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+The Project Gutenberg EBook of Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03, by
+Alexandre Herculano
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03
+
+Author: Alexandre Herculano
+
+Release Date: November 30, 2009 [EBook #30566]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALEXANDRE HERCULANO - TOMO 03 ***
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Nov. 2009)
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+OPUSCULOS
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+
+
+OPUSCULOS
+
+POR
+
+A. HERCULANO
+
+
+SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA
+SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA
+SOCIO CORRESPONDENTE
+DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID
+DO INSTITUTO DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES)
+DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE TURIM
+DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.
+
+
+TOMO III
+
+CONTROVERSIAS E ESTUDOS HISTORICOS
+
+
+TOMO I
+
+
+LISBOA
+
+
+VIUVA BERTRAND & C.^a--SUCCESSORES, CARVALHO & C.^a
+Chiado, 78
+
+M DCCC LXXVI
+
+
+
+
+Lisboa--Imprensa Nacional
+
+
+
+
+Contem este volume diversos escriptos sobre duas questões historicas. A
+primeira, que se refere ás tradições fabulosas ácerca da batalha de
+Ourique, quasi que não tem valor algum á luz da sciencia. Expôr
+semelhantes tradições era, por assim dizer, refutá-las, e perante a
+historia tal refutação seria de sobra. A segunda, relativa á situação
+das classes servas na Hespanha desde o VIII até o XII seculo, versa
+sobre a legitimidade da solução que adoptei n'um dos mais difficeis
+problemas que se me offereceram ao escrever o terceiro volume da
+Historia de Portugal na epocha decorrida desde a fundação da monarchia
+até o fim do reinado de Affonso III. As phases da lenta transformação do
+escravo das sociedades antigas no obreiro, cidadão livre das sociedades
+modernas, obscuras ainda em parte na historia da civilisação e do
+progresso humano entre as nações d'além dos Pireneus, muito mais o são
+áquem delles. As divergencias, e divergencias profundas, entre os que se
+dedicam a estudar o assumpto nascem dessa obscuridade, e é dos debates
+que elle pode suscitar que ha de surgir a final a luz.
+
+Como tantas vezes succede, não foi a questão grave e difficil que
+alevantou arruido: foi a insignificante que despertou as attenções e que
+produziu viva agitação na imprensa e fóra da imprensa, dividindo em dous
+campos o publico que lê. É que na primeira interessava apenas a
+sciencia, e a segunda contrariava os intuitos de uma parcialidade e as
+preoccupações dos espiritos vulgares, que constituem o grande numero. Se
+a religião era extranha ao assumpto, ou antes ganhava na suppressão de
+uma pia fraude, perdia com isso a maioria do sacerdocio, atarefada, hoje
+mais que nunca, em tecer a rede de suppostos milagres em que parece
+querer amortalhar o catholicismo. Escrevendo um livro serio, eu
+affastara brandamente para o limbo das fabulas aquellas ficções
+ridiculas, porque era forçoso fazê-lo. Nem tivera a intenção do
+escandalo, nem a cousa o valia. A maioria, porêm, do clero não o
+entendeu assim.
+
+Na carta ao patriarcha de Lisboa, com a qual este volume começa, está a
+resumida noticia das aggressões de que fui alvo e que por algum tempo
+supportei com resignação ou indifferença, resignação ou indifferença em
+que provavelmente, hoje, que sei melhor o que taes aggressões valem,
+continuaria a permanecer. Estava, porêm, então naquella epocha da vida
+em que a paciencia christan não é a virtude mais vulgar do homem. O
+leitor ajuizará se os prelados portugueses foram ou não imprudentes em
+tolerarem ou talvez favorecerem aquellas ineptas e brutaes manifestações
+da ignorancia e do interesse ferido.
+
+Pelo que toca ao opusculo sobre o estado das classes servas da Peninsula
+no decurso dos seculos VIII a XII, destinado a combater as opiniões do
+erudito Muñoz y Romero, é bem de crer que ao meu illustre adversario não
+faltassem argumentos para contrapôr ás objecções que lhe fiz; mas
+affastaram-no do debate outros estudos, até que veio salteá-lo a morte,
+quando a Hespanha tinha a esperar os melhores fructos da alta
+intelligencia daquelle incansavel cultor da historia. Buscando ambos a
+verdade, a discussão encetada conduzir-nos-hia, provavelmente, a
+modificarmos, tanto um como outro, as nossas ideas, talvez absolutas em
+demasia, e a estabelecermos uma doutrina solida sobre tão espinhoso
+assumpto. Entretanto, ainda hoje me persuado de que, para nos
+aproximar-mos, seria elle que teria de andar mais caminho. Julgá-lo-hão
+os que, depois de lerem attentamente o meu modesto trabalho, examinarem
+com igual attenção o escripto de Muñoz y Romero e a apreciação desse
+escripto por Mr. de Rozière.
+
+ Janeiro de 1876
+
+
+
+
+
+A BATALHA DE OURIQUE
+
+
+
+
+I
+
+EU E O CLERO
+
+
+AO PATRIARCHA DE LISBOA
+
+(_Junho, 1850_)
+
+
+É debaixo da impressão de vivo desgosto, e cedendo emfim ao impulso de
+justa indignação, que dirijo a vossa eminencia esta carta. A desculpa
+que merece um animo turbado por offensas immerecidas, e o favor que
+sempre encontrei em vossa eminencia me fazem esperar que esse favor não
+padecerá quebra, se alguma phrase mais forte do que eu desejara me fugir
+da penna ao escrever este papel; papel que, solemnemente o declaro desde
+já, não tem por objecto, como alguem poderia suppôr, pedir desaggravo
+das offensas a que alludo. De natureza são ellas, que nem preciso nem
+quero que outrem as puna. Sei e posso eu fazê-lo, se cumprir, de um modo
+que sirva de escarmento á ignorancia perversa e á hypocrisia insensata.
+O meu intuito é apenas rogar directamente a vossa eminencia, e
+indirectamente aos demais prelados de Portugal a cujas mãos chegar esta
+carta por intervenção da imprensa, que, obstando a novas provocações da
+parte do clero, me poupem a dar uma dura licção a individuos, que,
+desconhecendo os deveres do sacerdocio e incapazes de sentimentos de
+moderação, tentam excitar as paixões odientas de um fanatismo que já
+nem, talvez, o povo comprehende contra um homem que nunca lhes fez mal,
+e que nem sequer se lembra delles, porque tem cousas um pouco mais
+sérias em que cogitar.
+
+Ha quatro annos que publiquei o primeiro volume de uma Historia de
+Portugal, que tem feito certa impressão no paiz, e ainda fóra delle. Na
+benevolencia com que esse livro foi recebido por naturaes e extranhos
+nada ha provavelmente que deva lisonjear o amor-proprio litterario do
+auctor, mas ha uma prova de que o publico reconheceu nelle certa
+independencia de espirito e uma estricta imparcialidade, para a qual o
+longo e severo exame dos factos o habilitava. Como eu o previra na
+advertencia posta á frente daquelle primeiro volume, a sinceridade da
+narrativa, estribada em monumentos indisputaveis, destruindo muitas
+dessas tradições, mais ou menos improvaveis, que deturpam a historia de
+todos os povos, suscitou contradictores. Era cousa natural. As
+manifestações de colera, as injurias vertidas contra mim na imprensa,
+não podiam causar-me nem estranheza nem abalo. Estava resolvido a
+guardar silencio perante ellas e a proseguir na senda que abrira, sem me
+distrahir com luctas estereis. A verdade fica, e as preoccupações
+passam. Ao mesmo tempo a minha resolução inabalavel era, e é, desprezar
+todos os respeitos humanos que se contraponham á voz da propria
+consciencia. Todavia o não nos affastarmos dos seus dictames é empenho
+que não sae de graça neste mundo de paixões pequenas e más; e bem louca
+esperança seria a minha, se a tivesse de evitar os effeitos de uma lei
+universal. Era por isso que estava resolvido a esgotar resignadamente o
+meu calix.
+
+Pouco depois da publicação do primeiro volume da Historia de Portugal,
+n'um periodico litterario da universidade de Dublin um critico inglês
+punha em duvida se eu, que expurgara de lendas fradescas a historia do
+berço da monarchia, teria esforço bastante para avaliar como cumpria as
+longas e violentas dissensões dos reis da primeira dynastia com os
+bispos e com a curia romana. Quando li isto, sorri-me. Nessa mesma
+conjunctura publicava-se em Lisboa o meu segundo volume, onde se
+continha a narrativa de boa parte daquellas discordias. Ahi me parece
+ter dado documento de que os receios manifestados na imprensa inglesa
+não eram dos mais bem fundados.
+
+Mas esse volume, accendendo novas coleras, despertou em alguem a idéa de
+me refutar de modo inaudito. Do pulpito de uma das igrejas de Braga, da
+antiga metropole, onde ainda devem estar bem vivas as memorias do
+veneravel Caetano Brandão, do illustre prelado que pretendia reformar o
+breviario e missal bracharenses por causa _das suas intoleraveis
+patranhas e falsidades_ (phrase do grande arcebispo), o meu nome foi
+lançado ás multidões ladeado dos epithetos de hereje, de impio e de
+outros semelhantes. Um egresso fanatico e ignorante (como o são
+centenares de sacerdotes no meio do nosso clero, que não recebe ha
+muitos annos nem educação moral nem educação litteraria) cubriu-me de
+injurias diante de um concurso numeroso, segundo me informaram, porque
+no meu livro usara do direito de historiador, qualificando devidamente
+essas intelligencias vastas e energicas, mas corruptas, violentas e
+cubiçosas que cingiram a thiara papal, e que se chamaram Gregorio,
+Innocencio ou Honorio. A principio acreditei que isto não passara de um
+impulso de fanatismo individual; mas em breve me desenganei de que o
+facto pertencia a um systema organisado de aggressão. A imprensa
+politica noticiou procedimentos analogos para comigo em outros lugares
+do arcebispado. Se o objecto das invectivas era o mesmo, se igual a
+violencia das expressões, ignoro-o: mas o que me pareceu evidente foi
+que havia, como disse, em tão insolito proceder um systema uniforme e
+combinado.
+
+Calei-me. A minha equanimidade foi bastante para tolerar este ataque
+brutal á liberdade do pensamento; foi tamanha como a do respectivo
+prelado, que guardou silencio, e que devera ter advertido o seu clero de
+que, não havendo eu offendido doutrina alguma da igreja, e tendo-me
+limitado a julgar os homens e os factos da epocha sobre que escrevia,
+por mais erradas que fossem as minhas opiniões, ellas não podiam ser
+qualificadas publicamente de hereticas, concitando-se assim contra mim a
+credulidade popular. Um sermão não é o meio de refutar erros
+litterarios, e muito menos o é qualificar taes erros como offensas da fé
+para os transformar em crimes religiosos. Em semelhante terreno a lucta
+sería impossivel, porque delle brota o risco pessoal, ou pelo menos a
+perda da reputação moral para um dos contendores, ou melhor direi para a
+victima indefensa, amarrada ao poste desse novo genero de patibulo. Os
+ignorantes olhariam com horror para o Luthero ou Calvino que surge na
+terra da patria, e esse odio publico é uma verdadeira coacção á
+liberdade legitima do escriptor: legitima, digo, porque, apesar de
+tantas declamações e queixas, é evidente que no meu livro não ha uma
+unica palavra que offenda a orthodoxia da igreja. Se eu tivesse
+proferido alguma heresia, os prelados portugueses, e em particular vossa
+eminencia como meu pastor, não seriam capazes de faltar aos seus mais
+estrictos deveres, deixando de me advertir do erro com caridade
+evangelica, e de me condemnar se eu insistisse n'elle. Era então que aos
+bispos, e não a qualquer desses cirzidores de farrapos de sermões
+velhos, desses inimigos figadaes da lingua, da grammatica e do senso
+commum, denominados, por antiphrase, prégadores ou oradores, que era
+licito, que cumpria lançar sobre mim o anathema.
+
+A guerra desleal que uma parte do clero (digo uma parte, porque no seu
+gremio ha muitos homens leaes e verdadeiramente illustrados) me
+declarara no norte do reino não tardou a apparecer no meio-dia, no
+recincto da propria capital. O primeiro commettimento foi tentado n'uma
+solemnidade notavel, e n'um dos templos mais frequentados de Lisboa.
+Nesse acto o absurdo da aggressão nasceu antes da impropriedade do
+logar, do que das formulas empregadas pelo aggressor, que se absteve de
+injurias grosseiras. Lisboa não é Braga, e o negocio precisava aqui de
+maior circumspecção. Entretanto a tentativa desagradou geralmente, e eu
+pensei que emfim me deixariam em paz.
+
+Não succedeu assim. Ultimamente na minha propria parochia, e dous dias
+depois n'outra igreja da capital, fui de novo arrastado perante as
+turbas na torrente da eloquencia clerical. Se no primeiro caso houve a
+intenção de se me administrar face a face uma correcção fraterna, o
+calculo falhou. Creio que vossa eminencia me faz a justiça de acreditar
+que não me deleito excessivamente em ir ouvir máus sermões de ha
+sessenta annos, ou traducções detestaveis de fragmentos de sermonarios
+franceses, declamadas, ou antes carpidas, em tom ainda mais detestavel.
+O annuncio de um sermão é para mim por via de regra a espada percuciente
+do anjo do paraiso flamejando á porta do templo. Salvo em rarissimos
+casos, não haveria forças que podessem arrastar-me a assistir aos partos
+da oratoria, que, por irrisão sacrilega, se denomina sagrada. A
+resistencia dos meus nervos em tal conjunctura seria mais forte do que a
+propria vontade.
+
+Em Braga, e creio que nos outros logares daquella diocese, a censura
+tinha sido fulminada contra a liberdade com que falei dos chefes da
+igreja nos seculos médios, da curia romana, e talvez dos bispos
+portugueses de então. Ao menos lá a invectiva tinha certa originalidade.
+No patriarchado, porém, as accusações, postoque menos brutaes, tiveram o
+defeito de ser um verdadeiro plagio.
+
+Narrando no primeiro volume da Historia de Portugal o recontro de julho
+de 1139 em Ourique, reduzido ás dimensões que suppús e supponho exactas,
+ommitti a fabula do apparecimento de Christo, como cousa indigna da
+gravidade da historia, e, sob certo aspecto, demasiado irreverente para
+com o sublime Fundador do Christianismo. Apenas n'uma nota alludi a essa
+tradição absurda, affirmando que se estribava n'um documento falso, o
+celebre juramento attribuido a Affonso I, juramento que ainda existe no
+supposto original. Eis o grande escandalo para os prégadores de Lisboa.
+Confesso que ahi tractei esse embuste com o desprezo que elle merece,
+porque, na verdade, conhecendo eu muitos diplomas forjados com maior ou
+menor destreza, este é, sem contradicção, o mais inhabilmente executado.
+
+As poucas palavras que dediquei a semelhante ninharia suscitaram o zelo
+de alguns individuos, persuadidos de que eu tinha despedaçado, com as
+tres ou quatro linhas que a tal proposito escrevi, o palladio da
+independencia nacional, que bem fraca independencia sería se estivesse
+como adscripta á crença ou á descrença n'um conto de velhas. Houve até
+um pobre homem, o qual, no meio das discordias civis que assolaram o
+reino pouco depois da publicação do meu livro, dirigiu aos povos do
+Alemtéjo uma proclamação, em que affirmava que, ligado por um pacto
+infernal com os membros do governo então derribado, eu ia demolindo as
+glorias portuguesas para vendermos de commum accordo a independencia da
+patria. Não me recordo agora do preço, nem de quem foi o comprador, mas
+a venda parece que era indubitavel.
+
+Entretanto publicavam-se artigos de jornaes e folhetos avulsos contra
+mim. Nada mais legitimo; nada mais liberal. Se os corsarios da palavra
+de Deus, que esbombardeam o meu pobre livro de um logar aonde eu não
+posso subir, do alto do pulpito, convertido em chapiteu de proa de junco
+malaio, houvessem seguido este rumo, seria eu tão ridiculo como o
+instrumento da apparição, se disso me queixasse a vossa eminencia ou aos
+outros prelados do reino. A imprensa é uma estacada onde nos julgadores
+do combate, e sobretudo de um combate litterario ou scientifico, ha já
+um grau de illustração, que até certo ponto affiança uma decisão justa.
+Reptado ahi, eu podia erguer a luva, ou deixar, quando assim o
+entendesse, que o livro delatado servisse por si mesmo de resposta aos
+accusadores. Em um e outro caso procederia livremente, e não ficaria,
+como no campo em que sou aggredido, collocado debaixo de uma coacção
+moral. Ahi os reverendos prégadores, que tem tido a condescendencia de
+tractar da minha humilde pessoa, até poderiam appellidar-me, se
+quizessem, hereje, impio, atheu, demonio incarnado: eu respondia-lhes
+que elles estavam bem livres de ser nenhuma dessas cousas, e ficavamos
+perfeitamente pagos.
+
+Dous dos folhetos avulsos dirigidos contra a Historia de Portugal, que
+me chegaram ás mãos, tractavam justamente desse gravissimo negocio da
+apparição, que em parte me tem feito victima, por me servir de uma
+phrase do padre Isla, da _dialectica eloquencia dos selvagens da
+Europa_. Ambos comedidos e corteses, ao mesmo tempo que produziam no meu
+animo um sentimento de tristeza, inhibiam-me de responder-lhes, ainda
+quando não estivesse, como ha pouco disse a vossa eminencia, no firme
+proposito de evitar luctas estereis. A tristeza que senti á leitura
+daquelles folhetos nascia de achar nelles a prova da decadencia a que
+tinham chegado neste paiz os estudos historicos. N'um livro que, com
+bons ou maus fundamentos, mudava completamente o aspecto até aqui
+attribuido ao complexo dos successos do nosso paiz, na infancia da
+sociedade portuguesa, havia por certo mais de uma inexacção, mais de um
+defeito importante, como obra que era de homem--de homem desajudado
+n'uma empreza de tal ordem, e entregue unicamente aos proprios recursos
+e forças. Ácerca, porém, das materias positivas, historicas,
+susceptiveis de serio exame, apenas appareceu, que me conste, um artigo
+no periodico litterario a _Revista Universal_, e outro no _Observador_
+de Coimbra. As duas publicações avulsas que me vieram ás mãos, ambas,
+como disse, curavam exclusivamente de me demonstrar o milagre da
+apparição, milagre do qual (atrevo-me quasi a affirmá-lo) ainda que os
+meus adversarios o tivessem sustentado com boas razões _historicas,_ me
+parece que eu, vossa eminencia, toda a gente, que não seja algum leigo
+capucho, haviamos de continuar a rir, cada qual segundo o papel que
+acceitou nesta grande comedia humana--uns em publico, outros em
+particular.
+
+Agora pelo que respeita aos motivos que, além da razão geral já dada, me
+inhibiam de responder aos dous escriptores, permitta-me vossa eminencia
+que eu dilate um pouco o discurso a este proposito. Não é a digressão
+alheia ao assumpto. O meu silencio ante contendores francos e leaes, que
+me buscavam com armas corteses no campo da imprensa, interpretou-o a
+ignorancia como um signal de fraqueza. Não contribuiria isto para
+despertar a audacia dos meus anathematisadores? Não seria eu proprio o
+culpado da minha affronta? Desculpe vossa eminencia uma comparação,
+acaso ambiciosa em demasia. Tem o merito de se referir a uma fabula, e
+nós achamo-nos n'uma questão de fabulas. Quando o leão jazia moribundo,
+foram as feras valentes e generosas que arrostaram o perigo. O onagro só
+veio ferir-lhe a fronte pendida, depois que, averiguada a situação do
+rei das florestas, se persuadiu de que podia injuriá-lo a seu salvo.
+
+Se fui, pois, o causador do mal, devo justificar o silencio que o gerou.
+É a esse alvo que se dirige a digressão de que falo.
+
+Um dos folhetos era escripto por um ancião respeitavel, não só pelas
+suas cans, mas tambem pelos seus padecimentos physicos, consideração
+fortissima para mim, que entendo ser sempre digna de respeito a
+desgraça; era producção de um homem chegado áquelle quartel da vida, em
+que o espirito parece eivado da ruina do corpo, que vem annunciando a
+proximidade do tumulo. Com a mão na consciencia eu protesto a vossa
+eminencia que ainda hoje sentiria remorsos, se, na força da vida e do
+pouco talento que Deus repartiu comigo, não tivera sabido domar os
+impulsos de um ridiculo amor-proprio; se houvera ido derramar a
+afflicção sobre o leito de dor do afflicto, para saborear o triste e
+vergonhoso prazer de ouvir os apupos do publico a um pobre velho, que
+queria, que tinha direito de morrer em paz abraçado com as tradições da
+sua infancia; que precisava de protestar contra um homem, o qual, embora
+involuntariamente, ia prostituir-lhe no coração idéas e affectos, amigos
+constantes da sua larga existencia. Se Deus podesse fazer milagres
+absurdos e inuteis, como o da apparição, eu preferiria ver-me convertido
+em cirzidor e carpidor de farrapos pareneticos a ter de accusar-me de
+uma acção, que não sei qual seria mais, se covarde, se despiedada.
+
+Quanto ao outro folheto, composto por um homem de talento, instruido, e
+no vigor da idade, não militavam as mesmas razões de conveniencia moral;
+militavam, porém, outras assaz fortes, e de natureza analoga. Affastadas
+as considerações poeticas, alheias a materias historicas, os argumentos
+colligidos naquella publicação a favor do milagre de Ourique dividiam-se
+em duas categorias, ou antes eram apenas dous argumentos. Um consistia
+no consenso de certo numero de escriptores, todos de epochas mais
+recentes que o meado do seculo XV. A futilidade desta argumentação é
+evidente. Os _classicos_ são respeitaveis como mestres de lingua; mas
+como testemunhas de um facto, que se diz acontecido pelo menos trezentos
+annos antes que elles escrevessem, de nada servem. A qualidade de
+classicos não exclue a de credulos, e nem sequer a de inventores de
+patranhas. A chronica de Clarimundo, a da Tavola-redonda, a de Palmeirim
+d'Inglaterra são escriptas por tres classicos como Barros, Jorge
+Ferreira, e Francisco de Moraes, e eu supponho, não sei se me engano,
+que esses livros não encerram senão mentiras. Se o auctor queria
+provar-me a perpetuidade da tradição de Ourique, não devia esquecer o
+_criterium_ estabelecido por Vicente de Lerins, e com elle pelo senso
+commum, para distinguirmos das falsas as tradições verdadeiras: _Quod
+semper, quod ubique, quod ab omnibus creditum est_. Era-lhe necessario
+mostrar-me essa tradição através de todos os seculos, e sobretudo dos
+seculos onde ella desapparece, os tres immediatos ao supposto facto.
+Confesso a vossa eminencia um peccado, e alliviarei delle a consciencia,
+porque o confesso perante o meu pastor: a minha intelligencia foi
+demasiado orgulhosa para descer a refutar semelhantes objecções. Que me
+importava, de feito, que a fabula tivesse este ou aquelle motivo,
+nascesse no seculo XVI ou no XV? Tomara eu tempo e monumentos para
+averiguar os successos verdadeiros e as suas causas, circumstancias e
+effeitos. Genealogico d'embustes é mistér para o qual me falta
+inteiramente a vocação.
+
+A segunda categoria de argumentos, ou antes, o segundo argumento em
+favor do milagre era a citação de dous textos precisos, de duas
+auctoridades contemporaneas, que relatavam o successo. Uma era nada
+menos que a de S. Bernardo; outra a de uma copia coeva do juramento,
+copia conservada em Roma, e transcripta no volume 51 da _Symmitica
+Lusitana_, manuscripto da Bibliotheca Real, de cuja existencia é
+abonador o illustre Cenaculo. Este argumento estava longe da obvia
+fraqueza de est'outro. A tradição ía assim prender-se do seculo XV ao
+XII, embora obscurecida no periodo intermedio. Alguem imaginará,
+portanto, que para não responder a objecções deste valor apparente só me
+conteve o proposito de evitar disputas escusadas. Não foi assim.
+Contiveram-me considerações de maior monta. Se o eram ou não, vossa
+eminencia o julgará.
+
+Antes de tudo, observará vossa eminencia que eu digo _disputas
+escusadas_. Digo-o, porque esses testemunhos contemporaneos não bastam,
+como vossa eminencia sabe, para acreditarmos nos milagres da idade
+média. Á excessiva devassidão e bruteza aquelles tempos de trevas uniam
+uma crença fervorosa, confundida com superstição extrema. A idéa
+religiosa formulava-se em tudo, na guerra, na vida civil, nos affectos
+do coração, nas artes, na litteratura, na sciencia; e quando uma idéa
+domina assim a sociedade, converte-se em prisma através do qual as
+cousas se illuminam com as côres que elle lhes transmitte. O maravilhoso
+introduzia-se em todos os factos em que as imaginações, possuidas de uma
+especie de febre moral, achavam pretextos mais ou menos plausiveis para
+lh'o attribuir. Accrescia a tendencia innata dos homens para indagar as
+causas dos diversos phenomenos. Comprimida n'um ambiente de ignorancia e
+rudeza (ambiente em que vive boa parte do nosso clero), essa tendencia
+dilatava-se, respirava pelo unico resfolgadouro possivel, pela facil
+theoria do maravilhoso, do sobreintelligivel. Nas chronicas d'então
+quasi que o miraculoso é o regular, e o natural a excepção. Dos
+chronistas dos seculos barbaros o mais despreoccupado é o benedictino
+inglês Matheus Paris. Todavia centenares, que não dezenas, de milagres
+absurdos são gravemente narrados na _Historia Major_. Permitte-me vossa
+eminencia que lhe recorde um exemplo do modo de vêr daquellas eras? Sem
+sairmos do reino, nem do seculo XII, e até limitando-nos á vida do
+personagem a quem se attribue o singular favor de Ourique, temos á mão
+um exercito de milagres, postoque em sentido inverso ao da apparição.
+Alludo aos desgostos de S. Rosendo com o nosso primeiro rei. A vida do
+sancto, _escripta no seculo XII_, foi, como vossa eminencia sabe,
+publicada por Florez, e uma copia, talvez coeva, ou quando muito do
+seculo XIII, existe ainda entre os manuscriptos de Alcobaça (codice
+133). Ahi lemos que o rei português fora obrigado a levantar o sitio do
+castello Sandino, nas margens do Arnoia, por uma tempestade de raios que
+o sancto desfechou contra elle. Se acreditarmos o pio agiographo, o seu
+implacavel heroe nunca perdoou a Affonso I, apparecendo por tres vezes a
+diversas pessoas para protestar vingança contra o principe, que nas suas
+correrias na Galliza não respeitara as terras do mosteiro de Cellanova.
+Nesta lucta atroz entre o grande da terra e o grande do ceu, S. Rosendo
+não poupava maravilhas. Debalde; porque, como observa o monge
+historiador, o coração do rei, que elle compara caritativamente a Simão
+Mago, estava obdurado, qual o de Pharaó, _para maior cumulo da sua
+condemnação_. A malevolencia milagreira do sancto não abandonou Affonso
+Henriques senão no tumulo. Os contratempos dos ultimos annos do reinado
+do fundador da monarchia, incluindo o desbarato de Badajoz, a fractura
+da perna, o aleijão com que ficou até a morte, tudo foi obra de S.
+Rosendo, e havia mesmo quem affirmasse ter visto o sancto revestido do
+corpo humano e muito atarefado, na occasião em que o rei de Portugal
+caíu prisioneiro do genro. São pelo menos vinte milagres attestados por
+um escriptor desses tempos. Penso que não me accusarão de avaro ou de
+desagradecido os que querem enriquecer á força o thesouro das minhas
+crenças com a apparição de Ourique. Vinte por um. Indisputavelmente eu
+sou muito mais rico do que elles em provisão de milagres.
+
+De todas essas maravilhas, porém, apesar de subministrarem á credulidade
+melhores fundamentos que a de Ourique, faço eu tanto caso como desta
+ultima, pelas considerações que indiquei, aliàs bem escusadas para a
+comprehensão e litteratura de vossa eminencia. Mas nem foi unicamente o
+preceito que a mim proprio impusera de não malbaratar o tempo em
+questões desta ordem, nem essas considerações, que obstaram a que eu
+respondesse a um escripto, em que o erro, e talvez o despeito, vinham
+envoltos em fórmas tão corteses, que tocavam a raia de lisonjeiras, e em
+que a argumentação tomava emfim o aspecto de uma cousa séria. Não,
+eminentissimo senhor! A refutação sería na verdade facil, decisiva,
+fulminante; mas ella lançaria uma torpe mancha sobre nomes illustres e
+caros á igreja portuguesa. Repugnava-me sobretudo esta idéa. Por maiores
+precauções de que eu me rodeasse, a logica implacavel do publico tiraria
+as legitimas illações das minhas palavras, e convertê-las-hia em
+desdouro commum de uma classe que nenhum mal me havia feito. Se hoje a
+necessidade de repellir a insolencia covarde, como a insolencia o é
+sempre, me obriga a expôr actos vergonhosos e inqualificaveis, a culpa
+não m'a lancem. Dous annos de paciencia provam que o faço constrangido
+por aggressões demasiado graves, não por si, nem por seus auctores,
+cousas profundamente insignificantes, mas pelo logar onde se commettem,
+por serem feitas com a intenção de excitar contra mim animadversões
+immerecidas, por se tentar, emfim, converter atraiçoadamente uma
+questão, que nem chega a ser historica, em questão religiosa. A gloria
+do escandalo deixo-a inteira aos que o provocaram. Se vou bater sobre
+campas, que cobrem cinzas envoltas em vestes sacerdotaes; se perturbo a
+paz dos mortos para lhes bradar--«_Falsarios!_»--esta mão que se estende
+para indicar os criminosos, esta voz que se ergue para os condemnar, são
+minhas, mas protesto a vossa eminencia, que quem as suscitou não foi o
+meu coração, nem a minha vontade. Ha no soffrimento um ponto que sem
+deshonra não é licito ultrapassar. Consta-me que o mais recente dos meus
+reverendos accusadores clamara no excesso do seu _sincero_ zelo pela
+historieta da apparição, que _melhor fora que eu não houvera falado em
+tal_. Melhor ainda do que isso me parece teria sido que elle não
+houvesse feito trasbordar o calix, já demasiado cheio, de uma justa
+indignação.
+
+A affirmativa de que no volume 51 da _Symmitica Lusitana_ se encontra
+trasladada uma còpia do instrumento da apparição, coeva de Affonso I, É
+MENTIRA.
+
+O texto de S. Bernardo, relativo á mesma apparição, que se encontra
+inserido no Breviario, no officio das Chagas, É FALSO.
+
+Se algum dos reverendos cirzidores sabe latim (é licito duvidar disso
+com a igreja, que manifestou a sua hesitação a este respeito mandando
+accentuar as palavras dos livros rituaes com temor das syllabadas) que
+venha á Bibliotheca Real, e ahi, no volume 51 da Symmitica a paginas
+128, lerá ou soletrará as seguintes palavras, escriptas na lingua
+latina, por baixo do traslado do instrumento da apparição, nota escripta
+pela mesma letra do copista==_Brandão, Monarchia Lusitana, Parte 3.^a
+pagina 127. Extrahido de um codice que o auctor viu em Lisboa._==Eis em
+que consiste o traslado da copia _coeva_. Cenaculo, citando o documento
+pelo indice, quando podia citá-lo pelo logar competente da collecção, o
+que lhe era igualmente facil, commetteu uma daquellas levezas que não
+raro occorrem nos seus escriptos, ou practicou uma _pia fraude_? O bello
+e nobre caracter do bispo de Béja me faria adoptar sem hesitação o
+primeiro supposto, se o empenho em que elle entrara de provar a farça de
+Ourique, cuja vaidade o seu elevado espirito necessariamente havia de
+sentir, não podesse perturbá-lo a ponto de practicar um acto indigno de
+quem, como elle, era um homem de letras, um prelado virtuoso, e a todos
+os respeitos um varão singular.
+
+A historia da passagem falsamente attribuida a S. Bernardo, é, porém,
+materia mais grave, porque nessa vergonhosa historia se acha
+compromettida a honra e a dignidade moral e litteraria do alto clero
+português no meiado do seculo passado. Não direi da curia romana, porque
+nesse ponto não ha já para ella compromettimento possivel: vossa
+eminencia conhece tão bem e melhor do que eu os seus annaes. A narrativa
+desse escandalo é em resumo a seguinte:
+
+O patriarcha D. Thomás d'Almeida requereu a Bento XIV que concedesse ao
+clero de Portugal o officio proprio e missa das cinco Chagas, que, por
+decreto de 4 de julho de 1733, fora concedido a certas freiras de
+Florença. Accrescentava-se na supplica dirigida ao pontifice que na
+sexta lição se houvessem de addicionar as seguintes palavras==_Quas
+lusitanum imperium etc._==que constituem o texto allegado contra mim.
+Consistindo, porém, a sexta lição daquelle officio n'uma passagem de S.
+Bernardo, uma vez que não houvesse a devida distincção entre essa
+passagem e o novo additamento, este se converteria n'um testemunho
+importante a favor da lenda da apparição, de que provavelmente os homens
+instruidos começavam a rir-se depois do impulso que aos estudos
+historicos dera o governo no reinado de D. João V.
+
+Accedeu Bento XIV á supplica do prelado português. O decreto de
+concessão, o officio e a missa expediram-se para Portugal impressos na
+typographia da camara apostolica. Segundo parece, a impressão foi feita
+no estio, e o compositor romano, no acto de compor a fatal sexta licção,
+estava perturbado pela febre da _malaria_. O additamento ficou enxertado
+nas phrases solemnes do grande abbade de Claraval com tão subtil sutura,
+que faria honra a um operador de rhinoplastica. Atacado tambem pelos
+miasmas putridos das lagoas pontinas o revedor da camara apostolica
+_esqueceu-se_ de emendar o erro. Aquelle _innocente_ engano partiu,
+emfim, para Portugal.
+
+Aqui, n'uma epocha em que ainda os estudos do clero não tinham chegado á
+decadencia em que hoje os vemos e de certo vossa eminencia lamenta como
+eu, e em que as cadeiras episcopaes do reino estavam occupadas por
+muitos homens notaveis por sciencia e virtudes, o antecessor de vossa
+eminencia que então presidia á metropole de Lisboa _esqueceu-se_ de que
+essa passagem perfilhada a S. Bernardo tinha um auctor bem moderno, e
+entre os bispos, entre os theologos do clero secular não houve um só que
+_advertisse_ no falso testemunho que na sexta licção do novo officio se
+alevantava ao fundador dos cistercienses. Os seus filhos, os seus
+proprios monges, calaram-se. Os prelos têm gemido durante um seculo com
+as reimpressões do breviario, e neste longo periodo nem uma voz, que eu
+saiba, se ergueu para dizer que em nenhuma edição, em nenhuma codice
+manuscripto das obras de S. Bernardo se encontra a supposta passagem.
+
+«E que admiração?--respondeu-me um malicioso, a quem manifestava em
+certa occasião o meu espanto á vista deste phenomeno singular.--O clero
+não lê os padres da igreja: deixou essa tarefa aos seculares. E para que
+os havia de ler, se lhes é de sobra o Larraga?»
+
+Dou a minha palavra a vossa eminencia de que repelli com todas as minhas
+forças este rude epigramma. Eu sei que ha, conheço, até, sacerdotes cuja
+instrucção é tão solida como vasta. O tracto de vossa eminencia, durante
+a epocha em que fomos collegas no parlamento, me fez conhecer um dos
+mais distinctos entre elles. Infelizmente, esse epigramma, injusto na
+sua fórma absoluta, não deixa de ser merecido em muitos, talvez no maior
+numero de casos.
+
+Sabe vossa eminencia quem protestou contra essa falsificação audaz,
+contra essa fingida ignorancia, contra esse torpor inexplicavel ou
+explicavel de mais? Foi aquella ordem ácerca da qual então se repetiam,
+e hoje se repetem diariamente graves accusações de immoralidade. Foram
+os jesuitas, que n'uma edição do novo officio, feita para o proprio uso,
+separaram com um asterisco o texto de S. Bernardo da invenção moderna.
+Acaso este procedimento deu origem a um livro, _os Novos Testemunhos_,
+do celebre e implacavel inimigo dos jesuitas, o padre Pereira, livro que
+se o não tomarmos como uma longa ironia, deshonra a memoria de uma das
+mais fortes intelligencias que Portugal tem gerado.
+
+Agora fica vossa eminencia habilitado para avaliar se eu procedi com
+circumspecção guardando silencio ante as refutações que se me dirigiam
+pela imprensa; se não houve no meu proceder uma dessas abnegações que
+não são vulgares, em desprezar um triumpho tão facil como decisivo,
+preferindo ficar como vencido e humilhado aos olhos dos menos instruidos
+a salvar o meu nome de uma nodoa litteraria e até certo ponto moral. Se,
+emfim, é justo, se é decente, que membros do clero aggridam de um modo
+illicito, e profanando a sanctidade dos templos e a sanctidade do seu
+ministerio, um homem que sacrificou o proprio orgulho para não rasgar o
+véu de uma fraude dessas, que os hypocritas qualificam de pias, e que eu
+qualificarei de immoraes.
+
+Como Sem e Japhet queria encubrir a falta de pudor de Noé: o sacerdocio
+obrigou-me emfim a ser como Cham. Fizeram-me voltar a face:
+contrangeram-me a descerrar os olhos. Practicaram uma boa obra: devem
+della gloriar-se.
+
+E quem é o homem que os prégadores de Portugal offerecem á execração
+publica, porque não quiz vender a sua alma ao demonio da mentira; porque
+não quiz deshonrar-se e deshonrar com embustes o seu livro? Que vossa
+eminencia me consinta fazer aqui esta dolorosa pergunta á minha
+consciencia; interrogar severamente o meu passado. Tem o clero a
+combater em mim um inveterado e perigoso inimigo? É o seu tão insolito
+proceder um impeto de vingança, que o excita a repellir um perseguidor
+implacavel? Ha quinze annos que trabalho na imprensa, e senão por merito
+proprio, ao menos por circumstancias, que não importa aqui recordar,
+muitas das paginas avulsas que tenho deixado após mim na carreira da
+vida se derramaram por todos os angulos do paiz, penetraram aonde livros
+e jornaes de mais alto pensar nunca haviam chegado, e talvez nunca
+depois chegaram. Haverá nessas pobres paginas alguma cousa que possa
+incitar a colera sacerdotal? Como procedi eu sempre ácerca da igreja e
+do clero? As idéas do seculo, recalcadas por uma compressão violenta, a
+que, força é confessá-lo, a maioria do sacerdocio se havia associado,
+tinham reagido violentamente, e assentavam-se triumphantes sobre as
+ruinas do passado quando eu entrei no campo da imprensa, no campo das
+batalhas do espirito. De roda de mim jaziam os fragmentos da sociedade
+que fora, e no meio delles o clero, disperso, empobrecido, cuberto de
+affrontas, experimentava as consequencias do predominio de um partido
+adverso e irritado. A situação da igreja portuguesa nessa epocha, e
+sobretudo a situação dos regulares, sabemos todos qual era. Foram
+feridas de que, porventura, ainda mais de uma goteja sangue. Os homens
+das velhas opiniões politicas, no meio do terror, vergados pelo
+desalento de uma quéda tremenda, duplicadamente dolorosa pela
+desesperança, calavam. Nem uma voz amiga se alevantava nesta terra de
+Portugal a favor da igreja batida pela tempestade. Ainda então esse
+grupo de mancebos cheios de talento, de inspirações grandiosas e de
+crença fervente na liberdade humana, e pela liberdade na eterna justiça;
+essa phalange, no meio da qual todos os dias apparecem novos soldados, e
+que não se envergonha de Deus nem do seu Christo, não tinha ainda
+começado a surgir para ser generosa, amplamente generosa, com os
+adversarios das suas idéas, quando a desventura os sanctifica. Na
+imprensa liberal, revolucionaria, impia, como quizerem chamar-lhe, eu,
+só eu, tive por muito tempo palavras de affeição e consolo para a
+desgraça; só eu tive animo para accusar os homens do meu partido
+d'espoliadores e d'insensatos; para tentar revocá-los á poesia do
+christianismo, do eterno alliado da liberdade. A voz que do campo do
+progresso saudava o templo enlutado e deserto era debil, mas sincera: a
+mão que se estendia para amparar o sacerdote curvado sob o peso da
+agonia era bem pouco robusta, mas era leal! Como Yorick guardava a caixa
+do pobre franciscano entre os symbolos da sua religião de affectos, eu
+guardo para mim, e só para mim, mais de um papel escripto por mãos
+trémulas de velho monge, e talvez regado por lagrymas, em que se
+reconhecia a possibilidade de haver um homem das novas idéas que não
+fosse absolutamente um malvado. É sobre estas reliquias que eu quero
+encostar a cabeça para dormir tranquillo o ultimo e longo somno em que
+todos devemos repousar. Não receiem pois os que me chamam hoje impio e
+herege, que eu os envergonhe com o testemunho dos que valiam mais do que
+elles, dos verdadeiros martyres do passado. São cousas queridas e
+sanctas para mim. Estejam certos de que não as prostituirei jámais.
+
+Depois, pouco a pouco, foi-se estabelecendo nos animos uma reacção
+salutar: começou-se a sentir que o templo e o sacerdote eram importantes
+elementos de paz, e que podiam ser instrumentos de liberdade. Vieram
+outros pelejadores, todos mais fortes e déstros, combater na arena onde
+por tanto tempo eu me tinha achado só. Não foi de certo a minha
+influencia litteraria que trouxe este resultado. Trouxe-o o progresso da
+razão humana, a força irresistivel da verdade. Entretanto, parece que,
+retirando-me do posto que defendera com os limitados recursos que Deus
+repartira comigo, merecia do clero, por si e pela igreja, um _vale_ de
+paz.
+
+Em logar disso tenho a guerra, acerba, covarde, atraiçoada. Porque?
+Porque trouxe para o campo da historia o mesmo amor da verdade singela,
+que tinha mostrado n'uma das mais graves questões sociaes.
+
+Não me arrependo do que fiz. Cumpri um dever que me impunham Deos e a
+minha consciencia. Não espero arrepender-me do que faço. Cumpro uma
+obrigação litteraria, e estou certo de que bem mereço da terra em que
+nasci escrevendo a verdade.
+
+Sabe vossa eminencia sobre que eu hesito? É sobre a legitimidade
+absoluta das minhas queixas; é sobre se, no que supponho um dever
+d'honra, não haverá um pouco da obcecação da vaidade.
+
+Quando Roma, que parece ter jurado nas aras de Jupiter Stator o
+exterminio do catholicismo, crucifica no seu _Index_ nomes como os de
+Chateaubriand e Lamartine; nomes como os de Gioberti e Ventura, terei
+eu, verme que passo á sombra do meu nada, direito de offender-me porque
+de pulpitos obscuros, n'um canto obscuro da Europa, alguns clerigos maus
+ou ignorantes lançam sobre mim o vilipendio das suas palavras?
+
+Quando a igreja, envolvendo a fronte no véu da sua immensa tristeza, e
+sentindo humedecer-lhe os pés o sangue humano vertido pelo ferro
+sacerdotal, contempla atterrada o futuro, ha dor de individuos a que
+seja licito um brado?
+
+Cerrarei aqui o discurso, porque temo ir mais longe do que eu quizera.
+Permitta-me vossa eminencia que conclua fazendo um voto, ao qual sei que
+vossa eminencia se associa, bem como os outros prelados de
+Portugal:--Oxalá venha em breve o dia em que o clero d'este paiz possa
+receber uma educação digna do seu elevado destino, e conhecer, por
+estudos severos e bem dirigidos, que o ser christão não é ser nem
+hypocrita nem fanatico.
+
+
+
+
+II
+
+CONSIDERAÇÕES PACIFICAS
+
+SOBRE O OPÚSCULO EU E O CLERO
+
+
+AO REDACTOR DA NAÇÃO
+
+(_Julho, 1850_)
+
+
+A necessidade de reprimir o abuso do ministerio do pulpito que contra
+mim se estava practicando obrigou-me a dirigir a sua eminencia o
+Patriarcha de Lisboa uma carta, na qual, sem faltar á consideração
+devida ao prelado da diocese, nem aos outros bispos do reino, entendi
+que cumpria usar de uma linguagem severa, mas justa, para com a maioria
+do clero. Habituado a patentear livre e singelamente as minha opiniões
+ácerca dos homens e das cousas, não soube nem quiz buscar rodeios, ou
+adoçar as phrases para me exprimir de modo menos aspero n'uma questão
+que me respeitava pessoalmente, e em que até certo ponto estava
+compromettido, não só o meu caracter litterario, mas tambem, o que mais
+importa, o meu caracter moral. Toda a imprensa periodica, politica e não
+politica, sem distincção de partidos, foi unanime em condemnar actos que
+me obrigavam a dar um passo a que bem desejaria me houvessem poupado.
+Como os outros jornaes, a _Nação_ reprovou as aggressões inauditas
+perpetradas por uma parte do clero, e toleradas por outra. O
+procedimento de v.. para comigo foi nessa conjunctura tanto mais nobre,
+quanto é certo que a indole do seu jornal deveria talvez levá-lo a
+rebater a opinião de diversas publicações periodicas, se o sentimento da
+justiça não fosse mais forte no animo de v.. do que outras quaesquer
+considerações. É assim que o sacerdocio da imprensa cumpre a sua grave
+missão, e remedeia do modo possivel a decadencia do sacerdocio
+religioso. Continuando, porém, a tractar de uma questão, que, embora
+interessasse um simples e quasi obscuro individuo, era demasiado
+importante pelo alcance e significação dos factos que a haviam
+suscitado, v.. teve a bondade de dirigir-me algumas observações, que me
+pareceu exigirem de mim explicações como christão e como homem de
+letras. Não as dei logo, porque não tardou a annunciar-se publicamente
+uma refutação da minha carta, em desaggravo do clero. Falava-se n'um
+milagre de sciencia e de raciocinio, diante do qual eu teria de fugir
+desalentado como os sarracenos de Ourique diante do da apparição.
+Citavam-se, até, nomes: falava-se em summidades da igreja e da eschola.
+Como entendo que não é bom fugir sem ver de que, esperei que rebentasse
+o temporal. Se fosse por elle submergido, de que aproveitariam as
+explicações dadas a v..? Se, porém, podesse salvar o meu fragil baixel,
+pediria misericordia aos vencedores, e daria ao mesmo tempo a v.. razão
+de mim. Fiquei, portanto, como o sentenciado no oratorio, com o ouvido
+attento ao som que devia annunciar a hora do supplicio. Esta hora,
+todavia, segundo creio, passou. A dizer a verdade, eu alimentava
+esperanças de salvação com um argumento que fazia a mim mesmo. Não é
+provavel, dizia comigo, que um membro do clero illustrado e honesto
+queira vir combater-me no terreno desigual e escorregadio em que a
+imprudencia collocou o sacerdocio, e o vulgo clerical tem impedimento
+dirimente para entrar neste empenho. Para escrever é preciso saber ler e
+ter lido; saber reflectir, e ter reflectido muito. Por este lado podia
+eu estar tranquillo.
+
+É certo que o annuncio feito nos jornaes não foi materialmente vão.
+Appareceu um folheto, que parece ter por objecto refutar-me. Dizem-me
+que é de um mancebo principiante. Revela, sem dúvida, algum talento no
+auctor. Com o tempo, e estudando, este póde vir a ser um escriptor
+soffrivel, e habilitar-se emfim, para tractar d'estas ou d'outras
+questões com honra sua e proveito do paiz.
+
+
+ Non ragioniam di lui, ma guarda, e passa.
+
+
+É pois tempo de me explicar com v.. e fa-lo-hei do modo mais breve que
+me for possivel. Se alguma phrase menos comedida me fugir da penna,
+declaro desde já que a retiro. Dirigindo-me a um escriptor como v.., tão
+urbano nas proprias censuras que me faz, embora sobre tão melindrosa
+materia como o são as cousas da fé, espero que v.. não veja por caso
+algum nas minhas palavras a menor intenção offensiva.
+
+Tres censuras irroga v.. ao conteúdo da minha carta; a primeira contra a
+antithese contida no titulo do opusculo _Eu e o clero_: a segunda contra
+as expressões de _intelligencias vastas e energicas, mas corruptas,
+violentas e cubiçosas_, de que me servi para qualificar alguns papas: a
+terceira contra a phrase, _Roma que parece ter jurado nas aras de
+Jupiter Stator o exterminio do catholicismo_, e contra os terrores que
+attribuo á igreja ácerca do futuro. Considerarei em especial cada uma
+dessas tres censuras.
+
+Diz v.. que me era licito collocar-me em antagonismo com um ou outro
+clerigo, porém não com o clero em geral, por honra e credito meu, que
+nada podia ganhar em lucta tão desigual, e que, a existir, seria a minha
+condemnação. Antes de tudo é necessario observar duas cousas: 1.^a, que
+o antagonismo não o creei eu: resultou de factos practicados pelo clero,
+que tolerei com paciencia durante annos, e que toleraria talvez sempre
+em silencio, se não receiasse que no progresso da aggressão chegassem a
+levantar-me um pulpito diante da porta, para d'ahi me fazerem um sermão
+sobre a sanctidade dos papas da idade média, ou sobre os milagres
+referidos por S. Bernardo: 2.^a, que é pelo opusculo e não pelo seu
+titulo, que se há de avaliar até onde esse antagonismo vai, e se elle é
+legitimo. Não apparece uma unica passagem da minha carta em que eu me
+refira com phrases hostis a _todo_ o clero português. Os homens que ha
+no meio delle illustrados e virtuosos, respeito-os; respeito-os
+duplicadamente pela sua illustração e pelas suas virtudes; pelo seu
+caracter litterario, e pelo seu caracter sacerdotal. Esses não sobem aos
+pulpitos a dizer despropositos; não me querem mal, nem a mim nem aos
+meus pobres escriptos. Ao que eu me contrapús foi ás turbas tonsuradas;
+foi á maioria material e numerica; minoria nos dominios da
+intellectualidade, das idéas, e dos puros e nobres affectos. Faria uma
+offensa gratuita; practicaria uma brutalidade indesculpavel, estaria em
+contradicção comigo mesmo, com as minhas opiniões, se assim, sem motivo,
+sem provocação, tivesse o proposito de maltractar aquell'outra parte do
+clero.
+
+É esta a idéa que ha de resultar da leitura da minha carta para todos os
+animos desprevenidos; para v.. mesmo, se tiver bastante paciencia para a
+reler. Quanto a esses de quem me queixo, não sou eu homem que esconda as
+proprias convicções. Na minha vida litteraria tenho dado mais de um
+documento de que costumo ser sincero. Estou persuadido de que a maioria
+do nosso clero é tal como eu a qualifiquei, e se não fosse a natural
+repugnancia a despedaçar um cadaver, daria aqui as razões da minha
+persuasão. Em todo o caso, acceito inteira a responsabilidade della: não
+tergiverso, não me arrependo. Tenho dicto e escripto muitas verdades,
+senão mais deploraveis, por certo mais perigosas para mim, sem que o meu
+somno deixasse de ser profundo, como o é habitualmente.
+
+Postas as cousas nestes termos, que são os exactos, não me é possivel
+comprehender a affirmativa de v.. de que o meu credito e honra
+padeceriam pelo antagonismo com a maioria do clero, _nessa lucta
+desigual, que envolveria a minha condemnação_. Se v.. viu naquella fatal
+antithese um peccado de orgulho, talvez o seja; mas eu vi nella apenas
+um acto de humildade. Pois, em consciencia, eu não valerei mais,
+litteraria e moralmente, do que um clerigo mau ou insipiente? Mas cem,
+mas mil, mas dez mil clerigos máus ou insipientes, ainda que os fundam e
+os acrisolem, chegarão, acaso, a produzir o equivalente de um homem de
+alguma intelligencia e de alguma honestidade? Não. O resultado de todas
+essas operações será sempre, a meu ver, um _substratum_ de parvoice ou
+de corrupção. Peccado de soberba não creio, portanto, tê-lo commettido.
