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+++ b/30424-h/30424-h.htm
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+<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml">
+<head>
+ <title>As rela&ccedil;&otilde;es luso-brasileiras</title>
+
+
+ <meta name="AUTHOR" content="Jos&eacute; Barbosa" />
+
+ <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=UTF-8" />
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+ <style type="text/css">
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+
+
+<body>
+<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30424 ***</div>
+
+<div>
+<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+exist&ecirc;ncia de erros tipogr&aacute;ficos neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Nov. 2009)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox">
+<h3>JOS&Eacute; BARBOSA
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="bbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>As rela&ccedil;&otilde;es luso-brasileiras
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 106px; height: 62px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>LISBOA<br />
+
+<br />
+
+1909</h4>
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>JOS&Eacute; BARBOSA
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="bbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>As rela&ccedil;&otilde;es luso-brasileiras
+</h2>
+
+<h4>
+(A immigra&ccedil;&atilde;o e a
+&laquo;desnacionaliza&ccedil;&atilde;o&raquo; do
+Brasil)
+</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 106px; height: 62px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>LISBOA<br />
+
+EDI&Ccedil;&Atilde;O DE JOS&Eacute; BARBOSA<br />
+
+RUA DO LORETO, 56, 1.&ordm; D.<br />
+
+1909</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;" class="smallcaps">todos
+os direitos reservados</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><b>LISBOA</b><br />
+
+TYPOGRAPHIA DO COMMERCIO<br />
+
+Rua da Oliveira, 10, ao Carmo
+<br />
+
+<br />
+
+1909<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Amicus Plato
+sed magis amica
+veritas...</em>
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c0" id="c0"></a>
+<h3>INTRODUC&Ccedil;&Atilde;O
+</h3>
+
+<br />
+
+O Brasil j&aacute; foi uma regi&atilde;o mal conhecida. Hoje
+j&aacute;
+o n&atilde;o &eacute;. Em todos os centros civilizados deixou
+de ser
+ignorado. Existe, emfim! E n&atilde;o existe s&oacute;mente por
+ser
+riquissimo de climas, de flora e de fauna, nem por offerecer,
+nos seus terrenos inexplorados, largo campo
+&aacute;s ambi&ccedil;&otilde;es insatisfeitas dos povos do
+Velho Mundo,
+nem sequer por haver desenvolvido de maneira collossal
+as suas produc&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo isso torna conhecido o Brasil. Mas o que mais
+lhe propaga o nome &eacute; a surpreza causada pela sua cultura,
+ainda ha pouco representada de modo inolvidavel
+e memorando pelos seus delegados na Conferencia de
+Haya e no Congresso de Hygiene de Berlim, Ruy Barbosa
+e Oswaldo Cruz.
+<br />
+
+<br />
+
+O que, al&eacute;m disso, n&atilde;o escapa a ninguem
+&eacute; a supremacia
+que lhe cabe entre as na&ccedil;&otilde;es sul-americanas,
+&eacute; a func&ccedil;&atilde;o de arbitro da paz do
+continente, em que o
+investiram os estadistas da Republica, entre os quaes
+se tem de destacar a excelsa figura de Rio Branco.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[6]</span>
+Para o Brasil de hoje convergem todos os olhares.
+Deixou de ser a terra do ouro e dos diamantes para
+se transformar em vasta arena aberta &aacute;s mais levantadas
+especula&ccedil;&otilde;es da intelligencia e &aacute;s
+mais audazes e
+fecundas iniciativas materiaes. O estudo e o trabalho
+congregam-se para o seu progresso. A liberdade e a
+paz social acolhem e protegem os desherdados que alli
+v&atilde;o buscar p&atilde;o e esperan&ccedil;as...
+<br />
+
+<br />
+
+As sociedades europ&eacute;as, imbuidas de preconceitos e
+avassalladas pelos privilegios, trancam o futuro &aacute;s classes
+trabalhadoras. Que lhes resta, sen&atilde;o o recurso da
+expatria&ccedil;&atilde;o? O caminho &eacute; o Oceano; a
+Chanaan &eacute; a
+America, a livre e egualitaria America, onde o trabalho
+&eacute; toda a nobreza.
+<br />
+
+<br />
+
+N&oacute;s, os portugueses, acompanhamos o movimento
+geral. A nossa America consiste principalmente no Brasil.
+Nem podia deixar de ser assim. A ra&ccedil;a e a lingua
+s&atilde;o factores decisivos na escolha do destino.
+<br />
+
+<br />
+
+Nenhuma ra&ccedil;a rev&eacute;la maior resistencia do que a
+nossa, nenhuma &eacute; mais soffredora e tenaz.
+<br />
+
+<br />
+
+Como, por&eacute;m, estamos desapparelhados para a
+lucta hodierna pela falta de diffus&atilde;o do ensino,
+s&oacute; excepcionaes
+qualidades ethnicas<sup><a href="#f1">[1]</a></sup>
+explicam a posi&ccedil;&atilde;o
+que ainda cabe &aacute; nossa colonia no Brasil. Seria, no
+emtanto, indigno occultar, neste momento, que essa
+colonia se encontra s&eacute;riamente amea&ccedil;ada pelos
+nossos
+concorrentes. Est&aacute;, ali&aacute;s, na consciencia de
+todos esta
+verdade, que uns calam para lisonjear a nossa colonia
+<span class="pagenum">[7]</span>
+no Brasil e outros por n&atilde;o lhe v&ecirc;rem
+solu&ccedil;&atilde;o deante
+da criminosa pertinacia com que os governos d&atilde;o tudo
+&aacute;s clientellas politicas e negam, por systema, a
+esm&oacute;la
+do ensino primario aos filhos do contribuinte faminto e
+esfarrapado!
+<br />
+
+<br />
+
+A obra da escola n&atilde;o se concilia com os interesses
+do regimen, n&atilde;o ha duvida; mas recusem ao povo,
+for&ccedil;ado a emigrar para n&atilde;o morrer de fome, a
+instruc&ccedil;&atilde;o
+indispensavel para competir com os outros estrangeiros
+no Brasil e esperem o resultado no volume das
+remessas de numerario com que acudimos ao nosso
+balan&ccedil;o economico!
+<br />
+
+<br />
+
+O recurso das remessas do Brasil e a exporta&ccedil;&atilde;o
+que para esse paiz fazemos tornaram-se essenciaes &aacute;
+vida portuguesa. E, como nada se fez para dispensar
+tal dependencia e nada se procurou para assegurar
+aquelle estado de coisas, a nossa gente laboriosa, conscia
+dos riscos que corremos, mas sem no&ccedil;&atilde;o exacta
+do problema, recebe com esperan&ccedil;a e enthusiasmo todas
+as id&eacute;as apresentadas por pessoas bem intencionadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Isso bastaria para explicar o c&ocirc;ro das adhes&otilde;es
+&aacute;
+proposta do sr. Consiglieri Pedroso<sup><a href="#f2">[2]</a></sup>,
+se n&atilde;o interviessem,
+no lance, a especial categoria, a illustra&ccedil;&atilde;o e
+o talento do em&eacute;rito professor. Discordando, em varios
+pontos, desse plano de approxima&ccedil;&atilde;o
+luso-brasileira,
+dirigi a s. ex.<sup>a</sup> uma <em>carta aberta</em>
+a
+que o <em>Mundo</em> deu
+a sua larga publicidade e na qual se lia:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="tiny">&laquo;O estreitamento das
+rela&ccedil;&otilde;es de
+Portugal com o Brasil, dada
+a vontade que nesse sentido revelam os dois povos, &eacute; mais do
+que
+facil, porque &eacute; inevitavel, porque est&aacute; nos
+destinos de ambos.
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[8]</span>
+<div class="tiny">Imaginar, por&eacute;m, como deduzo
+dos considerandos de v. ex.<sup>a</sup>
+que, precisando n&oacute;s da
+<em>seiva</em> do Brasil, temos meio de lhe
+conferir
+uma compensa&ccedil;&atilde;o primacial, qual seja a de evitar
+o risco
+da desnacionaliza&ccedil;&atilde;o que esse povo corre pela
+entrada cada vez
+maior de outros elementos ethnicos, &eacute; erro profundo que os
+factos
+condemnam de maneira formalissima. E, sobre ser um erro, esse
+juizo levantar&aacute; contra Portugal e contra os portugueses a
+hostilidade
+das outras colonias e das outras ra&ccedil;as, alli na mais intima
+convivencia e na mais constante fus&atilde;o com a gente lusitana e
+luso-brasileira.
+<br />
+
+<br />
+
+Com tal motivo, qualquer esfor&ccedil;o de
+approxima&ccedil;&atilde;o resultar&aacute;
+contraproducente. N&atilde;o posso, desde que se parte dessa base,
+dar
+a minha insignificante collabora&ccedil;&atilde;o a uma
+tentativa que tenho
+por inefficaz, pelo menos.
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil precisa de milh&otilde;es de estrangeiros. N&atilde;o
+lhos podemos
+dar. Ha de procural-os em outros paizes. Mas, como &eacute; um
+paiz que se sabe governar e que nunca, nem sob este nem sob o
+antigo regimen, deixou de demonstrar sentimentos patrioticos e
+ardor civico, n&atilde;o corre o perigo, que v. ex.<sup>a</sup>
+entreviu na
+coloniza&ccedil;&atilde;o
+italiana e alleman, de se desnacionalizar.
+<br />
+
+<br />
+
+Com mais vagar, em um opusculo, hei de deixar demonstrado
+quanto est&atilde;o afastados da realidade os que pensam como v.
+ex.<sup>a</sup>.
+Se houvessemos de iniciar negocia&ccedil;&otilde;es com a
+id&eacute;a de evitar esse
+supposto risco, creia v. ex.<sup>a</sup> que os
+brasileiros, cuja hospitalidade
+tive durante dezeseis annos e cujo espirito conhe&ccedil;o,
+n&atilde;o agradeceriam
+o ali&aacute;s generoso empenho, porquanto nelle veriam menos
+apre&ccedil;o pelas qualidades de intelligencia e de patriotismo,
+de que,
+com justi&ccedil;a, se ufanam muito mais do que das riquezas
+naturaes da
+sua patria.
+<br />
+
+<br />
+
+Sei que v. ex.<sup>a</sup>, meu illustre correligionario,
+s&oacute;
+&eacute; movido por
+altos e nobres estimulos. Estou convencido de que s&oacute;
+&aacute; falta de
+documentos directos e de observa&ccedil;&atilde;o propria se
+p&oacute;de attribuir
+o desvio do seu grande espirito critico em materia em que estudos
+especiaes d&atilde;o a v. ex.<sup>a</sup> merecida
+auctoridade.
+<br />
+
+<br />
+
+Felizmente, por&eacute;m, entre muitas id&eacute;as de real
+utilidade que
+constam da proposta de v. ex.<sup>a</sup>, vejo uma que me
+garante que o
+problema, nas suas linhas mestras, tem em v. ex.<sup>a</sup>
+o paladino ao
+lado do qual se poder&atilde;o alinhar os soldados da democracia
+portuguesa
+e os cidad&atilde;os da grande Republica Brasileira.
+<br />
+
+<br />
+
+Refiro-me &aacute; id&eacute;a de procurar approximar os dois
+povos pela
+adop&ccedil;&atilde;o de um espirito commum na
+legisla&ccedil;&atilde;o de ambos. Nesse
+ponto estou enthusiasticamente com v. ex.<sup>a</sup>,
+porque, n&atilde;o
+podendo
+a democracia pura, que &eacute; a Republica dos Estados Unidos do
+Brasil, seguir a evolu&ccedil;&atilde;o regressiva, essa
+aspira&ccedil;&atilde;o imp&otilde;e-nos, a
+n&oacute;s portugueses, a marcha progressiva para a
+situa&ccedil;&atilde;o juridica
+do Brasil&#8213;o que s&oacute; poder&aacute; ser conseguido por uma
+transforma&ccedil;&atilde;o
+politica e social, t&atilde;o almejada por mim quanto por v. ex.<sup>a</sup>.
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[9]</span>
+<div class="tiny">E comprehendo com que intimo
+constrangimento quem assim
+sente teria de obedecer &aacute;s regras protocolares do cargo ao
+pedir
+ao joven rei D. Manuel a sua coopera&ccedil;&atilde;o para um
+emprehendimento
+que s&oacute; p&oacute;de ser levado a bom termo pelos dois
+povos e
+que s&oacute; se desentranhar&aacute; em realidades promissoras
+quando a
+realeza portuguesa constituir m&eacute;ra
+recorda&ccedil;&atilde;o historica.
+<br />
+
+<br />
+
+Fa&ccedil;o votos por que v. ex.<sup>a</sup> veja em
+breve realizadas as
+nossas
+aspira&ccedil;&otilde;es communs. Se, por&eacute;m, o nosso
+esfor&ccedil;o interno n&atilde;o
+chegar para tanto, creia v. ex.<sup>a</sup> que, para
+n&atilde;o falharem os
+seus
+destinos historicos, o Brasil e Portugal se h&atilde;o de
+approximar
+cada vez mais e cada vez mais intensamente a democracia brasileira
+ha de exercer fatal ac&ccedil;&atilde;o sobre a
+na&ccedil;&atilde;o portuguesa, abreviando
+os dias do regimen monarchico e apressando o advento da
+Republica Portuguesa.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha mais eloquente li&ccedil;&atilde;o do que a
+dos factos. N&atilde;o ha mais
+violenta propaganda do que a compara&ccedil;&atilde;o
+antithetica dos povos
+brasileiro e portugu&ecirc;s. E, cada portugu&ecirc;s, que
+volta &aacute; patria,
+n&atilde;o tarda em sentir a magnitude da
+ac&ccedil;&atilde;o da Republica no Brasil
+e em reconhecer a falta das institui&ccedil;&otilde;es a que
+l&aacute; se afizera.
+<br />
+
+<br />
+
+Garanto-o a v. ex.<sup>a</sup>: se n&atilde;o fizermos
+a
+revolu&ccedil;&atilde;o, o Brasil
+ha de republicanizar Portugal. V. ex.<sup>a</sup> conhece
+melhor do que eu
+o poder da osmose social.&raquo;
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Eis a origem deste trabalho. Julguem brasileiros e
+portugu&ecirc;ses se as convic&ccedil;&otilde;es, que elle
+traduz, carecem
+de fundamento.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c1" id="c1"></a>
+<h3>I<br />
+
+<br />
+
+A PROPOSTA CONSIGLIERI PEDROSO
+</h3>
+
+<br />
+
+Eis a proposta do presidente da Sociedade de Geographia:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="tiny">
+&laquo;Considerando que na evolu&ccedil;&atilde;o politica
+do mundo contemporaneo
+&eacute; facto historico, que se n&atilde;o p&oacute;de
+contestar, a irresistivel
+tendencia para a unifica&ccedil;&atilde;o moral dos grupos
+ethnicos, que falam
+o mesmo idioma, podendo at&eacute; por isso definir-se o dominio da
+lingua, na sua func&ccedil;&atilde;o social, como a patria
+espiritual de uma
+nacionalidade;
+<br />
+
+<br />
+
+Considerando que nem os mais poderosos Estados logram
+eximir-se a esta universal tendencia, como o prova o movimento
+de concentra&ccedil;&atilde;o que no momento actual se
+est&aacute; operando nos
+povos anglo-saxonicos, nos germanicos propriamente ditos e mesmo
+nos povos slavos, apezar das differen&ccedil;as de
+religi&atilde;o e de linguagem
+que separam estes ultimos entre si;
+<br />
+
+<br />
+
+Considerando que, em virtude desta tendencia, &eacute; legitimo
+prev&ecirc;r-se como irremediavel, em futuro relativamente pouco
+distante,
+se n&atilde;o o desapparecimento, pelo menos a
+desintegra&ccedil;&atilde;o
+das pequenas nacionalidades que n&atilde;o consigam defender-se,
+pela
+massa dos seus habitantes, da absorp&ccedil;&atilde;o,
+consequencia fatal da
+lucta pela existencia, cada vez mais implacavel entre as grandes
+na&ccedil;&otilde;es, que na sua ancia de
+a&ccedil;ambarcamento inquietam os agrupamentos
+secundarios, embora muito adeantados em cultura;
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[12]</span>
+<div class="tiny">Considerando que Portugal e Brasil, pela
+sua origem, historia
+e tradi&ccedil;&otilde;es, pela lingua que ambos falam, pela
+ra&ccedil;a a que pertencem
+e pelos multiplices interesses que os ligam, sem embargo
+do glorioso facto consummado da independencia brasilica, e,
+n&atilde;o
+obstante, portanto, serem duas soberanias politicas separadas e
+perfeitas, constituem na realidade, em face das outras
+agremia&ccedil;&otilde;es
+nacionaes e exoticas, um grupo &aacute;parte, nitidamente
+delimitado,
+com individualidade distincta e, por conseguinte, com um
+destino historico completamente autonomo, circumstancia a que
+o direito internacional n&atilde;o p&oacute;de ficar estranho;
+<br />
+
+<br />
+
+Considerando que, na situa&ccedil;&atilde;o de isolamento
+reciproco, em
+que se encontram, as duas na&ccedil;&otilde;es est&atilde;o
+compromettendo a grandeza
+do papel primacial que deviam representar no mundo, com
+grave prejuizo dos interesses proprios e apenas com vantagem
+para as na&ccedil;&otilde;es rivaes, que se est&atilde;o
+aproveitando habilmente da
+desuni&atilde;o de ambas;
+<br />
+
+<br />
+
+Considerando que a grande na&ccedil;&atilde;o brasileira,
+n&atilde;o obstante os
+quasi illimitados recursos de que disp&otilde;e e as brilhantes
+qualidades
+dos seus filhos, que se est&atilde;o impondo &aacute;
+considera&ccedil;&atilde;o universal
+pela sua intelligencia e illustra&ccedil;&atilde;o, pelo seu
+patriotismo e pela
+sua actividade, corre o risco de se ir desnacionalizando pouco a
+pouco pela introduc&ccedil;&atilde;o, cada vez em mais larga
+escala, de elementos
+de immigra&ccedil;&atilde;o estranhos ao seu carater historico
+e at&eacute;
+antipathicos &aacute; sua idiosyncrasia ethnica&#8213;provaveis
+causadores
+de futuras perturba&ccedil;&otilde;es e de inevitaveis perigos
+para a Uni&atilde;o;
+<br />
+
+<br />
+
+Considerando que este s&eacute;rio risco de
+desnacionaliza&ccedil;&atilde;o lenta,
+mas segura, s&oacute;mente o Brasil p&oacute;de conjural-o pela
+approxima&ccedil;&atilde;o
+e rela&ccedil;&otilde;es cada vez mais estreitas com Portugal,
+possuidor ainda
+hoje de um rico e vastissimo imperio em Africa, de territorio reduzido
+na Europa, n&atilde;o ha duvida, mas ber&ccedil;o de uma
+robusta e
+prolifica popula&ccedil;&atilde;o largamente espalhada pelo
+mundo, de extraordinarias
+faculdades de adapta&ccedil;&atilde;o e resistencia,
+popula&ccedil;&atilde;o indispensavel&#8213;e
+n&atilde;o substituivel por outra&#8213;para a
+conserva&ccedil;&atilde;o
+e pureza da ra&ccedil;a nacional do Brasil;
+<br />
+
+<br />
+
+Considerando mais que o problema da gradual e progressiva
+fus&atilde;o da numerosissima colonia portuguesa, que vive no
+Brasil,
+com a terra que lhe d&aacute; t&atilde;o generosa hospitalidade
+&eacute; para os futuros
+destinos da nacionalidade brasileira de capital e decisiva
+importancia, mas s&oacute;mente de solu&ccedil;&atilde;o
+integral possivel quando as
+duas na&ccedil;&otilde;es, hoje separadas e quasi estranhas uma
+&aacute; outra, se
+harmonizarem no superior interesse de uma fecunda
+approxima&ccedil;&atilde;o;
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[13]</span>
+<div class="tiny">Considerando, por outro lado, que a
+economia nacional portuguesa
+s&oacute; ao contacto intimo da exuberante seiva brasileira
+p&oacute;de
+robustecer-se e tonificar-se, sendo, al&eacute;m disso,
+fecundissimo campo
+para a nossa actividade material e progredimento moral as
+vastas regi&otilde;es cobertas pela gloriosa bandeira auri-verde;
+<br />
+
+<br />
+
+Considerando por isso como verdade evidente, sem possibilidade
+de discuss&atilde;o sequer, que a resolu&ccedil;&atilde;o
+definitiva do problema
+economico portugu&ecirc;s depende grandemente&#8213;quaesquer que sejam
+os esfor&ccedil;os, a sinceridade e a intelligencia que para ella
+se empreguem
+dentro das nossas estreitas fronteiras&#8213;de plenamente
+se realizar um forte e largo accordo luso-brasileiro, formula de
+renascimento mundial da nossa commum nacionalidade;
+<br />
+
+<br />
+
+Attendendo a que a tradicional allian&ccedil;a de Portugal com a
+Inglaterra, base da nossa situa&ccedil;&atilde;o politica
+internacional, assim
+como intimas rela&ccedil;&otilde;es de cordealidade com as tres
+na&ccedil;&otilde;es latinas,
+nossas irmans, e com a Allemanha, nossa cooperadora em
+Africa, em coisa alguma s&atilde;o prejudicadas pela
+unifica&ccedil;&atilde;o moral
+de Portugal com o Brasil n'um pacto superior, permanente e
+<em>sui
+generis</em>, tal como o imp&otilde;em os
+especialissimos la&ccedil;os fraternaes
+existentes entre as na&ccedil;&otilde;es que falam a lingua
+portuguesa;
+<br />
+
+<br />
+
+E, attendendo, finalmente, a que &aacute; Sociedade de Geographia
+de Lisboa, pelos seus fins, pela sua constante
+tradi&ccedil;&atilde;o e pelo logar
+proeminente, t&atilde;o excepcionalmente em evidencia, que occupa
+na vida nacional portuguesa, compete, nesta hora difficil para a
+patria, cooperar, quanto em si caiba, no movimento de
+renova&ccedil;&atilde;o
+do nosso querido Portugal;
+<br />
+
+<br />
+
+Tenho a honra de prop&ocirc;r que, nos termos do artigo
+40.&ordm; dos
+estatutos, se crie uma commiss&atilde;o geral permanente com o
+titulo
+de &laquo;Commiss&atilde;o Luso-brasileira&raquo; a qual
+ter&aacute;, entre outros, os seguintes
+fins:
+<br />
+
+<br />
+
+1.&ordm;&#8213;Estudar a forma mais adequada de se realizarem congressos
+periodicos luso-brasileiros, que devam, em prazos a fixar,
+reunir-se alternadamente em Lisboa ou Porto e no Rio de Janeiro
+ou outras cidades brasileiras com o intuito de discutir todos os
+assumptos de ordem intellectual e economica que interessem em
+commum e exclusivamente as duas na&ccedil;&otilde;es, e onde
+haja de fazer-se
+a propaganda das delibera&ccedil;&otilde;es que pelos mesmos
+congressos
+e pelos governos dos dois paizes tenham de ser tomadas a beneficio
+de ambos os povos, respeitando-se escrupulosamente a independencia
+de cada um delles e evitando-se toda e qualquer
+interferencia, por minima que seja, na vida interna e no modo de
+ser dos dois paizes reciprocamente;
+<br />
+
+<br />
+
+2.&ordm;&#8213;Estudar a forma de se negociar um tratado de
+incondicional
+arbitragem entre Portugal e as suas colonias de um lado
+e o Brasil do outro e de se realizar a conveniente
+coopera&ccedil;&atilde;o das
+duas na&ccedil;&otilde;es em assumptos de caracter
+internacional;
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[14]</span>
+<div class="tiny">3.&ordm;&#8213; Estudar a
+f&oacute;rma de se ultimar, com a urgencia
+que raz&otilde;es
+obvias aconselham, um tratado de commercio, ou antes um
+largo entendimento commercial entre as duas
+na&ccedil;&otilde;es, procurando-se
+a maneira, at&eacute; onde f&ocirc;r possivel vencer as
+difficuldades naturaes
+inherentes ao assumpto, de que uma &aacute; outra concedam
+respectivamente
+vantagens especiaes que deixem de ser transmittidas
+aos outros Estados, n&atilde;o sendo, portanto, attingidas pela
+clausula
+de na&ccedil;&atilde;o mais favorecida, inscripta actualmente
+nos tratados
+j&aacute; existentes tanto de Portugal como do Brasil com os paizes
+estrangeiros;
+<br />
+
+<br />
+
+4.&ordm;&#8213;Promover a crea&ccedil;&atilde;o de uma linha de
+navega&ccedil;&atilde;o luso-brasileira
+entre os dois paizes, sob o alto patrocinio de ambos
+os governos;
+<br />
+
+<br />
+
+5.&ordm;&#8213;Promover a funda&ccedil;&atilde;o em Lisboa de um
+entreposto
+central para o commercio do Brasil na Europa e de um entreposto
+central no Rio de Janeiro para o commercio portugu&ecirc;s na
+America, podendo, no caso de isso ser conveniente, fundar-se
+outros dois entrepostos, um no Porto e outro no Recife, ou onde
+mais convenha ao Brasil;
+<br />
+
+<br />
+
+6.&ordm;&#8213;Promover a construc&ccedil;&atilde;o de dois
+palacios, um em Lisboa
+e outro no Rio de Janeiro, destinados &aacute;
+exposi&ccedil;&atilde;o e venda
+permanente dos productos nacionaes de cada um dos dois paizes
+no outro;
+<br />
+
+<br />
+
+7.&ordm;&#8213;Promover, sempre que f&ocirc;r possivel, a
+unifica&ccedil;&atilde;o ou pelo
+menos a harmoniza&ccedil;&atilde;o da
+legisla&ccedil;&atilde;o civil e commercial dos dois
+paizes;
+<br />
+
+<br />
+
+8.&ordm;&#8213;Promover a approxima&ccedil;&atilde;o
+intellectual&#8213;scientifica, literaria
+e artistica&#8213;dos dois paizes, dando aos professores e diplomados
+brasileiros em Portugal e aos professores e diplomados
+portugueses no Brasil os mesmos direitos com equivalencia dos
+respectivos titulos de habilita&ccedil;&atilde;o;
+<br />
+
+<br />
+
+9.&ordm;&#8213;Promover visitas regulares de excursionistas e de
+estudo&#8213;de
+intellectuaes, de artistas, de industriaes e commerciantes
+portugueses ao Brasil e brasileiros a Portugal e &aacute;s suas
+mais importantes
+colonias;
+<br />
+
+<br />
+
+10.&ordm;&#8213;Estudar a maneira de se fundar em qualquer das duas
+capitaes, ou simultaneamente em ambas, uma revista que seja o
+org&atilde;o para servir de interprete permanente a este movimento
+de
+approxima&ccedil;&atilde;o luso-brasileira;
+<br />
+
+<br />
+
+11.&ordm;&#8213;Promover mais intimas e continuadas
+rela&ccedil;&otilde;es entre
+a imprensa brasileira e a imprensa portuguesa pela troca de
+collabora&ccedil;&atilde;o
+e pela institui&ccedil;&atilde;o de reuni&otilde;es
+periodicas dos editores
+de livros e dos representantes do jornalismo de ambas as
+na&ccedil;&otilde;es;
+<br />
+
+<br />
+
+12.&ordm;&#8213;Promover a intelligencia entre si, respectivamente, das
+sociedades scientificas, artisticas, de
+instruc&ccedil;&atilde;o, de beneficencia,
+de gymnastica, de tiro, de nata&ccedil;&atilde;o e outros
+desportos maritimos
+e terrestres, etc., pertencentes aos dois paizes, assim como das
+associa&ccedil;&otilde;es academicas brasileiras e portuguesas,
+creando-se
+tambem bolsas de viagem para os estudantes de cada um dos
+dois paizes no outro;
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[15]</span>
+<div class="tiny">13.&ordm;&#8213;Promover o movimento de
+approxima&ccedil;&atilde;o luso-brasileira
+no Brasil, ou por intermedio de alguma das sociedades alli
+existentes, como a Sociedade de Geographia ou o Instituto Historico
+Brasileiro, que, &aacute; semelhan&ccedil;a da Sociedade de
+Geographia
+de Lisboa, queira no territorio da Uni&atilde;o p&ocirc;r-se
+&aacute; frente deste
+movimento, ou contribuindo para a funda&ccedil;&atilde;o no Rio
+de Janeiro
+de uma liga luso-brasileira, com os mesmos intuitos que os da
+commiss&atilde;o permanente cuja crea&ccedil;&atilde;o aqui
+se prop&otilde;e;
+<br />
+
+<br />
+
+14.&ordm;&#8213;Finalmente, estudar a maneira de se fazer da benemerita
+colonia portuguesa no Brasil a activa intermediaria da
+approxima&ccedil;&atilde;o
+moral dos dois povos, approxima&ccedil;&atilde;o que
+ter&aacute; como
+symbolo da realidade da sua existencia a formosa lingua de
+Cam&otilde;es e Gon&ccedil;alves Dias a falar-se dos dois lados
+do Atlantico
+e a servir, em duas patrias fraternalmente enla&ccedil;adas, de
+vinculo
+inquebrantavel &aacute; ra&ccedil;a luso-brasileira, cujo
+destino historico, assim
+engrandecido, dever&aacute;, a bem da
+civiliza&ccedil;&atilde;o, alargar-se triumphante
+pelas mais bellas regi&otilde;es do globo, &aacute;s quaes o
+immortal genio
+latino, representado pela nossa commum nacionalidade,
+imprimir&aacute;,
+com o supremo encanto da forma, o estimulo da sua energia
+eternamente creadora.&raquo;
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c2" id="c2"></a>
+<h3>II<br />
+
+<br />
+
+O PROBLEMA LUSO-BRASILEIRO
+</h3>
+
+<br />
+
+O problema luso-brasileiro &eacute; uma realidade. N&atilde;o
+est&aacute; definido, n&atilde;o se lhe conhecem com
+precis&atilde;o os
+termos; mas existe. Affinidades, claras e logicas umas,
+e outras obscuras e inconscientes, sollicitam os dois grupos
+sociaes e politicos, que comp&otilde;em a <em>gens
+lusitana</em>,
+se assim se p&oacute;de exprimir o conjuncto ethnico em
+elabora&ccedil;&atilde;o
+nas terras sob a soberania portuguesa e sob
+a soberania brasileira.
