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+The Project Gutenberg EBook of As relações luso-brasileiras, by José Barbosa
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: As relações luso-brasileiras
+ a immigração e a «desnacionalização» do Brasil
+
+Author: José Barbosa
+
+Release Date: November 8, 2009 [EBook #30424]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS RELAÇÕES LUSO-BRASILEIRAS ***
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+Produced by Rita Farinha, Chuck Greif and the Online
+Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This
+book was created from images of public domain material
+made available by the University of Toronto Libraries
+(http://link.library.utoronto.ca/booksonline/).)
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+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Nov. 2009)
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+JOSÉ BARBOSA
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+As relações luso-brasileiras
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+LISBOA
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+1909
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+JOSÉ BARBOSA
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+As relações luso-brasileiras
+
+(A immigração e a «desnacionalização» do Brasil)
+
+
+
+
+LISBOA
+EDIÇÃO DE JOSÉ BARBOSA
+RUA DO LORETO, 56, 1.^o D.
+1909
+
+TODOS OS DIREITOS RESERVADOS
+
+
+
+
+LISBOA
+TYPOGRAPHIA DO COMMERCIO
+Rua da Oliveira, 10, ao Carmo
+
+1909
+
+
+
+
+_Amicus Plato sed magis amica veritas..._
+
+
+
+
+INTRODUCÇÃO
+
+
+O Brasil já foi uma região mal conhecida. Hoje já o não é. Em todos os
+centros civilizados deixou de ser ignorado. Existe, emfim! E não existe
+sómente por ser riquissimo de climas, de flora e de fauna, nem por
+offerecer, nos seus terrenos inexplorados, largo campo ás ambições
+insatisfeitas dos povos do Velho Mundo, nem sequer por haver
+desenvolvido de maneira collossal as suas producções.
+
+Tudo isso torna conhecido o Brasil. Mas o que mais lhe propaga o nome é
+a surpreza causada pela sua cultura, ainda ha pouco representada de modo
+inolvidavel e memorando pelos seus delegados na Conferencia de Haya e no
+Congresso de Hygiene de Berlim, Ruy Barbosa e Oswaldo Cruz.
+
+O que, além disso, não escapa a ninguem é a supremacia que lhe cabe
+entre as nações sul-americanas, é a funcção de arbitro da paz do
+continente, em que o investiram os estadistas da Republica, entre os
+quaes se tem de destacar a excelsa figura de Rio Branco.
+
+Para o Brasil de hoje convergem todos os olhares. Deixou de ser a terra
+do ouro e dos diamantes para se transformar em vasta arena aberta ás
+mais levantadas especulações da intelligencia e ás mais audazes e
+fecundas iniciativas materiaes. O estudo e o trabalho congregam-se para
+o seu progresso. A liberdade e a paz social acolhem e protegem os
+desherdados que alli vão buscar pão e esperanças...
+
+As sociedades européas, imbuidas de preconceitos e avassalladas pelos
+privilegios, trancam o futuro ás classes trabalhadoras. Que lhes resta,
+senão o recurso da expatriação? O caminho é o Oceano; a Chanaan é a
+America, a livre e egualitaria America, onde o trabalho é toda a
+nobreza.
+
+Nós, os portugueses, acompanhamos o movimento geral. A nossa America
+consiste principalmente no Brasil. Nem podia deixar de ser assim. A raça
+e a lingua são factores decisivos na escolha do destino.
+
+Nenhuma raça revéla maior resistencia do que a nossa, nenhuma é mais
+soffredora e tenaz.
+
+Como, porém, estamos desapparelhados para a lucta hodierna pela falta de
+diffusão do ensino, só excepcionaes qualidades ethnicas[1] explicam a
+posição que ainda cabe á nossa colonia no Brasil. Seria, no emtanto,
+indigno occultar, neste momento, que essa colonia se encontra sériamente
+ameaçada pelos nossos concorrentes. Está, aliás, na consciencia de todos
+esta verdade, que uns calam para lisonjear a nossa colonia no Brasil e
+outros por não lhe vêrem solução deante da criminosa pertinacia com que
+os governos dão tudo ás clientellas politicas e negam, por systema, a
+esmóla do ensino primario aos filhos do contribuinte faminto e
+esfarrapado!
+
+A obra da escola não se concilia com os interesses do regimen, não ha
+duvida; mas recusem ao povo, forçado a emigrar para não morrer de fome,
+a instrucção indispensavel para competir com os outros estrangeiros no
+Brasil e esperem o resultado no volume das remessas de numerario com que
+acudimos ao nosso balanço economico!
+
+O recurso das remessas do Brasil e a exportação que para esse paiz
+fazemos tornaram-se essenciaes á vida portuguesa. E, como nada se fez
+para dispensar tal dependencia e nada se procurou para assegurar aquelle
+estado de coisas, a nossa gente laboriosa, conscia dos riscos que
+corremos, mas sem noção exacta do problema, recebe com esperança e
+enthusiasmo todas as idéas apresentadas por pessoas bem intencionadas.
+
+Isso bastaria para explicar o côro das adhesões á proposta do sr.
+Consiglieri Pedroso[2], se não interviessem, no lance, a especial
+categoria, a illustração e o talento do emérito professor. Discordando,
+em varios pontos, desse plano de approximação luso-brasileira, dirigi a
+s. ex.^a uma _carta aberta_ a que o _Mundo_ deu a sua larga publicidade
+e na qual se lia:
+
+
+ «O estreitamento das relações de Portugal com o Brasil, dada a
+ vontade que nesse sentido revelam os dois povos, é mais do que
+ facil, porque é inevitavel, porque está nos destinos de ambos.
+
+ Imaginar, porém, como deduzo dos considerandos de v. ex.^a que,
+ precisando nós da _seiva_ do Brasil, temos meio de lhe conferir uma
+ compensação primacial, qual seja a de evitar o risco da
+ desnacionalização que esse povo corre pela entrada cada vez maior
+ de outros elementos ethnicos, é erro profundo que os factos
+ condemnam de maneira formalissima. E, sobre ser um erro, esse juizo
+ levantará contra Portugal e contra os portugueses a hostilidade das
+ outras colonias e das outras raças, alli na mais intima convivencia
+ e na mais constante fusão com a gente lusitana e luso-brasileira.
+
+ Com tal motivo, qualquer esforço de approximação resultará
+ contraproducente. Não posso, desde que se parte dessa base, dar a
+ minha insignificante collaboração a uma tentativa que tenho por
+ inefficaz, pelo menos.
+
+ O Brasil precisa de milhões de estrangeiros. Não lhos podemos dar.
+ Ha de procural-os em outros paizes. Mas, como é um paiz que se sabe
+ governar e que nunca, nem sob este nem sob o antigo regimen, deixou
+ de demonstrar sentimentos patrioticos e ardor civico, não corre o
+ perigo, que v. ex.^a entreviu na colonização italiana e alleman, de
+ se desnacionalizar.
+
+ Com mais vagar, em um opusculo, hei de deixar demonstrado quanto
+ estão afastados da realidade os que pensam como v. ex.^a. Se
+ houvessemos de iniciar negociações com a idéa de evitar esse
+ supposto risco, creia v. ex.^a que os brasileiros, cuja
+ hospitalidade tive durante dezeseis annos e cujo espirito conheço,
+ não agradeceriam o aliás generoso empenho, porquanto nelle veriam
+ menos apreço pelas qualidades de intelligencia e de patriotismo, de
+ que, com justiça, se ufanam muito mais do que das riquezas naturaes
+ da sua patria.
+
+ Sei que v. ex.^a, meu illustre correligionario, só é movido por
+ altos e nobres estimulos. Estou convencido de que só á falta de
+ documentos directos e de observação propria se póde attribuir o
+ desvio do seu grande espirito critico em materia em que estudos
+ especiaes dão a v. ex.^a merecida auctoridade.
+
+ Felizmente, porém, entre muitas idéas de real utilidade que constam
+ da proposta de v. ex.^a, vejo uma que me garante que o problema,
+ nas suas linhas mestras, tem em v. ex.^a o paladino ao lado do qual
+ se poderão alinhar os soldados da democracia portuguesa e os
+ cidadãos da grande Republica Brasileira.
+
+ Refiro-me á idéa de procurar approximar os dois povos pela adopção
+ de um espirito commum na legislação de ambos. Nesse ponto estou
+ enthusiasticamente com v. ex.^a, porque, não podendo a democracia
+ pura, que é a Republica dos Estados Unidos do Brasil, seguir a
+ evolução regressiva, essa aspiração impõe-nos, a nós portugueses, a
+ marcha progressiva para a situação juridica do Brasil--o que só
+ poderá ser conseguido por uma transformação politica e social, tão
+ almejada por mim quanto por v. ex.^a.
+
+ E comprehendo com que intimo constrangimento quem assim sente teria
+ de obedecer ás regras protocolares do cargo ao pedir ao joven rei
+ D. Manuel a sua cooperação para um emprehendimento que só póde ser
+ levado a bom termo pelos dois povos e que só se desentranhará em
+ realidades promissoras quando a realeza portuguesa constituir méra
+ recordação historica.
+
+ Faço votos por que v. ex.^a veja em breve realizadas as nossas
+ aspirações communs. Se, porém, o nosso esforço interno não chegar
+ para tanto, creia v. ex.^a que, para não falharem os seus destinos
+ historicos, o Brasil e Portugal se hão de approximar cada vez mais
+ e cada vez mais intensamente a democracia brasileira ha de exercer
+ fatal acção sobre a nação portuguesa, abreviando os dias do regimen
+ monarchico e apressando o advento da Republica Portuguesa.
+
+ Não ha mais eloquente lição do que a dos factos. Não ha mais
+ violenta propaganda do que a comparação antithetica dos povos
+ brasileiro e português. E, cada português, que volta á patria, não
+ tarda em sentir a magnitude da acção da Republica no Brasil e em
+ reconhecer a falta das instituições a que lá se afizera.
+
+ Garanto-o a v. ex.^a: se não fizermos a revolução, o Brasil ha de
+ republicanizar Portugal. V. ex.^a conhece melhor do que eu o poder
+ da osmose social.»
+
+
+Eis a origem deste trabalho. Julguem brasileiros e portuguêses se as
+convicções, que elle traduz, carecem de fundamento.
+
+
+
+
+I
+
+A PROPOSTA CONSIGLIERI PEDROSO
+
+
+Eis a proposta do presidente da Sociedade de Geographia:
+
+
+ «Considerando que na evolução politica do mundo contemporaneo é
+ facto historico, que se não póde contestar, a irresistivel
+ tendencia para a unificação moral dos grupos ethnicos, que falam o
+ mesmo idioma, podendo até por isso definir-se o dominio da lingua,
+ na sua funcção social, como a patria espiritual de uma
+ nacionalidade;
+
+ Considerando que nem os mais poderosos Estados logram eximir-se a
+ esta universal tendencia, como o prova o movimento de concentração
+ que no momento actual se está operando nos povos anglo-saxonicos,
+ nos germanicos propriamente ditos e mesmo nos povos slavos, apezar
+ das differenças de religião e de linguagem que separam estes
+ ultimos entre si;
+
+ Considerando que, em virtude desta tendencia, é legitimo prevêr-se
+ como irremediavel, em futuro relativamente pouco distante, se não o
+ desapparecimento, pelo menos a desintegração das pequenas
+ nacionalidades que não consigam defender-se, pela massa dos seus
+ habitantes, da absorpção, consequencia fatal da lucta pela
+ existencia, cada vez mais implacavel entre as grandes nações, que
+ na sua ancia de açambarcamento inquietam os agrupamentos
+ secundarios, embora muito adeantados em cultura;
+
+ Considerando que Portugal e Brasil, pela sua origem, historia e
+ tradições, pela lingua que ambos falam, pela raça a que pertencem e
+ pelos multiplices interesses que os ligam, sem embargo do glorioso
+ facto consummado da independencia brasilica, e, não obstante,
+ portanto, serem duas soberanias politicas separadas e perfeitas,
+ constituem na realidade, em face das outras agremiações nacionaes e
+ exoticas, um grupo áparte, nitidamente delimitado, com
+ individualidade distincta e, por conseguinte, com um destino
+ historico completamente autonomo, circumstancia a que o direito
+ internacional não póde ficar estranho;
+
+ Considerando que, na situação de isolamento reciproco, em que se
+ encontram, as duas nações estão compromettendo a grandeza do papel
+ primacial que deviam representar no mundo, com grave prejuizo dos
+ interesses proprios e apenas com vantagem para as nações rivaes,
+ que se estão aproveitando habilmente da desunião de ambas;
+
+ Considerando que a grande nação brasileira, não obstante os quasi
+ illimitados recursos de que dispõe e as brilhantes qualidades dos
+ seus filhos, que se estão impondo á consideração universal pela sua
+ intelligencia e illustração, pelo seu patriotismo e pela sua
+ actividade, corre o risco de se ir desnacionalizando pouco a pouco
+ pela introducção, cada vez em mais larga escala, de elementos de
+ immigração estranhos ao seu carater historico e até antipathicos á
+ sua idiosyncrasia ethnica--provaveis causadores de futuras
+ perturbações e de inevitaveis perigos para a União;
+
+ Considerando que este sério risco de desnacionalização lenta, mas
+ segura, sómente o Brasil póde conjural-o pela approximação e
+ relações cada vez mais estreitas com Portugal, possuidor ainda hoje
+ de um rico e vastissimo imperio em Africa, de territorio reduzido
+ na Europa, não ha duvida, mas berço de uma robusta e prolifica
+ população largamente espalhada pelo mundo, de extraordinarias
+ faculdades de adaptação e resistencia, população indispensavel--e
+ não substituivel por outra--para a conservação e pureza da raça
+ nacional do Brasil;
+
+ Considerando mais que o problema da gradual e progressiva fusão da
+ numerosissima colonia portuguesa, que vive no Brasil, com a terra
+ que lhe dá tão generosa hospitalidade é para os futuros destinos da
+ nacionalidade brasileira de capital e decisiva importancia, mas
+ sómente de solução integral possivel quando as duas nações, hoje
+ separadas e quasi estranhas uma á outra, se harmonizarem no
+ superior interesse de uma fecunda approximação;
+
+ Considerando, por outro lado, que a economia nacional portuguesa só
+ ao contacto intimo da exuberante seiva brasileira póde
+ robustecer-se e tonificar-se, sendo, além disso, fecundissimo campo
+ para a nossa actividade material e progredimento moral as vastas
+ regiões cobertas pela gloriosa bandeira auri-verde;
+
+ Considerando por isso como verdade evidente, sem possibilidade de
+ discussão sequer, que a resolução definitiva do problema economico
+ português depende grandemente--quaesquer que sejam os esforços, a
+ sinceridade e a intelligencia que para ella se empreguem dentro das
+ nossas estreitas fronteiras--de plenamente se realizar um forte e
+ largo accordo luso-brasileiro, formula de renascimento mundial da
+ nossa commum nacionalidade;
+
+ Attendendo a que a tradicional alliança de Portugal com a
+ Inglaterra, base da nossa situação politica internacional, assim
+ como intimas relações de cordealidade com as tres nações latinas,
+ nossas irmans, e com a Allemanha, nossa cooperadora em Africa, em
+ coisa alguma são prejudicadas pela unificação moral de Portugal com
+ o Brasil n'um pacto superior, permanente e _sui generis_, tal como
+ o impõem os especialissimos laços fraternaes existentes entre as
+ nações que falam a lingua portuguesa;
+
+ E, attendendo, finalmente, a que á Sociedade de Geographia de
+ Lisboa, pelos seus fins, pela sua constante tradição e pelo logar
+ proeminente, tão excepcionalmente em evidencia, que occupa na vida
+ nacional portuguesa, compete, nesta hora difficil para a patria,
+ cooperar, quanto em si caiba, no movimento de renovação do nosso
+ querido Portugal;
+
+ Tenho a honra de propôr que, nos termos do artigo 40.^o dos
+ estatutos, se crie uma commissão geral permanente com o titulo de
+ «Commissão Luso-brasileira» a qual terá, entre outros, os seguintes
+ fins:
+
+ 1.^o--Estudar a forma mais adequada de se realizarem congressos
+ periodicos luso-brasileiros, que devam, em prazos a fixar,
+ reunir-se alternadamente em Lisboa ou Porto e no Rio de Janeiro ou
+ outras cidades brasileiras com o intuito de discutir todos os
+ assumptos de ordem intellectual e economica que interessem em
+ commum e exclusivamente as duas nações, e onde haja de fazer-se a
+ propaganda das deliberações que pelos mesmos congressos e pelos
+ governos dos dois paizes tenham de ser tomadas a beneficio de ambos
+ os povos, respeitando-se escrupulosamente a independencia de cada
+ um delles e evitando-se toda e qualquer interferencia, por minima
+ que seja, na vida interna e no modo de ser dos dois paizes
+ reciprocamente;
+
+ 2.^o--Estudar a forma de se negociar um tratado de incondicional
+ arbitragem entre Portugal e as suas colonias de um lado e o Brasil
+ do outro e de se realizar a conveniente cooperação das duas nações
+ em assumptos de caracter internacional;
+
+ 3.^o-- Estudar a fórma de se ultimar, com a urgencia que razões
+ obvias aconselham, um tratado de commercio, ou antes um largo
+ entendimento commercial entre as duas nações, procurando-se a
+ maneira, até onde fôr possivel vencer as difficuldades naturaes
+ inherentes ao assumpto, de que uma á outra concedam respectivamente
+ vantagens especiaes que deixem de ser transmittidas aos outros
+ Estados, não sendo, portanto, attingidas pela clausula de nação
+ mais favorecida, inscripta actualmente nos tratados já existentes
+ tanto de Portugal como do Brasil com os paizes estrangeiros;
+
+ 4.^o--Promover a creação de uma linha de navegação luso-brasileira
+ entre os dois paizes, sob o alto patrocinio de ambos os governos;
+
+ 5.^o--Promover a fundação em Lisboa de um entreposto central para o
+ commercio do Brasil na Europa e de um entreposto central no Rio de
+ Janeiro para o commercio português na America, podendo, no caso de
+ isso ser conveniente, fundar-se outros dois entrepostos, um no
+ Porto e outro no Recife, ou onde mais convenha ao Brasil;
+
+ 6.^o--Promover a construcção de dois palacios, um em Lisboa e outro
+ no Rio de Janeiro, destinados á exposição e venda permanente dos
+ productos nacionaes de cada um dos dois paizes no outro;
+
+ 7.^o--Promover, sempre que fôr possivel, a unificação ou pelo menos
+ a harmonização da legislação civil e commercial dos dois paizes;
+
+ 8.^o--Promover a approximação intellectual--scientifica, literaria
+ e artistica--dos dois paizes, dando aos professores e diplomados
+ brasileiros em Portugal e aos professores e diplomados portugueses
+ no Brasil os mesmos direitos com equivalencia dos respectivos
+ titulos de habilitação;
+
+ 9.^o--Promover visitas regulares de excursionistas e de estudo--de
+ intellectuaes, de artistas, de industriaes e commerciantes
+ portugueses ao Brasil e brasileiros a Portugal e ás suas mais
+ importantes colonias;
+
+ 10.^o--Estudar a maneira de se fundar em qualquer das duas
+ capitaes, ou simultaneamente em ambas, uma revista que seja o orgão
+ para servir de interprete permanente a este movimento de
+ approximação luso-brasileira;
+
+ 11.^o--Promover mais intimas e continuadas relações entre a
+ imprensa brasileira e a imprensa portuguesa pela troca de
+ collaboração e pela instituição de reuniões periodicas dos editores
+ de livros e dos representantes do jornalismo de ambas as nações;
+
+ 12.^o--Promover a intelligencia entre si, respectivamente, das
+ sociedades scientificas, artisticas, de instrucção, de
+ beneficencia, de gymnastica, de tiro, de natação e outros desportos
+ maritimos e terrestres, etc., pertencentes aos dois paizes, assim
+ como das associações academicas brasileiras e portuguesas,
+ creando-se tambem bolsas de viagem para os estudantes de cada um
+ dos dois paizes no outro;
+
+ 13.^o--Promover o movimento de approximação luso-brasileira no
+ Brasil, ou por intermedio de alguma das sociedades alli existentes,
+ como a Sociedade de Geographia ou o Instituto Historico Brasileiro,
+ que, á semelhança da Sociedade de Geographia de Lisboa, queira no
+ territorio da União pôr-se á frente deste movimento, ou
+ contribuindo para a fundação no Rio de Janeiro de uma liga
+ luso-brasileira, com os mesmos intuitos que os da commissão
+ permanente cuja creação aqui se propõe;
+
+ 14.^o--Finalmente, estudar a maneira de se fazer da benemerita
+ colonia portuguesa no Brasil a activa intermediaria da approximação
+ moral dos dois povos, approximação que terá como symbolo da
+ realidade da sua existencia a formosa lingua de Camões e Gonçalves
+ Dias a falar-se dos dois lados do Atlantico e a servir, em duas
+ patrias fraternalmente enlaçadas, de vinculo inquebrantavel á raça
+ luso-brasileira, cujo destino historico, assim engrandecido,
+ deverá, a bem da civilização, alargar-se triumphante pelas mais
+ bellas regiões do globo, ás quaes o immortal genio latino,
+ representado pela nossa commum nacionalidade, imprimirá, com o
+ supremo encanto da forma, o estimulo da sua energia eternamente
+ creadora.»
