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+The Project Gutenberg EBook of Nas Cinzas, by Gontran Borys
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Nas Cinzas
+
+Author: Gontran Borys
+
+Translator: Augusto Ernesto de Castilho e Melo
+
+Release Date: November 25, 2009 [EBook #30543]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS CINZAS ***
+
+
+
+
+Produced by M. Silva
+
+
+
+
+ Notas de transcrição:
+
+ Este texto é uma transcrição do original de 1875, tendo-se
+ actualizado a grafia para a variante europeia da língua
+ portuguesa (pré-acordo ortográfico de 1990).
+
+ Foram corrigidos alguns erros tipográficos evidentes.
+
+
+
+
+ NAS CINZAS
+
+ POR
+
+ GONTRAN BORYS
+
+ TRADUÇÃO DE
+
+ L. C. M.
+
+
+ C & C
+
+
+ LISBOA
+ EMPRESA EDITORA, CARVALHO & C.ª
+ RUA LARGA DE S. ROQUE, 100
+
+
+
+
+ NAS CINZAS
+
+ POR
+
+ GONTRAN BORYS
+
+
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+
+ Imprensa nacional--1875
+
+
+
+
+ NAS CINZAS
+
+ POR
+
+ GONTRAN BORYS
+
+ TRADUÇÃO DE
+
+ L. C. M.
+
+
+
+
+ LISBOA
+ EMPRESA EDITORA, CARVALHO & C.ª
+ RUA LARGA DE S. ROQUE, 100
+
+
+
+
+I
+
+
+Se perguntásseis hoje diante de dez pessoas quem é André Sauvain, nove
+delas achariam ridícula a vossa ignorância, e a décima não hesitaria em
+soltar uma gargalhada. A ninguém é permitido desconhecer uma gloria
+nacional: entretanto ninguém conhecia há sete anos aquele nome, tão
+celebre agora.
+
+Nessa época, ainda André Sauvain não era um pintor ilustre. Ocupava, ao
+cimo da rua dos Mártires, um _rez-de-chaussée_, tão próprio pela
+humidade a criar cogumelos, como pela escuridão a inspirar tragédias. A
+habitação do jovem pintor limitava-se a uma só casa, que acumulava as
+funções de sala, quarto de cama, _atelier_ e refeitório. E nem por isso
+ele passava pior do que se residisse em sumptuoso palácio.
+
+André era um rapaz vigoroso, com músculos de aço, esbelto como um
+vime e magro como um gato em Abril. O seu porte altivo, bigode castanho
+e retorcido, pêra aguçada, cabelo alourado e abundantíssimo,
+assemelhavam-no a alguns retratos de Van-Dyck por forma, que não
+causaria estranheza ver pender-lhe ao lado uma espada. E com efeito a
+blusa rafada, que trajava, ia tão bem à sua figura nobre e elegante,
+como um gibão do melhor veludo.
+
+Numa bela e clara manhã de Dezembro André Sauvain acabava de retocar um
+_Faust au sabbat_: recuando um pouco para melhor avaliar o efeito do seu
+quadro, e erguendo por acaso os olhos, foi testemunha de um prodígio.
+Através das vidraças do seu quarto descobria-se parte de uma casa
+esplendidamente iluminada pelos raios do sol. Aquele prédio era o
+constante pesadelo do pintor. Segundo os caprichos da atmosfera, ora
+reflectia execrável claridade no _atelier_, ora lhe interceptava
+completamente a luz. André lançava-lhe pela milésima vez a sua maldição,
+quando de repente viu abrir-se uma janela, e aos ouvidos do mancebo
+chegaram as últimas notas de uma cançoneta entoada por voz fresca e
+harmoniosa: não tardou que a essa janela se mostrasse uma cabeça de
+mulher, inclinando-se para fora. Aquela cabeça arrancou ao pintor um
+grito de admiração e, bem que nunca a tivesse visto, reconheceu-a
+imediatamente.
+
+Há no Louvre uma miniatura de Fragonard, do tamanho de uma peça de 40
+francos, que é a imagem de uma menina de quinze anos, rosada, loura, com
+a risonha expansão da inocência a iluminar-lhe o rosto. A boca é uma
+cereja: deseja-se colhe-la com os lábios. A brisa de maio brinca
+travessa com os bastos anéis dos seus cabelos doirados. Nos seus olhos
+negros, de extraordinária viveza, crepita a jovialidade. É a primavera,
+é a alegria, é a mocidade em flor. Pois, embora o não creiam, esse rosto
+encantador, emoldurado pela janela que se abrira fronteira ao _atelier_
+de Sauvain, era o original daquela miniatura, feita havia mais de cem anos.
+
+A jovem vizinha do pintor tinha na mão um grande ramo de violetas, e
+voltando-se para falar a alguém, sorriu-se. Mas que sorriso! Um minuto
+antes eram bem lúgubres os pensamentos de André Sauvain. Na confusão de
+monstros, de demónios, lobisomens e bruxas, de que povoara o seu quadro,
+entrevia amargamente no espírito o símbolo da sua existência atribulada.
+Estava triste como a morte. Porém a gentil visão dispersara os
+fantasmas, como um facho luminoso dissipa as trevas. André sentiu o
+coração bater-lhe com força desusada. Era de júbilo. Teve uma vertigem e
+baixou os olhos, enquanto o ardente sangue dos seus vinte e cinco anos
+fazia retumbar-lhe aos ouvidos, em grande orquestra, a arrebatadora
+sinfonia da esperança.
+
+Foi apenas um relâmpago. A visão desaparecera; a janela fechou-se. E
+André, querendo continuar o seu trabalho, não pôde, porque lhe tremiam
+os dedos; abandonou a palheta, e foi sentar-se a um dos cantos da casa
+com os cotovelos fincados nos joelhos e a cabeça entre as mãos. A noite
+veio surpreende-lo assim. Então cada objecto assumiu para ele um aspecto
+fantástico; parecia-lhe que, em volta de si, aromatizava o ar um suave
+perfume de violetas; aplicou o ouvido, e julgou perceber o eco longínquo
+de uma cançoneta; olhou para o seu quadro, e só viu nele um turbilhão de
+cabeças louras, iluminadas por grandes olhos pretos.
+
+E por toda a parte, no centro da casa, por detrás dos modelos de gesso e
+dos cavaletes, nas paredes nuas, entre as vigas do tecto, no meio das
+telas esboçadas, afigurava-se-lhe sempre ver um sorriso de anjo, um ramo
+de violetas, uns olhos negros e uns cabelos louros.
+
+--Será assim que nasce o amor? perguntou André a si próprio, tomando-se
+o pulso. Depois, levantou-se aterrado:
+
+--Se amo, estou perdido! exclamou ele. Vamos jantar!
+
+
+
+
+II
+
+
+Nesse tempo (refiro-me ao ano da graça de 1853) André Sauvain, bem que
+fosse proprietário, não jantava todos os dias. Verdade é que a _sua
+propriedade_ não valia sessenta escudos, e não lhe rendia sequer um
+franco! Consistia numa casa velha e pequena, num recanto da Normandia;
+uma ruína musgosa e enegrecida, sempre abalada pelos ventos da costa.
+Mesmo assim, André podia te-la vendido a algum pescador, mas nem a mais
+horrível miséria o determinaria a tal: apegara-se-lhe o coração àquele
+pardieiro pelas raízes profundas, a que chamam recordações; tinha lá
+nascido e lá morrera sua mãe.
+
+Além da humilde casinha de seus pais, André Sauvain só possuía... a sua
+pessoa: nem um parente, nem uma amante, nem um amigo, nem um cão! Devera
+ter começado por dizer: nem um soldo! O resto depreendia-se por
+simples ilação. Vivia de esperanças e de privações; frugal alimento, que
+o conservava sadio e alegre. Tanto de verão como de inverno,
+levantava-se com a aurora, pintava até à tardinha, e aproveitava-se da
+escuridão para percorrer Paris em todas as direcções; depois recolhia
+extenuado de fadiga, deitava-se às apalpadelas, para economizar azeite,
+e dormia a sono solto. Estas caminhadas pelas trevas restabeleciam-lhe a
+circulação do sangue e entretinham-lhe a actividade do cérebro. De
+noite, as ruas inspiram os cismadores. Parece que aquelas grandes
+artérias, onde circulam sem cessar correntes humanas, estão saturadas de
+fluidos intelectuais, e que as ideias se exalam do solo em vapores
+invisíveis...
+
+Aqueles prodigiosos passeios eram as únicas extravagâncias de André.
+Habitava Paris havia doze anos, e nunca quisera saber de outros
+divertimentos, que não fossem os museus e as bibliotecas. Do teatro
+abstinha-se ele com extremo cuidado, reflectindo em que um bilhete de
+plateia lhe cerceava dois dias de subsistência.
+
+Além de que, alimentava na mente uma quimera, como dantes se mantinha um
+_terno_[1] à loteria; consistia ela em reunir alguns centos
+de francos, não só para reparar o famoso pardieiro natal, mas ainda
+para cobrir com modesta lousa a pobre viúva, que repousava a um canto do
+pequeno cemitério da aldeia.
+
+Eis porque, nessa tarde, fugindo do seu _atelier_, onde perigosas
+imagens lhe perturbavam o espírito, exclamou: «Se amo, estou perdido! O
+amor e o trabalho são dois inimigos mortais. Não amemos!»
+
+Ora, prometer não amar equivale a jurar que não nos cairá uma telha
+sobre a cabeça. André reconheceu-o um pouco tarde: a sua imaginação
+corria à desfilada, e ele já não era senhor de a fazer parar! Jantou em
+três garfadas e com três suspiros, segundo o uso imemorial dos
+namorados; depois saiu e caminhou ao acaso, com o olhar desvairado e o
+aspecto carrancudo. Mas, por mais que fizesse, sentia sempre aquela boca
+rosada, os olhos negros, os cabelos louros e a canção alegre a
+prenderem-se-lhe ao coração com as suas garras de diamante.
+
+Era véspera de Natal. Em toda a linha dos _boulevards_ humildes barracas
+de madeira branca irradiavam o pálido clarão das suas lanternas sobre as
+suas vizinhas fronteiras, magníficas lojas, cintilantes de gás e de
+doirados. Por entre esses dois cordões de luz cruzavam-se torrentes de
+ociosos passeantes. Aquele ruído, aquela claridade, o perpassar da
+multidão buliçosa e festiva, forçaram André Sauvain a baixar à terra.
+Voltou a si, como um dormente que desperta em sobressalto, e, poucos
+minutos depois de poder reconhecer o lugar em que estava,
+surpreendia-lhe o olhar ainda distraído, e vivamente lhe excitava a
+atenção, uma fisionomia na verdade singular.
+
+
+
+
+III
+
+
+Defronte da vidraça de uma casa de pasto agrupava-se, como sempre, uma
+multidão curiosa e vítima do suplício de Tântalo.
+
+No centro desse grupo via-se um homem de quase sessenta anos, de baixa
+estatura, mas grosso e exibindo um busto de atleta.
+
+A longa barba, espessa e grisalha, caía-lhe sobre o peito, onde se
+bifurcava em duas pontas; tinha o nariz tuberculoso e avermelhado, ao
+passo que a pele macilenta, tisnada e enrugada das suas faces, estava
+coberta de manchas lívidas. Não obstante o termómetro marcar dez graus
+abaixo de zero, cobria-lhe a cabeça um chapéu pardo, cujas abas moles e
+cansadas já não tinham cor apreciável; uma sobre-casaca no fio, quase
+erma de botões, mal lhe protegia o tronco contra os rigores da
+temperatura, e os braços mergulhavam até aos cotovelos nas
+algibeiras de umas velhas calças de ganga.
+
+Estava ali; boquiaberto e imóvel. Os seus olhos, brilhando ávidos sob
+grossas pálpebras vermelhas e lacrimosas, pareciam querer saltar das
+órbitas para devorar os tesouros gastronómicos perante eles expostos:
+perdigotos recheados de trufas, terrinas misteriosas, salsichões
+enormes, lagostas escarlates sobre ramos de verde salsa, carpas do Reno,
+cujos lombos prateados vergavam sob pedaços de gelo... tudo o tentava, e
+as suas ventas dilatadas aspiravam com força as emanações culinárias que
+saíam pelos ventiladores.
+
+De repente André viu-o empalidecer e vacilar; mas não tardou que o
+desconhecido cobrasse animo e mil impressões rápidas transpareceram
+sucessivamente no seu rosto extraordinário. Foram elas: a raiva
+concentrada, um sofrimento agudo, o cinismo descarado, e um embaraço
+tímido. Passou a mão curta e cabeluda sobre os seus olhos, deslumbrados,
+mais ainda pela atracção dos comestíveis do que pelas luzes. Depois
+estudou, uma a uma, com angustiosa atenção as figuras que o rodeavam
+inclinadas para a vidraça. Por fim franziram-se-lhe os lábios num amargo
+sorriso, e o seu olhar tornou-se carregado. Tirou lentamente o chapéu, e
+soltando um suspiro, enxugou o crânio calvo, onde brilhavam grossas
+bagas de suor. Foi então que descobriu André Sauvain, o qual, parado
+a pouca distância, o observava com crescente interesse. Vendo-se
+espiado, o velho franziu as negras sobrancelhas, e fugitivo rubor lhe
+coloriu o pergaminho das faces; com um gesto indiferente e irónico,
+tornou a pôr o chapéu no alto da cabeça, e balanceando-se à moda dos
+marinheiros, disse-lhe num tom em que transparecia a contrariedade:
+
+--Então, mancebo, que temos? Serei porventura um fenómeno? Julga-me
+empalhado?
+
+Sauvain estremeceu ao som daquela voz concentrada, metálica, e mais
+notável ainda pela sua acentuação provençal muito pronunciada.
+
+--Desculpe-me, senhor, balbuciou André um pouco atrapalhado. Não tive
+intenção de o ofender.
+
+--Com mil bombardas! assim o creio. Então julgou conhecer-me, heim?
+
+--É a primeira vez que o vejo!
+
+--Outro tanto não digo eu, murmurou o velho, cujos olhares penetrantes
+examinavam André dos pés à cabeça; parece-me tê-lo encontrado algures...
+ou ao senhor ou a alguém muito parecido consigo!... Em Roterdão, suponho
+eu... ou em Calcutá... talvez na Filadélfia?...
+
+--Nunca me afastei tanto de Paris, disse André.
+
+--E eu venho cá pela primeira vez. E portanto evidente que me enganei.
+Mas então que fazia aí, em êxtase diante da minha pessoa?
+
+--Vou confessar-lho francamente, respondeu Sauvain; sou artista, e a sua
+fisionomia interessou-me.
+
+--Artista! Percebo agora. Na verdade eu devo ter uma cabeça de
+Sócrates... ou de sátiro, disse o desconhecido rindo. Mas o riso
+extinguiu-se-lhe logo numa contracção nervosa; tornou-se mais pálido, e
+segurou-se, para não cair, ao ombro do moço pintor.
+
+--Mau! continuou ele com voz fraca, as minhas endiabradas pernas querem
+deixar-me... Ajude-me a sentar em qualquer parte... pois sinto que vou
+para o fundo.
+
+André, muito inquieto, amparou-o até ao mais próximo banco e sentou-se
+ao pé dele.
+
+--Não é nada, disse o velho... uma vertigem... isto vai a passar...
+
+Com efeito, pouco a pouco pareceu recuperar as forças. Depois de alguns
+minutos de silêncio, fincou os cotovelos nos joelhos, tomou em cada mão
+uma das pontas da sua longa barba, e fitando André Sauvain, com o seu
+olhar manhoso e ousado, disse-lhe bruscamente:
+
+--Não receia comprometer-se, senhor?
+
+--Como?...
+
+--Mostrando-se na companhia de um miserável maltrapilho como eu.
+
+André encolheu os ombros.
+
+--Não tenho preconceitos, respondeu ele, nem tão pouco amigos, ou mesmo
+conhecidos: os meus meios não me permitem esse luxo. Além disso não
+estou muito mais bem vestido do que o senhor...
+
+--Belamente! retrucou o velho. Jovem, altivo, pobre e artista... é o que
+me convém!
+
+--O que lhe convém!... Que quer dizer?
+
+--Ora imagine, continuou o singular personagem, que, desde o pôr do sol,
+procuro na turba um homem de coração!... Não vi senão homens gordos e
+irrepreensivelmente trajados, raça de que desconfio, e por isso
+ficaram-me as palavras na garganta. O que eu tenho a confessar é...
+nauseabundo. Nem todos o entenderiam.
+
+--Então o que é? perguntou o pintor. Pode dizer...
+
+--Duas palavras somente, mas que me afogam! Tenho fome.
+
+André sentiu um calafrio no coração.
+
+--Ufa! exclamou o desconhecido, até que enfim soltou-se o segredo! Sim,
+mancebo, há três dias que estou em Paris, e há quarenta e oito horas que
+não como! Eis a razão por que me encontrou estupidamente pasmado
+defronte dessa exposição culinária. Com mil bombardas! é cruel mostrar
+assim aos esfaimados tantas coisas que fariam crescer água na boca até a
+um homem farto! Contemplando-as, imaginava-me numa noite de festim, uma
+noite em que o tinido dos garfos e o _glu-glu_ das garrafas se fazia
+ouvir através das janelas... E as cãibras do meu estômago sugeriram-me o
+pensamento de que, no meio de um milhão de indivíduos que vão sentar-se
+à mesa; seria estúpido deixar-me morrer à fome por não querer dar-me ao
+incomodo de articular duas sílabas. Enfim chegou o senhor... a sua
+fisionomia inspirou-me confiança... parece-se com... com quem diabo se
+parece das pessoas que tenho conhecido?... Não importa, falei... o pior
+está passado!
+
+André remexia já nas algibeiras.
+
+--Espere! disse o velho segurando-lhe o braço. Vai oferecer-me
+dinheiro... e partirá com a convicção de que o roubaram. Obrigado.
+Chamo-me Pedro Toucard; é um nome, que não rima com mendigo, nem com
+tratante. Preste-me um serviço.
+
+--Qual?
+
+--Indique-me o meio de ganhar imediatamente alguns soldos. Sou esperto,
+aqui onde me vê; e, se não morrer esta noite, tirar-me-hei de embaraços...
+
+--Um meio... imediato? disse André. Não conheço nenhum. Mas aqui está a
+minha bolsa, partilhemos.
+
+E tirou de dentro dela duas peças de cinco francos, que era toda a sua
+fortuna.
+
+As pupilas do velho iluminaram-se; contemplou aquele metal, como um
+amante traído contemplaria ainda a mulher infiel e adorada.
+
+--Dinheiro! murmurou ele. Tinha-me esquecido da cor e do feitio dele!...
+eu que o possuí aos montes!... Como é belo o dinheiro!... Mas... não...
+não... exclamou ele recuando um passo, não recebo esmolas!
+
+--Não é esmola, é apenas um empréstimo! lhe tornou André.
+
+E, quer ele quisesse quer não, foi metendo uma das peças de cinco
+francos na mão calosa do desconhecido.
+
+Àquele contacto, Pedro Toucard, fez-se rubro; as fontes e a testa
+inundaram-se-lhe de ardentes gotas de suor, vapor condensado da terrível
+luta que nele se travava entre a vergonha e a fome. Os olhos, de um
+pardo esverdeado, tornaram-se-lhe húmidos e brilhantes.
+
+--É então a pobreza emprestando à miséria? disse ele com voz rouca,
+retendo a mão de André nas suas e apertando-a com energia.
+
+Depois, enxugando as pálpebras com as costas dos seus felpudos dedos,
+exclamou:
+
+--Ora adeus! sou um espertalhão, e por mais depressa que a fortuna
+corra, apanha-la-hei ainda uma vez. O seu nome e morada, mancebo? André
+respondeu apenas com um grito abafado.
+
+Pálido, com o coração palpitante, seguia com os olhos uma mulher,
+cujo vestido roçara por ele ao passar.
+
+Aquela mulher, que se afastava, graciosa e ligeira, tinha cabelos louros
+sob um chapéu de veludo preto, e olhos negros sob os cabelos louros.
+
+--Não ouve? repetiu Pedro Toucard, desejo saber o seu nome e morada.
+
+Porém o pintor já ia longe; desprendendo a mão das do velho, lançara-se
+desesperadamente atrás da sua visão.
+
+Pedro interpretou mal aquela brusca partida; retorceu por muito tempo a
+sua barba grisalha, e resmoneou com ar pensativo:
+
+--Uma esmola disfarçada... É pena! Agradava-me este rapaz!... Mas com
+quem diabo se parece ele?...
+
+
+
+
+IV
+
+
+André Sauvain, empurrando vinte pessoas, alcançou e passou adiante do
+chapéu de veludo preto, voltou-se timidamente, encomendou a sua alma a
+Deus, e ousou enfim encarar... uma decepção!
+
+Não era ela!
+
+--Venho a dar em doido!... disse consigo ao voltar para casa.
+Apaixonar-me antes de haver cimentado o meu futuro... é o mesmo que
+fazer círculos na água com luíses de oiro. Sou porventura um homem, ou
+não o sou? Sou. Pois bem! esquecerei essa criança loura.
+
+Passou a noite jurando não pensar mais nela, e estorcendo-se sobre as
+brasas da insónia. Eis a razão por que, na manhã seguinte, quando a
+senhora Poussignol, porteira de bigode e com os pés da largura de pratos
+sopeiros, invadiu o _atelier_ no desempenho do seu oficio de servente,
+achou André empoleirado sobre três cadeiras, espreitando, através do
+seu postigo envidraçado, uma janela fronteira, que tinha ainda as portas
+cerradas.
+
+--E esta! exclamou ela com voz masculina.
+
+--Quem mora ali? perguntou o pintor.
+
+A senhora Poussignol arregalou os olhos na direcção que lhe indicava o
+dedo do seu cliente, aspirou uma pitada de rapé, e brandiu a vassoura
+com gesto feroz.
+
+--Aquilo?... disse ela, não é coisa que preste!
+
+André sentiu-se assomado de violenta indignação.
+
+Conteve-se todavia, e montando a cavalo sobre a sua caranguejola de
+cadeiras, pediu à porteira que continuasse.
+
+--Dois quartos para a traseira, prosseguiu a senhora Poussignol... uma
+mobília de cinco soldos... e duzentos francos de aluguer, compreendendo
+a luz... Eis-aí está!
+
+--E ela? interrogou André.
+
+--Ela!... O locatário chama-se Germinal. É um empregado reformado, um
+velho avarento, um pelintra, um unhas de fome, que se enforcaria por um
+soldo, e que nem é capaz de largar seis liards pelas festas do ano!
+
+--E ela? repetiu André.
+
+--Ela... quem? Ah! sim, a rapariguinha que leva a vida à janela...
+Felizmente perde o seu tempo; o senhor André é o rei dos trabalhadores,
+e não levantaria o nariz de cima das suas telas para ver a própria
+Vénus!
+
+André empalideceu.
+
+--Como!... pois pensa que é por minha causa? Nunca dei por tal.
+
+--Pudera!... Todo entregue às suas pinturas, não repara em mais nada.
+Pois há bastantes dias que ela deita o lúzio para cá. Vê-se muito bem lá
+de cima o interior deste quarto, e parece que isso diverte a rapariga!...
+
+--Mas quem é ela? exclamou André impaciente.
+
+--Ora! é a menina, Rosa Germinal, filha daquele velho sovina... a figura
+de um lacrau, tal e qual! Não pode deixar de ser algum antigo criminoso,
+que tenha a consciência carregada de assassínios.
+
+--Que ideia!
+
+--É o que lhe digo. Em primeiro lugar, há onze anos que não põe os pés
+na rua! não se mexe de casa, mais do que um caracol da concha... Onze
+anos! Que pensa daquilo?
+
+--Será.
+
+--Qual historia! Tem tanta saúde, como o senhor ou como eu, mas tem medo
+de ser filado, ora aí está! Só apanha ar num jardim de bonecas, do
+tamanho do _Constitucional_ desdobrado... e isso porque o proprietário
+lho permite de graça... Até causa dó!...
+
+--E ela? insistiu André.
+
+--A menina Rosa? essa... vai e vem, corre ao mercado, cuida da panela e
+remenda os trapos do pai, que, salvo seja! nunca mais comprou coisa
+alguma desde o atentado de Ficschi. O vestuário preocupa muito pouco
+esse velho papa-moscas. Quando sente passos no pátio, foge para casa a
+sete pés; se batem à porta, treme como varas verdes, bate o queixo, e só
+se decide a abrir ao cabo de um quarto de hora. Se lhe entregam uma
+carta, fica verde como um afogado. Ora diga-me se é possível que um
+cristão honrado tenha semelhantes sustos?
+
+--E ela?
+
+--Ela?... Deve confessar-se que é uma criatura bem ageitadinha,
+desembaraçada e habilidosa; asseada como um soldo novo, alegre como um
+pintassilgo, chilreando desde pela manhã até à noite!... Mas, apesar
+disso, ainda ganha os seus quarenta soldos por dia, a fazer flores: o
+pai Germinal apenas tem seiscentos francos da pensão de reforma, e, se
+não fosse a filha, havia de custar-lhe a passar a vida.
+
+--Mas, disse André, linda como ela é... sim, pareceu-me bonita!...
+
+--Isso lá!... é linda como os amores, o diabrete da rapariga! afirmou a
+porteira.
+
+--É verdade, disse André tentando sorrir, e... deve ter muitos
+namorados?...
+
+--Ora, pois não! Aquilo tem um juízo... uma seriedade! Quando sai à rua
+podia... vadiar o seu bocado, requebrar-se, dar ouvidos a lerias,
+mas... não senhor! compradas as provisões e entregue o seu trabalho,
+volta para casa de corrida, e só trata de divertir o velho maroto do
+pai, que então fica todo contente. Oh!... contente como se nenhum
+remorso tivesse a pesar-lhe no estômago!
+
+--Que espécie de gente costuma receber?
+
+--Gente?... em casa dele!
+
+--Sim.
+
+--Receber?... o sr. Germinal!... Essa é melhor! Se ele nem um gato
+conhece no mundo inteiro!
+
+--E... os vizinhos?
+
+--Sabe lá sequer quem são! Uma figura nova produz-lhe um ataque de nervos.
+
+--Com a breca! murmurou André despeitado; é com efeito um ente bem
+misterioso, e parece-me assaz difícil domesticá-lo!
+
+--Pois se eu lhe digo que é um urso! Não há exemplo de que tenha
+dirigido uma palavra, seja a quem for, excepto a mim e à filha. E pelo
+que toca a sair do seu buraco, era mais fácil deixar-se fazer pedaços...
+
+Uma pancada, discretamente batida na porta do _atelier_, interrompeu a
+senhora Poussignol.
+
+--Entre! exclamou o pintor, deixando-se ficar empoleirado onde estava.
+
+A porta entreabriu-se, e um homem comprido e esguio passou pela
+abertura.
+
+--Senhor... disse ele dirigindo-se a Sauvain.
+
+Neste ponto estacou, exalou um suspiro, esfregou as mãos, o que produziu
+ruído semelhante ao de um raspador, olhou em volta de si com ar
+assustado, e pareceu querer fugir. Reconsiderou porém, e continuou,
+articulando as palavras como se cada silaba lhe fosse arrancada da
+laringe por um saca-rolhas invisível:
+
+--Senhor... chamo-me Germinal... moro aqui defronte... e venho... na
+qualidade de vizinho... fazer-lhe uma pequena visita...
+
+André desabou da sua caranguejola com grande estrondo; o senhor
+Germinal, aterrado, lívido de susto, cingiu-se rapidamente com a parede.
+
+--E esta! rosnou a senhora Poussignol no auge do espanto...
+
+
+
+
+V
+
+
+Se a ferrugem, esse peróxido de ferro hidratado, pudesse tomar forma
+humana, escolheria, para encarnar, o individuo que André Sauvain tinha
+diante de si.
+
+O senhor Germinal assemelhava-se a um prego colossal, esquecido durante
+seis meses em sitio húmido.
+
+Tudo nele estava enferrujado, desde a cadeia donde pendia o seu relógio
+de caixas de prata, até aos botões do colete. Cor de ferrugem era o seu
+fato cheio de cerziduras e lustroso, à força de gasto, nos cotovelos,
+nos joelhos e nas coxas; cor de ferrugem eram as suas suíças
+sarapintadas, os cabelos raros deixando a descoberto um pedaço de crânio
+amarelado, a pele salpicada de manchas ruivas, os olhos inquietos
+orlados de um círculo desbotado como os dos peixes cozidos, os
+lábios que deixavam entrever as suas gengivas arruinadas, os dentes que
+nelas encaixavam... e tudo enfim! Enferrujada era também a sua voz, e
+até se exalava da sua individualidade um tal ou qual cheiro ferruginoso.
+
+Todavia, a despeito da afirmativa da senhora Poussignol, o senhor
+Germinal não tinha de modo algum a aparência de um ex-bandido. Era um
+homem tímido, humilde, vítima de um contínuo mal-estar e de uma
+trepidação nervosa inexplicável, sempre com o ouvido à escuta, e a
+atenção alerta. Naquele mesmo momento, em que arriscava um passo
+verdadeiramente fenomenal para o seu carácter, parecia obrar sob a
+pressão de uma vontade mais forte do que a sua, como um sonâmbulo
+recalcitrante, que o magnetizador dirige.
+
+E contudo nunca mortal algum, mesmo o mais sedutor, foi acolhido,
+lisonjeado, afagado por um sorriso semelhante ao que André Sauvain
+dispensou ao pai da sua... quimera loura.
+
+--Tenha a bondade de sentar-se, senhor Germinal, faça favor!... Que
+amável surpresa!... Que excelente ideia teve!... Não sei como
+agradecer-lhe...
+
+Pouco faltou para que André ajoelhasse.
+
+O senhor Germinal suspirou, assentou-se com certas precauções, que davam
+a entender precisarem de untura de azeite os seus pontiagudos joelhos,
+esfregou lentamente os dedos nodosos, uns contra os outros, e disse:
+
+--É hoje dia de Natal, senhor Sauvain! Ouvindo aquela incontestável
+verdade, André entendeu dever manifestar alguns sinais de alegria.
+
+--Com efeito é dia de Natal... Uma grande festa!
+
+--Muito grande.
+
+--Felizmente o tempo está bom.
+
+--Muito bom.
+
+--Ainda que bastante frio.
+
+--Muito frio.
+
+Neste período da conversação houve uma pausa de cinco minutos. André
+contemplou o senhor Germinal com ar animador, e apoderou-se-lhe de uma
+das mãos, que estreitou nas suas de um modo inteiramente filial. O
+senhor Germinal baixou pudicamente os olhos, retirou a mão, e com ela
+esfregou a outra.
+
+--Parece-me, prosseguiu este, que por ocasião de tal solenidade,
+poderíamos permitir-nos... um leve extraordinário...
+
+--É tão curta a vida... respondeu Sauvain, procurando adivinhar a
+conclusão a que queria chegar o seu interlocutor.
+
+--Permitir-mo-hei pois, continuou o velho, e como o senhor é meu
+vizinho...
+
+O coração de André cessou de bater.
+
+--Tomo a liberdade; articulou o senhor Germinal com incrível esforço,
+sim... tomo a liberdade... de o convidar...
+
+--Ora essa! bradou a senhora Poussignol, dando um salto.
+
+--Senhor! exclamou o pintor, meu caro senhor, semelhante honra, um
+tal... Ah! senhor, disponha de mim... pertenço-lhe em corpo e alma!...
+
+--Não exijo tanto, disse o senhor Germinal, tirando do bolso um lenço
+cor de ferrugem, com o qual enxugou a sua calva amarelada. Peço-lhe
+unicamente... o favor de vir esta noite a minha casa... das oito horas
+às oito e dez minutos... para passar o serão... modestamente... em família.
+
+--Em família! repetiu André extasiado.
+
+--Então... aceita?
+
+--Se aceito! querido e venerado senhor... com entusiasmo!... com delírio!
+
+O senhor Germinal levantou-se como se fora feito de uma só peça. Parecia
+consternado.
+
+--Nesse caso, disse ele em tom lúgubre, até à noite.
+
+--Até à noite, meu respeitável vizinho! modulou André, que interrompeu o
+ruído de raspador, apertando nas suas ambas as mãos do senhor Germinal.
+
+Este último encaminhou-se para a porta.
+
+--Haverá, acrescentou com voz abafada... sim... haverá talvez... uma
+garrafa de cidra.
+
+--Adoro a cidra!
+
+O senhor Germinal abriu a porta.
+
+--E... sim... creio poder afirmar que haverá também... castanhas.
+
+--Sou doido por castanhas!
+
+A porta fechou-se.
+
+André Sauvain ficou um momento como esmagado pela enorme ventura, que a
+Providencia lhe enviava; depois saltou para o meio do _atelier_,
+executando a capricho uma sarabanda furiosa, delirante, como de outra
+igual não há memoria!
+
+Pelo que respeita à senhora Poussignol, apenas teve forças para repetir:
+«Ora essa!»
+
+Paralisada pelo excesso de espanto, deixou-se cair com todo o seu peso
+sobre a caixa das tintas, derramando algumas.
+
+
+
+
+VI
+
+
+Que fada haveria tocado o senhor Germinal com a sua magica varinha? Por
+que prodígio aquele misantropo, que durante onze anos não se aventurara
+fora de casa, com medo de encontrar o oval de qualquer dos seus
+semelhantes, vinha agora convidar um desconhecido para festejar com ele
+o aniversario do Natal!
+
+O pintor não se inquietou com esse enigma. Contentou-se com ser feliz.
+
+Às oito horas em ponto, agitou, não sem sobressalto, o fio de ferro que
+correspondia à campainha do seu amável vizinho.
+
+André tinha tido o cuidado de aformosear-se. Escovara o fato e vestira
+roupa lavada; contudo sentia-se pouco à vontade. Quando Rosa olhou para
+ele, fez-se tão branco como a própria camisa, e pela primeira vez
+deplorou o comprimento dos seus braços e pernas, das quais não sabia o
+que fizesse.
+
+Pelo que toca à jovem, ignoro em que ela pensou, mas o seu lindo rosto
+tornou-se da cor do seu nome.
+
+O arranjo de casa do senhor Germinal, não só era totalmente desprovido
+de magnificência, mas até deixava adivinhar a presença de um mau
+hóspede, a quem chamam pobreza; contudo a ordem, harmonia e limpeza, que
+ali reinava, fazia alegrar o coração: cada móvel fora conquistado à
+custa de laboriosas vitorias, e ostentava-se no seu lugar, polido,
+espanado e lustroso, como convém a um troféu doméstico.
+
+A noite correu deliciosamente. Houve cidra... e houve castanhas!... Para
+André houve também certos regalos pouco apreciados pelo vulgo, mas que o
+pintor saboreou como artista e como poeta: o prazer dos olhos, a
+embriaguez da alma, o delírio da imaginação... são esses a que me refiro.
+
+Porque... ela estava ali, Rosa, a travessa e meiga criança. Para
+certificar-se de que não sonhava, Sauvain beliscava os braços de vez em
+quando; ora, como apesar disso continuava a absorver por todos os poros
+a suave música da sua voz, as escalas argentinas do seu riso e o
+_fru-fru_ do seu vestido azul; como a via voejar, qual ave encantadora,
+ruborizar-se por ser admirada, e sorrir de prazer corando; como,
+enfim, quando ela inclinava a cabeça, o candeeiro iluminava de reflexos
+doirados os anéis do seu cabelo, punha em relevo o seu gracioso perfil,
+sombreado por pestanas de seda; ou lhe transformava o colo em uma lamina
+de puríssimo marfim, André viu-se obrigado a reconhecer que não dormia.
+
+O senhor Germinal ganhou dezassete partidas de _écarté_ ao seu jovem
+vizinho... que nem deu por isso!
+
+O pintor não notou também as singulares contracções nervosas do seu
+parceiro, que estremecia ao menor ruído exterior, empalidecendo ao
+fechar longínquo do portão do pátio, e saltando na cadeira quando a
+escada rangia sob a pressão de passos humanos. Bem podia cair um raio
+sobre a mesa, que André não repararia em tal!
+
+Às onze horas retirou-se este, cambaleando como um ébrio, posto só
+tivesse aceitado um cálice de cidra; e quando Rosa, à despedida, lhe
+tocou levemente nas pontas dos dedos, pareceu-lhe que o peito se lhe
+dilatava até ao infinito, e que dentro dele se abrigava o céu inteiro,
+límpido, azulado, transparente e todo povoado de pombas de cândida
+plumagem.
+
+Enquanto a Rosa, depois de André partir, fazendo um colar dos seus
+braços nevados ao papá Germinal, cobriu-lhe de beijos as faces
+enferrujadas, e gorjeou-lhe ternamente ao ouvido:
+
+«Muito obrigada, meu bom, meu querido, meu adorado papázinho!»
+
+E, feito isto, voou para o ninho.
+
+O senhor Germinal, vendo-se só, esfregou as mãos por tal forma, que
+ter-se-ia jurado estar ali um batalhão de marçanos raspando cones de
+açúcar. Depois suspirou, bateu na testa e deu algumas voltas pelo
+quarto, até que aferrolhou a porta, tapando o buraco da fechadura,
+fechou a janela e correu as cortinas. Tomadas estas precauções, arredou
+o leito, ajoelhou no sobrado, no mesmo lugar que ocupara a cama,
+levantou uma tábua, deixando a descoberto uma profunda escavação, meteu
+por ela o braço e exumou um volumoso rolo de papeis.
+
+Aqueles papeis amarelentos, ensebados, velhos e cheios de nódoas, tinham
+o selo do banco de França. Eram notas de mil francos.
+
+O senhor Germinal contou-os, recontou-os, espalhou-os, beijou-os, e
+depois, acamando-os num maço, contou-os ainda outra vez.
+
+Eram noventa e dois.
+
+O senhor Germinal não devia conservar dúvida alguma sobre o seu numero e
+valor, porquanto os verificava trezentas e sessenta e cinco vezes por ano.
+
+E quando as notas foram de novo recolhidas no esconderijo, e o leito
+restituído ao seu lugar, o senhor Germinal consultou o almanaque, e
+disse em voz baixa:
+
+«Onze anos, sete meses e dezassete dias... Daqui a quatro meses e meio,
+a minha Rosinha será feliz! E eu?... acrescentou ele estremecendo.»
+
+
+
+
+VII
+
+
+Voltou a primavera. Na da rua dos Mártires havia um jardim, separado do
+pátio por uma sebe de buxo; e esse jardim era dividido em vários
+talhões, de modo que cada locatário, mediante um pequeno aumento na
+renda, gozava de uma pequeníssima nesga de terreno, que podia cultivar a
+seu bel-prazer.
+
+André Sauvain não participava dessa regalia.
+
+Mas, quando as folhas, ainda franzidas, começavam a romper do seio dos
+rebentos, quando as aves ensaiavam já os seus gorjeios, e o ar
+amornecendo espalhava as nuvens sobre um fundo de pálido azul, o moço
+pintor visitou quotidianamente o jardim do seu vizinho Germinal.
+
+Havia quatro meses que, por uma série não interrompida de milagres,
+André se tornara indispensável ao misterioso velhote; contava-se com
+ele, agora, como com um génio do lar.
+
+O pintor não se saciava de admirar Rosa; enlevava-se na contemplação
+daquela flor animada, que também ia desabrochando ao calor da primavera.
+Uma manhã estavam eles sós no seu paraíso de doze pés quadrados; um raio
+de sol, escorregando à beira do telhado, cujas ardósias coloria de azul,
+deixara-se cair nos laços que lhe armavam os ramos das árvores e as
+novas vergônteas; debatia-se, o imprudente raio, no meio de um folhedo
+de verdura; e a brisa, segredando, mofava do seu desatino. Ouvia-se já o
+zumbido das abelhas, e delicados perfumes se exalavam das flores, que
+tinham aberto as suas corolas durante a noite.
+
+«Eu também, dizia André, possuo um jardim, um velho jardim, que povoam
+copadas árvores!... Rodeia a casa onde nasci; muitas vezes ali
+passeio... em sonhos. Se lá voltasse, parece-me que cada tronco
+estremeceria sob o seu invólucro de musgo, que o lagarto viria alegre
+mostrar-se à fenda do muro, que a aranha desceria da sua teia rendilhada
+para acorrer jubilosa, que a água do tanque se agitaria de contente, que
+a parreira enlaçaria os seus esteios carunchosos, e tudo ali me bradaria
+com voz comovida: «Bons dias, André! Sê bem vindo!... Pobre André! já
+não és a criança que nós encantávamos; já não tens as faces rosadas, a
+fronte límpida, a franca alegria, a gargalhada espontânea de então!
+Agora... és um homem! cresceste, lutaste, sofreste; os companheiros dos
+teus brinquedos já se esqueceram do teu nome; o camponês, que te trouxe
+às costas, passa e não te conhece. Mas nós, amigos humildes como somos,
+conhecemos-te ainda, André; deixaste entre nós a melhor parte das tuas
+recordações, e irás encontra-las lá em baixo, naquele banco carunchoso,
+onde tua mãe te embalava cantando.»
+
+Rosa escutava-o comovida, entrançando um ramo de pervincas.
+
+--Oh! continue, murmurou ela. Amo essa casinha e esse velho jardim.
+Quando me fala deles, os seus olhos impregnam-se de infinita doçura;
+dir-se-ia que reflectem, como a água límpida de um regato, a imagem
+daqueles companheiros da sua infância.
+
+--É porque, junto de si, querida menina, respondeu Sauvain, tudo o que
+na minha alma há de sagrado, me sobe aos lábios e aos olhos. Ah! se a
+esperança transparece neles tão claramente como as mágoas, dar-se-á
+acaso que não descobrisse ainda?...
+
+Não concluiu. Nunca tinha dito tanto!
+
+Rosa, sentindo bater o coração e com as faces em rubor, curvou a cabeça
+e esperou. Mas André não teve ânimo para continuar. O silencio apenas
+foi perturbado pelos trilos de uma toutinegra, que esvoaçava por
+cima dos dois jovens.
+
+--Fale-me do seu jardim? lhe tornou Rosa; conte-me o que ele lhe
+confiou, a última vez que o viu.
+
+O sorriso de André extinguiu-se, e a voz tornou-se-lhe mais triste.
+
+--Nesse dia, disse ele; o meu velho jardim estremecia sacudido por
+áspera brisa, e quando transpus a porta, as árvores desfolhadas e as
+folhas em redemoinho, só me enviaram um gemido, que acolhi com lágrimas...
+
+Rosa ficou pensativa e fitou no rosto de Sauvain as suas pupilas negras
+e inquietas.
+
+--Há doze anos que isto sucedeu, prosseguiu o pintor. Tinha eu então
+treze, e era aprendiz em casa de um escultor. Recebera da Normandia uma
+carta, que beijei; continha apenas estas palavras: «Estou muito doente,
+meu querido filho, e queria abraçar-te». Um quarto de hora depois,
+partia eu... a pé, por falta de dinheiro. Andei noite e dia, comendo o
+meu pão enquanto caminhava, matando a sede na água lodosa dos fossos da
+estrada, repelindo o sono, que me fechava as pálpebras... Cheguei enfim!
+A porta estava aberta... entrei chamando minha mãe... vi-a imóvel,
+branca como a cera, estendida sobre o leito em que eu nasci; ao lado
+dela, ardia uma tocha... Caí de joelhos no meio do quarto... sem
+gritos, sem lágrimas, sem ideias... Minha mãe estava morta!
+
+O pintor proferiu estas últimas palavras com a voz entrecortada pela
+comoção. Rosa pousou-lhe timidamente a mão sobre o ombro.
+
+--Enterraram-na, ao cair da noite, continuou ele... Quando tudo
+terminou, retomei o caminho de Paris, trazendo a chave de minha
+casa deserta... menos deserta que a minha alma!
+
+Rosa deixara cair o ramo; os anéis louros do seu cabelo escondiam-lhe os
+olhos.
+
+--Parece-se com sua mãe, André?
+
+--Não, Rosa; pareço-me com meu pai, um ousado marinheiro que pereceu num
+naufrágio, e que eu não cheguei a conhecer... A pobre viúva nada mais
+possuía, neste mundo, além do meu afecto: a sua existência decorrera
+triste e solitária; éramos pobres; foram-lhe necessários prodígios de
+dedicação para educar-me; chamava-me a sua alegria, o seu orgulho, a sua
+consolação... E eu tinha por ela um culto apaixonado; por ela jurara ser
+rico, respeitado, celebre... Minha mãe morreu!
+
+Rosa estava de pé, um pouco inclinada para o pintor. Este sentiu uma
+pérola líquida cair-lhe sobre a fronte.
+
+--Como eu a teria amado! suspirou a jovem.
+
+André pegou-lhe nas mãos, atraindo-a brandamente para si.
+
+--Minha mãe morreu! repetiu ele, e pensei por muito tempo que nada
+preencheria o horrível vácuo, que em mim causou a sua falta. Porém,
+Rosa, acredita-lo-á?... A par dessa indelével saudade insinuou-se,
+pouco a pouco, uma ternura não menos forte, ainda que de outra natureza.
+Ao princípio, era apenas um gérmen, um grão dourado que o acaso lançara
+no meu caminho, mas... o gérmen cresceu, o grão desenvolveu-se em
+planta, e a planta em frondosa floresta, cheia de canções, de murmúrios
+e de perfumes!...
+
+André sentiu tremer, entre as suas, as mãos de Rosa. Contudo... ela
+sorria através das lágrimas.
+
+--E, se as almas pudessem falar, sabe Rosa o que lhe diria a alma de
+minha mãe? Dir-lhe-ia: «Rosinha, também te amo muito... a ti, que me
+terias amado! Amo-te, porque és boa, inocente e piedosa; porque o teu
+espírito encantador tem mil delicadezas; porque me substituíste nos
+sonhos de meu filho; porque és a luz dos seus olhos, a flor da sua
+esperança, o enlevo da sua vida! Ama-o, Rosinha... peço-to eu! ama meu
+filho, que te ama tanto!»
+
+Rosa volveu para o pintor o seu olhar, radiante e cândido.
+
+--Mas, disse ela com simplicidade, eu amo-o!... Pois não o sabia, André?
+
+Sauvain empalideceu, e estreitou nos braços a donzela, cujas faces
+se encenderam em pudico rubor.
+
+Neste momento ouviu-se aquele, já mui conhecido, som de raspador, e à
+porta do jardim apareceu o senhor Germinal, mais frio, mais compassado,
+mais ferrugento do que nunca.
+
+--Muito bem! disse ele em tom levemente irónico, então quando é o
+casamento?
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Os dois namorados ficaram confusos, como colegiais surpreendidos a
+furtar maçãs.
+
+--Senhor, balbuciou André, não pense que... Juro-lhe, pela minha honra,
+que é a primeira vez que...
+
+--Meu caro vizinho, permita-me que lhe diga que é um parvo! interrompeu
+o senhor Germinal, que se assentou sossegadamente, e puxou para junto de
+si, ameaçando-a com o dedo, a linda Rosa, um tanto enleada.
+
+Quem, então, ficou de todo embatocado foi o pintor...
+
+Pois supõe, continuou o senhor Germinal, que iria eu próprio meter o
+lobo no aprisco, se não tivesse... cá o meu plano?
+
+--Será possível!... exclamou Sauvain
+
+--Tudo é possível, meu caro. E possível que, à força de deitar o nariz
+fora da janela, esta criança reparasse em certo vizinho; é possível que
+o pai, vendo-a pensativa, procurasse descobrir o que a preocupava; é
+possível que, adivinhando ele o que de ordinário atormenta uma rapariga
+de dezassete anos, a seguisse à dita janela e aventurasse um olhar por
+cima do ombro da filha; é possível enfim, que, por entender que ao longe
+se vê mal, aproximasse os dois curiosos para se verem de perto.
+
+André lançara-se de joelhos na areia do jardim: com uma das suas mãos
+apertava a dextra escabrosa do senhor Germinal, com a outra levava aos
+lábios a alva mão da donzela.
+
+--Rosa!... minha Rosinha! anjo querido! sonho dourado da minha vida!
+repita diante de seu pai aquelas palavras, que há pouco me iluminaram o
+coração!
+
+--Amo-o; André! disse ela ingenuamente e sem hesitar.
+
+--Não se morre de alegria!... exclamou o enamorado moço.
+
+--E o senhor... meu bom amigo... meu pai... dá-ma?
+
+--Ela ama-o, André! respondeu o senhor Germinal, arremedando Rosa. Mas
+levante-se daí, vizinho! há mais janelas e mais inquilinos, no prédio!
+
+André obedeceu: nos seus olhos ardiam fogos de artifício, o coração
+tocava-lhe a rebate, e no cérebro sentia ressoar uma banda regimental.
+
+--Escute-me, disse o velho.
+
+--Sou todo ouvidos!...
+
+--Não se vive só de ar: não lhe parece?
+
+--É verdade, infelizmente!...
+
+--Bem. E que trará o senhor para a comunidade conjugal?
+
+André mordeu o bigode, e consultou as nuvens, como se elas estivessem
+encarregadas de trazer-lhe barras de oiro e se houvessem demorado no
+caminho.
+
+--Trarei, respondeu enfim, o meu amor, a minha coragem, a minha
+perseverança e... a minha fé no futuro.
+
+--Muito bem, disse o senhor Germinal. E tu Rosa, que levarás em dote a
+teu marido?
+
+--A felicidade, respondeu ela simplesmente, mas com profunda convicção.
+
+--Muito bem, repetiu o velho. Pois, meus filhos, possuís exactamente o
+mesmo capital, que eu possuía quando casei.
+
+--E foi feliz, afirmou Rosa.
+
+--Feliz!... redarguiu ele com amargura; feliz, como o ladrão, que se
+apressa a dissipar o que roubou, pensando incessantemente nas galés que
+o esperam!... feliz, como o condenado à morte, que afoga a razão numa
+orgia efémera, e que despertará no cadafalso!... Não sabe, André, quanto
+custa ver a mulher que adoramos, uma criatura delicada a quem
+desejaríamos entretecer um ninho com todas as maravilhas do universo,
+estragando a vista num trabalho ingrato para poder comprar um miserável
+vestido de chita!... sorrir forçadamente para nos esconder as pálpebras
+avermelhadas pela vigília!... definhar-se; a fogo lento, à mingua de um
+pouco de supérfluo!... E tu ignoras também, minha pobre Rosa, o que é
+ver entrar à noite um homem desanimado, abatido, prostrado pelo excesso
+de um trabalho mecânico, humilhado por superiores insolentes,
+escarnecido por subalternos mais bem trajados do que ele, consentindo,
+para poder ganhar um salário irrisório, em calcar aos pés a sua
+inteligência e a sua dignidade!... Tu não sabes, repito, o que é
+sentir-se uma pessoa esmagada por esta luta com a pobreza, prever
+próxima a morte, e inclinar-se de noite sobre um berço, murmurando: «Que
+será desta criança, quando eu lhe faltar?»
+
+Rosa e André achegaram-se um ao outro, trocando olhares altivos, que
+desafiavam a adversidade.
+
+--Ignoram tudo isto, prosseguiu o senhor Germinal; porém eu, que o sei
+por experiência própria, jurei sobre o túmulo de minha mulher, morta de
+miséria, vítima de privações de toda a espécie!... que nunca daria minha
+filha a um homem pobre.
+
+André levantou-se, pálido e com as feições transtornadas.
+
+--A não ser que ela tenha um dote razoável... concluiu o velho.
+
+Os dois jovens ficaram aterrados.
+
+--Oh, meu pai!... meu pai!... exclamou Rosa, quase irrompendo em pranto.
+
+--Senhor! bradou André, trémulo de indignação, se o que diz é um
+gracejo... é bem cruel!
+
+Papá Germinal esfregou as mãos, produzindo desta vez o ruído de um
+raspador colossal.
+
+--Senhor Sauvain, a quantos estamos do mês?
+
+--Oh!... o senhor está abusando...
+
+--Responda-me por favor: quantos são hoje?
+
+--Não sei!... 8 de maio, creio eu.
+
+--Pois bem, senhor Sauvain; hoje mesmo, 8 de maio de 1854, minha filha
+possui um dote.
+
+--Um dote?... eu! exclamou Rosa, incrédula.
+
+--Isso pouco me importa, disse André, o essencial para mim...
+
+--Pelo contrario, deve importar-lhe muito; sem dote, não consentiria eu
+que casasse com minha filha. Dou-lha... com noventa e dois mil francos.
+
+Desta feita, o susto sufocou Rosa e André. Pareceu-lhes palpável que o
+senhor Germinal trilhava o caminho que conduz a Charenton[2].
+
+Mas o velho, sempre sério, tirou convulsivamente do bolso um grande maço
+de notas de banco, folheou-o perante os olhares atónitos dos dois
+namorados, e repetiu, acentuando cada silaba: «Noventa e dois mil
+francos!» Tome lá, meu genro!
+
+
+
+
+IX
+
+
+Sauvain abriu desmesuradamente os olhos. Tantos valores nas mãos do
+senhor Germinal, cuja miséria igualava a de Job!... O caso era de
+natureza a inspirar suposições extravagantes: até Rosa se inquietou.
+
+--Como assim, meu pai! disse ela, tudo isso lhe pertence?
+
+--Pertence-te a ti; pois que to dou.
+
+--E de onde lhe veio tanta riqueza?
+
+A fronte do velho enrugou-se; até aquele momento desenvolvera insólito
+desembaraço, mas a esta pergunta de sua filha, reapareceram o seu
+constrangimento anterior, o seu balbuciar e timidez habituais.
+
+--De onde me veio este dinheiro!... retorquiu ele; queres sabe-lo?
+
+--Certamente!...
+
+--Das minhas economias.
+
+--Economias!... quando cem vezes nos tem faltado o necessário!... quando
+não era raro ignorarmos na véspera se jantaríamos no dia seguinte!
