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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:54:18 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:54:18 -0700
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+<head>
+ <title>Alexandre Herculano, por Jaime de Magalhães Lima</title>
+ <meta name="Author" content="Jaime de Magalhães Lima">
+ <meta name="Publisher" content="França Amado">
+ <meta name="Date" content="1910">
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+
+
+<pre>
+
+Project Gutenberg's Alexandre Herculano, by Jaime de Magalhães Lima
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Alexandre Herculano
+
+Author: Jaime de Magalhães Lima
+
+Release Date: December 17, 2009 [EBook #30699]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALEXANDRE HERCULANO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from BibRia)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p> </p>
+
+<div style="text-align:center; border: double 4px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.2em;">JAYME DE MAGALHÃES LIMA</p>
+
+<p style="font-size: 3em;">ALEXANDRE<br>
+HERCULANO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">F. FRANÇA AMADO,</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">EDITOR. COIMBRA.</p>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div style="text-align: center;">
+
+<p>ALEXANDRE HERCULANO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">Composto o impresso na Typographia França Amado,<br>
+rua Ferreira Borges, 115&mdash;Coimbra.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">JAYME DE MAGALHÃES LIMA</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">Alexandre Herculano</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">COIMBRA<br>
+<small>F. FRANÇA AMADO, EDITOR</small><br>
+1910</p>
+</div>
+<p><span class="pn"><a name="pg_VII">{VII}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00110000">I</a></h3>
+
+<p>Um paladino illuminado e moço, intemerato no ardor da juventude e na
+exaltação da crença que nem o martyrio lograria dominar ou perverter, sonhou a
+redempção da patria desolada pelas guerras, pela fome, pela oppressão de
+tyrannias ávidas e corruptas, por hypocrisias sordidas e degradações
+monstruosas. Sonhou dias de luz e de ventura, de liberdade e de paz, de boa
+vontade entre os homens, de trabalho honesto, de civismo austero e de religião
+sublimada, formosura e virtude, o resgate da miseria desalentada e tenebrosa em
+que se afundava um povo, outrora são e justamente altivo e agora debatendo-se
+por se salvar e erguer dos abysmos em que a desventura o havia precipitado. E o
+paladino partiu a conquistar para a patria a fortuna revelada em visões de<span
+class="pn"><a name="pg_VIII">{VIII}</a></span> claridade; e armou-se soldado,
+transpondo para exercitos do mundo aspirações divinas, a todos os perigos
+sujeitando a existencia ephemera, sem que algum fosse capaz de lhe turvar a
+fé.<span class="pn"><a name="pg_IX">{IX}</a></span></p>
+
+
+
+<h3><a name="SECTION00120000">II</a></h3>
+
+<p>Combateu. Foi vencido. Em vez de palmas de triumpho, recebeu as penas do
+exilio. Desterrado da «terra cara da patria», que saudou entre a dôr, verteu
+lagrimas de «saudade longiqua sobre as ondas do mar irriquieto», chorando o</p>
+
+
+<blockquote>
+ «Berço do seu nascer, sólo querido,<br>
+ Onde cresceu e amou e foi ditoso,<br>
+ Onde a luz, onde o céu riem tão meigos,<br>
+ Seu pobre Portugal..................<a name="tex2html1"
+ href="#foot451"><sup>[1]</sup></a> </blockquote>
+
+<p>Proscripto e errante, entre as brumas do norte,</p>
+
+
+<blockquote>
+ «.......................as auras puras,<br>
+ O murmurar do arroio, o canto da ave,<br>
+ O fremito do bosque, o grato aroma<br>
+ E o vistoso matiz do ameno prado,<br>
+ O lago quedo a reflectir a lua,<br>
+ As montanhas tão ricas de mysterios,<br>
+ De éccos, de sombras, de tristezas santas:»<span class="pn"><a
+ name="pg_X">{X}</a></span></blockquote>
+
+<p style="text-indent: 0;">isso tudo que eram encantos da sua terra, trazia-lh'o ante os olhos,
+cruelmente, a memoria inexoravel<a name="tex2html2"
+href="#foot452"><sup>[2]</sup></a>.</p>
+
+
+<blockquote>
+ «..................A dôr está no coração do profugo<br>
+ Como um cadaver hirto quando espera<br>
+ De noite, em leito nú, que á tumba o desçam.<br>
+ A dôr aqui é gelida, immutavel;<br>
+ Pousa em labios alheios que sorriem<br>
+ E até em sorrir nosso; está sentada<br>
+ Ao pé do umbral do tecto que nos cobre,<br>
+ Embebida na enxerga do repouso,<br>
+ Entranhada no pão que nos esmolam,<br>
+ Enroscada qual cobra peçonhenta<br>
+ No nodoso bordão do peregrino,<br>
+ E em toda a parte e em todo o tempo é nossa.»<a name="tex2html3"
+ href="#foot453"><sup>[3]</sup></a> </blockquote>
+
+<p>Embora</p>
+
+
+<blockquote>
+ «Sob as azas do amor abrigue o Eterno<br>
+ Homens, nações e o mundo; o amor por elle<br>
+ Nasce, cresce, avigora-se enredado<br>
+ Com os beijos da mãe, com sorrir amigo<br>
+ De nossos paes e irmãos, ensina-o a tarde,<br>
+ O por do sol da nossa terra, o choupo<br>
+ Da nossa fonte, o mar que manso geme,<br>
+ Nosso amigo da infancia, em praia amiga.»<a name="tex2html4"
+ href="#foot454"><sup>[4]</sup></a><span class="pn"><a
+ name="pg_XI">{XI}</a></span> </blockquote>
+
+<p>Soffreu o supplicio da revolta impotente, algemada em prisões inexpugnaveis,
+e entenebreceu-lhe o espirito a turbação negra da impiedade e da duvida, a
+derrota da fortaleza do proprio coração, mais cruel para o crente do que a
+ruptura de todos os laços d'affecto imposta pela violencia estranha. Para o
+proscripto, quando tudo o que amava se converteu em sombra, a cada passo
+evocada pela lembrança desperta em mágoas,</p>
+
+
+<blockquote>
+ «Quando em confuso passado apenas surge<br>
+ Qual fumo tenuissinio ou phantasma<br>
+ Á meia noite visto, á luz da lua,<br>
+ Ao longe, entre arvoredo, quando o sopro<br>
+ Da tempestade assobiou nas trevas<br>
+ Pela antena da náu do vagabundo;<br>
+ Quando a dôr sua em olhos d'ente vivo<br>
+ Não achou uma lagrima piedosa,<br>
+ E nos seus proprios são vergonha as lagrimas,<br>
+ Quando, se 'inda as derrama, ellas gotejam<br>
+ Não sobre seio que as esconda e enxugue,<br>
+ Mas sobre a vaga que se arqueia, e passa<br>
+ Sem as sentir; então o soffrimento,<br>
+ Filho de longo padecer, converte<br>
+ O coração do desditoso em marmore,<br>
+ Onde nunca penetra um puro affecto,<br>
+ Onde o nome de Deus sossobra e morre<br>
+ Entre o bramir de maldições e pragas.»<a name="tex2html5"
+ href="#foot455"><sup>[5]</sup></a><span class="pn"><a
+ name="pg_XII">{XII}</a></span> </blockquote>
+
+<p>Ao rigor da desventura juntou-se a agonia do desfallecimento. Não a morte!
+Porque de toda a oppressão o sonho renascia. Para os loucos d'amor que por amor
+combatem, os golpes da fatalidade ateiam a exaltação em vez de a suffocarem, e
+nem o nome de Deus jámais «sossobra e morre», nem as pragas e maldições
+respondem aos flagellos da desgraça, sem que logo as condemne e cale uma outra
+voz intima e soberana. Fortificam-se nas provações. Amarguras da alma e
+mortificações do corpo, pobreza extrema, abandonno sem lenitivo, o opprobrio da
+derrota, o insulto dos vencedores, torturas dos inimigos e a altivez dos ricos,
+em vão passaram pelo vencido. Perdido na solidão de ilhas inhospitas para o seu
+coração a trasbordar de tristeza, não houve adversidade que lhe vergasse o
+animo, inflexivel na firmeza de combater e na confiança da victoria.</p>
+
+<p>E cantava, o peregrino! As tribulações incendiavam-lhe o genio. Esse mesmo
+sangue denegrido pelas pedras contundentes d'asperos caminhos creava e
+alimentava flores altas e resplendentes de celeste pureza. O peso das armas não
+partiu as cordas da lyra. Ia occulta e guardada no seio, murmurando de continuo
+seus gemidos e preces. Nem o fragor das batalhas e as blasphemias atrozes<span
+class="pn"><a name="pg_XIII">{XIII}</a></span> de luctas inhumanas lhe
+perturbariam a harmonia religiosa. No soldado habitava o poeta, e não foi
+necessario que o soldado pousasse o fusil, para que o poeta deferisse
+apaixonadamente a voz grandiloqua.</p>
+
+<p>Advinhava o «dia de ventura» que o destino lhe reservava.</p>
+
+<p>O tempo justificou-lhe a aprehensão. Pela audacia heroica de guerreiros
+destemidos, a que o sonhador foi juntar-se, pelejando as suas duras pelejas, os
+desterrados voltaram «ás plagas da saudade e á terra dos seus sonhos», e de
+novo avistaram «os gestos tão lembrados, os campos tão risonhos, o tecto amigo
+da infancia, a fonte que murmura, o céu puro da patria», que no exilio haviam
+chorado, consumidos de saudade.<span class="pn"><a
+name="pg_XIV">{XIV}</a></span></p>
+
+
+
+<h3><a name="SECTION00130000">III</a></h3>
+
+<p>Ah, a sua patria! A sua desvairada patria!... O poeta imaginava trazer-lhe
+legiões angelicas para a abençoarem d'infinitas bençãos, e trazia-lhe apenas um
+bando de homens, muitos quasi santos, todos denodados, e muitos outros fracos
+porque á intrepidez do braço não correspondia a generosidade do animo. E o
+paladino ingenuo viu rebentar d'esse mesmo sólo que a imaginação lhe cobrira de
+pomares umbrosos e doces, paradisiacos, os fructos mortiferos de seivas
+envenenadas. A furia das ambições agitadas, a desordem e o egoismo vilmente
+triumphantes, o delirio das obsessões afogueiadas dos fanaticos, ondas de
+impiedade céga e estupida, o fraco desprotegido contra o forte e a victoria
+degenerando em ferocidade, o misero recalcado na miseria pela cobiça infrene do
+opulento, a virtude insultada, o escarneo e o roubo, tudo quanto ha de infimo
+nas perversões humanas, tudo o poeta viu manchando o</p>
+
+
+<blockquote>
+ «Berço do seu nascer, sólo querido,<br>
+ Onde cresceu e amou e foi ditoso,<br>
+ Onde a luz, onde o sol riem tão meigos<br>
+ Seu pobre Portugal!................»<span class="pn"><a
+ name="pg_XV">{XV}</a></span> </blockquote>
+
+
+<h3><a name="SECTION00140000">IV</a></h3>
+
+<p>Perante «as vagas d'esse mar de abjecção chamado o vulgo»<a name="tex2html6"
+href="#foot456"><sup>[6]</sup></a>, que assolavam a querida patria, cobrindo-a,
+apodrecendo-a e arrastando-a pelas praias turbidas da cobiça, não se quedou,
+desalentado e mudo, o sonhador. Não se «sumiram os cantos que lhe transudavam
+da alma», por se encontrar «n'um seculo sem vida, sem virtude e sem fé, em que
+desabavam as crenças todas do passado, e era sonho a constancia e o amor»<a
+name="tex2html7" href="#foot457"><sup>[7]</sup></a>. Partida a espada, agora
+inutil porque os seus combates haviam cessado, o apostolo surgiu na tunica
+branca e rude da sua austeridade; e foi-se a missionar sua missão fraterna
+d'affecto e de grandeza, piedoso e confiado, empunhando um facho deslumbrante,
+a mostrar-nos a estrada por onde ha longos seculos vinha caminhando o povo
+eleito do seu genio, descerrando-nos os páramos da nobreza impoluta a que
+quereria conduzil-o, renovando-o á sua imagem, renascendo-o nos seus
+translucidos sonhos.<span class="pn"><a name="pg_XVI">{XVI}</a></span></p>
+
+<p>Então, d'entre aquelles mesmos que elle amava e pelos quaes padecera, muitos
+lhe voltaram as costas, alguns lhe cuspiram injurias e anethemasiram-no, outros
+por timidez o abandonaram, e todos assim por diverso modo desconheceram ou
+negaram a luz que lhes trazia.</p>
+
+<p>Mas elle venceria, na força invencivel dos fortes, alimentada d'emanações
+divinas. Pagavam-lhe os homens com ignominia e deserção o amor que prodigamente
+lhes tributava?!... O chão da sua patria o receberia, aquelle que todo o alento
+retribue e a nenhum mente. Resurgiria em lirios a formosura que se mirrava sob
+o halito pestilento de paixões funestas; o amor que o pó das baixezas occultava
+e repellia no rolar de suas nuvens escuras, pousaria na frescura salutar dos
+campos reverdecidos pelo suor do ermita.<span class="pn"><a
+name="pg_XVII">{XVII}</a></span></p>
+
+
+<h3><a name="SECTION00150000">V</a></h3>
+
+<p>Distante dos homens para melhor os servir dando-lhes exemplo, foi o
+infortunado sonhador offerecer seu esforço e fadigas a um pedaço de terra que
+encontrou inculta, engrinaldando-a de rosas e nutrindo-a de cuidados, para que
+de seu seio uberrimo dimanasse a delicia do perfume, o refrigerio da sombra, a
+abundancia do pão e consolações do espirito. A enxada do cavador não se
+mostraria inferior, para remir de penas a humanidade, á bayoneta do soldado e
+ao verbo inspirado do apostolo; a todos santificaria igualmente o calor do
+coração que os ungia.</p>
+
+<p>Agora, a recompensa era certa. Uma vez ao menos sentiria a realidade igual
+ao sonho. Antecipadamente o sabia, d'uma certeza intima, absoluta. Quando ainda
+no peito lhe borbotavam vigorosas as esperanças de regeneração dos homens pelas
+luctas e combates, já entrevia as bençãos ineffaveis da solidão, já o seu
+enlevo se lhe mostrára. E apetecendo-a, cantava-a, implorando da generosidade
+do destino a concessão d'essa magnifica e incomparavel<span class="pn"><a
+name="pg_XVIII">{XVIII}</a></span> riqueza, e imaginando, em um lance de
+antegozo e deleite, a plenitude de vida que ella importava para o seu divino
+anceio. Muito cedo a invocou e adorou, antes de a encontrar e possuir:</p>
+
+
+<blockquote>
+ «...........oh, dae-me um valle<br>
+ Onde haja o sol da minha patria, e a brisa<br>
+ Matutina e da tarde, e a vinha e o cedro,<br>
+ E a larangeira em flôr, e as harmonias<br>
+ Que a natureza em vozes mil murmura<br>
+ Na terra em que eu nasci, embora falte<br>
+ No concerto immortal a voz humana,<br>
+ Que um ermo assim povoará meus dias»<a name="tex2html8"
+ href="#foot458"><sup>[8]</sup></a>. </blockquote>
+
+<p>Rendido á visão que toda a vida o acompanhou, correu a abraçal-a.</p>
+
+<p>No seu bemdito captiveiro viveu os derradeiros dias e n'elle morreu, curadas
+as feridas do mundo nos balsamos da natureza.</p>
+
+<p>Amou sempre! A robustez inviolavel do coração havia de salval-o de toda a
+tormenta, retemperando-o continuamente em estos de amor a Deus e aos homens,
+por fim consubstanciado na terra mãe e nos filhos dilectos do seu doce ventre,
+a seára, a rosa e a arvore.<span class="pn"><a name="pg_XIX">{XIX}</a></span>
+</p>
+
+
+
+<h3><a name="SECTION00160000">VI</a></h3>
+
+<p>Esse paladino e sonhador, que tão gloriosa orbita seguiu e, perfazendo-a,
+nella consumou a existencia, tem na historia de Portugal o nome de Alexandre
+Herculano.<span class="pn"><a name="pg_XX">{XX}</a></span></p>
+
+
+
+<h1><a name="SECTION00200000">FASCINAÇÃO DO ERMO</a></h1>
+
+<p><span class="pn"><a name="pg_1">{1}</a></span></p>
+
+
+
+<h2><a name="SECTION00210000">FASCINAÇÃO DO ERMO</a></h2>
+
+<p>Uma apparente deserção da cidade, em que vivêra tantos annos, para se
+encerrar no retiro d'um tranquillo casal rustico em Val-de-Lobos, a dissolução
+abrupta de multiplicadas relações mundanas, litterarias e politicas,
+d'affectos, de commercio intellectual e de velhos habitos, serena e
+deliberadamente substituidos pelo isolamento e rudeza do aldeão, no seu aspecto
+e modo de ser externo, pois, sem embargo, no intimo não cessava nem podia
+cessar a superior distincção do espirito; esse acto de estranha energia, que
+alguns julgaram orgulho e desprendimento irritado, e outros tiveram por enigma
+indecifravel, foi o facto capital da vida de Alexandre Herculano. Os que na sua
+existencia anterior se tornaram notaveis e parecem designar marcos da jornada e
+os que se seguiram a esse golpe de soberano arrojo, não parecem mais em ultima
+conjuncção do<span class="pn"><a name="pg_2">{2}</a></span> que a experiencia,
+primeiro, e depois a affirmação definitiva d'uma individualidade, homogenea na
+substancia e invariavelmente identica no movimento e nas tendencias, logica,
+seguida e firme, producto e revelação d'um caracter inalteravel.<span
+class="pn"><a name="pg_3">{3}</a></span></p>
+
+
+
+<h3><a name="SECTION00220000">I</a></h3>
+
+<p>A solidão será eternamente o refugio dos fortes, d'aquelles que as
+tempestades do mundo não affeiçoaram á sua obra de descrença, de mesquinhez, de
+destruição, d'aviltamento, de frouxidão desalentada, de duvida resignada e de
+contentamento saciado nas commodidades d'uma vulgarissima animalidade e na
+trivial vaidade dos instinctos primitivos. Prophetas, santos e heroes, obscuros
+crentes e almas singelas, innumeraveis espiritos d'eleição que o isolamento
+atráe, conquista e salva de tormentos, dia a dia vão renovando essa perpetua
+pagina da historia da humanidade, que fórma alguma de civilisação pôde apagar
+ou corrigir.</p>
+
+<p>«A nossa alma é progressiva, nunca se repete, mas em todo o acto procura a
+realisação d'um todo novo e mais bello»<a name="tex2html9"
+href="#foot459"><sup>[9]</sup></a>, mais<span class="pn"><a
+name="pg_4">{4}</a></span> proximo da revelação intima: e assim o vidente se
+vae isentando pouco a pouco, no correr da existencia, de tudo o que constrange,
+e perturba e offusca a aspiração, para mais de perto se lhe unir e a
+contemplar. Pela propria necessidade da missão a que o destino o votou,
+gradualmente se desprende das cadeias que lhe tolhiam a liberdade d'expansão.
+</p>
+
+<p>A critica, na interpretação e auctorisado exame d'um extraordinario e grande
+mestre, cujo saber e elevação foram dignos d'aquelle a que honrou,
+analysando-lhe a obra portentosa e prestando culto ardente ao seu caracter, viu
+no «solitario de Val-de-Lobos», como em respeitoso carinho o cognominou, um
+suicida. «Quando as feridas, as perseguições, os ataques, os ultrages são
+profundos e agudos como os que expulsaram da politica&mdash;e tambem das
+lettras,&mdash;Alexandre Herculano, o stoico, repetindo a historica phrase do
+Africano, suicida-se. É então que vivamente nasce, pois só então o caracter
+apparece com toda a sua pureza. Não o mata o scepticismo, mata-o o excesso
+d'uma imperfeita doutrina. Não descrê, e é por cada vez mais acreditar em si
+que foge a um mundo rebelde a ouvir a verdade. A morte não é pois um acto de
+desespero, é um acto de fé. Só a differença dos tempos fez com que no suicidio
+não<span class="pn"><a name="pg_5">{5}</a></span> entrasse o ferro, como entrou
+nos suicidios stoicos da antiguidade»<a name="tex2html10"
+href="#foot460"><sup>[10]</sup></a>.</p>
+
+<p>Porventura seria porém mais justo ou, pelo menos, mais exacto considerar a
+attitude do ultimo periodo da vida d'Alexandre Herculano, não propriamente um
+suicidio, a morte voluntaria d'uma parte da sua individualidade, mas o perfeito
+remate, o termo ultimo da evolução natural do seu espirito desde o começo
+promettida, contida nas primeiras confissões da sua consciencia. Com o stoico
+coincidia no mesmo peito o poeta; e os poetas não se suicidam, a não ser por
+pressão de desordem physiologica grave ou no desvairamento de uma surpreza. O
+poder de crear, sollicitando-lhes de continuo a actividade de que carecem e são
+avidos, salva-os da tentação do anniquilamento; das visões que se esvaem e,
+perdendo-se, os deixam prostrados, reanimam-nos as que sem cessar se geram e de
+novo os inflammam: e caminham, caminham infatigaveis, d'amor em amor, tão
+depressa succumbidos como de subito arrebatados por energias mysteriosas e
+immortaes. Nem Camões, nem Dante, nem Petrarca se suicidaram, embora a dôr a
+nenhum d'elles houvesse poupado.<span class="pn"><a name="pg_6">{6}</a></span>
+</p>
+
+<p>Jámais se penetrará inteiramente, porque o genio sempre guarda para si certa
+essencia transcendente dos seus segredos, a natureza do impulso intimo que
+conduziu Herculano ao ermiterio de Val-de-Lobos; se foi desgosto do mundo e
+protesto contra as suas vilanias, se a seducção da paz dos campos e rendição
+aos seus encantos, se uma libertação que as exigencias do caracter austero ha
+muito reclamavam, se a doçura de bençãos que a terra prodigamente lhe offerecia
+e todo o seu ser lhe pedia. Sem duvida, diversos sentimentos se conjugaram na
+mesma tendencia, mas nas suas palavras ha signaes claros de que a corrente
+d'affectos teria prevalecido sobre rigores de condemnação; não será muito
+desvairada suspeita julgar que amou tanto as arvores e as rosas dos seus
+estreitos canteiros como a <em>Historia de Portugal</em> ou a promulgação de
+leis justas que engrandecessem a patria. Para elle, como para tantos outros da
+sua feição e estatura, até a tristeza e mágoa se convertem em belleza, pela
+serenidade de que as revestem, pela religiosa conformidade com que as acceitam
+e pelo objecto em que as transformam. O que nos fracos redunda em estereis
+contracções torturadas de desespero, é nos fortes o ensejo de subirem a maior
+altura.<span class="pn"><a name="pg_7">{7}</a></span></p>
+
+<p>Eurico, que Alexandre Herculano modelou cedo e cedo amou, «era uma d'estas
+almas ricas de sublime poesia, a que o mundo deu o nome de imaginações
+desregradas, porque não é para o mundo entendel-as»<a name="tex2html11"
+href="#foot461"><sup>[11]</sup></a>. «O povo rude de Carteia não podia entender
+esta vida d'excepção, porque não percebia que a intelligencia do poeta precisa
+de viver num mundo mais amplo do que esse a que a sociedade traçou tão
+mesquinhos limites». «Ensinado pelas largas horas de intima agonia, esmagado o
+seu coração pela soberba dos homens, Eurico percebera, emfim, claramente que o
+christianismo se resume em uma palavra&mdash;fraternidade. Sabia que o Evangelho é
+um protesto ditado por Deus, para os seculos, contra as vãs distincções que a
+força e o orgulho radicaram n'este mundo de lodo, d'oppressão e de sangue;
+sabia que a unica nobreza é a dos corações e entendimentos que buscam erguer-se
+para as alturas do céu, mas que essa superioridade real é exteriormente humilde
+e singela»<a name="tex2html12" href="#foot462"><sup>[12]</sup></a>. «Os
+virtuosos» não perceberiam os poemas em que o poeta lançava torrentes
+d'amargura, «como, tranquilla a consciencia e repousada a vida,<span
+class="pn"><a name="pg_8">{8}</a></span> um coração póde devorar-se a si
+proprio, e os máus não criam em que o sacerdote, embebido unicamente em suas
+esperanças credulas, em suas cogitações d'além tumulo, curasse de males e
+crimes que roiam» a patria. Ignorariam a colera e maldições que podem dimanar e
+dimanam dos prophetas do perdão e do amor. «Era por isso que o poeta escondia
+as suas terriveis inspirações. Mostruosas para uns, objecto de ludibrio para
+outros, n'uma sociedade corrupta em que a virtude era egoista e o vicio
+incredulo, ninguem o escutaria, ou, antes, ninguem o entenderia»<a
+name="tex2html13" href="#foot463"><sup>[13]</sup></a>. «A força moral da nação
+tinha desapparecido e a força material era apenas um phantasma; porque, debaixo
+das lorigas dos cavalleiros e dos saios dos peões das hostes, não havia senão
+animos gelados, que não podiam aquecer-se ao fogo do santo amor da terra natal.
+Com a profunda intelligencia do poeta, o Presbytero contemplava este horrivel
+espectaculo d'uma nação cadaver e, longe do bafo empestado das paixões
+mesquinhas e torpes d'aquella geração degenerada, ou derramava sobre o
+pergaminho, em torrentes de fél, d'ironia e de colera a amargura que lhe
+trasbordava do coração ou, recordando-se dos<span class="pn"><a
+name="pg_9">{9}</a></span> tempos em que era feliz porque tinha esperança,
+escrevia em lagrimas os hymnos de amor e de saudade»<a name="tex2html14"
+href="#foot464"><sup>[14]</sup></a>. No coração de Eurico, que parecêra morto,
+porque havia procurado o ermo, o enthusiasmo e a virtude nem um só instante se
+tinham todavia apagado; um surdo labor da sua alma perpetuamente os alimentava.
+Apenas mudavam as vidas a que se applicavam e consagravam. O vulgo, na inercia
+propria do acanhamento do seu espirito, não podendo alcançar os voos do
+sonhador, desconhece-os e injuria-os, reputando-os insensatez, delirio, uma
+dissipação inexplicavel de faculdades preciosas; incapaz de prender o genio no
+circulo estreito dos seus interesses, imagina que o illuminado os despreza e
+atraiçoa, desamando-o, quando o viu elevar-se e perder-se n'uma atmosphera
+inaccessivel á debilidade commum das forças mortaes. O mundo nunca poderia
+entender plenamente o affecto que, «vibrando-lhe dolorosamente as fibras do
+coração», arrastou Eurico para a solidão, «quando os outros homens nos povoados
+se apinhavam á roda do lar acceso e fallavam das suas mágoas infantis e dos
+seus contentamentos d'um instante»<a name="tex2html15"
+href="#foot465"><sup>[15]</sup></a>.<span class="pn"><a
+name="pg_10">{10}</a></span></p>
+
+<p>De longa data, Herculano traçára a propria carreira na contemplação do filho
+do seu genio. Porque o conflicto da inspiração e do mundo é e será o mesmo,
+irreductivel, eternamente, <em>heri et hodie, ipse et in secula</em>. Se a
+inspiração veio alojar-se n'um pobre corpo humano, deixae-o, não cuideis mais
+do seu destino. É só o tempo de percorrer a via dolorosa pela qual tem de
+seguir seus fados. O termo da jornada está previsto, e será o unico que á sua
+condição convém, o isolamento e o espaço que a intensidade de irradiação
+reclama, provoca e determina nos astros ou nos prophetas, nas parcellas minimas
+da luz da materia ou do espirito.</p>
+
+<p>Alexandre Herculano foi para Val-de-Lobos, não para morrer e sepultar-se
+ainda quente das palpitações do seu sangue, mas para viver inteiramente sua
+vida; não para deliberada cessação de actividade, mas para a sua mais perfeita
+expansão e mais lidima e bella applicação. Apenas eliminava relações e cousas
+que o atormentavam, estorvando-o de se manter continuadamente, face a face, na
+presença da aspiração intima. Entrou no claustro que a seu modo edificou,
+naturalmente porque os das antigas communidades estavam prostituidos e em
+ruinas. Não lhe regateiára o mundo, atravez das injurias, as lisonjas que<span
+class="pn"><a name="pg_11">{11}</a></span> concede á inanidade vaidosa com a
+mesma insensatez e inconsciente impudor que usa na calumnia, na inveja e na
+flagellação do merecimento. Se não foi amortalhado em trajo de grande do reino,
+recamado de chaparia, foi porque constantemente repelliu de si esses symbolos
+de grandeza emprestada, cobrindo o mais das vezes uma real mesquinhez. O premio
+que buscava dos seus combates, aquelle que o alegraria, se os estranhos lh'o
+houvessem dado, era a communhão na sua fé, de que contrariedade alguma o
+arrancaria, e o fortalecimento nas suas virtudes, em cuja propagação se lhe
+figurava uma nova patria, rejuvenescida para a gloria. E como essa communhão e
+essas virtudes não encontrou, senão em raros companheiros, desventurados como
+elle, e da outra, da communhão na sordidez em que os demais folgavam, estava
+excluido por aversão da sua alma, viu-se expulso do banquete, e foi
+alimentar-se ao longe, n'um recanto obscuro e impoluto, do pão grosseiro e
+bemdito da singeleza incorruptivel, a guardar o sacrario que Deus lhe confiára.
+«Cantor da solidão, foi assentar-se junto do verde cespede do valle, e a paz de
+Deus consolava-o do mundo»<a name="tex2html16"
+href="#foot466"><sup>[16]</sup></a>.<span class="pn"><a
+name="pg_12">{12}</a></span></p>
+
+<p>«Consolava-o», disse o poeta candidamente, imaginando carecer de consolo ao
+deixar o mundo.</p>
+
+<p>Não era assim. Os resplendores enganosos do mundo por que passou, sómente
+para os aborrecer e desprezar, é que nunca poderiam furtal-o á fascinação do
+ermo. Na verdade, emquanto habitou esse mundo de torpezas é que necessitava
+compensação da violencia imposta ás suas tendencias e caracter, e compensação
+não alcançou.</p>
+
+
+<blockquote>
+ «Céu livre, terra livre, e livre a mente,<br>
+ Paz intima, e saudade mas saudade<br>
+ Que não dóe, que não mirra e que consola<br>
+ São as riquezas do ermo, onde sorriem<br>
+ Das procellas do mundo os que o deixaram»<a name="tex2html17"
+ href="#foot467"><sup>[17]</sup></a>. </blockquote>
+
+<p>Essas riquezas abandonára o apostolo, para partilhar com os homens dos bens
+que no seu peito abundavam. Os homens desconheceram-nos. Para que pois
+privar-se de beneficios preciosos, sem proveito do sacrificio para os
+desvairados no tropel da ruindade impenitente?!... Não ignorava, quando desceu
+aos mercados da cidade, nem a fortuna incomparavel da solidão nem a profundeza
+do esqualido tremedal onde ia arriscar a saúde do corpo e<span class="pn"><a
+name="pg_13">{13}</a></span> a paz do espirito, para estender a mão aos
+desventurados que n'elle se afogavam<a name="tex2html18"
+href="#foot468"><sup>[18]</sup></a>; mas incitava-o e arrebatava-o a esperança
+de levar opulentissimos thesouros aos estranhos que tanta miseria soffriam.