+
+
+
+
+II
+
+O PROBLEMA LUSO-BRASILEIRO
+
+
+O problema luso-brasileiro é uma realidade. Não está definido, não se
+lhe conhecem com precisão os termos; mas existe. Affinidades, claras e
+logicas umas, e outras obscuras e inconscientes, sollicitam os dois
+grupos sociaes e politicos, que compõem a _gens lusitana_, se assim se
+póde exprimir o conjuncto ethnico em elaboração nas terras sob a
+soberania portuguesa e sob a soberania brasileira.
+
+Existe o problema luso-brasileiro, como existe o hispano-americano, como
+existe o anglo-saxonio. Paizes que derivaram dos povos colonizadores por
+excellencia e que mantêem com elles intimas relações e permanente
+convivencia, ha tres nucleos de estados americanos que constituem, á
+maneira que se desenvolvem e á maneira que prosperam, não já simples e
+justificados motivos de orgulho para aquelles povos, mas poderosas
+engrenagens a cuja sorte elles não podem, de maneira nenhuma, ser
+estranhos.
+
+Sentimos vagamente que ha laços insoluveis que nos prendem ao Brasil.
+Dia a dia, hora a hora, reconhecemos que existe uma verdadeira
+interdependencia na vida luso-brasileira. O Brasil influe sobre Portugal
+e Portugal influe sobre o Brasil. Como e em que espheras das respectivas
+actividades se exercita essa acção? Eis onde surgem, cá e lá, as
+divergencias; eis onde collidem as opiniões e onde mais nitidamente se
+manifesta a complexidade do problema luso-brasileiro.
+
+Ha quantos annos Castelar lançou a idéa de estreitar os vinculos
+hispano-americanos? Ha mais de quarenta e, todavia, o problema ficou sem
+solução...
+
+Dizia Emilio Castelar:
+
+«Reunir as idéas de todos os nossos escriptores; communicar ao Novo
+Mundo o espirito hespanhol sob todas as suas formas raras e variadas;
+lembrar-lhe todos os dias, sob todos os tons da nossa lingua, que aqui
+vivem homens que são seus irmãos; mostrar a seus olhos o ideal de um
+futuro de paz, em que pela reunião das nossas forças e das nossas
+intelligencias poderemos fazer germinar nas entranhas dessa infeliz
+America, ferida pela tempestade, e no seio desta desgraçada Hespanha
+consumida pelas cinzas das suas ruinas, uma sciencia nova e uma
+literatura nova; fazer tudo isto com uma constancia, que lembre o nosso
+antigo caracter, e fazel-o sem outra recompensa além da satisfação da
+nossa consciencia, é um dos maiores e mais positivos beneficios que se
+podem conceber para a nossa raça abatida.»
+
+A iniciativa do sr. Consiglieri Pedroso no tocante ás relações
+luso-brasileiras relembra a de Castelar no que concerne ás
+hispano-americanas. A cultura historica, em ambos fortalecida pelas
+sciencias politicas e sociaes, levou esses dois espiritos de eleição a
+encararem o mesmo problema sob aspectos quasi identicos. Ao lusitano,
+como ao hespanhol, affigurou-se indispensavel a _seiva americana_ ao
+caule ibérico. Era, nos dois casos, a verificação confessada de factos
+insophismaveis da economia da peninsula hispanica; mas problemas
+economicos têm de ser resolvidos economicamente. Ora, se Castelar queria
+que se puzesse em pratica todo o seu programma com a só recompensa da
+consciencia satisfeita, o sr. Consiglieri Pedroso, mais positivo,
+estabeleceu um programma em que prevalece o _do ut des_, a troca de
+vantagens e serviços capazes de apertar os laços que prendem a patria de
+Camões á de Gonçalves Dias.
+
+A forma pela qual se virá a tornar effectiva essa solidarizacão decorre
+forçosamente das bases que se adoptarem para a conseguir.
+
+O estadista hespanhol Francisco Silvela, abordando o problema hispano
+americano, dizia que, «para a renascença das forças da sua patria», era
+indispensavel «luctar nos mercados» das antigas colonias, que
+considerava mercados naturaes da Hespanha; mas, no seu plano, que ia até
+uma confederação ibero-americana, entendia que «o mercado hespanhol»
+devia «uma legitima reciprocidade ao commercio, á industria e á
+agricultura desses povos irmãos».
+
+Como dar realidade ao ridente projecto? Não nol-o soube ensinar
+Castelar, não nol-o mostrou Silvela: morreram e tudo continua como
+antes... Oxalá seja mais proveitosa a nossa iniciativa.
+
+
+O sr. Consiglieri Pedroso, com todo o seu saber, labóra num engano. Á
+sua perspicacia deve ter causado impressão a simples lista dos
+brasileiros que, com representação official, assistiram á sessão da
+Sociedade de Geographia. Alli esteve o primeiro secretario de legação,
+sr. Alvaro de Teffé, filho do almirante barão de Teffé, cuja familia,
+_von Hoonoltz_, se me não affigura lusitana, embora aos serviços do
+almirante deva o Brasil a mais grata recordação de patriotismo; e, dos
+quatorze officiaes de marinha presentes, um era Burlamaqui, outro Bardy,
+outro Lindenberg, outro Wegylin, outro Costallat... Este facto bastaria,
+numa representação tão diminuta, para nos desilludir ácerca da idéa
+corrente em Portugal de que sómente os filhos dos portugueses adoptam a
+nacionalidade brasileira. Antes, estivera no porto de Lisboa o
+_destroyer_ «Piauhy», commandado por Pedro Frontin, tendo por immediato
+Armando Burlamaqui. E por Lisboa têm passado Filinto Perry e Octavio
+Perry, officiaes de marinha e filhos de outro illustre official, e
+tantos outros, a quem nem o nome nem a origem attenuam o sentimento
+nacional.
+
+Lauro Müller, filho de colonos allemães de Santa Catharina, é senador e
+coronel do exercito e foi ministro da viação no governo Rodrigues Alves.
+
+Olavo Bilac, Escragnolle Taunay, Pardal Mallet, Clovis Bevilacqua,
+Henrique Oswald, Felix de Otero, H. Chiaffitelli, Rodolpho e Henrique
+Bernardelli, Ludovico Berna, Elyseu d'Angelo Visconti, o architecto
+Stahlembrecher, o pintor Chambelland, nas letras e nas artes; Raja
+Gabaglia, Lima Drummond, Alfredo Pujol, Vergueiro Steidel, G.
+Hasslocher, Wanderley Araujo, no direito; Chapot Prévost, Monat,
+Chardinal, Seidl, Niobey, Alberto Muylaert e Rebello Kock, na medicina;
+Paulo de Frontin, José e Jorge de Lossio Seiblitz, Estanislau Bousquet,
+Victor Villiot, Everardo Backeuser, Henrique Kingston, Julio Delamare
+Koeler, Van Erven, Dunham, na engenharia; Gaffrée, Guinle e Street, na
+industria--para citar só de memoria e para pôr de lado aquelles que
+remontam a um passado já distante--são nomes que ninguem póde crêr
+usados por pessôas alheias ao espirito nacional brasileiro.
+
+Quem foi o ministro da marinha do governo provisorio? Wandenkolk. E quem
+é o actual ministro da guerra? Bormann. De sangue italiano são os filhos
+do insigne jornalista, hoje presidente do Senado, Quintino Bocayuva; têm
+sangue francês os filhos do extraordinario patriota que se chama Rio
+Branco.
+
+E, apezar de toda esta fusão de raças, o sentimento brasileiro nada
+soffre! E, apezar de quaesquer receios de desnacionalização, o que se vê
+é que cada vez se vae robustecendo mais a nacionalidade!
+
+E, se é certo que a lingua é o mais poderoso elemento caracteristico das
+nacionalidades, é evidente que, dentro do Brasil, todos os exoticos são
+absorvidos e assimilados pela massa luso-brasileira, que forma a sua
+força ethnica preponderante.
+
+O dr. Bulhões Carvalho, director geral da Estatistica, no prologo do
+«Boletim Commemorativo da Exposição Nacional de 1908», dizia:
+
+«Em relação á naturalidade, é extraordinario o predominio do elemento
+nacional do Brasil. Em 1872, o numero de estrangeiros era de 383.546
+para 9.728.515 brasileiros; em 1890 o total dos estrangeiros era de
+351.545 para 13.982.370 brasileiros; em 1900 a cifra dos estrangeiros
+attingia a 1.240.264 para 16.078.292 brasileiros.»
+
+
+
+
+III
+
+O SUPPOSTO PERIGO
+
+
+Onde existe o perigo da desnacionalização?
+
+Diz o sr. Consiglieri Pedroso, no seu 7.^o considerando, que «o Brasil
+corre o risco de se ir desnacionalizando pouco a pouco pela introducção,
+cada vez em mais larga escala, de elementos de immigração estranhos ao
+seu caracter historico e até antipathicos á sua idiosyncrasia
+ethnica--provaveis causadores de futuras perturbações e de inevitaveis
+perigos para a União».
+
+A immigração não portuguesa--eis em que consiste o perigo, no dizer do
+eminente professor. Ora, a verdade, falada pelos numeros, póde ser sem
+brilho, mas é irrecusavel.
+
+Em todo o periodo que vae de 1820 até 1907, diz-nos a estatistica
+(_Bulhões Carvalho_, trabalho citado) que, nos portos do Brasil,
+entraram 1.213.167 italianos, 634.585 portugueses, 288.646 hespanhoes,
+93.075 allemães, 56.892 austriacos, 54.593 russos, 19.269 franceses,
+11.731 turco-arabes, 11.068 ingleses, 9.086 suissos, 3.780 suécos, 11
+belgas e 165.590 de outras nacionalidades.
+
+Ao todo entraram 2.561.482 immigrantes. Tirando os portugueses, temos
+1.926.897 immigrantes, não sabemos se todos «estranhos ao caracter
+historico e antipathicos á idiosyncrasia ethnica» do Brasil.
+
+É claro que não constituiu a sua superioridade numerica causa de
+perturbações nem de perigos para a nação... Esses elementos encontraram
+na sociedade organizada o meio propicio á adaptação. Foram assimilados.
+E, como a emigração não representa a cultura, porque é recrutada entre
+as classes mais desprotegidas dos paizes europeus, essas ondas humanas
+foram fecundar as terras de Santa Cruz e lá puderam proporcionar á sua
+próle o bem-estar, a instrucção e a educação que, deste lado do
+Atlantico, ella desconheceria; mas não lhe modificaram a cultura: quando
+muito, integraram-se nella.
+
+Desses immigrantes ficaram os nomes. Os cruzamentos, o ambiente e a
+evolução peculiar da sociedade nova em que foram incorporados, formaram
+um typo nacional, em que predominam as caracteristicas portuguesas, mas
+que, sob alguns aspectos, tende a differenciar-se do nosso.
+
+Por que se deu esse predominio? Pelo facto politico-social da posse e da
+soberania, em primeiro logar; depois pela acção eugenica dos portugueses
+sobre os elementos indigenas e africanos; e, finalmente, pela
+continuação d'essa influencia na descendencia mestiça. Quando, ha
+oitenta e tantos annos se iniciou a corrente immigratoria não portuguesa
+para o Brasil, já lá havia uma consideravel população com a nossa
+cultura, com as nossas tradições e com as nossas instituições.
+
+Era a nossa raça? O brasileiro era o luso? Sylvio Romero nega que o
+fosse. Acha que a historia do Brasil não é a «historia exclusiva dos
+portugueses na America», nem a dos tupys, nem a dos negros. «É, antes, a
+historia de um typo novo.»
+
+Esse typo novo não podia deixar de ter com o português--elemento
+superior da sua formação inicial--affinidades mais intimas do que com
+qualquer outra nacionalidade. Os destinos de um povo dependem dos seus
+elementos ethnicos superiores. Assim foi que, dada a implantação da
+civilização européa na America, as nações, que vieram a constituir-se
+n'esse continente, se tiveram de modelar e pautar pelas de que
+promanavam, reproduzindo, além da medida exacta do sangue, as qualidades
+essenciaes das raças originarias superiores.
+
+É sob este ponto de vista que o brasileiro é o português da America,
+onde o Canadá ainda representa o francês e o inglês, o americano do
+norte prolonga a modalidade britanica, e os demais povos conservam
+inconfundiveis traços do hespanhol.
+
+Limitando-nos ao caso que nos respeita, quer isto dizer que o brasileiro
+se encontra apparelhado pela consciencia nacional e pelas energias de
+ordem legal, moral e material, que dão realidade aos gremios nacionaes,
+para proseguir na sua marcha evolutiva independente, apezar de quaesquer
+nucleos extra-lusitanos que para o Brasil emigrem.
+
+Os factos corroboram a nulla acção desnacionalizadora dos immigrantes
+não portugueses. De 1824 a 1859, anno em que os allemães deixaram de ir
+para o Brasil em virtude do rescripto famoso do ministro prussiano Van
+der Heydt, esses colonos, espalhados pelas provincias do sul, não
+logravam attingir a cifra de 30.000. A Allemanha, reconhecendo que
+cresciam extraordinariamente, apezar de prohibida a emigração, as
+populações germanicas no sul do Brasil, procurou conserval-as unidas á
+_Vaterland_ por meio do ensino: creou escolas e na lingua tinha um
+vinculo precioso e poderosissimo. São conhecidos por _teutos_ esses
+brasileiros, que, se puderam ser motivo de preoccupações, deixaram de o
+ser desde que, á escola e á lingua allemans se oppuzeram a escola
+brasileira e a nossa lingua.
+
+Quinhentos mil _teutos_, muito prolificos, em incessante incremento,
+constituirão esse perigo? Ou serão os quasi cem mil que, nesse total,
+conservam a nacionalidade alleman? Ou serão esses, mais os dois milhões
+e meio de italianos e filhos de italianos e mais outro milhão de pessoas
+de outras linguas?
+
+Quatro milhões dos seus dezoito a vinte milhões de habitantes não podem
+desnacionalizar o Brasil.
+
+E ai de nós se o pudessem fazer! Que remedio lhe poderiamos dar com os
+nossos seis milhões de habitantes, em que só não são analphabetos
+1.200.000, quando esses paizes para lá mandam gente muito menos
+ignorante?
+
+O perigo da desnacionalização não existe realmente. A actual população
+possue capacidades triumphantes de resistencia á invasão exotica.
+
+Quem o reconhece não somos nós, são os proprios allemães e italianos. A
+illusão desfez-se. O _Deutschthum_ falliu na sua execução sul-americana.
+A _Nova Italia_ foi fantasia logo batida pela realidade. E, como,
+afinal, á falta de melhor, basta, a quem faz negocios, não os perder, a
+politica dos povos emigrantistas, isto é, dos que precisam ir conquistar
+a terras novas o pão que as velhas lhes negam, transformou-se; e em
+novas aspirações praticas passou a traduzir-se.
+
+Diz o allemão dr. Robert Jannassh:
+
+«O immigrante que aqui vive e trabalha, tem de se tornar brasileiro,
+deve aprender a lingua do paiz, esforçando-se por se exprimir n'ella tão
+bem como em seu proprio idioma, sem o que não poderá tomar parte na vida
+publica em beneficio da collectividade.»
+
+Diz o professor Siever, da Universidade de Giessen:
+
+«Se o imperio allemão quer recuperar a sua antiga preponderancia no
+concerto das potencias, procure adquirir, na America do Sul, real
+influencia; mas não sob a forma de annexações e sim na base de relações
+commerciaes, industriaes e pecuniarias...»
+
+O professor Vincenzo Grossi, da Universidade de Roma, aconselha
+egualmente que os emigrados adoptem a lingua e a nacionalidade dos
+paizes em que se installam.
+
+O remedio, está-o applicando a Republica dos Estados Unidos do Brasil: é
+a escola, é a legislação tendente á absorpção do estrangeiro.
+
+Assim prevenido, o Brasil ha de receber, sem risco algum, as enormes
+lévas de trabalhadores, que o seu progresso material e a sua missão no
+equilibrio sul-americano reclamam e que Portugal, já com escassas
+energias no ponto de vista demographico, não lhe póde offerecer.
+
+
+
+
+IV
+
+OS ESTRANGEIROS NO BRASIL
+
+
+Chegou a haver no Brasil uma forte corrente de opinião contraria á
+immigração italiana e alleman. Não ha negal-o; mas a verdade é que essa
+corrente deixava de encarar o problema tal qual era na verdade, para vêr
+unicamente um facto apparentemente grave para a existencia nacional,
+qual era a formação de poderosos nucleos de lingua italiana e alleman
+nos Estados do sul da Republica.
+
+Esses nucleos não encontravam meio favoravel á conservação das suas
+nacionalidades de origem. É certo que para onde convergiam os italianos,
+como em S. Paulo, acorriam outros italianos, da mesma fórma que os
+allemães se congregavam no Rio Grande do Sul, Santa Catharina e Paraná.
+Era tal a força das affinidades nacionaes que em algumas regiões 80 a
+95% da população era _teutonica_; e, como era natural, os _teutos_, por
+lá, eram os que tinham de desempenhar todas as funcções publicas e de
+exercer todas as fórmas da actividade segundo as tendencias da sua raça
+e de accordo com as conquistas da propria civilização. Mas a verdade dos
+factos é que esses agglomerados ethnicos perdiam o espirito nacional á
+maneira que os filhos entravam na vida brasileira e á medida que a
+prosperidade no novo _habitat_ os prendia á terra de adopção.
+
+E adopção dizemos porque, de facto, os estrangeiros idos para o Brasil
+até 1890--anno em que, com a autonomia aos estados dada pela Republica,
+entrou a crescer de modo consideravel a immigraçao[3]--eram absorvidos,
+incorporados na massa nacional.
+
+Affirma-o a estatistica. O censo de 1890 accusa, com effeito, 351.545
+estrangeiros para 13.982.370 brasileiros. Quer isto dizer: 1.^o que os
+filhos de immigrantes tinham adoptado a nacionalidade brasileira; 2.^o
+que a propria gente exotica, em grande parte, tinha acceitado a
+naturalização tacita, porquanto só nos annos de 1880 a 1889, a entrada
+no Brasil--de todas as origens--tinha passado de 300.000 estrangeiros.
+
+É, porém, verdade que alguns homens, aliás eminentes, do Brasil tiveram
+receio dos grandes grupos de população de lingua estranha. Desse facto,
+nem sempre apreciado com justeza de criterio, resultou a noção de um
+_perigo allemão_ e de um _perigo italiano_, que, se existiram algum dia,
+foi pela possibilidade de conflictos internos de gentes de culturas
+divergentes em fusão, e não pela ameaça de desviar a nacionalidade dos
+seus destinos resultantes de tendencias acima de tudo definidas pela
+lingua.
+
+A Republica, ao ser proclamada, encontrou-se deante de «sérios
+problemas», neste terreno melindrosissimo. Falava-se no espirito
+monarchico dos _teutos_; dizia-se que, a um aceno de Silveira Martins,
+se ergueriam dezenas de milhares de _teutos_; havia quem acreditasse--na
+Europa principalmente!--que o Brasil se ia dividir em tres estados: ao
+norte, a Amazonia; ao centro uma nação em que viriam a preponderar os
+italianos; ao sul, uma nova Allemanha, que, lá para 1999, devia ter 30 a
+35 milhões de habitantes...
+
+Andou isto pela imprensa francesa, inglesa e alleman, que, sobre um
+artigo do _Tempo_,[4] de Lisboa, bordou longas e arbitrarias
+considerações historicas e ethnologicas e se perdeu em estopantes
+dissertações de direiro.
+
+Os «sérios problemas» existiam, em todo o caso. Era preciso introduzir
+trabalhadores no Brasil! Esse é que era o maximo problema. Faltavam os
+braços á lavoura. Aonde ir buscal-os, senão aos paizes que os podiam
+fornecer em maior abundancia? Aonde, senão aos paizes de lingua
+estranha, já que Portugal só lhe dera 24.000 colonos em 1888 e 28.000 em
+1889? Aonde, se, apesar de todos os esforços, o estado de S. Paulo só
+conseguiu, de 1890 a 1904 exclusivé, pouco mais de 36.000 portugueses
+contra 190.000 italianos?
+
+A immigracão subsidiada pelo Estado obedecia a uma imperiosa necessidade
+economica. Tinha de ser feita, com as raças que offerecessem mais braços
+disponiveis. Mas, se já na epoca das fracas lévas exoticas se falára em
+«perigos», que não seria depois de abolida a escravidão, depois de
+mudado o regimen politico?...
+
+Mais do que nunca havia que cercar a nacionalidade de meios de defeza.
+Foi por isso que o governo provisorio tratou, logo nos seus primeiros
+dias, de decretar a grande naturalização. O decreto de 15 de dezembro de
+1889, que deu a nacionalidade a todos os estrangeiros que, estando no
+Brasil em 15 de novembro, a quizessem, teve alcance muito maior do que
+se imagina, embora os protestos de Portugal, Hespanha, Inglaterra e
+Hollanda contra a lei tivessem attenuado, de certo modo, a sua
+efficacia.