+Por este lado mal posso ser condemnado. Referir-se-hia, porém, v.. ao
+perigo litterario? Tambem não póde ser. É v.. assaz instruido para
+sentir que por esse lado a lucta me dá tanto cuidado como daria a v.. se
+estivesse no meu logar. É o perigo religioso? A idéa da condemnação
+antes de contestada a lide, e envolvida na proposição da causa, torna
+talvez plausivel esta interpretação. Nessa hypothese, v.. não teria
+advertido n'um facto indubitavel. A maioria do clero português não é a
+maioria do clero catholico: a maioria do clero catholico não constitue
+por si a igreja de Deus. Bem infeliz seria eu se me visse em opposição
+com esta; mas confio em que a Providencia me livrará de cair nesse
+abysmo, não só agora, mas sempre.
+
+Todavia a minha linguagem severa, embora justa e legitima, será
+condemnavel, senão pela substancia, ao menos pelos accidentes? Será
+condemnavel porque vai ferir duramente um grande numero de sacerdotes,
+de homens, infelizmente, ungidos do Senhor? Que v.. me consinta invocar
+em meu auxilio um exemplo acima de toda a excepção. É de um padre da
+igreja, a cujas obras o nosso clero foi tão affeiçoado, que até lh'as
+quiz augmentar, com grande gloria do sancto e proveito destes reinos.
+Alludo a S. Bernardo. As phrases da minha carta são de suprema doçura
+comparadas com as que o celebre cluniacence empregava para qualificar a
+corrupção, não do clero de um paiz, não da maioria desse clero, mas em
+geral do sacerdocio do seu tempo. «_Manou a iniquidade_--dizia S.
+Bernardo--_dos anciãos, dos juizes, dos teus vigarios, oh Deus;
+daquelles que parecem governar o teu povo! Já não é licito dizer_--_tal
+o povo, tal o sacerdocio; porque este é peior. Oh meu Deus, meu Deus! Os
+teus maiores perseguidores são os que mais ambicionam a primazia, e
+exercem na igreja o mando supremo_[1]». E, como se estas acres
+expressões não bastassem, o terrivel benedictino desfecha, n'uma carta
+dirigida, não a algum prelado metropolitano, mas ao proprio Innocencio
+II, na seguinte diatribe: _A insolencia do clero_, a qual nasce da
+indulgencia dos bispos, _turba o mundo e afflige a igreja. Entregam os
+bispos as cousas sanctas_ a cães, _e as pedras preciosas_ a porcos, _e
+elles em paga mettem-nas debaixo dos pés. Assim o quizeram, assim o
+tenham_[2]». Se eu me servisse de semelhante linguagem, imagine v.. que
+matinada se alevantaria contra mim!
+
+Dir-me-ha v.. que S. Bernardo foi um sancto padre da igreja, e eu não
+passo de um peccador e obscuro christão? Assim é. Por isso o segui de
+longe, _non passibus æquis_. Comtudo, v.. não deixará de advertir em
+que, quando elle escrevia essas phrases violentas, era um pobre monge,
+humilde, simples, sem pretensões orgulhosas, sem presciencia de que
+tinha de ser um sancto e um luminar da igreja. E que lhe importava? O
+espectaculo do procedimento do clero arrancou da sua bôca esses brados
+d'indignação, como loucas provocações arrancaram da minha penna palavras
+muito menos violentas.
+
+Já agora consinta-me v.. que cite ainda um veneravel prelado português
+quasi do nosso tempo, a quem tambem tive occasião de alludir na minha
+carta; que recorde as palavras geraes de D. Fr. Caetano Brandão ácerca
+do clero português no principio deste seculo. O metropolita explicava
+n'uma carta a certo ministro d'estado quem era que fazia recair a
+desconsideração sobre o poder pontificio: «_São aquelles_--dizia o
+arcebispo de Braga--_que á força de supplicas importunas, de respeitos
+humanos, e outros motivos_ ainda mais vergonhosos, _costumam extorquir
+da curia romana provisões beneficiaes_, que mais parecem titulos de
+contractos de predios rusticos, do que de beneficios ecclesiasticos;
+_provisões a favor das quaes tem infestado as parochias e córos_
+(collegiadas e cabidos) de todo o reino _uma tropa confusa de_ sujeitos
+indignos, etc.[3]». Que se leia inteira a passagem impressa daquella
+carta, e ver-se-ha se foi o arcebispo, se eu, quem usou de mais
+desabrida linguagem.
+
+Apesar disso, suas reverencias hão de tolerar-me a crença de que não
+estão no inferno nem a alma de D. Fr. Caetano Brandão, nem a de S.
+Bernardo.
+
+Ainda algumas palavras sobre o antagonismo, em que de nenhum modo v.. me
+quer ver collocado, em relação á maioria do clero. Foram apenas alguns
+que me provocaram do pulpito, e eu chamo á autoria o grande numero. É
+verdade. Não sei com certeza senão de alguns factos de aggressão, mas a
+noticia de parte d'esses factos obtive-a casualmente: alguns
+constaram-me apenas, porque um jornal a elles alludiu de passagem,
+dizendo que se practicavam por diversos logares de Entre-Douro e Minho.
+É acaso provavel que se não repetissem por outras dioceses? Em Lisboa,
+onde eu resido, onde os sacerdotes podem ter mais illustração, onde,
+até, o fanatismo deve ser mais raro, porque a propria fé é mais tibia,
+onde, emfim, os prégadores mais devem receiar que o seu auditorio se ria
+delles, houve dous exemplos. Não me será licito inferir que, não tendo
+eu uma policia ás minhas ordens, ignoro muitos successos analogos?
+Depois, houve, á vista desses factos repetidos, não digo punição de
+semelhante abuso do ministerio sagrado, o que não peço, o que até me
+contristaria, porque me lembro das palavras de Christo «_Perdoa-lhes
+Pae, que não sabem o que fazem_, mas a minima providencia para impedir a
+renovação de taes escandalos? Para que servem os vigarios da vara, os
+arcediagos, os representantes ou delegados do poder episcopal? Como
+informam os respectivos prelados do que se passa entre o clero
+diocesano? Não tenho eu direito de suppôr que elles tambem entendem que
+a sanctidade dos papas da idade média ou o apparecimento de Ourique são
+partes integrantes da crença catholica, e que se trepassem ao pulpito, e
+lhes viesse a talho, me chamariam do mesmo modo impio ou herege? Se não
+estão de accordo com os prégadores, como se esquecem de que os padres de
+Trento prohibiram aos bispos que consentissem aos oradores sagrados
+_divulgar ou tractar factos incertos, ou que tenham caracteres de
+falsidades_[4], e de que os do concilio 1.^o de Colonia ordenam aos
+mesmos oradores que _não falem imprudentemente de milagres, limitando-se
+aos que refere a Biblia, ou aos que forem narrados por escriptores de
+peso, estribados em solidos fundamentos historicos_[5]? Como quer pois
+v.. que eu não increpe o maior numero e que não o supponha alistado
+contra mim nesta vergonhosa cruzada d'ignorancia?
+
+Passando ao segundo capitulo de accusação, sinto verdadeira magoa em ser
+constrangido a dizer que v.. leu menos attentamente o que escrevi ácerca
+dos papas na minha carta ao eminentissimo senhor Cardeal Patriarcha.
+Qualifiquei ahi de intelligencias vastas, energicas, mas corruptas,
+violentas e cubiçosas, alguns delles que se chamaram Gregorio,
+Innocencio ou Honorio, e v.. reprehende-me por classificar como taes
+Gregorio VII e Innocencio III!? Onde me refiro eu a estes dous papas no
+meu opusculo? Na epocha abrangida pelo que se acha publicado da Historia
+Portugal houve diversos pontifices desses nomes. A cada um delles fiz,
+creio eu, justiça, e Gregorio VII foi aquelle em que menos falei, porque
+viveu antes de nascer a monarchia. É singular como v.. pôde perceber
+que, entre tantos, alludi a esses dous em particular! Não teria eu
+direito de dizer, que uma voz da propria consciencia trahiu e tornou van
+a benevolencia para com elles manifestada nas palavras de v..? O que me
+parece indubitavel é que alguma convicção historica preoccupava o
+espirito de v.. quando nas minhas expressões vagas e geraes viu um
+ataque directo e especial á memoria daquelles homens extraordinarios,
+cujos meritos não neguei, nem tenho empenho em negar.
+
+Entretanto não pense v.. que com isto pretendo lançar fóra de mim a
+responsabilidade de julgar severamente Hildebrando ou Innocencio III.
+Não tenho a minima dúvida em lhes applicar as designações de
+intelligencias violentas e cubiçosas, como não a tenho em chamar
+corruptos a outros papas, como, por exemplo, a Innocencio IV. É verdade
+que v.. cobre Hildebrando com a egide da canonisação, e Innocencio III
+com a da sua sciencia e litteratura. Mas nem vejo que a sciencia e
+litteratura sejam synonimos de virtude, nem creio que uma canonisação
+constitua dogma de fé, e obste á liberdade do historiador para avaliar
+como entender os caracteres historicos. V.. sabe perfeitamente que,
+fundando-se as canonisações em provas humanas, e não em factos
+revelados, as decisões pontificias a tal respeito são sempre falliveis,
+o que bem se manifesta da oração que ainda no seculo XIV os papas faziam
+na solemnidade das canonisações, pedindo a Deus permittisse que não se
+houvessem enganado. Esta doutrina é corrente, e v.. não a ignora, nem
+poderia ignorá-la[6].
+
+Recorda-me v.. que os escriptores protestantes fazem a estes dous
+pontifices a justiça que merecem. Tambem eu a fiz, ao menos como a
+entendi, a elles e aos seus successores, e sobretudo ao papado, em mais
+de um logar do meu livro. Ninguem admira mais do que eu os progressos
+que a civilisação lhes deve. Dos historiadores protestantes modernos não
+conheço nenhum mais celebre, dos que exaltam Gregorio VII, do que o
+professor Leo. Mas, para isso, elle proprio sentiu a necessidade de se
+valer exclusivamente da idéa em que se resume a historia do progresso
+humano. Esta idéa é a _lucta do espirito com a sua manifestação, com a
+fórma, com a materia; o desenvolvimento do raciocinio predominando no
+meio da força do acaso_[7]. Elle vê-a representada, incarnada, digamos
+assim, em Gregorio VII e nos seus immediatos successores, na indole e
+tendencias desses individuos; eu vejo-a no papado, na indole da
+instituição. É inquestionavel que nenhuns pontifices levaram mais longe
+a manifestação da idéa, e em philosophia historica os defeitos desses
+papas desapparecem, quando se considera a maneira _vasta e energica_ por
+que elles desempenharam a missão providencial do papado n'aquella
+epocha. Todavia, na apreciação _moral_ dos seus actos como individuos, é
+por outros principios que devemos regular-nos. Tanto o professor Leo
+conhecia que Gregorio VII ficava mal collocado a essa luz, que a excluiu
+da historia «_No mundo dos phenomenos_--diz elle--_a luz da verdade não
+se derrama sobre uma face unica, mas reparte-se por todas. Não são os
+phenomenos individualmente que constituem a verdade, mas sim o complexo
+delles_.» Para avaliar o pontifice como representante e typo da
+instituição, a regra é exacta; para o avaliar como homem, não; porque a
+_intenção_, a causa moral dos actos, é necessaria para a apreciação
+abstracta de um caracter. A suberba, a ambição e até a cubiça de
+Gregorio VII estão pintadas nos factos a que accidentalmente me referi
+n'um logar do meu livro[8]. Destruam, se é possivel, documentos
+irrefragaveis.
+
+Queremos, porém, saber, por testemunho insuspeito, qual era essa
+intenção moral, qual o caracter de Hildebrando? Ouçamos um seu
+contemporaneo, um sancto padre. Tenho gosto especial em citar nestas
+cousas os sanctos padres. São respeitaveis auctoridades! «_De
+resto_--diz um delles--_rogo humildemente ao meu S. Satanaz que não se
+enfureça tanto comigo, e que a sua veneranda suberba não me fustigue com
+tão longa flagellação_[9]».
+
+De quem se escrevia isto? Do cardeal Hildebrando. Quem o escrevia? Um
+pobre velho: S. Pedro Damião n'uma carta dirigida a Alexandre II e ao
+proprio cardeal. Verdade é que não sabía quão grande sancto havia de vir
+a ser o seu _S. Satanaz_. Nessas palavras amargas do veneravel monge
+está explicada a actividade irresistivel com que Gregorio VII proseguiu
+na lucta gigante entre o espirito e a materia. Superior
+intellectualmente aos outros homens, a ambição de os dominar a todos
+fê-lo até negar a realeza, não só como facto, mas tambem como principio.
+Houve, ha hoje um democrata mais virulento do que Hildebrando? Não o
+creio. V.. conhece por certo uma passagem singular das suas cartas.
+«Que!--diz elle--uma dignidade inventada pelos homens do seculo (a dos
+principes) não estará sujeita á que Deus estabeleceu para gloria
+propria? Quem não sabe que os reis, que os chefes procedem dos principes
+pagãos, os quaes por instigações do diabo, _que é o verdadeiro principe
+do mundo_, movidos por cega paixão e levados por intoleravel presumpção,
+_usurparam o poder supremo sobre os seus iguaes_, pondo por obra, com
+esse intuito, a rapina, a perfidia, o homicidio, em summa quasi todos os
+crimes?[10]» Não lhe parece a v.. que se hoje Hildebrando resuscitasse,
+o tinhamos presidente da republica democratica e social? Veja v.. o caso
+que o sancto varão fazia do famoso texto biblico: _Per me reges
+regnant._ Dir-se-hia que tinha lido: _Per diabolum reges regnant._
+Podemos nós os monarchistas (embora o sejamos por differente feitio)
+acceitar as idéas do celebre S. Satanaz? Não ha nessas idéas um orgulho,
+uma intolerancia para com os poderes da terra, que não
+comprehenderiamos, talvez, hoje, se não tivesse vivido no nosso seculo
+uma intelligencia igualmente _vasta e energica_, chamada Napoleão
+Bonaparte?
+
+Vamos ás ultimas censuras de v.. em que me parece não ter mais razão do
+que nas primeiras. Diz v.. que Roma, _significando o poder pontificio_,
+não póde jurar o exterminio do catholicismo. Que!?--Pela palavra Roma
+não se póde entender senão o poder pontificio, não se póde significar
+senão o papa? V.. ha de permittir-me que eu recorra ainda uma vez a S.
+Bernardo para me salvar da condemnação eminente. Nesta contenda, não sei
+porque, o meu espirito recorda-se a cada momento daquelle illustre padre
+da igreja. Falando das horriveis desordens que produziam as appellações
+para o papa, e alludindo a dous bispos allemães carregados de crimes,
+que, tendo appellado para Roma e levando comsigo bastante dinheiro,
+haviam sido repellidos nas suas pretensões e offertas, S. Bernardo
+exclama: «_Grande novidade! Quando até o dia de hoje rejeitou Roma
+dinheiro?_[11]» Note-se que o sancto vivia no seculo immediato ao
+governo de Hildebrando e que S. Bernardo dirigia o discurso ao papa
+Eugenio III, que frequentemente louva, e a quem, por certo, não
+pretendia affrontar. Que significa pois a palavra _Roma_ na bôca do
+grande abbade de Claraval? A curia romana; essa curia, onde, segundo a
+opinião do severo cluniacense, «_era mais facil entrar honesto, do que
+tornar-se lá homem de bem_[12]»; essa curia que me obrigaria a encher
+paginas e paginas de citações se quizesse colligir as passagens
+relativas ao seu desprezo por todas as leis divinas e humanas, quando se
+tractava de receber ouro, passagens que se encontram ás dezenas nos
+escriptores mais respeitaveis, e onde se memoram, até, versos das
+cantigas populares contra a cubiça da curia, o que prova ter-se tornado
+proverbial a corrupção de Roma[13].
+
+Mas concedamos que, ultrapassando além da curia romana, eu tivesse em
+mente o pontifice. Como homem, como principe temporal, os seus actos
+publicos são do dominio da imprensa; se esses actos pelos seus effeitos
+moraes e politicos poderem trazer graves turbações, dias de amargura á
+igreja, não é licito a todo e qualquer christão deplorar essas
+consequencias, reprehender esses actos? Quando eu digo que Roma _parece_
+ter jurado o exterminio do catholicismo, accuso o papa, a curia, alguem
+de ter a intenção directa de o destruir? Ou eu não sei português, ou
+empreguei uma phrase trivial, cujo alcance todos comprehendem. Que se
+diz do valetudinario que despreza os conselhos dos medicos? _Parece que
+se quer matar!_ E quando dizemos isto passa-nos acaso pelo espirito a
+idéa de attribuir a esse individuo a intenção directa do suicidio? Ou
+será que as expressões simples, as phrases innocentes dos outros homens
+se convertem em peste e veneno, quando saem da bôca do feroz herege que
+ousou duvidar do testemunho posthumo, e bem posthumo, de S. Bernardo
+ácerca do milagre de Ourique?
+
+Em que tempos estamos nós? Para onde caminha a reacção religiosa? Que!?
+Eu não poderia apreciar como entendesse o procedimento politico de um
+papa, em relação aos futuros destinos da igreja, e S. Thomás de
+Cantuaria poderia sem ser um reprobo lançar em rosto a Alexandre III as
+gravissimas accusações de o trahir, e de querer conduzi-lo á morte[14]?
+Poderia S. Thomás de Aquino, o mais profundo philosopho do seculo XIII,
+ao observar-lhe Innocencio IV que tinha passado o tempo em que S. Pedro
+dizia «_não possuo nem ouro nem prata_»--responder-lhe «_que tambem era
+passado o tempo em que S. Pedro dizia ao paralitico--levanta-te e
+anda_[15]» epigramma pungente atirado ás faces de um papa, cuja cubiça
+não conheceu limites; poderia, digo, S. Thomás ser um doutor da igreja,
+depois deste attentado? Podia sequer ser papa o successor do mesmo
+Innocencio, Alexandre IV, que lhe chamava o _vendilhão de igrejas_[16]?
+Riscae do catalogo dos bemaventurados S. Antonino de Florença, que não
+duvidou de pintar com as mais negras côres os vicios hediondos de
+Clemente V[17]. Não chameis o ultimo padre da igreja a Bossuet, porque
+taxou de velhaco o papa Eugenio IV[18]. Rejeitae do gremio catholico o
+erudito e pio Fleury, porque escreveu o 4.^o discurso sobre a historia
+Ecclesiastica. Para serdes logicos despovoae a igreja de sanctos, de
+doutores, de homens illustres, se credes que, dentro della, eu, que não
+sou nenhuma dessas cousas, não tenho direito de aferir pelos principios
+eternos da moral, da justiça e da caridade evangelica as acções dos
+papas sem renegar da igreja.
+
+Não disputarei com v.. sobre os successos de Roma nos ultimos tempos.
+Cada qual póde vê-los á luz que julgar verdadeira. Ao que, porém, eu
+tenho jus é a averiguar se é exacta a proposição absoluta de v.., de que
+o futuro da igreja é muito sabido, claro e indisputavel _para os
+catholicos_. Por este modo v.. parece excluir-me do gremio do
+catholicismo, porque hesito sobre o seu futuro. Advertiu acaso v.. em
+que a proposição assim absolutamente enunciada, conduziria ao
+impossivel? O que é certo, sabido e claro para a igreja, e para cada um
+dos seus membros, é que ella será perpetua, indestructivel. Mas por
+quaes phases tem de passar; se a esperam dias serenos, se dias de
+tribulação; se acres resentimentos, imprudentemente preparados, virão ou
+não como a procella despir a folhagem, lascar os troncos da arvore
+eterna do christianismo, eis o que nem a igreja, nem eu, nem v..
+sabemos. Está acaso v.., que eu creio profundamente catholico,
+habilitado para me dizer de um modo _certo e claro_, se a idea
+revolucionaria da Italia apodreceu para sempre encharcada no sangue que
+as balas e bayonetas francesas e austriacas derramaram á voz da curia
+romana? Se a politica das masmorras, dos desterros, da compressão
+inexoravel, preferida á politica evangelica da tolerancia, do perdão das
+injurias, da caridade sem limites, poderá varrer para sempre dos animos
+italianos o odio do dominio estrangeiro (quer directo quer indirecto) e
+o amor da liberdade politica? Esse odio e esse amor póde v.. julgá-los
+legitimos ou illegitimos: não disputarei sobre isso. Mas que elles não
+existam; que elles não possam triumphar algum dia, eis o que v.., por
+certo, não affirmará com a mão na consciencia. E nessa hypothese, quem
+saberá dizer até onde chegarão os excessos da colera e da vingança,
+azedadas pelo padecer, e até certo ponto legitimadas por elle, se
+legitimidade se póde dar em taes sentimentos? Parece-me que ao homem
+catholico é licito imaginar, sem que por isso vacille a sua fé ácerca da
+perpetuidade do catholicismo, que a igreja se entristece, ou deve
+entristecer, aterrada pelo porvir; é licito suppôr que as lagrymas dos
+seus futuros martyres vem já de antemão cair-lhe ardentes sobre o seio
+materno. Se attribuir ao gremio dos fiéis, composto de homens, os
+affectos de dor e amargura desdiz de alguma cousa, não é, de certo, das
+tradições evangelicas, nem das tradições dos antigos padres. Já no
+seculo IV S. Hilario de Poitiers observava quão frequente era pintar-nos
+o evangelho como triste e afflicto o Filho de Deus[19]; e S. Gregorio
+Magno não duvidava de dizer: «_A sancta igreja, emquanto vive esta vida
+de corrupção, não cessa de chorar os damnos das vicissitudes por que
+passa_»: e n'outra parte: «_A dor esmaga a igreja quando vê os perversos
+prosperarem na propria maldade_»[20]. É dessas vicissitudes a que allude
+o sancto pontifice que eu falo; é a essas vicissitudes, demasiado
+provaveis, que os erros dos homens, as paixões anti-christans do
+sacerdocio triumphante ajunctam, nas minhas previsões, um caracter de
+terribilidade.
+
+Tenho dado razão de mim. Diz v.. que poderia accrescentar mais. Sinto
+que o limitado espaço de uma folha periodica, ou outro qualquer motivo,
+o inhibisse de assim o practicar. Gósto de ser advertido dos erros em
+que caio, quando é a sciencia e o talento quem se incumbe deste mister,
+e certifico a v.. de que facilmente me retractaria, se nas suas
+ulteriores observações v.. me convencesse de que eu errava. Á ignorancia
+presumida, ou á insolencia estupida, é que não costumo fazer a honra de
+responder. Quanto a esta questão, que não suscitei, e que até deploro,
+ella terminou para mim. Que os hypocritas façam visagens beatas contra a
+minha impiedade; que me proclamem herege ou o que elles quizerem, cousas
+são essas com que nenhum homem de juizo se afflige, porque as assaduras
+inquisitoriaes, mercê de Deus, acabaram para sempre. A raça dos escribas
+e phariseus, o peior flagello que Christo encontrou na terra, e que elle
+mais cordealmente amaldiçoou, é immortal e immutavel; mas deixá-la
+viver. Quem diz ao sapo:--«não sejas asqueroso?»--Quem diz á
+vibora:--«não sejas peçonhenta?»--Babem e mordam; é o seu destino,
+coitados!
+
+O que não tolerarei é que me chamem de novo, a mim ou aos meus
+escriptos, a figurarmos no meio das parvoices sacrilegas com que se
+deshonram os pulpitos. Que os prelados façam ou não o seu dever a este
+respeito, pouco me importa. Estejam certos de que não será a suas
+excellencias que pedirei desaggravo.
+
+
+
+
+III
+
+SOLEMNIA VERBA
+
+
+AO SR. A. L. MAGESSI TAVARES
+
+(_Outubro, 1850_)
+
+
+
+ Porque virá tempo em que muitos homens não soffrerão a san
+ doutrina; mas..... accumularão para si mestres conforme aos seus
+ desejos:
+
+ E assim apartarão os ouvidos da verdade e os applicarão ás fabulas.
+
+ _S. Paulo, Epistola II a Thimoteo c. 4. v. 3, 4._
+
+
+Permitta-me v.. que, sem existirem entre nós outras relações que não
+sejam aquellas que fortuitamente nascem entre os homens de letras quando
+se encontram no campo da imprensa, eu dirija, por essa mesma imprensa,
+uma carta a v..
+
+Esta carta será um pouco extensa. Será talvez seguida de outras. Não o
+sei ainda. N'uma questão litteraria, a meu ver de bem pouco valor, que o
+procedimento de alguns individuos da ordem sacerdotal converteu n'uma
+contenda que não sei até onde chegará, v.. fez-me a honra de ser meu
+adversario, escrevendo dous opusculos em que combate as minhas opiniões
+n'um, ou para melhor dizer, em alguns pontos d'historia patria.
+Naquelles dous opusculos, escriptos em diversas epochas, v.. se houve
+sempre para comigo com a nobreza de um cavalheiro, e com a cortesia de
+um espirito cultivado. Póde haver ahi uma ou outra expressão mais viva,
+que feriria certas vaidades demasiado mimosas; se, porém, as ha, não me
+feriram a mim, endurecido já nestes recontros, e que tambem não sou dos
+menos sujeitos a ceder ás vezes aos impulsos da vivacidade.
+
+No meio dos que me tem combatido, v.. representa a meus olhos a parte
+san, os homens sinceros do gremio, da eschola, do partido (como quizerem
+chamar-lhe, porque os nomes importam pouco) a que v.. pertence.
+Representa, digo, essa parte, postoque, e ainda bem que assim é, não a
+resuma. Igual testemunho devo deixar aqui, se os meus escriptos tem de
+viver mais algum dia que eu, ácerca dos Redactores do jornal _A Nação_.
+Meus adversarios tambem, não recebi delles na impugnação das minhas
+doutrinas, senão provas de consideração e de urbanidade.
+
+Consinta, pois, v.. que, alargando a orbita em que quiz encerrar-se no
+seu ultimo e recente opusculo, eu fale, dirigindo-me a v.., com esses
+homens probos e leaes que estimo e respeito, embora julgue erroneas,
+deploraveis até, as suas opiniões n'uma contenda, que, não por minha
+culpa, vai tomando na imprensa portuguesa uma direcção fatal. Deus
+queira que os imprudentes que lhe deram origem não tenham de chorar a
+sua loucura com lagrymas amargas!
+
+Sería bem triste que essa porção de compatricios meus em cujos corações
+o amor do passado é um sentimento puro, postoque, a meu ver, ás vezes se
+manifeste de modo pouco reflectido, me cressem traidor á sancta causa da
+patria. Se os erros de nossos paes e os erros de todos nós os que
+vivemos, erros que nos trouxeram a uma situação que não posso, que não
+quero definir aqui, fizerem algum dia com que o velho Portugal, ameaçado
+na sua independencia e nacionalidade, brade por todos os seus filhos
+para um esforço supremo, para o salvarem ou para morrerem, espero em
+Deus, e depois de Deus na minha consciencia, que, sem crer no milagre de
+Ourique, não serei o ultimo a acceitar esse terrivel convite. O passado!
+Quem mais o amou do que eu nesta terra? Quem volveu nunca os olhos com
+mais saudade para as suas tradições? Mas as tradições de que tenho
+saudade; mas o passado que eu amo, não o são essas lendas absurdas
+(desculpe v.. o epitheto, que espero justificar) inventadas por
+interesses mundanos, dos quaes, por mais graves que sejam, nem a
+philosophia nem o christianismo consentem se faça o céu instrumento. Nos
+tempos que foram o que me sorri, não só como saudade, mas (porque não
+direi agora o que hei-de dizer mais largamente um dia?) tambem como
+esperança, são as tradições dessa liberdade primitiva, postoque
+incompleta, filha primogenita do evangelho, que elle gerara para mãe,
+para abrigo das sociedades da Peninsula; dessa liberdade, rude e
+turbulenta como uma creança educada á lei da natureza, mas como ella
+robusta e viçosa; dessa liberdade que se estribava nos habitos, que
+resultava de instituições positivas e exequiveis, e não de instituições
+copiadas quasi ao acaso da primeira theoria que tivesse transposto os
+Pyreneus; dessa liberdade que tornava a monarchia uma cousa sancta,
+necessaria, indestructivel, e que a monarchia, por desgraça sua e nossa,
+foi lentamente esmagando debaixo do seu throno, formado dos infolio,
+politicamente fataes, do Digesto, do Codigo e das Glossas e Commentarios
+das escholas d'Italia; dessa liberdade, que, desenvolvida e organisada
+logicamente com a sua origem, nos teria poupado talvez á gloria immensa,
+mas para nós mais que esteril, de nos convertermos em victimas da
+civilisação da Europa, de revelar o Oriente á sua cubiça, para logo
+virmos assentar-nos extenuados n'um occaso de tres seculos; dessa
+liberdade que nos teria salvado por certo de um longo estrebuxar em
+esforços impotentes de emancipação, que tomámos como licções
+d'extranhos, e que era mais velha para nós do que o era para elles.
+Eis-aqui a maravilha, melhor que milagres imaginarios, na qual não só
+creio, mas tambem espero.
+
+Peço a v.. e aos animos honestos que pensam como v.. se persuadam de que
+o homem que não admitte certas narrativas infundadas, nem por isso deixa
+de ser bom português, e que, se não está excessivamente inclinado a
+adorar o Deus de Ourique, nem por isso deixa de crer em Deus.
+
+Com elles, com v.. a discussão grave, pausada, modesta, é possivel; é
+mais, é uma necessidade do espirito, em que este se sente viver da vida,
+a elle tão congenita, do raciocinio. Mas como replicar seriamente a
+homens, não só ignorantes e ineptos, do que elles não tem culpa, mas que
+falsificam, truncam, omittem as palavras do adversario, que lhe alteram
+as ideas, que, mettidos no charco mais fetido dos becos da Alfama ou do
+Bairro Alto, atíram ás faces do _impio_ que passa quanto lodo lhes cabe
+nas mãos, contrahidas e convulsas pela colera? A taes desgraçados que se
+póde fazer, senão dar-lhes a triste celebridade dos Cotins ou dos freis
+Gerundios, e enviá-los á geração futura, envolvidos no sudario do
+escarneo, para lhe distrahir os tedios?
+
+Se as expressões, talvez severas e acres em demasia, que me escaparam
+n'um impeto de indignação contra a maioria do nosso clero, e não contra
+os homens honestos e instruidos que pertencem a essa classe, como sem
+pudor se inculca, não estivessem justificadas pelos actos que as
+suscitaram, as consequencias do meu escripto tê-las-hiam remido. Dos que
+me impugnaram, foi aos seculares que coube a moderação, a lealdade, e a
+elevação dos pensamentos; foi a sacerdotes que couberam as manifestações
+de odio incrivel[21], a transfiguração das minhas ideas, e a linguagem
+sem nome das prostitutas. Isto é significativo. É que esses seculares
+nunca tinham trajado a roupeta, usada a cubrir mais hypocritas e
+devassos ignorantes do que varões religiosos e sabios: tinham, sim,
+vestido a farda de soldado, costumada a despertar tantas vezes nobres e
+grandes instinctos. E que me importam a mim esse odio impotente, essa
+linguagem vergonhosa? O que o futuro ha-de deduzir delles sei eu; sabe-o
+v.. As ameaças, que ahi se murmuram pelos cantos, essas causam-me dó. Se
+ao poder publico faltasse a força para manter illesa a segurança dos
+cidadãos, devolvia-se a estes o direito da propria defesa. Mas os
+Jacques-Clementes não apparecem senão onde a sinceridade das convicções
+degenerou em delirio, e não onde as crenças são especulação. Para ser
+Jacques-Clemente requer-se mais alguma cousa do que saber assassinar; é
+necessario saber morrer.
+
+Entrarei na materia.
+
+Na questão suscitada pelo modo como tractei na Historia de Portugal a
+lenda de Ourique, e ainda outras lendas analogas, é necessario confessar
+que se tem partido sempre de um ponto nebuloso e fluctuante. Para se
+chegar a um resultado preciso era necessario ter convindo em certo
+numero de principios, acceitar certas formulas de raciocinio. Não se fez
+isso. E todavia, a crítica historica tem regras para a credibilidade,
+regras a que todo aquelle que tracta de taes materias deve sujeitar-se,
+porque se estribam, não só na acceitação dos homens de sciencia, mas
+tambem na razão commum. Estes preceitos são no nosso seculo, em que os
+estudos historicos têm feito na Europa tantos ou mais progressos que as
+outras sciencias, assaz severos; mas essa severidade começou a
+desenvolver-se desde os fins do seculo XVII, em que a congregação de S.
+Mauro, aquelle brilhante seminario de homens illustres, creou a
+diplomatica. O estudo dos archivos, estudo alumiado pela philosophia
+crítica, mostrou quanto havia a desprezar nessas vastas compilações de
+trabalhos historicos dos seculos anteriores. É de S. Germão dos Prados,
+de S. Brás da Selva Negra, e dos outros mosteiros benedictinos da França
+e da Allemanha, que partiu o movimento intellectual da Europa nesta
+parte do saber humano. O que o seculo presente, amestrado por maior
+experiencia, tem feito é apertar mais as condições da credibilidade,
+evitando ao mesmo tempo todo o genero de preoccupação que possa proceder
+dos interesses de partido politico ou da incredulidade em materias de
+religião; é tambem o ter dirigido as indagações historicas mais para o
+estudo da indole das sociedades, do que para os actos dos individuos.
+Não nega as tradições da antiga sciencia; completa-as, aperfeiçoa-as. No
+exame dos monumentos, na sua confrontação, tem dado exemplos de
+imparcialidade e de paciencia, que mereceriam os applausos dos grandes
+reformadores benedictinos, se podessem contemplar os resultados da
+eschola que elles crearam, embora a sciencia moderna, como era natural,
+os tenha deixado bem longe de si. Os doutos que têm comparado os
+_Monumenta Germaniæ Historica_ de Pertz, os _Monumenta Historiæ Patriæ_,
+publicados em Turin, a Collecção dos Archivos d'Inglaterra, a
+continuação dos _Scriptores Rerum Francicarum_, e emfim as demais
+publicações desta ordem com o que os maurienses nos deixaram nesse
+genero, sabem que passos gigantes tem dado a crítica das fontes
+historicas. O uso dessas fontes, a applicação dos preceitos a ellas, tem
+produzido historiadores como Ranke, Guizot, Eichhorn, Savigny, Amári,
+Maccaulay e tantos outros que a Europa inteira conhece e admira. É a
+estes typos que hoje forçosamente ha-de tentar aproximar-se quem
+escrever historia, se não quizer deshonrar-se e deshonrar a litteratura
+do seu paiz. Foi essa aproximação que eu tentei, persuadido de que bem
+merecia por isso da terra em que nasci. Se é assim ou não, pertence
+decidi-lo áquelles que vierem após nós. No meio de uma revolução
+litteraria não ha desafogo de animo bastante para se fazer inteira
+justiça, nem aos meus esforços, nem á candura das minhas intenções.
+Conheço a difficuldade de se abandonarem antigas preoccupações, e seria
+louco se me irritasse com isso.
+
+Mas para refutar as impugnações que até aqui têm apparecido não me
+parece necessario invocar a sciencia no seu estado actual, e nem sequer
+a sciencia anterior na sua applicação á historia profana. Bastam-me as
+regras acceitas pelos historiadores ecclesiasticos mais respeitaveis,
+inculcadas por theologos, estabelecidas por membros illustres do clero,
+a quem nem uma unica voz ousará accusar de menos crentes, ou sequer de
+menos piedosos. É, creio eu, e v.. o julgará, acceitar a situação mais
+desvantajosa possivel: é tambem o que eu já tinha feito invocando a
+regra de Vicente de Lerins. Se a religião (cuja base é a crença em
+cousas que excedem a comprehensão humana, e que nos impõe a synthese, o
+dogma, sem que nos seja licito recorrer previamente á analyse) exige dos
+factos tradicionaes, antes de os acceitarmos, as condições de terem sido
+acreditados _sempre, em toda a parte, e por todos_, quem pede para crer
+ou deixar de crer factos puramente humanos (sujeitos pela sua natureza a
+toda a discussão possivel) apenas as garantias de liberdade intellectual
+que a igreja, tão parca em concedê-las, concede aos fiéis para
+acceitarem uma parte das suas crenças, não abdica evidentemente de uma
+liberdade, de uma vantagem que é sua, que ninguem lhe disputaria? Mais
+de uma vez terei talvez de appellar para a probidade litteraria e para a
+intelligencia de v.. e dos homens sinceros e honestos que pensam como
+v..; mas aqui, parece-me tão evidente a materia, que a deixo á discrição
+do espirito mais vulgar, da consciencia mais prevenida. Se Galileu,
+quando descobriu que era a terra e não o sol que andava, tivesse
+presentes as condições do Comonitorio, não o teria affirmado, e evitaria
+as perseguições da inquisição, postoque deixaria para outro a gloria de
+ter descuberto um facto importante. Aquelle canon, applicado á sciencia,
+é mais perigoso para a verdade nova do que para o erro antigo.
+
+Eu disse que as auctoridades que estabeleceram as regras historicas
+acceitas por mim serão ineluctaveis para aquelles mesmos que mais
+ferrenhos se mostram em conservar quanto os tempos passados nos
+transmittiram. Essas regras, pois, ao menos as principaes, permitta-me
+v.. que as transcreva aqui. Pasme Portugal de ver uma parte do clero
+insultar-me nos pulpitos e na imprensa, calumniar-me nas praças e
+corrilhos, porque segui como historiador as doutrinas estabelecidas
+_para se estudar e escrever a historia da igreja_ por homens que são a
+gloria e honra da classe sacerdotal. Se diante dos olhos de todos, na
+consciencia de todos não estivesse quanto escrevi ácerca da decadencia
+intellectual da maioria do nosso clero, parece-me que o que vou
+transcrever sería medida sobeja para por ella se aferir essa verdade. Já
+que falei dos religiosos da congregação de S. Mauro, começarei pelo mais
+celebre membro d'aquella ordem, o grande Mabillon. Eis o que elle nos
+ensina:
+
+1.^o «Aquillo em que sobretudo devemos acautelar-nos no estudo da
+historia é em evitar todos esses vicios em que é facil cair; quero
+dizer, evitar admittir por verdadeiro o que é falso, ou deixar-nos
+dominar pelas affeições particulares dos historiadores. É necessario,
+primeiro que tudo, pesar attentamente os dotes do auctor; se é idoneo e
+sincero; o que o moveu a escrever; se pertence a algum bando ou
+seita...»
+
+2.^o «Devemos averiguar _se o auctor que lemos é synchrono_
+(contemporaneo); se escreveu elle proprio, ou se copiou outro; se é
+prudente nas suas affirmativas, ou se apenas se estriba em conjecturas;
+porquanto, dada a paridade no demais, deve preferir-se a opinião do
+auctor coevo á do mais moderno. Digo--dada a paridade no demais--porque
+póde acontecer, e acontece ás vezes, escrever a historia com inteira
+madureza o auctor não synchrono, estribado _em monumentos serios_ e boas
+razões, e o contemporaneo muito ao contrario, ou seja por negligencia,
+ou seja por ignorancia dos factos, ou seja por alguma prevenção, ou
+finalmente porque o _subjuga a força do proprio interesse_.»
+
+3.^o «Segue-se d'aqui _não se dever confiar demasiado naquelles factos
+sobre que os escriptores rigorosamente contemporaneos, ou quasi
+contemporaneos, guardaram silencio_; postoque possa acontecer que um
+auctor mais moderno consultasse alguns monumentos importantes, guardados
+em logar occulto quando os factos aconteceram, ou visse escriptores
+synchronos, ou quasi synchronos, cujas obras depois se perdessem.
+
+«_Se, porém, esses escriptores, ou os que lhes succederam, no intervallo
+de um até dous seculos, nada dizem a tal respeito, e não obstante isso,
+um historiador mais moderno, sem se estribar em testemunho ou
+auctoridade alguma, se atreve a asseverar temerariamente esses factos,
+bem pequena conta se deve fazer delle_, aliás abririamos ampla estrada
+para errarmos, e para enganarmos os outros.»
+
+4.^o «Com todo o cuidado nos devemos premunir para não sermos
+illaqueados por alguns auctores suppositicios, inventados nestes nossos
+tempos...»
+
+5.^o «Não se deve proscrever qualquer auctor por um ou outro defeito de
+paixão ou allucinação, pela rudeza do estylo, ou por outra imperfeição
+propria da natureza humana, comtanto que seja sincero e pontual no
+resto...»
+
+6.^o «Não se devem desprezar os antiquarios, auctores de resumos
+historicos, e compiladores...»
+
+7.^o «Quando as narrativas variam, não nos devemos deixar attrahir pela
+consideração do numero, mas sim pelo merito e gravidade[22] dos
+auctores; visto que muitas vezes acontece que a auctoridade de um auctor
+grave e sincero merece preferir-se ao testemunho de cem de menos fé,
+_porque estes se foram repetindo uns aos outros sem madura discussão e
+diligente exame das cousas_...»
+
+8.^o «Por este mesmo motivo não deve fazer-se grande fundamento na quasi
+innumeravel multidão de casos que muitos modernos costumam amontoar nas
+vidas de certos sanctos... Dizendo isto, sinto apertar-se-me o coração,
+e com magua devo accrescentar, que são muitissimo mais exactos os
+auctores profanos escrevendo vidas de ethnicos, do que muitos christãos
+relatando vidas de sanctos, o que já não receou affirmar Melchior Cano,
+referindo-se a Diogenes Laercio e a Suetonio.»
+
+Ouçamos ainda n'outra parte o fundador da diplomatica francesa:
+
+«É necessaria a crítica para distinguirmos as historias verdadeiras das
+falsas; para não darmos temerariamente credito a narrações
+supersticiosas, a vans opiniões, a delirios aereos, a _milagres fingidos
+ou duvidosos_, a _escriptos suppostos dos sanctos padres_. O veneravel
+Guigo, quinto geral dos Brunos, estabeleceu utilmente uma norma de
+crítica: ..._Buscae a prova de tudo; o bom respeitae-o. Quem crê de
+prompto é leve de coração._»
+
+Agora Fleury, o pio mas illustrado historiador da igreja catholica.
+Depois de varias considerações sobre os documentos falsos com que o
+clero innundou a Europa nos seculos de trevas, e da falta de instrucção
+que entre elle reinava, o historiador observa:
+
+«Outro resultado da ignorancia é tornarem-se os homens credulos e
+supersticiosos, por falta de principios seguros de crença e de exacto
+conhecimento dos deveres religiosos. Deus é poderosissimo, e os sanctos
+têm alto valimento para com elle: verdades são estas que nenhum
+catholico rejeita: logo devo acreditar todos os milagres attribuidos á
+intercessão dos sanctos. Má conclusão. Cumpre examinar as provas delles,
+e com tanta mais exacção, quanto esses factos mais incriveis e
+importantes forem. Porque, dar por certo um milagre falso nada menos é,
+segundo S. Paulo, que dar testemunho falso contra Deus, como mui
+judiciosamente observa S. Pedro Damião. Assim, longe de ser acto de
+piedade crê-los de leve, é a propria piedade que nos obriga a
+averiguarmos com rigor as provas em que se fundam. _O mesmo se deve
+dizer das revelações, das apparições de espiritos, das operações do
+demonio... Em summa, toda a pessoa dotada de bom juizo e religiosidade
+deve ser cautelosissima em acreditar factos sobrenaturaes._»
+
+Mas observemos as precauções de que Fleury se rodeava, as balisas que
+para si proprio punha, ao começar o immenso lavor da sua _Historia
+Ecclesiastica_, ainda hoje não substituida, apesar de tantas
+monographias excellentes com que depois tem sido illuminada, por um ou
+por outro aspecto, n'uma ou n'outra epocha, a historia da igreja. Eis os
+limites que elle estabeleceu á credibilidade n'um genero de escriptos
+onde esta poderia ser mais ampla, limites que á _fortiori_ não será
+nunca licito ultrapassar em matéria de tradições humanas. Mas antes
+permitta-me v.. que cite algumas passagens, as quaes me parecem
+grandemente applicaveis a essa parte do clero, que, em vomitando, no
+pulpito ou na imprensa, contra quem diz a verdade, quantos adjectivos
+injuriosos contém o diccionario da lingua, pensam que salvaram a honra
+dessas fabulas e crendices que estão costumados a propalar entre o povo,
+provavelmente pela mesma razão por que prégam mal, isto é _porque os
+festeiros gostam d'isso_, embora os concilios lh'o prohibam, os
+apostolos os condemnem, os membros mais doutos e pios da igreja
+catholica lhes mostrem o abysmo em que se precipitam! Para onde has tu
+fugido, oh religião de Christo?!
+
+«Vejo bem--diz Fleury--que a minha historia não ha-de agradar aos
+espiritos acanhados, atidos ás suas preoccupações, e sempre promptos em
+condemnar os que pretendem desenganá-los; aos que tapam os ouvidos
+quando a verdade soa, para se abraçarem com as fabulas, buscando
+doutores que vão com elles. Não lhes faltarão livros acommodados ao
+paladar. Escrevo em vulgar para ser util aos homens de juizo...»
+
+«Dous excessos vejo eu que ha a evitar: um de credulidade, outro de
+critica. Nem só a simpleza faz credulos. Pessoas ha que o são por
+politica e por deploravel sobranceria. _Julgam que o povo é incapaz ou
+indigno de saber a verdade; e tem por necessario alimentar-lhe todas as
+opiniões que lhe foram inculcadas como religião_, receiosos de abalar o
+que é solido, atacando o que é frivolo. Na essencia, estes suberbos
+politicos são ignorantissimos. Desconhecendo a religião, não a tomam a
+serio, e nada os liga a ella senão as preoccupações da infancia e os
+interesses temporaes. Nunca examinaram as seguras provas do evangelho,
+nem sentiram a excellencia da sua moral e a esperança dos bens eternos.
+_É por isso que não ousam profundar as cousas antigas e temem
+conhecê-las_: sabem que lhes não são favoraveis. Querem crer que sempre
+se viveu como hoje, porque não querem mudar de vida, como se nos fosse
+proveitoso enganar-nos a nós mesmos, ou se a verdade podesse trocar-se
+em mentira á força de averiguações. Graças a Deus, a fé christan passou
+pelo chrysol; o que ella _teme_[23] é que não a conheçam.
+
+«A outra especie de pessoas credulas em demasia são christãos sinceros,
+mas fracos e escrupulisadores, que á propria sombra da religião
+respeitam, e sempre receiam crer de menos. Falta a uns a instrucção;
+cerram os outros os olhos, e não querem fazer uso do entendimento. É
+para os taes objecto de devoção crer quanto escreveram os auctores
+catholicos e quanto crê o ignorante vulgo. A meu vêr, a _legitima
+devoção consiste em prezar a verdade e a pureza da religião, e em
+observar, primeiro que tudo, os preceitos expressamente estabelecidos na
+sagrada escriptura_. Ora, vemos que S. Paulo recommenda repetidas vezes
+a Tito e a Timotheo que evitem as fabulas, predizendo tambem que uma das
+desordens do fim do mundo será o affastarem-se os homens da verdade para
+se aterem a crendices; vemos que as fabulas eruditas não merecem menos
+desprezo a S. Pedro que os contos de velhas de S. Paulo; e do mesmo modo
+que elle condemna as fabulas judaicas, teria condemnado as christans, se
+já então as houvesse. Que dirão a isto aquelles que a timidez torna tão
+credulos? Não terão escrupulo em menosprezar semelhante auctoridade?
+Dirão que nunca houve fabulas entre os christãos? Seria desmentir a
+antiguidade em peso...»
+
+«A critica é portanto, necessaria. Sem deixar de respeitar as tradições,
+deve averiguar-se quaes são dignas de credito; devemos fazê-lo, até, se
+não queremos desacatar as verdadeiras, confundindo-as com as falsas. Sem
+que duvidemos da omnipotencia de Deus, podemos e devemos examinar se os
+milagres estão bem provados, para lhe não levantarmos falso testemunho,
+attribuindo-lhe os que elle não fez.»
+
+Eis como pensava o grande historiador ecclesiastico ácerca dos milagres,
+estribado nos livros que Deus inspirou. Quem será, pois, o impio, o
+incredulo? O que seguiu os conselhos dos apostolos e as doutrinas dos
+homens mais piedosos e sabios do gremio catholico, ou aquelles que
+esquecidos dos deveres, não digo do sacerdocio (porque neste caracter, o
+seu procedimento não tem nome), mas do simples christão, ousam perguntar
+ao historiador sincero: «_Se é necessario, se é util que o historiador
+se constitua campeão acerrimo contra essas tradições que deturpam a
+historia?_ e que respondem:--_É um arrojo mui imprudente e reprehensivel
+no historiador semelhante intento. Que precisão, que vantagem ha em
+destruir as crenças theocraticas[24], que uma tradição de seculos fora
+radicando no coração do povo? Nenhuma ha:_» e depois accrescentam esta
+maxima impia de Laharpe--«_a politica sabia e devia tirar partido do
+poderoso movel da geral crença, cujos effeitos são geralmente bons em
+todo o governo, mesmo quando a crença é erronea!_» Não peço a v.. tão
+cavalheiro e tão indulgente para comigo; peço ao homem que mais me
+odiar, mas que conserve um resto de pudor, que seja juiz entre mim e os
+desgraçados que não se envergonham, christãos e sacerdotes, de invocar
+contra a Historia de Portugal taes principios e taes maximas, e que
+insultam, não a mim, nem o meu livro, mas os apostolos, mas a biblia,
+mas os escriptores mais sabios, mais respeitados do catholicismo.
+
+Mancebos, cujos corações generosos a indignação póde desvairar! No meio
+destas saturnaes hediondas que vedes passar; no meio dos gritos
+descompostos da hypocrisia, que, embriagada de colera, deixa tombar dos
+hombros seu velho e já tão roto manto, e nua e vinolenta pragueja a
+verdade, atira com a fé aos pés da politica, rasga as sacras paginas,
+maldiz as cinzas dos sanctos, dos martyres, e dos sabios, não volteis,
+cheios de horror e de tedio, as costas ao Calvario. Não! A philosophia,
+a honesta liberdade do pensamento, bem vedes que estão sanctificadas no
+livro dos livros, O Christo foi o Deus da verdade. Se ao entrardes no
+templo ouvirdes dizer que a mentira é sancta, que o povo só póde ser
+virtuoso se crer em falsos milagres, saí, porque o templo está polluido
+pela blasphemia e pela calumnia; mas não renegueis da cruz. A cruz está
+pura; a cruz será eterna. Se esta gangrena que corroe o sacerdocio
+chegasse, o que não creio, a corrompê-lo inteiramente; se não achassemos
+uma ara, juncto da qual orassemos _em espirito e verdade_, a cruz lá
+está hasteada nos cemiterios, sobre os ossos de nossos paes, para nos
+irmos abraçar com ella: os mortos não tem ouro, os mortos não são
+festeiros, que paguem para se lhes falar a sabor: ahi não se tem
+blasphemado.
+
+Mas, reprimindo a amargura que deve causar a todo o christão sincero o
+ver sacerdotes sacrificarem assim a conveniencias mundanas o verbo de
+Deus, e semelhantes ao apostolo desleal contarem e recontarem o preço
+por que o venderam, acolhamo-nos ás placidas discussões da sciencia, e
+vejamos, como já disse, as mais importantes dessas regras que o pio e
+douto Fleury punha a si proprio para evitar os erros da nimia
+credulidade.
+
+«Não tenho em conta de provas, senão o testemunho dos auctores
+originaes, isto é, daquelles que escreveram _contemporaneamente, ou
+pouco depois_. Porque a memoria dos successos não póde subsistir por
+muito tempo sem ser escripta. _Bastante será se durar um seculo._ O
+filho póde lembrar-se passados cincoenta annos do que o pae ou avô lhe
+referiram cincoenta annos depois de o haverem presenciado. Os successos
+que tem passado por varias gerações não obtem a mesma certeza: cada qual
+lhes vai accrescentando alguma cousa de sua lavra, talvez sem o pensar.