+Destroçada a esperança pelos repetidos vendavaes da desillusão, voltava ao ermo
+a que jurára fidelidade antes<span class="pn"><a name="pg_14">{14}</a></span>
+de se empenhar no combate<a name="tex2html19"
+href="#foot469"><sup>[19]</sup></a>. Ao fim de incerta jornada, o peregrino
+vinha cumprir a promessa que ao partir fizera nos altares da sua crença, da
+verdadeira patria dos seus sonhos, onde tinha em recompensa a liberdade.</p>
+
+
+<blockquote>
+ «Feliz ou infeliz, triste ou contente<br>
+ Livre o poeta seja.»<a name="tex2html20" href="#foot470"><sup>[20]</sup></a>
+</blockquote>
+
+<p>De facto, libertou-se. E, libertando-se, em toda a sua magestade se mostrou,
+na atmosphera a que anciosamente aspirava, fóra d'aquell'outra que o
+desfigurava pela incessante coacção das suas energias caracteristicas.<span
+class="pn"><a name="pg_15">{15}</a></span></p>
+
+
+
+<h3><a name="SECTION00230000">II</a></h3>
+
+<p>Pouco indulgente com a sensualidade, porventura deshumanamente rigoroso com
+os seus impulsos, a solidão e a vida rural não seriam para Alexandre Herculano
+isenção de fadigas physicas e desenlace d'aspirações naufragadas, adormecimento
+de mágoas e repouso n'uma animalidade cuidada, bem mantida, satisfeita e
+robusta. Não seriam uma festa lauta dos sentidos, por demais castigados da
+escuridão da cidade, mas uma devoção gratissima do espirito desonerado de
+temporalidades que o mortificavam, tão pesadas pelo tumulto e pressão
+ininterrompida, como estereis pela inanidade das consequencias moraes. Amando o
+ermo e procurando-o, não o chamava a delicia pagã; se tanto lhe queria, era por
+obediencia religiosa, porque alli melhor interpretava e cumpria a vontade do
+Senhor. O sentimento da alegria e equilibrio no pulsar livre da natureza, a
+contemplação da harmonia e belleza das formas que por si vivem como divindades
+independentes e distinctas, só por excepção prenderiam Herculano. É um
+accidente<span class="pn"><a name="pg_16">{16}</a></span> raro, muito raro, que
+elle se quede com sympathia a escutar nymphas do rio, dryades da floresta e as
+felizes gentes dos reinos de Apollo. Por duvida teria condescendido em attentar
+nas crueldades e exaltações orgiacas das estações e dos astros. Se por elle
+passaram faunos e bacchantes ou lhes suspeitou os folguedos, voltou o rosto
+descontente; os olhos habituados a luz divina, vinda dos céus, e outra não
+procuravam, não supportariam fumo e labaredas, ateiados com o sangue e erguidos
+dos infernos em que penam condemnados. Mal sorriu ao carvalho magestoso que
+encontrou em meio do valle.</p>
+
+
+<blockquote>
+           «Na primavera<br>
+ Vinham os moços adornar-lhe o tronco<br>
+ De capellas cheirosas de boninas,<br>
+ E coreias gentis traçar-lhe em roda,»<a name="tex2html21"
+ href="#foot471"><sup>[21]</sup></a>; </blockquote>
+
+<p>e o quadro captivou-o um rapido instante. Que encanto de formosura, perfume
+e gentileza e côr! Outros eram, porém, os enlevos do poeta, que não esses,
+candidos, sem duvida, na sua graça, mas fugitivos e pereciveis, de perto
+vigiados pela enfermidade e pela corrupção. A fecundidade da imaginação, a
+riqueza de conhecimentos e a expontanea intensidade<span class="pn"><a
+name="pg_17">{17}</a></span> da attenção todas as relações dos seres e todos os
+estados da alma lhe representariam, d'ascetismo ou de expansão; mas o
+arrebatamento religioso não lhe consentia identificar-se senão com aquelles que
+traduzissem nos mais elevados modos o dominio e amor d'essa vontade omnipotente
+e omnipresente, de summa sabedoria, que tudo ordenava e a quem tudo obedecia,
+na verdade Deus e Senhor, como o poeta lhe chamou, invocando-a para o guiar e
+consolar, deus pela magestade e virtude infinita, e senhor pelo imperio sem
+limites na vida do universo.</p>
+
+<p>«Ante o olhar do Senhor vacilla a terra!»<a name="tex2html22"
+href="#foot472"><sup>[22]</sup></a>. E Alexandre Herculano renunciaria, por
+ignoto impulso, ao seu quinhão nas incertezas vacillantes da terra, para mais
+firmemente receber o olhar do Senhor, que era eterno e por isso lhe insinuava
+uma eternidade, inflamando-o no seu fulgor. A abdicação salval-o-ia da
+degradação inherente aos timidos e fracos que, acorrentando-se á caducidade das
+cousas mortaes, com ellas se afundam e desapparecem, nenhumas outras de sua
+substancia infinitas tendo visto ou amado, além d'essas mesquinhas e
+passageiras nas quaes se absorveram.<span class="pn"><a
+name="pg_18">{18}</a></span></p>
+
+<p>«Entendimento bronco», tomando com adoravel candura por aspereza a fortaleza
+ingenita, «lançado em seculo fundido na servidão atraviada de goso, cria que
+Deus era Deus e os homens livres»<a name="tex2html23"
+href="#foot473"><sup>[23]</sup></a>. Aos infieis clamava, para os defender de
+perdição, que «entrassem no templo e não temessem aquelle Deus que os labios
+negam e o coração confessa»<a name="tex2html24"
+href="#foot474"><sup>[24]</sup></a>; «não escarnecessem do que em Deus
+confiou»<a name="tex2html25" href="#foot475"><sup>[25]</sup></a>. Ahi se
+isentavam da morte, porque «o justo, chegando á meta extrema que nos separa da
+eternidade, transpõe-na sem temor e exulta em Deus»<a name="tex2html26"
+href="#foot476"><sup>[26]</sup></a>.</p>
+
+<p>O apostolo tinha jurado a sua fé. «Louvaria o Eterno!» Embora humilde
+reconhecesse que os seus hymnos d'amor não eram dignos d'aquelle a que adorava,
+embora vis hypocritas, mentindo, o Eterno pintassem como um tyranno barbaro,
+para assim dominarem o vulgo cégo e insano, o poeta passaria tranquillo entre
+os abrolhos dos males da existencia, guardado por essa Providencia, a cuja
+misericordia de todo se entregava<a name="tex2html27"
+href="#foot477"><sup>[27]</sup></a>.<span class="pn"><a
+name="pg_19">{19}</a></span></p>
+
+
+
+<h3><a name="SECTION00240000">III</a></h3>
+
+<p>Antes porém da libertação extrema, o crente teria de experimentar as
+tentações da impiedade e n'esse combate succumbir ou armar-se, invencivel, para
+o ultimo triumpho.</p>
+
+<p>Alexandre Herculano passou pelo baptismo pessimista. Não lhe poupou o
+destino o transe supremo, que é provação da grandeza, e perante o qual
+succumbiram ou se desvairaram nobilissimos espiritos do seu tempo. Sómente o
+soffre quem entreviu reinos sublimados de pureza e, para os alcançar, lançou o
+vôo que invariavelmente o mundo corta, na sua miseria eterna, com crueldade e
+escarneo. E então a dôr é tão aguda e funda que ainda os mais fortes muita vez
+lhe preferiram a rendição total e ultima desgraça, entregando-se, exultando, a
+quem os remisse do supplicio e lhes desse a paz, anjo ou demonio que se lhes
+apresentasse.</p>
+
+<p>A «doce mãe do repouso» com o seu «amoroso aspecto», a «calumniada morte»
+tentou Alexandre Herculano, como sempre, invariavelmente, tentou quantos se
+enlevaram<span class="pn"><a name="pg_20">{20}</a></span> em aspirações santas
+e, «sentindo-as morrer no fundo do coração», calcadas por «quanto ha vil no
+mundo», sonharam libertar-se do conflicto terrivel das visões celestes com as
+realidades terrenas. Tambem elle soffreu os negros anceios de anniquilamento
+que essa angustia provoca; tambem lhe entonteceu os sentidos a vertigem dos
+abysmos da inconsciencia, para se resgatar de contradicções intimas, pungentes,
+em que n'uma agonia infinda a negação das cousas respondia ás affirmações da
+alma, satanica e desapiedadamente, com irrisão e ludibrio. E implorou então o
+soccorro da «peregrina eterna» que, sendo temida em seu mysterio, a elle,
+infeliz e naufrago, lhe promettia a redempção de todo o mal:</p>
+
+
+<blockquote>
+ «Oh morte, amiga morte! É sobre as vagas<br>
+        Entre escarceus erguidos<br>
+ Que eu te invoco, pedindo-te feneçam<br>
+        Meus dias aborrecidos:<br>
+ Quebra duras prisões que a natureza<br>
+        Lançou a esta alma ardente;<br>
+ Que ella possa voar por entre os orbes<br>
+        Aos pés do Omnipotente.<br>
+ <br>
+ Doce mãe do repouso, extremo abrigo<br>
+        De um coração oppresso<br>
+ Que ao ligeiro prazer, á dôr cansada<br>
+        Negas no seio accesso,<br>
+ Não despertes, oh não! os que abominam<br>
+        Teu amoroso aspeito;<span class="pn"><a name="pg_21">{21}</a></span>
+ <br>
+ Febricitantes que se abraçam, loucos,<br>
+        Com seu dorido leito!<br>
+ Tu, que ao misero ris com rir tão meigo,<br>
+        Calumniada morte;<br>
+ Tu, que entre os braços teus lhe dás azylo<br>
+        Contra o furor da sorte;<br>
+ Tu, que esperas ás portas dos senhores,<br>
+        Do servo ao limiar,<br>
+ E eterna corres, peregrina, a terra<br>
+        E as solidões do mar,<br>
+ Deixa, deixa sonhar ventura os homens;<br>
+        Já filhos teus nasceram:<br>
+ Um dia accordarão d'esses delirios,<br>
+        Que tão gratos lhes eram.<br>
+ E eu que vélo na vida e já não sonho<br>
+        Gloria nem ventura;<br>
+ Eu, que esgotei tão cedo, até ás fezes,<br>
+        O calix da amargura:<br>
+ Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado<br>
+        De quanto ha vil no mundo,<br>
+ Santas inspirações morrer sentindo<br>
+        Do coração no fundo,<br>
+ Sem achar no desterro uma harmonia<br>
+        De alma, que a minha entenda,<br>
+ Porque seguir, curvado ante a desgraça,<br>
+        Esta espinhosa senda?»<a name="tex2html28"
+ href="#foot478"><sup>[28]</sup></a> </blockquote>
+
+<p>Respondia-lhe uma voz intima, assegurando não só a necessidade de proseguir
+na jornada, atravez de todas as angustias, mas tambem a certeza da recompensa,
+se fosse em obediencia<span class="pn"><a name="pg_22">{22}</a></span> á
+vontade divina e sujeito á sua inspiração.</p>
+
+<p>A tentação da morte teria sido para Alexandre Herculano apenas um
+«pensamento infernal», gerado em meio da tempestade<a name="tex2html29"
+href="#foot479"><sup>[29]</sup></a>. Ao seu rugir comparou o clamor da
+consciencia desvairada, quando, accordando para o conhecimento das cousas e dos
+homens e reconhecendo mentira nas esperanças cujos sonhos nos affagavam ao
+«despontar do dia», ao entrar na vida da aspiração, recua aterrada e
+endoidecida, sem saber que caminho a possa conduzir a salvamento. Mas a
+tempestade é de sua essencia transitoria, por muito violenta e assoladora que
+haja sido nos effeitos de destruição irreparavel; seguem-se-lhe horas de
+bonança, a serenidade reapparece e mantem-se, illuminando os destroços e
+atenuando-lhes a tristeza do aspecto; embora jámais deixemos de os vêr,
+duradouros, claros e manifestos, sobrevém reparações do tempo, lentas e
+imperfeitas, sem duvida, mas capazes todavia de nos trazerem momentos de calma
+e até de ventura; sobre as ruinas crescem verduras. Na propria terra ha poderes
+de renovação indestructiveis, eternidades cosmicas<span class="pn"><a
+name="pg_23">{23}</a></span> que de toda a tormenta sáem illesas e intactas.
+</p>
+
+<p>Do mesmo modo acontecia ao poeta. A angustia em que os primeiros golpes da
+desillusão o lançaram, a agitação de que nascia o desejo de se afundar n'essa
+noite sem fim da inconsciencia, dissipava-se como os bulcões varridos pelo
+vento que elles geraram e que o vento na sua violencia desfaz. Acalmada a
+tormenta, contemplando o que lhe restava da sua devastação e procurando unil-o
+e reanimal-o em novas creações d'uma fortaleza intangivel, precavida contra o
+assalto de toda a adversidade, o poeta encontrava «um consolo», e pressentiu
+que «nas trevas da existencia Deus lhe deixára doce amizade e amor». Por elle
+se ergueria para «passar sua noite a luz tão meiga até ao amanhecer, até subir
+á patria do repouso, onde não ha morrer»<a name="tex2html30"
+href="#foot480"><sup>[30]</sup></a>.</p>
+
+<p>É que ás eternidades cosmicas correspondem eternidades do espirito, e
+n'ellas se formára e retemperava incessantemente a alma de Alexandre Herculano,
+defendida contra toda a traição da amargura, para todo o combate armada
+invencivel, em toda a contingencia.<span class="pn"><a
+name="pg_24">{24}</a><br><a name="pg_25">{25}</a></span>
+</p>
+
+
+
+<h1><a name="SECTION00300000">APPARIÇÕES E ESPECTROS</a></h1>
+
+<p><span class="pn"><a name="pg_26">{26}</a><br><a
+name="pg_27">{27}</a></span></p>
+
+
+
+<h2><a name="SECTION00310000">APPARIÇÕES E ESPECTROS</a></h2>
+
+<p>O poeta tinha uma missão na terra. O Deus que na consciencia se lhe revelava
+e elle adorava, não era um principio de puro extasi e absorpção contemplativa,
+uma corrupção da energia organica no arrebatamento e na abdicação de todo o
+desejo proprio, mas uma vontade determinando a acção, desenvolvendo-se de
+continuo nas cousas da terra, exigindo dos homens de fé que se subordinassem ao
+seu imperio, e lhe traduzissem a essencia nas realidades contingentes e
+mortaes.</p>
+
+<p>Sentindo no intimo o dominio d'essa vontade suprema, Alexandre Herculano
+logo cogitou os modos de a cumprir, tão perfeitamente quanto em suas forças
+coubesse, e sem tardar se entregou á execução dos seus mandados com uma
+fidelidade absoluta.<span class="pn"><a name="pg_28">{28}</a></span></p>
+
+
+
+<h3><a name="SECTION00320000">I</a></h3>
+
+<p>Ordenava-lhe Deus que servisse a patria, a gloria e a virtude.</p>
+
+
+<blockquote>
+ Deus á poesia deu por alvo a patria<br>
+         Deu a gloria e a virtude<a name="tex2html31"
+ href="#foot481"><sup>[31]</sup></a>. </blockquote>
+
+<p>Mas o que era a sua patria? Que queria ella do seu affecto? Como conhecel-a
+e concebel-a, para se identificar com a sua vida e encorporar o impeto do seu
+genio no pulsar d'essa vida maior que a sua, commungando-lhe da aspiração e
+n'ella se abrazando, immolando-se ao seu triumpho?</p>
+
+<p>«Os annos e os seculos confundem-se e igualam-se deante da vida perpetua do
+universo»<a name="tex2html32" href="#foot482"><sup>[32]</sup></a>.</p>
+
+<p>Ha uma eternidade no mover das cousas do mundo que Alexandre Herculano não
+ignorou; ha uma continuidade e repetição que apaga a distancia, o espaço e a
+individualidade, as distincções entre o dia de hoje e o dia de<span
+class="pn"><a name="pg_29">{29}</a></span> hontem, entre o pólo e os tropicos,
+entre o rochedo e o homem, entre as raças, nações e epocas. Mas a repetição e a
+continuidade operam-se pela renovação successiva, pela dissolução e
+reconstituição incessantes; as distincções e as distancias, de cujo confronto e
+verificação ha de resultar a percepção da unidade, só se revelam nas creações
+ephemeras e, para bem servir o eterno, havemos de o sentir e amar na caducidade
+a que descer, no transitorio e momentaneo.</p>
+
+<p>«Debaixo dos pés de cada geração que passa na terra dormem as cinzas de
+muitas gerações que a precederam»<a name="tex2html33"
+href="#foot483"><sup>[33]</sup></a>, e só ligando a nossa geração áquellas de
+que procede, conseguiremos, por nossa vez, encarnar a vontade divina. Sendo a
+mesma atravez dos seculos, demanda para integridade da sua expressão a filiação
+estreita dos seres em que se mostra.</p>
+
+<p>D'ahi vinha que o poeta, para se guiar no presente olhava para o passado,
+procurando descortinar-lhe as tendencias e a direcção, os affectos e as
+aversões, os beneficios e os damnos, a robustez e a fraqueza, a luz e as
+trevas, as bençãos e os castigos; e assim, por amor da «patria», mandamento da
+lei<span class="pn"><a name="pg_30">{30}</a></span> do seu Deus, e á força de
+escavar, observar e meditar, viu-se cercado de apparições bemfazejas e
+espectros terriveis, surgindo das brumas que o olhar inflammado de sublimadas
+paixões penetrava, encaminhando-o «á gloria e á virtude», mandamentos tambem do
+seu Deus, e defendendo-o da queda em abysmos de ignominia e tortura. «Pelos
+becos tortuosos, sombrios e lodacentos» da cidade, embrenhando-se no
+«labyrintho de terreirinhos, escadas, pateos, arcos, passagens, indelineaveis e
+enredados como meada a que se perdeu o fio»<a name="tex2html34"
+href="#foot484"><sup>[34]</sup></a>, Alexandre Herculano ia procurar no
+amontoado informe dos restos do passado a revelação do seu fausto e da sua
+miseria, das suas degradações e da sua nobreza, de todos os seus impulsos, para
+os exaltar no que tivessem de elevado e digno e para os condemnar no que
+encerrassem de vil. «Muitas vezes passava largas horas deante dum portal de
+capellinha carcomida como velha enrugada; deante duma hombreira partida, onde
+apenas se divisavam cansados e gastos lavores da arte da edade media»<a
+name="tex2html35" href="#foot485"><sup>[35]</sup></a>. Interrogava as pedras, a
+saber se as suas confissões confirmavam as palavras dos homens; remexia<span
+class="pn"><a name="pg_31">{31}</a></span> a poeira, sobre a qual pesavam annos
+innumeraveis, a experimentar se, posta á luz do sol, lhe descobria ainda
+particulas palpitantes da vida d'outras eras; e dos lichens e musgos, cobrindo
+ruinas, desprendia lembranças que alli se tinham abrigado de contrariedades, e
+redivivas lhe vinham contar desgraças infinitas e magnificas victorias,
+esperanças e desenganos, paixões ruins e ardor santo, penas e bemaventuranças.
+De tudo tirava ensinamento avidamente, confiado em que por seu influxo havia de
+se salvar ou perder, conforme o empregasse, e por elle tambem, a sua patria, o
+chão onde nascera e os seus irmãos que o habitavam, encontrariam a felicidade
+ou a desventura.</p>
+
+<p>A riqueza que n'essas peregrinações amontoou e nos legou, é estupenda; e o
+uso que d'ella fez, os sanctuarios em que devotamente a enthesourou, as
+edificações que com ella ergueu e onde a recolheu, o espirito em que por toda a
+parte a purificou e ungiu, ficaram como monumentos de perpetua gloria do povo
+portuguez, attestando o poder mental da raça e a susceptibilidade, d'óra avante
+para sempre provada, da grandeza religiosa da sua alma.</p>
+
+<p>A epoca de Alexandre Herculano favoreceu-lhe singularmente as inclinações do
+espirito. A exploração historica entrava no desenvolvimento<span class="pn"><a
+name="pg_32">{32}</a></span> assombroso de que as gerações modernas são
+testemunhas, colhendo-lhe os copiosos e preciosissimos fructos. A Allemanha,
+paiz que Herculano considerou, «por via de regra, o fóco de toda a sincera e
+verdadeira sciencia»<a name="tex2html36" href="#foot486"><sup>[36]</sup></a>,
+chamava a attenção da mocidade para uma renovação da arte, «a qual veio dar
+nova seiva á arte meridional que vegetava na imitação servil das chamadas
+lettras classicas, e ainda estas estudadas no transumpto infiel da litteratura
+franceza da epoca de Luiz XIV»<a name="tex2html37"
+href="#foot487"><sup>[37]</sup></a>. E as formas em que esse renascimento se
+fundia e estampava eram abundantissimas, desde o trabalho de erudição rigida e
+analyse minuciosa até á novella opulenta de trajos resplendentes, palpitante de
+movimento e pujança no perpassar das multidões que desfilavam por deante dos
+nossos olhos atonitos, misturando lances dramaticos e gargalhadas comicas,
+placidez, heroismo e abjecção, generosidades e cobiças, ostentando sem reservas
+nem piedade todo o vigor e anceio do coração das sociedades nas conjuncturas
+infinitas a que a fatalidade o traz sujeito. O romance historico, ou a novella
+historica, como então se lhe chamava, iniciada na Inglaterra<span class="pn"><a
+name="pg_33">{33}</a></span> por um talento de rara fertilidade e fascinação,
+espalhava-se na Europa inteira, abrindo caminho para desusadas concepções da
+litteratura e da arte. Associando as cousas vividas e as cousas sonhadas, a
+imaginação e a realidade, embora producto d'uma alliança hybrida perigosa que
+constrangia a imaginação pelas pressões da realidade e desfigurava a realidade
+pelas violencias da imaginação, o seu apparecimento assignala um fermentar de
+fecundidade inexaurivel e o descerrar de largos horisontes. Corrigiu com
+elementos sãos e de verdade os desregramentos da phantasia morbida, entontecida
+pela vertigem de liberdade infinita; conduziu á comprehensão das
+possibilidades, fundadas, logicas, acautelando-nos dos desenganos de ambições e
+esperanças insensatas; produziu salutares effeitos educativos. Na verdade,
+disciplinou e moralisou a imaginação, infundindo-lhe a consciencia do limite,
+obrigando-a a mover-se na esphera do facto e nos termos por elle marcados.
+Influiu até, em ultimo mas não menor resultado, no modo de comprehender e
+escrever a historia. Sem embargo, por virtude de influencias geraes
+contemporaneas mas um pouco, incontestavelmente, pela repercussão das
+tendencias da litteratura imaginativa, a historia começou a esquecer-se da
+narração dos feitos d'armas e<span class="pn"><a name="pg_34">{34}</a></span> a
+emancipar-se do deslumbramento de façanhas heroicas e entrou com um esplendor
+sem precedente na resurreição integral dos seculos passados, tomando-lhes em
+conta todos os factores, apreciando e coordenando os multiplos poderes que
+collaboram na vida social dos povos e das nações, perante os quaes se reduz a
+proporções inferiores a efficacia da acção individual; dirigindo «as indagações
+historicas mais para o estudo da indole das sociedades do que para os actos dos
+individuos»<a name="tex2html38" href="#foot488"><sup>[38]</sup></a>;
+verificando a concorrencia do clima, da situação geographica, das raças e dos
+accidentes do destino nos caracteres das diversas civilisações,
+representando-as e reconstituindo-as na plenitude da sua substancia. Coube á
+novella historica um papel de feliz equilibrio, accudindo por um lado áquella
+necessidade de exactidão e rigor scientifico que cada vez se exigia com maior
+instancia, annunciando a prodigiosa altura a que a ergueu a segunda metade do
+seculo <small>XIX</small>, e por outro lado deixando ainda livre curso e largo
+campo á liberdade da imaginação, que a ruptura e ruina da antiga ordem e de
+vinculos caducos provocava a reclamar os seus direitos. Todo o devaneio e
+ingenua falsidade do romance<span class="pn"><a name="pg_35">{35}</a></span>
+historico, todos os seus exaggeros, correcções e corrupções, quasi
+invariavelmente motivados por desejos candidos de dar formosura e realce a
+muita cousa que merecia ser amada: os seus vicios e deficiencias estrictamente
+litterarios, porque para o produzir eram necessarios estudos aridos e, «no meio
+de estudos tediosos e positivos, é impossivel que o imaginar não descore, que o
+estylo não ganhe asperezas»<a name="tex2html39"
+href="#foot489"><sup>[39]</sup></a>, e obliteram-se faculdades creadoras
+essenciaes&mdash;todas essas faltas merecem prompta indulgencia, quando consideramos
+os beneficios de que elle foi vehiculo no progresso do pensamento humano. Que
+profundezas não cavou e abriu á nossa meditação a novella historica! Que
+clareza de visão do nosso ser não nos deu, como nos protegeu de fraquezas e
+errores dum imaginar sem lei, confiado a mero capricho, que estabilidade não
+nos infundiu! Com que delicia não nos insinuou o sentimento da immutabilidade
+das cousas e dos homens, a impossibilidade de nos esquivarmos a moldes, regras
+e sujeições, que se tornaram como ingenitas pela diuturnidade da sua
+influencia, e de que circumstancia alguma é capaz de nos isentar! Quanta
+vaidade desfez, que loucuras d'orgulho não dissipou, que<span class="pn"><a
+name="pg_36">{36}</a></span> vigor não nos infundiu, que alma nova e bella não
+ajudou a crear e a alimentar, em logar d'aquell'outra, desnorteada e turva,
+formada nos turbilhões da poeira intellectual e moral erguida do ruir do velho
+edificio! Convertendo-se em propulsor energico do conhecimento da historia, em
+todos os aspectos da vida social, e simultaneamente sua filha e escrava, a
+novella alimentada n'esse riquissimo manancial foi, sem duvida, obra de grande
+proveito na jornada das nações e dos homens para os reinos luminosos de paz e
+felicidade, a que tão lenta e dolorosamente se encaminha. De todas as bençãos
+são dignos os trabalhadores pacientes e apostolos que lhe desprenderam de
+nuvens a claridade.</p>
+
+<p>Teve Alexandre Herculano a incontestada gloria de desbravar na litteratura
+portugueza esse campo tão fecundo como saudavel. Elle mesmo nol-o confessa na
+<em>Advertencia</em> do primeiro volume das <em>Lendas e Narrativas</em>, cujos
+merecimentos se lhe afiguravam minguados pela inexperiencia, pela «singeleza da
+invenção, pouca firmeza no contorno de alguns caracteres e o menos bem travado
+do dialogo»; mas quiz colligil-as, tentando apenas preservar do esquecimento
+«as primeiras tentativas do romance historico que se fizeram na lingua
+portugueza, mormente dos esforços do auctor<span class="pn"><a
+name="pg_37">{37}</a></span> para introduzir na litteratura nacional um genero
+duplamente cultivado, n'aquelles tempos, em todos os paizes da Europa». «Na
+historia dos progressos litterarios de Portugal, desde que a liberdade politica
+trouxe a liberdade do pensamento, e que o engenho poude apparecer á luz do dia
+sem os anginhos de uma censura tão absurda na sua indole, como estupida na sua
+applicação e esterelisadora nos seus effeitos», n'essa historia, dizia, aquella
+nova edição, reunindo pequenos romances e narrativas, que andavam dispersos em
+volumes separados e em publicações periodicas, devia ser julgada principalmente
+com attenção «á prioridade das composições n'ella insertas, e á precisão em
+que, ao escrevel-as, o auctor se via de crear a substancia e a forma, porque
+para o seu trabalho faltavam absolutamente os modelos domesticos».</p>
+
+<p>Desconfiava do talento com que produzia as primicias d'essa renovação
+litteraria, mas tinha certeza e fé na fecundidade e belleza dos resultados que
+promettia, sobretudo no resurgimento moral que nos infiltraria. «Fossem as
+memorias da patria, que tivemos, o anjo de Deus que nos revocasse á energia
+social e aos santos affectos da nacionalidade. Que todos aquelles a quem o
+engenho e o estudo habilitavam para os graves e profundos<span class="pn"><a
+name="pg_38">{38}</a></span> trabalhos da historia se dedicassem a ella. No
+meio d'uma nação decadente, mas rica de tradições, o mistér de recordar o
+passado era uma especie de magistratura moral, era uma especie de sacerdocio.
+Exercitassem-no os que podiam e sabiam; porque não o fazer era um crime. Que a
+arte em todas as suas formas externas representasse esse nobre pensamento; que
+o drama, o poema, o romance fossem sempre um ecco das eras poeticas da nossa
+terra. Que o povo encontrasse em tudo e por toda a parte o grande vulto dos
+seus antepassados»<a name="tex2html40" href="#foot490"><sup>[40]</sup></a>.</p>
+
+<p>N'esse «quinto imperio de mentecaptos dissertadores e mexediços»<a
+name="tex2html41" href="#foot491"><sup>[41]</sup></a>, em que por sua desgraça
+se via involvido e de cuja inanidade e degradação tremia, n'essa liberdade de
+especulação e impudor que foi a primeira das liberdades asseguradas ao fim de
+tantas batalhas e sacrificios, já aterrado pela ruina e devastação de toda a
+casta, material e moral, no meio da qual se debatia, tropeçando e
+ensanguentando-se a cada passo nos destroços de tanta cousa querida e digna de
+ser amada, clamava aos homens de espirito são e coração puro que corressem a
+defender e guardar o<span class="pn"><a name="pg_39">{39}</a></span> patrimonio
+das nossas infinitas riquezas, desbaratadas pelas mãos ignorantes e sacrilegas
+de ambiciosos depravados e sordidos, e de imbecis não menos funestos do que os
+mercantes ingenuamente avidos e cynicos. «Com a rapidez da colera ou da peste
+corria por todos os angulos de Portugal e encasava-se em todos os povoados uma
+cousa hedionda e torpe, que, inimiga do passado e do futuro, se chamava
+illustração; que tendo por logica o escarneo e por syllogismo o camartello, se
+chamava philosophia. Deus a mandára ao mundo como mandou Attila e a Inquisição,
+como um verbo de morte. Seu mistér era apagar todos os santos affectos da alma,
+e incarnar no coração, em logar d'elles, um cancro para o qual nossos avós não
+tinham nome, e que estranhos designaram pela palavra <em>egoismo</em>. Que se
+apressasse aquelle que quizesse guardar alguns fragmentos do passado para as
+saudades do futuro; porque a illustração do vapor e do atheismo social alli ia
+livelando o que foi pelo que era, a gloria pela infamia, a fraternidade do amor
+da patria pela fraternidade dos bandos civis, as memorias da historia gigante
+do velho Portugal pelo areal plano e pallido da nossa historia presente, a obra
+artistica pelos algarismos do orçamento, o templo de Christo pela
+espelunca<span class="pn"><a name="pg_40">{40}</a></span> do rebatador. Que se
+apressasse; porque esses rastos dos antepassados que o tempo e os incendios, e
+os terremotos nos deixaram, não nol-os deixaria o descrer brutal d'aquelle
+seculo, que a historia distinguiria pelo epitheto de bota-abaixo, e cujo legado
+monumental para os seculos que viriam após elle seria um cemiterio immenso; mas
+cemiterio sobre o qual não se elevará sequer a humilde distincção d'uma cruz»<a
+name="tex2html42" href="#foot492"><sup>[42]</sup></a>.</p>
+
+<p>Elle, por sua parte, dava-lhes exemplo. No sagrado trabalho a que chamava os
+outros era o primeiro, infatigavel no ardor com que lhe votára uma energia e
+capacidade de todo o ponto raras, e copioso na abundancia com que desentranhava
+diamantes de filões obscuros e nunca encetados, e até muitas vezes desprezados,
+estando aliás bem patentes á luz do sol, de continuo pisados pela vulgaridade
+obtusa. Foi assim que nos deu o <em>Eurico</em>, o <em>Monge de Cistér</em>,
+<em>Lendas e Narrativas</em>, <em>O Bobo</em> e mil outras pequeninas joias
+prodigamente dispersas onde quer que o seu genio passasse, em qualquer assumpto
+sobre que discorresse.</p>
+
+<p>Sem duvida, nem sempre o fez com perfeição. Muitas d'essas joias ficaram por
+lapidar, ou melhor, foram lapidadas de modo que<span class="pn"><a
+name="pg_41">{41}</a></span> não lhes poz em evidencia todo o seu brilho. As
+suspeitas de Alexandre Herculano quanto á sua obra d'arte imaginativa, eram
+fundadas. «A singeleza da invenção» tocou por vezes a pobreza de esqueleto; «a
+pouca firmeza nos contornos de alguns caracteres» aqui e além se manifesta,
+enfraquecendo-os por insuficiencia d'accentuação, não lhes facultando ensejo de
+intervirem em situações tão multiplicadas e diversas que a diversidade de
+conjunctura, coincidindo com a identidade de proceder, ponha bem clara a
+invariabilidade das feições; e ao dialogo, embora habitualmente «bem travado»,
+contra o que o auctor aventa, acontece com frequencia encurtar-se e terminar
+muito áquem do desenvolvimento necessario ao pleno effeito de impressão. Mas
+todas essas faltas, que em outros seriam grandes, porque a magreza das creações
+não lhos dispensava cuidados de trajo, a debilidade da estructura carecia de se
+occultar na opulencia do adorno e só por si, sem o amparo e esmero do
+involucro, não se sustinha nem realçava, todas essas faltas em Alexandre
+Herculano somem-se na torrente d'um cabedal avultado, cuja enorme somma nos
+confunde e avassala. Ou procure esboçar-nos o quadro d'uma epoca, como no
+<em>Monge de Cistér</em>, ou se restrinja ao desenho de simples incidentes,
+como nas <em>Lendas</em><span class="pn"><a name="pg_42">{42}</a></span> e
+demais obras d'igual natureza, a exuberancia da seiva que as nutre, a
+intensidade de vibração psychologica que as anima e o grau de concentração em
+que tudo isso se nos revela, são um facto unico na litteratura portugueza, um
+limite nunca antes nem depois de Alexandre Herculano excedido ou sequer
+alcançado. O que nos fica na lembrança quando pousamos qualquer d'esses livros,
+por magia igualmente deliciosos e severos, é um torvelinho indescriptivel de
+objectos estranhos e não menos estranhos espiritos. Se a riqueza é grande em
+materia descriptivel, trajos, moveis, armas, habitações, combates, festas,
+jogos, banquetes e bens do mundo, movimento e côr, não é inferior na
+prodigalidade de aspectos moraes; n'esse tropel de servos e senhores, no
+conflicto de dependencias e instituições, a violencia do drama, riqueza tambem
+e preciosa em todos os tempos, não cessa de jorrar um instante, agitando de
+ondas humanas as materialidades ambientes, espargindo-se em uma atmosphera de
+ambições, de cobiças, de hypocrisias, de traições, de heroismo e dedicação a
+par da mesquinhez e da perfidia, de grandeza e de miseria, de todas as paixões
+emfim que constituem e eternamente hão de constituir o supremo mysterio e
+seducção suprema da nossa alma. Porque todas essas<span class="pn"><a
+name="pg_43">{43}</a></span> cousas que Alexandre Herculano resuscitou as tirou
+das cinzas, não para por si só reviverem mas para de novo se mostrarem nas suas
+relações com os homens; por isso que no passado adivinhou problemas d'uma
+actualidade perpetua, por isso os seus romances nos prendem e vencem,
+rendendo-nos á apreciação e ao peso de forças immortaes, communs ao passado e
+ao presente, mostrando-nos docemente o passado no presente e o presente no
+passado. Esta unidade da historia realisada na unidade do coração humano
+atravez de todos os tempos e modos, ergueu-lhe a phantasia litteraria a tal
+altura que não podia perturbar-se-lhe a grandeza por escassez de adornos, de
+refolhos de expressão ou fertilidade de invenção&mdash;revestimento, tantas vezes
+enganoso, d'uma real e profunda inanidade, supprida por alimento succulento
+para os que por sua fortuna e gloria foram dotados de excellencia authentica de
+faculdades.</p>
+
+<p>Mas «no meio de estudos tediosos e positivos é impossivel que o imaginar não
+descore», dizia-nos o mestre no escrupulo da sua franqueza; e, por certo,
+dizendo-o tinha em lembrança a sua propria experiencia. Emquanto se afferrava a
+compulsar e a interrogar a historia, e o amor da patria lançára-o n'esse
+caminho e ahi o mantinha quasi sem admittir<span class="pn"><a
+name="pg_44">{44}</a></span> desvio, o espirito tornou-se cada vez menos
+indulgente com os errores da imaginação, menos docil para as suas exigencias,
+menos affeiçoado aos seus prazeres; enamorado de realidade extrema, deixava
+affrouxar sem saudades impulsos creadores, e nem sequer tentara conservar-lhes
+a vivacidade primitiva. De facto, o sonho ia descorando; desvanecia-se. As
+tendencias, de sua natureza divergentes e algum tempo conciliadas por muito e
+subtil engenho, recobravam independencia e em campo proprio abrigavam-se da
+rudeza dos attritos que as enfraqueciam, inutilisando largo capital,
+sacrificando a embates e antagonismos bens valiosos, perdidos em restricções
+obrigadas e concessões mutuas indeclinaveis. O novellista e o poeta tinham de
+abdicar nas mãos do historiador, para o deixarem livre de toda a coacção, não
+todavia tão absolutamente que lhe privassem as obras dos reflexos da presença
+de tão leaes servidores, nunca de todo affastados, mas apenas distanciados o
+bastante para o dominio e evidencia da robustez herculea do mineiro e escriptor
+do passado. Desembaraçou-se do enleio em forças estranhas, e, desprendido das
+paixões e artificios que abalavam a affirmação e a impediam de accentuar-se e
+dilatar-se, foi então até onde o incitavam a chegar uma abundancia e valor<span
+class="pn"><a name="pg_45">{45}</a></span> de materiaes desentranhados dos
+archivos e uma lucidez de interpretação, até aquella data ignoradas em terras
+portuguezas. Embora os caprichos de narrativas romanticas muito encantassem,
+estorvavam todavia o inteiro desenvolvimento da capacidade de revelação,
+justamente avida de ostentar-se na plenitude do seu vigor. Necessario se tornou
+ceder-lhe a preponderancia.</p>
+
+<p>Singular fortuna! Exactamente quando a arte não buscava e só d'uma extrema
+exactidão historica cuidava, Alexandre Herculano produziu a sua mais bella obra
+d'arte. Em nenhum dos seus trabalhos, e é de notar que em toda a ordem do
+pensamento humano discorreu, alcançou a lucidez, a ponderação, a singeleza e a
+elasticidade de forma que attingiu na <em>Historia de Portugal</em>. Olhamos
+com temor para os seus quatro volumes bem providos de citações, de factos e
+referencias, tumidos de velharias extravagantes e termos obsoletos na linguagem
+e nos objectos que significavam, suspeitamos do peso do saber e agouram-se-nos
+enfados de repetições e minucias, de analyses prolongadas e discussões
+infinitas; e vamos encontrar uma suavissima lição, rapida sem insufficiencias
+levianas nem obscuridade de precipitações e lacunas, profunda sem oppressão e
+cansaço de dissertações<span class="pn"><a name="pg_46">{46}</a></span>
+ociosas, sem a fadiga de esforços de attenção e applicação á destrinça de
+elementos agglomerados ao acaso e mal ordenados, lição tão segura quando tem
+motivos de affirmar como discreta quando pressente alguma duvida,
+infundindo-nos um encanto e confiança que d'um só golpe nos subjugam e nos
+arrancam applausos de admiração e de affecto sorridente e grato a quem nos
+concede um elevado e purissimo prazer e o fabricou, para nosso bem e cultura, á
+custa d'um trabalho gigantesco.</p>
+
+<p>Exemplifiquemos. É desnecessario escolher, ou antes, é inutil. O tecido é
+d'uma tão unida igualdade que em todo o ponto ostenta a homogeneidade e o bem
+ligado da trama, a constancia da côr e a suavidade e rythmo da ondulação:</p>
+
+<p>«A actividade de Sancho ou, talvez antes, do seu habil ministro, o
+chanceller Julião, é na verdade admiravel, se attendermos aos multiplicados
+objectos pelos quaes naquella epoca essa actividade se repartia. No meio de uma
+guerra violenta com Leão tratavam-se as graves questões politicas de que
+procurámos acima dar uma ideia, bem que necessariamente imperfeita. Não era,
+porém, só isso. Na mesma conjunctura em que se promovia a povoação por uma e
+outra margem do Tejo,<span class="pn"><a name="pg_47">{47}</a></span>
+entregando-se ás ordens militares, principalmente aos templarios, vastos
+territorios, onde estas corporações poderosas pouco a pouco iam estabelecendo
+aldeias e granjas e fazendo arroteamentos, saiam de Portugal agentes
+encarregados de conduzir das regiões centraes da Europa novas colonias que
+supprissem a escasseza das que desciam das provincias septemtrionaes do reino.