+
+No debate deste assumpto, no seio do governo provisorio, propondo que se
+mantivesse a lei, dizia Quintino Bocayuva, ministro das relações
+exteriores, que «a par da energia» que devia manter o governo para com
+as nações estrangeiras, «devia tambem usar de certa delicadeza» porque o
+Brasil «_dependia do problema, maximo da immigração_».[5]
+
+Observou-se a delicadeza. Manteve-se a lei. Os resultados de tal
+politica estão no censo de 1890, como já vimos; mas vinha de longe esse
+esforço. O partido republicano, tantas vezes accusado, depois do novo
+regimen, de hostilizar o estrangeiro, sempre advogára as mais liberaes
+medidas para a naturalização. E essa pretensa hostilidade sómente
+significava justificado espirito nacionalista.
+
+Já em 1881, ao dirigir-se aos eleitores de S. Paulo, o grande cidadão,
+que se chamou Francisco Rangel Pestana, dizia (_Programma dos
+Candidatos_) que o seu partido tinha, no seu manifesto de 1880, tomado
+nessa materia um compromisso solemne, que impunha «uma reforma na
+legislação de modo a ser facilitado ao estrangeiro domiciliado no Brasil
+o meio de entrar, _sem vexame e com o conhecimento exacto das
+necessidades do paiz_, na communhão social» brasileira.
+
+E, depois de criticar a legislação então vigente na materia e de mostrar
+as necessidades que havia para o bom exito da medida, dizia:
+
+«Nem especialmente em relação ao augmento da corrente de immigração, nem
+em relação ao progresso moral e material do paiz, a propaganda em favor
+da naturalização trará resultado seguro e vantajoso, se outras reformas
+não vierem mudar _este estado de coisas que entristece os bons
+pensadores de todos os partidos_.»
+
+Entendia Rangel Pestana que o estrangeiro não procuraria adoptar a nova
+patria se não reconhecesse que havia nella «garantias para os seus
+direitos civis e mesmo para os politicos».
+
+A Republica não faltou aos seus compromissos.
+
+
+
+
+V
+
+O POVOAMENTO E A NACIONALIDADE
+
+
+Os systemas geralmente adoptados para a acquisição de braços foram todos
+experimentados no Brasil. Desde a immigração subsidiada ás multiplas
+formas de colonização, não houve processo que, em maior ou menor escala,
+deixasse de ser ensaiado.
+
+Tratava-se realmente do problema maximo. Os elementos naturaes não
+bastam, as riquezas de todos os generos e os mais vastos territorios de
+nada servem quando falta a população. É o homem que fecunda e valoriza
+tudo.
+
+Escrevia, em 1901, o Dr. Luiz Pereira Barretto:[6]
+
+«Variedade de climas; numerosos e volumosos cursos de agua irradiando de
+um admiravel planalto central que convida a humanidade futura a alli vir
+derramar 400 milhões de habitantes; exuberantes florestas; uma flora e
+uma fauna de suprema belleza; riqueza de sólo; immensas jazidas de
+mineraes de toda a sorte: 1.200 léguas de costa; portos abundantes e
+tocando ao ápice da perfeição ideal como largueza, segurança e elegancia
+e attingindo alguns a proporções colossaes; tudo, tudo possuimos na mais
+vasta escala.
+
+Não seremos capazes de fazer valer tantos e tão excepcionaes recursos?»
+
+O Brasil, para fazer valer os seus recursos, em verdade excepcionaes,
+precisou sempre, precisa hoje, e precisará amanhan de augmentar a sua
+população, cujo crescimento vegetativo é insignificante para o seu
+territorio, com gente das regiões em que a lucta pela vida é mais dura.
+A immigração é o processo de crescimento que se lhe impõe.
+
+Foi, com esse intuito que o estado subsidiou a introducção de
+trabalhadores, fez as concessões dos burgos agricolas, creou os nucleos
+coloniaes, e, por fim, organizou um vasto e completo systema de
+povoamento do sólo.
+
+A experiencia ensinou que era indispensavel preparar o meio para
+attrahir e prender o estrangeiro. A esta orientação obedeceram recentes
+medidas governativas, de entre as quaes podemos destacar:
+
+as leis que declararam privilegiadas as dividas provenientes de salarios
+de operarios agricolas (janeiro de 1904, dezembro de 1906 e março de
+1907);
+
+a organização do serviço de Propaganda e Expansão Economica do Brasil no
+Estrangeiro (outubro de 1907);
+
+a regulamentação do serviço de povoamento do sólo (leis de 30 de
+dezembro de 1906 e 19 de abril de 1907);
+
+as instrucções para a fundação de nucleos coloniaes e localização de
+immigrantes por conta da União (portaria de 21 de dezembro de 1907);
+
+o decreto de 5 de janeiro de 1907, que creou os syndicatos e as
+cooperativas--instituições correntes em alguns paizes emigrantistas.
+
+As vantagens e garantias constantes de todas estas medidas são obvias;
+todavia ha que lêr o regulamento do serviço de povoamento para
+comprehender o espirito que guiou, nesta materia, o governo brasileiro.
+
+É preciso fixar muita gente: por isso, «a União promove o povoamento,
+mediante accordo com os Estados, emprezas de viação ferrea e fluvial,
+companhias ou associações e particulares» (Art.^o 1.^o); os immigrantes,
+cuja moralidade e cuja saude são fiscalizadas (art. 2.^o), constituem
+nucleos em lotes de terras escolhidas, em bôas condições de salubridade
+e com transporte facil e installam-se nos nucleos como proprietarios
+(art.^o 5.^o), e só excepcionalmente (art.^o 4.^o)--porque é preciso
+admittir as surprezas de uma exploração que se inicía--os immigrantes
+poderão ser introduzidos sem acquisição de terras; pelo Estado ou pelas
+emprezas serão fornecidas gratuitamente, aos immigrantes, ferramentas e
+sementes (art.^o 7.^o, alinea V); os lotes em regra terão casa para a
+familia do immigrante e terreno preparado para as primeiras culturas
+(art.^o 21.^o); os lotes serão vendidos a prazo ou á vista; os
+adquirentes dos lotes terão (art.^o 36.^o), durante os seis primeiros
+mezes, o auxilio indispensavel á sua manutenção e á da sua familia;
+terão, durante um anno, pelo menos, (art.^o 27.^o), serviços medicos e
+pharmaceuticos; se o adquirente morrer, depois de pagar tres prestações,
+(art.^o 43.^o) serão dispensadas as outras em favor da viuva e dos
+orphãos; o Estado (art.^o 96.^o) restituirá aos immigrantes espontaneos,
+que fôrem agricultores, a importancia das passagens do porto de embarque
+ao de destino, dar-lhes-ha (art.^o 97.^o) desembarque, agasalho,
+alimentação, medico e remedios até seguirem para o seu destino, com
+transporte gratuito; será concedida repatriação a viuvas, orphãos e
+inutilizados por doença ou accidente, os quaes (art.^o 131.^o) poderão
+vender os seus lotes; aos melhores immigrantes com mais de tres e menos
+de seis annos de posse dos lotes serão concedidos (art.^o 132.^o)
+premios de viagem ao seu paiz do origem.
+
+Basta este insignificante extracto para se avaliar o intelligente
+esforço que o Brasil faz para fixar o estrangeiro.
+
+Bem dizia o ministro Calmon, no seu relatorio de 1908, que esse
+regulamento revelava «a preoccupação de assegurar ao immigrante
+elementos de feliz exito e garantias de bem-estar e liberdade». E,
+justificando as medidas que resumimos, ponderava que a «suprema ambição
+do proletario que se expatria é tornar-se proprietario.»
+
+Introduzir immigrantes não é, porém, o unico fim da lei a que nos
+estamos referindo: tem ainda em mira _povoar_ o Brasil, isto é, preparar
+novas forças de crescimento vegetativo; e não deixa de attender á
+questão da nacionalidade. Como? É o que vamos vêr resumindo outros
+dispositivos da lei.
+
+O art.^o 19.^o manda reservar, em cada nucleo, lotes para grupos
+escolares.
+
+O art.^o 44.^o estabelece aulas de ensino primario gratuito; o art.^o
+57.^o manda applicar o art.^o 44 aos nucleos fundados pelos governos dos
+estados; o art.^o 57.^o impõe essas obrigações ás emprezas de viação, as
+quaes têm de promover o povoamento das terras marginaes ou proximas das
+suas linhas.
+
+Temos, pois, o ensino da lingua portuguesa, como meio de nacionalização,
+aliás adoptado, de ha muito, em todas as regiões onde se agglomeram
+massas de immigrantes. Onde se abriu uma escola estrangeira, não raro em
+um pardieiro, surgiu sempre um edificio lindo, com bellos jardins, para
+a escola nacional.
+
+Mas ha outras providencias com o mesmo intuito nacionalizador. Assim, os
+lotes são vendidos a prazo só aos immigrantes com familia, os quaes
+podem adquirir segundos lotes contiguos aos primeiros (art.^os 26.^o,
+27.^o e 28.^o).
+
+Ao immigrante estrangeiro que contrahir casamento com brasileira ou
+filha de brasileiro nato, ou ao agricultor nacional que se casar com
+estrangeira aportada ha menos de dois annos como immigrante, será
+concedido (art.^o 29.^o) um lote de terra com titulo provisorio, que se
+substituirá por outro definitivo de propriedade, _sem onus algum para o
+casal_, se este tiver durante o primeiro anno, a contar da data do
+titulo provisorio, convivido em boa harmonia.
+
+E se, após o casamento, quizer adquirir um lote a titulo definitivo
+(art.^o 30.^o) ser-lhe ha feita a venda por metade do preço estipulado.
+
+Em todos os nucleos (art.^{os} 46.^o e 53.^o) serão dados 10% dos lotes
+a nacionaes. Sempre que n'um nucleo houver 300 lotes de estrangeiros
+será organizada (art.^o 46.^o) uma secção de lotes para agricultores
+nacionaes. O mesmo poderão fazer as emprezas contractantes de
+colonização (art.^o 78.^o). E sempre que «a necessidade publica o exigir
+e o Estado interessado não os pudér organizar, a União fundará nucleos
+coloniaes destinados exclusivamente a agricultores nacionaes.
+
+Julgamos que estas disposições legaes falam com sufficiente eloquencia.
+
+Ainda ha outras precauções com identico fim.
+
+A constituição, que só véda ao naturalizado a presidencia da Republica,
+estatue que a navegação de cabotagem tem de ser nacional (art.^o 13.^o §
+unico).
+
+A recente lei das successsões é de intuitos nacionalistas.
+
+A lei dos syndicatos profissionaes, os quaes (art.^o 2.^o) para gosarem
+de personalidade civil têm de ter direcções formadas por brasileiros
+natos ou naturalizados, tambem é um elemento de attracção para o
+operariado dos paizes mais cultos, que nesse estatuto encontra os
+conselhos, a que está habituado, de conciliação e arbitragem e as
+associações de previdencia, assistencia e mutualidade, que lhe são
+indispensaveis.
+
+
+
+
+VI
+
+A IMMIGRAÇÃO PORTUGUESA
+
+
+Ha porventura melhor immigrante do que o português? Direi, sem receio de
+contradicta, que, para o Brasil, é o melhor, apezar das condições
+especiaes em que tem estado a nossa patria quanto á instrucção publica.
+
+No Annuario de Estatistica demographo-sanitaria de 1895, Bulhões
+Carvalho, aliás nem sempre justo com a nossa colonia, reconhece que o
+português é o immigrante «que tem mais inclinação para se fixar no
+paiz». É certo. Patriota até onde póde elevar-se esse sentimento, o
+português, em regra, não se naturaliza. Affeiçôa-se ao novo domicilio;
+não elege nova patria. Não significa o seu proceder menos estima ao
+Brasil, senão mais acendrado amôr a Portugal. Para elle ha um paiz sem
+egual: é o seu, que não tem defeitos, que é o mais intrépido e o mais
+feliz do mundo...
+
+O sentimento exalta-se-lhe com a distancia. A recordação dos mais tenros
+annos amplifica a sua visão saudosa. Mas é preciso reconhecer que, mesmo
+quando revê a sua terra, a nossa, tão bella e tão infeliz, a dôr que lhe
+causa o descalabro geral não consegue arrancar-lhe do intimo esse
+ardente amôr. Póde a evidencia dos factos transformar-lhe as aspirações,
+rasgar-lhe horisontes fulgentes para o lado que antes se lhe affigurava
+caliginoso.
+
+Que importa? O seu sonho é a felicidade de Portugal. E ou tenha visto e
+sentido o mal, ou tenha ficado alheio á verdade da situação portuguesa,
+permanece português.
+
+O seu domicilio é que já não é Portugal. A sua vida, em geral,
+adaptou-se ao meio brasileiro. Fixou-se. A sua próle é brasileira; os
+costumes, que contrahiu, criaram-lhe segunda natureza.
+
+O Brasil só lhe póde ser grato porque elle lhe dá o seu trabalho
+indefesso e honrado e porque os seus filhos são brasileiros. Elle cumpre
+a missão do homem que se expatria para melhorar de fortuna.
+
+Não concordamos com a affirmação de Bulhões Carvalho, no Annuario
+referido, quanto á pretendida tendencia dos portugueses para afastarem,
+dos logares em que dominam, qualquer outro elemento estrangeiro.
+Existem, é certo, nucleos de portugueses e em alguns pontos póde um
+exame superficial permittir a supposição de que se encontram sós por
+haverem expellido os outros immigrados. Não é essa a razão do phenomeno,
+que tambem se manifesta com os italianos, os allemães e os hespanhoes.
+Um inquerito minucioso demonstraria que esses agrupamentos não se
+limitam ás nações, descem ás provincias, ás regiões e até ás villas e
+aldeias. Não se comprehenderia a immigracão espontanea, que não é
+quantidade desprezivel, sem o reencontro de parentes, visinhos e
+conhecidos. Um parte porque o outro partiu antes. Assim se congregam os
+trabalhadores em todos os paizes americanos. Assim tinha de acontecer
+com os nossos patricios no Brasil.
+
+Forçoso é convir que o director geral da Estatistica tem razão quando
+affirma que «o progresso na industria, no commercio, nas letras e nas
+artes é mais bem representado por outros povos do que pelo velho
+Portugal com as suas grandiosas tradições historicas».
+
+Ha mistéres para todos, mesmo para os mais atrazados, num paiz novo: os
+mais humildes cabem aos menos preparados para a lucta pela vida. O
+accrescimo physiologico não soffre com essa inferioridade. O que é claro
+é que dahi decorre a imminente subalternização da nossa colonia. O aviso
+do distincto funccionario brasileiro mereceria a nossa gratidão
+official, se acaso nas regiões do poder se olhasse a sério para os
+interesses nacionaes. É um brado affectuoso: «Olhae para os vossos
+competidores. Defendei-vos!»
+
+Defender nos... Como havemos de nos defender, se o regimen tem medo do
+_a b c_ ?
+
+A miseria impelle para o mar os camponios analphabetos e elles lá vão,
+heróes obscuros, trabalhar pela Patria! E como trabalham alegres,
+confiantes e esperançados!
+
+A America, disse um publicista italiano, é, pelo menos, a esperança. A
+esperança move os que emigram, e emigra quem é capaz de luctar, quem se
+sente disposto a não mendigar e a não morrer de fome. É a regra, com as
+naturaes excepções. Ora, sendo assim, os povos emigrantistas perdem
+energias preciosas, que não sabem ou não podem utilizar, e que, bem ou
+mal, feliz ou infelizmente, são compensadas pelas remessas de dinheiro e
+pelo consumo dos seus productos.
+
+É o nosso caso. Lévas de emigrantes vão para o Brasil, onde se fixam e
+de onde nos auxiliam.
+
+Convém ao Brasil o trabalhador português? Convém, pelas affinidades dos
+dois povos, e principalmente porque, graças a essas affinidades, é o que
+mais se fixa no paiz.
+
+Todavia o elemento emigratorio português é insufficiente para o
+povoamento do Brasil. Se constituissemos uma grande massa humana, mesmo
+atrazada e de pequena cultura, o Brasil não recorreria a outras raças.
+Não temos, porém, seis milhões de habitantes...
+
+A colonia portuguêsa no Brasil, cuja importancia se nos affigura tanto
+maior quanto menor é o numero dos que a compõem e acodem, ao nosso
+balanço economico, está muito áquem dos dois milhões a que o rei D.
+Carlos se referiu.
+
+Os dados estatisticos que pudémos colher e conferir em documentos
+officiaes dos dois paizes dão as seguintes entradas de portuguêses nos
+annos de 1890 a 1908, e são os de maior emigração de Portugal:
+
+
+1890 ................... 25.174
+1891 ................... 32.349
+1892 ................... 17.797
+1893 ................... 28.989
+1894 ................... 25.773
+1895 ................... 40.390
+1896 ................... 23.998
+1897 ................... 17.793
+1898 ................... 20.131
+1899 ................... 13.348
+1900 ................... 14.493
+1901 ................... 14.489
+1902 ................... 15.003
+1903 ................... 14.527
+1904 ................... 21.448
+1905 ................... 24.815
+1906 ................... 26.147
+1907 ................... 31.483
+1908 ................... 37.628
+ --------
+ 445.775
+
+
+Nos 19 annos de maior movimento emigratorio de Portugal, entraram, pois,
+no Brasil 445.775 portugueses. A média annual do periodo de maior
+emigração é, segundo esses algarismos, de 23.461 pessoas. Se imaginarmos
+que o português vive no Brasil até a edade de 70 annos--o que é absurdo;
+se suppuzermos que a edade em que se emigra é de 11 annos--outro
+exagero; se admittirmos--novo absurdo--que nenhum português morreu desde
+1850, no Brasil, nem de lá voltou; e se, afinal, dermos de barato que ha
+59 annos a média dos immigrantes nossos patricios é alli a dos ultimos
+annos (e nos 40 annos de 1850 a 1889 foi muito menor) poderemos dizer
+que ha no Brasil:
+
+
+59 X 23.461 = 1.384.199 portugueses.
+
+
+Muito menos do que os taes dois milhões. Ora, o retorno é de 25% a 30%;
+a edade média dos emigrantes é 28 annos; a média da vida é de 65 annos;
+e em 1906, depois do saneamento, a média da mortalidade no Brasil foi de
+20,74 por mil habitantes.
+
+Já em um artigo de imprensa[7] tivémos occasião de dizer que a média da
+emigração portuguesa para o Brasil não excede 18.000 e que o total da
+nossa colonia não chega a 700.000 pessoas. Diziamos, então:
+
+«Isto não diminue, senão que augmenta o beneficio feito pelos
+portugueses domiciliados no Brasil á economia da sua patria, visto que
+são menos a mandarem esses 18.000 contos de réis, que são, segundo o sr.
+Anselmo de Andrade, a nossa salvação, o «dinheiro que melhor nos serve
+para saldar a parte do deficit geral em ouro que o dinheiro das outras
+proveniencias deixa a descoberto».
+
+E depois de analysar as avultadas remessas que os colonos de todas as
+origens fazem, concluiamos:
+
+«É evidente que esta situação economica é transitoria. Um paiz em
+formação, como o Brasil, cujo povoamento se está fazendo com intensas
+correntes immigratorias, tem de pensar em impedir este escoamento de
+ouro, que lhe sangra constantemente as energias. Quer por instituições
+legaes tendentes a nacionalizar os estrangeiros, quer por medidas que
+fixem o colono á terra tornada sua, quer finalmente por providencias de
+franca defesa, esse é o caminho de todos os povos para cujo rapido
+crescimento é aproveitado o excesso de população ou de pobreza de outros
+paizes».
+
+
+
+
+VII
+
+A PERMUTA COMMERCIAL
+
+
+A unica razão sólida que hoje determina os tratados de commercio e,
+portanto, os favores que as nações fazem umas ás outras, é a capacidade
+que ellas offerecem para o consumo reciproco de producções. Estamos
+longe dos tempos em que não se realizavam estes pactos por motivos
+utilitarios, mas por méras combinações derivadas de relações dynasticas.
+
+Nos nossos dias prevalece a reciprocidade, tanto quanto tal criterio
+póde ser adoptado para populações deseguaes, de habitos differentes e de
+producções em parte similares ou identicas, e tanto quanto o permittem
+as distancias entre os concorrentes, distancias que influem no custo dos
+transportes e, em ultima analyse, no dos artigos.
+
+Fala-se de ha muito e a proposta apresentada á Sociedade de Geographia
+agora insiste na necessidade de um tratado de commercio com o Brasil.
+Não querendo entrar em conjecturas, parece-nos que essa aspiração exige
+minucioso estudo, antes do julgamento das difficuldades oppostas até
+aqui á sua realização.
+
+Apesar de tudo quanto dizem os politicos de soluções retumbantes, a
+nossa producção gosa de tratamento amistoso no Brasil. Ha annos, quando
+o sr. Campos Salles foi presidente da Republica, o ministro das relações
+exteriores ia enveredando por um caminho que, sem fundamentos
+consistentes, tendia á exigencia de fortes augmentos de consumo.