+
+--Minha filha, é bom sofrer no presente para assegurar o futuro.
+
+--Economias!... quando o pai, estando doente, ia morrendo por falta de
+remédios e de dinheiro para os comprar!
+
+--Sou avarento!... balbuciou o senhor Germinal, evidentemente constrangido.
+
+--Talvez... Mas explique-me por favor, meu pai, como pôde poupar perto
+de cem mil francos, dos seus seiscentos francos de ordenado?
+
+--Há muito tempo que comecei, disse o velho enxugando o crânio; os
+pequenos regatos tornam-se em rios, os soldos transformam-se em francos,
+e os francos em notas do banco.
+
+--Para isso mesmo era necessário recorrer ao cambista, e há doze anos
+que meu pai não põe os pés fora de casa!
+
+--Estás importuna!... articulou o senhor Germinal, que, de amarelo cor
+de palha, passou ao amarelo do enxofre; além de que... há mais de doze
+anos que tive uma herança...
+
+--Agora diz que o herdou!...
+
+--Foi ainda em vida de sua mulher? perguntou André secamente.
+
+--Ao que parece...
+
+--Entretanto, senhor, acaba de confiar-nos que a mãe de Rosa morreu à
+míngua do necessário!...
+
+--Vão para o diabo! bradou o senhor Germinal. Dar-se-á acaso que me
+tomem por um ladrão?
+
+--Meu pai!...
+
+--Vizinho!...
+
+--Minha filha... Meu amigo... Não querem o meu dinheiro, não é assim?
+julgam-no de origem impura? Pois não o queiram. Reembolso-o, e... basta
+de amor... nada de casamento! Voltemos para nossas casas, e não falemos
+mais em tal!
+
+--Senhor, exclamou André, afiance-nos ao menos que existe um motivo
+grave que o obriga a ocultar a origem da sua riqueza!...
+
+--Nada mais desejam?... Pois bem; é verdade, com a breca! Tenho um
+motivo grave... gravíssimo! tenho dez... tenho cem... tenho mil!
+
+O senhor Germinal estava extremamente agitado.
+
+--Porém, continuou André, como o consideramos um dos homens mais
+honrados deste mundo...
+
+--Não carecemos saber mais nada, concluiu Rosa.
+
+--Ora... ainda bem! Graças a Deus! exclamou o velho, respirando mais
+livremente.
+
+E, enlaçando Rosa nos seus braços, envolveu-a num olhar cheio de
+ternura, e beijou-a na testa.
+
+--Criança má!... murmurou ele, estás com muita pressa de abandonar o
+teu velho pai?... Porque não esperas cinco ou seis anos?
+
+--E quinze, porque não? resmoneou André.
+
+--Nós não te deixaremos, papá!
+
+O senhor Germinal abanou a cabeça.
+
+--É o mesmo, acrescentou ele, foi uma grande tolice enamorares-te deste
+arganaz desengonçado!
+
+--Obrigadíssimo pelo elogio, disse o pintor.
+
+--E, a final de contas, se não casasses com ele... nem por isso adoecerias!
+
+--Perdão, meu pai, respondeu Rosa resolutamente, morreria!
+
+--Está bom! basta! interrompeu o velho assustado; já mo disseste... E
+foi mister essa ameaça, continuou ele entre dentes, para me resolver...
+
+Não disse mais, soltou um suspiro, apalpou as notas do banco através do
+usado pano da sobre-casaca, e passados poucos segundos exclamou de súbito:
+
+--Vamos! abracem-se diante de mim!
+
+O pintor não se fez rogar, e as faces de Rosa tingiram-se de vivas cores.
+
+--E trabalhe cada um por sua parte, prosseguiu o senhor Germinal. A
+riqueza de minha filha não deve impedi-lo de dar ao pincel, senhor Sauvain.
+
+--Antes duplicará as minhas forças, lhe tornou André; quero ganhar um
+dote igual ao de Rosa, e... ganhá-lo-hei!
+
+--Então vá para o seu _atelier_, e volte depois para jantar connosco. À
+sobremesa fixaremos... sim, talvez possamos fixar o dia da cerimonia!
+
+Quando acabou de proferir estas palavras, que visivelmente lhe custaram
+a soltar dos lábios, ouviu-se no pátio o rumor de uma violenta altercação.
+
+Duas vozes masculinas, uma das quais era a da senhora Poussignol,
+discutiam calorosamente:
+
+--Mas aonde vai o senhor?... uivava a barbuda porteira.
+
+--A casa de um dos seus inquilinos, já lho disse, com mil demónios!
+respondeu um baixo profundo, de timbre metálico e pronúncia meridional.
+
+--Qual inquilino?
+
+--De certo o menos tolo.
+
+--Isso não basta... Como se chama ele?
+
+--Não sei.
+
+--Ora essa!...
+
+O senhor Germinal, ao ouvir o som de um órgão humano, mudara de semblante.
+
+--Quem está aí? perguntou ele, quem é esse homem?... que quer?...
+Vamo-nos embora, não digam que estou em casa!
+
+Os olhos rolavam-lhe assustados nas órbitas; os membros tremiam-lhe, os
+queixos batiam um no outro a seu pesar.
+
+--Mas, disse Rosa, não pode ser para nós, meu pai; não conhecemos pessoa
+alguma!...
+
+--Vamo-nos... vamo-nos embora! repetia o velho.
+
+--Que tem ele?... perguntou o pintor em voz baixa.
+
+--Sempre esta doença nervosa! respondeu a jovem. A presença de um
+desconhecido transtorna-o completamente! Veja quem é, meu amigo... e
+sossegue-o.
+
+André subiu a um banco, e olhou por cima da sebe. Viu a senhora
+Poussignol, calando baioneta com a vassoura, diante de um individuo de
+pequena estatura, largo de ombros, e de pernas arqueadas.
+
+--Vamos! Rua! vociferava a digna mulher; falhou-lhe o plano; para cá vem
+_barrado_, freguês! Safe-se quanto antes, quando não grito «ó da guarda!»
+
+--Não faça tanta bulha, tiasinha, cale-se aí!... Com mil amarras!... Por
+quem me toma, você?
+
+--Por um velho larápio, que tratava de se encaixar cá em casa! Ah, seu
+grande velhaco! julgava que o não viam, quando passou diante da minha loja?
+
+Uma gargalhada sonora acolheu a conjectura da porteira, e o desconhecido
+fez uma pirueta, apertando as ilhargas. Resultou deste movimento
+achar-se em frente de André, cujo rosto admirado aparecia por cima da
+sebe de buxo.
+
+--Ah, ah! exclamou ele; eis o meu homem! E, caminhando direito ao
+pintor, estendeu-lhe a mão, gritando:
+
+--Como passa, querido amigo, cujo nome ignoro! Estou encantado pelo
+encontrar!
+
+Depois, vendo o senhor Germinal e sua filha, tirou o chapéu e
+cumprimentou-os com galantaria.
+
+--Desculpe-me, senhor; peço mil perdões, menina, se os interrompo na sua
+conversação... São apenas duas palavras que tenho a dizer ao meu jovem
+amigo. Permitam-me que lho roube por um segundo...
+
+--Perdão, senhor, disse André, estupefacto; a quem tenho a honra de falar?
+
+--Que diabo!... pois não me reconhece?
+
+--Confesso que não.
+
+--Ora olhe bem para mim, com a breca!
+
+André olhou. A sua verificação deu em resultado: uma cabeça calva, um
+nariz cor de violeta, uma comprida barba de duas pontas, um casaco
+sórdido, umas botas acalcanhadas, e um chapéu pardo. Tudo isto,
+iluminado por dois olhos buliçosos, brilhantes e cheios de malícia,
+despertou-lhe pouco a pouco a memoria...
+
+--Então não se recorda? perguntou o recém-chegado.
+
+--Ora espere!...
+
+--Em 24 de Dezembro, à noite... na véspera de Natal...
+
+--Ah!... sim!...
+
+--Defronte da vidraça...
+
+--De uma casa de pasto, concluiu o pintor. Estou às suas ordens, meu bravo!
+
+Durante este tempo, o senhor Germinal, convencido de que o objecto da
+visita lhe não dizia respeito, voltara a si do seu estranho pavor.
+Esfregava lentamente as mãos, soprando como uma baleia ferida. Rosa
+contemplava Pedro Toucard.
+
+--É um novo conhecimento, disse-lhe baixinho André, sorrindo-se; esta
+noite lhe contarei como o adquiri.
+
+E despediu-se do pai e da filha.
+
+--Senhor... Menina... disse Pedro Toucard, saudando os dois, tenho a
+honra de apresentar-lhes os meus respeitos... Linda criatura, com mil
+amarras! observou ele a André, seguindo-o; e o pai parece bom homem...
+
+
+
+
+X
+
+
+Às vessas de certo romano, que desejava que os seus compatriotas
+tivessem todos uma só cabeça, para lha cortar de um golpe, André Sauvain
+desejara, nesse momento, que o género humano tivesse um só peito, para
+poder estreita-lo amigavelmente nos braços.
+
+Portanto, fez boa cara e bom acolhimento àquele indigente desconhecido,
+cuja companhia teria apreciado mediocremente noutra ocasião.
+
+--Irra!... mancebo, disse-lhe o provençal enquanto atravessavam o pátio,
+pode gabar-se de me ter dado que fazer! Há quatro meses que corro Seca e
+Meca por sua causa.
+
+--Como assim!... Julgava ter-lhe dito onde morava?
+
+--Nem o nome, nem a morada... No momento em que lhe perguntava uma e
+outra coisa, zás! partiu como uma bala!
+
+--Sim, recordo-me... Uma pessoa a quem desejava falar...
+
+--Farsista!... A verdade é que lhe desagradava o papel de meu credor, e
+queria tacitamente dar por saldada a minha dívida.
+
+--Ora... uma bagatela!
+
+--Uma bagatela, que me impediu de morrer de fome. Felizmente vi-o ontem
+à noite; reconheci-o à luz de um bico de gás, quando atravessava para a
+rua dos Mártires; movia-se como uma locomotiva! Corri atrás de si, mas
+as minhas pernas já não são setas, e cheguei justamente a tempo de
+receber com a sua porta na cara. Não eram horas para visitas. Tomei o
+numero da casa, e eis-me aqui!
+
+--Seja bem vindo, disse Sauvain, introduzindo-o no _atelier_.
+
+Pedro Toucard entrou, com o chapéu à banda, bamboleando-se e retorcendo
+com afã uma das pontas da sua barba grisalha. Começou reembolsando o
+pintor da módica soma que lhe devia; e depois, sentindo-se mais à
+vontade. instalou-se como se estivera em sua casa, e tornou-se de uma
+familiaridade cada vez maior.
+
+Num volver de olhos, inventariou a mobília e permitiu-se fazer um
+trejeito de capitalista extraviado num casebre. Em seguida passou a
+examinar vários esboços; fez careta a uns, e sorriu para outros com
+ar aprovador. Depois, voltou muitas telas encostadas à parede, e
+descobriu sucessivamente uma, duas, três, quatro cabeças de mulher...
+sempre a mesma, com olhos negros e cabelos louros.
+
+--Bravo! exclamou ele.
+
+--Que temos? interrogou André descontente.
+
+--A virgem do jardim! Sim, senhor!... Não é digno de dó, meu amigo...
+porque naturalmente é correspondido!
+
+--Senhor, disse o pintor, um pouco irritado pela demasiada
+sem-cerimónia, estou com pressa; tenho um negócio urgente, e se lhe não
+sou já preciso...
+
+--Não vale zangar!... replicou Pedro Toucard. O senhor agrada-me, com
+mil bombardas! e é por isso que me interesso no que lhe diz respeito.
+Além de que, fui sempre curioso, tagarela e indiscreto... Ninguém se
+corrige nesta idade, com todos os diabos!
+
+--Tanto pior! observou-lhe André.
+
+--Pelo contrário, tanto melhor! Tenho apego aos meus defeitos; estou
+habituado a eles, há sessenta anos, e ser-me-ia penoso deixa-los.
+
+André sorriu-se; e o velho, vendo isto, foi buscar uma cadeira.
+
+--Quer que lhe conte a minha historia? perguntou ele.
+
+--Para quê?
+
+--Ora essa!... para que me conheça bem. Embora por sorte mofina me veja
+reduzido a um ente miserável, velho e pobre, sou com tudo um patusco
+aproveitável; posso servir para alguma coisa... principalmente a quem me
+prestou serviços. À falta de dinheiro, tenho ideias: a felicidade de um
+homem depende, algumas vezes, do maltrapilho que lhe pediu esmola.
+
+--Pelo que toca à minha felicidade, lhe tornou André, outra pessoa se
+encarregou dela. É negócio concluído. Porém... não lhe agradeço menos a
+boa intenção, meu bravo!
+
+--Vejam lá como são os rapazes! Este julga-se completamente feliz,
+porque vai desposar a sua bela das tranças doiradas!
+
+--Como o sabe?
+
+--Que grande mistério! Qualquer caraíba o teria adivinhado, só de os ver
+ao lado um do outro. E os quatro retratos dela? Aposto que foram feitos
+de memória!... Mas, meu caro... a felicidade não consiste só numa
+afeição, aguda ou crónica; a felicidade, não obstante o que têm dito os
+trovadores, prefere tectos doirados a barrotes... assim!
+
+E Pedro Toucard designava o tecto, que aranhas centenárias haviam ornado
+com bambinelas de seu lavor.
+
+--Dar-se-á acaso que o senhor tenha a veleidade de doirar os meus?
+perguntou André, rindo.
+
+--Presentemente não, respondeu o provençal, contemplando
+melancolicamente as suas velhas botas esburacadas. Falta-me o metal
+necessário... Agora estou muito em baixo!... Mas tenho diante de mim o
+futuro; ainda hei de _trepar_, creia! É a minha sina! E, quem sabe?...
+talvez que eu algum dia lhe compre quadros.
+
+André contemplou com admiração aquele sexagenário, falando do futuro, na
+idade em que geralmente só se pensa no repouso.
+
+--Nada o faz desanimar! disse o pintor.
+
+--E tenho boas razões para isso. Repito a pergunta: Quer que o inicie na
+minha historia?
+
+--Venha ela!
+
+O velho exumou da algibeira um cachimbo, curto e enegrecido, e logo em
+seguida um cartucho de papel, contendo um resto de tabaco.
+
+--Pode a gente fumar em sua casa?
+
+--De certo!
+
+Pedro Toucard acendeu o seu queima-goelas, po-lo ao canto da boca,
+escarranchou-se numa cadeira, torceu em cada mão uma das pontas da sua
+longa barba, e contou por miúdo o que nós vamos contar... por grosso.
+
+
+
+
+XI
+
+
+Pedro viera ao mundo sob a influência de uma estrela buliçosa, e trouxe
+a bossa da especulação. Em pequeno, o pensamento de ser rico meteu-lhe o
+diabo no corpo; e o sobredito diabo nunca mais de lá saiu. Foi este que
+obrigou Pedro, ainda criança, a trocar umas vacas, de que lhe haviam
+confiado a guarda, por um pesado fardo de bufarinheiro. Havia ali, na
+sua opinião, o gérmen de uma casa de comércio. Mas Pedro foi agarrado;
+Pedro levou uma boa surra de pancadas; e Pedro... recomeçou as suas
+operações em mais larga escala.
+
+Dentro em pouco, o seu furor pelo negócio, a necessidade de agitação, o
+seu carácter irrequieto e extravagante, tornaram-no um ente
+insuportável. Seu pai, humilde lavrador, que nada percebia de indústria,
+pediu-lhe que escolhesse uma carreira e partisse quanto antes. Pedro
+quis ser marujo. Aos doze anos embarcou como grumete, com a cabeça
+recheada de projectos, de cálculos e de empresas futuras. Levava consigo
+um pacote de peões, de bolas, de fitas e de missangas, que obtivera
+barato dos seus camaradas, e que contava impingir muito caro aos
+rapazotes negros, ou peles-vermelhas, que encontrasse na viagem.
+
+Com a ajuda das chicotadas, Pedro depressa se fartou da sua profissão.
+Na primeira paragem do navio, desertou sem dizer «água vai». Não tinha
+as pernas muito compridas, mas a ambição forneceu-lhe botas de sete
+léguas, e lançou-se a galope atrás da fortuna.
+
+Desde então, a sua vida não foi mais do que uma carreira desenfreada. Só
+à sua parte, viajou mais do que dez Judeus errantes e vinte ingleses
+spleenaticos. A terra e o oceano pareceram-lhe pouco; esperava encontrar
+maiores extensões. Contudo empregou em percorre-los todos os meios de
+locomoção conhecidos, e inventou alguns novos. Vagueou durante cinco
+anos a pé, a cavalo, em burro, em dromedário, em piroga, em paquete, a
+nado, em diligência, pela posta, em patacho... traficando, vendendo,
+comprando, trocando, especulando em trigo, em vinho, em peliças, em
+azeite, em peles de castor, em negros e negras, etc. Engraxa-botas em S.
+Francisco, mercador de estofos em Esmirna, banqueiro em Génova,
+expositor em Londres, mestre de dança em S. Petersburgo, caçador em
+Arkansas, vendedor de ópio em Cantão, fotografo em Madrid, livreiro em
+Leipziek, e... um tanto corsário por toda a parte, exerceu cem
+profissões, pela maior parte honestas, e outras... um pouco menos.
+
+Dez vezes alcançou a cega deusa e a deixou fugir: chegou a possuir cem
+mil escudos, que um desastre reduziu a quinhentos francos, os quais
+depois se tornaram em duzentas mil libras, para mais tarde recaírem em
+zero... E sempre assim, durante meio século!
+
+O acaso, que tomara por bússola, brincava com este homem, como um
+colegial com uma pela, lançando-a a grande altura, ou mergulhando-a no
+fundo de um poço. Porém ele comprazia-se no meio destas alternativas,
+que lhe proporcionavam uma febre perpetua de inteligência. Tão ardente
+no prazer, como tenaz no lucro, levava uma existência faustosa nos seus
+dias felizes; dava festas gigantescas, semeava oiro às mãos cheias, e
+saciava-se de todas as sensualidades. Mudava a sorte, vivia de uma côdea
+de pão e de um cachimbo de tabaco, não se importando de servir de criado
+àqueles mesmos que recebera à sua mesa.
+
+Desconhecia preconceitos e falsas vergonhas: respirava só pelas comoções
+corrosivas da perda e do ganho.
+
+Entretanto fixara um limite à sua futura riqueza, e dissera consigo:
+«Não irás além!» Queria dois milhões. Por varias vezes conseguiu o seu
+fim; mas... vinha um incêndio, uma falência, uma revolução, um
+cataclismo qualquer, que tudo absorvia. Acontecera-lhe um dia seguir uma
+caravana, carregada por ele de perfumes, marfim, ébano e pedras
+preciosas. Pelo caminho calculou os lucros prováveis dessas mercadorias,
+e como achasse o seu ideal muito excedido, jurou que seria aquela a sua
+última tentativa. Eis senão quando, uma nuvem de salteadores árabes
+ataca a caravana e rouba-a, deixando Pedro quase morto no meio dos seus
+servos estrangulados. E Pedro, sempre filósofo, recomeçara pacientemente
+a sua teia despedaçada.
+
+Assim rolando, de quedas em triunfos, e de vitórias em derrotas, sentiu
+chegar os sessenta anos; e, como aventureiro já saciado de fadigas,
+opulento à medida dos seus desejos, singrava enfim para as terras da
+pátria. Porém a tempestade arrojara o navio sobre a costa; dispersara os
+seus marinheiros e aniquilara a carregação, arruinando Pedro pela décima
+ou duodécima vez.
+
+Um brigue estrangeiro recolheu-o das ondas, meio-morto, atado a uma
+tábua, louco de sede e de dor, fantasiando ainda no seu delírio uma
+sociedade colossal de comercio, que imaginava ter fundado. Apenas pôde
+sair do hospital, para onde o tinham transportado, a braços com um
+tétano, dirigiu-se para Paris. Foi lá que André Sauvain o encontrou
+andrajoso e faminto.
+
+--E, desde esse dia, que mais empreendeu? perguntou o pintor, que
+escutara esta narrativa com crescente interesse.
+
+--Um pouco de tudo, respondeu Pedro Toucard. Com o que me restava do seu
+dinheiro, comprei fósforos e revendi-os, apanhei pontas de charutos,
+serrei madeira, abri as portinholas das carruagens, fui moço de recados,
+escritor público, contratador de bilhetes de teatro, professor de
+esgrima, dei serventia a pedreiros, etc.; enfim, tal como me vê, possuo
+já alguns centos de francos, que me produzirão avultados lucros. Vou
+alugar uma tenda; venderei seja o que for... seja a quem for: e, quando
+tiver mil francos de meu, visto-me de novo e vou jogar na Bolsa.
+
+--Com que fundos?
+
+--Com os da minha inteligência, respondeu Pedro Toucard, batendo na
+testa com gesto inspirado. Que grande habilidade jogar com capitais!...
+Com a breca!... se me emprestassem agora cinquenta mil francos, num mês
+teria ganho o quádruplo!
+
+--Ou ficaria sem nada...
+
+--Qual história! só os tolos é que se enterram, e eu tenho olho vivo...
+Aposto que ainda me verá milionário!
+
+--Irra! disse Sauvain maravilhado daquela rara audácia, já é ter
+confiança em si!
+
+--Porque tenho sorte... e ideias, replicou Pedro Toucard. Sou o amante
+preferido da fortuna: abandona-me às vezes, mas volta sempre para junto
+de mim... As ideias vêm-me, como aos outros o ar que respiram; uma
+palavra proferida pelo primeiro transeunte, o latido de um cão, uma
+tabuleta, a forma de uma nuvem, a musica de um realejo, tudo me gera uma
+ideia... Eis porque eu tenho confiança!...
+
+Assim falando, o provençal enchera o cachimbo; e como o seu cartucho de
+tabaco ficara vazio, desenrolou-o maquinalmente, e alisou-o sobre o joelho.
+
+--Olhe! acrescentou ele, mostrando o papel; quando me acho em embaraços,
+leio um anuncio, abro um jornal, ou o primeiro impresso que se me
+depara... este, por exemplo, e zás! uma ideia me...
+
+Interrompeu-se de súbito, e o seu olhar ficou fixo no pedaço de papel,
+que lhe estava servindo para demonstração...
+
+--Com mil amarras! exclamou ele, com voz tonante e erguendo-se de chofre.
+
+--Que foi?... interrogou o pintor, erguendo-se também. O velho fez-se
+amarelo, logo carmesim, depois branco como um sudário, e por fim agarrou
+no pulso de Sauvain, e apertando-lho com força, balbuciou:
+
+--Que numero é o desta casa?
+
+--Oitenta e sete.
+
+--Rua dos Mártires?
+
+--Sem dúvida.
+
+--Há cá alguém que se chame Germinal?
+
+--Há, sem dúvida!... respondeu André estupefacto.
+
+--Aonde mora?
+
+--Aqui... ao lado... Era com ele que eu conversava há pouco!...
+
+--Com mil raios! bradou Pedro.
+
+E, num salto de jaguar, atravessou o _atelier_, abriu a porta, correu
+para o pátio, e chegou ao jardim, seguido do pintor, ofegante e
+desnorteado.
+
+Rosa e seu pai conservavam-se ainda sentados no mesmo lugar.
+
+--É o senhor Germinal a quem tenho a honra de falar? perguntou Pedro
+Toucard.
+
+O senhor Germinal, sufocado por esta pergunta à queima-roupa, respondeu
+apenas com o seu eterno raspadouro.
+
+--Sim senhor, disse Rosa.
+
+--Muito bem!... continuou o provençal, pois eu chamo-me Pedro Toucard e
+sou...
+
+Não teve tempo de dizer mais. O pobre senhor Germinal soltou um grito
+abafado, a ferrugem da sua pele transformou-se em verdete, agitou o ar
+com os braços, e caiu pesadamente sobre o banco.
+
+--Meu pai!... exclamou Rosa assustada.
+
+--Que aconteceu? perguntou Sauvain na maior. ansiedade.
+
+--Aconteceu... que tudo está desfeito, articulou o velho com voz
+estrangulada; casamento, amor, futuro... foi tudo um sonho!
+Separem-se... pois nunca serão um do outro. Depois, dirigindo-se
+bruscamente a Pedro Toucard, que o observava com impaciente curiosidade,
+disse-lhe:
+
+--Siga-me, senhor. E afastou-se, mal podendo suster-se nas pernas,
+seguido pelo provençal, não menos agitado do que ele.
+
+Rosa e André entreolharam-se com terror: dir-se-ia que caíra um raio ao
+pé deles. Por um movimento espontâneo, a jovem refugiou-se nos braços do
+seu amado André.
+
+--Separar-nos!... murmurou ela.
+
+--Quem o ousaria!... rugiu, o pintor.
+
+--Mas... que significa isto, meu Deus?! André, no auge da desesperação,
+meteu loucamente os dedos pelos cabelos banhados em suor... depois,
+abatido, deixou pender a cabeça sobre o peito. Nesse instante, descobriu
+por terra o pedaço de papel, que ocasionara esta peripécia. Levantou-o.
+
+Era um pedaço de jornal, em que se distinguiam ainda alguns fragmentos
+de anúncios.
+
+O pintor leu o que se segue:
+
+«Aos herdeiros ou parentes do senhor Onésimo Toucard, falecido em 8 de
+maio de 1872, roga-se com instância, para seu interesse, que se dirijam
+a M. Germinal, rua dos Mártires, n. 87.»
+
+
+
+
+XII
+
+
+É indispensável agora, para clareza desta narrativa, que volvamos alguns
+anos atrás.
+
+Em 1842, num esplêndido domingo de primavera, o senhor Germinal, então
+empregado numa repartição publica, dirigiu-se para o caminho de ferro da
+margem esquerda, e subiu para o comboio com alegria, difícil de descrever.
+
+Durante toda a semana, o senhor Germinal consultara o barómetro; através
+da espessa névoa, que embaciava os vidros das janelas, interrogara cem
+vezes o aspecto do firmamento; cem vezes os seus companheiros de
+trabalho o haviam surpreendido a olhar fixo para o céu; cem vezes
+perpetrara erros nas contas; cem vezes, enfim, esboçara na mesa, com a
+ponta da raspadeira, árvores, campanários, carneiros e choupanas. Tantas
+distracções num empregado-modelo, atraiçoavam algum projecto,
+amorosamente acalentado; e, se bem que o senhor Germinal fosse
+taciturno e pouco comunicativo, todos sabiam qual era esse projecto: ia
+no próximo domingo a Viroflay.
+
+Nesta época, o senhor Germinal roçava pelos seus quarenta e sete anos, e
+havia vinte e cinco que vinha, trezentas vezes por ano, assentar-se à
+mesma hora, na mesma cadeira, à mesma secretária, com as mesmas mangas
+de lustrina, em frente dos mesmos indivíduos, e recebendo o mesmo
+ordenado, cujo quantitativo era de cento e trinta e três francos e
+trinta e três cêntimos.
+
+O senhor Germinal passava, e com razão, entre os seus chefes e colegas,
+por um homem de medíocre inteligência, mas trabalhador assíduo, de
+inteira probidade e inflexível honradez. As suas ideias, somadas,
+ofereceriam por certo um diminuto total, mas eram rectas, firmes e
+alinhadas, como uma tábua de Pitágoras. Quando à noite se deitava,
+exausto de fadiga, com os dedos inteiriçados de segurar a pena, e o
+espírito baralhado de algarismos, não pensava sequer em meter-se nas
+questões sublimes da politica, religião, moral ou filosofia, que fazem
+divagar nas alturas o pensamento dos que nada têm que fazer.
+Limitavam-se os seus esforços de imaginação à saudade de sua falecida
+mulher, a um impulso de ternura por sua filha, e a um plano de trabalho
+no dia seguinte; depois, o sono envolvia-o nas suas pesadas dobras e
+levava-o ao mundo do esquecimento. Nunca um fermento de inveja, nem uma
+dessas veleidades maldosas, que mancham a consciência, o agitava sequer
+por um segundo; adormecia puro e acordava inocente.
+
+Aquela existência de ostra pegada ao rochedo, fará compreender o
+extraordinário alvoroço, que sentia o senhor Germinal com a perspectiva
+de uma digressão, por mais curta que fosse. Entretanto, era por ele
+classificado em segundo lugar o gozo material, que o esperava,
+respirando o ar puro do campo e dilatando a vista pelas colinas
+vicejantes; o que mais o deleitava era o prazer próximo de beijar sua
+filha, que tinha então cinco anos, e de apreciar, por intuição própria,
+os progressos que ela fizera em saúde, estatura e vigor, durante os
+dezoito meses, em que deixara de a ver.
+
+O senhor Germinal aproveitara dois dias de feriado, na Páscoa, para
+desposar uma rapariga... um pouco mais pobre do que ele. Era de natureza
+humilde e tímida, como a dele, mas delicada, fraca e demasiado franzina
+para resistir ao sopro gelado da miséria. Morreu de parto, deixando-lhe
+uma filha, com as suas feições, e a quem o empregado pôs o nome de Rosa,
+em memoria dela.
+
+A criança era débil; a sua vida parecia depender de um sopro. O senhor
+Germinal procurou e descobriu uma camponesa de Viroflay, moça e robusta,
+que levou a pequerrucha banhada das lágrimas de seu pai, e prometeu
+restituir-lha, dentro em pouco, esperta, robusta e traquinas. E com
+efeito, cumpriu tão bem a sua palavra, que o senhor Germinal, achando-a
+de dia para dia mais rechonchuda e chilreadora, resolveu deixá-la mais
+tempo em casa da ama, e mesmo vê-la só de longe em longe, porque a
+despesa das viagens abria sensível brecha no seu modesto orçamento.
+
+Eis o motivo porque, no dia a que nos referimos, o senhor Germinal se
+sentia ligeiro como um pássaro. Entreabria-lhe os lábios, cor de
+ferrugem, um franco sorriso (sorria ainda nessa época...) e o ruído de
+raspador, produzido pelo esfregar das suas mãos, confundia-se com os
+silvos da locomotiva. O vento incomodava os seus companheiros de viagem;
+ele porém acolhia-o com delicias, pensando que aquela mesma brisa teria
+talvez acariciado os faces de sua filha. Bem que o comboio deslizasse
+veloz sobre os seus cordões de ferro, acusava-o de lentidão, e vinte
+vezes olhou para fora, desconfiado de que o horizonte, por pirraça, se
+afastava dele.
+
+Entretanto ia depressa! e tão depressa, que nenhum dos viajantes se
+recordava de semelhante celeridade.
+
+As árvores, os prados, as sebes, as colinas, os postes que ladeavam a
+estrada, fugiam arrebatados num turbilhão infernal... Apareciam e
+desapareciam antes que se pudesse distinguir-lhes as formas... E a
+rapidez aumentava, de minuto para minuto... Pouco a pouco, os objectos
+exteriores confundiram os seus perfis indecisos... era uma confusão
+extraordinária... um vertiginoso turbilhão... uma miragem louca, análoga
+à que reflectiria uma onda violentamente agitada...
+
+Dentro do comboio, os passageiros consultavam-se com terror;
+entrechocavam-se os dentes uns nos outros, os seios arfavam, as mãos
+uniam-se convulsivas e alagadas de frio suor.
+
+E a velocidade aumentava... aumentava sempre, de segundo para segundo...
+
+Houve um momento solene, um momento longo como um século, um momento
+durante o qual cada um orou do intimo de alma ao que perscruta as
+consciências, e pensou nos entes queridos que o prendiam à vida...
+Depois... um choque espantoso... e um clamor, ainda mais espantoso!...
+Eram 8 de maio de 1842.
+
+Como escapou o senhor Germinal àquele desastre? Ele mesmo nunca pôde
+recordar-se.
+
+À mingua da rasto, que o abandonara, o instinto, esse guia cego do
+animal, conduziu-o intacto a salvamento. Quando deu acordo de si, corria
+através dos campos, espavorido, ofegante, meio-louco; mas apenas
+recuperou o espírito, o seu primeiro acto foi voltar atrás e auxiliar os
+socorros, que de todos os lados acorriam.
+
+Passou-se então um facto, que deixou na sua vida indelével impressão.
+
+Um homem, um moribundo, que ele debalde tentava salvar,
+desprendeu-se-lhe dos braços, e entregou-lhe uma carteira, murmurando
+estas palavras:
+
+--Guarde: é um depósito... que lhe confio... Entregue-o pela sua própria
+mão a... Eu chamo-me...
+
+Fez um esforço supremo para concluir, mas não pôde; caiu morto no
+_wagon_, que começava a ser invadido pelo fogo.
+
+
+
+
+XIII
+
+
+No dia seguinte, regressou o senhor Germinal a Paris. Inútil é
+acrescentar que foi de carruagem.
+
+Quando se reinstalou na sua habitação, a senhora Possignol recusava-se a
+reconhecê-lo; em vinte e quatro horas envelhecera vinte e quatro anos. O
+seu semblante parecia uma planície devastada por um ciclone; para o
+corpo fez à involuntária aquisição de um tremor nervoso; e para o
+espírito, a de dois cuidados graves: o depósito, que lhe fora confiado;
+e sua filha, que trouxera consigo, não querendo estar por mais tempo
+separado dela, depois de ter visto a morte tão de perto.
+
+A pequena Rosa dormia a sono solto. Ele improvisou-lhe um leito, correu
+as cortinas, aferrolhou-se solidamente, e foi sentar-se imóvel ante um
+objecto, que exumara das profundezas do seu sobretudo.
+
+Era uma carteira assaz volumosa, denegrida pelo uso, e tendo gravado no
+couro, em letras outrora douradas, o nome de Onésimo Toucard.
+
+Continha noventa e dois mil francos.
+
+Perante aquele maço de papeis, que representavam mais de sessenta anos
+do seu ordenado, o digno burocrata por pouco não perdeu os sentidos;
+eriçaram-se-lhe os raros cabelos, ergueu-se, e arrastou um móvel, com o
+qual barricou a porta.
+
+Depois, prosseguiu nas suas investigações com ardor febril.
+
+Não levaram essas muito tempo: a carteira não continha papel algum, que
+pudesse servir de esclarecimento; as folhas, pela maior parte em branco,
+só forneceram ao senhor Germinal algumas notas de compras e várias
+despesas, escritas com má caligrafia, umas a lápis, outras a tinta.
+
+O viúvo ficou imerso em profunda perplexidade; reflectiu tanto tempo que
+os objectos se lhe baralharam diante dos olhos, multiplicando-se
+confusamente; a final, exausto por tão diversas comoções, arrecadou a
+carteira no fundo de uma gaveta, cuja chave meteu debaixo do
+travesseiro, e deitou-se.
+
+Se o sono não chegou, veio em seu lugar o pesadelo; pelas fendas da
+janela, pelo buraco da fechadura, ou pela chaminé, insinuavam-se
+ladrões, que esquadrinhavam na gaveta com deplorável afinco.
+
+O senhor Germinal, inundado de suores frios, saltou fora da cama, e em
+pé, descalço, imóvel no seu traje alvejante, passou o resto da noite a
+perguntar a si próprio onde poderia ocultar melhor o seu importuno tesouro.
+
+Ao romper do dia, surgiu-lhe uma ideia. Desarrumou a cama, ergueu uma
+tábua do soalho, e por debaixo dela escavou um esconderijo, assaz
+engenhoso.
+
+Feito isto, vestiu-se e foi de corrida dar a sua demissão da secretaria,
+e fazer valer os seus direitos à aposentação.
+
+À secretaria!... Bem lhe importava agora a secretaria! Só cuidava em
+desencantar a família Toucard, e desembaraçar-se de uma aterradora
+responsabilidade, em proveito dela.
+
+Outro qualquer julgaria ter feito muito, indo depositar a soma no mais
+próximo comissariado de polícia, mas o senhor Germinal não era do feitio
+de outro qualquer; na sua escrupulosa delicadeza, considerava-se como
+ligado ao morto por um compromisso; tinha sempre presente na memoria
+aquele rosto contraído, sentia aquela mão fria apertando a sua, ouvia
+aquela voz agonizante a dizer-lhe:
+
+--Entregue-o pela sua própria mão a...
+
+Mas... a quem? A alma, fugindo, levara a chave do enigma. Fosse a quem
+fosse: Onésimo dissera «Pela sua própria mão»... e isso era o
+bastante para o senhor Germinal não se arredar um passo da vontade
+expressa do moribundo.
+
+Pôs mãos à obra sem tardança. Durante muitos meses, viram-no sair
+quotidianamente ao romper de alva, para só voltar depois de noite,
+estafado, moído e de mau humor. Interrogou o _Almanaque do comercio_,
+gastou dez pares de botas nas ruas de Paris, fatigou os ecos da
+prefeitura de polícia, por pouco não pegou de estaca em cada uma das
+legações estrangeiras, percorreu os arrabaldes, esquadrinhou Versailles
+e seus subúrbios, revolveu céu e terra, e contudo não descobriu em parte
+alguma vestígios da passagem ou da morada de Onésimo Toucard.
+
+Ora, enquanto as suas pernas funcionavam ao longe, as notas de banco
+aboloreciam no buraco, à mercê dos ladrões ou do incêndio; e a
+pequerrucha, confiada a uma ou outra vizinha obsequiosa, desaprendia de
+sorrir à máscara ferrugenta de seu pai. Um tal estado de coisas não
+podia prolongar-se, e o senhor Germinal desistiu enfim das suas
+correrias infrutíferas; quebrou o mealheiro, no qual, desde que
+enviuvara, ia juntando, soldo por soldo, os elementos de um dote para
+sua filha; e com esse dinheiro, deduzido do seu passadio, fez publicar
+um anuncio nos jornais... depois dois... depois três... depois vinte...
+
+À medida que o tempo decorria, o senhor Germinal tornava-se mais
+frenético, mais nervoso, mais pusilânime. Os noventa e dois mil
+francos invadiram-lhe o cérebro, submergindo todos os seus pensamentos.
+Tiraram-lhe o sono e o apetite absurdos terrores; paralisaram-se-lhe as
+faculdades morais a ponto de não ousar mais afastar-se de casa, e dispôs
+as coisas de modo que nada interrompesse o seu cativeiro voluntário.
+Primeiramente, matriculou Rosa em um colégio próximo, com a condição
+expressa de a virem buscar todas as manhãs, e trazê-la de tarde. Depois,
+contratou com uma agência de anúncios para que, até nova ordem, o seu
+reclame fosse publicado duas vezes por mês. E feito isto, aferrolhou-se
+dentro de casa e entrou de sentinela.
+
+Ninguém o rendeu do seu posto; e aí adquiriu, pouco a pouco, uma doença
+singular. Ou fosse porque aquela perpétua expectativa, sempre alerta e
+sempre frustrada, tivesse enfraquecido as suas faculdades mentais, ou
+porque o contacto incessante do dinheiro desenvolvesse nele
+predisposições latentes, começou a manifestar sintomas de avareza.
+Achou-se muitas vezes, sem saber como, a mergulhar as mãos, trémulas de
+voluptuosidade, no maço das noventa e duas notas de banco, a
+amarrotá-las, rindo de prazer ao escutar deliciosamente o seu macio
+_fru-fru_... E então, envergonhado de si mesmo, afastava-se de súbito,
+fazendo votos sinceros pela aparição de um Toucard qualquer.
+
+Sete anos se passaram assim. Rosa tinha doze, e o colégio já a
+enfastiava. Logo que se instalou definitivamente no domicílio paterno, a
+sua fisionomia, fresca e louçã, iluminou-se como uma aurora boreal...
+
+Foi uma felicidade para o pobre homem; algum tempo mais de solidão, e a
+loucura não tardaria. Contudo, a influência daquela criança adorada não
+tranquilizara o senhor Germinal; apenas imprimiu outra direcção às suas
+inquietações. Rosa prometia ser extremamente bela, e, de todas as
+promessas que as mulheres fazem, é essa a única que geralmente costumam
+cumprir. O viúvo admirava nela as feições queridas da sua defunta; tinha
+a mesma graça, a mesma afectuosa alegria, a mesma expressão no olhar,
+mas também a mesma débil constituição. O pobre pai suspirava, vendo-a
+estragar, em grosseiras ocupações, as suas mãos pequeninas e brancas;
+empalidecia, observando que o menor trabalho a fatigava.
+
+À força de temer para ela a miséria, acostumou-se gradualmente a
+desejar-lhe o impossível... isto é, _dinheiro_. Os seus vagos, instintos
+de cobiça pelo que diariamente remexia, aumentaram de consistência desde
+que tiveram um fim nobre e elevado. Chegou um momento em que,
+contemplando a carteira de Onésimo Toucard, o senhor Germinal dissera
+consigo:
+
+--Se o não reclamassem!...
+
+Esta ideia, uma vez encaixada no cérebro do senhor Germinal, alastrou-se
+como uma nódoa de azeite. Tudo poderia obter para Rosa com noventa e
+dois mil francos: ar, sol, espaço, prazeres e saúde... tudo
+simultaneamente lhe passou pela imaginação fascinada. Em vão se
+desculpava para com a sua consciência, murmurando:
+
+--É uma simples hipótese!... A hipótese era já uma esperança, que fizera
+mudar de causa a sua impaciência e agitação; tanto estremecera de
+júbilo, quanto estremecia agora de receio, à vista de um estranho;
+cessara de publicar anúncios, e cada dia, que passava, era riscado no
+almanaque, como um perigo de menos a evitar.
+
+Três anos decorreram ainda, e foram terríveis! A pensão do senhor
+Germinal, até então suficiente para um velho e uma criança, não o era já
+para duas pessoas; as suas economias tinham desaparecido na educação de
+Rosa e nos gastos da publicidade. Mais de uma vez, deitado na sua
+enxerga, a braços com a febre ou com a fome, sentindo através do tabique
+sua filha a chorar, tivera horripilantes tentações, relativas a esse
+dinheiro, que dormia inútil ao alcance da sua mão. Contudo não tirou
+dele a mínima parcela, nem sequer trocou uma nota.
+
+Decorridos dez anos, aquele homem probo, escrupuloso, austero até ao
+superlativo, chegou, de concessão em concessão, a formar o seguinte
+raciocínio:
+
+«Fiz tudo quanto era humanamente possível para descobrir os herdeiros de
+Onésimo: o meu dever está cumprido. Restituir esta soma ao estado, que
+não carece dela, seria um absurdo. Acaso não quereria a Providencia
+compensar-me dos meus sofrimentos, proporcionando-me os meios de me
+utilizar destes valores? Portanto, sou livre de dispor deles.»
+
+Conspirava consigo mesmo para fazer uma surpresa a sua filha: seria uma
+casinha branca, no campo, um retiro florente, onde Rosa gozasse enfim
+dos ócios e distracções, de que até então fora privada a sua mocidade.
+Mas, logo que pegou nas notas com a intenção formal de se apossar delas,
+empalideceu e deixou-as cair no fundo do esconderijo. Parecia-lhe que ia
+cometer um roubo.
+
+«Não é de urgência, pensou o velho. Rosa tem apenas quinze anos... É uma
+criança nobre e corajosa, que soube criar-nos recursos e trouxe um pouco
+de bem-estar à nossa pobre casa. A verdade é que não nos falta o pão!
+Esperemos mais dois anos... Doze anos é um prazo razoável...»
+
+Todavia, é provável que o fosse adiando, de ano para ano, detido sempre
+pelos mesmos escrúpulos, se Rosa lhe não houvesse confessado o seu amor
+por André Sauvain.
+
+Aquela noticia afligiu o senhor Germinal, mas acabou com as suas
+hesitações. Convenceu-se de que existia uma séria paixão, de parte a
+parte; estudou o pintor, afeiçoou-se-lhe, e, meio desesperado, meio
+satisfeito, resolveu conceder-lhe a mão de Rosa, com os noventa e dois
+mil francos, no dia em que expirasse o décimo segundo ano do depósito.
+
+Foi desse modo que, entre perpetuas angustias, com a consciência
+oprimida e o espírito torturado, o senhor Germinal dotou e chamou noivos
+aos dois jovens.
+
+Vimos já como surgira nesse momento Pedro Toucard, qual outro
+Desmancha-prazeres.
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Ao centro do quarto, que escondera um tesouro sob o seu pavimento,
+estavam sentados Pedro Toucard e o senhor Germinal, um em frente do
+outro, na atitude de duas esfinges que tentassem adivinhar-se.
+
+Ambos estavam pálidos, comovidos e agitados.
+
+Os olhos do provençal luziam como carbúnculos; torcia a barba a ponto de
+quase lhe arrancar os cabelos.
+
+--Como íamos dizendo, começou ele, os parentes ou herdeiros de Onésimo
+Toucard foram rogados, com instância, para, a bem de seus interesses, se
+dirigirem ao senhor... O que, segundo creio, significa que em sua mão
+existem alguns fundos, os quais devem pertencer àqueles, não é assim?»
+
+O senhor Germinal hesitou. Pensava na sua querida Rosa, na felicidade
+que lhe prometera e que ia roubar-lhe. Verdade era que podia ainda
+negar o depósito, e desembaraçar-se de Toucard, mentindo; mas... não se
+é honrado impunemente!
+
+--Sim, senhor, respondeu com voz sumida.
+
+Pedro Toucard reteve um grito de alegria. Respirou estrepitosamente e
+aproximou a cadeira.
+
+--Queira continuar, disse ele; sou todo ouvidos.
+
+--É ao senhor que compete falar, replicou o pai de Rosa, analisando
+tacitamente os andrajos de Pedro, que lhe inspiravam pouca confiança.
+
+--Em que grau era parente de Onésimo Toucard?
+
+Uma vermelhidão, cor de tijolo, invadiu as faces crestadas do provençal;
+abaixou os olhos: dir-se-ia que se travava nele uma luta interior.
+Contudo, após alguns segundos de reflexão, recobrou o seu habitual
+desembaraço e respondeu:
+
+--Em grau muito próximo; sou seu irmão, e o único representante da
+família, hoje extinta.
+
+--Então... porque não deu sinal de existência durante doze anos?
+
+--A razão é simples. Há doze anos que vagueio do outro lado dos mares, e
+apenas quatro meses que habito em Paris, aonde nunca tinha vindo; enfim,
+ignorava a morte do meu pobre Onésimo, e só esta manhã a soube.
+
+--De que modo?
+
+--Por um dos seus anúncios.
+
+--Há cinco anos que os não publico!...
+
+--É possível que o pedaço de jornal, em que o encontrei, datasse dessa
+época... Mas não percamos tempo com bagatelas. A quanto monta a herança?
+
+--Não calcula o seu valor? perguntou o senhor Germinal.
+
+--Aproximadamente... talvez. Meu irmão era sócio da minha casa
+comercial; em 30 de Abril de 1842, liquidámos, partilhando os lucros,
+que se elevavam a... cerca de duzentos mil francos. Se Onésimo morreu em
+8 de maio, devia ter em caixa de oitenta a noventa mil libras...
+
+--Foi em Paris que se efectuou a partilha?
+
+--Não, em Liverpool.
+
+--Nesse caso, quando seu irmão faleceu estava em França, havia quatro ou
+cinco dias apenas?
+
+--Um ou dois, se tanto.
+
+--E o senhor?
+
+--Eu, a 8 de Maio, embarcava em Liverpool e fazia-me de vela para
+Calcutá, sem pressentir que nesse mesmo dia Onésimo esticava a canela em
+Versailles.
+
+--Como sabe que foi em Versailles que ele morreu?
+
+--Presumo-o; ele tinha tenção de lá fixar a sua residência...
+
+O senhor Germinal ergueu-se? passeando no quarto com agitação.
+
+--Senhor, disse ele, todas as suas respostas combinam com os documentos
+que possuo, mas desculpar-me-á se exijo provas mais palpáveis da sua
+identidade...
+
+--Ora essa! disse o provençal; é muito justo. Felizmente trago sempre
+comigo os meus papeis, visto não ter domicilio certo, nem fechadura
+segura...
+
+E dizendo isto, a mão do aventureiro mergulhou no andrajoso casaco e
+reapareceu à superfície, carregada com uma carteira grande e sebenta.
+
+Logo que para ela lançou os olhos, o senhor Germinal ficou inteiramente
+convencido. Aquela carteira era irmã gémea de outra, que por tanto tempo
+namorara! o mesmo feitio, as mesmas dimensões, e os mesmos caracteres,
+outrora dourados, indicando o nome do seu proprietário: Pedro Toucard.
+
+--Aqui tem, em primeiro lugar, a minha certidão de baptismo, disse o
+provençal; eis aqui, também, diferentes passaportes; e enfim, duas
+cartas de Onésimo... Conhece-lhe a letra?
+
+--Conheço, respondeu o senhor Germinal, examinando as duas missivas.
+
+Eram curtas; tratavam unicamente de negócios e tinham a assinatura de
+Onésimo Toucard. Ambas as cartas começavam por estas palavras: «Meu
+querido irmão...»
+
+O pai de Rosa abriu uma gaveta, tirou de dentro a carteira do morto, e
+comparou a letra dos apontamentos com a das cartas. Não podia
+conservar a sombra de uma dúvida.
+
+--Senhor, disse ele ao provençal, cujos olhares impacientes revistavam
+todo o quarto, como procurando descobrir onde se escondia a herança,
+reconheço-o por irmão e herdeiro de Onésimo Toucard. Só me resta...
+
+--Entregar-me a herança, interrompeu Pedro, ofegante. Desencante-a
+pois... meu bravo!
+
+--Permita-me que, primeiro, lhe conte de que morte desgraçada seu irmão
+pereceu.
+
+Ora!... ora!... ora!... é inútil. Não percamos tempo precioso!
+
+--Entretanto...
+
+--Que morresse de bexigas, ou tísico, pouco importa. O positivo é que
+morreu; agora vamos às contas...
+
+--Mas, disse Germinal admirado, preciso de fazer-lhe saber como, e
+porquê, ele me confiou as suas últimas vontades.
+
+--Pois sim, diga lá! Mas seja conciso, com mil bombardas!
+
+O senhor Germinal foi tão conciso, quanto parecia desejá-lo o seu
+interlocutor.
+
+--Pobre Onésimo! disse Pedro. Acabou mal; lamento-o, mas... era um
+grande traste!
+
+Porém, notando o espanto e estranheza, que produzira no velho uma oração
+fúnebre tão pouco fraternal, apressou-se a acrescentar:
+
+--Que quer! Nas famílias numerosas, é raro deixar de haver... há sempre
+algum tratante... Mas tratemos agora...
+
+--Agora, disse o velho suspirando, vou entregar-lhe os valores do defunto.
+
+E, proferindo estas palavras, tirou do bolso as notas do banco e
+depô-las sobre a mesa, uma por uma.
+
+A cada macete de dez mil francos, o rosto de Pedro coloria-se um pouco
+mais.
+
+--Noventa e dois mil francos! exclamou ele afinal, ébrio de alegria.
+Viva a França! e vamos à Bolsa! Com a breca! farão bem em ter cuidado
+comigo, lá na Bolsa!... Se, daqui a seis meses, não possuir dois
+milhões, consinto em que me enforquem!
+
+O senhor Germinal ficou impassível e pensativo ante aquela exuberância
+de júbilo. Para ele estava consumado o sacrifício...
+
+Pedro bateu-lhe no ombro.
+
+--Não lhe farei a injuria, disse ele maliciosamente, de oferecer-lhe uma
+recompensa...
+
+O senhor Germinal abanou a cabeça.
+
+--Tanto mais, continuou o manhoso velho, que os interesses deste capital
+devem ter produzido uma continha menos má...
+
+--Os interesses!... observou o pai de Rosa; que quer dizer com isso?
+Estes valores são os próprios que recebi em depósito; não saíram de
+minha casa!
+
+--Farsista! Então não os empregou em acções, em rendas, em obrigações,
+em terras, ou em inscrições sobre hipoteca?... em suma, não os fez
+render de alguma forma?
+
+--Não, senhor.
+
+--E guardou-os doze anos, assim... num buraco?
+
+--Certamente!...
+
+--Ignorava então, meu camarada, que um capital se duplica ao fim de
+catorze anos?
+
+--Não o ignorava. Mas acaso tinha eu o direito de dispor do dinheiro de
+outrem?
+
+--Maganão!... disse Pedro, sorrindo com ar incrédulo.
+
+--Senhor! exclamou Germinal, rubro de indignação, esquece que, se acaso
+eu fosse um tratante, nada me impedia de apropriar-me da soma toda.
+
+--Isso é verdade... respondeu Toucard.
+
+E, olhando em torno de si, acrescentou:
+
+--E com efeito, este quarto não é dos mais luxuosos... Decididamente, a
+virtude é uma bela coisa!
+
+E, enrolando as notas com evidente voluptuosidade, continuou:
+
+--Visto isso, considero-me seu devedor, e quero pagar...
+
+O senhor Germinal desdobrou um papel e apresentou-o a Pedro.
+
+--O que é? perguntou este último.
+
+--É a conta circunstanciada do que desembolsei: despesas de anúncios,
+aluguer de carruagens, etc. Total: mil quarenta e dois francos e
+cinquenta cêntimos.
+
+--Com mil amarras!... Ora vá passear, mais as suas contas de boticário!
+exclamou Pedro; atirando fora o papel. Toma-me por algum sovina?... Aqui
+tem o maço, tire o que quiser.
+
+O senhor Germinal endireitou-se com altivez.
+
+--Não aceitarei um soldo, sequer, a mais do que se me deve! disse ele.