+_É por isso que as tradições vagas de factos muito antigos, que tarde ou
+nunca se escreveram, nenhum credito merecem_, principalmente repugnando
+a factos provados. _Nem se diga que as historias pódem ter-se perdido;
+porque, dizendo-se isso sem provas, posso tambem eu affirmar que ellas
+nunca existiram._ O mesmo direi dos escriptores que escreveram successos
+anteriores a elles muitos seculos; _se não citam os auctores d'onde os
+tiraram, temos o direito de desconfiar de que acreditaram de leve os
+rumores vulgares_.....»
+
+«Os proprios auctores contemporaneos não devem adoptar-se sem exame...
+deve averiguar-se bem se o escriptor é digno de fé, quasi como quem
+inquire testemunhas n'um processo... _O que se encontra em cartas, ou em
+outros diplomas da epocha, deve ser preferido ás narrativas dos
+historiadores._»
+
+Até aqui Fleury. Para estas largas citações preferi dous homens de
+indubitavel sciencia e de catholicismo insuspeito. V.. sabe que eu
+poderia tambem citar escriptores da primeira ordem, pagãos ou
+protestantes, mas cuja auctoridade nem por isso seria menor n'uma
+questão que evidentemente não interessa os dogmas da nossa fé. Poderia
+invocar a bella sentença de Cicero: _«Quem ignora que a primeira lei da
+historia é não ousar dizer a menor falsidade, e a segunda não nos faltar
+jámais valor para dizermos a verdade?_» É certo que uma parte do clero
+português do seculo XIX se ergueria para lhe responder:--«_Ignoramo-lo
+nós._»--Eu poderia tambem repetir as palavras do luminar da critica no
+seculo XVII, as palavras de João Leclerc:--«Quando se escreve a
+historia, _sobretudo de tempos antigos_, não é licito dissimular a
+minima cousa; porque a verdade, sem ser nociva aos mortos, aproveita
+muito aos vivos; e pelo contrario a dissimulação, inutil para aquelles,
+é profundamente damnosa a estes.»--Não me quiz aproveitar dessas
+auctoridades summas, porque um não era christão, outro não era
+catholico. Parece-me que é levar longe o escrupulo. E todavia, o
+protestante Leclerc estribava-se na opinião de S. Isidoro
+Pelusiota--«Aquelles--diz o sancto--que com artificiosas palavras
+encobrem a verdade, muito mais desgraçados me parecem de que os que não
+a comprehenderam. Porquanto, os que por curteza de engenho não a
+alcançaram, estes não são talvez indignos de desculpa; mas os que, sendo
+dotados de agudeza, investigaram a verdade e criminosamente a occultam,
+commettem mais grave e imperdoavel peccado.»
+
+Mas, apesar de catholicos e pios, Mabillon e Fleury eram sobretudo
+eruditos. Haveria nelles menos luzes theologicas? Serão os theologos de
+profissão mais indulgentes para com as lendas e tradições não provadas?
+Exigirão, ao menos em referencia á historia da igreja, maior credulidade
+nos que a estudam ou escrevem? Ouçamos o celebre Melchior Cano, o qual
+ninguem accusará de excessivo amor pelos fóros e liberdades do
+raciocinio: eis algumas das suas observações ácerca do credito que deve
+dar-se ás tradições infundadas.
+
+«A principal regra (para distinguir as narrativas falsas das
+verdadeiras) deduz-se da probidade e inteireza humanas; regra
+perfeitamente applicavel quando os historiadores _testificam terem
+presenciado os successos que narram, ou terem-nos sabido daquelles que
+os presenciaram_...»
+
+«É cousa averiguada que esses que escrevem fingida e enganosamente a
+historia ecclesiastica não podem ser gente boa e sincera, e que toda a
+sua narrativa é tecida _para d'ahi tirarem lucro_, ou para persuadirem o
+erro; _torpes no primeiro caso_, perniciosos no segundo. Justissimas são
+as queixas de Luiz Vives ácerca das historias inventadas no seio da
+igreja; _prudentes e graves as arguições que dirige áquelles que julgam
+obra pia fazerem de mentiras religião_, cousa altamente perigosa e
+profundamente inutil. Do mentiroso nem a propria verdade ousamos
+acreditar. Por isso _os que pretendem concitar os animos ao culto dos
+bemaventurados com falsos e mentirosos escriptos, nenhum outro resultado
+tirarão, talvez, se não negar-se fé ás cousas verdadeiras por causa das
+falsas, e tornar-se duvidoso aquillo mesmo que referem com severa
+consciencia auctores de inteira veracidade_.»
+
+Preciso de implorar toda a indulgencia de v.. para transcrever em
+seguimento a esta passagem, admiravel de cordura e de legitima piedade,
+outro bem diverso extracto. Juro que não o faço com o intento de
+humilhar os homens sinceros e honestos, a quem, a meu vêr, cega um erro
+deploravel. É para vingar a religião injuriada; é para dar ao paiz um
+desses espectaculos repugnantes, mas salutares, a que os lacedemonios
+recorriam para evitar um vicio hediondo, mandando assistir um escravo em
+completa embriaguez ao jantar commum da mocidade d'Esparta. Só advirto
+que a passagem é concepção de um sacerdote, que celebra por certo
+tranquillamente o tremendo sacrificio do altar, sem que em todas as
+paginas do missal[25] leia, escriptas em letras de fogo, estas palavras
+que Jesus, o inimigo da mentira, dizia aos escribas e phariseus de outro
+tempo:
+
+«Hypocritas! Bem prophetisou ácerca de vós Isaias, quando disse:
+
+«Esta gente honra-me com os labios; mas o seu coração está affastado de
+mim.»
+
+Eis a inqualificavel passagem, que, ainda uma vez, peço venia de lançar,
+depois das doutrinas de Melchior Cano, n'um papel que é dirigido a um
+homem tão delicado como v..
+
+«Os historiadores têm advertido que os factos maravilhosos, os prodigios
+singulares, que registavam em seus escriptos _não eram fundados senão em
+rumores populares_; outras muitas vezes tem-nos tambem referido sem esta
+precaução, já porque _elles mesmos fossem povo a tal respeito_... já
+porque elles não julgassem dever abalar a crença vulgar; bem convencidos
+que á sombra de um prejuizo repousava ás vezes uma verdade util, a que
+talvez tivessem vergonha de prejudicar.»
+
+«Eis aqui os _dictames prudenciaes_, adoptados pelos mais distinctos
+historiadores, ácerca dos successos de caracter maravilhoso, que devem
+dirigir todo o escriptor sensato. _O contrario é querer campar por uma
+anomalia extravagante e ridicula..._»
+
+«Se, porém, gravemente offende o melindre patriotico de uma nação
+aquelle que simplesmente contradiz os pontos _theocraticos_ das suas
+tradições historicas constantemente recebidos e venerados; quanto não se
+torna mais altamente _réu d'este attentado_ aquelle escriptor, que não
+só os nega, mas tem a _asquerosa villania_ de á cara descuberta os vir
+insultar? Se alguem ha no orbe litterario que mais demonstrativamente
+tenha commettido _tão reprehensivel e extranho excesso_, é por certo o
+auctor da carta aviltante, a respeito da Apparição de Christo a D.
+Affonso Henriques. _É uma das ulceras mais pustulentas que conspurcam e
+aviltam esse escripto sandeu_, que rancorosamente a impropéra...»
+
+«Como é crivel que uma fabula... fosse sustentada como facto verdadeiro
+por seculos...? _Quando, porventura, o tivesse sido, teria, não receio
+dizê-lo_, por effeito dessa universal crença dos sabios, _perdido a sua
+natureza e deixado de o ser!!!_...»
+
+Basta! Refujamos deste hediondo espectaculo, para continuarmos a
+averiguar tranquillamente se os theologos de profissão concordam com os
+eruditos de reconhecida piedade nas bases da critica historica. Ainda
+algumas palavras de Melchior Cano.
+
+«Achareis outros, não tão ineptos, mas quasi tão imprudentes, que não
+buscam a verdade das cousas onde a deviam buscar, mas naquelle logar
+onde é raro encontrá-la, _em aereos e vagos rumores_. Acontece isto
+frequentemente aos inconstantes e leves de cabeça; _porque os homens
+graves e severos não costumam andar á caça dos dictos vãos do vulgo_.»
+
+Desçamos já aos fins do seculo XVIII, quando a incredulidade corria como
+lava ardente pela face da Europa, e devorava as crenças mais sanctas e
+legitimas em milhares de corações. Vacillou, acaso, por isso a critica
+dos homens probos e pios nos seus principios de severidade? No meio de
+tantas ruinas, quizeram elles salvar com os restos do edificio a sua
+falsa miragem? V.. o julgará pelas doutrinas de muitos varões religiosos
+dos ultimos tempos, inteiramente accordes com as dos que os haviam
+precedido. Por exemplo, o theologo piemontês Denina, diz-nos:
+
+«Acontecem algumas cousas fóra da ordem natural, que, de per si só, são
+incriveis... a esta categoria pertencem, na igreja de Deus, os milagres,
+os quaes, _nem é licito rejeitar na sua totalidade, nem se devem
+acceitar todos sem selecção_...»
+
+«Pertence á prudencia do historiador _nada escrever, que não saiba por
+si proprio, ou não se estribe na auctoridade de pessoas fidedignas_,
+cumprindo-lhe, não menos, ser pouco credulo. Mas _ninguem póde ter
+conhecimento do que narra, se não viveu no tempo em que os factos
+aconteceram; nem sabê-los de pessoas fidedignas, se estas não os
+presenciaram_; nem escapa de credulo, se não explicar e expender as
+razões, causas e circumstancias do que relata. Auctores que assim o
+fazem _nenhum credito merecem_...»
+
+«Nem tudo quanto o historiador relata do seu tempo se ha-de acreditar;
+salvo constando que fôra curioso em indagar e explorar...»
+
+«Se o historiador referir cousas, não do seu tempo, mas succedidas
+muitissimo antes, dar-se-lhe-ha credito, _se individuar os auctores
+d'onde as tirou_, sendo _aliàs daquelles que as podiam saber_...»
+
+«Não duvido de chamar _máu historiador_ a todo aquelle que devendo ter
+por norma o não ousar dizer a menor falsidade, _nem faltar-lhe animo
+para dizer qualquer verdade_, encubrir esta aos leitores, _seja por que
+motivo for_...»
+
+Assim pensavam os theologos d'Italia nos fins do seculo passado: assim
+pensavam tambem os theologos catholicos da Allemanha, ou antes do paiz
+mais religioso d'ella, a Austria. Citarei dous, um dos quaes, ou ambos,
+a nossa universidade honrou, escolhendo as suas instituições de historia
+ecclesiastica para compendios nas faculdades de theologia e de direito
+canonico. Falo de Gmeiner e Dannenmayr. As secções desses compendios
+relativas ao _criterium_ da verdade historica nada mais são do que o
+desenvolvimento das doutrinas de Cicero, de Mabillon, de Fleury, de
+Melchior Cano, de Riegger, de Leclerc, de Muratori, de Baumeister; em
+summa de todos os criticos, historiadores, e philosophos, que falaram
+ex-professo ou accidentalmente da crítica historica. Andam esses livros
+nas mãos de todos, menos nas do clero ignorante e corrupto, porque este,
+coitado, não sabe ler. Não serei, por isso, demasiado extenso em
+citá-los, escolhendo apenas as passagens mais frisantes, e que fazem
+sobretudo ao intento.
+
+«Como os narradores--diz Gmeiner--por falta de _habilidade_ sufficiente,
+ou de sciencia, nos _possam_ enganar, ou por falta de _sinceridade_, ou
+por vontade nos _queiram_ illudir, só podêmos acquiescer ao seu
+testemunho, se não houver razões sufficientes para duvidar da sua
+habilidade ou sinceridade.»
+
+«A auctoridade das testemunhas não é uma e a mesma, e portanto deve
+attender-se a esta diversidade. Observa-se ella 1.^o em relação aos
+sentidos, 2.^o em relação ao entendimento, 3.^o em relação á vontade. Em
+relação aos sentidos, essas testemunhas ou são de vista ou de ouvida.
+_As de ouvida ou são coevas, ou não coevas mas que ouviram aos coevos o
+que narram_...»
+
+«D'aqui se segue, _que pouca fé deve dar-se áquillo que os escriptores
+ou absolutamente contemporaneos, ou quasi contemporaneos deixaram de
+mencionar_...»
+
+«A verdade dos conhecimentos historicos não depende de modo nenhum da
+abundancia dos historiadores, visto que _não provém maior certeza a um
+facto historico de ser relatado em livros de muitos auctores mais
+modernos, cada um dos quaes foi copiando o que outro tinha dicto. Todos
+elles junctos não valem mais do que o primeiro que o referiu_...»
+
+«A consideração do paiz em que o escriptor viveu, e do tempo em que
+escreveu importa muito em relação ao seu intuito de falar verdade.
+N'alguns paizes a liberdade de escrever é franca; n'outros opprimida;
+n'outros, emfim, ha premios para a lisonja, odio e castigo para a
+verdade... Ensina-nos a historia que os escriptores lisonjeiros da curia
+romana receberam ás vezes em premio _de suas fadigas_ o barrete
+cardinalicio ou a dignidade do episcopado. _Naquellas provincias onde
+vigorou o terrivel tribunal da inquisição, a fogueira estava prompta
+para a verdade._»
+
+«Não faltaram impostores e falsarios, que trabalharam em alterar varias
+passagens nos antigos monumentos, e que tiraram a uns e accrescentaram a
+outros.»
+
+Consinta-me v.. que ainda transcreva poucas linhas do theologo
+Dannenmayr:
+
+«Para tirarmos proveito... da historia ecclesiastica--diz elle--devemos
+principalmente ter em mira, _que nem se nos inculquem fabulas sobcolor
+de verdades, nem consideremos como duvidosos factos absolutamente certos
+e largamente provados._»
+
+Tenho talvez sido prolixo. Mas era necessario estabelecer uma doutrina,
+uma norma, por onde os animos imparciaes, e ainda os prevenidos, mas
+sinceros nas suas prevenções, houvessem de julgar-me, não tanto no foro
+da sciencia, que era o meu foro, que era aquelle para onde eu tinha
+direito de trazer o litigio, mas nó da mais restricta piedade. Em these,
+a contenda dos que blasphemam contra a verdade, que fazem a apologia (e
+que apologia, meu Deus!) das tradições fabulosas, não é comigo; é com os
+apostolos, com os sanctos, com os historiadores do catholicismo, com os
+theologos, com todos aquelles e com tudo aquillo a que mais importava á
+hypocrisia mentir acatamento nesta comedia beata. A tonta e imprudente
+não se lembrou de que lhe caía a mascara, e de que alguem poderia
+levantá-la para a entregar ao povo, que nos seus grandes instinctos de
+justiça lhe fustigaria as faces com ella. Na hypothese, no que me diz
+respeito, o meu dever é provar aos homens sinceramente pios que,
+rejeitando falsas lendas, não ultrapassei os limites de uma crítica
+irreprehensivel. Será esse o objecto da carta immediata, que em breve
+espero dirigir a v.. Nas seguintes darei razão das minhas opiniões
+ácerca da maioria do nosso clero, e ácerca da curia romana.
+Compelliram-me a isso; fá-lo-hei gemendo. Quizeram que o paiz os
+conhecesse: hão-de ser satisfeitos.
+
+Emquanto os ecclesiasticos virtuosos e instruidos choram em silencio a
+vergonha da sua classe, e emquanto os prelados dormem tranquillos nas
+suas cadeiras episcopaes, Deus salve a igreja portuguesa dos tristes
+dias de tempestade!
+
+
+
+
+IV
+
+SOLEMNIA VERBA
+
+
+SEGUNDA CARTA
+
+AO SR. A.L. MAGESSI TAVARES
+
+(_Novembro, 1850_)
+
+
+Na minha antecedente carta deixei eu, ou para me exprimir com mais
+exacção, deixaram muitos e mui piedosos escriptores catholicos apontadas
+as principaes regras da critica, em relação ás fontes historicas. Dessas
+regras resulta o que a boa razão está por si indicando; que é necessario
+premunir-nos contra a credulidade, não só por honra da sciencia e pela
+consideração do proprio credito litterario, mas tambem, o que é mais
+grave, para não deslizarmos da doutrina dos apostolos, inculcada nos
+livros sanctos. O mais necessario canon, em que de certo modo todos os
+outros se consubstanciam, é o atermo-nos unicamente aos testemunhos
+synchronos ou quasi synchronos, aos testemunhos daquelles que
+presenciaram os factos, ou, pelo menos, que os ouviram narrar aos
+contemporaneos, quer esses factos sejam naturaes e criveis, quer
+sobrenaturaes e incriveis para a razão humana; quer elles nos sejam
+transmittidos por narrativas coevas ou quasi coevas, quer por documentos
+do tempo, embora descubertos por escriptores modernos. Quando, porém, se
+tractar de milagres, a critica deve ser tanto mais severa, quanto é
+certo que a isso nos constrange o dever religioso, que nos impõe as
+palavras de S. Paulo, o dever de não levantarmos falsos testemunhos a
+Deus.
+
+Que podia eu fazer em relação ao supposto milagre de Ourique, escrevendo
+a historia do reinado de Affonso I? Faltavam-me absolutamente chronicas,
+historias, documentos coevos ou quasi coevos, que o narrassem. O exame
+attento de quanto modernamente se escrevera para supprir a falta de
+provas daquella celebre tradição, só tinha servido de convencer-me das
+aberrações em que se podem transviar ainda os espiritos mais elevados,
+quando, em vez de buscarem simplesmente a verdade, buscam accommodar os
+caracteres desta a um preconceito. Não me era possivel omittir a batalha
+de Ourique. Que podia eu fazer, repito, ácerca do milagre da apparição?
+Ou mentir á minha consciencia, alevantar um testemunho a Deus, pospôr as
+doutrinas dos homens mais pios e eruditos do orbe catholico, que falaram
+de critica historica, calcar aos pés a maxima do mais illustre escriptor
+romano, ou então manifestar sem hesitação as proprias convicções, que
+julgava e julgo legitimas, isto é, proceder de um modo que v.. mesmo crê
+nobre e honroso[26]; affirmativa, que, seja dicto em boa paz, não sei se
+está em perfeita harmonia com a idéa geral que predomina nas
+considerações que v.. tem tido a bondade de dirigir-me sobre os
+inconvenientes que resultam, no entender de v.. para a nossa patria
+commum, da manifestação das minhas doutrinas.
+
+Disse, pois, o que suppús e supponho verdade: disse-o sem sobre isso me
+dilatar, sem exaggeração, sem pretensões a ter feito um importante
+descobrimento historico; porque realmente o não era: disse-o
+singelamente, simplesmente: indiquei apenas de passagem as
+incongruencias historicas, que desmentiam a importancia que se costuma
+attribuir ao successo. E n'esta parte, seja-me licito dizê-lo, nem v..
+nem ninguem se encarregou de me refutar; porque, na verdade, seria um
+pouco difficil de admittir que houvesse centenas de milhares de
+sarracenos para virem combater em Ourique, quando os almoravides
+concentravam todas as forças em Africa, para salvarem o imperio da
+ultima ruina, exhaurindo a Hespanha de soldados, a ponto de abandonarem
+a heroica guarnição de uma praça como Aurelia ao seu triste destino. A
+narrativa anterior, o quadro da situação dos lamtunitas e das
+perturbações quo agitavam as provincias mussulmanas do Gharb habilitavam
+o leitor para por si fazer conceito das dimensões da batalha de Ourique.
+Se em alguma cousa cedi da inflexibilidade da historia foi em procurar,
+talvez em demasia, achar resultados moraes dessa batalha, para de algum
+modo desculpar a significação exaggerada que depois se lhe attribuiu.
+Sobre a apparição disse apenas o restrictamente necessario para o leitor
+vulgar conhecer que eu não a admittia. Se tivesse o proposito deliberado
+de combater quando podesse ferir o chamado sentimento religioso do povo,
+crê v.. que eu não teria recursos para aproveitar o lado contradictorio
+e até ridiculo, (que cousa ha neste mundo onde elle se não possa
+encontrar?) do celebre milagre, sem todavia abandonar o estylo grave da
+historia? Crê v.. que se eu intentasse buscar as causas provaveis da
+invenção dessa maravilha, e avaliá-las severa ou, se quizerem,
+malevolamente, me faltariam meios para assim o practicar? Permitta-se-me
+dizer que foi necessaria demasiada prevenção contra mim, ou a favor da
+inviolabilidade da apparição, para se não ver que procurei, quanto me
+era possivel sem offender a verdade, não converter os factos que se
+prendem a esse falso milagre n'um escandalo historico. As extensas notas
+com que finalisa cada volume do meu livro são destinadas para os homens
+da sciencia, para debater os fundamentos das minhas opiniões. Estas
+notas são, portanto, para poucos. A generalidade dos leitores não se
+cansa com essas discussões tediosas. Foi, porém, ahi que eu alludi ao
+ridiculo instrumento do cartorio d'Alcobaça, o que fiz apenas pelo
+desejo de dar uma satisfação aos homens professionaes. Se eu fosse o
+impio, o atheu, e não sei que mais, que por ahi me chamam os padres
+ignorantes e mal procedidos, não tiraria vantagem dessa falsificação
+insigne, para mostrar como a hypocrisia costuma fazer joguete das cousas
+do céu para fins terrenos? Não practicaria ao menos aquillo que a
+justissima indignação de qualquer homem religioso o levaria talvez a
+practicar? Se tal se houvesse de crer, não deveriam qualificar-me de
+impio, mas sim de insigne mentecapto.
+
+Em ambos os opusculos que v.. me fez a honra de escrever contra as
+minhas opiniões, v.. insiste em que, citando naquella nota a Memoria de
+Fr. Joaquim de Sancto Agostinho contra a genuinidade do diploma de
+juramento conservado em Alcobaça, eu fiz uma citação
+contraproducente[27]. Contraproducente?! Pois o erudito augustiniano não
+nega ahi redondamente a authenticidade do diploma? O que dizia eu ao
+citar a Memoria sobre os codices d'Alcobaça?--«_Quem desejar conhecer a
+impostura desse documento famoso consulte a Memoria, etc._»--Se o auctor
+concorda comigo em que elle é falso, onde está a improcedencia da
+citação? Se v.. me permitte que seja interprete do seu pensamento, o que
+v.. queria talvez dizer era, que Fr. Joaquim de Sancto Agostinho affirma
+que acreditava na apparição, posto negasse a genuinidade do pergaminho
+de Alcobaça, e que eu não creio nem no documento, nem no facto.
+Exprimindo-se assim, v.. teria sido exactissimo. Não era, porém, para a
+opinião manifestada pelo academico em relação ao successo, mas sim para
+as suas razões contra o diploma que eu remettia o leitor. E realmente, o
+que elle diz em favor do facto não é mais do que repetir o que outros
+disseram antes delle, e citar uma copia de 1597 existente em S. Vicente
+de Fóra vista por elle, e a qual, duas paginas adiante, dá como
+provavelmente tirada _de outro original falso_. O que se vê de tudo
+aquillo é que o pobre frade, conhecendo o risco de mostrar o que era e o
+que valia O ridiculo thesouro dos monges d'Alcobaça, quiz ao menos
+salvar-se, protestando pela pureza da sua crença no milagre de Ourique.
+Talvez, se eu vivesse então, fizesse o mesmo, em attenção á
+circumstancia que nos recorda Gmeiner: «_onde vigorou o terrivel
+tribunal da inquisição, a fogueira estava prompta para a verdade_».
+
+Soffra-me v.. dizer eu aqui que me envergonho pelo meu paiz desta
+necessidade de disputar ácerca de um diploma falso, que se acha
+depositado nos archivos do estado, onde qualquer pessoa póde examiná-lo.
+Qualquer pessoa, sim; porque não é preciso ter a menor idéa de
+paleographia para o reconhecer por falso. Basta pôr-lhe ao lado dous ou
+tres diplomas genuinos do meiado do seculo XII, e comparar. Esses
+multiplicados recursos que possue a diplomatica para desmascarar
+falsarios são aqui perfeitamente inuteis. Estou certo de que v.. nunca o
+viu; porque tambem estou certo de que, se o houvera visto, eu acharia
+v.. a meu lado para dizer aos homens sem pudor que ainda ousam inculcar
+como legitima essa invenção torpe: «_Sois uns miseraveis!_»
+
+Sinto sinceramente que v.. se dignasse de tomar para si, a favor da
+apparição, um argumento que devia pertencer precipuo aos apologistas dos
+clerigos ignorantes e devassos. Consiste elle em que, negando eu que a
+tradição de Ourique remonte aos tempos a que se refere, devo dizer
+quando, como, e para que a forjaram. Onde existe semelhante canon de
+critica historica? O que sei é que ella começou a apparecer no ultimo
+quartel do seculo XV, mais de trezentos annos depois da epocha em que se
+diz succedido o milagre; o que sei é que em nenhum escriptor, nem em
+nenhum documento legitimo, coevo ou quasi coevo, ha o menor vestigio de
+semelhante tradição; o que sei é que os escriptores modernos que a
+publicaram não se referem a testemunho contemporaneo ou proximo; o que
+sei, portanto, é que as regras de critica adoptadas por homens não menos
+pios que sabios me obrigam a rejeitá-la. Diga-me v..: se um devedor seu
+pretendesse pagar-lhe certa quantia em moeda falsa, v.., depois de a
+examinar e convencer-se da sua falsidade, o que fazia? Pelos principios
+por que pretende julgar-me, devia reconhecê-la por boa e acceitá-la,
+emquanto não podesse mostrar quando, como, por quem e para que fora
+forjada. Não vê v.. que uma tal regra de critica nos obrigaria a adoptar
+como verdadeiras até as lendas indicas de Vishnú e de Brahma?
+
+Outro argumento me faz v.. que eu tambem desejara tivesse deixado aos
+ex-frades ignorantes e hypocritas: é o da impossibilidade de nossos avós
+terem adoptado uma tradição que não fosse verdadeira. Quer v.. que lhes
+concedamos a mesma critica, a mesma intelligencia, a mesma honra, o
+mesmo amor da propria fama e dignidade que nós temos. Concedo por um
+momento. Mas o patriotismo de v.. não será tão inimigo da logica, nem
+tão cego, que recuse os mesmos dotes aos avós dos actuaes castelhanos,
+franceses, italianos e allemães. Por aquella doutrina, v.. deve
+acreditar todas as lendas desses paizes, ainda quando a critica
+historica as tenha feito abandonar aos castelhanos, franceses, italianos
+e allemães de hoje. Mais: v.. deve, por exemplo, acreditar _à fortiori_
+a historia da papisa Joanna, embora já os proprios protestantes se riam
+dessa calumnia ridicula, porque a Europa inteira a acreditou por
+seculos. Mais ainda: v.. é assaz instruido para não ignorar qual foi a
+civilisação dos arabes nos seculos IX, X, XI, sobretudo dos arabes
+hespanhoes, qual a sua sciencia e litteratura, qual a nobreza do seu
+caracter. Apesar disso, elles nunca deixaram de crer na tradição dos
+milagres de Mafoma. Não é de esperar da justiça de v.. que recuse a esse
+povo tão culto os dotes intellectuaes e moraes que attribue a nossos
+avós. Adoptará v.. as lendas mussulmanas ácerca do propheta de Mekka?
+Principios que provam tanto, ou antes que provam tudo, permitta-me v..
+desconfiar de que não provam nada. Deus nos livre de pensar que uma
+fabula que se generalisa, se converte por isso em verdade. Semelhantes
+doutrinas, deixe-as v.., christão, cavalheiro, e homem de letras, para
+essa parte da cleresia, que quer lucrar com as illusões populares. A
+nós, christãos, incumbe recordar-nos daquellas tremendas palavras do
+divino Mestre:
+
+«Guardae-vos do fermento dos phariseus, que é a hypocrisia:»
+
+«_Porque nenhuma cousa ha occulta que não venha a descubrir-se; e
+nenhuma ha escondida que não venha a saber-se_....»
+
+«E todo o que proferir uma palavra contra o filho do Homem ser-lhe-ha
+dado perdão; mas _áquelle que blasphemar contra o Espirito Sancto, não
+lhe será perdoado_.»
+
+V.. sabe, tão bem como eu, que, segundo Sancto Agostinho, uma das
+blasphemias contra o Espirito Sancto _é o negar a verdade conhecida por
+tal_.
+
+E é isto o que responde a todas as considerações que v.. me faz sobre a
+conveniencia de não desilludir o povo ácerca das suas tradições
+mentirosas: são estas palavras do Salvador, que fulminam os phariseus
+modernos, como fulminaram os antigos, que me obrigam a falar verdade
+escrevendo a historia. Ainda que essas considerações fossem exactas, a
+patria verdadeira do christão é o céu, cujas portas ficarão cerradas,
+conforme a doutrina de Christo, aos que tiverem desmentido a verdade na
+terra. A patria deste mundo é nosso dever amá-la, sacrificar-lhe tudo,
+menos a honra, menos as esperanças de além do tumulo, menos a fé. É esta
+a mais sancta das tradições que herdámos de nossos paes. O crucifixo
+sobre o qual deposeram o derradeiro suspiro os que nos geraram, não o
+insultemos na vida, para podermos tambem despedir o ultimo alento,
+abraçados com elle, sem terror, sem remorsos, e para o legarmos
+immaculado a nossos filhos; para que elles, no momento de o
+transmittirem moribundos a nossos netos, não se lembrem horrorisados de
+que essa imagem do Redemptor já foi bafejada pelo extremo respirar de um
+blasphemo. Amemos e respeitemos a tradição divina, e tenhamos esforço
+bastante para repellir mentiras, sobretudo quando, segundo as palavras
+do apostolo, ellas envolvem um falso testemunho contra Deus.
+
+Isto é para os christãos. Para os falsos politicos, que cuidam ser a
+religião apenas um instrumento que serve para conter os humildes e
+pobres, a que Christo chama os grandes do seu reino, e a que elles
+chamam massas brutas; para esses, que não crendo acaso em Deus, accusam
+os que escrevem sinceramente a historia, de demolidores de nossa gloria;
+para esses liberaes e até democratas, que desprezam o povo ainda mais do
+que o desprezavam os poderosos de outros tempos; para os taes não
+applico eu só o dicto de Fleury, de que são ignorantissimos em materias
+de religião; digo tambem que o são em materias de politica. Para o povo
+ser livre, é necessario que seja religioso e honesto; não que seja
+credulo. Para que elle seja religioso e honesto é necessario que conheça
+as doutrinas do evangelho, que não são mais do que a confirmação divina
+da moral universal. Em vez de inculcar crendices ao povo, cumpre
+inculcar-lhe os principios do christinanismo, e as consequencias
+daquelles principios: cumpre illustrá-lo, em vez de o conservar na
+ignorancia; fazer-lhe sentir que a força de practicar grandes e nobres
+sacrificios, tão recommendados por Jesus, é o caracter que distingue o
+espirito immortal do homem do instincto que anima as alimarias. É
+preciso convencê-lo de que o patriotismo, de que esse puro e sancto
+affecto que nos faz abandonar os commodos domesticos, as affeições do
+coração, e arrostar com a fome, com a sede, com a nudez, com a
+intemperie das estações, para irmos morrer n'um campo de batalha,
+salvando a terra em que dormem nossos maiores, defendendo a cruz do
+nosso adro, a vida de nossos paes, a honra de nossas irmãs e mulheres, é
+a manifestação mais solemne da energia do espirito humano, e da
+abnegação christan. E estas verdades eternas; estas verdades, que,
+gravadas nos corações do povo, tantas vezes têm salvado as pequenas
+nações dos intentos ambiciosos das grandes, d'onde se deduzem? É das
+invenções dos milagreiros e falsarios, ou das divinas paginas da biblia?
+
+V.. deve conhecer, como homem de letras que é, a historia dos povos
+mussulmanos. Houve nunca no mundo crença que se estribasse tanto como o
+islamismo em falsos milagres, quasi sempre conducentes a inspirar o amor
+da guerra e o enthusiasmo das multidões credulas? E todavia, quaes foram
+os effeitos desse enthusiasmo, que não correspondia a doutrinas accordes
+com os instinctos naturaes da nossa alma, que não se fundava em
+convicções reflectidas, na certeza moral do dever, mas que se inspirava
+de promessas fingidas do céu? Os mussulmanos devastaram e submetteram a
+melhor porção da Asia e da Africa, e ainda uma pequena parte da Europa:
+formaram quinze ou vinte nações de falsos crentes, e estas nações
+cresceram e civilisaram-se combatendo sempre. E depois? Depois, quando
+foi preciso conservar o edificio; quando se tractou de defender a
+patria, em vez de a tirar aos outros; quando foi preciso repellir em vez
+de aggredir, mostrar essa perseverança, que nem se exalta com o
+triumpho, nem desanima com o revés; que padece, calada e soffrida; essa
+perseverança que é a mais poderosa arma dos povos ameaçados na sua
+existencia, tudo faltou. As nações mussulmanas desmembraram-se,
+fundiram-se, annullaram-se umas, desappareceram outras, e conservando
+todas as suas crenças, todos os seus milagres, ei-las ahi estão as que
+restam, ludibrio da humanidade, corruptas, decadentes, vivendo ao
+crepusculo da passada gloria, lançando nos dias da afflicção e do perigo
+os olhos para o occidente, a vêr se os filhos da cruz estendem o braço
+para proteger o crescente. As tradições das victorias, as maravilhas
+celestes dos tempos heroicos de Islam lá estão gravadas na memoria de
+todos. Porque não salvam, não regeneram ellas essas sociedades
+atrophiadas e moribundas?
+
+Ainda hoje ha homens das novas idéas, os quaes se dizem cheios de
+illustração e de philosophia, que, abandonando os milagres suppostos,
+não porque os tenham por infundados ou absurdos em si, mas porque suppõe
+que o fanatismo póde lucrar com elles, não querem que se toque nas
+tradições humanas que se ligam á gloria nacional. É verdade que não
+sabem bem que deva consistir a gloria de uma nação, porque nunca
+pensaram nisso. Para elles, que vivem no seculo XIX, onde quer que
+pereceram milhares de homens, combatendo por interesses que não
+comprehendiam, ou por torpe cubiça; onde quer que o ferro e o fogo
+arrasaram as cidades, despovoaram os campos, embora dessas cidades e
+campos nenhum mal tivesse vindo aos seus destruidores, ha uma gloria sem
+mancha, immensa, immarcessivel. Herdeiros pequeninos e pacificos dos
+gigantes da assolação, dos Tamerlans, dos Attilas e dos Gengiskans,
+avaliam pela estimativa daquelles illustres selvagens as façanhas dos
+proprios avós. Se a historia pergunta:--«Acaso esses combates, em que,
+sem duvida, se practicaram grandes feitos, foram uteis ao progresso
+moral e material do povo em cujo nome se peleijaram, ou trouxeram a sua
+decadencia? Está ou não essa gloria militar, aliàs indisputavel,
+assombrada por grandes crimes? Foi a intenção, a qual só determina o
+valor moral das acções, nobre, grandiosa, pura, ou teve motivos menos
+elevados? Foi um arrojo, um impeto nacional, ou um impulso dado pela
+ambição, ou pelo capricho de algum principe?»--A historia que faz estas
+perguntas ou outras analogas, porque esse é o seu dever, commette aos
+olhos dos taes um crime de leso-patriotismo. O castelhano, por exemplo,
+que disser:--«As barbaridades e crimes commettidos por Cortez, Pizarro,
+ou Almagro, na conquista da America, deshonram as emprezas arriscadas e
+longinquas dos filhos da Peninsula, embora o descubrimento do Novo Mundo
+demonstre a sua pericia, o seu ardimento de navegadores e de soldados.
+Os effeitos dessa conquista foram o corromperem-se os costumes, morrerem
+as industrias nascentes, despovoarem-se os campos da Hespanha,
+seccarem-se, em summa, todas as fontes da sua prosperidade solida e
+legitima: foram amontoarem-se nas mãos do fisco e dos poderosos o ouro e
+a prata, que, obtidos sem custo pelos crimes, se desbarataram sem pudor
+pelos vicios; foram o perderem-se as velhas liberdades, e com ellas o
+sentimento da dignidade humana, cujo ultimo brado soou nas rebelliões
+contra a tyrannia de Carlos V:»--o hespanhol que disser isto é um mau
+cidadão aos olhos dos mansos guerreadores destes nossos tempos. E
+porque? Porque, affirmam elles, o povo ha de moralisar-se, elevar-se
+pelas tradições da sua grandeza e gloria. O povo! Pois o povo que tantas
+vezes tracta de perto a fome e a nudez; cuja vida, desde o berço de
+farrapos até a enxerga rota em que fenece, vai travada de receios, de
+sobresaltos, de desalentos, e de agonias, pensa lá nas cutiladas que se
+deram, nas bombardadas que se despediram, ha tres ou quatro seculos, por
+mãos d'uns homens, cujos nomes e cujas façanhas se memoram n'uns livros
+que elle nunca leu, porque não sabe ler, nem tem dinheiro para pão,
+quanto mais para livros? Que são essas palavras retumbantes de
+regeneração pelas tradições, senão sons ôcos, que não correspondem a
+nenhuma idéa? Supponhamos, porém, que todas essas recordações chegavam
+ao povo. Podem ellas servir-lhe de exemplo, de licção para as suas
+necessidades actuaes? N'um paiz onde a riqueza passageira destruiu os
+habitos do trabalho e da economia, entorpeceu pela miseria, resultado
+infallivel da prosperidade ficticia, a energia do coração, que faz
+luctar o homem com a adversidade e vencê-la, de que serve estar de
+contínuo a prégar ao povo:--«Teus avós levaram o terror do seu nome aos
+confins do mundo, saquearam e queimaram emporios opulentos em plagas
+remotas, metteram a pique poderosas armadas, derribaram os templos
+alheios, violaram as mulheres extranhas, passaram á espada os que eram
+menos valorosos que elles, abriram caminho ao engrandecimento dos outros
+povos da Europa, e affeitos a gosos faceis, deposeram aos pés do
+absolutismo as suas velhas franquias, beijaram os grilhões que lhes
+deitavam aos pulsos por que eram dourados, e tornaram-se ludibrio do
+mundo.»--Estas licções é que hão-de ensinar a actividade no trabalho, a
+severidade nos costumes, o amor da liberdade moderada, mas verdadeira, o
+desejo de cultivar as artes da paz, no meio de um paiz decadente, cuja
+unica esperança de salvação está em se desenvolverem nelle essas e
+outras tendencias analogas? Não! O povo, que tem mais logica do que os
+prégadores de vãos apophtegmas, ha-de concluir outra cousa d'ahi: ha-de
+concluir que é assaz fidalgo para não contrahir habitos villãos e ruins.
+De historias d'aggressões e de conquistas brilhantes não se deduz a
+necessidade de morrer obscuramente em defesa da terra da patria; não se
+deduz a moderação revestida de firmeza, que faz respeitar pelas grandes
+as nações pequenas; não se deduzem nem o amor do trabalho, nem o amor da
+virtude. Em vez de contarem ao povo as façanhas da Africa e do Oriente,
+contem-lhe qual era o commercio de Lisboa, e o movimento agricola do
+paiz no no seculo XIV. Estejam certos de que a noticia desses e de
+outros factos analogos lhe é mais proveitosa, material e moralmente, de
+que recordar-lhe a gloria de batalhas e de conquistas.
+
+Falsas lendas religiosas, falsas ou verdadeiras lendas humanas nunca
+salvaram um paiz, quando a podridão penetrou no amago da arvore social.
+Onde e quando o homem renega da sua origem divina, vende a liberdade a
+troco de delicias, esquece que o elevar-se acima de viciosas paixões
+traz um goso interior que vale bem todos os que dão os sentidos, não é
+lisonjeando-lhe vaidades, que, nem sequer respeitam a magestade de Deus,
+que o havemos de revocar ao sentimento da dignidade e do dever. V..
+sabe, talvez melhor do que eu, a historia do imperio romano, e
+nomeadamente a historia do baixo-imperio. Não leio essas paginas
+melancholicas, sem que involuntariamente volva os olhos para o estado
+actual de algumas nações modernas: as analogias que encontramos entre
+estas e aquella são symptomas dolorosos; mas não vem para aqui. Eu peço
+a v.. que reflicta sobre essa historia em relação á efficacia das
+tradições. Ella completa o quadro que nos offerecem as nações
+mussulmanas. Não foi no tempo da republica, foi sob o ferreo dominio dos
+cesares, que os poetas cantaram os mythos da gente romana, que os
+historiadores celebraram as suas glorias, e deram a importancia da
+verdade a centenares de lendas tradicionaes e fabulosas, que a sciencia
+moderna, as investigações do grande Niebuhr, reduziram já ao seu justo
+valor. De que serviram, porém, essas glorias, esses milagres do
+polytheismo, contados gravemente a um povo servo e gasto, que apodrecia
+aos pés dos tyrannos? Nos ultimos tempos do imperio os rhetoricos
+espraiavam-se em exaggerações sobre as grandezas passadas, emquanto os
+cidadãos recusavam combater por uma patria que se tornara em nome vão, e
+preferiam o jugo dos barbaros a uma nacionalidade mentida. Os hymnos, as
+gloriosas recordações romanas serviram só para acompanhar ao cemiterio
+da historia o ataúde de Roma.
+
+Consinta v.. que a estas rapidas considerações eu ajuncte ainda um
+exemplo domestico, sobre o qual peço a v.. que medite. Na lucta violenta
+e tenaz que Portugal sustentou nos fins do seculo XIV para repellir o
+dominio estrangeiro, ninguem se lembrou de fortalecer os animos
+invocando o milagre de Ourique; ao menos não espero que v.. me aponte o
+menor vestigio historico que me desminta. A razão para desaproveitar tal
+auxilio foi demasiado forte; foi a razão do cordeiro da fabula--_o
+milagre ainda não era nascido_. E todavia o triumpho coroou os heroicos
+esforços de um povo pequeno, que quiz verdadeiramente ser livre.
+
+Dous seculos depois o milagre de Ourique dominava, absoluto e não
+contradicto, no commum dos espiritos. V.. se encarregou de o provar de
+modo innegavel. E todavia, quasi sem combate, as espadas castelhanas
+acabaram com a independencia de Portugal n'um dia.
+
+Entre os dous factos está, além do milagre, a grande gloria das
+conquistas, gloria que não era uma tradição remota, quasi oblitterada na
+memoria do vulgo, mas um facto vivo, recente, e a bem dizer actual.
+Alguns dos que mais tinham contribuido para ella ainda viviam.
+
+Estes dous phenomenos, que determinam duas epochas principaes da nossa
+historia, assim aproximados, são a negação mais solemne da utilidade dos
+embustes religiosos, ou para melhor dizer, anti-religiosos, e do orgulho
+selvagem de ter annaes escriptos com o sangue humano vertido em guerras
+não provocadas, em guerras de aggressão, e sobretudo de cubiça.
+
+Mas concedamos que, n'um ou n'outro caso singular, um general ou um
+homem d'estado tirasse vantagem dessa deploravel força moral que se
+estriba nas superstições, ou nas idéas de uma gloria feroz. A questão é,
+se hoje o povo português tem alguma vantagem que tirar dessas tradições,
+na situação em que a Providencia o collocou. Sejamos sinceros. Póde elle
+sonhar em ser conquistador, ou sequer em constituir uma potencia
+maritima ou continental que pése com demasiada força na balança dos
+acontecimentos politicos? Parece-me que nenhum sisudo o dirá. Somos
+pequenos; mas nem isso é vergonha, nem impedirá que as grandes nações
+nos respeitem, se formos respeitaveis. Para obtermos consideração basta
+que os nossos progressos intellectuaes e moraes mostrem á Europa que
+sabemos, queremos, e podemos regenerar-nos pela sciencia, pelo trabalho
+e pela morigeração.
+
+Morigeração, trabalho, sciencia, eis as armas com que a philosophia
+politica deste seculo ensina as nações civilisadas a combaterem n'uma
+lucta generosa. Os espiritos mais altos, seja qual fôr a sua crença
+religiosa e politica, proclamam a paz e a fraternidade entre os homens.
+E não só as proclamam, mas até empregam a poderosa alavanca da
+associação para promoverem, digamos assim, uma cruzada sancta contra as
+tendencias guerreiras. Os esforços collectivos desses homens summos
+serão baldados? Não o cremos. Elles tem um alliado irresistivel. Quando
+os exercitos permanentes e as grandes marinhas militares tiverem
+devorado todo o peculio de cada povo, e exhaurido a melhor e mais pura
+seiva da sua vida economica, é então que a philosophia politica hade
+alcançar um triumpho decisivo. Mas esse triumpho que outra cousa será
+senão o ultimo termo de uma sorites immensa, composta dos factos de
+dezenove seculos, de uma demonstração practica e invencivel, de que a
+lei moralmente necessaria das sociedades modernas é o christianismo, é o
+verbo de amor e da paz revelado no Evangelho?
+
+Nesses dias, que porventura tardam menos do que muitos pensam, que
+destino darão os sacerdotes da bombarda, da lança e da espada aos seus
+deuses fulminados? As palavras «façanhas, gloria guerreira, conquistas,»
+como serão definidas nos diccionarios das linguas vivas, dentro de um ou
+dous seculos? Como julgará a historia os milagres inventados para
+sanctificar o derramamento de sangue humano?
+
+Desculpe v.. esta digressão, que não creio nem inutil nem extranha ao
+assumpto. De novo entrarei directamente nelle, para proseguir nas
+explicações que devo aos meus adversarios sinceros, honestos e
+instruidos, e não á ignorancia malevola e presumida de hypocritas
+insignificantes.
+
+Começarei por dar a v.. a razão moral, a razão suprema, porque rejeito
+não só o milagre de Ourique, mas tambem os outros milagres, como o de
+Alcacer, a que ou a má fé, ou a piedade pouco illustrada quizeram
+attribuir a sorte das batalhas, sorte dependente dos occultos designios
+da Providencia e de mil accidentes, previstos ou fortuitos, explicaveis
+ou inexplicaveis para a historia. Não creio que essas guerras contra os
+infiéis fossem cousa excessivamente christan, e por isso o meu espirito
+recusa-se a acceitar como factos verdadeiros os testemunhos de
+approvação divina a um procedimento anti-evangelico. Na idade média
+passava como cousa corrente, que o guerrear os infiéis e fazer-lhes
+acceitar á força o jugo, aliàs tão suave e tão livre, do christianismo,
+era obra meritoria. Os principes aproveitavam-se desta doutrina, ou,
+para sermos justos, acreditavam-na, em geral, sinceramente:
+acreditavam-na, até, a maior parte dos homens intelligentes e pios.
+Entre estes se distingue o proprio S. Bernardo, que o excessivo zelo da
+gloria do christianismo incitou a promover a segunda cruzada, cujo
+infeliz resultado lhe acarretou tantas accusações amargas, tantos
+desgostos pungentes. A favor das guerras contra os mussulmanos durante a
+idade média, principalmente a favor da que se fazia na Peninsula, podem
+militar boas razões de politica, e até de direito, porque essa guerra
+não era mais do que a reacção contra uma conquista. Razão religiosa é
+que eu não vejo nenhuma que a favoreça. Repugna-me á consciencia que o
+Christo, o Deus de paz e misericordia, viesse pessoalmente ou enviasse
+os seus anjos a incitar christãos a derramarem o sangue humano, a
+levarem a assolação e a morte ao meio daquelles que não o adoravam. Será
+este um modo errado de vêr? A S. Thomás de Aquino, que ainda alcançou os
+tempos das cruzadas, não fizeram força alguma as opiniões que haviam
+dado origem áquellas expedições longinquas, para deixar de estabelecer
+que a diversidade de crença não é motivo bastante para um povo atacar
+outro. Reprovando a guerra de religião, não era possivel cresse que Deus
+approvava essas luctas crueis com manifestações sensiveis. Vê-se,
+portanto, que os _milagres militares_, que então se contavam a tal
+respeito, pouco credito mereciam a um dos homens mais pios do seculo
+XIII, e sem contradicção ao mais profundo philosopho do seu tempo.
+Ouçamos, porém, o grande historiador da igreja, falando dessas guerras
+contra os mussulmanos.
+
+«Os christãos--diz Fleury--devem applicar-se, não a destruir mas sim a
+converter os infiéis... Quando Jesus disse que tinha vindo trazer ao
+mundo a guerra, da sequencia do seu discurso, e do procedimento dos seus
+discipulos se manifesta claramente que só se referia ás turbações que
+havia de excitar a sua doutrina celestial, turbações em que a violencia
+havia de vir toda dos inimigos, a quem os christãos opporiam a
+resistencia que as ovelhas oppõem aos lobos. A verdadeira religião deve
+conservar-se e dilatar-se pelos mesmos meios por que se estabeleceu,
+pela prédica discreta, pelas obras virtuosas, e mais que tudo por
+illimitada paciencia. Se a isso Deus quizer ajunctar o dom dos milagres,
+mais prompto será o effeito. Quando Machiavello dizia que os prophetas
+desarmados nunca saíram com seus intentos, mostrava-se a um tempo
+ignorante e impio; porque Jesu-Christo, o mais desarmado de todos, foi o
+que fez conquistas mais rapidas e firmes; conquistas como elle as
+queria, ganhando as almas, mudando de todo os homens, e tornando-os de
+maus em bons, o que nenhum conquistador jámais fez....»
+
+«Repito pois, que não se deve tractar de diminuir as falsas religiões,
+ou dilatar a verdadeira pelas armas e pela violencia: não são os infiéis
+que se devem destruir, mas sim a infidelidade, conservando os homens, e
+illustrando-os ácerca dos seus erros. Em summa, para isso não ha senão
+um meio, persuadir e converter....»
+
+Imagine v.. se Fleury acreditaria nos milagres d'Alcacer e de Ourique,
+milagres em que se faz intervir o céu para o derramamento do sangue
+humano; milagres, que nem tem o merito de originalidade, porque não
+havia por essa épocha paiz da Europa, onde tambem a credulidade de
+muitos, e a má fé de alguns não tivessem associado largamente o céu ás
+luctas sanguinolentas daquelles tempos tumultuarios e rudes; milagres,
+emfim, que, por sua natureza, são, religiosa e moralmente, absurdos.
+
+De passagem lembrarei a v.. que não é bem fundada a accusação que me
+dirige, de que não appliquei ao milagre de Alcacer a regra de Vicente de
+Lerins, quando foi exactamente o contrario que fiz. Dos tres testemunhos
+presenciaes que temos ácerca daquelle celebre recontro, só em dous se
+allude aos signaes miraculosos que se viram no céu. O auctor da Historia
+Damiatana, que assistiu ao successo, ommitte a circumstancia milagrosa.
+Não acha v.. significativo este silencio? Em todo o caso falta o _ab
+omnibus_ de Vicente de Lerins, e v.. ha de ter presente a doutrina de
+Mabillon, citada por mim na carta antecedente, de que é _temerario_, não
+só o acreditarmos em milagres falsos, mas até nos simplesmente
+_duvidosos_. Quando o sentimento religioso, o respeito das doutrinas
+evangelicas não obstasse á crença nesse favor do céu, obstar-lhe-hia a
+severa doutrina do grande benedictino.
+
+Se não fosse o desejo de dar satisfação plena aos homens escrupulosos,
+mas capazes de se convencerem da verdade, como v.. talvez concluisse
+aqui esta carta, porque as grosserias parvoas da ignorancia e os rugidos
+do interesse ferido, que vê fugir atraz da apparição de Ourique todos os
+milagres rendosos, só se punem com a immortalidade do ridiculo.
+
+Não concluirei, porém, sem dizer alguma cousa em especial sobre a
+tradição do apparecimento de Christo a Affonso I, considerada na sua
+origem, e no modo como foi propagada e defendida. Os principios mais
+solidos da critica, o silencio absoluto, não só dos contemporaneos, mas
+tambem de dez gerações successivas, bastaria para condemnar a tradição
+aos olhos dos desapaixonados, quando ella não fosse absurda em si,
+porque é absurdo pôr Deus em contradicção com a indole do christianismo.
