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+The Project Gutenberg EBook of O culto da arte em Portugal, by
+José Duarte Ramalho Ortigão
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: O culto da arte em Portugal
+
+Author: José Duarte Ramalho Ortigão
+
+Release Date: November 12, 2009 [EBook #30456]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CULTO DA ARTE EM PORTUGAL ***
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Nov. 2009)
+
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+O CULTO DA ARTE
+
+EM
+
+PORTUGAL
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+_RAMALHO ORTIGÃO_
+
+
+O CULTO DA ARTE EM PORTUGAL
+
+
+
+_Monumentos architectonicos--Restaurações--Desacatos
+Pintura e esculptura--Artes industriaes
+O genio e o trabalho do povo--Indifferença oficial--Decadencia
+Anarchia esthetica
+Desnacionalisação da arte--Dissolução dos sentimentos
+Urgencia de uma reforma_
+
+
+
+
+LISBOA
+Antonio Maria Pereira, Livreiro-Editor
+50--Rua Augusta--52
+1896
+
+
+
+
+Typographia da Academia Real das Sciencias de Lisboa
+
+
+
+
+_Á Commissão dos Monumentos Nacionaes_
+
+
+dedica respeitosamente
+este humilde trabalho
+
+
+_O AUCTOR_
+
+
+
+
+Durante a Renascença, e ainda atravez da Edade Média, tão
+insufficientemente conhecida no enigma da sua cultura artistica, os
+reis, os monges, os fidalgos, os burguezes enriquecidos ostentavam o
+fausto e a pompa hierarchica não sómente construindo palacios e
+castellos, que enobreciam os logares que elles habitavam, mas erigindo
+basilicas e cathedraes, em que se concentravam todos os esforços do
+talento de uma raça, e eram verdadeiramente os palacios do povo, doados
+magnanimamente pelos mais poderosos aos mais humildes, em nome de Deus,
+em nome do rei, em honra da patria.
+
+N'esses edificios incomparaveis se achavam colligidas como em escolas
+monumentaes, como em museus portentosos, todas as maravilhas da
+sciencia, da poesia e da arte. A esculptura architectural, a estatuaria
+dos mausoleus, a imaginaria dos altares, a illuminura dos missaes, a
+pintura das vidraçarias, a talha dos retabulos subordinavam-se a um
+pensamento commum, expresso n'um vasto symbolismo, comprehendendo as
+fecundidades da terra e do mar, o trabalho do homem nos seus
+desfallecimentos e nos seus triumphos, a perturbação dos sentidos pelo
+peccado, a fatalidade do sangue, o horror do universal aniquilamento, e
+o vôo da alma para Deus, levada por um immortal instincto de amor, de
+paz, de verdade e de justiça.
+
+Dentro d'essas egrejas, ameaçadas hoje de proxima ruina ou inteiramente
+arruinadas, se celebravam todos os actos da vida religiosa, da vida
+civil e da vida domestica. Ahi se casavam os noivos, se baptisavam os
+filhos, se sepultavam os paes. Ahi se ungiam os reis, velavam as armas
+os cavalleiros, professavam os monges, benziam-se os fructos da terra,
+as bandeiras das hostes, as ferramentas da lavoura e os pendões dos
+officios. Ahi se discutiam os interesses do povo, os direitos, as
+franquias, os foros da communa. Ahi se prégava o Evangelho, se resava a
+missa, e se representavam os autos populares da vida de Jesus e dos seus
+santos; e nas vigilias da Natividade, da Epiphania e da Paschoa, quando
+o orgão emudecia no coro e se calavam os cantos liturgicos, o povo
+bailava ao longo da nave, sob as abobadas gothicas ou sob as cupulas
+bysantinas, e as lôas e os villancicos, entoados pelos fieis, subiam
+para o ceu com a fragancia das flores e com o fumo dos thuribulos, ao
+repique das castanholas e ao rufar dos adufes.
+
+Ao lado dos brazões e das divisas heraldicas pendiam dos muros os votos
+modestos dos mais obscuros mesteiraes, dos mais humildes braceiros.
+
+Esse alcaçar dos pobres, que era a egreja medieval, alcaçar mais
+sumptuoso que o de nenhum rei, dava asylo incondicional, inviolavel e
+sagrado, aos maltrapilhos, aos villões, aos mendigos, aos lazaros e ás
+lazaras de todas as lepras do corpo e da alma, aos tinhosos, aos nus,
+aos imbecis, aos ignorantes, aos criminosos, ás mulheres adulteras, ás
+mancebas, ás mundanarias, ás barregãs.
+
+O egoismo dos tempos modernos torna-nos incompativeis com o commetimento
+de tão grandes obras. Creamos instituições de caridade, fazemos
+regulamentos de assistencia publica, e vangloriamo-nos de haver definido
+pela revolução liberal o dogma da fraternidade humana, mas somos
+fundamentalmente incapazes de consagrar á pratica das virtudes, de que
+julgamos ter na historia o monopolio, monumentos como aquelles que
+nossos avós lhe levantaram _a proll do comum e aproveitança da terra_,
+dando em resultado que o mais andrajoso mendigo da portaria do mosteiro
+de Alcobaça ou do mosteiro de Santa Cruz, com o seu alforge ao pescoço e
+a sua escudella debaixo do braço, participava, além da ração quotidiana
+que se lhe distribuia pelo caldeirão da communidade, de um agasalho de
+principe e de um luxo d'arte com que hoje não competem os maiores
+potentados, os quaes em suas casas e para seu recreio intimo se rodeiam
+de todas as joias artisticas de que pela abolição dos vinculos e pela
+extinção das ordens religiosas se apoderou o moderno commercio do
+bric-à-brac.
+
+Falta-nos a alta noção de solidariedade patriotica, falta-nos o desapego
+dos bens de fortuna, falta-nos o largo espirito de abnegação, falta-nos
+a illimitada liberalidade cavalleirosa, e falta-nos a fé dos nossos
+avós.
+
+Na architectura trabalhamos unicamente para nós mesmos, sem cuidados de
+futuro, sem pensamento de continuidade de raça ou de familia,
+deslembrados de que teremos vindouros e de que teremos netos.
+
+Entre as nossas antigas construcções hydraulicas ha o aqueducto de
+Elvas, que levou cem annos a fazer. Varias gerações successivas
+acarretaram para essa construcção os materiaes; e lentamente,
+pacientemente, foram collocando pedra sobre pedra, para que um dia a
+agua chegasse a Elvas, e bebessem d'ella os netos dos netos d'aquelles
+que de tão longe principiaram a recolhel-a e a canalisal-a. Uma tal
+empresa é a humilhação e a vergonha do nosso tempo, imcapaz de pagar com
+egual carinho ao futuro aquillo que deve á previdencia, aos sacrificios
+e aos desvelos do passado.
+
+O nosso ideal na arte de construir é que a obra se faça em pouco tempo e
+por pouco dinheiro. Vamos abandonando cada vez mais, de dia para dia, a
+pedra e a madeira, em que é nimiamente moroso para a morbida inquietação
+do nosso espirito o trabalho de desbaste, de esquadria e de lavor.
+Adoptamos, como material typico do nosso systema de edificar, o ferro, o
+tijolo e a pasta. A casa cessou de ser uma obra de architectura para se
+converter em uma empreitada de engenharia, e os delicados artistas da
+pedra, da madeira e do ferro forjado abdicam da sua antiga missão
+perante os subalternos obreiros encarregados de fundir, de amassar e de
+enformar a vapôr a habitação moderna e o moderno edificio publico--a
+gare, o quartel, o mercado ou a cadeia.
+
+O seculo XIX, se com a impotencia de continuar a obra monumental dos
+seculos que o precederam, accumulasse a incapacidade de comprehender e
+de venerar essa obra, representaria um pavoroso retrocesso na historia.
+Não succede assim, porque são inviolaveis as leis do progresso. Ao
+seculo XIX coube patentear o estudo mais dedicado e o conhecimento mais
+perfeito da arte antiga. A sciencia archeologica e a critica d'arte
+nunca em nenhum outro periodo da civilisação chegaram á eminencia
+attingida pelos investigadores contemporaneos. É tambem em sua maneira
+um colossal monumento, dos mais gloriosos para a intelligencia, o que
+erigiu a erudição do nosso tempo, constituindo scientificamente a
+archeologia, definindo o seu methodo, fixando os seus limites,
+especialisando o trabalho dos seus contribuintes, distinguindo da
+archeologia litteraria a archeologia da arte, ramificando para um lado a
+paleographia, a epigraphia, a ecdotica, a museographia e a propedeutica,
+para o outro as bellas artes, as artes industriaes, a numismatica, e
+ainda como desdobramento d'estes estudos a iconographia, a mithologia
+figurada e a symbologia, particularisando emfim estas investigações a
+cada povo e a cada epocha da humanidade, creando d'esse modo a
+prehistoria, a egyptologia, a syriologia, que tão amplo clarão teem
+derramado sobre os problemas da origem do homem, da distribuição das
+raças, da formação das linguas. Fixaram-se pelas escavações de Troia, de
+Mycenes, de Chypre, de Santorin e de Rhodes as origens orientaes e
+pelasgicas da arte grega. Corrigiu-se na historia da ceramica a confusão
+existente entre os vasos pintados gregos e etruscos. Refez-se
+completamente sobre novos elementos e por um criterio novo a historia da
+olaria, a da toreutica, a da glyptica, a da esculptura em barro, a dos
+bronzes, a das joias, a da tapeçaria, a da illuminura. Desvendou-se o
+conhecimento da tachigraphia hieratica e dos alphabetos hieroglyphicos,
+ideographicos e phoneticos, que precederam o alphabeto grego e o latino.
+Creou-se a critica scientifica dos textos. Colligiram-se e
+classificaram-se as inscripções gregas e romanas dessiminadas pela
+Europa, e definiu-se o methodo de as datar. Leram-se os carcomidos
+graffitos de Pompeia, os papyrus carbonisados de Herculanum, as cartas
+lapidares da edade média e os palimpsestos de Plauto, de Cicero, de
+Marco Aurelio, de Tito Livio, de Euripedes e dos scribas carolingeanos.
+Interpretaram-se os documentos de procedencia egypcia, copta ou phenicia
+sepultados nos jazigos das mumias. E os mysteriosos caracteres
+hieroglyphicos e cuneiformes das inscripções egypcias, caldéas, assyrias
+e persas foram simplesmente trasladados a vulgar. Determinou-se a edade
+dos manuscriptos pelo systema das abreviaturas e da pontuação e pela
+evolução da letra desde a oncial da _Iliada_ no palimpsesto
+greco-syriaco do Museu Britannico até a minuscula italiana egual á dos
+primeiros caracteres da imprensa. Inspeccionaram-se e inquiriram-se as
+primitivas habitações do homem, as suas primeiras fortificações, os seus
+mais antigos sepulcros,--a caverna, a cidade lacustre, os castros e os
+dolmens. Na architectura principiou-se a estudar por novos meios de
+critica as causas dos seus progressos e da sua decadencia, prendendo
+assim pelos mais estreitos vinculos ao destino da arte o destino do
+homem. Por tal modo se transfigurou completamente desde o seu alicerce
+até o seu remate o vasto edificio da historia, segundo a resumida
+formula dada por Champolion Figeac: que todos os monumentos, ainda os
+mais communs e os mais grosseiros, conteem factos cujo conjuncto é como
+a estatistica moral das sociedades extinctas.
+
+D'esse novo criterio resultou a attenção especial com que todos os povos
+cultos principiaram a considerar a obra material do passado; e assim
+nasceu, com uma nova palavra, a nova maneira de _restaurar_ os edificios
+publicos.
+
+Em mais de um documento da edade média se encontram provas de que os
+antigos poderes não abandonavam, tão completamente como hoje se poderia
+suppor, ao accaso de qualquer iniciativa, sem beneplacito do estado, as
+edificações consagradas ao publico. No _Codigo de las partidas_, lei
+6.ª, titulo X, dizia Affonso o Sabio, n'aquella saborosa lingua de que
+mais tarde se desdobrou o portuguez e o castelhano: «Por bienaventurado
+se debe tener todo home que pueda facer eglesia, do se ha de consagrar
+tan noble cosa et tan sancta como el cuerpo de Nuestro Señor Jesucristo,
+et como quiere que todo home ó mujer la puede facer a servicio de Dios,
+pero con mandamiento del obispo, como es dicho en la ley segunda deste
+titulo, con todo eso debe catar dos cosas el que la ficiere, que la faga
+complida et apuesta; et esto tambien en la labor como en los libros et
+en las vestimientas...»
+
+Affonso V escreve de Almada, em 1467, aos juizes, vereadores,
+procuradores e homens bons da cidade de Evora para que se permitta a
+Sueiro Mendes levar duas pedras que estavam nos açougues, e eram do
+antigo templo romano, para antipeitos das janellas de uma casa, que a
+esse tempo edificava. «E porque as ditas pedras aproveitam pouco honde
+estam e em as ditas casas faram muito, e ainda é nobresa as cidades
+haverem em ellas bôas casas taes como as do dito Sueiro Mendes, e seu
+fundamento he as faser para nós em ellas havermos de pousar, Nós vos
+rogamos e encomendamos que vos prasa lh'as quererdes dar, e Rodrigo
+Esteves mestre das nossas obras em essa cidade terá cuidado de as tirar
+donde estam, etc.» Estas linhas são um traço caracteristico da policia
+do tempo. D'ellas se deduz que era preciso no seculo XV requestar a
+intervenção regia para bulir em duas pedras de um velho monumento,
+operação que hoje se realisa com menos formalidades, e até, como é
+sabido, sem formalidade alguma. Era porém entendido como doutrina
+corrente não desdizer da nobreza de uma cidade que cantarias de stylo
+romano se transpuzessem do edificio a que pertenciam para edificio de
+stylo completamente diverso. Aquillo que modernamente se entende pelo
+neologismo restaurar é operação desconhecida dos antigos. A obra
+architectonica seguia sempre e invariavelmente quer em novas
+edificações, quer em reparação de antigas, o systema e o stylo da epocha
+em que era feita. Sem falarmos do Egypto, da Grecia, de Roma, onde as
+reconstrucções se emprehendiam, sem o menor sentimento de respeito pela
+tradição, em vista de celebrar uma gloria coeva com os mesmos materiaes
+que haviam servido á glorificação de feitos anteriores, como no arco de
+Constantino feito com as pedras do arco de Trajano, vemos em toda a
+Europa, e mais particularmente em Hispanha e em Portugal, edificios em
+cujos stylos sobrepostos perfeitamente se espelha o independentismo das
+influencias diversas atravez das successivas phases da construcção por
+differentes vezes interrompida. Uns nascem genuinamente bysantinos e
+desenvolvem-se romanicos; outros começam romanicos e concluem gothicos;
+outros, gothicos de nascença, acabam no clacissismo greco-romano do
+renascimento; e é frequente nas nossas egrejas entrarmos por um portal
+do seculo XVI para nos defrontarmos com uma capella mór no stylo barroco
+de D. João V, de D. José ou de D. Maria I. D'esses casos de
+polyarchitectonismo encontramos exemplos em Toledo, em Burgos, nos
+Jeronymos, na Batalha.
+
+A cathedral de Colonia é n'este ponto de vista, um facto particularmente
+expressivo. A construcção, principiada no meado do seculo XIII,
+proseguida muito lentamente, suspende-se no fim do seculo XV por
+desanimo de a concluir segundo o plano primitivo. No seculo XVII e no
+seculo XVIII, a nave, abrigada por um tecto provisorio, é ornamentada em
+stylo rococo. Sómente em 1842 se encetaram os trabalhos de uma
+restauração authenticamente archeologica, segundo o plano original,
+cabendo o projecto da conclusão a um architecto que ao mais profundo
+estudo do stylo ogival reunia o talento mais esclarecido e mais
+perspicaz.
+
+Na historia da cathedral de Milão circumstancias analogas ás de Colonia
+veem ainda corroborar a affirmação de que unicamente ao seculo XIX cabe
+o privilegio de restaurar monumentos. A obra de Milão iniciada no seculo
+XIV, é interrompida por desavenças entre os architectos, uns allemães,
+outros italianos, outros francezes; é continuada no seculo XVI em stylo
+da renascença; e tão sómente em 1805 a restauração do monumento no seu
+stylo primitivo, segundo os programmas mais tarde definidos, se achou
+determinada por Napoleão I, o qual pela vastidão do seu genio, ainda que
+pouco propicio aos humildes, muitas vezes se adeantou do seu tempo, e em
+muitas campanhas da intelligencia indicou de antemão o ponto da
+victoria, assim como ao principiar a campanha de Italia assignalava na
+carta do Piemonte o logar de Marengo.
+
+Foi Vitet, nomeado inspector geral dos monumentos historicos em 1830,
+quem primeiro indicou em França o programma das restaurações
+architectonicas, presentemente seguido em toda a parte:--em Hispanha,
+onde depois da real ordem de 4 de maio de 1850, se não emprehende obra
+de especie alguma nos edificios monumentaes sem prévia consulta da
+commissão dos monumentos historicos e artisticos; em Inglaterra e na
+Allemanha, que haviam precedido a França na protecção da arte nacional;
+na Italia, emfim, na Belgica, na Dinamarca, na Suecia, na Noruega, na
+Grecia, na Turquia.
+
+Violet-le-Duc, o erudito mestre a quem tanto deve o ensino da
+archeologia e das artes, completou o programma de Vitet, não sómente
+ampliando os seus preceitos, mas dando da applicação d'elles o mais
+notavel exemplo na restauração do castello le Pierrefonds.
+
+Conhecidos os livros de Violet-le-Duc, estudados com tão paciente
+laboriosidade, escriptos com tão lucido e penetrante engenho, e
+conhecida a legislação européa baseada n'esses estudos tão completos e
+tão perfeitos, a questão puramente administrativa de dar aos monumentos
+nacionaes de cada povo a protecção que se lhes deve, quando menos por
+simples solidariedade intellectual na civilisação do nosso tempo, é
+questão perfeitamente illucidada e rigorosamente definida.
+
+Vejamos agora qual é em Portugal, perante as responsabilidades da
+administração, o reflexo das ideias, cuja historia procurei resumir, com
+o fim de pôr o assumpto na perspectiva que a sua magnitude pede.
+
+
+Levaria muito tempo e seria excessivamente triste ennumerar todos os
+attentados de que teem sido e continuam a ser objecto, perante a mais
+desastrosa indifferença dos poderes constituidos, os monumentos
+architectonicos da nação, os quaes assignalam e commemoram os mais
+grandes feitos da nossa raça, sendo assim por duplo titulo, já como
+documento historico, já como documento artistico, quanto ha, sobre a
+terra em que nascemos mais delicado e precioso para a honra, para a
+dignidade, para a gloria da nossa patria.
+
+Dos desacatos de lesa magestade nacional, a que tenho a dôr e a vergonha
+de me referir, uns teem caracter anonymo, outros affectam directamente a
+cumplicidade official. Os primeiros são uma consequencia de desdem; os
+segundos são um resultado de incapacidade.
+
+A auctoridade, incerta, vagamente definida, a quem tem sido confiada a
+conservação e a guarda da nossa architectura monumental, procede com
+esse enfermo, de quem se incumbiu de ser o enfermeiro, por dois methodos
+differentes: umas vezes deixa-o morrer; outras vezes, para que elle
+mesmo não tome essa resolução lamentavel, assassina-o. Na primeira
+hypothese a calamidade correlativa chama-se _abandonar_. Na segunda
+hypothese a catastrophe correspondente chama-se _restaurar_,--gallicismo
+technico, recentemente introduzido no vocabulario nacional, mas ainda
+não definido vernaculamente na applicação pratica.
+
+Para o argumento que tenho em vista produzir, tomarei unicamente d'entre
+os differentes desastres com que se deshonram e enxovalham os nossos
+monumentos, o desastre denominado _restauração_.
+
+Serei laconico, sem deixar de ser sufficientemente expressivo, porque os
+factos são de uma eloquencia que esmaga toda a especie de replica na
+materia de que se trata.
+
+Aqui temos tres edificios restaurados ou em restauro a expensas da
+nação, sob os auspicios do estado: Os Jeronymos, a Madre de Deus e a
+Batalha.
+
+Nos Jeronymos a construcção desmoronou-se, sem provocação alguma de
+agente extranho, por mero desequilibrio de si mesma. Inutil todo o
+commentario. A restauração, ainda antes de terminada, cahiu. Que prova
+mais lastimavelmente completa, evidente e cabal, de que foi
+insufficientemente estudado, logo nos seus primordiaes elementos, o
+programma de tal restauração?! As seguranças de execução falham
+precisamente na parte mais rudimentar do problema.
+
+Attente-se em que não se trata ainda de uma questão de archeologia, nem
+de uma questão de arte; não se apresenta nenhuma d'essas subtis
+difficuldades inherentes ao estudo das fórmas constructivas ou
+ornamentaes, ao discernimento dos diversos stylos, ao pleno conhecimento
+das antigas escolas no tempo e na região a que o edificio pertence.
+Resolve-se apenas realisar uma simples tarefa de construcção, e esquece,
+incumbindo esse trabalho de simples mestre de obras ao mais distincto
+dos scenographos, que a primeira condição de um architecto a quem se
+confia a restauração de um monumento é que elle seja, antes de tudo,
+acima de tudo, o mais habil, o mais experiente, o mais perito de todos
+os constructores.
+
+Na Madre de Deus, onde aliás o primitivo portal da rainha D. Leonor foi
+discretamente reconstituido na moderna fachada do edificio, temos o
+infortunio de ir encontrar no consecutivo restauro de uma fabrica do
+tempo de D. João III novos capiteis de columnas, nos quaes em vez da
+ornamentação vegetal do nosso seculo XVI se vê reinar nos entablamentos
+a figuração, absolutamente imprevista e inopinada, de uma locomotiva de
+caminho de ferro, arrastando fumegante o respectivo comboyo, tudo
+lavrado mui laboriosamente em pedra, e demandando um tunel. Este
+assombroso phenomeno de pathologia archeologica estou convencido de que
+dispensa ainda mais do que o caso dos Jeronymos a investigação da
+autopsia.
+
+Nas restaurações da Batalha, umas já em realidade, outras ainda em
+projecto, falta, primeiro que tudo, o meditado programma de conjuncto no
+ponto de vista archeologico, no ponto de vista artistico e no ponto de
+vista technico, visando o assumpto por todos os lados de que elle pode
+ser encarado: qualidade do solo, influencias da atmosphera, escolha de
+materiaes, condições de resistencia e de equilibrio, systema geral de
+structura, determinação do stylo, desde as suas grandes linhas e dos
+seus motivos dominantes até os ultimos desenvolvimentos d'essas linhas,
+até o extremo desdobramento d'esses motivos, mão de obra, direcção e
+apprendisagem em todas as officinas de que depende o restauro, etc.
+
+Seria por um programma d'essa natureza que a competencia do architecto
+restaurador deveria principiar a affirmar-se. Perante essa prova,
+comprehendendo o estudo do monumento, plantas, alçados, photographias,
+desenhos de projectos, systemas de stylisação, methodos de estudo e de
+trabalho, regimentos de officinas, etc., poderiamos nós, que não somos
+architectos, mas simples criticos, fiscaes da arte em nome do publico,
+decidir se o restaurador da Batalha está ou não está ao nivel da sua
+missão. Sem prova d'essa ordem que cotejemos com os requisitos a que
+teem de satisfazer, nos paizes extrangeiros, os architectos a quem se
+entrega a restauração de um monumento, nós não podemos julgar senão de
+um modo muito imperfeito, tendo de entrar mais ou menos no exame da
+execução, para o qual nos fallece a competencia profissional.
+
+Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque é o unico architecto portuguez de
+quem conhecemos, com relação á historia do edificio e ao plano da
+restauração da Batalha, estudos especiaes, consubstanciados n'uma
+memoria publicada, depois da morte do auctor, em 1867. A monographia a
+que me refiro, além de mui interessantes revelações sobre os vandalismos
+perpetrados pelos ultimos frades que habitaram o mosteiro e chegaram a
+quebrar os preciosos vidramentos das janellas para presentearem os
+visitantes com cabeças das figuras de que elles se compunham, contém
+alguns principios mui judiciosos e bem definidos, sobre o modo como esse
+perito restaurador, que a influencia do rei D. Fernando fizera nomear,
+comprehendia a sua delicada missão. E excellente o methodo por elle
+proposto para a conservação das Capellas imperfeitas. Notam-se alguns
+excessivos e infundados rigores de zelo, como na parte em que ao
+restaurador repugna adoptar, para o fim de pôr o monumento ao abrigo das
+intemperies, processos de resguardo mais perfeitos que os conhecidos ao
+tempo da construcção primitiva, taes como, por exemplo, o emprego de
+cimentos modernos na vedação de uma cobertura, etc. A memoria programma
+de Mousinho de Albuquerque é não obstante um trabalho de incontestavel
+merecimento, que muito augmenta de valor se levarmos em conta que esse
+illustre architecto escrevia em 1840, quatro annos depois d'aquelle em
+que o rei D. Fernando visitou o edificio, chamando para elle pela
+primeira vez a attenção dos poderes publicos.