+<br />
+
+<br />
+
+Existe o problema luso-brasileiro, como existe o hispano-americano,
+como existe o anglo-saxonio. Paizes
+que derivaram dos povos colonizadores por excellencia
+e que mant&ecirc;em com elles intimas
+rela&ccedil;&otilde;es e permanente
+convivencia, ha tres nucleos de estados americanos
+que constituem, &aacute; maneira que se desenvolvem e &aacute;
+maneira que prosperam, n&atilde;o j&aacute; simples e
+justificados
+motivos de orgulho para aquelles povos, mas poderosas
+engrenagens a cuja sorte elles n&atilde;o podem, de maneira
+nenhuma, ser estranhos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[18]</span>
+Sentimos vagamente que ha la&ccedil;os insoluveis que nos
+prendem ao Brasil. Dia a dia, hora a hora, reconhecemos
+que existe uma verdadeira interdependencia na
+vida luso-brasileira. O Brasil influe sobre Portugal e
+Portugal influe sobre o Brasil. Como e em que espheras
+das respectivas actividades se exercita essa
+ac&ccedil;&atilde;o?
+Eis onde surgem, c&aacute; e l&aacute;, as divergencias; eis
+onde
+collidem as opini&otilde;es e onde mais nitidamente se manifesta
+a complexidade do problema luso-brasileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha quantos annos Castelar lan&ccedil;ou a id&eacute;a de
+estreitar
+os vinculos hispano-americanos? Ha mais de quarenta
+e, todavia, o problema ficou sem solu&ccedil;&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+Dizia Emilio Castelar:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Reunir as id&eacute;as de todos os nossos escriptores;
+communicar ao Novo Mundo o espirito hespanhol sob
+todas as suas formas raras e variadas; lembrar-lhe todos
+os dias, sob todos os tons da nossa lingua, que aqui
+vivem homens que s&atilde;o seus irm&atilde;os; mostrar a seus
+olhos o ideal de um futuro de paz, em que pela reuni&atilde;o
+das nossas for&ccedil;as e das nossas intelligencias poderemos
+fazer germinar nas entranhas dessa infeliz
+America, ferida pela tempestade, e no seio desta desgra&ccedil;ada
+Hespanha consumida pelas cinzas das suas ruinas,
+uma sciencia nova e uma literatura nova; fazer
+tudo isto com uma constancia, que lembre o nosso antigo
+caracter, e fazel-o sem outra recompensa al&eacute;m da
+satisfa&ccedil;&atilde;o da nossa consciencia, &eacute; um
+dos maiores e
+mais positivos beneficios que se podem conceber para
+a nossa ra&ccedil;a abatida.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+A iniciativa do sr. Consiglieri Pedroso no tocante &aacute;s
+rela&ccedil;&otilde;es luso-brasileiras relembra a de Castelar
+no que
+concerne &aacute;s hispano-americanas. A cultura historica,
+em ambos fortalecida pelas sciencias politicas e sociaes,
+levou esses dois espiritos de elei&ccedil;&atilde;o a encararem
+o mesmo
+problema sob aspectos quasi identicos. Ao lusitano,
+como ao hespanhol, affigurou-se indispensavel a <em>seiva
+americana</em> ao caule ib&eacute;rico. Era, nos dois
+casos, a verifica&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[19]</span>
+confessada de factos insophismaveis da economia
+da peninsula hispanica; mas problemas economicos
+t&ecirc;m de ser resolvidos economicamente. Ora, se
+Castelar queria que se puzesse em pratica todo o seu
+programma com a s&oacute; recompensa da consciencia satisfeita,
+o sr. Consiglieri Pedroso, mais positivo, estabeleceu
+um programma em que prevalece o <em>do ut
+des</em>, a
+troca de vantagens e servi&ccedil;os capazes de apertar os
+la&ccedil;os
+que prendem a patria de Cam&otilde;es &aacute; de
+Gon&ccedil;alves
+Dias.
+<br />
+
+<br />
+
+A forma pela qual se vir&aacute; a tornar effectiva essa
+solidarizac&atilde;o decorre for&ccedil;osamente das bases que
+se
+adoptarem para a conseguir.
+<br />
+
+<br />
+
+O estadista hespanhol Francisco Silvela, abordando
+o problema hispano americano, dizia que, &laquo;para a
+renascen&ccedil;a
+das for&ccedil;as da sua patria&raquo;, era indispensavel
+&laquo;luctar nos mercados&raquo; das antigas colonias, que
+considerava
+mercados naturaes da Hespanha; mas, no seu
+plano, que ia at&eacute; uma confedera&ccedil;&atilde;o
+ibero-americana,
+entendia que &laquo;o mercado hespanhol&raquo; devia
+&laquo;uma legitima
+reciprocidade ao commercio, &aacute; industria e &aacute;
+agricultura
+desses povos irm&atilde;os&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Como dar realidade ao ridente projecto? N&atilde;o nol-o
+soube ensinar Castelar, n&atilde;o nol-o mostrou Silvela:
+morreram e tudo continua como antes... Oxal&aacute; seja
+mais proveitosa a nossa iniciativa.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. Consiglieri Pedroso, com todo o seu saber,
+lab&oacute;ra num engano. &Aacute; sua perspicacia deve ter
+causado
+impress&atilde;o a simples lista dos brasileiros que, com
+representa&ccedil;&atilde;o official, assistiram &aacute;
+sess&atilde;o da Sociedade
+de Geographia. Alli esteve o primeiro secretario de
+lega&ccedil;&atilde;o,
+sr. Alvaro de Teff&eacute;, filho do almirante bar&atilde;o de
+Teff&eacute;, cuja familia, <em>von
+Hoonoltz</em>, se me n&atilde;o affigura
+lusitana, embora aos servi&ccedil;os do almirante deva o Brasil
+a mais grata recorda&ccedil;&atilde;o de patriotismo; e, dos
+quatorze
+officiaes de marinha presentes, um era Burlamaqui,
+<span class="pagenum">[20]</span>
+outro Bardy, outro Lindenberg, outro Wegylin,
+outro Costallat... Este facto bastaria, numa
+representa&ccedil;&atilde;o
+t&atilde;o diminuta, para nos desilludir &aacute;cerca da
+id&eacute;a
+corrente em Portugal de que s&oacute;mente os filhos dos
+portugueses
+adoptam a nacionalidade brasileira. Antes,
+estivera no porto de Lisboa o
+<em>destroyer</em>
+&laquo;Piauhy&raquo;, commandado
+por Pedro Frontin, tendo por immediato Armando
+Burlamaqui. E por Lisboa t&ecirc;m passado Filinto
+Perry e Octavio Perry, officiaes de marinha e filhos de
+outro illustre official, e tantos outros, a quem nem o
+nome nem a origem attenuam o sentimento nacional.
+<br />
+
+<br />
+
+Lauro M&uuml;ller, filho de colonos allem&atilde;es de Santa
+Catharina, &eacute; senador e coronel do exercito e foi ministro
+da via&ccedil;&atilde;o no governo Rodrigues Alves.
+<br />
+
+<br />
+
+Olavo Bilac, Escragnolle Taunay, Pardal Mallet,
+Clovis Bevilacqua, Henrique Oswald, Felix de Otero,
+H. Chiaffitelli, Rodolpho e Henrique Bernardelli, Ludovico
+Berna, Elyseu d'Angelo Visconti, o architecto
+Stahlembrecher, o pintor Chambelland, nas letras e
+nas artes; Raja Gabaglia, Lima Drummond, Alfredo
+Pujol, Vergueiro Steidel, G. Hasslocher, Wanderley
+Araujo, no direito; Chapot Pr&eacute;vost, Monat, Chardinal,
+Seidl, Niobey, Alberto Muylaert e Rebello Kock,
+na medicina; Paulo de Frontin, Jos&eacute; e Jorge de Lossio
+Seiblitz, Estanislau Bousquet, Victor Villiot, Everardo
+Backeuser, Henrique Kingston, Julio Delamare Koeler,
+Van Erven, Dunham, na engenharia; Gaffr&eacute;e, Guinle e
+Street, na industria&#8213;para citar s&oacute; de memoria e para
+p&ocirc;r de lado aquelles que remontam a um passado j&aacute;
+distante&#8213;s&atilde;o nomes que ninguem p&oacute;de
+cr&ecirc;r usados
+por pess&ocirc;as alheias ao espirito nacional brasileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem foi o ministro da marinha do governo provisorio?
+Wandenkolk. E quem &eacute; o actual ministro da
+guerra? Bormann. De sangue italiano s&atilde;o os filhos do
+insigne jornalista, hoje presidente do Senado, Quintino
+Bocayuva; t&ecirc;m sangue franc&ecirc;s os filhos do
+extraordinario
+patriota que se chama Rio Branco.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[21]</span>
+E, apezar de toda esta fus&atilde;o de ra&ccedil;as, o
+sentimento
+brasileiro nada soffre! E, apezar de quaesquer receios
+de desnacionaliza&ccedil;&atilde;o, o que se v&ecirc;
+&eacute; que cada vez se
+vae robustecendo mais a nacionalidade!
+<br />
+
+<br />
+
+E, se &eacute; certo que a lingua &eacute; o mais poderoso
+elemento
+caracteristico das nacionalidades, &eacute; evidente que,
+dentro do Brasil, todos os exoticos s&atilde;o absorvidos e
+assimilados
+pela massa luso-brasileira, que forma a sua
+for&ccedil;a ethnica preponderante.
+<br />
+
+<br />
+
+O dr. Bulh&otilde;es Carvalho, director geral da Estatistica,
+no prologo do &laquo;Boletim Commemorativo da
+Exposi&ccedil;&atilde;o
+Nacional de 1908&raquo;, dizia:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Em rela&ccedil;&atilde;o &aacute; naturalidade,
+&eacute; extraordinario o predominio
+do elemento nacional do Brasil. Em 1872, o
+numero de estrangeiros era de 383.546 para 9.728.515
+brasileiros; em 1890 o total dos estrangeiros era de
+351.545 para 13.982.370 brasileiros; em 1900 a cifra
+dos estrangeiros attingia a 1.240.264 para 16.078.292
+brasileiros.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c3" id="c3"></a>
+<h3>III<br />
+
+<br />
+
+O SUPPOSTO PERIGO
+</h3>
+
+<br />
+
+Onde existe o perigo da desnacionaliza&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+Diz o sr. Consiglieri Pedroso, no seu 7.&ordm; considerando,
+que &laquo;o Brasil corre o risco de se ir desnacionalizando
+pouco a pouco pela introduc&ccedil;&atilde;o, cada vez
+em mais larga escala, de elementos de immigra&ccedil;&atilde;o
+estranhos
+ao seu caracter historico e at&eacute; antipathicos &aacute;
+sua idiosyncrasia ethnica&#8213;provaveis causadores de
+futuras perturba&ccedil;&otilde;es e de inevitaveis perigos
+para a
+Uni&atilde;o&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+A immigra&ccedil;&atilde;o n&atilde;o portuguesa&#8213;eis em
+que consiste
+o perigo, no dizer do eminente professor. Ora, a
+verdade, falada pelos numeros, p&oacute;de ser sem brilho,
+mas &eacute; irrecusavel.
+<br />
+
+<br />
+
+Em todo o periodo que vae de 1820 at&eacute; 1907, diz-nos
+a estatistica (<em>Bulh&otilde;es
+Carvalho</em>, trabalho citado)
+que, nos portos do Brasil, entraram 1.213.167 italianos,
+634.585 portugueses, 288.646 hespanhoes, 93.075 allem&atilde;es,
+56.892 austriacos, 54.593 russos, 19.269 franceses,
+<span class="pagenum">[24]</span>
+11.731 turco-arabes, 11.068 ingleses, 9.086 suissos,
+3.780 su&eacute;cos, 11 belgas e 165.590 de outras nacionalidades.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao todo entraram 2.561.482 immigrantes. Tirando
+os portugueses, temos 1.926.897 immigrantes, n&atilde;o sabemos
+se todos &laquo;estranhos ao caracter historico e antipathicos
+&aacute; idiosyncrasia ethnica&raquo; do Brasil.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; claro que n&atilde;o constituiu a sua superioridade
+numerica
+causa de perturba&ccedil;&otilde;es nem de perigos para a
+na&ccedil;&atilde;o... Esses elementos encontraram na sociedade
+organizada o meio propicio &aacute;
+adapta&ccedil;&atilde;o. Foram assimilados.
+E, como a emigra&ccedil;&atilde;o n&atilde;o representa a
+cultura,
+porque &eacute; recrutada entre as classes mais desprotegidas
+dos paizes europeus, essas ondas humanas foram
+fecundar as terras de Santa Cruz e l&aacute; puderam
+proporcionar &aacute; sua pr&oacute;le o bem-estar, a
+instruc&ccedil;&atilde;o e a
+educa&ccedil;&atilde;o que, deste lado do Atlantico, ella
+desconheceria;
+mas n&atilde;o lhe modificaram a cultura: quando
+muito, integraram-se nella.
+<br />
+
+<br />
+
+Desses immigrantes ficaram os nomes. Os cruzamentos,
+o ambiente e a evolu&ccedil;&atilde;o peculiar da sociedade
+nova em que foram incorporados, formaram um typo
+nacional, em que predominam as caracteristicas portuguesas,
+mas que, sob alguns aspectos, tende a differenciar-se
+do nosso.
+<br />
+
+<br />
+
+Por que se deu esse predominio? Pelo facto politico-social
+da posse e da soberania, em primeiro logar;
+depois pela ac&ccedil;&atilde;o eugenica dos portugueses sobre
+os
+elementos indigenas e africanos; e, finalmente, pela
+continua&ccedil;&atilde;o d'essa influencia na descendencia
+mesti&ccedil;a.
+Quando, ha oitenta e tantos annos se iniciou a corrente
+immigratoria n&atilde;o portuguesa para o Brasil, j&aacute;
+l&aacute; havia
+uma consideravel popula&ccedil;&atilde;o com a nossa cultura,
+com
+as nossas tradi&ccedil;&otilde;es e com as nossas
+institui&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Era a nossa ra&ccedil;a? O brasileiro era o luso? Sylvio
+Romero nega que o fosse. Acha que a historia do Brasil
+n&atilde;o &eacute; a &laquo;historia exclusiva dos
+portugueses na America&raquo;,
+<span class="pagenum"><a name="p25" id="p25">[25]</a></span>
+nem <a href="#e1">a dos</a> tupys, nem a dos
+negros. &laquo;&Eacute;, antes,
+a historia de um typo novo.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Esse typo novo n&atilde;o podia deixar de ter com o
+portugu&ecirc;s&#8213;elemento
+superior da sua forma&ccedil;&atilde;o inicial&#8213;affinidades
+mais intimas do que com qualquer outra
+nacionalidade. Os destinos de um povo dependem dos
+seus elementos ethnicos superiores. Assim foi que,
+dada a implanta&ccedil;&atilde;o da
+civiliza&ccedil;&atilde;o europ&eacute;a na America,
+as na&ccedil;&otilde;es, que vieram a constituir-se n'esse
+continente,
+se tiveram de modelar e pautar pelas de que promanavam,
+reproduzindo, al&eacute;m da medida exacta do sangue,
+as qualidades essenciaes das ra&ccedil;as originarias superiores.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; sob este ponto de vista que o brasileiro &eacute; o
+portugu&ecirc;s
+da America, onde o Canad&aacute; ainda representa
+o franc&ecirc;s e o ingl&ecirc;s, o americano do norte prolonga
+a
+modalidade britanica, e os demais povos conservam
+inconfundiveis tra&ccedil;os do hespanhol.
+<br />
+
+<br />
+
+Limitando-nos ao caso que nos respeita, quer isto
+dizer que o brasileiro se encontra apparelhado pela
+consciencia nacional e pelas energias de ordem legal,
+moral e material, que d&atilde;o realidade aos gremios nacionaes,
+para proseguir na sua marcha evolutiva independente,
+apezar de quaesquer nucleos extra-lusitanos que
+para o Brasil emigrem.
+<br />
+
+<br />
+
+Os factos corroboram a nulla ac&ccedil;&atilde;o
+desnacionalizadora
+dos immigrantes n&atilde;o portugueses. De 1824 a 1859,
+anno em que os allem&atilde;es deixaram de ir para o Brasil
+em virtude do rescripto famoso do ministro prussiano
+Van der Heydt, esses colonos, espalhados pelas
+provincias do sul, n&atilde;o logravam attingir a cifra de
+30.000. A Allemanha, reconhecendo que cresciam extraordinariamente,
+apezar de prohibida a emigra&ccedil;&atilde;o, as
+popula&ccedil;&otilde;es germanicas no sul do Brasil, procurou
+conserval-as
+unidas &aacute; <em>Vaterland</em> por
+meio do ensino: creou
+escolas e na lingua tinha um vinculo precioso e poderosissimo.
+S&atilde;o conhecidos por <em>teutos</em>
+esses brasileiros,
+que, se puderam ser motivo de preoccupa&ccedil;&otilde;es,
+deixaram
+<span class="pagenum">[26]</span>
+de o ser desde que, &aacute; escola e &aacute; lingua allemans
+se
+oppuzeram a escola brasileira e a nossa lingua.
+<br />
+
+<br />
+
+Quinhentos mil <em>teutos</em>, muito
+prolificos, em incessante
+incremento, constituir&atilde;o esse perigo? Ou ser&atilde;o
+os quasi cem mil que, nesse total, conservam a nacionalidade
+alleman? Ou ser&atilde;o esses, mais os dois milh&otilde;es
+e meio de italianos e filhos de italianos e mais outro
+milh&atilde;o de pessoas de outras linguas?
+<br />
+
+<br />
+
+Quatro milh&otilde;es dos seus dezoito a vinte milh&otilde;es
+de
+habitantes n&atilde;o podem desnacionalizar o Brasil.
+<br />
+
+<br />
+
+E ai de n&oacute;s se o pudessem fazer! Que remedio lhe
+poderiamos dar com os nossos seis milh&otilde;es de habitantes,
+em que s&oacute; n&atilde;o s&atilde;o analphabetos
+1.200.000, quando
+esses paizes para l&aacute; mandam gente muito menos ignorante?
+<br />
+
+<br />
+
+O perigo da desnacionaliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o
+existe realmente.
+A actual popula&ccedil;&atilde;o possue capacidades
+triumphantes
+de resistencia &aacute; invas&atilde;o exotica.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem o reconhece n&atilde;o somos n&oacute;s, s&atilde;o os
+proprios
+allem&atilde;es e italianos. A illus&atilde;o desfez-se. O
+<em>Deutschthum</em>
+falliu na sua execu&ccedil;&atilde;o sul-americana. A
+<em>Nova Italia</em> foi
+fantasia logo batida pela realidade. E, como, afinal, &aacute;
+falta de melhor, basta, a quem faz negocios, n&atilde;o os
+perder, a politica dos povos emigrantistas, isto &eacute;, dos
+que precisam ir conquistar a terras novas o p&atilde;o que as
+velhas lhes negam, transformou-se; e em novas
+aspira&ccedil;&otilde;es
+praticas passou a traduzir-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Diz o allem&atilde;o dr. Robert Jannassh:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O immigrante que aqui vive e trabalha, tem de se
+tornar brasileiro, deve aprender a lingua do paiz,
+esfor&ccedil;ando-se
+por se exprimir n'ella t&atilde;o bem como em
+seu proprio idioma, sem o que n&atilde;o poder&aacute; tomar
+parte
+na vida publica em beneficio da collectividade.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Diz o professor Siever, da Universidade de Giessen:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Se o imperio allem&atilde;o quer recuperar a sua antiga
+preponderancia no concerto das potencias, procure
+adquirir, na America do Sul, real influencia; mas n&atilde;o
+<span class="pagenum">[27]</span>
+sob a forma de annexa&ccedil;&otilde;es e sim na base de
+rela&ccedil;&otilde;es
+commerciaes, industriaes e pecuniarias...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+O professor Vincenzo Grossi, da Universidade de
+Roma, aconselha egualmente que os emigrados adoptem
+a lingua e a nacionalidade dos paizes em que se
+installam.
+<br />
+
+<br />
+
+O remedio, est&aacute;-o applicando a Republica dos Estados
+Unidos do Brasil: &eacute; a escola, &eacute; a
+legisla&ccedil;&atilde;o tendente
+&aacute; absorp&ccedil;&atilde;o do estrangeiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim prevenido, o Brasil ha de receber, sem risco
+algum, as enormes l&eacute;vas de trabalhadores, que o seu
+progresso material e a sua miss&atilde;o no equilibrio
+sul-americano
+reclamam e que Portugal, j&aacute; com escassas
+energias no ponto de vista demographico, n&atilde;o lhe
+p&oacute;de
+offerecer.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c4" id="c4"></a>
+<h3>IV<br />
+
+<br />
+
+OS ESTRANGEIROS NO BRASIL
+</h3>
+
+<br />
+
+Chegou a haver no Brasil uma forte corrente de
+opini&atilde;o contraria &aacute;
+immigra&ccedil;&atilde;o italiana e alleman. N&atilde;o
+ha negal-o; mas a verdade &eacute; que essa corrente deixava
+de encarar o problema tal qual era na verdade,
+para v&ecirc;r unicamente um facto apparentemente grave
+para a existencia nacional, qual era a forma&ccedil;&atilde;o
+de
+poderosos nucleos de lingua italiana e alleman nos
+Estados do sul da Republica.
+<br />
+
+<br />
+
+Esses nucleos n&atilde;o encontravam meio favoravel &aacute;
+conserva&ccedil;&atilde;o das suas nacionalidades de origem.
+&Eacute;
+certo que para onde convergiam os italianos, como
+em S. Paulo, acorriam outros italianos, da mesma f&oacute;rma
+que os allem&atilde;es se congregavam no Rio Grande
+do Sul, Santa Catharina e Paran&aacute;. Era tal a for&ccedil;a
+das
+affinidades nacionaes que em algumas regi&otilde;es 80 a
+95% da popula&ccedil;&atilde;o era
+<em>teutonica</em>; e, como era natural,
+os <em>teutos</em>, por l&aacute;, eram
+os que tinham de desempenhar
+todas as func&ccedil;&otilde;es publicas e de exercer todas as
+f&oacute;rmas
+<span class="pagenum">[30]</span>
+da actividade segundo as tendencias da sua ra&ccedil;a
+e de accordo com as conquistas da propria
+civiliza&ccedil;&atilde;o.
+Mas a verdade dos factos &eacute; que esses agglomerados
+ethnicos perdiam o espirito nacional &aacute; maneira que os
+filhos entravam na vida brasileira e &aacute; medida que a
+prosperidade no novo <em>habitat</em> os
+prendia &aacute; terra de
+adop&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+E adop&ccedil;&atilde;o dizemos porque, de facto, os
+estrangeiros
+idos para o Brasil at&eacute; 1890&#8213;anno em que, com a
+autonomia aos estados dada pela Republica, entrou a
+crescer de modo consideravel a immigra&ccedil;ao<sup><a href="#f3">[3]</a></sup>&#8213;eram
+absorvidos, incorporados na massa nacional.
+<br />
+
+<br />
+
+Affirma-o a estatistica. O censo de 1890 accusa,
+com effeito, 351.545 estrangeiros para 13.982.370 brasileiros.
+Quer isto dizer: 1.&ordm; que os filhos de immigrantes
+tinham adoptado a nacionalidade brasileira;
+2.&ordm; que a propria gente exotica, em grande parte, tinha
+acceitado a naturaliza&ccedil;&atilde;o tacita, porquanto
+s&oacute; nos annos
+de 1880 a 1889, a entrada no Brasil&#8213;de todas
+as origens&#8213;tinha passado de 300.000 estrangeiros.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute;, por&eacute;m, verdade que alguns homens,
+ali&aacute;s eminentes,
+do Brasil tiveram receio dos grandes grupos
+de popula&ccedil;&atilde;o de lingua estranha. Desse facto, nem
+sempre apreciado com justeza de criterio, resultou a
+no&ccedil;&atilde;o de um <em>perigo
+allem&atilde;o</em> e de um <em>perigo
+italiano</em>,
+que, se existiram algum dia, foi pela possibilidade de
+conflictos internos de gentes de culturas divergentes
+em fus&atilde;o, e n&atilde;o pela amea&ccedil;a de desviar
+a nacionalidade
+dos seus destinos resultantes de tendencias acima
+de tudo definidas pela lingua.
+<br />
+
+<br />
+
+A Republica, ao ser proclamada, encontrou-se
+deante de &laquo;s&eacute;rios problemas&raquo;, neste
+terreno melindrosissimo.
+<span class="pagenum">[31]</span>
+Falava-se no espirito monarchico dos
+<em>teutos</em>; dizia-se que, a um aceno de
+Silveira Martins,
+se ergueriam dezenas de milhares de
+<em>teutos</em>; havia
+quem acreditasse&#8213;na Europa principalmente!&#8213;que
+o Brasil se ia dividir em tres estados: ao norte, a
+Amazonia; ao centro uma na&ccedil;&atilde;o em que viriam a
+preponderar os italianos; ao sul, uma nova Allemanha,
+que, l&aacute; para 1999, devia ter 30 a 35 milh&otilde;es de
+habitantes...
+<br />
+
+<br />
+
+Andou isto pela imprensa francesa, inglesa e alleman,
+que, sobre um artigo do <em>Tempo</em>,<sup><a href="#f4">[4]</a></sup> de
+Lisboa,
+bordou longas e arbitrarias considera&ccedil;&otilde;es
+historicas e
+ethnologicas e se perdeu em estopantes
+disserta&ccedil;&otilde;es
+de direiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Os &laquo;s&eacute;rios problemas&raquo; existiam, em todo
+o caso.
+Era preciso introduzir trabalhadores no Brasil! Esse
+&eacute; que era o maximo problema. Faltavam os bra&ccedil;os
+&aacute;
+lavoura. Aonde ir buscal-os, sen&atilde;o aos paizes que os
+podiam fornecer em maior abundancia? Aonde, sen&atilde;o
+aos paizes de lingua estranha, j&aacute; que Portugal s&oacute;
+lhe
+dera 24.000 colonos em 1888 e 28.000 em 1889? Aonde,
+se, apesar de todos os esfor&ccedil;os, o estado de S. Paulo
+s&oacute; conseguiu, de 1890 a 1904 exclusiv&eacute;, pouco
+mais
+de 36.000 portugueses contra 190.000 italianos?
+<br />
+
+<br />
+
+A immigrac&atilde;o subsidiada pelo Estado obedecia a
+uma imperiosa necessidade economica. Tinha de ser
+feita, com as ra&ccedil;as que offerecessem mais bra&ccedil;os
+disponiveis.
+Mas, se j&aacute; na epoca das fracas l&eacute;vas exoticas
+se fal&aacute;ra em &laquo;perigos&raquo;, que
+n&atilde;o seria depois de abolida
+<span class="pagenum">[32]</span>
+a escravid&atilde;o, depois de mudado o regimen politico?...
+<br />
+
+<br />
+
+Mais do que nunca havia que cercar a nacionalidade
+de meios de defeza. Foi por isso que o governo provisorio
+tratou, logo nos seus primeiros dias, de decretar
+a grande naturaliza&ccedil;&atilde;o. O decreto de 15 de
+dezembro
+de 1889, que deu a nacionalidade a todos os estrangeiros
+que, estando no Brasil em 15 de novembro, a
+quizessem, teve alcance muito maior do que se imagina,
+embora os protestos de Portugal, Hespanha, Inglaterra
+e Hollanda contra a lei tivessem attenuado, de certo
+modo, a sua efficacia.
+<br />
+
+<br />
+
+No debate deste assumpto, no seio do governo provisorio,
+propondo que se mantivesse a lei, dizia Quintino
+Bocayuva, ministro das rela&ccedil;&otilde;es exteriores, que
+&laquo;a par da energia&raquo; que devia manter o governo para
+com as na&ccedil;&otilde;es estrangeiras, &laquo;devia
+tambem usar de
+certa delicadeza&raquo; porque o Brasil
+&laquo;<em>dependia do problema,
+maximo da
+immigra&ccedil;&atilde;o</em>&raquo;.<sup><a href="#f5">[5]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+Observou-se a delicadeza. Manteve-se a lei. Os resultados
+de tal politica est&atilde;o no censo de 1890, como
+j&aacute; vimos; mas vinha de longe esse esfor&ccedil;o. O
+partido
+republicano, tantas vezes accusado, depois do novo regimen,
+de hostilizar o estrangeiro, sempre advog&aacute;ra
+as mais liberaes medidas para a naturaliza&ccedil;&atilde;o. E
+essa
+pretensa hostilidade s&oacute;mente significava justificado
+espirito
+nacionalista.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; em 1881, ao dirigir-se aos eleitores de S. Paulo,
+o grande cidad&atilde;o, que se chamou Francisco Rangel
+Pestana, dizia (<em>Programma dos
+Candidatos</em>) que o seu
+partido tinha, no seu manifesto de 1880, tomado nessa
+materia um compromisso solemne, que impunha &laquo;uma
+reforma na legisla&ccedil;&atilde;o de modo a ser facilitado ao
+estrangeiro
+<span class="pagenum">[33]</span>
+domiciliado no Brasil o meio de entrar, <em>sem
+vexame e com o conhecimento exacto das necessidades
+do paiz</em>, na communh&atilde;o social&raquo;
+brasileira.
