiosas se travaram no Occidente entre o
+Paganismo que expirava e o Christianismo que
+irrompia ardente, impetuoso, tumido de seiva,
+cheio de um longo futuro das <a href="#e10">entranhas
+fecundas</a>
+da humanidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Abre com o seculo IV pela convers&atilde;o de Constantino,
+isto &eacute;, pela christianisa&ccedil;&atilde;o do
+Imperio
+Romano, e fecha com a invas&atilde;o dos barbaros e
+com a destrui&ccedil;&atilde;o d'esse Imperio assombroso,
+que at&eacute; &aacute;s vesperas da sua completa
+anniquila&ccedil;&atilde;o
+fez o espanto at&eacute; d'aquelles mesmos que
+mais soffreram d'elle, e que n&atilde;o podiam cr&ecirc;r
+que elle fosse destruido!
+<br />
+
+<br />
+
+Ja se v&ecirc; que nos &eacute; impossivel em um artigo,
+ou mesmo em uma s&eacute;rie de artigos, resumir
+este trabalho que representa longos annos de
+<span class="pagenum">[143]</span>
+estudo e de paciente investiga&ccedil;&atilde;o; que reflecte
+a leitura aturada do mais enfadonho e difficil
+de todas as litteraturas, a da egreja primitiva e
+a de Roma decadente.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o queremos, por&eacute;m, deixar de anunciar
+este livro &aacute;quella classe de leitores que amam
+sinceramente o estudo, e principalmente o estudo
+da historia, um dos mais attractivos, um
+dos mais interessantes que existem no mundo,
+porque &eacute; um d'aquelles que suggerem mais variedade
+de pensamentos e mais extensa s&eacute;rie
+de impress&otilde;es intellectuaes.
+<br />
+
+<br />
+
+A que logo se destaca d'esta obra monumental
+de que tivemos a paciencia de l&ecirc;r attentamente
+as mil e tantas paginas &eacute; esta: Como
+nas mais diversas &eacute;pocas, os homens, tendo
+attingido um certo gr&aacute;u de
+civilisa&ccedil;&atilde;o, se parecem
+entre si!...
+<br />
+
+<br />
+
+Quantas similhan&ccedil;as frisantes, que identidade
+de pontos de vista encontramos entre os homens
+que figuraram no IV seculo da nossa &eacute;ra
+e os homens de hoje!
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o admira, por&eacute;m, isso tanto, logo que pensarmos
+que ha bastantes similhan&ccedil;as entre a
+phase de civilisa&ccedil;&atilde;o que atravessamos e a d'esse
+seculo que assistiu ao esphacelar de um immenso
+<span class="pagenum">[144]</span>
+imperio, ao fim tragicamente melancolico
+de uma religi&atilde;o, &aacute;
+transi&ccedil;&atilde;o violenta e brutal
+na distancia, mas menos violenta de facto
+do que a imagin&aacute;mos, de um regimen para outro
+que lhe era totalmente opposto.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; por uma historia systematicamente escripta,
+chronologicamente ligada pelos factos,
+que Gaston Boissier nos inicia n'essa quadra
+t&atilde;o afastada de n&oacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+O auctor preferiu um methodo muito mais
+captivante e talvez um pouco menos difficil.
+<br />
+
+<br />
+
+Tra&ccedil;a quadros differentes e livros completos
+em si. F&oacute;rma como que uma galeria de figuras
+typicas, cuja influencia se tenha feito sentir
+pela sua obra escripta ou pela sua ac&ccedil;&atilde;o directa
+sobre os contemporaneos.
+<br />
+
+<br />
+
+Escolhe aquelles que deixaram um nome celebre
+e analysa-lhes os livros, as cartas, as poesias,
+etc. etc. Pede &aacute; historia do tempo que lhe
+forne&ccedil;a os seus documentos mais incontestaveis
+e reconstrue com elles ou uma physionomia
+de Imperador ou uma figura de Poeta, ou
+uma veneravel e grandiosa imagem de Bispo
+ou de Doutor da nascente egreja.
+<br />
+
+<br />
+
+Constantino, o imperador convertido, Juli&atilde;o,
+o imperador apostata, s&atilde;o dois estudos de alto
+<span class="pagenum">[145]</span>
+interesse historico e psychologico. Em ambos,
+o auctor v&ecirc; dois convertidos, dois fanaticos,
+um do christianismo que se apossa da sua alma
+e a transporta em allucina&ccedil;&otilde;es supremas, outro
+dos velhos deuses, abandonados, cuja restaura&ccedil;&atilde;o
+prepara com paix&atilde;o fogosa e arrebatamento
+devoto.
+<br />
+
+<br />
+
+Nem Constantino &eacute; o ambicioso que muitos
+historiadores t&ecirc;em imaginado e descripto, nem
+Juli&atilde;o &eacute; o livre-pensador que Voltaire
+enthusiasticamente
+applaudia.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o duas almas sinceras que us&aacute;ram do poder
+illimitado que possuiam, para imporem &aacute;s
+almas dos outros a f&eacute; que os transportava. Juli&atilde;o
+vingava-se assim da oppress&atilde;o em que o
+tinham tido longos annos e associava &aacute; causa
+dos deuses vencidos a sua propria causa de
+opprimido e de victima.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No livro intitulado <em>O Christianismo e a
+Educa&ccedil;&atilde;o Romana</em>, Geston
+Boissier, o erudito
+escriptor, tra&ccedil;a o mais brilhante quadro
+d'essa educa&ccedil;&atilde;o antiga, cujo poderoso encanto
+&eacute; t&atilde;o penetrante, &eacute; t&atilde;o
+subtil que nunca mais
+<span class="pagenum"><a name="p146" id="p146">[146]</a></span>
+ella deixou de ser a base da instruc&ccedil;&atilde;o que o
+mundo tem dado aos seus modernos filhos.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi por meio da educa&ccedil;&atilde;o, dada publicamente
+por mestres pag&atilde;os &aacute; mocidade christ&atilde;,
+que
+os dois cultos inimigos se fundiram no cora&ccedil;&atilde;o
+e na imagina&ccedil;&atilde;o da humanidade. Sem
+darem por isso, os christ&atilde;os receberam a influencia
+do paganismo expirante, por meio
+dos livros dos seus poetas sublimes e dos seus
+admiraveis prosadores.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem bebera com o leite as inspira&ccedil;&otilde;es de
+Homero e de Virgilio; quem aprendera a bem
+pensar com Plat&atilde;o e a bem dizer com Cicero;
+quem recebera a magistral li&ccedil;&atilde;o da Philosophia
+e do Direito antigo; quem form&aacute;ra o
+seu espirito por esses moldes incomparaveis,
+n&atilde;o podia mais esquecer o mel de t&atilde;o doce
+eloquencia, a gra&ccedil;a de t&atilde;o perfeita poesia e
+a li&ccedil;&atilde;o viril de t&atilde;o alta sciencia
+philosophica!
+<br />
+
+<br />
+
+S. Jeronymo, Santo Antonio, <a href="#e11">Santo
+Agostinho</a>,
+os grandes doutores, os grandes luminares
+do christianismo, est&atilde;o todos penetrados,
+at&eacute; &aacute; medulla, d'essa influencia suprema e
+invencivel.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi, portanto, por meio da educa&ccedil;&atilde;o, que os
+<span class="pagenum">[147]</span>
+dois elementos, o pag&atilde;o e o christ&atilde;o, se fundiram
+harmoniosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; de um interesse profundo o quadro que
+Gaston Boissier desenha d'essa educa&ccedil;&atilde;o romana,
+t&atilde;o propria para formar chefes politicos
+e chefes militares incomparaveis. Mas no seculo
+IV da &eacute;ra christ&atilde; essa
+educa&ccedil;&atilde;o modificara-se
+muito, a ponto de j&aacute; n&atilde;o parecer a
+mesma, nem ser capaz de produzir os mesmos
+fructos. Um romano de grande familia
+n&atilde;o conhecia, nos tempos aureos da vida d'esse
+imperio, sen&atilde;o dois officios: a guerra e a politica.
+Aprendia no campo a guerra; a politica
+aprendia-a, n&atilde;o, lendo Aristoteles ou Plat&atilde;o,
+mas assistindo diariamente &aacute;s sess&otilde;es do
+Senado.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta educa&ccedil;&atilde;o pratica de uma efficacia admiravel
+fazia ent&atilde;o os valentes capit&atilde;es e os
+famosos dominadores politicos.
+<br />
+
+<br />
+
+A Inglaterra contemporanea, de todos os
+paizes modernos o que mais se parece com a
+Antiga Roma imperial, tambem cultiva a for&ccedil;a
+viril dos seus filhos nos mais variados
+<em>sports</em>
+que a desenvolvam; na nata&ccedil;&atilde;o, na nautica,
+nas corridas de cavallos, na lucta athletica,
+nos jogos da gymnastica moderna,&#8213;mais
+<span class="pagenum">[148]</span>
+sabia, embora menos esthetica do que a antiga,&#8213;e
+tambem come&ccedil;a, de muito mo&ccedil;os, a
+exercital-os na arte da palavra, na educa&ccedil;&atilde;o
+que forma os oradores, os <em>debaters</em>,
+os grandes
+parlamentares da eloquencia ou dos negocios.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas Universidades de Oxford e de Cambridge,
+ha <em>clubs</em> especialmente destinados
+&aacute; discuss&atilde;o
+dos negocios publicos, onde se prop&otilde;em
+e se debatem assumptos de interesse
+nacional e de politica geral.
+<br />
+
+<br />
+
+Mais tarde, quando os professores gregos
+se estabeleceram em Roma, os
+<em>grammaticos</em>
+e os <em>rhetoricos</em> tomaram conta da
+mocidade,
+ou nas escolas publicas, ou no seio das grandes
+familias.
+<br />
+
+<br />
+
+A Grecia cultivara com enthusiasmo a philosophia,
+a musica, a rhetorica, etc. Os Romanos,
+por&eacute;m, de uma inaptid&atilde;o esthetica t&atilde;o
+justamente reconhecida por Mommsen&#8213;n&atilde;o
+acceitaram com prazer, de quantas artes e
+sciencias lhes trouxeram os seus educadores
+gregos, sen&atilde;o a grammatica e a rhetorica. A
+philosophia affigurava-se-lhes um palavriado
+v&atilde;o e inutil; a geometria e as mathematicas
+s&oacute; os captivavam pelas suas
+applica&ccedil;&otilde;es de
+<span class="pagenum">[149]</span>
+utilidade pratica; eram para elles a arte de
+contar e de medir.
+<br />
+
+<br />
+
+A rhetorica, por&eacute;m, essa arte de falar que
+tanta influencia produzia na imagina&ccedil;&atilde;o antiga,
+impoz-se-lhes fatalmente ap&oacute;s as primeiras
+reluctancias do instincto conservador, que
+detestava tudo que era innova&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi ent&atilde;o que a educa&ccedil;&atilde;o dividida em
+dois
+ramos, fez da leitura e explica&ccedil;&atilde;o dos poetas,
+da critica e analyse das suas obras, a sua base
+fundamental.
+<br />
+
+<br />
+
+Ainda hoje a Inglaterra, sob as suas apparencias
+gothicas a mais <em>romana</em> das
+na&ccedil;&otilde;es,
+d&aacute; aos discipulos das suas universidades aquella
+f&oacute;rte educa&ccedil;&atilde;o classica que torna
+t&atilde;o substancial
+e t&atilde;o nobremente florida ao mesmo
+tempo a eloquencia dos seus grandes oradores.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>II
+</h4>
+
+<br />
+
+Sem podermos acompanhar o livro altamente
+instructivo de Gaston Boissier, nos variados
+assumptos que elle trata, sem tentarmos
+resumir os quadros magistraes da vida da antiguidade
+que elle tra&ccedil;ou, n'essas paginas t&atilde;o
+ricas de informa&ccedil;&atilde;o e t&atilde;o sobrias de
+c&ocirc;r, escolhamos,
+<span class="pagenum">[150]</span>
+para d'elles dar conta aos leitores, a
+quem este genero de trabalho interessa particularmente,
+alguns dos seus capitulos mais notaveis.
+<br />
+
+<br />
+
+A biographia de Tertuliano, um apologista
+do christianismo, que o mundo moderno conhece
+apenas de nome, apesar da sua celebridade
+theologica n&atilde;o p&oacute;de, por exemplo, interessar-nos
+tanto como a <em>Convers&atilde;o de Santo
+Agostinho</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Este Santo que conheceu at&eacute; &aacute; saciedade,
+at&eacute;
+&aacute; nausea, todas as delicias da volupia pag&atilde;, este
+joven elegante, que frequentou com tamanha
+paix&atilde;o litteraria as escolas de Carthago, este
+christ&atilde;o que seguiu com enlevo as prociss&otilde;es
+da <em>M&atilde;e dos Deuses</em>, e que
+no theatro devorou
+avidamente as pe&ccedil;as ligeiras do reportorio
+antigo&#8213;interessa-nos
+pela violenta crise mortal
+que determinou a sua convers&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Elle mesmo nos confessou em um livro que
+ser&aacute; sempre avidamente lido pelos prescrutadores
+insaciaveis do eterno abysmo humano,
+todas as grada&ccedil;&otilde;es, todos os cambiantes por que
+passou a sua alma sequiosa do Infinito e que
+procurava estancar a s&ecirc;de que tinha l&aacute; dentro
+de verdade e de luz, correndo atraz de todas
+<span class="pagenum">[151]</span>
+as sensa&ccedil;&otilde;es acres e pungitivas, sondando com
+curiosidade inquieta todos os segredos da Paix&atilde;o
+e do Prazer.
+<br />
+
+<br />
+
+Tanto mais meritorio &eacute; o sacrificio feito por
+Santo Agostinho, ao renunciar &aacute;s delicias da
+litteratura pag&atilde;, &aacute;s gra&ccedil;as da musa
+classica,
+aos encantos da sociedade polida e culta, quanto
+era sincero e apaixonado o amor que ella
+tinha por todos esses prazeres da intelligencia
+e dos sentidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Admirador de Virgilio, discipulo de Cicero,
+elle atirou-se por&eacute;m, com ardente desejo de
+achar n'ellas a verdade que lhe fugia, ao estudo
+das Escripturas. Ao principio a barbaria
+christ&atilde; revoltou o seu puro gosto. S&oacute; mais tarde
+&eacute; que, atrav&eacute;s da f&oacute;rma incorrecta
+d'essas
+traduc&ccedil;&otilde;es hebraicas feitas por escrupulosos e
+ignorantes christ&atilde;os, elle poude perceber as correntes
+puras e limpidas, os mananciaes de vida
+interior, as preciosas riquezas d'alma, que
+jorravam dos livros sagrados, e que vinham
+renovar a alma humana, vazar em moldes novos
+as suas aspira&ccedil;&otilde;es e os seus sonhos, crear
+uma nova f&oacute;rma de civilisa&ccedil;&atilde;o
+infinitamente
+mais rica e mais complexa do que essa, que a
+formidavel deprava&ccedil;&atilde;o romana tinha gasto
+<span class="pagenum">[152]</span>
+com os seus excessos orgiacos e os seus monstruosos
+e nunca vistos crimes!
+<br />
+
+<br />
+
+Todo o capitulo consagrado a essa bella figura
+do christianismo primitivo, a esse grande
+espirito que tanto concorreu para a organisa&ccedil;&atilde;o
+definitiva dos seus dogmas, e em que
+Gaston Boissier conta as suas luctas interiores
+e, finalmente, o triumpho soberbo da sua convers&atilde;o
+&eacute; de um interesse palpitante.
+<br />
+
+<br />
+
+Teem sempre actualidade para aquelles que
+pensam os intimos combates de uma consciencia
+sincera.
+<br />
+
+<br />
+
+Aos que f&ocirc;rem verdadeiramente
+<em>homens</em> nada
+do que &eacute; humano p&oacute;de ser estranho; e onde
+&eacute; que a maravilhosa planta d&aacute; a sua
+fl&ocirc;r mais
+desabrochada e mais perfeita do que n'esses
+typos luminosos, nos quaes o genio concretisou
+todos os seus esplendores, a vontade, todas
+as suas sublimes energias, a consciencia, todas
+as suas for&ccedil;as mysteriosas!...
+<br />
+
+<br />
+
+Santo Agostinho &eacute; o homem que amou, que
+aspirou, que conheceu a vida, que luctou e que
+venceu por fim, sobrepondo a todas as contingencias
+da existencia limitada e mesquinha
+o que elle na sua alta consciencia julgou ser
+a eterna verdade!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[153]</span>
+Subir t&atilde;o alto pela ac&ccedil;&atilde;o do seu
+proprio entendimento
+&eacute; conter dentro de si, em um momento
+cuja memoria n&atilde;o mais se anniquilla,
+fecundando eternamente outras almas e outras
+existencias;&#8213;aquella por&ccedil;&atilde;o de
+<em>elemento divino</em>
+que &eacute; dado &aacute; fr&aacute;gil humanidade
+realisar e encarnar
+em si bem raras vezes.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o estas almas superiores as eternas bemfeitoras
+da nossa ra&ccedil;a imperfeita, t&atilde;o grande
+pelo que sonha, t&atilde;o mesquinha pelo que consegue
+executar.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>As origens da poesia latina
+christ&atilde;</em>, que
+comp&otilde;em o livro 4.&ordm;, no segundo volume,
+s&atilde;o
+tambem cheias de interesse e novidade para
+quem n&atilde;o est&aacute; costumado&#8213;e quem o est&aacute;
+hoje em dia?&#8213;a versar t&atilde;o remotos assumptos!
+<br />
+
+<br />
+
+A litteratura christ&atilde; nasceu como j&aacute; dissemos
+da mistura que se fez durante tres seculos
+da antiguidade profana e do christianismo.
+<br />
+
+<br />
+
+Aos que conhecem e apreciam a litteratura
+dos grandes seculos da Grecia e de Roma,
+deve incontestavelmente parecer mediocre,
+quasi insupportavel, essa rude e incorrecta litteratura,
+onde o melhor era imitado ainda assim,
+<span class="pagenum">[154]</span>
+com inconsciente impudor, dos modelos
+antigos.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas muito embora ella n&atilde;o tenha valor litterario,
+ninguem p&oacute;de negar-lhe um grande
+valor historico.
+<br />
+
+<br />
+
+O grande abalo moral que o Christianismo
+imprimira &aacute;s almas n&atilde;o tem comtudo, um
+&eacute;co
+que lhe corresponda na poesia d'este tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Era muito imperfeito o instrumento d'essa
+lingua latina em dissolu&ccedil;&atilde;o na qual tantos
+povos varios tinham introduzido as suas locu&ccedil;&otilde;es
+barbaras, e que manejada por humildes
+artifices ignorantes as mais das vezes, perdera
+o sabor e a gra&ccedil;a ampla e perfeita da
+aurea latinidade.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o p&oacute;de pois ser classificada como uma
+obra de litteratura, a serie de escriptos, que
+essa era,&#8213;no entretanto fecunda e na qual
+se estavam surdamente e subterraneamente
+elaborando tantos elementos novos&#8213;produziu
+e nos legou.
+<br />
+
+<br />
+
+N'esse tempo cumpria-se justamente um dos
+maiores acontecimentos da Historia.
+<br />
+
+<br />
+
+O mundo estava sendo revolvido at&eacute; &aacute;s
+suas entranhas mais profundas.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia dramas intimos em cada consciencia,
+<span class="pagenum">[155]</span>
+parecidos com esse, de que Santo Agostinho
+nos representa o mais elevado typo; havia
+luctas dolorosas em cada familia; em uns
+a s&ecirc;de do martyrio tinha voluptuosidades
+violentas; em outros a plenitude da paz religiosa
+attingia uma especie de beatifico esplendor.
+Que novas sensa&ccedil;&otilde;es de uma intensidade
+inultrapassavel conheceram ent&atilde;o as almas!
+Que fontes de gra&ccedil;a mysteriosa jorraram
+subitamente n'esses renovados cora&ccedil;&otilde;es!
+Os crentes elevaram o espirito n'um extase at&eacute;
+alli desconhecido. A vida eterna abria as portas
+resplandecentes aos sequiosos do eterno <em>au
+de l&aacute;</em>. Jesus Christo mostrava as chagas do
+seu corpo, e os estygmas do seu martyrio affrontoso
+aos que sentiam subir na alma como
+uma mar&eacute; mysteriosa, o novo sentimento do
+amor, a divina emo&ccedil;&atilde;o da piedade fraternal,
+que subito fizera todos os homens irm&atilde;os, e
+todos os irm&atilde;os soffrendo a partilha angustiosa
+da mesma agonia!
+<br />
+
+<br />
+
+O Evangelho revelava as suas lendas cheias
+de gra&ccedil;a, as suas parabolas de idyllica innocencia,
+as suas li&ccedil;&otilde;es de simples e ineffavel
+bondade, aos saciados de uma civilisa&ccedil;&atilde;o
+dissoluta
+e abominavel!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[156]</span>
+Todos tinham um quinh&atilde;o n'aquella heran&ccedil;a
+preciosa!
+<br />
+
+<br />
+
+Para todos havia p&atilde;o e vinho n'aquella ceia
+symbolica, em que as almas rejuvenescidas por
+um sopro de amor commungavam maravilhadas!
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute;, por&eacute;m, na litteratura, mesmo
+nos
+mais rudes ensaios da litteratura christ&atilde; do
+tempo, que este mundo de emo&ccedil;&otilde;es novas tem
+o seu perduravel reflexo.
+<br />
+
+<br />
+
+A alma do povo, na sua fecundidade prodigiosa,
+desatou-se, abalada por este impulso
+que a transfigurava e sacudia, em id&eacute;as, em
+typos, em imagens, em lendas, que a Arte
+Christ&atilde; em todos os seus periodos tem largamente
+aproveitado. Em dois seculos, do segundo
+ao quarto seculo, a imagina&ccedil;&atilde;o christ&atilde;
+elaborou e amontoou thesouros que enriqueceram
+o mundo moderno.
+<br />
+
+<br />
+
+Os evangelhos apocryphos gerados espontaneamente
+pela alma popular, no tempo do
+christianismo primitivo, s&atilde;o os thesouros mais
+ricos em que essa imagina&ccedil;&atilde;o se desentranhou.
+<br />
+
+<br />
+
+A mais doce, a mais imaginosa poesia do
+christianismo encontra-se alli. Todas as lendas
+<span class="pagenum">[157]</span>
+que fizeram o encanto da nossa infancia,
+e que emballaram tambem com o seu rythmo
+dulcissimo a risonha infancia da alma moderna,
+s&atilde;o tiradas d'essa poesia anonyma, em
+que todas os almas collaboraram em um enleio
+religioso, e em uma f&eacute; palpitante e suggestiva,
+inconsciente dos prodigios que creava.
+<br />
+
+<br />
+
+Essa &eacute; que &eacute; a verdadeira litteratura
+christ&atilde;,
+aquella em que as for&ccedil;as espontaneas que geram
+os mythos e os adornam com todas as flores
+da mais variada poesia, se revelam com
+encantadora eloquencia.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Passando em claro os capitulos consagrados
+a S. Paulino de Nola, um santo gaulez que
+inspira uma sympathia patriotica a Gaston
+Boissier; o capitulo que tracta da vida e das
+obras do poeta Prudencio; e muitos outros
+que est&atilde;o cheios de revela&ccedil;&otilde;es sobre a
+quadra
+que descrevem, e em que n&oacute;s os leitores
+podemos reconstituir com intenso colorido
+esse seculo estranho, em que um periodo da
+Historia da humanidade findava e outro principia
+a destacar-se nitidamente&#8213;paremos
+<span class="pagenum">[158]</span>
+deante do <em>Livro quinto</em> do 2.&ordm; vol.
+que tem
+este titulo que &eacute; s&oacute; por si um regalo para os
+<em>gulosos</em> de taes estudos:
+<em>A sociedade pag&atilde; nos
+fins do seculo IV</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas percebo agora que cheguei ao fim do
+espa&ccedil;o de que posso disp&ocirc;r. E este capitulo de
+costumes,&#8213;em que uma sociedade aristocrata,
+culta, amiga das lettras, fastienta at&eacute; ao requinte,
+frivola at&eacute; &aacute; dissipa&ccedil;&atilde;o,
+muito occupada
+de elegancias mundanas, de conven&ccedil;&otilde;es e
+de cerimonias, muito sceptica, separada por um
+abysmo do mundo moderno cujos representantes
+eram justamente os que compunham a seita
+que ella teimava a desprezar como plebeia,
+humilde e ignorante, mesmo depois de fazerem
+parte d'ella homens de valor moral de
+Agostinho,&#8213;este capitulo, digo em que uma
+sociedade t&atilde;o parecida com a nossa com os
+mesmos preconceitos, com os mesmos vicios,
+com a mesma despreoccupa&ccedil;&atilde;o do perigo
+est&aacute;
+posta de p&eacute;, com admiravel vigor, precisa de
+um artigo especial que muito proximamente
+lhe consagrarei.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>III
+</h4>
+
+<br />
+
+O methodo de Gaston de Boissier &eacute;, com algumas
+<span class="pagenum">[159]</span>
+modifica&ccedil;&otilde;es secundarias, o methodo de
+Taine.