+
+Até Mousinho a architectura da Batalha foi na litteratura portugueza um
+puro thema de rhetorica. O romantismo tinha-nos trazido a moda do
+gothico por via de Chateaubriand e de Victor Hugo. Os romances, as
+xacaras, as baladas e os solaus, com as suas castellãs, os seus
+paladinos, os seus pagens, os seus menestreis e os seus respectivos
+attributos--lanças, montantes, elmos, guantes de ferro, falcões, adagas,
+béstas e bandolins, pediam um scenario de fortificação feudal, fossos e
+pontes levadiças, revelins, caminhos de ronda, ameias, torres de
+menagem, amplas chaminés com trasfogueiros forjados, ogivas e abobadas.
+As egrejas, para os effeitos de grandiosidade no stylo, sempre que não
+eram ermidas eram cathedraes. Os romanticos chamavam cathedraes a todos
+os grandes templos, como o da Batalha, o do Carmo e o dos Jeronymos. O
+romance historico, tanto em voga durante a geração litteraria de
+Alexandre Herculano, tinha exigencias decorativas analogas ás da poesia
+cavalheiresca. Os estudos de critica e de archeologia artistica, tendo
+por objecto os nossos monumentos architectonicos, davam em resultado
+geral uma especie de lenga-lenga de eruditos ciceroni.
+
+A Batalha tem sido constantemente, desde a primeira apparição da
+_Abobada_ no _Panorama_, até hoje, o _grande livro de marmore_, o
+_immortal poema_, a _Divina Comedia portuguesa_, a triumphante
+affirmação da nacionalidade independente, definitiva, fundada pela
+vontade do povo, pela espada do mestre de Aviz, pela lança de D. Nuno
+Alvares Pereira e pela penna de João das Regras.
+
+Com effeito, nada mais bello, na historia nacional, do que o feito
+d'armas de Aljubarrota e o monumento de Nossa Senhora da Victoria,
+destinado a commemorar esse feito, por voto de D. João I. Mas d'ahi a
+poder-se dizer que o edificio da Batalha é, como a epopéa dos
+_Luziadas_, a imagem technica das idéas e dos sentimentos da patria,
+medeia--me parece--um largo abysmo.
+
+Olhemos por um momento a historia d'esta construcção.
+
+Frei Luiz de Sousa diz que «El-rei chamara de longes terras os mais
+celebres architectos que se sabiam; convocara de todas as partes,
+officiaes de cantaria déstros e sabios; convidara a uns com honras, a
+outros com grossos partidos, e obrigara a muitos com tudo junto.» Este
+testemunho é precioso e está acima de toda a suspeita, porque nos vem de
+um frade de S. Domingos, que habitou por muitos annos o convento da
+Batalha, e que, como chronista da ordem, conheceu inteiramente pelo
+archivo do convento quanto se sabia da historia da sua fundação.
+
+Frei Francisco de S. Luiz contesta, sem provas, que fossem architectos
+celebres chamados de longes terras, como diz Sousa, os iniciadores da
+grande obra, e cita como auctor do risco Affonso Domingues, porque
+d'elle se sabe que teve parte na direcção das obras nos primeiros annos
+da fundação, e não consta de documento authentico que qualquer outro
+architecto interviesse nos trabalhos durante os dezeseis annos que
+medeiam entre o seu começo e o anno da morte de Affonso Domingues, em
+1402.
+
+Todos os que se seguiram a Frei Francisco de S. Luiz, adoptaram esta
+opinião; de modo que se tornou uma cousa tão corrente como se estivesse
+demonstrada que foi Affonso Domingues quem construiu a Batalha.
+
+James Murphy, porém, no seu livro _Travels in Portugal_, affirma, por
+_informações que lhe foram dadas em Lisboa por empregados da Torre do
+Tombo_, que o encarregado da construcção foi o architecto inglez Stephan
+Stephenson, socio das _free and accepted masons_, que tinham a sua séde
+principal em York. Stephenson teria vindo a Portugal por intervenção da
+rainha D. Filippa, mulher de D. João I, ingleza de nação, filha do duque
+João de Lencastre e neta de Eduardo III.
+
+O conde de Rakzynski diz a este respeito, que desde que examinou as
+gravuras do convento da Batalha, na obra _in folio_ de Murphy, se
+convenceu de que a analogia existente entre a Batalha e a cathedral de
+York não permitte a minima duvida acerca da origem commum d'estes dois
+edificios. «Que o plano da igreja da Batalha--diz Rakzynski--seja obra
+de um portuguez ou de um inglez, a verdade é que as duas igrejas
+nasceram de inspirações artisticas analogas, homogeneas e
+contemporaneas, e o estylo de ambos me parece identico. Esta impressão
+tornou-se para mim ainda mais forte, depois que visitei a Batalha.»
+
+Temos, pois, sobre a origem estrangeira d'este monumento tres votos
+importantes: o de Fr. Luiz de Sousa, o de James Murphy e o do conde de
+Rakzynski, aos quaes recentemente se juntou o architecto Haupt.
+
+Na Torre do Tombo não se encontra documento algum relativo á construcção
+da Batalha, nem á vinda de Stephenson a Portugal. Em 1845, Alexandre
+Herculano e o Visconde de Juromenha, auxiliados pelos officiaes da
+Torre, fizeram as mais demoradas e escrupulosas pesquizas para o fim de
+satisfazer a curiosidade de Rakzynski, e nada appareceu.
+
+É claro que esta ausencia de vestigios no real archivo nada prova sobre
+o facto de ter estado ou não em Portugal o architecto de York. Não
+consta tão pouco, dos documentos existentes no archivo, que tivesse
+estado em Portugal durante nove annos o insigne esculptor italiano
+Andrea Contucci, emulo de Miguel Angelo; e no emtanto este facto acha-se
+fóra de toda a contestação.
+
+O cardeal patriarcha Frei Francisco de S. Luiz, queixando-se da
+negligencia e da superficialidade com que Frei Luiz de Sousa falla dos
+primeiros architectos da Batalha, e propondo-se demonstrar que o auctor
+da obra foi Affonso Domingues, diz que não vê razão para pôr em duvida a
+habilidade dos nossos compatriotas, suppondo que houvessemos de reclamar
+a assistencia de estrangeiros em uma epocha como a de D. João I, na
+qual, exceptuadas as italianas, _nenhuma nação da Europa se achava mais
+adeantada que a nação portugueza, tanto na arte da architectura, como em
+todas as outras_.
+
+O patriotismo imprudentemente levado até ás affirmações da natureza das
+de Frei Francisco de S. Luiz, tem um inconveniente grave, que é o de
+fazer sorrir os estrangeiros, da ingenua applicação dos nossos
+sentimentos civicos á historia da arte européa.
+
+Hoje, toda a gente sabe, porque esta ordem de conhecimentos tem-se
+vulgarisado muito, que o systema gothico ou systema ogival, a que
+primitivamente se chamou _Opus francigenum_, teve a sua origem na ilha
+de França e na região circumstante. Foi n'esses logares que até o seculo
+XII se construiram os primeiros edificios gothicos. O novo stylo chega
+em França aos seus mais completos desenvolvimentos no seculo XIII, e
+d'essa epocha datam as cathedraes de Amiens, de Pariz, de Reims e de
+Chartres.
+
+Os allemães e os inglezes teem contestado á França a prioridade do
+emprego do arco ogival e dos desenvolvimentos architectonicos que d'elle
+procedem. O que, porém, está acima de todo o litigio, é que o systema
+ogival, chamado stylo gothico, ou gothico puro da igreja da Batalha, não
+procede da invenção dos paizes meridionaes, de céu azul, mas sim das
+regiões nevoentas de longos e rudes invernos.
+
+No norte da Europa, durante a edade média, tratou-se de edificar a
+grande cathedral que désse um abrigo espaçoso ás numerosas congregações
+de fieis e de cidadãos; como a pedra escasseava, como a neve cahia em
+abundancia e permanecia por longo tempo, procurou-se um modo de
+construcção, que, sem difficultar a circulação da gente com grandes e
+repetidos corpos de cantaria no interior do edificio, permittisse
+empregar materiaes menos solidos e fazer tectos elevados e agudos, que,
+não pesando excessivamente sobre os membros destinados a sustental-os,
+deixassem facilmente resvalar e escorrer a neve pelas superficies
+exteriores, impedindo o mais completamente possivel a infiltração da
+humidade no interior do templo.
+
+Foi d'estas causas, determinadas pela natureza do clima e do solo, pelas
+condições sociaes, e não de um mero capricho inventivo, que resultou
+para os architectos dos paizes septentrionaes o pensamento de readoptar
+a abobada de aresta, que os romanos, depois de a haverem empregado,
+puzeram de parte, para o fim de dar logar na construcção das basilicas
+christãs á enorme quantidade de columnas legadas pelo paganismo.
+
+Assim foi que nasceu, bem longe de Portugal e inteiramente fóra das
+influencias cosmicas e das influencias sociaes geradoras do caracter e
+da indole da nossa raça, que nasceu o stylo architectonico da egreja da
+Batalha.
+
+A affirmativa de que nenhuma nação da Europa, com excepção da Italia, se
+achava mais adeantada do que Portugal do tempo de D. João I, nas artes
+da architectura, sómente prova, da parte do cardeal frei Francisco de S.
+Luiz, que este benemerito academico e illustre litterato, ou não viajou
+nunca em França e na Allemanha, ou não visitou n'estes paizes os
+monumentos anteriores ao fim do seculo XIV.
+
+A egreja da Batalha, que data d'essa epocha, é chronologicamente um dos
+ultimos edificios em stylo gothico puro construidos na Europa, e, apesar
+de toda a sua belleza, está, como obra d'arte e como magnificencia
+monumental, bastante abaixo de alguns outros edificios construidos cem
+ou duzentos annos antes, como a cathedral de Strasburgo (1015 a 1275),
+Reims (1215), Amiens (1222), Colonia (1248) a Sainte-Chapelle em Pariz
+(1248), Notre-Dame (1275), etc.
+
+Bastaria que o auctor da interessante memoria sobre a construcção do
+convento da Batalha, encorporada na collecção das memorias da Academia,
+tivesse olhado em Pariz para as estatuas de Sainte-Chapelle e para os
+baixos-relevos da egreja de Notre-Dame; que tivesse observado um momento
+as esculpturas de Chartres, de Reims e de Amiens; para ter uma idéa do
+enorme abysmo que no tempo de D. João I nos distanciava ainda dos
+grandes mestres da architectura e da esculptura franceza, que se
+chamaram Pierre de Montreuil, Thomas e Regnaut de Carmont, Jean de
+Chelles, Hugues Libergier e outros artistas leigos, sem contar os muitos
+monges anonymos com que se illustrou na historia da arte, a ordem de
+Cluny, no seculo XII e no seculo XIII.
+
+Na Allemanha, temos, precedendo a Batalha, a cathedral de Colonia; na
+Inglaterra Canterbury, Westminster, Salisbury, Lincoln e York; e em
+Hispanha, Burgos e Toledo.
+
+Anterior á Batalha não ha em Portugal monumento algum que prenuncie,
+prepare e explique a apparição d'este.
+
+Nos primeiros tempos da monarchia, em quasi todo o periodo affonsino, os
+artistas e os obreiros eram em geral arabes ou mouros. O portuguez era
+como os seus reis, soldado ou agricultor. Para as especulações
+estheticas faltava-lhe a paz, a tranquillidade, a riqueza. Mal lhe
+chegava o tempo para desbravar o sólo e para bater os inimigos, que de
+todas as partes rodeavam a pequena sociedade nascente, aventurosa e
+aguerrida.
+
+A Batalha, com a delicada pureza das suas linhas, já então consagradas
+na Europa, surge repentinamente, imprevistamente, esporadicamente, na
+corrente da architectura portugueza, como a flor desconhecida de uma
+planta exotica.
+
+D'onde é que foi transplantado para terra portugueza este producto de
+uma civilisação superior, em que o desenvolvimento da vida municipal,
+iniciada pelas fortes corporações operarias e mercantis, impellira as
+communas a construirem as luxuosas cathedraes, que eram ao mesmo tempo,
+nas cidades novas, um asylo de religião e um fóco de vida civil?
+
+Não sei responder peremptoriamente a esse quesito.
+
+O problema assim estreitado é, no fim de contas, de pura curiosidade.
+
+O architecto inglez Hope, na sua _Historia da Architectura_, diz que o
+estylo ogival não tem propriamente nem uma patria nem uma nacionalidade.
+Só poderia ter nascido no seio de alguma ordem religiosa ou de uma
+corporação de pedreiros livres, porque o clero e os pedreiros livres
+eram as unicas corporações que na edade média possuiam os conhecimentos
+necessarios para o plano e para a execução dos edificios sagrados, quer
+para as communidades monasticas, quer para a egreja latina em geral.
+
+Hope acrescenta: como os conventos e sobretudo as _lojas_ dos pedreiros
+livres se compunham de cidadãos de todos os paizes, que reconheciam a
+supremacia da egreja romana, não seria possivel determinar positivamente
+os inventores do stylo ogival quando mesmo se houvesse descoberto o
+logar preciso do seu berço.
+
+Em toda a parte onde apparecem as primeiras amostras d'esse stylo ellas
+não são a obra de individuos de um paiz determinado, mas sim de uma
+congregação encerrando no seu gremio homens de todas as nações.
+
+Na _Real Encyclopedia_ de Leipzig lê-se com referencia ás associações
+maçonicas que ellas se compunham de homens de arte de todos os paizes
+formando uma só corporação dirigida por um ou por varios chefes.
+«Protegidos por privilegios ou cartas patentes emanadas das auctoridades
+ecclesiasticas e seculares, emprehendiam as maiores construcções em toda
+a Europa e são auctores d'esses magnificos edificios chamados gothicos e
+que antes se deveriam chamar _Altdoutsch_. Achamos o stylo de todas as
+construcções d'essa época fundamentalmente identico. As associações
+alludidas compunham-se de architectos e de obreiros italianos, allemães,
+flamengos, francezes, inglezes, escocezes e até gregos. Foi d'essa
+maneira que nasceram os monumentos seguintes: o _mosteiro da Batalha em
+Portugal_, a cathedral de Strasburgo, a de Colonia, a de Meissen, a de
+Milão, o convento do Monte Casino, e todos os edificios notaveis da
+Inglaterra.»
+
+Esta hypothese--e chamo-lhe hypothese, porque não conheço os documentos
+positivos em que se baseia o escriptor allemão--condiz perfeitamente com
+a lição de Frei Luiz de Sousa, e é talvez de todas a mais verosimil com
+relação aos constructores da Batalha.
+
+Que fosse, porém, uma associação de artistas e de operarios; que fosse
+Stephan Stephenson, como indica Murphy, de quem devemos crer que não
+inventou esse nome e o recebeu, como diz, dos empregados do archivo da
+Torre do Tombo; que fosse, como pretende Hope, mestre Ouet, Huguet ou
+Huet, de nação inglez, que trabalhou nas obras e cujo nome Frei
+Francisco de S. Luiz encontrou como testemunha no contracto de
+aforamento, em que se fala de Affonso Domingues; como quer que seja,
+emfim, a hypothese que menos verosimilhança offerece é a de ter sido o
+monumento delineado e construido pelo mestre portuguez Affonso
+Domingues, como em Portugal se tem geralmente escripto.
+
+O mais superficial exame aos edificios anteriores á Batalha manifesta do
+modo mais evidente que não tinhamos nem escola, nem tradições, nem
+tendencias de que procedesse um artista como o que delineou e construiu
+a egreja da Batalha.
+
+Vilhena Barbosa, nos _Monumentos de Portugal_, repete ainda a versão
+relativa a Affonso Domingues como constructor da Batalha, mas
+accrescenta: «É muito para admirar, não devo negal-o, que houvesse
+n'aquella época em Portugal um artista tão consumado como o que fez o
+risco do monumento, achando-se a architectura entre nós, antes da
+execução d'esta obra em um estado, que, se não era de grande atrazo,
+tambem não se lhe poderá chamar de adiantamento; em um estado pelo menos
+que nenhuma memoria ou documento nos auctorisa para o considerarmos como
+escola d'onde pudesse sahir um artista tão completo.»
+
+A seguir, Vilhena Barbosa, procurando conciliar o arrojo do seu reparo
+com a tradição geralmente recebida, exclama um tanto contricto: «N'este
+caso lançarei mão de uma conjectura, não pela necessidade de sahir do
+embaraço, mas porque me parece acceitavel e muito plausivel. Vem a ser
+que talvez Affonso Domingues tivesse sahido da sua patria antes da
+acclamação do mestre d'Aviz, com o intento de se instruir e aperfeiçoar
+na sua arte. Bem sei que n'essa época não eram dados os artistas, pelo
+menos os nossos, a procurar taes meios de estudo. Entretanto, tendo
+estado em Portugal, no reinado de D. Fernando e com alguma demora, dois
+principes inglezes, o duque de Cambridge, e um seu irmão natural, filhos
+de D. Duarte III, rei de Inglaterra, pode ser que Affonso Domingues,
+levado pelo amor da arte ou por outro qualquer respeito, se resolvesse a
+acompanhar algum d'elles na sua volta para Inglaterra, paiz classico da
+architectura gothica no genero da Batalha.»
+
+Confessemos que é preciso ter vontade de attribuir por força a Affonso
+Domingues uma obra que este não podia fazer, para formular a conjectura
+de que _talvez elle se tivesse resolvido_ a ir a Inglaterra com os
+filhos de Duarte III.
+
+Ainda quando admittida a singular camaradagem do duque de Cambridge e de
+seu irmão com Affonso Domingues, camaradagem conjecturada por Barbosa, e
+de que não ha o minimo vestigio historico, não será talvez inutil
+reflectir que depois d'essa excursão a Inglaterra--paiz tão debilmente
+_classico na architectura gothica_, no tempo de Duarte III, que não
+tinha um architecto indigena, nem monumento gothico algum, que se possa
+pôr em confronto com as obras magnificas do continente--Affonso Domingos
+voltaria de Inglaterra, no tocante ao conhecimento da arte de edificar,
+proximamente no mesmo estado em que para lá tivesse ido, o que
+facilmente se demonstra, como vamos vêr.
+
+Sabe-se que desde o seculo X se organisaram na Italia, iniciadas pela
+Lombardia, essas associações de artistas seculares, architectos,
+esculptores, illuminadores, imaginarios, vidristas, entalhadores e
+canteiros, empregados pela egreja nas vastas obras da primeira
+renascença da Europa, subsequentes aos terrores do millenio, que por
+muitos annos paralysaram todas as faculdades artisticas da humanidade
+estupefacta perante a prophecia pavorosa do proximo aniquilamento
+universal.
+
+Estas confrarias, creadas e protegidas pelo clero, tomaram o nome geral
+de _franco-maçonaria_ ou de _pedreiros livres_, e compunham-se de
+associados, que, depois de haverem passado por todos os minuciosos
+tramites de uma longa aprendizagem, adquiriam geralmente o direito de
+exercer a profissão na qualidade de mestres.
+
+Com a rapida e maravilhosa prosperidade das novas cidades da Italia
+Septentrional nasceram egrejas sumptuosas e conventos magnificos, que em
+poucos annos cobriram uma grande superficie da Lombardia e dos Estados
+adjacentes.
+
+Chegado o momento previsto em que as ordens religiosas de Italia
+cessaram emfim de ter obras em que empregar a associação, cada vez mais
+numerosa e mais habil, dos pedreiros livres, pensaram estes em dilatar a
+sua actividade fora do solo natal.
+
+Este expatriamento não representava unicamente uma expansão artistica
+mas tambem uma forte propaganda e uma consideravel conquista
+internacional da egreja latina.
+
+Essa grande companhia edificadora de monumentos religiosos, de
+cathedraes e de mosteiros, mobilisada n'uma companhia de arte atravez do
+Norte da Europa, constituia como que um solido reforço esthetico,
+temporal, naturalista e humano á sagrada legião espiritual vulgarisadora
+do credo latino pela ramificação das ordens religiosas sobre todas as
+latitudes da terra.
+
+Cada egreja e cada convento edificados em paizes estranhos e longinquos
+eram--diz Hope--um novo feudo adquirido ao papa.
+
+A egreja comprehendeu inteiramente o alcance d'este grande facto, tão
+importante na historia da arte romanica, da arte lombarda, da arte
+gothica e de todas as artes liberaes na Europa, depois de cahida a
+influencia da antiga civilisação hellenico-romana.
+
+Como incentivo e amparo da vasta odysséa, a que se aventuravam os
+denominados pedreiros livres receberam então da auctoridade pontificia,
+emminente a todos os conflictos e discordias de soberania para soberania
+e de nacionalidade para nacionalidade, privilegios incomparaveis,
+destinados a assegurar á confraria errante uma especie de inviolavel
+monopolio esthetico e artistico, como o que em nossos dias poderia
+resultar de um congresso universal, tendo em vista pôr acima de qualquer
+contingencia politica um interesse commum a toda a especie humana.
+
+Diplomas e bulas papaes confirmaram para todos os paizes, que houvessem
+reconhecido a fé catholica apostolica romana, todos os privilegios que a
+confraria dos pedreiros livres havia recebido dos Estados de que era
+oriunda.
+
+Ella dependeria directamente e unicamente da auctoridade pontificia,
+isenta de todas as leis e estatutos locaes, dos editos dos reis ou dos
+regulamentos dos municipios e de toda e qualquer imposição obrigatoria
+para os naturaes do paiz em que se encontrasse.
+
+Só á associação caberia o direito e o poder de taxar os salarios, e de
+prover em capitulo, sem appellação nem aggravo, a quanto dissesse
+respeito ao seu proprio governo. Era expressamente prohibido a todo o
+artista não iniciado nem admittido na associação estabelecer para com
+ella qualquer especie de concorrencia, assim como era defeso, sob pena
+de excomunhão, a todo o soberano manter os seus subditos n'esse acto de
+rebeldia ás prescripções da egreja.
+
+Esta _Internacional_ carolingiana, bem mais poderosa do que a
+_Internacional_ napoleonica sahida dos primeiros movimentos socialistas
+do segundo imperio, desenvolveu-se rapida e portentosamente. Muitos
+gregos vindos de Constantinopla se reuniram aos primeiros artistas
+confederados, vindo em seguida allemães, francezes, belgas e inglezes.
+
+Desdobraram-se successivamente as diversas lojas ou series de
+agrupamentos, em que cada dez associados obedeciam a um chefe em
+communicação com os chefes das demais decurias e com a direcção central.
+
+Os ecclesiasticos da mais alta categoria, os prelados, abbades mitrados
+e bispos, accrescentavam a força e o prestigio da associação,
+alistando-se como membros da irmandade.
+
+Todos os soberanos da christandade se gloriavam em honrar com especiaes
+distincções e particulares privilegios as suas lojas nacionaes.
+
+Para o fim de evitar que individuos estranhos á associação aproveitassem
+fraudulentamente os enormes beneficios de que ella tinha o privilegio, e
+bem assim para que, em qualquer região do mundo, cada irmão pudesse
+communicar com os seus consocios, fazendo conhecer a sua iniciação e o
+seu grau na confraria, estabeleceram-se as senhas secretas, os _signaes
+maçonicos_, por meio dos
+
+quaes os consocios se reconheciam em qualquer parte, e revestiu-se o
+acto de iniciação e matricula de formalidades solemnes, de provas
+especiaes, de juramentos terriveis, por via dos quaes cada novo confrade
+se obrigava não sómente a não revelar a quem quer que fosse os signaes,
+com que mutuamente se entendiam os pedreiros, mas a esconder dos
+estranhos todos os processos technicos e todas as regras do officio, de
+que a associação tinha a posse. Esta collaboração phenomenal dos
+melhores obreiros, de todos os grandes artistas e de todos os sabios do
+mundo, associados da maneira mais engenhosamente completa e perfeita
+para exercer a arte de edificar, elevou a architectura religiosa n'este
+periodo á mais alta perfeição scientifica e technica, a que jámais
+chegou a obra da intelligencia e da mão do homem.
+
+Quando a longa e laboriosa gestação de todos os demais ramos do saber
+humano se discriminava apenas em rudimentos embrionarios, de uma
+confusão tenebrosa, a architectura constituia o mais perfeito corpo de
+leis estheticas e de leis scientificas. Crearam-se as mais elevadas e as
+mais caracteristicas fórmas de stylo, resolveram-se os mais complicados
+e os mais difficeis problemas de calculo, de geometria e de mechanica,
+acharam-se, emfim, innumeraveis processos chimicos e methodos technicos,
+que se perderam e nunca mais se substituiram, porque com a grande
+confraria dos maçons morreu a tradição de que elles tinham a guarda e o
+segredo.
+
+No tempo de Eduardo III a maçonaria, que só um seculo depois acabou na
+Inglaterra sob o reinado de Henrique VI, mantinha-se em pleno vigor.