+
+Pedro Toucard insistiu vivamente. O senhor Germinal resistiu com
+firmeza. Cansado de lutar, o provençal cedeu, porque estava ardendo por
+ver-se dali para fora, e esboçar nova especulação. Reembolsou-o dos mil
+quarenta e dois francos e meio, e tomando nas suas as mãos do velho,
+disse-lhe:
+
+--Meu bom amigo, eu sou espertalhão, e conhecedor de fisionomias. Gosto
+de ler na sua, posto não seja das mais belas... O senhor é teimoso como
+um burro, mas é o homem mais honrado que tenho conhecido. Isto não
+ficará assim, palavra de Pedro! Havemos de tornar a ver-nos! Adeus.
+
+Recitado este discurso, enterrou com um murro o chapéu na cabeça, enfiou
+as notas nos bolsos das suas calças esfarrapadas, e, radiante, com os
+olhos a cintilar, e a boca entreaberta por um franco sorriso, desceu
+a escada cantarolando.
+
+O senhor Germinal seguiu-o, um pouco pálido ainda, mas desta vez
+tranquilo... e quase alegre também!
+
+Havia exactamente doze anos, que o desastre se dera.
+
+
+
+
+XV
+
+
+À ténue sombra do microscópico jardim, através das moitas de liláses,
+distinguiam-se dois rostos juvenis, que não tinham vontade de rir.
+
+Rosa e André, conchegavam-se um ao outro, como duas aves ao aproximar da
+tempestade. Lendo o anúncio, tinham quase atinado com a verdade, e as
+últimas palavras do velho retumbavam ainda aos seus ouvidos.
+
+Entretanto, não bastavam palavras para desarreigar as firmes raízes da
+esperança, e Rosa encostando a loura cabeça no ombro do seu prometido,
+tranquilizava-se ouvindo-lhe a voz altiva é varonil repetir:--Amemo-nos,
+apesar de tudo!
+
+Quando o senhor Germinal passou, precedido do triunfante provençal,
+envolveu o lindo par num olhar terno e contristado.
+
+--Olhe, disse Pedro parando; ali está o que nos rejuvenesce trinta anos,
+meu amigo!...
+
+O senhor Germinal carregou o sobrolho e, esforçando-se por mostrar-se
+severo, bradou:
+
+--Rosa!
+
+--Meu pai? respondeu a jovem, estremecendo.
+
+--Vá já para casa.
+
+Ela ergueu-se com tímida lentidão e, oferecendo a fronte aos lábios de
+seu pai; fitou-o com os seus grandes olhos negros, cheios de súplicas e
+de amargura.
+
+--Vai para casa, minha filha, emendou mais meigamente o velho. Preciso
+de falar com André.
+
+Rosa afastou-se sem voltar a cabeça. Não queria que lhe vissem as lágrimas.
+
+--E o senhor, balbuciou Germinal, meu querido senhor Sauvain...
+
+Pedro Toucard, que torcia a barba sorrindo, recuou de um salto, como se
+tivesse pisado uma serpente; decompôs-se-lhe a fisionomia e, segurando o
+senhor Germinal pela gola do casaco:
+
+--Que nome foi o que acaba de pronunciar? articulou ele, passado um
+momento.
+
+--O do senhor Sauvain.
+
+--E quem é que se chama assim?
+
+--Este mancebo.
+
+O provençal saltou por cima da sebe de murta, e achou-se em face de
+André, que mediu com olhar inflamado.
+
+--Sauvain!... Pois o senhor chama-se Sauvain?
+
+--Certamente!...
+
+--Nasceu perto de Granville?
+
+--É exacto.
+
+--E seu pai era marinheiro?
+
+--Era.
+
+--A bordo da _Ariana_, que se perdeu com a carga e tripulação... há
+vinte anos?
+
+--Sim, mas porque acaso?...
+
+--Com mil amarras! com mil bombas! com mil raios! gritou Toucard,
+tornando-se carmesim.
+
+E como sufocasse, arrancou a gravata, rasgou o colete e atirou fora o
+chapéu.
+
+--E sua mãe? continuou ele ofegante.
+
+--Minha mãe...
+
+--Não receberia ela?...
+
+--O quê?
+
+--Quero dizer... sua mãe... Onde está sua mãe, senhor?
+
+--Minha mãe morreu. Conheceu-a, porventura?
+
+--Eu! exclamou o provençal, nunca a vi.
+
+--Entretanto...
+
+--Não, já lho disse; nunca a vi na minha vida!
+
+--Então teve relações com meu pai?
+
+Toucard não respondeu. A sua agitação atingiu proporções assustadoras.
+
+--Não! não! mil vezes não! balbuciou ele, tropeçando no chapéu sem
+reparar; tenho de fazer fortuna... c'os diabos! Mais tarde não digo
+que... mas presentemente...
+
+Interrompeu-se, e vendo ali perto um balde com água, destinada
+provavelmente à rega do jardim, mergulhou dentro dele, por muitas vezes,
+o seu crânio calvo, que ficou vermelho e fumegante.
+
+Depois de refrescado pela imersão, sacudiu-se como um cão molhado, e
+sentou-se num banco para tomar alento.
+
+O senhor Germinal e André observavam-no com crescente estupefacção.
+
+--Que é isso? que tem?... perguntou-lhes Pedro. Porque olham para mim
+assim? Que disse eu, que tanto os espante?
+
+--Nada disse por ora, respondeu André, mas peço-lhe que me explique...
+
+--A explicação será curta, meu rapaz. Encontrei nas minhas viagens um
+marinheiro chamado Sauvain... seu pai, ao que parece... Soube depois que
+morrera num naufrágio: eis o motivo por que o seu nome me abalou.
+Demais... sou propenso à apoplexia... a menor comoção faz-me subir o
+sangue à cabeça! Mas não façam caso... já passou.
+
+O provençal falava com dificuldade, procurando as palavras e pensando
+noutra coisa. As suas feições expressivas revelavam a maior irresolução.
+
+Apesar do banho que se aplicara, corria-lhe o suor da fronte.
+
+André Sauvain não se contentou com tão sucinto esclarecimento.
+
+--Mancebo, lhe disse Pedro Toucard, venha comigo a três passos daqui,
+quero dar-lhe duas palavras.
+
+O pintor seguiu-o, assaz intrigado.
+
+--Escute-me, meu caro: entrei na posse de fundos com que não contava. O
+senhor vai pôr casa... Se duas ou três notas de mil francos... ou mesmo
+quatro... Sim, se quatro, ou cinco mil francos, lhe podem ser úteis
+nesta ocasião, não faça cerimonia... Hei-los!
+
+E Pedro folheava com mão trémula o maço das notas.
+
+André corou muito, e endireitou-se quanto a sua estatura lho permitia.
+
+--A que título me faz esse oferecimento? perguntou ele.
+
+--A título de amigo.
+
+--Vimos-nos apenas duas vezes!...
+
+--A título... de antigo amigo de seu pai.
+
+--Conhecia-o de leve, segundo disse.
+
+--Então... a título de gratidão. Fez-me um favor, quando eu precisava...
+É a minha vez agora. Que diabo!...
+
+--Agradeço-lhe a intenção, mas recuso.
+
+--Porquê?
+
+--Por muitos motivos, e eis o principal: Sou demasiado pobre para
+aceitar qualquer empréstimo, não sabendo quando poderei pagá-lo.
+
+--Ora? que importa isso?...
+
+--Importa-me muitíssimo!
+
+--Com mil bombas! que esquisitices! e que demónio de casa esta, onde se
+recusa aceitar o que tantos outros...
+
+Um relógio da vizinhança vibrou no espaço.
+
+--Uma hora! exclamou Pedro, cujas ventas se dilataram, e cujo olhar
+faiscou. A hora da Bolsa! Vamos, Pedro Toucard! em campo, meu velho!
+Vais aventurar-te sobre um terreno movediço... Prova a essa súcia de
+imbecis que lhe és superior no artigo _inteligência_.
+
+--Um momento, senhor, disse André; rogo-lhe que me explique...
+
+--Coisa nenhuma, neste momento!...
+
+--Aonde vai a correr?
+
+Pedro apanhou do chão o chapéu, amolgado em dez partes, brandiu-o com
+gesto majestoso, e partiu exclamando:
+
+--A casa do meu banqueiro!
+
+E desapareceu.
+
+
+
+
+XVI
+
+
+--É fora de dúvida, disse o pintor, que este aventureiro teve relações
+com a minha família. Mas, porque fará mistério disso? É, na verdade, um
+homem surpreendente! Que impaciência, que febre de agiotagem! Veja como
+corre!... É um furacão!
+
+--Sim... um furacão, murmurou Germinal, passando amigavelmente o braço
+pelo de Sauvain, um furacão que derrubou os nossos _castelos no ar_!
+Entremos em sua casa: preciso de falar-lhe. André obedeceu, cerrando os
+punhos de raiva.
+
+Adivinhava o fim da conferência, que iam ter, e, já ardendo em
+indignação, revestia-se de uma tríplice couraça para entrar na luta.
+
+Pela sua parte, o senhor Germinal também não se sentia em leito de
+rosas. Assentou-se, tossiu, esfregou as mãos, piscou os seus olhos de
+peixe cozido, e antes de tomar a palavra, suspirou cinco ou seis
+vezes, com intervalos.
+
+Dava-lhe em cheio a luz no crânio, cor de ferrugem, e essa circunstância
+fez notar a André, não sem terror, que aquela caixa ossuda, estreita e
+deprimida, tinha bem característica a bossa da teima invencível.
+
+O senhor Germinal começou pela narração do seu triste encontro com
+Onésimo Toucard; contou a vida que levara durante onze anos, as suas más
+tentações reprimidas, as suas esperanças, os seus receios e os seus
+desalentos.
+
+Quando acabou, André disse-lhe friamente:
+
+--Muito bem: o dinheiro foi reembolsado, a sua consciência ficou em
+repouso; está tudo o melhor possível. Porém devia ter a certeza de que
+nós, mesmo depois de casados e em posse dessa fortuna, a entregaríamos
+sem hesitação ao seu legítimo proprietário.
+
+--Não tenho a menor dúvida, retrucou o senhor Germinal; sei que é um
+mancebo digno. Quanto melhor o conheço, mais o aprecio... Teria orgulho
+em chamar-lhe meu filho...
+
+André tornou-se pálido, mas fingiu não ter ouvido aquele condicional.
+
+--Agora, senhor, disse ele sorrindo, conversêmos um pouco sobre coisas
+mais importantes; voltemos ao que esta manhã se combinou...
+
+--Que foi o que se combinou? disse o viúvo, corando.
+
+--Que hoje mesmo se fixaria a época do meu casamento com Rosa.
+
+O senhor Germinal levantou-se bruscamente.
+
+--Não me entendeu, pelo que vejo?
+
+--Peço perdão: entendi perfeitamente que lhe confiaram um depósito, e
+que o restituiu. Mas, que tem de comum uma acção tão simples com o
+facto, muito mais importante, de que dependerá o nosso futuro?
+
+--Não há surdos piores do que os que não querem ouvir! replicou
+asperamente o senhor Germinal. Aquela soma garantia-me a felicidade
+material de minha filha...
+
+--Não, senhor, porque bem sabia que, de um momento para o outro, a
+podiam reclamar. Para quando prefixa a bênção nupcial?
+
+--Para as calendas gregas! gritou o senhor Germinal, exasperado por
+aquela obstinação sistemática. Como ousa o senhor pretender associar à
+sua a sorte de Rosa? Onde estão os seus meios de subsistência? Há-de ela
+viver neste cacifo? Virão os filhos, e com eles as dificuldades, os
+expedientes, as dívidas, os cuidados, a doença... a morte!
+
+--Nego-o energicamente! retorquiu André, não menos furioso. Mas, embora
+o senhor tivesse carradas de razão, era tarde para desdizer-se. Se
+este consorcio lhe desagradava, para que veio, há quatro meses,
+procurar-me ao fundo deste cacifo, como acaba de chamar-lhe?... Porque
+incitou um amor, que, entregue a si mesmo, talvez houvesse sido sufocado?
+
+--Rosa assim o exigia... Rosa amava-o...
+
+--E pensa que deixará de amar-me por lho ordenar?
+
+--Ignoro-o, mas não casará consigo.
+
+--Ora, senhor!... se o casamento fosse só permitido às pessoas ricas,
+extinguir-se-ia o sol.
+
+--Pois que se extinga. Não casará com minha filha; é escusado pensar
+mais nisso.
+
+--Não pensar mais nisso!... Imagina que um sentimento, igual ao meu, se
+aniquila à vontade, como a chama de uma vela! Rosa é o sangue das minhas
+artérias, a seiva da minha mocidade, o paraíso da minha alma, a
+primavera do meu coração!... Peça-me que viva sem respirar, mas não ouse
+pedir-me que esqueça Rosa!
+
+--Peço-lho, e, sendo preciso, ordeno-lho!... Nunca consentirei em vê-la
+miserável! A imagem de sua mãe... tenho-a sempre diante dos olhos! Não
+casará com minha filha!
+
+--Homem teimoso! Quem lhe disse que, mesmo no seio da abundância e do
+luxo, sua mulher teria vivido? Quem lhe disse que ela não encerrava no
+peito o gérmen de uma doença mortal? E com que direito aquilata
+pelo seu passado o meu futuro? Por ventura os recursos de um amanuense,
+acorrentado a um trabalho estúpido, e cujo ínfimo salário nunca aumenta,
+embora trabalhe noite e dia, podem comparar-se aos de um artista, moço,
+corajoso, inteligente e forte?
+
+--Não ponho em dúvida a sua coragem, nem o seu talento: mas presumo que,
+quando os resultados forem apreciáveis, já Rosa terá os cabelos brancos.
+Não possuirá minha filha, senhor Sauvain.
+
+--Possui-la-hei! gritou o pintor... Juro-o!
+
+--Não gracejemos, peço-lho!... Ouça, senhor André: vim falar-lhe, movido
+por verdadeira simpatia. Lamento-o e estimo-o. Dê-me a sua palavra de
+honra de que não tentará ver, nem falar a minha filha, ou fazer-lhe
+acalentar ilusões inúteis. Com essa condição...
+
+--Nunca!
+
+--Nesse caso, estão quebradas as nossas relações.
+
+--É a sua terminante decisão?
+
+--É.
+
+--Basta. Graças a Deus há leis em França; não se coage ninguém. Rosa e
+eu esperaremos...
+
+--A minha morte?
+
+--Não, senhor; a maioridade de sua filha.
+
+--Seja assim, disse o senhor Germinal. Mas, até então, desculpará que eu
+lhe feche a minha porta, e terá a bondade de renunciar à
+conversação de minha filha.
+
+--Engana-se! vê-la-hei, falar-lhe-hei, ama-la-hei e casarei com ela;
+mesmo contra sua vontade!
+
+--Tomarei as medidas necessárias para obstar a essas loucuras.
+
+E o senhor Germinal, erguendo-se com um gesto ameaçador, saiu do _atelier_.
+
+Apenas transpôs o liminar, André correu atrás dele. Arrependia-se da sua
+arrogância. Queria lançar-se-lhe aos pés e enternecê-lo à força de
+súplicas; mas, quando ia a alcançá-lo, as abas flutuantes de um
+enferrujado casaco abriram-se como duas asas, e o senhor Germinal, veloz
+como uma seta, encaixou-se em casa e trancou ruidosamente a porta. André
+voltou desanimado; ao desânimo seguiu-se o furor; ao furor, o desespero;
+depois... os projectos extremos, as resoluções insensatas, e até uns
+vagos desejos de lançar fogo ao edifício, precipitar-se através das
+ruínas fumegantes, estreitar Rosa nos braços e fugir com ela... fosse
+para onde fosse!...
+
+André Sauvain mordia os dedos e andava de um para outro lado, como um
+tigre na jaula. Perto da noite, não podendo conter-se, trepou quatro a
+quatro a escada do que recusava ser seu sogro; tocou à campainha,
+primeiro timidamente, depois com mais força.
+
+Nenhuma resposta.
+
+Tocou outra vez, bateu, suplicou, disse quem era, tornou a tocar, atroou
+o patamar com as suas imprecações. Mas ninguém apareceu, a não ser um
+vizinho desagradável, que resmungou vagamente as palavras: comissario de
+policia.
+
+Depois disto, André desceu ao _atelier_, atirou consigo para cima do
+canapé, estorcendo-se e invocando Rosa.
+
+Após muitas horas deste exercício incoerente, um colosso ficaria
+prostrado. Havia muito que era noite. O pintor adormeceu num sono
+febril, assaltado de sonhos extravagantes, e interrompido de dez em dez
+minutos. Vinte vezes acordou em sobressalto para ver se o dia não
+surgira ainda.
+
+Pela madrugada julgou ouvir ao longe a voz da sua noiva, que, com
+queixumes angustiosos, o chamava por entre soluços. Correu à porta, e,
+com os cabelos eriçados e o ouvido à escuta, olhou para fora.
+
+Já nascera o sol; ténue claridade se coava a custo através das nuvens
+escuras; a chuva caía vertical e em grossas gotas, marulhando no pátio
+pedregoso e nos canteiros do jardim, que exalavam um odor terroso.
+Entretanto a casa estava inteiramente tranquila, e as janelas de Rosa,
+hermeticamente fechadas, não deixavam filtrar o mínimo raio de luz.
+
+O frio da manhã atenuou a sobre-excitação febril de André; tornou a
+deitar-se, vestido como estava, dizendo consigo... que ninguém já
+sequestra raparigas; que de certo Rosa tomaria ar de vez em quando; que
+ele aproveitaria essas ocasiões, mesmo nas barbas do senhor Germinal, e
+finalmente que era tolo em preocupar-se assim. Com estas reflexões,
+adormeceu sossegadamente, e tão deveras, que a senhora Poussignol, na
+sua habitual visita matutina, não logrou despertá-lo inteiramente.
+
+--E esta!
+
+Tal foi a exclamação, que retumbou aos ouvidos de Sauvain. Semi-abriu os
+olhos e contemplou a porteira, que estava de pé, em frente dele, com o
+bigode eriçado, com os punhos fincados nas ancas, e firmada nos seus
+sapatos de ourelo, como um pato nos seus pés espalmados.
+
+--Então, disse ela, não o tinha eu prevenido!...
+
+--De quê?
+
+--De que fazia muito mal em frequentar aquela gente...
+
+--Que gente?
+
+--A família Germinal.
+
+André sentou-se de súbito no canapé.
+
+--Faça favor de falar mais respeitosamente dos meus vizinhos.
+
+--Não lhes falto ao respeito, mas isso não impede que eu volte à minha
+primeira opinião, de que aquele homem é um antigo criminoso.
+
+--Ainda a mesma tolice!
+
+--Tolice!... A prova é que fugiu, e a polícia vai-lhe no encalço.
+
+--Do senhor Germinal?... Você endoideceu!
+
+--Ah, endoideci!... Pois bem! quando souber o que aconteceu...
+
+--O que foi? Vamos, explique-se! bradou André com impaciência.
+
+--Esta manha, às quatro horas, ainda não era dia claro, bateram nos
+vidros do meu quarto. Quem é? perguntei eu.--Sou eu, Germinal,
+responderam. Era já caso para admirar!... pois não era? Um homem que,
+durante doze anos, não deitou o nariz fora da porta, e que hoje, sem
+mais nem menos, vai passear antes de luzir o buraco!... Levantei-me,
+acendi a candeia, e que vejo?... O senhor Germinal, com a mala debaixo
+de um braço e a filha pelo outro, chorando, a pobrezita, que enternecia
+um rochedo! Que deseja? perguntei eu. Em resposta, paga-me o mês por
+inteiro, pespega-me dez francos na mão (primeiro dinheiro dele, a que
+vejo a cor--sempre é bom saber-se!) participa-me que vai viajar, e não
+sabe quando voltará; mas que me não inquiete eu pelos móveis, porque
+brevemente os mandará buscar. Então, a menina Rosa, que continuava a
+chorar, tentou dizer-me duas palavras em voz baixa, porém o pai levou-a
+de repelão. Puxei a corda e... boas noites!
+
+André parecia uma estátua.
+
+--Partiu!... partiu!... Rosa partiu!... murmurou ele afinal; é impossível!
+
+--A prova é que tenho aqui a chave da casa.
+
+O pintor arrancou a chave das mãos da senhora Poussignol, que ficou
+pasmada. Dez segundos depois, penetrava em casa do seu velho vizinho.
+
+O quarto do senhor Germinal estava limpo e em ordem, como sempre; a cama
+não fora desfeita.
+
+André, lívido, gelado, empurrou uma porta, a do quarto de Rosa. Entrou
+nele com passo de fantasma; mas, quando percorreu com a vista aquele
+mimoso retiro abandonado, quando aspirou o suave perfume de violetas,
+que lhe recordava a ausente, encostou-se à parede, inclinou a cabeça
+sobre o peito e perdeu os sentidos.
+
+
+
+
+XVII
+
+
+Durante quinze dias, André Sauvain vagueou pelas ruas de Paris, como um
+cão que perdera seu dono.
+
+Quem visse aquele gigantesco moço, com a fisionomia espantada, os
+cabelos flutuantes, o bigode arrepiado, e o vestuário em desalinho,
+correr como um doido atrás de qualquer transeunte, mirá-lo em face, e
+logo voltar-lhe as costas para correr atrás de outro, teria acusado
+mentalmente de negligencia os guardas e o porteiro de Bicêtre.
+
+Naquele lapso de tempo, um desconhecido visitou, por duas vezes no mesmo
+dia, a casa do senhor Germinal. Da primeira visita, examinou
+escrupulosamente os móveis; da segunda, levou-os, depois de exibir um
+acto de venda perfeitamente em regra. Pode presumir-se como o pintor se
+agarrou, com ambas as mãos a essa suposta tábua de salvação!
+Interrogou, suplicou, afagou, ameaçou, e maçou de mil maneiras o
+infeliz comprador para extorquir-lhe a nova residência do fugitivo, ou
+ao menos algum indício, que o guiasse na busca de Rosa.
+
+Todavia, a vítima não lhe fornecera o menor esclarecimento. Era um
+ebanista do _faubourg_ Saint-Antoine; comprara em globo a mobília do
+senhor Germinal, que lhe anunciou estar em vésperas de empreender uma
+longa viagem.
+
+Podiam cortar o ebanista em mil pedaços, ou oferecer-lhe os tesouros de
+Golconda, que ele não saberia dizer mais nada.
+
+Como o senhor Germinal pagara religiosamente o aluguer da casa, ninguém
+opôs dificuldades à remoção dos moveis. André seguiu-os com os olhos até
+à esquina da rua; levavam-lhe a última esperança.
+
+Depois recomeçou as suas furibundas correrias. O comer, o beber e o
+dormir, foram tratados por ele como importunos credores, que se deixam
+gritar e a quem se não paga. Mas a natureza tem os seus limites; este
+estado de exaltação originou uma febre cerebral, e o pobre André desceu
+rapidamente o declive que conduz ao cemitério.
+
+Felizmente, sua mãe moldara-o em bronze: a doença apenas o apalpou de
+leve, e, não obstante a senhora Poussignol ter chamado dois médicos, o
+pintor escapou. O seu físico restabeleceu-se à custa do moral:
+André, sempre profundamente melancólico, atirou-se ao trabalho como quem
+se atira a um poço.
+
+Este género de suicídio não era dos menos eficazes: André prosseguia
+nele com uma pertinácia de mau agouro, e qualquer outro convalescente,
+menos bem construído do que ele, não duraria três semanas com semelhante
+afã.
+
+Entretanto, onde ele esperava encontrar a morte, encontrou um paliativo.
+A fadiga do corpo adormentou-lhe, pouco a pouco, a dor do espírito. E a
+arte ganhou com isso: a pintura de André ressentiu-se das tribulações da
+sua vida. Desenvolveu nos seus quadros um vigor de colorido, uma fúria
+de concepção, um arrojo de pensamentos, uma originalidade de meios, que
+não teriam de certo brotado das plácidas inspirações de um espírito
+tranquilo. O homem feliz já não existia: revelou-se o artista.
+
+Enfim, o acaso também entrou em cena. Como André, a tudo indiferente,
+não corria atrás do dinheiro nem da fama, aconteceu naturalmente que a
+fama e o dinheiro correram atrás dele.
+
+Surgiram no horizonte sinais precursores de gloria. O mercador de
+quadros, que até ali o explorara sem vergonha, e lhe comprara muitas
+telas por preços fabulosamente baixos, aumentou-os... oh, prodígio!... e
+aumentou-os de seu moto próprio.
+
+Fez mais ainda: concordou, sem hesitar, em que o nome de Sauvain ecoava
+já na opinião de alguns ricos amadores, e que, se André quisesse, o
+oiro, de ora em diante, seria para ele uma realidade.
+
+O pintor encolheu os ombros, pagou as dívidas que contraíra durante a
+doença, e voltou à sua lida obstinada.
+
+O verão acabou lentamente. A julgar pelo número de encomendas, os
+créditos de André não diminuíam; apenas concluído um dos seus quadros,
+era logo vendido. O seu _Faust au sabbat_ tornou-se propriedade de um
+capitalista misterioso, que o pagou muito caro e desejou conservar o
+anónimo.
+
+Noutro tempo, aquela veia de bom êxito teria enlevado Sauvain; agora
+era-lhe mais um motivo de ironia e de amargura. Pensava em Rosa perdida
+para ele, em Rosa talvez infiel, em Rosa que o esquecia, pois nem sequer
+lhe escrevera, e repetia a si mesmo: «De que me serve isto?»
+
+Contudo, a abastança substituíra a pobreza; nada impedia André de trocar
+o seu escuro cubículo da rua dos Mártires por um _atelier_ mais cómodo e
+decente; todavia não o quis deixar. Invisíveis cadeias o ligavam ali.
+Alugara os dois quartos, habitados anteriormente pela sua Rosa e pelo
+pai. Podia acaso afastar-se daquela janela, onde ela lhe aparecera na
+flor da sua radiante beleza? Podia afastar-se daquele jardim, onde ela
+lhe fizera a primeira confissão do seu amor?... daquele banco, onde
+se sentava a par dele?... daquela casa, onde lhe decorreram horas tão
+venturosas?...
+
+Ficou, e continuou a torturar a alma na saudade, como torturava o corpo
+na fadiga.
+
+Porém, quando veio o outono, quando as árvores, que vira frondosas e
+virentes, amareleceram e deixaram cair as folhas... então abandonou-o a
+coragem: à sua fictícia actividade seguiu-se uma indolência invencível;
+como o trabalho o não matara, amaldiçoou o trabalho e aborreceu-o;
+pálido, enervado, emagrecido, com os olhos brilhantes de febre, sem
+forças, nem energia, passou os seus dias, inúteis, ruminando a própria dor.
+
+Como as folhas caíam das árvores, uma a uma, assim se desprendiam as
+suas quimeras. Crenças de gloria e crenças de amor... todas iam pelo
+mesmo caminho. Da sua mocidade florescente, restava apenas o esqueleto.
+
+Era a estação cismadora, em que a terra e o sol confundem num beijo os
+seus últimos adeuses, em que o céu se vela num crepe cor de opala, bruma
+transparente, que o voo das andorinhas rasga ao partirem. Era a estação
+temerosa, em que o enfermo melancólico pressente o seu próximo fim, e
+busca um seio amigo, onde reclinar a fronte.
+
+E André, pressentindo também o inverno para a sua alma, buscava ao redor
+de si um conforto, uma dedicação, uma simpatia... Mas... debalde:
+nada encontrava... nem um ente, a quem amar! No seu passado, no presente
+ou no futuro, nenhuma ligação, nenhuma alegria, nenhuma esperança! Em
+tudo o deserto, em tudo o vácuo, em tudo o desalento!...
+
+Então, prostrado de corpo e desfalecido de espírito, com o peito
+entumecido de lágrimas, exalou instintivamente o queixume habitual da
+criança em aflição. Bem como a pérola, lançada nas ondas, volta à
+superfície, assim uma palavra de há muito esquecida, subindo do fundo da
+sua fraqueza, do abismo do seu isolamento, lhe vibrou nos lábios: «Minha
+mãe!»
+
+Oh, maternidade! afeição puríssima e inexcedível, consolação
+sobre-humana, único amor desinteressado, único apoio... que resiste
+quando todos os outros se nos despedaçaram nas mãos, e ainda quando os
+mais indeléveis sentimentos se esvaíram em fumo! Maternidade! santa
+encarnação do sacrifício! O homem só te aprecia quando te perde!
+
+Oh! se sua mãe vivesse!... Como iria refugiar-se no seu seio! Como ela
+teria derramado naquele coração o bálsamo da sua ternura! Como o
+embalaria com aqueles misteriosos acentos, que as mães tiram do
+vocabulário dos anjos!...
+
+Ai dele! sua mãe era morta!
+
+Àquela recordação pura, tanto tempo abandonada por amor de uma
+ingrata, André corou de remorsos.
+
+Lembrou-se do tempo, em que o seu máximo desejo fora cobrir com uma
+campa as cinzas da viúva, e o seu mais acariciado projecto restaurar as
+ruínas da casinha onde vivera com ela.
+
+O oiro necessário possuía-o agora.
+
+Que significava, pois, o ficar ali covardemente suspirando? A morta
+esperava.
+
+--Coragem! exclamou André. A caminho!...
+
+E, numa linda manhã de Setembro, partiu com a mala aos ombros, levando
+sob a blusa de linho os seus modestos haveres, e sentindo amarga
+satisfação em pensar que ia morrer no tugúrio em que nascera. Para
+cumprir escrupulosamente o seu voto, empreendeu a viagem a pé, como no
+tempo em que era tão alegre, quanto pobre. Nesse tempo, sua mãe não
+tinha rival no coração do pintor; a sua imagem adorada sorria-lhe de
+entre as árvores do caminho. Agora não acontecia o mesmo: a seu pesar,
+uma outra imagem substituía a primeira. Queria chorar pela santa guarda
+da sua infância, e chorava pela fada da sua juventude, Rosa! Debalde
+concentrava o pensamento no termo da sua peregrinação; a cada passo
+voltava insensivelmente a cabeça para trás. Em vão evocava o semblante
+frio e macilento da morta; a memoria só lhe reproduzia um rosto animado,
+com olhos negros e cabelos louros...
+
+Assim caminhou André por muitos dias, descansando nas estalagens dos
+almocreves, bebendo na palma da mão, dormindo no meio dos campos
+matizados de amarelo e púrpura.
+
+Desses esplendores do outono, nada notou... ele, o artista, o
+entusiasta! Nada o comoveu; nem o horizonte, nem a verdura, nem os
+efeitos da luz, nem a poesia campestre que a terra emanava por todos os
+seus poros, no intervalo abençoado, que vai da ceifa à vindima. Somente,
+quando por acaso descobria dois namorados, ocultos entre as ervas, uma
+dor atroz lhe apertava a garganta, e fugia blasfemando.
+
+Enfim, uma tarde, à hora do crepúsculo, André atravessou a última
+aldeia, que o separava de sua casa: os camponeses sentados à soleira das
+suas portas, as velhas fiando na roca, as crianças semi-nuas, as frescas
+mocetonas de riso sonoro, acompanharam-no com olhar curioso, perguntando
+a si mesmos para onde se dirigiria aquele forasteiro, tão pálido e com
+os pés embranquecidos da poeira.
+
+Uma hora depois, André avistava o seu casebre.
+
+
+
+
+XVIII
+
+
+Lá estava ainda, mudo, negro e meio-derrocado, ao cimo da colina. O
+vento da Costa não o derrubara de todo.
+
+Os seus contornos desenhavam-se vigorosamente no acinzentado do céu, com
+o seu tecto de verde musgo, e as árvores desfolhadas do velho jardim.
+Uma brisa áspera, precursora do inverno, fazia bater as portas das
+janelas, arrancadas dos seus gonzos; e aranhas enormes urdiam
+tranquilamente as suas teias nos buracos dos vidros quebrados.
+
+Mais adiante estendia-se, a perder de vista, o vasto oceano.
+Balouçava-se pacífico, com o seu monótono e solene murmúrio: da
+superfície das ondas elevava-se lentamente um intenso nevoeiro, qual
+gigantesco sudário.
+
+André parou, possuído de religiosa comoção; abriu a porta carunchosa e
+entrou em casa. Um odor indefinível se exalava daquele recinto,
+onde ninguém penetrara depois da morte de sua mãe. À luz indecisa do
+dia, que acabava, André pôde distinguir o grande leito de colunas, com
+os seus cortinados de ramagens e flores fantásticas, a arca de nogueira,
+o crucifixo com palmas bentas, os escabelos maciços, e as redes da
+pesca, herança de seu pai. Sobre a mesa, via-se ainda uma tapeçaria por
+acabar. Parecia que a obreira saíra de casa... momentos antes.
+
+André beijou aquele pedaço de estofo, que as mãos de sua mãe tinham
+bordado.
+
+Depois fechou a porta e sentou-se pensativo junto da chaminé. E aí,
+mergulhado nas trevas, que rapidamente aumentavam, com os olhos fitos na
+lareira vazia, transportou-se em espírito ao sombrio passado.
+
+O marulhar cadente do oceano acompanhava-o na sua tristeza. Ao menor
+estalido do vigamento, André comprazia-se em fantasiar que sua mãe
+estava ali; que, terna e risonha, se aproximava com passos ligeiros; e
+que ele ia sentir na fronte o doce contacto dos seus lábios...
+
+Entregue completamente às suas recordações, dizia de si para consigo,
+que, se Deus recompensa o martírio, a pobre mulher devia ser bem feliz
+no outro mundo.
+
+O pintor não confessara tudo a Rosa.
+
+Filha de um rico rendeiro, cortejada pelos melhores proprietários dos
+arredores, a mãe de André preferira-lhes Sauvain, um simples pescador da
+costa. Ao cabo de um ano de vida conjugal, esse homem enfastiara-se
+dela; maltratou-a, desbaratou em deboches e embriaguez, quanto possuíam,
+e afinal desapareceu, abandonando à miséria a esposa e o filho
+recém-nascido.
+
+Três anos depois, soube ela simultaneamente, do seu alistamento a bordo
+da _Ariana_, e da perda daquele navio com toda a tripulação.
+
+Bela e virtuosa, fácil lhe teria sido tornar a casar. Mas... idolatrava
+seu filho, e temia impor-lhe um tirano. Além disso, não obstante as
+brutalidades de Sauvain, não cessara de ama-lo. Dedicou à sua memoria um
+culto, aliás pouco merecido, e conservou-se viúva.
+
+Então começou para ela uma vida heróica, toda de sacrifícios e
+abnegação. Privou-se de comer e de dormir, para poder dar a seu filho
+uma educação conveniente; desejava-lhe uma carreira modesta, um emprego
+que o fixasse em Granville, a dois passos da sua casa natal, perto de si
+enfim...
+
+Mas André iludiu aquele plano materno. Atormentava-o uma inquietação
+incompreensível, tinha sede de movimento e de espaço; começavam a nascer
+as suas asas de artista... Não tinha ainda doze anos, quando um
+escultor, passando por ali, o encontrou, e apreciando a sua
+inteligência precoce, propôs-lhe levá-lo consigo. André bateu as palmas
+de alegria; e a viúva, engolindo as lágrimas, deixou-o ir.
+
+Alguns meses depois, chamou-o ela a toda a pressa: André veio logo, mas
+chegou só a tempo de assistir-lhe ao enterro.
+
+Aquela súbita doença, aquela morte inesperada, fulminaram a criança de
+surpresa e terror; interrogou os que tinham assistido a sua mãe, mas
+apenas puderam responder-lhe que um dia, ouvindo em casa da viúva um
+grito estridente, acudiram e encontraram-na pálida e trémula, com o
+rosto desfigurado, segurando-se a um móvel para não cair no chão. Por um
+prodígio de coragem, conseguiu ainda escrever duas linhas a seu filho;
+deitaram-na na cama, pediu um padre, e expirou no dia seguinte. Não
+podia duvidar-se de que, mais uma desgraça pousara a sua mão de ferro
+sobre aquela humilde existência... Que desgraça fora, nunca o soube André.
+
+Quantas vezes, desde então, torturara ele o espírito para penetrar o
+sinistro enigma?
+
+Naquele momento ainda, decorridos tantos anos, sozinho entre aquelas
+paredes mudas, ora aglomerava, ora repelia, e logo reconstruía, na sua
+imaginação ardente, mil hipóteses contraditórias; e as rajadas
+impetuosas do vento, abalando o tecto, sucediam-se, como
+gargalhadas de escárnio, mofando de suas loucas conjecturas...
+
+Entretanto adiantava-se a noite, e pelas mil fendas do casebre
+filtrava-se glacial humidade. André, transido de frio, ergueu-se enfim
+às apalpadelas, acendeu luz, dirigiu-se a uma pequena carvoeira
+contígua, e aí ajuntou algumas achas, que dispôs na lareira.
+
+Tentou fazer uma boa fogueira, mas a tarefa não era fácil.
+
+Um montão de cinzas, extintas havia doze anos, obstruía a chaminé. O
+pintor quis desvia-las; porém, ao enterrar a pá, tocou num objecto duro,
+resistente, metálico, que não pôde logo adivinhar o que fosse. Tirou-o e
+limpou-o ao forro da blusa.
+
+Era uma chave ferrugenta, de mui exígua dimensão e de forma particular.
+Evidentemente só podia pertencer a um pequeno cofre, ou a um
+indispensável de mulher.
+
+André olhou em volta de si, mas não descobriu nenhum utensílio daquele
+género. Atirou com a chavinha para cima da mesa e acendeu a lenha, que
+começou a crepitar.
+
+O velho recinto iluminou-se de alegre claridade. O pintor tentava reatar
+o fio dos seus pensamentos, mas debalde; a seu pesar, a pequena chave
+intrigava-o; não sei que vaga intuição lhe segredava ao ouvido que,
+entre aquela chave e o mistério que procurava desvendar, havia
+talvez íntima relação...
+
+De repente, à força de a virar e revirar nos dedos. Lembrou-se de haver
+brincado em criança com uma caixinha, habilmente coberta de conchas
+multicolores, como muitas que se vendem em certos portos de mar.
+
+Sua mãe apreciava-a muito: fora um presente do marido, que lha comprou
+na feira de Granville... Conservava-a como uma relíquia, e nela guardava
+o que tinha de mais precioso. A caixa existiria ainda?
+
+André começou a procurá-la, e, sempre guiado pelas suas recordações,
+descobriu-a sobre um resto de roupa branca, que ficara a um canto da
+arca de nogueira. Tomou-a nas mãos e, pelo seu pouco peso, julgou que
+estava vazia. Contudo meteu a chave na fechadura.
+
+A caixa abriu-se; continha apenas um papel.
+
+Era uma carta aberta. O sobrescrito, matizado pelos selos da posta
+inglesa, indicava a procedência de Liverpool.
+
+Durante alguns minutos, o pintor ficou imóvel, perplexo, comovido, em
+frente daquele escrito, que sem dúvida encerrava o segredo da morte de
+sua mãe.
+
+Contudo sentou-se, aproximou a luz, desdobrou a missiva, e buscou
+primeiramente a assinatura. Ao vê-la, escapou-se-lhe dos lábios um
+grito de surpresa.
+
+No fim da terceira página de uma caligrafia incorrecta mas de traços
+vigorosos, desenhava-se em letras enormes, o nome de Pedro Toucard!
+
+Depois, André leu o que se segue:
+
+«Liverpool, 4 de Maio de 1842.--Minha senhora: O meu nome, embora lhe
+seja desconhecido, é o de um homem, que a lamenta e lhe dedica sincero
+interesse. Julga poder provar-lho, e cumprir ao mesmo tempo um dever,
+informando-a de uma particularidade que, sem isso, ignoraria sempre.
+
+«Há nove anos, que a senhora chora Onésimo Sauvain, seu marido; porém
+Onésimo Sauvain não morreu.
+
+«Quando a _Ariana_ naufragou, era eu passageiro a bordo daquele navio,
+do qual ele era marinheiro. Só eu e ele, dentre toda a tripulação,
+tivemos a boa fortuna de escapar.
+
+«Arrojados a uma praia pouco hospitaleira, igualmente esfaimados,
+igualmente desprovidos de recursos, associámos os nossos destinos. Seu
+marido é um malandro, mas inteligente e resoluto. Ajudou-me nas minhas
+empresas, e, navegando de conserva, levámos a cabo não poucas
+especulações lucrativas.
+
+«Desde o princípio, e sem dizer-me a razão, manifestava ele o desejo de
+passar por morto; anunciou-se por toda a parte como meu irmão, e de
+Onésimo Sauvain, que era, transformou-se em Onésimo Toucard. Ora eu, que
+não sou tolo, não tardei em fazê-lo dar à língua. Confessou-me que
+deixara por aí... a qualquer canto; uma mulher e um filho, e que não
+tinha grande empenho em tornar a vê-los. A coisa pareceu-me ignóbil;
+disse-lho claramente, porém ele mandou-me para o diabo. Entretanto
+persegui-o com tais instâncias e ameaças de desmentir o boato da sua
+morte, que me prometeu, não sem repugnância, escrever-lhe logo que
+tivesse adquirido meios suficientes para viverem cómoda e honradamente.
+
+«Hoje, minha senhora, decorridos nove anos de alternativas de boa e má
+fortuna, depois de uma viagem feliz, liquidámos as nossas contas. A
+parte de Onésimo eleva-se a perto de dez mil francos; a nossa sociedade
+dissolveu-se; ele renuncia ao comércio, e quer, segundo diz, gozar em
+paz da sua modesta abastança. Quanto a mim, que não me contento com tão
+exíguo capital, reembarco para a Índia, daqui a três dias, e vou de novo
+tentar fortuna.
+
+«Onésimo volta para França, e jurou-me reintegrar o domicílio conjugal;
+mas, como depois me pediu que lhe dirigisse provisoriamente as minhas
+cartas para Versailles, posta restante, e sob certas iniciais,
+inclino-me a crer que ele roerá a palavra a este seu criado, continuando
+a deixar a esposa em viuvez, e que dissipará em orgias o capital,
+que pertence legitimamente a seu filho.
+
+«Previno-a pois, minha senhora, para que, pelos meios que julgar
+convenientes, impeça seu marido de cometer novas loucuras, imperdoáveis
+na sua idade, e também para que procure restituir o pai a seu filho.
+
+«Talvez esta advertência vá demasiado tarde; porventura estará morta, ou
+tornaria a casar a mulher de Onésimo... Em todo o caso, obedeço às
+ordens que me dita a consciência.
+
+«Onésimo partiu ontem, 3; segundo todas as probabilidades deve chegar a
+Paris no dia 6, e a Versailles, de 7 a 10. Ignoro o segundo pseudónimo
+que adoptará; mas, indicando-lhe a terra onde tenciona esconder-se, não
+me parece difícil que consiga descobri-lo.
+
+«Queira aceitar, minha senhora, as expressões do profundo respeito
+de==_Pedro Toucard_.»
+
+Quando André voltou a si do espanto, que lhe causara aquela carta,
+estremeceu ao pensar na impressão dolorosíssima, que ela devia ter
+produzido em sua mãe.
+
+Saber que seu marido vivia, e a detestava a ponto de preferir a morte
+civil à vida de família!... Saber que esse homem era relativamente rico,
+e não lhe importava sequer se seu filho tinha pão!...
+
+Sem dúvida, aquelas terríveis decepções, as suas ilusões
+violentamente arrancadas, tinham morto a pobre mulher, sem dar-lhe
+tempo, nem forças, para comunicar a André a noticia, que tivera.
+
+Depois, o pintor tentou reunir as suas ideias, porém elas dançavam em
+vertiginoso galope, e com grande custo conseguiu desembaraçar a meada
+dos acontecimentos, que o acaso enredara em tão extraordinárias
+complicações.
+
+Então... aquele viajante, vitima da catástrofe de 8 de Maio, era seu pai!
+
+Então... os noventa e dois mil francos, depositados pelo moribundo nas
+mãos de um estranho, pertenciam-lhe!
+
+Então... o senhor Germinal, que durante doze anos procurara, e receara
+encontrar, o herdeiro de Onésimo, morou defronte dele todo esse tempo!
+
+Então... desposando Rosa, e aceitando o dote que o velho lhe oferecera,
+era André quem enriquecia a mulher que amava!
+
+Então... Pedro Toucard, levado ali por essa série de singulares
+coincidências, abusou do seu falso parentesco com Onésimo para
+apossar-se de uma soma, a qual todavia tentara em tempos fazer reverter
+para os seus legítimos donos!
+
+André compreendia agora a extraordinária comoção do provençal ao ouvir o
+nome de Sauvain. A consciência do aventureiro era elástica, mas ainda
+não estava gangrenada; apesar dos seus escrúpulos, não pudera
+vencer o seu frenesim de especulação, nem deixar fugir a ocasião de
+traficar mais uma vez.
+
+Entretanto tinha, sem o saber, despedaçado a felicidade futura de Rosa e
+de André!
+
+«Pela memoria de minha mãe! exclamou o pintor, juro que lhe farei
+restituir o dinheiro!»
+
+E logo um clarão de alegria lhe iluminou e reanimou o espírito.
+Reflectiu em que, uma vez na posse daquela soma, disporia de meios
+enérgicos para descobrir o senhor Germinal, e que o velho teimoso não
+teria então mais nenhum obstáculo, que opor ao seu casamento com Rosa.
+
+Passou grande parte da noite a passear pela casa, como um louco. Depois,
+prostrado de fadiga, deitou-se, adormeceu com a cabeça escandecida, e
+teve um pesadelo.
+
+Sonhou que Pedro Toucard, trajando um fato recamado de oiro e pedras
+preciosas, pendendo-lhe do rosto uma barba em duas pontas, de prata
+maciça, galopava, ao longo dos _boulevards_, numa carruagem puxada por
+doze cavalos... André perseguia-o, correndo a bom correr... Queria
+gritar: «Agarra, que é ladrão!» mas a sua garganta não soltava o menor
+som... E Pedro fugia sempre, semeando às mãos cheias, por sobre a
+multidão, noventa e duas mil notas do banco, carimbadas com o nome de
+Sauvain...
+
+
+
+
+XIX
+
+
+Quando o pintor acordou, estava transfigurado. Do mesmo modo que, em
+face dele, o sol se alevantava majestosamente por cima do mar, rompendo
+as névoas pardacentas, enrolando-as como um manto, e descobrindo a
+imensidade líquida, sobre a qual espargia milhares de gotas de oiro;
+assim, no coração de André, a tristeza, o abatimento, o desanimo, tudo
+se evaporara ao sol da esperança.
+
+Uma resolução firme substituíra todas as suas indecisões. O seu programa
+era:
+
+1.º--Encontrar Pedro Toucard: o que devia ser fácil, vista a
+excentricidade da sua pessoa, e a atenção que não podia deixar de atrair
+sobre si.
+
+2.º--Fazer-lhe restituir o dinheiro, que levara.
+
+3.º--Lançar uma matilha inteira, se preciso fosse, na pista do senhor
+Germinal; ir ter com ele, ainda que estivesse na Gronelândia,
+agarra-lo à viva força, desposar Rosa, e ser feliz.
+
+Nada mais simples!
+
+André saiu, portanto, alegre e despreocupado; aspirou deliciosamente os
+perfumes do ar salino da costa, enviou um olhar reconhecido ao céu de
+azul-turquesa, e descendo por atalhos desertos, entrou no cemitério da
+aldeia, cujas campas, abrigadas pela igreja musgosa, alvejavam ao romper
+do sol.
+
+Ali, num canto isolado, parou, mais por instinto do que por fiel
+recordação, ante um montículo invadido por ervas parasitas e por
+parietárias. Uma cruz de madeira, negra e carunchosa, jazia quebrada
+entre as plantas incultas; o nome, outrora gravado nos braços dessa
+cruz, já não se distinguia.
+
+André ajoelhou na relva húmida, e ficou assim por muito tempo. Só quando
+rumores longínquos lhe anunciaram o despertar da aldeia, afastou-se
+tranquilo, mas em profundo recolhimento.
+
+No mesmo dia, encomendou uma lápide tumular, que pagou adiantada, e
+entendeu-se com um arquitecto para as reparações do seu pardieiro e do
+velho jardim. Empenhava-se tanto em dar-lhes um aspecto risonho, porque
+decidira passar ali com Rosa as horas encantadas da lua de mel.
+
+Cumpridos estes deveres, meteu no bolso a carta de Pedro Toucard, tornou
+a pôr na arca a caixa de conchinhas, confiou a chave da casa ao
+empreiteiro encarregado das obras, e, nessa mesma tarde, partiu para
+Paris no último comboio do caminho de ferro, pois que, desta feita, não
+tinha tempo a perder.
+
+No dia seguinte, ao meio dia, estava ele de pé no seu _atelier_,
+escovando o chapéu para correr em busca do provençal.
+
+--Por onde começarei? perguntava a si próprio; onde poderei mais
+facilmente encontra-lo?... Ora... já sei! na Bolsa! Foi para lá, que ele
+transportou a sua tenda de campanha, e tenho quase a certeza de o ir
+apanhar, entre uma compra e uma venda de fundos.
+
+Quando acabava de proferir estas palavras, abriu-se a porta, e André,
+petrificado de espanto, recuou três passos.
+
+Entrou Pedro Toucard... Pedro Toucard, em carne e osso!
+
+--O senhor!... exclamou Sauvain.
+
+--Eu mesmo, respondeu o aventureiro com o seu habitual desembaraço. Bons
+dias, caro amigo!...
+
+E, como André lhe não estendesse a mão, agarrou-a ele quase à força,
+estreitando-a nas suas.
+
+Depois continuou, escarranchando-se numa cadeira:
+
+--Então, como vai isso?... bem?... Folgo deveras. Acho-o um pouco
+mudado... um tanto pálido... mais magro... mas bem disposto e
+animado, o que me causa imenso prazer.
+
+--É muita bondade!... lhe tornou André, com voz ironicamente ameaçadora.
+
+--Dá-me prazer, palavra de honra! porque não foi sem uma tal ou qual
+inquietação, que embarquei esta manhã para a rua dos Mártires...
+
+--E por que motivo? perguntou o pintor, curioso de ver até que ponto
+chegava semelhante impudência.
+
+--Primeiramente, porque há muito que o não vejo... Lembra-se de que a
+minha última visita data de há quatro meses?
+
+--Lembra-me muito bem!... resmungou André com os dentes cerrados.
+
+--Em segundo lugar... sim... é porque tenho uma confidência... um pouco
+difícil, para fazer-lhe.
+
+--Uma confidência!
+
+--Ou, mais propriamente, uma confissão... Ora, imagine o senhor que tem
+suas razões de queixa contra mim... graves razões de queixa!...
+
+--Realmente?
+
+--É exacto... Podia ocultar-lhas sempre, mas a minha consciência tem
+andado opressa: hoje transborda e impele-me às confissões...
+
+Perante este arrependimento, real ou fingido, a cólera de André
+esvaiu-se quase de súbito.
+
+--Ora vamos!... pensou o pintor, este homem ainda tem bons sentimentos;
+e visto que se emenda, não tenho coragem para lhe querer mal. Para todo
+o arrependimento, misericórdia!...
+
+--Estou pronto a escutá-lo? disse ele a Pedro em tom mais brando.
+
+O provençal torceu os cabelos grisalhos da barba e coçou a orelha.
+
+--Custa a contar!... murmurou este. Se me dessem a escolher, preferiria
+trepar ao cimo do Himalaia... A coisa é dura, que tem diabo!...
+
+--Então, disse-lhe André sorrindo, não diga nada, meu bravo! E inútil,
+porque eu sei tudo.
+
+--Ora essa!... exclamou Pedro, erguendo-se aterrado!
+
+--Trata-se dos meus noventa e dois mil francos, não é assim?
+
+--Dos seus... Ai, com mil bombardas! é certo que sabe tudo!... Mas quem
+diabo podia instruí-lo de uma coisa, que ninguém neste mundo...
+
+--Foi o senhor mesmo, interrompeu o pintor.
+
+--Eu!...
+
+--Ora leia.
+
+E Sauvain colocou-lhe debaixo dos olhos a carta datada de Liverpool.
+
+Pedro Toucard, atentando na carta aberta, corou ligeiramente.
+
+--Reconheço a letra, disse ele, posto seja mais nova do que eu...
+doze anos. Mas juraria que essa carta não tinha chegado ao seu destino!
+
+--Enganava-se.
+
+--Convenço-me porém de que, há quatro meses, quando embolsei este
+dinheiro...
+
+--O meu dinheiro, quer dizer?
+
+--Seja... Convenço-me de que o senhor ignorava o conteúdo dela?
+
+--Ignorava-o ainda há quarenta e oito horas.
+
+E André contou como, por acaso, ao remexer as cinzas do lar,
+desenterrara a chave da caixa, a qual era ao mesmo tempo a chave de
+tantos mistérios!
+
+--É indubitável que existe uma Providência! disse Pedro abanando a
+cabeça. Tudo se descobre, mais cedo ou mais tarde! Ora vejam com que
+cara ficaria diante de si, se, confiando na impunidade, não fosse eu o
+primeiro a confessar a minha culpa, porque... enfim... eu roubei-o!
+
+--Ai! suspirou André, não é do dinheiro que eu mais tenho lamentado a
+falta!
+
+--Sim, sim, adivinho!... e é isso o que torna o meu crime imperdoável!
+Informei-me, e soube da ruptura do casamento, assim como da desaparição
+de Rosa, levada por seu pai, não se sabe para onde. Pobre rapaz!... e
+fui eu... eu!...
+
+--Ora!... disse alegremente o pintor, havemos de dar com ela.
+
+Os olhos cintilantes do provençal fixaram-se em André com inquieta
+surpresa.
+
+--Com a fortuna! exclamou ele, o senhor é um filosofo às direitas!
+
+--Porquê?
+
+--Pois, um homem rouba-lhe uma soma avultada, destrói as suas esperanças
+de amor e de casamento; e o senhor, em vez de sova-lo com um cacete,
+conversa tranquilamente com ele!...
+
+--A falar a verdade, meu caro senhor, disse Sauvain rindo, se o tivesse
+encontrado de improviso esta manhã, não responderia pelos meus gestos.