+Ha, porém, na historia da invenção, propagação, e aperfeiçoamento dessa
+lenda tanta hesitação, tantas contradições, tanta imprudencia, tanta
+falsificação, tantos desejos de se illudir ou de illudir os outros, em
+homens que parece deveriam ser superiores a taes fraquezas, que o
+colligir as provas disso é offerecer uma licção salutar do perigo que ha
+em abusar do sentimento religioso do povo para fins mundanos, e da
+miseria a que podem chegar ainda os altos engenhos, quando se esquecem
+das doutrinas evangelicas, e de que as duas cousas que o Salvador mais
+solemnemente amaldicçoou neste mundo foram a mentira e a hypocrisia.
+
+O silencio de mais de tres seculos sobre um facto estrondoso, que
+deveria andar na memoria de todos, como o milagre de Ourique, não é só
+negativo, por assim nos exprimirmos; é tambem positivo. Conjuncturas
+houve, antes dos fins do seculo XV, em que elle se teria publicamente
+invocado, se não fosse uma fabula ainda não inventada. Citarei duas.
+Seria inexplicavel, se admittissemos a existencia da tradição cem annos
+antes de 1485, que nem um só dos prégadores, letrados, e capitães de D.
+João I, os quaes mais de uma vez, nas suas allocuções ao povo e aos
+soldados, reccorreram ás cousas religiosas para accender os animos
+contra os castelhanos, e para crear a confiança de victoria final na
+lucta brilhante da independencia; que nem um só desses prégadores,
+letrados e capitães, os quaes não cessavam de accusar os inimigos de
+scismaticos, pretendendo ligar á sua causa a causa de Deus, se lembrasse
+jámais de citar as promessas feitas por Christo a Affonso I, o que era
+decisivo. Antes disso, tambem, nos principios do seculo XIV,
+tractando-se com grande empenho da separação da ordem de Sanctiago em
+Portugal do grão-mestrado de Castella, o mestre e os freires portugueses
+dirigiram ao papa um longo arrazoado em que argumentavam, que, sendo os
+bens que a ordem possuia em Portugal, reino separado e independente de
+Castella, dados pelos reis deste paiz, não era justo que o grão-mestre
+castelhano os continuasse a desbaratar a seu bel-prazer. Para firmar na
+origem do reino a independencia daquella parte dos cavalleiros que nelle
+residiam, o mestre Pedro Escacho e os seus commendadores allegavam ao
+papa um facto novo, mas do qual era quasi impossivel que separassem a
+historia da apparição, se della houvesse vestigios. O facto novo era a
+acclamação de Affonso I em Ourique.
+
+«Outr'ora--diziam em Roma os procuradores dos spatharios--o rei de
+Portugal, D. Affonso I de clara memoria, o qual, esmagando com mão
+poderosa a barbara fereza dos sarracenos no campo de Ourique, foi
+elevado a rei pelos seus nobres e _pelos outros concelhos_, combateu os
+dictos sarracenos inimigos da religião orthodoxa com todas as forças,
+para exaltação da fé catholica e defensão do proprio reino. O mesmo rei,
+debellando e expugnando os infiéis, acommetteu-os e tirou-lhes
+castellos, fortalezas e muitas terras. Acceso em zelo da fé, e
+attendendo ao esforço do mestre e freires de Sanctiago que então viviam,
+concedeu-lhes, etc.»
+
+Não fazendo caso da ignorancia dos procuradores de Pedro Escacho[28]
+ácerca do estado da sociedade portuguesa no meiado do seculo XII, quando
+mencionam os villãos dos concelhos como intervindo n'uma eleição de rei,
+não faz peso a v.. que não se lembrem do milagre da apparição? Se
+existisse a tradição, poderiam elles ignorá-la, e não a ignorando
+ommitti-la, quando tanto convinha invocá-la? Não era evidente que o
+titulo e a independencia do rei obtinham incomparavelmente mais
+importancia e firmeza dos mandados positivos de Christo, do que das
+acclamações da soldadesca? Deixo á imparcialidade de v.. o resolver
+estas questões.
+
+Eis-aqui por que eu digo que o silencio de todas as memorias e
+documentos anteriores a 1485 ácerca da apparição não é só negativo; que
+é tambem positivo. Mas existe realmente este silencio?--perguntar-me-ha
+v.. Conforme a sua opinião, estribada na de Cenaculo e Pereira, elle não
+existe. No folheto recentemente publicado, que v.. intitulou _Nova
+Insistencia_, com lealdade de cavalheiro e de homem de letras v..
+abandonou o texto forjado de S. Bernardo, e entendo que tambem o antigo
+documento da _Symmicta_ ao destino que elles mereciam; mas insiste nos
+outros documentos que se citam. Examinarei se v.. tem razão na
+insistencia. Mas antes disso cabe-me consolar aqui v.. das injurias que
+a bruta ignorancia de um pobre tonto vomitou indirectamente contra v..
+por não distinguir o texto attribuido no breviario a S. Bernardo;
+cabe-me, digo, consolá-lo com o meu exemplo, e com o de um sacerdote
+instruido, que, enganado com v.. por aquella insigne falsificação,
+expondo-lhe eu as minhas opiniões ácerca do milagre de Ourique, me
+contrapunha o testemunho do grande abbade de Claraval, inserto no
+breviario. Como, porém, para escrever a historia do nosso paiz é
+necessario caminhar como quem passa pelo pinhal d'Azambuja, lá com todas
+as prevenções contra os salteadores, cá attentos sempre a que não nos
+illuda a cada momento um fabricante de mentiras ou um falsificador de
+documentos e textos, amestrado pela experiencia repliquei que duvidava
+da passagem do breviario, e que duvidava sobretudo pelo adjectivo
+_lusitanum_, que nella se lê, e que eu tinha a certeza de não se
+encontrar em monumento nenhum do seculo XII para significar _português,
+cousa portuguesa_. Na duvida, passámos a examinar o texto do sancto, e a
+falsificação appareceu-nos logo mais clara que o dia. Assim v.. teve
+companheiros na illusão; nem creia que tem tido só dous: ha-de ter tido
+milhares delles. Ria-se destes eruditos que adivinham tudo quanto se
+lhes diz: ria-se dos Mabillons de agua chilra, que logo distinguem _pelo
+estylo_ quatro ou cinco linhas interpoladas nas obras de qualquer
+escriptor.
+
+Mas, voltando ás cousas sérias, v.., repito, insiste nas outras provas,
+desprezadas as evidentemente falsas. E quaes são as que ficam? Creio que
+v.. tem presentes a regra de Gmeiner, de Mabillon, e de toda a gente que
+não esteja em guerra declarada com o senso-commum, _de que não provém
+maior certeza a um facto historico de ser relatado em livros de muitos
+auctores mais modernos, cada um dos quaes foi copiando o que o outro
+tinha dicto. Todos elles junctos não valem mais do que o primeiro que o
+referiu._ Assim, tendo nos escriptores dos fins do seculo XV que relatam
+o milagre, todas as auctoridades que v.. cita do seculo XVI annullam-se
+completamente. Ha, porém, outras anteriores, dirá talvez v.. É verdade
+que Cenaculo as propõe. Mas quaes são ellas? Examinemos.
+
+1.^o Um indice, escripto em Roma, de documentos relativos a Portugal em
+que se memora o facto da apparição.
+
+Como Cenaculo nos não diz a data do indice, estamos desobrigados de
+discutir o documento a que se refere: provavelmente havia de ser pelo
+gosto do da Symmicta.
+
+2.^o A doação ao mosteiro de Claraval, feita por Affonso Henriques.
+
+Tem o pequeno inconveniente de ser falsa. João Pedro Ribeiro reduziu-a a
+lastimoso estado na segunda das suas Dissertações Chronologicas. Estou
+certo de que o bispo de Béja, se resuscitasse, não havia de ter vontade
+de tornar a falar nella.
+
+3.^o Nos _Commentarios_ de Affonso sabio, traduzidos em português no
+tempo de Affonso IV, termina o capitulo 416 por uma passagem, em que
+Cenaculo quiz ver a memoria do milagre, embora nella não haja uma
+palavra a semelhante respeito.
+
+Este testemunho, ainda suppondo que a passagem diga o que não diz, tem
+tambem outro pequeno inconveniente. É que Affonso sabio não escreveu
+Commentarios nenhuns. Veja v.. se os encontra mencionados no extenso e
+minucioso artigo ácerca de Affonso X, na _Bibliotheca Hespanhola_ de
+Rodrigues de Castro, ou se acha em parte alguma vestigios de taes
+Commentarios.
+
+4.^o Uma passagem de uma chronica inedita dos reis de Portugal, que,
+_pela fórma da letra e pela linguagem_, se conhece ser do tempo de
+Affonso IV. Esta passagem diz-se transcripta de um codice da camara
+d'Evora.
+
+Pedirei pela primeira vez um favor a v.. É que não acredite demasiado na
+pericia paleographica de Cenaculo. A diplomatica ainda não acho meios
+sufficientes para distinguir com certeza pela fórma dos caracteres, nos
+codices portugueses, os que são do seculo XIV ou do XV. Tanto em letra
+assentada como em cursivo, não ha nelles senão a alleman pura, ou a
+francesa com maior ou menor resabio de monachal ou alleman. Isto é
+commum a ambos os seculos. A mesma romana pura ou restaurada, que começa
+a apparecer nos fins do XV, tem ainda resabio da monachal. Pelo que
+respeita á outra adivinhação de Cenaculo relativamente á linguagem, v..
+como homem de letras, está por certo habilitado para avaliar a _força_
+deste meio de apreciação. Se o bispo de Béja vivesse, eu compromettia-me
+a apresentar-lhe passagens extensas, escriptas em vulgar no meio do
+seculo XIV e outras escriptas já na segunda metade do XV, e se elle
+fosse capaz de dizer quaes eram as antigas e quaes as modernas, dava-lhe
+a minha palavra de honra de ficar crendo no milagre de Ourique. Esta
+experiencia que eu offereceria ao erudito bispo, estou prompto a
+offerecê-la a quem quer que pretender tentá-la.
+
+Agora accrescentarei mais alguma cousa. No archivo da camara d'Evora,
+que examinei por meus proprios olhos, posso certificar a v.. que nada ha
+anterior a D. João I; nem diplomas, nem codices. Que é feito da tal
+chronica que o bispo de Béja diz existir no archivo da camara d'Evora? O
+que havia de estimação naquelle archivo foi distrahido pelo antiquario
+Lopes de Mira, que viveu um pouco antes de Cenaculo. Isto é sabido pelas
+pessoas eruditas d'aquella cidade. V.. deduzirá d'aqui as conclusões
+legitimas.
+
+A erudição immensa de Cenaculo tem um defeito que nelle provinha do
+excesso de uma util faculdade unida a uma indole inquieta e impetuosa.
+Era essa faculdade a da memoria comprehensiva e tenaz. Lia muito e
+fiava-se na força da propria reminiscencia. Seria facil provar pelos
+seus escriptos que grande numero das citações que fazia e das
+auctoridades em que se estribava não as verificava, e que a memoria o
+trahia ás vezes, quando menos em particularidades e accidentes que
+modificavam a significação dos textos, servindo mal os intuitos do bom
+do prelado e tornando suspeita a sua candura.
+
+Os _Commentarios_, por exemplo, de Affonso sabio, traduzidos em
+português, podiam ser, não uma invenção, mas sim uma reminiscencia, ou
+uma nota tomada á pressa por Cenaculo, e talvez a chronica inedita dos
+reis de Portugal, que _pela fórma da letra e pela linguagem_ se conhecia
+ser do tempo de Affonso IV, fosse cousa analoga aos taes _Commentarios_,
+isto é, apenas uma confusão de idéas, ou, quando muito, uma inexacção de
+apontamentos.
+
+Existe uma compilação historica em vulgar, ou colligida ou accrescentada
+nos meiados do seculo XV, visto que na parte relativa a Portugal abrange
+a regencia e morte do infante D. Pedro (cap. 438) e nada contém
+posterior a este facto, continuando nos capitulos seguintes a historia
+dos outros estados da Peninsula. Conhecem-se tres exemplares desta
+compilação, que constitue, ao menos intencionalmente, uma historia geral
+das Hespanhas desde os tempos mais remotos até os seculos XIV e XV. Em
+París e em Madrid conservam-se os dous exemplares mais antigos. O de
+París trasladou-o o dr. Nunes de Carvalho com o intuito de imprimir
+aquelle curioso inedito. Dadiva do meu tão erudito como modesto amigo
+José Gomes Monteiro, possuo eu o terceiro exemplar, que parece ter
+pertencido a Manuel Severim de Faria. O codice de Madrid é talvez o
+mesmo que menciona pouco explicitamente Ferreira Gordo nas Memorias de
+Litteratura da Academia, Tom. 3, pag. 49. A _Cronica General_ attribuida
+a Affonso sabio subministrou ao compilador a historia fabulosa e a
+historia antiga da Peninsula atè a epocha leonosa. A corographia
+d'Hespanha, bem como a narração da entrada e conquista desta pelos
+mussulmanos e dos primeiros tempos do seu predominio são extrahidas da
+historia arabe de Arrazi, conhecido vulgarmente pelo nome de Mouro
+Rasis. Attribue-se ao reinado de D. Dinis e á iniciativa daquelle
+principe uma traducção do livro do historiador musulmano, e
+effectivamente esta parte da compilação é uma daquellas que parecem mais
+antigas pela rudeza da linguagem. A chronica do Cid, publicada
+modernamente pelo P. Risco, e cuja authencidade foi disputada por
+Masdeu, era conhecida já do compilador, que largamente a aproveitou na
+composição do seu livro.
+
+No exemplar de París, conforme o que se vê da copia de Nunes de
+Carvalho, faltam os capitulos 411 a 441. Ignoro se o mesmo succede no
+exemplar de Madrid. Encontram-se, porém, no que pertenceu a Severim de
+Faria; e é justamente nestes capitulos, desde o 412 até o 438 que está
+inserida a chronica dos reis de Portugal, começando na vinda do conde D.
+Henrique e finalisando nos primeiros annos do governo de Affonso V. É
+uma narrativa assás resumida, distinguindo-se apenas a parte relativa
+aos reinados de Affonso I e de D. Dinis, cujos successos verdadeiros ou
+fabulosos são mais particularisados.
+
+Conserva-se na Bibliotheca Publica do Porto, com o n.^o 79, um antigo
+codice transferido para alli em 1834 do archivo de Sancta Cruz de
+Coimbra. Contém varias memorias historicas e outros papeis avulsos
+escriptos por diversas mãos, tudo colligido, segundo parece, nos fins do
+seculo XV. Acaba o codice por dous chronicons em vulgar[29]. Um tem por
+titulo «_Como e donde descenderom os reis de Portugal_»: o outro «_Aqui
+se compeça a istoria dos reys de Portugal_»: Ambos se referem em breves
+palavras ao conde Henrique, dilatando-se com os successos e lendas da
+vida de Affonso Henriques, successos e lendas aproveitados pelo
+chronista Galvão. Ao passo, porém, que o primeiro chronicon não
+ultrapassa a epocha de Affonso I, o segundo abrange, postoque em breve
+resumo, as vidas dos seus successores até D. Dinis. Em relação aos
+tempos de Affonso Henriques são em parte identicos, não só no contexto,
+mas até nas phrases. Ha todavia entre elles uma differença digna de
+reparo: é a de que no primeiro se repetem mais de uma vez as palavras
+_conta a historia_, que não apparecem no segundo, ao passo que n'aquelle
+se referem tradições relativas a Affonso I ommittidas neste, donde se
+conclue que o primeiro foi tirado de um trabalho historico mais antigo,
+de que talvez o segundo seja apenas um extracto, embora accrescentado
+com leves traços dos subsequentes reinados.
+
+No exemplar da compilação que pertenceu a Severim de Faria a narrativa
+dos successos de Portugal durante a vida de Affonso I póde dizer-se que
+é um complexo dos dous chronicons de Sancta Cruz, ás vezes perfeitamente
+semelhante, outras variando nos vocabulos e phrases. Aproveitaram-se os
+chronicons na compilação ou tiraram-se della? Por outra: qual dos tres
+monumentos é mais antigo? É o que não importa nem eu me atrevo a
+resolver.
+
+O que importa é o que se lê nestes monumentos, os mais remotos que nos
+restam escriptos em vulgar, ácerca da batalha de Ourique. Vejamos se lá
+se encontram vestigios do celebre milagre.
+
+O primeiro chronicon de Sancta Cruz diz-nos que Affonso Henriques,
+acclamado rei pelo exercito antes do combate, depois deste, _por memoria
+daquelle boo aquecimento que lhe deus dera pôs no seu pendam cinquo
+escudos por aquelles cinquo reis e pose-os em cruz por renembrança da
+cruz de nosso senhor ieshu christo, e pôs em cada huum XXX dinheiros por
+memoria daquelles XXX dinheiros por que iudas vendeo Ieshu christo._
+
+No segundo chronicon, entre a narrativa particularisada da lucta de
+Affonso Henriques com sua mãe e com o conde de Trava (a que faz seguir
+immediatamente o recontro de Valdevez) e a lenda do cardeal legado e do
+bispo negro medeia a noticia da batalha de Ourique por estas simples
+palavras: _E depois ouve batalha em nos quanpos dourique e venceo a._
+Indicio notavel de que ainda no seculo XV havia quem desse áquelle
+acontecimento uma importancia secundaria.
+
+Na compilação a passagem relativa á jornada de Ourique é a seguinte:
+«Ajuntou suas gentes e foyse sobre os mouros e correolhes a terra dês
+coimbra ataa santarem, e deshy passou o tejo e correo toda a terra ataa
+o campo de Ourique, onde achou elRey ismar, que a essa sazon era Rey da
+estremadura, com sinco Reys que o vinham buscar sabendo o grande dapno
+que lhes fazia em sua terra, e entrou com elles em batalha no lugar que
+se chama crasto verde, e vencêos e prendêos e matou a mayor parte de
+todas suas gentes; mas antes que entrasse em na batalha os seus o
+alçaram por Rey, e dês enton se chamou Rey de portugal: e depois que os
+Reis forom vencidos, elRey dom Affom de portogal, por memoria daquelle
+boo acontecimento que lhe deus dera trouve por armas sinco escudos por
+aquelles sinco Reis e pozeos em cruz por nembrança da cruz de nosso
+senhor jesu cristo, e poz em cada huum escudo trinta dinheiros por os
+trinta dinheiros por que judas o vendêo, e dêsi tornouse para sua terra
+muy honradamente».
+
+Onde estará o milagre em qualquer destas tres passagens não posteriores
+aos meados do seculo XV e que por ventura são mais antigas?
+
+É muito possivel que Cenaculo, homem d'immensa e variadissima leitura,
+tivesse visto alguma copia dos chronicons de Sancta Cruz, e igualmente a
+compilação no exemplar de Severim de Faria, que viveu no Alemtejo, onde
+tambem Cenaculo residiu longamente, e onde o manuscripto podia
+conservar-se ainda no tempo do bispo de Beja. Uma circumstancia digna de
+notar-se torna mais plausivel esta suspeita. Cenaculo cita o fim do
+capitulo 416 dos suppostos _Commentarios_, e na compilação os ultimos
+periodos do capitulo 415 são os que se referem á batalha de Ourique e
+aos seus resultados. O logar do capitulo citado é o mesmo: a differença
+está na numeração deste, e essa differença é apenas de uma unidade.
+Preoccupado pela idea do milagre, do qual se faz derivar o imaginario
+escudo de Affonso Henriques, nada mais facil do que Cenaculo, citando de
+memoria, dar á compilação, tirada em grande parte da _Cronica general_,
+o titulo de Commentarios d'Affonso sabio, e aos chronicons de Sancta
+Cruz o de chronica inedita, confundindo ao mesmo tempo a lenda do escudo
+d'armas com a lenda da apparição, acerca da qual não ha ahi uma palavra.
+Tudo isto não passa de conjecturas, mas de conjecturas que põem em salvo
+a probidade litteraria de um dos nossos mais illustres prelados de uma
+epocha ainda pouco remota, em que os bispos portugueses eram bispos, e
+não vigarios do papa[30].
+
+Em Cenaculo a defensão do milagre de Ourique era empenho cego. Não sei,
+nem me importam os motivos. Importa-me o facto, que annullaria melhores
+testemunhos do que esses que cita, quando elle fosse o seu unico
+abonador. Quer v.. uma prova decisiva da cegueira do douto prelado? Eu
+lh'a dou, e irrefragavel: é o seguinte periodo:
+
+«O advertido padre Pereira faz ver que desde o seculo XV se acham
+escriptores mui auctorisados, que referem o acontecimento como de cousa
+_então vulgar entre as pessoas que haviam tractado os immediatos
+contemporaneos do successo, em maneira que a tradição é coetanea._»
+
+Traduzido em linguagem chan, quer isto dizer que em 1485 (epocha do
+primeiro testemunho preciso sobre a apparição, o de Vasco Fernandes de
+Lucena), havia gente que tinha conhecido individuos do tempo da batalha
+de Ourique, ou por outra, que no seculo XV havia pessoas _com trezentos
+annos de idade._
+
+Quem diz isto póde dizer livremente o que lhe aprouver. Quando um
+espirito não-vulgar chega a este estado, que nos resta senão
+confessarmos o nosso nada diante da summa intelligencia de Deus?
+
+Aqui tem v.. por que eu me limitei, quanto me foi possivel, a falar de
+leve na apparição; eis porque tenho até hoje reluctado em descer á
+discussão especial dessa mentira ridicula, com que os prégadores vão
+ludibriar o povo na cadeira do evangelho. Estas miserias e vergonhas, e
+as que successivamente apontarei, sobre quem recaem? Sobre homens que
+aliàs têm direito á reputação que adquiriram na historia litteraria do
+paiz e nos annaes da igreja portuguesa, mas que um impulso talvez de
+amor proprio[31], talvez uma piedade ou um patriotismo irreflectido,
+fizeram com que, em vez de buscarem a verdade, buscassem a prova de que
+tal ou tal cousa era verdade, caminho deploravel em cujo termo é certo o
+precipicio.
+
+Fóra dos testemunhos cujo nenhum fundamento acabo de mostrar, Cenaculo
+reduziu-se a adoptar as pretendidas provas do padre Pereira, sem
+exceptuar o juramento de Alcobaça. E note v.. que elle o conhecia tão
+pouco ou era tão fraco diplomatico, que não hesitou em escrever estas
+palavras memoraveis:--«_Duvidar da apparição_ emquanto o desconhecimento
+dos testemunhos a faz presumir de piedade popular e crença apaixonada,
+_pode ser critica_; mas a interpretação livre e esquerda da palavra real
+e fundada (o juramento de Alcobaça) merece ser sempre vista com
+desapprovação e desagrado».--Isto quer dizer que, se não houvesse o
+instrumento da apparição, podiamos com boa critica deixar de crer no
+milagre. Assim, se o bispo de Béja vivesse hoje, á vista da declaração
+official da falsidade do documento, que o meu amigo Rebello da Silva
+arrancou ao juiz mais competente na materia, o lente de diplomatica e
+guarda-mór interino do Archivo Nacional, elle teria de passar com armas
+e bagagens para o campo dos _impios_, se quizesse (havia de querer)
+intitular-se bom critico.
+
+Mas, deixando de parte o conjecturar qual seria hoje a opinião de
+Cenaculo, vamos aos _Novos Testemunhos_ do padre Pereira. Disse eu que
+este escripto traria deshonra ao auctor da _Tentativa Theologica_, e da
+_Vida de Gregorio VII_, se não fosse uma ironia. Confesso a v.., que
+antes quero salvar, por esta hypothese, a reputação de um nome illustre
+na nossa litteratura, do que acceitar a anecdota, a que alguns attribuem
+a concepção dos _Novos Testemunhos_, anecdota que mais de uma vez tenho
+ouvido referir. Conta-se, que, sendo o padre Pereira pouco aferrado ao
+dinheiro (é defeito de classe: não creia v.. que usurario nenhum fosse
+nunca homem de letras) veio a achar-se um dia com a bolsa completamente
+vazia. Advertido da apertura da situação pelo creado, pegou n'algumas
+folhas de papel, escreveu os _Novos Testemunhos_, mandou-os ao seu
+editor, e recebeu dez moedas, com que ficou rico, ao menos por dous ou
+tres dias. Eu prefiro a ironia á anecdota, que não sei se é verdadeira.
+Mas ou a musa do opusculo fosse a precisão de dinheiro, ou fosse a
+vontade de gracejar, o que tenho por certo é que, a não ser assim, a
+obra fora indigna de um homem, que pulverisou as pretensões illegitimas
+e insolentes da curia romana, e que fez tremer boa meia duzia de
+hypocritas e pedantes do seu tempo. As provas de que os _Novos
+Testemunhos_ precisam da minha explicação, ou d'outra qualquer, vou
+dá-las a v.., começando por transcrever uma passagem da introducção do
+opusculo. Depois de apresentar como demonstração de não ser forjado _o
+juramento d'Alcobaça_ o haver, antes de Brito o publicar, testemunhos
+_da tradição_ de Ourique (argumento na verdade singular!) o padre
+Pereira prosegue:
+
+«Mas quanto a verificar o caso da apparição, tem a dita demonstração _o
+defeito de que nenhum dos testemunhos em que ella se funda remonta a
+maior antiguidade que o reinado d'elrei D. Manuel_. E assim _poderão_ os
+emulos das nossas glorias _repôr_ que uns _testemunhos do principio do
+XVI não são sufficientes_ para extorquir delles o assenso a um facto,
+que se suppõe _acontecido no meio do seculo XII_.»
+
+Depois d'isto, que digam todas as pessoas que lerem esta carta, não
+sendo algum clerigo mau e ignorante; diga v.. mesmo, pondo de parte
+quaesquer prevenções, o que se deve esperar no opusculo? O auctor
+confessa que a favor da apparição não bastam os testemunhos posteriores
+ao anno de 1495, insufficientes para provas de um facto succedido em
+1139, logo elle vai offerecer-nos documentos, trezentos, ou, pelo menos,
+duzentos annos anteriores. Eu digo o que nos offerece Pereira em logar
+dos _testemunhos insufficientes_.
+
+1.^o A narrativa de Olivier de la Marche na introducção ás suas
+Memorias.
+
+Esta introducção foi começada a escrever em 1492, conforme o proprio
+auctor das Memorias declara[32]: isto é, as passagens relativas ás armas
+reaes de Portugal foram escriptas dous ou tres annos antes de começar a
+epocha em que os testemunhos ácerca de um milagre succedido 357 annos
+antes nada provam, segundo confessa o padre Pereira, advertindo que, por
+esses não prestarem, nos ía expor quatro novos, _todos de tanto peso e
+authoridade, que não ha para que se desejem outros mais graves_. Destas
+premissas segue-se, que o testemunho dado a favor de um facto 357 annos
+depois do tempo em que se diz succedido é _defeituoso e insufficiente_,
+mas dado 354 annos depois do successo é igual ao de qualquer pessoa, ou
+de muitas pessoas que houvessem presenciado este, visto que _nada ha
+mais grave_, do que um testemunho posterior de 354 annos, emquanto o
+posterior de 357 não presta para nada.
+
+Pereira estava doudo, ou gracejava com o publico? Deixo a escolha a v..
+postoque estou certo de que das duas explicações ha-de preferir a
+ultima.
+
+Mas o caso não pára aqui. Tenha v.. paciencia, porque não fui eu que
+quiz discutir o milagre de Ourique; foram os padres, que me têm
+insultado porque o tractei como elle merecia, que me compelliram a isso.
+Hão-de esgotar o calix da ignominia até as fézes. Elles dizem do pulpito
+abaixo que era melhor que eu não tivesse falado em tal; e eu digo-lhes
+da imprensa, do meu pulpito, que era melhor continuarem a aleijar o
+latim do breviario e do missal, e deixarem-me em paz escrever a historia
+verdadeira do meu paiz.
+
+Digo que o caso não pára aqui, porque o modo como é narrada a historia
+da apparição por Olivier de la Marche, descrevendo as armas portuguesas,
+é curiosissimo. Segundo elle, o conde Henrique tinha escudo branco:
+depois este escudo adornou-se por quatro vezes: 1.^a quando Affonso I,
+passando o Tejo, desbaratou em campo d'Ourique (_Cambdorick_) os cinco
+reis mouros, e, em allusão a cinco bandeiras que lhes tomou, pôs no
+escudo branco cinco escudetes azues. 2.^a Houve nova mudança quando _o
+mesmo rei foi a Roma_ emprazado pelo papa. Reprehendido em pleno
+consistorio por varias culpas, o bom do rei respondeu pondo-se
+inteiramente nú, e desafiando o papa e os cardeaes para que lhe
+mostrassem todos junctos tantas chagas no corpo como as cicatrizes das
+que elle tinha recebido pela fé de Christo. Era maravilhoso, de feito, o
+numero d'ellas: cinco com visiveis indicios de deverem ter sido mortaes,
+a não se haver dado milagre no caso. O argumento fora peremptorio. O
+papa e os cardeaes disseram-lhe que vestisse a camisa; e para lhe darem
+uma satisfação da injusta pronuncia, mandaram-lhe que em cada um dos
+escudetes posesse cinco besantes ou arruellas, em memoria daquellas
+famosissimas lançadas de que os mouros o haviam servido. 3.^a Tendo o
+infante D. Fernando, rei de Portugal, casado em França com a condessa
+Maria de Bolonha, teve um filho, chamado Henrique, o qual accrescentou a
+orla do escudo em que estão os castellos. E sobre este ponto discute o
+auctor o erro que havia nos dictos castellos, estribando-se na opinião
+de portuguêses notaveis. Entre estes devo advertir, para o que v.. logo
+verá, que elle havia já mencionado especialmente _e com elogios
+extraordinarios_ o celebre Vasco Fernandes de Lucena, que tinha a
+dignidade de escanção de Madama Margarida, viuva de Carlos o
+Temerario[33]. A 4.^a alteração, que vinha a ser a quinta fórma das
+armas reaes portuguesas, foi o pôr-lhes uma cruz firmada no escudo um
+rei de Portugal (já se vê que muito posterior a Affonso I), facto cuja
+origem _alguns attribuiam (aucuns veulent dire) a ter-lhe apparecido uma
+cruz no céu_ durante uma batalha com os sarracenos, o que vendo o
+principe dissera, orando a Deus, que _mostrasse_ antes a _cruz_ aos
+infieis, e _assim se fez_, com o que os mouros ficaram desbaratados.
+Accrescenta Olivier de La Marche que talvez o milagre seja verdadeiro;
+mas que _para elle a verdade é que o bom rei João_ (D. João I) foi quem
+ajunctou ás armas portuguesas os quatro braços floreteados firmados no
+escudo.
+
+Aqui tem v.. o testemunho de Olivier de la Marche em toda a sua força e
+pureza, postoque resumido. Não lhe faço commentarios. Deixo a v.. e a
+todos homens instruidos que os façam. Eu por mim estou satisfeito.
+
+Inverterei aqui a serie dos quatro _irrecusaveis_ testemunhos do padre
+Pereira, porque tenho uma razão de ordem que me obriga a reservar o
+segundo para o ultimo logar. Falarei, portanto, do terceiro.
+
+Gomes Eannes de Azurara, na continuação da chronica de D. João I por
+Fernão Lopes, transcreve um discurso feito áquelle principe pelos seus
+confessores, frei Vasco Pereira e frei João Xira, a quem elrei pedira
+lhe dissessem se era serviço de Deus intentar a conquista de Ceuta. A
+resposta dos frades foi affirmativa, estribando-se no exemplo de muitos
+outros principes e cavalleiros famosos, que haviam acommettido os
+infiéis na persuasão de que practicavam uma obra meritoria,
+offerecendo-se á morte. Os que a tinham alcançado, entendiam os dous
+frades que ficavam equiparados no céu aos martyres, e que os que não a
+haviam obtido, nem por isso deixavam de ser sanctos, estando resolvidos
+a morrer alegremente pela fé. Os theologos terminaram a serie dos
+exemplos (nos quaes figuram entre aquella especie singular de
+bemaventurados o Cid Ruy Dias e o conde de Castella Fernão Gonçalves,
+que nunca desconfiaram de que eram sanctos) pela seguinte passagem,
+conforme se lê na edição de 1644:
+
+«...temos ante nossos olhos a memoria do mui notavel, fiel e catholico
+christão elrei D. Affonso Henriques, cujas reliquias tractamos entre
+nossas mãos. Vêde, senhor, os signaes que trazeis em vossas bandeiras, e
+perguntai e sabei como e por que guisa foram ganhados; os quaes
+certamente de todas as partes mostram a paixão de Nosso Senhor
+Jesu-Christo, _por cuja reverencia e amor o bemaventurado_ rei offereceu
+o seu corpo em o campo de Ourique, vencendo aquelles cinco reis, como
+vossa mercê sabe. Considerae _isso mesmo_ (do mesmo modo) Senhor, _se
+elle duvidara se o seguinte trabalho era serviço de Deus, não tivereis
+vós hoje em dia esta mui nobre cidade_ (Lisboa) nem a villa de Santarem,
+com outros logares, etc.»
+
+Este ultimo periodo supprimiu-o Pereira, porque illustrava o sentido das
+phrases relativas á batalha de Ourique. O que frei João Xira queria
+dizer era evidentemente, que Affonso I se offerecera a morrer por
+Christo em Ourique, entendendo que fazia serviço a Deus, como depois, na
+tomada de Lisboa, Santarem, etc. Onde se fala aqui no milagre? Se
+houvesse outras testemunhas daquella epocha (1415), que positivamente
+referissem a apparição, ainda se poderia, embora com violencia, suppôr
+nas phrases do frade uma allusão ao successo; mas faltando-nos
+absolutamente esses testemunhos, nada auctorisa tal supposição. Trazer
+esta passagem para provar, que já em 1415 existia a tradição, ao passo
+que, para ella poder ter a significação forçada que se lhe quer dar é
+necessario suppôr a existencia da mesma tradição, o que é, senão um
+circulo vicioso, uma petição de principio? Não é, porém, só isso. Nestas
+lendas, inventadas com fins humanos por milagreiros e falsarios, quasi
+que não é possivel dar um passo sem encontrar falsificação. A chronica
+de Gomes-Eannes, publicada no fervor da guerra contra os castelhanos,
+depois da revolução de 1640, e precedida por uma gravura representando a
+apparição, foi viciada nesta passagem, provavelmente para se ver nella
+uma allusão obscura ao milagre, como depois viu, ou fingiu ver, o padre
+Pereira. No codice authentico do Archivo nacional, onde no impresso se
+lê «_vencendo_», está escripto «_vendo_». «Vendo» torna o sentido da
+passagem claro. O rei _vendo_ os _cinco_ reis mouros, offereceu o seu
+corpo a Jesus, e pôs nas suas bandeiras os _cinco_ escudos. Substituida,
+porém, a palavra _vendo_ por _vencendo_, a phrase obscurece-se; a causa
+de se pôrem os cincos escudos nas bandeiras, isto é, o serem os reis
+mouros cinco, desapparece; e a lenda, de que se cria tirar vantagem em
+1644, ganha em frei João Xira um novo, postoque bem debil, alliado.
+
+Mas supponhamos tudo quanto quizerem. Adoptemos como exacto o texto
+impresso de Azurara: vejamos ahi a apparição, embora não haja lá uma
+unica palavra a semelhante respeito. O testemunho singular de frei João
+Xira em 1415 não seria um pouco tardio para provar um successo de 1139,
+profundamente esquecido nos chronicons e monumentos coevos? Não o
+rejeitam as regras da critica sincera; regras estabelecidas accordemente
+por tantos e tão respeitaveis escriptores ecclesiasticos; regras, emfim,
+cuja solidez a experiencia demonstra de contínuo aos que se votam a
+serios estudos historicos? Quer v.. um exemplo domestico da utilidade
+das doutrinas dos Mabillons, dos Melchior-Canos, dos Fleurys,
+desprezadas só por aquelles que desprezam tudo, menos os dezeseis
+tostões de um sermão de milagres? É exemplo que não está no cartorio da
+camara de Evora, nem nos Commentarios ideaes de Affonso X, mas no
+Archivo Nacional, onde todos o podem vêr. Consiste n'uma especie de
+summario historico dos reis de Portugal, lançado no 4.^o volume de
+Inquirições de Affonso III, no reinado de D. João I. No preambulo
+daquelle summario, destinado a avaliar-se, á vista dos factos
+historicos, a genuinidade das doações dos reis anteriores, affirma-se
+que para o escrever se averiguara com extrema exacção a verdade,
+fixando-se assim a serie chronologica dos principes portugueses. Sabe
+v.. qual é a exacção desse monumento destinado a servir de padrão legal,
+para por elle se afferirem diplomas que importavam á fortuna particular
+e aos direitos da corôa? Citarei só os erros relativos a Affonso I.
+Segundo o summario official, elle nasceu em 1092, foi casado com a filha
+de D. Affonso de Molina, neta do rei de Castella, e morreu em dezembro
+de 1184. D'aqui verá v.. o credito que deveriam merecer-nos os
+testemunhos do seculo XIV ou XV, para admittirmos um milagre do seculo
+XII, quando esses testemunhos existissem, e não fossem um rol vergonhoso
+de falsificações e mentiras.
+
+O quarto testemunho do padre Pereira é o proprio instrumento da
+apparição, que existiu em Sancta Cruz de Coimbra, antes de se conhecer o
+de Alcobaça. O auctor dos Novos Testemunhos diz que não sabe se os dous
+foram uma e a mesma cousa, passando o celebre documento do archivo
+daquelle mosteiro para o d'Alcobaça. Como demonstra elle, porém, essa
+existencia? Pelo depoimento de um frade de Sancta Cruz, dado em 1556, e
+publicado por outro frade cruzio, insigne forjador de textos e diplomas,
+e chronista da ordem, frei Nicolau de Sancta Maria, declarado falsario
+pelos seus proprios confrades[34]. Se acreditarmos este, os conegos de
+Sancta Cruz, _empenhados em fazer canonisar Affonso I_, requereram se
+tirasse um depoimento de testemunhas sobre os milagres do primeiro rei
+português, do _Pharaó obdurado_ dos monges de Cella-Nova. Quem
+primeiramente depôs foi um _dos conegos empenhados_, e foi este que
+disse constar o milagre de Ourique pelo juramento que existia do mesmo
+rei. Desse juramento original tiraram-se então em duplicado copias
+authenticas; uma para se guardar no mosteiro, outra para ir a Roma, o
+que não chegou a verificar-se. Havia, pois, em Sancta Cruz o original e
+uma copia em instrumento, e fóra d'alli outra copia authentica. Tudo
+isto se perdeu, e nada resta de um documento de tanta valia, que
+forçosamente se havia de guardar com recato, senão a grosseira impostura
+dos frades bernardos, restando tambem, nos fins do seculo passado, um
+traslado que se dizia transcripto de _um original_, diverso no seu theor
+do _outro original_ de Alcobaça, e só semelhante a elle em ter sellos
+pendentes, cousa que não existia na epocha em que o juramento se diz
+exarado.
+
+O que tudo isto vem a ser é uma serie de vergonhas e miserias
+repugnantes, e sobretudo de falta de juizo. Se o houvesse nos falsarios,
+elles nos dariam hoje mais trabalho para atinar com os seus embustes. Se
+frei Nicolau, ou os conegos de 1156 (porque eu não sei se a historia do
+depoimento se verificou, ou se é invenção do chronista) se lembrassem do
+que passou antes d'elles, teriam procedido com mais cautela nas suas
+mentiras. Quem lê a façanhosa chronica dos conegos regrantes conclue que
+no tempo de frei Nicolau os pergaminhos originaes eram aos milhares em
+Sancta Cruz de Coimbra. Pois aqui está o que não só elle proprio,
+postoque fraca testemunha, mas tambem escriptores mais serios, que se
+reportam a um documento coevo, nos referem como acontecido em 1411. No
+dia de Corpo de Deus desse anno, uma tempestade que estourou sobre
+Coimbra produziu uma chuva espantosa, que quasi destruiu o mosteiro de
+Sancta Cruz. «A agua (diz o auto que sobre isto se redigiu) levou, além
+de muitas outras cousas, quatro caixas de escripturas de memorias
+antigas e de doações que os reis fizeram ao dicto mosteiro, que _todas_
+foram molhadas _e a mór parte dellas perdida_». Sabendo elrei D. João I
+do successo, segundo confessa o mesmo frei Nicolau, ordenou se
+trasladassem em publica fórma as _doações e mais escripturas_ que
+restavam dando-se a este transumpto a mesma força dos originaes, «_com o
+que_, prosegue o chronista, _se restaurou parte da perda de tantas e tão
+antigas escripturas que hoje nos fazem grande falta_». De duas uma: ou o
+instrumento da apparição depositado em Sancta Cruz pereceu em 1411, ou
+escapou. Se escapou, devia ser trasladado no chartulario em que, segundo
+a ordem delrei, se lançou o que restava. Esse chartulario existia ainda
+no tempo do chronista, e provavelmente existe ainda hoje. Para que
+inventaram, pois, o ridiculo pergaminho de Alcobaça? Porque, em vez de
+imaginarem cem mentiras para amparar a tradição, não foram a Sancta Cruz
+extrahir desse traslado authentico dez ou cem traslados novos, que
+tambem seriam historica e até legalmente authenticos? Porque não vão lá
+buscá-los ainda hoje para confundirem a minha impiedade? Se, porém, o
+pergaminho original pereceu em 1411, que são essas historias de
+publicas-fórmas _do original_ feitas pelos notarios Manso e Thomé da
+Cruz, e não sei por quem mais, senão embustes, ou copias tiradas de um
+documento falso. Porque eu não disputo, nem me importa, que elle fosse
+forjado pelos frades de Sancto Agostinho ou pelos de S. Bernardo.
+
+Falta o segundo testemunho, que deixei para ultimo logar, porque se
+prende com o que me resta a dizer a v.. sobre a lenda da apparição. Esse
+testemunho é o de Vasco Fernandes de Lucena, que, indo como orador da
+embaixada enviada por D. João II ao papa em 1485, referiu a historia da
+apparição no discurso que recitou perante Innocencio VIII e perante a
+curia. Como prova do successo, elle tem pouco mais ou menos o valor do
+de Olivier de la Marche. Se aos historiadores que escreveram depois de
+1495 se não póde attribuir, segundo Pereira, e muito mais segundo as
+doutrinas dos pios e eruditos escriptores a que me referi na carta
+antecedente, auctoridade bastante para nos compellirem a acceitar a
+tradição de Ourique, tê-la-ha, porventura, o testemunho singular de um
+homem que o refere apenas dez annos antes, tractando-se de um milagre
+que se diz succedido n'uma epocha anterior de mais de tres seculos? É
+impossivel que v.. não sinta que semelhante auctoridade nada vale.
+
+Eis aqui os testemunhos que Pereira colligiu. O primeiro e o segundo são
+dos fins do seculo XV, e ainda assim, ao que parece, reduzem-se a um só.
+Persuadem-no o affirmar Olivier de la Marche que sobre a questão das
+armas portuguesas ouvira pessoas _notaveis_ de Portugal com quem
+tractara[35] tendo-se espraiado pouco antes em encarecidos elogios á
+sciencia e talento de Vasco de Lucena. O terceiro é uma passagem, aliàs
+viciada, de Gomes Eannes, a qual, quer viciada, quer correcta, não
+contém uma unica palavra ácerca da apparição. Finalmente, o quarto é o
+juramento de Affonso Henriques, que _consta_ existia em Sancta Cruz
+muito antes de Fr. Bernardo de Brito encontrar o de Alcobaça, o qual se
+não sabe se é o mesmo que estava em Sancta Cruz, mas que nós sabemos
+perfeitamente que é falso. Eis aqui os testemunhos do milagre de
+Ourique, «_de tanto peso e auctoridade, que não ha para que se desejem
+outros mais graves_».
+
+Ainda uma vez lembrarei a v.. que lhe deixo a decidir se o padre Pereira
+escreveu isto em seu juizo, ou se estava dando largas á sua jovialidade.
+
+Resta-me só fazer um esforço para acceder, até onde é possivel, a uma
+pretensão de v.. embora já ficasse provado que ella era infundada. Diz
+v.. que para refutar plenamente a fabula da apparição deveria eu dizer
+quando, como, para que, e por quem fora inventada. É evidente que o
+falsario havia de precaver-se para não o descubrirem, e só elle poderia
+dizer positivamente qual era o seu intuito quando forjou a patranha.
+Sendo homem astuto, saberia não somente guardar segredo, mas tambem
+fazer espalhar com arte a fabula. Que calumnias não tem alevantado uns
+aos outros os partidos politicos nestes nossos tempos? Muitas dellas,
+passando primeiro de boca em boca, vindo á imprensa, combatidas pelos
+calumniados, nem por isso hão deixado de generalisar-se, e de tomar ás
+vezes tal consistencia, que é possivel passarem algumas, d'aqui a um
+seculo, por factos historicos, até que uma critica severa e
+desapaixonada as reduza ao seu justo valor. Sobre a origem da fabula de
+Ourique não se podem produzir factos decisivos, mas podem reunir-se
+alguns, que, assim aproximados, offerecerão fundamento a suspeitas
+vehementes sobre a epocha do nascimento da tradição, sobre seus
+auctores, e sobre os fins com que foi inventada. Note v.. que eu falo da
+tradição e não do juramento, que provavelmente, no estado em que hoje o
+temos, é mais moderno. Quanto a esse invento grosseiro, considerado em
+si, confesso que me fallece o animo para o analysar.
+
+Partamos de um facto. O primeiro testemunho sobre a existencia da
+tradição relativa ao milagre de Ourique, preciso, incontroverso, é o de
+Vasco Fernandes de Lucena em 1485: tudo o mais são chronicas que _se
+perderam_, vestigios que _se apagaram_, obras que _ninguem conhece_.
+Isto faz lembrar o gracioso livro das _Antiguidades de Evora_, que
+muitos tem tomado por obra de um tolo, e que na realidade são a satyra
+dos falsarios e crendeiros, feita por um homem espirituoso e engraçado.
+Tudo quanto se cita anterior a 1485 são embustes e ridicularias, sem
+exceptuar as chronicas do tempo de Affonso Henriques attribuidas aos
+imaginarios chronistas João Camello e Pedro Alfarde, onde se diz que
+_talvez_ se achasse a tradição. A invenção dos taes chronistas, frades
+de Sancta Cruz, tinha já sido reduzida a pó pelo cruzio D. Thomás da
+Incarnação, e por frei Manuel de Figueiredo, frade d'Alcobaça. A
+referencia a semelhantes mentiras feita por Pereira e por Cenaculo, que
+escreveram depois de ellas estarem refutadas, prova a _sinceridade_ com
+que foram redigidos nesta parte os _Cuidados Litterarios_, e tambem os
+_Novos Testemunhos_.
+
+Temos, pois, um homem celebre, um castelhano, erudito, valido de D. João
+II, que, n'um discurso recitado perante Innocencio VIII, menciona pela
+primeira vez a apparição. Singular origem de uma fabula, que, revelada
+por um estrangeiro, vem á luz em terra estrangeira, regida por um
+governo theocratico, que tem por fundamento primitivo do seu dominio
+temporal um titulo falso.
+
+A memoria de D. João II é odiosa. Entre todos os reis legitimos
+portugueses, é elle o unico ao qual sem injustiça a historia póde
+attribuir a qualificação de tyranno. Elle foi quem deu o golpe mortal
+nas velhas liberdades desta nossa terra. No seu reinado tem de ir buscar
+o historiador a causa fundamental da nossa decadencia, que começa com o
+estabelecimento do absolutismo, embora a podridão que corroe a arvore se
+esconda por alguns annos no cerne. É tambem singular por esta
+circumstancia a origem da tradição. Nasce, dilata-se, cresce, firmando
+as raizes no tumulo da liberdade.
+
+Vivia em Roma nos primeiros annos do reinado do _principe perfeito_ um
+foragido português, seu inimigo entranhavel, o cardeal D. Jorge da
+Costa. Depois do assassinio judicial do duque de Bragança, o cardeal
+aproveitou o ensejo para malquistar o rei português com Sixto IV. Em
+consequencia d'isso (ao menos assim se acreditava), o papa enviou em
+1483 um nuncio a Portugal, a queixar-se dos abusos do poder temporal
+contra as pretendidas immunidades da igreja, que o filho de Affonso V
+respeitava tanto como os foros politicos do reino. Foi o rei emprazado
+para apparecer ante o papa, por si ou por procurador, para dar
+explicações ácerca do seu procedimento. Nomearam-se embaixadores; mas
+antes de partirem, Sixto IV relevou o rei da citação, diz-se que a
+instancias do mesmo cardeal que excitara a tempestade, receioso de que
+os ministros portugueses, chegando a Roma, lhe pagassem em igual moeda,
+fazendo-lhe perder parte do poder e credito de que gosava[36].
+
+Parece, porém, que, emquanto proseguia em Portugal a lucta tenebrosa e
+encarniçada de uma aristocracia suberba com um rei ambicioso e
+inexoravel, o cardeal não dormia em Roma. Invectivava-se ahi ou
+fingia-se invectivar contra a frouxidão de Sixto IV, que deixava o rei
+português quebrar os privilegios do clero sem se lhe comminarem
+censuras[37]. Deste clamor sincero, ou desta farça, resultou uma bulla
+concebida em durissimos termos, que se expediu nos primeiros mezes de
+1484. A linguagem della era a linguagem habitual da curia, insolente e
+grosseira; mas havia ahi uma circumstancia digna de reparo. O papa
+recordava uma cousa de que os reis portugueses se haviam esquecido;
+recordava a D. João II que _tinha a dignidade real por dadiva da sé
+apostolica e de que era seu tributario[38]_. Uma bulla destas faria hoje
+desatar a rir quaesquer ministros portugueses, até em pleno parlamento.
+Naquelle tempo, porém, ainda o negocio era um pouco serio. D. João II,
+se riu, foi em particular.
+
+O arcebispo D. João Galvão, um dos valídos do rei e inimigo figadal da
+familia de Bragança[39], tinha sido transferido, ainda em tempo de
+Affonso V, da sé suffraganea de Coimbra para a metropolitana de Braga. O
+arcebispo olhava para as cousas ecclesiasticas como certos prégadores
+d'hoje olham para a prédica; pelo lado solido. Sem lhe importar obter o
+pallio, foi usando do titulo de arcebispo e tomando conta das rendas da
+mitra. Ligado com o rei, que lhe deixava devorar pacificamente tão bom
+quinhão na mesa ecclesiastica, ajudava-o do modo que podia a opprimir o
+clero[40]; mas até que ponto eram graves as culpas do arcebispo, que
+assim se arriscava a perder a dignidade archiepiscopal (como tem
+succedido a muitos outros) não sei eu dizer: falo pela boca do papa, que
+lhe dirigiu tambem uma carta de ameaças. O que é certo é que o movedor
+das fulminantes bullas de Sixto IV, o cardeal da Costa, não devia
+esquecer-se de carregar a mão no valído do seu adversario. Odio de padre
+contra padre ainda é mais profundo e tenaz do que contra qualquer
+secular.
+
+As relações com Roma offereciam, pois, um aspecto pouco agradavel,
+quando Sixto IV veio a fallecer (agosto de 1484) na mesma conjunctura em
+que elrei apunhalava em Setubal o Duque de Viseu, mandava envenenar o
+Bispo d'Evora, assassinar D. Gotterre no fundo de um calabouço, e
+degolar e esquartejar em praça outros fidalgos. D. João I tomara da
+côrte de Inglaterra o esplendor, os habitos cavalleirosos, o amor da
+cultura litteraria, as virtudes domesticas, que ainda hoje distinguem as
+classes elevadas na Gran-Bretanha. Seu bisneto tomava da côrte de França
+apenas um typo, o de Luiz XI, pelo qual buscava modelar as manifestações
+da sua alma.
+
+A casa de Bragança procedia de D. João I, mas de D. João I antes de rei
+e simples mestre da ordem d'Aviz. A cruz dessa ordem tinha-se enlaçado
+com as armas de Portugal, porque D. João I não se esquecera, depois de
+rei, de que fora o chefe dos freires portugueses de Calatrava.
+
+Com as mãos tinctas do sangue do duque de Viseu, D. João II arrancou a
+cruz do escudo de Portugal, e alterou a posição dos escudetes lateraes,
+collocados até ahi horisontalmente, dando assim nova fórma ás armas do
+reino. Dir-se-hia que até d'alli quizera affastar a memoria da linhagem
+dos seus principaes adversarios.