+<br />
+
+<br />
+
+E, depois de criticar a legisla&ccedil;&atilde;o
+ent&atilde;o vigente na
+materia e de mostrar as necessidades que havia para
+o bom exito da medida, dizia:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Nem especialmente em rela&ccedil;&atilde;o ao
+augmento da
+corrente de immigra&ccedil;&atilde;o, nem em
+rela&ccedil;&atilde;o ao progresso
+moral e material do paiz, a propaganda em favor
+da naturaliza&ccedil;&atilde;o trar&aacute; resultado
+seguro e vantajoso,
+se outras reformas n&atilde;o vierem mudar <em>este
+estado de
+coisas que entristece os bons pensadores de todos os
+partidos</em>.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Entendia Rangel Pestana que o estrangeiro n&atilde;o
+procuraria adoptar a nova patria se n&atilde;o reconhecesse
+que havia nella &laquo;garantias para os seus direitos civis
+e mesmo para os politicos&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+A Republica n&atilde;o faltou aos seus compromissos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c5" id="c5"></a>
+<h3>V<br />
+
+<br />
+
+O POVOAMENTO E A NACIONALIDADE
+</h3>
+
+<br />
+
+Os systemas geralmente adoptados para a
+acquisi&ccedil;&atilde;o
+de bra&ccedil;os foram todos experimentados no Brasil.
+Desde a immigra&ccedil;&atilde;o subsidiada &aacute;s
+multiplas formas de
+coloniza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o houve processo que,
+em maior ou menor
+escala, deixasse de ser ensaiado.
+<br />
+
+<br />
+
+Tratava-se realmente do problema maximo. Os elementos
+naturaes n&atilde;o bastam, as riquezas de todos os
+generos e os mais vastos territorios de nada servem
+quando falta a popula&ccedil;&atilde;o. &Eacute; o homem
+que fecunda e
+valoriza tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+Escrevia, em 1901, o Dr. Luiz Pereira Barretto:<sup><a href="#f6">[6]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Variedade de climas; numerosos e volumosos cursos
+de agua irradiando de um admiravel planalto central
+que convida a humanidade futura a alli vir derramar
+400 milh&otilde;es de habitantes; exuberantes florestas;
+<span class="pagenum">[36]</span>
+uma flora e uma fauna de suprema belleza; riqueza de
+s&oacute;lo; immensas jazidas de mineraes de toda a sorte:
+1.200 l&eacute;guas de costa; portos abundantes e tocando ao
+&aacute;pice da perfei&ccedil;&atilde;o ideal como
+largueza, seguran&ccedil;a e
+elegancia e attingindo alguns a propor&ccedil;&otilde;es
+colossaes;
+tudo, tudo possuimos na mais vasta escala.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o seremos capazes de fazer valer tantos e t&atilde;o
+excepcionaes
+recursos?&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil, para fazer valer os seus recursos, em
+verdade excepcionaes, precisou sempre, precisa hoje, e
+precisar&aacute; amanhan de augmentar a sua
+popula&ccedil;&atilde;o, cujo
+crescimento vegetativo &eacute; insignificante para o seu
+territorio,
+com gente das regi&otilde;es em que a lucta pela vida
+&eacute; mais dura. A immigra&ccedil;&atilde;o &eacute;
+o processo de crescimento
+que se lhe imp&otilde;e.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi, com esse intuito que o estado subsidiou a
+introduc&ccedil;&atilde;o
+de trabalhadores, fez as concess&otilde;es dos burgos
+agricolas, creou os nucleos coloniaes, e, por fim,
+organizou um vasto e completo systema de povoamento
+do s&oacute;lo.
+<br />
+
+<br />
+
+A experiencia ensinou que era indispensavel preparar
+o meio para attrahir e prender o estrangeiro. A
+esta orienta&ccedil;&atilde;o obedeceram recentes medidas
+governativas,
+de entre as quaes podemos destacar:
+<br />
+
+<br />
+
+as leis que declararam privilegiadas as dividas provenientes
+de salarios de operarios agricolas (janeiro de
+1904, dezembro de 1906 e mar&ccedil;o de 1907);
+<br />
+
+<br />
+
+a organiza&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o de Propaganda
+e Expans&atilde;o
+Economica do Brasil no Estrangeiro (outubro de 1907);
+<br />
+
+<br />
+
+a regulamenta&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o de
+povoamento do s&oacute;lo
+(leis de 30 de dezembro de 1906 e 19 de abril de 1907);
+<br />
+
+<br />
+
+as instruc&ccedil;&otilde;es para a
+funda&ccedil;&atilde;o de nucleos coloniaes
+e localiza&ccedil;&atilde;o de immigrantes por conta da
+Uni&atilde;o
+(portaria de 21 de dezembro de 1907);
+<br />
+
+<br />
+
+o decreto de 5 de janeiro de 1907, que creou os
+syndicatos e as cooperativas&#8213;institui&ccedil;&otilde;es
+correntes
+em alguns paizes emigrantistas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[37]</span>
+As vantagens e garantias constantes de todas estas
+medidas s&atilde;o obvias; todavia ha que l&ecirc;r o
+regulamento
+do servi&ccedil;o de povoamento para comprehender o espirito
+que guiou, nesta materia, o governo brasileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; preciso fixar muita gente: por isso, &laquo;a
+Uni&atilde;o
+promove o povoamento, mediante accordo com os Estados,
+emprezas de via&ccedil;&atilde;o ferrea e fluvial, companhias
+ou associa&ccedil;&otilde;es e particulares&raquo; (Art.<sup>o</sup>
+1.&ordm;); os immigrantes,
+cuja moralidade e cuja saude s&atilde;o fiscalizadas (art.
+2.&ordm;),
+constituem nucleos em lotes de terras escolhidas, em
+b&ocirc;as condi&ccedil;&otilde;es de salubridade e com
+transporte facil e
+installam-se nos nucleos como proprietarios (art.<sup>o</sup>
+5.&ordm;),
+e s&oacute; excepcionalmente (art.<sup>o</sup>
+4.&ordm;)&#8213;porque
+&eacute; preciso
+admittir as surprezas de uma explora&ccedil;&atilde;o que se
+inic&iacute;a&#8213;os
+immigrantes poder&atilde;o ser introduzidos sem
+acquisi&ccedil;&atilde;o
+de terras; pelo Estado ou pelas emprezas ser&atilde;o fornecidas
+gratuitamente, aos immigrantes, ferramentas e
+sementes (art.<sup>o</sup> 7.&ordm;, alinea V); os
+lotes em regra
+ter&atilde;o
+casa para a familia do immigrante e terreno preparado
+para as primeiras culturas (art.<sup>o</sup>
+21.&ordm;); os lotes
+ser&atilde;o
+vendidos a prazo ou &aacute; vista; os adquirentes dos lotes
+ter&atilde;o (art.<sup>o</sup> 36.&ordm;), durante
+os seis primeiros
+mezes, o auxilio
+indispensavel &aacute; sua manuten&ccedil;&atilde;o e
+&aacute; da sua familia;
+ter&atilde;o, durante um anno, pelo menos, (art.<sup>o</sup>
+27.&ordm;),
+servi&ccedil;os
+medicos e pharmaceuticos; se o adquirente morrer,
+depois de pagar tres presta&ccedil;&otilde;es, (art.<sup>o</sup>
+43.&ordm;) ser&atilde;o dispensadas
+as outras em favor da viuva e dos orph&atilde;os;
+o Estado (art.<sup>o</sup> 96.&ordm;)
+restituir&aacute; aos immigrantes
+espontaneos,
+que f&ocirc;rem agricultores, a importancia das passagens
+do porto de embarque ao de destino, dar-lhes-ha
+(art.<sup>o</sup> 97.&ordm;) desembarque, agasalho,
+alimenta&ccedil;&atilde;o, medico
+e remedios at&eacute; seguirem para o seu destino, com
+transporte gratuito; ser&aacute; concedida
+repatria&ccedil;&atilde;o a viuvas,
+orph&atilde;os e inutilizados por doen&ccedil;a ou accidente,
+os
+quaes (art.<sup>o</sup> 131.&ordm;) poder&atilde;o
+vender os seus lotes;
+aos
+melhores immigrantes com mais de tres e menos de seis
+<span class="pagenum">[38]</span>
+annos de posse dos lotes ser&atilde;o concedidos (art.<sup>o</sup>
+132.&ordm;)
+premios de viagem ao seu paiz do origem.
+<br />
+
+<br />
+
+Basta este insignificante extracto para se avaliar o
+intelligente esfor&ccedil;o que o Brasil faz para fixar o
+estrangeiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Bem dizia o ministro Calmon, no seu relatorio de
+1908, que esse regulamento revelava &laquo;a
+preoccupa&ccedil;&atilde;o
+de assegurar ao immigrante elementos de feliz exito e
+garantias de bem-estar e liberdade&raquo;. E, justificando as
+medidas que resumimos, ponderava que a &laquo;suprema
+ambi&ccedil;&atilde;o do proletario que se expatria
+&eacute; tornar-se proprietario.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Introduzir immigrantes n&atilde;o &eacute;, por&eacute;m, o
+unico fim
+da lei a que nos estamos referindo: tem ainda em mira
+<em>povoar</em> o Brasil, isto &eacute;,
+preparar novas for&ccedil;as de crescimento
+vegetativo; e n&atilde;o deixa de attender &aacute;
+quest&atilde;o da
+nacionalidade. Como? &Eacute; o que vamos v&ecirc;r resumindo
+outros dispositivos da lei.
+<br />
+
+<br />
+
+O art.<sup>o</sup> 19.&ordm; manda reservar, em cada
+nucleo, lotes
+para grupos escolares.
+<br />
+
+<br />
+
+O art.<sup>o</sup> 44.&ordm; estabelece aulas de ensino
+primario
+gratuito; o art.<sup>o</sup> 57.&ordm; manda applicar o
+art.<sup>o</sup> 44 aos nucleos
+fundados pelos governos dos estados; o art.<sup>o</sup>
+57.&ordm;
+imp&otilde;e essas obriga&ccedil;&otilde;es &aacute;s
+emprezas de via&ccedil;&atilde;o, as
+quaes t&ecirc;m de promover o povoamento das terras marginaes
+ou proximas das suas linhas.
+<br />
+
+<br />
+
+Temos, pois, o ensino da lingua portuguesa, como
+meio de nacionaliza&ccedil;&atilde;o, ali&aacute;s
+adoptado, de ha muito,
+em todas as regi&otilde;es onde se agglomeram massas de
+immigrantes. Onde se abriu uma escola estrangeira, n&atilde;o
+raro em um pardieiro, surgiu sempre um edificio lindo,
+com bellos jardins, para a escola nacional.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas ha outras providencias com o mesmo intuito nacionalizador.
+Assim, os lotes s&atilde;o vendidos a prazo s&oacute; aos
+immigrantes com familia, os quaes podem adquirir segundos
+lotes contiguos aos primeiros (art.<sup>o</sup>s
+26.&ordm;, 27.&ordm; e
+28.&ordm;).
+<br />
+
+<br />
+
+Ao immigrante estrangeiro que contrahir casamento
+<span class="pagenum">[39]</span>
+com brasileira ou filha de brasileiro nato, ou ao agricultor
+nacional que se casar com estrangeira aportada
+ha menos de dois annos como immigrante, ser&aacute; concedido
+(art.<sup>o</sup> 29.&ordm;) um lote de terra com
+titulo provisorio,
+que se substituir&aacute; por outro definitivo de propriedade,
+<em>sem onus algum para o casal</em>, se este
+tiver durante o
+primeiro anno, a contar da data do titulo provisorio,
+convivido em boa harmonia.
+<br />
+
+<br />
+
+E se, ap&oacute;s o casamento, quizer adquirir um lote a
+titulo definitivo (art.<sup>o</sup> 30.&ordm;) ser-lhe
+ha feita
+a venda por
+metade do pre&ccedil;o estipulado.
+<br />
+
+<br />
+
+Em todos os nucleos (art.<sup>os</sup> 46.&ordm; e
+53.&ordm;)
+ser&atilde;o dados
+10% dos lotes a nacionaes. Sempre que n'um nucleo
+houver 300 lotes de estrangeiros ser&aacute; organizada (art.<sup>o</sup>
+46.&ordm;) uma sec&ccedil;&atilde;o de lotes para
+agricultores nacionaes.
+O mesmo poder&atilde;o fazer as emprezas contractantes de
+coloniza&ccedil;&atilde;o (art.<sup>o</sup>
+78.&ordm;). E sempre que
+&laquo;a necessidade
+publica o exigir e o Estado interessado n&atilde;o os
+pud&eacute;r
+organizar, a Uni&atilde;o fundar&aacute; nucleos coloniaes
+destinados
+exclusivamente a agricultores nacionaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Julgamos que estas disposi&ccedil;&otilde;es legaes falam com
+sufficiente eloquencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Ainda ha outras precau&ccedil;&otilde;es com identico fim.
+<br />
+
+<br />
+
+A constitui&ccedil;&atilde;o, que s&oacute; v&eacute;da
+ao naturalizado a presidencia
+da Republica, estatue que a navega&ccedil;&atilde;o de
+cabotagem
+tem de ser nacional (art.<sup>o</sup> 13.&ordm;
+&sect; unico).
+<br />
+
+<br />
+
+A recente lei das successs&otilde;es &eacute; de intuitos
+nacionalistas.
+<br />
+
+<br />
+
+A lei dos syndicatos profissionaes, os quaes (art.<sup>o</sup>
+2.&ordm;)
+para gosarem de personalidade civil t&ecirc;m de ter
+direc&ccedil;&otilde;es
+formadas por brasileiros natos ou naturalizados,
+tambem &eacute; um elemento de attrac&ccedil;&atilde;o para
+o operariado
+dos paizes mais cultos, que nesse estatuto encontra os
+conselhos, a que est&aacute; habituado, de
+concilia&ccedil;&atilde;o e arbitragem
+e as associa&ccedil;&otilde;es de previdencia, assistencia e
+mutualidade, que lhe s&atilde;o indispensaveis.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c6" id="c6"></a>
+<h3>VI<br />
+
+<br />
+
+A IMMIGRA&Ccedil;&Atilde;O PORTUGUESA
+</h3>
+
+<br />
+
+Ha porventura melhor immigrante do que o portugu&ecirc;s?
+Direi, sem receio de contradicta, que, para o
+Brasil, &eacute; o melhor, apezar das
+condi&ccedil;&otilde;es especiaes em
+que tem estado a nossa patria quanto &aacute;
+instruc&ccedil;&atilde;o publica.
+<br />
+
+<br />
+
+No Annuario de Estatistica demographo-sanitaria
+de 1895, Bulh&otilde;es Carvalho, ali&aacute;s nem sempre justo
+com a nossa colonia, reconhece que o portugu&ecirc;s &eacute; o
+immigrante &laquo;que tem mais inclina&ccedil;&atilde;o
+para se fixar no
+paiz&raquo;. &Eacute; certo. Patriota at&eacute; onde
+p&oacute;de elevar-se esse
+sentimento, o portugu&ecirc;s, em regra, n&atilde;o se
+naturaliza.
+Affei&ccedil;&ocirc;a-se ao novo domicilio; n&atilde;o
+elege nova patria.
+N&atilde;o significa o seu proceder menos estima ao Brasil,
+sen&atilde;o mais acendrado am&ocirc;r a Portugal. Para elle ha
+um paiz sem egual: &eacute; o seu, que n&atilde;o tem defeitos,
+que
+&eacute; o mais intr&eacute;pido e o mais feliz do mundo...
+<br />
+
+<br />
+
+O sentimento exalta-se-lhe com a distancia. A
+recorda&ccedil;&atilde;o
+dos mais tenros annos amplifica a sua vis&atilde;o
+<span class="pagenum">[42]</span>
+saudosa. Mas &eacute; preciso reconhecer que, mesmo quando
+rev&ecirc; a sua terra, a nossa, t&atilde;o bella e
+t&atilde;o infeliz, a d&ocirc;r
+que lhe causa o descalabro geral n&atilde;o consegue arrancar-lhe
+do intimo esse ardente am&ocirc;r. P&oacute;de a evidencia
+dos factos transformar-lhe as aspira&ccedil;&otilde;es,
+rasgar-lhe
+horisontes fulgentes para o lado que antes se lhe affigurava
+caliginoso.
+<br />
+
+<br />
+
+Que importa? O seu sonho &eacute; a felicidade de Portugal.
+E ou tenha visto e sentido o mal, ou tenha ficado
+alheio &aacute; verdade da situa&ccedil;&atilde;o
+portuguesa, permanece
+portugu&ecirc;s.
+<br />
+
+<br />
+
+O seu domicilio &eacute; que j&aacute; n&atilde;o
+&eacute; Portugal. A sua
+vida, em geral, adaptou-se ao meio brasileiro. Fixou-se.
+A sua pr&oacute;le &eacute; brasileira; os costumes, que
+contrahiu,
+criaram-lhe segunda natureza.
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil s&oacute; lhe p&oacute;de ser grato porque elle lhe
+d&aacute;
+o seu trabalho indefesso e honrado e porque os seus filhos
+s&atilde;o brasileiros. Elle cumpre a miss&atilde;o do homem
+que se expatria para melhorar de fortuna.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o concordamos com a affirma&ccedil;&atilde;o de
+Bulh&otilde;es Carvalho,
+no Annuario referido, quanto &aacute; pretendida tendencia
+dos portugueses para afastarem, dos logares em
+que dominam, qualquer outro elemento estrangeiro.
+Existem, &eacute; certo, nucleos de portugueses e em alguns
+pontos p&oacute;de um exame superficial permittir a
+supposi&ccedil;&atilde;o
+de que se encontram s&oacute;s por haverem expellido
+os outros immigrados. N&atilde;o &eacute; essa a
+raz&atilde;o do phenomeno,
+que tambem se manifesta com os italianos, os
+allem&atilde;es e os hespanhoes. Um inquerito minucioso
+demonstraria
+que esses agrupamentos n&atilde;o se limitam &aacute;s
+na&ccedil;&otilde;es, descem &aacute;s provincias,
+&aacute;s regi&otilde;es e at&eacute; &aacute;s villas
+e aldeias. N&atilde;o se comprehenderia a immigrac&atilde;o
+espontanea,
+que n&atilde;o &eacute; quantidade desprezivel, sem o
+reencontro
+de parentes, visinhos e conhecidos. Um parte
+porque o outro partiu antes. Assim se congregam os
+trabalhadores em todos os paizes americanos. Assim
+tinha de acontecer com os nossos patricios no Brasil.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[43]</span>
+For&ccedil;oso &eacute; convir que o director geral da
+Estatistica
+tem raz&atilde;o quando affirma que &laquo;o progresso na
+industria,
+no commercio, nas letras e nas artes &eacute; mais
+bem representado por outros povos do que pelo velho
+Portugal com as suas grandiosas tradi&ccedil;&otilde;es
+historicas&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha mist&eacute;res para todos, mesmo para os mais atrazados,
+num paiz novo: os mais humildes cabem aos
+menos preparados para a lucta pela vida. O accrescimo
+physiologico n&atilde;o soffre com essa inferioridade. O que
+&eacute; claro &eacute; que dahi decorre a imminente
+subalterniza&ccedil;&atilde;o
+da nossa colonia. O aviso do distincto funccionario brasileiro
+mereceria a nossa gratid&atilde;o official, se acaso nas
+regi&otilde;es do poder se olhasse a s&eacute;rio para os
+interesses
+nacionaes. &Eacute; um brado affectuoso: &laquo;Olhae para os
+vossos competidores. Defendei-vos!&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Defender nos... Como havemos de nos defender,
+se o regimen tem medo do <em>a b c</em> ?
+<br />
+
+<br />
+
+A miseria impelle para o mar os camponios analphabetos
+e elles l&aacute; v&atilde;o, her&oacute;es obscuros,
+trabalhar
+pela Patria! E como trabalham alegres, confiantes e
+esperan&ccedil;ados!
+<br />
+
+<br />
+
+A America, disse um publicista italiano, &eacute;, pelo
+menos, a esperan&ccedil;a. A esperan&ccedil;a move os que
+emigram,
+e emigra quem &eacute; capaz de luctar, quem se sente
+disposto a n&atilde;o mendigar e a n&atilde;o morrer de fome.
+&Eacute; a
+regra, com as naturaes excep&ccedil;&otilde;es. Ora, sendo
+assim,
+os povos emigrantistas perdem energias preciosas, que
+n&atilde;o sabem ou n&atilde;o podem utilizar, e que, bem ou
+mal,
+feliz ou infelizmente, s&atilde;o compensadas pelas remessas
+de dinheiro e pelo consumo dos seus productos.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; o nosso caso. L&eacute;vas de emigrantes
+v&atilde;o para o
+Brasil, onde se fixam e de onde nos auxiliam.
+<br />
+
+<br />
+
+Conv&eacute;m ao Brasil o trabalhador portugu&ecirc;s?
+Conv&eacute;m,
+pelas affinidades dos dois povos, e principalmente
+porque, gra&ccedil;as a essas affinidades, &eacute; o que mais
+se fixa
+no paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+Todavia o elemento emigratorio portugu&ecirc;s &eacute;
+insufficiente
+<span class="pagenum">[44]</span>
+para o povoamento do Brasil. Se constituissemos
+uma grande massa humana, mesmo atrazada e de
+pequena cultura, o Brasil n&atilde;o recorreria a outras
+ra&ccedil;as.
+N&atilde;o temos, por&eacute;m, seis milh&otilde;es de
+habitantes...
+<br />
+
+<br />
+
+A colonia portugu&ecirc;sa no Brasil, cuja importancia
+se nos affigura tanto maior quanto menor &eacute; o numero
+dos que a comp&otilde;em e acodem, ao nosso balan&ccedil;o
+economico,
+est&aacute; muito &aacute;quem dos dois milh&otilde;es a
+que o
+rei D. Carlos se referiu.
+<br />
+
+<br />
+
+Os dados estatisticos que pud&eacute;mos colher e conferir
+em documentos officiaes dos dois paizes d&atilde;o as seguintes
+entradas de portugu&ecirc;ses nos annos de 1890 a 1908,
+e s&atilde;o os de maior emigra&ccedil;&atilde;o de
+Portugal:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 15%;">1890</td>
+
+ <td style="width: 40%;">
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="width: 20%; text-align: right;">25.174</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1891</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">32.349</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1892</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">17.797</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1893</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">28.989</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1894</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">25.773</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1895</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;"> 40.390</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1896</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">23.998</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1897</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">17.793</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1898</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">20.131</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1899</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">13.348</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1900</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">14.493</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1901</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">14.489</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1902</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">15.003 </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1903</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">14.527</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1904</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">21.448</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1905</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">24.815</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1906</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">26.147</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1907</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">31.483</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1908</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">37.628</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">
+ <hr style="margin-left: auto; margin-right: 0px;" /></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">445.775</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Nos 19 annos de maior movimento emigratorio de
+Portugal, entraram, pois, no Brasil 445.775 portugueses.
+<span class="pagenum">[45]</span>
+A m&eacute;dia annual do periodo de maior
+emigra&ccedil;&atilde;o
+&eacute;, segundo esses algarismos, de 23.461 pessoas. Se
+imaginarmos que o portugu&ecirc;s vive no Brasil at&eacute; a
+edade de 70 annos&#8213;o que &eacute; absurdo; se suppuzermos
+que a edade em que se emigra &eacute; de 11 annos&#8213;outro
+exagero; se admittirmos&#8213;novo absurdo&#8213;que
+nenhum portugu&ecirc;s morreu desde 1850, no Brasil, nem
+de l&aacute; voltou; e se, afinal, dermos de barato que ha 59
+annos a m&eacute;dia dos immigrantes nossos patricios &eacute;
+alli
+a dos ultimos annos (e nos 40 annos de 1850 a 1889 foi
+muito menor) poderemos dizer que ha no Brasil:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">59 X 23.461 =
+1.384.199 portugueses.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Muito menos do que os taes dois milh&otilde;es. Ora, o
+retorno &eacute; de 25% a 30%; a edade m&eacute;dia dos
+emigrantes
+&eacute; 28 annos; a m&eacute;dia da vida &eacute; de 65
+annos; e
+em 1906, depois do saneamento, a m&eacute;dia da mortalidade
+no Brasil foi de 20,74 por mil habitantes.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; em um artigo de imprensa<sup><a href="#f7">[7]</a></sup>
+tiv&eacute;mos
+occasi&atilde;o
+de dizer que a m&eacute;dia da emigra&ccedil;&atilde;o
+portuguesa para
+o Brasil n&atilde;o excede 18.000 e que o total da nossa colonia
+n&atilde;o chega a 700.000 pessoas. Diziamos, ent&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Isto n&atilde;o diminue, sen&atilde;o que augmenta o
+beneficio
+feito pelos portugueses domiciliados no Brasil &aacute; economia
+da sua patria, visto que s&atilde;o menos a mandarem
+esses 18.000 contos de r&eacute;is, que s&atilde;o, segundo o
+sr.
+Anselmo de Andrade, a nossa salva&ccedil;&atilde;o, o
+&laquo;dinheiro
+que melhor nos serve para saldar a parte do deficit
+geral em ouro que o dinheiro das outras proveniencias
+deixa a descoberto&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+E depois de analysar as avultadas remessas que os
+colonos de todas as origens fazem, concluiamos:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&Eacute; evidente que esta
+situa&ccedil;&atilde;o economica &eacute; transitoria.
+<span class="pagenum">[46]</span>
+Um paiz em forma&ccedil;&atilde;o, como o Brasil, cujo
+povoamento
+se est&aacute; fazendo com intensas correntes immigratorias,
+tem de pensar em impedir este escoamento
+de ouro, que lhe sangra constantemente as energias.
+Quer por institui&ccedil;&otilde;es legaes tendentes a
+nacionalizar
+os estrangeiros, quer por medidas que fixem o colono
+&aacute; terra tornada sua, quer finalmente por providencias
+de franca defesa, esse &eacute; o caminho de todos os povos
+para cujo rapido crescimento &eacute; aproveitado o excesso
+de popula&ccedil;&atilde;o ou de pobreza de outros
+paizes&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c7" id="c7"></a>
+<h3>VII<br />
+
+<br />
+
+A PERMUTA COMMERCIAL
+</h3>
+
+<br />
+
+A unica raz&atilde;o s&oacute;lida que hoje determina os
+tratados
+de commercio e, portanto, os favores que as
+na&ccedil;&otilde;es fazem umas &aacute;s outras,
+&eacute; a capacidade que
+ellas offerecem para o consumo reciproco de
+produc&ccedil;&otilde;es.
+Estamos longe dos tempos em que n&atilde;o se
+realizavam estes pactos por motivos utilitarios, mas
+por m&eacute;ras combina&ccedil;&otilde;es derivadas de
+rela&ccedil;&otilde;es dynasticas.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos nossos dias prevalece a reciprocidade, tanto
+quanto tal criterio p&oacute;de ser adoptado para
+popula&ccedil;&otilde;es
+deseguaes, de habitos differentes e de produc&ccedil;&otilde;es
+em
+parte similares ou identicas, e tanto quanto o permittem
+as distancias entre os concorrentes, distancias que
+influem no custo dos transportes e, em ultima analyse,
+no dos artigos.
+<br />
+
+<br />
+
+Fala-se de ha muito e a proposta apresentada &aacute;
+Sociedade de Geographia agora insiste na necessidade
+de um tratado de commercio com o Brasil. N&atilde;o querendo
+<span class="pagenum"><a name="p48" id="p48">[48]</a></span>
+entrar em conjecturas, parece-nos que essa
+aspira&ccedil;&atilde;o
+exige minucioso estudo, antes do julgamento
+das difficuldades oppostas at&eacute; aqui &aacute; sua
+realiza&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Apesar de tudo quanto dizem os politicos de
+solu&ccedil;&otilde;es
+retumbantes, <a href="#e2">a nossa</a>
+produc&ccedil;&atilde;o gosa de
+tratamento
+amistoso no Brasil. Ha annos, quando o sr.
+Campos Salles foi presidente da Republica, o ministro
+das rela&ccedil;&otilde;es exteriores ia enveredando por um
+caminho
+que, sem fundamentos consistentes, tendia &aacute; exigencia
+de fortes augmentos de consumo.
+<br />
+
+<br />
+
+Era impossivel tal coisa; e logo se adoptou
+orienta&ccedil;&atilde;o
+mais logica, deixando o Brasil, que consumia
+bastante do Uruguay e de Portugal e pouco lhes vendia,
+de pensar em levar a exporta&ccedil;&atilde;o dos seus artigos
+para esses paizes a propor&ccedil;&otilde;es compensadoras,
+reconhecendo
+que os seus generos exportaveis eram de
+natureza impropria a operar esse equilibrio.
+<br />
+
+<br />
+
+O que os factos nos dizem &eacute; que o brasileiro, de
+origem lusa ou exotica, tem o habito de consumir os
+productos da nossa terra. Esses productos possuem,
+por isso uma situa&ccedil;&atilde;o realmente privilegiada no
+mercado
+brasileiro. Tanto basta para que, na competencia
+com os outros povos, tenhamos&#8213;como temos, de facto&#8213;vantagens
+indiscutiveis.
+<br />
+
+<br />
+
+A actual situa&ccedil;&atilde;o da permuta commercial entre os
+dois paizes deixa muito a desejar. O Brasil podia importar
+muito maior volume de productos portugueses
+e Portugal podia consumir mais productos brasileiros
+e preparar-se para vir a ser cliente muito maior ainda
+da na&ccedil;&atilde;o irman.
+<br />
+
+<br />
+
+No anno de 1906, ultimo de que temos dados officiaes
+para confrontar com os do Brasil (de onde ja possuimos
+os de 1907 e 1908) os principaes artigos de l&aacute;
+exportados foram:
+<br />
+
+<br />
+
+Algod&atilde;o, 31.668 toneladas; areias monaziticas 4.352
+tonel.; assucar, 84.948 tonel.; borracha, 31.643 tonel.;
+<span class="pagenum">[49]</span>
+caf&eacute;, 13.965.000 saccas<sup><a href="#f8">[8]</a></sup>;
+cac&aacute;o, 25.135 tonel.;
+farinha
+de mandioca, 6.644 tonel.; tabaco, 23.630 tonel.; herva
+matte, 57.796 tonel.; manganez, 121.331 tonel.; caro&ccedil;os
+(oleaginosos) 30.904 tonel.; couros, 32.765 tonel.;
+ouro nativo, 4.548 kilogrammas.