+
+Era impossivel tal coisa; e logo se adoptou orientação mais logica,
+deixando o Brasil, que consumia bastante do Uruguay e de Portugal e
+pouco lhes vendia, de pensar em levar a exportação dos seus artigos para
+esses paizes a proporções compensadoras, reconhecendo que os seus
+generos exportaveis eram de natureza impropria a operar esse equilibrio.
+
+O que os factos nos dizem é que o brasileiro, de origem lusa ou exotica,
+tem o habito de consumir os productos da nossa terra. Esses productos
+possuem, por isso uma situação realmente privilegiada no mercado
+brasileiro. Tanto basta para que, na competencia com os outros povos,
+tenhamos--como temos, de facto--vantagens indiscutiveis.
+
+A actual situação da permuta commercial entre os dois paizes deixa muito
+a desejar. O Brasil podia importar muito maior volume de productos
+portugueses e Portugal podia consumir mais productos brasileiros e
+preparar-se para vir a ser cliente muito maior ainda da nação irman.
+
+No anno de 1906, ultimo de que temos dados officiaes para confrontar com
+os do Brasil (de onde ja possuimos os de 1907 e 1908) os principaes
+artigos de lá exportados foram:
+
+Algodão, 31.668 toneladas; areias monaziticas 4.352 tonel.; assucar,
+84.948 tonel.; borracha, 31.643 tonel.; café, 13.965.000 saccas[8];
+cacáo, 25.135 tonel.; farinha de mandioca, 6.644 tonel.; tabaco, 23.630
+tonel.; herva matte, 57.796 tonel.; manganez, 121.331 tonel.; caroços
+(oleaginosos) 30.904 tonel.; couros, 32.765 tonel.; ouro nativo, 4.548
+kilogrammas.
+
+O nosso consumo de artigos brasileiros cresceu de 244.549 libras
+esterlinas a 312.755 ou 27,89%, de 1901 para 1906; mas o consumo dos
+nossos no Brasil cresceu mais intensamente: cresceu 34%, ao que se vê do
+relatorio das finanças relativo a 1907.
+
+Não se póde, portanto, gritar que o trafico luso-brasileiro decáe: médra
+e de maneira sensivel.
+
+Ora, querendo nós, como se diz todos os dias, melhorar essas relações
+por um convenio commercial com o Brasil, e, não sendo licito, hoje,
+negociar taes instrumentos diplomaticos sem clara noção das reciprocas
+concessões, occorre naturalmente investigar o que podemos offerecer e o
+que pedimos, o que o Brasil nos offereceria e o que desejaria.
+
+Visto que a iniciativa nos pertence, vejamos o que podemos offerecer e o
+que queremos conseguir.
+
+Analysemos a producção brasileira exportavel neste momento: compõe-se
+dos artigos que acima mencionámos com as quantidades respectivas.
+Olhemos para a nossa estatistica de 1906.
+
+1.^o _Algodão._ Importámos n'esse anno 13.013 toneladas, no valor de
+3.123 contos, de algodão em rama ou em caroço. Tendo industria de
+algodão, e industria protegida pela tarifa, só poderiamos importar do
+Brasil a materia prima, a rama. O Brasil não está em condições de
+exportar fios e tecidos de algodão visto que ainda os importa. Da sua
+materia prima, 85% tem mercado na Inglaterra. Os 15% restantes
+destinam-se a outros paizes manufactureiros. A sua producção póde
+crescer muito; mas poderemos nós adquirir quantidade sensivel desse
+accrescimo? Eis o que convém saber. Note-se que, em 1906, os 15% do
+algodão não collocado na Inglaterra montavam em 4.752 toneladas, das
+quaes Portugal importava 4.717--quasi o total dos 15%.
+
+As nossas colonias começam a cultivar o algodão. Em 1906 recebemos: de
+Angola, 55.493 kilos; de Moçambique, 1.491 e da India, 2.600.
+
+2.^o _Areias monaziticas._ Os seus mercados serão, por muitos annos, a
+Gran-Bretanha e a Allemanha.
+
+3.^o _Assucar._ Temol-o das colonias. Consumimos, em globo, 32.700
+toneladas. O assucar colonial tem auxilio pautal. Em 1906 recebemos das
+colonias quantidade insignificante; mas o desenvolvimento da lavoura da
+canna nas colonias, em especial na de Moçambique, é consideravel. Nesse
+anno, do Brasil recebemos 159 toneladas. Para a exportação brasileira,
+que tende a crescer muito, o nosso mercado seria bom. Este genero,
+apezar da producção colonial, póde entrar nas bases de uma negociação
+intelligente, não para escorraçar de golpe os demais fornecedores, mas
+para ir modificando a situação das permutas no sentido de garantir parte
+do nosso mercado ao Brasil.
+
+4.^o _Borracha._ O nosso consumo não é em bruto e é pequeno. A producção
+colonial tende a avolumar-se, em especial a de Angola e Guiné.
+
+5.^o _Café._ O consumo português em 1906 não chegou a 3.103 toneladas,
+sendo do Brasil quasi 460 toneladas. Das colonias exportaram-se, para
+outros paízes, 4.177 toneladas, que, com 2.388, consumidas no reino,
+representam uma producção colonial superior ao dobro do consumo.
+
+Portugal é um dos paízes de menor consumo de café, _per capita_. Tendo
+menos de seis milhões de habitantes, pode dizer-se que cada português
+não consome mais do que meio kilo de café por anno. Se o consumo subisse
+ao dobro, o café colonial sobraria ainda. Na Allemanha o consumo é de 3
+kilos por habitante.[9]
+
+6.^o _Cacau._ A nossa producção, em 1906, de vinte e cinco mil
+toneladas, foi egual á do Brasil. O nosso consumo orçou por 145
+toneladas, das quaes só uma procedia do Brasil.
+
+7.^o _Farinha de pau._ Importámos, em 1906, para consumo quasi 1.364
+toneladas, não chegando a uma tonelada a parte proveniente de fóra do
+Brasil. É consideravel, mesmo para a exportação desse paíz.
+
+8.^o _Tabaco._ O consumo é importante. Está naturalmente indicado para a
+exportação brasileira o nosso mercado. Aqui está um artigo em que
+poderiamos offerecer vantagens ao Brasil, que, directamente pelo menos,
+nos fornece pouco, sob o actual regimen de exclusivo.
+
+9.^o _Herva matte._ Consumo inaprehensivel, mas que se podia criar,
+substituindo parte do chá, que entrou no paiz por um valor de 315 contos
+no anno de 1906.
+
+10.^o _Manganez._ O seu mercado é a Inglaterra.
+
+11.^o _Caroços_ (oleaginosos). Consumimos 20.812 toneladas, das quaes
+perto de 11.000 são das colonias. Devia se encaminhar a exportação
+brasileira para Portugal, onde ella foi representada, em 1906, por 11
+toneladas.
+
+12.^o _Couros._ O Brasil está batendo, em Portugal, os mais
+concorrentes; sobre 2.371 toneladas de pelles diversas que importámos,
+em 1906, pertenciam-lhe 1.040.
+
+13.^o _Ouro nativo._ É insignificantissima a entrada. A exportação
+brasileira é para a Inglaterra.
+
+Além destes artigos exporta o Brasil muitos outros em menor escala.
+Desses, diremos quaes podem ser dirigidos, após as negociações precisas,
+para Portugal, enumerando-as pela nossa pauta:
+
+Fibras texteis; fructas; canhamo em rama; madeira em bruto (genero em
+que o Brasil podia e devia quasi monopolizar o nosso mercado); madeira
+das diversas categorias da pauta; paus, raizes e cascas córantes; milho
+(cuja producção cresce espantosamente no Brasil); amido em pó;
+especiarias; melaço; mariscos; carne secca e em conserva--além de outros
+que dentro em pouco tempo o Brasil poderá exportar, como o arroz.
+
+Offerecemos pouco? Não se nos affigura que o Brasil pense em obter de um
+paiz com a nossa população o que seria licito esperar de vinte milhões
+de habitantes. É certo que o Brasil nos compra muito. Em 1906 o vinho
+entrado no Brasil representou 1.628:854 libras esterlinas: a metade
+dessa quantia coube ao nosso paiz. É consideravel, sem duvida. O Brasil
+nesse anno consumiu, da nossa exportação global de 908.492 hectolitros,
+435.652--quasi metade! A população portuguesa, se todo o seu mercado
+pertencesse ao café brasileiro, não representaria mais do que 60.000
+saccas de consumo, e se este subisse ao triplo, não chegaria a 200.000
+saccas, quantidade que não pesaria sobre uma exportação que anda por 13
+milhões de saccas...
+
+Exigir de Portugal, com menos de seis milhões de habitantes,
+compensações que só com dezoito ou vinte milhões poderia dar, fôra
+absurdo. Não ha que receiar que o Brasil pense em semelhante coisa. O
+grande perigo reside na perda da nossa clientella pela concorrencia dos
+outros productores de generos similares, pela falta de perfeição do
+preparo e do acondicionamento dos nossos e pela inefficacia da nossa
+organização mercantil. A esse risco acudiriam algumas das idéas
+lembradas pelo sr. Consiglieri Pedroso, na sua proposta e, dentre ellas,
+citaremos as constantes das _alineas_ 1.^a, 4.^a, 6.^a e 9.^a.[10]
+
+Quanto ao conselho da _alinea_ 3.^a discordamos delle por completo.
+Porque entendemos que o tratado de commercio, ou como se lhe queira
+chamar, não póde, em hypothese alguma, dar-nos «vantagens especiaes que
+não sejam attingidas pela clausula de nação mais favorecida» concedida
+pelo Brasil a outros paizes. Sem poder citar os accordos que o Brasil
+tem, julgamos, todavia, manifesto que, se os tem com concorrentes
+nossos, não seria possivel collocar esses competidores de Portugal em
+tamanha inferioridade. Por quê? Pela razão singela de que _business is
+business_ e elles são maiores compradores dos generos brasileiros do que
+Portugal...
+
+Não se leve á conta de mau patriotismo esta franqueza. Julgamos que não
+faremos coisa alguma neste terreno se procurarmos favores especiaes, que
+ponham em perigo interesses collossaes do Brasil...
+
+Cumpre estudar o problema, nos seus termos de puro negocio e não
+esquecer que a nossa vantagem, aquella que nenhum outro povo póde ter, é
+só isto: o Brasil prefere os nossos productos, como qualquer pessôa vae
+á loja de um negociante, porque o estima mais do que aos seus
+concorrentes.
+
+
+
+
+VIII
+
+A SITUAÇÃO REAL
+
+
+O Brasil é o melhor dos grandes freguezes da nossa producção exportavel.
+
+Em 1906, ao passo que para a Inglaterra exportavamos 11.440 contos, para
+a Allemanha 6.651 e para a Hespanha 6.290, mandavamos para o Brasil
+5.961 contos.
+
+Mas, em compensação destas vendas, compravamos ao Brasil só 1.965 contos
+que, com os generos em transito, baldeação e reexportação, ascendiam a
+2.025 contos; e dos outros paizes recebiamos, em contos de réis:
+
+
+Inglaterra ................... 19.864
+Allemanha ................... 11.173
+Hespanha ................... 5.948
+
+
+Da França importámos 6.836 contos contra uma exportação de 1.299, e dos
+Estados-Unidos 4.960 contos contra 974 de exportação.
+
+O Brasil foi, pois, então, o que sempre tem sido, o nosso melhor
+freguez. Ao crescimento do commercio universal com o Brasil é que não
+corresponde a nossa exportação actual.
+
+Do relatorio do sr. David Campista, ministro da fazenda do Brasil[11],
+em 1907, resulta que de 1902 para 1906 a importação proveniente de
+Portugal cresceu 34,9%, contra o augmento, em egual periodo, de: 35,6%
+para a do Chile; 41,8% para a da Gran-Bretanha; 45,6% para a da
+Hespanha; 49,5% para a da França; 68,4% para a da Argentina; 83% para a
+da Allemanha; 86,5% para a da Suissa; e 132,5% para a da Belgica.
+
+Os valores livres no Brasil, em mil réis, ouro, moeda brasileira, dão,
+no anno de 1906, os algarismos seguintes para essa importação:
+
+
+Procedencias Importação em
+ contos de réis
+
+Portugal ................... 19.330
+Chile ................... 393
+Gran-Bretanha ................... 82.619
+Hespanha ................... 2.379
+França ................... 27.176
+Argentina ................... 31.190
+Allemanha ................... 43.316
+Suissa ................... 2.660
+Belgica ................... 11.432
+Italia ................... 9.274
+
+
+Bastaria este quadro para não acreditarmos que os outros paizes
+emigrantistas nos deslocaram, no fornecimento de artigos similares aos
+nossos. A Italia, que é a maxima fonte da colonização brasileira actual,
+teve, de 1902 a 1906, um augmento de 28,4% na sua exportação para o
+Brasil. E quanto exportou? 9.274 contos, em 1906--metade do que
+exportámos!
+
+A Hespanha, que fornece tambem muitos trabalhadores, tem uma exportação
+ainda insignificante para o Brasil.
+
+Da Austria-Hungria, que viu, de 1902 a 1906, crescer 19,3% a sua
+exportação para o Brasil, de 4.556 contos de valor, a corrente
+emigratoria com o mesmo destino egualmente é importante.
+
+Dessas nações só podemos considerar concorrentes, por terem varios
+artigos similares aos nossos, a França, a Hespanha, a Italia e a
+Austria-Hungria.
+
+Ora, que nos diz o estatistica brasileira? Diz-nos que, em 1906, a
+exportação, para o nosso e para esses paizes, foi:
+
+
+ Augmento ou
+Destino Valor em £ diminuição de 1901
+ para 1906
+
+França 6.507.470 + 36,66%
+Hespanha 196.839 + 217,61%
+Italia 510.118 + 34,90%
+Austria-Hungria 1.821.959 + 60,58%
+Portugal 312.755 + 27,89%
+
+
+Isto quer dizer que, de todos esses paizes, aquelle que manifesta menos
+tendencias para augmentar o consumo dos productos brasileiros é o nosso.
+Falam os numeros, affirma-o a estatistica, que, como diz o professor
+Rodolfo Benini, é o unico meio de verificar nos phenomenos collectivos o
+que ha de typico na variedade dos casos, de constante na variabilidade,
+de mais provavel no apparente acaso, e de decompôr, até onde o methodo o
+permitte, o systema das causas ou forças de que taes phenomenos são
+resultantes...[12].
+
+Não ha que negar a conclusão: a estatistica é o unico processo logico de
+estudo dos phenomenos sociaes, pondéra Rameri.[13]
+
+O Brasil está, portanto, deante de varios paizes, como productor que
+precisa de escoadouros para os seus artigos. O que tem de medir, não nos
+illudamos com devaneios romanticos, é a capacidade acquisitiva, que ha
+nesses paizes, para os seus productos. Porque produzir presuppõe a idéa
+de vender. Porque vender implica a existencia de quem compre...
+
+O utilitarismo não é uma doutrina, no sentido philosophico da palavra. É
+uma necessidade, é uma imposição da lucta pela vida. Para não morrer é
+preciso a qualquer povo guiar-se por necessidades uteis, nunca deixar de
+ter em vista os seus interesses e conveniencias. O utilitarismo é o
+systema que a experiencia aconselha aos povos, que querem viver nesta
+hora da evolução humana, para as suas relações com os outros povos.
+
+_Deinde philosophari..._ Sejamos francos. Concordemos em que não nos
+move o receio da desnacionalização do Brasil, que não nos ameaça porque
+não ameaça o Brasil; mas sim o presentimento de que as relações
+economicas desse grande mercado estão evolvendo de modo que nos poderá
+vir a ser desvantajoso.
+
+Tratemos, em summa, de nos salvar e deixemo-nos de fantasias salvadoras
+em beneficio alheio.
+
+Deante do crescimento espantoso das energias do povo brasileiro, o nosso
+mal é a estagnação em todas as fórmas da actividade humana. Só o poder
+enorme dos elementos estaticos das sociedades e a resistencia da inercia
+social explicam a posição que ainda temos no commercio do Brasil. Nós,
+pelos nossos governos e pela nossa imprevidencia, graças á autophagia
+historica que permitte que nos alimentemos de glorias de um passado
+visto por nós ao bruxolear da mais pallida lamparina critica de que ha
+exemplo, e graças ao espirito providencialista de latinos communarios,
+tudo fizémos, ou deixámos de fazer, para perder essa posição.
+
+Neste momento, o que nos cumpre é reconhecer o feliz conjuncto de
+circumstancias de vária ordem que ainda sustenta esse estado de coisas e
+aproveital-o, com energias, que hão de ser creadas, com intelligencia,
+que precisa ser educada, e com bom-senso, que unicamente os factos pódem
+nortear.
+
+Aspirar a grandezas e prosperidades e preparal-as com elementos de ruina
+e pobreza é simples e puramente um absurdo, de que deveriamos esperar,
+como resultado, o suicidio nacional.
+
+Ser patriota não é rufar tambores de preconicio em torno dos desvarios
+da patria. É, antes, mostrar, sem medo de affrontar alheias opiniões e
+sem intuitos de captar popularidade, os vicios e erros proprios, para
+que tenham, na medida do possivel, remedios efficazes. Nenhum povo se
+deixa levar por boas palavras, mas pelas suas conveniencias e pelos seus
+interesses, com a restricção natural do respeito pelas conveniencias e
+interesses justos dos outros.
+
+A perda do mercado brasileiro seria, hoje, para Portugal, a ruina.
+Confessemol-o. Por que não, se é a verdade? Ruina definitiva? Não vem a
+pello discutir se o seria. Basta que saibamos que seria, neste momento,
+a ruina, para que o nosso dever seja evitar essa contingencia
+aterradora.
+
+Embora tenhamos de nos preparar para um futuro menos dependente de uma
+só nação, é de crêr que o Brasil continuará a representar, para o nosso
+commercio externo, cifras pelo menos eguaes ás presentes.
+
+No seu progresso e na sua expansão economica e demographica, cabe bem á
+vontade a diminuta quota com que contribuimos. E ha muito logar para a
+augmentarmos. Assim saibamos e possamos fazel-o!
+
+Outro não é o perigo real, o perigo das coisas, está claro...
+
+
+
+
+IX
+
+A NOSSA RAÇA «AT WORK»
+
+
+Permitta-se-nos, para a comprehensão exacta, da importancia que o Brasil
+vae assumindo deante de todos os povos e do português em especial, uma
+rapida analyse do seu desenvolvimento material, que explica assás a
+unanimidade de attenções de que é objecto.
+
+A exportação do Brasil em 1889, anno em que caiu o imperio, foi de
+24.160.000 libras esterlinas. Vejamos o que ella foi de 1901 a 1906.
+
+
+Annos Valores em libras
+
+1901 ................... 40.621.993
+1902 ................... 36.437.456
+1903 ................... 36.883.175
+1904 ................... 39.430.136
+1905 ................... 44.643.113
+1906 ................... 53.059.480
+
+
+Para avaliar a força de expansão productora dada ás antigas provincias
+pela autonomia concedida pelo novo regimen federativo aos seus estados,
+basta que comparemos a exportação de 1901 com a de 1906. A differença,
+n'esse curto espaço, é de pasmar. Vejamol-a:
+
+
+ Augmento
+Estados Valores em £ ou
+ diminuição
+ 1901 1906
+
+Matto Grosso 356.180 376.023 + 5,57%
+Amazonas 4.688.477 6.643.050 + 41,69%
+Pará 4.053.264 6.665.191 + 64,44%
+Maranhão e Piauhy 192.604 652.485 + 238,77%
+Ceará 139.595 822.586 + 489,27%
+Rio Grande do Norte 34.376 58.342 + 69,72%
+Parahyba 92.561 540.535 + 483,98%
+Pernambuco 1.472.105 1.333.127 - 9,44%
+Alagoas 489.820 514.095 + 4,96%
+Sergipe 8.849
+Bahia 3.133.103 3.706.617 + 18,30%
+Espirito Santo 553.195 784.726 + 41,85%
+Rio de Janeiro e Minas 7.857.423 7.481.159 - 4,79%
+S.Paulo 16.140.742 20.282.593 + 25,66%
+Paraná 653.039 1.310.832 + 100,73%
+Santa Catharina 145.264 315.522 + 117,21%
+Rio Grande do Sul 620.247 1.563.748 + 152,12%
+
+
+Só diminuiu a exportação de dois estados: Rio de Janeiro e Pernambuco. É
+devido este facto á baixa de um dos seus principaes artigos, o assucar,
+que de 71 réis, ouro, em 1901, passou a vender-se a 60 réis, em 1906,
+por kilo. Apezar desta depreciação ser de 15,59%, a diminuição
+representou, para Pernambuco, 9,44%, e, para o Rio de Janeiro, 4,79%, o
+que indica que houve augmento na exportação global.
+
+
+Nesse periodo a importação, que significa a acquisição de conforto e de
+instrumentos de progresso, tambem teve sensivel marcha ascendente.
+
+Não houve estado em que a importação diminuisse de 1901 para 1906.
+Cresceu 31,9% na Bahia; 33,1% em Pernambuco; 32,6% no Rio de Janeiro e
+Minas Geraes; 42,3% em S. Paulo; e 55,9% no Rio Grande do Sul--para
+citar sómente os mais importantes da região central e da do sul.