+<br />
+
+<br />
+
+Para penetrar uma sociedade, o erudito escriptor
+estudou a sua litteratura. Para comprehender
+bem a litteratura de um dado periodo
+elle procura conhecer e investigar cuidadosamente
+a vida dos seus escriptores. Cada typo
+representativo&#8213;<em>representative man</em>,
+dizem
+os inglezes&#8213;d&aacute;-lhe o segredo das id&eacute;as, dos
+sentimentos que predominavam em uma determinada
+&eacute;poca.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim para dar a conhecer aos seus leitores a
+alta sociedade romana do quarto seculo, Gaston
+Boissier vae l&ecirc;r e faz-nos l&ecirc;r a n&oacute;s as
+cartas
+de Aurelio Symmachus&#8213;personagem de que
+muitos dos seus leitores e dos leitores benevolos
+d'este estudo, encurralados na extrema
+especialisa&ccedil;&atilde;o
+da educa&ccedil;&atilde;o moderna, nunca de
+certo ouviram falar.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos sabem, que as cartas de Plinio, o
+mo&ccedil;o, e as cartas de Cicero lan&ccedil;am uma grande
+luz sobre a sociedade da sua &eacute;poca, e concorreram
+como documentos admiraveis para que
+a moderna critica, t&atilde;o erudita e t&atilde;o
+comprehensiva,
+reconstituisse atrav&eacute;s d'ellas a alma da
+Antiguidade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[160]</span>
+Pois Gaston Boissier pede &aacute;s cartas muito
+menos caracteristicas de Symmachus o mesmo
+impagavel servi&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N'aquelle tempo, t&atilde;o proximo da hora em
+que Alarico viria bater &aacute;s portas de Roma,
+ninguem percebe a imminencia do perigo que
+amea&ccedil;ava a sociedade antiga.
+<br />
+
+<br />
+
+Symmachus occupa-se muito pouco dos negocios
+publicos; acha-os, ou &laquo;nullos ou de pequena
+importancia.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Quem l&ecirc; as correspondencias, ali&aacute;s adoraveis
+dos grandes amadores da
+<em>epistolographia</em>
+no seculo XVIII, tambem n&atilde;o percebe n'ellas
+o minimo rebate dos perigos que amea&ccedil;am o
+regimen que ia esboroar-se em sangue e em violencias
+tremendas. Nem o proprio Voltaire, t&atilde;o
+agudo de intelligencia, t&atilde;o perspicaz, t&atilde;o
+penetrante,
+e que t&atilde;o activamente collabor&aacute;ra na
+propaganda a que se deveu a Revolu&ccedil;&atilde;o, percebe
+levemente a responsabilidade que assumia,
+e as tempestades que elle cre&aacute;ra com a
+sua palavra de fogo.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas vesperas das grandes crises que iam
+transfigurar o mundo, occupam-se todos de galantarias,
+de ditos graciosos, de versinhos bem
+<span class="pagenum">[161]</span>
+feitos, de anecdotas de velado escandalo, de intrigas
+de amor ou de ambi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem presente sequer que Danton vai trovejar
+e que Robespierre vai sorrir sinistramente
+e que d'esse trov&atilde;o e d'esse sorriso vai
+surgir um mundo novo?
+<br />
+
+<br />
+
+Tambem hoje, um seculo depois da Revolu&ccedil;&atilde;o,
+quando, feitas todas as conquistas politicas,
+a alma inquieta, e nunca satisfeita, do homem
+reclama imperiosamente a solu&ccedil;&atilde;o prompta, radical
+do terrivel problema da miseria&#8213;quem
+&eacute; que percebe nos sal&otilde;es de Paris, de Londres,
+de Nova-York e de Berlim que a terrivel
+liquida&ccedil;&atilde;o est&aacute; a chegar, e que uma
+era
+tenebrosa de anarchia e de lagrimas, de ruinas
+e sangue espera porventura os que teimarem
+em viver muito?
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; da lei das sociedades n&atilde;o perceberem nunca
+claramente as transforma&ccedil;&otilde;es que se
+est&atilde;o
+elaborando no proprio seio d'ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Como quer que seja, a verdade &eacute; que o
+grande senhor romano, cujas cartas nos interessam
+n'este momento, se n&atilde;o preoccupa absolutamente
+<span class="pagenum">[162]</span>
+nada com os negocios do Imperio.
+Comquanto no seu tempo o Senado seja ainda
+um corpo importante, elle perdeu comtudo o
+seu antigo esplendor.
+<br />
+
+<br />
+
+Os Senadores deixaram de ser grandes e
+poderosos magistrados, mas conservam-se uma
+classe activa, eminentemente aristocratica, impondo,
+ja se v&ecirc;, a moda e dominando os costumes.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; justamente a transforma&ccedil;&atilde;o que se
+opera
+na aristocracia europ&ecirc;a, entre o fim do seculo
+XVII e o principio do seculo XVIII. Occupam grandes
+cargos honorarios na c&ocirc;rte imperial, como
+os fidalgos francezes de que nos fala Saint-Simon&#8213;e
+dominam&#8213;o que tambem frequentemente
+lhes succedia a elles&#8213;na administra&ccedil;&atilde;o
+interna das provincias romanas.
+<br />
+
+<br />
+
+Um dos encargos e das honras, que estes
+ultimos teem e conservam zelosamente, consiste
+no caro privilegio de dar jogos publicos
+ao povo. O <em>p&atilde;o</em> e
+<em>espectaculos</em>, de que fala Juvenal,
+continuam a ser at&eacute; &aacute; final
+dissolu&ccedil;&atilde;o
+do Imperio, as unicas necessidades da plebe romana.
+Muitas cartas de Symmachus, que era
+conservador das tradi&ccedil;&otilde;es antigas, tratam
+exclusivamente
+de encommendas de feras e de
+<span class="pagenum">[163]</span>
+animaes, feitas aos amigos que elle tinha em
+todo o mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Na occasi&atilde;o de investir da pretura o seu filho
+primogenito gastou elle uma somma equivalente
+a dois milh&otilde;es de francos.
+<br />
+
+<br />
+
+Para todos os lados manda emissarios encarregados
+de lhe trazerem artistas de merito,
+bichos raros, ornamentos estranhos, sumptuosos
+e imprevistos, com que elle possa deslumbrar
+os olhos da plebe e manter a sua popularidade.
+<br />
+
+<br />
+
+N'este ponto n&atilde;o podemos accrescentar que
+o mundo moderno tenha similhan&ccedil;as com a
+sociedade antiga. Entre as nossas elei&ccedil;&otilde;es
+constitucionaes e estas festas populares com
+que se comprava o affecto do povo, a differen&ccedil;a
+n&atilde;o &eacute; realmente t&atilde;o pequena como isso.
+<br />
+
+<br />
+
+Os modestos banquetes, com que entre n&oacute;s
+o eleito obsequeia os seus eleitores n&atilde;o se parecem
+l&aacute; muito com esses prodigiosos espectaculos
+em que s&oacute;mente para lhe agradarem a
+elle, ao povo-rei, senadores como Symmachus
+mandavam vir ursos do norte, le&otilde;es da Africa,
+c&atilde;es da Escocia, crocodilos do Nilo,&#8213;d'esse
+<em>verde</em> Nilo, de que Cleopatra
+f&ocirc;ra a serpente
+lasciva,&#8213;cavallos de Hespanha, comicos da Grecia,
+<span class="pagenum">[164]</span>
+gladiadores sax&otilde;es, mimicos, cocheiros,
+de Byzancio, o inferno!... Todo o mundo, ent&atilde;o
+conhecido, contribuia para o prazer cruel
+d'esse povo insolente!
+<br />
+
+<br />
+
+Eis um tra&ccedil;o de costumes que demonstra,
+mais que mil disserta&ccedil;&otilde;es a distancia moral
+que nos separa dos homens d'esse tempo, ainda
+mesmo dos melhores:
+<br />
+
+<br />
+
+Symmachus, para essa festa monumental,
+mand&aacute;ra vir como gladiadores os prisioneiros
+saxonios, ra&ccedil;a valente, sobre a qual contava
+para o pleno successo do espectaculo. Pois na
+vespera vinte e nove d'esses homens de bravo
+cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o querendo servir para os
+prazeres
+do povo romano, estrangularam-se uns aos
+outros, no carcere em que os guardavam.
+<br />
+
+<br />
+
+Symmachus, que era um bom homem, um
+homem culto, que conhecia a philosophia e a
+litteratura antiga, que sabia, emfim, tudo que
+sabia o seu tempo, longe de perceber a selvagem
+grandeza d'este acto heroico, enfureceu-se
+contra os desgra&ccedil;ados, e exclamou de muito
+boa f&eacute;: &laquo;N&atilde;o quero que me falem mais
+d'esses
+miseraveis, que s&atilde;o ainda mais perversos que
+<em>Spartacus</em>.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+E esta exclama&ccedil;&atilde;o de ingenua crueldade,
+<span class="pagenum">[165]</span>
+vale mais que uma longa analyse do caracter
+e da sensibilidade antigos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O modo externo de viver em Roma differe
+pouco do j&aacute; conhecido pelas Cartas de Plinio.
+As regras de civilidade social t&ecirc;em-se, por&eacute;m,
+complicado ainda mais. O tempo nas altas classes
+passa-se a fazer e a receber visitas, a assistir
+a cerimonias mundanas, taes como casamentos,
+investidura da tunica viril, conselhos
+de familia, etc., etc.
+<br />
+
+<br />
+
+A paix&atilde;o das lettras &eacute; universal na sociedade
+elegante&#8213;tal como no nosso seculo XVIII.
+Os grandes e graves personagens do tempo
+passam a vida a trocar entre si versinhos mais
+ou menos ch&ocirc;chos e a cumprimentarem-se com
+effus&atilde;o pelos seus talentos litterarios.
+<br />
+
+<br />
+
+Roma acolhe os litteratos estrangeiros sob
+o reinado de Theodosio, como o fazia no tempo
+de Trajano. Os mais illustres escrevem e
+applaudem quem escreve, e, como no tempo
+dos Medicis em Floren&ccedil;a&#8213;os quaes, j&aacute; se
+entende, tratavam de imitar a antiguidade&#8213;ha
+<span class="pagenum">[166]</span>
+banquetes em que se leva a noite a discutir
+doutamente theorias scientificas e litterarias.
+<br />
+
+<br />
+
+A classe alta possue grandes riquezas. O
+nosso Symmachus, um dos menos ricos, tem
+tres casas em Roma e quinze <em>villas</em>
+nas mais
+bellas regi&otilde;es da Italia. N&atilde;o se excede em luxo,
+em gra&ccedil;a voluptuosa, em douta cultura, em
+elegancia magnifica, a vida d'essa classe privilegiada,
+cujos av&oacute;s tinham conquistado o
+mundo e que tratava agora de lhe gosar em
+paz as infinitas delicias.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se imagine, por&eacute;m, que s&oacute; a
+sociedade
+pag&atilde; estava contaminada d'este egoismo, d'esta
+pregui&ccedil;a epicurista, d'esta artistica e sumptuosa
+indolencia. S. Jeronymo, que tambem, antes
+de convertido, tinha saboreado o gosto d'esta
+vida ostentosa e anesthesiante, que tambem convers&aacute;ra
+com as mulheres de espirito, l&ecirc;ra avidamente
+os deliciosos poetas pag&atilde;os, beb&ecirc;ra
+emfim at&eacute; &aacute; embriaguez essas &laquo;delicias
+de Roma&raquo;
+contra as quaes se revoltava depois, &eacute; o
+<span class="pagenum">[167]</span>
+proprio que nos conta o modo porque os ociosos
+e os ricos de <em>ambos os cultos</em>
+passavam a
+existencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Em que se passa o tempo na grande cidade?
+pergunta elle, em uma das suas cartas.
+Em ver e ser visto, em receber visitas e faz&ecirc;l-as.
+Em louvar os presentes, e dizer mal
+dos ausentes. Come&ccedil;a a conversa&ccedil;&atilde;o e
+n&atilde;o ha
+meios de acabar.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Contam-se historias escandalosas. Morde-se
+e &eacute;-se mordido. Dilacera-se quem n&atilde;o
+est&aacute;, e
+adula-se quem ouve.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o parece a descrip&ccedil;&atilde;o de uma sala do
+nosso tempo?
+<br />
+
+<br />
+
+Querem v&ecirc;r agora o retrato de um abbade
+da Regencia?
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Levanta-se muito cedo e regula desde logo
+a ordem das suas visitas. Procura o caminho
+mais curto, e vai surprehender, ao sahir do
+leito as damas que pretende visitar. Repara,
+porventura, em uma almofada, em uma toalha
+elegante, em algum objecto d'esta ordem. Apalpa-o,
+admira-o, lamenta-se de n&atilde;o possuir
+nada egual, e tanto faz, que acaba por conseguir
+que lhe fa&ccedil;am presente d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Onde quer que a gente v&aacute;, &eacute; a primeira
+<span class="pagenum">[168]</span>
+pessoa que encontra; sabe todas as noticias;
+corre a divulgal-as antes de ninguem; inventa-as
+quando lhe faltam verdadeiras, e, em
+todo o caso, aformos&ecirc;a-as com incidentes novos
+em cada vez que as conta.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Pois este abbadesinho galante, este joven
+padre parasita e lisongeiro, n&atilde;o &eacute; tal da
+Regencia
+como eu lhes disse. &Eacute; de Roma no
+tempo de S. Jeronymo e &eacute; elle quem o descreve,
+com este ironico vigor, com esta agudeza
+espirituosa em uma das suas
+<em>Epistolas</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A differen&ccedil;a exterior entre esta
+civilisa&ccedil;&atilde;o e
+a nossa &eacute; bem grande; os caracteres divergem
+extraordinariamente em resultado da distancia
+que vai da moral antiga &aacute; moral moderna; o
+elemento da <em>caridade</em>, essa base
+fundamental
+do christianismo, ainda apezar de enunciado e
+de pr&eacute;gado pelos seus apostolos n&atilde;o
+penetr&aacute;ra
+profundamente nas almas, que a religi&atilde;o
+antiga affei&ccedil;o&aacute;ra e model&aacute;ra&#8213;mas
+apesar de
+tudo isso, quantos quadros d'esse tempo que
+parecem copiados do tempo actual; quantas
+<span class="pagenum">[169]</span>
+figuras d'essa &eacute;poca que vemos reproduzidas
+na nossa; quantas paix&otilde;es ent&atilde;o dominantes,
+que a moral da egreja, que o sentimento religioso
+mais desenvolvido e mais educado, que
+a philosophia moderna mais piedosa e mais
+humana, n&atilde;o conseguiram ainda amorda&ccedil;ar.
+<br />
+
+<br />
+
+Como essa sociedade que tripudiava no luxo
+colossal e na ostentosa e deslumbrante magnificencia&#8213;esquecida
+ou despreoccupada dos
+perigos que a amea&ccedil;avam,&#8213;assim a nossa sociedade
+de hoje, tendo attingido um gr&aacute;u de
+civilisa&ccedil;&atilde;o
+e de riqueza material differente, mas
+n&atilde;o inferior &aacute;s de Roma, se estonteia no gozo
+egoista de todos os prazeres, e no estadear cynico
+de todos os vicios, sem presentir que uma
+seita, t&atilde;o tenaz como a christ&atilde;, e menos pacifica
+e menos espiritualista do que ella, t&atilde;o capaz
+de abnega&ccedil;&otilde;es heroicas e de sacrificios sublimes,
+e n&atilde;o tendo como ella o seu fim exclusivo
+no Reino dos C&eacute;os, no Reino que n&atilde;o
+&eacute; d'este mundo, avan&ccedil;a subterraneamente,
+recrutando-se nas minas onde n&atilde;o ha luz, nas
+fabricas onde n&atilde;o ha Deus, nas officinas onde
+o trabalho &eacute; uma ignominia, nas trapeiras miseraveis
+onde as crean&ccedil;as agonisam com fome
+entre as blasphemias desesperadas dos pais,
+<span class="pagenum">[170]</span>
+nas enxovias immundas onde o ar falta e onde
+a desesperan&ccedil;a brama sinistramente&#8213;e se prepara
+energica e sombria para o definitivo assalto
+que ha de render a velha sociedade apodrecida!
+<br />
+
+<br />
+
+O que queriam&#8213;n&atilde;o esses christ&atilde;os degenerados
+e contagiados pelo paganismo de que
+fala com amargo despreso S. Jeronymo&#8213;mas
+os grandes christ&atilde;os que sacrificavam e oravam
+nas catacumbas, que morriam nos amphiteatros
+e que escreviam com o sangue do
+cora&ccedil;&atilde;o os seus rudes hymnos de
+adora&ccedil;&atilde;o e
+de f&eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+Queriam o desmoronamento total d'esse imperio
+que era a somma do todas as iniquidades
+pag&atilde;s, que era a escravid&atilde;o do miseravel
+e a apotheose do mau rico!
+<br />
+
+<br />
+
+O que quer hoje o socialismo triumphante?
+<br />
+
+<br />
+
+A morte d'esta sociedade, cujo esplendor maravilhoso
+se faz com o sangue, e as lagrimas do
+miseravel, do, como nunca, miseravel proletario!
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; verdade que esta similhan&ccedil;a
+basta para
+dar ao livro um intenso e profundo interesse?
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><br />
+
+Anthero de Quental
+</h3>
+
+<h4><span class="smallcaps">a obra e a sua morte</span>
+</h4>
+
+<br />
+
+<h4>I
+</h4>
+
+<br />
+
+Hesito em falar ainda de Anthero de Quental!
+Succedeu um t&atilde;o silencioso esquecimento
+ao pasmo, ao sobresalto da primeira
+noticia do seu suicidio!... E no emtanto, se
+havia physionomia complexa, suggestiva, capaz
+de interessar e de captivar o nosso espirito
+era a d'este poeta de t&atilde;o requintada e
+extrema delicadeza de inspira&ccedil;&atilde;o e de
+pensamentos.
+<br />
+
+<br />
+
+A primeira impress&atilde;o que recebi da sua
+morte, foi t&atilde;o violenta e dolorosa que em v&atilde;o
+tentei traduzil-a em palavras, ou mettel-a no
+<span class="pagenum">[172]</span>
+molde imperfeito e rude de uma aprecia&ccedil;&atilde;o
+critica qualquer.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; hoje s&oacute;mente, depois de volvido um mez
+ou mais sobre esse suicidio, que devia enluctar
+as lettras portuguezas, que eu me atrevo a
+conversar com os leitores a respeito d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+O livro dos <em>Sonetos</em>, saudado na sua
+primeira
+appari&ccedil;&atilde;o com sincero e quasi religioso
+enthusiasmo, p&oacute;de considerar-se como a completa
+confiss&atilde;o d'aquella alma combalida, que
+procurou na Morte o extremo refugio contra
+as luctas asperas do Pensamento, contra as
+chimeras perseguidoras da Imagina&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Se o considerarmos do ponto de vista pratico
+e material, d'onde a maior parte da gente
+se colloca para julgar os homens e as cousas,
+Anthero n&atilde;o era realmente um infeliz.
+<br />
+
+<br />
+
+Tinha, pelo contrario, mil predicados, mil
+qualidades invejaveis.
+<br />
+
+<br />
+
+Tinha, primeiro de tudo, um superior e bello
+talento incontestado; tinha a sufficiente abastan&ccedil;a
+para <em>n&atilde;o precisar viver
+d'elle</em>&#8213;o que
+eu pelo menos considero o maior dos bens&#8213;tinha
+a adora&ccedil;&atilde;o dos amigos (que lhe chamavam
+<em>Santo Anthero</em>), o respeito dos
+estranhos,
+a par de uma consciencia immaculada
+<span class="pagenum">[173]</span>
+que no exercicio do bem encontrava permanente
+e ineffavel consolo; tivera at&eacute; na mocidade
+o raro dom de uma belleza de Christo,
+espiritual, meiga e serena.
+<br />
+
+<br />
+
+E, comtudo, apezar de tantas circumstancias
+que se reuniam para dever tornar-lhe doce a
+vida, depois da leitura d'aquelles
+<em>sonetos</em> magistraes,
+em que t&atilde;o requintadas amarguras e
+t&atilde;o estranhos supplicios se crystallisavam, por
+assim dizer, em perolas maravilhosas, n&atilde;o havia
+leitor que n&atilde;o sentisse esta
+interroga&ccedil;&atilde;o
+desabrochar-lhe nos labios: onde &eacute; que este
+homem t&atilde;o tranquillamente e t&atilde;o lucidamente
+desesperado encontra a for&ccedil;a de continuar a
+viver?
+<br />
+
+<br />
+
+O suicidio do grande poeta responde agora,
+lugubre, mas coherente, terrivel mas logico,
+&aacute; irresistivel pergunta.
+<br />
+
+<br />
+
+O pessimismo de Anthero n&atilde;o era, como
+a maior parte dos que n&oacute;s por ahi conhecemos,
+um pessimismo pessoal, egoista, limitado
+&aacute;s contradic&ccedil;&otilde;es e &aacute;s
+tristezas do seu proprio
+destino.
+<br />
+
+<br />
+
+Era um pessimismo philosophico, como o de
+Leopardi, como o de Schopenhauer, como o
+de Leconte de Lisle.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[174]</span>
+A sua concep&ccedil;&atilde;o da vida, t&atilde;o triste
+que faz
+horror e espanto, traduz-se no soneto: <em>A Divina
+Comedia</em>, em que elle figura os homens
+erguendo para os remotos c&eacute;us os bra&ccedil;os
+desesperados
+e apostrophando esses deuses que
+s&oacute; produziram a D&ocirc;r, a Paix&atilde;o, o
+Peccado,
+as Illus&otilde;es, as luctas fratricidas.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">&laquo;Pois n&atilde;o era
+melhor na paz clemente<br />
+
+Do nada e do que ainda n&atilde;o existe<br />
+
+Ter ficado a dormir eternamente?
+<br />
+
+<br />
+
+Porque &eacute; que para a d&ocirc;r nos evocastes?&raquo;<br />
+
+Mas os deuses com voz ainda mais triste,<br />
+
+Dizem:&#8213;&laquo;Homens! porque &eacute; que nos
+criastes?&raquo;</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A Morte, n&atilde;o sob uma f&oacute;rma repellente e
+odiosa, mas attrahente como esphynge, perturbante
+e voluptuosa como sereia que vem
+cantar a sua cantilena de seduc&ccedil;&atilde;o &aacute;
+fl&ocirc;r das
+aguas de um verde glauco, a Morte, revestida
+de um mysterioso encanto subjugador e estranho,
+paira por sobre todas os paginas d'este
+livro, impregnando-as de subtil e contagiosa
+tristeza.
+<br />
+
+<br />
+
+Dir-se-hia que os <em>sonetos</em> lhe
+s&atilde;o quasi inteiramente
+consagrados. &Eacute; a <em>ella</em> que
+elle v&ecirc;
+<span class="pagenum">[175]</span>
+sempre, chamando-o, chamando-o baixinho,
+entontecendo-o com as promessas do seu silencio
+eterno, da sua paz profunda e vasta, do
+seu mysterio que ninguem soube ainda violar.
+<br />
+
+<br />
+
+Anthero pens&aacute;ra tanto que o c&eacute;rebro esgotado
+pedia emfim misericordia. A sua ambi&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o f&ocirc;ra de v&atilde;s glorias, nem
+v&atilde;os triumphos;
+quizera levantar uma ponta d'esse v&eacute;o que
+esconde a eterna Verdade, al&eacute;m da qual tantas
+gera&ccedil;&otilde;es humanas t&ecirc;em sonhado com
+alguma cousa de inextinguivel e de eterno.
+<br />
+
+<br />
+
+E essa agonia intellectual que o dilacerou
+exprime-se em todos os seus versos, com uma
+potencia maravilhosa, e uma energia devoradora
+que acabou por consumil-o!
+<br />
+
+<br />
+
+<em>A illus&atilde;o, o vasio
+universal</em>, que encarava
+ao sahir das suas vertiginosas contempla&ccedil;&otilde;es
+metaphysicas, faziam-n'o recuar pavido e tremente.