+
+Era essa a causa da mudança? Não o sei. Ruy de Pina, um dos amoucos do
+principe perfeito, attribue-a a outros motivos. Podemos acceitar ou
+recusar o seu testemunho, assaz suspeito. O que é certo é que a
+alteração se fez no mesmo anno de 1484.
+
+Hoje a heraldica e os brasões são dixes com que se entretem as creanças
+barbadas: o jogo do xadrez é cousa incomparavelmente mais grave. Nos
+fins do seculo XV não era, porém, assim. A attenção da Europa devia
+volver-se principalmente para o ensanguentado drama que se representava
+na côrte de Portugal; mas a cruz de Christo expulsa das moedas, dos
+sellos e das bandeiras do reino, pelas mãos de um rei algoz, havia de
+dar occasião a mais de um commentario pouco favoravel.
+
+Todavia, se, como resavam as lendas, os cinco escudetes representassem
+uma cruz, e ao mesmo tempo contivessem uma allusão mysteriosa á paixão
+de Christo; se as arruellas que os ornavam representassem os trinta
+dinheiros por que Judas vendeu o Senhor, que falta faria a cruz
+floreteada de Aviz nas armas de Portugal? Não ficava ahi uma cruz
+mystica, um symbolo piedoso?
+
+Fallecido o papa que recordara a D. João II qual era a origem da
+independencia de Portugal relativamente a Leão, e que ainda ousava
+lembrar-se do signal de vassallagem que outr'ora se offerecera á igreja
+de Roma, elle fora substituido por Innocencio VIII. Sabido o successo,
+elrei resolveu mandar a Roma uma embaixada, para orador da qual escolheu
+um homem de plena confiança, o castelhano Vasco de Lucena.
+
+Quem sabe se elrei tinha algum titulo melhor que as bullas de Lucio II e
+de Alexandre III ácerca da independencia do reino, e que talvez Affonso
+Henriques houvesse dado a guardar aos seus chronistas, João Camello e
+Pedro Alfarde? Se o tivesse, bom seria que os embaixadores advertissem
+dessa circumstancia o novo papa, tirando assim á curia a vontade de
+repetir as doutrinas carunchosas e oblitteradas da bulla de Sixto IV.
+
+Porei aqui a parte mais interessante do discurso, que o orador de
+Portugal fez ao papa rodeado dos seus cardeaes, em cujo numero se
+contava o implacavel velho D. Jorge da Costa. O padre Pereira já
+traduziu uma porção desse discurso; mas era um preguiçoso aquelle bom do
+padre Pereira. V.. hade permittir que eu o seja menos, e dê um talho
+mais largo.
+
+Depois de indicar em poucas phrases as origens de Portugal, o orador
+fala dos primeiros annos do governo de Affonso I e da pequenez dos seus
+estados; diz-nos em seguida quaes as suas empresas e conquistas: Leiria,
+Santarem, Lisboa tomadas, o Tejo transposto, a provincia transtagana
+submettida, com Evora sua capital, Cezimbra e Palmela, fortalezas
+inexpugnaveis, reduzidas, sendo por elle desbaratados _milhares
+infinitos_[41] de mouros com poucos cavalleiros. «Outra vez (ou
+_novamente_)--prosegue Lucena--no campo de Ourique, naquelle sitio a que
+o _vulgo_ chama _agora_ Cabeças dos Reis, com um pequeno exercito venceu
+cinco poderosissimos reis mouros. Na qual batalha, para se ver quão
+porfiada fosse, e quão excessivo o seu valor, cinco vezes lhe quebraram
+as lanças dos barbaros os escudos que embraçava na mão esquerda. Desta
+singular e famosa victoria procedeu _fixar elle as insignias e armas dos
+reis de Portugal_, pondo nellas cinco escudos, e collocando em cada um
+delles cinco dinheiros, sendo sabido que até então as armas eram um
+escudo só, todo semeado de besantes. Estes cinco escudos _postos em
+fórma de cruz_, e estes besantes quinarios _tambem distribuidos em
+cruz_, que nos indicam senão os trinta dinheiros, preço do sangue de
+Christo, pelo qual este foi entregue aos judeus pelo crudelissimo Judas?
+Antes de dar o signal para a batalha, este rei, orando de joelhos, viu o
+Salvador pendente da cruz, e foi tal a confiança do regio animo, tal a
+fé gravada no seu coração, que, sem se aterrar com a estupenda
+maravilha, _se atreveu_ a dizer que _não convinha_ que Christo
+apparecesse a um firmissimo crente, mas que tal apparecimento era
+necessario aos hereges, aos que se afastavam da fé christan. D'isto e
+d'outras cousas, que por brevidade calo, vossa sanctidade conhecerá mais
+claro que esta luz que nos alumia _por qual constancia d'animo, por qual
+ardor de virtude, por que prendas, por quaes degráus e successos subiu
+ao fastigio regio_; como esse varão tão religioso, forte e pio augmentou
+os estreitos limites do reino, e o libertou do tristissimo jugo da
+servidão; com que razão, por força da _clarissima vontade e da suprema
+direcção_ (optimo auspicio) _da eterna magestade_, com _auxilio do povo_
+e _adjutorio_ da sancta igreja romana, _tomou o regio nome com direito
+perfeito_ (optimo jure) _e o legou aos seus successores_; mais feliz
+nisto que outros principes, dos quaes muitos aspiraram ao titulo real
+pelo favor dos povos; outros por temor dos seus satellites armados;
+poucos, a quem o justo Jupiter amou, pelo verdadeiro caminho da
+virtude.»
+
+Aqui tem v.. o que se lê na oração de Lucena relativamente a Affonso I.
+Note v.. que o orador passava por um dos homens mais instruidos do seu
+tempo, e não podia por ignorancia fazer o que fez; isto é, inverter a
+ordem dos successos do reinado d'aquelle principe. Deste discurso o que
+se deduz é que a batalha de Ourique foi a ultima façanha notavel delle,
+posterior a tudo, inclusivamente á tomada de Evora, e quem sabe se á
+bulla de Alexandre III, que concedeu ao principe português a
+qualificação de rei? O que é certo é que, se a chronologia fingida por
+Lucena fosse verdadeira, a batalha e o milagre de Ourique, em que elle
+visivelmente quer fundar a independencia de Portugal, _embora com o
+favor do povo e de Roma_, teriam sido posteriores á carta de feudo á sé
+apostolica e á bulla de acceitação de homenagem expedida por Lucio II.
+Assim, a dignidade do rei e a independencia de Affonso I assentariam
+n'um titulo, não só incomparavelmente melhor, qual era a vontade de Deus
+milagrosamente manifestada, mas tambem posterior á offerta e acceitação
+da homenagem feita em 1144, que por esse facto ficavam invalidadas por
+inuteis. Presupposto isto, a impertinente recordação da curia romana,
+inserida na bulla «_Ut saluti_» de Sisto IV, ficava tambem de todo o
+ponto refutada.
+
+Mas dirá v..--o cardeal D. Jorge da Costa, presente ao acto, não podia
+impugnar este inaudito milagre?--Não se impugnam assim milagres.
+Reflicta v.. na furia dos padres actuaes contra mim, porque no seculo
+XIX não creio n'uma fabula provada tal até a saciedade, e imagine se um
+padre se atreveria a rejeitar o minimo milagre nos fins do seculo XV; e
+quando se atrevesse a dizer alguma cousa, seria em particular ao papa e
+aos cardeaes. Outra flagrante mentira dizia ahi Lucena sem temor de que
+D. Jorge o contradissesse: era a historia dos cinco dínheiros em cada
+escudete, desmentida por todas as armas reaes gravadas nos sêllos e
+moedas dos nossos antigos reis da primeira dynastia, começando em Sancho
+I. Restam muitos desses sêllos e moedas; muitos mais deviam restar
+naquella epocha: o cardeal era homem instruido e pessoa notavel: havia
+de ter visto muitissimos; mas nem por isso Lucena titubeou, antes nesta
+parte o seu discurso, geralmente frio, melifluo, calculado, tem certo
+sabor de colerica invectiva contra os que disso duvidassem. O
+descaramento é, ha muitos seculos, um dos dotes do homem d'estado.
+
+Outro facto: Vasco Fernandes tinha sido orador de Portugal no concilio
+de Basiléa, e na embaixada a Roma de 1450; tinha recitado as orações de
+abertura nas côrtes de 1478 e de 1481. Todas essas orações, que não
+deviam ser menos elegantes e curiosas, se perderam; apenas escapou a da
+embaixada de Roma de 1485, e não só escapou, mas tambem foi impressa, e
+não só foi impressa, mas ainda mais; fizeram-se della duas edições em
+caracteres gothicos e sem data, ao que parece, estampadas _fóra do
+reino_ e com todos os signaes de _pertencerem aos primeiros tempos da
+arte da impressão_[42]. Se de feito a oração foi reproduzida pela
+imprensa pouco depois de recitada, devia sê-lo fóra do reino, onde a
+imprensa de livros latinos e vulgares não consta que existisse ainda.
+Mas duas edições da mesma epocha, que provam, senão que _alguem
+interessava em dar áquelle discurso a maxima publicidade_?
+
+Recorde-se v.. do que eu disse a proposito de Olivier de la Marche, e da
+influencia que é provavel Lucena tivesse na narrativa do chronista
+flamengo ácerca das armas de Portugal. Vê-se que em 1492, em que este
+escrevia, as opiniões andavam encontradas. As armas que ahi mais se
+deviam conhecer eram as antigas com a cruz d'Aviz, porque a reforma de
+D. João II tinha apenas oito annos. Entretanto a noticia do milagre de
+Ourique, postoque alterada, corria já alli, e a alteração provinha de
+quererem _alguns_ acommodar a fabula ás armas antigas. Consequentemente,
+outros não queriam: logo disputava-se ácerca disso: logo a historia da
+apparição era uma cousa nova e incerta. Se ella fosse a explicação
+sabida e ordinaria, como Lucena dissera em Roma, teria De la Marche
+accumulado a serie de despropositos que anteriormente transcrevi? Elle
+falara ácerca d'isto com muitos portugueses, e escrevia á vista das suas
+informações. O que indica essa completa confusão d'idéas do chronista?
+Que o milagre de Ourique, caindo inesperadamente no meio das lendas que
+se ligavam ao brazão dos reis de Portugal, as tinha inteiramente
+baralhado.
+
+Agora note v.. que por estes mesmos annos de 1491 e 92 Lucena devia
+estar em Flandres, porque é neste tempo que elle começa a intitular-se
+conde palatino (titulo que parece provir-lhe do cargo d'escanção da
+viuva de Carlos o Temerario), ao passo que nessa conjunctura o achamos
+ausente de Portugal[43]. V.. ajuisará das illações que destes factos se
+podem tirar.
+
+Mais ou menos inexactas que sejam as noticias que nos restam ácerca da
+existencia em Sancta Cruz de Coimbra de um monumento relativo á
+apparição, parece todavia que alguma cousa ahi houve, e o transumpto do
+juramento de Affonso I, feito pelo notario Manso _em tempo d'elrei D.
+João II_, não é de desprezar, logo que um homem como frei Francisco
+Brandão affirma tê-lo visto. Tal transumpto, se não prova a existencia
+de um documento verdadeiro, faz crer que _alguma cousa sobre a apparição
+tinha_ apparecido _em Sancta Cruz no tempo daquelle rei_.
+
+Advirta, porém, v.. que D. João Galvão, o arcebispo de Braga, valído de
+João II, tinha sido prior mór de Sancta Cruz, devendo por isso conservar
+estreitas relações com os frades, e que a familia Galvão parece ter tido
+particular tendencia para aquelle mosteiro; um outro D. João Galvão era
+seu prior crasteiro no principio do seculo XVI, e, como vimos, diz-se
+que em 1556 um frade cruzio, velho de oitenta annos, o _cartorario_ D.
+Manuel Galvão, depôs que existia o auto do juramento de Affonso I, _em
+que os prelados e os grandes da corte estavam assignados_, grossa
+mentira, seja de passagem dicto, porque o estylo constante, sem excepção
+no seculo XII e ainda no XIII, era escrever nos diplomas regios o mesmo
+notario que os exarava os nomes dos prelados e ricos-homens
+confirmantes. Mas os Galvões não acabam aqui. Duarte Galvão, _irmão do
+arcebispo valído_, escrevendo depois de 1500 a chronica de Affonso
+Henriques (no fim da qual adverte _innocentemente_ que seu irmão o
+arcebispo lhe dissera que tinha motivos para crer _que Affonso Henriques
+fora sancto_,) introduz na narrativa da batalha de Ourique a historia da
+apparição, aperfeiçoada com a scena do ermitão que esquecera a Lucena.
+Galvão refere-se nesta parte ao que _elle mesmo_ (Affonso I) _disse, e
+dentro da sua historia se contém_, o que parece alludir a uma especie de
+memoria ou diploma em que figura o filho de D. Theresa, o _Pharaó
+obdurado_. Tudo o mais, pelo que se colhe da narrativa, andava em fama;
+isto é, a reprehensão dada pelo rei a Christo por lhe apparecer a elle;
+as promessas da protecção perpetua do reino feitas por Deus; emfim tudo
+aquillo que os frades de Alcobaça metteram para dentro do _seu original_
+do juramento, porque em verdade era pena que andasse tanta cousa boa só
+em _confirmada fama_, como diz Duarte Galvão. Mas se os frades bernardos
+souberam aproveitar esses fragmentos soltos para delles fazerem um
+juramento vistoso, e de uma apparição rachitica uma apparição ancha e
+acabada, o chronista não tinha mostrado menos juizo em lhe dar uma
+applicação util. Para D. João II, morto e sepultado, não servia ella já
+de nada. A bulla _Ut Saluti_, e Sixto IV, e o seu successor Innocencio
+VIII tinham desapparecido da scena politica. Na cadeira de S. Pedro
+estava assentado o sancto padre Alexandre Borgia, que tinha assaz que
+fazer em administrar piamente a igreja de Deus, para não cogitar na
+sujeição politica de Portugal á sancta sé. O milagre de Ourique andava
+de todo desaproveitado. Era uma lastima. O chronista olhou para o
+mosteiro de Sancta Cruz, especie de viveiro dos Galvões, e entendeu que
+a apparição lhe podia ser util. Descobriu, portanto, a causa efficiente
+da apparição, no que ninguem até ahi sonhara. Fora a causa de tamanha
+mercê do céu o ter Affonso I fundado e enriquecido Sancta Cruz _com
+grande devoção_. Na verdade isto era em parte mentira; porque as grandes
+doações de terras, castellos e padroados, feitas por Affonso Henriques
+áquelles frades, são todas posteriores a 1139 e anterior á batalha de
+Ourique apenas a de uma horta em Coimbra[44]. Antes, porém, da
+pontilhuda dialectica dos diplomaticos não se olhava de tão perto para
+as cousas. A mentira util tornava-se em verdade pelo consenso dos
+sabios, e sabios eram os inventores de pias fraudes. Ora a utilidade de
+explorar a tradição em beneficio dos conegos cruzios era indisputavel.
+Os caseiros e emphyteutas do mosteiro, raça dura e rebelde em pagar suas
+rendas e foros, não pagava, e ria-se das excommunhões; os officiaes da
+coroa quebravam impiamente os privilegios da ordem, e até,
+anteriormente, os villãos de Montemor tinham ousado accusá-la de haver
+obtido com dolo e mentira parte das suas rendas e direitos
+senhoriaes[45]. Depois, naquella conjunctura, o mosteiro estava gasto e
+desbaratado das guerras que pouco antes o prior D. João de Noronha
+tivera com o bispo de Coimbra, em razão de uma pouca de carne furtada da
+cozinha do bispo pelos criados do prior; guerras em que se deram cruas
+batalhas nas praças de Coimbra, sendo necessario que o poder publico
+mandasse marchar tropas para pacificar á força os dous reverendos
+campeões[46]. Postos o dominio directo, os direitos senhoriaes, os bens
+e rendas de Sancta Cruz sob a protecção de um bom milagre, naquella
+occasião desoccupado, d'ahi só podia provir utilidade aos cruzios sem
+damno de terceiro. Valia a pena, por isso, de achar a causa verdadeira
+do milagre de Ourique, com que ninguem ainda tinha atinado.
+
+Paro aqui; e peço desculpa a v.. da minha linguagem. Ha cousas que
+nenhuma equanimidade basta para dellas se falar sem indignação, ou sem
+riso. É necessario escolher, e eu prefiro o ultimo quando se tracta de
+embustes e miserias que já não fazem mal. V.. tomará na conta que
+merecem os factos e as reflexões que no decurso desta carta lhe
+submetto, e de que no seu foro intimo tirará as conclusões que julgar
+razoaveis. Terminarei por dizer que sinto haver v.. declarado pela
+imprensa que se retirava da arena da discussão. Por mais oppostas que
+sejam em tantas cousas as nossas doutrinas, a contenda pacifica com um
+homem honesto, cortez e instruido, era-me summamente agradavel. Mas
+d'hoje avante, dirigindo-me a v.. diz-me a consciencia que não faria uma
+acção boa. Até certo ponto sería ferir pelas costas um adversario leal.
+Cessou por isso a nossa correspondencia. Restam mil outros meios de
+falar com o geral dos homens de bem e sinceros, e de dizer ao meu paiz
+as verdades em que a guerra da maioria do clero me obriga, por propria
+defesa, a fazê-lo pensar.
+
+
+
+
+V
+
+A SCIENCIA ARABICO-ACADEMICA
+
+
+AO SR. A. J. DA SILVA TULLIO
+
+(_Março, 1851_)
+
+
+Meu amigo.--Remette-me v.. o folheto de A. C. P. (que me diz ser um
+«academico» o sr. Antonio Caetano Pereira) destinado a mostrar os
+crimes, as fabulas, as contradicções, as ignorancias e não sei quantas
+cousas mais, em que o peccador de mim caiu na narrativa da batalha de
+Ourique. Pede-me v.. que diga eu alguma cousa no seu jornal acerca desta
+publicação, a qual fez, segundo v.. affirma, certo effeito, por causa
+das garabulhas ou gregotins mouriscos, appensos por lithographia ao
+folheto, como prova dos progressos da arte typographica entre nós, que é
+o mais que podem provar aquellas esgaratujadas rabiscas. Sabe o bom
+redactor da _Semana_ a primeira impressão que o folheto me causou? A que
+em mim produzem muitas cousas que se publicam nesta nossa terra.
+Lembrei-me da Divina Providencia, para lhe agradecer que o estudo da
+nossa lingua esteja tão pouco generalisado na Europa. A reputação
+litteraria do paiz ganha immensamente com isso. Dizem que não se deve
+nunca desesperar da patria; mas eu confesso-lhe que litterariamente
+desesperava della, se não fosse a mocidade, á qual Deus queira dar
+bastante amor do estudo, e alumiá-la com um sancto horror a cruzar os
+umbraes da Academia. A dizer a verdade, meu amigo, começa a fallecer-me
+a paciencia e a vontade para discutir cousas que nos escorregam para o
+chão quando tentamos submettê-las á analyse. Demais, do que eu tracto
+agora é de pôr quanto antes na imprensa o quarto volume da _Historia de
+Portugal_, que, em consciencia, me tem dado mais que pensar do que todas
+as criticas academicas, presentes e futuras. Com a mão no coração,
+digo-lhe que, _exceptis excipiendis_, o areopago censorio mais
+inoffensivo, mais divertido até, que ha em todo o mundo é a Academia de
+Lisboa. Collectivas ou individuaes, as censuras que partem d'alli nem
+sequer arranham a supposta victima. Se não escorchassem, por via de
+regra, a grammatica e o senso commum, não só seriam suaves e morbidas;
+seriam até, permitta-me dizê-lo, voluptuosas. Traduzidas em chim,
+tomavam-nas por obra de algum collegio de mandarins letrados do celeste
+imperio. O opusculo que o meu amigo me remette é pasmoso no genero: é um
+botaréu da maravilhosa fabrica das memorias e actas academicas tirado do
+seu logar, e a que fizeram perder aquella parte de formosura que lhe
+houvera resultado da harmonia do todo. Sinceramente, é uma cousa que
+lastimo.
+
+Agora o que, tambem sinceramente, eu não esperava era achar no opusculo
+certa cortezia nas fórmas que o auctor empregou. Sabía que se estava
+imprimindo contra mim um cartapacio mourisco. Pensei que fosse obra dos
+reverendos, que, tão pobres de saber e de intelligencia como ricos de
+odio, resfolgam pelo respiradouro da injuria a colera que os abafa. E
+ainda bem! Apesar do nojo que tenho desses pobres-diabos, não quero que
+elles estourem, porque são meus irmãos, como em gira jesuitica se
+costuma dizer a cada punhalada que se dá no proximo. Estou já tão
+affeito aos improperios da imprensa devota, á caridade dos nossos
+khatibs e ul-máis, que não esperava no imminente opusculo senão mais uma
+prova a favor da minha crença na atrophia moral e intellectual da
+maioria do nosso clero, crença que elle se encarregou de demonstrar até
+a saciedade. Enganei-me: era obra secular; academica, porém cortez;
+cortez (entendamo-nos) até o ponto de não usar o auctor das phrases dos
+prostibulos e das tabernas, mas não até o ponto de respeitar o meu
+caracter moral, porque ahi sou accusado de _falto de sinceridade_ (pag.
+10), de _critico cheio de fel_, de _criminoso_ (pag. 15), de _aviltador
+do valor português_ (pag. 18). Isto, porém, pode ser violento, mas não é
+immundo. Os mentecaptos indecentes são os que a minha dignidade de
+escriptor e de homem me não consente refutar. Assim, ser-me-ha licito
+satisfazer aos desejos do bom redactor da _Semana_ e remetter-lhe
+algumas notas ácerca deste curioso papel.
+
+Uma explicação. Quando digo que não posso refutar mentecaptos
+indecentes, não quero significar que essa guerra que se me faz, atroz na
+intenção, ridicula nos effeitos, ha de ficar sem punição. Não sou homem
+disso; mas tambem não sou homem que gaste polvora com guerrilhas. Hei de
+ir buscar a seu tempo as columnas de infanteria e os macissos de
+cavallaria que estão atraz dellas. As miserias que ahi vão pela imprensa
+contra mim são um veu que encobre, ou antes descobre por demasiado raro,
+negocio mais grave. Tracta-se hoje de saber se a Europa catholica se
+hade infeudar de novo ás corrupções da curia romana, com o seu cortejo
+de jesuitas de todos os formatos, de todas as idades e de todas as
+mascaras; com os seus titeres inquisitoriaes, com os seus Torquemadas em
+miniatura. Tentêa-se este solo de Portugal: manda-se hostilisar em mim o
+progresso das novas idéas, a independencia das opiniões, não porque eu
+seja o mais forte, mas porque circumstancias, que não preparei nem
+provoquei, me collocaram na primeira linha do combate. O que é certo é
+que alguem se ha de enganar ácerca do desfecho da lucta, ou nós, ou esse
+grupo, essa cousa, que por ahi anda a ajunctar quanto pó e podridão ha
+no cemiterio dos seculos e a tentar insufflar-lhe vida; essa cousa
+hedionda, que, incapaz das ambições grandiosas, do despotismo esplendido
+da Roma de Gregorio VII; repellida pelo evangelho que ella desmente,
+fulminada pela philosophia que ella detesta, depois de apurar as suas
+doutrinas espirituaes nas fontes catholicas das margens do Neva, vem
+refocilar-se para a peleja, e desafiar a justiça de Deus e dos homens
+atraz dos olhos buliçosos da madona de Frosinone. Aqui, no ultimo
+occidente, o recontro final ha de ser mais tarde. Que a mocidade não
+durma, porém! Prepare-se para os dias de prova, e talvez de tribulação,
+com a severidade dos costumes, que dá a energia moral, e com a
+severidade do estudo, que subministra as armas para a victoria. Por ora
+pedem-nos só jesuitas; o perigo da petição não é grande. A igreja da
+_Memoria_, cujas grimpas vejo d'aqui, collocada lá a meia encosta, vigia
+a foz do Tejo. Os filhos de Loiola não passariam áquem da barra sem que
+o sangue de D. José I gemesse nos fundamentos do templo, e este gemido
+retumbaria pelo reino de Portugal, porque a imprensa tem echos.
+
+Entretanto, meu amigo, forcejemos todos por não deshonrar esta terra:
+empreguemos unidos os nossos esforços para augmentar os thesouros da
+civilisação no paiz; associemo-nos lealmente a quantas idéas generosas e
+puras de progresso material e intellectual surgirem no meio de nós.
+Filhos da imprensa, os nossos deveres são arduos; mas é necessario
+cumpri-los. Porque estou eu tranquillo no meio da tormenta que ruge?
+Porque tenho a consciencia de os haver desempenhado escrevendo a
+historia. Se transigisse com vaidades e mentiras; se vendesse a minha
+penna a paixões pequenas e más; se recuasse diante de considerações
+miseraveis, as horas da solidão e do silencio, que são as mais da minha
+vida, não seriam tão repousadas para mim. Alumiado por essa luz moral,
+que nunca devemos perder de vista, espero levar ao cabo o empenho que
+tomei, até porque a historia de Portugal é uma das mais ricas em licções
+para nos prevenirmos contra as astucias de hypocritas, e essas licções
+são hoje altamente proficuas. Não ha nella, sob tal aspecto, uma só
+epocha infertil, desde os tempos barbaros em que o arcebispo João
+Peculiar, furioso contra o seu suffraganeo de Coimbra, se apoderava dos
+paços episcopaes deste, convertia a cathedral em estabulo dos seus
+cavallos, e espalhava por terra as sacras fórmas, n'um impeto de bruta
+colera, até aquelles, não barbaros mas corruptos, em que os devotos e
+pios inquisidores, depois de mandarem desconjunctar nos tractos do potro
+os membros delicados das virgens hebreas, ou das tidas por taes, iam,
+curvados sobre o leito da dôr, pousar mollemente os olhos lubricos nos
+debeis corpos das martyres, e fartar a sua luxuria de tigres palpando
+aquellas carnes pisadas e sangrentas. Quando a justiça de Deus põe a
+penna na dextra do historiador, ao passo que lhe põe na esquerda os
+documentos indubitaveis de crimes que pareciam escondidos para sempre
+debaixo das lousas, elle deve seguir ávante sem hesitar, embora a
+hypocrisia ruja em redor, porque a missão do historiador tem nesse caso
+o que quer que seja de divina.
+
+E o opusculo sarraceno? Perdoe, meu amigo! O opusculo tinha-me
+profundamente esquecido.
+
+O eruditissímo academico meu adversario declara-me inhabilitado para
+escrever a historia do dominio mussulmano na Hespanha, porque não sei
+arabe.
+
+Pois então dou-a por não escripta. Largo o titulo de historiador; mas
+consolo-me com a boa companhia. Masdeu, Noguera, Ferreras não sabiam
+arabe; Barros não sabia o sanskrito; Raynal não sabia as linguas bunda,
+tupinamba e iroquesa; Bossuet não sabia as setenta e duas linguas da
+torre de Babel.
+
+O auctor do opusculo passa a demonstrar como eu não sei arabe. Não era
+preciso: nas notas do meu livro estou mais que confesso. Nunca citei um
+texto escripto nessa lingua, que não dissesse de que traducção me tinha
+valido.
+
+Eis, todavia, as provas _da minha_ insciencia:
+
+Primeira: Attribuo ao nome do Guadiana origem phenicia.
+
+E continúo a attribuir-lh'a. O nome radical do rio é _Ana_: e os
+eruditos concordam geralmente em que a palavra é phenicia. _Guadi_,
+_wadi_, ou como em mouro direito for, é árabe, e significa rio. Até ahi
+chega o meu arabismo. Mas não são essas syllabas que o distinguem,
+porque os sarracenos as ajunctavam a muitos _nomes proprios_ de rios.
+_Guadiana_ nada mais é que o _rio Ana_.
+
+Segunda: Digo que _Alcacer_ significa _paços reaes_.
+
+E porque não o havia de dizer? Os _Vestigios arabicos_ de Moura dão-lhe
+a significação de _palacio acastellado_; e eu, que não sei arabe, mas
+que sei outras cousas que o auctor do opusculo ignora, affirmo-lhe que
+naquella epocha o _Al-kassr_ ou _Al-kassba_ (aqui me colhe n'alguma
+tropelia arabica) era isso, ou mais exactamente, um _castello
+apalaçado_. Quanto ao adjectivo _reaes_, asseguro-lhe á fé de christão
+(e tanto da gemma, que não entendo o alcorão) que em virtude das
+instituições politicas d'aquelles tempos, assim entre sarracenos como
+entre nazarenos, o _alcacer_ era necessariamente _real_, isto é,
+dependente do poder publico.
+
+Terceira: Chamo a _Ourique_ nome proprio de logar.
+
+Sobre isso falaremos d'espaço.
+
+Quarta: Interpreto _Iman_ dignidade religiosa.
+
+Esta accusação deixou-me quasi academico. Para um arabista parece-me
+gracejo forte de mais. Pois _Iman_ não significa dignidade religiosa? O
+auctor do opusculo devia então dizer-nos se o _iman_ era algum capitão
+de mar e guerra, mercador de retalho, dentista, ou que demonio era o
+_iman_. Quem a mim me metteu nestes trabalhos sei eu. Foi o celebre
+traductor e refutador do alcorão, Marraccio, que teve a insolencia de
+dar sempre á palavra _iman_ a significação de _chefe do culto_, de
+_principal sacerdote (sacrorum antistes)_[47]: foi o orientalista
+Von-Hammer[48], que sabe mais das cousas mussulmanas, que toda a eschola
+arabica de Lisboa desde a sua fundação até hoje: foram todas as
+exposições da organisação religiosa entre os mussulmanos, não só da
+Peninsula, mas de todo o mundo.
+
+Quinta: Digo ser _Ismar_ corrupção de _Omar_ ou de _Ismael_.
+
+É possivel que eu me enganasse: todavia, porque não me fez o auctor do
+opusculo um favor especial; porque não me citou na historia de
+Abdel-Halim, na de Conde, na de Al-Makkari, ou na de Al-Keiruani, onde
+se mencionam milhares de individuos mussulmanos, um só que se chamasse
+_Ismar_? Assim fico em duvida, e desconfiado de que tenhamos outra
+anecdota como a d'_Iman_.
+
+Felizmente as provas não continuam. Se o auctor proseguisse, temo que
+demonstrasse contra mim que eu sabía arabe. Era um aperto em que me
+punha; porque na realidade eu não sei decifrar um unico daquelles
+engaços de passas, que elle lithographou ao cabo do seu opusculo.
+
+Passado o preambulo, o auctor annuncia que vai provar-me pelos
+historiadores arabes que a batalha d'Ourique foi uma grande batalha e o
+_golpe fatal dado no dominio mussulmano_. Sancto breve da marca! Sempre
+são mouros! Se tal affirmam, digo ao illustre arabista que não os
+acredite. Os monumentos christãos, ainda os mais exaggerados, não contam
+tanto. O dominio mussulmano ficou como estava depois da jornada
+d'Ourique. Affonso I voltou muito depressa para os seus estados, ao
+norte do Mondego, porque sabía do officio de soldado. Sessenta annos de
+lucta depois da bulha d'Ourique não bastaram para expulsar de todo do
+actual territorio português os mussulmanos. Apesar da celebre jornada de
+1139, Affonso Henriques teve de ir conquistando palmo a palmo a
+Estremadura e o Alemtejo. Que _golpe fatal_ foi, portanto, esse de
+Ourique? Ah mouros, mouros! Isso é debicar com o proximo.
+
+Depois de citar o que eu refiro como introducção á narrativa da batalha,
+o opusculo vem deitar-me tudo por terra com um sopro. Errei a
+chronologia, os nomes dos imperadores almoravides, tudo. Oh peccador de
+mim!
+
+Lá vai o texto do nosso academico arabico:
+
+
+ «Nada tem o facto de Ourique, succedido no reinado de
+ Ali-Ben-Taxefin, com Aly-Ibn-Iussuf; porque este Aly-Ibn-Iussuf foi
+ o primeiro imperador da dynastia dos morabethins e falleceu no anno
+ 496 da Hegira, 1103 da era Christã...»
+
+ «Não foi, _portanto_, no reinado de Aly-Ibn-Iussuf, nem durante o
+ de Aly-Ben-Taxefin, que começou a pretensão do celebre El-Mohdy,
+ mas sim no reinado de Taxefin-Ben-Aly, que succedeu a
+ Aly-Ben-Taxefin, isto é, principiou no reinado do III imperador e
+ só tomou seu maior incremento no meio do reinado do IV imperador da
+ dynastia dos morabethins, que foi Ibrahim-Ben-Taxefin: logo no
+ reinado de Aly-Ben-Taxefin, em cujo tempo foi a batalha de Ourique,
+ não houve revolução, nem politica, nem religiosa, que distrahisse
+ as tropas; o que tudo confirmamos, convidando nossos leitores a que
+ leiam os capitulos desde 32 até 36 inclusivamente da Historia
+ Genealogica dos imperadores mussulmanos, escripta por
+ Abu-Mohammed-Salihn-Abd-Alihim.»
+
+
+Transcrevi todas estas blasphemias historicas, para que se veja com
+quanta razão dou graças a Deus de que a nossa lingua seja pouco
+conhecida, e o que se deve esperar de uma academia onde ha destes
+eruditos. Pús á vista de todos o corpo de delicto. Vamos ao auto.
+
+A serie dos imperadores almoravides que resulta das precedentes
+passagens é a seguinte.
+
+
+ 1.^o Aly-Ibn-Iussuf 1103 (morto)
+ 2.^o Aly-Ben-Taxefin 1139 (batalha d'Ourique)
+ 3.^o Taxefin-Ben-Aly (apparecimento do Mahadi)
+ 4.^o Ibrahim-Ben-Taxefin.
+
+
+Em que se funda o auctor? Que é o que cita em seu abono?
+
+Unicamente os capitulos 32 a 36 da Historia de Assaleh-Ben-Abdel-Halim,
+ou Salihn Abd-Alihim, conforme for em mouro a graça de sua mercê, porque
+não ha dous arabistas que escrevam um nome de gente do mesmo feitio.
+
+Ora os capitulos citados[49] têem apenas o pequeno inconveniente de se
+referirem ás primeiras conquistas dos lamtunenses, e ao estabelecimento
+do seu dominio na Africa _na segunda metade do seculo XI_. É no capitulo
+37 que se narra a primeira passagem á Hespanha de Iussuf-Ibn-Tachfin e a
+victoria de Zalaka em 1080; no 38 a segunda passagem; no 39 a terceira
+em que Iussuf incorporou nos seus dominios os estados mussulmanos da
+Peninsula, que tinham invocado o seu auxilio. Iussuf foi o primeiro
+imperador almoravide d'Africa e de Hespanha.
+
+A serie dos imperadores, que resulta dos capitulos 39 e seguintes da
+Historia de Assaleh-Abdel-halim é:
+
+
+ 1.^o Iussuf-Ibn-Tachfin (fallecido) em 1106
+ 2.^o Aly-Ibn-Iussuf (appel. Abu-Hassan) (fallecido) em 1142
+ 3.^o Tachfin-Ibn-Aly (morto em) 1145
+
+
+Se o meu amigo comparar isto com o que se diz no opusculo, não me ha-de
+acreditar. Tem razão. É monstruoso, é incrivel, é absurdo; mas está la.
+Se quizer desenganar-se, procure a versão de Assaleh pelo padre Moura
+esplendidamente impressa pela Academia em papel pardo e letra safada.
+Veja o que diz o historiador arabe, o que eu digo, e o que diz o
+opusculo. Depois julgue-nos; e, ainda depois, faça idea do que irá pela
+_Classe de Sciencias Moraes e Bellas-letras_ (ou, como quem o dissesse
+em português, _e Boas-letras_) da Academia[50].
+
+É assim que esta gente salva a gloria nacional e vindica a bulha
+d'Ourique contra a minha má fé, contra o fel da minha critica.
+
+A má fé é minha. Repare bem nisso.
+
+Mas haverá outros textos de Abdel-halim, que tenham alguns capitulos 32
+a 36, que nos contem essas historias do opusculo?
+
+Na parte da _Historia do Dominio dos Arabes_ por D. J. Conde, relativa á
+dynastia almoravide, o erudito hespanhol seguiu Assaleh. Esta parte do
+seu trabalho ficou imperfeita e por isso deve aproveitar-se com cautela.
+Todavia Conde era incapaz de commetter um erro tão grosseiro como
+transtornar completamente a chronologia daquella epocha. Isto estava
+reservado para um membro da nossa academia.
+
+Eis o resumo da chronologia de Conde quanto á dynastia almoravide[51]:
+
+
+ 1.^o Abu-Bekr-Ibn-Omar (unicamente na Africa)
+ 2.^o Iussuf-Ibn-Tachfin, fallecido na egira 500
+ (1106-1107)
+ 3.^o Aly-Ibn-Iussuf, fallecido na egira 534
+ (1139-1140)
+ 4.^o Tachfin-Ibn-Aly fallecido na egira 541
+ (1146-1147)
+
+
+A ordem dos imperadores é a mesma. Conde atraza dous annos a morte de
+Aly-Ibn-Iussuf e adianta um a de seu filho. Ainda admittida a
+chronologia Conde, a jornada de Ourique cai dentro do reinado de
+Aly-Ibn-Iussuf; porque a Egira 534 correu de _agosto_ de 1139 a agosto
+de 1140.
+
+Os historiadores sarracenos Ibn-Khallekan e Ibn-Al-Khatib consideram
+Iussuf-Ibn-Tachfin como o fundador da dynastia almoravide. Eis a
+chronologia seguida por elles:
+
+
+ 1.^o Iussuf, fallecido na egira 500 (1106-7)
+ 2.^o Aly, fallecido na egira 537 (1142-3)
+ 3.^o Tachfin, fallecido na egira 539 (1144-5)[52]
+
+
+Já se vê que, segundo a chronologia de Ibn-Khallekan e de Ibn-Al-Khatib,
+a ordem da dynastia é a mesma, e que o successo d'Ourique tambem cai no
+reinado de Aly-Ibn-Iussuf. O celebre Abu-l-Feda concorda com elles. «Na
+Egira de 500--diz Abu-l-Feda--morreu Iussuf-Ibn-Tachfin, _amir
+al-moslemin_. Succedeu-lhe Aly seu filho (Aly-Ibn-Iussuf) que tomou o
+titulo de _amir al-moslemin_, como seu pae[53].»
+
+Resta apontar o que resulta da narrativa do principal historiador arabe
+do dominio mussulmano Peninsula, Al-Makkari, ácerca da dynastia
+almoravide:
+
+
+ 1.^o Iussuf-Ibn-Tachfin 1052 a 1106
+ 2.^o Aly-Ibn-Iussuf 1106 a 1143
+ 3.^o Tachfin-Ibn-Aly 1143 a 1145
+ 4.^o Abu-Ishak-Ibrahim-Ibn-Tachfin 1145 a 1147[54]
+
+
+Que tal parece ao meu amigo a erudição arabica da parte sarracena da
+nossa Academia?
+
+Nos arabes vê-se que se encontra exactamente o contrario do que se lê no
+opusculo. Certamente o auctor descubriu essa deliciosa historia dos
+almoravides, que nos conta, nos escriptores christãos coevos ou quasi
+coevos. Sempre era gente que se confessava. Mouro e judeu mentem por
+officio. Vejamos:
+
+A chronica dos godos nas suas referencias aos imperadores almoravides:
+
+
+ 1.^o Iussuf (batalha de Zalaka) 1085 aliàs 1086
+ 2.^o Aly-Ibn-Iussuf (cerco de Coimbra) 1117[55]
+
+
+A conimbricense:
+
+
+ 2.^o Aly (cerco de Coimbra) 1117[56]
+
+
+Rodrigo de Toledo, o escriptor do seculo XIII mais instruido na
+litteratura arabe e christã da Peninsula, estabelece para a dynastia
+almoravide d'Africa e de Hespanha, que diz ter durado 55 annos desde a
+Egira 484 até a Egira 539, a seguinte chronologia:
+
+
+ 1.^o Iussuf-Ibn-Tachfin (principio da dynastia) 1091-2
+ 2.^o Aly-Ibn-Iussuf
+ 3.^o Tachfin-Ibn-Aly (fim da dynastia) 1144-5[57]
+
+
+Ao _digno_ academico restam talvez para estribar as suas famosas
+historias _almoraviditicas_ (na falta de arabes e christãos) alguns
+historiadores tartaros, mongoles, ou chinas.
+
+É provavel que seja assim.
+
+Perdôe, meu amigo, estas extensas citações. Era necessario dar uma
+prova, que não admittisse subterfugios, dos deploraveis, por não dizer
+vergonhosos, extremos a que o desejo de me combater tem levado certas
+pessoas.
+
+O auctor do opusculo negou, com a mesma sem cerimonia com que
+transtornou a serie dos imperadores, que o Mahadi ou Al-mohdi
+(Mohammed-Ibn-Tiumarta) começasse a revolução almohade no reinado de
+Aly, e que nos ultimos annos deste reinado, isto é, na epocha da batalha
+ou recontro de Ourique, essa revolução houvesse tomado um incremento
+irresistivel. Todavia são os mesmos escriptores arabes que contam o
+successo como eu o narrei: conta-o o proprio Abdel-halim, em que elle
+finge estribar-se com uma citação _falsa_; _falsa_, digo, porque tanta
+confusão involuntaria é moralmente impossivel. A narrativa de
+Abdel-halim é, que em 1120 appareceu o Mahadi; que de 1122 a 1125 já se
+achava com forças para vir assentar campo perto de Marrocos; que, tendo
+fallecido em 1130, tomou o commando dos almohades Abdel-mumen, o qual
+foi acclamado imperador em 1133, continuando guerra incessante contra os
+almoravides até os destruir[58]. É elle que, depois de narrar as
+victorias de Tachfin-Ibn-Aly contra os christãos desde 1126 até 1137,
+refere que logo passara á Africa[59]. Conde diz-nos que fora chamado por
+seu pae ameaçado da ultima ruina[60]. Habil e feliz general contra os
+christãos, esta causa da sua partida parece confirmada, não só pela
+razão, mas tambem pelo texto de Al-Khatib[61]. Um monumento christão,
+escripto por individuo do mesmo seculo, a _Chronica Adefonsi
+Imperatoris_, confirma e particularisa o facto. Narrando os successos de
+1138, diz que Tachfin levara comsigo, retirando-se para a Africa, até os
+mosarabes e os prisioneiros christãos para os oppôr aos almohades[62].
+Deixaria acaso em Hespanha a flor das tropas almoravides, quando a
+defesa de Marrocos o obrigava a converter em soldados os proprios
+nazarenos captivos? Destroem-se estes factos com citações falsas? Como
+se explica o abandono d'Aurelia, suppondo a existencia de uma grande
+batalha dada (exactamente na conjunctura do cerco) no occidente da
+Peninsula entre almoravides e portugueses, quando de Africa se não
+dispensava um soldado para a salvação d'aquella chave da fronteira
+musulmana? Que se póde dizer que tenha um vislumbre de senso commum
+contra o que a este proposito reflecti?
+
+Quem dá documentos de má fé? Sou eu ou os meus adversarios?
+
+Ia-me irritando! Em boa paz, o nosso academico arabe não vale a pena
+disso.
+
+Depois d'estas façanhas, o auctor do opusculo prosegue com accusações
+curiosissimas. Fora extenso de mais citá-las todas. Uma d'ellas é que
+chamo á serie dos imperadores almoravides _dynastia lamtunense_ para
+explicar o apparecimento das mulheres no recontro de Ourique, e para
+taxar de covardes os mesmos almoravides. O auctor faz a mercê de
+dizer-me que o vocabulo _lamtunense, ou antes almolatamenense_, não
+serve para indicar covardia. Devéras? E eu que não caía em nada! Isto é
+incrivel, amigo redactor da _Semana_. Digo mais: era impossivel haver
+quem fizesse d'estas, se não houvesse academias. Chamei aos principes
+almoravides _dynastia lamtunense_, ou _lamtunita_, porque todos os
+historiadores arabes, Ibn-Khaldun, Abdel-halim, Al-Makkari, Al-Khatib,
+Al-Keiruani, lh'o chamam, e chamam-lh'o para indicar valentia ou
+covardia tanto como eu. Chamam-lh'o porque, entre as raças bereberes que
+serviram de nucleo ao imperio almoravide, a de Lamtuna ou Lamta[63] era
+a principal, e porque Iussuf, o primeiro imperador almoravide, era da
+tribu de Masufah pertencente a essa raça. Aquella phrase do opusculo
+«_ou antes almolatamenense_», é deliciosa. Como o nosso arabista
+precisava de mostrar a sua pobre erudição, fez pouco mais ou menos este
+raciocinio: «o auctor da Historia de Portugal denomina os principes
+almoravides _lamtunenses_; eu digo-lhe, _ex auctoritate qua fungor_ que
+era melhor chamar-lhes _almolatamenenses_»: ora como esta denominação
+provinha de terem os almoravides cuberto o rosto com veus de mulheres
+n'uma batalha, e possa crer-se um epigramma contra o seu esforço, embora
+elle não usasse de tal vocabulo, devia usar, para eu poder reprehendê-lo
+por isso; porque é uma violencia negar a um pobre escholar arabico a
+occasião de mostrar erudições _reconditas_. Sabe o meu amigo o que isto
+faz lembrar? Faz lembrar o prégador que punha o barrete na borda do
+pulpito, encarregava-o do papel do diabo, e depois convencia-o á sua
+vontade. Vamos a outro exemplo. No opusculo mourisco affirma-se contra
+mim:
+
+Que os principes almoravides usaram do titulo de _amir-el-muminin_[64].
+
+A prova disto é curiosa, como tudo o mais. Os almoravides usaram-no,
+segundo o opusculo sarraceno, porque Abdel-halim diz que foi usado
+duzentos annos antes pelos Benu-Umeyyah (ommiadas) soberanos arabes de
+Cordova. Não o diz Abdel-halim; di-lo toda a gente; mas que tem o que
+fizeram os ommiadas com o que fizeram os almoravides? Isto, meu amigo, é
+incrivel! Acima transcrevi uma passagem de Abu-l-Feda, pela qual se vê
+que o titulo dos soberanos lamtunenses era _amir-al-moslémin_ (principe
+dos mussulmanos). Ouçamos agora o sr. Gayangos: «Não consta da
+historia--diz elle--que Iussuf-Ibn-Tachfin ou algum dos seus successores
+tomasse nunca o titulo de _Amiru-l-muminin_, que era reservado para o
+khalifa, ou vigario do propheta no oriente. Contentaram-se pelo
+contrario, ao que parece, com o titulo mais modesto de
+_Amiru-l-muslemin_, ou _principe dos moslems_ (de Africa e de Hespanha).
+Os proprios sultões de Cordova, postoque descendentes do tronco dos
+Benu-Umeyyah, e tão intimamente ligados com a familia do propheta, não
+se atreveram a tomar este titulo honorifico emquanto a familia de Abbás
+não chegou a ser quasi extincta na Asia pelos turcos; e ainda assim, o
+uso desse titulo foi reputado sacrilego por alguns theologos de Cordova
+e d'outras cidades da Peninsula[65]». Effectivamente Abu-l-Feda nos
+certifica que Abderrahman III «foi o primeiro entre os principes
+ommiadicos do Andalus que se arrogou o titulo de _amir-al-muminin
+proprio do Khalifa_[66].»
+
+Isto não são citações falsas. Por ellas póde ver o meu amigo com quanta
+exacção eu escrevi ácerca dos almoravides, embora não fosse esse o
+objecto essencial do meu trabalho, e com quanta leveza foi escripto o
+opusculo sarraceno destinado a refutar-me. Não fica, porém, aqui o
+negocio. O academico auctor do opusculo accusa-me de ignorancia da
+lingua arabe e de historia por dizer que os principes da dynastia
+almohade adoptaram o titulo de khalifa ou de _amir-al-muminin_, porque,
+diz elle, o de khalifa só se deu aos imperadores do oriente, e estas
+palavras khalifa e amir-al-muminin significam diversas cousas. Agradeço
+a ultima novidade; mas eu não escrevia grammatica; escrevia historia, e,
+politicamente, as duas expressões eram synonimas. Que se pensaria de
+quem accusasse d'ignorancia de grammatica e de historia aquelle que,
+falando do imperador da Russia, dissesse «_o czar ou autocrata_?» Por
+outra parte para o academico auctor do opusculo affirmar que o titulo de
+khalifa se deu ou não se deu aos principes mussulmanos do occidente,
+ainda tem que estudar muito a historia moslemica d'Africa e de Hespanha,
+cujos rudimentos parece ignorar. Se ler o capitulo 5 do livro 6
+d'Al-Makkari, ahi achará que o imperador ommiada de Cordova Abderrahmam
+III «foi o primeiro soberano da sua familia que assumiu _os titulos de
+khalifa e de amiru-l-muminin_». Se tambem quizer saber se os principes
+almohades tomaram ou não o titulo de khalifas, leia Al-Keiruani, e lá
+achará este periodo: «El-Mohdi _elevou o khalifado_ para os que lhe
+succederam[67]», e mais adiante, onde se conta certa anecdota do
+primeiro imperador almohade, Abd-el-mumen, lerá que um poeta da côrte
+dizia a outro: «Até quando importunarás tu _o khalifa_?»; porque é de
+advertir que naquelle tempo havia poetas impertinentes, como hoje ha
+criticos academicamente originaes.
+
+Mas, em consciencia, meu amigo, eu ás vezes merecia ser feito socio
+effectivo da classe de sciencias moraes e bellas-letras! Pois ha
+simpleza maior do que citar ao auctor do opusculo sarraceno tanta
+mourisma, quando o proprio Abdel-halim, que, segundo parece, constitue
+toda a matalotagem arabica do _digno_ academico, se lhe rebella e
+tumultua dentro do bornal litterario em que o traz mettido? E senão,
+ouçamo-lo. As palavras mandadas ensinar ao leão e ao papagaio, de que
+Abdel-mumen se serviu para os almohades o acclamarem imperador,
+traduzidas por Moura na sua versão de Abdel-halim, são «_as victorias e
+o poder competem ao califa Abdelmumen_[68]». É verdade que o auctor do
+folheto, que repete a historia do leão e do papagaio, não sei para me
+provar o que, traduz, em logar de _califa_, _successor_. Mas aqui para
+nós, meu amigo, postoque eu não saiba arabe, apostava que isso foi uma
+esperteza, e que naquella expressão _algalifatu_ (ou, como Moura lê,
+_el-califa_) anda o que quer que seja de _khalifa_.
+
+Estou com pressa de chegar ao fim, porque temo fazer uma carta tamanha
+como o opusculo, o que seria para o publico, em vez de uma desgraça,
+duas. Mas faltou-me o animo quando fui a saltar por cima do precioso
+paragrapho 8, que o auctor destinou para me provar que Ourique não é
+nome proprio de logar, como eu disse, mas sim appellativo, que significa
+_adversidade_ ou _infortunio_.
+
+Sou, porém, nesta parte absolvido do peccado, porque quem me deitou a
+perder foi o padre Moura, conforme resa o folheto. Ao menos, valha-nos
+isso! A consequencia, todavia, immediata deste importante descubrimento,
+que o digno academico fez, é exactamente a contraria da que elle
+desejava. Se assim é, torna-se impossivel achar jámais uma passagem de
+auctor arabe que se refira com certeza ao conflicto de Ourique. Embora
+até aqui não tenha apparecido essa passagem, podia ainda apparecer; mas
+desde que a palavra ourique (tirei-lhe o _O_ maiusculo, não pensem que
+teimo em fazê-la nome proprio) significa só _adversidade_ ou
+_infortunio_, o caso muda de figura. O combate que Affonso I teve, no
+fossado de julho de 1139, com os mouros do Alemtéjo é um facto provado
+pelos testimunhos que eu colligi; o que não está provado, nem se ha de
+provar nunca, é que elle fosse um successo importante. N'algum escriptor
+arabe, ainda inedito, que particularisasse muito os acontecimentos de
+Hespanha naquella epocha podia vir mencionado o recontro do _campo de
+Ourique_; mas como o auctor do opusculo não consente que esse pobre _o_
+tome as dimensões de letra maiuscula, qualquer passagem que appareça ha
+de ser traduzida pelos arabistas da seguinte maneira: «Houve em 1139 um
+combate entre os moslems e os infieis _no campo da adversidade ou do
+infortunio_». Ora como nesse anno, do mesmo modo que nos antecedentes e
+consequentes, houve muitos recontros entre os christãos e os
+mussulmanos, segue-se que não saberemos a que conflicto allude o auctor
+arabe; porque todos os campos de combate são de adversidade ou
+infortunio para um dos contendores, e talvez para ambos. Realmente este
+modo de defender a importancia da batalha de Ourique é galantissimo.