+<br />
+
+<br />
+
+O nosso consumo de artigos brasileiros cresceu de
+244.549 libras esterlinas a 312.755 ou 27,89%, de 1901
+para 1906; mas o consumo dos nossos no Brasil cresceu
+mais intensamente: cresceu 34%, ao que se v&ecirc; do
+relatorio das finan&ccedil;as relativo a 1907.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se p&oacute;de, portanto, gritar que o trafico
+luso-brasileiro
+dec&aacute;e: m&eacute;dra e de maneira sensivel.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, querendo n&oacute;s, como se diz todos os dias, melhorar
+essas rela&ccedil;&otilde;es por um convenio commercial com
+o Brasil, e, n&atilde;o sendo licito, hoje, negociar taes
+instrumentos
+diplomaticos sem clara no&ccedil;&atilde;o das reciprocas
+concess&otilde;es, occorre naturalmente investigar o que podemos
+offerecer e o que pedimos, o que o Brasil nos
+offereceria e o que desejaria.
+<br />
+
+<br />
+
+Visto que a iniciativa nos pertence, vejamos o que
+podemos offerecer e o que queremos conseguir.
+<br />
+
+<br />
+
+Analysemos a produc&ccedil;&atilde;o brasileira exportavel
+neste
+momento: comp&otilde;e-se dos artigos que acima
+mencion&aacute;mos
+com as quantidades respectivas. Olhemos para a
+nossa estatistica de 1906.
+<br />
+
+<br />
+
+1.&ordm; <em>Algod&atilde;o.</em>
+Import&aacute;mos n'esse anno 13.013 toneladas,
+no valor de 3.123 contos, de algod&atilde;o em rama
+ou em caro&ccedil;o. Tendo industria de algod&atilde;o, e
+industria
+protegida pela tarifa, s&oacute; poderiamos importar do Brasil
+a materia prima, a rama. O Brasil n&atilde;o est&aacute; em
+condi&ccedil;&otilde;es
+de exportar fios e tecidos de algod&atilde;o visto que
+ainda os importa. Da sua materia prima, 85% tem
+mercado na Inglaterra. Os 15% restantes destinam-se
+a outros paizes manufactureiros. A sua produc&ccedil;&atilde;o
+p&oacute;de
+<span class="pagenum">[50]</span>
+crescer muito; mas poderemos n&oacute;s adquirir quantidade
+sensivel desse accrescimo? Eis o que conv&eacute;m saber.
+Note-se que, em 1906, os 15% do algod&atilde;o n&atilde;o
+collocado
+na Inglaterra montavam em 4.752 toneladas, das
+quaes Portugal importava 4.717&#8213;quasi o total dos
+15%.
+<br />
+
+<br />
+
+As nossas colonias come&ccedil;am a cultivar o algod&atilde;o.
+Em 1906 recebemos: de Angola, 55.493 kilos; de Mo&ccedil;ambique,
+1.491 e da India, 2.600.
+<br />
+
+<br />
+
+2.&ordm; <em>Areias monaziticas.</em> Os
+seus mercados ser&atilde;o,
+por muitos annos, a Gran-Bretanha e a Allemanha.
+<br />
+
+<br />
+
+3.&ordm; <em>Assucar.</em> Temol-o das
+colonias. Consumimos,
+em globo, 32.700 toneladas. O assucar colonial tem
+auxilio pautal. Em 1906 recebemos das colonias quantidade
+insignificante; mas o desenvolvimento da lavoura
+da canna nas colonias, em especial na de Mo&ccedil;ambique,
+&eacute; consideravel. Nesse anno, do Brasil recebemos 159
+toneladas. Para a exporta&ccedil;&atilde;o brasileira, que
+tende a
+crescer muito, o nosso mercado seria bom. Este genero,
+apezar da produc&ccedil;&atilde;o colonial, p&oacute;de
+entrar nas bases
+de uma negocia&ccedil;&atilde;o intelligente, n&atilde;o
+para escorra&ccedil;ar
+de golpe os demais fornecedores, mas para ir modificando
+a situa&ccedil;&atilde;o das permutas no sentido de garantir
+parte do nosso mercado ao Brasil.
+<br />
+
+<br />
+
+4.&ordm; <em>Borracha.</em> O nosso
+consumo n&atilde;o &eacute; em bruto e
+&eacute; pequeno. A produc&ccedil;&atilde;o colonial tende
+a avolumar-se,
+em especial a de Angola e Guin&eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+5.&ordm; <em>Caf&eacute;.</em> O
+consumo portugu&ecirc;s em 1906 n&atilde;o chegou
+a 3.103 toneladas, sendo do Brasil quasi 460 toneladas.
+Das colonias exportaram-se, para outros pa&iacute;zes,
+4.177 toneladas, que, com 2.388, consumidas no
+reino, representam uma produc&ccedil;&atilde;o colonial
+superior ao
+dobro do consumo.
+<br />
+
+<br />
+
+Portugal &eacute; um dos pa&iacute;zes de menor consumo de
+caf&eacute;, <em>per capita</em>. Tendo
+menos de seis milh&otilde;es de habitantes,
+pode dizer-se que cada portugu&ecirc;s n&atilde;o consome
+mais do que meio kilo de caf&eacute; por anno. Se o consumo
+<span class="pagenum">[51]</span>
+subisse ao dobro, o caf&eacute; colonial sobraria ainda.
+Na Allemanha o consumo &eacute; de 3 kilos por habitante.<sup><a href="#f9">[9]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+6.&ordm; <em>Cacau.</em> A nossa
+produc&ccedil;&atilde;o, em 1906, de vinte
+e cinco mil toneladas, foi egual &aacute; do Brasil. O nosso
+consumo or&ccedil;ou por 145 toneladas, das quaes s&oacute; uma
+procedia do Brasil.
+<br />
+
+<br />
+
+7.&ordm; <em>Farinha de pau.</em>
+Import&aacute;mos, em 1906, para
+consumo quasi 1.364 toneladas, n&atilde;o chegando a uma
+tonelada a parte proveniente de f&oacute;ra do Brasil. &Eacute;
+consideravel,
+mesmo para a exporta&ccedil;&atilde;o desse pa&iacute;z.
+<br />
+
+<br />
+
+8.&ordm; <em>Tabaco.</em> O consumo
+&eacute; importante. Est&aacute; naturalmente
+indicado para a exporta&ccedil;&atilde;o brasileira o nosso
+mercado. Aqui est&aacute; um artigo em que poderiamos
+offerecer vantagens ao Brasil, que, directamente pelo
+menos, nos fornece pouco, sob o actual regimen de
+exclusivo.
+<br />
+
+<br />
+
+9.&ordm; <em>Herva matte.</em> Consumo
+inaprehensivel, mas que
+se podia criar, substituindo parte do ch&aacute;, que entrou
+no paiz por um valor de 315 contos no anno de 1906.
+<br />
+
+<br />
+
+10.&ordm; <em>Manganez.</em> O seu
+mercado &eacute; a Inglaterra.
+<br />
+
+<br />
+
+11.&ordm; <em>Caro&ccedil;os</em>
+(oleaginosos). Consumimos 20.812
+toneladas, das quaes perto de 11.000 s&atilde;o das colonias.
+Devia se encaminhar a exporta&ccedil;&atilde;o brasileira para
+Portugal,
+onde ella foi representada, em 1906, por 11 toneladas.
+<br />
+
+<br />
+
+12.&ordm; <em>Couros.</em> O Brasil
+est&aacute; batendo, em Portugal,
+os mais concorrentes; sobre 2.371 toneladas de pelles
+diversas que import&aacute;mos, em 1906, pertenciam-lhe
+1.040.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[52]</span>
+13.&ordm; <em>Ouro nativo.</em>
+&Eacute; insignificantissima a entrada.
+A exporta&ccedil;&atilde;o brasileira &eacute; para a
+Inglaterra.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m destes artigos exporta o Brasil muitos outros
+em menor escala. Desses, diremos quaes podem ser
+dirigidos, ap&oacute;s as negocia&ccedil;&otilde;es
+precisas, para Portugal,
+enumerando-as pela nossa pauta:
+<br />
+
+<br />
+
+Fibras texteis; fructas; canhamo em rama; madeira
+em bruto (genero em que o Brasil podia e devia quasi
+monopolizar o nosso mercado); madeira das diversas
+categorias da pauta; paus, raizes e cascas c&oacute;rantes;
+milho (cuja produc&ccedil;&atilde;o cresce espantosamente no
+Brasil);
+amido em p&oacute;; especiarias; mela&ccedil;o; mariscos;
+carne secca e em conserva&#8213;al&eacute;m de outros que dentro
+em pouco tempo o Brasil poder&aacute; exportar, como o arroz.
+<br />
+
+<br />
+
+Offerecemos pouco? N&atilde;o se nos affigura que o Brasil
+pense em obter de um paiz com a nossa popula&ccedil;&atilde;o
+o que seria licito esperar de vinte milh&otilde;es de habitantes.
+&Eacute; certo que o Brasil nos compra muito. Em 1906
+o vinho entrado no Brasil representou 1.628:854 libras
+esterlinas: a metade dessa quantia coube ao nosso paiz.
+&Eacute; consideravel, sem duvida. O Brasil nesse anno consumiu,
+da nossa exporta&ccedil;&atilde;o global de 908.492
+hectolitros,
+435.652&#8213;quasi metade! A popula&ccedil;&atilde;o portuguesa,
+se todo o seu mercado pertencesse ao caf&eacute; brasileiro,
+n&atilde;o representaria mais do que 60.000 saccas de
+consumo, e se este subisse ao triplo, n&atilde;o chegaria a
+200.000 saccas, quantidade que n&atilde;o pesaria sobre uma
+exporta&ccedil;&atilde;o que anda por 13 milh&otilde;es de
+saccas...
+<br />
+
+<br />
+
+Exigir de Portugal, com menos de seis milh&otilde;es de
+habitantes, compensa&ccedil;&otilde;es que s&oacute; com
+dezoito ou vinte
+milh&otilde;es poderia dar, f&ocirc;ra absurdo. N&atilde;o
+ha que receiar
+que o Brasil pense em semelhante coisa. O grande perigo
+reside na perda da nossa clientella pela concorrencia
+dos outros productores de generos similares, pela
+falta de perfei&ccedil;&atilde;o do preparo e do
+acondicionamento
+dos nossos e pela inefficacia da nossa
+organiza&ccedil;&atilde;o mercantil.
+A esse risco acudiriam algumas das id&eacute;as lembradas
+<span class="pagenum">[53]</span>
+pelo sr. Consiglieri Pedroso, na sua proposta e,
+dentre ellas, citaremos as constantes das
+<em>alineas</em> 1.&ordf;,
+4.&ordf;, 6.&ordf; e 9.&ordf;.<sup><a href="#f10">[10]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+Quanto ao conselho da <em>alinea</em>
+3.&ordf; discordamos delle
+por completo. Porque entendemos que o tratado de
+commercio, ou como se lhe queira chamar, n&atilde;o
+p&oacute;de,
+em hypothese alguma, dar-nos &laquo;vantagens especiaes
+que n&atilde;o sejam attingidas pela clausula de
+na&ccedil;&atilde;o mais
+favorecida&raquo; concedida pelo Brasil a outros paizes. Sem
+poder citar os accordos que o Brasil tem, julgamos,
+todavia, manifesto que, se os tem com concorrentes
+nossos, n&atilde;o seria possivel collocar esses competidores
+de Portugal em tamanha inferioridade. Por qu&ecirc;? Pela
+raz&atilde;o singela de que <em>business is
+business</em> e elles s&atilde;o
+maiores compradores dos generos brasileiros do que
+Portugal...
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se leve &aacute; conta de mau patriotismo esta
+franqueza.
+Julgamos que n&atilde;o faremos coisa alguma neste
+terreno se procurarmos favores especiaes, que ponham
+em perigo interesses collossaes do Brasil...
+<br />
+
+<br />
+
+Cumpre estudar o problema, nos seus termos de
+puro negocio e n&atilde;o esquecer que a nossa vantagem,
+aquella que nenhum outro povo p&oacute;de ter, &eacute;
+s&oacute; isto: o
+Brasil prefere os nossos productos, como qualquer
+pess&ocirc;a vae &aacute; loja de um negociante, porque o
+estima
+mais do que aos seus concorrentes.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c8" id="c8"></a>
+<h3>VIII<br />
+
+<br />
+
+A SITUA&Ccedil;&Atilde;O REAL
+</h3>
+
+<br />
+
+O Brasil &eacute; o melhor dos grandes freguezes da nossa
+produc&ccedil;&atilde;o exportavel.
+<br />
+
+<br />
+
+Em 1906, ao passo que para a Inglaterra exportavamos
+11.440 contos, para a Allemanha 6.651 e para
+a Hespanha 6.290, mandavamos para o Brasil 5.961
+contos.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas, em compensa&ccedil;&atilde;o destas vendas, compravamos
+ao Brasil s&oacute; 1.965 contos que, com os generos em
+transito, baldea&ccedil;&atilde;o e
+reexporta&ccedil;&atilde;o, ascendiam a 2.025
+contos; e dos outros paizes recebiamos, em contos de
+r&eacute;is:
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" class="tablecenter" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 30%;">Inglaterra</td>
+
+ <td style="width: 40%;">
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="width: 20%; text-align: right;">19.864</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Allemanha</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">11.173</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Hespanha</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">5.948</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Da Fran&ccedil;a import&aacute;mos 6.836 contos contra uma
+<span class="pagenum">[56]</span>
+exporta&ccedil;&atilde;o de 1.299, e dos Estados-Unidos 4.960
+contos
+contra 974 de exporta&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil foi, pois, ent&atilde;o, o que sempre tem sido, o
+nosso melhor freguez. Ao crescimento do commercio
+universal com o Brasil &eacute; que n&atilde;o corresponde a
+nossa
+exporta&ccedil;&atilde;o actual.
+<br />
+
+<br />
+
+Do relatorio do sr. David Campista, ministro da
+fazenda do Brasil<sup><a href="#f11">[11]</a></sup>,
+em 1907, resulta que de 1902
+para 1906 a importa&ccedil;&atilde;o proveniente de Portugal
+cresceu
+34,9%, contra o augmento, em egual periodo, de:
+35,6% para a do Chile; 41,8% para a da Gran-Bretanha;
+45,6% para a da Hespanha; 49,5% para a da
+Fran&ccedil;a; 68,4% para a da Argentina; 83% para a da
+Allemanha; 86,5% para a da Suissa; e 132,5% para
+a da Belgica.
+<br />
+
+<br />
+
+Os valores livres no Brasil, em mil r&eacute;is, ouro,
+moeda brasileira, d&atilde;o, no anno de 1906, os algarismos
+seguintes para essa importa&ccedil;&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; margin-left: 10%; margin-right: 10%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">Procedencias</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>
+ <div style="text-align: center;">Importa&ccedil;&atilde;o
+em<br />
+
+ </div>
+
+ <div style="text-align: center;">contos de
+r&eacute;is</div>
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 20%;">Portugal</td>
+
+ <td style="width: 20%;">
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="width: 20%; text-align: right;">19.330</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Chile</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">393</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Gran-Bretanha</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;"> 82.619</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Hespanha</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">2.379</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Fran&ccedil;a</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">27.176</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Argentina</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">31.190</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Allemanha</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">43.316</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Suissa</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">2.660</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Belgica</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">11.432</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Italia</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;"> 9.274</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Bastaria este quadro para n&atilde;o acreditarmos que os
+outros paizes emigrantistas nos deslocaram, no fornecimento
+<span class="pagenum">[57]</span>
+de artigos similares aos nossos. A Italia, que &eacute;
+a maxima fonte da coloniza&ccedil;&atilde;o brasileira actual,
+teve,
+de 1902 a 1906, um augmento de 28,4% na sua
+exporta&ccedil;&atilde;o
+para o Brasil. E quanto exportou? 9.274 contos,
+em 1906&#8213;metade do que export&aacute;mos!
+<br />
+
+<br />
+
+A Hespanha, que fornece tambem muitos trabalhadores,
+tem uma exporta&ccedil;&atilde;o ainda insignificante para o
+Brasil.
+<br />
+
+<br />
+
+Da Austria-Hungria, que viu, de 1902 a 1906, crescer
+19,3% a sua exporta&ccedil;&atilde;o para o Brasil, de 4.556
+contos de valor, a corrente emigratoria com o mesmo
+destino egualmente &eacute; importante.
+<br />
+
+<br />
+
+Dessas na&ccedil;&otilde;es s&oacute; podemos considerar
+concorrentes,
+por terem varios artigos similares aos nossos, a
+Fran&ccedil;a, a Hespanha, a Italia e a Austria-Hungria.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, que nos diz o estatistica brasileira? Diz-nos
+que, em 1906, a exporta&ccedil;&atilde;o, para o nosso e para
+esses
+paizes, foi:
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">Destino</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Valor
+em
+&pound;</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Augmento
+ou<br />
+
+diminui&ccedil;&atilde;o de 1901<br />
+
+para 1906</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Fran&ccedil;a</td>
+
+ <td style="text-align: right;">6.507.470</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">36,66%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Hespanha</td>
+
+ <td style="text-align: right;">196.839</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">217,61%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Italia</td>
+
+ <td style="text-align: right;">510.118</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;"> 34,90%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Austria-Hungria</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1.821.959</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">60,58%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Portugal</td>
+
+ <td style="text-align: right;">312.755</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">27,89%</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+Isto quer dizer que, de todos esses paizes, aquelle
+que manifesta menos tendencias para augmentar o consumo
+dos productos brasileiros &eacute; o nosso. Falam os
+numeros, affirma-o a estatistica, que, como diz o professor
+Rodolfo Benini, &eacute; o unico meio de verificar nos
+phenomenos collectivos o que ha de typico na variedade
+dos casos, de constante na variabilidade, de mais
+provavel no apparente acaso, e de decomp&ocirc;r, at&eacute;
+onde
+<span class="pagenum">[58]</span>
+o methodo o permitte, o systema das causas ou for&ccedil;as
+de que taes phenomenos s&atilde;o resultantes...<sup><a href="#f12">[12]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha que negar a conclus&atilde;o: a estatistica
+&eacute; o
+unico processo logico de estudo dos phenomenos sociaes,
+pond&eacute;ra Rameri.<sup><a href="#f13">[13]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil est&aacute;, portanto, deante de varios paizes,
+como productor que precisa de escoadouros para os
+seus artigos. O que tem de medir, n&atilde;o nos illudamos
+com devaneios romanticos, &eacute; a capacidade acquisitiva,
+que ha nesses paizes, para os seus productos. Porque
+produzir presupp&otilde;e a id&eacute;a de vender. Porque
+vender
+implica a existencia de quem compre...
+<br />
+
+<br />
+
+O utilitarismo n&atilde;o &eacute; uma doutrina, no sentido
+philosophico
+da palavra. &Eacute; uma necessidade, &eacute; uma
+imposi&ccedil;&atilde;o
+da lucta pela vida. Para n&atilde;o morrer &eacute; preciso
+a qualquer povo guiar-se por necessidades uteis,
+nunca deixar de ter em vista os seus interesses e conveniencias.
+O utilitarismo &eacute; o systema que a experiencia
+aconselha aos povos, que querem viver nesta hora
+da evolu&ccedil;&atilde;o humana, para as suas
+rela&ccedil;&otilde;es com os
+outros povos.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Deinde philosophari...</em> Sejamos
+francos. Concordemos
+em que n&atilde;o nos move o receio da
+desnacionaliza&ccedil;&atilde;o
+do Brasil, que n&atilde;o nos amea&ccedil;a porque
+n&atilde;o
+amea&ccedil;a o Brasil; mas sim o presentimento de que as
+rela&ccedil;&otilde;es economicas desse grande mercado
+est&atilde;o evolvendo
+de modo que nos poder&aacute; vir a ser desvantajoso.
+<br />
+
+<br />
+
+Tratemos, em summa, de nos salvar e deixemo-nos
+de fantasias salvadoras em beneficio alheio.
+<br />
+
+<br />
+
+Deante do crescimento espantoso das energias do
+povo brasileiro, o nosso mal &eacute; a
+estagna&ccedil;&atilde;o em todas
+as f&oacute;rmas da actividade humana. S&oacute; o poder enorme
+dos elementos estaticos das sociedades e a resistencia
+<span class="pagenum">[59]</span>
+da inercia social explicam a posi&ccedil;&atilde;o que ainda
+temos
+no commercio do Brasil. N&oacute;s, pelos nossos governos
+e pela nossa imprevidencia, gra&ccedil;as &aacute; autophagia
+historica que permitte que nos alimentemos de
+glorias de um passado visto por n&oacute;s ao bruxolear da
+mais pallida lamparina critica de que ha exemplo, e
+gra&ccedil;as ao espirito providencialista de latinos communarios,
+tudo fiz&eacute;mos, ou deix&aacute;mos de fazer, para perder
+essa posi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Neste momento, o que nos cumpre &eacute; reconhecer o
+feliz conjuncto de circumstancias de v&aacute;ria ordem que
+ainda sustenta esse estado de coisas e aproveital-o,
+com energias, que h&atilde;o de ser creadas, com intelligencia,
+que precisa ser educada, e com bom-senso, que
+unicamente os factos p&oacute;dem nortear.
+<br />
+
+<br />
+
+Aspirar a grandezas e prosperidades e preparal-as
+com elementos de ruina e pobreza &eacute; simples e puramente
+um absurdo, de que deveriamos esperar, como
+resultado, o suicidio nacional.
+<br />
+
+<br />
+
+Ser patriota n&atilde;o &eacute; rufar tambores de preconicio
+em
+torno dos desvarios da patria. &Eacute;, antes, mostrar, sem
+medo de affrontar alheias opini&otilde;es e sem intuitos de
+captar popularidade, os vicios e erros proprios, para
+que tenham, na medida do possivel, remedios efficazes.
+Nenhum povo se deixa levar por boas palavras, mas
+pelas suas conveniencias e pelos seus interesses, com
+a restric&ccedil;&atilde;o natural do respeito pelas
+conveniencias e
+interesses justos dos outros.
+<br />
+
+<br />
+
+A perda do mercado brasileiro seria, hoje, para
+Portugal, a ruina. Confessemol-o. Por que n&atilde;o, se
+&eacute; a
+verdade? Ruina definitiva? N&atilde;o vem a pello discutir se
+o seria. Basta que saibamos que seria, neste momento,
+a ruina, para que o nosso dever seja evitar essa contingencia
+aterradora.
+<br />
+
+<br />
+
+Embora tenhamos de nos preparar para um futuro
+menos dependente de uma s&oacute; na&ccedil;&atilde;o,
+&eacute; de cr&ecirc;r que
+o Brasil continuar&aacute; a representar, para o nosso commercio
+<span class="pagenum">[60]</span>
+externo, cifras pelo menos eguaes &aacute;s presentes.
+<br />
+
+<br />
+
+No seu progresso e na sua expans&atilde;o economica e
+demographica, cabe bem &aacute; vontade a diminuta quota
+com que contribuimos. E ha muito logar para a augmentarmos.
+Assim saibamos e possamos fazel-o!
+<br />
+
+<br />
+
+Outro n&atilde;o &eacute; o perigo real, o perigo das coisas,
+est&aacute;
+claro...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c9" id="c9"></a>
+<h3>IX<br />
+
+<br />
+
+A NOSSA RA&Ccedil;A &laquo;AT WORK&raquo;
+</h3>
+
+<br />
+
+Permitta-se-nos, para a comprehens&atilde;o exacta, da
+importancia que o Brasil vae assumindo deante de todos
+os povos e do portugu&ecirc;s em especial, uma rapida
+analyse do seu desenvolvimento material, que explica
+ass&aacute;s a unanimidade de atten&ccedil;&otilde;es de
+que &eacute; objecto.
+<br />
+
+<br />
+
+A exporta&ccedil;&atilde;o do Brasil em 1889, anno em que caiu
+o imperio, foi de 24.160.000 libras esterlinas. Vejamos
+o que ella foi de 1901 a 1906.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" class="tablecenter" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 25%; text-align: center;">Annos</td>
+
+ <td style="width: 20%;"></td>
+
+ <td style="width: 40%; text-align: center;">Valores
+em libras</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">1901</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: center;">40.621.993</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">1902</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: center;">36.437.456</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">1903</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: center;">36.883.175</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">1904</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: center;">39.430.136</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">1905</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: center;">44.643.113</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">1906</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: center;"> 53.059.480</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Para avaliar a for&ccedil;a de expans&atilde;o productora dada
+&aacute;s
+<span class="pagenum">[62]</span>
+antigas provincias pela autonomia concedida pelo novo
+regimen federativo aos seus estados, basta que comparemos
+a exporta&ccedil;&atilde;o de 1901 com a de 1906. A
+differen&ccedil;a,
+n'esse curto espa&ccedil;o, &eacute; de pasmar. Vejamol-a:
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">Estados</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">Valores
+em
+&pound;</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Augmento<br />
+
+ou<br />
+
+diminui&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">1901</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1906</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Matto
+Grosso</td>
+
+ <td style="text-align: right;">356.180</td>
+
+ <td style="text-align: right;">376.023</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">5,57%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Amazonas</td>
+
+ <td style="text-align: right;">4.688.477</td>
+
+ <td style="text-align: right;">6.643.050</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">41,69%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Par&aacute;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">4.053.264</td>
+
+ <td style="text-align: right;">6.665.191</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">64,44%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Maranh&atilde;o e
+Piauhy</td>
+
+ <td style="text-align: right;">192.604</td>
+
+ <td style="text-align: right;">652.485</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">238,77%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cear&aacute;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">139.595</td>
+
+ <td style="text-align: right;">822.586</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">489,27%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Rio Grande do
+Norte</td>
+
+ <td style="text-align: right;">34.376</td>
+
+ <td style="text-align: right;">58.342</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">69,72%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Parahyba</td>
+
+ <td style="text-align: right;">92.561</td>
+
+ <td style="text-align: right;">540.535</td>
+
+ <td>+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">483,98%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pernambuco</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1.472.105</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1.333.127</td>
+
+ <td style="text-align: center;">-</td>
+
+ <td style="text-align: right;">9,44%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Alagoas</td>
+
+ <td style="text-align: right;">489.820</td>
+
+ <td style="text-align: right;">514.095</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">4,96%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sergipe</td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ <td style="text-align: right;">8.849</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Bahia</td>
+
+ <td style="text-align: right;">3.133.103</td>
+
+ <td style="text-align: right;">3.706.617</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">18,30%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Espirito
+Santo</td>
+
+ <td style="text-align: right;">553.195</td>
+
+ <td style="text-align: right;">784.726</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">41,85%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Rio de Janeiro e Minas</td>
+
+ <td style="text-align: right;">7.857.423</td>
+
+ <td style="text-align: right;">7.481.159</td>
+
+ <td style="text-align: center;">-</td>
+
+ <td style="text-align: right;">4,79%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>S.Paulo</td>
+
+ <td style="text-align: right;">16.140.742</td>
+
+ <td style="text-align: right;">20.282.593</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">25,66%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Paran&aacute;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">653.039</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1.310.832</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">100,73%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Santa
+Catharina</td>
+
+ <td style="text-align: right;">145.264</td>
+
+ <td style="text-align: right;">315.522</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">117,21%</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Rio Grande do
+Sul</td>
+
+ <td style="text-align: right;">620.247</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1.563.748</td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: right;">152,12%</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+S&oacute; diminuiu a exporta&ccedil;&atilde;o de dois
+estados: Rio de
+Janeiro e Pernambuco. &Eacute; devido este facto &aacute; baixa
+de
+um dos seus principaes artigos, o assucar, que de 71
+r&eacute;is, ouro, em 1901, passou a vender-se a 60
+r&eacute;is, em
+1906, por kilo. Apezar desta deprecia&ccedil;&atilde;o ser de
+15,59%, a diminui&ccedil;&atilde;o representou, para
+Pernambuco,
+9,44%, e, para o Rio de Janeiro, 4,79%, o que indica
+que houve augmento na exporta&ccedil;&atilde;o global.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Nesse periodo a importa&ccedil;&atilde;o, que significa a
+acquisi&ccedil;&atilde;o
+de conforto e de instrumentos de progresso, tambem
+teve sensivel marcha ascendente.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o houve estado em que a importa&ccedil;&atilde;o
+diminuisse
+de 1901 para 1906. Cresceu 31,9% na Bahia; 33,1%
+<span class="pagenum">[63]</span>
+em Pernambuco; 32,6% no Rio de Janeiro e Minas
+Geraes; 42,3% em S. Paulo; e 55,9% no Rio Grande
+do Sul&#8213;para citar s&oacute;mente os mais importantes da
+regi&atilde;o central e da do sul.
+<br />
+
+<br />
+
+Em globo, a importa&ccedil;&atilde;o cifra-se nos seguintes
+valores
+em libras esterlinas:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" class="tablecenter" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 25%;">1901</td>
+
+ <td style="width: 20%;">
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 40%;">21.377.270</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1902</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">23.279.418</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1903</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">24.207.810</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1904</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">25.918.428</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1905</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">29.830.050</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1906</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">33.204.041</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Estes algarismos cont&ecirc;m uma relevante
+indica&ccedil;&atilde;o e
+vem a ser que as facilidades de vida augmentaram,
+porque, n&atilde;o tendo havido, de 1901 a 1906, nem sequer
+dez por cento de crescimento na popula&ccedil;&atilde;o, houve
+augmento
+de mais de 50% na acquisi&ccedil;&atilde;o de artigos
+estrangeiros.
+<br />
+
+<br />
+
+O que, por&eacute;m, demonstra mais clara e elequentemente
+essa affirma&ccedil;&atilde;o &eacute; a
+importa&ccedil;&atilde;o de farinha de
+trigo. &Eacute; o que garante e prova que a vida melhora no
+Brasil.