+Este encargo devia ser dado com preferencia aos estrangeiros já estabelecidos
+no paiz e cujas relações com a sua patria natural os habilitava para atrairem
+novas migrações á patria adoptiva. A doação de Pontevel feita em 1195 ás
+antigas colonias da Lourinhã e de Villa Verde, presuppõe um incremento de
+população mais rapido do que poderia resultar do seu desenvolvimento natural: e
+assim cremos que esses municipios haviam augmentado com os aventureiros que
+vinham buscar melhor fortuna n'este paiz hospitaleiro. Entre as providencias
+que se davam já em 1198 para tornar menos solitarias as provincias meridionaes,
+devastadas pela longa e variada lucta da conquista e pelas recentes invasões
+dos almohades, foi uma das mais importantes diligencias a vinda de novos
+colonos. Offerecia esta gente duas utilidades; porque, não só servia para ir
+desbravando os logares ermos, mas era tambem<span class="pn"><a
+name="pg_48">{48}</a></span> seminario d'onde se podiam transplantar para os
+campos de batalha valentes homens de guerra. Guilherme, deão de Silves, que,
+segundo parece, ahi ficára com o bispo Nicolau na occasião da tomada d'aquella
+cidade aos musulmanos, expulso da nascente diocese pela terrivel reacção de
+Yacub, passou a Flandres, d'onde voltou com bom numero de companheiros,
+deixando muitos outros alistados para depois o seguirem. Era o chefe principal
+d'esta colonia flamenga um certo Raolino (Raulin?). Destinaram-lhes para se
+estabelecerem uma parte dos largos campos que se estendem entre Santarem e
+Alemquer, dando-se-lhes por termos as varzeas que o Tejo fertilisa com as suas
+enchentes e que já eram conhecidas n'aquelle tempo pelo nome de Leziras. Entre
+elles fundaram a villa-dos-francos (Villa-franca), designação que depois se
+mudou na de Azambuja. Raolino foi feito alcaide-mór do novo municipio e, homem
+talvez pobre e obscuro no seu paiz natal, honrado e enriquecido agora pelo
+principe portuguez, viu prosperar no processo de uma dilatada existencia
+aquelle simulacro da patria que levantara para si e para os seus em terra
+estrangeira, mas amiga»<a name="tex2html43"
+href="#foot493"><sup>[43]</sup></a>.<span class="pn"><a
+name="pg_49">{49}</a></span></p>
+
+<p>Passemos algumas paginas. Não teria sido esta lucidez e serenidade
+maravilhosas um momento de feliz disposição, e porventura toda a obra estará
+repassada de igual encanto? Experimentemos uma outra passagem:</p>
+
+<p>«Aquillo em que o reinado de Sancho tem acaso mais subida significação
+historica é em ter então começado esse facto tão variado como complexo que se
+protrae por tres seculos e que constitue a principal feição publica da nossa
+edade-media. Falamos da alliança do rei e dos concelhos contra as classes
+privilegiadas, o clero e a fidalguia. N'estas primeiras phases da lucta ha não
+só um começo, mas tambem um resumo ou, antes, um symbolo de toda ella. Os
+burguezes do Porto, acomettendo o seu bispo e o seu senhor com os officiaes da
+coroa, sequestrando-lhe os bens, expulsando-o coberto de ignominia e
+affrontando a colera dos membros da poderosa familia de Martinho Rodrigues, são
+o typo da resistencia e da má vontade que nos municipios e nos reis acharam
+geralmente as duas altas classes do estado, até a monarchia obter d'ellas final
+e decisiva victoria. Sancho, abandonando os habitantes do Porto, transportando,
+digamos assim, a sua força inerte de moribundo para o campo adverso,
+associando-se, até, ao clero para ajudar a submetter os burguezes,<span
+class="pn"><a name="pg_50">{50}</a></span> dava um deploravel exemplo aos seus
+successores e entibiava os animos populares para as futuras contendas. Não
+póde, apesar d'isso, condemnal-o a historia, pois que tudo parece indicar que
+os ultimos mezes da sua vida foram uma dilatada agonia; e se ainda n'estes
+nossos tempos, em que o sentimento religioso se acha atenuado e frouxo, almas
+que se dizem rijamente temperadas vacilam ao aproximar-se a morte e se acurvam,
+não só aos terrores salutares e santos da religião, mas até muitas vezes ás
+crenças supersticiosas da infancia, que revivem então importunas, como
+deixaremos de desculpar um homem ignorante e credulo, nascido numa epoca
+ferrea, de sacrificar á voz dos remorsos, muitos dos quaes seriam legitimos,
+tanto as conveniencias como a lealdade politica?»<a name="tex2html44"
+href="#foot494"><sup>[44]</sup></a>.</p>
+
+<p>Não foi, porém, esta arte incomparavel na subtileza de analyse, de
+conjuncção e de expressão, não foi esta virtude que os contemporaneos e a
+posteridade reconheceram mais promptamente na <em>Historia de Portugal</em>. A
+impressão do pasmo pela renovação da historia e pela fortaleza de verdade que a
+acompanhava e a tornava subsistente, esse foi o impeto que de subito lhe deu um
+logar de<span class="pn"><a name="pg_51">{51}</a></span> excepcional
+proeminencia. Consideravamos a nação uma tarefa cavalheiresca do genio militar
+rematada com bom exito, questão de audacia militar e fortuna na peleja, de
+paixão da guerra e de conquista, consequencia dos dotes dos reis e principes,
+do seu temperamento e do seu querer, uma intriga de acções generosas e de
+cobiças vãs; raras arremetidas de justiça atropeladas por muita traição e
+vingança, revoluções e luctas saidas de roubos, violencias e especulações de
+senhores ambiciosos, despoticos, mais rudes ainda na alma insensivel e sem
+escrupulos do que no corpo prompto a toda a fadiga, dureza e excessos.
+Consideravamos a historia patria obra da vontade d'alguns homens, e Alexandre
+Herculano, sem lhes contestar a intervenção, antes examinando-a e verificando-a
+em toda a latitude, rasgava-nos caminhos novos para a descoberta de origens da
+vida nacional inteiramente occultas. Graças a processos de investigação e
+methodos de correlação aprendidos no estudo paciente dos mestres estrangeiros e
+por elle nacionalisados, importando-os e empregando-os com uma habilidade que o
+collocava a par dos maiores e mais destros n'essa ordem de conhecimentos e nos
+seus espantosos progressos, mostrava-nos a multiplicidade das forças que haviam
+cooperado na<span class="pn"><a name="pg_52">{52}</a></span> constituição da
+nação portugueza, a influencia de tradições seculares e até da simples
+fatalidade, a pressão de massas anonymas da villanagem e do povo ao lado das
+façanhas dos capitães, o destino e o instincto das raças superior ás ambições
+dos chefes prepotentes, que em seu proveito proprio as guiavam e serviam, a
+surda e lenta elaboração do sentimento da collectividade, confuso e frouxo,
+sobrepondo-se, em uma ascenção penosa, á absorpção de tyrannias d'um ferino
+egoismo despotico, embriagando astuciosamente as multidões em fumos de gloria
+emquanto as acorrentava aos seus insaciaveis apetites. Collocando nas suas
+relações de existencia e dependencias logicas os factores da vida nacional,
+muitos dos quaes foi exumar do acervo informe de documentos e chronicas onde
+jaziam inuteis e suffocados no logar para que o acaso os atirará, juntando um
+trabalho colossal de investigação a um talento de organisação e interpretação
+sem precedentes na litteratura portugueza e entre os seus raros e apagados
+pensadores e philosophos, Alexandre Herculano fez para alguns seculos do
+passado o que mais tarde Oliveira Martins conseguiria para algumas decadas da
+politica contemporanea.</p>
+
+<p>Note-se&mdash;a impressão de surpreza foi nos dois casos identica, como identicos
+foram o<span class="pn"><a name="pg_53">{53}</a></span> louvor e a condemnação
+que se lhe seguiram; louvor dos que prezam a lucidez de entendimento e a
+clareza de consciencia; e creem na sua efficacia para a fortuna dos povos; e
+condemnação dos que, fanatisados e tresloucados pelo interesse de castas, de
+classes, dos bandos e das clientelas, só esses veem e sabem defender com
+acrimonia exaltada, quando o bem publico lhes exige o cerceamento e a quebra de
+regalias ou o espirito de justiça lhes denuncia as oppressões, os crimes e
+torpezas a que recorreram e recorrem para acrescentar e conservar o seu
+predominio nefasto.<span class="pn"><a name="pg_54">{54}</a></span></p>
+
+
+
+<h3><a name="SECTION00330000">II</a></h3>
+
+<p>Porventura tinham razão esses muitos que deixaram passar sem reparo a
+delicada e peregrina belleza de arte na <em>Historia de Portugal</em>, para
+attentarem sómente na soberba e tremenda lição que ella encerrava, lição moral
+sobretudo. Os primores litterarios, por muito notaveis que se tornem e por
+muita suavidade que deem á vida, são na verdade cousa inferior perante as
+forças intimas que regulam o coração humano e determinam a nobreza ou a
+degradação, conforme triumpham ou são vencidas. Tinham razão. A lição que
+Alexandre Herculano para si mesmo tirava do estudo da historia, mostrava
+cabalmente aos estranhos o que tinham a aproveitar na meditação da sua obra. Se
+é certo, como algum disse, que a historia é a philosophia ensinada pelo
+exemplo, alli tivemos uma extraordinaria demonstração da justeza de semelhante
+conceito.</p>
+
+<p>Foi folheando a historia patria que Alexandre Herculano concebeu e nos
+desvendou na terribilidade tragica do seu inferno as profundezas da injustiça
+social. Foi alli que, registando os conflictos de classes e os desmandos,<span
+class="pn"><a name="pg_55">{55}</a></span> abusos e rapinas dos senhores,
+conheceu e nos denunciou os crimes da sociedade, acautelando-nos contra a nossa
+propria quéda em orgulhosas demencias de virtude, satisfeita e pedante nas
+commodidades da sua condição e alheia de sensibilidade e intelligencia aos
+males gerados d'ella mesma. «Mentirosa, corrupta e má, cheia de erros,
+preoccupações e vicios, damnada nas instituições e nas leis, nas crenças e nos
+costumes», a sociedade, disse-nos Alexandre Herculano em conclusão do estudo
+dos factos que lhe corroborava os impulsos do coração, «educa as gerações e os
+individuos, legando-lhes largo capital de perdição; e quando os arbustos
+plantados em terra peçonhenta, tendo bebido uma seiva venenosa produzem seus
+fructos de morte, o mundo, ao mesmo tempo malvado e hypocrita, horrorisa-se,
+abomina a sua obra, e ajuntando-se á roda do cadafalso dos suppliciados, que
+elle proprio lá conduziu, saúda uma cousa, a que pôz por nome justiça, e que
+não é mais que uma desculpa embusteira da ignorancia e de perversidade, não do
+individuo criminoso, mas desse vulto hediondo e informe chamado sociedade, para
+o qual não ha nem leis, nem punição nem algozes»<a name="tex2html45"
+href="#foot495"><sup>[45]</sup></a>.<span class="pn"><a
+name="pg_56">{56}</a></span></p>
+
+<p>Se, hoje, um alto espirito caustico da actualidade<a name="tex2html46"
+href="#foot221"><sup>[46]</sup></a>, definindo a noção corrente de justiça
+entre os que se orgulham de a praticar, nos diz que, «quando o homem mata o
+tigre é um sport e quando o tigre mata o homem é uma ferocidade, e a relação
+entre crime e justiça é pouco mais ou menos isso», comparamos o seu indignado
+escarneo com a maldição inflamada do poeta e verificamos que o poeta não leu
+menos claro nas paginas da historia do que o moralista na observação do
+espectaculo quotidiano d'um mundo turvado de violentissimas paixões e possuido
+de pretensões estultas de haver encarnado a rectidão. Por ahi podemos avaliar a
+natureza do scismar do grande historiador, quando nas vigilias se curvava sobre
+os pergaminhos da terra natal: que cordas vibravam então no seu peito, que
+divino e solemne canto ellas soltaram, redemptor e austero.</p>
+
+<p>Tudo aquillo que o apostolo carecia de saber e confirmar em sua consciencia,
+tudo a historia lhe dizia.</p>
+
+<p>A obra demolidora da revolução, a que se associou com tão claro applauso,
+não seria um acto de ruina e destruição, mas sómente o desafogo e desobstrucção
+das tendencias<span class="pn"><a name="pg_57">{57}</a></span> evolutivas
+nacionaes. Para se continuarem e perfazerem, careciam d'essa violenta remoção
+de obstaculos que as prendiam e paralysavam. Aborrecia o modernismo. Detestava
+a mania das imitações estrangeiras. «Deplorava profundamente essa abdicação
+vergonhosa da razão nacional».</p>
+
+<p>A liberdade, aspiração suprema da sua geração e da sua alma, não seria uma
+innovação trazida de terra alheia pela phantasia aerea de sonhadores: era uma
+planta nascida e creada no solo da sua patria e apenas calcada e esmagada, mas
+não morta, aos pés da crueldade despotica dos reis e dos ministros do estado.
+</p>
+
+<p>«As tradições de que tinha saudade, o passado que amava, não eram lendas
+absurdas, inventadas por interesses mundanos, dos quaes, por mais graves que
+fossem, nem a philosophia nem o christianismo consentem se faça o céu
+instrumento. Nos tempos que foram o que lhe sorria, não só como saudade, mas
+tambem como esperança eram as tradições d'essa liberdade primitiva, posto que
+incompleta, filha primogenita do evangelho, que elle gerara para mãe, para
+abrigo das sociedades da Peninsula; d'essa liberdade, rude e turbulenta como
+uma creança educada á lei da natureza, mas como ella robusta e viçosa; d'essa
+liberdade que se estribava nos<span class="pn"><a name="pg_58">{58}</a></span>
+habitos, que resultava de instituições positivas e exequiveis, e não de
+instituições copiadas quasi ao acaso da primeira theoria que tivesse transposto
+os Pyreneus; d'essa liberdade que tornava a monarchia uma cousa santa,
+necessaria, indestructivel, e que a monarchia, por desgraça sua e nossa, foi
+lentamente esmagando debaixo do seu throno, formado dos infolio, politicamente
+fataes, do Digesto, do Codigo e das Glossas e commentarios das escolas
+d'Italia; d'essa liberdade que, desenvolvida e organisada logicamente com a sua
+origem, nos teria poupado talvez á gloria immensa, mas para nós mais que
+esteril, de nos convertermos em victimas da civilisação da Europa, de revelar o
+Oriente á sua cobiça, para logo virmos assentar-nos extenuados num occaso de
+tres seculos; d'essa liberdade que nos teria salvado por certo de um longo
+estrebuxar em esforços impotentes de emancipação, que tomámos como lições de
+estranhos, e que era mais velha para nós do que o era para elles. Eis aqui a
+maravilha, melhor que milagres imaginarios, na qual não só cria, mas tambem
+esperava»<a name="tex2html47" href="#foot496"><sup>[47]</sup></a>.</p>
+
+<p>O apostolo ardente d'essa crença «amaria o passado do seu paiz e as suas
+tradições<span class="pn"><a name="pg_59">{59}</a></span> primitivas.
+Desejava-lhe uma maneira de ser logica com as suas origens, porque, nas
+formulas sociaes de cada nação no berço, tudo vinha naturalmente; as
+instituições derivam dos instinctos de liberdade innatos no coração do homem,
+das suas necessidades materiaes e moraes, que a força então despreza e algumas
+vezes reduz ao silencio, mas que ninguem pensa em sophismar. N'esta epoca da
+vida dos povos, ha muitas cousas incompletas, barbaras; muitos absurdos de
+detalhe; mas a estructura da sociedade nunca era absurda. Essas epocas são em
+geral ainda muito grosseiras para a inanidade de legisladores chimericos,
+fabricantes de systemas, jurisconsultos encarregados de embrulhar os usos
+simples do povo. Queria que se prendesse a liberdade moderna á liberdade
+antiga». Não importava o facto desamor ou menosprezo do progresso e das
+alterações que no seu juizo seriam como phases de um desenvolvimento organico.
+«Amava as cousas antigas mas não amava as velharias. Porque sabia que,
+estudando as instituições da nossa edade-media, lá descobriamos quasi todos os
+principios de liberdade que julgavamos haver descoberto em nossos dias; porque
+ahi via garantias mais reaes, no fundo mais solidas do que aquellas que
+gozavamos, não se seguia<span class="pn"><a name="pg_60">{60}</a></span> que
+desconhecesse a experiencia dos seculos, as vantagens da civilisação e as
+verdades adquiridas para as sciencias sociaes». As instituições que procurava
+derrubar eram apenas uma sobreposição funesta aos principios em que a nação
+portugueza se constituira. Não attentava contra a tradição nacional,
+desenterrava-a e limpava-a da corrupção em que andava perdida, embora a
+corrupção pretendesse abrigar-se e defender-se «na sombra santa dos tumulos,
+dourada pelo sol de milhares de dias». «Desafiava quem quer que fosse a
+provar-lhe que as instituições que Mousinho lançou a terra tivessem existido
+antes do seculo desesseis, ou que, no caso affirmativo, houvessem chegado ao
+começo do seculo desenove sem terem sido desnaturadas, a ponto de se tornarem
+completamente desconhecidas: desafiava-o a provar-lhe que n'essa epoca
+satisfaziam de qualquer modo ao seu destino primitivo; a provar-lhe, emfim, que
+o que se chama meios de governo fosse outra cousa senão meios de absolutismo»<a
+name="tex2html48" href="#foot497"><sup>[48]</sup></a>.</p>
+
+<p>A tolerancia religiosa, sonho das grandes almas dos seus companheiros da
+epopeia liberal, encontrava-a tambem na historia. A<span class="pn"><a
+name="pg_61">{61}</a></span> ambição, porventura intangivel para o inveterado
+despotismo latino, pela qual se derramava tanto sangue e se exaltava tamanho
+esforço de meditação e de propaganda, isso que parecia um reino novo,
+conquistado pela philosophia e por ella arrancado ao fanatismo cruel de
+sectarios tenebrosos, a tolerancia, seria para Alexandre Herculano uma singela
+tradição de bons tempos da vida nacional. Seguissemos-lhe o rasto: conduzia a
+paraisos de candida e repousada fraternidade. E contava, rememorando a jornada
+em que a abençoada curiosidade do historiador lhe trouxera por lá o pensamento:
+</p>
+
+<p>«Restello, como quasi todas as aldeias das cercanias de Lisboa, parecia
+quasi uma terra musulmana ainda no fim do seculo <small>XIV</small>. Ainda
+então avultava, entre a raça goda e christã, a raça africana-arabe. Até esta
+epoca, ou antes até quasi o fim do seculo seguinte, as Hespanhas offereciam um
+phenomeno unico, talvez, na historia: o de tres povos, sectarios de tres
+religiões inimigas, vivendo juntos, e cada qual adorando Deus a seu modo, sem
+que por isso viessem ás mãos, apesar de todas essas crenças serem persuasões
+profundas, e por conseguinte exclusivas. As tres religiões eram o
+christianismo, o islamismo, e o judaismo: o primeiro dominante, o segundo<span
+class="pn"><a name="pg_62">{62}</a></span> tolerado, o terceiro consentido.
+Nobres, cavalleiros e o grosso dos burguezes pertenciam ao primeiro, os homens
+de trabalho, em boa parte, ao segundo, os mercadores, em grande numero, ao
+terceiro. E acima do Evangelho, e da Toura, e do Alcorão, havia um livro que
+fazia o que nunca souberam fazer os comentadores de cada um d'elles; um livro
+que os conciliava. Esse livro era a lei. A lei protegia os diversos cultos
+nacionaes, sem que todavia fosse incredula, como as leis da tolerancia
+moderna... Por algumas d'estas leis, feitas na primeira metade do seculo
+<small>XV</small>, chegaram a ficar sujeitos a graves penas aquelles que
+ousavam offender estes desgraçados na unica herança que lhes restava, a
+religião de seus paes. Todavia não se creia que os legisladores ou o povo eram
+tibios na fé. Como religionario, o christão detestava, ou antes desprezava o
+mouro e o judeu; como cidadão vivia e tratava com elle. Nas leis relativas a
+estas duas raças reprobas, não ha uma só palavra que revele hesitação ou
+indifferença religiosa; mas vê-se que á sua promulgação presidiu a sabedoria. O
+fanatismo cego, bruto e feroz, veio-nos com as primeiras luzes de uma falsa
+civilisação, nos fins do seculo <small>XV</small>, e progrediu com ella por
+todo o seculo <small>XVI</small>. D'antes a raça christã tinha a
+consciencia<span class="pn"><a name="pg_63">{63}</a></span> d'uma grande
+superioridade religiosa, e fazia-a valer na legislação; mas não confundia a
+crueldade e a intolerancia com as distincções que nascem da differença entre o
+superior e o inferior<a name="tex2html49" href="#foot498"><sup>[49]</sup></a>».
+</p>
+
+<p>Internando-se nos labyrinthos da historia, nem sempre teve porém a alegria
+de contemplar suaves apparições bemfazejas, como essa de serena magnimidade que
+viu na aldeia de Restello, povoada de gentes para as quaes a adoração de Deus
+não era motivo de oppressão e odio entre os homens, e onde se mostrasse, em
+qualquer templo da sua eleição, ou erguesse um hymno a Christo ou o
+consagrasse ao propheta islamita, seria invariavelmente protegida pela largueza
+dos corações, pela severidade dos tribunaes e pelas armas dos magistrados da
+cidade. Por vezes o assaltaram espectros terriveis, em logar de apparições
+consoladoras; e, fiel ao seu apostolado, d'elles nos deu fidelissima imagem,
+sem occultar o pavor que lhe infundiam nem a temerosa suspeita de que
+desvairados impios tentassem restituir-lhes a vida para flagello da humanidade.
+</p>
+
+<p>D'este modo, na presença de espectros hediondos, filhos legitimos de
+Satanaz, negação<span class="pn"><a name="pg_64">{64}</a></span> sacrilega de
+Deus, contou-nos Alexandre Herculano a <em>Historia da Origem e Estabelecimento
+da Inquisição em Portugal</em>, pamphleto, libello e homilia, extraordinario e
+unico de eloquencia, pelo calor da enunciação, pela solidez dos fundamentos,
+pela magestade altiva da construcção, pelo poder de dominio, por esse caracter
+augusto de sentença emanada, não do juizo fallivel dum homem, mas da
+auctoridade incontestavel da experiencia e legados das gerações. E, com aquella
+sinceridade perfeita que usava em todos os actos da sua vida, previamente
+confessou os motivos que o instigaram a facultar-nos essa lição soberba.</p>
+
+<p>«Confundindo as ideias de liberdade e progresso com as de licença e
+desenfreiamento, o direito com a oppressão e a propriedade, filha sacrosanta do
+trabalho, com a espoliação e o roubo; tomando, em summa, por systema de reforma
+a dissolução social», certos homens e certas escolas traziam aterrada a classe
+media. Esse erro «de muitas intelligencias aliás eminentes e a quem, em parte,
+sobrava razão para taxar de viciosas ou de incompletas muitas instituições dos
+paizes livres, abria caminho e subministrava pretexto por toda a Europa a uma
+reacção deploravel.» Era um acontecimento grave<span class="pn"><a
+name="pg_65">{65}</a></span> pelas consequencias materiaes e sobretudo pelas
+suas consequencias moraes; era o «espectaculo repugnante» da tyrannia,
+esmagando o governo representativo aos pés dos batalhões de infanteria e dos
+esquadrões de cavallaria, e demonstrando que os «exercitos permanentes,
+nascidos com o absolutismo e só para elle, com elle deviam ter passado para o
+mundo das tradições.» Mas a reacção moral que ia acompanhando a reacção
+material era mais grave para os destinos da liberdade e da civilisação e para
+as crenças dos seus fieis. Ouvia-se já o alarido da soldadesca embriagada:
+applaudia-o o vulgo, que saúda sempre o vencedor; applaudiam-no velhos
+interesses mortalmente feridos que agora se proclamavam alto «em nome do
+direito, em gritos de furor e ameaça»; applaudia-o a hypocrisia que, depois de
+minar debaixo da terra, surgia á luz do sol «balouçando o thuribulo e
+incensando todos os que abusam da força, declarando-os salvadores da religião,
+como se a religião precisasse de ser salva ou coubesse no poder humano
+destruil-a». Renasciam os milagres em frente dos quarteis; «o cercilho e o
+bigode jogavam o futuro sobre o tambor posto em cima da ara».</p>
+
+<p>Isso era grave, era atroz. Mas havia ainda cousa mais grave. Entre os grupos
+que por<span class="pn"><a name="pg_66">{66}</a></span> quasi toda a Europa
+aclamavam as saturnaes da reacção, havia um mais forte e mais perigoso, porque
+em muita parte era senhor do poder politico. Era o «d'aquelles que deviam
+quanto eram e quanto valiam aos triumphos da liberdade; que sem as lides dos
+comicios, dos parlamentos, da imprensa; sem o chamamento de todas as
+intelligencias á arena dos partidos; calcados por um funccionalismo despotico,
+por uma nobreza orgulhosa, por um clero opulento e corrompido, teriam fechado o
+horisonte das suas ambições em serem mordomos ou causidicos de algum degenerado
+e rachytico descendente de Bayard ou do Cid ou em vestirem a opa de meninos do
+côro de algum pecunioso cabido.</p>
+
+<p>«Estes taes que trocaram o aposento caiado pela sala esplendida, o nome peão
+de seus paes pelos titulos nobiliarios, a sapato tauxiado e o trajo modesto do
+vulgo pelos lemistes e setins cortezãos, cobertos d'avelorios e lantejoulas,
+das condecorações com que o poder costuma marcar os seus rebanhos de
+consciencias vendidas», esses «sentiam esvair-se-lhes a cabeça com os tumultos
+eleitoraes, com as luctas da imprensa, com as discussões tempestuosas», e, sem
+se atreverem a abjurar a nova ordem mas atraiçoando-a, imaginavam desvario as
+necessarias e dolorosas experiencias<span class="pn"><a
+name="pg_67">{67}</a></span> e aterrados, «renegando as ideias que
+propugnaram», tentavam salvar pela restauração d'um «absolutismo cachetico e
+impotente» «as suas carruagens, mitras, bastões, veneras, rendas e dignidades».
+Esse era o grupo «dos grandes miseraveis».</p>
+
+<p>Ao pé d'este, estava ainda a burguezia, timida, a tremer dos terremotos
+politicos, pela perturbação que traziam á sua avareza e ganancias. Começava a
+vêr na liberdade espoliações, esquecida das que o absolutismo creára,
+ferozmente protegia e de todo tinham trazido manietada nas ambições economicas
+essa mesma burguezia que agora se afreimava pelo grave risco dos seus haveres.
+Insensata e egoista, com o medo de perdas hypotheticas no futuro, auxiliava a
+renovação das oppressões que no passado a suffocavam.</p>
+
+<p>«Felizmente, no meio das loucuras do terror, muitas almas fortes, muitas
+cabeças intelligentes tinham sabido conservar frio o animo para não abdicarem o
+senso commum» e não consentirem que espiritos vãos ou «corações fementidos
+fizessem das nações materia bruta das suas experiencias politicas ou preza das
+suas ambições desregradas», indo «aspirar a vida no cemiterio dos seculos». Nós
+mesmos, «nação pequena e que a historia desconsiderava ainda pela ideia
+que<span class="pn"><a name="pg_68">{68}</a></span> d'ella fazia», davamos
+n'esta parte mais de um exemplo de alta sabedoria a algumas das maiores nações.