+
+Em globo, a importação cifra-se nos seguintes valores em libras
+esterlinas:
+
+
+1901 ................... 21.377.270
+1902 ................... 23.279.418
+1903 ................... 24.207.810
+1904 ................... 25.918.428
+1905 ................... 29.830.050
+1906 ................... 33.204.041
+
+
+Estes algarismos contêm uma relevante indicação e vem a ser que as
+facilidades de vida augmentaram, porque, não tendo havido, de 1901 a
+1906, nem sequer dez por cento de crescimento na população, houve
+augmento de mais de 50% na acquisição de artigos estrangeiros.
+
+O que, porém, demonstra mais clara e elequentemente essa affirmação é a
+importação de farinha de trigo. É o que garante e prova que a vida
+melhora no Brasil.
+
+Com effeito, em 1901, a importação do trigo--que é o classico pão!--era
+de 200.000 toneladas, e em 1906 foi de 320.000!
+
+Um augmento de 60%, em seis annos! A população, nesse periodo, não podia
+ter accrescimo que nem de longe influisse nesse facto. A quota, _per
+capita_, de trigo é que augmentou; o numero _dos que o podem comer_ é
+que passou a ser maior...
+
+
+Fala-se muito na má administração de Republica, nos seus primeiros
+annos. Não a negaremos. O mecanismo era novo e as experiencias foram
+duras. Houve _deficits_; precisou-se de recorrer ao credito, até quasi
+ser fechada essa porta. Mas, com patriotica energia, souberam os
+governos emendar a mão e iniciar obras fecundas, apparelhar, emfim, o
+paiz para a prosperidade. Erraram; mas resgataram os seus erros. Outros
+ha que só erram e só querem errar...
+
+Os orçamentos do imperio[14] tiveram _deficits_ desde 1857,
+ininterruptamente. Antes, houvéra alguns saldos, que sommados, desde a
+independencia até 15 de novembro de 1889, perfazem 32:625 contos, contra
+um total de 891.960 contos de _deficits_, tambem de 1823 a 1889.
+
+Os _deficits_ de alguns annos da Republica não são de estranhar, não só
+porque os tivesse o imperio, mas tambem porque o desenvolvimento do paiz
+e a crise politica, motivada pelas tentativas de destruição do regimen
+popular, impuzeram pesados sacrificios á nação.
+
+A Republica, creando producção, fomentando riquezas, assentando linhas
+ferreas de penetração, fazendo portos e saneando o Brasil--soube, porém,
+realizar o que o imperio não soubéra, soube armar o povo brasileiro com
+meios seguros de pagar os seus saques sobre o futuro.
+
+É interessante a nota da receita e da despeza dos annos de 1899 a 1907,
+expressa em contos de réis, ao cambio de 15 dinheiros por mil réis:
+
+
+Anno Receita Despeza
+
+1899 ................... 333.105 295.363
+1900 ................... 353.607 448.160
+1901 ................... 318.559 334.513
+1902 ................... 343.814 298.691
+1903 ................... 408.589 378.187
+1904 ................... 433.802 439.553
+1905 ................... 463.765 451.977
+1906 ................... 495.910 483.568
+1907 ................... 483.744 472.478
+
+
+Em 1889 a despeza não chegava a 200.000 contos, e o _deficit_ era
+pequeno.
+
+As despezas publicas subiram consideravelmente; mas as receitas tambem
+subiram. Das visinhanças dos 200.000 contos em 1889 foram ás dos 500.000
+em 1906. E note-se que a Constituição republicana conferiu aos estados
+da federação os impostos de exportação, os impostos sobre os immoveis
+ruraes e urbanos, sobre a transmissão de propriedade e sobre industrias
+e profissões, ficando a União nacional unicamente com os direitos de
+importação e os impostos de consumo.
+
+O balanço economico de 1906 é assim formulado pelo ex-ministro Campista,
+no seu relatorio de 1907:
+
+
+*Activo*
+
+Exportação £ 53.000.000
+Capital novo 4.000.000
+ ------------
+ £ 57.000.000
+*Passivo*
+
+Importação £ 33.600.000
+Despezas do governo federal 5.600.000
+Serviço das dividas dos Estados
+ e municipios 1.231.940
+Juros de capitaes estrangeiros 3.200.000
+Passageiros para o exterior 600.000
+ ------------
+ 44.231.940
+ Saldo £ 12.768.060
+ ------------
+ 57.000.000
+
+
+É uma situação de prosperidade. Na propria America, só os Estados Unidos
+do Norte têm melhor situação, apezar da Argentina ser muito mais rica do
+que o Brasil, dadas as respectivas populações e producções.
+
+A Argentina, em 1906, exportou £ 58.000.000, mas importou £ 53.565.000.
+O serviço dos juros do capital estrangeiro é lá muito maior do que no
+Brasil. E, nesse anno, o seu balanço economico não podia apresentar
+saldo.
+
+Força é, porém, reconhecer a incomparavel riqueza da Argentina, que
+possue a terça parte da população do Brasil, se não menos, e cuja
+producção cresce em saltos prodigiosos.
+
+Com os Estados Unidos não ha parallelo possivel. Em 1906, importavam 271
+milhões esterlinos e exportavam 369 milhões.
+
+O Canadá, com uma exportação de £ 45.791.000, importava 54.000.000.
+
+Cuba exportou £ 22.638.000 e importou 19.482.000.
+
+O Mexico exportou £ 24.724.009, e importou 17.997.000.
+
+O Chile offerece-nos, para essas duas parcellas do seu commercio,
+respectivamente, £ 16.200.000 e 11.787.000.
+
+O Brasil figura nesse anno com £ 53.059.480 exportadas e 33.204.041
+importadas--quasi vinte milhões de saldo a seu favor nas permutas
+internacionaes de mercadorias!
+
+
+Estará, porém, esta situação prejudicada pelas condições financeiras do
+Brasil? Longe disso.
+
+Em 1906, a divida interna e externa do Brasil--incluindo a divida
+estadoal e a emissão de papel moeda, era de £ 195.581.677 ou £ 10-3-10
+_per capita_.
+
+A capitação do norte-americano era de £ 5-9-3; a do japonês de £ 6; a do
+egypcio de £ 9-17-2; a do canadense de £ 9-7-4.
+
+Quasi todos os outros paizes devem mais _per capita_.
+
+A Argentina figura com o coefficente de £ 14-2-4; a Hespanha com o de £
+13-2-6 e o nosso Portugal, como compete ao seu desgoverno, inverte os
+algarismos da nação visinha e estadeia a capitação de £ 31-18-6.
+
+Bem sabemos que outros paizes supportam coefficientes mais altos do que
+Portugal. Não na Europa, em todo o caso... O prussiano contenta-se com £
+12-8-3; o inglês com £ 18-1-6; o italiano com £ 15-7-10; o austriaco com
+£ 14-11-1; o francês com £ 27-19-9; o hollandês com £ 17-6-4; o belga
+com £ 17-16-8.
+
+O Brasil, paiz que progride e inicia melhoramentos, que se povoa e
+coloniza, está, como a Argentina, em outras condições: saca sobre o
+futuro, porque o tem nos braços que acodem todos os dias ás suas plagas.
+Nós estagnámos. Elles recebem vida nova com o advento dos immigrantes;
+nós golfamos vida na emigração.
+
+O mal está principalmente na applicação da divida, não na pequenez da
+população.
+
+Vêde as colonias britanicas da Austrália: população, 5 milhões de
+habitantes; divida, £ 292.401.351, em 1906, devendo hoje estar em 300
+milhões esterlinos! O coefficiente de capitação é de 60 £, numeros
+redondos. Mas que importa, se 200 milhões foram empregados em caminhos
+de ferro, obras de portos, resgate de serviços publicos--e se, em tudo
+isso, as rendas supportam o serviço de juros e amortização do capital!
+
+Mas... estavamos a tratar do Brasil.
+
+Os onus do Brasil são annualmente, para resgate e juros da divida,
+82.000 e tantos contos--20% da receita. Outros paizes--um dos quaes
+muito bem conhecemos--fazem o serviço da divida com quasi 50% da
+receita...
+
+Portugal pagaria a sua divida com o producto integral de 13 annos da sua
+receita.
+
+O Brasil faria o mesmo serviço em 6 annos.
+
+Tal é, em linhas largas, o estado do paiz, que saiu do nosso e que hoje
+é o principal mercado da nossa producção e o nosso melhor fornecedor de
+numerario.
+
+
+
+
+X.
+
+MEDIDAS PROPOSTAS
+
+
+Não é de estranhar que o desenvolvimento da nação brasileira motive
+excogitações patrioticas de alguns portugueses.
+
+Ha um século vivia a então nossa colonia americana numa inferioridade
+manifesta de cultura.
+
+Escreveu Eduardo Prado que «a intelligencia nacional do Brasil,» no
+começo do reinado de D. Pedro II, era talvez inferior á de Portugal no
+começo do século...»[15]
+
+Entretanto--o espirito partidario não nos céga--o reinado desse
+imperador contribuiu para o progresso intellectual e material do Brasil.
+
+E tanto assim é que o novo regimen poude adoptar uma constituição que,
+no dizer do professor de direito Almeida Nogueira[16], «compendiou em
+suas paginas os principios mais adeantados do direito publico moderno» e
+poude fomentar, nas proporções que vimos, os recursos do paiz.
+
+Essa nação, que assim prosperou, pertenceu a Portugal, foi obra de
+portugueses na civilização e no povoamento; e, durante um largo
+transcurso de annos, constituiu para o nosso povo uma especie de
+_eldorado_, em que era tão facil grangear a vida que, apezar de todo o
+nosso atrazo, se nos affigurava terra mal empregada em mãos de
+possuidores a nosso vêr indolentes e sem energias redemptoras.
+
+Foi desse juizo falso, a que nos guindára a ignorancia presumida, que
+caímos ao fundo da realidade.
+
+Era a humilhação. Se tivérmos patriotismo ha de se converter em grande
+estimulo--porque é uma lição de coisas...
+
+Á nossa ruina contrapõe-se a prosperidade da ex-colonia? Imitemol-a. Á
+estagnação das nossas forças responde o Brasil com provas de actividade?
+Trabalhemos, com o cerebro e com os musculos, sejamos fortes de
+intelligencia e de vontade. É o nosso dever.
+
+A economia portuguesa depende do estrangeiro. Estamos roidos de todos os
+males de uma politica desleixada, egoistica e corruptora. Falta-nos o
+necessario ao abastecimento do paiz. Produzimos artigos para que não
+encontramos bastantes mercados e procuramos mercados para que não temos
+artigos adequados.
+
+É a anarchia, de alto a baixo.
+
+Mas não é a ruina definitiva, porque queremos viver e é indispensavel
+que não nos deixemos morrer miseravelmente.
+
+O Brasil é, como dizia Silvéla dos povos hispano-americanos para a sua
+patria, o nosso mercado natural. O futuro do Brasil é immenso. Toda a
+nossa expansão economica póde e deve acompanhar o crescimento fatal
+desse enorme paiz.
+
+Todavia, para que isso se realize, é preciso que Portugal saiba o que é
+possivel fazer e deixe de lado chiméras e utopías.
+
+Que queremos, em ultima analyse? Queremos que o Brasil continue a
+comprar os productos da nossa terra; queremos que a nossa exportação
+para lá cresça sempre; queremos que os generos portugueses sejam bem
+acolhidos pelo consumidor brasileiro.
+
+Sob o ponto de vista material--é quanto desejamos.
+
+Moralmente aspiramos á mais perfeita intelligencia com os brasileiros.
+
+Ignora-se em Portugal o que se havia de offerecer ao Brasil no dia em
+que porventura se iniciassem negociações garantidoras dos nossos
+_desiderata_.
+
+Quem procura vantagens tem de contar com esta pergunta natural: «E que
+compensação nos dá?»
+
+Ora, na proposta do sr. Consiglieri Pedroso, nada, absolutamente nada,
+existe que possa equivaler á troca de concessões, á permuta de
+vantagens.
+
+Bem sabemos que, muitas vezes, as negociações commerciaes assentam, por
+uma parte, em favores materiaes e, por outra, em apoio diplomatico e até
+de caracter militar; mas, na hypothese vertente, parece mais facil
+darmos favores da primeira especie do que da segunda.
+
+O Brasil, na proposta Consiglieri, não encontra bases de reciprocidade
+commercial. Nem é crivel que a procure. Não lha poderiamos dar, devido á
+identidade que ha entre muitas das suas producções e as das nossas
+colonias.
+
+
+Approximação, sim! Amemo-nos; conheçamo-nos; abramos as nossas
+fronteiras intellectuaes uns aos outros; firmemos tratados de arbitragem
+e de reconhecimento de titulos de habilitação profissional; promovamos
+congressos periodicos luso-brasileiros; fundemos uma linha nossa,
+luso-brasileira, de navegação; construamos palacios de exposição dos
+productos de cada um dos dois paizes no outro; promovamos a fundação de
+revistas, o estreitamento dos laços que prendem a imprensa de um á do
+outro paiz; entendam-se as nossas sociedades scientificas, artisticas,
+etc.; visitemo-nos; enlacemo-nos fraternalmente.
+
+Quanto a negocios, porém, meditemos, porque o Brasil não os faz sem
+meditar. E é bom que se saiba que, se o sr. Wenceslau de Lima tem visto
+baldados todos os seus esforços no sentido da realização de um tratado
+de commercio com o Brasil, não é porque esse paiz nos hostilize, mas sim
+porque não tem reconhecido a conveniencia, nem a utilidade desse
+tratado. Conveniencia para os seus interesses, utilidade para os seus
+interesses--é claro.
+
+Não procurou ainda o Brasil accordo comnosco. Mas procurou-o, por
+exemplo, com os Estados Unidos--mercado de café e de borracha e seu
+fornecedor de muitos artigos, entre os quaes figura o trigo.
+
+Portugal é que deseja o tratado de commercio. Portugal é que precisa
+garantir o seu mercado no Brasil, como o Brasil precisava assegurar a
+clientella _yankee_.
+
+Negocios tratam-se como negocios. O vendedor é que se esforça por trazer
+o consumidor satisfeito...
+
+Esta é a verdade. De nada serve disfarçar os factos.
+
+
+O tratado de commercio é irrealizavel?
+
+Não iremos até lá. A diplomacia consegue, ás vezes, coisas
+espectaculosas, mas sem real alcance.
+
+Far-se-á, talvez, o tratado de commercio; mas, em hypothese alguma, o
+Brasil nos concederá «vantagens especiaes que deixem de ser
+transmittidas aos outros estados, não sendo, portanto, attingidas pela
+clausula de nação mais favorecida inscripta nos tratados do Brasil com
+paizes estrangeiros».
+
+E o café? E a borracha? E o tabaco? E o cacau? E toda a producção
+brasileira, no valor de 57 milhões de libras?
+
+Lembremo-nos de que não consumimos meio milhão esterlino de productos
+brasileiros... Ponderemos as represalias alfandegarias a que o Brasil se
+exporia...
+
+Amemo-nos; mas convém ter bom senso. Estreitemos relações; mas é
+prudente que nos não limitemos ao sonho.
+
+
+Tambem se fala de entrepostos, do Brasil em Portugal e de Portugal no
+Brasil--aquelle destinado á exportação brasileira para a Europa e este
+destinado á portuguesa para a America...
+
+É uma ideia velha. Velha e tão velha que já não se adapta ás condições
+presentes do commercio internacional.
+
+Não se deu por isso em Portugal. É tudo assim na nossa terra. Andamos
+tão atrás dos outros povos que, quando as idéas nos chegam, já têm saido
+da circulação. Chegamos sempre tarde, como os carabineiros da opereta.
+
+O entreposto!
+
+Ha trinta annos falou-se nisso; ha vinte, voltou-se a lembrar essa
+maravilha; ha dez, resurgia a idéa novinha em folha. Terá de apparecer,
+além desta vez de 1909, ainda algumas duzias de vezes e sempre
+terá--quem sabe?--enthusiasticos applausos...
+
+O entreposto! Ficava realmente muito bem, alli, em Cacilhas! Os navios
+atulhados da borracha da Amazonia; do café de Santos e Rio; do assucar
+de Pernambuco, Sergipe e Alagôas; do tabaco bahiano; da monazite do
+Espirito Santo e Bahia; e do mais que fôra longo
+mencionar--incessantemente a descarregarem tudo isso, alli, em Cacilhas!
+Outros transatlanticos, dia e noite, alli mesmo, a encherem os porões de
+productos brasileiros para o Havre e para Hamburgo, Antuerpia,
+Liverpool, Hull, Amsterdam, Plymouth, Londres, Rotterdam, Genova, Cádiz,
+Barcelona, Napoles, Marselha, etc!
+
+Que lindo movimento maritimo!
+
+Que negocio! Só é pena que se não possa fazer...
+
+É que as baldeações, descargas, transbordos e armazenagens onerariam os
+productos, que hoje vão o mais perto possivel dos consumidores, graças a
+uma navegação collossal sob todas as bandeiras.
+
+É que um entreposto que torna mais caros os productos só serve para lhes
+diminuir o consumo.
+
+É que a navegação demanda o Brasil porque, ao voltar, nos paizes por
+onde passa ou para que se destina existem mercados dos generos
+brasileiros, e porque milhares de toneladas de carga para o Brasil lhe
+compensam a viagem até lá.
+
+O entreposto! Quando chegámos ao Brasil, em 1893, fallámos delle a um
+grande jornalista, amigo extremoso de Portugal e dos portugueses.
+
+Achou a idéa engraçada e ponderou: «Entreposto ideal é o navio--porque o
+café precisa sair de bordo e entrar no caminho de ferro para ser torrado
+no dia seguinte pela manhã, moido das 10 ao meio dia e tomado dessa hora
+em deante. No dia seguinte chega outro vapor e repete-se a
+historia.»[17]
+
+O entreposto em Lisboa para abastecer a Europa! Como se todas as nações
+estivessem desprovidas de portos e a marinha mercante fosse exclusivo
+português...
+
+
+A incuria dos nossos governos é proverbial. A falta de curiosidade basta
+para explicar essa incuria em pessôas tomadas da mania politicante.
+
+Se assim não fôra, saber-se ia em Portugal que, tendo o governo do
+Brasil organisado um «serviço de propaganda e expansão economica», lhe
+estabeleceu quatro delegacias; que a 4.^a delegacia, com séde em
+Barcelona, tem jurisdicção na Hespanha e Portugal; que, portanto, na
+propria peninsula iberica, o Brasil prevê mais possibilidade de expansão
+economica na Hespanha do que em Portugal...
+
+É o que nos parece logico inferir da escolha da séde da 4.^a delegacia.
+
+A proposta do sr. Consiglieri nada offerece ao Brasil, além do serviço
+de lhe evitar o perigo da desnacionalização. O perigo não existe; logo,
+o serviço reduz-se a zéro.
+
+Dir-se-á: «E a emigração?»
+
+A emigração--eis o que realmente damos ao Brasil.
+
+A emigração é um _mal necessario_: quem não tem trabalho remunerador no
+paiz, vae arranjal-o fóra do paiz, e, de lá, acóde ao nosso _deficit_
+economico.
+
+Sendo assim, nem a propria emigração póde constituir base de um accordo
+commercial--porquanto ao Brasil, que precisa de trabalhadores, não
+assusta a idéa de a prohibirmos.
+
+Como prohibil-a, se precisamos della? E, se, num plano de reforma
+economica, cortassemos a corrente emigratoria, os mercados brasileiros
+talvez tivessem de se fechar aos nossos productos...
+
+É esta a triste situação a que o regimen monarchico reduziu Portugal!
+
+
+
+
+XI
+
+A EVOLUÇÃO BRASILEIRA
+
+
+Estamos deante do Brasil em deploravel ignorancia das suas coisas.
+
+Não fôra esta a verdade e teriamos clara noção dos phenomenos ethnicos
+alli operados ou ainda em elaboração e estariamos certos de que não ha
+perigo de desnacionalização, mas tão sómente se dá, nesse paiz, uma
+evolução geral logica, inevitavel e fatal.
+
+As instituições politicas e sociaes da nação brasileira seguiram o seu
+curso, sob influencias peculiares ao meio americano e ás exigencias do
+concerto internacional, por um lado, e, por outro, em obediencia á
+educação e ás aspirações do povo que se foi e ainda está constituindo
+dentro da nossa antiga colonia.
+
+A raça, sem perder as suas caracteristicas iniciaes, obedeceu ao
+determinismo do novo meio e transformou-se, como, com as successivas
+migrações, succedeu, através da historia, a todas as chamadas raças e
+nacionalidades.
+
+Portugal não deu por isso. A falta de curiosidade vae neste paiz, dos
+que governam aos que são governados; dos assumptos mais sérios aos mais
+facêtos, dos factos decisivos aos incidentes subalternos da politica, da
+economia, das artes--de tudo!