+
+Ora, dado que só muito lentamente e por via de provas espaçadas e
+progressivas podia o obreiro no gremio da confraria subir á qualificação
+de mestre, e só como simples obreiro podia ser admittido e iniciado,
+dado por outro lado que era tal o segredo sobre os methodos de edificar
+que toda a planta, todo o risco, todo o calculo, todo o estudo graphico,
+era invariavelmente e escrupulosamente destruido immediatamente depois
+de utilisado em qualquer obra, parece-me não haver um excessivo arrojo
+em conjecturar que Affonso Domingues n'uma viagem a Inglaterra, no tempo
+de Eduardo III, nada aprenderia de architectura, ficando estranho á
+maçonaria, e, tendo-se iniciado n'ella antes de vir construir a Batalha,
+seria então da maçonaria e não d'elle o monumento de que se trata.
+
+Revertendo ao escrupuloso e esclarecido estudo de Mousinho, notemos que
+elle não encontrou nem quem o continuasse nem sequer quem se lhe
+submettesse entre os restauradores que se lhe seguiram. As capellas
+imperfeitas, incomparavel joia da architectura portugueza mais
+caracteristicamente regional, acham-se no mesmo abandono em que ficaram
+em 1843, depois que elle as desinfestou dos parasitas arbustivos e das
+herbaceas, cujas radiculas se tinham por tal modo multiplicado nos
+intersticios das cantarias que em muitos pontos houve que desmontar as
+lageas para extirpar as hervas e refazer os massames substituidos pelo
+intimo estojo vegetal, que inchando por todas as juntas da pedra,
+ameaçava desarticular e destruir tudo por uma derrocada geral.
+
+Sem exposição de plano referido ás obras que recentemente se tem feito,
+e cuja doutrina nos daria uma base de estudo e de discussão, quem, como
+eu, não tem voto na materia para a resolver por sentença, precisaria de
+entrar em uma longa serie de pacientes raciocinios e de humildes
+demonstrações para pôr em evidencia todos os erros que em taes obras se
+teem comettido. Para não tornar pelo emprego d'esse processo,
+excessivamente longo este modesto estudo, tomarei um ponto capital,
+sufficientemente expressivo para dar a medida do criterio empregado na
+restauração da Batalha.
+
+Pela entrada principal da egreja, á semelhança do que succede em grande
+parte das egrejas gothicas, desciam-se na Batalha alguns degraus,--sete
+se me não engano--para chegar ao pavimento da nave central. Um dos
+restauradores que se succederam a Mousinho de Albuquerque, tendo-se por
+assistido de razões plausiveis para modificar o alludido systema,
+rebaixou o terreno exterior ao nivel do pavimento da egreja, e supprimiu
+os degraus, serrando as hombreiras e substituindo as cantarias que lhe
+serviam de base. A porta principal do monumento da Batalha ficou por
+esse modo tendo de altura a dimensão de duas larguras em vez de largura
+e meia approximadamente, segundo a dimensão primitiva. O architecto
+havia previamente submettido o seu projecto ao exame das estações
+superiores, e o respectivo ministro sanccionara a obra com a sua alta
+approvação.
+
+Será difficil encontrar em um tão breve episodio de construcção uma tão
+vasta affirmativa de desoladora ignorancia.
+
+Poderá parecer excessiva e condemnavel ousadia que um simples curioso se
+arrogue o direito de qualificar de ignorante um architecto em exercicio
+da sua profissão. O erro é todavia no caso sujeito tão flagrante que não
+supporta defesa. Um barbarismo architectonico está tanto ao alcance de
+um escriptor como um barbarismo grammatical está ao alcance de um
+architecto.
+
+Toda a gente sabe que ha em architectura uma inilludivel medida de
+proporção e de relacionação que se chama a _escala_. Sem escala não ha
+obra de architectura nem ha construcção alguma sensata, por mais
+subalterna, por mais infima que ella seja. Na architectura grega a
+unidade abstracta d'essa medida é o modulo. Na architectura da edade
+média a unidade é o homem. N'este simples principio, tão magistralmente
+exposto por Violet-le-Duc, se baseia o caracter essencial da
+architectura medieval. D'essa referencia de toda a construcção á
+pequenez da estatura humana resulta o singular effeito de grandiosidade
+que distingue os monumentos gothicos dos monumentos neo-classicos, Nossa
+Senhora de Pariz de S. Pedro de Roma, ou a egreja da Batalha da egreja
+de Mafra. Para esse effeito contribue o aspecto das successivas fileiras
+da cantaria á altura das paredes e das pilastras, porque a escala
+gothica, determinada pela altura do homem, se subordina correlativamente
+ás dimensões do material. Assim pela serie das juntas, sempre em
+evidencia na sobreposição das cantarias, a vista calcula rapidamente,
+por instincto arithmetico, a grandeza de uma fabrica como a da Batalha,
+estabelecendo a proporção entre as dimensões da pedra e a estatura do
+homem, e entre a altura do homem e a elevação da nave.
+
+Do que fica exposto resulta que a simples substituição de uma pedra por
+uma pedra de dimensão differente na base de uma hombreira no portal da
+Batalha é, em si mesma e isoladamente, como troca de pedra por pedra, um
+grave erro, porque essa base de hombreira, devendo ter tido inicialmente
+a dimensão exacta e precisa, que á esquadria da cantaria impõe a
+dimensão do bloco, é um elemento fundamental da escala pela qual se rege
+todo o edificio; e não pode como tal nem supprimir-se nem alterar-se.
+
+Mas temos de considerar ainda que com essa mudança de pedra se offendeu
+o preceito da unidade, alterando a fórma e a dimensão de um dos mais
+importantes membros da construcção. O conjuncto de um monumento--diz
+Quatremère de Quincy--é de tal modo combinado, que n'elle se não pode
+nem tirar nem pôr nem alterar o que quer que seja. E Violet-le-Dué
+desenvolve esse preceito da maneira seguinte: «É um erro grosseiro
+suppôr que um qualquer membro de architectura da edade média pode ser
+impunemente accrescentado ou diminuido. N'esta architectura não ha
+membro algum, que não esteja na escala do monumento para que foi
+composto. Alterar esta escala é tornar esse membro disforme... Os erros
+de escala que escandalisam em um monumento novo e lhe tiram todo o
+valor, tornam-se monstruosos quando se trata de uma restauração.» As
+dimensões das portas--já dizia Vinhola--devem ser de uma proporção
+relativa á escala pela qual se construir o edificio, á grandeza das suas
+differentes peças e finalmente ás particularidades da obra e do local em
+que esta fôr feita. Com relação ás portas nas ordens jonica, dorica,
+corinthia e toscana as proporções entre a altura e a largura dos
+portaes, acham-se geometricamente determinadas pelos discipulos de
+Vitruvio. Na architectura gothica a porta representa porém um papel mais
+preponderante que em qualquer outro systema de construcção. «De hora
+avante--proclama Violet-le-Duc referindo-se ao periodo medieval--a porta
+deixará de augmentar em proporção com o edificio, porque, sendo feita
+para o homem, conservará sempre a escala propria do seu destino.»
+
+A medida de extensão na edade média era a toeza, correspondente á
+estatura do homem alto. A porta da egreja destinada a dar passagem ao
+portador de uma lança de guerra ou de torneio, de um baculo, de uma cruz
+ou de um pendão, tinha a altura fixa e invariavel de duas toezas a duas
+toezas e meia, segundo as regiões em que se construia. O portal gothico
+tem ainda, como titulo ao nosso respeito pela sua inviolabilidade, a
+condição de representar na fachada do templo como que um summario de
+toda a obra. É do principio da arcada, de que a porta é o motivo
+predominante, que se deduzem e desenvolvem systematicamente todas as
+demais fórmas constructivas e ornamentaes na architectura do edificio.
+Archivoltas, nervuras, pilastras, columnelos, janellas, nichos, misulas,
+baldaquinos, trifolios, que são na egreja da Batalha senão applicações e
+desdobramentos successivos, engenhosamente variados, das linhas
+constitutivas da porta principal do templo?
+
+Quão tragicamente profunda tem que ser a indisciplina official em todos
+os serviços da arte para que possa dar-se um attentado da ordem
+d'aquelle a que me refiro:--para que um architecto proponha, para que
+uma repartição publica auctorise, para que um ministro da corôa
+sanccione--sem protesto do districto, do municipio ou da parochia--que
+se desfigure o primeiro dos nossos monumentos da edade média, alterando
+as fórmas de uma porta, que é a porta principal d'essa gloriosa egreja
+de Santa Maria de Victoria, que os architectos do mestre de Aviz alçaram
+pela bitola dos estandartes, dos balsões e das bandeiras de Aljubarrota,
+e segundo a altura a que chegava nas hombreiras o bico do bacinete ou a
+cimeira do morrião dos da ala da madresilva ou da ala dos namorados!
+
+Se fosse meu proposito enumerar os erros commettidos nas restaurações da
+Batalha teria de referir-me ás vís deturpações por que está passando a
+capella do fundador; ao detestavel altar mór, em cuja pedra tão
+miseramente se acha reproduzido por uma especie de grafito o desenho de
+um mosaico, e a odiosa coloração das vidraças, em que o doce tom de
+ambar, que os vidristas da edade média obtinham por uma emulsão de mel
+na preparação da tinta, se vê substituido pelo de um reles amarello cru,
+de refalsado topasio. O inacreditavel tabernaculo com que houve o arrojo
+de empachar o ambito de uma das naves, sob pretexto de construir uma
+capella baptismal, teria ainda que deter por algum tempo o meu
+horrorisado espanto perante esse tão insolente e tão irrespeitoso abuso
+do pseudo-gothico, em proporção e em escala unicamente permittidas, por
+longanimidade de ridiculo, em jazigos de familia e em pratos montados,
+na latitudinaria architectura dos cemiterios ou das confeitarias.
+
+O meu fim porém não é fazer a critica das restaurações da Batalha, mas
+sim demonstrar, como julgo ter feito, por meio de alguns factos
+caracteristicos e capitaes, que nas restaurações emprehendidas tanto
+n'esse como nos demais monumentos architectonicos recentemente reparados
+a expensas do estado, não houve antecedencia de programma, nem estudo
+previo, nem determinação de methodo, nem sancção critica, nem
+fiscalisação technica, nem policia artistica de especie alguma.
+
+Pelo numero e pelo quilate das mutilações, deturpações e superfetações,
+inteiramente arbitrarias e escandalosas, de que são objecto os
+monumentos restaurados com assentimento e com subsidio official, como a
+Batalha, os Jeronymos e a Madre de Deus, poderemos calcular o que se
+passa nos edificios em que camaras, parochias e simples particulares
+estão no logro de restaurar, de concertar ou de demolir a seu gosto.
+
+Em Ponte de Lima havia uma ponte, que dava o nome á villa. Esta ponte,
+em parte romana, em parte gothica, era revestida de ameias e entestada
+por dois castellos ogivaes. A vereação, com o motivo de desafogar a
+vista sobre as duas margens do rio, manda demolir os castellos e serrar
+as ameias da alludida ponte.
+
+Outra vereação, em Santarem, bota a baixo a bella torre gothica de Santa
+Maria de Marvilla, fundação dos primeiros tempos da monarchia, para o
+fim unico de deixar o terreno sem coisa alguma em cima, e ser por essa
+razão uma praça. A Real Associação dos architectos civis propõe-se a
+esse tempo comprar os sinos da torre demolida, em bronze esculpido. A
+junta de parochia prefere derretel-os.
+
+No castello de Leiria, que, tendo sido construido como casa e museu pelo
+rei mais artista, mais poeta e mais sabio do seu tempo, constitue um
+documento, unico talvez na Europa, da archeologia romana e da vida de
+côrte na edade média, certos festeiros em noite de gala, derribam a
+columnata do eirado principal para dar campo a um effeito de luminarias
+e de pyrotechnica.
+
+Na alcaçova de Santarem as ameias de D. Affonso Henriques substituem-se
+por ignobeis grades de ferro fundido e pintado de verde.
+
+A porta da Atamarma, pela qual ainda passou Garrett ao tempo das
+_Viagens na minha terra_, é arrasada, juntamente com a capellinha de
+Nossa Senhora da Victoria, que tinha por cima. No orçamento d'essa
+demolição, que o governo approvou no anno de 1865, a camara de Santarem,
+tripudia de jubilo, affirmando que a dita desmontagem, _que por mais
+tempo se não podia protrahir_, fôra vantajosamente arrematada pela
+quantia de trinta e nove mil réis, calculando-se em mais de cem mil o
+valôr da pedra e do tijolo que ella produziu. Com esse cantico de
+alegria orçamental, desappareceu o glorioso portico, por onde o fundador
+da nacionalidade portugueza e os da sua hoste entraram em Santarem com
+as espadas e as lanças gottejantes de sangue mouro, firmando por esse
+acto o fim do dominio sarraceno em Portugal.
+
+A porta do _Bom Successo_ veio abaixo, como a de Atamarma, por
+disposição do respectivo municipio.
+
+A destruição das portas de muralha, bellos arcos na maior parte ogivaes,
+com que tanto se enobreciam algumas das nossas velhas cidades, tem sido
+a grande preocupação vesanica das municipalidades modernas,
+absolutamente ignorantes, ao que parece, das gloriosas tradições locaes
+de que esses monumentos eram o testemunho authentico e sagrado.
+
+Dentro d'essa cathegoria de delinquentes será difficil disputar o
+primeiro logar da serie pathologica á cidade do Porto.
+
+O Arco da Vendoma, á rua Chan, que havia sido uma das portas da
+circumvalação sueva, sobre a qual a rainha D. Tareja fizera collocar em
+ediculo a imagem da Senhora da Vendoma, trazida de França pelo bispo D.
+Nonego, é desapiedadamente demolida em nossos dias, depois de oito
+seculos de existencia.
+
+Os bellos arcos do Postigo de Santo Antonio do Penedo e do Postigo do
+Sol veem egualmente abaixo, em 1875, sem razões algumas que expliquem
+mais esta demolição que a do Arco da Vendoma. Junto do Postigo do Sol
+ficava no entanto, e memorava-a o arco, a veneranda _Viella das Tripas_,
+onde assistiam as fressureiras, que deram aos do Porto o nome de
+tripeiros, vendendo-lhes os miudos das rezes, cuja carne elles haviam
+espontaneamente cedido á armada de D. João I para a expedição de Ceuta.
+
+Á Porta do Olival, da qual como do Postigo do Sol só resta o nome, foi
+acclamado D. João I. A essa porta foi esperada pelos portuenses, e por
+ella entrou pela primeira vez na cidade, na occasião das suas bodas com
+o mestre de Aviz, a rainha Filippa de Lencastre.
+
+O Arco da Senhora Sant'Anna, que deu o titulo á linda narrativa
+portuense de Almeida Garrett, é sacrificado como os demais ao alvião
+municipal da cidade invicta.
+
+O ultimo emfim dos arcos do Porto, ainda ha bem poucos annos destruido,
+foi o da Porta Nobre, por onde faziam a sua entrada solemne os bispos e
+os reis, que os moradores da Reboleira recebiam triumphalmente na sua
+rua, juncada de espadanas e de funcho, entre festões de flores pendentes
+das velhas janellas de resalto, á flamenga, sob punhados de trigo,
+reluzente no ar em chuva de ouro.
+
+Em Santarem disseram-me ha dias, nos proprios logares em que se está
+mancumunando o delicto, que os vereadores projectam agora demolir a
+Torre das Cabaças.
+
+Quando a rainha D. Maria I visitou Santarem em 1785, botaram-se as
+medidas do côche de sua magestade a todo o caminho que elle tinha de
+percorrer, e desfizeram-se diligentemente a picão, nas ruas da villa,
+todas as protuberancias architectonicas em que se anteviu algum risco de
+entalação para o trajecto da real berlinda.
+
+No Canto da Cruz cortaram-se, como quem corta queijo, os vertices dos
+angulos nos edificios de esquinas menos reverenciosas para com o regio
+transito. Entre a Torre do Alporão e a Torre das Cabaças o passo porém
+apresentou-se especialmente difficil. Applicou-se-lhe a bitola do regio
+côche, que o secretario de estado visconde de Villa Nova da Cerveira
+mandára previdentemente de Salvaterra de Magos ao juiz de fóra,
+presidente da camara municipal da villa, e consignou-se que, por obra
+infernal de palmo ou palmo e meio de saliencia, o magestatico vehiculo
+da soberana teria de ficar engasgalhado pelos cubos das rodas entre os
+dois monumentos. Então, depois de haverem marrado por um momento no
+problema, e uns nos outros, os vereadores scalabitanos removeram a
+difficuldade, redobando a fita da medição inutilmente esticada, mettendo
+os solicitos e suados covados debaixo dos braços, e mandando
+simplesmente arrasar a Torre do Alporão, monumento do dominio romano, do
+alto do qual, durante a occupação serracena, o arabe dictava ao povo a
+lei de Mahomet.
+
+A Torre das Cabaças é muito menos antiga e menos documental que a do
+Alporão. Com quanto Garrett a faça invocar anachronicamente no _Alfageme
+de Santarem_, em estimulo de defesa contra a invasão castelhana, como um
+dos traços mais expressivos da physionomia pittoresca da patria, essa
+torre data apenas do tempo de D. Manoel. Não tem caracter propriamente
+architectural, é uma simples peça de alvenaria quadrada. Mas o seu
+estranho remate, em grande elevação, formado pelo sino a descoberto,
+sustido na convergencia superior de quatro varões de ferro, estribados
+obliquamente nos quatro angulos da torre, e revestidos de pucaras de
+barro, da olaria local, destinadas a ampliar a sonoridade do bronze no
+tanger das horas e dos signaes de rebate, dá-lhe uma feição
+verdadeiramente especial, inconfundivel, indelevel. Não será talvez o
+mais monumental, o mais nobre, o mais rico, mas é de certo o mais
+suggestivo, o mais anedoctico, o mais interessante, o mais carinhoso, o
+mais familiar, o mais lindo campanario de toda essa tão formosa campina
+ribatejana, o mais aberto sorriso agrario da terra portugueza. Tudo
+envolve de penetrante poesia local essa velha torre. O seu mesmo nome de
+_relogio das cabaças_ ou de _cabaceiro_ se allia harmonicamente no
+ouvido á lembrança das lezirias, das hortas, dos paues, das courellas e
+dos olivedos, que o circumdam, e fazem d'elle como que uma parte
+integrante da paizagem, um natural rebento da terra. O aspecto de
+improvisação e de interinidade d'essa summaria ventana de sino, que
+parece armada em quatro pampilhos, é uma verdadeira obra d'arte, que
+lembra mais commoventemente do que nenhuma outra inventada pelos
+architectos, a origem arabe, a vida nomada, a tradição pastoral da
+região em que surgiu.
+
+Os conspicuos burguezes do senado de Santarem não podem ter opinião
+sobre esta questão de esthetica, porque elles carecem absolutamente do
+ponto de vista em que deve de ser considerada a sua Torre das Cabaças, a
+qual evidentemente se não construiu para que suas excellencias a
+alveitassem doutoralmente de dentro dos paços do concelho, ou cá fora na
+praça, de chapeus altos, sobrecasacas dominicaes e barbas feitas,
+abordoados aos seus chapeus de sol, e muito mais garantidamente
+cucurbitaceos que o seu proprio cabaceiro. A Torre das Cabaças fez-se
+para ser olhada do vasto campo da Gollegã ou do campo de Almeirim, vindo
+do Valle, vindo de Coruche, de Benavente, ou da Barquinha, atravez dos
+olivaes, das terras de semeadura e das eiras do termo de Santarem, de
+jaqueta e sapatos de prateleira, montando uma egua de maioral, de
+cabeçada de esparto, almatrixa de pelles e estribos chapeados. O
+Cabaceiro de Santarem, com a sua cupula em trempe, as suas cabaças de
+barro e o seu sino grande de correr e de governar as horas, fez-se para
+o largo e ridente campo ribatejano, fez-se para os campinos, para os
+vaqueiros, para os almocreves, e talvez se fizesse tambem para mim, que
+não vejo em arte razão alguma plausivel para que, como motivo ornamental
+de uma torre, á folha do acantho ou ao chavelho em voluta da
+architectura grega se prefira a nossa linda pucarinha de barro vermelho
+de Reguengo, da Atalaia ou da Asseiceira.
+
+Não! o senado santareno tem de deixar ficar onde ella está a sua tão
+caracteristica torre, para que se não diga que dos tres potes, que de
+antiga tradição consta acharem-se soterrados na Alcaçova, um cheio de
+ouro, outro cheio de prata, outro cheio de peste, a camara da localidade
+não encontrou senão o ultimo para o despejar sobre os monumentos
+publicos sujeitos á sua jurisdição e confiados á sua guarda.
+
+Que sob o antigo regimen os vereadores de Santarem deitassem a baixo a
+Torre do Alporão, para passar uma rainha, é uma desdita em extremo
+lastimavel, mas que sob o regimen vigente se deite egualmente a baixo a
+Torre das Cabaças, para que passem os proprios vereadores, é um desando
+grande da publica administração para muito peior do que estavamos no
+tempo da muito saudosa senhora D. Maria I.
+
+A torre da Sé Velha, de Coimbra, desapparece no fim do seculo passado
+perante uma simplicidade de processo, que bem demonstra quanto os
+poderes publicos, desajudados de conselho artistico, teem sido, em todo
+o tempo, inhabeis e incompetentes para proteger os monumentos da nação.
+Foi o meu amigo Theofilo Braga quem, ao colligir no Archivo Nacional os
+documentos ineditos das relações do marquez de Pombal com D. Francisco
+de Lemos para a reforma dos estudos na Universidade, descobriu a breve
+historia da demolição da torre da Sé Velha. Em carta de 3 de setembro de
+1773, D. Francisco de Lemos dá conta ao marquez de que demoliu a torre:
+«...A dita torre era um montão de pedra e cal sem arte e figura, que
+servisse de ornato á cidade, e antes estava tirando a vista do Paço das
+Escolas, e de muitas casas. E principalmente é muito nociva á Imprensa,
+porque ficando ella no alto e esta embaixo, lhe tirava o sol, com que a
+fazia menos clara e humida. Pareceu-me conveniente á vista de todas
+estas razões que se demolisse, o que se tem executado, seguindo-se todas
+as utilidades ponderadas acima, e egualmente a de haver pedra para tudo
+o que foi preciso fazer.» Em sigla marginal a esta carta opina o marquez
+de Pombal: «Que está muito bem feita a providencia sobre a torre da Sé
+antiga.» E em carta de 5 de outubro do alludido anno de 1773, o marquez,
+em stylo official, desenvolve a sua acquiescencia ao estupido vandalismo
+de D. Francisco de Lemos: «Tambem me pareceu bem ajustada a providencia
+e resolução que V. Ex.^a tomou de mandar demolir a torre da Sé antiga
+que não servia mais que de ser um _Padrasto sombrio e infimo_, só
+proprio para desfigurar a formosura do Palacio a que estava quase
+contiguo e de escurecer as actuaes officinas, etc.»
+
+Do mosteiro de Alcobaça desapparece todo um claustro do tempo de D.
+Affonso Henriques.
+
+Em S. Francisco d'Evora ampliam-se as dimensões da rosacea no
+frontespicio da egreja, abalando as cantarias circumstantes e pondo em
+risco todo o equilibrio da empena. Além d'isso, para o fim de aproveitar
+a pedra para outras applicações, desampara-se a abobada, deitando abaixo
+a ala do convento que lhe servia de encontro.
+
+No castello de Palmella e em S. Salvador de Paço de Sousa acham-se
+violados e deshonrados pelo mais completo despreso, além das campas dos
+cavalleiros de Santiago, o tumulo do principe D. Jorge, e o tumulo de
+Egas Moniz, que em Paço de Sousa dividiram em dois, pondo cada metade
+para seu lado, em pontos oppostos da egreja. O cofre de pedra que
+continha a ossada do fiel aio de Affonso Henriques transforma-se em pia
+de um bebedouro publico.
+
+A sumptuosa egreja do convento de S. Francisco em Santarem, fundação de
+D. Sancho II, com as suas tres naves, as suas columnas de preciosos
+capiteis e os floridos arcos da sua restauração manoelina, converte-se
+em uma das cavallariças do regimento aquartelado no convento.
+Violaram-se todos os tumulos que encerrava o claustro e occupavam a
+egreja, sem que esta, segundo nos consta, fosse nunca dessagrada
+liturgicamente. Parece que não houve tempo para satisfazer essa tão
+breve formalidade de respeito.
+
+As sarças, os silvados, e os subtis rendilhamentos manoelinos do tumulo
+precioso do conde de Vianna D. Duarte de Menezes, pela circumstancia de
+ser a esculptura removida para S. João do Alporão pela benemerita
+commissão administrativa do Museu Districtal de Santarem, escaparam
+miraculosamente aos coices das bestas de guerra, que o governo portuguez
+destinava ao sagrado monumento erigido pela doce piedade conjugal á
+memoria do leal e valoroso soldado de Affonso V, que na conquista de
+Alcacer-Ceguer se deixou morrer ás lançadas para salvar a vida do seu
+rei.
