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+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30456 ***
+
+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Nov. 2009)
+
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+O CULTO DA ARTE
+
+EM
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+PORTUGAL
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+_RAMALHO ORTIGÃO_
+
+
+O CULTO DA ARTE EM PORTUGAL
+
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+_Monumentos architectonicos--Restaurações--Desacatos
+Pintura e esculptura--Artes industriaes
+O genio e o trabalho do povo--Indifferença oficial--Decadencia
+Anarchia esthetica
+Desnacionalisação da arte--Dissolução dos sentimentos
+Urgencia de uma reforma_
+
+
+
+
+LISBOA
+Antonio Maria Pereira, Livreiro-Editor
+50--Rua Augusta--52
+1896
+
+
+
+
+Typographia da Academia Real das Sciencias de Lisboa
+
+
+
+
+_Á Commissão dos Monumentos Nacionaes_
+
+
+dedica respeitosamente
+este humilde trabalho
+
+
+_O AUCTOR_
+
+
+
+
+Durante a Renascença, e ainda atravez da Edade Média, tão
+insufficientemente conhecida no enigma da sua cultura artistica, os
+reis, os monges, os fidalgos, os burguezes enriquecidos ostentavam o
+fausto e a pompa hierarchica não sómente construindo palacios e
+castellos, que enobreciam os logares que elles habitavam, mas erigindo
+basilicas e cathedraes, em que se concentravam todos os esforços do
+talento de uma raça, e eram verdadeiramente os palacios do povo, doados
+magnanimamente pelos mais poderosos aos mais humildes, em nome de Deus,
+em nome do rei, em honra da patria.
+
+N'esses edificios incomparaveis se achavam colligidas como em escolas
+monumentaes, como em museus portentosos, todas as maravilhas da
+sciencia, da poesia e da arte. A esculptura architectural, a estatuaria
+dos mausoleus, a imaginaria dos altares, a illuminura dos missaes, a
+pintura das vidraçarias, a talha dos retabulos subordinavam-se a um
+pensamento commum, expresso n'um vasto symbolismo, comprehendendo as
+fecundidades da terra e do mar, o trabalho do homem nos seus
+desfallecimentos e nos seus triumphos, a perturbação dos sentidos pelo
+peccado, a fatalidade do sangue, o horror do universal aniquilamento, e
+o vôo da alma para Deus, levada por um immortal instincto de amor, de
+paz, de verdade e de justiça.
+
+Dentro d'essas egrejas, ameaçadas hoje de proxima ruina ou inteiramente
+arruinadas, se celebravam todos os actos da vida religiosa, da vida
+civil e da vida domestica. Ahi se casavam os noivos, se baptisavam os
+filhos, se sepultavam os paes. Ahi se ungiam os reis, velavam as armas
+os cavalleiros, professavam os monges, benziam-se os fructos da terra,
+as bandeiras das hostes, as ferramentas da lavoura e os pendões dos
+officios. Ahi se discutiam os interesses do povo, os direitos, as
+franquias, os foros da communa. Ahi se prégava o Evangelho, se resava a
+missa, e se representavam os autos populares da vida de Jesus e dos seus
+santos; e nas vigilias da Natividade, da Epiphania e da Paschoa, quando
+o orgão emudecia no coro e se calavam os cantos liturgicos, o povo
+bailava ao longo da nave, sob as abobadas gothicas ou sob as cupulas
+bysantinas, e as lôas e os villancicos, entoados pelos fieis, subiam
+para o ceu com a fragancia das flores e com o fumo dos thuribulos, ao
+repique das castanholas e ao rufar dos adufes.
+
+Ao lado dos brazões e das divisas heraldicas pendiam dos muros os votos
+modestos dos mais obscuros mesteiraes, dos mais humildes braceiros.
+
+Esse alcaçar dos pobres, que era a egreja medieval, alcaçar mais
+sumptuoso que o de nenhum rei, dava asylo incondicional, inviolavel e
+sagrado, aos maltrapilhos, aos villões, aos mendigos, aos lazaros e ás
+lazaras de todas as lepras do corpo e da alma, aos tinhosos, aos nus,
+aos imbecis, aos ignorantes, aos criminosos, ás mulheres adulteras, ás
+mancebas, ás mundanarias, ás barregãs.
+
+O egoismo dos tempos modernos torna-nos incompativeis com o commetimento
+de tão grandes obras. Creamos instituições de caridade, fazemos
+regulamentos de assistencia publica, e vangloriamo-nos de haver definido
+pela revolução liberal o dogma da fraternidade humana, mas somos
+fundamentalmente incapazes de consagrar á pratica das virtudes, de que
+julgamos ter na historia o monopolio, monumentos como aquelles que
+nossos avós lhe levantaram _a proll do comum e aproveitança da terra_,
+dando em resultado que o mais andrajoso mendigo da portaria do mosteiro
+de Alcobaça ou do mosteiro de Santa Cruz, com o seu alforge ao pescoço e
+a sua escudella debaixo do braço, participava, além da ração quotidiana
+que se lhe distribuia pelo caldeirão da communidade, de um agasalho de
+principe e de um luxo d'arte com que hoje não competem os maiores
+potentados, os quaes em suas casas e para seu recreio intimo se rodeiam
+de todas as joias artisticas de que pela abolição dos vinculos e pela
+extinção das ordens religiosas se apoderou o moderno commercio do
+bric-à-brac.
+
+Falta-nos a alta noção de solidariedade patriotica, falta-nos o desapego
+dos bens de fortuna, falta-nos o largo espirito de abnegação, falta-nos
+a illimitada liberalidade cavalleirosa, e falta-nos a fé dos nossos
+avós.
+
+Na architectura trabalhamos unicamente para nós mesmos, sem cuidados de
+futuro, sem pensamento de continuidade de raça ou de familia,
+deslembrados de que teremos vindouros e de que teremos netos.
+
+Entre as nossas antigas construcções hydraulicas ha o aqueducto de
+Elvas, que levou cem annos a fazer. Varias gerações successivas
+acarretaram para essa construcção os materiaes; e lentamente,
+pacientemente, foram collocando pedra sobre pedra, para que um dia a
+agua chegasse a Elvas, e bebessem d'ella os netos dos netos d'aquelles
+que de tão longe principiaram a recolhel-a e a canalisal-a. Uma tal
+empresa é a humilhação e a vergonha do nosso tempo, imcapaz de pagar com
+egual carinho ao futuro aquillo que deve á previdencia, aos sacrificios
+e aos desvelos do passado.
+
+O nosso ideal na arte de construir é que a obra se faça em pouco tempo e
+por pouco dinheiro. Vamos abandonando cada vez mais, de dia para dia, a
+pedra e a madeira, em que é nimiamente moroso para a morbida inquietação
+do nosso espirito o trabalho de desbaste, de esquadria e de lavor.
+Adoptamos, como material typico do nosso systema de edificar, o ferro, o
+tijolo e a pasta. A casa cessou de ser uma obra de architectura para se
+converter em uma empreitada de engenharia, e os delicados artistas da
+pedra, da madeira e do ferro forjado abdicam da sua antiga missão
+perante os subalternos obreiros encarregados de fundir, de amassar e de
+enformar a vapôr a habitação moderna e o moderno edificio publico--a
+gare, o quartel, o mercado ou a cadeia.
+
+O seculo XIX, se com a impotencia de continuar a obra monumental dos
+seculos que o precederam, accumulasse a incapacidade de comprehender e
+de venerar essa obra, representaria um pavoroso retrocesso na historia.
+Não succede assim, porque são inviolaveis as leis do progresso. Ao
+seculo XIX coube patentear o estudo mais dedicado e o conhecimento mais
+perfeito da arte antiga. A sciencia archeologica e a critica d'arte
+nunca em nenhum outro periodo da civilisação chegaram á eminencia
+attingida pelos investigadores contemporaneos. É tambem em sua maneira
+um colossal monumento, dos mais gloriosos para a intelligencia, o que
+erigiu a erudição do nosso tempo, constituindo scientificamente a
+archeologia, definindo o seu methodo, fixando os seus limites,
+especialisando o trabalho dos seus contribuintes, distinguindo da
+archeologia litteraria a archeologia da arte, ramificando para um lado a
+paleographia, a epigraphia, a ecdotica, a museographia e a propedeutica,
+para o outro as bellas artes, as artes industriaes, a numismatica, e
+ainda como desdobramento d'estes estudos a iconographia, a mithologia
+figurada e a symbologia, particularisando emfim estas investigações a
+cada povo e a cada epocha da humanidade, creando d'esse modo a
+prehistoria, a egyptologia, a syriologia, que tão amplo clarão teem
+derramado sobre os problemas da origem do homem, da distribuição das
+raças, da formação das linguas. Fixaram-se pelas escavações de Troia, de
+Mycenes, de Chypre, de Santorin e de Rhodes as origens orientaes e
+pelasgicas da arte grega. Corrigiu-se na historia da ceramica a confusão
+existente entre os vasos pintados gregos e etruscos. Refez-se
+completamente sobre novos elementos e por um criterio novo a historia da
+olaria, a da toreutica, a da glyptica, a da esculptura em barro, a dos
+bronzes, a das joias, a da tapeçaria, a da illuminura. Desvendou-se o
+conhecimento da tachigraphia hieratica e dos alphabetos hieroglyphicos,
+ideographicos e phoneticos, que precederam o alphabeto grego e o latino.
+Creou-se a critica scientifica dos textos. Colligiram-se e
+classificaram-se as inscripções gregas e romanas dessiminadas pela
+Europa, e definiu-se o methodo de as datar. Leram-se os carcomidos
+graffitos de Pompeia, os papyrus carbonisados de Herculanum, as cartas
+lapidares da edade média e os palimpsestos de Plauto, de Cicero, de
+Marco Aurelio, de Tito Livio, de Euripedes e dos scribas carolingeanos.
+Interpretaram-se os documentos de procedencia egypcia, copta ou phenicia
+sepultados nos jazigos das mumias. E os mysteriosos caracteres
+hieroglyphicos e cuneiformes das inscripções egypcias, caldéas, assyrias
+e persas foram simplesmente trasladados a vulgar. Determinou-se a edade
+dos manuscriptos pelo systema das abreviaturas e da pontuação e pela
+evolução da letra desde a oncial da _Iliada_ no palimpsesto
+greco-syriaco do Museu Britannico até a minuscula italiana egual á dos
+primeiros caracteres da imprensa. Inspeccionaram-se e inquiriram-se as
+primitivas habitações do homem, as suas primeiras fortificações, os seus
+mais antigos sepulcros,--a caverna, a cidade lacustre, os castros e os
+dolmens. Na architectura principiou-se a estudar por novos meios de
+critica as causas dos seus progressos e da sua decadencia, prendendo
+assim pelos mais estreitos vinculos ao destino da arte o destino do
+homem. Por tal modo se transfigurou completamente desde o seu alicerce
+até o seu remate o vasto edificio da historia, segundo a resumida
+formula dada por Champolion Figeac: que todos os monumentos, ainda os
+mais communs e os mais grosseiros, conteem factos cujo conjuncto é como
+a estatistica moral das sociedades extinctas.
+
+D'esse novo criterio resultou a attenção especial com que todos os povos
+cultos principiaram a considerar a obra material do passado; e assim
+nasceu, com uma nova palavra, a nova maneira de _restaurar_ os edificios
+publicos.
+
+Em mais de um documento da edade média se encontram provas de que os
+antigos poderes não abandonavam, tão completamente como hoje se poderia
+suppor, ao accaso de qualquer iniciativa, sem beneplacito do estado, as
+edificações consagradas ao publico. No _Codigo de las partidas_, lei
+6.ª, titulo X, dizia Affonso o Sabio, n'aquella saborosa lingua de que
+mais tarde se desdobrou o portuguez e o castelhano: «Por bienaventurado
+se debe tener todo home que pueda facer eglesia, do se ha de consagrar
+tan noble cosa et tan sancta como el cuerpo de Nuestro Señor Jesucristo,
+et como quiere que todo home ó mujer la puede facer a servicio de Dios,
+pero con mandamiento del obispo, como es dicho en la ley segunda deste
+titulo, con todo eso debe catar dos cosas el que la ficiere, que la faga
+complida et apuesta; et esto tambien en la labor como en los libros et
+en las vestimientas...»
+
+Affonso V escreve de Almada, em 1467, aos juizes, vereadores,
+procuradores e homens bons da cidade de Evora para que se permitta a
+Sueiro Mendes levar duas pedras que estavam nos açougues, e eram do
+antigo templo romano, para antipeitos das janellas de uma casa, que a
+esse tempo edificava. «E porque as ditas pedras aproveitam pouco honde
+estam e em as ditas casas faram muito, e ainda é nobresa as cidades
+haverem em ellas bôas casas taes como as do dito Sueiro Mendes, e seu
+fundamento he as faser para nós em ellas havermos de pousar, Nós vos
+rogamos e encomendamos que vos prasa lh'as quererdes dar, e Rodrigo
+Esteves mestre das nossas obras em essa cidade terá cuidado de as tirar
+donde estam, etc.» Estas linhas são um traço caracteristico da policia
+do tempo. D'ellas se deduz que era preciso no seculo XV requestar a
+intervenção regia para bulir em duas pedras de um velho monumento,
+operação que hoje se realisa com menos formalidades, e até, como é
+sabido, sem formalidade alguma. Era porém entendido como doutrina
+corrente não desdizer da nobreza de uma cidade que cantarias de stylo
+romano se transpuzessem do edificio a que pertenciam para edificio de
+stylo completamente diverso. Aquillo que modernamente se entende pelo
+neologismo restaurar é operação desconhecida dos antigos. A obra
+architectonica seguia sempre e invariavelmente quer em novas
+edificações, quer em reparação de antigas, o systema e o stylo da epocha
+em que era feita. Sem falarmos do Egypto, da Grecia, de Roma, onde as
+reconstrucções se emprehendiam, sem o menor sentimento de respeito pela
+tradição, em vista de celebrar uma gloria coeva com os mesmos materiaes
+que haviam servido á glorificação de feitos anteriores, como no arco de
+Constantino feito com as pedras do arco de Trajano, vemos em toda a
+Europa, e mais particularmente em Hispanha e em Portugal, edificios em
+cujos stylos sobrepostos perfeitamente se espelha o independentismo das
+influencias diversas atravez das successivas phases da construcção por
+differentes vezes interrompida. Uns nascem genuinamente bysantinos e
+desenvolvem-se romanicos; outros começam romanicos e concluem gothicos;
+outros, gothicos de nascença, acabam no clacissismo greco-romano do
+renascimento; e é frequente nas nossas egrejas entrarmos por um portal
+do seculo XVI para nos defrontarmos com uma capella mór no stylo barroco
+de D. João V, de D. José ou de D. Maria I. D'esses casos de
+polyarchitectonismo encontramos exemplos em Toledo, em Burgos, nos
+Jeronymos, na Batalha.
+
+A cathedral de Colonia é n'este ponto de vista, um facto particularmente
+expressivo. A construcção, principiada no meado do seculo XIII,
+proseguida muito lentamente, suspende-se no fim do seculo XV por
+desanimo de a concluir segundo o plano primitivo. No seculo XVII e no
+seculo XVIII, a nave, abrigada por um tecto provisorio, é ornamentada em
+stylo rococo. Sómente em 1842 se encetaram os trabalhos de uma
+restauração authenticamente archeologica, segundo o plano original,
+cabendo o projecto da conclusão a um architecto que ao mais profundo
+estudo do stylo ogival reunia o talento mais esclarecido e mais
+perspicaz.
+
+Na historia da cathedral de Milão circumstancias analogas ás de Colonia
+veem ainda corroborar a affirmação de que unicamente ao seculo XIX cabe
+o privilegio de restaurar monumentos. A obra de Milão iniciada no seculo
+XIV, é interrompida por desavenças entre os architectos, uns allemães,
+outros italianos, outros francezes; é continuada no seculo XVI em stylo
+da renascença; e tão sómente em 1805 a restauração do monumento no seu
+stylo primitivo, segundo os programmas mais tarde definidos, se achou
+determinada por Napoleão I, o qual pela vastidão do seu genio, ainda que
+pouco propicio aos humildes, muitas vezes se adeantou do seu tempo, e em
+muitas campanhas da intelligencia indicou de antemão o ponto da
+victoria, assim como ao principiar a campanha de Italia assignalava na
+carta do Piemonte o logar de Marengo.
+
+Foi Vitet, nomeado inspector geral dos monumentos historicos em 1830,
+quem primeiro indicou em França o programma das restaurações
+architectonicas, presentemente seguido em toda a parte:--em Hispanha,
+onde depois da real ordem de 4 de maio de 1850, se não emprehende obra
+de especie alguma nos edificios monumentaes sem prévia consulta da
+commissão dos monumentos historicos e artisticos; em Inglaterra e na
+Allemanha, que haviam precedido a França na protecção da arte nacional;
+na Italia, emfim, na Belgica, na Dinamarca, na Suecia, na Noruega, na
+Grecia, na Turquia.
+
+Violet-le-Duc, o erudito mestre a quem tanto deve o ensino da
+archeologia e das artes, completou o programma de Vitet, não sómente
+ampliando os seus preceitos, mas dando da applicação d'elles o mais
+notavel exemplo na restauração do castello le Pierrefonds.
+
+Conhecidos os livros de Violet-le-Duc, estudados com tão paciente
+laboriosidade, escriptos com tão lucido e penetrante engenho, e
+conhecida a legislação européa baseada n'esses estudos tão completos e
+tão perfeitos, a questão puramente administrativa de dar aos monumentos
+nacionaes de cada povo a protecção que se lhes deve, quando menos por
+simples solidariedade intellectual na civilisação do nosso tempo, é
+questão perfeitamente illucidada e rigorosamente definida.
+
+Vejamos agora qual é em Portugal, perante as responsabilidades da
+administração, o reflexo das ideias, cuja historia procurei resumir, com
+o fim de pôr o assumpto na perspectiva que a sua magnitude pede.
+
+
+Levaria muito tempo e seria excessivamente triste ennumerar todos os
+attentados de que teem sido e continuam a ser objecto, perante a mais
+desastrosa indifferença dos poderes constituidos, os monumentos
+architectonicos da nação, os quaes assignalam e commemoram os mais
+grandes feitos da nossa raça, sendo assim por duplo titulo, já como
+documento historico, já como documento artistico, quanto ha, sobre a
+terra em que nascemos mais delicado e precioso para a honra, para a
+dignidade, para a gloria da nossa patria.
+
+Dos desacatos de lesa magestade nacional, a que tenho a dôr e a vergonha
+de me referir, uns teem caracter anonymo, outros affectam directamente a
+cumplicidade official. Os primeiros são uma consequencia de desdem; os
+segundos são um resultado de incapacidade.
+
+A auctoridade, incerta, vagamente definida, a quem tem sido confiada a
+conservação e a guarda da nossa architectura monumental, procede com
+esse enfermo, de quem se incumbiu de ser o enfermeiro, por dois methodos
+differentes: umas vezes deixa-o morrer; outras vezes, para que elle
+mesmo não tome essa resolução lamentavel, assassina-o. Na primeira
+hypothese a calamidade correlativa chama-se _abandonar_. Na segunda
+hypothese a catastrophe correspondente chama-se _restaurar_,--gallicismo
+technico, recentemente introduzido no vocabulario nacional, mas ainda
+não definido vernaculamente na applicação pratica.
+
+Para o argumento que tenho em vista produzir, tomarei unicamente d'entre
+os differentes desastres com que se deshonram e enxovalham os nossos
+monumentos, o desastre denominado _restauração_.
+
+Serei laconico, sem deixar de ser sufficientemente expressivo, porque os
+factos são de uma eloquencia que esmaga toda a especie de replica na
+materia de que se trata.
+
+Aqui temos tres edificios restaurados ou em restauro a expensas da
+nação, sob os auspicios do estado: Os Jeronymos, a Madre de Deus e a
+Batalha.
+
+Nos Jeronymos a construcção desmoronou-se, sem provocação alguma de
+agente extranho, por mero desequilibrio de si mesma. Inutil todo o
+commentario. A restauração, ainda antes de terminada, cahiu. Que prova
+mais lastimavelmente completa, evidente e cabal, de que foi
+insufficientemente estudado, logo nos seus primordiaes elementos, o
+programma de tal restauração?! As seguranças de execução falham
+precisamente na parte mais rudimentar do problema.
+
+Attente-se em que não se trata ainda de uma questão de archeologia, nem
+de uma questão de arte; não se apresenta nenhuma d'essas subtis
+difficuldades inherentes ao estudo das fórmas constructivas ou
+ornamentaes, ao discernimento dos diversos stylos, ao pleno conhecimento
+das antigas escolas no tempo e na região a que o edificio pertence.
+Resolve-se apenas realisar uma simples tarefa de construcção, e esquece,
+incumbindo esse trabalho de simples mestre de obras ao mais distincto
+dos scenographos, que a primeira condição de um architecto a quem se
+confia a restauração de um monumento é que elle seja, antes de tudo,
+acima de tudo, o mais habil, o mais experiente, o mais perito de todos
+os constructores.
+
+Na Madre de Deus, onde aliás o primitivo portal da rainha D. Leonor foi
+discretamente reconstituido na moderna fachada do edificio, temos o
+infortunio de ir encontrar no consecutivo restauro de uma fabrica do
+tempo de D. João III novos capiteis de columnas, nos quaes em vez da
+ornamentação vegetal do nosso seculo XVI se vê reinar nos entablamentos
+a figuração, absolutamente imprevista e inopinada, de uma locomotiva de
+caminho de ferro, arrastando fumegante o respectivo comboyo, tudo
+lavrado mui laboriosamente em pedra, e demandando um tunel. Este
+assombroso phenomeno de pathologia archeologica estou convencido de que
+dispensa ainda mais do que o caso dos Jeronymos a investigação da
+autopsia.
+
+Nas restaurações da Batalha, umas já em realidade, outras ainda em
+projecto, falta, primeiro que tudo, o meditado programma de conjuncto no
+ponto de vista archeologico, no ponto de vista artistico e no ponto de
+vista technico, visando o assumpto por todos os lados de que elle pode
+ser encarado: qualidade do solo, influencias da atmosphera, escolha de
+materiaes, condições de resistencia e de equilibrio, systema geral de
+structura, determinação do stylo, desde as suas grandes linhas e dos
+seus motivos dominantes até os ultimos desenvolvimentos d'essas linhas,
+até o extremo desdobramento d'esses motivos, mão de obra, direcção e
+apprendisagem em todas as officinas de que depende o restauro, etc.
+
+Seria por um programma d'essa natureza que a competencia do architecto
+restaurador deveria principiar a affirmar-se. Perante essa prova,
+comprehendendo o estudo do monumento, plantas, alçados, photographias,
+desenhos de projectos, systemas de stylisação, methodos de estudo e de
+trabalho, regimentos de officinas, etc., poderiamos nós, que não somos
+architectos, mas simples criticos, fiscaes da arte em nome do publico,
+decidir se o restaurador da Batalha está ou não está ao nivel da sua
+missão. Sem prova d'essa ordem que cotejemos com os requisitos a que
+teem de satisfazer, nos paizes extrangeiros, os architectos a quem se
+entrega a restauração de um monumento, nós não podemos julgar senão de
+um modo muito imperfeito, tendo de entrar mais ou menos no exame da
+execução, para o qual nos fallece a competencia profissional.
+
+Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque é o unico architecto portuguez de
+quem conhecemos, com relação á historia do edificio e ao plano da
+restauração da Batalha, estudos especiaes, consubstanciados n'uma
+memoria publicada, depois da morte do auctor, em 1867. A monographia a
+que me refiro, além de mui interessantes revelações sobre os vandalismos
+perpetrados pelos ultimos frades que habitaram o mosteiro e chegaram a
+quebrar os preciosos vidramentos das janellas para presentearem os
+visitantes com cabeças das figuras de que elles se compunham, contém
+alguns principios mui judiciosos e bem definidos, sobre o modo como esse
+perito restaurador, que a influencia do rei D. Fernando fizera nomear,
+comprehendia a sua delicada missão. E excellente o methodo por elle
+proposto para a conservação das Capellas imperfeitas. Notam-se alguns
+excessivos e infundados rigores de zelo, como na parte em que ao
+restaurador repugna adoptar, para o fim de pôr o monumento ao abrigo das
+intemperies, processos de resguardo mais perfeitos que os conhecidos ao
+tempo da construcção primitiva, taes como, por exemplo, o emprego de
+cimentos modernos na vedação de uma cobertura, etc. A memoria programma
+de Mousinho de Albuquerque é não obstante um trabalho de incontestavel
+merecimento, que muito augmenta de valor se levarmos em conta que esse
+illustre architecto escrevia em 1840, quatro annos depois d'aquelle em
+que o rei D. Fernando visitou o edificio, chamando para elle pela
+primeira vez a attenção dos poderes publicos.
+
+Até Mousinho a architectura da Batalha foi na litteratura portugueza um
+puro thema de rhetorica. O romantismo tinha-nos trazido a moda do
+gothico por via de Chateaubriand e de Victor Hugo. Os romances, as
+xacaras, as baladas e os solaus, com as suas castellãs, os seus
+paladinos, os seus pagens, os seus menestreis e os seus respectivos
+attributos--lanças, montantes, elmos, guantes de ferro, falcões, adagas,
+béstas e bandolins, pediam um scenario de fortificação feudal, fossos e
+pontes levadiças, revelins, caminhos de ronda, ameias, torres de
+menagem, amplas chaminés com trasfogueiros forjados, ogivas e abobadas.
+As egrejas, para os effeitos de grandiosidade no stylo, sempre que não
+eram ermidas eram cathedraes. Os romanticos chamavam cathedraes a todos
+os grandes templos, como o da Batalha, o do Carmo e o dos Jeronymos. O
+romance historico, tanto em voga durante a geração litteraria de
+Alexandre Herculano, tinha exigencias decorativas analogas ás da poesia
+cavalheiresca. Os estudos de critica e de archeologia artistica, tendo
+por objecto os nossos monumentos architectonicos, davam em resultado
+geral uma especie de lenga-lenga de eruditos ciceroni.
+
+A Batalha tem sido constantemente, desde a primeira apparição da
+_Abobada_ no _Panorama_, até hoje, o _grande livro de marmore_, o
+_immortal poema_, a _Divina Comedia portuguesa_, a triumphante
+affirmação da nacionalidade independente, definitiva, fundada pela
+vontade do povo, pela espada do mestre de Aviz, pela lança de D. Nuno
+Alvares Pereira e pela penna de João das Regras.
+
+Com effeito, nada mais bello, na historia nacional, do que o feito
+d'armas de Aljubarrota e o monumento de Nossa Senhora da Victoria,
+destinado a commemorar esse feito, por voto de D. João I. Mas d'ahi a
+poder-se dizer que o edificio da Batalha é, como a epopéa dos
+_Luziadas_, a imagem technica das idéas e dos sentimentos da patria,
+medeia--me parece--um largo abysmo.
+
+Olhemos por um momento a historia d'esta construcção.
+
+Frei Luiz de Sousa diz que «El-rei chamara de longes terras os mais
+celebres architectos que se sabiam; convocara de todas as partes,
+officiaes de cantaria déstros e sabios; convidara a uns com honras, a
+outros com grossos partidos, e obrigara a muitos com tudo junto.» Este
+testemunho é precioso e está acima de toda a suspeita, porque nos vem de
+um frade de S. Domingos, que habitou por muitos annos o convento da
+Batalha, e que, como chronista da ordem, conheceu inteiramente pelo
+archivo do convento quanto se sabia da historia da sua fundação.
+
+Frei Francisco de S. Luiz contesta, sem provas, que fossem architectos
+celebres chamados de longes terras, como diz Sousa, os iniciadores da
+grande obra, e cita como auctor do risco Affonso Domingues, porque
+d'elle se sabe que teve parte na direcção das obras nos primeiros annos
+da fundação, e não consta de documento authentico que qualquer outro
+architecto interviesse nos trabalhos durante os dezeseis annos que
+medeiam entre o seu começo e o anno da morte de Affonso Domingues, em
+1402.
+
+Todos os que se seguiram a Frei Francisco de S. Luiz, adoptaram esta
+opinião; de modo que se tornou uma cousa tão corrente como se estivesse
+demonstrada que foi Affonso Domingues quem construiu a Batalha.
+
+James Murphy, porém, no seu livro _Travels in Portugal_, affirma, por
+_informações que lhe foram dadas em Lisboa por empregados da Torre do
+Tombo_, que o encarregado da construcção foi o architecto inglez Stephan
+Stephenson, socio das _free and accepted masons_, que tinham a sua séde
+principal em York. Stephenson teria vindo a Portugal por intervenção da
+rainha D. Filippa, mulher de D. João I, ingleza de nação, filha do duque
+João de Lencastre e neta de Eduardo III.
+
+O conde de Rakzynski diz a este respeito, que desde que examinou as
+gravuras do convento da Batalha, na obra _in folio_ de Murphy, se
+convenceu de que a analogia existente entre a Batalha e a cathedral de
+York não permitte a minima duvida acerca da origem commum d'estes dois
+edificios. «Que o plano da igreja da Batalha--diz Rakzynski--seja obra
+de um portuguez ou de um inglez, a verdade é que as duas igrejas
+nasceram de inspirações artisticas analogas, homogeneas e
+contemporaneas, e o estylo de ambos me parece identico. Esta impressão
+tornou-se para mim ainda mais forte, depois que visitei a Batalha.»
+
+Temos, pois, sobre a origem estrangeira d'este monumento tres votos
+importantes: o de Fr. Luiz de Sousa, o de James Murphy e o do conde de
+Rakzynski, aos quaes recentemente se juntou o architecto Haupt.
+
+Na Torre do Tombo não se encontra documento algum relativo á construcção
+da Batalha, nem á vinda de Stephenson a Portugal. Em 1845, Alexandre
+Herculano e o Visconde de Juromenha, auxiliados pelos officiaes da
+Torre, fizeram as mais demoradas e escrupulosas pesquizas para o fim de
+satisfazer a curiosidade de Rakzynski, e nada appareceu.
+
+É claro que esta ausencia de vestigios no real archivo nada prova sobre
+o facto de ter estado ou não em Portugal o architecto de York. Não
+consta tão pouco, dos documentos existentes no archivo, que tivesse
+estado em Portugal durante nove annos o insigne esculptor italiano
+Andrea Contucci, emulo de Miguel Angelo; e no emtanto este facto acha-se
+fóra de toda a contestação.
+
+O cardeal patriarcha Frei Francisco de S. Luiz, queixando-se da
+negligencia e da superficialidade com que Frei Luiz de Sousa falla dos
+primeiros architectos da Batalha, e propondo-se demonstrar que o auctor
+da obra foi Affonso Domingues, diz que não vê razão para pôr em duvida a
+habilidade dos nossos compatriotas, suppondo que houvessemos de reclamar
+a assistencia de estrangeiros em uma epocha como a de D. João I, na
+qual, exceptuadas as italianas, _nenhuma nação da Europa se achava mais
+adeantada que a nação portugueza, tanto na arte da architectura, como em
+todas as outras_.
+
+O patriotismo imprudentemente levado até ás affirmações da natureza das
+de Frei Francisco de S. Luiz, tem um inconveniente grave, que é o de
+fazer sorrir os estrangeiros, da ingenua applicação dos nossos
+sentimentos civicos á historia da arte européa.
+
+Hoje, toda a gente sabe, porque esta ordem de conhecimentos tem-se
+vulgarisado muito, que o systema gothico ou systema ogival, a que
+primitivamente se chamou _Opus francigenum_, teve a sua origem na ilha
+de França e na região circumstante. Foi n'esses logares que até o seculo
+XII se construiram os primeiros edificios gothicos. O novo stylo chega
+em França aos seus mais completos desenvolvimentos no seculo XIII, e
+d'essa epocha datam as cathedraes de Amiens, de Pariz, de Reims e de
+Chartres.
+
+Os allemães e os inglezes teem contestado á França a prioridade do
+emprego do arco ogival e dos desenvolvimentos architectonicos que d'elle
+procedem. O que, porém, está acima de todo o litigio, é que o systema
+ogival, chamado stylo gothico, ou gothico puro da igreja da Batalha, não
+procede da invenção dos paizes meridionaes, de céu azul, mas sim das
+regiões nevoentas de longos e rudes invernos.
+
+No norte da Europa, durante a edade média, tratou-se de edificar a
+grande cathedral que désse um abrigo espaçoso ás numerosas congregações
+de fieis e de cidadãos; como a pedra escasseava, como a neve cahia em
+abundancia e permanecia por longo tempo, procurou-se um modo de
+construcção, que, sem difficultar a circulação da gente com grandes e
+repetidos corpos de cantaria no interior do edificio, permittisse
+empregar materiaes menos solidos e fazer tectos elevados e agudos, que,
+não pesando excessivamente sobre os membros destinados a sustental-os,
+deixassem facilmente resvalar e escorrer a neve pelas superficies
+exteriores, impedindo o mais completamente possivel a infiltração da
+humidade no interior do templo.
+
+Foi d'estas causas, determinadas pela natureza do clima e do solo, pelas
+condições sociaes, e não de um mero capricho inventivo, que resultou
+para os architectos dos paizes septentrionaes o pensamento de readoptar
+a abobada de aresta, que os romanos, depois de a haverem empregado,
+puzeram de parte, para o fim de dar logar na construcção das basilicas
+christãs á enorme quantidade de columnas legadas pelo paganismo.
+
+Assim foi que nasceu, bem longe de Portugal e inteiramente fóra das
+influencias cosmicas e das influencias sociaes geradoras do caracter e
+da indole da nossa raça, que nasceu o stylo architectonico da egreja da
+Batalha.
+
+A affirmativa de que nenhuma nação da Europa, com excepção da Italia, se
+achava mais adeantada do que Portugal do tempo de D. João I, nas artes
+da architectura, sómente prova, da parte do cardeal frei Francisco de S.
+Luiz, que este benemerito academico e illustre litterato, ou não viajou
+nunca em França e na Allemanha, ou não visitou n'estes paizes os
+monumentos anteriores ao fim do seculo XIV.
+
+A egreja da Batalha, que data d'essa epocha, é chronologicamente um dos
+ultimos edificios em stylo gothico puro construidos na Europa, e, apesar
+de toda a sua belleza, está, como obra d'arte e como magnificencia
+monumental, bastante abaixo de alguns outros edificios construidos cem
+ou duzentos annos antes, como a cathedral de Strasburgo (1015 a 1275),
+Reims (1215), Amiens (1222), Colonia (1248) a Sainte-Chapelle em Pariz
+(1248), Notre-Dame (1275), etc.
+
+Bastaria que o auctor da interessante memoria sobre a construcção do
+convento da Batalha, encorporada na collecção das memorias da Academia,
+tivesse olhado em Pariz para as estatuas de Sainte-Chapelle e para os
+baixos-relevos da egreja de Notre-Dame; que tivesse observado um momento
+as esculpturas de Chartres, de Reims e de Amiens; para ter uma idéa do
+enorme abysmo que no tempo de D. João I nos distanciava ainda dos
+grandes mestres da architectura e da esculptura franceza, que se
+chamaram Pierre de Montreuil, Thomas e Regnaut de Carmont, Jean de
+Chelles, Hugues Libergier e outros artistas leigos, sem contar os muitos
+monges anonymos com que se illustrou na historia da arte, a ordem de
+Cluny, no seculo XII e no seculo XIII.
+
+Na Allemanha, temos, precedendo a Batalha, a cathedral de Colonia; na
+Inglaterra Canterbury, Westminster, Salisbury, Lincoln e York; e em
+Hispanha, Burgos e Toledo.
+
+Anterior á Batalha não ha em Portugal monumento algum que prenuncie,
+prepare e explique a apparição d'este.
+
+Nos primeiros tempos da monarchia, em quasi todo o periodo affonsino, os
+artistas e os obreiros eram em geral arabes ou mouros. O portuguez era
+como os seus reis, soldado ou agricultor. Para as especulações
+estheticas faltava-lhe a paz, a tranquillidade, a riqueza. Mal lhe
+chegava o tempo para desbravar o sólo e para bater os inimigos, que de
+todas as partes rodeavam a pequena sociedade nascente, aventurosa e
+aguerrida.
+
+A Batalha, com a delicada pureza das suas linhas, já então consagradas
+na Europa, surge repentinamente, imprevistamente, esporadicamente, na
+corrente da architectura portugueza, como a flor desconhecida de uma
+planta exotica.
+
+D'onde é que foi transplantado para terra portugueza este producto de
+uma civilisação superior, em que o desenvolvimento da vida municipal,
+iniciada pelas fortes corporações operarias e mercantis, impellira as
+communas a construirem as luxuosas cathedraes, que eram ao mesmo tempo,
+nas cidades novas, um asylo de religião e um fóco de vida civil?
+
+Não sei responder peremptoriamente a esse quesito.
+
+O problema assim estreitado é, no fim de contas, de pura curiosidade.
+
+O architecto inglez Hope, na sua _Historia da Architectura_, diz que o
+estylo ogival não tem propriamente nem uma patria nem uma nacionalidade.
+Só poderia ter nascido no seio de alguma ordem religiosa ou de uma
+corporação de pedreiros livres, porque o clero e os pedreiros livres
+eram as unicas corporações que na edade média possuiam os conhecimentos
+necessarios para o plano e para a execução dos edificios sagrados, quer
+para as communidades monasticas, quer para a egreja latina em geral.
+
+Hope acrescenta: como os conventos e sobretudo as _lojas_ dos pedreiros
+livres se compunham de cidadãos de todos os paizes, que reconheciam a
+supremacia da egreja romana, não seria possivel determinar positivamente
+os inventores do stylo ogival quando mesmo se houvesse descoberto o
+logar preciso do seu berço.
+
+Em toda a parte onde apparecem as primeiras amostras d'esse stylo ellas
+não são a obra de individuos de um paiz determinado, mas sim de uma
+congregação encerrando no seu gremio homens de todas as nações.
+
+Na _Real Encyclopedia_ de Leipzig lê-se com referencia ás associações
+maçonicas que ellas se compunham de homens de arte de todos os paizes
+formando uma só corporação dirigida por um ou por varios chefes.
+«Protegidos por privilegios ou cartas patentes emanadas das auctoridades
+ecclesiasticas e seculares, emprehendiam as maiores construcções em toda
+a Europa e são auctores d'esses magnificos edificios chamados gothicos e
+que antes se deveriam chamar _Altdoutsch_. Achamos o stylo de todas as
+construcções d'essa época fundamentalmente identico. As associações
+alludidas compunham-se de architectos e de obreiros italianos, allemães,
+flamengos, francezes, inglezes, escocezes e até gregos. Foi d'essa
+maneira que nasceram os monumentos seguintes: o _mosteiro da Batalha em
+Portugal_, a cathedral de Strasburgo, a de Colonia, a de Meissen, a de
+Milão, o convento do Monte Casino, e todos os edificios notaveis da
+Inglaterra.»
+
+Esta hypothese--e chamo-lhe hypothese, porque não conheço os documentos
+positivos em que se baseia o escriptor allemão--condiz perfeitamente com
+a lição de Frei Luiz de Sousa, e é talvez de todas a mais verosimil com
+relação aos constructores da Batalha.
+
+Que fosse, porém, uma associação de artistas e de operarios; que fosse
+Stephan Stephenson, como indica Murphy, de quem devemos crer que não
+inventou esse nome e o recebeu, como diz, dos empregados do archivo da
+Torre do Tombo; que fosse, como pretende Hope, mestre Ouet, Huguet ou
+Huet, de nação inglez, que trabalhou nas obras e cujo nome Frei
+Francisco de S. Luiz encontrou como testemunha no contracto de
+aforamento, em que se fala de Affonso Domingues; como quer que seja,
+emfim, a hypothese que menos verosimilhança offerece é a de ter sido o
+monumento delineado e construido pelo mestre portuguez Affonso
+Domingues, como em Portugal se tem geralmente escripto.
+
+O mais superficial exame aos edificios anteriores á Batalha manifesta do
+modo mais evidente que não tinhamos nem escola, nem tradições, nem
+tendencias de que procedesse um artista como o que delineou e construiu
+a egreja da Batalha.
+
+Vilhena Barbosa, nos _Monumentos de Portugal_, repete ainda a versão
+relativa a Affonso Domingues como constructor da Batalha, mas
+accrescenta: «É muito para admirar, não devo negal-o, que houvesse
+n'aquella época em Portugal um artista tão consumado como o que fez o
+risco do monumento, achando-se a architectura entre nós, antes da
+execução d'esta obra em um estado, que, se não era de grande atrazo,
+tambem não se lhe poderá chamar de adiantamento; em um estado pelo menos
+que nenhuma memoria ou documento nos auctorisa para o considerarmos como
+escola d'onde pudesse sahir um artista tão completo.»
+
+A seguir, Vilhena Barbosa, procurando conciliar o arrojo do seu reparo
+com a tradição geralmente recebida, exclama um tanto contricto: «N'este
+caso lançarei mão de uma conjectura, não pela necessidade de sahir do
+embaraço, mas porque me parece acceitavel e muito plausivel. Vem a ser
+que talvez Affonso Domingues tivesse sahido da sua patria antes da
+acclamação do mestre d'Aviz, com o intento de se instruir e aperfeiçoar
+na sua arte. Bem sei que n'essa época não eram dados os artistas, pelo
+menos os nossos, a procurar taes meios de estudo. Entretanto, tendo
+estado em Portugal, no reinado de D. Fernando e com alguma demora, dois
+principes inglezes, o duque de Cambridge, e um seu irmão natural, filhos
+de D. Duarte III, rei de Inglaterra, pode ser que Affonso Domingues,
+levado pelo amor da arte ou por outro qualquer respeito, se resolvesse a
+acompanhar algum d'elles na sua volta para Inglaterra, paiz classico da
+architectura gothica no genero da Batalha.»
+
+Confessemos que é preciso ter vontade de attribuir por força a Affonso
+Domingues uma obra que este não podia fazer, para formular a conjectura
+de que _talvez elle se tivesse resolvido_ a ir a Inglaterra com os
+filhos de Duarte III.
+
+Ainda quando admittida a singular camaradagem do duque de Cambridge e de
+seu irmão com Affonso Domingues, camaradagem conjecturada por Barbosa, e
+de que não ha o minimo vestigio historico, não será talvez inutil
+reflectir que depois d'essa excursão a Inglaterra--paiz tão debilmente
+_classico na architectura gothica_, no tempo de Duarte III, que não
+tinha um architecto indigena, nem monumento gothico algum, que se possa
+pôr em confronto com as obras magnificas do continente--Affonso Domingos
+voltaria de Inglaterra, no tocante ao conhecimento da arte de edificar,
+proximamente no mesmo estado em que para lá tivesse ido, o que
+facilmente se demonstra, como vamos vêr.
+
+Sabe-se que desde o seculo X se organisaram na Italia, iniciadas pela
+Lombardia, essas associações de artistas seculares, architectos,
+esculptores, illuminadores, imaginarios, vidristas, entalhadores e
+canteiros, empregados pela egreja nas vastas obras da primeira
+renascença da Europa, subsequentes aos terrores do millenio, que por
+muitos annos paralysaram todas as faculdades artisticas da humanidade
+estupefacta perante a prophecia pavorosa do proximo aniquilamento
+universal.
+
+Estas confrarias, creadas e protegidas pelo clero, tomaram o nome geral
+de _franco-maçonaria_ ou de _pedreiros livres_, e compunham-se de
+associados, que, depois de haverem passado por todos os minuciosos
+tramites de uma longa aprendizagem, adquiriam geralmente o direito de
+exercer a profissão na qualidade de mestres.
+
+Com a rapida e maravilhosa prosperidade das novas cidades da Italia
+Septentrional nasceram egrejas sumptuosas e conventos magnificos, que em
+poucos annos cobriram uma grande superficie da Lombardia e dos Estados
+adjacentes.
+
+Chegado o momento previsto em que as ordens religiosas de Italia
+cessaram emfim de ter obras em que empregar a associação, cada vez mais
+numerosa e mais habil, dos pedreiros livres, pensaram estes em dilatar a
+sua actividade fora do solo natal.
+
+Este expatriamento não representava unicamente uma expansão artistica
+mas tambem uma forte propaganda e uma consideravel conquista
+internacional da egreja latina.
+
+Essa grande companhia edificadora de monumentos religiosos, de
+cathedraes e de mosteiros, mobilisada n'uma companhia de arte atravez do
+Norte da Europa, constituia como que um solido reforço esthetico,
+temporal, naturalista e humano á sagrada legião espiritual vulgarisadora
+do credo latino pela ramificação das ordens religiosas sobre todas as
+latitudes da terra.
+
+Cada egreja e cada convento edificados em paizes estranhos e longinquos
+eram--diz Hope--um novo feudo adquirido ao papa.
+
+A egreja comprehendeu inteiramente o alcance d'este grande facto, tão
+importante na historia da arte romanica, da arte lombarda, da arte
+gothica e de todas as artes liberaes na Europa, depois de cahida a
+influencia da antiga civilisação hellenico-romana.
+
+Como incentivo e amparo da vasta odysséa, a que se aventuravam os
+denominados pedreiros livres receberam então da auctoridade pontificia,
+emminente a todos os conflictos e discordias de soberania para soberania
+e de nacionalidade para nacionalidade, privilegios incomparaveis,
+destinados a assegurar á confraria errante uma especie de inviolavel
+monopolio esthetico e artistico, como o que em nossos dias poderia
+resultar de um congresso universal, tendo em vista pôr acima de qualquer
+contingencia politica um interesse commum a toda a especie humana.
+
+Diplomas e bulas papaes confirmaram para todos os paizes, que houvessem
+reconhecido a fé catholica apostolica romana, todos os privilegios que a
+confraria dos pedreiros livres havia recebido dos Estados de que era
+oriunda.
+
+Ella dependeria directamente e unicamente da auctoridade pontificia,
+isenta de todas as leis e estatutos locaes, dos editos dos reis ou dos
+regulamentos dos municipios e de toda e qualquer imposição obrigatoria
+para os naturaes do paiz em que se encontrasse.
+
+Só á associação caberia o direito e o poder de taxar os salarios, e de
+prover em capitulo, sem appellação nem aggravo, a quanto dissesse
+respeito ao seu proprio governo. Era expressamente prohibido a todo o
+artista não iniciado nem admittido na associação estabelecer para com
+ella qualquer especie de concorrencia, assim como era defeso, sob pena
+de excomunhão, a todo o soberano manter os seus subditos n'esse acto de
+rebeldia ás prescripções da egreja.
+
+Esta _Internacional_ carolingiana, bem mais poderosa do que a
+_Internacional_ napoleonica sahida dos primeiros movimentos socialistas
+do segundo imperio, desenvolveu-se rapida e portentosamente. Muitos
+gregos vindos de Constantinopla se reuniram aos primeiros artistas
+confederados, vindo em seguida allemães, francezes, belgas e inglezes.
+
+Desdobraram-se successivamente as diversas lojas ou series de
+agrupamentos, em que cada dez associados obedeciam a um chefe em
+communicação com os chefes das demais decurias e com a direcção central.
+
+Os ecclesiasticos da mais alta categoria, os prelados, abbades mitrados
+e bispos, accrescentavam a força e o prestigio da associação,
+alistando-se como membros da irmandade.
+
+Todos os soberanos da christandade se gloriavam em honrar com especiaes
+distincções e particulares privilegios as suas lojas nacionaes.
+
+Para o fim de evitar que individuos estranhos á associação aproveitassem
+fraudulentamente os enormes beneficios de que ella tinha o privilegio, e
+bem assim para que, em qualquer região do mundo, cada irmão pudesse
+communicar com os seus consocios, fazendo conhecer a sua iniciação e o
+seu grau na confraria, estabeleceram-se as senhas secretas, os _signaes
+maçonicos_, por meio dos
+
+quaes os consocios se reconheciam em qualquer parte, e revestiu-se o
+acto de iniciação e matricula de formalidades solemnes, de provas
+especiaes, de juramentos terriveis, por via dos quaes cada novo confrade
+se obrigava não sómente a não revelar a quem quer que fosse os signaes,
+com que mutuamente se entendiam os pedreiros, mas a esconder dos
+estranhos todos os processos technicos e todas as regras do officio, de
+que a associação tinha a posse. Esta collaboração phenomenal dos
+melhores obreiros, de todos os grandes artistas e de todos os sabios do
+mundo, associados da maneira mais engenhosamente completa e perfeita
+para exercer a arte de edificar, elevou a architectura religiosa n'este
+periodo á mais alta perfeição scientifica e technica, a que jámais
+chegou a obra da intelligencia e da mão do homem.
+
+Quando a longa e laboriosa gestação de todos os demais ramos do saber
+humano se discriminava apenas em rudimentos embrionarios, de uma
+confusão tenebrosa, a architectura constituia o mais perfeito corpo de
+leis estheticas e de leis scientificas. Crearam-se as mais elevadas e as
+mais caracteristicas fórmas de stylo, resolveram-se os mais complicados
+e os mais difficeis problemas de calculo, de geometria e de mechanica,
+acharam-se, emfim, innumeraveis processos chimicos e methodos technicos,
+que se perderam e nunca mais se substituiram, porque com a grande
+confraria dos maçons morreu a tradição de que elles tinham a guarda e o
+segredo.
+
+No tempo de Eduardo III a maçonaria, que só um seculo depois acabou na
+Inglaterra sob o reinado de Henrique VI, mantinha-se em pleno vigor.
+
+Ora, dado que só muito lentamente e por via de provas espaçadas e
+progressivas podia o obreiro no gremio da confraria subir á qualificação
+de mestre, e só como simples obreiro podia ser admittido e iniciado,
+dado por outro lado que era tal o segredo sobre os methodos de edificar
+que toda a planta, todo o risco, todo o calculo, todo o estudo graphico,
+era invariavelmente e escrupulosamente destruido immediatamente depois
+de utilisado em qualquer obra, parece-me não haver um excessivo arrojo
+em conjecturar que Affonso Domingues n'uma viagem a Inglaterra, no tempo
+de Eduardo III, nada aprenderia de architectura, ficando estranho á
+maçonaria, e, tendo-se iniciado n'ella antes de vir construir a Batalha,
+seria então da maçonaria e não d'elle o monumento de que se trata.
+
+Revertendo ao escrupuloso e esclarecido estudo de Mousinho, notemos que
+elle não encontrou nem quem o continuasse nem sequer quem se lhe
+submettesse entre os restauradores que se lhe seguiram. As capellas
+imperfeitas, incomparavel joia da architectura portugueza mais
+caracteristicamente regional, acham-se no mesmo abandono em que ficaram
+em 1843, depois que elle as desinfestou dos parasitas arbustivos e das
+herbaceas, cujas radiculas se tinham por tal modo multiplicado nos
+intersticios das cantarias que em muitos pontos houve que desmontar as
+lageas para extirpar as hervas e refazer os massames substituidos pelo
+intimo estojo vegetal, que inchando por todas as juntas da pedra,
+ameaçava desarticular e destruir tudo por uma derrocada geral.
+
+Sem exposição de plano referido ás obras que recentemente se tem feito,
+e cuja doutrina nos daria uma base de estudo e de discussão, quem, como
+eu, não tem voto na materia para a resolver por sentença, precisaria de
+entrar em uma longa serie de pacientes raciocinios e de humildes
+demonstrações para pôr em evidencia todos os erros que em taes obras se
+teem comettido. Para não tornar pelo emprego d'esse processo,
+excessivamente longo este modesto estudo, tomarei um ponto capital,
+sufficientemente expressivo para dar a medida do criterio empregado na
+restauração da Batalha.
+
+Pela entrada principal da egreja, á semelhança do que succede em grande
+parte das egrejas gothicas, desciam-se na Batalha alguns degraus,--sete
+se me não engano--para chegar ao pavimento da nave central. Um dos
+restauradores que se succederam a Mousinho de Albuquerque, tendo-se por
+assistido de razões plausiveis para modificar o alludido systema,
+rebaixou o terreno exterior ao nivel do pavimento da egreja, e supprimiu
+os degraus, serrando as hombreiras e substituindo as cantarias que lhe
+serviam de base. A porta principal do monumento da Batalha ficou por
+esse modo tendo de altura a dimensão de duas larguras em vez de largura
+e meia approximadamente, segundo a dimensão primitiva. O architecto
+havia previamente submettido o seu projecto ao exame das estações
+superiores, e o respectivo ministro sanccionara a obra com a sua alta
+approvação.
+
+Será difficil encontrar em um tão breve episodio de construcção uma tão
+vasta affirmativa de desoladora ignorancia.
+
+Poderá parecer excessiva e condemnavel ousadia que um simples curioso se
+arrogue o direito de qualificar de ignorante um architecto em exercicio
+da sua profissão. O erro é todavia no caso sujeito tão flagrante que não
+supporta defesa. Um barbarismo architectonico está tanto ao alcance de
+um escriptor como um barbarismo grammatical está ao alcance de um
+architecto.
+
+Toda a gente sabe que ha em architectura uma inilludivel medida de
+proporção e de relacionação que se chama a _escala_. Sem escala não ha
+obra de architectura nem ha construcção alguma sensata, por mais
+subalterna, por mais infima que ella seja. Na architectura grega a
+unidade abstracta d'essa medida é o modulo. Na architectura da edade
+média a unidade é o homem. N'este simples principio, tão magistralmente
+exposto por Violet-le-Duc, se baseia o caracter essencial da
+architectura medieval. D'essa referencia de toda a construcção á
+pequenez da estatura humana resulta o singular effeito de grandiosidade
+que distingue os monumentos gothicos dos monumentos neo-classicos, Nossa
+Senhora de Pariz de S. Pedro de Roma, ou a egreja da Batalha da egreja
+de Mafra. Para esse effeito contribue o aspecto das successivas fileiras
+da cantaria á altura das paredes e das pilastras, porque a escala
+gothica, determinada pela altura do homem, se subordina correlativamente
+ás dimensões do material. Assim pela serie das juntas, sempre em
+evidencia na sobreposição das cantarias, a vista calcula rapidamente,
+por instincto arithmetico, a grandeza de uma fabrica como a da Batalha,
+estabelecendo a proporção entre as dimensões da pedra e a estatura do
+homem, e entre a altura do homem e a elevação da nave.
+
+Do que fica exposto resulta que a simples substituição de uma pedra por
+uma pedra de dimensão differente na base de uma hombreira no portal da
+Batalha é, em si mesma e isoladamente, como troca de pedra por pedra, um
+grave erro, porque essa base de hombreira, devendo ter tido inicialmente
+a dimensão exacta e precisa, que á esquadria da cantaria impõe a
+dimensão do bloco, é um elemento fundamental da escala pela qual se rege
+todo o edificio; e não pode como tal nem supprimir-se nem alterar-se.
+
+Mas temos de considerar ainda que com essa mudança de pedra se offendeu
+o preceito da unidade, alterando a fórma e a dimensão de um dos mais
+importantes membros da construcção. O conjuncto de um monumento--diz
+Quatremère de Quincy--é de tal modo combinado, que n'elle se não pode
+nem tirar nem pôr nem alterar o que quer que seja. E Violet-le-Dué
+desenvolve esse preceito da maneira seguinte: «É um erro grosseiro
+suppôr que um qualquer membro de architectura da edade média pode ser
+impunemente accrescentado ou diminuido. N'esta architectura não ha
+membro algum, que não esteja na escala do monumento para que foi
+composto. Alterar esta escala é tornar esse membro disforme... Os erros
+de escala que escandalisam em um monumento novo e lhe tiram todo o
+valor, tornam-se monstruosos quando se trata de uma restauração.» As
+dimensões das portas--já dizia Vinhola--devem ser de uma proporção
+relativa á escala pela qual se construir o edificio, á grandeza das suas
+differentes peças e finalmente ás particularidades da obra e do local em
+que esta fôr feita. Com relação ás portas nas ordens jonica, dorica,
+corinthia e toscana as proporções entre a altura e a largura dos
+portaes, acham-se geometricamente determinadas pelos discipulos de
+Vitruvio. Na architectura gothica a porta representa porém um papel mais
+preponderante que em qualquer outro systema de construcção. «De hora
+avante--proclama Violet-le-Duc referindo-se ao periodo medieval--a porta
+deixará de augmentar em proporção com o edificio, porque, sendo feita
+para o homem, conservará sempre a escala propria do seu destino.»
+
+A medida de extensão na edade média era a toeza, correspondente á
+estatura do homem alto. A porta da egreja destinada a dar passagem ao
+portador de uma lança de guerra ou de torneio, de um baculo, de uma cruz
+ou de um pendão, tinha a altura fixa e invariavel de duas toezas a duas
+toezas e meia, segundo as regiões em que se construia. O portal gothico
+tem ainda, como titulo ao nosso respeito pela sua inviolabilidade, a
+condição de representar na fachada do templo como que um summario de
+toda a obra. É do principio da arcada, de que a porta é o motivo
+predominante, que se deduzem e desenvolvem systematicamente todas as
+demais fórmas constructivas e ornamentaes na architectura do edificio.
+Archivoltas, nervuras, pilastras, columnelos, janellas, nichos, misulas,
+baldaquinos, trifolios, que são na egreja da Batalha senão applicações e
+desdobramentos successivos, engenhosamente variados, das linhas
+constitutivas da porta principal do templo?
+
+Quão tragicamente profunda tem que ser a indisciplina official em todos
+os serviços da arte para que possa dar-se um attentado da ordem
+d'aquelle a que me refiro:--para que um architecto proponha, para que
+uma repartição publica auctorise, para que um ministro da corôa
+sanccione--sem protesto do districto, do municipio ou da parochia--que
+se desfigure o primeiro dos nossos monumentos da edade média, alterando
+as fórmas de uma porta, que é a porta principal d'essa gloriosa egreja
+de Santa Maria de Victoria, que os architectos do mestre de Aviz alçaram
+pela bitola dos estandartes, dos balsões e das bandeiras de Aljubarrota,
+e segundo a altura a que chegava nas hombreiras o bico do bacinete ou a
+cimeira do morrião dos da ala da madresilva ou da ala dos namorados!
+
+Se fosse meu proposito enumerar os erros commettidos nas restaurações da
+Batalha teria de referir-me ás vís deturpações por que está passando a
+capella do fundador; ao detestavel altar mór, em cuja pedra tão
+miseramente se acha reproduzido por uma especie de grafito o desenho de
+um mosaico, e a odiosa coloração das vidraças, em que o doce tom de
+ambar, que os vidristas da edade média obtinham por uma emulsão de mel
+na preparação da tinta, se vê substituido pelo de um reles amarello cru,
+de refalsado topasio. O inacreditavel tabernaculo com que houve o arrojo
+de empachar o ambito de uma das naves, sob pretexto de construir uma
+capella baptismal, teria ainda que deter por algum tempo o meu
+horrorisado espanto perante esse tão insolente e tão irrespeitoso abuso
+do pseudo-gothico, em proporção e em escala unicamente permittidas, por
+longanimidade de ridiculo, em jazigos de familia e em pratos montados,
+na latitudinaria architectura dos cemiterios ou das confeitarias.
+
+O meu fim porém não é fazer a critica das restaurações da Batalha, mas
+sim demonstrar, como julgo ter feito, por meio de alguns factos
+caracteristicos e capitaes, que nas restaurações emprehendidas tanto
+n'esse como nos demais monumentos architectonicos recentemente reparados
+a expensas do estado, não houve antecedencia de programma, nem estudo
+previo, nem determinação de methodo, nem sancção critica, nem
+fiscalisação technica, nem policia artistica de especie alguma.
+
+Pelo numero e pelo quilate das mutilações, deturpações e superfetações,
+inteiramente arbitrarias e escandalosas, de que são objecto os
+monumentos restaurados com assentimento e com subsidio official, como a
+Batalha, os Jeronymos e a Madre de Deus, poderemos calcular o que se
+passa nos edificios em que camaras, parochias e simples particulares
+estão no logro de restaurar, de concertar ou de demolir a seu gosto.
+
+Em Ponte de Lima havia uma ponte, que dava o nome á villa. Esta ponte,
+em parte romana, em parte gothica, era revestida de ameias e entestada
+por dois castellos ogivaes. A vereação, com o motivo de desafogar a
+vista sobre as duas margens do rio, manda demolir os castellos e serrar
+as ameias da alludida ponte.
+
+Outra vereação, em Santarem, bota a baixo a bella torre gothica de Santa
+Maria de Marvilla, fundação dos primeiros tempos da monarchia, para o
+fim unico de deixar o terreno sem coisa alguma em cima, e ser por essa
+razão uma praça. A Real Associação dos architectos civis propõe-se a
+esse tempo comprar os sinos da torre demolida, em bronze esculpido. A
+junta de parochia prefere derretel-os.
+
+No castello de Leiria, que, tendo sido construido como casa e museu pelo
+rei mais artista, mais poeta e mais sabio do seu tempo, constitue um
+documento, unico talvez na Europa, da archeologia romana e da vida de
+côrte na edade média, certos festeiros em noite de gala, derribam a
+columnata do eirado principal para dar campo a um effeito de luminarias
+e de pyrotechnica.
+
+Na alcaçova de Santarem as ameias de D. Affonso Henriques substituem-se
+por ignobeis grades de ferro fundido e pintado de verde.
+
+A porta da Atamarma, pela qual ainda passou Garrett ao tempo das
+_Viagens na minha terra_, é arrasada, juntamente com a capellinha de
+Nossa Senhora da Victoria, que tinha por cima. No orçamento d'essa
+demolição, que o governo approvou no anno de 1865, a camara de Santarem,
+tripudia de jubilo, affirmando que a dita desmontagem, _que por mais
+tempo se não podia protrahir_, fôra vantajosamente arrematada pela
+quantia de trinta e nove mil réis, calculando-se em mais de cem mil o
+valôr da pedra e do tijolo que ella produziu. Com esse cantico de
+alegria orçamental, desappareceu o glorioso portico, por onde o fundador
+da nacionalidade portugueza e os da sua hoste entraram em Santarem com
+as espadas e as lanças gottejantes de sangue mouro, firmando por esse
+acto o fim do dominio sarraceno em Portugal.
+
+A porta do _Bom Successo_ veio abaixo, como a de Atamarma, por
+disposição do respectivo municipio.
+
+A destruição das portas de muralha, bellos arcos na maior parte ogivaes,
+com que tanto se enobreciam algumas das nossas velhas cidades, tem sido
+a grande preocupação vesanica das municipalidades modernas,
+absolutamente ignorantes, ao que parece, das gloriosas tradições locaes
+de que esses monumentos eram o testemunho authentico e sagrado.
+
+Dentro d'essa cathegoria de delinquentes será difficil disputar o
+primeiro logar da serie pathologica á cidade do Porto.
+
+O Arco da Vendoma, á rua Chan, que havia sido uma das portas da
+circumvalação sueva, sobre a qual a rainha D. Tareja fizera collocar em
+ediculo a imagem da Senhora da Vendoma, trazida de França pelo bispo D.
+Nonego, é desapiedadamente demolida em nossos dias, depois de oito
+seculos de existencia.
+
+Os bellos arcos do Postigo de Santo Antonio do Penedo e do Postigo do
+Sol veem egualmente abaixo, em 1875, sem razões algumas que expliquem
+mais esta demolição que a do Arco da Vendoma. Junto do Postigo do Sol
+ficava no entanto, e memorava-a o arco, a veneranda _Viella das Tripas_,
+onde assistiam as fressureiras, que deram aos do Porto o nome de
+tripeiros, vendendo-lhes os miudos das rezes, cuja carne elles haviam
+espontaneamente cedido á armada de D. João I para a expedição de Ceuta.
+
+Á Porta do Olival, da qual como do Postigo do Sol só resta o nome, foi
+acclamado D. João I. A essa porta foi esperada pelos portuenses, e por
+ella entrou pela primeira vez na cidade, na occasião das suas bodas com
+o mestre de Aviz, a rainha Filippa de Lencastre.
+
+O Arco da Senhora Sant'Anna, que deu o titulo á linda narrativa
+portuense de Almeida Garrett, é sacrificado como os demais ao alvião
+municipal da cidade invicta.
+
+O ultimo emfim dos arcos do Porto, ainda ha bem poucos annos destruido,
+foi o da Porta Nobre, por onde faziam a sua entrada solemne os bispos e
+os reis, que os moradores da Reboleira recebiam triumphalmente na sua
+rua, juncada de espadanas e de funcho, entre festões de flores pendentes
+das velhas janellas de resalto, á flamenga, sob punhados de trigo,
+reluzente no ar em chuva de ouro.
+
+Em Santarem disseram-me ha dias, nos proprios logares em que se está
+mancumunando o delicto, que os vereadores projectam agora demolir a
+Torre das Cabaças.
+
+Quando a rainha D. Maria I visitou Santarem em 1785, botaram-se as
+medidas do côche de sua magestade a todo o caminho que elle tinha de
+percorrer, e desfizeram-se diligentemente a picão, nas ruas da villa,
+todas as protuberancias architectonicas em que se anteviu algum risco de
+entalação para o trajecto da real berlinda.
+
+No Canto da Cruz cortaram-se, como quem corta queijo, os vertices dos
+angulos nos edificios de esquinas menos reverenciosas para com o regio
+transito. Entre a Torre do Alporão e a Torre das Cabaças o passo porém
+apresentou-se especialmente difficil. Applicou-se-lhe a bitola do regio
+côche, que o secretario de estado visconde de Villa Nova da Cerveira
+mandára previdentemente de Salvaterra de Magos ao juiz de fóra,
+presidente da camara municipal da villa, e consignou-se que, por obra
+infernal de palmo ou palmo e meio de saliencia, o magestatico vehiculo
+da soberana teria de ficar engasgalhado pelos cubos das rodas entre os
+dois monumentos. Então, depois de haverem marrado por um momento no
+problema, e uns nos outros, os vereadores scalabitanos removeram a
+difficuldade, redobando a fita da medição inutilmente esticada, mettendo
+os solicitos e suados covados debaixo dos braços, e mandando
+simplesmente arrasar a Torre do Alporão, monumento do dominio romano, do
+alto do qual, durante a occupação serracena, o arabe dictava ao povo a
+lei de Mahomet.
+
+A Torre das Cabaças é muito menos antiga e menos documental que a do
+Alporão. Com quanto Garrett a faça invocar anachronicamente no _Alfageme
+de Santarem_, em estimulo de defesa contra a invasão castelhana, como um
+dos traços mais expressivos da physionomia pittoresca da patria, essa
+torre data apenas do tempo de D. Manoel. Não tem caracter propriamente
+architectural, é uma simples peça de alvenaria quadrada. Mas o seu
+estranho remate, em grande elevação, formado pelo sino a descoberto,
+sustido na convergencia superior de quatro varões de ferro, estribados
+obliquamente nos quatro angulos da torre, e revestidos de pucaras de
+barro, da olaria local, destinadas a ampliar a sonoridade do bronze no
+tanger das horas e dos signaes de rebate, dá-lhe uma feição
+verdadeiramente especial, inconfundivel, indelevel. Não será talvez o
+mais monumental, o mais nobre, o mais rico, mas é de certo o mais
+suggestivo, o mais anedoctico, o mais interessante, o mais carinhoso, o
+mais familiar, o mais lindo campanario de toda essa tão formosa campina
+ribatejana, o mais aberto sorriso agrario da terra portugueza. Tudo
+envolve de penetrante poesia local essa velha torre. O seu mesmo nome de
+_relogio das cabaças_ ou de _cabaceiro_ se allia harmonicamente no
+ouvido á lembrança das lezirias, das hortas, dos paues, das courellas e
+dos olivedos, que o circumdam, e fazem d'elle como que uma parte
+integrante da paizagem, um natural rebento da terra. O aspecto de
+improvisação e de interinidade d'essa summaria ventana de sino, que
+parece armada em quatro pampilhos, é uma verdadeira obra d'arte, que
+lembra mais commoventemente do que nenhuma outra inventada pelos
+architectos, a origem arabe, a vida nomada, a tradição pastoral da
+região em que surgiu.
+
+Os conspicuos burguezes do senado de Santarem não podem ter opinião
+sobre esta questão de esthetica, porque elles carecem absolutamente do
+ponto de vista em que deve de ser considerada a sua Torre das Cabaças, a
+qual evidentemente se não construiu para que suas excellencias a
+alveitassem doutoralmente de dentro dos paços do concelho, ou cá fora na
+praça, de chapeus altos, sobrecasacas dominicaes e barbas feitas,
+abordoados aos seus chapeus de sol, e muito mais garantidamente
+cucurbitaceos que o seu proprio cabaceiro. A Torre das Cabaças fez-se
+para ser olhada do vasto campo da Gollegã ou do campo de Almeirim, vindo
+do Valle, vindo de Coruche, de Benavente, ou da Barquinha, atravez dos
+olivaes, das terras de semeadura e das eiras do termo de Santarem, de
+jaqueta e sapatos de prateleira, montando uma egua de maioral, de
+cabeçada de esparto, almatrixa de pelles e estribos chapeados. O
+Cabaceiro de Santarem, com a sua cupula em trempe, as suas cabaças de
+barro e o seu sino grande de correr e de governar as horas, fez-se para
+o largo e ridente campo ribatejano, fez-se para os campinos, para os
+vaqueiros, para os almocreves, e talvez se fizesse tambem para mim, que
+não vejo em arte razão alguma plausivel para que, como motivo ornamental
+de uma torre, á folha do acantho ou ao chavelho em voluta da
+architectura grega se prefira a nossa linda pucarinha de barro vermelho
+de Reguengo, da Atalaia ou da Asseiceira.
+
+Não! o senado santareno tem de deixar ficar onde ella está a sua tão
+caracteristica torre, para que se não diga que dos tres potes, que de
+antiga tradição consta acharem-se soterrados na Alcaçova, um cheio de
+ouro, outro cheio de prata, outro cheio de peste, a camara da localidade
+não encontrou senão o ultimo para o despejar sobre os monumentos
+publicos sujeitos á sua jurisdição e confiados á sua guarda.
+
+Que sob o antigo regimen os vereadores de Santarem deitassem a baixo a
+Torre do Alporão, para passar uma rainha, é uma desdita em extremo
+lastimavel, mas que sob o regimen vigente se deite egualmente a baixo a
+Torre das Cabaças, para que passem os proprios vereadores, é um desando
+grande da publica administração para muito peior do que estavamos no
+tempo da muito saudosa senhora D. Maria I.
+
+A torre da Sé Velha, de Coimbra, desapparece no fim do seculo passado
+perante uma simplicidade de processo, que bem demonstra quanto os
+poderes publicos, desajudados de conselho artistico, teem sido, em todo
+o tempo, inhabeis e incompetentes para proteger os monumentos da nação.
+Foi o meu amigo Theofilo Braga quem, ao colligir no Archivo Nacional os
+documentos ineditos das relações do marquez de Pombal com D. Francisco
+de Lemos para a reforma dos estudos na Universidade, descobriu a breve
+historia da demolição da torre da Sé Velha. Em carta de 3 de setembro de
+1773, D. Francisco de Lemos dá conta ao marquez de que demoliu a torre:
+«...A dita torre era um montão de pedra e cal sem arte e figura, que
+servisse de ornato á cidade, e antes estava tirando a vista do Paço das
+Escolas, e de muitas casas. E principalmente é muito nociva á Imprensa,
+porque ficando ella no alto e esta embaixo, lhe tirava o sol, com que a
+fazia menos clara e humida. Pareceu-me conveniente á vista de todas
+estas razões que se demolisse, o que se tem executado, seguindo-se todas
+as utilidades ponderadas acima, e egualmente a de haver pedra para tudo
+o que foi preciso fazer.» Em sigla marginal a esta carta opina o marquez
+de Pombal: «Que está muito bem feita a providencia sobre a torre da Sé
+antiga.» E em carta de 5 de outubro do alludido anno de 1773, o marquez,
+em stylo official, desenvolve a sua acquiescencia ao estupido vandalismo
+de D. Francisco de Lemos: «Tambem me pareceu bem ajustada a providencia
+e resolução que V. Ex.^a tomou de mandar demolir a torre da Sé antiga
+que não servia mais que de ser um _Padrasto sombrio e infimo_, só
+proprio para desfigurar a formosura do Palacio a que estava quase
+contiguo e de escurecer as actuaes officinas, etc.»
+
+Do mosteiro de Alcobaça desapparece todo um claustro do tempo de D.
+Affonso Henriques.
+
+Em S. Francisco d'Evora ampliam-se as dimensões da rosacea no
+frontespicio da egreja, abalando as cantarias circumstantes e pondo em
+risco todo o equilibrio da empena. Além d'isso, para o fim de aproveitar
+a pedra para outras applicações, desampara-se a abobada, deitando abaixo
+a ala do convento que lhe servia de encontro.
+
+No castello de Palmella e em S. Salvador de Paço de Sousa acham-se
+violados e deshonrados pelo mais completo despreso, além das campas dos
+cavalleiros de Santiago, o tumulo do principe D. Jorge, e o tumulo de
+Egas Moniz, que em Paço de Sousa dividiram em dois, pondo cada metade
+para seu lado, em pontos oppostos da egreja. O cofre de pedra que
+continha a ossada do fiel aio de Affonso Henriques transforma-se em pia
+de um bebedouro publico.
+
+A sumptuosa egreja do convento de S. Francisco em Santarem, fundação de
+D. Sancho II, com as suas tres naves, as suas columnas de preciosos
+capiteis e os floridos arcos da sua restauração manoelina, converte-se
+em uma das cavallariças do regimento aquartelado no convento.
+Violaram-se todos os tumulos que encerrava o claustro e occupavam a
+egreja, sem que esta, segundo nos consta, fosse nunca dessagrada
+liturgicamente. Parece que não houve tempo para satisfazer essa tão
+breve formalidade de respeito.
+
+As sarças, os silvados, e os subtis rendilhamentos manoelinos do tumulo
+precioso do conde de Vianna D. Duarte de Menezes, pela circumstancia de
+ser a esculptura removida para S. João do Alporão pela benemerita
+commissão administrativa do Museu Districtal de Santarem, escaparam
+miraculosamente aos coices das bestas de guerra, que o governo portuguez
+destinava ao sagrado monumento erigido pela doce piedade conjugal á
+memoria do leal e valoroso soldado de Affonso V, que na conquista de
+Alcacer-Ceguer se deixou morrer ás lançadas para salvar a vida do seu
+rei.
+
+O tumulo de D. Fernando, que estava na mesma egreja, foi pela Associação
+dos architectos trazido para o museu do Carmo.
+
+Um dente de D. Duarte, que a condessa de Vianna encerrara, como unica
+reliquia de seu marido, no monumento que lhe consagrara, conserva-se
+ainda dentro do estojo que primitivamente o continha. A ossada do rei D.
+Fernando, essa desappareceu, como desappareceu a de D. Francisco de
+Almeida, atirada para a cerca do quartel na occasião em que se lhe
+destruiu o tumulo, aproveitando-se a area de pedra em que jazia o corpo
+para bebedouro especial dos cavallos com mormo.
+
+As demais campas, que constituiam o pavimento do claustro desde o
+principio do seculo XIV desappareceram todas, e nem sequer se sabe já de
+quem eram, por que, para não escorregarem os cavallos do regimento,
+desempedrou-se o claustro e perderam-se as lapides que n'elle se
+continham.
+
+A sepultura de Pedro Alvares Cabral está na egreja da Graça, um dos
+bellos templos da fundação da monarchia em Santarem. Esta egreja é
+cedida pelo governo á pobre irmandade dos Passos. A irmandade carecia de
+meios para custear o decoro do culto e a conservação do edificio.
+Occorria generosamente a essa despeza o proprietario do convento annexo
+á egreja. O dono do convento falleceu recentemente, legando a casa a um
+azylo que n'ella fundou. A egreja da Graça de Santarem está portanto, a
+bem dizer, desamparada. A quem é que se acha confiado o tumulo de Pedro
+Alvares Cabral? Não se sabe bem, e são grandes, como pessoalmente tive
+occasião de experimentar, as difficuldades que encontra quem deseje dar
+com o depositario das chaves para ver a egreja. Ás gloriosas cinzas
+d'aquelle que nos deu o Brazil, a gente nem sequer sabe dar um guarda.
+
+O mausoleu do nosso S. Frei Gil corre aventuras parecidas com as do
+mausoleu do rei D. Fernando. Os marquezes de Penalva, parentes do Santo,
+recolhem na capella do seu palacio em Lisboa as cinzas do bemaventurado.
+A tampa do tumulo com a estatua do Santo vem para o museu do Carmo. A
+arca sepulchral, que encerrava os seus restos, fica em Santarem,
+servindo de pia de amassar cal para as obras do municipio.
+
+Em Guimarães mascaram indignamente de cal e de madeira as columnas e as
+arcarias da veneravel egreja de Nossa Senhora da Oliveira, fundada nos
+primeiros annos do seculo X pelo conde Hermenegildo Mendes e por sua
+mulher a condessa Mumadona. No claustro do seculo XIII, que envolve uma
+parte da egreja, revestem de caixilharia envidraçada a graciosa arcaria,
+e rebocam espessamente a cal os capiteis das columnas. A flammante
+janella gothica, que por cima da porta, na fachada do templo, fazia
+explodir em apotheose a polychromia do espelho, emoldurado na sua larga
+cercadura esculpida de silvados, historiada de estatuetas de santos em
+phantasiosos resaltos de misulas, sob rendilhados baldaquinos, é
+impiedosamente arrasada e substituida por uma chapada de cantaria
+corrida, perfurada por quatro oculos.
+
+Em Santarem, na egreja do Milagre, pelas trovoadas d'este verão, um raio
+fere o cone azulejado da torre, penetra na capella mór, despedaça a
+madeira do arco que a separa da nave, e põe a descoberto, por baixo
+d'esse revestimento de taboas pintadas, os mais lindos lavores
+esculpturaes de uma arcaria da Renascença, em que cherubins voejam,
+sustendo grinaldas e cornucopias floridas, por entre a laçaria
+afestoada, com rotulos pendentes. Todos os relevos mais salientes da
+esculptura haviam sido desbastados a picão para nivelar a superficie da
+pedra em que assentara a madeira.
+
+Em Setubal, na egreja manoelina das freiras de Jesus, besuntam as
+columnas, os artezões e os fechos da abobada com a mais tosca e espessa
+camada de pintura. O material subjacente é o lindo marmore polychromico
+da Arrabida. A pintura a que me refiro tem a intenção esthetica de
+imitar a borrões d'ocre esse mesmo marmore cuja superficie tão
+sordidamente conspurca.
+
+Quando ha quatro annos o governo mandou pôr em hasta publica uma parte
+do convento de Cellas, incluindo o seu encantador claustro, metade do
+qual é do tempo de D. Diniz, uma voz anonyma protestou, eloquente e
+energicamente, contra semelhante desacato, por meio de uma pequena
+brochura impressa em Coimbra e largamente espalhada pelo paiz todo, a
+pedir soccorro á imprensa. Rarissimos periodicos acudiram ao rebate. Na
+parte que data do seculo XIV, o pequenino claustro de Cellas, em arcadas
+de meio ponto e columnas geminadas, de capiteis cubicos, historiados por
+todos os lados com deliciosas figurinhas representando os mais tocantes
+episodios da vida da Virgem Maria, de Jesus e dos seus santos, é a mais
+delicada, a mais commovida, a mais poetica obra da arte portugueza
+n'esse interessante periodo da transição do stylo romanico para o
+advento do gothico, na evolução capital da arte na Edade Media. A
+virginal candura, profundamente enternecida, do artista desligado da
+preceituação hieratica de uma esthetica que se extingue, para entrar com
+toda a frescura intacta do sentimento na sinceridade de uma arte nova, é
+invasivamente tocante na concepção de varios episodios d'esta
+composição, como o da Annunciação, o do Sonho de Nossa Senhora, o da
+Adoração dos Reis Magos, o da Fuga para o Egypto, e o da Crucificação de
+Jesus, que, pela primeira vez nas representações d'este periodo, nos
+apparece flagellado pela corôa de espinhos e com os dois pés
+sobrepostos, fixados ao madeiro por um só cravo. Acompanhando e
+envolvendo a primorosa obra do esculptor, tudo no claustro de Cellas se
+compensa, se pondera e se equilibra admiravelmente para o fim de pôr em
+suggestão o pensamento que d'essa obra deriva.
+
+É uma construcção ineffavelmente pura, toda de intimidade e de religião,
+no sentido de cada uma das suas partes e na harmonia total do seu
+conjuncto. Nem a mais leve macula mundana, de presumpção ou de orgulho.
+Nem um só nome profano, nem um unico emblema heraldico, brazão, corôa,
+paquife, divisa ou empresa. Nada que lembre da terra as ambições, a
+força, a gloria ou o brilho: nem quinas, nem lizes, nem pelicanos, nem
+espheras. A mesma aconchegada dimensão do recinto, parecendo amoldado ao
+passo leve e recolhido das freiras, as quaes se ouviriam a meia voz de
+um extremo para o extremo opposto do pateo; o stylobato em bancada
+revestida de azulejos do tempo, enxadrezados em verde e branco; a
+pequena altura dos fustes, proporcionados a uma estatura de noviça, que
+poderia do chão acarinhar as imagens dos capiteis com uma flôr de
+açucena; a reclusa modestia da galeria superior, em que o beiral do
+telhado se apoia ao parapeito em curtos esteios de granito; a mesma
+vegetação arbustiva, que ainda sobrevive á antiga ornamentação floral do
+pateosinho ajardinado; as diminutas capellas e os nichos que rodeiam a
+claustra; tudo emfim concorda e condiz na mais rara e doce harmonia de
+uma expressão intradusivel. O claustro de Cellas é, pela extranhesa e
+pela preciosidade da sua poesia e da sua arte, uma especie de murmurosa
+fonte, ineffavel e perenne, em que a agua não vem de alterosos e
+magestaticos aqueductos cantar ao sol em taças brunidas de prophyro ou
+de alabastro, suspensas por grupos de naiades, de sereias ou de
+golfinhos, mas rompe da rocha viva, como nas grandes altitudes
+alcantiladas das nossas serras, manando em fio tenue e crystalino,
+desnevada e purissima, escondida entre fragas, a que se entra de rastos
+para ir sedentamente beijal-a na sua humilde nascente engrinaldada de
+violetas em flôr.
+
+Providenciando sobre o destino de um tão delicado monumento, posto em
+leilão pela quantia de um conto de réis, dispunha o governo que os
+capiteis das columnas se serrassem dos respectivos fustes e se
+recolhessem n'um museu!
+
+Não sei em que phase administrativa se acha ao presente esse negocio. O
+que sei é que o primoroso claustro de Cellas, medonhamente desaprumado
+da perpendicularidade das suas columnas, não espera senão o primeiro dos
+mais leves pretextos para se desmoronar inteiramente.
+
+Na linda egreja de S. João, em Thomar, abrem-se na fachada principal, de
+cada lado de um portal manoelino, duas janellas da mais corriqueira e
+mais villôa cantaria.
+
+Ha bem poucos dias ainda um distincto critico nos revelava, em uma folha
+periodica, os desacatos por que está passando o antigo mosteiro das
+Bernardas de Almoster, construido para commemorar o milagre de Santa
+Iria pela devota Berengaria com a collaboração de Santa Isabel.
+
+Na Sé de Braga as estatuas jacentes dos tumulos do conde D. Henrique e
+de sua mulher foram cortadas pelo meio das pernas para caberem nos novos
+logares para onde as transferiram, e, com o fim de não transtornar
+inteiramente a anatomia dos personagens, pareceu util applicar os pés
+decepados aos joelhos das figuras.
+
+Na mesma egreja existe o bello tumulo em bronze do joven infante D.
+Affonso, filho de D. João I, obra mandada fazer em Bruxellas pela
+infanta portugueza D. Isabel, mulher de Filippe o Bom. A estatua do
+infante, em tamanho natural, repousava deitada na tampa do mausoleo
+entre dois anjos em adoração. A caixa tumular, ornada de brazões,
+cingidos de arabescos e silvados em relevo, descança sobre leões. Em
+1881 foram roubadas as cabeças dos leões, os pés e as mãos da estatua, e
+os dois anjos que ladeavam a cabeça do principe. O templo está
+completamente desfigurado do seu aspecto primitivo. Empastaram-se os
+capiteis das columnas, transformou-se a arcaria das naves, abriram-se
+grandes janellas nas paredes da egreja, adornaram-se os intervallos das
+capellas com enormes estatuas dos apostolos feitas de pau, e pintou-se
+tudo de branco--madeiras e cantarias.
+
+A pedra da campa de Garcia de Rezende, sepultado na encantadora ermida
+que elle mesmo delineou e mandou construir na cerca do convento de Nossa
+Senhora do Espinheiro, foi arrancada da sepultura do nosso chronista, e
+serve presentemente de banca de cosinha em casa de um cavalheiro de
+Evora.
+
+Os tumulos da familia de Abrantes acham-se em tanto esquecimento e em
+tanto abandono na capella do seu castello, como em Alcobaça os de D.
+Pedro e D. Ignez de Castro; como em Paço de Sousa o de Egas Moniz; como
+em Palmella o de D. Jorge, em cujo testamento aliás se attribue uma
+verba ás reparações d'aquella casa; como, finalmente, ainda ha pouco em
+Alemquer, o de Damião de Goes, antes de haver sido reposto pelo sr.
+Possidonio da Silva o busto do nosso chronista sobre o seu jazigo da
+egreja da Varzea.
+
+Na Vidigueira a camara auctorisa o povo a utilisar em obras particulares
+as cantarias do castello de Vasco da Gama, como se o solar do
+descobridor da India não tivesse mais importancia historica que a que se
+liga a qualquer pedreira.
+
+Em Evora, para dar mais um metro ou metro e meio de superficie a uma
+praça, a camara deita abaixo a historica varanda da casa dos paços do
+concelho, edificada em tempo de Affonso V, por João Mendes Cecioso, o
+_pae dos pobres d'Evora_. A varanda demolida, da qual pela primeira vez
+se aclamou a independencia de Portugal depois das famosas _alterações_,
+tão minuciosamente narradas por D. Francisco Manoel de Mello na sua
+_Epanaphora politica_, parece ter sido obra de D. João II.
+
+Por muitas vezes se tem discutido na camara eborense, e parece até haver
+sobre tal assumpto uma resolução assente, o projecto inaudito de
+eliminar toda a bella alpendrada da praça, da rua Ancha e da rua da
+Porta Nova.
+
+Outra resolução da camara de Evora, resolução definitiva e aprasada para
+muito breve, é a de destruir a pequena e tão graciosa egreja do convento
+do Paraizo para o fim de estabelecer mais uma praça entre as duas ruas
+de Machede e de Mendo Estevens, ás quaes faz esquina aquelle templo.
+
+A diminuta egreja do Paraizo, com os seus dois arcos manoelinos, com os
+seus preciosos azulejos do seculo XVI, em tapete mural, acompanhando nas
+barras o recorte dos arcos em zig-zag, e com o seu tumulo em ediculo de
+D. Alvaro da Costa, é um dos mais graciosos documentos architectonicos
+do seu tempo.
+
+Pobre cidade de Evora, um dos nossos mais vastos e mais preciosos museus
+de archeologia e d'arte, preferindo como Santarem ser uma estupida
+collecção de praças largas e de ruas novas! Por toda a Europa, os velhos
+bairros historicos são hoje o thesouro das cidades que os possuem. Em
+muitos logares, onde esses bairros não existem, estão-os inventando,
+estão-os reconstituindo em homenagem erudita e piedosa á tradição
+historica, á poesia do passado. A camara de Evora, vangloriosa no
+pelintrismo das suas innovações, bota abaixo os mais venerandos
+monumentos da cidade; por outro lado improvisa ruinas scenographicas no
+seu jardim publico, armando com trepadeiras e malvaiscos grupos
+sentimentaes de velhas columnas postas de pernas para o ar n'esse
+effeito de bordado a cortiça ou a miolo de figueira; pica os seus
+historicos brazões para fazer passeios lisos de ruas novas aos seus
+janotas; e bate, modernisante e festeira, sobre o epitaphio do mais
+palaciano e do mais artistico dos seus escriptores quinhentistas, a
+carne do bife consagrado talvez ao penso d'algum dos seus novos
+reporters.
+
+Mas eu é que não posso deixar de dizer á cidade de Evora, que o que a
+ella nos attrae e n'ella nos retem não são as suas novas avenidas, nem
+as suas praças, nem o seu lindo theatro, nem o seu bello Passeio
+Publico. O que em Evora nos embelleza e nos encanta, são os seus velhos
+mosteiros, as suas antigas egrejas, os nomes das suas primitivas ruas,
+estreitas e sinuosas, tão curiosos e tão archaicos como o de
+_Valdevinos_, o de _Alconchel_, o das _Amas do Cardeal_, o do _Alfaiate
+da_ _Condessa_; são os quadros incomparaveis do seu paço archiepiscopal;
+são os variadissimos documentos da sua architectura ogival e da sua
+architectura da Renascença, tão especialmente amoiriscada n'esta parte
+do Alemtejo; são os restos das suas antigas industrias locaes, a olaria,
+a tapeçaria, a caldeiraria, a sellaria e a carpintaria de moveis; é
+talvez ainda a sua tradicional cosinha, a doçaria famosa dos seus
+conventos, a sua honrada assorda de cuentros, e o seu bolo pôdre, de
+farinha de milho, azeite e mel, como o que se comeria talvez, entre os
+hebreus da Biblia, á mesa de Abrahão.
+
+Com as improvisações do seu modernismo Evora é como Vianna do Castello,
+Braga, Guimarães, Coimbra, Thomar, Santarem, ou Beja, que sómente
+interessam os viajantes pela sua antiga arte, e não valem realmente a
+pena de que alguem as visite pelo que dão de novo.
+
+Em Lisboa repudia-se a soberba egreja de Santa Engracia, o mais bello
+dos nossos monumentos do seculo XVII. O interior do templo é de uma
+magnificencia magestosa. A riqueza dos marmores sómente se pode comparar
+á de Mafra. A mão d'obra é de uma perfeição magistral a ponto de parecer
+indestructivel. Aproveitada para pantheon nacional esta egreja seria um
+dos mais imponentes edificios da Europa. Falta unicamente á sua
+conclusão a cupula do tecto e o lageamento do chão. Taparam-lhe o arco
+da entrada a pedra e cal, não tem cobertura, e está servindo de armazem
+de arrecadação do inutilisado material de guerra do Arsenal do Exercito.
+
+A inoffensiva capellinha das Albertas, bem interessante pela
+ornamentação tão portugueza dos seus embrechados, ha poucos dias ainda
+acabou de desapparecer, como o convento da Esperança, sem se saber
+porque, nem para que.
+
+A restauração, que recentemente padeceu a egreja de S. Vicente de Fóra,
+tão particularmente notavel pelos bellos mosaicos portuguezes que a
+exornam, caracterisa-se bem no mau gosto da pintura com que se maculou a
+nobreza d'aquelle templo.
+
+Os attentados de restauro de que ainda nos tempos modernos tem sido
+objecto a Sé de Lisboa são tão lastimosos quanto innumeraveis.
+
+Finalmente, ao lado da Torre de Belem, o mais peregrino entre os mais
+bellos monumentos da nossa architectura, estabelece-se o gazometro da
+companhia de illuminação a gaz! A esbelta silhueta rendilhada do mais
+suggestivo padrão da nossa gloria militar e maritima, já não emerge da
+areia loura do Restello, em deslumbradora apotheose, na vasta
+luminosidade do ceu e da agua, destacando-se das collinas de Monsanto,
+como a alvura de uma hostia em elevação se destaca do fundo de um
+retabulo esmeraldado, em altar de ouro fulvo, sob uma abobada azul.
+Sacrosanta pela sua expressão moral, como a immaculada estalactite,
+formada á beira do mar pela concreção mysteriosa de todas as lagrimas,
+de saudade, de ternura, de consternação e de enthusiasmo, choradas por
+um povo de embarcadiços; sacrosanta na sua forma artistica, como aquelle
+dos monumentos de Portugal, em que o genio lusitano da Renascença, mais
+expressivamente se revela como dominador da India, a Torre de Belem
+emparceira-se com a chaminé do mais vil e sordido barracão, a qual
+sacrilegamente a cuspinha e enodôa com salivadas de um fumo espesso,
+gorduroso e indelevel, como se a incomparavel joia d'esse marmore, que o
+sol portuguez carinhosamente sobredourara pelos afagos de tres seculos,
+houvesse sido tão subtilmente cinzelada pelos artistas manoelinos para
+escarrador de mariolas, por cima do qual todavia ainda algumas vezes, em
+dias de gala, se desfralda e tremula o pavilhão das quinas, mascarrado
+de carvão como um chéché de entrudo.
+
+Ministerios de todos os diversos partidos politicos se revezam
+consecutivamente no poder, sem que nenhum d'elles pareça attentar em um
+tal desdouro, expressão viva do mais abandalhado rebaixamento a que,
+perante as suas tradições historicas e artisticas, podia chegar a
+degeneração de uma raça. Por seu lado o parlamento e a imprensa são
+insensiveis á responsabilidade de taes civicias, porque esses dois
+poderes do Estado, enrascados na baixa intriga partidaria, immobilisados
+n'ella, como um enxame de pardaes n'uma bola de visco, de ha muito que
+perderam o sentimento de nacionalidade e a noção de patria, relaxando
+completamente aos archeologos, aos poetas e aos artistas a unica
+legitima representação, desinteressada e altiva, do espirito portuguez.
+
+Consta no emtanto que brevemente será celebrado em Lisboa o centenario
+da India; e da comprehensão que temos d'esse feito culminante da nossa
+historia maritima daremos ao extrangeiro um testemunho definitivo,
+mostrando o monumento que commemora tal façanha, envolto, como nas
+dobras de um crepe, pela fumaçada de uma fabrica, que nós mesmos lhe
+puzemos ao pé, para o deshonrar.
+
+
+Se do exame da architectura dos nossos monumentos, passamos ao exame das
+artes decorativas, da pintura e da esculptura amovivel, é mais lastimoso
+ainda o espectaculo da nossa incuria.
+
+Ao clero portuguez cabe principalmente a gloria de haver conservado o
+que ainda resta do nosso patrimonio artistico.
+
+Das galerias particulares de pintura que o conde de Raczynski ainda
+encontrou em Portugal, no anno de 1845, quasi tudo se sumiu.
+
+Demoliram-se, desappareceram, ou foram transformadas pela mudança de
+dono, pela mudança de destino, pela transformação mais radical da vida
+interior que as animava, quasi todas as casas que ainda em 1840 eram o
+typo das habitações nobres em Lisboa.
+
+Citarei, ao acaso da memoria: o palacio da marqueza de Niza, a Xabregas,
+fundado no seculo XV pela rainha D. Leonor; o palacio chamado dos
+Patriarchas, o de Pessanha e o do conde de S. Miguel, á Junqueira; o do
+marquez de Pombal ás Janellas Verdes; o do conde de Carvalhal na Rocha
+do Conde d'Obidos, famoso outr'ora pela collecção das suas mobilias; á
+Cotovia o do conde de Ceia e o do conde de Povlide; no Calhariz os de
+Braancamp, do duque de Palmella e do marquez de Olhão; o do marquez de
+Castello Melhor e o do conde de Lumiares, no antigo Passeio Publico; na
+collina do Castello o do marquez de Ponte de Lima, o do marquez de
+Alegrete, o do marquez de Tancos; no Campo de Santa Clara o do visconde
+de Barbacena, o do conde de Resende, o do marquez de Lavradio, e um
+pouco mais para leste o do conde da Taipa; o do visconde da Bandeira, a
+S. Domingos; e finalmente o do marquez de Borba, o do conde de Almada, e
+o do morgado de Assintis, cujo theatro era o mais sumptuoso entre todos
+os numerosos theatrinhos particulares que havia em Lisboa no principio
+do seculo, como o do barão de Quintella, o do visconde de Anadia, o do
+conde de Almada, e o do conde de Sampaio.
+
+A maior parte d'essas casas eram ainda, pelo seu antigo recheio, apesar
+dos estragos do terremoto, apesar da rapina da invasão franceza,
+verdadeiros sanctuarios d'arte. Mobilavam-as as mais ricas peças das
+industrias do Oriente que existiam na Europa, escriptorios, papelleiras
+e bahus monumentaes de charão, bufetes e contadores feitos na India ou
+fabricados em Lisboa por marceneiros aqui educados, no tempo de D.
+Manoel, por artistas indianos.
+
+Os serviços de mesa e os vasos decorativos eram das mais antigas e das
+mais preciosas porcellanas da China e do Japão. A collecção das colxas e
+dos panos de armar, com que no dia da procissão de Corpus-Christi se
+revestiam inteiramente as fachadas de todos os predios da Baixa, eram de
+brocado, de damasco, de setim e de veludo, constellados a matiz e a ouro
+nos mais deslumbrantes desenhos persas.
+
+Os bragaes, de linho da Hollanda, da Flandres e do Reino, arrecadavam-se
+nas sumptuosas caixas encouradas, que foram no seculo XVI uma das
+industrias famosas de Lisboa.
+
+Nas gavetinhas dos contadores e nos escaninhos dos armarios e das arcas
+estavam as joias, as rendas, os aljofares, os entretalhos, os firmaes,
+as chaparias, os ouros de martello, e as obras mais diminutas e subtis
+das antigas bordadoras e colxoeiras de Lisboa,--restos de coifas, de
+face e gravis, redes, cadenetas, desfiados.
+
+As baixellas brazonadas, de ouro e prata, levantadas em bestiões e em
+silvados, a martello, ou cinzeladas por emulos de Benvenuto Celini,
+trasbordantes de ornato, em encaiches de arabescos e de laçarias, eram
+um luxo commum a todas as familias nobres, e refulgiam pelas grandes
+festas do anno em todas as casas de jantar.
+
+O mogno francez do imperio, com as suas applicações de bronze,
+representando fachos, pyras ardentes, lyras e tropheus de guerra,
+invadira com as modas da revolução liberal muitas casas lisboetas, sem
+todavia desthronar inteiramente o precioso mobiliario da Renascença, em
+cedro, em pau rosa, em sandalo, em nogueira, em carvalho ou em ebano, ao
+gosto mudegar ou ao gosto florentino, embutido de marfim, de
+madreperola, de prata, de esmaltes limosinos ou aragonezes. Abundavam as
+cadeiras e os catles de couro lavrado ou de guadamecim, cravejado no
+carvalho ou no pau santo com pregos cinzelados de cobre ou de prata; e
+nas poltronas, nas commodas, nas meias-commodas, nos escaparates, nas
+cadeirinhas, nas molduras dos espelhos e das sobreportas predominavam as
+formas curvilineas da influencia de Luiz XIV e de Luiz XV na época de D.
+João V e de D. Maria I.
+
+Na talha dos oratorios encontravam-se alguns d'esses baixos relevos em
+madeira, polychromicos, em escala mui clara, tão caracteristicos da
+nossa esculptura em madeira do seculo XVII, bem accentuadamente revelada
+nas obras de Bouro, de Tibães, de S. Gonçalo de Aveiro, e da Sé Nova de
+Coimbra.
+
+O presepio era um appendice por assim dizer obrigatorio; sempre que não
+occupava um compartimento especial da casa, o presepio concentrava-se na
+sua machineta em forma de urna, semelhante ás que se destinavam a conter
+uma cella de Santo Antonio ou uma arribanasinha de menino Jesus.
+
+Todas as familias historicas tinham a sua mais ou menos consideravel
+galeria de pintura: paineis de devoção, retratos de antepassados, e um
+ou outro quadro de genero ou de paizagem, em tela ou em cobre,
+attribuidos a Breughel, a Rosa di Tivoli, a Tenniers ou a Rubens, obras
+em geral apocryphas e mediocres. Grassavam, com tenacidade talvez
+excessiva, as Josephas d'Obidos e os Morgados de Setubal, mas entre os
+retratos do seculo passado, encontravam-se alguns preciosos, como os de
+Pelegrini em casa dos viscondes de Anadia, como os pintados por Madame
+Guiard, por Gérard e por Therbouché, em casa do visconde de Sobral.
+Entre os quadros de devoção destacavam-se frequentes obras primas
+nacionaes, do seculo XVI, referidas á vida da Virgem Maria, á lenda de
+Santa Ursula, aos agiologios de alguns santos portuguezes, como
+Verissimo, Maxima e Julia.
+
+Nos sotãos d'essas antigas casas havia accumulações seculares de moveis
+inutilisados, de miudezas rejeitadas e esquecidas, com as quaes se
+sepultariam documentos inapreciaveis para a historia da nossa influencia
+na evolução europeia das artes sumptuarias: cadeiras aluidas e canapés
+desconjuntados, desusados manicordios, velhos cravos de charão,
+abandonadas espinetas, em cujo teclado amarellecido se teriam dedilhado
+as primeiras composições de Palestrina e de Cimarosa; antigos arreios de
+tiro e de sella, braseiras, perfumadores, lanternas e candieiros de
+cobre, velhos palmitos contrafeitos de conchas e de pennas, montões de
+manuscriptos, montões de gravuras, dentes de elephante, ferrugentas
+clavinas de pederneira; e, entre feixes de cacetes e de chibatas de
+marmelleiro, talvez, desarticulado e roto, algum d'esses chapeus de sol,
+que nós fomos os primeiros que fabricámos e que introduzimos na Europa,
+ou algum d'esses primitivos leques, em quarto de circulo, que os
+companheiros de Fernão Mendes Pinto trouxeram da China, com os primeiros
+apparelhos de chá, com os primeiros vasos de porcellana, com as
+primeiras caixas de sinaes e pastilhas, doando a Roma e a Florença, a
+Paris e a Londres todos os principaes attributos e os themas
+fundamentaes de toda a arte da casa e de toda a elegancia feminina da
+civilisação moderna.
+
+E tudo isso desappareceu, ou se está evolando, com o successivo
+desmanchar de todas as velhas casas, n'um saudoso e doce perfume de
+camphora, de mofo, de alfazema e de bejoim, errante no ar dos casarões
+despejados.
+
+Estão nas bibliothecas extrangeiras, em França e na Inglaterra, as mais
+preciosas illuminuras dos nossos codices e das nossas arvores
+genealogicas.
+
+Das encantadoras figurinhas dos presepios de Faustino José Rodrigues, de
+Antonio Ferreira, de Machado de Castro, já não ha intacta senão a
+collecção da Sé. Destroçaram-se as da Madre de Deus, do Coração de Jesus
+e do marquez de Borba em Santa Martha.
+
+O que ainda persiste da obra tão curiosa e tão caracteristica dos
+barristas de Alcobaça está ao desamparo no abandono d'aquelle
+incomparavel monumento.
+
+Lanças, espadas, adagas, elmos de todas as fórmas--almafres, capellinas,
+bacinetes, barbudas e morriões--, couraças, escarcellas, grevas,
+manoplas, escudos e rodellas, todas as peças, emfim, da armadura dos
+nossos heroes da Africa e da India, desappareceram com as balças, as
+sinas, os estandartes e as bandeiras das suas hostes.
+
+A espada de Vasco da Gama é hoje propriedade de um particular, que ha
+pouco tempo adquiriu por compra essa reliquia nacional.
+
+Uma espada e um capacete de torneio, que se diz terem pertencido ao
+Mestre de Aviz, peças ferrugentas, sujas, sem estojo nem outro qualquer
+resguardo que as defenda da irreverencia do publico, estão na Batalha á
+mercê dos moços, dos pedreiros e dos visitantes, que de chacota se
+adornam com essas armas, em galhofa carnavalesca.
+
+Na cathedral de Toledo, na soberba capella dos Reis Novos, preciosamente
+edificada por Alonso de Covarrubias, em tempo de Carlos V e por
+disposição testamentaria de Henrique II de Trastamara, vê-se uma
+armadura portugueza. Guardada por castelhanos, essa armadura
+suspende-se, d'entre os ornatos platerescos da capella, por cima do
+órgão, em todo o respeito devido a um trophéo sagrado. E um dos guardas
+da cathedral, explica ao publico, apontando essa reliquia:--«Aquella é a
+armadura do alferes portuguez Duarte de Almeida, o qual, batendo-se na
+batalha de Toro contra nós outros, tendo tido decepadas as duas mãos,
+morreu ás lançadas, segurando nos dentes a bandeira do seu rei.» E em
+frente do arnez, que vestiu o corpo sanguento e exanime de um inimigo,
+Castella inclina-se reverente e commovida, fazendo-nos corar, perante a
+grandeza de tal exemplo, da lenda grosseira em que envolvemos a pá da
+padeira Brites--_Quantos vivos rapuit omnes esbarrigavit_,--a qual pá
+uma esperta e linda creada de Aljubarrota faz o favor de ir buscar, e de
+tirar de dentro de um saco, para a mostrar n'um patamar de escada aos
+viajantes que para esse fim lhe vão bater á porta.
+
+Não está feita nem estudada a historia dos nossos vidros, dos nossos
+esmaltes, da iconographia da nossa habitação, e do nosso trage.
+
+Uma das obras primas da nossa joalheria, a propria custodia de Belem,
+lavrada por Gil Vicente, o famoso ourives, tio do poeta, acha-se
+desfigurada nas suas dimensões primitivas pela interpollação de um novo
+hostiario e de duas pilastras, que já não são do primeiro ouro das
+conquistas, mas de simples prata dourada.
+
+Depois dos tão numerosos e tão grosseiros erros a que tem dado origem a
+investigação da identidade de Grão Vasco, a historia, a classificação e
+a attribuição da nossa incomparavel pintura do seculo XVI, encontra-se
+ainda por fazer.
+
+A restauração dos antigos quadros está constituindo na historia da nossa
+arte uma catastrophe ainda mais destruidora que a da restauração da
+nossa architectura.
+
+Alguns annos mais sobre o systema devastador que se está seguindo, e
+ninguem poderá reconhecer nas taboas da nossa grande época uma só
+pincelada dos admiraveis discipulos e dos emulos que tiveram em Portugal
+os Van Eik, os Memling, os Gerard David, os Van der Weiden, os Quinten
+Massys ou os Dierik Bouts.
+
+N'essa prodigiosa pintura nacional, em que tivemos por mestres os
+flamengos, acha-se todavia registrada a historia de toda a vida
+portugueza desde o meiado do seculo XV até o fim do seculo XVI, isto é,
+durante o periodo do nosso maior brilho e da nossa maior riqueza, no
+apogeu da nossa gloria. São raras as puras composições historicas e
+raros os retratos d'esta época. Os grandes feitos da navegação e da
+guerra celebravam-se de preferencia nas tapeçarias, que se perderam, e
+constituiam o principal adorno d'arte dos paços dos reis e dos palacios
+dos nobres. Na pintura religiosa, porém, e nos quadros votivos,
+conservados nas egrejas e nos conventos, as figuras do seculo
+misturam-se em brilhante anachronismo ás figuras sagradas, e muitas
+authenticas physionomias se accusam energicamente nos pomposos cortejos
+que envolvem as scenas biblicas. A memoria do que fomos está ahi, por
+nós mesmos consagrada, com o maior esplendor a que chegou o nosso genio
+artistico, nas taboas dos paineis, no pergaminho das biblias e dos
+devocionarios portuguezes. Ahi estão os reis, as rainhas, os sacerdotes,
+os guerreiros e os letrados portuguezes do cyclo da renascença. São
+essas as caracteristicas figuras dos nossos avós: as faces cheias, a
+pelle tostada, a carne rija, os olhos rasgados, as boccas imperativas. A
+essas nobres e delicadas cabeças femininas serviram de modelo as mais
+lindas mulheres da Lusitania, de olhos de amendoa, malicioso olhar
+avelludado, obliquo e enygmatico, sobrancelhas longas alteando nas
+fontes, rostos ovaes, boccas quentes e vermelhas, queixo carnudo vincado
+na base, testa arredondada e lisa, cabello espesso e fino apartado ao
+meio em duas curvas de bambolim, e uma gesticulação leve, sinuosa e
+ondulante. Teriamos que interrogar longamente, laboriosamente, esses
+venerandos paineis para apprender tantas coisas que ignoramos da
+physionomia do nosso passado, o trage, as armas, as joias, a mobilia, os
+utensilios da casa e os estados do espirito.
+
+O estudo completo d'esses quadros constituiria a mais importante, a mais
+bella obra da nossa historiographia.
+
+_A patria portugueza segundo os documentos da pintura nacional nos
+seculos XV e XVI_, poderia ser o titulo d'esse incomparavel livro, em
+que collaborariam todas as aptidões intellectuaes de que dispõe o paiz,
+por meio de successivas monographias, relativas a cada ramo do saber e
+comprehendendo todos os pontos de vista em que pode ser considerado o
+quadro:
+
+1.º _Os aspectos da paizagem_, os caracteres da _flora_ e da _fauna_
+portugueza, que nós tão opulentamente enriquecemos, pelo commercio das
+conquistas e dos descobrimentos; no tempo em que Lisboa era o primeiro
+jardim de acclimatação, o primeiro jardim zoologico e o primeiro mercado
+da Europa, pela introducção do chá, do café, do assucar, do algodão, da
+pimenta, do gengibre do Malabar, da canella de Ceylão, do cravo das
+Molucas, do sandalo de Timor, das teccas de Cochim, do bejoim do Achem,
+do pau de Solor, do anil de Cambaya, da onça, do elephante, do
+rhinoceronte, do cavallo arabe.
+
+2.º _O mobiliario_, cuja fabricação tão fecundamente desenvolvemos por
+meio de officinas estabelecidas em Lisboa por artifices indianos, e
+estabelecidas na India por artifices portuguezes, sob a administração de
+Affonso de Albuquerque.
+
+3.º _A indumentaria_, comprehendendo, além da historia do _traje_, a dos
+_tecidos_, a dos _bordados_ e a das _rendas_, industrias procedentes da
+China, da Persia, de Benguella, tão profundamente influenciadas pelo
+nosso contacto nas suas origens, tão especialmente desenvolvidas no
+Reino, pelo lavôr do paço, onde trabalhavam ao bastidor e á agulha as
+mais pacientes e subtis _lavrandeiras_ mandadas á rainha pelos capitães
+da India.
+
+4.º _As armas_, de guerra, de torneio e de côrte.
+
+5.º A _ourivesaria_ e a _joalharia_, abrangendo a analyse das alfaias
+religiosas, lampadas, tocheiros, relicarios, thuribulos, retabulos, a
+tão curiosa evolução em Portugal da fórma e do ornato dos calices, das
+custodias e das cruzes; e na ourivesaria profana as innumeraveis peças
+em ouro ou prata da baixella e da joalharia portugueza da Renascença,
+como escudellas de faldra e de orelhas, salseiros, oveiros, vinagreiras,
+almofias, tumadeiras, almaraxas, escalfadores, confeiteiras,
+perfumadores, esquentadores, brazeiros, pomas-candis, alcaforeiros,
+taxos de perfumar luvas, copas, taças, gomis, bacias d'agua ás mãos,
+maças, chaparias de gualdrapa, andilhas, estribos, taboas de cavalgar,
+guarnições de cavallo, com rosas, sostinentes e copos; cofrinhos,
+arrecadas, firmaes, pontas de ouro, brochas de livro, cadeias,
+guarnições de coifa, trançadeiras, crochetes, cintas, tiras de cabeça,
+tiratestas, dormideiras de ouro para volantes, e as contas variadissimas
+de filigrana mourisca, de ambar das Maldivas, de almiscar da China, de
+rubis do Pegu, de diamantes de Narsinga, de perolas de Kalckar.
+
+6.º _As embarcações_--galeões, naus, caravellas, bergantins, fustas,
+toda essa portentosa collecção dos nossos barcos de guerra e dos tão
+variados typos empregados na cabotagem e na pesca, testemunhos
+sobreviventes ainda hoje do nosso genio maritimo e das suggestões do
+mais remoto trato do oceano, como se demonstra na forma dos saveiros,
+que trouxemos do Bosforo, e na da muleta do Seixal, que é o navio grego
+do tempo de Herodoto.
+
+7.º _A olaria e a cestaria popular_, em que tão atticamente se affirma o
+hereditario engenho artistico da nossa raça, e cujos productos tanto se
+compraziam em reproduzir os nossos pintores.
+
+8.º Emfim: _A psychologia das figuras_ pela physionomia, pelo gesto,
+pelo sorriso, pelo olhar; os usos e os costumes; os temperamentos
+predominantes; a moda, o toucado; o corte do cabello, o talho da barba,
+etc.
+
+Da pintura portugueza, que constitue a mais importante parte da riqueza
+artistica da nação, não ha porém catalogo, nem inventario, nem rol. Nos
+nossos depositos de antigos quadros, em Lisboa, em Coimbra, em Vizeu, em
+Thomar, em Lamego, em Evora, em Setubal, o povo portuguez passa
+indifferente, abstrahido, expatriado, sem guia que o condusa ás fontes
+da tradição e da nacionalidade, em que cada um de nós tem a mais
+restricta e a mais instante obrigação de ir retemperar e fortalecer de
+portuguezismo o seu sangue, dessorado pela mais falsa educação a que se
+pode condemnar um paiz.
+
+Não ha collecção publica, chronologicamente completa, dos nossos
+incomparaveis azulejos. Esta industria artistica é no emtanto d'aquellas
+de que mais legitimamente nos podemos gloriar. Até o seculo XVII o
+azulejador portuguez acompanhou a evolução peninsular, de influencia
+mudegar e de influencia italiana. Desde o seculo XVII adoptamos o gosto
+hollandez, e no seculo XVIII os nossos artistas desenvolvem no azulejo
+azul e branco, em vastas composições historicas e de genero, paizagens,
+merendas, caçadas, allegorias religiosas e lendas monasticas,
+enquadradas em bellas grinaldas polychromicas, o mais seguro e adestrado
+talento de composição historica e decorativa.
+
+Raro será o anno em que de Portugal não tenha desapparecido um quadro
+inestimavel ou um codice precioso, sem qualquer apparencia de coherção,
+sem o minimo reparo, ao menos, do poder executivo, das côrtes ou da
+imprensa. Á hora a que escrevo estas linhas me dizem que está á venda ou
+vendido em Londres um livro de horas com que o rei D. Manoel brindára um
+fidalgo da sua côrte, ordenando-lhe que vinculasse esse manuscripto, que
+era uma gloria da nação.
+
+Não é, em rigor da verdade, muito mais risonho que o destino das obras
+d'arte que saem para o estrangeiro o destino das que ficam no paiz.
+
+É bem conhecida a historia do primeiro dos nossos museus industriaes,
+fundado em Lisboa por Fradesso da Silveira. Esse museu extinguiu-se
+suavemente, a pouco e pouco, até chegar a não existir do deposito
+primitivo senão unica e exclusivamente as prateleiras em que elle havia
+sido collocado.
+
+O rico museu das antiguidades do Algarve, recolhidas ha dezeseis annos
+por Estacio da Veiga, ainda hoje se não acha instalado.
+
+Da inestimavel collecção das antigas peças de louça e de obras de barro,
+que haviam pertencido ao convento da Madre de Deus, e que o architecto
+Nepomuceno recolhera em uma das casas d'aquelle edificio, desappareceu
+tudo.
+
+Tão vasta é a nossa riqueza artistica e tão profundo o desleixo de a
+escripturar, que são quasi tão frequentes as surpresas no que se
+encontra como no que se perde.
+
+Como exemplo direi que era assentado não haver em Portugal vestigio
+algum da influencia immediata de Van Eik na pintura portugueza, e não
+existir do infante D. Henrique, o Navegador, mais que um retrato, na
+miniatura annexa ao bello manuscripto de Azurara, presentemente
+propriedade da _Bibliothèque Nationale_, em Paris. É entretanto nosso, e
+existe em Portugal, um retrato egualmente contemporaneo e authentico, em
+tamanho natural, magistralmente pintado a oleo sobre madeira. Esse
+retrato precioso, inteiramente desconhecido do publico, eu mesmo o vi no
+dia 19 do mez de julho de 1895. Faz parte de um grupo de varios
+personagens, é da segunda metade do seculo xv, e pertence a um jogo de
+quatro paineis, de dimensões eguaes, relacionados entre si por analogia
+de data e de assumpto. Está bem conservado, e acha-se, com os tres da
+serie a que pertence, no corredor do claustro de cima no edificio de S.
+Vicente de Fóra, no vão de uma janella, junto dos aposentos habitados
+n'essa occasião por s. ex.^a revd.^{ma} o sr. arcebispo de Mitylene.
+
+O illustre escriptor inglez sr. Prestage mandou fazer d'esse retrato uma
+reproducção photographica, destinada a illustrar a nova edição ingleza
+da _Chronica da Guiné_.
+
+Na linda egreja do convento de Santa Iria, que o fallecido architecto
+Nepomuceno comprou por 300$000 réis, e se achava encorporada no mosteiro
+fundado por D. Maria de Queiroz, viuva de Pedro Vaz de Almeida, veador
+da fazenda do infante D. Henrique, ha um retabulo em baixo relevo de
+bella pedra d'Ançan, que é simplesmente, pelo desenho, pelo stylo, pela
+mão d'obra e pelo estado de conservação em que se acha, uma das obras
+capitaes da esculptura da Renascença em Portugal. Compõe-se de dezesete
+figuras. Junto da cruz, de que pende a mais ideal figura do Redemptor,
+está prostrada Santa Maria Magdalena. Acompanham-a a Senhora da
+Soledade, as tres Marias, Nicodemus, José de Arimathea e S. João
+Evangelista. No primeiro plano, dois soldados a cavallo, em magnifico
+trage do seculo XVI. Enquadra a composição um bello portico, de columnas
+e tabellas preciosas, chancellado pelo brazão dos Valles. Só outro
+Calvario, o do claustro do Silencio, em Coimbra, obra, por certo, do
+primeiro dos esculptores de Santa Cruz, hoje profundamente cariada e
+quasi delida, se poderia comparar, de par com o pulpito da mesma egreja,
+á esquecida esculptura da abandonada egreja de Thomar.
+
+Em egual descaso e esquecimento, ignorado da grande maioria dos
+viajantes e dos estudiosos, o monumental e sumptuosissimo panthéon dos
+Silvas, da preclara familia de D. Ruy Gomes, em S. Marcos, cerca de
+Coimbra. O bello portal alpendrado d'esta egreja tem a data de 1510. Os
+cinco sarcophagos de que se compõe o jazigo verdadeiramente regio dos
+Silvas, assim como o retabulo em pedra no altar mór da egreja constituem
+uma preciosidade esculptural de valor incomparavel. Este admiravel
+repositorio da nossa esculptura quinhentista foi ha poucos annos
+vendido, com a cerca adjunta do extincto mosteiro, pela quantia de seis
+contos de réis.
+
+Os preciosos quadros da pintura portugueza do seculo XVI, completamente
+desarrolados, despercebidos dos compradores extrangeiros, e ainda hoje
+dispersos pelo paiz, são em numero talvez superior aos dos quadros de
+mesma época recolhidos pelo estado depois da abolição das ordens
+religiosas. O illustre critico sr. Joaquim de Vasconcellos tem, só á sua
+parte, noticia de não menos de cem obras desconhecidas do publico. Das
+que existem no Museu Nacional de Lisboa, na arrecadação da Academia das
+Bellas Artes e nos demais depositos do paiz, não ha uma só photographia
+registrada pelo Estado, á semelhança do que se faz em todos os museus do
+mundo.
+
+Por occasião da ultima exposição, tão interessante, realisada nas salas
+devolutas, das Janellas Verdes, para celebrar o Centenario de Santo
+Antonio, a direcção das Bellas Artes não respondeu ao pedido da modesta
+quantia de 50$000 réis que a commissão executiva da mesma exposição lhe
+dirigiu para que se publicasse o respectivo catalogo, que ficou em
+manuscripto na mão do redactor.
+
+Por essa mesma occasião os peritissimos e benemeritos photographos
+portuenses Emilio Biel & Companhia, aos quaes tão valiosos e
+desinteressados serviços devem as artes portuguezas, dirigiram ao
+governo uma proposta para reproduzir pela photographia,--sem subsidio
+algum do thesouro--todos os objectos expostos no palacio das Janellas
+Verdes. Esta proposta ficou egualmente sem despacho.
+
+Inutil me parece alludir ainda á dispersão das mais ricas peças do
+mobiliario portuguez do seculo XVI e d'essa segunda renascença artistica
+e industrial do nosso seculo XVIII.
+
+Bufetes, arcas, armarios, contadores, tapeçarias da Persia, bordados e
+rendas do reino, couros lavrados e guadamecins, azulejos, porcellanas
+antigas da India, do Japão e da China, credencias, leitos torcidos ou
+empennachados, canapés e cadeiras curvilineas ao gosto da Pompadour de
+Odivellas, espelhos afestoados, de toucador e de sacristia, damascos da
+Real Fabrica das sedas, louças artisticas do Rato, da Bica do Sapato, do
+Porto, de Vianna, do Cavaquinho, da Panasqueira, de Darque, das Caldas,
+de Estremoz, de Coimbra, tudo o bric-à-brac extrangreiro nos leva em
+cada anno, com uma cubiça e uma rapacidade que bem melancholicamente
+lembra a dos enviados de Verres no saque da Sicilia, do qual dizia
+Cicero que só ficou da arte o que a ganancia não quiz. Ainda ha Verres,
+como no tempo do velho mestre romano, mas já não ha verrinas.
+
+D'esta desorganisação geral de toda a policia da arte resulta mais ou
+menos lentamente, a quebra da tradição esthetica nacional, que é a seiva
+de toda a producção artistica.
+
+Á infecundação do individuo pelo espirito da raça corresponde o
+desfallecimento do poder creativo, a inercia da intelligencia, a
+esterilidade do estudo, a degeneração da phantasia, o abandalhamento do
+gosto, a atrophia do proprio caracter, e, em ultimo resultado da
+decadencia geral, a desnacionalisação pelintra de todo um povo.
+
+Com o rebaixamento da arte rebaixa-se tudo, porque no mundo é producto
+da arte tudo o que não é unicamente obra da natureza.
+
+O homem degenera, porque, sempre e em toda a parte, o homem toma
+fatalmente a configuração das coisas que o rodeiam e, para assim dizer,
+lhe enformam a personalidade.
+
+Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou pela inepcia de
+abastardadas classes dirigentes, os fieis debandam por não haver egreja
+que os reuna, e é já evidente esta enorme catastrophe: que na arte de
+Portugal faltam corações portuguezes.
+
+Fere-nos já esse phenomeno consternador em todos os aspectos da vida
+intellectual.
+
+Em resultado de não termos uma historia geral da arte portugueza,
+devidamente systematisada e integralmente documentada em cada um dos
+seus capitulos, vemos grassar, não só entre o vulgo mas entre pessoas de
+saber, incumbidas de guiar e de reger a opinião, o erro criminoso,
+profundamente desmoralisante, de que somos um povo inesthetico, incapaz
+de concepções artisticas originaes.
+
+A juventude litteraria, dotada de uma consideravel força de applicação e
+de talento, traz-nos uma poetica exotica, de climas nevoentos,
+anti-meridional, e vem falando uma lingua secreta, cabalistica,
+interessantemente engenhosa, incomprehensivel para o povo e para todos
+os que não estiverem iniciados na morphologia espiritica das novas
+seitas.
+
+Em toda a historiographia contemporanea se nota uma glacial frieza de
+critica, uma anemica pallidez de expressão, um geral entono de apagada
+tristeza, em que bem se demonstra que não circula o sangue vermelho da
+raça, nem se retrata do vivo o genio do nosso povo, meigo, docil, de
+apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente sociavel, amando a
+grande alegria estridente das feiras, das tardes de touros, das romarias
+dos seus santos populares, conservando nas infimas camadas sociaes um
+residuo trovadoresco, de paladino e de menestrel, susceptivel ainda das
+paixões mais profundas, todo de improvisação e de repentismo, capaz das
+coisas mais imprevistamente grandes, poetico, aventuroso e destemido.
+
+Na poesia, assim como na pintura e na musica, não ha uma escola
+portugueza, porque, na falta de laço social que congregue os nossos
+artistas, sem elementos coordenados de estudo, sem modelos patentes, sem
+lição commum, não ha entre elles mutuamente, nem entre elles e o povo de
+que derivam, communhão alguma de ideal ou de sentimento.
+
+Por egual razão não teem caracter nacional, sendo portanto destituidas
+de originalidade, e como taes inaptas para a luta da concorrencia
+mercantil, todas as nossas industrias.
+
+A decapitação official da nossa educação artistica manifesta-se ainda de
+mais perto, acotovelando-nos e contundindo-nos por toda a parte, no
+aspecto do povo, na apparencia das casas, na esthetica das cidades, na
+apparencia dos predios, na decoração das praças, das avenidas, dos
+cemiterios, dos jardins publicos, das lojas, das repartições do estado e
+das habitações particulares.
+
+Em Lisboa, por exemplo, onde não ha uma sala de concertos populares, nem
+vem tocar para a rua a musica dos regimentos, onde no theatro de Dona
+Maria se não representa Gil Vicente nem Garrett, onde no theatro de S.
+Carlos se não canta Marcos Portugal, onde não ha um museu de arte
+decorativa, nem um simples mostruario da nossa producção industrial, nem
+um museu de pintura, coordenado, catalogado e etiquetado de maneira que
+communique ao publico, assim como em todas as outras capitaes da Europa,
+a lição que um museu contém, ha pelo contrario escaparates de
+apparatosos armazens, que são para quem anda pelas ruas o contagioso
+exemplo da mais corrompida perversão, do mais provocante e pomposo
+relismo a que pode chegar o desvairamento do gosto. Mobilias em tal
+maneira degeneradas que n'ellas desappareceu de todo o material de
+construcção. A almofada que em toda a antiguidade e em toda a edade
+média era um accessorio movel, e só no seculo XVI se principiou a fixar
+com pregos ao banco ou á cadeira, invade boçalmente todo o movel, armado
+em ripes de pinho, como uma eça de defunto, embrulhado em pelucia, que
+nos esburaca os olhos pela insolente má creação da côr. E horripilantes
+lindices de toucador, de escriptorio ou de sala, em que tudo parece
+apostado em ser fingido, desde a etrusca ondulação do contorno até o
+material empregado, porque todas as linhas são aleijadas, a prata é
+zinco, o marfim é gesso, o charão é de papel e o marmore esculpido é de
+sabão. E tudo isso se compra e se leva para casa, para infectar a
+familia, para corromper o lar e para escrofulisar moralmente os meninos,
+desconjuntando-os de dignidade domestica, inoculando-os de pelintrice e
+de canalhismo de casta para a vida toda.
+
+Ha uma avenida monumental em que, ao longo dos passeios destinados ao
+transito do publico, em vez da ornamentação da flora regional, em vez
+dos longos massiços de castanheiros, de laranjeiras, de palmeiras e de
+bananeiras, como em Barcelona e em Sevilha, esverdinham e apodrecem dois
+miseros e infectos arroios artificiaes no fundo de flexuosas ravinas,
+gretando sinuosamente o solo, como canos dissimuladamente abertos em
+fosquinhas para trambulhões do viandante.
+
+Nos predios a prodigalidade vesanica das janellas percorre a superficie
+das fachadas, havendo frontarias que parecem construidas unicamente com
+hombreiras contiguas e sobrepostas; e, ao passo que em cidades amoraveis
+e artisticas se criam premios e se abrem concursos de janellas floridas,
+em Lisboa é prohibido ornamentar de flores o frontespicio das casas.
+
+Os lindos _empedrados_ e _embrechados_ de tradição portugueza caem em
+desuso, substituidos por cimentos incompativeis com a acção do nosso
+clima.
+
+O tão commodo, tão modico e tão gracioso typo da nossa antiga casa de
+campo é substituido nas construcções modernas pelas fórmas de um
+exotismo composito, as mais delambidas, mais pretenciosas e mais
+chinfrins, hybrida confusão allucinada do châlet suisso, do cottage
+inglez, da fortaleza normanda, do minarete tartaro e da mesquita
+moira,--nodoa e vexame da paizagem portugueza nas redondezas de Lisboa.
+Em presença de um tão inverosimil scenario de magica, de operetta ou de
+revista do anno, ninguem, desajudado de outras indicações, anedocticas e
+chorographicas, será capaz de adivinhar em que parte do mundo e entre
+que casta de gente se está passando a peça. Tal é a delirante epidemia
+de que estão combalidos os constructores contemporaneos, que, para ter
+um indicio nacional da nossa tradição, entre as casas de campo ou de
+praia construidas em torno de Lisboa nos ultimos vinte annos, temos de
+ir a Cascaes vêr o typo, unico, da habitação dos condes de Arnozo, tão
+saudosamente semelhante á casa de nossos avós, com o seu pequeno eirado
+sobre uma arcaria de meio ponto, a sua porta de alpendre n'um patamar de
+escada exterior, ao lado do retabulo em azulejo do santo padroeiro da
+familia, as janellas de peitos guarnecidas de rotulas entre cachorros de
+pedra, destinados ás varas do estendal, e servindo de misula aos vasos
+de craveiros e de mangericos, em frente do poço de roldana, no mais doce
+e tranquillo sorriso d'outr'ora.
+
+Nos mesmos letreiros das esquinas de ruas encontram-se denominações que
+esbofeteiam o pundonor patriotico, a cultura historica e a dignidade
+esthetica dos habitantes.
+
+No Bairro Alto, onde a nomenclatura das ruas tão sympathicamente
+suggeria a lembrança bucolica da antiga fazenda suburbana, em que os
+jesuitas de S. Roque delinearam a nova cidade, como a rua da _Vinha_, a
+do _Moinho de Vento_, a do _Poço_, a do _Carvalho_, a da _Rosa_, a da
+_Atalaia_, ou os nomes dos officios que ahi primitivamente se arruaram,
+como os _Calafates_ e as _Gaveas_, apaga-se, como n'uma rasura de conta
+falsificada, esse lindo e piedoso vestigio da tradição lisboeta, para
+dar ás ruas nomes novos e incaracteristicos, de sujeitos que n'ellas
+moram ou se diz que por lá passaram. E com egual afouteza se dissolvem,
+n'um borrão de brocha, sagrados disticos, ainda mais estreitamente
+vinculados á historia do povo e á historia da cidade, como o da Rainha
+Santa Isabel, como o dos Martyres de Marrocos.
+
+Os trages populares, alguns tão pittorescos, tão suggestivos e tão
+bellos, como os das mulheres da Murtosa, da Maia, de Santa Martha e de
+Portuzello, como o dos boieiros do Ribatejo, dos pescadores de Ilhavo e
+da Povoa, e dos montanhezes do Alemtejo e do Algarve, degeneram e
+abastardam-se ridiculamente, porque não ha entre a gente culta quem
+preze esse trage, quem o honre e quem o entenda.
+
+Egualmente se desdenham e repudiam, por espirito de inconcebivel
+extrangeirismo, os productos primorosos de algumas das nossas industrias
+populares.
+
+Nenhum outro povo matiza com mais harmonia de côr e mais graça de risco
+esses tecidos dos teares ou dos bastidores caseiros, combinados com
+estopa, com linho, com lã ou com algodão, de que se fazem os panos
+liteiros, as sirguilhas, as saias e os aventaes das mulheres de Vianna,
+e bem assim as colxas de linho bordadas a frouxo na Beira, e os tapetes
+chamados de Arrayolos. Nenhum outro povo sabe tornear na roda do oleiro
+com mais esbelteza e mais puro atticismo o pote ou a bilha de barro, a
+pucara, o gomil e o pichel, de Coimbra, do Prado, de Mafra, de Redondo,
+de Loulé.
+
+Se ninguem mais artisticamente do que o portuguez sabe vestir a mulher,
+arrear o cavallo, engatar a mula, e moldar a vasilha, ninguem, tão
+pouco, melhor do que elle emalha a rede e enastra o cesto.
+
+Dizem inglezes que metade da sua arte contemporanea se deve á iniciativa
+e á propaganda do grande critico nacional John Ruskin, que Tolstoï
+considera um dos maiores homens do seculo, e a quem Carlyle chamava o
+_ethereal Ruskin_. Este glorioso campeão da esthetica e da arte em todas
+as suas mais complexas e mais variadas manifestações não pode deixar de
+ser lembrado por todos os que se interessam em taes assumptos. Os seus
+numerosos livros sobre historia da arte, sobre a architectura, sobre a
+pintura, sobre as artes decorativas e as artes industriaes, os seus
+profundos estudos de _Turner e os antigos_ e dos _Pintores modernos_, a
+sua triumphante campanha em favor dos monumentos historicos, das
+industrias ruraes, dos preraphaelitas, das paizagens inglezas, são um
+verdadeiro monumento litterario, e a bibliographia que se lhe refere
+constitue toda uma litteratura, famosa na Inglaterra sob o nome
+consagrado de _ruskineana_. Grande homem de acção, gloria dos da sua
+raça, tomando por divisa _To day_, Ruskin não se emparedou, como a
+maioria dos criticos, na torre eburnea dos extases poeticos e das
+contemplações expeculativas. Tendo consumido rapidamente mil contos de
+réis da legitima paterna em subvenções das mais generosas empresas
+sociaes, em dadivas aos museus, em soccorro dos pobres, em fundações de
+escolas e de officinas, reconstituindo pela venda dos seus livros, (a
+trinta contos a edição) um rendimento de riquissimo proprietario, elle
+fez-se gratuitamente professor de desenho, industrial e operario.
+Organisou a casa editora das suas proprias obras, a _Ruskin House_,
+fundou a _Saint-George's Guild_, em Londres, a Sociedade Protectora dos
+Monumentos Architectonicos, e as sociedades de leitura de Manchester, de
+Glascow e de Liverpool; ensinou a Inglaterra a comprehender a obra de
+Turner; fundou o culto dos primitivos, introduzindo na _National
+Gallery_ os preciosos quadros de Benozzo Gozzoli, de Perugino, de
+Botticelli, de todos os grandes predecessores de Raphael; e deu á arte
+todo um novo ideal e uma religião nova, creando uma pleiade
+brilhantissima de proselytos, de collaboradores e de discipulos, entre
+os quaes figuram Madox Brown, Rosseti, Collingwood, Millais, Morris,
+Thomaz Dean, Woodward, Munro, Hunt, Burne Jones, Hook e Brett, e Giacomo
+Boni, o actual conservador dos monumentos nacionaes da Italia. Foi elle
+emfim que deu a mais alta expressão á auctoridade esthetica em nossos
+tempos, impedindo, em nome da arte, que um traçado de caminho de ferro
+deturpasse a belleza de uma collina na paizagem ingleza, e levando uma
+commissão da Camara dos Lords a consultar uma commissão de artistas
+sobre se a passagem de uma linha ferrea não affectaria ruinosamente a
+parte de riqueza publica representada pela tranquilla e doce poesia de
+certo valle.
+
+É porém com um intuito especial,--a proposito das nossas tão resistentes
+industrias tradicionaes e domesticas,--que eu invoco o nome glorioso de
+Ruskin.
+
+O trabalho rural da fiação á mão e da tecelagem no estreito e primitivo
+tear caseiro achava-se totalmente extincto na tradição ingleza. Ruskin,
+considerando os poderosos elementos de economia, de moralidade, de
+satisfação, de educação esthetica e de intima poesia, destruidos pela
+suppressão d'essa antiga actividade artistica da familia no campo
+inglez, dedicou-se com um esforço portentoso a fazer reviver em Langdale
+e em Keswick a extincta industria caseira dos panos de linho e dos panos
+de lã em pequenas manufacturas domesticas, tendo por unico auxiliar da
+força individual uma vela de moinho nos cabeços das collinas ou a
+corrente da agua á beira dos riachos. Elle mesmo dá o exemplo da nova
+organisação do trabalho na familia, construindo o seu famoso moinho de
+Laxey. Recompõe-se uma antiga roda de fiar com as peças desarticuladas e
+esquecidas de um d'esses abandonados apparelhos encontrados em casa de
+uma velha tecedeira. É reconstruido um primitivo tear sobre o modelo
+florentino e medieval de um quadro de Giotto. Ruskin envolve esse novo
+movimento retrogrado do trabalho na propaganda mais activa e mais
+eloquente. A sua palavra calorosamente apaixonada, colorida e mordente,
+encontra em todo o Reino Unido um ecco extraordinario. As teias do novo
+linho caseiro, um tanto rugoso, um tanto irregular, cegado no campo,
+espadelado, assedado, fiado, córado e tecido pela mesma mão de mulher, á
+porta ou á janella de uma cabana, ao ar dos campos, ao ramalhar das
+faias, ao canto das cotovias, denotando nos accidentes da factura, como
+n'uma obra d'arte, a caracteristica individualidade do artifice,
+substituida á banal perfeição estupida e antipathica do apparelho
+mechanico, desbanca rapidamente a obra da fiação a vapor, cae em moda
+entre as pessoas de gosto aperfeiçoado, recebe a alta protecção da
+princeza de Galles, torna-se de rigor em todos os enxovaes elegantes, e
+faz-se pagar mui remuneradoramente por preços consideravelmente
+superiores ao dos productos da grande industria mechanica.
+
+Exito egual ao dos panos de linho na industria caseira dos lanificios na
+ilha de Man. É conhecida não só em toda a Inglaterra mas em toda a
+Europa a fama d'esses resistentes tecidos ruraes fabricados á mão, de
+desenhos combinados na urdidura e na trama com as côres naturaes da lã,
+sem preparo algum chimico ou mechanico, de tintura ou de acabamento; e a
+mais cara de todas as fazendas de luxo para traje de trabalho, de caça,
+de viagem, de equitação, é o famoso _homespun_ ou _Laxey homespun_, do
+nome da localidade em que se estabeleceu o primeiro moinho de Ruskin. É
+a esta evolução das pequenas industrias ruraes, hombreando em valor
+remunerativo com as grandes industrias, e não a destructiva absorpção do
+trabalho da familia pelo trabalho das grandes empresas fabris que eu
+chamo _transformação de industrias caseiras em industrias de
+concorrencia_,--formula que geralmente se toma em sentido diverso
+d'aquelle que eu lhe ligo.