+
+Ora, se é verdade que, em 1615, nas instrucções dadas a Fragoso de
+Albuquerque para o tratado de paz com La Revardière,[18] se dizia que no
+Brasil «havia mais de tres mil portugueses» e, portanto, «as suas terras
+não estavam despovoadas», não ha duvida, todavia, de que ao predominio
+da nossa população se deveu o não ter o Brasil caido em outras mãos,
+apezar das vicissitudes por que passou Portugal, volvidos poucos annos
+sobre essa data.
+
+Ao fechar o XVII século, o povoamento tinha tomado incremento notavel
+com o descobrimento das minas de ouro de Caethé e Rio das Velhas. Não
+sómente a miragem do ouro determinou a immigração: havia, então, um
+systema colonizador no espirito dos governantes portugueses. E, embora
+deficiente, o critério que dictou as doações era digno de um governo; e
+os seus fructos foram valiosos. Em 1680, uma carta régia, reveladora da
+noção de imminente conflicto entre colonos e gentios, mandava conceder
+terras a estes «ainda mesmo as já dadas de sesmaria visto que deviam ter
+preferencia os mesmos indios _naturaes senhores da terra_».[19]
+
+Não se repellia o gentio.
+
+As ondas de africanos, que, desde os fins do século XVI, foram atiradas
+sobre a America portuguesa, o indigena e o português foram as
+componentes ethnicas do typo brasileiro.
+
+Os cruzamentos deram-se. Fez-se a selecção lenta, sob a preponderante
+acção da raça superior, cujos attributos a hereditariedade resalvou da
+existencia transitoria do mestiço.
+
+Estudando este phenomeno, Euclydes da Cunha, alto espirito de artista e
+pensador, escreveu que «a raça superior se tornára objecto remoto para
+que tendiam os mestiços deprimidos, e estes, procurando-o, obedeciam ao
+proprio instincto da conservação e da defeza».
+
+Junte-se a este facto, comprovado pela historia de todos os cruzamentos
+desse genero, o axioma ethnologico da tendencia das raças eugenicas para
+subordinarem ao seu destino os elementos inferiores com que se encontram
+e ter-se-á explicada a hegemonia do português na formação do typo novo,
+a que se refere Sylvio Roméro.
+
+Não foram exterminadas as raças inferiores; foram absorvidas lentamente,
+eliminadas pelos cruzamentos sempre ascendentes. Tanto assim foi que,
+apezar da enorme superioridade numerica dos africanos, a immigração
+escassissima dos lusos indo-europeus foi capaz de formar a maioria
+branca que ha no Brasil e que é uma evolução ainda não bastante
+differenciada do typo português.
+
+A nossa resistencia, como raça colonizadora, apresentou na America uma
+prova sem par. A sobreposição das heranças psychicas das raças fundidas
+quasi se não distanciou da parcella lusitana, apesar da nossa falta de
+cultura nos tres séculos ultimos e apezar do evidente accrescimo
+physiologico da população ser devido aos cruzamentos.
+
+Com absoluta razão, e em contrario do que affirmou o visconde de
+Ouguella na _Questão social_, sustentou o sabio brasileiro dr. Luiz
+Pereira Barretto que a raça portuguesa não degenerou.
+
+Não é, diz o dr. Barretto, um caso de degeneração, mas sim de inhibição
+cujas causas, a seu vêr, se encontram na educação clerical e na
+subserviencia dos poderes publicos ao clericalismo.
+
+O Brasil curou-se desse mal, que ainda domina a nossa terra.
+
+
+O que se vê da estratificação dos primeiros elementos constitutivos da
+população do Brasil é a conservação das linhas geraes do typo português,
+com os seus defeitos, mas com as suas qualidades de adaptação e de
+resistencia.
+
+Foi com essa massa que, a partir da abertura dos portos da ainda colonia
+ao commercio universal, se tiveram de encontrar, em escala cada vez
+maior, os colonos europeus de outras linguas.
+
+Não se verificava, apezar do atrazo do português e do brasileiro, a
+hypothese da collisão de uma raça superior, a exótica, com outra
+inferior, a nossa commum.
+
+Se tal acontecesse, repetir-se-ia a selecção realizada com os indios e
+africanos, selecção que, desta vez, seria em prejuizo dos
+luso-brasileiros.
+
+Ora, é precisamente o contrario--isto é, a absorpção do elemento
+exótico--o phenomeno que se tem de reconhecer na fusão de raças operada
+no Brasil, visto que, apezar da superioridade numerica desses exóticos
+sobre os immigrantes portugueses, o typo brasileiro não se alterou
+sensivelmente e as caracteristicas nacionaes permanecem intactas e
+predominantes nos proprios descendentes de gente de lingua estranha.
+
+Daqui tem de se inferir que os dezoito a vinte milhões de brasileiros--a
+estatistica dirá, em 1910, se são mais ou menos--possuem energias
+nacionaes capazes de subordinar os adventicios ao seu modo de ser
+proprio.
+
+A civilização varía de clima para clima.
+
+O homem, ao expatriar-se, está condemnado, por uma fatalidade
+invencivel, a aspirar, para si e para a sua descendencia, á civilização
+adequada ao paiz que escolheu para domicilio.
+
+Por isso, o emigrante procura, em regra, as regiões em que a sua
+adaptação é menos violenta.
+
+Por isso, como diz Cesar Zumeta[20], «quaesquer que sejam as raças
+povoadoras, na zona tórrida não imperará senão uma civilização
+lentamente progressiva».
+
+Por isso, o italiano e o allemão se congregam nos estados do sul do
+Brasil.[21]
+
+Por isso, finalmente, todos os estrangeiros das raças superiores são
+assimilados no Brasil, cujo meio, antes de se modificar, os modifica a
+elles, até a sua completa identificação com o typo nacional, que, é
+claro, por sua vez tambem se transforma, como acontece aos typos de
+todos os outros paizes.
+
+As migrações nunca deixaram de ter este resultado: adaptam-se ao meio,
+mas influem na sua evolução.
+
+
+
+
+XII
+
+O BRASIL E O AMERICANISMO
+
+
+Perguntar-se-á se achamos que, apezar de tudo, se conservarão no povo
+brasileiro, indissoluveis affinidades com o povo português.
+
+O caso dos Estados Unidos da America, em que sommam nove milhões de
+habitantes os cidadãos de origem alleman, inclina-nos a prevêr que assim
+virá a ser. Esses nove milhões fundiram-se dentro da massa _yankee_; e
+conservou-se o caracter anglo-saxonio do povo americano.
+
+Ha differenças entre o inglês e o _yankee_. Decerto; mas os traços
+dominantes são communs; cada vez mais se estreitam os laços que prendem
+os dois povos e maior é a influencia de um sobre o outro.
+
+A differenciação lenta do brasileiro do português é um facto, do qual,
+porém, não é licito tirar illações pessimistas quanto ás futuras
+relações entre ambos nem agourar phenomenos de desnacionalização.
+
+O Brasil de ha muito que está em progresso, sob todos os aspectos.
+Portugal não está parado: a sua evolução é regressiva; vive á procura de
+um Messias, com instituições cada vez mais anachronicas, resistindo á
+democracia triumphante em todo o planeta...
+
+São dois povos que seguem rumos divergentes e que, portanto, não se
+encontrarão nunca mais, salvo se um delles se decidir a tomar o caminho
+do outro...
+
+
+O Brasil, pela sua integração no corpo democratico americano, pelas
+exigencias da politica internacional e por tendencias de ordem politica,
+economica e moral, que demonstrava desde a sua independencia, poude
+transformar-se por completo.
+
+A raça regenerou-se, livrando-se das causas da inhibição, que a
+combalia.
+
+O espirito americano já não póde ser considerado simples phrase de
+jactanciosa literatura politica para effeitos oratorios. É uma
+realidade.
+
+Toda a America latina evolve segundo normas novas. Donde surgiram essas
+normas? Da influencia da civilização norte-americana, não ha duvida
+alguma.
+
+Os hispano-americanos estavam realmente feridos pela tempestade, como
+dizia Castelar. Era a tempestade resultante do conflicto da civilização
+ancestral com o meio. Verificava-se, mais uma vez, que a cada clima
+convém uma civilização especial, que não ha, no planeta, uma civilização
+uniforme e typica.
+
+A adaptação lenta do que, da civilização norte-americana, podia
+coadunar-se com os nucleos diversos do povoamento da America, gerou a
+corrente de sentimentos e de idéas que, por constituir uma série de
+evidentes pontos de contacto entre os povos americanos, teve a
+denominação de _espirito americano_.
+
+Este espirito, em que pése aos _snobs_ que achincalham o papel da
+democracia norte-americana, derivou da attitude dos Estados Unidos
+deante da ameaça de intervenção da Santa Alliança--tão santa como a
+Inquisição!--a favor da Hespanha e contra as colonias que se lhe tinham
+declarado independentes.
+
+Bem sabemos que o governo americano hesitou deante da situação. A Santa
+Alliança era poderosa e os Estados Unidos eram, então, uma nação
+relativamente fraca.
+
+Em 1823, o presidente Monröe, com o auxilio da Inglaterra, ou sem
+elle--pouco importa--resolvia-se, afinal, a assumir a posição de que
+havia de decorrer a chamada mais tarde «doutrina de Monröe».
+
+Foi na mensagem de 23 de dezembro do referido anno. Dizia o presidente
+dos Estados Unidos, depois de exprimir o seu respeito pela partilha,
+então consummada, da America:
+
+«Em relação aos governos que declararam e têm mantido a sua
+independencia, a qual, depois de grande reflexão e obedecendo a
+principios de justiça, reconhecemos, toda e qualquer interferencia por
+parte de alguma potencia européa com o fim de os opprimir e de qualquer
+forma pesar sobre os seus destinos, só poderá ser olhada por nós como
+demonstração pouco amigavel feita aos Estados Unidos.»
+
+Esta é, em resumo, a célebre doutrina com que, á nascença, se viram
+protegidas as republicas hispano-americanas. É certo que os ingleses
+secundaram, no proprio interesse, a defeza desses novos estados
+proclamada por Monröe.
+
+Mas, se essas nações estavam, até certo ponto, garantidas contra a
+antiga metrópole, deviam-no á iniciativa dos Estados Unidos. A sua
+marcha evolutiva tinha de resentir-se desse facto e a influencia, que o
+progresso vertiginoso da união do Norte veiu a exercer sobre ellas,
+accentuou ainda mais profundamente a idéa de que interesses superiores
+prendiam entre si os povos americanos.
+
+O espírito americano, sobre essa base effectiva da protecção reciproca
+do principio nacional, não podia deixar de se fortalecer e consolidar.
+
+Para isso contribuía a differenciação que o meio e os cruzamentos
+ethnicos impunham a esses estados, apartando-os mais e mais, se bem que
+lentamente, dos colonizadores.
+
+O esforço das sociedades hispano-americanas para se adaptarem ao
+espirito americano, desvincilhando-se de instituições e costumes do
+outro lado do Oceano, é a explicação que dão todos os sociólogos, que
+estudaram o phenomeno, das suas luctas civis e dos seus frequentes
+eclypses de legalidade.
+
+
+Não assim com o Brasil. A evolução brasileira, até o inicio do
+derradeiro quartel do século passado, operou-se quasi livremente do
+espirito americano. _Quasi_, dizemos, porque a sua influencia se
+encontra em todo o imperio como elemento modificador das tendencias,
+intrinsecas do povo brasileiro.
+
+É facil comprehender a disparidade apontada.
+
+Em primeiro logar, a antiga colonia americana de Portugal constituiu um
+imperio, uma realeza, sob um principe português. Pedro I do Brasil, mais
+tarde IV de Portugal, já não poude deixar de conceder ao Brasil o
+systema representativo, despojando-se dos attributos divinos da realeza
+absoluta. É que a America, _pelo seu espirito_, já não podia tolerar
+essa instituição politica ainda vigente em Portugal.
+
+Não ha barreiras nem muralhas chinesas impermeaveis ás idéas; e o
+principe português, ao sentar-se no unico throno da America,
+comprehendeu essa verdade.
+
+A Pedro IV deveu Portugal a dadiva de um systema vasado nos mesmos
+moldes que elegêra o auctor inglês a quem o filho de João VI e Carlota
+Joaquina encommendára a primeira...
+
+Tanto basta para vêr, com nitidez, que a evolução brasileira não estava
+destinada a seguir, desde a independencia, o espirito americano.
+
+O phenomeno politico-social occorrido no Brasil defendeu, durante largo
+periodo da sua elaboração nacional, as affinidades entre a antiga
+metrópole e a ex-colonia contra as idéas e os sentimentos de que os
+Estados Unidos iam impregnando os mais estados do Novo Mundo.
+
+Ao passo que os hispano-americanos, sob novas instituições politicas,
+entravam em violenta differenciação com a Hespanha, os luso-americanos,
+logo após a separação, tinham convivio intimo e familial com Portugal e
+dos portugueses recebiam e aos portugueses transmittiam, num commercio
+ininterrupto, idéas e sentimentos.
+
+É, pois, absolutamente diversa a historia dos descendentes dos dois
+povos da peninsula ibérica.
+
+Não foi senão nas duas ultimas décadas do imperio que os brasileiros
+denotaram o influxo americano.
+
+O casamento civil dos acatholicos e a questão da extensão do estado
+civil, o debate jornalístico ácêrca da liberdade de cultos e da
+secularização dos cemiterios e a idéa de federar as provincias[22] são
+provas da acção americana, que, no Brasil, continuava, assim, a obra
+encetada quando se adoptára o principio da eleição, se bem que
+restricta, dos membros da segunda camara, o senado.
+
+Dahi por deante accentuou-se o contagio e o estatuto politico saido da
+revolução de 1889 consagra de maneira definitiva a adhesão do Brasil ao
+americanismo.
+
+A lei basica de 24 de fevereiro de 1891 é calcada na americana de 1787,
+na qual Gladstone via «a creação mais admiravel que a intelligencia
+humana produziu de um só jacto».
+
+Não são, todavia, bem fundadas as criticas que attribuem á adopção desse
+modelo institucional o caracter de uma quebra de continuidade na
+historia do Brasil. Se assim fôsse, tambem não teria outro significado o
+advento do regimen representativo, nos paizes antes sob realezas
+absolutas, a valer inviolaveis e sagradas.
+
+Os povos, por mais que o queiram, não interceptam o curso da sua
+historia. Quando o arbitrio o tenta, logo surge a reacção invencivel do
+seu determinismo a repôr tudo no logar adequado e nos necessarios
+termos.
+
+Mudam-se, de uma hora para outra, os systemas politicos, que são obra de
+interesses colligados e defendidos pela força material do poder detentor
+das armas, dos sellos do estado e das arcas da nação.
+
+Não se mudam, porém, em dias, nem ás vezes em annos, os systemas
+sociaes, conjunctos de institutos juridicos, de tradições e de costumes,
+que evolvem, sem saltos, serena e continuamente.
+
+O Brasil passou de um imperio centralizado a uma republica federativa.
+Mudou de regimen politico; mas conservou, melhorando-as, como preceitúa
+Comte, as suas instituições sociaes.
+
+Não o affirma, de modo frisante e de per si, o facto de ter ainda em
+vigor as _ordenações do reino_, modificadas, natural e logicamente, por
+leis exigidas, em todos os ramos do direito, pelo progresso humano e
+pelo progresso nacional?
+
+Portugal codificou o seu direito civil. O Brasil ainda não o fez; mas a
+verdade é que a sua legislação fragmentaria revogou e alterou, de
+accordo com as necessidades dos tempos, as velhas leis portuguesas,
+aproveitando, dellas, o que podia em cada momento ser conservado.
+
+Este feitio da vida juridica brasileira denota raro apêgo ao passado e
+constitue eloquente protesto contra a asseveração gratuita de que o
+Brasil propende voluntariamente para se afastar do espirito das leis
+portuguesas. Era-lhe, porém, impossivel crystalizar dentro da rigidez de
+normas legaes correspondentes a um estadío transitorio do seu
+desenvolvimento. Transformou-se, porque progrediu. E, como, ao
+progredir, não podia ficar a par da nossa marcha morosa e ás vezes
+regressiva, distanciou-se de nós e acceitou as idéas que ás suas
+condições mais quadravam.
+
+O meio politico e social do Novo Mundo assimilou, afinal, o espirito
+juridico brasileiro; comtudo, o povo brasileiro permaneceu, no ponto de
+vista da lingua, das tradições moraes e da propria constituição da
+familia, muito chegado e proximo do povo português.
+
+Por quê? Pela simples razão de não haver o Brasil assentado a sua
+ascensão para a radiosa doutrina americana sobre os destroços das
+conquistas definitivas dos seus maiores e das suas proprias.
+
+No Brasil não se violentaram os costumes, crenças e tradições
+fundamentaes do povo. Eliminou-se o que o desfiar dos annos tornou
+caduco ou discordante da nova sociedade. Não houve rompimento com o
+passado e, portanto, no dizer conceituoso de Burke, «não se desorganizou
+o futuro» porque se aproveitou «a experiencia accumulada de gerações
+successivas».
+
+Esta sequencia do espirito juridico, que caracteriza e distingue a raça
+anglo-saxonia, revela-se, mais do que em todas as nações
+ibero-americanas, no Brasil.
+
+Assim é que o Brasil, mais do que todas essas nações, mantem radicaes
+affinidades com o seu povo de origem, com Portugal. É no sul o que no
+norte do continente é a federação americana: ambas representam
+typicamente os colonizadores, muito embora as condições politicas, as
+exigencias do ambiente novo e a fusão de raças estranhas tenham
+estabelecido, entre os dois ramos de cada uma dessas familias, signaes
+distinctivos e peculiares.
+
+
+O que se deu em ambos os paizes está compendiado na phrase de Story[23]:
+«O direito da Inglaterra não deve ser considerado _a todos os respeitos_
+como o da America. Os nossos maiores trouxeram os seus _principios
+geraes_ e defenderam-no como o seu direito patrimonial. Mas trouxeram-no
+comsigo e adoptaram sómente a _parte applicavel á sua condição_.»
+
+Com effeito, como vimos, o Brasil tambem adoptou sómente a «parte
+applicavel á sua condição». Assim foi que repudiou a camara dos senhores
+e instituiu a dos senadores, em que a democracia americana enxertára o
+principio da eleição popular.
+
+Isto já no imperio! Na Republica, em consequencia do regimen adoptado e
+de precendentes influencias intra-continentaes, a doutrina do
+aproveitamento da _parte_ do direito tradicional _applicavel_ á condição
+do novo povo tinha de ser posta em pratica mais largamente. Era
+inevitavel. Ia-se proceder a uma selecção á qual tinham de succumbir
+muitos dos archaicos e obsolétos principios do direito português, já
+adaptado ao ser introduzido no Brasil.
+
+Apparecia, na reconstrucção republicana do Brasil, o agente
+differenciador americano, que já lhe não era estranho. Encontrava,
+porém, no proprio regimen politico, facilidades que antes lhe tinham
+faltado.
+
+A Constituição Brasileira, de 24 de fevereiro de 1891, foi o promotor
+principal desta reforma, que, a perdurar o alheiamento de Portugal ao
+progresso contemporaneo, parece destinada a precipitar o divorcio entre
+as duas civilizações.
+
+
+
+
+XIII
+
+AS DIVERGENCIAS
+
+
+Agora, volvidos vinte annos sobre a quéda do imperio de D. Pedro II, não
+é licito a pessôas de são juizo admittir a possibilidade da restauração
+monarchica.
+
+A Republica é definitiva. Com os della estão confundidos os destinos
+nacionaes.
+
+Em vão, em 1896, o visconde de Ouro Preto exprimia, na carta-prefacio
+dos _Fastos da Dictadura_, de Eduardo Prado, esperanças de restauração e
+dirigia uma saudação «á phalange dos batalhadores do porvir, investidos
+da sagrada missão de sanar os males causados á sociedade» brasileira,
+«reencaminhando-a aos seus luminosos destinos»!
+
+Em 1900, o sr. Joaquim Nabuco, num artigo da _Noticia_, confessava que
+havia muito que a «sua attracção politica» era «para se conciliar com os
+novos destinos do paiz, _quaesquer que elles fossem_». E quando se
+realizou o 3.^o Congresso Pan-Americano no Rio de Janeiro, o preclaro
+diplomata explicou a sua adhesão ao novo regimen pelo reconhecimento de
+que só com a Republica a sua patria podia realizar a parte que lhe
+compete na obra continental decorrente da doutrina de Monröe.
+
+As novas instituições incorporaram o Brasil ao pan-americanismo.[24]
+
+O exito republicano consolidou essa transformação e garantiu a
+continuidade de acção do espirito americano na vida nacional brasileira.
+Não ha duvida.
+
+Vinte annos de democracia, num paiz em que não havia privilegios de
+casias, bastam para tornar definitiva a abolição do velho systema
+politico, com todas as suas consequencias e para dar consistencia
+indestructivel á actual ordem politica e ás suas logicas illações
+sociaes.[25]
+
+Quem tinha quinze a vinte annos, ao ser proclamada a Republica, conta
+hoje entre trinta e cinco e quarenta annos: fez-se homem na Republica.
+
+E quem tinha menos do que essa edade recebeu educação absolutamente
+republicana, formou o seu espirito nos principios trazidos pela
+orientação politica americana.
+
+É, portanto, a parte activa da sociedade brasileira que representa as
+aspirações pan-americanistas.