+
+O tumulo de D. Fernando, que estava na mesma egreja, foi pela Associação
+dos architectos trazido para o museu do Carmo.
+
+Um dente de D. Duarte, que a condessa de Vianna encerrara, como unica
+reliquia de seu marido, no monumento que lhe consagrara, conserva-se
+ainda dentro do estojo que primitivamente o continha. A ossada do rei D.
+Fernando, essa desappareceu, como desappareceu a de D. Francisco de
+Almeida, atirada para a cerca do quartel na occasião em que se lhe
+destruiu o tumulo, aproveitando-se a area de pedra em que jazia o corpo
+para bebedouro especial dos cavallos com mormo.
+
+As demais campas, que constituiam o pavimento do claustro desde o
+principio do seculo XIV desappareceram todas, e nem sequer se sabe já de
+quem eram, por que, para não escorregarem os cavallos do regimento,
+desempedrou-se o claustro e perderam-se as lapides que n'elle se
+continham.
+
+A sepultura de Pedro Alvares Cabral está na egreja da Graça, um dos
+bellos templos da fundação da monarchia em Santarem. Esta egreja é
+cedida pelo governo á pobre irmandade dos Passos. A irmandade carecia de
+meios para custear o decoro do culto e a conservação do edificio.
+Occorria generosamente a essa despeza o proprietario do convento annexo
+á egreja. O dono do convento falleceu recentemente, legando a casa a um
+azylo que n'ella fundou. A egreja da Graça de Santarem está portanto, a
+bem dizer, desamparada. A quem é que se acha confiado o tumulo de Pedro
+Alvares Cabral? Não se sabe bem, e são grandes, como pessoalmente tive
+occasião de experimentar, as difficuldades que encontra quem deseje dar
+com o depositario das chaves para ver a egreja. Ás gloriosas cinzas
+d'aquelle que nos deu o Brazil, a gente nem sequer sabe dar um guarda.
+
+O mausoleu do nosso S. Frei Gil corre aventuras parecidas com as do
+mausoleu do rei D. Fernando. Os marquezes de Penalva, parentes do Santo,
+recolhem na capella do seu palacio em Lisboa as cinzas do bemaventurado.
+A tampa do tumulo com a estatua do Santo vem para o museu do Carmo. A
+arca sepulchral, que encerrava os seus restos, fica em Santarem,
+servindo de pia de amassar cal para as obras do municipio.
+
+Em Guimarães mascaram indignamente de cal e de madeira as columnas e as
+arcarias da veneravel egreja de Nossa Senhora da Oliveira, fundada nos
+primeiros annos do seculo X pelo conde Hermenegildo Mendes e por sua
+mulher a condessa Mumadona. No claustro do seculo XIII, que envolve uma
+parte da egreja, revestem de caixilharia envidraçada a graciosa arcaria,
+e rebocam espessamente a cal os capiteis das columnas. A flammante
+janella gothica, que por cima da porta, na fachada do templo, fazia
+explodir em apotheose a polychromia do espelho, emoldurado na sua larga
+cercadura esculpida de silvados, historiada de estatuetas de santos em
+phantasiosos resaltos de misulas, sob rendilhados baldaquinos, é
+impiedosamente arrasada e substituida por uma chapada de cantaria
+corrida, perfurada por quatro oculos.
+
+Em Santarem, na egreja do Milagre, pelas trovoadas d'este verão, um raio
+fere o cone azulejado da torre, penetra na capella mór, despedaça a
+madeira do arco que a separa da nave, e põe a descoberto, por baixo
+d'esse revestimento de taboas pintadas, os mais lindos lavores
+esculpturaes de uma arcaria da Renascença, em que cherubins voejam,
+sustendo grinaldas e cornucopias floridas, por entre a laçaria
+afestoada, com rotulos pendentes. Todos os relevos mais salientes da
+esculptura haviam sido desbastados a picão para nivelar a superficie da
+pedra em que assentara a madeira.
+
+Em Setubal, na egreja manoelina das freiras de Jesus, besuntam as
+columnas, os artezões e os fechos da abobada com a mais tosca e espessa
+camada de pintura. O material subjacente é o lindo marmore polychromico
+da Arrabida. A pintura a que me refiro tem a intenção esthetica de
+imitar a borrões d'ocre esse mesmo marmore cuja superficie tão
+sordidamente conspurca.
+
+Quando ha quatro annos o governo mandou pôr em hasta publica uma parte
+do convento de Cellas, incluindo o seu encantador claustro, metade do
+qual é do tempo de D. Diniz, uma voz anonyma protestou, eloquente e
+energicamente, contra semelhante desacato, por meio de uma pequena
+brochura impressa em Coimbra e largamente espalhada pelo paiz todo, a
+pedir soccorro á imprensa. Rarissimos periodicos acudiram ao rebate. Na
+parte que data do seculo XIV, o pequenino claustro de Cellas, em arcadas
+de meio ponto e columnas geminadas, de capiteis cubicos, historiados por
+todos os lados com deliciosas figurinhas representando os mais tocantes
+episodios da vida da Virgem Maria, de Jesus e dos seus santos, é a mais
+delicada, a mais commovida, a mais poetica obra da arte portugueza
+n'esse interessante periodo da transição do stylo romanico para o
+advento do gothico, na evolução capital da arte na Edade Media. A
+virginal candura, profundamente enternecida, do artista desligado da
+preceituação hieratica de uma esthetica que se extingue, para entrar com
+toda a frescura intacta do sentimento na sinceridade de uma arte nova, é
+invasivamente tocante na concepção de varios episodios d'esta
+composição, como o da Annunciação, o do Sonho de Nossa Senhora, o da
+Adoração dos Reis Magos, o da Fuga para o Egypto, e o da Crucificação de
+Jesus, que, pela primeira vez nas representações d'este periodo, nos
+apparece flagellado pela corôa de espinhos e com os dois pés
+sobrepostos, fixados ao madeiro por um só cravo. Acompanhando e
+envolvendo a primorosa obra do esculptor, tudo no claustro de Cellas se
+compensa, se pondera e se equilibra admiravelmente para o fim de pôr em
+suggestão o pensamento que d'essa obra deriva.
+
+É uma construcção ineffavelmente pura, toda de intimidade e de religião,
+no sentido de cada uma das suas partes e na harmonia total do seu
+conjuncto. Nem a mais leve macula mundana, de presumpção ou de orgulho.
+Nem um só nome profano, nem um unico emblema heraldico, brazão, corôa,
+paquife, divisa ou empresa. Nada que lembre da terra as ambições, a
+força, a gloria ou o brilho: nem quinas, nem lizes, nem pelicanos, nem
+espheras. A mesma aconchegada dimensão do recinto, parecendo amoldado ao
+passo leve e recolhido das freiras, as quaes se ouviriam a meia voz de
+um extremo para o extremo opposto do pateo; o stylobato em bancada
+revestida de azulejos do tempo, enxadrezados em verde e branco; a
+pequena altura dos fustes, proporcionados a uma estatura de noviça, que
+poderia do chão acarinhar as imagens dos capiteis com uma flôr de
+açucena; a reclusa modestia da galeria superior, em que o beiral do
+telhado se apoia ao parapeito em curtos esteios de granito; a mesma
+vegetação arbustiva, que ainda sobrevive á antiga ornamentação floral do
+pateosinho ajardinado; as diminutas capellas e os nichos que rodeiam a
+claustra; tudo emfim concorda e condiz na mais rara e doce harmonia de
+uma expressão intradusivel. O claustro de Cellas é, pela extranhesa e
+pela preciosidade da sua poesia e da sua arte, uma especie de murmurosa
+fonte, ineffavel e perenne, em que a agua não vem de alterosos e
+magestaticos aqueductos cantar ao sol em taças brunidas de prophyro ou
+de alabastro, suspensas por grupos de naiades, de sereias ou de
+golfinhos, mas rompe da rocha viva, como nas grandes altitudes
+alcantiladas das nossas serras, manando em fio tenue e crystalino,
+desnevada e purissima, escondida entre fragas, a que se entra de rastos
+para ir sedentamente beijal-a na sua humilde nascente engrinaldada de
+violetas em flôr.
+
+Providenciando sobre o destino de um tão delicado monumento, posto em
+leilão pela quantia de um conto de réis, dispunha o governo que os
+capiteis das columnas se serrassem dos respectivos fustes e se
+recolhessem n'um museu!
+
+Não sei em que phase administrativa se acha ao presente esse negocio. O
+que sei é que o primoroso claustro de Cellas, medonhamente desaprumado
+da perpendicularidade das suas columnas, não espera senão o primeiro dos
+mais leves pretextos para se desmoronar inteiramente.
+
+Na linda egreja de S. João, em Thomar, abrem-se na fachada principal, de
+cada lado de um portal manoelino, duas janellas da mais corriqueira e
+mais villôa cantaria.
+
+Ha bem poucos dias ainda um distincto critico nos revelava, em uma folha
+periodica, os desacatos por que está passando o antigo mosteiro das
+Bernardas de Almoster, construido para commemorar o milagre de Santa
+Iria pela devota Berengaria com a collaboração de Santa Isabel.
+
+Na Sé de Braga as estatuas jacentes dos tumulos do conde D. Henrique e
+de sua mulher foram cortadas pelo meio das pernas para caberem nos novos
+logares para onde as transferiram, e, com o fim de não transtornar
+inteiramente a anatomia dos personagens, pareceu util applicar os pés
+decepados aos joelhos das figuras.
+
+Na mesma egreja existe o bello tumulo em bronze do joven infante D.
+Affonso, filho de D. João I, obra mandada fazer em Bruxellas pela
+infanta portugueza D. Isabel, mulher de Filippe o Bom. A estatua do
+infante, em tamanho natural, repousava deitada na tampa do mausoleo
+entre dois anjos em adoração. A caixa tumular, ornada de brazões,
+cingidos de arabescos e silvados em relevo, descança sobre leões. Em
+1881 foram roubadas as cabeças dos leões, os pés e as mãos da estatua, e
+os dois anjos que ladeavam a cabeça do principe. O templo está
+completamente desfigurado do seu aspecto primitivo. Empastaram-se os
+capiteis das columnas, transformou-se a arcaria das naves, abriram-se
+grandes janellas nas paredes da egreja, adornaram-se os intervallos das
+capellas com enormes estatuas dos apostolos feitas de pau, e pintou-se
+tudo de branco--madeiras e cantarias.
+
+A pedra da campa de Garcia de Rezende, sepultado na encantadora ermida
+que elle mesmo delineou e mandou construir na cerca do convento de Nossa
+Senhora do Espinheiro, foi arrancada da sepultura do nosso chronista, e
+serve presentemente de banca de cosinha em casa de um cavalheiro de
+Evora.
+
+Os tumulos da familia de Abrantes acham-se em tanto esquecimento e em
+tanto abandono na capella do seu castello, como em Alcobaça os de D.
+Pedro e D. Ignez de Castro; como em Paço de Sousa o de Egas Moniz; como
+em Palmella o de D. Jorge, em cujo testamento aliás se attribue uma
+verba ás reparações d'aquella casa; como, finalmente, ainda ha pouco em
+Alemquer, o de Damião de Goes, antes de haver sido reposto pelo sr.
+Possidonio da Silva o busto do nosso chronista sobre o seu jazigo da
+egreja da Varzea.
+
+Na Vidigueira a camara auctorisa o povo a utilisar em obras particulares
+as cantarias do castello de Vasco da Gama, como se o solar do
+descobridor da India não tivesse mais importancia historica que a que se
+liga a qualquer pedreira.
+
+Em Evora, para dar mais um metro ou metro e meio de superficie a uma
+praça, a camara deita abaixo a historica varanda da casa dos paços do
+concelho, edificada em tempo de Affonso V, por João Mendes Cecioso, o
+_pae dos pobres d'Evora_. A varanda demolida, da qual pela primeira vez
+se aclamou a independencia de Portugal depois das famosas _alterações_,
+tão minuciosamente narradas por D. Francisco Manoel de Mello na sua
+_Epanaphora politica_, parece ter sido obra de D. João II.
+
+Por muitas vezes se tem discutido na camara eborense, e parece até haver
+sobre tal assumpto uma resolução assente, o projecto inaudito de
+eliminar toda a bella alpendrada da praça, da rua Ancha e da rua da
+Porta Nova.
+
+Outra resolução da camara de Evora, resolução definitiva e aprasada para
+muito breve, é a de destruir a pequena e tão graciosa egreja do convento
+do Paraizo para o fim de estabelecer mais uma praça entre as duas ruas
+de Machede e de Mendo Estevens, ás quaes faz esquina aquelle templo.
+
+A diminuta egreja do Paraizo, com os seus dois arcos manoelinos, com os
+seus preciosos azulejos do seculo XVI, em tapete mural, acompanhando nas
+barras o recorte dos arcos em zig-zag, e com o seu tumulo em ediculo de
+D. Alvaro da Costa, é um dos mais graciosos documentos architectonicos
+do seu tempo.
+
+Pobre cidade de Evora, um dos nossos mais vastos e mais preciosos museus
+de archeologia e d'arte, preferindo como Santarem ser uma estupida
+collecção de praças largas e de ruas novas! Por toda a Europa, os velhos
+bairros historicos são hoje o thesouro das cidades que os possuem. Em
+muitos logares, onde esses bairros não existem, estão-os inventando,
+estão-os reconstituindo em homenagem erudita e piedosa á tradição
+historica, á poesia do passado. A camara de Evora, vangloriosa no
+pelintrismo das suas innovações, bota abaixo os mais venerandos
+monumentos da cidade; por outro lado improvisa ruinas scenographicas no
+seu jardim publico, armando com trepadeiras e malvaiscos grupos
+sentimentaes de velhas columnas postas de pernas para o ar n'esse
+effeito de bordado a cortiça ou a miolo de figueira; pica os seus
+historicos brazões para fazer passeios lisos de ruas novas aos seus
+janotas; e bate, modernisante e festeira, sobre o epitaphio do mais
+palaciano e do mais artistico dos seus escriptores quinhentistas, a
+carne do bife consagrado talvez ao penso d'algum dos seus novos
+reporters.
+
+Mas eu é que não posso deixar de dizer á cidade de Evora, que o que a
+ella nos attrae e n'ella nos retem não são as suas novas avenidas, nem
+as suas praças, nem o seu lindo theatro, nem o seu bello Passeio
+Publico. O que em Evora nos embelleza e nos encanta, são os seus velhos
+mosteiros, as suas antigas egrejas, os nomes das suas primitivas ruas,
+estreitas e sinuosas, tão curiosos e tão archaicos como o de
+_Valdevinos_, o de _Alconchel_, o das _Amas do Cardeal_, o do _Alfaiate
+da_ _Condessa_; são os quadros incomparaveis do seu paço archiepiscopal;
+são os variadissimos documentos da sua architectura ogival e da sua
+architectura da Renascença, tão especialmente amoiriscada n'esta parte
+do Alemtejo; são os restos das suas antigas industrias locaes, a olaria,
+a tapeçaria, a caldeiraria, a sellaria e a carpintaria de moveis; é
+talvez ainda a sua tradicional cosinha, a doçaria famosa dos seus
+conventos, a sua honrada assorda de cuentros, e o seu bolo pôdre, de
+farinha de milho, azeite e mel, como o que se comeria talvez, entre os
+hebreus da Biblia, á mesa de Abrahão.
+
+Com as improvisações do seu modernismo Evora é como Vianna do Castello,
+Braga, Guimarães, Coimbra, Thomar, Santarem, ou Beja, que sómente
+interessam os viajantes pela sua antiga arte, e não valem realmente a
+pena de que alguem as visite pelo que dão de novo.
+
+Em Lisboa repudia-se a soberba egreja de Santa Engracia, o mais bello
+dos nossos monumentos do seculo XVII. O interior do templo é de uma
+magnificencia magestosa. A riqueza dos marmores sómente se pode comparar
+á de Mafra. A mão d'obra é de uma perfeição magistral a ponto de parecer
+indestructivel. Aproveitada para pantheon nacional esta egreja seria um
+dos mais imponentes edificios da Europa. Falta unicamente á sua
+conclusão a cupula do tecto e o lageamento do chão. Taparam-lhe o arco
+da entrada a pedra e cal, não tem cobertura, e está servindo de armazem
+de arrecadação do inutilisado material de guerra do Arsenal do Exercito.
+
+A inoffensiva capellinha das Albertas, bem interessante pela
+ornamentação tão portugueza dos seus embrechados, ha poucos dias ainda
+acabou de desapparecer, como o convento da Esperança, sem se saber
+porque, nem para que.
+
+A restauração, que recentemente padeceu a egreja de S. Vicente de Fóra,
+tão particularmente notavel pelos bellos mosaicos portuguezes que a
+exornam, caracterisa-se bem no mau gosto da pintura com que se maculou a
+nobreza d'aquelle templo.
+
+Os attentados de restauro de que ainda nos tempos modernos tem sido
+objecto a Sé de Lisboa são tão lastimosos quanto innumeraveis.
+
+Finalmente, ao lado da Torre de Belem, o mais peregrino entre os mais
+bellos monumentos da nossa architectura, estabelece-se o gazometro da
+companhia de illuminação a gaz! A esbelta silhueta rendilhada do mais
+suggestivo padrão da nossa gloria militar e maritima, já não emerge da
+areia loura do Restello, em deslumbradora apotheose, na vasta
+luminosidade do ceu e da agua, destacando-se das collinas de Monsanto,
+como a alvura de uma hostia em elevação se destaca do fundo de um
+retabulo esmeraldado, em altar de ouro fulvo, sob uma abobada azul.
+Sacrosanta pela sua expressão moral, como a immaculada estalactite,
+formada á beira do mar pela concreção mysteriosa de todas as lagrimas,
+de saudade, de ternura, de consternação e de enthusiasmo, choradas por
+um povo de embarcadiços; sacrosanta na sua forma artistica, como aquelle
+dos monumentos de Portugal, em que o genio lusitano da Renascença, mais
+expressivamente se revela como dominador da India, a Torre de Belem
+emparceira-se com a chaminé do mais vil e sordido barracão, a qual
+sacrilegamente a cuspinha e enodôa com salivadas de um fumo espesso,
+gorduroso e indelevel, como se a incomparavel joia d'esse marmore, que o
+sol portuguez carinhosamente sobredourara pelos afagos de tres seculos,
+houvesse sido tão subtilmente cinzelada pelos artistas manoelinos para
+escarrador de mariolas, por cima do qual todavia ainda algumas vezes, em
+dias de gala, se desfralda e tremula o pavilhão das quinas, mascarrado
+de carvão como um chéché de entrudo.
+
+Ministerios de todos os diversos partidos politicos se revezam
+consecutivamente no poder, sem que nenhum d'elles pareça attentar em um
+tal desdouro, expressão viva do mais abandalhado rebaixamento a que,
+perante as suas tradições historicas e artisticas, podia chegar a
+degeneração de uma raça. Por seu lado o parlamento e a imprensa são
+insensiveis á responsabilidade de taes civicias, porque esses dois
+poderes do Estado, enrascados na baixa intriga partidaria, immobilisados
+n'ella, como um enxame de pardaes n'uma bola de visco, de ha muito que
+perderam o sentimento de nacionalidade e a noção de patria, relaxando
+completamente aos archeologos, aos poetas e aos artistas a unica
+legitima representação, desinteressada e altiva, do espirito portuguez.
+
+Consta no emtanto que brevemente será celebrado em Lisboa o centenario
+da India; e da comprehensão que temos d'esse feito culminante da nossa
+historia maritima daremos ao extrangeiro um testemunho definitivo,
+mostrando o monumento que commemora tal façanha, envolto, como nas
+dobras de um crepe, pela fumaçada de uma fabrica, que nós mesmos lhe
+puzemos ao pé, para o deshonrar.
+
+
+Se do exame da architectura dos nossos monumentos, passamos ao exame das
+artes decorativas, da pintura e da esculptura amovivel, é mais lastimoso
+ainda o espectaculo da nossa incuria.
+
+Ao clero portuguez cabe principalmente a gloria de haver conservado o
+que ainda resta do nosso patrimonio artistico.
+
+Das galerias particulares de pintura que o conde de Raczynski ainda
+encontrou em Portugal, no anno de 1845, quasi tudo se sumiu.
+
+Demoliram-se, desappareceram, ou foram transformadas pela mudança de
+dono, pela mudança de destino, pela transformação mais radical da vida
+interior que as animava, quasi todas as casas que ainda em 1840 eram o
+typo das habitações nobres em Lisboa.
+
+Citarei, ao acaso da memoria: o palacio da marqueza de Niza, a Xabregas,
+fundado no seculo XV pela rainha D. Leonor; o palacio chamado dos
+Patriarchas, o de Pessanha e o do conde de S. Miguel, á Junqueira; o do
+marquez de Pombal ás Janellas Verdes; o do conde de Carvalhal na Rocha
+do Conde d'Obidos, famoso outr'ora pela collecção das suas mobilias; á
+Cotovia o do conde de Ceia e o do conde de Povlide; no Calhariz os de
+Braancamp, do duque de Palmella e do marquez de Olhão; o do marquez de
+Castello Melhor e o do conde de Lumiares, no antigo Passeio Publico; na
+collina do Castello o do marquez de Ponte de Lima, o do marquez de
+Alegrete, o do marquez de Tancos; no Campo de Santa Clara o do visconde
+de Barbacena, o do conde de Resende, o do marquez de Lavradio, e um
+pouco mais para leste o do conde da Taipa; o do visconde da Bandeira, a
+S. Domingos; e finalmente o do marquez de Borba, o do conde de Almada, e
+o do morgado de Assintis, cujo theatro era o mais sumptuoso entre todos
+os numerosos theatrinhos particulares que havia em Lisboa no principio
+do seculo, como o do barão de Quintella, o do visconde de Anadia, o do
+conde de Almada, e o do conde de Sampaio.
+
+A maior parte d'essas casas eram ainda, pelo seu antigo recheio, apesar
+dos estragos do terremoto, apesar da rapina da invasão franceza,
+verdadeiros sanctuarios d'arte. Mobilavam-as as mais ricas peças das
+industrias do Oriente que existiam na Europa, escriptorios, papelleiras
+e bahus monumentaes de charão, bufetes e contadores feitos na India ou
+fabricados em Lisboa por marceneiros aqui educados, no tempo de D.
+Manoel, por artistas indianos.
+
+Os serviços de mesa e os vasos decorativos eram das mais antigas e das
+mais preciosas porcellanas da China e do Japão. A collecção das colxas e
+dos panos de armar, com que no dia da procissão de Corpus-Christi se
+revestiam inteiramente as fachadas de todos os predios da Baixa, eram de
+brocado, de damasco, de setim e de veludo, constellados a matiz e a ouro
+nos mais deslumbrantes desenhos persas.
+
+Os bragaes, de linho da Hollanda, da Flandres e do Reino, arrecadavam-se
+nas sumptuosas caixas encouradas, que foram no seculo XVI uma das
+industrias famosas de Lisboa.
+
+Nas gavetinhas dos contadores e nos escaninhos dos armarios e das arcas
+estavam as joias, as rendas, os aljofares, os entretalhos, os firmaes,
+as chaparias, os ouros de martello, e as obras mais diminutas e subtis
+das antigas bordadoras e colxoeiras de Lisboa,--restos de coifas, de
+face e gravis, redes, cadenetas, desfiados.
+
+As baixellas brazonadas, de ouro e prata, levantadas em bestiões e em
+silvados, a martello, ou cinzeladas por emulos de Benvenuto Celini,
+trasbordantes de ornato, em encaiches de arabescos e de laçarias, eram
+um luxo commum a todas as familias nobres, e refulgiam pelas grandes
+festas do anno em todas as casas de jantar.
+
+O mogno francez do imperio, com as suas applicações de bronze,
+representando fachos, pyras ardentes, lyras e tropheus de guerra,
+invadira com as modas da revolução liberal muitas casas lisboetas, sem
+todavia desthronar inteiramente o precioso mobiliario da Renascença, em
+cedro, em pau rosa, em sandalo, em nogueira, em carvalho ou em ebano, ao
+gosto mudegar ou ao gosto florentino, embutido de marfim, de
+madreperola, de prata, de esmaltes limosinos ou aragonezes. Abundavam as
+cadeiras e os catles de couro lavrado ou de guadamecim, cravejado no
+carvalho ou no pau santo com pregos cinzelados de cobre ou de prata; e
+nas poltronas, nas commodas, nas meias-commodas, nos escaparates, nas
+cadeirinhas, nas molduras dos espelhos e das sobreportas predominavam as
+formas curvilineas da influencia de Luiz XIV e de Luiz XV na época de D.
+João V e de D. Maria I.
+
+Na talha dos oratorios encontravam-se alguns d'esses baixos relevos em
+madeira, polychromicos, em escala mui clara, tão caracteristicos da
+nossa esculptura em madeira do seculo XVII, bem accentuadamente revelada
+nas obras de Bouro, de Tibães, de S. Gonçalo de Aveiro, e da Sé Nova de
+Coimbra.