+</p>
+
+<p>«Em certa esphera e até certo ponto, a reacção geral tinha representantes
+entre nós. Cumpria combatel-a, não para convencer aquelles que sempre amaram o
+passado e nunca negociaram com as suas crenças, porque esses respeitava-os; mas
+para fortificar na fé liberal os tibios do proprio campo e premunil-os contra
+as ciladas dos transfugas».</p>
+
+<p>«Levado pelas suas propensões litterarias para os estudos historicos, era,
+sobretudo, por esse lado que Alexandre Herculano julgava poder ser util a uma
+causa, a que estava ligado, rememorando um dos factos e uma das epocas mais
+celebres da historia patria; facto e epoca em que a tyrannia, o fanatismo, a
+hypocrisia e a corrupção nos apparecem na sua natural hediondez. Quando todos
+os dias lhe lançavam em rosto os desvarios das modernas revoluções, os excessos
+do povo irritado, os crimes de alguns fanaticos, e, se quizessem, de alguns
+hypocritas das novas ideias, fosse-lhe licito chamar a juizo o passado, para
+vermos, tambem, onde nos podiam levar outra vez as tendencias de reacção, e se
+as opiniões ultramontanas e hypermonarchicas nos davam garantias de<span
+class="pn"><a name="pg_69">{69}</a></span> ordem, de paz e de ventura, ainda
+abnegando dos foros de homens livres e das doutrinas de tolerancia que o
+Evangelho nos aconselha e que Deus gravou em nossa alma»<a name="tex2html50"
+href="#foot499"><sup>[50]</sup></a>.</p>
+
+<p>A demonstração foi completa. Será difficil produzir mais persuasiva
+accusação das demencias crueis do despotismo do que essa estampada para sempre
+nas paginas da <em>Historia da Inquisição</em>. A irradiação do espectro
+correspondeu ao ardor da fé que o evocou para o anathematisar. Petrificados de
+terror ao vêl-o, não sabemos se nos fulmina a suspeita de que elle renasça da
+treva para nos infligir o martyrio, se nos faz cair prostrados a vergonha da
+prostituição da honra da especie, a perversão humana que affrontou até a
+presença da cruz de Christo e a sua imagem.<span class="pn"><a
+name="pg_70">{70}</a></span></p>
+
+
+
+<h3><a name="SECTION00340000">III</a></h3>
+
+<p>A historia, a cujo conselho Alexandre Herculano pedia o conhecimento dos
+homens e a confirmação das aspirações do seu genio, esclarecia-o e ditava-lhe
+de continuo regras de vida. Teria por isso de lhe traçar parallelamente uma
+politica, que não deve ser outra cousa senão a regra da vida publica, a
+expressão do dever civico, ampliando e completando o systema de obrigações com
+o proprio individuo e nas suas relações mais proximas.</p>
+
+<p>Por esta ligação, o principio religioso do amor entre os homens, luz
+perpetua do apostolo em toda a contingencia, iria encontrar a definição
+concreta mais completa no povo, no ser anonymo, substancia e alma das
+sociedades, presente em todos os movimentos de caracter collectivo e
+modificando a communidade, imprimindo-lhe tendencias, direcção e forma, embora
+o resultado ultimo houvesse dado por longo tempo a illusão de ser obra do
+esforço de genios e heroes. Pulsava no povo a bondade do coração; esse dote tão
+cobiçado e raro entre os maiores, era vulgar<span class="pn"><a
+name="pg_71">{71}</a></span> nas ultimas camadas sociaes, onde o continuo roçar
+das privações e dores predispõe os animos para a compaixão»<a name="tex2html51"
+href="#foot500"><sup>[51]</sup></a>. N'elle se refugiava a franqueza e a
+sinceridade, a negação da mentira, principio fundamental de virtude e expressão
+primaria da religião; o povo «póde ser injusto, voluntarioso, insolente, cruel;
+póde arrastar pelas ruas bispos traidores, donas prostituidas, alcaides
+vendidos ao rei estranho; mas tem uma virtude: é franco e sincero; franco e
+sincero no seu amor e no seu odio; usa verdade, e dil-a sem curar se dóe ou não
+dóe»<a name="tex2html52" href="#foot501"><sup>[52]</sup></a>.</p>
+
+<p>O caracter do povo, comendo o pão com o suor do seu rosto, revestiria uma
+grandeza austera no labor rude, se o comparava com a dissolução e dissipação
+das aristocracias, de todo o tempo occultando sob o manto do cavalleiro e suas
+armas fulgurantes, avidez, luxuria e cobiça. Santificava-se, se o confrontava
+com os fidalgos do reinado de D. João I, jogando nas tavolagens «o producto dos
+terradegos, chavadegos e maninhadegos, das osas, gayosas e luctuosas, das
+eiras, angueiras, perangueiras, carreiras e fossadeiras, e dos mais fôros,
+direituras e costumagens em<span class="pn"><a name="pg_72">{72}</a></span>
+adegos, em osas, em eiras, e em todas as rapinas possiveis da rapina legal e
+tradicional»<a name="tex2html53" href="#foot502"><sup>[53]</sup></a>. Clamava
+justiça e bradava aos céus, parecendo imploral-a do rei, quando pela bocca dos
+procuradores dos concelhos se lhe ia queixar «dos senhores, que, rodeiados dos
+seus vassalos e clientes, costumavam residir nas terras a elles sujeitas, e
+que, para evitarem os tedios da triste vida provinciana, consummiam, em lautos
+banquetes, ás vezes n'um mez, as subsistencias d'um anno, esquecendo-se de
+pagal-as, queixa absurda, visto que elles por serem nobres não eram isentos das
+debilidades da retentiva humana; e se por ahi violavam donzellas e viuvas,
+segundo os artigos rezavam, menos por fartar paixões más o faziam que por
+benevolencia para com essa raça achavascada, meio-mourisca meio-servil, de
+labregos desagradecidos»<a name="tex2html54"
+href="#foot503"><sup>[54]</sup></a>.</p>
+
+<p>Aquella mesma burguesia, cuja erupção Alexandre Herculano presenciava
+convertendo em desapiedadas usuras descaradas os sonhos da ingenuidade liberal
+que lhe facultou o poder, essa mesma, dissimulada em trajos de modestia e com
+gestos patrioticos, era aquell'outra, igualmente abominavel, que no<span
+class="pn"><a name="pg_73">{73}</a></span> tempo de D. João I se viu
+representada a primor em mestre Esteveannes, «uma parcella rudimental d'essa
+classe media que se ia organisando no meio das transformações sociaes de edade
+media, classe cujos caracteres appareciam já no modo de pensar do honrado
+mester&mdash;a má vontade para tudo quanto a fortuna ou o berço pôz acima d'ella, e
+um orgulho tyrannico para com as camadas inferiores do povo, d'entre as quaes
+foi surgindo;&mdash;classe egoista e oppressora como a que substituiu em influencia
+e riqueza, e peior do que ella na hypocrisia, tendo na bocca a liberdade, a
+moral, a justiça, e no coração o despreso do pobre e humilde, a cobiça
+insaciavel, a vaidade e a corrupção; <em>classe</em>, emfim, ácerca da qual a
+historia terá no porvir de lavrar uma sentença ainda mais severa, do que
+ess'outra que já pesa sobre a memoria dos ferozes e dissolutos barões e
+cavalleiros dos seculos de barbaria»<a name="tex2html55"
+href="#foot504"><sup>[55]</sup></a>.</p>
+
+<p>Não perdoou Alexandre Herculano á classe media a impostura e astucia que a
+tornou algoz quando jactanciosa apregoava a sua misericordia, como não perdoou
+nem podia perdoar o crime de lesa-sociedade e traição do seu mandato á
+monarchia absoluta, que<span class="pn"><a name="pg_74">{74}</a></span>
+desrespeitou o povo e as instituições populares, «mostrando-se parenta proxima
+do liberalismo moderno no desprezo estupido e brutal dos mais venerados
+monumentos d'essas epocas de liberdade incompleta mas sincera, em que o monarca
+era o alliado dos povos, o braço que estes estendiam para annular a tyrannia da
+casta privilegiada, se ella ousava quebrar-lhes os seus foros, avexal-os ou
+opprimil-os»<a name="tex2html56" href="#foot505"><sup>[56]</sup></a>;
+degradando em comedia «qualquer cousa grande e forte», a vida municipal, que
+essa mesma monarchia absoluta legou «transformada em farça de titeres, ás
+hexarchias ministeriaes, que acceitamos benevolamente como governo
+representativo»<a name="tex2html57" href="#foot506"><sup>[57]</sup></a>.</p>
+
+<p>Todas as formas do poder politico, todo o systema de direito publico em
+qualquer gráo que o presentisse, todo o dominio de senhores e classes Alexandre
+Herculano desamava, se opprimiam o povo e não eram filhos do seu genio. «A mais
+bella, mais energica e mais vivaz» instituição, derivada do principio da
+associação, a mais perfeita consubstanciação da aspiração commum no seu modo de
+ser politico, para elle «era e seria sempre o municipio»<a name="tex2html58"
+href="#foot507"><sup>[58]</sup></a>.<span class="pn"><a
+name="pg_75">{75}</a></span></p>
+
+<p>Ouçamol-o. Necessario se torna ouvil-o com mais pausa do que até aqui o
+temos feito. Tocamos no amago da sua politica, no coração da cidade que elle
+sonhou. Meditemos as suas palavras. Comparemos a sua concepção da sociedade
+politica com todas aquellas muito captivantes que architectaram os mais
+profundos pensadores do nosso tempo e os mais zelosos apostolos da democracia,
+ao fim de innumeraveis annos de estudo e de experiencias cruciantes que
+devoraram milhares de martyres. Talvez depois possamos entrever como o poeta, o
+crente e o historiador geraram o propheta, que clarão elle accendeu nos
+amortecidos fachos do passado para nos illuminar uma rutila estrada no futuro:
+</p>
+
+<p>«Na essencia de todas as associações humanas, em todas as epocas e por toda
+a parte actuam dois principios: um da ordem moral, intimo, subjectivo; outro da
+ordem material, visivel, objectivo. É o primeiro o sentimento innato da
+dignidade e da liberdade pessoal; é o segundo o facto constante e
+indestructivel da desigualdade entre os homens. As revoluções interiores das
+sociedades, as suas luctas externas, as mesmas mudanças lentas e pacificas da
+sua indole e organisação constituem phases mais ou menos perceptiveis do
+ascendente que toma um ou<span class="pn"><a name="pg_76">{76}</a></span> outro
+d'esses principios em lucta perpetua entre si. Cavando até o amago de qualquer
+grande facto historico, lá vamos encontrar esse perpetuo combate. As
+conquistas, o despotismo, as oligarchias, seja qual for o seu nome, são
+manifestações diversas do predominio do mesmo principio de desigualdade, quer
+este se estribe na força bruta, quer na destreza e intelligencia, quer na
+propriedade: as resistencias, felizes ou infelizes, das nacionalidades ou das
+democracias, emquanto não degeneram na exclusão e na tyrannia do maior numero,
+são manifestações do sentimento da dignidade e liberdade humanas, do principio
+subjectivo ou de consciencia. Factos ambos innegaveis e indestructiveis, a
+grande questão social é equilibral-os, e não tentar o impossivel, pretendendo
+annular um ou outro: porque foi Deus quem estampou um na face da terra, ao
+passo que escrevia o outro no coração do homem. A inutilidade dos esforços
+d'este seculo para assentar a sociedade em novas bases, a frequencia dos
+terriveis abalos que agitam a Europa tentando regenerar-se não procedem,
+porventura, senão do exclusivo dos partidos que representam as duas ideias, da
+negação de legitimidade com que mutuamente se tratam. Sobranceiras ao immenso
+campo de batalha onde se disputa o<span class="pn"><a
+name="pg_77">{77}</a></span> futuro, duas tyrannias esperam que se resolva a
+contenda para vêr qual d'ellas se assentará no throno do mundo, a democracia
+absoluta, que desmente a lei natural das desigualdades humanas, ou a oligarchia
+oppressora e materialista que se ri das aspirações do coração, que não crê na
+consciencia das multidões, que confunde o facto da superioridade com o direito
+de opprimir as classes populares, cujos membros são para ella simples machinas
+de producção destinadas a proporcionar-lhe os commodos e gosos da vida. Seja,
+porém, qual fôr o desfecho do combate, a paz que resultar do triumpho exclusivo
+dum dos principios nunca será duradoura; porque esse triumpho importa a
+condemnação de uma lei eterna, que não é licito offender impunemente: nunca a
+liberdade e a paz poderão subsistir emquanto concessões mutuas não tornarem
+possivel a coexistencia e a simultaneidade dos dous principios.</p>
+
+<p>«A historia dos successos politicos que não é senão o resumo das
+experiencias do genero humano, quer se refira á vida interna, quer á vida
+externa das nações, cifra-se em descrever phenomenos mais ou menos notaveis
+dessa lucta interminavel. A conquista emprehendida ou realisada pelo mais forte
+corresponde a resistencia ou a reacção do<span class="pn"><a
+name="pg_78">{78}</a></span> mais fraco, ao despotismo de um as conjurações de
+muitos; á opposição oligarchica a revolução democratica. Nenhum, porém, d'esses
+factos traz uma situação definitiva. Na conclusão da peleja em que um dos
+principios triumpha absolutamente começa a preparar-se a victoria do principio
+adverso. D'este modo a historia encerra um protesto perenne da liberdade contra
+a desigualdade, digamos assim, activa, e ao mesmo tempo attesta-nos que todos
+os esforços para a substituir por uma igualdade absoluta teem sido inuteis e
+que esses esforços ou degeneram na tyrannia popular, no abuso da desigualdade
+numerica, ou fortificam ainda mais o despotismo de um só, ou o predominio
+tyrannico das oligarchias da intelligencia, da audacia e da riqueza.</p>
+
+<p>«Allumiada pelo clarão do evangelho triumphante, a edade media, epocha da
+fundação das modernas sociedades da Europa, offerece no complexo das suas
+instituições e tendencias um começo de solução ao problema que o mundo antigo
+não soubera resolver. Causas diversas preparam, durante os seculos
+<small>XIV</small> e <small>XV</small>, o estabelecimento das monarchias
+absolutas, que impediram o desenvolvimento logico d'aquellas instituições, na
+verdade barbaras e incompletas mas que, apezar da sua imperfeição e rudeza,
+continham os elementos do<span class="pn"><a name="pg_79">{79}</a></span>
+equilibrio entre a desigualdade e a liberdade. Longe de negar ou condemnar com
+colera infantil as differenças de intelligencia, de força material e de riqueza
+entre os homens, ou de tentar inutilmente destruil-as, a democracia da edade
+média, representante do principio de liberdade, confessava-as, acceitava-as
+plenamente, acceitava-as até em demasia; mas, por isso mesmo, mostrava
+instinctos admiraveis em organisar-se e premunir-se contra as tendencias
+anti-liberaes d'essas superioridades. Foram semelhantes instinctos que
+produziram os concelhos ou communas; esses refugios dos foros populares, essas
+fortes associações do homem de trabalho contra os poderosos, contra a
+manifestação violenta e absoluta do principio de desigualdade, contra a
+annulação da liberdade das maiorias. Em nosso entender, a historia dos
+concelhos é em Portugal, bem como no resto da Hespanha, um estudo importante;
+uma lição altamente proficua para o futuro; porque estamos intimamente
+persuadidos de que, depois de longo combater e de dolorosas experiencias
+politicas, a Europa ha-de chegar a reconhecer que o unico meio de destruir as
+difficuldades de situação que a affligem, de remover a oppressão do capital
+sobre o trabalho, questão suprema a que todas as outras nos parecem<span
+class="pn"><a name="pg_80">{80}</a></span> actualmente subordinadas, é o
+restaurar, em harmonia com a illustração do seculo, as instituições municipaes,
+aperfeiçoadas sim, mas accordes na sua indole, nos seus elementos com as da
+edade media. Sem ellas, o predominio do despotismo unitario, o do patriciado do
+capital e da força intelligente, que sob o manto da monarchia mixta domina hoje
+a maior parte da Europa, ou o da democracia exclusiva e odienta, expressão
+absoluta do sentimento exaggerado da liberdade, que ameaça devorar
+momentaneamente tudo, não são a nossos olhos senão formulas diversas de
+tyrannia, mais ou menos toleraveis, mais ou menos duradouras, mas incapazes de
+conciliar definitivamente as legitimas aspirações da liberdade e dignidade do
+homem em geral com a superioridade indubitavel e indestructivel d'aquelles,
+que, pela riqueza, pela actividade, pela intelligencia, pela força, emfim, são
+os representantes da lei perpetua da desigualdade social.</p>
+
+<p>«A historia da instituição e multiplicação dos concelhos é a historia da
+influencia da democracia na sociedade, da acção do povo na significação vulgar
+d'esta palavra, como elemento politico»<a name="tex2html59"
+href="#foot508"><sup>[59]</sup></a>.<span class="pn"><a
+name="pg_81">{81}</a></span></p>
+
+<p>Porque esse elemento politico era na vida social das nações o elemento
+vital, Alexandre Herculano teria de applaudir, e eloquentemente o fez, a obra
+revolucionaria de Mousinho da Silveira. Que fôra ella senão um resgate de
+servidões do povo?!...</p>
+
+<p>Aboliu os dizimos ecclesiasticos e os direitos de senhorio, e por esse modo
+libertou a propriedade e o trabalho agricola, a pequena industria e o pequeno
+commercio de dois terços dos impostos que sobre elles pesavam, dos quaes o
+fisco recebia apenas uma parte minima. Separou as funcções judiciaes das
+administrativas. Organisou os tribunaes de justiça. Deixaram de ser pessoaes e
+hereditarios os empregos publicos. Decretou a liberdade do ensino. Deu o
+primeiro golpe nos morgados, supprimindo os de rendimento inferior a duzentos
+mil reis. Secularisou um certo numero de conventos e lançou as bases para a
+suppressão gradual e total dos estabelecimentos d'este genero e das outras
+corporações ecclesiasticas não comprehendidas na verdadeira hierarchia da
+egreja, suppressão «mais tarde realisada com uma imprevidencia e uma
+brutalidade inauditas, e, o que foi peior, inuteis». Limitou as sisas ás
+transacções sobre bens de raiz, e reduziu-lhes a importancia a metade, a até a
+menos de<span class="pn"><a name="pg_82">{82}</a></span> metade em certas
+hypotheses. Aboliu monopolios como o do sabão, da venda do vinho do Porto, e
+outros. Á liberdade politica, que os concelhos traduziam, era necessario que
+correspondesse a liberdade moral e principalmente economica, que as leis de
+Mousinho decretavam. «Era necessario arrancar o povo das garras do absolutismo
+que o estrangulavam; e para o conseguir o meio mais seguro e certo era
+cortar-lh'as». Foi isso o que o duque de Bragança fez; e o povo comprehendia-o.
+Não «a populaça, que não reflectia; que quasi não tinha interesses materiaes ou
+moraes dependentes das medidas do gabinete Mousinho: que todos os dias era
+prégada, excitada, fanatisada por padres e frades. Essa parte da nação era
+então o que é hoje, o que será amanhã. Gostava de mendigar ás portas dos
+conventos e das abbadias, e alistar-se entre a creadagem dos donatarios da
+corôa, dos commendadores, dos capitães móres, de todos aquelles que viviam do
+producto dos velhos impostos, que as instituições e as leis tornavam legaes,
+mas que a justiça, a razão e a humanidade tornavam illegitimos»; essa não podia
+apreciar os decretos de Mousinho. Mas ess'outro povo que é «alguma cousa de
+grave, de intelligente, de laborioso; os que possuem e trabalham, desde o
+simples rendeiro<span class="pn"><a name="pg_83">{83}</a></span> ou o
+trabalhador do seu proprio campo até ao grande proprietario; desde o
+bofarinheiro e o tendeiro até ao mercador por grosso; desde o official até ao
+fabricante»; estes espalhavam, liam e comentavam as leis de Mousinho;
+«comparavam os seus resultados necessarios com os pesados cargos que esmagavam
+as classes laboriosas e impediam todo o progresso»; e debalde o partido
+realista tentava obstar ao effeito moral d'aquelles decretos sobre o espirito
+dos que elles favoreciam.</p>
+
+<p>E porque o povo as apreciava e applaudia, por isso Alexandre Herculano, que
+via no dominio do povo a victoria da liberdade, applaudiu as medidas de
+Mousinho, «vassoura immensa de instituições carunchosas», a que embaraçavam a
+seiva da vida social e formavam os contrafortes do absolutismo». Tinha
+presentes, porque a historia lh'os havia pintado, os quadros da oppressão do
+antigo regimen. Vira «no pateo de cada granja, na eira de cada campo, no limiar
+de cada adega os agentes do commendador ou do bispo, do capitulo ou do abbade,
+do donatario e do alcaide-mór a pedirem, um a dizima, o outro o quarto, um
+outro o oitavo do rendimento total dos cereaes, do vinho, do linho, do azeite,
+de quasi todos os productos». Sabia que a miseria do paiz<span class="pn"><a
+name="pg_84">{84}</a></span> havia de perpetuar-se «emquanto se encontrassem
+aquelles agentes, computando aqui quantos carros de milho o lavrador devia, em
+virtude de um foral de Affonso I, a um gordo senhor bochechudo, companheiro
+divertido, illustre vadio, vindo de nobres avós, mas que por certo não havia
+herdado a corôa do dito Affonso I; enumerando acolá uma ladainha de rendas, com
+nomes heteroclitos e barbaros, exigiveis da choupana e da granja; emquanto se
+visse ainda por cima, quando o pobre cultivador cahia exausto, o coração
+rasgado de dôr, sobre os restos do fructo do seu trabalho, chegar o exactor
+fiscal e pedir, em nome do rei vivo, novos dizimos e outros impostos que não se
+lhe havia tirado em nome dos reis mortos»<a name="tex2html60"
+href="#foot509"><sup>[60]</sup></a>. A injustiça contra o povo, filho dilecto
+de Deus porque consagra o amor pelo trabalho, clamava indignada na alma do
+poeta, e por isso elle abençoava a obra do dictador revolucionario.</p>
+
+<p>Esse povo, porém, que ella amava e queria enthronisado e defendido nos
+baluartes do municipalismo, não seria um rebanho de animaes possantes, bem
+mantido no seu vigor bestial, selvaticamente alheio á grandeza moral da
+humanidade. Seria livre e forte, mas<span class="pn"><a
+name="pg_85">{85}</a></span> para «ser livre, era necessario que fosse
+religioso e honesto; e para que fosse religioso e honesto era necessario que
+conhecesse as doutrinas do Evangelho, que não são mais do que a confirmação
+divina da moral universal. Em vez de inculcar crendices ao povo, cumpria
+inculcar-lhe os principios do christianismo, e as consequencias d'aquelles
+principios: cumpria illustral-o em vez de o conservar na ignorancia: fazer-lhe
+sentir que a força de praticar grandes e nobres sacrificios, tão recommendados
+por Jesus, é o caracter que distingue o espirito immortal do homem do instincto
+que anima as alimarias. Era preciso convencel-o de que o patriotismo, de que
+esse puro e santo affecto que nos faz abandonar os commodos domesticos, as
+affeições do coração, e arrostar com a fome, com a sede, com a nudez, com a
+intemperie das estações, para irmos morrer n'um campo de batalha, salvando a
+terra em que dormem nossos maiores, defendendo a cruz do nosso adro, a vida de
+nossos paes, a honra de nossas irmãs e mulheres, é a manifestação mais solemne
+da energia do espirito humano, e da abnegação christã»<a name="tex2html61"
+href="#foot510"><sup>[61]</sup></a>.</p>
+
+<p>Quereria o povo glorioso, mas a gloria que lhe appetecia era a do trabalho e
+a do amor.<span class="pn"><a name="pg_86">{86}</a></span> E definia-a. Era
+indispensavel definil-a porque, precursores de uma reacção do despotismo que em
+nossos dias teve suas horas de favor e de triumpho com o nome de imperialismo,
+já em tempo de Alexandre Herculano havia «homens de novas ideias, que se diziam
+cheios de illustração e philosophia», para os quaes «onde quer que perecessem
+milhares de homens, combatendo por interesses que não comprehendiam, ou por
+torpe cobiça; onde quer que o ferro e o fogo arrasassem as cidades,
+despovoassem os campos, embora d'essas cidades e campos nenhum mal tivesse
+vindo aos seus destruidores, havia uma gloria sem mancha, immensa,
+immarcessivel. Herdeiros pequeninos e pacificos dos gigantes da assolação, dos
+Tainerlans, dos Attilas e dos Gengiskans, avaliavam pela estimativa d'aquelles
+illustres selvagens as façanhas dos proprios avós. Se a historia
+pergunta:&mdash;Acaso esses combates em que, sem duvida, se praticaram grandes
+feitos, foram uteis ao progresso material e moral do povo em cujo nome se
+pelejaram, ou trouxeram a sua decadencia? Está ou não essa gloria militar,
+aliás indisputavel, assombrada por grandes crimes? Foi a intenção, a qual só
+determina o valor moral das acções, nobre, grandiosa, pura, ou teve motivos
+menos elevados? Foi um arrojo, um impeto<span class="pn"><a
+name="pg_87">{87}</a></span> nacional, ou um impulso dado pela ambição, ou pelo
+capricho de algum principe?&mdash;A historia que faz estas perguntas ou outras
+analogas, porque esse é o seu dever, commettia aos olhos dos taes um crime de
+leso-patriotismo... O povo, affirmam elles, ha de moralisar-se pelas tradições
+da sua grandeza e gloria. O povo! Pois o povo que tantas vezes trata de perto a
+fome e a nudez; cuja vida, desde o berço de farrapos até á enxerga rota em que
+fenece, vae travada de receios, de sobresaltos, de desalentos e de agonias,
+pensa lá nas cutiladas que se deram, nas bombardadas que se despediram, ha tres
+ou quatro seculos, por mãos d'uns homens, cujos nomes e cujas façanhas se
+memoram n'uns livros que elle nunca leu, porque não sabe lêr, nem tem dinheiro
+para pão, quanto mais para livros? Que são essas palavras retumbantes de
+regeneração pelas tradições, senão sons ocos, que não correspondem a nenhuma
+ideia? Supponhamos, porém, que todas essas recordações chegavam ao povo. Podem
+ellas servir-lhe de exemplo, de lição para as suas necessidades actuaes? N'um
+paiz onde a riqueza passageira destruiu os habitos do trabalho e da economia,
+entorpeceu pela miseria, resultado infallivel da prosperidade ficticia, a
+energia do coração, que faz luctar o homem com a<span class="pn"><a
+name="pg_88">{88}</a></span> adversidade e vencel-a, de que serve estar de
+continuo a pregar ao povo:&mdash;«Teus avós levaram o terror do seu nome aos confins
+do mundo, saqueiaram e queimaram emporios opulentos em plagas remotas, metteram
+a pique poderosas armadas, derribaram os templos alheios, violaram as mulheres
+estranhas, passaram á espada os que eram menos valorosos que elles, abriram
+caminho ao engrandecimento dos outros povos da Europa, e affeitos a gosos
+faceis, deposeram aos pés do absolutismo as suas velhas franquias, beijaram os
+grilhões que lhes deitavam aos pulsos porque eram dourados, e tornaram-se
+ludibrio do mundo».&mdash;Estas lições é que hão de ensinar a actividade no
+trabalho, a severidade nos costumes, o amor da liberdade moderada, mas
+verdadeira, o direito de cultivar as artes de paz, no meio de um paiz
+decadente, cuja unica esperança de salvação está em se desenvolverem n'elle
+essas e outras tendencias analogas? Não! O povo, que tem mais logica do que os
+prégadores de vãos apophtegmas, ha de concluir outra cousa d'ahi; ha de
+concluir que é assaz fidalgo para não contrahir habitos villãos e ruins. De
+historias d'aggressões e de conquistas brilhantes não se deduz a necessidade de
+morrer obscuramente em defeza da terra da patria; não se deduz a<span
+class="pn"><a name="pg_89">{89}</a></span> moderação revestida de firmeza, que
+faz respeitar pelas grandes as nações pequenas; não se deduzem nem o amor do
+trabalho nem o amor da virtude»<a name="tex2html62"
+href="#foot511"><sup>[62]</sup></a>.</p>
+
+<p>«Morigeração, trabalho, sciencia, eram as armas em que a philosophia
+politica d'aquelle seculo ensinaria as nações civilisadas a combaterem n'uma
+lucta generosa. Os espiritos mais altos, fosse qual fosse a sua crença
+religiosa e politica, proclamavam a paz e a fraternidade entre os homens. E não
+só as proclamavam mas até empregavam a poderosa alavanca da associação para
+promoverem uma cruzada santa contra as tendencias guerreiras. Os esforços
+collectivos d'esses homens summos seriam baldados? Não o cria. Tinham um
+alliado irresistivel. Quando os exercitos permanentes e as grandes marinhas
+militares tivessem devorado todo o peculio de cada povo, e exhaurido a melhor e
+a mais pura seiva da sua vida economica, era então que a philosophia politica
+havia de alcançar um triumpho decisivo. Mas esse triumpho que outra cousa seria
+senão o ultimo termo de uma sorites immensa, composta dos factos de dezenove
+seculos, de uma demonstração pratica e invencivel, de que a lei moralmente<span
+class="pn"><a name="pg_90">{90}</a></span> necessaria das sociedades modernas é
+o christianismo, é o verbo do amor e da paz revelado no Evangelho?</p>
+
+<p>«N'esses dias, que porventura tardavam menos do que muitos pensavam, que
+destino dariam os sacerdotes da bombarda, da lança e da espada aos seus deuses
+fulminados? As palavras «façanhas, gloria guerreira, conquistas» como seriam
+definidas nos diccionarios das linguas vivas, dentro de um ou dois seculos?»<a
+name="tex2html63" href="#foot512"><sup>[63]</sup></a>.</p>
+
+<p>Era para esses seculos futuros que Alexandre Herculano queria educar o povo
+na sua crença, e outra mais nobre e pura, é certo, até ao presente se não
+encontrou ainda. Justificaram-na os tempos, e as esperanças de hoje n'ella nos
+exaltam, glorificando em nossos corações o apostolo e a sua fé.<span
+class="pn"><a name="pg_91">{91}</a></span></p>
+
+
+
+<h3><a name="SECTION00350000">IV</a></h3>
+
+<p>Seria ainda fructo da applicação ao estudo da historia, nasceria do
+conhecimento profundo das origens e vicissitudes das instituições e do
+prolongado manusear dos seus codices, a notavel capacidade de jurisconsulto que
+Alexandre Herculano revelou e usou com felicissimo exito em diversas
+conjuncturas da sua vida de publicista, e sobretudo na discussão e redacção do
+projecto do codigo civil? Foram as qualidades de historiador que crearam as
+aptidões de legislador?</p>
+
+<p>Evidentemente, o exame da estructura juridica tradicional das sociedades em
+geral e, em particular, da constituição da nação portugueza por esse lado, a
+comprehensão dos systemas de direitos e obrigações que cimentaram a formação e
+desenvolvimento da unidade nacional, incital-o-iam a confiar na efficacia das
+leis e, por impulso logico, passaria da analyse d'aquellas que nos seculos
+passados nos regeram á critica das que encontrou vigorando, e á elaboração de
+outras que, para fortuna da patria, as modificassem e as substituissem<span
+class="pn"><a name="pg_92">{92}</a></span> no futuro. Os meios de governar,
+cujas virtudes se lhe mostraram claras durante seculos, manifestando-se
+identicos áquelles que tinha vindo encontrar energicos e activos, operando no
+momento presente e imprimindo-lhe caracter, convence-lo-iam da permanencia
+d'uma força com a qual as sociedades tinham a contar em toda a conjunctura.