+<br />
+
+<br />
+
+Com effeito, em 1901, a importa&ccedil;&atilde;o do trigo&#8213;que
+&eacute; o classico p&atilde;o!&#8213;era de 200.000 toneladas, e em
+1906
+foi de 320.000!
+<br />
+
+<br />
+
+Um augmento de 60%, em seis annos! A popula&ccedil;&atilde;o,
+nesse periodo, n&atilde;o podia ter accrescimo que nem
+de longe influisse nesse facto. A quota, <em>per
+capita</em>, de
+trigo &eacute; que augmentou; o numero <em>dos que o
+podem comer</em>
+&eacute; que passou a ser maior...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fala-se muito na m&aacute; administra&ccedil;&atilde;o de
+Republica,
+nos seus primeiros annos. N&atilde;o a negaremos. O mecanismo
+era novo e as experiencias foram duras. Houve
+<span class="pagenum">[64]</span>
+<em>deficits</em>; precisou-se de recorrer ao
+credito, at&eacute; quasi
+ser fechada essa porta. Mas, com patriotica energia,
+souberam os governos emendar a m&atilde;o e iniciar obras
+fecundas, apparelhar, emfim, o paiz para a prosperidade.
+Erraram; mas resgataram os seus erros. Outros
+ha que s&oacute; erram e s&oacute; querem errar...
+<br />
+
+<br />
+
+Os or&ccedil;amentos do imperio<sup><a href="#f14">[14]</a></sup>
+tiveram
+<em>deficits</em> desde
+1857, ininterruptamente. Antes, houv&eacute;ra alguns saldos,
+que sommados, desde a independencia at&eacute; 15 de novembro
+de 1889, perfazem 32:625 contos, contra um
+total de 891.960 contos de <em>deficits</em>,
+tambem de 1823 a
+1889.
+<br />
+
+<br />
+
+Os <em>deficits</em> de alguns annos da
+Republica n&atilde;o s&atilde;o
+de estranhar, n&atilde;o s&oacute; porque os tivesse o imperio,
+mas
+tambem porque o desenvolvimento do paiz e a crise
+politica, motivada pelas tentativas de destrui&ccedil;&atilde;o
+do regimen
+popular, impuzeram pesados sacrificios &aacute;
+na&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A Republica, creando produc&ccedil;&atilde;o, fomentando
+riquezas,
+assentando linhas ferreas de penetra&ccedil;&atilde;o, fazendo
+portos e saneando o Brasil&#8213;soube, por&eacute;m,
+realizar o que o imperio n&atilde;o soub&eacute;ra, soube armar
+o
+povo brasileiro com meios seguros de pagar os seus
+saques sobre o futuro.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; interessante a nota da receita e da despeza dos
+annos de 1899 a 1907, expressa em contos de r&eacute;is, ao
+cambio de 15 dinheiros por mil r&eacute;is:
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: center; margin-left: auto; margin-right: auto;" class="tablecenter" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 25%;">Anno</td>
+
+ <td style="width: 25%;"></td>
+
+ <td style="width: 25%;">Receita</td>
+
+ <td style="width: 25%;">Despeza</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1899</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td>333.105</td>
+
+ <td>295.363</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1900</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td>353.607</td>
+
+ <td>448.160</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1901</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td>318.559</td>
+
+ <td>334.513</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1902</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td>343.814</td>
+
+ <td>298.691</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1903</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td>408.589</td>
+
+ <td>378.187</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1904</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td>433.802</td>
+
+ <td>439.553</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1905</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td>463.765</td>
+
+ <td> 451.977</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1906</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td>495.910</td>
+
+ <td> 483.568</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1907</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td>483.744</td>
+
+ <td>472.478</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[65]</span>
+Em 1889 a despeza n&atilde;o chegava a 200.000 contos,
+e o <em>deficit</em> era pequeno.
+<br />
+
+<br />
+
+As despezas publicas subiram consideravelmente;
+mas as receitas tambem subiram. Das visinhan&ccedil;as dos
+200.000 contos em 1889 foram &aacute;s dos 500.000 em 1906.
+E note-se que a Constitui&ccedil;&atilde;o republicana conferiu
+aos
+estados da federa&ccedil;&atilde;o os impostos de
+exporta&ccedil;&atilde;o, os
+impostos sobre os immoveis ruraes e urbanos, sobre a
+transmiss&atilde;o de propriedade e sobre industrias e
+profiss&otilde;es,
+ficando a Uni&atilde;o nacional unicamente com os
+direitos de importa&ccedil;&atilde;o e os impostos de consumo.
+<br />
+
+<br />
+
+O balan&ccedil;o economico de 1906 &eacute; assim formulado
+pelo ex-ministro Campista, no seu relatorio de 1907:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><b>Activo</b>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" class="tablecenter" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 30%;">Exporta&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="width: 35%;">
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">&pound; 53.000.000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Capital
+novo</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">4.000.000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">
+ <hr /></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">&pound; 57.000.000</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<span style="font-weight: bold;"><br />
+
+</span>
+<div style="text-align: center;"><b>Passivo</b>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" class="tablecenter" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 65%;">Importa&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="width: 15%;">
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">&pound; 33.600.000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Despezas do governo
+federal</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">5.600.000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Servi&ccedil;o das dividas dos
+Estados e
+municipios</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">1.231.940</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Juros de capitaes
+estrangeiros</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">3.200.000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Passageiros para o
+exterior</td>
+
+ <td>
+ <div class="dots"></div>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;">600.000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">
+ <hr /></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">44.231.940</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Saldo</td>
+
+ <td style="text-align: right;">&pound;
+12.768.060 </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>
+ <hr /></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">57.000.000</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[66]</span>
+&Eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o de prosperidade. Na
+propria America,
+s&oacute; os Estados Unidos do Norte t&ecirc;m melhor
+situa&ccedil;&atilde;o,
+apezar da Argentina ser muito mais rica do que o
+Brasil, dadas as respectivas popula&ccedil;&otilde;es e
+produc&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+A Argentina, em 1906, exportou &pound; 58.000.000, mas
+importou &pound; 53.565.000. O servi&ccedil;o dos juros do
+capital
+estrangeiro &eacute; l&aacute; muito maior do que no Brasil. E,
+nesse
+anno, o seu balan&ccedil;o economico n&atilde;o podia
+apresentar
+saldo.
+<br />
+
+<br />
+
+For&ccedil;a &eacute;, por&eacute;m, reconhecer a
+incomparavel riqueza
+da Argentina, que possue a ter&ccedil;a parte da
+popula&ccedil;&atilde;o
+do Brasil, se n&atilde;o menos, e cuja
+produc&ccedil;&atilde;o cresce em saltos
+prodigiosos.
+<br />
+
+<br />
+
+Com os Estados Unidos n&atilde;o ha parallelo possivel.
+Em 1906, importavam 271 milh&otilde;es esterlinos e exportavam
+369 milh&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+O Canad&aacute;, com uma exporta&ccedil;&atilde;o de
+&pound; 45.791.000,
+importava 54.000.000.
+<br />
+
+<br />
+
+Cuba exportou &pound; 22.638.000 e importou 19.482.000.
+<br />
+
+<br />
+
+O Mexico exportou &pound; 24.724.009, e importou
+17.997.000.
+<br />
+
+<br />
+
+O Chile offerece-nos, para essas duas parcellas
+do seu commercio, respectivamente, &pound; 16.200.000 e
+11.787.000.
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil figura nesse anno com &pound; 53.059.480 exportadas
+e 33.204.041 importadas&#8213;quasi vinte milh&otilde;es
+de saldo a seu favor nas permutas internacionaes de
+mercadorias!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Estar&aacute;, por&eacute;m, esta
+situa&ccedil;&atilde;o prejudicada pelas
+condi&ccedil;&otilde;es
+financeiras do Brasil? Longe disso.
+<br />
+
+<br />
+
+Em 1906, a divida interna e externa do Brasil&#8213;incluindo
+a divida estadoal e a emiss&atilde;o de papel moeda,
+era de &pound; 195.581.677 ou &pound; 10-3-10
+<em>per capita</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A capita&ccedil;&atilde;o do norte-americano era de &pound;
+5-9-3; a
+<span class="pagenum">[67]</span>
+do japon&ecirc;s de &pound; 6; a do egypcio de &pound;
+9-17-2; a do canadense
+de &pound; 9-7-4.
+<br />
+
+<br />
+
+Quasi todos os outros paizes devem mais <em>per
+capita</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A Argentina figura com o coefficente de &pound; 14-2-4;
+a Hespanha com o de &pound; 13-2-6 e o nosso Portugal,
+como compete ao seu desgoverno, inverte os algarismos
+da na&ccedil;&atilde;o visinha e estadeia a
+capita&ccedil;&atilde;o de &pound; 31-18-6.
+<br />
+
+<br />
+
+Bem sabemos que outros paizes supportam coefficientes
+mais altos do que Portugal. N&atilde;o na Europa,
+em todo o caso... O prussiano contenta-se com &pound; 12-8-3;
+o ingl&ecirc;s com &pound; 18-1-6; o italiano com &pound;
+15-7-10; o austriaco
+com &pound; 14-11-1; o franc&ecirc;s com &pound; 27-19-9; o
+holland&ecirc;s
+com &pound; 17-6-4; o belga com &pound; 17-16-8.
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil, paiz que progride e inicia melhoramentos,
+que se povoa e coloniza, est&aacute;, como a Argentina, em
+outras condi&ccedil;&otilde;es: saca sobre o futuro, porque o
+tem
+nos bra&ccedil;os que acodem todos os dias &aacute;s suas
+plagas.
+N&oacute;s estagn&aacute;mos. Elles recebem vida nova com o
+advento dos immigrantes; n&oacute;s golfamos vida na
+emigra&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O mal est&aacute; principalmente na
+applica&ccedil;&atilde;o da divida,
+n&atilde;o na pequenez da popula&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+V&ecirc;de as colonias britanicas da Austr&aacute;lia:
+popula&ccedil;&atilde;o,
+5 milh&otilde;es de habitantes; divida, &pound; 292.401.351,
+em 1906, devendo hoje estar em 300 milh&otilde;es esterlinos!
+O coefficiente de capita&ccedil;&atilde;o &eacute; de 60
+&pound;, numeros redondos.
+Mas que importa, se 200 milh&otilde;es foram empregados
+em caminhos de ferro, obras de portos, resgate
+de servi&ccedil;os publicos&#8213;e se, em tudo isso, as rendas
+supportam o servi&ccedil;o de juros e
+amortiza&ccedil;&atilde;o do capital!
+<br />
+
+<br />
+
+Mas... estavamos a tratar do Brasil.
+<br />
+
+<br />
+
+Os onus do Brasil s&atilde;o annualmente, para resgate e
+juros da divida, 82.000 e tantos contos&#8213;20% da receita.
+Outros paizes&#8213;um dos quaes muito bem conhecemos&#8213;fazem
+o servi&ccedil;o da divida com quasi 50%
+da receita...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[68]</span>
+Portugal pagaria a sua divida com o producto integral
+de 13 annos da sua receita.
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil faria o mesmo servi&ccedil;o em 6 annos.
+<br />
+
+<br />
+
+Tal &eacute;, em linhas largas, o estado do paiz, que saiu
+do nosso e que hoje &eacute; o principal mercado da nossa
+produc&ccedil;&atilde;o e o nosso melhor fornecedor de
+numerario.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c10" id="c10"></a>
+<h3>X.<br />
+
+<br />
+
+MEDIDAS PROPOSTAS
+</h3>
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; de estranhar que o desenvolvimento da
+na&ccedil;&atilde;o
+brasileira motive excogita&ccedil;&otilde;es patrioticas de
+alguns
+portugueses.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha um s&eacute;culo vivia a ent&atilde;o nossa colonia
+americana
+numa inferioridade manifesta de cultura.
+<br />
+
+<br />
+
+Escreveu Eduardo Prado que &laquo;a intelligencia nacional
+do Brasil,&raquo; no come&ccedil;o do reinado de D. Pedro II,
+era talvez inferior &aacute; de Portugal no come&ccedil;o do
+s&eacute;culo...&raquo;<sup><a href="#f15">[15]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+Entretanto&#8213;o espirito partidario n&atilde;o nos c&eacute;ga&#8213;o
+reinado desse imperador contribuiu para o progresso
+intellectual e material do Brasil.
+<br />
+
+<br />
+
+E tanto assim &eacute; que o novo regimen poude adoptar
+uma constitui&ccedil;&atilde;o que, no dizer do professor de
+direito
+<span class="pagenum">[70]</span>
+Almeida Nogueira<sup><a href="#f16">[16]</a></sup>,
+&laquo;compendiou em suas paginas
+os principios mais adeantados do direito publico moderno&raquo;
+e poude fomentar, nas propor&ccedil;&otilde;es que vimos,
+os recursos do paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+Essa na&ccedil;&atilde;o, que assim prosperou, pertenceu a
+Portugal,
+foi obra de portugueses na civiliza&ccedil;&atilde;o e no
+povoamento;
+e, durante um largo transcurso de annos,
+constituiu para o nosso povo uma especie de
+<em>eldorado</em>,
+em que era t&atilde;o facil grangear a vida que, apezar de
+todo o nosso atrazo, se nos affigurava terra mal empregada
+em m&atilde;os de possuidores a nosso v&ecirc;r indolentes
+e sem energias redemptoras.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi desse juizo falso, a que nos guind&aacute;ra a ignorancia
+presumida, que ca&iacute;mos ao fundo da realidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Era a humilha&ccedil;&atilde;o. Se tiv&eacute;rmos
+patriotismo ha de
+se converter em grande estimulo&#8213;porque &eacute; uma
+li&ccedil;&atilde;o
+de coisas...
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; nossa ruina contrap&otilde;e-se a prosperidade da
+ex-colonia?
+Imitemol-a. &Aacute; estagna&ccedil;&atilde;o das nossas
+for&ccedil;as
+responde o Brasil com provas de actividade? Trabalhemos,
+com o cerebro e com os musculos, sejamos
+fortes de intelligencia e de vontade. &Eacute; o nosso dever.
+<br />
+
+<br />
+
+A economia portuguesa depende do estrangeiro. Estamos
+roidos de todos os males de uma politica desleixada,
+egoistica e corruptora. Falta-nos o necessario ao
+abastecimento do paiz. Produzimos artigos para que
+n&atilde;o encontramos bastantes mercados e procuramos
+mercados para que n&atilde;o temos artigos adequados.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a anarchia, de alto a baixo.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o &eacute; a ruina definitiva, porque queremos
+viver
+e &eacute; indispensavel que n&atilde;o nos deixemos morrer
+miseravelmente.
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil &eacute;, como dizia Silv&eacute;la dos povos
+hispano-americanos
+para a sua patria, o nosso mercado natural.
+<span class="pagenum">[71]</span>
+O futuro do Brasil &eacute; immenso. Toda a nossa
+expans&atilde;o economica p&oacute;de e deve acompanhar o
+crescimento
+fatal desse enorme paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+Todavia, para que isso se realize, &eacute; preciso que
+Portugal saiba o que &eacute; possivel fazer e deixe de lado
+chim&eacute;ras e utop&iacute;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Que queremos, em ultima analyse? Queremos que
+o Brasil continue a comprar os productos da nossa
+terra; queremos que a nossa exporta&ccedil;&atilde;o para
+l&aacute; cres&ccedil;a
+sempre; queremos que os generos portugueses sejam
+bem acolhidos pelo consumidor brasileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Sob o ponto de vista material&#8213;&eacute; quanto desejamos.
+<br />
+
+<br />
+
+Moralmente aspiramos &aacute; mais perfeita intelligencia
+com os brasileiros.
+<br />
+
+<br />
+
+Ignora-se em Portugal o que se havia de offerecer
+ao Brasil no dia em que porventura se iniciassem
+negocia&ccedil;&otilde;es
+garantidoras dos nossos <em>desiderata</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem procura vantagens tem de contar com esta
+pergunta natural: &laquo;E que compensa&ccedil;&atilde;o
+nos d&aacute;?&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, na proposta do sr. Consiglieri Pedroso, nada,
+absolutamente nada, existe que possa equivaler &aacute; troca
+de concess&otilde;es, &aacute; permuta de vantagens.
+<br />
+
+<br />
+
+Bem sabemos que, muitas vezes, as negocia&ccedil;&otilde;es
+commerciaes assentam, por uma parte, em favores
+materiaes e, por outra, em apoio diplomatico e at&eacute; de
+caracter militar; mas, na hypothese vertente, parece
+mais facil darmos favores da primeira especie do que
+da segunda.
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil, na proposta Consiglieri, n&atilde;o encontra
+bases de reciprocidade commercial. Nem &eacute; crivel que
+a procure. N&atilde;o lha poderiamos dar, devido &aacute;
+identidade
+que ha entre muitas das suas produc&ccedil;&otilde;es e as
+das nossas colonias.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Approxima&ccedil;&atilde;o, sim! Amemo-nos;
+conhe&ccedil;amo-nos;
+abramos as nossas fronteiras intellectuaes uns aos outros;
+<span class="pagenum">[72]</span>
+firmemos tratados de arbitragem e de reconhecimento
+de titulos de habilita&ccedil;&atilde;o profissional;
+promovamos
+congressos periodicos luso-brasileiros; fundemos
+uma linha nossa, luso-brasileira, de navega&ccedil;&atilde;o;
+construamos palacios de exposi&ccedil;&atilde;o dos productos
+de
+cada um dos dois paizes no outro; promovamos a
+funda&ccedil;&atilde;o
+de revistas, o estreitamento dos la&ccedil;os que prendem
+a imprensa de um &aacute; do outro paiz; entendam-se
+as nossas sociedades scientificas, artisticas, etc.; visitemo-nos;
+enlacemo-nos fraternalmente.
+<br />
+
+<br />
+
+Quanto a negocios, por&eacute;m, meditemos, porque o
+Brasil n&atilde;o os faz sem meditar. E &eacute; bom que se
+saiba
+que, se o sr. Wenceslau de Lima tem visto baldados
+todos os seus esfor&ccedil;os no sentido da
+realiza&ccedil;&atilde;o de um
+tratado de commercio com o Brasil, n&atilde;o &eacute; porque
+esse
+paiz nos hostilize, mas sim porque n&atilde;o tem reconhecido
+a conveniencia, nem a utilidade desse tratado.
+Conveniencia para os seus interesses, utilidade para
+os seus interesses&#8213;&eacute; claro.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o procurou ainda o Brasil accordo comnosco.
+Mas procurou-o, por exemplo, com os Estados Unidos&#8213;mercado
+de caf&eacute; e de borracha e seu fornecedor de
+muitos artigos, entre os quaes figura o trigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Portugal &eacute; que deseja o tratado de commercio.
+Portugal &eacute; que precisa garantir o seu mercado no Brasil,
+como o Brasil precisava assegurar a clientella
+<em>yankee</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Negocios tratam-se como negocios. O vendedor &eacute;
+que se esfor&ccedil;a por trazer o consumidor satisfeito...
+<br />
+
+<br />
+
+Esta &eacute; a verdade. De nada serve disfar&ccedil;ar os
+factos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+O tratado de commercio &eacute; irrealizavel?
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o iremos at&eacute; l&aacute;. A diplomacia
+consegue, &aacute;s vezes,
+coisas espectaculosas, mas sem real alcance.
+<br />
+
+<br />
+
+Far-se-&aacute;, talvez, o tratado de commercio; mas, em
+<span class="pagenum">[73]</span>
+hypothese alguma, o Brasil nos conceder&aacute;
+&laquo;vantagens
+especiaes que deixem de ser transmittidas aos outros
+estados, n&atilde;o sendo, portanto, attingidas pela clausula
+de na&ccedil;&atilde;o mais favorecida inscripta nos tratados
+do
+Brasil com paizes estrangeiros&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+E o caf&eacute;? E a borracha? E o tabaco? E o cacau?
+E toda a produc&ccedil;&atilde;o brasileira, no valor de 57
+milh&otilde;es
+de libras?
+<br />
+
+<br />
+
+Lembremo-nos de que n&atilde;o consumimos meio milh&atilde;o
+esterlino de productos brasileiros... Ponderemos
+as represalias alfandegarias a que o Brasil se exporia...
+<br />
+
+<br />
+
+Amemo-nos; mas conv&eacute;m ter bom senso. Estreitemos
+rela&ccedil;&otilde;es; mas &eacute; prudente que nos
+n&atilde;o limitemos
+ao sonho.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tambem se fala de entrepostos, do Brasil em
+Portugal e de Portugal no Brasil&#8213;aquelle destinado
+&aacute; exporta&ccedil;&atilde;o brasileira para a Europa
+e este destinado
+&aacute; portuguesa para a America...
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma ideia velha. Velha e t&atilde;o velha que
+j&aacute; n&atilde;o
+se adapta &aacute;s condi&ccedil;&otilde;es presentes do
+commercio internacional.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se deu por isso em Portugal. &Eacute; tudo assim na
+nossa terra. Andamos t&atilde;o atr&aacute;s dos outros povos
+que,
+quando as id&eacute;as nos chegam, j&aacute; t&ecirc;m
+saido da circula&ccedil;&atilde;o.
+Chegamos sempre tarde, como os carabineiros da
+opereta.
+<br />
+
+<br />
+
+O entreposto!
+<br />
+
+<br />
+
+Ha trinta annos falou-se nisso; ha vinte, voltou-se
+a lembrar essa maravilha; ha dez, resurgia a id&eacute;a novinha
+em folha. Ter&aacute; de apparecer, al&eacute;m desta vez de
+1909, ainda algumas duzias de vezes e sempre ter&aacute;&#8213;quem
+sabe?&#8213;enthusiasticos applausos...
+<br />
+
+<br />
+
+O entreposto! Ficava realmente muito bem, alli,
+em Cacilhas! Os navios atulhados da borracha da Amazonia;
+<span class="pagenum">[74]</span>
+do caf&eacute; de Santos e Rio; do assucar de Pernambuco,
+Sergipe e Alag&ocirc;as; do tabaco bahiano; da
+monazite do Espirito Santo e Bahia; e do mais que f&ocirc;ra
+longo mencionar&#8213;incessantemente a descarregarem
+tudo isso, alli, em Cacilhas! Outros transatlanticos, dia
+e noite, alli mesmo, a encherem os por&otilde;es de productos
+brasileiros para o Havre e para Hamburgo, Antuerpia,
+Liverpool, Hull, Amsterdam, Plymouth, Londres,
+Rotterdam, Genova, C&aacute;diz, Barcelona, Napoles,
+Marselha, etc!
+<br />
+
+<br />
+
+Que lindo movimento maritimo!
+<br />
+
+<br />
+
+Que negocio! S&oacute; &eacute; pena que se n&atilde;o
+possa fazer...
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que as baldea&ccedil;&otilde;es, descargas,
+transbordos e armazenagens
+onerariam os productos, que hoje v&atilde;o o
+mais perto possivel dos consumidores, gra&ccedil;as a uma
+navega&ccedil;&atilde;o collossal sob todas as bandeiras.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que um entreposto que torna mais caros os productos
+s&oacute; serve para lhes diminuir o consumo.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que a navega&ccedil;&atilde;o demanda o Brasil
+porque, ao
+voltar, nos paizes por onde passa ou para que se destina
+existem mercados dos generos brasileiros, e porque
+milhares de toneladas de carga para o Brasil lhe
+compensam a viagem at&eacute; l&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+O entreposto! Quando cheg&aacute;mos ao Brasil, em
+1893, fall&aacute;mos delle a um grande jornalista, amigo extremoso
+de Portugal e dos portugueses.
+<br />
+
+<br />
+
+Achou a id&eacute;a engra&ccedil;ada e ponderou:
+&laquo;Entreposto
+ideal &eacute; o navio&#8213;porque o caf&eacute; precisa sair de
+bordo
+e entrar no caminho de ferro para ser torrado no dia
+seguinte pela manh&atilde;, moido das 10 ao meio dia e tomado
+dessa hora em deante. No dia seguinte chega
+outro vapor e repete-se a historia.&raquo;<sup><a href="#f17">[17]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[75]</span>
+O entreposto em Lisboa para abastecer a Europa!
+Como se todas as na&ccedil;&otilde;es estivessem desprovidas de
+portos e a marinha mercante fosse exclusivo portugu&ecirc;s...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+A incuria dos nossos governos &eacute; proverbial. A falta
+de curiosidade basta para explicar essa incuria em pess&ocirc;as
+tomadas da mania politicante.
+<br />
+
+<br />
+
+Se assim n&atilde;o f&ocirc;ra, saber-se ia em Portugal que,
+tendo o governo do Brasil organisado um &laquo;servi&ccedil;o
+de
+propaganda e expans&atilde;o economica&raquo;, lhe estabeleceu
+quatro delegacias; que a 4.&ordf; delegacia, com s&eacute;de em
+Barcelona, tem jurisdic&ccedil;&atilde;o na Hespanha e
+Portugal;
+que, portanto, na propria peninsula iberica, o Brasil
+prev&ecirc; mais possibilidade de expans&atilde;o economica na
+Hespanha do que em Portugal...
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; o que nos parece logico inferir da escolha da
+s&eacute;de da 4.&ordf; delegacia.
+<br />
+
+<br />
+
+A proposta do sr. Consiglieri nada offerece ao Brasil,
+al&eacute;m do servi&ccedil;o de lhe evitar o perigo da
+desnacionaliza&ccedil;&atilde;o.
+O perigo n&atilde;o existe; logo, o servi&ccedil;o reduz-se
+a z&eacute;ro.
+<br />
+
+<br />
+
+Dir-se-&aacute;: &laquo;E a
+emigra&ccedil;&atilde;o?&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+A emigra&ccedil;&atilde;o&#8213;eis o que realmente damos ao
+Brasil.
+<br />
+
+<br />
+
+A emigra&ccedil;&atilde;o &eacute; um <em>mal
+necessario</em>: quem n&atilde;o tem
+trabalho remunerador no paiz, vae arranjal-o f&oacute;ra do
+paiz, e, de l&aacute;, ac&oacute;de ao nosso
+<em>deficit</em> economico.
+<br />
+
+<br />
+
+Sendo assim, nem a propria emigra&ccedil;&atilde;o
+p&oacute;de constituir
+base de um accordo commercial&#8213;porquanto ao
+Brasil, que precisa de trabalhadores, n&atilde;o assusta a
+id&eacute;a de a prohibirmos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[76]</span>
+Como prohibil-a, se precisamos della? E, se, num
+plano de reforma economica, cortassemos a corrente
+emigratoria, os mercados brasileiros talvez tivessem
+de se fechar aos nossos productos...
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; esta a triste situa&ccedil;&atilde;o a que o
+regimen monarchico
+reduziu Portugal!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c11" id="c11"></a>
+<h3>XI<br />
+
+<br />
+
+A EVOLU&Ccedil;&Atilde;O BRASILEIRA
+</h3>
+
+<br />
+
+Estamos deante do Brasil em deploravel ignorancia
+das suas coisas.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o f&ocirc;ra esta a verdade e teriamos clara
+no&ccedil;&atilde;o dos
+phenomenos ethnicos alli operados ou ainda em
+elabora&ccedil;&atilde;o
+e estariamos certos de que n&atilde;o ha perigo de
+desnacionaliza&ccedil;&atilde;o,
+mas t&atilde;o s&oacute;mente se d&aacute;, nesse paiz, uma
+evolu&ccedil;&atilde;o geral logica, inevitavel e fatal.
+<br />
+
+<br />
+
+As institui&ccedil;&otilde;es politicas e sociaes da
+na&ccedil;&atilde;o brasileira
+seguiram o seu curso, sob influencias peculiares
+ao meio americano e &aacute;s exigencias do concerto internacional,
+por um lado, e, por outro, em obediencia &aacute;
+educa&ccedil;&atilde;o e &aacute;s
+aspira&ccedil;&otilde;es do povo que se foi e ainda
+est&aacute; constituindo dentro da nossa antiga colonia.
+<br />
+
+<br />
+
+A ra&ccedil;a, sem perder as suas caracteristicas iniciaes,
+obedeceu ao determinismo do novo meio e transformou-se,
+como, com as successivas migra&ccedil;&otilde;es, succedeu,
+atrav&eacute;s da historia, a todas as chamadas ra&ccedil;as e
+nacionalidades.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[78]</span>
+Portugal n&atilde;o deu por isso. A falta de curiosidade
+vae neste paiz, dos que governam aos que s&atilde;o governados;
+dos assumptos mais s&eacute;rios aos mais fac&ecirc;tos, dos
+factos decisivos aos incidentes subalternos da politica,
+da economia, das artes&#8213;de tudo!
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, se &eacute; verdade que, em 1615, nas
+instruc&ccedil;&otilde;es
+dadas a Fragoso de Albuquerque para o tratado de
+paz com La Revardi&egrave;re,<sup><a href="#f18">[18]</a></sup>
+se dizia que no Brasil
+&laquo;havia
+mais de tres mil portugueses&raquo; e, portanto, &laquo;as suas
+terras n&atilde;o estavam despovoadas&raquo;, n&atilde;o ha
+duvida, todavia,
+de que ao predominio da nossa popula&ccedil;&atilde;o se deveu
+o n&atilde;o ter o Brasil caido em outras m&atilde;os, apezar
+das vicissitudes
+por que passou Portugal, volvidos poucos
+annos sobre essa data.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao fechar o XVII s&eacute;culo, o povoamento tinha tomado
+incremento notavel com o descobrimento das
+minas de ouro de Caeth&eacute; e Rio das Velhas. N&atilde;o
+s&oacute;mente
+a miragem do ouro determinou a immigra&ccedil;&atilde;o:
+havia, ent&atilde;o, um systema colonizador no espirito dos
+governantes portugueses. E, embora deficiente, o crit&eacute;rio
+que dictou as doa&ccedil;&otilde;es era digno de um governo;
+e os seus fructos foram valiosos. Em 1680, uma carta
+r&eacute;gia, reveladora da no&ccedil;&atilde;o de
+imminente conflicto entre
+colonos e gentios, mandava conceder terras a estes
+&laquo;ainda mesmo as j&aacute; dadas de sesmaria visto que
+deviam
+ter preferencia os mesmos indios <em>naturaes senhores
+da terra</em>&raquo;.<sup><a href="#f19">[19]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se repellia o gentio.