+A vida n&atilde;o lhe dava o que elle queria;
+para &aacute;quem d'esse vasto mundo invisivel que
+a sua alma de sonhador presentia e pelo qual
+ella anciava, nada havia que lhe satisfizesse a
+s&ecirc;de ideal. Por isso Anthero, fugindo voluntariamente
+d'elle, foi buscar a sua amiga de
+todas as horas, aquella que podia entregar-lhe
+<span class="pagenum">[176]</span>
+a chave do eterno enygma que o desesperava; a
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>&laquo;Morte!
+irm&atilde; do Amor e da
+Verdade&raquo;</em>
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A proposito do suicidio de Anthero, falou-se
+muito de tres suicidios tambem famosos que
+o precederam; mas realmente, a n&atilde;o ser pela
+notoriedade que os assignala, eu n&atilde;o sei que
+elles tenham compara&ccedil;&atilde;o com o d'este poeta.
+Nem Camillo, nem Julio Cesar Machado
+nem Soares dos Reis se mataram pelos motivos
+transcendentes que actu&aacute;ram no animo
+de Anthero de Quental.
+<br />
+
+<br />
+
+Os tres mataram-se porque soffriam mais
+do que &eacute; dado aos seres humanos soffrer sem
+procurarem no anniquilamento a paz invocada
+entre supplicios.
+<br />
+
+<br />
+
+Um d'elles, Camillo, artista de nervos exasperados
+pela cegueira, temperamento de hysterico
+para o qual a resigna&ccedil;&atilde;o era uma virtude
+impossivel, matou-se para fugir &aacute;s trevas
+densas de uma lobrega morte em que se sentia
+perdido!
+<br />
+
+<br />
+
+Julio Cesar Machado matou-se porque, no
+<span class="pagenum">[177]</span>
+meio do mundo hostil que n&atilde;o satisfizera nenhuma
+das ambi&ccedil;&otilde;es da sua pobre alma delicada
+e sonhadora, elle concentrava as affei&ccedil;&otilde;es
+todas do seu cora&ccedil;&atilde;o, os ultimos sonhos
+da sua phantasia, a esperan&ccedil;a, a suprema gloria,
+no amor de um filho que se suicid&aacute;ra
+com 19 annos!&#8213;deixando-o s&oacute;. O infeliz enlouqueceu
+e matou-se tambem...
+<br />
+
+<br />
+
+Sobre a morte de Soares dos Reis paira
+uma sombra de mysterio. Quem sabe que luctas
+intimas, que drama de paix&atilde;o intensa e
+dolorosa esse suicidio n&atilde;o veio rematar!
+<br />
+
+<br />
+
+A morte de Anthero obedeceu a outro genero
+de impulsos. N&atilde;o digo que para ella n&atilde;o
+concorresse tambem o estado de miseria moral
+e de anarchia mental em que via a sua
+patria (da qual havia pouco elle tinha porventura
+esperado qualquer acto de energica reac&ccedil;&atilde;o
+contra o destino), mas a sua d&ocirc;r era uma
+d'estas d&ocirc;res de ordem aristocratica e rara,
+que n&atilde;o se originam como as da maioria dos
+homens no cora&ccedil;&atilde;o, mas que emanam do espirito
+can&ccedil;ado de cogitar em v&atilde;o no mysterio
+impenetravel das cousas...
+<br />
+
+<br />
+
+Querem v&ecirc;r os espectros que enchiam de pavor
+sagrado as suas noites? Ouvi este
+<em>soneto</em>
+<span class="pagenum">[178]</span>
+que &eacute;, como todos os outros, pagina solta de
+uma confiss&atilde;o intellectual complicada e dolorosa,
+tal como um Pascal ou um Amiel a escreveram
+tambem cada um, j&aacute; se v&ecirc;, na sua
+respectiva esphera, um nos seus immortaes
+<em>Pensamentos</em>, outro no seu
+<em>jornal</em> t&atilde;o caracteristico
+e t&atilde;o pouco comprehendido:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3">
+Espectros que velais emquanto a custo<br />
+
+Adorme&ccedil;o um momento, e que inclinados<br />
+
+Sobre os meus somnos curtos e can&ccedil;ados<br />
+
+Me encheis as noites de agonia e susto!...
+<br />
+
+<br />
+
+De que me vale a mim ser puro e justo,<br />
+
+E entre combates sempre renovados,<br />
+
+Disputar dia a dia &aacute; m&atilde;o dos fados<br />
+
+Uma parcella do saber augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+Se a minh'alma ha de v&ecirc;r sobre si fitos<br />
+
+Sempre esses olhos tragicos, malditos!<br />
+
+Se at&eacute; dormindo, com angustia immensa
+<br />
+
+<br />
+
+Bem os sinto verter sobre o meu leito,<br />
+
+Uma a uma, verter sobre o meu peito<br />
+
+As lagrimas geladas da descren&ccedil;a!
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Foram estas as d&ocirc;res que o mataram. A sua
+consciencia n&atilde;o achava repouso em nenhuma
+das concep&ccedil;&otilde;es do Universo em que
+alternativamente
+tentava acolher-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, dirigindo-se &aacute; meiga Virgem do Catholicismo
+<span class="pagenum">[179]</span>
+elle a invocava com infantil simplicidade;
+ora punha na <em>m&atilde;o direita</em>
+de Deus o
+seu cora&ccedil;&atilde;o can&ccedil;ado, e lhe ordenava
+que alli
+<em>dormisse eternamente</em>; ora achava que
+a Duvida
+tinha soprado sobre o mundo <em>um vento
+de ruina e de morte</em>, que tudo emmurchec&ecirc;ra,
+que tudo apag&aacute;ra, deixando apenas uma humilde
+e mysteriosa fl&ocirc;r desabrochar a medo no
+fundo da consciencia humana.
+<br />
+
+<br />
+
+Aspirava ao <em>nirv&acirc;na</em>,
+&aacute; paz inconsciente;
+queria cahir n'aquelle <em>vacuo
+tenebroso</em> onde na
+<em>immobilidade indefinida termina o ser inerte,
+ocioso</em>; e ao mesmo tempo a comprehens&atilde;o
+atavica da eternidade catholica torturava-lhe
+em horas de lucta o inquieto espirito.
+<br />
+
+<br />
+
+Que aspira&ccedil;&atilde;o intensa ao ideal, a d'este formoso
+espirito alado! Que sublimes tormentos
+os seus, procurando sem descan&ccedil;o a verdade
+e a luz!...
+<br />
+
+<br />
+
+Mas sempre, em todas as phases d'esta interna
+lucta que talvez fizesse sorrir alguns dos
+leitores dos <em>sonetos</em> emquanto o
+suicidio do
+poeta lhe n&atilde;o deu o seu fundo de lugubre realidade,&#8213;Anthero
+chamou pela Morte, a invocou,
+lhe sorriu, lhe deu os nomes mais bellos,
+os mais doces, os mais apaixonados!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[180]</span>
+D'elle se p&ocirc;de dizer que foi <em>um amante da
+Morte</em>, amante austero e triste, mas nem por
+isso menos fervoroso e ardente
+<br />
+
+<br />
+
+Por motivos inteiramente diversos dos seus,
+tambem Santa Thereza, a apaixonada castelhana,
+chamou a Morte com aquelles mesmos
+arroubos de extase que nos surprehendem e nos
+fazem estremecer a n&oacute;s, pobres creaturas feitas
+de carne melindrosa e fragil, a quem o
+soffrimento repugna, e a sepultura com a
+sua podrid&atilde;o infecta repelle formidavelmente.
+<br />
+
+<br />
+
+Digam-me se ha em lingua alguma express&atilde;o
+de d&ocirc;r mais completa do que a d'este
+<em>soneto</em>
+a que Anthero p&ocirc;z o titulo de
+<em>Despondency</em>
+por n&atilde;o achar em portuguez um termo
+que rigorosamente correspondesse ao estado
+de resignada e tranquilla desesperan&ccedil;a que
+elle traduz:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3">
+Deixal-a ir, a ave, a quem roub&aacute;ram<br />
+
+Ninho e filhos e tudo, sem piedade...<br />
+
+Que a leve o ar sem fim da soledade<br />
+
+Onde as azas partidas a levaram...
+<br />
+
+<br />
+
+Deixal-a ir, &aacute; vella que arrojaram<br />
+
+Os tuf&otilde;es pelo mar na escuridade,<br />
+
+Quando a noite surgiu na immensidade,<br />
+
+Quando os ventos do Sul se levantaram...</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p181" id="p181">[181]</a></span>
+<div class="poetry3">Deixal-a ir a alma lastimosa,<br />
+
+Que perdeu a paz e f&eacute; e confian&ccedil;a<br />
+
+&Aacute; morte qu&ecirc;da, &aacute; morte silenciosa...
+<br />
+
+<br />
+
+Deixal-a ir a nota desprendida<br />
+
+De um canto extremo e a ultima esperan&ccedil;a...<br />
+
+E a vida... e o amor... deixal-a ir a vida!
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha por tudo isto motivos para espanto
+no suicidio de Anthero. Elle n&atilde;o era, como j&aacute;
+diss&eacute;mos, um escriptor de officio, que de proposito
+exacerbasse e cultivasse em si proprio
+o desespero e as lagrimas, para as transformar
+em rhetorica <em>livresca</em>;
+n&atilde;o tinha tambem
+um v&atilde;o amor de gloria indesculpavel em quem
+sondava com t&atilde;o penetrante e lucido olhar o
+vasio de todas essas chimeras, a ephemera
+dura&ccedil;&atilde;o de tudo que &eacute; da terra...
+<br />
+
+<br />
+
+Era uma alma sincera e torturada, que naturalmente
+desafogava o seu sentir tanta vez
+contradictorio e doentio, em versos de uma
+magia dolorosa, de uma gra&ccedil;a delicada e triste,
+de uma profundidade de express&atilde;o inegualavel,
+e n'esses versos s&oacute; uma nota era <a href="#e12">constante</a>:
+<em>o elogio da Morte</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[182]</span>
+Invocou-a sempre, chamou por ella, coroou-a
+de funebres fl&ocirc;res, supplicou-lhe que o accolhesse
+no seu rega&ccedil;o frio, achando emfim que
+depois do <em>mal de haver nascido</em>
+n&atilde;o havia sen&atilde;o
+um bem: tornar ao Nada.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>II
+</h4>
+
+<br />
+
+Quando o livro dos <em>Sonetos</em> appareceu
+escrevi
+eu um estudo sobre elles, que n&atilde;o
+tinha, j&aacute; se v&ecirc;, outro merecimento al&eacute;m
+de
+uma sinceridade absoluta e de uma immensa
+sympathia.
+<br />
+
+<br />
+
+Lembra-me de que lamentava do fundo da alma
+que o auctor d'essas bellas poesias t&atilde;o raras
+na nossa litteratura,&#8213;a qual como todas
+as litteraturas meridionaes n&atilde;o pecca pelo
+<em>excesso
+de pensamento</em>&#8213;tivesse consummido a
+vida, que t&atilde;o bellas cousas podia dar-lhe, mettido
+em si mesmo, n'aquella especie de medita&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[184]</span>
+allucinada que se traduzia, &eacute; verdade,
+em versos magnificos, mas versos que eram,
+como as perolas, productos de uma d&ocirc;r mortal.
+<br />
+
+<br />
+
+E revoltava-me contra a solid&atilde;o mental em
+que Anthero se concentr&aacute;ra, contra as
+hesita&ccedil;&otilde;es
+do seu querer, contra as fluctua&ccedil;&otilde;es do
+seu pensamento, contra o pessimismo bhuddico
+da sua doutrina, contra tudo que fizera
+d'elle um philosopho germanico, ou um sonhador
+nebuloso e doente, e o separava da
+vida, da vida que tem tantos risos no meio
+das suas charnecas desoladas, ou dos seus
+sar&ccedil;aes cheios de espinhos e de reptis....
+<br />
+
+<br />
+
+Mesmo com o risco de parecer vaidosa, n&atilde;o
+quero deixar de offerecer aos meus leitores, a
+carta, at&eacute; hoje <em>absolutamente
+inedita</em>, que Anthero
+de Quental me escreveu ent&atilde;o, depois de
+ter lido os meus artigos que se publicaram
+primitivamente no <em>Jornal do
+Commercio</em> de
+Lisboa, e que hoje est&atilde;o incluidos no volume
+intitulado <em>Alguns homens do meu
+tempo</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Ahi vae a formosa e eloquente carta:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote">&laquo;Porto, 24 de dezembro.</div>
+
+<br />
+
+<div class="signature">
+Minha Senhora</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Agrade&ccedil;o-lhe muito os seus artigos no
+<em>Jornal</em>
+<span class="pagenum">[185]</span>
+<em>do Commercio</em>, e creia V. que o
+n&atilde;o
+fa&ccedil;o s&oacute; por civilidade, ainda que n&atilde;o
+&eacute; cousa
+que se deva desdenhar <em>par le temps qui
+court</em>.
+N&atilde;o lhe direi que me agradaram os seus artigos,
+porque isso &eacute; o menos; dir-lhe-hei que
+me commoveram. Ha n'elles uma sinceridade,
+que me encantou, e um tom fraternal que me
+foi direito ao cora&ccedil;&atilde;o, onde quero que
+n&atilde;o
+morra nunca a vibra&ccedil;&atilde;o d'essas palavras amigas.
+Creio que V. se engana na aprecia&ccedil;&atilde;o que
+fez das doutrinas chamadas (quanto a mim
+impropriamente) <em>pessimistas</em> e nos
+receios que
+lhe inspiram as tendencias bhuddicas que come&ccedil;am
+a manifestar-se por todos os lados,
+em sociedades que attingiram o <em>nec plus
+ultra</em>
+da civilisa&ccedil;&atilde;o, ou em individuos que attingiram
+o <em>nec plus ultra</em> do pensamento.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo isso, &eacute; verdade, est&aacute; ainda bastante
+obscuro e confundido com elementos estranhos
+e at&eacute; contradictorios, e por isso me n&atilde;o admira
+que n&atilde;o possa ainda ser apreciado sem grandes
+apprehens&otilde;es. O meu livrinho, apenas aqui
+ou alli em meia duzia dos ultimos sonetos, fere
+a nota exacta e s&atilde;, porque infelizmente morreu-me
+o dom dos versos, precisamente quando
+<span class="pagenum"><a name="p186" id="p186">[186]</a></span>
+come&ccedil;ava a pensar e a sentir alguma cousa
+que realmente merecesse ser posta em verso.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o podia elle, t&atilde;o incompleto e obscuro,
+justamente
+onde mais cumpria que fosse claro e
+amplo, dissipar aquellas apprehens&otilde;es, antes
+era natural que contribuisse para as radicar.
+Mas a minha convic&ccedil;&atilde;o &eacute; que taes
+apprehens&otilde;es
+n&atilde;o s&atilde;o fundadas e que entre os sentimentos
+naturaes e espontaneos do cora&ccedil;&atilde;o humano,
+entre o seu ideal de justi&ccedil;a, de harmonia
+e de belleza, e o ponto de vista ascetico do
+Bhuddismo, n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o ha
+contradic&ccedil;&atilde;o verdadeira,
+mas que, pelo contrario, &eacute; s&oacute; n'essa esphera
+que elles encontram a sua mais perfeita
+express&atilde;o, libertos de muitas illus&otilde;es e de
+muitas imperfei&ccedil;&otilde;es que lhe andam
+for&ccedil;osamente
+misturadas, e attingem a plena consciencia do <a href="#e13">que</a>
+s&atilde;o e para que s&atilde;o. E seria singular
+com effeito que a doutrina, que entre todas, faz
+consistir no Bem a verdade suprema da existencia
+humana, pudesse collidir com aquelles
+espontaneos impulsos da nossa natureza, que
+n&atilde;o s&atilde;o, no fundo, sen&atilde;o
+f&oacute;rmas e momentos,
+mais ou menos obscuros, mais ou menos incompletos
+da nossa fundamental aspira&ccedil;&atilde;o a
+esse mesmo Bem!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p187" id="p187">[187]</a></span>
+A, verdade &eacute; que a civilisa&ccedil;&atilde;o moderna
+chegou,
+no seculo actual, como a civilisa&ccedil;&atilde;o antiga,
+no periodo do <a href="#e14">Imperio Romano</a>,
+a um ponto
+em que, sob pena de completa ruina, o problema
+metaphysico-psychologico tem de ser
+sondado a uma profundidade desusada e proporcional
+ao gr&aacute;u superior da mesma civilisa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje, como ent&atilde;o, as quest&otilde;es
+metaphysico-psychologicas
+s&atilde;o a chave de todas as outras
+quest&otilde;es porque, tendo o proprio progresso
+das institui&ccedil;&otilde;es e das id&eacute;as arruinado
+os antigos
+alicerces moraes da sociedade, a grande
+quest&atilde;o, a quest&atilde;o vital e inadiavel
+n&atilde;o &eacute; j&aacute; a
+do aperfei&ccedil;oamento das institui&ccedil;&otilde;es
+nem do
+augmento dos conhecimentos, mas a da organisa&ccedil;&atilde;o
+theorica e pratica da vida moral, a
+crea&ccedil;&atilde;o da ordem nas consciencias, em uma
+palavra a remodela&ccedil;&atilde;o do <em>homem
+interior</em>, sem
+o qual o outro homem, da sociedada e da vida
+pratica, por forte e sabio que pare&ccedil;a &eacute; mais
+miseravel que o escravo mais embrutecido.
+<br />
+
+<br />
+
+O progresso gigantesco do naturalismo, filho
+de uma civilisa&ccedil;&atilde;o poderosa e complexa como
+nenhuma, s&oacute; poder&aacute; ser equilibrado por um
+progresso equivalente do ascetismo. Sem esse
+<span class="pagenum">[188]</span>
+equilibrio a sociedade moderna, que j&aacute; hoje
+nos causa mais terror do que admira&ccedil;&atilde;o,
+poder&aacute;
+continuar ainda por algum tempo de poderosa,
+tornada formidavel, e, de formidavel,
+bestial: mas o homem, o verdadeiro homem,
+isto &eacute;, o homem moral, ter&aacute; morrido: e morto
+elle, tudo cahir&aacute;, por que s&oacute; elle sustenta a
+grande m&oacute;lle social. A sociedade &eacute;, antes de
+tudo, um facto de ordem moral.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o continuo com estas reflex&otilde;es, porque
+desejo fazer d'ellas o assumpto de um escripto,
+at&eacute; a certo ponto em resposta aos artigos
+de V. e que publicarei em f&oacute;rma de carta,
+se V. levar isso a bem.
+<br />
+
+<br />
+
+E termino, minha senhora, pedindo a V,
+que me consinta assignar-me d'aqui em diante,
+como realmente sou, seu muito amigo.&#8213;<em>Anthero
+de Quental</em>&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Esta carta t&atilde;o bella na f&oacute;rma, e t&atilde;o
+profunda
+no pensamento, apresenta por&eacute;m a
+contradic&ccedil;&atilde;o
+fundamental a que Anthero succumbiu.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[189]</span>
+O ascetismo &eacute; a contempla&ccedil;&atilde;o mais
+inerte:
+o Bem demanda a actividade mais incansavel,
+o esfor&ccedil;o mais tenaz.
+<br />
+
+<br />
+
+Como conciliar estes dois termos oppostos?
+Se para o extatico e contemplativo pensador
+a quem o <em>nirvana</em> sorri como o
+supremo fim
+da sua ascens&atilde;o ideal, cada homem n&atilde;o
+&eacute;
+mais do que um momento que toma consciencia
+de si e logo passa, aquelle que na terra
+procura o Bem e tenta pelo seu esfor&ccedil;o creal-o,
+sabe que se dissolvem as f&oacute;rmas em que a
+consciencia se encarna, mas que ella, a sublime
+chamma n&atilde;o se apaga j&aacute;mais... N&oacute;s os
+passageiros de um dia que conseguimos por
+instantes guardal-a no nosso seio mortal, passamos
+rapidos sim, mas n&atilde;o antes de a transmittirmos
+&aacute;quelles que nos succedem sempre
+mais pura, e sempre mais intensa...
+<br />
+
+<br />
+
+O patrimonio real da humanidade &eacute; este:
+por este lhe vale a pena padecer e luctar. Este
+n&atilde;o morre com as pobres gera&ccedil;&otilde;es que
+se succedem
+como as folhas das arvores, como as
+ondas do mar...
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; pelo Buddhismo antigo, ou pela ascetica
+renuncia aos bens reaes da vida que a sociedade
+tem de salvar-se. &Eacute; pelo exercicio
+<span class="pagenum"><a name="p190" id="p190">[190]</a></span>
+activo das suas energias espontaneas, &eacute; pela f&eacute;
+na sua miss&atilde;o do bem, na sua ascens&atilde;o a qualquer
+eminencia moral, que ella ainda n&atilde;o antev&ecirc;
+de longe, mas que existe decerto, mas que
+deve existir, ou este instincto de progresso a
+que obedecemos, seria mais uma ironia atroz
+entre outras tantas!...
+<br />
+
+<br />
+
+A prova de que esse ascetismo a que Anthero
+recorre na sua bella carta &eacute; esteril, &eacute;
+que elle, querendo salvar por este modo a sua
+clara consciencia e o seu espirito genial, veiu
+acabar na morte voluntaria, no suicidio banal
+dos vencidos e dos fracos!
+<br />
+
+<br />
+
+Infelizmente era eu, t&atilde;o mesquinha, e n&atilde;o
+elle, t&atilde;o grande, que tinha raz&atilde;o, e essa
+raz&atilde;o,
+foi o seu acto extremo que m'a veiu dar.
+<br />
+
+<br />
+
+Ninguem pens&aacute;ra mais alto e mais justo que
+esse homem de uma consciencia t&atilde;o delicada,
+de uma penetra&ccedil;&atilde;o philosophica t&atilde;o
+subtil, e cujo
+entendimento parecia talhado para as mais elevadas
+especula&ccedil;&otilde;es da metaphysica e da psychologia.
+<br />
+
+<br />
+
+E no emtanto elle n&atilde;o <a href="#e15">achou</a>
+outra
+resolu&ccedil;&atilde;o
+ao problema que est&aacute; presentemente posto
+deante dos olhos das sociedades extra-civilisadas
+<span class="pagenum">[191]</span>
+e dos individuos que pensam intensamente,
+sen&atilde;o a do suicidio silencioso.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; profundamente desoladora a phase do espirito
+humano que, de vez em quando, se manifesta
+em factos como este.
+<br />
+
+<br />
+
+Como escapar a este estado de descren&ccedil;a
+absoluta em qualquer destino ulterior da nossa
+especie? Retroceder &aacute; boa Natureza, &aacute; primitiva
+ignorancia dos simples, como manda
+Tolstoi? Mas em primeiro logar a natureza
+n&atilde;o &eacute; boa, depois, quem
+<em>sabe</em> p&oacute;de porventura,
+e s&oacute; por effeito da sua vontade come&ccedil;ar
+de um dia para o outro a <em>ignorar</em>?...
+<br />
+
+<br />
+
+Cada sociedade que chega ao extremo da sua
+civilisa&ccedil;&atilde;o particular, o que, exaltando de um
+lado o orgulho natural do homem, produz por
+outro, no espirito d'elle, uma irrita&ccedil;&atilde;o doentia,
+uma penosa desespera&ccedil;&atilde;o resultante dos limites
+que este acha sempre &aacute; sua curiosidade
+transcendente&#8213;cada sociedade que attinge esta
+perigosa eminencia, est&aacute; por esse mesmo
+facto, muito proxima da sua fatal degenera&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Nenhuma civilisa&ccedil;&atilde;o se elevou mais alto nas
+abstrac&ccedil;&otilde;es do pensamento, nos arrojos da
+metaphysica do que esse Bhuddismo em que
+<span class="pagenum">[192]</span>
+Anthero de Quental tentava encontrar a suprema
+paz da consciencia humana. E o que
+tem elle produzido sen&atilde;o resultados negativos,
+e allucina&ccedil;&otilde;es doentias? A
+civilisa&ccedil;&atilde;o antiga,
+grega e romana, procurou resolver o problema
+do destino do homem divinisando-lhe as paix&otilde;es,
+e fazendo a permanente apotheose da
+for&ccedil;a. E todos sabem em que agonia vasquejante
+o mundo antigo se diluiu. A Edade Media
+teve uma comprehens&atilde;o harmonica e grandiosa
+da vida e do destino humano, mas tanto
+exigiu do espirito e t&atilde;o pouco pensou na fatal
+realidade, que fez de cada organismo de homem
+um anjo e um animal perpetuamente
+identificados, e ao cabo do sublime esfor&ccedil;o,
+respondeu-lhe o retrocesso pag&atilde;o da Renascen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+O mundo moderno quer achar na sciencia
+a chave do todo o eterno enygma que at&eacute; hoje
+se conserva inviolado, a explica&ccedil;&atilde;o do universal
+mysterio que o envolve e penetra, a resolu&ccedil;&atilde;o
+de todos os problemas complexos que se
+t&ecirc;em accumulado deante do seu espirito em
+dois ou tres mil annos de pensamento&#8213;e a
+sciencia impotente, incompleta, desconsoladora
+<span class="pagenum">[193]</span>
+n&atilde;o tem agua que sacie a nossa s&ecirc;de,
+n&atilde;o
+tem piedade que unja a nossa lenta agonia!