+
+Em Portugal é certo que definham de dia para dia, e que successivamente
+se vão extinguindo as nossas velhas industrias ruraes. Esmorece
+calamitosamente, por culpa da administração economica dos nossos
+governos, a industria delicadissima das obras de filigrana de ouro e de
+prata, ainda em nossos dias servida por numerosas familias ruraes dos
+districtos do Porto e de Braga. Morreu em Bragança a industria da
+sericultura e a da fabricação do veludo. Acabou em Guimarães, entre
+outras industrias interessantissimas, a da manufactura caseira das sedas
+e dos brocados. No Algarve talvez que já hoje se não faça um unico
+trabalho de pita. Tem diminuido consideravelmente o numero dos teares
+caseiros na Covilhã, na serra de Monchique, na serra da Estrella. Nas
+margens do Lima, porém, entre Vianna do Castello e Ponte de Lima, ha
+ainda algumas das mulheres mais lindas e das mais bem educadas de todas
+as portuguezas, que fiam e tecem em suas casas o linho, a lã, o algodão,
+e se vestem completamente, da maneira mais elegante, com os tecidos mais
+consistentes e mais bellos, de sua fabricação exclusiva em todas as
+phases por que passa a materia prima, desde que é cegada no campo ou
+tosquiada no carneiro até se converter em vestido. Á feira semanal de
+Vianna as raparigas d'essa região trazem em lindas canastras, além dos
+ovos e dos frangos que criam, além da manteiga que fabricam, as teias de
+pano de linho, os cortes de saias de lã e de algodão, as peças de
+sirguilha, que tecem, e as rendas que fabricam a bilros ou á agulha. As
+de Villa Nova de Ourem fazem ainda fitas excellentes; e no mercado de
+Thomar vende-se em graciosos novellos da fórma de casulos a melhor
+linha, branca ou preta, que se pode comprar em Portugal. Conserva-se
+ainda a antiga tradição das _mantas do Alemtejo_, citadas já por Gil
+Vicente na _Farça dos almocreves_, a dos liteiros e mantas de retalhos,
+a dos lindos alforges da Extremadura, do Alemtejo e do Algarve, de
+Minde, d'Alte e de Redondo, e a d'esses famosos tecidos de lã, que são o
+_homespun_ portuguez, e que em sua variedade se denominam bureis,
+estamenhas, briches, saragoças, jardos, sorrubecos.
+
+Meditemos na maravilhosa obra operada por Ruskin n'um sentido esthetico,
+que á primeira vista se figura retrogrado, mas que encerra talvez em
+germen o destino futuro, preciosamente moralisante de todas as
+industrias, desde que os aperfeiçoamentos da electricidade desloquem o
+eixo do trabalho fabril, levando a casa de cada artifice por meio de um
+tenue fio de arame o quinhão de força que tem para distribuir por cada
+operario do seculo que vem o immenso e incalculavel esforço propulsôr do
+sopro dos ventos, do fluxo e refluxo das marés, da corrente dos rios,
+dos cyclones das Pampas ou das cataractas do Niagara. E em presença da
+revolução das industrias caseiras da Inglaterra, onde todo o vestigio de
+tradição desapparecera, ponderemos o que se pode fazer em Portugal, onde
+a tradição sobrevive com uma energia prodigiosa a todos os desdens e a
+todas as oppressões que a esmagam!
+
+É notoria desde o seculo XVI a aptidão artistica, que distingue o nosso
+marinheiro em todas as pequenas industrias de bordo, nos mais delicados,
+pacientes e engenhosos trabalhos tendo por base o cabo ou o fio de linho
+torcido ou entrançado. Ninguem como elle manusêa os ferros e as
+amarrações, o poleame e o talhame, o cabo, a adriça ou o pano. Ninguem
+como elle confecciona o coxim, a gaxeta, o mixelo, o unhão, a boça, a
+linga, o estropo, o repuxo, o massete ou a agulha. E não o ha mais
+dextro em lançar a volta, em enastrar a pinha e em dar o nó de escota,
+de fateixa ou de botija, o nó direito e o nó torto, o de cogula, o de
+borla de pescador, ou o de espia. Em toda a nossa costa, desde o Minho
+até o Guadiana, a enorme variedade de fórmas nas embarcações da pesca
+maritima, da pesca fluvial e da pesca lacustre, basta para evidenciar a
+persistencia da tradição no grande genio maritimo de tão pequeno povo.
+
+Os que ainda vão á pesca do bacalhau, á Terra Nova, equipam de uma
+maneira especial a escuna ou o patacho, preferindo porém o typo latino
+do hiate e do lugre. Os que vão á cavalla, á pescada e ao sarrajão, no
+mar de Larache, embarcam nos cahiques de Olhão, semelhantes aos de toda
+a costa algarvia e aos de Lisboa e Setubal, de prôa redonda,
+apparelhando com dois bastardos. Á pesca do alto vae a lancha de
+Caminha, construida no portinho de Gontinhães; a lancha póveira, de
+bocca aberta, apparelhando com um só mastro e a verga munida de uma
+grande vela latina; o _barco da pescada_, de Buarcos, de borda alta e
+duas pequenas toldas, apparelhando com dois mastros; o catraio da
+Nazareth; o _barco da sacada_, de Peninhe, de convez corrido com quatro
+escotilhas e dois mastros, com as vergas preparando em cruz; a _rasca da
+Ericeira_, a da Figueira da Foz e a da Vieira; as canôas de Belem, de
+Cezimbra, de Setubal e do Algarve, chamadas em Lisboa _enviadas_ ou
+_canôas da picada_, e no Algarve _andainas_. Na pesca maritima costeira
+empregam-se embarcações numerosas e variadissimas. Na arte de galeão
+agrupam-se: o _galeão_, coberto, de prôa direita e arrufada,
+apparelhando com o latino triangular, que amura ao bico de prôa e caça á
+pôpa, em mastro inclinado para vante; o _galeonete_; o _buque_, curvo na
+roda de prôa e sem coberta; a canôa do galeão, e o _acostado_, que se
+emprega no transporte do peixe. Na armação fixa do atum e da sardinha,
+nas _almadrabilhas_, ou _almadravas_, como antigamente lhes chamavamos,
+do nome arabe que os hispanhoes conservam, labuta o _calão_, grande
+lancha, de bocca aberta, armando com estropo oito ou dez remos por
+banda, tendo na prôa arredondada, rematada no alto por duas femeas, uma
+saliencia vertical de puas em serra, semelhando um lombo de peixe, e,
+pintado de cada lado, um olho arregalado para o horizonte; a _barca da
+testa_; a _barca das portas_; a _barca da gacha_, e o _laúde_.
+
+Na costa do Algarve, as almadravas occupam hoje approximadamente os
+mesmos logares que tinham no seculo XVI; e o _calão_ é, como alguns
+barcos do Douro, de prôa comprida e alta, propria para atracar a margens
+escarpadas ou para varar com facilidade na praia, o typo mais analogo ao
+das embarcações portuguezas de ha trezentos ou quatrocentos annos.
+
+_Nas artes de arrastar para terra_ figuram as _xavegas_ do Algarve, os
+_saveiros_ e as _meias-luas_, de Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa
+Nova, Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares, desde o sul do
+Douro até a Vieira, reapparecendo, mais abaixo, na costa de Caparica e
+da Galé, e na praia de Sines. _Nas redes de alar a reboque_ trabalham as
+_muletas_ e os _bateis do Seixal_.
+
+O sr. Arthur Baldaque da Silva, no seu precioso livro _Estado actual das
+pescas em Portugal_, enumera ainda, entre os diversos typos de
+embarcações empregadas em varios systemas de pesca, o _batel de
+Espozende_, o _barco de Vianna do Castello_, a _barquinha do rio Lima_,
+a _bateira da Figueira da Foz_, a _lancha de Buarcos_, a _lanchinha do
+Tejo_, o _ilhavo da Tarrafa_, o _batel de Peniche, o cahique_ e a
+_lancha de Peniche_, os _poveiros_ de Lavos, de Buarcos, da Nazareth, de
+Cascaes, de Cezimbra, de Setubal; o _catraio_, a mais genuina embarcação
+portugueza da nossa costa meridional, a _caçadeira_ e a _focinheira de
+porco_ da Ericeira, a _maceira_ da costa do Norte, o _cahique de Sines_,
+o _barco minhoto_, construido em Lanhellas e em Forcadella, o _batel do
+Cavado_, o _barco do Douro_, o _esgueirão da ria de Aveiro_, a _lancha
+de Villa Franca_, a _bateira do Mondego_, a _lanchinha_ e a _chata do
+Tejo_, e outros do continente, sem contar os barcos de cabotagem, os
+typos da Africa, dos Açores, da ilha da Madeira, não descriptos,
+infelizmente. São ainda de notar, entre as jangadas mais
+caracteristicas, as de Marinhas, para a pesca do polvo; as de Fão e da
+Apulia, para a apanha do sargaço; as de Neiva e as de Sedovem.
+
+Com essa phantastica riqueza de documentos maritimos, assombro de todos
+os outros povos, é verdadeiramente inacreditavel que em Portugal não
+haja um museu naval, em que estes documentos se confrontem e se estudem.
+Não ha tal museu.
+
+Em terra é tão variada a collecção popular das vasilhas, dos fogareiros
+e dos cestos caseiros, como é variada na agua a fórma das embarcações. A
+simples nomenclatura do vasilhame portuguez dá, só de per si, uma idéa,
+ainda que bem incompleta, da multiplicidade das suas fórmas, porque ha
+typos que variam de região para região, de dez em dez leguas de
+perimetro. Esses typos principaes são a talha, o pote, o cantaro, o
+caneco, o tenor, a tarefa, a pucara, o gomil, a escudella, a tijela, a
+infusa, a meia, a quarta, a quartinha, a pinta, a sumicha, a
+sangradeira, a alquara, a vieira, o almude, a tamboladeira, o alguidar e
+o alguidarinho, o alcadafe, o moringue, o boião, o tarro, o cantil, a
+almofia, o alcatruz, o porrão, o côcho, o picho, o pichel, a almotolia,
+a ancoreta, a taleiga, a galheta, o caldeirão, a caldeira e a
+caldeirinha, o tacho, a caçoila, a copa, a bateia, o jarro, a batega, a
+pichorra, a botija, a cabaça, a malga, etc. Alguns d'estes nomes jogam
+com o antigo systema de medidas abolidas no seculo XVI, quando se
+estabeleceu o systema novo, tendo por base o quartilho. A vasilha
+correspondente á velha medida, condemnada no reinado de D. Sebastião,
+sobreviveu porém na tradição e no costume. A _sumicha_, por exemplo, com
+quatro decilitros de capacidade, tão maneira, tão graciosa, tão bem
+proporcionada a uma sêde d'agua, é ainda hoje na olaria de Coimbra o
+pucaro consagrado, que no pote da região, de uma elegancia tão fina e
+tão attica, se encasa no alguidarinho que lhe serve de tampa.
+
+As fórmas populares d'essa vasilharia, umas trazidas do Peru e do
+Mexico, como a do moringue e seus derivados, outras, provenientes de
+typos gregos e etruscos, da cratera, da amphora, da ambula, do askos, do
+bombylio, etc., são por toda a parte, em nossos districtos ceramicos, as
+mais bellas, as mais engraçadas ou as mais nobres, as mais
+irreprehensivelmente puras, parecendo que á roda mechanica do operario
+as foi delineando, contornando, envolvendo sempre, a peça por peça, o
+sorriso acariciante de um artista.
+
+De uma humilde panellinha portugueza de barro preto, de Prado ou de
+Molellos, deduziram em França o assucareiro, a leiteira, a cafeteira e o
+bule de um serviço de almoço, que ficou tradicional na fabricação de
+Sèvres.
+
+A industria popular da cestaria acompanha na evolução das fórmas a
+industria do oleiro. Todos os que percorreram as feiras e os mercados do
+nosso paiz notariam que cada região tem a sua canastra, o seu cabaz e o
+seu gigo, differentes na fórma ou no ornato. Ha-os de todas as
+configurações, fundos e chatos, quadrados, octogonos, arredondados,
+oblongos, cubicos, cylindricos, espheroidaes, lembrando algumas vezes a
+fórma e a construcção americana dos samburás, dos tipitis e dos côfos
+tupis, feitos de taquara e de cipó, que introduzimos talvez no Brazil
+ou, mais provavelmente, lá aprendemos a fabricar, deixando o typo do
+balaio, com cujo nome se designa ainda na Bahia o farnel que de
+ordinario se transporta no cesto portuguez d'essa configuração,
+semelhante á de um alguidar. Mui frequentemente varia tambem o balaio, o
+canistel, a cesta, a condeça, o ceirão e a ceira, a alcofa e a
+alcofinha. A materia prima do cesto é o vime, o junco, a fasquia de
+castanheiro, a fasquia de faia e a canna; a da ceira e da alcofa é o
+esparto, a engeita, a palha de trigo e de centeio, a tabúa, a juta e a
+pita. Em algumas regiões, como nas Caldas e Vizeu, os cestos são obras
+primas incomparaveis de acabamento e de graciosidade. A canastrinha
+burriqueira das Caldas, reduzida ao miniaturismo de dois centimetros, é
+um simples prodigio de fabricação minudente e delicada. No Algarve a
+alcofa, de filiação arabe, é por vezes ornada de apparatosas flores
+bordadas a seda ou a lã.
+
+Sem embargo, continuando a affirmar-se que não temos sentimento
+artistico, desistimos por indisciplina, por ignorancia, por desanimo, de
+transformar em industrias de concorrencia as nossas industrias
+domesticas, e não negociamos com o extrangeiro nem tecidos de phantasia,
+tão originaes como os que possuimos, nem papeis pintados derivados
+d'esses tecidos, nem a louça, nem a cestaria, nem a filigrana,
+immobilisada em typos decrepitos, e da qual tão lindos effeitos se
+tirariam, applicando-a em ouro a serviços de toucador, a frascos de
+cristal, a molduras de retratos, a encadernações de devocionarios, etc,
+etc.
+
+Tanto menosprezamos os productos quanto desconhecemos as fontes da nossa
+civilisação artistica.
+
+A arte que menos estudamos é a arte hispanhola, á qual todavia
+indissoluvelmente nos prendem os mais estreitos vinculos de
+temperamento, de tradição e de ideal. Juntamente com os hispanhoes
+recebemos dos arabes as primeiras influencias que em toda a producção
+artistica da Peninsula imprimiram a feição differencial mais
+caracteristica e mais indelevel. Aos califados, que cobriram de
+mesquitas Cordova, Sevilha, Granada, Santarem, Lisboa e Coimbra, devemos
+o toque de orientalismo peculiar das formas architectonicas do nosso
+stylo romanico, ogival e da renascença. E da mesma procedencia, mosarabe
+ou mudejar, são algumas das nossas mais interessantes industrias, como a
+da filigrana, a dos azulejos, a das sedas, a do papel, a da
+encadernação, a dos couros lavrados, (a que chamavamos _cordovões_ por
+nos virem de Cordova) a das esteiras, a dos tapetes, a das obras de
+esparto, de palma, de pita. Até o fim do seculo XVI artistas
+portuguezes, leonezes, castelhanos, valencianos, aragonezes, catalães,
+asturianos, tivemos um ideal commum nas letras, na architectura, na
+esculptura, na pintura, nas artes sumptuarias e nas artes industriaes,
+celebrando identicos feitos de guerra, de religião e de amor, servindo
+reis do mesmo sangue, heroes das mesmas aventuras, santos e santas da
+mesma invocação popular.
+
+Das nossas relações com Flandres só conheciamos--até ha bem poucos
+annos--a influencia flamenga em Portugal, ignorando completamente a
+reciproca acção dos portuguezes em Gand, em Bruges, em Antuerpia. Foi o
+sr. Joaquim de Vasconcellos quem, investigando os annaes das confrarias
+e o archivo das feitorias de Portugal, consignou que, em resultado da
+protecção dada aos artistas nacionaes por D. João II e por D. Manoel, de
+uma só vez chegaram a reunir-se em Paris cincoenta pensionistas
+portuguezes. Aos trabalhos do mesmo investigador se deve acharem-se hoje
+apurados varios nomes de pintores de Portugal trabalhando em Flandres,
+entre os quaes Edwart Portugalois, discipulo de Quintino Metsys,
+proclamado em 1504 mestre pintor da confraria de S. Lucas de Antuerpia.
+
+Os trabalhos do sr. Joaquim de Vasconcellos estão sendo diligentemente
+continuados pelo sr. Sousa Viterbo, na Torre do Tombo, e pelo sr.
+Joaquim Mauricio Lopes, nosso consul, em Antuerpia.
+
+Em uma recente publicação do sr. Mauricio Lopes, _Les portugais à Envers
+au XVI^{ème} siècle_, demonstra-se por meio dos mais expressivos
+documentos que a colonia portugueza, estabelecida em Flandres desde que
+em 1386 o duque de Borgonha Filippe-o-Ousado concedeu licença para ahi
+viverem mercadores de Portugal e dos Algarves com as suas familias e os
+seus creados, foi para a civilisação que os acolheu de uma importancia
+incomparavelmente superior á que jámais exerceu a colonia flamenga em
+Portugal.
+
+Os negocios dos portuguezes em Antuerpia, ao tempo da fundação da
+primeira feitoria de Portugal por D. Manoel, negocios tendo por base,
+além das exportações do reino, o commercio das especiarias trazidas da
+India por Lisboa, montavam annualmente a cerca de cinco mil contos da
+nossa moeda actual. O numero das casas portuguezas em Antuerpia era de
+cento e doze. Os mercadores portuguezes representantes d'essas casas
+viviam com um fausto verdadeiramente principesco. Em 1594, por occasião
+da entrada triumphal de Filippe II, herdeiro de Carlos V, a cavalgada
+portugueza ficou memoravel. Compunha-se de vinte senhores e de quarenta
+creados, montando todos cavallos peninsulares, ricamente ajaezados. Os
+senhores trajavam de brocado e seda côr de purpura, bordada de ouro e de
+rubis, com botões, passamanes e collares de ouro. Todos os gorros eram
+orlados de brilhantes. Os creados, equipados, de couraça e espada,
+vestiam librés de seda verde e branca, com as bainhas das espadas de
+seda branca.--O que era, segundo o chronista Cornelius Grapheus, _chose
+moult riche et triomphante à voir_.
+
+Nas festas da entrada em Antuerpia de Ernesto d'Austria, governador dos
+Paizes Baixos, os portuguezes erigiram um arco triumphal, em que se viam
+as figuras da Mauritanea, do Brasil, da Etiopia, da India, da Persia, do
+Ganges, do Rio da Prata, com as estatuas de Filippe I, do principe
+Filippe de Hispanha, de D. João II e de D. Manoel. Em outro arco de
+triumpho, delineado por Ludovicus Nonnius e consagrado a Fernando
+d'Austria, em 1635, expuzeram os portuguezes diversos quadros
+representando, entre outras, as allegorias da Victoria, da Clemencia, da
+Felicidade, da Religião, e os retratos de D. Affonso Henriques, D. João
+I, D. Manoel e D. Filippe II.
+
+Um d'esses portuguezes, o feitor Antonio Cirne, natural do Porto, nos
+saraus do Palacio chamado de Portugal, pretextando que a turba ou a
+lenha cheiravam mal, mandava cosinhar as eguarias com fogo de canela, e
+queimar canela em todas as fogueiras das chaminés.
+
+Outro portuguez, Simão Rodrigues d'Evora, era barão de Rhodes,
+cavalleiro, senhor de Tewerden, de Broeckstraate; pela sua enorme
+fortuna lhe chamavam o _rei pequeno_; possuia muitos predios na
+principal arteria da cidade, e habitava um d'elles, em que
+successivamente se hospedaram a infanta D. Izabel, a rainha Maria de
+Medicis e o principe cardeal Fernando d'Austria; fundou, com o fim
+caritativo de recolher doze senhoras da nobreza ou da burguezia
+reduzidas á indigencia, o hospicio de Sant'Anna, onde um triptyco de
+Otto Venius representava o retrato do fundador com seus filhos e sua
+mulher D. Anna Lopes Ximenes de Aragão.
+
+O luxo da colonia portugueza em Antuerpia assumia muitas vezes o mais
+nobre e mais alto caracter artistico. A enthusiastica hospitalidade
+conferida pelos portuguezes a Alberto Dürer ficou assignalada pelas
+grandes festas a que deu origem. Dürer retribuiu esses favores com
+presentes de quadros e de gravuras aos feitores e aos negociantes de
+Portugal.
+
+Diogo Duarte, filho de Gaspar Duarte, possuia uma das primeiras galerias
+de pintura em Flandres. Foi recentemente publicado na Hollanda um
+catalogo dos seus quadros, entre os quaes havia obras de Dürer, de
+Breughel, de Metsys, de Maubeuge, de Ticiano, de Tintoreto, de Andrea
+del Sarto, e um Raphael, que constava haver sido adquirido do principe
+D. Manoel de Portugal em troco de diamantes no valor de 2:200 florins.
+
+Muitos dos nossos compatriotas estabelecidos em Flandres cultivavam as
+sciencias e as letras, contando-se entre elles professores, medicos,
+escriptores celebres, como Amato Lusitano, Rodrigo de Castro, Garcia
+Lopes, Damião de Goes, etc.
+
+Outro curioso symptoma da nossa desaffeição dos estudos da arte nacional
+é a estagnação das velhas idéas preconcebidas na apreciação dos nossos
+monumentos architectonicos. Já me referi ao ôco basbaquismo privilegiado
+de que é objecto absorvente o monumento da Batalha. Devo aclarar um
+pouco mais, ainda que rapidamente, esse phenomeno.
+
+Por notavel superstição epidemica, por inercia de espirito, por
+servilismo intellectual, por pedantismo classico, por costume, por
+commodidade, por convenção admirativa, ou por qualquer outro motivo, os
+criticos portuguezes, que mais teem governado a opinião, estabeleceram
+axiomaticamente, como coisa definitivamente demonstrada e assente, que o
+unico puro e genuino exemplar de stylo gothico existente em Portugal é o
+da Batalha. Toda a modificação nas linhas constructivas ou nos motivos
+ornamentaes d'esse typo passou, por effeito de tal dogma, a
+qualificar-se de _decadencia_. Capellas imperfeitas, decadencia!
+Claustro dos Jeronymos, decadencia! Egreja de Christo e de S. João em
+Thomar, decadencia! Santa Cruz e S. Marcos, em Coimbra, decadencia!
+Decadencia emfim toda a obra architectonica da época manoelina.
+
+A termos acceitado tal principio na sua applicação pratica, teriamos
+tido na nossa architectura ogival do seculo XVI um neo-gothico, fixo e
+invariavel, como o neo-greco-romano da renascença, que é o triumpho
+consagrado do dogmatismo na arte, a immobilidade canonica nos systemas
+de construir, a cristalisação da rotina, a sujeição de toda a
+imaginação, de todo o poder inventivo a uma formula invariavel. Teriamos
+tido de submetter-nos ao despotismo da Batalha, como tão cegamente, tão
+estupidamente, tão inconcebivelmente, nos temos submettido por tantas
+centenas de annos ao despotismo de Vitruvio e das suas cinco ordens, com
+os seus correspondentes aphorismos de proporção e de symetria, seu
+pedestal, sua columna e seu entablamento, repetindo sempiternamente,
+sobre os mesmos dados estaticos, o mesmo denticulo, o mesmo modilhão, a
+mesma canelura, o mesmo triglypho, a mesma gôta, a mesma carranca! Ora
+precisamente o stylo manoelino da nossa architectura, com toda a sua
+effusão esculptural, com todo o avassalante symbolismo dos seus motivos
+ornamentaes, com toda a arbitrariedade dos seus processos, com todas as
+suas desproporções e todas as suas assymetrias, não é precisamente senão
+a contraposição da liberdade creativa dos nossos architectos-esculptores
+á enfatuação idolatrica, á pedantesca preceituação rhetorica, ao
+esmagador e exhaustivo despotismo das _cinco ordens_, com que o
+neo-classicismo da renascença razoirou todo o talento humano. O stylo
+gothico prestava-se como nenhum outro, pela extrema flexibilidade dos
+seus principios fundamentaes, aos desenvolvimentos de pura arte, com que
+o esculptor, completando a obra do engenheiro, e fazendo-se assim
+architecto, pode aviventar a pedra de um edificio, convertendo-a n'um
+elemento de sympathia e de solidariedade social, fazendo vibrar na
+palpitação do seu lavor evocações de idéas e de sentimentos proprios dos
+homens da sua raça e da sua terra. Os artistas manoelinos não teriam
+feito talvez monumentos _correctos_, na accessão indigente em que as
+academias empregam esta palavra, mas fizeram monumentos
+_expressivos_,--o que é melhor. Porque não são as academias que pautam
+as proporções e os limites da creação artistica. Tudo o que se pode
+formular em preceito cessa de ter valor em arte. A obra de arte não é um
+producto de escola: é a livre expressão individual de uma alma,
+convertida em realidade objectiva, e communicando aos homens uma
+vibração nova do sentimento.
+
+A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua categoria,
+deduz-se da maior ou menor quantidade das idéas que a sua obra suggere e
+dos sentimentos cuja percussão ella determina. Nos monumentos
+architectonicos é pela sobreposição do ornato esculptural ás linhas
+geometricas da construcção que a arte se exerce. É principalmente na
+esculptura que reside a expressão poetica do monumento.
+
+Em Portugal teem sido acusados os architectos manoelinos de invadirem
+pelo vegetabilismo ornamental todos os perfis da construcção,
+submettendo assim as fórmas constructivas á ornamentação esculptural. Os
+grandes criticos da Inglaterra, que tão consideravel impulso teem dado
+ás idéas estheticas e á moderna evolução artistica, entendem porém, ao
+contrario dos nossos, que a sciencia de edificar e de dispor linhas é na
+construcção de um monumento um ramo secundario da arte de esculpir. Esta
+affirmativa envolve a consagração da escola manoelina pela critica que
+n'este seculo mais minuciosamente e mais profundamente tem estudado a
+arte gothica e a arte da renascença.
+
+Nada todavia mais afflictivo, de peor indicio para os destinos nacionaes
+da arte, que o descaso do publico, pervertido em seu instincto pela
+carunchosa doutrina academica, perante esses monumentos em que sob, o
+reinado de D. Manoel, os artistas portuguezes tão vigorosamente
+accentuaram a palpitação victoriosa do genio, da originalidade, da
+poesia, da gloria do povo lusitano.
+
+O que se convencionou chamar _decadencia_ na ultima evolução do stylo
+gothico em Portugal é a modificação portugueza d'esse stylo, é a sua
+nacionalisação, é a originalidade local, imposta pelos architectos
+portuguezes do seculo XVI, a um systema geral de construcção, commum a
+toda a Europa. Dirão que não é isso precisamente um novo stylo.
+Certamente que não, se unicamente chamarmos stylo novo em architectura á
+constituição complexa e integral de todo um systema de edificar. Mas, se
+tomarmos a palavra stylo em tal accepção, nenhum stylo é novo em toda a
+architectura da edade média e da renascença. Todo o processo
+constructivo nos veiu inicialmente da Grecia, de Roma, de Bysancio, da
+Syria, do Egypto. Os mesmos gregos não inventaram a columna, nem os
+romanos descobriram a abobada. O que constitue a originalidade na
+architectura de qualquer povo é, como em Portugal, na época manoelina, a
+subordinação de um systema qualquer de geometria architectural ás
+condições do clima e da paizagem, á natureza dos materiaes empregados, á
+flora, á fauna, á concepção religiosa, á historia, á poesia, ao
+temperamento e á psychologia dos artistas, em cada região. Quanto mais
+intensa for a intervenção d'esses factores mais original será a obra.
+Assim, na evolução do gothico na architectura portugueza, quanto menos
+modificado, isto é, quanto mais _puro_ fôr o stylo, mais insignificante
+será o monumento como documentação artistica, como expressão social.
+
+É á _decadencia_ do gothico da Batalha que nós devemos o incomparavel
+claustro dos Jeronymos, segundo Haupt _o mais bello claustro de todo o
+mundo_, bem como a fachada da egreja de Christo, em Thomar, onde a
+flammejante janella da sala do capitulo é a obra mais eloquente, mais
+convicta, mais poetica, mais enthusiasticamente patriotica, mais
+estremecidamente portugueza, que jámais realisou em nossa raça o talento
+de esculpir e de fazer cantar a pedra.
+
+Na ornamentação d'essa janella, em que, juntamente com o sentimento mais
+entranhado das energias da natureza, rebenta, palpita e brada, em torno
+da idéa christã, todo o sagrado pantheismo das velhas religiões da
+India, conjugam-se, n'uma gloriosa harmonia de antiphona a toda a voz,
+acompanhada ao orgão, no deslumbramento dos cirios, no aroma das
+açucenas, no fumo dos thuribulos doirado pelo sol, os elementos
+decorativos do symbolismo mais poderoso, da suggestão mais profunda. O
+artista, em plena posse da sua idéa, em completa independencia do seu
+espirito, em inteira liberdade dos seus meios de execução, desdiz todos
+os votos, abjura todos os principios, renega todos os canones, infringe
+todas as regras, e prescinde de todo o applauso dos mestres, sufocando
+nas entranhas da sua propria vaidade a opinião de si mesmo, unicamente
+porque tem fé na verdade que enuncia, porque concentrou toda a força da
+sua alma, toda a energia do seu cerebro, toda a paixão do seu sangue, no
+amor da obra em que elle representa o pensamento que o domina. E em
+torno d'elle e d'esse objecto amado, como em torno de todos os que
+verdadeiramente amam, tudo mais na terra acabou e desappareceu.
+
+As columnas na janella da sala do capitulo são polipeiros de coral, dos
+mais profundos recifes do Oceano, e troncos d'essa palmeira, cuja sombra
+cobriu o berço da civilisação no littoral mediterraneo, providencia dos
+peregrinos nos oasis do deserto, á qual os arabes da Peninsula dedicavam
+uma festa de primavera, tendo por fundamento a disseminação do polen,--a
+arvore santa, a arvore da Biblia, a arvore de Jesus, cujo ramo symbolico
+é um attributo da paixão e da paschoa, da gloria e do martyrio. Os
+demais elementos decorativos são as ondas do mar, taes como ellas se
+representam na heraldica; são os troncos seculares e as raizes profundas
+dos sobreiros dos nossos montes, extrema expressão de força na
+fecundidade da seiva, que prende o roble, assim como a tradição e a
+familia prendem a debil e errante creatura humana, ao coração da terra
+em que nasceu. Guizeiras, como as das mulas de tiro engatadas á carreta
+alemtejana, emmolham contorcidas varas de sobro e de azinho, como nos
+feixes de lictor da magistratura romana. Solidas correntes e possantes
+cabos de bordo, de que pendem em discos as boias de cortiça, enlaçam a
+decoração, amarrando-a vigorosamente á empena por fortes argolões, como
+se amarraria uma nau ao caes de um porto. Toda a composição, partindo
+das espaduas de um homem, que parece sustentar-lhe todo o peso, ascende
+n'uma trepidação de algas e de folhagens para a cruz de Christo entre as
+espheras que tomara por empresa o rei venturoso de Portugal triumphante
+na vastidão dos mares, em todo o circuito do globo. E o poema
+esculptural remata por cima da janella na rosacea magestosa do templo,
+formada em circulo pelas pregas e pelo bolso arfante da vela rizada de
+um galeão da India.
+
+O nosso povo porém desaprendeu de ver a obra artistica do seu passado, e
+nem sequer levanta os olhos para os seus mais communicativos monumentos,
+que ninguem lhe explica, que ninguem o ensina a comprehender e a amar.
+
+
+Resumamos agora a historia do que officialmente se tem feito no intuito
+malogrado de proteger os monumentos publicos e de conservar e defender
+os productos d'arte.
+
+Em julho de 1890 o então ministro da Instrucção Publica consultou sobre
+a questão de que se trata uma commissão de artistas, de archeologos e de
+escriptores. Da resposta, até hoje inedita, d'essa commissão, de que me
+coube a honra de ser relator, transcreverei alguns periodos.
+
+O arrolamento da nossa riqueza artistica, que se propõe effectuar o
+ministerio da instrucção publica e das bellas artes é--ponderava o
+relatorio--a pedra fundamental de toda a construcção destinada a dar á
+arte portugueza o logar que lhe compete na historia geral da
+nacionalidade, na orientação do sentimento collectivo do povo, no
+conjuncto dos elementos de impulsão e de progresso para o
+desenvolvimento das industrias, no respeito do paiz, emfim, e no da
+Europa.
+
+O inventario de que se trata, comprehendendo não só os edificios
+monumentaes mas os documentos archeologicos e os productos artisticos de
+toda a especie, seria, primeiro que tudo, a documentação preciosa para a
+historia da arte em Portugal,--determinação das suas origens ethnicas e
+sociaes, fixação dos seus caracteres distinctivos e sua relação com a
+psychologia do povo, com os sentimentos, com as aspirações, com as
+ideias, com os costumes e com as instituições sociaes. Esse repositorio
+tornar-se-ia o espelho em que se achariam reflectidas, com todas as suas
+modalidades, segundo as influencias especiaes de cada época, de cada
+phase de cultura, de cada estadio social, todas as forças emotivas,
+todas as aptidões estheticas da nossa raça. A historia dos seus
+monumentos é para cada povo a historia da sua individualidade, porque
+não ha monumento artistico que não traduza, mais ou menos directamente,
+a acção intellectual e politica da sociedade que o concebeu.
+
+A ideia do inventario projectado não é--para honra nossa--inteiramente
+nova. No reinado de D. João V existia na Bibliotheca Real uma obra em
+cinco volumes, datada de 1686 e intitulada «Theatro do reino de Portugal
+e dos Algarves por suas cidades, villas, fortes e fortalezas como que
+por scenas repartido.» Mais tarde mandou o referido soberano ao Padre
+Frei Luiz de S. José, monge do Cister e artista peritissimo, que fizesse
+os debuxos de todas as povoações do Minho, o que elle cumpriu no anno de
+1726. Por indicação da Academia Real da Historia, e para o fim de
+inventariar e conservar os monumentos nacionaes, publicou-se o decreto
+de 20 de agosto de 1721, e fundou-se o primeiro dos nossos museus
+archeologicos. Infelizmente os livros a que nos referimos não chegaram a
+ser dados á estampa, e os originaes foram destruidos pelo terremoto de
+1755, juntamente com a Bibliotheca Real, e com o museu estabelecido nas
+casas dos duques de Bragança, ao Thesouro Velho.
+
+As disposições do alvará de 20 de agosto de 1721 constam do seguinte
+trecho do mesmo alvará: «Hei por bem que d'aqui em deante nenhuma pessôa
+de qualquer estado, qualidade e condição que seja, desfaça ou destrua em
+todo nem em parte, qualquer edificio, que mostre ser d'aquelles tempos
+(assim designados: Phenices, Gregos, Persos, Romanos, Godos e Arabios)
+ainda que em parte esteja arruinado; e da mesma sorte as estatuas,
+marmores e cippos em que estiverem esculpidas algumas figuras, ou
+tiverem letreiros phenices, gregos, etc.; ou laminas, ou chapas de
+qualquer metal, que contiverem os ditos letreiros, ou caracteres; como
+outrosi medalhas ou moedas, que mostrarem ser d'aquelles tempos, nem dos
+inferiores até o reinado do Senhor Rey D. Sebastião; nem encubrão ou
+ocultem alguma das sobreditas cousas: e encarrego ás camaras das cidades
+e villas d'este reyno tenham muito particular cuidado em conservar e
+guardar todas as antiguidades sobreditas, e de semelhante qualidade que
+houver ao presente, ou ao deante se descobrirem nos limites do seu
+districto; e logo que se achar ou descobrir alguma de novo, darão conta
+ao secretario da dita Academia Real para elle a communicar ao director e
+censores, e mais academicos; e o dito director e censores, com a noticia
+que se lhes participar, poderão dar a providencia que lhes parecer
+necessaria para que melhor se conserve o monumento assim descoberto.
+Etc.»
+
+Em 4 de fevereiro de 1802, novo alvará sobre a mesma materia, assim
+designado: «Alvará com força de lei pelo qual Vossa Alteza Real he
+servido suscitar o alvará de lei de 20 de agosto de 1721, ordenado em
+beneficio da Academia Real da Historia Portugueza para a conservação e
+integridade das estatuas, marmores, cippos, e outras peças de
+Antiguidade: mandando que as funcções do mesmo Alvará, que até agora
+pertenciam ao secretario da dita Real Academia, fiquem da data do
+presente em deante pertencendo ao Bibliothecario Maior da Bibliotheca
+Publica; tudo na forma acima declarada.»
+
+Em janeiro de 1844 o Bibliothecario Mór da Bibliotheca Nacional de
+Lisboa José Feliciano de Castilho, informava o respectivo ministro nos
+seguintes termos: «Para o bibliothecario mór passaram attribuições que
+competiam á Academia Real da Historia, mas infelizmente essa lei vigente
+tem sido até hoje letra morta, a tal ponto que até ignoram as suas
+disposições os proprios encarregados do seu cumprimento, com grave
+detrimento, não só d'este magnifico repositorio, que ha muitos annos se
+acha estacionario em aquisições archeologicas, mas tambem de todo o
+reino, onde o bibliothecario mór deveria sempre ter, por obrigação do
+seu cargo, promovido a conservação e segurança dos monumentos que não
+podem ou não devem transportar-se.»
+
+Em seguido propõe o bibliothecario que se torne effectiva a
+responsabilidade dos governadores civis no cumprimento da lei de 20 de
+agosto de 1721; que esses funccionarios se correspondam regularmente com
+o bibliothecario, etc.
+
+Ficou porém tão morta a letra d'essa consulta como a da lei a que ella
+se refere.
+
+Por decreto de 10 de novembro de 1875 é nomeada uma commissão para
+propôr ao governo, com a reforma do ensino das Bellas Artes e com o
+plano de um museu, «as providencias que julgar mais adquadas á
+conservação, guarda e reparação dos monumentos historicos e dos objectos
+archeologicos, de importancia nacional, existentes no reino.» A
+commissão alludida responde ao governo por meio da memoria redigida pelo
+marquez de Sousa Holstein, e assim se desempenha do encargo que lhe fôra
+confiado.
+
+A louvavel diligencia empregada a convite do governo pela Real
+Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, para o fim
+de lançar em 1880 as bases de uma inventariação systematica dos
+monumentos nacionaes, não foi, assim como o zeloso trabalho da commissão
+de 1875, seguida de resultados praticos.
+
+Independentemente da preceituação official, teem sido modernamente do
+mais importante auxilio para o conhecimento dos nossos valores
+artisticos a Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental, celebrada em
+Lisboa em 1882, a exposição de Coimbra, a exposição de Aveiro, a
+exposição de Guimarães, a recente exposição do centenario antonino, e as
+exposições de ourivesaria e de ceramica promovidas e effectuadas no
+Palacio de Cristal do Porto pela muito benemerita Sociedade de
+Instrucção.
+
+De algumas das exposições alludidas ficaram documentos de alto valor.
+Imprimiram-se relatorios de muita importancia, e numerosos productos
+expostos foram reproduzidos pelo desenho e pela photographia. Da valiosa
+collecção photographica, para a qual principalmente contribuiram Carlos
+Relvas, Pardal, Rochini, Biel & Companhia, bem como dos catalogos dos
+museus e das exposições celebradas, se poderia extrahir desde já um
+esboço de inventario, que não seria difficil aperfeiçoar e prehencher,
+emprehendendo novas exposições e systematisando completamente as
+investigações e os estudos correlativos.
+
+A commissão de 1890, a que acima me referi, propunha que, sem prejuizo
+das pesquisas que, convém continuar, para recolher ou arrolar os valores
+artisticos que ainda se conservam ignorados em poder de corporações ou
+de particulares, a commissão incumbida do inventario geral e definitivo
+desse quanto antes principio aos seus trabalhos, tomando por materia as
+peças de que ha conhecimento, já pelo exame de que foram objecto nos
+museus onde existem, ou nas exposições até hoje feitas, já pelos
+catalogos e relatorios que d'essas exposições existem, já pela
+consideravel collecção de photographias que reproduzem os objectos
+expostos.
+
+Emquanto á catalogação e á conservação dos objectos pertencentes a
+particulares ou a corporações de caracter civil ou religioso, não
+conviria desde já estabelecer principios absolutos. O modo de proceder
+dos delegados do governo em tal serviço seria indicado pelas
+circumstancias particulares de cada occorrencia, sendo porém altamente
+para desejar que os prelados do reino, conscientes dos estreitos
+vinculos que ligam o esplendor das artes á gloria do catholicismo,
+conseguissem fazer penetrar na convicção das auctoridades eclesiasticas
+das suas circumscripções quanto é inseparavel da historia da egreja a
+historia da arte christã, e quanto o museu, em paizes tradicionalmente
+catholicos, é ainda uma fórma do culto ou um desdobramento d'elle na
+ordem civil, além de ser o permanente attestado da alliança da crença
+religiosa com a immortal aspiração da poesia no coração e no espirito da
+nossa raça.
+
+Para regra definitiva do processo a que se refere o alvitre que acabo de
+expor é indispensavel que seja devidamente estudada e promulgada uma
+lei, semelhante á que existe hoje na Italia, em França, nos Paizes
+Escandinavos, na Russia, na Hispanha, na Grecia, na Turquia, tendo por
+fim definir claramente e assegurar, de combinação com a legislação
+canonica, com os principios da concordata e com a legislação geral da
+propriedade, os direitos especiaes do Estado com relação á guarda dos
+monumentos e á parte que elle tem na posse dos objectos d'arte,
+determinando assim o caracter especial da propriedade artistica.
+
+Uma vez decretada essa lei fundamental, e assignalada a responsabilidade
+em que incorrem os que a transgridam, deveriam formar-se as commissões
+regionaes, dependentes da commissão central, e incumbidas, em suas
+localidades, da guarda e da conservação dos monumentos e dos objectos
+d'arte. Estas commissões, á semelhança do que foi disposto na lei
+italiana de 1878, da qual se inspirou em França, para a organisação de
+eguaes serviços, a Direcção das Bellas Artes, seriam compostas de oito
+vogaes, sendo quatro da nomeação dos municipios e quatro da nomeação do
+governo, com um architecto inspector adjuncto, sob a presidencia do
+governador civil ou do administrador do concelho.
+
+Em toda a parte, ainda nos mais abandonados recantos da provincia, ha
+sempre, onde existe um monumento, um homem pelo menos que o ama, que o
+estuda, que o comprehende. É a collaboração preciosa d'esses pobres
+poetas obscuros, d'esses modestos archeologos, ignorados da critica e do
+publico, que aos organisadores das commissões locaes compete acolher e
+utilisar.
+
+O processo de inventariação de cada peça artistica constaria de duas
+partes.
+
+A primeira seria a reproducção photographica, ou em gesso, ou pela
+galvanoplastica, do objecto inventariado, com registro do respectivo
+cliché ou molde.
+
+A segunda, a confecção de um simples verbete, impresso, correspondendo á
+photographia por meio de um numero de ordem, e satisfazendo os seguintes
+quesitos: 1.º Descripção summaria do objecto; 2.º Logar onde elle se
+encontra; 3.º Nome do individuo ou da corporação em cuja posse se acha;
+4.º Antecedentes; 5.º Attribuição; 6.º Avaliação; 7.º Escala em que
+houver sido feita a reproducção.
+
+Este systema, semelhante ao dos museus de Londres, de Berlim e de
+Vienna, é o mais simples, o mais economico, o mais pratico, o mais
+expedito. Com applicação ao inventario da arte hispanhola elle foi
+proposto, pelo delegado de Portugal, ao grande jury da ultima exposição
+historico-europeia em Madrid. Uma real ordem o mandou pôr em execução,
+tendo-o sanccionado a approvação unanime de uma commissão presidida pelo
+sr. Canovas del Castillo e composta de criticos de uma competencia
+indiscutivel e de uma notoriedade europeia.
+
+Com a collecção completa das photographias e dos verbetes a que alludo,
+o estado, em Portugal, sem ter da riqueza artistica da nação um
+inventario tão desenvolvido e tão perfeito como o que outros paizes
+possuem, teria no emtanto um arrolamento explicito, e achar-se-hia
+habilitado a ministrar-nos o mais efficaz meio de estudo.
+
+Da collecção integral, subdividida em tantas series diversas quantos os
+differentes criterios de classificação que se lhe applicassem, se
+extrairiam collecções especiaes, em edições mais ou menos modestas,
+relativas a cada ramo do ensino, geral ou especial, e destinadas ás
+escolas de bellas artes, ás escolas industriaes, aos museus das escolas
+primarias e secundarias, ás officinas, aos operarios, facultando assim,
+ou gratuitamente ou por infimo preço, a todas as classes sociaes um
+pronto meio de conhecimento da historia geral da arte, da historia da
+arte em cada uma das suas mais especiaes applicações, da evolução das
+fórmas e do desenvolvimento dos stylos, na architectura, na pintura, na
+esculptura, na marcenaria, na serralheria, na ourivesaria, na ceramica,
+em todos os ramos emfim do trabalho artistico e industrial.
+
+Eliminando os numeros que relacionam os verbetes com as photographias,
+os alumnos das escolas d'arte, procurando para cada photographia o
+verbete correlativo, e satisfazendo por esse processo aos mais variados
+quesitos de classificação, habituar-se-hiam, por meio dos exercicios
+mais simplesmente pedagogicos, a discernir as épocas e os stylos,
+retendo todas as diversidades da fórma pela memoria da vista.
+
+Além do que, com o material reunido para o inventario dos monumentos
+architectonicos e das riquezas artisticas da nação, o estado fundaria
+simultaneamente o mais interessante museu de reproducções.
+
+A Commissão dos Monumentos Nacionaes não é inteiramente, pelos seus
+meios de acção e pelos seus fins, a commissão a que se refere a consulta
+de 1890. Parece-me indispensavel, antes de tudo, que esta commissão se
+reconstitua em bases mais amplas, e que d'ella se desdobre a commissão
+do inventario geral da d'arte, ao qual é urgentissimo que se proceda.
+
+Na parte em que a commissão tem de responder pela conservação dos
+monumentos nacionaes, é preciso, a meu ver, que ella se complete, tanto
+no programma dos seus trabalhos como no pessoal que tem de pôr em
+execução esse programma, não de um modo como até hoje officioso e
+facultativo, mas rigorosamente obrigatorio, sendo-lhe indispensavel para
+esse effeito a aggregação e a collaboração effectiva de dois
+architectos, a presidencia do sr. ministro, e a publicação periodica de
+um boletim em que regularmente se communiquem ao publico os resultados
+do trabalho feito.
+
+Conseguidas as condições de consistencia technica, de auctoridade e de
+expediente, que no estado presente lhe fallecem e a innutilisam, cabe á
+commissão arrolar definitivamente, pela photographia e pela escripta, os
+monumentos confiados á sua guarda bem como as obras d'arte que o paiz
+possue; nomear as commissões locaes; definir claramente o que é
+_conservar_, o que é _restaurar_, e o que é _continuar_ ou _concluir_ um
+monumento; redigir desenvolvidamente e em suas mais particulares
+minudencias (porque n'este ponto tudo está por definir e por
+estabelecer) os programmas especiaes a que tem de satisfazer
+rigorosamente todo o projecto de conservação, de restauro ou de
+acabamento na obra de cada edificio.
+
+Os cuidados de _conservação_ devem ser obrigatorios e extensivos a todos
+os monumentos. Para esse effeito o programma é simples, e a despesa
+insignificante, ainda perante os mais modestos recursos. As occasiões em
+que cabe _restaurar_ são relativamente raras. E nenhum edificio,
+qualquer que seja a sua importancia historica ou artistica, convem
+_concluir_, a não ser nos casos em que vantajosamente elle se possa
+adaptar a algum dos serviços vigentes da civilisação contemporanea. Este
+mesmo criterio economico se deveria applicar á opportunidade das
+_restaurações_. Da inobservancia d'estes preceitos fundamentaes resultou
+o contrasenso de restaurar o edificio dos Jeronymos sem previamente se
+accordar no destino que tem de ter esse edificio, como se podesse ser
+indifferente, no modo de reconstruir uma casa, que ella tenha de ser uma
+escola, um museu, um archivo, um recolhimento, um quartel, um banco ou
+uma habitação particular![1]
+
+
+Ao governo de sua magestade, para esse fim solicitado pelos homens que
+com tão patriotico desinteresse constituem a Commissão dos Monumentos
+Nacionaes, compete prefazel-a e fortifical-a com a regulamentação e
+auctoridade de que ella carece, ou dissolvel-a.
+
+
+Se o Estado não intervem cumpre aos governados levar a effeito, por um
+decisivo esforço de iniciativa, a obra a que se recusem os que governam.
+
+Está-nos dado o exemplo na actividade e na abnegação de alguns cidadãos
+benemeritos.
+
+O sr. bispo-conde de Coimbra funda na sua diocese o mais completo e mais
+interessante museu de ourivesaria sagrada que existe em Portugal, e
+emprehende e realisa, sob a intelligente collaboração do sr. Antonio
+Augusto Gonçalves, a restauração da Sé Velha e a de Santa Cruz, com uma
+segurança de criterio, de que não ha exemplo em obra alguma do mesmo
+genero modernamente consumada pelas officinas officiaes.
+
+O sr. bispo de Beja applica um egual fervor ás obras do convento da
+Conceição; e na mesma cidade de Beja por iniciativa da municipalidade,
+por concurso patriotico de alguns cidadãos, funda-se o mais copioso e o
+mais bem catalogado dos nossos museus archeologicos.
+
+Em Evora o sr. Francisco Barahona custeia por si só a dispendiosa
+reparação do sumptuoso templo de S. Francisco, sem a qual teria já
+desabado ou desabaria em breve a mais bella egreja portugueza do tempo
+D. João II.
+
+Na ultima visita que fiz, em setembro passado, á Sé de Braga, ahi me foi
+affirmado que o respectivo prelado estava elaborando o projecto da
+reconstituição artistica d'aquelle importante monumento.
+
+Em Cette e em Paço de Sousa, camaras, juntas de parochia, simples
+influencias individuaes invidam os mais louvaveis e mais instantes
+esforços para a conservação dos monumentos gloriosos a que n'esses
+logares se alliam os nomes de Egas Moniz, de Gonçalo Veques e de Estevam
+da Gama.
+
+A obra tão desvelada da extincta Sociedade de Instrucção do Porto e a da
+Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, são verdadeiros monumentos de
+erudição, de estudo, de trabalho pratico, de piedade patriotica.
+
+Para a constituição integral da historia da arte e da tradição artistica
+portugueza, quantas contribuições dedicadas, quantos esforços
+individuaes, desassociados e dispersos, na obra, tão incomprehendida e
+tão despremiada, dos srs. Joaquim de Vasconcellos, Martins Sarmento,
+Antonio Augusto Gonçalves, Gabriel Pereira, Sousa Viterbo, Luciano
+Cordeiro, Ferreira Caldas, Ribeiro Guimarães, Alberto Sampaio, Julio de
+Castilho, Theophilo Braga, Leite de Vasconcellos, Pinho Leal, Albano
+Bellino, Teixeira de Aragão, Vilhena Barbosa, Conceição Gomes, Filippe
+Simões, Manoel de Macedo, José Pessanha, Fonseca Benevides, Valentim,
+Vieira Natividade, Figueiredo da Guerra, visconde de Condeixa, Borges de
+Figueiredo, Marques Gomes, Rodrigo Vicente de Almeida, Zephyrino
+Brandão, Possydonio da Silva, Freitas Costa, Avelino Guimarães, Freire
+d'Oliveira; e quantos outros, tanto mais sympathicos quanto mais
+obscuros!
+
+O unico inutil da phalange sou talvez eu, que em vez de uma accurada
+monographia, estou aqui fazendo um indice de assumptos, que só
+devidamente trataria se de cada uma d'estas paginas tirasse um livro.
+Possam ellas ao menos communicar a outros corações a sympathia, que
+filialmente prende o meu á terra em que nasci, e á raça de que procedo!
+
+É pelo culto da arte, invocado n'estas paginas, que a religião da
+nacionalidade se exteriorisa e se exerce.
+
+Desde que nas consciencias se extinguiu a fé, é por meio da arte que as
+tradicções se transmittem, que os sentimentos se coordenam, que os
+affectos se depuram, que as paixões se enobrecem. É pela arte, que a
+exprime, que a poesia do christianismo sobreviverá aos seus dogmas no
+enternecimento, no amor, na saudade dos homens. É tambem pela arte que
+em nossa memoria a poesia da historia sobreleva das instituições, dos
+systemas, das theorias e dos homens, sobre que ella versa.
+
+A politica, depois da desastrosa fallencia de todas as modernas theorias
+liberaes, cessou por toda a parte de ser um foco de attracção para as
+idéas ou para os sentimentos humanos. As leis continuam a fazer-se com o
+destino unico de serem consecutivamente e invariavelmente decretadas,
+infringidas e revogadas, para se substituirem por leis novas, que por
+seu turno se decretam, se infringem e se revogam, como succedeu ás
+anteriores, como succederá ás que se seguirem.
+
+No momento presente são unicamente os poetas, os philosofos e os
+artistas que governam espiritualmente o mundo. D'ahi, nos paizes de
+cultura mental, dominando todos os phenomenos da decadencia moderna, uma
+effusão de sympathia, de tolerancia, de benevolencia, de perdão, que
+caracterisa bem o nosso tempo, e de que não ha na historia outro
+exemplo.
+
+Quando recebemos da Inglaterra a ultima affronta de chancellaria, a que
+deu motivo o tratado de Lourenço Marques, quem na minha susceptibilidade
+portugueza mais suavisou esse golpe foi o critico d'arte John Ruskin,
+proclamando solemnemente e categoricamente aos estudantes de Glascow que
+os estadistas inglezes (tratava-se então do sr. Disraëli e do sr.
+Gladstone) lhe não mereciam nem mais respeito nem mais consideração que
+duas velhas gaitas de folle.
+
+Ruskin separava assim e distinguia radicalmente a Inglaterra do _Foreign
+Office_ e de lord Salisbury, da Inglaterra de _South Kensington_, de
+_British Museum_, da _National Gallery_, de _Ruskin Museum_, de Darwin,
+de Spencer, de Carlos Dickens, de Turner, de Burne Jones, para a qual
+tenderá sempre e irrevogavelmente a terna gratidão do nosso espirito.
+
+É unicamente pela arte, inherente á natureza humana, progressiva e
+eterna, que hoje em dia os homens se associam no destino e na
+solidariedade da especie.
+
+É pela arte que o genio de cada raça se patenteia, que a autonomia
+nacional de cada povo se revela na sua autonomia mental, e se affirma,
+não só pela sua especial comprehensão da natureza, da vida e do
+universo, mas pelo trabalho collectivo da communidade, na litteratura,
+na architectura, na musica, na pintura, na industria e no commercio.
+
+É pelo culto da arte, e pela educação artistica que esse culto
+comprehende, que a producção industrial se especialisa, se valorisa pela
+originalidade caracteristica do producto, e transforma pela
+prosperidade, unicamente determinada pelo ensino, toda a economia de uma
+nação, como se evidenciou nos ultimos tempos em Inglaterra, na Austria,
+na Allemanha, por via da simples reconstituição dos museus e da
+multiplicação das escolas.
+
+Finalmente,--se para cada povo a arte é a segurança da tradição, o
+refugio das consciencias, o mais puro reflexo da imagem benigna da
+patria, a fonte mais caudal de todos os progressos moraes, economicos e
+até politicos,--para cada homem, na tortura de tantas incertesas moraes
+na magoa e na ruina de tantas crenças extinctas, de tantos ideaes
+desfeitos no melancholico decurso da nossa edade, a arte é ainda--como
+diz Schopenhauer--_a unica flôr da vida_.
+
+
+
+
+*Notas:*
+
+
+[1] O conspicuo parecer, que, a respeito das obras dos Jeronymos, foi
+pelo sr. Luciano Cordeiro apresentado á Commissão dos Monumentos
+Nacionaes, em sessão de 7 de novembro de 1895, termina, depois d'outras,
+pelas conclusões seguintes:
+
+«5.ª O Templo deve ficar destinado, sómente, ás grandes celebrações
+religiosas do Estado, e a Galilea a jazida dos restos dos Descobridores
+e Navegadores portuguezes.
+
+«6.ª Todo o resto do monumental edificio deve ser destinado a alojamento
+e installação do Archivo Nacional, convindo que essa installação se ache
+concluida até o mez de maio de 1897.»
+
+Não concordo inteiramente com o sr. Luciano Cordeiro em que se
+transporte para o edificio annexo á egreja dos Jeronymos o archivo da
+Torre do Tombo, e tão pouco em que se remova da egreja o exercicio
+parochial do culto.
+
+Por complexas razões, que não vem para aqui desenvolver, eu votaria por
+que, em vez do archivo da Torre do Tombo se estabelecesse o museu naval
+no edificio dos Jeronymos. E emquanto a egreja, além de que, em minha
+humilde opinião, o clero a saberia sempre guardar muito melhor do que o
+estado, accresce ainda que a parochia de Santa Maria de Belem é uma
+instituição historicamente sagrada, indissoluvelmente unida em nosso
+respeito á tradição do monumento. Foi o infante D. Henrique quem
+transformou o inhospito areal do Restello na linda freguezia de Belem,
+arroteando o solo, para refresco, abrigo e amparo espiritual dos
+navegantes, plantando arvores, dispondo hortas e pomares, abrindo fontes
+e construindo a primitiva ermida exactamente no mesmo logar em que se
+edificou a actual egreja. O pontifice Pio II confirmou por meio de uma
+bula a doação do infante á ordem de Christo, e instituiu em parochia a
+primeira egreja de Santa Maria de Belem, sem outro encargo para a ordem,
+para os navegantes e para o publico senão o de se rezar a cada missa,
+aos sabbados, um _Pater e uma Ave Maria pela salvação da alma do infante
+D. Henrique e por a d'aquelles de quem era teudo_. O rei D. Manoel,
+tendo edificado a sumptuosa egreja e o mosteiro dos Jeronymos, na volta
+da armada de Vasco da Gama, depois do descobrimento da India, colloca a
+estatua do infante á porta da egreja, mantem a parochia, e determina, em
+cumprimento dos piedosos desejos de D. Henrique, que a cada missa, ao
+lavar das mãos, o sacerdote se volva para a gente, e diga em alta voz.
+«Rogae a Deus pela alma do infante D. Henrique, primeiro fundador d'esta
+casa, e por a de el rei D. Manoel, que a doou á ordem de Christo.»
+
+A data d'esta carta de doação é de 26 de dezembro de 1498.
+
+Seria, a meu ver, uma infidelidade, uma ingratidão, e um torpe desacato
+remover a parochia de Santa Maria de Belem do logar em que seus
+gloriosos fundadores a estabeleceram, cabendo-nos pelo contrario o dever
+de reclamar dos poderes civis e dos poderes ecclesiasticos que o modesto
+voto dos fundadores se cumpra, como é de razão juridica e de probidade
+nacional, e que em cada missa conventual celebrada pelo parocho na
+egreja dos Jeronymos, o sacerdote se volte para o povo, ao _lavabo_, e
+peça um _Pater_ e uma _Ave Maria_ pela alma do infante D. Henrique e
+pela de el-rei D. Manoel.
+
+Que se adopte porém ou se não adopte a proposta do sr. Luciano Cordeiro,
+o que technicamente não é de certo admissivel é que as obras dos
+Jeronymos se prosigam e se concluam sem resolução tomada ácerca do
+destino que ha de ter o edificio em que taes obras se fazem.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 71| ta boas | taboas |
+ |#pág. 74| onem | nem |
+ |#pág. 74| dimensã | dimensão |
+ |#pág. 105| ascebispo | arcebispo |
+ |#pág. 142| privilegido | privilegiado |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+Variantes dos nomes próprios foram mantidas de acordo com o original.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O culto da arte em Portugal, by
+José Duarte Ramalho Ortigão
+
+*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30456 ***
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index 0000000..3cc19ea
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+++ b/30456-8.txt
@@ -0,0 +1,3642 @@
+The Project Gutenberg EBook of O culto da arte em Portugal, by
+Jos Duarte Ramalho Ortigo
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: O culto da arte em Portugal
+
+Author: Jos Duarte Ramalho Ortigo
+
+Release Date: November 12, 2009 [EBook #30456]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CULTO DA ARTE EM PORTUGAL ***
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+
+
+
+ *Nota de editor:* Devido quantidade de erros tipogrficos
+ existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto
+ verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrar a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Nov. 2009)
+
+
+
+
+O CULTO DA ARTE
+
+EM
+
+PORTUGAL
+
+
+
+
+_RAMALHO ORTIGO_
+
+
+O CULTO DA ARTE EM PORTUGAL
+
+
+
+_Monumentos architectonicos--Restauraes--Desacatos
+Pintura e esculptura--Artes industriaes
+O genio e o trabalho do povo--Indifferena oficial--Decadencia
+Anarchia esthetica
+Desnacionalisao da arte--Dissoluo dos sentimentos
+Urgencia de uma reforma_
+
+
+
+
+LISBOA
+Antonio Maria Pereira, Livreiro-Editor
+50--Rua Augusta--52
+1896
+
+
+
+
+Typographia da Academia Real das Sciencias de Lisboa
+
+
+
+
+_ Commisso dos Monumentos Nacionaes_
+
+
+dedica respeitosamente
+este humilde trabalho
+
+
+_O AUCTOR_
+
+
+
+
+Durante a Renascena, e ainda atravez da Edade Mdia, to
+insufficientemente conhecida no enigma da sua cultura artistica, os
+reis, os monges, os fidalgos, os burguezes enriquecidos ostentavam o
+fausto e a pompa hierarchica no smente construindo palacios e
+castellos, que enobreciam os logares que elles habitavam, mas erigindo
+basilicas e cathedraes, em que se concentravam todos os esforos do
+talento de uma raa, e eram verdadeiramente os palacios do povo, doados
+magnanimamente pelos mais poderosos aos mais humildes, em nome de Deus,
+em nome do rei, em honra da patria.
+
+N'esses edificios incomparaveis se achavam colligidas como em escolas
+monumentaes, como em museus portentosos, todas as maravilhas da
+sciencia, da poesia e da arte. A esculptura architectural, a estatuaria
+dos mausoleus, a imaginaria dos altares, a illuminura dos missaes, a
+pintura das vidraarias, a talha dos retabulos subordinavam-se a um
+pensamento commum, expresso n'um vasto symbolismo, comprehendendo as
+fecundidades da terra e do mar, o trabalho do homem nos seus
+desfallecimentos e nos seus triumphos, a perturbao dos sentidos pelo
+peccado, a fatalidade do sangue, o horror do universal aniquilamento, e
+o vo da alma para Deus, levada por um immortal instincto de amor, de
+paz, de verdade e de justia.
+
+Dentro d'essas egrejas, ameaadas hoje de proxima ruina ou inteiramente
+arruinadas, se celebravam todos os actos da vida religiosa, da vida
+civil e da vida domestica. Ahi se casavam os noivos, se baptisavam os
+filhos, se sepultavam os paes. Ahi se ungiam os reis, velavam as armas
+os cavalleiros, professavam os monges, benziam-se os fructos da terra,
+as bandeiras das hostes, as ferramentas da lavoura e os pendes dos
+officios. Ahi se discutiam os interesses do povo, os direitos, as
+franquias, os foros da communa. Ahi se prgava o Evangelho, se resava a
+missa, e se representavam os autos populares da vida de Jesus e dos seus
+santos; e nas vigilias da Natividade, da Epiphania e da Paschoa, quando
+o orgo emudecia no coro e se calavam os cantos liturgicos, o povo
+bailava ao longo da nave, sob as abobadas gothicas ou sob as cupulas
+bysantinas, e as las e os villancicos, entoados pelos fieis, subiam
+para o ceu com a fragancia das flores e com o fumo dos thuribulos, ao
+repique das castanholas e ao rufar dos adufes.
+
+Ao lado dos brazes e das divisas heraldicas pendiam dos muros os votos
+modestos dos mais obscuros mesteiraes, dos mais humildes braceiros.
+
+Esse alcaar dos pobres, que era a egreja medieval, alcaar mais
+sumptuoso que o de nenhum rei, dava asylo incondicional, inviolavel e
+sagrado, aos maltrapilhos, aos villes, aos mendigos, aos lazaros e s
+lazaras de todas as lepras do corpo e da alma, aos tinhosos, aos nus,
+aos imbecis, aos ignorantes, aos criminosos, s mulheres adulteras, s
+mancebas, s mundanarias, s barregs.
+
+O egoismo dos tempos modernos torna-nos incompativeis com o commetimento
+de to grandes obras. Creamos instituies de caridade, fazemos
+regulamentos de assistencia publica, e vangloriamo-nos de haver definido
+pela revoluo liberal o dogma da fraternidade humana, mas somos
+fundamentalmente incapazes de consagrar pratica das virtudes, de que
+julgamos ter na historia o monopolio, monumentos como aquelles que
+nossos avs lhe levantaram _a proll do comum e aproveitana da terra_,
+dando em resultado que o mais andrajoso mendigo da portaria do mosteiro
+de Alcobaa ou do mosteiro de Santa Cruz, com o seu alforge ao pescoo e
+a sua escudella debaixo do brao, participava, alm da rao quotidiana
+que se lhe distribuia pelo caldeiro da communidade, de um agasalho de
+principe e de um luxo d'arte com que hoje no competem os maiores
+potentados, os quaes em suas casas e para seu recreio intimo se rodeiam
+de todas as joias artisticas de que pela abolio dos vinculos e pela
+extino das ordens religiosas se apoderou o moderno commercio do
+bric--brac.
+
+Falta-nos a alta noo de solidariedade patriotica, falta-nos o desapego
+dos bens de fortuna, falta-nos o largo espirito de abnegao, falta-nos
+a illimitada liberalidade cavalleirosa, e falta-nos a f dos nossos
+avs.
+
+Na architectura trabalhamos unicamente para ns mesmos, sem cuidados de
+futuro, sem pensamento de continuidade de raa ou de familia,
+deslembrados de que teremos vindouros e de que teremos netos.
+
+Entre as nossas antigas construces hydraulicas ha o aqueducto de
+Elvas, que levou cem annos a fazer. Varias geraes successivas
+acarretaram para essa construco os materiaes; e lentamente,
+pacientemente, foram collocando pedra sobre pedra, para que um dia a
+agua chegasse a Elvas, e bebessem d'ella os netos dos netos d'aquelles
+que de to longe principiaram a recolhel-a e a canalisal-a. Uma tal
+empresa a humilhao e a vergonha do nosso tempo, imcapaz de pagar com
+egual carinho ao futuro aquillo que deve previdencia, aos sacrificios
+e aos desvelos do passado.
+
+O nosso ideal na arte de construir que a obra se faa em pouco tempo e
+por pouco dinheiro. Vamos abandonando cada vez mais, de dia para dia, a
+pedra e a madeira, em que nimiamente moroso para a morbida inquietao
+do nosso espirito o trabalho de desbaste, de esquadria e de lavor.
+Adoptamos, como material typico do nosso systema de edificar, o ferro, o
+tijolo e a pasta. A casa cessou de ser uma obra de architectura para se
+converter em uma empreitada de engenharia, e os delicados artistas da
+pedra, da madeira e do ferro forjado abdicam da sua antiga misso
+perante os subalternos obreiros encarregados de fundir, de amassar e de
+enformar a vapr a habitao moderna e o moderno edificio publico--a
+gare, o quartel, o mercado ou a cadeia.
+
+O seculo XIX, se com a impotencia de continuar a obra monumental dos
+seculos que o precederam, accumulasse a incapacidade de comprehender e
+de venerar essa obra, representaria um pavoroso retrocesso na historia.
+No succede assim, porque so inviolaveis as leis do progresso. Ao
+seculo XIX coube patentear o estudo mais dedicado e o conhecimento mais
+perfeito da arte antiga. A sciencia archeologica e a critica d'arte
+nunca em nenhum outro periodo da civilisao chegaram eminencia
+attingida pelos investigadores contemporaneos. tambem em sua maneira
+um colossal monumento, dos mais gloriosos para a intelligencia, o que
+erigiu a erudio do nosso tempo, constituindo scientificamente a
+archeologia, definindo o seu methodo, fixando os seus limites,
+especialisando o trabalho dos seus contribuintes, distinguindo da
+archeologia litteraria a archeologia da arte, ramificando para um lado a
+paleographia, a epigraphia, a ecdotica, a museographia e a propedeutica,
+para o outro as bellas artes, as artes industriaes, a numismatica, e
+ainda como desdobramento d'estes estudos a iconographia, a mithologia
+figurada e a symbologia, particularisando emfim estas investigaes a
+cada povo e a cada epocha da humanidade, creando d'esse modo a
+prehistoria, a egyptologia, a syriologia, que to amplo claro teem
+derramado sobre os problemas da origem do homem, da distribuio das
+raas, da formao das linguas. Fixaram-se pelas escavaes de Troia, de
+Mycenes, de Chypre, de Santorin e de Rhodes as origens orientaes e
+pelasgicas da arte grega. Corrigiu-se na historia da ceramica a confuso
+existente entre os vasos pintados gregos e etruscos. Refez-se
+completamente sobre novos elementos e por um criterio novo a historia da
+olaria, a da toreutica, a da glyptica, a da esculptura em barro, a dos
+bronzes, a das joias, a da tapearia, a da illuminura. Desvendou-se o
+conhecimento da tachigraphia hieratica e dos alphabetos hieroglyphicos,
+ideographicos e phoneticos, que precederam o alphabeto grego e o latino.
+Creou-se a critica scientifica dos textos. Colligiram-se e
+classificaram-se as inscripes gregas e romanas dessiminadas pela
+Europa, e definiu-se o methodo de as datar. Leram-se os carcomidos
+graffitos de Pompeia, os papyrus carbonisados de Herculanum, as cartas
+lapidares da edade mdia e os palimpsestos de Plauto, de Cicero, de
+Marco Aurelio, de Tito Livio, de Euripedes e dos scribas carolingeanos.
+Interpretaram-se os documentos de procedencia egypcia, copta ou phenicia
+sepultados nos jazigos das mumias. E os mysteriosos caracteres
+hieroglyphicos e cuneiformes das inscripes egypcias, caldas, assyrias
+e persas foram simplesmente trasladados a vulgar. Determinou-se a edade
+dos manuscriptos pelo systema das abreviaturas e da pontuao e pela
+evoluo da letra desde a oncial da _Iliada_ no palimpsesto
+greco-syriaco do Museu Britannico at a minuscula italiana egual dos
+primeiros caracteres da imprensa. Inspeccionaram-se e inquiriram-se as
+primitivas habitaes do homem, as suas primeiras fortificaes, os seus
+mais antigos sepulcros,--a caverna, a cidade lacustre, os castros e os
+dolmens. Na architectura principiou-se a estudar por novos meios de
+critica as causas dos seus progressos e da sua decadencia, prendendo
+assim pelos mais estreitos vinculos ao destino da arte o destino do
+homem. Por tal modo se transfigurou completamente desde o seu alicerce
+at o seu remate o vasto edificio da historia, segundo a resumida
+formula dada por Champolion Figeac: que todos os monumentos, ainda os
+mais communs e os mais grosseiros, conteem factos cujo conjuncto como
+a estatistica moral das sociedades extinctas.
+
+D'esse novo criterio resultou a atteno especial com que todos os povos
+cultos principiaram a considerar a obra material do passado; e assim
+nasceu, com uma nova palavra, a nova maneira de _restaurar_ os edificios
+publicos.
+
+Em mais de um documento da edade mdia se encontram provas de que os
+antigos poderes no abandonavam, to completamente como hoje se poderia
+suppor, ao accaso de qualquer iniciativa, sem beneplacito do estado, as
+edificaes consagradas ao publico. No _Codigo de las partidas_, lei
+6., titulo X, dizia Affonso o Sabio, n'aquella saborosa lingua de que
+mais tarde se desdobrou o portuguez e o castelhano: Por bienaventurado
+se debe tener todo home que pueda facer eglesia, do se ha de consagrar
+tan noble cosa et tan sancta como el cuerpo de Nuestro Seor Jesucristo,
+et como quiere que todo home mujer la puede facer a servicio de Dios,
+pero con mandamiento del obispo, como es dicho en la ley segunda deste
+titulo, con todo eso debe catar dos cosas el que la ficiere, que la faga
+complida et apuesta; et esto tambien en la labor como en los libros et
+en las vestimientas...
+
+Affonso V escreve de Almada, em 1467, aos juizes, vereadores,
+procuradores e homens bons da cidade de Evora para que se permitta a
+Sueiro Mendes levar duas pedras que estavam nos aougues, e eram do
+antigo templo romano, para antipeitos das janellas de uma casa, que a
+esse tempo edificava. E porque as ditas pedras aproveitam pouco honde
+estam e em as ditas casas faram muito, e ainda nobresa as cidades
+haverem em ellas bas casas taes como as do dito Sueiro Mendes, e seu
+fundamento he as faser para ns em ellas havermos de pousar, Ns vos
+rogamos e encomendamos que vos prasa lh'as quererdes dar, e Rodrigo
+Esteves mestre das nossas obras em essa cidade ter cuidado de as tirar
+donde estam, etc. Estas linhas so um trao caracteristico da policia
+do tempo. D'ellas se deduz que era preciso no seculo XV requestar a
+interveno regia para bulir em duas pedras de um velho monumento,
+operao que hoje se realisa com menos formalidades, e at, como
+sabido, sem formalidade alguma. Era porm entendido como doutrina
+corrente no desdizer da nobreza de uma cidade que cantarias de stylo
+romano se transpuzessem do edificio a que pertenciam para edificio de
+stylo completamente diverso. Aquillo que modernamente se entende pelo
+neologismo restaurar operao desconhecida dos antigos. A obra
+architectonica seguia sempre e invariavelmente quer em novas
+edificaes, quer em reparao de antigas, o systema e o stylo da epocha
+em que era feita. Sem falarmos do Egypto, da Grecia, de Roma, onde as
+reconstruces se emprehendiam, sem o menor sentimento de respeito pela
+tradio, em vista de celebrar uma gloria coeva com os mesmos materiaes
+que haviam servido glorificao de feitos anteriores, como no arco de
+Constantino feito com as pedras do arco de Trajano, vemos em toda a
+Europa, e mais particularmente em Hispanha e em Portugal, edificios em
+cujos stylos sobrepostos perfeitamente se espelha o independentismo das
+influencias diversas atravez das successivas phases da construco por
+differentes vezes interrompida. Uns nascem genuinamente bysantinos e
+desenvolvem-se romanicos; outros comeam romanicos e concluem gothicos;
+outros, gothicos de nascena, acabam no clacissismo greco-romano do
+renascimento; e frequente nas nossas egrejas entrarmos por um portal
+do seculo XVI para nos defrontarmos com uma capella mr no stylo barroco
+de D. Joo V, de D. Jos ou de D. Maria I. D'esses casos de
+polyarchitectonismo encontramos exemplos em Toledo, em Burgos, nos
+Jeronymos, na Batalha.
+
+A cathedral de Colonia n'este ponto de vista, um facto particularmente
+expressivo. A construco, principiada no meado do seculo XIII,
+proseguida muito lentamente, suspende-se no fim do seculo XV por
+desanimo de a concluir segundo o plano primitivo. No seculo XVII e no
+seculo XVIII, a nave, abrigada por um tecto provisorio, ornamentada em
+stylo rococo. Smente em 1842 se encetaram os trabalhos de uma
+restaurao authenticamente archeologica, segundo o plano original,
+cabendo o projecto da concluso a um architecto que ao mais profundo
+estudo do stylo ogival reunia o talento mais esclarecido e mais
+perspicaz.
+
+Na historia da cathedral de Milo circumstancias analogas s de Colonia
+veem ainda corroborar a affirmao de que unicamente ao seculo XIX cabe
+o privilegio de restaurar monumentos. A obra de Milo iniciada no seculo
+XIV, interrompida por desavenas entre os architectos, uns allemes,
+outros italianos, outros francezes; continuada no seculo XVI em stylo
+da renascena; e to smente em 1805 a restaurao do monumento no seu
+stylo primitivo, segundo os programmas mais tarde definidos, se achou
+determinada por Napoleo I, o qual pela vastido do seu genio, ainda que
+pouco propicio aos humildes, muitas vezes se adeantou do seu tempo, e em
+muitas campanhas da intelligencia indicou de antemo o ponto da
+victoria, assim como ao principiar a campanha de Italia assignalava na
+carta do Piemonte o logar de Marengo.
+
+Foi Vitet, nomeado inspector geral dos monumentos historicos em 1830,
+quem primeiro indicou em Frana o programma das restauraes
+architectonicas, presentemente seguido em toda a parte:--em Hispanha,
+onde depois da real ordem de 4 de maio de 1850, se no emprehende obra
+de especie alguma nos edificios monumentaes sem prvia consulta da
+commisso dos monumentos historicos e artisticos; em Inglaterra e na
+Allemanha, que haviam precedido a Frana na proteco da arte nacional;
+na Italia, emfim, na Belgica, na Dinamarca, na Suecia, na Noruega, na
+Grecia, na Turquia.
+
+Violet-le-Duc, o erudito mestre a quem tanto deve o ensino da
+archeologia e das artes, completou o programma de Vitet, no smente
+ampliando os seus preceitos, mas dando da applicao d'elles o mais
+notavel exemplo na restaurao do castello le Pierrefonds.
+
+Conhecidos os livros de Violet-le-Duc, estudados com to paciente
+laboriosidade, escriptos com to lucido e penetrante engenho, e
+conhecida a legislao europa baseada n'esses estudos to completos e
+to perfeitos, a questo puramente administrativa de dar aos monumentos
+nacionaes de cada povo a proteco que se lhes deve, quando menos por
+simples solidariedade intellectual na civilisao do nosso tempo,
+questo perfeitamente illucidada e rigorosamente definida.
+
+Vejamos agora qual em Portugal, perante as responsabilidades da
+administrao, o reflexo das ideias, cuja historia procurei resumir, com
+o fim de pr o assumpto na perspectiva que a sua magnitude pede.
+
+
+Levaria muito tempo e seria excessivamente triste ennumerar todos os
+attentados de que teem sido e continuam a ser objecto, perante a mais
+desastrosa indifferena dos poderes constituidos, os monumentos
+architectonicos da nao, os quaes assignalam e commemoram os mais
+grandes feitos da nossa raa, sendo assim por duplo titulo, j como
+documento historico, j como documento artistico, quanto ha, sobre a
+terra em que nascemos mais delicado e precioso para a honra, para a
+dignidade, para a gloria da nossa patria.
+
+Dos desacatos de lesa magestade nacional, a que tenho a dr e a vergonha
+de me referir, uns teem caracter anonymo, outros affectam directamente a
+cumplicidade official. Os primeiros so uma consequencia de desdem; os
+segundos so um resultado de incapacidade.
+
+A auctoridade, incerta, vagamente definida, a quem tem sido confiada a
+conservao e a guarda da nossa architectura monumental, procede com
+esse enfermo, de quem se incumbiu de ser o enfermeiro, por dois methodos
+differentes: umas vezes deixa-o morrer; outras vezes, para que elle
+mesmo no tome essa resoluo lamentavel, assassina-o. Na primeira
+hypothese a calamidade correlativa chama-se _abandonar_. Na segunda
+hypothese a catastrophe correspondente chama-se _restaurar_,--gallicismo
+technico, recentemente introduzido no vocabulario nacional, mas ainda
+no definido vernaculamente na applicao pratica.
+
+Para o argumento que tenho em vista produzir, tomarei unicamente d'entre
+os differentes desastres com que se deshonram e enxovalham os nossos
+monumentos, o desastre denominado _restaurao_.
+
+Serei laconico, sem deixar de ser sufficientemente expressivo, porque os
+factos so de uma eloquencia que esmaga toda a especie de replica na
+materia de que se trata.
+
+Aqui temos tres edificios restaurados ou em restauro a expensas da
+nao, sob os auspicios do estado: Os Jeronymos, a Madre de Deus e a
+Batalha.
+
+Nos Jeronymos a construco desmoronou-se, sem provocao alguma de
+agente extranho, por mero desequilibrio de si mesma. Inutil todo o
+commentario. A restaurao, ainda antes de terminada, cahiu. Que prova
+mais lastimavelmente completa, evidente e cabal, de que foi
+insufficientemente estudado, logo nos seus primordiaes elementos, o
+programma de tal restaurao?! As seguranas de execuo falham
+precisamente na parte mais rudimentar do problema.
+
+Attente-se em que no se trata ainda de uma questo de archeologia, nem
+de uma questo de arte; no se apresenta nenhuma d'essas subtis
+difficuldades inherentes ao estudo das frmas constructivas ou
+ornamentaes, ao discernimento dos diversos stylos, ao pleno conhecimento
+das antigas escolas no tempo e na regio a que o edificio pertence.
+Resolve-se apenas realisar uma simples tarefa de construco, e esquece,
+incumbindo esse trabalho de simples mestre de obras ao mais distincto
+dos scenographos, que a primeira condio de um architecto a quem se
+confia a restaurao de um monumento que elle seja, antes de tudo,
+acima de tudo, o mais habil, o mais experiente, o mais perito de todos
+os constructores.
+
+Na Madre de Deus, onde alis o primitivo portal da rainha D. Leonor foi
+discretamente reconstituido na moderna fachada do edificio, temos o
+infortunio de ir encontrar no consecutivo restauro de uma fabrica do
+tempo de D. Joo III novos capiteis de columnas, nos quaes em vez da
+ornamentao vegetal do nosso seculo XVI se v reinar nos entablamentos
+a figurao, absolutamente imprevista e inopinada, de uma locomotiva de
+caminho de ferro, arrastando fumegante o respectivo comboyo, tudo
+lavrado mui laboriosamente em pedra, e demandando um tunel. Este
+assombroso phenomeno de pathologia archeologica estou convencido de que
+dispensa ainda mais do que o caso dos Jeronymos a investigao da
+autopsia.
+
+Nas restauraes da Batalha, umas j em realidade, outras ainda em
+projecto, falta, primeiro que tudo, o meditado programma de conjuncto no
+ponto de vista archeologico, no ponto de vista artistico e no ponto de
+vista technico, visando o assumpto por todos os lados de que elle pode
+ser encarado: qualidade do solo, influencias da atmosphera, escolha de
+materiaes, condies de resistencia e de equilibrio, systema geral de
+structura, determinao do stylo, desde as suas grandes linhas e dos
+seus motivos dominantes at os ultimos desenvolvimentos d'essas linhas,
+at o extremo desdobramento d'esses motivos, mo de obra, direco e
+apprendisagem em todas as officinas de que depende o restauro, etc.
+
+Seria por um programma d'essa natureza que a competencia do architecto
+restaurador deveria principiar a affirmar-se. Perante essa prova,
+comprehendendo o estudo do monumento, plantas, alados, photographias,
+desenhos de projectos, systemas de stylisao, methodos de estudo e de
+trabalho, regimentos de officinas, etc., poderiamos ns, que no somos
+architectos, mas simples criticos, fiscaes da arte em nome do publico,
+decidir se o restaurador da Batalha est ou no est ao nivel da sua
+misso. Sem prova d'essa ordem que cotejemos com os requisitos a que
+teem de satisfazer, nos paizes extrangeiros, os architectos a quem se
+entrega a restaurao de um monumento, ns no podemos julgar seno de
+um modo muito imperfeito, tendo de entrar mais ou menos no exame da
+execuo, para o qual nos fallece a competencia profissional.
+
+Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque o unico architecto portuguez de
+quem conhecemos, com relao historia do edificio e ao plano da
+restaurao da Batalha, estudos especiaes, consubstanciados n'uma
+memoria publicada, depois da morte do auctor, em 1867. A monographia a
+que me refiro, alm de mui interessantes revelaes sobre os vandalismos
+perpetrados pelos ultimos frades que habitaram o mosteiro e chegaram a
+quebrar os preciosos vidramentos das janellas para presentearem os
+visitantes com cabeas das figuras de que elles se compunham, contm
+alguns principios mui judiciosos e bem definidos, sobre o modo como esse
+perito restaurador, que a influencia do rei D. Fernando fizera nomear,
+comprehendia a sua delicada misso. E excellente o methodo por elle
+proposto para a conservao das Capellas imperfeitas. Notam-se alguns
+excessivos e infundados rigores de zelo, como na parte em que ao
+restaurador repugna adoptar, para o fim de pr o monumento ao abrigo das
+intemperies, processos de resguardo mais perfeitos que os conhecidos ao
+tempo da construco primitiva, taes como, por exemplo, o emprego de
+cimentos modernos na vedao de uma cobertura, etc. A memoria programma
+de Mousinho de Albuquerque no obstante um trabalho de incontestavel
+merecimento, que muito augmenta de valor se levarmos em conta que esse
+illustre architecto escrevia em 1840, quatro annos depois d'aquelle em
+que o rei D. Fernando visitou o edificio, chamando para elle pela
+primeira vez a atteno dos poderes publicos.
+
+At Mousinho a architectura da Batalha foi na litteratura portugueza um
+puro thema de rhetorica. O romantismo tinha-nos trazido a moda do
+gothico por via de Chateaubriand e de Victor Hugo. Os romances, as
+xacaras, as baladas e os solaus, com as suas castells, os seus
+paladinos, os seus pagens, os seus menestreis e os seus respectivos
+attributos--lanas, montantes, elmos, guantes de ferro, falces, adagas,
+bstas e bandolins, pediam um scenario de fortificao feudal, fossos e
+pontes levadias, revelins, caminhos de ronda, ameias, torres de
+menagem, amplas chamins com trasfogueiros forjados, ogivas e abobadas.
+As egrejas, para os effeitos de grandiosidade no stylo, sempre que no
+eram ermidas eram cathedraes. Os romanticos chamavam cathedraes a todos
+os grandes templos, como o da Batalha, o do Carmo e o dos Jeronymos. O
+romance historico, tanto em voga durante a gerao litteraria de
+Alexandre Herculano, tinha exigencias decorativas analogas s da poesia
+cavalheiresca. Os estudos de critica e de archeologia artistica, tendo
+por objecto os nossos monumentos architectonicos, davam em resultado
+geral uma especie de lenga-lenga de eruditos ciceroni.
+
+A Batalha tem sido constantemente, desde a primeira appario da
+_Abobada_ no _Panorama_, at hoje, o _grande livro de marmore_, o
+_immortal poema_, a _Divina Comedia portuguesa_, a triumphante
+affirmao da nacionalidade independente, definitiva, fundada pela
+vontade do povo, pela espada do mestre de Aviz, pela lana de D. Nuno
+Alvares Pereira e pela penna de Joo das Regras.
+
+Com effeito, nada mais bello, na historia nacional, do que o feito
+d'armas de Aljubarrota e o monumento de Nossa Senhora da Victoria,
+destinado a commemorar esse feito, por voto de D. Joo I. Mas d'ahi a
+poder-se dizer que o edificio da Batalha , como a epopa dos
+_Luziadas_, a imagem technica das idas e dos sentimentos da patria,
+medeia--me parece--um largo abysmo.
+
+Olhemos por um momento a historia d'esta construco.
+
+Frei Luiz de Sousa diz que El-rei chamara de longes terras os mais
+celebres architectos que se sabiam; convocara de todas as partes,
+officiaes de cantaria dstros e sabios; convidara a uns com honras, a
+outros com grossos partidos, e obrigara a muitos com tudo junto. Este
+testemunho precioso e est acima de toda a suspeita, porque nos vem de
+um frade de S. Domingos, que habitou por muitos annos o convento da
+Batalha, e que, como chronista da ordem, conheceu inteiramente pelo
+archivo do convento quanto se sabia da historia da sua fundao.
+
+Frei Francisco de S. Luiz contesta, sem provas, que fossem architectos
+celebres chamados de longes terras, como diz Sousa, os iniciadores da
+grande obra, e cita como auctor do risco Affonso Domingues, porque
+d'elle se sabe que teve parte na direco das obras nos primeiros annos
+da fundao, e no consta de documento authentico que qualquer outro
+architecto interviesse nos trabalhos durante os dezeseis annos que
+medeiam entre o seu comeo e o anno da morte de Affonso Domingues, em
+1402.
+
+Todos os que se seguiram a Frei Francisco de S. Luiz, adoptaram esta
+opinio; de modo que se tornou uma cousa to corrente como se estivesse
+demonstrada que foi Affonso Domingues quem construiu a Batalha.
+
+James Murphy, porm, no seu livro _Travels in Portugal_, affirma, por
+_informaes que lhe foram dadas em Lisboa por empregados da Torre do
+Tombo_, que o encarregado da construco foi o architecto inglez Stephan
+Stephenson, socio das _free and accepted masons_, que tinham a sua sde
+principal em York. Stephenson teria vindo a Portugal por interveno da
+rainha D. Filippa, mulher de D. Joo I, ingleza de nao, filha do duque
+Joo de Lencastre e neta de Eduardo III.
+
+O conde de Rakzynski diz a este respeito, que desde que examinou as
+gravuras do convento da Batalha, na obra _in folio_ de Murphy, se
+convenceu de que a analogia existente entre a Batalha e a cathedral de
+York no permitte a minima duvida acerca da origem commum d'estes dois
+edificios. Que o plano da igreja da Batalha--diz Rakzynski--seja obra
+de um portuguez ou de um inglez, a verdade que as duas igrejas
+nasceram de inspiraes artisticas analogas, homogeneas e
+contemporaneas, e o estylo de ambos me parece identico. Esta impresso
+tornou-se para mim ainda mais forte, depois que visitei a Batalha.
+
+Temos, pois, sobre a origem estrangeira d'este monumento tres votos
+importantes: o de Fr. Luiz de Sousa, o de James Murphy e o do conde de
+Rakzynski, aos quaes recentemente se juntou o architecto Haupt.
+
+Na Torre do Tombo no se encontra documento algum relativo construco
+da Batalha, nem vinda de Stephenson a Portugal. Em 1845, Alexandre
+Herculano e o Visconde de Juromenha, auxiliados pelos officiaes da
+Torre, fizeram as mais demoradas e escrupulosas pesquizas para o fim de
+satisfazer a curiosidade de Rakzynski, e nada appareceu.
+
+ claro que esta ausencia de vestigios no real archivo nada prova sobre
+o facto de ter estado ou no em Portugal o architecto de York. No
+consta to pouco, dos documentos existentes no archivo, que tivesse
+estado em Portugal durante nove annos o insigne esculptor italiano
+Andrea Contucci, emulo de Miguel Angelo; e no emtanto este facto acha-se
+fra de toda a contestao.
+
+O cardeal patriarcha Frei Francisco de S. Luiz, queixando-se da
+negligencia e da superficialidade com que Frei Luiz de Sousa falla dos
+primeiros architectos da Batalha, e propondo-se demonstrar que o auctor
+da obra foi Affonso Domingues, diz que no v razo para pr em duvida a
+habilidade dos nossos compatriotas, suppondo que houvessemos de reclamar
+a assistencia de estrangeiros em uma epocha como a de D. Joo I, na
+qual, exceptuadas as italianas, _nenhuma nao da Europa se achava mais
+adeantada que a nao portugueza, tanto na arte da architectura, como em
+todas as outras_.
+
+O patriotismo imprudentemente levado at s affirmaes da natureza das
+de Frei Francisco de S. Luiz, tem um inconveniente grave, que o de
+fazer sorrir os estrangeiros, da ingenua applicao dos nossos
+sentimentos civicos historia da arte europa.
+
+Hoje, toda a gente sabe, porque esta ordem de conhecimentos tem-se
+vulgarisado muito, que o systema gothico ou systema ogival, a que
+primitivamente se chamou _Opus francigenum_, teve a sua origem na ilha
+de Frana e na regio circumstante. Foi n'esses logares que at o seculo
+XII se construiram os primeiros edificios gothicos. O novo stylo chega
+em Frana aos seus mais completos desenvolvimentos no seculo XIII, e
+d'essa epocha datam as cathedraes de Amiens, de Pariz, de Reims e de
+Chartres.
+
+Os allemes e os inglezes teem contestado Frana a prioridade do
+emprego do arco ogival e dos desenvolvimentos architectonicos que d'elle
+procedem. O que, porm, est acima de todo o litigio, que o systema
+ogival, chamado stylo gothico, ou gothico puro da igreja da Batalha, no
+procede da inveno dos paizes meridionaes, de cu azul, mas sim das
+regies nevoentas de longos e rudes invernos.
+
+No norte da Europa, durante a edade mdia, tratou-se de edificar a
+grande cathedral que dsse um abrigo espaoso s numerosas congregaes
+de fieis e de cidados; como a pedra escasseava, como a neve cahia em
+abundancia e permanecia por longo tempo, procurou-se um modo de
+construco, que, sem difficultar a circulao da gente com grandes e
+repetidos corpos de cantaria no interior do edificio, permittisse
+empregar materiaes menos solidos e fazer tectos elevados e agudos, que,
+no pesando excessivamente sobre os membros destinados a sustental-os,
+deixassem facilmente resvalar e escorrer a neve pelas superficies
+exteriores, impedindo o mais completamente possivel a infiltrao da
+humidade no interior do templo.
+
+Foi d'estas causas, determinadas pela natureza do clima e do solo, pelas
+condies sociaes, e no de um mero capricho inventivo, que resultou
+para os architectos dos paizes septentrionaes o pensamento de readoptar
+a abobada de aresta, que os romanos, depois de a haverem empregado,
+puzeram de parte, para o fim de dar logar na construco das basilicas
+christs enorme quantidade de columnas legadas pelo paganismo.
+
+Assim foi que nasceu, bem longe de Portugal e inteiramente fra das
+influencias cosmicas e das influencias sociaes geradoras do caracter e
+da indole da nossa raa, que nasceu o stylo architectonico da egreja da
+Batalha.
+
+A affirmativa de que nenhuma nao da Europa, com excepo da Italia, se
+achava mais adeantada do que Portugal do tempo de D. Joo I, nas artes
+da architectura, smente prova, da parte do cardeal frei Francisco de S.
+Luiz, que este benemerito academico e illustre litterato, ou no viajou
+nunca em Frana e na Allemanha, ou no visitou n'estes paizes os
+monumentos anteriores ao fim do seculo XIV.
+
+A egreja da Batalha, que data d'essa epocha, chronologicamente um dos
+ultimos edificios em stylo gothico puro construidos na Europa, e, apesar
+de toda a sua belleza, est, como obra d'arte e como magnificencia
+monumental, bastante abaixo de alguns outros edificios construidos cem
+ou duzentos annos antes, como a cathedral de Strasburgo (1015 a 1275),
+Reims (1215), Amiens (1222), Colonia (1248) a Sainte-Chapelle em Pariz
+(1248), Notre-Dame (1275), etc.
+
+Bastaria que o auctor da interessante memoria sobre a construco do
+convento da Batalha, encorporada na colleco das memorias da Academia,
+tivesse olhado em Pariz para as estatuas de Sainte-Chapelle e para os
+baixos-relevos da egreja de Notre-Dame; que tivesse observado um momento
+as esculpturas de Chartres, de Reims e de Amiens; para ter uma ida do
+enorme abysmo que no tempo de D. Joo I nos distanciava ainda dos
+grandes mestres da architectura e da esculptura franceza, que se
+chamaram Pierre de Montreuil, Thomas e Regnaut de Carmont, Jean de
+Chelles, Hugues Libergier e outros artistas leigos, sem contar os muitos
+monges anonymos com que se illustrou na historia da arte, a ordem de
+Cluny, no seculo XII e no seculo XIII.
+
+Na Allemanha, temos, precedendo a Batalha, a cathedral de Colonia; na
+Inglaterra Canterbury, Westminster, Salisbury, Lincoln e York; e em
+Hispanha, Burgos e Toledo.
+
+Anterior Batalha no ha em Portugal monumento algum que prenuncie,
+prepare e explique a appario d'este.
+
+Nos primeiros tempos da monarchia, em quasi todo o periodo affonsino, os
+artistas e os obreiros eram em geral arabes ou mouros. O portuguez era
+como os seus reis, soldado ou agricultor. Para as especulaes
+estheticas faltava-lhe a paz, a tranquillidade, a riqueza. Mal lhe
+chegava o tempo para desbravar o slo e para bater os inimigos, que de
+todas as partes rodeavam a pequena sociedade nascente, aventurosa e
+aguerrida.
+
+A Batalha, com a delicada pureza das suas linhas, j ento consagradas
+na Europa, surge repentinamente, imprevistamente, esporadicamente, na
+corrente da architectura portugueza, como a flor desconhecida de uma
+planta exotica.
+
+D'onde que foi transplantado para terra portugueza este producto de
+uma civilisao superior, em que o desenvolvimento da vida municipal,
+iniciada pelas fortes corporaes operarias e mercantis, impellira as
+communas a construirem as luxuosas cathedraes, que eram ao mesmo tempo,
+nas cidades novas, um asylo de religio e um fco de vida civil?
+
+No sei responder peremptoriamente a esse quesito.
+
+O problema assim estreitado , no fim de contas, de pura curiosidade.
+
+O architecto inglez Hope, na sua _Historia da Architectura_, diz que o
+estylo ogival no tem propriamente nem uma patria nem uma nacionalidade.
+S poderia ter nascido no seio de alguma ordem religiosa ou de uma
+corporao de pedreiros livres, porque o clero e os pedreiros livres
+eram as unicas corporaes que na edade mdia possuiam os conhecimentos
+necessarios para o plano e para a execuo dos edificios sagrados, quer
+para as communidades monasticas, quer para a egreja latina em geral.
+
+Hope acrescenta: como os conventos e sobretudo as _lojas_ dos pedreiros
+livres se compunham de cidados de todos os paizes, que reconheciam a
+supremacia da egreja romana, no seria possivel determinar positivamente
+os inventores do stylo ogival quando mesmo se houvesse descoberto o
+logar preciso do seu bero.
+
+Em toda a parte onde apparecem as primeiras amostras d'esse stylo ellas
+no so a obra de individuos de um paiz determinado, mas sim de uma
+congregao encerrando no seu gremio homens de todas as naes.
+
+Na _Real Encyclopedia_ de Leipzig l-se com referencia s associaes
+maonicas que ellas se compunham de homens de arte de todos os paizes
+formando uma s corporao dirigida por um ou por varios chefes.
+Protegidos por privilegios ou cartas patentes emanadas das auctoridades
+ecclesiasticas e seculares, emprehendiam as maiores construces em toda
+a Europa e so auctores d'esses magnificos edificios chamados gothicos e
+que antes se deveriam chamar _Altdoutsch_. Achamos o stylo de todas as
+construces d'essa poca fundamentalmente identico. As associaes
+alludidas compunham-se de architectos e de obreiros italianos, allemes,
+flamengos, francezes, inglezes, escocezes e at gregos. Foi d'essa
+maneira que nasceram os monumentos seguintes: o _mosteiro da Batalha em
+Portugal_, a cathedral de Strasburgo, a de Colonia, a de Meissen, a de
+Milo, o convento do Monte Casino, e todos os edificios notaveis da
+Inglaterra.
+
+Esta hypothese--e chamo-lhe hypothese, porque no conheo os documentos
+positivos em que se baseia o escriptor allemo--condiz perfeitamente com
+a lio de Frei Luiz de Sousa, e talvez de todas a mais verosimil com
+relao aos constructores da Batalha.
+
+Que fosse, porm, uma associao de artistas e de operarios; que fosse
+Stephan Stephenson, como indica Murphy, de quem devemos crer que no
+inventou esse nome e o recebeu, como diz, dos empregados do archivo da
+Torre do Tombo; que fosse, como pretende Hope, mestre Ouet, Huguet ou
+Huet, de nao inglez, que trabalhou nas obras e cujo nome Frei
+Francisco de S. Luiz encontrou como testemunha no contracto de
+aforamento, em que se fala de Affonso Domingues; como quer que seja,
+emfim, a hypothese que menos verosimilhana offerece a de ter sido o
+monumento delineado e construido pelo mestre portuguez Affonso
+Domingues, como em Portugal se tem geralmente escripto.
+
+O mais superficial exame aos edificios anteriores Batalha manifesta do
+modo mais evidente que no tinhamos nem escola, nem tradies, nem
+tendencias de que procedesse um artista como o que delineou e construiu
+a egreja da Batalha.
+
+Vilhena Barbosa, nos _Monumentos de Portugal_, repete ainda a verso
+relativa a Affonso Domingues como constructor da Batalha, mas
+accrescenta: muito para admirar, no devo negal-o, que houvesse
+n'aquella poca em Portugal um artista to consumado como o que fez o
+risco do monumento, achando-se a architectura entre ns, antes da
+execuo d'esta obra em um estado, que, se no era de grande atrazo,
+tambem no se lhe poder chamar de adiantamento; em um estado pelo menos
+que nenhuma memoria ou documento nos auctorisa para o considerarmos como
+escola d'onde pudesse sahir um artista to completo.
+
+A seguir, Vilhena Barbosa, procurando conciliar o arrojo do seu reparo
+com a tradio geralmente recebida, exclama um tanto contricto: N'este
+caso lanarei mo de uma conjectura, no pela necessidade de sahir do
+embarao, mas porque me parece acceitavel e muito plausivel. Vem a ser
+que talvez Affonso Domingues tivesse sahido da sua patria antes da
+acclamao do mestre d'Aviz, com o intento de se instruir e aperfeioar
+na sua arte. Bem sei que n'essa poca no eram dados os artistas, pelo
+menos os nossos, a procurar taes meios de estudo. Entretanto, tendo
+estado em Portugal, no reinado de D. Fernando e com alguma demora, dois
+principes inglezes, o duque de Cambridge, e um seu irmo natural, filhos
+de D. Duarte III, rei de Inglaterra, pode ser que Affonso Domingues,
+levado pelo amor da arte ou por outro qualquer respeito, se resolvesse a
+acompanhar algum d'elles na sua volta para Inglaterra, paiz classico da
+architectura gothica no genero da Batalha.
+
+Confessemos que preciso ter vontade de attribuir por fora a Affonso
+Domingues uma obra que este no podia fazer, para formular a conjectura
+de que _talvez elle se tivesse resolvido_ a ir a Inglaterra com os
+filhos de Duarte III.
+
+Ainda quando admittida a singular camaradagem do duque de Cambridge e de
+seu irmo com Affonso Domingues, camaradagem conjecturada por Barbosa, e
+de que no ha o minimo vestigio historico, no ser talvez inutil
+reflectir que depois d'essa excurso a Inglaterra--paiz to debilmente
+_classico na architectura gothica_, no tempo de Duarte III, que no
+tinha um architecto indigena, nem monumento gothico algum, que se possa
+pr em confronto com as obras magnificas do continente--Affonso Domingos
+voltaria de Inglaterra, no tocante ao conhecimento da arte de edificar,
+proximamente no mesmo estado em que para l tivesse ido, o que
+facilmente se demonstra, como vamos vr.
+
+Sabe-se que desde o seculo X se organisaram na Italia, iniciadas pela
+Lombardia, essas associaes de artistas seculares, architectos,
+esculptores, illuminadores, imaginarios, vidristas, entalhadores e
+canteiros, empregados pela egreja nas vastas obras da primeira
+renascena da Europa, subsequentes aos terrores do millenio, que por
+muitos annos paralysaram todas as faculdades artisticas da humanidade
+estupefacta perante a prophecia pavorosa do proximo aniquilamento
+universal.
+
+Estas confrarias, creadas e protegidas pelo clero, tomaram o nome geral
+de _franco-maonaria_ ou de _pedreiros livres_, e compunham-se de
+associados, que, depois de haverem passado por todos os minuciosos
+tramites de uma longa aprendizagem, adquiriam geralmente o direito de
+exercer a profisso na qualidade de mestres.
+
+Com a rapida e maravilhosa prosperidade das novas cidades da Italia
+Septentrional nasceram egrejas sumptuosas e conventos magnificos, que em
+poucos annos cobriram uma grande superficie da Lombardia e dos Estados
+adjacentes.
+
+Chegado o momento previsto em que as ordens religiosas de Italia
+cessaram emfim de ter obras em que empregar a associao, cada vez mais
+numerosa e mais habil, dos pedreiros livres, pensaram estes em dilatar a
+sua actividade fora do solo natal.
+
+Este expatriamento no representava unicamente uma expanso artistica
+mas tambem uma forte propaganda e uma consideravel conquista
+internacional da egreja latina.
+
+Essa grande companhia edificadora de monumentos religiosos, de
+cathedraes e de mosteiros, mobilisada n'uma companhia de arte atravez do
+Norte da Europa, constituia como que um solido reforo esthetico,
+temporal, naturalista e humano sagrada legio espiritual vulgarisadora
+do credo latino pela ramificao das ordens religiosas sobre todas as
+latitudes da terra.
+
+Cada egreja e cada convento edificados em paizes estranhos e longinquos
+eram--diz Hope--um novo feudo adquirido ao papa.
+
+A egreja comprehendeu inteiramente o alcance d'este grande facto, to
+importante na historia da arte romanica, da arte lombarda, da arte
+gothica e de todas as artes liberaes na Europa, depois de cahida a
+influencia da antiga civilisao hellenico-romana.
+
+Como incentivo e amparo da vasta odyssa, a que se aventuravam os
+denominados pedreiros livres receberam ento da auctoridade pontificia,
+emminente a todos os conflictos e discordias de soberania para soberania
+e de nacionalidade para nacionalidade, privilegios incomparaveis,
+destinados a assegurar confraria errante uma especie de inviolavel
+monopolio esthetico e artistico, como o que em nossos dias poderia
+resultar de um congresso universal, tendo em vista pr acima de qualquer
+contingencia politica um interesse commum a toda a especie humana.
+
+Diplomas e bulas papaes confirmaram para todos os paizes, que houvessem
+reconhecido a f catholica apostolica romana, todos os privilegios que a
+confraria dos pedreiros livres havia recebido dos Estados de que era
+oriunda.
+
+Ella dependeria directamente e unicamente da auctoridade pontificia,
+isenta de todas as leis e estatutos locaes, dos editos dos reis ou dos
+regulamentos dos municipios e de toda e qualquer imposio obrigatoria
+para os naturaes do paiz em que se encontrasse.
+
+S associao caberia o direito e o poder de taxar os salarios, e de
+prover em capitulo, sem appellao nem aggravo, a quanto dissesse
+respeito ao seu proprio governo. Era expressamente prohibido a todo o
+artista no iniciado nem admittido na associao estabelecer para com
+ella qualquer especie de concorrencia, assim como era defeso, sob pena
+de excomunho, a todo o soberano manter os seus subditos n'esse acto de
+rebeldia s prescripes da egreja.
+
+Esta _Internacional_ carolingiana, bem mais poderosa do que a
+_Internacional_ napoleonica sahida dos primeiros movimentos socialistas
+do segundo imperio, desenvolveu-se rapida e portentosamente. Muitos
+gregos vindos de Constantinopla se reuniram aos primeiros artistas
+confederados, vindo em seguida allemes, francezes, belgas e inglezes.
+
+Desdobraram-se successivamente as diversas lojas ou series de
+agrupamentos, em que cada dez associados obedeciam a um chefe em
+communicao com os chefes das demais decurias e com a direco central.
+
+Os ecclesiasticos da mais alta categoria, os prelados, abbades mitrados
+e bispos, accrescentavam a fora e o prestigio da associao,
+alistando-se como membros da irmandade.
+
+Todos os soberanos da christandade se gloriavam em honrar com especiaes
+distinces e particulares privilegios as suas lojas nacionaes.
+
+Para o fim de evitar que individuos estranhos associao aproveitassem
+fraudulentamente os enormes beneficios de que ella tinha o privilegio, e
+bem assim para que, em qualquer regio do mundo, cada irmo pudesse
+communicar com os seus consocios, fazendo conhecer a sua iniciao e o
+seu grau na confraria, estabeleceram-se as senhas secretas, os _signaes
+maonicos_, por meio dos
+
+quaes os consocios se reconheciam em qualquer parte, e revestiu-se o
+acto de iniciao e matricula de formalidades solemnes, de provas
+especiaes, de juramentos terriveis, por via dos quaes cada novo confrade
+se obrigava no smente a no revelar a quem quer que fosse os signaes,
+com que mutuamente se entendiam os pedreiros, mas a esconder dos
+estranhos todos os processos technicos e todas as regras do officio, de
+que a associao tinha a posse. Esta collaborao phenomenal dos
+melhores obreiros, de todos os grandes artistas e de todos os sabios do
+mundo, associados da maneira mais engenhosamente completa e perfeita
+para exercer a arte de edificar, elevou a architectura religiosa n'este
+periodo mais alta perfeio scientifica e technica, a que jmais
+chegou a obra da intelligencia e da mo do homem.
+
+Quando a longa e laboriosa gestao de todos os demais ramos do saber
+humano se discriminava apenas em rudimentos embrionarios, de uma
+confuso tenebrosa, a architectura constituia o mais perfeito corpo de
+leis estheticas e de leis scientificas. Crearam-se as mais elevadas e as
+mais caracteristicas frmas de stylo, resolveram-se os mais complicados
+e os mais difficeis problemas de calculo, de geometria e de mechanica,
+acharam-se, emfim, innumeraveis processos chimicos e methodos technicos,
+que se perderam e nunca mais se substituiram, porque com a grande
+confraria dos maons morreu a tradio de que elles tinham a guarda e o
+segredo.
+
+No tempo de Eduardo III a maonaria, que s um seculo depois acabou na
+Inglaterra sob o reinado de Henrique VI, mantinha-se em pleno vigor.
+
+Ora, dado que s muito lentamente e por via de provas espaadas e
+progressivas podia o obreiro no gremio da confraria subir qualificao
+de mestre, e s como simples obreiro podia ser admittido e iniciado,
+dado por outro lado que era tal o segredo sobre os methodos de edificar
+que toda a planta, todo o risco, todo o calculo, todo o estudo graphico,
+era invariavelmente e escrupulosamente destruido immediatamente depois
+de utilisado em qualquer obra, parece-me no haver um excessivo arrojo
+em conjecturar que Affonso Domingues n'uma viagem a Inglaterra, no tempo
+de Eduardo III, nada aprenderia de architectura, ficando estranho
+maonaria, e, tendo-se iniciado n'ella antes de vir construir a Batalha,
+seria ento da maonaria e no d'elle o monumento de que se trata.
+
+Revertendo ao escrupuloso e esclarecido estudo de Mousinho, notemos que
+elle no encontrou nem quem o continuasse nem sequer quem se lhe
+submettesse entre os restauradores que se lhe seguiram. As capellas
+imperfeitas, incomparavel joia da architectura portugueza mais
+caracteristicamente regional, acham-se no mesmo abandono em que ficaram
+em 1843, depois que elle as desinfestou dos parasitas arbustivos e das
+herbaceas, cujas radiculas se tinham por tal modo multiplicado nos
+intersticios das cantarias que em muitos pontos houve que desmontar as
+lageas para extirpar as hervas e refazer os massames substituidos pelo
+intimo estojo vegetal, que inchando por todas as juntas da pedra,
+ameaava desarticular e destruir tudo por uma derrocada geral.
+
+Sem exposio de plano referido s obras que recentemente se tem feito,
+e cuja doutrina nos daria uma base de estudo e de discusso, quem, como
+eu, no tem voto na materia para a resolver por sentena, precisaria de
+entrar em uma longa serie de pacientes raciocinios e de humildes
+demonstraes para pr em evidencia todos os erros que em taes obras se
+teem comettido. Para no tornar pelo emprego d'esse processo,
+excessivamente longo este modesto estudo, tomarei um ponto capital,
+sufficientemente expressivo para dar a medida do criterio empregado na
+restaurao da Batalha.
+
+Pela entrada principal da egreja, semelhana do que succede em grande
+parte das egrejas gothicas, desciam-se na Batalha alguns degraus,--sete
+se me no engano--para chegar ao pavimento da nave central. Um dos
+restauradores que se succederam a Mousinho de Albuquerque, tendo-se por
+assistido de razes plausiveis para modificar o alludido systema,
+rebaixou o terreno exterior ao nivel do pavimento da egreja, e supprimiu
+os degraus, serrando as hombreiras e substituindo as cantarias que lhe
+serviam de base. A porta principal do monumento da Batalha ficou por
+esse modo tendo de altura a dimenso de duas larguras em vez de largura
+e meia approximadamente, segundo a dimenso primitiva. O architecto
+havia previamente submettido o seu projecto ao exame das estaes
+superiores, e o respectivo ministro sanccionara a obra com a sua alta
+approvao.
+
+Ser difficil encontrar em um to breve episodio de construco uma to
+vasta affirmativa de desoladora ignorancia.
+
+Poder parecer excessiva e condemnavel ousadia que um simples curioso se
+arrogue o direito de qualificar de ignorante um architecto em exercicio
+da sua profisso. O erro todavia no caso sujeito to flagrante que no
+supporta defesa. Um barbarismo architectonico est tanto ao alcance de
+um escriptor como um barbarismo grammatical est ao alcance de um
+architecto.
+
+Toda a gente sabe que ha em architectura uma inilludivel medida de
+proporo e de relacionao que se chama a _escala_. Sem escala no ha
+obra de architectura nem ha construco alguma sensata, por mais
+subalterna, por mais infima que ella seja. Na architectura grega a
+unidade abstracta d'essa medida o modulo. Na architectura da edade
+mdia a unidade o homem. N'este simples principio, to magistralmente
+exposto por Violet-le-Duc, se baseia o caracter essencial da
+architectura medieval. D'essa referencia de toda a construco
+pequenez da estatura humana resulta o singular effeito de grandiosidade
+que distingue os monumentos gothicos dos monumentos neo-classicos, Nossa
+Senhora de Pariz de S. Pedro de Roma, ou a egreja da Batalha da egreja
+de Mafra. Para esse effeito contribue o aspecto das successivas fileiras
+da cantaria altura das paredes e das pilastras, porque a escala
+gothica, determinada pela altura do homem, se subordina correlativamente
+s dimenses do material. Assim pela serie das juntas, sempre em
+evidencia na sobreposio das cantarias, a vista calcula rapidamente,
+por instincto arithmetico, a grandeza de uma fabrica como a da Batalha,
+estabelecendo a proporo entre as dimenses da pedra e a estatura do
+homem, e entre a altura do homem e a elevao da nave.
+
+Do que fica exposto resulta que a simples substituio de uma pedra por
+uma pedra de dimenso differente na base de uma hombreira no portal da
+Batalha , em si mesma e isoladamente, como troca de pedra por pedra, um
+grave erro, porque essa base de hombreira, devendo ter tido inicialmente
+a dimenso exacta e precisa, que esquadria da cantaria impe a
+dimenso do bloco, um elemento fundamental da escala pela qual se rege
+todo o edificio; e no pode como tal nem supprimir-se nem alterar-se.
+
+Mas temos de considerar ainda que com essa mudana de pedra se offendeu
+o preceito da unidade, alterando a frma e a dimenso de um dos mais
+importantes membros da construco. O conjuncto de um monumento--diz
+Quatremre de Quincy-- de tal modo combinado, que n'elle se no pode
+nem tirar nem pr nem alterar o que quer que seja. E Violet-le-Du
+desenvolve esse preceito da maneira seguinte: um erro grosseiro
+suppr que um qualquer membro de architectura da edade mdia pode ser
+impunemente accrescentado ou diminuido. N'esta architectura no ha
+membro algum, que no esteja na escala do monumento para que foi
+composto. Alterar esta escala tornar esse membro disforme... Os erros
+de escala que escandalisam em um monumento novo e lhe tiram todo o
+valor, tornam-se monstruosos quando se trata de uma restaurao. As
+dimenses das portas--j dizia Vinhola--devem ser de uma proporo
+relativa escala pela qual se construir o edificio, grandeza das suas
+differentes peas e finalmente s particularidades da obra e do local em
+que esta fr feita. Com relao s portas nas ordens jonica, dorica,
+corinthia e toscana as propores entre a altura e a largura dos
+portaes, acham-se geometricamente determinadas pelos discipulos de
+Vitruvio. Na architectura gothica a porta representa porm um papel mais
+preponderante que em qualquer outro systema de construco. De hora
+avante--proclama Violet-le-Duc referindo-se ao periodo medieval--a porta
+deixar de augmentar em proporo com o edificio, porque, sendo feita
+para o homem, conservar sempre a escala propria do seu destino.
+
+A medida de extenso na edade mdia era a toeza, correspondente
+estatura do homem alto. A porta da egreja destinada a dar passagem ao
+portador de uma lana de guerra ou de torneio, de um baculo, de uma cruz
+ou de um pendo, tinha a altura fixa e invariavel de duas toezas a duas
+toezas e meia, segundo as regies em que se construia. O portal gothico
+tem ainda, como titulo ao nosso respeito pela sua inviolabilidade, a
+condio de representar na fachada do templo como que um summario de
+toda a obra. do principio da arcada, de que a porta o motivo
+predominante, que se deduzem e desenvolvem systematicamente todas as
+demais frmas constructivas e ornamentaes na architectura do edificio.
+Archivoltas, nervuras, pilastras, columnelos, janellas, nichos, misulas,
+baldaquinos, trifolios, que so na egreja da Batalha seno applicaes e
+desdobramentos successivos, engenhosamente variados, das linhas
+constitutivas da porta principal do templo?
+
+Quo tragicamente profunda tem que ser a indisciplina official em todos
+os servios da arte para que possa dar-se um attentado da ordem
+d'aquelle a que me refiro:--para que um architecto proponha, para que
+uma repartio publica auctorise, para que um ministro da cora
+sanccione--sem protesto do districto, do municipio ou da parochia--que
+se desfigure o primeiro dos nossos monumentos da edade mdia, alterando
+as frmas de uma porta, que a porta principal d'essa gloriosa egreja
+de Santa Maria de Victoria, que os architectos do mestre de Aviz alaram
+pela bitola dos estandartes, dos balses e das bandeiras de Aljubarrota,
+e segundo a altura a que chegava nas hombreiras o bico do bacinete ou a
+cimeira do morrio dos da ala da madresilva ou da ala dos namorados!
+
+Se fosse meu proposito enumerar os erros commettidos nas restauraes da
+Batalha teria de referir-me s vs deturpaes por que est passando a
+capella do fundador; ao detestavel altar mr, em cuja pedra to
+miseramente se acha reproduzido por uma especie de grafito o desenho de
+um mosaico, e a odiosa colorao das vidraas, em que o doce tom de
+ambar, que os vidristas da edade mdia obtinham por uma emulso de mel
+na preparao da tinta, se v substituido pelo de um reles amarello cru,
+de refalsado topasio. O inacreditavel tabernaculo com que houve o arrojo
+de empachar o ambito de uma das naves, sob pretexto de construir uma
+capella baptismal, teria ainda que deter por algum tempo o meu
+horrorisado espanto perante esse to insolente e to irrespeitoso abuso
+do pseudo-gothico, em proporo e em escala unicamente permittidas, por
+longanimidade de ridiculo, em jazigos de familia e em pratos montados,
+na latitudinaria architectura dos cemiterios ou das confeitarias.
+
+O meu fim porm no fazer a critica das restauraes da Batalha, mas
+sim demonstrar, como julgo ter feito, por meio de alguns factos
+caracteristicos e capitaes, que nas restauraes emprehendidas tanto
+n'esse como nos demais monumentos architectonicos recentemente reparados
+a expensas do estado, no houve antecedencia de programma, nem estudo
+previo, nem determinao de methodo, nem sanco critica, nem
+fiscalisao technica, nem policia artistica de especie alguma.
+
+Pelo numero e pelo quilate das mutilaes, deturpaes e superfetaes,
+inteiramente arbitrarias e escandalosas, de que so objecto os
+monumentos restaurados com assentimento e com subsidio official, como a
+Batalha, os Jeronymos e a Madre de Deus, poderemos calcular o que se
+passa nos edificios em que camaras, parochias e simples particulares
+esto no logro de restaurar, de concertar ou de demolir a seu gosto.
+
+Em Ponte de Lima havia uma ponte, que dava o nome villa. Esta ponte,
+em parte romana, em parte gothica, era revestida de ameias e entestada
+por dois castellos ogivaes. A vereao, com o motivo de desafogar a
+vista sobre as duas margens do rio, manda demolir os castellos e serrar
+as ameias da alludida ponte.
+
+Outra vereao, em Santarem, bota a baixo a bella torre gothica de Santa
+Maria de Marvilla, fundao dos primeiros tempos da monarchia, para o
+fim unico de deixar o terreno sem coisa alguma em cima, e ser por essa
+razo uma praa. A Real Associao dos architectos civis prope-se a
+esse tempo comprar os sinos da torre demolida, em bronze esculpido. A
+junta de parochia prefere derretel-os.
+
+No castello de Leiria, que, tendo sido construido como casa e museu pelo
+rei mais artista, mais poeta e mais sabio do seu tempo, constitue um
+documento, unico talvez na Europa, da archeologia romana e da vida de
+crte na edade mdia, certos festeiros em noite de gala, derribam a
+columnata do eirado principal para dar campo a um effeito de luminarias
+e de pyrotechnica.
+
+Na alcaova de Santarem as ameias de D. Affonso Henriques substituem-se
+por ignobeis grades de ferro fundido e pintado de verde.
+
+A porta da Atamarma, pela qual ainda passou Garrett ao tempo das
+_Viagens na minha terra_, arrasada, juntamente com a capellinha de
+Nossa Senhora da Victoria, que tinha por cima. No oramento d'essa
+demolio, que o governo approvou no anno de 1865, a camara de Santarem,
+tripudia de jubilo, affirmando que a dita desmontagem, _que por mais
+tempo se no podia protrahir_, fra vantajosamente arrematada pela
+quantia de trinta e nove mil ris, calculando-se em mais de cem mil o
+valr da pedra e do tijolo que ella produziu. Com esse cantico de
+alegria oramental, desappareceu o glorioso portico, por onde o fundador
+da nacionalidade portugueza e os da sua hoste entraram em Santarem com
+as espadas e as lanas gottejantes de sangue mouro, firmando por esse
+acto o fim do dominio sarraceno em Portugal.
+
+A porta do _Bom Successo_ veio abaixo, como a de Atamarma, por
+disposio do respectivo municipio.
+
+A destruio das portas de muralha, bellos arcos na maior parte ogivaes,
+com que tanto se enobreciam algumas das nossas velhas cidades, tem sido
+a grande preocupao vesanica das municipalidades modernas,
+absolutamente ignorantes, ao que parece, das gloriosas tradies locaes
+de que esses monumentos eram o testemunho authentico e sagrado.
+
+Dentro d'essa cathegoria de delinquentes ser difficil disputar o
+primeiro logar da serie pathologica cidade do Porto.
+
+O Arco da Vendoma, rua Chan, que havia sido uma das portas da
+circumvalao sueva, sobre a qual a rainha D. Tareja fizera collocar em
+ediculo a imagem da Senhora da Vendoma, trazida de Frana pelo bispo D.
+Nonego, desapiedadamente demolida em nossos dias, depois de oito
+seculos de existencia.
+
+Os bellos arcos do Postigo de Santo Antonio do Penedo e do Postigo do
+Sol veem egualmente abaixo, em 1875, sem razes algumas que expliquem
+mais esta demolio que a do Arco da Vendoma. Junto do Postigo do Sol
+ficava no entanto, e memorava-a o arco, a veneranda _Viella das Tripas_,
+onde assistiam as fressureiras, que deram aos do Porto o nome de
+tripeiros, vendendo-lhes os miudos das rezes, cuja carne elles haviam
+espontaneamente cedido armada de D. Joo I para a expedio de Ceuta.
+
+ Porta do Olival, da qual como do Postigo do Sol s resta o nome, foi
+acclamado D. Joo I. A essa porta foi esperada pelos portuenses, e por
+ella entrou pela primeira vez na cidade, na occasio das suas bodas com
+o mestre de Aviz, a rainha Filippa de Lencastre.
+
+O Arco da Senhora Sant'Anna, que deu o titulo linda narrativa
+portuense de Almeida Garrett, sacrificado como os demais ao alvio
+municipal da cidade invicta.
+
+O ultimo emfim dos arcos do Porto, ainda ha bem poucos annos destruido,
+foi o da Porta Nobre, por onde faziam a sua entrada solemne os bispos e
+os reis, que os moradores da Reboleira recebiam triumphalmente na sua
+rua, juncada de espadanas e de funcho, entre festes de flores pendentes
+das velhas janellas de resalto, flamenga, sob punhados de trigo,
+reluzente no ar em chuva de ouro.
+
+Em Santarem disseram-me ha dias, nos proprios logares em que se est
+mancumunando o delicto, que os vereadores projectam agora demolir a
+Torre das Cabaas.
+
+Quando a rainha D. Maria I visitou Santarem em 1785, botaram-se as
+medidas do cche de sua magestade a todo o caminho que elle tinha de
+percorrer, e desfizeram-se diligentemente a pico, nas ruas da villa,
+todas as protuberancias architectonicas em que se anteviu algum risco de
+entalao para o trajecto da real berlinda.
+
+No Canto da Cruz cortaram-se, como quem corta queijo, os vertices dos
+angulos nos edificios de esquinas menos reverenciosas para com o regio
+transito. Entre a Torre do Alporo e a Torre das Cabaas o passo porm
+apresentou-se especialmente difficil. Applicou-se-lhe a bitola do regio
+cche, que o secretario de estado visconde de Villa Nova da Cerveira
+mandra previdentemente de Salvaterra de Magos ao juiz de fra,
+presidente da camara municipal da villa, e consignou-se que, por obra
+infernal de palmo ou palmo e meio de saliencia, o magestatico vehiculo
+da soberana teria de ficar engasgalhado pelos cubos das rodas entre os
+dois monumentos. Ento, depois de haverem marrado por um momento no
+problema, e uns nos outros, os vereadores scalabitanos removeram a
+difficuldade, redobando a fita da medio inutilmente esticada, mettendo
+os solicitos e suados covados debaixo dos braos, e mandando
+simplesmente arrasar a Torre do Alporo, monumento do dominio romano, do
+alto do qual, durante a occupao serracena, o arabe dictava ao povo a
+lei de Mahomet.
+
+A Torre das Cabaas muito menos antiga e menos documental que a do
+Alporo. Com quanto Garrett a faa invocar anachronicamente no _Alfageme
+de Santarem_, em estimulo de defesa contra a invaso castelhana, como um
+dos traos mais expressivos da physionomia pittoresca da patria, essa
+torre data apenas do tempo de D. Manoel. No tem caracter propriamente
+architectural, uma simples pea de alvenaria quadrada. Mas o seu
+estranho remate, em grande elevao, formado pelo sino a descoberto,
+sustido na convergencia superior de quatro vares de ferro, estribados
+obliquamente nos quatro angulos da torre, e revestidos de pucaras de
+barro, da olaria local, destinadas a ampliar a sonoridade do bronze no
+tanger das horas e dos signaes de rebate, d-lhe uma feio
+verdadeiramente especial, inconfundivel, indelevel. No ser talvez o
+mais monumental, o mais nobre, o mais rico, mas de certo o mais
+suggestivo, o mais anedoctico, o mais interessante, o mais carinhoso, o
+mais familiar, o mais lindo campanario de toda essa to formosa campina
+ribatejana, o mais aberto sorriso agrario da terra portugueza. Tudo
+envolve de penetrante poesia local essa velha torre. O seu mesmo nome de
+_relogio das cabaas_ ou de _cabaceiro_ se allia harmonicamente no
+ouvido lembrana das lezirias, das hortas, dos paues, das courellas e
+dos olivedos, que o circumdam, e fazem d'elle como que uma parte
+integrante da paizagem, um natural rebento da terra. O aspecto de
+improvisao e de interinidade d'essa summaria ventana de sino, que
+parece armada em quatro pampilhos, uma verdadeira obra d'arte, que
+lembra mais commoventemente do que nenhuma outra inventada pelos
+architectos, a origem arabe, a vida nomada, a tradio pastoral da
+regio em que surgiu.
+
+Os conspicuos burguezes do senado de Santarem no podem ter opinio
+sobre esta questo de esthetica, porque elles carecem absolutamente do
+ponto de vista em que deve de ser considerada a sua Torre das Cabaas, a
+qual evidentemente se no construiu para que suas excellencias a
+alveitassem doutoralmente de dentro dos paos do concelho, ou c fora na
+praa, de chapeus altos, sobrecasacas dominicaes e barbas feitas,
+abordoados aos seus chapeus de sol, e muito mais garantidamente
+cucurbitaceos que o seu proprio cabaceiro. A Torre das Cabaas fez-se
+para ser olhada do vasto campo da Golleg ou do campo de Almeirim, vindo
+do Valle, vindo de Coruche, de Benavente, ou da Barquinha, atravez dos
+olivaes, das terras de semeadura e das eiras do termo de Santarem, de
+jaqueta e sapatos de prateleira, montando uma egua de maioral, de
+cabeada de esparto, almatrixa de pelles e estribos chapeados. O
+Cabaceiro de Santarem, com a sua cupula em trempe, as suas cabaas de
+barro e o seu sino grande de correr e de governar as horas, fez-se para
+o largo e ridente campo ribatejano, fez-se para os campinos, para os
+vaqueiros, para os almocreves, e talvez se fizesse tambem para mim, que
+no vejo em arte razo alguma plausivel para que, como motivo ornamental
+de uma torre, folha do acantho ou ao chavelho em voluta da
+architectura grega se prefira a nossa linda pucarinha de barro vermelho
+de Reguengo, da Atalaia ou da Asseiceira.
+
+No! o senado santareno tem de deixar ficar onde ella est a sua to
+caracteristica torre, para que se no diga que dos tres potes, que de
+antiga tradio consta acharem-se soterrados na Alcaova, um cheio de
+ouro, outro cheio de prata, outro cheio de peste, a camara da localidade
+no encontrou seno o ultimo para o despejar sobre os monumentos
+publicos sujeitos sua jurisdio e confiados sua guarda.
+
+Que sob o antigo regimen os vereadores de Santarem deitassem a baixo a
+Torre do Alporo, para passar uma rainha, uma desdita em extremo
+lastimavel, mas que sob o regimen vigente se deite egualmente a baixo a
+Torre das Cabaas, para que passem os proprios vereadores, um desando
+grande da publica administrao para muito peior do que estavamos no
+tempo da muito saudosa senhora D. Maria I.
+
+A torre da S Velha, de Coimbra, desapparece no fim do seculo passado
+perante uma simplicidade de processo, que bem demonstra quanto os
+poderes publicos, desajudados de conselho artistico, teem sido, em todo
+o tempo, inhabeis e incompetentes para proteger os monumentos da nao.
+Foi o meu amigo Theofilo Braga quem, ao colligir no Archivo Nacional os
+documentos ineditos das relaes do marquez de Pombal com D. Francisco
+de Lemos para a reforma dos estudos na Universidade, descobriu a breve
+historia da demolio da torre da S Velha. Em carta de 3 de setembro de
+1773, D. Francisco de Lemos d conta ao marquez de que demoliu a torre:
+...A dita torre era um monto de pedra e cal sem arte e figura, que
+servisse de ornato cidade, e antes estava tirando a vista do Pao das
+Escolas, e de muitas casas. E principalmente muito nociva Imprensa,
+porque ficando ella no alto e esta embaixo, lhe tirava o sol, com que a
+fazia menos clara e humida. Pareceu-me conveniente vista de todas
+estas razes que se demolisse, o que se tem executado, seguindo-se todas
+as utilidades ponderadas acima, e egualmente a de haver pedra para tudo
+o que foi preciso fazer. Em sigla marginal a esta carta opina o marquez
+de Pombal: Que est muito bem feita a providencia sobre a torre da S
+antiga. E em carta de 5 de outubro do alludido anno de 1773, o marquez,
+em stylo official, desenvolve a sua acquiescencia ao estupido vandalismo
+de D. Francisco de Lemos: Tambem me pareceu bem ajustada a providencia
+e resoluo que V. Ex.^a tomou de mandar demolir a torre da S antiga
+que no servia mais que de ser um _Padrasto sombrio e infimo_, s
+proprio para desfigurar a formosura do Palacio a que estava quase
+contiguo e de escurecer as actuaes officinas, etc.
+
+Do mosteiro de Alcobaa desapparece todo um claustro do tempo de D.
+Affonso Henriques.
+
+Em S. Francisco d'Evora ampliam-se as dimenses da rosacea no
+frontespicio da egreja, abalando as cantarias circumstantes e pondo em
+risco todo o equilibrio da empena. Alm d'isso, para o fim de aproveitar
+a pedra para outras applicaes, desampara-se a abobada, deitando abaixo
+a ala do convento que lhe servia de encontro.
+
+No castello de Palmella e em S. Salvador de Pao de Sousa acham-se
+violados e deshonrados pelo mais completo despreso, alm das campas dos
+cavalleiros de Santiago, o tumulo do principe D. Jorge, e o tumulo de
+Egas Moniz, que em Pao de Sousa dividiram em dois, pondo cada metade
+para seu lado, em pontos oppostos da egreja. O cofre de pedra que
+continha a ossada do fiel aio de Affonso Henriques transforma-se em pia
+de um bebedouro publico.
+
+A sumptuosa egreja do convento de S. Francisco em Santarem, fundao de
+D. Sancho II, com as suas tres naves, as suas columnas de preciosos
+capiteis e os floridos arcos da sua restaurao manoelina, converte-se
+em uma das cavallarias do regimento aquartelado no convento.
+Violaram-se todos os tumulos que encerrava o claustro e occupavam a
+egreja, sem que esta, segundo nos consta, fosse nunca dessagrada
+liturgicamente. Parece que no houve tempo para satisfazer essa to
+breve formalidade de respeito.
+
+As saras, os silvados, e os subtis rendilhamentos manoelinos do tumulo
+precioso do conde de Vianna D. Duarte de Menezes, pela circumstancia de
+ser a esculptura removida para S. Joo do Alporo pela benemerita
+commisso administrativa do Museu Districtal de Santarem, escaparam
+miraculosamente aos coices das bestas de guerra, que o governo portuguez
+destinava ao sagrado monumento erigido pela doce piedade conjugal
+memoria do leal e valoroso soldado de Affonso V, que na conquista de
+Alcacer-Ceguer se deixou morrer s lanadas para salvar a vida do seu
+rei.
+
+O tumulo de D. Fernando, que estava na mesma egreja, foi pela Associao
+dos architectos trazido para o museu do Carmo.
+
+Um dente de D. Duarte, que a condessa de Vianna encerrara, como unica
+reliquia de seu marido, no monumento que lhe consagrara, conserva-se
+ainda dentro do estojo que primitivamente o continha. A ossada do rei D.
+Fernando, essa desappareceu, como desappareceu a de D. Francisco de
+Almeida, atirada para a cerca do quartel na occasio em que se lhe
+destruiu o tumulo, aproveitando-se a area de pedra em que jazia o corpo
+para bebedouro especial dos cavallos com mormo.
+
+As demais campas, que constituiam o pavimento do claustro desde o
+principio do seculo XIV desappareceram todas, e nem sequer se sabe j de
+quem eram, por que, para no escorregarem os cavallos do regimento,
+desempedrou-se o claustro e perderam-se as lapides que n'elle se
+continham.
+
+A sepultura de Pedro Alvares Cabral est na egreja da Graa, um dos
+bellos templos da fundao da monarchia em Santarem. Esta egreja
+cedida pelo governo pobre irmandade dos Passos. A irmandade carecia de
+meios para custear o decoro do culto e a conservao do edificio.
+Occorria generosamente a essa despeza o proprietario do convento annexo
+ egreja. O dono do convento falleceu recentemente, legando a casa a um
+azylo que n'ella fundou. A egreja da Graa de Santarem est portanto, a
+bem dizer, desamparada. A quem que se acha confiado o tumulo de Pedro
+Alvares Cabral? No se sabe bem, e so grandes, como pessoalmente tive
+occasio de experimentar, as difficuldades que encontra quem deseje dar
+com o depositario das chaves para ver a egreja. s gloriosas cinzas
+d'aquelle que nos deu o Brazil, a gente nem sequer sabe dar um guarda.
+
+O mausoleu do nosso S. Frei Gil corre aventuras parecidas com as do
+mausoleu do rei D. Fernando. Os marquezes de Penalva, parentes do Santo,
+recolhem na capella do seu palacio em Lisboa as cinzas do bemaventurado.
+A tampa do tumulo com a estatua do Santo vem para o museu do Carmo. A
+arca sepulchral, que encerrava os seus restos, fica em Santarem,
+servindo de pia de amassar cal para as obras do municipio.
+
+Em Guimares mascaram indignamente de cal e de madeira as columnas e as
+arcarias da veneravel egreja de Nossa Senhora da Oliveira, fundada nos
+primeiros annos do seculo X pelo conde Hermenegildo Mendes e por sua
+mulher a condessa Mumadona. No claustro do seculo XIII, que envolve uma
+parte da egreja, revestem de caixilharia envidraada a graciosa arcaria,
+e rebocam espessamente a cal os capiteis das columnas. A flammante
+janella gothica, que por cima da porta, na fachada do templo, fazia
+explodir em apotheose a polychromia do espelho, emoldurado na sua larga
+cercadura esculpida de silvados, historiada de estatuetas de santos em
+phantasiosos resaltos de misulas, sob rendilhados baldaquinos,
+impiedosamente arrasada e substituida por uma chapada de cantaria
+corrida, perfurada por quatro oculos.
+
+Em Santarem, na egreja do Milagre, pelas trovoadas d'este vero, um raio
+fere o cone azulejado da torre, penetra na capella mr, despedaa a
+madeira do arco que a separa da nave, e pe a descoberto, por baixo
+d'esse revestimento de taboas pintadas, os mais lindos lavores
+esculpturaes de uma arcaria da Renascena, em que cherubins voejam,
+sustendo grinaldas e cornucopias floridas, por entre a laaria
+afestoada, com rotulos pendentes. Todos os relevos mais salientes da
+esculptura haviam sido desbastados a pico para nivelar a superficie da
+pedra em que assentara a madeira.
+
+Em Setubal, na egreja manoelina das freiras de Jesus, besuntam as
+columnas, os artezes e os fechos da abobada com a mais tosca e espessa
+camada de pintura. O material subjacente o lindo marmore polychromico
+da Arrabida. A pintura a que me refiro tem a inteno esthetica de
+imitar a borres d'ocre esse mesmo marmore cuja superficie to
+sordidamente conspurca.
+
+Quando ha quatro annos o governo mandou pr em hasta publica uma parte
+do convento de Cellas, incluindo o seu encantador claustro, metade do
+qual do tempo de D. Diniz, uma voz anonyma protestou, eloquente e
+energicamente, contra semelhante desacato, por meio de uma pequena
+brochura impressa em Coimbra e largamente espalhada pelo paiz todo, a
+pedir soccorro imprensa. Rarissimos periodicos acudiram ao rebate. Na
+parte que data do seculo XIV, o pequenino claustro de Cellas, em arcadas
+de meio ponto e columnas geminadas, de capiteis cubicos, historiados por
+todos os lados com deliciosas figurinhas representando os mais tocantes
+episodios da vida da Virgem Maria, de Jesus e dos seus santos, a mais
+delicada, a mais commovida, a mais poetica obra da arte portugueza
+n'esse interessante periodo da transio do stylo romanico para o
+advento do gothico, na evoluo capital da arte na Edade Media. A
+virginal candura, profundamente enternecida, do artista desligado da
+preceituao hieratica de uma esthetica que se extingue, para entrar com
+toda a frescura intacta do sentimento na sinceridade de uma arte nova,
+invasivamente tocante na concepo de varios episodios d'esta
+composio, como o da Annunciao, o do Sonho de Nossa Senhora, o da
+Adorao dos Reis Magos, o da Fuga para o Egypto, e o da Crucificao de
+Jesus, que, pela primeira vez nas representaes d'este periodo, nos
+apparece flagellado pela cora de espinhos e com os dois ps
+sobrepostos, fixados ao madeiro por um s cravo. Acompanhando e
+envolvendo a primorosa obra do esculptor, tudo no claustro de Cellas se
+compensa, se pondera e se equilibra admiravelmente para o fim de pr em
+suggesto o pensamento que d'essa obra deriva.