+
+O presepio era um appendice por assim dizer obrigatorio; sempre que não
+occupava um compartimento especial da casa, o presepio concentrava-se na
+sua machineta em forma de urna, semelhante ás que se destinavam a conter
+uma cella de Santo Antonio ou uma arribanasinha de menino Jesus.
+
+Todas as familias historicas tinham a sua mais ou menos consideravel
+galeria de pintura: paineis de devoção, retratos de antepassados, e um
+ou outro quadro de genero ou de paizagem, em tela ou em cobre,
+attribuidos a Breughel, a Rosa di Tivoli, a Tenniers ou a Rubens, obras
+em geral apocryphas e mediocres. Grassavam, com tenacidade talvez
+excessiva, as Josephas d'Obidos e os Morgados de Setubal, mas entre os
+retratos do seculo passado, encontravam-se alguns preciosos, como os de
+Pelegrini em casa dos viscondes de Anadia, como os pintados por Madame
+Guiard, por Gérard e por Therbouché, em casa do visconde de Sobral.
+Entre os quadros de devoção destacavam-se frequentes obras primas
+nacionaes, do seculo XVI, referidas á vida da Virgem Maria, á lenda de
+Santa Ursula, aos agiologios de alguns santos portuguezes, como
+Verissimo, Maxima e Julia.
+
+Nos sotãos d'essas antigas casas havia accumulações seculares de moveis
+inutilisados, de miudezas rejeitadas e esquecidas, com as quaes se
+sepultariam documentos inapreciaveis para a historia da nossa influencia
+na evolução europeia das artes sumptuarias: cadeiras aluidas e canapés
+desconjuntados, desusados manicordios, velhos cravos de charão,
+abandonadas espinetas, em cujo teclado amarellecido se teriam dedilhado
+as primeiras composições de Palestrina e de Cimarosa; antigos arreios de
+tiro e de sella, braseiras, perfumadores, lanternas e candieiros de
+cobre, velhos palmitos contrafeitos de conchas e de pennas, montões de
+manuscriptos, montões de gravuras, dentes de elephante, ferrugentas
+clavinas de pederneira; e, entre feixes de cacetes e de chibatas de
+marmelleiro, talvez, desarticulado e roto, algum d'esses chapeus de sol,
+que nós fomos os primeiros que fabricámos e que introduzimos na Europa,
+ou algum d'esses primitivos leques, em quarto de circulo, que os
+companheiros de Fernão Mendes Pinto trouxeram da China, com os primeiros
+apparelhos de chá, com os primeiros vasos de porcellana, com as
+primeiras caixas de sinaes e pastilhas, doando a Roma e a Florença, a
+Paris e a Londres todos os principaes attributos e os themas
+fundamentaes de toda a arte da casa e de toda a elegancia feminina da
+civilisação moderna.
+
+E tudo isso desappareceu, ou se está evolando, com o successivo
+desmanchar de todas as velhas casas, n'um saudoso e doce perfume de
+camphora, de mofo, de alfazema e de bejoim, errante no ar dos casarões
+despejados.
+
+Estão nas bibliothecas extrangeiras, em França e na Inglaterra, as mais
+preciosas illuminuras dos nossos codices e das nossas arvores
+genealogicas.
+
+Das encantadoras figurinhas dos presepios de Faustino José Rodrigues, de
+Antonio Ferreira, de Machado de Castro, já não ha intacta senão a
+collecção da Sé. Destroçaram-se as da Madre de Deus, do Coração de Jesus
+e do marquez de Borba em Santa Martha.
+
+O que ainda persiste da obra tão curiosa e tão caracteristica dos
+barristas de Alcobaça está ao desamparo no abandono d'aquelle
+incomparavel monumento.
+
+Lanças, espadas, adagas, elmos de todas as fórmas--almafres, capellinas,
+bacinetes, barbudas e morriões--, couraças, escarcellas, grevas,
+manoplas, escudos e rodellas, todas as peças, emfim, da armadura dos
+nossos heroes da Africa e da India, desappareceram com as balças, as
+sinas, os estandartes e as bandeiras das suas hostes.
+
+A espada de Vasco da Gama é hoje propriedade de um particular, que ha
+pouco tempo adquiriu por compra essa reliquia nacional.
+
+Uma espada e um capacete de torneio, que se diz terem pertencido ao
+Mestre de Aviz, peças ferrugentas, sujas, sem estojo nem outro qualquer
+resguardo que as defenda da irreverencia do publico, estão na Batalha á
+mercê dos moços, dos pedreiros e dos visitantes, que de chacota se
+adornam com essas armas, em galhofa carnavalesca.
+
+Na cathedral de Toledo, na soberba capella dos Reis Novos, preciosamente
+edificada por Alonso de Covarrubias, em tempo de Carlos V e por
+disposição testamentaria de Henrique II de Trastamara, vê-se uma
+armadura portugueza. Guardada por castelhanos, essa armadura
+suspende-se, d'entre os ornatos platerescos da capella, por cima do
+órgão, em todo o respeito devido a um trophéo sagrado. E um dos guardas
+da cathedral, explica ao publico, apontando essa reliquia:--«Aquella é a
+armadura do alferes portuguez Duarte de Almeida, o qual, batendo-se na
+batalha de Toro contra nós outros, tendo tido decepadas as duas mãos,
+morreu ás lançadas, segurando nos dentes a bandeira do seu rei.» E em
+frente do arnez, que vestiu o corpo sanguento e exanime de um inimigo,
+Castella inclina-se reverente e commovida, fazendo-nos corar, perante a
+grandeza de tal exemplo, da lenda grosseira em que envolvemos a pá da
+padeira Brites--_Quantos vivos rapuit omnes esbarrigavit_,--a qual pá
+uma esperta e linda creada de Aljubarrota faz o favor de ir buscar, e de
+tirar de dentro de um saco, para a mostrar n'um patamar de escada aos
+viajantes que para esse fim lhe vão bater á porta.
+
+Não está feita nem estudada a historia dos nossos vidros, dos nossos
+esmaltes, da iconographia da nossa habitação, e do nosso trage.
+
+Uma das obras primas da nossa joalheria, a propria custodia de Belem,
+lavrada por Gil Vicente, o famoso ourives, tio do poeta, acha-se
+desfigurada nas suas dimensões primitivas pela interpollação de um novo
+hostiario e de duas pilastras, que já não são do primeiro ouro das
+conquistas, mas de simples prata dourada.
+
+Depois dos tão numerosos e tão grosseiros erros a que tem dado origem a
+investigação da identidade de Grão Vasco, a historia, a classificação e
+a attribuição da nossa incomparavel pintura do seculo XVI, encontra-se
+ainda por fazer.
+
+A restauração dos antigos quadros está constituindo na historia da nossa
+arte uma catastrophe ainda mais destruidora que a da restauração da
+nossa architectura.
+
+Alguns annos mais sobre o systema devastador que se está seguindo, e
+ninguem poderá reconhecer nas taboas da nossa grande época uma só
+pincelada dos admiraveis discipulos e dos emulos que tiveram em Portugal
+os Van Eik, os Memling, os Gerard David, os Van der Weiden, os Quinten
+Massys ou os Dierik Bouts.
+
+N'essa prodigiosa pintura nacional, em que tivemos por mestres os
+flamengos, acha-se todavia registrada a historia de toda a vida
+portugueza desde o meiado do seculo XV até o fim do seculo XVI, isto é,
+durante o periodo do nosso maior brilho e da nossa maior riqueza, no
+apogeu da nossa gloria. São raras as puras composições historicas e
+raros os retratos d'esta época. Os grandes feitos da navegação e da
+guerra celebravam-se de preferencia nas tapeçarias, que se perderam, e
+constituiam o principal adorno d'arte dos paços dos reis e dos palacios
+dos nobres. Na pintura religiosa, porém, e nos quadros votivos,
+conservados nas egrejas e nos conventos, as figuras do seculo
+misturam-se em brilhante anachronismo ás figuras sagradas, e muitas
+authenticas physionomias se accusam energicamente nos pomposos cortejos
+que envolvem as scenas biblicas. A memoria do que fomos está ahi, por
+nós mesmos consagrada, com o maior esplendor a que chegou o nosso genio
+artistico, nas taboas dos paineis, no pergaminho das biblias e dos
+devocionarios portuguezes. Ahi estão os reis, as rainhas, os sacerdotes,
+os guerreiros e os letrados portuguezes do cyclo da renascença. São
+essas as caracteristicas figuras dos nossos avós: as faces cheias, a
+pelle tostada, a carne rija, os olhos rasgados, as boccas imperativas. A
+essas nobres e delicadas cabeças femininas serviram de modelo as mais
+lindas mulheres da Lusitania, de olhos de amendoa, malicioso olhar
+avelludado, obliquo e enygmatico, sobrancelhas longas alteando nas
+fontes, rostos ovaes, boccas quentes e vermelhas, queixo carnudo vincado
+na base, testa arredondada e lisa, cabello espesso e fino apartado ao
+meio em duas curvas de bambolim, e uma gesticulação leve, sinuosa e
+ondulante. Teriamos que interrogar longamente, laboriosamente, esses
+venerandos paineis para apprender tantas coisas que ignoramos da
+physionomia do nosso passado, o trage, as armas, as joias, a mobilia, os
+utensilios da casa e os estados do espirito.
+
+O estudo completo d'esses quadros constituiria a mais importante, a mais
+bella obra da nossa historiographia.
+
+_A patria portugueza segundo os documentos da pintura nacional nos
+seculos XV e XVI_, poderia ser o titulo d'esse incomparavel livro, em
+que collaborariam todas as aptidões intellectuaes de que dispõe o paiz,
+por meio de successivas monographias, relativas a cada ramo do saber e
+comprehendendo todos os pontos de vista em que pode ser considerado o
+quadro:
+
+1.º _Os aspectos da paizagem_, os caracteres da _flora_ e da _fauna_
+portugueza, que nós tão opulentamente enriquecemos, pelo commercio das
+conquistas e dos descobrimentos; no tempo em que Lisboa era o primeiro
+jardim de acclimatação, o primeiro jardim zoologico e o primeiro mercado
+da Europa, pela introducção do chá, do café, do assucar, do algodão, da
+pimenta, do gengibre do Malabar, da canella de Ceylão, do cravo das
+Molucas, do sandalo de Timor, das teccas de Cochim, do bejoim do Achem,
+do pau de Solor, do anil de Cambaya, da onça, do elephante, do
+rhinoceronte, do cavallo arabe.
+
+2.º _O mobiliario_, cuja fabricação tão fecundamente desenvolvemos por
+meio de officinas estabelecidas em Lisboa por artifices indianos, e
+estabelecidas na India por artifices portuguezes, sob a administração de
+Affonso de Albuquerque.
+
+3.º _A indumentaria_, comprehendendo, além da historia do _traje_, a dos
+_tecidos_, a dos _bordados_ e a das _rendas_, industrias procedentes da
+China, da Persia, de Benguella, tão profundamente influenciadas pelo
+nosso contacto nas suas origens, tão especialmente desenvolvidas no
+Reino, pelo lavôr do paço, onde trabalhavam ao bastidor e á agulha as
+mais pacientes e subtis _lavrandeiras_ mandadas á rainha pelos capitães
+da India.
+
+4.º _As armas_, de guerra, de torneio e de côrte.
+
+5.º A _ourivesaria_ e a _joalharia_, abrangendo a analyse das alfaias
+religiosas, lampadas, tocheiros, relicarios, thuribulos, retabulos, a
+tão curiosa evolução em Portugal da fórma e do ornato dos calices, das
+custodias e das cruzes; e na ourivesaria profana as innumeraveis peças
+em ouro ou prata da baixella e da joalharia portugueza da Renascença,
+como escudellas de faldra e de orelhas, salseiros, oveiros, vinagreiras,
+almofias, tumadeiras, almaraxas, escalfadores, confeiteiras,
+perfumadores, esquentadores, brazeiros, pomas-candis, alcaforeiros,
+taxos de perfumar luvas, copas, taças, gomis, bacias d'agua ás mãos,
+maças, chaparias de gualdrapa, andilhas, estribos, taboas de cavalgar,
+guarnições de cavallo, com rosas, sostinentes e copos; cofrinhos,
+arrecadas, firmaes, pontas de ouro, brochas de livro, cadeias,
+guarnições de coifa, trançadeiras, crochetes, cintas, tiras de cabeça,
+tiratestas, dormideiras de ouro para volantes, e as contas variadissimas
+de filigrana mourisca, de ambar das Maldivas, de almiscar da China, de
+rubis do Pegu, de diamantes de Narsinga, de perolas de Kalckar.
+
+6.º _As embarcações_--galeões, naus, caravellas, bergantins, fustas,
+toda essa portentosa collecção dos nossos barcos de guerra e dos tão
+variados typos empregados na cabotagem e na pesca, testemunhos
+sobreviventes ainda hoje do nosso genio maritimo e das suggestões do
+mais remoto trato do oceano, como se demonstra na forma dos saveiros,
+que trouxemos do Bosforo, e na da muleta do Seixal, que é o navio grego
+do tempo de Herodoto.
+
+7.º _A olaria e a cestaria popular_, em que tão atticamente se affirma o
+hereditario engenho artistico da nossa raça, e cujos productos tanto se
+compraziam em reproduzir os nossos pintores.
+
+8.º Emfim: _A psychologia das figuras_ pela physionomia, pelo gesto,
+pelo sorriso, pelo olhar; os usos e os costumes; os temperamentos
+predominantes; a moda, o toucado; o corte do cabello, o talho da barba,
+etc.
+
+Da pintura portugueza, que constitue a mais importante parte da riqueza
+artistica da nação, não ha porém catalogo, nem inventario, nem rol. Nos
+nossos depositos de antigos quadros, em Lisboa, em Coimbra, em Vizeu, em
+Thomar, em Lamego, em Evora, em Setubal, o povo portuguez passa
+indifferente, abstrahido, expatriado, sem guia que o condusa ás fontes
+da tradição e da nacionalidade, em que cada um de nós tem a mais
+restricta e a mais instante obrigação de ir retemperar e fortalecer de
+portuguezismo o seu sangue, dessorado pela mais falsa educação a que se
+pode condemnar um paiz.
+
+Não ha collecção publica, chronologicamente completa, dos nossos
+incomparaveis azulejos. Esta industria artistica é no emtanto d'aquellas
+de que mais legitimamente nos podemos gloriar. Até o seculo XVII o
+azulejador portuguez acompanhou a evolução peninsular, de influencia
+mudegar e de influencia italiana. Desde o seculo XVII adoptamos o gosto
+hollandez, e no seculo XVIII os nossos artistas desenvolvem no azulejo
+azul e branco, em vastas composições historicas e de genero, paizagens,
+merendas, caçadas, allegorias religiosas e lendas monasticas,
+enquadradas em bellas grinaldas polychromicas, o mais seguro e adestrado
+talento de composição historica e decorativa.
+
+Raro será o anno em que de Portugal não tenha desapparecido um quadro
+inestimavel ou um codice precioso, sem qualquer apparencia de coherção,
+sem o minimo reparo, ao menos, do poder executivo, das côrtes ou da
+imprensa. Á hora a que escrevo estas linhas me dizem que está á venda ou
+vendido em Londres um livro de horas com que o rei D. Manoel brindára um
+fidalgo da sua côrte, ordenando-lhe que vinculasse esse manuscripto, que
+era uma gloria da nação.
+
+Não é, em rigor da verdade, muito mais risonho que o destino das obras
+d'arte que saem para o estrangeiro o destino das que ficam no paiz.
+
+É bem conhecida a historia do primeiro dos nossos museus industriaes,
+fundado em Lisboa por Fradesso da Silveira. Esse museu extinguiu-se
+suavemente, a pouco e pouco, até chegar a não existir do deposito
+primitivo senão unica e exclusivamente as prateleiras em que elle havia
+sido collocado.
+
+O rico museu das antiguidades do Algarve, recolhidas ha dezeseis annos
+por Estacio da Veiga, ainda hoje se não acha instalado.
+
+Da inestimavel collecção das antigas peças de louça e de obras de barro,
+que haviam pertencido ao convento da Madre de Deus, e que o architecto
+Nepomuceno recolhera em uma das casas d'aquelle edificio, desappareceu
+tudo.
+
+Tão vasta é a nossa riqueza artistica e tão profundo o desleixo de a
+escripturar, que são quasi tão frequentes as surpresas no que se
+encontra como no que se perde.
+
+Como exemplo direi que era assentado não haver em Portugal vestigio
+algum da influencia immediata de Van Eik na pintura portugueza, e não
+existir do infante D. Henrique, o Navegador, mais que um retrato, na
+miniatura annexa ao bello manuscripto de Azurara, presentemente
+propriedade da _Bibliothèque Nationale_, em Paris. É entretanto nosso, e
+existe em Portugal, um retrato egualmente contemporaneo e authentico, em
+tamanho natural, magistralmente pintado a oleo sobre madeira. Esse
+retrato precioso, inteiramente desconhecido do publico, eu mesmo o vi no
+dia 19 do mez de julho de 1895. Faz parte de um grupo de varios
+personagens, é da segunda metade do seculo xv, e pertence a um jogo de
+quatro paineis, de dimensões eguaes, relacionados entre si por analogia
+de data e de assumpto. Está bem conservado, e acha-se, com os tres da
+serie a que pertence, no corredor do claustro de cima no edificio de S.
+Vicente de Fóra, no vão de uma janella, junto dos aposentos habitados
+n'essa occasião por s. ex.^a revd.^{ma} o sr. arcebispo de Mitylene.
+
+O illustre escriptor inglez sr. Prestage mandou fazer d'esse retrato uma
+reproducção photographica, destinada a illustrar a nova edição ingleza
+da _Chronica da Guiné_.
+
+Na linda egreja do convento de Santa Iria, que o fallecido architecto
+Nepomuceno comprou por 300$000 réis, e se achava encorporada no mosteiro
+fundado por D. Maria de Queiroz, viuva de Pedro Vaz de Almeida, veador
+da fazenda do infante D. Henrique, ha um retabulo em baixo relevo de
+bella pedra d'Ançan, que é simplesmente, pelo desenho, pelo stylo, pela
+mão d'obra e pelo estado de conservação em que se acha, uma das obras
+capitaes da esculptura da Renascença em Portugal. Compõe-se de dezesete
+figuras. Junto da cruz, de que pende a mais ideal figura do Redemptor,
+está prostrada Santa Maria Magdalena. Acompanham-a a Senhora da
+Soledade, as tres Marias, Nicodemus, José de Arimathea e S. João
+Evangelista. No primeiro plano, dois soldados a cavallo, em magnifico
+trage do seculo XVI. Enquadra a composição um bello portico, de columnas
+e tabellas preciosas, chancellado pelo brazão dos Valles. Só outro
+Calvario, o do claustro do Silencio, em Coimbra, obra, por certo, do
+primeiro dos esculptores de Santa Cruz, hoje profundamente cariada e
+quasi delida, se poderia comparar, de par com o pulpito da mesma egreja,
+á esquecida esculptura da abandonada egreja de Thomar.
+
+Em egual descaso e esquecimento, ignorado da grande maioria dos
+viajantes e dos estudiosos, o monumental e sumptuosissimo panthéon dos
+Silvas, da preclara familia de D. Ruy Gomes, em S. Marcos, cerca de
+Coimbra. O bello portal alpendrado d'esta egreja tem a data de 1510. Os
+cinco sarcophagos de que se compõe o jazigo verdadeiramente regio dos
+Silvas, assim como o retabulo em pedra no altar mór da egreja constituem
+uma preciosidade esculptural de valor incomparavel. Este admiravel
+repositorio da nossa esculptura quinhentista foi ha poucos annos
+vendido, com a cerca adjunta do extincto mosteiro, pela quantia de seis
+contos de réis.
+
+Os preciosos quadros da pintura portugueza do seculo XVI, completamente
+desarrolados, despercebidos dos compradores extrangeiros, e ainda hoje
+dispersos pelo paiz, são em numero talvez superior aos dos quadros de
+mesma época recolhidos pelo estado depois da abolição das ordens
+religiosas. O illustre critico sr. Joaquim de Vasconcellos tem, só á sua
+parte, noticia de não menos de cem obras desconhecidas do publico. Das
+que existem no Museu Nacional de Lisboa, na arrecadação da Academia das
+Bellas Artes e nos demais depositos do paiz, não ha uma só photographia
+registrada pelo Estado, á semelhança do que se faz em todos os museus do
+mundo.
+
+Por occasião da ultima exposição, tão interessante, realisada nas salas
+devolutas, das Janellas Verdes, para celebrar o Centenario de Santo
+Antonio, a direcção das Bellas Artes não respondeu ao pedido da modesta
+quantia de 50$000 réis que a commissão executiva da mesma exposição lhe
+dirigiu para que se publicasse o respectivo catalogo, que ficou em
+manuscripto na mão do redactor.
+
+Por essa mesma occasião os peritissimos e benemeritos photographos
+portuenses Emilio Biel & Companhia, aos quaes tão valiosos e
+desinteressados serviços devem as artes portuguezas, dirigiram ao
+governo uma proposta para reproduzir pela photographia,--sem subsidio
+algum do thesouro--todos os objectos expostos no palacio das Janellas
+Verdes. Esta proposta ficou egualmente sem despacho.
+
+Inutil me parece alludir ainda á dispersão das mais ricas peças do
+mobiliario portuguez do seculo XVI e d'essa segunda renascença artistica
+e industrial do nosso seculo XVIII.
+
+Bufetes, arcas, armarios, contadores, tapeçarias da Persia, bordados e
+rendas do reino, couros lavrados e guadamecins, azulejos, porcellanas
+antigas da India, do Japão e da China, credencias, leitos torcidos ou
+empennachados, canapés e cadeiras curvilineas ao gosto da Pompadour de
+Odivellas, espelhos afestoados, de toucador e de sacristia, damascos da
+Real Fabrica das sedas, louças artisticas do Rato, da Bica do Sapato, do
+Porto, de Vianna, do Cavaquinho, da Panasqueira, de Darque, das Caldas,
+de Estremoz, de Coimbra, tudo o bric-à-brac extrangreiro nos leva em
+cada anno, com uma cubiça e uma rapacidade que bem melancholicamente
+lembra a dos enviados de Verres no saque da Sicilia, do qual dizia
+Cicero que só ficou da arte o que a ganancia não quiz. Ainda ha Verres,
+como no tempo do velho mestre romano, mas já não ha verrinas.
+
+D'esta desorganisação geral de toda a policia da arte resulta mais ou
+menos lentamente, a quebra da tradição esthetica nacional, que é a seiva
+de toda a producção artistica.
+
+Á infecundação do individuo pelo espirito da raça corresponde o
+desfallecimento do poder creativo, a inercia da intelligencia, a
+esterilidade do estudo, a degeneração da phantasia, o abandalhamento do
+gosto, a atrophia do proprio caracter, e, em ultimo resultado da
+decadencia geral, a desnacionalisação pelintra de todo um povo.
+
+Com o rebaixamento da arte rebaixa-se tudo, porque no mundo é producto
+da arte tudo o que não é unicamente obra da natureza.
+
+O homem degenera, porque, sempre e em toda a parte, o homem toma
+fatalmente a configuração das coisas que o rodeiam e, para assim dizer,
+lhe enformam a personalidade.
+
+Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou pela inepcia de
+abastardadas classes dirigentes, os fieis debandam por não haver egreja
+que os reuna, e é já evidente esta enorme catastrophe: que na arte de
+Portugal faltam corações portuguezes.
+
+Fere-nos já esse phenomeno consternador em todos os aspectos da vida
+intellectual.
+
+Em resultado de não termos uma historia geral da arte portugueza,
+devidamente systematisada e integralmente documentada em cada um dos
+seus capitulos, vemos grassar, não só entre o vulgo mas entre pessoas de
+saber, incumbidas de guiar e de reger a opinião, o erro criminoso,
+profundamente desmoralisante, de que somos um povo inesthetico, incapaz
+de concepções artisticas originaes.
+
+A juventude litteraria, dotada de uma consideravel força de applicação e
+de talento, traz-nos uma poetica exotica, de climas nevoentos,
+anti-meridional, e vem falando uma lingua secreta, cabalistica,
+interessantemente engenhosa, incomprehensivel para o povo e para todos
+os que não estiverem iniciados na morphologia espiritica das novas
+seitas.
+
+Em toda a historiographia contemporanea se nota uma glacial frieza de
+critica, uma anemica pallidez de expressão, um geral entono de apagada
+tristeza, em que bem se demonstra que não circula o sangue vermelho da
+raça, nem se retrata do vivo o genio do nosso povo, meigo, docil, de
+apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente sociavel, amando a
+grande alegria estridente das feiras, das tardes de touros, das romarias
+dos seus santos populares, conservando nas infimas camadas sociaes um
+residuo trovadoresco, de paladino e de menestrel, susceptivel ainda das
+paixões mais profundas, todo de improvisação e de repentismo, capaz das
+coisas mais imprevistamente grandes, poetico, aventuroso e destemido.