+<br />
+
+<br />
+
+Os melhores abdicam ou pelo indifferentismo
+inerte, ou pelo suicidio; que &eacute; ainda uma victoria
+do espirito ultrajado sobre si mesmo!
+<br />
+
+<br />
+
+E um v&eacute;o de tristeza densa e plumbea envolve
+este mundo enorme, agitado, convulso,
+atravessado de fios electricos que em minutos
+transmittem de um ao outro dos seus extremos
+o pensamento e a palavra; cortado de
+locomotivas vertiginosas; abarrotado de riquezas
+brutas; ebrio de orgulho material, de luxo
+e de vaidade; persuadido de que &eacute; a
+realisa&ccedil;&atilde;o
+mais completa da felicidade e do triumpho
+moral do homem; mas tremendo a cada abalo
+subterraneo que revele qu&atilde;o minados est&atilde;o
+os seus alicerces e em que movedi&ccedil;a areia assentam
+os seus edificios de Babel!
+<br />
+
+<br />
+
+Comtudo ha uma affirma&ccedil;&atilde;o, no meio de
+tantas duvidas e de tanta desordem mental,
+que p&oacute;de ser feita sem medo!
+<br />
+
+<br />
+
+O Bem existe! A consciencia humana conhece-o
+mesmo quando o atrai&ccedil;&ocirc;a ou o desdenha.
+&Eacute; ella que o tem creado em seculos
+de lucta sublime! Os humildes de cora&ccedil;&atilde;o
+s&atilde;o
+talvez os que est&atilde;o mais perto das fontes vivas
+<span class="pagenum">[194]</span>
+d'onde elle promana, e &eacute; pela humildade e
+pela acceita&ccedil;&atilde;o resignada do seu destino
+incompleto
+e triste e eternamente obscuro, que a
+pobre humanidade definitivamente se salvar&aacute;!
+<br />
+
+<br />
+
+Por mais que amenos e veneremos a memoria
+de Anthero, n&atilde;o podemos pois achar
+justo o seu suicidio.
+<br />
+
+<br />
+
+Contentamo-nos em achal-o explicavel.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="p195" id="p195"></a>
+<h3>Anatole France
+</h3>
+
+<h4>
+I
+</h4>
+
+<br />
+
+Conhece porventura o leitor este mestre do
+estylo, que &eacute; francez e moderno, e podia
+ser grego e antigo?...
+<br />
+
+<br />
+
+Conhece este discipulo de Renan, discipulo que
+disp&otilde;e de mais liberdade moral e de mais fogo
+juvenil que <a href="#e16">o seu</a>
+querido e respeitado mestre?
+<br />
+
+<br />
+
+Anatole France &eacute;, como Renan, um
+<em>charmeur</em>,
+mas &eacute; mais do que elle&#8213;um voluptuoso.
+<br />
+
+<br />
+
+A sua philosophia, mais <em>Renanesca</em> do
+que
+<em>Hegeliana</em>, move-se phantasiosamente
+em um
+universo de illus&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[196]</span>
+E as fulgidas imagens, sempre renovadas,
+da sua esplendida imagina&ccedil;&atilde;o, reveste-as uma
+melancolia deliciosa e morbida, como se elle
+as evocasse com a consciencia de que lhe mentiam,
+e as adorasse perdidamente, mesmo depois
+de as saber fugitivas, falsas, ephemeras...
+<br />
+
+<br />
+
+Um dos melhores livros que elle tem escripto,
+e cujas edi&ccedil;&otilde;es se multiplicam com espantosa
+rapidez&#8213;apezar d'elle o ter no pensamento
+dedicado aos delicados, aos <em>happy
+few</em>
+de que fala desdenhosamente Stendhal&#8213;chama-se
+<em>Tha&iuml;s</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Tha&iuml;s &eacute; uma <em>lenda
+dourada</em> dos primeiros
+seculos christ&atilde;os, que entre parenthesis est&atilde;o
+sendo apetecivel mina de estudos litterarios,
+de poesias, de erudi&ccedil;&atilde;o e de arte.
+<br />
+
+<br />
+
+Tem o livro como personagens principaes
+Paphnucio, um anachoreta da Thebaida, de
+carne mortificada pelos longos jejuns, flagellada
+pelos duros cilicios, curtida pelos s&oacute;es
+causticantes do deserto, amachucada nas caminhadas
+extenuantes por sobre as penhas
+bravas e os quentes areaes&#8213;e Tha&iuml;s, uma gloriosa
+e applaudida actriz de Alexandria, bella
+como Venus, e intelligente como Aspasia, e
+prodiga de affagos como as duas, em que esplendidamente
+<span class="pagenum">[197]</span>
+se encarn&aacute;ra para enlouquecer
+e perder os homens.
+<br />
+
+<br />
+
+Paphnucio construira nas margens do verde
+Nilo uma pobre cabana feita de ramos de arvores
+e de lodo amassado.
+<br />
+
+<br />
+
+Vivia alli na penitencia e na castidade; na
+contempla&ccedil;&atilde;o e no ascetismo. Obedeciam-lhe
+e amavam-no as feras do deserto; legi&otilde;es de
+anjos, bellos como adolescentes gregos, visitavam-no
+de vez em quando na sua Thebaida
+escondida; os demonios, com figuras de animaes
+immundos, vagavam uivando em torno
+d'elle e dos solitarios que aqui e ali tinham
+escolhido para morada o deserto&#8213;e tentavam
+em v&atilde;o os santos ascetas.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando elles iam de manh&atilde; encher as suas
+bilhas do barro ao po&ccedil;o que os dessedentava,
+viam as patas dos satyros e dos faunos travessos
+impressas na movedi&ccedil;a areia.
+<br />
+
+<br />
+
+Considerada sob o seu verdadeiro aspecto, a
+Thebaida era um campo de batalha, onde se travavam
+a toda a hora, e especialmente de noite,
+os maravilhosos combates do inferno e do c&eacute;u.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas t&atilde;o profunda era a virtude d'esses santos
+cenobitas que submettia ao seu poder as
+proprias f&eacute;ras.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[198]</span>
+Quando um solitario estava para morrer,
+vinha um le&atilde;o abrir-lhe a cova com as garras.
+O santo homem, logo que conhecia por
+este signal que Deus o chamava a si, ia beijar
+uma por uma as faces de todos os seus
+irm&atilde;os espirituaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois deitava-se sereno e calmo e adormecia
+no seio do Senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta descrip&ccedil;&atilde;o do Deserto e das suas maravilhas,
+do ascetismo e das suas vis&otilde;es, da
+Thebaida e dos allucinados combates que ahi
+as paix&otilde;es humanas travavam com a
+perfei&ccedil;&atilde;o
+ideal, todo este symbolismo <em>humano</em> e
+comprehensivel est&aacute; tra&ccedil;ado com m&atilde;o de
+mestre.
+<br />
+
+<br />
+
+Parece nos seus lineamentos visiveis a pintura
+de um <em>primitivo</em>, tanto &eacute;
+certo que s&oacute; o
+extremo requinte na Arte sabe traduzir bem
+a ineffavel simplicidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Paphnucio nascera em Alexandria, de paes
+nobres, e f&ocirc;ra por elles instruido na delicia
+das profanas lettras. Era de muito longe que
+elle tivera de partir, para chegar &aacute;
+perfei&ccedil;&atilde;o
+santissima da sua vida de anachoreta christ&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Um dia, por&eacute;m, lembrou-se por sua desgra&ccedil;a
+espiritual, ou por seu aperfei&ccedil;oamento
+<span class="pagenum">[199]</span>
+superior, que tinha conhecido em Alexandria
+uma formosa actriz chamada Tha&iuml;s.
+<br />
+
+<br />
+
+T&atilde;o bella como a mais bella das suas vis&otilde;es
+esplendidas do Paraizo e condemnada &aacute; eternidade
+das penas, &aacute; perdi&ccedil;&atilde;o infernal,
+&aacute; ignorancia
+absoluta do bem!...
+<br />
+
+<br />
+
+Conhecel-a, lembrar-se nitidamente d'ella
+e n&atilde;o a salvar, n&atilde;o tentar salval-a ao menos!...
+<br />
+
+<br />
+
+Paphnucio n&atilde;o p&ocirc;de submetter-se a esta dura
+lei.
+<br />
+
+<br />
+
+Deixa, pois, o deserto, procura a cidade
+faustosa e tentadora onde Tha&iuml;s fazia as delicias
+e a admira&ccedil;&atilde;o do povo, e vae arrancar
+ao inferno a sua presa deslumbrante.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; necessario fazer notar que ainda bem
+Paphnucio n&atilde;o come&ccedil;&aacute;ra a premeditar
+esta
+santa empreza, j&aacute; os demonios que em figuras
+de chacaes costumavam uivar lamentosamente
+em torno de sua cabana, sem comtudo
+lhe penetrarem pela porta sempre aberta, se
+permittiram entrar por ella dentro, deitando-se
+perto d'elle, familiarmente, como amigos
+velhos. Que encontrariam os demonios na alma
+do velho cenobita para assim procederem?...
+<br />
+
+<br />
+
+A gra&ccedil;a ironica, a commo&ccedil;&atilde;o subtil com
+<span class="pagenum">[200]</span>
+que estes quadros s&atilde;o tra&ccedil;ados, podem ser
+indicados pelo commentador, mas n&atilde;o podem
+ser fielmente traduzidos por elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao p&eacute; do altivo asceta, que julga ter dentro
+de si for&ccedil;a que baste a dominar as indominaveis,
+as omnipotentes paix&otilde;es humanas,
+e se considera com direito de desafiar o Peccado
+e de o vencer, ha uma encantadora figura
+de frade laborioso e simples, que nem
+chega a odiar o Mal, porque lhe ignora os
+requintes tentadores, e que cultiva no deserto
+um pequenino jardim e uma horta em miniatura,
+aceitando o amavel convivio dos bichos
+e dos passarinhos, envolvendo no mesmo amor
+humilde e doce a vasta natureza cheia de gra&ccedil;as
+e de assombros.
+<br />
+
+<br />
+
+As gazellas v&ecirc;m apoiar a fina cabe&ccedil;a inquieta
+nos joelhos do santo: as figueiras que
+elle trata d&atilde;o grandes figos cheios de nectar
+cuja contempla&ccedil;&atilde;o &eacute; para elle um
+regalo innocente.
+<br />
+
+<br />
+
+Este bom homem d&aacute; de conselho ao orgulhoso
+apostolo que se deixe de tanto z&ecirc;lo, pois
+que, vista a impossibilidade em que a gente
+est&aacute; de emendar o mundo, mais vale emendar-se
+a si proprio de todos os peccados at&eacute;
+<span class="pagenum">[201]</span>
+d'aquelle que consiste em se julgar impeccavel.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas Paphnucio n&atilde;o o quer de f&oacute;rma alguma
+attender; isto, seja dito de passagem, com
+alegria dos chacaes seus inimigos antigos e
+agora seus inopportunos familiares.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+P&otilde;e-se, portanto, a caminho. Vestido t&atilde;o
+s&oacute;mente de um longo cilicio, ei-lo que se dirige
+para o Nilo&#8213;no designio de seguir a
+p&eacute; a margem lybica at&eacute; &aacute; cidade
+fundada por
+Alexandre.
+<br />
+
+<br />
+
+Que deliciosa a narra&ccedil;&atilde;o d'esta romaria,
+feita pela lingua de ouro de Anatole France!
+Ha phrases que cantam no ouvido como uma
+flauta da Jonia!... ha imagens que se desdobram
+deante de n&oacute;s como uma evoca&ccedil;&atilde;o de
+magia!
+<br />
+
+<br />
+
+Nem a traduc&ccedil;&atilde;o litteral poderia fazer presentir
+o encanto rythmico, emballador, quasi
+morbido, de requintado que &eacute;, d'este estylo
+em que as palavras se harmonisam em um
+concerto ideal, para formarem a mais suave,
+e subtil, e suggestiva das musicas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[202]</span>
+E emquanto assim se encaminha para Alexandria,
+Paphnucio foge das cidades e das
+aldeias; tem medo de encontrar crean&ccedil;as a
+brincar na soleira das portas, mulheres paradas
+&aacute; beira das cisternas, sorrindo cariciosamente
+ao peregrino que passava, como
+a Nosso Senhor a Samaritana j&aacute; sorrira.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando, ao entardecer, a aragem passava nos
+tamarindos em fl&ocirc;r, o sombrio apostolo puxava
+para o rosto o seu capuz escuro, tal era
+o receio que sentia de enternecer-se deante
+da belleza ineffavel, do divino mysterio das
+cousas...
+<br />
+
+<br />
+
+Viu uma enorme sphinge egypcia talhada
+no rochedo de granito e obrigou-a a confessar
+o Santo Nome de Jesus Christo. Encontrou
+um eremita bhuddico, todo n&uacute;, de barba
+branca a fluctuar-lhe em ondas no peito curtido
+ao sol, e, depois de lhe ouvir a confiss&atilde;o
+do seu <em>nihilismo</em> absoluto, depois de
+lhe escutar
+as blasphemias de um scepticismo sem
+fim, ainda tentou convertel-o &agrave; f&eacute; profunda
+que lhe abrazava o cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A paizagem luminosa e estranha desentranhava-se
+em maravilhas; o <em>ibis</em> mysterioso
+e hieratico retratava no liquido espelho do rio
+<span class="pagenum">[203]</span>
+o seu longo pesco&ccedil;o c&ocirc;r de rosa pallido; os
+salgueiros agitavam a m&uacute;rmura folhagem argentea;
+as cegonhas voavam no c&eacute;u claro; e
+nos cannaviaes da margem escutava-se o grito
+de outras aves aquaticas.
+<br />
+
+<br />
+
+O valle perdia-se ao longe em ondula&ccedil;&otilde;es
+verdes; as aguas palpitavam como um seio
+de virgem; a seiva, a vida, a fecundidade, o
+amor fremente e creador parecia pullular em
+tudo, em tudo...
+<br />
+
+<br />
+
+Paphnucio, por&eacute;m, s&oacute; pensava na
+cortez&atilde;
+esbelta e branca, de bra&ccedil;os c&ocirc;r de lyrio e
+olhos c&ocirc;r de violeta, que em Alexandria representava
+as trai&ccedil;&otilde;es de Helena, os delirios
+de Ph&eacute;dra, o sacrificio da candida Ephigenia,
+ante uma turba delirante, que a sua belleza
+embriagava e perdia...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>II
+</h4>
+
+<br />
+
+A primeira vez que, em Alexandria, Paphnucio
+avista Tha&iuml;s &eacute; no theatro em
+que ella representava a immola&ccedil;&atilde;o de Polyxena.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3">
+Tal contra a linda mo&ccedil;a Polyxena<br />
+
+Consola&ccedil;&atilde;o extrema da m&atilde;i velha<br />
+
+Porque a sombra de Achilles a condemna<br />
+
+Co'o ferro o duro Phyrro se apparelha...
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se lembram do nosso Cam&otilde;es? Era justamente
+esse lance da epop&eacute;a homerica que
+Tha&iuml;s traduzia pela mimica expressiva e perfeita,
+a qual, na decadencia da Arte antiga,
+suppria agora na scena, viuva dos seus grandes
+<span class="pagenum">[205]</span>
+mestres de outr'ora, a alada, a divina poesia
+de Euripedes e de Menandro. Tha&iuml;s altiva
+e doce appareceu ao austero monge dando-lhe,
+como dava a todos que a contemplavam &laquo;o tragico
+estremecimento da sua fatal belleza.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Segue-se ent&atilde;o a lucta travada entre o asceta
+e todas as seduc&ccedil;&otilde;es pag&atilde;s que
+circumdavam a
+cortez&atilde; esplendida, para converter esta &aacute;
+religi&atilde;o
+dos pobres, dos miseraveis e dos simples.
+<br />
+
+<br />
+
+Tha&iuml;s f&ocirc;ra iniciada em pequenina por um
+escravo negro da Nubia, chamado Ahm&eacute;s,
+n'essa religi&atilde;o que reveste de t&atilde;o voluptuosas
+delicias o sacrificio e a d&ocirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+Tinha-a mesmo baptisado, em uma &eacute;poca de
+persegui&ccedil;&otilde;es e de angustias, o bispo proscripto
+de Cyreno, que pela Egreja soffr&ecirc;ra os mais
+horrendos martyrios.
+<br />
+
+<br />
+
+E toda a dulcissima e piedosa lenda evangelica
+lhe f&ocirc;ra contada baixinho, pela voz queixosa
+e cantante do misero escravo negro, quando
+Tha&iuml;s, maltratada pelos paes, sem tecto carinhoso
+que lhe abrigasse o corpinho infantil,
+torturado de a&ccedil;oites, ia deitar-se &aacute; noite a um
+canto do estabulo, entre animaes domesticos,
+com Ahm&eacute;s perto d'ella&#8213;sentado sobre os calcanhares,
+<span class="pagenum">[206]</span>
+as pernas dobradas, o busto direito
+na altitude hereditaria da sua ra&ccedil;a, e o rosto
+negro banhado n'aquella divina luz de esperan&ccedil;a
+e de misericordia com que a estrella de
+Bethlem tem, durante dezenove seculos, inundado,
+casta e divina, os desherdados de todo o
+bem terrestre.
+<br />
+
+<br />
+
+Portanto, n&atilde;o a espantou em excesso a
+appari&ccedil;&atilde;o
+do monge, depois de uma vida consagrada
+ao prazer, que lhe dera o t&eacute;dio sem lhe
+dar a felicidade.
+<br />
+
+<br />
+
+S&oacute; um momento, durante esses vinte annos
+de embriaguez hyper-aguda, ella conhec&ecirc;ra a
+ephemera felicidade de amar. As lagrimas que
+chorou tinham tido para a pobre um sabor acre
+e doce ao mesmo tempo. Nesse amor encontr&aacute;ra
+tudo&#8213;at&eacute; a perdida innocencia e a divina
+puerilidade da sua f&eacute;. A bella cortez&atilde; de
+Alexandria realiz&aacute;ra o delicioso pensamento do
+poeta, e tambem ella, como a Marion dos perdidos
+amores, podia repetir exultante:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3">
+<em>Et l'amour m'a refait une
+virginit&eacute;</em>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Mas subito esse homem, que de todos lhe
+parec&ecirc;ra diverso, appareceu-lhe tal como os
+<span class="pagenum">[207]</span>
+outros todos, e ella fugiu espavorida, para n&atilde;o
+v&ecirc;r mais a imagem da sua illus&atilde;o que se partira.
+<br />
+
+<br />
+
+Conheceu depois a gloria, os applausos, os
+enthusiasmos, as adora&ccedil;&otilde;es febris, que duravam
+uma hora e que se tinham julgado eternas.
+<br />
+
+<br />
+
+Por ella os philosophos se fizeram crian&ccedil;as
+credulas; os voluptuosos tiveram a coragem do
+suicidio; deram-lhe thesouros os avarentos; lagrimas,
+os egoistas; os poetas chamaram-lhe a
+sua Musa; os politicos esqueceram, para se
+demorarem aos seus p&eacute;s, o bem dos Estados e
+os requintes que ha no prazer do mando.
+<br />
+
+<br />
+
+E Tha&iuml;s, indifferente a todos e com todos
+brincando cruelmente, conservava no fundo da
+sua alma a recorda&ccedil;&atilde;o indistincta e vaga d'esse
+mundo mysterioso de que lhe tinham revelado
+o encanto.
+<br />
+
+<br />
+
+Supersticiosa e cheia de ancia indefinida, tinha
+a s&ecirc;de atormentadora do desconhecido, a
+que faz as santas, as arrependidas sublimes, e
+as loucas...
+<br />
+
+<br />
+
+Quando Paphnucio lhe appareceu, cedeu quasi
+que sem resistencia &aacute; rude voz que a chamava
+para o aspero caminho dos penitentes. Para seguir
+o seu implacavel mestre deixou os banquetes
+<span class="pagenum">[208]</span>
+em que a acclamavam, sob os bellos e
+poeticos nomes da poesia antiga, os homens
+mais opulentos e considerados da Alexandria,
+os poetas, os rhetoricos, os sacerdotes de Serapis,
+os dandys do tempo, preoccupados como
+os de hoje, com a arte de amestrar bellos cavallos
+e de enamorar bellas mulheres.
+<br />
+
+<br />
+
+Para o seguir, deu ordem aos numerosos escravos
+que a serviam, que queimassem os seus
+thesouros de arte: os cofres de marfim, de
+ebano e cedro, que, entreabrindo-se, deixavam
+cahir cor&ocirc;as, grinaldas, collares esplendidos; e
+os seus ricos tapetes, os seus bordados de prata,
+as tape&ccedil;arias floridas, os leitos faustosos, os
+coxins macios: e as estatuas de nymphas que
+pareciam animadas como mortaes: e o Eros
+eburneo a quem se attribuiam maravilhosas e
+n&atilde;o sabidas virtudes, e que valia o seu peso
+centuplicado em ouro.
+<br />
+
+<br />
+
+Para o seguir, desprezou os seus vestidos
+brilhantes; os mantos de purpura; as sandalias
+de ouro; os pentes, os espelhos, as lampadas
+cinzeladas por industriosas m&atilde;os de escravos
+artistas; as theorbas, as lyras:&#8213;todos os instrumentos
+da sua seduc&ccedil;&atilde;o complicada e subtil,
+todas as bellas cousas que representavam as
+<span class="pagenum">[209]</span>
+recorda&ccedil;&otilde;es de uma vida de luxo, de opulencia
+e de amor... N&atilde;o a prendeu a gloria de actriz
+estremecida; chamavam-lhe a clara estrella, a
+doce lua do c&eacute;u alexandrino, e o rude solitario
+arrebatou-a falando-lhe em penitencias duras
+e em flagelladores cilicios, em lagrimas de vergonha
+e de amargura choradas ao p&eacute; da Cruz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mulher, dizia-lhe o monge com voz colerica,
+arrastando-a comsigo ao longo da costa&#8213;v&ecirc;
+esse enorme mar azul. Nem toda a agua
+que elle tem p&oacute;de lavar as tuas manchas asquerosas!
+<br />
+
+<br />
+
+E emquanto elle a apostrophava com a eloquencia
+do mais impetuoso e ardente horror,
+relembrando-lhe uma por uma, com minuciosidades
+de confessor, as ignominias em que se
+perdera o seu corpo, que Deus fizera t&atilde;o bello,
+Tha&iuml;s seguia-o docilmente sob o sol abrazador,
+e por cima dos penhascosos caminhos, onde os
+seus p&eacute;s n&uacute;s, t&atilde;o lindos, tantas vezes
+cobertos
+de beijos, se desfaziam em sangue.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[210]</span>
+Todas estas paginas que contam o piedoso
+furor do apostolo, e a humildade ineffavel da
+peccadora arrependida, est&atilde;o escriptas com uma
+paix&atilde;o acre e flammejante.
+<br />
+
+<br />
+
+V&ecirc;-se bem que o inferno e todas as suas furias
+est&atilde;o dentro d'esse orgulhoso cora&ccedil;&atilde;o
+de
+monge, que se julga acima do Peccado e que
+&eacute; vencido pela for&ccedil;a irreductivel de um Poder
+que elle negou.
+<br />
+
+<br />
+
+Tha&iuml;s, n&atilde;o; essa arrependida e submissa
+&eacute;
+em Christo que pensa e a sua alma anceia por
+desprender-se do impuro corpo, para subir,
+lavada em lagrimas, ao seio eternamente misericordioso
+do Homem Divino que perdoou &aacute;
+Magdalena, e que n&atilde;o consentiu que fosse lapidada
+a mulher adultera pelos que n&atilde;o tinham
+direito de a julgar.
+<br />
+
+<br />
+
+A ultima parte do livro est&aacute; impregnada de
+uma ironia, delicada como tudo que sae da
+penna de Anatole France, mas destoante da
+opulencia da c&ocirc;r e de estylo que inspiram as
+duas primeiras partes.
+<br />
+
+<br />
+
+Consiste toda ella na narra&ccedil;&atilde;o das penitencias
+a que Paphnucio se entrega logo que percebe
+nitidamente que o zelo que o levou a
+salvar Tha&iuml;s conduzida por elle a um convento
+<span class="pagenum">[211]</span>
+de mulheres&#8213;n&atilde;o &eacute; t&atilde;o puro nem
+t&atilde;o desinteressado
+como na sua illus&atilde;o a respeito de si
+proprio elle suppuzera at&eacute; alli.