+Mas o passo, que acaba de dar, desarmou-me, e como concorda em que fez
+mal... sim... visto estar pronto a restituir...
+
+--Restituir! interrompeu Pedro. Com mil bombas! já não nos entendemos!...
+
+André deu um pulo, com os lábios a tremer-lhe de raiva.
+
+--Olá! mestre Toucard, dar-se-á acaso que pretenda conservar?...
+
+--Não pretendo nada, com mil raios!... Não olhou para mim? Ora examine o
+meu exterior!... É esta porventura a aparência de um capitalista? Terei
+ares de um feliz mortal, que lhe trouxesse no bolso noventa e dois mil
+francos?
+
+Efectivamente, Pedro Toucard estava a cem léguas de possuir semelhantes
+ares.
+
+Envolto em sórdidos farrapos, enlameado até ao pescoço, ter-lhe-iam
+oferecido dois soldos à esquina da rua. Luzia-lhe a pele através dos
+buracos do fato, e as botas arrebentadas vomitavam jorros de lama.
+
+O artista sentiu um choque violento quando reparou naquela libré da
+miséria. Uma ideia horrível lhe descompôs as feições.
+
+--Olá!... que é isso? disse o provençal, assustado com a palidez dele;
+agora olha demais para mim!... Sossegue, meu rapaz, e beba um copo de
+água. Feridas de dinheiro não são mortais.
+
+--Oh! articulou o pintor angustiado, é então verdade?
+
+--O quê?
+
+--O que eu suponho...
+
+--Não sei o que supõe, mancebo. O facto é que estive na alta, e
+depois... veio a baixa.
+
+--Portanto está tudo perdido!
+
+--Fundido, destruído, evaporado!
+
+--Não resta coisa alguma?
+
+--Restam-me... dívidas.
+
+--E a herança de meu pai?
+
+--Foi para casa de seiscentos diabos.
+
+--Infame! rugiu Sauvain, agarrando Pedro pela gola da velha
+sobre-casaca, e sacudindo-o rudemente.
+
+O aventureiro deixou-se sacudir. Meteu sossegadamente as mãos nas
+algibeiras das calças despedaçadas, e poderia mesmo jurar-se que um
+vago sorriso de infernal satisfação lhe assomara aos lábios.
+
+--Vamos, mancebo!... disse ele. Não hesite: bata-me, estropie-me,
+mate-me. Sou um tratante, um canalha, um ladrão; nem valho a corda com
+que me enforcarem!...
+
+André largou-o; repugnava-lhe maltratar um velho.
+
+Cego pelas lágrimas, sufocado pela indignação, aniquilado pelo
+desespero, caiu prostrado numa cadeira e só pôde balbuciar estas palavras:
+
+«Rosa!... Rosa!... minha pobre Rosa!...»
+
+Pedro pareceu sinceramente comovido.
+
+--Ah!... resmoneou ele, procurando em vão no crânio calvo um punhado de
+cabelos para arrancar; eu devera-o ter previsto!... O desgraçado contava
+com o seu dinheiro para desposar a pequena... e tu, grande bandido,
+velho celerado, devoraste tudo, deitaste-lhe abaixo a igrejinha!
+
+E nisto, infligindo a si próprio as maiores injúrias, desenfiava um
+rosário de pragas.
+
+Entretanto a dor de André atingia o seu paroxismo. Encostado à mesa, com
+o rosto esmagado entre os punhos contraídos, fazia esforços incríveis
+para recalcar no peito os gemidos e gritos de raiva... mas debalde.
+
+--Ora vamos!... vamos! continuou Toucard; que não haja, sobre queda,
+coice! O enguiço triunfa hoje, de acordo! mas eu sou um
+espertalhão, bem o sabe... Dentro em pouco tirarei a desforra, e
+reembolsa-lo-hei então do capital e juros. Quer que lhe assine uma
+obrigação de cem mil francos, pagável na minha primeira veia de fortuna?
+
+André ergueu-se bruscamente, deixando ver o rosto afogueado e banhado em
+pranto.
+
+--Fora daqui, miserável! exclamou ele. Não tente a minha desesperação
+com as suas covardes zombarias!... Saia!
+
+--Não estou zombando, disse o provençal; e juro-lhe pela minha honra...
+
+--Pela sua honra!... interrompeu amargamente o pintor.
+
+--Seja pelo que for... Enfim... juro-lhe que o meu desejo mais veemente
+seria vê-lo rico e satisfeito.
+
+--E por isso me roubou o meu património, não é assim?
+
+--Que diabo posso eu dizer-lhe? As notas do banco já estavam no meu
+bolso, agarravam-se a mim e gritavam-me: «Leva-nos! Foi, graças a ti,
+que Onésimo nos ganhou; portanto... pertencemos-te um pouco!...
+Leva-nos, Pedro, e quintuplicar-nos-ás... decuplicar-nos-ás! André,
+Rosa, toda a família será feliz, e isso devido a ti... Leva-nos!»... Com
+a breca, levei-as!... Se esta explicação lhe não basta, pegue numa
+pistola, e abra-me a cabeça; até me faz favor!... Ou então... arraste-me
+ao banco dos réus, para que me condenem às galés.
+
+André, silencioso, envolveu o aventureiro num longo olhar de tédio.
+
+--Não, replicou por fim. Não me esqueço de que foi amigo de meu pai; não
+me esqueço desta carta... a única acção honesta da sua vida! Não me
+vingarei, senhor mas, pelo amor de Deus, retire-se!
+
+Apesar da sua casca grossa, Pedro Toucard sentia-se enternecido.
+
+Dirigiu-se lentamente para a porta; depois parou, torceu a barba,
+reflectiu, e inclinando-se para André, que lhe voltava as costas, murmurou:
+
+--Senhor Sauvain...
+
+--Ainda aqui! exclamou o pintor.
+
+--Antes de ir-me embora, quero que saiba, se isto pode servir-lhe de
+consolação, que o céu se encarregou de castigar-me. Estou mais
+miserável, senhor André, do que no dia em que me fez a esmola... que tão
+pouco lhe aproveitou! Numa palavra, morro de fome; e como me repugna
+mendigar, vou direito daqui lançar-me ao rio. Adeus!
+
+--Espere!... disse Sauvain.
+
+E puxando da bolsa, despejou-a sobre a mesa.
+
+--Leve isso.
+
+--Eu!...
+
+--Arrecade isso, já lho disse, e vá-se embora. É em memoria de minha
+mãe, a quem tentou prestar um serviço. Eu... de nada preciso já.
+
+Toucard guardou o dinheiro; porém os dedos tremiam-lhe, e os seus olhos
+lampejavam humedecidos.
+
+--De que me serve viver, retorquiu ele, se não me perdoa?... se não
+recobro o sono, que me foge?
+
+O pintor encolheu os ombros.
+
+--O que está feito, está feito! respondeu-lhe com voz abatida. Toda a
+minha raiva, todo o meu ódio, todo o meu desprezo, não ressuscitariam
+uma parcela sequer da minha felicidade perdida!... Vá em paz; perdoo-lhe!
+
+O aventureiro ficou imóvel, e como fulminado de espanto, no limiar do
+_atelier_. Contemplou Sauvain, o qual se encostara ao canapé, e, com o
+semblante meio oculto pelos seus longos cabelos, parecia ter-se tornado
+insensível ao mundo exterior.
+
+--Este, sim!... que tem um coração de oiro sem liga! murmurou ele com
+singular expressão. Se a sorte lhe não sorri... é uma grande velhaca,
+com mil bombardas!
+
+E saiu.
+
+
+
+
+XX
+
+
+Imaginem um homem caído do alto de uma torre, uma massa de carne
+ensanguentada, que ainda respira. Os olhos vêem tudo cor de sangue; os
+ouvidos só recebem rugidos confusos; a inteligência flutua ao acaso; e o
+corpo inerte, despedaçado, inútil, sofre demasiado para continuar a
+viver, mas não o bastante para conseguir morrer.
+
+Assim estava André Sauvain.
+
+Precipitado do alto das suas esperanças, vegetou quinze dias sem pensar,
+sem acção, sem ter consciência do tempo, nem das alternativas do sol e
+das trevas, que se sucediam regularmente na marcha imutável das horas.
+
+Porém, um dia, despertou de súbito daquela assustadora prostração.
+
+Ergueu-se, frio e resoluto, juntou os quatro retratos de Rosa, que
+pintara na época da sua felicidade, e dispo-los nos cavaletes, em volta
+de si, nas condições de luz mais favoráveis; depois, fechou à chave a
+porta do _atelier_ e desprendeu da parede uma pistola, que
+cuidadosamente carregou.
+
+Feito isto, pousou a arma sobre a mesa, ao alcance da mão.
+
+Davam onze horas num relógio próximo.
+
+--Á última pancada do meio dia, disse André falando consigo, farei
+saltar os miolos.
+
+Era uma espécie de prazo, que concedia à Providência. E com efeito, não
+podia Rosa regressar, nesses sessenta minutos?... O acaso tem tantos
+recursos!...
+
+Encostou-se sobre os cotovelos, pensativo e com a vista fixa nos quatro
+retratos... Acariciando com o olhar aqueles rostos, risonhos e suaves,
+aquelas pupilas límpidas, aquelas frontes resplendentes de inocência,
+André recomendava-se às recordações da sua amada, e os seus lábios
+murmuravam palavras ininteligíveis.
+
+Deu meio dia.
+
+André pegou na pistola.
+
+--Uma carta para o senhor Sauvain: disse nesse momento uma voz, de fora.
+
+--Uma carta?... repetiu André, uma carta dela!... Era tempo!
+
+Atirou a arma para o fundo de uma gaveta, abriu a porta, pegou na
+carta, e levou-a com gesto de avaro para um canto da janela.
+
+Não era de Rosa!
+
+A missiva dimanava prosaicamente do arquitecto de Granville, reclamando
+algum dinheiro, à conta, pelas reparações da casa.
+
+André ficou aterrado.
+
+Apagara-se-lhe da memoria aquela dívida sagrada. Recordava-se dela
+agora, mas não tinha dinheiro, e só o trabalho podia dar-lho.
+
+Portanto... nem sequer tinha a liberdade de morrer!
+
+O pintor apelou, com desespero, para a sua antiga energia.
+
+--Vamos!... pensou ele, mais uns dias de coragem e de tortura!...
+Ganhemos, com o suor do rosto, o direito ao eterno repouso!
+
+E lívido, desfalecido, vacilante, dirigiu-se ao seu comprador de
+quadros, e pediu-lhe que lhe adiantasse a soma de que precisava.
+
+O industrial anuiu de bom grado.
+
+--Esperava-o com impaciência, disse-lhe este homem; apresenta-se agora
+uma ocasião, magnífica para si, e bastante lucrativa.
+
+--Seja como for, disse Sauvain, aproveito-a.
+
+--Eis o negócio: um dos meus fregueses acaba de comprar, nos arredores
+de Paris, uma casa, que deseja ornar o mais elegantemente possível.
+Pediu-me que o relacionasse com um pintor de talento, e eu
+falei-lhe no senhor. Trata-se de alguns quadros e muitas pinturas a
+fresco; convém-lhe?
+
+--Convém.
+
+--Nesse caso, é necessário começar a obra quanto antes. O meu freguês
+habita na sua propriedade: vá procurá-lo. É um homem generoso e
+inteligente. O senhor entender-se-á perfeitamente com ele.
+
+--Como se chama?
+
+--Aqui está a direcção: «Monsieur Nuavias, em Audily-Seine-et-Oise». É
+no vale de Montmorency, a dois passos da floresta. O sítio é delicioso,
+e creio que o senhor não terá razão de queixa.
+
+--Irei amanhã, disse André. Com efeito, no dia seguinte, Sauvain
+desembarcou em Audily pelas três horas da tarde. Não pôde conseguir que
+lhe indicassem a casa do senhor Nuavias, porque ninguém conhecia aquele
+nome, o qual decerto era novo no país; mas, após diferentes
+investigações, descobriu, a dois tiros de espingarda da vila, um pequeno
+castelo, que alvejava no cume de uma pitoresca colina.
+
+--Deve ser ali, disse ele consigo. Uma gradaria de ferro, delicadamente
+trabalhado e com portão ao centro, separava da estrada pública os
+jardins do castelo, permitindo aos transeuntes admirar a alameda,
+tapetada de verde relva, que se estendia em suave declive até à
+entrada do edifício, o qual primava pela sua elegante simplicidade. Dois
+pavilhões simetricamente dispostos de cada lado da grade, pareciam
+destinados, um para cavalariça, e o outro para habitação do porteiro.
+Este individuo destacava, no limiar do portão, tomando o fresco e
+olhando para as moscas.
+
+Era um homem gordo, de rosto jovial e rubicundo, com o pescoço
+descoberto, ermo de pelos e enrugado como o de uma perua. Usava enormes
+brincos nas orelhas, e notava-se-lhe numa das faces prodigiosa inchação.
+
+--Mora aqui o senhor Nuavias? perguntou André.
+
+A esta interpelação, o porteiro nada respondeu. Lançou um jacto de
+saliva negra, fitando André, a quem mediu de alto a baixo. O volume da
+face direita passou para a esquerda: o inchaço era de tabaco.
+
+--Ao que parece, disse ele, o senhor é o tal pintor?
+
+--Ah! exclamou Sauvain admirado, já estão prevenidos da minha chegada?
+
+O homem obeso assumiu ar malicioso, piscou os olhos, deitou a língua de
+fora, e entrou num acesso de muda hilaridade, que lhe fazia oscilar o
+abdómen e retinir os brincos.
+
+--Os artistas são alegres... murmurou ele. Temos muito que rir, se o
+senhor também entra...
+
+--Se entro!... em quê?
+
+--Na farsa.
+
+--Qual farsa?
+
+--A que vai representar-se.
+
+--A quem?
+
+--Ao senhor Nuavias, já se vê!
+
+--Não entendo.
+
+--Ah; bom! faz-se de novas... Basta!... Bico calado! Faça conta de que
+eu nada disse... Suponha que me não participaram coisa alguma... que
+ignoro tudo...
+
+E os brincos a tinirem, e o abdómen a dançar, e o rosto passando de
+vermelhusco a purpúreo, e de purpúreo a roxo.
+
+--Seu amo está cá? lhe tornou Sauvain com impaciência.
+
+--Não, senhor, respondeu o faceto porteiro quase sem fôlego; ainda não
+veio. Ora!... o senhor bem o sabe, visto que entra na conspiração.
+
+--Eu!... Está enganado.
+
+--Ele não deve tardar. Vamos divertir-nos muito, esta tarde...
+Regozijo-me de antemão, palavra de Jacinto!
+
+--Esses negócios não são da minha conta, disse André. Na ausência do
+senhor Nuavias posso ver a casa?
+
+--Certamente! Tenha a bondade de passear um momento no jardim, enquanto
+eu enfio um casaco e vou buscar as chaves. Não me demoro cinco minutos.
+
+André fez um sinal de anuência, e dirigiu-se pensativo para uma rua
+arborizada. Primeiramente, o ar livre pesou-lhe um pouco no cérebro
+fatigado, mas bem depressa o gracioso aspecto do jardim lhe acalmou o
+espírito.
+
+Flores em profusão, cascatas e fontes, um pequeno bosque, frondosas
+árvores, povoadas de chilreantes passarinhos, rodeavam o castelo num
+círculo encantado. O sol do outono, já declinando para o horizonte,
+derramava sobre tudo aquilo ondas de luz e matizava-o de vivas cores; o
+dia extinguia-se lentamente; nuvens de opala flutuavam na atmosfera,
+orlando o céu azul.
+
+Como podia o pintor alimentar ideias de morte em face daquele panorama
+tão tranquilo, e ao mesmo tempo tão cheio de vida?... Nenhum rumor se
+ouvia; nem um som, além dos agudos assobios dos melros, e dos seus
+próprios passos sobre a areia. André sentiu percorrer-lhe as veias
+delicioso frescor; a brisa da tarde, morna, pura, embalsamada de mil
+perfumes, transformou a sua agitação nervosa numa languidez
+fantasiadora. E, enquanto o sol, próximo do seu ocaso, lhe estendia aos
+pés as trémulas sombras da folhagem, chegou a invejar a posse daquele
+sossegado Éden.
+
+Como seria feliz com Rosa num semelhante retiro! Que delicia lhes
+seria vaguearem a sós, silenciosos, com os braços enlaçados, por aquelas
+alamedas misteriosas! ele... a rever-se em dois olhos pretos
+radiantes... e a beijar uns louros cabelos, que a brisa complacente
+traria para junto de seus lábios! E mais tarde... que delicia, ainda,
+contemplarem ambos uma linda criança, brincando alegre na relva do
+parque!...
+
+A voz do porteiro arrancou bruscamente André àquelas perigosas alucinações.
+
+O honrado Jacinto vinha risonho, gracejador, trajando soberba libré, e
+munido de nova dose de tabaco.
+
+--Se o senhor quer ver as salas, estou pronto para lhas mostrar.
+
+André seguiu-o distraidamente. O interior da casa correspondia ao
+exterior. Tudo era rico e de bom gosto; somente, na sua disposição,
+faltava talvez um certo cunho de elegância íntima, que revela sempre a
+presença de uma mulher.
+
+--O sr. Nuavias é casado? perguntou Sauvain.
+
+--Ainda não, mas não tardará, disse Jacinto, soprando como um cachalote.
+Deveras... o senhor não está na confidencia?
+
+--Nem pouco, nem muito!
+
+--Pois bem! é precisamente a respeito do seu próximo casamento, que se
+prepara uma surpresa ao senhor Nuavias.
+
+--E essa surpresa em que consiste?
+
+--Isso é querer saber muito! Parece-me que vai haver grande risota, e eu
+já começo a rir, só com essa ideia!... Demais, a futura será igualmente
+mistificada.
+
+--Ela é bonita?
+
+--Encantadora, segundo dizem.
+
+--Nova?
+
+--Muito nova.
+
+--E ele?
+
+--Também é moço.
+
+--Amam-se?
+
+--Apaixonadamente!
+
+André suspirou.
+
+Nesse momento ouviu-se o rápido rodar de uma carruagem.
+
+--É o patrão! exclamou Jacinto. Bravo! a coisa vai principiar. E um rir,
+silencioso e desordenado, agitou-o desde o topo até à base, pondo em
+movimento as suas bochechas escarlates, que se tornaram roxas.
+
+--Ufa! arrebento de riso, com certeza! balbuciou ele, meio-sufocado. Mas
+não se impaciente, que já vou dizer a meu amo que o senhor o procura.
+
+E saiu, apertando as ilhargas.
+
+André encostou a fronte ao caixilho de uma janela. O dia declinava;
+espalhava-se pelas avenidas um vapor azulado, e, impelidas pela aragem,
+as flores dos canteiros balouçavam-se como turíbulos.
+
+André padecia. Aquele recôndito lugar, aquela pacífica habitação,
+aqueles jovens para ele desconhecidos, que a felicidade ia para sempre
+reunir, tudo enfim... até a alegria daquele criado burlesco, lhe pesava
+no coração, reabrindo-lhe as feridas que vinha ali buscar... ele, o
+inconsolável!... àquele retiro festivo? Que figura faria, se o
+envolvessem na turba indiferente dos convivas descuidosos?
+
+Ao pensar nisto, assaltaram-no os receios, mas... era demasiado tarde.
+Jacinto surgiu, perfilou-se defronte dele, piscou os olhos, abanou a
+cabeça, mordeu o lenço para não estoirar de riso, depois conduziu o
+pintor através de uma enfiada de quartos, empurrou-o para o meio de uma
+vasta sala, já invadida pelas sombras do crepúsculo, e fugiu.
+
+Ao principio, Sauvain julgou-se só.
+
+Por uma grande porta envidraçada, que abria para o jardim, penetravam
+livremente os aromas da tarde. Nada se movia; porém André distinguiu,
+dentro em pouco, a um canto do fogão, que acabava de apagar-se, os
+contornos indecisos de uma mulher sentada.
+
+--Minha senhora... balbuciou ele, inclinando-se.
+
+Um grito vibrou, como uma nota de cristal.
+
+--André... É André!...
+
+E a forma vaga ergueu-se de súbito. Um último raio de sol, que
+borboleteava nas vidraças, iluminou um perfil de anjo.
+
+Esse grito, essa voz, essa visão, penetraram no peito de Sauvain, como
+uma lâmina de oiro. Oscilou e caiu de joelhos.
+
+--Rosa!... murmurou ele, és tu?... ou é o teu fantasma?...
+
+Um fantasma! Não: foi bem realmente um corpo de donzela, um corpo
+flexível e palpitante, que se lhe lançou nos braços! Foram duas mãos
+pequeninas, mas bem vivas, que lhe enlaçaram o pescoço! Foi o puro
+hálito de Rosa, que lhe deslizou nos lábios!
+
+E André, deslumbrado, louco, fora de si, ébrio de felicidade, embebia-se
+na contemplação de um rosto bem real, de um rosto adorado, de um rosto
+comovido, radiante de júbilo, envolto numa auréola de cabelos louros...
+
+Entretanto, mais outra forma vaga subia nesse momento as escadas do
+terraço. Parou estupefacto. Desta vez, era uma sombra masculina, uma
+sombra estreita e alongada, trajando fantásticas vestes, que ondeavam em
+volta dela, como um lençol cor de ferrugem dependurado num pau.
+
+A sombra não soltou uma palavra, como convém a uma sombra que se
+respeita; porém, um som singular atravessou o espaço; jurar-se-ia que a
+sombra estava raspando uma noz moscada. A este ruído prolongado, os dois
+jovens despertaram do seu êxtase, e André, chorando e rindo ao
+mesmo tempo, André mais ébrio do que se tivesse esvaziado seis garrafas
+de Champanhe, atirou-se ao pescoço da sombra, exclamando:
+
+--Adivinho tudo!... adivinho tudo!... Obrigado... obrigado, meu querido
+sogro!
+
+A sombra debateu-se violentamente.
+
+--O senhor!... Com a fortuna! Que faz aqui?
+
+--Ora essa!... Abraço-o.
+
+--Quer dizer... que abraçava minha filha?
+
+--Não o nego, meu sogro.
+
+--E eu nego-lhe o direito de chamar-me assim... Proíbo-o!...
+
+--Ora!...
+
+--Não há _ora_, nem _meia ora_... Vamos! largue-me!...
+
+--Meu velho amigo!... meu excelente vizinho!...
+
+--Largue-me, com trezentos demónios!...
+
+--Pois sim, meu caro sogro: o gracejo foi delicioso... mas, de que serve
+prolongá-lo? Sejamos felizes... que não é sem tempo!
+
+--O senhor zomba de mim?
+
+--Eu!... zombar! Ah? antes beijaria o rasto dos seus passos! Zombar,
+quando a sua presença e a de Rosa, aqui, em casa estranha, sobre este
+terreno neutro, onde de certo esperava encontrar-me, me provam que...
+
+--Com a breca! interrompeu o senhor Germinal; é de uma rara
+impudência!... Pretende acaso dizer...
+
+--Que o enterneceram a minha dor e as lágrimas de Rosa... enfim, que é o
+melhor dos homens? Sim? meu sogro! é o que eu quis dizer: abracemo-nos!...
+
+--Para trás, senhor! bradou o velho exasperado, não junte o escárnio à
+sua indigna acção!
+
+--Como!... disse o pintor estupefacto; de que escárnio... de que acção
+indigna fala?
+
+--Sim... finja-se surpreendido! se lhe parece, negue que me atraiu aqui
+enganado! negue as suas tenebrosas maquinações! Ah!... julgou que
+triunfaria por uma cilada?
+
+--Eu!...
+
+--Pois bem!... desengane-se! A minha decisão é irrevogável! Não possuirá
+minha filha!
+
+--Uma cilada!... eu, que o supunha longe de França! eu, que teria dado
+vinte anos da minha vida para descobrir...
+
+--Jesus! que mentiroso!... exclamou Rosa, sorrindo-se. E as minhas
+cartas?... acrescentou ela em voz baixa.
+
+--As suas cartas! Meu Deus!... Rosa, de que cartas fala?
+
+--De muitas, que lhe enviei às escondidas?
+
+--Pois escreveu-me?... a mim...
+
+--Sim, senhor, oito ou dez cartas que todas ficaram sem resposta!
+
+--Foram doze, minha filha, disse gravemente o senhor Germinal; tenho-as
+aqui no bolso.
+
+--Tem-nas?... Oh, meu pai!... É bem mal feito!...
+
+--Horrível, minha filha!... Teria sido mais moral não interceptar a
+correspondência amorosa, não te parece?
+
+--Confesse ao menos, senhor, disse Sauvain, que uma cilada da minha
+parte era impossível!...
+
+--Mas... que outra intenção podia trazê-lo aqui? Faz favor de dizer-me?
+
+--Simplesmente a de pintar tectos e bandeiras de portas!
+
+--E a nós, disse Rosa, a esperança de uma encomenda importante; pois eu
+continuo a fazer flores, e o dono desta casa deseja uma porção delas
+considerável.
+
+--O senhor Nuavias?
+
+--Sim.
+
+--Quem lho inculcou?
+
+--A modista, para quem trabalho. E André?
+
+--O meu comprador de quadros.
+
+--Os diabos levem o acaso! rosnou o senhor Germinal.
+
+--O acaso!... suspirou André; divino acaso, ou antes Providência,
+que me restituis a minha Rosa e o meu velho amigo, sê mil vezes bendita!...
+
+--Senhor, disse Germinal, delira certamente!...
+
+--Creio que sim, meu sogro... e muito!
+
+--Já fez fortuna?
+
+--Oh, muito pouca!
+
+--E ainda ama minha filha?
+
+--Apaixonadamente!
+
+--Contudo renuncia à sua mão?
+
+--Isso de modo nenhum!...
+
+--Então, nada de amizade, nem de relações entre nós!... Vá para o diabo!
+
+--Porém...
+
+--Não lhe dou minha filha!
+
+--Entretanto...
+
+--Não casa com minha filha!... Não casa com minha filha!... Não casa com
+minha filha! Já disse.
+
+O senhor Germinal esganiçava-se debalde; André tinha mais sólidos
+pulmões, e por isso facilmente cobriu o timbre de cana rachada do seu
+adversário, bramindo:
+
+--Casarei, com ela, ou deixarei de ser quem sou!
+
+Enfim, a sua cólera fazia explosão. André estava farto de sofrer; e,
+sorrindo em ar de desafio, valeu-se da escuridão da sala para beijar
+Rosa, unindo-a docemente ao coração.
+
+Mas, se a voz do senhor Germinal era fraca, em compensação tinha olhos
+de lince.
+
+--Ah! Vocês querem brincar comigo?... Rosa! o teu xaile... o teu
+chapéu... Partamos imediatamente!
+
+--Ainda não! exclamou, da porta, uma voz de baixo-profundo.
+
+E logo a sala se iluminou de súbita e viva claridade.
+
+No limiar, entre dois lacaios agaloados, empunhando cada um deles uma
+serpentina, carregada de velas cor de rosa, apareceu um personagem
+baixo, de espessa e forte construção, enluvado de fresco, engravatado de
+branco, vestido de preto, e rescendendo a aromas, que perfumavam o
+recinto a dez passos de distância. Avançou majestosamente, com os
+polegares suspensos nas algibeiras do seu faustoso colete, e fazendo
+ouvir no sobrado o ranger de umas botas novas.
+
+O senhor Germinal e André suspenderam os seus clamores, e inclinaram-se
+confusos.
+
+--Então!... exclamou o magnífico intruso; há bulhas aqui? Com mil
+amarras!...
+
+--Pedro Toucard!... exclamaram os assistentes. Era Pedro, sem dúvida...
+Pedro, o aventureiro! Mas, que transformação!...
+
+Abolida a barba de duas pontas; conservava apenas uma estreita suíça,
+curta, bem talhada, macia e frisada. O seu crânio resplandecia, como um
+espelho: ter-se-iam mirado nele as andorinhas em pleno dia. Uma
+cadeia de oiro, da grossura de um dedo, pendia sobre o seu orgulhoso
+abdómen as cabeludas falanges estavam meio-estranguladas por enormes
+anéis; as algibeiras, prodigiosamente entumecidas, transbordavam de
+napoleões.
+
+Fez um sinal, e os criados pousaram os candelabros; a outro sinal,
+desapareceram todos eles, mais as suas cabeleiras empoadas e os seus
+calções curtos, que punham em relevo postiças barrigas de pernas, de
+dimensões enormes. Pedro sentou-se ao pé do fogão, apoderou-se das
+tenazes e atiçou o lume.
+
+Uma chama cintilante crepitou no fundo da fornalha; os seus reflexos
+dançaram alegremente sobre os móveis esculpidos, sobre o luzidio
+sobrado, e sobre as guarnições de seda azul com franjas de prata.
+
+--Chegue-se para o lume, compadre! as noites estão frias. Aproxime-se do
+fogão, minha linda menina!... e também o senhor, amigo Sauvain!...
+
+Disse. E era espectáculo digno de admirar-se o sorriso diabólico de
+Pedro, o perfil espantado do pintor, os olhos maravilhados de Rosa, e a
+boca aberta do senhor Germinal.
+
+Toucard cruzou a perna direita sobre a esquerda, e afagando o queixo
+escanhoado, continuou:
+
+--Olá, meus meninos! parece-me que se mostram demasiado frios para com
+um homem, que os reuniu... contra vento e maré!
+
+--Pois foi o senhor!... exclamou André. E os dois amantes estreitaram
+as, mãos do aventureiro.
+
+--Sim, meu rapaz, fui eu que descobri o ninho desta linda ave do paraíso.
+
+--Senhor, disse Sauvain, o que acaba de praticar absolve-o de todas as
+suas culpas!
+
+--Apre!... então passa-me quitação das noventa e duas mil libras?
+
+--De todo o coração! suspirou o pintor; ainda que...
+
+--Ainda que lhe fariam óptimo arranjo, na presente conjuntura; não é
+assim? E a menina Rosa não me recompensará também?
+
+--Bem o desejara, disse ela, apresentando a cândida fronte aos lábios
+encortiçados do velho; mas, por muito reconhecida que lhe seja, não
+posso...
+
+--Não pode oferecer senão o que tem, e eu contento-me!... disse Pedro,
+entre dois estrondosos beijos. Obrigado, minha linda fada; heis-me
+rejuvenescido!
+
+--Que significa isto? bradou o senhor Germinal. Caçoam comigo!.... Não
+sou aqui ninguém?... Com a breca!...
+
+--O compadre, disse Toucard com ironia, é, como nós, hospede do senhor
+Nuavias; e, nessa qualidade, seria de mau gosto fazer bulha em sua casa.
+Mas... acrescentou, interrompendo-se de súbito, que é aquilo?... que
+vejo eu ali?
+
+--Onde?
+
+--Acolá... nas cinzas... Rosa inclinou-se para o fogão.
+
+--É uma chave! exclamou ela.
+
+--Com efeito, disse André apanhando-a, é uma pequena chave, que me faz
+recordar...
+
+--Oh!... A que demónio de fechadura pertencerá ela? regougou Pedro.
+
+E inequívoca expressão de benévola malícia transparecia no seu enrugado
+rosto.
+
+--Ah! agora penso eu... Não servirá por acaso essa chavinha naquele
+cofre, que ali está?... atrás de si... sobre a jardineira...
+
+André voltou-se e viu uma caixa de conchinhas, muito semelhante à que
+deixara em Granville, na sua arca de nogueira.
+
+--Recorda-se?... perguntou Pedro, apoiando-se-lhe no ombro. Foi dum
+cofrezinho igual que o senhor desenterrou a única acção louvável da
+minha vida: estas caixas são de bom agouro!
+
+E dirigindo-se a Rosa:
+
+--Veja o que essa contém, minha linda; uma chave, que desce pelo tubo da
+chaminé, merece atenção!... Seria algum génio benfazejo, que a deixou
+cair? Reviste sempre, Rosinha!...
+
+--Infeliz! bradou o senhor Germinal; vai cometer um abuso de
+confiança!... Que dirá o senhor Nuavias?
+
+--Aprovará, compadre: fico por isso. Procure, minha linda Rosa, procure...
+
+A jovem não se fez rogar; o seu instinto de mulher segredava-lhe que o
+génio benfazejo era Pedro, e que ele conduzia rapidamente as coisas para
+um desenredo agradável.
+
+Abriu a caixa, e tirou de dentro um maço de papeis cetinosos.
+
+--Notas do banco!... exclamou ela.
+
+--Devem ser noventa e duas, disse o aventureiro, as mesmas que o senhor
+Germinal destinava para o dote de Rosa; ora, como não é possível
+dar-lhes melhor aplicação, o senhor Nuavias resolveu restituir-lhas.
+Tome-as lá, compadre...
+
+--A mim!... Eu!... balbuciou o senhor Germinal. Mas como?... porquê?...
+com que direito?... o que significa?...
+
+--Tanta pergunta ao mesmo tempo! Vá sempre guardando... Continue a
+buscar, minha filha...
+
+Um adereço de diamantes!... e um colar de pérolas!... murmurou Rosa,
+deslumbrada.
+
+--Isso é consigo, minha menina. É o presente de noivado do senhor
+Nuavias... Procure mais...
+
+--Mas enfim, disse o senhor Germinal, suando em bagas, esse Nuavias é o
+senhor, ou é o diabo?...
+
+--Nem um, nem outro... Querem conhecê-lo?
+
+--Quero... quero... quero... gritaram três vozes ansiosas.
+
+--Pois bem! Esse jovem e belo senhor Nuavias, esse feliz senhor Nuavias,
+que dentro em quinze dias vai desposar uma encantadora menina; esse
+afortunado senhor Nuavias, de quem somos hospedes, é...
+
+--É... quem?
+
+--André.
+
+--Eu!...
+
+--Sim? sem a menor dúvida! Nuavias é apenas o anagrama de Sauvain.
+
+--Porém, esta casa...
+
+--Ah! tem razão... Esta casa... Ora queira procurar novamente na caixa,
+senhora noiva...
+
+Na caixa havia ainda outros papeis; mas esses eram espessos, pesados,
+com selo, cobertos de maçuda escrita, e rubricados por dois tabeliães.
+Continham um acto legal e autêntico, assegurando a André Sauvain a
+propriedade de uma casa, situada em Audily (Seine-et-Oise).
+
+--Senhor!... exclamou o pintor fora de si, é demais!... É demais!... Não
+posso aceitar...
+
+Pedro interrompeu-o com gesto suplicante; a sua fisionomia tornara-se
+grave e sisuda.
+
+--Meu querido amigo, disse ele com voz comovida, permita-me que resgate,
+a meu modo os erros passados... Talvez devesse te-lo feito mais
+cedo... Mas, se prolonguei por alguns dias as suas mágoas, se me
+apresentei em sua casa sob farrapos mentirosos, foi porque ainda não
+tinha encontrado Rosa, e queria entregar-lha juntamente com o seu
+património. Dessa experiência, saiu o senhor vitorioso; outro qualquer
+ter-me-ia morto, porém o senhor... coração nobilíssimo!... para o homem,
+que lhe despedaçara a vida, teve ainda uma última e sublime esmola!...
+Pois bem! seja generoso até ao fim... não recuse os meus dons... não me
+deixe remorsos...
+
+--Cumpra-se o seu desejo, respondeu Sauvain. Aceito este oásis
+encantador... com a condição, porém, de restituir-lho quando a fortuna o
+houver atraiçoado.
+
+--Com mil amarras!... Espere por isso! Graças a Deus, estou curado da
+febre de traficar; viverei como um bom burguês; o meu amigo Germinal
+ensinar-me-á o gamão; e nunca mais especularei, senão em sonhos.
+
+--Pelo amor de Deus, murmurou o pai de Rosa, expliquem-me de que se
+trata!... Que diabo está o senhor para aí a falar em erros, remorsos, e
+património?... Que significa todo esse aranzel?...
+
+--Significa, respondeu o aventureiro, que encontrei no meu caminho duas
+virtudes raras, e tão raras que me converteram...
+
+--E quais são essas virtudes?...
+
+--O perdão das injúrias, disse Pedro, apertando a mão a André... e a
+inteira probidade, acrescentou, estendendo a outra ao senhor Germinal.
+
+Este esfregou desesperadamente o seu ferruginoso crânio.
+
+--Tudo isso para mim é hebraico, replicou o pai de Rosa. A única coisa,
+que pude coligir, foi que o senhor está milionário!...
+
+--É verdade, meu bom amigo. A sorte favorece os doidos. Esse depósito
+sagrado, pelo qual velou durante doze anos, como homem probo, que é,
+arrisquei-o eu, sem reflectir, num lance de dados... Ganhei... Sou
+portanto um grande especulador. Mas... se tivesse perdido?... Quando
+penso nisso, sobe-me o coração à garganta, e sinto-me tremer como...
+como o seu _Faust au sabbat_, André!... um quadro admirável! que, entre
+parêntesis, possuo em Paris no meu palacete, e pelo qual me ofereceram
+já o seu peso em oiro?
+
+--De modo que, disse o pintor, o meu mercador de quadros entrava na
+conspiração?... Traidor!...
+
+--Ora!... e também a modista, para quem fazia flores a menina Rosa, os
+criados desta casa, e até o pateta do Jacinto, antigo marinheiro, que eu
+elevei à categoria de guarda-portão, e que hoje tomo a liberdade de
+recomendar à sua benevolência.
+
+--Oh! quanto a esse, disse Sauvain rindo, é possível que tentassem
+inicia-lo no segredo, mas assevero-lhe que nada percebeu!
+
+--Nem eu tão pouco, palavra de honra! replicou sinceramente o senhor
+Germinal, e por isso... meto a viola no saco. Toque nestes ossos, meu
+genro!
+
+--Com mil vontades! exclamou alegremente o pintor, apertando nas mãos a
+garra descarnada do pai da sua noiva. Estava escrito que, riqueza,
+gloria e felicidade, tudo encontraria...
+
+--NAS CINZAS, concluiu Pedro Toucard.
+
+FIM
+
+ [1] Reunião de três números, cuja extracção simultânea era uma sorte
+ feliz.
+
+ [2] Hospital de alienados.
+
+
+
+
+OBRAS PUBLICADAS
+
+PELA
+
+EMPRESA EDITORA CARVALHO & C.ª
+
+
+TEATRO
+
+Os sabichões--Comédia original em 4 actos, por E. Biester, 250
+
+Ao calçar das luvas--Comédia original em 1 acto, por Rangel de Lima, 100
+
+O afilhado de Pompignac--Comédia (tradução) em 4 actos, por L. C. M., 200
+
+Um homem político--Comédia (imitação) em 3 actos por Aristides
+Abranches, 200
+
+O fidalguinho--Comédia original em 3 actos, por Ferreira de Mesquita, 200
+
+Abençoado progresso--Comédia original em 1 acto, por Rangel de Lima, 100
+
+As campainhas--Comédia (tradução) em 1 acto, por Pinheiro Chagas, 100
+
+João o britador--Drama (tradução) em 5 actos, por L. C. M., 250
+
+As três rocas de cristal--Mágica em 3 actos e 17 quadros, por Aristides
+Abranches, 300
+
+A família--Drama original em 5 actos, por J. R. Cordeiro, 300
+
+Quem desdenha--Comédia original em 1 acto, por Pinheiro Chagas, 100
+
+Caso de consciência--Comédia (tradução) em 1 acto, por Pinheiro Chagas, 100
+
+Luís XI e o poeta--Comédia (tradução) em 1 acto Ferreira de Mesquita, 160
+
+A mosca branca--Comédia (imitação) em 3 actos, por Duarte Santos, 200
+
+A cruz de prata--Drama (tradução) em 5 actos, por L. C. M., 300
+
+N. B. A quem comprar a colecção completa (15 peças) 40 por cento de
+abatimento.
+
+
+ROMANCES
+
+As duas flores de sangue--Original, por Pinheiro Chagas (1 volume), 500
+
+As doze espadas do diabo--Tradução de Guilherme Celestino (2 volumes), 800
+
+Cláudio--Original, por Júlio César Machado (1 volume), 500
+
+Nas cinzas--Tradução por L. C. M. (1 volume), 300
+
+
+NO PRELO
+
+Uma noite em Florença--Tradução de Guilherme Celestino (1 volume), 400
+
+Remetem-se, francos de porte, a quem enviar a sua importância em
+estampilhas ao escritório da empresa, rua larga de S. Roque, n.º 100,
+1.º andar.
+
+
+Imprensa Nacional--1875
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Nas Cinzas, by Gontran Borys
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS CINZAS ***
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+works. See paragraph 1.E below.
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+ <title>Nas Cinzas, por Gontran Borys</title>
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of Nas Cinzas, by Gontran Borys
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
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+Title: Nas Cinzas
+
+Author: Gontran Borys
+
+Translator: Augusto Ernesto de Castilho e Melo
+
+Release Date: November 25, 2009 [EBook #30543]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS CINZAS ***
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+
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+Produced by M. Silva
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+
+<p>&nbsp;</p>
+<div class="fbox"> <b>Notas de transcrição:</b>
+Este texto é uma transcrição do original de 1875, tendo-se actualizado a grafia para a variante europeia da língua portuguesa (pré-acordo ortográfico de 1990).<br>
+Foram corrigidos alguns erros tipográficos evidentes.
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
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+<p style="font-size: 3em;">NAS CINZAS</p>
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+<p style="font-size: 1.5em;">GONTRAN BORYS</p>
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+<p style="font-size: 0.8em;" class="vermelho">TRADUÇÃO DE</p>
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+<p>EMPRESA EDITORA, CARVALHO &amp; C.ª</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;" class="vermelho">RUA LARGA DE S. ROQUE, 100</p>
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+<p>Imprensa nacional&mdash;1875</p>
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+<p style="font-size: 1.5em;">GONTRAN BORYS</p>
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+<div id="corpo">
+<p><span class="pn">{5}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00100000000000000000">I</a></h1>
+
+<p>Se perguntásseis hoje diante de dez pessoas quem é André Sauvain, nove delas
+achariam ridícula a vossa ignorância, e a décima não hesitaria em soltar uma
+gargalhada. A ninguém é permitido desconhecer uma gloria nacional: entretanto
+ninguém conhecia há sete anos aquele nome, tão celebre agora.</p>
+
+<p>Nessa época, ainda André Sauvain não era um pintor ilustre. Ocupava, ao cimo
+da rua dos Mártires, um <em>rez-de-chaussée</em>, tão próprio pela humidade a
+criar cogumelos, como pela escuridão a inspirar tragédias. A habitação do jovem
+pintor limitava-se a uma só casa, que acumulava as funções de sala, quarto de
+cama, <em>atelier</em> e refeitório. E nem por isso ele passava pior do que se
+residisse em sumptuoso palácio.</p>
+
+<p>André era um rapaz vigoroso, com músculos de<span class="pn">{6}</span> aço,
+esbelto como um vime e magro como um gato em Abril. O seu porte altivo, bigode
+castanho e retorcido, pêra aguçada, cabelo alourado e abundantíssimo,
+assemelhavam-no a alguns retratos de Van-Dyck por forma, que não causaria
+estranheza ver pender-lhe ao lado uma espada. E com efeito a blusa rafada, que
+trajava, ia tão bem à sua figura nobre e elegante, como um gibão do melhor
+veludo.</p>
+
+<p>Numa bela e clara manhã de Dezembro André Sauvain acabava de retocar um
+<em>Faust au sabbat</em>: recuando um pouco para melhor avaliar o efeito do seu
+quadro, e erguendo por acaso os olhos, foi testemunha de um prodígio. Através
+das vidraças do seu quarto descobria-se parte de uma casa esplendidamente
+iluminada pelos raios do sol. Aquele prédio era o constante pesadelo do pintor.
+Segundo os caprichos da atmosfera, ora reflectia execrável claridade no
+<em>atelier</em>, ora lhe interceptava completamente a luz. André lançava-lhe
+pela milésima vez a sua maldição, quando de repente viu abrir-se uma janela, e
+aos ouvidos do mancebo chegaram as últimas notas de uma cançoneta entoada por
+voz fresca e harmoniosa: não tardou que a essa janela se mostrasse uma cabeça
+de mulher, inclinando-se para fora. Aquela cabeça arrancou ao pintor um grito
+de admiração e, bem que nunca a tivesse visto, reconheceu-a imediatamente.<span
+class="pn">{7}</span></p>
+
+<p>Há no Louvre uma miniatura de Fragonard, do tamanho de uma peça de 40
+francos, que é a imagem de uma menina de quinze anos, rosada, loura, com a
+risonha expansão da inocência a iluminar-lhe o rosto. A boca é uma cereja:
+deseja-se colhe-la com os lábios. A brisa de maio brinca travessa com os bastos
+anéis dos seus cabelos doirados. Nos seus olhos negros, de extraordinária
+viveza, crepita a jovialidade. É a primavera, é a alegria, é a mocidade em
+flor. Pois, embora o não creiam, esse rosto encantador, emoldurado pela janela
+que se abrira fronteira ao <em>atelier</em> de Sauvain, era o original daquela
+miniatura, feita havia mais de cem anos.</p>
+
+<p>A jovem vizinha do pintor tinha na mão um grande ramo de violetas, e
+voltando-se para falar a alguém, sorriu-se. Mas que sorriso! Um minuto antes
+eram bem lúgubres os pensamentos de André Sauvain. Na confusão de monstros, de
+demónios, lobisomens e bruxas, de que povoara o seu quadro, entrevia
+amargamente no espírito o símbolo da sua existência atribulada. Estava triste
+como a morte. Porém a gentil visão dispersara os fantasmas, como um facho
+luminoso dissipa as trevas. André sentiu o coração bater-lhe com força
+desusada. Era de júbilo. Teve uma vertigem e baixou os olhos, enquanto o
+ardente sangue dos seus vinte e cinco anos fazia retumbar-lhe aos ouvidos, em
+grande orquestra, a arrebatadora sinfonia da esperança.<span
+class="pn">{8}</span></p>
+
+<p>Foi apenas um relâmpago. A visão desaparecera; a janela fechou-se. E André,
+querendo continuar o seu trabalho, não pôde, porque lhe tremiam os dedos;
+abandonou a palheta, e foi sentar-se a um dos cantos da casa com os cotovelos
+fincados nos joelhos e a cabeça entre as mãos. A noite veio surpreende-lo
+assim. Então cada objecto assumiu para ele um aspecto fantástico; parecia-lhe
+que, em volta de si, aromatizava o ar um suave perfume de violetas; aplicou o
+ouvido, e julgou perceber o eco longínquo de uma cançoneta; olhou para o seu
+quadro, e só viu nele um turbilhão de cabeças louras, iluminadas por grandes
+olhos pretos.</p>
+
+<p>E por toda a parte, no centro da casa, por detrás dos modelos de gesso e dos
+cavaletes, nas paredes nuas, entre as vigas do tecto, no meio das telas
+esboçadas, afigurava-se-lhe sempre ver um sorriso de anjo, um ramo de violetas,
+uns olhos negros e uns cabelos louros.</p>
+
+<p>&mdash;Será assim que nasce o amor? perguntou André a si próprio, tomando-se o
+pulso. Depois, levantou-se aterrado:</p>
+
+<p>&mdash;Se amo, estou perdido! exclamou ele. Vamos jantar!<span
+class="pn">{9}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00200000000000000000">II</a></h1>
+
+<p>Nesse tempo (refiro-me ao ano da graça de 1853) André Sauvain, bem que
+fosse proprietário, não jantava todos os dias. Verdade é que a <em>sua
+propriedade</em> não valia sessenta escudos, e não lhe rendia sequer um franco!
+Consistia numa casa velha e pequena, num recanto da Normandia; uma ruína
+musgosa e enegrecida, sempre abalada pelos ventos da costa. Mesmo assim, André
+podia te-la vendido a algum pescador, mas nem a mais horrível miséria o
+determinaria a tal: apegara-se-lhe o coração àquele pardieiro pelas raízes
+profundas, a que chamam recordações; tinha lá nascido e lá morrera sua mãe.</p>
+
+<p>Além da humilde casinha de seus pais, André Sauvain só possuía... a sua
+pessoa: nem um parente, nem uma amante, nem um amigo, nem um cão! Devera ter
+começado por dizer: nem um soldo!<span class="pn">{10}</span> O resto
+depreendia-se por simples ilação. Vivia de esperanças e de privações; frugal
+alimento, que o conservava sadio e alegre. Tanto de verão como de inverno,
+levantava-se com a aurora, pintava até à tardinha, e aproveitava-se da
+escuridão para percorrer Paris em todas as direcções; depois recolhia extenuado
+de fadiga, deitava-se às apalpadelas, para economizar azeite, e dormia a sono
+solto. Estas caminhadas pelas trevas restabeleciam-lhe a circulação do sangue e
+entretinham-lhe a actividade do cérebro. De noite, as ruas inspiram os
+cismadores. Parece que aquelas grandes artérias, onde circulam sem cessar
+correntes humanas, estão saturadas de fluidos intelectuais, e que as ideias se
+exalam do solo em vapores invisíveis...</p>
+
+<p>Aqueles prodigiosos passeios eram as únicas extravagâncias de André.
+Habitava Paris havia doze anos, e nunca quisera saber de outros divertimentos,
+que não fossem os museus e as bibliotecas. Do teatro abstinha-se ele com
+extremo cuidado, reflectindo em que um bilhete de plateia lhe cerceava dois
+dias de subsistência.</p>
+
+<p>Além de que, alimentava na mente uma quimera, como dantes se mantinha um
+<em>terno</em><a name="tex2html1" href="#foot65"><sup>[1]</sup></a> à loteria;
+consistia ela em reunir alguns centos de francos,<span class="pn">{11}</span>
+não só para reparar o famoso pardieiro natal, mas ainda para cobrir com modesta
+lousa a pobre viúva, que repousava a um canto do pequeno cemitério da
+aldeia.</p>
+
+<p>Eis porque, nessa tarde, fugindo do seu <em>atelier</em>, onde perigosas
+imagens lhe perturbavam o espírito, exclamou: «Se amo, estou perdido! O amor e
+o trabalho são dois inimigos mortais. Não amemos!»</p>
+
+<p>Ora, prometer não amar equivale a jurar que não nos cairá uma telha sobre a
+cabeça. André reconheceu-o um pouco tarde: a sua imaginação corria à desfilada,
+e ele já não era senhor de a fazer parar! Jantou em três garfadas e com três
+suspiros, segundo o uso imemorial dos namorados; depois saiu e caminhou ao
+acaso, com o olhar desvairado e o aspecto carrancudo. Mas, por mais que
+fizesse, sentia sempre aquela boca rosada, os olhos negros, os cabelos louros e
+a canção alegre a prenderem-se-lhe ao coração com as suas garras de diamante.
+</p>
+
+<p>Era véspera de Natal. Em toda a linha dos <em>boulevards</em> humildes
+barracas de madeira branca irradiavam o pálido clarão das suas lanternas sobre
+as suas vizinhas fronteiras, magníficas lojas, cintilantes de gás e de
+doirados. Por entre esses dois cordões de luz cruzavam-se torrentes de ociosos
+passeantes. Aquele ruído, aquela claridade, o perpassar da multidão buliçosa e
+festiva, forçaram André Sauvain a baixar à terra. Voltou a si, como um
+dormente<span class="pn">{12}</span> que desperta em sobressalto, e, poucos
+minutos depois de poder reconhecer o lugar em que estava, surpreendia-lhe o
+olhar ainda distraído, e vivamente lhe excitava a atenção, uma fisionomia na
+verdade singular.<span class="pn">{13}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00300000000000000000">III</a></h1>
+
+<p>Defronte da vidraça de uma casa de pasto agrupava-se, como sempre, uma
+multidão curiosa e vítima do suplício de Tântalo.</p>
+
+<p>No centro desse grupo via-se um homem de quase sessenta anos, de baixa
+estatura, mas grosso e exibindo um busto de atleta.</p>
+
+<p>A longa barba, espessa e grisalha, caía-lhe sobre o peito, onde se bifurcava
+em duas pontas; tinha o nariz tuberculoso e avermelhado, ao passo que a pele
+macilenta, tisnada e enrugada das suas faces, estava coberta de manchas
+lívidas. Não obstante o termómetro marcar dez graus abaixo de zero, cobria-lhe
+a cabeça um chapéu pardo, cujas abas moles e cansadas já não tinham cor
+apreciável; uma sobre-casaca no fio, quase erma de botões, mal lhe protegia o
+tronco contra os rigores da temperatura,<span class="pn">{14}</span> e os
+braços mergulhavam até aos cotovelos nas algibeiras de umas velhas calças de
+ganga.</p>
+
+<p>Estava ali; boquiaberto e imóvel. Os seus olhos, brilhando ávidos sob
+grossas pálpebras vermelhas e lacrimosas, pareciam querer saltar das órbitas
+para devorar os tesouros gastronómicos perante eles expostos: perdigotos
+recheados de trufas, terrinas misteriosas, salsichões enormes, lagostas
+escarlates sobre ramos de verde salsa, carpas do Reno, cujos lombos prateados
+vergavam sob pedaços de gelo... tudo o tentava, e as suas ventas dilatadas
+aspiravam com força as emanações culinárias que saíam pelos ventiladores.</p>
+
+<p>De repente André viu-o empalidecer e vacilar; mas não tardou que o
+desconhecido cobrasse animo e mil impressões rápidas transpareceram
+sucessivamente no seu rosto extraordinário. Foram elas: a raiva concentrada, um
+sofrimento agudo, o cinismo descarado, e um embaraço tímido. Passou a mão curta
+e cabeluda sobre os seus olhos, deslumbrados, mais ainda pela atracção dos
+comestíveis do que pelas luzes. Depois estudou, uma a uma, com angustiosa
+atenção as figuras que o rodeavam inclinadas para a vidraça. Por fim
+franziram-se-lhe os lábios num amargo sorriso, e o seu olhar tornou-se
+carregado. Tirou lentamente o chapéu, e soltando um suspiro, enxugou o crânio
+calvo, onde brilhavam grossas bagas de suor. Foi então que descobriu André<span
+class="pn">{15}</span> Sauvain, o qual, parado a pouca distância, o observava
+com crescente interesse. Vendo-se espiado, o velho franziu as negras
+sobrancelhas, e fugitivo rubor lhe coloriu o pergaminho das faces; com um gesto
+indiferente e irónico, tornou a pôr o chapéu no alto da cabeça, e
+balanceando-se à moda dos marinheiros, disse-lhe num tom em que transparecia a
+contrariedade:</p>
+
+<p>&mdash;Então, mancebo, que temos? Serei porventura um fenómeno? Julga-me
+empalhado?</p>
+
+<p>Sauvain estremeceu ao som daquela voz concentrada, metálica, e mais notável
+ainda pela sua acentuação provençal muito pronunciada.</p>
+
+<p>&mdash;Desculpe-me, senhor, balbuciou André um pouco atrapalhado. Não tive
+intenção de o ofender.</p>
+
+<p>&mdash;Com mil bombardas! assim o creio. Então julgou conhecer-me, heim?</p>
+
+<p>&mdash;É a primeira vez que o vejo!</p>
+
+<p>&mdash;Outro tanto não digo eu, murmurou o velho, cujos olhares penetrantes
+examinavam André dos pés à cabeça; parece-me tê-lo encontrado algures... ou ao
+senhor ou a alguém muito parecido consigo!... Em Roterdão, suponho eu... ou em
+Calcutá... talvez na Filadélfia?...</p>
+
+<p>&mdash;Nunca me afastei tanto de Paris, disse André.</p>
+
+<p>&mdash;E eu venho cá pela primeira vez. E portanto evidente que me enganei. Mas
+então que fazia aí, em êxtase diante da minha pessoa?<span
+class="pn">{16}</span></p>
+
+<p>&mdash;Vou confessar-lho francamente, respondeu Sauvain; sou artista, e a sua
+fisionomia interessou-me.</p>
+
+<p>&mdash;Artista! Percebo agora. Na verdade eu devo ter uma cabeça de Sócrates...