+Verificando-lhe a constancia e os effeitos no correr dos seculos e no presente,
+por isso se esforçava em a corrigir de desvios e erros funestos á prosperidade
+e á paz entre os povos, e em convertel-a, quanto possivel, em instrumento de
+felicidade e justiça entre os homens.</p>
+
+<p>O alto valor das aptidões de jurisconsulto de Alexandre Herculano, esse
+notabilissimo traço do seu genio na capacidade da applicação pratica dos
+principios e da sua reducçáo a obrigações e direitos, é abonado pelo testemunho
+de contemporaneos auctorisados, ainda mesmo para aquelles que, por falta de
+conveniente educação de espirito ou por diversidade de inclinações, hesitassem
+em a apreciar ou de todo a julgassem assumpto interdicto á sua critica. Vicente
+Ferrer Netto Paiva, jurisconsulto e publicista eminente, companheiro e intimo
+de Alexandre Herculano,&mdash;para citarmos apenas um entre muitos dos mais
+competentes, disse no <em>Elogio historico</em> do<span class="pn"><a
+name="pg_93">{93}</a></span> amigo, lido em sessão do Instituto de Coimbra a 23
+de maio de 1878:</p>
+
+<p>«O sr. Alexandre Herculano, que gostava de questionar e discutir, tomava a
+palavra em quasi todas as questões que se ventilavam no seio da commissão
+(revisora do codigo civil). E, apezar de não ser jurisconsulto, fallava com
+tanta proficiencia, que era sempre escutado com a maior attenção pelos outros
+membros da commissão, que se tinham dedicado á sciencia do direito; e conseguiu
+muitas vezes fazer vencer as questões pela parte que elle sustentava. Muitas
+propostas suas melhoraram o projecto do codigo civil e são hoje leis do paiz. O
+que porém admirava aos jurisconsultos da commissão era ver que nunca ia de
+encontro a um principio de direito, apezar de as questões serem muitas vezes
+complicadas e difficeis. Parecia que tinha estudado a fundo a sciencia do
+direito. Se duvidaes do meu testemunho, como de amigo suspeito, vêde o que
+escreveu sobre a questão do chamado casamento civil em os diversos opusculos
+que publicou a este respeito, batendo-se com o auctor do projecto do codigo
+civil, um dos maiores jurisconsultos d'este reino. Vêde a subtileza, com que
+analysou as velhas leis do reino, as leis canonicas e os textos das leis
+romanas; os immensos recursos que descobriu<span class="pn"><a
+name="pg_94">{94}</a></span> na historia e costumes antigos; e os profundos
+conhecimentos que mostrou da philosophia do direito. O debate entre estes dois
+grandes homens foi digno d'elles».</p>
+
+<p>«Ainda o sr. Alexandre Herculano fez outro serviço importante na commissão
+revisora do codigo civil. Esta commissão, por ser de quatorze membros,
+julgou-se muito numerosa para poder fazer a redacção final do projecto, e
+nomeou uma commissão pequena, composta do sr. Alexandre Herculano e de quem
+escreve estas linhas. Ambos concordámos em que o sr. Alexandre Herculano
+fizesse a redacção, que eu leria depois, para vêr se n'ella ia alguma palavra
+de uso vulgar, que devesse ser substituida por outra propria da sciencia do
+direito. E não me lembro de substituir senão uma ou duas palavras. Todo este
+serviço deve-o a nação ao sr. Alexandre Herculano».</p>
+
+<p>Todavia, este homem que tanto confiava nas determinações juridicas da
+sociedade e tanto se inflamava na sua discussão, que tinha fé na lei como
+portadora da ordem e de grandes beneficios, e a temia e lhe queria como fautora
+de destinos varios e distribuidora de bens magnificos, esse homem dizia-se
+individualista ferrenho e proclamava-se inimigo do confuso e impetuoso
+socialismo do seu tempo, de esse que poderiamos chamar do periodo<span
+class="pn"><a name="pg_95">{95}</a></span> religioso e apostolico, mal
+esboçando ainda a sua phase organica. Antevendo na victoria de semelhantes
+principios a restituição das armas e a consagração dos direitos que conduziam
+ao resurgimento de tyrannias nefandas, não podia conformar-se com a
+reconstrucção do edificio tenebroso, derrubado ha pouco á custa de campanhas
+heroicas e prolongadas, das quaes fôra soldado. «Que a tyrannia de dez milhões
+se exercesse sobre um individuo, que a de um individuo se exercesse sobre dez
+milhões d'elles, era sempre a tyrannia, era sempre uma cousa abominavel».
+«Passado um seculo, era muito possivel que o liberalismo tivesse desapparecido.
+As gerações precisam ás vezes retemperar-se nas luctas da anarchia ou nas dores
+da servidão: concentram-se para a explosão calcadas sob o pé ferreo da força
+brutal. Deixassem-no levar, para se entreter a ruminal-a pelo caminho, a
+convicção de que, entalada entre duas betas negras,&mdash;a tyrannia em nome do céu
+e a tyrannia em nome do algarismo,&mdash;surgiria como um fóco de luz, nas paginas
+da historia, a epoca em que se proclamavam os direitos individuaes absolutos e
+imprescriptiveis, embora as paixões humanas nem sempre os respeitassem». «As
+ideias democraticas tendiam pela sua indole a apoucar o individuo e a
+engrandecer a sociedade,<span class="pn"><a name="pg_96">{96}</a></span> se é
+que elle as comprehendia. Era por isso que, nas trevas do seu pensar, a
+democracia estendia constantemente os braços para o phantasma irrealisavel da
+igualdade social entre os homens, blasphemando da natureza, que, impassivel, os
+ia eternamente gerando physica e intellectualmente desiguaes. Era por isso que
+ella acreditava ter feito uma religião seria d'esse phantasma, quando o que
+realmente fez foi inventar a idolatria do algarismo... A sua intelligencia
+amotinava-se contra a conversão do homem em molecula. Repugnava-lhe vel-o
+apoucado, quasi annulado, deante da sociedade, e esta, pessoa moral, individuo
+collectivo, artificial, subrogando-se ao individuo<a name="tex2html64"
+href="#foot513"><sup>[64]</sup></a>».</p>
+
+<p>O individualista intransigente, tomando porém responsabilidades de governo,
+abrandou do rigor do philosopho e cedeu á evidencia e instancias das
+necessidades publicas e das indicações da justiça. Eleito presidente da camara
+municipal de Belem, estadista por um rapido momento em uma espera acanhadissima
+mas na sua extrema exiguidade sufficiente para demonstração das tendencias de
+quem n'ella exercia magistratura, Alexandre Herculano<span class="pn"><a
+name="pg_97">{97}</a></span> depressa se conciliou com um radicalissimo inicio
+de tyrannia em nome da sociedade, fazendo que a camara da sua presidencia
+sollicitasse do parlamento auctorisação para crear uma «Caixa de Soccorros
+Agricolas», cujas bases expunha.</p>
+
+<p>Pretendia a camara crear um fundo permanente destinado a subministrar
+capitaes baratos aos cultivadores, para os amanhos ruraes. Para isso reservaria
+annualmente tres quartos do producto do imposto da farinha fabricada, até
+completar a somma de 35:000$000 réis, podendo todavia substituir aquelle
+imposto por qualquer outro, uma vez que o seu producto fosse pelo menos
+equivalente aos mesmos tres quartos designados. A caixa emprestaria aos
+cultivadores do concelho, por prazo nunca excedente a um anno, e a juro de 1/4
+por cento ao mez, o capital necessario para o movimento da cultura annual dos
+predios respectivos, e desde logo ficavam determinadas minuciosas condições
+regulamentares dos emprestimos, incluindo a hypotheca especial dos fructos do
+anno corrente ao contracto, e, se esses não chegassem, dos dois annos
+immediatos, até integral reembolso; a preferencia de direito e acção da caixa
+sobre qualquer outra acção e direito particular em relação aos fructos do anno
+corrente; e muitas<span class="pn"><a name="pg_98">{98}</a></span> mais
+exigencias das quaes resultava uma fiscalisação assidua da caixa sobre a
+economia individual do lavrador.</p>
+
+<p>Se esse projecto houvesse sido convertido em lei, deixaria ampla a admissão
+do mais rematado socialismo. Não haveria motivo para recusar a todas as demais
+forças da economia nacional o beneficio que para uma d'ellas se tinha mostrado
+legitimo; não haveria razão para que o estado, arvorando-se capitalista por
+meio do imposto, descontasse aos lavradores e não procedesse de modo igual com
+o commercio, com a industria, e com todos os outros elementos da riqueza do
+paiz. O communismo era perfeito; a socialisação da riqueza completa. O estado
+reclamava da economia individual os capitaes necessarios á communidade, pelos
+meios obrigatorios e coercitivos de que dispunha, e iria depois entregal-os á
+classe que carecia de auxilio; aprehendia por imposto e repartia por justiça.
+Mas, porque seria banqueiro a municipalidade e não o seria igualmente a
+administração geral de toda a fazenda publica?</p>
+
+<p>O jurisconsulto, quem reconheceu o valor das instituições juridicas como
+Alexandre Herculano, não podia declinar as consequencias de tal condição de
+espirito e havia de as levar até onde ellas se impõem por virtude<span
+class="pn"><a name="pg_99">{99}</a></span> da logica e pressão do bem publico.
+Mas não houvesse legado exemplo pratico do seu systema e processos de
+estadista, ainda em campo puramente doutrinario nos facultaria elementos para
+julgar que o seu individualismo andava sujeito a quebras e restricções, apezar
+da robustez formidavel. Não nos mostrou Alexandre Herculano como no seculo
+<small>XII</small> a lei, fortalecendo os costumes, conciliava as religiões
+mais discordantes e as punha lado a lado vivendo em harmonia? E, se a lei
+conciliava os deuses e continha as paixões religiosas, como nos disse, se
+convertia a tolerancia em regra de governo, porque não conciliaria os homens e
+as necessidades terrenas elementares? Não nos fallou elle da «propriedade,
+filha sacrosanta do trabalho» e, se essa lhe mereceu tão sagrado respeito e
+absoluta defeza, que designação e sentimentos lhe provocaria ess'outra
+propriedade que, em vez de ser filha do trabalho, se funda na espoliação do
+trabalho,&mdash;a elle que do coração abominava todas as tyrannias?</p>
+
+<p>A vulnerabilidade do individualismo de Alexandre Herculano, descobrindo-se
+em mais de um ponto e por diversos lados, como acabamos de notar, não viria
+porém da deficiencia do principio de liberdade, que proclamava com uma fé
+indomita, mas unicamente<span class="pn"><a name="pg_100">{100}</a></span> do
+atrazo das concepções politicas da sua epoca e da impossibilidade de se
+definirem de um modo positivo e pratico, n'essa altura incapazes de traçar uma
+construcção da sociedade, nos seus aspectos economicos, solida e bem ponderada
+sem prejuizo da inteira garantia das liberdades essenciaes. Para um devoto da
+tradição, que viu todo o organismo social enraizado no passado e o estudou nas
+suas mais delicadas e profundas ramificações e origens, para quem soube prender
+por laços estreitos a existencia das gerações presentes ás instituições, aos
+sentimentos, á sabedoria acummulada das gerações extinctas, aos seus erros e
+desvarios e ás suas virtudes, a sociedade não podia pulverisar-se em um
+aggregado de liberdades desconnexas, no concurso fortuito dos seus atomos, em
+simples associação mecanica ou mera juxtaposição. Não; uma constituição
+juridica a ligaria, traduzindo as relações moraes e a dependencia religiosa e
+suas derivações&mdash;tudo o que elle sentia instantemente. Se, por amor da
+intangibilidade dos principios, contestou a legitimidade da nova ordem que lhes
+offendia a coherencia, não foi porque ella afinal deixasse de se conter nas
+suas crenças, mas tão sómente porque ainda não tinha conseguido definir-se na
+lucidez perfeita que o correr dos tempos, a meditacão<span class="pn"><a
+name="pg_101">{101}</a></span> dos apostolos e o clamor de experiencias
+dolorosas vieram a attingir em epocas posteriores. Não era possivel vêr-se
+ainda, como claramente hoje se demonstra, que a divisão e concorrencia
+anarchica das classes, importando victorias relativas e tyrannias consequentes,
+significam em resultado ultimo a annulação de toda a garantia de liberdade; não
+era ainda possivel vêr-se não só como a condição economica se tornava a base da
+liberdade politica, moral e religiosa, mas tambem em que termos e com que
+segurança a independencia economica se alcançaria sem privação da liberdade,
+antes fortalecendo-a. Não haviamos chegado a comprehender de uma maneira
+precisa&mdash;grandes correntes do pensamento nos offuscavam! até que ponto
+importava moderar as asperezas da lucta pela vida, onde não podessemos
+supprimil-as totalmente, para que a liberdade, nas suas formas politicas e
+sociaes concretas se penetre de todo o amor, para que ella, principio religioso
+e de dever na esphera do sentimento e da moral, se consubstanciasse em simples
+regras de justiça e de cooperação na esphera juridica.</p>
+
+<p>A conciliação de duas phases de um estado de espirito, identico na essencia
+embora diverso nas modalidades, de prolongada gestação<span class="pn"><a
+name="pg_102">{102}</a></span> na qual se consumiram o scismar e o trabalho de
+inumeraveis e altissimas capacidades e as paixões de exercitos de combatentes e
+martyres, essa duplicação de vida mental que permittiu respirar com igual
+facilidade o alento de duas epocas, atmospheras de uma mesma substancia mas
+differentes todavia na proporção e logar dos elementos constituivos, foram
+phenomenos absolutamente excepcionaes, tão fóra das normas vulgares que mal os
+comprehenderam os que os presenceiaram. A ductilidade de pensamento que a tão
+variada extensão pôde amoldar-se, de tal modo se destacava do commum, provavel
+e logico, que a muitos se tornou impossivel deslindar a surpreza e lançaram-na
+á conta das apostasias de crença, debilidades de animo e collapsos de
+entendimento. A propria tenacidade dos principios, levada a ponto de exaltação
+religiosa, tornava-se impedimento de progresso, reagindo contra tudo o que se
+lhe afigurava morder a integridade rigida na qual elles se haviam fundido.</p>
+
+<p>De resto, mais poeta e historiador do que pensador, mais moralista do que
+philosopho, mais prompto em contemplar as cousas creadas e as renascer do que
+propenso a martelar systemas novos e apural-os, Alexandre Herculano não se
+sentiria talvez muito inclinado<span class="pn"><a
+name="pg_103">{103}</a></span> á correcção e revisão amiudada, senão
+continuada, dos principios cuja influencia de inspiração e fortaleza usufruira
+por largos annos.</p>
+
+<p>O caso de Stuart Mill é uma excepção surprehendente na historia das
+doutrinas politicas no seculo <small>XIX</small>; não seria facil repetir-se,
+mesmo entre os da sua força e edade<a name="tex2html65"
+href="#foot302"><sup>[65]</sup></a>. Da liberdade comprehendida no sentido de
+uma larga emancipação não só da lei mas da influencia da opinião e do costume,
+por uma rarissima agilidade de pensamento, verdadeira prolongação de juventude
+que lhe facultou deducções imprevistas dos seus principios, Stuart Mill veio
+até á acceitação d'aquellas concepções que no seu tempo o individualismo
+encorporava na vaga designação de socialismo, temendo-as e proscrevendo-as,
+como resurreição de despotismo, reacção calamitosa e sem nome. «Por um lado»,
+escreveu<a name="tex2html66" href="#foot514"><sup>[66]</sup></a>, a
+repudiavamos com a maior energia esta tyrannia da sociedade sobre o individuo
+que se suppõe contida na maior parte dos<span class="pn"><a
+name="pg_104">{104}</a></span> systemas socialistas; por outro olhavamos para
+um tempo em que a sociedade não mais se encontrará dividida em duas classes,
+uma de ociosos, outra de trabalhadores; na qual a regra de que os que não
+trabalham tambem não devem comer será applicada, não só aos pobres, mas a todos
+imparcialmente; em que a divisão do producto do trabalho, em vez de depender,
+como em alto grau agora acontece, dos accidentes de nascimento, será feita
+d'accordo, sobre um principio de justiça: em que emfim não mais será
+impossivel, ou se julgará impossivel, que os seres humanos se esforcem
+energicamente procurando bens, destinados não para elles exclusivamente mas
+para serem partilhados com a sociedade á qual pertencem. Consideravamos que o
+problema social do futuro consistiria em unir a maior liberdade individual de
+acção com a communidade de propriedade das materias brutas do globo e com uma
+igual participação de todos nos beneficios do trabalho combinado». Sem a
+presumpção de julgar que se podia prever immediatamente a forma exacta das
+instituições conduzindo com segurança áquelle fim, nem em que epoca, remota ou
+proxima, seria possivel applical-as, criam todavia que «a educação, o habito e
+a cultura dos sentimentos fariam que um homem<span class="pn"><a
+name="pg_105">{105}</a></span> cavasse ou tecesse pelo seu paiz tão bem como
+por elle combatia».</p>
+
+<p>Assim pensava já e o escrevia, vagamente, Stuart Mill em 1848, e quatro
+annos depois, em 1852, aberta e firmemente o advogava; e isto se póde
+considerar ainda hoje a mais bella e a mais cathegorica aspiração socialista, a
+mais accessivel a todo o entendimento e a mais pratica na execução. É maravilha
+que tão longe alcançasse quem partira de ponto tão distante e diverso. Viver
+duas vidas, duas epocas, em uma só existencia, fazendo succeder em um unico
+cerebro, aliás igualmente poderoso em ambas as modalidades, o espirito duma
+geração ao espirito da geração precedente, é, na verdade, um acontecimento de
+incomparavel estranheza.</p>
+
+<p>Por certo o conheceu Alexandre Herculano no seu vastissimo saber. Mas não se
+convenceu. Convém verificar o facto para inteira comprehensão do seu caracter e
+disposição de espirito. Não lhe amesquinhou, todavia, a grandeza;
+reconheçamol-o. Em taes alicerces se fundava que podia bem affrontar rebeldias
+caracteristicas da propria fortaleza, compensadas por uma solidez de
+estructura, sem embargo alguma vez impenetravel á irradiação de novos astros
+mas sempre protecção e defeza de magnificos thesouros, ideaes
+elevadissimos,<span class="pn"><a name="pg_106">{106}</a></span> que serão a
+eterna medida do valor dum ser humano.</p>
+
+<p>Quando hoje lemos a discussão do socialismo e do individualismo entre
+Oliveira Martins e Alexandre Herculano, posta n'aquella altura de sinceridade
+affectuosa e vitalidade mental de que esses dois extraordinarios espiritos
+foram dotados, sorrimos sem desrespeito, antes com uma carinhosa gratidão pelo
+sagrado esforço de quem assim procurava trazer ao mundo felicidade, e por
+alcançal-a se consumia e atormentava em cogitações e em duvidas. O que então
+era obscuro e incerto para homens realmente grandes, é hoje evidente e
+incontestavel para o vulgo. «O decurso de trinta a quarenta annos, no
+turbilhão, cada vez mais rapido, em que hoje as ideias passam, modificando-se,
+transformando-se, é um periodo que corresponde a seculos nos tempos em que o
+progresso humano era sem comparação mais lento. As doutrinas, as apreciações
+criticas, os systemas, os livros quasi que envelhecem tão depressa como o
+homem. O pensamento que ha vinte annos parecia uma verdade nova póde hoje
+parecer apenas um problema não resolvido, e até um erro condemnado; a
+observação profunda de então ser hoje trivialidade; a critica subtil, que levou
+um raio de<span class="pn"><a name="pg_107">{107}</a></span> luz a certos
+recessos obscuros dos factos, achar-se incorporada e transfigurada em
+apreciação mais complexa que illumine dilatados horisontes»<a name="tex2html67"
+href="#foot515"><sup>[67]</sup></a>. Sómente não envelhecem, antes vivem e se
+prolongam em perenne frescor e mocidade, o consolo e orgulho de verificarmos
+quanto o pensamento humano tem caminhado, quanto valeu para a fortuna dos
+homens e das sociedades a exaltada coragem dos seus obreiros, que bençãos
+devemos e tributamos aos apostolos, como Alexandre Herculano e Oliveira
+Martins. Como é fertilisante e bella a irradiação dos seus sonhos! Os tempos e
+as ideias mudam incessantemente; mas não muda nem póde mudar o espirito que
+pesa e julga e ordena as realidades. Para sempre sejam louvados aquelles de
+muita bondade que nol-o inspiram elevado, puro e grande!<span class="pn"><a
+name="pg_108">{108}</a><br><a
+name="pg_109">{109}</a></span></p>
+
+
+
+<h1><a name="SECTION00400000">ESCUDOS DE FORTALEZA</a></h1>
+
+<p><span class="pn"><a name="pg_110">{110}</a><br><a
+name="pg_111">{111}</a></span></p>
+
+
+
+<h2><a name="SECTION00410000">ESCUDOS DE FORTALEZA</a></h2>
+
+<p>Abrigava-se sob escudos impenetraveis a fortaleza de Alexandre Herculano.
+Não se segue no mundo caminho recto, como elle seguiu, sem o auxilio continuado
+de armas proprias para remover os obstaculos infinitos que se nos deparam, sem
+o bordão em que o peregrino se apoia para vencer asperrimos fraguedos. Não se
+mantem a firmeza de animo, que foi talvez a maior gloria da sua auréola, sem a
+protecção de um nimbo de sentimentos inaccessiveis a toda a corrupção e assalto
+de fraquezas. Em torno da sua figura humana de athleta, adejam legiões
+angelicas, baixando invariavelmente em seu soccorro, se as contingencias da
+sorte transitoria, a que o seu ser mortal andava exposto, ameaçavam prostral-o,
+feril-o ou desvial-o da derrota luminosa do seu sonho.<span class="pn"><a
+name="pg_112">{112}</a></span></p>
+
+
+
+<h3><a name="SECTION00420000">I</a></h3>
+
+<p>Guardava-o Deus de cair em tentação. Resoava-lhe do continuo nos ouvidos a
+harpa do crente e, perpetuamente, sem hesitar, rendeu-se ás modulações das suas
+cordas. Cria que «Deus era Deus e os homens livres». «A terra vacillava ante o
+olhar do Senhor». «Louvaria o Eterno!» Quando se ergueu a voz d'aquelle moço
+«velador de angustias», pallidas as faces, nas veias a febre, alagada a fronte
+de um suor frio, os olhos humidos de pranto e dentro do peito a dôr que o ia
+roendo; quando a poesia lhe murmurou na alma a «ultima nota de quebrada lyra»,
+«o triste adeus do trovador que expira», que hymnos cantou, que visões
+perpassaram</p>
+
+
+<blockquote>
+ «No delirio febril d'aquella mente<br>
+ Que, balouçada á borda do sepulcro,<br>
+ Volve apoz si a vista longamente?» </blockquote>
+
+<p>Turvou-o a <em>Desesperança</em>; segredou-lhe maldições do Deus que «por
+insania» adorára. Aos pés do seu throno não chegavam os<span class="pn"><a
+name="pg_113">{113}</a></span> gemidos da terra. A Providencia era uma crença
+vã, e mentia quando apontava ao poeta, em ancia de gloria, a immensidade. Mas o
+<em>Anjo da Guarda</em> impôz silencio á rebeldia blasphema. Se o misero
+agonisante podesse comprehender a amargura com que o anjo lhe chorava a
+perdição no amor terreno, e a doçura que ha no affecto do homem aos mensageiros
+de Deus, despiria, rindo, o corpo enfermo, para se lhes unir, «para aspirar o
+goso celestial do amor sem termo». E logo, sem tardar, respondendo á voz do
+anjo, a <em>Graça</em> ungiu o moribundo. Era uma «harmonia suave», perante a
+qual a sombra da morte se aclarou e o coração, alliviado do peso da dôr, pediu
+«o hymno da oração em vez do canto irado». O poeta sentiu então de novo o que o
+«revocava a Deus». Inspirava-o a esperança. E adormece na Resignação,
+contricto, rogando ao anjo bom que não o abandone na «hora fatal», e lhe repita
+aquelles segredos de doçura onde aprendera</p>
+
+
+<blockquote>
+ «Que é o céu a patria nossa;<br>
+ Que é o mundo exilio breve;<br>
+ Que o morrer é cousa leve;<br>
+ Que é principio, não é fim»<a name="tex2html68"
+ href="#foot516"><sup>[68]</sup></a>.<span class="pn"><a
+ name="pg_114">{114}</a></span> </blockquote>
+
+<p>A successão dos estados da sua alma, os termos pelos quaes attingiu a
+constituição ultima, a religião, «abrigo extremo», consolação de toda a miseria
+terrena, da deshonra, do exilio ou da injustiça, essa formação progressiva do
+seu ser espiritual, deixou-a Alexandre Herculano marcada, estampada, na pintura
+da morte do trovador, de resto apenas um incidente e exemplo, porque toda a sua
+obra poetica é uma profissão de fé quasi ininterrompida. Em toda ella prevalece
+o cantico religioso sobre o anceio mortal; resume-se em louvor, adoração e
+abdicação do homem em face do principio divino, embora considere esse principio
+nas modalidades transitorias, como convém ao poeta, embora o encontre e veja
+com os olhos do corpo e da lembrança, extasiando-se em delicia, nas capellas,
+nas ermidas, nos mosteiros, nos templos, pelos campos desertos, pelos adros,
+pelos cruzeiros e pelos cemiterios das aldeias, nas tradições e nos momentos
+ingenuos disseminados pela terra patria.</p>
+
+<p>O confronto do caracter de Alexandre Herculano com o de José Estevão poderá
+talvez definir melhor do que qualquer outra explanação os attributos proprios
+de cada um.</p>
+
+<p>Foram ambos figuras primaciaes da grandeza moral do seu tempo. Sel-o-iam em
+qualquer<span class="pn"><a name="pg_115">{115}</a></span> epoca, culminantes.
+Resumem as duas formas mais nobres da dignidade humana. E, todavia, quanto são
+differentes! Alexandre Herculano procede por principio religioso; José Estevão
+por humanitarismo. Um tira a sua força da obediencia a uma Vontade suprema, que
+n'elle vive e se realisa mas que não é d'elle; o outro é arrastado por
+sympathia e inspiração fraterna, basta-lhe para razão de heroismo o sentimento
+da solidariedade, auxilio mutuo e reino da justiça entre os homens. D'ahi,
+d'essa reducção essencial da sua natureza psychologica, conjunctamente synthese
+e centro de derivação da vida de cada um d'elles, as consequencias praticas
+diversas da expansão das respectivas individualidades. Amaria José Estevão a
+vida civica e a vida urbana, até mesmo caprichos e complexidades mundanas, o
+calor de carinhosas amizades, tudo aquillo em que os homens se juntam mais
+estreitamente e é filho do seu aturado commercio; inclinar-se-ia Alexandre
+Herculano á solidão, ao labor silencioso dos campos, ao isolamento meditativo,
+a tudo aquillo em que mais por completo podia conceber a invariabilidade do
+divino e a relatividade das relações do contingente e do infinito. Este nunca
+trocaria pela glorificação de faculdades humanas o culto do<span class="pn"><a
+name="pg_116">{116}</a></span> Eterno, como era corrente nas revoluções do seu
+tempo que trouxeram na rua, postas em andores, mulheres figurando a Razão. Ás
+tendencias de Alexandre Herculano para o claustro, para a contemplação, e para
+o estudo e apologia dos primeiros seculos do christianismo e do seu vigor e
+dilatação na edade-media, corresponderia em José Estevão a paixão politica e a
+actividade impetuosa, e o sentimento da justiça fundada, não em determinação
+divina, mas na imposição dos principios abstractos concebidos e affirmados pela
+intelligencia humana e em seu nome enthronisados. Dum ao outro ia toda a
+distancia que medeia entre uma philosophia, embora de affecto sublimado, e uma
+religião de amor que, ainda por amor, algumas vezes será rigida em excesso,
+nada propensa á indulgencia. E da diversa natureza do impulso fundamental veio
+a diversidade de attitude no decorrer da existencia terrena d'aquelles dois
+genios, conduzindo Alexandre Herculano ao recolhimento e á fascinação do ermo,
+porque para elle de prompto se purificava n'esse estado e se mantinha illesa a
+crença religiosa, a consciencia da presença de Deus no universo e os estimulos
+de obediencia á sua vontade, emquanto José Estevão, atravez de todos os
+desenganos e recobrando animo de<span class="pn"><a
+name="pg_117">{117}</a></span> todos os desalentos, voltava constantemente á
+interferencia nos combates das multidões, porque assim sentia de perto
+effectuar-se a aspiração humanitaria, em absoluto dissolvida, reduzida a nada,
+fóra d'esse ambiente. Para o crente, impregnado de adoração e abdicação, o
+amor, mensageiro do Senhor e seu interprete, poderá encarnar em toda a materia
+e em todo o orbe; não percebe quebra do principio divino ou infidilidade aos
+seus mandados consagrando-se ás arvores e fugindo dos logares em que o convivio
+dos homens é activo. Porém para o humanitario, o amor, symbolisado em justiça e
+acção, só nos homens teria o seu principio e não podia, por uma logica
+instinctiva e imperiosa, desviar-se d'elles sem em absoluto se perder pela
+ausencia de objecto que o consubstanciasse. José Estevão vivia cercado de
+amigos em todas as contingencias da vida publica e da vida intima, nas alegrias
+e mágoas do seu lar e nas luctas politicas; Alexandre Herculano, que tambem
+teve amigos, e exaltados na admiração e no affecto, aliás retribuindo com
+infinitos carinhos do seu coração, era facil em se refugiar no isolamento e
+consolar-se de toda a amargura na beatitude do silencio da vida ingenua, onde
+por certo acharia realisada e integra a aspiração de serena e plena
+conformidade<span class="pn"><a name="pg_118">{118}</a></span> com a vontade do
+destino. Não valeria tanto para o poeta religioso a meiguice das petalas das
+rosas como o sorrir de labios humanos, e não mentiria menos á missão divina?
+</p>
+
+<p>Assim tambem, ainda por consequencia de um mesmo pendor, a religião que para
+Alexandre Herculano era uma força intima, immanente, inflexivel, e por isso
+essencialmente sujeita a suscitar conflictos insoluveis com a ordem mundana,
+para José Estevão podia sem difficuldade acceitar-se em termos de compromisso
+entre necessidades presentes, tradições e principios eternos, resolvidos os
+antagonismos, quando se declarassem, a beneficio da paz publica e dos
+interesses da sua causa. O caso de consciencia, intransigente na primeira
+d'essas duas concepções religiosas, admittia na segunda concessões mutuas e
+limites convencionaes, formulas de conciliação politica, subordinada por
+momentos á salvação da republica, e por contradicções estranhas, mas afinal
+beneficas, corroborando-se e negando-se ao mesmo tempo. O clero, a egreja
+constituida, não quiz mais a José Estevão do que a Alexandre Herculano, mas por
+differente motivo. Um desfazia-lhe a virtude dos milagres, atacava-o na
+capacidade intrinseca e arguia-o de traição a Christo: o outro deixava-lhe a
+liberdade dos milagres e não o<span class="pn"><a
+name="pg_119">{119}</a></span> incommodava nas relações divinas, e apenas se
+esforçava por lhe restringir o despotismo e as cobiças terrenas, cerceando-lhe
+regalias e reduzindo-lhe a auctoridade de adquirir, mandar e dispôr, e
+accusando-o de infidelidade aos interesses do povo e da nação<a
+name="tex2html69" href="#foot517"><sup>[69]</sup></a>.</p>
+
+<p>O confronto do modo de ser religioso d'esses dois grandes caracteres não
+significará, todavia, que a religião de Alexandre Herculano fosse inactiva, e
+muito menos deshumana. Revelará apenas que a sua alma, religiosa por essencia,
+dependente conscientemente de uma outra alma infinita e eterna, da qual se
+reconhecia mero instrumento e frouxo reflexo,<span class="pn"><a
+name="pg_120">{120}</a></span> encontrára, por virtude d'essa constituição e
+prisão, as obrigações supremas de vida entre as quaes a primeira seria o amor,
+imposto pela abdicação no principio divino. O humanitarismo não seria n'esse
+systema de deveres uma religião, como de facto foi no sentir de José Estevão;
+consubstanciaria sómente a summula dos deveres religiosos, e manifestamente
+aquelles a que Alexandre Herculano mais quiz e com extremo ardor se consagrou.
+O mundo estava subordinado a Deus; e não seria absorvido pela humanidade,
+renegando a subordinação, posto que na humanidade tivesse a obra de Deus mais
+bafejada do seu alento.<span class="pn"><a name="pg_121">{121}</a></span></p>
+
+<p>De resto, a emoção religiosa em Alexandre Herculano, sendo christã e demais
+educada na tradição do christianismo latino, tão rematadamente caridoso e, por
+concreto, distante da abstracção cruel em que redundou no espirito oriental,
+não poderia tender ao extasi, esteril e mortifero além do resgate individual,
+mas logo se transfundiria na objectivação pratica, na traducção do seu
+principio dominante em forma e movimento, em acção. Não resultaria em
+ascetismo, mas na moralisação de todas as energias organicas, aliás livres em
+sua esphera, reconhecendo-se-lhes a legitimidade da expansão. Assim como lhe
+impunha entre os impulsos iniciaes o amor da terra e da patria, levava-o
+consequentemente ao amor dos homens que a povoam e á intervenção em toda a
+complexidade das suas relações, tão extensas na multiplicidade de manifestações
+e aspectos como coordenadas e indivisiveis na unidade do espirito que as liga e
+rege.</p>
+
+<p>Esse amor illuminara-se duma vez para sempre aos olhos de Alexandre
+Herculano no «clarão do Evangelho triumphante». Toda a consolação e todo o
+saber encontrou no «Verbo que renovou o mundo corrompido». Os arrebatamentos do
+poeta, as affirmações do publicista e os combates do soldado e do apostolo,
+toda a sua vida e toda a sua obra estão<span class="pn"><a
+name="pg_122">{122}</a></span> repassadas de christianismo. Vibra em cada
+palavra e em cada gesto, nas victorias e no desalento, na ira e nas bençãos, na
+lucta e no repouso. Até a propria historia e a obra d'arte imaginativa, não
+menos que a contemplação da natureza, seriam para elle desenvolvimento de
+verdade religiosa do christianismo e ensejo da sua propagação. A visão da cruz
+e a atmosphera moral que d'esse symbolo irradiava, acompanhavam todos os passos
+do sonhador; os seus poemas são uma floresta espessa de cruzeiros e templos
+onde de continuo perpassam murmurios de orações e canticos de louvor. Toda a
+enredada architectura do <em>Monge de Cistér</em> parece erguida, quando no
+conjuncto a observamos, para inscrever alli, em traços d'uma fulguração
+diamantina, a sentença do Evangelho que lhe serve de fecho:&mdash;<em>Se não
+perdoardes, tambem Deus te não perdoará.</em></p>
+
+<p>Humanisou o christianismo; quebrou-lhe a rigidez e a seccura, amortecendo os
+rigores da consciencia, que elle facilmente accusa, pela uncção da suavidade,
+que a cada passo vae derramando entre os homens. Mais do que isso: soube como
+ninguem, pelo poder do genio, trazel-o á terra, infundil-o em todas as cousas
+creadas, vividas e sentidas, infundil-o em a natureza inteira por uma
+insinuação cheia<span class="pn"><a name="pg_123">{123}</a></span> de mysterio,
+que todavia nos arrebata em encantos de doçura e luminosidade intraduziveis.