+<br />
+
+<br />
+
+As ondas de africanos, que, desde os fins do s&eacute;culo
+XVI, foram atiradas sobre a America portuguesa, o
+indigena e o portugu&ecirc;s foram as componentes ethnicas
+do typo brasileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[79]</span>
+Os cruzamentos deram-se. Fez-se a selec&ccedil;&atilde;o lenta,
+sob a preponderante ac&ccedil;&atilde;o da ra&ccedil;a
+superior, cujos
+attributos a hereditariedade resalvou da existencia
+transitoria do mesti&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Estudando este phenomeno, Euclydes da Cunha,
+alto espirito de artista e pensador, escreveu que &laquo;a
+ra&ccedil;a superior se torn&aacute;ra objecto remoto para que
+tendiam
+os mesti&ccedil;os deprimidos, e estes, procurando-o,
+obedeciam ao proprio instincto da conserva&ccedil;&atilde;o e
+da
+defeza&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Junte-se a este facto, comprovado pela historia de
+todos os cruzamentos desse genero, o axioma ethnologico
+da tendencia das ra&ccedil;as eugenicas para subordinarem
+ao seu destino os elementos inferiores com que
+se encontram e ter-se-&aacute; explicada a hegemonia do
+portugu&ecirc;s na forma&ccedil;&atilde;o do typo novo, a
+que se refere
+Sylvio Rom&eacute;ro.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o foram exterminadas as ra&ccedil;as inferiores; foram
+absorvidas lentamente, eliminadas pelos cruzamentos
+sempre ascendentes. Tanto assim foi que, apezar da
+enorme superioridade numerica dos africanos, a
+immigra&ccedil;&atilde;o
+escassissima dos lusos indo-europeus foi capaz
+de formar a maioria branca que ha no Brasil e que &eacute;
+uma evolu&ccedil;&atilde;o ainda n&atilde;o bastante
+differenciada do typo
+portugu&ecirc;s.
+<br />
+
+<br />
+
+A nossa resistencia, como ra&ccedil;a colonizadora, apresentou
+na America uma prova sem par. A sobreposi&ccedil;&atilde;o
+das heran&ccedil;as psychicas das ra&ccedil;as fundidas quasi
+se n&atilde;o distanciou da parcella lusitana, apesar da nossa
+falta de cultura nos tres s&eacute;culos ultimos e apezar do
+evidente accrescimo physiologico da popula&ccedil;&atilde;o ser
+devido
+aos cruzamentos.
+<br />
+
+<br />
+
+Com absoluta raz&atilde;o, e em contrario do que affirmou
+o visconde de Ouguella na <em>Quest&atilde;o
+social</em>, sustentou
+o sabio brasileiro dr. Luiz Pereira Barretto que
+a ra&ccedil;a portuguesa n&atilde;o degenerou.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute;, diz o dr. Barretto, um caso de
+degenera&ccedil;&atilde;o,
+<span class="pagenum">[80]</span>
+mas sim de inhibi&ccedil;&atilde;o cujas causas, a seu
+v&ecirc;r, se encontram
+na educa&ccedil;&atilde;o clerical e na subserviencia dos
+poderes publicos ao clericalismo.
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil curou-se desse mal, que ainda domina
+a nossa terra.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+O que se v&ecirc; da estratifica&ccedil;&atilde;o dos
+primeiros elementos
+constitutivos da popula&ccedil;&atilde;o do Brasil &eacute;
+a conserva&ccedil;&atilde;o
+das linhas geraes do typo portugu&ecirc;s, com os
+seus defeitos, mas com as suas qualidades de
+adapta&ccedil;&atilde;o
+e de resistencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi com essa massa que, a partir da abertura dos
+portos da ainda colonia ao commercio universal, se
+tiveram de encontrar, em escala cada vez maior, os colonos
+europeus de outras linguas.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se verificava, apezar do atrazo do portugu&ecirc;s
+e do brasileiro, a hypothese da collis&atilde;o de uma
+ra&ccedil;a
+superior, a ex&oacute;tica, com outra inferior, a nossa commum.
+<br />
+
+<br />
+
+Se tal acontecesse, repetir-se-ia a selec&ccedil;&atilde;o
+realizada
+com os indios e africanos, selec&ccedil;&atilde;o que, desta
+vez,
+seria em prejuizo dos luso-brasileiros.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, &eacute; precisamente o contrario&#8213;isto &eacute;, a
+absorp&ccedil;&atilde;o
+do elemento ex&oacute;tico&#8213;o phenomeno que se tem
+de reconhecer na fus&atilde;o de ra&ccedil;as operada no
+Brasil,
+visto que, apezar da superioridade numerica desses
+ex&oacute;ticos sobre os immigrantes portugueses, o typo brasileiro
+n&atilde;o se alterou sensivelmente e as caracteristicas
+nacionaes permanecem intactas e predominantes
+nos proprios descendentes de gente de lingua estranha.
+<br />
+
+<br />
+
+Daqui tem de se inferir que os dezoito a vinte milh&otilde;es
+de brasileiros&#8213;a estatistica dir&aacute;, em 1910, se
+s&atilde;o mais ou menos&#8213;possuem energias nacionaes capazes
+de subordinar os adventicios ao seu modo de
+ser proprio.
+<br />
+
+<br />
+
+A civiliza&ccedil;&atilde;o var&iacute;a de clima para
+clima.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p81" id="p81">[81]</a></span>
+O homem, ao expatriar-se, est&aacute; condemnado, por
+uma fatalidade invencivel, a aspirar, para si e para a
+sua descendencia, &aacute; civiliza&ccedil;&atilde;o
+adequada ao paiz que
+escolheu para domicilio.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso, o emigrante procura, em regra, as regi&otilde;es
+em que a sua adapta&ccedil;&atilde;o &eacute; menos
+violenta.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso, como diz Cesar Zumeta<sup><a href="#f20">[20]</a></sup>,
+&laquo;quaesquer
+que sejam as ra&ccedil;as povoadoras, na zona t&oacute;rrida
+n&atilde;o
+imperar&aacute; sen&atilde;o uma
+civiliza&ccedil;&atilde;o lentamente progressiva&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso, o italiano e o allem&atilde;o se congregam nos
+estados do sul do Brasil.<sup><a href="#f21">[21]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso, finalmente, todos os estrangeiros das ra&ccedil;as
+superiores s&atilde;o assimilados no Brasil, cujo meio,
+antes de se modificar, os modifica a elles, at&eacute; a sua
+completa identifica&ccedil;&atilde;o com o typo nacional, que,
+&eacute;
+claro, por sua vez tambem se transforma, como acontece
+aos typos de todos os outros paizes.
+<br />
+
+<br />
+
+As migra&ccedil;&otilde;es nunca deixaram de ter este
+<a href="#e3">resultado</a>:
+adaptam-se ao meio, mas influem na sua evolu&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c12" id="c12"></a>
+<h3>XII<br />
+
+<br />
+
+O BRASIL E O AMERICANISMO
+</h3>
+
+<br />
+
+Perguntar-se-&aacute; se achamos que, apezar de tudo, se
+conservar&atilde;o no povo brasileiro, indissoluveis affinidades
+com o povo portugu&ecirc;s.
+<br />
+
+<br />
+
+O caso dos Estados Unidos da America, em que
+sommam nove milh&otilde;es de habitantes os cidad&atilde;os de
+origem alleman, inclina-nos a prev&ecirc;r que assim
+vir&aacute; a
+ser. Esses nove milh&otilde;es fundiram-se dentro da massa
+<em>yankee</em>; e conservou-se o caracter
+anglo-saxonio do
+povo americano.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha differen&ccedil;as entre o ingl&ecirc;s e o
+<em>yankee</em>. Decerto;
+mas os tra&ccedil;os dominantes s&atilde;o communs; cada vez
+mais
+se estreitam os la&ccedil;os que prendem os dois povos e
+maior &eacute; a influencia de um sobre o outro.
+<br />
+
+<br />
+
+A differencia&ccedil;&atilde;o lenta do brasileiro do
+portugu&ecirc;s &eacute;
+um facto, do qual, por&eacute;m, n&atilde;o &eacute; licito
+tirar illa&ccedil;&otilde;es pessimistas
+quanto &aacute;s futuras rela&ccedil;&otilde;es entre ambos
+nem
+agourar phenomenos de desnacionaliza&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil de ha muito que est&aacute; em progresso, sob
+<span class="pagenum">[84]</span>
+todos os aspectos. Portugal n&atilde;o est&aacute; parado: a
+sua
+evolu&ccedil;&atilde;o &eacute; regressiva; vive
+&aacute; procura de um Messias,
+com institui&ccedil;&otilde;es cada vez mais anachronicas,
+resistindo
+&aacute; democracia triumphante em todo o planeta...
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o dois povos que seguem rumos divergentes e
+que, portanto, n&atilde;o se encontrar&atilde;o nunca mais,
+salvo se
+um delles se decidir a tomar o caminho do outro...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil, pela sua integra&ccedil;&atilde;o no corpo
+democratico
+americano, pelas exigencias da politica internacional e
+por tendencias de ordem politica, economica e moral,
+que demonstrava desde a sua independencia, poude
+transformar-se por completo.
+<br />
+
+<br />
+
+A ra&ccedil;a regenerou-se, livrando-se das causas da
+inhibi&ccedil;&atilde;o,
+que a combalia.
+<br />
+
+<br />
+
+O espirito americano j&aacute; n&atilde;o p&oacute;de ser
+considerado
+simples phrase de jactanciosa literatura politica para
+effeitos oratorios. &Eacute; uma realidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Toda a America latina evolve segundo normas novas.
+Donde surgiram essas normas? Da influencia da
+civiliza&ccedil;&atilde;o norte-americana, n&atilde;o ha
+duvida alguma.
+<br />
+
+<br />
+
+Os hispano-americanos estavam realmente feridos
+pela tempestade, como dizia Castelar. Era a tempestade
+resultante do conflicto da civiliza&ccedil;&atilde;o ancestral
+com
+o meio. Verificava-se, mais uma vez, que a cada clima
+conv&eacute;m uma civiliza&ccedil;&atilde;o especial, que
+n&atilde;o ha, no planeta,
+uma civiliza&ccedil;&atilde;o uniforme e typica.
+<br />
+
+<br />
+
+A adapta&ccedil;&atilde;o lenta do que, da
+civiliza&ccedil;&atilde;o norte-americana,
+podia coadunar-se com os nucleos diversos do povoamento
+da America, gerou a corrente de sentimentos
+e de id&eacute;as que, por constituir uma s&eacute;rie de
+evidentes
+pontos de contacto entre os povos americanos, teve a
+denomina&ccedil;&atilde;o de <em>espirito
+americano</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Este espirito, em que p&eacute;se aos
+<em>snobs</em> que achincalham
+o papel da democracia norte-americana, derivou
+da attitude dos Estados Unidos deante da amea&ccedil;a de
+<span class="pagenum">[85]</span>
+interven&ccedil;&atilde;o da Santa
+Allian&ccedil;a&#8213;t&atilde;o santa como a
+Inquisi&ccedil;&atilde;o!&#8213;a
+favor da Hespanha e contra as colonias
+que se lhe tinham declarado independentes.
+<br />
+
+<br />
+
+Bem sabemos que o governo americano hesitou
+deante da situa&ccedil;&atilde;o. A Santa Allian&ccedil;a
+era poderosa e
+os Estados Unidos eram, ent&atilde;o, uma
+na&ccedil;&atilde;o relativamente
+fraca.
+<br />
+
+<br />
+
+Em 1823, o presidente Monr&ouml;e, com o auxilio da
+Inglaterra, ou sem elle&#8213;pouco importa&#8213;resolvia-se,
+afinal, a assumir a posi&ccedil;&atilde;o de que havia de
+decorrer a
+chamada mais tarde &laquo;doutrina de Monr&ouml;e&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi na mensagem de 23 de dezembro do referido
+anno. Dizia o presidente dos Estados Unidos, depois
+de exprimir o seu respeito pela partilha, ent&atilde;o consummada,
+da America:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Em rela&ccedil;&atilde;o aos governos que declararam
+e t&ecirc;m mantido
+a sua independencia, a qual, depois de grande reflex&atilde;o
+e obedecendo a principios de justi&ccedil;a, reconhecemos,
+toda e qualquer interferencia por parte de alguma potencia
+europ&eacute;a com o fim de os opprimir e de qualquer
+forma pesar sobre os seus destinos, s&oacute; poder&aacute; ser
+olhada por n&oacute;s como demonstra&ccedil;&atilde;o pouco
+amigavel
+feita aos Estados Unidos.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Esta &eacute;, em resumo, a c&eacute;lebre doutrina com que,
+&aacute; nascen&ccedil;a,
+se viram protegidas as republicas hispano-americanas.
+&Eacute; certo que os ingleses secundaram, no proprio
+interesse, a defeza desses novos estados proclamada
+por Monr&ouml;e.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas, se essas na&ccedil;&otilde;es estavam, at&eacute;
+certo ponto,
+garantidas contra a antiga metr&oacute;pole, deviam-no &aacute;
+iniciativa
+dos Estados Unidos. A sua marcha evolutiva
+tinha de resentir-se desse facto e a influencia, que o
+progresso vertiginoso da uni&atilde;o do Norte veiu a exercer
+sobre ellas, accentuou ainda mais profundamente
+a id&eacute;a de que interesses superiores prendiam entre si
+os povos americanos.
+<br />
+
+<br />
+
+O esp&iacute;rito americano, sobre essa base effectiva da
+<span class="pagenum">[86]</span>
+protec&ccedil;&atilde;o reciproca do principio nacional,
+n&atilde;o podia
+deixar de se fortalecer e consolidar.
+<br />
+
+<br />
+
+Para isso contribu&iacute;a a differencia&ccedil;&atilde;o
+que o meio e
+os cruzamentos ethnicos impunham a esses estados,
+apartando-os mais e mais, se bem que lentamente, dos
+colonizadores.
+<br />
+
+<br />
+
+O esfor&ccedil;o das sociedades hispano-americanas para
+se adaptarem ao espirito americano, desvincilhando-se
+de institui&ccedil;&otilde;es e costumes do outro lado do
+Oceano, &eacute;
+a explica&ccedil;&atilde;o que d&atilde;o todos os
+soci&oacute;logos, que estudaram
+o phenomeno, das suas luctas civis e dos seus frequentes
+eclypses de legalidade.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o assim com o Brasil. A evolu&ccedil;&atilde;o
+brasileira, at&eacute;
+o inicio do derradeiro quartel do s&eacute;culo passado, operou-se
+quasi livremente do espirito americano.
+<em>Quasi</em>,
+dizemos, porque a sua influencia se encontra em todo
+o imperio como elemento modificador das tendencias,
+intrinsecas do povo brasileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; facil comprehender a disparidade apontada.
+<br />
+
+<br />
+
+Em primeiro logar, a antiga colonia americana de
+Portugal constituiu um imperio, uma realeza, sob um
+principe portugu&ecirc;s. Pedro I do Brasil, mais tarde IV
+de Portugal, j&aacute; n&atilde;o poude deixar de conceder ao
+Brasil
+o systema representativo, despojando-se dos attributos
+divinos da realeza absoluta. &Eacute; que a America,
+<em>pelo seu espirito</em>, j&aacute;
+n&atilde;o podia tolerar essa institui&ccedil;&atilde;o
+politica ainda vigente em Portugal.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha barreiras nem muralhas chinesas impermeaveis
+&aacute;s id&eacute;as; e o principe portugu&ecirc;s, ao
+sentar-se no
+unico throno da America, comprehendeu essa verdade.
+<br />
+
+<br />
+
+A Pedro IV deveu Portugal a dadiva de um systema
+vasado nos mesmos moldes que eleg&ecirc;ra o auctor
+ingl&ecirc;s a quem o filho de Jo&atilde;o VI e Carlota
+Joaquina
+encommend&aacute;ra a primeira...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[87]</span>
+Tanto basta para v&ecirc;r, com nitidez, que a
+evolu&ccedil;&atilde;o
+brasileira n&atilde;o estava destinada a seguir, desde a
+independencia,
+o espirito americano.
+<br />
+
+<br />
+
+O phenomeno politico-social occorrido no Brasil defendeu,
+durante largo periodo da sua elabora&ccedil;&atilde;o nacional,
+as affinidades entre a antiga metr&oacute;pole e a ex-colonia
+contra as id&eacute;as e os sentimentos de que os Estados
+Unidos iam impregnando os mais estados do Novo
+Mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao passo que os hispano-americanos, sob novas
+institui&ccedil;&otilde;es
+politicas, entravam em violenta differencia&ccedil;&atilde;o
+com a Hespanha, os luso-americanos, logo ap&oacute;s a
+separa&ccedil;&atilde;o, tinham convivio intimo e familial com
+Portugal
+e dos portugueses recebiam e aos portugueses
+transmittiam, num commercio ininterrupto, id&eacute;as e
+sentimentos.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute;, pois, absolutamente diversa a historia dos descendentes
+dos dois povos da peninsula ib&eacute;rica.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o foi sen&atilde;o nas duas ultimas d&eacute;cadas
+do imperio
+que os brasileiros denotaram o influxo americano.
+<br />
+
+<br />
+
+O casamento civil dos acatholicos e a quest&atilde;o da
+extens&atilde;o do estado civil, o debate jornal&iacute;stico
+&aacute;c&ecirc;rca
+da liberdade de cultos e da seculariza&ccedil;&atilde;o dos
+cemiterios
+e a id&eacute;a de federar as provincias<sup><a href="#f22">[22]</a></sup>
+s&atilde;o provas
+da
+ac&ccedil;&atilde;o americana, que, no Brasil, continuava,
+assim, a
+obra encetada quando se adopt&aacute;ra o principio da
+elei&ccedil;&atilde;o,
+se bem que restricta, dos membros da segunda
+camara, o senado.
+<br />
+
+<br />
+
+Dahi por deante accentuou-se o contagio e o estatuto
+politico saido da revolu&ccedil;&atilde;o de 1889 consagra de
+maneira definitiva a adhes&atilde;o do Brasil ao americanismo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[88]</span>
+A lei basica de 24 de fevereiro de 1891 &eacute; calcada
+na americana de 1787, na qual Gladstone via &laquo;a
+crea&ccedil;&atilde;o
+mais admiravel que a intelligencia humana produziu
+de um s&oacute; jacto&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o s&atilde;o, todavia, bem fundadas as criticas que
+attribuem
+&aacute; adop&ccedil;&atilde;o desse modelo institucional o
+caracter
+de uma quebra de continuidade na historia do Brasil.
+Se assim f&ocirc;sse, tambem n&atilde;o teria outro significado
+o
+advento do regimen representativo, nos paizes antes
+sob realezas absolutas, a valer inviolaveis e sagradas.
+<br />
+
+<br />
+
+Os povos, por mais que o queiram, n&atilde;o interceptam
+o curso da sua historia. Quando o arbitrio o tenta, logo
+surge a reac&ccedil;&atilde;o invencivel do seu determinismo a
+rep&ocirc;r
+tudo no logar adequado e nos necessarios termos.
+<br />
+
+<br />
+
+Mudam-se, de uma hora para outra, os systemas
+politicos, que s&atilde;o obra de interesses colligados e
+defendidos
+pela for&ccedil;a material do poder detentor das armas,
+dos sellos do estado e das arcas da na&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se mudam, por&eacute;m, em dias, nem &aacute;s
+vezes em
+annos, os systemas sociaes, conjunctos de institutos juridicos,
+de tradi&ccedil;&otilde;es e de costumes, que evolvem, sem
+saltos, serena e continuamente.
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil passou de um imperio centralizado a uma
+republica federativa. Mudou de regimen politico; mas
+conservou, melhorando-as, como preceit&uacute;a Comte, as
+suas institui&ccedil;&otilde;es sociaes.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o o affirma, de modo frisante e de per si, o facto
+de ter ainda em vigor as
+<em>ordena&ccedil;&otilde;es do
+reino</em>, modificadas,
+natural e logicamente, por leis exigidas, em
+todos os ramos do direito, pelo progresso humano e
+pelo progresso nacional?
+<br />
+
+<br />
+
+Portugal codificou o seu direito civil. O Brasil ainda
+n&atilde;o o fez; mas a verdade &eacute; que a sua
+legisla&ccedil;&atilde;o fragmentaria
+<span class="pagenum">[89]</span>
+revogou e alterou, de accordo com as necessidades
+dos tempos, as velhas leis portuguesas, aproveitando,
+dellas, o que podia em cada momento ser
+conservado.
+<br />
+
+<br />
+
+Este feitio da vida juridica brasileira denota raro
+ap&ecirc;go ao passado e constitue eloquente protesto contra
+a assevera&ccedil;&atilde;o gratuita de que o Brasil propende
+voluntariamente para se afastar do espirito das leis
+portuguesas. Era-lhe, por&eacute;m, impossivel crystalizar
+dentro da rigidez de normas legaes correspondentes a
+um estad&iacute;o transitorio do seu desenvolvimento.
+Transformou-se,
+porque progrediu. E, como, ao progredir,
+n&atilde;o podia ficar a par da nossa marcha morosa e &aacute;s
+vezes regressiva, distanciou-se de n&oacute;s e acceitou as
+id&eacute;as que &aacute;s suas condi&ccedil;&otilde;es
+mais quadravam.
+<br />
+
+<br />
+
+O meio politico e social do Novo Mundo assimilou,
+afinal, o espirito juridico brasileiro; comtudo, o
+povo brasileiro permaneceu, no ponto de vista da lingua,
+das tradi&ccedil;&otilde;es moraes e da propria
+constitui&ccedil;&atilde;o
+da familia, muito chegado e proximo do povo portugu&ecirc;s.
+<br />
+
+<br />
+
+Por qu&ecirc;? Pela simples raz&atilde;o de n&atilde;o
+haver o Brasil
+assentado a sua ascens&atilde;o para a radiosa doutrina americana
+sobre os destro&ccedil;os das conquistas definitivas
+dos seus maiores e das suas proprias.
+<br />
+
+<br />
+
+No Brasil n&atilde;o se violentaram os costumes, cren&ccedil;as
+e tradi&ccedil;&otilde;es fundamentaes do povo. Eliminou-se o
+que
+o desfiar dos annos tornou caduco ou discordante da
+nova sociedade. N&atilde;o houve rompimento com o passado
+e, portanto, no dizer conceituoso de Burke, &laquo;n&atilde;o
+se desorganizou o futuro&raquo; porque se aproveitou &laquo;a
+experiencia
+accumulada de gera&ccedil;&otilde;es successivas&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta sequencia do espirito juridico, que caracteriza
+e distingue a ra&ccedil;a anglo-saxonia, revela-se, mais do
+que em todas as na&ccedil;&otilde;es ibero-americanas, no
+Brasil.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim &eacute; que o Brasil, mais do que todas essas
+na&ccedil;&otilde;es,
+<span class="pagenum">[90]</span>
+mantem radicaes affinidades com o seu povo de
+origem, com Portugal. &Eacute; no sul o que no norte do
+continente &eacute; a federa&ccedil;&atilde;o americana:
+ambas representam
+typicamente os colonizadores, muito embora as
+condi&ccedil;&otilde;es
+politicas, as exigencias do ambiente novo e a fus&atilde;o
+de ra&ccedil;as estranhas tenham estabelecido, entre os
+dois ramos de cada uma dessas familias, signaes distinctivos
+e peculiares.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+O que se deu em ambos os paizes est&aacute; compendiado
+na phrase de Story<sup><a href="#f23">[23]</a></sup>:
+&laquo;O direito da Inglaterra
+n&atilde;o deve ser considerado <em>a todos os
+respeitos</em> como o
+da America. Os nossos maiores trouxeram os seus
+<em>principios geraes</em> e defenderam-no
+como o seu direito
+patrimonial. Mas trouxeram-no comsigo e adoptaram
+s&oacute;mente a <em>parte applicavel &aacute; sua
+condi&ccedil;&atilde;o</em>.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Com effeito, como vimos, o Brasil tambem adoptou
+s&oacute;mente a &laquo;parte applicavel &aacute; sua
+condi&ccedil;&atilde;o&raquo;. Assim
+foi que repudiou a camara dos senhores e instituiu a
+dos senadores, em que a democracia americana enxert&aacute;ra
+o principio da elei&ccedil;&atilde;o popular.
+<br />
+
+<br />
+
+Isto j&aacute; no imperio! Na Republica, em consequencia
+do regimen adoptado e de precendentes influencias intra-continentaes,
+a doutrina do aproveitamento da
+<em>parte</em>
+do direito tradicional <em>applicavel</em>
+&aacute; condi&ccedil;&atilde;o do novo
+povo tinha de ser posta em pratica mais largamente.
+Era inevitavel. Ia-se proceder a uma selec&ccedil;&atilde;o
+&aacute; qual
+tinham de succumbir muitos dos archaicos e obsol&eacute;tos
+principios do direito portugu&ecirc;s, j&aacute; adaptado ao
+ser introduzido
+no Brasil.
+<br />
+
+<br />
+
+Apparecia, na reconstruc&ccedil;&atilde;o republicana do
+Brasil,
+o agente differenciador americano, que j&aacute; lhe n&atilde;o
+era
+estranho. Encontrava, por&eacute;m, no proprio regimen politico,
+facilidades que antes lhe tinham faltado.
+<br />
+
+<br />
+
+A Constitui&ccedil;&atilde;o Brasileira, de 24 de fevereiro de
+1891, foi o promotor principal desta reforma, que, a perdurar
+o alheiamento de Portugal ao progresso contemporaneo,
+parece destinada a precipitar o divorcio entre
+as duas civiliza&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c13" id="c13"></a>
+<h3>XIII<br />
+
+<br />
+
+AS DIVERGENCIAS
+</h3>
+
+<br />
+
+Agora, volvidos vinte annos sobre a qu&eacute;da do imperio
+de D. Pedro II, n&atilde;o &eacute; licito a pess&ocirc;as
+de s&atilde;o
+juizo admittir a possibilidade da restaura&ccedil;&atilde;o
+monarchica.
+<br />
+
+<br />
+
+A Republica &eacute; definitiva. Com os della est&atilde;o
+confundidos
+os destinos nacionaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Em v&atilde;o, em 1896, o visconde de Ouro Preto exprimia,
+na carta-prefacio dos <em>Fastos da
+Dictadura</em>, de
+Eduardo Prado, esperan&ccedil;as de
+restaura&ccedil;&atilde;o e dirigia
+uma sauda&ccedil;&atilde;o &laquo;&aacute; phalange dos
+batalhadores do porvir,
+investidos da sagrada miss&atilde;o de sanar os males causados
+&aacute; sociedade&raquo; brasileira,
+&laquo;reencaminhando-a aos seus
+luminosos destinos&raquo;!
+<br />
+
+<br />
+
+Em 1900, o sr. Joaquim Nabuco, num artigo da
+<em>Noticia</em>, confessava que havia muito
+que a &laquo;sua attrac&ccedil;&atilde;o
+politica&raquo; era &laquo;para se conciliar com os novos
+destinos
+do paiz, <em>quaesquer que elles
+fossem</em>&raquo;. E quando se
+realizou o 3.&ordm; Congresso Pan-Americano no Rio de Janeiro,
+<span class="pagenum">[94]</span>
+o preclaro diplomata explicou a sua adhes&atilde;o ao
+novo regimen pelo reconhecimento de que s&oacute; com a
+Republica a sua patria podia realizar a parte que lhe
+compete na obra continental decorrente da doutrina de
+Monr&ouml;e.
+<br />
+
+<br />
+
+As novas institui&ccedil;&otilde;es incorporaram o Brasil ao
+pan-americanismo.<sup><a href="#f24">[24]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+O exito republicano consolidou essa transforma&ccedil;&atilde;o
+e garantiu a continuidade de ac&ccedil;&atilde;o do espirito
+americano
+na vida nacional brasileira. N&atilde;o ha duvida.
+<br />
+
+<br />
+
+Vinte annos de democracia, num paiz em que n&atilde;o
+havia privilegios de casias, bastam para tornar definitiva
+a aboli&ccedil;&atilde;o do velho systema politico, com todas
+as
+suas consequencias e para dar consistencia indestructivel
+&aacute; actual ordem politica e &aacute;s suas logicas
+illa&ccedil;&otilde;es
+sociaes.<sup><a href="#f25">[25]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[95]</span>
+Quem tinha quinze a vinte annos, ao ser proclamada
+a Republica, conta hoje entre trinta e cinco e
+quarenta annos: fez-se homem na Republica.
+<br />
+
+<br />
+
+E quem tinha menos do que essa edade recebeu
+educa&ccedil;&atilde;o absolutamente republicana, formou o seu
+espirito
+<span class="pagenum">[96]</span>
+nos principios trazidos pela orienta&ccedil;&atilde;o politica
+americana.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute;, portanto, a parte activa da sociedade brasileira
+que representa as aspira&ccedil;&otilde;es pan-americanistas.
+<br />
+
+<br />
+
+O futuro pertence lhe. Nella abdicam os que conseguiram
+accommodar-se dentro das institui&ccedil;&otilde;es novas
+e os que, por uma incompatibilidade intima, quasi organica,
+est&atilde;o condemnados &aacute;
+absten&ccedil;&atilde;o para o resto dos
+seus dias.
+<br />
+
+<br />
+
+A essencia do espirito americano &eacute; a liberdade,
+comprehendida como a maxima amplitude deixada e
+garantida &aacute; ac&ccedil;&atilde;o individual.