+
+ uma construco ineffavelmente pura, toda de intimidade e de religio,
+no sentido de cada uma das suas partes e na harmonia total do seu
+conjuncto. Nem a mais leve macula mundana, de presumpo ou de orgulho.
+Nem um s nome profano, nem um unico emblema heraldico, brazo, cora,
+paquife, divisa ou empresa. Nada que lembre da terra as ambies, a
+fora, a gloria ou o brilho: nem quinas, nem lizes, nem pelicanos, nem
+espheras. A mesma aconchegada dimenso do recinto, parecendo amoldado ao
+passo leve e recolhido das freiras, as quaes se ouviriam a meia voz de
+um extremo para o extremo opposto do pateo; o stylobato em bancada
+revestida de azulejos do tempo, enxadrezados em verde e branco; a
+pequena altura dos fustes, proporcionados a uma estatura de novia, que
+poderia do cho acarinhar as imagens dos capiteis com uma flr de
+aucena; a reclusa modestia da galeria superior, em que o beiral do
+telhado se apoia ao parapeito em curtos esteios de granito; a mesma
+vegetao arbustiva, que ainda sobrevive antiga ornamentao floral do
+pateosinho ajardinado; as diminutas capellas e os nichos que rodeiam a
+claustra; tudo emfim concorda e condiz na mais rara e doce harmonia de
+uma expresso intradusivel. O claustro de Cellas , pela extranhesa e
+pela preciosidade da sua poesia e da sua arte, uma especie de murmurosa
+fonte, ineffavel e perenne, em que a agua no vem de alterosos e
+magestaticos aqueductos cantar ao sol em taas brunidas de prophyro ou
+de alabastro, suspensas por grupos de naiades, de sereias ou de
+golfinhos, mas rompe da rocha viva, como nas grandes altitudes
+alcantiladas das nossas serras, manando em fio tenue e crystalino,
+desnevada e purissima, escondida entre fragas, a que se entra de rastos
+para ir sedentamente beijal-a na sua humilde nascente engrinaldada de
+violetas em flr.
+
+Providenciando sobre o destino de um to delicado monumento, posto em
+leilo pela quantia de um conto de ris, dispunha o governo que os
+capiteis das columnas se serrassem dos respectivos fustes e se
+recolhessem n'um museu!
+
+No sei em que phase administrativa se acha ao presente esse negocio. O
+que sei que o primoroso claustro de Cellas, medonhamente desaprumado
+da perpendicularidade das suas columnas, no espera seno o primeiro dos
+mais leves pretextos para se desmoronar inteiramente.
+
+Na linda egreja de S. Joo, em Thomar, abrem-se na fachada principal, de
+cada lado de um portal manoelino, duas janellas da mais corriqueira e
+mais villa cantaria.
+
+Ha bem poucos dias ainda um distincto critico nos revelava, em uma folha
+periodica, os desacatos por que est passando o antigo mosteiro das
+Bernardas de Almoster, construido para commemorar o milagre de Santa
+Iria pela devota Berengaria com a collaborao de Santa Isabel.
+
+Na S de Braga as estatuas jacentes dos tumulos do conde D. Henrique e
+de sua mulher foram cortadas pelo meio das pernas para caberem nos novos
+logares para onde as transferiram, e, com o fim de no transtornar
+inteiramente a anatomia dos personagens, pareceu util applicar os ps
+decepados aos joelhos das figuras.
+
+Na mesma egreja existe o bello tumulo em bronze do joven infante D.
+Affonso, filho de D. Joo I, obra mandada fazer em Bruxellas pela
+infanta portugueza D. Isabel, mulher de Filippe o Bom. A estatua do
+infante, em tamanho natural, repousava deitada na tampa do mausoleo
+entre dois anjos em adorao. A caixa tumular, ornada de brazes,
+cingidos de arabescos e silvados em relevo, descana sobre lees. Em
+1881 foram roubadas as cabeas dos lees, os ps e as mos da estatua, e
+os dois anjos que ladeavam a cabea do principe. O templo est
+completamente desfigurado do seu aspecto primitivo. Empastaram-se os
+capiteis das columnas, transformou-se a arcaria das naves, abriram-se
+grandes janellas nas paredes da egreja, adornaram-se os intervallos das
+capellas com enormes estatuas dos apostolos feitas de pau, e pintou-se
+tudo de branco--madeiras e cantarias.
+
+A pedra da campa de Garcia de Rezende, sepultado na encantadora ermida
+que elle mesmo delineou e mandou construir na cerca do convento de Nossa
+Senhora do Espinheiro, foi arrancada da sepultura do nosso chronista, e
+serve presentemente de banca de cosinha em casa de um cavalheiro de
+Evora.
+
+Os tumulos da familia de Abrantes acham-se em tanto esquecimento e em
+tanto abandono na capella do seu castello, como em Alcobaa os de D.
+Pedro e D. Ignez de Castro; como em Pao de Sousa o de Egas Moniz; como
+em Palmella o de D. Jorge, em cujo testamento alis se attribue uma
+verba s reparaes d'aquella casa; como, finalmente, ainda ha pouco em
+Alemquer, o de Damio de Goes, antes de haver sido reposto pelo sr.
+Possidonio da Silva o busto do nosso chronista sobre o seu jazigo da
+egreja da Varzea.
+
+Na Vidigueira a camara auctorisa o povo a utilisar em obras particulares
+as cantarias do castello de Vasco da Gama, como se o solar do
+descobridor da India no tivesse mais importancia historica que a que se
+liga a qualquer pedreira.
+
+Em Evora, para dar mais um metro ou metro e meio de superficie a uma
+praa, a camara deita abaixo a historica varanda da casa dos paos do
+concelho, edificada em tempo de Affonso V, por Joo Mendes Cecioso, o
+_pae dos pobres d'Evora_. A varanda demolida, da qual pela primeira vez
+se aclamou a independencia de Portugal depois das famosas _alteraes_,
+to minuciosamente narradas por D. Francisco Manoel de Mello na sua
+_Epanaphora politica_, parece ter sido obra de D. Joo II.
+
+Por muitas vezes se tem discutido na camara eborense, e parece at haver
+sobre tal assumpto uma resoluo assente, o projecto inaudito de
+eliminar toda a bella alpendrada da praa, da rua Ancha e da rua da
+Porta Nova.
+
+Outra resoluo da camara de Evora, resoluo definitiva e aprasada para
+muito breve, a de destruir a pequena e to graciosa egreja do convento
+do Paraizo para o fim de estabelecer mais uma praa entre as duas ruas
+de Machede e de Mendo Estevens, s quaes faz esquina aquelle templo.
+
+A diminuta egreja do Paraizo, com os seus dois arcos manoelinos, com os
+seus preciosos azulejos do seculo XVI, em tapete mural, acompanhando nas
+barras o recorte dos arcos em zig-zag, e com o seu tumulo em ediculo de
+D. Alvaro da Costa, um dos mais graciosos documentos architectonicos
+do seu tempo.
+
+Pobre cidade de Evora, um dos nossos mais vastos e mais preciosos museus
+de archeologia e d'arte, preferindo como Santarem ser uma estupida
+colleco de praas largas e de ruas novas! Por toda a Europa, os velhos
+bairros historicos so hoje o thesouro das cidades que os possuem. Em
+muitos logares, onde esses bairros no existem, esto-os inventando,
+esto-os reconstituindo em homenagem erudita e piedosa tradio
+historica, poesia do passado. A camara de Evora, vangloriosa no
+pelintrismo das suas innovaes, bota abaixo os mais venerandos
+monumentos da cidade; por outro lado improvisa ruinas scenographicas no
+seu jardim publico, armando com trepadeiras e malvaiscos grupos
+sentimentaes de velhas columnas postas de pernas para o ar n'esse
+effeito de bordado a cortia ou a miolo de figueira; pica os seus
+historicos brazes para fazer passeios lisos de ruas novas aos seus
+janotas; e bate, modernisante e festeira, sobre o epitaphio do mais
+palaciano e do mais artistico dos seus escriptores quinhentistas, a
+carne do bife consagrado talvez ao penso d'algum dos seus novos
+reporters.
+
+Mas eu que no posso deixar de dizer cidade de Evora, que o que a
+ella nos attrae e n'ella nos retem no so as suas novas avenidas, nem
+as suas praas, nem o seu lindo theatro, nem o seu bello Passeio
+Publico. O que em Evora nos embelleza e nos encanta, so os seus velhos
+mosteiros, as suas antigas egrejas, os nomes das suas primitivas ruas,
+estreitas e sinuosas, to curiosos e to archaicos como o de
+_Valdevinos_, o de _Alconchel_, o das _Amas do Cardeal_, o do _Alfaiate
+da_ _Condessa_; so os quadros incomparaveis do seu pao archiepiscopal;
+so os variadissimos documentos da sua architectura ogival e da sua
+architectura da Renascena, to especialmente amoiriscada n'esta parte
+do Alemtejo; so os restos das suas antigas industrias locaes, a olaria,
+a tapearia, a caldeiraria, a sellaria e a carpintaria de moveis;
+talvez ainda a sua tradicional cosinha, a doaria famosa dos seus
+conventos, a sua honrada assorda de cuentros, e o seu bolo pdre, de
+farinha de milho, azeite e mel, como o que se comeria talvez, entre os
+hebreus da Biblia, mesa de Abraho.
+
+Com as improvisaes do seu modernismo Evora como Vianna do Castello,
+Braga, Guimares, Coimbra, Thomar, Santarem, ou Beja, que smente
+interessam os viajantes pela sua antiga arte, e no valem realmente a
+pena de que alguem as visite pelo que do de novo.
+
+Em Lisboa repudia-se a soberba egreja de Santa Engracia, o mais bello
+dos nossos monumentos do seculo XVII. O interior do templo de uma
+magnificencia magestosa. A riqueza dos marmores smente se pode comparar
+ de Mafra. A mo d'obra de uma perfeio magistral a ponto de parecer
+indestructivel. Aproveitada para pantheon nacional esta egreja seria um
+dos mais imponentes edificios da Europa. Falta unicamente sua
+concluso a cupula do tecto e o lageamento do cho. Taparam-lhe o arco
+da entrada a pedra e cal, no tem cobertura, e est servindo de armazem
+de arrecadao do inutilisado material de guerra do Arsenal do Exercito.
+
+A inoffensiva capellinha das Albertas, bem interessante pela
+ornamentao to portugueza dos seus embrechados, ha poucos dias ainda
+acabou de desapparecer, como o convento da Esperana, sem se saber
+porque, nem para que.
+
+A restaurao, que recentemente padeceu a egreja de S. Vicente de Fra,
+to particularmente notavel pelos bellos mosaicos portuguezes que a
+exornam, caracterisa-se bem no mau gosto da pintura com que se maculou a
+nobreza d'aquelle templo.
+
+Os attentados de restauro de que ainda nos tempos modernos tem sido
+objecto a S de Lisboa so to lastimosos quanto innumeraveis.
+
+Finalmente, ao lado da Torre de Belem, o mais peregrino entre os mais
+bellos monumentos da nossa architectura, estabelece-se o gazometro da
+companhia de illuminao a gaz! A esbelta silhueta rendilhada do mais
+suggestivo padro da nossa gloria militar e maritima, j no emerge da
+areia loura do Restello, em deslumbradora apotheose, na vasta
+luminosidade do ceu e da agua, destacando-se das collinas de Monsanto,
+como a alvura de uma hostia em elevao se destaca do fundo de um
+retabulo esmeraldado, em altar de ouro fulvo, sob uma abobada azul.
+Sacrosanta pela sua expresso moral, como a immaculada estalactite,
+formada beira do mar pela concreo mysteriosa de todas as lagrimas,
+de saudade, de ternura, de consternao e de enthusiasmo, choradas por
+um povo de embarcadios; sacrosanta na sua forma artistica, como aquelle
+dos monumentos de Portugal, em que o genio lusitano da Renascena, mais
+expressivamente se revela como dominador da India, a Torre de Belem
+emparceira-se com a chamin do mais vil e sordido barraco, a qual
+sacrilegamente a cuspinha e enoda com salivadas de um fumo espesso,
+gorduroso e indelevel, como se a incomparavel joia d'esse marmore, que o
+sol portuguez carinhosamente sobredourara pelos afagos de tres seculos,
+houvesse sido to subtilmente cinzelada pelos artistas manoelinos para
+escarrador de mariolas, por cima do qual todavia ainda algumas vezes, em
+dias de gala, se desfralda e tremula o pavilho das quinas, mascarrado
+de carvo como um chch de entrudo.
+
+Ministerios de todos os diversos partidos politicos se revezam
+consecutivamente no poder, sem que nenhum d'elles parea attentar em um
+tal desdouro, expresso viva do mais abandalhado rebaixamento a que,
+perante as suas tradies historicas e artisticas, podia chegar a
+degenerao de uma raa. Por seu lado o parlamento e a imprensa so
+insensiveis responsabilidade de taes civicias, porque esses dois
+poderes do Estado, enrascados na baixa intriga partidaria, immobilisados
+n'ella, como um enxame de pardaes n'uma bola de visco, de ha muito que
+perderam o sentimento de nacionalidade e a noo de patria, relaxando
+completamente aos archeologos, aos poetas e aos artistas a unica
+legitima representao, desinteressada e altiva, do espirito portuguez.
+
+Consta no emtanto que brevemente ser celebrado em Lisboa o centenario
+da India; e da comprehenso que temos d'esse feito culminante da nossa
+historia maritima daremos ao extrangeiro um testemunho definitivo,
+mostrando o monumento que commemora tal faanha, envolto, como nas
+dobras de um crepe, pela fumaada de uma fabrica, que ns mesmos lhe
+puzemos ao p, para o deshonrar.
+
+
+Se do exame da architectura dos nossos monumentos, passamos ao exame das
+artes decorativas, da pintura e da esculptura amovivel, mais lastimoso
+ainda o espectaculo da nossa incuria.
+
+Ao clero portuguez cabe principalmente a gloria de haver conservado o
+que ainda resta do nosso patrimonio artistico.
+
+Das galerias particulares de pintura que o conde de Raczynski ainda
+encontrou em Portugal, no anno de 1845, quasi tudo se sumiu.
+
+Demoliram-se, desappareceram, ou foram transformadas pela mudana de
+dono, pela mudana de destino, pela transformao mais radical da vida
+interior que as animava, quasi todas as casas que ainda em 1840 eram o
+typo das habitaes nobres em Lisboa.
+
+Citarei, ao acaso da memoria: o palacio da marqueza de Niza, a Xabregas,
+fundado no seculo XV pela rainha D. Leonor; o palacio chamado dos
+Patriarchas, o de Pessanha e o do conde de S. Miguel, Junqueira; o do
+marquez de Pombal s Janellas Verdes; o do conde de Carvalhal na Rocha
+do Conde d'Obidos, famoso outr'ora pela colleco das suas mobilias;
+Cotovia o do conde de Ceia e o do conde de Povlide; no Calhariz os de
+Braancamp, do duque de Palmella e do marquez de Olho; o do marquez de
+Castello Melhor e o do conde de Lumiares, no antigo Passeio Publico; na
+collina do Castello o do marquez de Ponte de Lima, o do marquez de
+Alegrete, o do marquez de Tancos; no Campo de Santa Clara o do visconde
+de Barbacena, o do conde de Resende, o do marquez de Lavradio, e um
+pouco mais para leste o do conde da Taipa; o do visconde da Bandeira, a
+S. Domingos; e finalmente o do marquez de Borba, o do conde de Almada, e
+o do morgado de Assintis, cujo theatro era o mais sumptuoso entre todos
+os numerosos theatrinhos particulares que havia em Lisboa no principio
+do seculo, como o do baro de Quintella, o do visconde de Anadia, o do
+conde de Almada, e o do conde de Sampaio.
+
+A maior parte d'essas casas eram ainda, pelo seu antigo recheio, apesar
+dos estragos do terremoto, apesar da rapina da invaso franceza,
+verdadeiros sanctuarios d'arte. Mobilavam-as as mais ricas peas das
+industrias do Oriente que existiam na Europa, escriptorios, papelleiras
+e bahus monumentaes de charo, bufetes e contadores feitos na India ou
+fabricados em Lisboa por marceneiros aqui educados, no tempo de D.
+Manoel, por artistas indianos.
+
+Os servios de mesa e os vasos decorativos eram das mais antigas e das
+mais preciosas porcellanas da China e do Japo. A colleco das colxas e
+dos panos de armar, com que no dia da procisso de Corpus-Christi se
+revestiam inteiramente as fachadas de todos os predios da Baixa, eram de
+brocado, de damasco, de setim e de veludo, constellados a matiz e a ouro
+nos mais deslumbrantes desenhos persas.
+
+Os bragaes, de linho da Hollanda, da Flandres e do Reino, arrecadavam-se
+nas sumptuosas caixas encouradas, que foram no seculo XVI uma das
+industrias famosas de Lisboa.
+
+Nas gavetinhas dos contadores e nos escaninhos dos armarios e das arcas
+estavam as joias, as rendas, os aljofares, os entretalhos, os firmaes,
+as chaparias, os ouros de martello, e as obras mais diminutas e subtis
+das antigas bordadoras e colxoeiras de Lisboa,--restos de coifas, de
+face e gravis, redes, cadenetas, desfiados.
+
+As baixellas brazonadas, de ouro e prata, levantadas em besties e em
+silvados, a martello, ou cinzeladas por emulos de Benvenuto Celini,
+trasbordantes de ornato, em encaiches de arabescos e de laarias, eram
+um luxo commum a todas as familias nobres, e refulgiam pelas grandes
+festas do anno em todas as casas de jantar.
+
+O mogno francez do imperio, com as suas applicaes de bronze,
+representando fachos, pyras ardentes, lyras e tropheus de guerra,
+invadira com as modas da revoluo liberal muitas casas lisboetas, sem
+todavia desthronar inteiramente o precioso mobiliario da Renascena, em
+cedro, em pau rosa, em sandalo, em nogueira, em carvalho ou em ebano, ao
+gosto mudegar ou ao gosto florentino, embutido de marfim, de
+madreperola, de prata, de esmaltes limosinos ou aragonezes. Abundavam as
+cadeiras e os catles de couro lavrado ou de guadamecim, cravejado no
+carvalho ou no pau santo com pregos cinzelados de cobre ou de prata; e
+nas poltronas, nas commodas, nas meias-commodas, nos escaparates, nas
+cadeirinhas, nas molduras dos espelhos e das sobreportas predominavam as
+formas curvilineas da influencia de Luiz XIV e de Luiz XV na poca de D.
+Joo V e de D. Maria I.
+
+Na talha dos oratorios encontravam-se alguns d'esses baixos relevos em
+madeira, polychromicos, em escala mui clara, to caracteristicos da
+nossa esculptura em madeira do seculo XVII, bem accentuadamente revelada
+nas obras de Bouro, de Tibes, de S. Gonalo de Aveiro, e da S Nova de
+Coimbra.
+
+O presepio era um appendice por assim dizer obrigatorio; sempre que no
+occupava um compartimento especial da casa, o presepio concentrava-se na
+sua machineta em forma de urna, semelhante s que se destinavam a conter
+uma cella de Santo Antonio ou uma arribanasinha de menino Jesus.
+
+Todas as familias historicas tinham a sua mais ou menos consideravel
+galeria de pintura: paineis de devoo, retratos de antepassados, e um
+ou outro quadro de genero ou de paizagem, em tela ou em cobre,
+attribuidos a Breughel, a Rosa di Tivoli, a Tenniers ou a Rubens, obras
+em geral apocryphas e mediocres. Grassavam, com tenacidade talvez
+excessiva, as Josephas d'Obidos e os Morgados de Setubal, mas entre os
+retratos do seculo passado, encontravam-se alguns preciosos, como os de
+Pelegrini em casa dos viscondes de Anadia, como os pintados por Madame
+Guiard, por Grard e por Therbouch, em casa do visconde de Sobral.
+Entre os quadros de devoo destacavam-se frequentes obras primas
+nacionaes, do seculo XVI, referidas vida da Virgem Maria, lenda de
+Santa Ursula, aos agiologios de alguns santos portuguezes, como
+Verissimo, Maxima e Julia.
+
+Nos sotos d'essas antigas casas havia accumulaes seculares de moveis
+inutilisados, de miudezas rejeitadas e esquecidas, com as quaes se
+sepultariam documentos inapreciaveis para a historia da nossa influencia
+na evoluo europeia das artes sumptuarias: cadeiras aluidas e canaps
+desconjuntados, desusados manicordios, velhos cravos de charo,
+abandonadas espinetas, em cujo teclado amarellecido se teriam dedilhado
+as primeiras composies de Palestrina e de Cimarosa; antigos arreios de
+tiro e de sella, braseiras, perfumadores, lanternas e candieiros de
+cobre, velhos palmitos contrafeitos de conchas e de pennas, montes de
+manuscriptos, montes de gravuras, dentes de elephante, ferrugentas
+clavinas de pederneira; e, entre feixes de cacetes e de chibatas de
+marmelleiro, talvez, desarticulado e roto, algum d'esses chapeus de sol,
+que ns fomos os primeiros que fabricmos e que introduzimos na Europa,
+ou algum d'esses primitivos leques, em quarto de circulo, que os
+companheiros de Ferno Mendes Pinto trouxeram da China, com os primeiros
+apparelhos de ch, com os primeiros vasos de porcellana, com as
+primeiras caixas de sinaes e pastilhas, doando a Roma e a Florena, a
+Paris e a Londres todos os principaes attributos e os themas
+fundamentaes de toda a arte da casa e de toda a elegancia feminina da
+civilisao moderna.
+
+E tudo isso desappareceu, ou se est evolando, com o successivo
+desmanchar de todas as velhas casas, n'um saudoso e doce perfume de
+camphora, de mofo, de alfazema e de bejoim, errante no ar dos casares
+despejados.
+
+Esto nas bibliothecas extrangeiras, em Frana e na Inglaterra, as mais
+preciosas illuminuras dos nossos codices e das nossas arvores
+genealogicas.
+
+Das encantadoras figurinhas dos presepios de Faustino Jos Rodrigues, de
+Antonio Ferreira, de Machado de Castro, j no ha intacta seno a
+colleco da S. Destroaram-se as da Madre de Deus, do Corao de Jesus
+e do marquez de Borba em Santa Martha.
+
+O que ainda persiste da obra to curiosa e to caracteristica dos
+barristas de Alcobaa est ao desamparo no abandono d'aquelle
+incomparavel monumento.
+
+Lanas, espadas, adagas, elmos de todas as frmas--almafres, capellinas,
+bacinetes, barbudas e morries--, couraas, escarcellas, grevas,
+manoplas, escudos e rodellas, todas as peas, emfim, da armadura dos
+nossos heroes da Africa e da India, desappareceram com as balas, as
+sinas, os estandartes e as bandeiras das suas hostes.
+
+A espada de Vasco da Gama hoje propriedade de um particular, que ha
+pouco tempo adquiriu por compra essa reliquia nacional.
+
+Uma espada e um capacete de torneio, que se diz terem pertencido ao
+Mestre de Aviz, peas ferrugentas, sujas, sem estojo nem outro qualquer
+resguardo que as defenda da irreverencia do publico, esto na Batalha
+merc dos moos, dos pedreiros e dos visitantes, que de chacota se
+adornam com essas armas, em galhofa carnavalesca.
+
+Na cathedral de Toledo, na soberba capella dos Reis Novos, preciosamente
+edificada por Alonso de Covarrubias, em tempo de Carlos V e por
+disposio testamentaria de Henrique II de Trastamara, v-se uma
+armadura portugueza. Guardada por castelhanos, essa armadura
+suspende-se, d'entre os ornatos platerescos da capella, por cima do
+rgo, em todo o respeito devido a um tropho sagrado. E um dos guardas
+da cathedral, explica ao publico, apontando essa reliquia:--Aquella a
+armadura do alferes portuguez Duarte de Almeida, o qual, batendo-se na
+batalha de Toro contra ns outros, tendo tido decepadas as duas mos,
+morreu s lanadas, segurando nos dentes a bandeira do seu rei. E em
+frente do arnez, que vestiu o corpo sanguento e exanime de um inimigo,
+Castella inclina-se reverente e commovida, fazendo-nos corar, perante a
+grandeza de tal exemplo, da lenda grosseira em que envolvemos a p da
+padeira Brites--_Quantos vivos rapuit omnes esbarrigavit_,--a qual p
+uma esperta e linda creada de Aljubarrota faz o favor de ir buscar, e de
+tirar de dentro de um saco, para a mostrar n'um patamar de escada aos
+viajantes que para esse fim lhe vo bater porta.
+
+No est feita nem estudada a historia dos nossos vidros, dos nossos
+esmaltes, da iconographia da nossa habitao, e do nosso trage.
+
+Uma das obras primas da nossa joalheria, a propria custodia de Belem,
+lavrada por Gil Vicente, o famoso ourives, tio do poeta, acha-se
+desfigurada nas suas dimenses primitivas pela interpollao de um novo
+hostiario e de duas pilastras, que j no so do primeiro ouro das
+conquistas, mas de simples prata dourada.
+
+Depois dos to numerosos e to grosseiros erros a que tem dado origem a
+investigao da identidade de Gro Vasco, a historia, a classificao e
+a attribuio da nossa incomparavel pintura do seculo XVI, encontra-se
+ainda por fazer.
+
+A restaurao dos antigos quadros est constituindo na historia da nossa
+arte uma catastrophe ainda mais destruidora que a da restaurao da
+nossa architectura.
+
+Alguns annos mais sobre o systema devastador que se est seguindo, e
+ninguem poder reconhecer nas taboas da nossa grande poca uma s
+pincelada dos admiraveis discipulos e dos emulos que tiveram em Portugal
+os Van Eik, os Memling, os Gerard David, os Van der Weiden, os Quinten
+Massys ou os Dierik Bouts.
+
+N'essa prodigiosa pintura nacional, em que tivemos por mestres os
+flamengos, acha-se todavia registrada a historia de toda a vida
+portugueza desde o meiado do seculo XV at o fim do seculo XVI, isto ,
+durante o periodo do nosso maior brilho e da nossa maior riqueza, no
+apogeu da nossa gloria. So raras as puras composies historicas e
+raros os retratos d'esta poca. Os grandes feitos da navegao e da
+guerra celebravam-se de preferencia nas tapearias, que se perderam, e
+constituiam o principal adorno d'arte dos paos dos reis e dos palacios
+dos nobres. Na pintura religiosa, porm, e nos quadros votivos,
+conservados nas egrejas e nos conventos, as figuras do seculo
+misturam-se em brilhante anachronismo s figuras sagradas, e muitas
+authenticas physionomias se accusam energicamente nos pomposos cortejos
+que envolvem as scenas biblicas. A memoria do que fomos est ahi, por
+ns mesmos consagrada, com o maior esplendor a que chegou o nosso genio
+artistico, nas taboas dos paineis, no pergaminho das biblias e dos
+devocionarios portuguezes. Ahi esto os reis, as rainhas, os sacerdotes,
+os guerreiros e os letrados portuguezes do cyclo da renascena. So
+essas as caracteristicas figuras dos nossos avs: as faces cheias, a
+pelle tostada, a carne rija, os olhos rasgados, as boccas imperativas. A
+essas nobres e delicadas cabeas femininas serviram de modelo as mais
+lindas mulheres da Lusitania, de olhos de amendoa, malicioso olhar
+avelludado, obliquo e enygmatico, sobrancelhas longas alteando nas
+fontes, rostos ovaes, boccas quentes e vermelhas, queixo carnudo vincado
+na base, testa arredondada e lisa, cabello espesso e fino apartado ao
+meio em duas curvas de bambolim, e uma gesticulao leve, sinuosa e
+ondulante. Teriamos que interrogar longamente, laboriosamente, esses
+venerandos paineis para apprender tantas coisas que ignoramos da
+physionomia do nosso passado, o trage, as armas, as joias, a mobilia, os
+utensilios da casa e os estados do espirito.
+
+O estudo completo d'esses quadros constituiria a mais importante, a mais
+bella obra da nossa historiographia.
+
+_A patria portugueza segundo os documentos da pintura nacional nos
+seculos XV e XVI_, poderia ser o titulo d'esse incomparavel livro, em
+que collaborariam todas as aptides intellectuaes de que dispe o paiz,
+por meio de successivas monographias, relativas a cada ramo do saber e
+comprehendendo todos os pontos de vista em que pode ser considerado o
+quadro:
+
+1. _Os aspectos da paizagem_, os caracteres da _flora_ e da _fauna_
+portugueza, que ns to opulentamente enriquecemos, pelo commercio das
+conquistas e dos descobrimentos; no tempo em que Lisboa era o primeiro
+jardim de acclimatao, o primeiro jardim zoologico e o primeiro mercado
+da Europa, pela introduco do ch, do caf, do assucar, do algodo, da
+pimenta, do gengibre do Malabar, da canella de Ceylo, do cravo das
+Molucas, do sandalo de Timor, das teccas de Cochim, do bejoim do Achem,
+do pau de Solor, do anil de Cambaya, da ona, do elephante, do
+rhinoceronte, do cavallo arabe.
+
+2. _O mobiliario_, cuja fabricao to fecundamente desenvolvemos por
+meio de officinas estabelecidas em Lisboa por artifices indianos, e
+estabelecidas na India por artifices portuguezes, sob a administrao de
+Affonso de Albuquerque.
+
+3. _A indumentaria_, comprehendendo, alm da historia do _traje_, a dos
+_tecidos_, a dos _bordados_ e a das _rendas_, industrias procedentes da
+China, da Persia, de Benguella, to profundamente influenciadas pelo
+nosso contacto nas suas origens, to especialmente desenvolvidas no
+Reino, pelo lavr do pao, onde trabalhavam ao bastidor e agulha as
+mais pacientes e subtis _lavrandeiras_ mandadas rainha pelos capites
+da India.
+
+4. _As armas_, de guerra, de torneio e de crte.
+
+5. A _ourivesaria_ e a _joalharia_, abrangendo a analyse das alfaias
+religiosas, lampadas, tocheiros, relicarios, thuribulos, retabulos, a
+to curiosa evoluo em Portugal da frma e do ornato dos calices, das
+custodias e das cruzes; e na ourivesaria profana as innumeraveis peas
+em ouro ou prata da baixella e da joalharia portugueza da Renascena,
+como escudellas de faldra e de orelhas, salseiros, oveiros, vinagreiras,
+almofias, tumadeiras, almaraxas, escalfadores, confeiteiras,
+perfumadores, esquentadores, brazeiros, pomas-candis, alcaforeiros,
+taxos de perfumar luvas, copas, taas, gomis, bacias d'agua s mos,
+maas, chaparias de gualdrapa, andilhas, estribos, taboas de cavalgar,
+guarnies de cavallo, com rosas, sostinentes e copos; cofrinhos,
+arrecadas, firmaes, pontas de ouro, brochas de livro, cadeias,
+guarnies de coifa, tranadeiras, crochetes, cintas, tiras de cabea,
+tiratestas, dormideiras de ouro para volantes, e as contas variadissimas
+de filigrana mourisca, de ambar das Maldivas, de almiscar da China, de
+rubis do Pegu, de diamantes de Narsinga, de perolas de Kalckar.
+
+6. _As embarcaes_--galees, naus, caravellas, bergantins, fustas,
+toda essa portentosa colleco dos nossos barcos de guerra e dos to
+variados typos empregados na cabotagem e na pesca, testemunhos
+sobreviventes ainda hoje do nosso genio maritimo e das suggestes do
+mais remoto trato do oceano, como se demonstra na forma dos saveiros,
+que trouxemos do Bosforo, e na da muleta do Seixal, que o navio grego
+do tempo de Herodoto.
+
+7. _A olaria e a cestaria popular_, em que to atticamente se affirma o
+hereditario engenho artistico da nossa raa, e cujos productos tanto se
+compraziam em reproduzir os nossos pintores.
+
+8. Emfim: _A psychologia das figuras_ pela physionomia, pelo gesto,
+pelo sorriso, pelo olhar; os usos e os costumes; os temperamentos
+predominantes; a moda, o toucado; o corte do cabello, o talho da barba,
+etc.
+
+Da pintura portugueza, que constitue a mais importante parte da riqueza
+artistica da nao, no ha porm catalogo, nem inventario, nem rol. Nos
+nossos depositos de antigos quadros, em Lisboa, em Coimbra, em Vizeu, em
+Thomar, em Lamego, em Evora, em Setubal, o povo portuguez passa
+indifferente, abstrahido, expatriado, sem guia que o condusa s fontes
+da tradio e da nacionalidade, em que cada um de ns tem a mais
+restricta e a mais instante obrigao de ir retemperar e fortalecer de
+portuguezismo o seu sangue, dessorado pela mais falsa educao a que se
+pode condemnar um paiz.
+
+No ha colleco publica, chronologicamente completa, dos nossos
+incomparaveis azulejos. Esta industria artistica no emtanto d'aquellas
+de que mais legitimamente nos podemos gloriar. At o seculo XVII o
+azulejador portuguez acompanhou a evoluo peninsular, de influencia
+mudegar e de influencia italiana. Desde o seculo XVII adoptamos o gosto
+hollandez, e no seculo XVIII os nossos artistas desenvolvem no azulejo
+azul e branco, em vastas composies historicas e de genero, paizagens,
+merendas, caadas, allegorias religiosas e lendas monasticas,
+enquadradas em bellas grinaldas polychromicas, o mais seguro e adestrado
+talento de composio historica e decorativa.
+
+Raro ser o anno em que de Portugal no tenha desapparecido um quadro
+inestimavel ou um codice precioso, sem qualquer apparencia de cohero,
+sem o minimo reparo, ao menos, do poder executivo, das crtes ou da
+imprensa. hora a que escrevo estas linhas me dizem que est venda ou
+vendido em Londres um livro de horas com que o rei D. Manoel brindra um
+fidalgo da sua crte, ordenando-lhe que vinculasse esse manuscripto, que
+era uma gloria da nao.
+
+No , em rigor da verdade, muito mais risonho que o destino das obras
+d'arte que saem para o estrangeiro o destino das que ficam no paiz.
+
+ bem conhecida a historia do primeiro dos nossos museus industriaes,
+fundado em Lisboa por Fradesso da Silveira. Esse museu extinguiu-se
+suavemente, a pouco e pouco, at chegar a no existir do deposito
+primitivo seno unica e exclusivamente as prateleiras em que elle havia
+sido collocado.
+
+O rico museu das antiguidades do Algarve, recolhidas ha dezeseis annos
+por Estacio da Veiga, ainda hoje se no acha instalado.
+
+Da inestimavel colleco das antigas peas de loua e de obras de barro,
+que haviam pertencido ao convento da Madre de Deus, e que o architecto
+Nepomuceno recolhera em uma das casas d'aquelle edificio, desappareceu
+tudo.
+
+To vasta a nossa riqueza artistica e to profundo o desleixo de a
+escripturar, que so quasi to frequentes as surpresas no que se
+encontra como no que se perde.
+
+Como exemplo direi que era assentado no haver em Portugal vestigio
+algum da influencia immediata de Van Eik na pintura portugueza, e no
+existir do infante D. Henrique, o Navegador, mais que um retrato, na
+miniatura annexa ao bello manuscripto de Azurara, presentemente
+propriedade da _Bibliothque Nationale_, em Paris. entretanto nosso, e
+existe em Portugal, um retrato egualmente contemporaneo e authentico, em
+tamanho natural, magistralmente pintado a oleo sobre madeira. Esse
+retrato precioso, inteiramente desconhecido do publico, eu mesmo o vi no
+dia 19 do mez de julho de 1895. Faz parte de um grupo de varios
+personagens, da segunda metade do seculo xv, e pertence a um jogo de
+quatro paineis, de dimenses eguaes, relacionados entre si por analogia
+de data e de assumpto. Est bem conservado, e acha-se, com os tres da
+serie a que pertence, no corredor do claustro de cima no edificio de S.
+Vicente de Fra, no vo de uma janella, junto dos aposentos habitados
+n'essa occasio por s. ex.^a revd.^{ma} o sr. arcebispo de Mitylene.
+
+O illustre escriptor inglez sr. Prestage mandou fazer d'esse retrato uma
+reproduco photographica, destinada a illustrar a nova edio ingleza
+da _Chronica da Guin_.
+
+Na linda egreja do convento de Santa Iria, que o fallecido architecto
+Nepomuceno comprou por 300$000 ris, e se achava encorporada no mosteiro
+fundado por D. Maria de Queiroz, viuva de Pedro Vaz de Almeida, veador
+da fazenda do infante D. Henrique, ha um retabulo em baixo relevo de
+bella pedra d'Anan, que simplesmente, pelo desenho, pelo stylo, pela
+mo d'obra e pelo estado de conservao em que se acha, uma das obras
+capitaes da esculptura da Renascena em Portugal. Compe-se de dezesete
+figuras. Junto da cruz, de que pende a mais ideal figura do Redemptor,
+est prostrada Santa Maria Magdalena. Acompanham-a a Senhora da
+Soledade, as tres Marias, Nicodemus, Jos de Arimathea e S. Joo
+Evangelista. No primeiro plano, dois soldados a cavallo, em magnifico
+trage do seculo XVI. Enquadra a composio um bello portico, de columnas
+e tabellas preciosas, chancellado pelo brazo dos Valles. S outro
+Calvario, o do claustro do Silencio, em Coimbra, obra, por certo, do
+primeiro dos esculptores de Santa Cruz, hoje profundamente cariada e
+quasi delida, se poderia comparar, de par com o pulpito da mesma egreja,
+ esquecida esculptura da abandonada egreja de Thomar.
+
+Em egual descaso e esquecimento, ignorado da grande maioria dos
+viajantes e dos estudiosos, o monumental e sumptuosissimo panthon dos
+Silvas, da preclara familia de D. Ruy Gomes, em S. Marcos, cerca de
+Coimbra. O bello portal alpendrado d'esta egreja tem a data de 1510. Os
+cinco sarcophagos de que se compe o jazigo verdadeiramente regio dos
+Silvas, assim como o retabulo em pedra no altar mr da egreja constituem
+uma preciosidade esculptural de valor incomparavel. Este admiravel
+repositorio da nossa esculptura quinhentista foi ha poucos annos
+vendido, com a cerca adjunta do extincto mosteiro, pela quantia de seis
+contos de ris.
+
+Os preciosos quadros da pintura portugueza do seculo XVI, completamente
+desarrolados, despercebidos dos compradores extrangeiros, e ainda hoje
+dispersos pelo paiz, so em numero talvez superior aos dos quadros de
+mesma poca recolhidos pelo estado depois da abolio das ordens
+religiosas. O illustre critico sr. Joaquim de Vasconcellos tem, s sua
+parte, noticia de no menos de cem obras desconhecidas do publico. Das
+que existem no Museu Nacional de Lisboa, na arrecadao da Academia das
+Bellas Artes e nos demais depositos do paiz, no ha uma s photographia
+registrada pelo Estado, semelhana do que se faz em todos os museus do
+mundo.
+
+Por occasio da ultima exposio, to interessante, realisada nas salas
+devolutas, das Janellas Verdes, para celebrar o Centenario de Santo
+Antonio, a direco das Bellas Artes no respondeu ao pedido da modesta
+quantia de 50$000 ris que a commisso executiva da mesma exposio lhe
+dirigiu para que se publicasse o respectivo catalogo, que ficou em
+manuscripto na mo do redactor.
+
+Por essa mesma occasio os peritissimos e benemeritos photographos
+portuenses Emilio Biel & Companhia, aos quaes to valiosos e
+desinteressados servios devem as artes portuguezas, dirigiram ao
+governo uma proposta para reproduzir pela photographia,--sem subsidio
+algum do thesouro--todos os objectos expostos no palacio das Janellas
+Verdes. Esta proposta ficou egualmente sem despacho.
+
+Inutil me parece alludir ainda disperso das mais ricas peas do
+mobiliario portuguez do seculo XVI e d'essa segunda renascena artistica
+e industrial do nosso seculo XVIII.
+
+Bufetes, arcas, armarios, contadores, tapearias da Persia, bordados e
+rendas do reino, couros lavrados e guadamecins, azulejos, porcellanas
+antigas da India, do Japo e da China, credencias, leitos torcidos ou
+empennachados, canaps e cadeiras curvilineas ao gosto da Pompadour de
+Odivellas, espelhos afestoados, de toucador e de sacristia, damascos da
+Real Fabrica das sedas, louas artisticas do Rato, da Bica do Sapato, do
+Porto, de Vianna, do Cavaquinho, da Panasqueira, de Darque, das Caldas,
+de Estremoz, de Coimbra, tudo o bric--brac extrangreiro nos leva em
+cada anno, com uma cubia e uma rapacidade que bem melancholicamente
+lembra a dos enviados de Verres no saque da Sicilia, do qual dizia
+Cicero que s ficou da arte o que a ganancia no quiz. Ainda ha Verres,
+como no tempo do velho mestre romano, mas j no ha verrinas.
+
+D'esta desorganisao geral de toda a policia da arte resulta mais ou
+menos lentamente, a quebra da tradio esthetica nacional, que a seiva
+de toda a produco artistica.
+
+ infecundao do individuo pelo espirito da raa corresponde o
+desfallecimento do poder creativo, a inercia da intelligencia, a
+esterilidade do estudo, a degenerao da phantasia, o abandalhamento do
+gosto, a atrophia do proprio caracter, e, em ultimo resultado da
+decadencia geral, a desnacionalisao pelintra de todo um povo.
+
+Com o rebaixamento da arte rebaixa-se tudo, porque no mundo producto
+da arte tudo o que no unicamente obra da natureza.
+
+O homem degenera, porque, sempre e em toda a parte, o homem toma
+fatalmente a configurao das coisas que o rodeiam e, para assim dizer,
+lhe enformam a personalidade.
+
+Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou pela inepcia de
+abastardadas classes dirigentes, os fieis debandam por no haver egreja
+que os reuna, e j evidente esta enorme catastrophe: que na arte de
+Portugal faltam coraes portuguezes.
+
+Fere-nos j esse phenomeno consternador em todos os aspectos da vida
+intellectual.
+
+Em resultado de no termos uma historia geral da arte portugueza,
+devidamente systematisada e integralmente documentada em cada um dos
+seus capitulos, vemos grassar, no s entre o vulgo mas entre pessoas de
+saber, incumbidas de guiar e de reger a opinio, o erro criminoso,
+profundamente desmoralisante, de que somos um povo inesthetico, incapaz
+de concepes artisticas originaes.
+
+A juventude litteraria, dotada de uma consideravel fora de applicao e
+de talento, traz-nos uma poetica exotica, de climas nevoentos,
+anti-meridional, e vem falando uma lingua secreta, cabalistica,
+interessantemente engenhosa, incomprehensivel para o povo e para todos
+os que no estiverem iniciados na morphologia espiritica das novas
+seitas.
+
+Em toda a historiographia contemporanea se nota uma glacial frieza de
+critica, uma anemica pallidez de expresso, um geral entono de apagada
+tristeza, em que bem se demonstra que no circula o sangue vermelho da
+raa, nem se retrata do vivo o genio do nosso povo, meigo, docil, de
+apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente sociavel, amando a
+grande alegria estridente das feiras, das tardes de touros, das romarias
+dos seus santos populares, conservando nas infimas camadas sociaes um
+residuo trovadoresco, de paladino e de menestrel, susceptivel ainda das
+paixes mais profundas, todo de improvisao e de repentismo, capaz das
+coisas mais imprevistamente grandes, poetico, aventuroso e destemido.
+
+Na poesia, assim como na pintura e na musica, no ha uma escola
+portugueza, porque, na falta de lao social que congregue os nossos
+artistas, sem elementos coordenados de estudo, sem modelos patentes, sem
+lio commum, no ha entre elles mutuamente, nem entre elles e o povo de
+que derivam, communho alguma de ideal ou de sentimento.
+
+Por egual razo no teem caracter nacional, sendo portanto destituidas
+de originalidade, e como taes inaptas para a luta da concorrencia
+mercantil, todas as nossas industrias.
+
+A decapitao official da nossa educao artistica manifesta-se ainda de
+mais perto, acotovelando-nos e contundindo-nos por toda a parte, no
+aspecto do povo, na apparencia das casas, na esthetica das cidades, na
+apparencia dos predios, na decorao das praas, das avenidas, dos
+cemiterios, dos jardins publicos, das lojas, das reparties do estado e
+das habitaes particulares.
+
+Em Lisboa, por exemplo, onde no ha uma sala de concertos populares, nem
+vem tocar para a rua a musica dos regimentos, onde no theatro de Dona
+Maria se no representa Gil Vicente nem Garrett, onde no theatro de S.
+Carlos se no canta Marcos Portugal, onde no ha um museu de arte
+decorativa, nem um simples mostruario da nossa produco industrial, nem
+um museu de pintura, coordenado, catalogado e etiquetado de maneira que
+communique ao publico, assim como em todas as outras capitaes da Europa,
+a lio que um museu contm, ha pelo contrario escaparates de
+apparatosos armazens, que so para quem anda pelas ruas o contagioso
+exemplo da mais corrompida perverso, do mais provocante e pomposo
+relismo a que pode chegar o desvairamento do gosto. Mobilias em tal
+maneira degeneradas que n'ellas desappareceu de todo o material de
+construco. A almofada que em toda a antiguidade e em toda a edade
+mdia era um accessorio movel, e s no seculo XVI se principiou a fixar
+com pregos ao banco ou cadeira, invade boalmente todo o movel, armado
+em ripes de pinho, como uma ea de defunto, embrulhado em pelucia, que
+nos esburaca os olhos pela insolente m creao da cr. E horripilantes
+lindices de toucador, de escriptorio ou de sala, em que tudo parece
+apostado em ser fingido, desde a etrusca ondulao do contorno at o
+material empregado, porque todas as linhas so aleijadas, a prata
+zinco, o marfim gesso, o charo de papel e o marmore esculpido de
+sabo. E tudo isso se compra e se leva para casa, para infectar a
+familia, para corromper o lar e para escrofulisar moralmente os meninos,
+desconjuntando-os de dignidade domestica, inoculando-os de pelintrice e
+de canalhismo de casta para a vida toda.
+
+Ha uma avenida monumental em que, ao longo dos passeios destinados ao
+transito do publico, em vez da ornamentao da flora regional, em vez
+dos longos massios de castanheiros, de laranjeiras, de palmeiras e de
+bananeiras, como em Barcelona e em Sevilha, esverdinham e apodrecem dois
+miseros e infectos arroios artificiaes no fundo de flexuosas ravinas,
+gretando sinuosamente o solo, como canos dissimuladamente abertos em
+fosquinhas para trambulhes do viandante.
+
+Nos predios a prodigalidade vesanica das janellas percorre a superficie
+das fachadas, havendo frontarias que parecem construidas unicamente com
+hombreiras contiguas e sobrepostas; e, ao passo que em cidades amoraveis
+e artisticas se criam premios e se abrem concursos de janellas floridas,
+em Lisboa prohibido ornamentar de flores o frontespicio das casas.
+
+Os lindos _empedrados_ e _embrechados_ de tradio portugueza caem em
+desuso, substituidos por cimentos incompativeis com a aco do nosso
+clima.
+
+O to commodo, to modico e to gracioso typo da nossa antiga casa de
+campo substituido nas construces modernas pelas frmas de um
+exotismo composito, as mais delambidas, mais pretenciosas e mais
+chinfrins, hybrida confuso allucinada do chlet suisso, do cottage
+inglez, da fortaleza normanda, do minarete tartaro e da mesquita
+moira,--nodoa e vexame da paizagem portugueza nas redondezas de Lisboa.
+Em presena de um to inverosimil scenario de magica, de operetta ou de
+revista do anno, ninguem, desajudado de outras indicaes, anedocticas e
+chorographicas, ser capaz de adivinhar em que parte do mundo e entre
+que casta de gente se est passando a pea. Tal a delirante epidemia
+de que esto combalidos os constructores contemporaneos, que, para ter
+um indicio nacional da nossa tradio, entre as casas de campo ou de
+praia construidas em torno de Lisboa nos ultimos vinte annos, temos de
+ir a Cascaes vr o typo, unico, da habitao dos condes de Arnozo, to
+saudosamente semelhante casa de nossos avs, com o seu pequeno eirado
+sobre uma arcaria de meio ponto, a sua porta de alpendre n'um patamar de
+escada exterior, ao lado do retabulo em azulejo do santo padroeiro da
+familia, as janellas de peitos guarnecidas de rotulas entre cachorros de
+pedra, destinados s varas do estendal, e servindo de misula aos vasos
+de craveiros e de mangericos, em frente do poo de roldana, no mais doce
+e tranquillo sorriso d'outr'ora.
+
+Nos mesmos letreiros das esquinas de ruas encontram-se denominaes que
+esbofeteiam o pundonor patriotico, a cultura historica e a dignidade
+esthetica dos habitantes.
+
+No Bairro Alto, onde a nomenclatura das ruas to sympathicamente
+suggeria a lembrana bucolica da antiga fazenda suburbana, em que os
+jesuitas de S. Roque delinearam a nova cidade, como a rua da _Vinha_, a
+do _Moinho de Vento_, a do _Poo_, a do _Carvalho_, a da _Rosa_, a da
+_Atalaia_, ou os nomes dos officios que ahi primitivamente se arruaram,
+como os _Calafates_ e as _Gaveas_, apaga-se, como n'uma rasura de conta
+falsificada, esse lindo e piedoso vestigio da tradio lisboeta, para
+dar s ruas nomes novos e incaracteristicos, de sujeitos que n'ellas
+moram ou se diz que por l passaram. E com egual afouteza se dissolvem,
+n'um borro de brocha, sagrados disticos, ainda mais estreitamente
+vinculados historia do povo e historia da cidade, como o da Rainha
+Santa Isabel, como o dos Martyres de Marrocos.
+
+Os trages populares, alguns to pittorescos, to suggestivos e to
+bellos, como os das mulheres da Murtosa, da Maia, de Santa Martha e de
+Portuzello, como o dos boieiros do Ribatejo, dos pescadores de Ilhavo e
+da Povoa, e dos montanhezes do Alemtejo e do Algarve, degeneram e
+abastardam-se ridiculamente, porque no ha entre a gente culta quem
+preze esse trage, quem o honre e quem o entenda.
+
+Egualmente se desdenham e repudiam, por espirito de inconcebivel
+extrangeirismo, os productos primorosos de algumas das nossas industrias
+populares.
+
+Nenhum outro povo matiza com mais harmonia de cr e mais graa de risco
+esses tecidos dos teares ou dos bastidores caseiros, combinados com
+estopa, com linho, com l ou com algodo, de que se fazem os panos
+liteiros, as sirguilhas, as saias e os aventaes das mulheres de Vianna,
+e bem assim as colxas de linho bordadas a frouxo na Beira, e os tapetes
+chamados de Arrayolos. Nenhum outro povo sabe tornear na roda do oleiro
+com mais esbelteza e mais puro atticismo o pote ou a bilha de barro, a
+pucara, o gomil e o pichel, de Coimbra, do Prado, de Mafra, de Redondo,
+de Loul.
+
+Se ninguem mais artisticamente do que o portuguez sabe vestir a mulher,
+arrear o cavallo, engatar a mula, e moldar a vasilha, ninguem, to
+pouco, melhor do que elle emalha a rede e enastra o cesto.
+
+Dizem inglezes que metade da sua arte contemporanea se deve iniciativa
+e propaganda do grande critico nacional John Ruskin, que Tolsto
+considera um dos maiores homens do seculo, e a quem Carlyle chamava o
+_ethereal Ruskin_. Este glorioso campeo da esthetica e da arte em todas
+as suas mais complexas e mais variadas manifestaes no pode deixar de
+ser lembrado por todos os que se interessam em taes assumptos. Os seus
+numerosos livros sobre historia da arte, sobre a architectura, sobre a
+pintura, sobre as artes decorativas e as artes industriaes, os seus
+profundos estudos de _Turner e os antigos_ e dos _Pintores modernos_, a
+sua triumphante campanha em favor dos monumentos historicos, das
+industrias ruraes, dos preraphaelitas, das paizagens inglezas, so um
+verdadeiro monumento litterario, e a bibliographia que se lhe refere
+constitue toda uma litteratura, famosa na Inglaterra sob o nome
+consagrado de _ruskineana_. Grande homem de aco, gloria dos da sua
+raa, tomando por divisa _To day_, Ruskin no se emparedou, como a
+maioria dos criticos, na torre eburnea dos extases poeticos e das
+contemplaes expeculativas. Tendo consumido rapidamente mil contos de
+ris da legitima paterna em subvenes das mais generosas empresas
+sociaes, em dadivas aos museus, em soccorro dos pobres, em fundaes de
+escolas e de officinas, reconstituindo pela venda dos seus livros, (a
+trinta contos a edio) um rendimento de riquissimo proprietario, elle
+fez-se gratuitamente professor de desenho, industrial e operario.
+Organisou a casa editora das suas proprias obras, a _Ruskin House_,
+fundou a _Saint-George's Guild_, em Londres, a Sociedade Protectora dos
+Monumentos Architectonicos, e as sociedades de leitura de Manchester, de
+Glascow e de Liverpool; ensinou a Inglaterra a comprehender a obra de
+Turner; fundou o culto dos primitivos, introduzindo na _National
+Gallery_ os preciosos quadros de Benozzo Gozzoli, de Perugino, de
+Botticelli, de todos os grandes predecessores de Raphael; e deu arte
+todo um novo ideal e uma religio nova, creando uma pleiade
+brilhantissima de proselytos, de collaboradores e de discipulos, entre
+os quaes figuram Madox Brown, Rosseti, Collingwood, Millais, Morris,
+Thomaz Dean, Woodward, Munro, Hunt, Burne Jones, Hook e Brett, e Giacomo
+Boni, o actual conservador dos monumentos nacionaes da Italia. Foi elle
+emfim que deu a mais alta expresso auctoridade esthetica em nossos
+tempos, impedindo, em nome da arte, que um traado de caminho de ferro
+deturpasse a belleza de uma collina na paizagem ingleza, e levando uma
+commisso da Camara dos Lords a consultar uma commisso de artistas
+sobre se a passagem de uma linha ferrea no affectaria ruinosamente a
+parte de riqueza publica representada pela tranquilla e doce poesia de
+certo valle.
+
+ porm com um intuito especial,--a proposito das nossas to resistentes
+industrias tradicionaes e domesticas,--que eu invoco o nome glorioso de
+Ruskin.
+
+O trabalho rural da fiao mo e da tecelagem no estreito e primitivo
+tear caseiro achava-se totalmente extincto na tradio ingleza. Ruskin,
+considerando os poderosos elementos de economia, de moralidade, de
+satisfao, de educao esthetica e de intima poesia, destruidos pela
+suppresso d'essa antiga actividade artistica da familia no campo
+inglez, dedicou-se com um esforo portentoso a fazer reviver em Langdale
+e em Keswick a extincta industria caseira dos panos de linho e dos panos
+de l em pequenas manufacturas domesticas, tendo por unico auxiliar da
+fora individual uma vela de moinho nos cabeos das collinas ou a
+corrente da agua beira dos riachos. Elle mesmo d o exemplo da nova
+organisao do trabalho na familia, construindo o seu famoso moinho de
+Laxey. Recompe-se uma antiga roda de fiar com as peas desarticuladas e
+esquecidas de um d'esses abandonados apparelhos encontrados em casa de
+uma velha tecedeira. reconstruido um primitivo tear sobre o modelo
+florentino e medieval de um quadro de Giotto. Ruskin envolve esse novo
+movimento retrogrado do trabalho na propaganda mais activa e mais
+eloquente. A sua palavra calorosamente apaixonada, colorida e mordente,
+encontra em todo o Reino Unido um ecco extraordinario. As teias do novo
+linho caseiro, um tanto rugoso, um tanto irregular, cegado no campo,
+espadelado, assedado, fiado, crado e tecido pela mesma mo de mulher,
+porta ou janella de uma cabana, ao ar dos campos, ao ramalhar das
+faias, ao canto das cotovias, denotando nos accidentes da factura, como
+n'uma obra d'arte, a caracteristica individualidade do artifice,
+substituida banal perfeio estupida e antipathica do apparelho
+mechanico, desbanca rapidamente a obra da fiao a vapor, cae em moda
+entre as pessoas de gosto aperfeioado, recebe a alta proteco da
+princeza de Galles, torna-se de rigor em todos os enxovaes elegantes, e
+faz-se pagar mui remuneradoramente por preos consideravelmente
+superiores ao dos productos da grande industria mechanica.
+
+Exito egual ao dos panos de linho na industria caseira dos lanificios na
+ilha de Man. conhecida no s em toda a Inglaterra mas em toda a
+Europa a fama d'esses resistentes tecidos ruraes fabricados mo, de
+desenhos combinados na urdidura e na trama com as cres naturaes da l,
+sem preparo algum chimico ou mechanico, de tintura ou de acabamento; e a
+mais cara de todas as fazendas de luxo para traje de trabalho, de caa,
+de viagem, de equitao, o famoso _homespun_ ou _Laxey homespun_, do
+nome da localidade em que se estabeleceu o primeiro moinho de Ruskin.
+a esta evoluo das pequenas industrias ruraes, hombreando em valor
+remunerativo com as grandes industrias, e no a destructiva absorpo do
+trabalho da familia pelo trabalho das grandes empresas fabris que eu
+chamo _transformao de industrias caseiras em industrias de
+concorrencia_,--formula que geralmente se toma em sentido diverso
+d'aquelle que eu lhe ligo.
+
+Em Portugal certo que definham de dia para dia, e que successivamente
+se vo extinguindo as nossas velhas industrias ruraes. Esmorece
+calamitosamente, por culpa da administrao economica dos nossos
+governos, a industria delicadissima das obras de filigrana de ouro e de
+prata, ainda em nossos dias servida por numerosas familias ruraes dos
+districtos do Porto e de Braga. Morreu em Bragana a industria da
+sericultura e a da fabricao do veludo. Acabou em Guimares, entre
+outras industrias interessantissimas, a da manufactura caseira das sedas
+e dos brocados. No Algarve talvez que j hoje se no faa um unico
+trabalho de pita. Tem diminuido consideravelmente o numero dos teares
+caseiros na Covilh, na serra de Monchique, na serra da Estrella. Nas
+margens do Lima, porm, entre Vianna do Castello e Ponte de Lima, ha
+ainda algumas das mulheres mais lindas e das mais bem educadas de todas
+as portuguezas, que fiam e tecem em suas casas o linho, a l, o algodo,
+e se vestem completamente, da maneira mais elegante, com os tecidos mais
+consistentes e mais bellos, de sua fabricao exclusiva em todas as
+phases por que passa a materia prima, desde que cegada no campo ou
+tosquiada no carneiro at se converter em vestido. feira semanal de
+Vianna as raparigas d'essa regio trazem em lindas canastras, alm dos
+ovos e dos frangos que criam, alm da manteiga que fabricam, as teias de
+pano de linho, os cortes de saias de l e de algodo, as peas de
+sirguilha, que tecem, e as rendas que fabricam a bilros ou agulha. As
+de Villa Nova de Ourem fazem ainda fitas excellentes; e no mercado de
+Thomar vende-se em graciosos novellos da frma de casulos a melhor
+linha, branca ou preta, que se pode comprar em Portugal. Conserva-se
+ainda a antiga tradio das _mantas do Alemtejo_, citadas j por Gil
+Vicente na _Fara dos almocreves_, a dos liteiros e mantas de retalhos,
+a dos lindos alforges da Extremadura, do Alemtejo e do Algarve, de
+Minde, d'Alte e de Redondo, e a d'esses famosos tecidos de l, que so o
+_homespun_ portuguez, e que em sua variedade se denominam bureis,
+estamenhas, briches, saragoas, jardos, sorrubecos.
+
+Meditemos na maravilhosa obra operada por Ruskin n'um sentido esthetico,
+que primeira vista se figura retrogrado, mas que encerra talvez em
+germen o destino futuro, preciosamente moralisante de todas as
+industrias, desde que os aperfeioamentos da electricidade desloquem o
+eixo do trabalho fabril, levando a casa de cada artifice por meio de um
+tenue fio de arame o quinho de fora que tem para distribuir por cada
+operario do seculo que vem o immenso e incalculavel esforo propulsr do
+sopro dos ventos, do fluxo e refluxo das mars, da corrente dos rios,
+dos cyclones das Pampas ou das cataractas do Niagara. E em presena da
+revoluo das industrias caseiras da Inglaterra, onde todo o vestigio de
+tradio desapparecera, ponderemos o que se pode fazer em Portugal, onde
+a tradio sobrevive com uma energia prodigiosa a todos os desdens e a
+todas as oppresses que a esmagam!
+
+ notoria desde o seculo XVI a aptido artistica, que distingue o nosso
+marinheiro em todas as pequenas industrias de bordo, nos mais delicados,
+pacientes e engenhosos trabalhos tendo por base o cabo ou o fio de linho
+torcido ou entranado. Ninguem como elle manusa os ferros e as
+amarraes, o poleame e o talhame, o cabo, a adria ou o pano. Ninguem
+como elle confecciona o coxim, a gaxeta, o mixelo, o unho, a boa, a
+linga, o estropo, o repuxo, o massete ou a agulha. E no o ha mais
+dextro em lanar a volta, em enastrar a pinha e em dar o n de escota,
+de fateixa ou de botija, o n direito e o n torto, o de cogula, o de
+borla de pescador, ou o de espia. Em toda a nossa costa, desde o Minho
+at o Guadiana, a enorme variedade de frmas nas embarcaes da pesca
+maritima, da pesca fluvial e da pesca lacustre, basta para evidenciar a
+persistencia da tradio no grande genio maritimo de to pequeno povo.
+
+Os que ainda vo pesca do bacalhau, Terra Nova, equipam de uma
+maneira especial a escuna ou o patacho, preferindo porm o typo latino
+do hiate e do lugre. Os que vo cavalla, pescada e ao sarrajo, no
+mar de Larache, embarcam nos cahiques de Olho, semelhantes aos de toda
+a costa algarvia e aos de Lisboa e Setubal, de pra redonda,
+apparelhando com dois bastardos. pesca do alto vae a lancha de
+Caminha, construida no portinho de Gontinhes; a lancha pveira, de
+bocca aberta, apparelhando com um s mastro e a verga munida de uma
+grande vela latina; o _barco da pescada_, de Buarcos, de borda alta e
+duas pequenas toldas, apparelhando com dois mastros; o catraio da
+Nazareth; o _barco da sacada_, de Peninhe, de convez corrido com quatro
+escotilhas e dois mastros, com as vergas preparando em cruz; a _rasca da
+Ericeira_, a da Figueira da Foz e a da Vieira; as canas de Belem, de
+Cezimbra, de Setubal e do Algarve, chamadas em Lisboa _enviadas_ ou
+_canas da picada_, e no Algarve _andainas_. Na pesca maritima costeira
+empregam-se embarcaes numerosas e variadissimas. Na arte de galeo
+agrupam-se: o _galeo_, coberto, de pra direita e arrufada,
+apparelhando com o latino triangular, que amura ao bico de pra e caa
+ppa, em mastro inclinado para vante; o _galeonete_; o _buque_, curvo na
+roda de pra e sem coberta; a cana do galeo, e o _acostado_, que se
+emprega no transporte do peixe. Na armao fixa do atum e da sardinha,
+nas _almadrabilhas_, ou _almadravas_, como antigamente lhes chamavamos,
+do nome arabe que os hispanhoes conservam, labuta o _calo_, grande
+lancha, de bocca aberta, armando com estropo oito ou dez remos por
+banda, tendo na pra arredondada, rematada no alto por duas femeas, uma
+saliencia vertical de puas em serra, semelhando um lombo de peixe, e,
+pintado de cada lado, um olho arregalado para o horizonte; a _barca da
+testa_; a _barca das portas_; a _barca da gacha_, e o _lade_.
+
+Na costa do Algarve, as almadravas occupam hoje approximadamente os
+mesmos logares que tinham no seculo XVI; e o _calo_ , como alguns
+barcos do Douro, de pra comprida e alta, propria para atracar a margens
+escarpadas ou para varar com facilidade na praia, o typo mais analogo ao
+das embarcaes portuguezas de ha trezentos ou quatrocentos annos.
+
+_Nas artes de arrastar para terra_ figuram as _xavegas_ do Algarve, os
+_saveiros_ e as _meias-luas_, de Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa
+Nova, Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares, desde o sul do
+Douro at a Vieira, reapparecendo, mais abaixo, na costa de Caparica e
+da Gal, e na praia de Sines. _Nas redes de alar a reboque_ trabalham as
+_muletas_ e os _bateis do Seixal_.
+
+O sr. Arthur Baldaque da Silva, no seu precioso livro _Estado actual das
+pescas em Portugal_, enumera ainda, entre os diversos typos de
+embarcaes empregadas em varios systemas de pesca, o _batel de
+Espozende_, o _barco de Vianna do Castello_, a _barquinha do rio Lima_,
+a _bateira da Figueira da Foz_, a _lancha de Buarcos_, a _lanchinha do
+Tejo_, o _ilhavo da Tarrafa_, o _batel de Peniche, o cahique_ e a
+_lancha de Peniche_, os _poveiros_ de Lavos, de Buarcos, da Nazareth, de
+Cascaes, de Cezimbra, de Setubal; o _catraio_, a mais genuina embarcao
+portugueza da nossa costa meridional, a _caadeira_ e a _focinheira de
+porco_ da Ericeira, a _maceira_ da costa do Norte, o _cahique de Sines_,
+o _barco minhoto_, construido em Lanhellas e em Forcadella, o _batel do
+Cavado_, o _barco do Douro_, o _esgueiro da ria de Aveiro_, a _lancha
+de Villa Franca_, a _bateira do Mondego_, a _lanchinha_ e a _chata do
+Tejo_, e outros do continente, sem contar os barcos de cabotagem, os
+typos da Africa, dos Aores, da ilha da Madeira, no descriptos,
+infelizmente. So ainda de notar, entre as jangadas mais
+caracteristicas, as de Marinhas, para a pesca do polvo; as de Fo e da
+Apulia, para a apanha do sargao; as de Neiva e as de Sedovem.
+
+Com essa phantastica riqueza de documentos maritimos, assombro de todos
+os outros povos, verdadeiramente inacreditavel que em Portugal no
+haja um museu naval, em que estes documentos se confrontem e se estudem.
+No ha tal museu.
+
+Em terra to variada a colleco popular das vasilhas, dos fogareiros
+e dos cestos caseiros, como variada na agua a frma das embarcaes. A
+simples nomenclatura do vasilhame portuguez d, s de per si, uma ida,
+ainda que bem incompleta, da multiplicidade das suas frmas, porque ha
+typos que variam de regio para regio, de dez em dez leguas de
+perimetro. Esses typos principaes so a talha, o pote, o cantaro, o
+caneco, o tenor, a tarefa, a pucara, o gomil, a escudella, a tijela, a
+infusa, a meia, a quarta, a quartinha, a pinta, a sumicha, a
+sangradeira, a alquara, a vieira, o almude, a tamboladeira, o alguidar e
+o alguidarinho, o alcadafe, o moringue, o boio, o tarro, o cantil, a
+almofia, o alcatruz, o porro, o ccho, o picho, o pichel, a almotolia,
+a ancoreta, a taleiga, a galheta, o caldeiro, a caldeira e a
+caldeirinha, o tacho, a caoila, a copa, a bateia, o jarro, a batega, a
+pichorra, a botija, a cabaa, a malga, etc. Alguns d'estes nomes jogam
+com o antigo systema de medidas abolidas no seculo XVI, quando se
+estabeleceu o systema novo, tendo por base o quartilho. A vasilha
+correspondente velha medida, condemnada no reinado de D. Sebastio,
+sobreviveu porm na tradio e no costume. A _sumicha_, por exemplo, com
+quatro decilitros de capacidade, to maneira, to graciosa, to bem
+proporcionada a uma sde d'agua, ainda hoje na olaria de Coimbra o
+pucaro consagrado, que no pote da regio, de uma elegancia to fina e
+to attica, se encasa no alguidarinho que lhe serve de tampa.
+
+As frmas populares d'essa vasilharia, umas trazidas do Peru e do
+Mexico, como a do moringue e seus derivados, outras, provenientes de
+typos gregos e etruscos, da cratera, da amphora, da ambula, do askos, do
+bombylio, etc., so por toda a parte, em nossos districtos ceramicos, as
+mais bellas, as mais engraadas ou as mais nobres, as mais
+irreprehensivelmente puras, parecendo que roda mechanica do operario
+as foi delineando, contornando, envolvendo sempre, a pea por pea, o
+sorriso acariciante de um artista.
+
+De uma humilde panellinha portugueza de barro preto, de Prado ou de
+Molellos, deduziram em Frana o assucareiro, a leiteira, a cafeteira e o
+bule de um servio de almoo, que ficou tradicional na fabricao de
+Svres.
+
+A industria popular da cestaria acompanha na evoluo das frmas a
+industria do oleiro. Todos os que percorreram as feiras e os mercados do
+nosso paiz notariam que cada regio tem a sua canastra, o seu cabaz e o
+seu gigo, differentes na frma ou no ornato. Ha-os de todas as
+configuraes, fundos e chatos, quadrados, octogonos, arredondados,
+oblongos, cubicos, cylindricos, espheroidaes, lembrando algumas vezes a
+frma e a construco americana dos samburs, dos tipitis e dos cfos
+tupis, feitos de taquara e de cip, que introduzimos talvez no Brazil
+ou, mais provavelmente, l aprendemos a fabricar, deixando o typo do
+balaio, com cujo nome se designa ainda na Bahia o farnel que de
+ordinario se transporta no cesto portuguez d'essa configurao,
+semelhante de um alguidar. Mui frequentemente varia tambem o balaio, o
+canistel, a cesta, a condea, o ceiro e a ceira, a alcofa e a
+alcofinha. A materia prima do cesto o vime, o junco, a fasquia de
+castanheiro, a fasquia de faia e a canna; a da ceira e da alcofa o
+esparto, a engeita, a palha de trigo e de centeio, a taba, a juta e a
+pita. Em algumas regies, como nas Caldas e Vizeu, os cestos so obras
+primas incomparaveis de acabamento e de graciosidade. A canastrinha
+burriqueira das Caldas, reduzida ao miniaturismo de dois centimetros,
+um simples prodigio de fabricao minudente e delicada. No Algarve a
+alcofa, de filiao arabe, por vezes ornada de apparatosas flores
+bordadas a seda ou a l.
+
+Sem embargo, continuando a affirmar-se que no temos sentimento
+artistico, desistimos por indisciplina, por ignorancia, por desanimo, de
+transformar em industrias de concorrencia as nossas industrias
+domesticas, e no negociamos com o extrangeiro nem tecidos de phantasia,
+to originaes como os que possuimos, nem papeis pintados derivados
+d'esses tecidos, nem a loua, nem a cestaria, nem a filigrana,
+immobilisada em typos decrepitos, e da qual to lindos effeitos se
+tirariam, applicando-a em ouro a servios de toucador, a frascos de
+cristal, a molduras de retratos, a encadernaes de devocionarios, etc,
+etc.
+
+Tanto menosprezamos os productos quanto desconhecemos as fontes da nossa
+civilisao artistica.
+
+A arte que menos estudamos a arte hispanhola, qual todavia
+indissoluvelmente nos prendem os mais estreitos vinculos de
+temperamento, de tradio e de ideal. Juntamente com os hispanhoes
+recebemos dos arabes as primeiras influencias que em toda a produco
+artistica da Peninsula imprimiram a feio differencial mais
+caracteristica e mais indelevel. Aos califados, que cobriram de
+mesquitas Cordova, Sevilha, Granada, Santarem, Lisboa e Coimbra, devemos
+o toque de orientalismo peculiar das formas architectonicas do nosso
+stylo romanico, ogival e da renascena. E da mesma procedencia, mosarabe
+ou mudejar, so algumas das nossas mais interessantes industrias, como a
+da filigrana, a dos azulejos, a das sedas, a do papel, a da
+encadernao, a dos couros lavrados, (a que chamavamos _cordoves_ por
+nos virem de Cordova) a das esteiras, a dos tapetes, a das obras de
+esparto, de palma, de pita. At o fim do seculo XVI artistas
+portuguezes, leonezes, castelhanos, valencianos, aragonezes, catales,
+asturianos, tivemos um ideal commum nas letras, na architectura, na
+esculptura, na pintura, nas artes sumptuarias e nas artes industriaes,
+celebrando identicos feitos de guerra, de religio e de amor, servindo
+reis do mesmo sangue, heroes das mesmas aventuras, santos e santas da
+mesma invocao popular.
+
+Das nossas relaes com Flandres s conheciamos--at ha bem poucos
+annos--a influencia flamenga em Portugal, ignorando completamente a
+reciproca aco dos portuguezes em Gand, em Bruges, em Antuerpia. Foi o
+sr. Joaquim de Vasconcellos quem, investigando os annaes das confrarias
+e o archivo das feitorias de Portugal, consignou que, em resultado da
+proteco dada aos artistas nacionaes por D. Joo II e por D. Manoel, de
+uma s vez chegaram a reunir-se em Paris cincoenta pensionistas
+portuguezes. Aos trabalhos do mesmo investigador se deve acharem-se hoje
+apurados varios nomes de pintores de Portugal trabalhando em Flandres,
+entre os quaes Edwart Portugalois, discipulo de Quintino Metsys,
+proclamado em 1504 mestre pintor da confraria de S. Lucas de Antuerpia.
+
+Os trabalhos do sr. Joaquim de Vasconcellos esto sendo diligentemente
+continuados pelo sr. Sousa Viterbo, na Torre do Tombo, e pelo sr.
+Joaquim Mauricio Lopes, nosso consul, em Antuerpia.
+
+Em uma recente publicao do sr. Mauricio Lopes, _Les portugais Envers
+au XVI^{me} sicle_, demonstra-se por meio dos mais expressivos
+documentos que a colonia portugueza, estabelecida em Flandres desde que
+em 1386 o duque de Borgonha Filippe-o-Ousado concedeu licena para ahi
+viverem mercadores de Portugal e dos Algarves com as suas familias e os
+seus creados, foi para a civilisao que os acolheu de uma importancia
+incomparavelmente superior que jmais exerceu a colonia flamenga em
+Portugal.
+
+Os negocios dos portuguezes em Antuerpia, ao tempo da fundao da
+primeira feitoria de Portugal por D. Manoel, negocios tendo por base,
+alm das exportaes do reino, o commercio das especiarias trazidas da
+India por Lisboa, montavam annualmente a cerca de cinco mil contos da
+nossa moeda actual. O numero das casas portuguezas em Antuerpia era de
+cento e doze. Os mercadores portuguezes representantes d'essas casas
+viviam com um fausto verdadeiramente principesco. Em 1594, por occasio
+da entrada triumphal de Filippe II, herdeiro de Carlos V, a cavalgada
+portugueza ficou memoravel. Compunha-se de vinte senhores e de quarenta
+creados, montando todos cavallos peninsulares, ricamente ajaezados. Os
+senhores trajavam de brocado e seda cr de purpura, bordada de ouro e de
+rubis, com botes, passamanes e collares de ouro. Todos os gorros eram
+orlados de brilhantes. Os creados, equipados, de couraa e espada,
+vestiam librs de seda verde e branca, com as bainhas das espadas de
+seda branca.--O que era, segundo o chronista Cornelius Grapheus, _chose
+moult riche et triomphante voir_.
+
+Nas festas da entrada em Antuerpia de Ernesto d'Austria, governador dos
+Paizes Baixos, os portuguezes erigiram um arco triumphal, em que se viam
+as figuras da Mauritanea, do Brasil, da Etiopia, da India, da Persia, do
+Ganges, do Rio da Prata, com as estatuas de Filippe I, do principe
+Filippe de Hispanha, de D. Joo II e de D. Manoel. Em outro arco de
+triumpho, delineado por Ludovicus Nonnius e consagrado a Fernando
+d'Austria, em 1635, expuzeram os portuguezes diversos quadros
+representando, entre outras, as allegorias da Victoria, da Clemencia, da
+Felicidade, da Religio, e os retratos de D. Affonso Henriques, D. Joo
+I, D. Manoel e D. Filippe II.
+
+Um d'esses portuguezes, o feitor Antonio Cirne, natural do Porto, nos
+saraus do Palacio chamado de Portugal, pretextando que a turba ou a
+lenha cheiravam mal, mandava cosinhar as eguarias com fogo de canela, e
+queimar canela em todas as fogueiras das chamins.
+
+Outro portuguez, Simo Rodrigues d'Evora, era baro de Rhodes,
+cavalleiro, senhor de Tewerden, de Broeckstraate; pela sua enorme
+fortuna lhe chamavam o _rei pequeno_; possuia muitos predios na
+principal arteria da cidade, e habitava um d'elles, em que
+successivamente se hospedaram a infanta D. Izabel, a rainha Maria de
+Medicis e o principe cardeal Fernando d'Austria; fundou, com o fim
+caritativo de recolher doze senhoras da nobreza ou da burguezia
+reduzidas indigencia, o hospicio de Sant'Anna, onde um triptyco de
+Otto Venius representava o retrato do fundador com seus filhos e sua
+mulher D. Anna Lopes Ximenes de Arago.
+
+O luxo da colonia portugueza em Antuerpia assumia muitas vezes o mais
+nobre e mais alto caracter artistico. A enthusiastica hospitalidade
+conferida pelos portuguezes a Alberto Drer ficou assignalada pelas
+grandes festas a que deu origem. Drer retribuiu esses favores com
+presentes de quadros e de gravuras aos feitores e aos negociantes de
+Portugal.
+
+Diogo Duarte, filho de Gaspar Duarte, possuia uma das primeiras galerias
+de pintura em Flandres. Foi recentemente publicado na Hollanda um
+catalogo dos seus quadros, entre os quaes havia obras de Drer, de
+Breughel, de Metsys, de Maubeuge, de Ticiano, de Tintoreto, de Andrea
+del Sarto, e um Raphael, que constava haver sido adquirido do principe
+D. Manoel de Portugal em troco de diamantes no valor de 2:200 florins.
+
+Muitos dos nossos compatriotas estabelecidos em Flandres cultivavam as
+sciencias e as letras, contando-se entre elles professores, medicos,
+escriptores celebres, como Amato Lusitano, Rodrigo de Castro, Garcia
+Lopes, Damio de Goes, etc.
+
+Outro curioso symptoma da nossa desaffeio dos estudos da arte nacional
+ a estagnao das velhas idas preconcebidas na apreciao dos nossos
+monumentos architectonicos. J me referi ao co basbaquismo privilegiado
+de que objecto absorvente o monumento da Batalha. Devo aclarar um
+pouco mais, ainda que rapidamente, esse phenomeno.
+
+Por notavel superstio epidemica, por inercia de espirito, por
+servilismo intellectual, por pedantismo classico, por costume, por
+commodidade, por conveno admirativa, ou por qualquer outro motivo, os
+criticos portuguezes, que mais teem governado a opinio, estabeleceram
+axiomaticamente, como coisa definitivamente demonstrada e assente, que o
+unico puro e genuino exemplar de stylo gothico existente em Portugal o
+da Batalha. Toda a modificao nas linhas constructivas ou nos motivos
+ornamentaes d'esse typo passou, por effeito de tal dogma, a
+qualificar-se de _decadencia_. Capellas imperfeitas, decadencia!
+Claustro dos Jeronymos, decadencia! Egreja de Christo e de S. Joo em
+Thomar, decadencia! Santa Cruz e S. Marcos, em Coimbra, decadencia!
+Decadencia emfim toda a obra architectonica da poca manoelina.
+
+A termos acceitado tal principio na sua applicao pratica, teriamos
+tido na nossa architectura ogival do seculo XVI um neo-gothico, fixo e
+invariavel, como o neo-greco-romano da renascena, que o triumpho
+consagrado do dogmatismo na arte, a immobilidade canonica nos systemas
+de construir, a cristalisao da rotina, a sujeio de toda a
+imaginao, de todo o poder inventivo a uma formula invariavel. Teriamos
+tido de submetter-nos ao despotismo da Batalha, como to cegamente, to
+estupidamente, to inconcebivelmente, nos temos submettido por tantas
+centenas de annos ao despotismo de Vitruvio e das suas cinco ordens, com
+os seus correspondentes aphorismos de proporo e de symetria, seu
+pedestal, sua columna e seu entablamento, repetindo sempiternamente,
+sobre os mesmos dados estaticos, o mesmo denticulo, o mesmo modilho, a
+mesma canelura, o mesmo triglypho, a mesma gta, a mesma carranca! Ora
+precisamente o stylo manoelino da nossa architectura, com toda a sua
+effuso esculptural, com todo o avassalante symbolismo dos seus motivos
+ornamentaes, com toda a arbitrariedade dos seus processos, com todas as
+suas despropores e todas as suas assymetrias, no precisamente seno
+a contraposio da liberdade creativa dos nossos architectos-esculptores
+ enfatuao idolatrica, pedantesca preceituao rhetorica, ao
+esmagador e exhaustivo despotismo das _cinco ordens_, com que o
+neo-classicismo da renascena razoirou todo o talento humano. O stylo
+gothico prestava-se como nenhum outro, pela extrema flexibilidade dos
+seus principios fundamentaes, aos desenvolvimentos de pura arte, com que
+o esculptor, completando a obra do engenheiro, e fazendo-se assim
+architecto, pode aviventar a pedra de um edificio, convertendo-a n'um
+elemento de sympathia e de solidariedade social, fazendo vibrar na
+palpitao do seu lavor evocaes de idas e de sentimentos proprios dos
+homens da sua raa e da sua terra. Os artistas manoelinos no teriam
+feito talvez monumentos _correctos_, na accesso indigente em que as
+academias empregam esta palavra, mas fizeram monumentos
+_expressivos_,--o que melhor. Porque no so as academias que pautam
+as propores e os limites da creao artistica. Tudo o que se pode
+formular em preceito cessa de ter valor em arte. A obra de arte no um
+producto de escola: a livre expresso individual de uma alma,
+convertida em realidade objectiva, e communicando aos homens uma
+vibrao nova do sentimento.
+
+A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua categoria,
+deduz-se da maior ou menor quantidade das idas que a sua obra suggere e
+dos sentimentos cuja percusso ella determina. Nos monumentos
+architectonicos pela sobreposio do ornato esculptural s linhas
+geometricas da construco que a arte se exerce. principalmente na
+esculptura que reside a expresso poetica do monumento.
+
+Em Portugal teem sido acusados os architectos manoelinos de invadirem
+pelo vegetabilismo ornamental todos os perfis da construco,
+submettendo assim as frmas constructivas ornamentao esculptural. Os
+grandes criticos da Inglaterra, que to consideravel impulso teem dado
+s idas estheticas e moderna evoluo artistica, entendem porm, ao
+contrario dos nossos, que a sciencia de edificar e de dispor linhas na
+construco de um monumento um ramo secundario da arte de esculpir. Esta
+affirmativa envolve a consagrao da escola manoelina pela critica que
+n'este seculo mais minuciosamente e mais profundamente tem estudado a
+arte gothica e a arte da renascena.
+
+Nada todavia mais afflictivo, de peor indicio para os destinos nacionaes
+da arte, que o descaso do publico, pervertido em seu instincto pela
+carunchosa doutrina academica, perante esses monumentos em que sob, o
+reinado de D. Manoel, os artistas portuguezes to vigorosamente
+accentuaram a palpitao victoriosa do genio, da originalidade, da
+poesia, da gloria do povo lusitano.
+
+O que se convencionou chamar _decadencia_ na ultima evoluo do stylo
+gothico em Portugal a modificao portugueza d'esse stylo, a sua
+nacionalisao, a originalidade local, imposta pelos architectos
+portuguezes do seculo XVI, a um systema geral de construco, commum a
+toda a Europa. Diro que no isso precisamente um novo stylo.
+Certamente que no, se unicamente chamarmos stylo novo em architectura
+constituio complexa e integral de todo um systema de edificar. Mas, se
+tomarmos a palavra stylo em tal accepo, nenhum stylo novo em toda a
+architectura da edade mdia e da renascena. Todo o processo
+constructivo nos veiu inicialmente da Grecia, de Roma, de Bysancio, da
+Syria, do Egypto. Os mesmos gregos no inventaram a columna, nem os
+romanos descobriram a abobada. O que constitue a originalidade na
+architectura de qualquer povo , como em Portugal, na poca manoelina, a
+subordinao de um systema qualquer de geometria architectural s
+condies do clima e da paizagem, natureza dos materiaes empregados,
+flora, fauna, concepo religiosa, historia, poesia, ao
+temperamento e psychologia dos artistas, em cada regio. Quanto mais
+intensa for a interveno d'esses factores mais original ser a obra.
+Assim, na evoluo do gothico na architectura portugueza, quanto menos
+modificado, isto , quanto mais _puro_ fr o stylo, mais insignificante
+ser o monumento como documentao artistica, como expresso social.
+
+ _decadencia_ do gothico da Batalha que ns devemos o incomparavel
+claustro dos Jeronymos, segundo Haupt _o mais bello claustro de todo o
+mundo_, bem como a fachada da egreja de Christo, em Thomar, onde a
+flammejante janella da sala do capitulo a obra mais eloquente, mais
+convicta, mais poetica, mais enthusiasticamente patriotica, mais
+estremecidamente portugueza, que jmais realisou em nossa raa o talento
+de esculpir e de fazer cantar a pedra.
+
+Na ornamentao d'essa janella, em que, juntamente com o sentimento mais
+entranhado das energias da natureza, rebenta, palpita e brada, em torno
+da ida christ, todo o sagrado pantheismo das velhas religies da
+India, conjugam-se, n'uma gloriosa harmonia de antiphona a toda a voz,
+acompanhada ao orgo, no deslumbramento dos cirios, no aroma das
+aucenas, no fumo dos thuribulos doirado pelo sol, os elementos
+decorativos do symbolismo mais poderoso, da suggesto mais profunda. O
+artista, em plena posse da sua ida, em completa independencia do seu
+espirito, em inteira liberdade dos seus meios de execuo, desdiz todos
+os votos, abjura todos os principios, renega todos os canones, infringe
+todas as regras, e prescinde de todo o applauso dos mestres, sufocando
+nas entranhas da sua propria vaidade a opinio de si mesmo, unicamente
+porque tem f na verdade que enuncia, porque concentrou toda a fora da
+sua alma, toda a energia do seu cerebro, toda a paixo do seu sangue, no
+amor da obra em que elle representa o pensamento que o domina. E em
+torno d'elle e d'esse objecto amado, como em torno de todos os que
+verdadeiramente amam, tudo mais na terra acabou e desappareceu.
+
+As columnas na janella da sala do capitulo so polipeiros de coral, dos
+mais profundos recifes do Oceano, e troncos d'essa palmeira, cuja sombra
+cobriu o bero da civilisao no littoral mediterraneo, providencia dos
+peregrinos nos oasis do deserto, qual os arabes da Peninsula dedicavam
+uma festa de primavera, tendo por fundamento a disseminao do polen,--a
+arvore santa, a arvore da Biblia, a arvore de Jesus, cujo ramo symbolico
+ um attributo da paixo e da paschoa, da gloria e do martyrio. Os
+demais elementos decorativos so as ondas do mar, taes como ellas se
+representam na heraldica; so os troncos seculares e as raizes profundas
+dos sobreiros dos nossos montes, extrema expresso de fora na
+fecundidade da seiva, que prende o roble, assim como a tradio e a
+familia prendem a debil e errante creatura humana, ao corao da terra
+em que nasceu. Guizeiras, como as das mulas de tiro engatadas carreta
+alemtejana, emmolham contorcidas varas de sobro e de azinho, como nos
+feixes de lictor da magistratura romana. Solidas correntes e possantes
+cabos de bordo, de que pendem em discos as boias de cortia, enlaam a
+decorao, amarrando-a vigorosamente empena por fortes argoles, como
+se amarraria uma nau ao caes de um porto. Toda a composio, partindo
+das espaduas de um homem, que parece sustentar-lhe todo o peso, ascende
+n'uma trepidao de algas e de folhagens para a cruz de Christo entre as
+espheras que tomara por empresa o rei venturoso de Portugal triumphante
+na vastido dos mares, em todo o circuito do globo. E o poema
+esculptural remata por cima da janella na rosacea magestosa do templo,
+formada em circulo pelas pregas e pelo bolso arfante da vela rizada de
+um galeo da India.
+
+O nosso povo porm desaprendeu de ver a obra artistica do seu passado, e
+nem sequer levanta os olhos para os seus mais communicativos monumentos,
+que ninguem lhe explica, que ninguem o ensina a comprehender e a amar.
+
+
+Resumamos agora a historia do que officialmente se tem feito no intuito
+malogrado de proteger os monumentos publicos e de conservar e defender
+os productos d'arte.
+
+Em julho de 1890 o ento ministro da Instruco Publica consultou sobre
+a questo de que se trata uma commisso de artistas, de archeologos e de
+escriptores. Da resposta, at hoje inedita, d'essa commisso, de que me
+coube a honra de ser relator, transcreverei alguns periodos.
+
+O arrolamento da nossa riqueza artistica, que se prope effectuar o
+ministerio da instruco publica e das bellas artes --ponderava o
+relatorio--a pedra fundamental de toda a construco destinada a dar
+arte portugueza o logar que lhe compete na historia geral da
+nacionalidade, na orientao do sentimento collectivo do povo, no
+conjuncto dos elementos de impulso e de progresso para o
+desenvolvimento das industrias, no respeito do paiz, emfim, e no da
+Europa.
+
+O inventario de que se trata, comprehendendo no s os edificios
+monumentaes mas os documentos archeologicos e os productos artisticos de
+toda a especie, seria, primeiro que tudo, a documentao preciosa para a
+historia da arte em Portugal,--determinao das suas origens ethnicas e
+sociaes, fixao dos seus caracteres distinctivos e sua relao com a
+psychologia do povo, com os sentimentos, com as aspiraes, com as
+ideias, com os costumes e com as instituies sociaes. Esse repositorio
+tornar-se-ia o espelho em que se achariam reflectidas, com todas as suas
+modalidades, segundo as influencias especiaes de cada poca, de cada
+phase de cultura, de cada estadio social, todas as foras emotivas,
+todas as aptides estheticas da nossa raa. A historia dos seus
+monumentos para cada povo a historia da sua individualidade, porque
+no ha monumento artistico que no traduza, mais ou menos directamente,
+a aco intellectual e politica da sociedade que o concebeu.
+
+A ideia do inventario projectado no --para honra nossa--inteiramente
+nova. No reinado de D. Joo V existia na Bibliotheca Real uma obra em
+cinco volumes, datada de 1686 e intitulada Theatro do reino de Portugal
+e dos Algarves por suas cidades, villas, fortes e fortalezas como que
+por scenas repartido. Mais tarde mandou o referido soberano ao Padre
+Frei Luiz de S. Jos, monge do Cister e artista peritissimo, que fizesse
+os debuxos de todas as povoaes do Minho, o que elle cumpriu no anno de
+1726. Por indicao da Academia Real da Historia, e para o fim de
+inventariar e conservar os monumentos nacionaes, publicou-se o decreto
+de 20 de agosto de 1721, e fundou-se o primeiro dos nossos museus
+archeologicos. Infelizmente os livros a que nos referimos no chegaram a
+ser dados estampa, e os originaes foram destruidos pelo terremoto de
+1755, juntamente com a Bibliotheca Real, e com o museu estabelecido nas
+casas dos duques de Bragana, ao Thesouro Velho.
+
+As disposies do alvar de 20 de agosto de 1721 constam do seguinte
+trecho do mesmo alvar: Hei por bem que d'aqui em deante nenhuma pessa
+de qualquer estado, qualidade e condio que seja, desfaa ou destrua em
+todo nem em parte, qualquer edificio, que mostre ser d'aquelles tempos
+(assim designados: Phenices, Gregos, Persos, Romanos, Godos e Arabios)
+ainda que em parte esteja arruinado; e da mesma sorte as estatuas,
+marmores e cippos em que estiverem esculpidas algumas figuras, ou
+tiverem letreiros phenices, gregos, etc.; ou laminas, ou chapas de
+qualquer metal, que contiverem os ditos letreiros, ou caracteres; como
+outrosi medalhas ou moedas, que mostrarem ser d'aquelles tempos, nem dos
+inferiores at o reinado do Senhor Rey D. Sebastio; nem encubro ou
+ocultem alguma das sobreditas cousas: e encarrego s camaras das cidades
+e villas d'este reyno tenham muito particular cuidado em conservar e
+guardar todas as antiguidades sobreditas, e de semelhante qualidade que
+houver ao presente, ou ao deante se descobrirem nos limites do seu
+districto; e logo que se achar ou descobrir alguma de novo, daro conta
+ao secretario da dita Academia Real para elle a communicar ao director e
+censores, e mais academicos; e o dito director e censores, com a noticia
+que se lhes participar, podero dar a providencia que lhes parecer
+necessaria para que melhor se conserve o monumento assim descoberto.
+Etc.
+
+Em 4 de fevereiro de 1802, novo alvar sobre a mesma materia, assim
+designado: Alvar com fora de lei pelo qual Vossa Alteza Real he
+servido suscitar o alvar de lei de 20 de agosto de 1721, ordenado em
+beneficio da Academia Real da Historia Portugueza para a conservao e
+integridade das estatuas, marmores, cippos, e outras peas de
+Antiguidade: mandando que as funces do mesmo Alvar, que at agora
+pertenciam ao secretario da dita Real Academia, fiquem da data do
+presente em deante pertencendo ao Bibliothecario Maior da Bibliotheca
+Publica; tudo na forma acima declarada.
+
+Em janeiro de 1844 o Bibliothecario Mr da Bibliotheca Nacional de
+Lisboa Jos Feliciano de Castilho, informava o respectivo ministro nos
+seguintes termos: Para o bibliothecario mr passaram attribuies que
+competiam Academia Real da Historia, mas infelizmente essa lei vigente
+tem sido at hoje letra morta, a tal ponto que at ignoram as suas
+disposies os proprios encarregados do seu cumprimento, com grave
+detrimento, no s d'este magnifico repositorio, que ha muitos annos se
+acha estacionario em aquisies archeologicas, mas tambem de todo o
+reino, onde o bibliothecario mr deveria sempre ter, por obrigao do
+seu cargo, promovido a conservao e segurana dos monumentos que no
+podem ou no devem transportar-se.
+
+Em seguido prope o bibliothecario que se torne effectiva a
+responsabilidade dos governadores civis no cumprimento da lei de 20 de
+agosto de 1721; que esses funccionarios se correspondam regularmente com
+o bibliothecario, etc.
+
+Ficou porm to morta a letra d'essa consulta como a da lei a que ella
+se refere.
+
+Por decreto de 10 de novembro de 1875 nomeada uma commisso para
+propr ao governo, com a reforma do ensino das Bellas Artes e com o
+plano de um museu, as providencias que julgar mais adquadas
+conservao, guarda e reparao dos monumentos historicos e dos objectos
+archeologicos, de importancia nacional, existentes no reino. A
+commisso alludida responde ao governo por meio da memoria redigida pelo
+marquez de Sousa Holstein, e assim se desempenha do encargo que lhe fra
+confiado.
+
+A louvavel diligencia empregada a convite do governo pela Real
+Associao dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, para o fim
+de lanar em 1880 as bases de uma inventariao systematica dos
+monumentos nacionaes, no foi, assim como o zeloso trabalho da commisso
+de 1875, seguida de resultados praticos.
+
+Independentemente da preceituao official, teem sido modernamente do
+mais importante auxilio para o conhecimento dos nossos valores
+artisticos a Exposio Retrospectiva de Arte Ornamental, celebrada em
+Lisboa em 1882, a exposio de Coimbra, a exposio de Aveiro, a
+exposio de Guimares, a recente exposio do centenario antonino, e as
+exposies de ourivesaria e de ceramica promovidas e effectuadas no
+Palacio de Cristal do Porto pela muito benemerita Sociedade de
+Instruco.
+
+De algumas das exposies alludidas ficaram documentos de alto valor.
+Imprimiram-se relatorios de muita importancia, e numerosos productos
+expostos foram reproduzidos pelo desenho e pela photographia. Da valiosa
+colleco photographica, para a qual principalmente contribuiram Carlos
+Relvas, Pardal, Rochini, Biel & Companhia, bem como dos catalogos dos
+museus e das exposies celebradas, se poderia extrahir desde j um
+esboo de inventario, que no seria difficil aperfeioar e prehencher,
+emprehendendo novas exposies e systematisando completamente as
+investigaes e os estudos correlativos.
+
+A commisso de 1890, a que acima me referi, propunha que, sem prejuizo
+das pesquisas que, convm continuar, para recolher ou arrolar os valores
+artisticos que ainda se conservam ignorados em poder de corporaes ou
+de particulares, a commisso incumbida do inventario geral e definitivo
+desse quanto antes principio aos seus trabalhos, tomando por materia as
+peas de que ha conhecimento, j pelo exame de que foram objecto nos
+museus onde existem, ou nas exposies at hoje feitas, j pelos
+catalogos e relatorios que d'essas exposies existem, j pela
+consideravel colleco de photographias que reproduzem os objectos
+expostos.
+
+Emquanto catalogao e conservao dos objectos pertencentes a
+particulares ou a corporaes de caracter civil ou religioso, no
+conviria desde j estabelecer principios absolutos. O modo de proceder
+dos delegados do governo em tal servio seria indicado pelas
+circumstancias particulares de cada occorrencia, sendo porm altamente
+para desejar que os prelados do reino, conscientes dos estreitos
+vinculos que ligam o esplendor das artes gloria do catholicismo,
+conseguissem fazer penetrar na convico das auctoridades eclesiasticas
+das suas circumscripes quanto inseparavel da historia da egreja a
+historia da arte christ, e quanto o museu, em paizes tradicionalmente
+catholicos, ainda uma frma do culto ou um desdobramento d'elle na
+ordem civil, alm de ser o permanente attestado da alliana da crena
+religiosa com a immortal aspirao da poesia no corao e no espirito da
+nossa raa.
+
+Para regra definitiva do processo a que se refere o alvitre que acabo de
+expor indispensavel que seja devidamente estudada e promulgada uma
+lei, semelhante que existe hoje na Italia, em Frana, nos Paizes
+Escandinavos, na Russia, na Hispanha, na Grecia, na Turquia, tendo por
+fim definir claramente e assegurar, de combinao com a legislao
+canonica, com os principios da concordata e com a legislao geral da
+propriedade, os direitos especiaes do Estado com relao guarda dos
+monumentos e parte que elle tem na posse dos objectos d'arte,
+determinando assim o caracter especial da propriedade artistica.
+
+Uma vez decretada essa lei fundamental, e assignalada a responsabilidade
+em que incorrem os que a transgridam, deveriam formar-se as commisses
+regionaes, dependentes da commisso central, e incumbidas, em suas
+localidades, da guarda e da conservao dos monumentos e dos objectos
+d'arte. Estas commisses, semelhana do que foi disposto na lei
+italiana de 1878, da qual se inspirou em Frana, para a organisao de
+eguaes servios, a Direco das Bellas Artes, seriam compostas de oito
+vogaes, sendo quatro da nomeao dos municipios e quatro da nomeao do
+governo, com um architecto inspector adjuncto, sob a presidencia do
+governador civil ou do administrador do concelho.
+
+Em toda a parte, ainda nos mais abandonados recantos da provincia, ha
+sempre, onde existe um monumento, um homem pelo menos que o ama, que o
+estuda, que o comprehende. a collaborao preciosa d'esses pobres
+poetas obscuros, d'esses modestos archeologos, ignorados da critica e do
+publico, que aos organisadores das commisses locaes compete acolher e
+utilisar.
+
+O processo de inventariao de cada pea artistica constaria de duas
+partes.
+
+A primeira seria a reproduco photographica, ou em gesso, ou pela
+galvanoplastica, do objecto inventariado, com registro do respectivo
+clich ou molde.
+
+A segunda, a confeco de um simples verbete, impresso, correspondendo
+photographia por meio de um numero de ordem, e satisfazendo os seguintes
+quesitos: 1. Descripo summaria do objecto; 2. Logar onde elle se
+encontra; 3. Nome do individuo ou da corporao em cuja posse se acha;
+4. Antecedentes; 5. Attribuio; 6. Avaliao; 7. Escala em que
+houver sido feita a reproduco.
+
+Este systema, semelhante ao dos museus de Londres, de Berlim e de
+Vienna, o mais simples, o mais economico, o mais pratico, o mais
+expedito. Com applicao ao inventario da arte hispanhola elle foi
+proposto, pelo delegado de Portugal, ao grande jury da ultima exposio
+historico-europeia em Madrid. Uma real ordem o mandou pr em execuo,
+tendo-o sanccionado a approvao unanime de uma commisso presidida pelo
+sr. Canovas del Castillo e composta de criticos de uma competencia
+indiscutivel e de uma notoriedade europeia.
+
+Com a colleco completa das photographias e dos verbetes a que alludo,
+o estado, em Portugal, sem ter da riqueza artistica da nao um
+inventario to desenvolvido e to perfeito como o que outros paizes
+possuem, teria no emtanto um arrolamento explicito, e achar-se-hia
+habilitado a ministrar-nos o mais efficaz meio de estudo.
+
+Da colleco integral, subdividida em tantas series diversas quantos os
+differentes criterios de classificao que se lhe applicassem, se
+extrairiam colleces especiaes, em edies mais ou menos modestas,
+relativas a cada ramo do ensino, geral ou especial, e destinadas s
+escolas de bellas artes, s escolas industriaes, aos museus das escolas
+primarias e secundarias, s officinas, aos operarios, facultando assim,
+ou gratuitamente ou por infimo preo, a todas as classes sociaes um
+pronto meio de conhecimento da historia geral da arte, da historia da
+arte em cada uma das suas mais especiaes applicaes, da evoluo das
+frmas e do desenvolvimento dos stylos, na architectura, na pintura, na
+esculptura, na marcenaria, na serralheria, na ourivesaria, na ceramica,
+em todos os ramos emfim do trabalho artistico e industrial.
+
+Eliminando os numeros que relacionam os verbetes com as photographias,
+os alumnos das escolas d'arte, procurando para cada photographia o
+verbete correlativo, e satisfazendo por esse processo aos mais variados
+quesitos de classificao, habituar-se-hiam, por meio dos exercicios
+mais simplesmente pedagogicos, a discernir as pocas e os stylos,
+retendo todas as diversidades da frma pela memoria da vista.
+
+Alm do que, com o material reunido para o inventario dos monumentos
+architectonicos e das riquezas artisticas da nao, o estado fundaria
+simultaneamente o mais interessante museu de reproduces.
+
+A Commisso dos Monumentos Nacionaes no inteiramente, pelos seus
+meios de aco e pelos seus fins, a commisso a que se refere a consulta
+de 1890. Parece-me indispensavel, antes de tudo, que esta commisso se
+reconstitua em bases mais amplas, e que d'ella se desdobre a commisso
+do inventario geral da d'arte, ao qual urgentissimo que se proceda.
+
+Na parte em que a commisso tem de responder pela conservao dos
+monumentos nacionaes, preciso, a meu ver, que ella se complete, tanto
+no programma dos seus trabalhos como no pessoal que tem de pr em
+execuo esse programma, no de um modo como at hoje officioso e
+facultativo, mas rigorosamente obrigatorio, sendo-lhe indispensavel para
+esse effeito a aggregao e a collaborao effectiva de dois
+architectos, a presidencia do sr. ministro, e a publicao periodica de
+um boletim em que regularmente se communiquem ao publico os resultados
+do trabalho feito.
+
+Conseguidas as condies de consistencia technica, de auctoridade e de
+expediente, que no estado presente lhe fallecem e a innutilisam, cabe
+commisso arrolar definitivamente, pela photographia e pela escripta, os
+monumentos confiados sua guarda bem como as obras d'arte que o paiz
+possue; nomear as commisses locaes; definir claramente o que
+_conservar_, o que _restaurar_, e o que _continuar_ ou _concluir_ um
+monumento; redigir desenvolvidamente e em suas mais particulares
+minudencias (porque n'este ponto tudo est por definir e por
+estabelecer) os programmas especiaes a que tem de satisfazer
+rigorosamente todo o projecto de conservao, de restauro ou de
+acabamento na obra de cada edificio.
+
+Os cuidados de _conservao_ devem ser obrigatorios e extensivos a todos
+os monumentos. Para esse effeito o programma simples, e a despesa
+insignificante, ainda perante os mais modestos recursos. As occasies em
+que cabe _restaurar_ so relativamente raras. E nenhum edificio,
+qualquer que seja a sua importancia historica ou artistica, convem
+_concluir_, a no ser nos casos em que vantajosamente elle se possa
+adaptar a algum dos servios vigentes da civilisao contemporanea. Este
+mesmo criterio economico se deveria applicar opportunidade das
+_restauraes_. Da inobservancia d'estes preceitos fundamentaes resultou
+o contrasenso de restaurar o edificio dos Jeronymos sem previamente se
+accordar no destino que tem de ter esse edificio, como se podesse ser
+indifferente, no modo de reconstruir uma casa, que ella tenha de ser uma
+escola, um museu, um archivo, um recolhimento, um quartel, um banco ou
+uma habitao particular![1]
+
+
+Ao governo de sua magestade, para esse fim solicitado pelos homens que
+com to patriotico desinteresse constituem a Commisso dos Monumentos
+Nacionaes, compete prefazel-a e fortifical-a com a regulamentao e
+auctoridade de que ella carece, ou dissolvel-a.
+
+
+Se o Estado no intervem cumpre aos governados levar a effeito, por um
+decisivo esforo de iniciativa, a obra a que se recusem os que governam.
+
+Est-nos dado o exemplo na actividade e na abnegao de alguns cidados
+benemeritos.
+
+O sr. bispo-conde de Coimbra funda na sua diocese o mais completo e mais
+interessante museu de ourivesaria sagrada que existe em Portugal, e
+emprehende e realisa, sob a intelligente collaborao do sr. Antonio
+Augusto Gonalves, a restaurao da S Velha e a de Santa Cruz, com uma
+segurana de criterio, de que no ha exemplo em obra alguma do mesmo
+genero modernamente consumada pelas officinas officiaes.
+
+O sr. bispo de Beja applica um egual fervor s obras do convento da
+Conceio; e na mesma cidade de Beja por iniciativa da municipalidade,
+por concurso patriotico de alguns cidados, funda-se o mais copioso e o
+mais bem catalogado dos nossos museus archeologicos.
+
+Em Evora o sr. Francisco Barahona custeia por si s a dispendiosa
+reparao do sumptuoso templo de S. Francisco, sem a qual teria j
+desabado ou desabaria em breve a mais bella egreja portugueza do tempo
+D. Joo II.
+
+Na ultima visita que fiz, em setembro passado, S de Braga, ahi me foi
+affirmado que o respectivo prelado estava elaborando o projecto da
+reconstituio artistica d'aquelle importante monumento.
+
+Em Cette e em Pao de Sousa, camaras, juntas de parochia, simples
+influencias individuaes invidam os mais louvaveis e mais instantes
+esforos para a conservao dos monumentos gloriosos a que n'esses
+logares se alliam os nomes de Egas Moniz, de Gonalo Veques e de Estevam
+da Gama.
+
+A obra to desvelada da extincta Sociedade de Instruco do Porto e a da
+Sociedade Martins Sarmento, em Guimares, so verdadeiros monumentos de
+erudio, de estudo, de trabalho pratico, de piedade patriotica.
+
+Para a constituio integral da historia da arte e da tradio artistica
+portugueza, quantas contribuies dedicadas, quantos esforos
+individuaes, desassociados e dispersos, na obra, to incomprehendida e
+to despremiada, dos srs. Joaquim de Vasconcellos, Martins Sarmento,
+Antonio Augusto Gonalves, Gabriel Pereira, Sousa Viterbo, Luciano
+Cordeiro, Ferreira Caldas, Ribeiro Guimares, Alberto Sampaio, Julio de
+Castilho, Theophilo Braga, Leite de Vasconcellos, Pinho Leal, Albano
+Bellino, Teixeira de Arago, Vilhena Barbosa, Conceio Gomes, Filippe
+Simes, Manoel de Macedo, Jos Pessanha, Fonseca Benevides, Valentim,
+Vieira Natividade, Figueiredo da Guerra, visconde de Condeixa, Borges de
+Figueiredo, Marques Gomes, Rodrigo Vicente de Almeida, Zephyrino
+Brando, Possydonio da Silva, Freitas Costa, Avelino Guimares, Freire
+d'Oliveira; e quantos outros, tanto mais sympathicos quanto mais
+obscuros!
+
+O unico inutil da phalange sou talvez eu, que em vez de uma accurada
+monographia, estou aqui fazendo um indice de assumptos, que s
+devidamente trataria se de cada uma d'estas paginas tirasse um livro.
+Possam ellas ao menos communicar a outros coraes a sympathia, que
+filialmente prende o meu terra em que nasci, e raa de que procedo!
+
+ pelo culto da arte, invocado n'estas paginas, que a religio da
+nacionalidade se exteriorisa e se exerce.
+
+Desde que nas consciencias se extinguiu a f, por meio da arte que as
+tradices se transmittem, que os sentimentos se coordenam, que os
+affectos se depuram, que as paixes se enobrecem. pela arte, que a
+exprime, que a poesia do christianismo sobreviver aos seus dogmas no
+enternecimento, no amor, na saudade dos homens. tambem pela arte que
+em nossa memoria a poesia da historia sobreleva das instituies, dos
+systemas, das theorias e dos homens, sobre que ella versa.
+
+A politica, depois da desastrosa fallencia de todas as modernas theorias
+liberaes, cessou por toda a parte de ser um foco de attraco para as
+idas ou para os sentimentos humanos. As leis continuam a fazer-se com o
+destino unico de serem consecutivamente e invariavelmente decretadas,
+infringidas e revogadas, para se substituirem por leis novas, que por
+seu turno se decretam, se infringem e se revogam, como succedeu s
+anteriores, como succeder s que se seguirem.
+
+No momento presente so unicamente os poetas, os philosofos e os
+artistas que governam espiritualmente o mundo. D'ahi, nos paizes de
+cultura mental, dominando todos os phenomenos da decadencia moderna, uma
+effuso de sympathia, de tolerancia, de benevolencia, de perdo, que
+caracterisa bem o nosso tempo, e de que no ha na historia outro
+exemplo.
+
+Quando recebemos da Inglaterra a ultima affronta de chancellaria, a que
+deu motivo o tratado de Loureno Marques, quem na minha susceptibilidade
+portugueza mais suavisou esse golpe foi o critico d'arte John Ruskin,
+proclamando solemnemente e categoricamente aos estudantes de Glascow que
+os estadistas inglezes (tratava-se ento do sr. Disrali e do sr.
+Gladstone) lhe no mereciam nem mais respeito nem mais considerao que
+duas velhas gaitas de folle.
+
+Ruskin separava assim e distinguia radicalmente a Inglaterra do _Foreign
+Office_ e de lord Salisbury, da Inglaterra de _South Kensington_, de
+_British Museum_, da _National Gallery_, de _Ruskin Museum_, de Darwin,
+de Spencer, de Carlos Dickens, de Turner, de Burne Jones, para a qual
+tender sempre e irrevogavelmente a terna gratido do nosso espirito.
+
+ unicamente pela arte, inherente natureza humana, progressiva e
+eterna, que hoje em dia os homens se associam no destino e na
+solidariedade da especie.
+
+ pela arte que o genio de cada raa se patenteia, que a autonomia
+nacional de cada povo se revela na sua autonomia mental, e se affirma,
+no s pela sua especial comprehenso da natureza, da vida e do
+universo, mas pelo trabalho collectivo da communidade, na litteratura,
+na architectura, na musica, na pintura, na industria e no commercio.
+
+ pelo culto da arte, e pela educao artistica que esse culto
+comprehende, que a produco industrial se especialisa, se valorisa pela
+originalidade caracteristica do producto, e transforma pela
+prosperidade, unicamente determinada pelo ensino, toda a economia de uma
+nao, como se evidenciou nos ultimos tempos em Inglaterra, na Austria,
+na Allemanha, por via da simples reconstituio dos museus e da
+multiplicao das escolas.
+
+Finalmente,--se para cada povo a arte a segurana da tradio, o
+refugio das consciencias, o mais puro reflexo da imagem benigna da
+patria, a fonte mais caudal de todos os progressos moraes, economicos e
+at politicos,--para cada homem, na tortura de tantas incertesas moraes
+na magoa e na ruina de tantas crenas extinctas, de tantos ideaes
+desfeitos no melancholico decurso da nossa edade, a arte ainda--como
+diz Schopenhauer--_a unica flr da vida_.
+
+
+
+
+*Notas:*
+
+
+[1] O conspicuo parecer, que, a respeito das obras dos Jeronymos, foi
+pelo sr. Luciano Cordeiro apresentado Commisso dos Monumentos
+Nacionaes, em sesso de 7 de novembro de 1895, termina, depois d'outras,
+pelas concluses seguintes:
+
+5. O Templo deve ficar destinado, smente, s grandes celebraes
+religiosas do Estado, e a Galilea a jazida dos restos dos Descobridores
+e Navegadores portuguezes.
+
+6. Todo o resto do monumental edificio deve ser destinado a alojamento
+e installao do Archivo Nacional, convindo que essa installao se ache
+concluida at o mez de maio de 1897.
+
+No concordo inteiramente com o sr. Luciano Cordeiro em que se
+transporte para o edificio annexo egreja dos Jeronymos o archivo da
+Torre do Tombo, e to pouco em que se remova da egreja o exercicio
+parochial do culto.
+
+Por complexas razes, que no vem para aqui desenvolver, eu votaria por
+que, em vez do archivo da Torre do Tombo se estabelecesse o museu naval
+no edificio dos Jeronymos. E emquanto a egreja, alm de que, em minha
+humilde opinio, o clero a saberia sempre guardar muito melhor do que o
+estado, accresce ainda que a parochia de Santa Maria de Belem uma
+instituio historicamente sagrada, indissoluvelmente unida em nosso
+respeito tradio do monumento. Foi o infante D. Henrique quem
+transformou o inhospito areal do Restello na linda freguezia de Belem,
+arroteando o solo, para refresco, abrigo e amparo espiritual dos
+navegantes, plantando arvores, dispondo hortas e pomares, abrindo fontes
+e construindo a primitiva ermida exactamente no mesmo logar em que se
+edificou a actual egreja. O pontifice Pio II confirmou por meio de uma
+bula a doao do infante ordem de Christo, e instituiu em parochia a
+primeira egreja de Santa Maria de Belem, sem outro encargo para a ordem,
+para os navegantes e para o publico seno o de se rezar a cada missa,
+aos sabbados, um _Pater e uma Ave Maria pela salvao da alma do infante
+D. Henrique e por a d'aquelles de quem era teudo_. O rei D. Manoel,
+tendo edificado a sumptuosa egreja e o mosteiro dos Jeronymos, na volta
+da armada de Vasco da Gama, depois do descobrimento da India, colloca a
+estatua do infante porta da egreja, mantem a parochia, e determina, em
+cumprimento dos piedosos desejos de D. Henrique, que a cada missa, ao
+lavar das mos, o sacerdote se volva para a gente, e diga em alta voz.
+Rogae a Deus pela alma do infante D. Henrique, primeiro fundador d'esta
+casa, e por a de el rei D. Manoel, que a doou ordem de Christo.
+
+A data d'esta carta de doao de 26 de dezembro de 1498.
+
+Seria, a meu ver, uma infidelidade, uma ingratido, e um torpe desacato
+remover a parochia de Santa Maria de Belem do logar em que seus
+gloriosos fundadores a estabeleceram, cabendo-nos pelo contrario o dever
+de reclamar dos poderes civis e dos poderes ecclesiasticos que o modesto
+voto dos fundadores se cumpra, como de razo juridica e de probidade
+nacional, e que em cada missa conventual celebrada pelo parocho na
+egreja dos Jeronymos, o sacerdote se volte para o povo, ao _lavabo_, e
+pea um _Pater_ e uma _Ave Maria_ pela alma do infante D. Henrique e
+pela de el-rei D. Manoel.
+
+Que se adopte porm ou se no adopte a proposta do sr. Luciano Cordeiro,
+o que technicamente no de certo admissivel que as obras dos
+Jeronymos se prosigam e se concluam sem resoluo tomada cerca do
+destino que ha de ter o edificio em que taes obras se fazem.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correco |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pg. 71| ta boas | taboas |
+ |#pg. 74| onem | nem |
+ |#pg. 74| dimens | dimenso |
+ |#pg. 105| ascebispo | arcebispo |
+ |#pg. 142| privilegido | privilegiado |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+Variantes dos nomes prprios foram mantidas de acordo com o original.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O culto da arte em Portugal, by
+Jos Duarte Ramalho Ortigo
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CULTO DA ARTE EM PORTUGAL ***
+
+***** This file should be named 30456-8.txt or 30456-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/0/4/5/30456/
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
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+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
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+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
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+electronic works
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+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
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+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
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+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
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+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
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+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
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+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
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+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
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+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
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+electronic work, or any part of this electronic work, without
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+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
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+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
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+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
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+that
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+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
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+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
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+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
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+received the work on a physical medium, you must return the medium with
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+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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diff --git a/30456-h.zip b/30456-h.zip
new file mode 100644
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--- /dev/null
+++ b/30456-h.zip
Binary files differ
diff --git a/30456-h/30456-h.htm b/30456-h/30456-h.htm
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index 0000000..5c1e5f0
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@@ -0,0 +1,6464 @@
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+ <title>O culto da arte em Portugal</title>
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+<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30456 ***</div>
+
+<div>
+<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+exist&ecirc;ncia de erros tipogr&aacute;ficos neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Nov. 2009)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+O CULTO DA ARTE<br />
+
+<br />
+
+EM<br />
+
+<br />
+
+PORTUGAL
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<h3><em>RAMALHO ORTIG&Atilde;O</em>
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="bbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h2>
+O CULTO DA ARTE<br />
+
+</h2>
+
+<br />
+
+<h3>
+EM</h3>
+
+<h2>PORTUGAL
+</h2>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<div class="tiny">Monumentos
+architectonicos&#8213;Restaura&ccedil;&otilde;es&#8213;Desacatos<br />
+
+Pintura e esculptura&#8213;Artes industriaes<br />
+
+O genio e o trabalho do povo&#8213;Indifferen&ccedil;a
+oficial&#8213;Decadencia<br />
+
+Anarchia esthetica<br />
+
+Desnacionalisa&ccedil;&atilde;o da
+arte&#8213;Dissolu&ccedil;&atilde;o dos sentimentos<br />
+
+Urgencia de uma reforma
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 96px; height: 63px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<h4>LISBOA<span class="smallcaps"><br />
+
+Antonio Maria Pereira,
+Livreiro-Editor</span><br />
+
+50&#8213;Rua Augusta&#8213;52<br />
+
+<br />
+
+1896
+</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<hr />
+<div style="text-align: center;">Typographia da Academia
+Real das Sciencias de Lisboa
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">&Aacute;
+Commiss&atilde;o
+dos Monumentos Nacionaes
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+dedica respeitosamente<br />
+
+este humilde trabalho<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>O AUCTOR</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[1]</span>
+Durante a Renascen&ccedil;a, e ainda atravez da Edade
+M&eacute;dia, t&atilde;o insufficientemente conhecida no enigma
+da sua cultura artistica, os reis, os monges,
+os fidalgos, os burguezes enriquecidos ostentavam
+o fausto e a pompa hierarchica n&atilde;o s&oacute;mente
+construindo
+palacios e castellos, que enobreciam os
+logares que elles habitavam, mas erigindo basilicas
+e cathedraes, em que se concentravam todos
+os esfor&ccedil;os do talento de uma ra&ccedil;a, e eram
+verdadeiramente
+os palacios do povo, doados magnanimamente
+pelos mais poderosos aos mais humildes,
+em nome de Deus, em nome do rei, em
+honra da patria.
+<span class="pagenum">[2]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+N'esses edificios incomparaveis se achavam colligidas
+como em escolas monumentaes, como em
+museus portentosos, todas as maravilhas da sciencia,
+da poesia e da arte. A esculptura architectural,
+a estatuaria dos mausoleus, a imaginaria dos
+altares, a illuminura dos missaes, a pintura das
+vidra&ccedil;arias,
+a talha dos retabulos subordinavam-se
+a um pensamento commum, expresso n'um vasto
+symbolismo, comprehendendo as fecundidades da
+terra e do mar, o trabalho do homem nos seus
+desfallecimentos e nos seus triumphos, a
+perturba&ccedil;&atilde;o
+dos sentidos pelo peccado, a fatalidade do
+sangue, o horror do universal aniquilamento, e
+o v&ocirc;o da alma para Deus, levada por um immortal
+instincto de amor, de paz, de verdade e
+de justi&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Dentro d'essas egrejas, amea&ccedil;adas hoje de proxima
+ruina ou inteiramente arruinadas, se celebravam
+todos os actos da vida religiosa, da vida civil
+e da vida domestica. Ahi se casavam os noivos,
+se baptisavam os filhos, se sepultavam os paes.
+Ahi se ungiam os reis, velavam as armas os cavalleiros,
+professavam os monges, benziam-se os
+<span class="pagenum">[3]</span>
+fructos da terra, as bandeiras das hostes, as ferramentas
+da lavoura e os pend&otilde;es dos officios.
+Ahi se discutiam os interesses do povo, os direitos,
+as franquias, os foros da communa. Ahi se
+pr&eacute;gava o Evangelho, se resava a missa, e se representavam
+os autos populares da vida de Jesus
+e dos seus santos; e nas vigilias da Natividade,
+da Epiphania e da Paschoa, quando o org&atilde;o emudecia
+no coro e se calavam os cantos liturgicos, o
+povo bailava ao longo da nave, sob as abobadas
+gothicas ou sob as cupulas bysantinas, e as l&ocirc;as e
+os villancicos, entoados pelos fieis, subiam para
+o ceu com a fragancia das flores e com o fumo
+dos thuribulos, ao repique das castanholas e ao
+rufar dos adufes.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao lado dos braz&otilde;es e das divisas heraldicas
+pendiam dos muros os votos modestos dos mais
+obscuros mesteiraes, dos mais humildes braceiros.
+<br />
+
+<br />
+
+Esse alca&ccedil;ar dos pobres, que era a egreja medieval,
+alca&ccedil;ar mais sumptuoso que o de nenhum
+rei, dava asylo incondicional, inviolavel e sagrado,
+aos maltrapilhos, aos vill&otilde;es, aos mendigos,
+aos lazaros e &aacute;s lazaras de todas as lepras do corpo
+<span class="pagenum">[4]</span>
+e da alma, aos tinhosos, aos nus, aos imbecis, aos
+ignorantes, aos criminosos, &aacute;s mulheres adulteras,
+&aacute;s mancebas, &aacute;s mundanarias, &aacute;s
+barreg&atilde;s.
+<br />
+
+<br />
+
+O egoismo dos tempos modernos torna-nos incompativeis
+com o commetimento de t&atilde;o grandes
+obras. Creamos institui&ccedil;&otilde;es de caridade, fazemos
+regulamentos de assistencia publica, e vangloriamo-nos
+de haver definido pela revolu&ccedil;&atilde;o liberal o
+dogma da fraternidade humana, mas somos fundamentalmente
+incapazes de consagrar &aacute; pratica
+das virtudes, de que julgamos ter na historia o
+monopolio, monumentos como aquelles que nossos
+av&oacute;s lhe levantaram <em>a proll do comum e
+aproveitan&ccedil;a
+da terra</em>, dando em resultado que o mais
+andrajoso mendigo da portaria do mosteiro de Alcoba&ccedil;a
+ou do mosteiro de Santa Cruz, com o seu
+alforge ao pesco&ccedil;o e a sua escudella debaixo do
+bra&ccedil;o, participava, al&eacute;m da
+ra&ccedil;&atilde;o quotidiana que
+se lhe distribuia pelo caldeir&atilde;o da communidade,
+de um agasalho de principe e de um luxo d'arte
+com que hoje n&atilde;o competem os maiores potentados,
+os quaes em suas casas e para seu recreio intimo
+se rodeiam de todas as joias artisticas de que
+<span class="pagenum">[5]</span>
+pela aboli&ccedil;&atilde;o dos vinculos e pela
+extin&ccedil;&atilde;o das ordens
+religiosas se apoderou o moderno commercio
+do bric-&agrave;-brac.
+<br />
+
+<br />
+
+Falta-nos a alta no&ccedil;&atilde;o de solidariedade
+patriotica,
+falta-nos o desapego dos bens de fortuna, falta-nos
+o largo espirito de abnega&ccedil;&atilde;o, falta-nos a
+illimitada liberalidade cavalleirosa, e falta-nos a f&eacute;
+dos nossos av&oacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+Na architectura trabalhamos unicamente para
+n&oacute;s mesmos, sem cuidados de futuro, sem pensamento
+de continuidade de ra&ccedil;a ou de familia, deslembrados
+de que teremos vindouros e de que teremos
+netos.
+<br />
+
+<br />
+
+Entre as nossas antigas construc&ccedil;&otilde;es hydraulicas
+ha o aqueducto de Elvas, que levou cem annos
+a fazer. Varias gera&ccedil;&otilde;es successivas acarretaram
+para essa construc&ccedil;&atilde;o os materiaes; e lentamente,
+pacientemente, foram collocando pedra sobre
+pedra, para que um dia a agua chegasse a Elvas,
+e bebessem d'ella os netos dos netos d'aquelles
+que de t&atilde;o longe principiaram a recolhel-a e a
+canalisal-a. Uma tal empresa &eacute; a
+humilha&ccedil;&atilde;o e a
+vergonha do nosso tempo, imcapaz de pagar com
+<span class="pagenum">[6]</span>
+egual carinho ao futuro aquillo que deve &aacute; previdencia,
+aos sacrificios e aos desvelos do passado.
+<br />
+
+<br />
+
+O nosso ideal na arte de construir &eacute; que a obra
+se fa&ccedil;a em pouco tempo e por pouco dinheiro.
+Vamos abandonando cada vez mais, de dia para
+dia, a pedra e a madeira, em que &eacute; nimiamente
+moroso para a morbida inquieta&ccedil;&atilde;o do nosso
+espirito
+o trabalho de desbaste, de esquadria e de
+lavor. Adoptamos, como material typico do nosso
+systema de edificar, o ferro, o tijolo e a pasta. A
+casa cessou de ser uma obra de architectura para
+se converter em uma empreitada de engenharia,
+e os delicados artistas da pedra, da madeira e do
+ferro forjado abdicam da sua antiga miss&atilde;o perante
+os subalternos obreiros encarregados de fundir,
+de amassar e de enformar a vap&ocirc;r a
+habita&ccedil;&atilde;o
+moderna e o moderno edificio publico&#8213;a
+gare, o quartel, o mercado ou a cadeia.
+<br />
+
+<br />
+
+O seculo XIX, se com a impotencia de continuar
+a obra monumental dos seculos que o precederam,
+accumulasse a incapacidade de comprehender
+e de venerar essa obra, representaria um pavoroso
+retrocesso na historia. N&atilde;o succede assim,
+<span class="pagenum">[7]</span>
+porque s&atilde;o inviolaveis as leis do progresso. Ao
+seculo XIX coube patentear o estudo mais dedicado
+e o conhecimento mais perfeito da arte antiga.
+A sciencia archeologica e a critica d'arte
+nunca em nenhum outro periodo da civilisa&ccedil;&atilde;o
+chegaram &aacute; eminencia attingida pelos investigadores
+contemporaneos. &Eacute; tambem em sua maneira
+um colossal monumento, dos mais gloriosos
+para a intelligencia, o que erigiu a erudi&ccedil;&atilde;o
+do nosso tempo, constituindo scientificamente a
+archeologia, definindo o seu methodo, fixando os
+seus limites, especialisando o trabalho dos seus
+contribuintes, distinguindo da archeologia litteraria
+a archeologia da arte, ramificando para um
+lado a paleographia, a epigraphia, a ecdotica, a
+museographia e a propedeutica, para o outro as
+bellas artes, as artes industriaes, a numismatica, e
+ainda como desdobramento d'estes estudos a iconographia,
+a mithologia figurada e a symbologia,
+particularisando emfim estas investiga&ccedil;&otilde;es a cada
+povo e a cada epocha da humanidade, creando
+d'esse modo a prehistoria, a egyptologia, a syriologia,
+que t&atilde;o amplo clar&atilde;o teem derramado sobre
+<span class="pagenum">[8]</span>
+os problemas da origem do homem, da distribui&ccedil;&atilde;o
+das ra&ccedil;as, da forma&ccedil;&atilde;o das linguas.
+Fixaram-se
+pelas escava&ccedil;&otilde;es de Troia, de Mycenes,
+de Chypre, de Santorin e de Rhodes as origens
+orientaes e pelasgicas da arte grega. Corrigiu-se
+na historia da ceramica a confus&atilde;o existente entre
+os vasos pintados gregos e etruscos. Refez-se
+completamente sobre novos elementos e por um
+criterio novo a historia da olaria, a da toreutica,
+a da glyptica, a da esculptura em barro, a dos
+bronzes, a das joias, a da tape&ccedil;aria, a da illuminura.
+Desvendou-se o conhecimento da tachigraphia
+hieratica e dos alphabetos hieroglyphicos,
+ideographicos e phoneticos, que precederam o alphabeto
+grego e o latino. Creou-se a critica scientifica
+dos textos. Colligiram-se e classificaram-se
+as inscrip&ccedil;&otilde;es gregas e romanas dessiminadas pela
+Europa, e definiu-se o methodo de as datar. Leram-se
+os carcomidos graffitos de Pompeia, os
+papyrus carbonisados de Herculanum, as cartas
+lapidares da edade m&eacute;dia e os palimpsestos de
+Plauto, de Cicero, de Marco Aurelio, de Tito Livio,
+de Euripedes e dos scribas carolingeanos.
+<span class="pagenum">[9]</span>
+Interpretaram-se os documentos de procedencia
+egypcia, copta ou phenicia sepultados nos jazigos
+das mumias. E os mysteriosos caracteres hieroglyphicos
+e cuneiformes das inscrip&ccedil;&otilde;es egypcias,
+cald&eacute;as, assyrias e persas foram simplesmente
+trasladados a vulgar. Determinou-se a edade dos
+manuscriptos pelo systema das abreviaturas e da
+pontua&ccedil;&atilde;o e pela evolu&ccedil;&atilde;o
+da letra desde a oncial
+da <em>Iliada</em> no palimpsesto
+greco-syriaco do Museu
+Britannico at&eacute; a minuscula italiana egual &aacute; dos
+primeiros caracteres da imprensa. Inspeccionaram-se
+e inquiriram-se as primitivas habita&ccedil;&otilde;es
+do homem, as suas primeiras fortifica&ccedil;&otilde;es, os
+seus
+mais antigos sepulcros,&#8213;a caverna, a cidade lacustre,
+os castros e os dolmens. Na architectura
+principiou-se a estudar por novos meios de critica
+as causas dos seus progressos e da sua decadencia,
+prendendo assim pelos mais estreitos vinculos ao
+destino da arte o destino do homem. Por tal modo
+se transfigurou completamente desde o seu alicerce
+at&eacute; o seu remate o vasto edificio da historia,
+segundo a resumida formula dada por Champolion
+Figeac: que todos os monumentos, ainda
+<span class="pagenum">[10]</span>
+os mais communs e os mais grosseiros, conteem
+factos cujo conjuncto &eacute; como a estatistica moral
+das sociedades extinctas.
+<br />
+
+<br />
+
+D'esse novo criterio resultou a atten&ccedil;&atilde;o especial
+com que todos os povos cultos principiaram
+a considerar a obra material do passado; e assim
+nasceu, com uma nova palavra, a nova maneira
+de <em>restaurar</em> os edificios publicos.
+<br />
+
+<br />
+
+Em mais de um documento da edade m&eacute;dia se
+encontram provas de que os antigos poderes n&atilde;o
+abandonavam, t&atilde;o completamente como hoje se
+poderia suppor, ao accaso de qualquer iniciativa,
+sem beneplacito do estado, as edifica&ccedil;&otilde;es
+consagradas
+ao publico. No <em>Codigo de las
+partidas</em>, lei
+6.&ordf;, titulo X, dizia Affonso o Sabio, n'aquella saborosa
+lingua de que mais tarde se desdobrou o
+portuguez e o castelhano: &laquo;Por bienaventurado
+se debe tener todo home que pueda facer eglesia,
+do se ha de consagrar tan noble cosa et tan sancta
+como el cuerpo de Nuestro Se&ntilde;or Jesucristo,
+et como quiere que todo home &oacute; mujer la puede
+facer a servicio de Dios, pero con mandamiento
+del obispo, como es dicho en la ley segunda deste
+<span class="pagenum">[11]</span>
+titulo, con todo eso debe catar dos cosas el que la
+ficiere, que la faga complida et apuesta; et esto
+tambien en la labor como en los libros et en las
+vestimientas...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Affonso V escreve de Almada, em 1467, aos
+juizes, vereadores, procuradores e homens bons
+da cidade de Evora para que se permitta a Sueiro
+Mendes levar duas pedras que estavam nos a&ccedil;ougues,
+e eram do antigo templo romano, para antipeitos
+das janellas de uma casa, que a esse tempo
+edificava. &laquo;E porque as ditas pedras aproveitam
+pouco honde estam e em as ditas casas faram
+muito, e ainda &eacute; nobresa as cidades haverem
+em ellas b&ocirc;as casas taes como as do dito Sueiro
+Mendes, e seu fundamento he as faser para n&oacute;s
+em ellas havermos de pousar, N&oacute;s vos rogamos e
+encomendamos que vos prasa lh'as quererdes dar,
+e Rodrigo Esteves mestre das nossas obras em
+essa cidade ter&aacute; cuidado de as tirar donde estam,
+etc.&raquo; Estas linhas s&atilde;o um tra&ccedil;o
+caracteristico
+da policia do tempo. D'ellas se deduz que era
+preciso no seculo XV requestar a interven&ccedil;&atilde;o
+regia
+para bulir em duas pedras de um velho monumento,
+<span class="pagenum">[12]</span>
+opera&ccedil;&atilde;o que hoje se realisa com menos
+formalidades, e at&eacute;, como &eacute; sabido, sem
+formalidade
+alguma. Era por&eacute;m entendido como
+doutrina corrente n&atilde;o desdizer da nobreza de
+uma cidade que cantarias de stylo romano se
+transpuzessem do edificio a que pertenciam para
+edificio de stylo completamente diverso. Aquillo
+que modernamente se entende pelo neologismo
+restaurar &eacute; opera&ccedil;&atilde;o desconhecida dos
+antigos. A
+obra architectonica seguia sempre e invariavelmente
+quer em novas edifica&ccedil;&otilde;es, quer em
+repara&ccedil;&atilde;o
+de antigas, o systema e o stylo da epocha
+em que era feita. Sem falarmos do Egypto, da
+Grecia, de Roma, onde as reconstruc&ccedil;&otilde;es se
+emprehendiam,
+sem o menor sentimento de respeito
+pela tradi&ccedil;&atilde;o, em vista de celebrar uma gloria
+coeva com os mesmos materiaes que haviam servido
+&aacute; glorifica&ccedil;&atilde;o de feitos anteriores,
+como no
+arco de Constantino feito com as pedras do arco
+de Trajano, vemos em toda a Europa, e mais particularmente
+em Hispanha e em Portugal, edificios
+em cujos stylos sobrepostos perfeitamente se
+espelha o independentismo das influencias diversas
+<span class="pagenum">[12]</span>
+atravez das successivas phases da construc&ccedil;&atilde;o
+por differentes vezes interrompida. Uns nascem
+genuinamente bysantinos e desenvolvem-se romanicos;
+outros come&ccedil;am romanicos e concluem gothicos;
+outros, gothicos de nascen&ccedil;a, acabam no
+clacissismo greco-romano do renascimento; e &eacute;
+frequente nas nossas egrejas entrarmos por um
+portal do seculo XVI para nos defrontarmos com
+uma capella m&oacute;r no stylo barroco de D. Jo&atilde;o V,
+de D. Jos&eacute; ou de D. Maria I. D'esses casos de
+polyarchitectonismo
+encontramos exemplos em Toledo,
+em Burgos, nos Jeronymos, na Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+A cathedral de Colonia &eacute; n'este ponto de vista,
+um facto particularmente expressivo. A
+construc&ccedil;&atilde;o,
+principiada no meado do seculo XIII, proseguida
+muito lentamente, suspende-se no fim do
+seculo XV por desanimo de a concluir segundo o
+plano primitivo. No seculo XVII e no seculo XVIII, a
+nave, abrigada por um tecto provisorio, &eacute; ornamentada
+em stylo rococo. S&oacute;mente em 1842 se
+encetaram os trabalhos de uma restaura&ccedil;&atilde;o
+authenticamente
+archeologica, segundo o plano original,
+cabendo o projecto da conclus&atilde;o a um architecto
+<span class="pagenum">[14]</span>
+que ao mais profundo estudo do stylo
+ogival reunia o talento mais esclarecido e mais
+perspicaz.
+<br />
+
+<br />
+
+Na historia da cathedral de Mil&atilde;o circumstancias
+analogas &aacute;s de Colonia veem ainda corroborar
+a affirma&ccedil;&atilde;o de que unicamente ao seculo XIX
+cabe o privilegio de restaurar monumentos. A obra
+de Mil&atilde;o iniciada no seculo XIV, &eacute; interrompida
+por desaven&ccedil;as entre os architectos, uns
+allem&atilde;es,
+outros italianos, outros francezes; &eacute; continuada
+no seculo XVI em stylo da renascen&ccedil;a; e t&atilde;o
+s&oacute;mente
+em 1805 a restaura&ccedil;&atilde;o do monumento no
+seu stylo primitivo, segundo os programmas mais
+tarde definidos, se achou determinada por Napole&atilde;o
+I, o qual pela vastid&atilde;o do seu genio, ainda
+que pouco propicio aos humildes, muitas vezes se
+adeantou do seu tempo, e em muitas campanhas
+da intelligencia indicou de antem&atilde;o o ponto da
+victoria, assim como ao principiar a campanha de
+Italia assignalava na carta do Piemonte o logar
+de Marengo.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi Vitet, nomeado inspector geral dos monumentos
+historicos em 1830, quem primeiro indicou
+<span class="pagenum">[15]</span>
+em Fran&ccedil;a o programma das restaura&ccedil;&otilde;es
+architectonicas,
+presentemente seguido em toda a
+parte:&#8213;em Hispanha, onde depois da real ordem
+de 4 de maio de 1850, se n&atilde;o emprehende
+obra de especie alguma nos edificios monumentaes
+sem pr&eacute;via consulta da commiss&atilde;o dos monumentos
+historicos e artisticos; em Inglaterra e
+na Allemanha, que haviam precedido a Fran&ccedil;a na
+protec&ccedil;&atilde;o da arte nacional; na Italia, emfim, na
+Belgica, na Dinamarca, na Suecia, na Noruega,
+na Grecia, na Turquia.