+<br />
+
+<br />
+
+As penitencias &aacute;s vezes chegam a ser de um
+comico <em>voltaireano</em>. Exemplo: a
+columna no
+alto da qual, mystico acrobata, elle se encarapitou
+um t&atilde;o longo espa&ccedil;o de tempo, que em
+volta d'este novo Sim&atilde;o o
+<em>Stylita</em> construiu-se
+uma grande cidade com todas as abomina&ccedil;&otilde;es
+mais ou menos legalisadas, que ha sempre nos
+centros populosos.
+<br />
+
+<br />
+
+Paphnucio dizia, por&eacute;m, aos bispos e &aacute; brilhante
+clerezia, que attrahidos pela fama da sua
+virtude rara, e dos milagres que ella operava
+sobre enfermos epilepticos, coxos, c&eacute;gos, manetas
+etc., etc., vinham cumprimental-o e visital-o
+de muito longe:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Meus irm&atilde;os, a penitencia que me imponho
+&eacute; nada em compara&ccedil;&atilde;o das
+tenta&ccedil;&otilde;es
+que tenho, e cujo numero e for&ccedil;a me espantam.
+Um homem visto de f&oacute;ra &eacute; pequeno, e do
+alto da columna a que Deus me elevou, vejo
+os seres humanos agitarem-se como formigas.
+Mas considerado interiormente, o homem &eacute; immenso;
+&eacute; grande como o mundo porque o cont&eacute;m
+em si... Tudo que se extende ante os
+<span class="pagenum">[212]</span>
+meus olhos, esses mosteiros, essas casas, essas
+barcas sobre o rio, essas ald&ecirc;as, e o que descubro
+ao longo de campos, de canaes, de areias,
+de montanhas, tudo isso &eacute;
+<em>nada</em> ao p&eacute; do que
+eu tenho aqui dentro! Ha no meu cora&ccedil;&atilde;o cidades
+innumeras e desertos sem fim. E o mal,
+o mal e a morte extendidos por sobre essa immensidade,
+cobrem-na, como a noite cobre a
+terra. Eu s&oacute;sinho contenho um Universo de
+pensamentos m&aacute;us.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Falava assim, accrescenta Anatole France,
+porque o <em>amor da mulher</em>, como uma
+serpente,
+se lhe enrosc&aacute;ra no seio.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O final do livro, ou antes, a moral do livro
+&eacute; esta: Presente-se a salva&ccedil;&atilde;o da
+cortez&atilde; arrependida
+que trouxera sempre, dentro do seu
+corpo manchado, a saudade nostalgica do ignoto
+bem, a chaga aberta e sangrenta de uma
+aspira&ccedil;&atilde;o insaciada&#8213;e a
+perdi&ccedil;&atilde;o do apostolo
+orgulhoso, que d&eacute;ra ao seu desejo, &aacute; sua
+paix&atilde;o
+terrena, a f&oacute;rma de um fanatico proselytismo,
+e que t&atilde;o rudemente falava &aacute;s gentes
+do Peccado e da Virtude.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[213]</span>
+Que quer Anatole France provar? pergunta
+a critica conspicua, um pouco escandalisada
+d'esta orgia de estylo, de descrip&ccedil;&otilde;es, de
+paizagens,
+de <em>dilettantismo</em> artistico.
+<br />
+
+<br />
+
+C&aacute; por mim imagino que elle n&atilde;o quiz provar
+nada.
+<br />
+
+<br />
+
+Quiz fazer divagar a sua imagina&ccedil;&atilde;o de poeta
+pelos desertos onde os monges vivem penitentes
+e castos, e pelas cidades douradas e
+luxuosas onde as actrizes bebem em ta&ccedil;as de
+crystal as perolas diluidas de uma adora&ccedil;&atilde;o
+voluptuosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Quiz levar-nos ao banquete do opulento pagador
+das esquadras de Alexandria, onde philosophos
+e poetas discreteiam com a elegancia e
+o requinte da civilisa&ccedil;&atilde;o de Bysancio. Quiz
+fazer-nos penetrar na alma de uma louca mulher
+d'aquelle tempo, t&atilde;o bella que, em ella
+entrando na sala do festim, coberta de fl&ocirc;res
+naturaes, parecia emprestar a estas a sua vida
+e receber d'ellas o mimo, a frescura o encanto
+virginal.
+<br />
+
+<br />
+
+Quiz&#8213;&eacute; este o sentido profundo e philosophico
+do seu livro&#8213;dizer-nos que &aacute;s vezes os
+que apresentam mais austera virtude s&atilde;o os
+que trazem mais serpentes venenosas no cora&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[214]</span>
+pharisaico, incapaz de indulgencia e de
+perd&atilde;o, e que o arrependimento, quando &eacute; sincero,
+humilde, e parte de uma alma sedenta
+do infinito e capaz de o conter em si, p&oacute;de
+resgatar grandes erros e lavar na fonte crystallina
+das suas lagrimas, muita nodoa de que
+o mundo, o impeccavel mundo, costuma fugir
+enojado e austero...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>Ernesto Renan
+</h3>
+
+<h4><span class="smallcaps">sua obra, o seu
+espirito, a sua philosophia</span>
+</h4>
+
+<br />
+
+<h4>I
+</h4>
+
+<br />
+
+Venho tarde para accrescentar qualquer
+cousa ao que n'este jornal de certo se
+tem dito a esta hora da vida de Renan, e da
+sua morte. Venho tarde para ajuntar, qualquer
+dado biographico, qualquer inedito incidente
+aos j&aacute; citados aqui por informadores
+habeis e intelligentes.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas venho cedo, talvez, para conversar com
+os leitores &aacute;cerca d'esse espirito encantador,
+que desapparecendo d'entre os vivos, deixa na
+Europa culta uma lacuna imprehenchivel.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute;, por&eacute;m, meu intento fazer
+<em>obra de</em>
+<span class="pagenum">[216]</span>
+<em>critico</em>, o que al&eacute;m de
+mais, seria prematuro
+ainda. Tentarei apenas dar a impress&atilde;o, que
+a minha sensibilidade recebeu da leitura d'esse
+fino artista, d'esse poeta, que t&atilde;o bem se
+conhecia a si mesmo, que um dia, figurando-se
+a si sob o nome <em>L&eacute;olin</em>,
+nos <em>Dramas Philosophicos</em>,
+dava do seu genio esta adoravelmente
+exacta defini&ccedil;&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O que &eacute; que eu fa&ccedil;o no mundo?
+Contemplo
+e goso. Vou a toda a parte; entro em todos
+os lugares e em todos comprehendo alguma
+cousa. Eis a minha profiss&atilde;o. Procuro o
+Bello, devorado de s&ecirc;de, que j&aacute;mais saciei. A
+verdade demanda maior dose de perseveran&ccedil;a
+nos que a buscam; &eacute; por isso que ella me
+foge, talvez.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha convivencia mais estreita, que a que
+tem largos annos existido, entre mim, obscura
+e pobre mulher, e essa deliciosa intelligencia
+de artista, um dos mais requintadamente
+perfeitos que a litteratura tem possuido em
+todo o mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; f&oacute;ra de duvida que, para mim, o
+<em>hebraisante</em>,
+o erudito, o epigraphista sagaz, o archeologo
+<span class="pagenum">[217]</span>
+meticuloso, o decifrador de textos assyrios,
+o <em>sabio</em>, emfim, que era Renan, me
+interessava mediocremente. Admirava que um
+t&atilde;o grande poeta tivesse a humilde
+ambi&ccedil;&atilde;o
+de ser apenas um grande erudito; ambi&ccedil;&atilde;o
+que lhe era de resto cruelmente contestada
+por terriveis homens calvos, de oculos azues
+com aros de ouro e nomes impronunciaveis
+de termina&ccedil;&otilde;es barbaras, que eu nunca tinha
+lido, e julgo aqui entre n&oacute;s, que s&oacute;mente se
+tinham lido a si mesmos...
+<br />
+
+<br />
+
+Esses, escreviam volumes <em>in folio</em>
+para provarem
+que o <em>Sr. Renan n&atilde;o conhecia os
+textos</em>,
+e o divino celta que tanta vez me fizera
+vibrar at&eacute; &aacute;s lagrimas com as notas da sua
+harpa mysteriosa&#8213;desesperava-se com a incredulidade
+d'aquelles medonhos eruditos allem&atilde;es,
+de que toda a gente que se presa ignora
+a existencia, n&atilde;o atinando sequer com a
+arrevesada pronuncia dos seus respectivos nomes...
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>hebraisante</em> era-me pois
+indifferente, mas
+o historiador ficava de p&eacute;, com a sua
+intui&ccedil;&atilde;o
+extraordinaria da alma religiosa das multid&otilde;es
+extinctas; com a vida intensa que elle sabia
+dar aos personagens do passado; com a sua
+<span class="pagenum">[218]</span>
+vis&atilde;o clara e profunda das cousas que j&aacute; foram;
+com o magico poder de evoca&ccedil;&atilde;o que
+elle possuia, como Carlyle o possuiu, como o
+possuiram Michelet e Victor Hugo, mas de
+um modo inteiramente diverso d'aquelles todos.
+<br />
+
+<br />
+
+Um Michelet resuscitando periodos historicos
+de enthusiasmo fremente e de doentia exalta&ccedil;&atilde;o,
+saber&aacute; dar vida &aacute;s
+perturba&ccedil;&otilde;es nervosas,
+aos desfallecimentos e aos extases dos
+seus congeneres do passado.
+<br />
+
+<br />
+
+Um Victor Hugo dar&aacute; o nitido contorno das
+cousas, e at&eacute; para o mundo da
+allucina&ccedil;&atilde;o levar&aacute;
+o seu poder de descrever o incommensuravel,
+de figurar o impossivel...
+<br />
+
+<br />
+
+Um Carlyle tera a vis&atilde;o ardente de um
+mundo como foi o puritano, capaz de produzir
+Cromwell; e saber&aacute;&#8213;desmontando pe&ccedil;a a
+pe&ccedil;a o machinismo complicado d'esse caracter
+de allucinado e de batalhador, de perfido
+conductor de homens, e de crente quasi
+fanatico&#8213;revelar-nos o segredo da quadra estranha
+de que elle &eacute; o producto natural, a resultante
+logica...
+<br />
+
+<br />
+
+Renan saber&aacute; principalmente interpretar e
+traduzir problemas e sentimentos moraes, estados
+<span class="pagenum"><a name="p219" id="p219">[219]</a></span>
+de consciencia. Para elle, como para o
+grande inglez que escreveu o <em>Culto dos
+heroes</em>,
+a historia, <em>&eacute; uma cousa viva, uma <a href="#e17">cousa</a>
+ineffavel e divina</em>, destinada a resuscitar
+diante dos olhos do nosso espirito, os soffrimentos,
+as emo&ccedil;&otilde;es violentas ou delicadas, as
+luctas, as tristezas, as fraquezas e heroicidades,
+dos nossos irm&atilde;os que morreram, das
+gera&ccedil;&otilde;es que modelaram fatalmente a nossa,
+e &aacute;s quaes devemos o que somos em bom e
+em mau.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quando a noticia da morte de Renan nos
+veio sorprehender dolorosamente a todos, acabava
+eu de passar dois mezes no campo, em
+uma solid&atilde;o quasi absoluta, em uma
+isola&ccedil;&atilde;o
+moral quasi selvagem, lendo apenas com intima
+delicia, o mais arido talvez, por ser o
+mais erudito, de todos os livros do grande
+exegeta: a sua longa <em>Historia do Povo de
+Israel</em>,
+cujo 4.&ordm; e 5.&ordm; volumes elle deixou para
+serem posthumamente publicados.
+<br />
+
+<br />
+
+E depois de ter vencido aquelle primeiro
+impulso de pregui&ccedil;a, que um espirito de mulher
+indolente n&atilde;o podia deixar de experimentar
+<span class="pagenum">[220]</span>
+ante um trabalho d'esta ordem&#8213;eu
+acab&aacute;ra por sentir-me irresistivelmente e deliciosamente
+transportada &aacute;quelles tempos obscuros
+em que o semita nomada, o soberbo
+vagabundo da Historia, enriqueceu o thesouro
+humano, com a mais alta no&ccedil;&atilde;o religiosa a que
+&aacute; nossa especie foi dado ainda attingir, a
+no&ccedil;&atilde;o
+de um <em>deus unico</em>, cujo espirito
+est&aacute; em
+tudo, e ao qual o vasto Universo obedece submisso!...
+<br />
+
+<br />
+
+Assim como a Grecia creou a alta cultura
+intellectual, a philosophia, a poesia, as artes
+plasticas; assim como Roma creou as fortes
+institui&ccedil;&otilde;es politicas, tendo o Direito por base;
+o semita creou a religi&atilde;o de que a nossa alma
+se tem alimentado longos seculos, e que t&atilde;o
+profundo cunho lhe imprimiu, que ainda hoje
+o mais sceptico de entre os scepticos demolidores
+do passado se n&atilde;o p&oacute;de libertar da sua
+poderosa e absorvente influencia!
+<br />
+
+<br />
+
+Essa genese de monotheismo, que Renan
+intitulou a <em>Historia do Povo de
+Israel</em>, &eacute; talvez
+de todas as suas obras aquella em que as
+soberbas e multiplas faculdades do seu grande
+espirito tiveram melhor espa&ccedil;o para se desenvolverem.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p221" id="p221">[221]</a></span>
+Nada mais bello, nada mais profundamente
+interessante para um espirito que pensa, do
+que a evolu&ccedil;&atilde;o da id&eacute;a religiosa,
+seguida passo
+a passo, com os seus periodos de impetuosa
+florescencia, com os seus desfallecimentos e os
+seus eclypses, com os desdobramentos subitos
+de sua apaixonada energia, com as acquisi&ccedil;&otilde;es
+moraes, t&atilde;o laboriosamente e dolorosamente
+feitas atravez de violencias spasmodicas
+e de paroxysmos convulsionarios.
+<br />
+
+<br />
+
+Sendo a civilisa&ccedil;&atilde;o moderna uma resultante
+da collabora&ccedil;&atilde;o alternativa da Grecia, da
+Jud&eacute;a
+e de Roma, as origens da historia d'essa
+ra&ccedil;a mysteriosa, em cujo seio havia virtualmente
+<em>Jahv&ecirc;</em> e
+<em>Jesus</em> n&atilde;o podem deixar de
+produzir uma ardente curiosidade em todo o
+espirito avido de conhecimento e de luz moral.
+<br />
+
+<br />
+
+Eu tinha-me pois, n'essa reclus&atilde;o completa
+em que vivera, embriagado longamente, voluptuosamente,
+da prosa, de Renan, capitosa
+e perturbadora.
+<br />
+
+<br />
+
+E quem como elle sabia, da lingua <a href="#e18">que</a>
+fallava,
+extrahir effeitos de harmonia, ao p&eacute; dos
+quaes, os das outras artes me pareciam absolutamente
+secundarios?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[222]</span>
+Falando do idioma hebraico, Renan diz em
+uma das bellas paginas da sua <em>Historia do
+Povo de Israel</em>:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Uma aljava de flechas de ouro, um grosso
+cabo de potentes contors&otilde;es, um trombone de
+bronze, dilacerando o espa&ccedil;o com duas ou
+tres agudas notas: eis o hebraico.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Uma lingua d'estas n&atilde;o pode exprimir nem
+um pensamento philosophico, nem um resultado
+scientifico, nem uma duvida, nem uma
+percep&ccedil;&atilde;o do infinito.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;As lettras dos seus livros ser&atilde;o contadas
+como numeros, mas ser&atilde;o feitas de fogo como
+a chamma. Dir&aacute; poucas cousas essa lingua,
+mas as que disser, ser&atilde;o martelladas sobre
+uma bigorna.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Derramar&aacute; ondas de colera, ter&aacute; gritos
+de
+raiva contra os abusos do mundo; clamar&aacute;
+pelos quatro ventos do c&eacute;o para que acudam
+ao assalto das cidadellas do Mal. Como os
+instrumentos rituaes do santuario n&atilde;o servir&aacute;
+para uso algum profano; nunca lhe ser&aacute; dado
+exprimir a alegria innata da consciencia, a luminosa
+serenidade da Natureza; mas clamar&aacute;
+a guerra santa contra a injusti&ccedil;a, e o appello
+<span class="pagenum">[223]</span>
+dos grandes panegyricos; ser&aacute; o clar&atilde;o das
+neomenias e a trombeta do Juizo final. Felizmente
+que o genio hellenico compor&aacute;, para a
+express&atilde;o das alegrias e das tristezas da nossa
+alma um ala&uacute;de de sete cordas, o qual saber&aacute;
+vibrar unisono com tudo que &eacute; humano, um
+grande org&atilde;o de mil teclas igual &aacute;s multiplas
+alegrias da vida.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A Grecia conhecer&aacute; toda as delicias, desde
+as dansas em c&ocirc;ro nos pincaros do Taygeto
+at&eacute; ao banquete de Aspasia; desde o sorriso
+de Alcibiades at&eacute; &aacute; austeridade do Portico;
+desde a can&ccedil;&atilde;o de Anacreonte at&eacute; ao
+drama
+philosophico de Eschylo e aos sonhos dialogados
+de Plat&atilde;o.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Este admiravel, este soberbo trecho, que
+acabamos de traduzir integralmente, em que o
+genio das duas linguas toma forma, em uma
+outra lingua, nunca fallada com tal melodia
+e tal poder, quizera eu que fosse posto como
+epigraphe &aacute; <em>Historia do Povo de
+Israel</em>, em
+que Renan traduziu genialmente sob a divina
+inspira&ccedil;&atilde;o do genio Grego, a alma tumultuosa
+e sombria, agitada e sequiosa de justi&ccedil;a, dos
+prophetas da ra&ccedil;a semitica.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[224]</span>
+Oh! como elles renascem alli nas paginas
+do grande escriptor, os fundadores de quanto
+ha de tremendo e de sombrio na religi&atilde;o que
+veio depois a dominar o mundo!
+<br />
+
+<br />
+
+Como alli se reflecte igualmente, na prosa
+divina do Mestre, a Grecia que <em>sobre a
+Acropole</em>
+lhe revelou o segredo dos seus primores!
+O assumpto &eacute; o semita, mas a lingua em que
+essa sublime evoca&ccedil;&atilde;o se fez, o magico
+instrumento,
+atravez do qual n&oacute;s communicamos
+com o arido e difficil assumpto, a inspira&ccedil;&atilde;o
+adoravel, que presidiu a este trabalho de
+reconstitui&ccedil;&atilde;o
+historico-religiosa, a arte plastica,
+com que elle &eacute; genialmente modelado, tudo
+isso foi colhido pela alma de Renan, abelha
+&eacute;bria de luz e de perfume e de succos balsamicos,
+no cora&ccedil;&atilde;o da Grecia!
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; s&oacute; ahi que a Belleza e a Raz&atilde;o
+t&ecirc;em a
+mesma f&oacute;rma e a mesma essencia; &eacute; s&oacute;
+ahi
+que a Venus Amphytrite sorri &aacute; musa de Socrates
+e que a Poesia e a Religi&atilde;o enredam
+voluptuosamente a fantasia e a sensibilidade
+do homem na mesma rede azul e ouro tecida
+de sonhos, que s&atilde;o symbolos e de chimeras entontecedoras,
+que sao divinas verdades.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas quem leu s&oacute;mente de Renan a <em>Historia</em>
+<span class="pagenum">[225]</span>
+<em>do Povo de Israel</em> ficar&aacute;
+conhecendo todo
+o genio complexo do escriptor?
+<br />
+
+<br />
+
+Decerto que n&atilde;o. Elle &eacute; um grego pelo amor
+da belleza plastica, mas &eacute; um celta pela sensibilidade
+doentia, pela delicadeza concentrada
+do seu genio.
+<br />
+
+<br />
+
+Os que desejarem conhecel-o, precisam de
+ler tudo que elle escreveu.
+<br />
+
+<br />
+
+Precisam de seguil-o atravez dos meandros,
+alguns quasi inaccessiveis, da sua <em>Historia das
+origens do Christianismo</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Precisam de penetrar bem no estranho mysticismo
+que ha no fundo d'este temperamento
+de sceptico; precisam de interrogar os escaninhos
+inesperados d'esta imagina&ccedil;&atilde;o de poeta,
+que em certas paginas,&#8213;como por exemplo, no
+sonho de Leolino, na <em>Eau de
+Jouvence</em>, invocando
+a alma da adorada irm&atilde; morta; nas paginas
+dulcissimas dos <em>Souvenirs de
+Jeunesse</em>; na
+symphonia esplendida que se chama <em>La Pri&egrave;re
+sur l'acropole</em>; na dedicatoria de um dos
+seus livros celebres; em trechos dos seus estudos
+de <em>Historia Religiosa</em>;&#8213;attinge uma
+<em>virtuosidade</em>,
+um poder de harmonia, excita uma
+emo&ccedil;&atilde;o, faz vibrar t&atilde;o intensamente os
+nervos
+do leitor, que p&oacute;de bem dizer-se que a lingua
+<span class="pagenum">[226]</span>
+falada e escripta se transforma sob os seus
+dedos de magico em musica transcendente que
+parece vir d'al&eacute;m da terra, em musica que penetra
+no cora&ccedil;&atilde;o e o desfallece de delicioso extase.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="p227" id="p227"></a>
+<h4>II
+</h4>
+
+<br />
+
+Este conhecimento da obra total do grande
+escriptor, que eu considero imprescindivel
+em quem, com acerto e justi&ccedil;a, quizer
+falar d'elle, n&atilde;o o tinham, estranho &eacute; dizel-o,
+sen&atilde;o com rarissimas excep&ccedil;&otilde;es, os que
+em
+Fran&ccedil;a, no jornalismo, commemoraram luctuosamente
+o <a href="#e19">passamento</a> de Renan. A
+accusa&ccedil;&atilde;o
+que eu aqui deixo, f&ecirc;l-a, com a sua gra&ccedil;a
+incomparavel Julio Lema&icirc;tre no artigo que ao
+seu querido philosopho consagrou no <em>Jornal
+dos Debates</em>. Porque Renan escreveu muito,
+escreveu immenso. Durante cincoenta annos
+trabalhou dez horas por dia, o que &eacute; extraordinario.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[228]</span>
+E al&eacute;m das monographias scientificas e dos
+estudos especiaes que public&aacute;ra nas
+<em>Revistas</em>
+e nos Jornaes de Sciencias, al&eacute;m da
+<em>Historia
+das Origens do Christianismo</em>, que vae de
+<em>Jesus</em> a <em>Marco
+Aurelio</em>, e que se comp&otilde;e de
+sete grossos volumes, al&eacute;m da <em>Historia do
+Povo de Israel</em> de que ha publicados tres volumes
+e para publicar dois, elle passou as horas
+que n&atilde;o consagrava &aacute; sua principal tarefa,
+a escrever toda a especie de artigos litterarios:
+<em>ensaios criticos</em>;
+<em>dialogos philosophicos</em> &aacute;
+maneira
+de Plat&atilde;o, como os que publicou em volume
+com o titulo que acima d&eacute;mos; comedias
+e dramas &aacute; moda e na tradi&ccedil;&atilde;o de
+Shakespeare
+como o <em>Pr&ecirc;tre de Nemi</em>,
+<em>L'eau de Jouvence</em>,
+<em>Caliban</em>, etc. etc.; cartas que
+s&atilde;o celebres
+como aquella escripta <em>&agrave; un ami
+d'Allemagne</em>,
+e outra a <em>Mr. Berthelot</em>; fragmentos
+de historia religiosa; estudos de moral; trechos
+adoraveis como o consagrado a Francisco
+d'Assis, o santo que teve a adora&ccedil;&atilde;o de Michelet
+e de Renan, etc. etc.
+<br />
+
+<br />
+
+As mil faces do talento de Renan s&oacute; as conhece
+o que leu essa obra vastissima atravessada
+por uma flecha ideal de encanto e de magia;
+para a saber apreciar devidamente, &eacute; comtudo,
+<span class="pagenum">[229]</span>
+necessario mais do que havel-a lido, porque
+ent&atilde;o, n'esse caso estava a minha humilde
+pessoa, a qual se recusa a t&atilde;o elevada empreza.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma das accusa&ccedil;&otilde;es feitas a Renan, at&eacute;
+pelos
+seus criticos mais benevolos, &eacute; a de contradictorio
+e a de incoherente.