+
+O que, porém, é verdadeiramente academico e digno do pincel de Molière é
+o que pondera o auctor do folheto sobre o erro de Moura ácerca da
+etymologia de Ourique. «É bem clara--diz elle--_ainda para os que não
+sabem arabe_, a nenhuma analogia que se nota _com o ouvido_ entre
+_orique_ e _arique_». Agora, quer o meu amigo saber com que palavra
+arabe _orique_ se parece muito? É com _araka_. Isto não precisa de
+commentario. Nas contendas dos nossos rapazes ácerca da Stoltz e da
+Novello, quem devia dar a sentença definitiva era o illustre arabista.
+Proponham a questão á Academia.
+
+Mas a cousa mais sublime, talvez, de todo o folheto vem neste mesmo
+paragrapho. É uma novidade que escapou a todos os etymologistas e
+ethnographos. Na translação das palavras de umas linguas para as outras,
+ellas se transfiguram com a irregularidade que necessariamente resulta
+da ignorancia das multidões, que são quem ordinariamente faz essas
+adopções de termos peregrinos. As proprias transformações das linguas
+são assim, e assim foi que a latina se transformou nos modernos idiomas
+da Europa occidental. Nestas mudanças e adopções não ha letra que não
+possa alterar-se; e basta ter uns rudimentos de linguistica para não o
+ignorar. Agora ouça o meu amigo um mysterio da lingua arabe: «Moura--diz
+o opusculo--foi buscar a raiz de tal vocabulo no verbo _araka_, cuja
+primeira letra radical, que é um _alif, não soffre a conversão_ para a
+letra _o_ nas linguas europeas». Isto quer dizer que aos rudes
+portugueses do seculo XII, que escorchavam sem piedade quantas letras,
+quantas palavras celticas, phenicias, gregas, romanas, germanicas lhes
+caíam nas unhas, era prohibido tocar no _alif_, especie de
+_noli-me-tangere_ arabico. Certamente, meu amigo, no alcorão ha uma sura
+intitulada «_Dos escorchamentos etymologicos_» onde o propheta diz:
+«Todo o infiel nazareno que bulir na sancta letra _alif_ para della
+engenhar um dos seus maldictos _ós_, vai preso». Foram peccados meus que
+me impediram d'aprender arabe: teria com isso evitado deixar-me embair
+por aquelle herege do padre Moura, que pelo que vejo, era um pessimo
+sarraceno.
+
+Depois vem uma longa chicana (perdoe, meu amigo, o gallicismo, mas como
+isto ha de ser lido pelo digno academico arabista membro da classe de
+sciencias moraes e bellas-letras, elle entenderá assim melhor a phrase);
+vem uma longa chicana sobre as palavras _fossado_, _correria_,
+_entrada_, e não sei que mais, em que o auctor desenvolve uma erudição
+pasmosa em diccionario de Moraes. Chamei fossado á expedição de Affonso
+I em 1139, porque todas as etymologias do mundo não podem fazer com que
+uma cousa deixe de ser o que é. O fossado era uma expedição que se fazia
+em regra todos os annos no começo do verão ás terras inimigas:
+questionar sobre isto não sería mais do que mostrar-se profundamente
+ignorante das nossas cousas antigas. _Correria_ é um nome que cabe ao
+fossado tão bem como _expedição_; porque correria é uma especie do
+genero expedição, mais nada. Quem faz uma expedição, fossado, ou
+correria no territorio inimigo, entra nelle (emquanto o alcorão ou a
+Academia não mandarem o contrario) e por consequencia faz uma _entrada_.
+Não é uma miseria, além disso, affirmar-se n'um papel que tem a
+pretensão de ser cousa séria, que eu me contradigo, porque, chamando
+correria ao fossado de 1139, exprimo ao mesmo tempo a idéa de que os
+mussulmanos hespanhoes buscaram em si proprios recursos para atalhar o
+passo aos invasores na falta das tropas almoravides, visto que (diz-se
+ahi), sendo a correria um acto repentino, os mussulmanos não podiam
+precaver-se? Que resposta séria se póde dar a isto? Fique-se entendendo
+que quando um paiz é invadido rapidamente, os habitantes deixam-se matar
+como carneiros e não se unem para se defenderem, ou que os soldados que
+fazem correrias, não andam, mas voam, ou vão em aerostatos descer aonde
+e quando querem sem que ninguem os veja passar. Dizer que no fossado de
+Ourique não houve audacia, a ser como eu o narrei, embora as tropas
+almoravides, ou a melhoria dellas, faltassem, é cousa tão absurda,
+quanto é certo que essa expedição importava uma longa marcha de
+cincoenta leguas (que tantas irão de Coimbra ao campo de Ourique) quasi
+toda por paiz inimigo, porque, como bem observa a chronica dos godos,
+Ourique ficava _no coração das terras mussulmanas_. Qualquer cabo de
+esquadra sabe que difficuldades se offerecem á marcha de tropas, embora
+disciplinadas (como de certo não eram as de Affonso I) atravez de um
+paiz excitado contra essas tropas pelo fanatismo politico e religioso. O
+principe português deixava, além disso, na sua retaguarda, por um e por
+outro lado, logares importantes fortificados, e bem ou mal guarnecidos,
+taes como Santarem, Lisboa, Alcacer, Elvas, Evora, etc.; o que tornava a
+volta de Affonso I aos proprios estados duplicadamente arriscada. Emfim,
+meu amigo, eu deixo nesta parte aos homens intelligentes avaliar se o
+fossado de Ourique, com as poucas circumstancias que delle sabemos,
+embora não tivesse as dimensões que lhe attribuiram depois, foi ou não
+foi um acto de bastante ousadia.
+
+De passagem, meu amigo, deixe-me protestar contra um falso testimunho
+que me levanta o auctor do opusculo, quando, citando textualmente as
+minhas palavras, me attribue o uso do vocabulo _derrota_ por _destroço_
+ou _desbarato_ (dos sarracenos em Ourique). Não escrevi o meu livro para
+se inserir nas actas da Academia: escrevi-o para o publico português, e
+por isso na sua lingua, ao menos até onde eu a sabía.
+
+Vamos á questão principal. Para a tractar não me parece que fosse
+necessario accumular previamente tanta inexacção e tanto desproposito.
+Eu tinha affirmado que os diversos escriptores arabes que nos
+transmittiram a historia daquella epocha guardaram silencio ácerca da
+batalha de Ourique. O auctor do opusculo sarraceno firma a proposição
+_contraria_, isto é, que nesses diversos escriptores arabes se
+encontram, não só vestigios della, mas tambem a sua _descripção_, e as
+suas _consequencias terriveis_.
+
+Algum de nós, pois, engana o publico; algum de nós commette uma acção
+indigna de homens de letras affirmando uma cousa opposta á verdade. Eu
+consultei os historiadores arabes que escreveram a historia do dominio
+mussulmano na Peninsula, e que estão traduzidos. Era essa unicamente a
+minha obrigação, porque não sei arabe. O auctor do opusculo _devia_
+tê-los visto antes de escrever, e _podia_ ter lido outros, porque diz
+que sabe arabe. Se a minha narrativa fosse conforme com os primeiros
+comparados com os monumentos christãos, e o auctor achasse que esses
+não-traduzidos os desmentiam, devia provar que o seu testimunho era
+preferivel ao delles e ao dos monumentos christãos, sendo accordes uns
+com outros. Sem isso nada tinha feito. Ora eu estribei-me na narrativa
+de Abdel-halim, como a haviam vertido Moura e Conde, e esta narrativa
+concorda em geral com a chronica latina de Affonso VII, escripta ainda
+no seculo XII ou nos começos do XIII. Das tres fontes historicas resulta
+ou não resulta o que eu disse? Resulta ou não resulta, que antes de
+julho de 1139 Tachfin-Ibn-Aly tinha partido para Africa, levando comsigo
+as tropas que pôde, sem exceptuar os mosarabes e os captivos christãos?
+É verdade que o cerco de Aurelia ou Cazorla durou _de abril a setembro
+ou outubro_[69]? É verdade que os seus defensores pediram debalde
+soccorro a Tachfin, _que se achava então em Africa_? São, portanto, bem
+deduzidas as minhas inferencias de que é absurdo imaginar que havia
+trezentos ou quatrocentos mil mouros para saltarem por cima do exercito
+do imperador Affonso VII, e virem dar uma batalha campal a Affonso
+Henriques, e não os havia para descercarem uma praça daquella
+importancia? É para responder negativamente a estas perguntas de um modo
+tão categorico como eu as faço, que desafio o auctor do opusculo
+sarraceno.
+
+Ao que se colhe dos monumentos christãos e mussulmanos coevos ou quasi
+coevos[70] que textos exquisitos e reconditos vem, porém, oppôr o
+_digno_ academico? Vejamos:
+
+Um mouro chamado Hamed-el-Nabil, _que viveu no principio do seculo_
+XVII, vindo a Hespanha, escreveu um itinerario. Nelle diz, falando da
+epocha em que succedeu o caso d'Ourique, as palavras seguintes, que vou
+transcrever, porque gósto de apresentar o corpo de delicto:
+
+«E dizem alguns dos sabios precedentes _sobre_ o governo da Andaluzia
+(_sic_) que ella muito se engrandeceu: _e na verdade conquistou com boa
+posse_ (_sic_) muitos dos logares _os_ (_sic_) mais notaveis: e foi isto
+depois que l'Enrick _derrotou_ os mussulmanos; (_sic_) não persistiram
+estes depois disso no paiz senão quando obravam pacificamente; e _por
+isso_ (_sic_) ficaram os christãos neste paiz senhores de suas terras e
+de suas riquezas (_sic_), (_sic_), (_sic_).»
+
+O meu amigo ha de ficar espantado quando souber que nesta salsada, que
+até certo ponto simula lingua portuguesa, ha, _não só claros vestigios_
+da batalha de Ourique, mas tambem a _descripção della e das suas
+consequencias_. Pois saiba que ha. Saiba tambem que, um ou dous mezes
+antes de se imprimir o opusculo sarraceno, se dizia pelos cantos, que na
+Academia se lera uma cousa mourisca, que excitara o enthusiasmo d'alguns
+daquelles padres-conscriptos, porque ahi se me provava com textos arabes
+que eu não soubera o que tinha dicto quando falei com tanta irreverencia
+e falta de patriotismo nesse facto d'Ourique. Rogia-se de um papel
+achado n'uma tenda de Marrocos, que desmanchava todas as minhas opiniões
+aereas. No fim de contas era o sr. Hamed, que no principio do seculo
+XVII tinha escripto em mouro o que o meu amigo ahi vê em meio-mouro.
+Realmente a cousa é séria, sobretudo exornada com as erudições e
+commentarios do traductor, a quem Deus dê alguma inclinação mais
+proveitosa do que esta de traduzir para lingua franca os itinerarios dos
+viajantes marroquinos.
+
+Pretende-se nesses commentarios que o mouro Hamed, na phrase relativa a
+l'Enrik (que é possivel seja Affonso Henriques) se refira aos mesmos
+escriptores a quem, sob o nome de sabios precedentes, allude no
+principio do periodo, e que por sabios precedentes se devem entender
+antigos escriptores sarracenos, porque os arabes servem-se da palavra
+_ulmá-i_ para significarem os _seus_ historiadores. Vamos por partes. Se
+o sr. Hamed escreveu _sabios precedentes_, é porque já tinha dicto quem
+elles eram: nesse caso, em vez de uma dissertação ácerca da palavra
+_ulmá-i_, não seria mais simples e mais a proposito dizer-nos o
+traductor os nomes delles? Teriamos a Bibliotheca de Haji-Khalfah
+traduzida por Fluegel; teriamos a Bibliotheca de Casiri; teriamos as
+notas de sr. Gayangos á versão de Al-Makkari, notas preciosas como fonte
+de erudição arabica; teriamos, emfim, estes ou outros recursos para
+sabermos que importancia deveriamos dar aos _sabios precedentes_ como
+auctoridades para os successos do seculo XII, que era o que importava.
+Hamed ou trinta Hameds, que vivessem em tempos modernos ou houvessem
+vindo a Hespanha e repetissem o que por cá tivessem ouvido ácerca do
+recontro d'Ourique ou de outra qualquer cousa succedida 400 ou 500 annos
+antes, provariam tanto a favor della como a _precedente_ traducção prova
+que o auctor do opusculo sabe grammatica e conhece a indole da nossa
+lingua. Suppondo, porém, que Hamed se refira no principio do periodo a
+historiadores arabes, e que esses historiadores sejam assaz antigos, o
+que é certo é que a phrase relativa a l'Enrik não é dos taes _sabios
+precedentes_, mas do proprio Hamed-el-Nabil. Creio que o meu amigo sabe
+bastante da lingua franca para ver que desde as palavras «_e na
+verdade_» não são os _sabios precedentes_, mas sim o proprio Hamed, em
+corpo e alma, quem fala; quem parece querer confirmar com o seu
+testimunho o dicto delles, se é possivel perceber aquelle _imbroglio_
+que o traductor alli arranjou. Mas a curiosidade maior é que o proprio
+texto está provando que Hamed, longe de alludir ao facto d'Ourique ou a
+facto algum especial, se refere em geral ás victorias e conquistas de
+Affonso I, (se é que se refere a isto) as quaes ninguem contesta, e que
+eu particularisei com a miudeza e exacção, a que os _sabios
+precedentes_, os _ulmá-i_ da nossa terra, não tinham chegado. Se Hamed
+se referisse a Ourique falando do desbarato dos mussulmanos por l'Enrik,
+tudo o mais que vem na passagem seria um rol de mentiras; porque as
+consequencias materiaes desse recontro foram nenhumas. Como já disse,
+Affonso Henriques voltou aos seus estados sem conquistar um palmo de
+terra, e foi annos depois que submetteu a Estremadura e o Alemtéjo,
+ficando no paiz os mussulmanos que curvaram a cabeça ao jugo christão.
+
+Aqui tem o bom redactor da _Semana_ o que é e o que vale o papel da
+tenda de Marrocos, que devia vir pulverisar o que eu escrevi firmado nos
+monumentos coevos, e em argumentos de congruencia irresistiveis. É o
+dicto vago e obscuro de um viajante moderno, dicto que se torce para se
+fazer com que o pobre mouro diga aquillo em que nem sequer pensou. Que
+terra esta nossa, meu amigo, em que o auctor de um livro serio é ás
+vezes obrigado a acceitar o triste encargo de refutar taes miserias!
+
+O famoso texto do viajante marroquino é reforçado com um contraforte
+tirado do Abdel-halim do uso particular do auctor do opusculo; digo do
+uso particular, porque nem em Conde, nem em Moura se encontra semelhante
+passagem, nem no logar indicado, nem em outro qualquer. Vamos ver o
+texto _inedito_ de Assaleh ou de Ibn-Abi-Zara, que o meu critico trouxe
+á luz do dia:
+
+«E neste anno 533 (8 de septembro de 1138 a 27 d'agosto de 1139)
+desbaratou o general Taxefin as multidões dos christãos _nos campos de
+Attibbat_; e fez perecer delles um numero extraordinario; e levou de
+seus prisioneiros _seis mil captivos: em consequencia do que_ partiu
+para Marrocos, e á sua chegada _lhe saiu ao encontro seu pae_, o
+imperador dos mussulmanos, _que ficou em profundo desgosto e cheio de
+grande susto_.»
+
+No capitulo 33 do Karttás traduzido pelo padre Moura não vem esta
+passagem. Entretanto não devo crer que o auctor do opusculo a
+inventásse. Cumpre suppôr que elle se serviu de algum exemplar mutilado,
+viciado, ou extremamente incorrecto da obra de Abdel-halim. Na versão de
+Moura é no capitulo 40 que se contém as ultimas acções do Tachfin na
+Hespanha, antes de partir para a Africa. Eis o que ella nos diz:
+
+«No anno 532 (19 de septembro de 1137 a 7 de septembro de 1138) passou o
+principe Taxefin de Hespanha para a Mauritania, depois do ter combatido
+e tomado de assalto _a cidade de Segovia_, levando comsigo _seis mil
+captivos_; e tendo chegado a Marrocos _veio seu pae encontrá-lo_ com
+grande pompa e _se alegrou com elle_, etc.[71]»
+
+As duas passagens são, se não identicas, por certo parallelas. Tracta-se
+em ambas da partida de Tachfin para a Africa, depois de obtido um
+triumpho em que captivou seis mil homens. A differença está nas
+circumstancias, e _na data_. Qual dessas se deve preferir? Vejamos.
+
+Conde refere a partida de Tachfin menos precisamente: mas põe-na como
+immediata á reducção de Cuenca, a qual fixa em 531 (29 de septembro de
+1136 a 18 de septembro de 1137) e assim concorda com Assaleh quanto ao
+anno da partida, visto que, se Cuenca fosse reduzida nos fins de 531, a
+saída do principe almoradive para a Africa devia verificar-se já em 532,
+isto é, nos fins de 1137 ou nos principios de 1138.
+
+Com esta data concorda o auctor da chronica de Affonso VII, mencionando
+a partida de Tachfin para além-mar entre os successos de 1138, e
+descrevendo a mensagem que lhe enviaram á Africa os defensores de
+Aurelia durante o cerco posto a esse castello por Affonso VII _em abril
+de_ 1139. O chronista christão vai de accordo na chronologia com os
+historiadores arabes sem os conhecer, e limitando-se a narrar os factos
+que _ouvira ás pessoas que os tinham presenciado_[72].
+
+Não quero suppôr, torno a repetir, que o auctor do opusculo forjasse a
+passagem que cita, ou que alterasse a data da hegira para provar que
+Tachfin estava em Hespanha em julho de 1139. N'uma questão em que se tem
+procurado associar á idéa de que caí n'um erro historico a de que tive
+em mira deshonrar o meu paiz, tal procedimento fora duplicadamente
+torpe. Todavia o _digno_ academico ainda assim tem d'escolher entre a
+ignorancia e a má fé. Se conhecia a chronica de Affonso VII, a narrativa
+de Conde e a versão de Assaleh por Moura, tinha que fazer duas cousas:
+primeira, provar que essas auctoridades em que eu me estribava eram
+insufficientes; segunda, mostrar que o seu manuscripto tinha uma
+importancia, uma auctoridade tal, que as annullava. Onde o fez? Como o
+fez? Acaso só porque se mandaram escrever n'uma pedra lithographica uns
+poucos de caracteres arabicos ou o que quer que seja, provou-se que as
+palavras que resultam da sua união são indubitaveis como o evangelho, ou
+sequer que é preferivel a leitura do codice de que se tiraram á leitura
+de codices já conhecidos e traduzidos por outros arabistas, que pelo
+menos sabiam tanto arabe como o auctor do opusculo?
+
+Á vista destas simples e claras reflexões, o texto de Abdel-halim citado
+pelo digno academico vale tanto e prova tanto como o de Hamed-el-Nabil.
+Eu, porém, acceito-o por um momento. Vamos a discuti-lo em si.
+
+Que diz o tal texto? Que Tachfin desbaratou no campo da total destruição
+(Attibbat) as multidões dos christãos; que aprisionou seis mil homens, e
+que partiu para Marrocos, com o que seu pae ficou cheio de desgosto e de
+susto. Onde se fala aqui em Ourique? Para entender _Ourique_ por
+_Attibbat_ o auctor faz o seguinte raciocinio:--«a batalha de Ourique
+foi de _total destruição_ para os mussulmanos, logo _Attibbat_ é
+Ourique:»--e querendo provar que o recontro de Ourique foi uma grande
+batalha, faz outro raciocinio do mesmo jaez:--«Attibbat quer dizer
+Ourique, logo em Ourique houve uma _total destruição_.»--Todos os
+argumentos, todas as erudições do folheto nesta parte, embora por outras
+phrases, reduzem-se a isso; reduzem-se a duas petições de principio.
+Depois, não é admiravel o desgosto e susto de Aly-Ibn-Iussuf vendo seu
+filho voltar á Africa depois de uma victoria em que desbarata os
+christãos, mata muitos, e leva seis mil captivos? Felizmente para Aly,
+Tachfin não levou, em vez de seis, doze mil captivos, e não deixou o
+resto passado inteiramente á espada. Se tal acontece, o pobre amir
+el-moslemin caía fulminado por uma apoplexia. Até o auctor do opusculo
+achou a cousa absurda. Mas como saíu da difficuldade? Dizendo-nos que o
+texto arabe tanto póde significar «_Tachfin desbaratou os christãos_»
+como «_os christãos desbarataram Tachfin_.» Estava eu tão desgostoso por
+não saber arabe como o velho Aly por seu filho ganhar victorias, quando
+veio esta declaração consolar-me. A historia é impossivel na lingua
+arabe; porque a mesma phrase significa branco e significa preto; exprime
+os dous factos mais oppostos. Os traductores de historias sarracenas tem
+andado a debicar com a Europa: onde dizem que tal batalha foi ganhada
+por A contra B, podiam ter dicto com a mesma veracidade que fora ganhada
+por B contra A. Isto, meu amigo, não se discute: está discutido por si.
+
+Depois de vermos sacrificada a logica e até o simples senso commum á
+necessidade de achar um texto arabe que prove a importancia da batalha
+de Ourique, o que é mais divertido é o completo esquecimento em que o
+auctor do opusculo sarraceno, enlevado no seu Abdel-ha-lim _particular_,
+deixa os monumentos christãos coevos que referem o successo. A chronica
+lamecense, a conimbricense, a dos godos, todas dizem que o general
+sarraceno era Ismar (_præside rege Smare_). Se Ismar não significa
+Tachfin como Attibbat significa Ourique, segue-se que ou mentem as
+chronicas coevas, ou mente o Abdel-halim _particular_, que diz ter sido
+o general dos sarracenos o proprio Tachfin, ou a passagem citada não se
+refere ao successo de Ourique. Daqui parece-me que não ha fugir. A
+ultima explicação é sem duvida a verdadeira. Essa passagem é
+evidentemente a que Moura traduziu, e Conde substanciou; passagem que se
+combina chronologicamente com a narrativa da chronica de Affonso VII, e
+que no opusculo apparece alterada nas circumstancias e na data. Quem a
+alterou, e para que fim? Isso pertence a Deus, que vê os corações, e nos
+ha de julgar a todos no dia de juizo.
+
+Depois, como accommodar os factos, que o auctor do opusculo acceita do
+seu Abdel-halim particular em demonstração da grandeza da batalha, com o
+que nos diz a chronica dos godos e com o resultado daquella jornada?
+Pois os mussulmanos são postos em fuga ao primeiro recontro, por um
+troço de cavalleiros escolhidos (_electi milites_) ficando
+entrincheirados os restantes dos poucos soldados (_paucis suorum_), de
+Affonso Henriques, e Tachfin, que foge, leva seis mil prisioneiros? Que
+digo eu, seis mil! Segundo o commentario do digno academico eram muitos
+mais. Aquelles seis mil foram escolhidos um a um, no meio do grande
+vagar que para isso tinham os sarracenos fugitivos, entre milhares de
+christãos de rebotalho, aos quaes iam cortando os pescoços. As causas
+determinantes da escolha (que eu deixarei nas paginas do opusculo,
+porque não as consentem as paginas da _Semana_) deviam tornar os bons
+dos sarracenos demasiado pechosos na selecção, e pelas minhas contas,
+para apurarem seis mil como lhes eram precisos, não podiam deixar de
+refugar os seus cento e noventa quatro mil, esmando pelo baixo. A mim
+parece-me, salvo o respeito devido a um representante da parte sarracena
+da Academia, que era melhor ter traduzido do Abdel-halim particular,
+(lithographando tambem no fim do opusculo o original mourisco e
+subministrando assim mais abundante alimento á pasmaceira dos parvos)
+uma carta de Tachfin dirigida ao principe português, escripta ao começar
+a retirada, e concebida pouco mais ou menos nos seguintes termos: «Meu
+Affonso-Ibn-Errik. Estou capaz de renegar Mafoma com a grande róta que
+me déste. Vou para Africa amuado, metter-me em casa de meu pae, que se
+chama Aly-Ibn-Iussuf, embora os _ulmá-i_ academicos da tua terra queiram
+á fina força chamar-lhe Aly-Ben-Taxefin. A guerra é guerra, e uma
+batalha perdida ou ganhada não é motivo para nos desestimarmos. Eu
+preciso de levar comigo em ar de prisioneiros uns seis mil rapazes
+christãos airosos e bempostos. Se os podéres dispensar, far-me-has nisso
+particular favor e uma acção de cortezia. Só Deus é Deus e Mohammed o
+seu propheta. Aos 26 de zilkhada da Hegira 533.»--Com isto ficava tudo
+explicado. Os seis mil prisioneiros tinham sido uma generosidade do
+_Pharaó obdurado_, embora fingida; porque, tendo Christo acabado de lhe
+asseverar que havia de vencer sempre os sarracenos, não só podia fazer
+presente a Tachfin de todos os soldados imberbes do exercito, mas tambem
+de quanto soldado barbudo, velho e relho, achasse alli á mão vasculhando
+o acampamento, os quaes, se não prestassem para mais nada, prestariam
+para bichos da cozinha do amir-el-moslémin.
+
+Meu amigo, n'outro qualquer paiz, uma academia, cujos membros fossem
+capazes de escrever opusculos destes, dissolvia-se para se reconstruir
+com outros elementos, aproveitando só, e com grandes cautellas, o pouco
+que ahi houvesse de aproveitar. A nossa Academia, especie de congregação
+bernarda que come e dorme, acodem-lhe ás vezes á pelle estes tumores
+litterarios, estas secreções eruditas, que, longe de a matarem, lhe
+fortificam a compleição. Deus lhe dê uma longa vida.
+
+
+
+
+DO ESTADO
+
+DAS
+
+CLASSES SERVAS NA PENINSULA
+
+DESDE O VIII ATÉ O XII SECULO
+
+
+1858
+
+
+
+
+I
+
+
+Por mais que a tradição de antigas malquerenças e o ciume da nossa
+autonomia nos affaste dos outros povos da Hespanha, dos quaes os eventos
+politicos fizeram, mais ou menos forçadamente, uma só nação, é certo
+que, apesar de todas as repugnancias entre portugueses e hespanhoes, nas
+opiniões, nos costumes, nas tendencias moraes de ambas as nações se está
+revelando a cada passo uma origem commum. Postoque cada uma dellas tenha
+defeitos especiaes, como os ha de provincia para provincia, dão-se
+alguns tão nossos e tão hespanhoes, que de per si, sem outros
+adminiculos, provam de sobejo essa communidade de origem.
+
+Esta reflexão occorreu-me naturalmente ao começar um escripto, em que
+tenho de dizer poucas palavras ácêrca do homem a quem elle é dirigido.
+Ha na Academia da Historia, de Madrid, um modesto empregado, envolvido
+na obscuridade da sua situação, sem cargos publicos, sem condecorações,
+sem pingues sinecuras, e de que talvez se podesse dizer--sem pão--se a
+Academia não o houvera encarregado das suas collecções litterarias. Este
+empregado modesto, este homem socialmente obscuro, é todavia um dos
+maiores eruditos da Hespanha, um dos que mais profundamente e com mais
+san consciencia (dote raro nestes nossos tempos) tem cavado na rica e
+tão pouco explorada mina das antigas instituições e costumes da
+Peninsula, isto é, do que na historia della ha mais serio, mais
+importante e mais difficil d'estudar. Falo de Thomás Muñoz y Romero, do
+auctor da _Colleccion de Fueros Municipales_, obra notavel, que, sendo
+de um homem só, honraria uma corporação litteraria, que a houvesse
+emprehendido e executado. E todavia, esse livro importante foi
+interrompido, segundo me affirmam, por falta de protecção; e Muñoz y
+Romero ainda nada mais é hoje do que era ha dez annos, quando publicou
+aquelle seu primeiro trabalho, o modesto official da bibliotheca da
+Academia da Historia!
+
+É o que provavelmente succederia ao livro e ao homem nesta terra, neste
+fragmento da Peninsula chamado Portugal, irmão gemeo desse maior
+fragmento, que chamam especialmente a Hespanha.
+
+Na _Revista Española de Ambos-Mundos_, nos numeros correspondentes a
+novembro de 1854, appareceram successivamente dous artigos, assignados
+por Muñoz y Romero, sobre o estado das pessoas nos reinos de Asturias e
+Leão nos primeiros seculos posteriores á invasão dos Arabes. Escriptos
+como aquelles, manifestações tão brilhantes de verdadeira sciencia, não
+são frequentes em publicações periodicas, ainda além dos Pirenéus. Li-os
+com avidez e interesse sempre crescentes. Ahi encontrei que aprender, e
+sobretudo pude emfim assentar as minhas idéas ácêrca da origem, ou antes
+da denominação dos malados e das maladias, ponto em que a propria
+opinião que adoptara no terceiro volume da Historia de Portugal não me
+satisfazia completamente. Vi, porém, que discordavamos n'uma questão
+capital d'historia; no modo de apreciar o estado das classes servis nas
+Asturias e Leão durante os seculos immediatos á reacção christan, e tive
+o desgosto de não poder, apesar de todas as considerações do sr. Muñoz,
+abandonar a propria opinião para adoptar a sua. Ou seja por um modo
+errado de interpretar os antigos monumentos, a que o meu espirito se
+tenha affeito, ou porque a razão esteja do meu lado, é certo que nenhum
+dos muitos documentos que o sr. Muñoz oppõe ás minhas opiniões me
+pareceu contrariá-las: alguns, pareceu-me que até serviam para as
+corroborar. Desde esse momento entendi que não sería absolutamente
+inutil ao progresso dos estudos historicos da Peninsula expôr as duvidas
+e reflexões que me occorriam sobre a materia, deixando depois aos homens
+competentes comparar os dous systemas e escolher entre elles.
+
+Quando pensava em realisar este designio, sobrevieram acontecimentos que
+durante quasi dous annos me forçaram a abster-me dos trabalhos
+historicos. Affastado por tão largo tempo dos meus habituaes estudos,
+se, á custa de serios desgostos, aprendi muito a respeito dos homens e
+das cousas do meu tempo e do meu paiz, esqueci tambem muito do que sabía
+ou cria saber ácêrca dos homens e das cousas do passado. Aberto para mim
+de novo o caminho dos trabalhos historicos pela força da opinião em
+lucta com a immoralidade do poder, renovei esses abandonados estudos,
+mas renovei-os como um dever de consciencia, como um serviço que me
+exigem, como o cumprimento de um contracto tacito com o publico. O amor,
+diria antes a religião ardente, com que cultivava a sciencia da
+historia, perdi-o no campo de batalha. Escrever é hoje para mim o mesmo
+que ser vereador, jurado, ou membro de um conselho de districto: é um
+encargo e mais nada. No horisonte das minhas ambições, e Deus sabe se
+falo sincero, só vejo o dia em que possa depôr a penna, e sumir-me em
+completa obscuridade. Será esse o melhor da minha vida. Na situação
+d'animo em que por tanto tempo me achei, a questão dos servos na
+Peninsula durante os seculos medios esqueceu-me completamente. Veio
+recordar-m'a, porêm, uma circumstancia casual. Tendo de examinar um
+volume da _Revue Historique du Droit Français et Étranger_, passou-me
+pelos olhos um artigo de M. de Rozière (julho e agosto de 1855) sobre o
+escripto do sr. Muñoz, escripto que o illustre professor, a quem devo
+mais de uma prova de benevolencia, resume com a sua habitual lucidez, e
+cuja doutrina acceita como a mais verosimil. A doutrina, porêm,
+expressamente combatida pelo auctor do opusculo sobre o estado das
+pessoas nos reinos de Asturias e Leão, nos primeiros seculos depois da
+invasão arabe, é unicamente a minha. É de mim que elle declara discordar
+completamente sobre a natureza da servidão na monarchia néo-gothica
+desde o VIII até o XII seculo. A verosimilhança da sua opinião torna
+portanto menos provavel para o illustre professor da _École des Chartes_
+a doutrina que estabeleci. Se a questão pendesse tão sómente entre mim e
+o sr. Muñoz, demorar, ou, até, pospôr completamente a defesa da minha
+theoria ácêrca da servidão n'aquelle periodo não teria grande
+inconveniente. Os documentos invocados pelo sr. Muñoz e as suas
+ponderações, e bem assim os documentos que eu citei e as conclusões que
+delles deduzi estão ao alcance dos homens de letras da Peninsula que se
+dedicam aos trabalhos historicos; e os archivos de Portugal e de
+Hespanha encerram centenares de outros monumentos ainda não estudados,
+que poderiam lançar nova luz sobre o assumpto. Nada mais facil, até, do
+que conduzirem-nos novas investigações, a mim ou ao sr. Muñoz, a
+abandonar o proprio systema, porque ambos buscamos sinceramente a
+verdade. Mas desde que a materia do debate, transpondo os Pirenéus, foi
+exposta a uma luz que não creio verdadeira, por um homem como Mr. de
+Rozière, e a um publico privado dos meios de apreciar por si proprio os
+documentos e raciocinios em que se fundam as duas opiniões oppostas,
+entendo que é do meu dever publicar as observações que se me offerecem
+relendo os artigos do sr. Muñoz, observações que, feitas ha dous annos,
+quando estas materias eram quasi a unica occupação do meu espirito,
+seriam sem duvida mais efficazes para a defesa de um systema que ainda
+hoje me parece ser o que melhor se estriba nos antigos documentos, e que
+ao mesmo tempo melhor os explica.
+
+Antes de tudo cumpre determinar bem a materia controversa e
+circumscrevê-la. Tanto eu como o sr. Muñoz falámos da servidão no
+periodo em que por successivas transformações o homem de trabalho, o
+homem escravo, o homem _cousa_ dos romanos chegou a ser a pessoa civil,
+a pessoa livre, o cidadão mais ou menos humilde dos tempos modernos.
+Deixando de parte maiores ou menores differenças de opinião entre nós
+quanto aos tempos da monarchia gothica, ou que se possam deduzir das
+nossas palavras quanto aos tres ultimos seculos da idade média,
+limitar-me-hei a expôr o que contradictoriamente entendemos ácerca da
+situação das classes servis do VIII até o XII seculo. Escrevendo um
+artigo e não um livro, procurarei affastar todas as questões secundarias
+que se ligam a esse grande facto da transformação das classes
+trabalhadoras, e abstrahindo das causas e consequencias da situação em
+que se acharam os servos depois da invasão arabe e da reacção asturiana
+(successos coevos e quasi simultaneos) em tudo o que não fôr
+indispensavel para a clareza da materia, reduzirei o discurso ao que a
+razão persuade e os monumentos confirmam ácerca do facto geral da
+transformação gradativa da população serva naquelle periodo de quatro
+para cinco seculos.
+
+
+
+
+II
+
+
+O estudo reflectido dos historiadores arabes e dos monumentos christãos
+da épocha da conquista e do dominio sarraceno tem feito sentir que essa
+conquista e esse dominio extranho foram, na historia das invasões e da
+sujeição de raça a raça, de povo a povo, entre os factos de semelhante
+ordem, um dos que custaram á humanidade menos tyrannias, menos lagrymas
+e menos sangue. Tem-se dado o devido desconto ás exaggerações das
+chronicas e á linguagem de certos escriptores christãos contemporaneos,
+aonde auctores mais modernos foram buscar os lineamentos dos seus
+quadros de terror, quando ahi mesmo se encontram as provas de que os
+factos não correspondem ás expressões genericas com que é descripto como
+um dos mais crueis flagellos o predominio dos sarracenos na Peninsula.
+Se juncto ao Guadalete se desmoronou o imperio dos godos, a sociedade
+wisigothica ficou. As provincias ou as cidades que acceitaram sem
+resistencia o jugo dos novos senhores não tiveram que padecer senão as
+consequencias dos grandes movimentos militares sobre qualquer
+territorio, as violencias accidentaes e individuaes durante a lucta. Em
+geral, a ordem das relações civis, e uma parte das publicas continuam a
+subsistir do mesmo modo que d'antes. O tributo e o exercicio das altas
+funcções da administração do Estado é que mudam. Nas provincias
+meridionaes da Hespanha fica, até, por algum tempo um simulachro do
+imperio gothico, o reino de Theodemiro, tributario mas livre, que se
+incorpora obscuramente depois nos dominios do khalifa. No meu livro
+busquei desenhar com fidelidade essa nova situação; dar aos successos o
+seu verdadeiro valor, estribando-me nos monumentos coevos, e fazer
+sobresair a população mosarabe (godo-romana), tão esquecida em geral
+pelos historiadores.
+
+Entre os mosarabes a situação dos servos devia ser a mesma que entre os
+godos antes da conquista. Não é provavel que esta formula da sociedade
+civil se alterasse quando todas as outras se mantinham. Nessa parte a
+conquista arabe não trouxe o que trazem sempre os grandes abalos
+politicos, um progresso de civilisação.
+
+Succedeu o mesmo com a reacção asturiana? Podia succeder? Pús este
+problema a mim mesmo, e resolvi-o negativamente; porque a razão e os
+documentos me forçavam a essa solução negativa.
+
+O levantamento de Pelaio não chegou a ser uma revolução: foi uma
+resistencia: resistencia feliz nos primeiros passos e que não tardou a
+converter-se n'um perigo serio para o dominio mussulmano. Dentro de
+poucos annos a reacção obscura de um punhado de soldados godos fundava
+uma monarchia christan e independente, que se contrapunha ao islamismo
+triumphante, que estabelecia fronteiras, embora variaveis, e que tomava
+ou fundava logares fortes, onde os novos senhores da Hespanha
+encontravam dura repulsa ás suas diligencias para suffocar esta perigosa
+entidade politica. Da desproporção das forças entre as duas potencias
+mussulmana e christan, se o nome de potencia póde dar-se aos estados de
+Pelaio e dos seus immediatos successores, resultava necessariamente um
+facto. Todo o homem válido devia ser chamado ás armas nas Asturias, mas
+de um modo em que interviesse a espontaneidade individual. Não alcanço
+sequer como podesse ser de outro modo. A servidão dos godos; os senhores
+levando os servos armados ao combate, sem crença, sem ardor, sem
+interesses moraes ou materiaes que defender, como nos tempos gothicos,
+sería um facto que não sei como poderia dar em resultado a fundação e
+engrandecimento da monarchia de Oviedo.
+
+Na verdade, com o tempo, as instituições wisigothicas foram-se
+restaurando á medida que se engrandecia o novo reino, que uma parte do
+territorio deixava de ser perenne campo de batalha, e que a segurança,
+maior ou menor, favorecia o maior ou menor desenvolvimento da
+agricultura e de uma especie de industria. Uma parte da população
+mosarabe, ou pelas migrações tanto forçadas como espontaneas, ou pela
+aggregação successiva de territorios habitados por ella, incorporava-se
+gradualmente na sociedade néo-gothica, e, trazendo comsigo a
+jurisprudencia antiga, que tinha conservado intacta sob o jugo
+sarraceno, devia exercer naquelle sentido uma influencia, digamos assim,
+reaccionaria. Mas o que não podia era destruir a força das
+circumstancias; o que não podia, n'uma sociedade em cuja origem, em cujo
+amago estava a resistencia, a espontaneidade, a liberdade, era
+restabelecer a servidão pessoal antiga em toda a sua plenitude.
+
+Supponhâmos um nobre, e até um simples _possessor_, acolhendo-se ás
+Asturias, a Oviedo, nos tempos de Pelaio ou dos seus immediatos
+successores. Como arrastará elle comsigo os servos que o rodeiam?
+Invocará a força publica, a auctoridade mussulmana para os constranger a
+acompanharem-no? Sería absurda a hypothese. Esse nobre, ou esse
+_possessor_ ha-de descer á persuasão; ha-de falar de manumissão, ha-de
+approximar de si o homem envilecido, ha-de recorrer aos afagos, ás
+promessas. Ficar onde se acha é para o servo a liberdade, quando o
+senhor abandona o lar domestico. Devemos acaso crer que nelle estão
+inteiramente mortos todos os instinctos humanos?
+
+Supponhâmos a conquista; a accessão de territorio. O mosarabe senhor de
+servos, que se incorpora por esse facto na sociedade ovetense, acha
+actuando energicamente nesta o sentimento da liberdade e da
+espontaneidade individuaes, as classes servis armadas, os antigos laços
+hierarchicos quebrados em grande parte. Esse facto não influirá em nada
+nas suas relações com os proprios servos? Depois, além, pouco além,
+estão os castellos sarracenos, a administração mussulmana. Se elle não
+affrouxar os rigores da servidão; se não ligar a si o homem de trabalho
+por algum interesse, por algum motivo racional, será difficil que esse
+homem o abandone, e que conquiste pela fuga, e talvez pela mudança de
+fé, a sua emancipação?
+
+Se os documentos nos não provassem que a servidão de gleba fora o passo
+immediato dado pelas classes infimas para a liberdade, a razão, longe de
+nos persuadir que a servidão se mantivera em Oviedo e Leão como nos
+tempos gothicos, far-nos-hia antes acreditar que ella fora substituida
+pelo colonato espontaneo. O colonato, eis o grande meio de ligar o homem
+de trabalho á terra, por este instincto, por este amor quasi connubial,
+que une a mãe commum ao individuo que a faz fructificar. Da servidão
+gothica, porém, para a adscripção havia um passo gigante, e as classes
+servis eram assás rudes para não perceberem toda a differença do
+colonato á adscripção, porque essas differenças são pela maior parte de
+ordem moral. Na practica, materialmente, sobretudo em tempos de bruteza
+e violencia, n'uma sociedade perturbada e vacillante, as distincções
+entre a posse e o uso da terra pelo colonato ou pela adscripção não
+podiam ser demasiado sensiveis. O sentimento, a aspiração do individuo
+que cultivou o solo, que construiu a choupana, que plantou a arvore é
+principalmente o não separar-se do campo, da choupana, da arvore. A este
+sentimento correspondem ambas as formulas de consorcio entre o homem e a
+terra, mais ou menos imperfeitamente, não tanto em virtude das condições
+theoricas de cada uma das duas formulas, como do estado mais ou menos
+civilisado da épocha em que se applicam. Acaso a historia não nos
+subministra provas de oppressões exercidas sobre colonos espontaneos, e
+consagradas até por contractos, tão barbaras como as que padeciam os
+adstrictos á gleba, quando já a adscripção do homem tinha cedido o campo
+á servidão exclusiva da terra?
+
+Assim comprehende-se como a transformação do servo em adscripto podia
+resultar da situação em que se achou a monarchia ovetense-leonesa no
+seculo VIII, em vez de resultar della o colonato livre, que á primeira
+vista a razão nos pinta como mais provavel, e que de feito o era, se
+abstrahirmos das circumstancias sociaes para só attendermos ás
+politicas.
+
+Mr. de Rozière, expondo o debate entre mim e o sr. Muñoz, diz: «Esta
+transformação (a da servidão para a adscripção) tinha-se realisado de
+todo quando os christãos se refugiaram nas Asturias sob o mando de
+Pelaio? Não o crê o sr. Muñoz, e combate, neste ponto, a opinião dos
+historiadores de maior credito. Os exemplos, em que esteia o seu pensar,
+dão a este um alto gráu de verosimilhança. Nelles se vêem escravos
+destinados ao serviço domestico; uns são cozinheiros, padeiros,
+sapateiros ou alfaiates; outros empregam-se no commercio e servem nas
+lojas de venda. Nada ha fixo nas suas funcções, que dependem do capricho
+do dono. A sorte dos escravos agricolas não é mais segura: uns
+trocam-nos por cavalgaduras; outros entregam-nos aos mussulmanos em
+resgate de captivos: todos podem ser separados da propria familia e do
+campo que cultivaram».
+
+N'esta exposição ha uma inexacção chronologica: a doutrina que eu
+estabeleci não é que a adscripção se tinha já substituido á servidão
+quando occorreu o alevantamento de Pelaio: é que este alevantamento e a
+fundação do reino de Oviedo trouxeram de necessidade essa transformação.
+Sejam quaes forem a differença ou a semelhança entre o meu modo de
+pensar e o sentir do sr. Muñoz sobre a servidão gothica, não é ahi que
+está a profunda divergencia entre nós. A divergencia completa refere-se
+aos tempos posteriores á invasão dos arabes. É, até, o que se deduz do
+titulo do opusculo do sr. Muñoz: é a essa épocha que verdadeiramente se
+refere o trabalho publicado na _Revista de Ambos-Mundos_. Eis as suas
+palavras: «Um escriptor... do vizinho reino de Portugal estabelece a
+doutrina de que a servidão se distinguia, _na épocha de que tractamos_,
+em estar vinculada ao solo, não admittindo outra classe de servos senão
+a dos adscriptos á gleba. A seu vêr não existia nenhuma outra servidão
+pessoal senão a dos arabes captivos na guerra, o que cremos não ser
+conforme com o que o mesmo escriptor diz n'outra parte, isto é, que o
+serviço domestico dos senhores e nobres parece ter sido desempenhado,
+sob o dominio leonês, por membros das familias adscriptas, e que este
+serviço se converteu n'um acto espontaneo no seculo XIII. Se os homens e
+familias podiam contra sua vontade ser separados da gleba, onde se
+achavam estabelecidos, para o serviço domestico, não podiam chamar-se
+adscriptos, porque este nome traz comsigo a idéa de inamovibilidade do
+colono do torrão que cultiva. Além d'isso, a sua opinião não concorda
+com os monumentos da nossa historia.»
+
+N'outra parte do opusculo do sr. Muñoz leem-se as seguintes passagens,
+em que elle estabelece positivamente a sua theoria relativa á servidão
+dos tempos neo-gothicos. «A condição dos servos era indubitavelmente a
+de cousas. Podiam ser vendidos ou dados como um animal domestico, como
+uma alfaia... Esta opinião, que sustentámos n'uma obra publicada ha
+annos, foi impugnada pelo sr. Herculano n'uma extensa nota sobre o
+caracter da servidão na monarchia néo-gothica... Na monarchia
+néo-gothica continuaram os servos a ser o mesmo que na dos godos... E se
+em Asturias e em Leão se encontram vestigios de servidão diversa da dos
+adscriptos, poderão julgá-lo os que examinarem os documentos que já
+publicámos e os que damos agora á luz.»
+
+Effectivamente aos documentos impressos na _Colleccion de Fueros
+Municipales_, o sr. Muñoz ajuncta muitos outros tendentes, segundo crê,
+a corroborar a sua doutrina. Que antes de entrar na apreciação delles,
+me seja permittido fazer breves reflexões.
+
+O sr. Muñoz, limitando o debate aos textos dos documentos pospôs os
+factos sociaes e politicos de que deduzi, digâmos assim _à priorì_, a
+necessidade de uma profunda alteração das classes servis nas origens da
+sociedade néo-gothica. Os factos podem não ser como eu os expús, ou as
+consequencias que delles tirei ser inexactas, ou finalmente essas
+consequencias não ter tido força bastante para mudar a situação
+d'aquellas classes: podem peccar de muitos modos as largas observações
+que fiz a este proposito no terceiro volume da Historia de Portugal, e
+que tentei resumir em poucos periodos deste modesto trabalho. Mas seria
+licito deixar ou esquecidas ou inconcussas essas ponderações? O methodo
+que segui foi estudar os acontecimentos, examinar qual devia ser a sua
+influencia na condição dos servos, e verificar se os documentos
+confirmavam _à posteriori_ as illações deduzidas dos mesmos
+acontecimentos. Bem sei que, prevenido por essas illações, era possivel,
+era até facil, se quizerem, apreciar preoccupadamente os documentos; não
+poderia, porém, o sr. Muñoz, interpretando-os sem attender aos factos
+geraes, ás consequencias naturaes dos successos historicos, ás leis
+moraes que regem as phases das sociedades, dar-lhes uma significação
+diversa da verdadeira? Foi, se não me engano, o que de feito lhe
+succedeu.
+
+É essa justamente uma das difficuldades capitaes dos trabalhos
+historicos relativos á idade media. O historiador tem de attender
+constantemente á acção e á reacção mutuas dos factos politicos e dos
+factos sociaes uns sobre os outros para d'ahi deduzir factos
+desconhecidos; tem de substituir por illações fundadas nas leis que
+actuam nas sociedades humanas, independentes da vontade dellas, o
+silencio tantas vezes inopportuno dos monumentos. Quando estes existem e
+são genuinos, claros e precisos, sem duvida constituem o guia mais
+seguro para determinar os factos, e se as illações que tirámos os
+contradizem, é necessario confessar que os principios eram inapplicaveis
+á hypothese, ou que se applicaram mal. Mas, abstrahindo da questão de
+genuinidade, são a clareza e a precisão qualidades vulgares nos
+documentos dessas épochas tenebrosas? O sr. Muñoz sabe tão bem como eu
+quão raros são os que achamos com taes condições; quantos annos, quantas
+vigilias é necessario applicar ao estudo dessas fontes historicas para
+nos habituarmos a comprehendê-las. Á difficuldade, que resulta das
+referencias a cousas vulgares no tempo em que o documento se redigiu, e
+que actualmente são desconhecidas ou conhecidas imperfeitamente,
+ajuncta-se a lingua barbara, ás vezes horrivelmente barbara, que nelles
+se empregava, mistura monstruosa de latim de todas as epochas com uma
+linguagem vulgar que hoje se pode reputar morta, tão transformada se
+acha nas linguas modernas da Peninsula: accresce a isto a differença
+profunda entre os homens daquelle tempo e os do nosso, no modo de
+conceber e exprimir as idéas; ajuncta-se a tendencia, quasi invencivel,
+para vermos as cousas da idade media através do prisma dos habitos, das
+opiniões, dos costumes, e direi, até, das preoccupações actuaes.
+Subjugar esta tendencia é difficil; porque presuppoem um esforço de
+abstracção, de que não são capazes ás vezes os mais robustos espiritos.
+
+Mas, vencidos todos estes obstaculos, resta ainda a vencer o que resulta
+da comparação dos proprios documentos, especialmente quando nelles
+estudamos as instituições, a organisação da sociedade. É ahi que o
+talento historico tem de passar por mais dura prova, e onde o
+discernimento nas apreciações precisa de ser mais subtil. A idade media
+não procedia sempre como nós das idéas geraes para a applicação
+especial, ou antes possuia poucas idéas geraes. Os costumes, as
+instituições, os usos, os factos tinham principalmente o caracter
+individual, local. Essas poucas idéas geraes que havia eram pela maior
+parte mal circumscriptas, fluctuantes. D'aqui as antinomias nas
+doutrinas, a contradicção frequente nos factos. Na verdade o senso
+moral, a tendencia instinctiva para a generalisação produziam a maior
+parte das vezes em contraposição ao desordenado, ao repugnante, as
+analogias ou a identidade de factos, quando se davam as analogias ou a
+identidade de circumstancias; mas o phenomeno era mais casual do que
+intencional, e nem por isso faltavam as excepções, a desharmonia, quando
+as paixões, os interesses ou a inexperiencia vinham augmentar a confusão
+natural dos tempos barbaros. Saber deduzir os caracteres geraes de uma
+épocha, debaixo dos seus diversos aspectos, não dos principios que
+guiavam os homens na vida practica, porque a maior parte das vezes não
+os havia, mas dos factos isolados, dos monumentos especiaes; differençar
+a regra da excepção, regra e excepção, que não raro existem só por uma
+abstracção para nós, e que não existiam para elles, eis a summa
+difficuldade no estudo dos documentos, da legislação, e das memorias
+historicas da idade média, mas difficuldade que cumpre superar para se
+escrever de modo util a historia daquellas obscuras éras.