+
+Na poesia, assim como na pintura e na musica, não ha uma escola
+portugueza, porque, na falta de laço social que congregue os nossos
+artistas, sem elementos coordenados de estudo, sem modelos patentes, sem
+lição commum, não ha entre elles mutuamente, nem entre elles e o povo de
+que derivam, communhão alguma de ideal ou de sentimento.
+
+Por egual razão não teem caracter nacional, sendo portanto destituidas
+de originalidade, e como taes inaptas para a luta da concorrencia
+mercantil, todas as nossas industrias.
+
+A decapitação official da nossa educação artistica manifesta-se ainda de
+mais perto, acotovelando-nos e contundindo-nos por toda a parte, no
+aspecto do povo, na apparencia das casas, na esthetica das cidades, na
+apparencia dos predios, na decoração das praças, das avenidas, dos
+cemiterios, dos jardins publicos, das lojas, das repartições do estado e
+das habitações particulares.
+
+Em Lisboa, por exemplo, onde não ha uma sala de concertos populares, nem
+vem tocar para a rua a musica dos regimentos, onde no theatro de Dona
+Maria se não representa Gil Vicente nem Garrett, onde no theatro de S.
+Carlos se não canta Marcos Portugal, onde não ha um museu de arte
+decorativa, nem um simples mostruario da nossa producção industrial, nem
+um museu de pintura, coordenado, catalogado e etiquetado de maneira que
+communique ao publico, assim como em todas as outras capitaes da Europa,
+a lição que um museu contém, ha pelo contrario escaparates de
+apparatosos armazens, que são para quem anda pelas ruas o contagioso
+exemplo da mais corrompida perversão, do mais provocante e pomposo
+relismo a que pode chegar o desvairamento do gosto. Mobilias em tal
+maneira degeneradas que n'ellas desappareceu de todo o material de
+construcção. A almofada que em toda a antiguidade e em toda a edade
+média era um accessorio movel, e só no seculo XVI se principiou a fixar
+com pregos ao banco ou á cadeira, invade boçalmente todo o movel, armado
+em ripes de pinho, como uma eça de defunto, embrulhado em pelucia, que
+nos esburaca os olhos pela insolente má creação da côr. E horripilantes
+lindices de toucador, de escriptorio ou de sala, em que tudo parece
+apostado em ser fingido, desde a etrusca ondulação do contorno até o
+material empregado, porque todas as linhas são aleijadas, a prata é
+zinco, o marfim é gesso, o charão é de papel e o marmore esculpido é de
+sabão. E tudo isso se compra e se leva para casa, para infectar a
+familia, para corromper o lar e para escrofulisar moralmente os meninos,
+desconjuntando-os de dignidade domestica, inoculando-os de pelintrice e
+de canalhismo de casta para a vida toda.
+
+Ha uma avenida monumental em que, ao longo dos passeios destinados ao
+transito do publico, em vez da ornamentação da flora regional, em vez
+dos longos massiços de castanheiros, de laranjeiras, de palmeiras e de
+bananeiras, como em Barcelona e em Sevilha, esverdinham e apodrecem dois
+miseros e infectos arroios artificiaes no fundo de flexuosas ravinas,
+gretando sinuosamente o solo, como canos dissimuladamente abertos em
+fosquinhas para trambulhões do viandante.
+
+Nos predios a prodigalidade vesanica das janellas percorre a superficie
+das fachadas, havendo frontarias que parecem construidas unicamente com
+hombreiras contiguas e sobrepostas; e, ao passo que em cidades amoraveis
+e artisticas se criam premios e se abrem concursos de janellas floridas,
+em Lisboa é prohibido ornamentar de flores o frontespicio das casas.
+
+Os lindos _empedrados_ e _embrechados_ de tradição portugueza caem em
+desuso, substituidos por cimentos incompativeis com a acção do nosso
+clima.
+
+O tão commodo, tão modico e tão gracioso typo da nossa antiga casa de
+campo é substituido nas construcções modernas pelas fórmas de um
+exotismo composito, as mais delambidas, mais pretenciosas e mais
+chinfrins, hybrida confusão allucinada do châlet suisso, do cottage
+inglez, da fortaleza normanda, do minarete tartaro e da mesquita
+moira,--nodoa e vexame da paizagem portugueza nas redondezas de Lisboa.
+Em presença de um tão inverosimil scenario de magica, de operetta ou de
+revista do anno, ninguem, desajudado de outras indicações, anedocticas e
+chorographicas, será capaz de adivinhar em que parte do mundo e entre
+que casta de gente se está passando a peça. Tal é a delirante epidemia
+de que estão combalidos os constructores contemporaneos, que, para ter
+um indicio nacional da nossa tradição, entre as casas de campo ou de
+praia construidas em torno de Lisboa nos ultimos vinte annos, temos de
+ir a Cascaes vêr o typo, unico, da habitação dos condes de Arnozo, tão
+saudosamente semelhante á casa de nossos avós, com o seu pequeno eirado
+sobre uma arcaria de meio ponto, a sua porta de alpendre n'um patamar de
+escada exterior, ao lado do retabulo em azulejo do santo padroeiro da
+familia, as janellas de peitos guarnecidas de rotulas entre cachorros de
+pedra, destinados ás varas do estendal, e servindo de misula aos vasos
+de craveiros e de mangericos, em frente do poço de roldana, no mais doce
+e tranquillo sorriso d'outr'ora.
+
+Nos mesmos letreiros das esquinas de ruas encontram-se denominações que
+esbofeteiam o pundonor patriotico, a cultura historica e a dignidade
+esthetica dos habitantes.
+
+No Bairro Alto, onde a nomenclatura das ruas tão sympathicamente
+suggeria a lembrança bucolica da antiga fazenda suburbana, em que os
+jesuitas de S. Roque delinearam a nova cidade, como a rua da _Vinha_, a
+do _Moinho de Vento_, a do _Poço_, a do _Carvalho_, a da _Rosa_, a da
+_Atalaia_, ou os nomes dos officios que ahi primitivamente se arruaram,
+como os _Calafates_ e as _Gaveas_, apaga-se, como n'uma rasura de conta
+falsificada, esse lindo e piedoso vestigio da tradição lisboeta, para
+dar ás ruas nomes novos e incaracteristicos, de sujeitos que n'ellas
+moram ou se diz que por lá passaram. E com egual afouteza se dissolvem,
+n'um borrão de brocha, sagrados disticos, ainda mais estreitamente
+vinculados á historia do povo e á historia da cidade, como o da Rainha
+Santa Isabel, como o dos Martyres de Marrocos.
+
+Os trages populares, alguns tão pittorescos, tão suggestivos e tão
+bellos, como os das mulheres da Murtosa, da Maia, de Santa Martha e de
+Portuzello, como o dos boieiros do Ribatejo, dos pescadores de Ilhavo e
+da Povoa, e dos montanhezes do Alemtejo e do Algarve, degeneram e
+abastardam-se ridiculamente, porque não ha entre a gente culta quem
+preze esse trage, quem o honre e quem o entenda.
+
+Egualmente se desdenham e repudiam, por espirito de inconcebivel
+extrangeirismo, os productos primorosos de algumas das nossas industrias
+populares.
+
+Nenhum outro povo matiza com mais harmonia de côr e mais graça de risco
+esses tecidos dos teares ou dos bastidores caseiros, combinados com
+estopa, com linho, com lã ou com algodão, de que se fazem os panos
+liteiros, as sirguilhas, as saias e os aventaes das mulheres de Vianna,
+e bem assim as colxas de linho bordadas a frouxo na Beira, e os tapetes
+chamados de Arrayolos. Nenhum outro povo sabe tornear na roda do oleiro
+com mais esbelteza e mais puro atticismo o pote ou a bilha de barro, a
+pucara, o gomil e o pichel, de Coimbra, do Prado, de Mafra, de Redondo,
+de Loulé.
+
+Se ninguem mais artisticamente do que o portuguez sabe vestir a mulher,
+arrear o cavallo, engatar a mula, e moldar a vasilha, ninguem, tão
+pouco, melhor do que elle emalha a rede e enastra o cesto.
+
+Dizem inglezes que metade da sua arte contemporanea se deve á iniciativa
+e á propaganda do grande critico nacional John Ruskin, que Tolstoï
+considera um dos maiores homens do seculo, e a quem Carlyle chamava o
+_ethereal Ruskin_. Este glorioso campeão da esthetica e da arte em todas
+as suas mais complexas e mais variadas manifestações não pode deixar de
+ser lembrado por todos os que se interessam em taes assumptos. Os seus
+numerosos livros sobre historia da arte, sobre a architectura, sobre a
+pintura, sobre as artes decorativas e as artes industriaes, os seus
+profundos estudos de _Turner e os antigos_ e dos _Pintores modernos_, a
+sua triumphante campanha em favor dos monumentos historicos, das
+industrias ruraes, dos preraphaelitas, das paizagens inglezas, são um
+verdadeiro monumento litterario, e a bibliographia que se lhe refere
+constitue toda uma litteratura, famosa na Inglaterra sob o nome
+consagrado de _ruskineana_. Grande homem de acção, gloria dos da sua
+raça, tomando por divisa _To day_, Ruskin não se emparedou, como a
+maioria dos criticos, na torre eburnea dos extases poeticos e das
+contemplações expeculativas. Tendo consumido rapidamente mil contos de
+réis da legitima paterna em subvenções das mais generosas empresas
+sociaes, em dadivas aos museus, em soccorro dos pobres, em fundações de
+escolas e de officinas, reconstituindo pela venda dos seus livros, (a
+trinta contos a edição) um rendimento de riquissimo proprietario, elle
+fez-se gratuitamente professor de desenho, industrial e operario.
+Organisou a casa editora das suas proprias obras, a _Ruskin House_,
+fundou a _Saint-George's Guild_, em Londres, a Sociedade Protectora dos
+Monumentos Architectonicos, e as sociedades de leitura de Manchester, de
+Glascow e de Liverpool; ensinou a Inglaterra a comprehender a obra de
+Turner; fundou o culto dos primitivos, introduzindo na _National
+Gallery_ os preciosos quadros de Benozzo Gozzoli, de Perugino, de
+Botticelli, de todos os grandes predecessores de Raphael; e deu á arte
+todo um novo ideal e uma religião nova, creando uma pleiade
+brilhantissima de proselytos, de collaboradores e de discipulos, entre
+os quaes figuram Madox Brown, Rosseti, Collingwood, Millais, Morris,
+Thomaz Dean, Woodward, Munro, Hunt, Burne Jones, Hook e Brett, e Giacomo
+Boni, o actual conservador dos monumentos nacionaes da Italia. Foi elle
+emfim que deu a mais alta expressão á auctoridade esthetica em nossos
+tempos, impedindo, em nome da arte, que um traçado de caminho de ferro
+deturpasse a belleza de uma collina na paizagem ingleza, e levando uma
+commissão da Camara dos Lords a consultar uma commissão de artistas
+sobre se a passagem de uma linha ferrea não affectaria ruinosamente a
+parte de riqueza publica representada pela tranquilla e doce poesia de
+certo valle.
+
+É porém com um intuito especial,--a proposito das nossas tão resistentes
+industrias tradicionaes e domesticas,--que eu invoco o nome glorioso de
+Ruskin.
+
+O trabalho rural da fiação á mão e da tecelagem no estreito e primitivo
+tear caseiro achava-se totalmente extincto na tradição ingleza. Ruskin,
+considerando os poderosos elementos de economia, de moralidade, de
+satisfação, de educação esthetica e de intima poesia, destruidos pela
+suppressão d'essa antiga actividade artistica da familia no campo
+inglez, dedicou-se com um esforço portentoso a fazer reviver em Langdale
+e em Keswick a extincta industria caseira dos panos de linho e dos panos
+de lã em pequenas manufacturas domesticas, tendo por unico auxiliar da
+força individual uma vela de moinho nos cabeços das collinas ou a
+corrente da agua á beira dos riachos. Elle mesmo dá o exemplo da nova
+organisação do trabalho na familia, construindo o seu famoso moinho de
+Laxey. Recompõe-se uma antiga roda de fiar com as peças desarticuladas e
+esquecidas de um d'esses abandonados apparelhos encontrados em casa de
+uma velha tecedeira. É reconstruido um primitivo tear sobre o modelo
+florentino e medieval de um quadro de Giotto. Ruskin envolve esse novo
+movimento retrogrado do trabalho na propaganda mais activa e mais
+eloquente. A sua palavra calorosamente apaixonada, colorida e mordente,
+encontra em todo o Reino Unido um ecco extraordinario. As teias do novo
+linho caseiro, um tanto rugoso, um tanto irregular, cegado no campo,
+espadelado, assedado, fiado, córado e tecido pela mesma mão de mulher, á
+porta ou á janella de uma cabana, ao ar dos campos, ao ramalhar das
+faias, ao canto das cotovias, denotando nos accidentes da factura, como
+n'uma obra d'arte, a caracteristica individualidade do artifice,
+substituida á banal perfeição estupida e antipathica do apparelho
+mechanico, desbanca rapidamente a obra da fiação a vapor, cae em moda
+entre as pessoas de gosto aperfeiçoado, recebe a alta protecção da
+princeza de Galles, torna-se de rigor em todos os enxovaes elegantes, e
+faz-se pagar mui remuneradoramente por preços consideravelmente
+superiores ao dos productos da grande industria mechanica.
+
+Exito egual ao dos panos de linho na industria caseira dos lanificios na
+ilha de Man. É conhecida não só em toda a Inglaterra mas em toda a
+Europa a fama d'esses resistentes tecidos ruraes fabricados á mão, de
+desenhos combinados na urdidura e na trama com as côres naturaes da lã,
+sem preparo algum chimico ou mechanico, de tintura ou de acabamento; e a
+mais cara de todas as fazendas de luxo para traje de trabalho, de caça,
+de viagem, de equitação, é o famoso _homespun_ ou _Laxey homespun_, do
+nome da localidade em que se estabeleceu o primeiro moinho de Ruskin. É
+a esta evolução das pequenas industrias ruraes, hombreando em valor
+remunerativo com as grandes industrias, e não a destructiva absorpção do
+trabalho da familia pelo trabalho das grandes empresas fabris que eu
+chamo _transformação de industrias caseiras em industrias de
+concorrencia_,--formula que geralmente se toma em sentido diverso
+d'aquelle que eu lhe ligo.
+
+Em Portugal é certo que definham de dia para dia, e que successivamente
+se vão extinguindo as nossas velhas industrias ruraes. Esmorece
+calamitosamente, por culpa da administração economica dos nossos
+governos, a industria delicadissima das obras de filigrana de ouro e de
+prata, ainda em nossos dias servida por numerosas familias ruraes dos
+districtos do Porto e de Braga. Morreu em Bragança a industria da
+sericultura e a da fabricação do veludo. Acabou em Guimarães, entre
+outras industrias interessantissimas, a da manufactura caseira das sedas
+e dos brocados. No Algarve talvez que já hoje se não faça um unico
+trabalho de pita. Tem diminuido consideravelmente o numero dos teares
+caseiros na Covilhã, na serra de Monchique, na serra da Estrella. Nas
+margens do Lima, porém, entre Vianna do Castello e Ponte de Lima, ha
+ainda algumas das mulheres mais lindas e das mais bem educadas de todas
+as portuguezas, que fiam e tecem em suas casas o linho, a lã, o algodão,
+e se vestem completamente, da maneira mais elegante, com os tecidos mais
+consistentes e mais bellos, de sua fabricação exclusiva em todas as
+phases por que passa a materia prima, desde que é cegada no campo ou
+tosquiada no carneiro até se converter em vestido. Á feira semanal de
+Vianna as raparigas d'essa região trazem em lindas canastras, além dos
+ovos e dos frangos que criam, além da manteiga que fabricam, as teias de
+pano de linho, os cortes de saias de lã e de algodão, as peças de
+sirguilha, que tecem, e as rendas que fabricam a bilros ou á agulha. As
+de Villa Nova de Ourem fazem ainda fitas excellentes; e no mercado de
+Thomar vende-se em graciosos novellos da fórma de casulos a melhor
+linha, branca ou preta, que se pode comprar em Portugal. Conserva-se
+ainda a antiga tradição das _mantas do Alemtejo_, citadas já por Gil
+Vicente na _Farça dos almocreves_, a dos liteiros e mantas de retalhos,
+a dos lindos alforges da Extremadura, do Alemtejo e do Algarve, de
+Minde, d'Alte e de Redondo, e a d'esses famosos tecidos de lã, que são o
+_homespun_ portuguez, e que em sua variedade se denominam bureis,
+estamenhas, briches, saragoças, jardos, sorrubecos.
+
+Meditemos na maravilhosa obra operada por Ruskin n'um sentido esthetico,
+que á primeira vista se figura retrogrado, mas que encerra talvez em
+germen o destino futuro, preciosamente moralisante de todas as
+industrias, desde que os aperfeiçoamentos da electricidade desloquem o
+eixo do trabalho fabril, levando a casa de cada artifice por meio de um
+tenue fio de arame o quinhão de força que tem para distribuir por cada
+operario do seculo que vem o immenso e incalculavel esforço propulsôr do
+sopro dos ventos, do fluxo e refluxo das marés, da corrente dos rios,
+dos cyclones das Pampas ou das cataractas do Niagara. E em presença da
+revolução das industrias caseiras da Inglaterra, onde todo o vestigio de
+tradição desapparecera, ponderemos o que se pode fazer em Portugal, onde
+a tradição sobrevive com uma energia prodigiosa a todos os desdens e a
+todas as oppressões que a esmagam!
+
+É notoria desde o seculo XVI a aptidão artistica, que distingue o nosso
+marinheiro em todas as pequenas industrias de bordo, nos mais delicados,
+pacientes e engenhosos trabalhos tendo por base o cabo ou o fio de linho
+torcido ou entrançado. Ninguem como elle manusêa os ferros e as
+amarrações, o poleame e o talhame, o cabo, a adriça ou o pano. Ninguem
+como elle confecciona o coxim, a gaxeta, o mixelo, o unhão, a boça, a
+linga, o estropo, o repuxo, o massete ou a agulha. E não o ha mais
+dextro em lançar a volta, em enastrar a pinha e em dar o nó de escota,
+de fateixa ou de botija, o nó direito e o nó torto, o de cogula, o de
+borla de pescador, ou o de espia. Em toda a nossa costa, desde o Minho
+até o Guadiana, a enorme variedade de fórmas nas embarcações da pesca
+maritima, da pesca fluvial e da pesca lacustre, basta para evidenciar a
+persistencia da tradição no grande genio maritimo de tão pequeno povo.
+
+Os que ainda vão á pesca do bacalhau, á Terra Nova, equipam de uma
+maneira especial a escuna ou o patacho, preferindo porém o typo latino
+do hiate e do lugre. Os que vão á cavalla, á pescada e ao sarrajão, no
+mar de Larache, embarcam nos cahiques de Olhão, semelhantes aos de toda
+a costa algarvia e aos de Lisboa e Setubal, de prôa redonda,
+apparelhando com dois bastardos. Á pesca do alto vae a lancha de
+Caminha, construida no portinho de Gontinhães; a lancha póveira, de
+bocca aberta, apparelhando com um só mastro e a verga munida de uma
+grande vela latina; o _barco da pescada_, de Buarcos, de borda alta e
+duas pequenas toldas, apparelhando com dois mastros; o catraio da
+Nazareth; o _barco da sacada_, de Peninhe, de convez corrido com quatro
+escotilhas e dois mastros, com as vergas preparando em cruz; a _rasca da
+Ericeira_, a da Figueira da Foz e a da Vieira; as canôas de Belem, de
+Cezimbra, de Setubal e do Algarve, chamadas em Lisboa _enviadas_ ou
+_canôas da picada_, e no Algarve _andainas_. Na pesca maritima costeira
+empregam-se embarcações numerosas e variadissimas. Na arte de galeão
+agrupam-se: o _galeão_, coberto, de prôa direita e arrufada,
+apparelhando com o latino triangular, que amura ao bico de prôa e caça á
+pôpa, em mastro inclinado para vante; o _galeonete_; o _buque_, curvo na
+roda de prôa e sem coberta; a canôa do galeão, e o _acostado_, que se
+emprega no transporte do peixe. Na armação fixa do atum e da sardinha,
+nas _almadrabilhas_, ou _almadravas_, como antigamente lhes chamavamos,
+do nome arabe que os hispanhoes conservam, labuta o _calão_, grande
+lancha, de bocca aberta, armando com estropo oito ou dez remos por
+banda, tendo na prôa arredondada, rematada no alto por duas femeas, uma
+saliencia vertical de puas em serra, semelhando um lombo de peixe, e,
+pintado de cada lado, um olho arregalado para o horizonte; a _barca da
+testa_; a _barca das portas_; a _barca da gacha_, e o _laúde_.
+
+Na costa do Algarve, as almadravas occupam hoje approximadamente os
+mesmos logares que tinham no seculo XVI; e o _calão_ é, como alguns
+barcos do Douro, de prôa comprida e alta, propria para atracar a margens
+escarpadas ou para varar com facilidade na praia, o typo mais analogo ao
+das embarcações portuguezas de ha trezentos ou quatrocentos annos.
+
+_Nas artes de arrastar para terra_ figuram as _xavegas_ do Algarve, os
+_saveiros_ e as _meias-luas_, de Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa
+Nova, Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares, desde o sul do
+Douro até a Vieira, reapparecendo, mais abaixo, na costa de Caparica e
+da Galé, e na praia de Sines. _Nas redes de alar a reboque_ trabalham as
+_muletas_ e os _bateis do Seixal_.
+
+O sr. Arthur Baldaque da Silva, no seu precioso livro _Estado actual das
+pescas em Portugal_, enumera ainda, entre os diversos typos de
+embarcações empregadas em varios systemas de pesca, o _batel de
+Espozende_, o _barco de Vianna do Castello_, a _barquinha do rio Lima_,
+a _bateira da Figueira da Foz_, a _lancha de Buarcos_, a _lanchinha do
+Tejo_, o _ilhavo da Tarrafa_, o _batel de Peniche, o cahique_ e a
+_lancha de Peniche_, os _poveiros_ de Lavos, de Buarcos, da Nazareth, de
+Cascaes, de Cezimbra, de Setubal; o _catraio_, a mais genuina embarcação
+portugueza da nossa costa meridional, a _caçadeira_ e a _focinheira de
+porco_ da Ericeira, a _maceira_ da costa do Norte, o _cahique de Sines_,
+o _barco minhoto_, construido em Lanhellas e em Forcadella, o _batel do
+Cavado_, o _barco do Douro_, o _esgueirão da ria de Aveiro_, a _lancha
+de Villa Franca_, a _bateira do Mondego_, a _lanchinha_ e a _chata do
+Tejo_, e outros do continente, sem contar os barcos de cabotagem, os
+typos da Africa, dos Açores, da ilha da Madeira, não descriptos,
+infelizmente. São ainda de notar, entre as jangadas mais
+caracteristicas, as de Marinhas, para a pesca do polvo; as de Fão e da
+Apulia, para a apanha do sargaço; as de Neiva e as de Sedovem.
+
+Com essa phantastica riqueza de documentos maritimos, assombro de todos
+os outros povos, é verdadeiramente inacreditavel que em Portugal não
+haja um museu naval, em que estes documentos se confrontem e se estudem.
+Não ha tal museu.
+
+Em terra é tão variada a collecção popular das vasilhas, dos fogareiros
+e dos cestos caseiros, como é variada na agua a fórma das embarcações. A
+simples nomenclatura do vasilhame portuguez dá, só de per si, uma idéa,
+ainda que bem incompleta, da multiplicidade das suas fórmas, porque ha
+typos que variam de região para região, de dez em dez leguas de
+perimetro. Esses typos principaes são a talha, o pote, o cantaro, o
+caneco, o tenor, a tarefa, a pucara, o gomil, a escudella, a tijela, a
+infusa, a meia, a quarta, a quartinha, a pinta, a sumicha, a
+sangradeira, a alquara, a vieira, o almude, a tamboladeira, o alguidar e
+o alguidarinho, o alcadafe, o moringue, o boião, o tarro, o cantil, a
+almofia, o alcatruz, o porrão, o côcho, o picho, o pichel, a almotolia,
+a ancoreta, a taleiga, a galheta, o caldeirão, a caldeira e a
+caldeirinha, o tacho, a caçoila, a copa, a bateia, o jarro, a batega, a
+pichorra, a botija, a cabaça, a malga, etc. Alguns d'estes nomes jogam
+com o antigo systema de medidas abolidas no seculo XVI, quando se
+estabeleceu o systema novo, tendo por base o quartilho. A vasilha
+correspondente á velha medida, condemnada no reinado de D. Sebastião,
+sobreviveu porém na tradição e no costume. A _sumicha_, por exemplo, com
+quatro decilitros de capacidade, tão maneira, tão graciosa, tão bem
+proporcionada a uma sêde d'agua, é ainda hoje na olaria de Coimbra o
+pucaro consagrado, que no pote da região, de uma elegancia tão fina e
+tão attica, se encasa no alguidarinho que lhe serve de tampa.