+ou de sátiro, disse o desconhecido rindo. Mas o riso extinguiu-se-lhe logo numa
+contracção nervosa; tornou-se mais pálido, e segurou-se, para não cair, ao
+ombro do moço pintor.</p>
+
+<p>&mdash;Mau! continuou ele com voz fraca, as minhas endiabradas pernas querem
+deixar-me... Ajude-me a sentar em qualquer parte... pois sinto que vou para o
+fundo.</p>
+
+<p>André, muito inquieto, amparou-o até ao mais próximo banco e sentou-se ao pé
+dele.</p>
+
+<p>&mdash;Não é nada, disse o velho... uma vertigem... isto vai a passar...</p>
+
+<p>Com efeito, pouco a pouco pareceu recuperar as forças. Depois de alguns
+minutos de silêncio, fincou os cotovelos nos joelhos, tomou em cada mão uma das
+pontas da sua longa barba, e fitando André Sauvain, com o seu olhar manhoso e
+ousado, disse-lhe bruscamente:</p>
+
+<p>&mdash;Não receia comprometer-se, senhor?</p>
+
+<p>&mdash;Como?...</p>
+
+<p>&mdash;Mostrando-se na companhia de um miserável maltrapilho como eu.</p>
+
+<p>André encolheu os ombros.<span class="pn">{17}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não tenho preconceitos, respondeu ele, nem tão pouco amigos, ou mesmo
+conhecidos: os meus meios não me permitem esse luxo. Além disso não estou muito
+mais bem vestido do que o senhor...</p>
+
+<p>&mdash;Belamente! retrucou o velho. Jovem, altivo, pobre e artista... é o que me
+convém!</p>
+
+<p>&mdash;O que lhe convém!... Que quer dizer?</p>
+
+<p>&mdash;Ora imagine, continuou o singular personagem, que, desde o pôr do sol,
+procuro na turba um homem de coração!... Não vi senão homens gordos e
+irrepreensivelmente trajados, raça de que desconfio, e por isso ficaram-me as
+palavras na garganta. O que eu tenho a confessar é... nauseabundo. Nem todos o
+entenderiam.</p>
+
+<p>&mdash;Então o que é? perguntou o pintor. Pode dizer...</p>
+
+<p>&mdash;Duas palavras somente, mas que me afogam! Tenho fome.</p>
+
+<p>André sentiu um calafrio no coração.</p>
+
+<p>&mdash;Ufa! exclamou o desconhecido, até que enfim soltou-se o segredo! Sim,
+mancebo, há três dias que estou em Paris, e há quarenta e oito horas que não
+como! Eis a razão por que me encontrou estupidamente pasmado defronte dessa
+exposição culinária. Com mil bombardas! é cruel mostrar assim aos esfaimados
+tantas coisas que fariam crescer água na boca até a um homem farto!
+Contemplando-as, imaginava-me numa noite de festim, uma noite em que<span
+class="pn">{18}</span> o tinido dos garfos e o <em>glu-glu</em> das garrafas se
+fazia ouvir através das janelas... E as cãibras do meu estômago sugeriram-me o
+pensamento de que, no meio de um milhão de indivíduos que vão sentar-se à mesa;
+seria estúpido deixar-me morrer à fome por não querer dar-me ao incomodo de
+articular duas sílabas. Enfim chegou o senhor... a sua fisionomia inspirou-me
+confiança... parece-se com... com quem diabo se parece das pessoas que tenho
+conhecido?... Não importa, falei... o pior está passado!</p>
+
+<p>André remexia já nas algibeiras.</p>
+
+<p>&mdash;Espere! disse o velho segurando-lhe o braço. Vai oferecer-me dinheiro... e
+partirá com a convicção de que o roubaram. Obrigado. Chamo-me Pedro Toucard; é
+um nome, que não rima com mendigo, nem com tratante. Preste-me um serviço.</p>
+
+<p>&mdash;Qual?</p>
+
+<p>&mdash;Indique-me o meio de ganhar imediatamente alguns soldos. Sou esperto, aqui
+onde me vê; e, se não morrer esta noite, tirar-me-hei de embaraços...</p>
+
+<p>&mdash;Um meio... imediato? disse André. Não conheço nenhum. Mas aqui está a
+minha bolsa, partilhemos.</p>
+
+<p>E tirou de dentro dela duas peças de cinco francos, que era toda a sua
+fortuna.</p>
+
+<p>As pupilas do velho iluminaram-se; contemplou<span class="pn">{19}</span>
+aquele metal, como um amante traído contemplaria ainda a mulher infiel e
+adorada.</p>
+
+<p>&mdash;Dinheiro! murmurou ele. Tinha-me esquecido da cor e do feitio dele!... eu
+que o possuí aos montes!... Como é belo o dinheiro!... Mas... não... não...
+exclamou ele recuando um passo, não recebo esmolas!</p>
+
+<p>&mdash;Não é esmola, é apenas um empréstimo! lhe tornou André.</p>
+
+<p>E, quer ele quisesse quer não, foi metendo uma das peças de cinco francos na
+mão calosa do desconhecido.</p>
+
+<p>Àquele contacto, Pedro Toucard, fez-se rubro; as fontes e a testa
+inundaram-se-lhe de ardentes gotas de suor, vapor condensado da terrível luta
+que nele se travava entre a vergonha e a fome. Os olhos, de um pardo
+esverdeado, tornaram-se-lhe húmidos e brilhantes.</p>
+
+<p>&mdash;É então a pobreza emprestando à miséria? disse ele com voz rouca, retendo
+a mão de André nas suas e apertando-a com energia.</p>
+
+<p>Depois, enxugando as pálpebras com as costas dos seus felpudos dedos,
+exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Ora adeus! sou um espertalhão, e por mais depressa que a fortuna corra,
+apanha-la-hei ainda uma vez. O seu nome e morada, mancebo? André respondeu
+apenas com um grito abafado.</p>
+
+<p>Pálido, com o coração palpitante, seguia com os<span class="pn">{20}</span>
+olhos uma mulher, cujo vestido roçara por ele ao passar.</p>
+
+<p>Aquela mulher, que se afastava, graciosa e ligeira, tinha cabelos louros sob
+um chapéu de veludo preto, e olhos negros sob os cabelos louros.</p>
+
+<p>&mdash;Não ouve? repetiu Pedro Toucard, desejo saber o seu nome e morada.</p>
+
+<p>Porém o pintor já ia longe; desprendendo a mão das do velho, lançara-se
+desesperadamente atrás da sua visão.</p>
+
+<p>Pedro interpretou mal aquela brusca partida; retorceu por muito tempo a sua
+barba grisalha, e resmoneou com ar pensativo:</p>
+
+<p>&mdash;Uma esmola disfarçada... É pena! Agradava-me este rapaz!... Mas com quem
+diabo se parece ele?...<span class="pn">{21}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00400000000000000000">IV</a></h1>
+
+<p>André Sauvain, empurrando vinte pessoas, alcançou e passou adiante do chapéu
+de veludo preto, voltou-se timidamente, encomendou a sua alma a Deus, e ousou
+enfim encarar... uma decepção!</p>
+
+<p>Não era ela!</p>
+
+<p>&mdash;Venho a dar em doido!... disse consigo ao voltar para casa. Apaixonar-me
+antes de haver cimentado o meu futuro... é o mesmo que fazer círculos na água
+com luíses de oiro. Sou porventura um homem, ou não o sou? Sou. Pois bem!
+esquecerei essa criança loura.</p>
+
+<p>Passou a noite jurando não pensar mais nela, e estorcendo-se sobre as brasas
+da insónia. Eis a razão por que, na manhã seguinte, quando a senhora
+Poussignol, porteira de bigode e com os pés da largura de pratos sopeiros,
+invadiu o <em>atelier</em> no desempenho do seu oficio de servente, achou André
+empoleirado<span class="pn">{22}</span> sobre três cadeiras, espreitando,
+através do seu postigo envidraçado, uma janela fronteira, que tinha ainda as
+portas cerradas.</p>
+
+<p>&mdash;E esta! exclamou ela com voz masculina.</p>
+
+<p>&mdash;Quem mora ali? perguntou o pintor.</p>
+
+<p>A senhora Poussignol arregalou os olhos na direcção que lhe indicava o dedo
+do seu cliente, aspirou uma pitada de rapé, e brandiu a vassoura com gesto
+feroz.</p>
+
+<p>&mdash;Aquilo?... disse ela, não é coisa que preste!</p>
+
+<p>André sentiu-se assomado de violenta indignação.</p>
+
+<p>Conteve-se todavia, e montando a cavalo sobre a sua caranguejola de
+cadeiras, pediu à porteira que continuasse.</p>
+
+<p>&mdash;Dois quartos para a traseira, prosseguiu a senhora Poussignol... uma
+mobília de cinco soldos... e duzentos francos de aluguer, compreendendo a
+luz... Eis-aí está!</p>
+
+<p>&mdash;E ela? interrogou André.</p>
+
+<p>&mdash;Ela!... O locatário chama-se Germinal. É um empregado reformado, um velho
+avarento, um pelintra, um unhas de fome, que se enforcaria por um soldo, e que
+nem é capaz de largar seis liards pelas festas do ano!</p>
+
+<p>&mdash;E ela? repetiu André.</p>
+
+<p>&mdash;Ela... quem? Ah! sim, a rapariguinha que leva a vida à janela...
+Felizmente perde o seu tempo; o senhor André é o rei dos trabalhadores, e<span
+class="pn">{23}</span> não levantaria o nariz de cima das suas telas para ver a
+própria Vénus!</p>
+
+<p>André empalideceu.</p>
+
+<p>&mdash;Como!... pois pensa que é por minha causa? Nunca dei por tal.</p>
+
+<p>&mdash;Pudera!... Todo entregue às suas pinturas, não repara em mais nada. Pois
+há bastantes dias que ela deita o lúzio para cá. Vê-se muito bem lá de cima o
+interior deste quarto, e parece que isso diverte a rapariga!...</p>
+
+<p>&mdash;Mas quem é ela? exclamou André impaciente.</p>
+
+<p>&mdash;Ora! é a menina, Rosa Germinal, filha daquele velho sovina... a figura de
+um lacrau, tal e qual! Não pode deixar de ser algum antigo criminoso, que tenha
+a consciência carregada de assassínios.</p>
+
+<p>&mdash;Que ideia!</p>
+
+<p>&mdash;É o que lhe digo. Em primeiro lugar, há onze anos que não põe os pés na
+rua! não se mexe de casa, mais do que um caracol da concha... Onze anos! Que
+pensa daquilo?</p>
+
+<p>&mdash;Será.</p>
+
+<p>&mdash;Qual historia! Tem tanta saúde, como o senhor ou como eu, mas tem medo de
+ser filado, ora aí está! Só apanha ar num jardim de bonecas, do tamanho do
+<em>Constitucional</em> desdobrado... e isso porque o proprietário lho permite
+de graça... Até causa dó!...</p>
+
+<p>&mdash;E ela? insistiu André.<span class="pn">{24}</span></p>
+
+<p>&mdash;A menina Rosa? essa... vai e vem, corre ao mercado, cuida da panela e
+remenda os trapos do pai, que, salvo seja! nunca mais comprou coisa alguma
+desde o atentado de Ficschi. O vestuário preocupa muito pouco esse velho
+papa-moscas. Quando sente passos no pátio, foge para casa a sete pés; se batem
+à porta, treme como varas verdes, bate o queixo, e só se decide a abrir ao cabo
+de um quarto de hora. Se lhe entregam uma carta, fica verde como um afogado.
+Ora diga-me se é possível que um cristão honrado tenha semelhantes sustos?</p>
+
+<p>&mdash;E ela?</p>
+
+<p>&mdash;Ela?... Deve confessar-se que é uma criatura bem ageitadinha,
+desembaraçada e habilidosa; asseada como um soldo novo, alegre como um
+pintassilgo, chilreando desde pela manhã até à noite!... Mas, apesar disso,
+ainda ganha os seus quarenta soldos por dia, a fazer flores: o pai Germinal
+apenas tem seiscentos francos da pensão de reforma, e, se não fosse a filha,
+havia de custar-lhe a passar a vida.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, disse André, linda como ela é... sim, pareceu-me bonita!...</p>
+
+<p>&mdash;Isso lá!... é linda como os amores, o diabrete da rapariga! afirmou a
+porteira.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, disse André tentando sorrir, e... deve ter muitos namorados?...
+</p>
+
+<p>&mdash;Ora, pois não! Aquilo tem um juízo... uma seriedade! Quando sai à rua
+podia... vadiar o seu<span class="pn">{25}</span> bocado, requebrar-se, dar
+ouvidos a lerias, mas... não senhor! compradas as provisões e entregue o seu
+trabalho, volta para casa de corrida, e só trata de divertir o velho maroto do
+pai, que então fica todo contente. Oh!... contente como se nenhum remorso
+tivesse a pesar-lhe no estômago!</p>
+
+<p>&mdash;Que espécie de gente costuma receber?</p>
+
+<p>&mdash;Gente?... em casa dele!</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Receber?... o sr. Germinal!... Essa é melhor! Se ele nem um gato conhece
+no mundo inteiro!</p>
+
+<p>&mdash;E... os vizinhos?</p>
+
+<p>&mdash;Sabe lá sequer quem são! Uma figura nova produz-lhe um ataque de nervos.
+</p>
+
+<p>&mdash;Com a breca! murmurou André despeitado; é com efeito um ente bem
+misterioso, e parece-me assaz difícil domesticá-lo!</p>
+
+<p>&mdash;Pois se eu lhe digo que é um urso! Não há exemplo de que tenha dirigido
+uma palavra, seja a quem for, excepto a mim e à filha. E pelo que toca a sair
+do seu buraco, era mais fácil deixar-se fazer pedaços...</p>
+
+<p>Uma pancada, discretamente batida na porta do <em>atelier</em>, interrompeu
+a senhora Poussignol.</p>
+
+<p>&mdash;Entre! exclamou o pintor, deixando-se ficar empoleirado onde estava.</p>
+
+<p>A porta entreabriu-se, e um homem comprido e esguio passou pela
+abertura.<span class="pn">{26}</span></p>
+
+<p>&mdash;Senhor... disse ele dirigindo-se a Sauvain.</p>
+
+<p>Neste ponto estacou, exalou um suspiro, esfregou as mãos, o que produziu
+ruído semelhante ao de um raspador, olhou em volta de si com ar assustado, e
+pareceu querer fugir. Reconsiderou porém, e continuou, articulando as palavras
+como se cada silaba lhe fosse arrancada da laringe por um saca-rolhas
+invisível:</p>
+
+<p>&mdash;Senhor... chamo-me Germinal... moro aqui defronte... e venho... na
+qualidade de vizinho... fazer-lhe uma pequena visita...</p>
+
+<p>André desabou da sua caranguejola com grande estrondo; o senhor Germinal,
+aterrado, lívido de susto, cingiu-se rapidamente com a parede.</p>
+
+<p>&mdash;E esta! rosnou a senhora Poussignol no auge do espanto...<span
+class="pn">{27}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00500000000000000000">V</a></h1>
+
+<p>Se a ferrugem, esse peróxido de ferro hidratado, pudesse tomar forma humana,
+escolheria, para encarnar, o individuo que André Sauvain tinha diante de si.
+</p>
+
+<p>O senhor Germinal assemelhava-se a um prego colossal, esquecido durante seis
+meses em sitio húmido.</p>
+
+<p>Tudo nele estava enferrujado, desde a cadeia donde pendia o seu relógio de
+caixas de prata, até aos botões do colete. Cor de ferrugem era o seu fato cheio
+de cerziduras e lustroso, à força de gasto, nos cotovelos, nos joelhos e nas
+coxas; cor de ferrugem eram as suas suíças sarapintadas, os cabelos raros
+deixando a descoberto um pedaço de crânio amarelado, a pele salpicada de
+manchas ruivas, os olhos inquietos orlados de um círculo desbotado como os<span
+class="pn">{28}</span> dos peixes cozidos, os lábios que deixavam entrever as
+suas gengivas arruinadas, os dentes que nelas encaixavam... e tudo enfim!
+Enferrujada era também a sua voz, e até se exalava da sua individualidade um
+tal ou qual cheiro ferruginoso.</p>
+
+<p>Todavia, a despeito da afirmativa da senhora Poussignol, o senhor Germinal
+não tinha de modo algum a aparência de um ex-bandido. Era um homem tímido,
+humilde, vítima de um contínuo mal-estar e de uma trepidação nervosa
+inexplicável, sempre com o ouvido à escuta, e a atenção alerta. Naquele mesmo
+momento, em que arriscava um passo verdadeiramente fenomenal para o seu
+carácter, parecia obrar sob a pressão de uma vontade mais forte do que a sua,
+como um sonâmbulo recalcitrante, que o magnetizador dirige.</p>
+
+<p>E contudo nunca mortal algum, mesmo o mais sedutor, foi acolhido,
+lisonjeado, afagado por um sorriso semelhante ao que André Sauvain dispensou ao
+pai da sua... quimera loura.</p>
+
+<p>&mdash;Tenha a bondade de sentar-se, senhor Germinal, faça favor!... Que amável
+surpresa!... Que excelente ideia teve!... Não sei como agradecer-lhe...</p>
+
+<p>Pouco faltou para que André ajoelhasse.</p>
+
+<p>O senhor Germinal suspirou, assentou-se com certas precauções, que davam a
+entender precisarem de untura de azeite os seus pontiagudos joelhos,
+esfregou<span class="pn">{29}</span> lentamente os dedos nodosos, uns contra os
+outros, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;É hoje dia de Natal, senhor Sauvain! Ouvindo aquela incontestável verdade,
+André entendeu dever manifestar alguns sinais de alegria.</p>
+
+<p>&mdash;Com efeito é dia de Natal... Uma grande festa!</p>
+
+<p>&mdash;Muito grande.</p>
+
+<p>&mdash;Felizmente o tempo está bom.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bom.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda que bastante frio.</p>
+
+<p>&mdash;Muito frio.</p>
+
+<p>Neste período da conversação houve uma pausa de cinco minutos. André
+contemplou o senhor Germinal com ar animador, e apoderou-se-lhe de uma das
+mãos, que estreitou nas suas de um modo inteiramente filial. O senhor Germinal
+baixou pudicamente os olhos, retirou a mão, e com ela esfregou a outra.</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me, prosseguiu este, que por ocasião de tal solenidade, poderíamos
+permitir-nos... um leve extraordinário...</p>
+
+<p>&mdash;É tão curta a vida... respondeu Sauvain, procurando adivinhar a conclusão
+a que queria chegar o seu interlocutor.</p>
+
+<p>&mdash;Permitir-mo-hei pois, continuou o velho, e como o senhor é meu
+vizinho...<span class="pn">{30}</span></p>
+
+<p>O coração de André cessou de bater.</p>
+
+<p>&mdash;Tomo a liberdade; articulou o senhor Germinal com incrível esforço, sim...
+tomo a liberdade... de o convidar...</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! bradou a senhora Poussignol, dando um salto.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor! exclamou o pintor, meu caro senhor, semelhante honra, um tal...
+Ah! senhor, disponha de mim... pertenço-lhe em corpo e alma!...</p>
+
+<p>&mdash;Não exijo tanto, disse o senhor Germinal, tirando do bolso um lenço cor de
+ferrugem, com o qual enxugou a sua calva amarelada. Peço-lhe unicamente... o
+favor de vir esta noite a minha casa... das oito horas às oito e dez minutos...
+para passar o serão... modestamente... em família.</p>
+
+<p>&mdash;Em família! repetiu André extasiado.</p>
+
+<p>&mdash;Então... aceita?</p>
+
+<p>&mdash;Se aceito! querido e venerado senhor... com entusiasmo!... com delírio!
+</p>
+
+<p>O senhor Germinal levantou-se como se fora feito de uma só peça. Parecia
+consternado.</p>
+
+<p>&mdash;Nesse caso, disse ele em tom lúgubre, até à noite.</p>
+
+<p>&mdash;Até à noite, meu respeitável vizinho! modulou André, que interrompeu o
+ruído de raspador, apertando nas suas ambas as mãos do senhor Germinal.</p>
+
+<p>Este último encaminhou-se para a porta.<span class="pn">{31}</span></p>
+
+<p>&mdash;Haverá, acrescentou com voz abafada... sim... haverá talvez... uma garrafa
+de cidra.</p>
+
+<p>&mdash;Adoro a cidra!</p>
+
+<p>O senhor Germinal abriu a porta.</p>
+
+<p>&mdash;E... sim... creio poder afirmar que haverá também... castanhas.</p>
+
+<p>&mdash;Sou doido por castanhas!</p>
+
+<p>A porta fechou-se.</p>
+
+<p>André Sauvain ficou um momento como esmagado pela enorme ventura, que a
+Providencia lhe enviava; depois saltou para o meio do <em>atelier</em>,
+executando a capricho uma sarabanda furiosa, delirante, como de outra igual não
+há memoria!</p>
+
+<p>Pelo que respeita à senhora Poussignol, apenas teve forças para repetir:
+«Ora essa!»</p>
+
+<p>Paralisada pelo excesso de espanto, deixou-se cair com todo o seu peso sobre
+a caixa das tintas, derramando algumas.<span class="pn">{32}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00600000000000000000">VI</a></h1>
+
+<p>Que fada haveria tocado o senhor Germinal com a sua magica varinha? Por que
+prodígio aquele misantropo, que durante onze anos não se aventurara fora de
+casa, com medo de encontrar o oval de qualquer dos seus semelhantes, vinha
+agora convidar um desconhecido para festejar com ele o aniversario do Natal!
+</p>
+
+<p>O pintor não se inquietou com esse enigma. Contentou-se com ser feliz.</p>
+
+<p>Às oito horas em ponto, agitou, não sem sobressalto, o fio de ferro que
+correspondia à campainha do seu amável vizinho.</p>
+
+<p>André tinha tido o cuidado de aformosear-se. Escovara o fato e vestira roupa
+lavada; contudo sentia-se pouco à vontade. Quando Rosa olhou para ele, fez-se
+tão branco como a própria camisa, e pela primeira<span class="pn">{33}</span>
+vez deplorou o comprimento dos seus braços e pernas, das quais não sabia o que
+fizesse.</p>
+
+<p>Pelo que toca à jovem, ignoro em que ela pensou, mas o seu lindo rosto
+tornou-se da cor do seu nome.</p>
+
+<p>O arranjo de casa do senhor Germinal, não só era totalmente desprovido de
+magnificência, mas até deixava adivinhar a presença de um mau hóspede, a quem
+chamam pobreza; contudo a ordem, harmonia e limpeza, que ali reinava, fazia
+alegrar o coração: cada móvel fora conquistado à custa de laboriosas vitorias,
+e ostentava-se no seu lugar, polido, espanado e lustroso, como convém a um
+troféu doméstico.</p>
+
+<p>A noite correu deliciosamente. Houve cidra... e houve castanhas!... Para
+André houve também certos regalos pouco apreciados pelo vulgo, mas que o pintor
+saboreou como artista e como poeta: o prazer dos olhos, a embriaguez da alma, o
+delírio da imaginação... são esses a que me refiro.</p>
+
+<p>Porque... ela estava ali, Rosa, a travessa e meiga criança. Para
+certificar-se de que não sonhava, Sauvain beliscava os braços de vez em quando;
+ora, como apesar disso continuava a absorver por todos os poros a suave música
+da sua voz, as escalas argentinas do seu riso e o <em>fru-fru</em> do seu
+vestido azul; como a via voejar, qual ave encantadora, ruborizar-se por ser
+admirada, e sorrir<span class="pn">{34}</span> de prazer corando; como, enfim,
+quando ela inclinava a cabeça, o candeeiro iluminava de reflexos doirados os
+anéis do seu cabelo, punha em relevo o seu gracioso perfil, sombreado por
+pestanas de seda; ou lhe transformava o colo em uma lamina de puríssimo marfim,
+André viu-se obrigado a reconhecer que não dormia.</p>
+
+<p>O senhor Germinal ganhou dezassete partidas de <em>écarté</em> ao seu jovem
+vizinho... que nem deu por isso!</p>
+
+<p>O pintor não notou também as singulares contracções nervosas do seu
+parceiro, que estremecia ao menor ruído exterior, empalidecendo ao fechar
+longínquo do portão do pátio, e saltando na cadeira quando a escada rangia sob
+a pressão de passos humanos. Bem podia cair um raio sobre a mesa, que André não
+repararia em tal!</p>
+
+<p>Às onze horas retirou-se este, cambaleando como um ébrio, posto só tivesse
+aceitado um cálice de cidra; e quando Rosa, à despedida, lhe tocou levemente
+nas pontas dos dedos, pareceu-lhe que o peito se lhe dilatava até ao infinito,
+e que dentro dele se abrigava o céu inteiro, límpido, azulado, transparente e
+todo povoado de pombas de cândida plumagem.</p>
+
+<p>Enquanto a Rosa, depois de André partir, fazendo um colar dos seus braços
+nevados ao papá Germinal, cobriu-lhe de beijos as faces enferrujadas, e
+gorjeou-lhe ternamente ao ouvido:<span class="pn">{35}</span></p>
+
+<p>«Muito obrigada, meu bom, meu querido, meu adorado papázinho!»</p>
+
+<p>E, feito isto, voou para o ninho.</p>
+
+<p>O senhor Germinal, vendo-se só, esfregou as mãos por tal forma, que
+ter-se-ia jurado estar ali um batalhão de marçanos raspando cones de açúcar.
+Depois suspirou, bateu na testa e deu algumas voltas pelo quarto, até que
+aferrolhou a porta, tapando o buraco da fechadura, fechou a janela e correu as
+cortinas. Tomadas estas precauções, arredou o leito, ajoelhou no sobrado, no
+mesmo lugar que ocupara a cama, levantou uma tábua, deixando a descoberto uma
+profunda escavação, meteu por ela o braço e exumou um volumoso rolo de papeis.
+</p>
+
+<p>Aqueles papeis amarelentos, ensebados, velhos e cheios de nódoas, tinham o
+selo do banco de França. Eram notas de mil francos.</p>
+
+<p>O senhor Germinal contou-os, recontou-os, espalhou-os, beijou-os, e depois,
+acamando-os num maço, contou-os ainda outra vez.</p>
+
+<p>Eram noventa e dois.</p>
+
+<p>O senhor Germinal não devia conservar dúvida alguma sobre o seu numero e
+valor, porquanto os verificava trezentas e sessenta e cinco vezes por ano.</p>
+
+<p>E quando as notas foram de novo recolhidas no esconderijo, e o leito
+restituído ao seu lugar, o senhor Germinal consultou o almanaque, e disse em
+voz baixa:<span class="pn">{36}</span></p>
+
+<p>«Onze anos, sete meses e dezassete dias... Daqui a quatro meses e meio, a
+minha Rosinha será feliz! E eu?... acrescentou ele estremecendo.»<span
+class="pn">{37}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00700000000000000000">VII</a></h1>
+
+<p>Voltou a primavera. Na da rua dos Mártires havia um jardim, separado do
+pátio por uma sebe de buxo; e esse jardim era dividido em vários talhões, de
+modo que cada locatário, mediante um pequeno aumento na renda, gozava de uma
+pequeníssima nesga de terreno, que podia cultivar a seu bel-prazer.</p>
+
+<p>André Sauvain não participava dessa regalia.</p>
+
+<p>Mas, quando as folhas, ainda franzidas, começavam a romper do seio dos
+rebentos, quando as aves ensaiavam já os seus gorjeios, e o ar amornecendo
+espalhava as nuvens sobre um fundo de pálido azul, o moço pintor visitou
+quotidianamente o jardim do seu vizinho Germinal.</p>
+
+<p>Havia quatro meses que, por uma série não interrompida de milagres, André se
+tornara indispensável<span class="pn">{38}</span> ao misterioso velhote;
+contava-se com ele, agora, como com um génio do lar.</p>
+
+<p>O pintor não se saciava de admirar Rosa; enlevava-se na contemplação daquela
+flor animada, que também ia desabrochando ao calor da primavera. Uma manhã
+estavam eles sós no seu paraíso de doze pés quadrados; um raio de sol,
+escorregando à beira do telhado, cujas ardósias coloria de azul, deixara-se
+cair nos laços que lhe armavam os ramos das árvores e as novas vergônteas;
+debatia-se, o imprudente raio, no meio de um folhedo de verdura; e a brisa,
+segredando, mofava do seu desatino. Ouvia-se já o zumbido das abelhas, e
+delicados perfumes se exalavam das flores, que tinham aberto as suas corolas
+durante a noite.</p>
+
+<p>«Eu também, dizia André, possuo um jardim, um velho jardim, que povoam
+copadas árvores!... Rodeia a casa onde nasci; muitas vezes ali passeio... em
+sonhos. Se lá voltasse, parece-me que cada tronco estremeceria sob o seu
+invólucro de musgo, que o lagarto viria alegre mostrar-se à fenda do muro, que
+a aranha desceria da sua teia rendilhada para acorrer jubilosa, que a água do
+tanque se agitaria de contente, que a parreira enlaçaria os seus esteios
+carunchosos, e tudo ali me bradaria com voz comovida: «Bons dias, André! Sê bem
+vindo!... Pobre André! já não és a criança que nós encantávamos; já não tens as
+faces rosadas, a fronte límpida,<span class="pn">{39}</span> a franca alegria,
+a gargalhada espontânea de então! Agora... és um homem! cresceste, lutaste,
+sofreste; os companheiros dos teus brinquedos já se esqueceram do teu nome; o
+camponês, que te trouxe às costas, passa e não te conhece. Mas nós, amigos
+humildes como somos, conhecemos-te ainda, André; deixaste entre nós a melhor
+parte das tuas recordações, e irás encontra-las lá em baixo, naquele banco
+carunchoso, onde tua mãe te embalava cantando.»</p>
+
+<p>Rosa escutava-o comovida, entrançando um ramo de pervincas.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! continue, murmurou ela. Amo essa casinha e esse velho jardim. Quando
+me fala deles, os seus olhos impregnam-se de infinita doçura; dir-se-ia que
+reflectem, como a água límpida de um regato, a imagem daqueles companheiros da
+sua infância.</p>
+
+<p>&mdash;É porque, junto de si, querida menina, respondeu Sauvain, tudo o que na
+minha alma há de sagrado, me sobe aos lábios e aos olhos. Ah! se a esperança
+transparece neles tão claramente como as mágoas, dar-se-á acaso que não
+descobrisse ainda?...</p>
+
+<p>Não concluiu. Nunca tinha dito tanto!</p>
+
+<p>Rosa, sentindo bater o coração e com as faces em rubor, curvou a cabeça e
+esperou. Mas André não teve ânimo para continuar. O silencio apenas foi<span
+class="pn">{40}</span> perturbado pelos trilos de uma toutinegra, que esvoaçava
+por cima dos dois jovens.</p>
+
+<p>&mdash;Fale-me do seu jardim? lhe tornou Rosa; conte-me o que ele lhe confiou, a
+última vez que o viu.</p>
+
+<p>O sorriso de André extinguiu-se, e a voz tornou-se-lhe mais triste.</p>
+
+<p>&mdash;Nesse dia, disse ele; o meu velho jardim estremecia sacudido por áspera
+brisa, e quando transpus a porta, as árvores desfolhadas e as folhas em
+redemoinho, só me enviaram um gemido, que acolhi com lágrimas...</p>
+
+<p>Rosa ficou pensativa e fitou no rosto de Sauvain as suas pupilas negras e
+inquietas.</p>
+
+<p>&mdash;Há doze anos que isto sucedeu, prosseguiu o pintor. Tinha eu então treze,
+e era aprendiz em casa de um escultor. Recebera da Normandia uma carta, que
+beijei; continha apenas estas palavras: «Estou muito doente, meu querido filho,
+e queria abraçar-te». Um quarto de hora depois, partia eu... a pé, por falta de
+dinheiro. Andei noite e dia, comendo o meu pão enquanto caminhava, matando a
+sede na água lodosa dos fossos da estrada, repelindo o sono, que me fechava as
+pálpebras... Cheguei enfim! A porta estava aberta... entrei chamando minha
+mãe... vi-a imóvel, branca como a cera, estendida sobre o leito em que eu
+nasci; ao lado dela, ardia uma tocha... Caí de joelhos<span
+class="pn">{41}</span> no meio do quarto... sem gritos, sem lágrimas, sem
+ideias... Minha mãe estava morta!</p>
+
+<p>O pintor proferiu estas últimas palavras com a voz entrecortada pela
+comoção. Rosa pousou-lhe timidamente a mão sobre o ombro.</p>
+
+<p>&mdash;Enterraram-na, ao cair da noite, continuou ele... Quando tudo terminou,
+retomei o caminho de Paris, trazendo a chave de minha casa deserta... menos deserta
+que a minha alma!</p>
+
+<p>Rosa deixara cair o ramo; os anéis louros do seu cabelo escondiam-lhe os
+olhos.</p>
+
+<p>&mdash;Parece-se com sua mãe, André?</p>
+
+<p>&mdash;Não, Rosa; pareço-me com meu pai, um ousado marinheiro que pereceu num
+naufrágio, e que eu não cheguei a conhecer... A pobre viúva nada mais possuía,
+neste mundo, além do meu afecto: a sua existência decorrera triste e solitária;
+éramos pobres; foram-lhe necessários prodígios de dedicação para educar-me;
+chamava-me a sua alegria, o seu orgulho, a sua consolação... E eu tinha por ela
+um culto apaixonado; por ela jurara ser rico, respeitado, celebre... Minha mãe
+morreu!</p>
+
+<p>Rosa estava de pé, um pouco inclinada para o pintor. Este sentiu uma pérola
+líquida cair-lhe sobre a fronte.</p>
+
+<p>&mdash;Como eu a teria amado! suspirou a jovem.</p>
+
+<p>André pegou-lhe nas mãos, atraindo-a brandamente para si.<span
+class="pn">{42}</span></p>
+
+<p>&mdash;Minha mãe morreu! repetiu ele, e pensei por muito tempo que nada
+preencheria o horrível vácuo, que em mim causou a sua falta. Porém, Rosa,
+acredita-lo-á?... A par dessa indelével saudade insinuou-se, pouco a pouco,
+uma ternura não menos forte, ainda que de outra natureza. Ao princípio, era
+apenas um gérmen, um grão dourado que o acaso lançara no meu caminho, mas... o
+gérmen cresceu, o grão desenvolveu-se em planta, e a planta em frondosa
+floresta, cheia de canções, de murmúrios e de perfumes!...</p>
+
+<p>André sentiu tremer, entre as suas, as mãos de Rosa. Contudo... ela sorria
+através das lágrimas.</p>
+
+<p>&mdash;E, se as almas pudessem falar, sabe Rosa o que lhe diria a alma de minha
+mãe? Dir-lhe-ia: «Rosinha, também te amo muito... a ti, que me terias amado!
+Amo-te, porque és boa, inocente e piedosa; porque o teu espírito encantador tem
+mil delicadezas; porque me substituíste nos sonhos de meu filho; porque és a
+luz dos seus olhos, a flor da sua esperança, o enlevo da sua vida! Ama-o,
+Rosinha... peço-to eu! ama meu filho, que te ama tanto!»</p>
+
+<p>Rosa volveu para o pintor o seu olhar, radiante e cândido.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, disse ela com simplicidade, eu amo-o!... Pois não o sabia, André?</p>
+
+<p>Sauvain empalideceu, e estreitou nos braços a<span class="pn">{43}</span>
+donzela, cujas faces se encenderam em pudico rubor.</p>
+
+<p>Neste momento ouviu-se aquele, já mui conhecido, som de raspador, e à porta
+do jardim apareceu o senhor Germinal, mais frio, mais compassado, mais
+ferrugento do que nunca.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem! disse ele em tom levemente irónico, então quando é o
+casamento?<span class="pn">{44}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00800000000000000000">VIII</a></h1>
+
+<p>Os dois namorados ficaram confusos, como colegiais surpreendidos a furtar
+maçãs.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, balbuciou André, não pense que... Juro-lhe, pela minha honra, que
+é a primeira vez que...</p>
+
+<p>&mdash;Meu caro vizinho, permita-me que lhe diga que é um parvo! interrompeu o
+senhor Germinal, que se assentou sossegadamente, e puxou para junto de si,
+ameaçando-a com o dedo, a linda Rosa, um tanto enleada.</p>
+
+<p>Quem, então, ficou de todo embatocado foi o pintor...</p>
+
+<p>Pois supõe, continuou o senhor Germinal, que iria eu próprio meter o lobo no
+aprisco, se não tivesse... cá o meu plano?</p>
+
+<p>&mdash;Será possível!... exclamou Sauvain</p>
+
+<p>&mdash;Tudo é possível, meu caro. E possível que, à<span class="pn">{45}</span>
+força de deitar o nariz fora da janela, esta criança reparasse em certo
+vizinho; é possível que o pai, vendo-a pensativa, procurasse descobrir o que a
+preocupava; é possível que, adivinhando ele o que de ordinário atormenta uma
+rapariga de dezassete anos, a seguisse à dita janela e aventurasse um olhar por
+cima do ombro da filha; é possível enfim, que, por entender que ao longe se vê
+mal, aproximasse os dois curiosos para se verem de perto.</p>
+
+<p>André lançara-se de joelhos na areia do jardim: com uma das suas mãos
+apertava a dextra escabrosa do senhor Germinal, com a outra levava aos lábios a
+alva mão da donzela.</p>
+
+<p>&mdash;Rosa!... minha Rosinha! anjo querido! sonho dourado da minha vida! repita
+diante de seu pai aquelas palavras, que há pouco me iluminaram o coração!</p>
+
+<p>&mdash;Amo-o; André! disse ela ingenuamente e sem hesitar.</p>
+
+<p>&mdash;Não se morre de alegria!... exclamou o enamorado moço.</p>
+
+<p>&mdash;E o senhor... meu bom amigo... meu pai... dá-ma?</p>
+
+<p>&mdash;Ela ama-o, André! respondeu o senhor Germinal, arremedando Rosa. Mas
+levante-se daí, vizinho! há mais janelas e mais inquilinos, no prédio!</p>
+
+<p>André obedeceu: nos seus olhos ardiam fogos de<span class="pn">{46}</span>
+artifício, o coração tocava-lhe a rebate, e no cérebro sentia ressoar uma banda
+regimental.</p>
+
+<p>&mdash;Escute-me, disse o velho.</p>
+
+<p>&mdash;Sou todo ouvidos!...</p>
+
+<p>&mdash;Não se vive só de ar: não lhe parece?</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, infelizmente!...</p>
+
+<p>&mdash;Bem. E que trará o senhor para a comunidade conjugal?</p>
+
+<p>André mordeu o bigode, e consultou as nuvens, como se elas estivessem
+encarregadas de trazer-lhe barras de oiro e se houvessem demorado no caminho.
+</p>
+
+<p>&mdash;Trarei, respondeu enfim, o meu amor, a minha coragem, a minha perseverança
+e... a minha fé no futuro.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem, disse o senhor Germinal. E tu Rosa, que levarás em dote a teu
+marido?</p>
+
+<p>&mdash;A felicidade, respondeu ela simplesmente, mas com profunda convicção.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem, repetiu o velho. Pois, meus filhos, possuís exactamente o mesmo
+capital, que eu possuía quando casei.</p>
+
+<p>&mdash;E foi feliz, afirmou Rosa.</p>
+
+<p>&mdash;Feliz!... redarguiu ele com amargura; feliz, como o ladrão, que se apressa
+a dissipar o que roubou, pensando incessantemente nas galés que o esperam!...
+feliz, como o condenado à morte, que afoga a razão numa orgia efémera, e que
+despertará no cadafalso!... Não sabe, André, quanto custa<span
+class="pn">{47}</span> ver a mulher que adoramos, uma criatura delicada a quem
+desejaríamos entretecer um ninho com todas as maravilhas do universo,
+estragando a vista num trabalho ingrato para poder comprar um miserável vestido
+de chita!... sorrir forçadamente para nos esconder as pálpebras avermelhadas
+pela vigília!... definhar-se; a fogo lento, à mingua de um pouco de
+supérfluo!... E tu ignoras também, minha pobre Rosa, o que é ver entrar à noite
+um homem desanimado, abatido, prostrado pelo excesso de um trabalho mecânico,
+humilhado por superiores insolentes, escarnecido por subalternos mais bem
+trajados do que ele, consentindo, para poder ganhar um salário irrisório, em
+calcar aos pés a sua inteligência e a sua dignidade!... Tu não sabes, repito, o
+que é sentir-se uma pessoa esmagada por esta luta com a pobreza, prever próxima
+a morte, e inclinar-se de noite sobre um berço, murmurando: «Que será desta
+criança, quando eu lhe faltar?»</p>
+
+<p>Rosa e André achegaram-se um ao outro, trocando olhares altivos, que
+desafiavam a adversidade.</p>
+
+<p>&mdash;Ignoram tudo isto, prosseguiu o senhor Germinal; porém eu, que o sei por
+experiência própria, jurei sobre o túmulo de minha mulher, morta de miséria,
+vítima de privações de toda a espécie!... que nunca daria minha filha a um
+homem pobre.</p>
+
+<p>André levantou-se, pálido e com as feições transtornadas.<span
+class="pn">{48}</span></p>
+
+<p>&mdash;A não ser que ela tenha um dote razoável... concluiu o velho.</p>
+
+<p>Os dois jovens ficaram aterrados.</p>
+
+<p>&mdash;Oh, meu pai!... meu pai!... exclamou Rosa, quase irrompendo em pranto.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor! bradou André, trémulo de indignação, se o que diz é um gracejo...
+é bem cruel!</p>
+
+<p>Papá Germinal esfregou as mãos, produzindo desta vez o ruído de um raspador
+colossal.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor Sauvain, a quantos estamos do mês?</p>
+
+<p>&mdash;Oh!... o senhor está abusando...</p>
+
+<p>&mdash;Responda-me por favor: quantos são hoje?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei!... 8 de maio, creio eu.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, senhor Sauvain; hoje mesmo, 8 de maio de 1854, minha filha
+possui um dote.</p>
+
+<p>&mdash;Um dote?... eu! exclamou Rosa, incrédula.</p>
+
+<p>&mdash;Isso pouco me importa, disse André, o essencial para mim...</p>
+
+<p>&mdash;Pelo contrario, deve importar-lhe muito; sem dote, não consentiria eu que
+casasse com minha filha. Dou-lha... com noventa e dois mil francos.</p>
+
+<p>Desta feita, o susto sufocou Rosa e André. Pareceu-lhes palpável que o
+senhor Germinal trilhava o caminho que conduz a Charenton<a name="tex2html2"
+href="#foot119"><sup>[2]</sup></a>.</p>
+
+<p>Mas o velho, sempre sério, tirou convulsivamente do bolso um grande maço de
+notas de banco, folheou-o<span class="pn">{49}</span> perante os olhares
+atónitos dos dois namorados, e repetiu, acentuando cada silaba: «Noventa e dois
+mil francos!» Tome lá, meu genro!<span class="pn">{50}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00900000000000000000">IX</a></h1>
+
+<p>Sauvain abriu desmesuradamente os olhos. Tantos valores nas mãos do senhor
+Germinal, cuja miséria igualava a de Job!... O caso era de natureza a inspirar
+suposições extravagantes: até Rosa se inquietou.</p>
+
+<p>&mdash;Como assim, meu pai! disse ela, tudo isso lhe pertence?</p>
+
+<p>&mdash;Pertence-te a ti; pois que to dou.</p>
+
+<p>&mdash;E de onde lhe veio tanta riqueza?</p>
+
+<p>A fronte do velho enrugou-se; até aquele momento desenvolvera insólito
+desembaraço, mas a esta pergunta de sua filha, reapareceram o seu
+constrangimento anterior, o seu balbuciar e timidez habituais.</p>
+
+<p>&mdash;De onde me veio este dinheiro!... retorquiu ele; queres sabe-lo?</p>
+
+<p>&mdash;Certamente!...<span class="pn">{51}</span></p>
+
+<p>&mdash;Das minhas economias.</p>
+
+<p>&mdash;Economias!... quando cem vezes nos tem faltado o necessário!... quando não
+era raro ignorarmos na véspera se jantaríamos no dia seguinte!</p>
+
+<p>&mdash;Minha filha, é bom sofrer no presente para assegurar o futuro.</p>
+
+<p>&mdash;Economias!... quando o pai, estando doente, ia morrendo por falta de
+remédios e de dinheiro para os comprar!</p>
+
+<p>&mdash;Sou avarento!... balbuciou o senhor Germinal, evidentemente constrangido.
+</p>
+
+<p>&mdash;Talvez... Mas explique-me por favor, meu pai, como pôde poupar perto de
+cem mil francos, dos seus seiscentos francos de ordenado?</p>
+
+<p>&mdash;Há muito tempo que comecei, disse o velho enxugando o crânio; os pequenos
+regatos tornam-se em rios, os soldos transformam-se em francos, e os francos em
+notas do banco.</p>
+
+<p>&mdash;Para isso mesmo era necessário recorrer ao cambista, e há doze anos que
+meu pai não põe os pés fora de casa!</p>
+
+<p>&mdash;Estás importuna!... articulou o senhor Germinal, que, de amarelo cor de
+palha, passou ao amarelo do enxofre; além de que... há mais de doze anos que
+tive uma herança...</p>
+
+<p>&mdash;Agora diz que o herdou!...</p>
+
+<p>&mdash;Foi ainda em vida de sua mulher? perguntou André secamente.<span
+class="pn">{52}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ao que parece...</p>
+
+<p>&mdash;Entretanto, senhor, acaba de confiar-nos que a mãe de Rosa morreu à míngua
+do necessário!...</p>
+
+<p>&mdash;Vão para o diabo! bradou o senhor Germinal. Dar-se-á acaso que me tomem
+por um ladrão?</p>
+
+<p>&mdash;Meu pai!...</p>
+
+<p>&mdash;Vizinho!...</p>
+
+<p>&mdash;Minha filha... Meu amigo... Não querem o meu dinheiro, não é assim?
+julgam-no de origem impura? Pois não o queiram. Reembolso-o, e... basta de
+amor... nada de casamento! Voltemos para nossas casas, e não falemos mais em
+tal!</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, exclamou André, afiance-nos ao menos que existe um motivo grave
+que o obriga a ocultar a origem da sua riqueza!...</p>
+
+<p>&mdash;Nada mais desejam?... Pois bem; é verdade, com a breca! Tenho um motivo
+grave... gravíssimo! tenho dez... tenho cem... tenho mil!</p>
+
+<p>O senhor Germinal estava extremamente agitado.</p>
+
+<p>&mdash;Porém, continuou André, como o consideramos um dos homens mais honrados
+deste mundo...</p>
+
+<p>&mdash;Não carecemos saber mais nada, concluiu Rosa.</p>
+
+<p>&mdash;Ora... ainda bem! Graças a Deus! exclamou o velho, respirando mais
+livremente.</p>
+
+<p>E, enlaçando Rosa nos seus braços, envolveu-a num olhar cheio de ternura, e
+beijou-a na testa.</p>
+
+<p>&mdash;Criança má!... murmurou ele, estás com<span class="pn">{53}</span> muita
+pressa de abandonar o teu velho pai?... Porque não esperas cinco ou seis anos?
+</p>
+
+<p>&mdash;E quinze, porque não? resmoneou André.</p>
+
+<p>&mdash;Nós não te deixaremos, papá!</p>
+
+<p>O senhor Germinal abanou a cabeça.</p>
+
+<p>&mdash;É o mesmo, acrescentou ele, foi uma grande tolice enamorares-te deste
+arganaz desengonçado!</p>
+
+<p>&mdash;Obrigadíssimo pelo elogio, disse o pintor.</p>
+
+<p>&mdash;E, a final de contas, se não casasses com ele... nem por isso adoecerias!
+</p>
+
+<p>&mdash;Perdão, meu pai, respondeu Rosa resolutamente, morreria!</p>
+
+<p>&mdash;Está bom! basta! interrompeu o velho assustado; já mo disseste... E foi
+mister essa ameaça, continuou ele entre dentes, para me resolver...</p>
+
+<p>Não disse mais, soltou um suspiro, apalpou as notas do banco através do
+usado pano da sobre-casaca, e passados poucos segundos exclamou de súbito:</p>
+
+<p>&mdash;Vamos! abracem-se diante de mim!</p>
+
+<p>O pintor não se fez rogar, e as faces de Rosa tingiram-se de vivas cores.
+</p>
+
+<p>&mdash;E trabalhe cada um por sua parte, prosseguiu o senhor Germinal. A riqueza
+de minha filha não deve impedi-lo de dar ao pincel, senhor Sauvain.</p>
+
+<p>&mdash;Antes duplicará as minhas forças, lhe tornou André; quero ganhar um dote
+igual ao de Rosa, e... ganhá-lo-hei!<span class="pn">{54}</span></p>
+
+<p>&mdash;Então vá para o seu <em>atelier</em>, e volte depois para jantar
+connosco. À sobremesa fixaremos... sim, talvez possamos fixar o dia da
+cerimonia!</p>
+
+<p>Quando acabou de proferir estas palavras, que visivelmente lhe custaram a
+soltar dos lábios, ouviu-se no pátio o rumor de uma violenta altercação.</p>
+
+<p>Duas vozes masculinas, uma das quais era a da senhora Poussignol, discutiam
+calorosamente:</p>
+
+<p>&mdash;Mas aonde vai o senhor?... uivava a barbuda porteira.</p>
+
+<p>&mdash;A casa de um dos seus inquilinos, já lho disse, com mil demónios!
+respondeu um baixo profundo, de timbre metálico e pronúncia meridional.</p>
+
+<p>&mdash;Qual inquilino?</p>
+
+<p>&mdash;De certo o menos tolo.</p>
+
+<p>&mdash;Isso não basta... Como se chama ele?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei.</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa!...</p>
+
+<p>O senhor Germinal, ao ouvir o som de um órgão humano, mudara de semblante.
+</p>
+
+<p>&mdash;Quem está aí? perguntou ele, quem é esse homem?... que quer?... Vamo-nos
+embora, não digam que estou em casa!</p>
+
+<p>Os olhos rolavam-lhe assustados nas órbitas; os membros tremiam-lhe, os
+queixos batiam um no outro a seu pesar.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, disse Rosa, não pode ser para nós, meu pai; não conhecemos pessoa
+alguma!...<span class="pn">{55}</span></p>
+
+<p>&mdash;Vamo-nos... vamo-nos embora! repetia o velho.</p>
+
+<p>&mdash;Que tem ele?... perguntou o pintor em voz baixa.</p>
+
+<p>&mdash;Sempre esta doença nervosa! respondeu a jovem. A presença de um
+desconhecido transtorna-o completamente! Veja quem é, meu amigo... e
+sossegue-o.</p>
+
+<p>André subiu a um banco, e olhou por cima da sebe. Viu a senhora Poussignol,
+calando baioneta com a vassoura, diante de um individuo de pequena estatura,
+largo de ombros, e de pernas arqueadas.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos! Rua! vociferava a digna mulher; falhou-lhe o plano; para cá vem
+<em>barrado</em>, freguês! Safe-se quanto antes, quando não grito «ó da
+guarda!»</p>
+
+<p>&mdash;Não faça tanta bulha, tiasinha, cale-se aí!... Com mil amarras!... Por
+quem me toma, você?</p>
+
+<p>&mdash;Por um velho larápio, que tratava de se encaixar cá em casa! Ah, seu
+grande velhaco! julgava que o não viam, quando passou diante da minha loja?</p>
+
+<p>Uma gargalhada sonora acolheu a conjectura da porteira, e o desconhecido fez
+uma pirueta, apertando as ilhargas. Resultou deste movimento achar-se em frente
+de André, cujo rosto admirado aparecia por cima da sebe de buxo.</p>
+
+<p>&mdash;Ah, ah! exclamou ele; eis o meu homem! E,<span class="pn">{56}</span>
+caminhando direito ao pintor, estendeu-lhe a mão, gritando:</p>
+
+<p>&mdash;Como passa, querido amigo, cujo nome ignoro! Estou encantado pelo
+encontrar!</p>
+
+<p>Depois, vendo o senhor Germinal e sua filha, tirou o chapéu e
+cumprimentou-os com galantaria.</p>
+
+<p>&mdash;Desculpe-me, senhor; peço mil perdões, menina, se os interrompo na sua
+conversação... São apenas duas palavras que tenho a dizer ao meu jovem amigo.