+
+O futuro pertence lhe. Nella abdicam os que conseguiram accommodar-se
+dentro das instituições novas e os que, por uma incompatibilidade
+intima, quasi organica, estão condemnados á abstenção para o resto dos
+seus dias.
+
+A essencia do espirito americano é a liberdade, comprehendida como a
+maxima amplitude deixada e garantida á acção individual.
+
+Diz um publicista notavel que, se o principio do _self-government_ é um
+axioma politico para o norte-americano, o seu complemento, no terreno
+social, é o _self-help_, base dos direitos individuaes.
+
+A soberania do direito, alicerce do direito publico anglo-saxonio,
+oppõe-se a que as garantias individuaes sejam postergadas pelo povo ou
+pelos seus mandatarios. É o que Laboulaye exprime, quando diz que os
+direitos individuaes, na Constituição Americana, são considerados
+preexistentes e superiores á Constituição.
+
+A Constituição Brasileira, no seu artigo 72, em que foi mais completa do
+que a de 1789 na declaração dos direitos do homem e do cidadão, consagra
+a doutrina americana.
+
+Eis uma divergencia essencial entre o Brasil e Portugal ou qualquer
+outro estado do continente europeu. Com effeito, pondéra Arthur Orlando,
+professor de direito no Recife:
+
+«Segundo o direito europeu compete ao soberano regular de modo absoluto
+as relações entre os particulares e os poderes publicos. No direito
+americano, _vis-à-vis_ das auctoridades publicas, o particular tem
+direitos imprescriptiveis, inalienaveis, cuja garantia compete aos
+tribunaes judiciarios.»[26]
+
+«Em face dos principios do direito constitucional das nações européas, o
+soberano, chame-se imperador ou povo, não encontra obstaculos á sua
+vontade: perante os principios do direito constitucional dos povos
+americanos, os direitos individuaes estão ao abrigo da acção, mesmo
+collectiva, dos poderes publicos, e, portanto, isentos de todo
+ataque.»[26]
+
+Mas desta differença deriva outra, por egual importante.
+
+O poder judiciario americano véla pelo respeito dos direitos
+individuaes, cohibindo as exorbitancias dos outros poderes, isto é,
+tanto do executivo como do legislativo.
+
+«As leis--lê-se em Story--sem tribunaes que interpretem e indiquem o seu
+verdadeiro sentido e applicação, são letra morta.»[27]
+
+Foi com o mesmo fim que a Constituição Brasileira, art.^o 59, III, §
+1.^o, alinea _a_, deu ao Supremo Tribunal Federal competencia para
+julgar da validade ou applicação dos tratados e leis federaes e das leis
+e actos dos governos estadoaes.[28].
+
+No Brasil e na Argentina, como nos Estados-Unidos, não é raro vêr o
+poder judiciario decretar, por sentença, a inconstitucionalidade de leis
+votadas pelo Congresso e sanccionadas pelo poder executivo.
+
+Aliás, a tendencia do espirito americano é para resolver todas as
+questões de direito por tribunaes competentes. O julgamento arbitral é a
+forma de decidir os litigios internacionaes.
+
+O Brasil, cuja lei basica, art.^o 88, prohibe as guerras de conquista,
+tem demonstrado amplamente a sua adhesão ao arbitramento.[29].
+
+E, sem pormenorizar a doutrina Drago, em que o ex-ministro argentino
+quiz firmar o principio da não intervenção armada para a cobrança de
+dividas de estados, é evidente que, na America, se caminha para um
+accôrdo de que ha de resultar uma justiça internacional, continental
+pelo menos, destinada a dar realidade ao espirito americano nessa
+esphera juridica.
+
+E essa tendencia, como observa Calvo[30], «ha de transformar as relações
+entre os povos, porque, hoje, não ha meias soberanias e a America cada
+vez ha de pesar mais nessas relações»,[31] com a entrada dos seus
+estados na linha das forças com que se terá de contar, como se contou
+sempre, para que o direito internacional tenha sancção e se torne
+effectivo.
+
+Nesta materia tambem nos vamos inevitavelmente afastando dos nossos
+irmãos de além-mar: quedámo-nos atidos e atados á enygmatica, mysteriosa
+e confusa politica, que consiste em ter e não perder o apoio de uma
+grande potencia, a qual tem sido a Inglaterra, mas que, ahi por 1886 a
+1891, esteve para ser a Allemanha...
+
+Não nos móve a consciencia do nosso destino; tratamos de alcançar
+arrimo. Não obedecemos a interesses claros da nacionalidade nem a
+exigencias da nossa expansão, nem sequer a affinidades de cultura ou
+imposições da economia portuguesa: requestamos um bom encosto, embora só
+nos sirva para satisfazer vaidades e pavonear forças alheias.
+
+
+Seria longo enumerar todos os aspectos sociaes em que divergem, já neste
+momento, os povos brasileiro e português. Não ha, porém, duvida alguma
+de que a causa primordial desse facto, que a fatalidade do menor esforço
+ha de estender e ampliar de dia para dia, é o espirito americano, que
+incorporou, afinal, na consciencia continental, a consciencia
+brasileira.
+
+Os povos de toda a America sentem que têm destinos communs no
+desenvolvimento da humanidade.
+
+O Brasil não podia deixar de commungar nesse sentimento. Em todas as
+manifestações da sua vida actual é facil reconhecel-o:
+
+É o resultado da acção exercida pelos Estados-Unidos, cuja constituição,
+«sobre a qual são vasadas _todas_ as constituições politicas dos povos
+americanos», creou um direito novo, _sui generis_.
+
+_Sui generis_ é, com effeito. A capacidade juridica da mulher, que na
+Europa não é completa nem na Gran-Bretanha, é-o nos Estados-Unidos.
+«Póde praticar qualquer acto juridico ou extra-judicial independente da
+auctorização do marido», diz Arthur Orlando.
+
+A essa corrente obedeceram, no debate recente de um projecto de lei
+regulador da dissolução do vinculo conjugal, alguns dos mais adeantados
+legisladores brasileiros.
+
+Á liberdade de testar, principio inherente á formação individualista dos
+povos anglo-saxonios, tem de se attribuir o dispositivo da lei
+brasileira de 31 de Dezembro de 1907, que confére «ao testador, que
+tivér descendente ou ascendente successivel, a faculdade de dispôr de
+metade dos seus bens», em vez da terça parte.
+
+É um passo dado para a conquista de mais essa liberdade, á qual, em
+grande parte, devem ingleses e _yankees_ a sua iniciativa e, portanto, o
+exito na lucta pela vida.
+
+Nós, latinos, avergados ao pavor do principio da auctoridade,
+veneradores do estado providencia, picados da tarantula romana das
+conquistas e da partilha das presas, revendo na gloria das armas a fórma
+ancestral e exclusiva de triumphar--estamos hoje, como ha trezentos
+annos, naquella these de que a herança é um dever que os paes cumprem
+para com os filhos.
+
+Não é, porém, só isso.
+
+Ao mesmo espirito já era devida a instituição:
+
+1.^o Do _habeas-corpus_, no estatuto basico da Republica, art.^o 72 §
+22;
+
+2.^o Da responsabilidade do chefe da nação por meio do _impeachment_ ou
+accusação pela camara, art.^{os} 53 e 54;
+
+3.^o Da competencia privativa do poder legislativo para orçar a receita
+e fixar a despeza, art.^o 34 § 1.^o, e para resolver definitivamente
+sobre os tratados e convenções com as nações estrangeiras, art.^o 34 §
+12.^o;
+
+4.^o Da indissolubilidade do Congresso[32], da sua reunião de direito
+proprio, e da faculdade privativa de deliberar sobre a prorogação e
+adiamento das suas sessões, art.^o 17 e seus §§;
+
+5.^o Da concessão aos estrangeiros de todos os direitos pelo art.^o 72
+dados aos nacionaes, entre os quaes a liberdade de cultos e o ensino
+publico leigo.
+
+Em Portugal nada disso existe. Como se ha de querer que caminhem
+parallelamente povos que divergem tão radicalmente nos seus costumes
+politicos e nas suas concepções juridicas?
+
+Pura utopía! Vêde o que contrapômos a esses cinco pontos enumerados
+acima:
+
+1.^o Não ha garantias que defendam os cidadãos contra o arbitrio da
+auctoridade: o juizo de instrucção criminal--por suspeitas e
+denuncias!--prendeu, por quasi tres mezes, quatro homens, para o
+inquerito sobre o regicidio;
+
+2.^o A irresponsabilidade do chefe da nação é constitucional; o caso dos
+adeantamentos estereotypa o nosso estado em materia de responsabilidades
+dos proprios ministros, _responsaveis_, segundo a ficção legal;
+
+3.^o A dictadura financeira é a regra, a que só se foge «quando os ares
+andam turvos»: o orçamento, confessaram-no todos os partidos
+portugueses, é uma mentira; quanto á competencia do parlamento, em
+materia de tratados, basta citar o caso mais recente, o tratado
+luso-sul-africano, em que ao poder legislativo... se reservou a nobre
+funcção de não o discutir sequer;
+
+4.^o A camara electiva em Portugal foi dissolvida quasi systematicamente
+durante o reinado do rei Carlos, já o foi neste e quanto a prorogações e
+adiamentos só se não dão os que o governo não quer; as côrtes não se
+reunem de direito proprio; é o rei que as convoca;
+
+5.^o Dos direitos do estrangeiro em Portugal avalie-se pela expulsão de
+Souza Carneiro, Salmerón e Francisco Ferrer, entre muitos mais; a
+liberdade religiosa aquilata-se pelo julgamento recente de um jornalista
+republicano em Vizeu; o ensino leigo define-se pela obrigação de recitar
+préces catholicas nos actos da Universidade. É verdade que, antes de
+jurar defender a Patria, o rei tem de jurar, pela Carta, manter a
+religião catholica, apostolica, romana!...
+
+Isto tudo acontece neste paiz de gloriosas tradições, regido por
+formulas já esquecidas pela maioria dos povos civilizados.
+
+Será, por acaso, a nossa terra uma das _wasted countries_ (paizes
+desperdiçados, não utilizados) a que alludiu, ha annos, sir John
+Lubbock?
+
+Será um desses estados para que o patricio e nosso tristemente conhecido
+marquez de Salisbury aconselhava a expropriação por utilidade
+internacional?
+
+Dir-se-ia Portugal transferido para os trópicos, cuja herança, no dizer
+de Kidd, está sendo agora disputada, depois da conquista da terra
+habitavel pela raça branca.[33]
+
+
+
+
+XIV
+
+A APPROXIMAÇÃO
+
+
+Não é facil comprehender como o conjuncto de leis, costumes e pendores,
+que acabamos de summariar e indicar á attenção dos homens de
+intelligencia e boa vontade, tivesse, em regra, escapado ao espirito dos
+conselheiros da nossa terra de doutores.
+
+Não ha, todavia, vestigio algum de que se houvessem apercebido da
+realidade os nossos estadistas de pechisbeque nem tampouco os argutos
+diplomatas, que sáem do favoritismo cortezão para o desempenho das suas
+missões com o cérebro vasio de idéas e até das noções elementares das
+mais comesinhas coisas divulgadas pelas bibliothecas populares com que a
+limpida intelligencia francesa procura chamar ás cercanias da
+civilização as gentes retardatarias.
+
+Que aos cidadãos portugueses, que formam o grosso dos setenta e tantos
+por cento que a estatistica declara analphabetos, seja inattingivel o
+phenomeno, admitte-se, explica-se e justifica-se.
+
+Mas que, nas proprias classes tidas por cultas e, de facto, dirigentes,
+se pense ainda que o Brasil nos fóge das mãos e que o podemos e devemos
+segurar, bastando para tanto a vontade de o fazermos; que, nessas
+classes, se attribua a animadversão por parte dos governos brasileiros o
+que deflue logicamente dos elementos vitaes das sociedades; que, nesses
+meios venturosos, se procurem soluções a um problema, que se presume
+conhecer mas realmente se desconhece, e não se lembre ninguem de
+investigar os seus precisos termos--é symptoma alarmantissimo para todos
+aquelles que ainda amam esta nossa patria e aspiram a uma vida nacional
+digna e próspera.
+
+Acaso ha quem julgue que perduram no Brasil resentimentos contra a
+antiga metrópole?
+
+Acaso toda essa gente graúda e fútil não tem olhos para vêr e ouvidos
+para ouvir?
+
+Não chegam á sua intelligencia preguiçosa nem á sua alma embotada pelo
+egoismo as provas constantes de intenso affecto que os brasileiros nos
+dão?
+
+Não se sente em Portugal que as nossas máguas e as nossas alegrias fazem
+pulsar, para lá do Atlantico, milhões de peitos e tremer milhões de
+labios em que as primeiras palavras balbuciadas o foram na lingua
+commum?
+
+Triste, tristissimo estado da nossa alma, vergonhosa condição da nossa
+intelligencia!
+
+Mandemos ao Brasil homens intelligentes, que lhe estudem a vida sob
+todos os aspectos e venham esclarecer-nos.
+
+Deixemo-nos de confiar em diplomatas, que sabem elegancias e
+pragmaticas, mas ignoram as mais singélas noções dos phenomenos sociaes,
+economicos e juridicos.
+
+Os nossos colonos no Brasil, os nossos patricios que lá trabalham em
+qualquer esphera da actividade, valem muito mais, para a indicação das
+necessidades das relações luso-brasileiras, do que todos os viajantes
+que têm saído do Terreiro do Paço, para destinos varios, a curtir
+saudades da manga de alpaca e do _Deus guarde a V. Ex.^a_ do papelorio
+nacional.
+
+
+Desta desidia collectiva, em que o menos culpado e o mais sacrificado é
+o povo laborioso e honesto, resultou a absurda situação em que nos
+encontramos.
+
+Reconhecemos--dir-se-ia que de subito!--que, no fim de contas, o
+português encontra concorrentes nas outras raças que contribuem para o
+povoamento do Brasil...
+
+Não foi sem tempo; mas, infelizmente, não atinamos com o caminho que nos
+convém! Serão as leis inflexiveis da historia que hão de nos encarreirar
+para essa senda.
+
+Por nossa vontade ou contra o nosso querer, havemos de lá ir ter.
+
+Basta que assim seja para que presintamos, no anceio geral por estreitar
+os laços que prendem os povos de lingua portuguesa, promessas de que vem
+perto o dia da redempção desta terra em que os homens livres parecem
+escravizados, em que tudo transuda o bafio de remoto passado e tudo é
+bolôr, caruncho e poeira.
+
+Com que então queremos approximar-nos do Brasil e mais intimamente
+conviver com elle?
+
+Vamos, pois, procurar «unificar ou pelo menos harmonizar a legislação
+civil e commercial» dos dois paizes?
+
+Ora, ainda bem! Aos republicanos portugueses sorri essa idéa. Já o
+dissémos na introducção a estas paginas.
+
+E sorri porque traria a Republica, se nós a não pudéssemos fazer num
+impeto dignificante; porque só a Republica póde levar Portugal a
+entender-se, de qualquer modo, com o Brasil republicano.
+
+A legislação commercial e civil! Como conciliar os dois povos, sob esses
+aspectos do direito, se emquanto lá no Brasil tudo tende a amoldar-se ao
+regimen politico e ás instituições sociaes e juridicas do
+continente--como deixámos exposto--cá em Porttugal nada caminha para a
+democracia, tudo retrocéde para o absolutismo de ha um século?
+
+Ide pedir a um cidadão affeito á garantia do _habeas-corpus_ que se
+despoje della e acceite as delicias do inquisitorial Juizo de Instrucção
+Criminal, alli á Parreirinha...
+
+Chamae os lavradores de um paiz em que existe o credito real e o credito
+agricola, a mobilisação do valor da terra e do valor da producção, e
+perguntae-lhes se lhes apraz voltar á condição dos agricultores do nosso
+Alémtejo...
+
+Invertei, porém, os papeis e vereis como o alémtejano corre febril e
+esperançado a abraçar as instituições que florescem nos paizes da
+America e como o lisboeta acolhe com enthusiasmo o _habeas-corpus_...
+
+
+Mas os factos affirmam que dependemos economicamente do Brasil, que
+convém ao Brasil o colono português e que, além da lingua, ha poderosos
+vinculos, principalmente de ordem affectiva e psychica, entre os dois
+paizes.
+
+Queremos, lá e cá, viver como uma só familia. Não haverá, para isso,
+razões de conveniencia e de interesse, mas ha razões de sentimento, a
+que os homens nunca se furtam.
+
+O exemplo anglo-americano é caracteristico. Quando foi da famosa nota
+comminatoria do gabinete de Washington ao de Londres, a proposito de
+Venezuela e no tempo de Grover Cleveland, pareceu que o resfriamento ia
+abrir éra nova.
+
+Puro engano!
+
+Os Estados-Unidos e a Gran-Bretanha cada vez se ligaram mais intimamente
+e a influencia que, sobre esta, exerce aquella nação é tal que fôra
+loucura negal-a.
+
+A propria crise dos _lords_ que vem a ser senão o surto da opinião
+democratica _yankee_ dentro da democracia inglesa, socialmente congénere
+da americana?
+
+Que querem os liberaes, os radicaes, os socialistas do _Labour
+Party_[34] e todos os que acompanham Asquith, senão realizar a idéa
+americana do senado electivo e fazer prevalecer, no tocante á iniciativa
+orçamentaria e tributaria, a doutrina que determinou a independencia dos
+Estados Unidos?[35]
+
+E tamanha é a influencia _yankee_ na vida inglesa que homens da estatura
+de William Stead e de Westlake já falaram na americanização da
+Gran-Bretanha...
+
+Não é, porém, isolado o facto. A rapida democratização italiana que os
+nossos liberaes das duzias attribuem ao, aliás, unico principe
+intelligente que reina em nossos dias--não passa, no criterio dos mais
+eminentes sociólogos italianos, de inevitavel consequencia da emigração
+para a America republicana, progressiva e trabalhadora. _Fare l'America_
+ha de redundar num novo _fare da se_, desta vez proferido pelo povo ao
+conquistar a posse dos seus destinos!
+
+Todos os convivios prolongados e intimos de povos differentes os
+conduzem ao nivelamento de cultura. É o facto sociologico correspondente
+ao physico do equilibrio dos liquidos em vasos communicantes.
+
+As necessidades do progresso humano e as exigencias da ordem social são
+os unicos indicadores do sentido que esse nivelamento tem de tomar.
+
+Caso typico é o da alliança franco-russa: ella não podia, como os
+energumenos realistas suppuzeram, levar a França á monarchia, mas tinha
+de arrastar o imperio de Nicoláo para o systema representativo, que,
+afinal, reconheceu a existencia do povo e o seu direito a intervir na
+gestão da sociedade, que o seu trabalho alimenta e enriquece.
+
+
+Deante da nação brasileira, cuja cultura já não podemos pôr em duvida,
+cuja expansão alenta o nosso organismo economico e cujo consumo é uma
+das melhores garantias effectivas da nossa producção, estamos nas
+condições que acabamos de referir.
+
+É uma verdadeira dependencia material. O sr. Consiglieri Pedroso com
+razão a reconhece nos seus considerandos quando diz que «a economia
+nacional portuguesa só ao contacto intimo da exuberante seiva brasileira
+pode robustecer-se e tonificar-se».
+
+Accresce a esse facto o de uma absoluta interdependencia dos dois
+paizes, sob o ponto de vista moral e affectivo. Julgamos tel-o deixado
+claramente deduzido; e se tal não fosse verdade, todo o nosso esforço e
+todo o esforço brasileiro para realizar a desejada approximação
+redundariam em pura perda.
+
+É, porém, certo que os laços que ligam Portugal ao Brasil assim como a
+Hespanha ás republicas hispano-americanas não apresentam indicios de
+enfraquecimento, apezar das divergencias antes apontadas.
+
+O erro, por parte dos povos da peninsula iberica é o mesmo: portugueses
+e hespanhóes persistem, pelo seu ferrenho conservantismo, que a
+ignorancia tutéla e couraça contra todas as conquistas do progresso, em
+vêr as coisas de hoje com os olhos com que viam as dos tempos do seu
+poderío...
+
+Ambos esses paizes esquecem que se lhes foram, de longa data, as
+colonias americanas e que, lá, onde as tinham, existem hoje florescentes
+estados e povos trabalhados por uma nova civilização...
+
+Supino erro de apreciação: porque o facto de terem os povos americanos
+de origem ibérica evolvido em sentido differente do adoptado até agora
+pelos ibéricos não implica necessariamente definitivo divorcio ou
+rompimento.
+
+Dil-o o simples bom-senso. Effectivamente, _apezar das divergencias
+verificadas, e incontestaveis_, tem de se reconhecer, de ambos os lados
+do Oceano, que perduram as intimas relações e a consciencia de que ellas
+se hão de estreitar ainda mais entre os dois ramos de cada uma dessas
+familias.
+
+O que é evidente é que os americanos, do sul, do centro e do norte, só
+podem proseguir no caminho encetado.
+
+Nem é admissivel o capricho em materia desta natureza. Os povos têm os
+seus destinos prescriptos pelas condições do meio em que se desenvolvem.