+
+As fórmas populares d'essa vasilharia, umas trazidas do Peru e do
+Mexico, como a do moringue e seus derivados, outras, provenientes de
+typos gregos e etruscos, da cratera, da amphora, da ambula, do askos, do
+bombylio, etc., são por toda a parte, em nossos districtos ceramicos, as
+mais bellas, as mais engraçadas ou as mais nobres, as mais
+irreprehensivelmente puras, parecendo que á roda mechanica do operario
+as foi delineando, contornando, envolvendo sempre, a peça por peça, o
+sorriso acariciante de um artista.
+
+De uma humilde panellinha portugueza de barro preto, de Prado ou de
+Molellos, deduziram em França o assucareiro, a leiteira, a cafeteira e o
+bule de um serviço de almoço, que ficou tradicional na fabricação de
+Sèvres.
+
+A industria popular da cestaria acompanha na evolução das fórmas a
+industria do oleiro. Todos os que percorreram as feiras e os mercados do
+nosso paiz notariam que cada região tem a sua canastra, o seu cabaz e o
+seu gigo, differentes na fórma ou no ornato. Ha-os de todas as
+configurações, fundos e chatos, quadrados, octogonos, arredondados,
+oblongos, cubicos, cylindricos, espheroidaes, lembrando algumas vezes a
+fórma e a construcção americana dos samburás, dos tipitis e dos côfos
+tupis, feitos de taquara e de cipó, que introduzimos talvez no Brazil
+ou, mais provavelmente, lá aprendemos a fabricar, deixando o typo do
+balaio, com cujo nome se designa ainda na Bahia o farnel que de
+ordinario se transporta no cesto portuguez d'essa configuração,
+semelhante á de um alguidar. Mui frequentemente varia tambem o balaio, o
+canistel, a cesta, a condeça, o ceirão e a ceira, a alcofa e a
+alcofinha. A materia prima do cesto é o vime, o junco, a fasquia de
+castanheiro, a fasquia de faia e a canna; a da ceira e da alcofa é o
+esparto, a engeita, a palha de trigo e de centeio, a tabúa, a juta e a
+pita. Em algumas regiões, como nas Caldas e Vizeu, os cestos são obras
+primas incomparaveis de acabamento e de graciosidade. A canastrinha
+burriqueira das Caldas, reduzida ao miniaturismo de dois centimetros, é
+um simples prodigio de fabricação minudente e delicada. No Algarve a
+alcofa, de filiação arabe, é por vezes ornada de apparatosas flores
+bordadas a seda ou a lã.
+
+Sem embargo, continuando a affirmar-se que não temos sentimento
+artistico, desistimos por indisciplina, por ignorancia, por desanimo, de
+transformar em industrias de concorrencia as nossas industrias
+domesticas, e não negociamos com o extrangeiro nem tecidos de phantasia,
+tão originaes como os que possuimos, nem papeis pintados derivados
+d'esses tecidos, nem a louça, nem a cestaria, nem a filigrana,
+immobilisada em typos decrepitos, e da qual tão lindos effeitos se
+tirariam, applicando-a em ouro a serviços de toucador, a frascos de
+cristal, a molduras de retratos, a encadernações de devocionarios, etc,
+etc.
+
+Tanto menosprezamos os productos quanto desconhecemos as fontes da nossa
+civilisação artistica.
+
+A arte que menos estudamos é a arte hispanhola, á qual todavia
+indissoluvelmente nos prendem os mais estreitos vinculos de
+temperamento, de tradição e de ideal. Juntamente com os hispanhoes
+recebemos dos arabes as primeiras influencias que em toda a producção
+artistica da Peninsula imprimiram a feição differencial mais
+caracteristica e mais indelevel. Aos califados, que cobriram de
+mesquitas Cordova, Sevilha, Granada, Santarem, Lisboa e Coimbra, devemos
+o toque de orientalismo peculiar das formas architectonicas do nosso
+stylo romanico, ogival e da renascença. E da mesma procedencia, mosarabe
+ou mudejar, são algumas das nossas mais interessantes industrias, como a
+da filigrana, a dos azulejos, a das sedas, a do papel, a da
+encadernação, a dos couros lavrados, (a que chamavamos _cordovões_ por
+nos virem de Cordova) a das esteiras, a dos tapetes, a das obras de
+esparto, de palma, de pita. Até o fim do seculo XVI artistas
+portuguezes, leonezes, castelhanos, valencianos, aragonezes, catalães,
+asturianos, tivemos um ideal commum nas letras, na architectura, na
+esculptura, na pintura, nas artes sumptuarias e nas artes industriaes,
+celebrando identicos feitos de guerra, de religião e de amor, servindo
+reis do mesmo sangue, heroes das mesmas aventuras, santos e santas da
+mesma invocação popular.
+
+Das nossas relações com Flandres só conheciamos--até ha bem poucos
+annos--a influencia flamenga em Portugal, ignorando completamente a
+reciproca acção dos portuguezes em Gand, em Bruges, em Antuerpia. Foi o
+sr. Joaquim de Vasconcellos quem, investigando os annaes das confrarias
+e o archivo das feitorias de Portugal, consignou que, em resultado da
+protecção dada aos artistas nacionaes por D. João II e por D. Manoel, de
+uma só vez chegaram a reunir-se em Paris cincoenta pensionistas
+portuguezes. Aos trabalhos do mesmo investigador se deve acharem-se hoje
+apurados varios nomes de pintores de Portugal trabalhando em Flandres,
+entre os quaes Edwart Portugalois, discipulo de Quintino Metsys,
+proclamado em 1504 mestre pintor da confraria de S. Lucas de Antuerpia.
+
+Os trabalhos do sr. Joaquim de Vasconcellos estão sendo diligentemente
+continuados pelo sr. Sousa Viterbo, na Torre do Tombo, e pelo sr.
+Joaquim Mauricio Lopes, nosso consul, em Antuerpia.
+
+Em uma recente publicação do sr. Mauricio Lopes, _Les portugais à Envers
+au XVI^{ème} siècle_, demonstra-se por meio dos mais expressivos
+documentos que a colonia portugueza, estabelecida em Flandres desde que
+em 1386 o duque de Borgonha Filippe-o-Ousado concedeu licença para ahi
+viverem mercadores de Portugal e dos Algarves com as suas familias e os
+seus creados, foi para a civilisação que os acolheu de uma importancia
+incomparavelmente superior á que jámais exerceu a colonia flamenga em
+Portugal.
+
+Os negocios dos portuguezes em Antuerpia, ao tempo da fundação da
+primeira feitoria de Portugal por D. Manoel, negocios tendo por base,
+além das exportações do reino, o commercio das especiarias trazidas da
+India por Lisboa, montavam annualmente a cerca de cinco mil contos da
+nossa moeda actual. O numero das casas portuguezas em Antuerpia era de
+cento e doze. Os mercadores portuguezes representantes d'essas casas
+viviam com um fausto verdadeiramente principesco. Em 1594, por occasião
+da entrada triumphal de Filippe II, herdeiro de Carlos V, a cavalgada
+portugueza ficou memoravel. Compunha-se de vinte senhores e de quarenta
+creados, montando todos cavallos peninsulares, ricamente ajaezados. Os
+senhores trajavam de brocado e seda côr de purpura, bordada de ouro e de
+rubis, com botões, passamanes e collares de ouro. Todos os gorros eram
+orlados de brilhantes. Os creados, equipados, de couraça e espada,
+vestiam librés de seda verde e branca, com as bainhas das espadas de
+seda branca.--O que era, segundo o chronista Cornelius Grapheus, _chose
+moult riche et triomphante à voir_.
+
+Nas festas da entrada em Antuerpia de Ernesto d'Austria, governador dos
+Paizes Baixos, os portuguezes erigiram um arco triumphal, em que se viam
+as figuras da Mauritanea, do Brasil, da Etiopia, da India, da Persia, do
+Ganges, do Rio da Prata, com as estatuas de Filippe I, do principe
+Filippe de Hispanha, de D. João II e de D. Manoel. Em outro arco de
+triumpho, delineado por Ludovicus Nonnius e consagrado a Fernando
+d'Austria, em 1635, expuzeram os portuguezes diversos quadros
+representando, entre outras, as allegorias da Victoria, da Clemencia, da
+Felicidade, da Religião, e os retratos de D. Affonso Henriques, D. João
+I, D. Manoel e D. Filippe II.
+
+Um d'esses portuguezes, o feitor Antonio Cirne, natural do Porto, nos
+saraus do Palacio chamado de Portugal, pretextando que a turba ou a
+lenha cheiravam mal, mandava cosinhar as eguarias com fogo de canela, e
+queimar canela em todas as fogueiras das chaminés.
+
+Outro portuguez, Simão Rodrigues d'Evora, era barão de Rhodes,
+cavalleiro, senhor de Tewerden, de Broeckstraate; pela sua enorme
+fortuna lhe chamavam o _rei pequeno_; possuia muitos predios na
+principal arteria da cidade, e habitava um d'elles, em que
+successivamente se hospedaram a infanta D. Izabel, a rainha Maria de
+Medicis e o principe cardeal Fernando d'Austria; fundou, com o fim
+caritativo de recolher doze senhoras da nobreza ou da burguezia
+reduzidas á indigencia, o hospicio de Sant'Anna, onde um triptyco de
+Otto Venius representava o retrato do fundador com seus filhos e sua
+mulher D. Anna Lopes Ximenes de Aragão.
+
+O luxo da colonia portugueza em Antuerpia assumia muitas vezes o mais
+nobre e mais alto caracter artistico. A enthusiastica hospitalidade
+conferida pelos portuguezes a Alberto Dürer ficou assignalada pelas
+grandes festas a que deu origem. Dürer retribuiu esses favores com
+presentes de quadros e de gravuras aos feitores e aos negociantes de
+Portugal.
+
+Diogo Duarte, filho de Gaspar Duarte, possuia uma das primeiras galerias
+de pintura em Flandres. Foi recentemente publicado na Hollanda um
+catalogo dos seus quadros, entre os quaes havia obras de Dürer, de
+Breughel, de Metsys, de Maubeuge, de Ticiano, de Tintoreto, de Andrea
+del Sarto, e um Raphael, que constava haver sido adquirido do principe
+D. Manoel de Portugal em troco de diamantes no valor de 2:200 florins.
+
+Muitos dos nossos compatriotas estabelecidos em Flandres cultivavam as
+sciencias e as letras, contando-se entre elles professores, medicos,
+escriptores celebres, como Amato Lusitano, Rodrigo de Castro, Garcia
+Lopes, Damião de Goes, etc.
+
+Outro curioso symptoma da nossa desaffeição dos estudos da arte nacional
+é a estagnação das velhas idéas preconcebidas na apreciação dos nossos
+monumentos architectonicos. Já me referi ao ôco basbaquismo privilegiado
+de que é objecto absorvente o monumento da Batalha. Devo aclarar um
+pouco mais, ainda que rapidamente, esse phenomeno.
+
+Por notavel superstição epidemica, por inercia de espirito, por
+servilismo intellectual, por pedantismo classico, por costume, por
+commodidade, por convenção admirativa, ou por qualquer outro motivo, os
+criticos portuguezes, que mais teem governado a opinião, estabeleceram
+axiomaticamente, como coisa definitivamente demonstrada e assente, que o
+unico puro e genuino exemplar de stylo gothico existente em Portugal é o
+da Batalha. Toda a modificação nas linhas constructivas ou nos motivos
+ornamentaes d'esse typo passou, por effeito de tal dogma, a
+qualificar-se de _decadencia_. Capellas imperfeitas, decadencia!
+Claustro dos Jeronymos, decadencia! Egreja de Christo e de S. João em
+Thomar, decadencia! Santa Cruz e S. Marcos, em Coimbra, decadencia!
+Decadencia emfim toda a obra architectonica da época manoelina.
+
+A termos acceitado tal principio na sua applicação pratica, teriamos
+tido na nossa architectura ogival do seculo XVI um neo-gothico, fixo e
+invariavel, como o neo-greco-romano da renascença, que é o triumpho
+consagrado do dogmatismo na arte, a immobilidade canonica nos systemas
+de construir, a cristalisação da rotina, a sujeição de toda a
+imaginação, de todo o poder inventivo a uma formula invariavel. Teriamos
+tido de submetter-nos ao despotismo da Batalha, como tão cegamente, tão
+estupidamente, tão inconcebivelmente, nos temos submettido por tantas
+centenas de annos ao despotismo de Vitruvio e das suas cinco ordens, com
+os seus correspondentes aphorismos de proporção e de symetria, seu
+pedestal, sua columna e seu entablamento, repetindo sempiternamente,
+sobre os mesmos dados estaticos, o mesmo denticulo, o mesmo modilhão, a
+mesma canelura, o mesmo triglypho, a mesma gôta, a mesma carranca! Ora
+precisamente o stylo manoelino da nossa architectura, com toda a sua
+effusão esculptural, com todo o avassalante symbolismo dos seus motivos
+ornamentaes, com toda a arbitrariedade dos seus processos, com todas as
+suas desproporções e todas as suas assymetrias, não é precisamente senão
+a contraposição da liberdade creativa dos nossos architectos-esculptores
+á enfatuação idolatrica, á pedantesca preceituação rhetorica, ao
+esmagador e exhaustivo despotismo das _cinco ordens_, com que o
+neo-classicismo da renascença razoirou todo o talento humano. O stylo
+gothico prestava-se como nenhum outro, pela extrema flexibilidade dos
+seus principios fundamentaes, aos desenvolvimentos de pura arte, com que
+o esculptor, completando a obra do engenheiro, e fazendo-se assim
+architecto, pode aviventar a pedra de um edificio, convertendo-a n'um
+elemento de sympathia e de solidariedade social, fazendo vibrar na
+palpitação do seu lavor evocações de idéas e de sentimentos proprios dos
+homens da sua raça e da sua terra. Os artistas manoelinos não teriam
+feito talvez monumentos _correctos_, na accessão indigente em que as
+academias empregam esta palavra, mas fizeram monumentos
+_expressivos_,--o que é melhor. Porque não são as academias que pautam
+as proporções e os limites da creação artistica. Tudo o que se pode
+formular em preceito cessa de ter valor em arte. A obra de arte não é um
+producto de escola: é a livre expressão individual de uma alma,
+convertida em realidade objectiva, e communicando aos homens uma
+vibração nova do sentimento.
+
+A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua categoria,
+deduz-se da maior ou menor quantidade das idéas que a sua obra suggere e
+dos sentimentos cuja percussão ella determina. Nos monumentos
+architectonicos é pela sobreposição do ornato esculptural ás linhas
+geometricas da construcção que a arte se exerce. É principalmente na
+esculptura que reside a expressão poetica do monumento.
+
+Em Portugal teem sido acusados os architectos manoelinos de invadirem
+pelo vegetabilismo ornamental todos os perfis da construcção,
+submettendo assim as fórmas constructivas á ornamentação esculptural. Os
+grandes criticos da Inglaterra, que tão consideravel impulso teem dado
+ás idéas estheticas e á moderna evolução artistica, entendem porém, ao
+contrario dos nossos, que a sciencia de edificar e de dispor linhas é na
+construcção de um monumento um ramo secundario da arte de esculpir. Esta
+affirmativa envolve a consagração da escola manoelina pela critica que
+n'este seculo mais minuciosamente e mais profundamente tem estudado a
+arte gothica e a arte da renascença.
+
+Nada todavia mais afflictivo, de peor indicio para os destinos nacionaes
+da arte, que o descaso do publico, pervertido em seu instincto pela
+carunchosa doutrina academica, perante esses monumentos em que sob, o
+reinado de D. Manoel, os artistas portuguezes tão vigorosamente
+accentuaram a palpitação victoriosa do genio, da originalidade, da
+poesia, da gloria do povo lusitano.
+
+O que se convencionou chamar _decadencia_ na ultima evolução do stylo
+gothico em Portugal é a modificação portugueza d'esse stylo, é a sua
+nacionalisação, é a originalidade local, imposta pelos architectos
+portuguezes do seculo XVI, a um systema geral de construcção, commum a
+toda a Europa. Dirão que não é isso precisamente um novo stylo.
+Certamente que não, se unicamente chamarmos stylo novo em architectura á
+constituição complexa e integral de todo um systema de edificar. Mas, se
+tomarmos a palavra stylo em tal accepção, nenhum stylo é novo em toda a
+architectura da edade média e da renascença. Todo o processo
+constructivo nos veiu inicialmente da Grecia, de Roma, de Bysancio, da
+Syria, do Egypto. Os mesmos gregos não inventaram a columna, nem os
+romanos descobriram a abobada. O que constitue a originalidade na
+architectura de qualquer povo é, como em Portugal, na época manoelina, a
+subordinação de um systema qualquer de geometria architectural ás
+condições do clima e da paizagem, á natureza dos materiaes empregados, á
+flora, á fauna, á concepção religiosa, á historia, á poesia, ao
+temperamento e á psychologia dos artistas, em cada região. Quanto mais
+intensa for a intervenção d'esses factores mais original será a obra.
+Assim, na evolução do gothico na architectura portugueza, quanto menos
+modificado, isto é, quanto mais _puro_ fôr o stylo, mais insignificante
+será o monumento como documentação artistica, como expressão social.
+
+É á _decadencia_ do gothico da Batalha que nós devemos o incomparavel
+claustro dos Jeronymos, segundo Haupt _o mais bello claustro de todo o
+mundo_, bem como a fachada da egreja de Christo, em Thomar, onde a
+flammejante janella da sala do capitulo é a obra mais eloquente, mais
+convicta, mais poetica, mais enthusiasticamente patriotica, mais
+estremecidamente portugueza, que jámais realisou em nossa raça o talento
+de esculpir e de fazer cantar a pedra.
+
+Na ornamentação d'essa janella, em que, juntamente com o sentimento mais
+entranhado das energias da natureza, rebenta, palpita e brada, em torno
+da idéa christã, todo o sagrado pantheismo das velhas religiões da
+India, conjugam-se, n'uma gloriosa harmonia de antiphona a toda a voz,
+acompanhada ao orgão, no deslumbramento dos cirios, no aroma das
+açucenas, no fumo dos thuribulos doirado pelo sol, os elementos
+decorativos do symbolismo mais poderoso, da suggestão mais profunda. O
+artista, em plena posse da sua idéa, em completa independencia do seu
+espirito, em inteira liberdade dos seus meios de execução, desdiz todos
+os votos, abjura todos os principios, renega todos os canones, infringe
+todas as regras, e prescinde de todo o applauso dos mestres, sufocando
+nas entranhas da sua propria vaidade a opinião de si mesmo, unicamente
+porque tem fé na verdade que enuncia, porque concentrou toda a força da
+sua alma, toda a energia do seu cerebro, toda a paixão do seu sangue, no
+amor da obra em que elle representa o pensamento que o domina. E em
+torno d'elle e d'esse objecto amado, como em torno de todos os que
+verdadeiramente amam, tudo mais na terra acabou e desappareceu.
+
+As columnas na janella da sala do capitulo são polipeiros de coral, dos
+mais profundos recifes do Oceano, e troncos d'essa palmeira, cuja sombra
+cobriu o berço da civilisação no littoral mediterraneo, providencia dos
+peregrinos nos oasis do deserto, á qual os arabes da Peninsula dedicavam
+uma festa de primavera, tendo por fundamento a disseminação do polen,--a
+arvore santa, a arvore da Biblia, a arvore de Jesus, cujo ramo symbolico
+é um attributo da paixão e da paschoa, da gloria e do martyrio. Os
+demais elementos decorativos são as ondas do mar, taes como ellas se
+representam na heraldica; são os troncos seculares e as raizes profundas
+dos sobreiros dos nossos montes, extrema expressão de força na
+fecundidade da seiva, que prende o roble, assim como a tradição e a
+familia prendem a debil e errante creatura humana, ao coração da terra
+em que nasceu. Guizeiras, como as das mulas de tiro engatadas á carreta
+alemtejana, emmolham contorcidas varas de sobro e de azinho, como nos
+feixes de lictor da magistratura romana. Solidas correntes e possantes
+cabos de bordo, de que pendem em discos as boias de cortiça, enlaçam a
+decoração, amarrando-a vigorosamente á empena por fortes argolões, como
+se amarraria uma nau ao caes de um porto. Toda a composição, partindo
+das espaduas de um homem, que parece sustentar-lhe todo o peso, ascende
+n'uma trepidação de algas e de folhagens para a cruz de Christo entre as
+espheras que tomara por empresa o rei venturoso de Portugal triumphante
+na vastidão dos mares, em todo o circuito do globo. E o poema
+esculptural remata por cima da janella na rosacea magestosa do templo,
+formada em circulo pelas pregas e pelo bolso arfante da vela rizada de
+um galeão da India.
+
+O nosso povo porém desaprendeu de ver a obra artistica do seu passado, e
+nem sequer levanta os olhos para os seus mais communicativos monumentos,
+que ninguem lhe explica, que ninguem o ensina a comprehender e a amar.
+
+
+Resumamos agora a historia do que officialmente se tem feito no intuito
+malogrado de proteger os monumentos publicos e de conservar e defender
+os productos d'arte.
+
+Em julho de 1890 o então ministro da Instrucção Publica consultou sobre
+a questão de que se trata uma commissão de artistas, de archeologos e de
+escriptores. Da resposta, até hoje inedita, d'essa commissão, de que me
+coube a honra de ser relator, transcreverei alguns periodos.
+
+O arrolamento da nossa riqueza artistica, que se propõe effectuar o
+ministerio da instrucção publica e das bellas artes é--ponderava o
+relatorio--a pedra fundamental de toda a construcção destinada a dar á
+arte portugueza o logar que lhe compete na historia geral da
+nacionalidade, na orientação do sentimento collectivo do povo, no
+conjuncto dos elementos de impulsão e de progresso para o
+desenvolvimento das industrias, no respeito do paiz, emfim, e no da
+Europa.
+
+O inventario de que se trata, comprehendendo não só os edificios
+monumentaes mas os documentos archeologicos e os productos artisticos de
+toda a especie, seria, primeiro que tudo, a documentação preciosa para a
+historia da arte em Portugal,--determinação das suas origens ethnicas e
+sociaes, fixação dos seus caracteres distinctivos e sua relação com a
+psychologia do povo, com os sentimentos, com as aspirações, com as
+ideias, com os costumes e com as instituições sociaes. Esse repositorio
+tornar-se-ia o espelho em que se achariam reflectidas, com todas as suas
+modalidades, segundo as influencias especiaes de cada época, de cada
+phase de cultura, de cada estadio social, todas as forças emotivas,
+todas as aptidões estheticas da nossa raça. A historia dos seus
+monumentos é para cada povo a historia da sua individualidade, porque
+não ha monumento artistico que não traduza, mais ou menos directamente,
+a acção intellectual e politica da sociedade que o concebeu.
+
+A ideia do inventario projectado não é--para honra nossa--inteiramente
+nova. No reinado de D. João V existia na Bibliotheca Real uma obra em
+cinco volumes, datada de 1686 e intitulada «Theatro do reino de Portugal
+e dos Algarves por suas cidades, villas, fortes e fortalezas como que
+por scenas repartido.» Mais tarde mandou o referido soberano ao Padre
+Frei Luiz de S. José, monge do Cister e artista peritissimo, que fizesse
+os debuxos de todas as povoações do Minho, o que elle cumpriu no anno de
+1726. Por indicação da Academia Real da Historia, e para o fim de
+inventariar e conservar os monumentos nacionaes, publicou-se o decreto
+de 20 de agosto de 1721, e fundou-se o primeiro dos nossos museus
+archeologicos. Infelizmente os livros a que nos referimos não chegaram a
+ser dados á estampa, e os originaes foram destruidos pelo terremoto de
+1755, juntamente com a Bibliotheca Real, e com o museu estabelecido nas
+casas dos duques de Bragança, ao Thesouro Velho.
+
+As disposições do alvará de 20 de agosto de 1721 constam do seguinte
+trecho do mesmo alvará: «Hei por bem que d'aqui em deante nenhuma pessôa
+de qualquer estado, qualidade e condição que seja, desfaça ou destrua em
+todo nem em parte, qualquer edificio, que mostre ser d'aquelles tempos
+(assim designados: Phenices, Gregos, Persos, Romanos, Godos e Arabios)
+ainda que em parte esteja arruinado; e da mesma sorte as estatuas,
+marmores e cippos em que estiverem esculpidas algumas figuras, ou
+tiverem letreiros phenices, gregos, etc.; ou laminas, ou chapas de
+qualquer metal, que contiverem os ditos letreiros, ou caracteres; como
+outrosi medalhas ou moedas, que mostrarem ser d'aquelles tempos, nem dos
+inferiores até o reinado do Senhor Rey D. Sebastião; nem encubrão ou
+ocultem alguma das sobreditas cousas: e encarrego ás camaras das cidades
+e villas d'este reyno tenham muito particular cuidado em conservar e
+guardar todas as antiguidades sobreditas, e de semelhante qualidade que
+houver ao presente, ou ao deante se descobrirem nos limites do seu
+districto; e logo que se achar ou descobrir alguma de novo, darão conta
+ao secretario da dita Academia Real para elle a communicar ao director e
+censores, e mais academicos; e o dito director e censores, com a noticia
+que se lhes participar, poderão dar a providencia que lhes parecer
+necessaria para que melhor se conserve o monumento assim descoberto.