+
+Longe de mim a pretensão vaidosa de ter navegado sem naufragios nesse
+mar d'escolhos; mas seja-me ainda permittido duvidar de que tal
+infortunio me occorresse na questão do estado dos servos do VIII até o
+XII seculo; seja-me licito por emquanto suspeitar que fiz fazer um
+progresso á historia da Peninsula, collocando á sua verdadeira luz a
+situação dessa classe durante aquelle periodo.
+
+Como já disse, o sr. Muñoz, abstrahindo das considerações _à priori_ que
+fiz a semelhante respeito, limita-se a combater a minha opinião e a
+propugnar a sua com os factos que elle crê resultarem de um grande
+numero de documentos que invoca: limitar-me-hei tambem por isso a
+apreciar esses documentos e a examinar o que elles provam, recorrendo
+sómente a outros quando o julgar indispensavel para estribar melhor as
+minhas affirmativas.
+
+
+
+
+III
+
+
+Estabelecendo a doutrina de que o servo continúa a ser na monarchia de
+Oviedo e Leão o que era entre os godos, o sr. Muñoz funda-a n'uma serie
+de factos, que em seu entender resultam dos documentos e caracterisam a
+condição do escravo, a posse e dominio absolutos do homem sobre o homem,
+a servidão na sua fórma mais completa e humilhante, a do homem-cousa, a
+do homem animal de trabalho. Estes factos consistem na venda, doação e
+troca dos individuos sem dependencia de um contracto ácêrca do solo em
+que elles habitam; em serem arrebatados nas guerras privadas os colonos
+de herdades privilegiadas ou nobres ou ecclesiasticas, reduzidos á
+escravidão dos raptores e vendidos por estes como escravos; na entrega
+dos servos christãos aos sarracenos como preço de resgate de nobres
+captivos (pag. 5 a 7)[73]; em exercerem os servos os diversos misteres
+do serviço domestico e os officios mechanicos, sendo parte de taes
+misteres incompativeis com o cultivo do solo; em viverem alguns nos
+coutos de igrejas e mosteiros obrigados a serviços geraes, isto é, a
+quaesquer que lhes mandassem fazer (pag. 12 a 13). Excluidos da
+representação em juizo pela lei (wisigothica), que não admittia o seu
+testemunho senão á falta de outras provas, não tinham acção para
+perseguir um delicto contra a propria pessoa ou contra os filhos; ao
+dono competia sollicitar a indemnisação do damno padecido pelo servo
+como de cousa sua. No caso de homicidio, era elle quem tambem obtinha a
+compensação pecuniaria; e do mesmo modo se o servo matava, feria, ou
+atacava propriedade alheia, o responsavel era seu dono (pag. 15 e seg.).
+Os filhos de um servo e de uma serva de diversos donos eram pessoalmente
+divididos entre elles (pag. 24 e 25).
+
+Taes são os factos sociaes que o sr. Muñoz apresenta como contrariando a
+minha opinião: esses factos estriba-os nos documentos cujas passagens
+correlativas transcreve, referindo-se outras vezes aos monumentos por
+elle já publicados na _Colleccion de Fueros_, ou a alguns que se
+encontram em outros escriptos, principalmente nos appendices da _España
+Sagrada_.
+
+Se o meu animo não fosse sincero; se eu não quizesse trazer á evidencia
+o erro em que me parece laborar o sr. Muñoz, limitando-me ao que menos
+importa, á defesa do meu livro, facil me seria annullar as illações
+tiradas dos documentos invocados contra mim, visto que o sr. Muñoz não
+nos mostra, nem talvez lhe sería possivel mostrar, que elles se referem
+a servos de raça e não a prisioneiros de guerra, a sarracenos captivos
+nas continuas luctas entre os reis de Oviedo e Leão e os principes
+mussulmanos, ou aos filhos e descendentes desses captivos[74]. Um ponto
+em que estamos ambos de acôrdo é que a sorte destes era a de verdadeiros
+escravos. Das chronicas de Sebastião de Salamanca, de Sampiro, do
+Silense e de outros vemos que o systema de exterminio adoptado a
+principio pelos immediatos successores de Pelaio não tardou em ser
+modificado, e que milhares de captivos vinham successivamente caír nos
+ferros da escravidão, ou reservando-os o rei para si, ou distribuindo-os
+pelos seus guerreiros. Uma parte dos edificios religiosos alevantados
+por Fernando-magno foram construidos por esses desgraçados, salvos da
+morte por uma politica menos deshumana que a dos barbaros reis das
+Asturias.
+
+Com um monumento, porém, tão incontroverso como explicito, eu provei[75]
+que ainda no meiado do seculo XII a sorte dos mosarabes, aprisionados
+com as armas na mão pelos soldados dos principes christãos, era analoga
+á dos crentes do islam, sendo como elles reduzidos á escravidão. Não é
+crivel que a sua sorte fosse melhor nos seculos anteriores. Ainda
+suppondo que os documentos citados pelo sr. Muñoz se devessem entender
+em geral como elle pretende que se entendam, ninguem poderia affirmar
+que os nomes gothicos a que ahi se allude não fossem sempre e em todos
+elles de captivos mosarabes ou de filhos seus e não de mouros
+convertidos ou não convertidos. Tambem me parece que poderia limitar-me
+a advertir que, fundando-se a minha opinião em muitos documentos, que o
+sr. Muñoz não se encarrega de interpretar de um modo acorde com a sua
+doutrina, e tendo, alêm disso, a meu favor as illações que tirei dos
+successos politicos, poderia considerar todos esses diplomas a que elle
+recorre apenas como manifestações das violencias, das excepções; como
+mais uma prova da falta de caracteres constantes, de regras geraes
+absolutas nos factos sociaes de uma épocha de barbaria e de
+transformação.
+
+Mas estas soluções, que talvez bastassem ao debate, não bastariam á
+minha consciencia: poderiam abonar uma opinião, aliás estribada em
+outros fundamentos, mas deixariam certa duvida no espirito dos que
+estudassem o assumpto. Desçamos, por isso, á analyse dos factos e
+documentos a que o sr. Muñoz recorre para assentar a existencia da
+escravidão pessoal como regra nos quatro primeiros seculos da monarchia
+leonesa.
+
+
+
+
+IV
+
+
+A venda, troca e doação dos individuos da classe servil sem dependencia
+de um contracto relativo ao solo em que habitam é o primeiro facto que
+affirma o sr. Muñoz, e que estriba nos seguintes documentos:
+
+1.^o Carta de doação á sé de Oviedo por Affonso II em 812. Incluem-se
+entre as dadivas _mancipia, id est, clericos sacricantores_, dos quaes
+um é presbytero, outro diacono, e os mais simples _clericos_, talvez
+ostiarios, psalmistas, exorcistas, etc. Alguns, declara-se terem sido
+comprados pelo rei. Os outros _mancipia_ são seculares, declarando-se
+tambem que alguns foram havidos por compra. Os nomes tanto de uns como
+de outros são godos.
+
+2.^o Carta de dote de 887. O noivo doa á esposa, além de alfaias, bens
+semoventes e dinheiro, dez _pueros_ e dez _puellas_, 30 villas (aldeias
+granjas) as quaes diz serem situadas _in Nemitos_, e enumera-as
+_Generoso_, _Vivente_ etc.
+
+3.^o Doação de marido a mulher, de 1029. Doa, entre outras cousas,
+_mancipios et mancipiellas quos fuerunt ex gente hismaelitarum et
+agareni_, os quaes nomeia: uns tem nomes godos, outros nomes arabes.
+Além destes, doa-lhe _de avolengarum criazone parentum_ varios
+individuos cujos nomes parece serem todos godos.
+
+4.^o Carta de agnição de 962 em resultado de uma demanda entre o
+mosteiro de Cella-nova e o conde Ordonho Romaniz. Versava a questão
+sobre duas granjas ou aldeias, querendo o conde tirar _homines et
+hereditates de jure monasterii volens eos ad servitutem abdigare_.
+Apresentaram os monges os seus titulos perante elrei, e quando iam a
+provar, diz o sr. Muñoz, que o rei Ramiro dera os homens que o conde
+usurpava, e o bispo D. Rosendo os entregara ao mosteiro, o conde
+supplicou aos magnates que obtivessem dos monges darem-lhe as duas
+villas em prestamo vitalicio, _absque homines in adtonitum_, no que os
+monges convieram.
+
+5.^o Carta de agnição de 1074, em resultado da demanda entre o mosteiro
+de Cella-nova e a condessa D. Guncina, que affirmava ter o rei Ramiro
+tirado do testamento (predio ecclesiastico) de Vanate dez homens, os
+quaes dera ao mosteiro de Porcária. Replicava o abbade de Cella-nova que
+_de hodie, quod est 120 annos nunquam auditum fuit istum tale verbum_.
+Julgou-se a favor do abbade.
+
+6.^o Doação de 1094 feita á sé de Lugo por Suario Moniz de varias
+_villas cum sua criacione et homines pertinentes... excepto Alvito Pepiz
+et suos filios_.
+
+7.^o Carta de arrhas de 1108 em que o noivo doa varios bens de raiz, e
+alêm disso, um cavallo baio e _uno homine de creacione_.
+
+8.^o Doação do mosteiro de Sobrado em 1118 feita pela rainha D. Urraca a
+Fernando Peres e a seu irmão com todos os termos e coutos antigos e suas
+pertenças, _et cum sua criacione, servos et ancillas, exceptis
+quibusdam_.
+
+9.^o Memoria da divisão de Rovoredo, sem data, caractéres do seculo
+XIII. Na opinião do sr. Muñoz pertence ao seculo XI. Um certo Vermudo
+Cresconiz comprara o sarraceno Sendimiro (nome godo) que fora visavô de
+Diogo Erit. Este foi a Rovoredo e casou com uma mulher que era vaqueira
+de Ardio Dias, uma de duas irmans, que, herdando Rovoredo, haviam
+dividido entre si o predio. Veio em busca delle Pelagio Froilaz
+(provavelmente herdeiro ou representante de Vermudo Cresconiz) e levou-o
+comsigo. Seguiu-se uma manda entre Ardio Dias e Pelagio Froilaz, que
+terminou por uma composição, em virtude da qual ficou Diogo Erit em
+Rovoredo e foi dada em trôco delle uma irman da vaqueira de Ardio Dias.
+
+Taes são os documentos de doação, vendas e escambos, exclusivamente de
+individuos, que o sr. Muñoz cita em prova da inexacção da minha
+doutrina.
+
+No 1.^o documento peço que se note que as pessoas doadas são denominadas
+_mancipia_, e não _servos_, e que entre elles um é presbytero, outro
+diacono, e outros simples clerigos; que os seculares são tambem
+denominados _mancipia_, e que todos elles tem nomes godos. Pergunto:
+tolerava a disciplina ecclesiastica recebida na Peninsula naquella
+epocha, que homens servos, e que continuavam a ser servos, doados ou
+vendidos depois a bel-prazer de seus donos, fossem elevados não ás menos
+importantes funcções do culto, mas á ordem do presbyterado e ainda do
+diaconado? Não era impossivel acumular as condições da servidão e do
+sacerdocio? Basta abrir o resumo dos canones da igreja d'Hespanha
+publicados por Aguirre e Cenni para nos desenganarmos da impossibilidade
+desta associação monstruosa. Todavia o facto da venda de um presbytero,
+de um diacono e de outros clerigos deu-se no principio do seculo IX,
+como o prova este documento. Não haverá, porêm, atraz desse facto outro
+ou outros que o expliquem?
+
+A designação de _mancipium_, applicada a individuos dos mais elevados
+gráus do sacerdocio, o presbyterado e o diaconado, é não menos singular.
+Notei mais de uma vez no meu livro[76] que a palavra _mancipium_, entre
+os godos, sem deixar de se tomar ás vezes na significação lata de servo,
+significava de ordinario o servo infimo, o _escravo_, o individuo
+reduzido á ultima degradação; significava antes uma _situação_ de
+aviltamento do que uma _condição_ originaria. São notaveis a este
+proposito dous logares do codigo wisigothico, a lei que tracta dos
+_escravos dos servos fiscaes_, e a que tracta dos _mancipia_ dos judeus,
+quer _ingenuos_, quer servos. Antes de mim já Masdeu tinha feito com
+pouca differença a mesma observação. Entre os romanos _mancipium_ era
+synonimo de _servus_, mas a origem dos vocabulos era diversa: _servus_
+de _servire_; _mancipium_ de _manu captum_, do homem aprehendido, do
+prisioneiro reduzido á á escravidão. Evidentemente a designação de
+_mancipium_ serviu a principio para indicar o captivo, o individuo a
+quem se deu a vida, que se lhe podia tirar, para o collocar na situação
+de um animal de carga, de uma alfaia; representou um facto accidental,
+personalissimo, differente da servidão herdada, da servidão de raça, ou
+para exprimirmos com dous vocabulos modernos duas idéas semelhantes, mas
+diversas, o _mancipium_ era servo, mas _escravo_. Na Russia ha _servos_;
+na America ha _escravos_. Note-se, porêm, que com este exemplo não quero
+estabelecer analogia completa entre a distincção primitiva e a
+distincção actual.
+
+Baste, porém, que _mancipium_ servisse entre os godos para exprimir
+especialmente a mais vil servidão, a escravidão. Não teria a palavra na
+monarchia neo-gothica este mesmo valor especial, embora ás vezes pela
+fluctuação da linguagem (fluctuação que existe sempre, mas que é
+grandissima nas epochas barbaras) se tomasse como synonimo de servo, por
+isso que, n'um grande numero de relações, a sorte de um e a sorte de
+outro eram identicas? No 3.^o documento que cita o sr. Muñoz, os
+individuos doados são denominados _mancipios_ e _mancipiellas_, e
+exprime-se que são da gente ismaelita e agarena; que são captivos. N'uma
+carta de doação á sé de Lugo[77] de 897 Affonso III doa-lhe, além de
+outras cousas, _mancipia, quae ex hismaelitarum terra captiva duximus_.
+No meio de uma lucta odienta e atroz, como foi durante o seculo VIII e
+ainda durante o IX a das monarchias de Oviedo e de Cordova, é natural, é
+crivel, sequer, que a sorte dos prisioneiros de guerra que não eram
+passados á espada fosse inteiramente a mesma dos servos de raça, classe
+a que, além de outros, um documento de 985 chama _servos
+originales_[78], por infima que se reputasse a condição destes? E não
+haveria um meio de expressar por palavra ou por escripto a differença
+das duas situações, quando fosse necessario fazê-la sentir?
+
+É indubitavel, á vista das chronicas coevas e dos documentos, que os
+reis de Oviedo e Leão e os seus capitães, alargando os limites da
+monarchia ou reduzindo o poder mussulmano por victorias repetidas, por
+saltos e correrias inesperadas, por devastações e incendios, conduziam
+annualmente para o interior das provincias ovetense-leonesas milhares e
+milhares de captivos. Devemos acaso suppôr que nenhum desses contractos
+sobre individuos pessoalmente escravos, em que se calla a procedencia
+dos mesmos individuos, se refira a prisioneiros de guerra, e que entre
+estes não houvesse muitos mosarabes? A pretensão parece-me que sería
+insustentavel. Embora eu não queira, nem seja preciso explicar por esse
+facto muitos dos documentos citados pelo sr. Muñoz, ha outros em que
+semelhante explicação é a mais simples e natural, e a este numero
+pertence indubitavelmente a doação de 812.
+
+Civilmente, socialmente, os mosarabes eram sarracenos. Do modo como essa
+grande maioria da população romano-gothica buscava em geral assimilar-se
+aos conquistadores temos sobejas provas nos escriptos contemporaneos de
+Alvaro de Cordova, d'Eulogio, do biographo de João de Gorze, nas actas
+dos martyres Voto e Felix e em outros monumentos. Os mosarabes serviam
+nos exercitos mussulmanos e por consequencia combatiam contra os seus
+correligionarios. Entre os altos officiaes da coroa na corte de Cordova
+figuram condes godos, e apparecem-nos a cada passo magistrados,
+funccionarios, prelados, sacerdotes godo-romanos nas provincias do vasto
+imperio dos Benu-Umeyyas. Quantos destes, pospondo as questões
+religiosas, e adoptando a tolerancia dos dominadores arabes, seriam
+verdadeiramente addictos á situação politica em que se achavam, elles
+que abraçavam não raro os nomes proprios, os costumes, as usanças, a
+civilisação e a lingua dos mussulmanos, a ponto de esquecerem
+completamente o idioma neo-latino, segundo o testemunho de Alvaro de
+Cordova; elles que admittiam, até, a circumcisão, se acreditarmos o
+_Indiculum_ e a biographia de João de Gorze? Não achamos nós ainda no
+seculo XI os bispos mosarabes, esquecidos das funcções episcopaes, e
+dedicados inteiramente á vida politica, empregarem-se no serviço profano
+dos respectivos soberanos sarracenos?[79] Se nos proprios estados dos
+reis de Leão a mistura dos usos mussulmanos com os christãos dava ás
+vezes, nas exterioridades do culto, occasião a factos que seriam
+comicos, se não fossem irreverentes[80], o que seria essa mistura entre
+mosarabes e ismaelitas nos estados mahometanos?
+
+Imaginar, portanto, que entre os milhares de captivos que annualmente
+eram arrastados da Spania para os sertões das Asturias e de Leão não
+vinha um grande numero, digamos assim, de _sarracenos christãos_; que
+entre uns e outros captivos se fazia distincção, se poderia sequer
+fazer; que os violentos e brutaes barões e cavalleiros dos reis leoneses
+consentiriam em perder uma parte dos seus escravos, que exteriormente em
+nada se differençavam dos restantes, dos verdadeiros mussulmanos, ainda
+admittindo gratuitamente que os principes o desejassem, seria suppôr uma
+cousa inacreditavel, embora não existisse o testemunho do biographo de
+S. Theotonio, testemunho preciso de que a praxe era inteiramente
+contraria.
+
+Na adiantada civilisação de hoje não se comprehenderia o direito de vida
+ou de morte sobre os prisioneiros de guerra, e nem sequer a escravidão
+para o vencido, ou que possa haver outros prisioneiros senão
+combatentes. Deste estado da civilisação derivam a distincção entre
+prisioneiro e prisioneiro, e os diversos gráus de benevolencia e de
+attenções para com os mais qualificados. Entre barbaros ou nas eras
+barbaras, o nosso proceder, as nossas idéas actuaes a este respeito
+seriam igualmente incomprehensiveis. Na verdade o senhor do captivo,
+sabendo que se apoderara de um homem opulento, importante entre os
+adversarios, podia por calculo de cubiça tractá-lo melhor, evitar-lhe os
+padecimentos e as injurias á espera de avultado resgate. Mas a regra, o
+principio, a idéa de então consistia em ser o captivo, fosse quem fosse,
+como um ente novo, a cujo nascimento, digamos assim, não se tinha
+opposto o gume da espada. O passado desse ente não importava para nada.
+Era um animal, uma propriedade do que o captivara e que licitamente
+poderia ter feito com que não existisse: era o _manu-captum_, a
+acquisição, o escravo; emfim, o _homem-cousa_.
+
+Tendo presentes todos estes factos, que o sr. Muñoz não ignora, mas que
+me era necessario recordar aqui, entende-se facilmente a doação de
+Affonso II á sé de Oviedo: entende-se como esses clerigos podiam ser em
+parte comprados, em parte libertados pelo rei, e unidos á sé ovetense.
+Eram mosarabes arrebatados, mau grado seu, por occasião de alguma
+correria. Pelos canones da igreja gothica os sacerdotes viviam n'uma
+especie de adscripção canonica á igreja a que pertenciam, e Affonso II,
+conforme o chronicon de Albaida, foi quem restabeleceu em Oviedo as
+jerarchias civis e ecclesiasticas dos godos[81]. Resgatando aquelles
+individuos da escravidão, e ligando-os indissoluvelmente á sé ovetense,
+respeitava as idéas do seu tempo e mantinha a antiga disciplina
+ecclesiastica, embora o fizesse de modo um tanto rude. Se admittissemos,
+porêm, a hypothese de que elles eram servos originarios semelhantes aos
+servos dos tempos gothicos, que como taes haviam recebido ordens sacras,
+que, depois de doados á sé de Oviedo, continuavam a ser o que eram,
+segundo a theoria do sr. Muñoz, isto é cousas e não pessoas, e que,
+portanto, podiam ser destinados pelo bispo Adaulfo para exercerem os
+mais abjectos misteres, o diploma de 812 ficaria não só repugnando á
+historia, mas sendo, alêm disso, um indecifravel mysterio.
+
+Este documento não me escapou quando redigia o VII livro da Historia de
+Portugal; mas tinha de attender a muitos outros, de condensar muitos
+factos sociaes em poucos periodos. Não podia descer á analyse minuciosa
+delle. Estava tão convencido da verdade da doutrina que estabeleci, que
+não o julguei sufficiente para a destruir. O leitor avaliará se elle
+effectivamente a destroe. Suppús que, quando muito, era uma das
+anomalias tão frequentes nos factos sociaes dos tempos barbaros, a
+manifestação da anarchia que reinava ainda nas idéas e nos factos. A
+analyse parece-me provar que nem sequer isso era.
+
+O 2.^o documento explica-se como o antecedente pela existencia
+d'escravos captivos. É notavel que nelle tambem se evite a palavra
+_servos_, mais generica, para se empregar a singular expressão _pueros_
+e _puellas_. Parece haver a necessidade de recorrer a um vocabulo
+especial para exprimir uma variedade da servidão. Além disso, este
+documento parece igualmente entrar na categoria de varios outros que
+citei no meu livro para provar a adhesão do servo originario á gleba,
+pelo modo por que indistinctamente se empregava o nome do individuo ou o
+da propriedade para designar esta. Doando trinta granjas, o doador
+declara que são situadas no districto de Nemitos, e que são _Generoso_,
+_Vivente_ &c. nomes proprios de individuos e não de predios.
+
+O 3.^o documento creio servir antes para combater a opinião de sr. Muñoz
+do que a minha. O doador distingue em dous grupos os servos doados: a
+1.^a dos _mancipios_ e _mancipiellas que foram das gentes dos ismaelitas
+e agarenos_, e dos quaes, todavia, uns tem nomes godos, outros nomes
+arabes: a 2.^a dos _homens de creação havidos de avoengas_ (heranças de
+familia) _dos antepassados_ (do doador) e cujos nomes são todos godos.
+Porque a divisão em dous grupos, se a condição dos que pertencem a uma e
+a dos que pertencem a outra é absolutamente identica? Porque uns são
+chamados _mancipios_, outros _homens de creação_, equivalente de servos
+de raça? Porque entre os _mancipios_ tem uns nomes godos e outros
+arabes, emquanto os de _criazione_ são todos godos? Peço ao sr. Muñoz
+que aproxime estes factos das ponderações que acima fiz, e que decida
+depois se o documento prova contra a minha, se contra a sua doutrina.
+
+Refere-se no 4.^o documento a historia de uma demanda entre o conde
+Ordonho Romaniz e o mosteiro de Cellanova ácêrca de certas herdades do
+mosteiro e dos homens que n'ellas viviam. O que neste documento importa
+para a questão é o desfecho da contenda. Convencido de que não tinha
+razão, o conde propôs aos monges uma transacção, que acceitaram, e que
+consistia em elle possuir as granjas emquanto vivo _absque homines in
+adtonitum_. Nestas ultimas palavras o sr. Muñoz vê a separação dos
+homens da terra. Será essa a verdadeira interpretação?
+
+_Adtonitum_ é evidentemente a traducção latino-barbara da palavra
+_atondo_. _Atondo_ significava alfaia, _traste de uso_, _objecto de
+serviço_. As obrigações do servo de gleba, como depois as dos colonos
+livres em seculos mais proximos de nós, eram, em relação ao senhor da
+gleba, e depois em relação ao senhorio directo do predio, de duas
+especies--prestações agrarias e serviços pessoaes; estes abrangiam
+serviços de todo o genero, ainda os mais baixos; alguns, até, que
+poderiam ser feitos por animaes domesticos. Nada mais facil, portanto,
+do que applicar a palavra _atondo_ ao serviço pessoal dos servos, n'uma
+épocha que de certo se não distinguia pela precisão rigorosa da
+linguagem[82]. Que ficava percebendo Ordonho por aquella concessão dos
+frades? As prestações agrarias. Os serviços pessoaes ficavam ao
+mosteiro. E os monges procediam assisadamente fazendo uma concessão
+restricta ao homem poderoso. Pelos individuos que agricultavam as
+glebas, cujos redditos senhoriaes elles cediam vitaliciamente ao conde,
+ficando aliás esses individuos ligados pelos serviços pessoaes ao
+mosteiro, era facil provar a todo o tempo a quem o solo pertencia, se,
+como eu creio, o servo se achava unido ao predio que agricultava e onde
+vivia.
+
+Não comprehendo como possa applicar-se á materia debatida o 5.^o
+documento citado pelo sr. Muñoz. Para elle servir ao intento era
+necessario que a condessa D. Guncina provasse o que affirmava. Não o
+provou, porque a sentença deu-se a favor dos frades. Logo a separação
+dos dez homens pelo rei Ramiro nunca existiu conforme o que pretendia o
+abbade de Cellanova. Supponhamos, porém, que fosse verdade o que ella
+dizia. N'esse caso perguntaria: d'onde consta que dez glebas do
+testamento de Vanate não passaram com os dez homens para o dominio do
+mosteiro de Porcária? A contenda podia versar sobre os dez servos e os
+dez predios, embora se falasse unicamente de homens: esta confusão da
+linguagem juridica nos documentos daquelles tempos é uma cousa que me
+parece ter demonstrado no meu livro até a evidencia.
+
+No 6.^o documento doam-se varias granjas _com sua criacione et homines
+pertinentes_, exceptuando um d'estes homens com seus filhos. Não
+comprehendo igualmente como se possa invocar contra mim um documento de
+que me poderia ter servido, cumulativamente com tantos outros, para
+estribar a minha theoria, se o houvera conhecido. A phrase
+latino-barbara acima citada exprime exactamente a situação dos servos:
+doam-se as glebas com a _sua_ creação, com os homens _que lhes
+pertencem_. Supponhamos que a reserva que se faz de uma familia
+signifique o que o sr. Muñoz pretende. Sería um acto legitimo ou
+illegitimo; mas o que é certo, pelo menos, é que até ahi essa familia
+pertencia áquellas glebas como os outros homens de creação. Isoladamente
+este documento não seria bastante para provar o facto geral da
+adscripção, embora prove que havia adscriptos; mas o que elle de certo
+não prova é que a situação dos servos na sociedade leonesa fosse a mesma
+dos tempos gothicos.
+
+A adhesão á gleba era um facto de indole complexa. Por um lado era um
+progresso immenso das classes laboriosas no caminho da liberdade; por
+outro uma garantia para os donos do solo; porque, circumscrevendo,
+coarctando a acção do senhor sobre o servo, a tornava por isso mais
+legitima e por consequencia mais solida. Nas relações entre ambos havia
+vantagens mutuas, de que espontaneamente se podia ceder de parte a parte
+para as trocar por outras vantagens maiores. A adscripção não era uma
+lei escripta, como na Russia moderna; pelo menos nenhuns vestigios
+restam de que o fosse: era um facto social, um costume, uma praxe, que
+resultava da natureza das cousas, de factos politicos anteriores. É
+possivel apparecerem exemplos de separação entre o servo e a gleba por
+um acto violento do senhor. De que actos violentos deixa de nos
+subministrar exemplos a idade media? Mas o senhor tambem podia quebrar
+os laços que prendiam o servo ao predio com vantagem e assenso delle,
+como por exemplo para o unir a uma gleba mais productiva ou mais vasta,
+sem que por isso se reputasse offendida a praxe, a especie de lei mental
+que a força das cousas trouxera, e sem que hajamos de inferir d'ahi a
+não existencia do facto contrario como regra. Isto explicaria a reserva
+de Alvito Pepiz e seus filhos na doação de 1094 á sé de Lugo, se não se
+podesse tambem entender que com elles fora exceptuada a respectiva
+gleba.
+
+Depois do que fica dicto a analyse dos 7.^o, 8.^o e 9.^o documento do
+sr. Muñoz parece-me inutil, e a theoria da adscripção não obstará por
+certo á sua facil interpretação. Seja-me, todavia, licito fazer algumas
+observações a respeito do ultimo documento. Não me lembra ter jámais
+visto mencionado, nem nos historiadores nem nos monumentos, um unico
+mussulmano cujo nome seja godo. E comtudo na memoria da divisão de
+Rovoredo menciona-se o _sarraceno_ Sendimiro. Não sería um captivo
+mosarabe? Mosarabe, porêm, ou arabe, elle não fora um homem de creação,
+fora um escravo. Diogo Erit fugindo para Rovoredo casou ahi. Mas porque
+não sería a mulher da sua condição e da sua raça? E então porque não se
+daria em troco d'elle uma irmã da sua mulher? Que póde esse facto provar
+contra a adscripção dos servos originarios? Onde neguei eu que a
+escravidão dos sarracenos ou de seus filhos fosse a servidão pessoal?
+
+
+
+
+V
+
+
+Outra ordem de factos, que o sr. Muñoz recorda como vehemente indicio de
+que a condição dos servos era a mesma dos tempos gothicos, é que ás
+vezes os poderosos nas suas depredações roubavam uns aos outros os
+colonos e iam vendê-los, o que não poderia acontecer se a servidão
+pessoal não existisse; que se davam servos aos mouros em resgate
+d'illustres captivos[83]; que os servos eram obrigados ao serviço
+domestico, a trabalhos mechanicos da industria, como por exemplo, a
+serem cozinheiros, padeiros, tecelões, carpinteiros, ferreiros,
+alfaiates, etc.; que alguns tinham os mais baixos encargos, como limpar
+os logares immundos, concertar os caminhos, tractar das cubas em que
+seus senhores se banhavam etc.[84]; o que tudo, no entender do sr.
+Muñoz, repugnava á adscripção. Lembra-se então de alguns monumentos em
+que esses factos podem estribar-se, e que crê servirem para condemnar a
+minha opinião. Examinemo-los.
+
+N'uma doação de Bermudo III á sé de Santiago fala-se de um certo
+Galiariz, que, entre outras rapinas que fez, roubou seis homens alheios
+e vendeu-os como captivos (_et vendivit eos sicut captivos_). Se eu
+procurasse um documento que positivamente contradissesse a doutrina do
+sr. Muñoz, não o acharia por certo mais a proposito. Galiariz vendeu os
+servos alheios _como se fossem captivos_, e este acto enumera-se entre
+os seus delictos. O que pois se vendia sem offensa dos usos e costumes
+era o prisioneiro, _captivum_. Vender como tal o servo alheio é uma
+circumstancia que aggrava o roubo, e porque? Porque o servo, o homem
+d'alguem, não era um captivo, uma _cousa_ venal. Peço que se reflicta
+neste documento.
+
+Dous nobres de Galliza, conforme refere a Historia Compostellana, foram
+aprisionados pelos sarracenos. Tractou-se do seu resgate, e deram-se
+para os remir LX _captivos christianos, tamen ex servili conditione_. E
+é sobre semelhante texto que o sr. Muñoz assenta a idéa de que se
+entregavam servos originarios aos sarracenos em resgate de cavalleiros
+leoneses! Que é o que se deu pelos dous nobres? Captivos christãos. Pois
+_captivo_ foi nunca synonimo da palavra generica _servo_? _Captivo_, na
+idade media, significava o que significa hoje, o que significou sempre,
+o prisioneiro. O que houve foi uma troca de prisioneiros. Deram-se por
+dous sessenta, facto que o historiador explica: _tamen ex servili
+conditione_. Se dessem sarracenos nobres dariam um, dous, quatro, ou
+seis. Não tinham prisioneiros de mais elevada jerarchia ou não os
+quizeram entregar: deram sessenta de condição servil. Mas esses homens
+eram christãos. Por certo; mas tambem eram indubitavelmente captivos. A
+Compostellana é igualmente explicita a ambos os respeitos. Eis a
+necessidade de nunca esquecer a população mosarabe. Por ella se explica
+facilmente a existencia de prisioneiros christãos em poder de christãos.
+Aprisionados com seus senhores ou sem elles n'uma batalha ou n'uma
+correria dos leoneses na _Spania_, tinham mudado de donos, e agora
+entregavam-nos a outros donos em cujo poder de certo a sua condição
+desgraçada não melhoraria. Eis o que unicamente se pode inferir com
+plausibilidade da narrativa da Compostellana.
+
+Não escrevendo a historia de Leão, ou dos outros estados da Peninsula,
+mas a de Portugal, eu era obrigado a esboçar rapidamente a organisação
+social da Hespanha de que se desmembrara a monarchia portuguesa; só,
+porêm, até onde fosse necessario para se entender a historia social do
+meu paiz. Apesar disso, creio que fui o primeiro que tentei fazer sentir
+aos escriptores hespanhoes a importancia de dedicar profundas
+investigações á historia dos mosarabes, dessa população distincta, que,
+em meu entender, devia constituir a maioria dos habitantes da Peninsula,
+ainda dous ou tres seculos depois da invasão dos arabes e da tentativa
+de Pelaio, pela simples razão de que a grande massa da população de um
+vasto paiz não se pode substituir como o poder supremo, como o
+predominio de um precedente conquistador, sobretudo quando se tracta de
+uma nação civilisada, e não de tribus selvagens, sempre insignificantes
+em numero, e que a atrocidade fria e permanente dos vencedores chega a
+destruir no decurso de seculos. Depois das invasões e conquistas
+germanicas, a grande massa da população do imperio romano ficou sendo
+celto-romana: depois da invasão e conquista da China pelos tartaros
+mantchús, a maioria dos habitantes daquelle immenso paiz ficou sendo
+chim: o sangue inglês é o sangue anglo-saxonio, apesar do predominio
+normando. E todavia nenhuma daquellas raças de conquistadores foi tão
+moderada, tão benigna para com os vencidos como os arabes na Hespanha.
+Por essa mesma brandura e tolerancia certa ordem de factos politicos e
+sociaes, que se dão depois dos grandes cataclysmos das nações, deviam
+ser mais prominentes, mais efficazes na Hespanha, e portanto influir
+mais poderosamente nas phases dos acontecimentos posteriores tanto
+politicos como sociaes. Nós, os homens d'hoje, que vimos ou ouvimos
+contar a nossos paes as scenas do dominio francês na Peninsula no
+principio d'este seculo, deveriamos saber adivinhar o estado moral da
+população romano-gothica depois do estabelecimento do imperio dos
+khalifas, se aliás os monumentos fossem menos explicitos ou guardassem
+silencio a tal respeito. O transitorio dominio francês na Peninsula não
+deixou de produzir logo um grande numero de _afrancesados_ na Hespanha e
+de _jacobinos_ em Portugal. Qual sería o jacobinismo, permitta-se-me a
+expressão, entre os godo-romanos em relação aos sarracenos pode
+imaginar-se tendo presente o estado de dissolução moral do imperio
+wisigothico, anniquilado n'uma unica batalha; o longo dominio dos
+arabes; a superioridade da sua civilisação material; a sua tolerancia
+para com a religião dos vencidos; o respeito guardado ás instituições
+civis destes; a benevolencia, emfim, dos principes mussulmanos para com
+os seus subditos christãos. Não quero dizer com isto que o patriotismo
+wisigothico; que a impaciencia do jugo extranho; que o sentimento de
+hostilidade religiosa não ardessem em muitos corações, e até subissem ao
+gráu de fanatismo. Pelo contrario. Não era preciso que os monumentos nos
+dissessem que a reacção se manifestava até na corte de Cordova. O
+conhecimento da indole das paixões humanas dispensa ás vezes em historia
+o testemunho dos monumentos. O homem é essencialmente o mesmo em todas
+as epochas. Mas é por isso que os interesses, a reflexão, os vicios, as
+virtudes, os habitos, a educação, as mil causas moraes que impellem e
+dirigem o individuo e lhe determinam os affectos e as tendencias, deviam
+impellir outros, e talvez o maior numero, a manifestações oppostas. O
+_Indiculo Luminoso_ de Alvaro de Cordova, especie de extenso artigo de
+fundo de jornal partidario, libello apaixonado contra o mosarabismo,
+revela-nos quão numeroso e importante era o partido arabe entre os
+romano-godos da Spania, partido que abrangia nobres, guerreiros,
+prelados, sacerdotes, magistrados, povo. Se não existisse este
+testemunho insuspeito, a razão e a experiencia nos diriam o mesmo que
+elle nos diz[85].
+
+Imagine-se agora qual sería durante a lucta entre a monarchia
+néo-gothica e o imperio dos Benu-Umeyyas o papel dessa maxima parte da
+população peninsular chamada os mosarabes: uns indifferentes á contenda,
+acceitando do mesmo modo o dominio dos reis d'Asturias e Leão ou o dos
+principes sarracenos, no meio dos éstos da guerra; outros forcejando por
+identificar-se com a nova sociedade que se constituia á semelhança da
+patria wisigothica; outros, emfim, addictos por esperanças, por cubiça,
+por beneficios recebidos, e até por laços de sangue, resultado dos
+consorcios mixtos, á manutenção do dominio mussulmano, e calcule-se
+quantos factos politicos haviam de dimanar de um estado de cousas tal;
+quantas peripecias, quantas violencias se dariam em qualquer districto
+ou provincia da Hespanha a cada invasão, a cada correria, quer dos
+sarracenos, quer dos leoneses; como se traduziriam em vinganças acerbas
+os odios occultos; como as paixões mais oppostas trariam a mudança de
+partido e até de crença; como os homens da mesma raça e da mesma
+religião se perseguiriam, se denunciariam por desleaes a um ou a outro
+dos dous poderes publicos, que pelos accidentes da guerra se succediam
+tão frequentemente nos variaveis limites dos dous estados; como a
+condição do mesmo individuo mudaria mais de uma vez; como o nobre, o
+rico, o funccionario, o sacerdote poderiam cair de repente da situação
+mais elevada na mais abjecta servidão, e os mais humildes elevarem-se
+por acontecimentos imprevistos até as mais altas graduações sociaes;
+como, finalmente, os monumentos na sua linguagem, nos factos que delles
+resultam podem illudir-nos, se entre os elementos a que devemos recorrer
+para a sua apreciação esquecermos o elemento mosarabico.
+
+Que se me permitta referir aqui uma anecdota que pinta a vida agitada da
+população mosarabe nos territorios submettidos ora pelos arabes, ora
+pelos leoneses, no meio das vicissitudes da guerra, e que está
+confirmando o que precedentemente disse ácêrca do mosarabismo e das
+peripecias a que estavam sujeitos os individuos naquella situação
+incerta e cambiante. Dos territorios da Hespanha nenhum, talvez, mudou
+mais vezes de senhores durante a lucta do que os districtos d'entre
+Douro e Tejo, sobretudo nas proximidades do oceano, e porventura que em
+nenhum ficaram mais vestigios da existencia da sociedade mosarabica, da
+sua civilisação material, das suas paixões, dos seus interesses
+encontrados, e até dos seus crimes e virtudes. A publicação, que a
+Academia prepara, dos documentos dessas epochas, e especialmente dos que
+nos foram conservados nos archivos da cathedral de Coimbra e do mosteiro
+de Lorvão, lançará grande luz sobre o assumpto. É um desses documentos,
+tirado do chartulario de Lorvão, o Livro dos Testamentos, e que foi
+publicado já por Fr. Munuel da Rocha, mas horrivelmente deturpado, que
+me subministra os elementos de uma narrativa, a qual reproduz, embora
+apenas n'uma das suas phases, o viver daquelles tumultuarios tempos.
+
+Era nos fins do seculo X e regia o abbade Primo o cenobio de Lorvão.
+Coimbra, em cujo territorio estava situado o mosteiro, pertencia á coroa
+leonesa pouco antes da epocha em que a espada irresistivel do hadjib
+Al-manssor fez recuar de novo as fronteiras da monarchia néo-gothica
+para além do Douro (987). Os districtos ao sul deste rio, que depois da
+invasão de Tarik e Musa tinham pertencido a maior parte do tempo aos
+sarracenos, encerravam uma população essencialmente mosarabe. Cordova
+era ainda para ella a capital da industria, das artes, da civilisação. O
+architecto cordovês Zacharias viera a Lorvão, provavelmente chamado pelo
+abbade Primo para alguma obra do mosteiro. Sabendo isto, os regedores de
+Coimbra falaram com o abbade para que o architecto cordovês construisse
+algumas pontes sobre os rios das circumvizinhanças. Primo accedeu, e
+acompanhou Zacharias na empreza. Edificaram-se então quatro pontes, em
+Alviaster (Ilhastro), em Coselias (Coselhas), em Latera Buzat (Ladeiras
+do Bussaco?) e na ribeira de Forma (Bossão?) Aqui, em memoria da ambos,
+e por conselho do architecto, Primo construiu umas azenhas que ficaram
+pertencendo ao mosteiro. Taes foram os factos succedidos nos fins do
+seculo X que narra o documento de Lorvão.
+
+Passaram tres quartos de seculo. Coimbra e o seu territorio, submettidos
+de novo por Al-manssor, tinham-se conservado sob o jugo do islam.
+Fernando magno veio, porêm, a unir definitivamente aquella provincia á
+coroa de Leão nos meiados do seculo XI. As azenhas da ribeira de Forma
+já não eram do mosteiro. Fernando I restituiu-lh'as, ajunctando o
+senhorio da ponte. Pelagio Halaf, nome que indica um mosarabe christão,
+fora, segundo parece, espoliado naquella restituição. Demandou os
+monges, affirmando que seu avô Ezerag edificara as azenhas, ao passo que
+o abbade Arias invocava os nomes de Primo e Zacharias. O mosarabe
+Sisnando, conde ou wasir de Coimbra, exigindo o juramento de Arias
+ácêrca do que este affirmava, manteve a restituição. Surgiu então novo
+contendor. Era Zuleiman Alafla, primo-coirmão de Pelagio, talvez
+mussulmano, talvez christão, mas como elle da raça mosarabe. Sisnando
+enviou os contendores á curia do rei. Ahi, longe de estribar o seu
+direito na fundação do avô, Zuleiman recorreu a um titulo que hoje sería
+singular, mas que então elle cria assás natural, e sufficiente para
+legitimar a sua pretensão. Era a historia do que se havia passado quando
+Al-manssor se apoderara de Coimbra. Ezerag habitava em Condeixa quando
+se restabeleceu o dominio de Cordova. No tumulto da invasão os
+habitantes das aldeias internavam-se nos bosques. Ezerag pensou então
+que a desordem geral podia enriquecê-lo. Dirigiu-se ao chefe sarraceno
+Farfon-ibn-Abdallah, e abraçou o islamismo. Depois pediu trinta soldados
+sarracenos, escondeu-os nas brenhas, e dirigindo-se á gente foragida,
+aconselhou-os a voltarem aos seus lares, asseverando-lhes que tudo
+estava pacificado. Acreditaram-no e voltaram ás aldeias. Os soldados
+sarracenos, saindo então dos escondrijos, captivaram muitos, e
+levando-os a Santarem venderam-nos por grossas sommas. Os captivos foram
+conduzidos a Cordova com guia de Ibn-Abdallah e com o preço por que
+tinham sido vendidos. Então Ezerag pediu em recompensa os moinhos de
+Forma e diversas aldeias. Al-manssor concedeu-lhe tudo; porque
+Al-manssor era um heroe, e os heroes não tem tempo para pensar nos
+direitos da humanidade conculcados[86]. Era nesta concessão que Zuleiman
+fundamentava a sua justiça.
+
+A doação do hadjib aos olhos de Alafla, do neto do renegado, era um
+titulo legitimo, embora essa mercê tivesse tido por causa uma atroz
+villania, e procedesse de um acto de auctoridade que o tribunal leonês,
+conforme as ideas de hoje, não poderia reconhecer. Zuleiman, porêm,
+suppunha tão legitima, tão respeitavel a concessão de Al-manssor como o
+julgamento da curia de Fernando-magno. Era um poder que passara na
+terra: era outro que nella existia agora. Nisto se resumia,
+necessariamente, a crença politica de uma grande parte dos proprietarios
+e agricultores mosarabes. Mas o mais importante neste documento é o
+proceder d'Ezerag e os factos que d'ahi resultaram. Elles nos explicam
+como quaesquer individuos da grande maioria da população podiam descer
+ao misero estado d'escravos. Sem duvida a historia de Ezerag não é a
+unica da sua especie succedida naquelles quatro seculos de uma terrivel
+lucta: devia repetir-se com circumstancias variadas. E é mais que
+provavel que as conversões ao christianismo por baixos intuitos de
+cubiça, de vingança ou de traição, fossem, pelo menos, tão frequentes
+como as conversões mussulmanas.
+
+Insisti neste ponto, porque o reputo capital. Passemos agora á objecção
+deduzida de serem os servos originarios obrigados a trabalhos
+industriaes e ao serviço domestico dos senhores, trabalhos e serviços
+que, no entender do sr. Muñoz, repugnavam á adscripção da gleba.
+
+No opusculo do sr. Muñoz parece-me haver duas preoccupações que
+allucinam o illustre escriptor. A primeira é a das idéas modernas
+applicadas ás expressões, ás phrases e aos factos da idade media. Desta
+é facil possuirmo-nos, e nella terei eu caído mais de uma vez. A outra é
+na verdade singular, mas em boa parte deriva da primeira. Consiste em
+suppôr a impossibilidade de accumular os trabalhos da vida rural com os
+industriaes e mechanicos, ou com os serviços pessoaes feitos a outro
+individuo. Entre as nações onde o progresso das industrias fez
+predominar quasi exclusivamente o principio economico da divisão do
+trabalho, effectivamente não se dá tal associação: o official mechanico,
+o operario fabril, o creado domestico não associa de ordinario a
+occupação a que se entregou com o grangeio dos campos. Mas assim como a
+divisão e subdivisão dos misteres se vai multiplicando com o
+desenvolvimento industrial, assim quanto mais atrazado se acha um povo,
+mais o homem varía de occupações, porque é obrigado a variar, e porque
+justamente a imperfeição das industrias, a simplicidade e grosseria dos
+artefactos favorecem a accumulação e a variedade das occupações
+individuaes. Não sei o que succede em Hespanha: em Portugal, nos
+districtos ruraes, mais de uma industria fabril se associa com a
+agricultura sob o tecto do lavrador. E todavia, por atrazado que esteja
+este paiz nos progressos fabris, está sem comparação mais adiantado do
+que a monarchia leonesa no seculo X ou XI.
+
+Recusar admittir que o servo da gleba podesse separar-se do cultivo da
+mesma gleba para se empregar de outro modo no serviço do senhor, não é
+só negar o passado; é negar o presente. O camponês russo é servo da
+gleba, e nem por isso deixa de separar-se della para exercer outros
+misteres. O que não pode é ser vendido como os brutos. Muda de senhor,
+ao menos legalmente, só quando é alienada a terra a que pertence.
+
+O V volume da Historia de Portugal, ainda não publicado, conterá uma
+parte relativa ao systema do tributo, da renda, e do serviço publico nos
+seculos XII e XIII. Ahi se encontrarão numerosas provas de que n'uma
+épocha em que já a adscripção voluntaria succedera á forçada existiam
+para o colono, pessoalmente livre, ao lado das prestações agrarias esses
+mesmos encargos de serviço pessoal que ao sr. Muñoz parece repugnarem,
+não ao colonato livre, mas á propria servidão da gleba; e o mais é que
+continuamos a encontrá-los ainda nos contractos emphyteuticos de seculos
+mais modernos. Por singulares, por extranhos á vida rural que esses
+serviços se nos affigurem nos documentos citados no opusculo que
+examino, os dos colonos portugueses do seculo XIII, colonos
+indubitavelmente livres de uma gleba serva, não são menos singulares e
+extranhos. Lembrarei, entre outros, o encargo que pesava sobre os
+moradores de tres casaes de Tras-os-Montes. Deviam ir servir de espias
+em Leão quando a isso os enviassem.[87] Era, por certo, um serviço mais
+abjecto do que o _purgare tristigas_ de que falam os documentos
+leoneses.
+
+Mas o mais notavel é que o proprio sr. Muñoz se encarregou de combater a
+sua opinião. Ao lado da servidão _pessoal_ dos servos _originarios_
+admitte a existencia da servidão de gleba, a existencia simultanea de
+adscriptos, de que fórma uma classe á parte. Depois de enumerar as
+prestações agrarias que pagavam esta especie de colonos-servos, o sr.
+Muñoz adverte[88] que, além de uma quota de fructos, e de variadas
+foragens, esses colonos forçados estavam adstrictos a serviços pessoaes,
+que consistiam nos amanhos de predios diversos da propria gleba, em
+construcções de edificios, e _em fazer quanto se lhes ordenasse_. Suppôs
+o sr. Muñoz que havia contradicção em dizer eu que os servos originarios
+eram todos adscriptos e ao mesmo tempo obrigados a serviços pessoaes
+fóra da respectiva gleba, e todavia não só acceita essa doutrina
+contradictoria no seu mesmo opusculo, mas, além disso, acceita-a depois
+de affirmar a sua impossibilidade, para desta inferir contra mim a
+continuação na monarchia ovetense-leonesa da servidão wisigothica. Se os
+serviços pessoaes alheios ao cultivo da gleba importavam forçosamente a
+não-adscripção, é necessario confessar que a adscripção, cuja existencia
+o sr. Muñoz crê descubrir ligada com quaesquer encargos de serviço
+pessoal ao senhor, é um sonho, e que os documentos que se referem a esse
+estado de cousas, ou são falsos, ou se hão de entender, custe o que
+custar, de escravos semelhantes aos dos wisigodos ou aos captivos
+sarracenos.
+
+Na _Colleccion de Fueros Municipales_[89] publicou o sr. Muñoz dous
+interessantes documentos sem data, mas que parecem do seculo IX,
+relativos aos encargos pessoaes dos servos originarios. A estes
+documentos se reporta igualmente no seu opusculo para abonar a these que
+estabelece da existencia simultanea de adscriptos e de escravos
+originarios. É o primeiro uma memoria dos serviços a que era obrigada
+para com a sé de Oviedo cada familia serva da terra de Gauzon: é o
+segundo uma memoria especial das obrigações dos servos de Pravia, logar
+ou aldeia incluida no mesmo territorio de Gauzon. Na _Colleccion_ vê-se
+que as idéas do sr. Muñoz fluctuavam ainda. Estas duas memorias
+suppõe-nas elle ahi relativas indistinctamente aos servos da sé ovetense
+residentes naquelle territorio, quer adscriptos, quer não: no
+opusculo[90] suppõe-nas, porém, relativas exclusivamente aos
+não-adscriptos, isto é, aos servos de raça, que, segundo a sua doutrina,
+continuaram a ser na monarchia néo-gothica de condição identica á dos
+servos do VI e do VII seculos.
+
+Permitta-me, todavia, o sr. Muñoz pensar que se houvera reflectido mais
+detidamente nestes documentos elles o teriam, talvez, conduzido a
+diverso resultado. Suppondo que se refiram a servos que, no seu
+entender, equivaliam a cousas, e de que seu antes dono que senhor podia
+dispôr livremente, a propria existencia dessa especie de memorias sería
+incomprehensivel. Na idade media não se escreviam cousas absolutamente
+inuteis, porque a arte de escrever poucos a possuiam, e até a materia da
+escriptura era assaz rara. Ora nada mais completamente inutil do que
+esses _cobrinellos_ ou ementas, dada a theoria do sr. Muñoz. Para que
+escrever n'um pergaminho: _a familia de fulano de tal aldeia ou granja_
+(villa) _é obrigada a tal serviço_? Pois uma familia de escravos, que
+pode ser empregada a bel prazer do senhor nos mais oppostos misteres
+dentro do mesmo anno, do mesmo mez, do mesmo dia, como um animal
+domestico; que por arbitrio delle pode mudar de domicilio quando isso
+convier; que, em summa, pode collectiva ou individualmente ser vendida,
+escambada, doada; uma tal familia, digo, tem acaso obrigações
+determinadas, de que seja necessario conservar a memoria para o futuro?