+Permitam-me que lho roube por um segundo...</p>
+
+<p>&mdash;Perdão, senhor, disse André, estupefacto; a quem tenho a honra de falar?
+</p>
+
+<p>&mdash;Que diabo!... pois não me reconhece?</p>
+
+<p>&mdash;Confesso que não.</p>
+
+<p>&mdash;Ora olhe bem para mim, com a breca!</p>
+
+<p>André olhou. A sua verificação deu em resultado: uma cabeça calva, um nariz
+cor de violeta, uma comprida barba de duas pontas, um casaco sórdido, umas
+botas acalcanhadas, e um chapéu pardo. Tudo isto, iluminado por dois olhos
+buliçosos, brilhantes e cheios de malícia, despertou-lhe pouco a pouco a
+memoria...</p>
+
+<p>&mdash;Então não se recorda? perguntou o recém-chegado.</p>
+
+<p>&mdash;Ora espere!...</p>
+
+<p>&mdash;Em 24 de Dezembro, à noite... na véspera de Natal...<span
+class="pn">{57}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ah!... sim!...</p>
+
+<p>&mdash;Defronte da vidraça...</p>
+
+<p>&mdash;De uma casa de pasto, concluiu o pintor. Estou às suas ordens, meu bravo!
+</p>
+
+<p>Durante este tempo, o senhor Germinal, convencido de que o objecto da visita
+lhe não dizia respeito, voltara a si do seu estranho pavor. Esfregava
+lentamente as mãos, soprando como uma baleia ferida. Rosa contemplava Pedro
+Toucard.</p>
+
+<p>&mdash;É um novo conhecimento, disse-lhe baixinho André, sorrindo-se; esta noite
+lhe contarei como o adquiri.</p>
+
+<p>E despediu-se do pai e da filha.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor... Menina... disse Pedro Toucard, saudando os dois, tenho a honra
+de apresentar-lhes os meus respeitos... Linda criatura, com mil amarras!
+observou ele a André, seguindo-o; e o pai parece bom homem...<span
+class="pn">{58}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001000000000000000000">X</a></h1>
+
+<p>Às vessas de certo romano, que desejava que os seus compatriotas tivessem
+todos uma só cabeça, para lha cortar de um golpe, André Sauvain desejara, nesse
+momento, que o género humano tivesse um só peito, para poder estreita-lo
+amigavelmente nos braços.</p>
+
+<p>Portanto, fez boa cara e bom acolhimento àquele indigente desconhecido, cuja
+companhia teria apreciado mediocremente noutra ocasião.</p>
+
+<p>&mdash;Irra!... mancebo, disse-lhe o provençal enquanto atravessavam o pátio,
+pode gabar-se de me ter dado que fazer! Há quatro meses que corro Seca e Meca
+por sua causa.</p>
+
+<p>&mdash;Como assim!... Julgava ter-lhe dito onde morava?</p>
+
+<p>&mdash;Nem o nome, nem a morada... No momento<span class="pn">{59}</span> em que
+lhe perguntava uma e outra coisa, zás! partiu como uma bala!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, recordo-me... Uma pessoa a quem desejava falar...</p>
+
+<p>&mdash;Farsista!... A verdade é que lhe desagradava o papel de meu credor, e
+queria tacitamente dar por saldada a minha dívida.</p>
+
+<p>&mdash;Ora... uma bagatela!</p>
+
+<p>&mdash;Uma bagatela, que me impediu de morrer de fome. Felizmente vi-o ontem à
+noite; reconheci-o à luz de um bico de gás, quando atravessava para a rua dos
+Mártires; movia-se como uma locomotiva! Corri atrás de si, mas as minhas pernas
+já não são setas, e cheguei justamente a tempo de receber com a sua porta na
+cara. Não eram horas para visitas. Tomei o numero da casa, e eis-me aqui!</p>
+
+<p>&mdash;Seja bem vindo, disse Sauvain, introduzindo-o no <em>atelier</em>.</p>
+
+<p>Pedro Toucard entrou, com o chapéu à banda, bamboleando-se e retorcendo com
+afã uma das pontas da sua barba grisalha. Começou reembolsando o pintor da
+módica soma que lhe devia; e depois, sentindo-se mais à vontade. instalou-se
+como se estivera em sua casa, e tornou-se de uma familiaridade cada vez maior.
+</p>
+
+<p>Num volver de olhos, inventariou a mobília e permitiu-se fazer um trejeito
+de capitalista extraviado num casebre. Em seguida passou a examinar vários<span
+class="pn">{60}</span> esboços; fez careta a uns, e sorriu para outros com ar
+aprovador. Depois, voltou muitas telas encostadas à parede, e descobriu
+sucessivamente uma, duas, três, quatro cabeças de mulher... sempre a mesma, com
+olhos negros e cabelos louros.</p>
+
+<p>&mdash;Bravo! exclamou ele.</p>
+
+<p>&mdash;Que temos? interrogou André descontente.</p>
+
+<p>&mdash;A virgem do jardim! Sim, senhor!... Não é digno de dó, meu amigo... porque
+naturalmente é correspondido!</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, disse o pintor, um pouco irritado pela demasiada sem-cerimónia,
+estou com pressa; tenho um negócio urgente, e se lhe não sou já preciso...</p>
+
+<p>&mdash;Não vale zangar!... replicou Pedro Toucard. O senhor agrada-me, com mil
+bombardas! e é por isso que me interesso no que lhe diz respeito. Além de que,
+fui sempre curioso, tagarela e indiscreto... Ninguém se corrige nesta idade,
+com todos os diabos!</p>
+
+<p>&mdash;Tanto pior! observou-lhe André.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo contrário, tanto melhor! Tenho apego aos meus defeitos; estou
+habituado a eles, há sessenta anos, e ser-me-ia penoso deixa-los.</p>
+
+<p>André sorriu-se; e o velho, vendo isto, foi buscar uma cadeira.</p>
+
+<p>&mdash;Quer que lhe conte a minha historia? perguntou ele.</p>
+
+<p>&mdash;Para quê?<span class="pn">{61}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ora essa!... para que me conheça bem. Embora por sorte mofina me veja
+reduzido a um ente miserável, velho e pobre, sou com tudo um patusco
+aproveitável; posso servir para alguma coisa... principalmente a quem me
+prestou serviços. À falta de dinheiro, tenho ideias: a felicidade de um homem
+depende, algumas vezes, do maltrapilho que lhe pediu esmola.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo que toca à minha felicidade, lhe tornou André, outra pessoa se
+encarregou dela. É negócio concluído. Porém... não lhe agradeço menos a boa
+intenção, meu bravo!</p>
+
+<p>&mdash;Vejam lá como são os rapazes! Este julga-se completamente feliz, porque
+vai desposar a sua bela das tranças doiradas!</p>
+
+<p>&mdash;Como o sabe?</p>
+
+<p>&mdash;Que grande mistério! Qualquer caraíba o teria adivinhado, só de os ver ao
+lado um do outro. E os quatro retratos dela? Aposto que foram feitos de
+memória!... Mas, meu caro... a felicidade não consiste só numa afeição, aguda
+ou crónica; a felicidade, não obstante o que têm dito os trovadores, prefere
+tectos doirados a barrotes... assim!</p>
+
+<p>E Pedro Toucard designava o tecto, que aranhas centenárias haviam ornado com
+bambinelas de seu lavor.</p>
+
+<p>&mdash;Dar-se-á acaso que o senhor tenha a veleidade de doirar os meus?
+perguntou André, rindo.<span class="pn">{62}</span></p>
+
+<p>&mdash;Presentemente não, respondeu o provençal, contemplando melancolicamente as
+suas velhas botas esburacadas. Falta-me o metal necessário... Agora estou muito
+em baixo!... Mas tenho diante de mim o futuro; ainda hei de <em>trepar</em>,
+creia! É a minha sina! E, quem sabe?... talvez que eu algum dia lhe compre
+quadros.</p>
+
+<p>André contemplou com admiração aquele sexagenário, falando do futuro, na
+idade em que geralmente só se pensa no repouso.</p>
+
+<p>&mdash;Nada o faz desanimar! disse o pintor.</p>
+
+<p>&mdash;E tenho boas razões para isso. Repito a pergunta: Quer que o inicie na
+minha historia?</p>
+
+<p>&mdash;Venha ela!</p>
+
+<p>O velho exumou da algibeira um cachimbo, curto e enegrecido, e logo em
+seguida um cartucho de papel, contendo um resto de tabaco.</p>
+
+<p>&mdash;Pode a gente fumar em sua casa?</p>
+
+<p>&mdash;De certo!</p>
+
+<p>Pedro Toucard acendeu o seu queima-goelas, po-lo ao canto da boca,
+escarranchou-se numa cadeira, torceu em cada mão uma das pontas da sua longa
+barba, e contou por miúdo o que nós vamos contar... por grosso.<span
+class="pn">{63}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001100000000000000000">XI</a></h1>
+
+<p>Pedro viera ao mundo sob a influência de uma estrela buliçosa, e trouxe a
+bossa da especulação. Em pequeno, o pensamento de ser rico meteu-lhe o diabo no
+corpo; e o sobredito diabo nunca mais de lá saiu. Foi este que obrigou Pedro,
+ainda criança, a trocar umas vacas, de que lhe haviam confiado a guarda, por um
+pesado fardo de bufarinheiro. Havia ali, na sua opinião, o gérmen de uma casa
+de comércio. Mas Pedro foi agarrado; Pedro levou uma boa surra de pancadas; e
+Pedro... recomeçou as suas operações em mais larga escala.</p>
+
+<p>Dentro em pouco, o seu furor pelo negócio, a necessidade de agitação, o seu
+carácter irrequieto e extravagante, tornaram-no um ente insuportável. Seu pai,
+humilde lavrador, que nada percebia de indústria, pediu-lhe que escolhesse uma
+carreira e partisse quanto antes. Pedro quis ser marujo. Aos<span
+class="pn">{64}</span> doze anos embarcou como grumete, com a cabeça recheada
+de projectos, de cálculos e de empresas futuras. Levava consigo um pacote de
+peões, de bolas, de fitas e de missangas, que obtivera barato dos seus
+camaradas, e que contava impingir muito caro aos rapazotes negros, ou
+peles-vermelhas, que encontrasse na viagem.</p>
+
+<p>Com a ajuda das chicotadas, Pedro depressa se fartou da sua profissão. Na
+primeira paragem do navio, desertou sem dizer «água vai». Não tinha as pernas
+muito compridas, mas a ambição forneceu-lhe botas de sete léguas, e lançou-se a
+galope atrás da fortuna.</p>
+
+<p>Desde então, a sua vida não foi mais do que uma carreira desenfreada. Só à
+sua parte, viajou mais do que dez Judeus errantes e vinte ingleses
+spleenaticos. A terra e o oceano pareceram-lhe pouco; esperava encontrar
+maiores extensões. Contudo empregou em percorre-los todos os meios de locomoção
+conhecidos, e inventou alguns novos. Vagueou durante cinco anos a pé, a cavalo,
+em burro, em dromedário, em piroga, em paquete, a nado, em diligência, pela
+posta, em patacho... traficando, vendendo, comprando, trocando, especulando em
+trigo, em vinho, em peliças, em azeite, em peles de castor, em negros e negras,
+etc. Engraxa-botas em S. Francisco, mercador de estofos em Esmirna, banqueiro
+em Génova, expositor em Londres, mestre<span class="pn">{65}</span> de dança em
+S. Petersburgo, caçador em Arkansas, vendedor de ópio em Cantão, fotografo em
+Madrid, livreiro em Leipziek, e... um tanto corsário por toda a parte, exerceu
+cem profissões, pela maior parte honestas, e outras... um pouco menos.</p>
+
+<p>Dez vezes alcançou a cega deusa e a deixou fugir: chegou a possuir cem mil
+escudos, que um desastre reduziu a quinhentos francos, os quais depois se
+tornaram em duzentas mil libras, para mais tarde recaírem em zero... E sempre
+assim, durante meio século!</p>
+
+<p>O acaso, que tomara por bússola, brincava com este homem, como um colegial
+com uma pela, lançando-a a grande altura, ou mergulhando-a no fundo de um poço.
+Porém ele comprazia-se no meio destas alternativas, que lhe proporcionavam uma
+febre perpetua de inteligência. Tão ardente no prazer, como tenaz no lucro,
+levava uma existência faustosa nos seus dias felizes; dava festas gigantescas,
+semeava oiro às mãos cheias, e saciava-se de todas as sensualidades. Mudava a
+sorte, vivia de uma côdea de pão e de um cachimbo de tabaco, não se importando
+de servir de criado àqueles mesmos que recebera à sua mesa.</p>
+
+<p>Desconhecia preconceitos e falsas vergonhas: respirava só pelas comoções
+corrosivas da perda e do ganho.</p>
+
+<p>Entretanto fixara um limite à sua futura riqueza,<span
+class="pn">{66}</span> e dissera consigo: «Não irás além!» Queria dois milhões.
+Por varias vezes conseguiu o seu fim; mas... vinha um incêndio, uma falência,
+uma revolução, um cataclismo qualquer, que tudo absorvia. Acontecera-lhe um dia
+seguir uma caravana, carregada por ele de perfumes, marfim, ébano e pedras
+preciosas. Pelo caminho calculou os lucros prováveis dessas mercadorias, e como
+achasse o seu ideal muito excedido, jurou que seria aquela a sua última
+tentativa. Eis senão quando, uma nuvem de salteadores árabes ataca a caravana e
+rouba-a, deixando Pedro quase morto no meio dos seus servos estrangulados. E
+Pedro, sempre filósofo, recomeçara pacientemente a sua teia despedaçada.</p>
+
+<p>Assim rolando, de quedas em triunfos, e de vitórias em derrotas, sentiu
+chegar os sessenta anos; e, como aventureiro já saciado de fadigas, opulento à
+medida dos seus desejos, singrava enfim para as terras da pátria. Porém a
+tempestade arrojara o navio sobre a costa; dispersara os seus marinheiros e
+aniquilara a carregação, arruinando Pedro pela décima ou duodécima vez.</p>
+
+<p>Um brigue estrangeiro recolheu-o das ondas, meio-morto, atado a uma tábua,
+louco de sede e de dor, fantasiando ainda no seu delírio uma sociedade colossal
+de comercio, que imaginava ter fundado. Apenas pôde sair do hospital, para onde
+o tinham transportado, a braços com um tétano, dirigiu-se<span
+class="pn">{67}</span> para Paris. Foi lá que André Sauvain o encontrou
+andrajoso e faminto.</p>
+
+<p>&mdash;E, desde esse dia, que mais empreendeu? perguntou o pintor, que escutara
+esta narrativa com crescente interesse.</p>
+
+<p>&mdash;Um pouco de tudo, respondeu Pedro Toucard. Com o que me restava do seu
+dinheiro, comprei fósforos e revendi-os, apanhei pontas de charutos, serrei
+madeira, abri as portinholas das carruagens, fui moço de recados, escritor
+público, contratador de bilhetes de teatro, professor de esgrima, dei serventia
+a pedreiros, etc.; enfim, tal como me vê, possuo já alguns centos de francos,
+que me produzirão avultados lucros. Vou alugar uma tenda; venderei seja o que
+for... seja a quem for: e, quando tiver mil francos de meu, visto-me de novo e
+vou jogar na Bolsa.</p>
+
+<p>&mdash;Com que fundos?</p>
+
+<p>&mdash;Com os da minha inteligência, respondeu Pedro Toucard, batendo na testa
+com gesto inspirado. Que grande habilidade jogar com capitais!... Com a
+breca!... se me emprestassem agora cinquenta mil francos, num mês teria ganho o
+quádruplo!</p>
+
+<p>&mdash;Ou ficaria sem nada...</p>
+
+<p>&mdash;Qual história! só os tolos é que se enterram, e eu tenho olho vivo...
+Aposto que ainda me verá milionário!</p>
+
+<p>&mdash;Irra! disse Sauvain maravilhado daquela rara audácia, já é ter confiança
+em si!<span class="pn">{68}</span></p>
+
+<p>&mdash;Porque tenho sorte... e ideias, replicou Pedro Toucard. Sou o amante
+preferido da fortuna: abandona-me às vezes, mas volta sempre para junto de
+mim... As ideias vêm-me, como aos outros o ar que respiram; uma palavra
+proferida pelo primeiro transeunte, o latido de um cão, uma tabuleta, a forma
+de uma nuvem, a musica de um realejo, tudo me gera uma ideia... Eis porque eu
+tenho confiança!...</p>
+
+<p>Assim falando, o provençal enchera o cachimbo; e como o seu cartucho de
+tabaco ficara vazio, desenrolou-o maquinalmente, e alisou-o sobre o joelho.</p>
+
+<p>&mdash;Olhe! acrescentou ele, mostrando o papel; quando me acho em embaraços,
+leio um anuncio, abro um jornal, ou o primeiro impresso que se me depara...
+este, por exemplo, e zás! uma ideia me...</p>
+
+<p>Interrompeu-se de súbito, e o seu olhar ficou fixo no pedaço de papel, que
+lhe estava servindo para demonstração...</p>
+
+<p>&mdash;Com mil amarras! exclamou ele, com voz tonante e erguendo-se de chofre.
+</p>
+
+<p>&mdash;Que foi?... interrogou o pintor, erguendo-se também. O velho fez-se
+amarelo, logo carmesim, depois branco como um sudário, e por fim agarrou no
+pulso de Sauvain, e apertando-lho com força, balbuciou:</p>
+
+<p>&mdash;Que numero é o desta casa?</p>
+
+<p>&mdash;Oitenta e sete.</p>
+
+<p>&mdash;Rua dos Mártires?<span class="pn">{69}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sem dúvida.</p>
+
+<p>&mdash;Há cá alguém que se chame Germinal?</p>
+
+<p>&mdash;Há, sem dúvida!... respondeu André estupefacto.</p>
+
+<p>&mdash;Aonde mora?</p>
+
+<p>&mdash;Aqui... ao lado... Era com ele que eu conversava há pouco!...</p>
+
+<p>&mdash;Com mil raios! bradou Pedro.</p>
+
+<p>E, num salto de jaguar, atravessou o <em>atelier</em>, abriu a porta, correu
+para o pátio, e chegou ao jardim, seguido do pintor, ofegante e desnorteado.
+</p>
+
+<p>Rosa e seu pai conservavam-se ainda sentados no mesmo lugar.</p>
+
+<p>&mdash;É o senhor Germinal a quem tenho a honra de falar? perguntou Pedro
+Toucard.</p>
+
+<p>O senhor Germinal, sufocado por esta pergunta à queima-roupa, respondeu
+apenas com o seu eterno raspadouro.</p>
+
+<p>&mdash;Sim senhor, disse Rosa.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem!... continuou o provençal, pois eu chamo-me Pedro Toucard e
+sou...</p>
+
+<p>Não teve tempo de dizer mais. O pobre senhor Germinal soltou um grito
+abafado, a ferrugem da sua pele transformou-se em verdete, agitou o ar com os
+braços, e caiu pesadamente sobre o banco.</p>
+
+<p>&mdash;Meu pai!... exclamou Rosa assustada.</p>
+
+<p>&mdash;Que aconteceu? perguntou Sauvain na maior. ansiedade.<span
+class="pn">{70}</span></p>
+
+<p>&mdash;Aconteceu... que tudo está desfeito, articulou o velho com voz
+estrangulada; casamento, amor, futuro... foi tudo um sonho! Separem-se... pois
+nunca serão um do outro. Depois, dirigindo-se bruscamente a Pedro Toucard, que
+o observava com impaciente curiosidade, disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Siga-me, senhor. E afastou-se, mal podendo suster-se nas pernas, seguido
+pelo provençal, não menos agitado do que ele.</p>
+
+<p>Rosa e André entreolharam-se com terror: dir-se-ia que caíra um raio ao pé
+deles. Por um movimento espontâneo, a jovem refugiou-se nos braços do seu amado
+André.</p>
+
+<p>&mdash;Separar-nos!... murmurou ela.</p>
+
+<p>&mdash;Quem o ousaria!... rugiu, o pintor.</p>
+
+<p>&mdash;Mas... que significa isto, meu Deus?! André, no auge da desesperação,
+meteu loucamente os dedos pelos cabelos banhados em suor... depois, abatido,
+deixou pender a cabeça sobre o peito. Nesse instante, descobriu por terra o
+pedaço de papel, que ocasionara esta peripécia. Levantou-o.</p>
+
+<p>Era um pedaço de jornal, em que se distinguiam ainda alguns fragmentos de
+anúncios.</p>
+
+<p>O pintor leu o que se segue:</p>
+
+<p>«Aos herdeiros ou parentes do senhor Onésimo Toucard, falecido em 8 de maio
+de 1872, roga-se com instância, para seu interesse, que se dirijam a M.
+Germinal, rua dos Mártires, n. 87.»<span class="pn">{71}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001200000000000000000">XII</a></h1>
+
+<p>É indispensável agora, para clareza desta narrativa, que volvamos alguns
+anos atrás.</p>
+
+<p>Em 1842, num esplêndido domingo de primavera, o senhor Germinal, então
+empregado numa repartição publica, dirigiu-se para o caminho de ferro da margem
+esquerda, e subiu para o comboio com alegria, difícil de descrever.</p>
+
+<p>Durante toda a semana, o senhor Germinal consultara o barómetro; através da
+espessa névoa, que embaciava os vidros das janelas, interrogara cem vezes o
+aspecto do firmamento; cem vezes os seus companheiros de trabalho o haviam
+surpreendido a olhar fixo para o céu; cem vezes perpetrara erros nas contas;
+cem vezes, enfim, esboçara na mesa, com a ponta da raspadeira, árvores,
+campanários, carneiros e choupanas. Tantas distracções num empregado-modelo,
+atraiçoavam algum projecto, amorosamente<span class="pn">{72}</span>
+acalentado; e, se bem que o senhor Germinal fosse taciturno e pouco
+comunicativo, todos sabiam qual era esse projecto: ia no próximo domingo a
+Viroflay.</p>
+
+<p>Nesta época, o senhor Germinal roçava pelos seus quarenta e sete anos, e
+havia vinte e cinco que vinha, trezentas vezes por ano, assentar-se à mesma
+hora, na mesma cadeira, à mesma secretária, com as mesmas mangas de lustrina,
+em frente dos mesmos indivíduos, e recebendo o mesmo ordenado, cujo
+quantitativo era de cento e trinta e três francos e trinta e três cêntimos.</p>
+
+<p>O senhor Germinal passava, e com razão, entre os seus chefes e colegas, por
+um homem de medíocre inteligência, mas trabalhador assíduo, de inteira
+probidade e inflexível honradez. As suas ideias, somadas, ofereceriam por certo
+um diminuto total, mas eram rectas, firmes e alinhadas, como uma tábua de
+Pitágoras. Quando à noite se deitava, exausto de fadiga, com os dedos
+inteiriçados de segurar a pena, e o espírito baralhado de algarismos, não
+pensava sequer em meter-se nas questões sublimes da politica, religião, moral
+ou filosofia, que fazem divagar nas alturas o pensamento dos que nada têm que
+fazer. Limitavam-se os seus esforços de imaginação à saudade de sua falecida
+mulher, a um impulso de ternura por sua filha, e a um plano de trabalho no dia
+seguinte; depois, o sono<span class="pn">{73}</span> envolvia-o nas suas
+pesadas dobras e levava-o ao mundo do esquecimento. Nunca um fermento de
+inveja, nem uma dessas veleidades maldosas, que mancham a consciência, o
+agitava sequer por um segundo; adormecia puro e acordava inocente.</p>
+
+<p>Aquela existência de ostra pegada ao rochedo, fará compreender o
+extraordinário alvoroço, que sentia o senhor Germinal com a perspectiva de uma
+digressão, por mais curta que fosse. Entretanto, era por ele classificado em
+segundo lugar o gozo material, que o esperava, respirando o ar puro do campo e
+dilatando a vista pelas colinas vicejantes; o que mais o deleitava era o prazer
+próximo de beijar sua filha, que tinha então cinco anos, e de apreciar, por
+intuição própria, os progressos que ela fizera em saúde, estatura e vigor,
+durante os dezoito meses, em que deixara de a ver.</p>
+
+<p>O senhor Germinal aproveitara dois dias de feriado, na Páscoa, para desposar
+uma rapariga... um pouco mais pobre do que ele. Era de natureza humilde e
+tímida, como a dele, mas delicada, fraca e demasiado franzina para resistir ao
+sopro gelado da miséria. Morreu de parto, deixando-lhe uma filha, com as suas
+feições, e a quem o empregado pôs o nome de Rosa, em memoria dela.</p>
+
+<p>A criança era débil; a sua vida parecia depender de um sopro. O senhor
+Germinal procurou e descobriu uma camponesa de Viroflay, moça e robusta,<span
+class="pn">{74}</span> que levou a pequerrucha banhada das lágrimas de seu pai,
+e prometeu restituir-lha, dentro em pouco, esperta, robusta e traquinas. E com
+efeito, cumpriu tão bem a sua palavra, que o senhor Germinal, achando-a de dia
+para dia mais rechonchuda e chilreadora, resolveu deixá-la mais tempo em casa
+da ama, e mesmo vê-la só de longe em longe, porque a despesa das viagens abria
+sensível brecha no seu modesto orçamento.</p>
+
+<p>Eis o motivo porque, no dia a que nos referimos, o senhor Germinal se sentia
+ligeiro como um pássaro. Entreabria-lhe os lábios, cor de ferrugem, um franco
+sorriso (sorria ainda nessa época...) e o ruído de raspador, produzido pelo
+esfregar das suas mãos, confundia-se com os silvos da locomotiva. O vento
+incomodava os seus companheiros de viagem; ele porém acolhia-o com delicias,
+pensando que aquela mesma brisa teria talvez acariciado os faces de sua filha.
+Bem que o comboio deslizasse veloz sobre os seus cordões de ferro, acusava-o de
+lentidão, e vinte vezes olhou para fora, desconfiado de que o horizonte, por
+pirraça, se afastava dele.</p>
+
+<p>Entretanto ia depressa! e tão depressa, que nenhum dos viajantes se
+recordava de semelhante celeridade.</p>
+
+<p>As árvores, os prados, as sebes, as colinas, os postes que ladeavam a
+estrada, fugiam arrebatados num turbilhão infernal... Apareciam e
+desapareciam<span class="pn">{75}</span> antes que se pudesse distinguir-lhes
+as formas... E a rapidez aumentava, de minuto para minuto... Pouco a pouco, os
+objectos exteriores confundiram os seus perfis indecisos... era uma confusão
+extraordinária... um vertiginoso turbilhão... uma miragem louca, análoga à que
+reflectiria uma onda violentamente agitada...</p>
+
+<p>Dentro do comboio, os passageiros consultavam-se com terror;
+entrechocavam-se os dentes uns nos outros, os seios arfavam, as mãos uniam-se
+convulsivas e alagadas de frio suor.</p>
+
+<p>E a velocidade aumentava... aumentava sempre, de segundo para segundo...</p>
+
+<p>Houve um momento solene, um momento longo como um século, um momento durante
+o qual cada um orou do intimo de alma ao que perscruta as consciências, e
+pensou nos entes queridos que o prendiam à vida... Depois... um choque
+espantoso... e um clamor, ainda mais espantoso!... Eram 8 de maio de 1842.</p>
+
+<p>Como escapou o senhor Germinal àquele desastre? Ele mesmo nunca pôde
+recordar-se.</p>
+
+<p>À mingua da rasto, que o abandonara, o instinto, esse guia cego do animal,
+conduziu-o intacto a salvamento. Quando deu acordo de si, corria através dos
+campos, espavorido, ofegante, meio-louco; mas apenas recuperou o espírito, o
+seu primeiro acto foi voltar atrás e auxiliar os socorros, que de todos os
+lados acorriam.<span class="pn">{76}</span></p>
+
+<p>Passou-se então um facto, que deixou na sua vida indelével impressão.</p>
+
+<p>Um homem, um moribundo, que ele debalde tentava salvar, desprendeu-se-lhe
+dos braços, e entregou-lhe uma carteira, murmurando estas palavras:</p>
+
+<p>&mdash;Guarde: é um depósito... que lhe confio... Entregue-o pela sua própria mão
+a... Eu chamo-me...</p>
+
+<p>Fez um esforço supremo para concluir, mas não pôde; caiu morto no
+<em>wagon</em>, que começava a ser invadido pelo fogo.<span
+class="pn">{77}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001300000000000000000">XIII</a></h1>
+
+<p>No dia seguinte, regressou o senhor Germinal a Paris. Inútil é acrescentar
+que foi de carruagem.</p>
+
+<p>Quando se reinstalou na sua habitação, a senhora Possignol recusava-se a
+reconhecê-lo; em vinte e quatro horas envelhecera vinte e quatro anos. O seu
+semblante parecia uma planície devastada por um ciclone; para o corpo fez à
+involuntária aquisição de um tremor nervoso; e para o espírito, a de dois
+cuidados graves: o depósito, que lhe fora confiado; e sua filha, que trouxera
+consigo, não querendo estar por mais tempo separado dela, depois de ter visto a
+morte tão de perto.</p>
+
+<p>A pequena Rosa dormia a sono solto. Ele improvisou-lhe um leito, correu as
+cortinas, aferrolhou-se solidamente, e foi sentar-se imóvel ante um objecto,
+que exumara das profundezas do seu sobretudo.<span class="pn">{78}</span></p>
+
+<p>Era uma carteira assaz volumosa, denegrida pelo uso, e tendo gravado no
+couro, em letras outrora douradas, o nome de Onésimo Toucard.</p>
+
+<p>Continha noventa e dois mil francos.</p>
+
+<p>Perante aquele maço de papeis, que representavam mais de sessenta anos do
+seu ordenado, o digno burocrata por pouco não perdeu os sentidos;
+eriçaram-se-lhe os raros cabelos, ergueu-se, e arrastou um móvel, com o qual
+barricou a porta.</p>
+
+<p>Depois, prosseguiu nas suas investigações com ardor febril.</p>
+
+<p>Não levaram essas muito tempo: a carteira não continha papel algum, que
+pudesse servir de esclarecimento; as folhas, pela maior parte em branco, só
+forneceram ao senhor Germinal algumas notas de compras e várias despesas,
+escritas com má caligrafia, umas a lápis, outras a tinta.</p>
+
+<p>O viúvo ficou imerso em profunda perplexidade; reflectiu tanto tempo que os
+objectos se lhe baralharam diante dos olhos, multiplicando-se confusamente; a
+final, exausto por tão diversas comoções, arrecadou a carteira no fundo de uma
+gaveta, cuja chave meteu debaixo do travesseiro, e deitou-se.</p>
+
+<p>Se o sono não chegou, veio em seu lugar o pesadelo; pelas fendas da janela,
+pelo buraco da fechadura, ou pela chaminé, insinuavam-se ladrões, que
+esquadrinhavam na gaveta com deplorável afinco.<span class="pn">{79}</span></p>
+
+<p>O senhor Germinal, inundado de suores frios, saltou fora da cama, e em pé,
+descalço, imóvel no seu traje alvejante, passou o resto da noite a perguntar a
+si próprio onde poderia ocultar melhor o seu importuno tesouro.</p>
+
+<p>Ao romper do dia, surgiu-lhe uma ideia. Desarrumou a cama, ergueu uma tábua
+do soalho, e por debaixo dela escavou um esconderijo, assaz engenhoso.</p>
+
+<p>Feito isto, vestiu-se e foi de corrida dar a sua demissão da secretaria, e
+fazer valer os seus direitos à aposentação.</p>
+
+<p>À secretaria!... Bem lhe importava agora a secretaria! Só cuidava em
+desencantar a família Toucard, e desembaraçar-se de uma aterradora
+responsabilidade, em proveito dela.</p>
+
+<p>Outro qualquer julgaria ter feito muito, indo depositar a soma no mais
+próximo comissariado de polícia, mas o senhor Germinal não era do feitio de
+outro qualquer; na sua escrupulosa delicadeza, considerava-se como ligado ao
+morto por um compromisso; tinha sempre presente na memoria aquele rosto
+contraído, sentia aquela mão fria apertando a sua, ouvia aquela voz agonizante
+a dizer-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Entregue-o pela sua própria mão a...</p>
+
+<p>Mas... a quem? A alma, fugindo, levara a chave do enigma. Fosse a quem
+fosse: Onésimo dissera «Pela sua própria mão»... e isso era o bastante<span
+class="pn">{80}</span> para o senhor Germinal não se arredar um passo da
+vontade expressa do moribundo.</p>
+
+<p>Pôs mãos à obra sem tardança. Durante muitos meses, viram-no sair
+quotidianamente ao romper de alva, para só voltar depois de noite, estafado,
+moído e de mau humor. Interrogou o <em>Almanaque do comercio</em>, gastou dez
+pares de botas nas ruas de Paris, fatigou os ecos da prefeitura de polícia, por
+pouco não pegou de estaca em cada uma das legações estrangeiras, percorreu os
+arrabaldes, esquadrinhou Versailles e seus subúrbios, revolveu céu e terra, e
+contudo não descobriu em parte alguma vestígios da passagem ou da morada de
+Onésimo Toucard.</p>
+
+<p>Ora, enquanto as suas pernas funcionavam ao longe, as notas de banco
+aboloreciam no buraco, à mercê dos ladrões ou do incêndio; e a pequerrucha,
+confiada a uma ou outra vizinha obsequiosa, desaprendia de sorrir à máscara
+ferrugenta de seu pai. Um tal estado de coisas não podia prolongar-se, e o
+senhor Germinal desistiu enfim das suas correrias infrutíferas; quebrou o
+mealheiro, no qual, desde que enviuvara, ia juntando, soldo por soldo, os
+elementos de um dote para sua filha; e com esse dinheiro, deduzido do seu
+passadio, fez publicar um anuncio nos jornais... depois dois... depois três...
+depois vinte...</p>
+
+<p>À medida que o tempo decorria, o senhor Germinal tornava-se mais frenético,
+mais nervoso, mais<span class="pn">{81}</span> pusilânime. Os noventa e dois
+mil francos invadiram-lhe o cérebro, submergindo todos os seus pensamentos.
+Tiraram-lhe o sono e o apetite absurdos terrores; paralisaram-se-lhe as
+faculdades morais a ponto de não ousar mais afastar-se de casa, e dispôs as
+coisas de modo que nada interrompesse o seu cativeiro voluntário.
+Primeiramente, matriculou Rosa em um colégio próximo, com a condição expressa
+de a virem buscar todas as manhãs, e trazê-la de tarde. Depois, contratou com
+uma agência de anúncios para que, até nova ordem, o seu reclame fosse publicado
+duas vezes por mês. E feito isto, aferrolhou-se dentro de casa e entrou de
+sentinela.</p>
+
+<p>Ninguém o rendeu do seu posto; e aí adquiriu, pouco a pouco, uma doença
+singular. Ou fosse porque aquela perpétua expectativa, sempre alerta e sempre
+frustrada, tivesse enfraquecido as suas faculdades mentais, ou porque o
+contacto incessante do dinheiro desenvolvesse nele predisposições latentes,
+começou a manifestar sintomas de avareza. Achou-se muitas vezes, sem saber
+como, a mergulhar as mãos, trémulas de voluptuosidade, no maço das noventa e
+duas notas de banco, a amarrotá-las, rindo de prazer ao escutar deliciosamente
+o seu macio <em>fru-fru</em>... E então, envergonhado de si mesmo, afastava-se
+de súbito, fazendo votos sinceros pela aparição de um Toucard qualquer.<span
+class="pn">{82}</span></p>
+
+<p>Sete anos se passaram assim. Rosa tinha doze, e o colégio já a enfastiava.
+Logo que se instalou definitivamente no domicílio paterno, a sua fisionomia,
+fresca e louçã, iluminou-se como uma aurora boreal...</p>
+
+<p>Foi uma felicidade para o pobre homem; algum tempo mais de solidão, e a
+loucura não tardaria. Contudo, a influência daquela criança adorada não
+tranquilizara o senhor Germinal; apenas imprimiu outra direcção às suas
+inquietações. Rosa prometia ser extremamente bela, e, de todas as promessas que
+as mulheres fazem, é essa a única que geralmente costumam cumprir. O viúvo
+admirava nela as feições queridas da sua defunta; tinha a mesma graça, a mesma
+afectuosa alegria, a mesma expressão no olhar, mas também a mesma débil
+constituição. O pobre pai suspirava, vendo-a estragar, em grosseiras ocupações,
+as suas mãos pequeninas e brancas; empalidecia, observando que o menor trabalho
+a fatigava.</p>
+
+<p>À força de temer para ela a miséria, acostumou-se gradualmente a desejar-lhe
+o impossível... isto é, <em>dinheiro</em>. Os seus vagos, instintos de cobiça
+pelo que diariamente remexia, aumentaram de consistência desde que tiveram um
+fim nobre e elevado. Chegou um momento em que, contemplando a carteira de
+Onésimo Toucard, o senhor Germinal dissera consigo:<span class="pn">{83}</span>
+</p>
+
+<p>&mdash;Se o não reclamassem!...</p>
+
+<p>Esta ideia, uma vez encaixada no cérebro do senhor Germinal, alastrou-se
+como uma nódoa de azeite. Tudo poderia obter para Rosa com noventa e dois mil
+francos: ar, sol, espaço, prazeres e saúde... tudo simultaneamente lhe passou
+pela imaginação fascinada. Em vão se desculpava para com a sua consciência,
+murmurando:</p>
+
+<p>&mdash;É uma simples hipótese!... A hipótese era já uma esperança, que fizera
+mudar de causa a sua impaciência e agitação; tanto estremecera de júbilo,
+quanto estremecia agora de receio, à vista de um estranho; cessara de publicar
+anúncios, e cada dia, que passava, era riscado no almanaque, como um perigo de
+menos a evitar.</p>
+
+<p>Três anos decorreram ainda, e foram terríveis! A pensão do senhor Germinal,
+até então suficiente para um velho e uma criança, não o era já para duas
+pessoas; as suas economias tinham desaparecido na educação de Rosa e nos gastos
+da publicidade. Mais de uma vez, deitado na sua enxerga, a braços com a febre
+ou com a fome, sentindo através do tabique sua filha a chorar, tivera
+horripilantes tentações, relativas a esse dinheiro, que dormia inútil ao
+alcance da sua mão. Contudo não tirou dele a mínima parcela, nem sequer trocou
+uma nota.</p>
+
+<p>Decorridos dez anos, aquele homem probo, escrupuloso,<span
+class="pn">{84}</span> austero até ao superlativo, chegou, de concessão em
+concessão, a formar o seguinte raciocínio:</p>
+
+<p>«Fiz tudo quanto era humanamente possível para descobrir os herdeiros de
+Onésimo: o meu dever está cumprido. Restituir esta soma ao estado, que não
+carece dela, seria um absurdo. Acaso não quereria a Providencia compensar-me
+dos meus sofrimentos, proporcionando-me os meios de me utilizar destes valores?
+Portanto, sou livre de dispor deles.»</p>
+
+<p>Conspirava consigo mesmo para fazer uma surpresa a sua filha: seria uma
+casinha branca, no campo, um retiro florente, onde Rosa gozasse enfim dos ócios
+e distracções, de que até então fora privada a sua mocidade. Mas, logo que
+pegou nas notas com a intenção formal de se apossar delas, empalideceu e
+deixou-as cair no fundo do esconderijo. Parecia-lhe que ia cometer um roubo.
+</p>
+
+<p>«Não é de urgência, pensou o velho. Rosa tem apenas quinze anos... É uma
+criança nobre e corajosa, que soube criar-nos recursos e trouxe um pouco de
+bem-estar à nossa pobre casa. A verdade é que não nos falta o pão! Esperemos
+mais dois anos... Doze anos é um prazo razoável...»</p>
+
+<p>Todavia, é provável que o fosse adiando, de ano para ano, detido sempre
+pelos mesmos escrúpulos, se Rosa lhe não houvesse confessado o seu amor por
+André Sauvain.<span class="pn">{85}</span></p>
+
+<p>Aquela noticia afligiu o senhor Germinal, mas acabou com as suas hesitações.
+Convenceu-se de que existia uma séria paixão, de parte a parte; estudou o
+pintor, afeiçoou-se-lhe, e, meio desesperado, meio satisfeito, resolveu
+conceder-lhe a mão de Rosa, com os noventa e dois mil francos, no dia em que
+expirasse o décimo segundo ano do depósito.</p>
+
+<p>Foi desse modo que, entre perpetuas angustias, com a consciência oprimida e
+o espírito torturado, o senhor Germinal dotou e chamou noivos aos dois jovens.
+</p>
+
+<p>Vimos já como surgira nesse momento Pedro Toucard, qual outro
+Desmancha-prazeres.<span class="pn">{86}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001400000000000000000">XIV</a></h1>
+
+<p>Ao centro do quarto, que escondera um tesouro sob o seu pavimento, estavam
+sentados Pedro Toucard e o senhor Germinal, um em frente do outro, na atitude
+de duas esfinges que tentassem adivinhar-se.</p>
+
+<p>Ambos estavam pálidos, comovidos e agitados.</p>
+
+<p>Os olhos do provençal luziam como carbúnculos; torcia a barba a ponto de
+quase lhe arrancar os cabelos.</p>
+
+<p>&mdash;Como íamos dizendo, começou ele, os parentes ou herdeiros de Onésimo
+Toucard foram rogados, com instância, para, a bem de seus interesses, se
+dirigirem ao senhor... O que, segundo creio, significa que em sua mão existem
+alguns fundos, os quais devem pertencer àqueles, não é assim?»</p>
+
+<p>O senhor Germinal hesitou. Pensava na sua querida Rosa, na felicidade que
+lhe prometera e que<span class="pn">{87}</span> ia roubar-lhe. Verdade era que
+podia ainda negar o depósito, e desembaraçar-se de Toucard, mentindo; mas...
+não se é honrado impunemente!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor, respondeu com voz sumida.</p>
+
+<p>Pedro Toucard reteve um grito de alegria. Respirou estrepitosamente e
+aproximou a cadeira.</p>
+
+<p>&mdash;Queira continuar, disse ele; sou todo ouvidos.</p>
+
+<p>&mdash;É ao senhor que compete falar, replicou o pai de Rosa, analisando
+tacitamente os andrajos de Pedro, que lhe inspiravam pouca confiança.</p>
+
+<p>&mdash;Em que grau era parente de Onésimo Toucard?</p>
+
+<p>Uma vermelhidão, cor de tijolo, invadiu as faces crestadas do provençal;
+abaixou os olhos: dir-se-ia que se travava nele uma luta interior. Contudo,
+após alguns segundos de reflexão, recobrou o seu habitual desembaraço e
+respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Em grau muito próximo; sou seu irmão, e o único representante da família,
+hoje extinta.</p>
+
+<p>&mdash;Então... porque não deu sinal de existência durante doze anos?</p>
+
+<p>&mdash;A razão é simples. Há doze anos que vagueio do outro lado dos mares, e
+apenas quatro meses que habito em Paris, aonde nunca tinha vindo; enfim,
+ignorava a morte do meu pobre Onésimo, e só esta manhã a soube.</p>
+
+<p>&mdash;De que modo?</p>
+
+<p>&mdash;Por um dos seus anúncios.<span class="pn">{88}</span></p>
+
+<p>&mdash;Há cinco anos que os não publico!...</p>
+
+<p>&mdash;É possível que o pedaço de jornal, em que o encontrei, datasse dessa
+época... Mas não percamos tempo com bagatelas. A quanto monta a herança?</p>
+
+<p>&mdash;Não calcula o seu valor? perguntou o senhor Germinal.</p>
+
+<p>&mdash;Aproximadamente... talvez. Meu irmão era sócio da minha casa comercial; em
+30 de Abril de 1842, liquidámos, partilhando os lucros, que se elevavam a...
+cerca de duzentos mil francos. Se Onésimo morreu em 8 de maio, devia ter em
+caixa de oitenta a noventa mil libras...</p>
+
+<p>&mdash;Foi em Paris que se efectuou a partilha?</p>
+
+<p>&mdash;Não, em Liverpool.</p>
+
+<p>&mdash;Nesse caso, quando seu irmão faleceu estava em França, havia quatro ou
+cinco dias apenas?</p>
+
+<p>&mdash;Um ou dois, se tanto.</p>
+
+<p>&mdash;E o senhor?</p>
+
+<p>&mdash;Eu, a 8 de Maio, embarcava em Liverpool e fazia-me de vela para Calcutá,
+sem pressentir que nesse mesmo dia Onésimo esticava a canela em Versailles.</p>
+
+<p>&mdash;Como sabe que foi em Versailles que ele morreu?</p>
+
+<p>&mdash;Presumo-o; ele tinha tenção de lá fixar a sua residência...</p>
+
+<p>O senhor Germinal ergueu-se? passeando no quarto com agitação.<span
+class="pn">{89}</span></p>
+
+<p>&mdash;Senhor, disse ele, todas as suas respostas combinam com os documentos que
+possuo, mas desculpar-me-á se exijo provas mais palpáveis da sua identidade...
+</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! disse o provençal; é muito justo. Felizmente trago sempre comigo
+os meus papeis, visto não ter domicilio certo, nem fechadura segura...</p>
+
+<p>E dizendo isto, a mão do aventureiro mergulhou no andrajoso casaco e
+reapareceu à superfície, carregada com uma carteira grande e sebenta.</p>
+
+<p>Logo que para ela lançou os olhos, o senhor Germinal ficou inteiramente
+convencido. Aquela carteira era irmã gémea de outra, que por tanto tempo
+namorara! o mesmo feitio, as mesmas dimensões, e os mesmos caracteres, outrora
+dourados, indicando o nome do seu proprietário: Pedro Toucard.</p>
+
+<p>&mdash;Aqui tem, em primeiro lugar, a minha certidão de baptismo, disse o
+provençal; eis aqui, também, diferentes passaportes; e enfim, duas cartas de
+Onésimo... Conhece-lhe a letra?</p>
+
+<p>&mdash;Conheço, respondeu o senhor Germinal, examinando as duas missivas.</p>
+
+<p>Eram curtas; tratavam unicamente de negócios e tinham a assinatura de
+Onésimo Toucard. Ambas as cartas começavam por estas palavras: «Meu querido
+irmão...»</p>
+
+<p>O pai de Rosa abriu uma gaveta, tirou de dentro a carteira do morto, e
+comparou a letra dos<span class="pn">{90}</span> apontamentos com a das cartas.
+Não podia conservar a sombra de uma dúvida.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, disse ele ao provençal, cujos olhares impacientes revistavam todo
+o quarto, como procurando descobrir onde se escondia a herança, reconheço-o por
+irmão e herdeiro de Onésimo Toucard. Só me resta...</p>
+
+<p>&mdash;Entregar-me a herança, interrompeu Pedro, ofegante. Desencante-a pois...
+meu bravo!</p>
+
+<p>&mdash;Permita-me que, primeiro, lhe conte de que morte desgraçada seu irmão
+pereceu.</p>
+
+<p>Ora!... ora!... ora!... é inútil. Não percamos tempo precioso!</p>
+
+<p>&mdash;Entretanto...</p>
+
+<p>&mdash;Que morresse de bexigas, ou tísico, pouco importa. O positivo é que
+morreu; agora vamos às contas...</p>
+
+<p>&mdash;Mas, disse Germinal admirado, preciso de fazer-lhe saber como, e porquê,
+ele me confiou as suas últimas vontades.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, diga lá! Mas seja conciso, com mil bombardas!</p>
+
+<p>O senhor Germinal foi tão conciso, quanto parecia desejá-lo o seu
+interlocutor.</p>
+
+<p>&mdash;Pobre Onésimo! disse Pedro. Acabou mal; lamento-o, mas... era um grande
+traste!</p>
+
+<p>Porém, notando o espanto e estranheza, que produzira no velho uma oração
+fúnebre tão pouco fraternal, apressou-se a acrescentar:<span
+class="pn">{91}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que quer! Nas famílias numerosas, é raro deixar de haver... há sempre
+algum tratante... Mas tratemos agora...</p>
+
+<p>&mdash;Agora, disse o velho suspirando, vou entregar-lhe os valores do defunto.
+</p>
+
+<p>E, proferindo estas palavras, tirou do bolso as notas do banco e depô-las
+sobre a mesa, uma por uma.</p>
+
+<p>A cada macete de dez mil francos, o rosto de Pedro coloria-se um pouco mais.
+</p>
+
+<p>&mdash;Noventa e dois mil francos! exclamou ele afinal, ébrio de alegria. Viva a
+França! e vamos à Bolsa! Com a breca! farão bem em ter cuidado comigo, lá na
+Bolsa!... Se, daqui a seis meses, não possuir dois milhões, consinto em que me
+enforquem!</p>
+
+<p>O senhor Germinal ficou impassível e pensativo ante aquela exuberância de
+júbilo. Para ele estava consumado o sacrifício...</p>
+
+<p>Pedro bateu-lhe no ombro.</p>
+
+<p>&mdash;Não lhe farei a injuria, disse ele maliciosamente, de oferecer-lhe uma
+recompensa...</p>
+
+<p>O senhor Germinal abanou a cabeça.</p>
+
+<p>&mdash;Tanto mais, continuou o manhoso velho, que os interesses deste capital
+devem ter produzido uma continha menos má...</p>
+
+<p>&mdash;Os interesses!... observou o pai de Rosa; que quer dizer com isso? Estes
+valores são os próprios que recebi em depósito; não saíram de minha casa!<span
+class="pn">{92}</span></p>
+
+<p>&mdash;Farsista! Então não os empregou em acções, em rendas, em obrigações, em
+terras, ou em inscrições sobre hipoteca?... em suma, não os fez render de
+alguma forma?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;E guardou-os doze anos, assim... num buraco?</p>
+
+<p>&mdash;Certamente!...</p>
+
+<p>&mdash;Ignorava então, meu camarada, que um capital se duplica ao fim de catorze
+anos?</p>
+
+<p>&mdash;Não o ignorava. Mas acaso tinha eu o direito de dispor do dinheiro de
+outrem?</p>
+
+<p>&mdash;Maganão!... disse Pedro, sorrindo com ar incrédulo.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor! exclamou Germinal, rubro de indignação, esquece que, se acaso eu
+fosse um tratante, nada me impedia de apropriar-me da soma toda.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é verdade... respondeu Toucard.</p>
+
+<p>E, olhando em torno de si, acrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;E com efeito, este quarto não é dos mais luxuosos... Decididamente, a
+virtude é uma bela coisa!</p>
+
+<p>E, enrolando as notas com evidente voluptuosidade, continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Visto isso, considero-me seu devedor, e quero pagar...</p>
+
+<p>O senhor Germinal desdobrou um papel e apresentou-o a Pedro.<span
+class="pn">{93}</span></p>
+
+<p>&mdash;O que é? perguntou este último.</p>
+
+<p>&mdash;É a conta circunstanciada do que desembolsei: despesas de anúncios,
+aluguer de carruagens, etc. Total: mil quarenta e dois francos e cinquenta
+cêntimos.</p>
+
+<p>&mdash;Com mil amarras!... Ora vá passear, mais as suas contas de boticário!
+exclamou Pedro; atirando fora o papel. Toma-me por algum sovina?... Aqui tem o
+maço, tire o que quiser.</p>
+
+<p>O senhor Germinal endireitou-se com altivez.</p>
+
+<p>&mdash;Não aceitarei um soldo, sequer, a mais do que se me deve! disse ele.</p>
+
+<p>Pedro Toucard insistiu vivamente. O senhor Germinal resistiu com firmeza.