+<br />
+
+<br />
+
+Baptis&aacute;ram de <em>renanismo</em>
+uma certa qualidade
+requintada e subtil de duvida amavel, que
+acolhe todas as id&eacute;as, que acha em todas alguma
+cousa de verdadeiro e muito de falso,
+que se balou&ccedil;a voluptuosamente entre doutrinas
+adversas, que se inclina ora para uma ora
+para outra das mil f&oacute;rmas da vida sem se dar
+completamente a nenhuma d'ellas, que em cada
+chimera acha um fundo de verdade, e em cada
+verdade acceita e indiscutida um fundo de inanidade
+e de illus&atilde;o, que ante a Natureza,&#8213;Isis
+de mil faces,&#8213;se limita a comprehender e
+acceitar as contradic&ccedil;&otilde;es do Universo,
+explicando-as
+se p&oacute;de, e admittindo a legitimidade
+absoluta dos mais variados pontos de vista,
+sem ter nenhuma das qualidades estreitas e
+limitadas do sectario ou do fanatico.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora esse modo de ser intellectual &eacute; tanto da
+nossa &eacute;poca, que Renan, professando-o, n&atilde;o fez
+<span class="pagenum"><a name="p230" id="p230">[230]</a></span>
+mais do que representar em uma condensa&ccedil;&atilde;o
+superior de pensamento e de critica, a
+philosophia do seu tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Que culpa teve elle de nascer justamente em
+um periodo da civilisa&ccedil;&atilde;o em que estes caracteres
+da intelligencia s&atilde;o justamente os que
+assignalam o <em>homem superior</em>, o
+artista consciente,
+o <em>representative man</em> de uma phase
+do pensamento humano.
+<br />
+
+<br />
+
+De resto, querendo dizer a verdade toda, esse
+estado de espirito de Renan, &eacute;-lhe commum
+com as intelligencias mais altas de todos os
+tempos. Shakespeare, que foi tambem um <a href="#e20"><em>dilectando</em></a>
+genial n&atilde;o dizia j&aacute; que o <em>homem
+&egrave; talvez
+feito do mesmo estofo que os seus sonhos</em>?
+<br />
+
+<br />
+
+A interpreta&ccedil;&atilde;o dos phenomenos visiveis do
+mundo &eacute; feita por esses espiritos, n&atilde;o de um
+modo racionalista e logico, mas consoante a
+fugitiva inspira&ccedil;&atilde;o do momento que passa.
+<br />
+
+<br />
+
+A raiz de toda a realidade mergulha em um
+abysmo insondavel e obscuro, em que elles gostam
+de debru&ccedil;ar-se, ora trementes de pavor,
+ora gelados pela duvida...
+<br />
+
+<br />
+
+Mas a justi&ccedil;a, que nem sempre fazem a
+Renan e que &eacute; necessaria fazer-lhe, exige que
+se accrescente a esses tra&ccedil;os por assim dizer
+<span class="pagenum"><a name="p231" id="p231">[231]</a></span>
+exteriores de seu talento esta qualidade fundamental
+que resalva o que elles podiam ter
+de perigoso para os discipulos de sua philosophia.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha uma cousa em que elle acreditou sempre,
+da qual n&atilde;o negou nunca a existencia
+<em>necessaria</em>, embora lhe contestasse
+&aacute;s vezes
+nos caprichos da sua ondeante palavra, cariciosa
+e triste, os resultados uteis, ou as compensa&ccedil;&otilde;es
+interesseiras; essa cousa &eacute; a
+<em>moral</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A moral &eacute; a cousa s&eacute;ria e verdadeira
+por
+excellencia; basta ella para dar um sentido e
+um fim &aacute; vida humana, diz elle no prologo
+dos seus <em>Ensaios de Moral e de
+Critica</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Escondem-nos v&eacute;os impenetraveis o segredo
+d'este mundo estranho, cuja realidade se
+imp&otilde;e a n&oacute;s e nos esmaga; a philosophia e a
+sciencia procuram eternamente, sem j&aacute;mais a
+encontrarem, a f&oacute;rmula d'esse Proteu que a
+raz&atilde;o n&atilde;o limita e que a linguagem
+n&atilde;o <a href="#e21">exprime</a>.
+Mas ha uma base indubitavel que o
+scepticismo por mais completo n&atilde;o p&oacute;de abalar,
+onde o homem achar&aacute; at&eacute; ao termo dos
+seus dias o ponto fixo de todas as incertezas;
+o bem &eacute; o bem; o mal &eacute; o mal. Para odiar
+um e amar outro, n&atilde;o &eacute; necessario qualquer
+<span class="pagenum"><a name="p232" id="p232">[232]</a></span>
+systema, e &eacute; n'este sentido que a f&eacute; e o amor,
+que na apparencia n&atilde;o t&ecirc;em
+liga&ccedil;&atilde;o alguma
+com a intelligencia, s&atilde;o o verdadeiro fundamento
+da certeza moral e o unico meio que
+o homem possue para comprehender alguma
+cousa do problema da sua origem e do seu
+destino.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Por estas palavras sinceras e que Renan
+honrou t&atilde;o nobremente, em uma longa existencia
+laboriosa, honesta e casta, consagrada
+ao trabalho incessante, &aacute; desinteressada
+investiga&ccedil;&atilde;o
+da verdade, &aacute;s sondagens t&atilde;o <a href="#e22">difficeis</a>
+da Historia,&#8213;por estas palavras se percebe
+bem claro, que o renanismo n&atilde;o significa
+indifferen&ccedil;a
+moral, mas sim benevola sympathia
+por ideaes diversos, contempla&ccedil;&atilde;o amorosa
+dos phenomenos que se succedem em perpetua
+fluidez, em perpetua transforma&ccedil;&atilde;o, embevecimento
+perante as mil f&oacute;rmas alliciadoras
+com que a eterna illus&atilde;o nos tenta, nos
+seduz, nos anesthesia, para nos fazer aceitar
+o pesado encargo da vida...
+<br />
+
+<br />
+
+A riqueza extraordinaria d'esta intelligencia
+consiste na quantidade de contrastes, de
+aspectos e de <em>nuances</em> que n'ella se
+conciliam
+e n'ella se cont&eacute;m. Os contrastes de um caracter
+<span class="pagenum">[233]</span>
+s&atilde;o o s&ecirc;llo da sua individualidade, da
+sua vida exuberante e intensa. Os contrastes
+de id&eacute;as cabendo em uma intelligencia d&atilde;o a
+medida do seu grande valor.
+<br />
+
+<br />
+
+As contradi&ccedil;&otilde;es que desnorteiam uma logica
+vulgar, n&atilde;o assustam por exemplo o pensamento
+allem&atilde;o de uma t&atilde;o extraordinaria
+complexidade. A concep&ccedil;&atilde;o, a synthese magnifica
+de um Hegel envolve e concilia os mais
+contrarios termos no seu vastissimo seio. Ora,
+em Renan, al&eacute;m da influencia da Biblia, t&atilde;o
+accentuada no seu modo dizer e de sentir,
+al&eacute;m da influencia grega t&atilde;o esplendidamente
+demonstrada na <em>ora&ccedil;&atilde;o sobre a
+acropole</em>, que
+vem inserta nos adoraveis <em>Souvenirs de
+jeunesse</em>,
+actuou de um modo profundo, decisivo
+a influencia da Allemanha.
+<br />
+
+<br />
+
+Na sua moral Renan obedece &aacute;
+inspira&ccedil;&atilde;o
+de Kant, na sua concep&ccedil;&atilde;o do Universo, Renan
+&eacute; Hegeliano. E sen&atilde;o vejamos esta phrase
+caracteristica:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Deus &eacute; immanente no conjunto do Universo,
+e em cada um dos seres que o comp&otilde;em.
+N&atilde;o se reconhece, por&eacute;m, egualmente em todos.
+Reconhece-se mais na planta que no rochedo,
+mais no animal que na planta, mais no
+<span class="pagenum">[234]</span>
+homem que no animal, mais no homem intelligente
+que no cerebro limitado, mais em
+Socrates que no homem de genio, mais em
+Buddha que em Socrates, mais em Christo
+que em Buddha.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Eis o resumo de toda a theologia hegelina
+e <em>renanesca</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Se accrescentarmos a isto a affirma&ccedil;&atilde;o de
+que nenhuma vontade particular se tem manifestado
+at&eacute; hoje, nem poder&aacute; j&aacute;mais
+manifestar-se
+na evolu&ccedil;&atilde;o do Universo, ou na marcha
+da humanidade, mas que esse Deus, de
+que elle nega a existencia pessoal, est&aacute; por
+assim dizer em forma&ccedil;&atilde;o no tempo e no
+espa&ccedil;o,
+&aacute; propor&ccedil;&atilde;o que o mundo vai attingindo
+a consciencia sempre mais perfeita de si
+proprio, e que o homem vai descobrindo as
+eternas leis da verdade, da belleza, da virtude
+e do bem; de que o Universo tem um fim
+id&eacute;al, aspira a um divino objectivo e n&atilde;o
+&eacute;
+nem p&oacute;de ser a resultante de uma
+agita&ccedil;&atilde;o
+inane, inutil e v&atilde;; que a raz&atilde;o, reinando mais
+e mais sobre a humanidade, acabar&aacute; por
+<em>crear
+Deus</em>, creando o bem absoluto, e a divina harmonia
+das cousas;&#8213;n&oacute;s teremos completado
+a philosophia de Renan, nem sempre original,
+<span class="pagenum">[235]</span>
+e em todo caso pouco consoladora para os humildes
+e para os pobres de espirito que em
+nada collaboram para a forma&ccedil;&atilde;o definitiva
+d'esse Deus, que est&aacute; em via de apparecer vizivel
+aos homens que hajam attingido o mais
+alto ponto da consciencia...
+<br />
+
+<br />
+
+Esta philosophia reveste-se por&eacute;m, das mais
+deliciosas f&oacute;rmas, ella tem para se desenvolver
+e para se reduzir a preceitos geraes, um
+instrumento incomparavel, de uma gra&ccedil;a que
+nenhum artista ainda egualou.
+<br />
+
+<br />
+
+Esse instrumento, que &eacute; a prosa de Renan,
+&eacute; que o torna principalmente querido entre os
+que l&ecirc;em...
+<br />
+
+<br />
+
+A sua melancolia de celta, a sua sensibilidade
+doentia, a do&ccedil;ura estranha, inspirada de
+algumas das suas phrases, tem tido sobre a
+minha alma de mulher o poder inexplicavel
+de um sortilegio.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>III
+</h4>
+
+<br />
+
+O desinteresse levado quasi a um extremo
+irritante para os praticos homens de hoje,
+a fidelidade tocante a todas as causas vencidas;
+um amor das tradi&ccedil;&otilde;es da ra&ccedil;a, que se
+exalta at&eacute; &aacute; poesia, uma f&oacute;rma de
+imagina&ccedil;&atilde;o
+absolutamente singular e inconfundivel caracterisam
+os Celtas, a cuja ra&ccedil;a Renan tanto se
+orgulhava de pertencer.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Em parte alguma, diz elle, a eterna illus&atilde;o
+se adornou de mais seductoras c&ocirc;res, e no
+grande concerto da especie humana nenhuma
+familia egualou esta, nos sons penetrantes, que
+v&atilde;o at&eacute; o cora&ccedil;&atilde;o. Os seus
+cantos de alegria
+acabam em tom elegiaco; nada eguala a deliciosa
+<span class="pagenum">[237]</span>
+tristeza das suas melodias nacionaes;
+dir-se-hiam emana&ccedil;&otilde;es do c&eacute;u, que,
+deslisando
+gotta a gotta dentro d'alma, a penetram,
+como reminiscencias de outro mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ninguem, como ella, saboreou j&aacute;mais
+t&atilde;o
+longamente essas volupias solitarias da consciencia,
+essas reminiscencias poeticas, em que
+se cruzam simultaneamente todas as sensa&ccedil;&otilde;es
+da vida, t&atilde;o vagas, e profundas e penetrantes,
+que, a prolongarem-se muito, fariam
+morrer, sem que pudesse dizer-se se era de
+delicia ou de amargura.
+<br />
+
+<br />
+
+A infinita delicadeza de sentimento que caracterisa
+a ra&ccedil;a celtica est&aacute; estreitamente ligada
+&aacute; sua necessidade de concentra&ccedil;&atilde;o...
+D'ahi esse pudor delicioso, esse <em>n&atilde;o sei
+qu&ecirc;</em>
+de velado, de requintado, de sobrio, a egual
+distancia da rhetorica do sentimento t&atilde;o familiar
+aos povos latinos e da ingenuidade reflectida
+que tanto se faz sentir nos allem&atilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Essa ra&ccedil;a quer o infinito; tem s&ecirc;de
+d'elle;
+procura-o a todo o pre&ccedil;o, para al&eacute;m da tumba,
+para al&eacute;m do inferno...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Estas phrases de Renan, colhidas no seu esplendido
+estudo sobre a <em>poesia das ra&ccedil;as
+celticas</em>
+<span class="pagenum">[238]</span>
+s&atilde;o o segredo de mil particularidades
+d'aquella fina sensibilidade de artista.
+<br />
+
+<br />
+
+O que elle diz dos cantos nacionaes da sua
+ra&ccedil;a, podia egualmente applicar-se ao genero
+indefinivel de encanto quasi physico que a sua
+prosa exerce em temperamentos accessiveis a
+certa ordem de emo&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+A estranha combina&ccedil;&atilde;o que n'elle se fez de
+duas inspira&ccedil;&otilde;es t&atilde;o oppostas e ambas
+t&atilde;o
+pronunciadas no seu espirito, a da poesia biblica
+e a da poesia dos Celtas; a alta cultura
+complexa que o seu entendimento assimilou
+de um modo t&atilde;o feliz; o dom irresistivel da
+ironia que a fada que presidiu ao seu nascimento
+lhe trouxe occulto entre as mais finas
+flores de uma sensibilidade morbida; o optimismo
+de um temperamento s&atilde;o e de uma
+calma existencia, luctando com a no&ccedil;&atilde;o pessimista
+que a sciencia lhe deu do Universo e
+da vida; as suas tendencias de
+<em>dilettante</em> e de
+aristocrata, desenvolvido em um meio de brutal
+democracia e de <em>lucta pela vida</em>
+phrenetica;
+a hereditariedade de uma m&atilde;e da Gasconha e
+de um pae bret&atilde;o; at&eacute; a estranha circumstancia
+de elle ter ouvido&#8213;nos bra&ccedil;os maternos
+e dos labios queridos de onde lhe escorria o
+<span class="pagenum">[239]</span>
+mel dos unicos beijos que n&atilde;o mentem,&#8213;contados
+com a mais graciosa florescencia de
+incidentes e detalhes, todas as nebulosas
+tradic&ccedil;&otilde;es
+do Cyclo de Arthur, todas as lendas poeticas
+de Bretanha, isto por uma deliciosa voz ironica,
+que n&atilde;o acreditava n'ellas, e que era como
+o acompanhamento musical da serenata
+de D. Juan, o risonho desmentido &aacute;quella poesia
+tecida em sonhos;&#8213;todos estes contrastes,
+todas estas influencias contradictorias, composeram
+em n&atilde;o sei que mysterioso laboratorio,
+a essencia rara que era o genio de Renan.
+<br />
+
+<br />
+
+Esse philtro capitoso, inebriante, seria salutar?
+Parece-me, receio bem que n&atilde;o! Renan
+era muito do seu tempo para n&atilde;o ter d'elle a
+pontinha de corrup&ccedil;&atilde;o intellectual, que, em
+temperamento physico menos equilibrado, levaria
+ao scepticismo dissolvente, &aacute; egoistica
+indisciplina que se traduz pela satisfa&ccedil;&atilde;o de
+todas
+as paix&otilde;es, ainda as mais funestas.
+<br />
+
+<br />
+
+Elle, que era um santo na pratica da vida,
+e que, sahindo do seminario, quiz trazer para
+o trato social as virtudes, a castidade, a serena
+despreoccupa&ccedil;&atilde;o de sentimentos que o agitassem,
+que lhe haviam sido recommendadas pelos
+padres que o cre&aacute;ram; elle, que era um santo
+<span class="pagenum">[240]</span>
+na moral, podia na vida intellectual ser esse
+delicioso <em>diletante</em> que se comprazia
+em perder-se
+nos complicados meandros do pensamento,
+amando como Socrates a virtude e
+chamando-lhe como Bruto um <em>nome
+v&atilde;o!</em>
+glorificando o martyrio e notando ao mesmo
+tempo a impossibilidade que ha para o homem
+superior em morrer por <em>uma
+id&eacute;a</em>, necessariamente
+falsa, pois que nunca a verdade p&oacute;de
+estar em uma s&oacute; face de qualquer doutrina;
+recommendando a <em>moral</em> como
+&laquo;a cousa por
+excellencia verdadeira e s&eacute;ria&raquo; e dizendo aos
+homens, aos fracos mortaes a quem o desinteresse
+custa tanto, que nenhuma recompensa
+lhes advir&aacute; dos sacrificios feitos a essa
+abstrac&ccedil;&atilde;o
+sublime; negando a interven&ccedil;&atilde;o de
+Deus na obra universal e affirmando que o
+Universo tem um fim divino; sentindo e communicando
+aos que o l&ecirc;em, as sensa&ccedil;&otilde;es mais
+dubias e as mais contradictorias; vibrando ao
+influxo das id&eacute;as mais diversas, desde o mysticismo
+at&eacute; a transcendente ironia, tendo feito
+a viagem &aacute; roda do mundo do pensamento,
+e vindo de l&aacute;, da sua longa e laboriosa romaria,
+egualmente indifferente ou egualmente benevolo
+para todas as doutrinas, para todos os
+<span class="pagenum">[241]</span>
+estados da alma, menos para o fanatismo dos
+sectarios, que lhe inspirava um desdem piedoso,
+e que ainda assim comprehende, porque
+ninguem entendeu melhor Jeremias e Ez&eacute;chias,
+os prophetas da feroz Jerusalem!
+<br />
+
+<br />
+
+Elle podia ser essa encarna&ccedil;&atilde;o suprema do
+genio da critica moderna. Mas os que n&atilde;o
+t&ecirc;em o mesmo dom feliz de separar a vida da
+intelligencia da vida dos sentidos? Mas os
+que vivem a sua philosophia e traduzem em
+actos as suas theorias?...
+<br />
+
+<br />
+
+Oh! para esses, a doutrina d'esse santo ser&aacute;
+o mais corrosivo dos venenos; o encanto miraculoso
+d'aquelle genio ondeante, cujo pessimismo
+desabrochava na flor de um sorriso e
+cuja esperan&ccedil;a se afundava, mysteriosa e lugubre
+nymph&eacute;a, no pantano glauco de uma
+nega&ccedil;&atilde;o sombria,&#8213;seria a mais desorganisadora
+e a mais corrupt&ocirc;ra das li&ccedil;&otilde;es!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Mas esquecemos o que houve de triste
+e de negativo n'essa philosophia, cujas raizes
+mergulham no complicado e sceptico pensamento
+germanico!
+<br />
+
+<br />
+
+N&oacute;s, as mulheres, amemo-lo pela gra&ccedil;a&#8213;esse
+<span class="pagenum">[242]</span>
+dom feminino, que elle possuiu como ninguem
+mais, pela linguagem divina, de que elle
+revestiu as suas id&eacute;as, por milhares de trechos
+verdadeiramente impeccaveis, de uma unctuosidade
+evangelica, de uma pureza transcendente,
+de uma poesia ineffavel, com que elle
+enriqueceu a litteratura universal.
+<br />
+
+<br />
+
+Como havia em R&eacute;nan de tudo,&#8213;e &eacute; este
+o seu caracteristico mais singular, e &eacute; este, em
+face da estricta logica, o defeito mais reprehensivel
+da sua intelligencia&#8213;podia um admirador
+consciencioso e delicado extrahir, dos
+seus livros innumeros, um livro piedoso, especie
+de <em>Imita&ccedil;&atilde;o</em>,
+menos ascetico, por&eacute;m,
+mais perfumado das fl&ocirc;res do Evangelho primitivo;
+livro para ser lido em hora de crise
+d'alma, livro para ser decorado pelos delicados,
+pelos contemplativos, pelos tristes...
+<br />
+
+<br />
+
+No prefacio dos seus <em>Estudos de Historia
+religiosa</em>, diz Renan pouco mais ou menos
+isto mesmo.
+<br />
+
+<br />
+
+Form&uacute;la o voto de que alguem, das perolas
+soltas do seu escrinio, que sabemos ser
+de millionario, compozesse uma especie de
+<em>livro d'horas</em>, para ser folheado
+depois da sua
+morte, por finas, esguias e brancas m&atilde;os patricias,
+<span class="pagenum">[243]</span>
+na paz obscura e calmante das cathedraes.
+<br />
+
+<br />
+
+Oh! Como a subtil ironia que atravessa,
+flecha de luz aeria, este voto estranho, &eacute; bem
+d'elle! D'esse aristocrata, que deveu &aacute; democracia
+a liberdade que amplamente gozou; d'esse
+<em>dilettante</em>, d'esse mystico que
+desejaria ser
+enterrado na nave lateral de uma sombria egreja
+catholica; d'esse ironista que manejou tanta
+vez o arco de Voltaire com settas mais finas,
+settas feitas de ouro; d'esse philosopho que
+pr&eacute;gou a inanidade da sabedoria; d'esse sabio
+que se ria da sciencia; d'esse iconoclasta dos
+templos que ungiu de balsamos t&atilde;o inneffavelmente
+doces os p&eacute;s de Jesus Christo, e que
+achou na piedade da sua alma uma f&oacute;rmula
+de scepticismo mais respeitosa que muitas
+ora&ccedil;&otilde;es,
+de um realismo por assim dizer concreto
+e material...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Se eu pude traduzir a impress&atilde;o que elle me
+dava, impress&atilde;o confusa e deliciosa, indefinivel
+e querida, impress&atilde;o que era ao mesmo tempo
+receio de me deixar seduzir, encanto ao sentir-me
+arrastada na corrente d'aquelle feiticeiro
+<span class="pagenum">[244]</span>
+perigoso; se eu pude dizer todo o amor com
+que lhe quiz, e todas as restric&ccedil;&otilde;es com que
+este sentir me subjug&aacute;ra, dou-me por feliz,
+porque a fazer a critica da obra de Renan, a
+isso nunca eu ousaria aspirar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>Oliveira Martins
+</h3>
+
+<h4>
+I
+</h4>
+
+<br />
+
+Tres mezes decorreram j&aacute; desde que a negra
+terra do cemiterio o encobriu aos olhos
+dos que o amavam, e n&atilde;o est&aacute; de molde o mundo
+moderno, que tumultua desvairadamente
+anarchico para chorar os seus mortos ou para
+commemorar os seus her&oacute;es!
+<br />
+
+<br />
+
+Desde que elle morreu, esta pobre nacionalidade
+portugueza que a sua alma soube t&atilde;o
+bem estudar, comprehender, amar nos momentos
+typicos da sua grandeza, chorar nos espasmos
+convulsivos ou no torp&ocirc;r comatoso da
+sua longa agonia, desde que elle morreu, j&aacute;
+<span class="pagenum">[246]</span>
+esta pobre patria, t&atilde;o sua amada, se tem deixado
+afundar mais alguns gr&aacute;os no abysmo de
+uma decadencia para que n&atilde;o ha cura.<sup><a href="#f1">[1]</a></sup>
+Quasi
+todos o esqueceram, a elle, ao grande melancolico
+que, durante mais de vinte annos, se
+n&atilde;o cansou de avisar os despreoccupados, de
+accusar os cynicos, de analysar cruamente ou
+desalentadamente o lento processo por que uma
+na&ccedil;&atilde;o se desagrega e esphacella e para quem
+a historia foi mais uma obra de moralista do
+que um trabalho de laboriosa e minuciosa
+erudi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Quasi todos o esqueceram, ou se recordam
+apenas do que mais ephemero e contingente
+houve no seu espirito, e uma das coisas que
+mais d&oacute;e &eacute; este silencio, mortalha peior que
+todas as mortalhas, que na hora seguinte ao
+desapparecimento de um grande espirito lhe
+envolve nas funerarias dobras o nome que parecia
+t&atilde;o brilhante em vida!
+<span class="pagenum">[247]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Depois, mais tarde, &eacute; certo que a posteridade
+vinga esse nome da indifferen&ccedil;a da
+gera&ccedil;&atilde;o
+a que elle devia ser mais querido, mas
+isso n&atilde;o impede que a impress&atilde;o geladora de
+t&atilde;o duro esquecimento fa&ccedil;a soffrer algumas almas
+raras que n&atilde;o esquecem o que amaram...
+<br />
+
+<br />
+
+Para mim, a morte de Oliveira Martins foi
+um golpe dolorosissimo...