+Esse dia santo, que elle celebrou com palavras que ficam como pergaminhos da
+nobreza de uma geração e seu orgulho, maravilha da união subtil mas vigorosa do
+amor divino e do amor terreno, do amor das cousas da terra santificado pela
+presença de espiritos angelicos, será perpetuamente o espelho da candura
+religiosa. «Um dia santo; um dia santo!...» disse o poeta comovido, deixando
+transbordar os seus affectos. «Assim juntas, estas duas palavras são as mais
+sonoras, as mais pinturescas, as mais saudosas da nossa lingua; para mim, ao
+menos. De todas essas memorias passadas, cujas ruinas o descrer da edade de
+homem me tem alastrado pelo coração, uma sei eu que vive ainda n'elle fresca e
+viçosa, e que me parece morrerá só quando eu morrer. É a lembrança dos dias
+santos dos meus tenros annos. Um domingo de então ainda me sorri suavemente
+quando deito olhos longos para o caminho tortuoso e agro, por onde já derramei,
+sem saber como, um terço de seculo da vida. Na orla d'esse horisonte
+crepuscular do passado avulta-me a capellinha da habitação da infancia ao dia
+santo, e o altar com os seus castiçaes de talha dourada e as jarras de flores,
+que lá se punham<span class="pn"><a name="pg_124">{124}</a></span> no sabbado á
+noite, e o alevantar cedo para todos e tudo estar lavado, espanejado, escovado
+e ordenado para a missa. Sabe Deus com quanta fé e devoção a minha alma tenra
+se balouçava na toada monotona que murmurava o velho frade arrabido, calvo e
+macilento, cujo burel desapparecêra debaixo das vestes variegadas do
+sacerdocio! Atravez da alta gelosia o sol vinha, semelhante a uma columna de
+vidro amassado com pó de ouro tombada do seu pedestal, bater de soslaio nos
+degraus do altar. As luzes trémulas das velas, cuja claridade se annulava no
+esplendor do dia, pareciam-me espiritos que se inclinavam esperando a presença
+real de Deus para o adorarem. Depois o frade que viera de longe, do convento de
+Ribamar ou da Boa-viagem, almoçava e jantava. E todos estavam contentes; porque
+era um santo mas jovial frade o bom do arrabido, e contava historias que era um
+pasmar. N'aquelles dias abençoados juraria eu que a folhagem das arvores era de
+um verdor mais vivo, os fructos mais saborosos, o ar mais diaphano, a agua mais
+transparente, o ceu mais azul, e até as alfaias da casa mais novas, e o caio
+dos muros mais alvo. Á tarde corria pela relva com os outros moços da minha
+edade, e travava luctas e gritava e ria e suava e tripudiava<span class="pn"><a
+name="pg_125">{125}</a></span> nos jogos e brinquedos que são proprios
+d'aquella edade; mas quando o sol descia para o horisonte ia assentar-me á
+sombra de uma grande nogueira, sósinho, a ouvir cair n'um tanque uma pequena
+bica d'agua, e alli ficava muito tempo a scismar. Em que? Eu sei lá! Em nada,
+provavelmente. Mas scismava e sentia levantar-se-me no coração um fumosinho de
+tranquilla melancolia, fumosinho, que se condensava brevemente nos olhos em
+lagrimas, que não chegavam a rolar, mas que n'elles bailavam. E alli me achava
+á noite, e buscavam-me, e desfaziam-me o encanto; mas ficava-me cá a saudade...
+Domingos dos doze annos, em que o meu espirito se harmonizava com o hymno
+eterno da natureza, salvé! A gloria litteraria, o amor da independencia, e
+talvez até o orgulho de proceder honesto, todos os meus sonhos de ambição
+dal-os-ia a troco de me sentir viver comvosco; comvosco, oh dias santos; porque
+os outros, esses, se não eram palidos como os de hoje, eram acres, dolorosos,
+inquietos. As paixões fervidas e insensatas da mocidade vinham chegando; e como
+que já sentia rugir a pouca distancia as tempestades que iam agitar e
+devorar-me os annos mais bellos da vida... Não tenho saudades dess'outros dias.
+Não tenho. Deixal-os ir. É pelos meus ricos<span class="pn"><a
+name="pg_126">{126}</a></span> dias santos de então que eu hei de sempre
+chorar.</p>
+
+<p>«Ainda hoje ha um individuo, que exerce singular predominio sobre mim, e
+ignora-o. É o sineiro da minha meio-rural, meio-urbana parochia. Na escala das
+reputações de sinos, os da minha freguezia occupam logar modesto, e todavia,
+quando repicam antes da missa do dia, sinto passar em volta de mim uma como
+aura fugitiva dos dias santos da meninice, e o sol illumina-se da luz d'aquelle
+tempo. O repique, por estes sitios, é ainda patriotico e tenaz: ainda não o
+perverteu a peste da civilisação. Nem as cantigas populares, nem as harmonias
+do theatro se atreveram a pôr pé sacrilego nos degraus do campanario. Abençoado
+sineiro, que me parece has de morrer abraçado com as tradições do teu
+antecessor. Oxalá que, se eu te sobrevier, tenhas um herdeiro digno de ti! Mal
+sabes tu, quando no teu ardor d'artista te penduras por essas cordas, e as
+fazes vibrar, saltando de um a outro lado, banhando-te numa catadupa de sons
+estrugidores, que se despenham sobre ti, jorram pelas sineiras, e vão
+ennovelados esmorecer por esses ares; mal sabes tu, que, a certa distancia, no
+alto da montanha, alguem larga o livro, a pena, as ideias, e fica abstracto e
+immovel a aspirar as harmonias que lhe<span class="pn"><a
+name="pg_127">{127}</a></span> mandas frouxas, sacrosantas, ricas de saudades
+da infancia! Mal sabes tu quantas cogitações profundas, quantas dôres do
+espirito tens suspendido com essas divinas toadas. Oh, que se me podesses
+restituir a capella, e o velho arrabido, e a sua missa, e as suas historias, e
+o murmurio que tinham outrora as pequenas bicas a correr nos pequenos tanques,
+e a sombra que davam as nogueiras, e a melancolia do sol posto de ha vinte
+annos; se tal podesses!... Eu sei!? Caindo adorar-te-ia, fosses Deus ou
+Satanaz.</p>
+
+<p>«Ai, não pódes; não pódes! Isto tudo sumiu-se. Hoje sou cidadão, jurado,
+eleitor, homem de lettras; podia ser commendador, conselheiro, governador
+civil, deputado, ministro, se navegassem para esse rumo as minhas ambições, e
+Deus me houvesse concedido o ser um nada mais parvo.</p>
+
+<p>«Vida positiva, realidade do mundo, se tu fosses uma realidade tangivel, uma
+realidade que sentisse, uma realidade real, quizera ver-te jazer ante mim, para
+te pôr um pé sobre os peitos e calcar-te e cuspir-te nas faces! Só isto me
+consolava das saudades dos dias santos infantis e d'este viver miseravelmente
+desbotado.»<a name="tex2html70" href="#foot518"><sup>[70]</sup></a><span
+class="pn"><a name="pg_128">{128}</a></span></p>
+
+<p>Esta interpenetração das cousas e da alma, esta vibração unisona da essencia
+etherea do espirito e da materia visivel e palpavel, esta harmonia religiosa da
+consciencia e de toda a creação terrena, marcarão a orbita da qual nunca se
+affasta a alma de Alexandre Herculano.</p>
+
+<p>Em Val-de-Lobos, no ermo da sua clausura, construiu uma capella. A religião
+carecia de symbolos, e reclamava para si um pedaço de terra onde os guardasse e
+fossem invocados e venerados. N'elles se havia de encontrar e integrar a
+adoração de Deus em espirito e nas visualidades tangiveis. O idealismo
+germanico e o symbolismo romano juntavam-se e completavam-se fundindo
+aspirações do espirito, absolutas na sua abstracção, e tradições da ordem
+terrena, essenciaes tambem pela permanencia e pela vitalidade historica, e
+captivantes pela belleza sensivel. E, assim, o templo, a que Deus descia para
+olhar os homens, seria o degrau mais alto a que os homens subiam para vêr a
+Deus.<span class="pn"><a name="pg_129">{129}</a></span></p>
+
+
+
+<h3><a name="SECTION00430000">II</a></h3>
+
+<p>Ha no <em>Monge de Cistér</em> «um filho das Hespanhas» em que «a côr, o
+gesto, o olhar, tudo dizia que ahi dentro havia o espirito dum godo e ao mesmo
+tempo que n'essas veias corria o sangue dum arabe»; e as cartas de Alexandre
+Herculano a Oliveira Martins, que este ultimo publicou no <em>Reporter</em>,
+quando se fez a transladação dos restos do historiador para os Jeronymos,
+referem-se a «estas sociedades, meio romanas, meio germanicas na indole, e
+celto-romanas na raça, que estanceiam ao occidente.»</p>
+
+<p>Porventura, estão alli designados os elementos ethnicos e tradicionaes que
+se associaram na formação do genio de Alexandre Herculano, meio romano e meio
+germanico na indole e na raça, com o espirito dum godo na idealisação da vida e
+o senso pratico dum romano na concepção da sociedade, por vezes sonhador e
+ethereo como um bardo errante das margens do Rheno, a espaços accordando e
+rompendo em impetos dum cavalleiro nado e tisnado nas terras ardentes do
+islamita, e de<span class="pn"><a name="pg_130">{130}</a></span> repente
+recobrando a serenidade e a capacidade de ordenamento pratico que distinguiu e
+tornou famoso o conquistador romano. Tinha a sêde de liberdade, a consciencia
+da responsabilidade, a paixão da sinceridade, a febre de apostolado e a
+tenacidade de combater caracteristicas do sangue anglo-saxonio, e possuia ao
+mesmo tempo aquelle espirito de sequencia, lucidez e justa distribuição,
+aquelle horror do desequilibrio e do incerto e indefinido, a percepção
+penetrante das realidades e a arte de as sujeitar á regra e á lei que
+engrandeceram o mundo latino.</p>
+
+<p>A liberdade, essa era para Alexandre Herculano um dogma, e capital. Sabia
+que «Deus era Deus e os homens livres». O reconhecimento de Deus implicava a
+liberdade; a existencia de um ser superior, ao qual tinhamos de obedecer,
+revelado em nossa consciencia e n'ella habitando, exigia a anniquilação de todo
+o estorvo á contemplação da sua grandeza e á insinuação e execução da sua
+vontade.</p>
+
+<p>Para Alexandre Herculano, como para todos os grandes caracteres do seu
+tempo, a liberdade foi o primeiro dos artigos de fé. Sobre todos os demais
+prevalecia e a todos os outros synthetisava. Onde menos acatada a encontraram,
+ahi se esforçaram por lhe assegurar a soberania. E assim deram a precedencia
+á<span class="pn"><a name="pg_131">{131}</a></span> revolução politica sobre
+quaesquer outras, e n'essa collocaram os principios de liberdade acima de
+qualquer outro principio ou conveniencia.</p>
+
+<p>Seguiu-se ás esperanças d'essa geração um periodo historico adverso. É
+certo. Uma pleiade de philosophos e devotos da realidade, analysando os homens
+e as sociedades, e entrincheirando-se nos baluartes de uma sciencia que se
+reputou inexpugnavel e a ultima e terminante verdade, sorriu das crenças dos
+paladinos ingenuos de que era filha. Tomando-as sinceramente por illusão de
+romanticos generosos, aliás com a mesma candura que tinham posto em as amar
+aquelles de quem os novos prophetas immediatamente descendiam, apressou-se a
+desvanecer o erro e deu a mão ás arremetidas de um despotismo renascido e
+vestido em trajos desconhecidos e atraentes, mas herdeiro e fiel representante
+do absolutismo antigo e, a seu exemplo, fatal á felicidade dos homens.</p>
+
+<p>A experiencia e mesmo o desenvolvimento da analyse scientifica e suas
+conclusões logo trouxeram, porém, o desengano. Pela segunda vez a supposta
+illusão de nossos paes se revela a verdade fundamental do progresso.
+Contradictou-se a religião da liberdade com a legitimidade da oppressão, a
+aspiração individual<span class="pn"><a name="pg_132">{132}</a></span> com a
+razão d'estado; mas a ideia imperialista que d'ahi cresceu e teve longos annos
+de triumpho, parecendo por momentos absorver e desbaratar em sua gloria rutila
+de baionetas, os planos magnificos da ideia liberal, vae por sua vez e em
+nossos dias descendo ao accaso. Favoreceram-na a concepção biologica das
+sociedades, accentuadamente reaccionaria, que oppôz a força á justiça e ao
+direito e nos imbuiu na convicção de que a base de toda a aggremiação animal
+era um estado de lucta interior permanente e essa lucta significava um bem,
+factor essencial do desenvolvimento da sua capacidade. A victoria do mais forte
+e a subordinação do mais fraco seriam consequencias de leis naturaes
+indeclinaveis e beneficas, ás quaes nos cumpria prestar reverencia,
+auxiliando-lhes a execução em toda a extensão da vida physica e moral do
+individuo e da communidade. Os interesses materiaes, levados já por
+circunstancias economicas a um subido grau de concentração e anceiando por se
+constituirem n'aquelle estado de tyrannia soberana, a que o capitalismo europeu
+e sobretudo o capitalismo norte-americano souberam conduzil-o, aproveitaram
+habilmente as instigações crueis de uma sciencia alheia a inspirações moraes;
+se a lei da vida organica consistia na victoria<span class="pn"><a
+name="pg_133">{133}</a></span> dos fortes e na escravidão dos fracos, as
+instituições sociaes, para serem salutares, logicas e efficazes, haviam de
+respeital-a, e a divisão entre servos e senhores seria tambem condição natural
+de boa ordem. E entretanto, emquanto semelhantes doutrinas se propagavam e
+captivavam os espiritos mais puros e os melhores corações, a guerra
+franco-prussiana e a formação do imperio formidavel que ella creou e
+consolidou, antepondo ao cesarismo desmoralisado, que derrubava, um cesarismo
+disciplinado, rigido, e intellectualmente riquissimo de saber, justificava e
+apregoava de modo pratico, com esplendor, o principio, então por excellencia
+scientifico, da força brutal. Para o effeito da boa administração o mandavam
+acatar as boccas dos canhões e os sabres dos guardas do estado, convencendo por
+esse meio os menos promptos em lhe descobrir as virtudes. Homens d'estado e
+multidões fanaticas, governantes soberbos e doceis governados, uns por ambição,
+outros por cegueira, uns na avidez do mando e outros na esperança de ventura, e
+todos victimas dos vendavaes que repetidas vezes vergam a seu bello prazer as
+sociedades e as arrastam em delirio, inconscientes e desvairadas, abjuraram os
+evangelhos da liberdade que se lhes figurou um culto da debilidade e de
+rebellião<span class="pn"><a name="pg_134">{134}</a></span> insensata contra o
+despotismo da natureza, e, preferindo o gendarme ao sacerdote, desconfiando da
+crença para se renderem ás armas, trocaram a reverencia da justiça e da
+caridade christã pela desapiedada glorificação da caserna.</p>
+
+<p>Não cessavam, todavia, os estudiosos na observação e cogitação das leis
+intimas da vida; e os ideaes do humanitarismo e da religião desthronados não
+tardaram a rehaver um logar de proeminencia. A doutrina da evolução, que
+parecera o seu peior inimigo, provou ser o seu apoio mais solido; por ella
+deixaram de representar o sentimentalismo absurdo e enfermiço, de que foram
+acoimados, para se reduzirem a uma comprehensão exacta de lei organica das
+sociedades, producto e derivação do proprio desenvolvimento evolutivo. Um dos
+mais notaveis espiritos do mundo scientifico vinha a concluir o exame da
+doutrina evolutiva pela demonstração de que a resistencia e o progresso da
+especie resultavam, não da lucta mas da sua atenuação, não da força mas da
+união e auxilio mutuo; a livre cooperação substituiria pois a sujeição
+oppressiva dos fracos ao capricho e engrandecimento dos fortes, se quizessemos,
+como deviamos, respeitar a ordem natural. E, simultaneamente, a miseria dos
+trabalhadores, precipitados<span class="pn"><a name="pg_135">{135}</a></span>
+na escravidão do capitalismo pela torrente dos interesses materiaes, accelerada
+e engrossada pela abundancia de doutrinas que consagravam o imperialismo em
+toda a sorte de relações, desde as de amo e creado até ás das nações e estados,
+o clamor dos servos tornou-se uma ameaça e uma dôr, para as quaes os piedosos
+procuravam balsamos, os timidos e previdentes inventaram prevenções
+attenuantes, e os homens d'estado buscavam remedio, vendo periclitante a
+estabilidade e a propria vida do corpo social, e cumprindo-lhes defendel-a.</p>
+
+<p>Apoz o eclipse de algumas decadas, o idealismo liberal resurge, inscrevendo
+nos livros da lei o principio da igualdade juridica dos homens, da igualdade de
+opportunidade, como modernamente se diz, corrigindo a phantasia do absolutismo
+igualitario de outras eras. Nos corações restaurou-se o culto da liberdade. E
+n'este renascimento da luz que um sonho de terrivel barbarie escureceu, a
+figura de Alexandre Herculano, protegida pelas sagradas paixões que o animavam,
+reapparece no resplendor de uma aureola eterna. Como o poeta de Além-mar<a
+name="tex2html71" href="#foot356"><sup>[71]</sup></a>, Alexandre Herculano,
+sentindo<span class="pn"><a name="pg_136">{136}</a></span> a onda de
+imperalismo que nos seus derradeiros dias avassalava a Europa, poderia
+exclamar:&mdash;«Triste, desthronada rainha, oh liberdade! Ainda que contra ti se
+volte todo o mundo, hei de eu ser-te fiel!» Na sua adoração da liberdade havia
+laivos de fanatismo, o unico talvez que em toda a vida revelou. D'ahi viriam
+todos os seus temores em acceitar normas de organisação social que de toda a
+parte lhe apregoavam efficazes para salvação de angustias. Na ordem moral, o
+socialismo estava justificado. Não o contestava; «não se lhe afigurava que
+chamar socialista a quem discute, que impôr um labeu mais ou menos affrontoso
+desfizesse um argumento, nem que fosse demonstração concludente e irresistivel
+o affirmar que taes ou taes theorias são más porque são socialistas, e que o
+socialismo é mau porque propaga essas theorias. As escolas socialistas, (que
+nem elle já sabia quantas eram então), teem doutrinas positivas e critica
+negativa. As doutrinas positivas pareciam-lhe longos rosarios de despropositos;
+a critica negativa, embora frequentemente exaggerada, era a seu vêr uma coisa
+seria. Havia ahi indicações de males profundos e dolorosos no corpo social, que
+faziam estremecer as consciencias; que faziam cogitar tristemente os espiritos
+liberaes e sinceros»<a name="tex2html72"
+href="#foot519"><sup>[72]</sup></a>.<span class="pn"><a
+name="pg_137">{137}</a></span> Mas apavorava-o sómente o perigo que em cada
+explosão de socialismo ameaçava a democracia de se converter gradualmente em
+uma burocracia ou em uma oligarchia, perigo que a violencia despotica do
+espirito de partido e o odio das classes expropriadas temerosamente
+asseguravam, inevitavel.</p>
+
+<p>Em ultima analyse, a tendencia politica de Alexandre Herculano, no
+encadeamento logico da sua crença espiritual e religiosa, seria o que
+actualmente se chama anarchismo, por absurda que a muitos possa parecer á
+primeira vista uma tal classificação applicada a um tradicionalista
+fervoroso;&mdash;anarchismo no bom sentido, no sentido de uma doutrina philosophica,
+temperado, ou, digamos melhor, limitado pela visão historica e sua demonstração
+da força de organisação inherente a toda a vida em communidade, mas, sem
+embargo, suspirando por toda a sorte de libertação, crendo no resgate da
+humanidade em Deus e aborrecendo todo o constrangimento imposto pelas vontades
+humanas isoladas ou colligadas. Aquelle socialismo de que mostrou signaes na
+presidencia da camara municipal de Belem, não se lhe teria figurado traição ao
+principio<span class="pn"><a name="pg_138">{138}</a></span> da liberdade;
+tornava-o inoffensivo, quebrar-lhe-ia todas as velleidades de despotismo a
+descentralisação extrema em que se realisava. E são de notar os compromissos a
+que no presente veio a ideia socialista para se conformar com o principio de
+liberdade,&mdash;as restricções que a si mesmo vae impondo, o desamor das grandes
+aggremiações, tão promptas em degenerar em tyranias, o valor cada vez maior
+attribuido á communa como instrumento da distribuição das commodidades
+elementares da vida. O socialismo contemporaneo da Inglaterra com a sua
+caracteristica insistencia na liberdade da terra e na liberdade do commercio,
+essa concepção da sociedade renovada, tão diversa do socialismo continental
+facilmente propenso á restauração cesarista, está mostrando até que ponto a
+intransigencia do apostolo da liberdade em Alexandre Herculano era a voz do
+propheta dos tempos proximos, ainda mesmo quando parecia combater-lhes o
+advento.</p>
+
+<p>Essa crença na liberdade que obrigações não importava aos que passavam no
+mundo levando-a no peito?!... Conquistar a liberdade era servir a Deus,
+facultar aos homens a inteira sujeição aos seus mandados. A responsabilidade
+perante Deus, a todo o instante exigida na consciencia, em que elle se
+revelava,<span class="pn"><a name="pg_139">{139}</a></span> não podia tornar-se
+effectiva senão pela liberdade. Os despotismos da terra figurar-se-lhe-iam uma
+offensa á divindade. Urgia derrubal-os onde quer que se acoitassem, sob o manto
+dos reis ou sob as vestes do sacerdote, em nome do estado ou em nome da egreja,
+nos castellos do feudalismo ou nas officinas dos mestéres, na altivez dos
+capitães de guerra ou na vilania cupida dos rebatedores.</p>
+
+<p>A religião determinava uma politica. Mandava desembaraçar o caminho que
+conduz a Deus. A predica, o sacrificio e o martyrio, as luctas civis e as
+guerras dos homens, todas as armas eram de Deus e Deus reclamava para sua
+defeza e triumpho, se pela liberdade, sua filha e serva, combatiam. Mas a
+religião determinava sobretudo uma moral, o exame constante da conducta da
+actividade humana, em toda a extensão, e a sua conformidade com a essencia
+divina, até aos movimentos minimos, até ao mais pequeno objecto em que da nossa
+vontade dependesse.</p>
+
+<p>Pessoalmente, emquanto se tratava de dar exemplo, a tarefa não foi difficil
+a Alexandre Herculano. Por virtude do seu raro vigor quebrou de prompto muito
+estorvo ao proposito de servir em acção os principios que adorava em espirito.
+Cedo se libertou, e com firmeza e audacia, das escravidões vulgares do<span
+class="pn"><a name="pg_140">{140}</a></span> commum dos homens, e até das de
+muitos que se elevam não pouco acima do commum.</p>
+
+<p>Riquezas? Não o tentavam. A simplicidade espartana dos seus habitos
+contentava-se com pouco; estava-lhe no animo, e confessava-a, a aversão a
+negocios e a aproveitar com boa arte mercantil os bens magnificos da sua
+intelligencia<a name="tex2html73" href="#foot520"><sup>[73]</sup></a>.</p>
+
+<p>Honrarias? Detestava-as. D. Pedro V levou-lhe a casa a commenda da Torre e
+Espada. Recusou-a. E em uma carta publicada no <em>Jornal do Commercio</em> deu
+as razões do seu procedimento. «Pertenço», dizia, «a uma classe obscura e
+modesta, quero morrer como nasci. Ha nisto uma grande ambição solapada. No meio
+do immenso consumo que se está fazendo e que se tem feito, ha trinta annos, de
+distincções,<span class="pn"><a name="pg_141">{141}</a></span> insignias,
+uniformes bordados, de titulos, gráus, tratamentos e rotulos nobiliarios, o
+homem do povo, que queira e possa morrer com esta classificação, deve adquirir
+em menos de meio seculo uma celebridade extraordinaria... Não sou commendador
+da Torre e Espada. O senhor D. Pedro V, que Deus tem comsigo, procurou-me um
+dia para pedir-me, dizia elle, um favor. Era o de acceitar a commenda da Torre
+e Espada. Recusei; e com a sinceridade, que elle sempre encontrou em mim,
+expuz-lhe amplamente os motivos da minha recusa. Aquelle grande espirito,
+complexo de extrema doçura, de alta comprehensão e de profundo sentir, debateu,
+sem se irritar, as ponderações, talvez demasiadamente rudes, que lhe fiz.
+Concluiu por me dizer que cada um de nós podia proceder n'aquelle assumpto em
+harmonia com as proprias convicções. Que elle cumpria o que reputava um dever
+de rei, e que fizesse eu o que a consciencia me ditasse. Como os outros homens,
+os reis, embora se chamem D. Pedro V, estão sujeitos a apreciar mal as pessoas
+e as coisas. Nem eu valia o que elle suppunha, nem a commenda valia nada. O que
+valia muito, apezar do seu innocente erro, era esse moço de vinte e quatro
+annos, esse filho de João I, D. Duarte extraviado no<span class="pn"><a
+name="pg_142">{142}</a></span> seculo <small>XIX</small>, vindo pedir como
+favor ao filho do povo que lhe acceitasse uma mercê, porque entendia que o
+dever a isso o obrigava».</p>
+
+<p>Não quiz mais á lisonja do mundo do que aos regalos da riqueza e á
+ostentação das honrarias. Por não perder uma liberdade de critica sempre severa
+com a propria pessoa e com as estranhas, não o atemorisou a fama de
+impertinente ou orgulhoso, e desprezou, aborrecendo-o, o titulo de
+<em>excellente pessoa</em> «que o mundo costuma dar a quem se acommoda com as
+suas opiniões, quer absurdas, quer judiciosas»<a name="tex2html74"
+href="#foot521"><sup>[74]</sup></a>. Ouvindo, invariavelmente e exclusivamente,
+as indicações e o conselho da sua consciencia, desacatou com frequencia e por
+completo a opinião publica, «o mais sublime, o mais respeitavel, o supremo
+embuste d'este mundo».</p>
+
+<p>A intuição moral não se limitaria, porém, á imposição de regras adoptadas na
+vida individual e intima. Fixando leis, conduzia ao julgamento de quantos as
+offendessem e á apreciação de toda a circunstancia em que fosse offendida.</p>
+
+<p>O amor da patria, inspiração de Deus, levou Alexandre Herculano ao estudo da
+historia, e da conjuncção do historiador e do poeta e<span class="pn"><a
+name="pg_143">{143}</a></span> crente devia resultar, e resultou, um moralista
+profundo e ardente.</p>
+
+<p>O conhecimento do mundo e do fatalismo das suas leis, o mecanismo
+inconsciente e intransgressivel do seu movimento, que bem cedo a historia lhe
+revelou, posto em presença da aspiração divina, que mais cedo ainda se lhe
+revelou no coração, fatal tambem por inspiração da consciencia religiosa e por
+demonstração das civilisações e das raças, imperativa e absoluta por essencia,
+obrigava o poeta a cogitar e a estabelecer as formas de existencia dos homens e
+das sociedades nas quaes se conciliassem em virtude, belleza e felicidade os
+elementos diversos que a intelligencia e a observação lhe apresentavam.</p>
+
+<p>Isso preferia mesmo á concepção de systemas, que para o fim pouco
+adeantavam, capazes de ligar e synthetisar o amontoado de relações e
+dependencias oppostas e desconnexas no seu aspecto exterior. Compadecendo-se
+mal a nitidez descarnada e fria das systemathisações com o prisma multiface dos
+factos concretos e as suas penas, o seu peso na ventura e na desgraça dos
+homens, a philosophia cederia a primazia á regra da vida, porque a instancia
+intima de crear belleza sob o poder de visões era evidentemente em Alexandre
+Herculano superior á sêde de saber<span class="pn"><a
+name="pg_144">{144}</a></span> por mero orgulho ou simples curiosidade. A
+satisfação do dever podia mais na sua alma do que o deleite de penetrar e vêr e
+comprehender, exultando no reconhecimento das suas faculdades de aprehensão e
+exame. Ha na philosophia estreme, que em si contem e limita o seu destino e
+fim, qualquer cousa de peccaminoso egoismo e indifferença que o apostolo de uma
+missão divina não acceita sem correctivo. Se é philosopho, e não pode deixar de
+o ser em alto grau quando a robustez mental lhe descobre o encadeamento das
+cousas, logo aproveitará a philosophia, subordinando-a e apeando-a do throno,
+para instrumento e maior efficacia da sua missão, sem muito cuidar do mais que
+ella encerra ou se esforçar por o definir com clareza, em quanto não aproveita
+á fortuna dos homens e á elevação da sua dignidade. Só n'estes termos convém, e
+d'ahi resultou, sem duvida, que em Alexandre Herculano o moralista seguisse de
+perto o historiador, como este seguiu o poeta, deixando ambos a grande
+distancia e em manifesta obscuridade o philosopho e sua impassibilidade, a
+cujos dotes e companhia nunca mostraram grande afêrro, naturalmente porque lhes
+pareciam debeis na substancia, de caracter por demais altivo, insensato e
+vaidoso, e mesquinhos em beneficios,<span class="pn"><a
+name="pg_145">{145}</a></span> se os referiamos á desmedida presumpção com que
+pretendiam representar a sabedoria das sabedorias.</p>
+
+<p>Foi implacavel. Nada indulgente comsigo, Alexandre Herculano mediu os outros
+pela propria craveira, e sem piedade flagellou vicios, erros, crimes e
+fraquezas, em todo o logar, tempo e circumstancia, onde quer que os encontrou.
+Costumes, instituições, processos politicos, religiões e crenças, tudo apreciou
+e julgou com uma severidade indomavel, a que os impetos illuminados do seu
+genio e a isenção da sua vida deram uma auctoridade tremenda.</p>
+
+<p>As intrigas politicas e occupações analogas, «que são o recreio, o comodo, o
+alimento, a respiração e a vida do estadista e do cortezão»<a name="tex2html75"
+href="#foot522"><sup>[75]</sup></a>, em que Alexandre Herculano andou
+«extraviado», não por «culpa da vontade mas do entendimento», serviram-lhe para
+comprehender toda a abominação de taes manejos e fins, astuciosamente occultos
+em verdades graúdas, porque «em cada seculo ha uma verdade graúda que
+predomina, e que vae ajudando os espertos a consolarem-se dos dissabores da
+vida á custa do animal, alvar por excellencia, chamado cidadão, para cujo
+consolo vieram á terra as bruxas, a therapeutica,<span class="pn"><a
+name="pg_146">{146}</a></span> os fundos publicos, a ontologia, os duendes, as
+infusões, a esthetica, as petas e o palavreado»<a name="tex2html76"
+href="#foot523"><sup>[76]</sup></a>.</p>
+
+<p>Quando emergiu do atoleiro, sentiu-se renascer. As circunstancias haviam-no
+«baldeado no charco da vida publica», mas «a Providencia, que provavelmente não
+o achou assaz corrompido para fazer d'elle um homem de estado, deu-lhe uma hora
+de contricção em que podésse desempegar-se, escorrer o lodo dos vestidos, lavar
+o rosto, e voltar ao gremio do mundo moral»<a name="tex2html77"
+href="#foot524"><sup>[77]</sup></a>.</p>
+
+<p>Não foi debalde, como debalde não foi a sua passagem na côrte e a
+approximação das classes nobres, quer consideradas no convivio immediato, quer
+observadas nos fastos das eras passadas. Ahi teria visto e aborrecido «a
+etiqueta, as minucias de cortezania escolastica, as vaidades inquietas de todas
+as supremacias e eminencias politicas, litterarias, agiotas, artisticas, da
+impertinente aristocracia burgueza, mirando-se, escarnecendo-se,
+detestando-se»... «o egoismo das pequeninas vanglorias, as pontualidades
+parvoas e a sensaboria de convencional contentamento»<a name="tex2html78"
+href="#foot525"><sup>[78]</sup></a>.<span class="pn"><a
+name="pg_147">{147}</a></span></p>
+
+<p>Tudo isso e a repulsão do espectaculo de miserias ainda maiores levaria
+deante dos olhos quando ia a caminho do seu ermiterio de Val-de-Lobos, a viver
+entre a gente rude, cujos thesouros de ingenuidade reconhecera e adorava. «As
+fileiras dos antigos pelejadores cujo ardor aliás se achava enfraquecido pelo
+cansaço, haviam-nas rareado os annos, e os novos não tinham braços assaz
+robustos para o combate. Então chamava-se á tibieza tolerancia, e aos calculos
+do egoismo e da pusillaminidade civilisação. Os velhos interesses e as velhas
+preoccupações tinham voz e voto, preponderante ás vezes nas cousas publicas. Os
+tumultos, as luctas das facções, as guerras civis, eram ainda possiveis: as
+revoluções não. Para isso requeria-se que nas veias dos homens houvesse sangue,
+no coração crenças, e na sociedade seiva moral»<a name="tex2html79"
+href="#foot526"><sup>[79]</sup></a>.</p>
+
+<p>Fugido da mentira de requintes de sensualidade e perfidia em que os senhores
+do mundo folgavam; buscando uma atmosphera de sinceridade e de paz, não só pelo
+anceio de se banhar em summa candura mas tambem, decerto, pela alta sapiencia
+de collocar em ambiente adequado o poder de meditação do seu espirito,
+affastado assim das distracções<span class="pn"><a
+name="pg_148">{148}</a></span> e constrangimentos que sem repouso o irritavam;
+«envelhecido antes de tempo pela contensão do espirito em comparar,
+conjecturar, deduzir»<a name="tex2html80" href="#foot527"><sup>[80]</sup></a> e
+sobretudo pelo tremor de uma consciencia inquieta, meticulosa, votada a uma
+continua febre de acertar; a affastado pelas illusões de um momento das
+occupações litterarias a que se dedicára com intimo affecto e reconduzido por
+asperos desenganos ao tranquillo retiro d'onde não devera talvez ter saido;
+concebendo como, no desabar do imperio romano, tantas almas severas e
+energicas, desesperando do futuro de Roma, iam buscar os ermos, onde o
+christianismo nascente lhes indicava um refugio, e alli, a sós com as suas
+cogitações, cerravam os ouvidos ao importuno ruido de uma sociedade gasta e
+podre que esboroava, não tanto ao impulso dos barbaros, como pelos effeitos da
+propria dissolução interior»; convencido emfim de que «luctar com a Providencia
+não é esforço, é loucura»<a name="tex2html81"
+href="#foot528"><sup>[81]</sup></a>:&mdash;uma fadiga mortal lhe reclamava horas de
+repouso, a defeza instinctiva do minguado alento de um organismo exausto de
+aspirações, contrariedades e desillusões, e rendeu-se-lhe. Reaccendeu então na
+alma o vigor amortecido<span class="pn"><a name="pg_149">{149}</a></span> e
+quebrado em luctas vãs; e deu-nos o exemplo da nobreza na derrota quem primeiro
+nos mostrára dignidade e gloria nos combates.</p>
+
+<p>Combates!... Os que o vulgo apreciou nas obras de Alexandre Herculano e nos
+actos publicos da sua vida seriam bem frouxos comparados com os que no seu
+peito se travavam para o isentar de cair em falta. Conheceu as profundezas
+fataes da fraqueza humana, e do vigor com que procurou e alcançou remir-se da
+sua atracção depõe uma existencia inteira de dignidade.</p>
+
+<p>O trovador prisioneiro, «á vista dos homens, saberia esconder o seu delirio
+e morrer com firmeza; mas, na solidão, a saudade de uma existencia cheia de
+amor e d'esperanças, a vergonha de supplicio affrontoso, e o temor da morte lhe
+não consentiam velar-se deante de si proprio com a mascara que a vaidade e o
+orgulho põe na face humana ainda nas suas mais terriveis situações, para que a
+vida seja uma continua farça, da qual o coração é o actor mentiroso desde o
+berço até ao sepulcro»<a name="tex2html82" href="#foot529"><sup>[82]</sup></a>.
