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diff --git a/30404-h/30404-h.htm b/30404-h/30404-h.htm new file mode 100644 index 0000000..6e1c75b --- /dev/null +++ b/30404-h/30404-h.htm @@ -0,0 +1,12249 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>Pelo mundo fóra</title> + + + <meta name="AUTHOR" content="Maria Amália Vaz de Carvalho" /> + + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=UTF-8" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.bbreak { +width: 80%; +margin-left:10%;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.poetry { +margin-left: 20%;} +.poetry1 { +font-size: 90%; +margin-left: 20%;} +.poetry3 { +font-size: 90%; +margin-left: 30%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + +<body> +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30404 ***</div> + +<div> +<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b> +Devido à +existência de erros tipográficos neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Nov. 2009) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"> +<br /> + +<h3>Maria Amalia Vaz de Carvalho +</h3> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h2>PELO MUNDO FÓRA +</h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 95px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>LISBOA<br /> + +<span class="smallcaps">Livraria de Antonio Maria +Pereira―editor</span><em><br /> + +50, 52―Rua Augusta―52, 54</em><br /> + +1896</h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<h2>PELO MUNDO FÓRA</h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>Maria Amalia Vaz de Carvalho</h3> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h2>PELO MUNDO FÓRA +</h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 95px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>LISBOA<br /> + +<span class="smallcaps">Livraria de Antonio Maria +Pereira―editor</span><em><br /> + +50, 52―Rua Augusta―52, 54</em><br /> + +1896</h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<hr /> +<div style="text-align: center;">LISBOA<br /> + +Typographia e Stereotypia Moderna<span style="font-style: italic;"></span><br /> + +<span style="font-style: italic;"></span><em>II―Apostolos―II</em><br /> + +1896<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>I +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Não ha de certo ninguem, por pouco imaginativo +e pouco phantasista que seja, +que não tenha architectado um complicadissimo +e alegre sonho dando-lhe por base o +<em>prazer das viagens</em>. Aos homens +é o interesse +de visitar cousas novas, de experimentar +sensações +mais vivas, que os attrahe e chama; ás +mulheres é o amor do desconhecido que lhes +irrita a insaciavel curiosidade. +<br /> + +<br /> + +Imaginamos todos que a ventura está justamente... +onde nós não estamos. E que seria +facil conquistal-a, indo em demanda d'ella um +pouco longe, em um logar d'onde ella nos sorri, +d'onde ella nos acena, cariciosa... traiçoeira. +<br /> + +<br /> + +Eu cedi tambem á estranha, á irresistivel +suggestão. Fui-me por esse mundo fóra em +<span class="pagenum">[2]</span> +busca do pomo d'ouro, que tantas vezes se +parece com aquelle fructo colhido em terras +da Palestina―mimo e velludo por fóra, cinzas +escuras no interior. +<br /> + +<br /> + +Era bem natural que, para mim tão profundamente +modelada pelo espirito da França, +o primeiro objectivo fosse a terra onde a +civilisação +franco-latina se resume em synthese +deslumbradora. +<br /> + +<br /> + +Chamava-me Paris. E Paris não era, já se +vê, a cidade luxuosa e alegre do +<em>boulevard</em>, +a cidade da permanente festa, do prazer que +se elabora de todos os requintes de uma decadencia, +da phrenetica aspiração ao gozo material +da vida. +<br /> + +<br /> + +Paris era a terra sagrada d'onde brotára +para a especie humana a primeira scentelha +da Liberdade. +<br /> + +<br /> + +Paris era a patria, pelo menos moral―d'aquelles +espiritos de que a minha alma colhêra, +n'um vago extase fecundante, a flôr maravilhosa +e inspiradora. +<br /> + +<br /> + +Todos os que eu intellectualmente mais amára +tinham ido alli receber a consagração suprema +da gloria ou da desgraça, ás vezes de +ambas ellas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[3]</span> +Eram, no grande seculo classico, Pascal, +Racine e Molière; eram, na soberba Renascença +franceza, Rabelais e Montaigne; eram +depois, n'esse seculo XVIII hoje tão calumniado, +mas sempre tão grande, e que tão indomitas +energias acordara na alma do homem, +Rousseau com a sua morbida sensibilidade de +ambicioso e de revoltado, que nós hoje comprehendemos +tão bem; era Voltaire, a sã ironia +hoje desdenhada, mas que tão benefica +acção +exerceu na treva do espirito humano; era Diderot, +o profundo precursor de todas as modernas +theorias criticas, o homem que no seu +tempo moveu maior numero de idéas novas e +suggestivas; era a pleiade formidavel e fascinante +da Revolução, a que na minha mocidade +me dera sensações de tão absoluto +assombro, +a que, desde Turgot e Mirabeau até Robespierre, +refizera em novos moldes o mundo moral +e o mundo politico; era, na cumiada mais +alta e mais luminosa da montanha da Historia, +essa grande figura immortal, o Alexandre do +seculo XIX, o heroe de Homero, o phrenetico +conquistador, que empobreceu talvez a França, +que dizimou as populações e crucificou as +mães +e as noivas, que sangrou do seu melhor sangue +<span class="pagenum">[4]</span> +as nações e as raças, mas que imprimiu +na sua patria o cunho epico, inapagavel, inolvidavel, +com que ella ainda hoje espanta e assombra +o espirito dos estrangeiros! Parece +dos tempos lendarios e é de hontem esse homem +soberbo e fatal―em cujo olhar profundo ha +reverberações +do Olympo, e cuja fronte pensativa +fez parar embevecidos, silenciosos, os mais +impassiveis e os mais frivolos―cuja figura nós +topamos a cada passo na Capital do Mundo. +<br /> + +<br /> + +Modernamente, quantos outros me chamavam, +ainda mais queridos ao meu coração, +ainda mais intimamente e estreitamente identificados +com todas as recordações mais doces +da minha vida intellectual... Era Michelet, o +poderoso encanto allucinante; era Balzac, a vida +intensa que pullula em creações immortaes; +era Renan, a graça emballadora, ondeante e +morbida, que anesthesia e faz sonhar; e Taine, +o vigor soberbo da idéa servido por um temperamento +possante de artista e de poeta, um +Spinosa que tivesse o pincel do Veronez para +traduzir as visões do seu pensamento altissimo; +era Musset, o divino; era Sand, e Sainte +Beuve, e Hugo, e Lamartine: e cada um me +attrahia por um lado ou por muitos lados da +<span class="pagenum">[5]</span> +sua sensibilidade e do seu genio, e cada um me +dizia a palavra magica que faz parar, suspenso, +embevecido, um espirito de poeta e de artista, +humilde embora... +<br /> + +<br /> + +Eram mais, eram muitos mais, todos lidos, +todos decorados com enternecimento e apaixonado +enlevo. Eram os que eu sempre amei +desde que abri os olhos d'alma, e a quem devo +os prazeres mais ardentes, mais refinados ou +mais subtis da minha vida interior. +<br /> + +<br /> + +Todos alli me chamavam―côro de mortos +que eu tinha a louca illusão de encontrar ainda. +Parecia-me que o sorriso aberto e expansivo do +pae Dumas havia de accentuar-se sympathicamente +ao encarar com o meu assombro extatico; +que a voz mordente de Voltaire se +amolleceria para acolher em mim a mais fervente +enthusiasta do espirito francez; que Beaumarchais +me contaria, entre risonho e caustico, +uma nova travessura de <em>Figaro</em>, uma +nova paixão de <em>Cherubin</em>; +que Molière, descendo +do seu pedestal marmoreo, me diria ao +ouvido uma d'aquellas profundas reflexões satyricas +que elle não poupára ás +<em>bas-bleus</em> do +seu tempo! +<br /> + +<br /> + +Para mim confundiam-se n'um cahos allucinante +<span class="pagenum">[6]</span> +as épocas, os seculos, os periodos historicos. +<br /> + +<br /> + +O meu humilde espirito colhêra apaixonadamente +scentelhas soltas de todos esses espiritos; +a minha memoria guardava reverente, +em relicario precioso, perfumes vagos de todas +essas essencias raras! Amara-os tanto! Sonhara-os +tanto! O scenario onde elles se tinham +movido interessava-me tão profundamente! +<br /> + +<br /> + +Oh! Balzac ia decerto contar-me a historia, +para elle <em>real</em>, das suas elegantes e +pallidas heroinas; +elle que era forte e bom, compadecido +da minha pequenez, não duvidaria apresentar-me +a esse mundo mais humano, mais +verdadeiro que o outro em que tanto á vontade +sabia mover-se. +<br /> + +<br /> + +A viscondessa de Beauseant, a espirituosa e +aristocratica rainha do <em>faubourg</em>, +aquella que +amára tanto um portuguez, e que tivera no seu +abandono uma dignidade tão gentil e uma attitude +de tão romanesco encanto, ao vêr-me +patrocinada pelo seu grande artista, far-me-hia +o que fez a Eugenio de Rastignac: proteger-me-hia, +introduzir-me-hia, carinhosa e maternal, +no circulo estreito, exclusivo, selecto onde +viviam as suas eguaes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[7]</span> +Então, n'este ponto do meu sonho galopante, +mais rapido que o trem que me levava, mais +vertiginoso que o scenario mudavel que me +envolvia, eu deixava o mundo da realidade +sempre limitado, sempre condicional e sempre +estreito, por outro amplissimo, fascinador e +deslumbrante. +<br /> + +<br /> + +A multidão prestigiosa das figuras de Balzac +cercava-me n'uma especie de circulo encantado. +Todo o sortilegio poderoso com que +esse grande artista―o Napoleão da litteratura―actuou +sobre o nosso tempo, descia sobre +o meu cerebro, excitava-o, estimulava-o +perigosamente. +<br /> + +<br /> + +Todos os meus gostos de observadora achavam +alli a sua satisfação plena. Esquecia, n'esse +mundo de tão frisante +<em>realidade</em>, de tão intensa +vida, tudo que o mundo actual tem de +nauseante e de triste... +<br /> + +<br /> + +De resto, Nucigen, o formidavel banqueiro +da <em>Comedia humana</em>, é bem +mais assustador +que Reinach e que todos os judeus modernos +da Columna da Bolsa; Vautrin tem um porte +épico de criminoso que deixa a perder de vista +Cornelio Herz, ou Arton; de Marsay, esse personagem +que é de Balzac como Hamlet é de +<span class="pagenum">[8]</span> +Shakespeare, como Tartufo é de Molière, como +D. Juan é de Byron, é um politico, um diplomata, +um perverso das altas cumiadas sociaes, +bem superior a Rouvier, a Clemenceau, aos +pobres pygmeus da terceira Republica; Lousteau, +Claude Vignon, Emilio Blondet, Nathan, +os principes do jornalismo, os grandes criticos +e os manipuladores de <em>successos</em> ou +de +derrotas litterarias, não podem realmente comparar-se +ao sr. Mayer, ao sr. Magnard, ao +proprio sr. Rochefort. +<br /> + +<br /> + +E que pleiade encantadora de artistas e de +sabios! Que lindas figuras luminosas de pintores, +de esculptores, de romancistas, de pensadores! +D'Arthez! Joseph Bridau! Camille +Maupin! Leon Giraud! Fulgence Ridal! +<br /> + +<br /> + +Em Miguel Christien transparece a integridade +rigida, a consciencia admiravel, a fogosa +independencia de Armand Carrel; em D'Arthez +a bella alma, a vida modesta e simples, +a magnificencia intellectual de um Berryer... +<br /> + +<br /> + +E todos desfilavam ante os meus olhos offuscados, +os cinzeladores da palavra, os manejadores +soberbos ou do escalpello que abre as +entranhas humanas para extrahir d'ellas o segredo +da vida, ou do pincel que rasga janellas +<span class="pagenum">[9]</span> +de luz para o azul, para o Ideal! Os mestres +da sciencia e da arte, os grandes typos +que constituiram essa sociedade imaginaria da +obra de Balzac, reflexo idealisado da outra +que elle frequentava e conheceu tambem. +<br /> + +<br /> + +Ao pé d'esse agrupamento sublime de figuras +que o genio creou, e que illuminam o talento, +a gloria, a ambição ou a desventura, +que ora se contorcem como os personagens +que Miguel Angelo pintou nos seus frescos soberbos, +sob o influxo de uma dôr tremenda, +ora sorriem olympicamente, como os retratos +do Ticiano, surge uma legião adoravel de mulheres, +em quem a graça indefinivel da parisiense +se allia ao eterno mysterio da poesia feminina, +mulheres que se vestem como duquezas +modernas, e sorriem, enygmaticas e suggestivas, +como a Monna Lisa, eternamente indecifravel, +do pintor florentino. +<br /> + +<br /> + +Mulheres que sabem <em>ouvir</em>, que sabem +comprehender, +e julgar, e consolar, e amar; mulheres +que, sendo perversas, teem o encanto +diabolico da princeza de Cadignan e de Mme. +Marneffe, e que, sendo puras, se chamam Henriette +de Morsauf, Duqueza de Langeais; mulheres +que são ao mesmo tempo imaginarias +<span class="pagenum">[10]</span> +e reaes; que ficaram representando na historia +um papel preponderante e caracteristico, +como as inspiradoras da Renascença italiana, +como as amigas gregas de Socrates e de Platão. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>II +</h3> + +<br /> + +<br /> + +O comboio levava-me, rapido, ferozmente +rapido. Levava-me para longe do meu +ninho, dos meus filhos, de tudo que me +faz a vida consolada e boa, de tudo que me dá +força para o trabalho, para a lucta, de tudo +que enche de bençãos a minha existencia laboriosa +e triste... +<br /> + +<br /> + +Á paizagem arida, pedregosa, da Extremadura +hespanhola succedia um scenario mais +animado, mais caracteristico. Aldêas que desde +os tempos hispano-arabes se conservam na +mesma immobilidade barbara, sinos altos de +egrejas gothicas, perfis apenas entrevistos de +velhos conventos, ninhos de cegonhas nas arvores +<span class="pagenum">[12]</span> +que pareciam correr commigo, sombrias +manchas de arvoredo que o vento torcia em +attitudes de desesperada supplica... +<br /> + +<br /> + +A grandeza alpestre dos Pyrenéos e a França, +a França emfim!... Oh! que jubilo estranho +e mysterioso se mesclou então com a saudade +que me ia alanceando e cortando as raizes +da alma! +<br /> + +<br /> + +A França! Como eu tinha levado annos a +amar e a sonhar esse paiz entre todos aureolado +aos meus olhos da luz que vem de cima! +<br /> + +<br /> + +Outras que para lá partem levam projectos +de requintada elegancia para pôr em pratica. +Irão ao Redfern, o alfaiate afamado da rua +Rivoli, que veste tão primorosamente as francezas +de alto cothurno; irão ao Worth, popularisado +pelos romances modernos; á Laferrière, +que veste as actrizes de mais fama; ao +Felix, que principescas encommendas acabam +de singularisar; comprarão na Virot o ultimo +modelo de chapéo; receberão +<em>chez</em> Lenthéric +<em>des conseils de beauté</em>, +que elle dá carissimos, +<em>pela hora da morte</em>, segundo a +expressiva +phrase portugueza, e que de resto tão pouco +aproveitam a quem os recebe; interrogarão +anciosas a elegancia avulsa da parisiense que +<span class="pagenum">[13]</span> +passa, pedindo-lhe o segredo, que só ella tem, +de andar por sobre o solo molhado ou enlameado, +sem macular de leve a fimbria, gentilmente +arregaçada, do seu simples, gracioso +e bem posto vestido escuro, que se amolda sobre +um espartilho de mestra, com a nobreza +com que sobre o corpo de uma estatueta de +Tanagra se amolda a roupagem de linhas magistraes +que o envolve sem encobril-o; o segredo +de collocar sobre a sua fina cabeça pequenina, +lindamente penteada, ou antes, lindamente +despenteada, um minusculo chapéo, similhante +a uma borboleta ou a uma flôr, que +o vento parece querer levar, e que não leva +nunca... +<br /> + +<br /> + +O Paris que as attrahe é o Paris da moda, +da elegancia, do <em>chic</em>, do +<em>concours hippique</em>, +da <em>avenue des Acacias</em>, do +<em>vernissage</em> e dos +pequenos theatros gaiatos. O Paris que as attrahe +é o dos figurinos, das lojas de modas, dos +ourives da rua de <em>la Paix</em>, dos +frequentadores +do <em>boulevard des Italiens</em> e da +<em>Madeleine</em>. +<br /> + +<br /> + +O Paris que, na velocidade vertiginosa, quasi +tragica do <em>expresso</em>, surgia ante +meus olhos, +era um Paris phantastico, <em>unreal</em>, +feito, construido, +cimentado com o genio dos seus grandes +<span class="pagenum">[14]</span> +artistas, dos seus grandes poetas, dos seus +historiadores, dos seus moralistas, dos seus sabios, +dos seus criticos, dos seus dramaturgos, +dos seus romancistas geniaes! +<br /> + +<br /> + +A França, a que minha alma aspirava, como +aspira ás paizagens desoladas da Palestina a +alma dos grandes ascetas do christianismo, +como aspiram á mystica e penetrante atmosphera +de Bayreuth os fanaticos da religião +wagneriana, era a França que desde Jean Goujon +até Rodin, e desde o Poussin até Puvis +de Chavannes, e desde Froissart até Michelet, +e desde Mme. Laffayette até Georges Sand, +e desde Balzac até Zola, e desde Pascal até +Renan―um, o catholico que se inclina sobre +o abysmo da duvida, outro, o sceptico que +tem a uncção evangelista de um santo... e +desde Montaigne até Anatole France, e desde +Racine até Bourget... os finos psychologos do +eterno feminino―e desde Ronsard até Victor +Hugo, e desde Marot até Verlaine, e desde a +grande renascença do seculo XVI até ao magnifico +movimento do romantismo, têem enchido +o mundo da arte, e da poesia, e da realidade, +e da ficção, de obras primas sem conta e sem +medida!... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[15]</span> +De pequena tinham-me ensinado essa lingua +tão clara, que milhares de artistas forjaram, +bateram, cinzelaram, incrustaram de pedrarias +coruscantes, esmaltaram de riquissimas côres, +metal precioso feito de todos os metaes, e que +tem qualidades de flexibilidade, de elegancia, +de sonoridade, de harmonia, de colorido, e de +pujança absolutamente incomparaveis e inimitaveis... +De pequena tinham-me mettido nas +mãos as obras primas dos seus genios mais brilhantes, +e eu sentia-me no intimo da minha +alma mais franceza ás vezes do que propriamente +peninsular. +<br /> + +<br /> + +Ah! mas que melancholico foi o despertar +do meu ambicioso, do meu doido sonho!... +<br /> + +<br /> + +Atravessei, com uma rapidez que me deixou +confusa e palpitante, o Paris da minha evocação +de vidente; estavam mortos os amigos +que me tinham alimentado com a medula do +seu cerebro, ou com o leite da sua poesia, e, +vivos que fossem, alli perto d'elles, na atmosphera +em que elles tinham respirado, nas ruas +em que elles tinham morado, no scenario que +elles enchiam do seu nome é que eu, pela +primeira vez, ia sentil-os longe, muito longe +de mim, na incommensuravel distancia moral, +<span class="pagenum">[16]</span> +que a proximidade physica revelava de +repente ao meu chimerico espirito de sonhadora! +<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +Senti então o que nunca julguei que sentiria +n'esse paiz que eu reputava positivamente +a patria do meu espirito! Senti uma nostalgia +tão violenta, tão dolorosa, que pensei morrer +d'ella! Uma especie de desaggregação +intellectual, +que deve ter nome na pathologia do cerebro, +mas que eu não sei scientificamente +classificar―o que de resto não admira nada! +<br /> + +<br /> + +Esqueci-me do que aprendera, fiquei-me em +uma especie de assombro mudo, em que a +saudade de Portugal punha uma nota alanceadora, +torturante. +<br /> + +<br /> + +O que os livros me tinham revelado foi como +que varrido da minha memoria; os sonhos +que eu tinha edificado sobre a minha vinda a +Paris, desmoronaram-se em uma especie de +estranho cataclysmo, e percorri a linda capital +da Europa civilisada, não como uma pessoa +que de antemão, e por muito os ter visto descriptos, +conhecesse os seus encantos, as suas +bellezas soberanas, os filtros subtis que do seu +<em>pavé de bois</em> se exhalam +de envolta com o +<span class="pagenum">[17]</span> +cheiro penetrante da terra sempre humida e +sempre regada, a festa perenne das suas ruas +e avenidas onde a miseria não vem pôr a sua +mancha livida, onde perpassa uma multidão +sempre garrida e sempre feliz, a perfeição nos +seus theatros, a perversa poesia das suas canções +<em>fim de seculo</em>, a tenra verdura das +suas +arvores, tão bem cuidadas que parece que de +manhã cedo as lava todos os dias, a esponja e +sabonete, um exercito de invisiveis jardineiros, +a lindeza da sua luz que á tarde se faz de um +cinzento roseo como o das paizagens de Corot, +tão inexprimivelmente bellas... mas como um +ser inteiramente novo às impressões da vida +extra-civilisada e que d'ella recebesse uma especie +de choque <em>estupidificante</em>! +<br /> + +<br /> + +Através de tudo, o que eu sentia vivo, absorvente +como um <em>cauchemar</em>, era a saudade +do meu paiz, da minha Lisboa das sete collinas, +construida em amphitheatro, sobre o Tejo +amplo e azul, da bonhomia d'este nosso viver +um pouco provinciano, pacato apesar do ridiculo +de parodia involuntaria que ás vezes o +desfigura e o desnacionalisa, da familiaridade +com que todos nos conhecemos, nos amamos +através do <em>debique</em> +permanente, em que andamos +<span class="pagenum">[18]</span> +uns a respeito dos outros, da tranquillidade +um tanto adormecida do nosso espirito, +do amor da casa que distingue todo o bom +lisboeta, da ausencia de ambição que, exceptuando +as alturas procellosas da politica, imprime +o seu cunho esterilisador, mas calmante, +em todas as nossas almas serenas... +<br /> + +<br /> + +A lingua então, a musica da lingua patria, +fazia-me uma falta dolorosa. Tinha sêde de ouvir +falar portuguez! +<br /> + +<br /> + +E preferia aos divertimentos que a engenhosa +amabilidade do meu querido hospedeiro me +proporcionava, e ás excursões artisticas em +que elle era um <em>cicerone</em> +incomparavel, instruidissimo, +<em>raffiné</em>, cheio de +idéas originaes e +suggestivas, as tranquillas e doces noites passadas +em Neuilly, na luz discreta da lampada +Carcel, que um quebra-luz côr de rosa fazia +mais acariciadora e mais suave, e onde a familia +adoravelmente intelligente, e inolvidavel +para mim, de um escriptor portuguez, que é +um artista da mais pura raça intellectual e da +mais ampla envergadura de engenho, me fazia +uma especie de pequenina patria. Alli a conversa +tinha o tom preguiçoso da nossa conversa, +os gostos combinavam-se com os meus +<span class="pagenum">[19]</span> +gostos, os nossos geitos especiaes de portuguezas +manifestavam-se a cada instante, e o +que a graça feminil de umas combinada com +o genio nervoso e original de outros podiam +dar de delicioso ao meu espirito, harmonisavam-se +para me fazer esquecer a patria, os filhos, +os outros amigos ausentes! +<br /> + +<br /> + +Nem sabem―n'esse ideal cantinho do mundo +onde vivem, um pouco alheados da civilisação +babylonica que os aperta, os cinge e os +invade ás vezes―elle, o artista laborioso e +apaixonado mettido no seu trabalho austero e +impeccavel, como um monge na sua cella estreita, +ellas, as duas encantadoras irmãs, envoltas +na grinalda viva de lindissimas flôres +humanas, que são para uma +<em>tudo</em>, e quasi +tudo para o coração instinctivamente maternal +da outra,―nem sabem o bem que me fizeram +n'uma d'estas crises absurdas que só os nervosos +conhecem e das quaes o mundo estupidamente +ri! +<br /> + +<br /> + +Foi ahi sobretudo que eu, curada d'aquella +violenta nostalgia que ameaçava inutilisar inteiramente +o resultado moral da minha viagem, +<em>reaprendi</em> a gosar Paris, +não já o meu +Paris ideal, especie de babylonia construida +<span class="pagenum">[20]</span> +em nuvens, mas o Paris verdadeiro, o Paris +real, tal como elle lentamente me foi sendo +revelado pelo intelligente <em>cicerone</em> +que eu tive +a fortuna de ter no meu divagar de +<em>touriste</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>III +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Folheio ao acaso as notas escriptas a correr, +na rapidez da minha viagem, e +transcrevo-as para aqui, na sua sinceridade +frisante. +<br /> + +<br /> + +É, de resto, o unico merito que hoje podem +ter as notas de viagem, o temperamento pessoal +do artista que <em>viu</em>, +através das impressões +que a sua visão lhe deu. Mais nada. Tudo está +dito, e não ha quem acorde uma emoção +nova, +na alma do leitor <em>blasé</em> +pelo conhecimento da +obra dos grandes artistas que viajaram. O proprio +Bourget, que é um mestre, cujo unico +defeito é ter vindo um pouco tarde, depois de +muitos outros, está reduzido a chamar +<em>Sensações +de Italia</em> ao seu livro encantador de viagem +na terra classica da Arte. As sensações +<span class="pagenum">[22]</span> +que a Italia lhe deu a elle, eis unicamente o +que o delicado escriptor se atreve a contar, +certo de que toda a essencia de poesia que +d'esse maravilhoso e fecundo solo se pode extrahir, +outros a extrahiram antes d'elle por lá +ter passado. +<br /> + +<br /> + +A minha unica desculpa vem a ser esta: +costumada a contar n'este mesmo logar as impressões +colhidas na leitura dos livros, porque +me não atreverei a completar, a ampliar, a +desenvolver essas impressões +<em>livrescas</em> com outras +colhidas em diversos ramos de arte; mais +directas, mais reaes?... +<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +―Acabo de sahir do Louvre, onde fui visitar +as galerias da esculptura e principalmente essa +sala entre todas privilegiada e bemdita, onde a +<em>Venus victoriosa</em>, a Venus de Milo, +esplende +na sua sagrada formosura. +<br /> + +<br /> + +Chamava-me de longe, como um sortilegio +poderoso exercido pelo Bello, essa figura que +eu tinha mil vezes visto em reproducções, em +estampas, em photographias, que me tinham +dito ser a suprema divinisação do corpo feminino, +e que eu ia pela primeira vez contemplar +na sua genuina pureza marmorea. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[23]</span> +A minha impressão, comquanto profunda, +tem o seu quê de incerto e duvidoso. Porque? +Será porque a Venus não realisou o sonho que +eu fizera da perfeição ideal dos seus contornos +e das suas linhas? Não. Ella é realmente a +belleza augusta, sobrehumana, ideal, como a +proclamam unanimes os que a tem visto e julgado. +<br /> + +<br /> + +Mas é que eu não tenho em mim enraizado +como uma religião da infancia, fazendo corpo +com as minhas crenças, idéas e sentimentos, +esse culto da belleza physica que foi a feição +primacial da civilisação dos gregos. +<br /> + +<br /> + +Para mim um <em>corpo divino</em> +é uma expressão +litteraria, não é um dogma de esthetica +instinctiva. +<br /> + +<br /> + +Por isso, através da bella estatua procuro +adivinhar, nas suas linhas mais geraes, a extincta +civilisação que ella representa, de que +ella é como que o remate e a flôr! +<br /> + +<br /> + +Como Taine diz tão bem, «todas as grandes +cousas um pouco remotas correspondem a sentimentos +que já não temos.» +<br /> + +<br /> + +Precisamos de os reconstruir pela reflexão; +e como ainda os menos profundamente instruidos +têem uma educação cosmopolita e +multipla, +<span class="pagenum">[24]</span> +em que umas poucas de concepções de arte se +ajustam e sobrepõem, como nós temos, adquirida +laboriosamente, ou bebida no ar que respiramos +e nas rapidas leituras que fazemos, +uma noção, profunda ou elementar, de cada +uma das civilisações que antecederam a nossa, +acabamos depois de algum tempo de meditação +por comprehender, com o espirito, não com a +alma, o sentimento que inspirou a obra de arte +que estamos contemplando um pouco inintelligentemente. +<br /> + +<br /> + +O <em>snobismo</em> artistico consiste em +fingir que +se entende tudo á primeira vista, mesmo as +cousas mais avêssas ao nosso temperamento +individual ou nacional. Evitar esse +<em>snobismo</em> a +todo o custo, deve ser o decidido empenho de +qualquer espirito honesto e sincero. +<br /> + +<br /> + +A Venus é, mesmo para o simples profano, +uma esplendida revelação de arte? É, +de certo. +<br /> + +<br /> + +Não póde um corpo feminino ondular em +linhas mais puras, não póde a branca +flôr do +marmore palpitar com mais intensa vida. +<br /> + +<br /> + +Pela graça magestosa da sua mutilada attitude +(que fazia ella quando tinha os seus divinos +braços, perguntam debalde os criticos especiaes +da arte grega!), pela serenidade ineffavel +<span class="pagenum">[25]</span> +da sua posição, pela harmonia absoluta das +suas linhas esculpturaes, pelo rythmo inspirador +do seu corpo marmoreo,―a Venus de +Milo, brotada do cinzel de desconhecido artista, +na hora mais feliz da arte da Grecia, logo depois +de Phidias lhe haver imprimido o sello +supremo de sua grandeza, antes do escopro de +Praxiteles a haver impregnado de uma languida +graça voluptuosa, de um sensualismo +requintado e enervante, que decahe mais tarde +na imitação anti-esthetica da Natureza, nos +realismos da polychromia, na extincção final +do gosto e do puro ideal artistico: a Venus de +Milo merece ser considerada, como diz Paulo +de Saint Victor, aquella Eterna Belleza que +Platão adorava, a <em>Venus +victrix</em> cujo nome +Cesar dava por senha aos seus soldados na vespera +de Pharsalia, e em todo o caso a mais bella +interpretação, que os modernos possuem d'esse +feminino eterno que a Grecia tanto amou, que +no mundo historico ella foi a primeira a amar, +e cujo culto poetico e sensual traduziu nos seus +mythos divinos, nos seus ritos magnificos, na +sua arte incomparavel... +<br /> + +<br /> + +Comtudo, nós sómente possuimos truncados +restos, fragmentos secundarios da esculptura +<span class="pagenum">[26]</span> +grega e não somos capazes, senão por +<em>dilettantismo</em> +e por curiosidade intellectual, de +comprehender bem o culto apaixonado que ao +corpo humano foi consagrado pela Grecia. +<br /> + +<br /> + +É necessario avistar ao menos de longe essa +raça simples, viril, intelligente e bella, que foi +de todas as raças a unica que poz a sua +concepção +da felicidade humana em perfeito accordo +com a sua concepção das leis do Universo, +que á realisação positiva de todos os +seus +instinctos chamou Virtude, e á +encarnação de +todos os impulsos naturalistas deu o nome de +deuses; que tendeu ao aperfeiçoamento, e ao +desenvolvimento pleno da natureza humana na +sua constituição politica, no seu organismo +social, +nos seus costumes, na sua arte, na sua +religião; que fez deuses á similhança +dos homens +para os poder amar, e que, chegada ao +ponto culminante da sua perfeição artistica, +esculpiu +homens á similhança de deuses para +lhes render culto... +<br /> + +<br /> + +Que nos importa hoje, a não ser como exercicio +d'arte, a belleza ideal de um corpo de homem +ou de um corpo de mulher? +<br /> + +<br /> + +Para nós a belleza tem outras regras bem +mais complicadas, bem mais subtis, e tão difficil +<span class="pagenum">[27]</span> +nos é conceber um corpo sem defeito, +movendo-se na plena graça e na plena liberdade +da sua harmonia muscular, como seria á +Grecia conceber o nosso moderno ideal do bello, +todo em expressão, com a alma atormentada +e complexa que se revela principalmente +através do gesto, através do olhar, +através da +physionomia ardente e devastada... +<br /> + +<br /> + +Para a Grecia, porém, habituada a realisar +a perfeição, não sómente no +marmore, que +isso veiu mais tarde como complemento e como +resultado, senão na propria carne humana, e +que seguia todos os processos pelos quaes uma +raça de homens se desenvolve, se robustece, se +apura, se requinta, até poder attingir a belleza +suprema: que empregava não só a +eliminação +systematica de todos os productos defeituosos, +não só o cruzamento forçado dos fortes +e das +bellas, mas tambem os exercicios permanentes +da força, e da graça robusta e livre, nos +jogos do gymnasio, na orchestrica, nas dansas +guerreiras ou sacerdotaes, na educação, +emfim, do corpo levada ás mais minuciosas +praticas que podem depurar-lhe as formas e +desenvolver-lhe as latentes energias―para a +Grecia a belleza physica é mais que uma virtude, +<span class="pagenum">[28]</span> +é uma condição absoluta da vida +nacional. +<br /> + +<br /> + +Sem belleza, isto é, sem harmonia, não ha +força; sem força como é que a pequena +Grecia +venceria a poderosa Persia? Como é que ella +chegaria a ser o nucleo de extraordinaria +civilisação, +de que ainda hoje, apesar de trinta seculos +de mutilações continuas, a nossa alma se +alimenta, nutre e revigora? +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>IV +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Mas quem nos diz a nós que a Venus de +Milo, objecto de uma ardente e justa +admiração entre os modernos, não fosse +no fim de contas uma estatua vulgar no seu +tempo? +<br /> + +<br /> + +Os grandes esculptores gregos, aquelles cuja +chronologia e cuja historia chegaram até nós, +descobertas pela paciente erudição, em alguns +fragmentos de Plinio, de Pausanias, de Cicero, +de Quintiliano, não faziam as suas obras +mais preciosas senão em ouro, em prata, em +marfim, em materias firmes bem mais raras +que o paros e o pentelico, de que hoje se guardam +nos museus os torsos mutilados, os fragmentos +soltos, as reconstituidas estatuas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[30]</span> +Ao pé do que se sumiu d'essa sublime estatuaria +grega, flôr suprema d'aquella +civilisação +de athletas, de gymnastas, de oradores e de +heróes, quantas attitudes para a +«esculptura»! +O que resta vale bem pouco, e representa apenas +como documento de uma éra extincta. +<br /> + +<br /> + +Mas pelo que resta, nós sabemos que o corpo +bello, viril, robusto e são, movendo-se livremente +sob a claridade azul de um céo sem +manchas, era o ideal artistico d'esse povo que, +mais feliz que nenhum outro, traduziu integro +e immaculado o seu sonho da vida, e―para +quem é a vida, mais que um sonho?―na religião, +na arte, na poesia, nas paginas luminosas +de Homero, Eschylo e Platão, na fórma +sublime da sua Acropole, ante a qual Renan +soltou aquelle melancolico e sublime grito de +amor, nas frisas e estatuas dos seus templos, +nas ceremonias divinas e inspirativas do seu +culto, que ora são castas como a longa procissão +das Panatheneas, ora são soberbas de +força e de pujança animal como as dansas e os +jogos de ephebos nús... +<br /> + +<br /> + +A Grecia amou a sobriedade, a correcção, a +graça e a força. +<br /> + +<br /> + +E depois de percorrer um periodo longo e o +<span class="pagenum"><a name="p31" id="p31">[31]</a></span> +progressivo da iniciação, chegou ao ponto de +combinar e fundir os extremos mais oppostos +n'aquella completa harmonia, que só uma vez +se realisou na terra e que não torna mais! +<br /> + +<br /> + +Que importa, porém, que não torne? +<br /> + +<br /> + +Bastou que apparecesse uma vez, que brilhasse +sobre nós, astro longinquo e puro hoje +apagado e de que ainda vêmos o reflexo calmo, +para que o mundo ficasse eternamente ungido +d'aquella graça mysteriosa, d'aquelle divino +<em>atticismo</em> que em alguns raros +eleitos resplandece +e de que todos temos o presentimento, a +sêde, ou a avidez! +<br /> + +<br /> + +Por isso Renan, a alma mais accessivel á +influencia do bello de que talvez possa ufanar-se +o nosso tempo, dizia no alto da +<em>Acropole</em> +estas palavras que traduzem um sentir universal +que até alli não achára +expressão condigna: +<br /> + +<br /> + +―«Ó Natureza impeccavel! Oh! simples e +verdadeira Belleza! Deusa cujo culto significa +sabedoria e razão! oh! tu cujo templo é uma +lição eterna de sinceridade e consciencia! chego +bem tarde aos umbraes dos teus mysterios; +venho ao teu altar cheio de remorsos! <a href="#e1">Para +te encontrar</a>, que infinito esforço eu fiz! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[32]</span> +«A iniciação que, n'um sorriso, davas +ao atheniense +na primeira infancia, só á força de +reflexões +e de esforços eu pôde conquistal-a! +<br /> + +<br /> + +«Tu só és moça! tu +só és pura! tu só és +sã! +tu só és invencivel!» +<br /> + +<br /> + +Um outro critico profundo, que estudou a +Grecia com o amor com que se estuda a +civilisação-mãe, +de que todas mais ou menos +dependeram depois, diz que no caracter nacional +d'essa raça se discriminam claramente os +tres traços fundamentaes que constituem a intelligencia +de um artista. +<br /> + +<br /> + +Estes tres traços são a +<em>delicadeza da +percepção</em>, +a <em>necessidade absoluta da clareza</em> e +o +<em>amor e culto da vida presente</em>. +<br /> + +<br /> + +O primeiro d'esses traços permittiu-lhes perceber +as relações secretas das cousas, deu-lhes +o sentimento fino e raro das +<em>nuances</em>, e a suprema +aptidão para construirem conjunctos de +fórmas, de seres e de côres, +combinações de +circumstancias e de elementos tão bem ligados +entre si e por tão estreita identidade de +relações, +que a sua creação de arte foi tão +<em>viva</em> +que excedeu no mundo imaginario a harmonia +preestabelecida no mundo real e verdadeiro. +<br /> + +<br /> + +Ao segundo deveram o sentimento da proporção +<span class="pagenum">[33]</span> +que possuiram como nenhum outro +povo, o odio ao vago e ao abstracto, o desdem +pelo monstruoso e pelo enorme,―que é a marca +distinctiva do Oriente, do qual elles só aproveitaram +o bom,―o gosto dos contornos firmes +e precisos. <em>O amor</em> e o +<em>culto da vida presente</em> +bem o revelaram na sua religião sem mysterio +e sem <em>au delá</em>, na sua +paixão pela belleza +plastica, na sua sêde de serenidade e de alegria, +no seu antagonismo ingenito com a doença, +com as miserias physicas ou moraes, no +seu encantamento absoluto, e que é para nós +immoral mas que para elles o não era, deante +do corpo nú, representação suprema da +força, +da graça, da saude e da belleza... +<br /> + +<br /> + +Uma raça tão maravilhosamente dotada, +idealista e positiva a um tempo, tinha por +força de traduzir-se no esplendor das artes +plasticas. +<br /> + +<br /> + +O espectaculo permanente dos bellos corpos +nús, ou envoltos lassamente na elegante e longa +tunica que na altura do joelho se duplica e +cahe sobre os pés em pregas esculpturaes de +inimitavel graça, a contemplação +habitual d'essa +raça que se distingue pela nobreza simples +das attitudes, pela perfeição athletica da +fórma, +<span class="pagenum">[34]</span> +pela serenidade do aspecto que as nossas mesquinhas +ambições ou o nosso devastador pensamento +não tinham convulsionado,―tudo devia +naturalmente produzir, pelo pendor imitativo +que caracterisa o espirito do homem, a +maravilhosa floração de artistas sublimes que +ao principio tentaram e depois conseguiram +libertar a noção do bello da estreita +prisão que +o cingia e apertava, fixar no marmore, no +ouro, no marfim e no bronze a soberba visão +da força militante ou graça ingenua e pura! +<br /> + +<br /> + +Como é interessante seguir a evolução +da +arte grega desde o ponto em que ella parece +ainda pedir á inspiração hieratica do +Egypto +o molde incorrecto que a liga e mumifica, até +a hora em que Praxiteles arranca do marmore +a sua Venus de Gnido, de que a Anthologia +canta assim a voluptuosa formosura: +<br /> + +<br /> + +«Cythera trazida pelas ondas foi a Gnido +admirar a propria imagem, e após longa +contemplação +falou d'est'arte: Onde é que Praxiteles +me viu sem véos?... Não, Praxiteles +não ousou +violar-te com olhar sacrilego. O que elle fez +foi representar-te com o cinzel qual te havia +sonhado!» +<br /> + +<br /> + +Ao principio, a architectura e a estatuaria, +<span class="pagenum">[35]</span> +estreitamente unidas, pareciam identificadas e +inseparaveis; mas quando a estatuaria se emancipou, +não foram sómente as frisas e os baixos +relevos dos templos, as colossaes effigies da +«cella» interior, que captivaram e deslumbraram +o olhar do povo grego, foram as soberbas +figuras erguidas ao ar livre, a Athenêa colossal +de Phidias, a Sosandra de Kalamis, as +mulheres de Carya, a Artémis divina em volta +de cuja estatua as virgens da Lacedemonia +vêm tecer annualmente as suas dansas rituaes! +<br /> + +<br /> + +Desappareceu o ingenuo symbolismo primitivo, +que representava cada divindade com os +attributos do seu poder, ou com os accessorios +significativos das transformações naturaes de +que ellas todas eram a concreta imagem; agora +o que se revela ao fanatismo de belleza que +palpita na alma grega, são divinos corpos de +mulheres em toda a magnifica pujança da sua +belleza creadora, em toda a graça adoravel da +sua feminina poesia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>V +</h3> + +<br /> + +<br /> + +A estatua deante da qual eu acabo de +passar algum tempo, pedindo-lhe o segredo +do perdido Ideal que ella traduz, +representa, como eu já disse, esse momento +fugitivo e bello da vida grega. +<br /> + +<br /> + +Esculpiu-a um desconhecido artista: mas +não são totalmente desconhecidos tambem para +nós, os pobres oleiros que amassaram e modelaram +as lindas estatuas encontradas nos +tumulos de Tanagra e não são tambem ellas +a poesia, o encanto, o velado mysterio, a ineffavel +graça? +<br /> + +<br /> + +Falando d'ella, diz Paulo de Saint Victor: +«Oh! bemdito seja o camponez grego, cuja +enxada exhumou a deusa enterrada ha dois +mil annos em uma leiva de trigo!... Graças +<span class="pagenum">[37]</span> +a elle, a idéa do Bello ascendeu mais um gráu +sublime, o mundo plastico encontrou a sua +Rainha!... A belleza ondula d'essa cabeça +divina e espraia-se em todo o corpo como +uma luz!... Só a lingua de Homero e de Sophocles +seria digna de celebrar tão regia Venus! +Sómente a amplidão do rythmo hellenico +poderia moldar, sem deslustral-as, fórmas tão +perfeitas! +<br /> + +<br /> + +«Por que palavras exprimir a magestade +d'esse marmore triplamente sagrado, a attracção +mesclada de assombro que elle inspira, o +ideal supremo e ingenuo que revela?» +<br /> + +<br /> + +E Theophile Gauthier, descrevendo-a, diz +assim: +<br /> + +<br /> + +«A fronte soberba, de linhas curvas, cingida +pelas <em>bandelettes</em> do penteado, +é tal qual +a podiamos sonhar para séde de uma alma +divina; o collo direito e firme lembra o fuste +de uma columna dorica, o seio de virgindade +eterna é digno de servir de modelo, como o +de Helena, para a taça dos altares!» +<br /> + +<br /> + +E, no emtanto, essa bella e pequenina cabeça, +que uma graça ideal nimba eternamente, +não é tal como elle diz, séde +<em>de uma alma +divina</em>. A Venus de Milo não pensa. +N'aquella +<span class="pagenum">[38]</span> +branca flôr marmorea uma alma vegetativa +sonha e dorme! Que sabe ella da Vida e das +suas longas tragedias, que sulcam de rugas +profundas a fronte pallida das mulheres, que +contorcem em ancias, indomitas como o Oceano, +a alma dos homens? +<br /> + +<br /> + +Quem lhe revelou, a ella, o segredo das +nossas paixões que devastam, das nossas luctas +que ou disvirilisam ou depravam, das +contradicções medonhas de que +erriçamos o +nosso cruel destino, dos abysmos que abrimos +debaixo dos nossos cançados pés? Que +presentimento +sequer tem ella―a deusa inalteravel +e serena―de tudo que a engenhosa imaginação +dos que vieram depois―deuses e homens―inventou +para se torturarem e nos +torturarem? +<br /> + +<br /> + +Os dois mil annos que temos a pesar-nos +sobre a cabeça e sobre o peito, passou-os ella +ignorante e tranquilla sob a terra da Grecia. +<br /> + +<br /> + +O que ella representa é um momento risonho +e curto da existencia humana; um momento +em que tudo é bello e harmonioso na +terra e no céo, em que, para imitar os deuses +que crearam, os homens não precisam de +deixar mutilar as suas energias mais vivas, os +<span class="pagenum">[39]</span> +seus instinctos mais naturaes; um momento +em que o amor é sagrado e puro como a +fonte inexgotavel dos sêres, e como tal tem +culto e tem altares; um momento em que a +Natureza é benevola e sã, e em que da espuma +dos mares da Jonia póde brotar a flôr maravilhosa +da eterna belleza, em que a inconstancia +das ondas, a perfida doçura das sereias, +o abysmo glauco, que tem no fundo grutas de +esmeralda collaboram em uma obra divina e +produzem um symbolo immortal... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Que differença d'essa concepção +propria á +esculptura antiga e a nossa de hoje, tão fundamentalmente +opposta nos fins e nos processos! +<br /> + +<br /> + +E no emtanto a estatuaria franceza representa +no seculo XIX um momento glorioso da +historia da arte! Mas desenganem-se. Póde a +estatuaria franceza moderna revelar um grande +talento da parte de quatro ou cinco ou +mesmo mais individuos; não é, não pode +já +<span class="pagenum">[40]</span> +ser uma necessidade, uma aspiração da +raça, +universal e irreductivel! +<br /> + +<br /> + +É um esforço de talento individual, +não é +o rebento vigoroso e vivaz em que desabrocha +finalmente a alma de um povo! +<br /> + +<br /> + +Depois da minha visita incompleta, mas cheia +de interesse, ás galerias da antiguidade classica, +fui ao Luxemburgo vêr as estatuas francezas +modernas, e procurei, nos monumentos erguidos +aqui ou alli, á memoria de um artista +querido ou de uma gloria nacional, o sello, a +marca, pelos quaes uma arte revela as intimas +fibras de que é feita. +<br /> + +<br /> + +Vi corpos de mulher verdadeiramente encantadores! +O marmore, branco de mais, tinha +a fluidez da carne tenra sob a qual o sangue, +púrpura viva, circúla rico e livre, mas +pareceu-me +que a preoccupação da +<em>expressão</em> dominava +absolutamente os artistas e que elles tinham +quasi todos perdido o segredo em virtude +do qual um corpo humano, masculino ou +feminino, interessa por si só, pela harmonia +das suas proporções, pela liberdade com que +jogam os seus musculos, pelo rythmo mysterioso +de cada uma das suas linhas. +<br /> + +<br /> + +E voltei d'essa peregrinação artistica sempre +<span class="pagenum">[41]</span> +mais convencida, de que a esculptura é +talvez a mais bella das artes, mas a que está +em menos harmonia intima com o nosso ideal +da vida! +<br /> + +<br /> + +Que temos nós feito em um longo esforço +de dezenove seculos, apenas interrompido pelo +movimento artificial, erudito e artistico, mas +não popular da Renascença? +<br /> + +<br /> + +Temos contrariado pertinazmente a acção +da Natureza sobre os nossos gostos, instinctos +e paixões. O que é o christianismo na sua +essencia +philosophica e na sua influencia social? +Uma reacção violenta e permanente contra +essa noção pagã da existencia que +fazia d'ella +uma festa perenne e magnifica; que fazia do +corpo humano alguma cousa de sagrado e de +inviolavel, que tudo devia tender a satisfazer e a +servir; que fazia dos instinctos naturalistas da +nossa especie a lei suprema a que céo e terra +se subordinassem, pois que os deuses para serem +amados deviam ter e tinham as paixões +que hoje fazem os homens criminosos. +<br /> + +<br /> + +O animal humano era realmente então o rei +da creação, mas nenhuma das suas +forças enfraquecera +ou diminuira, nenhuma das suas +energias fôra mutilada, nenhum dos seus instinctos +<span class="pagenum">[42]</span> +domados, e elle movia-se livre, feliz, +triumphante e bello, em uma atmosphera de +apotheose, que nenhuma sombra vinha sinistramente +obumbrar. +<br /> + +<br /> + +A antiguidade grega não é uma orgia, porque +a orgia precisa de ter por fundo a consciencia +do peccado, e a Grecia em tudo que fez de +peccaminoso e de immoral aos nossos olhos, +não violou nenhuma lei divina, não foi de +encontro +a nenhum preceito dogmatico; pelo +contrario, obedecendo ao seu instincto, obedeceu +á sua religião. +<br /> + +<br /> + +D'esta harmonia entre a lei moral, que então +não existia senão rudimentar, e a realidade +physica, vem a sua immensa felicidade e o encanto +incomparavel da sua civilisação. +<br /> + +<br /> + +Para o christianismo, pelo contrario, o corpo +é o involucro, amaldiçoado as mais das +vezes, de paixões condemnaveis, de instinctos +que é necessario a todo o custo dominar, subjugar, +vencer. +<br /> + +<br /> + +Não é impunemente que a especie humana +tem vivido acurvada durante longos seculos a +este jugo incomportavel. +<br /> + +<br /> + +Resente-se d'elles até a revolta dos atheus. +<br /> + +<br /> + +Por isso a nossa concepção da belleza physica, +<span class="pagenum">[43]</span> +partindo de outras fontes mais profundas +e mais turvas, não podia ter nunca a incomparavel +claridade que tem o ideal grego. Os +esculptores, que conservam na sua alma o cunho +indelevel que alli tem imprimido a civilisação +christã, á belleza do corpo humano +prendem fatalmente considerações de ordem +complexa que não influenciaram a estatuaria +antiga. +<br /> + +<br /> + +As mulheres teem a attitude languida de peccadoras +nuas, a carne, que o marmore quer +fingir, e que tem d'ella ás vezes a flexibilidade, +a macieza, a vibratil poesia, tem tambem +palpitações +e solicitações voluptuosas que a grave +e simples belleza nunca deve suggerir aos que +a contemplam e que não suggeria aos contemporaneos +de Phidias! +<br /> + +<br /> + +Isto não quer dizer que desde a antiguidade +a esculptura seja uma arte morta. E seria +realmente sacrilego que tal avançasse, quem +viu curvada, em religioso assombro, a reproducção +fiel d'essa <em>Noite</em> de Miguel Angelo, +de +uma tristeza tão tragica e sublime, e o grandioso +<em>Moysés</em> de biblica +magestade incomparavel, +e o <em>Penseroso</em>, e o +<em>San Jorge</em> do Donatello, +cuja nobre attitude altiva faz passar um +<span class="pagenum">[44]</span> +calafrio de admiração pelos nervos ainda mais +resistentes. +<br /> + +<br /> + +Mas quer dizer que a estatuaria é hoje uma +arte destinada a satisfazer, não a alma collectiva +das multidões, mas o espirito culto dos +<em>dilettanti</em> e dos artistas; uma arte +em que o +genio individual póde manifestar-se sublimemente +e lá está a <em>Porta de +Bronze</em> que Rodin +anda esculpindo que o diga, e lá estão os tumulos +de Barrias, e lá está o baixo relevo de +Rude, e lá estão as innumeras estatuas, os +innumeros +monumentos que enchem as praças e os +museus affirmando que a França d'este seculo +possue uma intensa vitalidade artistica que a +honra a deve encher de justo orgulho. O proprio +Falguière, um pouco amaneirado como é, e +dando ao marmore palpitações sensuaes e lubrica +languidez, lá tem no monumento erguido na +<em>Escola das Bellas-Artes</em> a Henri +Regnault +uma figura de mulher deliciosa e viva, que faz +estremecer de goso o verdadeiro artista, isto +para não fallarmos na sua formosa Diana por +quem consta que morreu de amor um pobre +hysterico, dos muitos que andam enchendo este +triste mundo com o espectaculo das suas perversões +morbidas! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[45]</span> +A arte moderna, a que inspira a todas as almas +de hoje o mesmo spasmo de agonisante +prazer, é a musica. Essa sim, que é para +nós +o que a estatuaria pura, augusta e simples foi +para os athenienses, o que a architectura gothica +foi para as torturadas almas idealistas +da idade media, o que a pintura foi para os renascidos +pagãos da Renascença italiana, ébrios +de côr, de luz, de vida. Essa sim, que é de +nós +todos, e que nos faz vibrar, chorar, soffrer, +e nos consola e nos tortura, e nos arranca a +nós mesmos e nos leva ao Inferno e ao Céo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>VI +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Visto que no outro capitulo fallei, não na +inferioridade o que seria um mal escolhido +termo, mas na differença que distingue +a estatuaria moderna da estatuaria antiga, +vou dizer alguma cousa a respeito de um dos +artistas mais palpitantemente +<em>modernos</em>, mais +caracteristicamente diversos dos antigos que +hoje possue a França e a quem de passagem +me referi nos meus anteriores artigos. +<br /> + +<br /> + +Este artista é Rodin. Os seus principios foram +rudes e difficilimos, como o de quasi todos +os verdadeiros artistas, quer dizer d'aquelles +que trazem comsigo um temperamento tão +accentuadamente independente e tão intransigentemente +pessoal, que desnorteia todas as +rotinas e revoluciona todas as estheticas estabelecidas +e todas as escolas triumphantes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p47" id="p47">[47]</a></span> +Hoje Rodin é, elle proprio, um triumphador. +<br /> + +<br /> + +Acceitam-lhe as suas audacias, proclamam-lhe +a altiva independencia artistica, chamam-lhe +um dos primeiros, senão o primeiro esculptor +do seculo. +<br /> + +<br /> + +Nem sempre comtudo succedeu assim. +<br /> + +<br /> + +Quando elle primeiro apresentou no +<em>Salon</em> +a sua figura denominada «L'áge +d'airain», que +hoje, comprada pelo Estado, se admira no Jardim +do Luxemburgo, a primeira impressão do +Jury, diante da escrupulosa exactidão de algumas +partes d'esse corpo energico, foi que o estatuario +o tinha modelado sobre um corpo vivo +e real. +<br /> + +<br /> + +Como se um tal excesso realista e anti-esthetico +não fosse a condemnação de um artista +e pudesse produzir outra cousa a não ser uma +obra morta logo á nascença. +<br /> + +<br /> + +Foi em 1877 que a figura da «Idade de bronze» +foi mandada ao <em>Salon</em>. Em 1881 Rodin +expunha +o «S. João de bronze», «um +anachoreta +magro e robusto, <a href="#e2">de musculatura</a> +devastada e +solida, erguida sobre pés que a marcha endureceu, +torso nodoso, habituado a todas as intemperies, +com um gesto de prégador obstinado, +<span class="pagenum"><a name="p48" id="p48">[48]</a></span> +que levanta a face illuminada e aberta +dos mysticos e dos colericos.» +<br /> + +<br /> + +Até 1885 Rodin, que ao pé do «S. +João» expuzera +tambem a «Creação do homem», +apresenta +na grande nave do Palacio da Industria +os bustos expressivos e magistraes de Jean +Paul Laurens, de Carrier-Belleuse, de Victor +Hugo, de Dalou, de Antonin Proust. +<br /> + +<br /> + +No emtanto o acontecimento magno que até +o presente domina a carreira artistica de Rodin +é a concepção e a +execução da «Porta», +destinada ao «Museu das artes decorativas», +á +qual me referi já n'estas mesmas notas. +<br /> + +<br /> + +Fiz, acompanhada do meu amavel +<em>cicerone</em> +o trajecto longo que leva ao «atelier» de Rodin. +<br /> + +<br /> + +Caminhámos pela rua da +<em>Universidade</em>, atravez +dos longos <em>boulevards</em> e das largas +avenidas +que se entrecruzam ou correm parallelamente +nas proximidades dos Invalidos. +<br /> + +<br /> + +É uma rua aristocratica e socegada; tem +grandes palacetes e tem velhas arvores. +<br /> + +<br /> + +Outras vezes <a href="#e3">surprehendem-nos</a> +entre esses vestigios +de antigas grandezas, pequenas casas +graciosas com jardinsinhos á ingleza cuidados +e cheios de flores. +<br /> + +<br /> + +No fim, perto da odiosa torre Eiffel, escandalo +<span class="pagenum">[49]</span> +de mau gosto, americanismo revoltante +erguido em plena Athenas moderna,―a physionomia +d'esta rua placida e tranquilla modifica-se +bastante. +<br /> + +<br /> + +Grandes muralhas nuas, grandes tectos envidraçados, +mais altos do que as muralhas, +annunciam ao observador que entra n'um +bairro de esculptores e pintores. +<br /> + +<br /> + +Entrámos no n.º 182. +<br /> + +<br /> + +Transposta a grande porta, que lembra o +portão de uma das nossas quintas, achámo-nos +dentro de um cerrado bastante vasto, em que +o chão é musgoso e esverdinhado, em que ha +recantos de herva alta e viçosa, e por sobre os +muros do qual, verdes ramarias de arvores espreitam +curiosamente... +<br /> + +<br /> + +A dois passos do vertiginoso movimento de +Paris respira-se aqui uma paz profunda, uma +quasi solidão melancolica e doce. +<br /> + +<br /> + +Aqui e alli, enormissimos blocos de marmore +de fórmas diversissimas, de côr frigida e branca, +de arestas que brilham como aço ou como +vidro ao sol de abril, de veias azuladas em +que parece gyrar um mysterioso sangue... +<br /> + +<br /> + +Dormem na severa prisão cyclopica d'esses +blocos brutaes corpos airosos, leves, esbeltos +<span class="pagenum">[50]</span> +de nymphas florentinas, bustos delicados de +Eva adolescente, divinas nudezas de que esses +marmores são a primeira fórma rude, +fórmas +delicadas em que o genio do artista accenderá +uma chispa mysteriosa de vida immortal. +<br /> + +<br /> + +Que deliciosas figuras de mulher um cinzel +magistral arrancará d'essa massa dura e informe! +<br /> + +<br /> + +Como elle saberá flexibilisal-a em membros +de uma graça serpentina, arredondal-a em +braços que se abrem em uma curva deliciosa +e suggestiva, derramar, sobre niveas espaduas +nuas, a vaga fluida e revolta de uma cabelladura +crespa e magnifica, entreabrir em um +sorriso enygmatico finos labios femenis, allumiar +de ignota chamma o globo cavado de uns +olhos, desabrochar em molles curvas a flôr de +um seio virginal... +<br /> + +<br /> + +Todas estas visões de um mundo increado +nos são suggeridas pela vista d'esse campo +cheio de pedras enormes, que á tarde, na luz +rosea e violeta do crepusculo, parece―disse-nos +alguem―uma charneca semeada de gigantescos +tumulos... +<br /> + +<br /> + +Sobre esse armazem de pedra ao ar livre +abrem as portas baixas dos «ateliers» de +esculptores +<span class="pagenum">[51]</span> +que alli vieram buscar a commodidade +e a solidão. Um d'elles é o atelier de Rodin, +que eu ia visitar. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Infelizmente, foi trahida a minha anciosa espectativa. +O mestre não estava, e o discipulo, +que trabalha com elle,―um rapaz do Norte, de +immensa distincção de aspecto,―nem sequer +pôde mostrar-nos a esplendida +<em>Porta</em>, que estava +no compartimento fechado contiguo áquelle +em que nós entrámos, para admirar alguns grupos +de marmore, em que a poderosa <em>griffe</em> +do +grande esculptor se imprimira profundamente. +<br /> + +<br /> + +O talento de Rodin é tão pessoal, é +tão inconfundivel +a sua maneira, que, depois de se +ter visto um corpo humano modelado por elle, +não tornamos a confundir este poderoso manejador +do cinzel com nenhum dos seus contemporaneos +celebres. +<br /> + +<br /> + +Discipulo de Barye e de Carrier-Belleuse, a +originalidade de Rodin destaca, comtudo, em +uma energia indominavel. +<br /> + +<br /> + +E original é ainda o assumpto que elle escolheu +<span class="pagenum">[52]</span> +para essa <em>Porta</em> monumental, apesar +de +arrancado á Divina Comedia Dantesca. É uma +transformação da idéa do poeta, +não é uma copia +do seu pensamento, nem um reflexo exacto +da terrivel visão florentina. +<br /> + +<br /> + +Transcrevo de um critico eminente que fez +a analyse da obra do esculptor a descripção +d'essa +obra soberba, que eu tanto quizera ter +visto. +<br /> + +<br /> + +Mas, antes d'isso, o retrato do esculptor tal +como elle apparece, envolto no prestigio de +uma sympathia merecida, aos seus admiradores +que se contam por milhares. +<br /> + +<br /> + +Rodin é baixo, atarracado e placido de aspecto. +<br /> + +<br /> + +A barba loura cahe-lhe em ondas fartas por +sobre o peito, enquadrando um rosto friamente +espiritual, um d'estes rostos de homem que +valem principalmente pela luz interior que os +illumina, e que ora traduz a serenidade silenciosa +do trabalhador satisfeito com a sua obra, +ora a distracção absorvente do artista em lucta +com as difficuldades ingentes da execução +manual, ora a preoccupação dolorosa do +investigador +insaciavel em busca do novo e do +perfeito. A fronte de mystico, um pouco ogival +<span class="pagenum">[53]</span> +na fórma, é vasta bastante para conter um +cerebro potente de pensador e de poeta. +<br /> + +<br /> + +O olhar e a voz estão em harmonia absoluta; +olhar agudo, brilhante, que concentra em +si a luz; voz doce, intima, penetrante, que se +insinua, e onde um toque de causticidade põe +não sei que estranho realce... +<br /> + +<br /> + +Tal o artista de tenaz vontade, a quem a +estatuaria moderna, complicada e symbolica, +revela os seus segredos mais subtis. +<br /> + +<br /> + +Como typo representativo da arte moderna, +não o ha mais culto, mais philosophico, mais +apto para entender tudo e tudo realisar. +<br /> + +<br /> + +E porque elle é assim, absolutamente incompativel +com o simples ideal grego, é que +procurou no grande poeta da Idade Média o +assumpto da sua obra definitiva e magistral, +obra de metaphysico e de observador, ao +mesmo tempo que é obra de artista; +representação +tragica, complexa e soberbamente executada, +da Natureza e da Vida, em alguns dos +seus aspectos mais inquietadores. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>VII +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Tem seis metros de altura a famosa +<em>Porta</em>. +As estatuetas do alto, alguns grupos dos +paineis, e os baixos relevos inferiores estão +completos ou quasi completos, mas ha pela +vasta officina, espalhadas no chão, nos sofás, +nas cadeiras, em +<em>ètagères</em>, +estatuetas de todas +as dimensões, em todas as posturas incoherentes, +convulsas; de supplica, ou desespero, de +agonia ou de dôr, dando a impressão de um +campo de batalha em que os combatentes se +conservassem todos vivos, ou de um cemiterio +que houvesse resuscitado inteiro, em virtude de +qualquer galvanismo prodigioso... +<br /> + +<br /> + +O escriptor a que me estou referindo considera +<span class="pagenum">[55]</span> +esta multidão de estatuas um agrupamento +humano tão significativo, tão eloquente, +tão expressivo em cada uma das suas mil attitudes, +que só o apreciará quem o estudar individuo +por individuo, como se folheia um livro +pagina por pagina, como se lê uma partitura +nota por nota, como se analysa um corpo +fibra por fibra... +<br /> + +<br /> + +É a <em>Porta do Inferno</em>, +quer dizer a agglomeração +n'um drama cheio de movimento e +de vida dos Instinctos, das Fatalidades, das +Paixões inclementes que no homem vivem intensamente, +dominando-lhe a vontade, vencendo-lhe +a razão, subjugando-lhe as resistencias, +dobrando-o sob a sua acção irreductivel, +fazendo d'elle o instrumento inconsciente de +uma força da natureza que a sua intelligencia +não comprehende, e que a sua virtude não +submette... +<br /> + +<br /> + +Sob o cinzel d'este artista genuinamente, +apaixonadamente, sentidamente +<em>moderno</em> que +é Rodin, o poema do vate gibelino não conservou +a côr local, nem tão pouco o colorido +catholico que o especialisa. +<br /> + +<br /> + +O esculptor despiu o seu symbolo de toda a +significação italiana e medievica, e +sómente +<span class="pagenum">[56]</span> +aproveitou a moldura que elle lhe prestava +para exprimir dentro d'ella os aspectos humanos +e universaes, que o tempo não transforma +e que o meio não pode alterar. +<br /> + +<br /> + +A <em>Porta</em> ainda está por +concluir; sómente o +enquadramento do poema esculpido se póde +julgar executado e completo. +<br /> + +<br /> + +As divisões principaes, todavia, já podem ser +imaginadas. +<br /> + +<br /> + +Começando pela parte inferior da +<em>Porta</em> vê +se que os baixos-relevos por sobre os quaes +se vae erguer a composição principal, +têem nos +paineis centraes mascaras inolvidaveis, contrahidas +por todas as expressões da Eterna Dôr. +<br /> + +<br /> + +Corre em doida grinalda viva, em roda d'essas +physionomias atormentadas, uma dança vertiginosa +de mulheres, de satyros e de centauros. +<br /> + +<br /> + +Pelos dois humbraes da Porta, sobe uma +<em>theoria</em> de figuras apertadas no +estreito espaço, +alongadas, fluidas, em alto relevo parcial. +<br /> + +<br /> + +São as doces apaixonadas, as criminosas felizes +da paixão illicita, os amantes que a mesma +angustia entrelaça, e as velhas, que já perderam +o que tinham de humano, e as creanças inconscientes, +nascidas de pouco tempo e já marcadas +<span class="pagenum"><a name="p57" id="p57">[57]</a></span> +pela garra adunca da Vida, tentando em +vão prescrutar com os seus olhinhos cegos o +limbo incolor onde os membros rachiticos se +lhes agitam convulsamente. +<br /> + +<br /> + +No alto, sobre o frontão ha tres homens que +são a representação viva do distico +dantesco: +<em>Lasciate ogni speranza</em>. Inclinam-se +uns sobre +os outros na attitude da desolação inconsolada. +Apontam com os braços extendidos para +um ponto ignoto, a região do irreparavel, +do horrendamente irreparavel. +<br /> + +<br /> + +Por debaixo d'elles á frente das multidões +movediças, que constituem o primeiro circulo +do inferno, um poeta nú, sem nenhum dos distinctivos +que marcam uma época ou uma nacionalidade, +medita, mas em uma postura de +repouso. +<br /> + +<br /> + +Os membros fortes são feitos para as longas +caminhadas e para as luctas asperrimas, <a href="#e4">o +rosto</a> inquieto e intrepido, que se crispa na +obsessão de uma idéa fixa, reflecte e repercuta +a piedade, a indignação, a tristeza, todas as +sensações que excitam o pensador até +ao enthusiasmo, +e o commovem até á +lamentação +dolorida e tragica. +<br /> + +<br /> + +Aos pés d'elle, sob o seu triste olhar meditativo +<span class="pagenum">[58]</span> +passa em turbilhão vertiginoso, cahe no +espaço vasio, ou rasteja dolorosamente a humanidade +inteira, na sua teima feroz de viver, +de viver atravez da lucta dilacerante, de viver +despedaçada, torturada, sangrenta, com espasmos +violentos de gozo que fazem soffrer +mais do que as dôres, com agonias d'alma que +lembram arroubamentos de extase!.. +<br /> + +<br /> + +Extraordinaria a concepção do Mestre! Dizem +que esses esboços, esses estudos, essas +realisações plasticas bastam para provar a +tenacidade +de trabalho do obreiro maravilhoso, +a actividade genial de um creador de seres +vivos! +<br /> + +<br /> + +Cada figura isolada, cada grupo freneticamente +enlaçado, cada representação de uma +das mil paixões que cingem nos seus tentaculos +de polvo o corpo fragil e a alma dolorida +da pobre humanidade, affirma victoriosamente +não só a destreza magistral do estatuario, como +tambem a ardente visão do poeta e a comprehensão +soberba do pensador. +<br /> + +<br /> + +Ha entre centenas de outros, cuja descripção +acabo de ler enlevada, com pena inconsolavel +de os não ter chegado a vêr com os meus proprios +olhos, um que bastaria, segundo a mais +<span class="pagenum">[59]</span> +exigente critica assegura, para confirmar a +grandeza de concepção, a força +tranquilla e +a doçura melancholica d'este grande artista, +que em fórmas asperas, atormentadas, sem a +molleza amaneirada de que hoje a estatuaria +reveste o corpo humano,―soube encerrar e traduzir +o infinito das tormentas moraes e a variedade +horrorisante das dôres physicas. +<br /> + +<br /> + +Esse grupo é o de <em>Francesca e +Paolo</em>, ou +antes, tão supprimidas estão todas as +condições +do tempo e do logar, tanto escrupulo houve da +parte do artista em conservar os caracteres geraes +e puramente humanos, este grupo é o do +amante e da amante, quer dizer do Amor. +<br /> + +<br /> + +Do Amor, não como a Grecia o pintou nos +seus mythos risonhos, mas do Amor ardente, +apaixonado, cruciante e doloroso, cruel e divino, +prodigo em extasis e em torturas, em +espasmos e em lagrimas, tal como a morbida +imaginação de hoje o concebeu e creou!... +<br /> + +<br /> + +O homem é alto e forte, esbelto e flexivel. +A mulher, em pleno desabrochar da puberdade, +está sentada com tal ligeireza e tal meiguice +sobre o seu joelho esquerdo, que parece +pesar apenas o que pesaria uma ave. +<br /> + +<br /> + +A mesma doçura de contacto é perceptivel +<span class="pagenum">[60]</span> +aos sentidos no gesto com que elle, fazendo +do braço um collar quente e caricioso, a prende +a si, emquanto que a outra mão lhe toca +no corpo com delicada ternura... Essa mão +forte e musculosa, feita para se imprimir pesadamente +nas cousas, tem a leveza divina do +contacto de uma flôr. +<br /> + +<br /> + +O abandono da amante é completo. Enlaça-o +como uma liana, enrola-se n'elle com um +carinho em que ha a gratidão do amor feliz +e a avidez insaciavel de caricias; e com a mão +que lhe fica livre d'este abraço apaixonado toca +femenilmente nos cabellos com um geito +feito de timidez e de graça pueril. +<br /> + +<br /> + +A cabeça do homem inclina-se, a cabecinha +da mulher ergue-se para elle e as duas boccas +encontram-se em um beijo que é como que +a união mystica de dois seres! +<br /> + +<br /> + +A extraordinaria magia d'esse beijo consiste +n'isto: é um beijo visivel! Visivel na impressão +violenta que contorce em uma attitude de +sedenta adoração o corpo do homem; visivel +no arroubamento da mulher todo ardor e todo +graça! +<br /> + +<br /> + +É triste e deliciosa essa +representação sublime +e symbolica do amor humano. Envolve-a +<span class="pagenum">[61]</span> +como que o nimbo da tristeza que envolve aos +nossos olhos tudo que é bello, intenso de vida +e condemnado á morte!... +<br /> + +<br /> + +Como vêm, a inspiração de Rodin +participa +do que mais agudo tem a observação da vida +real, da vida verdadeira em todas as suas +manifestações +e fórmas physicas, e de tudo que +mais alto e subtil tem a poesia das cousas e +que d'ellas se destaca como um perfume inebriante, +capitoso e perturbador! +<br /> + +<br /> + +O que elle principalmente traduz é o amor +nas suas infinitas modalidades tragicas ou divinamente +bellas... +<br /> + +<br /> + +O amor dos nervos, o amor da carne e o +amor da alma entrelaçados e produzindo esse +mixto doloroso, que embriaga como um filtro, +que corróe como um veneno, que contrahe +como uma convulsão, que entontece os sentidos +e dá ao coração as +revelações da infinita +Dôr! +<br /> + +<br /> + +D'entre os criminosos de Dante, elle escolheu +para os modelar pela sua mão genial de grande +artista pensador, os criminosos que o amor +subverteu no abysmo infernal. +<br /> + +<br /> + +Elles exprimem o cançasso devastador da +saciedade que já nada espera; o phrenezi do +<span class="pagenum">[62]</span> +extase que nada satisfaz; a ternura desbordante +que a morte ha de breve estancar; as fadigas +as aspirações, os sonhos morbidos, as angustias +e as melancholias que essa paixão entre +todas omnipotente inflinge aos seus condemnados +escravos. +<br /> + +<br /> + +O amor que Schopenhauer descreve como a astucia +suprema da Natureza que se recusa a morrer, +e que a maior parte das vezes não passa de +um arrebatamento ephemero, de uma illusão +rapida e momentanea; o amor que é a impossivel +aspiração que leva dois seres a quererem +formar essa Unidade mysteriosa que seria o +supremo triumpho da Vida sobre a +Dôr,―aspiração +que remata no tragico desengano e na +fallencia absoluta do Ideal sonhado, pois que +nunca uma alma consegue penetrar absolutamente +outra alma, nunca dois entes estranhos +conseguem ser apenas um <em>ser unico</em>, e +não ha +agonia mais tragica do que esse luctar angustioso +para alcançar um impossivel bem,―o amor +tal como á triste lucidez dos nossos dias elle +apparece, doloroso, violento e cheio de ardentes +lagrimas: eis a inspiração, senão +unica, +principal do grande traductor plastico da sombria +epopéa dantesca! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[63]</span> +Como é triste, como representa bem o +<em>Terror</em> +sentido perante as duras revelações da Vida, +a sua Eva admiravel que, levantando os +dois braços em um gesto de espavorida angustia, +e como que esmagando com elles os seios +tumidos da humanidade futura, tapa com as +mãos entrelaçadas os olhos que tanta miseria +têm de ver ainda na terra... +<br /> + +<br /> + +É triste, soberba e bella, rica sobretudo de +maravilhosas interpretações a +concepção que +Rodin fórma da estatuaria moderna. E por elle +ser, d'entre os esculptores modernos, o que +mais frisantemente e voluntariamente se afasta +do ideal da Antiguidade, é que eu, em face +da Venus de Milo radiosa, tranquilla, serena +e pura, quiz levantar deante dos olhos do leitor +um esboço ao menos rude e tosco embora, +d'essa tragica <em>Porta do Inferno</em>, +pela qual o +esculptor nos faz penetrar na gehenna das loucas +paixões insaciadas, que erguem na sombra +o seu brado ululante de intraduzivel dôr... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>VIII +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Quando a gente de longe evoca a grande +cidade do luxo, da vida intelligente, da +industria genial, pensa em tudo menos +na belleza ideal das suas arvores. A mim, vejam +que estranha cousa!―foi isso que positivamente +me deslumbrou. +<br /> + +<br /> + +O arvoredo em Paris, nos arredores de Paris, +nos jardins, nos parques, nos bosques de +Paris, é verdadeiramente delicioso e de um +encanto incomparavel e unico. +<br /> + +<br /> + +N'aquella fornalha tudo parece possivel menos +o permanente idyllio que as arvores representam, +pois nem Cintra, essa orgia de verdura, +me consolou tanto a alma a este respeito +<span class="pagenum">[65]</span> +como Paris. Vê-se que o culto da arvore, +a paixão da Natureza, vive em um canto do +coração d'esse pagão extra-civilisado, +que se +chama o parisiense. E depois será realmente +extra-civilisado como nós julgamos o parisiense +genuino? Não haverá n'essa immensa cidade +cosmopolita, a par de uma minoria pequena +de artistas de talento, uma incontestavel multidão +de almas ingenuas que representam de +boa fé toda a especie de comedia, desde o scepticismo +<em>à outrance</em>, +até ao chauvinismo á +Boulanger? Será verdade o que dizem d'elle +os que o pintaram com uma amargura tão +acre, F. Flaubert e Balzac, por exemplo? +<br /> + +<br /> + +Como quer que seja, sceptico ou sentimental, +o parisiense adora as arvores, as flores, +a natureza em todo o seu idyllico e sereno encanto. +<br /> + +<br /> + +Um passeio ao domingo, em Auteuil, em +Saint Cloud, em Neuilly, nas avenidas do Bois, +bastaria para nos esclarecer a tal respeito. É +que tambem alli as arvores são incomparaveis. +Ha alamedas longas e deliciosas, em que o +arvoredo de um verde um pouco ruço se recorta +no azul levemente grisalho do céo! Ha +longe verduras em Auteuil, por exemplo, que +<span class="pagenum"><a name="p66" id="p66">[66]</a></span> +dão vontade de chorar, que penetram a alma +de uma saudade doce e amarga a um tempo, +a saudade que Adão teve de certo do Paraiso, +de onde foi expulso! Os horisontes desdobram-se +tão longos, tão calmos! Quem dirá +que alli, a dois passos, se desenrola a multipla +fita dos <em>boulevards</em>, onde a febre da +vida +é tão tentadora e tão intensa! Auteuil +parece +ser o fim do mundo, tão sereno e vagamente +adormecido é o seu aspecto, tão ineffavel +bucolismo +se exhala da sua tranquilla paizagem. +Para cada lado que lancemos os olhos, se abrem +larguissimas avenidas ao lado de <a href="#e5">arvoredos,</a> +com uns fundos longiquos, em que ha toda a +especie de cambiantes. +<br /> + +<br /> + +O ceu de um azul muito lavado, em que parece +ter-se extendido um véu diaphano de vapor, +é bem differente do meu céu portuguez +de uma côr tão quente, ás vezes +deslumbradora +e excessiva! A agua parece crystallina, +ou sombreada de verde, de uma transparencia +deliciosa ou de uma côr glauca, atravéz +das rendas do arvoredo, movediças e multicôres. +<br /> + +<br /> + +Abril tudo em flor, atira em flocos a sua +neve perfumada aos troncos ha pouco despidos; +<span class="pagenum">[67]</span> +os castanheiros agitam os seus pennachos +brancos; os lilazes saturam a atmosphera +do seu cheiro estonteador; ha uma expansão +risonha n'este paraiso artificial creado pelo homem, +que se não encontra infelizmente nos +nossos paizes do Sul, onde o solo é tão fecundo, +onde a Natureza um pouco acariciada +e auxiliada se desentranharia em maravilhas +de producção! +<br /> + +<br /> + +A nós basta-nos o sol ardente e a vida brutal +de que as cousas palpitam no nosso verão +africano; não sabemos pelo trabalho incessante, +intelligente e methodico crear estes paraisos, +onde repousa depois ineffavelmente a +frenetica actividade do homem do Norte. +<br /> + +<br /> + +A mim, filha de um paiz accidentado, esta +paizagem plena, em que as alamedas se desdobram +lentas, magestosas <em>à perte de +vue</em>, +faz-me uma impressão de deliciosa calmaria. +Não me canso de olhar para as arvores, as +formosas arvores, enormes, colossaes, de um +verde tenro, de um verde ruço, de um verde +<em>mauve</em>, de todas as +gradações imaginaveis do +verde, e em que a nota do verde esmeralda, +mais rara, apparece de vez em quando como +uma estridula fanfarra de côr. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[68]</span> +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +Do alto da torre de Eiffel, Paris apparece +todo entrecortado de manchas negras de +arvoredo―«Não +ha cidade com mais arvores», +digo eu verdadeiramente abysmada ao meu +companheiro e <em>cicerone</em> que me +responde:―«Londres +ainda tem mais!» +<br /> + +<br /> + +Só nós portuguezes, com uma terra maravilhosa, +um céu esplendido, um clima em que +a flora de todas as zonas egualmente se domestica, +somos incapazes pela nossa inercia +proverbial de ter esta abundancia adoravel de +arvoredo, de verdura massiça em torno de nós! +<br /> + +<br /> + +As alamedas de Saint Cloud, com os cimos +verdes entrelaçados, formando a abobada sobre +a cabeça dos transeuntes, pareceriam um bocadinho +de floresta selvagem, se não fosse a +invasão da burguezia e do povo vestido de +gala que ao domingo positivamente as inunda +e banalisa, tirando ao sonhador que alli foi +acariciar a sua chimera intima todo o gozo +que elle podia beber na solidão. +<br /> + +<br /> + +Quando de Saint Cloud, por uma tarde serena +e dôce e luminosa de Abril, se regressa +a Paris, como eu regressei, pelo caminho ao +longo do Sena, entre o renque fino e tenro +<span class="pagenum">[69]</span> +dos choupos que se debruçam nas aguas do +rio, e os <em>chalets</em> e os palacetes que +espreitam +do outro lado da estrada do meio dos jardins +coalhados de lilazes e de rosaes em flôr, não +ha coração por mais secco e positivo que resista +ao encanto embalador d'este passeio. +<br /> + +<br /> + +Surprehende-se uma pessoa a ser moça outra +vez, moça e romanesca e a arranjar na phantasia +uma existencia que quereria ter vivido +alli, n'aquella paz tão proxima da infinda +agitação, +n'aquelle ermo tão chegado ao borburinho +de uma vida em festa. +<br /> + +<br /> + +Deve ser bom viver e sonhar alli, perto do +mundo e tão longe d'elle, a minutos de distancia +do <em>boulevard</em> da Yvette Guilbert, a +deusa +da <em>chansonnette</em> moderna, da +<em>Comedie</em> e da +sua classica e correcta interpretação da arte, +do <em>Chat Noir</em> e da sua phantasia +revoltada, e +ao mesmo tempo tão longe de tudo isto, no +silencio do arvoredo em flôr, na serenidade +pantheista da dormente e calma Natureza, no +seio inebriante dos lilazes e das rosas que estillam +voluptuosa lethargia de cada petala da +sua flôr avelludada e tenra... +<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +A vida para certos organismos de eleição +só +<span class="pagenum">[70]</span> +se comprehende n'estes dois pólos contrarios. +Ou tudo que a civilisação tem de mais +quintessencial +e de mais extremo, ou tudo que a +natureza tem de mais calmo e de mais +<em>permanente</em>. +<br /> + +<br /> + +Juntar as duas cousas seria para o verdadadeiro +artista o ideal, mas que poucos são os +que as sabem ou querem reunir!... +<br /> + +<br /> + +Pensava eu estas cousas vagas, ao passar +deante de <em>Bagatelle</em>, a casa +campestre e o lindissimo +parque, que surdiram com tão vertiginosa +rapidez de uma aposta entre a infeliz +e então leviana Maria Antonietta e o Conde +de Artois, e que hoje, depois de varias vicissitudes―as +casas e os homens passam egualmente +por ellas―pertence aos herdeiros do +celebre philanthropo William Wallace. A lembrança +d'esse tempo, d'essa côrte, d'essa mulher, +cujo nome se fez prestigioso no martyrio, +levaram a minha imaginação para longe, +para bem longe no passado. +<br /> + +<br /> + +Fazia justamente cem annos que tanto luxo +tanto prestigio, tanta gloria tradicional se tinham +afogado tragicamente em ondas de sangue. +<br /> + +<br /> + +<em>Noventa e tres</em>, o anno fatal, surgia +sangrento +<span class="pagenum">[71]</span> +e tragico ante os meus olhos, produzindo +em mim aquelle espanto e aquella fascinação +que eu sempre sinto quando voluntaria +ou involuntariamente o evoco. +<br /> + +<br /> + +Tambem ella, a pobre rainha martyr, quiz +experimentar essa suprema sensação da vida +feita de contrastes fortes; tambem ella quiz, +ao lado das pompas de Versailles, a deliciosa +pastoral do Trianon; tambem ella, despindo +os pesados brocados e as sedas tecidas com +ouro da côrte, quiz enfiar, ligeira e garrida, +o vestidinho de cassa, com o lenço castamente +cruzado sobre os seios opulentos; a sua +imaginação +romanesca de leitora de Rousseau, +de admiradora de Gluck, tambem se soube comprazer +n'esta delicia das experiencias contrarias +que é o sol do +<em>dilettantismo</em>, mas nem +porque viveu intensamente a vida e gozou tudo +que ella tem de melhor, desde a amisade até +á arte, lhe foi menos pesada a sua cruz, nem +menos cruel a sua dolorosa via desde Versailles +até á Guilhotina. +<br /> + +<br /> + +O ambicioso coração humano deseja tudo, +a tudo aspira e tudo quer! +<br /> + +<br /> + +E para que, no fim de contas? lá o diz Pascal +na sua phrase incisiva e sombria: «o remate +<span class="pagenum">[72]</span> +é sempre identico, qualquer que tenha +sido a comedia ou a tragedia que o antecedeu». +<br /> + +<br /> + +E aqui está como a vista do arvoredo de Bagatelle +me levou para longe do bucolismo, encontrado, +onde meu Deus?... a dois passos da +fornalha de Paris!... +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +A mais completa visão de arte e de magnificencia +que ainda os meus olhos tiveram, de +que elles guardarão para sempre o reflexo illuminado, +foi em Fontainebleau que a recebi. +<br /> + +<br /> + +Fontainebleau está para Versailles como +uma joia de Benevenuto está para um vaso de +macissa prata imperfeitamente burilado. Não +ha comparação entre os dois, e para um artista +não ha hesitação na escolha. +<br /> + +<br /> + +Como paizagem, aquelle sitio, aquella poetica +e enorme floresta consagrada por tantas +recordações artisticas, litterarias e historicas, +é tudo que póde haver de mais estranhamente +bello. +<br /> + +<br /> + +Tem a poesia selvagem e a graça outoniça, +e saudosa. Parece um paiz devastado onde se +deram lutas de titans, por onde passou o sopro +de uma tempestade cyclopica, onde a natureza +estrebuxa em cataclysmos tremendos, e +<span class="pagenum">[73]</span> +faz ao mesmo tempo o effeito calmante e doce +de um ninho de verdura que abriga a alma dolente, +e a envolve no filtro subtil das suas essencias +vegetaes. O outomno na floresta de Fontainebleau, +quando as arvores se revestem de toda +a riqueza infinita de colorido d'esse periodo +divino, quando a pompa victoriosa das fortes +verduras acres de seiva se degrada e decompõe +em tons expirantes de um encanto mysterioso, +em como que gangrenas vegetaes que +desde o purpureo sangrento e o amarello alaranjado +vão até ao côr de lilaz e ao +côr de malva,―o +outomno alli deve ser um poema de voluptuosa +melancolia, d'estes que só sabem saborear +os que se deleitam na tristeza como +em um nectar sagrado, defezo ás profanidades +do vulgo... +<br /> + +<br /> + +Não admira que n'essa floresta tenham vindo +meditar e soffrer tantas grandes almas desenganadas +da illusão multiforme da vida. +<br /> + +<br /> + +Conta Michelet, que perguntando a uma mulher +intelligente para onde ella quereria fugir +se uma grande dôr lhe désse a sêde, a +necessidade +de um asylo no seio da Natureza, ella +lhe respondera:―Para Fontainebleau. +<br /> + +<br /> + +―E se tivesse uma alegria enorme, uma +<span class="pagenum"><a name="p74" id="p74">[74]</a></span> +alegria que lhe dilatasse a alma até ao infinito, +onde mais lhe agradaria estar:―Em Fontainebleau! +<br /> + +<br /> + +É que realmente aquella paizagem, como diria +Amiel, representa todos os <em>estados da +alma</em>. +<br /> + +<br /> + +Por isso S. Luiz nas suas fundas dôres, quando +as idéas e os sentimentos do seu tempo agonisavam, +dando-lhe um espectaculo que lhe pungia +atrozmente o coração, era alli na floresta +sombria que ia rezar pedindo a Deus conforto +e paz. +<br /> + +<br /> + +Luiz XIV vencido e velho, corroido por esse +tédio dos Cesares, a quem nada resistiu―que +é de certo o estado de espirito que mais deve +approximar-se da infinita desolação de Satanaz, +foge de Versailles, das suas pompas, dos +triumphos que os seus pintores lhe coloriam +e que então não eram mais que ironias diabolicas +do passado orgulho, e vem procurar, sob +as arvores colossaes da floresta amiga, o repouso, +o silencio, o adormecimento ás <a href="#e6">suas</a> +lancinantes dôres de rei... Francisco I, desenganado +d'esse sonho da Italia, que durante os +seculos XV e XVI perseguiu os reis da <a href="#e7">França</a>, +vem alli construir uma Italia franceza que o +console de haver perdido a outra, a que Miguel +<span class="pagenum">[75]</span> +Angelo e Raphael, Bramante e Donatello, Leonardo +de Vinci e o Ticiano tinham feito tão fascinadora +e tão grande!... +<br /> + +<br /> + +É em Fontainebleau que Napoleão se despede +do seu sonho homerico e sublime, d'esse sonho +de um Imperio Universal, que unificasse o +mundo civilisado sob um despota intelligente, e +que lhe foi commum com Alexandre, com Cesar, +com Carlos Magno e Carlos V, com todos +os grandes capitães da historia, tão raros como +os grandes poetas. +<br /> + +<br /> + +É alli que essa epopéa magestosa e tremenda +se lhe desfaz nas tremulas mãos que assignam +a suprema abdicação do poder e da gloria. +<br /> + +<br /> + +Quantas recordações me suggere esse logar +fatidico de Fontainebleau, ou seja o palacio de +fadas, ou seja a grande floresta sombria e vasta, +onde talvez os Celtas, ascendentes dos francezes +de hoje, colherão no tronco dos annosos +carvalhos o <em>qui</em> das +evocações druidicas. +<br /> + +<br /> + +E sahindo d'essas espheras da grandeza social +para outra, mais ampla talvez, mas menos +visivelmente pomposa, é em Fontainebleau, que +Georges Sand e Musset dão aquelles ultimos +passeios tão tristes, de uma melancolia feita de +tanta saudade, quando <em>elle</em> +já sabe que não podia +<span class="pagenum">[76]</span> +viver sem <em>ella nem com ella</em>, como +diz a +triste cantiga peninsular quando +<em>ella</em> começa a +perceber, que, Ashaverus femenil do amor, +tem de percorrer até ao fim o seu amargo +e cru fadario, sem encontrar quem satisfaça a +sua sêde do infinito, sem poder parar n'essa +caminhada atroz em procura do +<em>impossivel</em>! +<br /> + +<br /> + +Que fundo de paizagem tão triste para um +fim de amor! Onde poderiam elles encontral-o +que lhes saturasse a alma de mais tristeza, de +mais melancolia, de mais intensa e inexoravel +saudade!... +<br /> + +<br /> + +Era alli ainda que Musset voltara mais tarde +evocando em soluços immortaes as melhores +recordações do seu fatal amor.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Dante pourquoi dis tu qu'il n'est pire misère<br /> + +Qu'un souvenir heureux dans les temps de douleur<br /> + +Quel chagrin t'a dicté cette parole amère</div> + +<div class="poetry3"> +Cette offense au malheur!</div> + +<br /> + +<div class="poetry1">En est il donc moins vrai que la +lumière existe<br /> + +Et faut-il l'oublier du moment qu'il fait nuit<br /> + +Est ce bien ta grand âme immortellement triste</div> + +<div class="poetry3"> +Est ce tu qui l'as dit?</div> + +<br /> + +<div class="poetry1">Non, par ce pur flambeau dont la +splendeur m'éclaire<br /> + +Ce blasphème vanté ne vient pas de ton coeur<br /> + +Un souvenir heureux est peut-être sur terre</div> + +<div class="poetry3"> +Plus vrai que le bonheur</div> + +<br /> + +<div class="poetry1">..............................................................................................<br /> + +..............................................................................................</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[77]</span> +As estatisticas dirão quantas leguas quadradas +tem a floresta; os naturalistas saberão explicar +quaes as diversas qualidades da sua flora, +e que essencias se distillam das suas varias +resinas; eu sei sómente que ella me encantou, +como uma das mais bellas cousas que os meus +olhos ainda contemplaram. Fui a Barbozin, a +aldêa em que Millet e Rousseau pintaram as +suas télas melhores, e evoquei alli as figuras +da litteratura contemporanea que tem por fundo +magestoso―bem mais magestoso do que +ellas são grandes!―a floresta divina de Fontainebleau. +<br /> + +<br /> + +A scena capital e magistral da <em>Sapho</em> +de +Daudet é alli que se passa; quando o pobre +moço, empolgado pelo polvo terrivel que é para +a mocidade uma mulher perdida, tenta despegar-se +d'ella, quer fugir-lhe para recomeçar ao +longe uma existencia calma e boa―em harmonia +com as leis sociaes, protectoras para quem +as respeita, inexoraveis e implacaveis para +quem as despreza ou para quem as illude―e +é vencido irreductivelmente pela piedade que +ella lhe inspira, por aquelle bramido de animal, +longo, constante, ininterrupto, com que +<em>Sapho</em> acorda e sobresalta os +écos de immensa +<span class="pagenum">[78]</span> +solidão ao vêr imminente a ruptura de que elle +lhe fala, que elle com mil precauções lhe faz +prever... Grande quadro e de uma moral acre +e dolorosa mas incontestavel, que os moços deviam +meditar, se é que os moços meditam, se +é que a mocidade é compativel com a previdencia +e o calculo. +<br /> + +<br /> + +O parisiense tem a uma hora e meia de caminho +de ferro essa grande matta que é uma +das maiores da Europa e a maior da França, +por isso parte da litteratura contemporanea a +tem para theatro das suas scenas de enthusiasmo, +de paixão ou de desespero. +<br /> + +<br /> + +Os pintores vão alli procurar os effeitos maravilhosos +da luz penetrando na espessura, banhando-a +em purpura, recortando em fundo de +ouro a renda delicada da sua folhagem, picando +de pontos deslumbrantemente luminosos os +seus intersticios mais miudos e mais finos; Millet +arrancou-lhe em paginas immortaes o segredo +da religiosidade infinita que possuem as +velhas arvores; Rousseau recortou em pequenas +télas retalhos de paizagem em que a alma +das cousas palpita mysteriosamente. +<br /> + +<br /> + +A floresta de Fontainebleau educou uma geração +de paizagistas, qual d'elles mais penetrado +<span class="pagenum"><a name="p79" id="p79">[79]</a></span> +da melancolica poesia da natureza. Que +benefica tem sido a sua calma e suggestiva influencia, +que saudade eu tenho da luz a que +ella me appareceu, luz primaveril, que punha +tons de um tenro ineffavel em cada <a href="#e8">rebento,</a> +que rejuvenescia os velhos troncos colossaes! +<br /> + +<br /> + +É perto d'alli o lindo Castello de Francisco I, +a que é preciso conduzir o leitor. Deixemos, +pois, a floresta e penetremos no palacio. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>X +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Nos seculos XV e XVI todos os principes, +todos os poderosos da terra tiveram um +distinctivo commum que os caracterisa: +o seu amor enthusiasta das maravilhas da arte. +<br /> + +<br /> + +Sabe-se o que foi Lourenço de Medicis, esse +Mecenas da litteratura italiana, esse amante +apaixonado e prodigo da erudição, da +architectura, +da pintura, da estatuaria. Esse homem +intelligente e sagaz, poeta elle proprio, e apezar +de humanista notavel, sacudindo com bastante +independencia o jugo do antigo que pesava +demais sobre as musas da Italia,―mereceu +a gloria suprema de ficar immortal no +marmore modelado pela garra de Miguel Angelo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[82]</span> +O <em>Penseroso</em>, das estatuas do mestre uma +das mais emocionantes, uma das mais mysteriosamente +e tragicamente bellas, teve por modelo +o grande homem florentino, cujo tumulo havia +de adornar mais tarde. Leão X, Julio II e Clemente +VII, foram os papas mais doudos pela +arte de que reza a historia. +<br /> + +<br /> + +Ludovico o Mouro encheu de bens e de glorias +a Leonardo Da Vinci; os chefes da aristocratica +Republica veneziana não hesitavam +quando se tratava de pagar com prodigalidade +louca aos seus soberbos pintores. Mas Francisco +I, o rei da França a quem se deve a magica de +Fontainebleau, esse não sómente adorava a +Arte, mas era amigo apaixonado dos artistas. +<br /> + +<br /> + +Sabe-se o enthusiasmo louco com que elle +acolheu na sua côrte o já octogenario Leonardo +Da Vinci. +<br /> + +<br /> + +―«Hei de afogar-te em ouro, dizia elle a +Benevenuto.―<em>Faço-te +conego</em>―exclamou deslumbrado +para o italiano Rosso no dia em que +este, pela primeira vez o fez penetrar n'essa +galeria esplendida, ainda hoje chamada de +Francisco 1.º―em que o rei desenganado e +cançado passou depois quasi todos os ultimos +annos da sua accidentada existencia. E a promessa +<span class="pagenum">[83]</span> +extravagante cumpriu-se tal como se fez. +Rosso teve um logar de conego na collegiada +da Sainte Chapelle. +<br /> + +<br /> + +O que fizera elle para merecer tão piedosa +distincção? Pintára o mais estranho e +luminoso +carnaval de alegria e de côr, que ainda a +imaginação febril de um artista d'aquelle tempo +de febre concebera e realizára. +<br /> + +<br /> + +Uma multidão pantagruelica em que ha de +tudo: o bello e o horrendo, o delicioso de graça, +e o grotesco; figuras virginaes a que talvez +serviram de modelo para o pintor, e de encanto +ephemero para o rei, as doces raparigas +que alli perto ceifavam as tremulas searas, ou +iam buscar as amphoras cheias de agua crystallina +das rochas, ás fontes de Fontainebleau +que Jean Goujon e Benevenuto vão fazer idealmente +bellas. +<br /> + +<br /> + +No meio da immensa turba de mulheres e +de homens, uma flora e uma fauna inteiramente +novas, a flora e a fauna que os navegadores +e os conquistadores da peninsula iberica +acabavam, no fim das suas aventurosas viagens, +de revelar ao velho mundo attonito. +<br /> + +<br /> + +A delicia de Francisco I não teve limites ao +entrar n'aquelle recinto encantado em que o +<span class="pagenum">[84]</span> +mundo da arte lhe desvendava os seus aspectos +mais bellos! +<br /> + +<br /> + +Interrogador e curioso como era, cada quadro +lhe suggeria uma pergunta e uma investigação +nova. +<br /> + +<br /> + +O mundo estranho de que o Rosso pintava +algumas das maravilhas ineditas fazia scismar +o pagão devoto que Francisco I era, como todas +essas crianças grandes da Renascença.―Mas +então mentia a Biblia quando contava a +creação do homem? +<br /> + +<br /> + +Essas raças, cujo segredo agora se desvendava +pela vez primeira, não eram tal, não podiam +ser filhas do biblico Adão? +<br /> + +<br /> + +E a terra movia-se em torno do sol? Onde +ficavam n'esse caso as palavras de Josué?... +<br /> + +<br /> + +Depois contavam-lhe as magnificencias da +Turquia, a magnanimidade de Solimão, as +maravilhas da civilisação arabe, tão +superior +em certos pontos n'aquelle tempo á +civilisação +christã, e esta idéa de que o turco +não era +finalmente o ante christo, o inimigo figadal de +todo o bem e de todo o bello, produzia um espanto +infantil no animo de Francisco I. +<br /> + +<br /> + +Tempo encantador este de que a galeria de +Fontainebleau ouviu as conversações curiosas, +<span class="pagenum">[85]</span> +mixto de tudo que ha mais ingenuo e mais +subtil, mais refinado e mais credulo!... +<br /> + +<br /> + +Ao lado do fauno sensual, do satyro coroado, +que foi Francisco I,―o qual para contrapor +aos seus vicios innumeros teve sómente a vibrante +sensibilidade para tudo que é bello;―surge +a Margarida das Margaridas, a encantadora, +a diserta, a latinista, a intelligente rainha +de Navarra. N'aquelle tempo saber latim +não é um requinte de pedantismo, é uma +exigencia +da fina cultura. +<br /> + +<br /> + +Quem não soubesse latim não sabia nada, +não tinha conhecimento nem da poesia no +que ella tem de mais perfeito e mais bello, +nem da Historia no que tem de mais suggestivo +e de mais inspirador. Ora Margarida amava +os poetas e a poesia, e ajudava seu irmão +a fazer a Historia, aconselhando-o, auxiliando-o, +inspirando-o, negociando por elle com os +diplomatas do tempo. +<br /> + +<br /> + +A sciencia, a erudição, a poesia enchem o +espirito de Margarida; quem lhe enche completamente +a alma é o irmão, esse irmão grosseiro +e sensual, natureza que, a não ser o +amor da arte, seria feita do barro mais vil, e +que mesmo salvo por esse amor, que é no fim +<span class="pagenum">[86]</span> +de contas mais uma sensualidade requintada +do seu temperamento que uma aspiração +espiritualista, +reflecte a omnipotencia dos seus instinctos +animaes no soberbo, no inolvidavel retrato +que d'elle fez Ticiano, o maior retratista +do mundo, aquelle que melhor traduz a profunda +expressão moral, a mobil physionomia, +o caracter pessoal inconfundivel de cada um +dos seus modelos... +<br /> + +<br /> + +Esse perfil de fauno sensual, que o Ticiano +retratou, domina e absorve o coração delicado +e subtil de Margarida. +<br /> + +<br /> + +Por isso eu a evocava agora, na galeria soberba, +em que o sol entra a flux, ao lado do rei +seu irmão, analysando com elle as bellas pinturas +que fazem das paredes um kaleidoscopo tão +curioso e illuminado, em que o velho e o novo +mundo se confundem, discutindo―com Budé seu +bibliothecario, com Duchatel seu leitor, com os +dois irmãos du Bellay, os celebres humanistas +da Renascença franceza, seus favoritos e commensaes,―um +dialogo de Platão que tivesse acabado +de lêr em grego, um verso de Virgilio de +que ella houvesse ha pouco saboreado o nectar +subtil, servido na lingua de ouro do seculo de +Augusto; uma apostrophe de Cicero, nas suas +<span class="pagenum">[87]</span> +Catilinarias, mais abrazada em rhetorica flamma; +conversando com Marot, seu poeta e seu +servidor, ácerca da medição e do +rythmo de um +hexametro ou de um hendecassyllabo; ou perguntando +a todos elles, curiosamente, avidamente, +informações ácerca do novo livro +extravagante +que um physico e antigo tonsurado +chamado Rabelais acabava de dar á estampa em +Lyão, contando as mirabolantes e inverosimeis +aventuras de Gargantua e Pantagruel, dois gigantes +de quem ninguem até alli ouvira falar, e +de Panurgio, o maior sacripante que de memoria +de homem fôra celebrado em lingua vulgar... +<br /> + +<br /> + +<div class="dots"> +</div> + +<br /> + +<br /> + +Ao reinado do prisioneiro de Pavia segue-se +o do mystico e apaixonado Henrique II. Margarida +eclypsa-se na sombra, e á musa dos poetas +succede a inspiradora dos artistas ébrios de +enthusiasmo... +<br /> + +<br /> + +No céo da Renascença azul e ouro, é +Diana +quem desponta... A Salamandra, emblema e +symbolo do rei que arde continuamente na flamma +impura do desejo, sem jámais chegar a consumir-se, +é substituida pela inicial de Henrique +enlaçada por dois crescentes symbolicos, e esta +<span class="pagenum">[88]</span> +data assim poeticamente indicada vale para a +posteridade muito mais que a mais rigorosa +chronologia marcada pelos sabios. Este anagramma +amoroso representa um grande amor, +um estranho sentimento que participa do mysticismo +cavalleiresco e do sortilegio magico, do +ideal mais puro e do +<em>envoûtement</em> mais pavoroso. +<br /> + +<br /> + +Quem é esta esbelta Diana, ligeira, airosa e +bella? Não o perguntem á Historia, que essa, +implacavel como a verdade, falar-lhes-ha de +uma velha furia, sedenta de dinheiro e de vinganças, +esmagando os povos, que a maldizem, +com o peso das contribuições mais engenhosas, +das que tiram o sangue e a pelle á plebe +opprimida que se lamenta em vão. +<br /> + +<br /> + +Perguntem-n'o á Arte, a magica divindade +que transfigura tudo aquillo em que toca. Responder-lhes-ha +a Diana de Jean Goujon, encostada +familiarmente ao veado manso e bello que +lembra o principe encantado das lendas, ou +mais longe ainda, sempre modelada pelo sublime +artista, contemplando amorosamente o mesmo +bicho symbolico, que approxima da bocca +finamente recortada da deusa a sua bocca de +animal, como que a pedir o beijo mysterioso +que quebre o encanto que o tem encarcerado +<span class="pagenum">[89]</span> +n'aquella fórma inferior e que o restitua bello e +victorioso á antiga fórma humana. +<br /> + +<br /> + +Responde-lhes a Nympha de Benevenuto +Cellini, ora entre as féras que caçou e os +galgos que as perseguiram, ora estendendo-se +voluptuosa junto á frescura das fontes, ora +caminhando nua pelos campos, seguida pelo cortejo +das nymphas que ella, a Diana immortal, a +inspiradora dos eternos amores que não se extinguem, +domina inalteravelmente pela altiva +elegancia e pelo magestoso porte regio. +<br /> + +<br /> + +De todas estas imagens estranhas, inverosimeis, +de corpo longo e flexivel, que parecem copiar +na pedra dura a fluidez das aguas correntes, +o baloiço ondeante das hervas altas, a voluptuosa +flexibilidade das lianas que se enredam +e entrelaçam,―de todas estas imagens que +a arte prodigalisou aqui, a nossa imaginação +compõe uma só figura, um só vulto, uma +só +imagem que as concretiza a todas. +<br /> + +<br /> + +É a mulher amada e triumphante, a Diana +dos encantos invenciveis e inviolados, a que +pediu á deusa, sua madrinha o segredo dos +filtros que fazem parte do seu culto antigo, para +ser eternamente amada, contra o tempo, contra +a fortuna, contra tudo... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[90]</span> +A arte que a immortalisou no marmore devia-lh'o. +Ninguem como ella fez da arte uma +auxiliar, uma amiga, uma feiticeira cumplice +dos seus encantamentos de mulher. Que importa +o que diz a historia de Diana de Poitiers? +Quem fala verdade é a Arte. De todas as mil +illusões de que a vida se faz e se compõe, +só +ella é mais intensa do que a realidade, e mais +verdadeira do que a verdade! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XI +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Uma das excursões feitas por mim com +mais prazer é a dos Museus, tanto artisticos +como historicos. +<br /> + +<br /> + +Deixo para mais tarde falar no que senti +em frente de alguns quadros do Louvre ou do +<em>Museu de Madrid</em> e vou falar agora da +minha +visita ao museu Carnavalet. O palacio em que +este museu está estabelecido pertenceu a Madame +de Sévigné e foi habitado por ella; d'aqui +a quantidade de recordações d'esta mulher +encantadora, +que o povoam e para mim o tornam +particularmente interessante. +<br /> + +<br /> + +Ha logo á entrada um busto d'ella que me +fez parar enlevada em contemplação de uma +das physionomias mais espirituosas e mais +<span class="pagenum">[92]</span> +sympathicas que o Passado legou aos nossos +dias. +<br /> + +<br /> + +O <em>nez carré</em> de que ella +fala nas suas cartas, +e que tornaram celebre os seus contemporaneos +referindo-se tantas vezes a elle, lá +está, mas sem diminuir, antes accentuando o +encanto da sua expressão. Os lindos cabellos +penteados ao <em>nome d'ella</em>, (porque +aquelle penteado +de caracoes que enquadra tão graciosamente +o rosto feminil ficou sendo chamado <em>á +Sevigné</em>) dão um caracteristico +especial á sua +bella cabeça de juvenil matrona adoravel. O +bom humor, a graça gauleza sorriem na bocca +espirituosa e finamente recortada. +<br /> + +<br /> + +A gente não se espanta, ao ver este lindo +busto de mulher, de que o original inspirasse +verdadeiras e ardentes paixões, e que até aos +sessenta annos houvesse, não quem a requestasse +á moda de Ninon ou de Catharina da +Russia, mas quem quizesse casar com ella, como +quiz o duque de Luynes, que por signal foi repellido. +<br /> + +<br /> + +Para mim, digo francamente, o <em>Museu +Carnavalet</em> +é Madame de Sevigné e não é +mais +nada. Este museu, extravagante contraste! está +cheio de recordações revolucionarias. +Lá está +<span class="pagenum">[93]</span> +uma reducção feita, creio que em pedra, da +Bastilha, lá está uma galeria, por signal +detestavel, +de retratos dos vultos principaes da +revolução. +<br /> + +<br /> + +Por debaixo da fileira de retratos em que +figuram Mirabeau, Robespierre e Marat, está a +cadeira em que expirou Voltaire. A collocação +pareceria propositadamente feita, senão fosse +antes uma necessidade de symetria, pois que, +encostada á mesma parede na outra extremidade +da sala, está tambem a cadeira em que +expirou Béranger. +<br /> + +<br /> + +Entre Voltaire e os homens da Revolução a +affinidade é vizivel para o espirito, mas o pobre +Béranger é que não vem aqui ao caso +para cousa alguma, de modo que a intenção +philosophica que eu á primeira vista attribui +aos conservadores do museu ficou prejudicada +pela segunda idéa que elles tiveram de collocar +a cadeira de Béranger em symetria com +a de Voltaire. +<br /> + +<br /> + +Uma conclusão apenas me atrevo a tirar: é +que em França quem sahe do vulgar morre +<em>de cadeira</em>. Incommodissima maneira +de dar a +alma ao Creador! Ainda bem que nem a Béranger +posso aspirar, quanto mais a Voltaire; +<span class="pagenum">[94]</span> +isto augmenta as minhas probabilidades de +morrer deitada na propria cama, unica maneira +pela qual me appetece sujeitar-me á sorte +commum de todos os mortaes. +<br /> + +<br /> + +Não venho, já se vê, fazer uma +descripção +miuda do <em>Museu Carnavalet</em>. +Além de não ter +fixado tanta cousa que vi―e que vai desde os +troços de ruinas e dos barros romanos achados +em diversas excavações recentes ou antigas, +desde truncados monumentos, ou fragmentarios +tumulos, pertencentes a epocas ainda anteriores +ao dominio romano, até a centenas de +reliquias da Revolução―não acho que +isso seja +sufficientemente interessante para o leitor, a +quem não posso communicar impressões que +não recebi. +<br /> + +<br /> + +Ha, por exemplo, no <em>Museu</em> uma +collecção +enorme de caricaturas da época de Luiz Filippe, +feitas, creio, que em barro. São hediondas. Tudo +que teve um nome no reinado d'esse rei dos burguezes, +burguez elle proprio dos pés até á +cabeça, +alli está representado sob uma fórma que +produz <em>cauchemar</em>, á +força de irritantemente +feia. +<br /> + +<br /> + +Lembro-me por exemplo de uma cousa que +me impressionou: uma ordem autographa de +<span class="pagenum">[95]</span> +Luiz XVI ordenando aos suissos da sua guarda +que cessassem o fogo que estavam fazendo +contra o povo. Ora, esta ordem―a ultima que +elle assignou como rei―encerra nada menos +que a sua abdicação e a sentença da +sua morte +e dos seus. +<br /> + +<br /> + +Acabada a resistencia, o monstro jacobino +pôde refocilar-se á vontade no sangue regio. +Ninguem mais se levantou deante d'elle para +obstar ao direito da sua vingança secular. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Tudo isso que em outro logar e em outra +ordem de idéas me produziria a maior impressão, +alli apparecia-me inopportuno e deslocado. +<br /> + +<br /> + +Como aquelles objectos friamente classificados +me pareciam estranhos ao tempo de febre de +que elles são as reliquias, por assim dizer, mumificadas!... +É preciso, para que certas recordações +do passado nos «empolguem», se apossem +ardentemente de nós, que as evoque a +imaginação omnipotente e creadora de um Michelet +ou de um Carlyle! De outro modo, em +vez de nos tornarem mais «vivo» o tempo a +<span class="pagenum">[96]</span> +que se referem, parece que o recuam indefinidamente +nos limbos do passado. +<br /> + +<br /> + +Um «museu» tira a vida aos objectos que encerra; +não os conserva. +<br /> + +<br /> + +Assim como o processo de enterramento dos +egypcios, creado em odio á morte, concorre +para tornar mais saliente a idéa da morte, assim +tambem o desejo de conservar certas reliquias +parece que lhes diminue a realidade no +passado. É possivel que eu exprima muito vagamente +uma cousa que sinto sem a saber +muito bem traduzir, mas o leitor intelligente, +que tem visto muitos museus e tem talvez sentido +esta mesma desconsolação, comprehende +perfeitamente o que ella significa! +<br /> + +<br /> + +Repito, pois: o encanto do museu Carnavalet +tirei-o eu de mim mesma, evocando n'aquellas +frias salas que percorri, acompanhada +pelo indispensavel guia, as figuras que outr'ora +as encheram de animação e vida. +<br /> + +<br /> + +Vi madame de Sevigné e o seu querido tio, o +bom abbade de Livry, que tão bem se sahiu +da educação da sua querida e intelligente +pupilla. +<br /> + +<br /> + +Pareceu-me escutar as finezas hyperbolicas, +que á moda do tempo, Ménage e Chapelain, +<span class="pagenum">[97]</span> +dirigiam cada um por seu lado á amavel e +gentil Maria. Ménage resolveu ensinar-lhe +italiano e hespanhol, e resolveu, o que é peior, +apaixonar-se loucamente por ella. O bom pedante +perdeu, já se vê, o tempo e o feitio que +não era de amoroso, como egualmente o perdeu +um homem que é o perfeito contraste +d'elle, o cynico, o duellista, o +<em>donjuanesco</em> +Bussy Rabutin, que, depois de amar Madame +de Sevigné, a odiou de morte, e depois de a +odiar tornou a querer-lhe muito, encontrando-a +sempre de pedra pura os seus transportes, +mas capaz de apreciar o que havia de +scintillante e caustico no seu espirito, de intrepido +no seu valor, de melhor no seu pouco +bom caracter. Viuva com vinte e dois annos, +e em uma côrte licenciosa, em que ella propria +se mostra cheia de estranhas indulgencias +para os peccados alheios―tudo passou +por ella sem lhe macular de leve a fimbria do +seu vestido branco. +<br /> + +<br /> + +Foi admiravelmente virtuosa, sem ser por +isso implacavel para as paixões que a cercam, +e que fazem d'esse tempo um capitulo do mais +accidentado romance. +<br /> + +<br /> + +Amiga extremosa de Fouquet, vê-se em riscos +<span class="pagenum">[98]</span> +de sahir levemente compromettida do processo +do Intendente de finanças, em cujo cofre +de galantes segredos se encontram cartas +d'ella. No emtanto essas cartas são simples +pedidos em favor de um ou de outro protegido +da marqueza, e se provam alguma cousa +é a bondade, a generosidade do seu +coração +prompto a acudir e a valer. Se Fouquet guardava +preciosamente esses bilhetes formalistas +é porque talvez no coração do galante +financeiro +a formosa physionomia de madame de +Sevigné tivesse produzido uma impressão +excepcional; +mas isso não basta para comprometter +uma mulher que as primeiras pessoas +da côrte, em influencia e em virtude, protegem +ardente e abertamente. Um dia Tonquedec, fidalgo +da Bretanha, e o duque de Rohan-Chabot +em casa d'ella, e por causa d'ella, armam +uma especie de briga que conclue por um encontro +no campo, como todas as brigas d'aquelle +tempo. Nem por isso a fama de madame +Sevigné soffre a mais leve arranhadura. +Que culpa tem ella das loucuras e dos extremos +que inspira a sua «razoavel» e formosa +pessoa! +<br /> + +<br /> + +O conde de Ludre esteve vae não vae a +<span class="pagenum">[99]</span> +vencer as resistencias mysteriosas d'aquelle +coração de mulher que a precoce experiencia +da vida endurecêra para o amor. +<br /> + +<br /> + +Mas, aquelle asseio de arminho, aquelle +amor das cousas justas, rectas e claras, que é +em certas mulheres um preservativo efficaz +contra os desfallecimentos da vontade, e o exclusivismo +ardente do seu amor materno, salvam-n'a +d'essa tentação suprema, como a salvam +do prestigioso amor de Turenne, da côrte +persistente do principe de Conti, do amor +claro ou disfarçado de tantos entre os melhores, +entre os mais queridos e os mais felizes +em aventuras femininas. +<br /> + +<br /> + +No meio d'esse fogo que accende, a marqueza +conserva-se alegre, calma, gostando das +anecdotas picarescas bem contadas, prompta a +receber uma confidencia escabrosa, comtanto +que lh'a façam com espirito e bom humor; +indulgente para o amor da sua maior amiga +pelo duque de la Rochefoucauld, indulgente +para as historias mais ou menos salgadas que +de todos os lados lhe vêem aos ouvidos, dotada +d'aquella philosophia tolerante que a mulher +virtuosa tem como ninguem, porque sabe, +como ninguem, o preço da virtude. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XII +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Insensibilidade? Não de certo. Amor bem +entendido de mãe, e medo talvez de soffrer +mais do que soffrera já na sua curta +experiencia da vida conjugal, a que um duello +infeliz―e por causa de uma mulher―tinha +dado fim. +<br /> + +<br /> + +Quem soube no amor maternal pôr tantos +requintes de sensibilidade, tão intensa paixão, +tanta vida, tanta abnegação, tão louco +enthusiasmo, +o que seria em outra ordem de sentimento +em que taes excessos são quasi naturaes? +O que a salvou foi talvez o exagero da +propria sensibilidade. Teve medo de si. Sondou-se +e percebeu de que loucuras seria capaz, +amando, aquella que da maternidade serena e +<span class="pagenum">[102]</span> +calma soube fazer uma paixão tempestuosa. +Tendo bebido na infancia o amor dos grandes +sentimentos á Corneille, de que a propria Mlle. +de Scudery, a feiissima Sapho fez na sua obra +vasta uma grandiloqua caricatura; iniciada +pelos seus mestres Ménage e Chapelain nas +extravagancias grandiosas da litteratura hespanhola; +tudo que provavelmente via em torno +de si estava longe de corresponder ao seu ideal +de sacrificio eterno, de inalteravel constancia. +D'ahi, provavelmente, o seu proposito firme de +se refugiar no amor materno, extrahindo d'elle +tudo que podia formar o alimento da sua alma +exigente, ambiciosa. +<br /> + +<br /> + +Depois ella viveu em uma quadra e em um +meio em que o papel de espectadora tinha o +maximo interesse e podia satisfazer até mesmo +um espirito como o seu. Tudo que a cercava +era digno de attenção e de estudo. Tudo +interessava, ensinava e dava ensejo para longas +reflexões. +<br /> + +<br /> + +Em cima Luiz XIV―o Jupiter que ella viu sempre +com olhos de adoração, de quasi deslumbramento, +olhos com que o seu tempo o viu tambem, +com que a posteridade continuaria a vêl-o, +se o desastre final de sua obra lhe não désse +<span class="pagenum">[103]</span> +a sorte que tem sempre os vencidos, e se Saint-Simon +não tivesse revelado ao mundo, com a +sua espionagem genial, o monstruoso egoismo, +o acanhado espirito, a mediocre envergadura +intellectual d'esse idolo com pés de barro;―Luiz +XIV que o amor divino e divinamente +desinteressado da La Vallière envolvera em +uma nuvem de olympico prestigio. Abaixo d'elle,―tudo +n'esse tempo ficava muito abaixo d'elle―essa +adoravel Henriqueta de Inglaterra, fina, +branca, lyrial, que a prematura morte embalsamada +na eloquencia sublime de Bossuet, e a +vida cheia de graça, de encanto aristocratico +e talvez de amor, transformaram na figura impregnada +da poesia mais subtil d'aquelle periodo +accidentado e romanesco. Em torno d'esses +astros de primeira grandeza gravitam milhares +de satellites de um brilho fulgurante e deslumbrador. +<br /> + +<br /> + +O amor e a guerra, como nos romances da +cavallaria antiga, fazem d'essa côrte alguma +cousa de excepcional na Historia do mundo. +<br /> + +<br /> + +A guerra já se vê, não como a faziam +Frederico +da Prussia ou Napoleão, mas a guerra +pomposa que celebrou pomposamente Boileau; +a guerra em que os banquetes, as festas, os +<span class="pagenum">[104]</span> +bailes se entremeiavam aos combates; em que +um cerco durava longos mezes, e cada marcha +parecia uma cavalgada festiva... +<br /> + +<br /> + +<em>Mademoiselle</em>, a +<em>grande Mademoiselle</em>, apaixonada +por Lauzun chorava todas as lagrimas +de seu corpo porque lhe não deixavam desposar +o eleito do seu coração; a epopéa +gentil +das Longueville, das Chevreuses, das lindas e +intrepidas heroinas da <em>Fronda</em>, +andava ainda +em todas as memorias e em todas as imaginações. +Hoje era Luiza de la Vallière a mais +doce martyr de um regio amor de que reza a +Historia, que depois de pedir humildemente +perdão á sua rival coroada do escandalo que +dera, fazia da ceremonia da sua consagração +a Deus um d'estes acontecimentos palpitantes +com que vibra uma geração inteira; +amanhã +é Montespan, a altiva Wasthi, a sultana magestosa +que toma posse do seu logar de favorita +com um impudor, uma soberba, uma pompa +theatral, que escandalisam, que emocionam, +que fazem trabalhar as pennas todas da +côrte em <em>comptes rendu</em> +mais ou menos pittorescos, +mais ou menos eloquentes... +<br /> + +<br /> + +Depois as guerras entre os Jesuitas e Port-Royal; +a lucta theologica entre Fénélon e Bossuet; +<span class="pagenum">[105]</span> +o apparecimento de uma tragedia de Racine; +a publicação dos +<em>Caracteres</em> de La Bruyère; +as <em>Maximas</em> do Duque de +Larochefoucauld; +o livro de Madame de La Fayette; um sermão +do Pére Bourdaloue; um conto de La Fontaine; +os acontecimentos os mais sagrados e os +mais profanos, as leituras mais edificantes e +as mais gaiatas, os incidentes mais comicos e +os mais tragicos―tudo se succede, tudo se entrelaça, +fazendo da existencia um espectaculo +tão alegre, tão variado, tão +divertido, tão interessante, +tão <em>atordoador</em>, que facil +foi a Madame +de Sévigné resignar-se a não +pôr na sua +propria vida interesses dramaticos, que outros +se encarregavam de fornecer-lhe em profusão. +<br /> + +<br /> + +<em>Basta a curiosidade para encher a +existencia</em>, +disse algures Fontenelle. Esta +<em>maxima</em> de +egoista acha-se justificada pensando na vida +de madame de Sévigné. +<br /> + +<br /> + +Onde ha espirito mais eminentemente +<em>curioso</em> +no sentido elevado e espiritual da palavra +do que o d'esta eminente e deliciosa personalidade +femenina? +<br /> + +<br /> + +Ella tem a curiosidade intelligente de todos +os phenomenos de ordem moral e intellectual. +Interessa-a o espectaculo das paixões humanas +<span class="pagenum">[106]</span> +e achou um theatro perfeitamente adequado ao +genero de observações que mais a divertem. +<br /> + +<br /> + +A côrte de Luiz XIV, antes que madame de +Maintenon tivesse desdobrado sobre ella o véo +de hypocrita devoção em que tão +cautelosamente +se embrulhára, é tudo que ha de mais +proprio a interessar, a apaixonar um observador, +um moralista como Madame de Sévigné. +<br /> + +<br /> + +<em>Moi qui aime tant à faire des +reflexions</em>, +esta phrase vem mil vezes nas suas adoraveis +cartas. E que assumpto sempre vivo, +sempre palpitante para reflexões não é +essa +côrte, onde tudo que as paixões humanas +têem +de mais ardente, de mais insaciavel, de mais +caracteristico, de mais desordenado, se manifesta +sob os mais variados aspectos e nas fórmas +mais pomposas... +<br /> + +<br /> + +O amor sem outra lei que não seja a inconstancia +e o capricho; a ambição sem outra +restricção e outro limite que não +sejam os que +fatalmente lhe impõe a fraqueza humana; a +inveja, a soberba, a cubiça mais desenfreada, +o orgulho ao mesmo tempo mais feroz e o +mais cheio de aberrações inexplicaveis, orgulho +que principalmente se compraz nos excessos +mais abjectos do servilismo―e todos estes +<span class="pagenum">[107]</span> +diversos sentimentos, uns simples, outros +complexos, uns harmonicos, outros contradictorios, +manifestados atravez de caracteres em +que ha ainda relevo, contorno accentuado, individualidade +inconfundivel, energia pessoal. +<br /> + +<br /> + +Póde haver espectaculo mais digno de interesse, +contemplação que sem talvez elevar o +espirito o divirta e o instrua mais? +<br /> + +<br /> + +Não é, porém, o jogo complicado, +brutal ou +subtil do interesse e das paixões pessoaes, o +unico objecto de estudo para o espirito de madame +de Sévigné. Ella tem uma vasta leitura, +uma aptidão para se interessar pelos estudos +mais aridos, quasi maravilhosa. +<br /> + +<br /> + +Quando a vida em Paris a cança, quando a +sociedade habitual do seu salão começa a +enfastial-a +um pouco, quando as graças de monsieur +de Coulanges, a extrema amabilidade de +d'Haqueville (o qual é tão extraordinariamente +serviçal e de tal modo se multiplica para satisfazer +os seus amigos que lhe mereceu a ella a +alcunha de <em>Les d'Haquevilles</em>) lhe +parece um +tanto massadora, quando a gotta de M. de La +Rochefoucauld o faz dar gritos que lhe excitam +demasiadamente a sensibilidade, quando +Le Père Bourdaloue a tem fatigado de predicas, +<span class="pagenum">[108]</span> +quando emfim o <em>meio</em> habitual em que +ella se move tem perdido, pela continuação, +um pouco do seu interesse e da sua novidade, +quando as salas que ella frequenta e das +quaes é o querido adorno mais precioso e +raro, não offerecem assumpto nenhum que a +satisfaça, quando a côrte está em uma +phase +de semsaboria estacionaria, sem incidentes e +sem dramas, eil-a que parte para Livry, ou +para os <em>Rochers</em>, e ahi na paz +deliciosa do +campo, que ella e La Fontaine são no seculo +XVII os unicos a <em>sentir</em>, passeia +sósinha debaixo +das arvores, ouve o rouxinol, o cuco, e +<em>la fauvette</em>, saboreia a +graça primaveril do arvoredo +em flor, e consagra a noite a longas +leituras em que ha de tudo, Tasso, Cervantes, +Descartes, Racine, La Fontaine, até Horacio, +porque a encantadora marqueza sabia latim e +até o ensinou á filha. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O que mais celebre torna deante da posteridade +Mme. de Sevigné, o seu amor pela filha, +é a maior prova de quanto póde a +illusão +sobre um cerebro, sobre um coração de mulher! +<span class="pagenum">[109]</span> +Mme. de Grignan, <em>la plus belle fille de +France</em>, +como lhe chamavam os que queriam por +uma tocante attenção lisongear o +coração da +mãe, não é realmente digna por motivo +nenhum +da adoração que inspira. Pedante, interesseira, +ambiciosa, gastadora, ingrata sobretudo, +ingrata para essa mãe adoravel cujo +crime unico foi preferil-a em tudo ao irmão, +Carlos de Sevigné, tão sympathico quanto ella +é antipathica, tão dedicado quanto ella +é egoista, +tão apaixonado pelas graças, virtudes e encantos +da mãe, quanto ella parece ser-lhes indifferente, +Mme. de Grignan tem por unica virtude +a de ter inspirado essas deliciosas cartas, +em que um periodo longo e interessantissimo +da Historia se reflecte com incomparavel vivacidade, +com uma frescura, um pittoresco, +uma animação que jámais +serão excedidos. +<br /> + +<br /> + +No final da minha visita ao museu, quando +eu tinha achado prazer infinito em evocar estas +visões do passado, e muitas outras que não +podem caber no limitado espaço d'estas notas, +o guia que não sei porque tinha sympathisado +commigo e com meu amavel companheiro, decidiu +de si para si que nós eramos dignos de +ser apresentados ao conservador do museu, +<span class="pagenum">[110]</span> +Monsieur Cousin, que não sei se é parente do +celebrado philosopho do eclectismo. +<br /> + +<br /> + +Levou-nos, pois, a um gabinete reservado +onde nos esperava uma encantadora surpreza. +Monsieur Cousin vive fechado em uma pequena +sala, furtada a todas as vistas profanas, imaginem +com quem? +<br /> + +<br /> + +Com madame de Grignan! Não madame de +Grignan em carne e osso, que isso não seria +no fim de contas uma companhia por demais +preciosa. Imagino que a convivencia de <em>la +plus belle fille de France</em> não era +tão agradavel +que a propria mãe, idolatra como era, não +preferisse viverem em casas separadas, quando +madame de Grignan vinha a Paris tractar das +suas innumeras demandas, e discutir com juizes, +advogados e procuradores como uma verdadeira +<em>madame Pimbêche</em> que era. +<br /> + +<br /> + +Não, a maneira por que madame de Grignan +se achava representada n'aquelle gabinete +escondido, era por meio de um esplendido +retrato de Mignard. A filha da encantadora +marqueza apparece alli formosissima. Cabellos +de um louro fulgurante, veneziano, o louro de +Ticiano, ou de Palma Vechio; pelle branca, +transparente, atravez da qual se sente gyrar +<span class="pagenum">[111]</span> +um sangue vivo e puro, olhos azues de uma +belleza profunda e rara, penteado levantado na +frente e voluptuosamente entrelaçado de rubras +flôres de romeira e de flôres brancas de +laranjeira. +<br /> + +<br /> + +No peito, completamente decotado, um ramo +viçoso das mesmas flôres. +<br /> + +<br /> + +―Flôres de Provença, fez-me notar Mr. +Cousin, com aquella nota carinhosa na voz, +que revela o namoro de um velho sabio, o +namoro que o seu homonymo Cousin teve +pela duqueza de Longueville e pela de Chevreuse! +<br /> + +<br /> + +―Flôres do meu Portugal, atalhei eu, que +ao vêl-as tivera tanta saudade do meu pequeno +paiz longinquo. +<br /> + +<br /> + +Se a minha antipathia a Mme. de Grignan +não fosse fundada e irreductivel, tinha-a destruido +de certo este adoravel retrato que a representa +verdadeiramente formosa, e o que é +mais, seductora! retrato que, apezar de ser de +Mignard, parece feito na maneira ampla e superior +dos grandes mestres. +<br /> + +<br /> + +Assim a viu o pintor, assim a viu sua mãe, +assim a vê em pensamento e feliz enlevo +o velho conservador, que se fechou com ella +<span class="pagenum">[112]</span> +em um quarto e que a não deixa avistar se +não a raros profanos! +<br /> + +<br /> + +O meu passeio pelo Museu Carnavalet mais +me confirmou na eterna ironia das cousas +grandes ou pequenas! +<br /> + +<br /> + +Não posso deixar de confessar que, tirando +as minhas evocações intimas, a melhor +impressão +que de lá trouxe, deu-m'a o retrato +da minha <em>inimiga pessoal</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XIII +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Uma das horas mais commovidas da minha +vida foi aquella em que entrei nos +<em>Invalidos</em> +para vêr o tumulo de Napoleão. +<br /> + +<br /> + +Sei bem que é esta uma excursão obrigada +aos viajantes da agencia Cook, aos +<em>touristes</em> +prud'hommescos da provincia, aos +<em>badauds</em> de +todas as origens, procedencias e classes. +<br /> + +<br /> + +Mas terão esses porventura sufficiente poder +para banalisar uma figura como a do Imperador? +<br /> + +<br /> + +Depois, eu fui criada por uma mãe enthusiastica +de gloria, no culto quasi fanatico de +Napoleão. +<br /> + +<br /> + +Para mim elle nunca foi, como para os meus +compatriotas do principio do seculo, o <em>ogre +da</em> +<span class="pagenum">[114]</span> +<em>Corsega</em>, o monstro peior que Nero e +Caligula. +Pelo contrario. As manchas do seu caracter +só muito mais tarde a historia m'as fez +conhecer. Na minha mocidade não me falavam +senão nos esplendores da sua fama e nos prodigios +da sua heroicidade. +<br /> + +<br /> + +Tantas mudanças teem passado pela França +desde que, em uma ilha solitaria e longinqua do +Oceano, o grande homem expirou, renegado e +abandonado por todos os seus, que eu receiava +encontrar lá muito esmorecida a sua memoria, +muito apagados os vestigios de sua passagem. +<br /> + +<br /> + +Enganei-me. A lenda napoleonica resuscita +com insolito vigor n'essa França de que ella +foi a gloria ultima e inultrapassavel! +<br /> + +<br /> + +Havia n'essa occasião justamente em Paris +a exposição dos quadros de Meissonier, e essa +exposição admiravel dominavam-n'a dois quadros, +que nunca mais podem ser esquecidos +depois de uma vez terem sido vistos. +<br /> + +<br /> + +O primeiro quadro intitula-se <em>1807</em>. +É Napoleão +depois de <em>Friedland</em>, triumphante, +glorioso, +acclamado. +<br /> + +<br /> + +O Imperador ainda magro, esbelto e sobrio, +monta o seu lendario cavallo branco, rodeia-o +<span class="pagenum">[115]</span> +um estado maior de marechaes deslumbrante +e numeroso, a cada titulo dos quaes esta ligado +um nome retumbante de batalha e de +gloria; os seus granadeiros admiraveis, a sua +velha guarda fanatisada e invencivel acclama-o +em gritos que positivamente se <em>ouvem</em> +na tela +palpitante de Meissonier. +<br /> + +<br /> + +É o momento culminante da epopeia grandiosa. +Sobejam os assombros, os crimes apparecem +n'um esplendor de purpura que lembra +menos a côr do sangue do que a côr da +aurora! +<br /> + +<br /> + +A tyrannia já se revela em mil symptomas +da vida do conquistador e da vida do imperante. +Os povos já perguntam n'um brado +ululante de angustia em nome de que direito +derrubam os seus thronos tradicionaes e lhe +invadem os seus lares pacificos! +<br /> + +<br /> + +Mas ah! mais forte do que esse gemido desolado +das nações invadidas, mais forte do que +o choro convulso das mães a quem arrancam +continuamente os filhos, os mais bellos e os +mais fortes,―é o clangor bellico do clarim que +avisa a França da suas victorias incontaveis! +Lodi, Arcole, Rivoli, Marengo, Iena, Austerlitz, +estão em todas as boccas, produzem em todos os +<span class="pagenum">[116]</span> +cerebros o assombro, o respeito, o enthusiasmo! +<br /> + +<br /> + +O segundo quadro―<em>1814</em>―é +a retirada, é +a derrota, é a melancolica derrocada do sonho +gigantesco e sobrehumano. +<br /> + +<br /> + +O heroe vem cançado, abatido e triste. Cavallo, +cavalleiro, cortejo militar, paizagem +circumdante, tudo respira a mesma desolação +e o mesmo abandono! +<br /> + +<br /> + +A velha guarda ficou sepulta nos gêlos da +inhospita Moscovia; os marechaes cançados, +são os mesmos que vão acceitar, suggerir a +<em>déchéance</em> +proxima.... +<br /> + +<br /> + +Entre um anno, o da gloria soberba e unica, +e outro, o da derrota universal, quantos crimes +de lesa-nação, de leso-direito, até de +leso-entendimento. +Napoleão acabára por sentir aquella +embriaguez dos Cesares que os atirava ao crime +e á loucura em virtude de uma +attracção irresistivel +e fatal. +<br /> + +<br /> + +Vencera todos e perdera o segredo indispensavel +de se vencer a si proprio. D'aqui a +ruina, d'aqui, depois da tragedia de Waterloo, +o suplicio <em>prometheano</em> de Santa +Helena! +<br /> + +<br /> + +Bastavam estes dois quadros para dar a +Meissonier o logar eminente que elle tem entre +<span class="pagenum">[117]</span> +os pintores francezes. Accusam-n'o de ser +minucioso em demasia, de ter uma concepção +acanhada da arte, de dar muito mais attenção +aos pormenores que á esthetica geral da sua +obra; mas estes dois quadros desmentem todas +as accusações que lhe fazem os seus detractores. +Meissonier comprehendeu a verdadeira +grandeza, a grandeza epica, a que inspirou Homero +e Camões; a que faz ainda hoje palpitar +os frios corações d'esta era de industrialismo +e de interesse egoista. +<br /> + +<br /> + +O heroe que elle alli nos representa, tanto +na hora estonteadora do triumpho, como na +hora tragica da derrocada, é o mais importante +dos <em>grandes homens</em>, no dizer de +Carlyle, +o que vale mais que todos os outros, porque +é aquelle a quem a vontade de todos se subordina +em um impeto de lealdade e adoração. +<br /> + +<br /> + +Eu tinha visto, havia pouco, os dois quadros +famosos de que não posso nem sei descrever o +interesse, a expressão, a intensa vida suggestiva, +quando fui visitar nos <em>Invalidos</em> o +tumulo +de preciosa pedra, em que as cinzas de Napoleão +estão guardadas. +<br /> + +<br /> + +Lá está elle cercado por doze silenciosas +estatuas +de marmore que symbolisam victorias, +<span class="pagenum">[118]</span> +e de bandeiras crivadas de balas que seu exercito +conquistou. +<br /> + +<br /> + +Não houve nada de banalmente curioso na +minha visita; era uma romaria piedosa feita a +um idolo da minha mocidade, á unica figura +grandiosa que a edade moderna póde apresentar +em face das grandes figuras antigas que se +chamam Alexandre ou Cesar. +<br /> + +<br /> + +Em toda a parte o tenho visto; a sua figura +que participa da Lenda e que é da Historia, +protege ainda a França como uma divindade +tutelar contra a onda da <em>mediocracia</em> +que avança. +N'esse paiz onde hoje apenas soam réles +nomes de réles +<em>politiqueiros</em>, echoa a pequena +distancia um nome que vale mais que todas +as outras glorias modernas. Que valem Frederico +II ou Pedro o Grande, que vale Luiz XIV, +que valem Condé ou Turenne ou Luxemburgo, +que valem Colbert ou Vauban, que valem Guilherme +d'Orange, ou Malbourough, que valem +Walenstein ou Carlos XII ao pé d'este homem +estranho, homem do destino, que reuniu em +si, a todas as qualidades brilhantes do guerreiro, +as qualidades solidas do administrador; que +foi legislador e soldado, que dominou e venceu +a anarchia, que levou atravez do mundo +<span class="pagenum">[119]</span> +inteiro, do Sena até ao Neva e do Tejo até ao +Vistula a idéa da Revolução, de que +elle foi +a formula tangivel, o propheta feito homem, +a representação concreta e o visivel symbolo?! +<br /> + +<br /> + +É por isso que só na Antiguidade se encontram +dois homens cuja missão excedeu em importancia +universal aquella que Napoleão representou +na Historia, e que esses dois homens +são Alexandre e Cesar. +<br /> + +<br /> + +As campanhas de Alexandre tiveram no desenvolvimento +intellectual da Grecia e do mundo +uma influencia enorme e decisiva: +<br /> + +<br /> + +Não é para mim falar das maravilhas estrategicas +d'essas campanhas, das quaes uma +manobra celebre foi genialmente reproduzida +por Napoleão em Austerlitz; mas o que interessa +á humanidade inteira e por mim póde ser +lembrado, é a impulsão gigantesca que a +intelligencia +do homem recebeu quando o genio +grego foi pela primeira vez profundamente penetrado +pelo genio do Oriente, quando os capitães +e os soldados da guerreira Macedonia +venceram o amollecido imperio persa, e caminharam +desde o Danubio até ao Nilo, desde o +Nilo até ao Ganges, vendo cada dia cousas novas, +<span class="pagenum">[120]</span> +sentindo cada dia impressões e suggestões +até alli desconhecidas; quando elles estremeceram +ao sopro gelido que vem dos paizes +que se alastram ao longo do mar Negro, e foram +quasi que asphyxiados, pelo simoun ardente, +pelos vendavaes de areia dos desertos +do Egypto; quando se assombraram deante das +Pyramides que tinham resistido a vinte seculos +de velhice, e interrogaram em vão os obeliscos +de Luqsor cobertos de indecifraveis hieroglyphos, +e as longas fileiras de esphinges +mudas, mysteriosas exhalando de si o pavor +de um symbolo inexplicado! quando admiraram +as estatuas colossaes de reis que na aurora +do mundo haviam vivido e reinado, e se +assentaram nos salões de Esar Haddon sobre +os thronos dos velhos reis da Assyria que enormes +leões alados estavam sombriamente guardando +havia seculos e seculos... +<br /> + +<br /> + +Á Grecia revelaram-se então +noções do Universo +que ella ignorava; maravilhas estranhas +de uma civilisação que não +fôra feita como a +sua de proporção e de harmonia, mas que esmagava +pela grandeza, e que se impunha pela +força colossal. +<br /> + +<br /> + +Pela Iliada e pela Odyssea se percebe que +<span class="pagenum"><a name="p121" id="p121">[121]</a></span> +observadores eram os filhos subtis da alada +Grecia. +<br /> + +<br /> + +Tudo que elles então viram e estudaram +foi aproveitado mais tarde nas fórmas de uma +civilisação nova, mixto do que a hellenica +teve de mais bello e a oriental de mais grandioso. +<br /> + +<br /> + +E que sensações <a href="#e9">deliciosamente</a> +novas lhe +não daria essa paisagem que elles então +conheceram +e na qual havia de tudo, desde os +areaes sem fim até aos Jardins do Industão; +desde as miragens do deserto até ás densas +sombras das florestas profundas; desde as montanhas +cuja crista se ia perder no seio das nuvens, +até ás redondas colinas esbrumadas em +nevoa de um tenue côr de rosa; desde o tigre +real de salto felino e ondeante e o elephante +que em Arbelle fazia tremer a terra sob o +peso gigantesco do corpo desforme, até ao rhinoceronte +e o hippopotamo, o camello, e o crocodilo, +do Nilo e do Ganges; d'essa paisagem +em que as arvores eram palmeiras e tamarindos, +oleandros e verdes myrtaes; em que os homens +tinham todas as côres e todos os trages; +em que ao Persa acobreado succedia o Syrio +queimado do sol, e o Africano côr da noite... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[122]</span> +Tudo isto era um encantamento e uma surpreza, +tudo isto continha e incluia em si resultados +que assombraram o mundo. +<br /> + +<br /> + +Os conhecimentos exactos, as noções verdadeiras +e positivas acêrca do universo, podem +bem datar-se das campanhas famosas de Alexandre. +Foi então que se fez essa união fecunda +e miraculosa do espirito hellenico e do +espirito oriental, a India, a Persia, a Babylonia, +continham em germen Alexandria e as suas +escolas, os Arabes e a sua civilisação ephemera +mas deslumbrante... +<br /> + +<br /> + +Quanto a Cesar, esse latinisou, romanisou o +mundo até então descoberto; tornando possivel +a sua posterior christianisação. +<br /> + +<br /> + +Sob o sceptro dos Imperadores o mundo tinha-se +feito romano, e d'alli veiu que sob o +baculo dos primeiros Bispos elle poude fazer-se +christão. Não havia já nem +raças que mutuamente +se dilacerassem, nem religiões que +umas ás outras se contradissessem, nem tribus +que entre si se combatessem... O Imperio +novo estava maduro para receber o baptismo +de uma só religião, á qual as hordas +barbaras viriam successivamente submetter-se... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[123]</span> +É ainda, por isso mesmo, que os que +hoje vêem na Historia a logica successão +de causas e de leis produzindo a logica successão +de phenomenos que são resultados, vêem +em Napoleão a força ao serviço da +idéa, o instrumento +de uma grande transformação social +obedecendo a uma missão superior, e cumprindo-a +de uma fórma perfeita. A Revolução +franceza +sem Napoleão, não chegaria a ser um facto +historico, egual nos seus effeitos á +proclamação +do christianismo, superior nas suas +intenções á Reforma do seculo XVI. +<br /> + +<br /> + +Essa Revolução hoje tão calumniada +pelos +mesmos que lhe gosam os resultados definitivos +e os effeitos niveladores e libertadores, +acabaria, a não dar-se o apparecimento fatidico +de Napoleão, em uma anarchia ensanguentada +da qual nem um principio se salvaria +talvez. Napoleão sahido do meio da turba, +como que encarnando em si a alma do povo, +liberta da sua escravidão secular, fez da +Revolução +um facto, um facto irreductivel, contra +o qual nem a mais reaccionaria vontade pôde +nada. Em primeiro logar elle formulou em leis, +as doutrinas revolucionarias; o seu codigo civil +tem resistido a todas as mudanças de regimen +<span class="pagenum">[124]</span> +politico que ha setenta e oito annos tem +convulsionado a França á superficie, sem terem +comtudo alterado a sua constituição civil e o +seu regimen de propriedade; depois elle fez de +uma Revolução local, que tinha por origem +primeira os abusos financeiros, uma Revolução +universal que levou o mundo a um dos +periodos decisivos da sua marcha progressiva, +e que transformou completamente a organisação +social de toda a Europa moderna. +<br /> + +<br /> + +Os seus exercitos assoladores como eram, e +não os defenderei mesmo contra os que lhe +chamam as hostes de Attila, os seus exercitos +semearam, sem o saber, sem o querer talvez, +a semente da liberdade por toda a parte onde +levaram o lemma da usurpação e da tyrannia. +Elles passaram, e sob os pés d'essas legiões +terriveis que espalhavam o assombro e o pavor, +ergueram-se por encanto instituições novas, +e os povos readquiriram a dignidade e a +liberdade, ambas perdidas na abjecta subserviencia +ao despotismo sem grandeza das modernas +dynastias. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XIV +</h3> + +<br /> + +<br /> + +As bellas theorias optimistas dos doutrinarios +que haviam proclamado os <em>Direitos +do homem</em>, a Egualdade, a Liberdade +e a Fraternidade, a bondade innata da especie +humana, o retrocesso á boa Natureza, o Culto +da razão humana como a religião melhor e +a mais infallivel, tinham produzido, ninguem sabia +em virtude de que sortilegio hediondo, uma +horda de freneticos cannibaes, devorando-se uns +aos outros com delicia selvagem e requintes de +odio e covardia, ao pé dos quaes empallideciam +as descripções que o passado nos legou +das suas peiores tragedias. +<br /> + +<br /> + +Ninguem atinava como de tão puras premissas +tinham sahido tão horrendos resultados; +<span class="pagenum">[126]</span> +ninguem podia explicar como do bem se gerara +tanto mal, como do progresso das luzes +se tinha feito tão negra escuridão, porque motivo +intenções tão sublimemente generosas +tinham +produzido tão monstruosos e contradictorios +effeitos. +<br /> + +<br /> + +A primeira embriaguez da liberdade sem +restricções e sem limites, produz sempre no +homem esta demencia má. A Historia assim +o diz, mas n'esse tempo era apenas uma restrictissima +minoria, a que sabia lêr a Historia +e colher as suas lições. +<br /> + +<br /> + +Imagine-se que Napoleão não tinha +então +surgido; que depois da orgia de sangue que +se chamou Terror, e da orgia de lodo e vinho +e que se chamou Directorio, não se erguia, +mais alto que qualquer individualidade e qualquer +instituição, essa força +disciplinadora, organisadora +dos partidos internos, subjugadora +dos inimigos estranhos, tão poderosa, tão +efficaz, +tão capaz de querer, tão profundamente +inimiga da anarchia mansa, que dissolve as +nações e da anarchia brava que as esphacella. +<br /> + +<br /> + +A reacção mais desbragada e mais insolita +tomaria então conta da França, que n'esse momento +decapitada, mutilada, exangue e sceptica, +<span class="pagenum">[127]</span> +não achava dentro de si nem uma energia +redemptora, nem uma crença activa, nem uma +só fibra que não estivesse morbidamente +combalida. +<br /> + +<br /> + +O sublime esforço de tantos genios humanitarios +seria por um longo periodo, que hoje +não podemos calcular com acerto, inteiramente +perdido; da Revolução restaria apenas a memoria +dos seus inexpiaveis crimes. E porque +havia rolado nos degraus da guilhotina a bella +cabeça precocemente embranquecida de Maria +Antonietta, e porque o pobre e burguez e inoffensivo +Luiz XVI tinha expiado, como quasi +sempre succede em politica, os erros e as faltas +dos seus antecessores, acontecia que Montesquieu, +Voltaire, Rousseau, Turgot, Condorcet +teriam pensado, escripto, meditado, trabalhado +em vão. +<br /> + +<br /> + +Quem é que seria capaz de pacificar os partidos +exasperados a não ser esse homem superior +a todo o seu tempo, superior á sua raça, +e que pôde congregar no mesmo fim:―fazer +grande e gloriosa a patria commum;―os vencidos +e os vencedores, os regicidas e os ex-emigrados +os que tinham escapado por milagre +ás proscripções jacobinas e os que as +tinham +<span class="pagenum">[128]</span> +decretado, Fouché e Talleyrand, os filhos +da antiga aristocracia espoliada, e os +triumphantes espoliadores que estavam na +posse do que fôra d'ella?... +<br /> + +<br /> + +E d'essa agglomeração de interesses contrarios, +de ambições que se excluiam, de classes +que eram antagonicas por instincto e por +circumstancias, de adversarios que se odiavam +mutuamente, quem tirou a França poderosa, +affirmativa, unificada pelo mesmo codigo +de justiça, enriquecida pelo mesmo regimen de +propriedade, tendo conquistado a egualdade civil +para todos os seus filhos, vendo abertas todas +as carreiras para as individualidades que se +distinguissem no seu seio, consolidadas todas as +conquistas, emfim, d'essa liberdade que ameaçara +suicidar-se, envenenando no seu sangue +aquelles que d'elle haviam sonhado nutrir-se? +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +É este o papel cumprido por Napoleão na Historia, +é esta a sua missão na França; como +foi +sua missão no mundo espalhar, propagar os principios +da Revolução que elle, sem talvez o querer, +representava como ninguem! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[129]</span> +Os que o julgarem mais tarde hão de julgal-o +assim, e hão de perdoar ou escurecer, como +succede com Cesar, como succede com Alexandre, +os seus erros e defeitos pessoaes, os quaes, +feito o balanço final, que só o futuro +fará, foram +talvez mais uteis do que nocivos, porque contribuiram +para o inutilisar no momento em que +o seu papel deixava de estar em estreita harmonia +com as circumstancias que necessitaram +a sua cooperação. +<br /> + +<br /> + +Ultimamente, porém, desenvolveu-se no mundo +a febre de atacar ou defender o caracter pessoal +de Napoleão em <em>memorias</em> +numerosissimas, +em folhetos, em livros de historia, em pamphletos, +em ensaios criticos, etc., etc. +<br /> + +<br /> + +Quem deu o <em>branle</em> a este movimento +bibliographico +extravagante, que tem como heróe +Napoleão, foi Taine em um dos seus volumes +sobre as <em>Origens da França +Contemporanea</em>, +em que traçou do grande homem um retrato, +por todos conhecido hoje, retrato á Rembrandt, +cuja belleza magistral não fere á primeira +vista senão os verdadeiros entendidos, quer dizer +os psychologos e os observadores e moralistas. +<br /> + +<br /> + +Taine para desenhar Napoleão serviu-se do +<span class="pagenum">[130]</span> +seu velho processo de documentos miudinhos +juxtapostos, que não é de certo o mais +interessante +para o grosso publico. Interrogou as testemunhas +oculares, os criados, as damas de honor +da Imperatriz Josephina, as pessoas que +mais ou menos estiveram na intimidade e no +contacto directo de Napoleão. Ora, é bem sabido +<em>que não ha grande homem para o seu criado +de quarto</em>, mas ainda assim Napoleão excede +tanto a craveira commum e Taine sabe de tal +modo vivificar os mortos documentos com que +fórma o seu <em>dossier</em> de +investigador, a sua imaginação +auxiliou-o de tal modo, indo procurar +nos <em>condottieri</em> do seculo XIV e XV, +como Stendhal +já fizera antes d'elle, os antepassados cuja +influencia hereditaria e atavica, se fez sentir com +tão pittoresco relevo no grande aventureiro do +seculo XIX―que mais contribuem para a grandeza +de Napoleão as accusações de Taine, +que +os elogios de mediocridades incapazes de entenderem +a verdadeira grandeza. +<br /> + +<br /> + +Já se vê que um homem como Napoleão +não +póde ser julgado pelo nosso codigo moral. O seu +potente cerebro, o maior de certo que a determinados +respeitos tem havido no mundo, não +se deixa subordinar pelas leis fatalmente restrictas, +<span class="pagenum">[131]</span> +pelas quaes a simples humanidade tem +de reger-se para mutuamente se supportar. +<br /> + +<br /> + +A sua imaginação portentosa põe-n'o +continuamente +a dous passos do crime ou da loucura; +as suas paixões indomitas não conhecem +regra, como não conhece obstaculos a sua vontade +inflexivel. +<br /> + +<br /> + +É em virtude d'estas faculdades extraordinarias +que elle é capaz de executar cousas que +os outros nem em sonhos ousariam conceber. +<br /> + +<br /> + +Não admira que as +<em>memorias</em> do tempo lhe +sejam muitas vezes contrarias. Elle teve de subjugar +muitas vontades, de se contrapôr a muitas +ambições, de humilhar naturalmente muitas +vaidades, de excitar muita inveja e muito despeito, +para que os seus contemporaneos mais +intimos sejam capazes de perdoar-lhe a grandeza +excepcional de um destino que a todos +offuscava. +<br /> + +<br /> + +Mas o que ninguem póde negar-lhe é o poder +singular de seducção que o seu sorriso +irresistivel, +que o seu olhar de aguia exerciam. +Venceu e dominou todos os que se lhe approximavam, +e os proprios imperantes, seus inimigos, +receberam, ao contacto d'aquella grandeza +simples que o distinguia, o choque electrico que +<span class="pagenum">[132]</span> +se communicava fatalmente da alma d'elle ás +almas com que a sua estava em contacto. +<br /> + +<br /> + +O retrato de Taine indignou, porém, apezar +da sua incontestavel belleza artistica, apezar da +sua expressão intensa de vida, dos toques +<em>humanos</em> +que o fazem palpitar, os adoradores de +um Napoleão imaginario, todo virtudes burguezas +de familia, e clemencia de <em>Moral em +acção</em> +e um escriptor francez para mim desconhecido, +o Sr. Arthur Levy, acaba de publicar um +grande volume com o fim de contrapôr o verdadeiro +Napoleão, o que elle chama <em>Napoleon +intime</em>, ao terrivel grande homem descripto por +Taine, e de contradizer o critico francez em todas +as suas asserções ácerca do caracter +pessoal +do Imperador. +<br /> + +<br /> + +Ora, o <em>Napoleon intime</em> do Sr. Arthur +Lévy é a +mais falsa personagem historica que póde imaginar-se, +embora seja todo elle composto, +como um mosaico laboriosissimo, de pedacinhos +de cartas escriptas por Napoleão, e de pedacinhos +de documentos de uma authenticidade incontestavel. +<br /> + +<br /> + +O que mais irrita o auctor do <em>Napoleon +intime</em> +é a hereditariedade italiana, que Taine tão +logicamente lhe attribue. <em>Um burguez +francez</em> +<span class="pagenum">[133]</span> +<em>dos quatro costados e com todas as virtudes +médias e as qualidades mediocres da burguezia +francesa</em> eis o que o Sr. Levy pretende +fazer do heroe das Pyramides e de Austerlitz +e de Arcole e de Wagram!... +<br /> + +<br /> + +Sobre o tumulo de soberba pedra moscovita, +que a piedade de nacionaes e estrangeiros +visita quotidianamente em veneravel recolhimento, +poder-se-hia escrever segundo o +criterio do Sr. Arthur Levy, o que sobre a sepultura +de um burguez de 1830 mandou gravar +a familia consternada: +<br /> + +<br /> + +<em>Bom esposo, bom pae, bom filho e bom +guarda nacional.</em> +<br /> + +<br /> + +<em>Napoleon intime</em> está +escripto, é verdade, com +grande copia de referencias, de citações e +documentos. +Em primeiro logar, documentos e citações +truncadas nada significam. Depois, quando +muito, elles poderiam provar que uma das faces +do multiplo caracter de Napoleão era essa que +o Sr. Arthur Levy quer apresentar como predominante: +isto é, uma certa fraqueza, que é frequente +nos seres superiores para o seu +<em>entourage</em> +mais intimo, para a familia, para a mulher, +para os amigos, sempre que os amigos +lhe não resistiam. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[134]</span> +O heróe de mil batalhas desde as campanhas +da Italia e do Egypto até essa admiravel campanha +de França, a de mais superior estrategia, +segundo asseveram entendidos; o organisador, +o administrador, o general extraordinario +em cuja visão se gravava toda a topographia +de um paiz, com os seus accidentes +de terreno, os seus valles, e montanhas, os seus +recessos, as suas planicies, os seus pontos mais +fracos e os mais fortes, e que fazia d'essa +sciencia rara a applicação mais genial e +a mais pratica; o homem de mil occupações +simultaneas, que deslumbrava, pasmava, esfalfava +os seus collaboradores subalternos; o +violento, o apaixonado, o teimoso, o tyranno; +o organismo de uma delicadeza de impressões, +de uma violencia de impulsos, de um apuro de +sensibilidade excepcionaes; o que suggeria milagres +e os fazia; o que subjugou e seduziu uma +nação inteira; a figura, emfim, +<em>unica!</em> em toda +a Historia moderna, que foi Napoleão, nem +por um momento transparece nas paginas de +uniforme e banal elogio que o Sr. Arthur Levy +lhe consagra laboriosamente. +<br /> + +<br /> + +Napoleão antes queria, de certo, esse retrato +ás vezes de um crú realismo de toques, que Taine +<span class="pagenum">[135]</span> +lhe consagrou, do que o monotono panegyrico +d'este seu incommodo admirador. +<br /> + +<br /> + +Aquelle que eu fui ver aos <em>Invalidos</em> +é talvez +o Napoleão de Taine, o do Sr. Levy, oh! esse +é que affirmo com a infallibilidade da minha +intuição de mulher, que não +é de modo algum. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>Segunda parte +</h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>O fim do Paganismo +</h3> + +<h4> +(<span class="smallcaps">gastão de boissier</span>) +</h4> + +<br /> + +<br /> + +A litteratura franceza da actualidade é pouco +abundante em obras fundamentaes de sciencia +ou de historia, embora conte no seu seio dois +dos historiadores mais brilhantes dos modernos +tempos Renan e Taine. Á excepção, +porém, +d'estes dous grandes espiritos, que devem as linhas +principaes da sua educação intellectual +á +Allemanha e á Inglaterra e nos quaes são +profundamente +sensiveis essas influencias estranhas―póde +dizer-se que a grande geração dos +Michelet, dos Quinet, dos Auguste Comte não +deixou herdeiros capazes de nobremente a representarem. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[140]</span> +Continúa, porém, a escrever-se muito em +França, e como as qualidades eminentemente +sociaveis d'esta nação privilegiada a tornam apta +para o seu grande papel de propagadora, de +educadora dos espiritos, póde bem accrescentar-se +que nós os europêus do Occidente quasi +tudo que sabemos, o sabemos passado pelos livros +da França. +<br /> + +<br /> + +Ou traduzidos para francez ou assimilados +pelo espirito da França, é por esse caminho que +nos chegam todas as grandes idéas mais ou menos +novas, elaboradas ou transformadas pela +raça anglo-saxonia, pela raça germanica, ou +pela raça slava. +<br /> + +<br /> + +Eu por mim lamento infinitamente que em +Portugal a litteratura ingleza por exemplo seja +tão incompletamente conhecida. Tenho achado +tantas vezes um gozo incomparavel na leitura +de escriptores inglezes, que não posso deixar de +sentir que esse intenso prazer intellectual não +seja mais universalmente partilhado. E é-o tão +pouco que ha tempos uma amiga minha―muito +instruida e <em>grã ledora</em> +por signal―me affirmava +ter ouvido a um <em>homem de Estado</em> +portuguez, +ministro, e não sei que mais, se mais +alguma cousa póde haver que ministro, na opinião +<span class="pagenum">[141]</span> +<em>imparcial</em> de quem o +é,―affirmar audaciosamente +que para provar a inferioridade +mental da Inglaterra bastava dizer isto: <em>é +que +a Inglaterra não tinha uma litteratura!</em> +<br /> + +<br /> + +Que a patria que viu nascer desde Chaucer e +Spencer, até Shakespeare, Milton e Byron, desde +Bacon até Herbert Spencer, desde Addisson +até Macaulay, desde Richardson até Georges +Elliot, desde Bunyan o inspirado da Religião +até Carlyle o inspirado da Historia―perdôe +as heresias do joven estadista, meu compatriota, +cuja ignorancia me parece o estar realmente +predestinando para governar e dirigir a +nossa metaphorica Náu do Estado, por muitos +annos e bons. +<br /> + +<br /> + +Vinha tudo isto a proposito de eu ter hoje, +contra o meu costume, de apresentar um livro +francez tão erudito, tão profundamente e +facilmente +elaborado, tão cuidadosamente feito sobre +documentos authenticos, como se o firmasse o +nome de um inglez estudioso, ou de um sabio +allemão. +<br /> + +<br /> + +O livro, chama-se <em>O fim do paganismo</em> +e deve-se +á penna autorisada e seria de Gaston Boissier +da Academia Franceza, grande e sincero +cultor da antiguidade latina e autor de obras +<span class="pagenum"><a name="p142" id="p142">[142]</a></span> +muito importantes sobre a historia das lettras +classicas. +<br /> + +<br /> + +A obra é enorme. Tem dous volumes macissos +que tratam unicamente de assumptos estreitamente +ligados ao seu titulo, mas apezar d'isso +lê-se com immenso agrado, porque é profundo +sem ser pedante, é vivo sem ser desordenado +e está escripto com um sentimento intenso e +profundo da época que o inspirou. +<br /> + +<br /> + +Essa época é aquella em que as ultimas luctas +religiosas se travaram no Occidente entre o +Paganismo que expirava e o Christianismo que +irrompia ardente, impetuoso, tumido de seiva, +cheio de um longo futuro das <a href="#e10">entranhas +fecundas</a> +da humanidade. +<br /> + +<br /> + +Abre com o seculo IV pela conversão de Constantino, +isto é, pela christianisação do +Imperio +Romano, e fecha com a invasão dos barbaros e +com a destruição d'esse Imperio assombroso, +que até ás vesperas da sua completa +anniquilação +fez o espanto até d'aquelles mesmos que +mais soffreram d'elle, e que não podiam crêr +que elle fosse destruido! +<br /> + +<br /> + +Ja se vê que nos é impossivel em um artigo, +ou mesmo em uma série de artigos, resumir +este trabalho que representa longos annos de +<span class="pagenum">[143]</span> +estudo e de paciente investigação; que reflecte +a leitura aturada do mais enfadonho e difficil +de todas as litteraturas, a da egreja primitiva e +a de Roma decadente. +<br /> + +<br /> + +Não queremos, porém, deixar de anunciar +este livro áquella classe de leitores que amam +sinceramente o estudo, e principalmente o estudo +da historia, um dos mais attractivos, um +dos mais interessantes que existem no mundo, +porque é um d'aquelles que suggerem mais variedade +de pensamentos e mais extensa série +de impressões intellectuaes. +<br /> + +<br /> + +A que logo se destaca d'esta obra monumental +de que tivemos a paciencia de lêr attentamente +as mil e tantas paginas é esta: Como +nas mais diversas épocas, os homens, tendo +attingido um certo gráu de +civilisação, se parecem +entre si!... +<br /> + +<br /> + +Quantas similhanças frisantes, que identidade +de pontos de vista encontramos entre os homens +que figuraram no IV seculo da nossa éra +e os homens de hoje! +<br /> + +<br /> + +Não admira, porém, isso tanto, logo que pensarmos +que ha bastantes similhanças entre a +phase de civilisação que atravessamos e a d'esse +seculo que assistiu ao esphacelar de um immenso +<span class="pagenum">[144]</span> +imperio, ao fim tragicamente melancolico +de uma religião, á +transição violenta e brutal +na distancia, mas menos violenta de facto +do que a imaginámos, de um regimen para outro +que lhe era totalmente opposto. +<br /> + +<br /> + +Não é por uma historia systematicamente escripta, +chronologicamente ligada pelos factos, +que Gaston Boissier nos inicia n'essa quadra +tão afastada de nós. +<br /> + +<br /> + +O auctor preferiu um methodo muito mais +captivante e talvez um pouco menos difficil. +<br /> + +<br /> + +Traça quadros differentes e livros completos +em si. Fórma como que uma galeria de figuras +typicas, cuja influencia se tenha feito sentir +pela sua obra escripta ou pela sua acção directa +sobre os contemporaneos. +<br /> + +<br /> + +Escolhe aquelles que deixaram um nome celebre +e analysa-lhes os livros, as cartas, as poesias, +etc. etc. Pede á historia do tempo que lhe +forneça os seus documentos mais incontestaveis +e reconstrue com elles ou uma physionomia +de Imperador ou uma figura de Poeta, ou +uma veneravel e grandiosa imagem de Bispo +ou de Doutor da nascente egreja. +<br /> + +<br /> + +Constantino, o imperador convertido, Julião, +o imperador apostata, são dois estudos de alto +<span class="pagenum">[145]</span> +interesse historico e psychologico. Em ambos, +o auctor vê dois convertidos, dois fanaticos, +um do christianismo que se apossa da sua alma +e a transporta em allucinações supremas, outro +dos velhos deuses, abandonados, cuja restauração +prepara com paixão fogosa e arrebatamento +devoto. +<br /> + +<br /> + +Nem Constantino é o ambicioso que muitos +historiadores têem imaginado e descripto, nem +Julião é o livre-pensador que Voltaire +enthusiasticamente +applaudia. +<br /> + +<br /> + +São duas almas sinceras que usáram do poder +illimitado que possuiam, para imporem ás +almas dos outros a fé que os transportava. Julião +vingava-se assim da oppressão em que o +tinham tido longos annos e associava á causa +dos deuses vencidos a sua propria causa de +opprimido e de victima. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +No livro intitulado <em>O Christianismo e a +Educação Romana</em>, Geston +Boissier, o erudito +escriptor, traça o mais brilhante quadro +d'essa educação antiga, cujo poderoso encanto +é tão penetrante, é tão +subtil que nunca mais +<span class="pagenum"><a name="p146" id="p146">[146]</a></span> +ella deixou de ser a base da instrucção que o +mundo tem dado aos seus modernos filhos. +<br /> + +<br /> + +Foi por meio da educação, dada publicamente +por mestres pagãos á mocidade christã, +que +os dois cultos inimigos se fundiram no coração +e na imaginação da humanidade. Sem +darem por isso, os christãos receberam a influencia +do paganismo expirante, por meio +dos livros dos seus poetas sublimes e dos seus +admiraveis prosadores. +<br /> + +<br /> + +Quem bebera com o leite as inspirações de +Homero e de Virgilio; quem aprendera a bem +pensar com Platão e a bem dizer com Cicero; +quem recebera a magistral lição da Philosophia +e do Direito antigo; quem formára o +seu espirito por esses moldes incomparaveis, +não podia mais esquecer o mel de tão doce +eloquencia, a graça de tão perfeita poesia e +a lição viril de tão alta sciencia +philosophica! +<br /> + +<br /> + +S. Jeronymo, Santo Antonio, <a href="#e11">Santo +Agostinho</a>, +os grandes doutores, os grandes luminares +do christianismo, estão todos penetrados, +até á medulla, d'essa influencia suprema e +invencivel. +<br /> + +<br /> + +Foi, portanto, por meio da educação, que os +<span class="pagenum">[147]</span> +dois elementos, o pagão e o christão, se fundiram +harmoniosamente. +<br /> + +<br /> + +É de um interesse profundo o quadro que +Gaston Boissier desenha d'essa educação romana, +tão propria para formar chefes politicos +e chefes militares incomparaveis. Mas no seculo +IV da éra christã essa +educação modificara-se +muito, a ponto de já não parecer a +mesma, nem ser capaz de produzir os mesmos +fructos. Um romano de grande familia +não conhecia, nos tempos aureos da vida d'esse +imperio, senão dois officios: a guerra e a politica. +Aprendia no campo a guerra; a politica +aprendia-a, não, lendo Aristoteles ou Platão, +mas assistindo diariamente ás sessões do +Senado. +<br /> + +<br /> + +Esta educação pratica de uma efficacia admiravel +fazia então os valentes capitães e os +famosos dominadores politicos. +<br /> + +<br /> + +A Inglaterra contemporanea, de todos os +paizes modernos o que mais se parece com a +Antiga Roma imperial, tambem cultiva a força +viril dos seus filhos nos mais variados +<em>sports</em> +que a desenvolvam; na natação, na nautica, +nas corridas de cavallos, na lucta athletica, +nos jogos da gymnastica moderna,―mais +<span class="pagenum">[148]</span> +sabia, embora menos esthetica do que a antiga,―e +tambem começa, de muito moços, a +exercital-os na arte da palavra, na educação +que forma os oradores, os <em>debaters</em>, +os grandes +parlamentares da eloquencia ou dos negocios. +<br /> + +<br /> + +Nas Universidades de Oxford e de Cambridge, +ha <em>clubs</em> especialmente destinados +á discussão +dos negocios publicos, onde se propõem +e se debatem assumptos de interesse +nacional e de politica geral. +<br /> + +<br /> + +Mais tarde, quando os professores gregos +se estabeleceram em Roma, os +<em>grammaticos</em> +e os <em>rhetoricos</em> tomaram conta da +mocidade, +ou nas escolas publicas, ou no seio das grandes +familias. +<br /> + +<br /> + +A Grecia cultivara com enthusiasmo a philosophia, +a musica, a rhetorica, etc. Os Romanos, +porém, de uma inaptidão esthetica tão +justamente reconhecida por Mommsen―não +acceitaram com prazer, de quantas artes e +sciencias lhes trouxeram os seus educadores +gregos, senão a grammatica e a rhetorica. A +philosophia affigurava-se-lhes um palavriado +vão e inutil; a geometria e as mathematicas +só os captivavam pelas suas +applicações de +<span class="pagenum">[149]</span> +utilidade pratica; eram para elles a arte de +contar e de medir. +<br /> + +<br /> + +A rhetorica, porém, essa arte de falar que +tanta influencia produzia na imaginação antiga, +impoz-se-lhes fatalmente após as primeiras +reluctancias do instincto conservador, que +detestava tudo que era innovação. +<br /> + +<br /> + +Foi então que a educação dividida em +dois +ramos, fez da leitura e explicação dos poetas, +da critica e analyse das suas obras, a sua base +fundamental. +<br /> + +<br /> + +Ainda hoje a Inglaterra, sob as suas apparencias +gothicas a mais <em>romana</em> das +nações, +dá aos discipulos das suas universidades aquella +fórte educação classica que torna +tão substancial +e tão nobremente florida ao mesmo +tempo a eloquencia dos seus grandes oradores. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>II +</h4> + +<br /> + +Sem podermos acompanhar o livro altamente +instructivo de Gaston Boissier, nos variados +assumptos que elle trata, sem tentarmos +resumir os quadros magistraes da vida da antiguidade +que elle traçou, n'essas paginas tão +ricas de informação e tão sobrias de +côr, escolhamos, +<span class="pagenum">[150]</span> +para d'elles dar conta aos leitores, a +quem este genero de trabalho interessa particularmente, +alguns dos seus capitulos mais notaveis. +<br /> + +<br /> + +A biographia de Tertuliano, um apologista +do christianismo, que o mundo moderno conhece +apenas de nome, apesar da sua celebridade +theologica não póde, por exemplo, interessar-nos +tanto como a <em>Conversão de Santo +Agostinho</em>. +<br /> + +<br /> + +Este Santo que conheceu até á saciedade, +até +á nausea, todas as delicias da volupia pagã, este +joven elegante, que frequentou com tamanha +paixão litteraria as escolas de Carthago, este +christão que seguiu com enlevo as procissões +da <em>Mãe dos Deuses</em>, e que +no theatro devorou +avidamente as peças ligeiras do reportorio +antigo―interessa-nos +pela violenta crise mortal +que determinou a sua conversão. +<br /> + +<br /> + +Elle mesmo nos confessou em um livro que +será sempre avidamente lido pelos prescrutadores +insaciaveis do eterno abysmo humano, +todas as gradações, todos os cambiantes por que +passou a sua alma sequiosa do Infinito e que +procurava estancar a sêde que tinha lá dentro +de verdade e de luz, correndo atraz de todas +<span class="pagenum">[151]</span> +as sensações acres e pungitivas, sondando com +curiosidade inquieta todos os segredos da Paixão +e do Prazer. +<br /> + +<br /> + +Tanto mais meritorio é o sacrificio feito por +Santo Agostinho, ao renunciar ás delicias da +litteratura pagã, ás graças da musa +classica, +aos encantos da sociedade polida e culta, quanto +era sincero e apaixonado o amor que ella +tinha por todos esses prazeres da intelligencia +e dos sentidos. +<br /> + +<br /> + +Admirador de Virgilio, discipulo de Cicero, +elle atirou-se porém, com ardente desejo de +achar n'ellas a verdade que lhe fugia, ao estudo +das Escripturas. Ao principio a barbaria +christã revoltou o seu puro gosto. Só mais tarde +é que, através da fórma incorrecta +d'essas +traducções hebraicas feitas por escrupulosos e +ignorantes christãos, elle poude perceber as correntes +puras e limpidas, os mananciaes de vida +interior, as preciosas riquezas d'alma, que +jorravam dos livros sagrados, e que vinham +renovar a alma humana, vazar em moldes novos +as suas aspirações e os seus sonhos, crear +uma nova fórma de civilisação +infinitamente +mais rica e mais complexa do que essa, que a +formidavel depravação romana tinha gasto +<span class="pagenum">[152]</span> +com os seus excessos orgiacos e os seus monstruosos +e nunca vistos crimes! +<br /> + +<br /> + +Todo o capitulo consagrado a essa bella figura +do christianismo primitivo, a esse grande +espirito que tanto concorreu para a organisação +definitiva dos seus dogmas, e em que +Gaston Boissier conta as suas luctas interiores +e, finalmente, o triumpho soberbo da sua conversão +é de um interesse palpitante. +<br /> + +<br /> + +Teem sempre actualidade para aquelles que +pensam os intimos combates de uma consciencia +sincera. +<br /> + +<br /> + +Aos que fôrem verdadeiramente +<em>homens</em> nada +do que é humano póde ser estranho; e onde +é que a maravilhosa planta dá a sua +flôr mais +desabrochada e mais perfeita do que n'esses +typos luminosos, nos quaes o genio concretisou +todos os seus esplendores, a vontade, todas +as suas sublimes energias, a consciencia, todas +as suas forças mysteriosas!... +<br /> + +<br /> + +Santo Agostinho é o homem que amou, que +aspirou, que conheceu a vida, que luctou e que +venceu por fim, sobrepondo a todas as contingencias +da existencia limitada e mesquinha +o que elle na sua alta consciencia julgou ser +a eterna verdade! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[153]</span> +Subir tão alto pela acção do seu +proprio entendimento +é conter dentro de si, em um momento +cuja memoria não mais se anniquilla, +fecundando eternamente outras almas e outras +existencias;―aquella porção de +<em>elemento divino</em> +que é dado á frágil humanidade +realisar e encarnar +em si bem raras vezes. +<br /> + +<br /> + +São estas almas superiores as eternas bemfeitoras +da nossa raça imperfeita, tão grande +pelo que sonha, tão mesquinha pelo que consegue +executar. +<br /> + +<br /> + +<em>As origens da poesia latina +christã</em>, que +compõem o livro 4.º, no segundo volume, +são +tambem cheias de interesse e novidade para +quem não está costumado―e quem o está +hoje em dia?―a versar tão remotos assumptos! +<br /> + +<br /> + +A litteratura christã nasceu como já dissemos +da mistura que se fez durante tres seculos +da antiguidade profana e do christianismo. +<br /> + +<br /> + +Aos que conhecem e apreciam a litteratura +dos grandes seculos da Grecia e de Roma, +deve incontestavelmente parecer mediocre, +quasi insupportavel, essa rude e incorrecta litteratura, +onde o melhor era imitado ainda assim, +<span class="pagenum">[154]</span> +com inconsciente impudor, dos modelos +antigos. +<br /> + +<br /> + +Mas muito embora ella não tenha valor litterario, +ninguem póde negar-lhe um grande +valor historico. +<br /> + +<br /> + +O grande abalo moral que o Christianismo +imprimira ás almas não tem comtudo, um +éco +que lhe corresponda na poesia d'este tempo. +<br /> + +<br /> + +Era muito imperfeito o instrumento d'essa +lingua latina em dissolução na qual tantos +povos varios tinham introduzido as suas locuções +barbaras, e que manejada por humildes +artifices ignorantes as mais das vezes, perdera +o sabor e a graça ampla e perfeita da +aurea latinidade. +<br /> + +<br /> + +Não póde pois ser classificada como uma +obra de litteratura, a serie de escriptos, que +essa era,―no entretanto fecunda e na qual +se estavam surdamente e subterraneamente +elaborando tantos elementos novos―produziu +e nos legou. +<br /> + +<br /> + +N'esse tempo cumpria-se justamente um dos +maiores acontecimentos da Historia. +<br /> + +<br /> + +O mundo estava sendo revolvido até ás +suas entranhas mais profundas. +<br /> + +<br /> + +Havia dramas intimos em cada consciencia, +<span class="pagenum">[155]</span> +parecidos com esse, de que Santo Agostinho +nos representa o mais elevado typo; havia +luctas dolorosas em cada familia; em uns +a sêde do martyrio tinha voluptuosidades +violentas; em outros a plenitude da paz religiosa +attingia uma especie de beatifico esplendor. +Que novas sensações de uma intensidade +inultrapassavel conheceram então as almas! +Que fontes de graça mysteriosa jorraram +subitamente n'esses renovados corações! +Os crentes elevaram o espirito n'um extase até +alli desconhecido. A vida eterna abria as portas +resplandecentes aos sequiosos do eterno <em>au +de lá</em>. Jesus Christo mostrava as chagas do +seu corpo, e os estygmas do seu martyrio affrontoso +aos que sentiam subir na alma como +uma maré mysteriosa, o novo sentimento do +amor, a divina emoção da piedade fraternal, +que subito fizera todos os homens irmãos, e +todos os irmãos soffrendo a partilha angustiosa +da mesma agonia! +<br /> + +<br /> + +O Evangelho revelava as suas lendas cheias +de graça, as suas parabolas de idyllica innocencia, +as suas lições de simples e ineffavel +bondade, aos saciados de uma civilisação +dissoluta +e abominavel! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[156]</span> +Todos tinham um quinhão n'aquella herança +preciosa! +<br /> + +<br /> + +Para todos havia pão e vinho n'aquella ceia +symbolica, em que as almas rejuvenescidas por +um sopro de amor commungavam maravilhadas! +<br /> + +<br /> + +Não é, porém, na litteratura, mesmo +nos +mais rudes ensaios da litteratura christã do +tempo, que este mundo de emoções novas tem +o seu perduravel reflexo. +<br /> + +<br /> + +A alma do povo, na sua fecundidade prodigiosa, +desatou-se, abalada por este impulso +que a transfigurava e sacudia, em idéas, em +typos, em imagens, em lendas, que a Arte +Christã em todos os seus periodos tem largamente +aproveitado. Em dois seculos, do segundo +ao quarto seculo, a imaginação christã +elaborou e amontoou thesouros que enriqueceram +o mundo moderno. +<br /> + +<br /> + +Os evangelhos apocryphos gerados espontaneamente +pela alma popular, no tempo do +christianismo primitivo, são os thesouros mais +ricos em que essa imaginação se desentranhou. +<br /> + +<br /> + +A mais doce, a mais imaginosa poesia do +christianismo encontra-se alli. Todas as lendas +<span class="pagenum">[157]</span> +que fizeram o encanto da nossa infancia, +e que emballaram tambem com o seu rythmo +dulcissimo a risonha infancia da alma moderna, +são tiradas d'essa poesia anonyma, em +que todas os almas collaboraram em um enleio +religioso, e em uma fé palpitante e suggestiva, +inconsciente dos prodigios que creava. +<br /> + +<br /> + +Essa é que é a verdadeira litteratura +christã, +aquella em que as forças espontaneas que geram +os mythos e os adornam com todas as flores +da mais variada poesia, se revelam com +encantadora eloquencia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Passando em claro os capitulos consagrados +a S. Paulino de Nola, um santo gaulez que +inspira uma sympathia patriotica a Gaston +Boissier; o capitulo que tracta da vida e das +obras do poeta Prudencio; e muitos outros +que estão cheios de revelações sobre a +quadra +que descrevem, e em que nós os leitores +podemos reconstituir com intenso colorido +esse seculo estranho, em que um periodo da +Historia da humanidade findava e outro principia +a destacar-se nitidamente―paremos +<span class="pagenum">[158]</span> +deante do <em>Livro quinto</em> do 2.º vol. +que tem +este titulo que é só por si um regalo para os +<em>gulosos</em> de taes estudos: +<em>A sociedade pagã nos +fins do seculo IV</em>. +<br /> + +<br /> + +Mas percebo agora que cheguei ao fim do +espaço de que posso dispôr. E este capitulo de +costumes,―em que uma sociedade aristocrata, +culta, amiga das lettras, fastienta até ao requinte, +frivola até á dissipação, +muito occupada +de elegancias mundanas, de convenções e +de cerimonias, muito sceptica, separada por um +abysmo do mundo moderno cujos representantes +eram justamente os que compunham a seita +que ella teimava a desprezar como plebeia, +humilde e ignorante, mesmo depois de fazerem +parte d'ella homens de valor moral de +Agostinho,―este capitulo, digo em que uma +sociedade tão parecida com a nossa com os +mesmos preconceitos, com os mesmos vicios, +com a mesma despreoccupação do perigo +está +posta de pé, com admiravel vigor, precisa de +um artigo especial que muito proximamente +lhe consagrarei. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>III +</h4> + +<br /> + +O methodo de Gaston de Boissier é, com algumas +<span class="pagenum">[159]</span> +modificações secundarias, o methodo de +Taine. +<br /> + +<br /> + +Para penetrar uma sociedade, o erudito escriptor +estudou a sua litteratura. Para comprehender +bem a litteratura de um dado periodo +elle procura conhecer e investigar cuidadosamente +a vida dos seus escriptores. Cada typo +representativo―<em>representative man</em>, +dizem +os inglezes―dá-lhe o segredo das idéas, dos +sentimentos que predominavam em uma determinada +época. +<br /> + +<br /> + +Assim para dar a conhecer aos seus leitores a +alta sociedade romana do quarto seculo, Gaston +Boissier vae lêr e faz-nos lêr a nós as +cartas +de Aurelio Symmachus―personagem de que +muitos dos seus leitores e dos leitores benevolos +d'este estudo, encurralados na extrema +especialisação +da educação moderna, nunca de +certo ouviram falar. +<br /> + +<br /> + +Todos sabem, que as cartas de Plinio, o +moço, e as cartas de Cicero lançam uma grande +luz sobre a sociedade da sua época, e concorreram +como documentos admiraveis para que +a moderna critica, tão erudita e tão +comprehensiva, +reconstituisse através d'ellas a alma da +Antiguidade. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[160]</span> +Pois Gaston Boissier pede ás cartas muito +menos caracteristicas de Symmachus o mesmo +impagavel serviço. +<br /> + +<br /> + +N'aquelle tempo, tão proximo da hora em +que Alarico viria bater ás portas de Roma, +ninguem percebe a imminencia do perigo que +ameaçava a sociedade antiga. +<br /> + +<br /> + +Symmachus occupa-se muito pouco dos negocios +publicos; acha-os, ou «nullos ou de pequena +importancia.» +<br /> + +<br /> + +Quem lê as correspondencias, aliás adoraveis +dos grandes amadores da +<em>epistolographia</em> +no seculo XVIII, tambem não percebe n'ellas +o minimo rebate dos perigos que ameaçam o +regimen que ia esboroar-se em sangue e em violencias +tremendas. Nem o proprio Voltaire, tão +agudo de intelligencia, tão perspicaz, tão +penetrante, +e que tão activamente collaborára na +propaganda a que se deveu a Revolução, percebe +levemente a responsabilidade que assumia, +e as tempestades que elle creára com a +sua palavra de fogo. +<br /> + +<br /> + +Nas vesperas das grandes crises que iam +transfigurar o mundo, occupam-se todos de galantarias, +de ditos graciosos, de versinhos bem +<span class="pagenum">[161]</span> +feitos, de anecdotas de velado escandalo, de intrigas +de amor ou de ambição. +<br /> + +<br /> + +Quem presente sequer que Danton vai trovejar +e que Robespierre vai sorrir sinistramente +e que d'esse trovão e d'esse sorriso vai +surgir um mundo novo? +<br /> + +<br /> + +Tambem hoje, um seculo depois da Revolução, +quando, feitas todas as conquistas politicas, +a alma inquieta, e nunca satisfeita, do homem +reclama imperiosamente a solução prompta, radical +do terrivel problema da miseria―quem +é que percebe nos salões de Paris, de Londres, +de Nova-York e de Berlim que a terrivel +liquidação está a chegar, e que uma +era +tenebrosa de anarchia e de lagrimas, de ruinas +e sangue espera porventura os que teimarem +em viver muito? +<br /> + +<br /> + +É da lei das sociedades não perceberem nunca +claramente as transformações que se +estão +elaborando no proprio seio d'ellas. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Como quer que seja, a verdade é que o +grande senhor romano, cujas cartas nos interessam +n'este momento, se não preoccupa absolutamente +<span class="pagenum">[162]</span> +nada com os negocios do Imperio. +Comquanto no seu tempo o Senado seja ainda +um corpo importante, elle perdeu comtudo o +seu antigo esplendor. +<br /> + +<br /> + +Os Senadores deixaram de ser grandes e +poderosos magistrados, mas conservam-se uma +classe activa, eminentemente aristocratica, impondo, +ja se vê, a moda e dominando os costumes. +<br /> + +<br /> + +É justamente a transformação que se +opera +na aristocracia europêa, entre o fim do seculo +XVII e o principio do seculo XVIII. Occupam grandes +cargos honorarios na côrte imperial, como +os fidalgos francezes de que nos fala Saint-Simon―e +dominam―o que tambem frequentemente +lhes succedia a elles―na administração +interna das provincias romanas. +<br /> + +<br /> + +Um dos encargos e das honras, que estes +ultimos teem e conservam zelosamente, consiste +no caro privilegio de dar jogos publicos +ao povo. O <em>pão</em> e +<em>espectaculos</em>, de que fala Juvenal, +continuam a ser até á final +dissolução +do Imperio, as unicas necessidades da plebe romana. +Muitas cartas de Symmachus, que era +conservador das tradições antigas, tratam +exclusivamente +de encommendas de feras e de +<span class="pagenum">[163]</span> +animaes, feitas aos amigos que elle tinha em +todo o mundo. +<br /> + +<br /> + +Na occasião de investir da pretura o seu filho +primogenito gastou elle uma somma equivalente +a dois milhões de francos. +<br /> + +<br /> + +Para todos os lados manda emissarios encarregados +de lhe trazerem artistas de merito, +bichos raros, ornamentos estranhos, sumptuosos +e imprevistos, com que elle possa deslumbrar +os olhos da plebe e manter a sua popularidade. +<br /> + +<br /> + +N'este ponto não podemos accrescentar que +o mundo moderno tenha similhanças com a +sociedade antiga. Entre as nossas eleições +constitucionaes e estas festas populares com +que se comprava o affecto do povo, a differença +não é realmente tão pequena como isso. +<br /> + +<br /> + +Os modestos banquetes, com que entre nós +o eleito obsequeia os seus eleitores não se parecem +lá muito com esses prodigiosos espectaculos +em que sómente para lhe agradarem a +elle, ao povo-rei, senadores como Symmachus +mandavam vir ursos do norte, leões da Africa, +cães da Escocia, crocodilos do Nilo,―d'esse +<em>verde</em> Nilo, de que Cleopatra +fôra a serpente +lasciva,―cavallos de Hespanha, comicos da Grecia, +<span class="pagenum">[164]</span> +gladiadores saxões, mimicos, cocheiros, +de Byzancio, o inferno!... Todo o mundo, então +conhecido, contribuia para o prazer cruel +d'esse povo insolente! +<br /> + +<br /> + +Eis um traço de costumes que demonstra, +mais que mil dissertações a distancia moral +que nos separa dos homens d'esse tempo, ainda +mesmo dos melhores: +<br /> + +<br /> + +Symmachus, para essa festa monumental, +mandára vir como gladiadores os prisioneiros +saxonios, raça valente, sobre a qual contava +para o pleno successo do espectaculo. Pois na +vespera vinte e nove d'esses homens de bravo +coração, não querendo servir para os +prazeres +do povo romano, estrangularam-se uns aos +outros, no carcere em que os guardavam. +<br /> + +<br /> + +Symmachus, que era um bom homem, um +homem culto, que conhecia a philosophia e a +litteratura antiga, que sabia, emfim, tudo que +sabia o seu tempo, longe de perceber a selvagem +grandeza d'este acto heroico, enfureceu-se +contra os desgraçados, e exclamou de muito +boa fé: «Não quero que me falem mais +d'esses +miseraveis, que são ainda mais perversos que +<em>Spartacus</em>.» +<br /> + +<br /> + +E esta exclamação de ingenua crueldade, +<span class="pagenum">[165]</span> +vale mais que uma longa analyse do caracter +e da sensibilidade antigos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O modo externo de viver em Roma differe +pouco do já conhecido pelas Cartas de Plinio. +As regras de civilidade social têem-se, porém, +complicado ainda mais. O tempo nas altas classes +passa-se a fazer e a receber visitas, a assistir +a cerimonias mundanas, taes como casamentos, +investidura da tunica viril, conselhos +de familia, etc., etc. +<br /> + +<br /> + +A paixão das lettras é universal na sociedade +elegante―tal como no nosso seculo XVIII. +Os grandes e graves personagens do tempo +passam a vida a trocar entre si versinhos mais +ou menos chôchos e a cumprimentarem-se com +effusão pelos seus talentos litterarios. +<br /> + +<br /> + +Roma acolhe os litteratos estrangeiros sob +o reinado de Theodosio, como o fazia no tempo +de Trajano. Os mais illustres escrevem e +applaudem quem escreve, e, como no tempo +dos Medicis em Florença―os quaes, já se +entende, tratavam de imitar a antiguidade―ha +<span class="pagenum">[166]</span> +banquetes em que se leva a noite a discutir +doutamente theorias scientificas e litterarias. +<br /> + +<br /> + +A classe alta possue grandes riquezas. O +nosso Symmachus, um dos menos ricos, tem +tres casas em Roma e quinze <em>villas</em> +nas mais +bellas regiões da Italia. Não se excede em luxo, +em graça voluptuosa, em douta cultura, em +elegancia magnifica, a vida d'essa classe privilegiada, +cujos avós tinham conquistado o +mundo e que tratava agora de lhe gosar em +paz as infinitas delicias. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Não se imagine, porém, que só a +sociedade +pagã estava contaminada d'este egoismo, d'esta +preguiça epicurista, d'esta artistica e sumptuosa +indolencia. S. Jeronymo, que tambem, antes +de convertido, tinha saboreado o gosto d'esta +vida ostentosa e anesthesiante, que tambem conversára +com as mulheres de espirito, lêra avidamente +os deliciosos poetas pagãos, bebêra +emfim até á embriaguez essas «delicias +de Roma» +contra as quaes se revoltava depois, é o +<span class="pagenum">[167]</span> +proprio que nos conta o modo porque os ociosos +e os ricos de <em>ambos os cultos</em> +passavam a +existencia. +<br /> + +<br /> + +«Em que se passa o tempo na grande cidade? +pergunta elle, em uma das suas cartas. +Em ver e ser visto, em receber visitas e fazêl-as. +Em louvar os presentes, e dizer mal +dos ausentes. Começa a conversação e +não ha +meios de acabar. +<br /> + +<br /> + +«Contam-se historias escandalosas. Morde-se +e é-se mordido. Dilacera-se quem não +está, e +adula-se quem ouve.» +<br /> + +<br /> + +Não parece a descripção de uma sala do +nosso tempo? +<br /> + +<br /> + +Querem vêr agora o retrato de um abbade +da Regencia? +<br /> + +<br /> + +«Levanta-se muito cedo e regula desde logo +a ordem das suas visitas. Procura o caminho +mais curto, e vai surprehender, ao sahir do +leito as damas que pretende visitar. Repara, +porventura, em uma almofada, em uma toalha +elegante, em algum objecto d'esta ordem. Apalpa-o, +admira-o, lamenta-se de não possuir +nada egual, e tanto faz, que acaba por conseguir +que lhe façam presente d'elle. +<br /> + +<br /> + +«Onde quer que a gente vá, é a primeira +<span class="pagenum">[168]</span> +pessoa que encontra; sabe todas as noticias; +corre a divulgal-as antes de ninguem; inventa-as +quando lhe faltam verdadeiras, e, em +todo o caso, aformosêa-as com incidentes novos +em cada vez que as conta.» +<br /> + +<br /> + +Pois este abbadesinho galante, este joven +padre parasita e lisongeiro, não é tal da +Regencia +como eu lhes disse. É de Roma no +tempo de S. Jeronymo e é elle quem o descreve, +com este ironico vigor, com esta agudeza +espirituosa em uma das suas +<em>Epistolas</em>! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +A differença exterior entre esta +civilisação e +a nossa é bem grande; os caracteres divergem +extraordinariamente em resultado da distancia +que vai da moral antiga á moral moderna; o +elemento da <em>caridade</em>, essa base +fundamental +do christianismo, ainda apezar de enunciado e +de prégado pelos seus apostolos não +penetrára +profundamente nas almas, que a religião +antiga affeiçoára e modelára―mas +apesar de +tudo isso, quantos quadros d'esse tempo que +parecem copiados do tempo actual; quantas +<span class="pagenum">[169]</span> +figuras d'essa época que vemos reproduzidas +na nossa; quantas paixões então dominantes, +que a moral da egreja, que o sentimento religioso +mais desenvolvido e mais educado, que +a philosophia moderna mais piedosa e mais +humana, não conseguiram ainda amordaçar. +<br /> + +<br /> + +Como essa sociedade que tripudiava no luxo +colossal e na ostentosa e deslumbrante magnificencia―esquecida +ou despreoccupada dos +perigos que a ameaçavam,―assim a nossa sociedade +de hoje, tendo attingido um gráu de +civilisação +e de riqueza material differente, mas +não inferior ás de Roma, se estonteia no gozo +egoista de todos os prazeres, e no estadear cynico +de todos os vicios, sem presentir que uma +seita, tão tenaz como a christã, e menos pacifica +e menos espiritualista do que ella, tão capaz +de abnegações heroicas e de sacrificios sublimes, +e não tendo como ella o seu fim exclusivo +no Reino dos Céos, no Reino que não +é d'este mundo, avança subterraneamente, +recrutando-se nas minas onde não ha luz, nas +fabricas onde não ha Deus, nas officinas onde +o trabalho é uma ignominia, nas trapeiras miseraveis +onde as creanças agonisam com fome +entre as blasphemias desesperadas dos pais, +<span class="pagenum">[170]</span> +nas enxovias immundas onde o ar falta e onde +a desesperança brama sinistramente―e se prepara +energica e sombria para o definitivo assalto +que ha de render a velha sociedade apodrecida! +<br /> + +<br /> + +O que queriam―não esses christãos degenerados +e contagiados pelo paganismo de que +fala com amargo despreso S. Jeronymo―mas +os grandes christãos que sacrificavam e oravam +nas catacumbas, que morriam nos amphiteatros +e que escreviam com o sangue do +coração os seus rudes hymnos de +adoração e +de fé? +<br /> + +<br /> + +Queriam o desmoronamento total d'esse imperio +que era a somma do todas as iniquidades +pagãs, que era a escravidão do miseravel +e a apotheose do mau rico! +<br /> + +<br /> + +O que quer hoje o socialismo triumphante? +<br /> + +<br /> + +A morte d'esta sociedade, cujo esplendor maravilhoso +se faz com o sangue, e as lagrimas do +miseravel, do, como nunca, miseravel proletario! +<br /> + +<br /> + +Não é verdade que esta similhança +basta para +dar ao livro um intenso e profundo interesse? +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><br /> + +Anthero de Quental +</h3> + +<h4><span class="smallcaps">a obra e a sua morte</span> +</h4> + +<br /> + +<h4>I +</h4> + +<br /> + +Hesito em falar ainda de Anthero de Quental! +Succedeu um tão silencioso esquecimento +ao pasmo, ao sobresalto da primeira +noticia do seu suicidio!... E no emtanto, se +havia physionomia complexa, suggestiva, capaz +de interessar e de captivar o nosso espirito +era a d'este poeta de tão requintada e +extrema delicadeza de inspiração e de +pensamentos. +<br /> + +<br /> + +A primeira impressão que recebi da sua +morte, foi tão violenta e dolorosa que em vão +tentei traduzil-a em palavras, ou mettel-a no +<span class="pagenum">[172]</span> +molde imperfeito e rude de uma apreciação +critica qualquer. +<br /> + +<br /> + +É hoje sómente, depois de volvido um mez +ou mais sobre esse suicidio, que devia enluctar +as lettras portuguezas, que eu me atrevo a +conversar com os leitores a respeito d'elle. +<br /> + +<br /> + +O livro dos <em>Sonetos</em>, saudado na sua +primeira +apparição com sincero e quasi religioso +enthusiasmo, póde considerar-se como a completa +confissão d'aquella alma combalida, que +procurou na Morte o extremo refugio contra +as luctas asperas do Pensamento, contra as +chimeras perseguidoras da Imaginação. +<br /> + +<br /> + +Se o considerarmos do ponto de vista pratico +e material, d'onde a maior parte da gente +se colloca para julgar os homens e as cousas, +Anthero não era realmente um infeliz. +<br /> + +<br /> + +Tinha, pelo contrario, mil predicados, mil +qualidades invejaveis. +<br /> + +<br /> + +Tinha, primeiro de tudo, um superior e bello +talento incontestado; tinha a sufficiente abastança +para <em>não precisar viver +d'elle</em>―o que +eu pelo menos considero o maior dos bens―tinha +a adoração dos amigos (que lhe chamavam +<em>Santo Anthero</em>), o respeito dos +estranhos, +a par de uma consciencia immaculada +<span class="pagenum">[173]</span> +que no exercicio do bem encontrava permanente +e ineffavel consolo; tivera até na mocidade +o raro dom de uma belleza de Christo, +espiritual, meiga e serena. +<br /> + +<br /> + +E, comtudo, apezar de tantas circumstancias +que se reuniam para dever tornar-lhe doce a +vida, depois da leitura d'aquelles +<em>sonetos</em> magistraes, +em que tão requintadas amarguras e +tão estranhos supplicios se crystallisavam, por +assim dizer, em perolas maravilhosas, não havia +leitor que não sentisse esta +interrogação +desabrochar-lhe nos labios: onde é que este +homem tão tranquillamente e tão lucidamente +desesperado encontra a força de continuar a +viver? +<br /> + +<br /> + +O suicidio do grande poeta responde agora, +lugubre, mas coherente, terrivel mas logico, +á irresistivel pergunta. +<br /> + +<br /> + +O pessimismo de Anthero não era, como +a maior parte dos que nós por ahi conhecemos, +um pessimismo pessoal, egoista, limitado +ás contradicções e ás +tristezas do seu proprio +destino. +<br /> + +<br /> + +Era um pessimismo philosophico, como o de +Leopardi, como o de Schopenhauer, como o +de Leconte de Lisle. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[174]</span> +A sua concepção da vida, tão triste +que faz +horror e espanto, traduz-se no soneto: <em>A Divina +Comedia</em>, em que elle figura os homens +erguendo para os remotos céus os braços +desesperados +e apostrophando esses deuses que +só produziram a Dôr, a Paixão, o +Peccado, +as Illusões, as luctas fratricidas. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry">«Pois não era +melhor na paz clemente<br /> + +Do nada e do que ainda não existe<br /> + +Ter ficado a dormir eternamente? +<br /> + +<br /> + +Porque é que para a dôr nos evocastes?»<br /> + +Mas os deuses com voz ainda mais triste,<br /> + +Dizem:―«Homens! porque é que nos +criastes?»</div> + +<br /> + +<br /> + +A Morte, não sob uma fórma repellente e +odiosa, mas attrahente como esphynge, perturbante +e voluptuosa como sereia que vem +cantar a sua cantilena de seducção á +flôr das +aguas de um verde glauco, a Morte, revestida +de um mysterioso encanto subjugador e estranho, +paira por sobre todas os paginas d'este +livro, impregnando-as de subtil e contagiosa +tristeza. +<br /> + +<br /> + +Dir-se-hia que os <em>sonetos</em> lhe +são quasi inteiramente +consagrados. É a <em>ella</em> que +elle vê +<span class="pagenum">[175]</span> +sempre, chamando-o, chamando-o baixinho, +entontecendo-o com as promessas do seu silencio +eterno, da sua paz profunda e vasta, do +seu mysterio que ninguem soube ainda violar. +<br /> + +<br /> + +Anthero pensára tanto que o cérebro esgotado +pedia emfim misericordia. A sua ambição +não fôra de vãs glorias, nem +vãos triumphos; +quizera levantar uma ponta d'esse véo que +esconde a eterna Verdade, além da qual tantas +gerações humanas têem sonhado com +alguma cousa de inextinguivel e de eterno. +<br /> + +<br /> + +E essa agonia intellectual que o dilacerou +exprime-se em todos os seus versos, com uma +potencia maravilhosa, e uma energia devoradora +que acabou por consumil-o! +<br /> + +<br /> + +<em>A illusão, o vasio +universal</em>, que encarava +ao sahir das suas vertiginosas contemplações +metaphysicas, faziam-n'o recuar pavido e tremente. +A vida não lhe dava o que elle queria; +para áquem d'esse vasto mundo invisivel que +a sua alma de sonhador presentia e pelo qual +ella anciava, nada havia que lhe satisfizesse a +sêde ideal. Por isso Anthero, fugindo voluntariamente +d'elle, foi buscar a sua amiga de +todas as horas, aquella que podia entregar-lhe +<span class="pagenum">[176]</span> +a chave do eterno enygma que o desesperava; a +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>«Morte! +irmã do Amor e da +Verdade»</em> +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +A proposito do suicidio de Anthero, falou-se +muito de tres suicidios tambem famosos que +o precederam; mas realmente, a não ser pela +notoriedade que os assignala, eu não sei que +elles tenham comparação com o d'este poeta. +Nem Camillo, nem Julio Cesar Machado +nem Soares dos Reis se mataram pelos motivos +transcendentes que actuáram no animo +de Anthero de Quental. +<br /> + +<br /> + +Os tres mataram-se porque soffriam mais +do que é dado aos seres humanos soffrer sem +procurarem no anniquilamento a paz invocada +entre supplicios. +<br /> + +<br /> + +Um d'elles, Camillo, artista de nervos exasperados +pela cegueira, temperamento de hysterico +para o qual a resignação era uma virtude +impossivel, matou-se para fugir ás trevas +densas de uma lobrega morte em que se sentia +perdido! +<br /> + +<br /> + +Julio Cesar Machado matou-se porque, no +<span class="pagenum">[177]</span> +meio do mundo hostil que não satisfizera nenhuma +das ambições da sua pobre alma delicada +e sonhadora, elle concentrava as affeições +todas do seu coração, os ultimos sonhos +da sua phantasia, a esperança, a suprema gloria, +no amor de um filho que se suicidára +com 19 annos!―deixando-o só. O infeliz enlouqueceu +e matou-se tambem... +<br /> + +<br /> + +Sobre a morte de Soares dos Reis paira +uma sombra de mysterio. Quem sabe que luctas +intimas, que drama de paixão intensa e +dolorosa esse suicidio não veio rematar! +<br /> + +<br /> + +A morte de Anthero obedeceu a outro genero +de impulsos. Não digo que para ella não +concorresse tambem o estado de miseria moral +e de anarchia mental em que via a sua +patria (da qual havia pouco elle tinha porventura +esperado qualquer acto de energica reacção +contra o destino), mas a sua dôr era uma +d'estas dôres de ordem aristocratica e rara, +que não se originam como as da maioria dos +homens no coração, mas que emanam do espirito +cançado de cogitar em vão no mysterio +impenetravel das cousas... +<br /> + +<br /> + +Querem vêr os espectros que enchiam de pavor +sagrado as suas noites? Ouvi este +<em>soneto</em> +<span class="pagenum">[178]</span> +que é, como todos os outros, pagina solta de +uma confissão intellectual complicada e dolorosa, +tal como um Pascal ou um Amiel a escreveram +tambem cada um, já se vê, na sua +respectiva esphera, um nos seus immortaes +<em>Pensamentos</em>, outro no seu +<em>jornal</em> tão caracteristico +e tão pouco comprehendido: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3"> +Espectros que velais emquanto a custo<br /> + +Adormeço um momento, e que inclinados<br /> + +Sobre os meus somnos curtos e cançados<br /> + +Me encheis as noites de agonia e susto!... +<br /> + +<br /> + +De que me vale a mim ser puro e justo,<br /> + +E entre combates sempre renovados,<br /> + +Disputar dia a dia á mão dos fados<br /> + +Uma parcella do saber augusto. +<br /> + +<br /> + +Se a minh'alma ha de vêr sobre si fitos<br /> + +Sempre esses olhos tragicos, malditos!