+Cansado de lutar, o provençal cedeu, porque estava ardendo por ver-se dali para
+fora, e esboçar nova especulação. Reembolsou-o dos mil quarenta e dois francos
+e meio, e tomando nas suas as mãos do velho, disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Meu bom amigo, eu sou espertalhão, e conhecedor de fisionomias. Gosto de
+ler na sua, posto não seja das mais belas... O senhor é teimoso como um burro,
+mas é o homem mais honrado que tenho conhecido. Isto não ficará assim, palavra
+de Pedro! Havemos de tornar a ver-nos! Adeus.</p>
+
+<p>Recitado este discurso, enterrou com um murro o chapéu na cabeça, enfiou as
+notas nos bolsos das suas calças esfarrapadas, e, radiante, com os olhos<span
+class="pn">{94}</span> a cintilar, e a boca entreaberta por um franco sorriso,
+desceu a escada cantarolando.</p>
+
+<p>O senhor Germinal seguiu-o, um pouco pálido ainda, mas desta vez
+tranquilo... e quase alegre também!</p>
+
+<p>Havia exactamente doze anos, que o desastre se dera.<span
+class="pn">{95}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001500000000000000000">XV</a></h1>
+
+<p>À ténue sombra do microscópico jardim, através das moitas de liláses,
+distinguiam-se dois rostos juvenis, que não tinham vontade de rir.</p>
+
+<p>Rosa e André, conchegavam-se um ao outro, como duas aves ao aproximar da
+tempestade. Lendo o anúncio, tinham quase atinado com a verdade, e as últimas
+palavras do velho retumbavam ainda aos seus ouvidos.</p>
+
+<p>Entretanto, não bastavam palavras para desarreigar as firmes raízes da
+esperança, e Rosa encostando a loura cabeça no ombro do seu prometido,
+tranquilizava-se ouvindo-lhe a voz altiva é varonil repetir:&mdash;Amemo-nos, apesar
+de tudo!</p>
+
+<p>Quando o senhor Germinal passou, precedido do triunfante provençal, envolveu
+o lindo par num olhar terno e contristado.<span class="pn">{96}</span></p>
+
+<p>&mdash;Olhe, disse Pedro parando; ali está o que nos rejuvenesce trinta anos, meu
+amigo!...</p>
+
+<p>O senhor Germinal carregou o sobrolho e, esforçando-se por mostrar-se
+severo, bradou:</p>
+
+<p>&mdash;Rosa!</p>
+
+<p>&mdash;Meu pai? respondeu a jovem, estremecendo.</p>
+
+<p>&mdash;Vá já para casa.</p>
+
+<p>Ela ergueu-se com tímida lentidão e, oferecendo a fronte aos lábios de seu
+pai; fitou-o com os seus grandes olhos negros, cheios de súplicas e de
+amargura.</p>
+
+<p>&mdash;Vai para casa, minha filha, emendou mais meigamente o velho. Preciso de
+falar com André.</p>
+
+<p>Rosa afastou-se sem voltar a cabeça. Não queria que lhe vissem as lágrimas.
+</p>
+
+<p>&mdash;E o senhor, balbuciou Germinal, meu querido senhor Sauvain...</p>
+
+<p>Pedro Toucard, que torcia a barba sorrindo, recuou de um salto, como se
+tivesse pisado uma serpente; decompôs-se-lhe a fisionomia e, segurando o senhor
+Germinal pela gola do casaco:</p>
+
+<p>&mdash;Que nome foi o que acaba de pronunciar? articulou ele, passado um momento.
+</p>
+
+<p>&mdash;O do senhor Sauvain.</p>
+
+<p>&mdash;E quem é que se chama assim?</p>
+
+<p>&mdash;Este mancebo.</p>
+
+<p>O provençal saltou por cima da sebe de murta, e achou-se em face de André,
+que mediu com olhar inflamado.<span class="pn">{97}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sauvain!... Pois o senhor chama-se Sauvain?</p>
+
+<p>&mdash;Certamente!...</p>
+
+<p>&mdash;Nasceu perto de Granville?</p>
+
+<p>&mdash;É exacto.</p>
+
+<p>&mdash;E seu pai era marinheiro?</p>
+
+<p>&mdash;Era.</p>
+
+<p>&mdash;A bordo da <em>Ariana</em>, que se perdeu com a carga e tripulação... há
+vinte anos?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, mas porque acaso?...</p>
+
+<p>&mdash;Com mil amarras! com mil bombas! com mil raios! gritou Toucard,
+tornando-se carmesim.</p>
+
+<p>E como sufocasse, arrancou a gravata, rasgou o colete e atirou fora o
+chapéu.</p>
+
+<p>&mdash;E sua mãe? continuou ele ofegante.</p>
+
+<p>&mdash;Minha mãe...</p>
+
+<p>&mdash;Não receberia ela?...</p>
+
+<p>&mdash;O quê?</p>
+
+<p>&mdash;Quero dizer... sua mãe... Onde está sua mãe, senhor?</p>
+
+<p>&mdash;Minha mãe morreu. Conheceu-a, porventura?</p>
+
+<p>&mdash;Eu! exclamou o provençal, nunca a vi.</p>
+
+<p>&mdash;Entretanto...</p>
+
+<p>&mdash;Não, já lho disse; nunca a vi na minha vida!</p>
+
+<p>&mdash;Então teve relações com meu pai?</p>
+
+<p>Toucard não respondeu. A sua agitação atingiu proporções assustadoras.</p>
+
+<p>&mdash;Não! não! mil vezes não! balbuciou ele, tropeçando no chapéu sem reparar;
+tenho de fazer fortuna...<span class="pn">{98}</span> c'os diabos! Mais tarde
+não digo que... mas presentemente...</p>
+
+<p>Interrompeu-se, e vendo ali perto um balde com água, destinada provavelmente
+à rega do jardim, mergulhou dentro dele, por muitas vezes, o seu crânio calvo,
+que ficou vermelho e fumegante.</p>
+
+<p>Depois de refrescado pela imersão, sacudiu-se como um cão molhado, e
+sentou-se num banco para tomar alento.</p>
+
+<p>O senhor Germinal e André observavam-no com crescente estupefacção.</p>
+
+<p>&mdash;Que é isso? que tem?... perguntou-lhes Pedro. Porque olham para mim assim?
+Que disse eu, que tanto os espante?</p>
+
+<p>&mdash;Nada disse por ora, respondeu André, mas peço-lhe que me explique...</p>
+
+<p>&mdash;A explicação será curta, meu rapaz. Encontrei nas minhas viagens um
+marinheiro chamado Sauvain... seu pai, ao que parece... Soube depois que
+morrera num naufrágio: eis o motivo por que o seu nome me abalou. Demais... sou
+propenso à apoplexia... a menor comoção faz-me subir o sangue à cabeça! Mas não
+façam caso... já passou.</p>
+
+<p>O provençal falava com dificuldade, procurando as palavras e pensando noutra
+coisa. As suas feições expressivas revelavam a maior irresolução.</p>
+
+<p>Apesar do banho que se aplicara, corria-lhe o suor da fronte.<span
+class="pn">{99}</span></p>
+
+<p>André Sauvain não se contentou com tão sucinto esclarecimento.</p>
+
+<p>&mdash;Mancebo, lhe disse Pedro Toucard, venha comigo a três passos daqui, quero
+dar-lhe duas palavras.</p>
+
+<p>O pintor seguiu-o, assaz intrigado.</p>
+
+<p>&mdash;Escute-me, meu caro: entrei na posse de fundos com que não contava. O
+senhor vai pôr casa... Se duas ou três notas de mil francos... ou mesmo
+quatro... Sim, se quatro, ou cinco mil francos, lhe podem ser úteis nesta
+ocasião, não faça cerimonia... Hei-los!</p>
+
+<p>E Pedro folheava com mão trémula o maço das notas.</p>
+
+<p>André corou muito, e endireitou-se quanto a sua estatura lho permitia.</p>
+
+<p>&mdash;A que título me faz esse oferecimento? perguntou ele.</p>
+
+<p>&mdash;A título de amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Vimos-nos apenas duas vezes!...</p>
+
+<p>&mdash;A título... de antigo amigo de seu pai.</p>
+
+<p>&mdash;Conhecia-o de leve, segundo disse.</p>
+
+<p>&mdash;Então... a título de gratidão. Fez-me um favor, quando eu precisava... É a
+minha vez agora. Que diabo!...</p>
+
+<p>&mdash;Agradeço-lhe a intenção, mas recuso.</p>
+
+<p>&mdash;Porquê?</p>
+
+<p>&mdash;Por muitos motivos, e eis o principal: Sou demasiado<span
+class="pn">{100}</span> pobre para aceitar qualquer empréstimo, não sabendo
+quando poderei pagá-lo.</p>
+
+<p>&mdash;Ora? que importa isso?...</p>
+
+<p>&mdash;Importa-me muitíssimo!</p>
+
+<p>&mdash;Com mil bombas! que esquisitices! e que demónio de casa esta, onde se
+recusa aceitar o que tantos outros...</p>
+
+<p>Um relógio da vizinhança vibrou no espaço.</p>
+
+<p>&mdash;Uma hora! exclamou Pedro, cujas ventas se dilataram, e cujo olhar faiscou.
+A hora da Bolsa! Vamos, Pedro Toucard! em campo, meu velho! Vais aventurar-te
+sobre um terreno movediço... Prova a essa súcia de imbecis que lhe és superior
+no artigo <em>inteligência</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Um momento, senhor, disse André; rogo-lhe que me explique...</p>
+
+<p>&mdash;Coisa nenhuma, neste momento!...</p>
+
+<p>&mdash;Aonde vai a correr?</p>
+
+<p>Pedro apanhou do chão o chapéu, amolgado em dez partes, brandiu-o com gesto
+majestoso, e partiu exclamando:</p>
+
+<p>&mdash;A casa do meu banqueiro!</p>
+
+<p>E desapareceu.<span class="pn">{101}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001600000000000000000">XVI</a></h1>
+
+<p>&mdash;É fora de dúvida, disse o pintor, que este aventureiro teve relações com a
+minha família. Mas, porque fará mistério disso? É, na verdade, um homem
+surpreendente! Que impaciência, que febre de agiotagem! Veja como corre!... É
+um furacão!</p>
+
+<p>&mdash;Sim... um furacão, murmurou Germinal, passando amigavelmente o braço pelo
+de Sauvain, um furacão que derrubou os nossos <em>castelos no ar</em>! Entremos
+em sua casa: preciso de falar-lhe. André obedeceu, cerrando os punhos de raiva.
+</p>
+
+<p>Adivinhava o fim da conferência, que iam ter, e, já ardendo em indignação,
+revestia-se de uma tríplice couraça para entrar na luta.</p>
+
+<p>Pela sua parte, o senhor Germinal também não se sentia em leito de rosas.
+Assentou-se, tossiu, esfregou as mãos, piscou os seus olhos de peixe
+cozido,<span class="pn">{102}</span> e antes de tomar a palavra, suspirou cinco
+ou seis vezes, com intervalos.</p>
+
+<p>Dava-lhe em cheio a luz no crânio, cor de ferrugem, e essa circunstância fez
+notar a André, não sem terror, que aquela caixa ossuda, estreita e deprimida,
+tinha bem característica a bossa da teima invencível.</p>
+
+<p>O senhor Germinal começou pela narração do seu triste encontro com Onésimo
+Toucard; contou a vida que levara durante onze anos, as suas más tentações
+reprimidas, as suas esperanças, os seus receios e os seus desalentos.</p>
+
+<p>Quando acabou, André disse-lhe friamente:</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem: o dinheiro foi reembolsado, a sua consciência ficou em repouso;
+está tudo o melhor possível. Porém devia ter a certeza de que nós, mesmo depois
+de casados e em posse dessa fortuna, a entregaríamos sem hesitação ao seu
+legítimo proprietário.</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho a menor dúvida, retrucou o senhor Germinal; sei que é um mancebo
+digno. Quanto melhor o conheço, mais o aprecio... Teria orgulho em chamar-lhe
+meu filho...</p>
+
+<p>André tornou-se pálido, mas fingiu não ter ouvido aquele condicional.</p>
+
+<p>&mdash;Agora, senhor, disse ele sorrindo, conversê-mos um pouco sobre coisas mais
+importantes; voltemos ao que esta manhã se combinou...<span
+class="pn">{103}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que foi o que se combinou? disse o viúvo, corando.</p>
+
+<p>&mdash;Que hoje mesmo se fixaria a época do meu casamento com Rosa.</p>
+
+<p>O senhor Germinal levantou-se bruscamente.</p>
+
+<p>&mdash;Não me entendeu, pelo que vejo?</p>
+
+<p>&mdash;Peço perdão: entendi perfeitamente que lhe confiaram um depósito, e que o
+restituiu. Mas, que tem de comum uma acção tão simples com o facto, muito mais
+importante, de que dependerá o nosso futuro?</p>
+
+<p>&mdash;Não há surdos piores do que os que não querem ouvir! replicou asperamente
+o senhor Germinal. Aquela soma garantia-me a felicidade material de minha
+filha...</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor, porque bem sabia que, de um momento para o outro, a podiam
+reclamar. Para quando prefixa a bênção nupcial?</p>
+
+<p>&mdash;Para as calendas gregas! gritou o senhor Germinal, exasperado por aquela
+obstinação sistemática. Como ousa o senhor pretender associar à sua a sorte de
+Rosa? Onde estão os seus meios de subsistência? Há-de ela viver neste cacifo?
+Virão os filhos, e com eles as dificuldades, os expedientes, as dívidas, os
+cuidados, a doença... a morte!</p>
+
+<p>&mdash;Nego-o energicamente! retorquiu André, não menos furioso. Mas, embora o
+senhor tivesse carradas de razão, era tarde para desdizer-se. Se este<span
+class="pn">{104}</span> consorcio lhe desagradava, para que veio, há quatro
+meses, procurar-me ao fundo deste cacifo, como acaba de chamar-lhe?... Porque
+incitou um amor, que, entregue a si mesmo, talvez houvesse sido sufocado?</p>
+
+<p>&mdash;Rosa assim o exigia... Rosa amava-o...</p>
+
+<p>&mdash;E pensa que deixará de amar-me por lho ordenar?</p>
+
+<p>&mdash;Ignoro-o, mas não casará consigo.</p>
+
+<p>&mdash;Ora, senhor!... se o casamento fosse só permitido às pessoas ricas,
+extinguir-se-ia o sol.</p>
+
+<p>&mdash;Pois que se extinga. Não casará com minha filha; é escusado pensar mais
+nisso.</p>
+
+<p>&mdash;Não pensar mais nisso!... Imagina que um sentimento, igual ao meu, se
+aniquila à vontade, como a chama de uma vela! Rosa é o sangue das minhas
+artérias, a seiva da minha mocidade, o paraíso da minha alma, a primavera do
+meu coração!... Peça-me que viva sem respirar, mas não ouse pedir-me que
+esqueça Rosa!</p>
+
+<p>&mdash;Peço-lho, e, sendo preciso, ordeno-lho!... Nunca consentirei em vê-la
+miserável! A imagem de sua mãe... tenho-a sempre diante dos olhos! Não casará
+com minha filha!</p>
+
+<p>&mdash;Homem teimoso! Quem lhe disse que, mesmo no seio da abundância e do luxo,
+sua mulher teria vivido? Quem lhe disse que ela não encerrava no peito o gérmen
+de uma doença mortal? E com que<span class="pn">{105}</span> direito aquilata
+pelo seu passado o meu futuro? Por ventura os recursos de um amanuense,
+acorrentado a um trabalho estúpido, e cujo ínfimo salário nunca aumenta, embora
+trabalhe noite e dia, podem comparar-se aos de um artista, moço, corajoso,
+inteligente e forte?</p>
+
+<p>&mdash;Não ponho em dúvida a sua coragem, nem o seu talento: mas presumo que,
+quando os resultados forem apreciáveis, já Rosa terá os cabelos brancos. Não
+possuirá minha filha, senhor Sauvain.</p>
+
+<p>&mdash;Possui-la-hei! gritou o pintor... Juro-o!</p>
+
+<p>&mdash;Não gracejemos, peço-lho!... Ouça, senhor André: vim falar-lhe, movido por
+verdadeira simpatia. Lamento-o e estimo-o. Dê-me a sua palavra de honra de que
+não tentará ver, nem falar a minha filha, ou fazer-lhe acalentar ilusões
+inúteis. Com essa condição...</p>
+
+<p>&mdash;Nunca!</p>
+
+<p>&mdash;Nesse caso, estão quebradas as nossas relações.</p>
+
+<p>&mdash;É a sua terminante decisão?</p>
+
+<p>&mdash;É.</p>
+
+<p>&mdash;Basta. Graças a Deus há leis em França; não se coage ninguém. Rosa e eu
+esperaremos...</p>
+
+<p>&mdash;A minha morte?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor; a maioridade de sua filha.</p>
+
+<p>&mdash;Seja assim, disse o senhor Germinal. Mas, até então, desculpará que eu lhe
+feche a minha porta,<span class="pn">{106}</span> e terá a bondade de renunciar
+à conversação de minha filha.</p>
+
+<p>&mdash;Engana-se! vê-la-hei, falar-lhe-hei, ama-la-hei e casarei com ela; mesmo
+contra sua vontade!</p>
+
+<p>&mdash;Tomarei as medidas necessárias para obstar a essas loucuras.</p>
+
+<p>E o senhor Germinal, erguendo-se com um gesto ameaçador, saiu do
+<em>atelier</em>.</p>
+
+<p>Apenas transpôs o liminar, André correu atrás dele. Arrependia-se da sua
+arrogância. Queria lançar-se-lhe aos pés e enternecê-lo à força de súplicas;
+mas, quando ia a alcançá-lo, as abas flutuantes de um enferrujado casaco
+abriram-se como duas asas, e o senhor Germinal, veloz como uma seta,
+encaixou-se em casa e trancou ruidosamente a porta. André voltou desanimado; ao
+desânimo seguiu-se o furor; ao furor, o desespero; depois... os projectos
+extremos, as resoluções insensatas, e até uns vagos desejos de lançar fogo ao
+edifício, precipitar-se através das ruínas fumegantes, estreitar Rosa nos
+braços e fugir com ela... fosse para onde fosse!...</p>
+
+<p>André Sauvain mordia os dedos e andava de um para outro lado, como um tigre
+na jaula. Perto da noite, não podendo conter-se, trepou quatro a quatro a
+escada do que recusava ser seu sogro; tocou à campainha, primeiro timidamente,
+depois com mais força.</p>
+
+<p>Nenhuma resposta.<span class="pn">{107}</span></p>
+
+<p>Tocou outra vez, bateu, suplicou, disse quem era, tornou a tocar, atroou o
+patamar com as suas imprecações. Mas ninguém apareceu, a não ser um vizinho
+desagradável, que resmungou vagamente as palavras: comissario de policia.</p>
+
+<p>Depois disto, André desceu ao <em>atelier</em>, atirou consigo para cima do
+canapé, estorcendo-se e invocando Rosa.</p>
+
+<p>Após muitas horas deste exercício incoerente, um colosso ficaria prostrado.
+Havia muito que era noite. O pintor adormeceu num sono febril, assaltado de
+sonhos extravagantes, e interrompido de dez em dez minutos. Vinte vezes acordou
+em sobressalto para ver se o dia não surgira ainda.</p>
+
+<p>Pela madrugada julgou ouvir ao longe a voz da sua noiva, que, com queixumes
+angustiosos, o chamava por entre soluços. Correu à porta, e, com os cabelos
+eriçados e o ouvido à escuta, olhou para fora.</p>
+
+<p>Já nascera o sol; ténue claridade se coava a custo através das nuvens
+escuras; a chuva caía vertical e em grossas gotas, marulhando no pátio
+pedregoso e nos canteiros do jardim, que exalavam um odor terroso. Entretanto a
+casa estava inteiramente tranquila, e as janelas de Rosa, hermeticamente
+fechadas, não deixavam filtrar o mínimo raio de luz.</p>
+
+<p>O frio da manhã atenuou a sobre-excitação febril de André; tornou a
+deitar-se, vestido como estava,<span class="pn">{108}</span> dizendo consigo...
+que ninguém já sequestra raparigas; que de certo Rosa tomaria ar de vez em
+quando; que ele aproveitaria essas ocasiões, mesmo nas barbas do senhor
+Germinal, e finalmente que era tolo em preocupar-se assim. Com estas reflexões,
+adormeceu sossegadamente, e tão deveras, que a senhora Poussignol, na sua
+habitual visita matutina, não logrou despertá-lo inteiramente.</p>
+
+<p>&mdash;E esta!</p>
+
+<p>Tal foi a exclamação, que retumbou aos ouvidos de Sauvain. Semi-abriu os
+olhos e contemplou a porteira, que estava de pé, em frente dele, com o bigode
+eriçado, com os punhos fincados nas ancas, e firmada nos seus sapatos de
+ourelo, como um pato nos seus pés espalmados.</p>
+
+<p>&mdash;Então, disse ela, não o tinha eu prevenido!...</p>
+
+<p>&mdash;De quê?</p>
+
+<p>&mdash;De que fazia muito mal em frequentar aquela gente...</p>
+
+<p>&mdash;Que gente?</p>
+
+<p>&mdash;A família Germinal.</p>
+
+<p>André sentou-se de súbito no canapé.</p>
+
+<p>&mdash;Faça favor de falar mais respeitosamente dos meus vizinhos.</p>
+
+<p>&mdash;Não lhes falto ao respeito, mas isso não impede que eu volte à minha
+primeira opinião, de que aquele homem é um antigo criminoso.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda a mesma tolice!<span class="pn">{109}</span></p>
+
+<p>&mdash;Tolice!... A prova é que fugiu, e a polícia vai-lhe no encalço.</p>
+
+<p>&mdash;Do senhor Germinal?... Você endoideceu!</p>
+
+<p>&mdash;Ah, endoideci!... Pois bem! quando souber o que aconteceu...</p>
+
+<p>&mdash;O que foi? Vamos, explique-se! bradou André com impaciência.</p>
+
+<p>&mdash;Esta manha, às quatro horas, ainda não era dia claro, bateram nos vidros
+do meu quarto. Quem é? perguntei eu.&mdash;Sou eu, Germinal, responderam. Era já
+caso para admirar!... pois não era? Um homem que, durante doze anos, não deitou
+o nariz fora da porta, e que hoje, sem mais nem menos, vai passear antes de
+luzir o buraco!... Levantei-me, acendi a candeia, e que vejo?... O senhor
+Germinal, com a mala debaixo de um braço e a filha pelo outro, chorando, a
+pobrezita, que enternecia um rochedo! Que deseja? perguntei eu. Em resposta,
+paga-me o mês por inteiro, pespega-me dez francos na mão (primeiro dinheiro
+dele, a que vejo a cor&mdash;sempre é bom saber-se!) participa-me que vai viajar, e
+não sabe quando voltará; mas que me não inquiete eu pelos móveis, porque
+brevemente os mandará buscar. Então, a menina Rosa, que continuava a chorar,
+tentou dizer-me duas palavras em voz baixa, porém o pai levou-a de repelão.
+Puxei a corda e... boas noites!</p>
+
+<p>André parecia uma estátua.<span class="pn">{110}</span></p>
+
+<p>&mdash;Partiu!... partiu!... Rosa partiu!... murmurou ele afinal; é impossível!
+</p>
+
+<p>&mdash;A prova é que tenho aqui a chave da casa.</p>
+
+<p>O pintor arrancou a chave das mãos da senhora Poussignol, que ficou pasmada.
+Dez segundos depois, penetrava em casa do seu velho vizinho.</p>
+
+<p>O quarto do senhor Germinal estava limpo e em ordem, como sempre; a cama não
+fora desfeita.</p>
+
+<p>André, lívido, gelado, empurrou uma porta, a do quarto de Rosa. Entrou nele
+com passo de fantasma; mas, quando percorreu com a vista aquele mimoso retiro
+abandonado, quando aspirou o suave perfume de violetas, que lhe recordava a
+ausente, encostou-se à parede, inclinou a cabeça sobre o peito e perdeu os
+sentidos.<span class="pn">{111}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001700000000000000000">XVII</a></h1>
+
+<p>Durante quinze dias, André Sauvain vagueou pelas ruas de Paris, como um cão
+que perdera seu dono.</p>
+
+<p>Quem visse aquele gigantesco moço, com a fisionomia espantada, os cabelos
+flutuantes, o bigode arrepiado, e o vestuário em desalinho, correr como um
+doido atrás de qualquer transeunte, mirá-lo em face, e logo voltar-lhe as
+costas para correr atrás de outro, teria acusado mentalmente de negligencia os
+guardas e o porteiro de Bicêtre.</p>
+
+<p>Naquele lapso de tempo, um desconhecido visitou, por duas vezes no mesmo
+dia, a casa do senhor Germinal. Da primeira visita, examinou escrupulosamente
+os móveis; da segunda, levou-os, depois de exibir um acto de venda
+perfeitamente em regra. Pode presumir-se como o pintor se agarrou, com ambas as
+mãos a essa suposta tábua de salvação! Interrogou,<span class="pn">{112}</span>
+suplicou, afagou, ameaçou, e maçou de mil maneiras o infeliz comprador para
+extorquir-lhe a nova residência do fugitivo, ou ao menos algum indício, que o
+guiasse na busca de Rosa.</p>
+
+<p>Todavia, a vítima não lhe fornecera o menor esclarecimento. Era um ebanista
+do <em>faubourg</em> Saint-Antoine; comprara em globo a mobília do senhor
+Germinal, que lhe anunciou estar em vésperas de empreender uma longa viagem.
+</p>
+
+<p>Podiam cortar o ebanista em mil pedaços, ou oferecer-lhe os tesouros de
+Golconda, que ele não saberia dizer mais nada.</p>
+
+<p>Como o senhor Germinal pagara religiosamente o aluguer da casa, ninguém opôs
+dificuldades à remoção dos moveis. André seguiu-os com os olhos até à esquina
+da rua; levavam-lhe a última esperança.</p>
+
+<p>Depois recomeçou as suas furibundas correrias. O comer, o beber e o dormir,
+foram tratados por ele como importunos credores, que se deixam gritar e a quem
+se não paga. Mas a natureza tem os seus limites; este estado de exaltação
+originou uma febre cerebral, e o pobre André desceu rapidamente o declive que
+conduz ao cemitério.</p>
+
+<p>Felizmente, sua mãe moldara-o em bronze: a doença apenas o apalpou de leve,
+e, não obstante a senhora Poussignol ter chamado dois médicos, o pintor
+escapou. O seu físico restabeleceu-se à<span class="pn">{113}</span> custa do
+moral: André, sempre profundamente melancólico, atirou-se ao trabalho como quem
+se atira a um poço.</p>
+
+<p>Este género de suicídio não era dos menos eficazes: André prosseguia nele
+com uma pertinácia de mau agouro, e qualquer outro convalescente, menos bem
+construído do que ele, não duraria três semanas com semelhante afã.</p>
+
+<p>Entretanto, onde ele esperava encontrar a morte, encontrou um paliativo. A
+fadiga do corpo adormentou-lhe, pouco a pouco, a dor do espírito. E a arte
+ganhou com isso: a pintura de André ressentiu-se das tribulações da sua vida.
+Desenvolveu nos seus quadros um vigor de colorido, uma fúria de concepção, um
+arrojo de pensamentos, uma originalidade de meios, que não teriam de certo
+brotado das plácidas inspirações de um espírito tranquilo. O homem feliz já não
+existia: revelou-se o artista.</p>
+
+<p>Enfim, o acaso também entrou em cena. Como André, a tudo indiferente, não
+corria atrás do dinheiro nem da fama, aconteceu naturalmente que a fama e o
+dinheiro correram atrás dele.</p>
+
+<p>Surgiram no horizonte sinais precursores de gloria. O mercador de quadros,
+que até ali o explorara sem vergonha, e lhe comprara muitas telas por preços
+fabulosamente baixos, aumentou-os... oh, prodígio!... e aumentou-os de seu moto
+próprio.<span class="pn">{114}</span></p>
+
+<p>Fez mais ainda: concordou, sem hesitar, em que o nome de Sauvain ecoava já
+na opinião de alguns ricos amadores, e que, se André quisesse, o oiro, de ora
+em diante, seria para ele uma realidade.</p>
+
+<p>O pintor encolheu os ombros, pagou as dívidas que contraíra durante a
+doença, e voltou à sua lida obstinada.</p>
+
+<p>O verão acabou lentamente. A julgar pelo número de encomendas, os créditos
+de André não diminuíam; apenas concluído um dos seus quadros, era logo vendido.
+O seu <em>Faust au sabbat</em> tornou-se propriedade de um capitalista
+misterioso, que o pagou muito caro e desejou conservar o anónimo.</p>
+
+<p>Noutro tempo, aquela veia de bom êxito teria enlevado Sauvain; agora era-lhe
+mais um motivo de ironia e de amargura. Pensava em Rosa perdida para ele, em
+Rosa talvez infiel, em Rosa que o esquecia, pois nem sequer lhe escrevera, e
+repetia a si mesmo: «De que me serve isto?»</p>
+
+<p>Contudo, a abastança substituíra a pobreza; nada impedia André de trocar o
+seu escuro cubículo da rua dos Mártires por um <em>atelier</em> mais cómodo e
+decente; todavia não o quis deixar. Invisíveis cadeias o ligavam ali. Alugara
+os dois quartos, habitados anteriormente pela sua Rosa e pelo pai. Podia acaso
+afastar-se daquela janela, onde ela lhe aparecera na flor da sua radiante
+beleza? Podia afastar-se daquele jardim, onde ela lhe fizera a<span
+class="pn">{115}</span> primeira confissão do seu amor?... daquele banco, onde
+se sentava a par dele?... daquela casa, onde lhe decorreram horas tão
+venturosas?...</p>
+
+<p>Ficou, e continuou a torturar a alma na saudade, como torturava o corpo na
+fadiga.</p>
+
+<p>Porém, quando veio o outono, quando as árvores, que vira frondosas e
+virentes, amareleceram e deixaram cair as folhas... então abandonou-o a
+coragem: à sua fictícia actividade seguiu-se uma indolência invencível; como o
+trabalho o não matara, amaldiçoou o trabalho e aborreceu-o; pálido, enervado,
+emagrecido, com os olhos brilhantes de febre, sem forças, nem energia, passou
+os seus dias, inúteis, ruminando a própria dor.</p>
+
+<p>Como as folhas caíam das árvores, uma a uma, assim se desprendiam as suas
+quimeras. Crenças de gloria e crenças de amor... todas iam pelo mesmo caminho.
+Da sua mocidade florescente, restava apenas o esqueleto.</p>
+
+<p>Era a estação cismadora, em que a terra e o sol confundem num beijo os seus
+últimos adeuses, em que o céu se vela num crepe cor de opala, bruma
+transparente, que o voo das andorinhas rasga ao partirem. Era a estação
+temerosa, em que o enfermo melancólico pressente o seu próximo fim, e busca um
+seio amigo, onde reclinar a fronte.</p>
+
+<p>E André, pressentindo também o inverno para a sua alma, buscava ao redor de
+si um conforto, uma<span class="pn">{116}</span> dedicação, uma simpatia...
+Mas... debalde: nada encontrava... nem um ente, a quem amar! No seu passado, no
+presente ou no futuro, nenhuma ligação, nenhuma alegria, nenhuma esperança! Em
+tudo o deserto, em tudo o vácuo, em tudo o desalento!...</p>
+
+<p>Então, prostrado de corpo e desfalecido de espírito, com o peito entumecido
+de lágrimas, exalou instintivamente o queixume habitual da criança em aflição.
+Bem como a pérola, lançada nas ondas, volta à superfície, assim uma palavra de
+há muito esquecida, subindo do fundo da sua fraqueza, do abismo do seu
+isolamento, lhe vibrou nos lábios: «Minha mãe!»</p>
+
+<p>Oh, maternidade! afeição puríssima e inexcedível, consolação sobre-humana,
+único amor desinteressado, único apoio... que resiste quando todos os outros se
+nos despedaçaram nas mãos, e ainda quando os mais indeléveis sentimentos se
+esvaíram em fumo! Maternidade! santa encarnação do sacrifício! O homem só te
+aprecia quando te perde!</p>
+
+<p>Oh! se sua mãe vivesse!... Como iria refugiar-se no seu seio! Como ela teria
+derramado naquele coração o bálsamo da sua ternura! Como o embalaria com
+aqueles misteriosos acentos, que as mães tiram do vocabulário dos anjos!...</p>
+
+<p>Ai dele! sua mãe era morta!</p>
+
+<p>Àquela recordação pura, tanto tempo abandonada<span class="pn">{117}</span>
+por amor de uma ingrata, André corou de remorsos.</p>
+
+<p>Lembrou-se do tempo, em que o seu máximo desejo fora cobrir com uma campa as
+cinzas da viúva, e o seu mais acariciado projecto restaurar as ruínas da
+casinha onde vivera com ela.</p>
+
+<p>O oiro necessário possuía-o agora.</p>
+
+<p>Que significava, pois, o ficar ali covardemente suspirando? A morta
+esperava.</p>
+
+<p>&mdash;Coragem! exclamou André. A caminho!...</p>
+
+<p>E, numa linda manhã de Setembro, partiu com a mala aos ombros, levando sob a
+blusa de linho os seus modestos haveres, e sentindo amarga satisfação em pensar
+que ia morrer no tugúrio em que nascera. Para cumprir escrupulosamente o seu
+voto, empreendeu a viagem a pé, como no tempo em que era tão alegre, quanto
+pobre. Nesse tempo, sua mãe não tinha rival no coração do pintor; a sua imagem
+adorada sorria-lhe de entre as árvores do caminho. Agora não acontecia o mesmo:
+a seu pesar, uma outra imagem substituía a primeira. Queria chorar pela santa
+guarda da sua infância, e chorava pela fada da sua juventude, Rosa! Debalde
+concentrava o pensamento no termo da sua peregrinação; a cada passo voltava
+insensivelmente a cabeça para trás. Em vão evocava o semblante frio e macilento
+da morta; a memoria só lhe reproduzia um rosto animado, com olhos negros e
+cabelos louros...<span class="pn">{118}</span></p>
+
+<p>Assim caminhou André por muitos dias, descansando nas estalagens dos
+almocreves, bebendo na palma da mão, dormindo no meio dos campos matizados de
+amarelo e púrpura.</p>
+
+<p>Desses esplendores do outono, nada notou... ele, o artista, o entusiasta!
+Nada o comoveu; nem o horizonte, nem a verdura, nem os efeitos da luz, nem a
+poesia campestre que a terra emanava por todos os seus poros, no intervalo
+abençoado, que vai da ceifa à vindima. Somente, quando por acaso descobria dois
+namorados, ocultos entre as ervas, uma dor atroz lhe apertava a garganta, e
+fugia blasfemando.</p>
+
+<p>Enfim, uma tarde, à hora do crepúsculo, André atravessou a última aldeia,
+que o separava de sua casa: os camponeses sentados à soleira das suas portas,
+as velhas fiando na roca, as crianças semi-nuas, as frescas mocetonas de riso
+sonoro, acompanharam-no com olhar curioso, perguntando a si mesmos para onde se
+dirigiria aquele forasteiro, tão pálido e com os pés embranquecidos da poeira.
+</p>
+
+<p>Uma hora depois, André avistava o seu casebre.<span class="pn">{119}</span>
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001800000000000000000">XVIII</a></h1>
+
+<p>Lá estava ainda, mudo, negro e meio-derrocado, ao cimo da colina. O vento da
+Costa não o derrubara de todo.</p>
+
+<p>Os seus contornos desenhavam-se vigorosamente no acinzentado do céu, com o
+seu tecto de verde musgo, e as árvores desfolhadas do velho jardim. Uma brisa
+áspera, precursora do inverno, fazia bater as portas das janelas, arrancadas
+dos seus gonzos; e aranhas enormes urdiam tranquilamente as suas teias nos
+buracos dos vidros quebrados.</p>
+
+<p>Mais adiante estendia-se, a perder de vista, o vasto oceano. Balouçava-se
+pacífico, com o seu monótono e solene murmúrio: da superfície das ondas
+elevava-se lentamente um intenso nevoeiro, qual gigantesco sudário.</p>
+
+<p>André parou, possuído de religiosa comoção; abriu a porta carunchosa e
+entrou em casa. Um<span class="pn">{120}</span> odor indefinível se exalava
+daquele recinto, onde ninguém penetrara depois da morte de sua mãe. À luz
+indecisa do dia, que acabava, André pôde distinguir o grande leito de colunas,
+com os seus cortinados de ramagens e flores fantásticas, a arca de nogueira, o
+crucifixo com palmas bentas, os escabelos maciços, e as redes da pesca, herança
+de seu pai. Sobre a mesa, via-se ainda uma tapeçaria por acabar. Parecia que a
+obreira saíra de casa... momentos antes.</p>
+
+<p>André beijou aquele pedaço de estofo, que as mãos de sua mãe tinham bordado.
+</p>
+
+<p>Depois fechou a porta e sentou-se pensativo junto da chaminé. E aí,
+mergulhado nas trevas, que rapidamente aumentavam, com os olhos fitos na
+lareira vazia, transportou-se em espírito ao sombrio passado.</p>
+
+<p>O marulhar cadente do oceano acompanhava-o na sua tristeza. Ao menor
+estalido do vigamento, André comprazia-se em fantasiar que sua mãe estava ali;
+que, terna e risonha, se aproximava com passos ligeiros; e que ele ia sentir na
+fronte o doce contacto dos seus lábios...</p>
+
+<p>Entregue completamente às suas recordações, dizia de si para consigo, que,
+se Deus recompensa o martírio, a pobre mulher devia ser bem feliz no outro
+mundo.</p>
+
+<p>O pintor não confessara tudo a Rosa.<span class="pn">{121}</span></p>
+
+<p>Filha de um rico rendeiro, cortejada pelos melhores proprietários dos
+arredores, a mãe de André preferira-lhes Sauvain, um simples pescador da costa.
+Ao cabo de um ano de vida conjugal, esse homem enfastiara-se dela; maltratou-a,
+desbaratou em deboches e embriaguez, quanto possuíam, e afinal desapareceu,
+abandonando à miséria a esposa e o filho recém-nascido.</p>
+
+<p>Três anos depois, soube ela simultaneamente, do seu alistamento a bordo da
+<em>Ariana</em>, e da perda daquele navio com toda a tripulação.</p>
+
+<p>Bela e virtuosa, fácil lhe teria sido tornar a casar. Mas... idolatrava seu
+filho, e temia impor-lhe um tirano. Além disso, não obstante as brutalidades de
+Sauvain, não cessara de ama-lo. Dedicou à sua memoria um culto, aliás pouco
+merecido, e conservou-se viúva.</p>
+
+<p>Então começou para ela uma vida heróica, toda de sacrifícios e abnegação.
+Privou-se de comer e de dormir, para poder dar a seu filho uma educação
+conveniente; desejava-lhe uma carreira modesta, um emprego que o fixasse em
+Granville, a dois passos da sua casa natal, perto de si enfim...</p>
+
+<p>Mas André iludiu aquele plano materno. Atormentava-o uma inquietação
+incompreensível, tinha sede de movimento e de espaço; começavam a nascer as
+suas asas de artista... Não tinha ainda doze anos, quando um escultor, passando
+por ali, o<span class="pn">{122}</span> encontrou, e apreciando a sua
+inteligência precoce, propôs-lhe levá-lo consigo. André bateu as palmas de
+alegria; e a viúva, engolindo as lágrimas, deixou-o ir.</p>
+
+<p>Alguns meses depois, chamou-o ela a toda a pressa: André veio logo, mas
+chegou só a tempo de assistir-lhe ao enterro.</p>
+
+<p>Aquela súbita doença, aquela morte inesperada, fulminaram a criança de
+surpresa e terror; interrogou os que tinham assistido a sua mãe, mas apenas
+puderam responder-lhe que um dia, ouvindo em casa da viúva um grito estridente,
+acudiram e encontraram-na pálida e trémula, com o rosto desfigurado,
+segurando-se a um móvel para não cair no chão. Por um prodígio de coragem,
+conseguiu ainda escrever duas linhas a seu filho; deitaram-na na cama, pediu um
+padre, e expirou no dia seguinte. Não podia duvidar-se de que, mais uma
+desgraça pousara a sua mão de ferro sobre aquela humilde existência... Que
+desgraça fora, nunca o soube André.</p>
+
+<p>Quantas vezes, desde então, torturara ele o espírito para penetrar o
+sinistro enigma?</p>
+
+<p>Naquele momento ainda, decorridos tantos anos, sozinho entre aquelas paredes
+mudas, ora aglomerava, ora repelia, e logo reconstruía, na sua imaginação
+ardente, mil hipóteses contraditórias; e as rajadas impetuosas do vento,
+abalando o tecto,<span class="pn">{123}</span> sucediam-se, como gargalhadas de
+escárnio, mofando de suas loucas conjecturas...</p>
+
+<p>Entretanto adiantava-se a noite, e pelas mil fendas do casebre filtrava-se
+glacial humidade. André, transido de frio, ergueu-se enfim às apalpadelas,
+acendeu luz, dirigiu-se a uma pequena carvoeira contígua, e aí ajuntou algumas
+achas, que dispôs na lareira.</p>
+
+<p>Tentou fazer uma boa fogueira, mas a tarefa não era fácil.</p>
+
+<p>Um montão de cinzas, extintas havia doze anos, obstruía a chaminé. O pintor
+quis desvia-las; porém, ao enterrar a pá, tocou num objecto duro, resistente,
+metálico, que não pôde logo adivinhar o que fosse. Tirou-o e limpou-o ao forro
+da blusa.</p>
+
+<p>Era uma chave ferrugenta, de mui exígua dimensão e de forma particular.
+Evidentemente só podia pertencer a um pequeno cofre, ou a um indispensável de
+mulher.</p>
+
+<p>André olhou em volta de si, mas não descobriu nenhum utensílio daquele
+género. Atirou com a chavinha para cima da mesa e acendeu a lenha, que começou
+a crepitar.</p>
+
+<p>O velho recinto iluminou-se de alegre claridade. O pintor tentava reatar o
+fio dos seus pensamentos, mas debalde; a seu pesar, a pequena chave
+intrigava-o; não sei que vaga intuição lhe segredava ao ouvido que, entre
+aquela chave e o mistério<span class="pn">{124}</span> que procurava desvendar,
+havia talvez íntima relação...</p>
+
+<p>De repente, à força de a virar e revirar nos dedos. Lembrou-se de haver
+brincado em criança com uma caixinha, habilmente coberta de conchas
+multicolores, como muitas que se vendem em certos portos de mar.</p>
+
+<p>Sua mãe apreciava-a muito: fora um presente do marido, que lha comprou na
+feira de Granville... Conservava-a como uma relíquia, e nela guardava o que
+tinha de mais precioso. A caixa existiria ainda?</p>
+
+<p>André começou a procurá-la, e, sempre guiado pelas suas recordações,
+descobriu-a sobre um resto de roupa branca, que ficara a um canto da arca de
+nogueira. Tomou-a nas mãos e, pelo seu pouco peso, julgou que estava vazia.
+Contudo meteu a chave na fechadura.</p>
+
+<p>A caixa abriu-se; continha apenas um papel.</p>
+
+<p>Era uma carta aberta. O sobrescrito, matizado pelos selos da posta inglesa,
+indicava a procedência de Liverpool.</p>
+
+<p>Durante alguns minutos, o pintor ficou imóvel, perplexo, comovido, em frente
+daquele escrito, que sem dúvida encerrava o segredo da morte de sua mãe.</p>
+
+<p>Contudo sentou-se, aproximou a luz, desdobrou a missiva, e buscou
+primeiramente a assinatura.<span class="pn">{125}</span> Ao vê-la,
+escapou-se-lhe dos lábios um grito de surpresa.</p>
+
+<p>No fim da terceira página de uma caligrafia incorrecta mas de traços
+vigorosos, desenhava-se em letras enormes, o nome de Pedro Toucard!</p>
+
+<p>Depois, André leu o que se segue:</p>
+
+<p>«Liverpool, 4 de Maio de 1842.&mdash;Minha senhora: O meu nome, embora lhe seja
+desconhecido, é o de um homem, que a lamenta e lhe dedica sincero interesse.
+Julga poder provar-lho, e cumprir ao mesmo tempo um dever, informando-a de uma
+particularidade que, sem isso, ignoraria sempre.</p>
+
+<p>«Há nove anos, que a senhora chora Onésimo Sauvain, seu marido; porém
+Onésimo Sauvain não morreu.</p>
+
+<p>«Quando a <em>Ariana</em> naufragou, era eu passageiro a bordo daquele
+navio, do qual ele era marinheiro. Só eu e ele, dentre toda a tripulação,
+tivemos a boa fortuna de escapar.</p>
+
+<p>«Arrojados a uma praia pouco hospitaleira, igualmente esfaimados, igualmente
+desprovidos de recursos, associámos os nossos destinos. Seu marido é um
+malandro, mas inteligente e resoluto. Ajudou-me nas minhas empresas, e,
+navegando de conserva, levámos a cabo não poucas especulações lucrativas.</p>
+
+<p>«Desde o princípio, e sem dizer-me a razão, manifestava ele o desejo de
+passar por morto; anunciou-se por toda a parte como meu irmão, e<span
+class="pn">{126}</span> de Onésimo Sauvain, que era, transformou-se em Onésimo
+Toucard. Ora eu, que não sou tolo, não tardei em fazê-lo dar à língua.
+Confessou-me que deixara por aí... a qualquer canto; uma mulher e um filho, e
+que não tinha grande empenho em tornar a vê-los. A coisa pareceu-me ignóbil;
+disse-lho claramente, porém ele mandou-me para o diabo. Entretanto persegui-o
+com tais instâncias e ameaças de desmentir o boato da sua morte, que me
+prometeu, não sem repugnância, escrever-lhe logo que tivesse adquirido meios
+suficientes para viverem cómoda e honradamente.</p>
+
+<p>«Hoje, minha senhora, decorridos nove anos de alternativas de boa e má
+fortuna, depois de uma viagem feliz, liquidámos as nossas contas. A parte de
+Onésimo eleva-se a perto de dez mil francos; a nossa sociedade dissolveu-se;
+ele renuncia ao comércio, e quer, segundo diz, gozar em paz da sua modesta
+abastança. Quanto a mim, que não me contento com tão exíguo capital, reembarco
+para a Índia, daqui a três dias, e vou de novo tentar fortuna.</p>
+
+<p>«Onésimo volta para França, e jurou-me reintegrar o domicílio conjugal; mas,
+como depois me pediu que lhe dirigisse provisoriamente as minhas cartas para
+Versailles, posta restante, e sob certas iniciais, inclino-me a crer que ele
+roerá a palavra a este seu criado, continuando a deixar a esposa em
+viuvez,<span class="pn">{127}</span> e que dissipará em orgias o capital, que
+pertence legitimamente a seu filho.</p>
+
+<p>«Previno-a pois, minha senhora, para que, pelos meios que julgar
+convenientes, impeça seu marido de cometer novas loucuras, imperdoáveis na sua
+idade, e também para que procure restituir o pai a seu filho.</p>
+
+<p>«Talvez esta advertência vá demasiado tarde; porventura estará morta, ou
+tornaria a casar a mulher de Onésimo... Em todo o caso, obedeço às ordens que
+me dita a consciência.</p>
+
+<p>«Onésimo partiu ontem, 3; segundo todas as probabilidades deve chegar a
+Paris no dia 6, e a Versailles, de 7 a 10. Ignoro o segundo pseudónimo que
+adoptará; mas, indicando-lhe a terra onde tenciona esconder-se, não me parece
+difícil que consiga descobri-lo.</p>
+
+<p>«Queira aceitar, minha senhora, as expressões do profundo respeito
+de==<em>Pedro Toucard</em>.»</p>
+
+<p>Quando André voltou a si do espanto, que lhe causara aquela carta,
+estremeceu ao pensar na impressão dolorosíssima, que ela devia ter produzido em
+sua mãe.</p>
+
+<p>Saber que seu marido vivia, e a detestava a ponto de preferir a morte civil
+à vida de família!... Saber que esse homem era relativamente rico, e não lhe
+importava sequer se seu filho tinha pão!...</p>
+
+<p>Sem dúvida, aquelas terríveis decepções, as suas<span
+class="pn">{128}</span> ilusões violentamente arrancadas, tinham morto a pobre
+mulher, sem dar-lhe tempo, nem forças, para comunicar a André a noticia, que
+tivera.</p>
+
+<p>Depois, o pintor tentou reunir as suas ideias, porém elas dançavam em
+vertiginoso galope, e com grande custo conseguiu desembaraçar a meada dos
+acontecimentos, que o acaso enredara em tão extraordinárias complicações.</p>
+
+<p>Então... aquele viajante, vitima da catástrofe de 8 de Maio, era seu pai!
+</p>
+
+<p>Então... os noventa e dois mil francos, depositados pelo moribundo nas mãos
+de um estranho, pertenciam-lhe!</p>
+
+<p>Então... o senhor Germinal, que durante doze anos procurara, e receara
+encontrar, o herdeiro de Onésimo, morou defronte dele todo esse tempo!</p>
+
+<p>Então... desposando Rosa, e aceitando o dote que o velho lhe oferecera, era
+André quem enriquecia a mulher que amava!</p>
+
+<p>Então... Pedro Toucard, levado ali por essa série de singulares
+coincidências, abusou do seu falso parentesco com Onésimo para apossar-se de
+uma soma, a qual todavia tentara em tempos fazer reverter para os seus
+legítimos donos!</p>
+
+<p>André compreendia agora a extraordinária comoção do provençal ao ouvir o
+nome de Sauvain. A consciência do aventureiro era elástica, mas ainda não
+estava gangrenada; apesar dos seus escrúpulos,<span class="pn">{129}</span> não
+pudera vencer o seu frenesim de especulação, nem deixar fugir a ocasião de
+traficar mais uma vez.</p>
+
+<p>Entretanto tinha, sem o saber, despedaçado a felicidade futura de Rosa e de
+André!</p>
+
+<p>«Pela memoria de minha mãe! exclamou o pintor, juro que lhe farei restituir
+o dinheiro!»</p>
+
+<p>E logo um clarão de alegria lhe iluminou e reanimou o espírito. Reflectiu em
+que, uma vez na posse daquela soma, disporia de meios enérgicos para descobrir
+o senhor Germinal, e que o velho teimoso não teria então mais nenhum obstáculo,
+que opor ao seu casamento com Rosa.</p>
+
+<p>Passou grande parte da noite a passear pela casa, como um louco. Depois,
+prostrado de fadiga, deitou-se, adormeceu com a cabeça escandecida, e teve um
+pesadelo.</p>
+
+<p>Sonhou que Pedro Toucard, trajando um fato recamado de oiro e pedras
+preciosas, pendendo-lhe do rosto uma barba em duas pontas, de prata maciça,
+galopava, ao longo dos <em>boulevards</em>, numa carruagem puxada por doze
+cavalos... André perseguia-o, correndo a bom correr... Queria gritar: «Agarra,
+que é ladrão!» mas a sua garganta não soltava o menor som... E Pedro fugia
+sempre, semeando às mãos cheias, por sobre a multidão, noventa e duas mil notas
+do banco, carimbadas com o nome de Sauvain...<span class="pn">{130}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001900000000000000000">XIX</a></h1>
+
+<p>Quando o pintor acordou, estava transfigurado. Do mesmo modo que, em face
+dele, o sol se alevantava majestosamente por cima do mar, rompendo as névoas
+pardacentas, enrolando-as como um manto, e descobrindo a imensidade líquida,
+sobre a qual espargia milhares de gotas de oiro; assim, no coração de André, a
+tristeza, o abatimento, o desanimo, tudo se evaporara ao sol da esperança.</p>
+
+<p>Uma resolução firme substituíra todas as suas indecisões. O seu programa
+era:</p>
+
+<p>1.º&mdash;Encontrar Pedro Toucard: o que devia ser fácil, vista a excentricidade
+da sua pessoa, e a atenção que não podia deixar de atrair sobre si.</p>
+
+<p>2.º&mdash;Fazer-lhe restituir o dinheiro, que levara.</p>
+
+<p>3.º&mdash;Lançar uma matilha inteira, se preciso fosse, na pista do senhor
+Germinal; ir ter com<span class="pn">{131}</span> ele, ainda que estivesse na
+Gronelândia, agarra-lo à viva força, desposar Rosa, e ser feliz.</p>
+
+<p>Nada mais simples!</p>
+
+<p>André saiu, portanto, alegre e despreocupado; aspirou deliciosamente os
+perfumes do ar salino da costa, enviou um olhar reconhecido ao céu de
+azul-turquesa, e descendo por atalhos desertos, entrou no cemitério da aldeia,
+cujas campas, abrigadas pela igreja musgosa, alvejavam ao romper do sol.</p>
+
+<p>Ali, num canto isolado, parou, mais por instinto do que por fiel recordação,
+ante um montículo invadido por ervas parasitas e por parietárias. Uma cruz de
+madeira, negra e carunchosa, jazia quebrada entre as plantas incultas; o nome,
+outrora gravado nos braços dessa cruz, já não se distinguia.</p>
+
+<p>André ajoelhou na relva húmida, e ficou assim por muito tempo. Só quando
+rumores longínquos lhe anunciaram o despertar da aldeia, afastou-se tranquilo,
+mas em profundo recolhimento.</p>
+
+<p>No mesmo dia, encomendou uma lápide tumular, que pagou adiantada, e
+entendeu-se com um arquitecto para as reparações do seu pardieiro e do velho
+jardim. Empenhava-se tanto em dar-lhes um aspecto risonho, porque decidira
+passar ali com Rosa as horas encantadas da lua de mel.</p>
+
+<p>Cumpridos estes deveres, meteu no bolso a carta de Pedro Toucard, tornou a
+pôr na arca a caixa<span class="pn">{132}</span> de conchinhas, confiou a chave
+da casa ao empreiteiro encarregado das obras, e, nessa mesma tarde, partiu para
+Paris no último comboio do caminho de ferro, pois que, desta feita, não tinha
+tempo a perder.</p>
+
+<p>No dia seguinte, ao meio dia, estava ele de pé no seu <em>atelier</em>,
+escovando o chapéu para correr em busca do provençal.</p>
+
+<p>&mdash;Por onde começarei? perguntava a si próprio; onde poderei mais facilmente
+encontra-lo?... Ora... já sei! na Bolsa! Foi para lá, que ele transportou a sua
+tenda de campanha, e tenho quase a certeza de o ir apanhar, entre uma compra e
+uma venda de fundos.</p>
+
+<p>Quando acabava de proferir estas palavras, abriu-se a porta, e André,
+petrificado de espanto, recuou três passos.</p>
+
+<p>Entrou Pedro Toucard... Pedro Toucard, em carne e osso!</p>
+
+<p>&mdash;O senhor!... exclamou Sauvain.</p>
+
+<p>&mdash;Eu mesmo, respondeu o aventureiro com o seu habitual desembaraço. Bons
+dias, caro amigo!...</p>
+
+<p>E, como André lhe não estendesse a mão, agarrou-a ele quase à força,
+estreitando-a nas suas.</p>
+
+<p>Depois continuou, escarranchando-se numa cadeira:</p>
+
+<p>&mdash;Então, como vai isso?... bem?... Folgo deveras. Acho-o um pouco mudado...