+<br />
+
+<br />
+
+Feridos os dous por uma doen&ccedil;a trai&ccedil;oeira
+que se apresentava no empobrecido organismo
+de ambos, egualmente amea&ccedil;adora de morte
+proxima e que para elle t&atilde;o cedo realizou a
+negra amea&ccedil;a, ambos tinhamos partido com
+differen&ccedil;a de dias apenas para Cascaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Eram contiguas as casas que habitavamos,
+davam ambas para o lindo parque que o fallecido
+Visconde de Gandarinha alli plantou
+luxuosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+A primavera tinha desdobrado pelo parque
+todo em vi&ccedil;o e pela extens&atilde;o dos campos um
+enorme estendal das fl&ocirc;res mais frescas, mais
+vivas, mais cheias de mimo e c&ocirc;r. Inundavam-nos
+as salas os lyrios amarellos, as rubras
+papoulas, os malmequeres brancos e dourados,
+as verdes espigas, toda essa divina e
+<span class="pagenum">[248]</span>
+inoffensiva fl&oacute;ra dos campos que consola os
+doentes sem os envenenar.
+<br />
+
+<br />
+
+Atrav&eacute;s das rendas transparentes do arvoredo
+em que todos os tons, todas as
+<em>nuances</em>
+do verde se casavam em uma gamma opulenta
+e maravilhosa, avistava-se, das janellas
+dos dous convalescentes, o mar, o grande mar
+azul, em que Oliveira Martins l&ecirc;ra t&atilde;o
+commovedoramente
+a lenda do nosso destino nacional,
+a historia gloriosa e tragica da vida e
+da morte da Patria Portugueza.
+<br />
+
+<br />
+
+Barcos de v&eacute;la passavam a cada instante,
+e elle sabia conhecer cada typo de embarca&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Cada v&eacute;la que atravessava o mar longinquo,
+palpitando ao vento fresco de abril, tinha
+para elle uma suggest&atilde;o viva, uma lembran&ccedil;a
+saudosa ou pittoresca.
+<br />
+
+<br />
+
+A luz, a luz embriagante da primavera de
+Portugal, derramada em caudaes da concava
+saphyra dos C&eacute;us, reanimava-o dia a dia, dava-lhe
+aspira&ccedil;&otilde;es frementes de vida, de alegria,
+de trabalho, de actividade mental.
+<br />
+
+<br />
+
+Ouvi-lo era um encanto.
+<br />
+
+<br />
+
+Menos abatido de espirito, e mesmo de corpo,
+que eu, era elle quem, descendo a escada
+<span class="pagenum">[249]</span>
+da sua casa e subindo a da minha, vinha sentar-se
+na pequenina sala onde eu quotidianamente
+esperava aquella visita deliciosa.
+<br />
+
+<br />
+
+E de sua voz lenta, cheia de pausas, de
+uma do&ccedil;ura como que abafada, modulando-se
+em tons de intima melancholia, de acre desprezo,
+de tolerante e passivo desdem, e &aacute;s vezes,
+raras vezes, de alegre e despreoccupada
+ironia, ia pregui&ccedil;osamente escorrendo toda
+uma philosophia da Vida, triste sim, mas n&atilde;o
+desesperada nem cr&uacute;a...
+<br />
+
+<br />
+
+Mystico de temperamento, mystico de sentir,
+o seu scepticisrno das coisas era temperado
+sempre por aquelle instincto t&atilde;o raro na
+alma penisular, positiva at&eacute; na sua f&eacute;,
+o instincto
+do mysterio ambiante, o presentimento
+de alguma coisa ignorada que nos cerca, acompanha,
+domina, nunca revelada, nunca explicada,
+nunca tangivel, mas t&atilde;o impossivel de
+definir como de eliminar...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+&laquo;<em>There are more things in heaven and earth,
+Horatio.<br />
+
+Than are dreamt of in your philosophy.</em>&raquo;
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Estas palavras do Hamlet lembravam-me
+quando o ouvia discorrer de vagar, sempre
+muito de vagar, olhos de sonho fitos vagamente
+<span class="pagenum"><a name="p250" id="p250">[250]</a></span>
+no espa&ccedil;o, como que vendo n'elle <a href="#e23">coisas</a>
+que n&oacute;s l&aacute; n&atilde;o viamos...
+<br />
+
+<br />
+
+Fal&aacute;vamos de tudo. Mais, no emtanto, do
+presente que do passado. Era nobre, glorioso,
+&eacute;pico o passado? De certo!
+<br />
+
+<br />
+
+Mas que importava, se estava inteiramente
+extincto para n&oacute;s. O presente causava &aacute; grande
+alma especulativa e triste de Oliveira Martins
+um tedio inenarravel. Esta agonia sem grandeza;
+esta lucta de mesquinhos, de baixos interesses,
+lembrando a germina&ccedil;&atilde;o e o fervilhar
+de vermes na putrefac&ccedil;&atilde;o de um cadaver querido;
+esta inconsciencia de perigos imminentes;
+esta ignorancia universal de todas as for&ccedil;as
+e elementos que, ou conjugados ou antagonicos,
+h&atilde;o de fatalmente ter uma influencia
+capital no modo de ser organico da sociedade
+portugueza; este risonho cynismo que anima
+as classes dirigentes e lhes inspira todas as
+manifesta&ccedil;&otilde;es da sua actividade ou da sua
+inercia; este quadro desolador de um paiz que
+lucta pela vida, &eacute; verdade, mas que perdeu
+todas as energias materiaes ou ideaes, por
+meio das quaes uma vida se conserva&#8213;arrancava-lhe
+express&otilde;es de uma t&atilde;o inconsolada
+<span class="pagenum">[251]</span>
+tristeza, como eu me n&atilde;o recordo de as ter
+ouvido a mais ninguem.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>II
+</h4>
+
+<br />
+
+Outras vezes, nas horas mais calmas, mais
+doces da conversa&ccedil;&atilde;o, quando o crepusculo ia
+envolvendo a paizagem maritima, t&atilde;o doce,
+suggestiva e melancolica, em uma especie de
+ideal neblina azul&#8213;era pelo seu trabalho passado
+que os olhos do grande morto se espraiavam.
+<br />
+
+<br />
+
+Dizia-me ent&atilde;o a commo&ccedil;&atilde;o intensa,
+dolorosa,
+extenuadora, com que elle <em>vivera</em>,
+por
+assim dizer, algumas scenas da sua Historia,
+revelando essa profunda e hyper-aguda sensibilidade
+intellectual que &eacute; talvez a fei&ccedil;&atilde;o
+predominante,
+a <em>facult&eacute; maitresse</em> do
+seu genio...
+<br />
+
+<br />
+
+Em momentos sagrados, d'estes que ser&atilde;o
+um eterno segredo entre o artista que
+<em>sente</em> e
+o Deus que o inspira, ou antes em momentos
+em que o artista se sente um deus, isto &eacute;, um
+Creador, e em que o elemento divino, de que
+o seu genio &eacute; a revela&ccedil;&atilde;o suprema, o
+levanta
+<span class="pagenum"><a name="p252" id="p252">[252]</a></span>
+acima de si proprio e da sua pobre existencia
+ephemera, fugitiva, mortal, o grande artista,
+que havia em Oliveira Martins, vivia seculos
+de gozo extenuante, de volupia ideal incomparavel...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Sah&iacute;a d'esses momentos alagado em lagrimas
+e como que exhausto, envelhecido&raquo;&#8213;contava
+elle, deixando transparecer na palavra
+e no gesto um vago assombro.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; por isto que o trabalho lhe exhauriu a
+mais pura seiva do seu sangue, n&atilde;o porque <a href="#e24">fosse</a>
+nem excessivo, nem brutalmente
+aturado,
+como por exemplo o de Balzac.
+<br />
+
+<br />
+
+Outras vezes ainda a saudade levava-o docemente,
+talvez sem dar por isso, a evocar a
+memoria do querido amigo morto, de Anthero
+de Quental. Oliveira Martins f&ocirc;ra o companheiro,
+o confidente, o amigo dilecto do poeta
+dos <em>Sonetos</em>, em quem Souza Martins,
+n'um
+magistral estudo psychico-pathologico, acaba
+de descobrir uma ascendencia scandinava, que
+explica e justifica a essencia de sonho nebuloso
+e mystico de que o seu talento parece haver
+sido elaborado.
+<br />
+
+<br />
+
+Falando de Anthero, era inexgotavel a memoria
+de Oliveira Martins. O intimo drama
+<span class="pagenum">[253]</span>
+d'aquelle cora&ccedil;&atilde;o e d'aquelle espirito ninguem
+melhor o conheceu e interpretou.
+<br />
+
+<br />
+
+A excessiva idealisa&ccedil;&atilde;o na esphera sentimental,
+o abuso do pensamento, a acceita&ccedil;&atilde;o
+simultanea das mais contrarias, das mais oppostas,
+das mais irreductiveis theorias, a multipla
+concep&ccedil;&atilde;o da vida que n'esse desequilibrado
+de genio se transformou na loucura e
+na morte: tudo elle analysava, estudava, esclarecia
+com aquella atten&ccedil;&atilde;o paciente, com
+aquella agudeza de intelligencia, com aquelle
+estranho dom de penetrar e comprehender as
+almas mais diversas,&#8213;e at&eacute; uma alma diversa
+segundo os momentos, a influencia exterior,
+as crises morbidas, a propria temperatura
+physica,&#8213;com aquella extraordinaria
+lucidez critica, serena, impessoal que assignala
+os homens verdadeiramente superiores.
+<br />
+
+<br />
+
+Para elle proprio&#8213;deixem me este orgulho
+de que ali&aacute;s tenho recorda&ccedil;&atilde;o escripta
+pela
+sua propria m&atilde;o e confirmado pela sua sublime
+e dedicada e heroica enfermeira, amiga e
+esposa&#8213;para elle proprio estas conversa&ccedil;&otilde;es
+que o capricho de cada momento ia inspirando
+e movendo, se tinham tornado um prazer
+subtil e delicado. Eu ouvia, sem muitas vezes
+<span class="pagenum">[254]</span>
+fazer mais que suggerir, excitar, conduzir um
+pouco ao sabor da minha curiosidade intellectual
+o rumo errante da sua palavra fascinadora...
+<br />
+
+<br />
+
+Elle pensava alto, e gosava talvez de dar
+f&oacute;rma concreta &aacute;s vis&otilde;es fugitivas da
+imagina&ccedil;&atilde;o,
+de prender o peso de uma defini&ccedil;&atilde;o
+verbal, &aacute; aza subtil de uma id&eacute;a que ia esmaecer,
+volatilisar-se, fugir espa&ccedil;o em f&oacute;ra...
+<br />
+
+<br />
+
+O ardente desejo de Oliveira Martins, sedento
+de vida, como todos os feridos por
+aquella doen&ccedil;a atroz que escolhe os melhores
+e os mais delicados organismos, para os fulminar
+em plena fl&ocirc;r de intelligencia e vida&#8213;o
+ardente desejo de Oliveira Martins era partir
+para Castella e estudar de perto o theatro
+de scenas que a sua m&atilde;o magistral ainda deixou
+esbo&ccedil;adas em rapidas notas. Escrever o
+seu livro sobre D. Jo&atilde;o II e depois terminar
+por D. Sebasti&atilde;o,&#8213;o querido heroe lendario, o
+nosso rei Arthur fielmente esperado durante
+seculos por tantas almas de f&eacute;,&#8213;o cyclo da
+nossa vida nacional; que depois n&atilde;o tem
+feito mais que arrastar-se, desprestigiada, desformisada,
+pervertida na f&oacute;rma e na essencia,
+at&eacute; esta tristeza de hoje amorpha e gelatinosa:
+<span class="pagenum">[255]</span>
+eis o sonho concebido pelo escriptor glorioso
+e admiravel.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi com o fito de visitar a Hespanha e depois
+de ir trabalhar em algum eremiterio bem
+recolhido, bem arejado e fresco, bem afastado
+de todo o movimento social, que Oliveira Martins
+mais robustecido, e na apparencia melhorado,
+deixou Cascaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha uma carta sua de Salamanca em que
+transparece do novo aquella tristeza que na
+doen&ccedil;a o acompanhou como um presentimento
+funereo. N&atilde;o resisto ao desejo de copiar alguns
+trechos d'ella:&#8213;&laquo;Ahi v&atilde;o duas linhas
+do viajante que pisa agora as terras de Santa
+Thereza.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Em Alba de Tormes esteve ella; aqui na cathedral
+tem um dedo que eu hontem tive a
+honra de tocar.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Dizia a Santa, ardendo em divino amor:
+<em>muero porque no muero</em>. Eu
+n&atilde;o digo outro
+tanto, mas, em verdade, a vida n&atilde;o &eacute; realmente
+sen&atilde;o o desdem de viver e de morrer.
+Morrer para qu&ecirc;? Para qu&ecirc; viver? Os hespanhoes
+t&ecirc;em uma locu&ccedil;&atilde;o muito frequente e
+muito
+expressiva. &Eacute; uma phrase, na qual, como
+succede com a musica, cada um mette o que
+<span class="pagenum">[256]</span>
+tem na id&eacute;a. <em>Quien sabe?</em>
+Quem sabe o que &eacute;
+viver? Quem sabe o que &eacute; morrer?&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+N'esta fluctua&ccedil;&atilde;o vaga do pensamento que
+se comprazia em ver sempre de cada problema
+as duas faces contrarias, est&aacute; em
+<em>raccourci</em> muito
+do que foi a philosophia particular de Oliveira
+Martins!
+<br />
+
+<br />
+
+Da viagem a Hespanha voltou elle j&aacute; ferido
+sem apello e sem possivel cura pelo punhal
+trai&ccedil;oeiro da Morte!
+<br />
+
+<br />
+
+Ainda esperou contra todas as esperan&ccedil;as,
+ainda a paizagem agreste e idyllica a um tempo
+do convento de Brancanes e cercanias o
+embriagou como a ultima estrophe deliciosa
+d'esse poema da Natureza, que para a alma
+d'elle, como para poucas almas, tinha harmonias,
+c&ocirc;res, vis&otilde;es divinas, philtros alucinantes
+e poderosissimos. E ainda como ultima exhala&ccedil;&atilde;o
+do seu querido espirito para o meu,
+algumas palavras me vieram provar a for&ccedil;a
+pertinaz da sua illus&atilde;o e os extremos da sua
+delicada e preciosa amizade.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Hontem, para provar a m&atilde;o, comecei a
+trabalhar no meu <em>Principe Perfeito</em>.
+N&atilde;o imagina
+a alegria que me deu v&ecirc;r que n&atilde;o tinha
+morrido ainda. Ainda escrevo. Ainda vivo.
+<span class="pagenum">[257]</span>
+Cumpra depressa a promessa da sua visita...
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;N&atilde;o ha calmante como a paizagem e os
+rumores do campo. Sente-se a gente arvore.
+Aqui ha tudo. Solid&atilde;o no meio de um campo
+habitado, pomares nos valles, montes em volta,
+em frente o mar. Que mais se quer? O
+convento onde estou &eacute; enorme; cabe aqui
+tudo. Ha terra&ccedil;os delirantes. Ha arvores verdadeiras;
+uma matta a valer; pinheiros, sobreiros,
+medronheiros. Venha depressa...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a ultima vez que a sua m&atilde;o tra&ccedil;ou
+linhas
+que me fossem dirigidas e eu propria infelizmente,
+preza pela doen&ccedil;a em Cascaes que
+nunca deixei, n&atilde;o o tornei mais a ver.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas publiquei trechos d'estas duas cartinhas
+preciosas, porque duas faces bem caracteristicas
+do espirito complexo de Oliveira Martins
+est&atilde;o aqui adoravelmente retratados. N'uma a
+ondula&ccedil;&atilde;o melancholica e vaga do seu sonho
+ante o mysterio da vida e o mysterio da morte.
+N'outra, na ultima, o seu ardente amor
+pantheista da natureza viva, aquella paix&atilde;o
+fremente que o fazia dar uma alma &aacute;
+paizagem,
+communicar a sua fecunda emo&ccedil;&atilde;o &aacute;s
+arvores e &aacute;s cousas, sentir no seio d'ellas a
+communh&atilde;o mysteriosa que prende em uma
+<span class="pagenum">[258]</span>
+cadeia de infinitos &eacute;los sem quebra, a pedra &aacute;
+planta, a planta ao animal, o animal sem alma
+&aacute; alma infinita, &aacute; alma Universal!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>III
+</h4>
+
+<br />
+
+Deante da obra t&atilde;o vasta e variada de Oliveira
+Martins n&atilde;o p&oacute;de ainda a critica lavrar
+qualquer juizo definitivo. &Eacute; cedo de mais para
+que esse tribunal pronuncie a senten&ccedil;a decisiva
+que tem de ficar gravada no Pantheon
+das glorias portuguezas. Mas se a critica impassivel
+e austera tem de addiar ainda o resultado
+da sua investiga&ccedil;&atilde;o, &eacute; licito a cada
+um
+de n&oacute;s dar a impress&atilde;o intima que recebeu
+do trabalho dev&eacute;ras extraordinario do escriptor
+que se finou.
+<br />
+
+<br />
+
+Em primeiro logar a dualidade de aspectos
+que essa obra apresenta, transforma-a em
+uma especie de problema altamente interessante
+para a psychologia.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Oliveira Martins, a par do mystico contemplativo,
+do sonhador philosopho, do moralista
+desdenhoso, havia&#8213;estranha coisa, t&atilde;o
+<span class="pagenum">[259]</span>
+rara na nossa ra&ccedil;a simplista&#8213;um ser inteiramente
+contrario a esse, um espirito positivo
+na analyse dos factos, rigoroso nas deduc&ccedil;&otilde;es
+do pensamento, pratico na administra&ccedil;&atilde;o dos
+negocios, e em que uma rara sagacidade das
+coisas se alliava a um methodo maravilhoso
+na classifica&ccedil;&atilde;o dos conhecimentos positivos.
+<br />
+
+<br />
+
+Estes dois homens t&atilde;o diversos formaram
+um s&oacute;, &aacute;s vezes coutradictorio at&eacute; ao
+enigma
+irritante, incomprehensivel ao entendimento
+m&eacute;dio, illogico perante a opini&atilde;o do vulgo.
+Separados, cada um d'elles formava um conjuncto
+completo de qualidades harmonicas,
+uma for&ccedil;a intellectual de primeira grandeza.
+Juntos, havia momentos em que eram capazes
+de desnortear, de entontecer at&eacute; o espirito
+mais perspicaz e mais aberto ao feliz dom da
+sympathia intelligente. Assim como o seu talento
+tinha estas duas faces distinctas quasi
+inconciliaveis, pois que presupp&otilde;em qualidades
+em absoluto antagonismo e temperamentos
+em radical opposi&ccedil;&atilde;o, assim tambem a sua
+obra parece dividir-se em dois ramos diversissimos.
+A um d'esses ramos, o mais arido
+para mim, o que nada admira&#8213;pertencem
+os seus t&atilde;o notaveis artigos jornalisticos, quasi
+<span class="pagenum">[260]</span>
+todos compilados nos volumes <em>Politica e economia
+nacional</em> e <em>Carteira de um
+jornalista</em>,
+os seus opusculos e livros sobre o <em>Regimen
+das riquezas</em>, o
+<em>Socialismo</em>, as
+<em>Elei&ccedil;&otilde;es</em> e
+at&eacute;
+o seu magn&iacute;fico projecto de <em>Lei de fomento
+rural</em>, que p&oacute;de bem chamar-se um programma
+completo de restaura&ccedil;&atilde;o patriotica, uma
+especie de systema de hygiene applicado ao
+organismo exangue de um paiz que, primitivamente
+destinado a uma existencia modesta
+e rudemente tonica de trabalho rural, de obscura
+felicidade sem historia, se gastou nos
+excessos e nas aventuras d'esse sonho ultramarino
+que o fez viver, &eacute; certo, e que lhe deu
+renome, mas que o condemnou &aacute; longa e incuravel
+anemia de que todos morremos hoje
+aos poucos...
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; como um homem verdadeiramente pratico
+que apparece aos nossos olhos, o publicista,
+o deputado, o politico nem sempre feliz,
+embora sempre perfeitamente intencionado
+do periodo que talvez mais do que nenhum
+outro, elle quereria ter riscado da historia,
+ali&aacute;s t&atilde;o nobre da sua vida. &Eacute; sob
+essa face
+que elle assombrou muitas vezes n&atilde;o s&oacute;mente
+os espiritos da nossa terra mais ch&atilde;os e mais
+<span class="pagenum">[261]</span>
+positivos, mas ainda os <em>homens de
+negocio</em>
+estrangeiros com quem teve de tratar tantos
+assumptos de importancia e que ficavam falando
+d'elle como de uma intelligencia rapida,
+aguda e fria, absolutamente rara nas na&ccedil;&otilde;es
+peninsulares.
+<br />
+
+<br />
+
+Se essas faculdades sem o auxilio de outras
+j&aacute; s&atilde;o sufficientes para assignalar o alto valor
+de um homem, o que far&aacute; quando a essas se
+ajuntam em rarissimo connubio outras, mais
+altas, mais nobres, mais reveladoras de uma
+grandeza ingenita e de um valor moral amplissimo?!...
+Quando o mesmo homem,
+que ha pouco parecia versar, com tanta
+seguran&ccedil;a e t&atilde;o fino criterio,
+quest&otilde;es de que
+dependem o bem estar material e a ordem
+administrativa e economica das na&ccedil;&otilde;es, se revela
+de repente um delicado artista vibrante
+e creador, um entendimento alado, capaz de
+erguer-se &aacute;s cumiadas mais altas do Pensamento,
+um vidente para quem a historia &eacute;
+uma continua revela&ccedil;&atilde;o de reconditos segredos
+da alma, uma evoca&ccedil;&atilde;o magica de figuras
+vivas, uma palpitante suggest&atilde;o de moral
+e de justi&ccedil;a?!...
+<br />
+
+<br />
+
+Os que tiverem de p&ocirc;r de p&eacute; deante da
+<span class="pagenum">[262]</span>
+posteridade a figura inteira de Oliveira Martins,
+t&ecirc;em de evocal-o sob estes dois aspectos
+e fundir ambos na culmina&ccedil;&atilde;o intellectual a
+que elle attingiu.
+<br />
+
+<br />
+
+Outros fizeram a historia com mais exactid&atilde;o
+e mais verdade&#8213;se a verdade historica
+&eacute; apenas a verifica&ccedil;&atilde;o rigorosa das
+datas e a
+decifra&ccedil;&atilde;o lenta dos documentos coevos; outros
+fundiram em mais bronzeo estylo as cogitac&otilde;es
+do seu vasto pensamento; outros interrogaram
+com mais paciente e minucioso escrupulo
+os monumentos do passado, legados
+sob multiplas f&oacute;rmas materiaes ou moraes, artisticas
+ou religiosas, &aacute; gera&ccedil;&atilde;o sua
+contemporanea:
+poucos t&ecirc;em possuido, mais ardente
+e mais vivo esse poder estranho de penetrar
+na alma de uma ra&ccedil;a e de lhe traduzir as
+aspira&ccedil;&otilde;es
+occultas ou os sonhos realisados; de
+l&ecirc;r a summula completa dos destinos de uma
+na&ccedil;&atilde;o na obra truncada que ella tentou em
+v&atilde;o consummar; de evocar em plena
+vibra&ccedil;&atilde;o
+de vida, em plena intensidade de emo&ccedil;&atilde;o
+communicativa
+os typos representativos de uma
+&eacute;poca remota e finda; de emprestar a sua
+propria alma &aacute; alma dos mortos e de os fazer
+resurgir do sepulchro, onde pareciam para
+<span class="pagenum">[263]</span>
+sempre esquecidos, &aacute; luz fremente do mais
+bello e claro dia.
+<br />
+
+<br />
+
+Accusam-n'o com raz&atilde;o de
+contradic&ccedil;&otilde;es, de
+inexactid&otilde;es e erros de facto, que um espirito
+inferior meticuloso podia facilmente corrigir
+ou evitar. Sim. Tudo isso &eacute; verdade.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas escrevam, se s&atilde;o capazes, a Historia
+que elle escreveu, interessem-nos apaixonadamente
+como elle nos interessou, d&ecirc;em o vigor,
+o relevo, a vida que elle deu aos personagens
+que evocava, fa&ccedil;am de cada um dos seus livros
+o drama agitado que elle fez, transformem
+a Historia como elle a transformou, em
+uma prophecia, em um lamento, em uma lic&ccedil;&atilde;o,
+em uma suggest&atilde;o ardente, em uma
+saudade inconsolada do que foi e n&atilde;o p&oacute;de
+tornar a ser.
+<br />
+
+<br />
+
+Outros narram precisamente os factos, elle
+commentou-os, esclareceu-os, deu-lhes o sentido
+occulto, a amarga e profunda philosophia.