+E Alexandre Herculano, tambem trovador e prisioneiro dos ferros das
+contingencias e convenções mundanas, teria<span class="pn"><a
+name="pg_150">{150}</a></span> soffrido as angustias do seu irmão do romance
+medieval; mas, mais corajoso, tirou deante de si mesmo a mascara que a vaidade
+e o orgulho põe na face humana, e do mesmo modo, virilmente, descobriu o rosto
+perante as multidões atonitas de tão estranha fortaleza, provocando, sem
+duvida, a aversão e escarneo da debilidade vulgar, para a qual estabelecia um
+confronto accusatorio.</p>
+
+<p>Essa sinceridade, essa facilidade e até sollicitude em patentear em todos os
+actos da sua vida os mobis intimos, como para se certificar da rectidão do
+proprio procedimento sujeitando-o ao julgamento de estranhos, indifferentes,
+amigos e inimigos, constitue um dos mais finos traços da delicadeza o escrupulo
+da moral de Alexandre Herculano. A cada passo se confessa. Voluntariamente, com
+uma corajosa franqueza, expõe-se á affronta e á calumnia que da revelação do
+seu intimo lhe possam derivar; dava aos homens as contas que de todas as suas
+acções dava a Deus, sem temer a injustiça do mundo que tantas vezes lhe ignorou
+e menosprezou a inteireza e a candura. O sentimento da responsabilidade, filho
+dilecto da liberdade e seu fiel companheiro, obrigava-o a julgar-se
+frequentemente com o rigor que o dever lhe impunha na apreciação dos actos
+alheios, e até mesmo, não<span class="pn"><a name="pg_151">{151}</a></span>
+raro, com a severidade que por indulgencia e amor não tinha com os outros.</p>
+
+<p>As relações de Alexandre Herculano com D. Pedro V e os termos em que nol-as
+expõe no prefacio da terceira edição da <em>Historia de Portugal</em>, são
+testemunho da sinceridade mais perfeita, mais repassada de grandeza moral, que
+pode coroar as faculdades portentosas de um talento peregrino. Nem amesquinha o
+proprio valor nem o isenta de confronto e subalternisação ao valor alheio; não
+cede um palmo do que lhe pertence e não regateia uma pollegada do que deve a
+outrem. Reconhece a propria força, sem jactancia, descobre com uma serena e
+firme justiça os escudos da sua fortaleza; e sem pejo, sem córar por se sentir
+vulneravel e fraco á semelhança dos communs mortaes, é o primeiro a apontar os
+golpes com que um outro mais forte lhe rompia e penetrava a armadura.</p>
+
+<p>Emprehendera o estudo da historia de Portugal para educação do principe.
+Pagava ao filho a divida que contraira com o pae; a este devera a situação
+isenta de encargos pesados, que lhe permittiu dedicar-se por completo ao
+aturado trabalho da compilação da historia. Levára o estudo quasi até ao fim da
+primeira epoca da monarchia, quando a parte publicada suscitou a «animadversão
+d'aquelles que<span class="pn"><a name="pg_152">{152}</a></span> querem
+accomodar a historia ás crenças do vulgo, ás preoccupações nacionaes e aos
+interesses que n'ellas se estribam.» Abriram então na imprensa e no pulpito uma
+campanha contra o auctor de tão estranhas revelações, e os seus inimigos
+encontraram adeptos até nas regiões do poder. Difficultaram-lhe a edificação da
+sua obra. Inhibido de proseguir sem sacrificio de dignidade, abandonou-a.</p>
+
+<p>Reagindo contra essa violencia deploravel, que privava a nação de
+conhecimentos fundamentaes para a sua vida e consciencia moral e politica,
+«demonstrações incessantes e sempre crescentes dentro e fóra do paiz»<a
+name="tex2html83" href="#foot530"><sup>[83]</sup></a>,<span class="pn"><a
+name="pg_153">{153}</a></span> obrigaram os poderes publicos a reconsiderar. Os
+homens do poder, «se não respeitam, geralmente fallando, a moral e a justiça,
+quando estas tão sómente se affirmam, acatam-nas quando estribadas em qualquer
+genero de força e quando, portanto, significam um risco. Por isso e só por
+isso, do mesmo modo que por meios indirectos lhe fôra tirada, a possibilidade
+de continuar a <em>Historia de Portugal</em> foi emfim indirectamente
+restituida» a Alexandre Herculano. Mas era tarde. Na lucta contra a torpe
+estupidez que o assaltára, «a ambição litteraria, a confiança no futuro, a
+energia e o vigor da alma, o habito dos penosos estudos e das meditações, a
+perseverança no trabalho, e, até, a robustez physica tinham em grande parte
+desapparecido».</p>
+
+<p>Depois, passado algum tempo, ainda tentou um ultimo esforço para proseguir
+no trabalho. Se porém o tentou, ingenuamente confessava que «não fôra para
+servir o seu paiz.» Só por uma grande amizade o fazia. «Emquanto alheio, não ao
+estudo dos homens e do mundo, mas ás suas ambições vulgares, consumia os<span
+class="pn"><a name="pg_154">{154}</a></span> melhores dias da vida em trabalhos
+a cuja sinceridade, ao menos, o futuro havia de fazer justiça, um acontecimento
+impensado tinha chamado ao throno aquelle para quem, na sua puericia, fôra
+destinada a <em>Historia de Portugal</em>. Devera-lh'a por mais de um titulo;
+mas, annulados, sem culpa sua, os meios de pagar, a obrigação desapparecia.
+Fôra, todavia, por elle, e só por elle, que ainda uma vez tentára o que a razão
+lhe representava como quasi impossivel.»</p>
+
+<p>«Na procella em que naufragára o seu pobre livro o nome do soberano fôra
+murmurado em voz baixa, associado ao dos satellites da reacção, calumniado,
+como tinha de o ser depois, com torpeza sem exemplo, em negocio mais grave.
+Ouviu esse murmurio: conhecia bem os homens de que vinha, deu-lhes o asco que
+pediam e volveu a face. O facto tinha uma significação e um valor bem sabidos.
+</p>
+
+<p>«Malquistar o soberano com o cidadão era nobre e grande; mas era incompleto:
+completava-se malquistando o cidadão com o soberano. Infelizmente a tentativa
+falhou. O vago, o mysterioso, o terrifico teem attractivos para as almas novas
+de profundo e energico sentir; para as intelligencias juvenis e robustas que a
+ambição da ideia devora e que, impacientes, forcejam por se precipitar nas
+vastidões do<span class="pn"><a name="pg_155">{155}</a></span> mundo moral para
+lhe devassar os segredos. A alma do rei era d'essas. Buscou-o e desceu, como
+diria o mundo, a justificar-se, porque nunca inquiriu se para chegar do throno
+ás regiões do dever ou da justiça era preciso descer ou subir. Movia-o, além
+d'isso, o instincto proprio da sua edade e da sua indole. Queria sondar o
+abysmo de orgulho, de odios implacaveis, de impiedade, de paixões tempestuosas
+de que lhe fallavam com susto. Parece que a lenda exaggerava: o precipicio, o
+abysmo, eram de dimensões menos amplas. Verdade é que os precipicios e abysmos
+fascinam e atraem: póde tambem ser que fosse isso. Que, porém, se illudisse ou
+que acertasse, o rei achára que todas essas negruras do feroz plebeu se
+reduziam a uma sinceridade talvez rude, e a sinceridade, ainda rude, tinha para
+elle o attractivo do novo, do impensado. Achava onde retemperar o animo lasso
+do incessante espectaculo da condescendencia interessada, do applauso grosseiro
+que vale o insulto, da devoção requerente, do regirar e mentir dos que buscam
+recamar-se de avellorios e lantejoulas para se inebriarem, para esquecerem que
+se arrastam porque são lesos. Entrava apenas na edade de homem e estava já
+saciado do serpeiar flexuoso das linhas curvas: attrahia-o por isso
+irresistivelmente a<span class="pn"><a name="pg_156">{156}</a></span> dureza da
+linha perpendicular, recta. Aquella alma, tão rica de abnegação de si, quanto o
+era de affectuosa sympathia para com todos os opprimidos, para com tudo o que
+padece, comprazia-se em fitar a vista em olhos que não se abaixassem deante dos
+seus, em encontrar na ideia alheia a resistencia á propria ideia. Não tinha
+ciume de uma soberania superior á sua, a da razão, nem o humilhava a dignidade
+humana, que equivale no subdito á magestade do rei. O que repugnava
+profundamente a esse espirito era o baixo, o abjecto. O reptil, infusorio em
+grande, inquieta-nos, tenta a nossa fé na immortalidade com o dogma horrivel da
+geração espontanea, da omnipotencia do fermentescivel: o homem, que é homem,
+esse é que prova Deus.</p>
+
+<p>«Foi na affeição de D. Pedro V, no desejo de lhe comprazer que achou alentos
+para galgar de novo a ingreme ladeira d'onde o tinham despenhado; foi animado
+por elle que proseguiu em ajuntar materiaes, não para levar a cabo os
+ambiciosos designios concebidos na edade das grandes audacias, mas para
+concluir o quadro sincero da epoca mais obscura da nossa deturpada historia;
+para deixar no mundo um livro em vez de um fragmento. Expressa apenas como
+desejo, a sua vontade tinha-se tornado para elle irresistivel:<span
+class="pn"><a name="pg_157">{157}</a></span> nem se pejava de confessar que
+elle começava a exercer já sobre o seu espirito aquella especie de absolutismo
+moral que, provavelmente, aos trinta annos havia de exercer, se vivesse, sobre
+o geral dos animos; singular especie de absolutismo, que encerrava a esperança
+da regeneração dos costumes publicos e, conseguintemente, a unica esperança da
+manutenção da nossa autonomia e da nossa liberdade; autonomia e liberdade que
+foram para elle crença e culto, porque lh'as tornavam santas a voz de uma
+consciencia virgem e as revelações de uma poderosa intelligencia.»<a
+name="tex2html84" href="#foot531"><sup>[84]</sup></a>.</p>
+
+<p>Que alma segredava essas confissões! Que essencia sobrehumana as animou! Que
+resplendor divino nos confunde! O orgulho do stoico e a rigidez do crente
+abdicaram perante a personificação candida da justiça. Não temeram degradação
+no desprendimento. Conscientemente o tributavam, pesando sem impostura o
+proprio valor e sem aviltamento depondo-o no altar do affecto que o reclamava,
+devido por gratidão e não offerecido pela livre generosidade do devoto. O
+crente engrandeceu-se<span class="pn"><a name="pg_158">{158}</a></span>
+renunciando á altivez do propheta e trocando-a pela humildade do servo.</p>
+
+<p>Nem sempre, porém, o espirito de Alexandre Herculano pairava n'essa esphera
+religiosa de adoração, e não raro de indignação, a que tão altos impulsos o
+erguiam. Por vezes, baixando ao meio das vulgaridades terrenas, benignamente as
+viu e lhes sorria.</p>
+
+<p>Esta ironia grave, e affirmativa todavia atravez dos reflexos inquietos da
+multiplicidade dos seus prismas, objecto de justiça e simultaneamente desenfado
+de austeridade, o rigor sem crueldade, o rir sem malevolencia ou escarneo e ao
+mesmo tempo sem indulgencia, sem cobrir a nudez da falta, jocoso sem insolencia
+e agressivo, por corrigir, sem durezas de expiação ou vindicta; esse humorismo
+caracteristico do sangue anglo-saxonio insinuou-se na obra de Alexandre
+Herculano e nos seus prolongados combates de polemista. E é de vêr a doçura,
+salpicada de ingenuidade, com que nos colloca em frente das ambições e cobiças
+barbaras d'outras eras, no intimo condemnadas e condemnaveis, embora sejam
+pesado attributo das miserias humanas de todos os tempos.</p>
+
+<p>Exemplifiquemos.</p>
+
+<p>Na côrte de D. Thereza, mãe d'Affonso Henriques, ricos homens, cavalleiros e
+clerigos<span class="pn"><a name="pg_159">{159}</a></span> discutiam acremente,
+entre si e ao sabor de cada um, a legitimidade das pretensões do filho á posse
+do reino e o direito da mãe em lh'a negar. «As injurias voavam de parte a
+parte, os ferros polidos dos punhaes principiaram a reluzir meio-arrancados dos
+cintos, e a sala do conselho ia a converter-se n'um campo de batalha, quando
+dois homens, talvez os unicos que pelo seu caracter politico e ainda mais pela
+sua condição moral o podiam alcançar, atalharam as scenas de sangue de que os
+paços de Guimarães estavam a ponto de serem theatro. Quasi ao mesmo tempo dois
+sacerdotes se alevantaram a pedir treguas em nome de Deus. Era D. Tello,
+arcediago de Coimbra, um d'elles: o outro: Fr. Hilarião, o bom velho abbade do
+mosteiro de D. Muma. Áquelle dissera muitas vezes D. Thereza que assaz grato
+lhe seria vel-o bispo da sua sé, a qual então se achava orphã de pastor; a
+este, a predilecção que sempre mostrára ao seu mosteiro e a elle em especial o
+moço principe, fazia crêr com bom fundamento que não eram vãs de todo varias
+palavras que uma vez lhe ouvira soltar ácerca não sabemos de que doação ao
+santo asceterio de Guimarães, de certa villa ou herdade, com cincoenta homens
+de creação, e seus montes e pastos, fontes e lagoas, exitos e regressos.<span
+class="pn"><a name="pg_160">{160}</a></span> Não os moviam na verdade estas
+circunstancias que apontámos casualmente, a serem, D. Tello, inclinado a
+favorecer a justiça da bella infanta, e Fr. Hilarião a justiça de Affonso
+Henriques. Pregoava-os o mundo por virtuosos: nós ajuntamos o nosso brado ao do
+mundo. Mas é indubitavel que ambos elles estavam persuadidos de que o outro
+seguia uma causa má e affligiam-se profundamente de verem assim a virtude
+desvairada e perdida no campo contrario... Ainda cremos na virtude dos cultores
+de politica: sabemos por experiencia que a maior parte das vezes as suas
+expressões são singelas e nascem de crenças mui fundas; sabemos tambem que as
+suas opiniões são em geral desinteressadas, e que jámais é o medo que os incita
+a prégarem a concordia e a paz. E se isto é assim n'estes tempos de perversão
+moral, com bom fundamento affirmamos que eram puras e generosas as intenções
+d'aquelles dois ministros do Senhor, n'um seculo em que as doutrinas do
+christianismo estavam vivas e a caridade era fervorosa e sincera. É certo,
+porém, que apezar das deligencias que faziam cada um d'elles para aquietar o
+furor da respectiva parcialidade, por muito tempo o alarido dos cavalleiros,
+que se doestavam com bastas e grossas injurias, cobriu as debeis vozes dos<span
+class="pn"><a name="pg_161">{161}</a></span> varões apostolicos. Finalmente
+foram ouvidos. A reputação de santidade de que ambos gozavam,&mdash;no seu bando já
+se entende,&mdash;porque em epocas de odios civis as reputações facilmente tocam o
+extremo da profundeza, mas na extensão ficam sempre em metade; essas
+reputações, dizemos, mais ainda que a força das suas ponderações, fizeram pouco
+a pouco asserenar a tempestade. Os ricos homens, infanções e cavalleiros vieram
+emfim a uma conclusão razoavel; isto é, sairam d'alli cada vez mais afferrados
+ás suas opiniões e sem concluirem nada»<a name="tex2html85"
+href="#foot532"><sup>[85]</sup></a>.</p>
+
+<p>Assim nol-os pintou o romancista historiador, em momento de os considerar
+sem impaciencia.</p>
+
+<p>Se necessario fosse descobrir a couraça de ferocidade dos fundadores de
+dynastia, com tal destreza e arte procederia Alexandre Herculano n'essa tarefa
+que sorrimos, quando aliás poderiamos sem injustiça voltar a face indignada
+pelo espectaculo de crueldades barbaras. Assim, por exemplo, que sacrilegos
+aggravos não se teriam feito ao conde D. Henrique, duvidando-lhe da bondade!
+Apressa-se o historiador a corrigil-os, porque «devemos crêr, ao menos
+piamente, que o conde D. Henrique,<span class="pn"><a
+name="pg_162">{162}</a></span> na epoca em que alevantou o castello de
+Guimarães, não lançou nos fundamentos do seu edificio soberbo um carcere seguro
+e vasto com os intuitos de rapina que guiavam o commum dos senhores n'estas
+tristes edificações. Ainda que algum documentinho de má morte provasse o
+contrario, cumpria-nos pol-o no escuro, ou contestar-lhe francamente a
+authenticidade, porque o conde foi o fundador da monarchia, e a monarchia
+desfunda-se uma vez que tal cousa se admitta. Assim é que se ha-de escrever a
+historia, e quem não o fizér por este gosto, evidente é que póde tratar de
+outro officio»<a name="tex2html86" href="#foot533"><sup>[86]</sup></a>.</p>
+
+<p>Muitas vezes castigava rindo. É certo. Não cessava todavia atravez do riso a
+tenacidade de combater, a intuição e o ardor apostolicos, caracteristicos, como
+o humorismo, do sangue germanico. Sempre se uniam na alma do poeta aquella
+visão exacta das realidades e sua ordem, propria da educação romana, e o
+espirito de missão religiosa que nunca abandona os povos de origem
+septentrional. Se alguem representou por completo, resumindo-as nas tendencias
+e altos talentos de um só individuo, «estas sociedades, meio romanas, meio
+germanicas na<span class="pn"><a name="pg_163">{163}</a></span> indole, e
+celto-romanas na raça, que estanceiam ao Occidente», foi Alexandre Herculano,
+foi exactamente quem melhor as definiu na historia. O polemista manteve-se
+inquebrantavel até ao final da sua vida. De facto nunca abandonou as armas. Os
+derradeiros annos da sua existencia, as condições de desprendimento em que os
+passou, e a voz que de longe em longe nos vinha do ermiterio de Val-de-Lobos,
+foram pelo exemplo e pela affirmação explicita uma exortação ininterrompida á
+virtude, e um clamor instigando a contricção e emenda as gerações corrompidas
+cuja degradação presenciava com amargura. Corria-lhe nas veias a febre de exame
+intimo constante e de ambição de conquista moral e religiosa peculiares
+áquelles que deram á humanidade a renovação fecunda do protestantismo.
+Chamaram-lhe lutherano os que suspirariam por o levar ás fogueiras da
+Inquisição, se ainda as houvesse, porque lhes arruinava os milagres e a
+consequente exploração de estupidas crendices populares. Havia qualquer cousa
+de verdade n'essa designação. Sómente o honrava, em vez de ser pejorativa.
+Traduzia o reconhecimento de uma independencia rebelde a toda a seducção e
+lisonja de sensualidades satisfeitas e vaidades saciadas, a confirmação da
+posse de faculdades raras<span class="pn"><a name="pg_164">{164}</a></span>
+entre latinos, commodamente conciliadores, a verificação da revolta insubmissa
+do combatente, inimigo jurado e exaltado de todas as oppressões, do despotismo
+dos homens e da escravidão da consciencia. Por erro o julgaram desalentado e
+vencido. Jámais o foi. Reagiu sempre, nunca tolerou ambiente que lhe repugnasse
+ao coração. Defendeu-se constantemente, de reducto em reducto, levando intactos
+e intangiveis seus escudos. Onde achou terreno ingrato para a sua alma, logo a
+transpôz para logar em que podesse offerecer-lhe resguardo conveniente. Deixou
+as armas, deixou a politica, deixou as lettras, deixou o seu minguado
+mundanismo da cidade, mas não por fraqueza; deixou-os, para renovar com uma
+energia inexaurivel as condições da sua vida apenas se convencia de que as não
+tinha adequadas á preservação da sua pureza.</p>
+
+<p>Vicente Ferrer diz-nos que Alexandre Herculano «<em>gostava</em> de
+questionar e discutir». Presente-se, com effeito, nas suas polemicas certo
+prazer de se defender e flagellar a matilha que o assaltava latindo
+raivosamente. Com facilidade acceita o duelo, não mostra pressa de o rematar,
+e, muito ao contrario, procede com tal pausa na destituição do antagonista,
+arrancando-lhe uma a uma as suas<span class="pn"><a
+name="pg_165">{165}</a></span> armas, que, se não lhe foi deleite a tarefa,
+pelo menos não a houve por enfadonha ou penosa. Sendo o combate instrumento de
+propagação da verdade, logicamente não poderia desamal-o, antes deveria
+apetecel-o quem tinha a verdade em conta de missão suprema. Combatendo
+reconheceria, não só a constituição vigorosa das proprias forças, o que o
+alegrava, mas tambem a expansão e derramamento da sua crença, o que lhe
+satisfaria a consciencia e lhe premiava o esforço.</p>
+
+<p>Tornou-se materia corrente que o dominava o orgulho.</p>
+
+<p>Não é exacto. Confundiu-se o orgulho com a defeza attenta e prompta da
+dignidade, com a justificação vigilante dos seus actos em que a salvaguarda da
+propria honra se juntava á necessidade constante de exame de consciencia. Na
+polemica que mais fundamente deveria feril-o, porque lhe contestava crenças
+religiosas, e nenhumas tinha mais arreigadas em seu peito, vinha adduzir com
+exactidão e vigor os factos em que na vida patenteára, muito mais do que
+generosidade com os vencidos e perseguidos, verdadeiro amor da egreja e do
+clero. «Como procedera elle sempre ácerca de egreja e do clero?» perguntava,
+indignado pela offensa que um catholicismo estreito de intelligencia e de<span
+class="pn"><a name="pg_166">{166}</a></span> coração fazia á nobreza
+cavalheiresca do seu caracter, n'este caso inflamada pela fé religiosa, e pelo
+respeito e encanto da tradição e por toda a poesia do culto. E respondia, com
+uma serenidade em que se advinham tremores de mágoa e mal contidos impetos de
+desaggravo: «As ideias do seculo, recalcadas por uma compressão violenta, a
+que, força é confessal-o, a maioria do sacerdocio se havia associado, tinham
+reagido violentamente, e assentavam-se triumphantes sobre as ruinas do passado
+quando eu entrei no campo de imprensa, no campo das batalhas do espirito. De
+roda de mim jaziam os fragmentos da sociedade que fôra, e no meio d'elles o
+clero, disperso, empobrecido, coberto d'affrontas, experimentava as
+consequencias do predominio de um partido adverso e irritado. A situação da
+egreja portugueza n'essa epoca, e sobretudo a situação dos regulares, sabemos
+todos qual era. Foram feridas de que, porventura, ainda mais de uma goteja
+sangue. Os homens das velhas opiniões politicas, no meio do terror, vergados
+pelo desalento de uma queda tremenda, duplicadamente dolorosa pela
+desesperança, calavam. Nem uma voz amiga se alevantava n'esta terra de Portugal
+a favor da egreja batida pela tempestade. Ainda então esse grupo de
+mancebos<span class="pn"><a name="pg_167">{167}</a></span> cheios de talento,
+de inspirações grandiosas e de crença fervente na liberdade humana, e pela
+liberdade na eterna justiça; essa phalange, no meio da qual todos os dias
+apparecem novos soldados, e que não se envergonhava de Deus nem do seu Christo,
+não tinha ainda começado a surgir para ser generosa com os adversarios das suas
+ideias, quando a desventura os santifica. Na imprensa liberal, revolucionaria,
+impia, como quizerem chamar-lhe, eu, só eu, tive por muito tempo palavras de
+affeição e consolo para a desgraça; só eu tive animo para accusar os homens do
+meu partido de espoliadores e insensatos; para tentar revocal-os á poesia do
+christianismo, do eterno alliado da liberdade. A voz que do campo do progresso
+saudava o templo enlutado e deserto era debil, mas sincera: a mão que se
+estendia para amparar o sacerdote curvado sob o peso da agonia era bem pouco
+robusta mas era leal! Como Yorick guardava a caixa do pobre franciscano entre
+os symbolos da sua religião de affectos, eu guardo para mim, e só para mim,
+mais de um papel escripto por mãos tremulas de velho monge, e talvez regado por
+lagrimas, em que se reconhecia a possibilidade de haver um homem das novas
+ideias que não fosse absolutamente um malvado. É sobre estas reliquias que
+eu<span class="pn"><a name="pg_168">{168}</a></span> quero encostar a cabeça
+para dormir tranquillo o ultimo e longo somno em que todos devemos repousar»<a
+name="tex2html87" href="#foot534"><sup>[87]</sup></a>.</p>
+
+<p>Havendo, porém, fallado d'este modo, que a leviandade tomaria por altivez
+aggressiva ou desdenhosa, logo se apressa a esclarecer e dissipar por palavras
+de humildade essa impressão, como suspeitando-a, temendo-a, e não querendo que
+subsistisse tão mal pensado e calumnioso conceito. «Trouxera para o campo da
+historia», dizia elle então, «o mesmo amor da verdade singela, que tinha
+mostrado n'uma das mais graves questões sociaes. Não se arrependera do que
+fizéra. Cumpria um dever que lhe impunham Deus e a sua consciencia. Não
+esperava arrepender-se do que fazia. Cumpria uma obrigação litteraria, e estava
+certo de que bem merecia da terra em que nascêra escrevendo a verdade». Só
+hesitava «sobre a legitimidade das suas queixas; sobre se, no que suppunha um
+dever de honra, não haveria um pouco da obcecação da vaidade. Quando Roma que
+parecia ter jurado nas aras de Jupiter Stator o exterminio do catholicismo,
+crucificava no seu <em>Index</em> nomes como os de Chateaubriand e Lamartine;
+nomes como os de Gioberti e<span class="pn"><a name="pg_169">{169}</a></span>
+Ventura, teria elle, verme que passava á sombra do seu nada, direito de
+offender-se porque de pulpitos obscuros, n'um canto obscuro da Europa, alguns
+clerigos maus ou ignorantes lançavam sobre elle o vilipendio das suas palavras?
+Quando a egreja, involvendo a fronte no véu da sua immensa tristeza, e sentindo
+humedecer-lhe os pés o sangue humano vertido pelo ferro sacerdotal, contempla
+aterrada o futuro, havia dôr de individuos a que fosse licito um brado»<a
+name="tex2html88" href="#foot535"><sup>[88]</sup></a>?</p>
+
+<p>A victima de um odio estupido defendera-se do aggravo, mas o christão,
+dominado pelo desprendimento divino e pela abdicação na vontade do Senhor,
+duvidava não só do direito de defeza mas até da legitimidade de accusar a
+injuria e se queixar. Na hesitação do combatente revelar-se-ia um eterno
+problema de consciencia; na apreciação do facto accidental transpareceria o
+conflicto, porventura insoluvel, da religião da honra e da religião de Deus.
+Mas o que, com certeza, se sumia e dissipava era o ultimo vestigio de
+sentimentos de orgulho.</p>
+
+<p>No fundo, não poderia tel-os quem se sentiu presa de arrependimentos porque
+expontaneamente reconheceu, desconfiando de haver<span class="pn"><a
+name="pg_170">{170}</a></span> caido em erro, «não ser dos menos sujeitos a
+ceder ás vezes aos impulsos da vivacidade»<a name="tex2html89"
+href="#foot536"><sup>[89]</sup></a>. Em ultima analyse, bem ponderados todos os
+elementos que entravam na sua constituição moral e de que elle nos deixou
+bastas indicações, Alexandre Herculano não seria orgulhoso nem humilde. Quem
+tão singela e modestamente confessava gratidão e, pelo facto, se mostrava
+commum mortal, fraco e sujeito á bondade do auxilio estranho; quem, longe de
+alardear independencias mentirosas e estultas a que a comprehensão do proprio
+valor o poderia sem estranheza tentar, declarava dever á intelligente
+previdencia de um rei a situação isenta de encargos pesados que lhe permittiu
+dedicar-se por completo ao aturado trabalho da composição da historia e haver
+emprehendido o estudo da <em>Historia de Portugal</em> para educação do
+principe, pagando ao filho a divida que contraira com o pae e tributando em
+troca do pão e do socego que lhe concederam a fortuna immensa de talentos
+assombrosos: quem pretendia collocar-se n'esse terreno chão da fraqueza e do
+affecto vulgar, não seria nem orgulhoso nem humilde, seria apenas um justo,
+pedindo justiça para si pelos impulsos da mesma rectidão em que aos
+estranhos<span class="pn"><a name="pg_171">{171}</a></span> procurava fazel-a,
+tendo reclamado o seu logar entre os da sua graduação moral, sem ignorancia ou
+preterição dos que por qualquer titulo lhe estavam acima, e muito menos sem
+desprezo dos que lhe ficavam inferiores, sem prescindir dos direitos que
+possuia e sem regateiar as obrigações que lhe cabiam ou occultar fraquezas a
+que se reputava exposto. Julgaram-no orgulhoso, porque alliando a força á
+justiça, uma virilidade intemerata a um sentimento indefectivel do dever,
+abominando a impostura, a hypocrisia, toda a ostentação de falsa modestia, não
+cedendo a incentivos do proprio capricho, se é que por elle passaram,
+affrontando valoroso toda a contingencia, disse de si e dos outros com uma
+energia superior toda a verdade. É singular até que seja quasi estranha ao
+caracter de Alexandre Herculano a melancolia, esse suave desfallecimento e
+queixume proximos da voluptuosidade na mágoa; no seu peito sómente responderiam
+á dôr a tristeza, os soluços ingentes e as lagrimas abundantes e francas de
+vencidos. A magnitude da reacção, o grito de mortificação denunciava a valentia
+do opprimido, as contracções gigantescas em que se debatia antes de succumbir,
+e nunca a morbida debilidade de quem se allivia renunciando ao seu querer e
+entregando-se ás fluctuações do destino.<span class="pn"><a
+name="pg_172">{172}</a></span></p>
+
+<p>A robustez inviolavel no combate, na crença e no soffrimento consentiu-lhe a
+sinceridade e a largueza na ternura. Sómente os verdadeiramente fortes a
+possuem. Demanda profundezas taes de desprendimento, tão larga vibração de
+sympathia, que só a confiança de uma perfeita fortaleza intima as admitte. A
+bondade e o affecto vulgares, justamente porque são fracos, não ousam
+sujeitar-se a perdas, guardam sempre com avareza, em toda a expansão carinhosa,
+certa reserva de um egoismo que nem por instantes descura os seus pequeninos
+interesses. Mas Alexandre Herculano, porque era forte, pôde ser terno sem
+pusillanimidades de uma acanhada prudencia. Podia amar esquecendo-se por
+completo no amor; instinctos vigorosos o afoitavam, assegurando-lhe que em toda
+a abdicação o seu ser se enriquecia em vez de alienar e depauperar-se. As suas
+relações com D. Pedro V e as cartas intimas á esposa, das quaes com muita razão
+se tornou famosa a que vem publicada no <em>Estudo Critico-Historico de
+Alexandre Herculano</em>, de D. Antonio Sánchez Moguel, lido na Real Academia
+de Historia de Madrid, são testemunho eloquente de como o amor sublimado
+d'aquelle inspirado apostolo baixou intacto e perfeito das regiões em que é um
+poder divino, universal e soberano, para o<span class="pn"><a
+name="pg_173">{173}</a></span> conforto do lar e para o respeito e dedicação de
+homem a homem, em que se torna doçura, encanto e lenitivo da vida mortal dos
+miseros seres ephemeros onde habita a consciencia eterna. Esse homem, que não
+podia ignorar a sua estatura herculea porque as rudezas das batalhas e dos
+trabalhos lh'a punham em prova e em evidencia aos olhos dos estranhos e aos
+proprios olhos, não temia aviltar-se, ou sequer amesquinhar-se, publicando que
+o rei, um moço, começava a exercer sobre elle «aquella especie de absolutismo
+moral que, provavelmente, aos trinta annos havia de exercer, se vivesse, no
+geral dos animos»; não tinha pejo nem admittia desdouro em se confessar vencido
+pela vontade e pelo entendimento alheio, satellite do prestigio d'aquelle
+deante do qual, pela edade e pela experiencia, ainda que por mais não fosse,
+poderia sem offensa allegar superioridade. E, ao mesmo tempo, as mãos que votou
+ao trabalho da terra e n'elle endurecera, para as purificar e avigorar
+n'aquelle salutar mestér e sacerdocio, guardavam doce flexibilidade de ternura,
+capaz de proteger e amaciar o ninho em que abrigava a companheira e de a amar
+com carinho, interessado e collaborando de continuo nas suas fainas, indulgente
+para os seus appetites e sollicito em lhe alliviar enfermidades.<span
+class="pn"><a name="pg_174">{174}</a></span></p>
+
+<p>Da grandeza stoica reservou para si sómente a força de supportar
+contrariedades e dôres, remindo-se das suas feridas pela propria energia. Mas o
+que de frieza, impassibilidade e orgulhoso isolamento e desprendimento houvesse
+n'aquella doutrina, isso dissipou-o, apagou-o no fogo das emoções affectivas,
+na expansão ingenita de sympathia o de dedicação, nos apetites e doçura de
+aturado commercio com os homens. Val-de-Lobos consolou-o de muita amargura;
+collocou-o a salvo do desgosto de muita vilania, a distancia sufficiente para
+lhe não sentir continuadamente as picaduras irritantes; libertou-o na
+contemplação e beatitude dos mundos da infinita ingenuidade. Mas não foi sem
+lhe fazer pagar seu preço, sem lhe impôr enfados da soledade, vaga saudade.