+<br />
+
+<br />
+
+Diz um publicista notavel que, se o principio do
+<em>self-government</em> &eacute; um
+axioma politico para o norte-americano,
+o seu complemento, no terreno social, &eacute; o
+<em>self-help</em>, base dos direitos
+individuaes.
+<br />
+
+<br />
+
+A soberania do direito, alicerce do direito publico
+anglo-saxonio, opp&otilde;e-se a que as garantias individuaes
+sejam postergadas pelo povo ou pelos seus mandatarios.
+&Eacute; o que Laboulaye exprime, quando diz que os
+direitos individuaes, na Constitui&ccedil;&atilde;o Americana,
+s&atilde;o
+considerados preexistentes e superiores &aacute;
+Constitui&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A Constitui&ccedil;&atilde;o Brasileira, no seu artigo 72, em
+que
+foi mais completa do que a de 1789 na declara&ccedil;&atilde;o
+dos
+direitos do homem e do cidad&atilde;o, consagra a doutrina
+americana.
+<br />
+
+<br />
+
+Eis uma divergencia essencial entre o Brasil e Portugal
+<span class="pagenum">[97]</span>
+ou qualquer outro estado do continente europeu.
+Com effeito, pond&eacute;ra Arthur Orlando, professor de direito
+no Recife:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Segundo o direito europeu compete ao soberano
+regular de modo absoluto as rela&ccedil;&otilde;es entre os
+particulares
+e os poderes publicos. No direito americano,
+<em>vis-&agrave;-vis</em> das
+auctoridades publicas, o particular tem
+direitos imprescriptiveis, inalienaveis, cuja garantia
+compete aos tribunaes judiciarios.&raquo;<sup><a href="#f26">[26]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Em face dos principios do direito constitucional
+das na&ccedil;&otilde;es europ&eacute;as, o soberano,
+chame-se imperador
+ou povo, n&atilde;o encontra obstaculos &aacute; sua vontade:
+perante
+os principios do direito constitucional dos povos
+americanos, os direitos individuaes est&atilde;o ao abrigo da
+ac&ccedil;&atilde;o, mesmo collectiva, dos poderes publicos, e,
+portanto,
+isentos de todo ataque.&raquo;<sup><a href="#f26">[26]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+Mas desta differen&ccedil;a deriva outra, por egual importante.
+<br />
+
+<br />
+
+O poder judiciario americano v&eacute;la pelo respeito dos
+direitos individuaes, cohibindo as exorbitancias dos
+outros poderes, isto &eacute;, tanto do executivo como do
+legislativo.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;As leis&#8213;l&ecirc;-se em Story&#8213;sem tribunaes que
+interpretem
+e indiquem o seu verdadeiro sentido e applica&ccedil;&atilde;o,
+s&atilde;o letra morta.&raquo;<sup><a href="#f27">[27]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+Foi com o mesmo fim que a Constitui&ccedil;&atilde;o
+Brasileira,
+art.<sup>o</sup> 59, III, &sect; 1.&ordm;, alinea
+<em>a</em>, deu ao Supremo Tribunal
+Federal competencia para julgar da validade ou
+applica&ccedil;&atilde;o
+dos tratados e leis federaes e das leis e actos
+dos governos estadoaes.<sup><a href="#f28">[28]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[98]</span>
+No Brasil e na Argentina, como nos Estados-Unidos,
+n&atilde;o &eacute; raro v&ecirc;r o poder judiciario
+decretar, por
+senten&ccedil;a, a inconstitucionalidade de leis votadas pelo
+Congresso e sanccionadas pelo poder executivo.
+<br />
+
+<br />
+
+Ali&aacute;s, a tendencia do espirito americano &eacute; para
+resolver
+todas as quest&otilde;es de direito por tribunaes competentes.
+O julgamento arbitral &eacute; a forma de decidir os
+litigios internacionaes.
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil, cuja lei basica, art.<sup>o</sup> 88, prohibe as
+guerras
+de conquista, tem demonstrado amplamente a sua
+adhes&atilde;o ao arbitramento.<sup><a href="#f29">[29]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+E, sem pormenorizar a doutrina Drago, em que o
+ex-ministro argentino quiz firmar o principio da n&atilde;o
+interven&ccedil;&atilde;o armada para a cobran&ccedil;a de
+dividas de estados,
+&eacute; evidente que, na America, se caminha para
+um acc&ocirc;rdo de que ha de resultar uma justi&ccedil;a
+internacional,
+continental pelo menos, destinada a dar realidade
+ao espirito americano nessa esphera juridica.
+<br />
+
+<br />
+
+E essa tendencia, como observa Calvo<sup><a href="#f30">[30]</a></sup>,
+&laquo;ha de
+transformar as rela&ccedil;&otilde;es entre os povos, porque,
+hoje,
+n&atilde;o ha meias soberanias e a America cada vez ha de
+pesar mais nessas rela&ccedil;&otilde;es&raquo;,<sup><a href="#f31">[31]</a></sup> com a
+entrada dos
+seus estados na linha das for&ccedil;as com que se ter&aacute;
+de
+contar, como se contou sempre, para que o direito internacional
+tenha sanc&ccedil;&atilde;o e se torne effectivo.
+<br />
+
+<br />
+
+Nesta materia tambem nos vamos inevitavelmente
+afastando dos nossos irm&atilde;os de al&eacute;m-mar:
+qued&aacute;mo-nos
+<span class="pagenum">[99]</span>
+atidos e atados &aacute; enygmatica, mysteriosa e confusa
+politica, que consiste em ter e n&atilde;o perder o apoio de
+uma grande potencia, a qual tem sido a Inglaterra,
+mas que, ahi por 1886 a 1891, esteve para ser a Allemanha...
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o nos m&oacute;ve a consciencia do nosso destino;
+tratamos
+de alcan&ccedil;ar arrimo. N&atilde;o obedecemos a interesses
+claros da nacionalidade nem a exigencias da nossa
+expans&atilde;o, nem sequer a affinidades de cultura ou
+imposi&ccedil;&otilde;es
+da economia portuguesa: requestamos um
+bom encosto, embora s&oacute; nos sirva para satisfazer vaidades
+e pavonear for&ccedil;as alheias.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Seria longo enumerar todos os aspectos sociaes em
+que divergem, j&aacute; neste momento, os povos brasileiro
+e portugu&ecirc;s. N&atilde;o ha, por&eacute;m, duvida
+alguma de que a
+causa primordial desse facto, que a fatalidade do menor
+esfor&ccedil;o ha de estender e ampliar de dia para dia,
+&eacute; o espirito americano, que incorporou, afinal, na
+consciencia
+continental, a consciencia brasileira.
+<br />
+
+<br />
+
+Os povos de toda a America sentem que t&ecirc;m destinos
+communs no desenvolvimento da humanidade.
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil n&atilde;o podia deixar de commungar nesse sentimento.
+Em todas as manifesta&ccedil;&otilde;es da sua vida actual
+&eacute; facil reconhecel-o:
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; o resultado da ac&ccedil;&atilde;o exercida pelos
+Estados-Unidos,
+cuja constitui&ccedil;&atilde;o, &laquo;sobre a qual
+s&atilde;o vasadas
+<em>todas</em> as
+constitui&ccedil;&otilde;es politicas dos povos
+americanos&raquo;,
+creou um direito novo, <em>sui generis</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Sui generis</em> &eacute;, com
+effeito. A capacidade juridica da
+mulher, que na Europa n&atilde;o &eacute; completa nem na
+Gran-Bretanha,
+&eacute;-o nos Estados-Unidos. &laquo;P&oacute;de praticar
+qualquer
+acto juridico ou extra-judicial independente da
+auctoriza&ccedil;&atilde;o do marido&raquo;, diz Arthur
+Orlando.
+<br />
+
+<br />
+
+A essa corrente obedeceram, no debate recente de
+um projecto de lei regulador da dissolu&ccedil;&atilde;o do
+vinculo
+<span class="pagenum">[100]</span>
+conjugal, alguns dos mais adeantados legisladores brasileiros.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; liberdade de testar, principio inherente &aacute;
+forma&ccedil;&atilde;o
+individualista dos povos anglo-saxonios, tem de se
+attribuir o dispositivo da lei brasileira de 31 de Dezembro
+de 1907, que conf&eacute;re &laquo;ao testador, que
+tiv&eacute;r descendente
+ou ascendente successivel, a faculdade de
+disp&ocirc;r de metade dos seus bens&raquo;, em vez da
+ter&ccedil;a
+parte.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um passo dado para a conquista de mais essa
+liberdade, &aacute; qual, em grande parte, devem ingleses e
+<em>yankees</em> a sua iniciativa e,
+portanto, o exito na lucta
+pela vida.
+<br />
+
+<br />
+
+N&oacute;s, latinos, avergados ao pavor do principio da
+auctoridade, veneradores do estado providencia, picados
+da tarantula romana das conquistas e da partilha
+das presas, revendo na gloria das armas a f&oacute;rma ancestral
+e exclusiva de triumphar&#8213;estamos hoje, como
+ha trezentos annos, naquella these de que a heran&ccedil;a
+&eacute;
+um dever que os paes cumprem para com os filhos.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute;, por&eacute;m, s&oacute; isso.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao mesmo espirito j&aacute; era devida a
+institui&ccedil;&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+1.&ordm; Do <em>habeas-corpus</em>, no
+estatuto basico da Republica,
+art.<sup>o</sup> 72 &sect; 22;
+<br />
+
+<br />
+
+2.&ordm; Da responsabilidade do chefe da
+na&ccedil;&atilde;o por meio
+do <em>impeachment</em> ou
+accusa&ccedil;&atilde;o pela camara, art.<sup>os</sup>
+53 e 54;
+<br />
+
+<br />
+
+3.&ordm; Da competencia privativa do poder legislativo
+para or&ccedil;ar a receita e fixar a despeza, art.<sup>o</sup>
+34 &sect;
+1.&ordm;, e
+para resolver definitivamente sobre os tratados e
+conven&ccedil;&otilde;es
+com as na&ccedil;&otilde;es estrangeiras, art.<sup>o</sup>
+34 &sect;
+12.&ordm;;
+<br />
+
+<br />
+
+4.&ordm; Da indissolubilidade do Congresso<sup><a href="#f32">[32]</a></sup>, da sua
+reuni&atilde;o de direito proprio, e da faculdade privativa de
+<span class="pagenum">[101]</span>
+deliberar sobre a proroga&ccedil;&atilde;o e adiamento das suas
+sess&otilde;es, art.<sup>o</sup> 17 e seus
+&sect;&sect;;
+<br />
+
+<br />
+
+5.&ordm; Da concess&atilde;o aos estrangeiros de todos os
+direitos
+pelo art.<sup>o</sup> 72 dados aos nacionaes, entre os
+quaes
+a liberdade de cultos e o ensino publico leigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Portugal nada disso existe. Como se ha de querer
+que caminhem parallelamente povos que divergem
+t&atilde;o radicalmente nos seus costumes politicos e nas suas
+concep&ccedil;&otilde;es juridicas?
+<br />
+
+<br />
+
+Pura utop&iacute;a! V&ecirc;de o que contrap&ocirc;mos a
+esses cinco
+pontos enumerados acima:
+<br />
+
+<br />
+
+1.&ordm; N&atilde;o ha garantias que defendam os
+cidad&atilde;os
+contra o arbitrio da auctoridade: o juizo de
+instruc&ccedil;&atilde;o
+criminal&#8213;por suspeitas e denuncias!&#8213;prendeu, por
+quasi tres mezes, quatro homens, para o inquerito sobre
+o regicidio;
+<br />
+
+<br />
+
+2.&ordm; A irresponsabilidade do chefe da
+na&ccedil;&atilde;o &eacute; constitucional;
+o caso dos adeantamentos estereotypa o nosso
+estado em materia de responsabilidades dos proprios
+ministros, <em>responsaveis</em>, segundo a
+fic&ccedil;&atilde;o legal;
+<br />
+
+<br />
+
+3.&ordm; A dictadura financeira &eacute; a regra, a que
+s&oacute; se
+foge &laquo;quando os ares andam turvos&raquo;: o
+or&ccedil;amento,
+confessaram-no todos os partidos portugueses, &eacute; uma
+mentira; quanto &aacute; competencia do parlamento, em materia
+de tratados, basta citar o caso mais recente, o
+tratado luso-sul-africano, em que ao poder legislativo...
+se reservou a nobre func&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o o
+discutir
+sequer;
+<br />
+
+<br />
+
+4.&ordm; A camara electiva em Portugal foi dissolvida
+quasi systematicamente durante o reinado do rei Carlos,
+j&aacute; o foi neste e quanto a proroga&ccedil;&otilde;es
+e adiamentos
+s&oacute; se n&atilde;o d&atilde;o os que o governo
+n&atilde;o quer; as c&ocirc;rtes
+n&atilde;o se reunem de direito proprio; &eacute; o rei que as
+convoca;
+<br />
+
+<br />
+
+5.&ordm; Dos direitos do estrangeiro em Portugal avalie-se
+pela expuls&atilde;o de Souza Carneiro, Salmer&oacute;n e
+Francisco Ferrer, entre muitos mais; a liberdade religiosa
+<span class="pagenum">[102]</span>
+aquilata-se pelo julgamento recente de um jornalista
+republicano em Vizeu; o ensino leigo define-se
+pela obriga&ccedil;&atilde;o de recitar pr&eacute;ces
+catholicas nos actos
+da Universidade. &Eacute; verdade que, antes de jurar defender
+a Patria, o rei tem de jurar, pela Carta, manter a
+religi&atilde;o catholica, apostolica, romana!...
+<br />
+
+<br />
+
+Isto tudo acontece neste paiz de gloriosas
+tradi&ccedil;&otilde;es,
+regido por formulas j&aacute; esquecidas pela maioria dos
+povos civilizados.
+<br />
+
+<br />
+
+Ser&aacute;, por acaso, a nossa terra uma das
+<em>wasted
+countries</em> (paizes desperdi&ccedil;ados,
+n&atilde;o utilizados) a que
+alludiu, ha annos, sir John Lubbock?
+<br />
+
+<br />
+
+Ser&aacute; um desses estados para que o patricio e nosso
+tristemente conhecido marquez de Salisbury aconselhava
+a expropria&ccedil;&atilde;o por utilidade internacional?
+<br />
+
+<br />
+
+Dir-se-ia Portugal transferido para os tr&oacute;picos, cuja
+heran&ccedil;a, no dizer de Kidd, est&aacute; sendo agora
+disputada,
+depois da conquista da terra habitavel pela ra&ccedil;a branca.<sup><a href="#f33">[33]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c14" id="c14"></a>
+<h3>XIV<br />
+
+<br />
+
+A APPROXIMA&Ccedil;&Atilde;O
+</h3>
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; facil comprehender como o conjuncto de
+leis,
+costumes e pendores, que acabamos de summariar e
+indicar &aacute; atten&ccedil;&atilde;o dos homens de
+intelligencia e boa
+vontade, tivesse, em regra, escapado ao espirito dos
+conselheiros da nossa terra de doutores.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha, todavia, vestigio algum de que se houvessem
+apercebido da realidade os nossos estadistas de
+pechisbeque nem tampouco os argutos diplomatas, que
+s&aacute;em do favoritismo cortez&atilde;o para o desempenho
+das
+suas miss&otilde;es com o c&eacute;rebro vasio de
+id&eacute;as e at&eacute; das
+no&ccedil;&otilde;es elementares das mais comesinhas coisas
+divulgadas
+pelas bibliothecas populares com que a limpida
+intelligencia francesa procura chamar &aacute;s cercanias da
+civiliza&ccedil;&atilde;o as gentes retardatarias.
+<br />
+
+<br />
+
+Que aos cidad&atilde;os portugueses, que formam o grosso
+dos setenta e tantos por cento que a estatistica declara
+analphabetos, seja inattingivel o phenomeno,
+admitte-se, explica-se e justifica-se.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[104]</span>
+Mas que, nas proprias classes tidas por cultas e, de
+facto, dirigentes, se pense ainda que o Brasil nos f&oacute;ge
+das m&atilde;os e que o podemos e devemos segurar, bastando
+para tanto a vontade de o fazermos; que, nessas
+classes, se attribua a animadvers&atilde;o por parte dos
+governos brasileiros o que deflue logicamente dos elementos
+vitaes das sociedades; que, nesses meios venturosos,
+se procurem solu&ccedil;&otilde;es a um problema, que se
+presume conhecer mas realmente se desconhece, e n&atilde;o
+se lembre ninguem de investigar os seus precisos termos&#8213;&eacute;
+symptoma alarmantissimo para todos aquelles
+que ainda amam esta nossa patria e aspiram a uma vida
+nacional digna e pr&oacute;spera.
+<br />
+
+<br />
+
+Acaso ha quem julgue que perduram no Brasil resentimentos
+contra a antiga metr&oacute;pole?
+<br />
+
+<br />
+
+Acaso toda essa gente gra&uacute;da e f&uacute;til
+n&atilde;o tem olhos
+para v&ecirc;r e ouvidos para ouvir?
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o chegam &aacute; sua intelligencia
+pregui&ccedil;osa nem &aacute;
+sua alma embotada pelo egoismo as provas constantes
+de intenso affecto que os brasileiros nos d&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se sente em Portugal que as nossas m&aacute;guas e
+as nossas alegrias fazem pulsar, para l&aacute; do Atlantico,
+milh&otilde;es de peitos e tremer milh&otilde;es de labios em
+que
+as primeiras palavras balbuciadas o foram na lingua
+commum?
+<br />
+
+<br />
+
+Triste, tristissimo estado da nossa alma, vergonhosa
+condi&ccedil;&atilde;o da nossa intelligencia!
+<br />
+
+<br />
+
+Mandemos ao Brasil homens intelligentes, que lhe
+estudem a vida sob todos os aspectos e venham esclarecer-nos.
+<br />
+
+<br />
+
+Deixemo-nos de confiar em diplomatas, que sabem
+elegancias e pragmaticas, mas ignoram as mais sing&eacute;las
+no&ccedil;&otilde;es dos phenomenos sociaes, economicos e
+juridicos.
+<br />
+
+<br />
+
+Os nossos colonos no Brasil, os nossos patricios
+que l&aacute; trabalham em qualquer esphera da actividade,
+valem muito mais, para a indica&ccedil;&atilde;o das
+necessidades
+<span class="pagenum">[105]</span>
+das rela&ccedil;&otilde;es luso-brasileiras, do que todos os
+viajantes
+que t&ecirc;m sa&iacute;do do Terreiro do Pa&ccedil;o, para
+destinos varios,
+a curtir saudades da manga de alpaca e do <em>Deus
+guarde a V. Ex.<sup>a</sup></em> do papelorio
+nacional.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Desta desidia collectiva, em que o menos culpado
+e o mais sacrificado &eacute; o povo laborioso e honesto, resultou
+a absurda situa&ccedil;&atilde;o em que nos encontramos.
+<br />
+
+<br />
+
+Reconhecemos&#8213;dir-se-ia que de subito!&#8213;que, no
+fim de contas, o portugu&ecirc;s encontra concorrentes nas
+outras ra&ccedil;as que contribuem para o povoamento do
+Brasil...
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o foi sem tempo; mas, infelizmente, n&atilde;o
+atinamos
+com o caminho que nos conv&eacute;m! Ser&atilde;o as leis
+inflexiveis da historia que h&atilde;o de nos encarreirar para
+essa senda.
+<br />
+
+<br />
+
+Por nossa vontade ou contra o nosso querer, havemos
+de l&aacute; ir ter.
+<br />
+
+<br />
+
+Basta que assim seja para que presintamos, no anceio
+geral por estreitar os la&ccedil;os que prendem os povos
+de lingua portuguesa, promessas de que vem perto o
+dia da redemp&ccedil;&atilde;o desta terra em que os homens
+livres
+parecem escravizados, em que tudo transuda o bafio
+de remoto passado e tudo &eacute; bol&ocirc;r, caruncho e
+poeira.
+<br />
+
+<br />
+
+Com que ent&atilde;o queremos approximar-nos do Brasil
+e mais intimamente conviver com elle?
+<br />
+
+<br />
+
+Vamos, pois, procurar &laquo;unificar ou pelo menos
+harmonizar a legisla&ccedil;&atilde;o civil e
+commercial&raquo; dos dois
+paizes?
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, ainda bem! Aos republicanos portugueses
+sorri essa id&eacute;a. J&aacute; o diss&eacute;mos na
+introduc&ccedil;&atilde;o a estas
+paginas.
+<br />
+
+<br />
+
+E sorri porque traria a Republica, se n&oacute;s a n&atilde;o
+pud&eacute;ssemos
+fazer num impeto dignificante; porque s&oacute; a
+Republica p&oacute;de levar Portugal a entender-se, de qualquer
+modo, com o Brasil republicano.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[106]</span>
+A legisla&ccedil;&atilde;o commercial e civil! Como conciliar
+os
+dois povos, sob esses aspectos do direito, se emquanto
+l&aacute; no Brasil tudo tende a amoldar-se ao regimen politico
+e &aacute;s institui&ccedil;&otilde;es sociaes e juridicas
+do continente&#8213;como
+deix&aacute;mos exposto&#8213;c&aacute; em Porttugal nada caminha
+para a democracia, tudo retroc&eacute;de para o absolutismo
+de ha um s&eacute;culo?
+<br />
+
+<br />
+
+Ide pedir a um cidad&atilde;o affeito &aacute; garantia do
+<em>habeas-corpus</em>
+que se despoje della e acceite as delicias do inquisitorial
+Juizo de Instruc&ccedil;&atilde;o Criminal, alli &aacute;
+Parreirinha...
+<br />
+
+<br />
+
+Chamae os lavradores de um paiz em que existe o
+credito real e o credito agricola, a mobilisa&ccedil;&atilde;o
+do valor
+da terra e do valor da produc&ccedil;&atilde;o, e
+perguntae-lhes
+se lhes apraz voltar &aacute; condi&ccedil;&atilde;o dos
+agricultores do nosso
+Al&eacute;mtejo...
+<br />
+
+<br />
+
+Invertei, por&eacute;m, os papeis e vereis como o
+al&eacute;mtejano
+corre febril e esperan&ccedil;ado a abra&ccedil;ar as
+institui&ccedil;&otilde;es
+que florescem nos paizes da America e como o
+lisboeta acolhe com enthusiasmo o
+<em>habeas-corpus</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Mas os factos affirmam que dependemos economicamente
+do Brasil, que conv&eacute;m ao Brasil o colono portugu&ecirc;s
+e que, al&eacute;m da lingua, ha poderosos vinculos,
+principalmente de ordem affectiva e psychica, entre os
+dois paizes.
+<br />
+
+<br />
+
+Queremos, l&aacute; e c&aacute;, viver como uma s&oacute;
+familia. N&atilde;o
+haver&aacute;, para isso, raz&otilde;es de conveniencia e de
+interesse,
+mas ha raz&otilde;es de sentimento, a que os homens
+nunca se furtam.
+<br />
+
+<br />
+
+O exemplo anglo-americano &eacute; caracteristico. Quando
+foi da famosa nota comminatoria do gabinete de Washington
+ao de Londres, a proposito de Venezuela e no
+tempo de Grover Cleveland, pareceu que o resfriamento
+ia abrir &eacute;ra nova.
+<br />
+
+<br />
+
+Puro engano!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[107]</span>
+Os Estados-Unidos e a Gran-Bretanha cada vez se
+ligaram mais intimamente e a influencia que, sobre esta,
+exerce aquella na&ccedil;&atilde;o &eacute; tal que
+f&ocirc;ra loucura negal-a.
+<br />
+
+<br />
+
+A propria crise dos <em>lords</em> que vem a
+ser sen&atilde;o o
+surto da opini&atilde;o democratica
+<em>yankee</em> dentro da democracia
+inglesa, socialmente cong&eacute;nere da americana?
+<br />
+
+<br />
+
+Que querem os liberaes, os radicaes, os socialistas
+do <em>Labour Party</em><sup><a href="#f34">[34]</a></sup>
+e todos os que
+acompanham Asquith,
+sen&atilde;o realizar a id&eacute;a americana do senado
+electivo
+e fazer prevalecer, no tocante &aacute; iniciativa
+or&ccedil;amentaria
+e tributaria, a doutrina que determinou a
+independencia dos Estados Unidos?<sup><a href="#f35">[35]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+E tamanha &eacute; a influencia
+<em>yankee</em> na vida inglesa
+que homens da estatura de William Stead e de Westlake
+j&aacute; falaram na americaniza&ccedil;&atilde;o da
+Gran-Bretanha...
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute;, por&eacute;m, isolado o facto. A
+rapida democratiza&ccedil;&atilde;o
+italiana que os nossos liberaes das duzias attribuem
+<span class="pagenum">[108]</span>
+ao, ali&aacute;s, unico principe intelligente que reina
+em nossos dias&#8213;n&atilde;o passa, no criterio dos mais eminentes
+soci&oacute;logos italianos, de inevitavel consequencia
+da emigra&ccedil;&atilde;o para a America republicana,
+progressiva
+e trabalhadora. <em>Fare l'America</em> ha de
+redundar num
+novo <em>fare da se</em>, desta vez proferido
+pelo povo ao conquistar
+a posse dos seus destinos!
+<br />
+
+<br />
+
+Todos os convivios prolongados e intimos de povos
+differentes os conduzem ao nivelamento de cultura.
+&Eacute; o facto sociologico correspondente ao physico do
+equilibrio dos liquidos em vasos communicantes.
+<br />
+
+<br />
+
+As necessidades do progresso humano e as exigencias
+da ordem social s&atilde;o os unicos indicadores do sentido
+que esse nivelamento tem de tomar.
+<br />
+
+<br />
+
+Caso typico &eacute; o da allian&ccedil;a franco-russa: ella
+n&atilde;o
+podia, como os energumenos realistas suppuzeram, levar
+a Fran&ccedil;a &aacute; monarchia, mas tinha de arrastar o
+imperio de Nicol&aacute;o para o systema representativo,
+que, afinal, reconheceu a existencia do povo e o seu
+direito a intervir na gest&atilde;o da sociedade, que o seu
+trabalho alimenta e enriquece.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Deante da na&ccedil;&atilde;o brasileira, cuja cultura
+j&aacute; n&atilde;o podemos
+p&ocirc;r em duvida, cuja expans&atilde;o alenta o nosso
+organismo
+economico e cujo consumo &eacute; uma das melhores
+garantias effectivas da nossa produc&ccedil;&atilde;o, estamos
+nas condi&ccedil;&otilde;es que acabamos de referir.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma verdadeira dependencia material. O sr. Consiglieri
+Pedroso com raz&atilde;o a reconhece nos seus considerandos
+quando diz que &laquo;a economia nacional portuguesa
+s&oacute; ao contacto intimo da exuberante seiva
+brasileira pode robustecer-se e tonificar-se&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Accresce a esse facto o de uma absoluta interdependencia
+dos dois paizes, sob o ponto de vista moral
+e affectivo. Julgamos tel-o deixado claramente deduzido;
+e se tal n&atilde;o fosse verdade, todo o nosso esfor&ccedil;o
+<span class="pagenum">[109]</span>
+e todo o esfor&ccedil;o brasileiro para realizar a desejada
+approxima&ccedil;&atilde;o
+redundariam em pura perda.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute;, por&eacute;m, certo que os la&ccedil;os que ligam
+Portugal
+ao Brasil assim como a Hespanha &aacute;s republicas
+hispano-americanas
+n&atilde;o apresentam indicios de enfraquecimento,
+apezar das divergencias antes apontadas.
+<br />
+
+<br />
+
+O erro, por parte dos povos da peninsula iberica &eacute;
+o mesmo: portugueses e hespanh&oacute;es persistem, pelo
+seu ferrenho conservantismo, que a ignorancia tut&eacute;la e
+coura&ccedil;a contra todas as conquistas do progresso, em
+v&ecirc;r as coisas de hoje com os olhos com que viam as
+dos tempos do seu poder&iacute;o...
+<br />
+
+<br />
+
+Ambos esses paizes esquecem que se lhes foram,
+de longa data, as colonias americanas e que, l&aacute;, onde
+as tinham, existem hoje florescentes estados e povos
+trabalhados por uma nova civiliza&ccedil;&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+Supino erro de aprecia&ccedil;&atilde;o: porque o facto de
+terem
+os povos americanos de origem ib&eacute;rica evolvido
+em sentido differente do adoptado at&eacute; agora pelos
+ib&eacute;ricos
+n&atilde;o implica necessariamente definitivo divorcio ou
+rompimento.
+<br />
+
+<br />
+
+Dil-o o simples bom-senso. Effectivamente, <em>apezar
+das divergencias verificadas, e incontestaveis</em>, tem
+de se
+reconhecer, de ambos os lados do Oceano, que perduram
+as intimas rela&ccedil;&otilde;es e a consciencia de que ellas
+se
+h&atilde;o de estreitar ainda mais entre os dois ramos de
+cada uma dessas familias.
+<br />
+
+<br />
+
+O que &eacute; evidente &eacute; que os americanos, do sul, do
+centro e do norte, s&oacute; podem proseguir no caminho encetado.
+<br />
+
+<br />
+
+Nem &eacute; admissivel o capricho em materia desta natureza.
+Os povos t&ecirc;m os seus destinos prescriptos pelas
+condi&ccedil;&otilde;es do meio em que se desenvolvem.
+<br />
+
+<br />
+
+Meio physico, meio psychico, meio politico, meio
+social, meio internacional&#8213;&eacute; claro.
+<br />
+
+<br />
+
+Esse complexo meio imp&otilde;e aos povos da America
+destinos americanos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[110]</span>
+Dir-se-&aacute; que tambem as mesmas causas imp&otilde;em
+&aacute;
+peninsula ib&eacute;rica destinos n&atilde;o americanos.
+<br />
+
+<br />
+
+Nada o prova.
+<br />
+
+<br />
+
+Antes de tudo, o que se v&ecirc; &eacute; que existe, tanto em
+Portugal como na Hespanha, a consciencia collectiva
+de que &eacute; indispens&aacute;vel refazer a antiga
+vitalidade com
+a <em>seiva</em> das ex-colonias.