+<br />
+
+<br />
+
+Violet-le-Duc, o erudito mestre a quem tanto
+deve o ensino da archeologia e das artes, completou
+o programma de Vitet, n&atilde;o s&oacute;mente ampliando
+os seus preceitos, mas dando da applica&ccedil;&atilde;o
+d'elles o mais notavel exemplo na restaura&ccedil;&atilde;o do
+castello le Pierrefonds.
+<br />
+
+<br />
+
+Conhecidos os livros de Violet-le-Duc, estudados
+com t&atilde;o paciente laboriosidade, escriptos com
+t&atilde;o lucido e penetrante engenho, e conhecida a
+legisla&ccedil;&atilde;o
+europ&eacute;a baseada n'esses estudos t&atilde;o completos
+e t&atilde;o perfeitos, a quest&atilde;o puramente
+administrativa
+de dar aos monumentos nacionaes de
+<span class="pagenum">[16]</span>
+cada povo a protec&ccedil;&atilde;o que se lhes deve, quando
+menos por simples solidariedade intellectual na
+civilisa&ccedil;&atilde;o do nosso tempo, &eacute;
+quest&atilde;o perfeitamente
+illucidada e rigorosamente definida.
+<br />
+
+<br />
+
+Vejamos agora qual &eacute; em Portugal, perante as
+responsabilidades da administra&ccedil;&atilde;o, o reflexo das
+ideias, cuja historia procurei resumir, com o fim
+de p&ocirc;r o assumpto na perspectiva que a sua magnitude
+pede.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Levaria muito tempo e seria excessivamente
+triste ennumerar todos os attentados de que teem
+sido e continuam a ser objecto, perante a mais
+desastrosa indifferen&ccedil;a dos poderes constituidos,
+os monumentos architectonicos da na&ccedil;&atilde;o, os quaes
+assignalam e commemoram os mais grandes feitos
+da nossa ra&ccedil;a, sendo assim por duplo titulo,
+j&aacute; como documento historico, j&aacute; como documento
+artistico, quanto ha, sobre a terra em que nascemos
+mais delicado e precioso para a honra, para
+a dignidade, para a gloria da nossa patria.
+<br />
+
+<br />
+
+Dos desacatos de lesa magestade nacional, a
+que tenho a d&ocirc;r e a vergonha de me referir, uns
+<span class="pagenum">[17]</span>
+teem caracter anonymo, outros affectam directamente
+a cumplicidade official. Os primeiros s&atilde;o
+uma consequencia de desdem; os segundos s&atilde;o
+um resultado de incapacidade.
+<br />
+
+<br />
+
+A auctoridade, incerta, vagamente definida, a
+quem tem sido confiada a conserva&ccedil;&atilde;o e a guarda
+da nossa architectura monumental, procede com
+esse enfermo, de quem se incumbiu de ser o enfermeiro,
+por dois methodos differentes: umas vezes
+deixa-o morrer; outras vezes, para que elle
+mesmo n&atilde;o tome essa resolu&ccedil;&atilde;o
+lamentavel, assassina-o.
+Na primeira hypothese a calamidade
+correlativa chama-se <em>abandonar</em>. Na
+segunda hypothese
+a catastrophe correspondente chama-se
+<em>restaurar</em>,&#8213;gallicismo technico,
+recentemente introduzido
+no vocabulario nacional, mas ainda n&atilde;o
+definido vernaculamente na applica&ccedil;&atilde;o pratica.
+<br />
+
+<br />
+
+Para o argumento que tenho em vista produzir,
+tomarei unicamente d'entre os differentes desastres
+com que se deshonram e enxovalham os
+nossos monumentos, o desastre denominado
+<em>restaura&ccedil;&atilde;o</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Serei laconico, sem deixar de ser sufficientemente
+<span class="pagenum">[18]</span>
+expressivo, porque os factos s&atilde;o de uma
+eloquencia que esmaga toda a especie de replica
+na materia de que se trata.
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui temos tres edificios restaurados ou em
+restauro a expensas da na&ccedil;&atilde;o, sob os auspicios
+do estado: Os Jeronymos, a Madre de Deus e a
+Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos Jeronymos a construc&ccedil;&atilde;o desmoronou-se,
+sem provoca&ccedil;&atilde;o alguma de agente extranho, por
+mero desequilibrio de si mesma. Inutil todo o
+commentario. A restaura&ccedil;&atilde;o, ainda antes de
+terminada,
+cahiu. Que prova mais lastimavelmente
+completa, evidente e cabal, de que foi insufficientemente
+estudado, logo nos seus primordiaes elementos,
+o programma de tal restaura&ccedil;&atilde;o?! As
+seguran&ccedil;as
+de execu&ccedil;&atilde;o falham precisamente na
+parte mais rudimentar do problema.
+<br />
+
+<br />
+
+Attente-se em que n&atilde;o se trata ainda de uma
+quest&atilde;o de archeologia, nem de uma quest&atilde;o de
+arte; n&atilde;o se apresenta nenhuma d'essas subtis difficuldades
+inherentes ao estudo das f&oacute;rmas constructivas
+ou ornamentaes, ao discernimento dos
+diversos stylos, ao pleno conhecimento das antigas
+<span class="pagenum">[19]</span>
+escolas no tempo e na regi&atilde;o a que o edificio
+pertence. Resolve-se apenas realisar uma simples
+tarefa de construc&ccedil;&atilde;o, e esquece, incumbindo esse
+trabalho de simples mestre de obras ao mais distincto
+dos scenographos, que a primeira condi&ccedil;&atilde;o de
+um architecto a quem se confia a restaura&ccedil;&atilde;o de
+um monumento &eacute; que elle seja, antes de tudo,
+acima de tudo, o mais habil, o mais experiente, o
+mais perito de todos os constructores.
+<br />
+
+<br />
+
+Na Madre de Deus, onde ali&aacute;s o primitivo portal
+da rainha D. Leonor foi discretamente reconstituido
+na moderna fachada do edificio, temos o
+infortunio de ir encontrar no consecutivo restauro
+de uma fabrica do tempo de D. Jo&atilde;o III novos
+capiteis de columnas, nos quaes em vez da
+ornamenta&ccedil;&atilde;o
+vegetal do nosso seculo XVI se v&ecirc;
+reinar nos entablamentos a figura&ccedil;&atilde;o,
+absolutamente
+imprevista e inopinada, de uma locomotiva
+de caminho de ferro, arrastando fumegante o respectivo
+comboyo, tudo lavrado mui laboriosamente
+em pedra, e demandando um tunel. Este
+assombroso phenomeno de pathologia archeologica
+estou convencido de que dispensa ainda mais
+<span class="pagenum">[20]</span>
+do que o caso dos Jeronymos a investiga&ccedil;&atilde;o da
+autopsia.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas restaura&ccedil;&otilde;es da Batalha, umas j&aacute;
+em realidade,
+outras ainda em projecto, falta, primeiro
+que tudo, o meditado programma de conjuncto
+no ponto de vista archeologico, no ponto de vista
+artistico e no ponto de vista technico, visando o
+assumpto por todos os lados de que elle pode ser
+encarado: qualidade do solo, influencias da atmosphera,
+escolha de materiaes, condi&ccedil;&otilde;es de resistencia
+e de equilibrio, systema geral de structura,
+determina&ccedil;&atilde;o do stylo, desde as suas grandes
+linhas e dos seus motivos dominantes at&eacute; os ultimos
+desenvolvimentos d'essas linhas, at&eacute; o extremo
+desdobramento d'esses motivos, m&atilde;o de
+obra, direc&ccedil;&atilde;o e apprendisagem em todas as
+officinas
+de que depende o restauro, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Seria por um programma d'essa natureza que
+a competencia do architecto restaurador deveria
+principiar a affirmar-se. Perante essa prova, comprehendendo
+o estudo do monumento, plantas, al&ccedil;ados,
+photographias, desenhos de projectos, systemas
+de stylisa&ccedil;&atilde;o, methodos de estudo e de trabalho,
+<span class="pagenum">[21]</span>
+regimentos de officinas, etc., poderiamos
+n&oacute;s, que n&atilde;o somos architectos, mas simples
+criticos,
+fiscaes da arte em nome do publico, decidir
+se o restaurador da Batalha est&aacute; ou n&atilde;o
+est&aacute; ao
+nivel da sua miss&atilde;o. Sem prova d'essa ordem que
+cotejemos com os requisitos a que teem de satisfazer,
+nos paizes extrangeiros, os architectos a
+quem se entrega a restaura&ccedil;&atilde;o de um monumento,
+n&oacute;s n&atilde;o podemos julgar sen&atilde;o de um
+modo
+muito imperfeito, tendo de entrar mais ou menos
+no exame da execu&ccedil;&atilde;o, para o qual nos fallece a
+competencia profissional.
+<br />
+
+<br />
+
+Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque &eacute; o
+unico architecto portuguez de quem conhecemos,
+com rela&ccedil;&atilde;o &aacute; historia do edificio e
+ao plano da
+restaura&ccedil;&atilde;o da Batalha, estudos especiaes,
+consubstanciados
+n'uma memoria publicada, depois da
+morte do auctor, em 1867. A monographia a que
+me refiro, al&eacute;m de mui interessantes
+revela&ccedil;&otilde;es
+sobre os vandalismos perpetrados pelos ultimos
+frades que habitaram o mosteiro e chegaram a
+quebrar os preciosos vidramentos das janellas
+para presentearem os visitantes com cabe&ccedil;as das
+<span class="pagenum">[22]</span>
+figuras de que elles se compunham, cont&eacute;m alguns
+principios mui judiciosos e bem definidos,
+sobre o modo como esse perito restaurador, que
+a influencia do rei D. Fernando fizera nomear,
+comprehendia a sua delicada miss&atilde;o. E excellente
+o methodo por elle proposto para a conserva&ccedil;&atilde;o
+das Capellas imperfeitas. Notam-se alguns excessivos
+e infundados rigores de zelo, como na parte
+em que ao restaurador repugna adoptar, para o
+fim de p&ocirc;r o monumento ao abrigo das intemperies,
+processos de resguardo mais perfeitos que
+os conhecidos ao tempo da construc&ccedil;&atilde;o primitiva,
+taes como, por exemplo, o emprego de cimentos
+modernos na veda&ccedil;&atilde;o de uma cobertura,
+etc. A memoria programma de Mousinho de Albuquerque
+&eacute; n&atilde;o obstante um trabalho de incontestavel
+merecimento, que muito augmenta de
+valor se levarmos em conta que esse illustre architecto
+escrevia em 1840, quatro annos depois
+d'aquelle em que o rei D. Fernando visitou o edificio,
+chamando para elle pela primeira vez a
+atten&ccedil;&atilde;o dos poderes publicos.
+<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; Mousinho a architectura da Batalha foi na
+<span class="pagenum">[23]</span>
+litteratura portugueza um puro thema de rhetorica.
+O romantismo tinha-nos trazido a moda do
+gothico por via de Chateaubriand e de Victor
+Hugo. Os romances, as xacaras, as baladas e os
+solaus, com as suas castell&atilde;s, os seus paladinos,
+os seus pagens, os seus menestreis e os seus respectivos
+attributos&#8213;lan&ccedil;as, montantes, elmos,
+guantes de ferro, falc&otilde;es, adagas, b&eacute;stas e
+bandolins,
+pediam um scenario de fortifica&ccedil;&atilde;o feudal,
+fossos e pontes levadi&ccedil;as, revelins, caminhos
+de ronda, ameias, torres de menagem, amplas
+chamin&eacute;s com trasfogueiros forjados, ogivas e
+abobadas. As egrejas, para os effeitos de grandiosidade
+no stylo, sempre que n&atilde;o eram ermidas
+eram cathedraes. Os romanticos chamavam
+cathedraes a todos os grandes templos, como o
+da Batalha, o do Carmo e o dos Jeronymos. O
+romance historico, tanto em voga durante a
+gera&ccedil;&atilde;o
+litteraria de Alexandre Herculano, tinha
+exigencias decorativas analogas &aacute;s da poesia cavalheiresca.
+Os estudos de critica e de archeologia
+artistica, tendo por objecto os nossos monumentos
+architectonicos, davam em resultado
+<span class="pagenum">[24]</span>
+geral uma especie de lenga-lenga de eruditos ciceroni.
+<br />
+
+<br />
+
+A Batalha tem sido constantemente, desde a
+primeira appari&ccedil;&atilde;o da
+<em>Abobada</em> no
+<em>Panorama</em>, at&eacute;
+hoje, o <em>grande livro de marmore</em>, o
+<em>immortal poema</em>,
+a <em>Divina Comedia portuguesa</em>, a
+triumphante
+affirma&ccedil;&atilde;o da nacionalidade independente,
+definitiva,
+fundada pela vontade do povo, pela espada
+do mestre de Aviz, pela lan&ccedil;a de D. Nuno Alvares
+Pereira e pela penna de Jo&atilde;o das Regras.
+<br />
+
+<br />
+
+Com effeito, nada mais bello, na historia nacional,
+do que o feito d'armas de Aljubarrota e o monumento
+de Nossa Senhora da Victoria, destinado
+a commemorar esse feito, por voto de D. Jo&atilde;o I.
+Mas d'ahi a poder-se dizer que o edificio da Batalha
+&eacute;, como a epop&eacute;a dos
+<em>Luziadas</em>, a imagem
+technica das id&eacute;as e dos sentimentos da patria,
+medeia&#8213;me parece&#8213;um largo abysmo.
+<br />
+
+<br />
+
+Olhemos por um momento a historia d'esta
+construc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Frei Luiz de Sousa diz que &laquo;El-rei chamara de
+longes terras os mais celebres architectos que se
+sabiam; convocara de todas as partes, officiaes de
+<span class="pagenum">[25]</span>
+cantaria d&eacute;stros e sabios; convidara a uns com
+honras, a outros com grossos partidos, e obrigara
+a muitos com tudo junto.&raquo; Este testemunho &eacute;
+precioso
+e est&aacute; acima de toda a suspeita, porque nos
+vem de um frade de S. Domingos, que habitou
+por muitos annos o convento da Batalha, e que,
+como chronista da ordem, conheceu inteiramente
+pelo archivo do convento quanto se sabia da historia
+da sua funda&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Frei Francisco de S. Luiz contesta, sem provas,
+que fossem architectos celebres chamados de longes
+terras, como diz Sousa, os iniciadores da
+grande obra, e cita como auctor do risco Affonso
+Domingues, porque d'elle se sabe que teve parte
+na direc&ccedil;&atilde;o das obras nos primeiros annos da
+funda&ccedil;&atilde;o,
+e n&atilde;o consta de documento authentico que
+qualquer outro architecto interviesse nos trabalhos
+durante os dezeseis annos que medeiam entre
+o seu come&ccedil;o e o anno da morte de Affonso
+Domingues, em 1402.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos os que se seguiram a Frei Francisco de
+S. Luiz, adoptaram esta opini&atilde;o; de modo que se
+tornou uma cousa t&atilde;o corrente como se estivesse
+<span class="pagenum">[26]</span>
+demonstrada que foi Affonso Domingues quem
+construiu a Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+James Murphy, por&eacute;m, no seu livro <em>Travels
+in
+Portugal</em>, affirma, por
+<em>informa&ccedil;&otilde;es que lhe foram
+dadas em Lisboa por empregados da Torre do
+Tombo</em>, que o encarregado da
+construc&ccedil;&atilde;o foi o
+architecto inglez Stephan Stephenson, socio das
+<em>free and accepted masons</em>, que tinham
+a sua s&eacute;de
+principal em York. Stephenson teria vindo a Portugal
+por interven&ccedil;&atilde;o da rainha D. Filippa, mulher
+de D. Jo&atilde;o I, ingleza de na&ccedil;&atilde;o, filha
+do duque
+Jo&atilde;o de Lencastre e neta de Eduardo III.
+<br />
+
+<br />
+
+O conde de Rakzynski diz a este respeito, que
+desde que examinou as gravuras do convento da
+Batalha, na obra <em>in folio</em> de Murphy,
+se convenceu
+de que a analogia existente entre a Batalha e
+a cathedral de York n&atilde;o permitte a minima duvida
+acerca da origem commum d'estes dois edificios.
+&laquo;Que o plano da igreja da Batalha&#8213;diz
+Rakzynski&#8213;seja obra de um portuguez ou de um
+inglez, a verdade &eacute; que as duas igrejas nasceram
+de inspira&ccedil;&otilde;es artisticas analogas, homogeneas e
+contemporaneas, e o estylo de ambos me parece
+<span class="pagenum">[27]</span>
+identico. Esta impress&atilde;o tornou-se para mim ainda
+mais forte, depois que visitei a Batalha.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Temos, pois, sobre a origem estrangeira d'este
+monumento tres votos importantes: o de Fr. Luiz
+de Sousa, o de James Murphy e o do conde de
+Rakzynski, aos quaes recentemente se juntou o
+architecto Haupt.
+<br />
+
+<br />
+
+Na Torre do Tombo n&atilde;o se encontra documento
+algum relativo &aacute; construc&ccedil;&atilde;o da
+Batalha,
+nem &aacute; vinda de Stephenson a Portugal. Em
+1845, Alexandre Herculano e o Visconde de Juromenha,
+auxiliados pelos officiaes da Torre, fizeram
+as mais demoradas e escrupulosas pesquizas
+para o fim de satisfazer a curiosidade de
+Rakzynski, e nada appareceu.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; claro que esta ausencia de vestigios no real
+archivo nada prova sobre o facto de ter estado ou
+n&atilde;o em Portugal o architecto de York. N&atilde;o consta
+t&atilde;o pouco, dos documentos existentes no archivo,
+que tivesse estado em Portugal durante nove annos
+o insigne esculptor italiano Andrea Contucci,
+emulo de Miguel Angelo; e no emtanto este facto
+acha-se f&oacute;ra de toda a contesta&ccedil;&atilde;o.
+<span class="pagenum">[28]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+O cardeal patriarcha Frei Francisco de S. Luiz,
+queixando-se da negligencia e da superficialidade
+com que Frei Luiz de Sousa falla dos primeiros
+architectos da Batalha, e propondo-se demonstrar
+que o auctor da obra foi Affonso Domingues, diz
+que n&atilde;o v&ecirc; raz&atilde;o para p&ocirc;r em
+duvida a habilidade
+dos nossos compatriotas, suppondo que houvessemos
+de reclamar a assistencia de estrangeiros em
+uma epocha como a de D. Jo&atilde;o I, na qual, exceptuadas
+as italianas, <em>nenhuma na&ccedil;&atilde;o da
+Europa se
+achava mais adeantada que a na&ccedil;&atilde;o portugueza,
+tanto na arte da architectura, como em todas as
+outras</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O patriotismo imprudentemente levado at&eacute; &aacute;s
+affirma&ccedil;&otilde;es da natureza das de Frei Francisco de
+S. Luiz, tem um inconveniente grave, que &eacute; o de
+fazer sorrir os estrangeiros, da ingenua
+applica&ccedil;&atilde;o
+dos nossos sentimentos civicos &aacute; historia da arte
+europ&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje, toda a gente sabe, porque esta ordem de
+conhecimentos tem-se vulgarisado muito, que o
+systema gothico ou systema ogival, a que primitivamente
+se chamou <em>Opus francigenum</em>, teve a
+<span class="pagenum">[29]</span>
+sua origem na ilha de Fran&ccedil;a e na regi&atilde;o
+circumstante.
+Foi n'esses logares que at&eacute; o seculo XII se
+construiram os primeiros edificios gothicos. O
+novo stylo chega em Fran&ccedil;a aos seus mais completos
+desenvolvimentos no seculo XIII, e d'essa
+epocha datam as cathedraes de Amiens, de Pariz,
+de Reims e de Chartres.
+<br />
+
+<br />
+
+Os allem&atilde;es e os inglezes teem contestado &aacute;
+Fran&ccedil;a a prioridade do emprego do arco ogival
+e dos desenvolvimentos architectonicos que d'elle
+procedem. O que, por&eacute;m, est&aacute; acima de todo o
+litigio,
+&eacute; que o systema ogival, chamado stylo gothico,
+ou gothico puro da igreja da Batalha, n&atilde;o
+procede da inven&ccedil;&atilde;o dos paizes meridionaes, de
+c&eacute;u azul, mas sim das regi&otilde;es nevoentas de longos
+e rudes invernos.
+<br />
+
+<br />
+
+No norte da Europa, durante a edade m&eacute;dia,
+tratou-se de edificar a grande cathedral que d&eacute;sse
+um abrigo espa&ccedil;oso &aacute;s numerosas
+congrega&ccedil;&otilde;es
+de fieis e de cidad&atilde;os; como a pedra escasseava,
+como a neve cahia em abundancia e permanecia
+por longo tempo, procurou-se um modo de
+construc&ccedil;&atilde;o,
+que, sem difficultar a circula&ccedil;&atilde;o da gente
+<span class="pagenum">[30]</span>
+com grandes e repetidos corpos de cantaria no interior
+do edificio, permittisse empregar materiaes
+menos solidos e fazer tectos elevados e agudos,
+que, n&atilde;o pesando excessivamente sobre os membros
+destinados a sustental-os, deixassem facilmente
+resvalar e escorrer a neve pelas superficies
+exteriores, impedindo o mais completamente possivel
+a infiltra&ccedil;&atilde;o da humidade no interior do
+templo.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi d'estas causas, determinadas pela natureza
+do clima e do solo, pelas condi&ccedil;&otilde;es sociaes, e
+n&atilde;o
+de um mero capricho inventivo, que resultou para
+os architectos dos paizes septentrionaes o pensamento
+de readoptar a abobada de aresta, que os
+romanos, depois de a haverem empregado, puzeram
+de parte, para o fim de dar logar na construc&ccedil;&atilde;o
+das basilicas christ&atilde;s &aacute; enorme quantidade de
+columnas legadas pelo paganismo.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim foi que nasceu, bem longe de Portugal e
+inteiramente f&oacute;ra das influencias cosmicas e das
+influencias sociaes geradoras do caracter e da indole
+da nossa ra&ccedil;a, que nasceu o stylo architectonico
+da egreja da Batalha.
+<span class="pagenum">[31]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+A affirmativa de que nenhuma na&ccedil;&atilde;o da Europa,
+com excep&ccedil;&atilde;o da Italia, se achava mais
+adeantada do que Portugal do tempo de D. Jo&atilde;o I,
+nas artes da architectura, s&oacute;mente prova, da parte
+do cardeal frei Francisco de S. Luiz, que este benemerito
+academico e illustre litterato, ou n&atilde;o viajou
+nunca em Fran&ccedil;a e na Allemanha, ou n&atilde;o visitou
+n'estes paizes os monumentos anteriores ao
+fim do seculo XIV.
+<br />
+
+<br />
+
+A egreja da Batalha, que data d'essa epocha, &eacute;
+chronologicamente um dos ultimos edificios em
+stylo gothico puro construidos na Europa, e, apesar
+de toda a sua belleza, est&aacute;, como obra d'arte e
+como magnificencia monumental, bastante abaixo
+de alguns outros edificios construidos cem ou duzentos
+annos antes, como a cathedral de Strasburgo
+(1015 a 1275), Reims (1215), Amiens (1222), Colonia
+(1248) a Sainte-Chapelle em Pariz (1248), Notre-Dame
+(1275), etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Bastaria que o auctor da interessante memoria
+sobre a construc&ccedil;&atilde;o do convento da Batalha,
+encorporada
+na collec&ccedil;&atilde;o das memorias da Academia,
+tivesse olhado em Pariz para as estatuas de
+<span class="pagenum">[32]</span>
+Sainte-Chapelle e para os baixos-relevos da egreja
+de Notre-Dame; que tivesse observado um momento
+as esculpturas de Chartres, de Reims e de
+Amiens; para ter uma id&eacute;a do enorme abysmo que
+no tempo de D. Jo&atilde;o I nos distanciava ainda dos
+grandes mestres da architectura e da esculptura
+franceza, que se chamaram Pierre de Montreuil,
+Thomas e Regnaut de Carmont, Jean de Chelles,
+Hugues Libergier e outros artistas leigos, sem contar
+os muitos monges anonymos com que se illustrou
+na historia da arte, a ordem de Cluny, no seculo
+XII e no seculo XIII.
+<br />
+
+<br />
+
+Na Allemanha, temos, precedendo a Batalha, a
+cathedral de Colonia; na Inglaterra Canterbury,
+Westminster, Salisbury, Lincoln e York; e em Hispanha,
+Burgos e Toledo.
+<br />
+
+<br />
+
+Anterior &aacute; Batalha n&atilde;o ha em Portugal monumento
+algum que prenuncie, prepare e explique a
+appari&ccedil;&atilde;o d'este.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos primeiros tempos da monarchia, em quasi
+todo o periodo affonsino, os artistas e os obreiros
+eram em geral arabes ou mouros. O portuguez
+era como os seus reis, soldado ou agricultor. Para
+<span class="pagenum">[33]</span>
+as especula&ccedil;&otilde;es estheticas faltava-lhe a paz, a
+tranquillidade,
+a riqueza. Mal lhe chegava o tempo
+para desbravar o s&oacute;lo e para bater os inimigos,
+que de todas as partes rodeavam a pequena sociedade
+nascente, aventurosa e aguerrida.
+<br />
+
+<br />
+
+A Batalha, com a delicada pureza das suas linhas,
+j&aacute; ent&atilde;o consagradas na Europa, surge
+repentinamente,
+imprevistamente, esporadicamente,
+na corrente da architectura portugueza, como a
+flor desconhecida de uma planta exotica.
+<br />
+
+<br />
+
+D'onde &eacute; que foi transplantado para terra portugueza
+este producto de uma civilisa&ccedil;&atilde;o superior,
+em que o desenvolvimento da vida municipal, iniciada
+pelas fortes corpora&ccedil;&otilde;es operarias e mercantis,
+impellira as communas a construirem as
+luxuosas cathedraes, que eram ao mesmo tempo,
+nas cidades novas, um asylo de religi&atilde;o e um f&oacute;co
+de vida civil?
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sei responder peremptoriamente a esse quesito.
+<br />
+
+<br />
+
+O problema assim estreitado &eacute;, no fim de contas,
+de pura curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+O architecto inglez Hope, na sua <em>Historia
+da</em>
+<span class="pagenum">[34]</span>
+<em>Architectura</em>, diz que o estylo
+ogival n&atilde;o tem propriamente
+nem uma patria nem uma nacionalidade.
+S&oacute; poderia ter nascido no seio de alguma
+ordem religiosa ou de uma corpora&ccedil;&atilde;o de pedreiros
+livres, porque o clero e os pedreiros livres
+eram as unicas corpora&ccedil;&otilde;es que na edade
+m&eacute;dia
+possuiam os conhecimentos necessarios para o
+plano e para a execu&ccedil;&atilde;o dos edificios sagrados,
+quer para as communidades monasticas, quer para
+a egreja latina em geral.
+<br />
+
+<br />
+
+Hope acrescenta: como os conventos e sobretudo
+as <em>lojas</em> dos pedreiros livres se
+compunham
+de cidad&atilde;os de todos os paizes, que reconheciam
+a supremacia da egreja romana, n&atilde;o seria possivel
+determinar positivamente os inventores do
+stylo ogival quando mesmo se houvesse descoberto
+o logar preciso do seu ber&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Em toda a parte onde apparecem as primeiras
+amostras d'esse stylo ellas n&atilde;o s&atilde;o a obra de
+individuos
+de um paiz determinado, mas sim de
+uma congrega&ccedil;&atilde;o encerrando no seu gremio homens
+de todas as na&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Na <em>Real Encyclopedia</em> de Leipzig
+l&ecirc;-se com referencia
+<span class="pagenum">[35]</span>
+&aacute;s associa&ccedil;&otilde;es ma&ccedil;onicas
+que ellas se compunham
+de homens de arte de todos os paizes formando
+uma s&oacute; corpora&ccedil;&atilde;o dirigida por um ou
+por
+varios chefes. &laquo;Protegidos por privilegios ou cartas
+patentes emanadas das auctoridades ecclesiasticas
+e seculares, emprehendiam as maiores construc&ccedil;&otilde;es
+em toda a Europa e s&atilde;o auctores d'esses
+magnificos edificios chamados gothicos e que
+antes se deveriam chamar <em>Altdoutsch</em>.
+Achamos o
+stylo de todas as construc&ccedil;&otilde;es d'essa
+&eacute;poca fundamentalmente
+identico. As associa&ccedil;&otilde;es alludidas
+compunham-se de architectos e de obreiros italianos,
+allem&atilde;es, flamengos, francezes, inglezes, escocezes
+e at&eacute; gregos. Foi d'essa maneira que nasceram
+os monumentos seguintes: o <em>mosteiro da
+Batalha em Portugal</em>, a cathedral de Strasburgo,
+a de Colonia, a de Meissen, a de Mil&atilde;o, o convento
+do Monte Casino, e todos os edificios notaveis
+da Inglaterra.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Esta hypothese&#8213;e chamo-lhe hypothese, porque
+n&atilde;o conhe&ccedil;o os documentos positivos em que
+se baseia o escriptor allem&atilde;o&#8213;condiz perfeitamente
+com a li&ccedil;&atilde;o de Frei Luiz de Sousa, e &eacute;
+talvez
+<span class="pagenum">[36]</span>
+de todas a mais verosimil com rela&ccedil;&atilde;o aos
+constructores da Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+Que fosse, por&eacute;m, uma associa&ccedil;&atilde;o de
+artistas e
+de operarios; que fosse Stephan Stephenson, como
+indica Murphy, de quem devemos crer que n&atilde;o
+inventou esse nome e o recebeu, como diz, dos
+empregados do archivo da Torre do Tombo; que
+fosse, como pretende Hope, mestre Ouet, Huguet
+ou Huet, de na&ccedil;&atilde;o inglez, que trabalhou nas obras
+e cujo nome Frei Francisco de S. Luiz encontrou
+como testemunha no contracto de aforamento, em
+que se fala de Affonso Domingues; como quer
+que seja, emfim, a hypothese que menos verosimilhan&ccedil;a
+offerece &eacute; a de ter sido o monumento
+delineado e construido pelo mestre portuguez Affonso
+Domingues, como em Portugal se tem geralmente
+escripto.
+<br />
+
+<br />
+
+O mais superficial exame aos edificios anteriores
+&aacute; Batalha manifesta do modo mais evidente
+que n&atilde;o tinhamos nem escola, nem
+tradi&ccedil;&otilde;es, nem
+tendencias de que procedesse um artista como o
+que delineou e construiu a egreja da Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+Vilhena Barbosa, nos <em>Monumentos de
+Portugal</em>,
+<span class="pagenum">[37]</span>
+repete ainda a vers&atilde;o relativa a Affonso Domingues
+como constructor da Batalha, mas accrescenta:
+&laquo;&Eacute; muito para admirar, n&atilde;o devo
+negal-o, que
+houvesse n'aquella &eacute;poca em Portugal um artista
+t&atilde;o consumado como o que fez o risco do monumento,
+achando-se a architectura entre n&oacute;s, antes
+da execu&ccedil;&atilde;o d'esta obra em um estado, que, se
+n&atilde;o era de grande atrazo, tambem n&atilde;o se lhe
+poder&aacute;
+chamar de adiantamento; em um estado pelo
+menos que nenhuma memoria ou documento nos
+auctorisa para o considerarmos como escola d'onde
+pudesse sahir um artista t&atilde;o completo.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+A seguir, Vilhena Barbosa, procurando conciliar
+o arrojo do seu reparo com a tradi&ccedil;&atilde;o geralmente
+recebida, exclama um tanto contricto: &laquo;N'este caso
+lan&ccedil;arei m&atilde;o de uma conjectura, n&atilde;o
+pela necessidade
+de sahir do embara&ccedil;o, mas porque me parece
+acceitavel e muito plausivel. Vem a ser que
+talvez Affonso Domingues tivesse sahido da sua
+patria antes da acclama&ccedil;&atilde;o do mestre d'Aviz, com
+o intento de se instruir e aperfei&ccedil;oar na sua arte.
+Bem sei que n'essa &eacute;poca n&atilde;o eram dados os
+artistas,
+pelo menos os nossos, a procurar taes meios
+<span class="pagenum">[38]</span>
+de estudo. Entretanto, tendo estado em Portugal,
+no reinado de D. Fernando e com alguma demora,
+dois principes inglezes, o duque de Cambridge, e
+um seu irm&atilde;o natural, filhos de D. Duarte III, rei
+de Inglaterra, pode ser que Affonso Domingues,
+levado pelo amor da arte ou por outro qualquer
+respeito, se resolvesse a acompanhar algum d'elles
+na sua volta para Inglaterra, paiz classico da
+architectura gothica no genero da Batalha.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Confessemos que &eacute; preciso ter vontade de attribuir
+por for&ccedil;a a Affonso Domingues uma obra que
+este n&atilde;o podia fazer, para formular a conjectura
+de que <em>talvez elle se tivesse
+resolvido</em> a ir a Inglaterra
+com os filhos de Duarte III.
+<br />
+
+<br />
+
+Ainda quando admittida a singular camaradagem
+do duque de Cambridge e de seu irm&atilde;o com
+Affonso Domingues, camaradagem conjecturada
+por Barbosa, e de que n&atilde;o ha o minimo vestigio
+historico, n&atilde;o ser&aacute; talvez inutil reflectir que
+depois
+d'essa excurs&atilde;o a Inglaterra&#8213;paiz t&atilde;o debilmente
+<em>classico na architectura gothica</em>, no
+tempo
+de Duarte III, que n&atilde;o tinha um architecto indigena,
+nem monumento gothico algum, que se possa
+<span class="pagenum">[39]</span>
+p&ocirc;r em confronto com as obras magnificas do
+continente&#8213;Affonso
+Domingos voltaria de Inglaterra,
+no tocante ao conhecimento da arte de edificar,
+proximamente no mesmo estado em que para
+l&aacute; tivesse ido, o que facilmente se demonstra, como
+vamos v&ecirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+Sabe-se que desde o seculo X se organisaram
+na Italia, iniciadas pela Lombardia, essas
+associa&ccedil;&otilde;es
+de artistas seculares, architectos, esculptores,
+illuminadores, imaginarios, vidristas, entalhadores
+e canteiros, empregados pela egreja nas vastas
+obras da primeira renascen&ccedil;a da Europa, subsequentes
+aos terrores do millenio, que por muitos
+annos paralysaram todas as faculdades artisticas
+da humanidade estupefacta perante a prophecia
+pavorosa do proximo aniquilamento universal.
+<br />
+
+<br />
+
+Estas confrarias, creadas e protegidas pelo clero,
+tomaram o nome geral de
+<em>franco-ma&ccedil;onaria</em>
+ou de <em>pedreiros livres</em>, e
+compunham-se de associados,
+que, depois de haverem passado por todos
+os minuciosos tramites de uma longa aprendizagem,
+adquiriam geralmente o direito de exercer
+a profiss&atilde;o na qualidade de mestres.
+<span class="pagenum">[40]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Com a rapida e maravilhosa prosperidade das
+novas cidades da Italia Septentrional nasceram
+egrejas sumptuosas e conventos magnificos, que
+em poucos annos cobriram uma grande superficie
+da Lombardia e dos Estados adjacentes.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegado o momento previsto em que as ordens
+religiosas de Italia cessaram emfim de ter obras
+em que empregar a associa&ccedil;&atilde;o, cada vez mais
+numerosa
+e mais habil, dos pedreiros livres, pensaram
+estes em dilatar a sua actividade fora do solo
+natal.
+<br />
+
+<br />
+
+Este expatriamento n&atilde;o representava unicamente
+uma expans&atilde;o artistica mas tambem uma
+forte propaganda e uma consideravel conquista
+internacional da egreja latina.
+<br />
+
+<br />
+
+Essa grande companhia edificadora de monumentos
+religiosos, de cathedraes e de mosteiros,
+mobilisada n'uma companhia de arte atravez do
+Norte da Europa, constituia como que um solido
+refor&ccedil;o esthetico, temporal, naturalista e humano
+&aacute; sagrada legi&atilde;o espiritual vulgarisadora do
+credo
+latino pela ramifica&ccedil;&atilde;o das ordens religiosas
+sobre
+todas as latitudes da terra.
+<span class="pagenum">[41]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Cada egreja e cada convento edificados em paizes
+estranhos e longinquos eram&#8213;diz Hope&#8213;um
+novo feudo adquirido ao papa.
+<br />
+
+<br />
+
+A egreja comprehendeu inteiramente o alcance
+d'este grande facto, t&atilde;o importante na historia da
+arte romanica, da arte lombarda, da arte gothica
+e de todas as artes liberaes na Europa, depois de
+cahida a influencia da antiga civilisa&ccedil;&atilde;o
+hellenico-romana.
+<br />
+
+<br />
+
+Como incentivo e amparo da vasta odyss&eacute;a, a
+que se aventuravam os denominados pedreiros livres
+receberam ent&atilde;o da auctoridade pontificia,
+emminente a todos os conflictos e discordias de
+soberania para soberania e de nacionalidade para
+nacionalidade, privilegios incomparaveis, destinados
+a assegurar &aacute; confraria errante uma especie
+de inviolavel monopolio esthetico e artistico, como
+o que em nossos dias poderia resultar de um congresso
+universal, tendo em vista p&ocirc;r acima de qualquer
+contingencia politica um interesse commum
+a toda a especie humana.
+<br />
+
+<br />
+
+Diplomas e bulas papaes confirmaram para todos
+os paizes, que houvessem reconhecido a f&eacute; catholica
+<span class="pagenum">[42]</span>
+apostolica romana, todos os privilegios que
+a confraria dos pedreiros livres havia recebido dos
+Estados de que era oriunda.
+<br />
+
+<br />
+
+Ella dependeria directamente e unicamente da
+auctoridade pontificia, isenta de todas as leis e estatutos
+locaes, dos editos dos reis ou dos regulamentos
+dos municipios e de toda e qualquer imposi&ccedil;&atilde;o
+obrigatoria para os naturaes do paiz em
+que se encontrasse.
+<br />
+
+<br />
+
+S&oacute; &aacute; associa&ccedil;&atilde;o caberia o
+direito e o poder de
+taxar os salarios, e de prover em capitulo, sem
+appella&ccedil;&atilde;o nem aggravo, a quanto dissesse
+respeito
+ao seu proprio governo. Era expressamente
+prohibido a todo o artista n&atilde;o iniciado nem admittido
+na associa&ccedil;&atilde;o estabelecer para com ella qualquer
+especie de concorrencia, assim como era defeso,
+sob pena de excomunh&atilde;o, a todo o soberano
+manter os seus subditos n'esse acto de rebeldia
+&aacute;s prescrip&ccedil;&otilde;es da egreja.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta <em>Internacional</em> carolingiana, bem
+mais poderosa
+do que a <em>Internacional</em> napoleonica
+sahida
+dos primeiros movimentos socialistas do segundo
+imperio, desenvolveu-se rapida e portentosamente.
+<span class="pagenum">[43]</span>
+Muitos gregos vindos de Constantinopla se reuniram
+aos primeiros artistas confederados, vindo em
+seguida allem&atilde;es, francezes, belgas e inglezes.
+<br />
+
+<br />
+
+Desdobraram-se successivamente as diversas lojas
+ou series de agrupamentos, em que cada dez
+associados obedeciam a um chefe em communica&ccedil;&atilde;o
+com os chefes das demais decurias e com a
+direc&ccedil;&atilde;o central.
+<br />
+
+<br />
+
+Os ecclesiasticos da mais alta categoria, os
+prelados, abbades mitrados e bispos, accrescentavam
+a for&ccedil;a e o prestigio da associa&ccedil;&atilde;o,
+alistando-se
+como membros da irmandade.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos os soberanos da christandade se gloriavam
+em honrar com especiaes distinc&ccedil;&otilde;es e
+particulares
+privilegios as suas lojas nacionaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Para o fim de evitar que individuos estranhos
+&aacute; associa&ccedil;&atilde;o aproveitassem
+fraudulentamente os
+enormes beneficios de que ella tinha o privilegio,
+e bem assim para que, em qualquer regi&atilde;o do
+mundo, cada irm&atilde;o pudesse communicar com os
+seus consocios, fazendo conhecer a sua inicia&ccedil;&atilde;o
+e o seu grau na confraria, estabeleceram-se as senhas
+secretas, os <em>signaes
+ma&ccedil;onicos</em>, por meio dos
+<span class="pagenum">[44]</span>
+quaes os consocios se reconheciam em qualquer
+parte, e revestiu-se o acto de inicia&ccedil;&atilde;o e
+matricula
+de formalidades solemnes, de provas especiaes,
+de juramentos terriveis, por via dos quaes cada
+novo confrade se obrigava n&atilde;o s&oacute;mente a
+n&atilde;o revelar
+a quem quer que fosse os signaes, com que
+mutuamente se entendiam os pedreiros, mas a esconder
+dos estranhos todos os processos technicos
+e todas as regras do officio, de que a associa&ccedil;&atilde;o
+tinha a posse. Esta collabora&ccedil;&atilde;o phenomenal
+dos melhores obreiros, de todos os grandes artistas
+e de todos os sabios do mundo, associados
+da maneira mais engenhosamente completa e perfeita
+para exercer a arte de edificar, elevou a architectura
+religiosa n'este periodo &aacute; mais alta
+perfei&ccedil;&atilde;o
+scientifica e technica, a que j&aacute;mais chegou
+a obra da intelligencia e da m&atilde;o do homem.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando a longa e laboriosa gesta&ccedil;&atilde;o de todos
+os demais ramos do saber humano se discriminava
+apenas em rudimentos embrionarios, de uma
+confus&atilde;o tenebrosa, a architectura constituia o
+mais perfeito corpo de leis estheticas e de leis
+scientificas. Crearam-se as mais elevadas e as
+<span class="pagenum">[45]</span>
+mais caracteristicas f&oacute;rmas de stylo, resolveram-se
+os mais complicados e os mais difficeis problemas
+de calculo, de geometria e de mechanica,
+acharam-se, emfim, innumeraveis processos chimicos
+e methodos technicos, que se perderam e
+nunca mais se substituiram, porque com a grande
+confraria dos ma&ccedil;ons morreu a tradi&ccedil;&atilde;o
+de que elles
+tinham a guarda e o segredo.
+<br />
+
+<br />
+
+No tempo de Eduardo III a ma&ccedil;onaria, que s&oacute;
+um seculo depois acabou na Inglaterra sob o reinado
+de Henrique VI, mantinha-se em pleno vigor.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, dado que s&oacute; muito lentamente e por via
+de provas espa&ccedil;adas e progressivas podia o obreiro
+no gremio da confraria subir &aacute;
+qualifica&ccedil;&atilde;o de
+mestre, e s&oacute; como simples obreiro podia ser admittido
+e iniciado, dado por outro lado que era
+tal o segredo sobre os methodos de edificar que
+toda a planta, todo o risco, todo o calculo, todo o
+estudo graphico, era invariavelmente e escrupulosamente
+destruido immediatamente depois de utilisado
+em qualquer obra, parece-me n&atilde;o haver um
+excessivo arrojo em conjecturar que Affonso Domingues
+<span class="pagenum">[46]</span>
+n'uma viagem a Inglaterra, no tempo de
+Eduardo III, nada aprenderia de architectura, ficando
+estranho &aacute; ma&ccedil;onaria, e, tendo-se iniciado
+n'ella antes de vir construir a Batalha, seria ent&atilde;o
+da ma&ccedil;onaria e n&atilde;o d'elle o monumento de que
+se trata.
+<br />
+
+<br />
+
+Revertendo ao escrupuloso e esclarecido estudo
+de Mousinho, notemos que elle n&atilde;o encontrou nem
+quem o continuasse nem sequer quem se lhe submettesse
+entre os restauradores que se lhe seguiram.
+As capellas imperfeitas, incomparavel joia
+da architectura portugueza mais caracteristicamente
+regional, acham-se no mesmo abandono
+em que ficaram em 1843, depois que elle as desinfestou
+dos parasitas arbustivos e das herbaceas,
+cujas radiculas se tinham por tal modo multiplicado
+nos intersticios das cantarias que em muitos
+pontos houve que desmontar as lageas para extirpar
+as hervas e refazer os massames substituidos
+pelo intimo estojo vegetal, que inchando por todas
+as juntas da pedra, amea&ccedil;ava desarticular e
+destruir tudo por uma derrocada geral.
+<br />
+
+<br />
+
+Sem exposi&ccedil;&atilde;o de plano referido &aacute;s
+obras que
+<span class="pagenum">[47]</span>
+recentemente se tem feito, e cuja doutrina nos daria
+uma base de estudo e de discuss&atilde;o, quem,
+como eu, n&atilde;o tem voto na materia para a resolver
+por senten&ccedil;a, precisaria de entrar em uma
+longa serie de pacientes raciocinios e de humildes
+demonstra&ccedil;&otilde;es para p&ocirc;r em evidencia
+todos
+os erros que em taes obras se teem comettido.
+Para n&atilde;o tornar pelo emprego d'esse processo,
+excessivamente longo este modesto estudo, tomarei
+um ponto capital, sufficientemente expressivo
+para dar a medida do criterio empregado na
+restaura&ccedil;&atilde;o
+da Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+Pela entrada principal da egreja, &aacute; semelhan&ccedil;a
+do que succede em grande parte das egrejas gothicas,
+desciam-se na Batalha alguns degraus,&#8213;sete
+se me n&atilde;o engano&#8213;para chegar ao pavimento
+da nave central. Um dos restauradores que
+se succederam a Mousinho de Albuquerque, tendo-se
+por assistido de raz&otilde;es plausiveis para modificar
+o alludido systema, rebaixou o terreno exterior
+ao nivel do pavimento da egreja, e supprimiu
+os degraus, serrando as hombreiras e substituindo
+as cantarias que lhe serviam de base. A porta principal
+<span class="pagenum">[48]</span>
+do monumento da Batalha ficou por esse
+modo tendo de altura a dimens&atilde;o de duas larguras
+em vez de largura e meia approximadamente,
+segundo a dimens&atilde;o primitiva. O architecto havia
+previamente submettido o seu projecto ao exame
+das esta&ccedil;&otilde;es superiores, e o respectivo ministro
+sanccionara a obra com a sua alta approva&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Ser&aacute; difficil encontrar em um t&atilde;o breve episodio
+de construc&ccedil;&atilde;o uma t&atilde;o vasta
+affirmativa de
+desoladora ignorancia.
+<br />
+
+<br />
+
+Poder&aacute; parecer excessiva e condemnavel ousadia
+que um simples curioso se arrogue o direito
+de qualificar de ignorante um architecto em exercicio
+da sua profiss&atilde;o. O erro &eacute; todavia no caso
+sujeito t&atilde;o flagrante que n&atilde;o supporta defesa. Um
+barbarismo architectonico est&aacute; tanto ao alcance
+de um escriptor como um barbarismo grammatical
+est&aacute; ao alcance de um architecto.
+<br />
+
+<br />
+
+Toda a gente sabe que ha em architectura uma
+inilludivel medida de propor&ccedil;&atilde;o e de
+relaciona&ccedil;&atilde;o
+que se chama a <em>escala</em>. Sem escala
+n&atilde;o ha obra
+de architectura nem ha construc&ccedil;&atilde;o alguma
+sensata,
+por mais subalterna, por mais infima que ella
+<span class="pagenum">[49]</span>
+seja. Na architectura grega a unidade abstracta
+d'essa medida &eacute; o modulo. Na architectura da
+edade m&eacute;dia a unidade &eacute; o homem. N'este simples
+principio, t&atilde;o magistralmente exposto por
+Violet-le-Duc, se baseia o caracter essencial da
+architectura medieval. D'essa referencia de toda a
+construc&ccedil;&atilde;o &aacute; pequenez da estatura
+humana resulta
+o singular effeito de grandiosidade que distingue
+os monumentos gothicos dos monumentos
+neo-classicos, Nossa Senhora de Pariz de S. Pedro
+de Roma, ou a egreja da Batalha da egreja
+de Mafra. Para esse effeito contribue o aspecto
+das successivas fileiras da cantaria &aacute; altura das
+paredes e das pilastras, porque a escala gothica,
+determinada pela altura do homem, se subordina
+correlativamente &aacute;s dimens&otilde;es do material. Assim
+pela serie das juntas, sempre em evidencia na
+sobreposi&ccedil;&atilde;o
+das cantarias, a vista calcula rapidamente,
+por instincto arithmetico, a grandeza de
+uma fabrica como a da Batalha, estabelecendo a
+propor&ccedil;&atilde;o entre as dimens&otilde;es da pedra
+e a estatura
+do homem, e entre a altura do homem e a
+eleva&ccedil;&atilde;o da nave.
+<span class="pagenum">[50]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Do que fica exposto resulta que a simples
+substitui&ccedil;&atilde;o
+de uma pedra por uma pedra de dimens&atilde;o
+differente na base de uma hombreira no portal
+da Batalha &eacute;, em si mesma e isoladamente,
+como troca de pedra por pedra, um grave erro,
+porque essa base de hombreira, devendo ter tido
+inicialmente a dimens&atilde;o exacta e precisa, que &aacute;
+esquadria da cantaria imp&otilde;e a dimens&atilde;o do bloco,
+&eacute; um elemento fundamental da escala pela qual
+se rege todo o edificio; e n&atilde;o pode como tal nem
+supprimir-se nem alterar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas temos de considerar ainda que com essa
+mudan&ccedil;a de pedra se offendeu o preceito da unidade,
+alterando a f&oacute;rma e a dimens&atilde;o de um dos
+mais importantes membros da construc&ccedil;&atilde;o. O
+conjuncto
+de um monumento&#8213;diz Quatrem&egrave;re de
+Quincy&#8213;&eacute; de tal modo combinado, que n'elle se
+n&atilde;o pode nem tirar nem p&ocirc;r nem alterar o que
+quer que seja. E Violet-le-Du&eacute; desenvolve esse
+preceito da maneira seguinte: &laquo;&Eacute; um erro grosseiro
+supp&ocirc;r que um qualquer membro de architectura
+da edade m&eacute;dia pode ser impunemente accrescentado
+ou diminuido. N'esta architectura n&atilde;o
+<span class="pagenum">[51]</span>
+ha membro algum, que n&atilde;o esteja na escala do
+monumento para que foi composto. Alterar esta
+escala &eacute; tornar esse membro disforme... Os erros
+de escala que escandalisam em um monumento
+novo e lhe tiram todo o valor, tornam-se monstruosos
+quando se trata de uma restaura&ccedil;&atilde;o.&raquo; As
+dimens&otilde;es das portas&#8213;j&aacute; dizia Vinhola&#8213;devem
+ser de uma propor&ccedil;&atilde;o relativa &aacute; escala
+pela qual se
+construir o edificio, &aacute; grandeza das suas differentes
+pe&ccedil;as e finalmente &aacute;s particularidades da obra
+e do local em que esta f&ocirc;r feita. Com
+rela&ccedil;&atilde;o &aacute;s
+portas nas ordens jonica, dorica, corinthia e toscana
+as propor&ccedil;&otilde;es entre a altura e a largura dos
+portaes, acham-se geometricamente determinadas
+pelos discipulos de Vitruvio. Na architectura gothica
+a porta representa por&eacute;m um papel mais preponderante
+que em qualquer outro systema de
+construc&ccedil;&atilde;o. &laquo;De hora avante&#8213;proclama
+Violet-le-Duc
+referindo-se ao periodo medieval&#8213;a porta
+deixar&aacute; de augmentar em propor&ccedil;&atilde;o com
+o edificio,
+porque, sendo feita para o homem, conservar&aacute;
+sempre a escala propria do seu destino.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+A medida de extens&atilde;o na edade m&eacute;dia era a
+<span class="pagenum">[52]</span>
+toeza, correspondente &aacute; estatura do homem alto.
+A porta da egreja destinada a dar passagem ao
+portador de uma lan&ccedil;a de guerra ou de torneio,
+de um baculo, de uma cruz ou de um pend&atilde;o, tinha
+a altura fixa e invariavel de duas toezas a
+duas toezas e meia, segundo as regi&otilde;es em que
+se construia. O portal gothico tem ainda, como
+titulo ao nosso respeito pela sua inviolabilidade,
+a condi&ccedil;&atilde;o de representar na fachada do templo
+como que um summario de toda a obra. &Eacute; do
+principio da arcada, de que a porta &eacute; o motivo
+predominante, que se deduzem e desenvolvem
+systematicamente todas as demais f&oacute;rmas constructivas
+e ornamentaes na architectura do edificio.
+Archivoltas, nervuras, pilastras, columnelos, janellas,
+nichos, misulas, baldaquinos, trifolios, que
+s&atilde;o na egreja da Batalha sen&atilde;o
+applica&ccedil;&otilde;es e desdobramentos
+successivos, engenhosamente variados,
+das linhas constitutivas da porta principal do
+templo?
+<br />
+
+<br />
+
+Qu&atilde;o tragicamente profunda tem que ser a indisciplina
+official em todos os servi&ccedil;os da arte
+para que possa dar-se um attentado da ordem
+<span class="pagenum">[53]</span>
+d'aquelle a que me refiro:&#8213;para que um architecto
+proponha, para que uma reparti&ccedil;&atilde;o publica
+auctorise, para que um ministro da cor&ocirc;a sanccione&#8213;sem
+protesto do districto, do municipio ou
+da parochia&#8213;que se desfigure o primeiro dos
+nossos monumentos da edade m&eacute;dia, alterando as
+f&oacute;rmas de uma porta, que &eacute; a porta principal
+d'essa
+gloriosa egreja de Santa Maria de Victoria, que
+os architectos do mestre de Aviz al&ccedil;aram pela bitola
+dos estandartes, dos bals&otilde;es e das bandeiras
+de Aljubarrota, e segundo a altura a que chegava
+nas hombreiras o bico do bacinete ou a cimeira
+do morri&atilde;o dos da ala da madresilva ou da ala
+dos namorados!
+<br />
+
+<br />
+
+Se fosse meu proposito enumerar os erros commettidos
+nas restaura&ccedil;&otilde;es da Batalha teria de referir-me
+&aacute;s v&iacute;s deturpa&ccedil;&otilde;es por que
+est&aacute; passando
+a capella do fundador; ao detestavel altar m&oacute;r, em
+cuja pedra t&atilde;o miseramente se acha reproduzido
+por uma especie de grafito o desenho de um
+mosaico, e a odiosa colora&ccedil;&atilde;o das
+vidra&ccedil;as, em
+que o doce tom de ambar, que os vidristas da
+edade m&eacute;dia obtinham por uma emuls&atilde;o de mel
+<span class="pagenum">[54]</span>
+na prepara&ccedil;&atilde;o da tinta, se v&ecirc;
+substituido pelo
+de um reles amarello cru, de refalsado topasio.
+O inacreditavel tabernaculo com que houve o arrojo
+de empachar o ambito de uma das naves,
+sob pretexto de construir uma capella baptismal,
+teria ainda que deter por algum tempo o meu
+horrorisado espanto perante esse t&atilde;o insolente
+e t&atilde;o irrespeitoso abuso do pseudo-gothico, em
+propor&ccedil;&atilde;o e em escala unicamente permittidas,
+por longanimidade de ridiculo, em jazigos de familia
+e em pratos montados, na latitudinaria architectura
+dos cemiterios ou das confeitarias.
+<br />
+
+<br />
+
+O meu fim por&eacute;m n&atilde;o &eacute; fazer a critica
+das restaura&ccedil;&otilde;es
+da Batalha, mas sim demonstrar, como
+julgo ter feito, por meio de alguns factos caracteristicos
+e capitaes, que nas restaura&ccedil;&otilde;es emprehendidas
+tanto n'esse como nos demais monumentos
+architectonicos recentemente reparados
+a expensas do estado, n&atilde;o houve antecedencia de
+programma, nem estudo previo, nem determina&ccedil;&atilde;o
+de methodo, nem sanc&ccedil;&atilde;o critica, nem
+fiscalisa&ccedil;&atilde;o
+technica, nem policia artistica de especie
+alguma.
+<span class="pagenum">[55]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Pelo numero e pelo quilate das mutila&ccedil;&otilde;es,
+deturpa&ccedil;&otilde;es
+e superfeta&ccedil;&otilde;es, inteiramente arbitrarias
+e escandalosas, de que s&atilde;o objecto os monumentos
+restaurados com assentimento e com subsidio
+official, como a Batalha, os Jeronymos e a Madre
+de Deus, poderemos calcular o que se passa nos
+edificios em que camaras, parochias e simples particulares
+est&atilde;o no logro de restaurar, de concertar
+ou de demolir a seu gosto.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Ponte de Lima havia uma ponte, que dava
+o nome &aacute; villa. Esta ponte, em parte romana, em
+parte gothica, era revestida de ameias e entestada
+por dois castellos ogivaes. A verea&ccedil;&atilde;o, com o
+motivo
+de desafogar a vista sobre as duas margens
+do rio, manda demolir os castellos e serrar as
+ameias da alludida ponte.
+<br />
+
+<br />
+
+Outra verea&ccedil;&atilde;o, em Santarem, bota a baixo a
+bella torre gothica de Santa Maria de Marvilla,
+funda&ccedil;&atilde;o dos primeiros tempos da monarchia,
+para o fim unico de deixar o terreno sem coisa
+alguma em cima, e ser por essa raz&atilde;o uma pra&ccedil;a.
+A Real Associa&ccedil;&atilde;o dos architectos civis
+prop&otilde;e-se
+a esse tempo comprar os sinos da torre demolida,
+<span class="pagenum">[56]</span>
+em bronze esculpido. A junta de parochia prefere
+derretel-os.
+<br />
+
+<br />
+
+No castello de Leiria, que, tendo sido construido
+como casa e museu pelo rei mais artista, mais
+poeta e mais sabio do seu tempo, constitue um
+documento, unico talvez na Europa, da archeologia
+romana e da vida de c&ocirc;rte na edade m&eacute;dia,
+certos festeiros em noite de gala, derribam a columnata
+do eirado principal para dar campo a um
+effeito de luminarias e de pyrotechnica.
+<br />
+
+<br />
+
+Na alca&ccedil;ova de Santarem as ameias de D. Affonso
+Henriques substituem-se por ignobeis grades
+de ferro fundido e pintado de verde.
+<br />
+
+<br />
+
+A porta da Atamarma, pela qual ainda passou
+Garrett ao tempo das <em>Viagens na minha
+terra</em>, &eacute;
+arrasada, juntamente com a capellinha de Nossa
+Senhora da Victoria, que tinha por cima. No or&ccedil;amento
+d'essa demoli&ccedil;&atilde;o, que o governo approvou
+no anno de 1865, a camara de Santarem, tripudia
+de jubilo, affirmando que a dita desmontagem,
+<em>que por mais tempo se n&atilde;o podia
+protrahir</em>,
+f&ocirc;ra vantajosamente arrematada pela quantia de
+trinta e nove mil r&eacute;is, calculando-se em mais de
+<span class="pagenum">[57]</span>
+cem mil o val&ocirc;r da pedra e do tijolo que ella produziu.
+Com esse cantico de alegria or&ccedil;amental,
+desappareceu o glorioso portico, por onde o fundador
+da nacionalidade portugueza e os da sua
+hoste entraram em Santarem com as espadas e as
+lan&ccedil;as gottejantes de sangue mouro, firmando por
+esse acto o fim do dominio sarraceno em Portugal.
+<br />
+
+<br />
+
+A porta do <em>Bom Successo</em> veio abaixo,
+como a
+de Atamarma, por disposi&ccedil;&atilde;o do respectivo
+municipio.
+<br />
+
+<br />
+
+A destrui&ccedil;&atilde;o das portas de muralha, bellos arcos
+na maior parte ogivaes, com que tanto se
+enobreciam algumas das nossas velhas cidades,
+tem sido a grande preocupa&ccedil;&atilde;o vesanica das
+municipalidades
+modernas, absolutamente ignorantes,
+ao que parece, das gloriosas tradi&ccedil;&otilde;es locaes
+de que esses monumentos eram o testemunho authentico
+e sagrado.
+<br />
+
+<br />
+
+Dentro d'essa cathegoria de delinquentes ser&aacute;
+difficil disputar o primeiro logar da serie pathologica
+&aacute; cidade do Porto.
+<br />
+
+<br />
+
+O Arco da Vendoma, &aacute; rua Chan, que havia
+sido uma das portas da circumvala&ccedil;&atilde;o sueva, sobre
+<span class="pagenum">[58]</span>
+a qual a rainha D. Tareja fizera collocar em
+ediculo a imagem da Senhora da Vendoma, trazida
+de Fran&ccedil;a pelo bispo D. Nonego, &eacute;
+desapiedadamente
+demolida em nossos dias, depois de
+oito seculos de existencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Os bellos arcos do Postigo de Santo Antonio
+do Penedo e do Postigo do Sol veem egualmente
+abaixo, em 1875, sem raz&otilde;es algumas que expliquem
+mais esta demoli&ccedil;&atilde;o que a do Arco da Vendoma.
+Junto do Postigo do Sol ficava no entanto,
+e memorava-a o arco, a veneranda <em>Viella das
+Tripas</em>,
+onde assistiam as fressureiras, que deram aos
+do Porto o nome de tripeiros, vendendo-lhes os
+miudos das rezes, cuja carne elles haviam espontaneamente
+cedido &aacute; armada de D. Jo&atilde;o I para a
+expedi&ccedil;&atilde;o de Ceuta.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; Porta do Olival, da qual como do Postigo do
+Sol s&oacute; resta o nome, foi acclamado D. Jo&atilde;o I. A
+essa porta foi esperada pelos portuenses, e por ella
+entrou pela primeira vez na cidade, na occasi&atilde;o
+das suas bodas com o mestre de Aviz, a rainha
+Filippa de Lencastre.
+<br />
+
+<br />
+
+O Arco da Senhora Sant'Anna, que deu o titulo
+<span class="pagenum">[59]</span>
+&aacute; linda narrativa portuense de Almeida Garrett, &eacute;
+sacrificado como os demais ao alvi&atilde;o municipal
+da cidade invicta.
+<br />
+
+<br />
+
+O ultimo emfim dos arcos do Porto, ainda ha
+bem poucos annos destruido, foi o da Porta Nobre,
+por onde faziam a sua entrada solemne os
+bispos e os reis, que os moradores da Reboleira
+recebiam triumphalmente na sua rua, juncada de
+espadanas e de funcho, entre fest&otilde;es de flores pendentes
+das velhas janellas de resalto, &aacute; flamenga,
+sob punhados de trigo, reluzente no ar em chuva
+de ouro.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Santarem disseram-me ha dias, nos proprios
+logares em que se est&aacute; mancumunando o delicto,
+que os vereadores projectam agora demolir a Torre
+das Caba&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando a rainha D. Maria I visitou Santarem
+em 1785, botaram-se as medidas do c&ocirc;che de sua
+magestade a todo o caminho que elle tinha de percorrer,
+e desfizeram-se diligentemente a pic&atilde;o, nas
+ruas da villa, todas as protuberancias architectonicas
+em que se anteviu algum risco de entala&ccedil;&atilde;o
+para o trajecto da real berlinda.
+<span class="pagenum">[60]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+No Canto da Cruz cortaram-se, como quem
+corta queijo, os vertices dos angulos nos edificios
+de esquinas menos reverenciosas para com o regio
+transito. Entre a Torre do Alpor&atilde;o e a Torre
+das Caba&ccedil;as o passo por&eacute;m apresentou-se
+especialmente
+difficil. Applicou-se-lhe a bitola do regio
+c&ocirc;che, que o secretario de estado visconde de
+Villa Nova da Cerveira mand&aacute;ra previdentemente
+de Salvaterra de Magos ao juiz de f&oacute;ra, presidente
+da camara municipal da villa, e consignou-se que,
+por obra infernal de palmo ou palmo e meio de
+saliencia, o magestatico vehiculo da soberana teria
+de ficar engasgalhado pelos cubos das rodas
+entre os dois monumentos. Ent&atilde;o, depois de haverem
+marrado por um momento no problema, e
+uns nos outros, os vereadores scalabitanos removeram
+a difficuldade, redobando a fita da medi&ccedil;&atilde;o
+inutilmente esticada, mettendo os solicitos e suados
+covados debaixo dos bra&ccedil;os, e mandando simplesmente
+arrasar a Torre do Alpor&atilde;o, monumento
+do dominio romano, do alto do qual, durante a
+occupa&ccedil;&atilde;o serracena, o arabe dictava ao povo a
+lei de Mahomet.
+<span class="pagenum">[61]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+A Torre das Caba&ccedil;as &eacute; muito menos antiga e
+menos documental que a do Alpor&atilde;o. Com quanto
+Garrett a fa&ccedil;a invocar anachronicamente no
+<em>Alfageme
+de Santarem</em>, em estimulo de defesa contra
+a invas&atilde;o castelhana, como um dos tra&ccedil;os mais
+expressivos da physionomia pittoresca da patria,
+essa torre data apenas do tempo de D. Manoel.
+N&atilde;o tem caracter propriamente architectural, &eacute;
+uma simples pe&ccedil;a de alvenaria quadrada. Mas o
+seu estranho remate, em grande eleva&ccedil;&atilde;o, formado
+pelo sino a descoberto, sustido na convergencia
+superior de quatro var&otilde;es de ferro, estribados obliquamente
+nos quatro angulos da torre, e revestidos
+de pucaras de barro, da olaria local, destinadas
+a ampliar a sonoridade do bronze no tanger
+das horas e dos signaes de rebate, d&aacute;-lhe uma
+fei&ccedil;&atilde;o
+verdadeiramente especial, inconfundivel, indelevel.
+N&atilde;o ser&aacute; talvez o mais monumental, o mais
+nobre, o mais rico, mas &eacute; de certo o mais suggestivo,
+o mais anedoctico, o mais interessante, o mais
+carinhoso, o mais familiar, o mais lindo campanario
+de toda essa t&atilde;o formosa campina ribatejana,
+o mais aberto sorriso agrario da terra portugueza.
+<span class="pagenum">[62]</span>
+Tudo envolve de penetrante poesia local essa velha
+torre. O seu mesmo nome de <em>relogio das
+caba&ccedil;as</em>
+ou de <em>cabaceiro</em> se allia
+harmonicamente no
+ouvido &aacute; lembran&ccedil;a das lezirias, das hortas, dos
+paues, das courellas e dos olivedos, que o circumdam,
+e fazem d'elle como que uma parte integrante
+da paizagem, um natural rebento da terra. O aspecto
+de improvisa&ccedil;&atilde;o e de interinidade d'essa
+summaria ventana de sino, que parece armada em
+quatro pampilhos, &eacute; uma verdadeira obra d'arte,
+que lembra mais commoventemente do que nenhuma
+outra inventada pelos architectos, a origem
+arabe, a vida nomada, a tradi&ccedil;&atilde;o pastoral da
+regi&atilde;o em que surgiu.
+<br />
+
+<br />
+
+Os conspicuos burguezes do senado de Santarem
+n&atilde;o podem ter opini&atilde;o sobre esta
+quest&atilde;o de
+esthetica, porque elles carecem absolutamente do
+ponto de vista em que deve de ser considerada a
+sua Torre das Caba&ccedil;as, a qual evidentemente se
+n&atilde;o construiu para que suas excellencias a alveitassem
+doutoralmente de dentro dos pa&ccedil;os do concelho,
+ou c&aacute; fora na pra&ccedil;a, de chapeus altos,
+sobrecasacas
+dominicaes e barbas feitas, abordoados
+<span class="pagenum">[63]</span>
+aos seus chapeus de sol, e muito mais garantidamente
+cucurbitaceos que o seu proprio cabaceiro.
+A Torre das Caba&ccedil;as fez-se para ser olhada do
+vasto campo da Golleg&atilde; ou do campo de Almeirim,
+vindo do Valle, vindo de Coruche, de Benavente,
+ou da Barquinha, atravez dos olivaes, das
+terras de semeadura e das eiras do termo de Santarem,
+de jaqueta e sapatos de prateleira, montando
+uma egua de maioral, de cabe&ccedil;ada de esparto,
+almatrixa de pelles e estribos chapeados.
+O Cabaceiro de Santarem, com a sua cupula em
+trempe, as suas caba&ccedil;as de barro e o seu sino
+grande de correr e de governar as horas, fez-se
+para o largo e ridente campo ribatejano, fez-se
+para os campinos, para os vaqueiros, para os almocreves,
+e talvez se fizesse tambem para mim,
+que n&atilde;o vejo em arte raz&atilde;o alguma plausivel para
+que, como motivo ornamental de uma torre, &aacute; folha
+do acantho ou ao chavelho em voluta da architectura
+grega se prefira a nossa linda pucarinha de
+barro vermelho de Reguengo, da Atalaia ou da
+Asseiceira.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o! o senado santareno tem de deixar ficar
+<span class="pagenum">[64]</span>
+onde ella est&aacute; a sua t&atilde;o caracteristica torre,
+para
+que se n&atilde;o diga que dos tres potes, que de antiga
+tradi&ccedil;&atilde;o consta acharem-se soterrados na
+Alca&ccedil;ova,
+um cheio de ouro, outro cheio de prata, outro
+cheio de peste, a camara da localidade n&atilde;o
+encontrou sen&atilde;o o ultimo para o despejar sobre
+os monumentos publicos sujeitos &aacute; sua
+jurisdi&ccedil;&atilde;o
+e confiados &aacute; sua guarda.
+<br />
+
+<br />
+
+Que sob o antigo regimen os vereadores de Santarem
+deitassem a baixo a Torre do Alpor&atilde;o, para
+passar uma rainha, &eacute; uma desdita em extremo lastimavel,
+mas que sob o regimen vigente se deite
+egualmente a baixo a Torre das Caba&ccedil;as, para
+que passem os proprios vereadores, &eacute; um desando
+grande da publica administra&ccedil;&atilde;o para muito peior
+do que estavamos no tempo da muito saudosa senhora
+D. Maria I.
+<br />
+
+<br />
+
+A torre da S&eacute; Velha, de Coimbra, desapparece
+no fim do seculo passado perante uma simplicidade
+de processo, que bem demonstra quanto os
+poderes publicos, desajudados de conselho artistico,
+teem sido, em todo o tempo, inhabeis e incompetentes
+para proteger os monumentos da na&ccedil;&atilde;o.
+<span class="pagenum">[65]</span>
+Foi o meu amigo Theofilo Braga quem, ao
+colligir no Archivo Nacional os documentos ineditos
+das rela&ccedil;&otilde;es do marquez de Pombal com D.
+Francisco de Lemos para a reforma dos estudos
+na Universidade, descobriu a breve historia da
+demoli&ccedil;&atilde;o da torre da S&eacute; Velha. Em
+carta de 3
+de setembro de 1773, D. Francisco de Lemos d&aacute;
+conta ao marquez de que demoliu a torre: &laquo;...A
+dita torre era um mont&atilde;o de pedra e cal sem arte
+e figura, que servisse de ornato &aacute; cidade, e antes
+estava tirando a vista do Pa&ccedil;o das Escolas, e de
+muitas casas. E principalmente &eacute; muito nociva &aacute;
+Imprensa, porque ficando ella no alto e esta embaixo,
+lhe tirava o sol, com que a fazia menos
+clara e humida. Pareceu-me conveniente &aacute; vista
+de todas estas raz&otilde;es que se demolisse, o que se
+tem executado, seguindo-se todas as utilidades
+ponderadas acima, e egualmente a de haver pedra
+para tudo o que foi preciso fazer.&raquo; Em sigla
+marginal a esta carta opina o marquez de Pombal:
+&laquo;Que est&aacute; muito bem feita a providencia sobre
+a torre da S&eacute; antiga.&raquo; E em carta de 5 de outubro
+do alludido anno de 1773, o marquez, em
+<span class="pagenum">[66]</span>
+stylo official, desenvolve a sua acquiescencia ao
+estupido vandalismo de D. Francisco de Lemos:
+&laquo;Tambem me pareceu bem ajustada a providencia
+e resolu&ccedil;&atilde;o que V. Ex.<sup>a</sup>
+tomou de mandar demolir
+a torre da S&eacute; antiga que n&atilde;o servia mais
+que de ser um <em>Padrasto sombrio e
+infimo</em>, s&oacute; proprio
+para desfigurar a formosura do Palacio a que
+estava quase contiguo e de escurecer as actuaes
+officinas, etc.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Do mosteiro de Alcoba&ccedil;a desapparece todo um
+claustro do tempo de D. Affonso Henriques.
+<br />
+
+<br />
+
+Em S. Francisco d'Evora ampliam-se as dimens&otilde;es
+da rosacea no frontespicio da egreja, abalando
+as cantarias circumstantes e pondo em risco todo
+o equilibrio da empena. Al&eacute;m d'isso, para o fim
+de aproveitar a pedra para outras applica&ccedil;&otilde;es,
+desampara-se a abobada, deitando abaixo a ala
+do convento que lhe servia de encontro.
+<br />
+
+<br />
+
+No castello de Palmella e em S. Salvador de
+Pa&ccedil;o de Sousa acham-se violados e deshonrados
+pelo mais completo despreso, al&eacute;m das campas dos
+cavalleiros de Santiago, o tumulo do principe D.
+Jorge, e o tumulo de Egas Moniz, que em Pa&ccedil;o
+<span class="pagenum">[67]</span>
+de Sousa dividiram em dois, pondo cada metade
+para seu lado, em pontos oppostos da egreja. O
+cofre de pedra que continha a ossada do fiel aio
+de Affonso Henriques transforma-se em pia de um
+bebedouro publico.
+<br />
+
+<br />
+
+A sumptuosa egreja do convento de S. Francisco
+em Santarem, funda&ccedil;&atilde;o de D. Sancho II,
+com as suas tres naves, as suas columnas de preciosos
+capiteis e os floridos arcos da sua restaura&ccedil;&atilde;o
+manoelina, converte-se em uma das cavallari&ccedil;as
+do regimento aquartelado no convento.
+Violaram-se todos os tumulos que encerrava o
+claustro e occupavam a egreja, sem que esta, segundo
+nos consta, fosse nunca dessagrada liturgicamente.
+Parece que n&atilde;o houve tempo para satisfazer
+essa t&atilde;o breve formalidade de respeito.
+<br />
+
+<br />
+
+As sar&ccedil;as, os silvados, e os subtis rendilhamentos
+manoelinos do tumulo precioso do conde de
+Vianna D. Duarte de Menezes, pela circumstancia
+de ser a esculptura removida para S. Jo&atilde;o do
+Alpor&atilde;o
+pela benemerita commiss&atilde;o administrativa
+do Museu Districtal de Santarem, escaparam miraculosamente
+aos coices das bestas de guerra,
+<span class="pagenum">[68]</span>
+que o governo portuguez destinava ao sagrado
+monumento erigido pela doce piedade conjugal &aacute;
+memoria do leal e valoroso soldado de Affonso V,
+que na conquista de Alcacer-Ceguer se deixou
+morrer &aacute;s lan&ccedil;adas para salvar a vida do seu
+rei.
+<br />
+
+<br />
+
+O tumulo de D. Fernando, que estava na mesma
+egreja, foi pela Associa&ccedil;&atilde;o dos architectos
+trazido
+para o museu do Carmo.
+<br />
+
+<br />
+
+Um dente de D. Duarte, que a condessa de Vianna
+encerrara, como unica reliquia de seu marido,
+no monumento que lhe consagrara, conserva-se
+ainda dentro do estojo que primitivamente o continha.
+A ossada do rei D. Fernando, essa desappareceu,
+como desappareceu a de D. Francisco de
+Almeida, atirada para a cerca do quartel na occasi&atilde;o
+em que se lhe destruiu o tumulo, aproveitando-se
+a area de pedra em que jazia o corpo para
+bebedouro especial dos cavallos com mormo.
+<br />
+
+<br />
+
+As demais campas, que constituiam o pavimento
+do claustro desde o principio do seculo XIV desappareceram
+todas, e nem sequer se sabe j&aacute; de quem
+eram, por que, para n&atilde;o escorregarem os cavallos
+<span class="pagenum">[69]</span>
+do regimento, desempedrou-se o claustro e perderam-se
+as lapides que n'elle se continham.
+<br />
+
+<br />
+
+A sepultura de Pedro Alvares Cabral est&aacute; na
+egreja da Gra&ccedil;a, um dos bellos templos da
+funda&ccedil;&atilde;o
+da monarchia em Santarem. Esta egreja &eacute; cedida
+pelo governo &aacute; pobre irmandade dos Passos.
+A irmandade carecia de meios para custear
+o decoro do culto e a conserva&ccedil;&atilde;o do edificio.
+Occorria generosamente a essa despeza o proprietario
+do convento annexo &aacute; egreja. O dono do
+convento falleceu recentemente, legando a casa a
+um azylo que n'ella fundou. A egreja da Gra&ccedil;a de
+Santarem est&aacute; portanto, a bem dizer, desamparada.
+A quem &eacute; que se acha confiado o tumulo de
+Pedro Alvares Cabral? N&atilde;o se sabe bem, e s&atilde;o
+grandes, como pessoalmente tive occasi&atilde;o de experimentar,
+as difficuldades que encontra quem
+deseje dar com o depositario das chaves para ver
+a egreja. &Aacute;s gloriosas cinzas d'aquelle que nos
+deu o Brazil, a gente nem sequer sabe dar um
+guarda.
+<br />
+
+<br />
+
+O mausoleu do nosso S. Frei Gil corre aventuras
+parecidas com as do mausoleu do rei D. Fernando.
+<span class="pagenum">[70]</span>
+Os marquezes de Penalva, parentes do
+Santo, recolhem na capella do seu palacio em Lisboa
+as cinzas do bemaventurado. A tampa do tumulo
+com a estatua do Santo vem para o museu
+do Carmo. A arca sepulchral, que encerrava os
+seus restos, fica em Santarem, servindo de pia de
+amassar cal para as obras do municipio.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Guimar&atilde;es mascaram indignamente de cal
+e de madeira as columnas e as arcarias da veneravel
+egreja de Nossa Senhora da Oliveira, fundada
+nos primeiros annos do seculo X pelo conde
+Hermenegildo Mendes e por sua mulher a condessa
+Mumadona. No claustro do seculo XIII, que
+envolve uma parte da egreja, revestem de caixilharia
+envidra&ccedil;ada a graciosa arcaria, e rebocam
+espessamente a cal os capiteis das columnas. A
+flammante janella gothica, que por cima da porta,
+na fachada do templo, fazia explodir em apotheose
+a polychromia do espelho, emoldurado na
+sua larga cercadura esculpida de silvados, historiada
+de estatuetas de santos em phantasiosos resaltos
+de misulas, sob rendilhados baldaquinos, &eacute;
+impiedosamente arrasada e substituida por uma
+<span class="pagenum"><a name="p71" id="p71">[71]</a></span>
+chapada de cantaria corrida, perfurada por quatro
+oculos.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Santarem, na egreja do Milagre, pelas trovoadas
+d'este ver&atilde;o, um raio fere o cone azulejado
+da torre, penetra na capella m&oacute;r, despeda&ccedil;a
+a madeira do arco que a separa da nave, e p&otilde;e a
+descoberto, por baixo d'esse revestimento de <a href="#e1">taboas</a>
+pintadas, os mais lindos lavores esculpturaes
+de uma arcaria da Renascen&ccedil;a, em que
+cherubins voejam, sustendo grinaldas e cornucopias
+floridas, por entre a la&ccedil;aria afestoada, com
+rotulos pendentes. Todos os relevos mais salientes
+da esculptura haviam sido desbastados a pic&atilde;o
+para nivelar a superficie da pedra em que assentara
+a madeira.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Setubal, na egreja manoelina das freiras de
+Jesus, besuntam as columnas, os artez&otilde;es e os fechos
+da abobada com a mais tosca e espessa camada
+de pintura. O material subjacente &eacute; o lindo
+marmore polychromico da Arrabida. A pintura a
+que me refiro tem a inten&ccedil;&atilde;o esthetica de imitar
+a
+borr&otilde;es d'ocre esse mesmo marmore cuja superficie
+t&atilde;o sordidamente conspurca.
+<span class="pagenum">[72]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Quando ha quatro annos o governo mandou
+p&ocirc;r em hasta publica uma parte do convento de
+Cellas, incluindo o seu encantador claustro, metade
+do qual &eacute; do tempo de D. Diniz, uma voz
+anonyma protestou, eloquente e energicamente,
+contra semelhante desacato, por meio de uma pequena
+brochura impressa em Coimbra e largamente
+espalhada pelo paiz todo, a pedir soccorro
+&aacute; imprensa. Rarissimos periodicos acudiram ao
+rebate. Na parte que data do seculo XIV, o pequenino
+claustro de Cellas, em arcadas de meio ponto
+e columnas geminadas, de capiteis cubicos, historiados
+por todos os lados com deliciosas figurinhas
+representando os mais tocantes episodios da
+vida da Virgem Maria, de Jesus e dos seus santos,
+&eacute; a mais delicada, a mais commovida, a mais
+poetica obra da arte portugueza n'esse interessante
+periodo da transi&ccedil;&atilde;o do stylo romanico para
+o advento do gothico, na evolu&ccedil;&atilde;o capital da arte
+na Edade Media. A virginal candura, profundamente
+enternecida, do artista desligado da preceitua&ccedil;&atilde;o
+hieratica de uma esthetica que se extingue,
+para entrar com toda a frescura intacta do sentimento
+<span class="pagenum">[73]</span>
+na sinceridade de uma arte nova, &eacute; invasivamente
+tocante na concep&ccedil;&atilde;o de varios episodios
+d'esta composi&ccedil;&atilde;o, como o da
+Annuncia&ccedil;&atilde;o, o do
+Sonho de Nossa Senhora, o da Adora&ccedil;&atilde;o dos Reis
+Magos, o da Fuga para o Egypto, e o da
+Crucifica&ccedil;&atilde;o
+de Jesus, que, pela primeira vez nas
+representa&ccedil;&otilde;es
+d'este periodo, nos apparece flagellado
+pela cor&ocirc;a de espinhos e com os dois p&eacute;s
+sobrepostos, fixados ao madeiro por um s&oacute; cravo.
+Acompanhando e envolvendo a primorosa obra
+do esculptor, tudo no claustro de Cellas se compensa,
+se pondera e se equilibra admiravelmente
+para o fim de p&ocirc;r em suggest&atilde;o o pensamento que
+d'essa obra deriva.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma construc&ccedil;&atilde;o ineffavelmente pura,
+toda
+de intimidade e de religi&atilde;o, no sentido de cada
+uma das suas partes e na harmonia total do seu
+conjuncto. Nem a mais leve macula mundana, de
+presump&ccedil;&atilde;o ou de orgulho. Nem um s&oacute;
+nome
+profano, nem um unico emblema heraldico, braz&atilde;o,
+cor&ocirc;a, paquife, divisa ou empresa. Nada que
+lembre da terra as ambi&ccedil;&otilde;es, a for&ccedil;a,
+a gloria ou
+o brilho: nem quinas, nem lizes, nem pelicanos,
+<span class="pagenum"><a name="p74" id="p74">[74]</a></span>
+<a href="#e2">nem</a> espheras. A mesma aconchegada <a href="#e3">dimens&atilde;o</a>
+do recinto, parecendo amoldado ao passo leve e
+recolhido das freiras, as quaes se ouviriam a meia
+voz de um extremo para o extremo opposto do
+pateo; o stylobato em bancada revestida de azulejos
+do tempo, enxadrezados em verde e branco;
+a pequena altura dos fustes, proporcionados a
+uma estatura de novi&ccedil;a, que poderia do ch&atilde;o
+acarinhar as imagens dos capiteis com uma fl&ocirc;r
+de a&ccedil;ucena; a reclusa modestia da galeria superior,
+em que o beiral do telhado se apoia ao parapeito
+em curtos esteios de granito; a mesma vegeta&ccedil;&atilde;o
+arbustiva, que ainda sobrevive &aacute; antiga
+ornamenta&ccedil;&atilde;o floral do pateosinho ajardinado; as
+diminutas capellas e os nichos que rodeiam a
+claustra; tudo emfim concorda e condiz na mais
+rara e doce harmonia de uma express&atilde;o intradusivel.
+O claustro de Cellas &eacute;, pela extranhesa e
+pela preciosidade da sua poesia e da sua arte,
+uma especie de murmurosa fonte, ineffavel e perenne,
+em que a agua n&atilde;o vem de alterosos e magestaticos
+aqueductos cantar ao sol em ta&ccedil;as brunidas
+de prophyro ou de alabastro, suspensas por
+<span class="pagenum">[75]</span>
+grupos de naiades, de sereias ou de golfinhos, mas
+rompe da rocha viva, como nas grandes altitudes
+alcantiladas das nossas serras, manando em fio
+tenue e crystalino, desnevada e purissima, escondida
+entre fragas, a que se entra de rastos para ir
+sedentamente beijal-a na sua humilde nascente
+engrinaldada de violetas em fl&ocirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+Providenciando sobre o destino de um t&atilde;o delicado
+monumento, posto em leil&atilde;o pela quantia
+de um conto de r&eacute;is, dispunha o governo que os
+capiteis das columnas se serrassem dos respectivos
+fustes e se recolhessem n'um museu!
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sei em que phase administrativa se acha
+ao presente esse negocio. O que sei &eacute; que o primoroso
+claustro de Cellas, medonhamente desaprumado
+da perpendicularidade das suas columnas,
+n&atilde;o espera sen&atilde;o o primeiro dos mais leves
+pretextos para se desmoronar inteiramente.
+<br />
+
+<br />
+
+Na linda egreja de S. Jo&atilde;o, em Thomar, abrem-se
+na fachada principal, de cada lado de um portal
+manoelino, duas janellas da mais corriqueira
+e mais vill&ocirc;a cantaria.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha bem poucos dias ainda um distincto critico
+<span class="pagenum">[76]</span>
+nos revelava, em uma folha periodica, os desacatos
+por que est&aacute; passando o antigo mosteiro das
+Bernardas de Almoster, construido para commemorar
+o milagre de Santa Iria pela devota Berengaria
+com a collabora&ccedil;&atilde;o de Santa Isabel.
+<br />
+
+<br />
+
+Na S&eacute; de Braga as estatuas jacentes dos tumulos
+do conde D. Henrique e de sua mulher foram
+cortadas pelo meio das pernas para caberem nos
+novos logares para onde as transferiram, e, com o
+fim de n&atilde;o transtornar inteiramente a anatomia
+dos personagens, pareceu util applicar os p&eacute;s decepados
+aos joelhos das figuras.
+<br />
+
+<br />
+
+Na mesma egreja existe o bello tumulo em bronze
+do joven infante D. Affonso, filho de D. Jo&atilde;o I,
+obra mandada fazer em Bruxellas pela infanta portugueza
+D. Isabel, mulher de Filippe o Bom. A estatua
+do infante, em tamanho natural, repousava
+deitada na tampa do mausoleo entre dois anjos em
+adora&ccedil;&atilde;o. A caixa tumular, ornada de
+braz&otilde;es, cingidos
+de arabescos e silvados em relevo, descan&ccedil;a
+sobre le&otilde;es. Em 1881 foram roubadas as cabe&ccedil;as
+dos le&otilde;es, os p&eacute;s e as m&atilde;os da
+estatua, e os dois
+anjos que ladeavam a cabe&ccedil;a do principe. O templo
+<span class="pagenum">[77]</span>
+est&aacute; completamente desfigurado do seu aspecto
+primitivo. Empastaram-se os capiteis das columnas,
+transformou-se a arcaria das naves, abriram-se
+grandes janellas nas paredes da egreja,
+adornaram-se os intervallos das capellas com enormes
+estatuas dos apostolos feitas de pau, e pintou-se
+tudo de branco&#8213;madeiras e cantarias.
+<br />
+
+<br />
+
+A pedra da campa de Garcia de Rezende, sepultado
+na encantadora ermida que elle mesmo
+delineou e mandou construir na cerca do convento
+de Nossa Senhora do Espinheiro, foi arrancada
+da sepultura do nosso chronista, e serve presentemente
+de banca de cosinha em casa de um cavalheiro
+de Evora.
+<br />
+
+<br />
+
+Os tumulos da familia de Abrantes acham-se
+em tanto esquecimento e em tanto abandono na
+capella do seu castello, como em Alcoba&ccedil;a os de
+D. Pedro e D. Ignez de Castro; como em Pa&ccedil;o de
+Sousa o de Egas Moniz; como em Palmella o de
+D. Jorge, em cujo testamento ali&aacute;s se attribue uma
+verba &aacute;s repara&ccedil;&otilde;es d'aquella casa;
+como, finalmente,
+ainda ha pouco em Alemquer, o de Dami&atilde;o
+de Goes, antes de haver sido reposto pelo sr. Possidonio
+<span class="pagenum">[78]</span>
+da Silva o busto do nosso chronista sobre
+o seu jazigo da egreja da Varzea.
+<br />
+
+<br />
+
+Na Vidigueira a camara auctorisa o povo a utilisar
+em obras particulares as cantarias do castello
+de Vasco da Gama, como se o solar do descobridor
+da India n&atilde;o tivesse mais importancia historica
+que a que se liga a qualquer pedreira.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Evora, para dar mais um metro ou metro
+e meio de superficie a uma pra&ccedil;a, a camara deita
+abaixo a historica varanda da casa dos pa&ccedil;os do
+concelho, edificada em tempo de Affonso V, por
+Jo&atilde;o Mendes Cecioso, o <em>pae dos pobres
+d'Evora</em>.
+A varanda demolida, da qual pela primeira vez
+se aclamou a independencia de Portugal depois
+das famosas
+<em>altera&ccedil;&otilde;es</em>,
+t&atilde;o minuciosamente narradas
+por D. Francisco Manoel de Mello na sua
+<em>Epanaphora politica</em>, parece ter sido
+obra de D.
+Jo&atilde;o II.
+<br />
+
+<br />
+
+Por muitas vezes se tem discutido na camara
+eborense, e parece at&eacute; haver sobre tal assumpto
+uma resolu&ccedil;&atilde;o assente, o projecto inaudito de
+eliminar
+toda a bella alpendrada da pra&ccedil;a, da rua
+Ancha e da rua da Porta Nova.
+<span class="pagenum">[79]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Outra resolu&ccedil;&atilde;o da camara de Evora,
+resolu&ccedil;&atilde;o
+definitiva e aprasada para muito breve, &eacute; a de destruir
+a pequena e t&atilde;o graciosa egreja do convento
+do Paraizo para o fim de estabelecer mais uma
+pra&ccedil;a entre as duas ruas de Machede e de Mendo
+Estevens, &aacute;s quaes faz esquina aquelle templo.
+<br />
+
+<br />
+
+A diminuta egreja do Paraizo, com os seus
+dois arcos manoelinos, com os seus preciosos
+azulejos do seculo XVI, em tapete mural, acompanhando
+nas barras o recorte dos arcos em zig-zag,
+e com o seu tumulo em ediculo de D. Alvaro da
+Costa, &eacute; um dos mais graciosos documentos architectonicos
+do seu tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Pobre cidade de Evora, um dos nossos mais
+vastos e mais preciosos museus de archeologia e
+d'arte, preferindo como Santarem ser uma estupida
+collec&ccedil;&atilde;o de pra&ccedil;as largas e de ruas
+novas!
+Por toda a Europa, os velhos bairros historicos
+s&atilde;o hoje o thesouro das cidades que os possuem.
+Em muitos logares, onde esses bairros n&atilde;o existem,
+est&atilde;o-os inventando, est&atilde;o-os reconstituindo
+em homenagem erudita e piedosa &aacute;
+tradi&ccedil;&atilde;o historica,
+&aacute; poesia do passado. A camara de Evora,
+<span class="pagenum">[80]</span>
+vangloriosa no pelintrismo das suas innova&ccedil;&otilde;es,
+bota abaixo os mais venerandos monumentos da
+cidade; por outro lado improvisa ruinas scenographicas
+no seu jardim publico, armando com
+trepadeiras e malvaiscos grupos sentimentaes de
+velhas columnas postas de pernas para o ar n'esse
+effeito de bordado a corti&ccedil;a ou a miolo de figueira;
+pica os seus historicos braz&otilde;es para fazer passeios
+lisos de ruas novas aos seus janotas; e bate,
+modernisante e festeira, sobre o epitaphio do mais
+palaciano e do mais artistico dos seus escriptores
+quinhentistas, a carne do bife consagrado talvez
+ao penso d'algum dos seus novos reporters.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas eu &eacute; que n&atilde;o posso deixar de dizer
+&aacute; cidade
+de Evora, que o que a ella nos attrae e n'ella
+nos retem n&atilde;o s&atilde;o as suas novas avenidas, nem as
+suas pra&ccedil;as, nem o seu lindo theatro, nem o seu
+bello Passeio Publico. O que em Evora nos embelleza
+e nos encanta, s&atilde;o os seus velhos mosteiros,
+as suas antigas egrejas, os nomes das suas
+primitivas ruas, estreitas e sinuosas, t&atilde;o curiosos e
+t&atilde;o archaicos como o de
+<em>Valdevinos</em>, o de
+<em>Alconchel</em>,
+o das <em>Amas do Cardeal</em>, o do
+<em>Alfaiate da</em>
+<span class="pagenum">[81]</span>
+<em>Condessa</em>; s&atilde;o os quadros
+incomparaveis do seu
+pa&ccedil;o archiepiscopal; s&atilde;o os variadissimos
+documentos
+da sua architectura ogival e da sua architectura
+da Renascen&ccedil;a, t&atilde;o especialmente amoiriscada
+n'esta parte do Alemtejo; s&atilde;o os restos das
+suas antigas industrias locaes, a olaria, a tape&ccedil;aria,
+a caldeiraria, a sellaria e a carpintaria de moveis;
+&eacute; talvez ainda a sua tradicional cosinha, a
+do&ccedil;aria
+famosa dos seus conventos, a sua honrada assorda
+de cuentros, e o seu bolo p&ocirc;dre, de farinha de milho,
+azeite e mel, como o que se comeria talvez,
+entre os hebreus da Biblia, &aacute; mesa de Abrah&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Com as improvisa&ccedil;&otilde;es do seu modernismo
+Evora &eacute; como Vianna do Castello, Braga,
+Guimar&atilde;es,
+Coimbra, Thomar, Santarem, ou Beja,
+que s&oacute;mente interessam os viajantes pela sua antiga
+arte, e n&atilde;o valem realmente a pena de que
+alguem as visite pelo que d&atilde;o de novo.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Lisboa repudia-se a soberba egreja de Santa
+Engracia, o mais bello dos nossos monumentos do
+seculo XVII. O interior do templo &eacute; de uma magnificencia
+magestosa. A riqueza dos marmores
+s&oacute;mente se pode comparar &aacute; de Mafra. A
+m&atilde;o
+<span class="pagenum">[82]</span>
+d'obra &eacute; de uma perfei&ccedil;&atilde;o magistral a
+ponto de
+parecer indestructivel. Aproveitada para pantheon
+nacional esta egreja seria um dos mais imponentes
+edificios da Europa. Falta unicamente &aacute; sua
+conclus&atilde;o
+a cupula do tecto e o lageamento do ch&atilde;o.
+Taparam-lhe o arco da entrada a pedra e cal, n&atilde;o
+tem cobertura, e est&aacute; servindo de armazem de
+arrecada&ccedil;&atilde;o
+do inutilisado material de guerra do Arsenal
+do Exercito.
+<br />
+
+<br />
+
+A inoffensiva capellinha das Albertas, bem interessante
+pela ornamenta&ccedil;&atilde;o t&atilde;o portugueza dos
+seus embrechados, ha poucos dias ainda acabou
+de desapparecer, como o convento da Esperan&ccedil;a,
+sem se saber porque, nem para que.
+<br />
+
+<br />
+
+A restaura&ccedil;&atilde;o, que recentemente padeceu a
+egreja de S. Vicente de F&oacute;ra, t&atilde;o particularmente
+notavel pelos bellos mosaicos portuguezes que a
+exornam, caracterisa-se bem no mau gosto da pintura
+com que se maculou a nobreza d'aquelle templo.
+<br />
+
+<br />
+
+Os attentados de restauro de que ainda nos tempos
+modernos tem sido objecto a S&eacute; de Lisboa s&atilde;o
+t&atilde;o lastimosos quanto innumeraveis.
+<span class="pagenum">[83]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Finalmente, ao lado da Torre de Belem, o mais
+peregrino entre os mais bellos monumentos da
+nossa architectura, estabelece-se o gazometro da
+companhia de illumina&ccedil;&atilde;o a gaz! A esbelta
+silhueta
+rendilhada do mais suggestivo padr&atilde;o da nossa
+gloria militar e maritima, j&aacute; n&atilde;o emerge da areia
+loura do Restello, em deslumbradora apotheose,
+na vasta luminosidade do ceu e da agua, destacando-se
+das collinas de Monsanto, como a alvura
+de uma hostia em eleva&ccedil;&atilde;o se destaca do fundo
+de um retabulo esmeraldado, em altar de ouro
+fulvo, sob uma abobada azul. Sacrosanta pela sua
+express&atilde;o moral, como a immaculada estalactite,
+formada &aacute; beira do mar pela concre&ccedil;&atilde;o
+mysteriosa
+de todas as lagrimas, de saudade, de ternura, de
+consterna&ccedil;&atilde;o e de enthusiasmo, choradas por um
+povo de embarcadi&ccedil;os; sacrosanta na sua forma
+artistica, como aquelle dos monumentos de Portugal,
+em que o genio lusitano da Renascen&ccedil;a,
+mais expressivamente se revela como dominador
+da India, a Torre de Belem emparceira-se com a
+chamin&eacute; do mais vil e sordido barrac&atilde;o, a qual
+sacrilegamente a cuspinha e enod&ocirc;a com salivadas
+<span class="pagenum">[74]</span>
+de um fumo espesso, gorduroso e indelevel,
+como se a incomparavel joia d'esse marmore, que
+o sol portuguez carinhosamente sobredourara pelos
+afagos de tres seculos, houvesse sido t&atilde;o subtilmente
+cinzelada pelos artistas manoelinos para
+escarrador de mariolas, por cima do qual todavia
+ainda algumas vezes, em dias de gala, se desfralda
+e tremula o pavilh&atilde;o das quinas, mascarrado de
+carv&atilde;o como um ch&eacute;ch&eacute; de entrudo.
+<br />
+
+<br />
+
+Ministerios de todos os diversos partidos politicos
+se revezam consecutivamente no poder, sem
+que nenhum d'elles pare&ccedil;a attentar em um tal desdouro,
+express&atilde;o viva do mais abandalhado rebaixamento
+a que, perante as suas tradi&ccedil;&otilde;es historicas
+e artisticas, podia chegar a degenera&ccedil;&atilde;o de
+uma ra&ccedil;a. Por seu lado o parlamento e a imprensa
+s&atilde;o insensiveis &aacute; responsabilidade de taes
+civicias,
+porque esses dois poderes do Estado, enrascados
+na baixa intriga partidaria, immobilisados n'ella,
+como um enxame de pardaes n'uma bola de visco,
+de ha muito que perderam o sentimento de nacionalidade
+e a no&ccedil;&atilde;o de patria, relaxando completamente
+aos archeologos, aos poetas e aos artistas
+<span class="pagenum">[85]</span>
+a unica legitima representa&ccedil;&atilde;o, desinteressada e
+altiva, do espirito portuguez.
+<br />
+
+<br />
+
+Consta no emtanto que brevemente ser&aacute; celebrado
+em Lisboa o centenario da India; e da comprehens&atilde;o
+que temos d'esse feito culminante da
+nossa historia maritima daremos ao extrangeiro
+um testemunho definitivo, mostrando o monumento
+que commemora tal fa&ccedil;anha, envolto, como
+nas dobras de um crepe, pela fuma&ccedil;ada de uma
+fabrica, que n&oacute;s mesmos lhe puzemos ao p&eacute;, para
+o deshonrar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Se do exame da architectura dos nossos monumentos,
+passamos ao exame das artes decorativas,
+da pintura e da esculptura amovivel, &eacute;
+mais lastimoso ainda o espectaculo da nossa incuria.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao clero portuguez cabe principalmente a gloria
+de haver conservado o que ainda resta do nosso
+patrimonio artistico.
+<br />
+
+<br />
+
+Das galerias particulares de pintura que o conde
+de Raczynski ainda encontrou em Portugal, no
+anno de 1845, quasi tudo se sumiu.
+<span class="pagenum">[86]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Demoliram-se, desappareceram, ou foram transformadas
+pela mudan&ccedil;a de dono, pela mudan&ccedil;a
+de destino, pela transforma&ccedil;&atilde;o mais radical da
+vida interior que as animava, quasi todas as casas
+que ainda em 1840 eram o typo das habita&ccedil;&otilde;es
+nobres em Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+Citarei, ao acaso da memoria: o palacio da
+marqueza de Niza, a Xabregas, fundado no seculo
+XV pela rainha D. Leonor; o palacio chamado
+dos Patriarchas, o de Pessanha e o do
+conde de S. Miguel, &aacute; Junqueira; o do marquez
+de Pombal &aacute;s Janellas Verdes; o do conde de
+Carvalhal na Rocha do Conde d'Obidos, famoso
+outr'ora pela collec&ccedil;&atilde;o das suas mobilias;
+&aacute; Cotovia
+o do conde de Ceia e o do conde de Povlide;
+no Calhariz os de Braancamp, do duque
+de Palmella e do marquez de Olh&atilde;o; o do marquez
+de Castello Melhor e o do conde de Lumiares,
+no antigo Passeio Publico; na collina do Castello
+o do marquez de Ponte de Lima, o do marquez
+de Alegrete, o do marquez de Tancos; no
+Campo de Santa Clara o do visconde de Barbacena,
+o do conde de Resende, o do marquez de
+<span class="pagenum">[87]</span>
+Lavradio, e um pouco mais para leste o do conde
+da Taipa; o do visconde da Bandeira, a S. Domingos;
+e finalmente o do marquez de Borba, o do
+conde de Almada, e o do morgado de Assintis,
+cujo theatro era o mais sumptuoso entre todos os
+numerosos theatrinhos particulares que havia em
+Lisboa no principio do seculo, como o do bar&atilde;o
+de Quintella, o do visconde de Anadia, o do conde
+de Almada, e o do conde de Sampaio.
+<br />
+
+<br />
+
+A maior parte d'essas casas eram ainda, pelo
+seu antigo recheio, apesar dos estragos do terremoto,
+apesar da rapina da invas&atilde;o franceza, verdadeiros
+sanctuarios d'arte. Mobilavam-as as mais
+ricas pe&ccedil;as das industrias do Oriente que existiam
+na Europa, escriptorios, papelleiras e bahus monumentaes
+de char&atilde;o, bufetes e contadores feitos
+na India ou fabricados em Lisboa por marceneiros
+aqui educados, no tempo de D. Manoel, por
+artistas indianos.
+<br />
+
+<br />
+
+Os servi&ccedil;os de mesa e os vasos decorativos
+eram das mais antigas e das mais preciosas porcellanas
+da China e do Jap&atilde;o. A collec&ccedil;&atilde;o das
+colxas e dos panos de armar, com que no dia da
+<span class="pagenum">[88]</span>
+prociss&atilde;o de Corpus-Christi se revestiam inteiramente
+as fachadas de todos os predios da Baixa,
+eram de brocado, de damasco, de setim e de veludo,
+constellados a matiz e a ouro nos mais deslumbrantes
+desenhos persas.
+<br />
+
+<br />
+
+Os bragaes, de linho da Hollanda, da Flandres e
+do Reino, arrecadavam-se nas sumptuosas caixas
+encouradas, que foram no seculo XVI uma das industrias
+famosas de Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas gavetinhas dos contadores e nos escaninhos
+dos armarios e das arcas estavam as joias,
+as rendas, os aljofares, os entretalhos, os firmaes,
+as chaparias, os ouros de martello, e as obras mais
+diminutas e subtis das antigas bordadoras e colxoeiras
+de Lisboa,&#8213;restos de coifas, de face e
+gravis, redes, cadenetas, desfiados.
+<br />
+
+<br />
+
+As baixellas brazonadas, de ouro e prata, levantadas
+em besti&otilde;es e em silvados, a martello, ou
+cinzeladas por emulos de Benvenuto Celini, trasbordantes
+de ornato, em encaiches de arabescos e
+de la&ccedil;arias, eram um luxo commum a todas as familias
+nobres, e refulgiam pelas grandes festas do
+anno em todas as casas de jantar.
+<span class="pagenum">[89]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+O mogno francez do imperio, com as suas
+applica&ccedil;&otilde;es
+de bronze, representando fachos, pyras
+ardentes, lyras e tropheus de guerra, invadira com
+as modas da revolu&ccedil;&atilde;o liberal muitas casas
+lisboetas,
+sem todavia desthronar inteiramente o
+precioso mobiliario da Renascen&ccedil;a, em cedro, em
+pau rosa, em sandalo, em nogueira, em carvalho
+ou em ebano, ao gosto mudegar ou ao gosto florentino,
+embutido de marfim, de madreperola, de
+prata, de esmaltes limosinos ou aragonezes. Abundavam
+as cadeiras e os catles de couro lavrado
+ou de guadamecim, cravejado no carvalho ou no
+pau santo com pregos cinzelados de cobre ou de
+prata; e nas poltronas, nas commodas, nas meias-commodas,
+nos escaparates, nas cadeirinhas, nas
+molduras dos espelhos e das sobreportas predominavam
+as formas curvilineas da influencia de
+Luiz XIV e de Luiz XV na &eacute;poca de D. Jo&atilde;o V e
+de D. Maria I.
+<br />
+
+<br />
+
+Na talha dos oratorios encontravam-se alguns
+d'esses baixos relevos em madeira, polychromicos,
+em escala mui clara, t&atilde;o caracteristicos da
+nossa esculptura em madeira do seculo XVII, bem
+<span class="pagenum">[90]</span>
+accentuadamente revelada nas obras de Bouro, de
+Tib&atilde;es, de S. Gon&ccedil;alo de Aveiro, e da
+S&eacute; Nova de
+Coimbra.
+<br />
+
+<br />
+
+O presepio era um appendice por assim dizer
+obrigatorio; sempre que n&atilde;o occupava um compartimento
+especial da casa, o presepio concentrava-se
+na sua machineta em forma de urna, semelhante
+&aacute;s que se destinavam a conter uma cella
+de Santo Antonio ou uma arribanasinha de menino
+Jesus.
+<br />
+
+<br />
+
+Todas as familias historicas tinham a sua mais
+ou menos consideravel galeria de pintura: paineis
+de devo&ccedil;&atilde;o, retratos de antepassados, e um ou
+outro
+quadro de genero ou de paizagem, em tela ou
+em cobre, attribuidos a Breughel, a Rosa di Tivoli,
+a Tenniers ou a Rubens, obras em geral apocryphas
+e mediocres. Grassavam, com tenacidade talvez
+excessiva, as Josephas d'Obidos e os Morgados
+de Setubal, mas entre os retratos do seculo
+passado, encontravam-se alguns preciosos, como
+os de Pelegrini em casa dos viscondes de Anadia,
+como os pintados por Madame Guiard, por G&eacute;rard
+e por Therbouch&eacute;, em casa do visconde de
+<span class="pagenum">[91]</span>
+Sobral. Entre os quadros de devo&ccedil;&atilde;o destacavam-se
+frequentes obras primas nacionaes, do
+seculo XVI, referidas &aacute; vida da Virgem Maria, &aacute;
+lenda de Santa Ursula, aos agiologios de alguns
+santos portuguezes, como Verissimo, Maxima e
+Julia.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos sot&atilde;os d'essas antigas casas havia
+accumula&ccedil;&otilde;es
+seculares de moveis inutilisados, de miudezas
+rejeitadas e esquecidas, com as quaes se sepultariam
+documentos inapreciaveis para a historia
+da nossa influencia na evolu&ccedil;&atilde;o europeia das
+artes sumptuarias: cadeiras aluidas e canap&eacute;s
+desconjuntados,
+desusados manicordios, velhos cravos
+de char&atilde;o, abandonadas espinetas, em cujo
+teclado amarellecido se teriam dedilhado as primeiras
+composi&ccedil;&otilde;es de Palestrina e de Cimarosa;
+antigos arreios de tiro e de sella, braseiras, perfumadores,
+lanternas e candieiros de cobre, velhos
+palmitos contrafeitos de conchas e de pennas, mont&otilde;es
+de manuscriptos, mont&otilde;es de gravuras, dentes
+de elephante, ferrugentas clavinas de pederneira;
+e, entre feixes de cacetes e de chibatas de
+marmelleiro, talvez, desarticulado e roto, algum
+<span class="pagenum">[92]</span>
+d'esses chapeus de sol, que n&oacute;s fomos os primeiros
+que fabric&aacute;mos e que introduzimos na Europa,
+ou algum d'esses primitivos leques, em quarto de
+circulo, que os companheiros de Fern&atilde;o Mendes
+Pinto trouxeram da China, com os primeiros apparelhos
+de ch&aacute;, com os primeiros vasos de porcellana,
+com as primeiras caixas de sinaes e pastilhas,
+doando a Roma e a Floren&ccedil;a, a Paris e a
+Londres todos os principaes attributos e os themas
+fundamentaes de toda a arte da casa e de
+toda a elegancia feminina da civilisa&ccedil;&atilde;o moderna.
+<br />
+
+<br />
+
+E tudo isso desappareceu, ou se est&aacute; evolando,
+com o successivo desmanchar de todas as velhas
+casas, n'um saudoso e doce perfume de camphora,
+de mofo, de alfazema e de bejoim, errante no ar
+dos casar&otilde;es despejados.
+<br />
+
+<br />
+
+Est&atilde;o nas bibliothecas extrangeiras, em Fran&ccedil;a
+e na Inglaterra, as mais preciosas illuminuras dos
+nossos codices e das nossas arvores genealogicas.
+<br />
+
+<br />
+
+Das encantadoras figurinhas dos presepios de
+Faustino Jos&eacute; Rodrigues, de Antonio Ferreira, de
+Machado de Castro, j&aacute; n&atilde;o ha intacta
+sen&atilde;o a
+collec&ccedil;&atilde;o da S&eacute;.
+Destro&ccedil;aram-se as da Madre de
+<span class="pagenum">[93]</span>
+Deus, do Cora&ccedil;&atilde;o de Jesus e do marquez de Borba
+em Santa Martha.
+<br />
+
+<br />
+
+O que ainda persiste da obra t&atilde;o curiosa e t&atilde;o
+caracteristica dos barristas de Alcoba&ccedil;a est&aacute; ao
+desamparo no abandono d'aquelle incomparavel
+monumento.
+<br />
+
+<br />
+
+Lan&ccedil;as, espadas, adagas, elmos de todas as
+f&oacute;rmas&#8213;almafres,
+capellinas, bacinetes, barbudas e
+morri&otilde;es&#8213;, coura&ccedil;as, escarcellas, grevas,
+manoplas,
+escudos e rodellas, todas as pe&ccedil;as, emfim,
+da armadura dos nossos heroes da Africa e da
+India, desappareceram com as bal&ccedil;as, as sinas, os
+estandartes e as bandeiras das suas hostes.
+<br />
+
+<br />
+
+A espada de Vasco da Gama &eacute; hoje propriedade
+de um particular, que ha pouco tempo adquiriu
+por compra essa reliquia nacional.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma espada e um capacete de torneio, que se
+diz terem pertencido ao Mestre de Aviz, pe&ccedil;as
+ferrugentas, sujas, sem estojo nem outro qualquer
+resguardo que as defenda da irreverencia do publico,
+est&atilde;o na Batalha &aacute; merc&ecirc; dos
+mo&ccedil;os, dos
+pedreiros e dos visitantes, que de chacota se adornam
+com essas armas, em galhofa carnavalesca.
+<span class="pagenum">[94]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Na cathedral de Toledo, na soberba capella dos
+Reis Novos, preciosamente edificada por Alonso
+de Covarrubias, em tempo de Carlos V e por
+disposi&ccedil;&atilde;o
+testamentaria de Henrique II de Trastamara,
+v&ecirc;-se uma armadura portugueza. Guardada
+por castelhanos, essa armadura suspende-se, d'entre
+os ornatos platerescos da capella, por cima do
+&oacute;rg&atilde;o, em todo o respeito devido a um
+troph&eacute;o
+sagrado. E um dos guardas da cathedral, explica
+ao publico, apontando essa reliquia:&#8213;&laquo;Aquella &eacute;
+a armadura do alferes portuguez Duarte de Almeida,
+o qual, batendo-se na batalha de Toro
+contra n&oacute;s outros, tendo tido decepadas as duas
+m&atilde;os, morreu &aacute;s lan&ccedil;adas, segurando
+nos dentes
+a bandeira do seu rei.&raquo; E em frente do arnez,
+que vestiu o corpo sanguento e exanime de um
+inimigo, Castella inclina-se reverente e commovida,
+fazendo-nos corar, perante a grandeza de
+tal exemplo, da lenda grosseira em que envolvemos
+a p&aacute; da padeira Brites&#8213;<em>Quantos vivos
+rapuit
+omnes esbarrigavit</em>,&#8213;a qual p&aacute; uma esperta
+e linda creada de Aljubarrota faz o favor de ir
+buscar, e de tirar de dentro de um saco, para a
+<span class="pagenum">[95]</span>
+mostrar n'um patamar de escada aos viajantes
+que para esse fim lhe v&atilde;o bater &aacute; porta.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o est&aacute; feita nem estudada a historia dos nossos
+vidros, dos nossos esmaltes, da iconographia
+da nossa habita&ccedil;&atilde;o, e do nosso trage.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma das obras primas da nossa joalheria, a
+propria custodia de Belem, lavrada por Gil Vicente,
+o famoso ourives, tio do poeta, acha-se desfigurada
+nas suas dimens&otilde;es primitivas pela
+interpolla&ccedil;&atilde;o
+de um novo hostiario e de duas pilastras,
+que j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o do primeiro ouro das
+conquistas,
+mas de simples prata dourada.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois dos t&atilde;o numerosos e t&atilde;o grosseiros erros
+a que tem dado origem a investiga&ccedil;&atilde;o da
+identidade
+de Gr&atilde;o Vasco, a historia, a
+classifica&ccedil;&atilde;o e
+a attribui&ccedil;&atilde;o da nossa incomparavel pintura do
+seculo XVI, encontra-se ainda por fazer.
+<br />
+
+<br />
+
+A restaura&ccedil;&atilde;o dos antigos quadros est&aacute;
+constituindo
+na historia da nossa arte uma catastrophe
+ainda mais destruidora que a da restaura&ccedil;&atilde;o da
+nossa architectura.
+<br />
+
+<br />
+
+Alguns annos mais sobre o systema devastador
+que se est&aacute; seguindo, e ninguem poder&aacute; reconhecer
+<span class="pagenum">[96]</span>
+nas taboas da nossa grande &eacute;poca uma s&oacute; pincelada
+dos admiraveis discipulos e dos emulos que
+tiveram em Portugal os Van Eik, os Memling, os
+Gerard David, os Van der Weiden, os Quinten
+Massys ou os Dierik Bouts.
+<br />
+
+<br />
+
+N'essa prodigiosa pintura nacional, em que tivemos
+por mestres os flamengos, acha-se todavia
+registrada a historia de toda a vida portugueza
+desde o meiado do seculo XV at&eacute; o fim do
+seculo XVI, isto &eacute;, durante o periodo do nosso
+maior brilho e da nossa maior riqueza, no apogeu
+da nossa gloria. S&atilde;o raras as puras
+composi&ccedil;&otilde;es
+historicas e raros os retratos d'esta &eacute;poca. Os
+grandes feitos da navega&ccedil;&atilde;o e da guerra
+celebravam-se
+de preferencia nas tape&ccedil;arias, que se perderam,
+e constituiam o principal adorno d'arte
+dos pa&ccedil;os dos reis e dos palacios dos nobres. Na
+pintura religiosa, por&eacute;m, e nos quadros votivos,
+conservados nas egrejas e nos conventos, as figuras
+do seculo misturam-se em brilhante anachronismo
+&aacute;s figuras sagradas, e muitas authenticas
+physionomias se accusam energicamente nos pomposos
+cortejos que envolvem as scenas biblicas. A
+<span class="pagenum">[97]</span>
+memoria do que fomos est&aacute; ahi, por n&oacute;s mesmos
+consagrada, com o maior esplendor a que chegou
+o nosso genio artistico, nas taboas dos paineis, no
+pergaminho das biblias e dos devocionarios portuguezes.
+Ahi est&atilde;o os reis, as rainhas, os sacerdotes,
+os guerreiros e os letrados portuguezes do cyclo
+da renascen&ccedil;a. S&atilde;o essas as caracteristicas
+figuras
+dos nossos av&oacute;s: as faces cheias, a pelle tostada,
+a carne rija, os olhos rasgados, as boccas imperativas.
+A essas nobres e delicadas cabe&ccedil;as femininas
+serviram de modelo as mais lindas mulheres
+da Lusitania, de olhos de amendoa, malicioso olhar
+avelludado, obliquo e enygmatico, sobrancelhas
+longas alteando nas fontes, rostos ovaes, boccas
+quentes e vermelhas, queixo carnudo vincado na
+base, testa arredondada e lisa, cabello espesso e fino
+apartado ao meio em duas curvas de bambolim,
+e uma gesticula&ccedil;&atilde;o leve, sinuosa e ondulante.
+Teriamos
+que interrogar longamente, laboriosamente,
+esses venerandos paineis para apprender tantas
+coisas que ignoramos da physionomia do nosso
+passado, o trage, as armas, as joias, a mobilia,
+os utensilios da casa e os estados do espirito.
+<span class="pagenum">[98]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+O estudo completo d'esses quadros constituiria
+a mais importante, a mais bella obra da nossa
+historiographia.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>A patria portugueza segundo os documentos da
+pintura nacional nos seculos XV e XVI</em>, poderia ser
+o titulo d'esse incomparavel livro, em que collaborariam
+todas as aptid&otilde;es intellectuaes de que
+disp&otilde;e o paiz, por meio de successivas monographias,
+relativas a cada ramo do saber e comprehendendo
+todos os pontos de vista em que pode
+ser considerado o quadro:
+<br />
+
+<br />
+
+1.&ordm; <em>Os aspectos da paizagem</em>, os
+caracteres
+da <em>flora</em> e da
+<em>fauna</em> portugueza, que n&oacute;s
+t&atilde;o
+opulentamente enriquecemos, pelo commercio
+das conquistas e dos descobrimentos; no tempo
+em que Lisboa era o primeiro jardim de
+acclimata&ccedil;&atilde;o,
+o primeiro jardim zoologico e o primeiro
+mercado da Europa, pela introduc&ccedil;&atilde;o do
+ch&aacute;, do caf&eacute;, do assucar, do algod&atilde;o,
+da pimenta,
+do gengibre do Malabar, da canella de
+Ceyl&atilde;o, do cravo das Molucas, do sandalo de
+Timor, das teccas de Cochim, do bejoim do
+Achem, do pau de Solor, do anil de Cambaya,
+<span class="pagenum">[99]</span>
+da on&ccedil;a, do elephante, do rhinoceronte, do cavallo
+arabe.
+<br />
+
+<br />
+
+2.&ordm; <em>O mobiliario</em>, cuja
+fabrica&ccedil;&atilde;o t&atilde;o fecundamente
+desenvolvemos por meio de officinas estabelecidas
+em Lisboa por artifices indianos, e estabelecidas
+na India por artifices portuguezes, sob
+a administra&ccedil;&atilde;o de Affonso de Albuquerque.
+<br />
+
+<br />
+
+3.&ordm; <em>A indumentaria</em>, comprehendendo,
+al&eacute;m da
+historia do <em>traje</em>, a dos
+<em>tecidos</em>, a dos
+<em>bordados</em> e a
+das <em>rendas</em>, industrias procedentes
+da China, da
+Persia, de Benguella, t&atilde;o profundamente influenciadas
+pelo nosso contacto nas suas origens, t&atilde;o
+especialmente desenvolvidas no Reino, pelo lav&ocirc;r
+do pa&ccedil;o, onde trabalhavam ao bastidor e &aacute; agulha
+as mais pacientes e subtis
+<em>lavrandeiras</em> mandadas
+&aacute; rainha pelos capit&atilde;es da India.
+<br />
+
+<br />
+
+4.&ordm; <em>As armas</em>, de guerra, de torneio
+e de c&ocirc;rte.
+<br />
+
+<br />
+
+5.&ordm; A <em>ourivesaria</em> e a
+<em>joalharia</em>, abrangendo a
+analyse das alfaias religiosas, lampadas, tocheiros,
+relicarios, thuribulos, retabulos, a t&atilde;o curiosa
+evolu&ccedil;&atilde;o
+em Portugal da f&oacute;rma e do ornato dos calices,
+das custodias e das cruzes; e na ourivesaria
+profana as innumeraveis pe&ccedil;as em ouro ou prata
+<span class="pagenum">[100]</span>
+da baixella e da joalharia portugueza da Renascen&ccedil;a,
+como escudellas de faldra e de orelhas, salseiros,
+oveiros, vinagreiras, almofias, tumadeiras,
+almaraxas, escalfadores, confeiteiras, perfumadores,
+esquentadores, brazeiros, pomas-candis, alcaforeiros,
+taxos de perfumar luvas, copas, ta&ccedil;as,
+gomis, bacias d'agua &aacute;s m&atilde;os, ma&ccedil;as,
+chaparias
+de gualdrapa, andilhas, estribos, taboas de cavalgar,
+guarni&ccedil;&otilde;es de cavallo, com rosas, sostinentes
+e copos; cofrinhos, arrecadas, firmaes, pontas de
+ouro, brochas de livro, cadeias, guarni&ccedil;&otilde;es de
+coifa, tran&ccedil;adeiras, crochetes, cintas, tiras de
+cabe&ccedil;a,
+tiratestas, dormideiras de ouro para volantes,
+e as contas variadissimas de filigrana mourisca,
+de ambar das Maldivas, de almiscar da
+China, de rubis do Pegu, de diamantes de Narsinga,
+de perolas de Kalckar.
+<br />
+
+<br />
+
+6.&ordm; <em>As
+embarca&ccedil;&otilde;es</em>&#8213;gale&otilde;es,
+naus, caravellas,
+bergantins, fustas, toda essa portentosa
+collec&ccedil;&atilde;o
+dos nossos barcos de guerra e dos t&atilde;o variados
+typos empregados na cabotagem e na pesca, testemunhos
+sobreviventes ainda hoje do nosso genio
+maritimo e das suggest&otilde;es do mais remoto
+<span class="pagenum">[101]</span>
+trato do oceano, como se demonstra na forma
+dos saveiros, que trouxemos do Bosforo, e na da
+muleta do Seixal, que &eacute; o navio grego do tempo
+de Herodoto.
+<br />
+
+<br />
+
+7.&ordm; <em>A olaria e a cestaria popular</em>,
+em que t&atilde;o atticamente
+se affirma o hereditario engenho artistico
+da nossa ra&ccedil;a, e cujos productos tanto se compraziam
+em reproduzir os nossos pintores.
+<br />
+
+<br />
+
+8.&ordm; Emfim: <em>A psychologia das
+figuras</em> pela physionomia,
+pelo gesto, pelo sorriso, pelo olhar; os
+usos e os costumes; os temperamentos predominantes;
+a moda, o toucado; o corte do cabello, o
+talho da barba, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Da pintura portugueza, que constitue a mais importante
+parte da riqueza artistica da na&ccedil;&atilde;o,
+n&atilde;o
+ha por&eacute;m catalogo, nem inventario, nem rol. Nos
+nossos depositos de antigos quadros, em Lisboa,
+em Coimbra, em Vizeu, em Thomar, em Lamego,
+em Evora, em Setubal, o povo portuguez passa
+indifferente, abstrahido, expatriado, sem guia que
+o condusa &aacute;s fontes da tradi&ccedil;&atilde;o e da
+nacionalidade,
+em que cada um de n&oacute;s tem a mais restricta
+e a mais instante obriga&ccedil;&atilde;o de ir retemperar e
+fortalecer
+<span class="pagenum">[102]</span>
+de portuguezismo o seu sangue, dessorado
+pela mais falsa educa&ccedil;&atilde;o a que se pode condemnar
+um paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha collec&ccedil;&atilde;o publica,
+chronologicamente
+completa, dos nossos incomparaveis azulejos. Esta
+industria artistica &eacute; no emtanto d'aquellas de que
+mais legitimamente nos podemos gloriar. At&eacute; o
+seculo XVII o azulejador portuguez acompanhou a
+evolu&ccedil;&atilde;o peninsular, de influencia mudegar e de
+influencia italiana. Desde o seculo XVII adoptamos
+o gosto hollandez, e no seculo XVIII os nossos artistas
+desenvolvem no azulejo azul e branco, em
+vastas composi&ccedil;&otilde;es historicas e de genero,
+paizagens,
+merendas, ca&ccedil;adas, allegorias religiosas e
+lendas monasticas, enquadradas em bellas grinaldas
+polychromicas, o mais seguro e adestrado talento
+de composi&ccedil;&atilde;o historica e decorativa.
+<br />
+
+<br />
+
+Raro ser&aacute; o anno em que de Portugal n&atilde;o tenha
+desapparecido um quadro inestimavel ou um
+codice precioso, sem qualquer apparencia de
+coher&ccedil;&atilde;o,
+sem o minimo reparo, ao menos, do poder
+executivo, das c&ocirc;rtes ou da imprensa. &Aacute; hora
+a que escrevo estas linhas me dizem que est&aacute; &aacute;
+<span class="pagenum">[103]</span>
+venda ou vendido em Londres um livro de horas
+com que o rei D. Manoel brind&aacute;ra um fidalgo da
+sua c&ocirc;rte, ordenando-lhe que vinculasse esse manuscripto,
+que era uma gloria da na&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute;, em rigor da verdade, muito mais risonho
+que o destino das obras d'arte que saem para
+o estrangeiro o destino das que ficam no paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; bem conhecida a historia do primeiro dos
+nossos museus industriaes, fundado em Lisboa
+por Fradesso da Silveira. Esse museu extinguiu-se
+suavemente, a pouco e pouco, at&eacute; chegar a
+n&atilde;o existir do deposito primitivo sen&atilde;o unica e
+exclusivamente as prateleiras em que elle havia
+sido collocado.
+<br />
+
+<br />
+
+O rico museu das antiguidades do Algarve, recolhidas
+ha dezeseis annos por Estacio da Veiga,
+ainda hoje se n&atilde;o acha instalado.
+<br />
+
+<br />
+
+Da inestimavel collec&ccedil;&atilde;o das antigas
+pe&ccedil;as de
+lou&ccedil;a e de obras de barro, que haviam pertencido
+ao convento da Madre de Deus, e que o architecto
+Nepomuceno recolhera em uma das casas d'aquelle
+edificio, desappareceu tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+T&atilde;o vasta &eacute; a nossa riqueza artistica e
+t&atilde;o profundo
+<span class="pagenum">[104]</span>
+o desleixo de a escripturar, que s&atilde;o quasi
+t&atilde;o frequentes as surpresas no que se encontra
+como no que se perde.
+<br />
+
+<br />
+
+Como exemplo direi que era assentado n&atilde;o haver
+em Portugal vestigio algum da influencia immediata
+de Van Eik na pintura portugueza, e n&atilde;o
+existir do infante D. Henrique, o Navegador, mais
+que um retrato, na miniatura annexa ao bello
+manuscripto de Azurara, presentemente propriedade
+da <em>Biblioth&egrave;que
+Nationale</em>, em Paris. &Eacute; entretanto
+nosso, e existe em Portugal, um retrato egualmente
+contemporaneo e authentico, em tamanho
+natural, magistralmente pintado a oleo sobre madeira.
+Esse retrato precioso, inteiramente desconhecido
+do publico, eu mesmo o vi no dia 19 do
+mez de julho de 1895. Faz parte de um grupo de
+varios personagens, &eacute; da segunda metade do seculo
+xv, e pertence a um jogo de quatro paineis, de
+dimens&otilde;es eguaes, relacionados entre si por analogia
+de data e de assumpto. Est&aacute; bem conservado,
+e acha-se, com os tres da serie a que pertence, no
+corredor do claustro de cima no edificio de S. Vicente
+de F&oacute;ra, no v&atilde;o de uma janella, junto dos
+<span class="pagenum"><a name="p105" id="p105">[105]</a></span>
+aposentos habitados n'essa occasi&atilde;o por s. ex.<sup>a</sup>
+revd.<sup>ma</sup> o sr. <a href="#e4">arcebispo</a>
+de Mitylene.
+<br />
+
+<br />
+
+O illustre escriptor inglez sr. Prestage mandou
+fazer d'esse retrato uma reproduc&ccedil;&atilde;o
+photographica,
+destinada a illustrar a nova edi&ccedil;&atilde;o ingleza
+da <em>Chronica da Guin&eacute;</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Na linda egreja do convento de Santa Iria, que
+o fallecido architecto Nepomuceno comprou por
+300$000 r&eacute;is, e se achava encorporada no mosteiro
+fundado por D. Maria de Queiroz, viuva de
+Pedro Vaz de Almeida, veador da fazenda do infante
+D. Henrique, ha um retabulo em baixo relevo
+de bella pedra d'An&ccedil;an, que &eacute; simplesmente,
+pelo desenho, pelo stylo, pela m&atilde;o d'obra e pelo
+estado de conserva&ccedil;&atilde;o em que se acha, uma das
+obras capitaes da esculptura da Renascen&ccedil;a em
+Portugal. Comp&otilde;e-se de dezesete figuras. Junto
+da cruz, de que pende a mais ideal figura do Redemptor,
+est&aacute; prostrada Santa Maria Magdalena.
+Acompanham-a a Senhora da Soledade, as tres
+Marias, Nicodemus, Jos&eacute; de Arimathea e S. Jo&atilde;o
+Evangelista. No primeiro plano, dois soldados a
+cavallo, em magnifico trage do seculo XVI. Enquadra
+<span class="pagenum">[106]</span>
+a composi&ccedil;&atilde;o um bello portico, de columnas
+e tabellas preciosas, chancellado pelo braz&atilde;o dos
+Valles. S&oacute; outro Calvario, o do claustro do Silencio,
+em Coimbra, obra, por certo, do primeiro dos
+esculptores de Santa Cruz, hoje profundamente
+cariada e quasi delida, se poderia comparar, de
+par com o pulpito da mesma egreja, &aacute; esquecida
+esculptura da abandonada egreja de Thomar.
+<br />
+
+<br />
+
+Em egual descaso e esquecimento, ignorado da
+grande maioria dos viajantes e dos estudiosos, o
+monumental e sumptuosissimo panth&eacute;on dos Silvas,
+da preclara familia de D. Ruy Gomes, em S.
+Marcos, cerca de Coimbra. O bello portal alpendrado
+d'esta egreja tem a data de 1510. Os cinco
+sarcophagos de que se comp&otilde;e o jazigo verdadeiramente
+regio dos Silvas, assim como o retabulo
+em pedra no altar m&oacute;r da egreja constituem uma
+preciosidade esculptural de valor incomparavel.
+Este admiravel repositorio da nossa esculptura
+quinhentista foi ha poucos annos vendido, com a
+cerca adjunta do extincto mosteiro, pela quantia
+de seis contos de r&eacute;is.
+<br />
+
+<br />
+
+Os preciosos quadros da pintura portugueza do
+<span class="pagenum">[107]</span>
+seculo XVI, completamente desarrolados, despercebidos
+dos compradores extrangeiros, e ainda hoje
+dispersos pelo paiz, s&atilde;o em numero talvez superior
+aos dos quadros de mesma &eacute;poca recolhidos
+pelo estado depois da aboli&ccedil;&atilde;o das ordens
+religiosas.
+O illustre critico sr. Joaquim de Vasconcellos
+tem, s&oacute; &aacute; sua parte, noticia de n&atilde;o
+menos de cem
+obras desconhecidas do publico. Das que existem
+no Museu Nacional de Lisboa, na arrecada&ccedil;&atilde;o da
+Academia das Bellas Artes e nos demais depositos
+do paiz, n&atilde;o ha uma s&oacute; photographia registrada
+pelo Estado, &aacute; semelhan&ccedil;a do que se faz em todos
+os museus do mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Por occasi&atilde;o da ultima exposi&ccedil;&atilde;o,
+t&atilde;o interessante,
+realisada nas salas devolutas, das Janellas
+Verdes, para celebrar o Centenario de Santo Antonio,
+a direc&ccedil;&atilde;o das Bellas Artes n&atilde;o
+respondeu
+ao pedido da modesta quantia de 50$000 r&eacute;is
+que a commiss&atilde;o executiva da mesma
+exposi&ccedil;&atilde;o
+lhe dirigiu para que se publicasse o respectivo
+catalogo, que ficou em manuscripto na m&atilde;o do
+redactor.
+<br />
+
+<br />
+
+Por essa mesma occasi&atilde;o os peritissimos e benemeritos
+<span class="pagenum">[108]</span>
+photographos portuenses Emilio Biel &amp;
+Companhia, aos quaes t&atilde;o valiosos e desinteressados
+servi&ccedil;os devem as artes portuguezas, dirigiram
+ao governo uma proposta para reproduzir
+pela photographia,&#8213;sem subsidio algum do thesouro&#8213;todos
+os objectos expostos no palacio das
+Janellas Verdes. Esta proposta ficou egualmente
+sem despacho.
+<br />
+
+<br />
+
+Inutil me parece alludir ainda &aacute; dispers&atilde;o das
+mais ricas pe&ccedil;as do mobiliario portuguez do seculo
+XVI e d'essa segunda renascen&ccedil;a artistica e
+industrial do nosso seculo XVIII.
+<br />
+
+<br />
+
+Bufetes, arcas, armarios, contadores, tape&ccedil;arias
+da Persia, bordados e rendas do reino, couros lavrados
+e guadamecins, azulejos, porcellanas antigas
+da India, do Jap&atilde;o e da China, credencias,
+leitos torcidos ou empennachados, canap&eacute;s e cadeiras
+curvilineas ao gosto da Pompadour de Odivellas,
+espelhos afestoados, de toucador e de sacristia,
+damascos da Real Fabrica das sedas, lou&ccedil;as
+artisticas do Rato, da Bica do Sapato, do
+Porto, de Vianna, do Cavaquinho, da Panasqueira,
+de Darque, das Caldas, de Estremoz, de Coimbra,
+<span class="pagenum">[109]</span>
+tudo o bric-&agrave;-brac extrangreiro nos leva em
+cada anno, com uma cubi&ccedil;a e uma rapacidade
+que bem melancholicamente lembra a dos enviados
+de Verres no saque da Sicilia, do qual dizia
+Cicero que s&oacute; ficou da arte o que a ganancia n&atilde;o
+quiz. Ainda ha Verres, como no tempo do velho
+mestre romano, mas j&aacute; n&atilde;o ha verrinas.
+<br />
+
+<br />
+
+D'esta desorganisa&ccedil;&atilde;o geral de toda a policia
+da arte resulta mais ou menos lentamente, a quebra
+da tradi&ccedil;&atilde;o esthetica nacional, que &eacute;
+a seiva
+de toda a produc&ccedil;&atilde;o artistica.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; infecunda&ccedil;&atilde;o do individuo pelo
+espirito da
+ra&ccedil;a corresponde o desfallecimento do poder creativo,
+a inercia da intelligencia, a esterilidade do
+estudo, a degenera&ccedil;&atilde;o da phantasia, o
+abandalhamento
+do gosto, a atrophia do proprio caracter, e,
+em ultimo resultado da decadencia geral, a
+desnacionalisa&ccedil;&atilde;o
+pelintra de todo um povo.
+<br />
+
+<br />
+
+Com o rebaixamento da arte rebaixa-se tudo,
+porque no mundo &eacute; producto da arte tudo o que
+n&atilde;o &eacute; unicamente obra da natureza.
+<br />
+
+<br />
+
+O homem degenera, porque, sempre e em toda
+a parte, o homem toma fatalmente a configura&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[110]</span>
+das coisas que o rodeiam e, para assim dizer, lhe
+enformam a personalidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou
+pela inepcia de abastardadas classes dirigentes, os
+fieis debandam por n&atilde;o haver egreja que os reuna,
+e &eacute; j&aacute; evidente esta enorme catastrophe: que na
+arte de Portugal faltam cora&ccedil;&otilde;es portuguezes.
+<br />
+
+<br />
+
+Fere-nos j&aacute; esse phenomeno consternador em
+todos os aspectos da vida intellectual.
+<br />
+
+<br />
+
+Em resultado de n&atilde;o termos uma historia geral
+da arte portugueza, devidamente systematisada
+e integralmente documentada em cada um dos
+seus capitulos, vemos grassar, n&atilde;o s&oacute; entre o
+vulgo
+mas entre pessoas de saber, incumbidas de guiar
+e de reger a opini&atilde;o, o erro criminoso, profundamente
+desmoralisante, de que somos um povo
+inesthetico, incapaz de concep&ccedil;&otilde;es artisticas
+originaes.
+<br />
+
+<br />
+
+A juventude litteraria, dotada de uma consideravel
+for&ccedil;a de applica&ccedil;&atilde;o e de talento,
+traz-nos
+uma poetica exotica, de climas nevoentos, anti-meridional,
+e vem falando uma lingua secreta, cabalistica,
+interessantemente engenhosa, incomprehensivel
+<span class="pagenum">[111]</span>
+para o povo e para todos os que n&atilde;o estiverem
+iniciados na morphologia espiritica das
+novas seitas.