+Alguma cousa alli lho faltaria que a rigidez estoica não podia supprir. O
+stoicismo, quando traduzido na existencia concreta, tinha suas tyrannias. A
+Val-de-Lobos não chegava o tumulto da cidade, o rumor das suas infamias, das
+suas dissipações e das suas depravadas demencias; mas calava-se tambem, no
+affastamento dos homens, o murmurio de amizades, aspirações e crenças, que todo
+o coração amoravel escuta e repete, distinguindo-o no meio de pragas e
+discordias, alimentando-o e alimentando-se por esse pulsar<span class="pn"><a
+name="pg_175">{175}</a></span> de harmonia que incessantemente funde a sua vida
+na vida estranha. Sequioso d'esses filtros d'amor, d'esse sustento que fôra a
+paixão de toda a sua existencia, para dar e receber o qual combatera, estudára
+e se exaltára em esperanças, em combates, e em fadigas de apostolado e na febre
+das creações do genio, não lhe supportou sem lamentos a privação, quando os
+muros da voluntaria clausura em que se encerrára o impediram de o possuir em
+abundancia, de todo lh'o roubando até durante longas horas. Na
+<em>Advertencia</em> que precede o primeiro volume dos <em>Opusculos</em>,
+explicando porque começara a ajuntar os retalhos dispersos do seu passado
+intellectual, Alexandre Herculano, com a habitual e irreprimivel senceridade de
+todos os seus passos, não nos occulta como e quando o ermo lhe fôra tambem
+pesado. Nem só o espectaculo e a vozeria infernal dos odios e atropelos das
+cobiças da multidão importavam magoas. Outras se encontravam na sua ausencia,
+ainda que inspirada por uma sagrada repulsão. Eram differentes de caracter mas
+identicas na essencia: ou um rumor de sympathia nos falte em absoluto e o
+substitua um frigido silencio, ou o nosso coração sinta e chore a divergencia e
+opposição entre os seus anceios e os impulsos alheios, em qualquer caso<span
+class="pn"><a name="pg_176">{176}</a></span> deplora a separação dos homens, o
+apartamento moral ou physico dos nossos irmãos, e suspira pela sua proximidade.
+</p>
+
+<p>Procurando allivio a semelhantes males, proprios da ternura do seu
+temperamento e caraterisando-o fundamente n'esse ponto, para lhes moderar os
+effeitos começou Alexandre Herculano a colligir e ordenar nos ultimos annos da
+vida os seus escriptos dispersos. «Para o velho que vive na granja, na quinta,
+no casal, como que perdidos por entre as collinas e serras do nosso anfractuoso
+paiz, ha na existencia uma condição que todos os annos lhe prostra o animo por
+alguns mezes, doença moral, mancha negra da vida rustica, facil de evitar nas
+cidades. É o tedio das longas noites de inverno; das horas estereis em que o
+peso do silencio e da soledade cai com duplicada força sobre o espirito. Para o
+velho do ermo, n'esses intervallos da vida exterior, a corrente impetuosa do
+tempo parece chegar de subito a pégo dormente e espraiar-se pela sua
+superficie. A leitura raramente o acaricia, porque os livros novos são raros. A
+decima visão da mesma ideia, vestida do seu decimo trajo, repelle-o, não o
+distráe. As convicções ardentes, as alegrias das illuminações subitas, as
+coleras e indignações que inspiram e que, na mocidade e nos<span class="pn"><a
+name="pg_177">{177}</a></span> annos viris, enchem a cella do estudo de
+turbulencias interiores, de arrebatamentos indomaveis, de debates inaudiveis,
+de lagrimas não sentidas, de amargo sorrir, cousas são que se desvaneceram.
+Matou-as o gear do inverno da existencia... para o velho não ha a febre da alma
+que devora o tempo... É verdade que a natureza compensa o esmorecer e passar do
+vigor e da actividade intellectual com a propria somnolencia do espirito,
+voluptuosidade da velhice, ameno e dourado pôr do sol, que se refrange no
+espectro da sepultura já visinha e o illumina suavemente. Mas o dormitar do
+entendimento, para ser deleitoso enleio, exige o movimento externo e as
+singelas occupações e cuidados da vida campestre. Sem isso, e é isso que falta
+muitas vezes nas interminaveis noites de inverno, a inercia da intelligencia,
+que vagueia no indefinito sem o norte da realidade, vae-se convertendo pouco a
+pouco em intoleravel tormento; tormento no qual ha, por fim, o que quer que
+seja da cellula circular e esmeradamente branqueiada, onde o grande criminoso é
+entregue, sósinho, á eumenide da propria consciencia. N'esta extremidade, por
+mais somnolenta e obscurecida que esteja a mente, por mais que ella ame o
+repouso, o trabalho do espirito, ainda o mais arido, é preferivel, cem<span
+class="pn"><a name="pg_178">{178}</a></span> vezes preferivel, ao fluctuar
+indeciso no vacuo»<a name="tex2html90" href="#foot537"><sup>[90]</sup></a>.</p>
+
+<p>O stoicismo bastaria para infundir na alma de Alexandre Herculano uma
+robustez inviolavel; mas não teria sido sufficiente para lhe facultar um
+contentamento indefectivel e povoar de alegria a soledade. É que o stoico
+commungára do amor de Christo, e esse annuncia desgraça a quem se encontrar
+sósinho. Mandava-lhe amar a Deus sobre todas as cousas, e esse bem o encontrava
+no ermo; mandava-lhe porém simultaneamente amar o proximo como a elle mesmo se
+amava, e esse preceito não dispensava a presença constante dos homens,
+desvairados ou santos que elles fossem, para lhes minorar a desgraça ou para
+lhes seguir o exemplo, em todo o caso para correr seu destino e o partilhar. O
+stoico pôde fortalecer o seu adepto com uma disciplina mas não pôde supprir o
+alento humano que anima o christão, esse anceio de dar e receber constantemente
+que é a sua razão de ser. Por isso, sentindo que lhe faltava, corria a
+juntar-se em espirito aos homens e a partilhar das suas preoccupações quem pela
+pressão cruel de sua sorte fôra pessoalmente lançado fóra dos turbilhões do
+mundo.<span class="pn"><a name="pg_179">{179}</a></span></p>
+
+<p>Sem duvida, pela firmeza de animo e mais pelo exemplo do que por qualquer
+tentativa de systematisação philosophica ou defeza intencional de doutrina, a
+vida de Alexandre Herculano abunda na conformidade com os preceitos do
+stoicismo. Em grande extensão, poderia Seneca descobrir n'elle um discipulo.
+Acceitou-lhe leis fundamentaes. Confiou na virtude, teve-a «pelo maior dos
+bens»; «n'ella se alegrou e desprezou os accidentes da fortuna». Attingiu a
+«invulneravel grandeza de espirito que não se eleva nem abate com a boa ou má
+sorte». Sentiu que «em todo o homem bom habita um deus», um espirito sagrado,
+indicador e guarda do que é bem e do que é mal, «um ser divino e razão que
+reside no mundo e em todas as suas partes». Pela temperança, pela paciencia,
+pela coragem e pelo culto vigilante da integridade do caracter moral,
+saccudindo todas as servidões, e sobretudo as servidões dos sentidos, da
+cobiça, do luxo e da avareza, dominando as paixões e submettendo-se puramente
+aos mandados da razão, ensinou-nos eloquentemente como se enriquece «não
+augmentando os bens mas diminuindo as necessidades». Mostrou-nos assim como a
+virtude é accessivel a todos e até como a adversidade se converte em benção,
+porque «conheceu<span class="pn"><a name="pg_180">{180}</a></span> a sua
+propria força e valor pondo em prova a virtude», quando a desgraça lhe bateu á
+porta.</p>
+
+<p>Mas esse stoicismo que podia ser e foi alicerce de fortaleza, não tinha o
+calor bastante para fóco de irradiação, para inundar de luz e conforto a alma
+estranha. E inflamou-o então no evangelho de Christo, ungindo-o de piedade e
+por ella o convertendo á humildade, supplicando dos céus para os outros a
+indulgencia e auxilio que por intangivel capacidade de soffrer não carecia de
+pedir para si.</p>
+
+<p>Abrangendo d'este modo todos os gráus da dignidade humana, da acção á
+contemplação, da firmeza á caridade, do humano ao divino, do heroismo á
+santidade, Alexandre Herculano a todos honrou igualmente, engrandecendo-se e
+legando-nos um exemplo unico e supremo na historia do povo portuguez.<span
+class="pn"><a name="pg_181">{181}</a></span></p>
+
+<p><br>
+</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot451" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Alexandre Herculano,
+<em>Poesias</em>. Lisboa, 1860, pag. 165.</p>
+
+<p><a name="foot452" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 172.</p>
+
+<p><a name="foot453" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 178.</p>
+
+<p><a name="foot454" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 182.</p>
+
+<p><a name="foot455" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 182.</p>
+
+<p><a name="foot456" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 56.</p>
+
+<p><a name="foot457" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 208.</p>
+
+<p><a name="foot458" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 169.</p>
+
+<p><a name="foot459" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> Emerson,
+<em>Essays</em> (Grant Richards, London, 1902). Pag. 199.</p>
+
+<p><a name="foot460" href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> Oliveira Martins,
+<em>Portugal contemporaneo</em>. Lisboa, 1881, tom. II, pag. 305.</p>
+
+<p><a name="foot461" href="#tex2html11"><sup>[11]</sup></a> <em>Eurico</em>,
+5.ª edição. Lisboa, 1864, pag. 10.</p>
+
+<p><a name="foot462" href="#tex2html12"><sup>[12]</sup></a> <em>Eurico</em>,
+pag. 15.</p>
+
+<p><a name="foot463" href="#tex2html13"><sup>[13]</sup></a> <em>Eurico</em>,
+pag. 19.</p>
+
+<p><a name="foot464" href="#tex2html14"><sup>[14]</sup></a> <em>Eurico</em>,
+pag. 22.</p>
+
+<p><a name="foot465" href="#tex2html15"><sup>[15]</sup></a> <em>Eurico</em>,
+pag. 30.</p>
+
+<p><a name="foot466" href="#tex2html16"><sup>[16]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 57.</p>
+
+<p><a name="foot467" href="#tex2html17"><sup>[17]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 51.</p>
+
+<p><a name="foot468" href="#tex2html18"><sup>[18]</sup></a> </p>
+
+<blockquote>
+ «E eu comparei o solitario obscuro<br>
+ Ao inquieto filho das cidades:<br>
+ Comparei o deserto silencioso<br>
+ Ao perpetuo ruido que sussurra<br>
+ Pelos palacios do abastado e nobre,<br>
+ Pelos paços dos reis; e condoí-me<br>
+ Do cortesão soberbo que só cura<br>
+ De honras, haveres, glorias que se compram<br>
+ Com maldições e perennal remorso.»<br>
+ «Oh cidade, cidade que trasbordas<br>
+ De vicios, de paixões e de amarguras!<br>
+ .........................................<br>
+ Soberba prostituta alardeiando<br>
+ Os theatros, e os paços e o ruido<br>
+ Das carroças dos nobres recamadas<br>
+ De ouro e prata, e os prazeres de uma vida<br>
+ Tempestuosa e o tropeiar continuo<br>
+ De fervidos ginetes que alevantam<br>
+ O pó e o lodo cortezão das praças<br>
+ .........................................<br>
+ Braqueado sepulcro, que misturas<br>
+ A opulencia, a miseria, a dôr e o goso<br>
+ Honra e infamia, pudor e impudecicia<br>
+ ......................................... »<br>
+                   <em>Poesias</em>, pag. 52, 53 e 54. </blockquote>
+
+<p><a name="foot469" href="#tex2html19"><sup>[19]</sup></a> </p>
+
+<blockquote>
+ «Bello ermo! Eu hei de amar-te emquanto esta alma<br>
+ Aspirando o futuro além da vida<br>
+ E um halito dos céus, gemer atada<br>
+ Á columna do exilio, a que se chama<br>
+ Em lingua vil e mentirosa o mundo.<br>
+ Eu hei de amar-te, oh valle, como um filho<br>
+ Dos sonhos meus. A imagem do deserto<br>
+ Guardal-a-ei no coração, bem junto<br>
+ Com minha fé, meu unico thesouro.»<br>
+            <em>Poesias</em>, pag. 50 e 51. </blockquote>
+
+<p><a name="foot470" href="#tex2html20"><sup>[20]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 112.</p>
+
+<p><a name="foot471" href="#tex2html21"><sup>[21]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 27.</p>
+
+<p><a name="foot472" href="#tex2html22"><sup>[22]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 20.</p>
+
+<p><a name="foot473" href="#tex2html23"><sup>[23]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 4.</p>
+
+<p><a name="foot474" href="#tex2html24"><sup>[24]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 31.</p>
+
+<p><a name="foot475" href="#tex2html25"><sup>[25]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 61.</p>
+
+<p><a name="foot476" href="#tex2html26"><sup>[26]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 49.</p>
+
+<p><a name="foot477" href="#tex2html27"><sup>[27]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 81, 85 e 86.</p>
+
+<p><a name="foot478" href="#tex2html28"><sup>[28]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 89 e seg.</p>
+
+<p><a name="foot479" href="#tex2html29"><sup>[29]</sup></a> <em>A
+Tempestade</em>, é o titulo, bem caracteristico, da poesia em que o
+exprimiu.</p>
+
+<p><a name="foot480" href="#tex2html30"><sup>[30]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 92 e 93.</p>
+
+<p><a name="foot481" href="#tex2html31"><sup>[31]</sup></a> <em>Poesias</em>,
+pag. 111.</p>
+
+<p><a name="foot482" href="#tex2html32"><sup>[32]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. I, pag. VII, (Lisboa, 1859).</p>
+
+<p><a name="foot483" href="#tex2html33"><sup>[33]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. I, pag. III.</p>
+
+<p><a name="foot484" href="#tex2html34"><sup>[34]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. I, pag. VIII.</p>
+
+<p><a name="foot485" href="#tex2html35"><sup>[35]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. I, pag. XI.</p>
+
+<p><a name="foot486" href="#tex2html36"><sup>[36]</sup></a> <em>Opusculos</em>,
+tom. V, 3.ª ed., pag. 294.</p>
+
+<p><a name="foot487" href="#tex2html37"><sup>[37]</sup></a> <em>Opusculos</em>,
+tom. IX, pag. 278.</p>
+
+<p><a name="foot488" href="#tex2html38"><sup>[38]</sup></a> <em>Opusculos</em>,
+tom. III, 2.ª edição, pag. 70.</p>
+
+<p><a name="foot489" href="#tex2html39"><sup>[39]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. II, pag. 376.</p>
+
+<p><a name="foot490" href="#tex2html40"><sup>[40]</sup></a> <em>O Bobo</em>,
+pag. 31 e 14.</p>
+
+<p><a name="foot491" href="#tex2html41"><sup>[41]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. I, pag. XII.</p>
+
+<p><a name="foot492" href="#tex2html42"><sup>[42]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. I, pag. IX a XII.</p>
+
+<p><a name="foot493" href="#tex2html43"><sup>[43]</sup></a> <em>Historia de
+Portugal</em>, 3.ª ed., tom. II, pag. 93 e 94.</p>
+
+<p><a name="foot494" href="#tex2html44"><sup>[44]</sup></a> <em>Historia de
+Portugal</em>, tom. II, pag. 137 e 138.</p>
+
+<p><a name="foot495" href="#tex2html45"><sup>[45]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. I, pag. 61.</p>
+
+<p><a name="foot221" href="#tex2html46"><sup>[46]</sup></a> George Bernard
+Shaw.</p>
+
+<p><a name="foot496" href="#tex2html47"><sup>[47]</sup></a> <em>Opusculos</em>,
+tom. III, pag. 65 e 66, 2.ª edição.</p>
+
+<p><a name="foot497" href="#tex2html48"><sup>[48]</sup></a> <em>Opusculos</em>,
+tom. II, pag. 217 e seg., 2.ª edição, Lisboa, 1880.</p>
+
+<p><a name="foot498" href="#tex2html49"><sup>[49]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. I, pag. 73 e 76.</p>
+
+<p><a name="foot499" href="#tex2html50"><sup>[50]</sup></a> Vid. o prologo da
+<em>Historia da Origem e do Estabelecimento da Inquisição em Portugal</em>.</p>
+
+<p><a name="foot500" href="#tex2html51"><sup>[51]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. I, pag. 262.</p>
+
+<p><a name="foot501" href="#tex2html52"><sup>[52]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. I, pag. 243.</p>
+
+<p><a name="foot502" href="#tex2html53"><sup>[53]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. I, pag. 219.</p>
+
+<p><a name="foot503" href="#tex2html54"><sup>[54]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. I, pag. 227.</p>
+
+<p><a name="foot504" href="#tex2html55"><sup>[55]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. II, pag. 70.</p>
+
+<p><a name="foot505" href="#tex2html56"><sup>[56]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. II, pag. 152.</p>
+
+<p><a name="foot506" href="#tex2html57"><sup>[57]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. II, pag. 137.</p>
+
+<p><a name="foot507" href="#tex2html58"><sup>[58]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. II, pag. 78.</p>
+
+<p><a name="foot508" href="#tex2html59"><sup>[59]</sup></a> <em>Historia de
+Portugal</em>, tom. III, pag. 223 e seg., 8.ª edição.</p>
+
+<p><a name="foot509" href="#tex2html60"><sup>[60]</sup></a> <em>Opusculos</em>,
+tom. II, <em>Mousinho da Silveira</em>.</p>
+
+<p><a name="foot510" href="#tex2html61"><sup>[61]</sup></a> <em>Opusculos</em>,
+tom. III, pag. 111.</p>
+
+<p><a name="foot511" href="#tex2html62"><sup>[62]</sup></a> <em>Opusculos</em>,
+tom. III, pag. 113 e seg.</p>
+
+<p><a name="foot512" href="#tex2html63"><sup>[63]</sup></a> <em>Opusculos</em>,
+tom. III, pag. 121 e 122.</p>
+
+<p><a name="foot513" href="#tex2html64"><sup>[64]</sup></a> <em>Reporter</em>,
+n.º 178, 28 de junho de 1888. Cartas de Alexandre Herculano a Oliveira
+Martins.</p>
+
+<p><a name="foot302" href="#tex2html65"><sup>[65]</sup></a> Stuart Mill viveu
+de 1806 a 1873, antecedendo portanto Alexandre Herculano quatro annos no
+nascimento e na morte.</p>
+
+<p><a name="foot514" href="#tex2html66"><sup>[66]</sup></a> <em>Mes
+Mémoires.</em> Trad. fr.; Paris, 1874. Pag. 221 e seg.</p>
+
+<p><a name="foot515" href="#tex2html67"><sup>[67]</sup></a> Alexandre
+Herculano. <em>Opusculos</em>, tom. I, pag. XV. 4.ª edição. Lisboa, 1897.</p>
+
+<p><a name="foot516" href="#tex2html68"><sup>[68]</sup></a> Vid.
+<em>Poesias</em>.</p>
+
+<p><a name="foot517" href="#tex2html69"><sup>[69]</sup></a> É singular e
+significativa certa frieza que transparece no elogio, quando José Estevão
+apreciou a pouca fortuna de Alexandre Herculano no parlamento. Dizia o tribuno
+na <em>Revolução de Setembro</em>, em um pequeno artigo que o meu erudito
+conterraneo Sr. Marques Gomes transcreve no seu <em>José Estevão, Apontamentos
+para a sua Biographia</em>:</p>
+
+<p>«Coube a palavra ao Sr. Alexandre Herculano, litterato conhecido e deputado
+debutante. O discurso d'este senhor foi modelo em dicção, mesquinho na intenção
+e falho nos meios. Este senhor deputado, tendo-se declarado opposicionista, não
+proferiu uma palavra de censura contra o ministerio, e querendo inculpar as
+administrações da Revolução mostrou que nem sempre os bons desejos supprem a
+escassez de recursos. O senhor deputado é um talento, e póde vir a ser um bom
+orador applicando os encantos da sua dicção aos termos logicos das questões.»
+</p>
+
+<p>Ora José Estevão era de uma generosidade e largueza d'animo com os
+adversarios verdadeira e superiormente nobre. Se escreveu com semelhante leveza
+de Alexandre Herculano foi porque em consciencia a tinha por merecida, e nunca
+por qualquer sombra de mesquinhez partidaria ou pessoal, de que de todo e
+sempre se achou isento. E desconheceu-o, ou melhor, talvez o conhecesse mal
+n'aquelle tempo, porque a diversidade de temperamento tornava embaraçosa e
+lenta a mutua comprehensão dos caracteres, que de resto veio a mostrar-se. É
+sabido como esses dois homens acabaram por se estimar profundamente, como o
+exigia a conformidade da grandeza moral de um e outro.</p>
+
+<p><a name="foot518" href="#tex2html70"><sup>[70]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. II, pag. 57 e seg.</p>
+
+<p><a name="foot356" href="#tex2html71"><sup>[71]</sup></a> Ernest Howard
+Crosby.</p>
+
+<p><a name="foot519" href="#tex2html72"><sup>[72]</sup></a> <em>Opusculos</em>,
+tom. II, 2.ª edição, pag. 141 e 142.</p>
+
+<p><a name="foot520" href="#tex2html73"><sup>[73]</sup></a> A carta em que
+propunha a Bertrand a edição da <em>Historia de Portugal</em> é sobre esse
+ponto sufficientemente elucidativa. Encontram-se publicadas pelo Sr. Dr. José
+Pessanha as suas passagens principaes, no <em>Boletim da Real Associação dos
+Archeologos Portuguezes</em>, em o numero especial com que recentemente aquella
+aggremiação commemorou o centenario de Alexandre Herculano. Todas as condições
+commerciaes da empreza confiava á experiencia e probidade do editor; nem sequer
+se importava de as determinar; e gracejava da propria incapacidade para
+semelhante ajuste e para materias do negocio em geral.</p>
+
+<p><a name="foot521" href="#tex2html74"><sup>[74]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. I, pag. 122.</p>
+
+<p><a name="foot522" href="#tex2html75"><sup>[75]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. II, pag. 9.</p>
+
+<p><a name="foot523" href="#tex2html76"><sup>[76]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. II, pag. 170.</p>
+
+<p><a name="foot524" href="#tex2html77"><sup>[77]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. II, pag. 331.</p>
+
+<p><a name="foot525" href="#tex2html78"><sup>[78]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. II, pag. 246 e 247.</p>
+
+<p><a name="foot526" href="#tex2html79"><sup>[79]</sup></a> <em>Opusculos</em>,
+tom. IV, 2.ª edição, pag. 102.</p>
+
+<p><a name="foot527" href="#tex2html80"><sup>[80]</sup></a> <em>Monge de
+Cistér</em>, tom. XI, pag. 377.</p>
+
+<p><a name="foot528" href="#tex2html81"><sup>[81]</sup></a> <em>Historia de
+Portugal</em>, tom. IV, pag. 5 e 6.</p>
+
+<p><a name="foot529" href="#tex2html82"><sup>[82]</sup></a> <em>O Bobo</em>,
+pag. 261.</p>
+
+<p><a name="foot530" href="#tex2html83"><sup>[83]</sup></a> Graças ainda á
+generosidade do Sr. Marques Gomes, foi-me possivel lêr a representação das
+pessoas d'Aveiro pedindo ao governo que a Alexandre Herculano se facultassem
+todos os meios de continuar a <em>Historia de Portugal</em>. A representação
+está publicada no <em>Campeão do Vouga</em>, n.º 536, de 16 de julho de 1857.
+Conheci a maior parte dos homens que a assignaram. São tudo o que em Aveiro
+havia de superior pela intelligencia e situação social; e encontro alli, a par
+dos liberaes mais exaltados, os nomes de catholicos severos e intransigentes,
+legitimistas ferrenhos, cabralistas, padres e seculares de todas as classes.</p>
+
+<p>Diz-me mais o Sr. Marques Gomes que a representação foi promovida por José
+Estevão, o que de resto logo suspeitei porque não falta alli a assignatura de
+nem um só dos amigos mais dedicados do tribuno, dos que cegamente o seguiam.
+Mas, se duvidas houvesse a tal respeito, estavam tiradas em a nota que o Sr.
+Marques Gomes encontrou nos apontamentos de seu pae, o dr. Francisco Thomé
+Marques Gomes. Este apontou o dia em que assignou a representação, e
+accrescenta que o fez a pedido de José Estevão.</p>
+
+<p><a name="foot531" href="#tex2html84"><sup>[84]</sup></a> Vid. toda a
+<em>Prefação</em> da 3.ª edição da <em>Historia de Portugal</em>.</p>
+
+<p><a name="foot532" href="#tex2html85"><sup>[85]</sup></a> <em>O Bobo</em>,
+pag. 89 e 92.</p>
+
+<p><a name="foot533" href="#tex2html86"><sup>[86]</sup></a> <em>O Bobo</em>,
+pag. 254.</p>
+
+<p><a name="foot534" href="#tex2html87"><sup>[87]</sup></a> <em>Opusculos</em>,
+tom. III, pag. 30 a 32 da 2.ª ed.</p>
+
+<p><a name="foot535" href="#tex2html88"><sup>[88]</sup></a> <em>Opusculos</em>,
+tom. III, pag. 83 e 84 da 2.ª ed.</p>
+
+<p><a name="foot536" href="#tex2html89"><sup>[89]</sup></a> <em>Opusculos</em>,
+tom. III, pag. 63.</p>
+
+<p><a name="foot537" href="#tex2html90"><sup>[90]</sup></a> <em>Opusculos</em>,
+tom. I, pag. IX a XII da 4.ª ed.</p>
+</div>
+</div>
+
+<h1>INDICE</h1>
+
+<h2>INDICE</h2>
+
+<p>&nbsp; <span class="direita">Pag.</span></p>
+
+<p>P<small>ROLOGO</small> <span class="direita"><a
+href="#pg_VII">VII</a></span></p>
+
+<p><em>Fascinação do Ermo</em> <span class="direita"><a
+href="#pg_1">1</a></span></p>
+
+<p>O poeta e a solidão <span class="direita"><a href="#pg_3">3</a></span></p>
+
+<p>Paganismo <span class="direita"><a href="#pg_15">15</a></span></p>
+
+<p>Caracter religioso <span class="direita"><a href="#pg_17">17</a></span></p>
+
+<p>Pessimismo <span class="direita"><a href="#pg_19">19</a></span></p>
+
+<p><em>Apparições e Espectros</em> <span class="direita"><a
+href="#pg_27">27</a></span></p>
+
+<p>A patria e a tradição <span class="direita"><a
+href="#pg_28">28</a></span></p>
+
+<p>O romance historico <span class="direita"><a href="#pg_32">32</a></span></p>
+
+<p>O historiador <span class="direita"><a href="#pg_44">44</a></span></p>
+
+<p>Sentimento da justiça <span class="direita"><a
+href="#pg_54">54</a></span></p>
+
+<p>A liberdade e a historia <span class="direita"><a
+href="#pg_57">57</a></span></p>
+
+<p>Tolerancia religiosa <span class="direita"><a href="#pg_60">60</a></span></p>
+
+<p>Espectros do despotismo <span class="direita"><a
+href="#pg_63">63</a></span></p>
+
+<p>O povo <span class="direita"><a href="#pg_70">70</a></span></p>
+
+<p>A burguezia <span class="direita"><a href="#pg_72">72</a></span></p>
+
+<p>As liberdades municipaes <span class="direita"><a
+href="#pg_74">74</a></span></p>
+
+<p>Resgate das servidões <span class="direita"><a
+href="#pg_82">82</a></span></p>
+
+<p>Concepção da grandeza do povo <span class="direita"><a
+href="#pg_84">84</a></span></p>
+
+<p>A gloria <span class="direita"><a href="#pg_86">86</a></span></p>
+
+<p>O jurisconsulto <span class="direita"><a href="#pg_91">91</a></span></p>
+
+<p>O socialismo e a historia <span class="direita"><a
+href="#pg_94">94</a></span></p>
+
+<p><em>Escudos de Fortaleza</em> <span class="direita"><a
+href="#pg_111">111</a></span></p>
+
+<p>Religião <span class="direita"><a href="#pg_112">112</a></span></p>
+
+<p>Alexandre Herculano e José Estevão <span class="direita"><a
+href="#pg_114">114</a></span></p>
+
+<p>Christianismo <span class="direita"><a href="#pg_119">119</a></span></p>
+
+<p>Symbolismo religioso <span class="direita"><a
+href="#pg_122">122</a></span></p>
+
+<p>Caracter ethnico <span class="direita"><a href="#pg_129">129</a></span></p>
+
+<p>Liberdade <span class="direita"><a href="#pg_130">130</a></span></p>
+
+<p>O moralista <span class="direita"><a href="#pg_139">139</a></span></p>
+
+<p>Sinceridade <span class="direita"><a href="#pg_149">149</a></span></p>
+
+<p>Humorismo <span class="direita"><a href="#pg_158">158</a></span></p>
+
+<p>O apostolo <span class="direita"><a href="#pg_162">162</a></span></p>
+
+<p>Orgulho <span class="direita"><a href="#pg_165">165</a></span></p>
+
+<p>Humildade <span class="direita"><a href="#pg_168">168</a></span></p>
+
+<p>Sympathia e ternura <span class="direita"><a
+href="#pg_172">172</a></span></p>
+
+<p>O stoicismo de Alexandre Herculano <span class="direita"><a
+href="#pg_179">179</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>DO MESMO AUCTOR</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>Vozes do meu lar</em>, 1 vol.</p>
+
+<p><em>Na Paz do Senhor</em>, romance, 1 vol.</p>
+
+<p><em>Reino da Saudade</em>, romance, 1 vol.</p>
+
+<p><em>Via Redemptora</em>, 1 vol.</p>
+
+<p><em>Apostolos da Terra</em>, 1 vol.</p>
+
+<p><em>Sonho de Perfeição</em>, romance, 1 vol.</p>
+
+<p><em>S. Francisco d'Assis</em>, 1 vol.</p>
+
+<p><em>José Estevão</em>, 1 vol.</p>
+
+<p><em>S. Francisco d'Assis</em>, 1 vol.</p>
+
+<p><em>José Estevão</em>, 1 vol.</p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Alexandre Herculano, by Jaime de Magalhães Lima
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALEXANDRE HERCULANO ***
+
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
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+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
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+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
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+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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