+<br />
+
+<br />
+
+O nosso destino historico; o papel particular
+que aos portuguezes foi distribuido n'essa tragedia
+&eacute;pica da peninsula iberica, que deu
+mundos ao mundo inconsciente; o pre&ccedil;o atroz
+por que n&oacute;s pagamos a posse d'esse ideal que
+foi nosso um momento e que perdemos justamente
+<span class="pagenum">[264]</span>
+por tel-o realisado completo;&#8213;quem
+melhor o soube explicar, tornar claro aos olhos
+ainda os menos penetrantes, tornar palpavel
+aos entendimentos ainda os mais obtusos?
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>IV
+</h4>
+
+<br />
+
+Na obra que elle deixa t&atilde;o grande, que revela
+uma capacidade e um methodo de trabalho
+assombrosos, pois s&oacute; assim se poderia escrever
+tanto, longe de tudo ser perfeito ha
+muita coisa desegual, muita coisa que elle n&atilde;o
+teria escripto se a necessidade quotidiana o
+n&atilde;o houvesse por largos annos espica&ccedil;ado,&#8213;porque
+&eacute; preciso que se saiba l&aacute; f&oacute;ra que
+este
+trabalhador incansavel foi um chefe de familia
+exemplar, e que, ficando na quasi infancia
+orph&atilde;o de pae, foi elle quem auxiliou nobremente
+sua m&atilde;e a educar e formar uma familia
+numerosa de que at&eacute; ao ultimo instante
+foi desvelado amigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Deve tambem confessar-se que ha muito de
+injusto e de cruel nos juizos que na, temeraria
+mocidade, isolado, e inexperiente elle formulou
+<span class="pagenum">[265]</span>
+a respeito dos homens e das cousas. O seu
+<em>Portugal Contemporaneo</em> foi mais
+escripto sobre
+pamphletos e artigos de jornal, sempre
+suspeitos, do que sobre documentos authenticos
+completados pelo austero e profundo estudo
+do movimento liberal que iniciou para n&oacute;s
+a &eacute;ra moderna. Ha capitulos na <em>Historia de
+Portugal</em> que os seus livros posteriores, ungidos
+t&atilde;o docemente pelo amor dos heroes patrios,
+parecem negar, contrariar, annullar inteiramente.
+Elle proprio teve de contradizer,
+na maturidade do seu grande espirito, no qual
+um incessante progresso se faz sentir, grande
+parte das theorias que primeiro enunciara e
+que t&atilde;o profundo ecco tiveram na sociedade
+portugueza e t&atilde;o irremediavel influencia exerceram
+no espirito pessimista e desenganado da
+contemporanea gera&ccedil;&atilde;o. O culto dos heroes
+que elle acabou pregando e exemplificando da
+maneira mais irresistivel, mais poderosa e
+mais bella, foi elle&#8213;for&ccedil;a &eacute; dizel-o, porque
+deante das cinzas de um grande morto, a verdade
+imp&otilde;e-se como um dever sagrado&#8213;foi
+elle quem quasi completamente o destruiu na
+nossa alma, ali&aacute;s disposta a derrubar todos os
+idolos, a escarnecer todas as religi&otilde;es!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[266]</span>
+Mas como estas maculas parciaes, mas como
+estes mesmos enganos do seu entendimento
+que lentamente se foi formando, aperfei&ccedil;oando,
+cultivando e depurando, desapparecem
+no conjuncto da sua obra! Mas como resgatam
+amplamente e soberbamente esses sen&otilde;es
+secundarios, livros como a sua
+<em>Civilisa&ccedil;&atilde;o
+Iberica</em> t&atilde;o admiravelmente
+tra&ccedil;ada por um
+pincel de artista e de pensador, como o seu
+volume <em>Os Filhos de D. Jo&atilde;o
+I</em>, feito todo elle
+sob uma inspira&ccedil;&atilde;o soberba da epop&eacute;a,
+como
+o seu <em>Condestavel</em> t&atilde;o
+bello, t&atilde;o puro, em que
+a sua alma parece entender t&atilde;o bem os mais
+intimos segredos d'uma alma de extase e de
+f&eacute;, prenunciando d'este modo a
+resigna&ccedil;&atilde;o
+ineffavel, a pacifica&ccedil;&atilde;o serena e alta, a
+submissa
+do&ccedil;ura ao mysterio supremo, no qual
+todas as contradic&ccedil;&otilde;es se conciliam, a humilde
+piedade unctuosa da sua morte edificante,
+d'essa morte que tantos balsamos verteu no
+dilacerado cora&ccedil;&atilde;o da esposa, que n'ella teve
+a sua crucifica&ccedil;&atilde;o e a sua cor&ocirc;a, a sua
+maior
+d&ocirc;r e o seu consolo mais sublime!
+<br />
+
+<br />
+
+Como em Nuno Alvares o interessa mais
+ainda que o guerreiro audaz o asceta e o santo!
+Que trechos aquelles em que elle, subindo
+<span class="pagenum">[267]</span>
+a uma altura onde n&atilde;o tinha subido ainda e
+que representa a culmina&ccedil;&atilde;o suprema a que o
+seu engenho chegou, nos conta os arrebatamentos,
+as vis&otilde;es, as asceticas delicias em que
+a alma do santo Condestavel se dilata at&eacute; aos
+c&eacute;us!
+<br />
+
+<br />
+
+N'este livro, mais que em nenhum outro, o
+estylo de Oliveira Martins p&oacute;de ser apreciado
+na sua complexidade e nas suas modalidades
+t&atilde;o varias!
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um estylo unico, inconfundivel, atormentado,
+desegual, feito de imagens propriamente
+suas, de torneios de phrase inimitaveis e que
+o p&otilde;em a cem leguas do classicismo acceito e
+consagrado. Ora se levanta em uma especie
+de somnambulismo vago a alturas ennevoadas
+e insondaveis, ora cahe de chofre na vulgaridade
+de um realismo voluntariamente plebeu;
+&aacute; ironia trascendente de umas paginas opp&otilde;e
+o amargo pessimismo de outras; &aacute; colera convulsa
+que o espectaculo das cousas lhe acorda
+no cora&ccedil;&atilde;o, segue-se o desdem benevolo e superior
+de quem julga este mundo todo illusorias
+apparencias, que umas nas outras se esvaem
+e se transfiguram; o seu grande poder
+de suggest&atilde;o vem menos dos vocabulos empregados,
+<span class="pagenum">[268]</span>
+menos dos epithetos escolhidos, do
+que da repercuss&atilde;o indefinida e infinita que
+certas phrases que elle emprega nos accordam
+na alma. &Aacute;s vezes, ha uma limpidez serena
+e correntia n'este estylo magico; outras
+vezes, &eacute; obscuro erri&ccedil;ado de symbolos, enredado
+em labyrinthos em que a mente se perde
+e desnorteia!
+<br />
+
+<br />
+
+Se o estylo deve traduzir todas as
+<em>nuances</em>
+de uma dada individualidade e ser o transumpto
+claro e fiel de um temperamento artistico
+nunca houve ninguem que tivesse um mais
+accentuado estylo do que Oliveira Martins!
+<br />
+
+<br />
+
+De cada uma das <em>maneiras</em> do
+escriptor eu
+queria dar id&eacute;a, transcrevendo um trecho que
+lhe correspondesse, mas n&atilde;o ser&aacute; melhor que
+cada leitor procure na obra t&atilde;o complexa e
+t&atilde;o variada, aquillo que melhor quadre ao seu
+gosto especial, &aacute; sua concep&ccedil;&atilde;o
+artistica, &aacute; indole
+do seu espirito...
+<br />
+
+<br />
+
+Recommendo-lhe, por&eacute;m, as ultimas paginas
+da mais transcendente e ideal belleza da
+<em>Historia de Nun'Alvares</em>, as
+descrip&ccedil;&otilde;es que
+esmaltam ora com o colorido brilhante de uma
+t&eacute;la de Veroneze, ora com a melancolia pungitiva
+de uma paizagem de Ruysdael, ora com
+<span class="pagenum">[269]</span>
+a luz aeria, docemente <em>unreal</em> de um
+trecho de
+floresta pintado por Corot, esse livro de todos
+o mais admiravelmente escripto que o historiador
+nos legou.
+<br />
+
+<br />
+
+Recommendo-lhe a analyse do caracter de
+Nuno Alvares, de Jo&atilde;o I, dos <em>Inclytos
+Infantes</em>,
+principalmente de D. Pedro, paginas de
+uma psychologia t&atilde;o delicada, penetrante e
+subtil, em que o fundo mystico da imagina&ccedil;&atilde;o
+de Oliveira Martins se allia &aacute; sua profunda
+intui&ccedil;&atilde;o dos segredos da alma humana! E
+o quadro magistral feito a duas pinceladas rapidas
+da C&ocirc;rte de D. Fernando, ai de n&oacute;s!
+t&atilde;o parecida com a sociedade de hoje que n&atilde;o
+sei mesmo dizer se n&atilde;o foi ella que serviu de
+modelo ao artista para chegar a conseguir
+taes effeitos de realismo brutal e de frisante e
+juvenalesca ironia!
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o farei compara&ccedil;&otilde;es sempre inexactas
+entre
+Oliveira Martins e outros escriptores que
+o precederam. Acho que essas compara&ccedil;&otilde;es
+n&atilde;o s&atilde;o em alguns casos mais do que erros
+palmares de critica que desconcertam e irritam!
+Um escriptor que se parece com outro,
+&eacute; raras vezes um artista de ra&ccedil;a. N&atilde;o
+p&oacute;de
+um talento grande deixar de suppor uma personalidade
+<span class="pagenum">[270]</span>
+accentuada, forte, isto &eacute;,
+<em>differente</em>.
+De resto n&atilde;o conhe&ccedil;o em Portugal escriptor
+algum, cuja indole, cujas tendencias, cuja comprehens&atilde;o
+das cousas se possa comparar com
+as de Oliveira Martins.
+<br />
+
+<br />
+
+Elle nunca poder&aacute; ser considerado como um
+<em>representative man</em>, nem do tempo nem
+da
+ra&ccedil;a a que pertenceu. D'aqui a sua originalidade
+viva e talvez o principal caracteristico do
+seu talento.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; viveza, &aacute; meiguice, &aacute; sensibilidade
+vibrante
+do meridional, elle juntava a profunda
+melancolia, o symbolismo vago, a fluctua&ccedil;&atilde;o
+de sonho do germano, e como elle tantas vezes
+se comprazia em l&ecirc;r os vestigios de antigas
+influencias ethnicas, no caracter dos seus
+personagens historicos mais dilectos, p&oacute;de tambem
+dizer-se que no seu genio t&atilde;o complexo,
+t&atilde;o estranho, t&atilde;o cheio de meandros,
+complica&ccedil;&otilde;es
+e antagonismos inconciliaveis se casam
+o poetico elemento celta, o positivismo calculista
+do phenicio, a profundidade e o pessimismo
+semita, a viva paix&atilde;o do arabe, e o sentimento
+da Natureza que o barbaro do Norte
+primeiro suggeriu ao cora&ccedil;&atilde;o seco do civilisado
+latino!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>FIM
+</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>Antonio Maria PEREIRA&#8213;Editor
+</h3>
+
+<hr /><br />
+
+<br />
+
+<h3>
+OBRAS<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">de</span><br />
+
+<br />
+
+Maria Amalia Vaz de Carvalho
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>A arte de viver na sociedade</em>, 1 vol.
+br, 1$000 r&eacute;is. Ricamente encadernado 1$400.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Pelo mundo f&oacute;ra</em>, 1 vol.
+broch. 500 rs Encad. 700 rs.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>A aventura d'um polaco</em>, romance,
+traduzido de V. Cherbuliez, 2 vols. broch. 400 rs. Encad. 600
+rs.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Raphael</em>, traduzido de Lamartine; 1
+vol., edi&ccedil;&atilde;o de luxo illustrada e
+ricamente encad. 3$200 r&eacute;is.<br />
+
+<br />
+
+<hr />
+<h3>OBRAS DE TEIXEIRA DE QUEIROZ
+</h3>
+
+<h4>(BENTO MORENO)
+</h4>
+
+<b>Comedia do Campo</b>, 4 volumes, broch.
+2$000 rs.
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Os noivos</b>, 2.&ordf;
+edi&ccedil;&atilde;o, com o retrato do auctor (no
+pr&eacute;lo).
+<br />
+
+<br />
+
+<b>O Sallustio Nogueira</b>, 1 vol. br.
+1$000.
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Novos contos</b>, 1 vol. br. 600 rs.
+<br />
+
+<br />
+
+<b>D. Agostinho</b>, 1 vol. br. 600.
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Morte de D. Agostinho</b>, 1 vol. br.
+600 r&eacute;is. Encad. 800 rs.
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Arvoredos</b>, contos escolhidos, 1
+volume illustrado, lindissima edi&ccedil;&atilde;o em formato
+diamante,
+br. 800 rs. Encadernado em percalina, folhas douradas, 1$100 rs.
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Amores, amores</b>... 1 vol. (no
+pr&eacute;lo).<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>
+Collec&ccedil;&atilde;o Antonio Maria PEREIRA<br />
+
+</h2>
+
+<h3>A 200 R&Eacute;IS O VOLUME
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h4>
+VULGARISA&Ccedil;&Atilde;O DOS MELHORES LIVROS<br />
+
+<br />
+
+DAS<br />
+
+<br />
+
+LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Volumes in-8.&ordm; de 160 a 200 paginas, em corpo 8 ou 10,
+excellente
+edi&ccedil;&atilde;o
+em optimo papel. Pre&ccedil;o de cada volume 200 r&eacute;is
+brochado,
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+provincias
+accresce o porte do correio
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h3>Volumes publicados</h3>
+
+<br />
+
+N.&ordm; 1&#8213;<em>Tristezas &aacute;
+Beira-Mar</em>, romance de Pinheiro Chagas, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 2&#8213;<em>Contos ao Luar</em>, por Julio
+Cezar Machado, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 3&#8213;<em>Carmen</em>, romance de
+Merim&eacute;e, traduc&ccedil;&atilde;o de Mariano Level, 1
+vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 4&#8213;<em>A Feira de Paris</em>, por Iriel,
+1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 5&#8213;<em>A Mascara Vermelha</em>, romance
+historico de Pinheiro Chagas, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 6&#8213;<em>John Bull e a sua ilha</em>,
+traduc&ccedil;&atilde;o de Pinheiro Chagas, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 7&#8213;<em>O juramento da duqueza</em>,
+romance historico por P. Chagas, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 8&#8213;<em>A lenda da meia-noite</em>,
+romance phantastico, por P. Chagas, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 9&#8213;<em>A joia do vice-rei</em>, romance
+historico, por Pinheiro Chagas, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 10&#8213;<em>Vinte annos de vida
+litteraria</em>, por Alberto Pimentel, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 11&#8213;<em>Honra d'artista</em>, romance de
+Octavio Feuillet, traduc&ccedil;&atilde;o de Pinheiro
+Chagas, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 12&#8213;<em>Os meus amores</em>, contos e
+balladas, por Trindade Coelho, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 13 e 14&#8213;<em>A aventura d'um
+polaco</em>, por Victor Cherbuliez, traduc&ccedil;ao
+de
+Maria Amalia Vaz de Carvalho, 2 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 15&#8213;<em>Os contos do tio Joaquim</em>,
+por R. Paganino, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 16&#8213;<em>As batalhas da vida</em>, contos
+por Guiomar Torrez&atilde;o, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 17&#8213;<em>Noites de Cintra</em>, romance
+por Alberto Pimentel, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 18 e 19&#8213;<em>Em segredo</em>, romance
+traduc&ccedil;&atilde;o de Margarida de Sequeira, 2 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 20 e 21&#8213;<em>A Irm&atilde; da
+Caridade</em>, por Emilio Castellar,
+traduc&ccedil;&atilde;o de L.
+Q. Chaves, 2 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 22&#8213;<em>Migalhas de historia
+portugueza</em>, por Pinheiro Chagas, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 23&#8213;<em>A Cruz de Brilhantes</em>, por
+A. Campos, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 24&#8213;<em>Contos</em>, do Affonso Botelho,
+1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 25&#8213;<em>Contos phantasticos</em>, por
+Theophilo Braga, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 26&#8213;<em>O mysterio da estrada de
+Cintra</em>, por E&ccedil;a de Queiroz e Ramalho
+Ortig&atilde;o, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 27&#8213;<em>O naufragio de Vicente
+Sodr&eacute;</em>, romance historico de P. Chagas, 1
+vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 28&#8213;<em>Vid'airada</em>, por Alfredo
+Mesquita, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 29&#8213;<em>O Bacharel Ramires</em>, por
+Candido Figueiredo, 1 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 30 e 31&#8213;<em>Amor &aacute;
+antiga</em>, romance de Caiel, 2 vol.
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 32&#8213;<em>As Netas do Padre Eterno</em>,
+por Alberto Pimentel
+<br />
+
+<br />
+
+N.&ordm; 33&#8213;<em>Contos</em>, de Pedro Ivo, 1
+vol.<br />
+
+<br />
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+<hr />
+<div style="text-align: center;">Requisi&ccedil;&otilde;es
+&aacute; Livraria do editor
+Antonio Maria PEREIRA<br />
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+<em>50, 52&#8213;Rua Augusta&#8213;52, 54</em>, LISBOA
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+</div>
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+<br />
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+<br />
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+<br />
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+<br />
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+<div style="text-align: center;"><b>Antonio Maria
+PEREIRA&#8213;Editor</b><br />
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+<em>Rua Augusta, 50
+a 54&#8213;Lisboa</em>
+<br />
+
+</div>
+
+<hr />
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><b>Maria Amalia Vaz
+de Carvalho</b>
+<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<table style="text-align: left; width: 622px; height: 110px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="height: 25px;">Pelo mundo
+f&oacute;ra</td>
+
+ <td style="text-align: right; height: 25px;">500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="height: 25px;">A arte de viver na
+sociedade,
+br.</td>
+
+ <td style="text-align: right; height: 25px;">1$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="height: 25px;">A aventura d'um polaco
+(trad.),
+br.</td>
+
+ <td style="height: 25px; text-align: right;">400</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="height: 25px;">Raphael, de Lamartine
+(trad.),
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; height: 25px;">3$200</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><b>Teixeira de
+Queiroz</b>
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 622px; height: 29px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="height: 25px;">Os noivos, 2.&ordf;
+edi&ccedil;&atilde;o (com o retrato do
+auctor)</td>
+
+ <td style="text-align: right; height: 25px;">1$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>O
+Sallustio Nogueira</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Morte
+de D. Agostinho,
+br.</td>
+
+ <td style="text-align: right;">600</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Arvoredos,
+contos, 1 vol.
+illustrado</td>
+
+ <td style="text-align: right;">800</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Comedia
+do campo, 4
+vol.</td>
+
+ <td style="text-align: right;">2$100</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Amores,
+amores... (no prelo)</td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><b>Wenceslau de
+Moraes</b>
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 622px; height: 29px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="height: 25px;">
+Tra&ccedil;os do Extremo
+Oriente</td>
+
+ <td style="text-align: right; height: 25px;">500</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><b>Ramalho
+Ortig&atilde;o</b>
+<br />
+
+</div>
+
+<table style="text-align: left; width: 622px; height: 110px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="height: 25px;">A Hollanda, 2.&ordf;
+edi&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right; height: 25px;">1$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="height: 25px;">O culto da arte em
+Portugal</td>
+
+ <td style="text-align: right; height: 25px;">600</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="height: 25px;">A
+instruc&ccedil;&atilde;o
+secundaria</td>
+
+ <td style="height: 25px; text-align: right;">240</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="height: 25px;">Hygiene da alma
+(trad.)</td>
+
+ <td style="text-align: right; height: 25px;">500</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><b>E&ccedil;a
+de Queiroz e Ramalho
+Ortig&atilde;o</b>
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 622px; height: 29px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="height: 25px;">
+O Mysterio da estrada de Cintra, 3.&ordf;
+edi&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right; height: 25px;">200</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><b>Silva Pinto</b>
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 622px; height: 110px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="height: 25px;">Philosophia de
+Jo&atilde;o
+Braz</td>
+
+ <td style="text-align: right; height: 25px;">500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="height: 25px;">N'este valle de
+lagrimas</td>
+
+ <td style="text-align: right; height: 25px;">500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="height: 25px;">A queimar cartuxos (no
+pr&eacute;lo)</td>
+
+ <td style="height: 25px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="height: 25px;">Santos portuguezes</td>
+
+ <td style="text-align: right; height: 25px;">500</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><b>Oliveira Martins</b>
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 622px; height: 166px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>Historia
+de Portugal, 2
+vol.</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1$400</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Portugal
+contemporaneo, 2
+vol.</td>
+
+ <td style="text-align: right;">2$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Portugal
+nos mares</td>
+
+ <td style="text-align: right;">700</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Historia
+da civilisa&ccedil;&atilde;o
+iberica</td>
+
+ <td style="text-align: right;">700</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Historia
+da Republica
+Romana</td>
+
+ <td style="text-align: right;">2$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Taboas
+de chronologia e geographia
+historica</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>A
+Inglaterra de hoje</td>
+
+ <td style="text-align: right;">600</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cartas
+peninsulares</td>
+
+ <td style="text-align: right;">600</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Systhema
+dos mythos
+religiosos</td>
+
+ <td style="text-align: right;">800</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>A
+vida de Nun'Alvares</td>
+
+ <td style="text-align: right;">2$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>O
+Principe perfeito</td>
+
+ <td style="text-align: right;">2$000</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Notas:</b>
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f1" id="f1"></a><sup>[1]</sup>
+Isto foi escripto como se v&ecirc; tres mezes depois da morte
+de O. Martins, n'um dos momentos mais deploraveis sob o
+ponto de vista politico, que o Portugal moderno tem atravessado.
+As victorias de Africa vieram n'esta hora como que alliviar
+o nosso espirito do pezo esmagador que o opprimia, e
+desmentir, sob determinados aspectos, o pessimismo absoluto
+que n'esta phase transluz. (Fevereiro, 1896).
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 61px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p31">#p&aacute;g.
+31</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Para
+__ encontrar</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Para
+te encontrar</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p47">#p&aacute;g.
+47</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">do musculatura</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">de musculatura</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p48">#p&aacute;g.
+48</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">surprehem-nos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">surprehendem-nos</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e4" id="e4"></a><a href="#p57">#p&aacute;g.
+57</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">__
+rosto</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">o rosto</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e5" id="e5"></a><a href="#p66">#p&aacute;g.
+66</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">arvoredos'</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">arvoredos,</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e6" id="e6"></a><a href="#p74">#p&aacute;g.
+74</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">su as</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">suas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e7" id="e7"></a><a href="#p74">#p&aacute;g.
+74</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Fran &ccedil;a</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Fran&ccedil;a</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e8" id="e8"></a><a href="#p79">#p&aacute;g.
+79</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">rebento'</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">rebento,</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e9" id="e9"></a><a href="#p121">#p&aacute;g.
+121</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">deliciciosamente</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">deliciosamente</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e10" id="e10"></a><a href="#p142">#p&aacute;g.
+142</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">entranhas fecundos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">entranhas fecundas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e11" id="e11"></a><a href="#p146">#p&aacute;g.
+146</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Santo
+Agostinha</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Santo
+Agostinho</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e12" id="e12"></a><a href="#p181">#p&aacute;g.
+181</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">contante</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">constante</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e13" id="e13"></a><a href="#p186">#p&aacute;g.
+186</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">que
+que</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">que</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e14" id="e14"></a><a href="#p187">#p&aacute;g.
+187</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Imperio
+Romana</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Imperio
+Romano</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e15" id="e15"></a><a href="#p190">#p&aacute;g.
+190</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">achaou</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">achou</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e16" id="e16"></a><a href="#p195">#p&aacute;g.
+195</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">seu
+o</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">o
+seu</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e17" id="e17"></a><a href="#p219">#p&aacute;g.
+219</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;"><em>cousa
+sa</em></td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;"><em>cousa</em></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e18" id="e18"></a><a href="#p221">#p&aacute;g.
+221</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">qne</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">que</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e19" id="e19"></a><a href="#p227">#p&aacute;g.
+227</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">passsamento</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">passamento</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e20" id="e20"></a><a href="#p230">#p&aacute;g.
+230</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;"><em>dile ctando</em></td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;"><em>dilectando</em></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e21" id="e21"></a><a href="#p231">#p&aacute;g.
+231</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">ex prime</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">exprime</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e22" id="e22"></a><a href="#p232">#p&aacute;g.
+232</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">difficies</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">difficeis</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e23" id="e23"></a><a href="#p250">#p&aacute;g.
+250</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">coi sas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">coisas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e24" id="e24"></a><a href="#p252">#p&aacute;g.
+252</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">fossse</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">fosse</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<div style="text-align: center;"><br />
+
+Variantes dos nomes pr&oacute;prios (&agrave;
+excep&ccedil;&atilde;o dos indicados anteriormente)<br />
+
+foram
+mantidas de acordo com o original.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+</div>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30404 ***</div>
+</body>
+</html>
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