+<br />
+
+<br />
+
+Em toda a historiographia contemporanea se
+nota uma glacial frieza de critica, uma anemica
+pallidez de express&atilde;o, um geral entono de
+apagada tristeza, em que bem se demonstra que
+n&atilde;o circula o sangue vermelho da ra&ccedil;a, nem se
+retrata
+do vivo o genio do nosso povo, meigo, docil,
+de apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente
+sociavel, amando a grande alegria estridente
+das feiras, das tardes de touros, das romarias
+dos seus santos populares, conservando nas
+infimas camadas sociaes um residuo trovadoresco,
+de paladino e de menestrel, susceptivel ainda das
+paix&otilde;es mais profundas, todo de
+improvisa&ccedil;&atilde;o e
+de repentismo, capaz das coisas mais imprevistamente
+grandes, poetico, aventuroso e destemido.
+<br />
+
+<br />
+
+Na poesia, assim como na pintura e na musica,
+n&atilde;o ha uma escola portugueza, porque, na falta
+de la&ccedil;o social que congregue os nossos artistas,
+sem elementos coordenados de estudo, sem modelos
+patentes, sem li&ccedil;&atilde;o commum, n&atilde;o ha
+entre
+<span class="pagenum">[112]</span>
+elles mutuamente, nem entre elles e o povo de
+que derivam, communh&atilde;o alguma de ideal ou de
+sentimento.
+<br />
+
+<br />
+
+Por egual raz&atilde;o n&atilde;o teem caracter nacional,
+sendo portanto destituidas de originalidade, e
+como taes inaptas para a luta da concorrencia
+mercantil, todas as nossas industrias.
+<br />
+
+<br />
+
+A decapita&ccedil;&atilde;o official da nossa
+educa&ccedil;&atilde;o artistica
+manifesta-se ainda de mais perto, acotovelando-nos
+e contundindo-nos por toda a parte, no aspecto
+do povo, na apparencia das casas, na esthetica
+das cidades, na apparencia dos predios, na
+decora&ccedil;&atilde;o das pra&ccedil;as, das avenidas,
+dos cemiterios,
+dos jardins publicos, das lojas, das reparti&ccedil;&otilde;es
+do estado e das habita&ccedil;&otilde;es particulares.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Lisboa, por exemplo, onde n&atilde;o ha uma
+sala de concertos populares, nem vem tocar para
+a rua a musica dos regimentos, onde no theatro
+de Dona Maria se n&atilde;o representa Gil Vicente
+nem Garrett, onde no theatro de S. Carlos se n&atilde;o
+canta Marcos Portugal, onde n&atilde;o ha um museu
+de arte decorativa, nem um simples mostruario da
+nossa produc&ccedil;&atilde;o industrial, nem um museu de
+pintura,
+<span class="pagenum">[113]</span>
+coordenado, catalogado e etiquetado de maneira
+que communique ao publico, assim como
+em todas as outras capitaes da Europa, a li&ccedil;&atilde;o
+que um museu cont&eacute;m, ha pelo contrario escaparates
+de apparatosos armazens, que s&atilde;o para
+quem anda pelas ruas o contagioso exemplo da
+mais corrompida pervers&atilde;o, do mais provocante e
+pomposo relismo a que pode chegar o desvairamento
+do gosto. Mobilias em tal maneira degeneradas
+que n'ellas desappareceu de todo o material
+de construc&ccedil;&atilde;o. A almofada que em toda a
+antiguidade
+e em toda a edade m&eacute;dia era um accessorio
+movel, e s&oacute; no seculo XVI se principiou a
+fixar com pregos ao banco ou &aacute; cadeira, invade
+bo&ccedil;almente todo o movel, armado em ripes de
+pinho, como uma e&ccedil;a de defunto, embrulhado em
+pelucia, que nos esburaca os olhos pela insolente
+m&aacute; crea&ccedil;&atilde;o da c&ocirc;r. E
+horripilantes lindices de toucador,
+de escriptorio ou de sala, em que tudo parece
+apostado em ser fingido, desde a etrusca
+ondula&ccedil;&atilde;o
+do contorno at&eacute; o material empregado,
+porque todas as linhas s&atilde;o aleijadas, a prata &eacute;
+zinco, o marfim &eacute; gesso, o char&atilde;o &eacute; de
+papel e o
+<span class="pagenum">[114]</span>
+marmore esculpido &eacute; de sab&atilde;o. E tudo isso se
+compra e se leva para casa, para infectar a familia,
+para corromper o lar e para escrofulisar moralmente
+os meninos, desconjuntando-os de dignidade
+domestica, inoculando-os de pelintrice e
+de canalhismo de casta para a vida toda.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha uma avenida monumental em que, ao longo
+dos passeios destinados ao transito do publico,
+em vez da ornamenta&ccedil;&atilde;o da flora regional, em
+vez dos longos massi&ccedil;os de castanheiros, de laranjeiras,
+de palmeiras e de bananeiras, como
+em Barcelona e em Sevilha, esverdinham e apodrecem
+dois miseros e infectos arroios artificiaes
+no fundo de flexuosas ravinas, gretando sinuosamente
+o solo, como canos dissimuladamente
+abertos em fosquinhas para trambulh&otilde;es do viandante.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos predios a prodigalidade vesanica das janellas
+percorre a superficie das fachadas, havendo
+frontarias que parecem construidas unicamente
+com hombreiras contiguas e sobrepostas; e, ao
+passo que em cidades amoraveis e artisticas se
+criam premios e se abrem concursos de janellas
+<span class="pagenum">[115]</span>
+floridas, em Lisboa &eacute; prohibido ornamentar de flores
+o frontespicio das casas.
+<br />
+
+<br />
+
+Os lindos <em>empedrados</em> e
+<em>embrechados</em> de
+tradi&ccedil;&atilde;o
+portugueza caem em desuso, substituidos por cimentos
+incompativeis com a ac&ccedil;&atilde;o do nosso clima.
+<br />
+
+<br />
+
+O t&atilde;o commodo, t&atilde;o modico e t&atilde;o
+gracioso
+typo da nossa antiga casa de campo &eacute; substituido
+nas construc&ccedil;&otilde;es modernas pelas f&oacute;rmas
+de um
+exotismo composito, as mais delambidas, mais
+pretenciosas e mais chinfrins, hybrida confus&atilde;o
+allucinada do ch&acirc;let suisso, do cottage inglez, da
+fortaleza normanda, do minarete tartaro e da mesquita
+moira,&#8213;nodoa e vexame da paizagem portugueza
+nas redondezas de Lisboa. Em presen&ccedil;a
+de um t&atilde;o inverosimil scenario de magica, de operetta
+ou de revista do anno, ninguem, desajudado
+de outras indica&ccedil;&otilde;es, anedocticas e
+chorographicas,
+ser&aacute; capaz de adivinhar em que parte do mundo e
+entre que casta de gente se est&aacute; passando a pe&ccedil;a.
+Tal &eacute; a delirante epidemia de que est&atilde;o
+combalidos
+os constructores contemporaneos, que, para
+ter um indicio nacional da nossa tradi&ccedil;&atilde;o, entre
+as
+casas de campo ou de praia construidas em torno
+<span class="pagenum">[116]</span>
+de Lisboa nos ultimos vinte annos, temos de ir a
+Cascaes v&ecirc;r o typo, unico, da habita&ccedil;&atilde;o
+dos condes
+de Arnozo, t&atilde;o saudosamente semelhante &aacute;
+casa de nossos av&oacute;s, com o seu pequeno eirado
+sobre uma arcaria de meio ponto, a sua porta de
+alpendre n'um patamar de escada exterior, ao lado
+do retabulo em azulejo do santo padroeiro da familia,
+as janellas de peitos guarnecidas de rotulas
+entre cachorros de pedra, destinados &aacute;s varas do
+estendal, e servindo de misula aos vasos de craveiros
+e de mangericos, em frente do po&ccedil;o de roldana,
+no mais doce e tranquillo sorriso d'outr'ora.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos mesmos letreiros das esquinas de ruas encontram-se
+denomina&ccedil;&otilde;es que esbofeteiam o pundonor
+patriotico, a cultura historica e a dignidade
+esthetica dos habitantes.
+<br />
+
+<br />
+
+No Bairro Alto, onde a nomenclatura das ruas
+t&atilde;o sympathicamente suggeria a lembran&ccedil;a bucolica
+da antiga fazenda suburbana, em que os jesuitas
+de S. Roque delinearam a nova cidade, como
+a rua da <em>Vinha</em>, a do
+<em>Moinho de Vento</em>, a do
+<em>Po&ccedil;o</em>,
+a do <em>Carvalho</em>, a da
+<em>Rosa</em>, a da
+<em>Atalaia</em>, ou os nomes
+dos officios que ahi primitivamente se arruaram,
+<span class="pagenum">[117]</span>
+como os <em>Calafates</em> e as
+<em>Gaveas</em>, apaga-se,
+como n'uma rasura de conta falsificada, esse lindo
+e piedoso vestigio da tradi&ccedil;&atilde;o lisboeta, para dar
+&aacute;s
+ruas nomes novos e incaracteristicos, de sujeitos
+que n'ellas moram ou se diz que por l&aacute; passaram.
+E com egual afouteza se dissolvem, n'um borr&atilde;o
+de brocha, sagrados disticos, ainda mais estreitamente
+vinculados &aacute; historia do povo e &aacute; historia
+da cidade, como o da Rainha Santa Isabel, como
+o dos Martyres de Marrocos.
+<br />
+
+<br />
+
+Os trages populares, alguns t&atilde;o pittorescos, t&atilde;o
+suggestivos e t&atilde;o bellos, como os das mulheres da
+Murtosa, da Maia, de Santa Martha e de Portuzello,
+como o dos boieiros do Ribatejo, dos pescadores
+de Ilhavo e da Povoa, e dos montanhezes
+do Alemtejo e do Algarve, degeneram e abastardam-se
+ridiculamente, porque n&atilde;o ha entre a gente
+culta quem preze esse trage, quem o honre e quem
+o entenda.
+<br />
+
+<br />
+
+Egualmente se desdenham e repudiam, por espirito
+de inconcebivel extrangeirismo, os productos
+primorosos de algumas das nossas industrias
+populares.
+<span class="pagenum">[118]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Nenhum outro povo matiza com mais harmonia
+de c&ocirc;r e mais gra&ccedil;a de risco esses tecidos
+dos teares ou dos bastidores caseiros, combinados
+com estopa, com linho, com l&atilde; ou com algod&atilde;o,
+de que se fazem os panos liteiros, as sirguilhas,
+as saias e os aventaes das mulheres de
+Vianna, e bem assim as colxas de linho bordadas
+a frouxo na Beira, e os tapetes chamados de Arrayolos.
+Nenhum outro povo sabe tornear na
+roda do oleiro com mais esbelteza e mais puro
+atticismo o pote ou a bilha de barro, a pucara, o
+gomil e o pichel, de Coimbra, do Prado, de Mafra,
+de Redondo, de Loul&eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Se ninguem mais artisticamente do que o portuguez
+sabe vestir a mulher, arrear o cavallo, engatar
+a mula, e moldar a vasilha, ninguem, t&atilde;o
+pouco, melhor do que elle emalha a rede e enastra
+o cesto.
+<br />
+
+<br />
+
+Dizem inglezes que metade da sua arte contemporanea
+se deve &aacute; iniciativa e &aacute; propaganda do
+grande critico nacional John Ruskin, que Tolsto&iuml;
+considera um dos maiores homens do seculo, e a
+quem Carlyle chamava o <em>ethereal
+Ruskin</em>. Este
+<span class="pagenum">[119]</span>
+glorioso campe&atilde;o da esthetica e da arte em todas
+as suas mais complexas e mais variadas
+manifesta&ccedil;&otilde;es
+n&atilde;o pode deixar de ser lembrado por todos
+os que se interessam em taes assumptos. Os
+seus numerosos livros sobre historia da arte, sobre
+a architectura, sobre a pintura, sobre as artes
+decorativas e as artes industriaes, os seus profundos
+estudos de <em>Turner e os antigos</em> e dos
+<em>Pintores
+modernos</em>, a sua triumphante campanha em favor
+dos monumentos historicos, das industrias ruraes,
+dos preraphaelitas, das paizagens inglezas, s&atilde;o
+um verdadeiro monumento litterario, e a bibliographia
+que se lhe refere constitue toda uma litteratura,
+famosa na Inglaterra sob o nome consagrado
+de <em>ruskineana</em>. Grande homem de
+ac&ccedil;&atilde;o,
+gloria dos da sua ra&ccedil;a, tomando por divisa
+<em>To day</em>,
+Ruskin n&atilde;o se emparedou, como a maioria dos
+criticos, na torre eburnea dos extases poeticos e
+das contempla&ccedil;&otilde;es expeculativas. Tendo consumido
+rapidamente mil contos de r&eacute;is da legitima
+paterna em subven&ccedil;&otilde;es das mais generosas empresas
+sociaes, em dadivas aos museus, em soccorro
+dos pobres, em funda&ccedil;&otilde;es de escolas e de
+<span class="pagenum">[120]</span>
+officinas, reconstituindo pela venda dos seus livros,
+(a trinta contos a edi&ccedil;&atilde;o) um rendimento de
+riquissimo proprietario, elle fez-se gratuitamente
+professor de desenho, industrial e operario. Organisou
+a casa editora das suas proprias obras, a
+<em>Ruskin House</em>, fundou a
+<em>Saint-George's Guild</em>, em
+Londres, a Sociedade Protectora dos Monumentos
+Architectonicos, e as sociedades de leitura de Manchester,
+de Glascow e de Liverpool; ensinou a
+Inglaterra a comprehender a obra de Turner; fundou
+o culto dos primitivos, introduzindo na <em>National
+Gallery</em> os preciosos quadros de Benozzo
+Gozzoli, de Perugino, de Botticelli, de todos os
+grandes predecessores de Raphael; e deu &aacute; arte
+todo um novo ideal e uma religi&atilde;o nova, creando
+uma pleiade brilhantissima de proselytos, de collaboradores
+e de discipulos, entre os quaes figuram
+Madox Brown, Rosseti, Collingwood, Millais,
+Morris, Thomaz Dean, Woodward, Munro, Hunt,
+Burne Jones, Hook e Brett, e Giacomo Boni, o
+actual conservador dos monumentos nacionaes da
+Italia. Foi elle emfim que deu a mais alta express&atilde;o
+&aacute; auctoridade esthetica em nossos tempos, impedindo,
+<span class="pagenum">[121]</span>
+em nome da arte, que um tra&ccedil;ado de caminho
+de ferro deturpasse a belleza de uma collina
+na paizagem ingleza, e levando uma commiss&atilde;o
+da Camara dos Lords a consultar uma commiss&atilde;o
+de artistas sobre se a passagem de uma
+linha ferrea n&atilde;o affectaria ruinosamente a parte
+de riqueza publica representada pela tranquilla e
+doce poesia de certo valle.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; por&eacute;m com um intuito especial,&#8213;a proposito
+das nossas t&atilde;o resistentes industrias tradicionaes
+e domesticas,&#8213;que eu invoco o nome
+glorioso de Ruskin.
+<br />
+
+<br />
+
+O trabalho rural da fia&ccedil;&atilde;o &aacute;
+m&atilde;o e da tecelagem
+no estreito e primitivo tear caseiro achava-se
+totalmente extincto na tradi&ccedil;&atilde;o ingleza. Ruskin,
+considerando os poderosos elementos de economia,
+de moralidade, de satisfa&ccedil;&atilde;o, de
+educa&ccedil;&atilde;o
+esthetica e de intima poesia, destruidos pela suppress&atilde;o
+d'essa antiga actividade artistica da familia
+no campo inglez, dedicou-se com um esfor&ccedil;o
+portentoso a fazer reviver em Langdale e em Keswick
+a extincta industria caseira dos panos de linho
+e dos panos de l&atilde; em pequenas manufacturas
+<span class="pagenum">[122]</span>
+domesticas, tendo por unico auxiliar da for&ccedil;a individual
+uma vela de moinho nos cabe&ccedil;os das
+collinas ou a corrente da agua &aacute; beira dos riachos.
+Elle mesmo d&aacute; o exemplo da nova
+organisa&ccedil;&atilde;o
+do trabalho na familia, construindo o seu
+famoso moinho de Laxey. Recomp&otilde;e-se uma antiga
+roda de fiar com as pe&ccedil;as desarticuladas e
+esquecidas de um d'esses abandonados apparelhos
+encontrados em casa de uma velha tecedeira.
+&Eacute; reconstruido um primitivo tear sobre o modelo
+florentino e medieval de um quadro de Giotto.
+Ruskin envolve esse novo movimento retrogrado
+do trabalho na propaganda mais activa e mais
+eloquente. A sua palavra calorosamente apaixonada,
+colorida e mordente, encontra em todo o
+Reino Unido um ecco extraordinario. As teias do
+novo linho caseiro, um tanto rugoso, um tanto irregular,
+cegado no campo, espadelado, assedado,
+fiado, c&oacute;rado e tecido pela mesma m&atilde;o de mulher,
+&aacute; porta ou &aacute; janella de uma cabana, ao ar
+dos campos, ao ramalhar das faias, ao canto das
+cotovias, denotando nos accidentes da factura,
+como n'uma obra d'arte, a caracteristica individualidade
+<span class="pagenum">[123]</span>
+do artifice, substituida &aacute; banal
+perfei&ccedil;&atilde;o
+estupida e antipathica do apparelho mechanico,
+desbanca rapidamente a obra da fia&ccedil;&atilde;o a
+vapor, cae em moda entre as pessoas de gosto
+aperfei&ccedil;oado, recebe a alta protec&ccedil;&atilde;o
+da princeza
+de Galles, torna-se de rigor em todos os enxovaes
+elegantes, e faz-se pagar mui remuneradoramente
+por pre&ccedil;os consideravelmente superiores ao dos
+productos da grande industria mechanica.
+<br />
+
+<br />
+
+Exito egual ao dos panos de linho na industria
+caseira dos lanificios na ilha de Man. &Eacute; conhecida
+n&atilde;o s&oacute; em toda a Inglaterra mas em toda a Europa
+a fama d'esses resistentes tecidos ruraes fabricados
+&aacute; m&atilde;o, de desenhos combinados na urdidura
+e na trama com as c&ocirc;res naturaes da l&atilde;,
+sem preparo algum chimico ou mechanico, de tintura
+ou de acabamento; e a mais cara de todas as
+fazendas de luxo para traje de trabalho, de ca&ccedil;a,
+de viagem, de equita&ccedil;&atilde;o, &eacute; o famoso
+<em>homespun</em> ou
+<em>Laxey homespun</em>, do nome da
+localidade em que
+se estabeleceu o primeiro moinho de Ruskin. &Eacute;
+a esta evolu&ccedil;&atilde;o das pequenas industrias ruraes,
+hombreando em valor remunerativo com as grandes
+<span class="pagenum">[124]</span>
+industrias, e n&atilde;o a destructiva
+absorp&ccedil;&atilde;o do
+trabalho da familia pelo trabalho das grandes empresas
+fabris que eu chamo
+<em>transforma&ccedil;&atilde;o de industrias
+caseiras em industrias de concorrencia</em>,&#8213;formula
+que geralmente se toma em sentido diverso
+d'aquelle que eu lhe ligo.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Portugal &eacute; certo que definham de dia para
+dia, e que successivamente se v&atilde;o extinguindo as
+nossas velhas industrias ruraes. Esmorece calamitosamente,
+por culpa da administra&ccedil;&atilde;o economica
+dos nossos governos, a industria delicadissima
+das obras de filigrana de ouro e de prata,
+ainda em nossos dias servida por numerosas familias
+ruraes dos districtos do Porto e de Braga.
+Morreu em Bragan&ccedil;a a industria da sericultura
+e a da fabrica&ccedil;&atilde;o do veludo. Acabou em
+Guimar&atilde;es,
+entre outras industrias interessantissimas, a
+da manufactura caseira das sedas e dos brocados.
+No Algarve talvez que j&aacute; hoje se n&atilde;o
+fa&ccedil;a um
+unico trabalho de pita. Tem diminuido consideravelmente
+o numero dos teares caseiros na Covilh&atilde;,
+na serra de Monchique, na serra da Estrella.
+Nas margens do Lima, por&eacute;m, entre Vianna
+<span class="pagenum">[125]</span>
+do Castello e Ponte de Lima, ha ainda algumas
+das mulheres mais lindas e das mais bem educadas
+de todas as portuguezas, que fiam e tecem
+em suas casas o linho, a l&atilde;, o algod&atilde;o, e se
+vestem
+completamente, da maneira mais elegante,
+com os tecidos mais consistentes e mais bellos,
+de sua fabrica&ccedil;&atilde;o exclusiva em todas as phases
+por que passa a materia prima, desde que &eacute; cegada
+no campo ou tosquiada no carneiro at&eacute; se
+converter em vestido. &Aacute; feira semanal de Vianna
+as raparigas d'essa regi&atilde;o trazem em lindas canastras,
+al&eacute;m dos ovos e dos frangos que criam, al&eacute;m
+da manteiga que fabricam, as teias de pano de linho,
+os cortes de saias de l&atilde; e de algod&atilde;o, as
+pe&ccedil;as
+de sirguilha, que tecem, e as rendas que fabricam
+a bilros ou &aacute; agulha. As de Villa Nova de
+Ourem fazem ainda fitas excellentes; e no mercado
+de Thomar vende-se em graciosos novellos
+da f&oacute;rma de casulos a melhor linha, branca ou
+preta, que se pode comprar em Portugal. Conserva-se
+ainda a antiga tradi&ccedil;&atilde;o das
+<em>mantas do Alemtejo</em>,
+citadas j&aacute; por Gil Vicente na
+<em>Far&ccedil;a dos almocreves</em>,
+a dos liteiros e mantas de retalhos, a dos
+<span class="pagenum">[126]</span>
+lindos alforges da Extremadura, do Alemtejo e do
+Algarve, de Minde, d'Alte e de Redondo, e a
+d'esses famosos tecidos de l&atilde;, que s&atilde;o o
+<em>homespun</em>
+portuguez, e que em sua variedade se denominam
+bureis, estamenhas, briches, sarago&ccedil;as, jardos,
+sorrubecos.
+<br />
+
+<br />
+
+Meditemos na maravilhosa obra operada por
+Ruskin n'um sentido esthetico, que &aacute; primeira
+vista se figura retrogrado, mas que encerra talvez
+em germen o destino futuro, preciosamente
+moralisante de todas as industrias, desde que os
+aperfei&ccedil;oamentos da electricidade desloquem o
+eixo do trabalho fabril, levando a casa de cada
+artifice por meio de um tenue fio de arame o
+quinh&atilde;o de for&ccedil;a que tem para distribuir por
+cada operario do seculo que vem o immenso e
+incalculavel esfor&ccedil;o propuls&ocirc;r do sopro dos
+ventos,
+do fluxo e refluxo das mar&eacute;s, da corrente dos
+rios, dos cyclones das Pampas ou das cataractas
+do Niagara. E em presen&ccedil;a da revolu&ccedil;&atilde;o
+das industrias
+caseiras da Inglaterra, onde todo o vestigio
+de tradi&ccedil;&atilde;o desapparecera, ponderemos o que
+se pode fazer em Portugal, onde a tradi&ccedil;&atilde;o
+sobrevive
+<span class="pagenum">[127]</span>
+com uma energia prodigiosa a todos os desdens
+e a todas as oppress&otilde;es que a esmagam!
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; notoria desde o seculo XVI a aptid&atilde;o artistica,
+que distingue o nosso marinheiro em todas as pequenas
+industrias de bordo, nos mais delicados,
+pacientes e engenhosos trabalhos tendo por base
+o cabo ou o fio de linho torcido ou entran&ccedil;ado.
+Ninguem como elle manus&ecirc;a os ferros e as
+amarra&ccedil;&otilde;es,
+o poleame e o talhame, o cabo, a adri&ccedil;a ou
+o pano. Ninguem como elle confecciona o coxim,
+a gaxeta, o mixelo, o unh&atilde;o, a bo&ccedil;a, a linga, o
+estropo,
+o repuxo, o massete ou a agulha. E n&atilde;o o ha
+mais dextro em lan&ccedil;ar a volta, em enastrar a pinha
+e em dar o n&oacute; de escota, de fateixa ou de botija,
+o n&oacute; direito e o n&oacute; torto, o de cogula, o de
+borla de pescador, ou o de espia. Em toda a nossa
+costa, desde o Minho at&eacute; o Guadiana, a enorme
+variedade de f&oacute;rmas nas embarca&ccedil;&otilde;es da
+pesca
+maritima, da pesca fluvial e da pesca lacustre,
+basta para evidenciar a persistencia da tradi&ccedil;&atilde;o
+no grande genio maritimo de t&atilde;o pequeno
+povo.
+<br />
+
+<br />
+
+Os que ainda v&atilde;o &aacute; pesca do bacalhau,
+&aacute; Terra
+<span class="pagenum">[128]</span>
+Nova, equipam de uma maneira especial a escuna
+ou o patacho, preferindo por&eacute;m o typo latino do
+hiate e do lugre. Os que v&atilde;o &aacute; cavalla,
+&aacute; pescada
+e ao sarraj&atilde;o, no mar de Larache, embarcam
+nos cahiques de Olh&atilde;o, semelhantes aos de
+toda a costa algarvia e aos de Lisboa e Setubal, de
+pr&ocirc;a redonda, apparelhando com dois bastardos.
+&Aacute; pesca do alto vae a lancha de Caminha, construida
+no portinho de Gontinh&atilde;es; a lancha p&oacute;veira,
+de bocca aberta, apparelhando com um s&oacute;
+mastro e a verga munida de uma grande vela latina;
+o <em>barco da pescada</em>, de Buarcos, de
+borda alta
+e duas pequenas toldas, apparelhando com dois
+mastros; o catraio da Nazareth; o <em>barco da
+sacada</em>,
+de Peninhe, de convez corrido com quatro escotilhas
+e dois mastros, com as vergas preparando
+em cruz; a <em>rasca da Ericeira</em>, a da
+Figueira da Foz
+e a da Vieira; as can&ocirc;as de Belem, de Cezimbra,
+de Setubal e do Algarve, chamadas em Lisboa
+<em>enviadas</em>
+ou <em>can&ocirc;as da picada</em>, e no
+Algarve <em>andainas</em>.
+Na pesca maritima costeira empregam-se
+embarca&ccedil;&otilde;es
+numerosas e variadissimas. Na arte de
+gale&atilde;o agrupam-se: o
+<em>gale&atilde;o</em>, coberto, de
+pr&ocirc;a direita
+<span class="pagenum">[129]</span>
+e arrufada, apparelhando com o latino triangular,
+que amura ao bico de pr&ocirc;a e ca&ccedil;a &aacute;
+p&ocirc;pa,
+em mastro inclinado para vante; o
+<em>galeonete</em>; o
+<em>buque</em>, curvo na roda de
+pr&ocirc;a e sem coberta; a
+can&ocirc;a do gale&atilde;o, e o
+<em>acostado</em>, que se emprega no
+transporte do peixe. Na arma&ccedil;&atilde;o fixa do atum e
+da sardinha, nas <em>almadrabilhas</em>, ou
+<em>almadravas</em>,
+como antigamente lhes chamavamos, do nome
+arabe que os hispanhoes conservam, labuta o
+<em>cal&atilde;o</em>,
+grande lancha, de bocca aberta, armando com
+estropo oito ou dez remos por banda, tendo na
+pr&ocirc;a arredondada, rematada no alto por duas femeas,
+uma saliencia vertical de puas em serra, semelhando
+um lombo de peixe, e, pintado de cada
+lado, um olho arregalado para o horizonte; a <em>barca
+da testa</em>; a <em>barca das
+portas</em>; a <em>barca da
+gacha</em>, e
+o <em>la&uacute;de</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Na costa do Algarve, as almadravas occupam
+hoje approximadamente os mesmos logares que
+tinham no seculo XVI; e o
+<em>cal&atilde;o</em> &eacute;, como
+alguns
+barcos do Douro, de pr&ocirc;a comprida e alta, propria
+para atracar a margens escarpadas ou para
+varar com facilidade na praia, o typo mais analogo
+<span class="pagenum">[130]</span>
+ao das embarca&ccedil;&otilde;es portuguezas de ha trezentos
+ou quatrocentos annos.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Nas artes de arrastar para terra</em>
+figuram as <em>xavegas</em>
+do Algarve, os <em>saveiros</em> e as
+<em>meias-luas</em>, de
+Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa Nova,
+Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares,
+desde o sul do Douro at&eacute; a Vieira, reapparecendo,
+mais abaixo, na costa de Caparica e da Gal&eacute;, e na
+praia de Sines. <em>Nas redes de alar a
+reboque</em> trabalham
+as <em>muletas</em> e os
+<em>bateis do Seixal</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. Arthur Baldaque da Silva, no seu precioso
+livro <em>Estado actual das pescas em
+Portugal</em>, enumera
+ainda, entre os diversos typos de embarca&ccedil;&otilde;es
+empregadas em varios systemas de pesca, o
+<em>batel de Espozende</em>, o
+<em>barco de Vianna do Castello</em>,
+a <em>barquinha do rio Lima</em>, a
+<em>bateira da Figueira da
+Foz</em>, a <em>lancha de
+Buarcos</em>, a <em>lanchinha do
+Tejo</em>, o
+<em>ilhavo da Tarrafa</em>, o
+<em>batel de Peniche, o cahique</em>
+e a <em>lancha de Peniche</em>, os
+<em>poveiros</em> de Lavos, de
+Buarcos, da Nazareth, de Cascaes, de Cezimbra,
+de Setubal; o <em>catraio</em>, a mais
+genuina embarca&ccedil;&atilde;o
+portugueza da nossa costa meridional, a
+<em>ca&ccedil;adeira</em>
+e a <em>focinheira de porco</em> da Ericeira,
+a <em>maceira</em> da
+<span class="pagenum">[131]</span>
+costa do Norte, o <em>cahique de Sines</em>,
+o <em>barco minhoto</em>,
+construido em Lanhellas e em Forcadella, o
+<em>batel do Cavado</em>, o
+<em>barco do Douro</em>, o
+<em>esgueir&atilde;o
+da ria de Aveiro</em>, a <em>lancha de Villa
+Franca</em>, a <em>bateira
+do Mondego</em>, a
+<em>lanchinha</em> e a <em>chata
+do Tejo</em>,
+e outros do continente, sem contar os barcos de
+cabotagem, os typos da Africa, dos A&ccedil;ores, da
+ilha da Madeira, n&atilde;o descriptos, infelizmente.
+S&atilde;o ainda de notar, entre as jangadas mais caracteristicas,
+as de Marinhas, para a pesca do
+polvo; as de F&atilde;o e da Apulia, para a apanha do
+sarga&ccedil;o; as de Neiva e as de Sedovem.
+<br />
+
+<br />
+
+Com essa phantastica riqueza de documentos
+maritimos, assombro de todos os outros povos, &eacute;
+verdadeiramente inacreditavel que em Portugal
+n&atilde;o haja um museu naval, em que estes documentos
+se confrontem e se estudem. N&atilde;o ha
+tal museu.
+<br />
+
+<br />
+
+Em terra &eacute; t&atilde;o variada a
+collec&ccedil;&atilde;o popular das
+vasilhas, dos fogareiros e dos cestos caseiros,
+como &eacute; variada na agua a f&oacute;rma das
+embarca&ccedil;&otilde;es.
+A simples nomenclatura do vasilhame portuguez
+d&aacute;, s&oacute; de per si, uma id&eacute;a, ainda que
+bem incompleta,
+<span class="pagenum">[132]</span>
+da multiplicidade das suas f&oacute;rmas, porque
+ha typos que variam de regi&atilde;o para regi&atilde;o, de
+dez em dez leguas de perimetro. Esses typos principaes
+s&atilde;o a talha, o pote, o cantaro, o caneco, o
+tenor, a tarefa, a pucara, o gomil, a escudella, a
+tijela, a infusa, a meia, a quarta, a quartinha, a
+pinta, a sumicha, a sangradeira, a alquara, a vieira,
+o almude, a tamboladeira, o alguidar e o alguidarinho,
+o alcadafe, o moringue, o boi&atilde;o, o tarro,
+o cantil, a almofia, o alcatruz, o porr&atilde;o, o
+c&ocirc;cho,
+o picho, o pichel, a almotolia, a ancoreta, a taleiga,
+a galheta, o caldeir&atilde;o, a caldeira e a caldeirinha,
+o tacho, a ca&ccedil;oila, a copa, a bateia, o jarro,
+a batega, a pichorra, a botija, a caba&ccedil;a, a malga,
+etc. Alguns d'estes nomes jogam com o antigo systema
+de medidas abolidas no seculo XVI, quando
+se estabeleceu o systema novo, tendo por base o
+quartilho. A vasilha correspondente &aacute; velha medida,
+condemnada no reinado de D. Sebasti&atilde;o, sobreviveu
+por&eacute;m na tradi&ccedil;&atilde;o e no costume. A
+<em>sumicha</em>,
+por exemplo, com quatro decilitros de capacidade,
+t&atilde;o maneira, t&atilde;o graciosa, t&atilde;o bem
+proporcionada
+a uma s&ecirc;de d'agua, &eacute; ainda hoje na olaria
+<span class="pagenum">[133]</span>
+de Coimbra o pucaro consagrado, que no pote
+da regi&atilde;o, de uma elegancia t&atilde;o fina e
+t&atilde;o attica,
+se encasa no alguidarinho que lhe serve de tampa.
+<br />
+
+<br />
+
+As f&oacute;rmas populares d'essa vasilharia, umas trazidas
+do Peru e do Mexico, como a do moringue
+e seus derivados, outras, provenientes de typos
+gregos e etruscos, da cratera, da amphora, da ambula,
+do askos, do bombylio, etc., s&atilde;o por toda a
+parte, em nossos districtos ceramicos, as mais bellas,
+as mais engra&ccedil;adas ou as mais nobres, as mais
+irreprehensivelmente puras, parecendo que &aacute; roda
+mechanica do operario as foi delineando, contornando,
+envolvendo sempre, a pe&ccedil;a por pe&ccedil;a, o
+sorriso acariciante de um artista.
+<br />
+
+<br />
+
+De uma humilde panellinha portugueza de barro
+preto, de Prado ou de Molellos, deduziram em
+Fran&ccedil;a o assucareiro, a leiteira, a cafeteira e o
+bule de um servi&ccedil;o de almo&ccedil;o, que ficou
+tradicional
+na fabrica&ccedil;&atilde;o de S&egrave;vres.
+<br />
+
+<br />
+
+A industria popular da cestaria acompanha na
+evolu&ccedil;&atilde;o das f&oacute;rmas a industria do
+oleiro. Todos
+os que percorreram as feiras e os mercados do
+nosso paiz notariam que cada regi&atilde;o tem a sua
+<span class="pagenum">[134]</span>
+canastra, o seu cabaz e o seu gigo, differentes na
+f&oacute;rma ou no ornato. Ha-os de todas as
+configura&ccedil;&otilde;es,
+fundos e chatos, quadrados, octogonos, arredondados,
+oblongos, cubicos, cylindricos, espheroidaes,
+lembrando algumas vezes a f&oacute;rma e a
+construc&ccedil;&atilde;o
+americana dos sambur&aacute;s, dos tipitis e dos
+c&ocirc;fos tupis, feitos de taquara e de cip&oacute;, que
+introduzimos
+talvez no Brazil ou, mais provavelmente,
+l&aacute; aprendemos a fabricar, deixando o typo do balaio,
+com cujo nome se designa ainda na Bahia o
+farnel que de ordinario se transporta no cesto portuguez
+d'essa configura&ccedil;&atilde;o, semelhante &aacute; de
+um
+alguidar. Mui frequentemente varia tambem o balaio,
+o canistel, a cesta, a conde&ccedil;a, o ceir&atilde;o e a
+ceira, a alcofa e a alcofinha. A materia prima do
+cesto &eacute; o vime, o junco, a fasquia de castanheiro,
+a fasquia de faia e a canna; a da ceira e da alcofa
+&eacute; o esparto, a engeita, a palha de trigo e de centeio,
+a tab&uacute;a, a juta e a pita. Em algumas regi&otilde;es,
+como nas Caldas e Vizeu, os cestos s&atilde;o obras primas
+incomparaveis de acabamento e de graciosidade.
+A canastrinha burriqueira das Caldas, reduzida
+ao miniaturismo de dois centimetros, &eacute; um
+<span class="pagenum">[135]</span>
+simples prodigio de fabrica&ccedil;&atilde;o minudente e
+delicada.
+No Algarve a alcofa, de filia&ccedil;&atilde;o arabe,
+&eacute;
+por vezes ornada de apparatosas flores bordadas
+a seda ou a l&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+Sem embargo, continuando a affirmar-se que n&atilde;o
+temos sentimento artistico, desistimos por indisciplina,
+por ignorancia, por desanimo, de transformar
+em industrias de concorrencia as nossas industrias
+domesticas, e n&atilde;o negociamos com o extrangeiro
+nem tecidos de phantasia, t&atilde;o originaes
+como os que possuimos, nem papeis pintados derivados
+d'esses tecidos, nem a lou&ccedil;a, nem a cestaria,
+nem a filigrana, immobilisada em typos decrepitos,
+e da qual t&atilde;o lindos effeitos se tirariam,
+applicando-a em ouro a servi&ccedil;os de toucador, a
+frascos de cristal, a molduras de retratos, a
+encaderna&ccedil;&otilde;es
+de devocionarios, etc, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Tanto menosprezamos os productos quanto
+desconhecemos as fontes da nossa civilisa&ccedil;&atilde;o
+artistica.
+<br />
+
+<br />
+
+A arte que menos estudamos &eacute; a arte hispanhola,
+&aacute; qual todavia indissoluvelmente nos
+prendem os mais estreitos vinculos de temperamento,
+<span class="pagenum">[136]</span>
+de tradi&ccedil;&atilde;o e de ideal. Juntamente com os
+hispanhoes recebemos dos arabes as primeiras influencias
+que em toda a produc&ccedil;&atilde;o artistica da Peninsula
+imprimiram a fei&ccedil;&atilde;o differencial mais
+caracteristica
+e mais indelevel. Aos califados, que
+cobriram de mesquitas Cordova, Sevilha, Granada,
+Santarem, Lisboa e Coimbra, devemos o
+toque de orientalismo peculiar das formas architectonicas
+do nosso stylo romanico, ogival e da
+renascen&ccedil;a. E da mesma procedencia, mosarabe
+ou mudejar, s&atilde;o algumas das nossas mais interessantes
+industrias, como a da filigrana, a dos azulejos,
+a das sedas, a do papel, a da encaderna&ccedil;&atilde;o, a
+dos couros lavrados, (a que chamavamos
+<em>cordov&otilde;es</em>
+por nos virem de Cordova) a das esteiras, a dos
+tapetes, a das obras de esparto, de palma, de pita.
+At&eacute; o fim do seculo XVI artistas portuguezes, leonezes,
+castelhanos, valencianos, aragonezes, catal&atilde;es,
+asturianos, tivemos um ideal commum nas
+letras, na architectura, na esculptura, na pintura,
+nas artes sumptuarias e nas artes industriaes, celebrando
+identicos feitos de guerra, de religi&atilde;o e
+de amor, servindo reis do mesmo sangue, heroes
+<span class="pagenum">[137]</span>
+das mesmas aventuras, santos e santas da mesma
+invoca&ccedil;&atilde;o popular.
+<br />
+
+<br />
+
+Das nossas rela&ccedil;&otilde;es com Flandres s&oacute;
+conheciamos&#8213;at&eacute;
+ha bem poucos annos&#8213;a influencia
+flamenga em Portugal, ignorando completamente
+a reciproca ac&ccedil;&atilde;o dos portuguezes em Gand, em
+Bruges, em Antuerpia. Foi o sr. Joaquim de Vasconcellos
+quem, investigando os annaes das confrarias
+e o archivo das feitorias de Portugal, consignou
+que, em resultado da protec&ccedil;&atilde;o dada aos
+artistas nacionaes por D. Jo&atilde;o II e por D. Manoel,
+de uma s&oacute; vez chegaram a reunir-se em Paris cincoenta
+pensionistas portuguezes. Aos trabalhos do
+mesmo investigador se deve acharem-se hoje apurados
+varios nomes de pintores de Portugal trabalhando
+em Flandres, entre os quaes Edwart
+Portugalois, discipulo de Quintino Metsys, proclamado
+em 1504 mestre pintor da confraria de
+S. Lucas de Antuerpia.
+<br />
+
+<br />
+
+Os trabalhos do sr. Joaquim de Vasconcellos
+est&atilde;o sendo diligentemente continuados pelo sr.
+Sousa Viterbo, na Torre do Tombo, e pelo sr. Joaquim
+Mauricio Lopes, nosso consul, em Antuerpia.
+<span class="pagenum">[138]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Em uma recente publica&ccedil;&atilde;o do sr. Mauricio
+Lopes, <em>Les portugais &agrave; Envers au
+XVI<sup>&egrave;me</sup> si&egrave;cle</em>,
+demonstra-se
+por meio dos mais expressivos documentos
+que a colonia portugueza, estabelecida
+em Flandres desde que em 1386 o duque de Borgonha
+Filippe-o-Ousado concedeu licen&ccedil;a para
+ahi viverem mercadores de Portugal e dos Algarves
+com as suas familias e os seus creados, foi
+para a civilisa&ccedil;&atilde;o que os acolheu de uma
+importancia
+incomparavelmente superior &aacute; que j&aacute;mais
+exerceu a colonia flamenga em Portugal.
+<br />
+
+<br />
+
+Os negocios dos portuguezes em Antuerpia, ao
+tempo da funda&ccedil;&atilde;o da primeira feitoria de
+Portugal
+por D. Manoel, negocios tendo por base,
+al&eacute;m das exporta&ccedil;&otilde;es do reino, o
+commercio das
+especiarias trazidas da India por Lisboa, montavam
+annualmente a cerca de cinco mil contos
+da nossa moeda actual. O numero das casas
+portuguezas em Antuerpia era de cento e doze.
+Os mercadores portuguezes representantes d'essas
+casas viviam com um fausto verdadeiramente
+principesco. Em 1594, por occasi&atilde;o da entrada
+triumphal de Filippe II, herdeiro de Carlos V, a
+<span class="pagenum">[139]</span>
+cavalgada portugueza ficou memoravel. Compunha-se
+de vinte senhores e de quarenta creados,
+montando todos cavallos peninsulares, ricamente
+ajaezados. Os senhores trajavam de brocado e seda
+c&ocirc;r de purpura, bordada de ouro e de rubis, com
+bot&otilde;es, passamanes e collares de ouro. Todos
+os gorros eram orlados de brilhantes. Os creados,
+equipados, de coura&ccedil;a e espada, vestiam libr&eacute;s
+de seda verde e branca, com as bainhas das
+espadas de seda branca.&#8213;O que era, segundo o
+chronista Cornelius Grapheus, <em>chose moult riche et
+triomphante &agrave; voir</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas festas da entrada em Antuerpia de Ernesto
+d'Austria, governador dos Paizes Baixos, os portuguezes
+erigiram um arco triumphal, em que se
+viam as figuras da Mauritanea, do Brasil, da Etiopia,
+da India, da Persia, do Ganges, do Rio da
+Prata, com as estatuas de Filippe I, do principe
+Filippe de Hispanha, de D. Jo&atilde;o II e de D. Manoel.
+Em outro arco de triumpho, delineado por
+Ludovicus Nonnius e consagrado a Fernando
+d'Austria, em 1635, expuzeram os portuguezes diversos
+quadros representando, entre outras, as allegorias
+<span class="pagenum">[140]</span>
+da Victoria, da Clemencia, da Felicidade,
+da Religi&atilde;o, e os retratos de D. Affonso Henriques,
+D. Jo&atilde;o I, D. Manoel e D. Filippe II.
+<br />
+
+<br />
+
+Um d'esses portuguezes, o feitor Antonio Cirne,
+natural do Porto, nos saraus do Palacio chamado
+de Portugal, pretextando que a turba ou a lenha
+cheiravam mal, mandava cosinhar as eguarias
+com fogo de canela, e queimar canela em todas
+as fogueiras das chamin&eacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+Outro portuguez, Sim&atilde;o Rodrigues d'Evora, era
+bar&atilde;o de Rhodes, cavalleiro, senhor de Tewerden,
+de Broeckstraate; pela sua enorme fortuna
+lhe chamavam o <em>rei pequeno</em>; possuia
+muitos predios
+na principal arteria da cidade, e habitava um
+d'elles, em que successivamente se hospedaram a
+infanta D. Izabel, a rainha Maria de Medicis e o
+principe cardeal Fernando d'Austria; fundou, com
+o fim caritativo de recolher doze senhoras da nobreza
+ou da burguezia reduzidas &aacute; indigencia, o
+hospicio de Sant'Anna, onde um triptyco de Otto
+Venius representava o retrato do fundador com
+seus filhos e sua mulher D. Anna Lopes Ximenes
+de Arag&atilde;o.
+<span class="pagenum">[141]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+O luxo da colonia portugueza em Antuerpia
+assumia muitas vezes o mais nobre e mais alto
+caracter artistico. A enthusiastica hospitalidade
+conferida pelos portuguezes a Alberto D&uuml;rer ficou
+assignalada pelas grandes festas a que deu origem.
+D&uuml;rer retribuiu esses favores com presentes
+de quadros e de gravuras aos feitores e aos negociantes
+de Portugal.
+<br />
+
+<br />
+
+Diogo Duarte, filho de Gaspar Duarte, possuia
+uma das primeiras galerias de pintura em Flandres.
+Foi recentemente publicado na Hollanda um
+catalogo dos seus quadros, entre os quaes havia
+obras de D&uuml;rer, de Breughel, de Metsys, de Maubeuge,
+de Ticiano, de Tintoreto, de Andrea del
+Sarto, e um Raphael, que constava haver sido adquirido
+do principe D. Manoel de Portugal em
+troco de diamantes no valor de 2:200 florins.
+<br />
+
+<br />
+
+Muitos dos nossos compatriotas estabelecidos
+em Flandres cultivavam as sciencias e as letras,
+contando-se entre elles professores, medicos, escriptores
+celebres, como Amato Lusitano, Rodrigo
+de Castro, Garcia Lopes, Dami&atilde;o de Goes, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Outro curioso symptoma da nossa desaffei&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum"><a name="p142" id="p142">[142]</a></span>
+dos estudos da arte nacional &eacute; a
+estagna&ccedil;&atilde;o das
+velhas id&eacute;as preconcebidas na
+aprecia&ccedil;&atilde;o dos nossos
+monumentos architectonicos. J&aacute; me referi ao
+&ocirc;co basbaquismo <a href="#e5">privilegiado</a>
+de que &eacute; objecto
+absorvente o monumento da Batalha. Devo aclarar
+um pouco mais, ainda que rapidamente, esse
+phenomeno.
+<br />
+
+<br />
+
+Por notavel supersti&ccedil;&atilde;o epidemica, por inercia
+de espirito, por servilismo intellectual, por pedantismo
+classico, por costume, por commodidade,
+por conven&ccedil;&atilde;o admirativa, ou por qualquer outro
+motivo, os criticos portuguezes, que mais teem
+governado a opini&atilde;o, estabeleceram axiomaticamente,
+como coisa definitivamente demonstrada
+e assente, que o unico puro e genuino exemplar
+de stylo gothico existente em Portugal &eacute; o da
+Batalha. Toda a modifica&ccedil;&atilde;o nas linhas
+constructivas
+ou nos motivos ornamentaes d'esse typo
+passou, por effeito de tal dogma, a qualificar-se
+de <em>decadencia</em>. Capellas imperfeitas,
+decadencia!
+Claustro dos Jeronymos, decadencia! Egreja de
+Christo e de S. Jo&atilde;o em Thomar, decadencia!
+Santa Cruz e S. Marcos, em Coimbra, decadencia!
+<span class="pagenum">[143]</span>
+Decadencia emfim toda a obra architectonica
+da &eacute;poca manoelina.
+<br />
+
+<br />
+
+A termos acceitado tal principio na sua
+applica&ccedil;&atilde;o
+pratica, teriamos tido na nossa architectura
+ogival do seculo XVI um neo-gothico, fixo e invariavel,
+como o neo-greco-romano da renascen&ccedil;a,
+que &eacute; o triumpho consagrado do dogmatismo na
+arte, a immobilidade canonica nos systemas de
+construir, a cristalisa&ccedil;&atilde;o da rotina, a
+sujei&ccedil;&atilde;o de
+toda a imagina&ccedil;&atilde;o, de todo o poder inventivo a
+uma formula invariavel. Teriamos tido de submetter-nos
+ao despotismo da Batalha, como t&atilde;o cegamente,
+t&atilde;o estupidamente, t&atilde;o inconcebivelmente,
+nos temos submettido por tantas centenas
+de annos ao despotismo de Vitruvio e das
+suas cinco ordens, com os seus correspondentes
+aphorismos de propor&ccedil;&atilde;o e de symetria, seu
+pedestal,
+sua columna e seu entablamento, repetindo
+sempiternamente, sobre os mesmos dados estaticos,
+o mesmo denticulo, o mesmo modilh&atilde;o, a
+mesma canelura, o mesmo triglypho, a mesma
+g&ocirc;ta, a mesma carranca! Ora precisamente o stylo
+manoelino da nossa architectura, com toda a sua
+<span class="pagenum">[144]</span>
+effus&atilde;o esculptural, com todo o avassalante symbolismo
+dos seus motivos ornamentaes, com toda
+a arbitrariedade dos seus processos, com todas as
+suas despropor&ccedil;&otilde;es e todas as suas assymetrias,
+n&atilde;o &eacute; precisamente sen&atilde;o a
+contraposi&ccedil;&atilde;o da liberdade
+creativa dos nossos architectos-esculptores
+&aacute; enfatua&ccedil;&atilde;o idolatrica, &aacute;
+pedantesca preceitua&ccedil;&atilde;o
+rhetorica, ao esmagador e exhaustivo despotismo
+das <em>cinco ordens</em>, com que o
+neo-classicismo
+da renascen&ccedil;a razoirou todo o talento humano.
+O stylo gothico prestava-se como nenhum
+outro, pela extrema flexibilidade dos seus principios
+fundamentaes, aos desenvolvimentos de pura
+arte, com que o esculptor, completando a obra do
+engenheiro, e fazendo-se assim architecto, pode
+aviventar a pedra de um edificio, convertendo-a
+n'um elemento de sympathia e de solidariedade
+social, fazendo vibrar na palpita&ccedil;&atilde;o do seu lavor
+evoca&ccedil;&otilde;es de id&eacute;as e de sentimentos
+proprios dos
+homens da sua ra&ccedil;a e da sua terra. Os artistas
+manoelinos n&atilde;o teriam feito talvez monumentos
+<em>correctos</em>, na access&atilde;o
+indigente em que as academias
+empregam esta palavra, mas fizeram monumentos
+<span class="pagenum">[145]</span>
+<em>expressivos</em>,&#8213;o que &eacute;
+melhor. Porque n&atilde;o
+s&atilde;o as academias que pautam as
+propor&ccedil;&otilde;es e os
+limites da crea&ccedil;&atilde;o artistica. Tudo o que se pode
+formular em preceito cessa de ter valor em arte.
+A obra de arte n&atilde;o &eacute; um producto de escola:
+&eacute;
+a livre express&atilde;o individual de uma alma, convertida
+em realidade objectiva, e communicando
+aos homens uma vibra&ccedil;&atilde;o nova do sentimento.
+<br />
+
+<br />
+
+A superioridade ou a inferioridade de um artista,
+a sua categoria, deduz-se da maior ou menor
+quantidade das id&eacute;as que a sua obra suggere
+e dos sentimentos cuja percuss&atilde;o ella determina.
+Nos monumentos architectonicos &eacute; pela
+sobreposi&ccedil;&atilde;o do ornato esculptural &aacute;s
+linhas geometricas
+da construc&ccedil;&atilde;o que a arte se exerce. &Eacute;
+principalmente na esculptura que reside a express&atilde;o
+poetica do monumento.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Portugal teem sido acusados os architectos
+manoelinos de invadirem pelo vegetabilismo ornamental
+todos os perfis da construc&ccedil;&atilde;o, submettendo
+assim as f&oacute;rmas constructivas &aacute;
+ornamenta&ccedil;&atilde;o
+esculptural. Os grandes criticos da Inglaterra,
+que t&atilde;o consideravel impulso teem dado
+<span class="pagenum">[146]</span>
+&aacute;s id&eacute;as estheticas e &aacute; moderna
+evolu&ccedil;&atilde;o artistica,
+entendem por&eacute;m, ao contrario dos nossos, que a
+sciencia de edificar e de dispor linhas &eacute; na
+construc&ccedil;&atilde;o
+de um monumento um ramo secundario
+da arte de esculpir. Esta affirmativa envolve a
+consagra&ccedil;&atilde;o da escola manoelina pela critica que
+n'este seculo mais minuciosamente e mais profundamente
+tem estudado a arte gothica e a arte da
+renascen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Nada todavia mais afflictivo, de peor indicio
+para os destinos nacionaes da arte, que o descaso
+do publico, pervertido em seu instincto pela carunchosa
+doutrina academica, perante esses monumentos
+em que sob, o reinado de D. Manoel, os
+artistas portuguezes t&atilde;o vigorosamente accentuaram
+a palpita&ccedil;&atilde;o victoriosa do genio, da
+originalidade,
+da poesia, da gloria do povo lusitano.
+<br />
+
+<br />
+
+O que se convencionou chamar
+<em>decadencia</em> na
+ultima evolu&ccedil;&atilde;o do stylo gothico em Portugal
+&eacute; a
+modifica&ccedil;&atilde;o portugueza d'esse stylo, &eacute;
+a sua nacionalisa&ccedil;&atilde;o,
+&eacute; a originalidade local, imposta pelos architectos
+portuguezes do seculo XVI, a um systema
+geral de construc&ccedil;&atilde;o, commum a toda a Europa.
+<span class="pagenum">[147]</span>
+Dir&atilde;o que n&atilde;o &eacute; isso precisamente um
+novo stylo.
+Certamente que n&atilde;o, se unicamente chamarmos
+stylo novo em architectura &aacute;
+constitui&ccedil;&atilde;o complexa
+e integral de todo um systema de edificar.
+Mas, se tomarmos a palavra stylo em tal accep&ccedil;&atilde;o,
+nenhum stylo &eacute; novo em toda a architectura da
+edade m&eacute;dia e da renascen&ccedil;a. Todo o processo
+constructivo nos veiu inicialmente da Grecia, de
+Roma, de Bysancio, da Syria, do Egypto. Os mesmos
+gregos n&atilde;o inventaram a columna, nem os
+romanos descobriram a abobada. O que constitue
+a originalidade na architectura de qualquer povo
+&eacute;, como em Portugal, na &eacute;poca manoelina, a
+subordina&ccedil;&atilde;o
+de um systema qualquer de geometria
+architectural &aacute;s condi&ccedil;&otilde;es do clima e
+da paizagem,
+&aacute; natureza dos materiaes empregados, &aacute; flora,
+&aacute; fauna, &aacute; concep&ccedil;&atilde;o
+religiosa, &aacute; historia, &aacute;
+poesia, ao temperamento e &aacute; psychologia dos artistas,
+em cada regi&atilde;o. Quanto mais intensa for a
+interven&ccedil;&atilde;o d'esses factores mais original
+ser&aacute; a
+obra. Assim, na evolu&ccedil;&atilde;o do gothico na
+architectura
+portugueza, quanto menos modificado, isto
+&eacute;, quanto mais <em>puro</em>
+f&ocirc;r o stylo, mais insignificante
+<span class="pagenum">[148]</span>
+ser&aacute; o monumento como documenta&ccedil;&atilde;o
+artistica,
+como express&atilde;o social.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; &aacute; <em>decadencia</em>
+do gothico da Batalha que n&oacute;s
+devemos o incomparavel claustro dos Jeronymos,
+segundo Haupt <em>o mais bello claustro de todo o
+mundo</em>, bem como a fachada da egreja de Christo,
+em Thomar, onde a flammejante janella da sala
+do capitulo &eacute; a obra mais eloquente, mais convicta,
+mais poetica, mais enthusiasticamente patriotica,
+mais estremecidamente portugueza, que j&aacute;mais
+realisou em nossa ra&ccedil;a o talento de esculpir
+e de fazer cantar a pedra.
+<br />
+
+<br />
+
+Na ornamenta&ccedil;&atilde;o d'essa janella, em que,
+juntamente
+com o sentimento mais entranhado das
+energias da natureza, rebenta, palpita e brada, em
+torno da id&eacute;a christ&atilde;, todo o sagrado pantheismo
+das velhas religi&otilde;es da India, conjugam-se, n'uma
+gloriosa harmonia de antiphona a toda a voz, acompanhada
+ao org&atilde;o, no deslumbramento dos cirios,
+no aroma das a&ccedil;ucenas, no fumo dos thuribulos
+doirado pelo sol, os elementos decorativos do symbolismo
+mais poderoso, da suggest&atilde;o mais profunda.
+O artista, em plena posse da sua id&eacute;a, em
+<span class="pagenum">[149]</span>
+completa independencia do seu espirito, em inteira
+liberdade dos seus meios de execu&ccedil;&atilde;o, desdiz
+todos os votos, abjura todos os principios, renega
+todos os canones, infringe todas as regras, e
+prescinde de todo o applauso dos mestres, sufocando
+nas entranhas da sua propria vaidade a
+opini&atilde;o de si mesmo, unicamente porque tem f&eacute;
+na verdade que enuncia, porque concentrou toda
+a for&ccedil;a da sua alma, toda a energia do seu cerebro,
+toda a paix&atilde;o do seu sangue, no amor da obra
+em que elle representa o pensamento que o domina.
+E em torno d'elle e d'esse objecto amado,
+como em torno de todos os que verdadeiramente
+amam, tudo mais na terra acabou e desappareceu.
+<br />
+
+<br />
+
+As columnas na janella da sala do capitulo s&atilde;o
+polipeiros de coral, dos mais profundos recifes do
+Oceano, e troncos d'essa palmeira, cuja sombra
+cobriu o ber&ccedil;o da civilisa&ccedil;&atilde;o no
+littoral mediterraneo,
+providencia dos peregrinos nos oasis do
+deserto, &aacute; qual os arabes da Peninsula dedicavam
+uma festa de primavera, tendo por fundamento a
+dissemina&ccedil;&atilde;o do polen,&#8213;a arvore santa, a arvore
+<span class="pagenum">[150]</span>
+da Biblia, a arvore de Jesus, cujo ramo symbolico
+&eacute; um attributo da paix&atilde;o e da paschoa, da
+gloria e do martyrio. Os demais elementos decorativos
+s&atilde;o as ondas do mar, taes como ellas se
+representam na heraldica; s&atilde;o os troncos seculares
+e as raizes profundas dos sobreiros dos nossos
+montes, extrema express&atilde;o de for&ccedil;a na fecundidade
+da seiva, que prende o roble, assim como
+a tradi&ccedil;&atilde;o e a familia prendem a debil e errante
+creatura humana, ao cora&ccedil;&atilde;o da terra em que
+nasceu. Guizeiras, como as das mulas de tiro
+engatadas &aacute; carreta alemtejana, emmolham contorcidas
+varas de sobro e de azinho, como nos
+feixes de lictor da magistratura romana. Solidas
+correntes e possantes cabos de bordo, de que
+pendem em discos as boias de corti&ccedil;a, enla&ccedil;am
+a decora&ccedil;&atilde;o, amarrando-a vigorosamente
+&aacute;
+empena por fortes argol&otilde;es, como se amarraria
+uma nau ao caes de um porto. Toda a composi&ccedil;&atilde;o,
+partindo das espaduas de um homem, que
+parece sustentar-lhe todo o peso, ascende n'uma
+trepida&ccedil;&atilde;o de algas e de folhagens para a cruz de
+Christo entre as espheras que tomara por empresa
+<span class="pagenum">[151]</span>
+o rei venturoso de Portugal triumphante na vastid&atilde;o
+dos mares, em todo o circuito do globo. E o
+poema esculptural remata por cima da janella na
+rosacea magestosa do templo, formada em circulo
+pelas pregas e pelo bolso arfante da vela rizada
+de um gale&atilde;o da India.
+<br />
+
+<br />
+
+O nosso povo por&eacute;m desaprendeu de ver a
+obra artistica do seu passado, e nem sequer levanta
+os olhos para os seus mais communicativos
+monumentos, que ninguem lhe explica, que
+ninguem o ensina a comprehender e a amar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Resumamos agora a historia do que officialmente
+se tem feito no intuito malogrado de proteger
+os monumentos publicos e de conservar e
+defender os productos d'arte.
+<br />
+
+<br />
+
+Em julho de 1890 o ent&atilde;o ministro da
+Instruc&ccedil;&atilde;o
+Publica consultou sobre a quest&atilde;o de que se
+trata uma commiss&atilde;o de artistas, de archeologos e
+de escriptores. Da resposta, at&eacute; hoje inedita, d'essa
+commiss&atilde;o, de que me coube a honra de ser relator,
+transcreverei alguns periodos.
+<br />
+
+<br />
+
+O arrolamento da nossa riqueza artistica, que
+<span class="pagenum">[152]</span>
+se prop&otilde;e effectuar o ministerio da
+instruc&ccedil;&atilde;o publica
+e das bellas artes &eacute;&#8213;ponderava o relatorio&#8213;a
+pedra fundamental de toda a construc&ccedil;&atilde;o destinada
+a dar &aacute; arte portugueza o logar que lhe compete
+na historia geral da nacionalidade, na orienta&ccedil;&atilde;o
+do sentimento collectivo do povo, no conjuncto
+dos elementos de impuls&atilde;o e de progresso
+para o desenvolvimento das industrias, no respeito
+do paiz, emfim, e no da Europa.
+<br />
+
+<br />
+
+O inventario de que se trata, comprehendendo
+n&atilde;o s&oacute; os edificios monumentaes mas os documentos
+archeologicos e os productos artisticos de
+toda a especie, seria, primeiro que tudo, a
+documenta&ccedil;&atilde;o
+preciosa para a historia da arte em
+Portugal,&#8213;determina&ccedil;&atilde;o
+das suas origens ethnicas
+e sociaes, fixa&ccedil;&atilde;o dos seus caracteres
+distinctivos
+e sua rela&ccedil;&atilde;o com a psychologia do povo, com
+os sentimentos, com as aspira&ccedil;&otilde;es, com as ideias,
+com os costumes e com as institui&ccedil;&otilde;es sociaes.
+Esse repositorio tornar-se-ia o espelho em que se
+achariam reflectidas, com todas as suas modalidades,
+segundo as influencias especiaes de cada &eacute;poca,
+de cada phase de cultura, de cada estadio social,
+<span class="pagenum">[153]</span>
+todas as for&ccedil;as emotivas, todas as aptid&otilde;es
+estheticas da nossa ra&ccedil;a. A historia dos seus monumentos
+&eacute; para cada povo a historia da sua individualidade,
+porque n&atilde;o ha monumento artistico
+que n&atilde;o traduza, mais ou menos directamente,
+a ac&ccedil;&atilde;o intellectual e politica da sociedade que
+o
+concebeu.
+<br />
+
+<br />
+
+A ideia do inventario projectado n&atilde;o &eacute;&#8213;para
+honra nossa&#8213;inteiramente nova. No reinado de
+D. Jo&atilde;o V existia na Bibliotheca Real uma obra
+em cinco volumes, datada de 1686 e intitulada
+&laquo;Theatro do reino de Portugal e dos Algarves
+por suas cidades, villas, fortes e fortalezas como
+que por scenas repartido.&raquo; Mais tarde mandou o
+referido soberano ao Padre Frei Luiz de S. Jos&eacute;,
+monge do Cister e artista peritissimo, que fizesse
+os debuxos de todas as povoa&ccedil;&otilde;es do Minho, o
+que elle cumpriu no anno de 1726. Por indica&ccedil;&atilde;o
+da Academia Real da Historia, e para o fim
+de inventariar e conservar os monumentos nacionaes,
+publicou-se o decreto de 20 de agosto de
+1721, e fundou-se o primeiro dos nossos museus
+archeologicos. Infelizmente os livros a que nos referimos
+<span class="pagenum">[154]</span>
+n&atilde;o chegaram a ser dados &aacute; estampa, e
+os originaes foram destruidos pelo terremoto de
+1755, juntamente com a Bibliotheca Real, e com
+o museu estabelecido nas casas dos duques de
+Bragan&ccedil;a, ao Thesouro Velho.
+<br />
+
+<br />
+
+As disposi&ccedil;&otilde;es do alvar&aacute; de 20 de
+agosto de
+1721 constam do seguinte trecho do mesmo alvar&aacute;:
+&laquo;Hei por bem que d'aqui em deante nenhuma
+pess&ocirc;a de qualquer estado, qualidade e
+condi&ccedil;&atilde;o que seja, desfa&ccedil;a ou destrua
+em todo
+nem em parte, qualquer edificio, que mostre ser
+d'aquelles tempos (assim designados: Phenices,
+Gregos, Persos, Romanos, Godos e Arabios) ainda
+que em parte esteja arruinado; e da mesma sorte
+as estatuas, marmores e cippos em que estiverem
+esculpidas algumas figuras, ou tiverem letreiros
+phenices, gregos, etc.; ou laminas, ou chapas de
+qualquer metal, que contiverem os ditos letreiros,
+ou caracteres; como outrosi medalhas ou moedas,
+que mostrarem ser d'aquelles tempos, nem
+dos inferiores at&eacute; o reinado do Senhor Rey D.
+Sebasti&atilde;o;
+nem encubr&atilde;o ou ocultem alguma das
+sobreditas cousas: e encarrego &aacute;s camaras das cidades
+<span class="pagenum">[155]</span>
+e villas d'este reyno tenham muito particular
+cuidado em conservar e guardar todas as antiguidades
+sobreditas, e de semelhante qualidade
+que houver ao presente, ou ao deante se descobrirem
+nos limites do seu districto; e logo que se
+achar ou descobrir alguma de novo, dar&atilde;o conta
+ao secretario da dita Academia Real para elle a
+communicar ao director e censores, e mais academicos;
+e o dito director e censores, com a noticia
+que se lhes participar, poder&atilde;o dar a providencia
+que lhes parecer necessaria para que melhor se
+conserve o monumento assim descoberto. Etc.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Em 4 de fevereiro de 1802, novo alvar&aacute; sobre
+a mesma materia, assim designado: &laquo;Alvar&aacute; com
+for&ccedil;a de lei pelo qual Vossa Alteza Real he servido
+suscitar o alvar&aacute; de lei de 20 de agosto de
+1721, ordenado em beneficio da Academia Real
+da Historia Portugueza para a conserva&ccedil;&atilde;o e
+integridade
+das estatuas, marmores, cippos, e outras
+pe&ccedil;as de Antiguidade: mandando que as
+func&ccedil;&otilde;es
+do mesmo Alvar&aacute;, que at&eacute; agora pertenciam
+ao secretario da dita Real Academia, fiquem da
+data do presente em deante pertencendo ao Bibliothecario
+<span class="pagenum">[156]</span>
+Maior da Bibliotheca Publica; tudo
+na forma acima declarada.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Em janeiro de 1844 o Bibliothecario M&oacute;r da
+Bibliotheca Nacional de Lisboa Jos&eacute; Feliciano de
+Castilho, informava o respectivo ministro nos seguintes
+termos: &laquo;Para o bibliothecario m&oacute;r passaram
+attribui&ccedil;&otilde;es que competiam &aacute; Academia
+Real da Historia, mas infelizmente essa lei vigente
+tem sido at&eacute; hoje letra morta, a tal ponto que
+at&eacute;
+ignoram as suas disposi&ccedil;&otilde;es os proprios
+encarregados
+do seu cumprimento, com grave detrimento,
+n&atilde;o s&oacute; d'este magnifico repositorio, que ha
+muitos
+annos se acha estacionario em aquisi&ccedil;&otilde;es
+archeologicas,
+mas tambem de todo o reino, onde o bibliothecario
+m&oacute;r deveria sempre ter, por obriga&ccedil;&atilde;o
+do seu cargo, promovido a conserva&ccedil;&atilde;o e
+seguran&ccedil;a
+dos monumentos que n&atilde;o podem ou n&atilde;o
+devem transportar-se.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Em seguido prop&otilde;e o bibliothecario que se torne
+effectiva a responsabilidade dos governadores civis
+no cumprimento da lei de 20 de agosto de
+1721; que esses funccionarios se correspondam
+regularmente com o bibliothecario, etc.
+<span class="pagenum">[157]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Ficou por&eacute;m t&atilde;o morta a letra d'essa consulta
+como a da lei a que ella se refere.
+<br />
+
+<br />
+
+Por decreto de 10 de novembro de 1875 &eacute; nomeada
+uma commiss&atilde;o para prop&ocirc;r ao governo,
+com a reforma do ensino das Bellas Artes e com
+o plano de um museu, &laquo;as providencias que julgar
+mais adquadas &aacute; conserva&ccedil;&atilde;o, guarda e
+repara&ccedil;&atilde;o
+dos monumentos historicos e dos objectos
+archeologicos, de importancia nacional, existentes
+no reino.&raquo; A commiss&atilde;o alludida responde ao
+governo
+por meio da memoria redigida pelo marquez
+de Sousa Holstein, e assim se desempenha
+do encargo que lhe f&ocirc;ra confiado.
+<br />
+
+<br />
+
+A louvavel diligencia empregada a convite do
+governo pela Real Associa&ccedil;&atilde;o dos Architectos
+Civis
+e Archeologos Portuguezes, para o fim de lan&ccedil;ar
+em 1880 as bases de uma inventaria&ccedil;&atilde;o systematica
+dos monumentos nacionaes, n&atilde;o foi, assim
+como o zeloso trabalho da commiss&atilde;o de 1875,
+seguida de resultados praticos.
+<br />
+
+<br />
+
+Independentemente da preceitua&ccedil;&atilde;o official,
+teem sido modernamente do mais importante auxilio
+para o conhecimento dos nossos valores artisticos
+<span class="pagenum">[158]</span>
+a Exposi&ccedil;&atilde;o Retrospectiva de Arte Ornamental,
+celebrada em Lisboa em 1882, a exposi&ccedil;&atilde;o
+de Coimbra, a exposi&ccedil;&atilde;o de Aveiro, a
+exposi&ccedil;&atilde;o
+de Guimar&atilde;es, a recente exposi&ccedil;&atilde;o do
+centenario
+antonino, e as exposi&ccedil;&otilde;es de ourivesaria e
+de ceramica promovidas e effectuadas no Palacio
+de Cristal do Porto pela muito benemerita Sociedade
+de Instruc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+De algumas das exposi&ccedil;&otilde;es alludidas ficaram
+documentos de alto valor. Imprimiram-se relatorios
+de muita importancia, e numerosos productos
+expostos foram reproduzidos pelo desenho e pela
+photographia. Da valiosa collec&ccedil;&atilde;o photographica,
+para a qual principalmente contribuiram Carlos
+Relvas, Pardal, Rochini, Biel &amp; Companhia, bem
+como dos catalogos dos museus e das exposi&ccedil;&otilde;es
+celebradas, se poderia extrahir desde j&aacute; um
+esbo&ccedil;o
+de inventario, que n&atilde;o seria difficil aperfei&ccedil;oar
+e
+prehencher, emprehendendo novas exposi&ccedil;&otilde;es e
+systematisando completamente as investiga&ccedil;&otilde;es e
+os estudos correlativos.
+<br />
+
+<br />
+
+A commiss&atilde;o de 1890, a que acima me referi,
+propunha que, sem prejuizo das pesquisas que,
+<span class="pagenum">[159]</span>
+conv&eacute;m continuar, para recolher ou arrolar os valores
+artisticos que ainda se conservam ignorados
+em poder de corpora&ccedil;&otilde;es ou de particulares, a
+commiss&atilde;o
+incumbida do inventario geral e definitivo
+desse quanto antes principio aos seus trabalhos,
+tomando por materia as pe&ccedil;as de que ha conhecimento,
+j&aacute; pelo exame de que foram objecto
+nos museus onde existem, ou nas exposi&ccedil;&otilde;es
+at&eacute;
+hoje feitas, j&aacute; pelos catalogos e relatorios que
+d'essas exposi&ccedil;&otilde;es existem, j&aacute; pela
+consideravel
+collec&ccedil;&atilde;o de photographias que reproduzem os
+objectos expostos.
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto &aacute; cataloga&ccedil;&atilde;o e &aacute;
+conserva&ccedil;&atilde;o dos
+objectos pertencentes a particulares ou a
+corpora&ccedil;&otilde;es
+de caracter civil ou religioso, n&atilde;o conviria
+desde j&aacute; estabelecer principios absolutos. O modo
+de proceder dos delegados do governo em tal servi&ccedil;o
+seria indicado pelas circumstancias particulares
+de cada occorrencia, sendo por&eacute;m altamente
+para desejar que os prelados do reino, conscientes
+dos estreitos vinculos que ligam o esplendor das
+artes &aacute; gloria do catholicismo, conseguissem fazer
+penetrar na convic&ccedil;&atilde;o das auctoridades
+eclesiasticas
+<span class="pagenum">[160]</span>
+das suas circumscrip&ccedil;&otilde;es quanto &eacute;
+inseparavel
+da historia da egreja a historia da arte christ&atilde;, e
+quanto o museu, em paizes tradicionalmente catholicos,
+&eacute; ainda uma f&oacute;rma do culto ou um desdobramento
+d'elle na ordem civil, al&eacute;m de ser o
+permanente attestado da allian&ccedil;a da cren&ccedil;a
+religiosa
+com a immortal aspira&ccedil;&atilde;o da poesia no
+cora&ccedil;&atilde;o
+e no espirito da nossa ra&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Para regra definitiva do processo a que se refere
+o alvitre que acabo de expor &eacute; indispensavel que
+seja devidamente estudada e promulgada uma lei,
+semelhante &aacute; que existe hoje na Italia, em
+Fran&ccedil;a,
+nos Paizes Escandinavos, na Russia, na Hispanha,
+na Grecia, na Turquia, tendo por fim definir claramente
+e assegurar, de combina&ccedil;&atilde;o com a
+legisla&ccedil;&atilde;o
+canonica, com os principios da concordata
+e com a legisla&ccedil;&atilde;o geral da propriedade, os
+direitos
+especiaes do Estado com rela&ccedil;&atilde;o &aacute;
+guarda dos
+monumentos e &aacute; parte que elle tem na posse dos
+objectos d'arte, determinando assim o caracter especial
+da propriedade artistica.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma vez decretada essa lei fundamental, e assignalada
+a responsabilidade em que incorrem os
+<span class="pagenum">[161]</span>
+que a transgridam, deveriam formar-se as commiss&otilde;es
+regionaes, dependentes da commiss&atilde;o
+central, e incumbidas, em suas localidades, da
+guarda e da conserva&ccedil;&atilde;o dos monumentos e dos
+objectos d'arte. Estas commiss&otilde;es, &aacute;
+semelhan&ccedil;a
+do que foi disposto na lei italiana de 1878, da
+qual se inspirou em Fran&ccedil;a, para a
+organisa&ccedil;&atilde;o
+de eguaes servi&ccedil;os, a Direc&ccedil;&atilde;o das
+Bellas Artes,
+seriam compostas de oito vogaes, sendo quatro
+da nomea&ccedil;&atilde;o dos municipios e quatro da
+nomea&ccedil;&atilde;o
+do governo, com um architecto inspector adjuncto,
+sob a presidencia do governador civil ou
+do administrador do concelho.
+<br />
+
+<br />
+
+Em toda a parte, ainda nos mais abandonados
+recantos da provincia, ha sempre, onde existe um
+monumento, um homem pelo menos que o ama,
+que o estuda, que o comprehende. &Eacute; a
+collabora&ccedil;&atilde;o
+preciosa d'esses pobres poetas obscuros,
+d'esses modestos archeologos, ignorados da critica
+e do publico, que aos organisadores das commiss&otilde;es
+locaes compete acolher e utilisar.
+<br />
+
+<br />
+
+O processo de inventaria&ccedil;&atilde;o de cada
+pe&ccedil;a artistica
+constaria de duas partes.
+<span class="pagenum">[162]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+A primeira seria a reproduc&ccedil;&atilde;o photographica,
+ou em gesso, ou pela galvanoplastica,
+do objecto inventariado, com registro do respectivo
+clich&eacute; ou molde.
+<br />
+
+<br />
+
+A segunda, a confec&ccedil;&atilde;o de um simples verbete,
+impresso, correspondendo &aacute; photographia por meio
+de um numero de ordem, e satisfazendo os seguintes
+quesitos: 1.&ordm; Descrip&ccedil;&atilde;o summaria do
+objecto;
+2.&ordm; Logar onde elle se encontra; 3.&ordm; Nome do
+individuo
+ou da corpora&ccedil;&atilde;o em cuja posse se acha;
+4.&ordm; Antecedentes; 5.&ordm;
+Attribui&ccedil;&atilde;o; 6.&ordm;
+Avalia&ccedil;&atilde;o;
+7.&ordm; Escala em que houver sido feita a
+reproduc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Este systema, semelhante ao dos museus de
+Londres, de Berlim e de Vienna, &eacute; o mais simples,
+o mais economico, o mais pratico, o mais expedito.
+Com applica&ccedil;&atilde;o ao inventario da arte hispanhola
+elle foi proposto, pelo delegado de Portugal,
+ao grande jury da ultima exposi&ccedil;&atilde;o
+historico-europeia
+em Madrid. Uma real ordem o mandou
+p&ocirc;r em execu&ccedil;&atilde;o, tendo-o sanccionado a
+approva&ccedil;&atilde;o
+unanime de uma commiss&atilde;o presidida
+pelo sr. Canovas del Castillo e composta de criticos
+<span class="pagenum">[163]</span>
+de uma competencia indiscutivel e de uma
+notoriedade europeia.
+<br />
+
+<br />
+
+Com a collec&ccedil;&atilde;o completa das photographias e
+dos verbetes a que alludo, o estado, em Portugal,
+sem ter da riqueza artistica da na&ccedil;&atilde;o um
+inventario
+t&atilde;o desenvolvido e t&atilde;o perfeito como o
+que outros paizes possuem, teria no emtanto um
+arrolamento explicito, e achar-se-hia habilitado a
+ministrar-nos o mais efficaz meio de estudo.
+<br />
+
+<br />
+
+Da collec&ccedil;&atilde;o integral, subdividida em tantas
+series
+diversas quantos os differentes criterios de
+classifica&ccedil;&atilde;o que se lhe applicassem, se
+extrairiam
+collec&ccedil;&otilde;es especiaes, em
+edi&ccedil;&otilde;es mais ou menos
+modestas, relativas a cada ramo do ensino, geral ou
+especial, e destinadas &aacute;s escolas de bellas artes,
+&aacute;s escolas industriaes, aos museus das escolas primarias
+e secundarias, &aacute;s officinas, aos operarios,
+facultando assim, ou gratuitamente ou por infimo
+pre&ccedil;o, a todas as classes sociaes um pronto meio
+de conhecimento da historia geral da arte, da historia
+da arte em cada uma das suas mais especiaes
+applica&ccedil;&otilde;es, da evolu&ccedil;&atilde;o
+das f&oacute;rmas e do
+desenvolvimento dos stylos, na architectura, na
+<span class="pagenum">[164]</span>
+pintura, na esculptura, na marcenaria, na serralheria,
+na ourivesaria, na ceramica, em todos os
+ramos emfim do trabalho artistico e industrial.
+<br />
+
+<br />
+
+Eliminando os numeros que relacionam os verbetes
+com as photographias, os alumnos das escolas
+d'arte, procurando para cada photographia o
+verbete correlativo, e satisfazendo por esse processo
+aos mais variados quesitos de classifica&ccedil;&atilde;o,
+habituar-se-hiam, por meio dos exercicios mais
+simplesmente pedagogicos, a discernir as &eacute;pocas
+e os stylos, retendo todas as diversidades da f&oacute;rma
+pela memoria da vista.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m do que, com o material reunido para o
+inventario dos monumentos architectonicos e das
+riquezas artisticas da na&ccedil;&atilde;o, o estado fundaria
+simultaneamente
+o mais interessante museu de reproduc&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+A Commiss&atilde;o dos Monumentos Nacionaes n&atilde;o
+&eacute; inteiramente, pelos seus meios de
+ac&ccedil;&atilde;o e pelos
+seus fins, a commiss&atilde;o a que se refere a consulta
+de 1890. Parece-me indispensavel, antes de
+tudo, que esta commiss&atilde;o se reconstitua em bases
+mais amplas, e que d'ella se desdobre a commiss&atilde;o
+<span class="pagenum">[165]</span>
+do inventario geral da d'arte, ao qual &eacute;
+urgentissimo que se proceda.
+<br />
+
+<br />
+
+Na parte em que a commiss&atilde;o tem de responder
+pela conserva&ccedil;&atilde;o dos monumentos nacionaes,
+&eacute; preciso, a meu ver, que ella se complete,
+tanto no programma dos seus trabalhos como no
+pessoal que tem de p&ocirc;r em execu&ccedil;&atilde;o esse
+programma,
+n&atilde;o de um modo como at&eacute; hoje officioso
+e facultativo, mas rigorosamente obrigatorio, sendo-lhe
+indispensavel para esse effeito a aggrega&ccedil;&atilde;o
+e a collabora&ccedil;&atilde;o effectiva de dois architectos,
+a presidencia do sr. ministro, e a publica&ccedil;&atilde;o
+periodica
+de um boletim em que regularmente se
+communiquem ao publico os resultados do trabalho
+feito.
+<br />
+
+<br />
+
+Conseguidas as condi&ccedil;&otilde;es de consistencia
+technica,
+de auctoridade e de expediente, que no estado
+presente lhe fallecem e a innutilisam, cabe &aacute;
+commiss&atilde;o arrolar definitivamente, pela photographia
+e pela escripta, os monumentos confiados
+&aacute; sua guarda bem como as obras d'arte que o
+paiz possue; nomear as commiss&otilde;es locaes; definir
+claramente o que &eacute;
+<em>conservar</em>, o que &eacute;
+<em>restaurar</em>,
+<span class="pagenum">[166]</span>
+e o que &eacute; <em>continuar</em> ou
+<em>concluir</em> um monumento;
+redigir desenvolvidamente e em suas mais particulares
+minudencias (porque n'este ponto tudo
+est&aacute; por definir e por estabelecer) os programmas
+especiaes a que tem de satisfazer rigorosamente
+todo o projecto de conserva&ccedil;&atilde;o, de restauro
+ou de acabamento na obra de cada edificio.
+<br />
+
+<br />
+
+Os cuidados de
+<em>conserva&ccedil;&atilde;o</em>
+devem ser obrigatorios
+e extensivos a todos os monumentos. Para
+esse effeito o programma &eacute; simples, e a despesa
+insignificante, ainda perante os mais modestos recursos.
+As occasi&otilde;es em que cabe
+<em>restaurar</em> s&atilde;o
+relativamente raras. E nenhum edificio, qualquer
+que seja a sua importancia historica ou artistica,
+convem <em>concluir</em>, a n&atilde;o
+ser nos casos em que
+vantajosamente elle se possa adaptar a algum dos
+servi&ccedil;os vigentes da civilisa&ccedil;&atilde;o
+contemporanea.
+Este mesmo criterio economico se deveria applicar
+&aacute; opportunidade das
+<em>restaura&ccedil;&otilde;es</em>.
+Da inobservancia
+d'estes preceitos fundamentaes resultou
+o contrasenso de restaurar o edificio dos Jeronymos
+sem previamente se accordar no destino que
+tem de ter esse edificio, como se podesse ser indifferente,
+<span class="pagenum">[167]</span>
+no modo de reconstruir uma casa, que
+ella tenha de ser uma escola, um museu, um archivo,
+um recolhimento, um quartel, um banco ou
+uma habita&ccedil;&atilde;o particular!<sup><a href="#f1">[1]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ao governo de sua magestade, para esse fim
+solicitado pelos homens que com t&atilde;o patriotico
+<span class="pagenum">[168]</span>
+desinteresse constituem a Commiss&atilde;o dos Monumentos
+Nacionaes, compete prefazel-a e fortifical-a
+com a regulamenta&ccedil;&atilde;o e auctoridade de que
+ella carece, ou dissolvel-a.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Se o Estado n&atilde;o intervem cumpre aos governados
+levar a effeito, por um decisivo esfor&ccedil;o de
+<span class="pagenum">[169]</span>
+iniciativa, a obra a que se recusem os que governam.
+<br />
+
+<br />
+
+Est&aacute;-nos dado o exemplo na actividade e na
+abnega&ccedil;&atilde;o de alguns cidad&atilde;os
+benemeritos.
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. bispo-conde de Coimbra funda na sua
+diocese o mais completo e mais interessante museu
+de ourivesaria sagrada que existe em Portugal,
+<span class="pagenum">[170]</span>
+e emprehende e realisa, sob a intelligente
+collabora&ccedil;&atilde;o do sr. Antonio Augusto
+Gon&ccedil;alves, a
+restaura&ccedil;&atilde;o da S&eacute; Velha e a de Santa
+Cruz, com
+uma seguran&ccedil;a de criterio, de que n&atilde;o ha exemplo
+em obra alguma do mesmo genero modernamente
+consumada pelas officinas officiaes.
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. bispo de Beja applica um egual fervor &aacute;s
+obras do convento da Concei&ccedil;&atilde;o; e na mesma cidade
+de Beja por iniciativa da municipalidade, por
+concurso patriotico de alguns cidad&atilde;os, funda-se o
+mais copioso e o mais bem catalogado dos nossos
+museus archeologicos.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Evora o sr. Francisco Barahona custeia por
+si s&oacute; a dispendiosa repara&ccedil;&atilde;o do
+sumptuoso templo
+de S. Francisco, sem a qual teria j&aacute; desabado
+ou desabaria em breve a mais bella egreja portugueza
+do tempo D. Jo&atilde;o II.
+<br />
+
+<br />
+
+Na ultima visita que fiz, em setembro passado,
+&aacute; S&eacute; de Braga, ahi me foi affirmado que o
+respectivo
+prelado estava elaborando o projecto da
+reconstitui&ccedil;&atilde;o
+artistica d'aquelle importante monumento.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Cette e em Pa&ccedil;o de Sousa, camaras, juntas
+<span class="pagenum">[171]</span>
+de parochia, simples influencias individuaes invidam
+os mais louvaveis e mais instantes esfor&ccedil;os
+para a conserva&ccedil;&atilde;o dos monumentos gloriosos
+a que n'esses logares se alliam os nomes de
+Egas Moniz, de Gon&ccedil;alo Veques e de Estevam da
+Gama.
+<br />
+
+<br />
+
+A obra t&atilde;o desvelada da extincta Sociedade de
+Instruc&ccedil;&atilde;o do Porto e a da Sociedade Martins
+Sarmento,
+em Guimar&atilde;es, s&atilde;o verdadeiros monumentos
+de erudi&ccedil;&atilde;o, de estudo, de trabalho pratico, de
+piedade patriotica.
+<br />
+
+<br />
+
+Para a constitui&ccedil;&atilde;o integral da historia da arte
+e da tradi&ccedil;&atilde;o artistica portugueza, quantas
+contribui&ccedil;&otilde;es
+dedicadas, quantos esfor&ccedil;os individuaes,
+desassociados e dispersos, na obra, t&atilde;o incomprehendida
+e t&atilde;o despremiada, dos srs. Joaquim de
+Vasconcellos, Martins Sarmento, Antonio Augusto
+Gon&ccedil;alves, Gabriel Pereira, Sousa Viterbo, Luciano
+Cordeiro, Ferreira Caldas, Ribeiro Guimar&atilde;es,
+Alberto Sampaio, Julio de Castilho, Theophilo
+Braga, Leite de Vasconcellos, Pinho Leal,
+Albano Bellino, Teixeira de Arag&atilde;o, Vilhena Barbosa,
+Concei&ccedil;&atilde;o Gomes, Filippe Sim&otilde;es,
+Manoel
+<span class="pagenum">[172]</span>
+de Macedo, Jos&eacute; Pessanha, Fonseca Benevides,
+Valentim, Vieira Natividade, Figueiredo da Guerra,
+visconde de Condeixa, Borges de Figueiredo,
+Marques Gomes, Rodrigo Vicente de Almeida,
+Zephyrino Brand&atilde;o, Possydonio da Silva, Freitas
+Costa, Avelino Guimar&atilde;es, Freire d'Oliveira; e
+quantos outros, tanto mais sympathicos quanto
+mais obscuros!
+<br />
+
+<br />
+
+O unico inutil da phalange sou talvez eu, que
+em vez de uma accurada monographia, estou
+aqui fazendo um indice de assumptos, que s&oacute; devidamente
+trataria se de cada uma d'estas paginas
+tirasse um livro. Possam ellas ao menos communicar
+a outros cora&ccedil;&otilde;es a sympathia, que filialmente
+prende o meu &aacute; terra em que nasci, e &aacute;
+ra&ccedil;a
+de que procedo!
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; pelo culto da arte, invocado n'estas paginas,
+que a religi&atilde;o da nacionalidade se exteriorisa e se
+exerce.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde que nas consciencias se extinguiu a f&eacute;,
+&eacute; por meio da arte que as tradic&ccedil;&otilde;es
+se transmittem,
+que os sentimentos se coordenam, que os
+affectos se depuram, que as paix&otilde;es se enobrecem.
+<span class="pagenum">[173]</span>
+&Eacute; pela arte, que a exprime, que a poesia do christianismo
+sobreviver&aacute; aos seus dogmas no enternecimento,
+no amor, na saudade dos homens. &Eacute;
+tambem pela arte que em nossa memoria a poesia
+da historia sobreleva das institui&ccedil;&otilde;es, dos
+systemas,
+das theorias e dos homens, sobre que ella
+versa.
+<br />
+
+<br />
+
+A politica, depois da desastrosa fallencia de todas
+as modernas theorias liberaes, cessou por toda
+a parte de ser um foco de attrac&ccedil;&atilde;o para as
+id&eacute;as
+ou para os sentimentos humanos. As leis continuam
+a fazer-se com o destino unico de serem
+consecutivamente e invariavelmente decretadas,
+infringidas e revogadas, para se substituirem por
+leis novas, que por seu turno se decretam, se infringem
+e se revogam, como succedeu &aacute;s anteriores,
+como succeder&aacute; &aacute;s que se seguirem.
+<br />
+
+<br />
+
+No momento presente s&atilde;o unicamente os poetas,
+os philosofos e os artistas que governam espiritualmente
+o mundo. D'ahi, nos paizes de cultura
+mental, dominando todos os phenomenos da
+decadencia moderna, uma effus&atilde;o de sympathia,
+de tolerancia, de benevolencia, de perd&atilde;o, que
+<span class="pagenum">[174]</span>
+caracterisa bem o nosso tempo, e de que n&atilde;o ha
+na historia outro exemplo.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando recebemos da Inglaterra a ultima affronta
+de chancellaria, a que deu motivo o tratado
+de Louren&ccedil;o Marques, quem na minha susceptibilidade
+portugueza mais suavisou esse golpe foi o
+critico d'arte John Ruskin, proclamando solemnemente
+e categoricamente aos estudantes de Glascow
+que os estadistas inglezes (tratava-se ent&atilde;o
+do sr. Disra&euml;li e do sr. Gladstone) lhe n&atilde;o
+mereciam
+nem mais respeito nem mais considera&ccedil;&atilde;o
+que duas velhas gaitas de folle.
+<br />
+
+<br />
+
+Ruskin separava assim e distinguia radicalmente
+a Inglaterra do <em>Foreign Office</em> e de
+lord Salisbury,
+da Inglaterra de <em>South Kensington</em>,
+de <em>British Museum</em>,
+da <em>National Gallery</em>, de
+<em>Ruskin Museum</em>, de
+Darwin, de Spencer, de Carlos Dickens, de Turner,
+de Burne Jones, para a qual tender&aacute; sempre e
+irrevogavelmente
+a terna gratid&atilde;o do nosso espirito.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; unicamente pela arte, inherente &aacute; natureza
+humana, progressiva e eterna, que hoje em dia os
+homens se associam no destino e na solidariedade
+da especie.
+<span class="pagenum">[175]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; pela arte que o genio de cada ra&ccedil;a se
+patenteia,
+que a autonomia nacional de cada povo se
+revela na sua autonomia mental, e se affirma, n&atilde;o
+s&oacute; pela sua especial comprehens&atilde;o da natureza, da
+vida e do universo, mas pelo trabalho collectivo
+da communidade, na litteratura, na architectura,
+na musica, na pintura, na industria e no commercio.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; pelo culto da arte, e pela educa&ccedil;&atilde;o
+artistica
+que esse culto comprehende, que a produc&ccedil;&atilde;o
+industrial se especialisa, se valorisa pela originalidade
+caracteristica do producto, e transforma
+pela prosperidade, unicamente determinada pelo
+ensino, toda a economia de uma na&ccedil;&atilde;o, como se
+evidenciou nos ultimos tempos em Inglaterra, na
+Austria, na Allemanha, por via da simples
+reconstitui&ccedil;&atilde;o
+dos museus e da multiplica&ccedil;&atilde;o das
+escolas.
+<br />
+
+<br />
+
+Finalmente,&#8213;se para cada povo a arte &eacute; a
+seguran&ccedil;a
+da tradi&ccedil;&atilde;o, o refugio das consciencias,
+o mais puro reflexo da imagem benigna da patria,
+a fonte mais caudal de todos os progressos
+moraes, economicos e at&eacute; politicos,&#8213;para cada
+<span class="pagenum">[176]</span>
+homem, na tortura de tantas incertesas moraes
+na magoa e na ruina de tantas cren&ccedil;as extinctas,
+de tantos ideaes desfeitos no melancholico decurso
+da nossa edade, a arte &eacute; ainda&#8213;como diz
+Schopenhauer&#8213;<em>a unica fl&ocirc;r da
+vida</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Notas:</b>
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f1"></a><sup>[1]</sup> O
+conspicuo parecer, que, a respeito das obras dos Jeronymos,
+foi pelo sr. Luciano Cordeiro apresentado &aacute;
+Commiss&atilde;o dos
+Monumentos Nacionaes, em sess&atilde;o de 7 de novembro de 1895,
+termina,
+depois d'outras, pelas conclus&otilde;es seguintes:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;5.&ordf; O Templo deve ficar destinado,
+s&oacute;mente,
+&aacute;s grandes celebra&ccedil;&otilde;es
+religiosas do Estado, e a Galilea a jazida dos restos dos
+Descobridores e Navegadores portuguezes.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;6.&ordf; Todo o resto do monumental edificio deve ser
+destinado
+a alojamento e installa&ccedil;&atilde;o do Archivo Nacional,
+convindo que
+essa installa&ccedil;&atilde;o se ache concluida at&eacute;
+o mez de maio de 1897.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o concordo inteiramente com o sr. Luciano Cordeiro em
+que se transporte para o edificio annexo &aacute; egreja dos
+Jeronymos
+o archivo da Torre do Tombo, e t&atilde;o pouco em que se remova
+da egreja o exercicio parochial do culto.
+<br />
+
+<br />
+
+Por complexas raz&otilde;es, que n&atilde;o vem para aqui
+desenvolver, eu
+votaria por que, em vez do archivo da Torre do Tombo se estabelecesse
+o museu naval no edificio dos Jeronymos. E emquanto
+a egreja, al&eacute;m de que, em minha humilde opini&atilde;o,
+o clero
+a saberia sempre guardar muito melhor do que o estado, accresce
+ainda que a parochia de Santa Maria de Belem &eacute; uma
+institui&ccedil;&atilde;o
+historicamente sagrada, indissoluvelmente unida em nosso respeito
+&aacute; tradi&ccedil;&atilde;o do monumento. Foi o infante
+D. Henrique quem
+transformou o inhospito areal do Restello na linda freguezia de
+Belem, arroteando o solo, para refresco, abrigo e amparo espiritual
+dos navegantes, plantando arvores, dispondo hortas e pomares,
+abrindo fontes e construindo a primitiva ermida exactamente
+no mesmo logar em que se edificou a actual egreja. O pontifice Pio II
+confirmou por meio de uma bula a doa&ccedil;&atilde;o do
+infante &aacute; ordem de
+Christo, e instituiu em parochia a primeira egreja de Santa Maria de
+Belem, sem outro encargo para a ordem, para os navegantes e para
+o publico sen&atilde;o o de se rezar a cada missa, aos sabbados, um
+<em>Pater
+e uma Ave Maria pela salva&ccedil;&atilde;o da alma do infante
+D. Henrique
+e por a d'aquelles de quem era teudo</em>. O rei D.
+Manoel, tendo
+edificado a sumptuosa egreja e o mosteiro dos Jeronymos, na
+volta da armada de Vasco da Gama, depois do descobrimento da
+India, colloca a estatua do infante &aacute; porta da egreja,
+mantem a
+parochia, e determina, em cumprimento dos piedosos desejos de
+D. Henrique, que a cada missa, ao lavar das m&atilde;os, o
+sacerdote se
+volva para a gente, e diga em alta voz. &laquo;Rogae a Deus pela
+alma
+do infante D. Henrique, primeiro fundador d'esta casa, e por a de
+el rei D. Manoel, que a doou &aacute; ordem de Christo.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+A data d'esta carta de doa&ccedil;&atilde;o &eacute; de 26
+de dezembro de 1498.
+<br />
+
+<br />
+
+Seria, a meu ver, uma infidelidade, uma ingratid&atilde;o, e um
+torpe desacato remover a parochia de Santa Maria de Belem
+do logar em que seus gloriosos fundadores a estabeleceram, cabendo-nos
+pelo contrario o dever de reclamar dos poderes civis
+e dos poderes ecclesiasticos que o modesto voto dos fundadores
+se cumpra, como &eacute; de raz&atilde;o juridica e de
+probidade nacional,
+e que em cada missa conventual celebrada pelo parocho na
+egreja dos Jeronymos, o sacerdote se volte para o povo, ao
+<em>lavabo</em>,
+e pe&ccedil;a um <em>Pater</em> e uma
+<em>Ave Maria</em> pela alma do infante D.
+Henrique
+e pela de el-rei D. Manoel.
+<br />
+
+<br />
+
+Que se adopte por&eacute;m ou se n&atilde;o adopte a proposta
+do sr. Luciano
+Cordeiro, o que technicamente n&atilde;o &eacute; de certo
+admissivel &eacute;
+que as obras dos Jeronymos se prosigam e se concluam sem
+resolu&ccedil;&atilde;o
+tomada &aacute;cerca do destino que ha de ter o edificio em que
+taes obras se fazem.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 61px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p71">#p&aacute;g.
+71</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">ta boas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">taboas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p74">#p&aacute;g.
+74</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">onem</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">nem</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p74">#p&aacute;g.
+74</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">dimens&atilde;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">dimens&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e4" id="e4"></a><a href="#p105">#p&aacute;g.
+105</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">ascebispo</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">arcebispo</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e5" id="e5"></a><a href="#p142">#p&aacute;g.
+142</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">privilegido</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">privilegiado</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<div style="text-align: center;"><br />
+
+Variantes dos nomes pr&oacute;prios foram mantidas de acordo com o
+original.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+</div>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30456 ***</div>
+</body>
+</html>
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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+++ b/old/30456-8.txt
@@ -0,0 +1,3642 @@
+The Project Gutenberg EBook of O culto da arte em Portugal, by
+Jos Duarte Ramalho Ortigo
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O culto da arte em Portugal
+
+Author: Jos Duarte Ramalho Ortigo
+
+Release Date: November 12, 2009 [EBook #30456]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CULTO DA ARTE EM PORTUGAL ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
+
+
+
+ *Nota de editor:* Devido quantidade de erros tipogrficos
+ existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto
+ verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrar a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Nov. 2009)
+
+
+
+
+O CULTO DA ARTE
+
+EM
+
+PORTUGAL
+
+
+
+
+_RAMALHO ORTIGO_
+
+
+O CULTO DA ARTE EM PORTUGAL
+
+
+
+_Monumentos architectonicos--Restauraes--Desacatos
+Pintura e esculptura--Artes industriaes
+O genio e o trabalho do povo--Indifferena oficial--Decadencia
+Anarchia esthetica
+Desnacionalisao da arte--Dissoluo dos sentimentos
+Urgencia de uma reforma_
+
+
+
+
+LISBOA
+Antonio Maria Pereira, Livreiro-Editor
+50--Rua Augusta--52
+1896
+
+
+
+
+Typographia da Academia Real das Sciencias de Lisboa
+
+
+
+
+_ Commisso dos Monumentos Nacionaes_
+
+
+dedica respeitosamente
+este humilde trabalho
+
+
+_O AUCTOR_
+
+
+
+
+Durante a Renascena, e ainda atravez da Edade Mdia, to
+insufficientemente conhecida no enigma da sua cultura artistica, os
+reis, os monges, os fidalgos, os burguezes enriquecidos ostentavam o
+fausto e a pompa hierarchica no smente construindo palacios e
+castellos, que enobreciam os logares que elles habitavam, mas erigindo
+basilicas e cathedraes, em que se concentravam todos os esforos do
+talento de uma raa, e eram verdadeiramente os palacios do povo, doados
+magnanimamente pelos mais poderosos aos mais humildes, em nome de Deus,
+em nome do rei, em honra da patria.
+
+N'esses edificios incomparaveis se achavam colligidas como em escolas
+monumentaes, como em museus portentosos, todas as maravilhas da
+sciencia, da poesia e da arte. A esculptura architectural, a estatuaria
+dos mausoleus, a imaginaria dos altares, a illuminura dos missaes, a
+pintura das vidraarias, a talha dos retabulos subordinavam-se a um
+pensamento commum, expresso n'um vasto symbolismo, comprehendendo as
+fecundidades da terra e do mar, o trabalho do homem nos seus
+desfallecimentos e nos seus triumphos, a perturbao dos sentidos pelo
+peccado, a fatalidade do sangue, o horror do universal aniquilamento, e
+o vo da alma para Deus, levada por um immortal instincto de amor, de
+paz, de verdade e de justia.
+
+Dentro d'essas egrejas, ameaadas hoje de proxima ruina ou inteiramente
+arruinadas, se celebravam todos os actos da vida religiosa, da vida
+civil e da vida domestica. Ahi se casavam os noivos, se baptisavam os
+filhos, se sepultavam os paes. Ahi se ungiam os reis, velavam as armas
+os cavalleiros, professavam os monges, benziam-se os fructos da terra,
+as bandeiras das hostes, as ferramentas da lavoura e os pendes dos
+officios. Ahi se discutiam os interesses do povo, os direitos, as
+franquias, os foros da communa. Ahi se prgava o Evangelho, se resava a
+missa, e se representavam os autos populares da vida de Jesus e dos seus
+santos; e nas vigilias da Natividade, da Epiphania e da Paschoa, quando
+o orgo emudecia no coro e se calavam os cantos liturgicos, o povo
+bailava ao longo da nave, sob as abobadas gothicas ou sob as cupulas
+bysantinas, e as las e os villancicos, entoados pelos fieis, subiam
+para o ceu com a fragancia das flores e com o fumo dos thuribulos, ao
+repique das castanholas e ao rufar dos adufes.
+
+Ao lado dos brazes e das divisas heraldicas pendiam dos muros os votos
+modestos dos mais obscuros mesteiraes, dos mais humildes braceiros.
+
+Esse alcaar dos pobres, que era a egreja medieval, alcaar mais
+sumptuoso que o de nenhum rei, dava asylo incondicional, inviolavel e
+sagrado, aos maltrapilhos, aos villes, aos mendigos, aos lazaros e s
+lazaras de todas as lepras do corpo e da alma, aos tinhosos, aos nus,
+aos imbecis, aos ignorantes, aos criminosos, s mulheres adulteras, s
+mancebas, s mundanarias, s barregs.
+
+O egoismo dos tempos modernos torna-nos incompativeis com o commetimento
+de to grandes obras. Creamos instituies de caridade, fazemos
+regulamentos de assistencia publica, e vangloriamo-nos de haver definido
+pela revoluo liberal o dogma da fraternidade humana, mas somos
+fundamentalmente incapazes de consagrar pratica das virtudes, de que
+julgamos ter na historia o monopolio, monumentos como aquelles que
+nossos avs lhe levantaram _a proll do comum e aproveitana da terra_,
+dando em resultado que o mais andrajoso mendigo da portaria do mosteiro
+de Alcobaa ou do mosteiro de Santa Cruz, com o seu alforge ao pescoo e
+a sua escudella debaixo do brao, participava, alm da rao quotidiana
+que se lhe distribuia pelo caldeiro da communidade, de um agasalho de
+principe e de um luxo d'arte com que hoje no competem os maiores
+potentados, os quaes em suas casas e para seu recreio intimo se rodeiam
+de todas as joias artisticas de que pela abolio dos vinculos e pela
+extino das ordens religiosas se apoderou o moderno commercio do
+bric--brac.
+
+Falta-nos a alta noo de solidariedade patriotica, falta-nos o desapego
+dos bens de fortuna, falta-nos o largo espirito de abnegao, falta-nos
+a illimitada liberalidade cavalleirosa, e falta-nos a f dos nossos
+avs.
+
+Na architectura trabalhamos unicamente para ns mesmos, sem cuidados de
+futuro, sem pensamento de continuidade de raa ou de familia,
+deslembrados de que teremos vindouros e de que teremos netos.
+
+Entre as nossas antigas construces hydraulicas ha o aqueducto de
+Elvas, que levou cem annos a fazer. Varias geraes successivas
+acarretaram para essa construco os materiaes; e lentamente,
+pacientemente, foram collocando pedra sobre pedra, para que um dia a
+agua chegasse a Elvas, e bebessem d'ella os netos dos netos d'aquelles
+que de to longe principiaram a recolhel-a e a canalisal-a. Uma tal
+empresa a humilhao e a vergonha do nosso tempo, imcapaz de pagar com
+egual carinho ao futuro aquillo que deve previdencia, aos sacrificios
+e aos desvelos do passado.
+
+O nosso ideal na arte de construir que a obra se faa em pouco tempo e
+por pouco dinheiro. Vamos abandonando cada vez mais, de dia para dia, a
+pedra e a madeira, em que nimiamente moroso para a morbida inquietao
+do nosso espirito o trabalho de desbaste, de esquadria e de lavor.
+Adoptamos, como material typico do nosso systema de edificar, o ferro, o
+tijolo e a pasta. A casa cessou de ser uma obra de architectura para se
+converter em uma empreitada de engenharia, e os delicados artistas da
+pedra, da madeira e do ferro forjado abdicam da sua antiga misso
+perante os subalternos obreiros encarregados de fundir, de amassar e de
+enformar a vapr a habitao moderna e o moderno edificio publico--a
+gare, o quartel, o mercado ou a cadeia.
+
+O seculo XIX, se com a impotencia de continuar a obra monumental dos
+seculos que o precederam, accumulasse a incapacidade de comprehender e
+de venerar essa obra, representaria um pavoroso retrocesso na historia.
+No succede assim, porque so inviolaveis as leis do progresso. Ao
+seculo XIX coube patentear o estudo mais dedicado e o conhecimento mais
+perfeito da arte antiga. A sciencia archeologica e a critica d'arte
+nunca em nenhum outro periodo da civilisao chegaram eminencia
+attingida pelos investigadores contemporaneos. tambem em sua maneira
+um colossal monumento, dos mais gloriosos para a intelligencia, o que
+erigiu a erudio do nosso tempo, constituindo scientificamente a
+archeologia, definindo o seu methodo, fixando os seus limites,
+especialisando o trabalho dos seus contribuintes, distinguindo da
+archeologia litteraria a archeologia da arte, ramificando para um lado a
+paleographia, a epigraphia, a ecdotica, a museographia e a propedeutica,
+para o outro as bellas artes, as artes industriaes, a numismatica, e
+ainda como desdobramento d'estes estudos a iconographia, a mithologia
+figurada e a symbologia, particularisando emfim estas investigaes a
+cada povo e a cada epocha da humanidade, creando d'esse modo a
+prehistoria, a egyptologia, a syriologia, que to amplo claro teem
+derramado sobre os problemas da origem do homem, da distribuio das
+raas, da formao das linguas. Fixaram-se pelas escavaes de Troia, de
+Mycenes, de Chypre, de Santorin e de Rhodes as origens orientaes e
+pelasgicas da arte grega. Corrigiu-se na historia da ceramica a confuso
+existente entre os vasos pintados gregos e etruscos. Refez-se
+completamente sobre novos elementos e por um criterio novo a historia da
+olaria, a da toreutica, a da glyptica, a da esculptura em barro, a dos
+bronzes, a das joias, a da tapearia, a da illuminura. Desvendou-se o
+conhecimento da tachigraphia hieratica e dos alphabetos hieroglyphicos,
+ideographicos e phoneticos, que precederam o alphabeto grego e o latino.
+Creou-se a critica scientifica dos textos. Colligiram-se e
+classificaram-se as inscripes gregas e romanas dessiminadas pela
+Europa, e definiu-se o methodo de as datar. Leram-se os carcomidos
+graffitos de Pompeia, os papyrus carbonisados de Herculanum, as cartas
+lapidares da edade mdia e os palimpsestos de Plauto, de Cicero, de
+Marco Aurelio, de Tito Livio, de Euripedes e dos scribas carolingeanos.
+Interpretaram-se os documentos de procedencia egypcia, copta ou phenicia
+sepultados nos jazigos das mumias. E os mysteriosos caracteres
+hieroglyphicos e cuneiformes das inscripes egypcias, caldas, assyrias
+e persas foram simplesmente trasladados a vulgar. Determinou-se a edade
+dos manuscriptos pelo systema das abreviaturas e da pontuao e pela
+evoluo da letra desde a oncial da _Iliada_ no palimpsesto
+greco-syriaco do Museu Britannico at a minuscula italiana egual dos
+primeiros caracteres da imprensa. Inspeccionaram-se e inquiriram-se as
+primitivas habitaes do homem, as suas primeiras fortificaes, os seus
+mais antigos sepulcros,--a caverna, a cidade lacustre, os castros e os
+dolmens. Na architectura principiou-se a estudar por novos meios de
+critica as causas dos seus progressos e da sua decadencia, prendendo
+assim pelos mais estreitos vinculos ao destino da arte o destino do
+homem. Por tal modo se transfigurou completamente desde o seu alicerce
+at o seu remate o vasto edificio da historia, segundo a resumida
+formula dada por Champolion Figeac: que todos os monumentos, ainda os
+mais communs e os mais grosseiros, conteem factos cujo conjuncto como
+a estatistica moral das sociedades extinctas.
+
+D'esse novo criterio resultou a atteno especial com que todos os povos
+cultos principiaram a considerar a obra material do passado; e assim
+nasceu, com uma nova palavra, a nova maneira de _restaurar_ os edificios
+publicos.
+
+Em mais de um documento da edade mdia se encontram provas de que os
+antigos poderes no abandonavam, to completamente como hoje se poderia
+suppor, ao accaso de qualquer iniciativa, sem beneplacito do estado, as
+edificaes consagradas ao publico. No _Codigo de las partidas_, lei
+6., titulo X, dizia Affonso o Sabio, n'aquella saborosa lingua de que
+mais tarde se desdobrou o portuguez e o castelhano: Por bienaventurado
+se debe tener todo home que pueda facer eglesia, do se ha de consagrar
+tan noble cosa et tan sancta como el cuerpo de Nuestro Seor Jesucristo,
+et como quiere que todo home mujer la puede facer a servicio de Dios,
+pero con mandamiento del obispo, como es dicho en la ley segunda deste
+titulo, con todo eso debe catar dos cosas el que la ficiere, que la faga
+complida et apuesta; et esto tambien en la labor como en los libros et
+en las vestimientas...
+
+Affonso V escreve de Almada, em 1467, aos juizes, vereadores,
+procuradores e homens bons da cidade de Evora para que se permitta a
+Sueiro Mendes levar duas pedras que estavam nos aougues, e eram do
+antigo templo romano, para antipeitos das janellas de uma casa, que a
+esse tempo edificava. E porque as ditas pedras aproveitam pouco honde
+estam e em as ditas casas faram muito, e ainda nobresa as cidades
+haverem em ellas bas casas taes como as do dito Sueiro Mendes, e seu
+fundamento he as faser para ns em ellas havermos de pousar, Ns vos
+rogamos e encomendamos que vos prasa lh'as quererdes dar, e Rodrigo
+Esteves mestre das nossas obras em essa cidade ter cuidado de as tirar
+donde estam, etc. Estas linhas so um trao caracteristico da policia
+do tempo. D'ellas se deduz que era preciso no seculo XV requestar a
+interveno regia para bulir em duas pedras de um velho monumento,
+operao que hoje se realisa com menos formalidades, e at, como
+sabido, sem formalidade alguma. Era porm entendido como doutrina
+corrente no desdizer da nobreza de uma cidade que cantarias de stylo
+romano se transpuzessem do edificio a que pertenciam para edificio de
+stylo completamente diverso. Aquillo que modernamente se entende pelo
+neologismo restaurar operao desconhecida dos antigos. A obra
+architectonica seguia sempre e invariavelmente quer em novas
+edificaes, quer em reparao de antigas, o systema e o stylo da epocha
+em que era feita. Sem falarmos do Egypto, da Grecia, de Roma, onde as
+reconstruces se emprehendiam, sem o menor sentimento de respeito pela
+tradio, em vista de celebrar uma gloria coeva com os mesmos materiaes
+que haviam servido glorificao de feitos anteriores, como no arco de
+Constantino feito com as pedras do arco de Trajano, vemos em toda a
+Europa, e mais particularmente em Hispanha e em Portugal, edificios em
+cujos stylos sobrepostos perfeitamente se espelha o independentismo das
+influencias diversas atravez das successivas phases da construco por
+differentes vezes interrompida. Uns nascem genuinamente bysantinos e
+desenvolvem-se romanicos; outros comeam romanicos e concluem gothicos;
+outros, gothicos de nascena, acabam no clacissismo greco-romano do
+renascimento; e frequente nas nossas egrejas entrarmos por um portal
+do seculo XVI para nos defrontarmos com uma capella mr no stylo barroco
+de D. Joo V, de D. Jos ou de D. Maria I. D'esses casos de
+polyarchitectonismo encontramos exemplos em Toledo, em Burgos, nos
+Jeronymos, na Batalha.
+
+A cathedral de Colonia n'este ponto de vista, um facto particularmente
+expressivo. A construco, principiada no meado do seculo XIII,
+proseguida muito lentamente, suspende-se no fim do seculo XV por
+desanimo de a concluir segundo o plano primitivo. No seculo XVII e no
+seculo XVIII, a nave, abrigada por um tecto provisorio, ornamentada em
+stylo rococo. Smente em 1842 se encetaram os trabalhos de uma
+restaurao authenticamente archeologica, segundo o plano original,
+cabendo o projecto da concluso a um architecto que ao mais profundo
+estudo do stylo ogival reunia o talento mais esclarecido e mais
+perspicaz.
+
+Na historia da cathedral de Milo circumstancias analogas s de Colonia
+veem ainda corroborar a affirmao de que unicamente ao seculo XIX cabe
+o privilegio de restaurar monumentos. A obra de Milo iniciada no seculo
+XIV, interrompida por desavenas entre os architectos, uns allemes,
+outros italianos, outros francezes; continuada no seculo XVI em stylo
+da renascena; e to smente em 1805 a restaurao do monumento no seu
+stylo primitivo, segundo os programmas mais tarde definidos, se achou
+determinada por Napoleo I, o qual pela vastido do seu genio, ainda que
+pouco propicio aos humildes, muitas vezes se adeantou do seu tempo, e em
+muitas campanhas da intelligencia indicou de antemo o ponto da
+victoria, assim como ao principiar a campanha de Italia assignalava na
+carta do Piemonte o logar de Marengo.
+
+Foi Vitet, nomeado inspector geral dos monumentos historicos em 1830,
+quem primeiro indicou em Frana o programma das restauraes
+architectonicas, presentemente seguido em toda a parte:--em Hispanha,
+onde depois da real ordem de 4 de maio de 1850, se no emprehende obra
+de especie alguma nos edificios monumentaes sem prvia consulta da
+commisso dos monumentos historicos e artisticos; em Inglaterra e na
+Allemanha, que haviam precedido a Frana na proteco da arte nacional;
+na Italia, emfim, na Belgica, na Dinamarca, na Suecia, na Noruega, na
+Grecia, na Turquia.
+
+Violet-le-Duc, o erudito mestre a quem tanto deve o ensino da
+archeologia e das artes, completou o programma de Vitet, no smente
+ampliando os seus preceitos, mas dando da applicao d'elles o mais
+notavel exemplo na restaurao do castello le Pierrefonds.
+
+Conhecidos os livros de Violet-le-Duc, estudados com to paciente
+laboriosidade, escriptos com to lucido e penetrante engenho, e
+conhecida a legislao europa baseada n'esses estudos to completos e
+to perfeitos, a questo puramente administrativa de dar aos monumentos
+nacionaes de cada povo a proteco que se lhes deve, quando menos por
+simples solidariedade intellectual na civilisao do nosso tempo,
+questo perfeitamente illucidada e rigorosamente definida.
+
+Vejamos agora qual em Portugal, perante as responsabilidades da
+administrao, o reflexo das ideias, cuja historia procurei resumir, com
+o fim de pr o assumpto na perspectiva que a sua magnitude pede.
+
+
+Levaria muito tempo e seria excessivamente triste ennumerar todos os
+attentados de que teem sido e continuam a ser objecto, perante a mais
+desastrosa indifferena dos poderes constituidos, os monumentos
+architectonicos da nao, os quaes assignalam e commemoram os mais
+grandes feitos da nossa raa, sendo assim por duplo titulo, j como
+documento historico, j como documento artistico, quanto ha, sobre a
+terra em que nascemos mais delicado e precioso para a honra, para a
+dignidade, para a gloria da nossa patria.
+
+Dos desacatos de lesa magestade nacional, a que tenho a dr e a vergonha
+de me referir, uns teem caracter anonymo, outros affectam directamente a
+cumplicidade official. Os primeiros so uma consequencia de desdem; os
+segundos so um resultado de incapacidade.
+
+A auctoridade, incerta, vagamente definida, a quem tem sido confiada a
+conservao e a guarda da nossa architectura monumental, procede com
+esse enfermo, de quem se incumbiu de ser o enfermeiro, por dois methodos
+differentes: umas vezes deixa-o morrer; outras vezes, para que elle
+mesmo no tome essa resoluo lamentavel, assassina-o. Na primeira
+hypothese a calamidade correlativa chama-se _abandonar_. Na segunda
+hypothese a catastrophe correspondente chama-se _restaurar_,--gallicismo
+technico, recentemente introduzido no vocabulario nacional, mas ainda
+no definido vernaculamente na applicao pratica.
+
+Para o argumento que tenho em vista produzir, tomarei unicamente d'entre
+os differentes desastres com que se deshonram e enxovalham os nossos
+monumentos, o desastre denominado _restaurao_.
+
+Serei laconico, sem deixar de ser sufficientemente expressivo, porque os
+factos so de uma eloquencia que esmaga toda a especie de replica na
+materia de que se trata.
+
+Aqui temos tres edificios restaurados ou em restauro a expensas da
+nao, sob os auspicios do estado: Os Jeronymos, a Madre de Deus e a
+Batalha.
+
+Nos Jeronymos a construco desmoronou-se, sem provocao alguma de
+agente extranho, por mero desequilibrio de si mesma. Inutil todo o
+commentario. A restaurao, ainda antes de terminada, cahiu. Que prova
+mais lastimavelmente completa, evidente e cabal, de que foi
+insufficientemente estudado, logo nos seus primordiaes elementos, o
+programma de tal restaurao?! As seguranas de execuo falham
+precisamente na parte mais rudimentar do problema.
+
+Attente-se em que no se trata ainda de uma questo de archeologia, nem
+de uma questo de arte; no se apresenta nenhuma d'essas subtis
+difficuldades inherentes ao estudo das frmas constructivas ou
+ornamentaes, ao discernimento dos diversos stylos, ao pleno conhecimento
+das antigas escolas no tempo e na regio a que o edificio pertence.
+Resolve-se apenas realisar uma simples tarefa de construco, e esquece,
+incumbindo esse trabalho de simples mestre de obras ao mais distincto
+dos scenographos, que a primeira condio de um architecto a quem se
+confia a restaurao de um monumento que elle seja, antes de tudo,
+acima de tudo, o mais habil, o mais experiente, o mais perito de todos
+os constructores.
+
+Na Madre de Deus, onde alis o primitivo portal da rainha D. Leonor foi
+discretamente reconstituido na moderna fachada do edificio, temos o
+infortunio de ir encontrar no consecutivo restauro de uma fabrica do
+tempo de D. Joo III novos capiteis de columnas, nos quaes em vez da
+ornamentao vegetal do nosso seculo XVI se v reinar nos entablamentos
+a figurao, absolutamente imprevista e inopinada, de uma locomotiva de
+caminho de ferro, arrastando fumegante o respectivo comboyo, tudo
+lavrado mui laboriosamente em pedra, e demandando um tunel. Este
+assombroso phenomeno de pathologia archeologica estou convencido de que
+dispensa ainda mais do que o caso dos Jeronymos a investigao da
+autopsia.
+
+Nas restauraes da Batalha, umas j em realidade, outras ainda em
+projecto, falta, primeiro que tudo, o meditado programma de conjuncto no
+ponto de vista archeologico, no ponto de vista artistico e no ponto de
+vista technico, visando o assumpto por todos os lados de que elle pode
+ser encarado: qualidade do solo, influencias da atmosphera, escolha de
+materiaes, condies de resistencia e de equilibrio, systema geral de
+structura, determinao do stylo, desde as suas grandes linhas e dos
+seus motivos dominantes at os ultimos desenvolvimentos d'essas linhas,
+at o extremo desdobramento d'esses motivos, mo de obra, direco e
+apprendisagem em todas as officinas de que depende o restauro, etc.
+
+Seria por um programma d'essa natureza que a competencia do architecto
+restaurador deveria principiar a affirmar-se. Perante essa prova,
+comprehendendo o estudo do monumento, plantas, alados, photographias,
+desenhos de projectos, systemas de stylisao, methodos de estudo e de
+trabalho, regimentos de officinas, etc., poderiamos ns, que no somos
+architectos, mas simples criticos, fiscaes da arte em nome do publico,
+decidir se o restaurador da Batalha est ou no est ao nivel da sua
+misso. Sem prova d'essa ordem que cotejemos com os requisitos a que
+teem de satisfazer, nos paizes extrangeiros, os architectos a quem se
+entrega a restaurao de um monumento, ns no podemos julgar seno de
+um modo muito imperfeito, tendo de entrar mais ou menos no exame da
+execuo, para o qual nos fallece a competencia profissional.
+
+Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque o unico architecto portuguez de
+quem conhecemos, com relao historia do edificio e ao plano da
+restaurao da Batalha, estudos especiaes, consubstanciados n'uma
+memoria publicada, depois da morte do auctor, em 1867. A monographia a
+que me refiro, alm de mui interessantes revelaes sobre os vandalismos
+perpetrados pelos ultimos frades que habitaram o mosteiro e chegaram a
+quebrar os preciosos vidramentos das janellas para presentearem os
+visitantes com cabeas das figuras de que elles se compunham, contm
+alguns principios mui judiciosos e bem definidos, sobre o modo como esse
+perito restaurador, que a influencia do rei D. Fernando fizera nomear,
+comprehendia a sua delicada misso. E excellente o methodo por elle
+proposto para a conservao das Capellas imperfeitas. Notam-se alguns
+excessivos e infundados rigores de zelo, como na parte em que ao
+restaurador repugna adoptar, para o fim de pr o monumento ao abrigo das
+intemperies, processos de resguardo mais perfeitos que os conhecidos ao
+tempo da construco primitiva, taes como, por exemplo, o emprego de
+cimentos modernos na vedao de uma cobertura, etc. A memoria programma
+de Mousinho de Albuquerque no obstante um trabalho de incontestavel
+merecimento, que muito augmenta de valor se levarmos em conta que esse
+illustre architecto escrevia em 1840, quatro annos depois d'aquelle em
+que o rei D. Fernando visitou o edificio, chamando para elle pela
+primeira vez a atteno dos poderes publicos.
+
+At Mousinho a architectura da Batalha foi na litteratura portugueza um
+puro thema de rhetorica. O romantismo tinha-nos trazido a moda do
+gothico por via de Chateaubriand e de Victor Hugo. Os romances, as
+xacaras, as baladas e os solaus, com as suas castells, os seus
+paladinos, os seus pagens, os seus menestreis e os seus respectivos
+attributos--lanas, montantes, elmos, guantes de ferro, falces, adagas,
+bstas e bandolins, pediam um scenario de fortificao feudal, fossos e
+pontes levadias, revelins, caminhos de ronda, ameias, torres de
+menagem, amplas chamins com trasfogueiros forjados, ogivas e abobadas.
+As egrejas, para os effeitos de grandiosidade no stylo, sempre que no
+eram ermidas eram cathedraes. Os romanticos chamavam cathedraes a todos
+os grandes templos, como o da Batalha, o do Carmo e o dos Jeronymos. O
+romance historico, tanto em voga durante a gerao litteraria de
+Alexandre Herculano, tinha exigencias decorativas analogas s da poesia
+cavalheiresca. Os estudos de critica e de archeologia artistica, tendo
+por objecto os nossos monumentos architectonicos, davam em resultado
+geral uma especie de lenga-lenga de eruditos ciceroni.
+
+A Batalha tem sido constantemente, desde a primeira appario da
+_Abobada_ no _Panorama_, at hoje, o _grande livro de marmore_, o
+_immortal poema_, a _Divina Comedia portuguesa_, a triumphante
+affirmao da nacionalidade independente, definitiva, fundada pela
+vontade do povo, pela espada do mestre de Aviz, pela lana de D. Nuno
+Alvares Pereira e pela penna de Joo das Regras.
+
+Com effeito, nada mais bello, na historia nacional, do que o feito
+d'armas de Aljubarrota e o monumento de Nossa Senhora da Victoria,
+destinado a commemorar esse feito, por voto de D. Joo I. Mas d'ahi a
+poder-se dizer que o edificio da Batalha , como a epopa dos
+_Luziadas_, a imagem technica das idas e dos sentimentos da patria,
+medeia--me parece--um largo abysmo.
+
+Olhemos por um momento a historia d'esta construco.
+
+Frei Luiz de Sousa diz que El-rei chamara de longes terras os mais
+celebres architectos que se sabiam; convocara de todas as partes,
+officiaes de cantaria dstros e sabios; convidara a uns com honras, a
+outros com grossos partidos, e obrigara a muitos com tudo junto. Este
+testemunho precioso e est acima de toda a suspeita, porque nos vem de
+um frade de S. Domingos, que habitou por muitos annos o convento da
+Batalha, e que, como chronista da ordem, conheceu inteiramente pelo
+archivo do convento quanto se sabia da historia da sua fundao.
+
+Frei Francisco de S. Luiz contesta, sem provas, que fossem architectos
+celebres chamados de longes terras, como diz Sousa, os iniciadores da
+grande obra, e cita como auctor do risco Affonso Domingues, porque
+d'elle se sabe que teve parte na direco das obras nos primeiros annos
+da fundao, e no consta de documento authentico que qualquer outro
+architecto interviesse nos trabalhos durante os dezeseis annos que
+medeiam entre o seu comeo e o anno da morte de Affonso Domingues, em
+1402.
+
+Todos os que se seguiram a Frei Francisco de S. Luiz, adoptaram esta
+opinio; de modo que se tornou uma cousa to corrente como se estivesse
+demonstrada que foi Affonso Domingues quem construiu a Batalha.
+
+James Murphy, porm, no seu livro _Travels in Portugal_, affirma, por
+_informaes que lhe foram dadas em Lisboa por empregados da Torre do
+Tombo_, que o encarregado da construco foi o architecto inglez Stephan
+Stephenson, socio das _free and accepted masons_, que tinham a sua sde
+principal em York. Stephenson teria vindo a Portugal por interveno da
+rainha D. Filippa, mulher de D. Joo I, ingleza de nao, filha do duque
+Joo de Lencastre e neta de Eduardo III.
+
+O conde de Rakzynski diz a este respeito, que desde que examinou as
+gravuras do convento da Batalha, na obra _in folio_ de Murphy, se
+convenceu de que a analogia existente entre a Batalha e a cathedral de
+York no permitte a minima duvida acerca da origem commum d'estes dois
+edificios. Que o plano da igreja da Batalha--diz Rakzynski--seja obra
+de um portuguez ou de um inglez, a verdade que as duas igrejas
+nasceram de inspiraes artisticas analogas, homogeneas e
+contemporaneas, e o estylo de ambos me parece identico. Esta impresso
+tornou-se para mim ainda mais forte, depois que visitei a Batalha.
+
+Temos, pois, sobre a origem estrangeira d'este monumento tres votos
+importantes: o de Fr. Luiz de Sousa, o de James Murphy e o do conde de
+Rakzynski, aos quaes recentemente se juntou o architecto Haupt.
+
+Na Torre do Tombo no se encontra documento algum relativo construco
+da Batalha, nem vinda de Stephenson a Portugal. Em 1845, Alexandre
+Herculano e o Visconde de Juromenha, auxiliados pelos officiaes da
+Torre, fizeram as mais demoradas e escrupulosas pesquizas para o fim de
+satisfazer a curiosidade de Rakzynski, e nada appareceu.
+
+ claro que esta ausencia de vestigios no real archivo nada prova sobre
+o facto de ter estado ou no em Portugal o architecto de York. No
+consta to pouco, dos documentos existentes no archivo, que tivesse
+estado em Portugal durante nove annos o insigne esculptor italiano
+Andrea Contucci, emulo de Miguel Angelo; e no emtanto este facto acha-se
+fra de toda a contestao.
+
+O cardeal patriarcha Frei Francisco de S. Luiz, queixando-se da
+negligencia e da superficialidade com que Frei Luiz de Sousa falla dos
+primeiros architectos da Batalha, e propondo-se demonstrar que o auctor
+da obra foi Affonso Domingues, diz que no v razo para pr em duvida a
+habilidade dos nossos compatriotas, suppondo que houvessemos de reclamar
+a assistencia de estrangeiros em uma epocha como a de D. Joo I, na
+qual, exceptuadas as italianas, _nenhuma nao da Europa se achava mais
+adeantada que a nao portugueza, tanto na arte da architectura, como em
+todas as outras_.
+
+O patriotismo imprudentemente levado at s affirmaes da natureza das
+de Frei Francisco de S. Luiz, tem um inconveniente grave, que o de
+fazer sorrir os estrangeiros, da ingenua applicao dos nossos
+sentimentos civicos historia da arte europa.
+
+Hoje, toda a gente sabe, porque esta ordem de conhecimentos tem-se
+vulgarisado muito, que o systema gothico ou systema ogival, a que
+primitivamente se chamou _Opus francigenum_, teve a sua origem na ilha
+de Frana e na regio circumstante. Foi n'esses logares que at o seculo
+XII se construiram os primeiros edificios gothicos. O novo stylo chega
+em Frana aos seus mais completos desenvolvimentos no seculo XIII, e
+d'essa epocha datam as cathedraes de Amiens, de Pariz, de Reims e de
+Chartres.
+
+Os allemes e os inglezes teem contestado Frana a prioridade do
+emprego do arco ogival e dos desenvolvimentos architectonicos que d'elle
+procedem. O que, porm, est acima de todo o litigio, que o systema
+ogival, chamado stylo gothico, ou gothico puro da igreja da Batalha, no
+procede da inveno dos paizes meridionaes, de cu azul, mas sim das
+regies nevoentas de longos e rudes invernos.
+
+No norte da Europa, durante a edade mdia, tratou-se de edificar a
+grande cathedral que dsse um abrigo espaoso s numerosas congregaes
+de fieis e de cidados; como a pedra escasseava, como a neve cahia em
+abundancia e permanecia por longo tempo, procurou-se um modo de
+construco, que, sem difficultar a circulao da gente com grandes e
+repetidos corpos de cantaria no interior do edificio, permittisse
+empregar materiaes menos solidos e fazer tectos elevados e agudos, que,
+no pesando excessivamente sobre os membros destinados a sustental-os,
+deixassem facilmente resvalar e escorrer a neve pelas superficies
+exteriores, impedindo o mais completamente possivel a infiltrao da
+humidade no interior do templo.
+
+Foi d'estas causas, determinadas pela natureza do clima e do solo, pelas
+condies sociaes, e no de um mero capricho inventivo, que resultou
+para os architectos dos paizes septentrionaes o pensamento de readoptar
+a abobada de aresta, que os romanos, depois de a haverem empregado,
+puzeram de parte, para o fim de dar logar na construco das basilicas
+christs enorme quantidade de columnas legadas pelo paganismo.
+
+Assim foi que nasceu, bem longe de Portugal e inteiramente fra das
+influencias cosmicas e das influencias sociaes geradoras do caracter e
+da indole da nossa raa, que nasceu o stylo architectonico da egreja da
+Batalha.
+
+A affirmativa de que nenhuma nao da Europa, com excepo da Italia, se
+achava mais adeantada do que Portugal do tempo de D. Joo I, nas artes
+da architectura, smente prova, da parte do cardeal frei Francisco de S.
+Luiz, que este benemerito academico e illustre litterato, ou no viajou
+nunca em Frana e na Allemanha, ou no visitou n'estes paizes os
+monumentos anteriores ao fim do seculo XIV.
+
+A egreja da Batalha, que data d'essa epocha, chronologicamente um dos
+ultimos edificios em stylo gothico puro construidos na Europa, e, apesar
+de toda a sua belleza, est, como obra d'arte e como magnificencia
+monumental, bastante abaixo de alguns outros edificios construidos cem
+ou duzentos annos antes, como a cathedral de Strasburgo (1015 a 1275),
+Reims (1215), Amiens (1222), Colonia (1248) a Sainte-Chapelle em Pariz
+(1248), Notre-Dame (1275), etc.
+
+Bastaria que o auctor da interessante memoria sobre a construco do
+convento da Batalha, encorporada na colleco das memorias da Academia,
+tivesse olhado em Pariz para as estatuas de Sainte-Chapelle e para os
+baixos-relevos da egreja de Notre-Dame; que tivesse observado um momento
+as esculpturas de Chartres, de Reims e de Amiens; para ter uma ida do
+enorme abysmo que no tempo de D. Joo I nos distanciava ainda dos
+grandes mestres da architectura e da esculptura franceza, que se
+chamaram Pierre de Montreuil, Thomas e Regnaut de Carmont, Jean de
+Chelles, Hugues Libergier e outros artistas leigos, sem contar os muitos
+monges anonymos com que se illustrou na historia da arte, a ordem de
+Cluny, no seculo XII e no seculo XIII.
+
+Na Allemanha, temos, precedendo a Batalha, a cathedral de Colonia; na
+Inglaterra Canterbury, Westminster, Salisbury, Lincoln e York; e em
+Hispanha, Burgos e Toledo.
+
+Anterior Batalha no ha em Portugal monumento algum que prenuncie,
+prepare e explique a appario d'este.
+
+Nos primeiros tempos da monarchia, em quasi todo o periodo affonsino, os
+artistas e os obreiros eram em geral arabes ou mouros. O portuguez era
+como os seus reis, soldado ou agricultor. Para as especulaes
+estheticas faltava-lhe a paz, a tranquillidade, a riqueza. Mal lhe
+chegava o tempo para desbravar o slo e para bater os inimigos, que de
+todas as partes rodeavam a pequena sociedade nascente, aventurosa e
+aguerrida.
+
+A Batalha, com a delicada pureza das suas linhas, j ento consagradas
+na Europa, surge repentinamente, imprevistamente, esporadicamente, na
+corrente da architectura portugueza, como a flor desconhecida de uma
+planta exotica.
+
+D'onde que foi transplantado para terra portugueza este producto de
+uma civilisao superior, em que o desenvolvimento da vida municipal,
+iniciada pelas fortes corporaes operarias e mercantis, impellira as
+communas a construirem as luxuosas cathedraes, que eram ao mesmo tempo,
+nas cidades novas, um asylo de religio e um fco de vida civil?
+
+No sei responder peremptoriamente a esse quesito.
+
+O problema assim estreitado , no fim de contas, de pura curiosidade.
+
+O architecto inglez Hope, na sua _Historia da Architectura_, diz que o
+estylo ogival no tem propriamente nem uma patria nem uma nacionalidade.
+S poderia ter nascido no seio de alguma ordem religiosa ou de uma
+corporao de pedreiros livres, porque o clero e os pedreiros livres
+eram as unicas corporaes que na edade mdia possuiam os conhecimentos
+necessarios para o plano e para a execuo dos edificios sagrados, quer
+para as communidades monasticas, quer para a egreja latina em geral.
+
+Hope acrescenta: como os conventos e sobretudo as _lojas_ dos pedreiros
+livres se compunham de cidados de todos os paizes, que reconheciam a
+supremacia da egreja romana, no seria possivel determinar positivamente
+os inventores do stylo ogival quando mesmo se houvesse descoberto o
+logar preciso do seu bero.
+
+Em toda a parte onde apparecem as primeiras amostras d'esse stylo ellas
+no so a obra de individuos de um paiz determinado, mas sim de uma
+congregao encerrando no seu gremio homens de todas as naes.
+
+Na _Real Encyclopedia_ de Leipzig l-se com referencia s associaes
+maonicas que ellas se compunham de homens de arte de todos os paizes
+formando uma s corporao dirigida por um ou por varios chefes.
+Protegidos por privilegios ou cartas patentes emanadas das auctoridades
+ecclesiasticas e seculares, emprehendiam as maiores construces em toda
+a Europa e so auctores d'esses magnificos edificios chamados gothicos e
+que antes se deveriam chamar _Altdoutsch_. Achamos o stylo de todas as
+construces d'essa poca fundamentalmente identico. As associaes
+alludidas compunham-se de architectos e de obreiros italianos, allemes,
+flamengos, francezes, inglezes, escocezes e at gregos. Foi d'essa
+maneira que nasceram os monumentos seguintes: o _mosteiro da Batalha em
+Portugal_, a cathedral de Strasburgo, a de Colonia, a de Meissen, a de
+Milo, o convento do Monte Casino, e todos os edificios notaveis da
+Inglaterra.
+
+Esta hypothese--e chamo-lhe hypothese, porque no conheo os documentos
+positivos em que se baseia o escriptor allemo--condiz perfeitamente com
+a lio de Frei Luiz de Sousa, e talvez de todas a mais verosimil com
+relao aos constructores da Batalha.
+
+Que fosse, porm, uma associao de artistas e de operarios; que fosse
+Stephan Stephenson, como indica Murphy, de quem devemos crer que no
+inventou esse nome e o recebeu, como diz, dos empregados do archivo da
+Torre do Tombo; que fosse, como pretende Hope, mestre Ouet, Huguet ou
+Huet, de nao inglez, que trabalhou nas obras e cujo nome Frei
+Francisco de S. Luiz encontrou como testemunha no contracto de
+aforamento, em que se fala de Affonso Domingues; como quer que seja,
+emfim, a hypothese que menos verosimilhana offerece a de ter sido o
+monumento delineado e construido pelo mestre portuguez Affonso
+Domingues, como em Portugal se tem geralmente escripto.