+De que serve declarar a granja, o villar, o casal onde cada uma dessas
+familias reside, se, no dia seguinte ao da redacção da ementa, o senhor
+pode achar mais conveniente outra distribuição dos seus escravos? Apesar
+da facilidade com que hoje se escrevem cousas inuteis, não se reputaria
+louco o proprietario que escrevesse e archivasse a seguinte memoria: _A
+raça do cavallo N. tem de conduzir madeiras; a raça do touro_ _N. tem de
+lavrar taes terras; tal vehiculo tem de servir de transporte a tal
+objecto; tal alfaia é destinada a tal uso_?
+
+Na minha opinião, o que estas memorias provam é o mesmo que provam
+directa ou indirectamente todos os documentos que se referem á condição
+ou aos encargos dos servos originarios, ou homens de creação: é que
+estes estão unidos a certos predios indissoluvelmente; que desse
+complexo do homem e do predio o senhor tem de auferir prestações
+agrarias e serviços determinados. Nesta hypothese o _cobrinellum_ é uma
+cousa racional. A _casata_, isto é, a familia que vive n'uma certa
+choupana ou grupo de choupanas, (_casa_) tem de satisfazer, de geração
+em geração, perpetuamente, aquelles encargos. Os enlaces inevitaveis com
+outras familias podem produzir complicações de direitos entre diversos
+senhores, mas o _cobrinellum_ ou ementa particular de cada um servirá
+para os deslindar, indicando os serviços, independentes das prestações
+agrarias, que essas familias devem, _debent_. Esta idéa de dever que se
+manifesta nos documentos presuppõem a do direito. O escravo não tem
+deveres; porque as _cousas_ são incapazes delles. Nos proprios tempos
+barbaros dever e direito são inseparaveis; porque as duas idéas são
+forçosamente correlativas.
+
+Conforme o que n'outro logar adverti, a adscripção não era de feito
+simplesmente uma grande restricção da liberdade; importava tambem
+vantagens, as de uma especie de co-propriedade do servo colono na sua
+gleba. O sentimento do servo de gleba devia ser analogo ao do camponês
+russo dos nossos tempos. «No momento em que os servos separados da
+terra--diz o marquez de Custine--vissem vendê-la, arrendá-la, cultivá-la
+independentemente delles, amotinar-se-hiam de golpe, clamando que os
+despojavam _dos seus bens_[91]. Do mesmo modo que na Russia, onde se
+caminha da barbaria para a civilisação, nas origens barbaras da
+monarchia néo-gothica a adscripção como regra succedeu naturalmente á
+servidão pessoal, e a servidão da terra cultivada por um colono
+pessoalmente livre succedeu á adscripção nos seculos XII e XIII, como me
+persuado que demonstrei no meu livro. Suppôr que da escravidão se passou
+de salto á liberdade pessoal affigura-se-me a supposição de um
+impossivel historico.
+
+Effectivamente: como achamos mais geralmente estabelecido o colonato nos
+seculos XII e XIII? O colono é _obrigado_ a morar no predio que cultiva,
+mas não é forçado a isso. Se delle sai, não lhe é licito cultivá-lo;
+perde-o; não o reconduzem, porém, violentamente a elle. A união do homem
+á terra subsiste, mas essa união não é indissoluvel. A liberdade pessoal
+nasceu. Entre esta situação e a do homem-cousa, do escravo, ha um
+abysmo. Como se transpôs? O meio principal consistiu na servidão da
+gleba. O homem-cousa foi-se transformando em _pessoa_ serva: a pessoa
+serva em pessoa livre; mas ficou ainda adscripta na qualidade de colono.
+Para ser plenamente pessoa livre precisava de desaggregar de si esta
+qualidade; de divorciar-se da gleba, a que aliás o prende esse amor
+ardente do homem de trabalho ao solo que cultiva. E que importava, se
+_podia_ fazê-lo? É por isso que disse no meu livro que a servidão desceu
+do homem para a terra. Depois, lentamente, é que veio o colonato na sua
+fórma quasi definitiva: o laço unico que liga o colono é a solução do
+canon e a prestação dos serviços pessoaes ao já não _senhor_, mas
+_senhorio_. Depois, finalmente, chegou-se á formula definitiva: os
+serviços pessoaes ou desappareceram ou poderam ser substituidos, á
+vontade do colono, pela solução de um _quantum_ que os representasse.
+Desde este momento o colonato não conteve mais em si elemento algum que
+repugne ás nossas idéas actuaes de direito, e nem sequer ás da economia
+politica.
+
+Eu cri ver a liberdade humana despontando tenue nos horisontes da vida
+do povo desde os tempos wisigothicos. Para o sr. Muñoz a noite profunda
+da escravidão durou nesses horisontes até a fatal jornada do Guadalete.
+E não só, na sua opinião, durou até aquella epocha, como tambem
+subsistia ainda com todo o peso das suas sombras no seculo XI. Mas em
+que periodo collocar a transição para a liberdade pessoal dos seculos
+XII e XIII, cuja existencia demonstrei como facto predominante no
+colonato dessa epocha, se não for no estado dos servos originarios da
+monarchia leonesa? Se assim não houvera sido, singular excepção á lei de
+desenvolvimento gradual e constante do progresso humano sería a historia
+da Peninsula durante quatro seculos!
+
+
+
+
+VI
+
+
+O sr. Muñoz contrapõe ainda á minha opinião varios factos, que entende
+provarem ser o estado dos servos o de cousas na monarchia de Oviedo e
+Leão. Um delles é não ter o servo representação em juizo, nem poder
+servir de testimunha, havendo outro meio de prova.
+
+De se me oppôr este facto parece poder inferir-se ter eu affirmado em
+alguma parte que o servo se convertera em homem plenamente livre na
+monarchia leonesa. Nesta hypothese a objecção poderia parecer plausivel,
+ainda que realmente o não seja; porque não se segue da plena liberdade
+do individuo, em qualquer estado social, a necessidade positiva de ser
+igual em direitos, ainda civis, a todos os individuos livres. O que,
+porêm, affirmei, e o que julgo poder continuar a affirmar é que a
+servidão mais ou menos absoluta dos wisigodos se tornou na monarchia
+néo-gothica em servidão da gleba, e que esta modificação foi um grande
+passo para a emancipação das classes populares. Se o servo não podia
+desaggregar-se da gleba, é evidente que a gleba tambem não podia
+desaggregar-se do servo, e que desse estado resultava para elle uma
+especie de co-propriedade de facto, que, por indestructivel, creava um
+direito positivo. O alcance deste direito era tal que as suas
+consequencias, na successão dos tempos, deviam trazer mais tarde ou mais
+cedo a plena liberdade pessoal, como de feito trouxeram. Eis o que eu
+estabeleci. Objectivamente, a existencia da pessoa civil resulta da
+manifestação da sua capacidade juridica, embora essa manifestação seja
+incompleta. Entre os romanos, o servo considerava-se como cousa, porque
+objectivamente era incapaz, não de um ou de outro direito, mas de todos
+elles, e por isso perdia a personalidade: nas sociedades modernas,
+porêm, o privilegio, a jerarchia, a idade do homem, o seu estado physico
+ou moral produziram sempre e produzem ainda differenças de direitos, até
+civis, que nem por isso destroem a personalidade de ninguem. Fosse o
+poder publico, fosse o proprio adscripto que podesse invocar o principio
+da adscripção para não ser violentamente separado da gleba nativa; fosse
+o costume, a opinião, ou a lei que sanctificasse a união da terra com o
+seu cultor, o que é certo é que se invocava, sanctificava e mantinha um
+direito, uma vantagem importantissima do adscripto. Fosse qual fosse a
+dependencia deste do respectivo senhor, a sua personalidade existia.
+
+Assim, quaesquer que fossem as restricções que houvesse a respeito dos
+servos no systema judicial desde o seculo VIII até o XII, essas
+restricções nem provam contra a personalidade objectiva dos servos, nem
+importam á adscripção ou não adscripção. Sobre aquelle systema judicial
+e sobre o papel que os servos representavam nos pleitos poderia
+accrescentar aqui algumas ponderações que me parece mereceriam a
+attenção do sr. Muñoz, mas que me levariam mais longe do que comportam
+as dimensões deste pequeno trabalho, e que seriam sobejas para o fim que
+me proponho. Deixando, pois, de parte questões agora inuteis, venhamos a
+outros factos juridicos em que o sr. Muñoz vê a morte da personalidade,
+e que evidentemente não provam o que elle pretende, antes em parte
+demonstram que do mais ou menos incompleto dos direitos civis em
+individuos desta ou daquella classe nunca se poderá deduzir a
+escravidão, a não-personalidade, a suppressão absoluta desses direitos.
+
+«Competia ao dono sómente--diz o sr. Muñoz--reclamar a indemnisação do
+damno padecido pelo servo como cousa de sua propriedade[92].» Os
+documentos, aliás numerosos, em que esta affirmativa póde estribar-se
+não servem de modo algum para dirimir a contenda; porque para provarem a
+não-personalidade dos servos e a sua não-adhesão á gleba (suppondo que o
+facto o provasse) cumpria mostrar que elles se referiam aos servos
+originarios, e não a escravos captivos. Admittindo, porêm, que taes
+documentos se refiram a servos originarios, essa concessão de nada
+servirá para revalidar a opinião do sr. Muñoz. A representação pelo
+senhor não se limitava ao escravo, e nem mesmo a este e ao servo de
+gleba: estendia-se a individuos livres collocados na dependencia
+juridica de alguem. Seguir-se-ha d'ahi que semelhantes individuos eram
+cousas; não tinham personalidade?
+
+O sr. Muñoz estabeleceu excellentemente no seu opusculo[93] a natureza
+da maladía. O malado era o homem livre, que se collocava n'uma especie
+de vassalagem para com seu senhor adoptivo, e esta especie de relações
+provei eu que eram inteiramente pessoaes e independentes do caracter de
+colono, situação em que o malado podia estar em relação a outro senhor,
+bem como mostrei a transmissão da maladia de paes a filhos[94]. A
+reparação, porêm, dos damnos feitos aos malados revertia ainda no seculo
+XI em beneficio do patrono[95]. Admittida a doutrina estabelecida depois
+pelo sr. Muñoz, esta jurisprudencia provaria contra elle proprio;
+provaria que o malado, longe de ser, como tal, homem livre, era apenas
+uma cousa, apenas uma propriedade do _dominus_.
+
+Como os malados, os solarengos (solariegos) eram colonos livres. Di-lo o
+sr. Muñoz, e com elle dizem-no os monumentos. Todavia nós lemos no Foro
+Velho de Castella[96]: «_Ninguem deve pousar nem entrar por força em
+casa de nenhum solarengo, e se alguem o fizer deve pagar 300 soldos ao
+senhor, de quem for o solar, e o damno em dobro ao lavrador que recebeu
+o aggravo_». Nos foraes do typo de Salamanca lemos tambem: «_Se alguem
+matar o creado de qualquer vizinho, receba este a multa do homicidio. O
+mesmo é applicavel ao seu hortelão, ao caseiro que lhe paga quartos, ao
+seu moleiro e ao seu solarengo_[97]».
+
+A simples relação de vassalagem e clientela produzia ás vezes os mesmos
+effeitos. Assim, em alguns desses foraes do typo de Salamanca se estatue
+tambem que _se forem assassinados homens que alguem tenha nas suas
+herdades, ou que sejam seus vassalos pertencerá ao senhor a multa do
+homicidio_[98].
+
+Eis aqui como ainda nos seculos XII e XIII o senhor ou patrono havia a
+multa dos crimes commettidos contra os seus dependentes, sem que d'ahi
+se possa nem por sombras inferir que a dependencia do cliente, do
+vassalo, do malado, do solarengo ou do creado fosse a da escravidão.
+Nada direi acerca de o sr. Muñoz qualificar a _calumnia_, a multa
+judicial, _de compensação pecuniaria imposta como pena ao matador_. O
+sr. Muñoz sabe perfeitamente que não era essa a indole de taes multas:
+foi uma phrase inexacta que lhe escapou na rapidez da composição, como
+talvez me terão escapado a mim outras analogas. Mas o que não posso
+deixar de observar é uma circumstancia que prova como os espiritos mais
+elevados e de mais solida sciencia chegam a precipitar-se quando
+subjugados por um preconceito. Possuido da idéa da escravidão dos servos
+originarios nos quatro primeiros seculos da monarchia leonesa, o sr.
+Muñoz, ao passo que viu dimanar a não-personalidade do servo do direito
+do senhor ás multas dos crimes perpetrados contra elle, não viu,
+buscando estribar-se em documentos, que o primeiro que citava, tirado de
+um chartulario do mosteiro de Cellanova, continha a refutação
+peremptoria da sua doutrina. Este documento do anno 940 é uma carta ao
+mesmo tempo de _agnição_ e de _incommuniação_, em que Pelagio
+_incommunía_ os bens que tinha em certas aldeias a D. Ilduara e a seus
+filhos, por elle haver com uns clientes seus espancado por tal modo
+Froila, _junior_ de D. Ilduara, que o espancado morrera, e Pelagio, não
+podendo talvez pagar a D. Ilduara a multa que lhe fora imposta, recorria
+ao expediente de lhe _incommuniar_ aquelles bens[99]. Mas Froila era um
+_junior_, colono da mais humilde classe, porêm livre. O texto das cortes
+de Leão de 1020 e a sua antiga versão em vulgar não consentem que se
+interprete de outro modo a palavra _junior_: nisto o sr. Muñoz está
+perfeitamente de acôrdo comigo no seu commentario áquelle celebre
+monumento legislativo[100]. Como, pois, se invoca um diploma que
+formalmente contradiz a doutrina que é destinado a sustentar?
+
+
+
+
+VII
+
+
+Os consorcios entre individuos das classes servis offereciam varias
+hypotheses juridicas: o servo podia casar com uma serva do mesmo senhor,
+ou com a de outro: ter um ou mais filhos ou nenhum: o marido podia ir
+viver na residencia anterior da mulher, ou a mulher na residencia
+anterior do marido: materialmente, essas translações de domicilio podiam
+occorrer com licença do senhor ou sem ella. Estes diversos factos
+influiam necessariamente nas relações do senhor e do servo. Restam em
+Portugal e em Hespanha bastantes documentos de que elles se davam, e de
+que se buscavam arbitrios para solver as difficuldades que d'ahi
+procediam. Achamos contractos, inqueritos, memorias particulares,
+sentenças, em que se previnem, se memoram, ou se remedeiam as
+consequencias dessas varias hypotheses em relação aos direitos dos
+senhores, e em que, portanto, obtemos a certeza de ellas se haverem dado
+desde o VIII até o XII seculo. Para occorrer aos conflictos de
+interesses e de direitos, vê-se dos mesmos documentos que se recorria á
+divisão das familias. Em que consistia esta divisão? O que é que se
+passava na realidade?
+
+O desacôrdo entre mim e o sr. Muñoz já se vê que deve ser completo na
+apreciação dos documentos relativos a semelhante assumpto. Elle vê a
+escravidão como condição geral dos individuos da classe servil do seculo
+VIII ao XII: eu vejo-a só em relação aos captivos sarracenos, e a
+servidão da gleba em relação aos _homines de creatione_, aos _servi
+originales_. N'uma nota do meu livro[101] mostrei, segundo creio, que os
+documentos com que elle pretendera provar que os filhos do servo e da
+serva de differentes senhores se dividiam entre estes[102] se deviam
+entender de um modo diverso. Na minha opinião, o que se dividia eram os
+serviços pessoaes, e em certos casos (como na incerteza de pertencer a
+um ou a outro senhor o dominio da gleba habitada pelo homem de creação)
+as prestações agrarias. Em relação ás glebas possuidas de paes a filhos
+pelas familias servas, a minha theoria era e é que o _dominio_ e o _uso_
+de qualquer desses predios se moviam em duas espheras: que o _dominio_,
+manifestado, traduzido materialmente na percepção das prestações
+agrarias e na exigencia de serviços, era a propriedade do senhor;
+constituia o objecto de uma grande parte desses milhares de contractos
+do seculo VIII ao XII que restam nos archivos da Peninsula; que o que se
+vendia, doava, escambava mais ordinariamente era o direito a haver dos
+servos, dos _juniores_, dos malados, dos solarengos, do homem de
+trabalho, em summa, ingenuo ou não ingenuo, certas prestações agrarias e
+certos serviços pessoaes, que nas glebas servis derivavam da duplicada
+servidão do homem e da terra a que estava unido, e que na herdade ou
+casal do peão (_junior_), na maladia, no solar, derivavam de um
+contracto voluntario, tacito ou expresso; que as prestações e os
+serviços do adscripto, representando a renda da terra e a obrigação
+servil do individuo nella incorporado, eram duas cousas que facilmente
+podiam distinguir-se quando por consorcios, ou por outra qualquer
+eventualidade, o direito ás prestações da gleba e aos serviços do homem
+ou da familia vinha a achar-se dividido entre dous proprietarios
+(_domini_) diversos; que, assim distinctos, tanto aquellas prestações,
+como aquelles serviços podiam não só affastar-se, unir-se de novo, mudar
+de proprietario separadamente por toda a especie de transmissão, mas até
+fraccionar-se em si mesmos ou accumular-se, sem que por isso mudasse a
+condição do individuo que usufruia o predio, quer como adscripto, quer
+como colono livre.
+
+Não sei se varios documentos que o sr. Muñoz cita, logo no principio do
+seu opusculo[103], provam, como elle pretende, que as palavras _servus_,
+_homo_, _creatio_, _familia_ se applicavam indistinctamente aos servos,
+ás familias da mesma origem, aos adscriptos, e não poucas vezes aos
+homens livres, postoque sujeitos a alguma especie de vassalagem. Não vem
+isso para esta questão. O que sei é que mostram, como muitos outros, a
+verdade da precedente theoria, por ser ella unicamente que os explica.
+Assim, lemos alli que em 934 Eximina doou a aldeia ou granja de Malares
+ao mosteiro de Sobrado com todos os seus bens e pertenças, _e com todos
+os seus homens, assim servos como livres, que serviram na mesma aldeia
+no tempo de meus paes e avós_; lemos que em 1016 o mesmo mosteiro fez um
+escambo com Gutier Dominico dando este a aldeia de Luzario com as suas
+dependencias e _com a sua creação, servos e libertos e homens livres,
+quantos servem na mesma aldeia_; vemos que na doação de certas aldeias
+ao mosteiro de S. Salvador, em 932, se diz doarem-se _com a familia,
+libertos e pessoas livres (que façam) ao dicto mosteiro e aos dictos
+senhores o serviço que costumavam fazer_. Como explicar doações e
+escambos de pessoas livres e ainda de libertos conjunctamente com os de
+servos e com os das aldeias em que tantos estes como aquelles moravam,
+se entendermos esses documentos ao pé da letra? Não é evidente que se
+tracta das prestações agrarias, que pagavam tanto as glebas servis, como
+os predios colonisados por homens livres, e dos serviços que tanto os
+adscriptos como os ingenuos, forçadamente uns e por contractos
+espontaneos outros, eram obrigados a fazer? Não vemos, até, no 1.^o
+documento que os individuos de ambas as categorias são, sem distincção,
+_herdeiros_, uns nos predios colonisados, outros nos predios de
+adscripção, porque os serviços que delles devem uns e outros vem de
+tempos remotos: _tam servis seu ingenuis qui ad ipsam villam
+deservierunt in vita aviorum et parentum meorum_?
+
+A hereditariedade do servo na gleba, consequencia forçosa da adscripção,
+eis, como já disse n'outra parte, o grande passo dado na Peninsula,
+desde o seculo VIII até o XII, pelo homem de trabalho, pelo antigo
+escravo, para a liberdade. Quando o artigo VII do concilio ou cortes de
+Leão de 1020 diz:--_Ninguem compre_ a herdade do servo da igreja, do rei
+ou de alguem. _Quem a comprar perca-a e o que deu por ella_--faz-nos
+recordar a doutrina parallela do codigo wisigothico[104]. Mas ha na lei
+de 1020 duas palavras que assignalam um abysmo entre as duas
+legislações: _haereditatem servi_, phrase que seria monstruosa no seculo
+VII, mas que no XI indica apenas um facto assás trivial para exigir
+providencias que o regulem e limitem. _Haereditas_ é nas actas daquella
+assembléa, como em geral nos documentos das Hespanhas, o _hereditagium_
+de além dos Pirenéus; é o predio possuido de paes a filhos, o predio em
+que se succede por herança. O servo ligado á gleba sabe que, quando
+morrer, ficarão ahi os proprios descendentes; porque tambem sabe que
+elles e a gleba mutuamente se pertencem. Nas palavras _herdade do servo_
+está resumida a historia de uma transformação social.
+
+Que oppõe o sr. Muñoz a um facto que as leis, os contractos, as decisões
+forenses conspiram em mostrar não só como existente, mas tambem como
+universal em relação a todos os servos originarios ou homens de creação?
+Uma difficuldade practica. Suppõe que o servo de uma gleba poderia ir
+casar com uma mulher de uma gleba remota e de diverso senhor. Prestações
+agrarias não as podia pagar, porque a terra era de outro dono; serviços
+pessoaes não os podia prestar, pela distancia em que vivia. Assim seus
+filhos. Dividindo-se estes materialmente, e levando o senhor do pae
+metade delles, emquanto a outra metade ficava na gleba materna, aquelles
+podiam ter o destino que conviesse a seu dono se eram escravos, ser
+repostos na gleba paterna se fossem de raça adscripta. D'aqui a
+necessidade de entender os documentos no seu sentido apparente, e de
+crer que a praxe de se dividir a prole dos servos de dífferentes
+senhores era a geralmente seguida. Ora esse facto, equiparando a classe
+servil aos bens semoventes e aos moveis, destruia a personalidade dos
+individuos de semelhante classe, escrava em tal hypothese, situação que
+o opusculo do sr. Muñoz tende a provar ser a dos servos desde o VIII até
+o XII seculo.
+
+Mas este argumento pécca pela sua propria indole. Inferir que não
+existiu, ou pelo menos que não foi geral e predominante certa
+instituição, de ter ella inconvenientes, que aliás não existiriam
+predominando uma instituição diversa ou contraria, e concluir d'ahi que
+foi esta a que existiu ou predominou, parece-me que seria um pessimo
+raciocinio na historia de épochas e de paizes altamente civilisados,
+quanto mais na de eras semi-barbaras e de um paiz semi-barbaro. Que
+havia em Oviedo e Leão desde o VIII seculo até o XII no direito publico,
+na administração, no estado das pessoas, nas relações civis, que fosse
+absoluto, uniforme, sem excepção na practica? Que condições sociaes
+havia que não fossem incompletas, antinomicas, obscuras sob um ou sob
+outro aspecto? Que foi a idade média, senão a infancia dolorosa e longa
+da civilisação moderna; que foi, senão uma serie de experiencias e
+tentativas de organisação das nações, que surgiam do singular consorcio
+da sociedade romana, corrupta e dissolvida, com as aggregações quasi
+selvagens das hostes e das tribus germanicas, mixto tornado ainda mais
+confuso na Peninsula pelo influxo da cultura arabe? Que cousa mais
+enredada, mais desharmonica, mais cheia de soluções difficeis do que a
+vida social d'então? Sem duvida que certas leis supremas, que regem a
+humanidade em qualquer situação que ella se ache, actuavam então entre
+os povos, como sempre, e as paixões impelliam os individuos do mesmo
+modo e produziam effeitos identicos ao que produzem em todos os tempos;
+mas disto á perfeição, á harmonia das instituições vai uma distancia
+immensa.
+
+Acceitando, porêm, a doutrina do sr. Muñoz sobre a escravidão absoluta
+dos servos originarios ficam, acaso, resolvidas as difficuldades de
+applicação practica que elle vê na existencia da servidão de gleba? A
+hypothese que lembrou póde modificar-se. Supponhamos que o escravo, ido
+para outro logar e ahi casado com uma escrava de diverso dono, tinha um
+filho só. Como se dividiria materialmente esse individuo? Supponhamos
+que tinha um filho e uma filha. Á luz a que os escravos eram
+considerados, isto é, como animaes de carga, como machinas de trabalho,
+como cousas, emfim, o sexo dos individuos representava forçosamente um
+valor diverso. A quem cabia o filho? A quem a filha? Mais: supponhamos a
+união infecunda. Conforme quer o sr. Muñoz, o meio ordinario de reparar
+a perda do escravo ou escrava, que pelo consorcio ia viver na gleba de
+um senhor differente, era a repartição material dos filhos. Na falta
+destes, resignava-se, acaso, o senhor do servo fugido a perder os
+serviços delle, porque, não podendo dissolver-se o matrimonio e vivendo
+a familia escrava a grande distancia, não era possivel exigi-los?
+
+A lei wisigothica, porêm, ainda em vigor na monarchia néo-gothica,
+estatuia a respeito destes consorcios, não devidamente consentidos,
+entre servos de differentes donos uma regra clara e exequivel. Aquelle
+dos dous senhores que se aproveitara desse acto irregular, que se
+appropriara por tal meio o servo ou a serva alheios, perdia os dous
+conjuges e a respectiva prole em beneficio do que fora espoliado[105].
+Se a situação dos servos originarios não tinha mudado, porque não se
+applicava a lei? Que a divisão das familias, quer como a entende o sr.
+Muñoz, quer como eu a entendo, constituia já a jurisprudencia ordinaria
+do seculo XI é uma cousa de que os documentos citados por elle, e outros
+que poderia citar, não permittem que se duvide. Porque se oblitterou a
+lei wisigothica nesta parte? É evidentemente porque, tendo mudado a
+situação dos individuos a que ella era applicavel, devia buscar-se um
+meio de reparar a offensa do direito sem tractar os servos como bens
+semoventes.
+
+O direito dos senhores das glebas, ás quaes os servos pertenciam, sobre
+as prestações agrarias das mesmas glebas e aos serviços dos individuos
+ou familias a ellas adscriptos não offereceria realmente os
+inconvenientes practicos que suscitaria o systema supposto pelo sr.
+Muñoz. Já notei que este argumento é máu; mas é certo que nem esse máu
+argamento favorece a sua opinião. O servo, que se desaggregava da gleba
+sem consentimento do senhor, podia ser reconduzido violentamente a ella.
+Este era o principio. Mas se elle lhe fizesse os serviços pessoaes que
+d'antes fazia, parece que devia ser facil o chegar-se a uma transacção,
+a um acôrdo. A gleba lá ficava cultivada pelo resto da familia adscripta
+e produzindo as mesmas prestações agrarias, ao passo que o individuo
+desempenhava os mesmos deveres pessoaes. Suppondo que este fosse residir
+a grande distancia (hypothese rarissima n'uma epocha em que não existia
+a menor facilidade de communicações) esses serviços podiam ser
+transformados em prestações em generos, ou em moeda. Se o servo se
+casava e tinha filhos, metade dos serviços da nova familia pertenciam ao
+seu antigo senhor, obrigação herdada, que podia ser satisfeita do mesmo
+modo. Era um systema complicado, e que daria, como dava, origem a mais
+de um pleito entre senhor e senhor, mas que me parece não offereceria
+hypotheses insoluveis como a theoria adoptada pelo sr. Muñoz.
+
+Na _noticia_ dos homens do mosteiro de Cartavio publicada na _Colleccion
+de Fueros_[106] lê-se _in Garrio, Maria Ectaz medium cum suis filiis
+mediis... in Mirites... Savaricum integrum... in Mintes... Petrum Vistiz
+integrum cum suis filiis mediis_, etc. Temos, pois, nos proprios
+documentos publicados pelo sr. Muñoz a prova de que um individuo morador
+em certa granja ou aldeia podia pertencer integralmente ou parcialmente
+ao dono dessas glebas. É uma das hypotheses que eu figurei, e que o sr.
+Muñoz nos não diz como se resolveria no seu systema.[107]
+
+A interpretação que dou aos documentos que se referem á divisão dos
+servos originarios, e que eu supponho geralmente adscriptos, é tão
+obvia; esses documentos provam tão pouco que a divisão dos membros da
+familia serva se haja forçosamente de entender como uma divisão
+material; era tão possivel moverem-se os individuos, em relação ao
+dominio, n'uma esphera diversa daquella em que se moviam as prestações
+agrarias e os serviços pessoaes; a confusão da terra com o homem, da
+obrigação com a pessoa a quem ella imcumbia, era tão vulgar na linguagem
+juridica, que o proprio sr. Muñoz adopta o meu systema de interpretação
+a proposito de documentos analogos nas expressões áquelles com que
+pretende refutar o mesmo systema. Falando de diplomas, em que se faz
+doação, venda, ou permutação de solares incluindo os solarengos,
+accrescenta: _Obstam muito pouco alguns documentos de venda, doação e
+troca feitas junctamente com os solarengos. Não quer isto dizer que se
+vendessem as pessoas; mas sim os tributos e serviços que estas tinham
+obrigação de prestar._ Se a linguagem dos documentos se póde tomar como
+figurada em relação aos solarengos, porque não se poderá entender do
+mesmo modo em relação aos servos originarios ou homens de creação? Como
+se pretende deduzir dessa linguagem um argumento para provar que estes
+eram vendidos, escambados, ou doados como cousas, como bens semoventes,
+e sem personalidade, não se permittindo tirar igual inferencia a
+respeito dos solarengos?
+
+A questão do estado das classes servas na monarchia néo-gothica
+comportava maiores desenvolvimentos. Esses desenvolvimentos não cabem,
+porêm, neste breve opusculo e na forma de publicação a que é destinado:
+por isso pararei aqui. Permitta-me o sr. Muñoz y Romero que repita,
+acabando, as expressões de sincero apreço pelo seu alto merito
+litterario, e pelos seus esforços para derramar luz nas trevas da nossa
+idade media. O que ha de abnegação, de zelo pela sciencia, de forças
+intellectuaes consummidas em desbravar os desvios por onde o sr. Muñoz
+se embrenhou só o conhece aquelle que nesse duro lavor deixou passar os
+melhores dias da vida, sem saber o que a mocidade tem de gozos, a idade
+viril de ambições, e a velhice de vaidades, e cuja recompensa unica será
+escrever-se-lhe na campa: _Aqui dorme um homem que conquistou para a
+grande mestra do futuro, para a historia, algumas importantes verdades._
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+
+*A batalha de Ourique*
+
+
+I Eu e o Clero 3
+II Considerações pacificas 35
+III Solemnia Verba 1.^a 72
+IV Solemnia Verba 2.^a 99
+V A Sciencia arabico-academica 185
+
+
+*Do estado das classes servas na Peninsula*
+
+
+I 237
+II 245
+III 263
+IV 265
+V 285
+VI 317
+VII 318
+
+
+
+
+Notas:
+
+[1] Sermo De Convers. S. Paul.
+
+[2] Epistolar. Epist. 152.
+
+[3] Mem. de D. Fr. Caetano Brandão, T. II, p. 411.
+
+[4] Concil. Trident. Sess. 25, Decr. de Purgat.
+
+[5] Concil. Colon I, tit. 6 c. 25.
+
+[6] Van-Espen, Jus Eccles. P. 1 tit. 22 cap. 10.
+
+[7] Gesch. der Italienisch. Staat. IV B., 4 kap. § 6.
+
+[8] Vol. 1 Nota 3 p. 466 e segg.
+
+[9] S. P. Damiani Epistol. ad Sum. Pontif. L. 1 Epist. 16.
+
+[10] Greg. VII Epistolar. Liv. 8 Epist. 21.
+
+[11] De Considerat. L. 3 c. 3.
+
+[12] Ibid. Liv. 4 c. 4.
+
+[13] Um grande numero dessas passagens e cantigas, relativas aos seculos
+XI, XII e XIII, acham-se colligidas na Historia dos Hohenstaufen de
+Raumer, Vol. 6, pag. 178 e segg.
+
+[14] Scriptores Rer. Francicar., T. XVII p. 558.
+
+[15] Art de Verif. les Dates, vol. 1 pag. 299.
+
+[16] Matth. Paris, p. mihi 607 col. 2.
+
+[17] Chronic. pag. mihi 287.
+
+[18] Def. de la Declar. I. 6.
+
+[19] D. Hilar. Pictav., In Psalm. 53.
+
+[20] D. Gregor., Expos. in Job L. 8 c. 6, L. 13 c. 4.
+
+[21] Recordo-me de ler em a _Nação_ um communicado de Coimbra, assignado
+por um parocho, em que se me dizia que, se as assaduras da inquisição
+tinham acabado, cá estavam os bispos. O bom do homem ainda espera que os
+bispos de Portugal possam queimar gente. É uma doce illusão como
+qualquer outra.
+
+[22] «ne ab uberiori auctorum copia alliciamur, sed potiùs ab ipsorum
+merito et _gravitate_; multotiès enim fit, ut _gravis_, periti atque
+sinceri scriptoris auctoritas, etc.»
+
+Que diria um desses furiosos que crêm que o vocabolario dos prostibulos
+póde supprir os rudimentos da sciencia, e que me condemnou como
+ignorante por falar em _gravidade da historia_ em relação, não ao
+estylo, mas sim á materia, se ouvisse o venerando Mabillon falar na
+gravidade do historiador tambem em relação á essencia e não á forma, e
+isso duas vezes n'um unico paragrapho!! Chamava-lhe ignorantissimo. Oh
+clero português, clero português!
+
+[23] «Elle _ne craint que_ de n'être pas connue»: Fleury diz que, não a
+igreja, mas o proprio christianismo _teme_. Em Portugal a theologia das
+tabernas entende-o d'outro modo. É uma consolação ser impio e herege com
+o virtuoso prior de Argenteuil. Pobre igreja portuguesa.
+
+[24] Todas as pessoas mediocremente instruidas sabem o que quer dizer
+_theocratico_; mas o demente que escreveu estas blasphemias não sabe
+português, quanto mais grego. Fez uma phrase ridicula para introduzir
+ahi um vocabulo que os ignorantes não entendessem e que portanto
+admirassem.
+
+[25] Accentuado por causa das freiras que dizem missa. A ignorancia das
+freiras é a razão capital da accentuação nos livros rituaes, segundo o
+digno sacerdote que, por vingança, acceitou das _capellas_ o pio mister
+de me injuriar e calumniar sanctamente.
+
+[26] Nova Insistencia, etc., pag. 34.
+
+[27] Demonstração pag. 34.--Insistencia pag. 10.
+
+[28] Poucos annos antes, os embaixadores de D. Dinis tinham offerecido
+inutilmente ao pontifice uns artigos com o mesmo intuito, e contendo em
+substancia o mesmo que os de Pedro Escacho. Ahi nem uma palavra se diz
+sobre a acclamação em Ourique, em que tambem não fala nenhum dos
+chronicons coevos. Assim, a invenção da historia da acclamação póde
+fixar-se no principio do seculo XIV, tendo talvez em parte dado motivo a
+ella esta questão da desmembração da ordem de Sanctiago, negocio que foi
+assaz rudioso e importante. Veja-se a Historia de Portugal, Vol. I, pag.
+489 (Nota XVIII).
+
+[29] Estes chronicons estão publicados nos _Portugaliae Monumenta
+Historica_, Vol. 1, p. 26.
+
+[30] Tanto este como os dez paragraphos precedentes foram supprimidos
+nas edições avulsas das _Solemnia Verba_. Era uma digressão que pouco
+servia para rebater as opiniões adversas, e que entretanto affrouxava o
+cerrado da argumentação.
+
+[31] Os Cuidados Litterarios de Cenaculo, a Memoria de frei Joaquim de
+Sancto Agostinho sobre os codices d'Alcobaça, o Elucidario de Viterbo,
+as Observações de J. P. Ribeiro publicaram-se proximamente pelo mesmo
+tempo. Viterbo, frei Joaquim de Sancto Agostinho, Ribeiro eram
+_innovadores perigosos_ então, como eu o sou hoje. Cenaculo era um bispo
+erudito. Quantas palestras litterarias, quantas contendas oraes
+precederiam a publicação daquelles escriptos oppostos!
+
+[32] «à l'heure que je commence a dicter ce present escrit je suis en la
+soixante sexieme année de ma vie.» Petitot fá-lo nascido em 1426.
+Falleceu no 1.^o de fevereiro de 1502, segundo se deprehende da sua
+inscripção sepulchral, com 76 annos d'idade.
+
+[33] D'aqui vinha por certo o titulo de _conde palatino_ de que usava
+Vasco de Lucena, titulo que tanto tem feito scismar os nossos
+antiquarios.
+
+[34] Vejam-se as provas indisputaveis d'isto em Ribeiro, Observações de
+Diplomatica, pag. 79 e seg.
+
+[35] Et cette opinion je tiens de plusieures notables gens portugalois
+qui ont esté de ma congnoissance.
+
+[36] Pina, Chron. de D. João II, c. 15.
+
+[37] Bulla: _Ut saluti_ 5 febr. 13.^o Sixti IV.
+
+[38] Preafatae ecclesiae, a qua regiae dignitatis culmen accepisti,
+cuique annuum censum debes: Ibid.
+
+[39] Bulla: _Venerabilis frater_: 6 febr. 13.^o Sixti IV.
+
+[40] Carta de D. Alvaro de Bragança escripta de Castella a D. João II.
+(Ms. da Biblioth. R.)
+
+[41] Talvez seja gente de mais. Mas deixe v.. passar; porque isto era já
+estylo peninsular naquella epocha.
+
+[42] Jorn. de Coimbra, 1813, Abril, p. 310.
+
+[43] Memor. do R. Archivo, pag. 59.
+
+[44] Chancell. d'Aff. II. (M. 12 de For. Ant. N.^o 3).
+
+[45] Veja-se o alvará de D. Manuel, de 1502, no Liv. dos Privileg. de
+Sancta Cruz fl. 2, o doc. de 1458 a fl. 157 do mesmo Liv., o do L. 5 da
+Estremadura fl. 116 v. no Arch. Nac., etc.
+
+[46] Chron. dos Coneg. Regr., L. 9, c. 29.
+
+[47] Prodrom. ad refutat. Alcorani _passim_.
+
+[48] Uber die Länderverwaltung unter dem Khalifate (Berlim 1835)
+Schaefer, Gesch. Span. 3 Th. S. 145.
+
+[49] O _digno_ academico refere-se evidentemente á traducção de Moura;
+porque nem o commum dos leitores, que elle convida para lerem esses
+capitulos, entendem o arabe, nem o original tem capitulos, como se
+deprehende do prologo de Moura, e se vê das citações do texto arabe
+feitas pelo sr. Gayangos nas suas notas á versão inglesa de Al-Makkari.
+
+[50] Nesta classe, como em todas, ha excepções respeitaveis: falo em
+geral.
+
+[51] Dominac. de los Arab., P. 3 in fine.
+
+[52] Al-Khatib, Bibl. apud Casiri Bibl. Arab., T. 2, p. 216 e segg.
+
+[53] Abu-l-Feda, Annales Moslemici, T. 3, p. 359.
+
+[54] Al-Makkari (versão de Gayangos), Liv. 7 c. 5 e segg. L. 8 c. 1 e 2.
+Veja-se tambem a taboa chronologica a p. 89 dos Append. do 2 vol., e os
+extractos no livro _Kitabu-l-iktifá_ (Append. C. ad fin.). O reinado de
+Abu-Is'hák, sitiado em Marrocos pelos almohades, foi apenas nominal.
+
+[55] Chron. Gothor. ad aer. 1125-1155.
+
+[56] Chron. Conimbric, ad aer. 1155.
+
+[57] Roder. Tolet. Histor. Arabum, cap. 49.
+
+[58] Assaleh, versão de Moura, c. 43, 44, 45.
+
+[59] Ibid. c. 40.
+
+[60] Conde, P. 3, c. 33.
+
+[61] Casiri, T. 2, p. 218, col. 2.
+
+[62] España Sagr., 21, 373.
+
+[63] O nome mais geral nos auctores arabes é _Lamtuna_; mas Ibn-Khaldun
+(Gayangos, vol. 1, p. 408 nota _a_) chama-lhe _Lamtah_ e Leão Africano
+(Casiri, vol. 2, p. 219) _Lemta_.
+
+[64] A pag. 22 do opusculo diz-se que escrever _emir_ é erro do vulgo
+dos traductores em vez de _amir_ (o caso é serio), e a pag. 11 diz-se
+que em vez de _emir-el-muminin_ eu deveria escrever _emir el-muminina_.
+Em que ficamos? Em _emir_ ou em _amir_? Quanto a _muminina_, Gayangos,
+Casiri, etc. escrevem sempre _muminin_.
+
+[65] Gayang. vers. d'Al-Makkari, Vol. 2, p. 386
+
+[66] Abulfeda, Annal. Mosl., T. 2, p. 471.
+
+[67] Versão francesa de Pellissier et Rémusat p. 192. Ibn-Khalddun
+denomina frequentemente khalifas os imperadores almohades. (Gayangos,
+Vol. 2, App. D.)
+
+[68] Assaleh. c. 45. Neste capitulo fala-se muitas vezes no _califado_ e
+no _califa_ Abdelmumen.
+
+[69] Não é só a chronica de Affonso VII que refere a queda de Aurelia:
+os Annaes Toledanos referem-na igualmente.
+
+[70] O Karttás (titulo da historia d'Abdel-halim), é propriamente,
+segundo o testimunho de Haji-Khalfah, e conforme o que se lê em diversos
+exemplares da obra, escripto por Ibn-Abi-Zara, que viveu no seculo XIII.
+Ab-del-halim parece ter sido um copista, ou talvez um abbreviador.
+Veja-se a nota do sr. Gayangos ao L. 8, c. 2 de Al-Makkari.
+
+[71] Assaleh--vers. de Moura, c. 40 p. 182.
+
+[72] Chronica Adef. Imper. Praef. et § 64.
+
+[73] Sigo a paginação do opusculo, tirado á parte depois d'impresso na
+_Revista de Ambos-Mundos_. Um exemplar delle que possuo, devo-o á
+urbanidade e benevolencia do sr. Muñoz, que teve a bondade de m'o
+remetter.
+
+[74] Em documentos do seculo XIII vemos ainda a designação de servos
+applicada aos escravos mouros. N'um testamento de 1232 são legados ao
+mosteiro d'Alcobaça _sarracenos et sarracenas servos et servas_. Doc. de
+Alcobaça na Collecç. Especial, Gav. 81 na Torre do Tombo.
+
+[75] Hist. de Port., T. 3, p. 313 da 3.^a edic.
+
+[76] Hist. de Port., T. 3.^o, p. 255 (nota 4) 274 &c.
+
+[77] Esp. Sagr., T. 40, Append. 19.
+
+[78] Doc. de Moreira na Torre do Tombo, Collecç. Especial, G. 78.
+
+[79] Por exemplo, o 1.^o bispo de Coimbra depois da restauração,
+Paterno, que, sendo bispo de Tortosa e vindo por embaixador dos
+Beni-Huds de Saragoça a Fernando-magno, foi alliciado pelo alvasir
+Sesnando para acceitar o episcopado de Coimbra, o que fez alguns annos
+depois. _Qui suprafatus episcopus_ (diz o documento do Livro Preto da Sé
+de Coimbra que refere o facto) _eo tempore Tortuosane Urbis sedem
+tenebat, sed propter societatem paganorumofficium et ordinem suum minimè
+adimplere valebat_.
+
+[80] N'uma doação de 1083 á igreja de Vouséla (Livro Preto f. 144)
+mencionam-se entre outras alfaias _una casula tiraz et una dalmadiga
+tiraz_. O _tiraz_ era um estofo precioso de fabrica sarracena, de que
+usavam as pessoas principaes entre os mussulmanos, onde se liam bordadas
+orações do culto islamitico e sentenças de koran. Quando os sacerdotes
+da igreja de Arcozelo á qual tinham pertencido aquelles paramentos, ou
+os da de Vouséla, á qual se doaram, celebrassem, revestidos com elles,
+os officios divinos, os assistentes que não ignorassem a leitura do
+arabe poderiam ir misturando as preces da igreja com as do islamismo, e
+lendo as sentenças do koran, emquanto os celebrantes repetiam os textos
+do evangelho.
+
+[81] Gothorum ordinem... tam in ecclesia... quam in palatio... statuit:
+Chron. Albeld § 58.
+
+[82] Martim Moniz (genro do conde Sesnando e seu successor no governo de
+Coimbra) doa perpetuamente a João Gosendes os bens na villa de S.
+Martinho _que ibi obtinuit Cidel Pelagis in autondo de consule domno
+Sesnando_. (Livro Preto da Sé de Coimbra f...) Aqui _atondo_ significa
+serviço (_no serviço do conde Sesnando_) ou retribuição por serviço, mas
+temporaria, por isso que os bens se doam depois hereditariamente a
+outro.
+
+Documento hoje publicado nos _Portugaliæ Monumenta Historica, Diplomata
+et Chartæ_, Pars. 1.^o N.^o 770.
+
+[83] Pag. 7.
+
+[84] Pag. 12 e 13.
+
+[85] surda aure cum inimicis summi Dei amicitias conligamus, et
+placentes eis nostrae fidei derogamus--Quotidie opprobriis et mille
+contumeliorum fascibus obrupti, persecutionem nos dicimus non
+habere--Christianos contra fidei suae socios, pro regis gratia et pro
+vendibilibus muneribus et defensione gentilium praeliantes, non
+maledicimus nec detestamus, sed religiosos pro vero Deo certantes
+anathemate percutimus et infamamus--Nonne ipsi qui videbantur columnae,
+qui putabantur ecclesiae petrae... nullo cogente... Dei martyres
+infamaverunt? Nonne pastores Christi, doctores ecclesiae, episcopi,
+abbates, presbyteres, proceres et magnates haereticos eos esse publicè
+clamaverunt?--Dùm enim circumcisionem ob improperantium ignominiam
+devitandam... cum dolore etiam non medio corporis exercemus--Et dùm
+eorum versibus et fabellis mille suis delectamus, eisque inservire, vel
+ipsis nequissimis obsecundare etiam premio emimus... ex inlicito
+servitio et execrando ministerio abundantiores opes congregantes,
+fulgores, odores, vestimentorumque, sive opum diversarum opulentiam, in
+longa tempora nobis filiisque nostris atque nepotibus praevidentes,--ob
+honores saeculi fratres cum crimine regibus impiis accusamus,.. inimicis
+summi Dei ad occidendum gregem Domini gladium revelationis porrigimus,
+ducatumque eorum et ministerium ad ipsum facinus exercendum pecuniis
+emimus.--Nonne omnes juvenes christiani, vultu decori, linguae disserti,
+habitu gestuque conspicui, gentilitia eruditione praeclari, arabico
+eloquio sublimati, volumina chaldaeorum avidissimè tractant,
+intentissimè legunt, ardentissimè disserunt?--linguam suam nesciunt
+christiani, et linguam propriam non advertunt latini, ita ut omni
+Christi collegio vix inveniatur unus in milleno hominum numero, qui
+salutatorias fratri possit rationabiliter dirigere litteras, et
+reperitur absque numero multiplex turba qui eruditè chaldaicas verborum
+explicet pompas. _Alvar. Cordub. Indicul. Lumin. passim._
+
+[86] ille dixit quomodo fuit suo avolo Ezerag de Condeixa, et quando
+filarunt mauros Colimbria fuit ille Ezerag ad Farfon ibn Abdella et
+fecit se mauro et petibit XXX.^a mauros de arragaza et metivit illos in
+matos et dixit ad illos christianos de illas villas exite gente
+benedicta quia jam pace filavi cum mauros et exibant de illos matos et
+populabant illas villas et exiebant illos mauros de illos matos et
+levarunt eos ad Sanctaren et venundabant eos et fecerunt in illos VI
+haretas de argento et inderenzarunt illos ad Cordova cum carta de Farfon
+et cum isto ganato, et petivit illos molinos de Forma et alias villas
+multas et donavit illos. Almanzor: _Lib. Testamentor. f. 76 v._
+
+[87] Na freguesia de S. Martinho, aldeia de Valloura, districto de
+Aguiar de Pena, havia 3 casaes, cujos moradores, além de outros onus,
+tinham o seguinte: _et vadunt in mandatum ad Legionem, ut sciatur per
+ipsos quid facit rex legionensis_: Inquirições de 1220: Liv. 5 de D.
+Diniz f. 118 v.
+
+[88] Pag. 19 e 20.
+
+[89] Pag. 124 e 153.
+
+[90] Pag. 12.
+
+[91] La Russie, Lettre X.
+
+[92] Pag. 15.
+
+[93] Pag. 44 e segg.
+
+[94] Hist. de Port., T. 4, pag. 336 e 482.
+
+[95] Doação de Diogo Olidiz a Tructesindo Gutierriz da igreja de S.
+Marina: «damus ad vobis illa pro plagas et feridas malas que cemus
+(_sic_) ad vestros malados, et non abuimus unde illas pectare:» Doc.
+original do mosteiro de Moreira de 1075 no Arch. Nacional.
+
+[96] Liv. 1, Tit. 7, l. 2.
+
+[97] Qui conductarium alienum occiderit dominus ejus accipiat inde
+homicidium. Similiter de suo ortolano et de suo quartario et de suo
+molendinario et de suo solarengo.
+
+[98] Et homo de Nomam qui suos homines habuerit in suis hereditatibus,
+aut sui vassali fuerint, et aliquis illum mactaverit, suus senior
+colligat inde homicidium: For. de Numão de 1130.
+
+[99] ...... peccato impediente battivimus vestro junior, nomine Froila,
+cum alios meos galiasianes... et pervenit ipse Froila de ipsa badtedura
+ad mortem, et pro ipso homicidium abui vobis ad dare in judicato quinque
+boves, et pro ipsis quinque boves incommunio vobis pro medio &. Est. de
+las Person., pag. 15.
+
+[100] Collecc. de Fuer. Municip., pag. 130 e seg.
+
+[101] Hist. de Port., Vol. 3., Nota final XVI.
+
+[102] Collecc. de Fuer. Municip., pag. 126.
+
+[103] Pag. 2.
+
+[104] Liv. 5, tit. 4, l. 13.
+
+[105] Liv. 2, tit. 4, l. 5.
+
+[106] Pag. 160
+
+[107] A confusão, na phrase, entre o colono e o predio, tomados um pelo
+outro, confusão que sobretudo se deduz claramente das singulares
+expressões _homem inteiro_, _meio homem_, etc. apparece ainda ás vezes
+nos nossos monumentos do seculo XIII. Nas Inquirições da terra de Faria,
+feitas naquella epocha, lê-se, por exemplo: «S. Leocadia de Pedrafurada:
+homines de ista collacione solebant pectare vocem et calumniam, sed modo
+non pectant nisi quinque homines et medium qui dant annuatim singulas
+gallinas, et _medius homo_ dat mediam gallinam: et ista casalia... dant
+vocem et calumniam et singulas gallinas et duos, duos solidos, tribus
+vicibus in pedida, sed _medium casale_ medium forum facit. Inquir.
+d'Affons. III, L. 7, f. 14 v.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 21| a a que | a que |
+ |#pág. 36| aggresssões | aggressões |
+ |#pág. 50| encarnada | incarnada* |
+ |#pág. 106| esse invenção | essa invenção |
+ |#pág. 137| instinctos | intuitos* |
+ |#pág. 157| desprezados | desprezadas* |
+ |#pág. 160| de | do* |
+ |#pág. 171| as creança | as creanças |
+ |#pág. 187| giria | gira* |
+ |#pág. 191| pena | penna* |
+ |#pág. 249| ?uccessores | successores |
+ |#pág. 287| da | de* |
+ |#pág. 288| prudente | precedente* |
+ |#pág. 292| conpição | condição* |
+ | | | |
+ |#nota 80| celebran | celebrantes* |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+* correcções feitas com base na errata do próprio livro.
+
+Aspas foram adicionadas nos locais onde deveriam existir: (#pág. 50:
+delles.» Para)
+
+O número da nota de rodapé #55 (#pág. 202) encontra-se omitido na obra,
+tendo sido acrescentado neste e-book.
+
+Variantes da palavra "mussulmano" foram mantidas de acordo com o
+original.
+
+
+
+
+
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+Tomo 03, by Alexandre Herculano
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+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
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+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
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+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
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+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
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+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
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+Gutenberg-tm License.
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+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
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+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
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+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
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+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
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+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
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+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
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+
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+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
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+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
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+opportunities to fix the problem.
+
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+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
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+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
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+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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