+&Eacute; a consciencia de um destino...
+<br />
+
+<br />
+
+Depois, com que povos, com que culturas da Europa,
+formam os dois povos e as duas culturas da Ib&eacute;ria
+um systema que se contraponha ao da America, ao
+pan-americanismo?
+<br />
+
+<br />
+
+E, finalmente, n&atilde;o se sente, pela Europa inteira, o
+sopro revivificador do individualismo americano? N&atilde;o
+se percebe, nas mais insignificantes coisas, o influxo
+dessa poderosa alma americana, que revoluciona as
+sciencias, as industrias e as artes? N&atilde;o se v&ecirc;em
+legi&otilde;es
+de homens intelligentes acudindo &aacute; America a
+haurir, nas suas coisas novas, nos seus processos novos
+e nas suas institui&ccedil;&otilde;es novas, a energia que
+falece
+&aacute; Europa e a esperan&ccedil;a, que fugiu das suas velhas
+na&ccedil;&otilde;es?
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; o eixo da civiliza&ccedil;&atilde;o superior e
+guiadora que se
+desloca...
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a America que herda a hegemonia do planeta,
+como, nesse papel, a Europa succed&ecirc;ra &aacute; Asia.
+<br />
+
+<br />
+
+E, se ha quarenta annos se assistiu ao inicio da
+prodigiosa &laquo;occidentaliza&ccedil;&atilde;o&raquo;
+do Jap&atilde;o, que &aacute; Europa
+veiu buscar uma cultura, que nem por ser ex&oacute;tica e
+antag&oacute;nica com as suas tradi&ccedil;&otilde;es
+deixou de ser aproveitada
+no que era &laquo;aproveitavel &aacute;
+condi&ccedil;&atilde;o&raquo; do seu
+povo&#8213;por que havemos de reluctar em conceber que
+Portugal ter&aacute; de ir, al&eacute;m do Atlantico, procurar,
+na
+cultura brasileira, que lhe &eacute; affim, elementos de reforma
+e de regenera&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+Acaso pretendemos, desprovidos de tudo, reatar,
+<span class="pagenum">[111]</span>
+na modalidade hodierna, a ac&ccedil;&atilde;o directora da
+phase
+do nosso esplendor?
+<br />
+
+<br />
+
+Porventura aspiramos ao que a Gran-Bretanha sabe
+imposivel&#8213;&aacute; anulla&ccedil;&atilde;o da obra do
+espirito americano?
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o nos illudamos. O eixo da
+civiliza&ccedil;&atilde;o&#8213;perd&otilde;em-nos
+o chav&atilde;o em que insistimos pelo expressivo da
+f&oacute;rmula&#8213;est&aacute;-se a deslocar, est&aacute;
+mesmo a mais de
+meio caminho da sua desloca&ccedil;&atilde;o para a America.
+<br />
+
+<br />
+
+Ponhamos, frente a frente, os dois paizes de lingua
+portuguesa:
+<br />
+
+<br />
+
+Um, pujante de <em>seiva</em>,
+&aacute;vido de progresso, confiante
+na ac&ccedil;&atilde;o, audaz na iniciativa,
+pr&oacute;spero e rico! &Eacute; o
+Brasil...
+<br />
+
+<br />
+
+Outro... Bem o conhecemos: largos tratos incultos,
+aldeias despovoadas pela miseria, desalento, glorias
+passadas, deficits, emprestimos em agiotas, povo
+faminto sob o azorrague de iniqua tributa&ccedil;&atilde;o!
+&Eacute; Portugal...
+<br />
+
+<br />
+
+Reunamol-os, esquecendo que s&atilde;o dois povos e lembrando
+apenas que s&atilde;o uma familia unica, vivendo em
+tamanha amizade que n&atilde;o recusem coisa alguma um
+ao outro.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a approxima&ccedil;&atilde;o, tudo quanto se possa
+pedir como
+estreitamento de rela&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Pois bem: no dia em que um conjuncto de circumstancias
+de pura fantasia tiv&eacute;sse realizado esse amplexo,
+que vae al&eacute;m da aspira&ccedil;&atilde;o da hora
+presente, o que havia
+de acontecer, em obediencia a todas as leis sociaes,
+era fatal e irremediavelmente a adapta&ccedil;&atilde;o
+portuguesa
+&aacute; civiliza&ccedil;&atilde;o brasileira.
+<br />
+
+<br />
+
+A monarchia de Portugal estaria nesse dia com a
+sua senten&ccedil;a de morte lavrada, com as suas horas contadas!
+<br />
+
+<br />
+
+A Republica Portuguesa resultaria, irresistivelmente
+e sem demora, da ac&ccedil;&atilde;o, tornada mais intima e
+portanto
+<span class="pagenum">[112]</span>
+mais efficaz, da democracia brasileira em todas
+as suas formas de actividade e em todos os seus modos
+de ser.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o! A monarchia que, para viver, nos reduziu a
+todos n&oacute;s &aacute; condi&ccedil;&atilde;o de
+escravos e de selvagens e nos
+condemnou ao obscurantismo, n&atilde;o se
+abalan&ccedil;ar&aacute; a esse
+passo.
+<br />
+
+<br />
+
+Seria o suicidio. E a monarchia quer viver visto
+que se arma todos os dias para se defender...
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o! A monarchia &eacute; o crime, mas n&atilde;o
+&eacute; a estupidez.
+E estupidez seria encaminhar-se para a morte. A
+n&atilde;o ser que se d&eacute;sse, dentro da monarchia, um
+caso
+de loucura collectiva...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c15" id="c15"></a>
+<h3>XV<br />
+
+<br />
+
+CONCLUS&Atilde;O
+</h3>
+
+<br />
+
+A approxima&ccedil;&atilde;o luso-brasileira &eacute;
+fatal, apesar de
+implicar a queda das institui&ccedil;&otilde;es politicas que
+reduziram
+Portugal ao deploravel estado de ruina em que
+se debate entre as oligarchias, que o exploram, e o
+povo, que olha ancioso para o despontar dessa vida
+nova, que s&oacute; homens novos, de id&eacute;as novas e
+sentimentos
+novos, ser&atilde;o capazes de crear.
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil e Portugal h&atilde;o de harmonizar os seus
+interesses e as suas aspira&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando?
+<br />
+
+<br />
+
+Quando esse <em>desideratum</em>
+n&atilde;o exigir o impossivel.
+Porque &eacute; t&atilde;o impossivel que a monarchia
+portuguesa
+se transforme a ponto de poder adoptar os principios
+e sentimentos da democracia brasileira quanto &eacute; impossivel
+que esta retroceda ao que era o Brasil de ha
+cincoenta annos, s&oacute;mente pelo capricho de estreitar
+as suas rela&ccedil;&otilde;es com o reino do sr. D. Manuel de
+Orl&eacute;ans
+e Bragan&ccedil;a&#8213;o unico representante coroado das
+<span class="pagenum">[114]</span>
+duas casas que o acto emancipador de 15 de novembro
+de 1889 depoz do throno ex&oacute;tico de uma
+na&ccedil;&atilde;o da
+livre America...
+<br />
+
+<br />
+
+Diz o professor Arthur Orlando, a cujo fulgurante
+espirito s&atilde;o familiares as quest&otilde;es americanas,
+que na
+America &laquo;existe um meio social superior que paira
+acima da vida nacional&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Esse meio social chegaria para contrabalan&ccedil;ar todo
+o problematico esfor&ccedil;o que os nossos hypotheticos estadistas
+monarchicos fizessem no sentido de determinar&#8213;se
+n&atilde;o fosse absurdo&#8213;a evolu&ccedil;&atilde;o
+regressiva do
+Brasil.
+<br />
+
+<br />
+
+O mesmo escriptor explica o atrazo do povo portugu&ecirc;s,
+de modo implicito, ao explicar o atrazo da ra&ccedil;a
+latina: &laquo;Elles (os individuos dessa ra&ccedil;a, que
+n&atilde;o t&ecirc;m
+iniciativa e n&atilde;o contam sen&atilde;o com a
+collectividade)
+n&atilde;o se decidem por si, mas pelo meio familiar, politico
+e religioso, de que fazem parte.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Falta-nos a iniciativa; appellamos para a collectividade,
+como se ella fosse mais do que a integra&ccedil;&atilde;o
+das iniciativas individuaes.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; por isso que n&atilde;o comprehendemos ainda aquella
+doutrina da Declara&ccedil;&atilde;o da Independencia Americana
+em que a propria independencia era considerada &laquo;um
+acto de soberania immanente praticado pelo povo e
+resultante do seu direito de mudar a f&oacute;rma de governo
+e instituir governo novo, sempre que o entender
+necessario &aacute; sua felicidade e
+seguran&ccedil;a&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando o comprehendermos estaremos senhores
+dos nossos destinos e poderemos ter uma politica nossa,
+portuguesa, nas rela&ccedil;&otilde;es com outros povos, em vez
+de
+uma politica dynastica, que subordina os interesses
+nacionaes at&eacute; aos casos mais intimos e pessoaes da
+vida dos reis e dos seus conselheiros, guias ou inspiradores.
+<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; l&aacute;, esperemos, se n&atilde;o soubermos
+antes cumprir
+o nosso dever c&iacute;vico. Reconhecem os proprios monarchicos
+<span class="pagenum">[115]</span>
+que temos de conviver com o Brasil, que precisamos
+do Brasil. Lentamente, o Brasil ha de nos enviar,
+com os cheques e as libras trazidas pelo retorno
+da emigra&ccedil;&atilde;o e nas formas multiplas do convivio
+internacional,
+as suas id&eacute;as e as suas institui&ccedil;&otilde;es,
+a li&ccedil;&atilde;o
+do seu progresso e o exemplo da sua prosperidade.
+<br />
+
+<br />
+
+E, assim, como diss&eacute;mos na introduc&ccedil;&atilde;o
+a este trabalho,
+o Brasil acabaria por levar o povo portugu&ecirc;s
+&aacute; Republica.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas j&aacute; este povo d&aacute; signaes evidentes de
+vitalidade
+nas suas camadas profundas. A democracia transpoz
+os limites das povoa&ccedil;&otilde;es urbanas e invadiu,
+impetuosa,
+as villas, as aldeias, os casaes...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+A monarchia n&atilde;o resolver&aacute; o problema das
+rela&ccedil;&otilde;es
+de Portugal com o Brasil. Falhar&aacute; mais esta tentativa
+em que o sr. Consiglieri Pedroso&#8213;partindo de
+um falso perigo de desnacionaliza&ccedil;&atilde;o do Brasil e
+de
+uma supposta possibilidade de Portugal evitar esse perigo,
+se elle existisse&#8213;levou o escrupulo da imparcialidade
+com que preside &aacute; Sociedade de Geographia
+at&eacute; p&ocirc;r de parte as divergencias essenciaes que,
+sob a
+monarchia que S. Ex.<sup>a</sup> combateu toda a vida, se
+opp&otilde;em
+&aacute; obra pan-portuguesa da qual a sua proposta pareceu,
+a tantos enthusiastas &laquo;por indole e por
+disposi&ccedil;&atilde;o
+da lei&raquo;, preciosissima pedra fundamental.
+<br />
+
+<br />
+
+A monarchia n&atilde;o &eacute;, todavia, indispensavel a
+Portugal.
+<br />
+
+<br />
+
+Portugal ha de sobreviver a esse regimen.
+<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o os portugueses resolver&atilde;o os problemas
+nacionaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Por agora, &eacute; escusado pensar em tal coisa. Assim
+&eacute; que, apezar de todas as adhes&otilde;es e de todos os
+applausos, n&atilde;o ser&aacute;, desta vez ainda, realizada a
+approxima&ccedil;&atilde;o
+luso-brasileira.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[116]</span>
+S&oacute; a Republica, fecunda geradora de patrias, creadora
+de consciencias livres e de cidad&atilde;os, nos armar&aacute;
+para todas as victorias.
+<br />
+
+<br />
+
+S&oacute; a Republica, com a qual em breve ha de resurgir
+a energia viril da antiga e heroica patria, saber&aacute; e
+poder&aacute; reirmanar as duas nacionalidades em que se
+fala a forte e rude, a d&ocirc;ce e plangente lingua em que,
+ou f&ocirc;sse sobre o tumulo da nacionalidade ou no arco
+triumphal da sua resurrei&ccedil;&atilde;o, se teria de
+l&ecirc;r o episodio
+do Adamastor e o episodio de Ignez.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c16" id="c16"></a>INDICE
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="white-space: nowrap;"></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">Pag.<sup>a</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1">Introduc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c0">6</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">I</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>A proposta Consiglieri
+Pedroso</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c1">11</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">II</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>O problema
+luso-brasileiro</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c2">17</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">III</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>O supposto
+perigo</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c3">23</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">IV</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Os estrangeiros no
+Brasil</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c4">29</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">V</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>O povoamento e a
+nacionalidade</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c5">35</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">VI</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>A immigra&ccedil;&atilde;o
+portuguesa</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c6">41</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">VII</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>A permuta
+commercial</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c7">47</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">VIII</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>A situa&ccedil;&atilde;o
+real</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c8">55</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">IX</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>A nossa ra&ccedil;a &laquo;at
+work&raquo;</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c9">61</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">X</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Medidas
+propostas</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c10">69</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XI</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>A evolu&ccedil;&atilde;o
+brasileira</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c11">77</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XII</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>O Brasil e o
+americanismo</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c12">83</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XIII</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>As
+divergencias</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c13">93</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XIV</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>A
+approxima&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c14">103</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XV</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Conclus&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c15">113</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: left;">Indice</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c16">117</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Acabou de se
+imprimir<br />
+
+aos sete<br />
+
+de dezembro de 1909,<br />
+
+em Lisboa,<br />
+
+na Typographia do Commercio<br />
+
+rua da Oliveira, 10, ao Carmo.</em>
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Notas:
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f1" id="f1"></a><sup>[1]</sup>
+&laquo;L&aacute; onde nenhuma outra ra&ccedil;a medra o
+portugu&ecirc;s prosp&eacute;ra...&raquo;
+&laquo;A elle pertence a palma dos dotes m&aacute;sculos na
+tarefa
+dos cruzamentos...&raquo; &laquo;&Eacute; a ra&ccedil;a
+privilegiada, &eacute; a &uacute;nica que teve o
+dom de anullar a seu favor as mais inclementes influencias
+climatericas...&raquo;
+&laquo;O portugu&ecirc;s &eacute; o preferido no
+servi&ccedil;o das baleeiras
+norte-americanas e nesse posto o vemos arrostar os frios
+glaciaes...&raquo;
+&laquo;Na zona t&oacute;rrida... encontramol-o sempre a prumo,
+robusto, inabalavel, jovial e
+altaneiro.&raquo;&#8213;<em>Dr. Luiz Pereira
+Barretto</em>.&#8213;O
+Seculo XX sob o ponto de vista brasileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f2" id="f2"></a><sup>[2]</sup>
+Sess&atilde;o de 10 de Novembro de 1909 da Sociedade de
+Geographia
+de Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f3" id="f3"></a><sup>[3]</sup>
+A desorganiza&ccedil;&atilde;o do trabalho, pela
+aboli&ccedil;&atilde;o do elemento
+servil, impunha o fomento da immigra&ccedil;&atilde;o pelos
+Estados e at&eacute;
+pela Uni&atilde;o. Foram, por isso, subvencionadas emprezas varias
+que
+contractaram o servi&ccedil;o de introduc&ccedil;&atilde;o
+de trabalhadores ruraes.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f4" id="f4"></a><sup>[4]</sup>
+O artigo do <em>Tempo</em> era de
+Oliveira Martins, ao que diz
+Eduardo Prado, (<em>Fastos</em>, pag. 14). O.
+Martins previa a absorp&ccedil;&atilde;o
+do sul pela Argentina! O artigo, com o ser citado em tanta parte,
+foi, segundo Prado, um &laquo;exito virgem para a imprensa
+portuguesa.&raquo;
+A prophecia &eacute; que desacredita o auctor e n&atilde;o
+menos os que
+lhe deram curso.
+<br />
+
+<br />
+
+Tal qual no caso Mac-Murdo... (Vide <em>Jos&eacute;
+Caldas</em>,&#8213;Os
+Jesuitas&#8213;em nota.)
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f5" id="f5"></a><sup>[5]</sup>
+<em>Dunshee de
+Abranches</em>&#8213;&laquo;Actas e actos do governo
+provisorio&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f6" id="f6"></a><sup>[6]</sup>
+&laquo;O seculo XX sob o ponto de vista brasileiro.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f7" id="f7"></a><sup>[7]</sup>
+Carta ao <em>Seculo</em>, publicada, em
+14 de janeiro de 1909, sob
+a epigraphe &laquo;Portugueses no Brasil&#8213;Quantos
+s&atilde;o?&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f8" id="f8"></a><sup>[8]</sup>
+A sacca &eacute; de 60 kilos.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f9" id="f9"></a><sup>[9]</sup>
+Entraram, em 1906, quinze mil e tantos kilos de chicoria
+n&atilde;o preparada, dois mil trezentos e dezenove kilos de
+caf&eacute; torrado,
+moido e suas imita&ccedil;&otilde;es... em Portugal!
+<br />
+
+<br />
+
+O consumo, por cabe&ccedil;a e por anno, &eacute;: na
+It&aacute;lia, 970 grammas;
+na Hespanha, 652 gr; na Fran&ccedil;a, 2,350 k; na Allemanha, 3 k;
+na
+Dinamarca, 3,900 k; na Suissa, 3,500 k; na Noruega, 5,536 k; na
+Belgica, 4,700 k; na Suecia, 6,566 k; na Hollanda, 7,200 k.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f10" id="f10"></a><sup>[10]</sup>
+Vide proposta referida, pag.<sup>a</sup> 13 a 15.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f11" id="f11"></a><sup>[11]</sup>
+Relatorio do Ministerio da Fazenda em 1907, pag. 60.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f12" id="f12"></a><sup>[12]</sup>
+Statistica metodologica&#8213;Torino, 1906.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f13" id="f13"></a><sup>[13]</sup>
+Elementi di Statistica&#8213;Torino, 1904.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f14" id="f14"></a><sup>[14]</sup>
+Castro Carreira&#8213;&laquo;Historia financeira&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f15" id="f15"></a><sup>[15]</sup>
+<em>Fastos</em>, pag. 15, in fine.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f16" id="f16"></a><sup>[16]</sup>
+Liberdade profissional, discurso parlamentar.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f17" id="f17"></a><sup>[17]</sup>
+A phrase &eacute; de Ferreira de Araujo, insigne jornalista,
+cujos
+meritos n&atilde;o foram excedidos por qualquer homem de imprensa
+de n&atilde;o importa qual paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+O conceito parecer&aacute; exagerado; n&atilde;o &eacute;.
+Com effeito, tendo a
+exporta&ccedil;&atilde;o do Brasil chegado a mais de quinze
+milh&otilde;es de saccas
+de caf&eacute;, a exporta&ccedil;&atilde;o diaria,
+excedente de quarenta mil saccas,
+ia al&eacute;m da carga habitual de dois dos
+<em>cargo-boats</em> que faziam esse
+transporte.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f18" id="f18"></a><sup>[18]</sup>
+<em>Ayres de
+Casal</em>&#8213;&laquo;Chorographia&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f19" id="f19"></a><sup>[19]</sup>
+Apud <em>Euclydes da
+Cunha</em>&#8213;&laquo;Os Sert&otilde;es&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f20" id="f20"></a><sup>[20]</sup>
+&laquo;El Continente Enfermo&raquo;&#8213;Nova-York, 1899.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f21" id="f21"></a><sup>[21]</sup>
+&laquo;Deve-se reconhecer que o poder do meio e o
+esfor&ccedil;o
+dos brasileiros t&ecirc;m conseguido muito na lucta pela
+adapta&ccedil;&atilde;o
+dos immigrantes. O Rio Grande e Santa Catharina fornecem-nos
+exemplos eloquentissimos desse facto. No ultimo desses estados,
+principalmente, desde o imperio filhos de allem&atilde;es
+t&ecirc;m subido a
+altas posi&ccedil;&otilde;es politicas e <em>em
+todos elles o espirito nacional se encarnou com tanta
+eleva&ccedil;&atilde;o como nos descendentes mais afastados
+de europeus</em>.&raquo; <em>Tobias
+Monteiro</em>&#8213;&laquo;O Fantasma
+Allem&atilde;o.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f22" id="f22"></a><sup>[22]</sup>
+&Eacute; sabido que o partido liberal, antes da Republica,
+estava
+inclinado a essa reforma. Confessou-o, numa entrevista, o visconde
+de Ouro Preto, chefe desse antigo partido.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f23" id="f23"></a><sup>[23]</sup>
+Commentarios &aacute; constitui&ccedil;&atilde;o dos
+Estados Unidos da America
+&sect; 157, nota 1 (<em>a</em>),
+edi&ccedil;&atilde;o de 1891.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f24" id="f24"></a><sup>[24]</sup>
+&laquo;O pan-americanismo &eacute; uma obra de
+fraterniza&ccedil;&atilde;o entre
+o pan-latinismo e o pan-saxonismo, despertando entre todos os
+povos da America a id&eacute;a e o sentimento de um destino
+commum.&raquo;&#8213;<em>Arthur
+Orlando</em>&#8213;&laquo;Pan-Americanismo&raquo;, Rio
+de Janeiro,
+1906.
+<br />
+
+<br />
+
+Na <em>nota 25, in fine</em>, vide
+transcrip&ccedil;&atilde;o do &laquo;Estado de S.
+Paulo&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f25" id="f25"></a><sup>[25]</sup>
+Depois de lan&ccedil;adas no papel estas linhas, recebeu o
+auctor
+os jornaes brasileiros com as noticias das festas solennissimas
+com que foi celebrado, na Capital Federal, o 20.&ordm; anniversario
+do advento da Republica.
+<br />
+
+<br />
+
+Commentando a obra das nova institui&ccedil;&otilde;es, diz o
+<em>Jornal do
+Commercio</em>, &oacute;rgam das classes conservadoras
+da sociedade brasileira,
+sempre de francas opini&otilde;es liberaes, mas, em que
+p&eacute;se a
+superficiaes julgadores, incontestavelmente republicano desde
+que o dirige o dr. Jos&eacute; Carlos Rodrigues, espirito formado
+pela
+cultura americana e inglesa e que, ao mais intransigente
+individualismo,
+allia profundas convic&ccedil;&otilde;es democraticas:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O regimen democratico &eacute; o regimen da
+opini&atilde;o e por ella
+se orienta, e, sendo a Republica a f&oacute;rma pura desse regimen
+acreditamos que a opini&atilde;o brasileira, que a consagrou ha
+vinte
+annos, a mant&eacute;m, a ampara, a defende e a estima.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Neste anniversario todos se congratulam: o Governo com
+o povo de que saiu, o povo com o Governo, que &eacute; feitura
+sua.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<em>O Paiz</em>, que na sua propaganda tomou
+compromissos com
+o povo, ufana-se nestes termos da obra republicana:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Se, volvidos os olhos para a
+construc&ccedil;&atilde;o feita nestes vinte
+annos de Republica, collocarmos o julgamento da obra do regimen
+no terreno concreto dos beneficios feitos &aacute; nacionalidade,
+do
+conforto dado ao povo, do prestigio trazido ao paiz, &eacute;
+for&ccedil;oso reconhecer
+que a f&oacute;rma de governo estabelecida a 15 de novembro
+de 1889 n&atilde;o mentiu &aacute;s promessas que em seu nome
+fizeram os
+propagandistas e tem cumprido dignamente a sua miss&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A federa&ccedil;&atilde;o e a autonomia municipal estimularam,
+pela alforria
+de actividades acorrentadas, for&ccedil;as inertes e fecundas. Cada
+provincia, cada municipio, foi centro de vida &aacute; parte,
+forte, cheia
+de estimulos, progressista tributario da vida nacional; o commando
+dos proprios destinos, a defesa dos proprios interesses,
+trouxe a todas essas zonas do territorio patrio uma vigorosa
+expans&atilde;o
+e com ellas desenvolveu-se a collectividade, engrandeceu-se
+o paiz.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+No <em>Estado de S. Paulo</em>, tambem
+&oacute;rgam da propaganda republicana,
+entre cujos directores e collaboradores figuram Rangel
+Pestana, Prudente de Moraes, Campos Salles e Bernardino de Campos,
+todos de ac&ccedil;&atilde;o capitalissima no actual regimen,
+diz Paulo
+Rangel Pestana:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Victoriosos a 15 de novembro de 1889, os republicanos tinham
+a grandiosa miss&atilde;o de reconstruir a Patria por outros
+modelos,
+de acc&ocirc;rdo com as normas da san democracia. Precisavam
+reformar tudo&#8213;as leis e os costumes, as coisas e os homens. Mas,
+infelizmente, logo desunidos e desorientados, ainda n&atilde;o
+lograram
+realizar t&atilde;o formosa tarefa, sem embargo dos maravilhosos
+progressos
+levados a effeito no vintennio que hoje se completa.
+<br />
+
+<br />
+
+O Brasil inteiro, cheio de esperan&ccedil;as, festeja e
+sa&uacute;da o dia 15
+de novembro de 1889 como o principio da sua
+regenera&ccedil;&atilde;o. Ella
+tem de acabar-se com os dedicados esfor&ccedil;os dos
+contemporaneos,
+tornando-a uma verdadeira republica&#8213;livre e pacifica, laboriosa
+e culta, que seja uma gloria da America e uma
+admira&ccedil;&atilde;o
+do mundo civilizado.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f26" id="f26"></a><sup>[26]</sup>
+&laquo;Pan-Americanismo&raquo;, pag. 68.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f27" id="f27"></a><sup>[27]</sup>
+&laquo;Commentarios&raquo; citados, &sect; 266.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f28" id="f28"></a><sup>[28]</sup>
+&Eacute; doutrina dominante em toda a America. S&oacute;
+as anomalias
+dictatoriaes, a que todos os povos t&ecirc;m sido,
+ali&aacute;s, transitoriamente
+sacrificados, podem haver postergado a sua pratica em periodos
+de illegalidade manifesta.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f29" id="f29"></a><sup>[29]</sup>
+Assim foram resolvidas: em 1895, pelo laudo de Cleveland,
+o litigio das Miss&otilde;es, com a Argentina; em 1901, por
+senten&ccedil;a do
+Conselho Federal Suisso, a quest&atilde;o de limites com a Guyana
+Francesa; em 1904, sendo juiz o rei de Italia, o conflicto de limites
+com a Guyana Inglesa.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f30" id="f30"></a><sup>[30]</sup>
+&laquo;A doutrina Drago&raquo;&#8213;Paris. (Possuimos a
+traduc&ccedil;&atilde;o inserta
+no &laquo;Estado de S. Paulo&raquo;).
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f31" id="f31"></a><sup>[31]</sup>
+A guerra russo-japonesa, a conferencia de Algeziras e o
+ultimo congresso da paz confirmam por completo o conceito do
+grande internacionalista argentino.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f32" id="f32"></a><sup>[32]</sup>
+Deodoro da Fonseca teve de resignar o mandato de presidente
+por ter dissolvido o Congresso. O seu acto &eacute; ainda hoje
+denominado, mui significativamente&#8213;<em>o golpe de
+estado</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f33" id="f33"></a><sup>[33]</sup>
+<em>Kidd</em>&#8213;&laquo;The control of
+the tropics&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f34" id="f34"></a><sup>[34]</sup>
+Aos que se assustam com as divergencias de lingua entre
+Portugal e Brasil, vem a proposito lembrar que os
+<em>yankees</em> escrevem
+<em>labor</em>,
+<em>honor</em>, etc., e n&atilde;o
+<em>labour</em>,
+<em>honour</em>, etc. E ha muitas
+mais... &Eacute; o caso do argueiro no olho do visinho.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f35" id="f35"></a><sup>[35]</sup>
+A declara&ccedil;&atilde;o do Congresso das Nove Colonias,
+reunido
+em Nova-York, em 1765, j&aacute; fris&aacute;ra, na sua
+declara&ccedil;&atilde;o, que Story
+julga o melhor summario dos direitos e liberdades reclamados
+pelas ent&atilde;o colonias inglesas, esta doutrina:
+&laquo;Nenhuma taxa lhes
+poder&aacute; j&aacute;mais ser imposta constitucionalmente a
+n&atilde;o ser pelas
+suas respectivas
+legislaturas.&raquo;&#8213;<em>Story</em>,
+&laquo;Commentarios&raquo;. &sect; 190.
+<br />
+
+<br />
+
+E a declara&ccedil;&atilde;o de direitos do Congresso Colonial
+de 1774
+repetiu o preceito na sua 4.&ordf; resolu&ccedil;&atilde;o,
+em que diz, ademais,
+que a base da liberdade e de todo o governo livre est&aacute; no
+direito
+do povo fazer as suas leis. A mesma declara&ccedil;&atilde;o,
+na resolu&ccedil;&atilde;o
+10.&ordf; j&aacute; se insurgia contra conselhos legislativos
+nomeados &aacute; vontade
+da cor&ocirc;a: taxava-os de inconstitucionaes.
+<br />
+
+<br />
+
+V&ecirc;-se que o anglo-saxonio, apesar de n&atilde;o haver,
+hoje na
+Inglaterra nem, portanto, em 1765 nas suas colonias,
+constitui&ccedil;&atilde;o
+escripta, fez sempre quest&atilde;o da constitucionalidade. Os
+liberaes
+ingleses dos nossos dias s&aacute;em aos seus av&oacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 61px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p25">#p&aacute;g.
+25</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">a o dos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">a dos</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p48">#p&aacute;g.
+48</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">o nossa</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">a nossa</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p81">#p&aacute;g.
+81</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">resultatado</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">resultado</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<div style="text-align: center;"><br />
+
+Variantes dos nomes pr&oacute;prios foram mantidas de acordo com o
+original.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+</div>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30424 ***</div>
+</body>
+</html>