+
+O mais superficial exame aos edificios anteriores Batalha manifesta do
+modo mais evidente que no tinhamos nem escola, nem tradies, nem
+tendencias de que procedesse um artista como o que delineou e construiu
+a egreja da Batalha.
+
+Vilhena Barbosa, nos _Monumentos de Portugal_, repete ainda a verso
+relativa a Affonso Domingues como constructor da Batalha, mas
+accrescenta: muito para admirar, no devo negal-o, que houvesse
+n'aquella poca em Portugal um artista to consumado como o que fez o
+risco do monumento, achando-se a architectura entre ns, antes da
+execuo d'esta obra em um estado, que, se no era de grande atrazo,
+tambem no se lhe poder chamar de adiantamento; em um estado pelo menos
+que nenhuma memoria ou documento nos auctorisa para o considerarmos como
+escola d'onde pudesse sahir um artista to completo.
+
+A seguir, Vilhena Barbosa, procurando conciliar o arrojo do seu reparo
+com a tradio geralmente recebida, exclama um tanto contricto: N'este
+caso lanarei mo de uma conjectura, no pela necessidade de sahir do
+embarao, mas porque me parece acceitavel e muito plausivel. Vem a ser
+que talvez Affonso Domingues tivesse sahido da sua patria antes da
+acclamao do mestre d'Aviz, com o intento de se instruir e aperfeioar
+na sua arte. Bem sei que n'essa poca no eram dados os artistas, pelo
+menos os nossos, a procurar taes meios de estudo. Entretanto, tendo
+estado em Portugal, no reinado de D. Fernando e com alguma demora, dois
+principes inglezes, o duque de Cambridge, e um seu irmo natural, filhos
+de D. Duarte III, rei de Inglaterra, pode ser que Affonso Domingues,
+levado pelo amor da arte ou por outro qualquer respeito, se resolvesse a
+acompanhar algum d'elles na sua volta para Inglaterra, paiz classico da
+architectura gothica no genero da Batalha.
+
+Confessemos que preciso ter vontade de attribuir por fora a Affonso
+Domingues uma obra que este no podia fazer, para formular a conjectura
+de que _talvez elle se tivesse resolvido_ a ir a Inglaterra com os
+filhos de Duarte III.
+
+Ainda quando admittida a singular camaradagem do duque de Cambridge e de
+seu irmo com Affonso Domingues, camaradagem conjecturada por Barbosa, e
+de que no ha o minimo vestigio historico, no ser talvez inutil
+reflectir que depois d'essa excurso a Inglaterra--paiz to debilmente
+_classico na architectura gothica_, no tempo de Duarte III, que no
+tinha um architecto indigena, nem monumento gothico algum, que se possa
+pr em confronto com as obras magnificas do continente--Affonso Domingos
+voltaria de Inglaterra, no tocante ao conhecimento da arte de edificar,
+proximamente no mesmo estado em que para l tivesse ido, o que
+facilmente se demonstra, como vamos vr.
+
+Sabe-se que desde o seculo X se organisaram na Italia, iniciadas pela
+Lombardia, essas associaes de artistas seculares, architectos,
+esculptores, illuminadores, imaginarios, vidristas, entalhadores e
+canteiros, empregados pela egreja nas vastas obras da primeira
+renascena da Europa, subsequentes aos terrores do millenio, que por
+muitos annos paralysaram todas as faculdades artisticas da humanidade
+estupefacta perante a prophecia pavorosa do proximo aniquilamento
+universal.
+
+Estas confrarias, creadas e protegidas pelo clero, tomaram o nome geral
+de _franco-maonaria_ ou de _pedreiros livres_, e compunham-se de
+associados, que, depois de haverem passado por todos os minuciosos
+tramites de uma longa aprendizagem, adquiriam geralmente o direito de
+exercer a profisso na qualidade de mestres.
+
+Com a rapida e maravilhosa prosperidade das novas cidades da Italia
+Septentrional nasceram egrejas sumptuosas e conventos magnificos, que em
+poucos annos cobriram uma grande superficie da Lombardia e dos Estados
+adjacentes.
+
+Chegado o momento previsto em que as ordens religiosas de Italia
+cessaram emfim de ter obras em que empregar a associao, cada vez mais
+numerosa e mais habil, dos pedreiros livres, pensaram estes em dilatar a
+sua actividade fora do solo natal.
+
+Este expatriamento no representava unicamente uma expanso artistica
+mas tambem uma forte propaganda e uma consideravel conquista
+internacional da egreja latina.
+
+Essa grande companhia edificadora de monumentos religiosos, de
+cathedraes e de mosteiros, mobilisada n'uma companhia de arte atravez do
+Norte da Europa, constituia como que um solido reforo esthetico,
+temporal, naturalista e humano sagrada legio espiritual vulgarisadora
+do credo latino pela ramificao das ordens religiosas sobre todas as
+latitudes da terra.
+
+Cada egreja e cada convento edificados em paizes estranhos e longinquos
+eram--diz Hope--um novo feudo adquirido ao papa.
+
+A egreja comprehendeu inteiramente o alcance d'este grande facto, to
+importante na historia da arte romanica, da arte lombarda, da arte
+gothica e de todas as artes liberaes na Europa, depois de cahida a
+influencia da antiga civilisao hellenico-romana.
+
+Como incentivo e amparo da vasta odyssa, a que se aventuravam os
+denominados pedreiros livres receberam ento da auctoridade pontificia,
+emminente a todos os conflictos e discordias de soberania para soberania
+e de nacionalidade para nacionalidade, privilegios incomparaveis,
+destinados a assegurar confraria errante uma especie de inviolavel
+monopolio esthetico e artistico, como o que em nossos dias poderia
+resultar de um congresso universal, tendo em vista pr acima de qualquer
+contingencia politica um interesse commum a toda a especie humana.
+
+Diplomas e bulas papaes confirmaram para todos os paizes, que houvessem
+reconhecido a f catholica apostolica romana, todos os privilegios que a
+confraria dos pedreiros livres havia recebido dos Estados de que era
+oriunda.
+
+Ella dependeria directamente e unicamente da auctoridade pontificia,
+isenta de todas as leis e estatutos locaes, dos editos dos reis ou dos
+regulamentos dos municipios e de toda e qualquer imposio obrigatoria
+para os naturaes do paiz em que se encontrasse.
+
+S associao caberia o direito e o poder de taxar os salarios, e de
+prover em capitulo, sem appellao nem aggravo, a quanto dissesse
+respeito ao seu proprio governo. Era expressamente prohibido a todo o
+artista no iniciado nem admittido na associao estabelecer para com
+ella qualquer especie de concorrencia, assim como era defeso, sob pena
+de excomunho, a todo o soberano manter os seus subditos n'esse acto de
+rebeldia s prescripes da egreja.
+
+Esta _Internacional_ carolingiana, bem mais poderosa do que a
+_Internacional_ napoleonica sahida dos primeiros movimentos socialistas
+do segundo imperio, desenvolveu-se rapida e portentosamente. Muitos
+gregos vindos de Constantinopla se reuniram aos primeiros artistas
+confederados, vindo em seguida allemes, francezes, belgas e inglezes.
+
+Desdobraram-se successivamente as diversas lojas ou series de
+agrupamentos, em que cada dez associados obedeciam a um chefe em
+communicao com os chefes das demais decurias e com a direco central.
+
+Os ecclesiasticos da mais alta categoria, os prelados, abbades mitrados
+e bispos, accrescentavam a fora e o prestigio da associao,
+alistando-se como membros da irmandade.
+
+Todos os soberanos da christandade se gloriavam em honrar com especiaes
+distinces e particulares privilegios as suas lojas nacionaes.
+
+Para o fim de evitar que individuos estranhos associao aproveitassem
+fraudulentamente os enormes beneficios de que ella tinha o privilegio, e
+bem assim para que, em qualquer regio do mundo, cada irmo pudesse
+communicar com os seus consocios, fazendo conhecer a sua iniciao e o
+seu grau na confraria, estabeleceram-se as senhas secretas, os _signaes
+maonicos_, por meio dos
+
+quaes os consocios se reconheciam em qualquer parte, e revestiu-se o
+acto de iniciao e matricula de formalidades solemnes, de provas
+especiaes, de juramentos terriveis, por via dos quaes cada novo confrade
+se obrigava no smente a no revelar a quem quer que fosse os signaes,
+com que mutuamente se entendiam os pedreiros, mas a esconder dos
+estranhos todos os processos technicos e todas as regras do officio, de
+que a associao tinha a posse. Esta collaborao phenomenal dos
+melhores obreiros, de todos os grandes artistas e de todos os sabios do
+mundo, associados da maneira mais engenhosamente completa e perfeita
+para exercer a arte de edificar, elevou a architectura religiosa n'este
+periodo mais alta perfeio scientifica e technica, a que jmais
+chegou a obra da intelligencia e da mo do homem.
+
+Quando a longa e laboriosa gestao de todos os demais ramos do saber
+humano se discriminava apenas em rudimentos embrionarios, de uma
+confuso tenebrosa, a architectura constituia o mais perfeito corpo de
+leis estheticas e de leis scientificas. Crearam-se as mais elevadas e as
+mais caracteristicas frmas de stylo, resolveram-se os mais complicados
+e os mais difficeis problemas de calculo, de geometria e de mechanica,
+acharam-se, emfim, innumeraveis processos chimicos e methodos technicos,
+que se perderam e nunca mais se substituiram, porque com a grande
+confraria dos maons morreu a tradio de que elles tinham a guarda e o
+segredo.
+
+No tempo de Eduardo III a maonaria, que s um seculo depois acabou na
+Inglaterra sob o reinado de Henrique VI, mantinha-se em pleno vigor.
+
+Ora, dado que s muito lentamente e por via de provas espaadas e
+progressivas podia o obreiro no gremio da confraria subir qualificao
+de mestre, e s como simples obreiro podia ser admittido e iniciado,
+dado por outro lado que era tal o segredo sobre os methodos de edificar
+que toda a planta, todo o risco, todo o calculo, todo o estudo graphico,
+era invariavelmente e escrupulosamente destruido immediatamente depois
+de utilisado em qualquer obra, parece-me no haver um excessivo arrojo
+em conjecturar que Affonso Domingues n'uma viagem a Inglaterra, no tempo
+de Eduardo III, nada aprenderia de architectura, ficando estranho
+maonaria, e, tendo-se iniciado n'ella antes de vir construir a Batalha,
+seria ento da maonaria e no d'elle o monumento de que se trata.
+
+Revertendo ao escrupuloso e esclarecido estudo de Mousinho, notemos que
+elle no encontrou nem quem o continuasse nem sequer quem se lhe
+submettesse entre os restauradores que se lhe seguiram. As capellas
+imperfeitas, incomparavel joia da architectura portugueza mais
+caracteristicamente regional, acham-se no mesmo abandono em que ficaram
+em 1843, depois que elle as desinfestou dos parasitas arbustivos e das
+herbaceas, cujas radiculas se tinham por tal modo multiplicado nos
+intersticios das cantarias que em muitos pontos houve que desmontar as
+lageas para extirpar as hervas e refazer os massames substituidos pelo
+intimo estojo vegetal, que inchando por todas as juntas da pedra,
+ameaava desarticular e destruir tudo por uma derrocada geral.
+
+Sem exposio de plano referido s obras que recentemente se tem feito,
+e cuja doutrina nos daria uma base de estudo e de discusso, quem, como
+eu, no tem voto na materia para a resolver por sentena, precisaria de
+entrar em uma longa serie de pacientes raciocinios e de humildes
+demonstraes para pr em evidencia todos os erros que em taes obras se
+teem comettido. Para no tornar pelo emprego d'esse processo,
+excessivamente longo este modesto estudo, tomarei um ponto capital,
+sufficientemente expressivo para dar a medida do criterio empregado na
+restaurao da Batalha.
+
+Pela entrada principal da egreja, semelhana do que succede em grande
+parte das egrejas gothicas, desciam-se na Batalha alguns degraus,--sete
+se me no engano--para chegar ao pavimento da nave central. Um dos
+restauradores que se succederam a Mousinho de Albuquerque, tendo-se por
+assistido de razes plausiveis para modificar o alludido systema,
+rebaixou o terreno exterior ao nivel do pavimento da egreja, e supprimiu
+os degraus, serrando as hombreiras e substituindo as cantarias que lhe
+serviam de base. A porta principal do monumento da Batalha ficou por
+esse modo tendo de altura a dimenso de duas larguras em vez de largura
+e meia approximadamente, segundo a dimenso primitiva. O architecto
+havia previamente submettido o seu projecto ao exame das estaes
+superiores, e o respectivo ministro sanccionara a obra com a sua alta
+approvao.
+
+Ser difficil encontrar em um to breve episodio de construco uma to
+vasta affirmativa de desoladora ignorancia.
+
+Poder parecer excessiva e condemnavel ousadia que um simples curioso se
+arrogue o direito de qualificar de ignorante um architecto em exercicio
+da sua profisso. O erro todavia no caso sujeito to flagrante que no
+supporta defesa. Um barbarismo architectonico est tanto ao alcance de
+um escriptor como um barbarismo grammatical est ao alcance de um
+architecto.
+
+Toda a gente sabe que ha em architectura uma inilludivel medida de
+proporo e de relacionao que se chama a _escala_. Sem escala no ha
+obra de architectura nem ha construco alguma sensata, por mais
+subalterna, por mais infima que ella seja. Na architectura grega a
+unidade abstracta d'essa medida o modulo. Na architectura da edade
+mdia a unidade o homem. N'este simples principio, to magistralmente
+exposto por Violet-le-Duc, se baseia o caracter essencial da
+architectura medieval. D'essa referencia de toda a construco
+pequenez da estatura humana resulta o singular effeito de grandiosidade
+que distingue os monumentos gothicos dos monumentos neo-classicos, Nossa
+Senhora de Pariz de S. Pedro de Roma, ou a egreja da Batalha da egreja
+de Mafra. Para esse effeito contribue o aspecto das successivas fileiras
+da cantaria altura das paredes e das pilastras, porque a escala
+gothica, determinada pela altura do homem, se subordina correlativamente
+s dimenses do material. Assim pela serie das juntas, sempre em
+evidencia na sobreposio das cantarias, a vista calcula rapidamente,
+por instincto arithmetico, a grandeza de uma fabrica como a da Batalha,
+estabelecendo a proporo entre as dimenses da pedra e a estatura do
+homem, e entre a altura do homem e a elevao da nave.
+
+Do que fica exposto resulta que a simples substituio de uma pedra por
+uma pedra de dimenso differente na base de uma hombreira no portal da
+Batalha , em si mesma e isoladamente, como troca de pedra por pedra, um
+grave erro, porque essa base de hombreira, devendo ter tido inicialmente
+a dimenso exacta e precisa, que esquadria da cantaria impe a
+dimenso do bloco, um elemento fundamental da escala pela qual se rege
+todo o edificio; e no pode como tal nem supprimir-se nem alterar-se.
+
+Mas temos de considerar ainda que com essa mudana de pedra se offendeu
+o preceito da unidade, alterando a frma e a dimenso de um dos mais
+importantes membros da construco. O conjuncto de um monumento--diz
+Quatremre de Quincy-- de tal modo combinado, que n'elle se no pode
+nem tirar nem pr nem alterar o que quer que seja. E Violet-le-Du
+desenvolve esse preceito da maneira seguinte: um erro grosseiro
+suppr que um qualquer membro de architectura da edade mdia pode ser
+impunemente accrescentado ou diminuido. N'esta architectura no ha
+membro algum, que no esteja na escala do monumento para que foi
+composto. Alterar esta escala tornar esse membro disforme... Os erros
+de escala que escandalisam em um monumento novo e lhe tiram todo o
+valor, tornam-se monstruosos quando se trata de uma restaurao. As
+dimenses das portas--j dizia Vinhola--devem ser de uma proporo
+relativa escala pela qual se construir o edificio, grandeza das suas
+differentes peas e finalmente s particularidades da obra e do local em
+que esta fr feita. Com relao s portas nas ordens jonica, dorica,
+corinthia e toscana as propores entre a altura e a largura dos
+portaes, acham-se geometricamente determinadas pelos discipulos de
+Vitruvio. Na architectura gothica a porta representa porm um papel mais
+preponderante que em qualquer outro systema de construco. De hora
+avante--proclama Violet-le-Duc referindo-se ao periodo medieval--a porta
+deixar de augmentar em proporo com o edificio, porque, sendo feita
+para o homem, conservar sempre a escala propria do seu destino.
+
+A medida de extenso na edade mdia era a toeza, correspondente
+estatura do homem alto. A porta da egreja destinada a dar passagem ao
+portador de uma lana de guerra ou de torneio, de um baculo, de uma cruz
+ou de um pendo, tinha a altura fixa e invariavel de duas toezas a duas
+toezas e meia, segundo as regies em que se construia. O portal gothico
+tem ainda, como titulo ao nosso respeito pela sua inviolabilidade, a
+condio de representar na fachada do templo como que um summario de
+toda a obra. do principio da arcada, de que a porta o motivo
+predominante, que se deduzem e desenvolvem systematicamente todas as
+demais frmas constructivas e ornamentaes na architectura do edificio.
+Archivoltas, nervuras, pilastras, columnelos, janellas, nichos, misulas,
+baldaquinos, trifolios, que so na egreja da Batalha seno applicaes e
+desdobramentos successivos, engenhosamente variados, das linhas
+constitutivas da porta principal do templo?
+
+Quo tragicamente profunda tem que ser a indisciplina official em todos
+os servios da arte para que possa dar-se um attentado da ordem
+d'aquelle a que me refiro:--para que um architecto proponha, para que
+uma repartio publica auctorise, para que um ministro da cora
+sanccione--sem protesto do districto, do municipio ou da parochia--que
+se desfigure o primeiro dos nossos monumentos da edade mdia, alterando
+as frmas de uma porta, que a porta principal d'essa gloriosa egreja
+de Santa Maria de Victoria, que os architectos do mestre de Aviz alaram
+pela bitola dos estandartes, dos balses e das bandeiras de Aljubarrota,
+e segundo a altura a que chegava nas hombreiras o bico do bacinete ou a
+cimeira do morrio dos da ala da madresilva ou da ala dos namorados!
+
+Se fosse meu proposito enumerar os erros commettidos nas restauraes da
+Batalha teria de referir-me s vs deturpaes por que est passando a
+capella do fundador; ao detestavel altar mr, em cuja pedra to
+miseramente se acha reproduzido por uma especie de grafito o desenho de
+um mosaico, e a odiosa colorao das vidraas, em que o doce tom de
+ambar, que os vidristas da edade mdia obtinham por uma emulso de mel
+na preparao da tinta, se v substituido pelo de um reles amarello cru,
+de refalsado topasio. O inacreditavel tabernaculo com que houve o arrojo
+de empachar o ambito de uma das naves, sob pretexto de construir uma
+capella baptismal, teria ainda que deter por algum tempo o meu
+horrorisado espanto perante esse to insolente e to irrespeitoso abuso
+do pseudo-gothico, em proporo e em escala unicamente permittidas, por
+longanimidade de ridiculo, em jazigos de familia e em pratos montados,
+na latitudinaria architectura dos cemiterios ou das confeitarias.
+
+O meu fim porm no fazer a critica das restauraes da Batalha, mas
+sim demonstrar, como julgo ter feito, por meio de alguns factos
+caracteristicos e capitaes, que nas restauraes emprehendidas tanto
+n'esse como nos demais monumentos architectonicos recentemente reparados
+a expensas do estado, no houve antecedencia de programma, nem estudo
+previo, nem determinao de methodo, nem sanco critica, nem
+fiscalisao technica, nem policia artistica de especie alguma.
+
+Pelo numero e pelo quilate das mutilaes, deturpaes e superfetaes,
+inteiramente arbitrarias e escandalosas, de que so objecto os
+monumentos restaurados com assentimento e com subsidio official, como a
+Batalha, os Jeronymos e a Madre de Deus, poderemos calcular o que se
+passa nos edificios em que camaras, parochias e simples particulares
+esto no logro de restaurar, de concertar ou de demolir a seu gosto.
+
+Em Ponte de Lima havia uma ponte, que dava o nome villa. Esta ponte,
+em parte romana, em parte gothica, era revestida de ameias e entestada
+por dois castellos ogivaes. A vereao, com o motivo de desafogar a
+vista sobre as duas margens do rio, manda demolir os castellos e serrar
+as ameias da alludida ponte.
+
+Outra vereao, em Santarem, bota a baixo a bella torre gothica de Santa
+Maria de Marvilla, fundao dos primeiros tempos da monarchia, para o
+fim unico de deixar o terreno sem coisa alguma em cima, e ser por essa
+razo uma praa. A Real Associao dos architectos civis prope-se a
+esse tempo comprar os sinos da torre demolida, em bronze esculpido. A
+junta de parochia prefere derretel-os.
+
+No castello de Leiria, que, tendo sido construido como casa e museu pelo
+rei mais artista, mais poeta e mais sabio do seu tempo, constitue um
+documento, unico talvez na Europa, da archeologia romana e da vida de
+crte na edade mdia, certos festeiros em noite de gala, derribam a
+columnata do eirado principal para dar campo a um effeito de luminarias
+e de pyrotechnica.
+
+Na alcaova de Santarem as ameias de D. Affonso Henriques substituem-se
+por ignobeis grades de ferro fundido e pintado de verde.
+
+A porta da Atamarma, pela qual ainda passou Garrett ao tempo das
+_Viagens na minha terra_, arrasada, juntamente com a capellinha de
+Nossa Senhora da Victoria, que tinha por cima. No oramento d'essa
+demolio, que o governo approvou no anno de 1865, a camara de Santarem,
+tripudia de jubilo, affirmando que a dita desmontagem, _que por mais
+tempo se no podia protrahir_, fra vantajosamente arrematada pela
+quantia de trinta e nove mil ris, calculando-se em mais de cem mil o
+valr da pedra e do tijolo que ella produziu. Com esse cantico de
+alegria oramental, desappareceu o glorioso portico, por onde o fundador
+da nacionalidade portugueza e os da sua hoste entraram em Santarem com
+as espadas e as lanas gottejantes de sangue mouro, firmando por esse
+acto o fim do dominio sarraceno em Portugal.
+
+A porta do _Bom Successo_ veio abaixo, como a de Atamarma, por
+disposio do respectivo municipio.
+
+A destruio das portas de muralha, bellos arcos na maior parte ogivaes,
+com que tanto se enobreciam algumas das nossas velhas cidades, tem sido
+a grande preocupao vesanica das municipalidades modernas,
+absolutamente ignorantes, ao que parece, das gloriosas tradies locaes
+de que esses monumentos eram o testemunho authentico e sagrado.
+
+Dentro d'essa cathegoria de delinquentes ser difficil disputar o
+primeiro logar da serie pathologica cidade do Porto.
+
+O Arco da Vendoma, rua Chan, que havia sido uma das portas da
+circumvalao sueva, sobre a qual a rainha D. Tareja fizera collocar em
+ediculo a imagem da Senhora da Vendoma, trazida de Frana pelo bispo D.
+Nonego, desapiedadamente demolida em nossos dias, depois de oito
+seculos de existencia.
+
+Os bellos arcos do Postigo de Santo Antonio do Penedo e do Postigo do
+Sol veem egualmente abaixo, em 1875, sem razes algumas que expliquem
+mais esta demolio que a do Arco da Vendoma. Junto do Postigo do Sol
+ficava no entanto, e memorava-a o arco, a veneranda _Viella das Tripas_,
+onde assistiam as fressureiras, que deram aos do Porto o nome de
+tripeiros, vendendo-lhes os miudos das rezes, cuja carne elles haviam
+espontaneamente cedido armada de D. Joo I para a expedio de Ceuta.
+
+ Porta do Olival, da qual como do Postigo do Sol s resta o nome, foi
+acclamado D. Joo I. A essa porta foi esperada pelos portuenses, e por
+ella entrou pela primeira vez na cidade, na occasio das suas bodas com
+o mestre de Aviz, a rainha Filippa de Lencastre.
+
+O Arco da Senhora Sant'Anna, que deu o titulo linda narrativa
+portuense de Almeida Garrett, sacrificado como os demais ao alvio
+municipal da cidade invicta.
+
+O ultimo emfim dos arcos do Porto, ainda ha bem poucos annos destruido,
+foi o da Porta Nobre, por onde faziam a sua entrada solemne os bispos e
+os reis, que os moradores da Reboleira recebiam triumphalmente na sua
+rua, juncada de espadanas e de funcho, entre festes de flores pendentes
+das velhas janellas de resalto, flamenga, sob punhados de trigo,
+reluzente no ar em chuva de ouro.
+
+Em Santarem disseram-me ha dias, nos proprios logares em que se est
+mancumunando o delicto, que os vereadores projectam agora demolir a
+Torre das Cabaas.
+
+Quando a rainha D. Maria I visitou Santarem em 1785, botaram-se as
+medidas do cche de sua magestade a todo o caminho que elle tinha de
+percorrer, e desfizeram-se diligentemente a pico, nas ruas da villa,
+todas as protuberancias architectonicas em que se anteviu algum risco de
+entalao para o trajecto da real berlinda.
+
+No Canto da Cruz cortaram-se, como quem corta queijo, os vertices dos
+angulos nos edificios de esquinas menos reverenciosas para com o regio
+transito. Entre a Torre do Alporo e a Torre das Cabaas o passo porm
+apresentou-se especialmente difficil. Applicou-se-lhe a bitola do regio
+cche, que o secretario de estado visconde de Villa Nova da Cerveira
+mandra previdentemente de Salvaterra de Magos ao juiz de fra,
+presidente da camara municipal da villa, e consignou-se que, por obra
+infernal de palmo ou palmo e meio de saliencia, o magestatico vehiculo
+da soberana teria de ficar engasgalhado pelos cubos das rodas entre os
+dois monumentos. Ento, depois de haverem marrado por um momento no
+problema, e uns nos outros, os vereadores scalabitanos removeram a
+difficuldade, redobando a fita da medio inutilmente esticada, mettendo
+os solicitos e suados covados debaixo dos braos, e mandando
+simplesmente arrasar a Torre do Alporo, monumento do dominio romano, do
+alto do qual, durante a occupao serracena, o arabe dictava ao povo a
+lei de Mahomet.
+
+A Torre das Cabaas muito menos antiga e menos documental que a do
+Alporo. Com quanto Garrett a faa invocar anachronicamente no _Alfageme
+de Santarem_, em estimulo de defesa contra a invaso castelhana, como um
+dos traos mais expressivos da physionomia pittoresca da patria, essa
+torre data apenas do tempo de D. Manoel. No tem caracter propriamente
+architectural, uma simples pea de alvenaria quadrada. Mas o seu
+estranho remate, em grande elevao, formado pelo sino a descoberto,
+sustido na convergencia superior de quatro vares de ferro, estribados
+obliquamente nos quatro angulos da torre, e revestidos de pucaras de
+barro, da olaria local, destinadas a ampliar a sonoridade do bronze no
+tanger das horas e dos signaes de rebate, d-lhe uma feio
+verdadeiramente especial, inconfundivel, indelevel. No ser talvez o
+mais monumental, o mais nobre, o mais rico, mas de certo o mais
+suggestivo, o mais anedoctico, o mais interessante, o mais carinhoso, o
+mais familiar, o mais lindo campanario de toda essa to formosa campina
+ribatejana, o mais aberto sorriso agrario da terra portugueza. Tudo
+envolve de penetrante poesia local essa velha torre. O seu mesmo nome de
+_relogio das cabaas_ ou de _cabaceiro_ se allia harmonicamente no
+ouvido lembrana das lezirias, das hortas, dos paues, das courellas e
+dos olivedos, que o circumdam, e fazem d'elle como que uma parte
+integrante da paizagem, um natural rebento da terra. O aspecto de
+improvisao e de interinidade d'essa summaria ventana de sino, que
+parece armada em quatro pampilhos, uma verdadeira obra d'arte, que
+lembra mais commoventemente do que nenhuma outra inventada pelos
+architectos, a origem arabe, a vida nomada, a tradio pastoral da
+regio em que surgiu.
+
+Os conspicuos burguezes do senado de Santarem no podem ter opinio
+sobre esta questo de esthetica, porque elles carecem absolutamente do
+ponto de vista em que deve de ser considerada a sua Torre das Cabaas, a
+qual evidentemente se no construiu para que suas excellencias a
+alveitassem doutoralmente de dentro dos paos do concelho, ou c fora na
+praa, de chapeus altos, sobrecasacas dominicaes e barbas feitas,
+abordoados aos seus chapeus de sol, e muito mais garantidamente
+cucurbitaceos que o seu proprio cabaceiro. A Torre das Cabaas fez-se
+para ser olhada do vasto campo da Golleg ou do campo de Almeirim, vindo
+do Valle, vindo de Coruche, de Benavente, ou da Barquinha, atravez dos
+olivaes, das terras de semeadura e das eiras do termo de Santarem, de
+jaqueta e sapatos de prateleira, montando uma egua de maioral, de
+cabeada de esparto, almatrixa de pelles e estribos chapeados. O
+Cabaceiro de Santarem, com a sua cupula em trempe, as suas cabaas de
+barro e o seu sino grande de correr e de governar as horas, fez-se para
+o largo e ridente campo ribatejano, fez-se para os campinos, para os
+vaqueiros, para os almocreves, e talvez se fizesse tambem para mim, que
+no vejo em arte razo alguma plausivel para que, como motivo ornamental
+de uma torre, folha do acantho ou ao chavelho em voluta da
+architectura grega se prefira a nossa linda pucarinha de barro vermelho
+de Reguengo, da Atalaia ou da Asseiceira.
+
+No! o senado santareno tem de deixar ficar onde ella est a sua to
+caracteristica torre, para que se no diga que dos tres potes, que de
+antiga tradio consta acharem-se soterrados na Alcaova, um cheio de
+ouro, outro cheio de prata, outro cheio de peste, a camara da localidade
+no encontrou seno o ultimo para o despejar sobre os monumentos
+publicos sujeitos sua jurisdio e confiados sua guarda.
+
+Que sob o antigo regimen os vereadores de Santarem deitassem a baixo a
+Torre do Alporo, para passar uma rainha, uma desdita em extremo
+lastimavel, mas que sob o regimen vigente se deite egualmente a baixo a
+Torre das Cabaas, para que passem os proprios vereadores, um desando
+grande da publica administrao para muito peior do que estavamos no
+tempo da muito saudosa senhora D. Maria I.
+
+A torre da S Velha, de Coimbra, desapparece no fim do seculo passado
+perante uma simplicidade de processo, que bem demonstra quanto os
+poderes publicos, desajudados de conselho artistico, teem sido, em todo
+o tempo, inhabeis e incompetentes para proteger os monumentos da nao.
+Foi o meu amigo Theofilo Braga quem, ao colligir no Archivo Nacional os
+documentos ineditos das relaes do marquez de Pombal com D. Francisco
+de Lemos para a reforma dos estudos na Universidade, descobriu a breve
+historia da demolio da torre da S Velha. Em carta de 3 de setembro de
+1773, D. Francisco de Lemos d conta ao marquez de que demoliu a torre:
+...A dita torre era um monto de pedra e cal sem arte e figura, que
+servisse de ornato cidade, e antes estava tirando a vista do Pao das
+Escolas, e de muitas casas. E principalmente muito nociva Imprensa,
+porque ficando ella no alto e esta embaixo, lhe tirava o sol, com que a
+fazia menos clara e humida. Pareceu-me conveniente vista de todas
+estas razes que se demolisse, o que se tem executado, seguindo-se todas
+as utilidades ponderadas acima, e egualmente a de haver pedra para tudo
+o que foi preciso fazer. Em sigla marginal a esta carta opina o marquez
+de Pombal: Que est muito bem feita a providencia sobre a torre da S
+antiga. E em carta de 5 de outubro do alludido anno de 1773, o marquez,
+em stylo official, desenvolve a sua acquiescencia ao estupido vandalismo
+de D. Francisco de Lemos: Tambem me pareceu bem ajustada a providencia
+e resoluo que V. Ex.^a tomou de mandar demolir a torre da S antiga
+que no servia mais que de ser um _Padrasto sombrio e infimo_, s
+proprio para desfigurar a formosura do Palacio a que estava quase
+contiguo e de escurecer as actuaes officinas, etc.
+
+Do mosteiro de Alcobaa desapparece todo um claustro do tempo de D.
+Affonso Henriques.
+
+Em S. Francisco d'Evora ampliam-se as dimenses da rosacea no
+frontespicio da egreja, abalando as cantarias circumstantes e pondo em
+risco todo o equilibrio da empena. Alm d'isso, para o fim de aproveitar
+a pedra para outras applicaes, desampara-se a abobada, deitando abaixo
+a ala do convento que lhe servia de encontro.
+
+No castello de Palmella e em S. Salvador de Pao de Sousa acham-se
+violados e deshonrados pelo mais completo despreso, alm das campas dos
+cavalleiros de Santiago, o tumulo do principe D. Jorge, e o tumulo de
+Egas Moniz, que em Pao de Sousa dividiram em dois, pondo cada metade
+para seu lado, em pontos oppostos da egreja. O cofre de pedra que
+continha a ossada do fiel aio de Affonso Henriques transforma-se em pia
+de um bebedouro publico.
+
+A sumptuosa egreja do convento de S. Francisco em Santarem, fundao de
+D. Sancho II, com as suas tres naves, as suas columnas de preciosos
+capiteis e os floridos arcos da sua restaurao manoelina, converte-se
+em uma das cavallarias do regimento aquartelado no convento.
+Violaram-se todos os tumulos que encerrava o claustro e occupavam a
+egreja, sem que esta, segundo nos consta, fosse nunca dessagrada
+liturgicamente. Parece que no houve tempo para satisfazer essa to
+breve formalidade de respeito.
+
+As saras, os silvados, e os subtis rendilhamentos manoelinos do tumulo
+precioso do conde de Vianna D. Duarte de Menezes, pela circumstancia de
+ser a esculptura removida para S. Joo do Alporo pela benemerita
+commisso administrativa do Museu Districtal de Santarem, escaparam
+miraculosamente aos coices das bestas de guerra, que o governo portuguez
+destinava ao sagrado monumento erigido pela doce piedade conjugal
+memoria do leal e valoroso soldado de Affonso V, que na conquista de
+Alcacer-Ceguer se deixou morrer s lanadas para salvar a vida do seu
+rei.
+
+O tumulo de D. Fernando, que estava na mesma egreja, foi pela Associao
+dos architectos trazido para o museu do Carmo.
+
+Um dente de D. Duarte, que a condessa de Vianna encerrara, como unica
+reliquia de seu marido, no monumento que lhe consagrara, conserva-se
+ainda dentro do estojo que primitivamente o continha. A ossada do rei D.
+Fernando, essa desappareceu, como desappareceu a de D. Francisco de
+Almeida, atirada para a cerca do quartel na occasio em que se lhe
+destruiu o tumulo, aproveitando-se a area de pedra em que jazia o corpo
+para bebedouro especial dos cavallos com mormo.
+
+As demais campas, que constituiam o pavimento do claustro desde o
+principio do seculo XIV desappareceram todas, e nem sequer se sabe j de
+quem eram, por que, para no escorregarem os cavallos do regimento,
+desempedrou-se o claustro e perderam-se as lapides que n'elle se
+continham.
+
+A sepultura de Pedro Alvares Cabral est na egreja da Graa, um dos
+bellos templos da fundao da monarchia em Santarem. Esta egreja
+cedida pelo governo pobre irmandade dos Passos. A irmandade carecia de
+meios para custear o decoro do culto e a conservao do edificio.
+Occorria generosamente a essa despeza o proprietario do convento annexo
+ egreja. O dono do convento falleceu recentemente, legando a casa a um
+azylo que n'ella fundou. A egreja da Graa de Santarem est portanto, a
+bem dizer, desamparada. A quem que se acha confiado o tumulo de Pedro
+Alvares Cabral? No se sabe bem, e so grandes, como pessoalmente tive
+occasio de experimentar, as difficuldades que encontra quem deseje dar
+com o depositario das chaves para ver a egreja. s gloriosas cinzas
+d'aquelle que nos deu o Brazil, a gente nem sequer sabe dar um guarda.
+
+O mausoleu do nosso S. Frei Gil corre aventuras parecidas com as do
+mausoleu do rei D. Fernando. Os marquezes de Penalva, parentes do Santo,
+recolhem na capella do seu palacio em Lisboa as cinzas do bemaventurado.
+A tampa do tumulo com a estatua do Santo vem para o museu do Carmo. A
+arca sepulchral, que encerrava os seus restos, fica em Santarem,
+servindo de pia de amassar cal para as obras do municipio.
+
+Em Guimares mascaram indignamente de cal e de madeira as columnas e as
+arcarias da veneravel egreja de Nossa Senhora da Oliveira, fundada nos
+primeiros annos do seculo X pelo conde Hermenegildo Mendes e por sua
+mulher a condessa Mumadona. No claustro do seculo XIII, que envolve uma
+parte da egreja, revestem de caixilharia envidraada a graciosa arcaria,
+e rebocam espessamente a cal os capiteis das columnas. A flammante
+janella gothica, que por cima da porta, na fachada do templo, fazia
+explodir em apotheose a polychromia do espelho, emoldurado na sua larga
+cercadura esculpida de silvados, historiada de estatuetas de santos em
+phantasiosos resaltos de misulas, sob rendilhados baldaquinos,
+impiedosamente arrasada e substituida por uma chapada de cantaria
+corrida, perfurada por quatro oculos.
+
+Em Santarem, na egreja do Milagre, pelas trovoadas d'este vero, um raio
+fere o cone azulejado da torre, penetra na capella mr, despedaa a
+madeira do arco que a separa da nave, e pe a descoberto, por baixo
+d'esse revestimento de taboas pintadas, os mais lindos lavores
+esculpturaes de uma arcaria da Renascena, em que cherubins voejam,
+sustendo grinaldas e cornucopias floridas, por entre a laaria
+afestoada, com rotulos pendentes. Todos os relevos mais salientes da
+esculptura haviam sido desbastados a pico para nivelar a superficie da
+pedra em que assentara a madeira.
+
+Em Setubal, na egreja manoelina das freiras de Jesus, besuntam as
+columnas, os artezes e os fechos da abobada com a mais tosca e espessa
+camada de pintura. O material subjacente o lindo marmore polychromico
+da Arrabida. A pintura a que me refiro tem a inteno esthetica de
+imitar a borres d'ocre esse mesmo marmore cuja superficie to
+sordidamente conspurca.
+
+Quando ha quatro annos o governo mandou pr em hasta publica uma parte
+do convento de Cellas, incluindo o seu encantador claustro, metade do
+qual do tempo de D. Diniz, uma voz anonyma protestou, eloquente e
+energicamente, contra semelhante desacato, por meio de uma pequena
+brochura impressa em Coimbra e largamente espalhada pelo paiz todo, a
+pedir soccorro imprensa. Rarissimos periodicos acudiram ao rebate. Na
+parte que data do seculo XIV, o pequenino claustro de Cellas, em arcadas
+de meio ponto e columnas geminadas, de capiteis cubicos, historiados por
+todos os lados com deliciosas figurinhas representando os mais tocantes
+episodios da vida da Virgem Maria, de Jesus e dos seus santos, a mais
+delicada, a mais commovida, a mais poetica obra da arte portugueza
+n'esse interessante periodo da transio do stylo romanico para o
+advento do gothico, na evoluo capital da arte na Edade Media. A
+virginal candura, profundamente enternecida, do artista desligado da
+preceituao hieratica de uma esthetica que se extingue, para entrar com
+toda a frescura intacta do sentimento na sinceridade de uma arte nova,
+invasivamente tocante na concepo de varios episodios d'esta
+composio, como o da Annunciao, o do Sonho de Nossa Senhora, o da
+Adorao dos Reis Magos, o da Fuga para o Egypto, e o da Crucificao de
+Jesus, que, pela primeira vez nas representaes d'este periodo, nos
+apparece flagellado pela cora de espinhos e com os dois ps
+sobrepostos, fixados ao madeiro por um s cravo. Acompanhando e
+envolvendo a primorosa obra do esculptor, tudo no claustro de Cellas se
+compensa, se pondera e se equilibra admiravelmente para o fim de pr em
+suggesto o pensamento que d'essa obra deriva.
+
+ uma construco ineffavelmente pura, toda de intimidade e de religio,
+no sentido de cada uma das suas partes e na harmonia total do seu
+conjuncto. Nem a mais leve macula mundana, de presumpo ou de orgulho.
+Nem um s nome profano, nem um unico emblema heraldico, brazo, cora,
+paquife, divisa ou empresa. Nada que lembre da terra as ambies, a
+fora, a gloria ou o brilho: nem quinas, nem lizes, nem pelicanos, nem
+espheras. A mesma aconchegada dimenso do recinto, parecendo amoldado ao
+passo leve e recolhido das freiras, as quaes se ouviriam a meia voz de
+um extremo para o extremo opposto do pateo; o stylobato em bancada
+revestida de azulejos do tempo, enxadrezados em verde e branco; a
+pequena altura dos fustes, proporcionados a uma estatura de novia, que
+poderia do cho acarinhar as imagens dos capiteis com uma flr de
+aucena; a reclusa modestia da galeria superior, em que o beiral do
+telhado se apoia ao parapeito em curtos esteios de granito; a mesma
+vegetao arbustiva, que ainda sobrevive antiga ornamentao floral do
+pateosinho ajardinado; as diminutas capellas e os nichos que rodeiam a
+claustra; tudo emfim concorda e condiz na mais rara e doce harmonia de
+uma expresso intradusivel. O claustro de Cellas , pela extranhesa e
+pela preciosidade da sua poesia e da sua arte, uma especie de murmurosa
+fonte, ineffavel e perenne, em que a agua no vem de alterosos e
+magestaticos aqueductos cantar ao sol em taas brunidas de prophyro ou
+de alabastro, suspensas por grupos de naiades, de sereias ou de
+golfinhos, mas rompe da rocha viva, como nas grandes altitudes
+alcantiladas das nossas serras, manando em fio tenue e crystalino,
+desnevada e purissima, escondida entre fragas, a que se entra de rastos
+para ir sedentamente beijal-a na sua humilde nascente engrinaldada de
+violetas em flr.
+
+Providenciando sobre o destino de um to delicado monumento, posto em
+leilo pela quantia de um conto de ris, dispunha o governo que os
+capiteis das columnas se serrassem dos respectivos fustes e se
+recolhessem n'um museu!
+
+No sei em que phase administrativa se acha ao presente esse negocio. O
+que sei que o primoroso claustro de Cellas, medonhamente desaprumado
+da perpendicularidade das suas columnas, no espera seno o primeiro dos
+mais leves pretextos para se desmoronar inteiramente.
+
+Na linda egreja de S. Joo, em Thomar, abrem-se na fachada principal, de
+cada lado de um portal manoelino, duas janellas da mais corriqueira e
+mais villa cantaria.
+
+Ha bem poucos dias ainda um distincto critico nos revelava, em uma folha
+periodica, os desacatos por que est passando o antigo mosteiro das
+Bernardas de Almoster, construido para commemorar o milagre de Santa
+Iria pela devota Berengaria com a collaborao de Santa Isabel.
+
+Na S de Braga as estatuas jacentes dos tumulos do conde D. Henrique e
+de sua mulher foram cortadas pelo meio das pernas para caberem nos novos
+logares para onde as transferiram, e, com o fim de no transtornar
+inteiramente a anatomia dos personagens, pareceu util applicar os ps
+decepados aos joelhos das figuras.
+
+Na mesma egreja existe o bello tumulo em bronze do joven infante D.
+Affonso, filho de D. Joo I, obra mandada fazer em Bruxellas pela
+infanta portugueza D. Isabel, mulher de Filippe o Bom. A estatua do
+infante, em tamanho natural, repousava deitada na tampa do mausoleo
+entre dois anjos em adorao. A caixa tumular, ornada de brazes,
+cingidos de arabescos e silvados em relevo, descana sobre lees. Em
+1881 foram roubadas as cabeas dos lees, os ps e as mos da estatua, e
+os dois anjos que ladeavam a cabea do principe. O templo est
+completamente desfigurado do seu aspecto primitivo. Empastaram-se os
+capiteis das columnas, transformou-se a arcaria das naves, abriram-se
+grandes janellas nas paredes da egreja, adornaram-se os intervallos das
+capellas com enormes estatuas dos apostolos feitas de pau, e pintou-se
+tudo de branco--madeiras e cantarias.
+
+A pedra da campa de Garcia de Rezende, sepultado na encantadora ermida
+que elle mesmo delineou e mandou construir na cerca do convento de Nossa
+Senhora do Espinheiro, foi arrancada da sepultura do nosso chronista, e
+serve presentemente de banca de cosinha em casa de um cavalheiro de
+Evora.
+
+Os tumulos da familia de Abrantes acham-se em tanto esquecimento e em
+tanto abandono na capella do seu castello, como em Alcobaa os de D.
+Pedro e D. Ignez de Castro; como em Pao de Sousa o de Egas Moniz; como
+em Palmella o de D. Jorge, em cujo testamento alis se attribue uma
+verba s reparaes d'aquella casa; como, finalmente, ainda ha pouco em
+Alemquer, o de Damio de Goes, antes de haver sido reposto pelo sr.
+Possidonio da Silva o busto do nosso chronista sobre o seu jazigo da
+egreja da Varzea.
+
+Na Vidigueira a camara auctorisa o povo a utilisar em obras particulares
+as cantarias do castello de Vasco da Gama, como se o solar do
+descobridor da India no tivesse mais importancia historica que a que se
+liga a qualquer pedreira.
+
+Em Evora, para dar mais um metro ou metro e meio de superficie a uma
+praa, a camara deita abaixo a historica varanda da casa dos paos do
+concelho, edificada em tempo de Affonso V, por Joo Mendes Cecioso, o
+_pae dos pobres d'Evora_. A varanda demolida, da qual pela primeira vez
+se aclamou a independencia de Portugal depois das famosas _alteraes_,
+to minuciosamente narradas por D. Francisco Manoel de Mello na sua
+_Epanaphora politica_, parece ter sido obra de D. Joo II.
+
+Por muitas vezes se tem discutido na camara eborense, e parece at haver
+sobre tal assumpto uma resoluo assente, o projecto inaudito de
+eliminar toda a bella alpendrada da praa, da rua Ancha e da rua da
+Porta Nova.
+
+Outra resoluo da camara de Evora, resoluo definitiva e aprasada para
+muito breve, a de destruir a pequena e to graciosa egreja do convento
+do Paraizo para o fim de estabelecer mais uma praa entre as duas ruas
+de Machede e de Mendo Estevens, s quaes faz esquina aquelle templo.
+
+A diminuta egreja do Paraizo, com os seus dois arcos manoelinos, com os
+seus preciosos azulejos do seculo XVI, em tapete mural, acompanhando nas
+barras o recorte dos arcos em zig-zag, e com o seu tumulo em ediculo de
+D. Alvaro da Costa, um dos mais graciosos documentos architectonicos
+do seu tempo.
+
+Pobre cidade de Evora, um dos nossos mais vastos e mais preciosos museus
+de archeologia e d'arte, preferindo como Santarem ser uma estupida
+colleco de praas largas e de ruas novas! Por toda a Europa, os velhos
+bairros historicos so hoje o thesouro das cidades que os possuem. Em
+muitos logares, onde esses bairros no existem, esto-os inventando,
+esto-os reconstituindo em homenagem erudita e piedosa tradio
+historica, poesia do passado. A camara de Evora, vangloriosa no
+pelintrismo das suas innovaes, bota abaixo os mais venerandos
+monumentos da cidade; por outro lado improvisa ruinas scenographicas no
+seu jardim publico, armando com trepadeiras e malvaiscos grupos
+sentimentaes de velhas columnas postas de pernas para o ar n'esse
+effeito de bordado a cortia ou a miolo de figueira; pica os seus
+historicos brazes para fazer passeios lisos de ruas novas aos seus
+janotas; e bate, modernisante e festeira, sobre o epitaphio do mais
+palaciano e do mais artistico dos seus escriptores quinhentistas, a
+carne do bife consagrado talvez ao penso d'algum dos seus novos
+reporters.
+
+Mas eu que no posso deixar de dizer cidade de Evora, que o que a
+ella nos attrae e n'ella nos retem no so as suas novas avenidas, nem
+as suas praas, nem o seu lindo theatro, nem o seu bello Passeio
+Publico. O que em Evora nos embelleza e nos encanta, so os seus velhos
+mosteiros, as suas antigas egrejas, os nomes das suas primitivas ruas,
+estreitas e sinuosas, to curiosos e to archaicos como o de
+_Valdevinos_, o de _Alconchel_, o das _Amas do Cardeal_, o do _Alfaiate
+da_ _Condessa_; so os quadros incomparaveis do seu pao archiepiscopal;
+so os variadissimos documentos da sua architectura ogival e da sua
+architectura da Renascena, to especialmente amoiriscada n'esta parte
+do Alemtejo; so os restos das suas antigas industrias locaes, a olaria,
+a tapearia, a caldeiraria, a sellaria e a carpintaria de moveis;
+talvez ainda a sua tradicional cosinha, a doaria famosa dos seus
+conventos, a sua honrada assorda de cuentros, e o seu bolo pdre, de
+farinha de milho, azeite e mel, como o que se comeria talvez, entre os
+hebreus da Biblia, mesa de Abraho.
+
+Com as improvisaes do seu modernismo Evora como Vianna do Castello,
+Braga, Guimares, Coimbra, Thomar, Santarem, ou Beja, que smente
+interessam os viajantes pela sua antiga arte, e no valem realmente a
+pena de que alguem as visite pelo que do de novo.
+
+Em Lisboa repudia-se a soberba egreja de Santa Engracia, o mais bello
+dos nossos monumentos do seculo XVII. O interior do templo de uma
+magnificencia magestosa. A riqueza dos marmores smente se pode comparar
+ de Mafra. A mo d'obra de uma perfeio magistral a ponto de parecer
+indestructivel. Aproveitada para pantheon nacional esta egreja seria um
+dos mais imponentes edificios da Europa. Falta unicamente sua
+concluso a cupula do tecto e o lageamento do cho. Taparam-lhe o arco
+da entrada a pedra e cal, no tem cobertura, e est servindo de armazem
+de arrecadao do inutilisado material de guerra do Arsenal do Exercito.
+
+A inoffensiva capellinha das Albertas, bem interessante pela
+ornamentao to portugueza dos seus embrechados, ha poucos dias ainda
+acabou de desapparecer, como o convento da Esperana, sem se saber
+porque, nem para que.
+
+A restaurao, que recentemente padeceu a egreja de S. Vicente de Fra,
+to particularmente notavel pelos bellos mosaicos portuguezes que a
+exornam, caracterisa-se bem no mau gosto da pintura com que se maculou a
+nobreza d'aquelle templo.
+
+Os attentados de restauro de que ainda nos tempos modernos tem sido
+objecto a S de Lisboa so to lastimosos quanto innumeraveis.
+
+Finalmente, ao lado da Torre de Belem, o mais peregrino entre os mais
+bellos monumentos da nossa architectura, estabelece-se o gazometro da
+companhia de illuminao a gaz! A esbelta silhueta rendilhada do mais
+suggestivo padro da nossa gloria militar e maritima, j no emerge da
+areia loura do Restello, em deslumbradora apotheose, na vasta
+luminosidade do ceu e da agua, destacando-se das collinas de Monsanto,
+como a alvura de uma hostia em elevao se destaca do fundo de um
+retabulo esmeraldado, em altar de ouro fulvo, sob uma abobada azul.
+Sacrosanta pela sua expresso moral, como a immaculada estalactite,
+formada beira do mar pela concreo mysteriosa de todas as lagrimas,
+de saudade, de ternura, de consternao e de enthusiasmo, choradas por
+um povo de embarcadios; sacrosanta na sua forma artistica, como aquelle
+dos monumentos de Portugal, em que o genio lusitano da Renascena, mais
+expressivamente se revela como dominador da India, a Torre de Belem
+emparceira-se com a chamin do mais vil e sordido barraco, a qual
+sacrilegamente a cuspinha e enoda com salivadas de um fumo espesso,
+gorduroso e indelevel, como se a incomparavel joia d'esse marmore, que o
+sol portuguez carinhosamente sobredourara pelos afagos de tres seculos,
+houvesse sido to subtilmente cinzelada pelos artistas manoelinos para
+escarrador de mariolas, por cima do qual todavia ainda algumas vezes, em
+dias de gala, se desfralda e tremula o pavilho das quinas, mascarrado
+de carvo como um chch de entrudo.
+
+Ministerios de todos os diversos partidos politicos se revezam
+consecutivamente no poder, sem que nenhum d'elles parea attentar em um
+tal desdouro, expresso viva do mais abandalhado rebaixamento a que,
+perante as suas tradies historicas e artisticas, podia chegar a
+degenerao de uma raa. Por seu lado o parlamento e a imprensa so
+insensiveis responsabilidade de taes civicias, porque esses dois
+poderes do Estado, enrascados na baixa intriga partidaria, immobilisados
+n'ella, como um enxame de pardaes n'uma bola de visco, de ha muito que
+perderam o sentimento de nacionalidade e a noo de patria, relaxando
+completamente aos archeologos, aos poetas e aos artistas a unica
+legitima representao, desinteressada e altiva, do espirito portuguez.
+
+Consta no emtanto que brevemente ser celebrado em Lisboa o centenario
+da India; e da comprehenso que temos d'esse feito culminante da nossa
+historia maritima daremos ao extrangeiro um testemunho definitivo,
+mostrando o monumento que commemora tal faanha, envolto, como nas
+dobras de um crepe, pela fumaada de uma fabrica, que ns mesmos lhe
+puzemos ao p, para o deshonrar.
+
+
+Se do exame da architectura dos nossos monumentos, passamos ao exame das
+artes decorativas, da pintura e da esculptura amovivel, mais lastimoso
+ainda o espectaculo da nossa incuria.
+
+Ao clero portuguez cabe principalmente a gloria de haver conservado o
+que ainda resta do nosso patrimonio artistico.
+
+Das galerias particulares de pintura que o conde de Raczynski ainda
+encontrou em Portugal, no anno de 1845, quasi tudo se sumiu.
+
+Demoliram-se, desappareceram, ou foram transformadas pela mudana de
+dono, pela mudana de destino, pela transformao mais radical da vida
+interior que as animava, quasi todas as casas que ainda em 1840 eram o
+typo das habitaes nobres em Lisboa.
+
+Citarei, ao acaso da memoria: o palacio da marqueza de Niza, a Xabregas,
+fundado no seculo XV pela rainha D. Leonor; o palacio chamado dos
+Patriarchas, o de Pessanha e o do conde de S. Miguel, Junqueira; o do
+marquez de Pombal s Janellas Verdes; o do conde de Carvalhal na Rocha
+do Conde d'Obidos, famoso outr'ora pela colleco das suas mobilias;
+Cotovia o do conde de Ceia e o do conde de Povlide; no Calhariz os de
+Braancamp, do duque de Palmella e do marquez de Olho; o do marquez de
+Castello Melhor e o do conde de Lumiares, no antigo Passeio Publico; na
+collina do Castello o do marquez de Ponte de Lima, o do marquez de
+Alegrete, o do marquez de Tancos; no Campo de Santa Clara o do visconde
+de Barbacena, o do conde de Resende, o do marquez de Lavradio, e um
+pouco mais para leste o do conde da Taipa; o do visconde da Bandeira, a
+S. Domingos; e finalmente o do marquez de Borba, o do conde de Almada, e
+o do morgado de Assintis, cujo theatro era o mais sumptuoso entre todos
+os numerosos theatrinhos particulares que havia em Lisboa no principio
+do seculo, como o do baro de Quintella, o do visconde de Anadia, o do
+conde de Almada, e o do conde de Sampaio.
+
+A maior parte d'essas casas eram ainda, pelo seu antigo recheio, apesar
+dos estragos do terremoto, apesar da rapina da invaso franceza,
+verdadeiros sanctuarios d'arte. Mobilavam-as as mais ricas peas das
+industrias do Oriente que existiam na Europa, escriptorios, papelleiras
+e bahus monumentaes de charo, bufetes e contadores feitos na India ou
+fabricados em Lisboa por marceneiros aqui educados, no tempo de D.
+Manoel, por artistas indianos.
+
+Os servios de mesa e os vasos decorativos eram das mais antigas e das
+mais preciosas porcellanas da China e do Japo. A colleco das colxas e
+dos panos de armar, com que no dia da procisso de Corpus-Christi se
+revestiam inteiramente as fachadas de todos os predios da Baixa, eram de
+brocado, de damasco, de setim e de veludo, constellados a matiz e a ouro
+nos mais deslumbrantes desenhos persas.
+
+Os bragaes, de linho da Hollanda, da Flandres e do Reino, arrecadavam-se
+nas sumptuosas caixas encouradas, que foram no seculo XVI uma das
+industrias famosas de Lisboa.
+
+Nas gavetinhas dos contadores e nos escaninhos dos armarios e das arcas
+estavam as joias, as rendas, os aljofares, os entretalhos, os firmaes,
+as chaparias, os ouros de martello, e as obras mais diminutas e subtis
+das antigas bordadoras e colxoeiras de Lisboa,--restos de coifas, de
+face e gravis, redes, cadenetas, desfiados.
+
+As baixellas brazonadas, de ouro e prata, levantadas em besties e em
+silvados, a martello, ou cinzeladas por emulos de Benvenuto Celini,
+trasbordantes de ornato, em encaiches de arabescos e de laarias, eram
+um luxo commum a todas as familias nobres, e refulgiam pelas grandes
+festas do anno em todas as casas de jantar.
+
+O mogno francez do imperio, com as suas applicaes de bronze,
+representando fachos, pyras ardentes, lyras e tropheus de guerra,
+invadira com as modas da revoluo liberal muitas casas lisboetas, sem
+todavia desthronar inteiramente o precioso mobiliario da Renascena, em
+cedro, em pau rosa, em sandalo, em nogueira, em carvalho ou em ebano, ao
+gosto mudegar ou ao gosto florentino, embutido de marfim, de
+madreperola, de prata, de esmaltes limosinos ou aragonezes. Abundavam as
+cadeiras e os catles de couro lavrado ou de guadamecim, cravejado no
+carvalho ou no pau santo com pregos cinzelados de cobre ou de prata; e
+nas poltronas, nas commodas, nas meias-commodas, nos escaparates, nas
+cadeirinhas, nas molduras dos espelhos e das sobreportas predominavam as
+formas curvilineas da influencia de Luiz XIV e de Luiz XV na poca de D.
+Joo V e de D. Maria I.
+
+Na talha dos oratorios encontravam-se alguns d'esses baixos relevos em
+madeira, polychromicos, em escala mui clara, to caracteristicos da
+nossa esculptura em madeira do seculo XVII, bem accentuadamente revelada
+nas obras de Bouro, de Tibes, de S. Gonalo de Aveiro, e da S Nova de
+Coimbra.
+
+O presepio era um appendice por assim dizer obrigatorio; sempre que no
+occupava um compartimento especial da casa, o presepio concentrava-se na
+sua machineta em forma de urna, semelhante s que se destinavam a conter
+uma cella de Santo Antonio ou uma arribanasinha de menino Jesus.
+
+Todas as familias historicas tinham a sua mais ou menos consideravel
+galeria de pintura: paineis de devoo, retratos de antepassados, e um
+ou outro quadro de genero ou de paizagem, em tela ou em cobre,
+attribuidos a Breughel, a Rosa di Tivoli, a Tenniers ou a Rubens, obras
+em geral apocryphas e mediocres. Grassavam, com tenacidade talvez
+excessiva, as Josephas d'Obidos e os Morgados de Setubal, mas entre os
+retratos do seculo passado, encontravam-se alguns preciosos, como os de
+Pelegrini em casa dos viscondes de Anadia, como os pintados por Madame
+Guiard, por Grard e por Therbouch, em casa do visconde de Sobral.
+Entre os quadros de devoo destacavam-se frequentes obras primas
+nacionaes, do seculo XVI, referidas vida da Virgem Maria, lenda de
+Santa Ursula, aos agiologios de alguns santos portuguezes, como
+Verissimo, Maxima e Julia.
+
+Nos sotos d'essas antigas casas havia accumulaes seculares de moveis
+inutilisados, de miudezas rejeitadas e esquecidas, com as quaes se
+sepultariam documentos inapreciaveis para a historia da nossa influencia
+na evoluo europeia das artes sumptuarias: cadeiras aluidas e canaps
+desconjuntados, desusados manicordios, velhos cravos de charo,
+abandonadas espinetas, em cujo teclado amarellecido se teriam dedilhado
+as primeiras composies de Palestrina e de Cimarosa; antigos arreios de
+tiro e de sella, braseiras, perfumadores, lanternas e candieiros de
+cobre, velhos palmitos contrafeitos de conchas e de pennas, montes de
+manuscriptos, montes de gravuras, dentes de elephante, ferrugentas
+clavinas de pederneira; e, entre feixes de cacetes e de chibatas de
+marmelleiro, talvez, desarticulado e roto, algum d'esses chapeus de sol,
+que ns fomos os primeiros que fabricmos e que introduzimos na Europa,
+ou algum d'esses primitivos leques, em quarto de circulo, que os
+companheiros de Ferno Mendes Pinto trouxeram da China, com os primeiros
+apparelhos de ch, com os primeiros vasos de porcellana, com as
+primeiras caixas de sinaes e pastilhas, doando a Roma e a Florena, a
+Paris e a Londres todos os principaes attributos e os themas
+fundamentaes de toda a arte da casa e de toda a elegancia feminina da
+civilisao moderna.
+
+E tudo isso desappareceu, ou se est evolando, com o successivo
+desmanchar de todas as velhas casas, n'um saudoso e doce perfume de
+camphora, de mofo, de alfazema e de bejoim, errante no ar dos casares
+despejados.
+
+Esto nas bibliothecas extrangeiras, em Frana e na Inglaterra, as mais
+preciosas illuminuras dos nossos codices e das nossas arvores
+genealogicas.
+
+Das encantadoras figurinhas dos presepios de Faustino Jos Rodrigues, de
+Antonio Ferreira, de Machado de Castro, j no ha intacta seno a
+colleco da S. Destroaram-se as da Madre de Deus, do Corao de Jesus
+e do marquez de Borba em Santa Martha.
+
+O que ainda persiste da obra to curiosa e to caracteristica dos
+barristas de Alcobaa est ao desamparo no abandono d'aquelle
+incomparavel monumento.
+
+Lanas, espadas, adagas, elmos de todas as frmas--almafres, capellinas,
+bacinetes, barbudas e morries--, couraas, escarcellas, grevas,
+manoplas, escudos e rodellas, todas as peas, emfim, da armadura dos
+nossos heroes da Africa e da India, desappareceram com as balas, as
+sinas, os estandartes e as bandeiras das suas hostes.
+
+A espada de Vasco da Gama hoje propriedade de um particular, que ha
+pouco tempo adquiriu por compra essa reliquia nacional.
+
+Uma espada e um capacete de torneio, que se diz terem pertencido ao
+Mestre de Aviz, peas ferrugentas, sujas, sem estojo nem outro qualquer
+resguardo que as defenda da irreverencia do publico, esto na Batalha
+merc dos moos, dos pedreiros e dos visitantes, que de chacota se
+adornam com essas armas, em galhofa carnavalesca.
+
+Na cathedral de Toledo, na soberba capella dos Reis Novos, preciosamente
+edificada por Alonso de Covarrubias, em tempo de Carlos V e por
+disposio testamentaria de Henrique II de Trastamara, v-se uma
+armadura portugueza. Guardada por castelhanos, essa armadura
+suspende-se, d'entre os ornatos platerescos da capella, por cima do
+rgo, em todo o respeito devido a um tropho sagrado. E um dos guardas
+da cathedral, explica ao publico, apontando essa reliquia:--Aquella a
+armadura do alferes portuguez Duarte de Almeida, o qual, batendo-se na
+batalha de Toro contra ns outros, tendo tido decepadas as duas mos,
+morreu s lanadas, segurando nos dentes a bandeira do seu rei. E em
+frente do arnez, que vestiu o corpo sanguento e exanime de um inimigo,
+Castella inclina-se reverente e commovida, fazendo-nos corar, perante a
+grandeza de tal exemplo, da lenda grosseira em que envolvemos a p da
+padeira Brites--_Quantos vivos rapuit omnes esbarrigavit_,--a qual p
+uma esperta e linda creada de Aljubarrota faz o favor de ir buscar, e de
+tirar de dentro de um saco, para a mostrar n'um patamar de escada aos
+viajantes que para esse fim lhe vo bater porta.
+
+No est feita nem estudada a historia dos nossos vidros, dos nossos
+esmaltes, da iconographia da nossa habitao, e do nosso trage.
+
+Uma das obras primas da nossa joalheria, a propria custodia de Belem,
+lavrada por Gil Vicente, o famoso ourives, tio do poeta, acha-se
+desfigurada nas suas dimenses primitivas pela interpollao de um novo
+hostiario e de duas pilastras, que j no so do primeiro ouro das
+conquistas, mas de simples prata dourada.
+
+Depois dos to numerosos e to grosseiros erros a que tem dado origem a
+investigao da identidade de Gro Vasco, a historia, a classificao e
+a attribuio da nossa incomparavel pintura do seculo XVI, encontra-se
+ainda por fazer.
+
+A restaurao dos antigos quadros est constituindo na historia da nossa
+arte uma catastrophe ainda mais destruidora que a da restaurao da
+nossa architectura.
+
+Alguns annos mais sobre o systema devastador que se est seguindo, e
+ninguem poder reconhecer nas taboas da nossa grande poca uma s
+pincelada dos admiraveis discipulos e dos emulos que tiveram em Portugal
+os Van Eik, os Memling, os Gerard David, os Van der Weiden, os Quinten
+Massys ou os Dierik Bouts.
+
+N'essa prodigiosa pintura nacional, em que tivemos por mestres os
+flamengos, acha-se todavia registrada a historia de toda a vida
+portugueza desde o meiado do seculo XV at o fim do seculo XVI, isto ,
+durante o periodo do nosso maior brilho e da nossa maior riqueza, no
+apogeu da nossa gloria. So raras as puras composies historicas e
+raros os retratos d'esta poca. Os grandes feitos da navegao e da
+guerra celebravam-se de preferencia nas tapearias, que se perderam, e
+constituiam o principal adorno d'arte dos paos dos reis e dos palacios
+dos nobres. Na pintura religiosa, porm, e nos quadros votivos,
+conservados nas egrejas e nos conventos, as figuras do seculo
+misturam-se em brilhante anachronismo s figuras sagradas, e muitas
+authenticas physionomias se accusam energicamente nos pomposos cortejos
+que envolvem as scenas biblicas. A memoria do que fomos est ahi, por
+ns mesmos consagrada, com o maior esplendor a que chegou o nosso genio
+artistico, nas taboas dos paineis, no pergaminho das biblias e dos
+devocionarios portuguezes. Ahi esto os reis, as rainhas, os sacerdotes,
+os guerreiros e os letrados portuguezes do cyclo da renascena. So
+essas as caracteristicas figuras dos nossos avs: as faces cheias, a
+pelle tostada, a carne rija, os olhos rasgados, as boccas imperativas. A
+essas nobres e delicadas cabeas femininas serviram de modelo as mais
+lindas mulheres da Lusitania, de olhos de amendoa, malicioso olhar
+avelludado, obliquo e enygmatico, sobrancelhas longas alteando nas
+fontes, rostos ovaes, boccas quentes e vermelhas, queixo carnudo vincado
+na base, testa arredondada e lisa, cabello espesso e fino apartado ao
+meio em duas curvas de bambolim, e uma gesticulao leve, sinuosa e
+ondulante. Teriamos que interrogar longamente, laboriosamente, esses
+venerandos paineis para apprender tantas coisas que ignoramos da
+physionomia do nosso passado, o trage, as armas, as joias, a mobilia, os
+utensilios da casa e os estados do espirito.
+
+O estudo completo d'esses quadros constituiria a mais importante, a mais
+bella obra da nossa historiographia.
+
+_A patria portugueza segundo os documentos da pintura nacional nos
+seculos XV e XVI_, poderia ser o titulo d'esse incomparavel livro, em
+que collaborariam todas as aptides intellectuaes de que dispe o paiz,
+por meio de successivas monographias, relativas a cada ramo do saber e
+comprehendendo todos os pontos de vista em que pode ser considerado o
+quadro:
+
+1. _Os aspectos da paizagem_, os caracteres da _flora_ e da _fauna_
+portugueza, que ns to opulentamente enriquecemos, pelo commercio das
+conquistas e dos descobrimentos; no tempo em que Lisboa era o primeiro
+jardim de acclimatao, o primeiro jardim zoologico e o primeiro mercado
+da Europa, pela introduco do ch, do caf, do assucar, do algodo, da
+pimenta, do gengibre do Malabar, da canella de Ceylo, do cravo das
+Molucas, do sandalo de Timor, das teccas de Cochim, do bejoim do Achem,
+do pau de Solor, do anil de Cambaya, da ona, do elephante, do
+rhinoceronte, do cavallo arabe.
+
+2. _O mobiliario_, cuja fabricao to fecundamente desenvolvemos por
+meio de officinas estabelecidas em Lisboa por artifices indianos, e
+estabelecidas na India por artifices portuguezes, sob a administrao de
+Affonso de Albuquerque.
+
+3. _A indumentaria_, comprehendendo, alm da historia do _traje_, a dos
+_tecidos_, a dos _bordados_ e a das _rendas_, industrias procedentes da
+China, da Persia, de Benguella, to profundamente influenciadas pelo
+nosso contacto nas suas origens, to especialmente desenvolvidas no
+Reino, pelo lavr do pao, onde trabalhavam ao bastidor e agulha as
+mais pacientes e subtis _lavrandeiras_ mandadas rainha pelos capites
+da India.
+
+4. _As armas_, de guerra, de torneio e de crte.
+
+5. A _ourivesaria_ e a _joalharia_, abrangendo a analyse das alfaias
+religiosas, lampadas, tocheiros, relicarios, thuribulos, retabulos, a
+to curiosa evoluo em Portugal da frma e do ornato dos calices, das
+custodias e das cruzes; e na ourivesaria profana as innumeraveis peas
+em ouro ou prata da baixella e da joalharia portugueza da Renascena,
+como escudellas de faldra e de orelhas, salseiros, oveiros, vinagreiras,
+almofias, tumadeiras, almaraxas, escalfadores, confeiteiras,
+perfumadores, esquentadores, brazeiros, pomas-candis, alcaforeiros,
+taxos de perfumar luvas, copas, taas, gomis, bacias d'agua s mos,
+maas, chaparias de gualdrapa, andilhas, estribos, taboas de cavalgar,
+guarnies de cavallo, com rosas, sostinentes e copos; cofrinhos,
+arrecadas, firmaes, pontas de ouro, brochas de livro, cadeias,
+guarnies de coifa, tranadeiras, crochetes, cintas, tiras de cabea,
+tiratestas, dormideiras de ouro para volantes, e as contas variadissimas
+de filigrana mourisca, de ambar das Maldivas, de almiscar da China, de
+rubis do Pegu, de diamantes de Narsinga, de perolas de Kalckar.
+
+6. _As embarcaes_--galees, naus, caravellas, bergantins, fustas,
+toda essa portentosa colleco dos nossos barcos de guerra e dos to
+variados typos empregados na cabotagem e na pesca, testemunhos
+sobreviventes ainda hoje do nosso genio maritimo e das suggestes do
+mais remoto trato do oceano, como se demonstra na forma dos saveiros,
+que trouxemos do Bosforo, e na da muleta do Seixal, que o navio grego
+do tempo de Herodoto.
+
+7. _A olaria e a cestaria popular_, em que to atticamente se affirma o
+hereditario engenho artistico da nossa raa, e cujos productos tanto se
+compraziam em reproduzir os nossos pintores.
+
+8. Emfim: _A psychologia das figuras_ pela physionomia, pelo gesto,
+pelo sorriso, pelo olhar; os usos e os costumes; os temperamentos
+predominantes; a moda, o toucado; o corte do cabello, o talho da barba,
+etc.
+
+Da pintura portugueza, que constitue a mais importante parte da riqueza
+artistica da nao, no ha porm catalogo, nem inventario, nem rol. Nos
+nossos depositos de antigos quadros, em Lisboa, em Coimbra, em Vizeu, em
+Thomar, em Lamego, em Evora, em Setubal, o povo portuguez passa
+indifferente, abstrahido, expatriado, sem guia que o condusa s fontes
+da tradio e da nacionalidade, em que cada um de ns tem a mais
+restricta e a mais instante obrigao de ir retemperar e fortalecer de
+portuguezismo o seu sangue, dessorado pela mais falsa educao a que se
+pode condemnar um paiz.
+
+No ha colleco publica, chronologicamente completa, dos nossos
+incomparaveis azulejos. Esta industria artistica no emtanto d'aquellas
+de que mais legitimamente nos podemos gloriar. At o seculo XVII o
+azulejador portuguez acompanhou a evoluo peninsular, de influencia
+mudegar e de influencia italiana. Desde o seculo XVII adoptamos o gosto
+hollandez, e no seculo XVIII os nossos artistas desenvolvem no azulejo
+azul e branco, em vastas composies historicas e de genero, paizagens,
+merendas, caadas, allegorias religiosas e lendas monasticas,
+enquadradas em bellas grinaldas polychromicas, o mais seguro e adestrado
+talento de composio historica e decorativa.
+
+Raro ser o anno em que de Portugal no tenha desapparecido um quadro
+inestimavel ou um codice precioso, sem qualquer apparencia de cohero,
+sem o minimo reparo, ao menos, do poder executivo, das crtes ou da
+imprensa. hora a que escrevo estas linhas me dizem que est venda ou
+vendido em Londres um livro de horas com que o rei D. Manoel brindra um
+fidalgo da sua crte, ordenando-lhe que vinculasse esse manuscripto, que
+era uma gloria da nao.
+
+No , em rigor da verdade, muito mais risonho que o destino das obras
+d'arte que saem para o estrangeiro o destino das que ficam no paiz.
+
+ bem conhecida a historia do primeiro dos nossos museus industriaes,
+fundado em Lisboa por Fradesso da Silveira. Esse museu extinguiu-se
+suavemente, a pouco e pouco, at chegar a no existir do deposito
+primitivo seno unica e exclusivamente as prateleiras em que elle havia
+sido collocado.
+
+O rico museu das antiguidades do Algarve, recolhidas ha dezeseis annos
+por Estacio da Veiga, ainda hoje se no acha instalado.
+
+Da inestimavel colleco das antigas peas de loua e de obras de barro,
+que haviam pertencido ao convento da Madre de Deus, e que o architecto
+Nepomuceno recolhera em uma das casas d'aquelle edificio, desappareceu
+tudo.
+
+To vasta a nossa riqueza artistica e to profundo o desleixo de a
+escripturar, que so quasi to frequentes as surpresas no que se
+encontra como no que se perde.
+
+Como exemplo direi que era assentado no haver em Portugal vestigio
+algum da influencia immediata de Van Eik na pintura portugueza, e no
+existir do infante D. Henrique, o Navegador, mais que um retrato, na
+miniatura annexa ao bello manuscripto de Azurara, presentemente
+propriedade da _Bibliothque Nationale_, em Paris. entretanto nosso, e
+existe em Portugal, um retrato egualmente contemporaneo e authentico, em
+tamanho natural, magistralmente pintado a oleo sobre madeira. Esse
+retrato precioso, inteiramente desconhecido do publico, eu mesmo o vi no
+dia 19 do mez de julho de 1895. Faz parte de um grupo de varios
+personagens, da segunda metade do seculo xv, e pertence a um jogo de
+quatro paineis, de dimenses eguaes, relacionados entre si por analogia
+de data e de assumpto. Est bem conservado, e acha-se, com os tres da
+serie a que pertence, no corredor do claustro de cima no edificio de S.
+Vicente de Fra, no vo de uma janella, junto dos aposentos habitados
+n'essa occasio por s. ex.^a revd.^{ma} o sr. arcebispo de Mitylene.
+
+O illustre escriptor inglez sr. Prestage mandou fazer d'esse retrato uma
+reproduco photographica, destinada a illustrar a nova edio ingleza
+da _Chronica da Guin_.
+
+Na linda egreja do convento de Santa Iria, que o fallecido architecto
+Nepomuceno comprou por 300$000 ris, e se achava encorporada no mosteiro
+fundado por D. Maria de Queiroz, viuva de Pedro Vaz de Almeida, veador
+da fazenda do infante D. Henrique, ha um retabulo em baixo relevo de
+bella pedra d'Anan, que simplesmente, pelo desenho, pelo stylo, pela
+mo d'obra e pelo estado de conservao em que se acha, uma das obras
+capitaes da esculptura da Renascena em Portugal. Compe-se de dezesete
+figuras. Junto da cruz, de que pende a mais ideal figura do Redemptor,
+est prostrada Santa Maria Magdalena. Acompanham-a a Senhora da
+Soledade, as tres Marias, Nicodemus, Jos de Arimathea e S. Joo
+Evangelista. No primeiro plano, dois soldados a cavallo, em magnifico
+trage do seculo XVI. Enquadra a composio um bello portico, de columnas
+e tabellas preciosas, chancellado pelo brazo dos Valles. S outro
+Calvario, o do claustro do Silencio, em Coimbra, obra, por certo, do
+primeiro dos esculptores de Santa Cruz, hoje profundamente cariada e
+quasi delida, se poderia comparar, de par com o pulpito da mesma egreja,
+ esquecida esculptura da abandonada egreja de Thomar.
+
+Em egual descaso e esquecimento, ignorado da grande maioria dos
+viajantes e dos estudiosos, o monumental e sumptuosissimo panthon dos
+Silvas, da preclara familia de D. Ruy Gomes, em S. Marcos, cerca de
+Coimbra. O bello portal alpendrado d'esta egreja tem a data de 1510. Os
+cinco sarcophagos de que se compe o jazigo verdadeiramente regio dos
+Silvas, assim como o retabulo em pedra no altar mr da egreja constituem
+uma preciosidade esculptural de valor incomparavel. Este admiravel
+repositorio da nossa esculptura quinhentista foi ha poucos annos
+vendido, com a cerca adjunta do extincto mosteiro, pela quantia de seis
+contos de ris.
+
+Os preciosos quadros da pintura portugueza do seculo XVI, completamente
+desarrolados, despercebidos dos compradores extrangeiros, e ainda hoje
+dispersos pelo paiz, so em numero talvez superior aos dos quadros de
+mesma poca recolhidos pelo estado depois da abolio das ordens
+religiosas. O illustre critico sr. Joaquim de Vasconcellos tem, s sua
+parte, noticia de no menos de cem obras desconhecidas do publico. Das
+que existem no Museu Nacional de Lisboa, na arrecadao da Academia das
+Bellas Artes e nos demais depositos do paiz, no ha uma s photographia
+registrada pelo Estado, semelhana do que se faz em todos os museus do
+mundo.
+
+Por occasio da ultima exposio, to interessante, realisada nas salas
+devolutas, das Janellas Verdes, para celebrar o Centenario de Santo
+Antonio, a direco das Bellas Artes no respondeu ao pedido da modesta
+quantia de 50$000 ris que a commisso executiva da mesma exposio lhe
+dirigiu para que se publicasse o respectivo catalogo, que ficou em
+manuscripto na mo do redactor.
+
+Por essa mesma occasio os peritissimos e benemeritos photographos
+portuenses Emilio Biel & Companhia, aos quaes to valiosos e
+desinteressados servios devem as artes portuguezas, dirigiram ao
+governo uma proposta para reproduzir pela photographia,--sem subsidio
+algum do thesouro--todos os objectos expostos no palacio das Janellas
+Verdes. Esta proposta ficou egualmente sem despacho.
+
+Inutil me parece alludir ainda disperso das mais ricas peas do
+mobiliario portuguez do seculo XVI e d'essa segunda renascena artistica
+e industrial do nosso seculo XVIII.
+
+Bufetes, arcas, armarios, contadores, tapearias da Persia, bordados e
+rendas do reino, couros lavrados e guadamecins, azulejos, porcellanas
+antigas da India, do Japo e da China, credencias, leitos torcidos ou
+empennachados, canaps e cadeiras curvilineas ao gosto da Pompadour de
+Odivellas, espelhos afestoados, de toucador e de sacristia, damascos da
+Real Fabrica das sedas, louas artisticas do Rato, da Bica do Sapato, do
+Porto, de Vianna, do Cavaquinho, da Panasqueira, de Darque, das Caldas,
+de Estremoz, de Coimbra, tudo o bric--brac extrangreiro nos leva em
+cada anno, com uma cubia e uma rapacidade que bem melancholicamente
+lembra a dos enviados de Verres no saque da Sicilia, do qual dizia
+Cicero que s ficou da arte o que a ganancia no quiz. Ainda ha Verres,
+como no tempo do velho mestre romano, mas j no ha verrinas.
+
+D'esta desorganisao geral de toda a policia da arte resulta mais ou
+menos lentamente, a quebra da tradio esthetica nacional, que a seiva
+de toda a produco artistica.
+
+ infecundao do individuo pelo espirito da raa corresponde o
+desfallecimento do poder creativo, a inercia da intelligencia, a
+esterilidade do estudo, a degenerao da phantasia, o abandalhamento do
+gosto, a atrophia do proprio caracter, e, em ultimo resultado da
+decadencia geral, a desnacionalisao pelintra de todo um povo.
+
+Com o rebaixamento da arte rebaixa-se tudo, porque no mundo producto
+da arte tudo o que no unicamente obra da natureza.
+
+O homem degenera, porque, sempre e em toda a parte, o homem toma
+fatalmente a configurao das coisas que o rodeiam e, para assim dizer,
+lhe enformam a personalidade.
+
+Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou pela inepcia de
+abastardadas classes dirigentes, os fieis debandam por no haver egreja
+que os reuna, e j evidente esta enorme catastrophe: que na arte de
+Portugal faltam coraes portuguezes.
+
+Fere-nos j esse phenomeno consternador em todos os aspectos da vida
+intellectual.
+
+Em resultado de no termos uma historia geral da arte portugueza,
+devidamente systematisada e integralmente documentada em cada um dos
+seus capitulos, vemos grassar, no s entre o vulgo mas entre pessoas de
+saber, incumbidas de guiar e de reger a opinio, o erro criminoso,
+profundamente desmoralisante, de que somos um povo inesthetico, incapaz
+de concepes artisticas originaes.
+
+A juventude litteraria, dotada de uma consideravel fora de applicao e
+de talento, traz-nos uma poetica exotica, de climas nevoentos,
+anti-meridional, e vem falando uma lingua secreta, cabalistica,
+interessantemente engenhosa, incomprehensivel para o povo e para todos
+os que no estiverem iniciados na morphologia espiritica das novas
+seitas.
+
+Em toda a historiographia contemporanea se nota uma glacial frieza de
+critica, uma anemica pallidez de expresso, um geral entono de apagada
+tristeza, em que bem se demonstra que no circula o sangue vermelho da
+raa, nem se retrata do vivo o genio do nosso povo, meigo, docil, de
+apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente sociavel, amando a
+grande alegria estridente das feiras, das tardes de touros, das romarias
+dos seus santos populares, conservando nas infimas camadas sociaes um
+residuo trovadoresco, de paladino e de menestrel, susceptivel ainda das
+paixes mais profundas, todo de improvisao e de repentismo, capaz das
+coisas mais imprevistamente grandes, poetico, aventuroso e destemido.
+
+Na poesia, assim como na pintura e na musica, no ha uma escola
+portugueza, porque, na falta de lao social que congregue os nossos
+artistas, sem elementos coordenados de estudo, sem modelos patentes, sem
+lio commum, no ha entre elles mutuamente, nem entre elles e o povo de
+que derivam, communho alguma de ideal ou de sentimento.
+
+Por egual razo no teem caracter nacional, sendo portanto destituidas
+de originalidade, e como taes inaptas para a luta da concorrencia
+mercantil, todas as nossas industrias.
+
+A decapitao official da nossa educao artistica manifesta-se ainda de
+mais perto, acotovelando-nos e contundindo-nos por toda a parte, no
+aspecto do povo, na apparencia das casas, na esthetica das cidades, na
+apparencia dos predios, na decorao das praas, das avenidas, dos
+cemiterios, dos jardins publicos, das lojas, das reparties do estado e
+das habitaes particulares.
+
+Em Lisboa, por exemplo, onde no ha uma sala de concertos populares, nem
+vem tocar para a rua a musica dos regimentos, onde no theatro de Dona
+Maria se no representa Gil Vicente nem Garrett, onde no theatro de S.
+Carlos se no canta Marcos Portugal, onde no ha um museu de arte
+decorativa, nem um simples mostruario da nossa produco industrial, nem
+um museu de pintura, coordenado, catalogado e etiquetado de maneira que
+communique ao publico, assim como em todas as outras capitaes da Europa,
+a lio que um museu contm, ha pelo contrario escaparates de
+apparatosos armazens, que so para quem anda pelas ruas o contagioso
+exemplo da mais corrompida perverso, do mais provocante e pomposo
+relismo a que pode chegar o desvairamento do gosto. Mobilias em tal
+maneira degeneradas que n'ellas desappareceu de todo o material de
+construco. A almofada que em toda a antiguidade e em toda a edade
+mdia era um accessorio movel, e s no seculo XVI se principiou a fixar
+com pregos ao banco ou cadeira, invade boalmente todo o movel, armado
+em ripes de pinho, como uma ea de defunto, embrulhado em pelucia, que
+nos esburaca os olhos pela insolente m creao da cr. E horripilantes
+lindices de toucador, de escriptorio ou de sala, em que tudo parece
+apostado em ser fingido, desde a etrusca ondulao do contorno at o
+material empregado, porque todas as linhas so aleijadas, a prata
+zinco, o marfim gesso, o charo de papel e o marmore esculpido de
+sabo. E tudo isso se compra e se leva para casa, para infectar a
+familia, para corromper o lar e para escrofulisar moralmente os meninos,
+desconjuntando-os de dignidade domestica, inoculando-os de pelintrice e
+de canalhismo de casta para a vida toda.
+
+Ha uma avenida monumental em que, ao longo dos passeios destinados ao
+transito do publico, em vez da ornamentao da flora regional, em vez
+dos longos massios de castanheiros, de laranjeiras, de palmeiras e de
+bananeiras, como em Barcelona e em Sevilha, esverdinham e apodrecem dois
+miseros e infectos arroios artificiaes no fundo de flexuosas ravinas,
+gretando sinuosamente o solo, como canos dissimuladamente abertos em
+fosquinhas para trambulhes do viandante.
+
+Nos predios a prodigalidade vesanica das janellas percorre a superficie
+das fachadas, havendo frontarias que parecem construidas unicamente com
+hombreiras contiguas e sobrepostas; e, ao passo que em cidades amoraveis
+e artisticas se criam premios e se abrem concursos de janellas floridas,
+em Lisboa prohibido ornamentar de flores o frontespicio das casas.
+
+Os lindos _empedrados_ e _embrechados_ de tradio portugueza caem em
+desuso, substituidos por cimentos incompativeis com a aco do nosso
+clima.
+
+O to commodo, to modico e to gracioso typo da nossa antiga casa de
+campo substituido nas construces modernas pelas frmas de um
+exotismo composito, as mais delambidas, mais pretenciosas e mais
+chinfrins, hybrida confuso allucinada do chlet suisso, do cottage
+inglez, da fortaleza normanda, do minarete tartaro e da mesquita
+moira,--nodoa e vexame da paizagem portugueza nas redondezas de Lisboa.
+Em presena de um to inverosimil scenario de magica, de operetta ou de
+revista do anno, ninguem, desajudado de outras indicaes, anedocticas e
+chorographicas, ser capaz de adivinhar em que parte do mundo e entre
+que casta de gente se est passando a pea. Tal a delirante epidemia
+de que esto combalidos os constructores contemporaneos, que, para ter
+um indicio nacional da nossa tradio, entre as casas de campo ou de
+praia construidas em torno de Lisboa nos ultimos vinte annos, temos de
+ir a Cascaes vr o typo, unico, da habitao dos condes de Arnozo, to
+saudosamente semelhante casa de nossos avs, com o seu pequeno eirado
+sobre uma arcaria de meio ponto, a sua porta de alpendre n'um patamar de
+escada exterior, ao lado do retabulo em azulejo do santo padroeiro da
+familia, as janellas de peitos guarnecidas de rotulas entre cachorros de
+pedra, destinados s varas do estendal, e servindo de misula aos vasos
+de craveiros e de mangericos, em frente do poo de roldana, no mais doce
+e tranquillo sorriso d'outr'ora.
+
+Nos mesmos letreiros das esquinas de ruas encontram-se denominaes que
+esbofeteiam o pundonor patriotico, a cultura historica e a dignidade
+esthetica dos habitantes.
+
+No Bairro Alto, onde a nomenclatura das ruas to sympathicamente
+suggeria a lembrana bucolica da antiga fazenda suburbana, em que os
+jesuitas de S. Roque delinearam a nova cidade, como a rua da _Vinha_, a
+do _Moinho de Vento_, a do _Poo_, a do _Carvalho_, a da _Rosa_, a da
+_Atalaia_, ou os nomes dos officios que ahi primitivamente se arruaram,
+como os _Calafates_ e as _Gaveas_, apaga-se, como n'uma rasura de conta
+falsificada, esse lindo e piedoso vestigio da tradio lisboeta, para
+dar s ruas nomes novos e incaracteristicos, de sujeitos que n'ellas
+moram ou se diz que por l passaram. E com egual afouteza se dissolvem,
+n'um borro de brocha, sagrados disticos, ainda mais estreitamente
+vinculados historia do povo e historia da cidade, como o da Rainha
+Santa Isabel, como o dos Martyres de Marrocos.
+
+Os trages populares, alguns to pittorescos, to suggestivos e to
+bellos, como os das mulheres da Murtosa, da Maia, de Santa Martha e de
+Portuzello, como o dos boieiros do Ribatejo, dos pescadores de Ilhavo e
+da Povoa, e dos montanhezes do Alemtejo e do Algarve, degeneram e
+abastardam-se ridiculamente, porque no ha entre a gente culta quem
+preze esse trage, quem o honre e quem o entenda.
+
+Egualmente se desdenham e repudiam, por espirito de inconcebivel
+extrangeirismo, os productos primorosos de algumas das nossas industrias
+populares.
+
+Nenhum outro povo matiza com mais harmonia de cr e mais graa de risco
+esses tecidos dos teares ou dos bastidores caseiros, combinados com
+estopa, com linho, com l ou com algodo, de que se fazem os panos
+liteiros, as sirguilhas, as saias e os aventaes das mulheres de Vianna,
+e bem assim as colxas de linho bordadas a frouxo na Beira, e os tapetes
+chamados de Arrayolos. Nenhum outro povo sabe tornear na roda do oleiro
+com mais esbelteza e mais puro atticismo o pote ou a bilha de barro, a
+pucara, o gomil e o pichel, de Coimbra, do Prado, de Mafra, de Redondo,
+de Loul.
+
+Se ninguem mais artisticamente do que o portuguez sabe vestir a mulher,
+arrear o cavallo, engatar a mula, e moldar a vasilha, ninguem, to
+pouco, melhor do que elle emalha a rede e enastra o cesto.
+
+Dizem inglezes que metade da sua arte contemporanea se deve iniciativa
+e propaganda do grande critico nacional John Ruskin, que Tolsto
+considera um dos maiores homens do seculo, e a quem Carlyle chamava o
+_ethereal Ruskin_. Este glorioso campeo da esthetica e da arte em todas
+as suas mais complexas e mais variadas manifestaes no pode deixar de
+ser lembrado por todos os que se interessam em taes assumptos. Os seus
+numerosos livros sobre historia da arte, sobre a architectura, sobre a
+pintura, sobre as artes decorativas e as artes industriaes, os seus
+profundos estudos de _Turner e os antigos_ e dos _Pintores modernos_, a
+sua triumphante campanha em favor dos monumentos historicos, das
+industrias ruraes, dos preraphaelitas, das paizagens inglezas, so um
+verdadeiro monumento litterario, e a bibliographia que se lhe refere
+constitue toda uma litteratura, famosa na Inglaterra sob o nome
+consagrado de _ruskineana_. Grande homem de aco, gloria dos da sua
+raa, tomando por divisa _To day_, Ruskin no se emparedou, como a
+maioria dos criticos, na torre eburnea dos extases poeticos e das
+contemplaes expeculativas. Tendo consumido rapidamente mil contos de
+ris da legitima paterna em subvenes das mais generosas empresas
+sociaes, em dadivas aos museus, em soccorro dos pobres, em fundaes de
+escolas e de officinas, reconstituindo pela venda dos seus livros, (a
+trinta contos a edio) um rendimento de riquissimo proprietario, elle
+fez-se gratuitamente professor de desenho, industrial e operario.
+Organisou a casa editora das suas proprias obras, a _Ruskin House_,
+fundou a _Saint-George's Guild_, em Londres, a Sociedade Protectora dos
+Monumentos Architectonicos, e as sociedades de leitura de Manchester, de
+Glascow e de Liverpool; ensinou a Inglaterra a comprehender a obra de
+Turner; fundou o culto dos primitivos, introduzindo na _National
+Gallery_ os preciosos quadros de Benozzo Gozzoli, de Perugino, de
+Botticelli, de todos os grandes predecessores de Raphael; e deu arte
+todo um novo ideal e uma religio nova, creando uma pleiade
+brilhantissima de proselytos, de collaboradores e de discipulos, entre
+os quaes figuram Madox Brown, Rosseti, Collingwood, Millais, Morris,
+Thomaz Dean, Woodward, Munro, Hunt, Burne Jones, Hook e Brett, e Giacomo
+Boni, o actual conservador dos monumentos nacionaes da Italia. Foi elle
+emfim que deu a mais alta expresso auctoridade esthetica em nossos
+tempos, impedindo, em nome da arte, que um traado de caminho de ferro
+deturpasse a belleza de uma collina na paizagem ingleza, e levando uma
+commisso da Camara dos Lords a consultar uma commisso de artistas
+sobre se a passagem de uma linha ferrea no affectaria ruinosamente a
+parte de riqueza publica representada pela tranquilla e doce poesia de
+certo valle.
+
+ porm com um intuito especial,--a proposito das nossas to resistentes
+industrias tradicionaes e domesticas,--que eu invoco o nome glorioso de
+Ruskin.
+
+O trabalho rural da fiao mo e da tecelagem no estreito e primitivo
+tear caseiro achava-se totalmente extincto na tradio ingleza. Ruskin,
+considerando os poderosos elementos de economia, de moralidade, de
+satisfao, de educao esthetica e de intima poesia, destruidos pela
+suppresso d'essa antiga actividade artistica da familia no campo
+inglez, dedicou-se com um esforo portentoso a fazer reviver em Langdale
+e em Keswick a extincta industria caseira dos panos de linho e dos panos
+de l em pequenas manufacturas domesticas, tendo por unico auxiliar da
+fora individual uma vela de moinho nos cabeos das collinas ou a
+corrente da agua beira dos riachos. Elle mesmo d o exemplo da nova
+organisao do trabalho na familia, construindo o seu famoso moinho de
+Laxey. Recompe-se uma antiga roda de fiar com as peas desarticuladas e
+esquecidas de um d'esses abandonados apparelhos encontrados em casa de
+uma velha tecedeira. reconstruido um primitivo tear sobre o modelo
+florentino e medieval de um quadro de Giotto. Ruskin envolve esse novo
+movimento retrogrado do trabalho na propaganda mais activa e mais
+eloquente. A sua palavra calorosamente apaixonada, colorida e mordente,
+encontra em todo o Reino Unido um ecco extraordinario. As teias do novo
+linho caseiro, um tanto rugoso, um tanto irregular, cegado no campo,
+espadelado, assedado, fiado, crado e tecido pela mesma mo de mulher,
+porta ou janella de uma cabana, ao ar dos campos, ao ramalhar das
+faias, ao canto das cotovias, denotando nos accidentes da factura, como
+n'uma obra d'arte, a caracteristica individualidade do artifice,
+substituida banal perfeio estupida e antipathica do apparelho
+mechanico, desbanca rapidamente a obra da fiao a vapor, cae em moda
+entre as pessoas de gosto aperfeioado, recebe a alta proteco da
+princeza de Galles, torna-se de rigor em todos os enxovaes elegantes, e
+faz-se pagar mui remuneradoramente por preos consideravelmente
+superiores ao dos productos da grande industria mechanica.
+
+Exito egual ao dos panos de linho na industria caseira dos lanificios na
+ilha de Man. conhecida no s em toda a Inglaterra mas em toda a
+Europa a fama d'esses resistentes tecidos ruraes fabricados mo, de
+desenhos combinados na urdidura e na trama com as cres naturaes da l,
+sem preparo algum chimico ou mechanico, de tintura ou de acabamento; e a
+mais cara de todas as fazendas de luxo para traje de trabalho, de caa,
+de viagem, de equitao, o famoso _homespun_ ou _Laxey homespun_, do
+nome da localidade em que se estabeleceu o primeiro moinho de Ruskin.
+a esta evoluo das pequenas industrias ruraes, hombreando em valor
+remunerativo com as grandes industrias, e no a destructiva absorpo do
+trabalho da familia pelo trabalho das grandes empresas fabris que eu
+chamo _transformao de industrias caseiras em industrias de
+concorrencia_,--formula que geralmente se toma em sentido diverso
+d'aquelle que eu lhe ligo.
+
+Em Portugal certo que definham de dia para dia, e que successivamente
+se vo extinguindo as nossas velhas industrias ruraes. Esmorece
+calamitosamente, por culpa da administrao economica dos nossos
+governos, a industria delicadissima das obras de filigrana de ouro e de
+prata, ainda em nossos dias servida por numerosas familias ruraes dos
+districtos do Porto e de Braga. Morreu em Bragana a industria da
+sericultura e a da fabricao do veludo. Acabou em Guimares, entre
+outras industrias interessantissimas, a da manufactura caseira das sedas
+e dos brocados. No Algarve talvez que j hoje se no faa um unico
+trabalho de pita. Tem diminuido consideravelmente o numero dos teares
+caseiros na Covilh, na serra de Monchique, na serra da Estrella. Nas
+margens do Lima, porm, entre Vianna do Castello e Ponte de Lima, ha
+ainda algumas das mulheres mais lindas e das mais bem educadas de todas
+as portuguezas, que fiam e tecem em suas casas o linho, a l, o algodo,
+e se vestem completamente, da maneira mais elegante, com os tecidos mais
+consistentes e mais bellos, de sua fabricao exclusiva em todas as
+phases por que passa a materia prima, desde que cegada no campo ou
+tosquiada no carneiro at se converter em vestido. feira semanal de
+Vianna as raparigas d'essa regio trazem em lindas canastras, alm dos
+ovos e dos frangos que criam, alm da manteiga que fabricam, as teias de
+pano de linho, os cortes de saias de l e de algodo, as peas de
+sirguilha, que tecem, e as rendas que fabricam a bilros ou agulha. As
+de Villa Nova de Ourem fazem ainda fitas excellentes; e no mercado de
+Thomar vende-se em graciosos novellos da frma de casulos a melhor
+linha, branca ou preta, que se pode comprar em Portugal. Conserva-se
+ainda a antiga tradio das _mantas do Alemtejo_, citadas j por Gil
+Vicente na _Fara dos almocreves_, a dos liteiros e mantas de retalhos,
+a dos lindos alforges da Extremadura, do Alemtejo e do Algarve, de
+Minde, d'Alte e de Redondo, e a d'esses famosos tecidos de l, que so o
+_homespun_ portuguez, e que em sua variedade se denominam bureis,
+estamenhas, briches, saragoas, jardos, sorrubecos.
+
+Meditemos na maravilhosa obra operada por Ruskin n'um sentido esthetico,
+que primeira vista se figura retrogrado, mas que encerra talvez em
+germen o destino futuro, preciosamente moralisante de todas as
+industrias, desde que os aperfeioamentos da electricidade desloquem o
+eixo do trabalho fabril, levando a casa de cada artifice por meio de um
+tenue fio de arame o quinho de fora que tem para distribuir por cada
+operario do seculo que vem o immenso e incalculavel esforo propulsr do
+sopro dos ventos, do fluxo e refluxo das mars, da corrente dos rios,
+dos cyclones das Pampas ou das cataractas do Niagara. E em presena da
+revoluo das industrias caseiras da Inglaterra, onde todo o vestigio de
+tradio desapparecera, ponderemos o que se pode fazer em Portugal, onde
+a tradio sobrevive com uma energia prodigiosa a todos os desdens e a
+todas as oppresses que a esmagam!
+
+ notoria desde o seculo XVI a aptido artistica, que distingue o nosso
+marinheiro em todas as pequenas industrias de bordo, nos mais delicados,
+pacientes e engenhosos trabalhos tendo por base o cabo ou o fio de linho
+torcido ou entranado. Ninguem como elle manusa os ferros e as
+amarraes, o poleame e o talhame, o cabo, a adria ou o pano. Ninguem
+como elle confecciona o coxim, a gaxeta, o mixelo, o unho, a boa, a
+linga, o estropo, o repuxo, o massete ou a agulha. E no o ha mais
+dextro em lanar a volta, em enastrar a pinha e em dar o n de escota,
+de fateixa ou de botija, o n direito e o n torto, o de cogula, o de
+borla de pescador, ou o de espia. Em toda a nossa costa, desde o Minho
+at o Guadiana, a enorme variedade de frmas nas embarcaes da pesca
+maritima, da pesca fluvial e da pesca lacustre, basta para evidenciar a
+persistencia da tradio no grande genio maritimo de to pequeno povo.
+
+Os que ainda vo pesca do bacalhau, Terra Nova, equipam de uma
+maneira especial a escuna ou o patacho, preferindo porm o typo latino
+do hiate e do lugre. Os que vo cavalla, pescada e ao sarrajo, no
+mar de Larache, embarcam nos cahiques de Olho, semelhantes aos de toda
+a costa algarvia e aos de Lisboa e Setubal, de pra redonda,
+apparelhando com dois bastardos. pesca do alto vae a lancha de
+Caminha, construida no portinho de Gontinhes; a lancha pveira, de
+bocca aberta, apparelhando com um s mastro e a verga munida de uma
+grande vela latina; o _barco da pescada_, de Buarcos, de borda alta e
+duas pequenas toldas, apparelhando com dois mastros; o catraio da
+Nazareth; o _barco da sacada_, de Peninhe, de convez corrido com quatro
+escotilhas e dois mastros, com as vergas preparando em cruz; a _rasca da
+Ericeira_, a da Figueira da Foz e a da Vieira; as canas de Belem, de
+Cezimbra, de Setubal e do Algarve, chamadas em Lisboa _enviadas_ ou
+_canas da picada_, e no Algarve _andainas_. Na pesca maritima costeira
+empregam-se embarcaes numerosas e variadissimas. Na arte de galeo
+agrupam-se: o _galeo_, coberto, de pra direita e arrufada,
+apparelhando com o latino triangular, que amura ao bico de pra e caa
+ppa, em mastro inclinado para vante; o _galeonete_; o _buque_, curvo na
+roda de pra e sem coberta; a cana do galeo, e o _acostado_, que se
+emprega no transporte do peixe. Na armao fixa do atum e da sardinha,
+nas _almadrabilhas_, ou _almadravas_, como antigamente lhes chamavamos,
+do nome arabe que os hispanhoes conservam, labuta o _calo_, grande
+lancha, de bocca aberta, armando com estropo oito ou dez remos por
+banda, tendo na pra arredondada, rematada no alto por duas femeas, uma
+saliencia vertical de puas em serra, semelhando um lombo de peixe, e,
+pintado de cada lado, um olho arregalado para o horizonte; a _barca da
+testa_; a _barca das portas_; a _barca da gacha_, e o _lade_.
+
+Na costa do Algarve, as almadravas occupam hoje approximadamente os
+mesmos logares que tinham no seculo XVI; e o _calo_ , como alguns
+barcos do Douro, de pra comprida e alta, propria para atracar a margens
+escarpadas ou para varar com facilidade na praia, o typo mais analogo ao
+das embarcaes portuguezas de ha trezentos ou quatrocentos annos.
+
+_Nas artes de arrastar para terra_ figuram as _xavegas_ do Algarve, os
+_saveiros_ e as _meias-luas_, de Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa
+Nova, Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares, desde o sul do
+Douro at a Vieira, reapparecendo, mais abaixo, na costa de Caparica e
+da Gal, e na praia de Sines. _Nas redes de alar a reboque_ trabalham as
+_muletas_ e os _bateis do Seixal_.
+
+O sr. Arthur Baldaque da Silva, no seu precioso livro _Estado actual das
+pescas em Portugal_, enumera ainda, entre os diversos typos de
+embarcaes empregadas em varios systemas de pesca, o _batel de
+Espozende_, o _barco de Vianna do Castello_, a _barquinha do rio Lima_,
+a _bateira da Figueira da Foz_, a _lancha de Buarcos_, a _lanchinha do
+Tejo_, o _ilhavo da Tarrafa_, o _batel de Peniche, o cahique_ e a
+_lancha de Peniche_, os _poveiros_ de Lavos, de Buarcos, da Nazareth, de
+Cascaes, de Cezimbra, de Setubal; o _catraio_, a mais genuina embarcao
+portugueza da nossa costa meridional, a _caadeira_ e a _focinheira de
+porco_ da Ericeira, a _maceira_ da costa do Norte, o _cahique de Sines_,
+o _barco minhoto_, construido em Lanhellas e em Forcadella, o _batel do
+Cavado_, o _barco do Douro_, o _esgueiro da ria de Aveiro_, a _lancha
+de Villa Franca_, a _bateira do Mondego_, a _lanchinha_ e a _chata do
+Tejo_, e outros do continente, sem contar os barcos de cabotagem, os
+typos da Africa, dos Aores, da ilha da Madeira, no descriptos,
+infelizmente. So ainda de notar, entre as jangadas mais
+caracteristicas, as de Marinhas, para a pesca do polvo; as de Fo e da
+Apulia, para a apanha do sargao; as de Neiva e as de Sedovem.
+
+Com essa phantastica riqueza de documentos maritimos, assombro de todos
+os outros povos, verdadeiramente inacreditavel que em Portugal no
+haja um museu naval, em que estes documentos se confrontem e se estudem.
+No ha tal museu.
+
+Em terra to variada a colleco popular das vasilhas, dos fogareiros
+e dos cestos caseiros, como variada na agua a frma das embarcaes. A
+simples nomenclatura do vasilhame portuguez d, s de per si, uma ida,
+ainda que bem incompleta, da multiplicidade das suas frmas, porque ha
+typos que variam de regio para regio, de dez em dez leguas de
+perimetro. Esses typos principaes so a talha, o pote, o cantaro, o
+caneco, o tenor, a tarefa, a pucara, o gomil, a escudella, a tijela, a
+infusa, a meia, a quarta, a quartinha, a pinta, a sumicha, a
+sangradeira, a alquara, a vieira, o almude, a tamboladeira, o alguidar e
+o alguidarinho, o alcadafe, o moringue, o boio, o tarro, o cantil, a
+almofia, o alcatruz, o porro, o ccho, o picho, o pichel, a almotolia,
+a ancoreta, a taleiga, a galheta, o caldeiro, a caldeira e a
+caldeirinha, o tacho, a caoila, a copa, a bateia, o jarro, a batega, a
+pichorra, a botija, a cabaa, a malga, etc. Alguns d'estes nomes jogam
+com o antigo systema de medidas abolidas no seculo XVI, quando se
+estabeleceu o systema novo, tendo por base o quartilho. A vasilha
+correspondente velha medida, condemnada no reinado de D. Sebastio,
+sobreviveu porm na tradio e no costume. A _sumicha_, por exemplo, com
+quatro decilitros de capacidade, to maneira, to graciosa, to bem
+proporcionada a uma sde d'agua, ainda hoje na olaria de Coimbra o
+pucaro consagrado, que no pote da regio, de uma elegancia to fina e
+to attica, se encasa no alguidarinho que lhe serve de tampa.
+
+As frmas populares d'essa vasilharia, umas trazidas do Peru e do
+Mexico, como a do moringue e seus derivados, outras, provenientes de
+typos gregos e etruscos, da cratera, da amphora, da ambula, do askos, do
+bombylio, etc., so por toda a parte, em nossos districtos ceramicos, as
+mais bellas, as mais engraadas ou as mais nobres, as mais
+irreprehensivelmente puras, parecendo que roda mechanica do operario
+as foi delineando, contornando, envolvendo sempre, a pea por pea, o
+sorriso acariciante de um artista.
+
+De uma humilde panellinha portugueza de barro preto, de Prado ou de
+Molellos, deduziram em Frana o assucareiro, a leiteira, a cafeteira e o
+bule de um servio de almoo, que ficou tradicional na fabricao de
+Svres.
+
+A industria popular da cestaria acompanha na evoluo das frmas a
+industria do oleiro. Todos os que percorreram as feiras e os mercados do
+nosso paiz notariam que cada regio tem a sua canastra, o seu cabaz e o
+seu gigo, differentes na frma ou no ornato. Ha-os de todas as
+configuraes, fundos e chatos, quadrados, octogonos, arredondados,
+oblongos, cubicos, cylindricos, espheroidaes, lembrando algumas vezes a
+frma e a construco americana dos samburs, dos tipitis e dos cfos
+tupis, feitos de taquara e de cip, que introduzimos talvez no Brazil
+ou, mais provavelmente, l aprendemos a fabricar, deixando o typo do
+balaio, com cujo nome se designa ainda na Bahia o farnel que de
+ordinario se transporta no cesto portuguez d'essa configurao,
+semelhante de um alguidar. Mui frequentemente varia tambem o balaio, o
+canistel, a cesta, a condea, o ceiro e a ceira, a alcofa e a
+alcofinha. A materia prima do cesto o vime, o junco, a fasquia de
+castanheiro, a fasquia de faia e a canna; a da ceira e da alcofa o
+esparto, a engeita, a palha de trigo e de centeio, a taba, a juta e a
+pita. Em algumas regies, como nas Caldas e Vizeu, os cestos so obras
+primas incomparaveis de acabamento e de graciosidade. A canastrinha
+burriqueira das Caldas, reduzida ao miniaturismo de dois centimetros,
+um simples prodigio de fabricao minudente e delicada. No Algarve a
+alcofa, de filiao arabe, por vezes ornada de apparatosas flores
+bordadas a seda ou a l.
+
+Sem embargo, continuando a affirmar-se que no temos sentimento
+artistico, desistimos por indisciplina, por ignorancia, por desanimo, de
+transformar em industrias de concorrencia as nossas industrias
+domesticas, e no negociamos com o extrangeiro nem tecidos de phantasia,
+to originaes como os que possuimos, nem papeis pintados derivados
+d'esses tecidos, nem a loua, nem a cestaria, nem a filigrana,
+immobilisada em typos decrepitos, e da qual to lindos effeitos se
+tirariam, applicando-a em ouro a servios de toucador, a frascos de
+cristal, a molduras de retratos, a encadernaes de devocionarios, etc,
+etc.
+
+Tanto menosprezamos os productos quanto desconhecemos as fontes da nossa
+civilisao artistica.
+
+A arte que menos estudamos a arte hispanhola, qual todavia
+indissoluvelmente nos prendem os mais estreitos vinculos de
+temperamento, de tradio e de ideal. Juntamente com os hispanhoes
+recebemos dos arabes as primeiras influencias que em toda a produco
+artistica da Peninsula imprimiram a feio differencial mais
+caracteristica e mais indelevel. Aos califados, que cobriram de
+mesquitas Cordova, Sevilha, Granada, Santarem, Lisboa e Coimbra, devemos
+o toque de orientalismo peculiar das formas architectonicas do nosso
+stylo romanico, ogival e da renascena. E da mesma procedencia, mosarabe
+ou mudejar, so algumas das nossas mais interessantes industrias, como a
+da filigrana, a dos azulejos, a das sedas, a do papel, a da
+encadernao, a dos couros lavrados, (a que chamavamos _cordoves_ por
+nos virem de Cordova) a das esteiras, a dos tapetes, a das obras de
+esparto, de palma, de pita. At o fim do seculo XVI artistas
+portuguezes, leonezes, castelhanos, valencianos, aragonezes, catales,
+asturianos, tivemos um ideal commum nas letras, na architectura, na
+esculptura, na pintura, nas artes sumptuarias e nas artes industriaes,
+celebrando identicos feitos de guerra, de religio e de amor, servindo
+reis do mesmo sangue, heroes das mesmas aventuras, santos e santas da
+mesma invocao popular.
+
+Das nossas relaes com Flandres s conheciamos--at ha bem poucos
+annos--a influencia flamenga em Portugal, ignorando completamente a
+reciproca aco dos portuguezes em Gand, em Bruges, em Antuerpia. Foi o
+sr. Joaquim de Vasconcellos quem, investigando os annaes das confrarias
+e o archivo das feitorias de Portugal, consignou que, em resultado da
+proteco dada aos artistas nacionaes por D. Joo II e por D. Manoel, de
+uma s vez chegaram a reunir-se em Paris cincoenta pensionistas
+portuguezes. Aos trabalhos do mesmo investigador se deve acharem-se hoje
+apurados varios nomes de pintores de Portugal trabalhando em Flandres,
+entre os quaes Edwart Portugalois, discipulo de Quintino Metsys,
+proclamado em 1504 mestre pintor da confraria de S. Lucas de Antuerpia.
+
+Os trabalhos do sr. Joaquim de Vasconcellos esto sendo diligentemente
+continuados pelo sr. Sousa Viterbo, na Torre do Tombo, e pelo sr.
+Joaquim Mauricio Lopes, nosso consul, em Antuerpia.
+
+Em uma recente publicao do sr. Mauricio Lopes, _Les portugais Envers
+au XVI^{me} sicle_, demonstra-se por meio dos mais expressivos
+documentos que a colonia portugueza, estabelecida em Flandres desde que
+em 1386 o duque de Borgonha Filippe-o-Ousado concedeu licena para ahi
+viverem mercadores de Portugal e dos Algarves com as suas familias e os
+seus creados, foi para a civilisao que os acolheu de uma importancia
+incomparavelmente superior que jmais exerceu a colonia flamenga em
+Portugal.
+
+Os negocios dos portuguezes em Antuerpia, ao tempo da fundao da
+primeira feitoria de Portugal por D. Manoel, negocios tendo por base,
+alm das exportaes do reino, o commercio das especiarias trazidas da
+India por Lisboa, montavam annualmente a cerca de cinco mil contos da
+nossa moeda actual. O numero das casas portuguezas em Antuerpia era de
+cento e doze. Os mercadores portuguezes representantes d'essas casas
+viviam com um fausto verdadeiramente principesco. Em 1594, por occasio
+da entrada triumphal de Filippe II, herdeiro de Carlos V, a cavalgada
+portugueza ficou memoravel. Compunha-se de vinte senhores e de quarenta
+creados, montando todos cavallos peninsulares, ricamente ajaezados. Os
+senhores trajavam de brocado e seda cr de purpura, bordada de ouro e de
+rubis, com botes, passamanes e collares de ouro. Todos os gorros eram
+orlados de brilhantes. Os creados, equipados, de couraa e espada,
+vestiam librs de seda verde e branca, com as bainhas das espadas de
+seda branca.--O que era, segundo o chronista Cornelius Grapheus, _chose
+moult riche et triomphante voir_.
+
+Nas festas da entrada em Antuerpia de Ernesto d'Austria, governador dos
+Paizes Baixos, os portuguezes erigiram um arco triumphal, em que se viam
+as figuras da Mauritanea, do Brasil, da Etiopia, da India, da Persia, do
+Ganges, do Rio da Prata, com as estatuas de Filippe I, do principe
+Filippe de Hispanha, de D. Joo II e de D. Manoel. Em outro arco de
+triumpho, delineado por Ludovicus Nonnius e consagrado a Fernando
+d'Austria, em 1635, expuzeram os portuguezes diversos quadros
+representando, entre outras, as allegorias da Victoria, da Clemencia, da
+Felicidade, da Religio, e os retratos de D. Affonso Henriques, D. Joo
+I, D. Manoel e D. Filippe II.
+
+Um d'esses portuguezes, o feitor Antonio Cirne, natural do Porto, nos
+saraus do Palacio chamado de Portugal, pretextando que a turba ou a
+lenha cheiravam mal, mandava cosinhar as eguarias com fogo de canela, e
+queimar canela em todas as fogueiras das chamins.
+
+Outro portuguez, Simo Rodrigues d'Evora, era baro de Rhodes,
+cavalleiro, senhor de Tewerden, de Broeckstraate; pela sua enorme
+fortuna lhe chamavam o _rei pequeno_; possuia muitos predios na
+principal arteria da cidade, e habitava um d'elles, em que
+successivamente se hospedaram a infanta D. Izabel, a rainha Maria de
+Medicis e o principe cardeal Fernando d'Austria; fundou, com o fim
+caritativo de recolher doze senhoras da nobreza ou da burguezia
+reduzidas indigencia, o hospicio de Sant'Anna, onde um triptyco de
+Otto Venius representava o retrato do fundador com seus filhos e sua
+mulher D. Anna Lopes Ximenes de Arago.
+
+O luxo da colonia portugueza em Antuerpia assumia muitas vezes o mais
+nobre e mais alto caracter artistico. A enthusiastica hospitalidade
+conferida pelos portuguezes a Alberto Drer ficou assignalada pelas
+grandes festas a que deu origem. Drer retribuiu esses favores com
+presentes de quadros e de gravuras aos feitores e aos negociantes de
+Portugal.
+
+Diogo Duarte, filho de Gaspar Duarte, possuia uma das primeiras galerias
+de pintura em Flandres. Foi recentemente publicado na Hollanda um
+catalogo dos seus quadros, entre os quaes havia obras de Drer, de
+Breughel, de Metsys, de Maubeuge, de Ticiano, de Tintoreto, de Andrea
+del Sarto, e um Raphael, que constava haver sido adquirido do principe
+D. Manoel de Portugal em troco de diamantes no valor de 2:200 florins.
+
+Muitos dos nossos compatriotas estabelecidos em Flandres cultivavam as
+sciencias e as letras, contando-se entre elles professores, medicos,
+escriptores celebres, como Amato Lusitano, Rodrigo de Castro, Garcia
+Lopes, Damio de Goes, etc.
+
+Outro curioso symptoma da nossa desaffeio dos estudos da arte nacional
+ a estagnao das velhas idas preconcebidas na apreciao dos nossos
+monumentos architectonicos. J me referi ao co basbaquismo privilegiado
+de que objecto absorvente o monumento da Batalha. Devo aclarar um
+pouco mais, ainda que rapidamente, esse phenomeno.
+
+Por notavel superstio epidemica, por inercia de espirito, por
+servilismo intellectual, por pedantismo classico, por costume, por
+commodidade, por conveno admirativa, ou por qualquer outro motivo, os
+criticos portuguezes, que mais teem governado a opinio, estabeleceram
+axiomaticamente, como coisa definitivamente demonstrada e assente, que o
+unico puro e genuino exemplar de stylo gothico existente em Portugal o
+da Batalha. Toda a modificao nas linhas constructivas ou nos motivos
+ornamentaes d'esse typo passou, por effeito de tal dogma, a
+qualificar-se de _decadencia_. Capellas imperfeitas, decadencia!
+Claustro dos Jeronymos, decadencia! Egreja de Christo e de S. Joo em
+Thomar, decadencia! Santa Cruz e S. Marcos, em Coimbra, decadencia!
+Decadencia emfim toda a obra architectonica da poca manoelina.
+
+A termos acceitado tal principio na sua applicao pratica, teriamos
+tido na nossa architectura ogival do seculo XVI um neo-gothico, fixo e
+invariavel, como o neo-greco-romano da renascena, que o triumpho
+consagrado do dogmatismo na arte, a immobilidade canonica nos systemas
+de construir, a cristalisao da rotina, a sujeio de toda a
+imaginao, de todo o poder inventivo a uma formula invariavel. Teriamos
+tido de submetter-nos ao despotismo da Batalha, como to cegamente, to
+estupidamente, to inconcebivelmente, nos temos submettido por tantas
+centenas de annos ao despotismo de Vitruvio e das suas cinco ordens, com
+os seus correspondentes aphorismos de proporo e de symetria, seu
+pedestal, sua columna e seu entablamento, repetindo sempiternamente,
+sobre os mesmos dados estaticos, o mesmo denticulo, o mesmo modilho, a
+mesma canelura, o mesmo triglypho, a mesma gta, a mesma carranca! Ora
+precisamente o stylo manoelino da nossa architectura, com toda a sua
+effuso esculptural, com todo o avassalante symbolismo dos seus motivos
+ornamentaes, com toda a arbitrariedade dos seus processos, com todas as
+suas despropores e todas as suas assymetrias, no precisamente seno
+a contraposio da liberdade creativa dos nossos architectos-esculptores
+ enfatuao idolatrica, pedantesca preceituao rhetorica, ao
+esmagador e exhaustivo despotismo das _cinco ordens_, com que o
+neo-classicismo da renascena razoirou todo o talento humano. O stylo
+gothico prestava-se como nenhum outro, pela extrema flexibilidade dos
+seus principios fundamentaes, aos desenvolvimentos de pura arte, com que
+o esculptor, completando a obra do engenheiro, e fazendo-se assim
+architecto, pode aviventar a pedra de um edificio, convertendo-a n'um
+elemento de sympathia e de solidariedade social, fazendo vibrar na
+palpitao do seu lavor evocaes de idas e de sentimentos proprios dos
+homens da sua raa e da sua terra. Os artistas manoelinos no teriam
+feito talvez monumentos _correctos_, na accesso indigente em que as
+academias empregam esta palavra, mas fizeram monumentos
+_expressivos_,--o que melhor. Porque no so as academias que pautam
+as propores e os limites da creao artistica. Tudo o que se pode
+formular em preceito cessa de ter valor em arte. A obra de arte no um
+producto de escola: a livre expresso individual de uma alma,
+convertida em realidade objectiva, e communicando aos homens uma
+vibrao nova do sentimento.
+
+A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua categoria,
+deduz-se da maior ou menor quantidade das idas que a sua obra suggere e
+dos sentimentos cuja percusso ella determina. Nos monumentos
+architectonicos pela sobreposio do ornato esculptural s linhas
+geometricas da construco que a arte se exerce. principalmente na
+esculptura que reside a expresso poetica do monumento.
+
+Em Portugal teem sido acusados os architectos manoelinos de invadirem
+pelo vegetabilismo ornamental todos os perfis da construco,
+submettendo assim as frmas constructivas ornamentao esculptural. Os
+grandes criticos da Inglaterra, que to consideravel impulso teem dado
+s idas estheticas e moderna evoluo artistica, entendem porm, ao
+contrario dos nossos, que a sciencia de edificar e de dispor linhas na
+construco de um monumento um ramo secundario da arte de esculpir. Esta
+affirmativa envolve a consagrao da escola manoelina pela critica que
+n'este seculo mais minuciosamente e mais profundamente tem estudado a
+arte gothica e a arte da renascena.
+
+Nada todavia mais afflictivo, de peor indicio para os destinos nacionaes
+da arte, que o descaso do publico, pervertido em seu instincto pela
+carunchosa doutrina academica, perante esses monumentos em que sob, o
+reinado de D. Manoel, os artistas portuguezes to vigorosamente
+accentuaram a palpitao victoriosa do genio, da originalidade, da
+poesia, da gloria do povo lusitano.
+
+O que se convencionou chamar _decadencia_ na ultima evoluo do stylo
+gothico em Portugal a modificao portugueza d'esse stylo, a sua
+nacionalisao, a originalidade local, imposta pelos architectos
+portuguezes do seculo XVI, a um systema geral de construco, commum a
+toda a Europa. Diro que no isso precisamente um novo stylo.
+Certamente que no, se unicamente chamarmos stylo novo em architectura
+constituio complexa e integral de todo um systema de edificar. Mas, se
+tomarmos a palavra stylo em tal accepo, nenhum stylo novo em toda a
+architectura da edade mdia e da renascena. Todo o processo
+constructivo nos veiu inicialmente da Grecia, de Roma, de Bysancio, da
+Syria, do Egypto. Os mesmos gregos no inventaram a columna, nem os
+romanos descobriram a abobada. O que constitue a originalidade na
+architectura de qualquer povo , como em Portugal, na poca manoelina, a
+subordinao de um systema qualquer de geometria architectural s
+condies do clima e da paizagem, natureza dos materiaes empregados,
+flora, fauna, concepo religiosa, historia, poesia, ao
+temperamento e psychologia dos artistas, em cada regio. Quanto mais
+intensa for a interveno d'esses factores mais original ser a obra.
+Assim, na evoluo do gothico na architectura portugueza, quanto menos
+modificado, isto , quanto mais _puro_ fr o stylo, mais insignificante
+ser o monumento como documentao artistica, como expresso social.
+
+ _decadencia_ do gothico da Batalha que ns devemos o incomparavel
+claustro dos Jeronymos, segundo Haupt _o mais bello claustro de todo o
+mundo_, bem como a fachada da egreja de Christo, em Thomar, onde a
+flammejante janella da sala do capitulo a obra mais eloquente, mais
+convicta, mais poetica, mais enthusiasticamente patriotica, mais
+estremecidamente portugueza, que jmais realisou em nossa raa o talento
+de esculpir e de fazer cantar a pedra.
+
+Na ornamentao d'essa janella, em que, juntamente com o sentimento mais
+entranhado das energias da natureza, rebenta, palpita e brada, em torno
+da ida christ, todo o sagrado pantheismo das velhas religies da
+India, conjugam-se, n'uma gloriosa harmonia de antiphona a toda a voz,
+acompanhada ao orgo, no deslumbramento dos cirios, no aroma das
+aucenas, no fumo dos thuribulos doirado pelo sol, os elementos
+decorativos do symbolismo mais poderoso, da suggesto mais profunda. O
+artista, em plena posse da sua ida, em completa independencia do seu
+espirito, em inteira liberdade dos seus meios de execuo, desdiz todos
+os votos, abjura todos os principios, renega todos os canones, infringe
+todas as regras, e prescinde de todo o applauso dos mestres, sufocando
+nas entranhas da sua propria vaidade a opinio de si mesmo, unicamente
+porque tem f na verdade que enuncia, porque concentrou toda a fora da
+sua alma, toda a energia do seu cerebro, toda a paixo do seu sangue, no
+amor da obra em que elle representa o pensamento que o domina. E em
+torno d'elle e d'esse objecto amado, como em torno de todos os que
+verdadeiramente amam, tudo mais na terra acabou e desappareceu.
+
+As columnas na janella da sala do capitulo so polipeiros de coral, dos
+mais profundos recifes do Oceano, e troncos d'essa palmeira, cuja sombra
+cobriu o bero da civilisao no littoral mediterraneo, providencia dos
+peregrinos nos oasis do deserto, qual os arabes da Peninsula dedicavam
+uma festa de primavera, tendo por fundamento a disseminao do polen,--a
+arvore santa, a arvore da Biblia, a arvore de Jesus, cujo ramo symbolico
+ um attributo da paixo e da paschoa, da gloria e do martyrio. Os
+demais elementos decorativos so as ondas do mar, taes como ellas se
+representam na heraldica; so os troncos seculares e as raizes profundas
+dos sobreiros dos nossos montes, extrema expresso de fora na
+fecundidade da seiva, que prende o roble, assim como a tradio e a
+familia prendem a debil e errante creatura humana, ao corao da terra
+em que nasceu. Guizeiras, como as das mulas de tiro engatadas carreta
+alemtejana, emmolham contorcidas varas de sobro e de azinho, como nos
+feixes de lictor da magistratura romana. Solidas correntes e possantes
+cabos de bordo, de que pendem em discos as boias de cortia, enlaam a
+decorao, amarrando-a vigorosamente empena por fortes argoles, como
+se amarraria uma nau ao caes de um porto. Toda a composio, partindo
+das espaduas de um homem, que parece sustentar-lhe todo o peso, ascende
+n'uma trepidao de algas e de folhagens para a cruz de Christo entre as
+espheras que tomara por empresa o rei venturoso de Portugal triumphante
+na vastido dos mares, em todo o circuito do globo. E o poema
+esculptural remata por cima da janella na rosacea magestosa do templo,
+formada em circulo pelas pregas e pelo bolso arfante da vela rizada de
+um galeo da India.
+
+O nosso povo porm desaprendeu de ver a obra artistica do seu passado, e
+nem sequer levanta os olhos para os seus mais communicativos monumentos,
+que ninguem lhe explica, que ninguem o ensina a comprehender e a amar.
+
+
+Resumamos agora a historia do que officialmente se tem feito no intuito
+malogrado de proteger os monumentos publicos e de conservar e defender
+os productos d'arte.
+
+Em julho de 1890 o ento ministro da Instruco Publica consultou sobre
+a questo de que se trata uma commisso de artistas, de archeologos e de
+escriptores. Da resposta, at hoje inedita, d'essa commisso, de que me
+coube a honra de ser relator, transcreverei alguns periodos.
+
+O arrolamento da nossa riqueza artistica, que se prope effectuar o
+ministerio da instruco publica e das bellas artes --ponderava o
+relatorio--a pedra fundamental de toda a construco destinada a dar
+arte portugueza o logar que lhe compete na historia geral da
+nacionalidade, na orientao do sentimento collectivo do povo, no
+conjuncto dos elementos de impulso e de progresso para o
+desenvolvimento das industrias, no respeito do paiz, emfim, e no da
+Europa.
+
+O inventario de que se trata, comprehendendo no s os edificios
+monumentaes mas os documentos archeologicos e os productos artisticos de
+toda a especie, seria, primeiro que tudo, a documentao preciosa para a
+historia da arte em Portugal,--determinao das suas origens ethnicas e
+sociaes, fixao dos seus caracteres distinctivos e sua relao com a
+psychologia do povo, com os sentimentos, com as aspiraes, com as
+ideias, com os costumes e com as instituies sociaes. Esse repositorio
+tornar-se-ia o espelho em que se achariam reflectidas, com todas as suas
+modalidades, segundo as influencias especiaes de cada poca, de cada
+phase de cultura, de cada estadio social, todas as foras emotivas,
+todas as aptides estheticas da nossa raa. A historia dos seus
+monumentos para cada povo a historia da sua individualidade, porque
+no ha monumento artistico que no traduza, mais ou menos directamente,
+a aco intellectual e politica da sociedade que o concebeu.
+
+A ideia do inventario projectado no --para honra nossa--inteiramente
+nova. No reinado de D. Joo V existia na Bibliotheca Real uma obra em
+cinco volumes, datada de 1686 e intitulada Theatro do reino de Portugal
+e dos Algarves por suas cidades, villas, fortes e fortalezas como que
+por scenas repartido. Mais tarde mandou o referido soberano ao Padre
+Frei Luiz de S. Jos, monge do Cister e artista peritissimo, que fizesse
+os debuxos de todas as povoaes do Minho, o que elle cumpriu no anno de
+1726. Por indicao da Academia Real da Historia, e para o fim de
+inventariar e conservar os monumentos nacionaes, publicou-se o decreto
+de 20 de agosto de 1721, e fundou-se o primeiro dos nossos museus
+archeologicos. Infelizmente os livros a que nos referimos no chegaram a
+ser dados estampa, e os originaes foram destruidos pelo terremoto de
+1755, juntamente com a Bibliotheca Real, e com o museu estabelecido nas
+casas dos duques de Bragana, ao Thesouro Velho.
+
+As disposies do alvar de 20 de agosto de 1721 constam do seguinte
+trecho do mesmo alvar: Hei por bem que d'aqui em deante nenhuma pessa
+de qualquer estado, qualidade e condio que seja, desfaa ou destrua em
+todo nem em parte, qualquer edificio, que mostre ser d'aquelles tempos
+(assim designados: Phenices, Gregos, Persos, Romanos, Godos e Arabios)
+ainda que em parte esteja arruinado; e da mesma sorte as estatuas,
+marmores e cippos em que estiverem esculpidas algumas figuras, ou
+tiverem letreiros phenices, gregos, etc.; ou laminas, ou chapas de
+qualquer metal, que contiverem os ditos letreiros, ou caracteres; como
+outrosi medalhas ou moedas, que mostrarem ser d'aquelles tempos, nem dos
+inferiores at o reinado do Senhor Rey D. Sebastio; nem encubro ou
+ocultem alguma das sobreditas cousas: e encarrego s camaras das cidades
+e villas d'este reyno tenham muito particular cuidado em conservar e
+guardar todas as antiguidades sobreditas, e de semelhante qualidade que
+houver ao presente, ou ao deante se descobrirem nos limites do seu
+districto; e logo que se achar ou descobrir alguma de novo, daro conta
+ao secretario da dita Academia Real para elle a communicar ao director e
+censores, e mais academicos; e o dito director e censores, com a noticia
+que se lhes participar, podero dar a providencia que lhes parecer
+necessaria para que melhor se conserve o monumento assim descoberto.
+Etc.
+
+Em 4 de fevereiro de 1802, novo alvar sobre a mesma materia, assim
+designado: Alvar com fora de lei pelo qual Vossa Alteza Real he
+servido suscitar o alvar de lei de 20 de agosto de 1721, ordenado em
+beneficio da Academia Real da Historia Portugueza para a conservao e
+integridade das estatuas, marmores, cippos, e outras peas de
+Antiguidade: mandando que as funces do mesmo Alvar, que at agora
+pertenciam ao secretario da dita Real Academia, fiquem da data do
+presente em deante pertencendo ao Bibliothecario Maior da Bibliotheca
+Publica; tudo na forma acima declarada.
+
+Em janeiro de 1844 o Bibliothecario Mr da Bibliotheca Nacional de
+Lisboa Jos Feliciano de Castilho, informava o respectivo ministro nos
+seguintes termos: Para o bibliothecario mr passaram attribuies que
+competiam Academia Real da Historia, mas infelizmente essa lei vigente
+tem sido at hoje letra morta, a tal ponto que at ignoram as suas
+disposies os proprios encarregados do seu cumprimento, com grave
+detrimento, no s d'este magnifico repositorio, que ha muitos annos se
+acha estacionario em aquisies archeologicas, mas tambem de todo o
+reino, onde o bibliothecario mr deveria sempre ter, por obrigao do
+seu cargo, promovido a conservao e segurana dos monumentos que no
+podem ou no devem transportar-se.
+
+Em seguido prope o bibliothecario que se torne effectiva a
+responsabilidade dos governadores civis no cumprimento da lei de 20 de
+agosto de 1721; que esses funccionarios se correspondam regularmente com
+o bibliothecario, etc.
+
+Ficou porm to morta a letra d'essa consulta como a da lei a que ella
+se refere.
+
+Por decreto de 10 de novembro de 1875 nomeada uma commisso para
+propr ao governo, com a reforma do ensino das Bellas Artes e com o
+plano de um museu, as providencias que julgar mais adquadas
+conservao, guarda e reparao dos monumentos historicos e dos objectos
+archeologicos, de importancia nacional, existentes no reino. A
+commisso alludida responde ao governo por meio da memoria redigida pelo
+marquez de Sousa Holstein, e assim se desempenha do encargo que lhe fra
+confiado.
+
+A louvavel diligencia empregada a convite do governo pela Real
+Associao dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, para o fim
+de lanar em 1880 as bases de uma inventariao systematica dos
+monumentos nacionaes, no foi, assim como o zeloso trabalho da commisso
+de 1875, seguida de resultados praticos.
+
+Independentemente da preceituao official, teem sido modernamente do
+mais importante auxilio para o conhecimento dos nossos valores
+artisticos a Exposio Retrospectiva de Arte Ornamental, celebrada em
+Lisboa em 1882, a exposio de Coimbra, a exposio de Aveiro, a
+exposio de Guimares, a recente exposio do centenario antonino, e as
+exposies de ourivesaria e de ceramica promovidas e effectuadas no
+Palacio de Cristal do Porto pela muito benemerita Sociedade de
+Instruco.
+
+De algumas das exposies alludidas ficaram documentos de alto valor.
+Imprimiram-se relatorios de muita importancia, e numerosos productos
+expostos foram reproduzidos pelo desenho e pela photographia. Da valiosa
+colleco photographica, para a qual principalmente contribuiram Carlos
+Relvas, Pardal, Rochini, Biel & Companhia, bem como dos catalogos dos
+museus e das exposies celebradas, se poderia extrahir desde j um
+esboo de inventario, que no seria difficil aperfeioar e prehencher,
+emprehendendo novas exposies e systematisando completamente as
+investigaes e os estudos correlativos.
+
+A commisso de 1890, a que acima me referi, propunha que, sem prejuizo
+das pesquisas que, convm continuar, para recolher ou arrolar os valores
+artisticos que ainda se conservam ignorados em poder de corporaes ou
+de particulares, a commisso incumbida do inventario geral e definitivo
+desse quanto antes principio aos seus trabalhos, tomando por materia as
+peas de que ha conhecimento, j pelo exame de que foram objecto nos
+museus onde existem, ou nas exposies at hoje feitas, j pelos
+catalogos e relatorios que d'essas exposies existem, j pela
+consideravel colleco de photographias que reproduzem os objectos
+expostos.
+
+Emquanto catalogao e conservao dos objectos pertencentes a
+particulares ou a corporaes de caracter civil ou religioso, no
+conviria desde j estabelecer principios absolutos. O modo de proceder
+dos delegados do governo em tal servio seria indicado pelas
+circumstancias particulares de cada occorrencia, sendo porm altamente
+para desejar que os prelados do reino, conscientes dos estreitos
+vinculos que ligam o esplendor das artes gloria do catholicismo,
+conseguissem fazer penetrar na convico das auctoridades eclesiasticas
+das suas circumscripes quanto inseparavel da historia da egreja a
+historia da arte christ, e quanto o museu, em paizes tradicionalmente
+catholicos, ainda uma frma do culto ou um desdobramento d'elle na
+ordem civil, alm de ser o permanente attestado da alliana da crena
+religiosa com a immortal aspirao da poesia no corao e no espirito da
+nossa raa.
+
+Para regra definitiva do processo a que se refere o alvitre que acabo de
+expor indispensavel que seja devidamente estudada e promulgada uma
+lei, semelhante que existe hoje na Italia, em Frana, nos Paizes
+Escandinavos, na Russia, na Hispanha, na Grecia, na Turquia, tendo por
+fim definir claramente e assegurar, de combinao com a legislao
+canonica, com os principios da concordata e com a legislao geral da
+propriedade, os direitos especiaes do Estado com relao guarda dos
+monumentos e parte que elle tem na posse dos objectos d'arte,
+determinando assim o caracter especial da propriedade artistica.