+Etc.»
+
+Em 4 de fevereiro de 1802, novo alvará sobre a mesma materia, assim
+designado: «Alvará com força de lei pelo qual Vossa Alteza Real he
+servido suscitar o alvará de lei de 20 de agosto de 1721, ordenado em
+beneficio da Academia Real da Historia Portugueza para a conservação e
+integridade das estatuas, marmores, cippos, e outras peças de
+Antiguidade: mandando que as funcções do mesmo Alvará, que até agora
+pertenciam ao secretario da dita Real Academia, fiquem da data do
+presente em deante pertencendo ao Bibliothecario Maior da Bibliotheca
+Publica; tudo na forma acima declarada.»
+
+Em janeiro de 1844 o Bibliothecario Mór da Bibliotheca Nacional de
+Lisboa José Feliciano de Castilho, informava o respectivo ministro nos
+seguintes termos: «Para o bibliothecario mór passaram attribuições que
+competiam á Academia Real da Historia, mas infelizmente essa lei vigente
+tem sido até hoje letra morta, a tal ponto que até ignoram as suas
+disposições os proprios encarregados do seu cumprimento, com grave
+detrimento, não só d'este magnifico repositorio, que ha muitos annos se
+acha estacionario em aquisições archeologicas, mas tambem de todo o
+reino, onde o bibliothecario mór deveria sempre ter, por obrigação do
+seu cargo, promovido a conservação e segurança dos monumentos que não
+podem ou não devem transportar-se.»
+
+Em seguido propõe o bibliothecario que se torne effectiva a
+responsabilidade dos governadores civis no cumprimento da lei de 20 de
+agosto de 1721; que esses funccionarios se correspondam regularmente com
+o bibliothecario, etc.
+
+Ficou porém tão morta a letra d'essa consulta como a da lei a que ella
+se refere.
+
+Por decreto de 10 de novembro de 1875 é nomeada uma commissão para
+propôr ao governo, com a reforma do ensino das Bellas Artes e com o
+plano de um museu, «as providencias que julgar mais adquadas á
+conservação, guarda e reparação dos monumentos historicos e dos objectos
+archeologicos, de importancia nacional, existentes no reino.» A
+commissão alludida responde ao governo por meio da memoria redigida pelo
+marquez de Sousa Holstein, e assim se desempenha do encargo que lhe fôra
+confiado.
+
+A louvavel diligencia empregada a convite do governo pela Real
+Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, para o fim
+de lançar em 1880 as bases de uma inventariação systematica dos
+monumentos nacionaes, não foi, assim como o zeloso trabalho da commissão
+de 1875, seguida de resultados praticos.
+
+Independentemente da preceituação official, teem sido modernamente do
+mais importante auxilio para o conhecimento dos nossos valores
+artisticos a Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental, celebrada em
+Lisboa em 1882, a exposição de Coimbra, a exposição de Aveiro, a
+exposição de Guimarães, a recente exposição do centenario antonino, e as
+exposições de ourivesaria e de ceramica promovidas e effectuadas no
+Palacio de Cristal do Porto pela muito benemerita Sociedade de
+Instrucção.
+
+De algumas das exposições alludidas ficaram documentos de alto valor.
+Imprimiram-se relatorios de muita importancia, e numerosos productos
+expostos foram reproduzidos pelo desenho e pela photographia. Da valiosa
+collecção photographica, para a qual principalmente contribuiram Carlos
+Relvas, Pardal, Rochini, Biel & Companhia, bem como dos catalogos dos
+museus e das exposições celebradas, se poderia extrahir desde já um
+esboço de inventario, que não seria difficil aperfeiçoar e prehencher,
+emprehendendo novas exposições e systematisando completamente as
+investigações e os estudos correlativos.
+
+A commissão de 1890, a que acima me referi, propunha que, sem prejuizo
+das pesquisas que, convém continuar, para recolher ou arrolar os valores
+artisticos que ainda se conservam ignorados em poder de corporações ou
+de particulares, a commissão incumbida do inventario geral e definitivo
+desse quanto antes principio aos seus trabalhos, tomando por materia as
+peças de que ha conhecimento, já pelo exame de que foram objecto nos
+museus onde existem, ou nas exposições até hoje feitas, já pelos
+catalogos e relatorios que d'essas exposições existem, já pela
+consideravel collecção de photographias que reproduzem os objectos
+expostos.
+
+Emquanto á catalogação e á conservação dos objectos pertencentes a
+particulares ou a corporações de caracter civil ou religioso, não
+conviria desde já estabelecer principios absolutos. O modo de proceder
+dos delegados do governo em tal serviço seria indicado pelas
+circumstancias particulares de cada occorrencia, sendo porém altamente
+para desejar que os prelados do reino, conscientes dos estreitos
+vinculos que ligam o esplendor das artes á gloria do catholicismo,
+conseguissem fazer penetrar na convicção das auctoridades eclesiasticas
+das suas circumscripções quanto é inseparavel da historia da egreja a
+historia da arte christã, e quanto o museu, em paizes tradicionalmente
+catholicos, é ainda uma fórma do culto ou um desdobramento d'elle na
+ordem civil, além de ser o permanente attestado da alliança da crença
+religiosa com a immortal aspiração da poesia no coração e no espirito da
+nossa raça.
+
+Para regra definitiva do processo a que se refere o alvitre que acabo de
+expor é indispensavel que seja devidamente estudada e promulgada uma
+lei, semelhante á que existe hoje na Italia, em França, nos Paizes
+Escandinavos, na Russia, na Hispanha, na Grecia, na Turquia, tendo por
+fim definir claramente e assegurar, de combinação com a legislação
+canonica, com os principios da concordata e com a legislação geral da
+propriedade, os direitos especiaes do Estado com relação á guarda dos
+monumentos e á parte que elle tem na posse dos objectos d'arte,
+determinando assim o caracter especial da propriedade artistica.
+
+Uma vez decretada essa lei fundamental, e assignalada a responsabilidade
+em que incorrem os que a transgridam, deveriam formar-se as commissões
+regionaes, dependentes da commissão central, e incumbidas, em suas
+localidades, da guarda e da conservação dos monumentos e dos objectos
+d'arte. Estas commissões, á semelhança do que foi disposto na lei
+italiana de 1878, da qual se inspirou em França, para a organisação de
+eguaes serviços, a Direcção das Bellas Artes, seriam compostas de oito
+vogaes, sendo quatro da nomeação dos municipios e quatro da nomeação do
+governo, com um architecto inspector adjuncto, sob a presidencia do
+governador civil ou do administrador do concelho.
+
+Em toda a parte, ainda nos mais abandonados recantos da provincia, ha
+sempre, onde existe um monumento, um homem pelo menos que o ama, que o
+estuda, que o comprehende. É a collaboração preciosa d'esses pobres
+poetas obscuros, d'esses modestos archeologos, ignorados da critica e do
+publico, que aos organisadores das commissões locaes compete acolher e
+utilisar.
+
+O processo de inventariação de cada peça artistica constaria de duas
+partes.
+
+A primeira seria a reproducção photographica, ou em gesso, ou pela
+galvanoplastica, do objecto inventariado, com registro do respectivo
+cliché ou molde.
+
+A segunda, a confecção de um simples verbete, impresso, correspondendo á
+photographia por meio de um numero de ordem, e satisfazendo os seguintes
+quesitos: 1.º Descripção summaria do objecto; 2.º Logar onde elle se
+encontra; 3.º Nome do individuo ou da corporação em cuja posse se acha;
+4.º Antecedentes; 5.º Attribuição; 6.º Avaliação; 7.º Escala em que
+houver sido feita a reproducção.
+
+Este systema, semelhante ao dos museus de Londres, de Berlim e de
+Vienna, é o mais simples, o mais economico, o mais pratico, o mais
+expedito. Com applicação ao inventario da arte hispanhola elle foi
+proposto, pelo delegado de Portugal, ao grande jury da ultima exposição
+historico-europeia em Madrid. Uma real ordem o mandou pôr em execução,
+tendo-o sanccionado a approvação unanime de uma commissão presidida pelo
+sr. Canovas del Castillo e composta de criticos de uma competencia
+indiscutivel e de uma notoriedade europeia.
+
+Com a collecção completa das photographias e dos verbetes a que alludo,
+o estado, em Portugal, sem ter da riqueza artistica da nação um
+inventario tão desenvolvido e tão perfeito como o que outros paizes
+possuem, teria no emtanto um arrolamento explicito, e achar-se-hia
+habilitado a ministrar-nos o mais efficaz meio de estudo.
+
+Da collecção integral, subdividida em tantas series diversas quantos os
+differentes criterios de classificação que se lhe applicassem, se
+extrairiam collecções especiaes, em edições mais ou menos modestas,
+relativas a cada ramo do ensino, geral ou especial, e destinadas ás
+escolas de bellas artes, ás escolas industriaes, aos museus das escolas
+primarias e secundarias, ás officinas, aos operarios, facultando assim,
+ou gratuitamente ou por infimo preço, a todas as classes sociaes um
+pronto meio de conhecimento da historia geral da arte, da historia da
+arte em cada uma das suas mais especiaes applicações, da evolução das
+fórmas e do desenvolvimento dos stylos, na architectura, na pintura, na
+esculptura, na marcenaria, na serralheria, na ourivesaria, na ceramica,
+em todos os ramos emfim do trabalho artistico e industrial.
+
+Eliminando os numeros que relacionam os verbetes com as photographias,
+os alumnos das escolas d'arte, procurando para cada photographia o
+verbete correlativo, e satisfazendo por esse processo aos mais variados
+quesitos de classificação, habituar-se-hiam, por meio dos exercicios
+mais simplesmente pedagogicos, a discernir as épocas e os stylos,
+retendo todas as diversidades da fórma pela memoria da vista.
+
+Além do que, com o material reunido para o inventario dos monumentos
+architectonicos e das riquezas artisticas da nação, o estado fundaria
+simultaneamente o mais interessante museu de reproducções.
+
+A Commissão dos Monumentos Nacionaes não é inteiramente, pelos seus
+meios de acção e pelos seus fins, a commissão a que se refere a consulta
+de 1890. Parece-me indispensavel, antes de tudo, que esta commissão se
+reconstitua em bases mais amplas, e que d'ella se desdobre a commissão
+do inventario geral da d'arte, ao qual é urgentissimo que se proceda.
+
+Na parte em que a commissão tem de responder pela conservação dos
+monumentos nacionaes, é preciso, a meu ver, que ella se complete, tanto
+no programma dos seus trabalhos como no pessoal que tem de pôr em
+execução esse programma, não de um modo como até hoje officioso e
+facultativo, mas rigorosamente obrigatorio, sendo-lhe indispensavel para
+esse effeito a aggregação e a collaboração effectiva de dois
+architectos, a presidencia do sr. ministro, e a publicação periodica de
+um boletim em que regularmente se communiquem ao publico os resultados
+do trabalho feito.
+
+Conseguidas as condições de consistencia technica, de auctoridade e de
+expediente, que no estado presente lhe fallecem e a innutilisam, cabe á
+commissão arrolar definitivamente, pela photographia e pela escripta, os
+monumentos confiados á sua guarda bem como as obras d'arte que o paiz
+possue; nomear as commissões locaes; definir claramente o que é
+_conservar_, o que é _restaurar_, e o que é _continuar_ ou _concluir_ um
+monumento; redigir desenvolvidamente e em suas mais particulares
+minudencias (porque n'este ponto tudo está por definir e por
+estabelecer) os programmas especiaes a que tem de satisfazer
+rigorosamente todo o projecto de conservação, de restauro ou de
+acabamento na obra de cada edificio.
+
+Os cuidados de _conservação_ devem ser obrigatorios e extensivos a todos
+os monumentos. Para esse effeito o programma é simples, e a despesa
+insignificante, ainda perante os mais modestos recursos. As occasiões em
+que cabe _restaurar_ são relativamente raras. E nenhum edificio,
+qualquer que seja a sua importancia historica ou artistica, convem
+_concluir_, a não ser nos casos em que vantajosamente elle se possa
+adaptar a algum dos serviços vigentes da civilisação contemporanea. Este
+mesmo criterio economico se deveria applicar á opportunidade das
+_restaurações_. Da inobservancia d'estes preceitos fundamentaes resultou
+o contrasenso de restaurar o edificio dos Jeronymos sem previamente se
+accordar no destino que tem de ter esse edificio, como se podesse ser
+indifferente, no modo de reconstruir uma casa, que ella tenha de ser uma
+escola, um museu, um archivo, um recolhimento, um quartel, um banco ou
+uma habitação particular![1]
+
+
+Ao governo de sua magestade, para esse fim solicitado pelos homens que
+com tão patriotico desinteresse constituem a Commissão dos Monumentos
+Nacionaes, compete prefazel-a e fortifical-a com a regulamentação e
+auctoridade de que ella carece, ou dissolvel-a.
+
+
+Se o Estado não intervem cumpre aos governados levar a effeito, por um
+decisivo esforço de iniciativa, a obra a que se recusem os que governam.
+
+Está-nos dado o exemplo na actividade e na abnegação de alguns cidadãos
+benemeritos.
+
+O sr. bispo-conde de Coimbra funda na sua diocese o mais completo e mais
+interessante museu de ourivesaria sagrada que existe em Portugal, e
+emprehende e realisa, sob a intelligente collaboração do sr. Antonio
+Augusto Gonçalves, a restauração da Sé Velha e a de Santa Cruz, com uma
+segurança de criterio, de que não ha exemplo em obra alguma do mesmo
+genero modernamente consumada pelas officinas officiaes.
+
+O sr. bispo de Beja applica um egual fervor ás obras do convento da
+Conceição; e na mesma cidade de Beja por iniciativa da municipalidade,
+por concurso patriotico de alguns cidadãos, funda-se o mais copioso e o
+mais bem catalogado dos nossos museus archeologicos.
+
+Em Evora o sr. Francisco Barahona custeia por si só a dispendiosa
+reparação do sumptuoso templo de S. Francisco, sem a qual teria já
+desabado ou desabaria em breve a mais bella egreja portugueza do tempo
+D. João II.
+
+Na ultima visita que fiz, em setembro passado, á Sé de Braga, ahi me foi
+affirmado que o respectivo prelado estava elaborando o projecto da
+reconstituição artistica d'aquelle importante monumento.
+
+Em Cette e em Paço de Sousa, camaras, juntas de parochia, simples
+influencias individuaes invidam os mais louvaveis e mais instantes
+esforços para a conservação dos monumentos gloriosos a que n'esses
+logares se alliam os nomes de Egas Moniz, de Gonçalo Veques e de Estevam
+da Gama.
+
+A obra tão desvelada da extincta Sociedade de Instrucção do Porto e a da
+Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, são verdadeiros monumentos de
+erudição, de estudo, de trabalho pratico, de piedade patriotica.
+
+Para a constituição integral da historia da arte e da tradição artistica
+portugueza, quantas contribuições dedicadas, quantos esforços
+individuaes, desassociados e dispersos, na obra, tão incomprehendida e
+tão despremiada, dos srs. Joaquim de Vasconcellos, Martins Sarmento,
+Antonio Augusto Gonçalves, Gabriel Pereira, Sousa Viterbo, Luciano
+Cordeiro, Ferreira Caldas, Ribeiro Guimarães, Alberto Sampaio, Julio de
+Castilho, Theophilo Braga, Leite de Vasconcellos, Pinho Leal, Albano
+Bellino, Teixeira de Aragão, Vilhena Barbosa, Conceição Gomes, Filippe
+Simões, Manoel de Macedo, José Pessanha, Fonseca Benevides, Valentim,
+Vieira Natividade, Figueiredo da Guerra, visconde de Condeixa, Borges de
+Figueiredo, Marques Gomes, Rodrigo Vicente de Almeida, Zephyrino
+Brandão, Possydonio da Silva, Freitas Costa, Avelino Guimarães, Freire
+d'Oliveira; e quantos outros, tanto mais sympathicos quanto mais
+obscuros!
+
+O unico inutil da phalange sou talvez eu, que em vez de uma accurada
+monographia, estou aqui fazendo um indice de assumptos, que só
+devidamente trataria se de cada uma d'estas paginas tirasse um livro.
+Possam ellas ao menos communicar a outros corações a sympathia, que
+filialmente prende o meu á terra em que nasci, e á raça de que procedo!
+
+É pelo culto da arte, invocado n'estas paginas, que a religião da
+nacionalidade se exteriorisa e se exerce.
+
+Desde que nas consciencias se extinguiu a fé, é por meio da arte que as
+tradicções se transmittem, que os sentimentos se coordenam, que os
+affectos se depuram, que as paixões se enobrecem. É pela arte, que a
+exprime, que a poesia do christianismo sobreviverá aos seus dogmas no
+enternecimento, no amor, na saudade dos homens. É tambem pela arte que
+em nossa memoria a poesia da historia sobreleva das instituições, dos
+systemas, das theorias e dos homens, sobre que ella versa.
+
+A politica, depois da desastrosa fallencia de todas as modernas theorias
+liberaes, cessou por toda a parte de ser um foco de attracção para as
+idéas ou para os sentimentos humanos. As leis continuam a fazer-se com o
+destino unico de serem consecutivamente e invariavelmente decretadas,
+infringidas e revogadas, para se substituirem por leis novas, que por
+seu turno se decretam, se infringem e se revogam, como succedeu ás
+anteriores, como succederá ás que se seguirem.
+
+No momento presente são unicamente os poetas, os philosofos e os
+artistas que governam espiritualmente o mundo. D'ahi, nos paizes de
+cultura mental, dominando todos os phenomenos da decadencia moderna, uma
+effusão de sympathia, de tolerancia, de benevolencia, de perdão, que
+caracterisa bem o nosso tempo, e de que não ha na historia outro
+exemplo.
+
+Quando recebemos da Inglaterra a ultima affronta de chancellaria, a que
+deu motivo o tratado de Lourenço Marques, quem na minha susceptibilidade
+portugueza mais suavisou esse golpe foi o critico d'arte John Ruskin,
+proclamando solemnemente e categoricamente aos estudantes de Glascow que
+os estadistas inglezes (tratava-se então do sr. Disraëli e do sr.
+Gladstone) lhe não mereciam nem mais respeito nem mais consideração que
+duas velhas gaitas de folle.
+
+Ruskin separava assim e distinguia radicalmente a Inglaterra do _Foreign
+Office_ e de lord Salisbury, da Inglaterra de _South Kensington_, de
+_British Museum_, da _National Gallery_, de _Ruskin Museum_, de Darwin,
+de Spencer, de Carlos Dickens, de Turner, de Burne Jones, para a qual
+tenderá sempre e irrevogavelmente a terna gratidão do nosso espirito.
+
+É unicamente pela arte, inherente á natureza humana, progressiva e
+eterna, que hoje em dia os homens se associam no destino e na
+solidariedade da especie.
+
+É pela arte que o genio de cada raça se patenteia, que a autonomia
+nacional de cada povo se revela na sua autonomia mental, e se affirma,
+não só pela sua especial comprehensão da natureza, da vida e do
+universo, mas pelo trabalho collectivo da communidade, na litteratura,
+na architectura, na musica, na pintura, na industria e no commercio.
+
+É pelo culto da arte, e pela educação artistica que esse culto
+comprehende, que a producção industrial se especialisa, se valorisa pela
+originalidade caracteristica do producto, e transforma pela
+prosperidade, unicamente determinada pelo ensino, toda a economia de uma
+nação, como se evidenciou nos ultimos tempos em Inglaterra, na Austria,
+na Allemanha, por via da simples reconstituição dos museus e da
+multiplicação das escolas.
+
+Finalmente,--se para cada povo a arte é a segurança da tradição, o
+refugio das consciencias, o mais puro reflexo da imagem benigna da
+patria, a fonte mais caudal de todos os progressos moraes, economicos e
+até politicos,--para cada homem, na tortura de tantas incertesas moraes
+na magoa e na ruina de tantas crenças extinctas, de tantos ideaes
+desfeitos no melancholico decurso da nossa edade, a arte é ainda--como
+diz Schopenhauer--_a unica flôr da vida_.
+
+
+
+
+*Notas:*
+
+
+[1] O conspicuo parecer, que, a respeito das obras dos Jeronymos, foi
+pelo sr. Luciano Cordeiro apresentado á Commissão dos Monumentos
+Nacionaes, em sessão de 7 de novembro de 1895, termina, depois d'outras,
+pelas conclusões seguintes:
+
+«5.ª O Templo deve ficar destinado, sómente, ás grandes celebrações
+religiosas do Estado, e a Galilea a jazida dos restos dos Descobridores
+e Navegadores portuguezes.
+
+«6.ª Todo o resto do monumental edificio deve ser destinado a alojamento
+e installação do Archivo Nacional, convindo que essa installação se ache
+concluida até o mez de maio de 1897.»
+
+Não concordo inteiramente com o sr. Luciano Cordeiro em que se
+transporte para o edificio annexo á egreja dos Jeronymos o archivo da
+Torre do Tombo, e tão pouco em que se remova da egreja o exercicio
+parochial do culto.
+
+Por complexas razões, que não vem para aqui desenvolver, eu votaria por
+que, em vez do archivo da Torre do Tombo se estabelecesse o museu naval
+no edificio dos Jeronymos. E emquanto a egreja, além de que, em minha
+humilde opinião, o clero a saberia sempre guardar muito melhor do que o
+estado, accresce ainda que a parochia de Santa Maria de Belem é uma
+instituição historicamente sagrada, indissoluvelmente unida em nosso
+respeito á tradição do monumento. Foi o infante D. Henrique quem
+transformou o inhospito areal do Restello na linda freguezia de Belem,
+arroteando o solo, para refresco, abrigo e amparo espiritual dos
+navegantes, plantando arvores, dispondo hortas e pomares, abrindo fontes
+e construindo a primitiva ermida exactamente no mesmo logar em que se
+edificou a actual egreja. O pontifice Pio II confirmou por meio de uma
+bula a doação do infante á ordem de Christo, e instituiu em parochia a
+primeira egreja de Santa Maria de Belem, sem outro encargo para a ordem,
+para os navegantes e para o publico senão o de se rezar a cada missa,
+aos sabbados, um _Pater e uma Ave Maria pela salvação da alma do infante
+D. Henrique e por a d'aquelles de quem era teudo_. O rei D. Manoel,
+tendo edificado a sumptuosa egreja e o mosteiro dos Jeronymos, na volta
+da armada de Vasco da Gama, depois do descobrimento da India, colloca a
+estatua do infante á porta da egreja, mantem a parochia, e determina, em
+cumprimento dos piedosos desejos de D. Henrique, que a cada missa, ao
+lavar das mãos, o sacerdote se volva para a gente, e diga em alta voz.
+«Rogae a Deus pela alma do infante D. Henrique, primeiro fundador d'esta
+casa, e por a de el rei D. Manoel, que a doou á ordem de Christo.»
+
+A data d'esta carta de doação é de 26 de dezembro de 1498.
+
+Seria, a meu ver, uma infidelidade, uma ingratidão, e um torpe desacato
+remover a parochia de Santa Maria de Belem do logar em que seus
+gloriosos fundadores a estabeleceram, cabendo-nos pelo contrario o dever
+de reclamar dos poderes civis e dos poderes ecclesiasticos que o modesto
+voto dos fundadores se cumpra, como é de razão juridica e de probidade
+nacional, e que em cada missa conventual celebrada pelo parocho na
+egreja dos Jeronymos, o sacerdote se volte para o povo, ao _lavabo_, e
+peça um _Pater_ e uma _Ave Maria_ pela alma do infante D. Henrique e
+pela de el-rei D. Manoel.
+
+Que se adopte porém ou se não adopte a proposta do sr. Luciano Cordeiro,
+o que technicamente não é de certo admissivel é que as obras dos
+Jeronymos se prosigam e se concluam sem resolução tomada ácerca do
+destino que ha de ter o edificio em que taes obras se fazem.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 71| ta boas | taboas |
+ |#pág. 74| onem | nem |
+ |#pág. 74| dimensã | dimensão |
+ |#pág. 105| ascebispo | arcebispo |
+ |#pág. 142| privilegido | privilegiado |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+Variantes dos nomes próprios foram mantidas de acordo com o original.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O culto da arte em Portugal, by
+José Duarte Ramalho Ortigão
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CULTO DA ARTE EM PORTUGAL ***
+
+***** This file should be named 30456-8.txt or 30456-8.zip *****
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+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
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+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
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+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
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+
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+ and discontinue all use of and all access to other copies of
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+
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
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+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+works, and the medium on which they may be stored, may contain
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+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
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+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
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+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.