+um tanto pálido...<span class="pn">{133}</span> mais magro... mas bem disposto
+e animado, o que me causa imenso prazer.</p>
+
+<p>&mdash;É muita bondade!... lhe tornou André, com voz ironicamente ameaçadora.</p>
+
+<p>&mdash;Dá-me prazer, palavra de honra! porque não foi sem uma tal ou qual
+inquietação, que embarquei esta manhã para a rua dos Mártires...</p>
+
+<p>&mdash;E por que motivo? perguntou o pintor, curioso de ver até que ponto chegava
+semelhante impudência.</p>
+
+<p>&mdash;Primeiramente, porque há muito que o não vejo... Lembra-se de que a minha
+última visita data de há quatro meses?</p>
+
+<p>&mdash;Lembra-me muito bem!... resmungou André com os dentes cerrados.</p>
+
+<p>&mdash;Em segundo lugar... sim... é porque tenho uma confidência... um pouco
+difícil, para fazer-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Uma confidência!</p>
+
+<p>&mdash;Ou, mais propriamente, uma confissão... Ora, imagine o senhor que tem suas
+razões de queixa contra mim... graves razões de queixa!...</p>
+
+<p>&mdash;Realmente?</p>
+
+<p>&mdash;É exacto... Podia ocultar-lhas sempre, mas a minha consciência tem andado
+opressa: hoje transborda e impele-me às confissões...</p>
+
+<p>Perante este arrependimento, real ou fingido, a cólera de André esvaiu-se
+quase de súbito.<span class="pn">{134}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ora vamos!... pensou o pintor, este homem ainda tem bons sentimentos; e
+visto que se emenda, não tenho coragem para lhe querer mal. Para todo o
+arrependimento, misericórdia!...</p>
+
+<p>&mdash;Estou pronto a escutá-lo? disse ele a Pedro em tom mais brando.</p>
+
+<p>O provençal torceu os cabelos grisalhos da barba e coçou a orelha.</p>
+
+<p>&mdash;Custa a contar!... murmurou este. Se me dessem a escolher, preferiria
+trepar ao cimo do Himalaia... A coisa é dura, que tem diabo!...</p>
+
+<p>&mdash;Então, disse-lhe André sorrindo, não diga nada, meu bravo! E inútil,
+porque eu sei tudo.</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa!... exclamou Pedro, erguendo-se aterrado!</p>
+
+<p>&mdash;Trata-se dos meus noventa e dois mil francos, não é assim?</p>
+
+<p>&mdash;Dos seus... Ai, com mil bombardas! é certo que sabe tudo!... Mas quem
+diabo podia instruí-lo de uma coisa, que ninguém neste mundo...</p>
+
+<p>&mdash;Foi o senhor mesmo, interrompeu o pintor.</p>
+
+<p>&mdash;Eu!...</p>
+
+<p>&mdash;Ora leia.</p>
+
+<p>E Sauvain colocou-lhe debaixo dos olhos a carta datada de Liverpool.</p>
+
+<p>Pedro Toucard, atentando na carta aberta, corou ligeiramente.</p>
+
+<p>&mdash;Reconheço a letra, disse ele, posto seja mais<span class="pn">{135}</span>
+nova do que eu... doze anos. Mas juraria que essa carta não tinha chegado ao
+seu destino!</p>
+
+<p>&mdash;Enganava-se.</p>
+
+<p>&mdash;Convenço-me porém de que, há quatro meses, quando embolsei este
+dinheiro...</p>
+
+<p>&mdash;O meu dinheiro, quer dizer?</p>
+
+<p>&mdash;Seja... Convenço-me de que o senhor ignorava o conteúdo dela?</p>
+
+<p>&mdash;Ignorava-o ainda há quarenta e oito horas.</p>
+
+<p>E André contou como, por acaso, ao remexer as cinzas do lar, desenterrara a
+chave da caixa, a qual era ao mesmo tempo a chave de tantos mistérios!</p>
+
+<p>&mdash;É indubitável que existe uma Providência! disse Pedro abanando a cabeça.
+Tudo se descobre, mais cedo ou mais tarde! Ora vejam com que cara ficaria
+diante de si, se, confiando na impunidade, não fosse eu o primeiro a confessar
+a minha culpa, porque... enfim... eu roubei-o!</p>
+
+<p>&mdash;Ai! suspirou André, não é do dinheiro que eu mais tenho lamentado a falta!
+</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim, adivinho!... e é isso o que torna o meu crime imperdoável!
+Informei-me, e soube da ruptura do casamento, assim como da desaparição de
+Rosa, levada por seu pai, não se sabe para onde. Pobre rapaz!... e fui eu...
+eu!...</p>
+
+<p>&mdash;Ora!... disse alegremente o pintor, havemos de dar com ela.<span
+class="pn">{136}</span></p>
+
+<p>Os olhos cintilantes do provençal fixaram-se em André com inquieta surpresa.
+</p>
+
+<p>&mdash;Com a fortuna! exclamou ele, o senhor é um filosofo às direitas!</p>
+
+<p>&mdash;Porquê?</p>
+
+<p>&mdash;Pois, um homem rouba-lhe uma soma avultada, destrói as suas esperanças de
+amor e de casamento; e o senhor, em vez de sova-lo com um cacete, conversa
+tranquilamente com ele!...</p>
+
+<p>&mdash;A falar a verdade, meu caro senhor, disse Sauvain rindo, se o tivesse
+encontrado de improviso esta manhã, não responderia pelos meus gestos. Mas o
+passo, que acaba de dar, desarmou-me, e como concorda em que fez mal... sim...
+visto estar pronto a restituir...</p>
+
+<p>&mdash;Restituir! interrompeu Pedro. Com mil bombas! já não nos entendemos!...
+</p>
+
+<p>André deu um pulo, com os lábios a tremer-lhe de raiva.</p>
+
+<p>&mdash;Olá! mestre Toucard, dar-se-á acaso que pretenda conservar?...</p>
+
+<p>&mdash;Não pretendo nada, com mil raios!... Não olhou para mim? Ora examine o meu
+exterior!... É esta porventura a aparência de um capitalista? Terei ares de um
+feliz mortal, que lhe trouxesse no bolso noventa e dois mil francos?</p>
+
+<p>Efectivamente, Pedro Toucard estava a cem léguas de possuir semelhantes
+ares.<span class="pn">{137}</span></p>
+
+<p>Envolto em sórdidos farrapos, enlameado até ao pescoço, ter-lhe-iam
+oferecido dois soldos à esquina da rua. Luzia-lhe a pele através dos buracos do
+fato, e as botas arrebentadas vomitavam jorros de lama.</p>
+
+<p>O artista sentiu um choque violento quando reparou naquela libré da miséria.
+Uma ideia horrível lhe descompôs as feições.</p>
+
+<p>&mdash;Olá!... que é isso? disse o provençal, assustado com a palidez dele; agora
+olha demais para mim!... Sossegue, meu rapaz, e beba um copo de água. Feridas
+de dinheiro não são mortais.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! articulou o pintor angustiado, é então verdade?</p>
+
+<p>&mdash;O quê?</p>
+
+<p>&mdash;O que eu suponho...</p>
+
+<p>&mdash;Não sei o que supõe, mancebo. O facto é que estive na alta, e depois...
+veio a baixa.</p>
+
+<p>&mdash;Portanto está tudo perdido!</p>
+
+<p>&mdash;Fundido, destruído, evaporado!</p>
+
+<p>&mdash;Não resta coisa alguma?</p>
+
+<p>&mdash;Restam-me... dívidas.</p>
+
+<p>&mdash;E a herança de meu pai?</p>
+
+<p>&mdash;Foi para casa de seiscentos diabos.</p>
+
+<p>&mdash;Infame! rugiu Sauvain, agarrando Pedro pela gola da velha sobre-casaca, e
+sacudindo-o rudemente.</p>
+
+<p>O aventureiro deixou-se sacudir. Meteu sossegadamente as mãos nas algibeiras
+das calças despedaçadas,<span class="pn">{138}</span> e poderia mesmo jurar-se
+que um vago sorriso de infernal satisfação lhe assomara aos lábios.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos, mancebo!... disse ele. Não hesite: bata-me, estropie-me, mate-me.
+Sou um tratante, um canalha, um ladrão; nem valho a corda com que me
+enforcarem!...</p>
+
+<p>André largou-o; repugnava-lhe maltratar um velho.</p>
+
+<p>Cego pelas lágrimas, sufocado pela indignação, aniquilado pelo desespero,
+caiu prostrado numa cadeira e só pôde balbuciar estas palavras:</p>
+
+<p>«Rosa!... Rosa!... minha pobre Rosa!...»</p>
+
+<p>Pedro pareceu sinceramente comovido.</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... resmoneou ele, procurando em vão no crânio calvo um punhado de
+cabelos para arrancar; eu devera-o ter previsto!... O desgraçado contava com o
+seu dinheiro para desposar a pequena... e tu, grande bandido, velho celerado,
+devoraste tudo, deitaste-lhe abaixo a igrejinha!</p>
+
+<p>E nisto, infligindo a si próprio as maiores injúrias, desenfiava um rosário
+de pragas.</p>
+
+<p>Entretanto a dor de André atingia o seu paroxismo. Encostado à mesa, com o
+rosto esmagado entre os punhos contraídos, fazia esforços incríveis para
+recalcar no peito os gemidos e gritos de raiva... mas debalde.</p>
+
+<p>&mdash;Ora vamos!... vamos! continuou Toucard; que não haja, sobre queda, coice!
+O enguiço triunfa<span class="pn">{139}</span> hoje, de acordo! mas eu sou um
+espertalhão, bem o sabe... Dentro em pouco tirarei a desforra, e
+reembolsa-lo-hei então do capital e juros. Quer que lhe assine uma obrigação de
+cem mil francos, pagável na minha primeira veia de fortuna?</p>
+
+<p>André ergueu-se bruscamente, deixando ver o rosto afogueado e banhado em
+pranto.</p>
+
+<p>&mdash;Fora daqui, miserável! exclamou ele. Não tente a minha desesperação com as
+suas covardes zombarias!... Saia!</p>
+
+<p>&mdash;Não estou zombando, disse o provençal; e juro-lhe pela minha honra...</p>
+
+<p>&mdash;Pela sua honra!... interrompeu amargamente o pintor.</p>
+
+<p>&mdash;Seja pelo que for... Enfim... juro-lhe que o meu desejo mais veemente
+seria vê-lo rico e satisfeito.</p>
+
+<p>&mdash;E por isso me roubou o meu património, não é assim?</p>
+
+<p>&mdash;Que diabo posso eu dizer-lhe? As notas do banco já estavam no meu bolso,
+agarravam-se a mim e gritavam-me: «Leva-nos! Foi, graças a ti, que Onésimo nos
+ganhou; portanto... pertencemos-te um pouco!... Leva-nos, Pedro, e
+quintuplicar-nos-ás... decuplicar-nos-ás! André, Rosa, toda a família será
+feliz, e isso devido a ti... Leva-nos!»... Com a breca, levei-as!... Se esta
+explicação<span class="pn">{140}</span> lhe não basta, pegue numa pistola, e
+abra-me a cabeça; até me faz favor!... Ou então... arraste-me ao banco dos
+réus, para que me condenem às galés.</p>
+
+<p>André, silencioso, envolveu o aventureiro num longo olhar de tédio.</p>
+
+<p>&mdash;Não, replicou por fim. Não me esqueço de que foi amigo de meu pai; não me
+esqueço desta carta... a única acção honesta da sua vida! Não me vingarei,
+senhor mas, pelo amor de Deus, retire-se!</p>
+
+<p>Apesar da sua casca grossa, Pedro Toucard sentia-se enternecido.</p>
+
+<p>Dirigiu-se lentamente para a porta; depois parou, torceu a barba, reflectiu,
+e inclinando-se para André, que lhe voltava as costas, murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Senhor Sauvain...</p>
+
+<p>&mdash;Ainda aqui! exclamou o pintor.</p>
+
+<p>&mdash;Antes de ir-me embora, quero que saiba, se isto pode servir-lhe de
+consolação, que o céu se encarregou de castigar-me. Estou mais miserável,
+senhor André, do que no dia em que me fez a esmola... que tão pouco lhe
+aproveitou! Numa palavra, morro de fome; e como me repugna mendigar, vou
+direito daqui lançar-me ao rio. Adeus!</p>
+
+<p>&mdash;Espere!... disse Sauvain.</p>
+
+<p>E puxando da bolsa, despejou-a sobre a mesa.</p>
+
+<p>&mdash;Leve isso.<span class="pn">{141}</span></p>
+
+<p>&mdash;Eu!...</p>
+
+<p>&mdash;Arrecade isso, já lho disse, e vá-se embora. É em memoria de minha mãe, a
+quem tentou prestar um serviço. Eu... de nada preciso já.</p>
+
+<p>Toucard guardou o dinheiro; porém os dedos tremiam-lhe, e os seus olhos
+lampejavam humedecidos.</p>
+
+<p>&mdash;De que me serve viver, retorquiu ele, se não me perdoa?... se não recobro
+o sono, que me foge?</p>
+
+<p>O pintor encolheu os ombros.</p>
+
+<p>&mdash;O que está feito, está feito! respondeu-lhe com voz abatida. Toda a minha
+raiva, todo o meu ódio, todo o meu desprezo, não ressuscitariam uma parcela
+sequer da minha felicidade perdida!... Vá em paz; perdoo-lhe!</p>
+
+<p>O aventureiro ficou imóvel, e como fulminado de espanto, no limiar do
+<em>atelier</em>. Contemplou Sauvain, o qual se encostara ao canapé, e, com o
+semblante meio oculto pelos seus longos cabelos, parecia ter-se tornado
+insensível ao mundo exterior.</p>
+
+<p>&mdash;Este, sim!... que tem um coração de oiro sem liga! murmurou ele com
+singular expressão. Se a sorte lhe não sorri... é uma grande velhaca, com mil
+bombardas!</p>
+
+<p>E saiu.<span class="pn">{142}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION002000000000000000000">XX</a></h1>
+
+<p>Imaginem um homem caído do alto de uma torre, uma massa de carne
+ensanguentada, que ainda respira. Os olhos vêem tudo cor de sangue; os ouvidos
+só recebem rugidos confusos; a inteligência flutua ao acaso; e o corpo inerte,
+despedaçado, inútil, sofre demasiado para continuar a viver, mas não o bastante
+para conseguir morrer.</p>
+
+<p>Assim estava André Sauvain.</p>
+
+<p>Precipitado do alto das suas esperanças, vegetou quinze dias sem pensar, sem
+acção, sem ter consciência do tempo, nem das alternativas do sol e das trevas,
+que se sucediam regularmente na marcha imutável das horas.</p>
+
+<p>Porém, um dia, despertou de súbito daquela assustadora prostração.</p>
+
+<p>Ergueu-se, frio e resoluto, juntou os quatro retratos<span
+class="pn">{143}</span> de Rosa, que pintara na época da sua felicidade, e
+dispo-los nos cavaletes, em volta de si, nas condições de luz mais favoráveis;
+depois, fechou à chave a porta do <em>atelier</em> e desprendeu da parede uma
+pistola, que cuidadosamente carregou.</p>
+
+<p>Feito isto, pousou a arma sobre a mesa, ao alcance da mão.</p>
+
+<p>Davam onze horas num relógio próximo.</p>
+
+<p>&mdash;Á última pancada do meio dia, disse André falando consigo, farei saltar os
+miolos.</p>
+
+<p>Era uma espécie de prazo, que concedia à Providência. E com efeito, não
+podia Rosa regressar, nesses sessenta minutos?... O acaso tem tantos
+recursos!...</p>
+
+<p>Encostou-se sobre os cotovelos, pensativo e com a vista fixa nos quatro
+retratos... Acariciando com o olhar aqueles rostos, risonhos e suaves, aquelas
+pupilas límpidas, aquelas frontes resplendentes de inocência, André
+recomendava-se às recordações da sua amada, e os seus lábios murmuravam
+palavras ininteligíveis.</p>
+
+<p>Deu meio dia.</p>
+
+<p>André pegou na pistola.</p>
+
+<p>&mdash;Uma carta para o senhor Sauvain: disse nesse momento uma voz, de fora.</p>
+
+<p>&mdash;Uma carta?... repetiu André, uma carta dela!... Era tempo!</p>
+
+<p>Atirou a arma para o fundo de uma gaveta, abriu<span class="pn">{144}</span>
+a porta, pegou na carta, e levou-a com gesto de avaro para um canto da janela.
+</p>
+
+<p>Não era de Rosa!</p>
+
+<p>A missiva dimanava prosaicamente do arquitecto de Granville, reclamando
+algum dinheiro, à conta, pelas reparações da casa.</p>
+
+<p>André ficou aterrado.</p>
+
+<p>Apagara-se-lhe da memoria aquela dívida sagrada. Recordava-se dela agora,
+mas não tinha dinheiro, e só o trabalho podia dar-lho.</p>
+
+<p>Portanto... nem sequer tinha a liberdade de morrer!</p>
+
+<p>O pintor apelou, com desespero, para a sua antiga energia.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos!... pensou ele, mais uns dias de coragem e de tortura!... Ganhemos,
+com o suor do rosto, o direito ao eterno repouso!</p>
+
+<p>E lívido, desfalecido, vacilante, dirigiu-se ao seu comprador de quadros, e
+pediu-lhe que lhe adiantasse a soma de que precisava.</p>
+
+<p>O industrial anuiu de bom grado.</p>
+
+<p>&mdash;Esperava-o com impaciência, disse-lhe este homem; apresenta-se agora uma
+ocasião, magnífica para si, e bastante lucrativa.</p>
+
+<p>&mdash;Seja como for, disse Sauvain, aproveito-a.</p>
+
+<p>&mdash;Eis o negócio: um dos meus fregueses acaba de comprar, nos arredores de
+Paris, uma casa, que deseja ornar o mais elegantemente possível. Pediu-me<span
+class="pn">{145}</span> que o relacionasse com um pintor de talento, e eu
+falei-lhe no senhor. Trata-se de alguns quadros e muitas pinturas a fresco;
+convém-lhe?</p>
+
+<p>&mdash;Convém.</p>
+
+<p>&mdash;Nesse caso, é necessário começar a obra quanto antes. O meu freguês habita
+na sua propriedade: vá procurá-lo. É um homem generoso e inteligente. O senhor
+entender-se-á perfeitamente com ele.</p>
+
+<p>&mdash;Como se chama?</p>
+
+<p>&mdash;Aqui está a direcção: «Monsieur Nuavias, em Audily-Seine-et-Oise». É no
+vale de Montmorency, a dois passos da floresta. O sítio é delicioso, e creio
+que o senhor não terá razão de queixa.</p>
+
+<p>&mdash;Irei amanhã, disse André. Com efeito, no dia seguinte, Sauvain desembarcou
+em Audily pelas três horas da tarde. Não pôde conseguir que lhe indicassem a
+casa do senhor Nuavias, porque ninguém conhecia aquele nome, o qual decerto era
+novo no país; mas, após diferentes investigações, descobriu, a dois tiros de
+espingarda da vila, um pequeno castelo, que alvejava no cume de uma pitoresca
+colina.</p>
+
+<p>&mdash;Deve ser ali, disse ele consigo. Uma gradaria de ferro, delicadamente
+trabalhado e com portão ao centro, separava da estrada pública os jardins do
+castelo, permitindo aos transeuntes admirar a alameda, tapetada de verde
+relva,<span class="pn">{146}</span> que se estendia em suave declive até à
+entrada do edifício, o qual primava pela sua elegante simplicidade. Dois
+pavilhões simetricamente dispostos de cada lado da grade, pareciam destinados,
+um para cavalariça, e o outro para habitação do porteiro. Este individuo
+destacava, no limiar do portão, tomando o fresco e olhando para as moscas.</p>
+
+<p>Era um homem gordo, de rosto jovial e rubicundo, com o pescoço descoberto,
+ermo de pelos e enrugado como o de uma perua. Usava enormes brincos nas
+orelhas, e notava-se-lhe numa das faces prodigiosa inchação.</p>
+
+<p>&mdash;Mora aqui o senhor Nuavias? perguntou André.</p>
+
+<p>A esta interpelação, o porteiro nada respondeu. Lançou um jacto de saliva
+negra, fitando André, a quem mediu de alto a baixo. O volume da face direita
+passou para a esquerda: o inchaço era de tabaco.</p>
+
+<p>&mdash;Ao que parece, disse ele, o senhor é o tal pintor?</p>
+
+<p>&mdash;Ah! exclamou Sauvain admirado, já estão prevenidos da minha chegada?</p>
+
+<p>O homem obeso assumiu ar malicioso, piscou os olhos, deitou a língua de
+fora, e entrou num acesso de muda hilaridade, que lhe fazia oscilar o abdómen e
+retinir os brincos.</p>
+
+<p>&mdash;Os artistas são alegres... murmurou ele. Temos muito que rir, se o senhor
+também entra...<span class="pn">{147}</span></p>
+
+<p>&mdash;Se entro!... em quê?</p>
+
+<p>&mdash;Na farsa.</p>
+
+<p>&mdash;Qual farsa?</p>
+
+<p>&mdash;A que vai representar-se.</p>
+
+<p>&mdash;A quem?</p>
+
+<p>&mdash;Ao senhor Nuavias, já se vê!</p>
+
+<p>&mdash;Não entendo.</p>
+
+<p>&mdash;Ah; bom! faz-se de novas... Basta!... Bico calado! Faça conta de que eu
+nada disse... Suponha que me não participaram coisa alguma... que ignoro
+tudo...</p>
+
+<p>E os brincos a tinirem, e o abdómen a dançar, e o rosto passando de
+vermelhusco a purpúreo, e de purpúreo a roxo.</p>
+
+<p>&mdash;Seu amo está cá? lhe tornou Sauvain com impaciência.</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor, respondeu o faceto porteiro quase sem fôlego; ainda não veio.
+Ora!... o senhor bem o sabe, visto que entra na conspiração.</p>
+
+<p>&mdash;Eu!... Está enganado.</p>
+
+<p>&mdash;Ele não deve tardar. Vamos divertir-nos muito, esta tarde... Regozijo-me
+de antemão, palavra de Jacinto!</p>
+
+<p>&mdash;Esses negócios não são da minha conta, disse André. Na ausência do senhor
+Nuavias posso ver a casa?</p>
+
+<p>&mdash;Certamente! Tenha a bondade de passear um momento no jardim, enquanto eu
+enfio um casaco e<span class="pn">{148}</span> vou buscar as chaves. Não me
+demoro cinco minutos.</p>
+
+<p>André fez um sinal de anuência, e dirigiu-se pensativo para uma rua
+arborizada. Primeiramente, o ar livre pesou-lhe um pouco no cérebro fatigado,
+mas bem depressa o gracioso aspecto do jardim lhe acalmou o espírito.</p>
+
+<p>Flores em profusão, cascatas e fontes, um pequeno bosque, frondosas árvores,
+povoadas de chilreantes passarinhos, rodeavam o castelo num círculo encantado.
+O sol do outono, já declinando para o horizonte, derramava sobre tudo aquilo
+ondas de luz e matizava-o de vivas cores; o dia extinguia-se lentamente; nuvens
+de opala flutuavam na atmosfera, orlando o céu azul.</p>
+
+<p>Como podia o pintor alimentar ideias de morte em face daquele panorama tão
+tranquilo, e ao mesmo tempo tão cheio de vida?... Nenhum rumor se ouvia; nem um
+som, além dos agudos assobios dos melros, e dos seus próprios passos sobre a
+areia. André sentiu percorrer-lhe as veias delicioso frescor; a brisa da tarde,
+morna, pura, embalsamada de mil perfumes, transformou a sua agitação nervosa
+numa languidez fantasiadora. E, enquanto o sol, próximo do seu ocaso, lhe
+estendia aos pés as trémulas sombras da folhagem, chegou a invejar a posse
+daquele sossegado Éden.</p>
+
+<p>Como seria feliz com Rosa num semelhante retiro!<span
+class="pn">{149}</span> Que delicia lhes seria vaguearem a sós, silenciosos,
+com os braços enlaçados, por aquelas alamedas misteriosas! ele... a rever-se em
+dois olhos pretos radiantes... e a beijar uns louros cabelos, que a brisa
+complacente traria para junto de seus lábios! E mais tarde... que delicia,
+ainda, contemplarem ambos uma linda criança, brincando alegre na relva do
+parque!...</p>
+
+<p>A voz do porteiro arrancou bruscamente André àquelas perigosas alucinações.
+</p>
+
+<p>O honrado Jacinto vinha risonho, gracejador, trajando soberba libré, e
+munido de nova dose de tabaco.</p>
+
+<p>&mdash;Se o senhor quer ver as salas, estou pronto para lhas mostrar.</p>
+
+<p>André seguiu-o distraidamente. O interior da casa correspondia ao exterior.
+Tudo era rico e de bom gosto; somente, na sua disposição, faltava talvez um
+certo cunho de elegância íntima, que revela sempre a presença de uma mulher.
+</p>
+
+<p>&mdash;O sr. Nuavias é casado? perguntou Sauvain.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda não, mas não tardará, disse Jacinto, soprando como um cachalote.
+Deveras... o senhor não está na confidencia?</p>
+
+<p>&mdash;Nem pouco, nem muito!</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! é precisamente a respeito do seu próximo casamento, que se
+prepara uma surpresa ao senhor Nuavias.<span class="pn">{150}</span></p>
+
+<p>&mdash;E essa surpresa em que consiste?</p>
+
+<p>&mdash;Isso é querer saber muito! Parece-me que vai haver grande risota, e eu já
+começo a rir, só com essa ideia!... Demais, a futura será igualmente
+mistificada.</p>
+
+<p>&mdash;Ela é bonita?</p>
+
+<p>&mdash;Encantadora, segundo dizem.</p>
+
+<p>&mdash;Nova?</p>
+
+<p>&mdash;Muito nova.</p>
+
+<p>&mdash;E ele?</p>
+
+<p>&mdash;Também é moço.</p>
+
+<p>&mdash;Amam-se?</p>
+
+<p>&mdash;Apaixonadamente!</p>
+
+<p>André suspirou.</p>
+
+<p>Nesse momento ouviu-se o rápido rodar de uma carruagem.</p>
+
+<p>&mdash;É o patrão! exclamou Jacinto. Bravo! a coisa vai principiar. E um rir,
+silencioso e desordenado, agitou-o desde o topo até à base, pondo em movimento
+as suas bochechas escarlates, que se tornaram roxas.</p>
+
+<p>&mdash;Ufa! arrebento de riso, com certeza! balbuciou ele, meio-sufocado. Mas não
+se impaciente, que já vou dizer a meu amo que o senhor o procura.</p>
+
+<p>E saiu, apertando as ilhargas.</p>
+
+<p>André encostou a fronte ao caixilho de uma janela. O dia declinava;
+espalhava-se pelas avenidas um vapor azulado, e, impelidas pela aragem, as<span
+class="pn">{151}</span> flores dos canteiros balouçavam-se como turíbulos.</p>
+
+<p>André padecia. Aquele recôndito lugar, aquela pacífica habitação, aqueles
+jovens para ele desconhecidos, que a felicidade ia para sempre reunir, tudo
+enfim... até a alegria daquele criado burlesco, lhe pesava no coração,
+reabrindo-lhe as feridas que vinha ali buscar... ele, o inconsolável!... àquele
+retiro festivo? Que figura faria, se o envolvessem na turba indiferente dos
+convivas descuidosos?</p>
+
+<p>Ao pensar nisto, assaltaram-no os receios, mas... era demasiado tarde.
+Jacinto surgiu, perfilou-se defronte dele, piscou os olhos, abanou a cabeça,
+mordeu o lenço para não estoirar de riso, depois conduziu o pintor através de
+uma enfiada de quartos, empurrou-o para o meio de uma vasta sala, já invadida
+pelas sombras do crepúsculo, e fugiu.</p>
+
+<p>Ao principio, Sauvain julgou-se só.</p>
+
+<p>Por uma grande porta envidraçada, que abria para o jardim, penetravam
+livremente os aromas da tarde. Nada se movia; porém André distinguiu, dentro em
+pouco, a um canto do fogão, que acabava de apagar-se, os contornos indecisos de
+uma mulher sentada.</p>
+
+<p>&mdash;Minha senhora... balbuciou ele, inclinando-se.</p>
+
+<p>Um grito vibrou, como uma nota de cristal.</p>
+
+<p>&mdash;André... É André!...</p>
+
+<p>E a forma vaga ergueu-se de súbito. Um último<span class="pn">{152}</span>
+raio de sol, que borboleteava nas vidraças, iluminou um perfil de anjo.</p>
+
+<p>Esse grito, essa voz, essa visão, penetraram no peito de Sauvain, como uma
+lâmina de oiro. Oscilou e caiu de joelhos.</p>
+
+<p>&mdash;Rosa!... murmurou ele, és tu?... ou é o teu fantasma?...</p>
+
+<p>Um fantasma! Não: foi bem realmente um corpo de donzela, um corpo flexível e
+palpitante, que se lhe lançou nos braços! Foram duas mãos pequeninas, mas bem
+vivas, que lhe enlaçaram o pescoço! Foi o puro hálito de Rosa, que lhe deslizou
+nos lábios!</p>
+
+<p>E André, deslumbrado, louco, fora de si, ébrio de felicidade, embebia-se na
+contemplação de um rosto bem real, de um rosto adorado, de um rosto comovido,
+radiante de júbilo, envolto numa auréola de cabelos louros...</p>
+
+<p>Entretanto, mais outra forma vaga subia nesse momento as escadas do terraço.
+Parou estupefacto. Desta vez, era uma sombra masculina, uma sombra estreita e
+alongada, trajando fantásticas vestes, que ondeavam em volta dela, como um
+lençol cor de ferrugem dependurado num pau.</p>
+
+<p>A sombra não soltou uma palavra, como convém a uma sombra que se respeita;
+porém, um som singular atravessou o espaço; jurar-se-ia que a sombra estava
+raspando uma noz moscada. A este ruído prolongado, os dois jovens despertaram
+do seu êxtase,<span class="pn">{153}</span> e André, chorando e rindo ao mesmo
+tempo, André mais ébrio do que se tivesse esvaziado seis garrafas de Champanhe,
+atirou-se ao pescoço da sombra, exclamando:</p>
+
+<p>&mdash;Adivinho tudo!... adivinho tudo!... Obrigado... obrigado, meu querido
+sogro!</p>
+
+<p>A sombra debateu-se violentamente.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor!... Com a fortuna! Que faz aqui?</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa!... Abraço-o.</p>
+
+<p>&mdash;Quer dizer... que abraçava minha filha?</p>
+
+<p>&mdash;Não o nego, meu sogro.</p>
+
+<p>&mdash;E eu nego-lhe o direito de chamar-me assim... Proíbo-o!...</p>
+
+<p>&mdash;Ora!...</p>
+
+<p>&mdash;Não há <em>ora</em>, nem <em>meia ora</em>... Vamos! largue-me!...</p>
+
+<p>&mdash;Meu velho amigo!... meu excelente vizinho!...</p>
+
+<p>&mdash;Largue-me, com trezentos demónios!...</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, meu caro sogro: o gracejo foi delicioso... mas, de que serve
+prolongá-lo? Sejamos felizes... que não é sem tempo!</p>
+
+<p>&mdash;O senhor zomba de mim?</p>
+
+<p>&mdash;Eu!... zombar! Ah? antes beijaria o rasto dos seus passos! Zombar, quando
+a sua presença e a de Rosa, aqui, em casa estranha, sobre este terreno neutro,
+onde de certo esperava encontrar-me, me provam que...<span
+class="pn">{154}</span></p>
+
+<p>&mdash;Com a breca! interrompeu o senhor Germinal; é de uma rara impudência!...
+Pretende acaso dizer...</p>
+
+<p>&mdash;Que o enterneceram a minha dor e as lágrimas de Rosa... enfim, que é o
+melhor dos homens? Sim? meu sogro! é o que eu quis dizer: abracemo-nos!...</p>
+
+<p>&mdash;Para trás, senhor! bradou o velho exasperado, não junte o escárnio à sua
+indigna acção!</p>
+
+<p>&mdash;Como!... disse o pintor estupefacto; de que escárnio... de que acção
+indigna fala?</p>
+
+<p>&mdash;Sim... finja-se surpreendido! se lhe parece, negue que me atraiu aqui
+enganado! negue as suas tenebrosas maquinações! Ah!... julgou que triunfaria
+por uma cilada?</p>
+
+<p>&mdash;Eu!...</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem!... desengane-se! A minha decisão é irrevogável! Não possuirá
+minha filha!</p>
+
+<p>&mdash;Uma cilada!... eu, que o supunha longe de França! eu, que teria dado vinte
+anos da minha vida para descobrir...</p>
+
+<p>&mdash;Jesus! que mentiroso!... exclamou Rosa, sorrindo-se. E as minhas
+cartas?... acrescentou ela em voz baixa.</p>
+
+<p>&mdash;As suas cartas! Meu Deus!... Rosa, de que cartas fala?</p>
+
+<p>&mdash;De muitas, que lhe enviei às escondidas?</p>
+
+<p>&mdash;Pois escreveu-me?... a mim...<span class="pn">{155}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor, oito ou dez cartas que todas ficaram sem resposta!</p>
+
+<p>&mdash;Foram doze, minha filha, disse gravemente o senhor Germinal; tenho-as aqui
+no bolso.</p>
+
+<p>&mdash;Tem-nas?... Oh, meu pai!... É bem mal feito!...</p>
+
+<p>&mdash;Horrível, minha filha!... Teria sido mais moral não interceptar a
+correspondência amorosa, não te parece?</p>
+
+<p>&mdash;Confesse ao menos, senhor, disse Sauvain, que uma cilada da minha parte
+era impossível!...</p>
+
+<p>&mdash;Mas... que outra intenção podia trazê-lo aqui? Faz favor de dizer-me?</p>
+
+<p>&mdash;Simplesmente a de pintar tectos e bandeiras de portas!</p>
+
+<p>&mdash;E a nós, disse Rosa, a esperança de uma encomenda importante; pois eu
+continuo a fazer flores, e o dono desta casa deseja uma porção delas
+considerável.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor Nuavias?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Quem lho inculcou?</p>
+
+<p>&mdash;A modista, para quem trabalho. E André?</p>
+
+<p>&mdash;O meu comprador de quadros.</p>
+
+<p>&mdash;Os diabos levem o acaso! rosnou o senhor Germinal.</p>
+
+<p>&mdash;O acaso!... suspirou André; divino acaso, ou<span class="pn">{156}</span>
+antes Providência, que me restituis a minha Rosa e o meu velho amigo, sê mil
+vezes bendita!...</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, disse Germinal, delira certamente!...</p>
+
+<p>&mdash;Creio que sim, meu sogro... e muito!</p>
+
+<p>&mdash;Já fez fortuna?</p>
+
+<p>&mdash;Oh, muito pouca!</p>
+
+<p>&mdash;E ainda ama minha filha?</p>
+
+<p>&mdash;Apaixonadamente!</p>
+
+<p>&mdash;Contudo renuncia à sua mão?</p>
+
+<p>&mdash;Isso de modo nenhum!...</p>
+
+<p>&mdash;Então, nada de amizade, nem de relações entre nós!... Vá para o diabo!</p>
+
+<p>&mdash;Porém...</p>
+
+<p>&mdash;Não lhe dou minha filha!</p>
+
+<p>&mdash;Entretanto...</p>
+
+<p>&mdash;Não casa com minha filha!... Não casa com minha filha!... Não casa com
+minha filha! Já disse.</p>
+
+<p>O senhor Germinal esganiçava-se debalde; André tinha mais sólidos pulmões, e
+por isso facilmente cobriu o timbre de cana rachada do seu adversário,
+bramindo:</p>
+
+<p>&mdash;Casarei, com ela, ou deixarei de ser quem sou!</p>
+
+<p>Enfim, a sua cólera fazia explosão. André estava farto de sofrer; e,
+sorrindo em ar de desafio, valeu-se da escuridão da sala para beijar Rosa,
+unindo-a docemente ao coração.</p>
+
+<p>Mas, se a voz do senhor Germinal era fraca, em compensação tinha olhos de
+lince.<span class="pn">{157}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ah! Vocês querem brincar comigo?... Rosa! o teu xaile... o teu chapéu...
+Partamos imediatamente!</p>
+
+<p>&mdash;Ainda não! exclamou, da porta, uma voz de baixo-profundo.</p>
+
+<p>E logo a sala se iluminou de súbita e viva claridade.</p>
+
+<p>No limiar, entre dois lacaios agaloados, empunhando cada um deles uma
+serpentina, carregada de velas cor de rosa, apareceu um personagem baixo, de
+espessa e forte construção, enluvado de fresco, engravatado de branco, vestido
+de preto, e rescendendo a aromas, que perfumavam o recinto a dez passos de
+distância. Avançou majestosamente, com os polegares suspensos nas algibeiras do
+seu faustoso colete, e fazendo ouvir no sobrado o ranger de umas botas novas.
+</p>
+
+<p>O senhor Germinal e André suspenderam os seus clamores, e inclinaram-se
+confusos.</p>
+
+<p>&mdash;Então!... exclamou o magnífico intruso; há bulhas aqui? Com mil
+amarras!...</p>
+
+<p>&mdash;Pedro Toucard!... exclamaram os assistentes. Era Pedro, sem dúvida...
+Pedro, o aventureiro! Mas, que transformação!...</p>
+
+<p>Abolida a barba de duas pontas; conservava apenas uma estreita suíça, curta,
+bem talhada, macia e frisada. O seu crânio resplandecia, como um espelho:
+ter-se-iam mirado nele as andorinhas em<span class="pn">{158}</span> pleno dia.
+Uma cadeia de oiro, da grossura de um dedo, pendia sobre o seu orgulhoso
+abdómen as cabeludas falanges estavam meio-estranguladas por enormes anéis; as
+algibeiras, prodigiosamente entumecidas, transbordavam de napoleões.</p>
+
+<p>Fez um sinal, e os criados pousaram os candelabros; a outro sinal,
+desapareceram todos eles, mais as suas cabeleiras empoadas e os seus calções
+curtos, que punham em relevo postiças barrigas de pernas, de dimensões enormes.
+Pedro sentou-se ao pé do fogão, apoderou-se das tenazes e atiçou o lume.</p>
+
+<p>Uma chama cintilante crepitou no fundo da fornalha; os seus reflexos
+dançaram alegremente sobre os móveis esculpidos, sobre o luzidio sobrado, e
+sobre as guarnições de seda azul com franjas de prata.</p>
+
+<p>&mdash;Chegue-se para o lume, compadre! as noites estão frias. Aproxime-se do
+fogão, minha linda menina!... e também o senhor, amigo Sauvain!...</p>
+
+<p>Disse. E era espectáculo digno de admirar-se o sorriso diabólico de Pedro, o
+perfil espantado do pintor, os olhos maravilhados de Rosa, e a boca aberta do
+senhor Germinal.</p>
+
+<p>Toucard cruzou a perna direita sobre a esquerda, e afagando o queixo
+escanhoado, continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Olá, meus meninos! parece-me que se mostram demasiado frios para com um
+homem, que os reuniu... contra vento e maré!<span class="pn">{159}</span></p>
+
+<p>&mdash;Pois foi o senhor!... exclamou André. E os dois amantes estreitaram as,
+mãos do aventureiro.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, meu rapaz, fui eu que descobri o ninho desta linda ave do paraíso.
+</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, disse Sauvain, o que acaba de praticar absolve-o de todas as suas
+culpas!</p>
+
+<p>&mdash;Apre!... então passa-me quitação das noventa e duas mil libras?</p>
+
+<p>&mdash;De todo o coração! suspirou o pintor; ainda que...</p>
+
+<p>&mdash;Ainda que lhe fariam óptimo arranjo, na presente conjuntura; não é assim?
+E a menina Rosa não me recompensará também?</p>
+
+<p>&mdash;Bem o desejara, disse ela, apresentando a cândida fronte aos lábios
+encortiçados do velho; mas, por muito reconhecida que lhe seja, não posso...
+</p>
+
+<p>&mdash;Não pode oferecer senão o que tem, e eu contento-me!... disse Pedro, entre
+dois estrondosos beijos. Obrigado, minha linda fada; heis-me rejuvenescido!</p>
+
+<p>&mdash;Que significa isto? bradou o senhor Germinal. Caçoam comigo!.... Não sou
+aqui ninguém?... Com a breca!...</p>
+
+<p>&mdash;O compadre, disse Toucard com ironia, é, como nós, hospede do senhor
+Nuavias; e, nessa qualidade, seria de mau gosto fazer bulha em sua casa. Mas...
+acrescentou, interrompendo-se de súbito, que é aquilo?... que vejo eu ali?<span
+class="pn">{160}</span></p>
+
+<p>&mdash;Onde?</p>
+
+<p>&mdash;Acolá... nas cinzas... Rosa inclinou-se para o fogão.</p>
+
+<p>&mdash;É uma chave! exclamou ela.</p>
+
+<p>&mdash;Com efeito, disse André apanhando-a, é uma pequena chave, que me faz
+recordar...</p>
+
+<p>&mdash;Oh!... A que demónio de fechadura pertencerá ela? regougou Pedro.</p>
+
+<p>E inequívoca expressão de benévola malícia transparecia no seu enrugado
+rosto.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! agora penso eu... Não servirá por acaso essa chavinha naquele cofre,
+que ali está?... atrás de si... sobre a jardineira...</p>
+
+<p>André voltou-se e viu uma caixa de conchinhas, muito semelhante à que
+deixara em Granville, na sua arca de nogueira.</p>
+
+<p>&mdash;Recorda-se?... perguntou Pedro, apoiando-se-lhe no ombro. Foi dum
+cofrezinho igual que o senhor desenterrou a única acção louvável da minha vida:
+estas caixas são de bom agouro!</p>
+
+<p>E dirigindo-se a Rosa:</p>
+
+<p>&mdash;Veja o que essa contém, minha linda; uma chave, que desce pelo tubo da
+chaminé, merece atenção!... Seria algum génio benfazejo, que a deixou cair?
+Reviste sempre, Rosinha!...</p>
+
+<p>&mdash;Infeliz! bradou o senhor Germinal; vai cometer um abuso de confiança!...
+Que dirá o senhor Nuavias?<span class="pn">{161}</span></p>
+
+<p>&mdash;Aprovará, compadre: fico por isso. Procure, minha linda Rosa, procure...
+</p>
+
+<p>A jovem não se fez rogar; o seu instinto de mulher segredava-lhe que o génio
+benfazejo era Pedro, e que ele conduzia rapidamente as coisas para um desenredo
+agradável.</p>
+
+<p>Abriu a caixa, e tirou de dentro um maço de papeis cetinosos.</p>
+
+<p>&mdash;Notas do banco!... exclamou ela.</p>
+
+<p>&mdash;Devem ser noventa e duas, disse o aventureiro, as mesmas que o senhor
+Germinal destinava para o dote de Rosa; ora, como não é possível dar-lhes
+melhor aplicação, o senhor Nuavias resolveu restituir-lhas. Tome-as lá,
+compadre...</p>
+
+<p>&mdash;A mim!... Eu!... balbuciou o senhor Germinal. Mas como?... porquê?... com
+que direito?... o que significa?...</p>
+
+<p>&mdash;Tanta pergunta ao mesmo tempo! Vá sempre guardando... Continue a buscar,
+minha filha...</p>
+
+<p>Um adereço de diamantes!... e um colar de pérolas!... murmurou Rosa,
+deslumbrada.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é consigo, minha menina. É o presente de noivado do senhor Nuavias...
+Procure mais...</p>
+
+<p>&mdash;Mas enfim, disse o senhor Germinal, suando em bagas, esse Nuavias é o
+senhor, ou é o diabo?...</p>
+
+<p>&mdash;Nem um, nem outro... Querem conhecê-lo?<span class="pn">{162}</span></p>
+
+<p>&mdash;Quero... quero... quero... gritaram três vozes ansiosas.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! Esse jovem e belo senhor Nuavias, esse feliz senhor Nuavias, que
+dentro em quinze dias vai desposar uma encantadora menina; esse afortunado
+senhor Nuavias, de quem somos hospedes, é...</p>
+
+<p>&mdash;É... quem?</p>
+
+<p>&mdash;André.</p>
+
+<p>&mdash;Eu!...</p>
+
+<p>&mdash;Sim? sem a menor dúvida! Nuavias é apenas o anagrama de Sauvain.</p>
+
+<p>&mdash;Porém, esta casa...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! tem razão... Esta casa... Ora queira procurar novamente na caixa,
+senhora noiva...</p>
+
+<p>Na caixa havia ainda outros papeis; mas esses eram espessos, pesados, com
+selo, cobertos de maçuda escrita, e rubricados por dois tabeliães. Continham um
+acto legal e autêntico, assegurando a André Sauvain a propriedade de uma casa,
+situada em Audily (Seine-et-Oise).</p>
+
+<p>&mdash;Senhor!... exclamou o pintor fora de si, é demais!... É demais!... Não
+posso aceitar...</p>
+
+<p>Pedro interrompeu-o com gesto suplicante; a sua fisionomia tornara-se grave
+e sisuda.</p>
+
+<p>&mdash;Meu querido amigo, disse ele com voz comovida, permita-me que resgate, a
+meu modo os erros passados... Talvez devesse te-lo feito mais cedo...<span
+class="pn">{163}</span> Mas, se prolonguei por alguns dias as suas mágoas, se
+me apresentei em sua casa sob farrapos mentirosos, foi porque ainda não tinha
+encontrado Rosa, e queria entregar-lha juntamente com o seu património. Dessa
+experiência, saiu o senhor vitorioso; outro qualquer ter-me-ia morto, porém o
+senhor... coração nobilíssimo!... para o homem, que lhe despedaçara a vida,
+teve ainda uma última e sublime esmola!... Pois bem! seja generoso até ao
+fim... não recuse os meus dons... não me deixe remorsos...</p>
+
+<p>&mdash;Cumpra-se o seu desejo, respondeu Sauvain. Aceito este oásis encantador...
+com a condição, porém, de restituir-lho quando a fortuna o houver atraiçoado.
+</p>
+
+<p>&mdash;Com mil amarras!... Espere por isso! Graças a Deus, estou curado da febre
+de traficar; viverei como um bom burguês; o meu amigo Germinal ensinar-me-á o
+gamão; e nunca mais especularei, senão em sonhos.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo amor de Deus, murmurou o pai de Rosa, expliquem-me de que se
+trata!... Que diabo está o senhor para aí a falar em erros, remorsos, e
+património?... Que significa todo esse aranzel?...</p>
+
+<p>&mdash;Significa, respondeu o aventureiro, que encontrei no meu caminho duas
+virtudes raras, e tão raras que me converteram...</p>
+
+<p>&mdash;E quais são essas virtudes?...<span class="pn">{164}</span></p>
+
+<p>&mdash;O perdão das injúrias, disse Pedro, apertando a mão a André... e a inteira
+probidade, acrescentou, estendendo a outra ao senhor Germinal.</p>
+
+<p>Este esfregou desesperadamente o seu ferruginoso crânio.</p>
+
+<p>&mdash;Tudo isso para mim é hebraico, replicou o pai de Rosa. A única coisa, que
+pude coligir, foi que o senhor está milionário!...</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, meu bom amigo. A sorte favorece os doidos. Esse depósito
+sagrado, pelo qual velou durante doze anos, como homem probo, que é,
+arrisquei-o eu, sem reflectir, num lance de dados... Ganhei... Sou portanto um
+grande especulador. Mas... se tivesse perdido?... Quando penso nisso, sobe-me o
+coração à garganta, e sinto-me tremer como... como o seu <em>Faust au
+sabbat</em>, André!... um quadro admirável! que, entre parêntesis, possuo em
+Paris no meu palacete, e pelo qual me ofereceram já o seu peso em oiro?</p>
+
+<p>&mdash;De modo que, disse o pintor, o meu mercador de quadros entrava na
+conspiração?... Traidor!...</p>
+
+<p>&mdash;Ora!... e também a modista, para quem fazia flores a menina Rosa, os
+criados desta casa, e até o pateta do Jacinto, antigo marinheiro, que eu elevei
+à categoria de guarda-portão, e que hoje tomo a liberdade de recomendar à sua
+benevolência.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! quanto a esse, disse Sauvain rindo, é possível<span
+class="pn">{165}</span> que tentassem inicia-lo no segredo, mas assevero-lhe
+que nada percebeu!</p>
+
+<p>&mdash;Nem eu tão pouco, palavra de honra! replicou sinceramente o senhor
+Germinal, e por isso... meto a viola no saco. Toque nestes ossos, meu genro!
+</p>
+
+<p>&mdash;Com mil vontades! exclamou alegremente o pintor, apertando nas mãos a
+garra descarnada do pai da sua noiva. Estava escrito que, riqueza, gloria e
+felicidade, tudo encontraria...</p>
+
+<p>&mdash;N<small>AS CINZAS</small>, concluiu Pedro Toucard.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot65" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Reunião de três
+números, cuja extracção simultânea era uma sorte feliz.</p>
+
+<p><a name="foot119" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Hospital de
+alienados.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="border: dotted 2px red; padding: 2px;">
+<div style="border: double 4px green;padding: 2px;">
+<div style="text-align:justify; border: dotted 2px red; padding: 1em;" class="verde">
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.4em;">OBRAS PUBLICADAS</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 0.8em;" class="vermelho">PELA</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.4em;">EMPRESA EDITORA CARVALHO &amp; C.ª</p>
+
+
+<p style="text-align:center;" class="vermelho">TEATRO</p>
+
+<p class="indlist">Os sabichões<span class="vermelho">&mdash;Comédia original em 4 actos, por E.
+Biester,</span> 250</p>
+
+<p class="indlist">Ao calçar das luvas<span class="vermelho">&mdash;Comédia original em 1 acto, por
+Rangel de Lima,</span> 100</p>
+
+<p class="indlist">O afilhado de Pompignac<span class="vermelho">&mdash;Comédia (tradução) em 4
+actos, por L. C. M.,</span> 200 </p>
+
+<p class="indlist">Um homem político<span class="vermelho">&mdash;Comédia (imitação) em 3 actos por
+Aristides Abranches,</span> 200</p>
+
+<p class="indlist">O fidalguinho<span class="vermelho">&mdash;Comédia original em 3 actos, por
+Ferreira de Mesquita,</span> 200 </p>
+
+<p class="indlist">Abençoado progresso<span class="vermelho">&mdash;Comédia original em 1 acto, por
+Rangel de Lima,</span> 100</p>
+
+<p class="indlist">As campainhas<span class="vermelho">&mdash;Comédia (tradução) em 1 acto, por
+Pinheiro Chagas,</span> 100</p>
+
+<p class="indlist">João o britador<span class="vermelho">&mdash;Drama (tradução) em 5 actos, por L.
+C. M.,</span> 250</p>
+
+<p class="indlist">As três rocas de cristal<span class="vermelho">&mdash;Mágica em 3 actos e 17
+quadros, por Aristides Abranches,</span> 300</p>
+
+<p class="indlist">A família<span class="vermelho">&mdash;Drama original em 5 actos, por J. R.
+Cordeiro,</span> 300</p>
+
+<p class="indlist">Quem desdenha<span class="vermelho">&mdash;Comédia original em 1 acto, por
+Pinheiro Chagas,</span> 100</p>
+
+<p class="indlist">Caso de consciência<span class="vermelho">&mdash;Comédia (tradução) em 1 acto,
+por Pinheiro Chagas,</span> 100 </p>
+
+<p class="indlist">Luís XI e o poeta<span class="vermelho">&mdash;Comédia (tradução) em 1 acto
+Ferreira de Mesquita,</span> 160 </p>
+
+<p class="indlist">A mosca branca<span class="vermelho">&mdash;Comédia (imitação) em 3 actos, por
+Duarte Santos,</span> 200</p>
+
+<p class="indlist">A cruz de prata<span class="vermelho">&mdash;Drama (tradução) em 5 actos, por L.
+C. M.,</span> 300</p>
+
+<p style="text-indent: 1em;">N. B. A quem comprar a colecção completa (15 peças) 40 por cento de
+abatimento.</p>
+
+<p style="text-align:center;" class="vermelho">ROMANCES</p>
+
+<p class="indlist">As duas flores de sangue<span class="vermelho">&mdash;Original, por Pinheiro
+Chagas (1 volume),</span> 500</p>
+
+<p class="indlist">As doze espadas do diabo<span class="vermelho">&mdash;Tradução de Guilherme
+Celestino (2 volumes),</span> 800 </p>
+
+<p class="indlist">Cláudio<span class="vermelho">&mdash;Original, por Júlio César Machado (1
+volume),</span> 500</p>
+
+<p class="indlist">Nas cinzas<span class="vermelho">&mdash;Tradução por L. C. M. (1 volume),</span>
+300</p>
+
+<p style="text-align:center;" class="vermelho">NO PRELO</p>
+
+<p class="indlist">Uma noite em Florença<span class="vermelho">&mdash;Tradução de Guilherme
+Celestino (1 volume),</span> 400</p>
+
+<p style="text-indent: 1em;">Remetem-se, francos de porte, a quem enviar a sua importância em estampilhas
+ao escritório da empresa, rua larga de S. Roque, n.º 100, 1.º andar.</p>
+
+
+<p style="text-align:center;" class="vermelho">Imprensa Nacional&mdash;1875<br>
+</p>
+</div>
+</div>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Nas Cinzas, by Gontran Borys
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS CINZAS ***
+
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+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
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+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
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+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+ of receipt of the work.
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+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
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+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
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+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
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+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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