<br /> + +Se até dormindo, com angustia immensa +<br /> + +<br /> + +Bem os sinto verter sobre o meu leito,<br /> + +Uma a uma, verter sobre o meu peito<br /> + +As lagrimas geladas da descrença! +</div> + +<br /> + +<br /> + +Foram estas as dôres que o mataram. A sua +consciencia não achava repouso em nenhuma +das concepções do Universo em que +alternativamente +tentava acolher-se. +<br /> + +<br /> + +Ora, dirigindo-se á meiga Virgem do Catholicismo +<span class="pagenum">[179]</span> +elle a invocava com infantil simplicidade; +ora punha na <em>mão direita</em> +de Deus o +seu coração cançado, e lhe ordenava +que alli +<em>dormisse eternamente</em>; ora achava que +a Duvida +tinha soprado sobre o mundo <em>um vento +de ruina e de morte</em>, que tudo emmurchecêra, +que tudo apagára, deixando apenas uma humilde +e mysteriosa flôr desabrochar a medo no +fundo da consciencia humana. +<br /> + +<br /> + +Aspirava ao <em>nirvâna</em>, +á paz inconsciente; +queria cahir n'aquelle <em>vacuo +tenebroso</em> onde na +<em>immobilidade indefinida termina o ser inerte, +ocioso</em>; e ao mesmo tempo a comprehensão +atavica da eternidade catholica torturava-lhe +em horas de lucta o inquieto espirito. +<br /> + +<br /> + +Que aspiração intensa ao ideal, a d'este formoso +espirito alado! Que sublimes tormentos +os seus, procurando sem descanço a verdade +e a luz!... +<br /> + +<br /> + +Mas sempre, em todas as phases d'esta interna +lucta que talvez fizesse sorrir alguns dos +leitores dos <em>sonetos</em> emquanto o +suicidio do +poeta lhe não deu o seu fundo de lugubre realidade,―Anthero +chamou pela Morte, a invocou, +lhe sorriu, lhe deu os nomes mais bellos, +os mais doces, os mais apaixonados! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[180]</span> +D'elle se pôde dizer que foi <em>um amante da +Morte</em>, amante austero e triste, mas nem por +isso menos fervoroso e ardente +<br /> + +<br /> + +Por motivos inteiramente diversos dos seus, +tambem Santa Thereza, a apaixonada castelhana, +chamou a Morte com aquelles mesmos +arroubos de extase que nos surprehendem e nos +fazem estremecer a nós, pobres creaturas feitas +de carne melindrosa e fragil, a quem o +soffrimento repugna, e a sepultura com a +sua podridão infecta repelle formidavelmente. +<br /> + +<br /> + +Digam-me se ha em lingua alguma expressão +de dôr mais completa do que a d'este +<em>soneto</em> +a que Anthero pôz o titulo de +<em>Despondency</em> +por não achar em portuguez um termo +que rigorosamente correspondesse ao estado +de resignada e tranquilla desesperança que +elle traduz: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3"> +Deixal-a ir, a ave, a quem roubáram<br /> + +Ninho e filhos e tudo, sem piedade...<br /> + +Que a leve o ar sem fim da soledade<br /> + +Onde as azas partidas a levaram... +<br /> + +<br /> + +Deixal-a ir, á vella que arrojaram<br /> + +Os tufões pelo mar na escuridade,<br /> + +Quando a noite surgiu na immensidade,<br /> + +Quando os ventos do Sul se levantaram...</div> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p181" id="p181">[181]</a></span> +<div class="poetry3">Deixal-a ir a alma lastimosa,<br /> + +Que perdeu a paz e fé e confiança<br /> + +Á morte quêda, á morte silenciosa... +<br /> + +<br /> + +Deixal-a ir a nota desprendida<br /> + +De um canto extremo e a ultima esperança...<br /> + +E a vida... e o amor... deixal-a ir a vida! +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Não ha por tudo isto motivos para espanto +no suicidio de Anthero. Elle não era, como já +dissémos, um escriptor de officio, que de proposito +exacerbasse e cultivasse em si proprio +o desespero e as lagrimas, para as transformar +em rhetorica <em>livresca</em>; +não tinha tambem +um vão amor de gloria indesculpavel em quem +sondava com tão penetrante e lucido olhar o +vasio de todas essas chimeras, a ephemera +duração de tudo que é da terra... +<br /> + +<br /> + +Era uma alma sincera e torturada, que naturalmente +desafogava o seu sentir tanta vez +contradictorio e doentio, em versos de uma +magia dolorosa, de uma graça delicada e triste, +de uma profundidade de expressão inegualavel, +e n'esses versos só uma nota era <a href="#e12">constante</a>: +<em>o elogio da Morte</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[182]</span> +Invocou-a sempre, chamou por ella, coroou-a +de funebres flôres, supplicou-lhe que o accolhesse +no seu regaço frio, achando emfim que +depois do <em>mal de haver nascido</em> +não havia senão +um bem: tornar ao Nada. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>II +</h4> + +<br /> + +Quando o livro dos <em>Sonetos</em> appareceu +escrevi +eu um estudo sobre elles, que não +tinha, já se vê, outro merecimento além +de +uma sinceridade absoluta e de uma immensa +sympathia. +<br /> + +<br /> + +Lembra-me de que lamentava do fundo da alma +que o auctor d'essas bellas poesias tão raras +na nossa litteratura,―a qual como todas +as litteraturas meridionaes não pecca pelo +<em>excesso +de pensamento</em>―tivesse consummido a +vida, que tão bellas cousas podia dar-lhe, mettido +em si mesmo, n'aquella especie de meditação +<span class="pagenum">[184]</span> +allucinada que se traduzia, é verdade, +em versos magnificos, mas versos que eram, +como as perolas, productos de uma dôr mortal. +<br /> + +<br /> + +E revoltava-me contra a solidão mental em +que Anthero se concentrára, contra as +hesitações +do seu querer, contra as fluctuações do +seu pensamento, contra o pessimismo bhuddico +da sua doutrina, contra tudo que fizera +d'elle um philosopho germanico, ou um sonhador +nebuloso e doente, e o separava da +vida, da vida que tem tantos risos no meio +das suas charnecas desoladas, ou dos seus +sarçaes cheios de espinhos e de reptis.... +<br /> + +<br /> + +Mesmo com o risco de parecer vaidosa, não +quero deixar de offerecer aos meus leitores, a +carta, até hoje <em>absolutamente +inedita</em>, que Anthero +de Quental me escreveu então, depois de +ter lido os meus artigos que se publicaram +primitivamente no <em>Jornal do +Commercio</em> de +Lisboa, e que hoje estão incluidos no volume +intitulado <em>Alguns homens do meu +tempo</em>. +<br /> + +<br /> + +Ahi vae a formosa e eloquente carta: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote">«Porto, 24 de dezembro.</div> + +<br /> + +<div class="signature"> +Minha Senhora</div> + +<br /> + +<br /> + +Agradeço-lhe muito os seus artigos no +<em>Jornal</em> +<span class="pagenum">[185]</span> +<em>do Commercio</em>, e creia V. que o +não +faço só por civilidade, ainda que não +é cousa +que se deva desdenhar <em>par le temps qui +court</em>. +Não lhe direi que me agradaram os seus artigos, +porque isso é o menos; dir-lhe-hei que +me commoveram. Ha n'elles uma sinceridade, +que me encantou, e um tom fraternal que me +foi direito ao coração, onde quero que +não +morra nunca a vibração d'essas palavras amigas. +Creio que V. se engana na apreciação que +fez das doutrinas chamadas (quanto a mim +impropriamente) <em>pessimistas</em> e nos +receios que +lhe inspiram as tendencias bhuddicas que começam +a manifestar-se por todos os lados, +em sociedades que attingiram o <em>nec plus +ultra</em> +da civilisação, ou em individuos que attingiram +o <em>nec plus ultra</em> do pensamento. +<br /> + +<br /> + +Tudo isso, é verdade, está ainda bastante +obscuro e confundido com elementos estranhos +e até contradictorios, e por isso me não admira +que não possa ainda ser apreciado sem grandes +apprehensões. O meu livrinho, apenas aqui +ou alli em meia duzia dos ultimos sonetos, fere +a nota exacta e sã, porque infelizmente morreu-me +o dom dos versos, precisamente quando +<span class="pagenum"><a name="p186" id="p186">[186]</a></span> +começava a pensar e a sentir alguma cousa +que realmente merecesse ser posta em verso. +<br /> + +<br /> + +Não podia elle, tão incompleto e obscuro, +justamente +onde mais cumpria que fosse claro e +amplo, dissipar aquellas apprehensões, antes +era natural que contribuisse para as radicar. +Mas a minha convicção é que taes +apprehensões +não são fundadas e que entre os sentimentos +naturaes e espontaneos do coração humano, +entre o seu ideal de justiça, de harmonia +e de belleza, e o ponto de vista ascetico do +Bhuddismo, não só não ha +contradicção verdadeira, +mas que, pelo contrario, é só n'essa esphera +que elles encontram a sua mais perfeita +expressão, libertos de muitas illusões e de +muitas imperfeições que lhe andam +forçosamente +misturadas, e attingem a plena consciencia do <a href="#e13">que</a> +são e para que são. E seria singular +com effeito que a doutrina, que entre todas, faz +consistir no Bem a verdade suprema da existencia +humana, pudesse collidir com aquelles +espontaneos impulsos da nossa natureza, que +não são, no fundo, senão +fórmas e momentos, +mais ou menos obscuros, mais ou menos incompletos +da nossa fundamental aspiração a +esse mesmo Bem! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p187" id="p187">[187]</a></span> +A, verdade é que a civilisação moderna +chegou, +no seculo actual, como a civilisação antiga, +no periodo do <a href="#e14">Imperio Romano</a>, +a um ponto +em que, sob pena de completa ruina, o problema +metaphysico-psychologico tem de ser +sondado a uma profundidade desusada e proporcional +ao gráu superior da mesma civilisação. +<br /> + +<br /> + +Hoje, como então, as questões +metaphysico-psychologicas +são a chave de todas as outras +questões porque, tendo o proprio progresso +das instituições e das idéas arruinado +os antigos +alicerces moraes da sociedade, a grande +questão, a questão vital e inadiavel +não é já a +do aperfeiçoamento das instituições +nem do +augmento dos conhecimentos, mas a da organisação +theorica e pratica da vida moral, a +creação da ordem nas consciencias, em uma +palavra a remodelação do <em>homem +interior</em>, sem +o qual o outro homem, da sociedada e da vida +pratica, por forte e sabio que pareça é mais +miseravel que o escravo mais embrutecido. +<br /> + +<br /> + +O progresso gigantesco do naturalismo, filho +de uma civilisação poderosa e complexa como +nenhuma, só poderá ser equilibrado por um +progresso equivalente do ascetismo. Sem esse +<span class="pagenum">[188]</span> +equilibrio a sociedade moderna, que já hoje +nos causa mais terror do que admiração, +poderá +continuar ainda por algum tempo de poderosa, +tornada formidavel, e, de formidavel, +bestial: mas o homem, o verdadeiro homem, +isto é, o homem moral, terá morrido: e morto +elle, tudo cahirá, por que só elle sustenta a +grande mólle social. A sociedade é, antes de +tudo, um facto de ordem moral. +<br /> + +<br /> + +Mas não continuo com estas reflexões, porque +desejo fazer d'ellas o assumpto de um escripto, +até a certo ponto em resposta aos artigos +de V. e que publicarei em fórma de carta, +se V. levar isso a bem. +<br /> + +<br /> + +E termino, minha senhora, pedindo a V, +que me consinta assignar-me d'aqui em diante, +como realmente sou, seu muito amigo.―<em>Anthero +de Quental</em>» +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Esta carta tão bella na fórma, e tão +profunda +no pensamento, apresenta porém a +contradicção +fundamental a que Anthero succumbiu. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[189]</span> +O ascetismo é a contemplação mais +inerte: +o Bem demanda a actividade mais incansavel, +o esforço mais tenaz. +<br /> + +<br /> + +Como conciliar estes dois termos oppostos? +Se para o extatico e contemplativo pensador +a quem o <em>nirvana</em> sorri como o +supremo fim +da sua ascensão ideal, cada homem não +é +mais do que um momento que toma consciencia +de si e logo passa, aquelle que na terra +procura o Bem e tenta pelo seu esforço creal-o, +sabe que se dissolvem as fórmas em que a +consciencia se encarna, mas que ella, a sublime +chamma não se apaga jámais... Nós os +passageiros de um dia que conseguimos por +instantes guardal-a no nosso seio mortal, passamos +rapidos sim, mas não antes de a transmittirmos +áquelles que nos succedem sempre +mais pura, e sempre mais intensa... +<br /> + +<br /> + +O patrimonio real da humanidade é este: +por este lhe vale a pena padecer e luctar. Este +não morre com as pobres gerações que +se succedem +como as folhas das arvores, como as +ondas do mar... +<br /> + +<br /> + +Não é pelo Buddhismo antigo, ou pela ascetica +renuncia aos bens reaes da vida que a sociedade +tem de salvar-se. É pelo exercicio +<span class="pagenum"><a name="p190" id="p190">[190]</a></span> +activo das suas energias espontaneas, é pela fé +na sua missão do bem, na sua ascensão a qualquer +eminencia moral, que ella ainda não antevê +de longe, mas que existe decerto, mas que +deve existir, ou este instincto de progresso a +que obedecemos, seria mais uma ironia atroz +entre outras tantas!... +<br /> + +<br /> + +A prova de que esse ascetismo a que Anthero +recorre na sua bella carta é esteril, é +que elle, querendo salvar por este modo a sua +clara consciencia e o seu espirito genial, veiu +acabar na morte voluntaria, no suicidio banal +dos vencidos e dos fracos! +<br /> + +<br /> + +Infelizmente era eu, tão mesquinha, e não +elle, tão grande, que tinha razão, e essa +razão, +foi o seu acto extremo que m'a veiu dar. +<br /> + +<br /> + +Ninguem pensára mais alto e mais justo que +esse homem de uma consciencia tão delicada, +de uma penetração philosophica tão +subtil, e cujo +entendimento parecia talhado para as mais elevadas +especulações da metaphysica e da psychologia. +<br /> + +<br /> + +E no emtanto elle não <a href="#e15">achou</a> +outra +resolução +ao problema que está presentemente posto +deante dos olhos das sociedades extra-civilisadas +<span class="pagenum">[191]</span> +e dos individuos que pensam intensamente, +senão a do suicidio silencioso. +<br /> + +<br /> + +É profundamente desoladora a phase do espirito +humano que, de vez em quando, se manifesta +em factos como este. +<br /> + +<br /> + +Como escapar a este estado de descrença +absoluta em qualquer destino ulterior da nossa +especie? Retroceder á boa Natureza, á primitiva +ignorancia dos simples, como manda +Tolstoi? Mas em primeiro logar a natureza +não é boa, depois, quem +<em>sabe</em> póde porventura, +e só por effeito da sua vontade começar +de um dia para o outro a <em>ignorar</em>?... +<br /> + +<br /> + +Cada sociedade que chega ao extremo da sua +civilisação particular, o que, exaltando de um +lado o orgulho natural do homem, produz por +outro, no espirito d'elle, uma irritação doentia, +uma penosa desesperação resultante dos limites +que este acha sempre á sua curiosidade +transcendente―cada sociedade que attinge esta +perigosa eminencia, está por esse mesmo +facto, muito proxima da sua fatal degeneração. +<br /> + +<br /> + +Nenhuma civilisação se elevou mais alto nas +abstracções do pensamento, nos arrojos da +metaphysica do que esse Bhuddismo em que +<span class="pagenum">[192]</span> +Anthero de Quental tentava encontrar a suprema +paz da consciencia humana. E o que +tem elle produzido senão resultados negativos, +e allucinações doentias? A +civilisação antiga, +grega e romana, procurou resolver o problema +do destino do homem divinisando-lhe as paixões, +e fazendo a permanente apotheose da +força. E todos sabem em que agonia vasquejante +o mundo antigo se diluiu. A Edade Media +teve uma comprehensão harmonica e grandiosa +da vida e do destino humano, mas tanto +exigiu do espirito e tão pouco pensou na fatal +realidade, que fez de cada organismo de homem +um anjo e um animal perpetuamente +identificados, e ao cabo do sublime esforço, +respondeu-lhe o retrocesso pagão da Renascença. +<br /> + +<br /> + +O mundo moderno quer achar na sciencia +a chave do todo o eterno enygma que até hoje +se conserva inviolado, a explicação do universal +mysterio que o envolve e penetra, a resolução +de todos os problemas complexos que se +têem accumulado deante do seu espirito em +dois ou tres mil annos de pensamento―e a +sciencia impotente, incompleta, desconsoladora +<span class="pagenum">[193]</span> +não tem agua que sacie a nossa sêde, +não +tem piedade que unja a nossa lenta agonia! +<br /> + +<br /> + +Os melhores abdicam ou pelo indifferentismo +inerte, ou pelo suicidio; que é ainda uma victoria +do espirito ultrajado sobre si mesmo! +<br /> + +<br /> + +E um véo de tristeza densa e plumbea envolve +este mundo enorme, agitado, convulso, +atravessado de fios electricos que em minutos +transmittem de um ao outro dos seus extremos +o pensamento e a palavra; cortado de +locomotivas vertiginosas; abarrotado de riquezas +brutas; ebrio de orgulho material, de luxo +e de vaidade; persuadido de que é a +realisação +mais completa da felicidade e do triumpho +moral do homem; mas tremendo a cada abalo +subterraneo que revele quão minados estão +os seus alicerces e em que movediça areia assentam +os seus edificios de Babel! +<br /> + +<br /> + +Comtudo ha uma affirmação, no meio de +tantas duvidas e de tanta desordem mental, +que póde ser feita sem medo! +<br /> + +<br /> + +O Bem existe! A consciencia humana conhece-o +mesmo quando o atraiçôa ou o desdenha. +É ella que o tem creado em seculos +de lucta sublime! Os humildes de coração +são +talvez os que estão mais perto das fontes vivas +<span class="pagenum">[194]</span> +d'onde elle promana, e é pela humildade e +pela acceitação resignada do seu destino +incompleto +e triste e eternamente obscuro, que a +pobre humanidade definitivamente se salvará! +<br /> + +<br /> + +Por mais que amenos e veneremos a memoria +de Anthero, não podemos pois achar +justo o seu suicidio. +<br /> + +<br /> + +Contentamo-nos em achal-o explicavel. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="p195" id="p195"></a> +<h3>Anatole France +</h3> + +<h4> +I +</h4> + +<br /> + +Conhece porventura o leitor este mestre do +estylo, que é francez e moderno, e podia +ser grego e antigo?... +<br /> + +<br /> + +Conhece este discipulo de Renan, discipulo que +dispõe de mais liberdade moral e de mais fogo +juvenil que <a href="#e16">o seu</a> +querido e respeitado mestre? +<br /> + +<br /> + +Anatole France é, como Renan, um +<em>charmeur</em>, +mas é mais do que elle―um voluptuoso. +<br /> + +<br /> + +A sua philosophia, mais <em>Renanesca</em> do +que +<em>Hegeliana</em>, move-se phantasiosamente +em um +universo de illusões. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[196]</span> +E as fulgidas imagens, sempre renovadas, +da sua esplendida imaginação, reveste-as uma +melancolia deliciosa e morbida, como se elle +as evocasse com a consciencia de que lhe mentiam, +e as adorasse perdidamente, mesmo depois +de as saber fugitivas, falsas, ephemeras... +<br /> + +<br /> + +Um dos melhores livros que elle tem escripto, +e cujas edições se multiplicam com espantosa +rapidez―apezar d'elle o ter no pensamento +dedicado aos delicados, aos <em>happy +few</em> +de que fala desdenhosamente Stendhal―chama-se +<em>Thaïs</em>. +<br /> + +<br /> + +Thaïs é uma <em>lenda +dourada</em> dos primeiros +seculos christãos, que entre parenthesis estão +sendo apetecivel mina de estudos litterarios, +de poesias, de erudição e de arte. +<br /> + +<br /> + +Tem o livro como personagens principaes +Paphnucio, um anachoreta da Thebaida, de +carne mortificada pelos longos jejuns, flagellada +pelos duros cilicios, curtida pelos sóes +causticantes do deserto, amachucada nas caminhadas +extenuantes por sobre as penhas +bravas e os quentes areaes―e Thaïs, uma gloriosa +e applaudida actriz de Alexandria, bella +como Venus, e intelligente como Aspasia, e +prodiga de affagos como as duas, em que esplendidamente +<span class="pagenum">[197]</span> +se encarnára para enlouquecer +e perder os homens. +<br /> + +<br /> + +Paphnucio construira nas margens do verde +Nilo uma pobre cabana feita de ramos de arvores +e de lodo amassado. +<br /> + +<br /> + +Vivia alli na penitencia e na castidade; na +contemplação e no ascetismo. Obedeciam-lhe +e amavam-no as feras do deserto; legiões de +anjos, bellos como adolescentes gregos, visitavam-no +de vez em quando na sua Thebaida +escondida; os demonios, com figuras de animaes +immundos, vagavam uivando em torno +d'elle e dos solitarios que aqui e ali tinham +escolhido para morada o deserto―e tentavam +em vão os santos ascetas. +<br /> + +<br /> + +Quando elles iam de manhã encher as suas +bilhas do barro ao poço que os dessedentava, +viam as patas dos satyros e dos faunos travessos +impressas na movediça areia. +<br /> + +<br /> + +Considerada sob o seu verdadeiro aspecto, a +Thebaida era um campo de batalha, onde se travavam +a toda a hora, e especialmente de noite, +os maravilhosos combates do inferno e do céu. +<br /> + +<br /> + +Mas tão profunda era a virtude d'esses santos +cenobitas que submettia ao seu poder as +proprias féras. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[198]</span> +Quando um solitario estava para morrer, +vinha um leão abrir-lhe a cova com as garras. +O santo homem, logo que conhecia por +este signal que Deus o chamava a si, ia beijar +uma por uma as faces de todos os seus +irmãos espirituaes. +<br /> + +<br /> + +Depois deitava-se sereno e calmo e adormecia +no seio do Senhor. +<br /> + +<br /> + +Esta descripção do Deserto e das suas maravilhas, +do ascetismo e das suas visões, da +Thebaida e dos allucinados combates que ahi +as paixões humanas travavam com a +perfeição +ideal, todo este symbolismo <em>humano</em> e +comprehensivel está traçado com mão de +mestre. +<br /> + +<br /> + +Parece nos seus lineamentos visiveis a pintura +de um <em>primitivo</em>, tanto é +certo que só o +extremo requinte na Arte sabe traduzir bem +a ineffavel simplicidade. +<br /> + +<br /> + +Paphnucio nascera em Alexandria, de paes +nobres, e fôra por elles instruido na delicia +das profanas lettras. Era de muito longe que +elle tivera de partir, para chegar á +perfeição +santissima da sua vida de anachoreta christão. +<br /> + +<br /> + +Um dia, porém, lembrou-se por sua desgraça +espiritual, ou por seu aperfeiçoamento +<span class="pagenum">[199]</span> +superior, que tinha conhecido em Alexandria +uma formosa actriz chamada Thaïs. +<br /> + +<br /> + +Tão bella como a mais bella das suas visões +esplendidas do Paraizo e condemnada á eternidade +das penas, á perdição infernal, +á ignorancia +absoluta do bem!... +<br /> + +<br /> + +Conhecel-a, lembrar-se nitidamente d'ella +e não a salvar, não tentar salval-a ao menos!... +<br /> + +<br /> + +Paphnucio não pôde submetter-se a esta dura +lei. +<br /> + +<br /> + +Deixa, pois, o deserto, procura a cidade +faustosa e tentadora onde Thaïs fazia as delicias +e a admiração do povo, e vae arrancar +ao inferno a sua presa deslumbrante. +<br /> + +<br /> + +É necessario fazer notar que ainda bem +Paphnucio não começára a premeditar +esta +santa empreza, já os demonios que em figuras +de chacaes costumavam uivar lamentosamente +em torno de sua cabana, sem comtudo +lhe penetrarem pela porta sempre aberta, se +permittiram entrar por ella dentro, deitando-se +perto d'elle, familiarmente, como amigos +velhos. Que encontrariam os demonios na alma +do velho cenobita para assim procederem?... +<br /> + +<br /> + +A graça ironica, a commoção subtil com +<span class="pagenum">[200]</span> +que estes quadros são traçados, podem ser +indicados pelo commentador, mas não podem +ser fielmente traduzidos por elle. +<br /> + +<br /> + +Ao pé do altivo asceta, que julga ter dentro +de si força que baste a dominar as indominaveis, +as omnipotentes paixões humanas, +e se considera com direito de desafiar o Peccado +e de o vencer, ha uma encantadora figura +de frade laborioso e simples, que nem +chega a odiar o Mal, porque lhe ignora os +requintes tentadores, e que cultiva no deserto +um pequenino jardim e uma horta em miniatura, +aceitando o amavel convivio dos bichos +e dos passarinhos, envolvendo no mesmo amor +humilde e doce a vasta natureza cheia de graças +e de assombros. +<br /> + +<br /> + +As gazellas vêm apoiar a fina cabeça inquieta +nos joelhos do santo: as figueiras que +elle trata dão grandes figos cheios de nectar +cuja contemplação é para elle um +regalo innocente. +<br /> + +<br /> + +Este bom homem dá de conselho ao orgulhoso +apostolo que se deixe de tanto zêlo, pois +que, vista a impossibilidade em que a gente +está de emendar o mundo, mais vale emendar-se +a si proprio de todos os peccados até +<span class="pagenum">[201]</span> +d'aquelle que consiste em se julgar impeccavel. +<br /> + +<br /> + +Mas Paphnucio não o quer de fórma alguma +attender; isto, seja dito de passagem, com +alegria dos chacaes seus inimigos antigos e +agora seus inopportunos familiares. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Põe-se, portanto, a caminho. Vestido tão +sómente de um longo cilicio, ei-lo que se dirige +para o Nilo―no designio de seguir a +pé a margem lybica até á cidade +fundada por +Alexandre. +<br /> + +<br /> + +Que deliciosa a narração d'esta romaria, +feita pela lingua de ouro de Anatole France! +Ha phrases que cantam no ouvido como uma +flauta da Jonia!... ha imagens que se desdobram +deante de nós como uma evocação de +magia! +<br /> + +<br /> + +Nem a traducção litteral poderia fazer presentir +o encanto rythmico, emballador, quasi +morbido, de requintado que é, d'este estylo +em que as palavras se harmonisam em um +concerto ideal, para formarem a mais suave, +e subtil, e suggestiva das musicas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[202]</span> +E emquanto assim se encaminha para Alexandria, +Paphnucio foge das cidades e das +aldeias; tem medo de encontrar creanças a +brincar na soleira das portas, mulheres paradas +á beira das cisternas, sorrindo cariciosamente +ao peregrino que passava, como +a Nosso Senhor a Samaritana já sorrira. +<br /> + +<br /> + +Quando, ao entardecer, a aragem passava nos +tamarindos em flôr, o sombrio apostolo puxava +para o rosto o seu capuz escuro, tal era +o receio que sentia de enternecer-se deante +da belleza ineffavel, do divino mysterio das +cousas... +<br /> + +<br /> + +Viu uma enorme sphinge egypcia talhada +no rochedo de granito e obrigou-a a confessar +o Santo Nome de Jesus Christo. Encontrou +um eremita bhuddico, todo nú, de barba +branca a fluctuar-lhe em ondas no peito curtido +ao sol, e, depois de lhe ouvir a confissão +do seu <em>nihilismo</em> absoluto, depois de +lhe escutar +as blasphemias de um scepticismo sem +fim, ainda tentou convertel-o à fé profunda +que lhe abrazava o coração. +<br /> + +<br /> + +A paizagem luminosa e estranha desentranhava-se +em maravilhas; o <em>ibis</em> mysterioso +e hieratico retratava no liquido espelho do rio +<span class="pagenum">[203]</span> +o seu longo pescoço côr de rosa pallido; os +salgueiros agitavam a múrmura folhagem argentea; +as cegonhas voavam no céu claro; e +nos cannaviaes da margem escutava-se o grito +de outras aves aquaticas. +<br /> + +<br /> + +O valle perdia-se ao longe em ondulações +verdes; as aguas palpitavam como um seio +de virgem; a seiva, a vida, a fecundidade, o +amor fremente e creador parecia pullular em +tudo, em tudo... +<br /> + +<br /> + +Paphnucio, porém, só pensava na +cortezã +esbelta e branca, de braços côr de lyrio e +olhos côr de violeta, que em Alexandria representava +as traições de Helena, os delirios +de Phédra, o sacrificio da candida Ephigenia, +ante uma turba delirante, que a sua belleza +embriagava e perdia... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>II +</h4> + +<br /> + +A primeira vez que, em Alexandria, Paphnucio +avista Thaïs é no theatro em +que ella representava a immolação de Polyxena. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3"> +Tal contra a linda moça Polyxena<br /> + +Consolação extrema da mãi velha<br /> + +Porque a sombra de Achilles a condemna<br /> + +Co'o ferro o duro Phyrro se apparelha... +</div> + +<br /> + +<br /> + +Não se lembram do nosso Camões? Era justamente +esse lance da epopéa homerica que +Thaïs traduzia pela mimica expressiva e perfeita, +a qual, na decadencia da Arte antiga, +suppria agora na scena, viuva dos seus grandes +<span class="pagenum">[205]</span> +mestres de outr'ora, a alada, a divina poesia +de Euripedes e de Menandro. Thaïs altiva +e doce appareceu ao austero monge dando-lhe, +como dava a todos que a contemplavam «o tragico +estremecimento da sua fatal belleza.» +<br /> + +<br /> + +Segue-se então a lucta travada entre o asceta +e todas as seducções pagãs que +circumdavam a +cortezã esplendida, para converter esta á +religião +dos pobres, dos miseraveis e dos simples. +<br /> + +<br /> + +Thaïs fôra iniciada em pequenina por um +escravo negro da Nubia, chamado Ahmés, +n'essa religião que reveste de tão voluptuosas +delicias o sacrificio e a dôr. +<br /> + +<br /> + +Tinha-a mesmo baptisado, em uma época de +perseguições e de angustias, o bispo proscripto +de Cyreno, que pela Egreja soffrêra os mais +horrendos martyrios. +<br /> + +<br /> + +E toda a dulcissima e piedosa lenda evangelica +lhe fôra contada baixinho, pela voz queixosa +e cantante do misero escravo negro, quando +Thaïs, maltratada pelos paes, sem tecto carinhoso +que lhe abrigasse o corpinho infantil, +torturado de açoites, ia deitar-se á noite a um +canto do estabulo, entre animaes domesticos, +com Ahmés perto d'ella―sentado sobre os calcanhares, +<span class="pagenum">[206]</span> +as pernas dobradas, o busto direito +na altitude hereditaria da sua raça, e o rosto +negro banhado n'aquella divina luz de esperança +e de misericordia com que a estrella de +Bethlem tem, durante dezenove seculos, inundado, +casta e divina, os desherdados de todo o +bem terrestre. +<br /> + +<br /> + +Portanto, não a espantou em excesso a +apparição +do monge, depois de uma vida consagrada +ao prazer, que lhe dera o tédio sem lhe +dar a felicidade. +<br /> + +<br /> + +Só um momento, durante esses vinte annos +de embriaguez hyper-aguda, ella conhecêra a +ephemera felicidade de amar. As lagrimas que +chorou tinham tido para a pobre um sabor acre +e doce ao mesmo tempo. Nesse amor encontrára +tudo―até a perdida innocencia e a divina +puerilidade da sua fé. A bella cortezã de +Alexandria realizára o delicioso pensamento do +poeta, e tambem ella, como a Marion dos perdidos +amores, podia repetir exultante:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3"> +<em>Et l'amour m'a refait une +virginité</em> +</div> + +<br /> + +<br /> + +Mas subito esse homem, que de todos lhe +parecêra diverso, appareceu-lhe tal como os +<span class="pagenum">[207]</span> +outros todos, e ella fugiu espavorida, para não +vêr mais a imagem da sua illusão que se partira. +<br /> + +<br /> + +Conheceu depois a gloria, os applausos, os +enthusiasmos, as adorações febris, que duravam +uma hora e que se tinham julgado eternas. +<br /> + +<br /> + +Por ella os philosophos se fizeram crianças +credulas; os voluptuosos tiveram a coragem do +suicidio; deram-lhe thesouros os avarentos; lagrimas, +os egoistas; os poetas chamaram-lhe a +sua Musa; os politicos esqueceram, para se +demorarem aos seus pés, o bem dos Estados e +os requintes que ha no prazer do mando. +<br /> + +<br /> + +E Thaïs, indifferente a todos e com todos +brincando cruelmente, conservava no fundo da +sua alma a recordação indistincta e vaga d'esse +mundo mysterioso de que lhe tinham revelado +o encanto. +<br /> + +<br /> + +Supersticiosa e cheia de ancia indefinida, tinha +a sêde atormentadora do desconhecido, a +que faz as santas, as arrependidas sublimes, e +as loucas... +<br /> + +<br /> + +Quando Paphnucio lhe appareceu, cedeu quasi +que sem resistencia á rude voz que a chamava +para o aspero caminho dos penitentes. Para seguir +o seu implacavel mestre deixou os banquetes +<span class="pagenum">[208]</span> +em que a acclamavam, sob os bellos e +poeticos nomes da poesia antiga, os homens +mais opulentos e considerados da Alexandria, +os poetas, os rhetoricos, os sacerdotes de Serapis, +os dandys do tempo, preoccupados como +os de hoje, com a arte de amestrar bellos cavallos +e de enamorar bellas mulheres. +<br /> + +<br /> + +Para o seguir, deu ordem aos numerosos escravos +que a serviam, que queimassem os seus +thesouros de arte: os cofres de marfim, de +ebano e cedro, que, entreabrindo-se, deixavam +cahir corôas, grinaldas, collares esplendidos; e +os seus ricos tapetes, os seus bordados de prata, +as tapeçarias floridas, os leitos faustosos, os +coxins macios: e as estatuas de nymphas que +pareciam animadas como mortaes: e o Eros +eburneo a quem se attribuiam maravilhosas e +não sabidas virtudes, e que valia o seu peso +centuplicado em ouro. +<br /> + +<br /> + +Para o seguir, desprezou os seus vestidos +brilhantes; os mantos de purpura; as sandalias +de ouro; os pentes, os espelhos, as lampadas +cinzeladas por industriosas mãos de escravos +artistas; as theorbas, as lyras:―todos os instrumentos +da sua seducção complicada e subtil, +todas as bellas cousas que representavam as +<span class="pagenum">[209]</span> +recordações de uma vida de luxo, de opulencia +e de amor... Não a prendeu a gloria de actriz +estremecida; chamavam-lhe a clara estrella, a +doce lua do céu alexandrino, e o rude solitario +arrebatou-a falando-lhe em penitencias duras +e em flagelladores cilicios, em lagrimas de vergonha +e de amargura choradas ao pé da Cruz. +<br /> + +<br /> + +―Mulher, dizia-lhe o monge com voz colerica, +arrastando-a comsigo ao longo da costa―vê +esse enorme mar azul. Nem toda a agua +que elle tem póde lavar as tuas manchas asquerosas! +<br /> + +<br /> + +E emquanto elle a apostrophava com a eloquencia +do mais impetuoso e ardente horror, +relembrando-lhe uma por uma, com minuciosidades +de confessor, as ignominias em que se +perdera o seu corpo, que Deus fizera tão bello, +Thaïs seguia-o docilmente sob o sol abrazador, +e por cima dos penhascosos caminhos, onde os +seus pés nús, tão lindos, tantas vezes +cobertos +de beijos, se desfaziam em sangue. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[210]</span> +Todas estas paginas que contam o piedoso +furor do apostolo, e a humildade ineffavel da +peccadora arrependida, estão escriptas com uma +paixão acre e flammejante. +<br /> + +<br /> + +Vê-se bem que o inferno e todas as suas furias +estão dentro d'esse orgulhoso coração +de +monge, que se julga acima do Peccado e que +é vencido pela força irreductivel de um Poder +que elle negou. +<br /> + +<br /> + +Thaïs, não; essa arrependida e submissa +é +em Christo que pensa e a sua alma anceia por +desprender-se do impuro corpo, para subir, +lavada em lagrimas, ao seio eternamente misericordioso +do Homem Divino que perdoou á +Magdalena, e que não consentiu que fosse lapidada +a mulher adultera pelos que não tinham +direito de a julgar. +<br /> + +<br /> + +A ultima parte do livro está impregnada de +uma ironia, delicada como tudo que sae da +penna de Anatole France, mas destoante da +opulencia da côr e de estylo que inspiram as +duas primeiras partes. +<br /> + +<br /> + +Consiste toda ella na narração das penitencias +a que Paphnucio se entrega logo que percebe +nitidamente que o zelo que o levou a +salvar Thaïs conduzida por elle a um convento +<span class="pagenum">[211]</span> +de mulheres―não é tão puro nem +tão desinteressado +como na sua illusão a respeito de si +proprio elle suppuzera até alli. +<br /> + +<br /> + +As penitencias ás vezes chegam a ser de um +comico <em>voltaireano</em>. Exemplo: a +columna no +alto da qual, mystico acrobata, elle se encarapitou +um tão longo espaço de tempo, que em +volta d'este novo Simão o +<em>Stylita</em> construiu-se +uma grande cidade com todas as abominações +mais ou menos legalisadas, que ha sempre nos +centros populosos. +<br /> + +<br /> + +Paphnucio dizia, porém, aos bispos e á brilhante +clerezia, que attrahidos pela fama da sua +virtude rara, e dos milagres que ella operava +sobre enfermos epilepticos, coxos, cégos, manetas +etc., etc., vinham cumprimental-o e visital-o +de muito longe: +<br /> + +<br /> + +―«Meus irmãos, a penitencia que me imponho +é nada em comparação das +tentações +que tenho, e cujo numero e força me espantam. +Um homem visto de fóra é pequeno, e do +alto da columna a que Deus me elevou, vejo +os seres humanos agitarem-se como formigas. +Mas considerado interiormente, o homem é immenso; +é grande como o mundo porque o contém +em si... Tudo que se extende ante os +<span class="pagenum">[212]</span> +meus olhos, esses mosteiros, essas casas, essas +barcas sobre o rio, essas aldêas, e o que descubro +ao longo de campos, de canaes, de areias, +de montanhas, tudo isso é +<em>nada</em> ao pé do que +eu tenho aqui dentro! Ha no meu coração cidades +innumeras e desertos sem fim. E o mal, +o mal e a morte extendidos por sobre essa immensidade, +cobrem-na, como a noite cobre a +terra. Eu sósinho contenho um Universo de +pensamentos máus.» +<br /> + +<br /> + +Falava assim, accrescenta Anatole France, +porque o <em>amor da mulher</em>, como uma +serpente, +se lhe enroscára no seio. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O final do livro, ou antes, a moral do livro +é esta: Presente-se a salvação da +cortezã arrependida +que trouxera sempre, dentro do seu +corpo manchado, a saudade nostalgica do ignoto +bem, a chaga aberta e sangrenta de uma +aspiração insaciada―e a +perdição do apostolo +orgulhoso, que déra ao seu desejo, á sua +paixão +terrena, a fórma de um fanatico proselytismo, +e que tão rudemente falava ás gentes +do Peccado e da Virtude. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[213]</span> +Que quer Anatole France provar? pergunta +a critica conspicua, um pouco escandalisada +d'esta orgia de estylo, de descripções, de +paizagens, +de <em>dilettantismo</em> artistico. +<br /> + +<br /> + +Cá por mim imagino que elle não quiz provar +nada. +<br /> + +<br /> + +Quiz fazer divagar a sua imaginação de poeta +pelos desertos onde os monges vivem penitentes +e castos, e pelas cidades douradas e +luxuosas onde as actrizes bebem em taças de +crystal as perolas diluidas de uma adoração +voluptuosa. +<br /> + +<br /> + +Quiz levar-nos ao banquete do opulento pagador +das esquadras de Alexandria, onde philosophos +e poetas discreteiam com a elegancia e +o requinte da civilisação de Bysancio. Quiz +fazer-nos penetrar na alma de uma louca mulher +d'aquelle tempo, tão bella que, em ella +entrando na sala do festim, coberta de flôres +naturaes, parecia emprestar a estas a sua vida +e receber d'ellas o mimo, a frescura o encanto +virginal. +<br /> + +<br /> + +Quiz―é este o sentido profundo e philosophico +do seu livro―dizer-nos que ás vezes os +que apresentam mais austera virtude são os +que trazem mais serpentes venenosas no coração +<span class="pagenum">[214]</span> +pharisaico, incapaz de indulgencia e de +perdão, e que o arrependimento, quando é sincero, +humilde, e parte de uma alma sedenta +do infinito e capaz de o conter em si, póde +resgatar grandes erros e lavar na fonte crystallina +das suas lagrimas, muita nodoa de que +o mundo, o impeccavel mundo, costuma fugir +enojado e austero... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>Ernesto Renan +</h3> + +<h4><span class="smallcaps">sua obra, o seu +espirito, a sua philosophia</span> +</h4> + +<br /> + +<h4>I +</h4> + +<br /> + +Venho tarde para accrescentar qualquer +cousa ao que n'este jornal de certo se +tem dito a esta hora da vida de Renan, e da +sua morte. Venho tarde para ajuntar, qualquer +dado biographico, qualquer inedito incidente +aos já citados aqui por informadores +habeis e intelligentes. +<br /> + +<br /> + +Mas venho cedo, talvez, para conversar com +os leitores ácerca d'esse espirito encantador, +que desapparecendo d'entre os vivos, deixa na +Europa culta uma lacuna imprehenchivel. +<br /> + +<br /> + +Não é, porém, meu intento fazer +<em>obra de</em> +<span class="pagenum">[216]</span> +<em>critico</em>, o que além de +mais, seria prematuro +ainda. Tentarei apenas dar a impressão, que +a minha sensibilidade recebeu da leitura d'esse +fino artista, d'esse poeta, que tão bem se +conhecia a si mesmo, que um dia, figurando-se +a si sob o nome <em>Léolin</em>, +nos <em>Dramas Philosophicos</em>, +dava do seu genio esta adoravelmente +exacta definição: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +«O que é que eu faço no mundo? +Contemplo +e goso. Vou a toda a parte; entro em todos +os lugares e em todos comprehendo alguma +cousa. Eis a minha profissão. Procuro o +Bello, devorado de sêde, que jámais saciei. A +verdade demanda maior dose de perseverança +nos que a buscam; é por isso que ella me +foge, talvez.» +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Não ha convivencia mais estreita, que a que +tem largos annos existido, entre mim, obscura +e pobre mulher, e essa deliciosa intelligencia +de artista, um dos mais requintadamente +perfeitos que a litteratura tem possuido em +todo o mundo. +<br /> + +<br /> + +É fóra de duvida que, para mim, o +<em>hebraisante</em>, +o erudito, o epigraphista sagaz, o archeologo +<span class="pagenum">[217]</span> +meticuloso, o decifrador de textos assyrios, +o <em>sabio</em>, emfim, que era Renan, me +interessava mediocremente. Admirava que um +tão grande poeta tivesse a humilde +ambição +de ser apenas um grande erudito; ambição +que lhe era de resto cruelmente contestada +por terriveis homens calvos, de oculos azues +com aros de ouro e nomes impronunciaveis +de terminações barbaras, que eu nunca tinha +lido, e julgo aqui entre nós, que sómente se +tinham lido a si mesmos... +<br /> + +<br /> + +Esses, escreviam volumes <em>in folio</em> +para provarem +que o <em>Sr. Renan não conhecia os +textos</em>, +e o divino celta que tanta vez me fizera +vibrar até ás lagrimas com as notas da sua +harpa mysteriosa―desesperava-se com a incredulidade +d'aquelles medonhos eruditos allemães, +de que toda a gente que se presa ignora +a existencia, não atinando sequer com a +arrevesada pronuncia dos seus respectivos nomes... +<br /> + +<br /> + +O <em>hebraisante</em> era-me pois +indifferente, mas +o historiador ficava de pé, com a sua +intuição +extraordinaria da alma religiosa das multidões +extinctas; com a vida intensa que elle sabia +dar aos personagens do passado; com a sua +<span class="pagenum">[218]</span> +visão clara e profunda das cousas que já foram; +com o magico poder de evocação que +elle possuia, como Carlyle o possuiu, como o +possuiram Michelet e Victor Hugo, mas de +um modo inteiramente diverso d'aquelles todos. +<br /> + +<br /> + +Um Michelet resuscitando periodos historicos +de enthusiasmo fremente e de doentia exaltação, +saberá dar vida ás +perturbações nervosas, +aos desfallecimentos e aos extases dos +seus congeneres do passado. +<br /> + +<br /> + +Um Victor Hugo dará o nitido contorno das +cousas, e até para o mundo da +allucinação levará +o seu poder de descrever o incommensuravel, +de figurar o impossivel... +<br /> + +<br /> + +Um Carlyle tera a visão ardente de um +mundo como foi o puritano, capaz de produzir +Cromwell; e saberá―desmontando peça a +peça o machinismo complicado d'esse caracter +de allucinado e de batalhador, de perfido +conductor de homens, e de crente quasi +fanatico―revelar-nos o segredo da quadra estranha +de que elle é o producto natural, a resultante +logica... +<br /> + +<br /> + +Renan saberá principalmente interpretar e +traduzir problemas e sentimentos moraes, estados +<span class="pagenum"><a name="p219" id="p219">[219]</a></span> +de consciencia. Para elle, como para o +grande inglez que escreveu o <em>Culto dos +heroes</em>, +a historia, <em>é uma cousa viva, uma <a href="#e17">cousa</a> +ineffavel e divina</em>, destinada a resuscitar +diante dos olhos do nosso espirito, os soffrimentos, +as emoções violentas ou delicadas, as +luctas, as tristezas, as fraquezas e heroicidades, +dos nossos irmãos que morreram, das +gerações que modelaram fatalmente a nossa, +e ás quaes devemos o que somos em bom e +em mau. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Quando a noticia da morte de Renan nos +veio sorprehender dolorosamente a todos, acabava +eu de passar dois mezes no campo, em +uma solidão quasi absoluta, em uma +isolação +moral quasi selvagem, lendo apenas com intima +delicia, o mais arido talvez, por ser o +mais erudito, de todos os livros do grande +exegeta: a sua longa <em>Historia do Povo de +Israel</em>, +cujo 4.º e 5.º volumes elle deixou para +serem posthumamente publicados. +<br /> + +<br /> + +E depois de ter vencido aquelle primeiro +impulso de preguiça, que um espirito de mulher +indolente não podia deixar de experimentar +<span class="pagenum">[220]</span> +ante um trabalho d'esta ordem―eu +acabára por sentir-me irresistivelmente e deliciosamente +transportada áquelles tempos obscuros +em que o semita nomada, o soberbo +vagabundo da Historia, enriqueceu o thesouro +humano, com a mais alta noção religiosa a que +á nossa especie foi dado ainda attingir, a +noção +de um <em>deus unico</em>, cujo espirito +está em +tudo, e ao qual o vasto Universo obedece submisso!... +<br /> + +<br /> + +Assim como a Grecia creou a alta cultura +intellectual, a philosophia, a poesia, as artes +plasticas; assim como Roma creou as fortes +instituições politicas, tendo o Direito por base; +o semita creou a religião de que a nossa alma +se tem alimentado longos seculos, e que tão +profundo cunho lhe imprimiu, que ainda hoje +o mais sceptico de entre os scepticos demolidores +do passado se não póde libertar da sua +poderosa e absorvente influencia! +<br /> + +<br /> + +Essa genese de monotheismo, que Renan +intitulou a <em>Historia do Povo de +Israel</em>, é talvez +de todas as suas obras aquella em que as +soberbas e multiplas faculdades do seu grande +espirito tiveram melhor espaço para se desenvolverem. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p221" id="p221">[221]</a></span> +Nada mais bello, nada mais profundamente +interessante para um espirito que pensa, do +que a evolução da idéa religiosa, +seguida passo +a passo, com os seus periodos de impetuosa +florescencia, com os seus desfallecimentos e os +seus eclypses, com os desdobramentos subitos +de sua apaixonada energia, com as acquisições +moraes, tão laboriosamente e dolorosamente +feitas atravez de violencias spasmodicas +e de paroxysmos convulsionarios. +<br /> + +<br /> + +Sendo a civilisação moderna uma resultante +da collaboração alternativa da Grecia, da +Judéa +e de Roma, as origens da historia d'essa +raça mysteriosa, em cujo seio havia virtualmente +<em>Jahvê</em> e +<em>Jesus</em> não podem deixar de +produzir uma ardente curiosidade em todo o +espirito avido de conhecimento e de luz moral. +<br /> + +<br /> + +Eu tinha-me pois, n'essa reclusão completa +em que vivera, embriagado longamente, voluptuosamente, +da prosa, de Renan, capitosa +e perturbadora. +<br /> + +<br /> + +E quem como elle sabia, da lingua <a href="#e18">que</a> +fallava, +extrahir effeitos de harmonia, ao pé dos +quaes, os das outras artes me pareciam absolutamente +secundarios? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[222]</span> +Falando do idioma hebraico, Renan diz em +uma das bellas paginas da sua <em>Historia do +Povo de Israel</em>: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +«Uma aljava de flechas de ouro, um grosso +cabo de potentes contorsões, um trombone de +bronze, dilacerando o espaço com duas ou +tres agudas notas: eis o hebraico. +<br /> + +<br /> + +«Uma lingua d'estas não pode exprimir nem +um pensamento philosophico, nem um resultado +scientifico, nem uma duvida, nem uma +percepção do infinito. +<br /> + +<br /> + +«As lettras dos seus livros serão contadas +como numeros, mas serão feitas de fogo como +a chamma. Dirá poucas cousas essa lingua, +mas as que disser, serão martelladas sobre +uma bigorna. +<br /> + +<br /> + +«Derramará ondas de colera, terá gritos +de +raiva contra os abusos do mundo; clamará +pelos quatro ventos do céo para que acudam +ao assalto das cidadellas do Mal. Como os +instrumentos rituaes do santuario não servirá +para uso algum profano; nunca lhe será dado +exprimir a alegria innata da consciencia, a luminosa +serenidade da Natureza; mas clamará +a guerra santa contra a injustiça, e o appello +<span class="pagenum">[223]</span> +dos grandes panegyricos; será o clarão das +neomenias e a trombeta do Juizo final. Felizmente +que o genio hellenico comporá, para a +expressão das alegrias e das tristezas da nossa +alma um alaúde de sete cordas, o qual saberá +vibrar unisono com tudo que é humano, um +grande orgão de mil teclas igual ás multiplas +alegrias da vida. +<br /> + +<br /> + +«A Grecia conhecerá toda as delicias, desde +as dansas em côro nos pincaros do Taygeto +até ao banquete de Aspasia; desde o sorriso +de Alcibiades até á austeridade do Portico; +desde a canção de Anacreonte até ao +drama +philosophico de Eschylo e aos sonhos dialogados +de Platão.» +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Este admiravel, este soberbo trecho, que +acabamos de traduzir integralmente, em que o +genio das duas linguas toma forma, em uma +outra lingua, nunca fallada com tal melodia +e tal poder, quizera eu que fosse posto como +epigraphe á <em>Historia do Povo de +Israel</em>, em +que Renan traduziu genialmente sob a divina +inspiração do genio Grego, a alma tumultuosa +e sombria, agitada e sequiosa de justiça, dos +prophetas da raça semitica. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[224]</span> +Oh! como elles renascem alli nas paginas +do grande escriptor, os fundadores de quanto +ha de tremendo e de sombrio na religião que +veio depois a dominar o mundo! +<br /> + +<br /> + +Como alli se reflecte igualmente, na prosa +divina do Mestre, a Grecia que <em>sobre a +Acropole</em> +lhe revelou o segredo dos seus primores! +O assumpto é o semita, mas a lingua em que +essa sublime evocação se fez, o magico +instrumento, +atravez do qual nós communicamos +com o arido e difficil assumpto, a inspiração +adoravel, que presidiu a este trabalho de +reconstituição +historico-religiosa, a arte plastica, +com que elle é genialmente modelado, tudo +isso foi colhido pela alma de Renan, abelha +ébria de luz e de perfume e de succos balsamicos, +no coração da Grecia! +<br /> + +<br /> + +É só ahi que a Belleza e a Razão +têem a +mesma fórma e a mesma essencia; é só +ahi +que a Venus Amphytrite sorri á musa de Socrates +e que a Poesia e a Religião enredam +voluptuosamente a fantasia e a sensibilidade +do homem na mesma rede azul e ouro tecida +de sonhos, que são symbolos e de chimeras entontecedoras, +que sao divinas verdades. +<br /> + +<br /> + +Mas quem leu sómente de Renan a <em>Historia</em> +<span class="pagenum">[225]</span> +<em>do Povo de Israel</em> ficará +conhecendo todo +o genio complexo do escriptor? +<br /> + +<br /> + +Decerto que não. Elle é um grego pelo amor +da belleza plastica, mas é um celta pela sensibilidade +doentia, pela delicadeza concentrada +do seu genio. +<br /> + +<br /> + +Os que desejarem conhecel-o, precisam de +ler tudo que elle escreveu. +<br /> + +<br /> + +Precisam de seguil-o atravez dos meandros, +alguns quasi inaccessiveis, da sua <em>Historia das +origens do Christianismo</em>. +<br /> + +<br /> + +Precisam de penetrar bem no estranho mysticismo +que ha no fundo d'este temperamento +de sceptico; precisam de interrogar os escaninhos +inesperados d'esta imaginação de poeta, +que em certas paginas,―como por exemplo, no +sonho de Leolino, na <em>Eau de +Jouvence</em>, invocando +a alma da adorada irmã morta; nas paginas +dulcissimas dos <em>Souvenirs de +Jeunesse</em>; na +symphonia esplendida que se chama <em>La Prière +sur l'acropole</em>; na dedicatoria de um dos +seus livros celebres; em trechos dos seus estudos +de <em>Historia Religiosa</em>;―attinge uma +<em>virtuosidade</em>, +um poder de harmonia, excita uma +emoção, faz vibrar tão intensamente os +nervos +do leitor, que póde bem dizer-se que a lingua +<span class="pagenum">[226]</span> +falada e escripta se transforma sob os seus +dedos de magico em musica transcendente que +parece vir d'além da terra, em musica que penetra +no coração e o desfallece de delicioso extase. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="p227" id="p227"></a> +<h4>II +</h4> + +<br /> + +Este conhecimento da obra total do grande +escriptor, que eu considero imprescindivel +em quem, com acerto e justiça, quizer +falar d'elle, não o tinham, estranho é dizel-o, +senão com rarissimas excepções, os que +em +França, no jornalismo, commemoraram luctuosamente +o <a href="#e19">passamento</a> de Renan. A +accusação +que eu aqui deixo, fêl-a, com a sua graça +incomparavel Julio Lemaître no artigo que ao +seu querido philosopho consagrou no <em>Jornal +dos Debates</em>. Porque Renan escreveu muito, +escreveu immenso. Durante cincoenta annos +trabalhou dez horas por dia, o que é extraordinario. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[228]</span> +E além das monographias scientificas e dos +estudos especiaes que publicára nas +<em>Revistas</em> +e nos Jornaes de Sciencias, além da +<em>Historia +das Origens do Christianismo</em>, que vae de +<em>Jesus</em> a <em>Marco +Aurelio</em>, e que se compõe de +sete grossos volumes, além da <em>Historia do +Povo de Israel</em> de que ha publicados tres volumes +e para publicar dois, elle passou as horas +que não consagrava á sua principal tarefa, +a escrever toda a especie de artigos litterarios: +<em>ensaios criticos</em>; +<em>dialogos philosophicos</em> á +maneira +de Platão, como os que publicou em volume +com o titulo que acima démos; comedias +e dramas á moda e na tradição de +Shakespeare +como o <em>Prêtre de Nemi</em>, +<em>L'eau de Jouvence</em>, +<em>Caliban</em>, etc. etc.; cartas que +são celebres +como aquella escripta <em>à un ami +d'Allemagne</em>, +e outra a <em>Mr. Berthelot</em>; fragmentos +de historia religiosa; estudos de moral; trechos +adoraveis como o consagrado a Francisco +d'Assis, o santo que teve a adoração de Michelet +e de Renan, etc. etc. +<br /> + +<br /> + +As mil faces do talento de Renan só as conhece +o que leu essa obra vastissima atravessada +por uma flecha ideal de encanto e de magia; +para a saber apreciar devidamente, é comtudo, +<span class="pagenum">[229]</span> +necessario mais do que havel-a lido, porque +então, n'esse caso estava a minha humilde +pessoa, a qual se recusa a tão elevada empreza. +<br /> + +<br /> + +Uma das accusações feitas a Renan, até +pelos +seus criticos mais benevolos, é a de contradictorio +e a de incoherente. +<br /> + +<br /> + +Baptisáram de <em>renanismo</em> +uma certa qualidade +requintada e subtil de duvida amavel, que +acolhe todas as idéas, que acha em todas alguma +cousa de verdadeiro e muito de falso, +que se balouça voluptuosamente entre doutrinas +adversas, que se inclina ora para uma ora +para outra das mil fórmas da vida sem se dar +completamente a nenhuma d'ellas, que em cada +chimera acha um fundo de verdade, e em cada +verdade acceita e indiscutida um fundo de inanidade +e de illusão, que ante a Natureza,―Isis +de mil faces,―se limita a comprehender e +acceitar as contradicções do Universo, +explicando-as +se póde, e admittindo a legitimidade +absoluta dos mais variados pontos de vista, +sem ter nenhuma das qualidades estreitas e +limitadas do sectario ou do fanatico. +<br /> + +<br /> + +Ora esse modo de ser intellectual é tanto da +nossa época, que Renan, professando-o, não fez +<span class="pagenum"><a name="p230" id="p230">[230]</a></span> +mais do que representar em uma condensação +superior de pensamento e de critica, a +philosophia do seu tempo. +<br /> + +<br /> + +Que culpa teve elle de nascer justamente em +um periodo da civilisação em que estes caracteres +da intelligencia são justamente os que +assignalam o <em>homem superior</em>, o +artista consciente, +o <em>representative man</em> de uma phase +do pensamento humano. +<br /> + +<br /> + +De resto, querendo dizer a verdade toda, esse +estado de espirito de Renan, é-lhe commum +com as intelligencias mais altas de todos os +tempos. Shakespeare, que foi tambem um <a href="#e20"><em>dilectando</em></a> +genial não dizia já que o <em>homem +è talvez +feito do mesmo estofo que os seus sonhos</em>? +<br /> + +<br /> + +A interpretação dos phenomenos visiveis do +mundo é feita por esses espiritos, não de um +modo racionalista e logico, mas consoante a +fugitiva inspiração do momento que passa. +<br /> + +<br /> + +A raiz de toda a realidade mergulha em um +abysmo insondavel e obscuro, em que elles gostam +de debruçar-se, ora trementes de pavor, +ora gelados pela duvida... +<br /> + +<br /> + +Mas a justiça, que nem sempre fazem a +Renan e que é necessaria fazer-lhe, exige que +se accrescente a esses traços por assim dizer +<span class="pagenum"><a name="p231" id="p231">[231]</a></span> +exteriores de seu talento esta qualidade fundamental +que resalva o que elles podiam ter +de perigoso para os discipulos de sua philosophia. +<br /> + +<br /> + +Ha uma cousa em que elle acreditou sempre, +da qual não negou nunca a existencia +<em>necessaria</em>, embora lhe contestasse +ás vezes +nos caprichos da sua ondeante palavra, cariciosa +e triste, os resultados uteis, ou as compensações +interesseiras; essa cousa é a +<em>moral</em>! +<br /> + +<br /> + +«A moral é a cousa séria e verdadeira +por +excellencia; basta ella para dar um sentido e +um fim á vida humana, diz elle no prologo +dos seus <em>Ensaios de Moral e de +Critica</em>. +<br /> + +<br /> + +«Escondem-nos véos impenetraveis o segredo +d'este mundo estranho, cuja realidade se +impõe a nós e nos esmaga; a philosophia e a +sciencia procuram eternamente, sem jámais a +encontrarem, a fórmula d'esse Proteu que a +razão não limita e que a linguagem +não <a href="#e21">exprime</a>. +Mas ha uma base indubitavel que o +scepticismo por mais completo não póde abalar, +onde o homem achará até ao termo dos +seus dias o ponto fixo de todas as incertezas; +o bem é o bem; o mal é o mal. Para odiar +um e amar outro, não é necessario qualquer +<span class="pagenum"><a name="p232" id="p232">[232]</a></span> +systema, e é n'este sentido que a fé e o amor, +que na apparencia não têem +ligação alguma +com a intelligencia, são o verdadeiro fundamento +da certeza moral e o unico meio que +o homem possue para comprehender alguma +cousa do problema da sua origem e do seu +destino.» +<br /> + +<br /> + +Por estas palavras sinceras e que Renan +honrou tão nobremente, em uma longa existencia +laboriosa, honesta e casta, consagrada +ao trabalho incessante, á desinteressada +investigação +da verdade, ás sondagens tão <a href="#e22">difficeis</a> +da Historia,―por estas palavras se percebe +bem claro, que o renanismo não significa +indifferença +moral, mas sim benevola sympathia +por ideaes diversos, contemplação amorosa +dos phenomenos que se succedem em perpetua +fluidez, em perpetua transformação, embevecimento +perante as mil fórmas alliciadoras +com que a eterna illusão nos tenta, nos +seduz, nos anesthesia, para nos fazer aceitar +o pesado encargo da vida... +<br /> + +<br /> + +A riqueza extraordinaria d'esta intelligencia +consiste na quantidade de contrastes, de +aspectos e de <em>nuances</em> que n'ella se +conciliam +e n'ella se contém. Os contrastes de um caracter +<span class="pagenum">[233]</span> +são o sêllo da sua individualidade, da +sua vida exuberante e intensa. Os contrastes +de idéas cabendo em uma intelligencia dão a +medida do seu grande valor. +<br /> + +<br /> + +As contradições que desnorteiam uma logica +vulgar, não assustam por exemplo o pensamento +allemão de uma tão extraordinaria +complexidade. A concepção, a synthese magnifica +de um Hegel envolve e concilia os mais +contrarios termos no seu vastissimo seio. Ora, +em Renan, além da influencia da Biblia, tão +accentuada no seu modo dizer e de sentir, +além da influencia grega tão esplendidamente +demonstrada na <em>oração sobre a +acropole</em>, que +vem inserta nos adoraveis <em>Souvenirs de +jeunesse</em>, +actuou de um modo profundo, decisivo +a influencia da Allemanha. +<br /> + +<br /> + +Na sua moral Renan obedece á +inspiração +de Kant, na sua concepção do Universo, Renan +é Hegeliano. E senão vejamos esta phrase +caracteristica: +<br /> + +<br /> + +«Deus é immanente no conjunto do Universo, +e em cada um dos seres que o compõem. +Não se reconhece, porém, egualmente em todos. +Reconhece-se mais na planta que no rochedo, +mais no animal que na planta, mais no +<span class="pagenum">[234]</span> +homem que no animal, mais no homem intelligente +que no cerebro limitado, mais em +Socrates que no homem de genio, mais em +Buddha que em Socrates, mais em Christo +que em Buddha.» +<br /> + +<br /> + +Eis o resumo de toda a theologia hegelina +e <em>renanesca</em>. +<br /> + +<br /> + +Se accrescentarmos a isto a affirmação de +que nenhuma vontade particular se tem manifestado +até hoje, nem poderá jámais +manifestar-se +na evolução do Universo, ou na marcha +da humanidade, mas que esse Deus, de +que elle nega a existencia pessoal, está por +assim dizer em formação no tempo e no +espaço, +á proporção que o mundo vai attingindo +a consciencia sempre mais perfeita de si +proprio, e que o homem vai descobrindo as +eternas leis da verdade, da belleza, da virtude +e do bem; de que o Universo tem um fim +idéal, aspira a um divino objectivo e não +é +nem póde ser a resultante de uma +agitação +inane, inutil e vã; que a razão, reinando mais +e mais sobre a humanidade, acabará por +<em>crear +Deus</em>, creando o bem absoluto, e a divina harmonia +das cousas;―nós teremos completado +a philosophia de Renan, nem sempre original, +<span class="pagenum">[235]</span> +e em todo caso pouco consoladora para os humildes +e para os pobres de espirito que em +nada collaboram para a formação definitiva +d'esse Deus, que está em via de apparecer vizivel +aos homens que hajam attingido o mais +alto ponto da consciencia... +<br /> + +<br /> + +Esta philosophia reveste-se porém, das mais +deliciosas fórmas, ella tem para se desenvolver +e para se reduzir a preceitos geraes, um +instrumento incomparavel, de uma graça que +nenhum artista ainda egualou. +<br /> + +<br /> + +Esse instrumento, que é a prosa de Renan, +é que o torna principalmente querido entre os +que lêem... +<br /> + +<br /> + +A sua melancolia de celta, a sua sensibilidade +doentia, a doçura estranha, inspirada de +algumas das suas phrases, tem tido sobre a +minha alma de mulher o poder inexplicavel +de um sortilegio. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>III +</h4> + +<br /> + +O desinteresse levado quasi a um extremo +irritante para os praticos homens de hoje, +a fidelidade tocante a todas as causas vencidas; +um amor das tradições da raça, que se +exalta até á poesia, uma fórma de +imaginação +absolutamente singular e inconfundivel caracterisam +os Celtas, a cuja raça Renan tanto se +orgulhava de pertencer. +<br /> + +<br /> + +«Em parte alguma, diz elle, a eterna illusão +se adornou de mais seductoras côres, e no +grande concerto da especie humana nenhuma +familia egualou esta, nos sons penetrantes, que +vão até o coração. Os seus +cantos de alegria +acabam em tom elegiaco; nada eguala a deliciosa +<span class="pagenum">[237]</span> +tristeza das suas melodias nacionaes; +dir-se-hiam emanações do céu, que, +deslisando +gotta a gotta dentro d'alma, a penetram, +como reminiscencias de outro mundo. +<br /> + +<br /> + +«Ninguem, como ella, saboreou jámais +tão +longamente essas volupias solitarias da consciencia, +essas reminiscencias poeticas, em que +se cruzam simultaneamente todas as sensações +da vida, tão vagas, e profundas e penetrantes, +que, a prolongarem-se muito, fariam +morrer, sem que pudesse dizer-se se era de +delicia ou de amargura. +<br /> + +<br /> + +A infinita delicadeza de sentimento que caracterisa +a raça celtica está estreitamente ligada +á sua necessidade de concentração... +D'ahi esse pudor delicioso, esse <em>não sei +quê</em> +de velado, de requintado, de sobrio, a egual +distancia da rhetorica do sentimento tão familiar +aos povos latinos e da ingenuidade reflectida +que tanto se faz sentir nos allemães. +<br /> + +<br /> + +«Essa raça quer o infinito; tem sêde +d'elle; +procura-o a todo o preço, para além da tumba, +para além do inferno...» +<br /> + +<br /> + +Estas phrases de Renan, colhidas no seu esplendido +estudo sobre a <em>poesia das raças +celticas</em> +<span class="pagenum">[238]</span> +são o segredo de mil particularidades +d'aquella fina sensibilidade de artista. +<br /> + +<br /> + +O que elle diz dos cantos nacionaes da sua +raça, podia egualmente applicar-se ao genero +indefinivel de encanto quasi physico que a sua +prosa exerce em temperamentos accessiveis a +certa ordem de emoções. +<br /> + +<br /> + +A estranha combinação que n'elle se fez de +duas inspirações tão oppostas e ambas +tão +pronunciadas no seu espirito, a da poesia biblica +e a da poesia dos Celtas; a alta cultura +complexa que o seu entendimento assimilou +de um modo tão feliz; o dom irresistivel da +ironia que a fada que presidiu ao seu nascimento +lhe trouxe occulto entre as mais finas +flores de uma sensibilidade morbida; o optimismo +de um temperamento são e de uma +calma existencia, luctando com a noção pessimista +que a sciencia lhe deu do Universo e +da vida; as suas tendencias de +<em>dilettante</em> e de +aristocrata, desenvolvido em um meio de brutal +democracia e de <em>lucta pela vida</em> +phrenetica; +a hereditariedade de uma mãe da Gasconha e +de um pae bretão; até a estranha circumstancia +de elle ter ouvido―nos braços maternos +e dos labios queridos de onde lhe escorria o +<span class="pagenum">[239]</span> +mel dos unicos beijos que não mentem,―contados +com a mais graciosa florescencia de +incidentes e detalhes, todas as nebulosas +tradicções +do Cyclo de Arthur, todas as lendas poeticas +de Bretanha, isto por uma deliciosa voz ironica, +que não acreditava n'ellas, e que era como +o acompanhamento musical da serenata +de D. Juan, o risonho desmentido áquella poesia +tecida em sonhos;―todos estes contrastes, +todas estas influencias contradictorias, composeram +em não sei que mysterioso laboratorio, +a essencia rara que era o genio de Renan. +<br /> + +<br /> + +Esse philtro capitoso, inebriante, seria salutar? +Parece-me, receio bem que não! Renan +era muito do seu tempo para não ter d'elle a +pontinha de corrupção intellectual, que, em +temperamento physico menos equilibrado, levaria +ao scepticismo dissolvente, á egoistica +indisciplina que se traduz pela satisfação de +todas +as paixões, ainda as mais funestas. +<br /> + +<br /> + +Elle, que era um santo na pratica da vida, +e que, sahindo do seminario, quiz trazer para +o trato social as virtudes, a castidade, a serena +despreoccupação de sentimentos que o agitassem, +que lhe haviam sido recommendadas pelos +padres que o creáram; elle, que era um santo +<span class="pagenum">[240]</span> +na moral, podia na vida intellectual ser esse +delicioso <em>diletante</em> que se comprazia +em perder-se +nos complicados meandros do pensamento, +amando como Socrates a virtude e +chamando-lhe como Bruto um <em>nome +vão!</em> +glorificando o martyrio e notando ao mesmo +tempo a impossibilidade que ha para o homem +superior em morrer por <em>uma +idéa</em>, necessariamente +falsa, pois que nunca a verdade póde +estar em uma só face de qualquer doutrina; +recommendando a <em>moral</em> como +«a cousa por +excellencia verdadeira e séria» e dizendo aos +homens, aos fracos mortaes a quem o desinteresse +custa tanto, que nenhuma recompensa +lhes advirá dos sacrificios feitos a essa +abstracção +sublime; negando a intervenção de +Deus na obra universal e affirmando que o +Universo tem um fim divino; sentindo e communicando +aos que o lêem, as sensações mais +dubias e as mais contradictorias; vibrando ao +influxo das idéas mais diversas, desde o mysticismo +até a transcendente ironia, tendo feito +a viagem á roda do mundo do pensamento, +e vindo de lá, da sua longa e laboriosa romaria, +egualmente indifferente ou egualmente benevolo +para todas as doutrinas, para todos os +<span class="pagenum">[241]</span> +estados da alma, menos para o fanatismo dos +sectarios, que lhe inspirava um desdem piedoso, +e que ainda assim comprehende, porque +ninguem entendeu melhor Jeremias e Ezéchias, +os prophetas da feroz Jerusalem! +<br /> + +<br /> + +Elle podia ser essa encarnação suprema do +genio da critica moderna. Mas os que não +têem o mesmo dom feliz de separar a vida da +intelligencia da vida dos sentidos? Mas os +que vivem a sua philosophia e traduzem em +actos as suas theorias?... +<br /> + +<br /> + +Oh! para esses, a doutrina d'esse santo será +o mais corrosivo dos venenos; o encanto miraculoso +d'aquelle genio ondeante, cujo pessimismo +desabrochava na flor de um sorriso e +cuja esperança se afundava, mysteriosa e lugubre +nymphéa, no pantano glauco de uma +negação sombria,―seria a mais desorganisadora +e a mais corruptôra das lições! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Mas esquecemos o que houve de triste +e de negativo n'essa philosophia, cujas raizes +mergulham no complicado e sceptico pensamento +germanico! +<br /> + +<br /> + +Nós, as mulheres, amemo-lo pela graça―esse +<span class="pagenum">[242]</span> +dom feminino, que elle possuiu como ninguem +mais, pela linguagem divina, de que elle +revestiu as suas idéas, por milhares de trechos +verdadeiramente impeccaveis, de uma unctuosidade +evangelica, de uma pureza transcendente, +de uma poesia ineffavel, com que elle +enriqueceu a litteratura universal. +<br /> + +<br /> + +Como havia em Rénan de tudo,―e é este +o seu caracteristico mais singular, e é este, em +face da estricta logica, o defeito mais reprehensivel +da sua intelligencia―podia um admirador +consciencioso e delicado extrahir, dos +seus livros innumeros, um livro piedoso, especie +de <em>Imitação</em>, +menos ascetico, porém, +mais perfumado das flôres do Evangelho primitivo; +livro para ser lido em hora de crise +d'alma, livro para ser decorado pelos delicados, +pelos contemplativos, pelos tristes... +<br /> + +<br /> + +No prefacio dos seus <em>Estudos de Historia +religiosa</em>, diz Renan pouco mais ou menos +isto mesmo. +<br /> + +<br /> + +Formúla o voto de que alguem, das perolas +soltas do seu escrinio, que sabemos ser +de millionario, compozesse uma especie de +<em>livro d'horas</em>, para ser folheado +depois da sua +morte, por finas, esguias e brancas mãos patricias, +<span class="pagenum">[243]</span> +na paz obscura e calmante das cathedraes. +<br /> + +<br /> + +Oh! Como a subtil ironia que atravessa, +flecha de luz aeria, este voto estranho, é bem +d'elle! D'esse aristocrata, que deveu á democracia +a liberdade que amplamente gozou; d'esse +<em>dilettante</em>, d'esse mystico que +desejaria ser +enterrado na nave lateral de uma sombria egreja +catholica; d'esse ironista que manejou tanta +vez o arco de Voltaire com settas mais finas, +settas feitas de ouro; d'esse philosopho que +prégou a inanidade da sabedoria; d'esse sabio +que se ria da sciencia; d'esse iconoclasta dos +templos que ungiu de balsamos tão inneffavelmente +doces os pés de Jesus Christo, e que +achou na piedade da sua alma uma fórmula +de scepticismo mais respeitosa que muitas +orações, +de um realismo por assim dizer concreto +e material... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Se eu pude traduzir a impressão que elle me +dava, impressão confusa e deliciosa, indefinivel +e querida, impressão que era ao mesmo tempo +receio de me deixar seduzir, encanto ao sentir-me +arrastada na corrente d'aquelle feiticeiro +<span class="pagenum">[244]</span> +perigoso; se eu pude dizer todo o amor com +que lhe quiz, e todas as restricções com que +este sentir me subjugára, dou-me por feliz, +porque a fazer a critica da obra de Renan, a +isso nunca eu ousaria aspirar. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>Oliveira Martins +</h3> + +<h4> +I +</h4> + +<br /> + +Tres mezes decorreram já desde que a negra +terra do cemiterio o encobriu aos olhos +dos que o amavam, e não está de molde o mundo +moderno, que tumultua desvairadamente +anarchico para chorar os seus mortos ou para +commemorar os seus heróes! +<br /> + +<br /> + +Desde que elle morreu, esta pobre nacionalidade +portugueza que a sua alma soube tão +bem estudar, comprehender, amar nos momentos +typicos da sua grandeza, chorar nos espasmos +convulsivos ou no torpôr comatoso da +sua longa agonia, desde que elle morreu, já +<span class="pagenum">[246]</span> +esta pobre patria, tão sua amada, se tem deixado +afundar mais alguns gráos no abysmo de +uma decadencia para que não ha cura.<sup><a href="#f1">[1]</a></sup> +Quasi +todos o esqueceram, a elle, ao grande melancolico +que, durante mais de vinte annos, se +não cansou de avisar os despreoccupados, de +accusar os cynicos, de analysar cruamente ou +desalentadamente o lento processo por que uma +nação se desagrega e esphacella e para quem +a historia foi mais uma obra de moralista do +que um trabalho de laboriosa e minuciosa +erudição. +<br /> + +<br /> + +Quasi todos o esqueceram, ou se recordam +apenas do que mais ephemero e contingente +houve no seu espirito, e uma das coisas que +mais dóe é este silencio, mortalha peior que +todas as mortalhas, que na hora seguinte ao +desapparecimento de um grande espirito lhe +envolve nas funerarias dobras o nome que parecia +tão brilhante em vida! +<span class="pagenum">[247]</span> +<br /> + +<br /> + +Depois, mais tarde, é certo que a posteridade +vinga esse nome da indifferença da +geração +a que elle devia ser mais querido, mas +isso não impede que a impressão geladora de +tão duro esquecimento faça soffrer algumas almas +raras que não esquecem o que amaram... +<br /> + +<br /> + +Para mim, a morte de Oliveira Martins foi +um golpe dolorosissimo... +<br /> + +<br /> + +Feridos os dous por uma doença traiçoeira +que se apresentava no empobrecido organismo +de ambos, egualmente ameaçadora de morte +proxima e que para elle tão cedo realizou a +negra ameaça, ambos tinhamos partido com +differença de dias apenas para Cascaes. +<br /> + +<br /> + +Eram contiguas as casas que habitavamos, +davam ambas para o lindo parque que o fallecido +Visconde de Gandarinha alli plantou +luxuosamente. +<br /> + +<br /> + +A primavera tinha desdobrado pelo parque +todo em viço e pela extensão dos campos um +enorme estendal das flôres mais frescas, mais +vivas, mais cheias de mimo e côr. Inundavam-nos +as salas os lyrios amarellos, as rubras +papoulas, os malmequeres brancos e dourados, +as verdes espigas, toda essa divina e +<span class="pagenum">[248]</span> +inoffensiva flóra dos campos que consola os +doentes sem os envenenar. +<br /> + +<br /> + +Através das rendas transparentes do arvoredo +em que todos os tons, todas as +<em>nuances</em> +do verde se casavam em uma gamma opulenta +e maravilhosa, avistava-se, das janellas +dos dous convalescentes, o mar, o grande mar +azul, em que Oliveira Martins lêra tão +commovedoramente +a lenda do nosso destino nacional, +a historia gloriosa e tragica da vida e +da morte da Patria Portugueza. +<br /> + +<br /> + +Barcos de véla passavam a cada instante, +e elle sabia conhecer cada typo de embarcação. +<br /> + +<br /> + +Cada véla que atravessava o mar longinquo, +palpitando ao vento fresco de abril, tinha +para elle uma suggestão viva, uma lembrança +saudosa ou pittoresca. +<br /> + +<br /> + +A luz, a luz embriagante da primavera de +Portugal, derramada em caudaes da concava +saphyra dos Céus, reanimava-o dia a dia, dava-lhe +aspirações frementes de vida, de alegria, +de trabalho, de actividade mental. +<br /> + +<br /> + +Ouvi-lo era um encanto. +<br /> + +<br /> + +Menos abatido de espirito, e mesmo de corpo, +que eu, era elle quem, descendo a escada +<span class="pagenum">[249]</span> +da sua casa e subindo a da minha, vinha sentar-se +na pequenina sala onde eu quotidianamente +esperava aquella visita deliciosa. +<br /> + +<br /> + +E de sua voz lenta, cheia de pausas, de +uma doçura como que abafada, modulando-se +em tons de intima melancholia, de acre desprezo, +de tolerante e passivo desdem, e ás vezes, +raras vezes, de alegre e despreoccupada +ironia, ia preguiçosamente escorrendo toda +uma philosophia da Vida, triste sim, mas não +desesperada nem crúa... +<br /> + +<br /> + +Mystico de temperamento, mystico de sentir, +o seu scepticisrno das coisas era temperado +sempre por aquelle instincto tão raro na +alma penisular, positiva até na sua fé, +o instincto +do mysterio ambiante, o presentimento +de alguma coisa ignorada que nos cerca, acompanha, +domina, nunca revelada, nunca explicada, +nunca tangivel, mas tão impossivel de +definir como de eliminar... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +«<em>There are more things in heaven and earth, +Horatio.<br /> + +Than are dreamt of in your philosophy.</em>» +</div> + +<br /> + +<br /> + +Estas palavras do Hamlet lembravam-me +quando o ouvia discorrer de vagar, sempre +muito de vagar, olhos de sonho fitos vagamente +<span class="pagenum"><a name="p250" id="p250">[250]</a></span> +no espaço, como que vendo n'elle <a href="#e23">coisas</a> +que nós lá não viamos... +<br /> + +<br /> + +Falávamos de tudo. Mais, no emtanto, do +presente que do passado. Era nobre, glorioso, +épico o passado? De certo! +<br /> + +<br /> + +Mas que importava, se estava inteiramente +extincto para nós. O presente causava á grande +alma especulativa e triste de Oliveira Martins +um tedio inenarravel. Esta agonia sem grandeza; +esta lucta de mesquinhos, de baixos interesses, +lembrando a germinação e o fervilhar +de vermes na putrefacção de um cadaver querido; +esta inconsciencia de perigos imminentes; +esta ignorancia universal de todas as forças +e elementos que, ou conjugados ou antagonicos, +hão de fatalmente ter uma influencia +capital no modo de ser organico da sociedade +portugueza; este risonho cynismo que anima +as classes dirigentes e lhes inspira todas as +manifestações da sua actividade ou da sua +inercia; este quadro desolador de um paiz que +lucta pela vida, é verdade, mas que perdeu +todas as energias materiaes ou ideaes, por +meio das quaes uma vida se conserva―arrancava-lhe +expressões de uma tão inconsolada +<span class="pagenum">[251]</span> +tristeza, como eu me não recordo de as ter +ouvido a mais ninguem. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>II +</h4> + +<br /> + +Outras vezes, nas horas mais calmas, mais +doces da conversação, quando o crepusculo ia +envolvendo a paizagem maritima, tão doce, +suggestiva e melancolica, em uma especie de +ideal neblina azul―era pelo seu trabalho passado +que os olhos do grande morto se espraiavam. +<br /> + +<br /> + +Dizia-me então a commoção intensa, +dolorosa, +extenuadora, com que elle <em>vivera</em>, +por +assim dizer, algumas scenas da sua Historia, +revelando essa profunda e hyper-aguda sensibilidade +intellectual que é talvez a feição +predominante, +a <em>faculté maitresse</em> do +seu genio... +<br /> + +<br /> + +Em momentos sagrados, d'estes que serão +um eterno segredo entre o artista que +<em>sente</em> e +o Deus que o inspira, ou antes em momentos +em que o artista se sente um deus, isto é, um +Creador, e em que o elemento divino, de que +o seu genio é a revelação suprema, o +levanta +<span class="pagenum"><a name="p252" id="p252">[252]</a></span> +acima de si proprio e da sua pobre existencia +ephemera, fugitiva, mortal, o grande artista, +que havia em Oliveira Martins, vivia seculos +de gozo extenuante, de volupia ideal incomparavel... +<br /> + +<br /> + +―«Sahía d'esses momentos alagado em lagrimas +e como que exhausto, envelhecido»―contava +elle, deixando transparecer na palavra +e no gesto um vago assombro. +<br /> + +<br /> + +É por isto que o trabalho lhe exhauriu a +mais pura seiva do seu sangue, não porque <a href="#e24">fosse</a> +nem excessivo, nem brutalmente +aturado, +como por exemplo o de Balzac. +<br /> + +<br /> + +Outras vezes ainda a saudade levava-o docemente, +talvez sem dar por isso, a evocar a +memoria do querido amigo morto, de Anthero +de Quental. Oliveira Martins fôra o companheiro, +o confidente, o amigo dilecto do poeta +dos <em>Sonetos</em>, em quem Souza Martins, +n'um +magistral estudo psychico-pathologico, acaba +de descobrir uma ascendencia scandinava, que +explica e justifica a essencia de sonho nebuloso +e mystico de que o seu talento parece haver +sido elaborado. +<br /> + +<br /> + +Falando de Anthero, era inexgotavel a memoria +de Oliveira Martins. O intimo drama +<span class="pagenum">[253]</span> +d'aquelle coração e d'aquelle espirito ninguem +melhor o conheceu e interpretou. +<br /> + +<br /> + +A excessiva idealisação na esphera sentimental, +o abuso do pensamento, a acceitação +simultanea das mais contrarias, das mais oppostas, +das mais irreductiveis theorias, a multipla +concepção da vida que n'esse desequilibrado +de genio se transformou na loucura e +na morte: tudo elle analysava, estudava, esclarecia +com aquella attenção paciente, com +aquella agudeza de intelligencia, com aquelle +estranho dom de penetrar e comprehender as +almas mais diversas,―e até uma alma diversa +segundo os momentos, a influencia exterior, +as crises morbidas, a propria temperatura +physica,―com aquella extraordinaria +lucidez critica, serena, impessoal que assignala +os homens verdadeiramente superiores. +<br /> + +<br /> + +Para elle proprio―deixem me este orgulho +de que aliás tenho recordação escripta +pela +sua propria mão e confirmado pela sua sublime +e dedicada e heroica enfermeira, amiga e +esposa―para elle proprio estas conversações +que o capricho de cada momento ia inspirando +e movendo, se tinham tornado um prazer +subtil e delicado. Eu ouvia, sem muitas vezes +<span class="pagenum">[254]</span> +fazer mais que suggerir, excitar, conduzir um +pouco ao sabor da minha curiosidade intellectual +o rumo errante da sua palavra fascinadora... +<br /> + +<br /> + +Elle pensava alto, e gosava talvez de dar +fórma concreta ás visões fugitivas da +imaginação, +de prender o peso de uma definição +verbal, á aza subtil de uma idéa que ia esmaecer, +volatilisar-se, fugir espaço em fóra... +<br /> + +<br /> + +O ardente desejo de Oliveira Martins, sedento +de vida, como todos os feridos por +aquella doença atroz que escolhe os melhores +e os mais delicados organismos, para os fulminar +em plena flôr de intelligencia e vida―o +ardente desejo de Oliveira Martins era partir +para Castella e estudar de perto o theatro +de scenas que a sua mão magistral ainda deixou +esboçadas em rapidas notas. Escrever o +seu livro sobre D. João II e depois terminar +por D. Sebastião,―o querido heroe lendario, o +nosso rei Arthur fielmente esperado durante +seculos por tantas almas de fé,―o cyclo da +nossa vida nacional; que depois não tem +feito mais que arrastar-se, desprestigiada, desformisada, +pervertida na fórma e na essencia, +até esta tristeza de hoje amorpha e gelatinosa: +<span class="pagenum">[255]</span> +eis o sonho concebido pelo escriptor glorioso +e admiravel. +<br /> + +<br /> + +Foi com o fito de visitar a Hespanha e depois +de ir trabalhar em algum eremiterio bem +recolhido, bem arejado e fresco, bem afastado +de todo o movimento social, que Oliveira Martins +mais robustecido, e na apparencia melhorado, +deixou Cascaes. +<br /> + +<br /> + +Ha uma carta sua de Salamanca em que +transparece do novo aquella tristeza que na +doença o acompanhou como um presentimento +funereo. Não resisto ao desejo de copiar alguns +trechos d'ella:―«Ahi vão duas linhas +do viajante que pisa agora as terras de Santa +Thereza. +<br /> + +<br /> + +«Em Alba de Tormes esteve ella; aqui na cathedral +tem um dedo que eu hontem tive a +honra de tocar. +<br /> + +<br /> + +«Dizia a Santa, ardendo em divino amor: +<em>muero porque no muero</em>. Eu +não digo outro +tanto, mas, em verdade, a vida não é realmente +senão o desdem de viver e de morrer. +Morrer para quê? Para quê viver? Os hespanhoes +têem uma locução muito frequente e +muito +expressiva. É uma phrase, na qual, como +succede com a musica, cada um mette o que +<span class="pagenum">[256]</span> +tem na idéa. <em>Quien sabe?</em> +Quem sabe o que é +viver? Quem sabe o que é morrer?» +<br /> + +<br /> + +N'esta fluctuação vaga do pensamento que +se comprazia em ver sempre de cada problema +as duas faces contrarias, está em +<em>raccourci</em> muito +do que foi a philosophia particular de Oliveira +Martins! +<br /> + +<br /> + +Da viagem a Hespanha voltou elle já ferido +sem apello e sem possivel cura pelo punhal +traiçoeiro da Morte! +<br /> + +<br /> + +Ainda esperou contra todas as esperanças, +ainda a paizagem agreste e idyllica a um tempo +do convento de Brancanes e cercanias o +embriagou como a ultima estrophe deliciosa +d'esse poema da Natureza, que para a alma +d'elle, como para poucas almas, tinha harmonias, +côres, visões divinas, philtros alucinantes +e poderosissimos. E ainda como ultima exhalação +do seu querido espirito para o meu, +algumas palavras me vieram provar a força +pertinaz da sua illusão e os extremos da sua +delicada e preciosa amizade. +<br /> + +<br /> + +«―Hontem, para provar a mão, comecei a +trabalhar no meu <em>Principe Perfeito</em>. +Não imagina +a alegria que me deu vêr que não tinha +morrido ainda. Ainda escrevo. Ainda vivo. +<span class="pagenum">[257]</span> +Cumpra depressa a promessa da sua visita... +<br /> + +<br /> + +«―Não ha calmante como a paizagem e os +rumores do campo. Sente-se a gente arvore. +Aqui ha tudo. Solidão no meio de um campo +habitado, pomares nos valles, montes em volta, +em frente o mar. Que mais se quer? O +convento onde estou é enorme; cabe aqui +tudo. Ha terraços delirantes. Ha arvores verdadeiras; +uma matta a valer; pinheiros, sobreiros, +medronheiros. Venha depressa...» +<br /> + +<br /> + +É a ultima vez que a sua mão traçou +linhas +que me fossem dirigidas e eu propria infelizmente, +preza pela doença em Cascaes que +nunca deixei, não o tornei mais a ver. +<br /> + +<br /> + +Mas publiquei trechos d'estas duas cartinhas +preciosas, porque duas faces bem caracteristicas +do espirito complexo de Oliveira Martins +estão aqui adoravelmente retratados. N'uma a +ondulação melancholica e vaga do seu sonho +ante o mysterio da vida e o mysterio da morte. +N'outra, na ultima, o seu ardente amor +pantheista da natureza viva, aquella paixão +fremente que o fazia dar uma alma á +paizagem, +communicar a sua fecunda emoção ás +arvores e ás cousas, sentir no seio d'ellas a +communhão mysteriosa que prende em uma +<span class="pagenum">[258]</span> +cadeia de infinitos élos sem quebra, a pedra á +planta, a planta ao animal, o animal sem alma +á alma infinita, á alma Universal! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>III +</h4> + +<br /> + +Deante da obra tão vasta e variada de Oliveira +Martins não póde ainda a critica lavrar +qualquer juizo definitivo. É cedo de mais para +que esse tribunal pronuncie a sentença decisiva +que tem de ficar gravada no Pantheon +das glorias portuguezas. Mas se a critica impassivel +e austera tem de addiar ainda o resultado +da sua investigação, é licito a cada +um +de nós dar a impressão intima que recebeu +do trabalho devéras extraordinario do escriptor +que se finou. +<br /> + +<br /> + +Em primeiro logar a dualidade de aspectos +que essa obra apresenta, transforma-a em +uma especie de problema altamente interessante +para a psychologia. +<br /> + +<br /> + +Em Oliveira Martins, a par do mystico contemplativo, +do sonhador philosopho, do moralista +desdenhoso, havia―estranha coisa, tão +<span class="pagenum">[259]</span> +rara na nossa raça simplista―um ser inteiramente +contrario a esse, um espirito positivo +na analyse dos factos, rigoroso nas deducções +do pensamento, pratico na administração dos +negocios, e em que uma rara sagacidade das +coisas se alliava a um methodo maravilhoso +na classificação dos conhecimentos positivos. +<br /> + +<br /> + +Estes dois homens tão diversos formaram +um só, ás vezes coutradictorio até ao +enigma +irritante, incomprehensivel ao entendimento +médio, illogico perante a opinião do vulgo. +Separados, cada um d'elles formava um conjuncto +completo de qualidades harmonicas, +uma força intellectual de primeira grandeza. +Juntos, havia momentos em que eram capazes +de desnortear, de entontecer até o espirito +mais perspicaz e mais aberto ao feliz dom da +sympathia intelligente. Assim como o seu talento +tinha estas duas faces distinctas quasi +inconciliaveis, pois que presuppõem qualidades +em absoluto antagonismo e temperamentos +em radical opposição, assim tambem a sua +obra parece dividir-se em dois ramos diversissimos. +A um d'esses ramos, o mais arido +para mim, o que nada admira―pertencem +os seus tão notaveis artigos jornalisticos, quasi +<span class="pagenum">[260]</span> +todos compilados nos volumes <em>Politica e economia +nacional</em> e <em>Carteira de um +jornalista</em>, +os seus opusculos e livros sobre o <em>Regimen +das riquezas</em>, o +<em>Socialismo</em>, as +<em>Eleições</em> e +até +o seu magnífico projecto de <em>Lei de fomento +rural</em>, que póde bem chamar-se um programma +completo de restauração patriotica, uma +especie de systema de hygiene applicado ao +organismo exangue de um paiz que, primitivamente +destinado a uma existencia modesta +e rudemente tonica de trabalho rural, de obscura +felicidade sem historia, se gastou nos +excessos e nas aventuras d'esse sonho ultramarino +que o fez viver, é certo, e que lhe deu +renome, mas que o condemnou á longa e incuravel +anemia de que todos morremos hoje +aos poucos... +<br /> + +<br /> + +É como um homem verdadeiramente pratico +que apparece aos nossos olhos, o publicista, +o deputado, o politico nem sempre feliz, +embora sempre perfeitamente intencionado +do periodo que talvez mais do que nenhum +outro, elle quereria ter riscado da historia, +aliás tão nobre da sua vida. É sob +essa face +que elle assombrou muitas vezes não sómente +os espiritos da nossa terra mais chãos e mais +<span class="pagenum">[261]</span> +positivos, mas ainda os <em>homens de +negocio</em> +estrangeiros com quem teve de tratar tantos +assumptos de importancia e que ficavam falando +d'elle como de uma intelligencia rapida, +aguda e fria, absolutamente rara nas nações +peninsulares. +<br /> + +<br /> + +Se essas faculdades sem o auxilio de outras +já são sufficientes para assignalar o alto valor +de um homem, o que fará quando a essas se +ajuntam em rarissimo connubio outras, mais +altas, mais nobres, mais reveladoras de uma +grandeza ingenita e de um valor moral amplissimo?!... +Quando o mesmo homem, +que ha pouco parecia versar, com tanta +segurança e tão fino criterio, +questões de que +dependem o bem estar material e a ordem +administrativa e economica das nações, se revela +de repente um delicado artista vibrante +e creador, um entendimento alado, capaz de +erguer-se ás cumiadas mais altas do Pensamento, +um vidente para quem a historia é +uma continua revelação de reconditos segredos +da alma, uma evocação magica de figuras +vivas, uma palpitante suggestão de moral +e de justiça?!... +<br /> + +<br /> + +Os que tiverem de pôr de pé deante da +<span class="pagenum">[262]</span> +posteridade a figura inteira de Oliveira Martins, +têem de evocal-o sob estes dois aspectos +e fundir ambos na culminação intellectual a +que elle attingiu. +<br /> + +<br /> + +Outros fizeram a historia com mais exactidão +e mais verdade―se a verdade historica +é apenas a verificação rigorosa das +datas e a +decifração lenta dos documentos coevos; outros +fundiram em mais bronzeo estylo as cogitacões +do seu vasto pensamento; outros interrogaram +com mais paciente e minucioso escrupulo +os monumentos do passado, legados +sob multiplas fórmas materiaes ou moraes, artisticas +ou religiosas, á geração sua +contemporanea: +poucos têem possuido, mais ardente +e mais vivo esse poder estranho de penetrar +na alma de uma raça e de lhe traduzir as +aspirações +occultas ou os sonhos realisados; de +lêr a summula completa dos destinos de uma +nação na obra truncada que ella tentou em +vão consummar; de evocar em plena +vibração +de vida, em plena intensidade de emoção +communicativa +os typos representativos de uma +época remota e finda; de emprestar a sua +propria alma á alma dos mortos e de os fazer +resurgir do sepulchro, onde pareciam para +<span class="pagenum">[263]</span> +sempre esquecidos, á luz fremente do mais +bello e claro dia. +<br /> + +<br /> + +Accusam-n'o com razão de +contradicções, de +inexactidões e erros de facto, que um espirito +inferior meticuloso podia facilmente corrigir +ou evitar. Sim. Tudo isso é verdade. +<br /> + +<br /> + +Mas escrevam, se são capazes, a Historia +que elle escreveu, interessem-nos apaixonadamente +como elle nos interessou, dêem o vigor, +o relevo, a vida que elle deu aos personagens +que evocava, façam de cada um dos seus livros +o drama agitado que elle fez, transformem +a Historia como elle a transformou, em +uma prophecia, em um lamento, em uma licção, +em uma suggestão ardente, em uma +saudade inconsolada do que foi e não póde +tornar a ser. +<br /> + +<br /> + +Outros narram precisamente os factos, elle +commentou-os, esclareceu-os, deu-lhes o sentido +occulto, a amarga e profunda philosophia. +<br /> + +<br /> + +O nosso destino historico; o papel particular +que aos portuguezes foi distribuido n'essa tragedia +épica da peninsula iberica, que deu +mundos ao mundo inconsciente; o preço atroz +por que nós pagamos a posse d'esse ideal que +foi nosso um momento e que perdemos justamente +<span class="pagenum">[264]</span> +por tel-o realisado completo;―quem +melhor o soube explicar, tornar claro aos olhos +ainda os menos penetrantes, tornar palpavel +aos entendimentos ainda os mais obtusos? +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>IV +</h4> + +<br /> + +Na obra que elle deixa tão grande, que revela +uma capacidade e um methodo de trabalho +assombrosos, pois só assim se poderia escrever +tanto, longe de tudo ser perfeito ha +muita coisa desegual, muita coisa que elle não +teria escripto se a necessidade quotidiana o +não houvesse por largos annos espicaçado,―porque +é preciso que se saiba lá fóra que +este +trabalhador incansavel foi um chefe de familia +exemplar, e que, ficando na quasi infancia +orphão de pae, foi elle quem auxiliou nobremente +sua mãe a educar e formar uma familia +numerosa de que até ao ultimo instante +foi desvelado amigo. +<br /> + +<br /> + +Deve tambem confessar-se que ha muito de +injusto e de cruel nos juizos que na, temeraria +mocidade, isolado, e inexperiente elle formulou +<span class="pagenum">[265]</span> +a respeito dos homens e das cousas. O seu +<em>Portugal Contemporaneo</em> foi mais +escripto sobre +pamphletos e artigos de jornal, sempre +suspeitos, do que sobre documentos authenticos +completados pelo austero e profundo estudo +do movimento liberal que iniciou para nós +a éra moderna. Ha capitulos na <em>Historia de +Portugal</em> que os seus livros posteriores, ungidos +tão docemente pelo amor dos heroes patrios, +parecem negar, contrariar, annullar inteiramente. +Elle proprio teve de contradizer, +na maturidade do seu grande espirito, no qual +um incessante progresso se faz sentir, grande +parte das theorias que primeiro enunciara e +que tão profundo ecco tiveram na sociedade +portugueza e tão irremediavel influencia exerceram +no espirito pessimista e desenganado da +contemporanea geração. O culto dos heroes +que elle acabou pregando e exemplificando da +maneira mais irresistivel, mais poderosa e +mais bella, foi elle―força é dizel-o, porque +deante das cinzas de um grande morto, a verdade +impõe-se como um dever sagrado―foi +elle quem quasi completamente o destruiu na +nossa alma, aliás disposta a derrubar todos os +idolos, a escarnecer todas as religiões! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[266]</span> +Mas como estas maculas parciaes, mas como +estes mesmos enganos do seu entendimento +que lentamente se foi formando, aperfeiçoando, +cultivando e depurando, desapparecem +no conjuncto da sua obra! Mas como resgatam +amplamente e soberbamente esses senões +secundarios, livros como a sua +<em>Civilisação +Iberica</em> tão admiravelmente +traçada por um +pincel de artista e de pensador, como o seu +volume <em>Os Filhos de D. João +I</em>, feito todo elle +sob uma inspiração soberba da epopéa, +como +o seu <em>Condestavel</em> tão +bello, tão puro, em que +a sua alma parece entender tão bem os mais +intimos segredos d'uma alma de extase e de +fé, prenunciando d'este modo a +resignação +ineffavel, a pacificação serena e alta, a +submissa +doçura ao mysterio supremo, no qual +todas as contradicções se conciliam, a humilde +piedade unctuosa da sua morte edificante, +d'essa morte que tantos balsamos verteu no +dilacerado coração da esposa, que n'ella teve +a sua crucificação e a sua corôa, a sua +maior +dôr e o seu consolo mais sublime! +<br /> + +<br /> + +Como em Nuno Alvares o interessa mais +ainda que o guerreiro audaz o asceta e o santo! +Que trechos aquelles em que elle, subindo +<span class="pagenum">[267]</span> +a uma altura onde não tinha subido ainda e +que representa a culminação suprema a que o +seu engenho chegou, nos conta os arrebatamentos, +as visões, as asceticas delicias em que +a alma do santo Condestavel se dilata até aos +céus! +<br /> + +<br /> + +N'este livro, mais que em nenhum outro, o +estylo de Oliveira Martins póde ser apreciado +na sua complexidade e nas suas modalidades +tão varias! +<br /> + +<br /> + +É um estylo unico, inconfundivel, atormentado, +desegual, feito de imagens propriamente +suas, de torneios de phrase inimitaveis e que +o põem a cem leguas do classicismo acceito e +consagrado. Ora se levanta em uma especie +de somnambulismo vago a alturas ennevoadas +e insondaveis, ora cahe de chofre na vulgaridade +de um realismo voluntariamente plebeu; +á ironia trascendente de umas paginas oppõe +o amargo pessimismo de outras; á colera convulsa +que o espectaculo das cousas lhe acorda +no coração, segue-se o desdem benevolo e superior +de quem julga este mundo todo illusorias +apparencias, que umas nas outras se esvaem +e se transfiguram; o seu grande poder +de suggestão vem menos dos vocabulos empregados, +<span class="pagenum">[268]</span> +menos dos epithetos escolhidos, do +que da repercussão indefinida e infinita que +certas phrases que elle emprega nos accordam +na alma. Ás vezes, ha uma limpidez serena +e correntia n'este estylo magico; outras +vezes, é obscuro erriçado de symbolos, enredado +em labyrinthos em que a mente se perde +e desnorteia! +<br /> + +<br /> + +Se o estylo deve traduzir todas as +<em>nuances</em> +de uma dada individualidade e ser o transumpto +claro e fiel de um temperamento artistico +nunca houve ninguem que tivesse um mais +accentuado estylo do que Oliveira Martins! +<br /> + +<br /> + +De cada uma das <em>maneiras</em> do +escriptor eu +queria dar idéa, transcrevendo um trecho que +lhe correspondesse, mas não será melhor que +cada leitor procure na obra tão complexa e +tão variada, aquillo que melhor quadre ao seu +gosto especial, á sua concepção +artistica, á indole +do seu espirito... +<br /> + +<br /> + +Recommendo-lhe, porém, as ultimas paginas +da mais transcendente e ideal belleza da +<em>Historia de Nun'Alvares</em>, as +descripções que +esmaltam ora com o colorido brilhante de uma +téla de Veroneze, ora com a melancolia pungitiva +de uma paizagem de Ruysdael, ora com +<span class="pagenum">[269]</span> +a luz aeria, docemente <em>unreal</em> de um +trecho de +floresta pintado por Corot, esse livro de todos +o mais admiravelmente escripto que o historiador +nos legou. +<br /> + +<br /> + +Recommendo-lhe a analyse do caracter de +Nuno Alvares, de João I, dos <em>Inclytos +Infantes</em>, +principalmente de D. Pedro, paginas de +uma psychologia tão delicada, penetrante e +subtil, em que o fundo mystico da imaginação +de Oliveira Martins se allia á sua profunda +intuição dos segredos da alma humana! E +o quadro magistral feito a duas pinceladas rapidas +da Côrte de D. Fernando, ai de nós! +tão parecida com a sociedade de hoje que não +sei mesmo dizer se não foi ella que serviu de +modelo ao artista para chegar a conseguir +taes effeitos de realismo brutal e de frisante e +juvenalesca ironia! +<br /> + +<br /> + +Não farei comparações sempre inexactas +entre +Oliveira Martins e outros escriptores que +o precederam. Acho que essas comparações +não são em alguns casos mais do que erros +palmares de critica que desconcertam e irritam! +Um escriptor que se parece com outro, +é raras vezes um artista de raça. Não +póde +um talento grande deixar de suppor uma personalidade +<span class="pagenum">[270]</span> +accentuada, forte, isto é, +<em>differente</em>. +De resto não conheço em Portugal escriptor +algum, cuja indole, cujas tendencias, cuja comprehensão +das cousas se possa comparar com +as de Oliveira Martins. +<br /> + +<br /> + +Elle nunca poderá ser considerado como um +<em>representative man</em>, nem do tempo nem +da +raça a que pertenceu. D'aqui a sua originalidade +viva e talvez o principal caracteristico do +seu talento. +<br /> + +<br /> + +Á viveza, á meiguice, á sensibilidade +vibrante +do meridional, elle juntava a profunda +melancolia, o symbolismo vago, a fluctuação +de sonho do germano, e como elle tantas vezes +se comprazia em lêr os vestigios de antigas +influencias ethnicas, no caracter dos seus +personagens historicos mais dilectos, póde tambem +dizer-se que no seu genio tão complexo, +tão estranho, tão cheio de meandros, +complicações +e antagonismos inconciliaveis se casam +o poetico elemento celta, o positivismo calculista +do phenicio, a profundidade e o pessimismo +semita, a viva paixão do arabe, e o sentimento +da Natureza que o barbaro do Norte +primeiro suggeriu ao coração seco do civilisado +latino! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>FIM +</h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>Antonio Maria PEREIRA―Editor +</h3> + +<hr /><br /> + +<br /> + +<h3> +OBRAS<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">de</span><br /> + +<br /> + +Maria Amalia Vaz de Carvalho +</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<em>A arte de viver na sociedade</em>, 1 vol. +br, 1$000 réis. Ricamente encadernado 1$400. +<br /> + +<br /> + +<em>Pelo mundo fóra</em>, 1 vol. +broch. 500 rs Encad. 700 rs. +<br /> + +<br /> + +<em>A aventura d'um polaco</em>, romance, +traduzido de V. Cherbuliez, 2 vols. broch. 400 rs. Encad. 600 +rs. +<br /> + +<br /> + +<em>Raphael</em>, traduzido de Lamartine; 1 +vol., edição de luxo illustrada e +ricamente encad. 3$200 réis.<br /> + +<br /> + +<hr /> +<h3>OBRAS DE TEIXEIRA DE QUEIROZ +</h3> + +<h4>(BENTO MORENO) +</h4> + +<b>Comedia do Campo</b>, 4 volumes, broch. +2$000 rs. +<br /> + +<br /> + +<b>Os noivos</b>, 2.ª +edição, com o retrato do auctor (no +prélo). +<br /> + +<br /> + +<b>O Sallustio Nogueira</b>, 1 vol. br. +1$000. +<br /> + +<br /> + +<b>Novos contos</b>, 1 vol. br. 600 rs. +<br /> + +<br /> + +<b>D. Agostinho</b>, 1 vol. br. 600. +<br /> + +<br /> + +<b>Morte de D. Agostinho</b>, 1 vol. br. +600 réis. Encad. 800 rs. +<br /> + +<br /> + +<b>Arvoredos</b>, contos escolhidos, 1 +volume illustrado, lindissima edição em formato +diamante, +br. 800 rs. Encadernado em percalina, folhas douradas, 1$100 rs. +<br /> + +<br /> + +<b>Amores, amores</b>... 1 vol. (no +prélo).<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2> +Collecção Antonio Maria PEREIRA<br /> + +</h2> + +<h3>A 200 RÉIS O VOLUME +</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h4> +VULGARISAÇÃO DOS MELHORES LIVROS<br /> + +<br /> + +DAS<br /> + +<br /> + +LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS +</h4> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Volumes in-8.º de 160 a 200 paginas, em corpo 8 ou 10, +excellente +edição +em optimo papel. Preço de cada volume 200 réis +brochado, +ou 300 réis elegantemente encadernado em percalina. Para as +provincias +accresce o porte do correio +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h3>Volumes publicados</h3> + +<br /> + +N.º 1―<em>Tristezas á +Beira-Mar</em>, romance de Pinheiro Chagas, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 2―<em>Contos ao Luar</em>, por Julio +Cezar Machado, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 3―<em>Carmen</em>, romance de +Merimée, traducção de Mariano Level, 1 +vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 4―<em>A Feira de Paris</em>, por Iriel, +1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 5―<em>A Mascara Vermelha</em>, romance +historico de Pinheiro Chagas, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 6―<em>John Bull e a sua ilha</em>, +traducção de Pinheiro Chagas, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 7―<em>O juramento da duqueza</em>, +romance historico por P. Chagas, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 8―<em>A lenda da meia-noite</em>, +romance phantastico, por P. Chagas, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 9―<em>A joia do vice-rei</em>, romance +historico, por Pinheiro Chagas, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 10―<em>Vinte annos de vida +litteraria</em>, por Alberto Pimentel, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 11―<em>Honra d'artista</em>, romance de +Octavio Feuillet, traducção de Pinheiro +Chagas, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 12―<em>Os meus amores</em>, contos e +balladas, por Trindade Coelho, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 13 e 14―<em>A aventura d'um +polaco</em>, por Victor Cherbuliez, traducçao +de +Maria Amalia Vaz de Carvalho, 2 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 15―<em>Os contos do tio Joaquim</em>, +por R. Paganino, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 16―<em>As batalhas da vida</em>, contos +por Guiomar Torrezão, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 17―<em>Noites de Cintra</em>, romance +por Alberto Pimentel, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 18 e 19―<em>Em segredo</em>, romance +traducção de Margarida de Sequeira, 2 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 20 e 21―<em>A Irmã da +Caridade</em>, por Emilio Castellar, +traducção de L. +Q. Chaves, 2 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 22―<em>Migalhas de historia +portugueza</em>, por Pinheiro Chagas, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 23―<em>A Cruz de Brilhantes</em>, por +A. Campos, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 24―<em>Contos</em>, do Affonso Botelho, +1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 25―<em>Contos phantasticos</em>, por +Theophilo Braga, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 26―<em>O mysterio da estrada de +Cintra</em>, por Eça de Queiroz e Ramalho +Ortigão, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 27―<em>O naufragio de Vicente +Sodré</em>, romance historico de P. Chagas, 1 +vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 28―<em>Vid'airada</em>, por Alfredo +Mesquita, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 29―<em>O Bacharel Ramires</em>, por +Candido Figueiredo, 1 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 30 e 31―<em>Amor á +antiga</em>, romance de Caiel, 2 vol. +<br /> + +<br /> + +N.º 32―<em>As Netas do Padre Eterno</em>, +por Alberto Pimentel +<br /> + +<br /> + +N.º 33―<em>Contos</em>, de Pedro Ivo, 1 +vol.<br /> + +<br /> + +<hr /> +<div style="text-align: center;">Requisições +á Livraria do editor +Antonio Maria PEREIRA<br /> + +<em>50, 52―Rua Augusta―52, 54</em>, LISBOA +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><b>Antonio Maria +PEREIRA―Editor</b><br /> + +<em>Rua Augusta, 50 +a 54―Lisboa</em> +<br /> + +</div> + +<hr /> +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><b>Maria Amalia Vaz +de Carvalho</b> +<br /> + +<br /> + +</div> + +<table style="text-align: left; width: 622px; height: 110px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="height: 25px;">Pelo mundo +fóra</td> + + <td style="text-align: right; height: 25px;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="height: 25px;">A arte de viver na +sociedade, +br.</td> + + <td style="text-align: right; height: 25px;">1$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="height: 25px;">A aventura d'um polaco +(trad.), +br.</td> + + <td style="height: 25px; text-align: right;">400</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="height: 25px;">Raphael, de Lamartine +(trad.), +enc.</td> + + <td style="text-align: right; height: 25px;">3$200</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><b>Teixeira de +Queiroz</b> +<br /> + +</div> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 622px; height: 29px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="height: 25px;">Os noivos, 2.ª +edição (com o retrato do +auctor)</td> + + <td style="text-align: right; height: 25px;">1$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>O +Sallustio Nogueira</td> + + <td style="text-align: right;">1$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Morte +de D. Agostinho, +br.</td> + + <td style="text-align: right;">600</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Arvoredos, +contos, 1 vol. +illustrado</td> + + <td style="text-align: right;">800</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Comedia +do campo, 4 +vol.</td> + + <td style="text-align: right;">2$100</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Amores, +amores... (no prelo)</td> + + <td></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><b>Wenceslau de +Moraes</b> +<br /> + +</div> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 622px; height: 29px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="height: 25px;"> +Traços do Extremo +Oriente</td> + + <td style="text-align: right; height: 25px;">500</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><b>Ramalho +Ortigão</b> +<br /> + +</div> + +<table style="text-align: left; width: 622px; height: 110px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="height: 25px;">A Hollanda, 2.ª +edição</td> + + <td style="text-align: right; height: 25px;">1$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="height: 25px;">O culto da arte em +Portugal</td> + + <td style="text-align: right; height: 25px;">600</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="height: 25px;">A +instrucção +secundaria</td> + + <td style="height: 25px; text-align: right;">240</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="height: 25px;">Hygiene da alma +(trad.)</td> + + <td style="text-align: right; height: 25px;">500</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><b>Eça +de Queiroz e Ramalho +Ortigão</b> +<br /> + +</div> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 622px; height: 29px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="height: 25px;"> +O Mysterio da estrada de Cintra, 3.ª +edição</td> + + <td style="text-align: right; height: 25px;">200</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><b>Silva Pinto</b> +<br /> + +</div> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 622px; height: 110px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="height: 25px;">Philosophia de +João +Braz</td> + + <td style="text-align: right; height: 25px;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="height: 25px;">N'este valle de +lagrimas</td> + + <td style="text-align: right; height: 25px;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="height: 25px;">A queimar cartuxos (no +prélo)</td> + + <td style="height: 25px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="height: 25px;">Santos portuguezes</td> + + <td style="text-align: right; height: 25px;">500</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><b>Oliveira Martins</b> +<br /> + +</div> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 622px; height: 166px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td>Historia +de Portugal, 2 +vol.</td> + + <td style="text-align: right;">1$400</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Portugal +contemporaneo, 2 +vol.</td> + + <td style="text-align: right;">2$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Portugal +nos mares</td> + + <td style="text-align: right;">700</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Historia +da civilisação +iberica</td> + + <td style="text-align: right;">700</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Historia +da Republica +Romana</td> + + <td style="text-align: right;">2$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Taboas +de chronologia e geographia +historica</td> + + <td style="text-align: right;">1$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>A +Inglaterra de hoje</td> + + <td style="text-align: right;">600</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Cartas +peninsulares</td> + + <td style="text-align: right;">600</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Systhema +dos mythos +religiosos</td> + + <td style="text-align: right;">800</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>A +vida de Nun'Alvares</td> + + <td style="text-align: right;">2$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>O +Principe perfeito</td> + + <td style="text-align: right;">2$000</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>Notas:</b> +<br /> + +<br /> + +<a name="f1" id="f1"></a><sup>[1]</sup> +Isto foi escripto como se vê tres mezes depois da morte +de O. Martins, n'um dos momentos mais deploraveis sob o +ponto de vista politico, que o Portugal moderno tem atravessado. +As victorias de Africa vieram n'esta hora como que alliviar +o nosso espirito do pezo esmagador que o opprimia, e +desmentir, sob determinados aspectos, o pessimismo absoluto +que n'esta phase transluz. (Fevereiro, 1896). +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 61px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p31">#pág. +31</a></td> + + <td style="text-align: center;">Para +__ encontrar</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Para +te encontrar</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p47">#pág. +47</a></td> + + <td style="text-align: center;">do musculatura</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">de musculatura</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p48">#pág. +48</a></td> + + <td style="text-align: center;">surprehem-nos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">surprehendem-nos</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e4" id="e4"></a><a href="#p57">#pág. +57</a></td> + + <td style="text-align: center;">__ +rosto</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">o rosto</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e5" id="e5"></a><a href="#p66">#pág. +66</a></td> + + <td style="text-align: center;">arvoredos'</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">arvoredos,</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e6" id="e6"></a><a href="#p74">#pág. +74</a></td> + + <td style="text-align: center;">su as</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">suas</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e7" id="e7"></a><a href="#p74">#pág. +74</a></td> + + <td style="text-align: center;">Fran ça</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">França</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e8" id="e8"></a><a href="#p79">#pág. +79</a></td> + + <td style="text-align: center;">rebento'</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">rebento,</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e9" id="e9"></a><a href="#p121">#pág. +121</a></td> + + <td style="text-align: center;">deliciciosamente</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">deliciosamente</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e10" id="e10"></a><a href="#p142">#pág. +142</a></td> + + <td style="text-align: center;">entranhas fecundos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">entranhas fecundas</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e11" id="e11"></a><a href="#p146">#pág. +146</a></td> + + <td style="text-align: center;">Santo +Agostinha</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Santo +Agostinho</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e12" id="e12"></a><a href="#p181">#pág. +181</a></td> + + <td style="text-align: center;">contante</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">constante</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e13" id="e13"></a><a href="#p186">#pág. +186</a></td> + + <td style="text-align: center;">que +que</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">que</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e14" id="e14"></a><a href="#p187">#pág. +187</a></td> + + <td style="text-align: center;">Imperio +Romana</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Imperio +Romano</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e15" id="e15"></a><a href="#p190">#pág. +190</a></td> + + <td style="text-align: center;">achaou</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">achou</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e16" id="e16"></a><a href="#p195">#pág. +195</a></td> + + <td style="text-align: center;">seu +o</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">o +seu</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e17" id="e17"></a><a href="#p219">#pág. +219</a></td> + + <td style="text-align: center;"><em>cousa +sa</em></td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;"><em>cousa</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e18" id="e18"></a><a href="#p221">#pág. +221</a></td> + + <td style="text-align: center;">qne</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">que</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e19" id="e19"></a><a href="#p227">#pág. +227</a></td> + + <td style="text-align: center;">passsamento</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">passamento</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e20" id="e20"></a><a href="#p230">#pág. +230</a></td> + + <td style="text-align: center;"><em>dile ctando</em></td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;"><em>dilectando</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e21" id="e21"></a><a href="#p231">#pág. +231</a></td> + + <td style="text-align: center;">ex prime</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">exprime</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e22" id="e22"></a><a href="#p232">#pág. +232</a></td> + + <td style="text-align: center;">difficies</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">difficeis</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e23" id="e23"></a><a href="#p250">#pág. +250</a></td> + + <td style="text-align: center;">coi sas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">coisas</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e24" id="e24"></a><a href="#p252">#pág. +252</a></td> + + <td style="text-align: center;">fossse</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">fosse</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<div style="text-align: center;"><br /> + +Variantes dos nomes próprios (à +excepção dos indicados anteriormente)<br /> + +foram +mantidas de acordo com o original.<br /> + +<br /> + +</div> + +</div> + +</div> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30404 ***</div> +</body> +</html> diff --git a/30404-h/images/fig01.png b/30404-h/images/fig01.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..3e813b0 --- /dev/null +++ b/30404-h/images/fig01.png |