+
+Uma vez decretada essa lei fundamental, e assignalada a responsabilidade
+em que incorrem os que a transgridam, deveriam formar-se as commisses
+regionaes, dependentes da commisso central, e incumbidas, em suas
+localidades, da guarda e da conservao dos monumentos e dos objectos
+d'arte. Estas commisses, semelhana do que foi disposto na lei
+italiana de 1878, da qual se inspirou em Frana, para a organisao de
+eguaes servios, a Direco das Bellas Artes, seriam compostas de oito
+vogaes, sendo quatro da nomeao dos municipios e quatro da nomeao do
+governo, com um architecto inspector adjuncto, sob a presidencia do
+governador civil ou do administrador do concelho.
+
+Em toda a parte, ainda nos mais abandonados recantos da provincia, ha
+sempre, onde existe um monumento, um homem pelo menos que o ama, que o
+estuda, que o comprehende. a collaborao preciosa d'esses pobres
+poetas obscuros, d'esses modestos archeologos, ignorados da critica e do
+publico, que aos organisadores das commisses locaes compete acolher e
+utilisar.
+
+O processo de inventariao de cada pea artistica constaria de duas
+partes.
+
+A primeira seria a reproduco photographica, ou em gesso, ou pela
+galvanoplastica, do objecto inventariado, com registro do respectivo
+clich ou molde.
+
+A segunda, a confeco de um simples verbete, impresso, correspondendo
+photographia por meio de um numero de ordem, e satisfazendo os seguintes
+quesitos: 1. Descripo summaria do objecto; 2. Logar onde elle se
+encontra; 3. Nome do individuo ou da corporao em cuja posse se acha;
+4. Antecedentes; 5. Attribuio; 6. Avaliao; 7. Escala em que
+houver sido feita a reproduco.
+
+Este systema, semelhante ao dos museus de Londres, de Berlim e de
+Vienna, o mais simples, o mais economico, o mais pratico, o mais
+expedito. Com applicao ao inventario da arte hispanhola elle foi
+proposto, pelo delegado de Portugal, ao grande jury da ultima exposio
+historico-europeia em Madrid. Uma real ordem o mandou pr em execuo,
+tendo-o sanccionado a approvao unanime de uma commisso presidida pelo
+sr. Canovas del Castillo e composta de criticos de uma competencia
+indiscutivel e de uma notoriedade europeia.
+
+Com a colleco completa das photographias e dos verbetes a que alludo,
+o estado, em Portugal, sem ter da riqueza artistica da nao um
+inventario to desenvolvido e to perfeito como o que outros paizes
+possuem, teria no emtanto um arrolamento explicito, e achar-se-hia
+habilitado a ministrar-nos o mais efficaz meio de estudo.
+
+Da colleco integral, subdividida em tantas series diversas quantos os
+differentes criterios de classificao que se lhe applicassem, se
+extrairiam colleces especiaes, em edies mais ou menos modestas,
+relativas a cada ramo do ensino, geral ou especial, e destinadas s
+escolas de bellas artes, s escolas industriaes, aos museus das escolas
+primarias e secundarias, s officinas, aos operarios, facultando assim,
+ou gratuitamente ou por infimo preo, a todas as classes sociaes um
+pronto meio de conhecimento da historia geral da arte, da historia da
+arte em cada uma das suas mais especiaes applicaes, da evoluo das
+frmas e do desenvolvimento dos stylos, na architectura, na pintura, na
+esculptura, na marcenaria, na serralheria, na ourivesaria, na ceramica,
+em todos os ramos emfim do trabalho artistico e industrial.
+
+Eliminando os numeros que relacionam os verbetes com as photographias,
+os alumnos das escolas d'arte, procurando para cada photographia o
+verbete correlativo, e satisfazendo por esse processo aos mais variados
+quesitos de classificao, habituar-se-hiam, por meio dos exercicios
+mais simplesmente pedagogicos, a discernir as pocas e os stylos,
+retendo todas as diversidades da frma pela memoria da vista.
+
+Alm do que, com o material reunido para o inventario dos monumentos
+architectonicos e das riquezas artisticas da nao, o estado fundaria
+simultaneamente o mais interessante museu de reproduces.
+
+A Commisso dos Monumentos Nacionaes no inteiramente, pelos seus
+meios de aco e pelos seus fins, a commisso a que se refere a consulta
+de 1890. Parece-me indispensavel, antes de tudo, que esta commisso se
+reconstitua em bases mais amplas, e que d'ella se desdobre a commisso
+do inventario geral da d'arte, ao qual urgentissimo que se proceda.
+
+Na parte em que a commisso tem de responder pela conservao dos
+monumentos nacionaes, preciso, a meu ver, que ella se complete, tanto
+no programma dos seus trabalhos como no pessoal que tem de pr em
+execuo esse programma, no de um modo como at hoje officioso e
+facultativo, mas rigorosamente obrigatorio, sendo-lhe indispensavel para
+esse effeito a aggregao e a collaborao effectiva de dois
+architectos, a presidencia do sr. ministro, e a publicao periodica de
+um boletim em que regularmente se communiquem ao publico os resultados
+do trabalho feito.
+
+Conseguidas as condies de consistencia technica, de auctoridade e de
+expediente, que no estado presente lhe fallecem e a innutilisam, cabe
+commisso arrolar definitivamente, pela photographia e pela escripta, os
+monumentos confiados sua guarda bem como as obras d'arte que o paiz
+possue; nomear as commisses locaes; definir claramente o que
+_conservar_, o que _restaurar_, e o que _continuar_ ou _concluir_ um
+monumento; redigir desenvolvidamente e em suas mais particulares
+minudencias (porque n'este ponto tudo est por definir e por
+estabelecer) os programmas especiaes a que tem de satisfazer
+rigorosamente todo o projecto de conservao, de restauro ou de
+acabamento na obra de cada edificio.
+
+Os cuidados de _conservao_ devem ser obrigatorios e extensivos a todos
+os monumentos. Para esse effeito o programma simples, e a despesa
+insignificante, ainda perante os mais modestos recursos. As occasies em
+que cabe _restaurar_ so relativamente raras. E nenhum edificio,
+qualquer que seja a sua importancia historica ou artistica, convem
+_concluir_, a no ser nos casos em que vantajosamente elle se possa
+adaptar a algum dos servios vigentes da civilisao contemporanea. Este
+mesmo criterio economico se deveria applicar opportunidade das
+_restauraes_. Da inobservancia d'estes preceitos fundamentaes resultou
+o contrasenso de restaurar o edificio dos Jeronymos sem previamente se
+accordar no destino que tem de ter esse edificio, como se podesse ser
+indifferente, no modo de reconstruir uma casa, que ella tenha de ser uma
+escola, um museu, um archivo, um recolhimento, um quartel, um banco ou
+uma habitao particular![1]
+
+
+Ao governo de sua magestade, para esse fim solicitado pelos homens que
+com to patriotico desinteresse constituem a Commisso dos Monumentos
+Nacionaes, compete prefazel-a e fortifical-a com a regulamentao e
+auctoridade de que ella carece, ou dissolvel-a.
+
+
+Se o Estado no intervem cumpre aos governados levar a effeito, por um
+decisivo esforo de iniciativa, a obra a que se recusem os que governam.
+
+Est-nos dado o exemplo na actividade e na abnegao de alguns cidados
+benemeritos.
+
+O sr. bispo-conde de Coimbra funda na sua diocese o mais completo e mais
+interessante museu de ourivesaria sagrada que existe em Portugal, e
+emprehende e realisa, sob a intelligente collaborao do sr. Antonio
+Augusto Gonalves, a restaurao da S Velha e a de Santa Cruz, com uma
+segurana de criterio, de que no ha exemplo em obra alguma do mesmo
+genero modernamente consumada pelas officinas officiaes.
+
+O sr. bispo de Beja applica um egual fervor s obras do convento da
+Conceio; e na mesma cidade de Beja por iniciativa da municipalidade,
+por concurso patriotico de alguns cidados, funda-se o mais copioso e o
+mais bem catalogado dos nossos museus archeologicos.
+
+Em Evora o sr. Francisco Barahona custeia por si s a dispendiosa
+reparao do sumptuoso templo de S. Francisco, sem a qual teria j
+desabado ou desabaria em breve a mais bella egreja portugueza do tempo
+D. Joo II.
+
+Na ultima visita que fiz, em setembro passado, S de Braga, ahi me foi
+affirmado que o respectivo prelado estava elaborando o projecto da
+reconstituio artistica d'aquelle importante monumento.
+
+Em Cette e em Pao de Sousa, camaras, juntas de parochia, simples
+influencias individuaes invidam os mais louvaveis e mais instantes
+esforos para a conservao dos monumentos gloriosos a que n'esses
+logares se alliam os nomes de Egas Moniz, de Gonalo Veques e de Estevam
+da Gama.
+
+A obra to desvelada da extincta Sociedade de Instruco do Porto e a da
+Sociedade Martins Sarmento, em Guimares, so verdadeiros monumentos de
+erudio, de estudo, de trabalho pratico, de piedade patriotica.
+
+Para a constituio integral da historia da arte e da tradio artistica
+portugueza, quantas contribuies dedicadas, quantos esforos
+individuaes, desassociados e dispersos, na obra, to incomprehendida e
+to despremiada, dos srs. Joaquim de Vasconcellos, Martins Sarmento,
+Antonio Augusto Gonalves, Gabriel Pereira, Sousa Viterbo, Luciano
+Cordeiro, Ferreira Caldas, Ribeiro Guimares, Alberto Sampaio, Julio de
+Castilho, Theophilo Braga, Leite de Vasconcellos, Pinho Leal, Albano
+Bellino, Teixeira de Arago, Vilhena Barbosa, Conceio Gomes, Filippe
+Simes, Manoel de Macedo, Jos Pessanha, Fonseca Benevides, Valentim,
+Vieira Natividade, Figueiredo da Guerra, visconde de Condeixa, Borges de
+Figueiredo, Marques Gomes, Rodrigo Vicente de Almeida, Zephyrino
+Brando, Possydonio da Silva, Freitas Costa, Avelino Guimares, Freire
+d'Oliveira; e quantos outros, tanto mais sympathicos quanto mais
+obscuros!
+
+O unico inutil da phalange sou talvez eu, que em vez de uma accurada
+monographia, estou aqui fazendo um indice de assumptos, que s
+devidamente trataria se de cada uma d'estas paginas tirasse um livro.
+Possam ellas ao menos communicar a outros coraes a sympathia, que
+filialmente prende o meu terra em que nasci, e raa de que procedo!
+
+ pelo culto da arte, invocado n'estas paginas, que a religio da
+nacionalidade se exteriorisa e se exerce.
+
+Desde que nas consciencias se extinguiu a f, por meio da arte que as
+tradices se transmittem, que os sentimentos se coordenam, que os
+affectos se depuram, que as paixes se enobrecem. pela arte, que a
+exprime, que a poesia do christianismo sobreviver aos seus dogmas no
+enternecimento, no amor, na saudade dos homens. tambem pela arte que
+em nossa memoria a poesia da historia sobreleva das instituies, dos
+systemas, das theorias e dos homens, sobre que ella versa.
+
+A politica, depois da desastrosa fallencia de todas as modernas theorias
+liberaes, cessou por toda a parte de ser um foco de attraco para as
+idas ou para os sentimentos humanos. As leis continuam a fazer-se com o
+destino unico de serem consecutivamente e invariavelmente decretadas,
+infringidas e revogadas, para se substituirem por leis novas, que por
+seu turno se decretam, se infringem e se revogam, como succedeu s
+anteriores, como succeder s que se seguirem.
+
+No momento presente so unicamente os poetas, os philosofos e os
+artistas que governam espiritualmente o mundo. D'ahi, nos paizes de
+cultura mental, dominando todos os phenomenos da decadencia moderna, uma
+effuso de sympathia, de tolerancia, de benevolencia, de perdo, que
+caracterisa bem o nosso tempo, e de que no ha na historia outro
+exemplo.
+
+Quando recebemos da Inglaterra a ultima affronta de chancellaria, a que
+deu motivo o tratado de Loureno Marques, quem na minha susceptibilidade
+portugueza mais suavisou esse golpe foi o critico d'arte John Ruskin,
+proclamando solemnemente e categoricamente aos estudantes de Glascow que
+os estadistas inglezes (tratava-se ento do sr. Disrali e do sr.
+Gladstone) lhe no mereciam nem mais respeito nem mais considerao que
+duas velhas gaitas de folle.
+
+Ruskin separava assim e distinguia radicalmente a Inglaterra do _Foreign
+Office_ e de lord Salisbury, da Inglaterra de _South Kensington_, de
+_British Museum_, da _National Gallery_, de _Ruskin Museum_, de Darwin,
+de Spencer, de Carlos Dickens, de Turner, de Burne Jones, para a qual
+tender sempre e irrevogavelmente a terna gratido do nosso espirito.
+
+ unicamente pela arte, inherente natureza humana, progressiva e
+eterna, que hoje em dia os homens se associam no destino e na
+solidariedade da especie.
+
+ pela arte que o genio de cada raa se patenteia, que a autonomia
+nacional de cada povo se revela na sua autonomia mental, e se affirma,
+no s pela sua especial comprehenso da natureza, da vida e do
+universo, mas pelo trabalho collectivo da communidade, na litteratura,
+na architectura, na musica, na pintura, na industria e no commercio.
+
+ pelo culto da arte, e pela educao artistica que esse culto
+comprehende, que a produco industrial se especialisa, se valorisa pela
+originalidade caracteristica do producto, e transforma pela
+prosperidade, unicamente determinada pelo ensino, toda a economia de uma
+nao, como se evidenciou nos ultimos tempos em Inglaterra, na Austria,
+na Allemanha, por via da simples reconstituio dos museus e da
+multiplicao das escolas.
+
+Finalmente,--se para cada povo a arte a segurana da tradio, o
+refugio das consciencias, o mais puro reflexo da imagem benigna da
+patria, a fonte mais caudal de todos os progressos moraes, economicos e
+at politicos,--para cada homem, na tortura de tantas incertesas moraes
+na magoa e na ruina de tantas crenas extinctas, de tantos ideaes
+desfeitos no melancholico decurso da nossa edade, a arte ainda--como
+diz Schopenhauer--_a unica flr da vida_.
+
+
+
+
+*Notas:*
+
+
+[1] O conspicuo parecer, que, a respeito das obras dos Jeronymos, foi
+pelo sr. Luciano Cordeiro apresentado Commisso dos Monumentos
+Nacionaes, em sesso de 7 de novembro de 1895, termina, depois d'outras,
+pelas concluses seguintes:
+
+5. O Templo deve ficar destinado, smente, s grandes celebraes
+religiosas do Estado, e a Galilea a jazida dos restos dos Descobridores
+e Navegadores portuguezes.
+
+6. Todo o resto do monumental edificio deve ser destinado a alojamento
+e installao do Archivo Nacional, convindo que essa installao se ache
+concluida at o mez de maio de 1897.
+
+No concordo inteiramente com o sr. Luciano Cordeiro em que se
+transporte para o edificio annexo egreja dos Jeronymos o archivo da
+Torre do Tombo, e to pouco em que se remova da egreja o exercicio
+parochial do culto.
+
+Por complexas razes, que no vem para aqui desenvolver, eu votaria por
+que, em vez do archivo da Torre do Tombo se estabelecesse o museu naval
+no edificio dos Jeronymos. E emquanto a egreja, alm de que, em minha
+humilde opinio, o clero a saberia sempre guardar muito melhor do que o
+estado, accresce ainda que a parochia de Santa Maria de Belem uma
+instituio historicamente sagrada, indissoluvelmente unida em nosso
+respeito tradio do monumento. Foi o infante D. Henrique quem
+transformou o inhospito areal do Restello na linda freguezia de Belem,
+arroteando o solo, para refresco, abrigo e amparo espiritual dos
+navegantes, plantando arvores, dispondo hortas e pomares, abrindo fontes
+e construindo a primitiva ermida exactamente no mesmo logar em que se
+edificou a actual egreja. O pontifice Pio II confirmou por meio de uma
+bula a doao do infante ordem de Christo, e instituiu em parochia a
+primeira egreja de Santa Maria de Belem, sem outro encargo para a ordem,
+para os navegantes e para o publico seno o de se rezar a cada missa,
+aos sabbados, um _Pater e uma Ave Maria pela salvao da alma do infante
+D. Henrique e por a d'aquelles de quem era teudo_. O rei D. Manoel,
+tendo edificado a sumptuosa egreja e o mosteiro dos Jeronymos, na volta
+da armada de Vasco da Gama, depois do descobrimento da India, colloca a
+estatua do infante porta da egreja, mantem a parochia, e determina, em
+cumprimento dos piedosos desejos de D. Henrique, que a cada missa, ao
+lavar das mos, o sacerdote se volva para a gente, e diga em alta voz.
+Rogae a Deus pela alma do infante D. Henrique, primeiro fundador d'esta
+casa, e por a de el rei D. Manoel, que a doou ordem de Christo.
+
+A data d'esta carta de doao de 26 de dezembro de 1498.
+
+Seria, a meu ver, uma infidelidade, uma ingratido, e um torpe desacato
+remover a parochia de Santa Maria de Belem do logar em que seus
+gloriosos fundadores a estabeleceram, cabendo-nos pelo contrario o dever
+de reclamar dos poderes civis e dos poderes ecclesiasticos que o modesto
+voto dos fundadores se cumpra, como de razo juridica e de probidade
+nacional, e que em cada missa conventual celebrada pelo parocho na
+egreja dos Jeronymos, o sacerdote se volte para o povo, ao _lavabo_, e
+pea um _Pater_ e uma _Ave Maria_ pela alma do infante D. Henrique e
+pela de el-rei D. Manoel.
+
+Que se adopte porm ou se no adopte a proposta do sr. Luciano Cordeiro,
+o que technicamente no de certo admissivel que as obras dos
+Jeronymos se prosigam e se concluam sem resoluo tomada cerca do
+destino que ha de ter o edificio em que taes obras se fazem.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correco |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pg. 71| ta boas | taboas |
+ |#pg. 74| onem | nem |
+ |#pg. 74| dimens | dimenso |
+ |#pg. 105| ascebispo | arcebispo |
+ |#pg. 142| privilegido | privilegiado |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+Variantes dos nomes prprios foram mantidas de acordo com o original.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O culto da arte em Portugal, by
+Jos Duarte Ramalho Ortigo
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CULTO DA ARTE EM PORTUGAL ***
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+
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
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+
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
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+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+where we have not received written confirmation of compliance. To
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+particular state visit https://pglaf.org
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+approach us with offers to donate.
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+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
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+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
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+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
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+
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+
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+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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Binary files differ
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@@ -0,0 +1,6885 @@
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+The Project Gutenberg EBook of O culto da arte em Portugal, by
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+
+Title: O culto da arte em Portugal
+
+Author: Jos Duarte Ramalho Ortigo
+
+Release Date: November 12, 2009 [EBook #30456]
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+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CULTO DA ARTE EM PORTUGAL ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+exist&ecirc;ncia de erros tipogr&aacute;ficos neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Nov. 2009)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+O CULTO DA ARTE<br />
+
+<br />
+
+EM<br />
+
+<br />
+
+PORTUGAL
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<h3><em>RAMALHO ORTIG&Atilde;O</em>
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="bbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h2>
+O CULTO DA ARTE<br />
+
+</h2>
+
+<br />
+
+<h3>
+EM</h3>
+
+<h2>PORTUGAL
+</h2>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<div class="tiny">Monumentos
+architectonicos&#8213;Restaura&ccedil;&otilde;es&#8213;Desacatos<br />
+
+Pintura e esculptura&#8213;Artes industriaes<br />
+
+O genio e o trabalho do povo&#8213;Indifferen&ccedil;a
+oficial&#8213;Decadencia<br />
+
+Anarchia esthetica<br />
+
+Desnacionalisa&ccedil;&atilde;o da
+arte&#8213;Dissolu&ccedil;&atilde;o dos sentimentos<br />
+
+Urgencia de uma reforma
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 96px; height: 63px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<h4>LISBOA<span class="smallcaps"><br />
+
+Antonio Maria Pereira,
+Livreiro-Editor</span><br />
+
+50&#8213;Rua Augusta&#8213;52<br />
+
+<br />
+
+1896
+</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<hr />
+<div style="text-align: center;">Typographia da Academia
+Real das Sciencias de Lisboa
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">&Aacute;
+Commiss&atilde;o
+dos Monumentos Nacionaes
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+dedica respeitosamente<br />
+
+este humilde trabalho<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>O AUCTOR</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[1]</span>
+Durante a Renascen&ccedil;a, e ainda atravez da Edade
+M&eacute;dia, t&atilde;o insufficientemente conhecida no enigma
+da sua cultura artistica, os reis, os monges,
+os fidalgos, os burguezes enriquecidos ostentavam
+o fausto e a pompa hierarchica n&atilde;o s&oacute;mente
+construindo
+palacios e castellos, que enobreciam os
+logares que elles habitavam, mas erigindo basilicas
+e cathedraes, em que se concentravam todos
+os esfor&ccedil;os do talento de uma ra&ccedil;a, e eram
+verdadeiramente
+os palacios do povo, doados magnanimamente
+pelos mais poderosos aos mais humildes,
+em nome de Deus, em nome do rei, em
+honra da patria.
+<span class="pagenum">[2]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+N'esses edificios incomparaveis se achavam colligidas
+como em escolas monumentaes, como em
+museus portentosos, todas as maravilhas da sciencia,
+da poesia e da arte. A esculptura architectural,
+a estatuaria dos mausoleus, a imaginaria dos
+altares, a illuminura dos missaes, a pintura das
+vidra&ccedil;arias,
+a talha dos retabulos subordinavam-se
+a um pensamento commum, expresso n'um vasto
+symbolismo, comprehendendo as fecundidades da
+terra e do mar, o trabalho do homem nos seus
+desfallecimentos e nos seus triumphos, a
+perturba&ccedil;&atilde;o
+dos sentidos pelo peccado, a fatalidade do
+sangue, o horror do universal aniquilamento, e
+o v&ocirc;o da alma para Deus, levada por um immortal
+instincto de amor, de paz, de verdade e
+de justi&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Dentro d'essas egrejas, amea&ccedil;adas hoje de proxima
+ruina ou inteiramente arruinadas, se celebravam
+todos os actos da vida religiosa, da vida civil
+e da vida domestica. Ahi se casavam os noivos,
+se baptisavam os filhos, se sepultavam os paes.
+Ahi se ungiam os reis, velavam as armas os cavalleiros,
+professavam os monges, benziam-se os
+<span class="pagenum">[3]</span>
+fructos da terra, as bandeiras das hostes, as ferramentas
+da lavoura e os pend&otilde;es dos officios.
+Ahi se discutiam os interesses do povo, os direitos,
+as franquias, os foros da communa. Ahi se
+pr&eacute;gava o Evangelho, se resava a missa, e se representavam
+os autos populares da vida de Jesus
+e dos seus santos; e nas vigilias da Natividade,
+da Epiphania e da Paschoa, quando o org&atilde;o emudecia
+no coro e se calavam os cantos liturgicos, o
+povo bailava ao longo da nave, sob as abobadas
+gothicas ou sob as cupulas bysantinas, e as l&ocirc;as e
+os villancicos, entoados pelos fieis, subiam para
+o ceu com a fragancia das flores e com o fumo
+dos thuribulos, ao repique das castanholas e ao
+rufar dos adufes.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao lado dos braz&otilde;es e das divisas heraldicas
+pendiam dos muros os votos modestos dos mais
+obscuros mesteiraes, dos mais humildes braceiros.
+<br />
+
+<br />
+
+Esse alca&ccedil;ar dos pobres, que era a egreja medieval,
+alca&ccedil;ar mais sumptuoso que o de nenhum
+rei, dava asylo incondicional, inviolavel e sagrado,
+aos maltrapilhos, aos vill&otilde;es, aos mendigos,
+aos lazaros e &aacute;s lazaras de todas as lepras do corpo
+<span class="pagenum">[4]</span>
+e da alma, aos tinhosos, aos nus, aos imbecis, aos
+ignorantes, aos criminosos, &aacute;s mulheres adulteras,
+&aacute;s mancebas, &aacute;s mundanarias, &aacute;s
+barreg&atilde;s.
+<br />
+
+<br />
+
+O egoismo dos tempos modernos torna-nos incompativeis
+com o commetimento de t&atilde;o grandes
+obras. Creamos institui&ccedil;&otilde;es de caridade, fazemos
+regulamentos de assistencia publica, e vangloriamo-nos
+de haver definido pela revolu&ccedil;&atilde;o liberal o
+dogma da fraternidade humana, mas somos fundamentalmente
+incapazes de consagrar &aacute; pratica
+das virtudes, de que julgamos ter na historia o
+monopolio, monumentos como aquelles que nossos
+av&oacute;s lhe levantaram <em>a proll do comum e
+aproveitan&ccedil;a
+da terra</em>, dando em resultado que o mais
+andrajoso mendigo da portaria do mosteiro de Alcoba&ccedil;a
+ou do mosteiro de Santa Cruz, com o seu
+alforge ao pesco&ccedil;o e a sua escudella debaixo do
+bra&ccedil;o, participava, al&eacute;m da
+ra&ccedil;&atilde;o quotidiana que
+se lhe distribuia pelo caldeir&atilde;o da communidade,
+de um agasalho de principe e de um luxo d'arte
+com que hoje n&atilde;o competem os maiores potentados,
+os quaes em suas casas e para seu recreio intimo
+se rodeiam de todas as joias artisticas de que
+<span class="pagenum">[5]</span>
+pela aboli&ccedil;&atilde;o dos vinculos e pela
+extin&ccedil;&atilde;o das ordens
+religiosas se apoderou o moderno commercio
+do bric-&agrave;-brac.
+<br />
+
+<br />
+
+Falta-nos a alta no&ccedil;&atilde;o de solidariedade
+patriotica,
+falta-nos o desapego dos bens de fortuna, falta-nos
+o largo espirito de abnega&ccedil;&atilde;o, falta-nos a
+illimitada liberalidade cavalleirosa, e falta-nos a f&eacute;
+dos nossos av&oacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+Na architectura trabalhamos unicamente para
+n&oacute;s mesmos, sem cuidados de futuro, sem pensamento
+de continuidade de ra&ccedil;a ou de familia, deslembrados
+de que teremos vindouros e de que teremos
+netos.
+<br />
+
+<br />
+
+Entre as nossas antigas construc&ccedil;&otilde;es hydraulicas
+ha o aqueducto de Elvas, que levou cem annos
+a fazer. Varias gera&ccedil;&otilde;es successivas acarretaram
+para essa construc&ccedil;&atilde;o os materiaes; e lentamente,
+pacientemente, foram collocando pedra sobre
+pedra, para que um dia a agua chegasse a Elvas,
+e bebessem d'ella os netos dos netos d'aquelles
+que de t&atilde;o longe principiaram a recolhel-a e a
+canalisal-a. Uma tal empresa &eacute; a
+humilha&ccedil;&atilde;o e a
+vergonha do nosso tempo, imcapaz de pagar com
+<span class="pagenum">[6]</span>
+egual carinho ao futuro aquillo que deve &aacute; previdencia,
+aos sacrificios e aos desvelos do passado.
+<br />
+
+<br />
+
+O nosso ideal na arte de construir &eacute; que a obra
+se fa&ccedil;a em pouco tempo e por pouco dinheiro.
+Vamos abandonando cada vez mais, de dia para
+dia, a pedra e a madeira, em que &eacute; nimiamente
+moroso para a morbida inquieta&ccedil;&atilde;o do nosso
+espirito
+o trabalho de desbaste, de esquadria e de
+lavor. Adoptamos, como material typico do nosso
+systema de edificar, o ferro, o tijolo e a pasta. A
+casa cessou de ser uma obra de architectura para
+se converter em uma empreitada de engenharia,
+e os delicados artistas da pedra, da madeira e do
+ferro forjado abdicam da sua antiga miss&atilde;o perante
+os subalternos obreiros encarregados de fundir,
+de amassar e de enformar a vap&ocirc;r a
+habita&ccedil;&atilde;o
+moderna e o moderno edificio publico&#8213;a
+gare, o quartel, o mercado ou a cadeia.
+<br />
+
+<br />
+
+O seculo XIX, se com a impotencia de continuar
+a obra monumental dos seculos que o precederam,
+accumulasse a incapacidade de comprehender
+e de venerar essa obra, representaria um pavoroso
+retrocesso na historia. N&atilde;o succede assim,
+<span class="pagenum">[7]</span>
+porque s&atilde;o inviolaveis as leis do progresso. Ao
+seculo XIX coube patentear o estudo mais dedicado
+e o conhecimento mais perfeito da arte antiga.
+A sciencia archeologica e a critica d'arte
+nunca em nenhum outro periodo da civilisa&ccedil;&atilde;o
+chegaram &aacute; eminencia attingida pelos investigadores
+contemporaneos. &Eacute; tambem em sua maneira
+um colossal monumento, dos mais gloriosos
+para a intelligencia, o que erigiu a erudi&ccedil;&atilde;o
+do nosso tempo, constituindo scientificamente a
+archeologia, definindo o seu methodo, fixando os
+seus limites, especialisando o trabalho dos seus
+contribuintes, distinguindo da archeologia litteraria
+a archeologia da arte, ramificando para um
+lado a paleographia, a epigraphia, a ecdotica, a
+museographia e a propedeutica, para o outro as
+bellas artes, as artes industriaes, a numismatica, e
+ainda como desdobramento d'estes estudos a iconographia,
+a mithologia figurada e a symbologia,
+particularisando emfim estas investiga&ccedil;&otilde;es a cada
+povo e a cada epocha da humanidade, creando
+d'esse modo a prehistoria, a egyptologia, a syriologia,
+que t&atilde;o amplo clar&atilde;o teem derramado sobre
+<span class="pagenum">[8]</span>
+os problemas da origem do homem, da distribui&ccedil;&atilde;o
+das ra&ccedil;as, da forma&ccedil;&atilde;o das linguas.
+Fixaram-se
+pelas escava&ccedil;&otilde;es de Troia, de Mycenes,
+de Chypre, de Santorin e de Rhodes as origens
+orientaes e pelasgicas da arte grega. Corrigiu-se
+na historia da ceramica a confus&atilde;o existente entre
+os vasos pintados gregos e etruscos. Refez-se
+completamente sobre novos elementos e por um
+criterio novo a historia da olaria, a da toreutica,
+a da glyptica, a da esculptura em barro, a dos
+bronzes, a das joias, a da tape&ccedil;aria, a da illuminura.
+Desvendou-se o conhecimento da tachigraphia
+hieratica e dos alphabetos hieroglyphicos,
+ideographicos e phoneticos, que precederam o alphabeto
+grego e o latino. Creou-se a critica scientifica
+dos textos. Colligiram-se e classificaram-se
+as inscrip&ccedil;&otilde;es gregas e romanas dessiminadas pela
+Europa, e definiu-se o methodo de as datar. Leram-se
+os carcomidos graffitos de Pompeia, os
+papyrus carbonisados de Herculanum, as cartas
+lapidares da edade m&eacute;dia e os palimpsestos de
+Plauto, de Cicero, de Marco Aurelio, de Tito Livio,
+de Euripedes e dos scribas carolingeanos.
+<span class="pagenum">[9]</span>
+Interpretaram-se os documentos de procedencia
+egypcia, copta ou phenicia sepultados nos jazigos
+das mumias. E os mysteriosos caracteres hieroglyphicos
+e cuneiformes das inscrip&ccedil;&otilde;es egypcias,
+cald&eacute;as, assyrias e persas foram simplesmente
+trasladados a vulgar. Determinou-se a edade dos
+manuscriptos pelo systema das abreviaturas e da
+pontua&ccedil;&atilde;o e pela evolu&ccedil;&atilde;o
+da letra desde a oncial
+da <em>Iliada</em> no palimpsesto
+greco-syriaco do Museu
+Britannico at&eacute; a minuscula italiana egual &aacute; dos
+primeiros caracteres da imprensa. Inspeccionaram-se
+e inquiriram-se as primitivas habita&ccedil;&otilde;es
+do homem, as suas primeiras fortifica&ccedil;&otilde;es, os
+seus
+mais antigos sepulcros,&#8213;a caverna, a cidade lacustre,
+os castros e os dolmens. Na architectura
+principiou-se a estudar por novos meios de critica
+as causas dos seus progressos e da sua decadencia,
+prendendo assim pelos mais estreitos vinculos ao
+destino da arte o destino do homem. Por tal modo
+se transfigurou completamente desde o seu alicerce
+at&eacute; o seu remate o vasto edificio da historia,
+segundo a resumida formula dada por Champolion
+Figeac: que todos os monumentos, ainda
+<span class="pagenum">[10]</span>
+os mais communs e os mais grosseiros, conteem
+factos cujo conjuncto &eacute; como a estatistica moral
+das sociedades extinctas.
+<br />
+
+<br />
+
+D'esse novo criterio resultou a atten&ccedil;&atilde;o especial
+com que todos os povos cultos principiaram
+a considerar a obra material do passado; e assim
+nasceu, com uma nova palavra, a nova maneira
+de <em>restaurar</em> os edificios publicos.
+<br />
+
+<br />
+
+Em mais de um documento da edade m&eacute;dia se
+encontram provas de que os antigos poderes n&atilde;o
+abandonavam, t&atilde;o completamente como hoje se
+poderia suppor, ao accaso de qualquer iniciativa,
+sem beneplacito do estado, as edifica&ccedil;&otilde;es
+consagradas
+ao publico. No <em>Codigo de las
+partidas</em>, lei
+6.&ordf;, titulo X, dizia Affonso o Sabio, n'aquella saborosa
+lingua de que mais tarde se desdobrou o
+portuguez e o castelhano: &laquo;Por bienaventurado
+se debe tener todo home que pueda facer eglesia,
+do se ha de consagrar tan noble cosa et tan sancta
+como el cuerpo de Nuestro Se&ntilde;or Jesucristo,
+et como quiere que todo home &oacute; mujer la puede
+facer a servicio de Dios, pero con mandamiento
+del obispo, como es dicho en la ley segunda deste
+<span class="pagenum">[11]</span>
+titulo, con todo eso debe catar dos cosas el que la
+ficiere, que la faga complida et apuesta; et esto
+tambien en la labor como en los libros et en las
+vestimientas...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Affonso V escreve de Almada, em 1467, aos
+juizes, vereadores, procuradores e homens bons
+da cidade de Evora para que se permitta a Sueiro
+Mendes levar duas pedras que estavam nos a&ccedil;ougues,
+e eram do antigo templo romano, para antipeitos
+das janellas de uma casa, que a esse tempo
+edificava. &laquo;E porque as ditas pedras aproveitam
+pouco honde estam e em as ditas casas faram
+muito, e ainda &eacute; nobresa as cidades haverem
+em ellas b&ocirc;as casas taes como as do dito Sueiro
+Mendes, e seu fundamento he as faser para n&oacute;s
+em ellas havermos de pousar, N&oacute;s vos rogamos e
+encomendamos que vos prasa lh'as quererdes dar,
+e Rodrigo Esteves mestre das nossas obras em
+essa cidade ter&aacute; cuidado de as tirar donde estam,
+etc.&raquo; Estas linhas s&atilde;o um tra&ccedil;o
+caracteristico
+da policia do tempo. D'ellas se deduz que era
+preciso no seculo XV requestar a interven&ccedil;&atilde;o
+regia
+para bulir em duas pedras de um velho monumento,
+<span class="pagenum">[12]</span>
+opera&ccedil;&atilde;o que hoje se realisa com menos
+formalidades, e at&eacute;, como &eacute; sabido, sem
+formalidade
+alguma. Era por&eacute;m entendido como
+doutrina corrente n&atilde;o desdizer da nobreza de
+uma cidade que cantarias de stylo romano se
+transpuzessem do edificio a que pertenciam para
+edificio de stylo completamente diverso. Aquillo
+que modernamente se entende pelo neologismo
+restaurar &eacute; opera&ccedil;&atilde;o desconhecida dos
+antigos. A
+obra architectonica seguia sempre e invariavelmente
+quer em novas edifica&ccedil;&otilde;es, quer em
+repara&ccedil;&atilde;o
+de antigas, o systema e o stylo da epocha
+em que era feita. Sem falarmos do Egypto, da
+Grecia, de Roma, onde as reconstruc&ccedil;&otilde;es se
+emprehendiam,
+sem o menor sentimento de respeito
+pela tradi&ccedil;&atilde;o, em vista de celebrar uma gloria
+coeva com os mesmos materiaes que haviam servido
+&aacute; glorifica&ccedil;&atilde;o de feitos anteriores,
+como no
+arco de Constantino feito com as pedras do arco
+de Trajano, vemos em toda a Europa, e mais particularmente
+em Hispanha e em Portugal, edificios
+em cujos stylos sobrepostos perfeitamente se
+espelha o independentismo das influencias diversas
+<span class="pagenum">[12]</span>
+atravez das successivas phases da construc&ccedil;&atilde;o
+por differentes vezes interrompida. Uns nascem
+genuinamente bysantinos e desenvolvem-se romanicos;
+outros come&ccedil;am romanicos e concluem gothicos;
+outros, gothicos de nascen&ccedil;a, acabam no
+clacissismo greco-romano do renascimento; e &eacute;
+frequente nas nossas egrejas entrarmos por um
+portal do seculo XVI para nos defrontarmos com
+uma capella m&oacute;r no stylo barroco de D. Jo&atilde;o V,
+de D. Jos&eacute; ou de D. Maria I. D'esses casos de
+polyarchitectonismo
+encontramos exemplos em Toledo,
+em Burgos, nos Jeronymos, na Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+A cathedral de Colonia &eacute; n'este ponto de vista,
+um facto particularmente expressivo. A
+construc&ccedil;&atilde;o,
+principiada no meado do seculo XIII, proseguida
+muito lentamente, suspende-se no fim do
+seculo XV por desanimo de a concluir segundo o
+plano primitivo. No seculo XVII e no seculo XVIII, a
+nave, abrigada por um tecto provisorio, &eacute; ornamentada
+em stylo rococo. S&oacute;mente em 1842 se
+encetaram os trabalhos de uma restaura&ccedil;&atilde;o
+authenticamente
+archeologica, segundo o plano original,
+cabendo o projecto da conclus&atilde;o a um architecto
+<span class="pagenum">[14]</span>
+que ao mais profundo estudo do stylo
+ogival reunia o talento mais esclarecido e mais
+perspicaz.
+<br />
+
+<br />
+
+Na historia da cathedral de Mil&atilde;o circumstancias
+analogas &aacute;s de Colonia veem ainda corroborar
+a affirma&ccedil;&atilde;o de que unicamente ao seculo XIX
+cabe o privilegio de restaurar monumentos. A obra
+de Mil&atilde;o iniciada no seculo XIV, &eacute; interrompida
+por desaven&ccedil;as entre os architectos, uns
+allem&atilde;es,
+outros italianos, outros francezes; &eacute; continuada
+no seculo XVI em stylo da renascen&ccedil;a; e t&atilde;o
+s&oacute;mente
+em 1805 a restaura&ccedil;&atilde;o do monumento no
+seu stylo primitivo, segundo os programmas mais
+tarde definidos, se achou determinada por Napole&atilde;o
+I, o qual pela vastid&atilde;o do seu genio, ainda
+que pouco propicio aos humildes, muitas vezes se
+adeantou do seu tempo, e em muitas campanhas
+da intelligencia indicou de antem&atilde;o o ponto da
+victoria, assim como ao principiar a campanha de
+Italia assignalava na carta do Piemonte o logar
+de Marengo.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi Vitet, nomeado inspector geral dos monumentos
+historicos em 1830, quem primeiro indicou
+<span class="pagenum">[15]</span>
+em Fran&ccedil;a o programma das restaura&ccedil;&otilde;es
+architectonicas,
+presentemente seguido em toda a
+parte:&#8213;em Hispanha, onde depois da real ordem
+de 4 de maio de 1850, se n&atilde;o emprehende
+obra de especie alguma nos edificios monumentaes
+sem pr&eacute;via consulta da commiss&atilde;o dos monumentos
+historicos e artisticos; em Inglaterra e
+na Allemanha, que haviam precedido a Fran&ccedil;a na
+protec&ccedil;&atilde;o da arte nacional; na Italia, emfim, na
+Belgica, na Dinamarca, na Suecia, na Noruega,
+na Grecia, na Turquia.
+<br />
+
+<br />
+
+Violet-le-Duc, o erudito mestre a quem tanto
+deve o ensino da archeologia e das artes, completou
+o programma de Vitet, n&atilde;o s&oacute;mente ampliando
+os seus preceitos, mas dando da applica&ccedil;&atilde;o
+d'elles o mais notavel exemplo na restaura&ccedil;&atilde;o do
+castello le Pierrefonds.
+<br />
+
+<br />
+
+Conhecidos os livros de Violet-le-Duc, estudados
+com t&atilde;o paciente laboriosidade, escriptos com
+t&atilde;o lucido e penetrante engenho, e conhecida a
+legisla&ccedil;&atilde;o
+europ&eacute;a baseada n'esses estudos t&atilde;o completos
+e t&atilde;o perfeitos, a quest&atilde;o puramente
+administrativa
+de dar aos monumentos nacionaes de
+<span class="pagenum">[16]</span>
+cada povo a protec&ccedil;&atilde;o que se lhes deve, quando
+menos por simples solidariedade intellectual na
+civilisa&ccedil;&atilde;o do nosso tempo, &eacute;
+quest&atilde;o perfeitamente
+illucidada e rigorosamente definida.
+<br />
+
+<br />
+
+Vejamos agora qual &eacute; em Portugal, perante as
+responsabilidades da administra&ccedil;&atilde;o, o reflexo das
+ideias, cuja historia procurei resumir, com o fim
+de p&ocirc;r o assumpto na perspectiva que a sua magnitude
+pede.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Levaria muito tempo e seria excessivamente
+triste ennumerar todos os attentados de que teem
+sido e continuam a ser objecto, perante a mais
+desastrosa indifferen&ccedil;a dos poderes constituidos,
+os monumentos architectonicos da na&ccedil;&atilde;o, os quaes
+assignalam e commemoram os mais grandes feitos
+da nossa ra&ccedil;a, sendo assim por duplo titulo,
+j&aacute; como documento historico, j&aacute; como documento
+artistico, quanto ha, sobre a terra em que nascemos
+mais delicado e precioso para a honra, para
+a dignidade, para a gloria da nossa patria.
+<br />
+
+<br />
+
+Dos desacatos de lesa magestade nacional, a
+que tenho a d&ocirc;r e a vergonha de me referir, uns
+<span class="pagenum">[17]</span>
+teem caracter anonymo, outros affectam directamente
+a cumplicidade official. Os primeiros s&atilde;o
+uma consequencia de desdem; os segundos s&atilde;o
+um resultado de incapacidade.
+<br />
+
+<br />
+
+A auctoridade, incerta, vagamente definida, a
+quem tem sido confiada a conserva&ccedil;&atilde;o e a guarda
+da nossa architectura monumental, procede com
+esse enfermo, de quem se incumbiu de ser o enfermeiro,
+por dois methodos differentes: umas vezes
+deixa-o morrer; outras vezes, para que elle
+mesmo n&atilde;o tome essa resolu&ccedil;&atilde;o
+lamentavel, assassina-o.
+Na primeira hypothese a calamidade
+correlativa chama-se <em>abandonar</em>. Na
+segunda hypothese
+a catastrophe correspondente chama-se
+<em>restaurar</em>,&#8213;gallicismo technico,
+recentemente introduzido
+no vocabulario nacional, mas ainda n&atilde;o
+definido vernaculamente na applica&ccedil;&atilde;o pratica.
+<br />
+
+<br />
+
+Para o argumento que tenho em vista produzir,
+tomarei unicamente d'entre os differentes desastres
+com que se deshonram e enxovalham os
+nossos monumentos, o desastre denominado
+<em>restaura&ccedil;&atilde;o</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Serei laconico, sem deixar de ser sufficientemente
+<span class="pagenum">[18]</span>
+expressivo, porque os factos s&atilde;o de uma
+eloquencia que esmaga toda a especie de replica
+na materia de que se trata.
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui temos tres edificios restaurados ou em
+restauro a expensas da na&ccedil;&atilde;o, sob os auspicios
+do estado: Os Jeronymos, a Madre de Deus e a
+Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos Jeronymos a construc&ccedil;&atilde;o desmoronou-se,
+sem provoca&ccedil;&atilde;o alguma de agente extranho, por
+mero desequilibrio de si mesma. Inutil todo o
+commentario. A restaura&ccedil;&atilde;o, ainda antes de
+terminada,
+cahiu. Que prova mais lastimavelmente
+completa, evidente e cabal, de que foi insufficientemente
+estudado, logo nos seus primordiaes elementos,
+o programma de tal restaura&ccedil;&atilde;o?! As
+seguran&ccedil;as
+de execu&ccedil;&atilde;o falham precisamente na
+parte mais rudimentar do problema.
+<br />
+
+<br />
+
+Attente-se em que n&atilde;o se trata ainda de uma
+quest&atilde;o de archeologia, nem de uma quest&atilde;o de
+arte; n&atilde;o se apresenta nenhuma d'essas subtis difficuldades
+inherentes ao estudo das f&oacute;rmas constructivas
+ou ornamentaes, ao discernimento dos
+diversos stylos, ao pleno conhecimento das antigas
+<span class="pagenum">[19]</span>
+escolas no tempo e na regi&atilde;o a que o edificio
+pertence. Resolve-se apenas realisar uma simples
+tarefa de construc&ccedil;&atilde;o, e esquece, incumbindo esse
+trabalho de simples mestre de obras ao mais distincto
+dos scenographos, que a primeira condi&ccedil;&atilde;o de
+um architecto a quem se confia a restaura&ccedil;&atilde;o de
+um monumento &eacute; que elle seja, antes de tudo,
+acima de tudo, o mais habil, o mais experiente, o
+mais perito de todos os constructores.
+<br />
+
+<br />
+
+Na Madre de Deus, onde ali&aacute;s o primitivo portal
+da rainha D. Leonor foi discretamente reconstituido
+na moderna fachada do edificio, temos o
+infortunio de ir encontrar no consecutivo restauro
+de uma fabrica do tempo de D. Jo&atilde;o III novos
+capiteis de columnas, nos quaes em vez da
+ornamenta&ccedil;&atilde;o
+vegetal do nosso seculo XVI se v&ecirc;
+reinar nos entablamentos a figura&ccedil;&atilde;o,
+absolutamente
+imprevista e inopinada, de uma locomotiva
+de caminho de ferro, arrastando fumegante o respectivo
+comboyo, tudo lavrado mui laboriosamente
+em pedra, e demandando um tunel. Este
+assombroso phenomeno de pathologia archeologica
+estou convencido de que dispensa ainda mais
+<span class="pagenum">[20]</span>
+do que o caso dos Jeronymos a investiga&ccedil;&atilde;o da
+autopsia.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas restaura&ccedil;&otilde;es da Batalha, umas j&aacute;
+em realidade,
+outras ainda em projecto, falta, primeiro
+que tudo, o meditado programma de conjuncto
+no ponto de vista archeologico, no ponto de vista
+artistico e no ponto de vista technico, visando o
+assumpto por todos os lados de que elle pode ser
+encarado: qualidade do solo, influencias da atmosphera,
+escolha de materiaes, condi&ccedil;&otilde;es de resistencia
+e de equilibrio, systema geral de structura,
+determina&ccedil;&atilde;o do stylo, desde as suas grandes
+linhas e dos seus motivos dominantes at&eacute; os ultimos
+desenvolvimentos d'essas linhas, at&eacute; o extremo
+desdobramento d'esses motivos, m&atilde;o de
+obra, direc&ccedil;&atilde;o e apprendisagem em todas as
+officinas
+de que depende o restauro, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Seria por um programma d'essa natureza que
+a competencia do architecto restaurador deveria
+principiar a affirmar-se. Perante essa prova, comprehendendo
+o estudo do monumento, plantas, al&ccedil;ados,
+photographias, desenhos de projectos, systemas
+de stylisa&ccedil;&atilde;o, methodos de estudo e de trabalho,
+<span class="pagenum">[21]</span>
+regimentos de officinas, etc., poderiamos
+n&oacute;s, que n&atilde;o somos architectos, mas simples
+criticos,
+fiscaes da arte em nome do publico, decidir
+se o restaurador da Batalha est&aacute; ou n&atilde;o
+est&aacute; ao
+nivel da sua miss&atilde;o. Sem prova d'essa ordem que
+cotejemos com os requisitos a que teem de satisfazer,
+nos paizes extrangeiros, os architectos a
+quem se entrega a restaura&ccedil;&atilde;o de um monumento,
+n&oacute;s n&atilde;o podemos julgar sen&atilde;o de um
+modo
+muito imperfeito, tendo de entrar mais ou menos
+no exame da execu&ccedil;&atilde;o, para o qual nos fallece a
+competencia profissional.
+<br />
+
+<br />
+
+Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque &eacute; o
+unico architecto portuguez de quem conhecemos,
+com rela&ccedil;&atilde;o &aacute; historia do edificio e
+ao plano da
+restaura&ccedil;&atilde;o da Batalha, estudos especiaes,
+consubstanciados
+n'uma memoria publicada, depois da
+morte do auctor, em 1867. A monographia a que
+me refiro, al&eacute;m de mui interessantes
+revela&ccedil;&otilde;es
+sobre os vandalismos perpetrados pelos ultimos
+frades que habitaram o mosteiro e chegaram a
+quebrar os preciosos vidramentos das janellas
+para presentearem os visitantes com cabe&ccedil;as das
+<span class="pagenum">[22]</span>
+figuras de que elles se compunham, cont&eacute;m alguns
+principios mui judiciosos e bem definidos,
+sobre o modo como esse perito restaurador, que
+a influencia do rei D. Fernando fizera nomear,
+comprehendia a sua delicada miss&atilde;o. E excellente
+o methodo por elle proposto para a conserva&ccedil;&atilde;o
+das Capellas imperfeitas. Notam-se alguns excessivos
+e infundados rigores de zelo, como na parte
+em que ao restaurador repugna adoptar, para o
+fim de p&ocirc;r o monumento ao abrigo das intemperies,
+processos de resguardo mais perfeitos que
+os conhecidos ao tempo da construc&ccedil;&atilde;o primitiva,
+taes como, por exemplo, o emprego de cimentos
+modernos na veda&ccedil;&atilde;o de uma cobertura,
+etc. A memoria programma de Mousinho de Albuquerque
+&eacute; n&atilde;o obstante um trabalho de incontestavel
+merecimento, que muito augmenta de
+valor se levarmos em conta que esse illustre architecto
+escrevia em 1840, quatro annos depois
+d'aquelle em que o rei D. Fernando visitou o edificio,
+chamando para elle pela primeira vez a
+atten&ccedil;&atilde;o dos poderes publicos.
+<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; Mousinho a architectura da Batalha foi na
+<span class="pagenum">[23]</span>
+litteratura portugueza um puro thema de rhetorica.
+O romantismo tinha-nos trazido a moda do
+gothico por via de Chateaubriand e de Victor
+Hugo. Os romances, as xacaras, as baladas e os
+solaus, com as suas castell&atilde;s, os seus paladinos,
+os seus pagens, os seus menestreis e os seus respectivos
+attributos&#8213;lan&ccedil;as, montantes, elmos,
+guantes de ferro, falc&otilde;es, adagas, b&eacute;stas e
+bandolins,
+pediam um scenario de fortifica&ccedil;&atilde;o feudal,
+fossos e pontes levadi&ccedil;as, revelins, caminhos
+de ronda, ameias, torres de menagem, amplas
+chamin&eacute;s com trasfogueiros forjados, ogivas e
+abobadas. As egrejas, para os effeitos de grandiosidade
+no stylo, sempre que n&atilde;o eram ermidas
+eram cathedraes. Os romanticos chamavam
+cathedraes a todos os grandes templos, como o
+da Batalha, o do Carmo e o dos Jeronymos. O
+romance historico, tanto em voga durante a
+gera&ccedil;&atilde;o
+litteraria de Alexandre Herculano, tinha
+exigencias decorativas analogas &aacute;s da poesia cavalheiresca.
+Os estudos de critica e de archeologia
+artistica, tendo por objecto os nossos monumentos
+architectonicos, davam em resultado
+<span class="pagenum">[24]</span>
+geral uma especie de lenga-lenga de eruditos ciceroni.
+<br />
+
+<br />
+
+A Batalha tem sido constantemente, desde a
+primeira appari&ccedil;&atilde;o da
+<em>Abobada</em> no
+<em>Panorama</em>, at&eacute;
+hoje, o <em>grande livro de marmore</em>, o
+<em>immortal poema</em>,
+a <em>Divina Comedia portuguesa</em>, a
+triumphante
+affirma&ccedil;&atilde;o da nacionalidade independente,
+definitiva,
+fundada pela vontade do povo, pela espada
+do mestre de Aviz, pela lan&ccedil;a de D. Nuno Alvares
+Pereira e pela penna de Jo&atilde;o das Regras.
+<br />
+
+<br />
+
+Com effeito, nada mais bello, na historia nacional,
+do que o feito d'armas de Aljubarrota e o monumento
+de Nossa Senhora da Victoria, destinado
+a commemorar esse feito, por voto de D. Jo&atilde;o I.
+Mas d'ahi a poder-se dizer que o edificio da Batalha
+&eacute;, como a epop&eacute;a dos
+<em>Luziadas</em>, a imagem
+technica das id&eacute;as e dos sentimentos da patria,
+medeia&#8213;me parece&#8213;um largo abysmo.
+<br />
+
+<br />
+
+Olhemos por um momento a historia d'esta
+construc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Frei Luiz de Sousa diz que &laquo;El-rei chamara de
+longes terras os mais celebres architectos que se
+sabiam; convocara de todas as partes, officiaes de
+<span class="pagenum">[25]</span>
+cantaria d&eacute;stros e sabios; convidara a uns com
+honras, a outros com grossos partidos, e obrigara
+a muitos com tudo junto.&raquo; Este testemunho &eacute;
+precioso
+e est&aacute; acima de toda a suspeita, porque nos
+vem de um frade de S. Domingos, que habitou
+por muitos annos o convento da Batalha, e que,
+como chronista da ordem, conheceu inteiramente
+pelo archivo do convento quanto se sabia da historia
+da sua funda&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Frei Francisco de S. Luiz contesta, sem provas,
+que fossem architectos celebres chamados de longes
+terras, como diz Sousa, os iniciadores da
+grande obra, e cita como auctor do risco Affonso
+Domingues, porque d'elle se sabe que teve parte
+na direc&ccedil;&atilde;o das obras nos primeiros annos da
+funda&ccedil;&atilde;o,
+e n&atilde;o consta de documento authentico que
+qualquer outro architecto interviesse nos trabalhos
+durante os dezeseis annos que medeiam entre
+o seu come&ccedil;o e o anno da morte de Affonso
+Domingues, em 1402.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos os que se seguiram a Frei Francisco de
+S. Luiz, adoptaram esta opini&atilde;o; de modo que se
+tornou uma cousa t&atilde;o corrente como se estivesse
+<span class="pagenum">[26]</span>
+demonstrada que foi Affonso Domingues quem
+construiu a Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+James Murphy, por&eacute;m, no seu livro <em>Travels
+in
+Portugal</em>, affirma, por
+<em>informa&ccedil;&otilde;es que lhe foram
+dadas em Lisboa por empregados da Torre do
+Tombo</em>, que o encarregado da
+construc&ccedil;&atilde;o foi o
+architecto inglez Stephan Stephenson, socio das
+<em>free and accepted masons</em>, que tinham
+a sua s&eacute;de
+principal em York. Stephenson teria vindo a Portugal
+por interven&ccedil;&atilde;o da rainha D. Filippa, mulher
+de D. Jo&atilde;o I, ingleza de na&ccedil;&atilde;o, filha
+do duque
+Jo&atilde;o de Lencastre e neta de Eduardo III.
+<br />
+
+<br />
+
+O conde de Rakzynski diz a este respeito, que
+desde que examinou as gravuras do convento da
+Batalha, na obra <em>in folio</em> de Murphy,
+se convenceu
+de que a analogia existente entre a Batalha e
+a cathedral de York n&atilde;o permitte a minima duvida
+acerca da origem commum d'estes dois edificios.
+&laquo;Que o plano da igreja da Batalha&#8213;diz
+Rakzynski&#8213;seja obra de um portuguez ou de um
+inglez, a verdade &eacute; que as duas igrejas nasceram
+de inspira&ccedil;&otilde;es artisticas analogas, homogeneas e
+contemporaneas, e o estylo de ambos me parece
+<span class="pagenum">[27]</span>
+identico. Esta impress&atilde;o tornou-se para mim ainda
+mais forte, depois que visitei a Batalha.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Temos, pois, sobre a origem estrangeira d'este
+monumento tres votos importantes: o de Fr. Luiz
+de Sousa, o de James Murphy e o do conde de
+Rakzynski, aos quaes recentemente se juntou o
+architecto Haupt.
+<br />
+
+<br />
+
+Na Torre do Tombo n&atilde;o se encontra documento
+algum relativo &aacute; construc&ccedil;&atilde;o da
+Batalha,
+nem &aacute; vinda de Stephenson a Portugal. Em
+1845, Alexandre Herculano e o Visconde de Juromenha,
+auxiliados pelos officiaes da Torre, fizeram
+as mais demoradas e escrupulosas pesquizas
+para o fim de satisfazer a curiosidade de
+Rakzynski, e nada appareceu.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; claro que esta ausencia de vestigios no real
+archivo nada prova sobre o facto de ter estado ou
+n&atilde;o em Portugal o architecto de York. N&atilde;o consta
+t&atilde;o pouco, dos documentos existentes no archivo,
+que tivesse estado em Portugal durante nove annos
+o insigne esculptor italiano Andrea Contucci,
+emulo de Miguel Angelo; e no emtanto este facto
+acha-se f&oacute;ra de toda a contesta&ccedil;&atilde;o.
+<span class="pagenum">[28]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+O cardeal patriarcha Frei Francisco de S. Luiz,
+queixando-se da negligencia e da superficialidade
+com que Frei Luiz de Sousa falla dos primeiros
+architectos da Batalha, e propondo-se demonstrar
+que o auctor da obra foi Affonso Domingues, diz
+que n&atilde;o v&ecirc; raz&atilde;o para p&ocirc;r em
+duvida a habilidade
+dos nossos compatriotas, suppondo que houvessemos
+de reclamar a assistencia de estrangeiros em
+uma epocha como a de D. Jo&atilde;o I, na qual, exceptuadas
+as italianas, <em>nenhuma na&ccedil;&atilde;o da
+Europa se
+achava mais adeantada que a na&ccedil;&atilde;o portugueza,
+tanto na arte da architectura, como em todas as
+outras</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O patriotismo imprudentemente levado at&eacute; &aacute;s
+affirma&ccedil;&otilde;es da natureza das de Frei Francisco de
+S. Luiz, tem um inconveniente grave, que &eacute; o de
+fazer sorrir os estrangeiros, da ingenua
+applica&ccedil;&atilde;o
+dos nossos sentimentos civicos &aacute; historia da arte
+europ&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje, toda a gente sabe, porque esta ordem de
+conhecimentos tem-se vulgarisado muito, que o
+systema gothico ou systema ogival, a que primitivamente
+se chamou <em>Opus francigenum</em>, teve a
+<span class="pagenum">[29]</span>
+sua origem na ilha de Fran&ccedil;a e na regi&atilde;o
+circumstante.
+Foi n'esses logares que at&eacute; o seculo XII se
+construiram os primeiros edificios gothicos. O
+novo stylo chega em Fran&ccedil;a aos seus mais completos
+desenvolvimentos no seculo XIII, e d'essa
+epocha datam as cathedraes de Amiens, de Pariz,
+de Reims e de Chartres.
+<br />
+
+<br />
+
+Os allem&atilde;es e os inglezes teem contestado &aacute;
+Fran&ccedil;a a prioridade do emprego do arco ogival
+e dos desenvolvimentos architectonicos que d'elle
+procedem. O que, por&eacute;m, est&aacute; acima de todo o
+litigio,
+&eacute; que o systema ogival, chamado stylo gothico,
+ou gothico puro da igreja da Batalha, n&atilde;o
+procede da inven&ccedil;&atilde;o dos paizes meridionaes, de
+c&eacute;u azul, mas sim das regi&otilde;es nevoentas de longos
+e rudes invernos.
+<br />
+
+<br />
+
+No norte da Europa, durante a edade m&eacute;dia,
+tratou-se de edificar a grande cathedral que d&eacute;sse
+um abrigo espa&ccedil;oso &aacute;s numerosas
+congrega&ccedil;&otilde;es
+de fieis e de cidad&atilde;os; como a pedra escasseava,
+como a neve cahia em abundancia e permanecia
+por longo tempo, procurou-se um modo de
+construc&ccedil;&atilde;o,
+que, sem difficultar a circula&ccedil;&atilde;o da gente
+<span class="pagenum">[30]</span>
+com grandes e repetidos corpos de cantaria no interior
+do edificio, permittisse empregar materiaes
+menos solidos e fazer tectos elevados e agudos,
+que, n&atilde;o pesando excessivamente sobre os membros
+destinados a sustental-os, deixassem facilmente
+resvalar e escorrer a neve pelas superficies
+exteriores, impedindo o mais completamente possivel
+a infiltra&ccedil;&atilde;o da humidade no interior do
+templo.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi d'estas causas, determinadas pela natureza
+do clima e do solo, pelas condi&ccedil;&otilde;es sociaes, e
+n&atilde;o
+de um mero capricho inventivo, que resultou para
+os architectos dos paizes septentrionaes o pensamento
+de readoptar a abobada de aresta, que os
+romanos, depois de a haverem empregado, puzeram
+de parte, para o fim de dar logar na construc&ccedil;&atilde;o
+das basilicas christ&atilde;s &aacute; enorme quantidade de
+columnas legadas pelo paganismo.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim foi que nasceu, bem longe de Portugal e
+inteiramente f&oacute;ra das influencias cosmicas e das
+influencias sociaes geradoras do caracter e da indole
+da nossa ra&ccedil;a, que nasceu o stylo architectonico
+da egreja da Batalha.
+<span class="pagenum">[31]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+A affirmativa de que nenhuma na&ccedil;&atilde;o da Europa,
+com excep&ccedil;&atilde;o da Italia, se achava mais
+adeantada do que Portugal do tempo de D. Jo&atilde;o I,
+nas artes da architectura, s&oacute;mente prova, da parte
+do cardeal frei Francisco de S. Luiz, que este benemerito
+academico e illustre litterato, ou n&atilde;o viajou
+nunca em Fran&ccedil;a e na Allemanha, ou n&atilde;o visitou
+n'estes paizes os monumentos anteriores ao
+fim do seculo XIV.
+<br />
+
+<br />
+
+A egreja da Batalha, que data d'essa epocha, &eacute;
+chronologicamente um dos ultimos edificios em
+stylo gothico puro construidos na Europa, e, apesar
+de toda a sua belleza, est&aacute;, como obra d'arte e
+como magnificencia monumental, bastante abaixo
+de alguns outros edificios construidos cem ou duzentos
+annos antes, como a cathedral de Strasburgo
+(1015 a 1275), Reims (1215), Amiens (1222), Colonia
+(1248) a Sainte-Chapelle em Pariz (1248), Notre-Dame
+(1275), etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Bastaria que o auctor da interessante memoria
+sobre a construc&ccedil;&atilde;o do convento da Batalha,
+encorporada
+na collec&ccedil;&atilde;o das memorias da Academia,
+tivesse olhado em Pariz para as estatuas de
+<span class="pagenum">[32]</span>
+Sainte-Chapelle e para os baixos-relevos da egreja
+de Notre-Dame; que tivesse observado um momento
+as esculpturas de Chartres, de Reims e de
+Amiens; para ter uma id&eacute;a do enorme abysmo que
+no tempo de D. Jo&atilde;o I nos distanciava ainda dos
+grandes mestres da architectura e da esculptura
+franceza, que se chamaram Pierre de Montreuil,
+Thomas e Regnaut de Carmont, Jean de Chelles,
+Hugues Libergier e outros artistas leigos, sem contar
+os muitos monges anonymos com que se illustrou
+na historia da arte, a ordem de Cluny, no seculo
+XII e no seculo XIII.
+<br />
+
+<br />
+
+Na Allemanha, temos, precedendo a Batalha, a
+cathedral de Colonia; na Inglaterra Canterbury,
+Westminster, Salisbury, Lincoln e York; e em Hispanha,
+Burgos e Toledo.
+<br />
+
+<br />
+
+Anterior &aacute; Batalha n&atilde;o ha em Portugal monumento
+algum que prenuncie, prepare e explique a
+appari&ccedil;&atilde;o d'este.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos primeiros tempos da monarchia, em quasi
+todo o periodo affonsino, os artistas e os obreiros
+eram em geral arabes ou mouros. O portuguez
+era como os seus reis, soldado ou agricultor. Para
+<span class="pagenum">[33]</span>
+as especula&ccedil;&otilde;es estheticas faltava-lhe a paz, a
+tranquillidade,
+a riqueza. Mal lhe chegava o tempo
+para desbravar o s&oacute;lo e para bater os inimigos,
+que de todas as partes rodeavam a pequena sociedade
+nascente, aventurosa e aguerrida.
+<br />
+
+<br />
+
+A Batalha, com a delicada pureza das suas linhas,
+j&aacute; ent&atilde;o consagradas na Europa, surge
+repentinamente,
+imprevistamente, esporadicamente,
+na corrente da architectura portugueza, como a
+flor desconhecida de uma planta exotica.
+<br />
+
+<br />
+
+D'onde &eacute; que foi transplantado para terra portugueza
+este producto de uma civilisa&ccedil;&atilde;o superior,
+em que o desenvolvimento da vida municipal, iniciada
+pelas fortes corpora&ccedil;&otilde;es operarias e mercantis,
+impellira as communas a construirem as
+luxuosas cathedraes, que eram ao mesmo tempo,
+nas cidades novas, um asylo de religi&atilde;o e um f&oacute;co
+de vida civil?
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sei responder peremptoriamente a esse quesito.
+<br />
+
+<br />
+
+O problema assim estreitado &eacute;, no fim de contas,
+de pura curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+O architecto inglez Hope, na sua <em>Historia
+da</em>
+<span class="pagenum">[34]</span>
+<em>Architectura</em>, diz que o estylo
+ogival n&atilde;o tem propriamente
+nem uma patria nem uma nacionalidade.
+S&oacute; poderia ter nascido no seio de alguma
+ordem religiosa ou de uma corpora&ccedil;&atilde;o de pedreiros
+livres, porque o clero e os pedreiros livres
+eram as unicas corpora&ccedil;&otilde;es que na edade
+m&eacute;dia
+possuiam os conhecimentos necessarios para o
+plano e para a execu&ccedil;&atilde;o dos edificios sagrados,
+quer para as communidades monasticas, quer para
+a egreja latina em geral.
+<br />
+
+<br />
+
+Hope acrescenta: como os conventos e sobretudo
+as <em>lojas</em> dos pedreiros livres se
+compunham
+de cidad&atilde;os de todos os paizes, que reconheciam
+a supremacia da egreja romana, n&atilde;o seria possivel
+determinar positivamente os inventores do
+stylo ogival quando mesmo se houvesse descoberto
+o logar preciso do seu ber&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Em toda a parte onde apparecem as primeiras
+amostras d'esse stylo ellas n&atilde;o s&atilde;o a obra de
+individuos
+de um paiz determinado, mas sim de
+uma congrega&ccedil;&atilde;o encerrando no seu gremio homens
+de todas as na&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Na <em>Real Encyclopedia</em> de Leipzig
+l&ecirc;-se com referencia
+<span class="pagenum">[35]</span>
+&aacute;s associa&ccedil;&otilde;es ma&ccedil;onicas
+que ellas se compunham
+de homens de arte de todos os paizes formando
+uma s&oacute; corpora&ccedil;&atilde;o dirigida por um ou
+por
+varios chefes. &laquo;Protegidos por privilegios ou cartas
+patentes emanadas das auctoridades ecclesiasticas
+e seculares, emprehendiam as maiores construc&ccedil;&otilde;es
+em toda a Europa e s&atilde;o auctores d'esses
+magnificos edificios chamados gothicos e que
+antes se deveriam chamar <em>Altdoutsch</em>.
+Achamos o
+stylo de todas as construc&ccedil;&otilde;es d'essa
+&eacute;poca fundamentalmente
+identico. As associa&ccedil;&otilde;es alludidas
+compunham-se de architectos e de obreiros italianos,
+allem&atilde;es, flamengos, francezes, inglezes, escocezes
+e at&eacute; gregos. Foi d'essa maneira que nasceram
+os monumentos seguintes: o <em>mosteiro da
+Batalha em Portugal</em>, a cathedral de Strasburgo,
+a de Colonia, a de Meissen, a de Mil&atilde;o, o convento
+do Monte Casino, e todos os edificios notaveis
+da Inglaterra.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Esta hypothese&#8213;e chamo-lhe hypothese, porque
+n&atilde;o conhe&ccedil;o os documentos positivos em que
+se baseia o escriptor allem&atilde;o&#8213;condiz perfeitamente
+com a li&ccedil;&atilde;o de Frei Luiz de Sousa, e &eacute;
+talvez
+<span class="pagenum">[36]</span>
+de todas a mais verosimil com rela&ccedil;&atilde;o aos
+constructores da Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+Que fosse, por&eacute;m, uma associa&ccedil;&atilde;o de
+artistas e
+de operarios; que fosse Stephan Stephenson, como
+indica Murphy, de quem devemos crer que n&atilde;o
+inventou esse nome e o recebeu, como diz, dos
+empregados do archivo da Torre do Tombo; que
+fosse, como pretende Hope, mestre Ouet, Huguet
+ou Huet, de na&ccedil;&atilde;o inglez, que trabalhou nas obras
+e cujo nome Frei Francisco de S. Luiz encontrou
+como testemunha no contracto de aforamento, em
+que se fala de Affonso Domingues; como quer
+que seja, emfim, a hypothese que menos verosimilhan&ccedil;a
+offerece &eacute; a de ter sido o monumento
+delineado e construido pelo mestre portuguez Affonso
+Domingues, como em Portugal se tem geralmente
+escripto.
+<br />
+
+<br />
+
+O mais superficial exame aos edificios anteriores
+&aacute; Batalha manifesta do modo mais evidente
+que n&atilde;o tinhamos nem escola, nem
+tradi&ccedil;&otilde;es, nem
+tendencias de que procedesse um artista como o
+que delineou e construiu a egreja da Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+Vilhena Barbosa, nos <em>Monumentos de
+Portugal</em>,
+<span class="pagenum">[37]</span>
+repete ainda a vers&atilde;o relativa a Affonso Domingues
+como constructor da Batalha, mas accrescenta:
+&laquo;&Eacute; muito para admirar, n&atilde;o devo
+negal-o, que
+houvesse n'aquella &eacute;poca em Portugal um artista
+t&atilde;o consumado como o que fez o risco do monumento,
+achando-se a architectura entre n&oacute;s, antes
+da execu&ccedil;&atilde;o d'esta obra em um estado, que, se
+n&atilde;o era de grande atrazo, tambem n&atilde;o se lhe
+poder&aacute;
+chamar de adiantamento; em um estado pelo
+menos que nenhuma memoria ou documento nos
+auctorisa para o considerarmos como escola d'onde
+pudesse sahir um artista t&atilde;o completo.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+A seguir, Vilhena Barbosa, procurando conciliar
+o arrojo do seu reparo com a tradi&ccedil;&atilde;o geralmente
+recebida, exclama um tanto contricto: &laquo;N'este caso
+lan&ccedil;arei m&atilde;o de uma conjectura, n&atilde;o
+pela necessidade
+de sahir do embara&ccedil;o, mas porque me parece
+acceitavel e muito plausivel. Vem a ser que
+talvez Affonso Domingues tivesse sahido da sua
+patria antes da acclama&ccedil;&atilde;o do mestre d'Aviz, com
+o intento de se instruir e aperfei&ccedil;oar na sua arte.
+Bem sei que n'essa &eacute;poca n&atilde;o eram dados os
+artistas,
+pelo menos os nossos, a procurar taes meios
+<span class="pagenum">[38]</span>
+de estudo. Entretanto, tendo estado em Portugal,
+no reinado de D. Fernando e com alguma demora,
+dois principes inglezes, o duque de Cambridge, e
+um seu irm&atilde;o natural, filhos de D. Duarte III, rei
+de Inglaterra, pode ser que Affonso Domingues,
+levado pelo amor da arte ou por outro qualquer
+respeito, se resolvesse a acompanhar algum d'elles
+na sua volta para Inglaterra, paiz classico da
+architectura gothica no genero da Batalha.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Confessemos que &eacute; preciso ter vontade de attribuir
+por for&ccedil;a a Affonso Domingues uma obra que
+este n&atilde;o podia fazer, para formular a conjectura
+de que <em>talvez elle se tivesse
+resolvido</em> a ir a Inglaterra
+com os filhos de Duarte III.
+<br />
+
+<br />
+
+Ainda quando admittida a singular camaradagem
+do duque de Cambridge e de seu irm&atilde;o com
+Affonso Domingues, camaradagem conjecturada
+por Barbosa, e de que n&atilde;o ha o minimo vestigio
+historico, n&atilde;o ser&aacute; talvez inutil reflectir que
+depois
+d'essa excurs&atilde;o a Inglaterra&#8213;paiz t&atilde;o debilmente
+<em>classico na architectura gothica</em>, no
+tempo
+de Duarte III, que n&atilde;o tinha um architecto indigena,
+nem monumento gothico algum, que se possa
+<span class="pagenum">[39]</span>
+p&ocirc;r em confronto com as obras magnificas do
+continente&#8213;Affonso
+Domingos voltaria de Inglaterra,
+no tocante ao conhecimento da arte de edificar,
+proximamente no mesmo estado em que para
+l&aacute; tivesse ido, o que facilmente se demonstra, como
+vamos v&ecirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+Sabe-se que desde o seculo X se organisaram
+na Italia, iniciadas pela Lombardia, essas
+associa&ccedil;&otilde;es
+de artistas seculares, architectos, esculptores,
+illuminadores, imaginarios, vidristas, entalhadores
+e canteiros, empregados pela egreja nas vastas
+obras da primeira renascen&ccedil;a da Europa, subsequentes
+aos terrores do millenio, que por muitos
+annos paralysaram todas as faculdades artisticas
+da humanidade estupefacta perante a prophecia
+pavorosa do proximo aniquilamento universal.
+<br />
+
+<br />
+
+Estas confrarias, creadas e protegidas pelo clero,
+tomaram o nome geral de
+<em>franco-ma&ccedil;onaria</em>
+ou de <em>pedreiros livres</em>, e
+compunham-se de associados,
+que, depois de haverem passado por todos
+os minuciosos tramites de uma longa aprendizagem,
+adquiriam geralmente o direito de exercer
+a profiss&atilde;o na qualidade de mestres.
+<span class="pagenum">[40]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Com a rapida e maravilhosa prosperidade das
+novas cidades da Italia Septentrional nasceram
+egrejas sumptuosas e conventos magnificos, que
+em poucos annos cobriram uma grande superficie
+da Lombardia e dos Estados adjacentes.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegado o momento previsto em que as ordens
+religiosas de Italia cessaram emfim de ter obras
+em que empregar a associa&ccedil;&atilde;o, cada vez mais
+numerosa
+e mais habil, dos pedreiros livres, pensaram
+estes em dilatar a sua actividade fora do solo
+natal.
+<br />
+
+<br />
+
+Este expatriamento n&atilde;o representava unicamente
+uma expans&atilde;o artistica mas tambem uma
+forte propaganda e uma consideravel conquista
+internacional da egreja latina.
+<br />
+
+<br />
+
+Essa grande companhia edificadora de monumentos
+religiosos, de cathedraes e de mosteiros,
+mobilisada n'uma companhia de arte atravez do
+Norte da Europa, constituia como que um solido
+refor&ccedil;o esthetico, temporal, naturalista e humano
+&aacute; sagrada legi&atilde;o espiritual vulgarisadora do
+credo
+latino pela ramifica&ccedil;&atilde;o das ordens religiosas
+sobre
+todas as latitudes da terra.
+<span class="pagenum">[41]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Cada egreja e cada convento edificados em paizes
+estranhos e longinquos eram&#8213;diz Hope&#8213;um
+novo feudo adquirido ao papa.
+<br />
+
+<br />
+
+A egreja comprehendeu inteiramente o alcance
+d'este grande facto, t&atilde;o importante na historia da
+arte romanica, da arte lombarda, da arte gothica
+e de todas as artes liberaes na Europa, depois de
+cahida a influencia da antiga civilisa&ccedil;&atilde;o
+hellenico-romana.
+<br />
+
+<br />
+
+Como incentivo e amparo da vasta odyss&eacute;a, a
+que se aventuravam os denominados pedreiros livres
+receberam ent&atilde;o da auctoridade pontificia,
+emminente a todos os conflictos e discordias de
+soberania para soberania e de nacionalidade para
+nacionalidade, privilegios incomparaveis, destinados
+a assegurar &aacute; confraria errante uma especie
+de inviolavel monopolio esthetico e artistico, como
+o que em nossos dias poderia resultar de um congresso
+universal, tendo em vista p&ocirc;r acima de qualquer
+contingencia politica um interesse commum
+a toda a especie humana.
+<br />
+
+<br />
+
+Diplomas e bulas papaes confirmaram para todos
+os paizes, que houvessem reconhecido a f&eacute; catholica
+<span class="pagenum">[42]</span>
+apostolica romana, todos os privilegios que
+a confraria dos pedreiros livres havia recebido dos
+Estados de que era oriunda.
+<br />
+
+<br />
+
+Ella dependeria directamente e unicamente da
+auctoridade pontificia, isenta de todas as leis e estatutos
+locaes, dos editos dos reis ou dos regulamentos
+dos municipios e de toda e qualquer imposi&ccedil;&atilde;o
+obrigatoria para os naturaes do paiz em
+que se encontrasse.
+<br />
+
+<br />
+
+S&oacute; &aacute; associa&ccedil;&atilde;o caberia o
+direito e o poder de
+taxar os salarios, e de prover em capitulo, sem
+appella&ccedil;&atilde;o nem aggravo, a quanto dissesse
+respeito
+ao seu proprio governo. Era expressamente
+prohibido a todo o artista n&atilde;o iniciado nem admittido
+na associa&ccedil;&atilde;o estabelecer para com ella qualquer
+especie de concorrencia, assim como era defeso,
+sob pena de excomunh&atilde;o, a todo o soberano
+manter os seus subditos n'esse acto de rebeldia
+&aacute;s prescrip&ccedil;&otilde;es da egreja.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta <em>Internacional</em> carolingiana, bem
+mais poderosa
+do que a <em>Internacional</em> napoleonica
+sahida
+dos primeiros movimentos socialistas do segundo
+imperio, desenvolveu-se rapida e portentosamente.
+<span class="pagenum">[43]</span>
+Muitos gregos vindos de Constantinopla se reuniram
+aos primeiros artistas confederados, vindo em
+seguida allem&atilde;es, francezes, belgas e inglezes.
+<br />
+
+<br />
+
+Desdobraram-se successivamente as diversas lojas
+ou series de agrupamentos, em que cada dez
+associados obedeciam a um chefe em communica&ccedil;&atilde;o
+com os chefes das demais decurias e com a
+direc&ccedil;&atilde;o central.
+<br />
+
+<br />
+
+Os ecclesiasticos da mais alta categoria, os
+prelados, abbades mitrados e bispos, accrescentavam
+a for&ccedil;a e o prestigio da associa&ccedil;&atilde;o,
+alistando-se
+como membros da irmandade.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos os soberanos da christandade se gloriavam
+em honrar com especiaes distinc&ccedil;&otilde;es e
+particulares
+privilegios as suas lojas nacionaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Para o fim de evitar que individuos estranhos
+&aacute; associa&ccedil;&atilde;o aproveitassem
+fraudulentamente os
+enormes beneficios de que ella tinha o privilegio,
+e bem assim para que, em qualquer regi&atilde;o do
+mundo, cada irm&atilde;o pudesse communicar com os
+seus consocios, fazendo conhecer a sua inicia&ccedil;&atilde;o
+e o seu grau na confraria, estabeleceram-se as senhas
+secretas, os <em>signaes
+ma&ccedil;onicos</em>, por meio dos
+<span class="pagenum">[44]</span>
+quaes os consocios se reconheciam em qualquer
+parte, e revestiu-se o acto de inicia&ccedil;&atilde;o e
+matricula
+de formalidades solemnes, de provas especiaes,
+de juramentos terriveis, por via dos quaes cada
+novo confrade se obrigava n&atilde;o s&oacute;mente a
+n&atilde;o revelar
+a quem quer que fosse os signaes, com que
+mutuamente se entendiam os pedreiros, mas a esconder
+dos estranhos todos os processos technicos
+e todas as regras do officio, de que a associa&ccedil;&atilde;o
+tinha a posse. Esta collabora&ccedil;&atilde;o phenomenal
+dos melhores obreiros, de todos os grandes artistas
+e de todos os sabios do mundo, associados
+da maneira mais engenhosamente completa e perfeita
+para exercer a arte de edificar, elevou a architectura
+religiosa n'este periodo &aacute; mais alta
+perfei&ccedil;&atilde;o
+scientifica e technica, a que j&aacute;mais chegou
+a obra da intelligencia e da m&atilde;o do homem.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando a longa e laboriosa gesta&ccedil;&atilde;o de todos
+os demais ramos do saber humano se discriminava
+apenas em rudimentos embrionarios, de uma
+confus&atilde;o tenebrosa, a architectura constituia o
+mais perfeito corpo de leis estheticas e de leis
+scientificas. Crearam-se as mais elevadas e as
+<span class="pagenum">[45]</span>
+mais caracteristicas f&oacute;rmas de stylo, resolveram-se
+os mais complicados e os mais difficeis problemas
+de calculo, de geometria e de mechanica,
+acharam-se, emfim, innumeraveis processos chimicos
+e methodos technicos, que se perderam e
+nunca mais se substituiram, porque com a grande
+confraria dos ma&ccedil;ons morreu a tradi&ccedil;&atilde;o
+de que elles
+tinham a guarda e o segredo.
+<br />
+
+<br />
+
+No tempo de Eduardo III a ma&ccedil;onaria, que s&oacute;
+um seculo depois acabou na Inglaterra sob o reinado
+de Henrique VI, mantinha-se em pleno vigor.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, dado que s&oacute; muito lentamente e por via
+de provas espa&ccedil;adas e progressivas podia o obreiro
+no gremio da confraria subir &aacute;
+qualifica&ccedil;&atilde;o de
+mestre, e s&oacute; como simples obreiro podia ser admittido
+e iniciado, dado por outro lado que era
+tal o segredo sobre os methodos de edificar que
+toda a planta, todo o risco, todo o calculo, todo o
+estudo graphico, era invariavelmente e escrupulosamente
+destruido immediatamente depois de utilisado
+em qualquer obra, parece-me n&atilde;o haver um
+excessivo arrojo em conjecturar que Affonso Domingues
+<span class="pagenum">[46]</span>
+n'uma viagem a Inglaterra, no tempo de
+Eduardo III, nada aprenderia de architectura, ficando
+estranho &aacute; ma&ccedil;onaria, e, tendo-se iniciado
+n'ella antes de vir construir a Batalha, seria ent&atilde;o
+da ma&ccedil;onaria e n&atilde;o d'elle o monumento de que
+se trata.
+<br />
+
+<br />
+
+Revertendo ao escrupuloso e esclarecido estudo
+de Mousinho, notemos que elle n&atilde;o encontrou nem
+quem o continuasse nem sequer quem se lhe submettesse
+entre os restauradores que se lhe seguiram.
+As capellas imperfeitas, incomparavel joia
+da architectura portugueza mais caracteristicamente
+regional, acham-se no mesmo abandono
+em que ficaram em 1843, depois que elle as desinfestou
+dos parasitas arbustivos e das herbaceas,
+cujas radiculas se tinham por tal modo multiplicado
+nos intersticios das cantarias que em muitos
+pontos houve que desmontar as lageas para extirpar
+as hervas e refazer os massames substituidos
+pelo intimo estojo vegetal, que inchando por todas
+as juntas da pedra, amea&ccedil;ava desarticular e
+destruir tudo por uma derrocada geral.
+<br />
+
+<br />
+
+Sem exposi&ccedil;&atilde;o de plano referido &aacute;s
+obras que
+<span class="pagenum">[47]</span>
+recentemente se tem feito, e cuja doutrina nos daria
+uma base de estudo e de discuss&atilde;o, quem,
+como eu, n&atilde;o tem voto na materia para a resolver
+por senten&ccedil;a, precisaria de entrar em uma
+longa serie de pacientes raciocinios e de humildes
+demonstra&ccedil;&otilde;es para p&ocirc;r em evidencia
+todos
+os erros que em taes obras se teem comettido.
+Para n&atilde;o tornar pelo emprego d'esse processo,
+excessivamente longo este modesto estudo, tomarei
+um ponto capital, sufficientemente expressivo
+para dar a medida do criterio empregado na
+restaura&ccedil;&atilde;o
+da Batalha.
+<br />
+
+<br />
+
+Pela entrada principal da egreja, &aacute; semelhan&ccedil;a
+do que succede em grande parte das egrejas gothicas,
+desciam-se na Batalha alguns degraus,&#8213;sete
+se me n&atilde;o engano&#8213;para chegar ao pavimento
+da nave central. Um dos restauradores que
+se succederam a Mousinho de Albuquerque, tendo-se
+por assistido de raz&otilde;es plausiveis para modificar
+o alludido systema, rebaixou o terreno exterior
+ao nivel do pavimento da egreja, e supprimiu
+os degraus, serrando as hombreiras e substituindo
+as cantarias que lhe serviam de base. A porta principal
+<span class="pagenum">[48]</span>
+do monumento da Batalha ficou por esse
+modo tendo de altura a dimens&atilde;o de duas larguras
+em vez de largura e meia approximadamente,
+segundo a dimens&atilde;o primitiva. O architecto havia
+previamente submettido o seu projecto ao exame
+das esta&ccedil;&otilde;es superiores, e o respectivo ministro
+sanccionara a obra com a sua alta approva&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Ser&aacute; difficil encontrar em um t&atilde;o breve episodio
+de construc&ccedil;&atilde;o uma t&atilde;o vasta
+affirmativa de
+desoladora ignorancia.
+<br />
+
+<br />
+
+Poder&aacute; parecer excessiva e condemnavel ousadia
+que um simples curioso se arrogue o direito
+de qualificar de ignorante um architecto em exercicio
+da sua profiss&atilde;o. O erro &eacute; todavia no caso
+sujeito t&atilde;o flagrante que n&atilde;o supporta defesa. Um
+barbarismo architectonico est&aacute; tanto ao alcance
+de um escriptor como um barbarismo grammatical
+est&aacute; ao alcance de um architecto.
+<br />
+
+<br />
+
+Toda a gente sabe que ha em architectura uma
+inilludivel medida de propor&ccedil;&atilde;o e de
+relaciona&ccedil;&atilde;o
+que se chama a <em>escala</em>. Sem escala
+n&atilde;o ha obra
+de architectura nem ha construc&ccedil;&atilde;o alguma
+sensata,
+por mais subalterna, por mais infima que ella
+<span class="pagenum">[49]</span>
+seja. Na architectura grega a unidade abstracta
+d'essa medida &eacute; o modulo. Na architectura da
+edade m&eacute;dia a unidade &eacute; o homem. N'este simples
+principio, t&atilde;o magistralmente exposto por
+Violet-le-Duc, se baseia o caracter essencial da
+architectura medieval. D'essa referencia de toda a
+construc&ccedil;&atilde;o &aacute; pequenez da estatura
+humana resulta
+o singular effeito de grandiosidade que distingue
+os monumentos gothicos dos monumentos
+neo-classicos, Nossa Senhora de Pariz de S. Pedro
+de Roma, ou a egreja da Batalha da egreja
+de Mafra. Para esse effeito contribue o aspecto
+das successivas fileiras da cantaria &aacute; altura das
+paredes e das pilastras, porque a escala gothica,
+determinada pela altura do homem, se subordina
+correlativamente &aacute;s dimens&otilde;es do material. Assim
+pela serie das juntas, sempre em evidencia na
+sobreposi&ccedil;&atilde;o
+das cantarias, a vista calcula rapidamente,
+por instincto arithmetico, a grandeza de
+uma fabrica como a da Batalha, estabelecendo a
+propor&ccedil;&atilde;o entre as dimens&otilde;es da pedra
+e a estatura
+do homem, e entre a altura do homem e a
+eleva&ccedil;&atilde;o da nave.
+<span class="pagenum">[50]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Do que fica exposto resulta que a simples
+substitui&ccedil;&atilde;o
+de uma pedra por uma pedra de dimens&atilde;o
+differente na base de uma hombreira no portal
+da Batalha &eacute;, em si mesma e isoladamente,
+como troca de pedra por pedra, um grave erro,
+porque essa base de hombreira, devendo ter tido
+inicialmente a dimens&atilde;o exacta e precisa, que &aacute;
+esquadria da cantaria imp&otilde;e a dimens&atilde;o do bloco,
+&eacute; um elemento fundamental da escala pela qual
+se rege todo o edificio; e n&atilde;o pode como tal nem
+supprimir-se nem alterar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas temos de considerar ainda que com essa
+mudan&ccedil;a de pedra se offendeu o preceito da unidade,
+alterando a f&oacute;rma e a dimens&atilde;o de um dos
+mais importantes membros da construc&ccedil;&atilde;o. O
+conjuncto
+de um monumento&#8213;diz Quatrem&egrave;re de
+Quincy&#8213;&eacute; de tal modo combinado, que n'elle se
+n&atilde;o pode nem tirar nem p&ocirc;r nem alterar o que
+quer que seja. E Violet-le-Du&eacute; desenvolve esse
+preceito da maneira seguinte: &laquo;&Eacute; um erro grosseiro
+supp&ocirc;r que um qualquer membro de architectura
+da edade m&eacute;dia pode ser impunemente accrescentado
+ou diminuido. N'esta architectura n&atilde;o
+<span class="pagenum">[51]</span>
+ha membro algum, que n&atilde;o esteja na escala do
+monumento para que foi composto. Alterar esta
+escala &eacute; tornar esse membro disforme... Os erros
+de escala que escandalisam em um monumento
+novo e lhe tiram todo o valor, tornam-se monstruosos
+quando se trata de uma restaura&ccedil;&atilde;o.&raquo; As
+dimens&otilde;es das portas&#8213;j&aacute; dizia Vinhola&#8213;devem
+ser de uma propor&ccedil;&atilde;o relativa &aacute; escala
+pela qual se
+construir o edificio, &aacute; grandeza das suas differentes
+pe&ccedil;as e finalmente &aacute;s particularidades da obra
+e do local em que esta f&ocirc;r feita. Com
+rela&ccedil;&atilde;o &aacute;s
+portas nas ordens jonica, dorica, corinthia e toscana
+as propor&ccedil;&otilde;es entre a altura e a largura dos
+portaes, acham-se geometricamente determinadas
+pelos discipulos de Vitruvio. Na architectura gothica
+a porta representa por&eacute;m um papel mais preponderante
+que em qualquer outro systema de
+construc&ccedil;&atilde;o. &laquo;De hora avante&#8213;proclama
+Violet-le-Duc
+referindo-se ao periodo medieval&#8213;a porta
+deixar&aacute; de augmentar em propor&ccedil;&atilde;o com
+o edificio,
+porque, sendo feita para o homem, conservar&aacute;
+sempre a escala propria do seu destino.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+A medida de extens&atilde;o na edade m&eacute;dia era a
+<span class="pagenum">[52]</span>
+toeza, correspondente &aacute; estatura do homem alto.
+A porta da egreja destinada a dar passagem ao
+portador de uma lan&ccedil;a de guerra ou de torneio,
+de um baculo, de uma cruz ou de um pend&atilde;o, tinha
+a altura fixa e invariavel de duas toezas a
+duas toezas e meia, segundo as regi&otilde;es em que
+se construia. O portal gothico tem ainda, como
+titulo ao nosso respeito pela sua inviolabilidade,
+a condi&ccedil;&atilde;o de representar na fachada do templo
+como que um summario de toda a obra. &Eacute; do
+principio da arcada, de que a porta &eacute; o motivo
+predominante, que se deduzem e desenvolvem
+systematicamente todas as demais f&oacute;rmas constructivas
+e ornamentaes na architectura do edificio.
+Archivoltas, nervuras, pilastras, columnelos, janellas,
+nichos, misulas, baldaquinos, trifolios, que
+s&atilde;o na egreja da Batalha sen&atilde;o
+applica&ccedil;&otilde;es e desdobramentos
+successivos, engenhosamente variados,
+das linhas constitutivas da porta principal do
+templo?
+<br />
+
+<br />
+
+Qu&atilde;o tragicamente profunda tem que ser a indisciplina
+official em todos os servi&ccedil;os da arte
+para que possa dar-se um attentado da ordem
+<span class="pagenum">[53]</span>
+d'aquelle a que me refiro:&#8213;para que um architecto
+proponha, para que uma reparti&ccedil;&atilde;o publica
+auctorise, para que um ministro da cor&ocirc;a sanccione&#8213;sem
+protesto do districto, do municipio ou
+da parochia&#8213;que se desfigure o primeiro dos
+nossos monumentos da edade m&eacute;dia, alterando as
+f&oacute;rmas de uma porta, que &eacute; a porta principal
+d'essa
+gloriosa egreja de Santa Maria de Victoria, que
+os architectos do mestre de Aviz al&ccedil;aram pela bitola
+dos estandartes, dos bals&otilde;es e das bandeiras
+de Aljubarrota, e segundo a altura a que chegava
+nas hombreiras o bico do bacinete ou a cimeira
+do morri&atilde;o dos da ala da madresilva ou da ala
+dos namorados!
+<br />
+
+<br />
+
+Se fosse meu proposito enumerar os erros commettidos
+nas restaura&ccedil;&otilde;es da Batalha teria de referir-me
+&aacute;s v&iacute;s deturpa&ccedil;&otilde;es por que
+est&aacute; passando
+a capella do fundador; ao detestavel altar m&oacute;r, em
+cuja pedra t&atilde;o miseramente se acha reproduzido
+por uma especie de grafito o desenho de um
+mosaico, e a odiosa colora&ccedil;&atilde;o das
+vidra&ccedil;as, em
+que o doce tom de ambar, que os vidristas da
+edade m&eacute;dia obtinham por uma emuls&atilde;o de mel
+<span class="pagenum">[54]</span>
+na prepara&ccedil;&atilde;o da tinta, se v&ecirc;
+substituido pelo
+de um reles amarello cru, de refalsado topasio.
+O inacreditavel tabernaculo com que houve o arrojo
+de empachar o ambito de uma das naves,
+sob pretexto de construir uma capella baptismal,
+teria ainda que deter por algum tempo o meu
+horrorisado espanto perante esse t&atilde;o insolente
+e t&atilde;o irrespeitoso abuso do pseudo-gothico, em
+propor&ccedil;&atilde;o e em escala unicamente permittidas,
+por longanimidade de ridiculo, em jazigos de familia
+e em pratos montados, na latitudinaria architectura
+dos cemiterios ou das confeitarias.
+<br />
+
+<br />
+
+O meu fim por&eacute;m n&atilde;o &eacute; fazer a critica
+das restaura&ccedil;&otilde;es
+da Batalha, mas sim demonstrar, como
+julgo ter feito, por meio de alguns factos caracteristicos
+e capitaes, que nas restaura&ccedil;&otilde;es emprehendidas
+tanto n'esse como nos demais monumentos
+architectonicos recentemente reparados
+a expensas do estado, n&atilde;o houve antecedencia de
+programma, nem estudo previo, nem determina&ccedil;&atilde;o
+de methodo, nem sanc&ccedil;&atilde;o critica, nem
+fiscalisa&ccedil;&atilde;o
+technica, nem policia artistica de especie
+alguma.
+<span class="pagenum">[55]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Pelo numero e pelo quilate das mutila&ccedil;&otilde;es,
+deturpa&ccedil;&otilde;es
+e superfeta&ccedil;&otilde;es, inteiramente arbitrarias
+e escandalosas, de que s&atilde;o objecto os monumentos
+restaurados com assentimento e com subsidio
+official, como a Batalha, os Jeronymos e a Madre
+de Deus, poderemos calcular o que se passa nos
+edificios em que camaras, parochias e simples particulares
+est&atilde;o no logro de restaurar, de concertar
+ou de demolir a seu gosto.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Ponte de Lima havia uma ponte, que dava
+o nome &aacute; villa. Esta ponte, em parte romana, em
+parte gothica, era revestida de ameias e entestada
+por dois castellos ogivaes. A verea&ccedil;&atilde;o, com o
+motivo
+de desafogar a vista sobre as duas margens
+do rio, manda demolir os castellos e serrar as
+ameias da alludida ponte.
+<br />
+
+<br />
+
+Outra verea&ccedil;&atilde;o, em Santarem, bota a baixo a
+bella torre gothica de Santa Maria de Marvilla,
+funda&ccedil;&atilde;o dos primeiros tempos da monarchia,
+para o fim unico de deixar o terreno sem coisa
+alguma em cima, e ser por essa raz&atilde;o uma pra&ccedil;a.
+A Real Associa&ccedil;&atilde;o dos architectos civis
+prop&otilde;e-se
+a esse tempo comprar os sinos da torre demolida,
+<span class="pagenum">[56]</span>
+em bronze esculpido. A junta de parochia prefere
+derretel-os.
+<br />
+
+<br />
+
+No castello de Leiria, que, tendo sido construido
+como casa e museu pelo rei mais artista, mais
+poeta e mais sabio do seu tempo, constitue um
+documento, unico talvez na Europa, da archeologia
+romana e da vida de c&ocirc;rte na edade m&eacute;dia,
+certos festeiros em noite de gala, derribam a columnata
+do eirado principal para dar campo a um
+effeito de luminarias e de pyrotechnica.
+<br />
+
+<br />
+
+Na alca&ccedil;ova de Santarem as ameias de D. Affonso
+Henriques substituem-se por ignobeis grades
+de ferro fundido e pintado de verde.
+<br />
+
+<br />
+
+A porta da Atamarma, pela qual ainda passou
+Garrett ao tempo das <em>Viagens na minha
+terra</em>, &eacute;
+arrasada, juntamente com a capellinha de Nossa
+Senhora da Victoria, que tinha por cima. No or&ccedil;amento
+d'essa demoli&ccedil;&atilde;o, que o governo approvou
+no anno de 1865, a camara de Santarem, tripudia
+de jubilo, affirmando que a dita desmontagem,
+<em>que por mais tempo se n&atilde;o podia
+protrahir</em>,
+f&ocirc;ra vantajosamente arrematada pela quantia de
+trinta e nove mil r&eacute;is, calculando-se em mais de
+<span class="pagenum">[57]</span>
+cem mil o val&ocirc;r da pedra e do tijolo que ella produziu.
+Com esse cantico de alegria or&ccedil;amental,
+desappareceu o glorioso portico, por onde o fundador
+da nacionalidade portugueza e os da sua
+hoste entraram em Santarem com as espadas e as
+lan&ccedil;as gottejantes de sangue mouro, firmando por
+esse acto o fim do dominio sarraceno em Portugal.
+<br />
+
+<br />
+
+A porta do <em>Bom Successo</em> veio abaixo,
+como a
+de Atamarma, por disposi&ccedil;&atilde;o do respectivo
+municipio.
+<br />
+
+<br />
+
+A destrui&ccedil;&atilde;o das portas de muralha, bellos arcos
+na maior parte ogivaes, com que tanto se
+enobreciam algumas das nossas velhas cidades,
+tem sido a grande preocupa&ccedil;&atilde;o vesanica das
+municipalidades
+modernas, absolutamente ignorantes,
+ao que parece, das gloriosas tradi&ccedil;&otilde;es locaes
+de que esses monumentos eram o testemunho authentico
+e sagrado.
+<br />
+
+<br />
+
+Dentro d'essa cathegoria de delinquentes ser&aacute;
+difficil disputar o primeiro logar da serie pathologica
+&aacute; cidade do Porto.
+<br />
+
+<br />
+
+O Arco da Vendoma, &aacute; rua Chan, que havia
+sido uma das portas da circumvala&ccedil;&atilde;o sueva, sobre
+<span class="pagenum">[58]</span>
+a qual a rainha D. Tareja fizera collocar em
+ediculo a imagem da Senhora da Vendoma, trazida
+de Fran&ccedil;a pelo bispo D. Nonego, &eacute;
+desapiedadamente
+demolida em nossos dias, depois de
+oito seculos de existencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Os bellos arcos do Postigo de Santo Antonio
+do Penedo e do Postigo do Sol veem egualmente
+abaixo, em 1875, sem raz&otilde;es algumas que expliquem
+mais esta demoli&ccedil;&atilde;o que a do Arco da Vendoma.
+Junto do Postigo do Sol ficava no entanto,
+e memorava-a o arco, a veneranda <em>Viella das
+Tripas</em>,
+onde assistiam as fressureiras, que deram aos
+do Porto o nome de tripeiros, vendendo-lhes os
+miudos das rezes, cuja carne elles haviam espontaneamente
+cedido &aacute; armada de D. Jo&atilde;o I para a
+expedi&ccedil;&atilde;o de Ceuta.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; Porta do Olival, da qual como do Postigo do
+Sol s&oacute; resta o nome, foi acclamado D. Jo&atilde;o I. A
+essa porta foi esperada pelos portuenses, e por ella
+entrou pela primeira vez na cidade, na occasi&atilde;o
+das suas bodas com o mestre de Aviz, a rainha
+Filippa de Lencastre.
+<br />
+
+<br />
+
+O Arco da Senhora Sant'Anna, que deu o titulo
+<span class="pagenum">[59]</span>
+&aacute; linda narrativa portuense de Almeida Garrett, &eacute;
+sacrificado como os demais ao alvi&atilde;o municipal
+da cidade invicta.
+<br />
+
+<br />
+
+O ultimo emfim dos arcos do Porto, ainda ha
+bem poucos annos destruido, foi o da Porta Nobre,
+por onde faziam a sua entrada solemne os
+bispos e os reis, que os moradores da Reboleira
+recebiam triumphalmente na sua rua, juncada de
+espadanas e de funcho, entre fest&otilde;es de flores pendentes
+das velhas janellas de resalto, &aacute; flamenga,
+sob punhados de trigo, reluzente no ar em chuva
+de ouro.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Santarem disseram-me ha dias, nos proprios
+logares em que se est&aacute; mancumunando o delicto,
+que os vereadores projectam agora demolir a Torre
+das Caba&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando a rainha D. Maria I visitou Santarem
+em 1785, botaram-se as medidas do c&ocirc;che de sua
+magestade a todo o caminho que elle tinha de percorrer,
+e desfizeram-se diligentemente a pic&atilde;o, nas
+ruas da villa, todas as protuberancias architectonicas
+em que se anteviu algum risco de entala&ccedil;&atilde;o
+para o trajecto da real berlinda.
+<span class="pagenum">[60]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+No Canto da Cruz cortaram-se, como quem
+corta queijo, os vertices dos angulos nos edificios
+de esquinas menos reverenciosas para com o regio
+transito. Entre a Torre do Alpor&atilde;o e a Torre
+das Caba&ccedil;as o passo por&eacute;m apresentou-se
+especialmente
+difficil. Applicou-se-lhe a bitola do regio
+c&ocirc;che, que o secretario de estado visconde de
+Villa Nova da Cerveira mand&aacute;ra previdentemente
+de Salvaterra de Magos ao juiz de f&oacute;ra, presidente
+da camara municipal da villa, e consignou-se que,
+por obra infernal de palmo ou palmo e meio de
+saliencia, o magestatico vehiculo da soberana teria
+de ficar engasgalhado pelos cubos das rodas
+entre os dois monumentos. Ent&atilde;o, depois de haverem
+marrado por um momento no problema, e
+uns nos outros, os vereadores scalabitanos removeram
+a difficuldade, redobando a fita da medi&ccedil;&atilde;o
+inutilmente esticada, mettendo os solicitos e suados
+covados debaixo dos bra&ccedil;os, e mandando simplesmente
+arrasar a Torre do Alpor&atilde;o, monumento
+do dominio romano, do alto do qual, durante a
+occupa&ccedil;&atilde;o serracena, o arabe dictava ao povo a
+lei de Mahomet.
+<span class="pagenum">[61]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+A Torre das Caba&ccedil;as &eacute; muito menos antiga e
+menos documental que a do Alpor&atilde;o. Com quanto
+Garrett a fa&ccedil;a invocar anachronicamente no
+<em>Alfageme
+de Santarem</em>, em estimulo de defesa contra
+a invas&atilde;o castelhana, como um dos tra&ccedil;os mais
+expressivos da physionomia pittoresca da patria,
+essa torre data apenas do tempo de D. Manoel.
+N&atilde;o tem caracter propriamente architectural, &eacute;
+uma simples pe&ccedil;a de alvenaria quadrada. Mas o
+seu estranho remate, em grande eleva&ccedil;&atilde;o, formado
+pelo sino a descoberto, sustido na convergencia
+superior de quatro var&otilde;es de ferro, estribados obliquamente
+nos quatro angulos da torre, e revestidos
+de pucaras de barro, da olaria local, destinadas
+a ampliar a sonoridade do bronze no tanger
+das horas e dos signaes de rebate, d&aacute;-lhe uma
+fei&ccedil;&atilde;o
+verdadeiramente especial, inconfundivel, indelevel.
+N&atilde;o ser&aacute; talvez o mais monumental, o mais
+nobre, o mais rico, mas &eacute; de certo o mais suggestivo,
+o mais anedoctico, o mais interessante, o mais
+carinhoso, o mais familiar, o mais lindo campanario
+de toda essa t&atilde;o formosa campina ribatejana,
+o mais aberto sorriso agrario da terra portugueza.
+<span class="pagenum">[62]</span>
+Tudo envolve de penetrante poesia local essa velha
+torre. O seu mesmo nome de <em>relogio das
+caba&ccedil;as</em>
+ou de <em>cabaceiro</em> se allia
+harmonicamente no
+ouvido &aacute; lembran&ccedil;a das lezirias, das hortas, dos
+paues, das courellas e dos olivedos, que o circumdam,
+e fazem d'elle como que uma parte integrante
+da paizagem, um natural rebento da terra. O aspecto
+de improvisa&ccedil;&atilde;o e de interinidade d'essa
+summaria ventana de sino, que parece armada em
+quatro pampilhos, &eacute; uma verdadeira obra d'arte,
+que lembra mais commoventemente do que nenhuma
+outra inventada pelos architectos, a origem
+arabe, a vida nomada, a tradi&ccedil;&atilde;o pastoral da
+regi&atilde;o em que surgiu.
+<br />
+
+<br />
+
+Os conspicuos burguezes do senado de Santarem
+n&atilde;o podem ter opini&atilde;o sobre esta
+quest&atilde;o de
+esthetica, porque elles carecem absolutamente do
+ponto de vista em que deve de ser considerada a
+sua Torre das Caba&ccedil;as, a qual evidentemente se
+n&atilde;o construiu para que suas excellencias a alveitassem
+doutoralmente de dentro dos pa&ccedil;os do concelho,
+ou c&aacute; fora na pra&ccedil;a, de chapeus altos,
+sobrecasacas
+dominicaes e barbas feitas, abordoados
+<span class="pagenum">[63]</span>
+aos seus chapeus de sol, e muito mais garantidamente
+cucurbitaceos que o seu proprio cabaceiro.
+A Torre das Caba&ccedil;as fez-se para ser olhada do
+vasto campo da Golleg&atilde; ou do campo de Almeirim,
+vindo do Valle, vindo de Coruche, de Benavente,
+ou da Barquinha, atravez dos olivaes, das
+terras de semeadura e das eiras do termo de Santarem,
+de jaqueta e sapatos de prateleira, montando
+uma egua de maioral, de cabe&ccedil;ada de esparto,
+almatrixa de pelles e estribos chapeados.
+O Cabaceiro de Santarem, com a sua cupula em
+trempe, as suas caba&ccedil;as de barro e o seu sino
+grande de correr e de governar as horas, fez-se
+para o largo e ridente campo ribatejano, fez-se
+para os campinos, para os vaqueiros, para os almocreves,
+e talvez se fizesse tambem para mim,
+que n&atilde;o vejo em arte raz&atilde;o alguma plausivel para
+que, como motivo ornamental de uma torre, &aacute; folha
+do acantho ou ao chavelho em voluta da architectura
+grega se prefira a nossa linda pucarinha de
+barro vermelho de Reguengo, da Atalaia ou da
+Asseiceira.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o! o senado santareno tem de deixar ficar
+<span class="pagenum">[64]</span>
+onde ella est&aacute; a sua t&atilde;o caracteristica torre,
+para
+que se n&atilde;o diga que dos tres potes, que de antiga
+tradi&ccedil;&atilde;o consta acharem-se soterrados na
+Alca&ccedil;ova,
+um cheio de ouro, outro cheio de prata, outro
+cheio de peste, a camara da localidade n&atilde;o
+encontrou sen&atilde;o o ultimo para o despejar sobre
+os monumentos publicos sujeitos &aacute; sua
+jurisdi&ccedil;&atilde;o
+e confiados &aacute; sua guarda.
+<br />
+
+<br />
+
+Que sob o antigo regimen os vereadores de Santarem
+deitassem a baixo a Torre do Alpor&atilde;o, para
+passar uma rainha, &eacute; uma desdita em extremo lastimavel,
+mas que sob o regimen vigente se deite
+egualmente a baixo a Torre das Caba&ccedil;as, para
+que passem os proprios vereadores, &eacute; um desando
+grande da publica administra&ccedil;&atilde;o para muito peior
+do que estavamos no tempo da muito saudosa senhora
+D. Maria I.
+<br />
+
+<br />
+
+A torre da S&eacute; Velha, de Coimbra, desapparece
+no fim do seculo passado perante uma simplicidade
+de processo, que bem demonstra quanto os
+poderes publicos, desajudados de conselho artistico,
+teem sido, em todo o tempo, inhabeis e incompetentes
+para proteger os monumentos da na&ccedil;&atilde;o.
+<span class="pagenum">[65]</span>
+Foi o meu amigo Theofilo Braga quem, ao
+colligir no Archivo Nacional os documentos ineditos
+das rela&ccedil;&otilde;es do marquez de Pombal com D.
+Francisco de Lemos para a reforma dos estudos
+na Universidade, descobriu a breve historia da
+demoli&ccedil;&atilde;o da torre da S&eacute; Velha. Em
+carta de 3
+de setembro de 1773, D. Francisco de Lemos d&aacute;
+conta ao marquez de que demoliu a torre: &laquo;...A
+dita torre era um mont&atilde;o de pedra e cal sem arte
+e figura, que servisse de ornato &aacute; cidade, e antes
+estava tirando a vista do Pa&ccedil;o das Escolas, e de
+muitas casas. E principalmente &eacute; muito nociva &aacute;
+Imprensa, porque ficando ella no alto e esta embaixo,
+lhe tirava o sol, com que a fazia menos
+clara e humida. Pareceu-me conveniente &aacute; vista
+de todas estas raz&otilde;es que se demolisse, o que se
+tem executado, seguindo-se todas as utilidades
+ponderadas acima, e egualmente a de haver pedra
+para tudo o que foi preciso fazer.&raquo; Em sigla
+marginal a esta carta opina o marquez de Pombal:
+&laquo;Que est&aacute; muito bem feita a providencia sobre
+a torre da S&eacute; antiga.&raquo; E em carta de 5 de outubro
+do alludido anno de 1773, o marquez, em
+<span class="pagenum">[66]</span>
+stylo official, desenvolve a sua acquiescencia ao
+estupido vandalismo de D. Francisco de Lemos:
+&laquo;Tambem me pareceu bem ajustada a providencia
+e resolu&ccedil;&atilde;o que V. Ex.<sup>a</sup>
+tomou de mandar demolir
+a torre da S&eacute; antiga que n&atilde;o servia mais
+que de ser um <em>Padrasto sombrio e
+infimo</em>, s&oacute; proprio
+para desfigurar a formosura do Palacio a que
+estava quase contiguo e de escurecer as actuaes
+officinas, etc.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Do mosteiro de Alcoba&ccedil;a desapparece todo um
+claustro do tempo de D. Affonso Henriques.
+<br />
+
+<br />
+
+Em S. Francisco d'Evora ampliam-se as dimens&otilde;es
+da rosacea no frontespicio da egreja, abalando
+as cantarias circumstantes e pondo em risco todo
+o equilibrio da empena. Al&eacute;m d'isso, para o fim
+de aproveitar a pedra para outras applica&ccedil;&otilde;es,
+desampara-se a abobada, deitando abaixo a ala
+do convento que lhe servia de encontro.
+<br />
+
+<br />
+
+No castello de Palmella e em S. Salvador de
+Pa&ccedil;o de Sousa acham-se violados e deshonrados
+pelo mais completo despreso, al&eacute;m das campas dos
+cavalleiros de Santiago, o tumulo do principe D.
+Jorge, e o tumulo de Egas Moniz, que em Pa&ccedil;o
+<span class="pagenum">[67]</span>
+de Sousa dividiram em dois, pondo cada metade
+para seu lado, em pontos oppostos da egreja. O
+cofre de pedra que continha a ossada do fiel aio
+de Affonso Henriques transforma-se em pia de um
+bebedouro publico.
+<br />
+
+<br />
+
+A sumptuosa egreja do convento de S. Francisco
+em Santarem, funda&ccedil;&atilde;o de D. Sancho II,
+com as suas tres naves, as suas columnas de preciosos
+capiteis e os floridos arcos da sua restaura&ccedil;&atilde;o
+manoelina, converte-se em uma das cavallari&ccedil;as
+do regimento aquartelado no convento.
+Violaram-se todos os tumulos que encerrava o
+claustro e occupavam a egreja, sem que esta, segundo
+nos consta, fosse nunca dessagrada liturgicamente.
+Parece que n&atilde;o houve tempo para satisfazer
+essa t&atilde;o breve formalidade de respeito.
+<br />
+
+<br />
+
+As sar&ccedil;as, os silvados, e os subtis rendilhamentos
+manoelinos do tumulo precioso do conde de
+Vianna D. Duarte de Menezes, pela circumstancia
+de ser a esculptura removida para S. Jo&atilde;o do
+Alpor&atilde;o
+pela benemerita commiss&atilde;o administrativa
+do Museu Districtal de Santarem, escaparam miraculosamente
+aos coices das bestas de guerra,
+<span class="pagenum">[68]</span>
+que o governo portuguez destinava ao sagrado
+monumento erigido pela doce piedade conjugal &aacute;
+memoria do leal e valoroso soldado de Affonso V,
+que na conquista de Alcacer-Ceguer se deixou
+morrer &aacute;s lan&ccedil;adas para salvar a vida do seu
+rei.
+<br />
+
+<br />
+
+O tumulo de D. Fernando, que estava na mesma
+egreja, foi pela Associa&ccedil;&atilde;o dos architectos
+trazido
+para o museu do Carmo.
+<br />
+
+<br />
+
+Um dente de D. Duarte, que a condessa de Vianna
+encerrara, como unica reliquia de seu marido,
+no monumento que lhe consagrara, conserva-se
+ainda dentro do estojo que primitivamente o continha.
+A ossada do rei D. Fernando, essa desappareceu,
+como desappareceu a de D. Francisco de
+Almeida, atirada para a cerca do quartel na occasi&atilde;o
+em que se lhe destruiu o tumulo, aproveitando-se
+a area de pedra em que jazia o corpo para
+bebedouro especial dos cavallos com mormo.
+<br />
+
+<br />
+
+As demais campas, que constituiam o pavimento
+do claustro desde o principio do seculo XIV desappareceram
+todas, e nem sequer se sabe j&aacute; de quem
+eram, por que, para n&atilde;o escorregarem os cavallos
+<span class="pagenum">[69]</span>
+do regimento, desempedrou-se o claustro e perderam-se
+as lapides que n'elle se continham.
+<br />
+
+<br />
+
+A sepultura de Pedro Alvares Cabral est&aacute; na
+egreja da Gra&ccedil;a, um dos bellos templos da
+funda&ccedil;&atilde;o
+da monarchia em Santarem. Esta egreja &eacute; cedida
+pelo governo &aacute; pobre irmandade dos Passos.
+A irmandade carecia de meios para custear
+o decoro do culto e a conserva&ccedil;&atilde;o do edificio.
+Occorria generosamente a essa despeza o proprietario
+do convento annexo &aacute; egreja. O dono do
+convento falleceu recentemente, legando a casa a
+um azylo que n'ella fundou. A egreja da Gra&ccedil;a de
+Santarem est&aacute; portanto, a bem dizer, desamparada.
+A quem &eacute; que se acha confiado o tumulo de
+Pedro Alvares Cabral? N&atilde;o se sabe bem, e s&atilde;o
+grandes, como pessoalmente tive occasi&atilde;o de experimentar,
+as difficuldades que encontra quem
+deseje dar com o depositario das chaves para ver
+a egreja. &Aacute;s gloriosas cinzas d'aquelle que nos
+deu o Brazil, a gente nem sequer sabe dar um
+guarda.
+<br />
+
+<br />
+
+O mausoleu do nosso S. Frei Gil corre aventuras
+parecidas com as do mausoleu do rei D. Fernando.
+<span class="pagenum">[70]</span>
+Os marquezes de Penalva, parentes do
+Santo, recolhem na capella do seu palacio em Lisboa
+as cinzas do bemaventurado. A tampa do tumulo
+com a estatua do Santo vem para o museu
+do Carmo. A arca sepulchral, que encerrava os
+seus restos, fica em Santarem, servindo de pia de
+amassar cal para as obras do municipio.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Guimar&atilde;es mascaram indignamente de cal
+e de madeira as columnas e as arcarias da veneravel
+egreja de Nossa Senhora da Oliveira, fundada
+nos primeiros annos do seculo X pelo conde
+Hermenegildo Mendes e por sua mulher a condessa
+Mumadona. No claustro do seculo XIII, que
+envolve uma parte da egreja, revestem de caixilharia
+envidra&ccedil;ada a graciosa arcaria, e rebocam
+espessamente a cal os capiteis das columnas. A
+flammante janella gothica, que por cima da porta,
+na fachada do templo, fazia explodir em apotheose
+a polychromia do espelho, emoldurado na
+sua larga cercadura esculpida de silvados, historiada
+de estatuetas de santos em phantasiosos resaltos
+de misulas, sob rendilhados baldaquinos, &eacute;
+impiedosamente arrasada e substituida por uma
+<span class="pagenum"><a name="p71" id="p71">[71]</a></span>
+chapada de cantaria corrida, perfurada por quatro
+oculos.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Santarem, na egreja do Milagre, pelas trovoadas
+d'este ver&atilde;o, um raio fere o cone azulejado
+da torre, penetra na capella m&oacute;r, despeda&ccedil;a
+a madeira do arco que a separa da nave, e p&otilde;e a
+descoberto, por baixo d'esse revestimento de <a href="#e1">taboas</a>
+pintadas, os mais lindos lavores esculpturaes
+de uma arcaria da Renascen&ccedil;a, em que
+cherubins voejam, sustendo grinaldas e cornucopias
+floridas, por entre a la&ccedil;aria afestoada, com
+rotulos pendentes. Todos os relevos mais salientes
+da esculptura haviam sido desbastados a pic&atilde;o
+para nivelar a superficie da pedra em que assentara
+a madeira.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Setubal, na egreja manoelina das freiras de
+Jesus, besuntam as columnas, os artez&otilde;es e os fechos
+da abobada com a mais tosca e espessa camada
+de pintura. O material subjacente &eacute; o lindo
+marmore polychromico da Arrabida. A pintura a
+que me refiro tem a inten&ccedil;&atilde;o esthetica de imitar
+a
+borr&otilde;es d'ocre esse mesmo marmore cuja superficie
+t&atilde;o sordidamente conspurca.
+<span class="pagenum">[72]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Quando ha quatro annos o governo mandou
+p&ocirc;r em hasta publica uma parte do convento de
+Cellas, incluindo o seu encantador claustro, metade
+do qual &eacute; do tempo de D. Diniz, uma voz
+anonyma protestou, eloquente e energicamente,
+contra semelhante desacato, por meio de uma pequena
+brochura impressa em Coimbra e largamente
+espalhada pelo paiz todo, a pedir soccorro
+&aacute; imprensa. Rarissimos periodicos acudiram ao
+rebate. Na parte que data do seculo XIV, o pequenino
+claustro de Cellas, em arcadas de meio ponto
+e columnas geminadas, de capiteis cubicos, historiados
+por todos os lados com deliciosas figurinhas
+representando os mais tocantes episodios da
+vida da Virgem Maria, de Jesus e dos seus santos,
+&eacute; a mais delicada, a mais commovida, a mais
+poetica obra da arte portugueza n'esse interessante
+periodo da transi&ccedil;&atilde;o do stylo romanico para
+o advento do gothico, na evolu&ccedil;&atilde;o capital da arte
+na Edade Media. A virginal candura, profundamente
+enternecida, do artista desligado da preceitua&ccedil;&atilde;o
+hieratica de uma esthetica que se extingue,
+para entrar com toda a frescura intacta do sentimento
+<span class="pagenum">[73]</span>
+na sinceridade de uma arte nova, &eacute; invasivamente
+tocante na concep&ccedil;&atilde;o de varios episodios
+d'esta composi&ccedil;&atilde;o, como o da
+Annuncia&ccedil;&atilde;o, o do
+Sonho de Nossa Senhora, o da Adora&ccedil;&atilde;o dos Reis
+Magos, o da Fuga para o Egypto, e o da
+Crucifica&ccedil;&atilde;o
+de Jesus, que, pela primeira vez nas
+representa&ccedil;&otilde;es
+d'este periodo, nos apparece flagellado
+pela cor&ocirc;a de espinhos e com os dois p&eacute;s
+sobrepostos, fixados ao madeiro por um s&oacute; cravo.
+Acompanhando e envolvendo a primorosa obra
+do esculptor, tudo no claustro de Cellas se compensa,
+se pondera e se equilibra admiravelmente
+para o fim de p&ocirc;r em suggest&atilde;o o pensamento que
+d'essa obra deriva.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma construc&ccedil;&atilde;o ineffavelmente pura,
+toda
+de intimidade e de religi&atilde;o, no sentido de cada
+uma das suas partes e na harmonia total do seu
+conjuncto. Nem a mais leve macula mundana, de
+presump&ccedil;&atilde;o ou de orgulho. Nem um s&oacute;
+nome
+profano, nem um unico emblema heraldico, braz&atilde;o,
+cor&ocirc;a, paquife, divisa ou empresa. Nada que
+lembre da terra as ambi&ccedil;&otilde;es, a for&ccedil;a,
+a gloria ou
+o brilho: nem quinas, nem lizes, nem pelicanos,
+<span class="pagenum"><a name="p74" id="p74">[74]</a></span>
+<a href="#e2">nem</a> espheras. A mesma aconchegada <a href="#e3">dimens&atilde;o</a>
+do recinto, parecendo amoldado ao passo leve e
+recolhido das freiras, as quaes se ouviriam a meia
+voz de um extremo para o extremo opposto do
+pateo; o stylobato em bancada revestida de azulejos
+do tempo, enxadrezados em verde e branco;
+a pequena altura dos fustes, proporcionados a
+uma estatura de novi&ccedil;a, que poderia do ch&atilde;o
+acarinhar as imagens dos capiteis com uma fl&ocirc;r
+de a&ccedil;ucena; a reclusa modestia da galeria superior,
+em que o beiral do telhado se apoia ao parapeito
+em curtos esteios de granito; a mesma vegeta&ccedil;&atilde;o
+arbustiva, que ainda sobrevive &aacute; antiga
+ornamenta&ccedil;&atilde;o floral do pateosinho ajardinado; as
+diminutas capellas e os nichos que rodeiam a
+claustra; tudo emfim concorda e condiz na mais
+rara e doce harmonia de uma express&atilde;o intradusivel.
+O claustro de Cellas &eacute;, pela extranhesa e
+pela preciosidade da sua poesia e da sua arte,
+uma especie de murmurosa fonte, ineffavel e perenne,
+em que a agua n&atilde;o vem de alterosos e magestaticos
+aqueductos cantar ao sol em ta&ccedil;as brunidas
+de prophyro ou de alabastro, suspensas por
+<span class="pagenum">[75]</span>
+grupos de naiades, de sereias ou de golfinhos, mas
+rompe da rocha viva, como nas grandes altitudes
+alcantiladas das nossas serras, manando em fio
+tenue e crystalino, desnevada e purissima, escondida
+entre fragas, a que se entra de rastos para ir
+sedentamente beijal-a na sua humilde nascente
+engrinaldada de violetas em fl&ocirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+Providenciando sobre o destino de um t&atilde;o delicado
+monumento, posto em leil&atilde;o pela quantia
+de um conto de r&eacute;is, dispunha o governo que os
+capiteis das columnas se serrassem dos respectivos
+fustes e se recolhessem n'um museu!
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sei em que phase administrativa se acha
+ao presente esse negocio. O que sei &eacute; que o primoroso
+claustro de Cellas, medonhamente desaprumado
+da perpendicularidade das suas columnas,
+n&atilde;o espera sen&atilde;o o primeiro dos mais leves
+pretextos para se desmoronar inteiramente.
+<br />
+
+<br />
+
+Na linda egreja de S. Jo&atilde;o, em Thomar, abrem-se
+na fachada principal, de cada lado de um portal
+manoelino, duas janellas da mais corriqueira
+e mais vill&ocirc;a cantaria.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha bem poucos dias ainda um distincto critico
+<span class="pagenum">[76]</span>
+nos revelava, em uma folha periodica, os desacatos
+por que est&aacute; passando o antigo mosteiro das
+Bernardas de Almoster, construido para commemorar
+o milagre de Santa Iria pela devota Berengaria
+com a collabora&ccedil;&atilde;o de Santa Isabel.
+<br />
+
+<br />
+
+Na S&eacute; de Braga as estatuas jacentes dos tumulos
+do conde D. Henrique e de sua mulher foram
+cortadas pelo meio das pernas para caberem nos
+novos logares para onde as transferiram, e, com o
+fim de n&atilde;o transtornar inteiramente a anatomia
+dos personagens, pareceu util applicar os p&eacute;s decepados
+aos joelhos das figuras.
+<br />
+
+<br />
+
+Na mesma egreja existe o bello tumulo em bronze
+do joven infante D. Affonso, filho de D. Jo&atilde;o I,
+obra mandada fazer em Bruxellas pela infanta portugueza
+D. Isabel, mulher de Filippe o Bom. A estatua
+do infante, em tamanho natural, repousava
+deitada na tampa do mausoleo entre dois anjos em
+adora&ccedil;&atilde;o. A caixa tumular, ornada de
+braz&otilde;es, cingidos
+de arabescos e silvados em relevo, descan&ccedil;a
+sobre le&otilde;es. Em 1881 foram roubadas as cabe&ccedil;as
+dos le&otilde;es, os p&eacute;s e as m&atilde;os da
+estatua, e os dois
+anjos que ladeavam a cabe&ccedil;a do principe. O templo
+<span class="pagenum">[77]</span>
+est&aacute; completamente desfigurado do seu aspecto
+primitivo. Empastaram-se os capiteis das columnas,
+transformou-se a arcaria das naves, abriram-se
+grandes janellas nas paredes da egreja,
+adornaram-se os intervallos das capellas com enormes
+estatuas dos apostolos feitas de pau, e pintou-se
+tudo de branco&#8213;madeiras e cantarias.
+<br />
+
+<br />
+
+A pedra da campa de Garcia de Rezende, sepultado
+na encantadora ermida que elle mesmo
+delineou e mandou construir na cerca do convento
+de Nossa Senhora do Espinheiro, foi arrancada
+da sepultura do nosso chronista, e serve presentemente
+de banca de cosinha em casa de um cavalheiro
+de Evora.
+<br />
+
+<br />
+
+Os tumulos da familia de Abrantes acham-se
+em tanto esquecimento e em tanto abandono na
+capella do seu castello, como em Alcoba&ccedil;a os de
+D. Pedro e D. Ignez de Castro; como em Pa&ccedil;o de
+Sousa o de Egas Moniz; como em Palmella o de
+D. Jorge, em cujo testamento ali&aacute;s se attribue uma
+verba &aacute;s repara&ccedil;&otilde;es d'aquella casa;
+como, finalmente,
+ainda ha pouco em Alemquer, o de Dami&atilde;o
+de Goes, antes de haver sido reposto pelo sr. Possidonio
+<span class="pagenum">[78]</span>
+da Silva o busto do nosso chronista sobre
+o seu jazigo da egreja da Varzea.
+<br />
+
+<br />
+
+Na Vidigueira a camara auctorisa o povo a utilisar
+em obras particulares as cantarias do castello
+de Vasco da Gama, como se o solar do descobridor
+da India n&atilde;o tivesse mais importancia historica
+que a que se liga a qualquer pedreira.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Evora, para dar mais um metro ou metro
+e meio de superficie a uma pra&ccedil;a, a camara deita
+abaixo a historica varanda da casa dos pa&ccedil;os do
+concelho, edificada em tempo de Affonso V, por
+Jo&atilde;o Mendes Cecioso, o <em>pae dos pobres
+d'Evora</em>.
+A varanda demolida, da qual pela primeira vez
+se aclamou a independencia de Portugal depois
+das famosas
+<em>altera&ccedil;&otilde;es</em>,
+t&atilde;o minuciosamente narradas
+por D. Francisco Manoel de Mello na sua
+<em>Epanaphora politica</em>, parece ter sido
+obra de D.
+Jo&atilde;o II.
+<br />
+
+<br />
+
+Por muitas vezes se tem discutido na camara
+eborense, e parece at&eacute; haver sobre tal assumpto
+uma resolu&ccedil;&atilde;o assente, o projecto inaudito de
+eliminar
+toda a bella alpendrada da pra&ccedil;a, da rua
+Ancha e da rua da Porta Nova.
+<span class="pagenum">[79]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Outra resolu&ccedil;&atilde;o da camara de Evora,
+resolu&ccedil;&atilde;o
+definitiva e aprasada para muito breve, &eacute; a de destruir
+a pequena e t&atilde;o graciosa egreja do convento
+do Paraizo para o fim de estabelecer mais uma
+pra&ccedil;a entre as duas ruas de Machede e de Mendo
+Estevens, &aacute;s quaes faz esquina aquelle templo.
+<br />
+
+<br />
+
+A diminuta egreja do Paraizo, com os seus
+dois arcos manoelinos, com os seus preciosos
+azulejos do seculo XVI, em tapete mural, acompanhando
+nas barras o recorte dos arcos em zig-zag,
+e com o seu tumulo em ediculo de D. Alvaro da
+Costa, &eacute; um dos mais graciosos documentos architectonicos
+do seu tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Pobre cidade de Evora, um dos nossos mais
+vastos e mais preciosos museus de archeologia e
+d'arte, preferindo como Santarem ser uma estupida
+collec&ccedil;&atilde;o de pra&ccedil;as largas e de ruas
+novas!
+Por toda a Europa, os velhos bairros historicos
+s&atilde;o hoje o thesouro das cidades que os possuem.
+Em muitos logares, onde esses bairros n&atilde;o existem,
+est&atilde;o-os inventando, est&atilde;o-os reconstituindo
+em homenagem erudita e piedosa &aacute;
+tradi&ccedil;&atilde;o historica,
+&aacute; poesia do passado. A camara de Evora,
+<span class="pagenum">[80]</span>
+vangloriosa no pelintrismo das suas innova&ccedil;&otilde;es,
+bota abaixo os mais venerandos monumentos da
+cidade; por outro lado improvisa ruinas scenographicas
+no seu jardim publico, armando com
+trepadeiras e malvaiscos grupos sentimentaes de
+velhas columnas postas de pernas para o ar n'esse
+effeito de bordado a corti&ccedil;a ou a miolo de figueira;
+pica os seus historicos braz&otilde;es para fazer passeios
+lisos de ruas novas aos seus janotas; e bate,
+modernisante e festeira, sobre o epitaphio do mais
+palaciano e do mais artistico dos seus escriptores
+quinhentistas, a carne do bife consagrado talvez
+ao penso d'algum dos seus novos reporters.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas eu &eacute; que n&atilde;o posso deixar de dizer
+&aacute; cidade
+de Evora, que o que a ella nos attrae e n'ella
+nos retem n&atilde;o s&atilde;o as suas novas avenidas, nem as
+suas pra&ccedil;as, nem o seu lindo theatro, nem o seu
+bello Passeio Publico. O que em Evora nos embelleza
+e nos encanta, s&atilde;o os seus velhos mosteiros,
+as suas antigas egrejas, os nomes das suas
+primitivas ruas, estreitas e sinuosas, t&atilde;o curiosos e
+t&atilde;o archaicos como o de
+<em>Valdevinos</em>, o de
+<em>Alconchel</em>,
+o das <em>Amas do Cardeal</em>, o do
+<em>Alfaiate da</em>
+<span class="pagenum">[81]</span>
+<em>Condessa</em>; s&atilde;o os quadros
+incomparaveis do seu
+pa&ccedil;o archiepiscopal; s&atilde;o os variadissimos
+documentos
+da sua architectura ogival e da sua architectura
+da Renascen&ccedil;a, t&atilde;o especialmente amoiriscada
+n'esta parte do Alemtejo; s&atilde;o os restos das
+suas antigas industrias locaes, a olaria, a tape&ccedil;aria,
+a caldeiraria, a sellaria e a carpintaria de moveis;
+&eacute; talvez ainda a sua tradicional cosinha, a
+do&ccedil;aria
+famosa dos seus conventos, a sua honrada assorda
+de cuentros, e o seu bolo p&ocirc;dre, de farinha de milho,
+azeite e mel, como o que se comeria talvez,
+entre os hebreus da Biblia, &aacute; mesa de Abrah&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Com as improvisa&ccedil;&otilde;es do seu modernismo
+Evora &eacute; como Vianna do Castello, Braga,
+Guimar&atilde;es,
+Coimbra, Thomar, Santarem, ou Beja,
+que s&oacute;mente interessam os viajantes pela sua antiga
+arte, e n&atilde;o valem realmente a pena de que
+alguem as visite pelo que d&atilde;o de novo.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Lisboa repudia-se a soberba egreja de Santa
+Engracia, o mais bello dos nossos monumentos do
+seculo XVII. O interior do templo &eacute; de uma magnificencia
+magestosa. A riqueza dos marmores
+s&oacute;mente se pode comparar &aacute; de Mafra. A
+m&atilde;o
+<span class="pagenum">[82]</span>
+d'obra &eacute; de uma perfei&ccedil;&atilde;o magistral a
+ponto de
+parecer indestructivel. Aproveitada para pantheon
+nacional esta egreja seria um dos mais imponentes
+edificios da Europa. Falta unicamente &aacute; sua
+conclus&atilde;o
+a cupula do tecto e o lageamento do ch&atilde;o.
+Taparam-lhe o arco da entrada a pedra e cal, n&atilde;o
+tem cobertura, e est&aacute; servindo de armazem de
+arrecada&ccedil;&atilde;o
+do inutilisado material de guerra do Arsenal
+do Exercito.
+<br />
+
+<br />
+
+A inoffensiva capellinha das Albertas, bem interessante
+pela ornamenta&ccedil;&atilde;o t&atilde;o portugueza dos
+seus embrechados, ha poucos dias ainda acabou
+de desapparecer, como o convento da Esperan&ccedil;a,
+sem se saber porque, nem para que.
+<br />
+
+<br />
+
+A restaura&ccedil;&atilde;o, que recentemente padeceu a
+egreja de S. Vicente de F&oacute;ra, t&atilde;o particularmente
+notavel pelos bellos mosaicos portuguezes que a
+exornam, caracterisa-se bem no mau gosto da pintura
+com que se maculou a nobreza d'aquelle templo.
+<br />
+
+<br />
+
+Os attentados de restauro de que ainda nos tempos
+modernos tem sido objecto a S&eacute; de Lisboa s&atilde;o
+t&atilde;o lastimosos quanto innumeraveis.
+<span class="pagenum">[83]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Finalmente, ao lado da Torre de Belem, o mais
+peregrino entre os mais bellos monumentos da
+nossa architectura, estabelece-se o gazometro da
+companhia de illumina&ccedil;&atilde;o a gaz! A esbelta
+silhueta
+rendilhada do mais suggestivo padr&atilde;o da nossa
+gloria militar e maritima, j&aacute; n&atilde;o emerge da areia
+loura do Restello, em deslumbradora apotheose,
+na vasta luminosidade do ceu e da agua, destacando-se
+das collinas de Monsanto, como a alvura
+de uma hostia em eleva&ccedil;&atilde;o se destaca do fundo
+de um retabulo esmeraldado, em altar de ouro
+fulvo, sob uma abobada azul. Sacrosanta pela sua
+express&atilde;o moral, como a immaculada estalactite,
+formada &aacute; beira do mar pela concre&ccedil;&atilde;o
+mysteriosa
+de todas as lagrimas, de saudade, de ternura, de
+consterna&ccedil;&atilde;o e de enthusiasmo, choradas por um
+povo de embarcadi&ccedil;os; sacrosanta na sua forma
+artistica, como aquelle dos monumentos de Portugal,
+em que o genio lusitano da Renascen&ccedil;a,
+mais expressivamente se revela como dominador
+da India, a Torre de Belem emparceira-se com a
+chamin&eacute; do mais vil e sordido barrac&atilde;o, a qual
+sacrilegamente a cuspinha e enod&ocirc;a com salivadas
+<span class="pagenum">[74]</span>
+de um fumo espesso, gorduroso e indelevel,
+como se a incomparavel joia d'esse marmore, que
+o sol portuguez carinhosamente sobredourara pelos
+afagos de tres seculos, houvesse sido t&atilde;o subtilmente
+cinzelada pelos artistas manoelinos para
+escarrador de mariolas, por cima do qual todavia
+ainda algumas vezes, em dias de gala, se desfralda
+e tremula o pavilh&atilde;o das quinas, mascarrado de
+carv&atilde;o como um ch&eacute;ch&eacute; de entrudo.