+
+Meio physico, meio psychico, meio politico, meio social, meio
+internacional--é claro.
+
+Esse complexo meio impõe aos povos da America destinos americanos.
+
+Dir-se-á que tambem as mesmas causas impõem á peninsula ibérica destinos
+não americanos.
+
+Nada o prova.
+
+Antes de tudo, o que se vê é que existe, tanto em Portugal como na
+Hespanha, a consciencia collectiva de que é indispensável refazer a
+antiga vitalidade com a _seiva_ das ex-colonias. É a consciencia de um
+destino...
+
+Depois, com que povos, com que culturas da Europa, formam os dois povos
+e as duas culturas da Ibéria um systema que se contraponha ao da
+America, ao pan-americanismo?
+
+E, finalmente, não se sente, pela Europa inteira, o sopro revivificador
+do individualismo americano? Não se percebe, nas mais insignificantes
+coisas, o influxo dessa poderosa alma americana, que revoluciona as
+sciencias, as industrias e as artes? Não se vêem legiões de homens
+intelligentes acudindo á America a haurir, nas suas coisas novas, nos
+seus processos novos e nas suas instituições novas, a energia que falece
+á Europa e a esperança, que fugiu das suas velhas nações?
+
+É o eixo da civilização superior e guiadora que se desloca...
+
+É a America que herda a hegemonia do planeta, como, nesse papel, a
+Europa succedêra á Asia.
+
+E, se ha quarenta annos se assistiu ao inicio da prodigiosa
+«occidentalização» do Japão, que á Europa veiu buscar uma cultura, que
+nem por ser exótica e antagónica com as suas tradições deixou de ser
+aproveitada no que era «aproveitavel á condição» do seu povo--por que
+havemos de reluctar em conceber que Portugal terá de ir, além do
+Atlantico, procurar, na cultura brasileira, que lhe é affim, elementos
+de reforma e de regeneração?
+
+Acaso pretendemos, desprovidos de tudo, reatar, na modalidade hodierna,
+a acção directora da phase do nosso esplendor?
+
+Porventura aspiramos ao que a Gran-Bretanha sabe imposivel--á anullação
+da obra do espirito americano?
+
+
+Não nos illudamos. O eixo da civilização--perdõem-nos o chavão em que
+insistimos pelo expressivo da fórmula--está-se a deslocar, está mesmo a
+mais de meio caminho da sua deslocação para a America.
+
+Ponhamos, frente a frente, os dois paizes de lingua portuguesa:
+
+Um, pujante de _seiva_, ávido de progresso, confiante na acção, audaz na
+iniciativa, próspero e rico! É o Brasil...
+
+Outro... Bem o conhecemos: largos tratos incultos, aldeias despovoadas
+pela miseria, desalento, glorias passadas, deficits, emprestimos em
+agiotas, povo faminto sob o azorrague de iniqua tributação! É
+Portugal...
+
+Reunamol-os, esquecendo que são dois povos e lembrando apenas que são
+uma familia unica, vivendo em tamanha amizade que não recusem coisa
+alguma um ao outro.
+
+É a approximação, tudo quanto se possa pedir como estreitamento de
+relações.
+
+Pois bem: no dia em que um conjuncto de circumstancias de pura fantasia
+tivésse realizado esse amplexo, que vae além da aspiração da hora
+presente, o que havia de acontecer, em obediencia a todas as leis
+sociaes, era fatal e irremediavelmente a adaptação portuguesa á
+civilização brasileira.
+
+A monarchia de Portugal estaria nesse dia com a sua sentença de morte
+lavrada, com as suas horas contadas!
+
+A Republica Portuguesa resultaria, irresistivelmente e sem demora, da
+acção, tornada mais intima e portanto mais efficaz, da democracia
+brasileira em todas as suas formas de actividade e em todos os seus
+modos de ser.
+
+Não! A monarchia que, para viver, nos reduziu a todos nós á condição de
+escravos e de selvagens e nos condemnou ao obscurantismo, não se
+abalançará a esse passo.
+
+Seria o suicidio. E a monarchia quer viver visto que se arma todos os
+dias para se defender...
+
+Não! A monarchia é o crime, mas não é a estupidez. E estupidez seria
+encaminhar-se para a morte. A não ser que se désse, dentro da monarchia,
+um caso de loucura collectiva...
+
+
+
+
+XV
+
+CONCLUSÃO
+
+
+A approximação luso-brasileira é fatal, apesar de implicar a queda das
+instituições politicas que reduziram Portugal ao deploravel estado de
+ruina em que se debate entre as oligarchias, que o exploram, e o povo,
+que olha ancioso para o despontar dessa vida nova, que só homens novos,
+de idéas novas e sentimentos novos, serão capazes de crear.
+
+O Brasil e Portugal hão de harmonizar os seus interesses e as suas
+aspirações.
+
+Quando?
+
+Quando esse _desideratum_ não exigir o impossivel. Porque é tão
+impossivel que a monarchia portuguesa se transforme a ponto de poder
+adoptar os principios e sentimentos da democracia brasileira quanto é
+impossivel que esta retroceda ao que era o Brasil de ha cincoenta annos,
+sómente pelo capricho de estreitar as suas relações com o reino do sr.
+D. Manuel de Orléans e Bragança--o unico representante coroado das duas
+casas que o acto emancipador de 15 de novembro de 1889 depoz do throno
+exótico de uma nação da livre America...
+
+Diz o professor Arthur Orlando, a cujo fulgurante espirito são
+familiares as questões americanas, que na America «existe um meio social
+superior que paira acima da vida nacional».
+
+Esse meio social chegaria para contrabalançar todo o problematico
+esforço que os nossos hypotheticos estadistas monarchicos fizessem no
+sentido de determinar--se não fosse absurdo--a evolução regressiva do
+Brasil.
+
+O mesmo escriptor explica o atrazo do povo português, de modo implicito,
+ao explicar o atrazo da raça latina: «Elles (os individuos dessa raça,
+que não têm iniciativa e não contam senão com a collectividade) não se
+decidem por si, mas pelo meio familiar, politico e religioso, de que
+fazem parte.»
+
+Falta-nos a iniciativa; appellamos para a collectividade, como se ella
+fosse mais do que a integração das iniciativas individuaes.
+
+É por isso que não comprehendemos ainda aquella doutrina da Declaração
+da Independencia Americana em que a propria independencia era
+considerada «um acto de soberania immanente praticado pelo povo e
+resultante do seu direito de mudar a fórma de governo e instituir
+governo novo, sempre que o entender necessario á sua felicidade e
+segurança».
+
+Quando o comprehendermos estaremos senhores dos nossos destinos e
+poderemos ter uma politica nossa, portuguesa, nas relações com outros
+povos, em vez de uma politica dynastica, que subordina os interesses
+nacionaes até aos casos mais intimos e pessoaes da vida dos reis e dos
+seus conselheiros, guias ou inspiradores.
+
+Até lá, esperemos, se não soubermos antes cumprir o nosso dever cívico.
+Reconhecem os proprios monarchicos que temos de conviver com o Brasil,
+que precisamos do Brasil. Lentamente, o Brasil ha de nos enviar, com os
+cheques e as libras trazidas pelo retorno da emigração e nas formas
+multiplas do convivio internacional, as suas idéas e as suas
+instituições, a lição do seu progresso e o exemplo da sua prosperidade.
+
+E, assim, como dissémos na introducção a este trabalho, o Brasil
+acabaria por levar o povo português á Republica.
+
+Mas já este povo dá signaes evidentes de vitalidade nas suas camadas
+profundas. A democracia transpoz os limites das povoações urbanas e
+invadiu, impetuosa, as villas, as aldeias, os casaes...
+
+
+A monarchia não resolverá o problema das relações de Portugal com o
+Brasil. Falhará mais esta tentativa em que o sr. Consiglieri
+Pedroso--partindo de um falso perigo de desnacionalização do Brasil e de
+uma supposta possibilidade de Portugal evitar esse perigo, se elle
+existisse--levou o escrupulo da imparcialidade com que preside á
+Sociedade de Geographia até pôr de parte as divergencias essenciaes que,
+sob a monarchia que S. Ex.^a combateu toda a vida, se oppõem á obra
+pan-portuguesa da qual a sua proposta pareceu, a tantos enthusiastas
+«por indole e por disposição da lei», preciosissima pedra fundamental.
+
+A monarchia não é, todavia, indispensavel a Portugal.
+
+Portugal ha de sobreviver a esse regimen.
+
+Então os portugueses resolverão os problemas nacionaes.
+
+Por agora, é escusado pensar em tal coisa. Assim é que, apezar de todas
+as adhesões e de todos os applausos, não será, desta vez ainda,
+realizada a approximação luso-brasileira.
+
+Só a Republica, fecunda geradora de patrias, creadora de consciencias
+livres e de cidadãos, nos armará para todas as victorias.
+
+Só a Republica, com a qual em breve ha de resurgir a energia viril da
+antiga e heroica patria, saberá e poderá reirmanar as duas
+nacionalidades em que se fala a forte e rude, a dôce e plangente lingua
+em que, ou fôsse sobre o tumulo da nacionalidade ou no arco triumphal da
+sua resurreição, se teria de lêr o episodio do Adamastor e o episodio de
+Ignez.
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+
+ Pag.^a
+
+Introducção 6
+
+I--A proposta Consiglieri Pedroso 11
+
+II--O problema luso-brasileiro 17
+
+III--O supposto perigo 23
+
+IV--Os estrangeiros no Brasil 29
+
+V--O povoamento e a nacionalidade 35
+
+VI--A immigração portuguesa 41
+
+VII--A permuta commercial 47
+
+VIII--A situação real 55
+
+IX--A nossa raça «at work» 61
+
+X--Medidas propostas 69
+
+XI--A evolução brasileira 77
+
+XII--O Brasil e o americanismo 83
+
+XIII--As divergencias 93
+
+XIV--A approximação 103
+
+XV--Conclusão 113
+
+Indice 117
+
+
+
+
+
+_Acabou de se imprimir aos sete de dezembro de 1909, em Lisboa, na
+Typographia do Commercio rua da Oliveira, 10, ao Carmo._
+
+
+
+
+Notas:
+
+[1] «Lá onde nenhuma outra raça medra o português prospéra...» «A elle
+pertence a palma dos dotes másculos na tarefa dos cruzamentos...» «É a
+raça privilegiada, é a única que teve o dom de anullar a seu favor as
+mais inclementes influencias climatericas...» «O português é o preferido
+no serviço das baleeiras norte-americanas e nesse posto o vemos arrostar
+os frios glaciaes...» «Na zona tórrida... encontramol-o sempre a prumo,
+robusto, inabalavel, jovial e altaneiro.»--_Dr. Luiz Pereira
+Barretto_.--O Seculo XX sob o ponto de vista brasileiro.
+
+[2] Sessão de 10 de Novembro de 1909 da Sociedade de Geographia de
+Lisboa.
+
+[3] A desorganização do trabalho, pela abolição do elemento servil,
+impunha o fomento da immigração pelos Estados e até pela União. Foram,
+por isso, subvencionadas emprezas varias que contractaram o serviço de
+introducção de trabalhadores ruraes.
+
+[4] O artigo do _Tempo_ era de Oliveira Martins, ao que diz Eduardo
+Prado, (_Fastos_, pag. 14). O. Martins previa a absorpção do sul pela
+Argentina! O artigo, com o ser citado em tanta parte, foi, segundo
+Prado, um «exito virgem para a imprensa portuguesa.» A prophecia é que
+desacredita o auctor e não menos os que lhe deram curso.
+
+Tal qual no caso Mac-Murdo... (Vide _José Caldas_,--Os Jesuitas--em
+nota.)
+
+[5] _Dunshee de Abranches_--«Actas e actos do governo provisorio».
+
+[6] «O seculo XX sob o ponto de vista brasileiro.»
+
+[7] Carta ao _Seculo_, publicada, em 14 de janeiro de 1909, sob a
+epigraphe «Portugueses no Brasil--Quantos são?»
+
+[8] A sacca é de 60 kilos.
+
+[9] Entraram, em 1906, quinze mil e tantos kilos de chicoria não
+preparada, dois mil trezentos e dezenove kilos de café torrado, moido e
+suas imitações... em Portugal!
+
+O consumo, por cabeça e por anno, é: na Itália, 970 grammas; na
+Hespanha, 652 gr; na França, 2,350 k; na Allemanha, 3 k; na Dinamarca,
+3,900 k; na Suissa, 3,500 k; na Noruega, 5,536 k; na Belgica, 4,700 k;
+na Suecia, 6,566 k; na Hollanda, 7,200 k.
+
+[10] Vide proposta referida, pag.^a 13 a 15.
+
+[11] Relatorio do Ministerio da Fazenda em 1907, pag. 60.
+
+[12] Statistica metodologica--Torino, 1906.
+
+[13] Elementi di Statistica--Torino, 1904.
+
+[14] Castro Carreira--«Historia financeira».
+
+[15] _Fastos_, pag. 15, in fine.
+
+[16] Liberdade profissional, discurso parlamentar.
+
+[17] A phrase é de Ferreira de Araujo, insigne jornalista, cujos meritos
+não foram excedidos por qualquer homem de imprensa de não importa qual
+paiz.
+
+O conceito parecerá exagerado; não é. Com effeito, tendo a exportação do
+Brasil chegado a mais de quinze milhões de saccas de café, a exportação
+diaria, excedente de quarenta mil saccas, ia além da carga habitual de
+dois dos _cargo-boats_ que faziam esse transporte.
+
+[18] _Ayres de Casal_--«Chorographia».
+
+[19] Apud _Euclydes da Cunha_--«Os Sertões».
+
+[20] «El Continente Enfermo»--Nova-York, 1899.
+
+[21] «Deve-se reconhecer que o poder do meio e o esforço dos brasileiros
+têm conseguido muito na lucta pela adaptação dos immigrantes. O Rio
+Grande e Santa Catharina fornecem-nos exemplos eloquentissimos desse
+facto. No ultimo desses estados, principalmente, desde o imperio filhos
+de allemães têm subido a altas posições politicas e _em todos elles o
+espirito nacional se encarnou com tanta elevação como nos descendentes
+mais afastados de europeus_.» _Tobias Monteiro_--«O Fantasma Allemão.»
+
+[22] É sabido que o partido liberal, antes da Republica, estava
+inclinado a essa reforma. Confessou-o, numa entrevista, o visconde de
+Ouro Preto, chefe desse antigo partido.
+
+[23] Commentarios á constituição dos Estados Unidos da America § 157,
+nota 1 (_a_), edição de 1891.
+
+[24] «O pan-americanismo é uma obra de fraternização entre o
+pan-latinismo e o pan-saxonismo, despertando entre todos os povos da
+America a idéa e o sentimento de um destino commum.»--_Arthur
+Orlando_--«Pan-Americanismo», Rio de Janeiro, 1906.
+
+Na _nota 25, in fine_, vide transcripção do «Estado de S. Paulo».
+
+[25] Depois de lançadas no papel estas linhas, recebeu o auctor os
+jornaes brasileiros com as noticias das festas solennissimas com que foi
+celebrado, na Capital Federal, o 20.^o anniversario do advento da
+Republica.
+
+Commentando a obra das nova instituições, diz o _Jornal do Commercio_,
+órgam das classes conservadoras da sociedade brasileira, sempre de
+francas opiniões liberaes, mas, em que pése a superficiaes julgadores,
+incontestavelmente republicano desde que o dirige o dr. José Carlos
+Rodrigues, espirito formado pela cultura americana e inglesa e que, ao
+mais intransigente individualismo, allia profundas convicções
+democraticas:
+
+«O regimen democratico é o regimen da opinião e por ella se orienta, e,
+sendo a Republica a fórma pura desse regimen acreditamos que a opinião
+brasileira, que a consagrou ha vinte annos, a mantém, a ampara, a
+defende e a estima.
+
+«Neste anniversario todos se congratulam: o Governo com o povo de que
+saiu, o povo com o Governo, que é feitura sua.»
+
+_O Paiz_, que na sua propaganda tomou compromissos com o povo, ufana-se
+nestes termos da obra republicana:
+
+«Se, volvidos os olhos para a construcção feita nestes vinte annos de
+Republica, collocarmos o julgamento da obra do regimen no terreno
+concreto dos beneficios feitos á nacionalidade, do conforto dado ao
+povo, do prestigio trazido ao paiz, é forçoso reconhecer que a fórma de
+governo estabelecida a 15 de novembro de 1889 não mentiu ás promessas
+que em seu nome fizeram os propagandistas e tem cumprido dignamente a
+sua missão.
+
+A federação e a autonomia municipal estimularam, pela alforria de
+actividades acorrentadas, forças inertes e fecundas. Cada provincia,
+cada municipio, foi centro de vida á parte, forte, cheia de estimulos,
+progressista tributario da vida nacional; o commando dos proprios
+destinos, a defesa dos proprios interesses, trouxe a todas essas zonas
+do territorio patrio uma vigorosa expansão e com ellas desenvolveu-se a
+collectividade, engrandeceu-se o paiz.»
+
+No _Estado de S. Paulo_, tambem órgam da propaganda republicana, entre
+cujos directores e collaboradores figuram Rangel Pestana, Prudente de
+Moraes, Campos Salles e Bernardino de Campos, todos de acção
+capitalissima no actual regimen, diz Paulo Rangel Pestana:
+
+«Victoriosos a 15 de novembro de 1889, os republicanos tinham a
+grandiosa missão de reconstruir a Patria por outros modelos, de accôrdo
+com as normas da san democracia. Precisavam reformar tudo--as leis e os
+costumes, as coisas e os homens. Mas, infelizmente, logo desunidos e
+desorientados, ainda não lograram realizar tão formosa tarefa, sem
+embargo dos maravilhosos progressos levados a effeito no vintennio que
+hoje se completa.
+
+O Brasil inteiro, cheio de esperanças, festeja e saúda o dia 15 de
+novembro de 1889 como o principio da sua regeneração. Ella tem de
+acabar-se com os dedicados esforços dos contemporaneos, tornando-a uma
+verdadeira republica--livre e pacifica, laboriosa e culta, que seja uma
+gloria da America e uma admiração do mundo civilizado.»
+
+[26] «Pan-Americanismo», pag. 68.
+
+[27] «Commentarios» citados, § 266.
+
+[28] É doutrina dominante em toda a America. Só as anomalias
+dictatoriaes, a que todos os povos têm sido, aliás, transitoriamente
+sacrificados, podem haver postergado a sua pratica em periodos de
+illegalidade manifesta.
+
+[29] Assim foram resolvidas: em 1895, pelo laudo de Cleveland, o litigio
+das Missões, com a Argentina; em 1901, por sentença do Conselho Federal
+Suisso, a questão de limites com a Guyana Francesa; em 1904, sendo juiz
+o rei de Italia, o conflicto de limites com a Guyana Inglesa.
+
+[30] «A doutrina Drago»--Paris. (Possuimos a traducção inserta no
+«Estado de S. Paulo»).
+
+[31] A guerra russo-japonesa, a conferencia de Algeziras e o ultimo
+congresso da paz confirmam por completo o conceito do grande
+internacionalista argentino.
+
+[32] Deodoro da Fonseca teve de resignar o mandato de presidente por ter
+dissolvido o Congresso. O seu acto é ainda hoje denominado, mui
+significativamente--_o golpe de estado_...
+
+[33] _Kidd_--«The control of the tropics».
+
+[34] Aos que se assustam com as divergencias de lingua entre Portugal e
+Brasil, vem a proposito lembrar que os _yankees_ escrevem _labor_,
+_honor_, etc., e não _labour_, _honour_, etc. E ha muitas mais... É o
+caso do argueiro no olho do visinho.
+
+[35] A declaração do Congresso das Nove Colonias, reunido em Nova-York,
+em 1765, já frisára, na sua declaração, que Story julga o melhor
+summario dos direitos e liberdades reclamados pelas então colonias
+inglesas, esta doutrina: «Nenhuma taxa lhes poderá jámais ser imposta
+constitucionalmente a não ser pelas suas respectivas
+legislaturas.»--_Story_, «Commentarios». § 190.
+
+E a declaração de direitos do Congresso Colonial de 1774 repetiu o
+preceito na sua 4.^a resolução, em que diz, ademais, que a base da
+liberdade e de todo o governo livre está no direito do povo fazer as
+suas leis. A mesma declaração, na resolução 10.^a já se insurgia contra
+conselhos legislativos nomeados á vontade da corôa: taxava-os de
+inconstitucionaes.
+
+Vê-se que o anglo-saxonio, apesar de não haver, hoje na Inglaterra nem,
+portanto, em 1765 nas suas colonias, constituição escripta, fez sempre
+questão da constitucionalidade. Os liberaes ingleses dos nossos dias
+sáem aos seus avós.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 25| a o dos | a dos |
+ |#pág. 48| o nossa | a nossa |
+ |#pág. 81| resultatado | resultado |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+Variantes dos nomes próprios foram mantidas de acordo com o original.
+
+
+
+
+
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+
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+works. See paragraph 1.E below.
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
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+
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+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
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+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+ gbnewby@pglaf.org
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+Literary Archive Foundation
+
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+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
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+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+particular state visit https://pglaf.org
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
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+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
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+works.
+
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
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