+<br />
+
+<br />
+
+Ministerios de todos os diversos partidos politicos
+se revezam consecutivamente no poder, sem
+que nenhum d'elles pare&ccedil;a attentar em um tal desdouro,
+express&atilde;o viva do mais abandalhado rebaixamento
+a que, perante as suas tradi&ccedil;&otilde;es historicas
+e artisticas, podia chegar a degenera&ccedil;&atilde;o de
+uma ra&ccedil;a. Por seu lado o parlamento e a imprensa
+s&atilde;o insensiveis &aacute; responsabilidade de taes
+civicias,
+porque esses dois poderes do Estado, enrascados
+na baixa intriga partidaria, immobilisados n'ella,
+como um enxame de pardaes n'uma bola de visco,
+de ha muito que perderam o sentimento de nacionalidade
+e a no&ccedil;&atilde;o de patria, relaxando completamente
+aos archeologos, aos poetas e aos artistas
+<span class="pagenum">[85]</span>
+a unica legitima representa&ccedil;&atilde;o, desinteressada e
+altiva, do espirito portuguez.
+<br />
+
+<br />
+
+Consta no emtanto que brevemente ser&aacute; celebrado
+em Lisboa o centenario da India; e da comprehens&atilde;o
+que temos d'esse feito culminante da
+nossa historia maritima daremos ao extrangeiro
+um testemunho definitivo, mostrando o monumento
+que commemora tal fa&ccedil;anha, envolto, como
+nas dobras de um crepe, pela fuma&ccedil;ada de uma
+fabrica, que n&oacute;s mesmos lhe puzemos ao p&eacute;, para
+o deshonrar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Se do exame da architectura dos nossos monumentos,
+passamos ao exame das artes decorativas,
+da pintura e da esculptura amovivel, &eacute;
+mais lastimoso ainda o espectaculo da nossa incuria.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao clero portuguez cabe principalmente a gloria
+de haver conservado o que ainda resta do nosso
+patrimonio artistico.
+<br />
+
+<br />
+
+Das galerias particulares de pintura que o conde
+de Raczynski ainda encontrou em Portugal, no
+anno de 1845, quasi tudo se sumiu.
+<span class="pagenum">[86]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Demoliram-se, desappareceram, ou foram transformadas
+pela mudan&ccedil;a de dono, pela mudan&ccedil;a
+de destino, pela transforma&ccedil;&atilde;o mais radical da
+vida interior que as animava, quasi todas as casas
+que ainda em 1840 eram o typo das habita&ccedil;&otilde;es
+nobres em Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+Citarei, ao acaso da memoria: o palacio da
+marqueza de Niza, a Xabregas, fundado no seculo
+XV pela rainha D. Leonor; o palacio chamado
+dos Patriarchas, o de Pessanha e o do
+conde de S. Miguel, &aacute; Junqueira; o do marquez
+de Pombal &aacute;s Janellas Verdes; o do conde de
+Carvalhal na Rocha do Conde d'Obidos, famoso
+outr'ora pela collec&ccedil;&atilde;o das suas mobilias;
+&aacute; Cotovia
+o do conde de Ceia e o do conde de Povlide;
+no Calhariz os de Braancamp, do duque
+de Palmella e do marquez de Olh&atilde;o; o do marquez
+de Castello Melhor e o do conde de Lumiares,
+no antigo Passeio Publico; na collina do Castello
+o do marquez de Ponte de Lima, o do marquez
+de Alegrete, o do marquez de Tancos; no
+Campo de Santa Clara o do visconde de Barbacena,
+o do conde de Resende, o do marquez de
+<span class="pagenum">[87]</span>
+Lavradio, e um pouco mais para leste o do conde
+da Taipa; o do visconde da Bandeira, a S. Domingos;
+e finalmente o do marquez de Borba, o do
+conde de Almada, e o do morgado de Assintis,
+cujo theatro era o mais sumptuoso entre todos os
+numerosos theatrinhos particulares que havia em
+Lisboa no principio do seculo, como o do bar&atilde;o
+de Quintella, o do visconde de Anadia, o do conde
+de Almada, e o do conde de Sampaio.
+<br />
+
+<br />
+
+A maior parte d'essas casas eram ainda, pelo
+seu antigo recheio, apesar dos estragos do terremoto,
+apesar da rapina da invas&atilde;o franceza, verdadeiros
+sanctuarios d'arte. Mobilavam-as as mais
+ricas pe&ccedil;as das industrias do Oriente que existiam
+na Europa, escriptorios, papelleiras e bahus monumentaes
+de char&atilde;o, bufetes e contadores feitos
+na India ou fabricados em Lisboa por marceneiros
+aqui educados, no tempo de D. Manoel, por
+artistas indianos.
+<br />
+
+<br />
+
+Os servi&ccedil;os de mesa e os vasos decorativos
+eram das mais antigas e das mais preciosas porcellanas
+da China e do Jap&atilde;o. A collec&ccedil;&atilde;o das
+colxas e dos panos de armar, com que no dia da
+<span class="pagenum">[88]</span>
+prociss&atilde;o de Corpus-Christi se revestiam inteiramente
+as fachadas de todos os predios da Baixa,
+eram de brocado, de damasco, de setim e de veludo,
+constellados a matiz e a ouro nos mais deslumbrantes
+desenhos persas.
+<br />
+
+<br />
+
+Os bragaes, de linho da Hollanda, da Flandres e
+do Reino, arrecadavam-se nas sumptuosas caixas
+encouradas, que foram no seculo XVI uma das industrias
+famosas de Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas gavetinhas dos contadores e nos escaninhos
+dos armarios e das arcas estavam as joias,
+as rendas, os aljofares, os entretalhos, os firmaes,
+as chaparias, os ouros de martello, e as obras mais
+diminutas e subtis das antigas bordadoras e colxoeiras
+de Lisboa,&#8213;restos de coifas, de face e
+gravis, redes, cadenetas, desfiados.
+<br />
+
+<br />
+
+As baixellas brazonadas, de ouro e prata, levantadas
+em besti&otilde;es e em silvados, a martello, ou
+cinzeladas por emulos de Benvenuto Celini, trasbordantes
+de ornato, em encaiches de arabescos e
+de la&ccedil;arias, eram um luxo commum a todas as familias
+nobres, e refulgiam pelas grandes festas do
+anno em todas as casas de jantar.
+<span class="pagenum">[89]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+O mogno francez do imperio, com as suas
+applica&ccedil;&otilde;es
+de bronze, representando fachos, pyras
+ardentes, lyras e tropheus de guerra, invadira com
+as modas da revolu&ccedil;&atilde;o liberal muitas casas
+lisboetas,
+sem todavia desthronar inteiramente o
+precioso mobiliario da Renascen&ccedil;a, em cedro, em
+pau rosa, em sandalo, em nogueira, em carvalho
+ou em ebano, ao gosto mudegar ou ao gosto florentino,
+embutido de marfim, de madreperola, de
+prata, de esmaltes limosinos ou aragonezes. Abundavam
+as cadeiras e os catles de couro lavrado
+ou de guadamecim, cravejado no carvalho ou no
+pau santo com pregos cinzelados de cobre ou de
+prata; e nas poltronas, nas commodas, nas meias-commodas,
+nos escaparates, nas cadeirinhas, nas
+molduras dos espelhos e das sobreportas predominavam
+as formas curvilineas da influencia de
+Luiz XIV e de Luiz XV na &eacute;poca de D. Jo&atilde;o V e
+de D. Maria I.
+<br />
+
+<br />
+
+Na talha dos oratorios encontravam-se alguns
+d'esses baixos relevos em madeira, polychromicos,
+em escala mui clara, t&atilde;o caracteristicos da
+nossa esculptura em madeira do seculo XVII, bem
+<span class="pagenum">[90]</span>
+accentuadamente revelada nas obras de Bouro, de
+Tib&atilde;es, de S. Gon&ccedil;alo de Aveiro, e da
+S&eacute; Nova de
+Coimbra.
+<br />
+
+<br />
+
+O presepio era um appendice por assim dizer
+obrigatorio; sempre que n&atilde;o occupava um compartimento
+especial da casa, o presepio concentrava-se
+na sua machineta em forma de urna, semelhante
+&aacute;s que se destinavam a conter uma cella
+de Santo Antonio ou uma arribanasinha de menino
+Jesus.
+<br />
+
+<br />
+
+Todas as familias historicas tinham a sua mais
+ou menos consideravel galeria de pintura: paineis
+de devo&ccedil;&atilde;o, retratos de antepassados, e um ou
+outro
+quadro de genero ou de paizagem, em tela ou
+em cobre, attribuidos a Breughel, a Rosa di Tivoli,
+a Tenniers ou a Rubens, obras em geral apocryphas
+e mediocres. Grassavam, com tenacidade talvez
+excessiva, as Josephas d'Obidos e os Morgados
+de Setubal, mas entre os retratos do seculo
+passado, encontravam-se alguns preciosos, como
+os de Pelegrini em casa dos viscondes de Anadia,
+como os pintados por Madame Guiard, por G&eacute;rard
+e por Therbouch&eacute;, em casa do visconde de
+<span class="pagenum">[91]</span>
+Sobral. Entre os quadros de devo&ccedil;&atilde;o destacavam-se
+frequentes obras primas nacionaes, do
+seculo XVI, referidas &aacute; vida da Virgem Maria, &aacute;
+lenda de Santa Ursula, aos agiologios de alguns
+santos portuguezes, como Verissimo, Maxima e
+Julia.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos sot&atilde;os d'essas antigas casas havia
+accumula&ccedil;&otilde;es
+seculares de moveis inutilisados, de miudezas
+rejeitadas e esquecidas, com as quaes se sepultariam
+documentos inapreciaveis para a historia
+da nossa influencia na evolu&ccedil;&atilde;o europeia das
+artes sumptuarias: cadeiras aluidas e canap&eacute;s
+desconjuntados,
+desusados manicordios, velhos cravos
+de char&atilde;o, abandonadas espinetas, em cujo
+teclado amarellecido se teriam dedilhado as primeiras
+composi&ccedil;&otilde;es de Palestrina e de Cimarosa;
+antigos arreios de tiro e de sella, braseiras, perfumadores,
+lanternas e candieiros de cobre, velhos
+palmitos contrafeitos de conchas e de pennas, mont&otilde;es
+de manuscriptos, mont&otilde;es de gravuras, dentes
+de elephante, ferrugentas clavinas de pederneira;
+e, entre feixes de cacetes e de chibatas de
+marmelleiro, talvez, desarticulado e roto, algum
+<span class="pagenum">[92]</span>
+d'esses chapeus de sol, que n&oacute;s fomos os primeiros
+que fabric&aacute;mos e que introduzimos na Europa,
+ou algum d'esses primitivos leques, em quarto de
+circulo, que os companheiros de Fern&atilde;o Mendes
+Pinto trouxeram da China, com os primeiros apparelhos
+de ch&aacute;, com os primeiros vasos de porcellana,
+com as primeiras caixas de sinaes e pastilhas,
+doando a Roma e a Floren&ccedil;a, a Paris e a
+Londres todos os principaes attributos e os themas
+fundamentaes de toda a arte da casa e de
+toda a elegancia feminina da civilisa&ccedil;&atilde;o moderna.
+<br />
+
+<br />
+
+E tudo isso desappareceu, ou se est&aacute; evolando,
+com o successivo desmanchar de todas as velhas
+casas, n'um saudoso e doce perfume de camphora,
+de mofo, de alfazema e de bejoim, errante no ar
+dos casar&otilde;es despejados.
+<br />
+
+<br />
+
+Est&atilde;o nas bibliothecas extrangeiras, em Fran&ccedil;a
+e na Inglaterra, as mais preciosas illuminuras dos
+nossos codices e das nossas arvores genealogicas.
+<br />
+
+<br />
+
+Das encantadoras figurinhas dos presepios de
+Faustino Jos&eacute; Rodrigues, de Antonio Ferreira, de
+Machado de Castro, j&aacute; n&atilde;o ha intacta
+sen&atilde;o a
+collec&ccedil;&atilde;o da S&eacute;.
+Destro&ccedil;aram-se as da Madre de
+<span class="pagenum">[93]</span>
+Deus, do Cora&ccedil;&atilde;o de Jesus e do marquez de Borba
+em Santa Martha.
+<br />
+
+<br />
+
+O que ainda persiste da obra t&atilde;o curiosa e t&atilde;o
+caracteristica dos barristas de Alcoba&ccedil;a est&aacute; ao
+desamparo no abandono d'aquelle incomparavel
+monumento.
+<br />
+
+<br />
+
+Lan&ccedil;as, espadas, adagas, elmos de todas as
+f&oacute;rmas&#8213;almafres,
+capellinas, bacinetes, barbudas e
+morri&otilde;es&#8213;, coura&ccedil;as, escarcellas, grevas,
+manoplas,
+escudos e rodellas, todas as pe&ccedil;as, emfim,
+da armadura dos nossos heroes da Africa e da
+India, desappareceram com as bal&ccedil;as, as sinas, os
+estandartes e as bandeiras das suas hostes.
+<br />
+
+<br />
+
+A espada de Vasco da Gama &eacute; hoje propriedade
+de um particular, que ha pouco tempo adquiriu
+por compra essa reliquia nacional.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma espada e um capacete de torneio, que se
+diz terem pertencido ao Mestre de Aviz, pe&ccedil;as
+ferrugentas, sujas, sem estojo nem outro qualquer
+resguardo que as defenda da irreverencia do publico,
+est&atilde;o na Batalha &aacute; merc&ecirc; dos
+mo&ccedil;os, dos
+pedreiros e dos visitantes, que de chacota se adornam
+com essas armas, em galhofa carnavalesca.
+<span class="pagenum">[94]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Na cathedral de Toledo, na soberba capella dos
+Reis Novos, preciosamente edificada por Alonso
+de Covarrubias, em tempo de Carlos V e por
+disposi&ccedil;&atilde;o
+testamentaria de Henrique II de Trastamara,
+v&ecirc;-se uma armadura portugueza. Guardada
+por castelhanos, essa armadura suspende-se, d'entre
+os ornatos platerescos da capella, por cima do
+&oacute;rg&atilde;o, em todo o respeito devido a um
+troph&eacute;o
+sagrado. E um dos guardas da cathedral, explica
+ao publico, apontando essa reliquia:&#8213;&laquo;Aquella &eacute;
+a armadura do alferes portuguez Duarte de Almeida,
+o qual, batendo-se na batalha de Toro
+contra n&oacute;s outros, tendo tido decepadas as duas
+m&atilde;os, morreu &aacute;s lan&ccedil;adas, segurando
+nos dentes
+a bandeira do seu rei.&raquo; E em frente do arnez,
+que vestiu o corpo sanguento e exanime de um
+inimigo, Castella inclina-se reverente e commovida,
+fazendo-nos corar, perante a grandeza de
+tal exemplo, da lenda grosseira em que envolvemos
+a p&aacute; da padeira Brites&#8213;<em>Quantos vivos
+rapuit
+omnes esbarrigavit</em>,&#8213;a qual p&aacute; uma esperta
+e linda creada de Aljubarrota faz o favor de ir
+buscar, e de tirar de dentro de um saco, para a
+<span class="pagenum">[95]</span>
+mostrar n'um patamar de escada aos viajantes
+que para esse fim lhe v&atilde;o bater &aacute; porta.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o est&aacute; feita nem estudada a historia dos nossos
+vidros, dos nossos esmaltes, da iconographia
+da nossa habita&ccedil;&atilde;o, e do nosso trage.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma das obras primas da nossa joalheria, a
+propria custodia de Belem, lavrada por Gil Vicente,
+o famoso ourives, tio do poeta, acha-se desfigurada
+nas suas dimens&otilde;es primitivas pela
+interpolla&ccedil;&atilde;o
+de um novo hostiario e de duas pilastras,
+que j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o do primeiro ouro das
+conquistas,
+mas de simples prata dourada.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois dos t&atilde;o numerosos e t&atilde;o grosseiros erros
+a que tem dado origem a investiga&ccedil;&atilde;o da
+identidade
+de Gr&atilde;o Vasco, a historia, a
+classifica&ccedil;&atilde;o e
+a attribui&ccedil;&atilde;o da nossa incomparavel pintura do
+seculo XVI, encontra-se ainda por fazer.
+<br />
+
+<br />
+
+A restaura&ccedil;&atilde;o dos antigos quadros est&aacute;
+constituindo
+na historia da nossa arte uma catastrophe
+ainda mais destruidora que a da restaura&ccedil;&atilde;o da
+nossa architectura.
+<br />
+
+<br />
+
+Alguns annos mais sobre o systema devastador
+que se est&aacute; seguindo, e ninguem poder&aacute; reconhecer
+<span class="pagenum">[96]</span>
+nas taboas da nossa grande &eacute;poca uma s&oacute; pincelada
+dos admiraveis discipulos e dos emulos que
+tiveram em Portugal os Van Eik, os Memling, os
+Gerard David, os Van der Weiden, os Quinten
+Massys ou os Dierik Bouts.
+<br />
+
+<br />
+
+N'essa prodigiosa pintura nacional, em que tivemos
+por mestres os flamengos, acha-se todavia
+registrada a historia de toda a vida portugueza
+desde o meiado do seculo XV at&eacute; o fim do
+seculo XVI, isto &eacute;, durante o periodo do nosso
+maior brilho e da nossa maior riqueza, no apogeu
+da nossa gloria. S&atilde;o raras as puras
+composi&ccedil;&otilde;es
+historicas e raros os retratos d'esta &eacute;poca. Os
+grandes feitos da navega&ccedil;&atilde;o e da guerra
+celebravam-se
+de preferencia nas tape&ccedil;arias, que se perderam,
+e constituiam o principal adorno d'arte
+dos pa&ccedil;os dos reis e dos palacios dos nobres. Na
+pintura religiosa, por&eacute;m, e nos quadros votivos,
+conservados nas egrejas e nos conventos, as figuras
+do seculo misturam-se em brilhante anachronismo
+&aacute;s figuras sagradas, e muitas authenticas
+physionomias se accusam energicamente nos pomposos
+cortejos que envolvem as scenas biblicas. A
+<span class="pagenum">[97]</span>
+memoria do que fomos est&aacute; ahi, por n&oacute;s mesmos
+consagrada, com o maior esplendor a que chegou
+o nosso genio artistico, nas taboas dos paineis, no
+pergaminho das biblias e dos devocionarios portuguezes.
+Ahi est&atilde;o os reis, as rainhas, os sacerdotes,
+os guerreiros e os letrados portuguezes do cyclo
+da renascen&ccedil;a. S&atilde;o essas as caracteristicas
+figuras
+dos nossos av&oacute;s: as faces cheias, a pelle tostada,
+a carne rija, os olhos rasgados, as boccas imperativas.
+A essas nobres e delicadas cabe&ccedil;as femininas
+serviram de modelo as mais lindas mulheres
+da Lusitania, de olhos de amendoa, malicioso olhar
+avelludado, obliquo e enygmatico, sobrancelhas
+longas alteando nas fontes, rostos ovaes, boccas
+quentes e vermelhas, queixo carnudo vincado na
+base, testa arredondada e lisa, cabello espesso e fino
+apartado ao meio em duas curvas de bambolim,
+e uma gesticula&ccedil;&atilde;o leve, sinuosa e ondulante.
+Teriamos
+que interrogar longamente, laboriosamente,
+esses venerandos paineis para apprender tantas
+coisas que ignoramos da physionomia do nosso
+passado, o trage, as armas, as joias, a mobilia,
+os utensilios da casa e os estados do espirito.
+<span class="pagenum">[98]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+O estudo completo d'esses quadros constituiria
+a mais importante, a mais bella obra da nossa
+historiographia.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>A patria portugueza segundo os documentos da
+pintura nacional nos seculos XV e XVI</em>, poderia ser
+o titulo d'esse incomparavel livro, em que collaborariam
+todas as aptid&otilde;es intellectuaes de que
+disp&otilde;e o paiz, por meio de successivas monographias,
+relativas a cada ramo do saber e comprehendendo
+todos os pontos de vista em que pode
+ser considerado o quadro:
+<br />
+
+<br />
+
+1.&ordm; <em>Os aspectos da paizagem</em>, os
+caracteres
+da <em>flora</em> e da
+<em>fauna</em> portugueza, que n&oacute;s
+t&atilde;o
+opulentamente enriquecemos, pelo commercio
+das conquistas e dos descobrimentos; no tempo
+em que Lisboa era o primeiro jardim de
+acclimata&ccedil;&atilde;o,
+o primeiro jardim zoologico e o primeiro
+mercado da Europa, pela introduc&ccedil;&atilde;o do
+ch&aacute;, do caf&eacute;, do assucar, do algod&atilde;o,
+da pimenta,
+do gengibre do Malabar, da canella de
+Ceyl&atilde;o, do cravo das Molucas, do sandalo de
+Timor, das teccas de Cochim, do bejoim do
+Achem, do pau de Solor, do anil de Cambaya,
+<span class="pagenum">[99]</span>
+da on&ccedil;a, do elephante, do rhinoceronte, do cavallo
+arabe.
+<br />
+
+<br />
+
+2.&ordm; <em>O mobiliario</em>, cuja
+fabrica&ccedil;&atilde;o t&atilde;o fecundamente
+desenvolvemos por meio de officinas estabelecidas
+em Lisboa por artifices indianos, e estabelecidas
+na India por artifices portuguezes, sob
+a administra&ccedil;&atilde;o de Affonso de Albuquerque.
+<br />
+
+<br />
+
+3.&ordm; <em>A indumentaria</em>, comprehendendo,
+al&eacute;m da
+historia do <em>traje</em>, a dos
+<em>tecidos</em>, a dos
+<em>bordados</em> e a
+das <em>rendas</em>, industrias procedentes
+da China, da
+Persia, de Benguella, t&atilde;o profundamente influenciadas
+pelo nosso contacto nas suas origens, t&atilde;o
+especialmente desenvolvidas no Reino, pelo lav&ocirc;r
+do pa&ccedil;o, onde trabalhavam ao bastidor e &aacute; agulha
+as mais pacientes e subtis
+<em>lavrandeiras</em> mandadas
+&aacute; rainha pelos capit&atilde;es da India.
+<br />
+
+<br />
+
+4.&ordm; <em>As armas</em>, de guerra, de torneio
+e de c&ocirc;rte.
+<br />
+
+<br />
+
+5.&ordm; A <em>ourivesaria</em> e a
+<em>joalharia</em>, abrangendo a
+analyse das alfaias religiosas, lampadas, tocheiros,
+relicarios, thuribulos, retabulos, a t&atilde;o curiosa
+evolu&ccedil;&atilde;o
+em Portugal da f&oacute;rma e do ornato dos calices,
+das custodias e das cruzes; e na ourivesaria
+profana as innumeraveis pe&ccedil;as em ouro ou prata
+<span class="pagenum">[100]</span>
+da baixella e da joalharia portugueza da Renascen&ccedil;a,
+como escudellas de faldra e de orelhas, salseiros,
+oveiros, vinagreiras, almofias, tumadeiras,
+almaraxas, escalfadores, confeiteiras, perfumadores,
+esquentadores, brazeiros, pomas-candis, alcaforeiros,
+taxos de perfumar luvas, copas, ta&ccedil;as,
+gomis, bacias d'agua &aacute;s m&atilde;os, ma&ccedil;as,
+chaparias
+de gualdrapa, andilhas, estribos, taboas de cavalgar,
+guarni&ccedil;&otilde;es de cavallo, com rosas, sostinentes
+e copos; cofrinhos, arrecadas, firmaes, pontas de
+ouro, brochas de livro, cadeias, guarni&ccedil;&otilde;es de
+coifa, tran&ccedil;adeiras, crochetes, cintas, tiras de
+cabe&ccedil;a,
+tiratestas, dormideiras de ouro para volantes,
+e as contas variadissimas de filigrana mourisca,
+de ambar das Maldivas, de almiscar da
+China, de rubis do Pegu, de diamantes de Narsinga,
+de perolas de Kalckar.
+<br />
+
+<br />
+
+6.&ordm; <em>As
+embarca&ccedil;&otilde;es</em>&#8213;gale&otilde;es,
+naus, caravellas,
+bergantins, fustas, toda essa portentosa
+collec&ccedil;&atilde;o
+dos nossos barcos de guerra e dos t&atilde;o variados
+typos empregados na cabotagem e na pesca, testemunhos
+sobreviventes ainda hoje do nosso genio
+maritimo e das suggest&otilde;es do mais remoto
+<span class="pagenum">[101]</span>
+trato do oceano, como se demonstra na forma
+dos saveiros, que trouxemos do Bosforo, e na da
+muleta do Seixal, que &eacute; o navio grego do tempo
+de Herodoto.
+<br />
+
+<br />
+
+7.&ordm; <em>A olaria e a cestaria popular</em>,
+em que t&atilde;o atticamente
+se affirma o hereditario engenho artistico
+da nossa ra&ccedil;a, e cujos productos tanto se compraziam
+em reproduzir os nossos pintores.
+<br />
+
+<br />
+
+8.&ordm; Emfim: <em>A psychologia das
+figuras</em> pela physionomia,
+pelo gesto, pelo sorriso, pelo olhar; os
+usos e os costumes; os temperamentos predominantes;
+a moda, o toucado; o corte do cabello, o
+talho da barba, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Da pintura portugueza, que constitue a mais importante
+parte da riqueza artistica da na&ccedil;&atilde;o,
+n&atilde;o
+ha por&eacute;m catalogo, nem inventario, nem rol. Nos
+nossos depositos de antigos quadros, em Lisboa,
+em Coimbra, em Vizeu, em Thomar, em Lamego,
+em Evora, em Setubal, o povo portuguez passa
+indifferente, abstrahido, expatriado, sem guia que
+o condusa &aacute;s fontes da tradi&ccedil;&atilde;o e da
+nacionalidade,
+em que cada um de n&oacute;s tem a mais restricta
+e a mais instante obriga&ccedil;&atilde;o de ir retemperar e
+fortalecer
+<span class="pagenum">[102]</span>
+de portuguezismo o seu sangue, dessorado
+pela mais falsa educa&ccedil;&atilde;o a que se pode condemnar
+um paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha collec&ccedil;&atilde;o publica,
+chronologicamente
+completa, dos nossos incomparaveis azulejos. Esta
+industria artistica &eacute; no emtanto d'aquellas de que
+mais legitimamente nos podemos gloriar. At&eacute; o
+seculo XVII o azulejador portuguez acompanhou a
+evolu&ccedil;&atilde;o peninsular, de influencia mudegar e de
+influencia italiana. Desde o seculo XVII adoptamos
+o gosto hollandez, e no seculo XVIII os nossos artistas
+desenvolvem no azulejo azul e branco, em
+vastas composi&ccedil;&otilde;es historicas e de genero,
+paizagens,
+merendas, ca&ccedil;adas, allegorias religiosas e
+lendas monasticas, enquadradas em bellas grinaldas
+polychromicas, o mais seguro e adestrado talento
+de composi&ccedil;&atilde;o historica e decorativa.
+<br />
+
+<br />
+
+Raro ser&aacute; o anno em que de Portugal n&atilde;o tenha
+desapparecido um quadro inestimavel ou um
+codice precioso, sem qualquer apparencia de
+coher&ccedil;&atilde;o,
+sem o minimo reparo, ao menos, do poder
+executivo, das c&ocirc;rtes ou da imprensa. &Aacute; hora
+a que escrevo estas linhas me dizem que est&aacute; &aacute;
+<span class="pagenum">[103]</span>
+venda ou vendido em Londres um livro de horas
+com que o rei D. Manoel brind&aacute;ra um fidalgo da
+sua c&ocirc;rte, ordenando-lhe que vinculasse esse manuscripto,
+que era uma gloria da na&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute;, em rigor da verdade, muito mais risonho
+que o destino das obras d'arte que saem para
+o estrangeiro o destino das que ficam no paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; bem conhecida a historia do primeiro dos
+nossos museus industriaes, fundado em Lisboa
+por Fradesso da Silveira. Esse museu extinguiu-se
+suavemente, a pouco e pouco, at&eacute; chegar a
+n&atilde;o existir do deposito primitivo sen&atilde;o unica e
+exclusivamente as prateleiras em que elle havia
+sido collocado.
+<br />
+
+<br />
+
+O rico museu das antiguidades do Algarve, recolhidas
+ha dezeseis annos por Estacio da Veiga,
+ainda hoje se n&atilde;o acha instalado.
+<br />
+
+<br />
+
+Da inestimavel collec&ccedil;&atilde;o das antigas
+pe&ccedil;as de
+lou&ccedil;a e de obras de barro, que haviam pertencido
+ao convento da Madre de Deus, e que o architecto
+Nepomuceno recolhera em uma das casas d'aquelle
+edificio, desappareceu tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+T&atilde;o vasta &eacute; a nossa riqueza artistica e
+t&atilde;o profundo
+<span class="pagenum">[104]</span>
+o desleixo de a escripturar, que s&atilde;o quasi
+t&atilde;o frequentes as surpresas no que se encontra
+como no que se perde.
+<br />
+
+<br />
+
+Como exemplo direi que era assentado n&atilde;o haver
+em Portugal vestigio algum da influencia immediata
+de Van Eik na pintura portugueza, e n&atilde;o
+existir do infante D. Henrique, o Navegador, mais
+que um retrato, na miniatura annexa ao bello
+manuscripto de Azurara, presentemente propriedade
+da <em>Biblioth&egrave;que
+Nationale</em>, em Paris. &Eacute; entretanto
+nosso, e existe em Portugal, um retrato egualmente
+contemporaneo e authentico, em tamanho
+natural, magistralmente pintado a oleo sobre madeira.
+Esse retrato precioso, inteiramente desconhecido
+do publico, eu mesmo o vi no dia 19 do
+mez de julho de 1895. Faz parte de um grupo de
+varios personagens, &eacute; da segunda metade do seculo
+xv, e pertence a um jogo de quatro paineis, de
+dimens&otilde;es eguaes, relacionados entre si por analogia
+de data e de assumpto. Est&aacute; bem conservado,
+e acha-se, com os tres da serie a que pertence, no
+corredor do claustro de cima no edificio de S. Vicente
+de F&oacute;ra, no v&atilde;o de uma janella, junto dos
+<span class="pagenum"><a name="p105" id="p105">[105]</a></span>
+aposentos habitados n'essa occasi&atilde;o por s. ex.<sup>a</sup>
+revd.<sup>ma</sup> o sr. <a href="#e4">arcebispo</a>
+de Mitylene.
+<br />
+
+<br />
+
+O illustre escriptor inglez sr. Prestage mandou
+fazer d'esse retrato uma reproduc&ccedil;&atilde;o
+photographica,
+destinada a illustrar a nova edi&ccedil;&atilde;o ingleza
+da <em>Chronica da Guin&eacute;</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Na linda egreja do convento de Santa Iria, que
+o fallecido architecto Nepomuceno comprou por
+300$000 r&eacute;is, e se achava encorporada no mosteiro
+fundado por D. Maria de Queiroz, viuva de
+Pedro Vaz de Almeida, veador da fazenda do infante
+D. Henrique, ha um retabulo em baixo relevo
+de bella pedra d'An&ccedil;an, que &eacute; simplesmente,
+pelo desenho, pelo stylo, pela m&atilde;o d'obra e pelo
+estado de conserva&ccedil;&atilde;o em que se acha, uma das
+obras capitaes da esculptura da Renascen&ccedil;a em
+Portugal. Comp&otilde;e-se de dezesete figuras. Junto
+da cruz, de que pende a mais ideal figura do Redemptor,
+est&aacute; prostrada Santa Maria Magdalena.
+Acompanham-a a Senhora da Soledade, as tres
+Marias, Nicodemus, Jos&eacute; de Arimathea e S. Jo&atilde;o
+Evangelista. No primeiro plano, dois soldados a
+cavallo, em magnifico trage do seculo XVI. Enquadra
+<span class="pagenum">[106]</span>
+a composi&ccedil;&atilde;o um bello portico, de columnas
+e tabellas preciosas, chancellado pelo braz&atilde;o dos
+Valles. S&oacute; outro Calvario, o do claustro do Silencio,
+em Coimbra, obra, por certo, do primeiro dos
+esculptores de Santa Cruz, hoje profundamente
+cariada e quasi delida, se poderia comparar, de
+par com o pulpito da mesma egreja, &aacute; esquecida
+esculptura da abandonada egreja de Thomar.
+<br />
+
+<br />
+
+Em egual descaso e esquecimento, ignorado da
+grande maioria dos viajantes e dos estudiosos, o
+monumental e sumptuosissimo panth&eacute;on dos Silvas,
+da preclara familia de D. Ruy Gomes, em S.
+Marcos, cerca de Coimbra. O bello portal alpendrado
+d'esta egreja tem a data de 1510. Os cinco
+sarcophagos de que se comp&otilde;e o jazigo verdadeiramente
+regio dos Silvas, assim como o retabulo
+em pedra no altar m&oacute;r da egreja constituem uma
+preciosidade esculptural de valor incomparavel.
+Este admiravel repositorio da nossa esculptura
+quinhentista foi ha poucos annos vendido, com a
+cerca adjunta do extincto mosteiro, pela quantia
+de seis contos de r&eacute;is.
+<br />
+
+<br />
+
+Os preciosos quadros da pintura portugueza do
+<span class="pagenum">[107]</span>
+seculo XVI, completamente desarrolados, despercebidos
+dos compradores extrangeiros, e ainda hoje
+dispersos pelo paiz, s&atilde;o em numero talvez superior
+aos dos quadros de mesma &eacute;poca recolhidos
+pelo estado depois da aboli&ccedil;&atilde;o das ordens
+religiosas.
+O illustre critico sr. Joaquim de Vasconcellos
+tem, s&oacute; &aacute; sua parte, noticia de n&atilde;o
+menos de cem
+obras desconhecidas do publico. Das que existem
+no Museu Nacional de Lisboa, na arrecada&ccedil;&atilde;o da
+Academia das Bellas Artes e nos demais depositos
+do paiz, n&atilde;o ha uma s&oacute; photographia registrada
+pelo Estado, &aacute; semelhan&ccedil;a do que se faz em todos
+os museus do mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Por occasi&atilde;o da ultima exposi&ccedil;&atilde;o,
+t&atilde;o interessante,
+realisada nas salas devolutas, das Janellas
+Verdes, para celebrar o Centenario de Santo Antonio,
+a direc&ccedil;&atilde;o das Bellas Artes n&atilde;o
+respondeu
+ao pedido da modesta quantia de 50$000 r&eacute;is
+que a commiss&atilde;o executiva da mesma
+exposi&ccedil;&atilde;o
+lhe dirigiu para que se publicasse o respectivo
+catalogo, que ficou em manuscripto na m&atilde;o do
+redactor.
+<br />
+
+<br />
+
+Por essa mesma occasi&atilde;o os peritissimos e benemeritos
+<span class="pagenum">[108]</span>
+photographos portuenses Emilio Biel &amp;
+Companhia, aos quaes t&atilde;o valiosos e desinteressados
+servi&ccedil;os devem as artes portuguezas, dirigiram
+ao governo uma proposta para reproduzir
+pela photographia,&#8213;sem subsidio algum do thesouro&#8213;todos
+os objectos expostos no palacio das
+Janellas Verdes. Esta proposta ficou egualmente
+sem despacho.
+<br />
+
+<br />
+
+Inutil me parece alludir ainda &aacute; dispers&atilde;o das
+mais ricas pe&ccedil;as do mobiliario portuguez do seculo
+XVI e d'essa segunda renascen&ccedil;a artistica e
+industrial do nosso seculo XVIII.
+<br />
+
+<br />
+
+Bufetes, arcas, armarios, contadores, tape&ccedil;arias
+da Persia, bordados e rendas do reino, couros lavrados
+e guadamecins, azulejos, porcellanas antigas
+da India, do Jap&atilde;o e da China, credencias,
+leitos torcidos ou empennachados, canap&eacute;s e cadeiras
+curvilineas ao gosto da Pompadour de Odivellas,
+espelhos afestoados, de toucador e de sacristia,
+damascos da Real Fabrica das sedas, lou&ccedil;as
+artisticas do Rato, da Bica do Sapato, do
+Porto, de Vianna, do Cavaquinho, da Panasqueira,
+de Darque, das Caldas, de Estremoz, de Coimbra,
+<span class="pagenum">[109]</span>
+tudo o bric-&agrave;-brac extrangreiro nos leva em
+cada anno, com uma cubi&ccedil;a e uma rapacidade
+que bem melancholicamente lembra a dos enviados
+de Verres no saque da Sicilia, do qual dizia
+Cicero que s&oacute; ficou da arte o que a ganancia n&atilde;o
+quiz. Ainda ha Verres, como no tempo do velho
+mestre romano, mas j&aacute; n&atilde;o ha verrinas.
+<br />
+
+<br />
+
+D'esta desorganisa&ccedil;&atilde;o geral de toda a policia
+da arte resulta mais ou menos lentamente, a quebra
+da tradi&ccedil;&atilde;o esthetica nacional, que &eacute;
+a seiva
+de toda a produc&ccedil;&atilde;o artistica.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; infecunda&ccedil;&atilde;o do individuo pelo
+espirito da
+ra&ccedil;a corresponde o desfallecimento do poder creativo,
+a inercia da intelligencia, a esterilidade do
+estudo, a degenera&ccedil;&atilde;o da phantasia, o
+abandalhamento
+do gosto, a atrophia do proprio caracter, e,
+em ultimo resultado da decadencia geral, a
+desnacionalisa&ccedil;&atilde;o
+pelintra de todo um povo.
+<br />
+
+<br />
+
+Com o rebaixamento da arte rebaixa-se tudo,
+porque no mundo &eacute; producto da arte tudo o que
+n&atilde;o &eacute; unicamente obra da natureza.
+<br />
+
+<br />
+
+O homem degenera, porque, sempre e em toda
+a parte, o homem toma fatalmente a configura&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[110]</span>
+das coisas que o rodeiam e, para assim dizer, lhe
+enformam a personalidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou
+pela inepcia de abastardadas classes dirigentes, os
+fieis debandam por n&atilde;o haver egreja que os reuna,
+e &eacute; j&aacute; evidente esta enorme catastrophe: que na
+arte de Portugal faltam cora&ccedil;&otilde;es portuguezes.
+<br />
+
+<br />
+
+Fere-nos j&aacute; esse phenomeno consternador em
+todos os aspectos da vida intellectual.
+<br />
+
+<br />
+
+Em resultado de n&atilde;o termos uma historia geral
+da arte portugueza, devidamente systematisada
+e integralmente documentada em cada um dos
+seus capitulos, vemos grassar, n&atilde;o s&oacute; entre o
+vulgo
+mas entre pessoas de saber, incumbidas de guiar
+e de reger a opini&atilde;o, o erro criminoso, profundamente
+desmoralisante, de que somos um povo
+inesthetico, incapaz de concep&ccedil;&otilde;es artisticas
+originaes.
+<br />
+
+<br />
+
+A juventude litteraria, dotada de uma consideravel
+for&ccedil;a de applica&ccedil;&atilde;o e de talento,
+traz-nos
+uma poetica exotica, de climas nevoentos, anti-meridional,
+e vem falando uma lingua secreta, cabalistica,
+interessantemente engenhosa, incomprehensivel
+<span class="pagenum">[111]</span>
+para o povo e para todos os que n&atilde;o estiverem
+iniciados na morphologia espiritica das
+novas seitas.
+<br />
+
+<br />
+
+Em toda a historiographia contemporanea se
+nota uma glacial frieza de critica, uma anemica
+pallidez de express&atilde;o, um geral entono de
+apagada tristeza, em que bem se demonstra que
+n&atilde;o circula o sangue vermelho da ra&ccedil;a, nem se
+retrata
+do vivo o genio do nosso povo, meigo, docil,
+de apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente
+sociavel, amando a grande alegria estridente
+das feiras, das tardes de touros, das romarias
+dos seus santos populares, conservando nas
+infimas camadas sociaes um residuo trovadoresco,
+de paladino e de menestrel, susceptivel ainda das
+paix&otilde;es mais profundas, todo de
+improvisa&ccedil;&atilde;o e
+de repentismo, capaz das coisas mais imprevistamente
+grandes, poetico, aventuroso e destemido.
+<br />
+
+<br />
+
+Na poesia, assim como na pintura e na musica,
+n&atilde;o ha uma escola portugueza, porque, na falta
+de la&ccedil;o social que congregue os nossos artistas,
+sem elementos coordenados de estudo, sem modelos
+patentes, sem li&ccedil;&atilde;o commum, n&atilde;o ha
+entre
+<span class="pagenum">[112]</span>
+elles mutuamente, nem entre elles e o povo de
+que derivam, communh&atilde;o alguma de ideal ou de
+sentimento.
+<br />
+
+<br />
+
+Por egual raz&atilde;o n&atilde;o teem caracter nacional,
+sendo portanto destituidas de originalidade, e
+como taes inaptas para a luta da concorrencia
+mercantil, todas as nossas industrias.
+<br />
+
+<br />
+
+A decapita&ccedil;&atilde;o official da nossa
+educa&ccedil;&atilde;o artistica
+manifesta-se ainda de mais perto, acotovelando-nos
+e contundindo-nos por toda a parte, no aspecto
+do povo, na apparencia das casas, na esthetica
+das cidades, na apparencia dos predios, na
+decora&ccedil;&atilde;o das pra&ccedil;as, das avenidas,
+dos cemiterios,
+dos jardins publicos, das lojas, das reparti&ccedil;&otilde;es
+do estado e das habita&ccedil;&otilde;es particulares.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Lisboa, por exemplo, onde n&atilde;o ha uma
+sala de concertos populares, nem vem tocar para
+a rua a musica dos regimentos, onde no theatro
+de Dona Maria se n&atilde;o representa Gil Vicente
+nem Garrett, onde no theatro de S. Carlos se n&atilde;o
+canta Marcos Portugal, onde n&atilde;o ha um museu
+de arte decorativa, nem um simples mostruario da
+nossa produc&ccedil;&atilde;o industrial, nem um museu de
+pintura,
+<span class="pagenum">[113]</span>
+coordenado, catalogado e etiquetado de maneira
+que communique ao publico, assim como
+em todas as outras capitaes da Europa, a li&ccedil;&atilde;o
+que um museu cont&eacute;m, ha pelo contrario escaparates
+de apparatosos armazens, que s&atilde;o para
+quem anda pelas ruas o contagioso exemplo da
+mais corrompida pervers&atilde;o, do mais provocante e
+pomposo relismo a que pode chegar o desvairamento
+do gosto. Mobilias em tal maneira degeneradas
+que n'ellas desappareceu de todo o material
+de construc&ccedil;&atilde;o. A almofada que em toda a
+antiguidade
+e em toda a edade m&eacute;dia era um accessorio
+movel, e s&oacute; no seculo XVI se principiou a
+fixar com pregos ao banco ou &aacute; cadeira, invade
+bo&ccedil;almente todo o movel, armado em ripes de
+pinho, como uma e&ccedil;a de defunto, embrulhado em
+pelucia, que nos esburaca os olhos pela insolente
+m&aacute; crea&ccedil;&atilde;o da c&ocirc;r. E
+horripilantes lindices de toucador,
+de escriptorio ou de sala, em que tudo parece
+apostado em ser fingido, desde a etrusca
+ondula&ccedil;&atilde;o
+do contorno at&eacute; o material empregado,
+porque todas as linhas s&atilde;o aleijadas, a prata &eacute;
+zinco, o marfim &eacute; gesso, o char&atilde;o &eacute; de
+papel e o
+<span class="pagenum">[114]</span>
+marmore esculpido &eacute; de sab&atilde;o. E tudo isso se
+compra e se leva para casa, para infectar a familia,
+para corromper o lar e para escrofulisar moralmente
+os meninos, desconjuntando-os de dignidade
+domestica, inoculando-os de pelintrice e
+de canalhismo de casta para a vida toda.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha uma avenida monumental em que, ao longo
+dos passeios destinados ao transito do publico,
+em vez da ornamenta&ccedil;&atilde;o da flora regional, em
+vez dos longos massi&ccedil;os de castanheiros, de laranjeiras,
+de palmeiras e de bananeiras, como
+em Barcelona e em Sevilha, esverdinham e apodrecem
+dois miseros e infectos arroios artificiaes
+no fundo de flexuosas ravinas, gretando sinuosamente
+o solo, como canos dissimuladamente
+abertos em fosquinhas para trambulh&otilde;es do viandante.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos predios a prodigalidade vesanica das janellas
+percorre a superficie das fachadas, havendo
+frontarias que parecem construidas unicamente
+com hombreiras contiguas e sobrepostas; e, ao
+passo que em cidades amoraveis e artisticas se
+criam premios e se abrem concursos de janellas
+<span class="pagenum">[115]</span>
+floridas, em Lisboa &eacute; prohibido ornamentar de flores
+o frontespicio das casas.
+<br />
+
+<br />
+
+Os lindos <em>empedrados</em> e
+<em>embrechados</em> de
+tradi&ccedil;&atilde;o
+portugueza caem em desuso, substituidos por cimentos
+incompativeis com a ac&ccedil;&atilde;o do nosso clima.
+<br />
+
+<br />
+
+O t&atilde;o commodo, t&atilde;o modico e t&atilde;o
+gracioso
+typo da nossa antiga casa de campo &eacute; substituido
+nas construc&ccedil;&otilde;es modernas pelas f&oacute;rmas
+de um
+exotismo composito, as mais delambidas, mais
+pretenciosas e mais chinfrins, hybrida confus&atilde;o
+allucinada do ch&acirc;let suisso, do cottage inglez, da
+fortaleza normanda, do minarete tartaro e da mesquita
+moira,&#8213;nodoa e vexame da paizagem portugueza
+nas redondezas de Lisboa. Em presen&ccedil;a
+de um t&atilde;o inverosimil scenario de magica, de operetta
+ou de revista do anno, ninguem, desajudado
+de outras indica&ccedil;&otilde;es, anedocticas e
+chorographicas,
+ser&aacute; capaz de adivinhar em que parte do mundo e
+entre que casta de gente se est&aacute; passando a pe&ccedil;a.
+Tal &eacute; a delirante epidemia de que est&atilde;o
+combalidos
+os constructores contemporaneos, que, para
+ter um indicio nacional da nossa tradi&ccedil;&atilde;o, entre
+as
+casas de campo ou de praia construidas em torno
+<span class="pagenum">[116]</span>
+de Lisboa nos ultimos vinte annos, temos de ir a
+Cascaes v&ecirc;r o typo, unico, da habita&ccedil;&atilde;o
+dos condes
+de Arnozo, t&atilde;o saudosamente semelhante &aacute;
+casa de nossos av&oacute;s, com o seu pequeno eirado
+sobre uma arcaria de meio ponto, a sua porta de
+alpendre n'um patamar de escada exterior, ao lado
+do retabulo em azulejo do santo padroeiro da familia,
+as janellas de peitos guarnecidas de rotulas
+entre cachorros de pedra, destinados &aacute;s varas do
+estendal, e servindo de misula aos vasos de craveiros
+e de mangericos, em frente do po&ccedil;o de roldana,
+no mais doce e tranquillo sorriso d'outr'ora.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos mesmos letreiros das esquinas de ruas encontram-se
+denomina&ccedil;&otilde;es que esbofeteiam o pundonor
+patriotico, a cultura historica e a dignidade
+esthetica dos habitantes.
+<br />
+
+<br />
+
+No Bairro Alto, onde a nomenclatura das ruas
+t&atilde;o sympathicamente suggeria a lembran&ccedil;a bucolica
+da antiga fazenda suburbana, em que os jesuitas
+de S. Roque delinearam a nova cidade, como
+a rua da <em>Vinha</em>, a do
+<em>Moinho de Vento</em>, a do
+<em>Po&ccedil;o</em>,
+a do <em>Carvalho</em>, a da
+<em>Rosa</em>, a da
+<em>Atalaia</em>, ou os nomes
+dos officios que ahi primitivamente se arruaram,
+<span class="pagenum">[117]</span>
+como os <em>Calafates</em> e as
+<em>Gaveas</em>, apaga-se,
+como n'uma rasura de conta falsificada, esse lindo
+e piedoso vestigio da tradi&ccedil;&atilde;o lisboeta, para dar
+&aacute;s
+ruas nomes novos e incaracteristicos, de sujeitos
+que n'ellas moram ou se diz que por l&aacute; passaram.
+E com egual afouteza se dissolvem, n'um borr&atilde;o
+de brocha, sagrados disticos, ainda mais estreitamente
+vinculados &aacute; historia do povo e &aacute; historia
+da cidade, como o da Rainha Santa Isabel, como
+o dos Martyres de Marrocos.
+<br />
+
+<br />
+
+Os trages populares, alguns t&atilde;o pittorescos, t&atilde;o
+suggestivos e t&atilde;o bellos, como os das mulheres da
+Murtosa, da Maia, de Santa Martha e de Portuzello,
+como o dos boieiros do Ribatejo, dos pescadores
+de Ilhavo e da Povoa, e dos montanhezes
+do Alemtejo e do Algarve, degeneram e abastardam-se
+ridiculamente, porque n&atilde;o ha entre a gente
+culta quem preze esse trage, quem o honre e quem
+o entenda.
+<br />
+
+<br />
+
+Egualmente se desdenham e repudiam, por espirito
+de inconcebivel extrangeirismo, os productos
+primorosos de algumas das nossas industrias
+populares.
+<span class="pagenum">[118]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Nenhum outro povo matiza com mais harmonia
+de c&ocirc;r e mais gra&ccedil;a de risco esses tecidos
+dos teares ou dos bastidores caseiros, combinados
+com estopa, com linho, com l&atilde; ou com algod&atilde;o,
+de que se fazem os panos liteiros, as sirguilhas,
+as saias e os aventaes das mulheres de
+Vianna, e bem assim as colxas de linho bordadas
+a frouxo na Beira, e os tapetes chamados de Arrayolos.
+Nenhum outro povo sabe tornear na
+roda do oleiro com mais esbelteza e mais puro
+atticismo o pote ou a bilha de barro, a pucara, o
+gomil e o pichel, de Coimbra, do Prado, de Mafra,
+de Redondo, de Loul&eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Se ninguem mais artisticamente do que o portuguez
+sabe vestir a mulher, arrear o cavallo, engatar
+a mula, e moldar a vasilha, ninguem, t&atilde;o
+pouco, melhor do que elle emalha a rede e enastra
+o cesto.
+<br />
+
+<br />
+
+Dizem inglezes que metade da sua arte contemporanea
+se deve &aacute; iniciativa e &aacute; propaganda do
+grande critico nacional John Ruskin, que Tolsto&iuml;
+considera um dos maiores homens do seculo, e a
+quem Carlyle chamava o <em>ethereal
+Ruskin</em>. Este
+<span class="pagenum">[119]</span>
+glorioso campe&atilde;o da esthetica e da arte em todas
+as suas mais complexas e mais variadas
+manifesta&ccedil;&otilde;es
+n&atilde;o pode deixar de ser lembrado por todos
+os que se interessam em taes assumptos. Os
+seus numerosos livros sobre historia da arte, sobre
+a architectura, sobre a pintura, sobre as artes
+decorativas e as artes industriaes, os seus profundos
+estudos de <em>Turner e os antigos</em> e dos
+<em>Pintores
+modernos</em>, a sua triumphante campanha em favor
+dos monumentos historicos, das industrias ruraes,
+dos preraphaelitas, das paizagens inglezas, s&atilde;o
+um verdadeiro monumento litterario, e a bibliographia
+que se lhe refere constitue toda uma litteratura,
+famosa na Inglaterra sob o nome consagrado
+de <em>ruskineana</em>. Grande homem de
+ac&ccedil;&atilde;o,
+gloria dos da sua ra&ccedil;a, tomando por divisa
+<em>To day</em>,
+Ruskin n&atilde;o se emparedou, como a maioria dos
+criticos, na torre eburnea dos extases poeticos e
+das contempla&ccedil;&otilde;es expeculativas. Tendo consumido
+rapidamente mil contos de r&eacute;is da legitima
+paterna em subven&ccedil;&otilde;es das mais generosas empresas
+sociaes, em dadivas aos museus, em soccorro
+dos pobres, em funda&ccedil;&otilde;es de escolas e de
+<span class="pagenum">[120]</span>
+officinas, reconstituindo pela venda dos seus livros,
+(a trinta contos a edi&ccedil;&atilde;o) um rendimento de
+riquissimo proprietario, elle fez-se gratuitamente
+professor de desenho, industrial e operario. Organisou
+a casa editora das suas proprias obras, a
+<em>Ruskin House</em>, fundou a
+<em>Saint-George's Guild</em>, em
+Londres, a Sociedade Protectora dos Monumentos
+Architectonicos, e as sociedades de leitura de Manchester,
+de Glascow e de Liverpool; ensinou a
+Inglaterra a comprehender a obra de Turner; fundou
+o culto dos primitivos, introduzindo na <em>National
+Gallery</em> os preciosos quadros de Benozzo
+Gozzoli, de Perugino, de Botticelli, de todos os
+grandes predecessores de Raphael; e deu &aacute; arte
+todo um novo ideal e uma religi&atilde;o nova, creando
+uma pleiade brilhantissima de proselytos, de collaboradores
+e de discipulos, entre os quaes figuram
+Madox Brown, Rosseti, Collingwood, Millais,
+Morris, Thomaz Dean, Woodward, Munro, Hunt,
+Burne Jones, Hook e Brett, e Giacomo Boni, o
+actual conservador dos monumentos nacionaes da
+Italia. Foi elle emfim que deu a mais alta express&atilde;o
+&aacute; auctoridade esthetica em nossos tempos, impedindo,
+<span class="pagenum">[121]</span>
+em nome da arte, que um tra&ccedil;ado de caminho
+de ferro deturpasse a belleza de uma collina
+na paizagem ingleza, e levando uma commiss&atilde;o
+da Camara dos Lords a consultar uma commiss&atilde;o
+de artistas sobre se a passagem de uma
+linha ferrea n&atilde;o affectaria ruinosamente a parte
+de riqueza publica representada pela tranquilla e
+doce poesia de certo valle.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; por&eacute;m com um intuito especial,&#8213;a proposito
+das nossas t&atilde;o resistentes industrias tradicionaes
+e domesticas,&#8213;que eu invoco o nome
+glorioso de Ruskin.
+<br />
+
+<br />
+
+O trabalho rural da fia&ccedil;&atilde;o &aacute;
+m&atilde;o e da tecelagem
+no estreito e primitivo tear caseiro achava-se
+totalmente extincto na tradi&ccedil;&atilde;o ingleza. Ruskin,
+considerando os poderosos elementos de economia,
+de moralidade, de satisfa&ccedil;&atilde;o, de
+educa&ccedil;&atilde;o
+esthetica e de intima poesia, destruidos pela suppress&atilde;o
+d'essa antiga actividade artistica da familia
+no campo inglez, dedicou-se com um esfor&ccedil;o
+portentoso a fazer reviver em Langdale e em Keswick
+a extincta industria caseira dos panos de linho
+e dos panos de l&atilde; em pequenas manufacturas
+<span class="pagenum">[122]</span>
+domesticas, tendo por unico auxiliar da for&ccedil;a individual
+uma vela de moinho nos cabe&ccedil;os das
+collinas ou a corrente da agua &aacute; beira dos riachos.
+Elle mesmo d&aacute; o exemplo da nova
+organisa&ccedil;&atilde;o
+do trabalho na familia, construindo o seu
+famoso moinho de Laxey. Recomp&otilde;e-se uma antiga
+roda de fiar com as pe&ccedil;as desarticuladas e
+esquecidas de um d'esses abandonados apparelhos
+encontrados em casa de uma velha tecedeira.
+&Eacute; reconstruido um primitivo tear sobre o modelo
+florentino e medieval de um quadro de Giotto.
+Ruskin envolve esse novo movimento retrogrado
+do trabalho na propaganda mais activa e mais
+eloquente. A sua palavra calorosamente apaixonada,
+colorida e mordente, encontra em todo o
+Reino Unido um ecco extraordinario. As teias do
+novo linho caseiro, um tanto rugoso, um tanto irregular,
+cegado no campo, espadelado, assedado,
+fiado, c&oacute;rado e tecido pela mesma m&atilde;o de mulher,
+&aacute; porta ou &aacute; janella de uma cabana, ao ar
+dos campos, ao ramalhar das faias, ao canto das
+cotovias, denotando nos accidentes da factura,
+como n'uma obra d'arte, a caracteristica individualidade
+<span class="pagenum">[123]</span>
+do artifice, substituida &aacute; banal
+perfei&ccedil;&atilde;o
+estupida e antipathica do apparelho mechanico,
+desbanca rapidamente a obra da fia&ccedil;&atilde;o a
+vapor, cae em moda entre as pessoas de gosto
+aperfei&ccedil;oado, recebe a alta protec&ccedil;&atilde;o
+da princeza
+de Galles, torna-se de rigor em todos os enxovaes
+elegantes, e faz-se pagar mui remuneradoramente
+por pre&ccedil;os consideravelmente superiores ao dos
+productos da grande industria mechanica.
+<br />
+
+<br />
+
+Exito egual ao dos panos de linho na industria
+caseira dos lanificios na ilha de Man. &Eacute; conhecida
+n&atilde;o s&oacute; em toda a Inglaterra mas em toda a Europa
+a fama d'esses resistentes tecidos ruraes fabricados
+&aacute; m&atilde;o, de desenhos combinados na urdidura
+e na trama com as c&ocirc;res naturaes da l&atilde;,
+sem preparo algum chimico ou mechanico, de tintura
+ou de acabamento; e a mais cara de todas as
+fazendas de luxo para traje de trabalho, de ca&ccedil;a,
+de viagem, de equita&ccedil;&atilde;o, &eacute; o famoso
+<em>homespun</em> ou
+<em>Laxey homespun</em>, do nome da
+localidade em que
+se estabeleceu o primeiro moinho de Ruskin. &Eacute;
+a esta evolu&ccedil;&atilde;o das pequenas industrias ruraes,
+hombreando em valor remunerativo com as grandes
+<span class="pagenum">[124]</span>
+industrias, e n&atilde;o a destructiva
+absorp&ccedil;&atilde;o do
+trabalho da familia pelo trabalho das grandes empresas
+fabris que eu chamo
+<em>transforma&ccedil;&atilde;o de industrias
+caseiras em industrias de concorrencia</em>,&#8213;formula
+que geralmente se toma em sentido diverso
+d'aquelle que eu lhe ligo.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Portugal &eacute; certo que definham de dia para
+dia, e que successivamente se v&atilde;o extinguindo as
+nossas velhas industrias ruraes. Esmorece calamitosamente,
+por culpa da administra&ccedil;&atilde;o economica
+dos nossos governos, a industria delicadissima
+das obras de filigrana de ouro e de prata,
+ainda em nossos dias servida por numerosas familias
+ruraes dos districtos do Porto e de Braga.
+Morreu em Bragan&ccedil;a a industria da sericultura
+e a da fabrica&ccedil;&atilde;o do veludo. Acabou em
+Guimar&atilde;es,
+entre outras industrias interessantissimas, a
+da manufactura caseira das sedas e dos brocados.
+No Algarve talvez que j&aacute; hoje se n&atilde;o
+fa&ccedil;a um
+unico trabalho de pita. Tem diminuido consideravelmente
+o numero dos teares caseiros na Covilh&atilde;,
+na serra de Monchique, na serra da Estrella.
+Nas margens do Lima, por&eacute;m, entre Vianna
+<span class="pagenum">[125]</span>
+do Castello e Ponte de Lima, ha ainda algumas
+das mulheres mais lindas e das mais bem educadas
+de todas as portuguezas, que fiam e tecem
+em suas casas o linho, a l&atilde;, o algod&atilde;o, e se
+vestem
+completamente, da maneira mais elegante,
+com os tecidos mais consistentes e mais bellos,
+de sua fabrica&ccedil;&atilde;o exclusiva em todas as phases
+por que passa a materia prima, desde que &eacute; cegada
+no campo ou tosquiada no carneiro at&eacute; se
+converter em vestido. &Aacute; feira semanal de Vianna
+as raparigas d'essa regi&atilde;o trazem em lindas canastras,
+al&eacute;m dos ovos e dos frangos que criam, al&eacute;m
+da manteiga que fabricam, as teias de pano de linho,
+os cortes de saias de l&atilde; e de algod&atilde;o, as
+pe&ccedil;as
+de sirguilha, que tecem, e as rendas que fabricam
+a bilros ou &aacute; agulha. As de Villa Nova de
+Ourem fazem ainda fitas excellentes; e no mercado
+de Thomar vende-se em graciosos novellos
+da f&oacute;rma de casulos a melhor linha, branca ou
+preta, que se pode comprar em Portugal. Conserva-se
+ainda a antiga tradi&ccedil;&atilde;o das
+<em>mantas do Alemtejo</em>,
+citadas j&aacute; por Gil Vicente na
+<em>Far&ccedil;a dos almocreves</em>,
+a dos liteiros e mantas de retalhos, a dos
+<span class="pagenum">[126]</span>
+lindos alforges da Extremadura, do Alemtejo e do
+Algarve, de Minde, d'Alte e de Redondo, e a
+d'esses famosos tecidos de l&atilde;, que s&atilde;o o
+<em>homespun</em>
+portuguez, e que em sua variedade se denominam
+bureis, estamenhas, briches, sarago&ccedil;as, jardos,
+sorrubecos.
+<br />
+
+<br />
+
+Meditemos na maravilhosa obra operada por
+Ruskin n'um sentido esthetico, que &aacute; primeira
+vista se figura retrogrado, mas que encerra talvez
+em germen o destino futuro, preciosamente
+moralisante de todas as industrias, desde que os
+aperfei&ccedil;oamentos da electricidade desloquem o
+eixo do trabalho fabril, levando a casa de cada
+artifice por meio de um tenue fio de arame o
+quinh&atilde;o de for&ccedil;a que tem para distribuir por
+cada operario do seculo que vem o immenso e
+incalculavel esfor&ccedil;o propuls&ocirc;r do sopro dos
+ventos,
+do fluxo e refluxo das mar&eacute;s, da corrente dos
+rios, dos cyclones das Pampas ou das cataractas
+do Niagara. E em presen&ccedil;a da revolu&ccedil;&atilde;o
+das industrias
+caseiras da Inglaterra, onde todo o vestigio
+de tradi&ccedil;&atilde;o desapparecera, ponderemos o que
+se pode fazer em Portugal, onde a tradi&ccedil;&atilde;o
+sobrevive
+<span class="pagenum">[127]</span>
+com uma energia prodigiosa a todos os desdens
+e a todas as oppress&otilde;es que a esmagam!
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; notoria desde o seculo XVI a aptid&atilde;o artistica,
+que distingue o nosso marinheiro em todas as pequenas
+industrias de bordo, nos mais delicados,
+pacientes e engenhosos trabalhos tendo por base
+o cabo ou o fio de linho torcido ou entran&ccedil;ado.
+Ninguem como elle manus&ecirc;a os ferros e as
+amarra&ccedil;&otilde;es,
+o poleame e o talhame, o cabo, a adri&ccedil;a ou
+o pano. Ninguem como elle confecciona o coxim,
+a gaxeta, o mixelo, o unh&atilde;o, a bo&ccedil;a, a linga, o
+estropo,
+o repuxo, o massete ou a agulha. E n&atilde;o o ha
+mais dextro em lan&ccedil;ar a volta, em enastrar a pinha
+e em dar o n&oacute; de escota, de fateixa ou de botija,
+o n&oacute; direito e o n&oacute; torto, o de cogula, o de
+borla de pescador, ou o de espia. Em toda a nossa
+costa, desde o Minho at&eacute; o Guadiana, a enorme
+variedade de f&oacute;rmas nas embarca&ccedil;&otilde;es da
+pesca
+maritima, da pesca fluvial e da pesca lacustre,
+basta para evidenciar a persistencia da tradi&ccedil;&atilde;o
+no grande genio maritimo de t&atilde;o pequeno
+povo.
+<br />
+
+<br />
+
+Os que ainda v&atilde;o &aacute; pesca do bacalhau,
+&aacute; Terra
+<span class="pagenum">[128]</span>
+Nova, equipam de uma maneira especial a escuna
+ou o patacho, preferindo por&eacute;m o typo latino do
+hiate e do lugre. Os que v&atilde;o &aacute; cavalla,
+&aacute; pescada
+e ao sarraj&atilde;o, no mar de Larache, embarcam
+nos cahiques de Olh&atilde;o, semelhantes aos de
+toda a costa algarvia e aos de Lisboa e Setubal, de
+pr&ocirc;a redonda, apparelhando com dois bastardos.
+&Aacute; pesca do alto vae a lancha de Caminha, construida
+no portinho de Gontinh&atilde;es; a lancha p&oacute;veira,
+de bocca aberta, apparelhando com um s&oacute;
+mastro e a verga munida de uma grande vela latina;
+o <em>barco da pescada</em>, de Buarcos, de
+borda alta
+e duas pequenas toldas, apparelhando com dois
+mastros; o catraio da Nazareth; o <em>barco da
+sacada</em>,
+de Peninhe, de convez corrido com quatro escotilhas
+e dois mastros, com as vergas preparando
+em cruz; a <em>rasca da Ericeira</em>, a da
+Figueira da Foz
+e a da Vieira; as can&ocirc;as de Belem, de Cezimbra,
+de Setubal e do Algarve, chamadas em Lisboa
+<em>enviadas</em>
+ou <em>can&ocirc;as da picada</em>, e no
+Algarve <em>andainas</em>.
+Na pesca maritima costeira empregam-se
+embarca&ccedil;&otilde;es
+numerosas e variadissimas. Na arte de
+gale&atilde;o agrupam-se: o
+<em>gale&atilde;o</em>, coberto, de
+pr&ocirc;a direita
+<span class="pagenum">[129]</span>
+e arrufada, apparelhando com o latino triangular,
+que amura ao bico de pr&ocirc;a e ca&ccedil;a &aacute;
+p&ocirc;pa,
+em mastro inclinado para vante; o
+<em>galeonete</em>; o
+<em>buque</em>, curvo na roda de
+pr&ocirc;a e sem coberta; a
+can&ocirc;a do gale&atilde;o, e o
+<em>acostado</em>, que se emprega no
+transporte do peixe. Na arma&ccedil;&atilde;o fixa do atum e
+da sardinha, nas <em>almadrabilhas</em>, ou
+<em>almadravas</em>,
+como antigamente lhes chamavamos, do nome
+arabe que os hispanhoes conservam, labuta o
+<em>cal&atilde;o</em>,
+grande lancha, de bocca aberta, armando com
+estropo oito ou dez remos por banda, tendo na
+pr&ocirc;a arredondada, rematada no alto por duas femeas,
+uma saliencia vertical de puas em serra, semelhando
+um lombo de peixe, e, pintado de cada
+lado, um olho arregalado para o horizonte; a <em>barca
+da testa</em>; a <em>barca das
+portas</em>; a <em>barca da
+gacha</em>, e
+o <em>la&uacute;de</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Na costa do Algarve, as almadravas occupam
+hoje approximadamente os mesmos logares que
+tinham no seculo XVI; e o
+<em>cal&atilde;o</em> &eacute;, como
+alguns
+barcos do Douro, de pr&ocirc;a comprida e alta, propria
+para atracar a margens escarpadas ou para
+varar com facilidade na praia, o typo mais analogo
+<span class="pagenum">[130]</span>
+ao das embarca&ccedil;&otilde;es portuguezas de ha trezentos
+ou quatrocentos annos.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Nas artes de arrastar para terra</em>
+figuram as <em>xavegas</em>
+do Algarve, os <em>saveiros</em> e as
+<em>meias-luas</em>, de
+Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa Nova,
+Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares,
+desde o sul do Douro at&eacute; a Vieira, reapparecendo,
+mais abaixo, na costa de Caparica e da Gal&eacute;, e na
+praia de Sines. <em>Nas redes de alar a
+reboque</em> trabalham
+as <em>muletas</em> e os
+<em>bateis do Seixal</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. Arthur Baldaque da Silva, no seu precioso
+livro <em>Estado actual das pescas em
+Portugal</em>, enumera
+ainda, entre os diversos typos de embarca&ccedil;&otilde;es
+empregadas em varios systemas de pesca, o
+<em>batel de Espozende</em>, o
+<em>barco de Vianna do Castello</em>,
+a <em>barquinha do rio Lima</em>, a
+<em>bateira da Figueira da
+Foz</em>, a <em>lancha de
+Buarcos</em>, a <em>lanchinha do
+Tejo</em>, o
+<em>ilhavo da Tarrafa</em>, o
+<em>batel de Peniche, o cahique</em>
+e a <em>lancha de Peniche</em>, os
+<em>poveiros</em> de Lavos, de
+Buarcos, da Nazareth, de Cascaes, de Cezimbra,
+de Setubal; o <em>catraio</em>, a mais
+genuina embarca&ccedil;&atilde;o
+portugueza da nossa costa meridional, a
+<em>ca&ccedil;adeira</em>
+e a <em>focinheira de porco</em> da Ericeira,
+a <em>maceira</em> da
+<span class="pagenum">[131]</span>
+costa do Norte, o <em>cahique de Sines</em>,
+o <em>barco minhoto</em>,
+construido em Lanhellas e em Forcadella, o
+<em>batel do Cavado</em>, o
+<em>barco do Douro</em>, o
+<em>esgueir&atilde;o
+da ria de Aveiro</em>, a <em>lancha de Villa
+Franca</em>, a <em>bateira
+do Mondego</em>, a
+<em>lanchinha</em> e a <em>chata
+do Tejo</em>,
+e outros do continente, sem contar os barcos de
+cabotagem, os typos da Africa, dos A&ccedil;ores, da
+ilha da Madeira, n&atilde;o descriptos, infelizmente.
+S&atilde;o ainda de notar, entre as jangadas mais caracteristicas,
+as de Marinhas, para a pesca do
+polvo; as de F&atilde;o e da Apulia, para a apanha do
+sarga&ccedil;o; as de Neiva e as de Sedovem.
+<br />
+
+<br />
+
+Com essa phantastica riqueza de documentos
+maritimos, assombro de todos os outros povos, &eacute;
+verdadeiramente inacreditavel que em Portugal
+n&atilde;o haja um museu naval, em que estes documentos
+se confrontem e se estudem. N&atilde;o ha
+tal museu.
+<br />
+
+<br />
+
+Em terra &eacute; t&atilde;o variada a
+collec&ccedil;&atilde;o popular das
+vasilhas, dos fogareiros e dos cestos caseiros,
+como &eacute; variada na agua a f&oacute;rma das
+embarca&ccedil;&otilde;es.
+A simples nomenclatura do vasilhame portuguez
+d&aacute;, s&oacute; de per si, uma id&eacute;a, ainda que
+bem incompleta,
+<span class="pagenum">[132]</span>
+da multiplicidade das suas f&oacute;rmas, porque
+ha typos que variam de regi&atilde;o para regi&atilde;o, de
+dez em dez leguas de perimetro. Esses typos principaes
+s&atilde;o a talha, o pote, o cantaro, o caneco, o
+tenor, a tarefa, a pucara, o gomil, a escudella, a
+tijela, a infusa, a meia, a quarta, a quartinha, a
+pinta, a sumicha, a sangradeira, a alquara, a vieira,
+o almude, a tamboladeira, o alguidar e o alguidarinho,
+o alcadafe, o moringue, o boi&atilde;o, o tarro,
+o cantil, a almofia, o alcatruz, o porr&atilde;o, o
+c&ocirc;cho,
+o picho, o pichel, a almotolia, a ancoreta, a taleiga,
+a galheta, o caldeir&atilde;o, a caldeira e a caldeirinha,
+o tacho, a ca&ccedil;oila, a copa, a bateia, o jarro,
+a batega, a pichorra, a botija, a caba&ccedil;a, a malga,
+etc. Alguns d'estes nomes jogam com o antigo systema
+de medidas abolidas no seculo XVI, quando
+se estabeleceu o systema novo, tendo por base o
+quartilho. A vasilha correspondente &aacute; velha medida,
+condemnada no reinado de D. Sebasti&atilde;o, sobreviveu
+por&eacute;m na tradi&ccedil;&atilde;o e no costume. A
+<em>sumicha</em>,
+por exemplo, com quatro decilitros de capacidade,
+t&atilde;o maneira, t&atilde;o graciosa, t&atilde;o bem
+proporcionada
+a uma s&ecirc;de d'agua, &eacute; ainda hoje na olaria
+<span class="pagenum">[133]</span>
+de Coimbra o pucaro consagrado, que no pote
+da regi&atilde;o, de uma elegancia t&atilde;o fina e
+t&atilde;o attica,
+se encasa no alguidarinho que lhe serve de tampa.
+<br />
+
+<br />
+
+As f&oacute;rmas populares d'essa vasilharia, umas trazidas
+do Peru e do Mexico, como a do moringue
+e seus derivados, outras, provenientes de typos
+gregos e etruscos, da cratera, da amphora, da ambula,
+do askos, do bombylio, etc., s&atilde;o por toda a
+parte, em nossos districtos ceramicos, as mais bellas,
+as mais engra&ccedil;adas ou as mais nobres, as mais
+irreprehensivelmente puras, parecendo que &aacute; roda
+mechanica do operario as foi delineando, contornando,
+envolvendo sempre, a pe&ccedil;a por pe&ccedil;a, o
+sorriso acariciante de um artista.
+<br />
+
+<br />
+
+De uma humilde panellinha portugueza de barro
+preto, de Prado ou de Molellos, deduziram em
+Fran&ccedil;a o assucareiro, a leiteira, a cafeteira e o
+bule de um servi&ccedil;o de almo&ccedil;o, que ficou
+tradicional
+na fabrica&ccedil;&atilde;o de S&egrave;vres.
+<br />
+
+<br />
+
+A industria popular da cestaria acompanha na
+evolu&ccedil;&atilde;o das f&oacute;rmas a industria do
+oleiro. Todos
+os que percorreram as feiras e os mercados do
+nosso paiz notariam que cada regi&atilde;o tem a sua
+<span class="pagenum">[134]</span>
+canastra, o seu cabaz e o seu gigo, differentes na
+f&oacute;rma ou no ornato. Ha-os de todas as
+configura&ccedil;&otilde;es,
+fundos e chatos, quadrados, octogonos, arredondados,
+oblongos, cubicos, cylindricos, espheroidaes,
+lembrando algumas vezes a f&oacute;rma e a
+construc&ccedil;&atilde;o
+americana dos sambur&aacute;s, dos tipitis e dos
+c&ocirc;fos tupis, feitos de taquara e de cip&oacute;, que
+introduzimos
+talvez no Brazil ou, mais provavelmente,
+l&aacute; aprendemos a fabricar, deixando o typo do balaio,
+com cujo nome se designa ainda na Bahia o
+farnel que de ordinario se transporta no cesto portuguez
+d'essa configura&ccedil;&atilde;o, semelhante &aacute; de
+um
+alguidar. Mui frequentemente varia tambem o balaio,
+o canistel, a cesta, a conde&ccedil;a, o ceir&atilde;o e a
+ceira, a alcofa e a alcofinha. A materia prima do
+cesto &eacute; o vime, o junco, a fasquia de castanheiro,
+a fasquia de faia e a canna; a da ceira e da alcofa
+&eacute; o esparto, a engeita, a palha de trigo e de centeio,
+a tab&uacute;a, a juta e a pita. Em algumas regi&otilde;es,
+como nas Caldas e Vizeu, os cestos s&atilde;o obras primas
+incomparaveis de acabamento e de graciosidade.
+A canastrinha burriqueira das Caldas, reduzida
+ao miniaturismo de dois centimetros, &eacute; um
+<span class="pagenum">[135]</span>
+simples prodigio de fabrica&ccedil;&atilde;o minudente e
+delicada.
+No Algarve a alcofa, de filia&ccedil;&atilde;o arabe,
+&eacute;
+por vezes ornada de apparatosas flores bordadas
+a seda ou a l&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+Sem embargo, continuando a affirmar-se que n&atilde;o
+temos sentimento artistico, desistimos por indisciplina,
+por ignorancia, por desanimo, de transformar
+em industrias de concorrencia as nossas industrias
+domesticas, e n&atilde;o negociamos com o extrangeiro
+nem tecidos de phantasia, t&atilde;o originaes
+como os que possuimos, nem papeis pintados derivados
+d'esses tecidos, nem a lou&ccedil;a, nem a cestaria,
+nem a filigrana, immobilisada em typos decrepitos,
+e da qual t&atilde;o lindos effeitos se tirariam,
+applicando-a em ouro a servi&ccedil;os de toucador, a
+frascos de cristal, a molduras de retratos, a
+encaderna&ccedil;&otilde;es
+de devocionarios, etc, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Tanto menosprezamos os productos quanto
+desconhecemos as fontes da nossa civilisa&ccedil;&atilde;o
+artistica.
+<br />
+
+<br />
+
+A arte que menos estudamos &eacute; a arte hispanhola,
+&aacute; qual todavia indissoluvelmente nos
+prendem os mais estreitos vinculos de temperamento,
+<span class="pagenum">[136]</span>
+de tradi&ccedil;&atilde;o e de ideal. Juntamente com os
+hispanhoes recebemos dos arabes as primeiras influencias
+que em toda a produc&ccedil;&atilde;o artistica da Peninsula
+imprimiram a fei&ccedil;&atilde;o differencial mais
+caracteristica
+e mais indelevel. Aos califados, que
+cobriram de mesquitas Cordova, Sevilha, Granada,
+Santarem, Lisboa e Coimbra, devemos o
+toque de orientalismo peculiar das formas architectonicas
+do nosso stylo romanico, ogival e da
+renascen&ccedil;a. E da mesma procedencia, mosarabe
+ou mudejar, s&atilde;o algumas das nossas mais interessantes
+industrias, como a da filigrana, a dos azulejos,
+a das sedas, a do papel, a da encaderna&ccedil;&atilde;o, a
+dos couros lavrados, (a que chamavamos
+<em>cordov&otilde;es</em>
+por nos virem de Cordova) a das esteiras, a dos
+tapetes, a das obras de esparto, de palma, de pita.
+At&eacute; o fim do seculo XVI artistas portuguezes, leonezes,
+castelhanos, valencianos, aragonezes, catal&atilde;es,
+asturianos, tivemos um ideal commum nas
+letras, na architectura, na esculptura, na pintura,
+nas artes sumptuarias e nas artes industriaes, celebrando
+identicos feitos de guerra, de religi&atilde;o e
+de amor, servindo reis do mesmo sangue, heroes
+<span class="pagenum">[137]</span>
+das mesmas aventuras, santos e santas da mesma
+invoca&ccedil;&atilde;o popular.
+<br />
+
+<br />
+
+Das nossas rela&ccedil;&otilde;es com Flandres s&oacute;
+conheciamos&#8213;at&eacute;
+ha bem poucos annos&#8213;a influencia
+flamenga em Portugal, ignorando completamente
+a reciproca ac&ccedil;&atilde;o dos portuguezes em Gand, em
+Bruges, em Antuerpia. Foi o sr. Joaquim de Vasconcellos
+quem, investigando os annaes das confrarias
+e o archivo das feitorias de Portugal, consignou
+que, em resultado da protec&ccedil;&atilde;o dada aos
+artistas nacionaes por D. Jo&atilde;o II e por D. Manoel,
+de uma s&oacute; vez chegaram a reunir-se em Paris cincoenta
+pensionistas portuguezes. Aos trabalhos do
+mesmo investigador se deve acharem-se hoje apurados
+varios nomes de pintores de Portugal trabalhando
+em Flandres, entre os quaes Edwart
+Portugalois, discipulo de Quintino Metsys, proclamado
+em 1504 mestre pintor da confraria de
+S. Lucas de Antuerpia.
+<br />
+
+<br />
+
+Os trabalhos do sr. Joaquim de Vasconcellos
+est&atilde;o sendo diligentemente continuados pelo sr.
+Sousa Viterbo, na Torre do Tombo, e pelo sr. Joaquim
+Mauricio Lopes, nosso consul, em Antuerpia.
+<span class="pagenum">[138]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Em uma recente publica&ccedil;&atilde;o do sr. Mauricio
+Lopes, <em>Les portugais &agrave; Envers au
+XVI<sup>&egrave;me</sup> si&egrave;cle</em>,
+demonstra-se
+por meio dos mais expressivos documentos
+que a colonia portugueza, estabelecida
+em Flandres desde que em 1386 o duque de Borgonha
+Filippe-o-Ousado concedeu licen&ccedil;a para
+ahi viverem mercadores de Portugal e dos Algarves
+com as suas familias e os seus creados, foi
+para a civilisa&ccedil;&atilde;o que os acolheu de uma
+importancia
+incomparavelmente superior &aacute; que j&aacute;mais
+exerceu a colonia flamenga em Portugal.
+<br />
+
+<br />
+
+Os negocios dos portuguezes em Antuerpia, ao
+tempo da funda&ccedil;&atilde;o da primeira feitoria de
+Portugal
+por D. Manoel, negocios tendo por base,
+al&eacute;m das exporta&ccedil;&otilde;es do reino, o
+commercio das
+especiarias trazidas da India por Lisboa, montavam
+annualmente a cerca de cinco mil contos
+da nossa moeda actual. O numero das casas
+portuguezas em Antuerpia era de cento e doze.
+Os mercadores portuguezes representantes d'essas
+casas viviam com um fausto verdadeiramente
+principesco. Em 1594, por occasi&atilde;o da entrada
+triumphal de Filippe II, herdeiro de Carlos V, a
+<span class="pagenum">[139]</span>
+cavalgada portugueza ficou memoravel. Compunha-se
+de vinte senhores e de quarenta creados,
+montando todos cavallos peninsulares, ricamente
+ajaezados. Os senhores trajavam de brocado e seda
+c&ocirc;r de purpura, bordada de ouro e de rubis, com
+bot&otilde;es, passamanes e collares de ouro. Todos
+os gorros eram orlados de brilhantes. Os creados,
+equipados, de coura&ccedil;a e espada, vestiam libr&eacute;s
+de seda verde e branca, com as bainhas das
+espadas de seda branca.&#8213;O que era, segundo o
+chronista Cornelius Grapheus, <em>chose moult riche et
+triomphante &agrave; voir</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas festas da entrada em Antuerpia de Ernesto
+d'Austria, governador dos Paizes Baixos, os portuguezes
+erigiram um arco triumphal, em que se
+viam as figuras da Mauritanea, do Brasil, da Etiopia,
+da India, da Persia, do Ganges, do Rio da
+Prata, com as estatuas de Filippe I, do principe
+Filippe de Hispanha, de D. Jo&atilde;o II e de D. Manoel.
+Em outro arco de triumpho, delineado por
+Ludovicus Nonnius e consagrado a Fernando
+d'Austria, em 1635, expuzeram os portuguezes diversos
+quadros representando, entre outras, as allegorias
+<span class="pagenum">[140]</span>
+da Victoria, da Clemencia, da Felicidade,
+da Religi&atilde;o, e os retratos de D. Affonso Henriques,
+D. Jo&atilde;o I, D. Manoel e D. Filippe II.
+<br />
+
+<br />
+
+Um d'esses portuguezes, o feitor Antonio Cirne,
+natural do Porto, nos saraus do Palacio chamado
+de Portugal, pretextando que a turba ou a lenha
+cheiravam mal, mandava cosinhar as eguarias
+com fogo de canela, e queimar canela em todas
+as fogueiras das chamin&eacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+Outro portuguez, Sim&atilde;o Rodrigues d'Evora, era
+bar&atilde;o de Rhodes, cavalleiro, senhor de Tewerden,
+de Broeckstraate; pela sua enorme fortuna
+lhe chamavam o <em>rei pequeno</em>; possuia
+muitos predios
+na principal arteria da cidade, e habitava um
+d'elles, em que successivamente se hospedaram a
+infanta D. Izabel, a rainha Maria de Medicis e o
+principe cardeal Fernando d'Austria; fundou, com
+o fim caritativo de recolher doze senhoras da nobreza
+ou da burguezia reduzidas &aacute; indigencia, o
+hospicio de Sant'Anna, onde um triptyco de Otto
+Venius representava o retrato do fundador com
+seus filhos e sua mulher D. Anna Lopes Ximenes
+de Arag&atilde;o.
+<span class="pagenum">[141]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+O luxo da colonia portugueza em Antuerpia
+assumia muitas vezes o mais nobre e mais alto
+caracter artistico. A enthusiastica hospitalidade
+conferida pelos portuguezes a Alberto D&uuml;rer ficou
+assignalada pelas grandes festas a que deu origem.
+D&uuml;rer retribuiu esses favores com presentes
+de quadros e de gravuras aos feitores e aos negociantes
+de Portugal.
+<br />
+
+<br />
+
+Diogo Duarte, filho de Gaspar Duarte, possuia
+uma das primeiras galerias de pintura em Flandres.
+Foi recentemente publicado na Hollanda um
+catalogo dos seus quadros, entre os quaes havia
+obras de D&uuml;rer, de Breughel, de Metsys, de Maubeuge,
+de Ticiano, de Tintoreto, de Andrea del
+Sarto, e um Raphael, que constava haver sido adquirido
+do principe D. Manoel de Portugal em
+troco de diamantes no valor de 2:200 florins.
+<br />
+
+<br />
+
+Muitos dos nossos compatriotas estabelecidos
+em Flandres cultivavam as sciencias e as letras,
+contando-se entre elles professores, medicos, escriptores
+celebres, como Amato Lusitano, Rodrigo
+de Castro, Garcia Lopes, Dami&atilde;o de Goes, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Outro curioso symptoma da nossa desaffei&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum"><a name="p142" id="p142">[142]</a></span>
+dos estudos da arte nacional &eacute; a
+estagna&ccedil;&atilde;o das
+velhas id&eacute;as preconcebidas na
+aprecia&ccedil;&atilde;o dos nossos
+monumentos architectonicos. J&aacute; me referi ao
+&ocirc;co basbaquismo <a href="#e5">privilegiado</a>
+de que &eacute; objecto
+absorvente o monumento da Batalha. Devo aclarar
+um pouco mais, ainda que rapidamente, esse
+phenomeno.
+<br />
+
+<br />
+
+Por notavel supersti&ccedil;&atilde;o epidemica, por inercia
+de espirito, por servilismo intellectual, por pedantismo
+classico, por costume, por commodidade,
+por conven&ccedil;&atilde;o admirativa, ou por qualquer outro
+motivo, os criticos portuguezes, que mais teem
+governado a opini&atilde;o, estabeleceram axiomaticamente,
+como coisa definitivamente demonstrada
+e assente, que o unico puro e genuino exemplar
+de stylo gothico existente em Portugal &eacute; o da
+Batalha. Toda a modifica&ccedil;&atilde;o nas linhas
+constructivas
+ou nos motivos ornamentaes d'esse typo
+passou, por effeito de tal dogma, a qualificar-se
+de <em>decadencia</em>. Capellas imperfeitas,
+decadencia!
+Claustro dos Jeronymos, decadencia! Egreja de
+Christo e de S. Jo&atilde;o em Thomar, decadencia!
+Santa Cruz e S. Marcos, em Coimbra, decadencia!
+<span class="pagenum">[143]</span>
+Decadencia emfim toda a obra architectonica
+da &eacute;poca manoelina.
+<br />
+
+<br />
+
+A termos acceitado tal principio na sua
+applica&ccedil;&atilde;o
+pratica, teriamos tido na nossa architectura
+ogival do seculo XVI um neo-gothico, fixo e invariavel,
+como o neo-greco-romano da renascen&ccedil;a,
+que &eacute; o triumpho consagrado do dogmatismo na
+arte, a immobilidade canonica nos systemas de
+construir, a cristalisa&ccedil;&atilde;o da rotina, a
+sujei&ccedil;&atilde;o de
+toda a imagina&ccedil;&atilde;o, de todo o poder inventivo a
+uma formula invariavel. Teriamos tido de submetter-nos
+ao despotismo da Batalha, como t&atilde;o cegamente,
+t&atilde;o estupidamente, t&atilde;o inconcebivelmente,
+nos temos submettido por tantas centenas
+de annos ao despotismo de Vitruvio e das
+suas cinco ordens, com os seus correspondentes
+aphorismos de propor&ccedil;&atilde;o e de symetria, seu
+pedestal,
+sua columna e seu entablamento, repetindo
+sempiternamente, sobre os mesmos dados estaticos,
+o mesmo denticulo, o mesmo modilh&atilde;o, a
+mesma canelura, o mesmo triglypho, a mesma
+g&ocirc;ta, a mesma carranca! Ora precisamente o stylo
+manoelino da nossa architectura, com toda a sua
+<span class="pagenum">[144]</span>
+effus&atilde;o esculptural, com todo o avassalante symbolismo
+dos seus motivos ornamentaes, com toda
+a arbitrariedade dos seus processos, com todas as
+suas despropor&ccedil;&otilde;es e todas as suas assymetrias,
+n&atilde;o &eacute; precisamente sen&atilde;o a
+contraposi&ccedil;&atilde;o da liberdade
+creativa dos nossos architectos-esculptores
+&aacute; enfatua&ccedil;&atilde;o idolatrica, &aacute;
+pedantesca preceitua&ccedil;&atilde;o
+rhetorica, ao esmagador e exhaustivo despotismo
+das <em>cinco ordens</em>, com que o
+neo-classicismo
+da renascen&ccedil;a razoirou todo o talento humano.
+O stylo gothico prestava-se como nenhum
+outro, pela extrema flexibilidade dos seus principios
+fundamentaes, aos desenvolvimentos de pura
+arte, com que o esculptor, completando a obra do
+engenheiro, e fazendo-se assim architecto, pode
+aviventar a pedra de um edificio, convertendo-a
+n'um elemento de sympathia e de solidariedade
+social, fazendo vibrar na palpita&ccedil;&atilde;o do seu lavor
+evoca&ccedil;&otilde;es de id&eacute;as e de sentimentos
+proprios dos
+homens da sua ra&ccedil;a e da sua terra. Os artistas
+manoelinos n&atilde;o teriam feito talvez monumentos
+<em>correctos</em>, na access&atilde;o
+indigente em que as academias
+empregam esta palavra, mas fizeram monumentos
+<span class="pagenum">[145]</span>
+<em>expressivos</em>,&#8213;o que &eacute;
+melhor. Porque n&atilde;o
+s&atilde;o as academias que pautam as
+propor&ccedil;&otilde;es e os
+limites da crea&ccedil;&atilde;o artistica. Tudo o que se pode
+formular em preceito cessa de ter valor em arte.
+A obra de arte n&atilde;o &eacute; um producto de escola:
+&eacute;
+a livre express&atilde;o individual de uma alma, convertida
+em realidade objectiva, e communicando
+aos homens uma vibra&ccedil;&atilde;o nova do sentimento.
+<br />
+
+<br />
+
+A superioridade ou a inferioridade de um artista,
+a sua categoria, deduz-se da maior ou menor
+quantidade das id&eacute;as que a sua obra suggere
+e dos sentimentos cuja percuss&atilde;o ella determina.
+Nos monumentos architectonicos &eacute; pela
+sobreposi&ccedil;&atilde;o do ornato esculptural &aacute;s
+linhas geometricas
+da construc&ccedil;&atilde;o que a arte se exerce. &Eacute;
+principalmente na esculptura que reside a express&atilde;o
+poetica do monumento.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Portugal teem sido acusados os architectos
+manoelinos de invadirem pelo vegetabilismo ornamental
+todos os perfis da construc&ccedil;&atilde;o, submettendo
+assim as f&oacute;rmas constructivas &aacute;
+ornamenta&ccedil;&atilde;o
+esculptural. Os grandes criticos da Inglaterra,
+que t&atilde;o consideravel impulso teem dado
+<span class="pagenum">[146]</span>
+&aacute;s id&eacute;as estheticas e &aacute; moderna
+evolu&ccedil;&atilde;o artistica,
+entendem por&eacute;m, ao contrario dos nossos, que a
+sciencia de edificar e de dispor linhas &eacute; na
+construc&ccedil;&atilde;o
+de um monumento um ramo secundario
+da arte de esculpir. Esta affirmativa envolve a
+consagra&ccedil;&atilde;o da escola manoelina pela critica que
+n'este seculo mais minuciosamente e mais profundamente
+tem estudado a arte gothica e a arte da
+renascen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Nada todavia mais afflictivo, de peor indicio
+para os destinos nacionaes da arte, que o descaso
+do publico, pervertido em seu instincto pela carunchosa
+doutrina academica, perante esses monumentos
+em que sob, o reinado de D. Manoel, os
+artistas portuguezes t&atilde;o vigorosamente accentuaram
+a palpita&ccedil;&atilde;o victoriosa do genio, da
+originalidade,
+da poesia, da gloria do povo lusitano.
+<br />
+
+<br />
+
+O que se convencionou chamar
+<em>decadencia</em> na
+ultima evolu&ccedil;&atilde;o do stylo gothico em Portugal
+&eacute; a
+modifica&ccedil;&atilde;o portugueza d'esse stylo, &eacute;
+a sua nacionalisa&ccedil;&atilde;o,
+&eacute; a originalidade local, imposta pelos architectos
+portuguezes do seculo XVI, a um systema
+geral de construc&ccedil;&atilde;o, commum a toda a Europa.
+<span class="pagenum">[147]</span>
+Dir&atilde;o que n&atilde;o &eacute; isso precisamente um
+novo stylo.
+Certamente que n&atilde;o, se unicamente chamarmos
+stylo novo em architectura &aacute;
+constitui&ccedil;&atilde;o complexa
+e integral de todo um systema de edificar.
+Mas, se tomarmos a palavra stylo em tal accep&ccedil;&atilde;o,
+nenhum stylo &eacute; novo em toda a architectura da
+edade m&eacute;dia e da renascen&ccedil;a. Todo o processo
+constructivo nos veiu inicialmente da Grecia, de
+Roma, de Bysancio, da Syria, do Egypto. Os mesmos
+gregos n&atilde;o inventaram a columna, nem os
+romanos descobriram a abobada. O que constitue
+a originalidade na architectura de qualquer povo
+&eacute;, como em Portugal, na &eacute;poca manoelina, a
+subordina&ccedil;&atilde;o
+de um systema qualquer de geometria
+architectural &aacute;s condi&ccedil;&otilde;es do clima e
+da paizagem,
+&aacute; natureza dos materiaes empregados, &aacute; flora,
+&aacute; fauna, &aacute; concep&ccedil;&atilde;o
+religiosa, &aacute; historia, &aacute;
+poesia, ao temperamento e &aacute; psychologia dos artistas,
+em cada regi&atilde;o. Quanto mais intensa for a
+interven&ccedil;&atilde;o d'esses factores mais original
+ser&aacute; a
+obra. Assim, na evolu&ccedil;&atilde;o do gothico na
+architectura
+portugueza, quanto menos modificado, isto
+&eacute;, quanto mais <em>puro</em>
+f&ocirc;r o stylo, mais insignificante
+<span class="pagenum">[148]</span>
+ser&aacute; o monumento como documenta&ccedil;&atilde;o
+artistica,
+como express&atilde;o social.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; &aacute; <em>decadencia</em>
+do gothico da Batalha que n&oacute;s
+devemos o incomparavel claustro dos Jeronymos,
+segundo Haupt <em>o mais bello claustro de todo o
+mundo</em>, bem como a fachada da egreja de Christo,
+em Thomar, onde a flammejante janella da sala
+do capitulo &eacute; a obra mais eloquente, mais convicta,
+mais poetica, mais enthusiasticamente patriotica,
+mais estremecidamente portugueza, que j&aacute;mais
+realisou em nossa ra&ccedil;a o talento de esculpir
+e de fazer cantar a pedra.
+<br />
+
+<br />
+
+Na ornamenta&ccedil;&atilde;o d'essa janella, em que,
+juntamente
+com o sentimento mais entranhado das
+energias da natureza, rebenta, palpita e brada, em
+torno da id&eacute;a christ&atilde;, todo o sagrado pantheismo
+das velhas religi&otilde;es da India, conjugam-se, n'uma
+gloriosa harmonia de antiphona a toda a voz, acompanhada
+ao org&atilde;o, no deslumbramento dos cirios,
+no aroma das a&ccedil;ucenas, no fumo dos thuribulos
+doirado pelo sol, os elementos decorativos do symbolismo
+mais poderoso, da suggest&atilde;o mais profunda.
+O artista, em plena posse da sua id&eacute;a, em
+<span class="pagenum">[149]</span>
+completa independencia do seu espirito, em inteira
+liberdade dos seus meios de execu&ccedil;&atilde;o, desdiz
+todos os votos, abjura todos os principios, renega
+todos os canones, infringe todas as regras, e
+prescinde de todo o applauso dos mestres, sufocando
+nas entranhas da sua propria vaidade a
+opini&atilde;o de si mesmo, unicamente porque tem f&eacute;
+na verdade que enuncia, porque concentrou toda
+a for&ccedil;a da sua alma, toda a energia do seu cerebro,
+toda a paix&atilde;o do seu sangue, no amor da obra
+em que elle representa o pensamento que o domina.
+E em torno d'elle e d'esse objecto amado,
+como em torno de todos os que verdadeiramente
+amam, tudo mais na terra acabou e desappareceu.
+<br />
+
+<br />
+
+As columnas na janella da sala do capitulo s&atilde;o
+polipeiros de coral, dos mais profundos recifes do
+Oceano, e troncos d'essa palmeira, cuja sombra
+cobriu o ber&ccedil;o da civilisa&ccedil;&atilde;o no
+littoral mediterraneo,
+providencia dos peregrinos nos oasis do
+deserto, &aacute; qual os arabes da Peninsula dedicavam
+uma festa de primavera, tendo por fundamento a
+dissemina&ccedil;&atilde;o do polen,&#8213;a arvore santa, a arvore
+<span class="pagenum">[150]</span>
+da Biblia, a arvore de Jesus, cujo ramo symbolico
+&eacute; um attributo da paix&atilde;o e da paschoa, da
+gloria e do martyrio. Os demais elementos decorativos
+s&atilde;o as ondas do mar, taes como ellas se
+representam na heraldica; s&atilde;o os troncos seculares
+e as raizes profundas dos sobreiros dos nossos
+montes, extrema express&atilde;o de for&ccedil;a na fecundidade
+da seiva, que prende o roble, assim como
+a tradi&ccedil;&atilde;o e a familia prendem a debil e errante
+creatura humana, ao cora&ccedil;&atilde;o da terra em que
+nasceu. Guizeiras, como as das mulas de tiro
+engatadas &aacute; carreta alemtejana, emmolham contorcidas
+varas de sobro e de azinho, como nos
+feixes de lictor da magistratura romana. Solidas
+correntes e possantes cabos de bordo, de que
+pendem em discos as boias de corti&ccedil;a, enla&ccedil;am
+a decora&ccedil;&atilde;o, amarrando-a vigorosamente
+&aacute;
+empena por fortes argol&otilde;es, como se amarraria
+uma nau ao caes de um porto. Toda a composi&ccedil;&atilde;o,
+partindo das espaduas de um homem, que
+parece sustentar-lhe todo o peso, ascende n'uma
+trepida&ccedil;&atilde;o de algas e de folhagens para a cruz de
+Christo entre as espheras que tomara por empresa
+<span class="pagenum">[151]</span>
+o rei venturoso de Portugal triumphante na vastid&atilde;o
+dos mares, em todo o circuito do globo. E o
+poema esculptural remata por cima da janella na
+rosacea magestosa do templo, formada em circulo
+pelas pregas e pelo bolso arfante da vela rizada
+de um gale&atilde;o da India.
+<br />
+
+<br />
+
+O nosso povo por&eacute;m desaprendeu de ver a
+obra artistica do seu passado, e nem sequer levanta
+os olhos para os seus mais communicativos
+monumentos, que ninguem lhe explica, que
+ninguem o ensina a comprehender e a amar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Resumamos agora a historia do que officialmente
+se tem feito no intuito malogrado de proteger
+os monumentos publicos e de conservar e
+defender os productos d'arte.
+<br />
+
+<br />
+
+Em julho de 1890 o ent&atilde;o ministro da
+Instruc&ccedil;&atilde;o
+Publica consultou sobre a quest&atilde;o de que se
+trata uma commiss&atilde;o de artistas, de archeologos e
+de escriptores. Da resposta, at&eacute; hoje inedita, d'essa
+commiss&atilde;o, de que me coube a honra de ser relator,
+transcreverei alguns periodos.
+<br />
+
+<br />
+
+O arrolamento da nossa riqueza artistica, que
+<span class="pagenum">[152]</span>
+se prop&otilde;e effectuar o ministerio da
+instruc&ccedil;&atilde;o publica
+e das bellas artes &eacute;&#8213;ponderava o relatorio&#8213;a
+pedra fundamental de toda a construc&ccedil;&atilde;o destinada
+a dar &aacute; arte portugueza o logar que lhe compete
+na historia geral da nacionalidade, na orienta&ccedil;&atilde;o
+do sentimento collectivo do povo, no conjuncto
+dos elementos de impuls&atilde;o e de progresso
+para o desenvolvimento das industrias, no respeito
+do paiz, emfim, e no da Europa.
+<br />
+
+<br />
+
+O inventario de que se trata, comprehendendo
+n&atilde;o s&oacute; os edificios monumentaes mas os documentos
+archeologicos e os productos artisticos de
+toda a especie, seria, primeiro que tudo, a
+documenta&ccedil;&atilde;o
+preciosa para a historia da arte em
+Portugal,&#8213;determina&ccedil;&atilde;o
+das suas origens ethnicas
+e sociaes, fixa&ccedil;&atilde;o dos seus caracteres
+distinctivos
+e sua rela&ccedil;&atilde;o com a psychologia do povo, com
+os sentimentos, com as aspira&ccedil;&otilde;es, com as ideias,
+com os costumes e com as institui&ccedil;&otilde;es sociaes.
+Esse repositorio tornar-se-ia o espelho em que se
+achariam reflectidas, com todas as suas modalidades,
+segundo as influencias especiaes de cada &eacute;poca,
+de cada phase de cultura, de cada estadio social,
+<span class="pagenum">[153]</span>
+todas as for&ccedil;as emotivas, todas as aptid&otilde;es
+estheticas da nossa ra&ccedil;a. A historia dos seus monumentos
+&eacute; para cada povo a historia da sua individualidade,
+porque n&atilde;o ha monumento artistico
+que n&atilde;o traduza, mais ou menos directamente,
+a ac&ccedil;&atilde;o intellectual e politica da sociedade que
+o
+concebeu.
+<br />
+
+<br />
+
+A ideia do inventario projectado n&atilde;o &eacute;&#8213;para
+honra nossa&#8213;inteiramente nova. No reinado de
+D. Jo&atilde;o V existia na Bibliotheca Real uma obra
+em cinco volumes, datada de 1686 e intitulada
+&laquo;Theatro do reino de Portugal e dos Algarves
+por suas cidades, villas, fortes e fortalezas como
+que por scenas repartido.&raquo; Mais tarde mandou o
+referido soberano ao Padre Frei Luiz de S. Jos&eacute;,
+monge do Cister e artista peritissimo, que fizesse
+os debuxos de todas as povoa&ccedil;&otilde;es do Minho, o
+que elle cumpriu no anno de 1726. Por indica&ccedil;&atilde;o
+da Academia Real da Historia, e para o fim
+de inventariar e conservar os monumentos nacionaes,
+publicou-se o decreto de 20 de agosto de
+1721, e fundou-se o primeiro dos nossos museus
+archeologicos. Infelizmente os livros a que nos referimos
+<span class="pagenum">[154]</span>
+n&atilde;o chegaram a ser dados &aacute; estampa, e
+os originaes foram destruidos pelo terremoto de
+1755, juntamente com a Bibliotheca Real, e com
+o museu estabelecido nas casas dos duques de
+Bragan&ccedil;a, ao Thesouro Velho.
+<br />
+
+<br />
+
+As disposi&ccedil;&otilde;es do alvar&aacute; de 20 de
+agosto de
+1721 constam do seguinte trecho do mesmo alvar&aacute;:
+&laquo;Hei por bem que d'aqui em deante nenhuma
+pess&ocirc;a de qualquer estado, qualidade e
+condi&ccedil;&atilde;o que seja, desfa&ccedil;a ou destrua
+em todo
+nem em parte, qualquer edificio, que mostre ser
+d'aquelles tempos (assim designados: Phenices,
+Gregos, Persos, Romanos, Godos e Arabios) ainda
+que em parte esteja arruinado; e da mesma sorte
+as estatuas, marmores e cippos em que estiverem
+esculpidas algumas figuras, ou tiverem letreiros
+phenices, gregos, etc.; ou laminas, ou chapas de
+qualquer metal, que contiverem os ditos letreiros,
+ou caracteres; como outrosi medalhas ou moedas,
+que mostrarem ser d'aquelles tempos, nem
+dos inferiores at&eacute; o reinado do Senhor Rey D.
+Sebasti&atilde;o;
+nem encubr&atilde;o ou ocultem alguma das
+sobreditas cousas: e encarrego &aacute;s camaras das cidades
+<span class="pagenum">[155]</span>
+e villas d'este reyno tenham muito particular
+cuidado em conservar e guardar todas as antiguidades
+sobreditas, e de semelhante qualidade
+que houver ao presente, ou ao deante se descobrirem
+nos limites do seu districto; e logo que se
+achar ou descobrir alguma de novo, dar&atilde;o conta
+ao secretario da dita Academia Real para elle a
+communicar ao director e censores, e mais academicos;
+e o dito director e censores, com a noticia
+que se lhes participar, poder&atilde;o dar a providencia
+que lhes parecer necessaria para que melhor se
+conserve o monumento assim descoberto. Etc.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Em 4 de fevereiro de 1802, novo alvar&aacute; sobre
+a mesma materia, assim designado: &laquo;Alvar&aacute; com
+for&ccedil;a de lei pelo qual Vossa Alteza Real he servido
+suscitar o alvar&aacute; de lei de 20 de agosto de
+1721, ordenado em beneficio da Academia Real
+da Historia Portugueza para a conserva&ccedil;&atilde;o e
+integridade
+das estatuas, marmores, cippos, e outras
+pe&ccedil;as de Antiguidade: mandando que as
+func&ccedil;&otilde;es
+do mesmo Alvar&aacute;, que at&eacute; agora pertenciam
+ao secretario da dita Real Academia, fiquem da
+data do presente em deante pertencendo ao Bibliothecario
+<span class="pagenum">[156]</span>
+Maior da Bibliotheca Publica; tudo
+na forma acima declarada.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Em janeiro de 1844 o Bibliothecario M&oacute;r da
+Bibliotheca Nacional de Lisboa Jos&eacute; Feliciano de
+Castilho, informava o respectivo ministro nos seguintes
+termos: &laquo;Para o bibliothecario m&oacute;r passaram
+attribui&ccedil;&otilde;es que competiam &aacute; Academia
+Real da Historia, mas infelizmente essa lei vigente
+tem sido at&eacute; hoje letra morta, a tal ponto que
+at&eacute;
+ignoram as suas disposi&ccedil;&otilde;es os proprios
+encarregados
+do seu cumprimento, com grave detrimento,
+n&atilde;o s&oacute; d'este magnifico repositorio, que ha
+muitos
+annos se acha estacionario em aquisi&ccedil;&otilde;es
+archeologicas,
+mas tambem de todo o reino, onde o bibliothecario
+m&oacute;r deveria sempre ter, por obriga&ccedil;&atilde;o
+do seu cargo, promovido a conserva&ccedil;&atilde;o e
+seguran&ccedil;a
+dos monumentos que n&atilde;o podem ou n&atilde;o
+devem transportar-se.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Em seguido prop&otilde;e o bibliothecario que se torne
+effectiva a responsabilidade dos governadores civis
+no cumprimento da lei de 20 de agosto de
+1721; que esses funccionarios se correspondam
+regularmente com o bibliothecario, etc.
+<span class="pagenum">[157]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+Ficou por&eacute;m t&atilde;o morta a letra d'essa consulta
+como a da lei a que ella se refere.
+<br />
+
+<br />
+
+Por decreto de 10 de novembro de 1875 &eacute; nomeada
+uma commiss&atilde;o para prop&ocirc;r ao governo,
+com a reforma do ensino das Bellas Artes e com
+o plano de um museu, &laquo;as providencias que julgar
+mais adquadas &aacute; conserva&ccedil;&atilde;o, guarda e
+repara&ccedil;&atilde;o
+dos monumentos historicos e dos objectos
+archeologicos, de importancia nacional, existentes
+no reino.&raquo; A commiss&atilde;o alludida responde ao
+governo
+por meio da memoria redigida pelo marquez
+de Sousa Holstein, e assim se desempenha
+do encargo que lhe f&ocirc;ra confiado.
+<br />
+
+<br />
+
+A louvavel diligencia empregada a convite do
+governo pela Real Associa&ccedil;&atilde;o dos Architectos
+Civis
+e Archeologos Portuguezes, para o fim de lan&ccedil;ar
+em 1880 as bases de uma inventaria&ccedil;&atilde;o systematica
+dos monumentos nacionaes, n&atilde;o foi, assim
+como o zeloso trabalho da commiss&atilde;o de 1875,
+seguida de resultados praticos.
+<br />
+
+<br />
+
+Independentemente da preceitua&ccedil;&atilde;o official,
+teem sido modernamente do mais importante auxilio
+para o conhecimento dos nossos valores artisticos
+<span class="pagenum">[158]</span>
+a Exposi&ccedil;&atilde;o Retrospectiva de Arte Ornamental,
+celebrada em Lisboa em 1882, a exposi&ccedil;&atilde;o
+de Coimbra, a exposi&ccedil;&atilde;o de Aveiro, a
+exposi&ccedil;&atilde;o
+de Guimar&atilde;es, a recente exposi&ccedil;&atilde;o do
+centenario
+antonino, e as exposi&ccedil;&otilde;es de ourivesaria e
+de ceramica promovidas e effectuadas no Palacio
+de Cristal do Porto pela muito benemerita Sociedade
+de Instruc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+De algumas das exposi&ccedil;&otilde;es alludidas ficaram
+documentos de alto valor. Imprimiram-se relatorios
+de muita importancia, e numerosos productos
+expostos foram reproduzidos pelo desenho e pela
+photographia. Da valiosa collec&ccedil;&atilde;o photographica,
+para a qual principalmente contribuiram Carlos
+Relvas, Pardal, Rochini, Biel &amp; Companhia, bem
+como dos catalogos dos museus e das exposi&ccedil;&otilde;es
+celebradas, se poderia extrahir desde j&aacute; um
+esbo&ccedil;o
+de inventario, que n&atilde;o seria difficil aperfei&ccedil;oar
+e
+prehencher, emprehendendo novas exposi&ccedil;&otilde;es e
+systematisando completamente as investiga&ccedil;&otilde;es e
+os estudos correlativos.
+<br />
+
+<br />
+
+A commiss&atilde;o de 1890, a que acima me referi,
+propunha que, sem prejuizo das pesquisas que,
+<span class="pagenum">[159]</span>
+conv&eacute;m continuar, para recolher ou arrolar os valores
+artisticos que ainda se conservam ignorados
+em poder de corpora&ccedil;&otilde;es ou de particulares, a
+commiss&atilde;o
+incumbida do inventario geral e definitivo
+desse quanto antes principio aos seus trabalhos,
+tomando por materia as pe&ccedil;as de que ha conhecimento,
+j&aacute; pelo exame de que foram objecto
+nos museus onde existem, ou nas exposi&ccedil;&otilde;es
+at&eacute;
+hoje feitas, j&aacute; pelos catalogos e relatorios que
+d'essas exposi&ccedil;&otilde;es existem, j&aacute; pela
+consideravel
+collec&ccedil;&atilde;o de photographias que reproduzem os
+objectos expostos.
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto &aacute; cataloga&ccedil;&atilde;o e &aacute;
+conserva&ccedil;&atilde;o dos
+objectos pertencentes a particulares ou a
+corpora&ccedil;&otilde;es
+de caracter civil ou religioso, n&atilde;o conviria
+desde j&aacute; estabelecer principios absolutos. O modo
+de proceder dos delegados do governo em tal servi&ccedil;o
+seria indicado pelas circumstancias particulares
+de cada occorrencia, sendo por&eacute;m altamente
+para desejar que os prelados do reino, conscientes
+dos estreitos vinculos que ligam o esplendor das
+artes &aacute; gloria do catholicismo, conseguissem fazer
+penetrar na convic&ccedil;&atilde;o das auctoridades
+eclesiasticas
+<span class="pagenum">[160]</span>
+das suas circumscrip&ccedil;&otilde;es quanto &eacute;
+inseparavel
+da historia da egreja a historia da arte christ&atilde;, e
+quanto o museu, em paizes tradicionalmente catholicos,
+&eacute; ainda uma f&oacute;rma do culto ou um desdobramento
+d'elle na ordem civil, al&eacute;m de ser o
+permanente attestado da allian&ccedil;a da cren&ccedil;a
+religiosa
+com a immortal aspira&ccedil;&atilde;o da poesia no
+cora&ccedil;&atilde;o
+e no espirito da nossa ra&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Para regra definitiva do processo a que se refere
+o alvitre que acabo de expor &eacute; indispensavel que
+seja devidamente estudada e promulgada uma lei,
+semelhante &aacute; que existe hoje na Italia, em
+Fran&ccedil;a,
+nos Paizes Escandinavos, na Russia, na Hispanha,
+na Grecia, na Turquia, tendo por fim definir claramente
+e assegurar, de combina&ccedil;&atilde;o com a
+legisla&ccedil;&atilde;o
+canonica, com os principios da concordata
+e com a legisla&ccedil;&atilde;o geral da propriedade, os
+direitos
+especiaes do Estado com rela&ccedil;&atilde;o &aacute;
+guarda dos
+monumentos e &aacute; parte que elle tem na posse dos
+objectos d'arte, determinando assim o caracter especial
+da propriedade artistica.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma vez decretada essa lei fundamental, e assignalada
+a responsabilidade em que incorrem os
+<span class="pagenum">[161]</span>
+que a transgridam, deveriam formar-se as commiss&otilde;es
+regionaes, dependentes da commiss&atilde;o
+central, e incumbidas, em suas localidades, da
+guarda e da conserva&ccedil;&atilde;o dos monumentos e dos
+objectos d'arte. Estas commiss&otilde;es, &aacute;
+semelhan&ccedil;a
+do que foi disposto na lei italiana de 1878, da
+qual se inspirou em Fran&ccedil;a, para a
+organisa&ccedil;&atilde;o
+de eguaes servi&ccedil;os, a Direc&ccedil;&atilde;o das
+Bellas Artes,
+seriam compostas de oito vogaes, sendo quatro
+da nomea&ccedil;&atilde;o dos municipios e quatro da
+nomea&ccedil;&atilde;o
+do governo, com um architecto inspector adjuncto,
+sob a presidencia do governador civil ou
+do administrador do concelho.
+<br />
+
+<br />
+
+Em toda a parte, ainda nos mais abandonados
+recantos da provincia, ha sempre, onde existe um
+monumento, um homem pelo menos que o ama,
+que o estuda, que o comprehende. &Eacute; a
+collabora&ccedil;&atilde;o
+preciosa d'esses pobres poetas obscuros,
+d'esses modestos archeologos, ignorados da critica
+e do publico, que aos organisadores das commiss&otilde;es
+locaes compete acolher e utilisar.
+<br />
+
+<br />
+
+O processo de inventaria&ccedil;&atilde;o de cada
+pe&ccedil;a artistica
+constaria de duas partes.
+<span class="pagenum">[162]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+A primeira seria a reproduc&ccedil;&atilde;o photographica,
+ou em gesso, ou pela galvanoplastica,
+do objecto inventariado, com registro do respectivo
+clich&eacute; ou molde.
+<br />
+
+<br />
+
+A segunda, a confec&ccedil;&atilde;o de um simples verbete,
+impresso, correspondendo &aacute; photographia por meio
+de um numero de ordem, e satisfazendo os seguintes
+quesitos: 1.&ordm; Descrip&ccedil;&atilde;o summaria do
+objecto;
+2.&ordm; Logar onde elle se encontra; 3.&ordm; Nome do
+individuo
+ou da corpora&ccedil;&atilde;o em cuja posse se acha;
+4.&ordm; Antecedentes; 5.&ordm;
+Attribui&ccedil;&atilde;o; 6.&ordm;
+Avalia&ccedil;&atilde;o;
+7.&ordm; Escala em que houver sido feita a
+reproduc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Este systema, semelhante ao dos museus de
+Londres, de Berlim e de Vienna, &eacute; o mais simples,
+o mais economico, o mais pratico, o mais expedito.
+Com applica&ccedil;&atilde;o ao inventario da arte hispanhola
+elle foi proposto, pelo delegado de Portugal,
+ao grande jury da ultima exposi&ccedil;&atilde;o
+historico-europeia
+em Madrid. Uma real ordem o mandou
+p&ocirc;r em execu&ccedil;&atilde;o, tendo-o sanccionado a
+approva&ccedil;&atilde;o
+unanime de uma commiss&atilde;o presidida
+pelo sr. Canovas del Castillo e composta de criticos
+<span class="pagenum">[163]</span>
+de uma competencia indiscutivel e de uma
+notoriedade europeia.
+<br />
+
+<br />
+
+Com a collec&ccedil;&atilde;o completa das photographias e
+dos verbetes a que alludo, o estado, em Portugal,
+sem ter da riqueza artistica da na&ccedil;&atilde;o um
+inventario
+t&atilde;o desenvolvido e t&atilde;o perfeito como o
+que outros paizes possuem, teria no emtanto um
+arrolamento explicito, e achar-se-hia habilitado a
+ministrar-nos o mais efficaz meio de estudo.
+<br />
+
+<br />
+
+Da collec&ccedil;&atilde;o integral, subdividida em tantas
+series
+diversas quantos os differentes criterios de
+classifica&ccedil;&atilde;o que se lhe applicassem, se
+extrairiam
+collec&ccedil;&otilde;es especiaes, em
+edi&ccedil;&otilde;es mais ou menos
+modestas, relativas a cada ramo do ensino, geral ou
+especial, e destinadas &aacute;s escolas de bellas artes,
+&aacute;s escolas industriaes, aos museus das escolas primarias
+e secundarias, &aacute;s officinas, aos operarios,
+facultando assim, ou gratuitamente ou por infimo
+pre&ccedil;o, a todas as classes sociaes um pronto meio
+de conhecimento da historia geral da arte, da historia
+da arte em cada uma das suas mais especiaes
+applica&ccedil;&otilde;es, da evolu&ccedil;&atilde;o
+das f&oacute;rmas e do
+desenvolvimento dos stylos, na architectura, na
+<span class="pagenum">[164]</span>
+pintura, na esculptura, na marcenaria, na serralheria,
+na ourivesaria, na ceramica, em todos os
+ramos emfim do trabalho artistico e industrial.
+<br />
+
+<br />
+
+Eliminando os numeros que relacionam os verbetes
+com as photographias, os alumnos das escolas
+d'arte, procurando para cada photographia o
+verbete correlativo, e satisfazendo por esse processo
+aos mais variados quesitos de classifica&ccedil;&atilde;o,
+habituar-se-hiam, por meio dos exercicios mais
+simplesmente pedagogicos, a discernir as &eacute;pocas
+e os stylos, retendo todas as diversidades da f&oacute;rma
+pela memoria da vista.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m do que, com o material reunido para o
+inventario dos monumentos architectonicos e das
+riquezas artisticas da na&ccedil;&atilde;o, o estado fundaria
+simultaneamente
+o mais interessante museu de reproduc&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+A Commiss&atilde;o dos Monumentos Nacionaes n&atilde;o
+&eacute; inteiramente, pelos seus meios de
+ac&ccedil;&atilde;o e pelos
+seus fins, a commiss&atilde;o a que se refere a consulta
+de 1890. Parece-me indispensavel, antes de
+tudo, que esta commiss&atilde;o se reconstitua em bases
+mais amplas, e que d'ella se desdobre a commiss&atilde;o
+<span class="pagenum">[165]</span>
+do inventario geral da d'arte, ao qual &eacute;
+urgentissimo que se proceda.
+<br />
+
+<br />
+
+Na parte em que a commiss&atilde;o tem de responder
+pela conserva&ccedil;&atilde;o dos monumentos nacionaes,
+&eacute; preciso, a meu ver, que ella se complete,
+tanto no programma dos seus trabalhos como no
+pessoal que tem de p&ocirc;r em execu&ccedil;&atilde;o esse
+programma,
+n&atilde;o de um modo como at&eacute; hoje officioso
+e facultativo, mas rigorosamente obrigatorio, sendo-lhe
+indispensavel para esse effeito a aggrega&ccedil;&atilde;o
+e a collabora&ccedil;&atilde;o effectiva de dois architectos,
+a presidencia do sr. ministro, e a publica&ccedil;&atilde;o
+periodica
+de um boletim em que regularmente se
+communiquem ao publico os resultados do trabalho
+feito.
+<br />
+
+<br />
+
+Conseguidas as condi&ccedil;&otilde;es de consistencia
+technica,
+de auctoridade e de expediente, que no estado
+presente lhe fallecem e a innutilisam, cabe &aacute;
+commiss&atilde;o arrolar definitivamente, pela photographia
+e pela escripta, os monumentos confiados
+&aacute; sua guarda bem como as obras d'arte que o
+paiz possue; nomear as commiss&otilde;es locaes; definir
+claramente o que &eacute;
+<em>conservar</em>, o que &eacute;
+<em>restaurar</em>,
+<span class="pagenum">[166]</span>
+e o que &eacute; <em>continuar</em> ou
+<em>concluir</em> um monumento;
+redigir desenvolvidamente e em suas mais particulares
+minudencias (porque n'este ponto tudo
+est&aacute; por definir e por estabelecer) os programmas
+especiaes a que tem de satisfazer rigorosamente
+todo o projecto de conserva&ccedil;&atilde;o, de restauro
+ou de acabamento na obra de cada edificio.
+<br />
+
+<br />
+
+Os cuidados de
+<em>conserva&ccedil;&atilde;o</em>
+devem ser obrigatorios
+e extensivos a todos os monumentos. Para
+esse effeito o programma &eacute; simples, e a despesa
+insignificante, ainda perante os mais modestos recursos.
+As occasi&otilde;es em que cabe
+<em>restaurar</em> s&atilde;o
+relativamente raras. E nenhum edificio, qualquer
+que seja a sua importancia historica ou artistica,
+convem <em>concluir</em>, a n&atilde;o
+ser nos casos em que
+vantajosamente elle se possa adaptar a algum dos
+servi&ccedil;os vigentes da civilisa&ccedil;&atilde;o
+contemporanea.
+Este mesmo criterio economico se deveria applicar
+&aacute; opportunidade das
+<em>restaura&ccedil;&otilde;es</em>.
+Da inobservancia
+d'estes preceitos fundamentaes resultou
+o contrasenso de restaurar o edificio dos Jeronymos
+sem previamente se accordar no destino que
+tem de ter esse edificio, como se podesse ser indifferente,
+<span class="pagenum">[167]</span>
+no modo de reconstruir uma casa, que
+ella tenha de ser uma escola, um museu, um archivo,
+um recolhimento, um quartel, um banco ou
+uma habita&ccedil;&atilde;o particular!<sup><a href="#f1">[1]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ao governo de sua magestade, para esse fim
+solicitado pelos homens que com t&atilde;o patriotico
+<span class="pagenum">[168]</span>
+desinteresse constituem a Commiss&atilde;o dos Monumentos
+Nacionaes, compete prefazel-a e fortifical-a
+com a regulamenta&ccedil;&atilde;o e auctoridade de que
+ella carece, ou dissolvel-a.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Se o Estado n&atilde;o intervem cumpre aos governados
+levar a effeito, por um decisivo esfor&ccedil;o de
+<span class="pagenum">[169]</span>
+iniciativa, a obra a que se recusem os que governam.
+<br />
+
+<br />
+
+Est&aacute;-nos dado o exemplo na actividade e na
+abnega&ccedil;&atilde;o de alguns cidad&atilde;os
+benemeritos.
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. bispo-conde de Coimbra funda na sua
+diocese o mais completo e mais interessante museu
+de ourivesaria sagrada que existe em Portugal,
+<span class="pagenum">[170]</span>
+e emprehende e realisa, sob a intelligente
+collabora&ccedil;&atilde;o do sr. Antonio Augusto
+Gon&ccedil;alves, a
+restaura&ccedil;&atilde;o da S&eacute; Velha e a de Santa
+Cruz, com
+uma seguran&ccedil;a de criterio, de que n&atilde;o ha exemplo
+em obra alguma do mesmo genero modernamente
+consumada pelas officinas officiaes.
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. bispo de Beja applica um egual fervor &aacute;s
+obras do convento da Concei&ccedil;&atilde;o; e na mesma cidade
+de Beja por iniciativa da municipalidade, por
+concurso patriotico de alguns cidad&atilde;os, funda-se o
+mais copioso e o mais bem catalogado dos nossos
+museus archeologicos.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Evora o sr. Francisco Barahona custeia por
+si s&oacute; a dispendiosa repara&ccedil;&atilde;o do
+sumptuoso templo
+de S. Francisco, sem a qual teria j&aacute; desabado
+ou desabaria em breve a mais bella egreja portugueza
+do tempo D. Jo&atilde;o II.
+<br />
+
+<br />
+
+Na ultima visita que fiz, em setembro passado,
+&aacute; S&eacute; de Braga, ahi me foi affirmado que o
+respectivo
+prelado estava elaborando o projecto da
+reconstitui&ccedil;&atilde;o
+artistica d'aquelle importante monumento.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Cette e em Pa&ccedil;o de Sousa, camaras, juntas
+<span class="pagenum">[171]</span>
+de parochia, simples influencias individuaes invidam
+os mais louvaveis e mais instantes esfor&ccedil;os
+para a conserva&ccedil;&atilde;o dos monumentos gloriosos
+a que n'esses logares se alliam os nomes de
+Egas Moniz, de Gon&ccedil;alo Veques e de Estevam da
+Gama.
+<br />
+
+<br />
+
+A obra t&atilde;o desvelada da extincta Sociedade de
+Instruc&ccedil;&atilde;o do Porto e a da Sociedade Martins
+Sarmento,
+em Guimar&atilde;es, s&atilde;o verdadeiros monumentos
+de erudi&ccedil;&atilde;o, de estudo, de trabalho pratico, de
+piedade patriotica.
+<br />
+
+<br />
+
+Para a constitui&ccedil;&atilde;o integral da historia da arte
+e da tradi&ccedil;&atilde;o artistica portugueza, quantas
+contribui&ccedil;&otilde;es
+dedicadas, quantos esfor&ccedil;os individuaes,
+desassociados e dispersos, na obra, t&atilde;o incomprehendida
+e t&atilde;o despremiada, dos srs. Joaquim de
+Vasconcellos, Martins Sarmento, Antonio Augusto
+Gon&ccedil;alves, Gabriel Pereira, Sousa Viterbo, Luciano
+Cordeiro, Ferreira Caldas, Ribeiro Guimar&atilde;es,
+Alberto Sampaio, Julio de Castilho, Theophilo
+Braga, Leite de Vasconcellos, Pinho Leal,
+Albano Bellino, Teixeira de Arag&atilde;o, Vilhena Barbosa,
+Concei&ccedil;&atilde;o Gomes, Filippe Sim&otilde;es,
+Manoel
+<span class="pagenum">[172]</span>
+de Macedo, Jos&eacute; Pessanha, Fonseca Benevides,
+Valentim, Vieira Natividade, Figueiredo da Guerra,
+visconde de Condeixa, Borges de Figueiredo,
+Marques Gomes, Rodrigo Vicente de Almeida,
+Zephyrino Brand&atilde;o, Possydonio da Silva, Freitas
+Costa, Avelino Guimar&atilde;es, Freire d'Oliveira; e
+quantos outros, tanto mais sympathicos quanto
+mais obscuros!
+<br />
+
+<br />
+
+O unico inutil da phalange sou talvez eu, que
+em vez de uma accurada monographia, estou
+aqui fazendo um indice de assumptos, que s&oacute; devidamente
+trataria se de cada uma d'estas paginas
+tirasse um livro. Possam ellas ao menos communicar
+a outros cora&ccedil;&otilde;es a sympathia, que filialmente
+prende o meu &aacute; terra em que nasci, e &aacute;
+ra&ccedil;a
+de que procedo!
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; pelo culto da arte, invocado n'estas paginas,
+que a religi&atilde;o da nacionalidade se exteriorisa e se
+exerce.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde que nas consciencias se extinguiu a f&eacute;,
+&eacute; por meio da arte que as tradic&ccedil;&otilde;es
+se transmittem,
+que os sentimentos se coordenam, que os
+affectos se depuram, que as paix&otilde;es se enobrecem.
+<span class="pagenum">[173]</span>
+&Eacute; pela arte, que a exprime, que a poesia do christianismo
+sobreviver&aacute; aos seus dogmas no enternecimento,
+no amor, na saudade dos homens. &Eacute;
+tambem pela arte que em nossa memoria a poesia
+da historia sobreleva das institui&ccedil;&otilde;es, dos
+systemas,
+das theorias e dos homens, sobre que ella
+versa.
+<br />
+
+<br />
+
+A politica, depois da desastrosa fallencia de todas
+as modernas theorias liberaes, cessou por toda
+a parte de ser um foco de attrac&ccedil;&atilde;o para as
+id&eacute;as
+ou para os sentimentos humanos. As leis continuam
+a fazer-se com o destino unico de serem
+consecutivamente e invariavelmente decretadas,
+infringidas e revogadas, para se substituirem por
+leis novas, que por seu turno se decretam, se infringem
+e se revogam, como succedeu &aacute;s anteriores,
+como succeder&aacute; &aacute;s que se seguirem.
+<br />
+
+<br />
+
+No momento presente s&atilde;o unicamente os poetas,
+os philosofos e os artistas que governam espiritualmente
+o mundo. D'ahi, nos paizes de cultura
+mental, dominando todos os phenomenos da
+decadencia moderna, uma effus&atilde;o de sympathia,
+de tolerancia, de benevolencia, de perd&atilde;o, que
+<span class="pagenum">[174]</span>
+caracterisa bem o nosso tempo, e de que n&atilde;o ha
+na historia outro exemplo.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando recebemos da Inglaterra a ultima affronta
+de chancellaria, a que deu motivo o tratado
+de Louren&ccedil;o Marques, quem na minha susceptibilidade
+portugueza mais suavisou esse golpe foi o
+critico d'arte John Ruskin, proclamando solemnemente
+e categoricamente aos estudantes de Glascow
+que os estadistas inglezes (tratava-se ent&atilde;o
+do sr. Disra&euml;li e do sr. Gladstone) lhe n&atilde;o
+mereciam
+nem mais respeito nem mais considera&ccedil;&atilde;o
+que duas velhas gaitas de folle.
+<br />
+
+<br />
+
+Ruskin separava assim e distinguia radicalmente
+a Inglaterra do <em>Foreign Office</em> e de
+lord Salisbury,
+da Inglaterra de <em>South Kensington</em>,
+de <em>British Museum</em>,
+da <em>National Gallery</em>, de
+<em>Ruskin Museum</em>, de
+Darwin, de Spencer, de Carlos Dickens, de Turner,
+de Burne Jones, para a qual tender&aacute; sempre e
+irrevogavelmente
+a terna gratid&atilde;o do nosso espirito.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; unicamente pela arte, inherente &aacute; natureza
+humana, progressiva e eterna, que hoje em dia os
+homens se associam no destino e na solidariedade
+da especie.
+<span class="pagenum">[175]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; pela arte que o genio de cada ra&ccedil;a se
+patenteia,
+que a autonomia nacional de cada povo se
+revela na sua autonomia mental, e se affirma, n&atilde;o
+s&oacute; pela sua especial comprehens&atilde;o da natureza, da
+vida e do universo, mas pelo trabalho collectivo
+da communidade, na litteratura, na architectura,
+na musica, na pintura, na industria e no commercio.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; pelo culto da arte, e pela educa&ccedil;&atilde;o
+artistica
+que esse culto comprehende, que a produc&ccedil;&atilde;o
+industrial se especialisa, se valorisa pela originalidade
+caracteristica do producto, e transforma
+pela prosperidade, unicamente determinada pelo
+ensino, toda a economia de uma na&ccedil;&atilde;o, como se
+evidenciou nos ultimos tempos em Inglaterra, na
+Austria, na Allemanha, por via da simples
+reconstitui&ccedil;&atilde;o
+dos museus e da multiplica&ccedil;&atilde;o das
+escolas.
+<br />
+
+<br />
+
+Finalmente,&#8213;se para cada povo a arte &eacute; a
+seguran&ccedil;a
+da tradi&ccedil;&atilde;o, o refugio das consciencias,
+o mais puro reflexo da imagem benigna da patria,
+a fonte mais caudal de todos os progressos
+moraes, economicos e at&eacute; politicos,&#8213;para cada
+<span class="pagenum">[176]</span>
+homem, na tortura de tantas incertesas moraes
+na magoa e na ruina de tantas cren&ccedil;as extinctas,
+de tantos ideaes desfeitos no melancholico decurso
+da nossa edade, a arte &eacute; ainda&#8213;como diz
+Schopenhauer&#8213;<em>a unica fl&ocirc;r da
+vida</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Notas:</b>
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="f1"></a><sup>[1]</sup> O
+conspicuo parecer, que, a respeito das obras dos Jeronymos,
+foi pelo sr. Luciano Cordeiro apresentado &aacute;
+Commiss&atilde;o dos
+Monumentos Nacionaes, em sess&atilde;o de 7 de novembro de 1895,
+termina,
+depois d'outras, pelas conclus&otilde;es seguintes:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;5.&ordf; O Templo deve ficar destinado,
+s&oacute;mente,
+&aacute;s grandes celebra&ccedil;&otilde;es
+religiosas do Estado, e a Galilea a jazida dos restos dos
+Descobridores e Navegadores portuguezes.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;6.&ordf; Todo o resto do monumental edificio deve ser
+destinado
+a alojamento e installa&ccedil;&atilde;o do Archivo Nacional,
+convindo que
+essa installa&ccedil;&atilde;o se ache concluida at&eacute;
+o mez de maio de 1897.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o concordo inteiramente com o sr. Luciano Cordeiro em
+que se transporte para o edificio annexo &aacute; egreja dos
+Jeronymos
+o archivo da Torre do Tombo, e t&atilde;o pouco em que se remova
+da egreja o exercicio parochial do culto.
+<br />
+
+<br />
+
+Por complexas raz&otilde;es, que n&atilde;o vem para aqui
+desenvolver, eu
+votaria por que, em vez do archivo da Torre do Tombo se estabelecesse
+o museu naval no edificio dos Jeronymos. E emquanto
+a egreja, al&eacute;m de que, em minha humilde opini&atilde;o,
+o clero
+a saberia sempre guardar muito melhor do que o estado, accresce
+ainda que a parochia de Santa Maria de Belem &eacute; uma
+institui&ccedil;&atilde;o
+historicamente sagrada, indissoluvelmente unida em nosso respeito
+&aacute; tradi&ccedil;&atilde;o do monumento. Foi o infante
+D. Henrique quem
+transformou o inhospito areal do Restello na linda freguezia de
+Belem, arroteando o solo, para refresco, abrigo e amparo espiritual
+dos navegantes, plantando arvores, dispondo hortas e pomares,
+abrindo fontes e construindo a primitiva ermida exactamente
+no mesmo logar em que se edificou a actual egreja. O pontifice Pio II
+confirmou por meio de uma bula a doa&ccedil;&atilde;o do
+infante &aacute; ordem de
+Christo, e instituiu em parochia a primeira egreja de Santa Maria de
+Belem, sem outro encargo para a ordem, para os navegantes e para
+o publico sen&atilde;o o de se rezar a cada missa, aos sabbados, um
+<em>Pater
+e uma Ave Maria pela salva&ccedil;&atilde;o da alma do infante
+D. Henrique
+e por a d'aquelles de quem era teudo</em>. O rei D.
+Manoel, tendo
+edificado a sumptuosa egreja e o mosteiro dos Jeronymos, na
+volta da armada de Vasco da Gama, depois do descobrimento da
+India, colloca a estatua do infante &aacute; porta da egreja,
+mantem a
+parochia, e determina, em cumprimento dos piedosos desejos de
+D. Henrique, que a cada missa, ao lavar das m&atilde;os, o
+sacerdote se
+volva para a gente, e diga em alta voz. &laquo;Rogae a Deus pela
+alma
+do infante D. Henrique, primeiro fundador d'esta casa, e por a de
+el rei D. Manoel, que a doou &aacute; ordem de Christo.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+A data d'esta carta de doa&ccedil;&atilde;o &eacute; de 26
+de dezembro de 1498.
+<br />
+
+<br />
+
+Seria, a meu ver, uma infidelidade, uma ingratid&atilde;o, e um
+torpe desacato remover a parochia de Santa Maria de Belem
+do logar em que seus gloriosos fundadores a estabeleceram, cabendo-nos
+pelo contrario o dever de reclamar dos poderes civis
+e dos poderes ecclesiasticos que o modesto voto dos fundadores
+se cumpra, como &eacute; de raz&atilde;o juridica e de
+probidade nacional,
+e que em cada missa conventual celebrada pelo parocho na
+egreja dos Jeronymos, o sacerdote se volte para o povo, ao
+<em>lavabo</em>,
+e pe&ccedil;a um <em>Pater</em> e uma
+<em>Ave Maria</em> pela alma do infante D.
+Henrique
+e pela de el-rei D. Manoel.
+<br />
+
+<br />
+
+Que se adopte por&eacute;m ou se n&atilde;o adopte a proposta
+do sr. Luciano
+Cordeiro, o que technicamente n&atilde;o &eacute; de certo
+admissivel &eacute;
+que as obras dos Jeronymos se prosigam e se concluam sem
+resolu&ccedil;&atilde;o
+tomada &aacute;cerca do destino que ha de ter o edificio em que
+taes obras se fazem.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 61px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p71">#p&aacute;g.
+71</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">ta boas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">taboas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p74">#p&aacute;g.
+74</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">onem</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">nem</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p74">#p&aacute;g.
+74</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">dimens&atilde;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">dimens&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e4" id="e4"></a><a href="#p105">#p&aacute;g.
+105</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">ascebispo</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">arcebispo</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e5" id="e5"></a><a href="#p142">#p&aacute;g.
+142</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">privilegido</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">privilegiado</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<div style="text-align: center;"><br />
+
+Variantes dos nomes pr&oacute;prios foram mantidas de acordo com o
+original.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O culto da arte em Portugal, by
+Jos Duarte Ramalho Ortigo
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CULTO DA ARTE EM PORTUGAL ***
+
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+redistribution.
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+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
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+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+
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+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
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+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
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+opportunities to fix the problem.
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
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+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
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